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Full text of "Os fastos"

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OVÍDIO E CASTILHO 



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" OS FASTOS 



PUBLIO OVÍDIO NASÂO 

COI TtADUCÇAUI TOSO POftTTOUlZ 

POR 

ANTOMO IBJCUM Dl CASTILHO 

SEGUIDOS DE COPIOSAS AN NOTAÇÕES 

POR 

f UASI TOM» 08 ESCMPTOBES F0RTB60EXEÍ CORTEMPORAMEOS 



TOMO III 



LISBOA 

POR OBDBM E NA IMPRENSA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIA9 



MDCCCLXH 



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HARVARDCOLLEOELIBBARY 

FROM THE (.fBRARY OF 
FERNANDO PALHA 
D£C£MBER 3, 15Í8 



publii ovroii nasonis 



LIBEU V 
Malus menste 



.y uaeritis, ande putem Maio data nomina mensi ; 

Non satis est liquido cognita causa mihi. 
Ut stat, et incertas, qua sit sfbi, nescit, eundum, 

Quum videt ex omni parte viator iter; 
Sic, quia posse datur diversas reddere causas, 

Qua ferar, ignoro; copiaque ipsa nocet. 

Dicite, quae fontes Aganippidos Hippocrenes 
Grata Medusaei signa tenetis equi. 

Dissensere Deae; quarúm Polyhymnia coepit 
Prima: silent aliae; dictaque mente notant: 

Post chãos, ut primum data sunt tria corpora mundo, 

Inque novas species omne recessit opus. 
Pondere terra suo subsedit, et aequora traxit; 



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OS FASTOS DE OVÍDIO 

TRADUZIDOS EM VERSO PORTUGCEZ 



tot 



ANTÓNIO FEUMO DE CASTUflO 



UVRO V 
O mes <te Mato 



Perguntais d'onde ao Maio ê vindo o nome ; 
* que sei eu ? Confusão de mil caminhos 
me inleia, me delem ; 4 de origens tantas 
qual tomar? abundância me é nociva. 

Musas, vós me inspirae, que é vossa a fonte 
da Hippocrenia Áganippe, alto portento 
do Meduseo corcel ; fallae ! Discordam ! . . . 

Eis Polimnia começa ; as mais a escutam. 

— « Mal do cabos um triplico universo 
« brotou, de espécies varias conformado, 
« do pezo constrangida a térrea mole 
« veio o baixo occupar, trazendo os mares ; 



Invés tiga- 
ae a etimo- 
logia de 
Maio 




Etimolo- 
giadeMaio 
secundo 
Polimnia: 

■ A OBSTA" 

DE 



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— 6 — 

Ât coelum levitas in loca summa tulit. 
Sol quoque cum stellis nulla gravitate retentus, 
Et vos, Lunares/ ejsjluistis, equi. 

8ed Deque terra dia coelo, nec caetera Phoebo 
Sidera cedebant; par erat omnis bonos. 

Saepe aliquis sólio, quod tu, Saturne, tenebas, 
Ausus de media plebe sedere deus; 

Et latus Oceano quisquam deus advena junxit; 
Tethys et extremo saepe recepta loco esi. 

Donec Honos placidoque decens Reverenda vultu 
Corpora legitimis imposuere toris. 

Hinc satã Majestas; hos est dea censa parentes; 
Quaque die partu est edita, magna fait. 

Nec mora : consedit médio snblimis Olympo 
Áurea purpúreo conspicienda sinu. 

Consedere simul Pudor et Metus ; omne vidercs 
Numen ad hanc cultus composuisse suos. 

Protinus intravit mentes suspectus honor um. 
Fit pretium dignis; nec sibi quisque placet, 

Hic status in coelo muitos permansit in annos \ 
Dum sénior fatis e*ci<Ut arce deus. 



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— 7 — 

«e por mais leve o ceo fotae ás alturas. * ! 

«Sol, estreitas, e vós, frisões lunares, 
« vós, a quem pezo algum não tolhe os voos, 
«saltastes pela azul immensktàde. 

« Precedências poretn nío as cediam 
«então aos ceos a terra, ao sol os astros ; 
« tudo era igual : no sojtf* teu, Saturno r 
« quanto nume plebeu não foi sentar-se ! . . . 
«Que vezes, par a par co'o padre Oceano ' 
«algum deus forasteiro ! . . , r e a saora Teti» 
« no ínfimo logar foi recebida ! . . . 

« O Apreço e a graciosa Reverencia 
«eis que em núpcias legitimas se ajuntam, 
«e nasce do consorcio a Magestade, 
« filha, que os nobres pais no aspecto inculca, ' 

«e apenas surge á luz é já crescida. 

« Yai súbito assomar no Impireo cume ; 
«e de lá, senhoril, incanto de olhos, 
«toda purpura e oiro está brilhando. 

« Poisam-Ihe a um lado, a outro, o Pejo, o Medo ; 
« vireis fazer-lhe sala os vários numes, 
«compor-se cada qual á imagem d'ella. 
«Entra-se a achar valor ás dignidades, 
« a dar-se preço ao mérito distincto, 
«a não ser cada um de si tão pago. 

« Durou na etérea corte aqnelle estado 
«annos e annos; alfim caiu do trono, 
« pelos fados expulso, o deus longevo. 



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— 8 — 
Terra feros partus immania monstra Gigantas 

Edidit, ausuros in Jovis ire domum. 
Jtfille manus illis dedit, et pro cruribus angups \ 

Àtque ait: In magnQS arma mqvete deps. 

Extruere bi montes ad sidera summa parabant, 

Et magnnm bello sqUicitare Jovem. 
Fulmina de coeli jacnlatus Júpiter afce 

Vertit in auctores pondera vasta snos. 
Pis bene Majestas armis defensa deorum 

Restat; et ex illo tempore firma manet. 
Adsidet illa Jovi ; Jovis est fidissima custos ; 

Et praestat sine vi sceptra tenenda Jovi 

Venit et in terras ; coluerunt Romulus illam 
Et Numa ; mox alij, tempore quisque suo. 

Illa patres in honore pio, matresque, tuetur ; 

Illa comes pueris, virginibusque, venit ; 
Illa datos fasces cqmmendat, eburque curule ; 

Illa coronatis alta triumphat equis. 

Finief at vocês Polyhymnia : dieta probarunt 



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— 9 — 

« Pare a terra sacrílegos gigantes, 
« ameaçando a Jove, armados monstros, 
« de mãos cento, e dragões em vez de pernas. 
« E — 6 filhos, filhos meus, audácia ! — exclama -~ 
« guerra, extermínio aos déspotas do mundo ! 

«Já congerie de montes sobre montes 
«para a horrenda escalada aparelhavam, 
« fita a ambição nas ultimas estrellas, 
«e no trono de Jove os olhos igneos ; 
« mas Jove de seu trono eis vibra o raio ; 
« ao fragor do trovão responde o estrondo 
« dos montes sobre os montes fracassados, 
«a rolar, a ingolir a turba iníqua. 
«De tão possantes armas amparada 
«desde então ficou firme, e inda hoje i Ilesa 
« dos numes permanece a Magestade. 
« Senta-se a par com Jove, é guarda sua ; 
«e ministra fiel lhe põe na dextra 
«o não violento sceptro, ao deus condigno. 

«De lá baixou á terra ; obteve os cultos 

« de Rómulo, de Numa ; etnfim de quantos 

« deram leis em seu tempo á gran cidade. 

*» » 

«Ella aos pais, ella ás mais attrai respeito; 

« ella a infância protege, ampara as virgens ; 

« ella o marfim curul e os dados feixes 

«faz acatar do povo ; ella, e só ella, 

« por coroados corcéis levada em pompa, 

u triunfal se remonta ao Capitólio. » — 

Findou Polimnia : quanto disse approvaqi 



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— 10 — 
Clioque, et curvae seita Tbalia lyrae. 
Excipit Uranie ; fecere silentia cunctae ; 
Et vox audiri nulla, nisi illa, potest: 

Magna fuit quondam capitis reverentia cani ; 

Inque suo pretio ruga senihs erat. 
Martis opus juvenes animosaque bella gerebant; 

Et pro dis aderant in statione suis. 
Viribus illa minor, nec habendis utilis armis, 

Gonsilio patriae saepe ferebat opem. 
Nec, nisi post annos, patuit tunc cúria, seros ; 

Nomen et aetatis mite senatus erat. 
Jura dabat populo sénior ; finitaque certis 

Legibus est aetas, unde petatur honos ; 

Et medius juvenum, non indignantibus ipsis, 
Ibat ; et interior, si comes unus erat. 

Verba quis auderet coram sene digna rubore 
Dicere? censuram longa senecta dabat. 

Romulus hoc vidit ; selectaque pectora Patres 
Dixit; ad bos urbis summa relata novae. 

Hinc sua majores posuisse vocabula Maio 



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— 11 — 

Clio, e Talía d'entre as nove a mestra 

do extrair áureos sons da curva lira. 

Mas principia Urania ; calam todas : Ktimoio- 

f \ ' giadeMaio 

nem um cicio lhe perturba o canto : segundo 

Urania: 

MAIORES 

— «Foram rugas e cans no tempo antigo dkos) an 

«veneração profunda, e summo apreço. 
«Em quanto a varonil robusta idade 
« pelejava no campo, e defendia 
« nos duros arraiaes os pátrios deuses, 
«cançada, inerme, a próvida velhice 
«dava no bom conselho auxilio á pátria. 
« Só de graves anciãos constava a Guria ; 
« o seu plácido nome inda hoje o prova, 
«que do corpo senil se diz Senado. 
« Annoso era o Juiz, aos annos verdes 
« vedando a lei sisuda accesso aos cargos. 

« Se iam moços e um velho, ad velho os moços ' 

« davam cortezes o logar do centro. 
« Se com elle ia um só, lhe dava o lado 
« menos exposto ao publica bulício, 

«£ Palavra de tingir em pejo a face, 
« quem jamais ante um velho a soltaria ? ! 
« por censura se tinha a longa idade. 

« Cem maduros varões por isso elege 
«Rómulo entre o mais povo, os chama Padres, 
« e da nascente Roma os incarrega. 

« Assim vossos maiores únporiam, 



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— 18 — 

Tangor, et aetati consuluisse suae; 

Et Numitor dixisse potest : Da, Romule, mensem 
Hunc senibus ; nec avum sustinuisse nepos. 

Nec leve praepositi pignus successor honoris 
Junius, a juvenum nomine dictus, habet. 

Tum sic neglectos hedera redimiu capillos 
Prima sui coepit Calliopea chori : 

Duxerat Oceanos quondam Titanida Tethyn, 
Qui terram liquidis, qua patet, ambit aquis. 

Hinc satã Pleione cum coelifero Atlante 
Jungitur, ut fama est, Pleiadasque parit. 

Qoarum Maia suas forma superasse sorores 

Traditur, et summo concubuisse Jovi. ' 

Haec eniia jugo cupressiferae Cyllenes, 
Aetherium volucri qui pede carpit iter. 

Árcades hunc, Ladonque rapax, et Maenalos ingens, 
Rite colunt, Luna credita terra prior. 



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— 13 — 

« supponho, ao flóreo mez de Maio o nome, 
« em lembrança do culto ás cana \otado. 

« Talvez até que Numitor — Outorga — 
«a Rómulo dissesse — Outorga, 6 neto, 
« aos velhos este mez por gloria minha ; 
« o que de apoz lhe vem pertence aos moços, 
« da idade juvenil chamado Junho. » — 

Eis Calliope surge, a flor do rancho, 
de heras cercada as espargidas comas. 



— «O Oceano — diz — ao poderoso Oceano, 
< nume que um orbe immenso immenso abarca, 
« havia desposado outr'ora a Tetis, 
« progénie de TitSo. Do seu consorcio 
« nasceu Pleióne ; do consorcio , diz-se, 
«d'esta e d 9 Atlante, o aguentador da esfera, 
« sete Plêiades vêm, formosas todas ; 
« porem Maia ! . . . formosa em tanto extremo, 
« diz a fama, que Júpiter foi d'ella. 



Etimolo- 
giadoMaio 
segundo 
O a lliope : 
maia mài . 
de Mercú- 
rio 



«No cume do-Cillene, entre a espessura 
« de agreste aci prestai, deu Maia ás auras 
« de seu furtivo amor furtivo fruto : 
«o que fende ar e ceos com pés alados. 



!.] / 



« Por isso com razão lhe hão dado cultos 
«caudaloso Ladon, Ménalo ingente, 
« toda essa Arcádia em fim, terra que á lua 
, «foros se atreve a pleitear de antiga, l 



-., .,.,/ 



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\ 



— 14 — 

Exsul ab arcadiis latios Evander in agros 

Venerai; impositos adtuleratque deos. 

Hic, ubi nunc Roma est orbis caput, arbor et herbae, 
Et paucae pecudes, et oasa rara fuit. 

Quo postquam ventum : Consistite, praescia mater, 
• Nam locus imperii rus erii istud, ait. 

Et matri et vati, paret Nonacrius heros ; 
Inque peregrina constitit hospes hnmo. 

Sacraque multa quidem, sed Fauni prima bicornis, 

Has docait gentes, alipedisque dei. 
Semicaper, coleris cinctutis, Faune, Lupercis, 

Quum lustrant celebres vellera secta vias. 

At tu materno donasti nomine mensem, 
Inventor curvae, furibus apte, fldis. 

Nec pietas haec prima tua est : septena putaris, 
Pleiadum numerum fila dedisse lyrae. 



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— 15 — 

« Da Arcádia foragido aos lacios campos 
« veio Evandro, trazendo os pátrios deuses. 

« 'Nesse tempo, o logar, onde hoje surge 
« do universo a cabeça, a altiva Roma, 
«era um páramo agreste:... arvores.... hervas.... 
«e a longe a longe . . . "algum tugúrio. Chegam. 

« — Parae — grila de Evandro a Mãi presaga. — 
*Eis o sitio fadado ao vasto império!... 
« Aqui !... estas soidões ! — 

O heroe nonacrio 
«venera a profetisa, a mãi respeita : 
« pára, e na terra estranha assenta os lares. 

« Foi elle pois, o que insinou primeiro 
« "nesta região da Hesperia innumeraveis 
« crenças, ritos da Arcádia, hoje romanos : 
«o de Fauno capripede bicorae, . 
«eodo alipede nume. O teu, ó Fauno, 
« dão-t'o os Lupercos, semí-níis correndo, 
«co'a disciplina em punho, 

A gloria tua 
« sobrelevou porem á gloria d'elle, 
«patrão dos furtos, inventas da; lira* .<" 
«filho de Maia: ao mez deste o seu nome. 

«Nem foi única.. eimU acção tão pia.; ;/ , OJ , 

« cordas sete no musico instrumento 
«em honra ás sete Irmãs se diz que h&3 poato.»^ -i 



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— 16 — 
Haec quoque desierat; laudata est você sororum. 

Quid faciam? turbae pars habet omnis idem. 

Gratia Pieridum nobis aequaliter adsit ; 

Nullaque laudetur, plusve, minusve, mihi. f 

Ab Jove sargat opus: prima mihi noete videnda 

Stella est in cunas officiosa Jovis. 
Nascitur Oleniae signum pluviale Gapellae : 

ília dati coelum praemia lactis habet. 

Nais Amalthea, Gretaea nobilis Ida, 
Dicitur in silvis occuluisse Jovem. 

Hujc fuit haedorum mater formosa duorum. 
Inter Dictaeos conspicienda greges, 

Gornibus aeriis atque in sua terga recurvis, 

í 

Ubere, quod nutrix posset habere Jovis. 

Lac dabat illa deo. 

Sed fregit in arbore como, 

Truncaque dimidia parte decoris erat. 

/ 

Sustulit hoc Nymphe ; cinctumque recentibus herbis, 
Et plenum pomis, ad Jovis ora tulit. 



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-11- 

Rematou ; outras duas a aplaudiram. 
£ Que farei ? cada qual das três cantoras 
iguaes suffragios teve ! À escolha, ó Musas, 
temerária seria : adoro a todas. 

De Júpiter o nome estreie o canto. 
Já na primeira noite os ceos me ostentam 
pluvial constellaçâo da Olenia cabra ; 
ama, que a Jove infante ha dado o leite, 
e, de seu leite em premio, os ceos lucrado, 

Corre fama, que a naiade Amalleia, 
gloria do Ida cretense, homisiára 
de suas maltas nos recessos Íntimos 
do tenro Jove a perseguida infância. 

Possuía esta ninfa o mais soberbo 
animal, que jamais caprina espécie 
pelos pastos Dicteus brotado havia, 
e bella mãi de dois saltões neixenles. 
Era de ver com que ufania alçava 
as altas pontas para traz recurvas, 
e ia tremendo as retezadas tetas, 
á fé condignas de celestes lábios ! 
e esta era,, a que ao nume amamentava. 

Quiz-lhe o fado ruim cercear vaidades : 
fez que o tronco de uma arvore mofina 
lhe quebrasse uma ponta ! ai ! lance infausto ! 
foi-se a metade do bizarro intono ! 
a ninfa alevantando a vã relíquia, 
de hervas frescas a cinge, enche-a de pomos, 
e de seu caro alumno a põe aos lábios. 

TOM. III. 



O Poeta 
não se a- 

treve a de- 
cidir entre 
as três eti- 
mologias 



Invocação 
a Júpiter 

Maio 1 — 
Constella- 
çâo da Ca- 
polia ou 
cabra Ole- 
nia ; sua 
origem. A 
cornuco-v 
pia 



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— t8 — 

Me, ubi res coeli tenuit, sotioque paterno 

Sedit, et invicto nil Jove majus erat, 
Sidera nutricem, nutríeis fertile corna, 

Fecit; quod dominae nunc quoque nomen habet. 

Praestitibus Maiae Laribus videre kalendae 
Aram constitui, signaque parva deuM. 

Voverat illa quidem Gurius ; sed multa vetustas 
Destruit, et saxo longa senecta nocqt. 

Causa tamen positi fuerat cognominis illis : 

i 
Quod praestant oculis omnia tuta suis. 

Stant quoque pro nobis, et praesunt moenibus urbis, 

Et sunt praesentes, auxilimoque ferunt. 

At canis ante pedes saxo fajDricatus eodem 
Stabat; quae standi cum Lare causa fuit? 

Servat uterque dom um, domino, quoque fidus uterque; 

Compita grata deo, compita grata cani. 
Exagitant, et Lar, et turfo* Piania, fures; 

Pervigilantque Lares, pervigilantque canes. 

Bina gemellorum quaerebam signa deorum, 
Viribus annosae facta eadmca morae: 



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— 19 — 



Por isso, mal se viu no Empíreo trono 
a tudo sobranceiro o grão Saturnio, 
a sua ama silvestre, e o vaso opímo 
de que a fruta libou, fez astros novos, ' 
que o nome tém da naiade Amalteia. 

Nas Calendas de Maio, aos Lares Prestiles 
ara e effigies modestas sagrou Curió, 



Mas o tempo voraz nada respeita ; 
carcoma de velhice ha gasto as pedras. 
Do seu nome de Prestiles coffltudo 
se conserva a razão, pois que velando 
ás coisas segurança inda hoje prestam ; 
são de nossa existência os atalaias, 
os defensores dos romanos muros, 
nos apertos refugio, em tudo amigos. 



No momo 
dia com- 
memora» 
ção do an- 
tigo culto 
aos Lares 
Préstitos 
por Cario 

Etimolo- 
gia do no- 
me 



* Mas porque estava o» c3o> do Lar á» plantes, 
e os dois "numa só pedra afigurados? 

Porque um e outro as* porta» nos defendem ; 
a seu dono um e outro e guarda, e ama ; 
a incruzilhada ao nume aprouve sempre, 
aprouve sempre ao cão a incruzilhada ; 
um e outro ê sagaz e pressentida; 
um e outro aos ladrões declaram guerra. 

Debalde procurei se mcontraTia 
aquelles vultos dois dos gemios Lares ; 
a idade os consumiu, Qoe inpvrtar i £ Monto 



Razão de 
se repre- 
sentarem 
os Presti- 
. tes com 
nm cão 
aos pós 
'num mo- 
nolito 



Essas anti- 



2* 



nlo exis- 
tem já no 
tempo do 
Poeta 



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— 20 — 

Mille Lares, Geniumque ducis, qui cradidit illos, 
Urbs habet; et vici numina trina colunt. 

Quo feror? Àugustus mensis mihi carminis hujus 
Jus dabit: interea diva canenda Bona est. 

Est moles nativa; loco res nomina fecit; 

Appellant saxum ; pars bona montis ea est. 
Huic Remus institerat frustra, quo tempore fratri 

Prima, Palatinae, signa dedistis, aves. 

Templa patres illic óculos exosa viriles ' 

Leni ter adclivi constituere jugo. 

i 

Dedicat haec veteris Glausorum nominis haeres 
Virgíneo nullum corpore passa viram. 

Livia restiluit; ne non imita ta maritum 
Esset, et ex omní parte secuta virum. 

Póstera quum roseam pulsis Hyperionis astris 
In matutinis lâmpada tollit equis; 

Frigidus Argestes summas miscebit aristas, 
Gandidaque a calabris vela dabuntur aquis. 

At simul inducunt obscura crepuscnla noctem, 



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— 41 — 

« 

não possue hoje mil, afora o génio 

do Chefe, que lhos deu? ;e cada bairro 

três Lares não festeja?: os dois e Augusto? 

Mas parae, versos meus, retrocedamos: 
d'Âugusto em vindo o mez virão taes festas ; 
agora a. deusa Bona ha jus ao. canto. 

Pelo nome de Saxo é conhecida 
saxea brutesea mole, excelsa parle 
do monte, em que se incrava. ]Poi no Saxo 
que em pé, a vista longa, o peito em anciãs, 
Remo aguardou vãmente, o. que aves deram 
a seu irmão no Palatino : um sólio. 

Na branda incosta que de lá nos desce, 
por mão de nossos pais fundado avulta 
templo, que olhos viris em si não soffre. 



Festeja ca- 
da bairro 
três Lares, 
sendo o 
terceiro 
Augusto 



Festa da 
deusa Bo- 
na no seur 
templo de- 
f ezo a ho- 
mens no 
Saxo, cal- 
çada do A- 
ventino 



Claudia, dos velhos Glausos descendência, 
virgem de virgens flor, o dedicara ; 
mas Livia o restaurou ; munificência, 
rasgo condigno de cesárea esposa ! 

Quando outra vez a Hipertonia moça, 
afugentando os astros somnolenlos, 
do Oriente surgir co'a luz rosada, 
fresco Argesles ao longo das searas 
revolverá suas vagas ; marinheiro 
das costas da Calábria, as velas solta. 



Kes taura- 
caoporLi- 
via do 
templo da 
deusa Bo- 
na funda- 
d o por 
Claudia 



Maio 3 — 
Sopra Zé- 
firo ; mon- 
çâo para 
quem na- 
vega da 
Calábria 



Doesta noite o crepúsculo põe franco 



Aparecem 
completas 



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— íf — 

Pars Hyadum totó de grego nulla laiet. 

Ora micant Tauri septem radiantia flammis ; 
Navita quas Hyadas graiu* ab imbw vocat, 

Pars Baccbum nutrisse putat; pars credkUt esse 
Telhios has neptes Oceanique senis. 

Nondum stabat Atlas humeros onera tus Olympo 
Quum satus est forma conspiciendus Hyas» 

Hunc stirps Oceani maturis nisibus Aetbra 
Edidit, et Nymphas; sed prior ortu$ Hyaa, 

Dum nora lanugo, pávidos formidine cervos 
Terret; et est illi praeda benigna lepus. 

At, postquam virtus annis adolevit, in aproa 
Audet et hirsutas cominus ire leas. 

Dumque petít latebras fetae catulosque leaenae, 
Ipse fuit libycae praeda cruenta ferae. 

Mater Hyan, et Hyan moestae flevere sorores, 
Cervicemque polo svppositurus Atta, 



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— 13 — 

lodo o coro das Hiftdes ; lufceiro L H eta£ 

de astros sete a brilhar na taurea fronte. ^s* 

Das chuvas que lhes fazem comitiva, 
Hiades as nomeia o grego nauta. 

Têm uns, que do deus Baccho as amas fossem ; Quem as 

outros, que netas são do Oceano e Tetis; sem;dro 

nem uns nem outros co'a verdade atíttafo. 

Inda nos hombros do robusto Atlante o poeta 

não assentava a machina sidérea, «nhu as 

, n . # t * versões a 

quando Hias, o formoso, a lume veio ; historiado 

t «Hias e suas 

irmãs 

Etra, do Oceano prole, o deu de um parto 
com sete ninfas mais ; comtudo, a gloria 
de sair primogénito, foi sua. 

Em quanto loiro buço apenas tinha, 
era-lhe passatempo andar-se á caça 
da mansa lebre, dos medrosos cervos ; 
mas, depois que o valor cresceu cota annos, 
só lhe aprouve acoçar cerdosos brutos, 
bravas leoas investir de perto. 

Um dia, que a tomar cachorro» de uma 
introu por seu covil, cái (miserando !) 
nas garras do animal terror da Libia, 
e em torrentes de sangue a vida exala. 

Se o choraria a mãi ! se o chorariam 
suas gemias irmSs, sm pai Atlante ! ! 



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— u — 

Victus uterque parens tamen est pietate sororum, 
ília dedit coelum; nomina fecit Hyas. 

Mater, ades, florum, ludis celebranda jocosis, 
Distuleram partes mense priore tuas. 

Incipis Aprili; transis in têmpora Maii; 
Alter te fugiens, quum venit, alter habet, 

Quum tua sint, cedantque tibi conflnia mensum, 
Convenit in laudes, ille, vel iste, tuas. 

Circus in hunc exit, clamataque palma theatris ; 
Hoc quoque cum circi munere carmen eat. 

Ipsa doce quae sis ; hominum sententia fallax ; 
Óptima tu proprii nominis auctor eris. 

gic ego; sic nostris respondit diva rogatis; 
(Dum loquitur, vernas efflat ab ore jroaas) 2 

Chloris eram, quae Flora vocor; corrupta latino 
Nominis est nostri litera graeca sono. 

Chloris eram, Nymphe campi felicis, ubi audij 



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— Í5 — 

Mas das irmãs o affecto, o horror, a angustia, 

inda sobrelevou ao sentimento 

quer do pai, quer da mãi ; sua piedade 

as fez astros; do irmão seu nome houveram. 



Madre das flores, vem ; deidade amiga, 
tu a quem festas voluptuosas prazem 1 

Já lá te vi no Abril ; mas teus louvores 
a Maio, por mais próprio, hei reservado. 



Conclusão 
da a Fio» 
rates (co- 
meçadas 
aos 28 de 
Abril). In- 
vocação a 
Flora 



Quer um quer outro mez são teu dominio : 
ornas d'aquelle os fins, principio d'este ; 
em ambos gloria igual te deve o canto. 

Sim ; mas o circo alegre aos nus folguedos 
é Maio que o franqueia, e que entre aplausos 
dá no theatro ao vencedor a palma. 
Um pouco se desrugue austera fronte ; 
o que é licito ao circo, o seja aos versos. 



Festas 
descom- 
postas no 
Circo 



— «iMas tu quem és? Revela-m'o, 6 divina ! 
«opiniões do mundo inturva o erro'; 
« ninguém melhor que tu saber-te pode. » — 



NarraFlo- 
raaoPoeta 
a sua his- 
toria 



Disse e calei-me. Eis Flora me responde 
(olor de rosas lhe respira a folia) : 



— « Vós Flora me chamais ; meu nome é Gloris, 
« transformou-m'o a seu uso a Lacia língua. 



Dá razão 
do seu no- 
me 



« Gloris sou pois ; fui ninfa 'nesses campos, 



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— Í8 — 

Rem fortunatis ante fuisse viris. 

Quae fuerit mihi forma, grave est narrare modestae ; 
Sed generum matri repperit illa deum. 

Ver erat; errabam. Zephyrus conspexit; abibam: 
Insequitur; fugio; fortior ille fuit. 

Et dederat fratri Boreas jus omne rapinae 
Ausus Erichthea praemia ferre domo. 

Vim tamen emendat dando mihi nomina nuptae ; 
Inque meo non est ulla querela toro. 

Vere fruor semper; semper nitidissimus annus; 
Arbor habet frondes, pabula semper húmus. 

Est mihi fecundus dotalibus hortus in agris; 

Aura foret; liquidae fonte rigatur aquae; 
Hunc meus implevit generoso flore maritus; 

Atque ait: Arbitrium tu, dea, floris habe. 
Saepe ego digestos volui numerare colores ; 

Nec potui : numero copia major erat. 



% 



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— 27 — 

« onde has ouvido, que em remotas eras 
« se lograva áurea vida entre os humanos. 

« Se era eu beila ... tão sei ; outrem que o 
« sei que de minha mâi foi genro um nume. 

«Floria a primavera. Eu, descuidosa, 
« girava a espairecer-me ; a espairecer-se 
a girava ao longe Zéfiro. Àvistou-me ; 
« avistei-o ; elle . . . fogo ! eu . . . toda sustos ! 
« eu . . . a esquivar-me ; . . . o trefego a seguir-me. 
« Corro ; vôa ; era alígero ; colheu-me ; . . . 
« reluto ; a força d'elle excede á minha. 

« 4 Maravilha-te acaso audácia tanta? 
« Boreas, o fero irmão lhe abriu o exemplo ; 
« Boreas, que de Ericteu forçando os lares, 
« lhe arrebatara a filha. O meu, comtudo, 
«se uma injuria me fez, soube expial-a; 
« que em laços de consorcio agora unidos 
« affeição mutua em doce paz lográmos. 

« Para mim ri continua a Primavera ; 
« lustroso o anno inteiro me atavia 
« de folhas o arvoredo, o chio de relvas. 

«Ha nos campos gentis que obtive em dote vsrgsu 

« horto fecundo ; virações o affagam ; fio» 

« vítrea esplendida fonte o anima, o rega ; 
« incheu-m'o o esposo meu de opimas flores, 
« e — são tuas — me disse. Oh ! que de vezes 
« não hei tentado em vão contar suas cores ! 
c a variedede ao numero transcende* 



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— u — 

Roscida quum primum foliis excussa pruina est. 

Et variae radiis intepuere comae, 
Gonyeniunt pictis incinctae vestibus Horae ; 

Inque leves calathos munera nostra legunt. 

Protinus arripiunt Charites ; nectuntque coronas, 
Sertaque coelestes implicitura comas. 

Prima per immensas sparsi nova semína gentes; 
Unias tellus ante coloris erat. 

Prima Therapnaeo feci de sanguine florem ; 
Et manet in folio scripta querela suo. 

Tu quoque nomen habes cultos, Narcisse, per hortos ; 
Infelix, quod non alter, et alter, eras! 

Quid Crocon, aut Attin referam, Cyniraque creatum; 
De quorum per me vulnere surgit honor? 

Mars quoque, $i nescis, per nostras editus artes; 
(Júpiter hoc ut adhuc nesciat, usque precor). 

Sancta Jovem Juno, nata sine matre Minerva, 



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— 19 — 

« Ao desfazer do matutino orvalho, 
« quando a grenha frondosa ao sol nascente 
«as plantas a aquecer já principiam, 
« ali concorre a variegada turba 
« das Horas leves a colher meus mimos, 
« com que os cestinhos seus levam colmados. 

« Como ellas, vós ali teceis, 6 Graças, 
«festões condignos das celestes frontes. 



« Da despintada terra ao orbe immeoso 
«eu primeira, só eu, brindei co'os germes 
« d'esse matiz que aos olhos labirinla. 

«Jacinto, de Terapne inda hoje orgulho, 
« morto nadava em sangue, e resuscita 
«por mim de lindo moço em flor mimosa, 
« que inda os postremos ais lhe tem nas folhas. 



Flora 
brindou a 
terra com 
as flores 



Fabula de 
varias flo- 
res! trans- 
formação 
de Jacinto 
na flor do 
seu nome 



« Olha o Narciso, dos jardins vaidade, 
« o triste, que a ser dois fora ditoso ! 

« £ Croco ! e Attis ! e a Cinirea prole ! 
« três victimas de trágico infortúnio, 
« três floridos troféos da gloria minha. 

« Pois Marte ! se da origem lhe não sabes, 
«ouve-a (porem segredo; ó necessário 
« que Jove a ignore sempre) : aos meus influxos 
«deveu Marte o nascer. 



Idêntica 
de Narciso 



De Croco 
em aça- 
frão; de 
Attis em 
violeta; de 
Adónis 
em ané- 
mona 

A flor do 
c a mp o 
Olenio; 
maravi- 
lhosa ge- 
ração de 
Marte 



« Quando Minerva 
«brotou á luz sem mâi, sentida Juno 



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— io — 

Oflic.io doluit non eguisse suo. 
Ibat, ut Oceano quereretur furta mariti ; 
Restitit ad nostras fessa labore fores. 

Quam simul adspexi: Quid te, Saturnia, dixi, 
Adtulit? Exponit, quem petat, ília, locam ; 
Addidit et causam. Verbis solábar amicis: 

Non, inquit, verbbcura levanda mea est; 
Si pater est factus neglecto conjugis usu 

Júpiter, et nomen solus utrumque tenet, 
Cur ego desperem Geri sine cônjuge mater, 

Et parere intacto, dummodo casta, viro? 
Omnia tentabo telis medicamina térrís; 

Et freta, Tartareos excutiamque sinus. 

Vox erat in cursu ; yultum dubitantis babebam : 
Néscio quid, Nymphe, posse videris, ait! 

Ter volui promittere opem; ter lingua retenta est; 
Ira Jovis magni causa timoris erat. 

Fer, precor, auxilium, dixit; celabitur a actor; 
Et Stygiae numen testificatur aquae. 

Quod petis, Oleniis, iuquam, mini missus ab arrâ 



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— Jl — 

« co'a affronta de seu toro, e desejando 

«sem dar mate a seu credito vingar-se, 4$ 

« lembrou-se de se ir ter co'o velho Oceano 

« desabafar do esposo ; em meia via 

«parou de fatigada ás minhas portas. 

« Mal que a vejo — £Â que vens Saturnia ? — exclamo. 
« Diz-me onde se incaminha, exp5e~me a causa ; 
« tento de a consolar com frases meigas ; 

« — Palavras ao meu mal não dão remédio — 
« responde ; — pai sem mim se ha feifo Jove ; 
« o que era aos dois commum ficou sú d'dle~ 
ff l Sem elle ser eu mãi quem me proíbe ? 
« quero um filho ; hei-de o ler ; eu só : mas pura ; 
« mas sem quebrar-te as leis, pudor sagrado. 
«Revolverei todo o orbe, o mar, o abismo, 
« a busca de um remédio ! — 

Assim fatiava; 
« mas vendo-me perplexa — Ignoro, 6 ninfa, 
«em que pensas — me diz ; —/eia em leu rosto, 
use não me ingano, uns longes de esperança. 7— 

« Três vezes quiz de aBgustu» dtope?al-a ; 
« três vezes me calei : tremi de Jove. 

« — Valor! valor l s*trorn*me — de eHa — 
« ninguém o saberá. — Da Estigia veia 
« tomou por testimunha a divindade. 

« — Pois bem : o privilegio a que hoje aspiras 
« uma flor /'* mi dor : tmko-a em meu» harto*; 



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-31- 

Fios dabit; esi hortis unicus ille méis. 
Qui dabat, Hoc, dixit, sterilem quoque tange j u vença ín, 

Mater erit: tetigi, nec mora, mater erat. 
Protinus haerentem decerpsi pollice florem ; 

Tangitur, et tacto concipit ília sinu ; 

Jamque gr a vis Thracen, et laeva Propontidos intral; 

Fitque potens voti, Marsque creatus erat. 
Qui memor accepti per me natalis : Habeto 

Tu quoque Roraulea, dixit, in urbe locum. 

Forsítan ín teneris tantum mea regna coronis 

Esse putes; tangunt numen et arva meum. 
Si bene floruerint segetes, erit área dives ; 

Si bene floruerit vinea, Baccbus erit. 
Si bene floruerint oleae, nitidissimus annus ; 

Pomaque proventum temporis hujus babent. 
Flore semel laeso pereunt, viciaequc, fabaeque ; 

Et pereunt lentes, advena Nile, tuae. 
Vina quoque in magnis operose condita cellis 

Florent ; et nebulae dolia summa tegunt. 
Mellc meum múnus : volucres ego mella daturas 

Ad violam, et cytisos, et tbyma cana, voco. 

Nos quoque idem facimns, tunc, quum juvenilibus annis 



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— 33 — 



«<? única; provém do Olenio campo. 
*Di$$e-me y quem iria deu ; = Novilha estéril , 
« applica-lhe esta flor, tenl-a fecunda. = 
« Eis a estéril novilha a flor applico ; 
*eil-a fecunda já. — Sem mais demora 
«colho a flor; toco á deusa o casto seio; 
«concebe. 

Entra já gravida na Trácia, 
« e i esquerda margem chega do Propontide ; 
« lá se lhe cumpre o voto ; é nado Marte. 



Dá Juno i 
Iue Marte 
no Pro- 
txmtide 



« Este, lembrado de que o ser me deve : 
*—Nos muros do meu Rómulo algum dia 
« culto haverás — me disse ; e vês que o tenho; 

«âMas crés tu, que eu só reine em vãs grinaldas? 
«também, também de agrícolas sou nume. 
«0 florir da seara abasta as eiras; 
« das vides no florir se alegra Baccho ; 
«florescente olival dá safra ao anno; 
«da primavera, em summa, é filho o outono. 
«Lesa a flor, morre a hervilha, a fava morre; 
« do vagabundo Nilo adeus lentilhas ! 
« Ao florescer das vinhas nas incostas, 
«o trabalhado vinho está florindo 
« nos toldados toneis ; dadiva minha 
« é do mel a doçura : esses voláteis 
« que o têm de produzir, sou eu que os chamo 
«á violeta, ao codeço, aos alvos timos. 

« Sou eu por derradeiro, a que outro tanto 
«opero em vós, mortaes, na amena quadra 

tom. ih. 3 



Promete- 
ra Marte a 
Flora que 
haveria 
culto na 
futuraRo- 
ma 

Também 
na agri- 
cultura 
domina 
Flora 



Influxos 
de Flora 



dade 



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— 34 — 

Luxuriant animi, corporaqtfc ipsa virent. 

Talia dicen tem taci tus mirabar; at illn: 
Jus tibi discen^i, si qua requi ris, ait. 

Dic, dea, ludorum, respondi, quae sit origo. 

Vix bene desieram, rettulit illa mihi : 
Gaetera luxuriaé nondum instrumenta vigebant ; 

Aut peçus, aut latam dives habebat humum» 
Hinc etiam locuples, hinc ipsa pecunia dieta est; 

Sed jam de vetito quisque parabat opes. 
Venerat in morem populi depascere saltus ; 

Idque diu licuit, poenaque nulla fuit. 

Vindice servabat nullo sua publica vulgus; 
Jamque in prvvckto pascere tnertis erat. 

Plebis ad aediles delata licentia talis 
Publicios; animus defuit ante viris. 

Rem populus recipit ; mulctam subiere nocentes ; 
Vindicibus laudi publica cura fuit. 

Muleta data est ex parte mibi, magnoque favore 



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— 35 — \ 

«dos annos juvenis, quando nos membros, •• ' 

«no coração, na- mente, ha viço, ha pompa.»—* 

Escutava-a suspenso — « Inquire affoito 
«se queres saber mais» — diz, ella. -~«.Ó deusa.» .1 . > 
— tornei eu — « qual a origem dos teus jogos ? » — 

Calo-me ; recomeça : — « Houve uma idâdè, '* ' '' or^em 
«em que era ignoto o luxo : em campo em gjulos ; . floLi ogos 
«só librava a riqueza; inda a linguagem 
«conserva d'esse tempo alguns vestígios: 
«do pegureiro a grei lembra em pecunia: 
« locupletar-se aviva-nos a idéa 
«de logos ou terreno; e todavia * ! f 

«já então cada qual á custa alheia 
«procurava crescer ; já era usança 
«ir nas maltas communs fazer destroço. . 

« Diuturno foi o abuso e a impunidade. 

« Mantenedor do publico interesse 
«não n-o creára a lei ; só por mui tímido ; • '» 
«se contentava alguém co'a própria herdade. 



« Para se impor um termo a tal licença 
«Edis da plebe elegem-se Publicips ; ,. s . ... , . 
«obtem-se o que até ali se não ousara. 
«Eis o povo juiz; contraventores 
«já tem multa que os dome ; a turba aplaude/ " 
«exalça a fama os novos magistrados. 

« Foi largo o meu quinhão 'naquellas multas ; 
«e por geral consenso institui ram, 

3* 



r-'»»l ' 



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— 36 — 

Victores ludos instituere novos. 

Parte locant clivam, qui tunc erat árdua rupes; 
Utile nunc itcr est, Publiciumque vocant. 

Annua credideram spectacala facta; negavit; 
Addidit et dictis altera verba suis: 

Nos qaoque tangit honor: fesiis gaudemus et aris; 

Turbaque coelestes ambitiosa sumas. 
Saepe deos aliquis peccando fecit iníquos ; 

Et pro delictis hóstia blanda fuit. 
Saepe Jovem vidi, quum jam sua mittere vellet 

Fulmina, ture dato sustinuisse manum. / 

At, si negligimur, magnfe injuria poenis 
Solvitur; et justum praeterit ira modum. 

Respice Thestiaden; flammis absentibus arsit; 
Causa est, quod Phaebes ara sine igne fuit. 

Respice Tantaliden; eadem dea vela tenebat; 



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— 37 — 

«em obsequio ao meu nume, ignotas Testas, 
«que a recente harmonia eternisassem. 



«Das multas o restante obra mui. útil 
« o absorveu : de precipite e fragosa 
«fez-se deelivio commodo a eminência, 
«que de Publicia o nome inda conserva. » — 



Gomo se 
fabricou a 
via Publi- 
ca no A- 
ventino 



— « Ânnuaes espectáculos, supponho, 

« foram sempre esses teus : £ é erro acaso ? » — 

— « É erro — continua — «a nós, aos deuses 
«prazem honras também ; altares, festas, 
«dão-nos gosto; a ambição domina em todos: 
«revolve humanos, dessocega a numes. 

«Pecca um mortal, irritam-se as deidades; 
«fàz-lhes um sacrifício, estão placadas. 
«Já vi co'a mão no raio o rei do Olimpo 
«ir vibral-o, e deter-se inebriado 
«co'a exalação de subilaneo incenso. 



N ao foram 
sempre 
annuaes 
as festas 
de Flora 



« Ai ! de quem nos despreza ! ao desacato 
«sobr'eslá logo a pena; então não pomos 
«á nossa justa cólera limites. 

« Revoa co'a memoria ás priscas eras : 
«;vés o neto de Thestio a arder nas chammas, 
«que vingativa mão lhe acende ao longe? 
«é porque a ara de Phebe está sem lume. 



Castigos 
infligidos 
pelos deu* 
ses aos 
seus des- 
preza do- 
res • 

Primeiro : 
D iana cas- 
tigou aMe- 
leagro 



«6 Vês também o Tantalide Agamemnon? 
« a mesma deusa com reter-lhe a armada, 



Segundo: 
A mesma 
a A g a- 
memnon 



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— 58 — 

Virgo est, et spretos bia taman ulta focos. 

Hippolyte infelix, velles coluisse Dionen, 
Qunm constcrnatis diripereris equis ! 

Longa referre mora est correcta oblivia damnis. 

Me quoque romani praeteriere Patres; 
Quid facerem? per quod fierem manifesta doloris? 

Exi gerem nostrae qualia damna notae? 
Excidit officium trkti mihi : nulla tuebar 

Rura, nec in pretio fertilis hortus erat. 
Lilia deciderant; violas arere vider?*, 

Filaque punicei languida facta croci. 

Saepe mihi Zephyrus: Dotes corrumpere noli 

% 
Ipsa tuas, dixit ; dos mihi vilis erat. 

Florebant oleae. venti nocuere protervi ; 

Florebant segetes, grandine laesa Geres; 
In spe vitis erat, coei um nigrescit ab Àustris, 

Et súbita frondes decutiuntur aqua. 

Nec volui fieri, nec sum crudelis in ira ; 
Cura repellendi sed inibi nulla foii, 



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— 39 — 

« bem que virgem piedosa, o está punindo ; 
« já segunda vingança ás aras suas ! 



«E Hippolilo infeliz, quando ia a rastos, 
« levado dos corcéis espavoridos, 
«a insanguentar a terra, a espedaçar-se.... 
«4 que não daria, ai ! dor ! que não daria 
«por ter honrado a tempo a Mãi de Amores?! 



Terceiro : 
Vénus a 
Hippolilo 



« Longo fora o catalogo das penas, 
« que hemos dado a sacrílegos ; só quero 
«narrar-te as que infligi. De Roma os Padres 
« tinham-me preterido ; j, eu que faria ? 
«icomo desagravar-me e escarmental-os? 
« Absorta em meu pezar, o officio esqueço ; 
« transcuro dons á terra ; a agricultura, 
« os férteis hortos, vigiar desprezo : 
« pendem os lírios ; murcham-se as violetas ; 
« languece a coma do açafrão punicio. 
« Quantas vezes* meu Zéfiro me disse : 
« — Vê que perdes teu dote. -*- Ah ! do roeu dole 
« bem se me dava então ! Se os olivedos 
« trajavam flor, os ventos os despiam ; 
« floria a messe, a pedra a derrotava ; 
« ria esperanças a vinha, eis sopram austros, 
«foge o sol, o ar se obumbra, as nuvens rotas 
a juncam de parras a alagada terra. 



Flora cas- 

tígOU Ort 

romanos 
com este- 
rilidade 



« Não promovia eu mesma aquellas perdas ; 
«não sou cruel na ira ; per si vinham, 
«e eu nãa as repellia. 



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— 40 — 

Convenerc Patres; et, si bcne fioreat annus, 
Numinibus nostris annua festa Toyent. 

Adnuimus yoto. Cônsul cum consule lados 
Postumio Laenas persolvere mihi. 

Quaerere conabar, quare lascivia major 

His foret in ludis, liberiorque jocus ; 
Sed mihi succurrit nnmen non esse severum, 

Aptaque deliciis muqera ferre deam. 
Têmpora sutilibus cinguntur tota coronis ; 

Et latet injecta splendida mensa rosa. 
Ebrius inchictis philyra convirá capillis 

Salta t, et imprudens utitur arte meri. 
Ebrius ad durum formosae limen amicae 

Cantat; babent anctae moUia sertã comae, 
Nulla corona ta peraguntur seria fronte ; 

Nec liquidae vinctis flore bibuntur aquae. - 
Donec eras mixtus nullis, Acheloe, racemis, 

Gratia sumendae non erat ulla rosae. 
Bacchus araat flores : Baccho placuisse coronam 

Ex Ariadnaeo sidere nosse potes, 
Scena levis decet hanc ; non esl, midi credite, non est 
* Ília cotb urna tas inter habenda deas, 



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— 41 — 



«Em tanta angustia 
ccongrega-se o Senado, e annuaes festejos 
«me vota se houver flor, e a flor der fruto, 
ai promessa annuu Postumio e Lenas, 
«os cônsules, solveram-me a promessa.» — 

Tentava perguntar-lhe o porque havia 
tão lasciva soltura em suas festas ; 
porque eram jogos seus mais livres que outros. 
Mas acudiu-me logo ao pensamento 
ser deusa jovial, e cujos mimos 
co'o prazer, co'as delicias se intrelaçam. 
Florente c'roa nos guarnece as frontes ; 
a mesa do festim tapetam rosas ; 
ébrio conviva, com listões de tilia 
presa a grinalda, que lhe aperta as comas, 
dança, tendo por mestre o próprio Baccho. 
Ébrio também lá canta o namorado 
á surda porta da formosa amante ; 
essências nos cabellos lhe reluzem ; 
flóreo diadema os cinge. Assumptos sérios 
não-n-os tratam florigeras cabeças ; 
nem cabeças florigeras se abaixam 
a tragar agua chilra. Em quanto os homens 
beberam do Achelóo, e não tiveram 
para o desincruar purpúreos mostos, 
ide que servia a rosa? O deus das uvas 
ama as flores ; se as c'roas lhe são gratas, 
que o diga aos oíhos de Ariadne o signo. 
Quadram portanto a Flora essas loucuras 
do folgasão theatro ; a nossa deusa 
não é (crède-o) não é de alto coturno. 



O Senado 
propicia a 
Flora 
com pro- 
messa de 
festas. L. 
Postumio 
Albino e 
M. Propi- 
cio Lenas, 
consules y a 
cumprem 

feazfto de 
serem des- 
mandados 
os jogos de 
Flora 



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-42- 
Turba quidem cur boi celebret meretrícia ludos, 

Non ex difficili causa petenda subest. 
Non est de tetricis, non est de magna professis : 

Vult sua plebeio sacra patere choro. 
JEt monet aetatis specie, dum floreat, uti ; 

Contemni spinani, quum cccidcre rosae. 

Cur tamen, ut dantur vestes Cereal i bus albae, 
Sic est haec cultu versicoíore decens? 

An quia maturis albescit messis aristis, 
Et color et species floribus omnís inest? 

Adnuit; et motis flores cecidere capillis; 
Accidere in mensas ut rosa míssa solet. 

Lumina restabant, quQrum me causa latebat : 
Quum sic errores abstulit illa meos : 

Vel, quia purpureis collucent floribus agri, 
Lumina sunt nostros visa decere dies ; 

Vel, quia nec flos est bebeti, nec flamraa, colore, 
Atque óculos in se splendor uterque trahit ; 

Vel, quia deliciis nocturna licentia nostris 
Convenit ; a vero tertia cansa venit. 



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— 48 — 



O porque affluem lá venaes bellezas 
facilmente se explica : ha divindades 
tristes, austeras, de lições profundas ; 
esta não ; esta admitte em seus festejos, 
está chama a seus júbilos, a plebe; 
exhorta a aproveitar-se a mocidade, 
e onde a rosa caiu nos mostra espinhos. 



Hazão de 
acudirem 
as meretri- 
zes aos jo- 
gos floraes 



— « i Porque é còr branca a ritual de Ceres, 
«e nos jogos floraes vem recebido 
«variegado trajar? ^será que a messe, 
«quando madura, alveja, em quanto ás flores 
« matiz de iris sem termo as inriquece ? » — 
Inclinou a cabeça : a aquelle nulo 
chovem-lhe flores da infeitada coma, 
quaes as folhas de rosa em festim lauto. 



Razão de 
serem va- 
rieçadosos 
trajes nas 
floraes, 
quando 
pas ce- 
reaes são 
brancos 



Era-ine ignota a explicação dos lumes 
acudiu-me com ella. ...... 



■«>/ 



— « Ou porque os prados 
«com puipurinas flores se illuminam, 
« fachos aos dias meus se creram próprios ; 
«ou causa foi talvez a igual viveza 
«com que a flor vês luzir, florear a chamma,. 
« ambas prendendo, inamorando os olhos ; 
«ou será finalmente a siatpalia, . 
« que entre si têm a nocturnal licença, 
« e as delicias que outorgo ; esta é por certo 
«das três explicações a mais segurai. * ** . .> 



Três ra- 
zoes das 
.luzes nos 
•■' ''tnesmos 
jogos 



fi.-i-il r'i!.il/lliíf f l 



)-\ í 'UMÍÍ 



..! VM 



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— 44 — 

Est breve praeterea, de quo mihi quaerere restat, 
Si liceat, dixi ; dizit et illa : Licet. 

Cur tibi pro libycis clauduntur rete leaeois 
Imbelles capreae, sollicitusque lepus? 

Non sibi, respondit, silvas cessisse, sed hortos» 
Arvaque pugnaci non adcunda ferae. 

Omnia finierat; ténues secessit in auras; 
Mansit oder; posses scire fuisse deam. 

Floreat ut totó carmen Nasonis in aevo; 
Sparge, precor, donis pectora nostra tuis. 

Nocte minas quarta promet sua sidera Ghiron 
Semivir et flavi corpore miztus equí. 

Pelion Haemoniae mons est obversus in Austros ; 

Summa virent pinu; caetera quercus Jpbet. 
Phillyrides tenuit; saxo stant antra vetusto, 

Quae justum memorant incoluisse senem. 
Ille manus olim missuras Hectora leto 

Creditar in lyricis detinuisse modis. 



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— 45 — 

— « Para tudo saber já resta pouco : 
« ousarei perguntarão ? » — « Ousa » — me ôisse. 



— « De que provêm caçarem-se em teus jogos 
« triste cabra montez, medrosa lebre, 
m e não da Libia horríficas leoas ? » — 



Cacada de 
animaes 
imbelles 
nas floreei 



Expoz-me por causal, que os seus domínios 
não eram selvas : eram hortos, campos, 
contra feras terríficas defesos. 

Como tudo findara, eis que dos olhos 
pelos ares sutis se me esvaece ; 
o aroma que deixou diz onde esteve, 
revela deusa, e lhe descobre o nome. 



Acolhe, amável Flora, as preces minhas ; 
dá, pródiga ao meu génio os teus influxos, 
darás aos versos meus a eternidade. 



Sup plica 
do Poeta a 
Flora 



Á terça noite, Ghiron o estellante, 
setoiviro ou semifero portento, 
sábio heroe, corcel fulvo, assoma àos astros, 

Pelion, monte na Hemonia, ao sul fronteiro, 
no cume é pinheiraes ; o resto ê robles ; 
lá se albergava o filho de Phillira. 
Vè-se em penha vetusta inda hoje o antro, 
que a fama deu por tecto ao sábio velho. 
As mãos, que ao fero Heitor derrubariam, 
diz a crença geral que a industria d'elle 
ali na branda lira as amestrara. 



ftlaloS— 
Nasci- 
mento do 
Saggita- 
rio; soa 
historia 

Ocentanro 
Chiron e 
seu alum- 
no Achil- 
les na ca- 
verna do 
P elion 
hospedam 
a Hercules 



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— 1«— . 

Venerat Alcides exacta parle laboram ; 

Jussaque restabant ultima poene viro. ' 

Stare simul casu Trojae duo fata videres; 

Hinc puer Aeacides, hinc Jove natns erat. 
Excipit hospitio javenem Philyreius heros; 

Et causam adyentus hic rogat, Ule docet. 
Perspicit interea ciavam spoliumque lconis, 

Virque, ait, his armis, armaque digna viro ! 

Ncc se, quin horrens auderent tangere setis • 

Vellus, Achilleae continuere manus. 
Dumque senex tractat squalentia tela venenis, 

Excidit, et laevo fixa sagitta pede est. 
Ingemuit Chiron, traxitque e corpore ferrutn; 

Adgemit Alcides, Haemoniusque puer. 
Ipse tamen lectas Pagasaeis côllibus herbas 

Temperai, et varia vulnera mulcet ope. 
Yirus edax superabat opem ; penitusque recepta 

Ossibus, et totó corpore pestis erat. 
Sanguine Centauri Lcrnaeae sanguis Echidna* 

Mixtus ad auxilinra têmpora nulla dabant. 



Stabat, ut ante patrem, lacrymis perfusus Açfiilles; 

Síc flcndus Pele us, si moreretur, erat. i <> i 



'• , i 



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— 47 — 

Chega Alcides: traz parte das façanhas 
já cumpridas; só as ultimas lhe restam. 
Vireis (estranho acaso !) ali conjuntos 
os dois raios de Troià : Achilles, Hercules, 
Acolhe Ghiron de animo hospedeiro 
ao lidador mancebo ; o porque é vindo 
lhe inquire ; o heroe lh'o narra. Entre o escutal-o 
nota-lhe a clava, e o leonino espolio, 
e exclama : — «De armas laes varão bem digno ! 
«bem dignas armas de varão tajnanbo l » tt ; 



Conter-se já não pode a mão d'Achi11es 
sem que a pelle da fera, hirsuta horrenda 
palpe e torne a palpar. Em quanto o velho 
manuseia curioso as largas seitas, 
que inda escorrem veneno, uma lhe escapa, 
lhe rompe o esquerdo pé; larga um gemido, 
e a arranca ; dois gemidos lhe respondem : 
de Alcides, e de Achilles ; deu-se pressa 
de ajuntar plantas, que apanhara em tempo 
nos montes Pagaseus, e applica á chaga 
quantos remédios lhe suggere o estudo. 
Mas a voraz peçonha esforços balda, 
la\ra no corpo, compenetra os ossos; 
é pestífero incêndio irrefriavel. 
Tal a energia dos permixtes sangues 
do Centauro e da Hidra ! 



Fere-se 
C h i r o n 
* com a seta 
hervada 
de Hercu- 
les 



Procura 
debalde 
curar-se 



Pobre Achilles 
debulhava-se em lagrimas inúteis, 
immovel ante o velho, ante o piedoso, , 
que lhe ha supprido pai ; nem que assistisse 



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— 48 — 
Saepe manus aegras manibns flngebat amicis; 

Moram, quós fecit, praemia doctor habet. 

Oscula saepe dedit ; dixit quoque saepe jacenti : 

Vive, precor; nec me, care, relinque, pater. 

Nona dies aderat, quum tu, justissime Chiron, 
Bis septem stellis corpora cinctus eras. 

Hunc Lyra curva sequi cuperet; sed idónea nondum 
Est via ; nox aptum tertia tempus erit. 

Scorpios in eoelo, quum eras lucescere Nonas 
Dicimus, a media parte notandus erit. 

Hinc, ubi protulerit formosa ter Hesperus ora, 

Ter dederint Phoebo sidera victa locum, 

Ritus erit veteris, nocturna Lemuria, sacri ; 

i 
Inferias taci tis Manibus illa dabunt. 

Annus erat brevior; nec adhuc pia februa norant; 

Nec tu dux mensum, Jane biformis, eras; 
Jam tamen exstincto cineri sua dona ferebant; 



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— 49 — 



do genitor aos últimos arrancos 

curtira mais angustia. Ora annedia 

co'as ternas mãos. as pobres mãos do inferino, 

da santa creação e fruto e premio ; 

ora entre accesos ósculos ihe brada : 

— « Vive ! vive ! ó meu Pai ! sou eu que o peço ! 

Raiava o nono dia, a terra trocas 
pelos ceos, 6 Chiron!, 6 flor dos justos!, 
de estreitas sete e sete abrilhantado. 

Bem cubicara a recurvada Lira 
seguir-te logo apoz : que espere um pouco : 
não lhe está franca ainda a etérea via : 
aguarde a terça noite. 



Ao nono 
dift morre; 
Júpiter o 

eeo cone- 
teUaçaode 
qnatone 
estreito 

Maio 4- 
Naici- 
mento da 
consteU»- 
cfto Lira 



Em negrejando 
a véspera das nonas, vereis parte 
do Escorpião, que surge ao firmamento. 



Maio 6- 

Nnci. 
mento do 
Escorpião 



Depois, logo que o Hespero três vezes 
seu rutilante aspecto houver mostrado, 
e outras tantas o sol vencido as trevas, 
lá chegais vós, noctívagas Lemurias, 
priscas rituaes inferias, tribu landas 
aos silenciosos manes. 



Maio 9- 
FestasLe- 
moraeson 
Lemurias 



Não media 
inda o anno a extensão, que apoz lhe hão dado ; 
não tinha as Februaes; não n-o estreava 
Jano bifronte, o capitão dos mezes ; 
e já levando pios dons ás cinzas 

TOM. ih. 4 



No antigo 
anno de 
dez mezes 
já estas 
lestas vse 
faziam, e 
em Maio 



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— 50 — 

Com posi tique nepos busU piabat avi. 
Mensis erat Maius, majorum nomine dictus, 
Qui partem prisci nunc quoqac moris habet. 

Nox ubi jam media est. somnoque silentia praebet ; 
Et canis, et, variae, conticuistis, ares ; 

Ille memor veteris ri tus, timidusque deorum, 

Surgit; habent gemini vincula nulla pedes; 
Signaque dat digitis médio rum pollice junctis, 

Occurrat tácito ne levis umbra sibi ; 
Terque manus puras fontana perluit unda ; 

Vertitur, et nigras accipit ore fabas; 
Aversusque jacit; sed, dum jacit: Haec ego mitto; 

His, inquit, redimo, meque, meosque, fabis. 
Hoc novies dicit; nec respicit; umbra putatur 

Colligere, et nullo terga vidente sequi. 
Rursus aquam tangit, Temesaeaque concrepat aera ; 

Et rogat, ut teetis exeat umbra suis. 
Quum dixit novies: Manes exite paterni, 

Respicit; et puré sacra peracta putat. 



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— BI — 

aos avós no sepulcro os descendentes 
faziam expiações; o prazo d'ellas 
era este próprio mez, em que hoje acertam, 
Maio chamado, em honra dos maiores. 



Ceremo- 
nia da es- 



Heia noite. Silencio profundíssimo ; 
nem um latido, nem um canto d'ave; çio j d?i 

tudo jaz ; dorme tudo. 

O homem piedoso, 
temente aos deuses, dedicado ás crenças, 
aos ritos, que dos pais herdou co'o leite, 
levanta-se descalço, mudo ; solta, 
co'o polegar e dedo médio unidos, 
estalos, que os fantasmas vãos lhe arredem. 
Vai-se á fonte, perlava as mâo§ três vezes ; 
retrocede ; as «sabidas favas pretas 
melleu na boca ; ao longo do caminho 
uma a uma traz si as vem lançando, 
e ao lançal-as profere : — a Isto que esparzo 
• favas são, com que a mim y e aos meus redimo.» — 
Vezes nove repete a mesma lôa, 
sem nunca se voltar ; o espectro, crê-se 
que vem aquellas favas apanhando, 
e a seguil-o invisível. Novamente 
lava as mãos, faz soar aeneo vaso, 
implora á sombra que lhe largue a estancia ; 
e tanto que a novena vez ha dito, 
— « Paternos manes ! fora ! » — volta o rosto ; 
já olha para traz ; e dá por certo 
haver cumprido á risca a ceremooia. 

4* 



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— 52 — 

Dieta sit unde dies, quae nominis exstet origo, 
Me fuçit; ex aliquo est invenienda deo. 

Plêiade nate, mone, virga venerande potenti ; 
Saepe tibi Stygii regia visa Jovis. 

Venit adoratus Gaducifer ; accipe causam 
Nominis, ex ipso cognita causa deo est. 

Romulus ut tumulo fraternas condidit umbras, 

Et male veloci justa soluta Remo, 
Faustulus infelix, et passis Acca capillis, 

Spargebant lacrymis ossa perusta suis. 

Inde domum redeunt sub prima crepuscula moesti, 
Utque erat, in dáro procubuere toro. 

Umbra cruenta Remi visa est adsistere lecto, 
Atque haec exiguo murmure verba loqui: 

En ego, dimidium vestri, parsque altera, voti, 

Cernite, sim qualis; qui modo qualis eram! 
.Qui modo, si volucres habuissem regna jubentes, 



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— 53 — 

Ao nome de tal festa ignoro a causa ; 
algum deus m'a revele ; a ti recorro, 
ó da Plêiade filho, ó venerando 
do possante bastão, a ti que os Paços 
do Jove Esligio tanta vez bas visto. 
Orei ; o Gaducifero apparece ; 
eis aqui pois a causa d'esse nome ; 
disse-m'a o próprio deus. 

Tanto que Rómulo 
deu aos fraternos manes sepultura, 
solvendo o justo debito de exéquias 
a Remo, que 'num salto achara a morte ; 
Faustulo consternado, e Àcca Larencia 
desgrenhada, a fatal lutuosa noite 
gastaram-n-a a regar de pranto acerbo 
caros ossos, que a pira ha feito cinzas. 

Ào cair do crepúsculo volveram 
cabisbaixos á rústica poisada ; 
% e na cama, assim dura e descomposta 
como a incontraram, deitam-se. 

Ante o leito 
lhes apparece então de Remo a sombra, 
cruenta, e lhes murmura estas palavras : 

— « i Reconhece is-me, ó vós, que inda ha tâo pouco 
« me dáveis a metade em vosso affecto ? 
«vede qual ora sou, qual fui vos lembre ; 
«eu, que a ter do meu lado os voadores 
«núncios de império, o máximo ao presente 



invocação 
do Poeta a 
Mercúrio 



Etimolo- 
gia de Le- 
murias, 
corrupção 
de Rema- 
rias; infe- 
riasde Ró- 
mulo para 
aplacar a 
sombra do 
irmão as- 
sassinado 



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— 54 — 

In populo potui maximus esse meo, 

Nunc elapsa rogi flammis, et inanis imago. 

Haec est ex illo forma relicta Remo. 

Heu! ubi Mars pater est, si vos modo vera locuti, 
Uberaque expositis ille ferina dedit?! 

Quem lupa servavit, manus hunc temerária civis 
Perdidit; ó quanto mitior illa fuit! 

Saeve Celer, crudelem animam per vulnera reddas : 
Utque ego, sub terras sanguinolentus eas. 

Noluit hoc frater: pietas aequalis in illo est; 
Quod potui t, lacrymas in mea fata dedit. 

Hunc vos per lacrymas, per vestra alimenta roga te, 
Ut celebrem festo signet honore diem. 

Mandantem amplecti cupiunt, et brachia tendunt; 

Lúbrica prensantes effugit umbra manus. 
Ut secum fugiens somnos abduxit imago, 

Ad regem vocês fratris uterque ferunt. 
Romulus obsequitur, lucemque Remuria dixit 



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— 55 — 

a seria do roeu povo . . . agora espectro 
« cTentre chammas fugido ! Eis o que resta 
« do vosso amado Remo ! 

« Oh ! se era certo 
« o que sempre heis narrado, i onde está Marte, 
« Marte o meu genitor, Marte que aos gemios 
«salvos do rio amamentou co'a loba? 
« uma fera me nutre, e a mão de um sócio 
« mata-me ; a fera ! a fera antes mil vezes ! 

« Bárbaro Geler ! morte igual te impreco ! ! 
« que á tua alma inhumaaa abra saída 
« outro ferro também ! sanguinolento, 
« qual eu baixei á terra, á terra baixes ! 
« a ti, a ti só culpo ! o irmão que eu tinha 
« não quiz tamanho horror ; igual o affecto 
«foi sempre 'nelle,e em mim : no meu desastre 
« deu-me o que pôde : as lagrimas ; vós outros, 
« por esse mesmo pranto, e pela vida, 
« que ambos vôs a nós ambos conservastes, 
« lhe rogae, que este dia me consagre, 
« e com pompa annual o adscreva aos ritos. » — 

Faustulo e Àcca, ouvido o pio incargo, 
querem cingil-o ao peito, alongam braços ; 
buscam-n-o ; d v entre as mãos lhes foge ; é sombra ; 
e o somno co'a visão desapparece. 

Vão-se ter com el-rei : pontuaes lhe narram 
as palavras do irmão. Rómulo as cumpre, i 
e o dia em que aos avós os doas se offertam, 



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— 86 — 

Illam, qua positis justa feruntur a vis. 
Áspera mutata est in lenem tempore longo 

Li terá, quae totó nomine prima fult. 
Mox etiam Lemures animas dixere silentum. 

Is verbi sensus, vis ca voeis erat. 

Fana tamen veteres illis clausere diebus ; 
Ut nane ferali tempore operta vides. 

Nec viduae taedis eadem, nee virginis, apta 
Têmpora; quae nupsit, non diuturna fult, 

Hac quoque de causa (si te proverbia tangunt), 
Mense malas Maio nubere vulgus ait. 

Scd tamen haec tria sunt sub eodem tempore festa 
Inter se nullo continuata die. 

Quorum si medíis Boeotum Oriona quaeres; 
Falsus eris. Signi causa canenda mihi. 

Júpiter, et, lato qui regnat in aequore, frater, 
Carpebant sócias, Mercuriusque, vias. 

Tempus erat, quo versa jugo referuntur aratra; 
Et pronum saturae lac bibit agnus ovis. 



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— 57 — 



do irmão Remo em lembrança o diz — Remuria. 

A inicial do vocábulo co'o tempo 

de áspera se fez branda, pronunciou-se 

Lemurias, e de lemures o nome 

se ficou dando aos tácitos espectros. 

Tal do termo a accepçSo, tal sua historia. 

Lá "nessas eras, 'neste prazo do atino, 
como hoje nas Feraes fechámos templos, 
nossos pais nas Lemurias os fechavam. 

Em prazo tal nem virgens nem viuvas 
se deveram casar ; a que o fizesse 
pouco espaço da vida se lograva ; 
por isso, a darmos credito a provérbios, 
diz o vulgo, que em Maio as ruins se casem. 

Convém notar, que o triduo das Lemurias 
não corre a flux : cada dois dias levam 
entre si um profano intercalado. 

Se em meio d'essa festa procurardes 
o béocio Orion, é já transposto ; 
d'essa contellaçao direi a historia. 



Incerra- 
mentodos 
templos 
durando 
as Lemu- 
rias e as 
Feraes 

Abster de 
bodas,que 
'neste pra- 
10 provam 



Dois dias 

f ir o f anos 
ntercala- 
dos nos 
três dás 
Lemurias 

Maio li— 
Occaso do 
Orion 



Caminhavam de rancho o rei do Olimpo, 
o irmão dos mares arbitro, e Mercúrio. 
Era a hora, em que os bois, fartos da lida, 
para o casal o arado reconduzem 
de relha revirada, e o cordeirinho 
chupa sôfrego a teta retezada, 
que a mãi lhe traz do pasto ao quente aprisco. 



Historia 
d'esta 
constella- 
cao; Júpi- 
ter, Ne- 
6tuno e 
er curió 
hospeda- 
dos na 
choupana 
de Hirien 



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— 58 — 
Forte senex Hyrieus angusti cultor agelli 

Hos videt, exiguam stabat ut ante casam. 
Àtque ita : Longa via est, nec têmpora longa superaunt, 

Dixit, et bospitibus janua nostra patet. 
Addidit et vultum verbis; iterumque rogavit. 

Parent promissis; dissimulantque deos. 

Tecta senis subeunt nígro deformia fumo. 

Ignis in hesterno stipite parvos erat; 
Ipse genu posito flammas exsuscitat aura, 

Et profert quassas comminuitque faces. 
Stant cálices; minor inde fabas, olus alter babebant: 

Et fumant testu pressus uterque suo. . 
Dumque mora est, tremula dat vina rubentia dextra ; 

Accipit aequoreus pocula prima deus. 
Quae simul exhausit: Da, nunc bibat ordine, dixit, 

Júpiter; audito palluit ille Jove. 
Ut rediit animus, cultorem pauperis agri 

Immolat, et magno torret in igne, bovem : 
Quaeque puer quondam primis diffuderat annis, 

Prodit fumoso condita Tina cado. 

Nec mora; flumineam lino celantibus uivam, 



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— 59 — 

# 

Hirieu, velho cultor de escasso prédio, 
do seu tugúrio acaso estava á porta, 
e os viu. — «Jornada larga exige um poiso — 
lhes diz *- « e o dia é findo ; a casa é pobre, 
«mas pobre mesmo os hospedes a alegram. »- 
que nas falias diz mostra-o no rosto ; 
insta segunda vez até que aceitam. 

Occultando quem são, os três viandantes 
na affumada choupana entram do velho. 

No lar, onde intreluz tição da véspera 
Hirieu ajoelhado assopra o fogo. 
Vai buscar, parte miúdos, uns cavacos , 
ao lume põe marmita de hortaliça, 
e por traz d'ella um púcaro com favas. 
Em quanto sob os testos que palpitam 
a fervura fumega, e se prepara 
a frugal ceia, o trémulo hospedeiro 
traz roxo vinho aos hospedes ; Neptuno 
bebe o primeiro copo, e diz : — « Agora 
« segue-se a vez de Júpiter. » — O velho, 
que ouve estar ali Júpiter, infia ; 
torna em si ; vai-se ao boi seu companheiro 
no grangeio do parco torrãosinho, 
immola-o, põe-n-o a assar 'numa fogueira ; ' 
vinho que inthesoirou sendo muchacho, 
pela primeira vez traz ora a lume, 
do afumado barril em que dormia. 

Tudo é prestes : cobertas de alvo linho 
tapam reclina tórios para a mesa, 



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— 60 — 

Sic quoque non altis, discubuere tons. 

Nunc dape, nunc posito mensae nituere Lyaeo ; 
Terra rubens era ter; pocula fagus erant. 

Verba fuere Jovis: Si quid fert impetus, opta; 
Omne feres. 

Placidi verba fuere senis : 
Cara fuit conjux, primae mihi cura juventae 
Cognita; nunc ubi sit, quaeritis? urna tegit. 

Huic ego juratus vobis in verba vocatis 
Conjugio, dixi, sola fruere meo. 

- Et dixi, et servo ; sed enim diversa voluntas 
Est mihi : nec conjux, et pater esse volo. 

Adnuerant omnes ; omnes ad terga juvenci 
Gonstiterant : pudor est ulteriora loqui. 

Tum superinjecta texere madentia terra. 

Jamque decem menses ; et puer ortus erat. 

Hunc Hyrieus, quia sic genitus, vocat Uriona ; 
Perdidit antiquum litera prima sonum. 



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— 61 — 

ingenhados de juncos fluviatiles, 
camilhas quasi razas co'o terreno ; 
recostam-se. O festim condiz em tudo : 
barro vermelho é a ânfora vinaria ; 
os copos são de faia. 



— « Os teus desejos, JíjSE 

Orion 



« se alguns desejos tens, expõe-n-os franco — 
diz Jove — « que os verás logo cumpridos. » — 

Plácido acode o velho : — « Esposa tive, 
« cara delicia de meus verdes annos ; 
«4 sabeis onde ora está? jaz no sepulcro. 

«Eu, por vós, por vós mesmos, lhe jurara 
«que o tálamo onde a ella a recebera 
« nunca a outra o daria ; e cumpro o voto. 

«Mas dias ha porem, que uma lembrança 
« me anda a desatinar : desejaria 
«não ler mulher, e ter comtudo um filho.» — 

Unanimes os três á prece annuem ; 
chegam-se todos á bovina pelle ; 
e . . . narrar o qtre hão feito o pejo imbarga ; 
sobre a pelle bovina humedecida 
lançam terra; dez mezes se devolvem, 
nasce um menino. Hirieu para memoria 
de que as sacras urinas o geraram, 
põe-lhe nome Orion, trocpda 'noutra 
a vogal que o vocábulo -inicia. 



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— 61 — 

Creverat immensum ; comitem sibi Delia sumsit; 

[lie deae custos, ille satelles erat. 

Verba movent iras non circumspecta deorum : 
Quam nequeam, dixit, vincere, nulla fera est. 

Scorpion immisit Tellus; fuit impetus illi 

GurTa gemelliparae spicula ferre deae*, 

t 
Obstitit Orion ; La tona nitentibus astrís 

Addidit; et: Meriti praemia, dixit, habe. 

Sed quid et Orion, et eaetera sidera mundo 
Gedere festinant, noxque coartat iter? 

Quid solito citius liquido jubar aequore tollit 
Cândida Lucifero praeveniente dies? 

Fallor? an arma sonant? non fallimur ; arma sonabant ; 
Mars venit; et veniens bellica signa *tiedit. 

Ultor ad ipse suos coelo descendi t honores, 
Templaque in Augusto conspicienda foro. 



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— 63 — 

Saiu Orion mancebo agigantado ; 
por sócio seu na venatoria lida 
Delia o tomou, por sua guarda o teve. 



O gigante 
Orion na 
comitiva 
de Diana 



Iras porem nos deuses aocenderam 
do incauto moço temerárias falias. 
— « Fera não ha, que o braço meu nSo prostre » • 
blasonava arrogante. 



Eis que da terra 
brota imprevisto escorpião sanhudo ; 
contra Latona investe ; ai ! leva a mira 
em n'-a esbulhar da aljava ; Orion lhe acode, 
a antepara, o sustem ; Latona em paga 
o arrebata, o colloca entre as estrellas. 



Proeza 
que o tor- 
na cons- 
tellacâo 



* Mas porque é, que nos fluidos espaços 
Orion e os mais astros pressa tanta 
põem no fugir, e se abbrevia a noite ? 
i Porque de apoz á estrella matutina 
sai do liquido mar o dia cândido 
mais cedo que até aqui ? 



Maio u— 
Já se não 

vè o Orion 



*Não oiço eu armas? 
sim : dos ouvidos meus não foi prestigio ; 
senti de armas estrépito. Mavorte 
lá vem ; bellico estrondo o annunciára. 



Grão vingador dos Césares, tu baixas 
dos ceos, morada tua, a ver teus cultos, 
no templo que inobrece o augusto foro. 



B aii a 
Marte ao 
seu tem- 
plo, que 
sob a invo- 
cação de 



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— 64 — 

Et deus est ingens, et opus; debebat in urbe 

Non ali ter nati Mars habitare sui. 
Digna Giganteis haec sunt delubra tropaeis. 

Hinc fera Gradivum bella movere decet, 

« 

Seu quis ab Eoo nos impius orbe lacesset, 
Seu quis ab occiduo sole domandus erit. 

Prospicit Armipotens operis fastigia summi; 
Et probat invictos summa tenere deos. 

Prospicit in foribus diversae tela flgurae, 
Àrmaque terrarum milite victa suo. 

Hinc videt Aeneam oneratum pondere sacro ; 
Et tot Iuleae nobilita tis avos. 

Hinc videt lliaden bumeris ducis arma ferentem ; 
Glaraque dispositis acta sobesse viris. 



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— «5 — 

Immenso é o nume ; o santuário immenso ! 
é só assim, que a Marte competia 
nos muros do seu Rómulo hospedagem ! 
de troféos giganteus condigno alcaçar ! 

D'ali deve partir o deus terrível, 
quer do mundo oriental nos surjam Ímpios, 
quer do occaso sacrílegos provoquem 
das águias nossas o corisco e o jugo. 

Eil-o, o eterno Gradivo, o armipotente, 
a mensurar com olhos satisfeitos 
a altura profundíssima da estancia ! 
por própria a dá de numes invencíveis ! 

Por cima dos portões vé penduradas 
armas de estranhas formas, rico espolio, 
que do orbe inteiro andaram rebanhando 
seus dilectos romSos. 



dltor lha 
dedicara 
Augusto 
César no 
foro Au- 
gusto 



Trofeosde 
armas e 
estatuas 
no inte- 
rior d'este 
templo de 
Marte 



De um lado avista 
pio Eneas, curvado ao sacro peso, 
e os tão sem conto heroes, avós preclaros 
da excelsa casa Júlia. 

D'outra parte 
o filho de ília, Rómulo, o seu filho, 
avulta magestoso ; armas o adornam 

de um rei a quem venceu. 

/' 

Em cada estatua 
as sottopostas lettras rememoram 
os feitos seus, seus títulos a fama. 

TOM. III. 



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Spectat et Augusto praetextum nomine templum, 
Et visum lecto Gaesare ma jus opus. 

Voverat hoc juvenis tunc, quum pia sustulit arma. 
A tantis princeps incipiendus erat. 

Me manus tendens, hinc stanti milite justo, 
Hinc conjuratis, talia dieta dedit: 

Si mihi bellandi pater est, Vestaeque sacerdos 
Auctor, et ulcisci numen utrumque paro; 
Mars, ades ; et satia scelerato sanguine ferrum ; 

Stetque favor causa pro meliorc tuus. 

i 
Templa feres; et me victore vocaberis Ultor. 

Voverat; et fuso laetus ab hoste redit. 
Nec satis est meruisse semel cognomina Marti : 



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se origi- 



— 61 — 

Nota emfim dado ao templo o nome Augusto : 
leu César; só de o ler, 6 maravilha ! 
sente ampliada a fabrica estupenda ! • 

Era o summo varSo mancebo em annos ; ^ * 

piedoso de seu pai vingando a affronta, Phlu^ 

dava de seu valor a prima eslreia, r*íw!pto 

quando fez voto de erigir tal obra. 
'Num monumento máximo devia 
annunciar-se o máximo dos chefes. 

Por entre os dois exércitos á vista, 
o dos fieis, o d'elle; e o dos rebeldes, 
alçou as mãos, e exclama : 

— « Se é verdade, 
« que de um pai, de um pontífice de Vesta, 
« o sangue esparso, inulto, aqui me trouxe ; 
a se a lide em que me impenho é desafronta 
« d'essa dúplice offesa magestade ; 
a divino Marte assiste-me, te exoro ; 
« dá-me fartar de iniquo sangue a espada ; 
«a quem serve á justiça ampara, 6 nume. , 
cr Templo haverás se esta victoria alcanço, 
« no qual por vingador te acclame o povo. » — 

Cala, accommette, desbarata, vence, 
volve, triunfa. 

Para Marte é pouco 
ser vingador uma vez só. 

Bandeiras 

5* 



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— 68 — 

Persequitur Partha signa retenta manu. 

Gens fuit et campis, et equis, et tuta sagittis, 

Et circumfusis' ínvia fluminibus. 
Addiderant ânimos Crassorum funera genti, 

Quum periit miles, signaque, duxque simul. 
Signa decus belli Parthus romana tenebat; 

Romanaeque aquilae signifer hostis erat. 

Isque pudor mansisset adhuc, nisi fortibus armis 
Gaesaris ausoniae proíegerentur opes. 

Ule notas veteres, et longi dedecus aevi 
Sustulit; agnorunt signa recepta suos. 

Quid tibi nunc solitae mitti post terga sagittae, 

Quid loca, quid rapidi profuit usus equi, 
Parthe? refers aquilas; victos quoque porrigis arcus, 



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— 69 — 

da águia romana inda as conserva o Partho ; 
César lá vôa. 

Ê gente formidanda 
pela amplidão do solo, pela industria . 
oo cavalgar, no despedir as frechas, 
e pelo antemural, que a natureza 
lhe poz por toda a parte, rodeando-a 
de grossos rios ; dobra-lhe arrogâncias 
o haver-nos morto os Grassos, 'nessa infanda 
fatal jornada, em que perdemos tudo : 
o general, o exercito, as bandeiras ; 
sim, as bandeiras, das legiões romanas 
outr'ora orgulho, o Partho as arvorara ; 
águias do Tibre em mSos de alferes bárbaros 
tremiam de vergonha. 

Opprobrio tanto 
duraria inda agora, a não valer-nos 
César, o invicto, o salvador da Auzonia. 
Elle as nódoas lavou da antiga injuria ; 
honra, de largos annos já perdida, 
elle a achou ; elle a trouxe á pátria mesta. 
E vós, pendões de Roma, alfim remidos, 
vós, vós, graças a elle, outra vez destes 
gloriosa sombra a conhecidos rostos. ' 

 Que prol tirastes d'esta feita, ó Parthos, 
do frechar a fugir?, do campeardes 
em cavallos indómitos sem conto ?, 
e estanciardes em regiões impervias?! 
restituístes nossas armas ; destes, 



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— 70 — 

Pignora jam noitri nuDa pudoris habes. 

Rite deo templumque datum, nomenque bis ul(o; 
Et meritus votis debita solvit hottos. 

Solemni ludos circo celebrate, Quirites ; 
Non yisa est fortem acena decere deum, 

Plêiadas adspicies omnes, totumque sororum 
"Agmen, ubi ante Idus nox erit una super. 

Tum mihi, non dubiis auctoribus, incipit aestas ; 
Et tepidi finem têmpora veris habent. 

. Idibus ora prior stellantia tollere Taurum 
Indicat. Huic signo fabula nota subest: 

Praebuit, ut taurus, Tyriae sua terga puellae 

Júpiter, et falsa comua fronte tulit. 
ília jubam dextra, laeva retinebat amictus ; 



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— li- 



dastes inda por cima os arcos vossos ; 
signal da nossa affronta em vós não resta. 

Cumpriu Gesar a Marte o promettido ; 
alçou-lbe o templo, e em vez do Vítor o nome 
lhe impoz de Bisultor, perpetuando 
na auzonia língua a dúplice vingança. 



Toca, devido ao nume, annual festejo ; 
com magestosa pompa, ó vós, Quiriles, 
celebrae-o no Circo ; outros theatros 
das batalhas ao deus não são decentes. 



Outro 
l e m p I o 
fundado 
no Capitó- 
lio pelo , 
mesmo 
Impera- 
dor a Mar- 
te sob o ti- 
tulo de bi- 

SOLTOU 

pela victo- 
ria dos 
Parthos 

Festa an- 
nual de 
Marte no 
Circo Má- 
ximo 



Dos Idos na antevéspera rutila, 
sem que uma só lhe falte, o vivo coro 
das Plêiades irmãs. 

É 'neste prazo, 
que eu, a autores de credito seguindo, 
dou principio ao verão, transposta a raia 
da tépida amorosa primavera. 



Maio 13- 
Nascimen* 
to das 
Plêiades 
( setestrel- 
ío) 



Principia 
o verto 



Na véspera dos Idos ergue o Tauro 
lá do Oceano a estelligera carranca. 
À historia d'este signo assas é publica. 
Em taurina apparencia oceulto Jove, 
alta a fronte cornigera, levava 
ufano sobre o dorso a tiria moça ; 
ella á hirsuta cerviz afferra a dextra ; 
a esquerda cautelosa apanha as roupas ; 



Maio 14- 
Começa a 
a pparecer 
o signo de 
Tauro; 
sua histo- 
ria 

Rapto de 
Europa 



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— 71 — 
Et timor ipse novi cansa decoris erat. 

Aura sinos implet; flatos morei aura capillos. 
Sidoni, sic faeras accipienda Jovi! 

Saepe puellares snbducit ab aequore plantas; 
Et metuit tactns adsilientis aquae. 

Saepe deus prodens tergum demittit in undas, 
Haereat ut collo fortius illa suo. 

Litoribus tactis stabat sine cornibus ullis 
Júpiter; inque deum de bove versus erat. 

Taurus init coelom; te, Sidoni, Júpiter implet; 
Parsque tuum terrae tertia nomen habet. 

Hoc alii signum Pbariam dixere juvencam ; 
Quae bos ex bomine est, ex bove facta dea. 

Tum quoque priscorum virgo simulacra virorum 



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— 73 — 

o próprio susto iocantos lhe realça ; 
infuná o vento as susurrantes vestes ; 
cicia no oiro da boiante coroa. 

Que linda que não vais, sidónia virgem ! 
quão digna d'esse Júpiter que abrazas ! 

Ver como a cada instante os pés mimosos 
da preada mui tímida viajante 
se vão furtando aos ósculos das ondas ! 

Ver como o deus a miude o dorso abaixa, 
e finge de propósito afundir-se, 
só porque os braços da donosa carga 
ao collo mais estreitos se Ibe apertem ! 

Poisam na gnocia praia ; o deus ovante 
despe o bruto desfarce ; a taurea forma 
sobe aos ceos, brilhfi signo, em quanto o nume, 
depostas illusões, o amor confessa, 
abraça, goza, é pai. 

De Europa ú nome 
inda um terço do orbe hoje conserva. 



'Nesta constellação alguns comtudo 
vêem a Pharia donzella, a que primeiro 
foi ninfa, depois vacca, e apoz deidade. 

É também no período em que vamos 
que lá de cima da roborea ponte 



Suppoem 
atgunsque 
o Tauro 
seja Io 



Argeus ao 
Tibre; va- 
rias ex- 
plicações 



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— 74 — 
Mittere reboreo scirpea ponte solet. 

Corpora post decies senos qui credidit annos 
Missa neci, sceleris crimine damnat avos. 

Fama vetos: tum, quum Saturnia terra Tocata est, 

Talia fatidici dieta fuere dei: 
Falcifero libata seni duo corpora, gentes, 

Mittite, quae Tuscis excipiantur aquis. 

Donec in haec venit Tirynthius arva, quotannis 
Tristia Leucadio sacra peracta modo. 

Illum stramineos in aquam misisse Quirites ; 
Herculis exemplo corpora falsa jaci. 

Pars putat, ut ferrent juvenes suffragia soli, 
Pontibus infirmos praecipitasse senes. 

Tibri, doce* verum; tua ripa vetustior urbe; 
Principium ritus tu bene nosse potes. 



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— 75 — 

d'entre as mãos da vestal recebe o Tibre '2IS!2f u 



sanpa 



esses vultos de junco, arremedando 
a figura dos homens de outro tempo. 

O suppor que algum dia á morte davam f f^^dí 

quem quer que annos sessenta preinchia, p el ° Po °- 

ê pôr nossos avós em rol de bárbaros. 

Tradição velha narra,. que, nas eras segunda 

em que o nosso paiz tomou por nome 
Terra Salurnia, o oráculo dissera : 
— « Ao ancião da foice immolae, gentes, 
• corpos dois, que dareis ás tuscas aguas. » — 

Até o advento de Hercules á Auzonia, 
celebrou-se annualmente o sacrifício 
com dois homens, das altas ribanceiras 
(nova Leucade) ao rio arremeçados. 

Mais diz a tradição, que ás duas victimas 
dois homens substituiu de junco e feno 
Hercules ; e que a Hercules seguindo 
se ficaram lançando estas imagens. 

Têm outros, que os mancebos desejando Terceira 

sulfragar sós no foro, aos fracos velhos 
de suas pontes abaixo os derribavam. 



— «Tibre, aclara-me tu qual foi da usança Quarta 

«a verdadeira causa 1 ; as margens tuas íoTibreM 



• são mais velhas que Roma ; has-de sabel-a/»- 



Poeto) 



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— 76 — 

Tibris arundiferum médio caput extuJit alveo; 
Raucaque dimovit talibus ora sonis: 

Haec loca desertas vidi sine moenibus herbas ; 

Pascebat sparsos utraque ripa boves. 
Et, quem nunc gentes Tiberin noruntque, timentque, 

Tanc etiam pecori despiciendus eram. 

Arcadis Evandri nomen tibi saepe refertur: 

Ule meãs remis advena torsit aquas. 
Venit et Alcides, turba comitatus Achiva; 

Albula, si mcmihi, tunc mihi nomen erat. 

Excipit hospitio juvenem PaUantius heros; 

Et tandem Caco debita poena venit. 
Victor abit, secumque boves Erytheida praedam 

Abstrahit. 

At comités longius ire negant. 
Magnaque pars horum desertis venerat Argis: 
Montibus his ponunt spemque Laremque suum. 

Saepe tamen patriae dulci tanguntur amore ; 

Atque aliquis moriens hoc breve mandat opus: 



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— 77 — 

Lá emerge do alveo a fluvial cabeça, 
coroada de trémulos caniços ; 
lá soa a rouca voz ; lá falia ; oiçamos : 

— « Paramos de hervançaes, desertos mudos, 
t já vi toda essa terra ; ambas as margens 
«de armentos eram pasto ; eu que hoje Tibre 
«com meu nome o terror pelo orbe estendo, 
« então era desprezo até dos gados. 

« Hei-te ouvido íallar não poucas vezes 
«no arcado Evandro; Evandro perigrino 
«veio aqui dar; senti-lhe os remos. Veio 
«aqui também, alem de Evandro, Alcides 
«com grossa turba achiva. "Nesse tempo, x 
«se bem me lembro, era Albula o meu nome. 

«Achou no pio Evandro gazalhado, 
«deu justa pena a Caco, e victorioso 
«lá se foi co'a formosa alta manada, 
«que trouxera de Erithia. 

«Os companheiros 
«deixaram-n-o ir: sentiam-se já lassos 
«de correr aventuras; parte d'elles, 
«e a mór parte, era de Argos oriunda : 
«fundaram pois ahi por esses montes 
«os lares seus, e as suas esperanças. 

«Ah ! mas do chão natal vinham saudades 
«magoar-lhe a miude os ânimos. Á hora 
«triste, e bem triste, de expirar no exilio, 



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— 78 — 
Mittite me Tiberi, Tiberinis Tectos ut undis 

Litus ad Tnachium pulvis inanis eam. 

Displicet haeredi mandati cura sepulcri ; 
Mortuus Áusonia conditur hospes humo. 

Scirpea pro domino Tiberi jactatur imago, 
Ut repetat graias per freta longa domos. 

Hactenus. Ut vivo subiit rorantia saxo 

Antra, leves, cursum sustinuistis, aquae. 

J 
Clare nepos Atlantis, ades ; quem montibus olim 

Edídit arcadiis Pleias una Jovi ; 
Pacis et armorum super is imisque deorjim 

Arbiter, alato qui pede carpis iter; 
Laete lyrae pulsu, nitida quoque laete palaestra; 

Quo didicit culte língua favente loqui. 

Templa tibi posuere patres spectantia circom 
Idibus ; ex illo est haec tibi festa dies. 



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— 79 — 

« disse um (Telles assim : — Como eu for morto 
« lançae-me ao libre ; a veia (Pesse Tibre 
«pôr-me-ha no mar, e o mar na minha terra; 
uai! terra Inachia! inda te eu goze extincto!- 

« Houve o herdeiro por brula barbaria 
« cumprir tal mandamento : a sepultura, 
« que o moribundo lhe implorou nas aguas, 
« deu-a ao morto estrangeiro em terra Auzonia. 

« Só em vez d'elle o que foi dado ás ondas 
« foi um vimineo um leve simulacro, 
«que o mar, o vento, os prósperos destinos 
«conduzissem alfim da Grécia ás costas. » — 

Até aqui disse o Tibre ; como o disse 
tornou-se á gruta de orvalhosas penhas ; 
e em quanto não introu foi quedo o 1 rio. 



Agora tu, de Atlante illustre neto, 
bello filho, que a Plêiade mais bella 
'nesses montes da Arcádia ha dado a Jove ; 
tu, que pões guerra ou paz a teu arbitrio 
entre os numes do Olimpo, entre os do Averno ; 
tu, que os ares alipede transcorres; 
tu, a quem lira, a quem palestra prazem, 
e por quem a eloquência aos homens veio. 

A ti, a ti, os padres 'nestes Idos 
hão dicado esge templo, que fronteiro 
inçara o Circo ; desde então sagrado 
ficou sendo este dia ás tuas festas. 



Maiòl*— 
Invocação 
do Poeta a 
Mercúrio 



Anniver- 
sario da 
dicaçào do 
templo de 
Mercúrio 
fron leiro 
ao Circo 
máximo 



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— 80 — 
Te, quiciimque suas profitetur vendere mercês, 
Ture dato, tribuas ut sibi lucra, rogat. 

Est aqua Mercurii porUe vicina Gapenae; 

Si juvat expertis credere, nomen habet. 
Huc venit incinctus túnicas merca tor; et urna 

Purus suffita, quam ferat, haurit aquam. 
Uda fit hinc laurus; lauro sparguntur ab uda 

Omnia, quae dominós sunt habitura novos. 
Spargit et ipse suos lauro rorante capillos ; 

Et peragit solita fallere você preces. 

Ablue praeteríti perjuria temporis, inquit; 

Àblue praeterita pérfida verba die. 
Sive ego te feci testem, falsove citavi 

Non audituri numina magna Jovis ; 
Sive deum prudens alium divamve fefelli ; 

Abstulerint céleres Ímproba dieta Noti. 
Et pereant veniente die perjuria nobis ; 

Nec curent Superi, si qua locutus ero. 

Da modo lucra mihi, da facto gaudia lucro; 
Et face, ut emtori verba, dedisse juvet. 



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— 81 — 



Os que vivem no tráfego das vendas 
vâo-te offertar incenso, e te supplicam 
opímos lucros ao commercio outorgues. 

Junto á porta Gapena a fonte corre, 
que se diz de Mercúrio ; as aguas (Telia 
(voz de quem as tentou) são milagrosas. 
De túnica cingida os mercadores 
acorrem lá com perfumadas bilhas ; 
lavam-se, enchem-n-as, levam-n-as ás lojas ; 
cada um melte 'nagua um laureo ramo, 
e as fazendas que aguardam novos donos 
vai de roda aspergindo ; em seus cabellos 
o orvalho de condão também sacode ; 
e co'a voz mansa, com que tece os logros, 
profere esta oração : 



Festejam 
os merca* 
dores a 
Mercúrio 
no seu 
templo 



YãO 08 

mercado- 
res tomar 
agua de 
condão ao 
chafariz 
de Mcrcu- 
rio janto á 
poria Ca- 
pena 



— « Rogo me abluas 
« das juras falsas que impregava d'antes ; 
« lava as mentiras d'hontem mesmo ; ou fosses 
«tu próprio o que eu chamava em testimunho, 
«ou, para dar mais credito ás trapaças, 
«fosse Jove (pedindo-lhe em segredo 
«não attendesse a tal), em summa fosse 
«qualquer deus, qualquer deusa, a que eu burlasse, 
«dissipado haja o vento essas patranhas; 
«e d'ora avante o mesmo indulto imploro ; 
«do que eu disser nSo façam conta os numes. 



O riçio 
dos mer- 
cadores a 
Mercúrio 



« Advenham-me por ti ganância e gáudio, 
«6 meu santo Mercúrio ! as minhas falias 
«dèm gosto ao comprador; e a mim tresdobro. »« 

TOM. III. 



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— 81 — 

r 

Talia Mercurius poscentem ridet ab alto» 
Se memor Ortygias surripuisse boves. 



At mihi pande, precor, tanto meliora petenti, 
In Geminos ex quo tempore Phoebus eat. 

Quum totidem de mense dies superesse videbis, 
Quot sunt Herculei facta laboris, ait. 

Dic, ego respondi, causam mihi sideris hujus. 
Causam facundo prodidit ore deus : 

Abstulerant raptas Phoeben Phoebesque sororem 
Tyndaridae fratres, hic eques, ille pugil. 

Bella parant, repetuntque suas et frater et Idas ; 
Leucippo fieri pactus uterque gener. 

His amor, ut repetant; illis, ut reddere nolint, 
Suadel; et ei causa-pugnat ulerque pari. 



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_8J — 

Ouvindo lá dos ceos Mercúrio a prece, 
não se tem que não ria, e vem-lhe á idéa, 
quando elle próprio surripiara a Àpolto 
as vaccas nédias que trazia ao pasto. 

— « Também um rogo eu tenho, e não como 
«para fe dirigir: i quando 6 que ao» Geroios 
«visita Phebo?» 



MaioiS— 
1 Sol emlie- 
mioie 



— « É quando — me responde - 
«contando ao mez os dias que inda faltam, 
« se acham iguaes em numero ás façanhas, 
«que de Hercules a gloria eternisaram. » — 



— « Contente sou — tornei ; — « dize-me agora 
« qual foi ao certo o caso d'este signo. » — 

Tal mo narrou a ponto a voz facunda : 



Historia 
d'este si- 
nto; Phe- 
beeEllai- 
ra, Linceu 
e Idas, 
Castor e 
PoUox 



— « Phebe e Ellaira irmãs raptadas foram 
« pelos irmãos Tindarides ; o pugil, 
« que a todos vence, e a flor dos cavalleiros. 

«Noivas eram. Linceu e Idas, seus noivos 
«que irmãos eram também, correm ás armas; 
«o que é seu jus co'a força reivindicam, 
«que por genros Leucippo os aceitara. 

« O Amor a estes dois brada — livrae-as, — 
«a aqueiles dois o \mor~~re4endfr>aê-*c\*rú*. 



6 



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\ 



— w — 

Eflfugere Oebalidae cursu potuere sequentes; 
Sed visum celeri vincere turpe foga. 

Líber ab arboribus locus est, apta área pugnae. 

Constiterant illic (nomen Aphidna loco). 
Pectora trajectus Lynceo Castor ab ense 

Non exspectato vulnere pressit humum. 

Ullor adesfPollui; et Lyncea perforat basta, 
Quo cervix humeros continuata premit. 

Ibat in bunc Idas, vixque est Jovis igne repulsus; 
Tela tamen dextrae fulmine rapta negant. 

Jamque tibi coelum, Polltix, sublime patebat; 

Quum, Mea, dixisti, percipe verba. Pater; 
Quod mihi das uni, coelum partire duobus; 

Ditnidium totó munere ma jus erit. 

Dixit; et alterna fratrem statione redemit: 



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— 85 — 

« Fácil era aos ebalides raptores ' 
« burlar co'a fuga a raiva aos desposados, 
« que iam sobre elles co'a vingança em punho ; 
«mas a fuga era opprobrio. 



Offereceurse 
« rasa campina apta ao combate ; Apbidna 
« se chamava o logar. Param ; cai súbito 
« Castor, que de Linceu raivando a espada 
« lhe abriu de meio a meio o peito atónito. 



« Acorre Pollux ; vinga-o, que traspassa 
« co'a lança ao matador entre hombro e collo. 



«•Contra Pollux remette com tal ímpeto 
« Idas . . . que o raio que estalou sobre elle 
« teve custo em sustel-o ; e o ferro, dizem, 
« não conseguiu das mãos arrebatar-lh'o. 



«Já Pollux assumido aos ceos mais altos 
« via as portas do Olimpo a recebèl-p 
« francas de par em par ; quando : — Ouve 6 padre 7 
« a prece minha — exclama ; — o ceo, que outorgas 
« a mim $ó> dá-o aos dois ; teu don reparte ; 
«a metade que imploro é mais que o todo, — x 



i ./ 



«Surtiu-lhe effeita a prece : o irmão r^surge* 



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— 8fr — 

Utile sollicitae sidus uterqae rfcti. 

í; ' i i: 

Ad Janum redeat, qui quaerit, Agonia quid sint; 

Quae tamen in Fastis hoc quoque tempus habent. 

». > , . • > • 

Nocte sequente diem canis Erigonius exit; 
Est alio signi reddita causa loco. 

Próxima Vulcani lux est; Tubilustria dicunt; 
Lustrantur purae, quas facit ille, tubae. 

Quatuor inde notis locus est; quibus ordine lectis, 
Vel mos sacrorum, vel íuga regis, inest. / 

Nec te praetereo', populi Fortuna potentis 

Publica, cai tett^flirtn luce sequente éatu». ' 



I 



;, < . / 



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— 87 — 
«e alternos um e outro. ato. óeos' aiceodwn j 



«Astros ambos na furiá (las tormentas 
c amiga esp'rança aos pávidos viajantes. » - 



Os que saber das Agonaes desejem, 
tornem-se a Jano ; já seu mea as, trouxa, 
bem que de novo em Maio se repitam. 



As estrei- 
tas de Cas- 
tor e Pol- 
lux presa- 
giam bo- 
nança no 
. meio das 
tempesta- 
des 

Maio 31— 
ReDetem- 
se do mez 
de Janeiro 
as Ago- 
naes 



Ás Agonaes seguindo-se outra noite 
vé-se o Erigoneo Cão ; já nos meus versos 
d'essa contellação vos disse a historia. 



Maio 22— 
Nasci- 
mento da 
eonstella- 
ç&oCâode 
Erigone 



O dia immediato é de Vulcano ; 
Tubilustria essa festa se appellida, 
que as tubas, obra d'elle, então se lustram. 



Maio 23— 
Tubilus- 
trias em 
honra de 
Vulcano 



O dia sobrevem das quatro lettras, 
inciaes dos vocábulos, que juntos 
daquelle sacrifício a usança expressam, 
ou já do rei soberbo a antiga fuga. 



Maio 5 
Regifagio 



Não te hei-de preterir, 6 protectora 
deste potente povo ! 6 tu que honrámos 
sob o nome de Publica Fortuna ; 
do templo, que te alçou devota Roma, 
é o dia que apoz vero o anniversario. 



Maio! 
Anniver- 
sario do 
templo da 
Fortuna 
Publica 
no Quiri- 
nal 



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— 88 — 
Hanc ubi dWes aquis acceperit Amphitrite, 

Grata Jovi fulvae rostra videbis a vis. 

Auferat ex oculis veniens Aurora Booten ; 
Continuaque die sidus Hyantis erit. 



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• — 89 — 

Quando a esse o sepulte o mar esplendido, 
vereis o bico reluzir da fulva 
ave de Jove. 



'Nesta 
noite a 
constella- 
çào da A- 
gnia 



Era despontando a aurora, 



adeus Booles! 



Maio 26— 
D.esapari- 
«to do 
Bootas 



Mais um dia, e tendes 
no escuro firmamento os astros de Hias. 



Maio 27- 
N a 8 ci- 
mento da 
constella- 
çao das 
Hiades 



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LÍBER VI 
«lunlus mensis 



Oic quoque mensis habet dúbias in nomine causas. 
Quae placeant positis omnibus ipse leges. 

Facta canam ; sed erunt qui me fimisse loquantur, 
Jíullaque mortali numina visa putent. 

Eal deus in nobis; agitante calescimus illo. 

Impetus hic sacrae semina mentis habet. 
Fas mihi praecipue vultus vidisse deorum ; 

Vel, quia sum vates, vel, quia sacra cano. 

Est nemus arboribus densum, secretus ab omni 
Você locus, si non obstreperetur aquis. 

Hic ego quaerebam, coepti quae mensis origo 
Esset, et in cura nominis hujus eram. 



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LIVRO VI 



O mei de Junho 



Dão-se ao nome de Junho origens varias ; 
eu só as canto ; cada qual escolha. 

Verdades vou dizer ; ficções lhes chames, 
se os numes aos mortaes são ortoi vistvei».. 



Discorda- 
se na eti- 
mologia 

d* lanho 



Um deus referve em nós; assomos de estro 
baixam da elherea mente á mente humana. 
Quem, quem pode vedar-me o vér deidades, 
sendo eu vate, eu cantor* dos saerifitios ! 



i )■<.. 



Em solitário bosque, onde tmo sôa - 
mais que murmúrio, e estrépito dejinfas, 
andava-me eu cuidoso imaginando ,% 
porque ao mez novo chamariam lanho. 



, i 



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— 98 — 
Ecce deas vidi ; non, quas praeceptor arandi 

Viderat, Ascraeas quum sequeretur oves; 
Nec, quas Prjamides in aqupsae vallibus Idae 

Çontulit ; ex illis sed tamen una fuit ; 

Ex illis fuit una sui gerntana mariti; 

Haec erat, agnovi, quae stat in arce Jovis. 

y-j > k ' ' - : . 

Horrueram, taci toque animum pallore fatebar; 
Quum dea, quos fecit, sustulit ipsa, mctus, 

Namque, ait : O vates, romani conditor anni, 
Ause per exiguos magna referre modos; 

Jus tibi fecisti nnmen coeleste vidcndi, 

Quum placuit numeris condere festa tuis. 

Ne tamen ignores, vulgique errore traharis, 
Junius a nostro nomine nomen habet. 

Est aliquid nupsisse Jovi, Jovis esse sororem ; 
Fratre magis, dubito, glorier, anne viro. 

Si genus adspicitur, Saturnum prima parentem 

Feci; Saturni sors ego prima fui. 
A patre dieta meo quondam Saturaia Roma est; 



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— 93 — 

Deusas súbito avisto. *E quaes? Não essas 
que ao pegureiro Àscreu iniciaram 
na arte feliz de fecundar as terras ; 
nem as que outr'ora em pleito de formosas 
'num valle do Ida aquoso apareceram, 
nuas á vista do Priamio Paris, 
bem que uma d'essas três fosse uma d'estas. 

Conheci-a ; era a mesma ; a que se adora 
no Capitólio augusto, a par de Jove, 
a que é de Jove irmã, de Jove esposa. 

Santo horror me tomou ; rèconheceu-nTo 
no palor, na mudez a gran deidade ; 
dera-me a turvação, deu-me o conforto. 

— «Ó vate, ó collector das annuas festas 
« da tua Roma — diz — « animo affoito, 
« que ousaste em verso humilde essa árdua impreza ; 
« no teu impenho de cantar os numes 
« ganhaste jus de os ver. Tua ignorância 
« não te faça cair no error do vulgo : 
«do meu nome provem de Junho o nome. 

«tNao sou de Jove esposa?, irmã. de Jove?! 
« AJgo é isto ; nem sei qual mais me ufane : 
«se. o irmão, se o consorte. 

«£ Olhais ao sangue? 
« Foi Saturno meu pai ; sou d'elle a filha ; 
« fui sua primogénita. Saturnia 
«em memoria a meu pai se intitulava 



Appare» 
cem três 
densas ao 
Poeta, rci- 
v enrican- 
do cada 
uma para 
si a ori- 
gem do 



Juno deri- 
va JUNHO 

do seu no- 
me 



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-94- 

Haec illi a coelo próxima terra fuit. 

Si torus in pretio est, dicor matrona Tonantis; 
Junctaque Tarpeio sunt mea templa Jovi. 

An potuit Maio pellex dare nomina mensi? 

Hic honor in nobis invidiosus erit? 
Cur igitur Regina vocor, Princepsque dearum? 

Áurea cur dextrae sceptra dedere meaef 

An faciant mensem luces, Lucinaque ab illis 
Dicar, et a ouJlo nomina mense trabam? 

Tunc me poeniteat posuisse fideliter iras 

In genus Electrae; Dardaniamque domum. 

Causa duplex irae: rapto Ganymede dolebam; 
Forma quoque Idaeo judice victa mea est. 

Poeniteat, quod non foveo Carthaginis arees ; 
Quum mea sint illo currus et arma loco. 



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— 98 — 

«i nas priscas eras Roma, a Lacta terra, 
« que elle, deixado o ceo, tomou por sua. 

«Se o tálamo dá lustre, eu do Tonante 
« sou a regia consorte ; as aras temos 
« lá junto da Tarpeia associadas. 

a Deu Maia, a concubina, a Maio o nome ; 
«i serei eu menos que ella? eu, soberana, 
« eu que entre as immortaes impunho o scéptro ! 

«Da luz, que vem é vai, reverte e foge, 
« os dias se compõem ; d'elles, os mezes ; 
«^e eu, que da Luz Lmna me aomeio, 
« um só mez não terei ! ? 

« Pezar profundo 
« fora então para mim ter convertido 
« 'neste amor, 'neste afferro a Lacia gente ' 
« esse ódio longo, acerbo, insuperável 
« que tive a seus avós, á raça toda 
«e de Electra, e de Dárdano. Sim ; ódio, 
«insuperável ódio, acerbo, longo.... 
« mas duas vezes justo. Em Ganimedes 
« tive a primeira causa ; a outra em Paris. 
« Este roubou-me da belleza o premio ; 
« roubou-me aquelle o amor ; ambos os ímpios 
« eram Tróia, e de Trorç herdeira é Roma. 

«Sim, pezar, sim remorsos me daria ,.,. 

« pospor-lhe de Carthago as cidadellas, 
« fido povo onde o coche e as armas tenho. • i ' ■ 



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— 96 — 

Poeniteat Sparten, Argosque, measque Mycenas, 

Et veterem Latio supposuisse Samon. 

Adde senem Tatium, Junonicolasque Faliscos, 
Quos ego Romanis succubuisse tuli. 

Sed neque poeniteat; Dec gens mihi carior ulla est: 
Hic colar, hic teneam cum Jove templa meo. 

Ipse mihi Mavors: Commendo moenia, dixit, 

Haec tibi ; tu pollens urbe nepotis eris. 

• 
Dieta fldes sequitur*. centum celebramur in aris; 

Nee levior quovis est mihi mensis honor. 

Nec tamen hunc nobis tantummodo praestat honorem 
Roma: suburbani dant mihi múnus idem» 

Inspice, quos habeat memoralis Aricia Fastos, 
Et populus Laurens, Lanuviumque meum; 

Est illie mensis Junonius : inspice Tibur, 
Et Praenestinae moenia sacra deae; 



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— 97 — 

«Sim, remorsos, pezar, vergonha eterna, 
« ter pelo ingrato Lacio escurecido 
« Argos, Esparta, e a que é tão minha, e tanto, 
«e sempre o foi, Micenas, e a aprazível, 
a flor de meus olhos, minha velha Samos ! 

« Fiz mais ; o antigo Ta cio, os meus Faliscos, 
« permitti que vencidos se intregassem 
«á romana potencia então nascente. 

« Mas não ; não me arrependo ; em toda a terra 
« povo não tenho, que prefira ao vosso ; 
a vosso culto me apraz ; amo a vivenda, 
« que bem junto ao meu Júpiter me heis dado. 

O próprio Marte — « 0' mãi, são teus, — me disse, - 
« estes muros de Rómulo, teu neto ; 
« intrego-fos ; ampara-Wos ; protege, 
« gran deusa, a gran cidade herança tua ; 
«cultos quaes nunca houveste , aqui te aguardam. » — 

« Cumpriu-se o vaticínio ; em aras cento 
« me adoram ; e (honra igual ás mais subidas !) 
«esta parte do anno a mim consagram. 

«Nem só, Roma, em leu grémio : iguaes obséquios 
mos suburbanos teus contínuos goso. 
« Que o diga em seus annaes selvosa Arícia ; 
« a povoação Laurente ; o meu Lanuvio, 
« pois têm hum roez de Juno. O Tibur falle ; 
« muros, fallae, da Prenestina deusa.; 

TOM. III. 7 



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Junonale leges tempus; neo Romulus illas 
Gondidit; at nostri Roma nepotis erat. 

Finierat Juno. Respeximus; Herculis uxor 
Stabat, et in vultu signa dolentis erant: 

Non ego, si totó mater me cedere coelo 
Jusserit, invita matre morabor, ait. 

Nunc quoque non luctor de nomine temporis bujus; 
Blandior ; et partes poene rogantis ago ; 

Remque mei júris malim tenuisse precando; 
Et fartas catisae Forsitan ipse meae. , 

Áurea possedit sócio Capitolia templo 

Mater; et, ut debet, cum Jove summa tenet. 

At decus omne mihi contingit origine mensis; 
Unicus est, de quo solliciUmur, honor.. 

Quid grave, si titulum mensis, Romane, dedisti 
Herculis uxori, posteri tasque memor? 

Haec quoque terra aliquid debet mihi nomine magni 
Conjugis: huc captas adpulit file noves. 



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— »« — 

«;nâo haveis, cllo e vós, registo expresso 

« do tempo junonal ? e mas não fostes 

a qual Roma, por meu Rómulo fundados.» — 



Galou-se. Olho atrazd'ella; em pé diviso imm»<i»> 

Alcides a consorte : oc 
lhe ressumbra no aspecto. 



de Alcides a consorte : occulta magua mhoVjo- 



« Os ceos — diz ella — 
« me ordene a mai deixar, submissa os deixo : 
«obediência d'extremosa filha, 
« sempre ha-de àchal-a em mim ; rival não venho 
« este mez disputar-lhe ; humilde apenas 
« meras razões por supplicas exponho. 
«O que é meu jus, qual graça o solicito. 
« cantor, da-me attençâo ; talvez me approves. 

«De Jove a par, n'um Capitólio de oiro 
« tem minha mtíi seu templo ; é-lhe devido ; 
« toca o summo fastígio aos deuses summos. 
«A mim porem.... ;que títulos ficavam 
«se o d'este mez perdesse?.... Eis o motivo 
«por que o requeiro aqui. 

« i Mas que estranheza 
« se pode achar, em que os Romãos pripevos, 
« em que a posteridade agradecida, 
«quizessem 'num seu mez commemorar-me, 
« sendo eu a esposa d'Hercules ? ! i é nada 
«o que a meu grão consorte o Lacio deve? 

«^Onde, senão aqui, trouxe elle as vaccas, 
« alta conquista de seu braço invicto ? 

7» 



VINTUDE 



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— 100 — 

Hic male defensus flammis et dote paterna 
Gacus Aventinam sanguine tinxit humum. 

Ad propiora vocor : populum digessit ab annis 
Romulus, in partes distribuitque duas; 

Haec dare consilium, pugnare pa ratio r ília est; 
Haec aetas bcllum suadet, at ília gerit. 

Sic statuit, mensesque nota secrevit eadem : 
Junius est juvenura; qui fuit ante, senum. 

Dixit; et in litem studio certaminis issent; 

Atque ira pietas dissimulata foret; 
Venit Apollinea longas Concórdia lauro 

Neia comas, placidi numen opusque ducis. 

Haec, ubi narravit Tatium, fortemque Quirinum, 
Binaque cum populis regna coisse suis, 

Et Lare communi soceros generosque receptos: 
His nomen junctis Junius, inquit, habet. 

Dieta triplex causa est ; at vos ignoscite, divae ; 

Res est arbítrio non dirimenda meo. 
Ite pares a me; perierunt judice formae 

Pergama; plus laedunt, quam juvat una, duae. 



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— 101 — 

«6 Onde, senão aqui, máo grado as chammas, 
« vulcaneo don paterno, ao trus da clava 
« Caco se baqueou, mordeu, retincla 
«em sangue negro do Aventino a incosta? 

« Desçamos a menor antiguidade ; 
« Rómulo extrema o povo em parles duas : 
« moços, velhos ; valor, experiência ; 
« 'nuns, o conselho que decreta as guerras ; 
« nos outros, o valor, que as faz, que as vence. 
« Co'a mesma divisão marcando os mezés, 
«deu Maio aos velhos,. aos mancebos Junho. » — 



Dissera. Exacerbada a competência a cond- 

ia a mutua affeiçâo trocar-se em iras, ji* H o m d? 



J MICÇÃO 



quando assoma a Concórdia, jngrínaldadas 
de Apolineo laurel as longas tranças; 
a Concórdia, a deidade em nossos cultos 
por general piedoso introduzida. 

Memora Tacio, e Rómulo ; os dois reinos 
feitos 'num reino ; os povos dois 'num povo ; 
de Roma os genros, da Satynia os sogros, 
em lar commum folgando ; e — «o nome a Junho 
« d'esta fausta juncção nasceu » — termina. 



As três causas ouvi. Perdão, deidades; Naspra- 

entre vós decidir.... não sei.... não ouso!.... das três 

A mais formosa és tu — poz Tróia em cinzas; nlo*il 

se a uma lisonjeio, aggravo a duas. Poeu a 

Ide ; é muito um amor, são mais dois ódios. mm 



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— 101 — 

Prima dies tibi, Garna* datur. Dea cardiots haoe ©at: 

Numine clausa aperit, claudit aperta, suo. 

Unde datas habeat vires, obscurior aevo 
Fama ; sed e nostro carmine certus eris. 

Adjacet antiqui Tiberino Ivcus Helerni ; 
Pontífices illuc nunc quoque sacra ferant, 

lnde satã est Nymphe (Granen dixere priores), 
Nequidquam mui tis saepe petita procis. 

Rura sequi, jaculisque feras agitare solebat, 
Nodosasque cava tendere valle plagas. 

Non habuit pharetram ; Phoebi tamen esse sororem 
Gredebant; nec erat, Phocbe, pudenda tibi. 

Huic aliquis juvejium dixisset amantia verba, 

Reddebat tales protinns illa sonos : 
Haec loca lucis habent nimis, et cum luce pudoris ; 

Si secreta magis ducis in antra, sequor. 
Credulus antra subit; fruticcs hacc nacta resistit, 

Et latct, et nullo est invenienda modo. 



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— 103 — 

Toca o dia primeiro á deusa Carna, 
deusa que tem sob o domínio as portas, 
e a seu mago querer as abre, as fecha. 

â Donde lhe vem tal jus? mau grado á névoa 
que poisa sobre os séculos antigos, 
claro o descobrireis se ouvis meus versos. 

Negreja ao rez do Tibre anooso Helerno, 
santo bosque, onde levam sacrifícios 
* inda agora os pontífices Romanos. 

Ali nasceu outr'ora', ali vivia 
a que nossos avós chamavam Grane, 
casta ninfa, cTexcelsos pretensores 
pedida vezes niil, e em vão pedida. 



Junho I— 
Carna 



Razio por- 
que esta 
antiga di- 
vindade 
preside ás 
portas 



G r a n e, 
aliás Car- 
na, ninfa 
do bosque 
Helerno 
junto ao 
Tibre, vio- 
lada por 
iano 



' Era seu exercício errar nos campos, 
as feras perseguir com dardo agudo, 

e as redes imboscar nos fundos valles. 

i 

Inda que aljava ao lado não trouxesse, 
criam-n-a irmã de Phebo ; o parentesco 
não poderia, 6 Phebo, in vergonha Me. 

Quando algum namorado a requestava, 
tinha prompta a resposta : — « Aqui -«-dizia 
«ha nimia luz, e a luz dobra a vergonha.... 
« Se preferes intrar 'naquella gruta 
« sigo-te. » — A gruta o crédulo voava ; 
ella torcia o passo, ia á carreira 
das moitas na espessura homiziar-se ; 
d'ali desincantal-a era impossível. 



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— 104 — 

Viderat hanc Janas; visaeque cupidine captus 
Ad duram verbis mollibus usus erat. 

Nympha jubet quaeri de more remotius antrum ; 
Utque comes sequitur. destituitque ducem. 

Stulta, videt Janus, quae post sua terga gerantur; 

Nil agis; en latebras respicit ille tuas. 
Nil agis, en dixi, nam te sub rupe latentem 

Occupat amplexu; teque potitus, ait: 

Jus pro concubitu nostro tibi cardinis esto; 

Hoc pretium positae virginitatis babe. 
Sic fatus, virgam, qua tristes pellere possct 

A foribus noxas (baec erat alba), dedit. 

Sunt avidae vulucres; n«n quae Phineia mensis 

Guttura fraudabant, sed genus inde trahunt ; 
Grande caput; stantes oculi; rostra apta rapinae; 

Canities pennis, unguibus hamus inest. 
Nocte volant, puerosque petunt nutríeis egentes, 

Et vitiant cunis corpora rapta suis. 
Garpere dicunlur lactentia víscera rostris, 

Et plenum poto sanguine guttur habent. 



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— 105 — 



Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido ; 
combateu-lhe o rigor com brandos rogos, 
e a solita resposta obteve em premio : 
que intrasse além na gruta. Obedeceu-lhe ; 
segue-o a principio a ninfa.... eis pára.... eis foge! 

O que lhe fica apoz vê Jano; 6 louca, 
no usado esconderijo em vão confias ; 
olha coroo te observa, e t'o devassa ! 
Não ha que resistir-lhe.... eis-te em seus 
Eil-o comtigo a sós na cava penha, 
onde havias buscado o teu refugio!.... 

Saciados os sôfregos dezejos, 
— «Em paga d'este gozo — exclama o nume « 
«Dos quicios a tutella eu te confio; 
« pela honra perdida esta conserva. » — 
Assim faltando cândida varinha 
lhe intrega, com que os tétricos azares 
das protegidas portas afugente. 

Existem de brutal voracidade 
umas infames aves ; não já essas, 
que de Phineu a meza espoliavam, 
mas da mesma relê ; cabeça grande, 
filo olhar, bico audaz, grizalhas plumas, 
garra adunca ; esvoaçam pela noite ; 
onde inconlram criança ao desamparo, 
que a ama deixou só, prestes a impolgam, 
arrancam-n-a do berço, e a dilaceram ; . 
diz que as lactentes vísceras com os roslros 
lhes picam, lhes devoram ; têm as fauces 
sempre repletas de sorvido sangue. 



Janò dá a 
Grane 
'numa va- 
rinha de 
oxiacanta 
o dominio 
das coi- 
eeiras, e o 
poder de 
afugentar 
os asares 



Estriges 



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— 106 — 

Est illis strigibus nomen ; sed nominis hujus 
Causa : quod horrenda stridere nocte solent. 

Sive igitur nascuntur aves, seu carmine fiunt, 
Naeniaque in volucres Marsa figurai anus ; 
In thalamos venere Procae. 

Proca na tus in illis 
Praeda recens avium, quihque diebus erat ; 
Pectoraque exsorbent avidis infantia háguis. 
At puer infelix vagit, opemqne petit. 

Territa você sui nutrix adcurrit alumni; 

Et rígido sectas invenit ungue genas. 
Quid faceret? color oris erat, qui frondibus olim 

Esse solet seris, quas nova laesit hiems. 

Pervenit ad Granen, et rem docet; illa: Timorem 
Pone; tuus sospes, dixit, alumnus erit. 

Venerat ad cunas ; flebant materque paterque. 
Sistite vos lacrymas, ipsa medebor, ait 

Protinus arbutea postes ter in ordine tangit 
Fronde; ter arbutea limina fronde notat; 



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— 107 — 

Do estridor, com que as trevas alvorotam, 
lhes vein o nome ; estriges se nomeiam. 

Estas pois, quer de si nascessem aves, o menino 

quer em aves de velhas que antes foram, gadopeia* 

fatal conjuro marso as incantasse, "*" 
penetraram de Proca bo aposento. 

Com cinco soes de edade o innocentinho 
era ao bando ferino egrégio pasto. 
Já co'as gulosas línguas ferem, sugam 
o tenro peito nu ; soam do infante» 
os consternados trémulos vagidos, 
com que, á falia de voz auxilio pede. 

Corre a ama assustada ; acha nas faces 
do caro alumno seu lavado em sangue 
das brutas garras os cruéis vestígios. 
6 Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho, 
que na côr arremeda a? tardas folhas, 
já do frigido inverno bafejadas ! 

Corre a Grane, o successo lhe relata ; 
— «Cobra valor — a ninfa the responde — - 
« viverá teu alumno. » — Intrada ao berço, 
acha a mãi, acha o pai, soltos em pranto. 

— « Eis-me ! inchugai as lagrimas — exclama — Grane sai- 

« vou tornar- vol-o são. » — Diz ; e Ires vezes nino Pro. 

ca 

de medronheiro com frondosa vara 
fere da estancia as portas ; outras tantas 
co'a mesma vara o limiar signala , 



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— 108 — 

Spargit aquis aditus, et aquae medica me n habebant; 

Exlaque de porca cruda bimestre tenet; 
Atque ita: Noctis aves, extis puerilibos, inquit, 

Parcite; pro parvo victima parva cadit; 
Cor pro corde, precor, pro fibris sumite fibras; 

Hanc animam vobis pro meliore damus. 

Sic ubi libavit, prosecta sub aethere ponit; 

Quique sacris adsunt, respicere ília vetat; 
Virgaque Janalis de spina ponitur alba, - 

Qua lúmen thalamis parva fenestra dabat. 

Post iflud ncc aves cunas violasse feruntur; 
Et rediit puero, qui fuit ante, color. 

Pinguia cur illis gustentur larda kalendis, 
Mixtaque cum cálido sit faba farre, rogas? 

Prisca dea est, aliturque cibis, qui bus ante solebat; 
Nec petit adscitas luxuriosa dapes. 

Piseis adhuc illi populo sine fraude na taba t, 
Ostreaque in conchis tuta fuere suis; 



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— 109 — 

rega o adito ; as aguas com que o rega 

Encerram salutifera mistura. 

Intranhas cruas de bimestre porca 

toma nas mãos e diz : — « Aves da noite 

«i-vos, deixae as pueris intranhas. 

«'Nesta pequena victima tenrínha 

« o tenro pequenino aqui resgato ; 

« é coração por coração ; toraae-o ; 

€ por vísceras, são vísceras ; redima 

€ esta existência immunda outra mais nobre. » — 

Finda a sacra oblação, corta o deventre, 
e esmiunçado o vai pôr aos ares livres, 
prohibindo do rito ás testemunhas 
olhal-a então ninguém ; por fim colloca 
a vara de oxiacanta, o don de Jano, 
na janelinha que dá luz ao quarto. 

Consta que desde ent|o não mais volveram 
ao berço aves ruins ; saúde, cores, 
tudo refloresceu no jnnocentinho. 

— i Donde vem — direis vós — 'nestas calendas SX ^ 

ser libação devota á nossa Grane t0 # c \ n !£ 

* na festa de 

gordo toicinho com farinha e favas? í?™ 6 — 

° , livram do 

mal de in- 
iranha 

Grane (dir-vol-o-hei) foi deusa antiga; origem 

manjares do seu tempo inda a regalam ; 
de custosos festins desdenha o luxo. 

'Nessas eras, sem medo a astúcias pérfidas, 
nadavam peixes, bocejavam ostras; 



d'esta u- 
sança T 



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— 110 — 

Nec Latium norat, quam praebet lonia dives, 

Nec, quae Pygmaeo sanguine gaudet, avem ; 
Et, praeter pennas, nihil in pavone placebat ; 

Nec tellus captas miserat ante feras. 
Sus erat in pretio ; caesa sue festa cotebant , 

Terra fabas tantum, duraque farra, dabat. 

Quae duo mixta sim ai sei tis quicumque kalendis 
Ederit, huic laedi víscera posse negant. 

Arce quoque in summa Junoni templa Monetae 
Ex voto memorant facta, Camille, tuo. 

Ante domus Manli fuerat, qui gallica quondam 
A Gapitolino reppulit arma Jove. 

Quam bene, (di magni) ! pugna cecidissct in 111a 

Defensor solii, Júpiter alte, tui! 
Vixit, ut occideret damnatus crimine rcgni. 

Hunc illi titulum longa senecta dabat. 

Lux eadem Marti festa est, quem prospicit extra 



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— 111 — 

era incógnita ao Lacio ave da Jooia, 
e a que em sangue pigmeu se delicia. 
Louvava-se o pavão só pelas cores ; 
nem aos cardumes, como agora, as feras 
vinham de toda a terra em preito á nossa, 
Chacins eram regalo ; um dia festo 
com matança de porca ia soberbo. 
Favas só dava o solo e farro duro. 

Por isso, quem ao farro ajanta as favas, 
e em calendas sextís as come, affirmam 
contra males de intranba estar seguro. 

Em dia igual também se diz que houveste, Nomes. 

Juno Monéta, em Capitólio cume . templo ! â 

templo teu, promessa de Camillo. m onéu 

erecto 
por Ca- 

No sitio onde t'o hãô posto, era primeiro clf^uSso 

a pojsada de Manlio ; esse, que outr'ora 
contra o Gallo poder salvou as aras 
do convisinho Júpiter. 

Ai, deuses ! 

1 porque 'nessa jornada gloriosa 

em que desaffrontava ao rei do Olimpo, 

lbe não destes morrer ! ? durou-lhe a vida, 

para chegar a reo de realeza, 

e acabar justiçado em tanto opprobrio ; 

oh ! quão triste diadema ás cãs de um velho ! 

No mesmo dia se festeja Marte, Ainda no 

, mesmo 

no que a porta Gapena esta fronteiro dia festa 

de Marte 



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— 112 — 

Adpositum tectae porta Gapena viae. 
Te quoque, Tempestas, meritam delubra fatpbmur, 
' Quum paene est Corsis obruta classis aquis. 

Haec hominum monumenta patent ; si quaeritis astra, 
Tunc oritur magni praepes adunca Jovis. 

Póstera lux Hyadas taurinae comua frontis 
Evocat ; «et multa terra madescit aqua. 

Mane ubi bis fuerit, Phoebusque iteraverit ortus, 
Factaque erit posito rore bis uda seges ; 



Hac sacra ta die Tusco Bellona duello 



Dicitur; et Latio prospera semper adest. 

Appius est auetor, Pyrrho qui pace negata 
Multa animo vidit; (luminc captus erat). 

Prospicit a templo summum brevis área Circum. 



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— 113 — 



templo erecto já fora tia cidade, 
mas não remoto da impedrada via. 

A ti, ó Tempestade, a ti não menos 
culto se rende ; e voto que o mereces, 
que assim nas aguas corsicas poupaste 
affundidas já quasi as nãos romanas. 

Estas nos mostra a terra humanas obras ; 
mas se incarais os ceos, nascer lá vedes 
a águia real de Jove. 



À luz seguinte 
na taurea fronte as Hiades convoca. 

Alaga chuva a terra. 

Duas vezes 
renasça mais o sol, evaporando 
das cearas o orvalho, e estais no dia 
em que a festa da intrépida Bellona 
principio deu, lá quando ás mãos se andavam 
Roma e Toscana em marcial duello ; 
Bellona amparou sempre o lacio povo. 

D'esta solemnidade o autor foi Appio ; 
Àppio, que em recusar a Pirrho as pazes 
mostrou que a luz que lhe faltava aos olhos 
lhe abundava 90 espirito. 

Área breve 
que ao templo adjaz, e d'onde lá ao longe 

TOM. III. 



no seu 
templo 
j unto i 
porta Ca- 
peaa 

Festa i 
Tempes- 
tade do 
seu tem- 
plo coirvi- 
sinho ao 
preceden- 
te 

Acaba de 
descobrir- 
se a cons- 
tellaçào 
da Águia 
• de Júpiter 
começada 
a appare- 
cer a Í5 
de Maio 

Junho 2 
— Nasci- 
mento das 
Hiades 

Tempo 
commum- 
mente 
chuvoso 

J unho 4— 
Anniver- 
sario do 
culto de 
B e 1 1 o na 
fundado 
por Appio 
por occa- 
siao da 
g uerra 
com os 
Tuscos 



COLUMNA 
BBLLICA 

diante do 
templo de 
Bellona 



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— 114 — 

Est ibi non parvae parva coluiflna noUe; 
Hinc solet hasta ma nu, belli praenuntia, mitti, 
In regem, et gentes, quum placet arma capi. 

Altera pars Girei custode sub Hercnle tuU est ; 
Quod deus Euboicô carmine múnus habet. 
Muneris est tempus, qui nonas Lúcifer ante est. 

Si títulos quaeris, Sylla probavit opus. 

Quaerebam, nonas Sanco, Fidione, ref errem, 
An tibi, Semo pater; quum mihi Sancus ait: 

Cuicumque ex illis dederis, ego múnus habebo ; 
Nomina trina fero ; sic voluere Cures. 

Hunc igitur veteres donarunt aede Sabini; 
Inque Quirinali constituere jugo. 

Est mihi, sitque, precor, nostris diuturnior annis, 
Filia, qua felix sospite semper ero ; 

Hanc ego quum vellem género dare, têmpora taedis 
Apta requirebam, quaeque cavenda forent. 



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— 115 — 

o mais alio do circo se descobre, 
contém essa columna, escaca em vulto, 
não escaca em valor, donde é costume 
por mão do Fecial rojar-se a lança 
pregoeira de guerra, em se impunhando 
contra reis ou nações em Roma as armas. 

Do circo o opposlo lado está seguro 
sob a custodia d'Hercules ; incargo 
que ao deus hão posto oráculos de Eubêa, 
e que elle adiu na véspera das Nonas. 



Scilla essa obra approveu — diz o letreiro. 

A quem daria as Nonas me era duvida : 
a Sanco, a Fidio, a ti, ó padre Semo ; 
porem duvida tal solveu-m'a Sanco, 
dizendo-me : — « Qualquer dos três que adoptes 
« honras-me sempre a mim : três nomes tenho ; 
« assim Cures o quiz. » — 

Já pois sabemos 
que a este é que os pretéritos sabinos 
no oileiro Quirinal dicaram Templo. 

Tenho uma cara filha, a quem desejo 
mais vida que a mim mesmo, e em cujas ditas 
libro a minha ventura. A amante noivo 
quando houve de a intregar, puz todo o impenho 
em perquirir quaes dias os propícios 
aos brandões de himeneu, quaes os funestos. 



No mesmo 
dia tem-. 

SI o de 
ercules 
Custodio 
f u n d ado 
em cura- 

S ri mento 
e uma 
profecia 
sibillina 

Grande 
sole mni- 
saçaod'es- 
se templo 
por Scilla 

Junho 3 — 
Festa de 
Sanco, Fi- 
dio e Se- 
m o, sob 
três nomes 
um a só 
d ivindade 



Seu tem- 
pio no 
Quirinal 
fundado 
pelos an- 
tigos sabi- 
nos 

Quando 
começa 
'neste mez 
bom pra- 
zo para 
casamen- 
tos 



8* 



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— 116 — 

Tum mihi post sacras monstratur Junius idus 
Utilis et nuptis, utilis esse viris ; 

Primaque pars hujus thalamis aliena reperta est; 

Nam mihi sic conjux sancta Dialis ait: 
Donec ab Ilíaca placidus purgamina Vesta 

Detulerit fia vis in maré Tibris aquis, 
Non mihi detonsos crines depectere buxo, 

Non ungues ferro subsecuisse, licet; 
Non tetigisse virum, quamvis Jovis ille sacerdos, 

Qnamvis perpetua sit mihi lege datus. 

Tu quoque ne propera; melius tua filia nubet, 
ígnea quum pura Vesta nitebit humo. 

Tertia post nonas removere Lycaona Phocbe 
Fertur; et a tergo non habet Ursa metum. 

Tunc ego me memini ludos in gramine Gampi 
Adspicere; et didici, lubrice Tibri, tuos. 

Festa dies illis, qui Una madentia ducunt, 
Quique tegunt parvis aera recurva cibis. 

Mens quoque numen habet; Menti delubra videmus 
Vota metu belli, perfide Poene, tui. 



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— 117 — 

Então soube, que apoz os sacros Idos 
Junho á noiva era azado, e azado ao noivo. 

Té aos quinze do mez tem-se notado 
não irem bem os talamos ; foi isto 
o que eu próprio escutei á santa esposa 
de um Flamine Dial : — a Até que o Tibre 
« na veia mansa e loira ao mar não leve 
« da nossa teucra Vesla as impurezas, 
« nem me é dado co'o buxo alisar coma, 
« nem cortar unhas, nem tocar no esposo, 
a posto seja de Júpiter ministro, 
«ea mim ligado em vinculo perpetuo. 

« Não tenhas pressa pois ; mais bem logrado 
« acertarás á filha o casamento 
«quando em sua manção purificada 
« a reluzente Vesta espelhar veja 
« no abluido pavimente as chammas tremulas. » — 



Diz-se que ao terço erguer-se além das Nonas, 
Phebe remove o moço Licaonio 
seguidor que á mãi ursa amedrontava. 



Junho 7— 
Ocraso da 
c onstolla- 
çào Arcto- 
illax 



'Neste dia recordo-me tér visto 
no hervoso chão do campo-marcio os jogos, 
chamados teus, ó Tibre ; a grande festa 
dos que cevam anzoes e impucham redes. 

Também a Mente é nume e tem delubro ; 
consagrou-lh'o o terror geral em Roma, 
quando, ó pérfido Poeno, a ameaçavas. 



No mesmo 
dia as Ti- 
braes, fes- 
las* dos 
pescado- 
ras do Ti- 
bre 



Junhofl— 
Templo á 
deusa 
Mente vo- 
tado |M>r 
occasião 



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— 118 — 

Poene, rebellaras; et leto consulis omnes 
Adtoniti Mauras pertimuere manus. 

Spem metus expulerat; quum Menti vota senalus 
Suscipit; et melior protinus illa venit. 

Adspicit instantes medits sex lucibus idus 
Illa dies, qua sunt vota soluta deae. 

Vesta, fave ; tibi nunc opera ta resolvimus ora, 
Ad tua si nobis sacra venire licet. 

In prece totus oram ; coelestia numina scnsi ; 
Laetaque purpúrea luce refulsit húmus. 

Non cquidem vidi (valeant mendacia vatum) 
Te, dea; nec fueras adspicienda viro; 

Sed, quai nescieram, quorumque crrorc tenebar, 
Gognita sunt, nullo praecipiente, mihi. 

Dcna quater memorant habuisse Palilia Romam, 
Quum flammae custos aede recepta sua est; 

Regis opus placidi, quo non meluentius uIIuiq 
Numinis íngeniura terra Sabina tulit 



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— 119 — 



Ressurgiras rebelde ; ouvida a nova 
do cônsul morto, os nossos atterrados 
criam ver já no império as mauras hostes, 
e o pavor apagara a extrema espYança. 



do terror 
ila segun- 
da guerra 
púnica 



O dia em que foi pago o voto á Mente 
por nos ter acudido em tanto apuro, 
com mais seis após si precede aos Idos. 

Vesta, assiste-me ; a ti, se é permittido 
que aos sacrifícios teus eu me aventure, 
a ti, deusa immortal consagro o canto. 

: Era meio da oração, pressinto o nume ; 
purpúrea luz de entorno aviva a terra. 

Não vi (longe de mim ficções de vates !) 
não vi a deusa no seu propio vulto, 
nem olhos de varão jamais a avistam ; 
mas a ignorância minha, as incertezas 
em que trazia o espirito inleado 
per si mesmas sem voz se me esvaíram ; 
ninguém me accendeu luz, vi tudo claro. 



Junho 9— 
Invoca o 
Poeta a 
Vesta ha- 
vendo de 
a cantar 



Srnte-se 
sobrena- 
I ural men- 
te illumi- 
nado 



Vezes quarenta em Roma haviam feito 
Palilias festivaes, quando acolhida 
foi no seu templo a tutelar das chammas ; 
obra do rei mais caro á paz e ao culto, 
do génio mais temente á divindade 
que jamais entre os seus brotou Sabinia. 



Data ocul- 
to de Vesta 
em Roma 
doannoxL 
da funda- 
ção da ci- 
dade (712 
annos an- 
tes de Jesu 
Chrislo) 



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— 120 — 

Quac nunc aere vides, stipula tunc tecta videres; 

Et pari es lento vimine textus erat. 
Hic locus exiguus, qui sustinet atria Vestae, 

Tunc erat intonsi regia magna Numae. 
Forma tamen templi, quae nunc manet, ante fuisse 

Dicitur; et formae causa probanda subest. 

Vesta eadem est, quae terra ; subest vigil ignis utrique ; 
Signiflcant sedem terra focusque suam. 

Terra pilae similis, nullo fulcimine nixa, 

Aere subjecto tam grave pendet ónus. 
Ipsa volubilitas libratum sustinet orbem, 

Quique premat partes, angulus omnis abest; 

Quumque sít in media rerum regione locata, 
Et tangat nullum plusve minusve latus, 

Ni convexa foret, parti vicinior esset ; 

Nec médium terram mundus baberet ónus. 

Arce Syracosia suspensus in aere clauso 
Stat globus, immensl parva figura poli ; 

Et, quantum a summis, tantum secessit ab imis 
Terra; quod ut fíat, forma rotunda facit. 

Par fácies templi; nullus procurrit in illo 



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— líl — 



O teclo agora bronze, era então feno ; 
as paredes, viminea sebe rústica/ 
Esse âmbito pequeno, átrio de Vesla, 
era do intonso Numa os grandes paços ; 
mas do templo a feição refere a fama 
que era já como agora. O porque a teve 
e se lhe ha conservado expor me cumpre. 



S i m plici- 
dade o po- 
breza do 
templo de 
Verta na 
primitiva 



Terra e Vesta são uma. Eterno fogo 
arde em ambas occulto ; a forma do orbe, 
e o templo, que é rotundo, e o lar em meio, 
tudo a augusta presença está mostrando. 



I d entida- 
de da terra 
e Verta; 
fiãca do 
mando e 
do fogo 



A terra, enorme pezo e no ar involla, 
firme, sem fulcro, aguenta-se qual péla ; 
esférica, sem ângulos, perfeita, 
no esjpaço per si mesma se equilibra. 

Situada no meio do universo 
não se vira de tudo equidistante 
a faltar-Ihe a que tem convexidade ; 
nem seria, qual é, do mundo o centro. 

Vê-se na Siracusea cidadella 
um globo, um microcosmo, estar suspenso 
no meio de um fechado aéreo espaço. 
Nota-se ali do Ínfimo e do summo 
distar igual medida a térrea mole ; 
sua rotundidade explica o facto. 



No sacrário de Vesta achais o mesmo : 
nem um angulo só lhe quebra as curvas ; 



Rotundi- 
dade do 
templo de 
Verta 



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— 122 — 

Angulus ; a pluvio vindicat imbre tbolus. 

Cur sit virgineis, quaeris, dea culta ministris? 
Inveniam causas hac quoque parte suas. 

Ex Ope Junonem memorant Cereremque croata* 
Semine Saturni ; tertia Vesta fuit. 

Utraque nupserunt ; ambae peperisse feruntur ; 
De tribus impatiens restitit una viri. 

Quid mi rum, virgo si virgine laeta ministra 
Admittit castas in sua sacra manos? 

Nec tu aliud Vestam, quam vivam intellige (Laminam : 
Nataque de flamma corpora nulla vides. 

Jure igitur virgo est, quae semina nulla remittit; 
Nec capit; et comités virginitatis babet. 

Esse diu stultus Vestae simulacra putavi ; 

Mox didici curvo nulla subesse tholo. 
Ignis inexstinctus templo celatur in illo; 

Effigiem nullam Vesta, nec ignis, babent. 

Stat vi terra sua; vi stando Vesta vocatur; 



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— 143 — 

e do zimbório a cúpula arqueada 
contra as aguas do ceo veda o recinto. 

De estar de Vesta o culto em mãos de virgens 
se a causa perquirís, a causa é esta : 

Opes, segundo soa, ao pae Saturno 
brotara filhas duas : Juno e Ceres ; 
depois deu-lhe terceira, a qual foi Vesta. 

As duas primogénitas casaram, 
foram mais ; a mais nova, a mate altiva 
ás tentações de amor foi sempre illeza. 

4 Que admira pois que tão isenta virgem 
só de virgens se agrade, e não confie 
senão a castas mãos tratar seu culto ? ! 

£ Que é Vesta? nada mais que a viva (Iam ma, 
e a flamma nada cria ; ha logo acerto 
em ser virgem, de virgens rodeada, 
a que é por sua essência improductiva. 

Longo tempo suppoz minha ignorância 
que a exemplo das mais deusas esta deusa 
tinha imagem também ; soube o contrario. 
Não ha lá sob a abobada tal vulto ; 
o que 'naquelle espaço se inthesoira 
é só a eterna chamma ; Vesta e fogo 
não são de fixa imagem susceptíveis. 

Nome de Vesta no latino idioma 
per si mesmo se explica ; uma virtude, 



Razão da 
serem vir- 
gens as sa- 
c erdotisas 
de Vesta 



Não ha no 
templo 
imagem 
da deusa, 
senão só o 
fogo 



Etimolo- 
gia do no- 
me de ves- 
ta.: vis e 

8TARB 



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— 124 — 

Causaque par graii nominis esse potest. 

Át focus a flammis, et, quod fovet omnia, dictus ; 

Quí tamen in primis aedibus ante fuit. 
Hinc quoque vestibulum dici reor. 

Inde precando 
Adfamur Vestam : Quae loca prima tenes. 

Ante focos olim longis considere scamnis 
Mos erat ; et mensae credere adesse deos. 

Nunc quoque, quum fiunt aniquae sacra Vacunae, 
Ante Vacunales, stantquet, sedentque, focos. 

Venit in hos ânuos aliquid de more vetusto : 
Fert missos Vestae pura patella cibos. 



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126 — 



uma força, ou vis própria, é que sustenta 
pendente no ar a terra. Approximando 
áquella vis o estar, o effeito á causa, 
com leve alteração colhemos Vesta, 
palavra que entre os gregos por ventura 
de análoga união resultaria. 

Quanto ao fogão y das flammas lhe vem nome ; 
ou já de ser por si fautor de tudo. 
Este porem nas eras mais remotas 
era posto na inlrada da vivenda, 
d'onde nasceu vestíbulo, supponho. 



Por isso, quando a Vesta deprecamos, 
vai sempre a ritual solita frase : 
Deusa, tu que o logar primeiro occupas. 

Diante do fogão no tempo antigo 
era costume os commensaes sentarem-se 
em longos bancos ; Vesta e mais os Lares 
cria-sé que ao repasto eram presentes. 



Etimolo- 
gia dero- 
cus,fogào: 

FLAMMA 
OUFOVEHK 

Etimolo- 
gia de ves- 
tíbulo: 
vesta, por 
ser antiga- 
mente o 
fogão á in- 
lrada das 



Explica- 
ção de 
uma frase 
ritual na 
oração a 
Vesta 



Como e- 
ram outr- 
ora as re- 
feições, e 
Thes assis- 
tiam Vesta 
eos Lares 



Inda agora nas festas de Vacuna 
restos d'esse bom tempo, os seus festeiros 
diante do fogão se lhe reúnem, 
cada qual a seu gosto : em pé, sentados. 



Duram re- 
m iniscen- 
cias d'essa 
usança na 
festa de 
Vacuna 



Algo herdámos das pristinas usanças ; 
que o diga o que se invia dos banquetes 
aceado prato de presente a Vesta. 



Prato que 
dos ban- 
quetes se 
offerece a 
Vesta 



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— 126 — 

Ecce, corona tis panis dependei asellis; 
Et velant scabras florida sertã molas. 

Sola prius furais torrebant farra coloni; 
Et Fornacali sunt sna sacra deae ; 

Subpositum cineri panem focus ipse parabat; 

Strataque erat tépido tegula quassa solo. 
Inde focum servat pistor, dominamque foco rum, 

Et, quae pumiceas versat, asella, molas. 

Praeteream, referamne, tu um, rubicunde Priape, 
Dedecus? est multi fabula plena joci : 

Turrigera frontem Cybele redimita corona 
Gonvocat aeternos ad sua festa deos ; 

Convocat et Satyros, et, rústica numina, Nymphas ; 
Silenus, quamvis nemo vocarat, adest. 

Nec licet, et longum est, epulas narrare deornm ; 
In multo nox est pervigilata mero. 



I 

I 



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— 147 — 

'Neste dia os jumentos dos padeiros 
têm pendentes colares de rosquilhas, 
e as escabrosas mós flóreas grinaldas. 



Lá no principio os fornos só prestavam 
para torrar a escandia aos lavradores ; 
por isso á deusa Fornice inda agora 
fazem seu sacrifício as padarias. 

Quem preparava o pão no subborralho 
era o fogão por si, fogão singello : 
um chão, calçado de quebradas telhas ; 
e eis o porque devoto o alafoneiro 
e a asninha que no ingenho as mós lhe gira 
fazem festa ao fogão, e á padroeira 
dos fogões todos, á suprema Vesta. 

Não sei ora, o Priapo rubicundo, 
se conte ou cale o cómico vexame 
que a ti te fez raivar, e a nós dá risos ; 
vá lá, com vénia tua, essa anecdota : 

Torric'roada Cibele convida 
á sua lauta festa os magnos deuses , 
sem desdenhar os sátiros e as ninfas, 
com serem numes rústicos. Sileno, 
esse então, convidara-se a si próprio. 

Um festim de immortaes nem cabe em canto, 
nem cantal-o era licito. Resumo, 
com dizer que se foi a noite em brindes : 
largo o beber, e módica a folgança. 



O rnam-sa 
do colares 
de rosqui- 
lhas os ju- 
m en tos 
dos atafo- 
neiros, e 
de flores 
as mós 

Sacrifício 
nas pada- 
rias á deu- 
sa Fornax 
e a Vesta 



Fabula de 
Priápo no 
convívio 
de Vesta 



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— 128 — 

Hi temere errabant in opacae vallibus Idae ; 

Pars jacet, et molli gramine membra levat. 

Hi ludunt; bos somnus habet; pars brachia nectit, 

Et viridem celerí ter pede pulsat bumum. 

Vesta jacet, placidamque capit secura quietem.. 

Sicut erat positum cespite fulta caput. 
Ãt ruber hortorum custos Nymphasque deasque 

Capta t ; et errantes fertque refertque pedes. 
Adspicit et Vestam ; dubium, Nympbamnc putarit, 

An scierit Vestam ; scisse sed ipse negat. 

Spem capit obscaenam, furtimqne accedere tentat; 
Et fert suspensos corde mi cante gradus. 

Forte senex, quo vectus erat, Silenus asellum 
Liquerat ad ripas Iene sonantis aquae. 

Ibat, ut inciperat longi deus Hellesponti. 
Intempestivo quum rudit ille sono; 



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— 129 — 

Uns, dos valles do Ida á toa vagam 
pelas maltas noctigerás ; taes outros 
nos relvosos tapeies estirados 
co'a branda inércia os membros refocillam ; 
jogam estes ; ressonam outros ; vários, 
inlaçadas as mãos, rodam chorêas, 
reloiçando por cima da verdura, 
ao compasso que o pé Ires vezes bate. 

Dorme entretanto Vesta em ócio plácido, 
a cabeça 'num cespíde florido, 
como o acaso lh'o deu, posta a descuido. 
Dos hortos anda o rúbido custodio 
por aqui, por ali, sósinho, errante, 
sem poiso nem descanço, á espreita, á caça 
já d'esta, já d'aquella, ou deusa ou ninfa ; 
dá com Vesta ; intreluz-se-Ihe no escuro 
ser ninfa, ou conheceu-a e foi disfarce ; 
diz elle que a suppoz deveras ninfa. 

Já soffrego desejo o senhoreia ; 
pé ante pé se adianta palpitando. ,/ 

Tinha Sileno á beira de um arroio 
largado ao pasto o auríto companheiro, 
que os pés senis lhe suppre e o trouxe á festa. 

Já ia o nosso guapo do Hellesponto 
aventurar-se ás ultimas. . . eis sôa 
asinino trovão. Desperta a deusa 
d'aquelle son brutal sobresaUada. ■> > 

TOM. 111. 



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— 130 — 

Territa você gravi surgit dea; convolat omnie 
Turba; per infestas effugit ille manui. 

Lampsacos hoc animal solita est ma c tare Priapo : 
Apta asini flammis indicis exta damus; 

Quem to, diva, memor, de pane monilibus ornas. 
Gessat opus ; vacuae conticuere molae. 

Nomine, quam pretio, celebratior, arce Tona n tis, 
Dicam, Pistoris quid velit ara Jovjs. 

Cincta premebantur trucibus Capitolia GalHs; 
Fecerat obsidio jam diuturna famem. 

Júpiter, ad solium Superis regale voeatis, 
Incipe, ait Maxti; protinus ille refert: 

Scilicet ignotum est, quão sit fortuna meorum? 

Et dolor hic animi você querentfe eget? 
Si tamen, ut referam breviter mala juncta pudori, 

Exigis : alpino Roma sub hoste jacet. 



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— 131 — 

Todos ao ponto de repente acodem ; ^ 
para esquivar-se ás mãos perseguidoras 
voa qual pé de vento o aventureiro. 



Em Lampsaco um jumento a Prupo imnoJam ; 
e nós também, no fogo a intranba pomos 
do animal que burlou do ouve os gaudioe. 

Mas tu pelo contrario agradecida 
ao velador que te pôz salva a honra, 
tu, deusa, de rosquilhas o ingrinaldas; 
cessas-lhe a lida, a lida fragorosa 
da torneante mó que dorme e está. 



Oj amento 
sacrificado 
em Lam- 
psaco por 
ter desa- 
prasido a 
Príapo; e 
por ter sal- 
vado a 
Vesta co- 
roado de 
rosquilhas 



Direi que significa essa que avulta 
mais por nome que lustre, ara dicada 
a Júpiter Pistor, lá na eminência 
do Tonante immortal Gapilolino. 



Ara de Jú- 
piter Pis- 
tor no Ca- 
pitólio e 
sua ori- 
gem 



Áo Capitólio os Gallos carrancudos 
mantinham desde tanto estreito assedio, 
que já reinava a fome entre os cercados. 



Cerco do 
Capitólio 
pelos Gal- 



Jove os numes congrega, e do alto sólio 
— « Marte, começa » — diz ; começa Marte : 

— «£lnda ignota será dos maus g affrwte? 
«£ser-me-ha forçoso á dor juntar queixumes? 
«^exigel-o? obedeço; m termo* hreve? 
« eis aqui nosso mal e o nosso opprobrio : 
« hostes alpinas assoberbam Roma. 



Concilio 
dos deuses 
para sal- 
varem Ro- 
ma 



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— 132 — 

Haec esl, cui fuerat promissa potentia rerum, 

Júpiter? hanc terris impositurus era»? 

Ja roque suburbanos, etruscaque contudit arma. 
Spes erat in cursu; nane Larc pulsa suo est. 

Vidimus ornatos aerata per atria picta 
Veste triumphales occubuisse senes. 

Vidimus Iliacae transferri pignora Vestae 
Sede; putant aliquos scilicet esse deos! 

At si respicerent, qua tos habitatis in aree* 
Totque domos vestras obsidione premi ; 

Nil opis in cura scirent 6uperesse deoram, 
Et data sollicita tura perire manu. 

Atque utinam pugnae pateat locus! arma capessant; 

Et, si non poterunt exsuperare, cadent. 
Nunc inopes victus, ignavaque fata timentes, 

Monte suo cia usos barbara turba premit. 



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— 133— v 

a; Onde, ó Jove, onde estão promessas tuas? 
« 4 é isto o ser metrópole do globo ? 

« Incetava gloriosa os seus destinos ; 
« tinha as gentes finitimas sujeitas, 
« a Etruria avassalada ; as esperanças 
« iam-lhe a mais e mais de dia em dia ; 
«e eil-a expulsa do lar, do seu, do avito. 

a Seus triunfaes anciãos cuido rada vél-os, 
« vestidos de suas purpuras bordadas, 
«ante os brônzeos portões de seus alcaçares 
«darem ao ferro hostil o peito heróico. 

« Inda estou vendo os símbolos do império 
« transferidos do Ilíaco Sacrário ; 
« prova de que esses simplices" romanos 
« inconcussos na fé, suppõem que ha numes. 
« Se volvessem a vista ao Capitólio, 
« se vissem as mansões que vos lá deram 
« assediadas de bárbaros, captivas ; 
« intenderiam que á piedade humana 
« celestial pavor não corresponde, 
« e que o devoto incenso é fumo apenas. 

« Sequer, dè-se-lhes campo onde combatam ; 
« vâo-se as armas provar ; vençam, ou morram ; 
« mas assim ? ! : no seu monte incurralados ! 
«expostos sem sustento a inglória queda ! 
« e cercados de bárbaros sem conto ! » — 

Peroram largamente a prol do Lacio, 



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— ISft — 

Tum Vénus, et titto paleter trabe*<j*e Quirim», 
Vestaque pro Latio multa locuta suo. 

Publica, respondit, cura est pro moenibus istis, 
Júpiter: et poenas Gallt* tteta dtfbit. 

Tu modo, quae desunt fruges, superesse putentur, 

Effice; nec sedes deseft, Verta, Uai. 
Quodcumque est Cereris solidae, cava macbiha ftangat; 

Mollitumque maou durei ift igne focus. 

Jusserat: et fratrfs tirgfl íatufnia Jussis 
Adnuit ; et mediae têmpora noctis erant. 

Jam ducibus somnum dederat labor; increp at illos 
Júpiter; et sacro, quid veíit, ore docet: 

Surgite, et in médios de summis ardbus hostes 
Mittite, quam minime perdefe vultis, opem. 

Somnus abit, quaeruntque novis ambagibus apti, 
Perdere quav aolint» ei jobeatttut, opem. 

Ecce, Geres visa est; jaciunt Ce roa lia dona; 
Jacta super galeas scutaqu* longa 9onant, 

Posse fame vioci spes étcidit; hoste repulso, 



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— 115 — 

do Lacio, amores seus, Vénus, Quirioo, 

bel lo em purpúrea Irabea, em punho o lituo,# 

e Vesta. 

Jove então : — « Geral impenho 
« é que Roma triunfe ; eu vos abono 
a que na derrota o Gallo ache o castigo. 

« Vesta, fica a leu cargo ô figurares 
« que em vez da fome em viveres se abunda. 
« Não largues tua estancia ; o grão que resla 
«que se pize, se amasse, e em fim se cosa. »- 

Ao mandado do irmão presto obedece 
a gran virgem Saturnia 

É meia noite. 
Lassos os capitães estão dormindo ; 
Júpiter os increpa, assim lhes manda : 
— « Sus ! erguei-vos ! subi á cidadelia ! . 
« de lá, rojae ao meio do inimigo 
« o de que mais em vós sentis a falta. » — 

Despertam. D'este oráculo confuso 
lidam achar o senso ; o pão que avistam 
lh'o explica ; sobre os Gallo» o arremessam ; 
pelos longos broqueis e os capacetes 
resoa a chuva insólita. 

A esperança 
de vencer pela fome esvaeceu-se ; 
o inimigo é repulso. 



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— !Í6 — 

Cândida Pistori ponitur ara Jovi. 

Forte revertebar festis Vestalibus illac, 

Quo Nava romano nunc via juncta foro est, 

Huc pede matronam vidi descendere nudo; 
Obstupui tacitus, sustinuique gradv 



Sensil anus vicina loci : jussumque sedere 
/ Adloqnitur quatiens você tremente caput: 

Hoc, nbi nunc fora sunt, udac tenuere paludes; 

Amne redundatis fossa madebat aquis. 
Curtius ille lacus, siccas qui sustinet aras, 

Nunc solida est tellus, sed lacus ante fuit. 
Qua Vela br a solent in circum ducere pompas, 

Nil praeter salices cassaque canna fuit. 
Saepe suburbanas rediens conviva per undas 

Gantat, et ad nautas ébria verba jacit. 

Nondum conveniens diversis iste figuris 
Nomen ab averso ceperat amne deus. 



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— 137 — 

Ara cm memoria 
a Júpiter Pistor cândida erigem. 

Pelo caminho novo a par co'o foro 
vinha eu de assistir de Vesta ao culto, 
quando uma dama vi oo'os pés descalços 
vir para ali descendo ; estranho incontro ! 
detive-me pasmado. 

Uma visinha, 
mulher de dias, ao notar-me o inleio 
chamou por mim, assenta-roe ao seu lado, 
e a nutante cabeça meneando 
me diz com falia tremula : 



— « Estes foros 
«eram dantes paúes, occasionados 
« das cheias d 'esse rio. O que inda chamam 
« lago Curcio, hoje em dia é terra inchula 
« que até altares tem ; mas no passado 
« lago foi como o nome está dizendo. 
o Velabros hoje transito das pompas 
« quando se vão ao circo, eram salgueiros 
« e um matagal de juncos. Muitas vezes 
« folgazões que voltavam de seus bródios 
«por estes afogados arrabaldes 
«iam cantando, e com suas pulhas de ébrios 
«tombetéando á custa dos barqueiros. 



Gomo os 
dois foros 
de Roma 
foram 
paues em 
tem pos 
mais an- 
tigos 



« 'Naquelle tempo ainda ao deus Veríumno 
« se não dava tal titulo ; ganhou-o 
«quando averteu d'aqui o nosso rio. 



Etimolo- 
g i a d e 
Vertum- 
no 



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— 138 — 

Hic quoque lucus erat, juncis et arandine densus, 
Et pede velato non adeunda palus. 

Stagna recesserunt, et aquas sua ripa coercet ; 
Siccaque nunc telltts; mos tamen iode manet. 

Reddiderat causam ; Valeas, anus óptima» dixi ; 
Quod superest aevi, molle sit o&Ufce, tui. 

Caetera jam pridem dldicl puefitibu* amrií; 
Non tamen idcirco praetereunda mini. 

Moenia Dardanides nuper nove fecerat Ilus : 
lus adhuc Asiae direi habebat opas. 

Greditur armiferae signum coeleste Minervae 
Urbis in IHacae desiluisse joga. 

Cura videre fuit; vidi tempfttM[iit locuaMpie} 
Hoc saperest illi ; Paliada Roma tenct. 

Consulitur Smintheujj lutoqu* obscuro* opftco 
Hos non mentito reddidit ore sonos: 

Aetheriam serva te deam ; servabitis urbem ; 
Imperium secum transfere* illa loci. 



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— 139 — 



* Este próprio logar onde ora eatamos 
« era um mamei com salguei raes e canoas, 
« que sem se descalçar ninguém o mirava. 
« Foi-se o pântano. Às aguas ao presente 
a lá se vão no seu leito inclausuradas ; 
« este chão, como vés, é firme e inchuto 
«e inda em memoria a gente se descalça. » — 

Agradeci-lhe a historia. — « ceo te guarde - 
lhe disse — « e te conceda remançoso 
« o quartel derradeiro de teus dias. » — 

O que me resta sei-o já de muito 
aprendi-o em menino, e vou contal-o, 
que fora sem razão melêl-o a escuro. 

Tinha os seus novos muros fabricado 
lio, o neto de Dardano. Inda a Azia 
lhe acatava o possante senhorio. 
É crença que dos ceos então cairá 
sobre um oiteiro próximo á cidade 
uma estatua da armigera Bellona. 
Quiz por meus próprios olhos conhecel-a ; 
vi o logar e o templo ; mas a imagem 
fora a Roma levada, exisle em Roma. 

Assim como lio soube que tal deusa 
era dos ceos baixada aro seus domínios, 
o oráculo Esmintheu consultar manda. 
Eis a resposta que do opaco luco 
o occulto deus verídico lhe torna : 
— Guardae a deusa, guardareis a Ilion ; 
se se ausentar, levar-vos-bg o império. 



R einando 
1 l o caiu 
dos ceos 
junloásua 
cidade de 
I lio o 
Palladio 



O oráculo 
E smitheu 
fada im- 

Íerio e 
uraç&o 
ao povo 
que pos- 
suir o Tal- 
ladio 



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— 14U — 

Servat, et inclusam summa tenet Ilus in arcc: 

Guraqoe ad haeredem Laomedonta venit. 

Sub Priamo servata parum ; sic ipsa vplebas, 
Ex quo judicio forma revicta tua est. 

Seu genus Adrasti, seu furtis aptus Ulixes, 

Seu pius Aeneas, eripuisse datur. 

Auctor in incerto ; res est romana ; tuetur 
t 

Vesta, quod adsiduo lumine cuncta videt. 

Heu quantum timuere Patres, quo tempore Vesta 
Arsit, et est adytis obruta paene suis! 

Flagrabant sancti sceleratis ignibus ignes ; 

Mixtaquc erat flammae flamma profana piae. 
Adtonitae flebant demisso crine ministrae; 

Abstulerat vires corporis ipsc timor. 

Provolat in médium, et magna, Succurrite, você; 

Non est auxilium flere, Metellus ait; 
Pignora virgineis fatalia tollite palmis ; 

Non ea sunt voto, sed rapienda manu. 



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— 141 — 



Ho a guarda na alcáçova ; transmitte 
seu zelo e o mesmo incargo a Laomedonte. 



Priamo herdeiro d'este (a etherea virgem 
o permillio assim, pena da affronta 
que Paris lhe infligira), o velho Priamo 
transcurou-a, e roubaram-n-a ; quer fosse 
Diomédes o raptor, quer fosse Ulisses, 
heroe a furtos apto, ou pio Enéas. 
Quem fosse o que a levou, não se destrinça ; 
sabe-se que esta prenda hoje é romana, 
e tem por protectora a que vé tudo 
á luz do eterno lume, a augusta Vesta. 

Qual não foi o pavor de nossos padres, 
quando o templo lhe ardeu, e a própria deusa 
ia sendo esmagada entre as ruinas ! 



Ilo guarda 
o Palla- 
dio na ci- 
dadella; 

Laome- 
donte imi- 
ta a lio 

Reinando 
Priamo 
roubam o 
Palladio 



OPalladio 
afinal vem 
dar a Ro- 
ma, e se 
inthesoira 
no templo 
de Vesta 

Terror de 
Roma ar- 
dendo o 
templo de 
Vesta 



Estuava no impio fogo o fogo santo ; 
lutavam luta horrenda as labaredas, 
de fausto auspicio e de nefando agoiro. 
Carpiam-se as atónitas ministras 
desgrenhadas, estáticas de medo. 



— « Soccorro ! — em grande voz brada voando 
da horrenda scena ao meio audaz Mettello ; 
— « não se apaga com lagrimas o incêndio ! 
« Ide ! correi ! salvae co'as mãos virgineas 
« os penhores do império ; aqui não valem 
« orações : vale o esforço e a diligencia. 
« Que infortúnio ! ficais? » 



Mettello 
salva do 
fogo os ob- 
jectos sa- 
cros 



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I 



— 142 — 

Me miserum! dubitatis! ait; dobitara videbat, 
t 
Et pávidas posito procubuisse genu : 

Haurit aquas; tollensque manus, Ignoscite, dixit, 
Sacra ; vir intrabo non adeunda viro. 

Si scelus est, in me commissi poena redundet : 
Sit capitis damno Roma Mluta mai. 

Dixit, et irrupit; factum dea rapta probavit; 
Pontificisque sui munere luta fuit. 

Nunc bene lucetis sacrae sub Caesare flammae; 

Ignis in Uiacis nunc erit, eatque, focia; 
Nullaque dicetur vittas temerasse sacerdos 

Hoc duce; nec viva defodietar humo. 

Sic incesta perit; quia, quam violavit, in illam 
Conditur ; et Tcllus Vestaque numen idem est. 

Tum sibi Callaico Brutus cognomen in hoste 
Fecit, et hispanam sangaine tincit humunu 

Scilicet interdum miscentur tristia laetis, 
Ne populum totó pectore festa juveni. 



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— 143 — 

~-Via-as a todas 
de joelhos, prostradas, indecisas. 
Àbhie-se, as mãos levanta, e — « Perdoae-me 
«sacrQS objectos — diz — «varão, penetro 
« onde intrarem varões é prohibido ! 
« Se é desacato em mim redunde a pena ; 
« pela vjda de Roma ofTreço a minha. » — 

Calou-se, e prorompeu no santuário ; 
rapta a deusa ; a raptada approva o feito ; 
graças ao seu pontífice está salva. 



Sob um Gesar agora, ó pira santa, 
tu resplendes segura. O lar lliaco 
mantém, manterá sempre illezo o fogo. 
Jamais em seu feliz pontificado 
se ha-de ver infiel sacerdotisa 
ao virgíneo crinal causar vergonha, 
nem descer viva a lobrego sepulcro : 
tal era a pena da ministra impura. 



O sacrário 
de Vesta 
seguro sob 
a protec- 
ção cesá- 
rea 



Terra e Vesta são uma ; a ofiensa a Vesta 
nas intranhas da terra era punida. 



'Neste dia é que a Bruto o cognomeoto 
pozeram de Callaico. O solo hispano 
tinto em sangue dos seus assas lho abona. 

Mas ah ! dor e prazer se entremisturam ; 
£sein isso* quem domara as ufanias?! 
O dia fausto a Bruto opprime a Crasso. 



Terra e 
Vesta sào 
uma; so- 
terram en- 
todasVes- 
taes infiéis 

No mesmo 
dia se deu 
a Bruto 
o cogno- 
mento de 
Callaico 
(gaUego) 

Ainda no 
mesmo dia 
destruição 
e morte 
de Crasso 
junto ao 
Eufrates 



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— 1U — 

Crassus ad Euphraten aquilas, natomque, suosque 
Perdidit, et leto est ultimus ipse datus. 

Parthe, quid exsultas? dixit dea; signa remiites ; 
Quique necem Grassi vindicet, ultor erit. 

At simul auritis violae demuntur asellis, 
Et Cereris fruges áspera saxa terunt; 

Navita puppe sedens, Delphina videbimus, inquit, 
Húmida quum pulso nox erit orta die. 

Jam, Phryx, e nupta querer is, Tithone, relinqui : 
Et vigil Eois Lúcifer exit aquis. 

He, bonae matres; vestrum Matralia festum; 

Flavaque thebanae reddite liba deae. 

Pontibus et magno juncta est celeberrima circo 
Área, quae posito de bove nomen habet. 

Hac ibi luce- ferunt Matutae sacra parenti 
Sceptriferas Servi templa dedisse manus. 

Quae dea sit; quare famulas a límine templi 



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— 145 — 

Crasso em ribas do Eufrates perde as águias, 
os seus, o filho, e derradeiro morre. 

— «Partho exultas sem causa — ha dito Vesta 
a as águias que roubaste has-de repol-as ; 
« heroe não faltará que vingue a Grasso ! » — 



Descingidos das floridas capellas 
os bons felpudos da comprida orelha, 
e repostas em lida as mós sonantes, 
sentado á popa o nauta — o Em vindo a noite 
« sabei — dirá — « que já Delfim veremos. » — 



Junho 10 
— Nasci- 
mento do 
Delfim 



Titao já outra vez se está queixando 
de que a rosada esposa o desampara ; 
a lucifera eslrella matutina 
lá do mar do Oriente ascende ao polo. 



Junho* 11 

—Festas 
matracs, 
ou das 
mais 



São agora as matraes, as vossas festas, 
boas mais ; concorrei a celebral-as ; 



Dae á deusa thebana os flavos bolos. 

Às pontes e ao grão circo eslá conjunta 
a frequentada praça, a que dá nome 
do boi a estatua brônzea alçada 'nella. 
Lá 'neste dia as regias mãos de Sérvio 
fundaram, diz-se, o templo á mai Matuta. 



Bolos 
'nesta fes- 
ta 

Na praça 
boana em 
Roma 
templo da 
m&i Ma- 
tnta 



Que deidade esta seja, e por que veda 
(pois o veda) que famulas lhe ponham 
o pé no limiar, e o por que exige 

TOM. III. 



10 



Invoca o 
Poeta a 
B aceno 
para ex- 
plorar 
particula- 



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— 146 — 
Àrceat, arcet ftttfni, libaqut tosta petot; 

Bacche racemiferos hedera redimi te capillos, 

Si domus illa tua est, dirige navis iter. 

Arserat obsequio Semeie Jovis ; accipit Ino 
Te, puer; et summa sedula nutrit ope. 

Intumuit Juno, rapta qaod pellice natam 
Educet ; at sanguis ille sororis erat. 

Hino agitur furiis Athamas et imagine falsa; 
Tuque cadis pátria, parve Learche, manu. 

Moesta Learcheas mater tumulaverat umbras; 
Et dederat miseris omnia justa rogú. 

Haec quoque funestos, ut erat, laniata capillos, 
Prosilit, et cunis te, Ifelicerta, rapit. 

Est spatio contracta brevi, freta bina repellit, 
Unaque pulsatur terra duabus aquis ; 

Huc yenit insanis natam complexa lacertfe; 
Et secum e celso mittit in alta jogo. 



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— 147 — 

se lhe levem por doa libas tostados, 
interprendo contal-o. 

À ti recorro, 
ó gentil, a quem heras intretecera 
co'a planta racemiTera as madeixas ; 
padre Baccho, se em vos ha parentesco, 
governa agora ao meu baixel o rumo. 

Cedera Jove ás suplicas de Semeie; 
Semeie se abrazára ; Ino te acolhe, 
te nutre, te desvela a tenra infanda. 

Raiva Juno de a ver estar creando 
da rival sua o filho, e não desconta 
que este filho é da irmã ; faz que Atamante 
ás fúrias vague intregue, espavorido 
de uma visão fantástica. Tu morres 
victima ás suas mãos, ás mãos paternas, 
pequenino Learcho. O vão cadáver 
dera-o a triste mãi á sepultura, 
pagas á pira infausta as justas honras. 

Porem logo assim mesmo escabellada 
corre ao berço do filho que lhe resta 
(mísero Melicerta !) arranca»*, vôa. 

Térreo espaço não largo alça torreira 
que investem mares dois, que aos dois repulsa ; 
lá chega ; corre ao cimb* ; ta** * filhe 
nos frenéticos braços apertado ; 
salta com elle ao pélago ; *eoehfr«s 



ridades 
d'esla fes- 
ta 



Greaçiode 
Baccho; 
historia de 
Ino e Me- 
licerta 



10* 



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í \ 



Excipit illaesos Panope, centumque sorores, 
Et Plácido lapsu per sua regna ferunt. 

Nondum Leucothee, nondum puer ille Palaemon, 
Vorticibus densi Tibridis ora tenent. 

Lucns erat, dubium, Semeia e, Stimulaene, vocetur; 

Maenadas ausonias incoluisse ferunt. 
Quaerit ab his Ino, quae gens foret. 

Árcades esse 
Audit ; et Evandrum sceptra tenere loci. 

Dissimulata deara latias Saturnia Bacchas 
Instimulat flctis insidiosa sonis : 

O nimium faciles, o totó pectore captae, 

Non venit haec nostris hospes arnica choris ; 
Fraude petít; sacrique parat cognoscere ritum. 



| Quo pQSsit poenas pendere, pignus habet. 



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— 149 — 

na queda illezos Panope, entre o coro 
das irmãs cento de Nereu progénie, 
e todas mansamente os vão levando 
á flor do vitrtío pego. 

A que algum dia 
em Ioga r de Ino se dirá Leucothee 
e o que em vez de menino Melicerta 
se hade chamar Palemon, lá vão juntos 
parar do Tibre á foz vertiginosa. 

Um luco havia ali ; se appellidado 
de Semeie ou de Estimula disputa-se ; 
consta porem que as Menades ausonias 
tinham 'nelle vivenda. Ino as inquire 
que gente aquella seja. 

Arcádia gente — 
lhe respondem, e Evandro o que a governa. 

A irosa filha de Saturno em tanto, » 
Juno, ôccultando o ser de divindade, 
concita contra a prófuga estrangeira 
fallaz e astuta as laciaes bacchantes. 

— « Ó crédulas, 6 loucas — lhes diz ella - 
« para ser sócia amiga em vosso coro 
« não veio a vagabunda ; essa traidora 
« traz mira em devassar os vossos ritos ; 
« ioda bem que o penhor que ao seio aperta 
« nos depara onde assente o seu castigo. » — 



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— 130 — 

Vix bene desierat, compleat «lutatâbaa auras 
Tbyades effusis per sua colla com is ; 

Injiciuntque manus, puerumque revellere pugna**, 
Quos ignorat adbuc, invocat illa, deos; 

Dique, virique loci, miserae succorrite matri l 

Clamor Aventini saxa propinou» feriu 
Adpulerat ripae vaccas Oetaeus iberas; 

Audit; et ad vocem coneitua urget iter. 
Herculis advento, quae vim modo ferre parabant, 

Tufyia femineae tergá dedere fugae. 

Quid petis bine (cognorat enin) materfera Baccbi? 
An numen, quod me, te quoque vexat? ait. 

Ula docet partim ; partim praeaeiAia nati 
Continet; et furiis in scelus ísse pudet. 

Rumor, ut est velox, agita tia ptrvolat alia,. 
Estque frequens, Ino, nomen tu ore tiram, 

Hospita Carmentis fidos intrasse penates 



Diccris, et tangam dtyosuiaae tonam. 



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— 151 — 

. Mal acabava, as Thiade» rebentam 
em ulullanle grita, sacudindo 
por sobre os hombros as revoltas grenhas ; 
lidam co'as bravas mãos roubar~lhe o infante ; 
a misera aterrada invoca os deuses, 
os deuses do paiz que não conhece. 

— «Deidades e homens— diz — «d'estas paragens, 
« a uma afflicta mâi trazei soccorro ! » — 

Chega o clamor ao próximo Àventino. 
Hercules 'nessa hora á beira Tibre ' 

trazia a pasto o seu ar mento ibero ; 
ouve os grilos, acorre ; as furiosas 
tão audazes pouco ha, mal que o percebem 
toma-as femineo medo, arrancam fuga. • 

— «A que vieste aqui, Tia de Baccho? — 
diz o heroe conhecendo a perseguida ; — 

« vexa-te acaso o Nume que me vexa?» — 

Ino dos males seu» narra o que pode ; 
cala o mais ; a presença de seu filho 
a contem ; vê que as fúrias a cegaram, 
e a monstruoso horror chegou a insânia. 

Rápida como sempre a fama vôa ; 
.vai ao longe espalhando a historia de Ino. 

Consta que então, penates de Carme d ta, 
vós hospedage á prófuga prestareis, 
e a seu longo jejum posereís termo ; 



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— 1S2 — 

Liba sua properata ma nu Tegeaea sacerdos 

Traditur in súbito cocta dcdisse foco. 
Nunc quoque liba juvant feslis Matralibus illam; 
Rústica sedulitas gratior arte fuit. 

Nunc, ail, o vates, venientia fata resigna, 
' Qua licet ; bospitiis hoc, precor, adde méis. 

Parva mora est : coe] um vates ac numina sumit, 

Fitque sui totó pectore plena dei. 
Vix illam súbito posses cognoscexe ; tanto 

Sanctior, et tanto, quam modo, major erat. 

Lacta canam ; gaude, defuncta laboribus, Ino, 

« 
Dixit; et huic populo dextera semper ades. 

Numen «ris pelagi; natum quoque pontus habebit; 

In vestris aliud sumite nomen aquis. 
Leucothee Graiis, Matuta vocabere nostris: 

In portus nato jus erit omne tua. 
Quem nos Portunum, sua lingua Palaemona dicet : 

Ite, precor, nostris aequus uterque locis. 

Adnuerant; promissa fldes; posuere labores; 



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— 153 — 

que de Tegêa a anciã sacerdotisa, 
segundo é tradição, deu lago traça 
a accender lume onde cozer-!he uns bolos ; 
por isso os bolos nas matraes lhe agradam ; 
e a la fé que um festim de lauto apreste 
não lhe houvera sabido o que lhe soube 
o rústico regalo armado á pressa. 

« Agora — diz a hospeda — « se o podes, 
« profetisa, o porvir me vaticina ; 
« seja ao bom gazalhado esse o remate. » — 



Momento apoz, a interprete dos fados 
já colheu 'nalma o espirito celeste ; 
arde affrontada no Apollineo fogo. 
Não é a mesma ; na grandeza avulta ; 
cresceu na magestade. 



Vaticínio 
d a G ar- 
menta a 
Ino 



— « Oh ! que alegrias ! 
« exulta ó Ino és salva dos trabalhos ; 
« vejo-te deusa ; o povo meu protege ! 
« Já tu e o filho teu no mar são numes ; 
«elle e tu 'nesse esplendido dominio 
« vossos nomes largae ; convêm -vos outros ; 
«sê aos gregos Lcucothee, a nós Matuta ; 
«o filho teu que impere sobre os portos; 
«dil-o-hemos nós Portuno, os seus Palemon. 
« Ide, e sede ambos tutelares nossos. » — 



Ànnuem ; votam íé ; trabalhos findam ; 



Deiíicaçao 
de Ino 



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— 151 — 

Nomina mutarunt; hic deus, ília dea eal. 

Cur vetet ancillas accedere, quaeritís? odit; 

Principiumque odii, ú sfcaat ipsa, canam: 
Una ministrarum solita est, Cadmei, tuarum 

Saepe sub amplexus conjugis ire tui. 
Improbus hanc Athamas furtim dflexit ; ab illa 

Comperit agricoli* aenuwi UMta darú 
Ipsa quidem ferisse negat, sed fama recepit : 

Hoc est, cor ódio sit tibi serva manus. 

Non tamen hanc pro stirpe ata piá valer adorei; 

Ipsa parum felix visa fuisse parens. 
Alterius prolem melius mandabitis OU, 

Utilior Baccho, quam furt ipsa sais. 

Hanc tibi, Quo properas, memorant dixisse, Rutili? 
Luce mea Marsa eonsul ab hoste cades. 

Exitus accessit verbis ; flumenque Telonúm 
Purpúreo mixtis sanguine fttnrft aquis. 

Proximus annus erat: Mlafttide eaeaus eadeaa 



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— 153 — 

mudam nome ; elle e ella é de», é deus». 



Porque regeita as famulas — perguntas? 
odeia-as ; e do ódio eis o motivo ; 
com vénia sua descobrir-fo quero. 
Uma das suas famulas sohía 
furtar-lhe a miude afagos do consorte. 
Foi por essa que o pérfido Átamante 
soube que a esposa aos filhos seus madrasta, 
e perdel-os tramando, aos grifos de Ceres 
destinados á terra, á messe, á vida, 
em brando fogo a occultas os torrava ; 
tu negas sempre, ó Ino, acção tão negra ; 
mas a praguenla fama a dá por certa ; 
e eis d'onde ás servas te nasceu o antojo. 

Pias mais não lhe oreis por vossos filhos ; 
já vistes que feliz não foi co'os próprios ; 
recommendae-lhe embora a prole alheia, 
que a Baccho, e á sua não, foi prestadía. 

Contam d'ella um progaestico ; relatem 
que ao partir-se Rulilio assim dissera : 
— « i Onde vais assodado ? as mareia* bostea 
« dia da minha festa, ó cônsul matam-te. » — 

O evento confirmou a profecia: 
o sangue que effundiu essa batalha 
avermelhou as aguas do Telmo. 

Logo ao anno seguinte a mesma aurora 
viu pelo mesmo ferro eu aiarào joga 



em Matu- 
ta e Lear- 
c h o em 
Palemoo 
ou Portu- 
no 

Razào de 
Dfto intra- 
rem servas 
no templo 
de Leuco- 
tbee 



Invocam 
as matro- 
nas a Leu- 
c o thee 
naoem fa- 
vor dos fi- 
lhos .senão 
dos sobri- 
nhos 

Prognosti- 
co de der- 
rota feito 
ao general 
Pnblio 
R utilio 
Lopo por 
Leucotnee 



No mesmo 
dia com- 
m em ora- 
ção doge» 



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— 156 — 

Didius hostíles ingeminavit opes. 
Lux eadem, Fortuna, tua est, auctorque, locusque. 

Sed superinjectis quis latet aede togis ? 
Servius est ; hoc constat enim ; sed causa latendi 
Discrepai; et dubium me quoque mentis habet. 

Dum dea furtivos timide profitetur amores, 
Coelestemque homini concubuisse pudet ; 

(Arsit enim magna correpta cupidine regis, 
Caecaque in hoc uno non fuit ília viro) 

Nocte domum parva solita est intrare fenestra ; 
Unde Fenestellae noinina porta tenet. 

Nunc pudet, et vultus velamine celat amatos ; 
Oraque sunt multa regia tecta toga. 

An magis est verum, post Tulli funera plebem 



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— 187 



Didio, outro heroe de Roma, aniquilado 
e medrar co'a victoria a hostil possança. 

Sérvio ereclor do templo de Matuta 
em dia igual também no mesmo foro 
fundou, Fortuna, o teu. 

No teu, Fortuna, 
vê-se porem um vulto misterioso ( 

todo escondido em redobradas togas ; 
6 que será ? 6 a effigie de elrei Sérvio ; 
ninguém de tal duvida ; em que variam 
é só na explicação d'essa estranheza ; 
eu mesmo ao certo ao certo a não atino ; 
exporei as versões. 

Deusa Fortuna 
cuidam todos que fora sempre cega ; 
pois viu claro uma vez (em mal só uma) ; 
foi quando andou por Sérvio apaixonada, 
louca perdida. Agora ê que se peja 
de confessar que sendo divindade, 
se deixou ser de um homem possuída. 
Inlrava-lhe de noile no palácio 
por uma janelinha ou fresta ; o nome 
da poria Fenestella inda o recorda ; 
depois invergonhou-se d'esse trato ; 
e ao presente recata, que o não vejam, 
o rosto de quem fora os seus amores ; 
d'ahi vem tanta toga a homizial-o. 

£Esl'outra não será mais verosímil? 
depois dos funeraes de Tullio, o povo 



noral ro- 
mano Di- 
dio 



Ainda no 
mesmo dia 
fundação 
do templo 
de Matuta 
por Scrvio 
Tullio 

A imagem 
de Sérvio 
annuvia- 
da de to- 

gas no 
templo da 
Fortuna; 
varias ex- 
plicações 



Primeira 
e x p 1 ica- 
çao 



S e g u nda 
e x p 1 ica- 
çào 



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— 158 — 

Confusam placidi morte fuisee dticis? 
Nec modus ullus erat; crescebat imagine luctus; 
Donec eam positis occuluere togis. 

Tertia causa mini spatío majore canenda est: 
Nos tamen adductos intus agemus oqoos. 

Tullia, conjugio sceleris mereede peracto, 
His sol i ta est diclis exstianilare virum: 

Quid juvat esse pares, te nostrae caede sororis, 
Meque tui fratris, si pia vita placet? 

Vivere debuerant, et vir jneus, et tua conjux, 
Si nullum ausuri majus eramus opus. 

Et caput, et regnum facio dotale parenta; 
Si vir es, i, dietas exige dotis opes. 

Regia res scelus est; socero cape regna necato, 
Et nostras pátrio sanguine tinge manus. 

Talibus instinctus sólio privatus in alto 
Sederat; adtonitum vulgos odarma rnit. 



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— 159 — 

andava como atónito oo'a falta 
de monarca tão bom, tão caro a todos; 
não havia nas lagrimas limite ; 
quanto mais sua efígie contemplavam, 
mais co'a saudade recrescia o pranto ; 
té que se houve a final por bom conselho 
para a esconder co'as togas infardal-a. - 



À terceira razão mór canto exige ; 
mas roçarei a meta e serei breve. 



Terceira 
e x p 1 ica- 
çio 



Tullia, que a viuvez devera a crime 
e a crime o realisar consorcio novo, 
com frases taes o esposo importunava : 

— « Àssassino-te o irmão para ser tua ; 
« para ser meu a irmã tu me assassinas ; 
«c alentado commum nos solta e prende. 
« 4 Tanto horror para que ? para languirmos 
«sob o jugo de frívolos deveres? 
« deixássemos viver o esposo, a esposa, 
«se nos faltava brio a mór façanha. 

« Do meu pae vida e trono eis o meu dote ; 
« intrego-fos, aceitamos; £que tardas? 
« são nobres, são reaes os crimes grandes ; 

« <, Que mal nos faz que o sangue as mãos nos tinja ? 
«se matas a teu sogro estás 'num sólio. » — 

Das sugestões sacrílegas vencido 
já sobe ao trono o suUUo rebelde, 



Impieda- 
de de Tul- 
lia contra 
o P a i; 
usurpa- 
ção do 
thronopor 
L. Taiw 
quioio 



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— 160 — 

Hinc cruor, hinc caedes; infirmaque vincitur actas, 

Sceptra gener socero rapta superbus habet. 

Ipse sob Esquiliis, ubi crat sua regia, caesus 
Concidit in dura sanguinolentus humo. 

Filia carpento pátrios initnra penates 
Ibat per medias alta feroxque vias. 



Corpus ut adspexit, lacrymis auriga profusis 

i 



Restitit; bunc tali corripit illa sono: 
Vadirf an eispectas pretium pietatis a ma rum? 
Dnc, inquam, imitas ipsa per ora rotas. 

Certa fides facti: dictus Sceleratus ab illa 
Vicus; et aeterna res ea pressa nota. 

(Post tamen hoc a usa est templiim monumenta parentis, 
Tangere: mira quidem, sed tamen acta loqnar. 



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— 161 — 

Horrorisado o povo ás armas corre ; 
lavra a guerra civil ; ferve a matança. 

Sucumbiu a velhice ; impunha o genro 
sceptro das mãos do sogro alfim roubado. 

O misérrimo ancião cruento, morto, 
caiu na terra ás abas do Esquilino, 
monte onde tinha silo o régio paço. 

Pelas ruas de Roma ia entretanto 
rodando magestosa em seu oarpento 
para a estancia real a filha monstro ; 
o cocheiro, mal viu 'num mar de sangue 
o corpo do seu rei, pára choroso ; 
a feroz, increpando-lhe a fraqueza : 
— « l Proseguirás ? — vozeia — «ou d'esse afecto 
« desejas aqui mesmo obter a paga ? 
a amarga será elia ; o teu serviço 
« posso bem dispensal-o ; inda que as rodas 
«quizessem refugir, forçal-as-ia 
«eu, eu própria, a calcar esse cadáver. » — 

Dura d'aquella infâmia a prova autentica : 
chamam ao sitio o viço scelerado, 
do desacato horrendo eterno estigma. 

* Quem o crera ? é comtudo incontestável 
o que ora vou narrar : ella, ella mesma, 
a parricida Tullia ousou no templo 
monumento do pai pôr pé sacrílego. 

tom. ih. 11 



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— 161 — 

Signum erat in sólio reskfcns sub imagine, Tulli) 

Dicitur hoc oculis opposuisse manum ; 
Et vox audita est: Vultos abscondite nostroa, 

Ne natae videant ora nefanda meae. 
Veste data tegitur; vetat bane Fortuna moveri; 

Et sic e templo est ipsa locuta suo : 

Ore revelato qua primum luce patebit 

Servius, baec positi prima pudoris erit. 
Parei te, matronae, vetitas adtingere vestes; 

Solemni satis est você movere preces ; 
Sitque caput semper romano tectus amictu, 

Qui rex in nostra septimus urbe fuit. 

Arserat hoc templum ; signo tamen ille pepercit 
Ignis; opem nato Muleiber ípse tulit. 

Namque pater Tulli Vnkanus, Ocresia mater 

Praesignis facie, Corniculana fuit. 

i 
I 

Hanc secum Tanaquil, sacris de more paratis, 

Jussit in ornatum fiindere vina focum. 
Hic inter cineres obscaeni forma virilis. 



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— 163 — 

Do rei defunto a imagem veneranda, 
que ali era em seu trono, a tanta audácia 
cobriu, dizem, de horror co'as mãos os olhos, 
e ouviu-se-lhe esta voz : — « Tapem-me o rosto, 
« que essa filha nefanda olhar não posso. » — 
Despindo as próprias togas lhe acudiram 
quantos eram no templo ; o vulto santo 
ficou velado assim, e assim té agora 
a Fortuna ordenou permanecesse. 

D'ella mesma um pregão também se ouvira : 
— a No dia em que outra vez desnuviado 
«Sérvio reparecer, ter-se-ha, romanos, 
« entre vós o pudor 'aniquilado. 
« Donas, respeito as intangendas roupas ; 
« contenlai~vos co'as supplicas soiemnes. 
« Romana toga incubra eternamente 
« a cabeça do rei sétimo em Roma. » — 

Queimou-se o templo, e não ardeu a imagem ; 
Vulcano lhe acudiu paternalmente. 



Sim que do fogo o deus foi pai de Tullio, 
e sua mãi Ocresia uma beldade, 
da cidade Corniculo ufania. 

Tanaquil, de quem ella era servente, 
havendo preparado uns sacrifico*, 
conforme o tinha de uso, lhe ordenara 
a ajudasse a espargir o ritual viobo 
no adornado fogão; eis que entre as cinzas 
uma insígnia viril se lhes descobre ; 

11 



A imagem 
de Tullio 
no incen- 
d i o do 
templo fi- 
cou illeza 

Tullio fi- 
lho de 
Vulcano e 
de Ocresia 
serva de 
rainhaTa- 
naquil 



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— 164 — 

Aut fuit, aut visa est; sed fait illa magis. 
Jussa foco captiva fovet ; conceptus ab illa 
Servius ; a coelo semina gentis habet. 

Signa dedit genitor tum, quom caput igne corusco 

j 

Contigit, inque coma flammeus arsit apex. 

Te quoque magnifica» Concórdia, dedicat aede 
Livia, quam caro praestitit illa viro. v 

Disce tamen, veniens aetas, ubi Livia nunc est 

Porticus, immensae tecta fuisse domus. 
Urbis opus domus una fuit; spatiumque tenebat, 

Quo brevius muris oppida multa tenent. 
Haec aequata solo est, nullo sub* crimine regni. 

Sed quia luxuria visa nocere sua. 
Sustinuit tantas operum subvertere moles 

Totque suas haeres perdere Caesar opes. 

Sic agitur censura, et sic exempla parantur, 
Quum vindex, alios quod monet, ipse facit. 



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— 165 — 

â fantástica, ou real ? real por certo. 
A escrava obediente á voz da ama 
a recebe, a agasalha em seu regaço ; 
concebe, e Sérvio nasce ; ê pois do nume 
que provém a raiz d'esta família. 



De ser o pai do heroe Vulcano mesmo 
clara se vira antes do incêndio a prova : 
misterioso lume (era inda infante) 
lhe involvera a cabeça em resplendores, 
a arder sem lhe tostar um só cabello. 



Maravi- 
lhoso fogo 
nos cabei- 
los de Tui- 
lio sendo 
menino 



Outra consagração no mesmo dia : 
Li via, de Augusto esposa, a ti Concórdia 
em penhor da afeição que os dois reúne 
te deu teu sumptuoso santuário. 



Ainda no 
mesmodia 
Templo 
da Con- 
córdia sa- 
Írado por 
•ivia 



Dizôl-o aqui a vós me apraz, vindoiros 
onde hoje avulta o pórtico de Livia 
já foi palácio immenso ; uma cidade 
não é, não é mór fabrica ; sei muitas 
que em área menos ampla estão cerradas. 
Arrazou-se a estupenda casaria ; 
não em pena a ambições de realeza, 
mas porque luxo tanto azos daria 
a imitações talvez ; e obras tamanhas, 
tão magnifica, herança, um domno, Gesar, 
teve o raro valor de aniquilal-as. 



Soberbo 
pala.cio 
demolido 
por César 
onde se 
veio a edi- 
ficar opor- 
tico de Li- 
via 



Ê assim que a censura está no exemplo ; 
o que exige dos mais o chefe o cumpre. 



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— 166 — 

» 

Nulla nota est veniente die, quam dicere possjs , 
Idibus Invicto funt data templa Jovi. 

Et jam Quinquatrus jubeor narrare minores, 
Nunc ades d ! cocptis, flava Minerva, méis, T 

Cur vagus incedit tota tibicen ia urbe? 

Quid sibi personae, qaid itola longa, volunt? 

Sic ego; sic posita Tritonia cúspide dixit; 
Pace velim doctae verba referre deae . 

Temporibus veterum tibicinis usus avorum 
Magnus; et in magno semper honore fuit, 

Cantabat fanis, cantabat tíbia ludis ; 
Cantabat moestis tibia funeribus. 

Puleis erat mercede labor; tempusque secutujn. 

Quod súbito gratae frangeret artis opus. 
Adde quod aedilis, pompam qui funeris irent, 

Artífices solos jusserat esse decem. 

JJxsilio mutant urbem, Tiburque recedunt; 
(Exsilium quodam tempere Tibur erat), 



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— 167 — 

O dia subsequente é nullo ao canto. 

Idos põem templo a Júpiter Invicto. 



Os Quinquatrios menores por mim chamam ; 
loira Minerva» ao meu impenho acode. 

I Que girar será esse de frauteiros 
de rua a rua agora em toda Roma ? 
que mascaras ! que longas roupas levam ! 



Cede á pergunta, incosta a lança, e diz-me 
lavras textuaes com vénia sua) : 



— «Frequente e havido em honra era o frauteiro 
« nas eras que lá vão ; o templo, os jogos, 
«os mesmos funeraes, nao dispensavam 
« á frauta as costumadas toadilhas ; 
« era uma lida musica sem tregoas ; 
« mas o farto do lucro a ametfisava. 

«À aquella arte folgada e lucros d'el!a 
« veio outra idade apoz, dar mate súbito. 
« Succedeu que um edil fixou por termo 
« aos saimentos fúnebres dez músicos. 

« Trocam pois a cidade pelo exílio ; 
« para Tibur se vão. 'Naquellas eras 
«era Tibur desterro. 



Junho 12 
— sem fes- 
ta que se , 
comme- 
more 

Junho 13 
—Templo 
a Júpiter 
Invicto 

Nomesmo 
dia Quin- 
quatrios 
menores 



Folias de 
frauteiros 
pela cida* 



Minerva 
explica ao 
Poeta as 
causas d'- 
eslas fo- 
lias 



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— 168 — 
Quaeritur in scena cava tíbia; quaeritur aris; 

Ducit supremos naenia nulla toros. 

Servierat quidam, quantotibet ordine dignus, 
Tibure; sed longo teinpore líber erat. 
t Rure dapes parat ille suo; turbamque canoram 
Convocai; ad festas convenit illa dapes. 

Nox erat; et vinis oculique animique natabant, 

Quum praecomposito nuntius ore venit, 
Àtque ita: Quid cessas convivia solvere? dixit: 

Auctor vindictae jam venit, eçce, tuae. 

/ 

Nec mora ; convivae valido titubantia vino 

Hembra movent; dubii stantque: labantque pedes» 

At dominus; Discedite, ait; plaustroque morantes 
Sustulit; in plaustro stirpea lata fuit. . 

AHiciupt somnos tempus motusque merumque; 

Potaqtie se Tibur turba redire putat. 
Jamque per Esquilias romã na m intraverat urbcu» ; 



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— 169 — 

« Ài ! que saudades 
« de frautas do lheatro, ante os altares, 
ajunto ao leito do ultimo repoiso. 

«Morava em Tibur 'nessa idade um homem, 
«servo outr'ora, então forro, e que honraria, 
«a ter nascido nobre, a nobre classe. 
« Tinha este aprestado em sua quinta 
«um banquete rasgado, e quiz por pompa 
«co'os forasteiros músicos ornal-o ; 
« acudiram gostosos ao convite. 

« Era já pela noite ; olhos e sizos 
« tudo nadava em bacchicos effluvios ; 
« senão quando, aparece um mensageiro, 
« e diz, como de industria lh'o insinaram : 
« Despede logo logo esses convivas 
« que vem lá teu senhor, e se vos colhe 
« tendes de pagar caro esta folgança. 

« Erguem-se em reboliço os convidados ; 
« o vinho era valente ; a carga muita ; 
«trocam os pés, vacillam. — I-vos, i-vos, 
«clama o dono; mas vendo que não podem, 
« leva d'elles, estira-os sobre uns carros 
«ingaiolados em taipais de seve. 
«O tempo, o movimento, a temulencia 
«deram em bom dormir. 

« Quando acordaram 
«creram deveras regressar a Tibur, 
« e iam já pelo bairro das Esquilias 



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— 170 — 

Et mane in médio plaustra faere foro. 

Plautius, ut possent specie numeroque senatum 
Fallere, personis imperat ora tegi ; 

Admiscetque alios; et, ut hunc tibicina coetum 
Augeat, in longis veslibus ire jnbet. 

Sic reduces bene posse tegi ; ne forte notentur 
Contra collegae jnssa redisse sai. 

Res placai t; cultuque novo licet idibus uti; 
Et canere ad veteres verba jocosa modos. 

Haec ubi perdocuit : Superest mihi discere, dixi, 
Cur sit Qainquatrus illa vocata dies. 

Marti us, inquit, agit tali mea nomine festa; 
Estque sub inventis haec quoque turba méis. 

Prima terebrato per rara foramina buxo, 

Ut daret, effeci, tíbia longa sonos. 
Vox placuit; liquidis faciem referentibus undis; 



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— 171 — 

« dando sua inlrada em Roma ; emfim chegaram 
«já maphã clara ao foro. 

«Plaucio astuto 
« armou com que ingauar aos senadores : 
« ordenou mascararem-se os frauteiros, 
«vestirem longas roupas, intremear-se-lhes 
« mais gente, e até flauteiras ; d'esle modo 
«o numero, as feições, as vestes fêmeas, 
«tudo os incobriria. 

O fim de Plauoio 
« era impedir que a elle o criminassem 
« de ter contra as posturas do collega 
« redintegrado em Roma aquelles homens. 

«Pareceu boa a idéa, e d'ali data 
« a mascarada que ahi vai nos Idos 
« a cantar pulhas co'as toadas velhas. » — 



Àcclarada esta usança — « Agora resta **w* se 

• ° chama 

« que me expliques — lhe disse — «o por que damos o uinqua- 

,. , ^ . . Ino aeste 

« a este dia o nome de Quinquatno » — dia 



— «Já Março — me responde — «ás minhas festas 
«assim chamou também. No rol das artes 
«invenção minha, inclue-se a dos frauteiros. 

«Eu 'num tubo de bucho abrindo uns furos Safl^ 

«(lembrança que até ali ninguém tivera) * por Mi " 

«fui a inventriz da frauta sonorosa. 
« Tangia-a com prazer ; até que um dia 



nerva 



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— 172 — 
Vidi virgíneas intumnisse genas. 

Ars mihi non tanti est; Valeas, mea Jtibia, dixi. 
Excipit abjectam cespite ripa suo. 

Inventam Satyrus primum miratur ; at usum 
Nescit; et inflatam sentit habere sonum. 

Et modo dimittit digitis, modo concipit auras ; 
Jamque inter Nympbas arte superbus erat. 

Provocat et Phoebum; Phoebo superante pependit; 
Caesa recesserunt a cute membra sua. 

Suih tamen inventrix auctorque ego carminis hujus; 
Hoc est, cur nostros ars colat ista dies. 

Tertia lux veniat, qua tu, Dodoni Thyene, 
Stabis Agenorei fronte videnda bovis. 

Haec est illa dies, qua tu purgamina Vestae, 
Tibri, per etruscas in maré mittis aquas. 



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— 173 — 

«como assim me inlevava ao rez d'um lago, 
« olho ao liquido espelho, e pasmo ao vêr-me 
«do mimoso semblante o bojo túmido. 

« Não vale a pena exclamo ; em paz te queda 
nfrauta minha; e lancei-a de arremesso 
«ao meio do hervançal. 



Desincanlou-a 
« um sátiro ; admirou-lhe a forma estranha ; 
« não lhe aventava o préstimo ; soprou-a, 
«sente-a cantar; applica aos orifícios 
« poisando e erguendo, os dedos alternados ; 
« sae-Ihe musica ; e tanto foi crescendo % 
« 'naquella arte o mofino, que vaidoso 
«até já desprezava as próprias ninfas. 
«Por ultimo, subiu-lhe a ponto a audácia, 
«que provocou a Phebó, e foi vencido. 
«Em pena da sacrílega arrogância 
«o deus o pendurou, despiu-lhe a pelle. 

« Já vés que do melódico instrumento 
« a inventora fui eu ; e ahi tens a causa 
«porque me honram a festa os que uzam d'elle. »« 

Na terça noite avante, ahi vens na fronte 
do toiro da Àgenoride princeza, 
mostrar-te a nós, Dodonide Thiene ; 

'Nesse dia as do Tibre etruscas ondas 
rojam ao mar o lixo, que se varre/ 
Vesta, do templo teu. 



O Sátira 
flautista 
esfollado 
porApollo 



Junho 18 
— Nasci* 
mento de 
Thiene a 
ultimadas 
Hiades 



Limpeza 
do templo 
de Vesta 



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— 174 — 

Si qua fldes ventis, zephyro date carbasa, nautae; 

Cras veniet vestris ille secundas aquis. 

At pater Heliadum rádios abi tinxerit undis; 

Et cinget geminos stella serena poios, 
Tollet humo validos proles Hyriea lacertos. 

Continua Delphin nocte videndus erit. 
Scilicet hic olim Volscos Aequosque fugatos 

Viderat in campis, Algida terra, tuis. 
Unde suburbano clarus, Tuberte» triumpho 

Vectus es in níveis, Postume, victor equis. 

Jam sex, et totidem, luces de mense supersunt; 

Huic unum numero tu tamen adde diem. 
Sol abit e Geminis, et Cancri signa rubescunt. 

Coepit Aventina Palias in arce coli. 

Jam tua, Laomedon, oritur nurus; ortaque noctem 
Pellit; et e pratis cana pruina fugit. 

Reddita, quisquis is est, Summano templa feruntur 



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— 175 — 



Se has fé nos ventos 
solta ao zéfiro, ó nauta, as pandas velas, 
que amanhã principia o sopro amigo 
pelo italo oceano a convidar-te. 

» 
Quando o pai das Heliades mergulhe 

seu diurno esplendor, e os poios ambos 

se guarneçam de fulgidas estrellas, 

ascenderá do solo ao firmamento 

Orion, o de Hirieu robusto filho. 



'Nesta noite o Delfim descobriremos ; 

que vira outr'ora os Volscos e Equos 
profligados nas Àlgidas campinas ; 
gloriosa facção da Roma ás abas, 
d'onde has colhido, 6 Póstumo Tuberto, 
o subires por cândidos cavados 
remontado em triunfo ao Capitólio. 

Já luzes seis e seis do mez só restam ; 
ajuntae mais um dia ; aos Gemios signos 
volve espaldas o sol, flameja o Câncer. 



Junho 16 
—Começa 
a correr 
vento Zé- 
firo de fei- 
ção para 
navegan- 
tes italia- 
nos 

Junho 17 

— Aca- 
bam de se 
d e scobrir 
asconstel- 
lacOesOri- 
on e Del- 
fim. Ven- 
c i m e nto 
dos Vols- 
c o s e 
Equos pe- 
los roma- 
nos 



Junho 19 
— Nasci- 
mento do 
Câncer 



Começou no Aventino o culto a Palias. 



Já lá sái, Laomedonte, a nora tua ; 
ao seu rozado aspecto a noite foge, 
dinipam-se os aljôfares das relvas. 



S agracio 
do templo 
a Palias 
no Aven- 
tino 

Junho 20 



'Neste dia e no prazo em que de Pirrho 



Sagra- 

ç i o do 



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— 176 — 
Tom, quum Romanis, Pyrrhe, timendus eras. 

Hanc quoqae quum palriis Galatea receperit undis, 
Plenaque tecurae terra quietis erit, 

Surgit humo juvenis, telis adflatus avitis, 
Et gemino nexas porrigil angue manus. 

Notus amor Phaedrae, nota est injuria Thesei : 
Devoyit natum credulus ille suum. 

Non impune pius juvenis Troazena petebat ; 

Dividit obstantes pectore ta urus aquas. 
Solliciti terrentur equi ; frustraque retenti, 

Per scopulos dominum duraque saxa trahunt. 

Exciderat curru, lorisque morantibus artus 

Hippoly tus lacero corpore raptus erat ; 
Edideratque animam, multum indignante Diana. 

Nulla, Coronides, causa doloris, ait; 
Namque pio juveni vitam sine vulnere reddam ; 
Et cedent arti trístia fata meae. 



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— 177 — 



dos premia o pavor, poseram templo 

a ti, Summano deus, quem quer que sejas. 

Recolhido este mais no argenli-cerulo 
regaço da marinha Galatea, 
e em nocturna mudez sepulto o globo, 
emerge do horizonte o grão mancebo, 
que do raio do avô caiu perculso, 
e vem com duas serpes manietado. 

O incestuoso amor sabeis de Phedra, 
o assomo de Thezeu, atroz, injusto. 
Crédulo ! e devotar um filho aos manes ! ! 



V 



Casto e pio, em seu damno, ia o mancebo 
caminho de Trezena. Um toiro, um monstro 
lá surde, rasga o mar, vem contra a praia ; 
Espantam-se os corcéis; pulam, refogem, 
não ha freio que os dome; o coche arrastram 
com seu senhor por penhas e fraguedos. 
Este já com os sacões vertiginosos 
sacudido do assento, ahi vai de rojo 
nas rédeas inleado a espedaçar-se ; 
té que alfim rende o espirito. 

Diana 
do casto heroe a casta protectora 
brama de indignação. — « Despede angustias 
lhe diz o sábio filho de Coronis — 
«por condão da arte medica, potencia 
«que triunfa da morte, o bom mancebo 
«vais vêl-o, fia em mim, revivo, illezo. » — 

TOM. 111. 



templo de 
Summano 
no tempo 
das guer- 
ras de Pir- 
rho 

Emerge a 
coostellá- 
çào Escu- 
lápio 



Historiado 
H i ppolito 
.despeda- 
çado^ sua 
resurrei- 
?a o por 



12 



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— 178 — 

Gramina continuo loculis deproaut eburnis; 

Profuerant Glauci Manibos illa prius ; 

Tunc, quum observatas augur descendi! in herbas, 
Usus et auxilio est anguis ab angue dato ; 

Pectora ter tetigit, ter verba salubria dixit; 
Depositam terra sastulit ille caput. 

Lucus eum, nemorisqoe tui, Dictyuna, recessas 
Celat. Aricino Virbius ille lacu. 

At Pluto Glothoque dotent : haêc, Dia lenferi ; 
Hic, fleri regni jura minOrt sui. 

Júpiter exemplum veritus, diréxit in illum 
Fulmina, qui nimiae moverat arfo opem. 

Phoebe, querebaris. Deus est; placare parenti. 
Propter te, fieri quod vetai, ipse facit. 

Non ego te, quamvis properabis vincere, Gaesar, 

Si vetet auspicium, signa movere velim. 
Sint tibi Flaminius Trasimenaque litora testes 



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— t7f — 

Passa logo a escolher no seu ttaseiro 
de vasos de marfim possantes hervas, 
que já de Glauco os manes reyocaram. 

Quem lhe insinou milagres d'esses stmplices ? 
o acaso. Herborisava em seus estudos ; 
viu assim um dragão, dar vida a outro. . 
Toca pois vezes três do morto o peito ; 
vezes três lhe diz falias salutiferaé ; 
levanta-se da terra a fronte exangue ; 
resurgiu. 

Vive incógnito, o,Diotiaa 
dos lucos léus no intimo recesso ; 
6 elle o Virbio do Âridno lago. 

Raivam Plutão e Glotho : ella, que a forcem 
a refiar de novo o já fiado ; 
elle, que de seu reino as leis se quebrem. 

Para que exemplos taes se não repilam 
Jove ao sábio que audaz da sciencia abusa 
aponta, descarrega, o truz do raio. 

Que te lastimas, Phebo ? ao pai dá graças : 
teu Esculápio é deus ; o rei do Olimpo, 
o que não sofre aos mais por ti lhe ha feito. 

César, bem que a vencer (eu génio voe, 
quando agoiro prohiba -as interpreta*, 
não movas teus pendões contra inimigos. 
Que Flaminio e as Traamtnas ribeiras 



Esculápio 
fulmina- 
do, deifi- 
cado, e 
posto nos 



Junho 23 
— Con- 
j u n clura 
mal aus- 
piciada 
. para guer- 
ras; der- 



12 



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— 180 — 

Per volucres aequos multa mooere.deos. 

Têmpora si veteris quaeris temerária damni ; 
Qtmrtus ab extremo npnse bis ille difes. 

Póstera lox melior; superat Hasinissa Syphacem; 
Et cecidit telis Hasdrubal ipse suis. 

r I 

Têmpora labantur, tacitisque senescimas annis; 

Ét fugiont freno non remorante dies. 
Quam cito venerunt Fortunae Fortis honores! 

Post septem luces Junios actus erit. 
Ite, deam laeti Portem celebrate, Quirités; 

In Tiberis ripa munera regis habet. 
Pars pede, pors etiam celeri decurrite cymbâ, 

Nec pudeat potos inde redire domum. 
Ferte coronatae juvenum convivia lintres; 

Multaqne per medias vina bibantur aquas. 

Plebs cojit bane ; quia, qni posnit, de plebe fnisse 

Fertur, et ex humili sceptra tnlisse loco. 
Convenit et servis ; serva qnia Tullius ortus 



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— 181 



dos sirvam de escarmento, e nos insinem 
serem favor dos ceos annuncios de aves. 

Sabeis d'essa fatal temeridade 
quaKfoi oWora o praso ? o oitavo dia 
antes do fim do mez. 

A luz seguinte 
venha embora, que é fausta , venceu 'nella 
Massinissa a Siphaz ; e o fero Asdrúbal 
com todo o seu exercito foi morto. 



Flue o tempo ; vem tacita a velhice ; 
uns apoz outros como os dias fogem ! ! 
Quão prestes não volveram tuas festas, 
6 fortuna esforçada!- em sete dias • 
> terá findado Junho. Eia, Quirites, 
ledos ao templo do esforçado Nume, 
obra regia avultante ao rez do Tibre. 
Uns, vão pedestres pelas pontes ; outros 
em vogados bateis. Quando tornarem 
não se lhe estranha a bacchica alegria. 
Barquetas com festoes ajardinadas, 
imbalae n' agua os júbilos dos vinhos ; 
refervei co'os festins da gente moça. 

Esta da plebe devoção co'a deusa 
vem de que o fundador, segundo é fama, 
fora também plebeu, plebeu ditoso 
do pó subido ao throno. Apraz aos servos 
porque EIRei Tullio, o autor do suburbano 



rota do ge- 
neral Côn- 
sul romar 
noC.Fla- 
minia por 
Annibal 



Juiiho 24 
— Dia 
fausto pa- 
ra bata- 
lhas; Si- 
phaz der- 
rotado por 
Massinis- 
sa; As- 
drúbal 
morto por 
Lélio 

No mesmo 
dia festas 
da Fortu- 
na forte 
no seu 
templo á 
beira Ti- 
bre 



Hazfto de 
ser plebéa 
esta festi- 
vidade 



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— 18J — 

Constituit dubiae templa propinqoa déte. 

Ecce, suburbana rediens male sobrius aede 

Ad stellas aíiquis talia verba jacit: 
Zona latel tua nunc, et eras fortasse latebit ; 

Dehinc erit, Orion, adspicieada mito. 

Al, si non esset potus, dixisstt eádem 
Venturum tempus solstitiale die. 

Lucifero subeunte, Lares dei abra tulerunt 
Hic, ubi fit docta multa corona matui. 

Tempus idem Stator aedis habet, quam RomuluS olfin 
Ante Palatini condidit ora jugi. 

Tot restant de mense dies, quot nomina Pareis, 
Quam data sunt trabeae templa, Qulríne, iuae. 

Tempus luleis eras est na tale kalendis, 
Pierides, coeptis addite summa meia. 

Dicite, Pierides, quis vos adjunterit isti, 
Gui dedit invitas victa noverca manus. 

Sic ego; sic Clio: Gari monuatenla Pbilippi 



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— 183 — 



templo erigido á caprichosa deusa, 

prole foi de uma serva, < 

Algum que volta 
da mal sóbria romagem do arrabalde, 
dirá talvez co'os olhos nas estreitas : 
— «Por hoje não ha ver de Orion a cinta, 
«nem amanhã quiçá. Depois vem certa.» — 

Se as fumaças do vinho o não toldaram, 
mais diria que então vinha o solsticio. 

No subsequente sol delubro aos Lares 
se fundou no logar onde se afanam 
mãos tão artistas a tecer coroas. 



Junho 26 
,— Emerge 
parte do 
Orion 



Termina o 
Solsticio 
estival 



Junho 17 
— Sagra- 
çao do 
templodos 
Lares 



Esse Estator fronteiro ao Palatino, 
pôl-o no mesmo dia outr'ora Rómulo. 

Restando tantos soes quantas as Parcas, 
deu-se templo 6 Quirino á trabea tua. 

Amanhã,. nas Calendas Julianas 
mez do Augusto natal dará principio. 
Musas, favor ao resto do meu canto ! 

Dizei-me vós, Pierides, dizei-me 
quem vos consociou no mesmo alcaçar 
ao heroe cuja impávida virtude 
cançou, venceu, vinganças de madrasta. 

— «O sanctuario que vês — responde Clio — 
« do preclaro Philippe é monumento, 



No mesmo 
dia sagra- 
cao do 
templo de 
J upiter 
Estator 

Junho 28 
—Templo 
a Rómulo 
sob a in- 
vocaçàode 
Quirino 



Junho 90 
— As mu- 
sa* adora- 
d as no 
templo de 
Hercules 
f u n d ado 
porM areio 
P h i 1 ippe 

Sai de 
areia 



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— 184 — 

Adspicis ; unde trahit Mareia casta genus ; 
Mareia, sacrifico dedactum nomen ab Anco, 

In qua par fácies nobilitate sua. 
Par animo quoqne forma suo respondet in illa ; 

Et genus, et fácies, ingeniumque simul. 
Nec, quod laudamus formam, Um turpe putaris; 

Laudamus magnas hac quoqne parte deas. 
Nupta fuit quondam matertera GaesarislUi. 

O decus, o sacra femina digna domo ! 

Sic cecinit Clio; doctae adsensere sorores. 
Adnnit Alcides, increpuitque lyram. 



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— 185 — 

« de quem virtuosa Majrcia houvera o sangue ; 

«Mareia, do rei pontífice progénie, 

«por Anco Mareio Mareia, em quem se iguala 

« co'a nobreza a beldade, e co'a beldade 

« o espirito ; a feliz que em si reúne 

« o esplendor de alma e corpo ao lustre herdado. 

«Não cores de exallar-lhe a formosura; 

« cabe nas immortaes louvor de bellas. 

« De Gezar tia, a esposa de Philippe 

« foi da sacra familia eterno lustre. » — 

Confirmam as irmãs de Glio o canto, 
e Hercules a applaudil-o esperta a lira. 



FM DO SIIXTO B ULTMO LIVRO 



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NOTAS 



AOS 



DOIS LIVROS CONTIDOS NESTE TERCEIRO VOLUME 



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NOTA PRIMEIRA 



PAUINA 8— LINHA 5 



U mas de Maio foi escolhido desde * mais remota antiguidade. 
para as festas populares e religiosas. 

Os indios celebravam o primeiro dia d'este mez plantando 
uma arvore simbólica, em signal de seu contentamento pela vok 
ta da Primavera. Os gregos festejavam o principio de Maio jun- 
cando de flores o limiar de suas portas — usança que hoje con- 
servam oe seus descendentes. — Os antigos romanos consagra- 
vam os primeiros dias cTeste mez aos jogos que fariam em hon- 
ra dè Flora. Estes costumes, trazidos pelos gregos e romanos â 
Hespanha e à França, arraigaram-se 'nestes paizes : 'naquelle, 
ainda hoje se veste de branco uma~ rapariga, e coroada de flo- 
res, é conduzida de porta em porta, pedindo o necessário para 
um pequeno banquete ; 'neste, fazem-se concursos litterarios, onde 
o poeta vencedor recebe coroas de flores, de oiro e prata como 
premio do seu talento. 



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— 190 — 

A natureza escolheu este mez para ostentar todas as galas 
de que pôde revestir-se : o luxo de sua vegetação, o esplendor 
e variedade de seus campos ; a reprodução dos pássaros, a in- 
dustria das abelhas, o canto mavioso do rouxinol. Mas, 

« Gesse tudo que a Musa antiga canta 
« Que outro valor mais alto se alevanta. » 

O christianismo achou no seio de uma crença de amor sen- 
timentos não menos poéticos, não menos profundos ; e o mez de 
Maio recebeu com elles mais pura conwgração. 

Pela igreja catholica foram estabelecidas as ladainhas de 
Maio. O sacerdote, acompanhado do povo, cuja guarda lhe é 
confiada, sáe do templo cantando em procissão, chamando para 
sobre a terra as bênçãos do ceo. Voltando à igreja, o povo pros- 
trado diante dos altares do Senhor, crê e confia no Seu nome, 
parecendo-lhe desde logo vêr germinar o grão, vergarem as ar- 
vores com o peso dos fructos, crescerem e desenvolverem-se as 
plantas que hão de nutrir-Jhe os tenros filhinhos e alimentar-lhé 
os pais decrépitos. N 

No fim do século passado a igreja dedicou o mez de Maio 
áquella que tanto concorreu para a redempç&o do mundo. E, no 
meio de toda a harmonia que entoa o himno universal da Pri- 
mavera^ o espirito do homem, penetrado das mais doce» inspi- 
rações, unindo a idéa da Virgem à da resurreição da terra, es- 
quece as antigas festas do mez de Mato, e dfr-lhe o nome de±&* 
Mez de Maria 1 
Mfetaim 94 de Tkmtibto <fo 1809. 

1). MATHILDE J. DE SANT'àNNà E VASGONCEIXOS. 



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— 191 — 



NOTA SEGUNDA 



PAGINA 5-VfiHSO 1 E SEGUINTES 



De boje se controvertera origens de data mui recente, não é 
para admirar que já em tempos (TOvidio fosse problema diffieal 
o acertar com a verdadeira etimologia do mes de Maio ; e que 
o poeta, mais acostumado a infeitar de virentes grinaldas a» tra- 
dições antigas, do que a destrinçar philosophicamente origens, 
'num assomo de conscienciosa duvida exclame logo ao principiar 
do 6.° livro dos seus Fastos : 

Ut stat, et incertus, qua sit sibi, nescit, eundum, 
Cum videt ez omni parte viator iter, 
Sic, quia posse datur diversas reddere causas, 
Qua ferir, ignoro; copiaque ipsa nocet. 

Não houve mez nenhum no calendário romano, em cnja eti- 
mologia não surgissem duvidas, e não contendessem pareceres 
disparatados. Parecem aa etimologias antes um folgar de imagi- 
nações ociosas, do <pie um discursar de intendiroentos discretos ; 
e com tudo tratem ellas no seio a historia phikaophica da bo- 
taanidade, como o sentiu Viço, autor da Scienza nuova i e são elfos 
como que os fragmentos dispersos das lapides antigas, onde estão 
ainda escriptos em caracteres meio obliterados os fastos do gé- 
nero humano, e as arvores de costado da genealogia dos povoai 



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— l»í — 

Anda sempre o calendário unido à astronomia e á religião. 
Foi elle sempre o espelho, ora limpido, ora embaciado, da scien- 
cia e da fé, na antiguidade. Está 'nelle reGectido o ceo, nos seus 
dois grandes e universaes significados, o ceo das estreitas, e o 
teo da divindade; o ceo dos sentidos, e o ceo da imaginação. 
Se não foram ao acaso os nomes dos mezes no anno de Rómulo 
e de Numa, vieram dos povos, de que Roma herdou a sua pri- 
meira cultura intelectual ? Foi Sabino, foi Albano, foi Etrusco, 
foi Samnite o calendário romano, como foi de povos alheios o 
primeiro esboço da sua legislação, como foram hospedes em Ro- 
ma os seus primeiros deuses, os seus sacerdócios, os seus sacri- 
fícios, e os seus augúrios ? Disputem-n'o os sábios, que tem cam- 
po extenso para conjecturas. Por Alemanha vai hoje calorosa a 
investigação d'estes assumptos. O que diremos apenas é que ne- 
nhum povo se inventa a si próprio, com os sentimentos, as idéas 
e as crenças, que cifram em si a pátria, a indole, a nacionali- 
dade. Todas as civilisações se filiam e se succedem. Com o de- 
correr dos séculos, as fontes perdem-se ao longe no nevoeiro e 
na penumbra. O que é renovação, parece originalidade; o que 
é progresso, affigura-se principio. 

Tem Ovidio três pareceres diante de si para se decidir, e a 
nenhum d'elles se acosta, 

Nullaque laudetur plusve minusve inibi. 

E se Ovidio, ingenho tão inventivo e subtil, tão esqua- 
drinhador de antiguidades romanas, hesita na preferencia, que 
dirá quem para sentenciar 'neste pleito, tem menos documen- 
tos, que elle teve, e menos autoridades com que illustrar uma 
exclusiva opinião? 

Figura o poeta um concilio, ou como se diria hoje uma oom- 
missão de Ires musas, encarregadas Ae historiar a origem do mei. 
Discrepam as três divindades, como se o poeta quiiesse signifi- 



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— 193 — 

Cat na dissonância doestes rotos quão vários costumam ser os 
juizos, que profere a imaginação. Verdade é que não são mais 
acordes as sentenças do raciocinio ; e duvidamos de que a entre- 
gar-se o pleito a três deuses austeros e sapientes, mais eruditos 
e pensadores do que fantasiosos e gentis,' saisse melhor apura- 
da a etymologia. Ao menos as musas e os poetas discrepam, mas 
a própria dissidência encanta pela formusura do pensamento e 
pela magestade da dicção. O erro nas musas é áureo e perfu- 
mado ; nos eruditos a verdade é bronca e de ferro tantas ve- 
zes !.... Polymnia opina, no poema ovidiano, porque viesse o no- 
me ao mez de Maio da deusa Majestas, ou Majestade, que se- 
gundo Macrobio in Saturnalibus era o nume tutelar das magistra- 
turas, e a padroeira, como diríamos hoje, dos poderes do estado. 
Nasceu a Majestade, segundo Ovidio, de Honor (que o sr. Cas- 
tilho traduziu por Apreço para que ficasse a Honra masculina e 
significada em homem) e da Reverencia. A origem se não é 
exacta, é plausível e accommodada aos costumes políticos de Ro- 
ma. Que melhor invocação para um mez de um calendário de 
heroes e de cidadãos-reis, do que esta voz augusta, majestade, 
que na boca dos oradores romanos, no senado, e nos rostros, no 
foro, e no arraial, em Roma e nas províncias conquistadas, era 
como que a breve apotheose do povo dominador ! Que mais di- 
gno cognome para um mez romano do que esta majestas populi 
romani, que é grandeza e sublimidade apenas é nascida, que 
vestida de oiro e purpura, como era a trabea dos triunfadores* 
se senta no Olympo, porque é ella a deifícação do povo-rei ? 

.... Consedit médio sublimis Olympo, 
Áurea, purpuereo conspicienda sinu. 

Que mais grave appellido para o 5.° mez do que este ex- 
celso nume, que tem a um lado o medo prompto a converter-se 
em terror, se é preciso levar longe do Tibre as águias da repu- 
TOM. Hl. 13 



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— 191 — 

Mica ; a outro lado o pudor, sem o qual a majestade é a ty- 
rarntia ? E que ingenhosa adulação não põe Ovídio na boca da 
innocente musa, quando lhe segreda o elogio da majestade. 
'Naquelle mox alii tempore, quisque suo, quem não percebe a 
lisonja do poeta cortejando os paços imperiaes ? É a majestade 
romana do seu tempo a que opera todos os prodígios, que elle 
reconta 

ília datos fasces commendat, eburque curule: 

E com tndo o poeta tinha diante dos olhos, a majestade de 
Augusto, a majestade da fortuna, surgindo d'entre as rui nas da 
majestade republicana, c esfolhando os loiros da liberdade antiga 
para adornar com elles o diadema da realeza. 

Tem Urania, segundo a narração ovidiana, um parecer con- 
forme ás instituições politicas de Roma. É seu voto que Maio 
tomou o nome derivando-o de majoribus, e fora assim pelos ro- 
manos dedicado aos velhos, em contraposição de Junho que aos 
mancebos, junioribus, se consagrara. 

Não parece fora de razoo a eíymologia. Era em toda a an- 
tiguidade republicana o ser velho uma preeminência para res- 
peitos e magistraturas. Mais se governavam as cidades antigas 
por tradição e experiência do que por códigos e theorias. Sèr 
velho era ter visto e meditado largamente. Às cans ia de direito 
a governança, e as constituições antigas eram rigorosas na con- 
dição da idade para os cargos públicos. Tal ha hoje que aos vinte 
e cinco annos se cré desairado porque lhe não confiam um mi- 
nistério, e se houvesse vivido em Roma, haveria tido por grande 
honra o concorrer como simples legionário no cerco de Veios, 
ou na batalha de Thrasymene. Ainda em tempos modernos a 
velhice era como que um poder do estado 'nalgumas republicas 
de viver singello e campesino. A França republicana, que por 
um grande paradoxo politico, renegava das tradições, e amava 



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— 19$ — 

a Roma triunfante, que aprendera em Tito Iivio e em RoUâu, 
quando quis antiquar a novidade, e dar cans k revoluçôo ainda 
no berço, improvisou um conselho d'anaaoa. 

O voto de Cattiope é menos romano, mas extremamente ve- 
rosímil* por ser mais conchegado que os outros â tradição reli- 
giosa da gentilidade* Maio vem de Maia. £ mais breve e maia 
poético. Diz Macrobio, que 'nestas coisas é bom autor, que no 
mes de Maio faziam os mercadores as suas festas e devoções a 
Mercúrio, para o terem propicio em seu trato e mercancia, e 
que para o obrigara» com maiores obséquios faziam igualmente 
sacrifícios a Maia, sua mài. 

. Mas pende o litigio sobre ser esta Maia, que deu o nome no 
meg, aquella Maia, a mais formosa das Plêiades» de quem o poeta 
dia cora a candura romana. 



, et summo concnbuisse Jovi, 



nascendo (Teste furtivo thalamo o malicioso Mercúrio ; ou ser 
antes a Maia, a mesma que Jeito*, a terra, derivado o nome da 
grandeza d'eila« É sabido que â terra chamavam os romanos Ma- 
ter magna. E quem sabe, se no dedicar o mçz de Maio a esta 
Maia syrobolka, a esta mãi conunura dos ethnicos, aSo irá o 
pensamento de a celebrar na quadra em que ella é verdadeira- 
mente mâi, quando ella desabrocha de si os rebentos da creaçào, 
quando dia apparece rainha, verdadeiramente Maia na majesta- 
de, trajando, matrona formosíssima, a sua túnica de verdura, 
e soltando ás auras o seu pallium na folhagem dos arvoredos, que 
renascem? 

Jofto Goropio tem para si, que o nome de Maio é de ori- 
gem estranha â Itália e & Grécia, e que viera de Mai ou Mei> 
que na linguagem dos Cimbros, ou Kimri dos modernos ethno- 
graphos, tanto vale como viço das plantas. £ é certo, que é este 
o mez da vegetação nos nossos climas. E bem pudera ser que o 

.13* 



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— 196 — 

nome fosse trazido do norte, porque nas línguas germânicas, que 
menos herdaram do latim, se encontra o mez de Maio, designado 
por Mai Qual dos idiomas o copiou ? ou iriam vários ramos da 
familia indo-germanica hauri-lo em fonte commum ? Virá o no- 
me mai de mag, ou machi, que em linguagens septentrionaes 
indica a força, o poderio, o próprio acto de produzir? E sendo 
a terra mais do que nunca 'neste mez alma e creadora, proce- 
derá de tal raiz a denominação d'esta quadra risonha do anno ? 
Virá o nome de Maju*, com que entre os etruscos se designa- 
va Júpiter, como se disseram o maior, ou de mais excelsa ma- 
jestade entre os deuses? 

Em tudo isto não ha senão conjecturas. As origens romanas 
são trevas para nós. Quanto mais as exploramos e subtilisamos, 
tanto mais enleados vimos a ficar na variedade dos systemas. 
Houve tempo em que se cria em Bomula como em D. Affbnso 
Henriques, e em que todos contavam o rapto das Sabinas, como 
se tivessem ido com os celibatários de Roma áquella memorável 
façanha. Appareceu Viço, e começou a vér mythos no que pa- 
reciam homens. Veio depois Niebuhr, e não viu nos mythos se- 
não ficções e fabulas. 

A humanidade é velha ; mas a historia, que mereça este no- 
me, ainda braceja no berço, soltando-se apenas das faxas infantis. 

BARÃO DO CASTELLO DE PAIVA. 



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— 197 — 



NOTA TERCEIRA 

PAGINA H-YERSO 5 
AS CÃS E A RUGA tBDL 

li um tempo, em que o idolo seductor da novidade recebe cul- 
to quasi universal, e em que tão depreciada existe» em conse- 
quência (Testa idolatria, a coroa dos annos ; o canto, que o sul- 
monense põe na boca d'Urania, deve consolar os que vão adian- 
tados na carreira da vida, os que não tiveram a fortuna de vagi- 
rem nos berços da nova geração, para merecerem as, attenções 
dos filhos (Telia, e lembrar ao século a conveniência de não per? 
der os fios das velhas tradições, e a de os fazer entrar na urdi- 
dura de seus modernos tecidos ; são fios provados. Um d'elles é 
o respeito devido ás cãs e à ruga senil. Urania tomou a seu car- 
go celebrar, e conservar a memoria da antiguidade e valor (Teste 
respeito, dizendo: 

Magna fuit quondam capitis reverentia cani, 
In que suo pretio ruga sinilis erat. 

Não vulgar respeito outr'ora 
Teve a fronte encanecida, 
£ a ruga senil na sua 
Devida conta era tida. 

A erudita musa pagã não cantou sem fundamento; apre- 
sentou, em confirmação do seu thema, a resenha das honras tri- 



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— la- 
butadas na antiguidade aos velhos ; se lhes faltava, disse ella, a 
energia necessária para defenderem a pátria com as armas na 
mão, serviara-na com os conselhos amadurecidos ao sol da expe- 
riência ; davam as leis aos povos. Os mancebos cediam-lhe sem 
repugnância, o logar mais honroso ; ninguém ousava proferir na 
sua presença palavras indecentes ; eram os censores natos da mo- 
ral ; mereceram que Rómulo lhes desse o titulo de pais ; os ne- 
gócios mais graves da cidade nascente eram submettidos ao seu 
exame; foram elles finalmente, que, na qualidade de maiores, 
deram o nome ao mez das flores, aí Maio. Segundo Urania, Nu- 
mitor diria a Rómulo : Dai, dai, este mez aos velhos. 

A mina trazida á scena por Ovídio resumiu em poucos ver- 
sos os costumes do mundo antigo. Nós sabemos peia historia, 
que nos tempos patriárchaes, a autoridade existia nas mios dos 
chefes de família ; que entre os hebreus a tinham, fido só os pais, 
mas todos os velhos ; que o senado romano era a ossembléa dos 
anciãos, e que o povo-rei herdara já dos lacedemonios o respeito 
sagrado 6 velhice. 

Este respeito tem bases indistructiveis i fnnda-se na nature- 
za das coisas, que nunca podem deixar de ser o que São. Cada 
idade tem o seu destino e condições naturaes para o desempe- 
nho d'elle: a energia habilita o mancebo para o movimento e 
para a acção ; a experiência prepara o velho para a instrucção, 
para o conselho e para o commando. « A gloria do joven, diz o 
« sábio, é a sua força ; a dignidade do velho, está nas suas cãs. » 
(Prov. 20, 29J. São raros os casos, em que o talento, o estu- 
do, e bello espirito supprem no mancebo a falta da experiên- 
cia ; mas sempre se intendeu que a sabedoria era o fructo da 
longa vida. E por que razão a coroa da ancienidade, sempre res- 
peitada nas obras da natureza e da arte, no roble idoso da selva, 
e na pedra cinzelada em estatua, em columna ou capitel, perde- 
ria o valor na cabeça do rei da creação e do inventor das artes ? 



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— 1»9 — 

A falta de reflexão tem confundido modernamente muitas 
idéas. Imaginam muitos, que o progresso , outro idolo da nossa 
idade, não tem pais nem antepassados, e que não depende de 
nada que o preceda. Mas o progresso não é uma nova creâção, 
é o desenvolvimento d'uma idéa preexistente que vai e irá sem- 
pre crescendo com o lavor das gerações que se succedem ; é tão 
antigo como a indole inquieta e emprehendedora do homem, 
que nunca abdica o direito de melhorar a sua sorte. 

'Numa questão que agitou, mio ha muito, a imprensa por- 
tuguesa, um litterato nosso, combatendo a vários que impugna- 
vam as suas doutrinas, não respondeu a um (era dos mais for- 
tes) por , ser velho!.... Deixou d'esta sorte aos jovens litteratos 
do futuro a liberdade de o tratarem com à mesma indiferença 
e de o considerarem fora do quadro militante da litteratura, 
se por ventura chegar aos dias da ruga celebrada pela musa do 
poeta romano. Mas quem não sabe, que a velhice, como diz um 
sábio, accumula menos rugas no espirito que no rosto ! 

À historia levante a voz contra o litterato portuguez, que 
considera o velho inhabil para os trabalhos da intelligencia. The- 
nristodes, uma das glorias da Grécia, que morreu de cento e 
sete annos, dizia próximo á morte: «Custa-me deixar o mun- 
ido, agora que começo a saber alguma coisa.» Platão estava 
octogenário, não largava ainda a penna da mão. Isocrates i usi- 
nava e escrçvia quasi a completar uma existência secular. Py- 
thagoras, Demócrito, Zenon e Cleanto tinham longos annos e 
um nome claro na republica das lettras. Os cânticos de Homero 
Hesiodo e Symonides, foram, como os do cysne, mais harmo- 
niosos e suaves nas visinhanças da morte. Voltaire conservou 
a reputação litteraria toda a vida, que terminou de oitenta e qua- 
tro annos. Para citar um exemplo de casa, um poeta nosso do 
século passado, cantou assim do primeiro épico portuguez : 



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— 260 — 

Caneles para cantar o forte Gama, 
Já tinha a nobre fronte encanecida, 
Já devia cobrar vindoira fama. 

Louvores a Ovidio, que, inspirado por Urania, lembrou à 
sua e ás gerações futuras a veneração devida ás cãs e á ruga se- 
nil, e que honrou os velhos sem rebaixar o mérito dos moços, 
dando a cada um o que lhe dá a natureza. As excepções e irre- 
gularidades que esta apresenta em tudo, alterando muitas veies 
a sua marcha regular, nunca formaram direito commum, nem 
serviram de regra á sciencia e á arte. Não é raro ver um ve- 
lho imrooral deixar cair da cabeça o diadema que lhe dera o 
tempo, e um mancebo virtuoso levantal-o do chão, pôl-o na sua, 
e reivindicar para si o direito ao respeito que elle perdera ; as 
cãs da virtude disputam muitas vezes o mérito ás da idade. É 
por esta razão, que um jornal francez, redigido pela mocidade 
parisiense tem esta significativa epigraphe : « Os rapazes fazem-se 
« homens, porque os homens se fazem rapazes. » Era bom, para 
fortuna da sociedade, segundo a judiciosa sentença d'um sábio, 
que os moços fossem a força dos velhos, e estes o conselho dos 
moços ; e é pena que conhecendo os velhos o que perderam, não 
conheçam os moços o que lhes falta. 

Louvores ao poeta romano, interprete, cantor e zelador dos 
sentimentos da natureza. Quem os respeita, respeita igualmente 
os que inspira a religião, que já bradava pela boca # do autor do 
Levitico : « Levantaste diante dos cabellos brancos e respeita a 
<c pessoa do velho. » 

Coram cano capite consurge, et honora pertonam senis. (Le- 
vit. 19, 32). 

FRANCISCO RAFAEL DA SILVEIRA MALHÃO. 



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— 2©1 — 



IVOTA QUARTA 

PAGINA I5-VERS0 23 

á LIBA 

ilefere-se Ovídio á lyra de sete cordas, do efleíto de cujos sons 
tantas maravilhas e fabulas se contam, á lyra tão celebrada por 
todos os poetas, que representou tão importante papel nos poe- 
mas antigos, e de que ainda se falia com tanto enthusiaamo, 
posto que não figure já nos concertos, nem nos theatros e cere* 
monias religiosas, e tenha sido substituída com vantagem por ou- 
tros instrumentos de cordas. 

É difficil, senSo impossível, conhecer a verdadeira origem 
da lyra, que é o mais antigo instrumento de que se acha men- 
são. A Escriptura Sagrada diz-nos que foi Tubal quem a in- 
ventou para se distrair das canceiras do trabalho. Na poética 
e symbolica religião pagã consagravara-na a Mercúrio (1), e ti- 
nham para si os mythologos, que fora o mensageiro dos deu- 
ses quem a inventara no monte Cyllene, da Arcádia, e a oflfere- 
cera a Apollo, que depois a concedeu a Orpheo ; a Orpheo que 
aprendera no commercio dos sacerdotes egypcios, com a arte da 

(1) Te canam magni Jovis et deoram 
Nuntium, curvaeque lyrae parentem. 

hor. 1 Cana. Od. iO 

Te lyra pulsa manu, te carmina nostra sonabant. 
ovid. 10 Metam. 



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— m — 

musica, a maneira de expiar os crimes, tle applacar os deuses, 
e de curar as doenças ; e que, passando pela Grécia, theologo e 
legislador sagrado, prometteu a felicidade na outra vida, pela 
piedade é pela virtude ; a Orpheo que com os mágicos sons d'este 
suave instrumento sustinha a carreira dos rios e o respiro dos 
ventos, e domesticava os animaes ferozes, que não eram outros 
senão os tyrannos e guerreiros selvagens, que o philosopho pre- 
tendia attrair á civilisação. 

Também é opinião d'alguns ter sido Arion, que floresceu no 
tempo de Períandro, tyranno de Corintho, o inventor e primeiro 
tocador de lyra, primus fuit omnium cithqirislarum (1). Contam 
d'elle que indo de viagem, a tripulação do navio, em que se em- 
barcara, tentou assassinal-o para o roubar, mas tendo obtido per- 
missão de dedilhar por um pouco a sua lyra, antes de morrer, 
attraiu com as melodias, que soube tirar d'ella, os monstros ma- 
rinhos, que encantados rodearam a embarcação. Arion saltou en- 
tão sobre um delfim que o conduziu á praia são e salvo. Mas 
esta lenda já no livro 2.° dos Fastos tom. i, pg. 86 e 87, se 
leu, tratada com esmerada elegância pelo nosso poeta. 

Ha quem atribua a Lino, mestre de Hercules, a invenção 
cTeste instrumento, ao som do qual se levantaram os muros de 
Thebas, segundo a allegoria da lyra de Ampbion ; e 

Sapho a sacerdotisa e victima do amor 

se precipitou do monte Leucate: diz, porem, Homero ter sido 
o próprio Hercules quem a inventou, construindo a primeira lyra 
d ■ uma. concha de tartaruga, que armou de cordas de tripa, ao 
som das quaes afinava a voz. No templo das Musas em Roma 



(1) Blasio Vigencro, in Amphionem Philostrati, citado porBIuleau, 
f outros escriptoresd^utoridade^confundem a lyra e a cythara, que não 



I era outra coisa mais do que uma lyra pequena. 



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— tOS- 
se via com effeito a effigie de Hercules a tocar lyra ; e nfio dehtft 
de ser curioso, e para se apontar 'nesta nota, que é esse Hercu- 
les masrco, o que cerra os seis cantos existentes do põem» dos 
Fatlos, sendo a sua ultima palavra, o seu fmis corona* opus, o 
nome tyra. 

A poesia nasceu com o homem ; assim o pensam e affirmam 
os melhores autores; assim nol-o indica a rasâo. Cícero diz po* 
sitivnmentè que, entre os gregos, nada se encontrava mais an- 
tigo do que a poema , e até se sabe que a primeira historia d'el- 
Icb foi escripta em verso. Ainda que tâo é possível remontar 
até á primeira obro poética, quem n&o sabe que o primeiro mo- 
do de vida pára o homem foi o pastoril? É por tanto conclusão 
rigorosa que os primeiros poetas foram aqoettes descuicbsos pas- 
tores, que pftssaVam alegremente a vida recostados* por baixo 
d'tiiquietas aveleiras, á beira dos ribeiros que cortavam os her- 
vows valtés, por onde pastavam os gordos rebanhos- (1). 

Um doestes taes, d'Agrigento, um oerto íris, e se rtòo foi 
dle, outro seria, depois de provavelmente ter procurado imitar 
com a voz os melodiosos gorgeios das aves, reparou nos canoros 
murmúrios, qtíe saíam dos cannaviaes seccos, suavemente agitados 
da viração, e teve a idéa de supprir com um instrumento a dit- 
ficiencia do orgao vocal. D'aqui à origem da frauta rude e ave- 
na agreste; d'aqui consequentemente, e muito depois, a origem 

(1) Diz Utttacio: < 

Agrrólae prisá, fortes parvoque beati, 

Condita post frumenia levantes tempore festo 

Corpus, et ipsum animum ipse finis dura ferentem, 

Cum socciis operam et pueris et cônjuge lida 

TeUurem porcof Silvanum lacte piabant. 
BTibuUo: 

Agricola assiduo prinium lassatus aratro, 

Cantavit certo rústica verba pede 

Et satur arenti prinium est modulatus avena 

Cármen, ut ornatos daceret ante Deos. 



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— 204 — 

dos instrumentos de cordas, quando se lembraram de recitar os 
poemas ao som d'elles. 

Eram as lyras de differentes dimensões e de formas variadas, 
sem comtudo variarem de natureza e propriedades. Estas dife- 
rentes formas, diz Marin Mersenne, fallando largamente d'este 
instrumento, na sua Harmonie universelle, nâo dfto à lyra mais 
variedade do que as figuras d'ellipse, d exagono, ou de quadrado 
dariam ao relógio solar, aliás poder-se-hia dizer que havia mais 
de cem espécies de lyras ; o que é contra a verdade e experiên- 
cia. Nos mármores, pinturas e medalhas da antiguidade é a lyra 
representada muitas vezes de forma circular. Hygino da-Jhe outra 
figura. Havia uma que era quasi um triangulo, chamada trigo- 
ne. A lyrá com que os pintores e estatuários representam Apollo 
tem ordinariamente a figura de dois SS oppostos um ao outro. 

'Num baixo relevo da villa Médicis, em Roma, diz Bfont- 
faucon na Anttquité expliqttée, que se via uma lyra triangular, 
com um dos lados curvo. 

Dava-se & lyra, segundo a forma e as dimensões, os no- 
mes de cythara, chelys, barbiton e outros (1). A chamada bar- 
biton era a mais grave e a maior ; mas todas se assimilhavant á 
forma da tartaruga (2), e constavam de dois ramos ou braços ar- 
queados em S, uma travessa, caravelhas, cordas de linho ou de 
tripa, e uma caixa ou tambor, sobre o qual se prendiam as cor- 

(1) Lyra, quamvis poetae lyram, citharam, testudinem saepe pro 
eodem organo ponant, et cithara diversae sunt, quia lyrae Mercurius 
autor, citharae Apollo. 

s. pitisco. — Lex. antiq. rom. 

Fallando dos instrumentos de cordas diz Montfaucon: — IJx hisce 
omnibus instru mentis puto unum idemque saepe diversis nominibus ex- 
primi. 

(2) Formam habct tesludinis. 

plin. Lib. 9, cap, 40. 



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— 205 — 

das, e que formava orna espécie de caixa sonora de madeira a 
que chamavam maga. Às primitivas eram feitas de concho de tar- 
taruga, testudo, com dois cornos de bode montei sobrepostos, e 
uma hastea de buxo atravessada, tendo cordas de tripa estendi- 
das ao comprido 

A lyra pbenicia só tinha duas cordas, a de Terpandro três, 
a pandora de Babylonia três também. Dii Bianchini que a lyra 
de quatro cordas foi construída por Mercúrio, e augmentada até 
sete por ApoIIo ; que Corebo inventou a quinta, e Hyaginis Phry- 
gio a sexta. Pollux attribue aos scythios a invenção do penta- 
cordio. A lyra mais usada, porem, a de Orpbeo, segundo se vê 
de Virgílio, a d 9 Apollo (1), a usual entre os romanos no tempo 
d ? Àugasto, era a de sete cordas. 

Em Argos, no Peleponeso, celebravam-se diversos jogos pú- 
blicos, nos quaes se propunham prémios aos músicos. Os toca- 
dores de lyra eram também admittidos, mas n&o lhes era per> 
mittido apresentarem-se coro instrumentos de mais de sete cor- 
das, nem tocarem 'nelles em tom mais agudo que o mixolydio 
(2). Os que ousavam infringir estas leis, recebiam a mesma af- 
fronta que fizeram os lacedemonios a Terpandro, a Phrynis e a 
Timotheo, que foram obrigados a pagar uma multa (3), por igual 
culpa. 

'Num baixo relevo do palácio do cardeal Spada, diz Mont- 
faucon, que se vê um Amphion com uma lyra de sete cordas, 



(1) Apollinis septichordis fuit. 

macrob. Sat. í. 

(2) Nos maisbellos séculos d'Athenas ede Roma havia só treze mo- 
dos na musica. Dispostos do grave para o agudo o mixolydio era o de- 
cimo segundo. 

(3) Dialogo de Plutarco sobre a musica, traduzido do grego, e com- 
meutado por 11 . Buretle. 



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— soe — 

continuadas sobre uma peça redonda, que termina o insfarumerto 
em baixo. 

Simonides ajuntou á lyra mais uma oorda para produzir a 
oitaxta: Timothee de Mileto, no tempo de Filtppe e d 1 Alexan- 
dre, elevou a doze o numero das cordas, e chegaram depois a 
construir-se até de vinte; mas estas eram reservadas para cele- 
brar os deuses e os heroes, 

Musa dedit íldibus divos, puerosque deorum. 

Iíorae. Ari. Poet. ' 

A de dez cordas, encontra-se representada em muitos mo- 
numentos antigos. 

As cordas ordinariamente eram caltocadas» como as 4a har- 
pa que se pinta nas mãos do rei David, que com aa harmonias 
d'ella applacavo os furores do invejoso Saul, a tangendo-a, é 
bailando, ante a Arca Santa, celebrou as glorias da Senhor. 

Na cythara faltava a maga e os lados eram mais separadts. 
A lyra maior approximava-se do kinnor de David que linha d» 
cordas. 

De três modos se tocava a lyra: ou dedilhando as cordas, 
ou tangendo-as com um arco de pau pálido, simiUiante ao da 
rebeca, mas mais curto, chamado pkctro; ou finalmente dedi- 
lha odo-as com a mão esquerda e tocando-** ao mesma tempo 
com a direita armada de plectro. O tocador asava um par de 
dedaes no polegar e index da mão esquerda, pouco mais ou me- 
nos como os hebreus usavam, e ainda hoje se usa para tocar 
psalterio ; com estes vibrava uma das extremidades da corda, 
para tirar um som agudo, e immediatamente tocava com o ar- 
co ; outras vezes corria alternativamente as cordas e fazia com 
que vibrassem em cheio. Era esta a maneira mais seguida, se- 
gundo se vê das pinturas e mármores. Qs hoqiejis que focavam 
as lyras nas ceremonias publicas eram chamados cftbaristas, «~ 



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— 207 — 

thariiiae, e as mulheres psaltrias, pêakriae, e o que caaiava «com* 
panbaudo^e deste instrumento recebia o nome de citharedo, ou 
lyrodo (1). 

Usava-se a lyra nos cantos trágicos, e Sophocles metteu-a 
'numa das suas tragedias» assim como Legjouvé no modelo da 
tragedia renascida, Medéa. 

Era costume nos festins passar a lyra de conviva a conviva, 
e o que a não sabia tocar, quando lhe chegava a vez, era tido 
em conta de pessoa de educação pouco esmerada, como uni dia 
aconteceu a Temistocles (2) ; e era costume antigo, segundo con- 
ta Plutarcho, dar um ramo de murta ao que se recusava a acom- 
panhasse da lyra, para cantar com elle na mão. 

Na China, desde tempos immemortaes, conheçem-se duas çs- 
pecies de lyra, de cordas de seda, as quaes produzem melodias 
suavíssimas e encantadoras, uma, kiu, só de cinco cordas, outra, 
ché, que chega a ter vinte e cinco, e serve para acompanhar as 
votes. A lyra allema approximava-se da antiga pela forma, pois 
que consistia 'numa caixa 'oblonga e sonora, parecida copa a par- 
te inferior da viola, com quatro cordas presas no interior, sobre 
as quaes jogavam dez ou doze teclas moveis, com que a mão .es- 
querda as incúria va, em- quanto a direita dava movimento a uma 
roda untada da colophonia, que as fazia produzir os sons. 

Pelos fins do século passado e princípios (Teste, 178o a 

(i) Lyristae dicuntur, qui assa lyra utuntur. 

sipOxN. Epist. n. 
Lyrodi dicuntur, qui lyrae cantum cum vocc maritant, cantores ly- 
ricorum carniinum ab aliis editoram. 

salmas. Exerc, Plin. p. 6009 a. B. Bu- 
leng. de Theatr. //. 57. 
(2) Ut post coenam circumfcrretur moris fUit in epulis. Temistocles 
cum respuisset, quia illa canere nesciret, indoctior habitus est. 

BULEN6. ws r 4 0!«ao. in. £.?. 



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— 208 — 

1810, pretendeu-se em França fazer reviver a lyra, dando-lhe 
quasi a forma e o braço da guitarra de seis cordas» para lhes fa- 
cilitar o uso, e tornar mais commodo o instrumento, cuja forma 
elegante e pittoresca, suavidade do nome (1), e poéticas recor- 
dações a elle associadas, tentaram as damas da sociedade 'nesse 
tempo em que se não gostava senão do que revivia dos antigos, 
e em que era moda tudo o que vinha dos gregos ; mas a in- 
commodidade da forma, e principalmente a magreza dos sons, 
ainda que maviosos, languidos, próprios para fazer concentrar o 
espirito e excitar a devoção, obrigou a voltar á harpa, á viola, 
e á guitarra, cujos sons são muito mais cheios e vibrantes. 

Marin Mersenne, da ordem dos minimos, descreve minu- 
ciosamente o modo de afinar a lyra, e usar d'ella, segundo M. 
le Baillif, o Orpheo de França. Se este instrumento revivesse, 
diz o autor da Harmonie universelle, e se tornasse familiar, seria 
para grande contentamento em razão da sua elegância e multi- 
plicidade de seus acordes. 

Ainda não ha muito tempo que em Itália se usava este ins- 
trumento tão próprio para acompanhar os cantos históricos, e 
particularmente os elevados e sublimes, tanto em. vulgar como 
em latim, porque acompanha a voz tão facilmente como o ór- 
gão, e com mais diversidade, visto que se lhe podem adoçar os 
sons tanto quanto se quizer. 

Hoje só resta da lyra a men&ão que todos os poetas fazem 
d 9 ella, desde Homero, até Gamões ; desde Camões, até ao mais 
obscuro cerzidor de trovas. A vulgaridade do nome quasi que 
lhe tem abolido o valor. Millevoye disse chistosamente, fallando 
de um rimador das dúzias 

Et prenant un crayon qu'il appelait sa lyre. . . . 
(1 ) Lyra : do grego» de hiatos suave e rehó correr. 



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— 209 — 

mas paremos aqui já, que andam por ahi muitos lyricos de má 
avença. 

JOSÉ MARIA PBREIftA RODRIGUES. 



NOTA QUINTA 

PAGINA ti -VERSO 6 

iinuiim 



OUfiM BUA A BOA DEUSA 

i\ao só entre os modernos críticos e philologos, mas entre os 
mesmos mytbologos antigos, reina uma grande incerteza acerca 
da divindade, a que os romanos davam o nome de Boa deusa. 
Alem de orna cansa especial, que depois indicarei, procede tam- 
bém esta incerteza da extrema confusão que se observa na theo- 
logia do polytheismo, e que é inherente A sua mesma índole. 
Este systema religioso* tinha a certos respeitos, uma notável van- 
tagem sobre as religiões monotheisticas. Longe de professar a 
intoleiUncia e o exclusivismo 90 culto da divindade, o poly- 
theismo reconhecia como verdadeiros os deuses de todos os po- 
vos, quer fossem bárbaros, quer civilisados. Era admissível, e até 
commum, a idéa de divindades inimigas, que participavam do 
ódio e rivalidades dos differentes povos que se tinhaifa posto de- 
baixo da sua protecção especial ; mas a noção de deuses falsos ain- 
da não tinha penetrado no espirito dos homens. O polytheismo 
TOM. III. li 



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— 210 — 

só começou a, ser intolemnte depola que.p monotbeiômo, saindo 
, da longa obscuridade em que tinha jazido, pôde accusar de fal- 
so o principio opposto, e provocou animosamente os furores de 
um fanatismo até então desconhecido. Quando os romanos, ou 
outra qualquer nação, travavam pela primeira vez relações com 
outro ]K)vo, criam desde logo reconhecer nas divindades estra- 
nhas as mesmas que elle$ «dotavam, emhora os nomes soassem 
de diíFerentc modo. Mas se acontecia que alguma cfellas se lha 
figurava desconhecida, longe de a terem como falsa, reputavam 
por esse mesmo facto dcfectivo o seu longo calendário de deu- 
ses, e o ampliavam com os nomes das novas divindades. 

Esta tolerância, esta cega crença 'numa infinita multidão de 
divindades, cujo numero entre os romanos passava de trinta mil 
(1), é quanto a mim a principal causa da extrema confusão que 
se observa na theogonia do paganismo. 

Nomes d i Aferentes, que a principio designavam uma só di- 
vindade, vieram com o decurso do tempo a representar deuses 
distinctos; lendas estranhas foram interpoladas contradictom* 
mente nas lendas nacionaes, ou ampliadas pela ftfntaaia popu- 
lar, e pela imaginação dos poetas. D'ahi os contínuos anachro- 
nismosv ft» contradictorias relações de parentesco entre òs deu- 
ses, as numerosas variantes nas suas respectivas lendas, e outros 
elementos de confusão que formam o inextricável lafcyrintho de 

mythak>gÍB pag&. .*■ i : j ..: ,i . • % ■»• 

. A lenda da Boa: deusa offerece uma boa amoatra «Festa con- 
fusfto £'Quem era * Baia* deu? j Seria esta uma divindade ver- 
dadeiramente rtunana, gosaado de uraa {inteira individualidade* 
oa seria antes uma das- divindades conhecidas* tom bajptiaada em 
Bbraa com essa designação aathonomastica ? Se attendermes sã 
k lenda particular doesta deusa, seremol induzido?» apagar das 

(1) Varrfo, cit; por Aleic. ab Alexandro, Genial* dies;. L* ti, c. 4. 



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— 211 — 

suas cootradictorios variantes, a conceder-lhe uma individuali- 
dade própria ; mas, se consultamos os antigos my thelogos, ora- 
dores, poetas e historiadores, vemos desappurecer essa individua- 1 
lidade, em presença de um grande numero de deusas, que rei- 
vindicam para si essa designação honorifica. 

Eis-aqui resumidas as versões da historia da Boa densa. Ma- 
crobio, firmando-se na autoridade de um mythograpfao antigo, 
diz que esta deusa, chamada também Ops, Fauna, Fátua, era 
uma filha de Fauno, que tendo resistido aos desejos impuros de 
seu pai, o qual chegara a empregar infructuosamente a embria- 
guez para a corromper, fora por elle cruelmente açoitada, com 
varas de myrtho. Não desistiu Fauno do criminoso intento; 
transformou^ em serpente, e, sob esta forma, conseguiu sedu- 
zir a filha. Vanrão, segundo o mesmo antiquário, limita-se em 
dizer que a Boa deusa era uma filha, de Fauno, tão casta que 
nunca sairá do gyneceu; nunca fora vista de homens, nem seu 
nome tira d'eHes sabido (1). Entretanto a Boa deusa nem a 
todos mereceu o mesmo conceito de assisada. Havia também quem 
dissesse que a Boa deusa, sem duvida antes da sua apotheose,. 
era avesada a toraar-se do vinho, e que sen marido, pois que. 
'nesta versão eila é casada com Fauno, e segundo outros com 
Pico, colhendo-a uma occasião em estado de embriaguez, lhe 
dera uma severa correcção com os ramos d'aquelle arbusto (2), 

Eis-ahi o elemento profano da lenda da venerável deusa, sob 
cuja protecção os romanos tinham posto a fortuna da cidade eter- 
na ; a deusa, cujos impenetráveis mysterios, segundo Cícero, eram 
os mais augustos e sacrosantos do culto do paganismo romano 
(3). Esses recônditos mysterios logo os sondaremos; agora, ain- 



(1) Macr. Sat. L. 1, c. 21. 

(2) Alex. ab Alexandro Genial, dies, L. vi, c. 8. 

(3) Cie. pro domo sua. 

14* 



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— 212 — 

da que á custa da sua autonomia, procurarei dar-lhe maior res- 
peitabilidade.' Sem citar autoridades, basta dizer que as ha an- 
tigas e modernas, para podermos identificar a Boa deusa com 
quasi todas as principaes deusas do Olympo. Segundo estas dis- 
cordantes opiniões, é ella a mesma que Ceres, Juno, Vesta, Pro- 
sérpina, Cybéle, May a, Símile, Flora, e até Medéa. Alem dos no- 
mes de Ops, Fauna, Fátua, se acha designada com os de Idéa, 
Pessinuntia, Phrygia, Genycéa, Damia ; nomes que muitas das 
outras deusas, não deixam também de reivindicar. 

A incerteza acerca do nome (Tesla divindade, não procede 
unicamente da confusão inseparável da mythologia em geral, mas 
talvez, no caso presente, tenha origem na liturgia do seu culto. O 
verdadeiro nome da Boa deusa constituía um mysterio, que era 
vedado aos homens prescrutar. Supponho que esta mysteriosa oc- 
cultação fosse fundada 'numa razão politica. 

Era costume antigo entre os romanos, quando sitiavam uma 
cidade inimiga, deprecar os numes tutelares d'essa cidade para 
que lh'a entregassem, desamparando seus antigos protegidos. As 
promessas de templos mais sumptuosos, de mais numerosas vi- 
ctimas e jogos mais esplendidos, não faltavam para demoverem 
os deuses â deserção (1). Para se evitarem represálias, quando 
a fortuna viesse por acaso a trocar as mãos, a occultação do ver- 
dadeiro nome do nume tutelar de Roma era uma rigorosa pres- 
crípção do seu culto, e o sabel-o passava por um horrível sacri- 
légio (2). Era a Boa deusa o penate e nume tutelar de Roma, 
e talvez por esse motivo, se prohibia aos homens o saber-lhe o 
nome, que, sob o pseudonymo se recatava (3). 

(1) Macrobio conservou-nos duas curiosíssimas orações (Teste géne- 
ro, dirigidas pelos generaes romanos aos deuses de Carthago, quando 
sitiavam esta famosa cidade votada á destruição. Sat. L. 3, c. 9. 

(2) Macrobio loc. cit. 

(3) 'Nesse mesmo logar, diz Macrobio, que os mesmos romanos rgno- 



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— 213 — 

Atravez de tantos séculos, se não é fácil, pelo menos nio é 
perigoso, aventurar uma conjectura acerca de tão formidável mys- 
terio. Penso pois que a deusa que se occultava debaixo d'aquella 
designação não era senão a deusa Vesta. Sob a invocação de Boa 
deusa, e não em seu próprio nome, pelos motivos que deixo in- 
dicados, teria aquella antiga divindade sido elevada á cathegoría 
de padroeira da cidade, com templo, ritos e festas especiaes. 
Eis-aqui as razões em que me fundo : Cícero para avultar a enor- 
midade do attentado de Cláudio, de que logo fallaremos, rodea 
o culto da Boa deusa de todas as circumstancias que concorriam 
para o tornar mais augusto e venerando aos olhos do povo ro- 
mano. Que sacrifício mais antigo, exclama o orador, do que este 
que remonta á época dos reis ! tão occulto e mysteríoso que não 
só é vedado á vista de uma curiosidade sacrílega, mas ainda de 
lima imprudente casualidade ! Quem antes de Cláudio consta que 
profanasse com sua presença um sacrifício, que só a idéa de o 
ver inspira um profundo horror ! É um sacrifício em que minis- 
tram as vestaes ; é oíferecido pela salvação do povo romano ; faz-se 
na casa do magistrado que se acha revestido do supremo poder ; 
é finalmente um sacrifício tão involvido em mysterio, que os ho- 
mens não podem saber, sem sacrilégio, o nome da deusa a quem 
elle é offerecido (1)." Cicero não ê quanto a mim, um rígido res- 
peitador do mysterio. Entre o culto da Boa deusa e o da deusa 
Vesta apenas pequenas diflerenças havia. A entrada nos templos 
de ambas as deusas era igualmente vedada aos homens ; em am- 
bos ardia a chamma do fogo eterno ; em ambos oficiavam as ves- 



ravam o nome do nume tutelar da cidade. Suppunham uns que era Júpi- 
ter, outros criam que era a lua,e outros que essa divindade se chamava 
Angerona. Mas a opinião mais geralmente recebida inclina va-se á deusa 
Opt consivia. Ops, como fica dito, era um dos nomes da Boa deusa. 
(1) Cie. de Harusp. resp. 



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— tu — 

taes, Entretanto cada uma «Testas divindades tinha seu templo, 
suas festas, seu culto e sua liturgia em separado ; mas, o que é 
mais importante para o nosso caso, a instituição do culto de uma 
e outra deusa datava de tempos muito diversos, e entre si dis- 
tantes. Ora Cícero levado de intenção oratória, confundiu em 
um só os dois cultos distinctos, a ttri buindo, ainda que vagamen- 
te, a Numa a instituição do culto da Boa deusa, quando só lhe 
cabia a honro de ter instituído o de Vesta. Esta deusa, de ori- 
gem egypcia, era muito conhecida em Itália afiles da fundação 
de Roma ; é sabido que Rómulo deveu' o ser a uma sacerdotisa 
do seu culto. Apesar porem d'esta circumstancia só no 'reinado 
de Numa é que a deusa Vesta alcançou templo dentro dos mu- 
ro» da cidade. O nosso poeta o diz 'neste mesmo poema (lj- 
Esta é a mesma era a que Cicero faz subir o culto da Soa 
deusa. Mas Ovidio, que distingue tanto as duas deusas, que pa- 
rece mesmo não suspeitar que entre ellas se podesse dar a mi- 
nima affinidade ; Ovidio, no mesmo passo que serve de texto a 
estas investigações, a descreve tempo muito posterior á inaugu- 
ração do culto da Boa deusa. Segundo o nosso poeta, o templo 
(Testa divindade, erecto na incosta do monte Palatina, foi con- 
sagrado pela herdeira da antiga família dos Clausos, virgem de 
acrisolada pureza. Esta virgem é aquella Claudia Quinta, cuja 
castidade se tornou tão famosa pelo prodígio operado em seu fa- 
vor pela deusa Cybéle, quando a sua estatua foi introduzida em 
Roma. Esta solemnidade, que 'neste mesmo livro se descreve (2), 
aconteceu no consulado de P. Sempronio e Marco Cornelio, 550 
annos da fundação de Roma, e cinco séculos depois que Numa 
instituirá o culto da deusa Vesta. Tinha-se chegado ao decimo 
quinto anno da guerra púnica ; preparava-se Roma para passar 



(i) Fast. L. vi, v. 257. 
(2) Fast. L. iv, v. 505. 



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— MS — 

á Africa a descarregar o golpe que devia libertei-* para sempre 
de uma perigosa rivaL 

Então, segimjo Tito Livio, a aociedade era immensa; as»* 
pentiçdo* exalta&do os ânimos, multiplicava os prodígios; o se* 
nados «prrespoadeodo a esta eraatatfo popular»., ordenava preces 
aos deuses;. os procissões percorriam a cidade, e finalmente no- 
vos cultas avaua introduzidos em Roma (1). A fiarmos credito a 
Ovidip, foi pois 'nesta crise solemne qae o culto da Boa deusa 
foi iaatituido, e o seU: templo erecto no monte Palatino. A gravi- 
dade' 4afe circunstancias aoonselhava a superstição romana a re- 
forçar~ee com a proteoçfto de uma divindade, a quem confiassem 
a tutela da cidade, cujo nome, segundo suas supersticiosas cau- 
tellas, fosse um segredo pára todas, p«ra o ser lambem para seus 
inimigos. ■> ■ 

Que Cícero ni&o escrupulisa em identificar as duas divinda- 
des, é manifesto das suas invectivas contra Cláudio. No anno 512 
de Roma, o templo da deusa Vesta foi presa de um terrível in- 
cêndio. O Paládio da cidade, que alli se guardava com grande 
veneração, estava ameaçado de ser devorado pelas chammas. Não 
era o perigo de ser victima d'ellas que detinha os homens, era 
o terror de profanar o templo que lhe? paralisava o esforço. Foi 
eatto que Q. MeAello, um dos ascendentes de Cláudio, ousou at- 
bantar um e ftitro perigo, e conseguiu salvar o Paládio. O re- 
sultado foi ficar cego, o. que a superstição aUribuíu, não & furta 
do incêndio, mas ao sacrilégio de penetrar no santuário da deur 
sa (2). Cícero, confronUado este acto de heroicidade com a infa- 
ma profanação de Cláudio, apostropba assim o sacrílego : « £ Quem 
das teus maiores, que não só tiveram a seu cargo os diversos 
caHps particulares, mas -que presidiram aos cultos puhlicoa, quem 

(1) TU. Liv. L. 29, c. 14. 

(2) Vid. Fastos L. 6, v. 455 e Plínio L. 7, c. 43. 



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— 116 — 

(Telles ouviste qtte assistisse aos mysterioa da Boa deusa? Ne- 
nhum, nem mesmo aquelle que foi instantaneamente fulminado 
de cegueira ; aquelle, que nada viu, foi ferido na luz dos olhos ; 
este, que nfto só com a vista, mas com um infame estupro pol- 
luiu as ceremonias, se não perdeu a luz dos olhos, perdeu a lux 
do intendimento. » A identidade dos. dois cultos e das duas deu- 
sas parece-me aqui bem estabelecida ; mas o testemunho de Va- 
lério Máximo acaba de tirar toda a duvida. Alludindo á profa- 
nação dos mysterios da Boa deusa, diz elle, que este Cláudio, 
depois de ter sido accusado pelos três lentulos, viera a tomar a 
' defeza de um d'elles, accusado de suborno, « Este procedimento, 
diz V. Máximo, prova a generosidade de Cláudio, que nSo duvi- 
dou reconciliar-se com aquelle que outr'ora fôrp seu accusador, 
tendo diante dos olhos aquelle mesmo templo de Vesta, que tio 
fatal esteve para lhe ser, » (1). 

II 

CULTO DA BOA DEUSA 

As festas nocturnas que o paganismo celebrava em grande 
numero, chegaram a produzir tantos escândalos, que o senado 
as prohibiu, e só tolerou aquellas que se celebftvam conforme 
os antigos ritos. D'este numero eram as que se faziam em honra 
da Boa deusa. 

Celebrava-se esta annual solemnidade no 1.° de maio, n&o 
no templo da deusa, mas na casa d'um dos primeiros, magistra- 
dos da republica. Chegado esse praso, o cônsul ou o pretor; em 
cuja casa tinha de fazer-se o sacrifício, seguido de todas as pes- 
soas do seu sexo, largava a sua habitação, e ia hospedar-ae na 

. (1) Vai. Max. de reconciliatione. 



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— 117 — 

de um amigo em quanto duravam as festas. O ritual era tão se- 
vero a respeito da exclusão do sexo masculino, que até os ani- 
maes machos eram postos fora da casa. Ainda mais : as pinturas 
que os representavam, os retratos e estatuas de homens eram 
igualmente removidas, ou cobertas com véus (1). Juvenal, ridi- 
culisando esta supersticiosa precaução, diz, que por essa occa- 
sião os próprios ratos,' cônscios de trazerem em si os signaes do 
género profano, tractaram de se evadir de casa (2). O palácio 
do magistrado era então invadido por uma multidão de mulhe- 
res de todas as classes da sociedade. Vestaes, e matronas de pri- 
meira nobreza acotovelavam-se com as libertas, escravas e p$alr- 
tria$y que com seus instrumentos músicos vinham tomar parte 
na festa, e concorriam para a sua animação. No altar da deusa 
ardia, como no templo de Vesta, o fogo eterno. Em logar con- 
veniente collocava-se uma amphora cheia de vinho generoso, com 
que se faziam não parcas libaçOes, se dermos credito á cynica 
musa de Juvenal. O modo odioso por que o vinho figurava na 
lenda da Boa deusa, fazia com que 'naquelle sacrifício se lhe 
desse o nome de leite, e, não sei porque contradicção, o vaso 
que o continha se chamava vos mellarium. Pelo mesmo motivo 
o myrto, com que a deusa tinha sido açoitada, era banido do re- 
cinto sagrado, onde os dons de Flora, oflertados á deusa, exha- 
iavam seus perfumes. Entretanto as mulheres vestidas de bran- 
co, cingiam a cabeça de ramos de vide, e, para cumulo de con- 
tradicções, o logar que era considerado pelas instituições reli- 
giosas eomo o santuário da castidade e das virtudes femeninas, 
veiu a passar por ser o theatro da mais infame devassidão. 

Um dos mais famosos acontecimentos da historia romana ertá 
ligado ao culto da Boa deusa. No consulado de Cícero, perten- 

(1) Juven. Saty 6. Séneca ad Lucili. 

(2) Sat. 6. 



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— 218 — 

ceu a Terencia sua esposa* presidir 6 mysteriosa sotenwridade, O 
cônsul, excluído de casa, conferenciava na de um amigo, seu 
visinho, cora os senadores da sua intima confiança acerca do ex- 
termínio de Catilina e de seus cumplioes. O perigo, no caso de 
falhar o golpe, era grande, e os amigos do cônsul trepidaram. 
No momento opportuno, apparece Terencia com ar de inspira- 
da, e ordena ao cônsul que prosiga ousadamente na sua obra : a 
Boa deusa acabava de revelar, por um prodígio manifestado na 
charama sagrado, que a morte dos conjurados era indispensável 
para a salvação da republica. Cícero tinha os actores de casa. 
Alem de Terencia, revestida 'naquella occasifto do caracter de 
siimraa sacerdotisa, uma irmft do cônsul era Vestal. Com estes 
elementos fácil lhe foi arranjar um d'esses prodígios que nunca 
faltavam nas crises politicas de Roma (1). 



III 



MYSTERIOS DA BOA DECSA 

' i Mas que mysterios tôo recônditos eram esses, que só mu- 
lheres podiam presenciar? Um escriptor francez do século pas- 
sado, que fez profundos estudos sobre a origem de todos os cul- 
to*, pretende que o culto da Boa deusa tinha uma significação 
astronómica, como toda a mythologta que do Egypto passara 
para a Europa. Dupuis (2) pensa que a festa d'aqueUa. divindade 
representava o nascimento da constellação da cabra Àraalthea e 
da belia estrella do Cocheiro. O apparecimento d'estas estreitas 
sobre o horísonte, que coincide com a celebração dos mysterios 
da Boa deusa, vem annunciar a quadra em que a terra, que esta 

(1) Plut. vit. Cie. Middletoit, hist. de Cie. t. t, p. 323. 

(2) Orig. de tous les cultes. 



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— 219 — 

deusa também representara, desinvolve toda a sua fecundidade, 
cobrindo~se os campos de verdura, e os vergéis de flores. O co- 
cheiro equinoxial Myrtilo, que se representa brandindo ura açoi- 
te, teria ministrado a alhttão á aventura da deusa, açoitada por 
sen pai com ramos de myrto. Assim, por uma parte, as forças 
productívas dá terra, symbolisadas pela fecundidade lia mulher, 
e, por outro lado, as aventuras de que se compunha a lenda da 
Boa deusa, teriam dado os elementos de um auto ou mysterio, 
que seria representado pelas mulheres, durante aquellas solem- 
ntdades. Ahi se veria, por exemplo, a .flagellação da densa, a sua 
embriaguez, e até um simulacro do attentado contra a sua pu- 
dicícia. Sabido è que o espirito symbolico do polytheismo auto- 
rizava as mais incríveis praticas, sob a forma de mysteríos reli- 
giosos. Mas a conjectura de Dupuis não se basèa só 'nestas es-» 
pecuiaçdes, mais ou menos arriscadas. À má reputação dos mys- 
teríos da Boa deusa no tempo de Juvenal, e o famoso attentado 
de Cláudio, dão4he um alto grau de plausibilidade. 

Tendo-me proposto dar ás questões connexas com a historia 
da Boa deusa maior desin volvi mento do que até agora se lhe tem 
dado, não posso prescindir de citas* um trecho, ainda que melin- 
droso, de uma satyra de Juvenal, que julgo da maior importância 
para a elucidaç&o de seus mysteríos. Procurarei mitigar, quanto 
for possível, o seu cynismo, sem oomtudo lhe tirar o seu valor his- 
tórico. « Hoje, diz o satyrico romano na furibunda satyra coo- 
tra as mulhefes, hoje são conhecidos os mysteríos da Boa deusa; 
quando, excitadas pelos sons da flauta e pelos vapores do vinho, 
as mulheres, quaes outras ménades se agitam como possessas, e 
com os cabellos espalhados clamam em altos brados pelo deus 
Priápo. Como ellas se abrasam então em ardores impuros]! Que 
gritos lhes não arranca o delírio do desejo! Que torrente de vi- 
nho velho lhes não alaga as pernas ! Santella, cingida de uma 
coroa, desafia as mais despresiveis prostitutas e alcança o premio 



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— 120 — 

de lubricidade. Depois, ella mesma se extasia á vista da agili- 
dade lasciva de Medulina. É mais nobre a que alcança a palma 
'nestas luctas obscenas. Ahi nada é simulado, tudo se faz tanto 
ao vivo, que poderia incendiar os regelados membros do velbo 
Priamo, ou do próprio Nestor. O estimulo cada vez mais pungente 
não admitte demoras ; mas a mulher não vè em roda de st se- 
nlo pessoas do seu sexo ; então 'naquelle antro de obscenidade 
eceóa um clamor unisono : « Homens ! venham homens, a densa 
o permitte ! » Adormeceu o amante ? va-se chamar a toda a pres- 
sa. Na falta d'elle os mesmos escravos servem, e, á (alta d*es- 
cravos, contentam-se com um infame machininmo (1). 

Este quadro é de certo de uma monstruosa exaggeração, mas 
é possível que a crescente corrupção dos costumes antigos inci- 
tasse Juvenal a parodiar com similhante virulência os degenera- 
dos mysterios da Boa deusa. Entretanto a exaggeração presuppoe 
um certo fundo de realidade, e a historia não deixa de ofere- 
cer, se não justos fundamentos, pelo menos plausíveis pretextos 
para as desgrenhadas invectivas de Juvenal. Um grande escân- 
dalo, acontecido nos últimos templos da republiea, fez crer que 
já então, se não em todos os tempos, se passavam no santuário 
da Boa deusa scenas pouco edificativas aos olhos d'um profa- 
no, embora as intenções mysticas fossem as mais puras para seus 
actores. Alludo à profanação dos mysterios da Boa deusa, a que 
por vezes me tenho referido. A aventura libertina de Cláudio 
merece, alem disso, ser contada, como um famoso acontecimento 
na historia da Boa deusa. 



(I) Juv. Sat. 6 



abstuleris spem 

Sorvorum, Yeniet eonducl** aguarins. 



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— Ml — 
IV 

PROFANAÇÃO DOS MYSTERIOS POR CLÁUDIO 

Poblio Cláudio, descendente de uma das mais nobres famílias de 
Roma» ainda moço, senador, eloquente, senhor de uma immensa 
fortuna, e não desdizendo do appelHdo de Formoso (Pulcher) que 
herdara de seus maiores, juntava a estas brilhantes qualidades, 
animo atrevido, turbulento e costumes devassos. Amava Cláudio 
a Pompeia, mulher de César, já entto um dos primeiros cidadãos 
de ttoma, e investido nas altas funcções da pretura. A nobre 
matrona nfto descoroçoava as atrevidas pretenções do mancebo ; 
mas vigiada severamente por Aurélia, mãi de César, os encon- 
tros com sua amante eram difficeis e muito arriscados. 'Neste 
anno tocava a Pompeia, mulher do pretor, celebrar a festa da 
Boa denta. Os dois amantes concertaram entre si aproveitar~se 
d'esaa occasiâo para se avistarem. Cláudio ainda imberbe disfar- 
çoo-se em trajo de psaltria, e assim conseguiu introduzir-se no 
palácio de César, auxiliado por uma escrava confidente de Pom- 
peia. A escrava deixando-o só 'num corredor, foi dar parte a sua 
senhora da chegada do amante. Cláudio, vendo que a escrava se 
demorava, foi penetrando pelos vastos aposentos do palácio, que 
lhe era desconhecido, até que foi incontrado por Abra, creada 
de Aurélia. Pensando tractar com uma pessoa do seu sexo, Abra 
começou, diz Plutarco, a fazer-lhe blandícias, e a provocado a 
folgar com ella. Esquivava-se a falsa psaltria, mas attraido in- 
sensivelmente por Abra para a sala da reunião, e delatado alem 
<T»so pela sua voz masculina, Cláudio foi descoberto. Aprovei- 
taodo-se do temor e confus&o causados por sua presença, Cláudio 
pôde evadir-se com auxilio da confidente de Pompeia. Aurélia 
fez immediatamente cessar o sacrifício ; cobriu com um veu as 



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— 222 — 

coisas sagradas, e ordenou que se desse uma rigorosa busca em 
toda a casa. Encontrado afinal no quarto da escrava, Cláudio foi 
ignominiosamente expulso do palácio do pretor. No dia seguinte 
a abominável profanação, sabida por toda a cidade, produziu 
uma profunda sensação. Instaurou-se processo contra Cláudio. 
César repudiou immediatamen te sua mulher, mas sendo chama- 
do a depor contra o demagogo, com quem estava estreitamente 
Kgado por interesses de facção, respondeu que 00 factos allega- 
dos na accusação lhe eram desconhecidos. 1 Por que pois repudiaste 
Pompeia ? redarguiu o accusador. « Porque á mulher de César não 
lhe basta o ser pura ; é preciso que seja isenta de toda a sus- 
peito. » Tal foi a famosa resposta com que o altivo petricio quix 
combinar as exigências do pundonor com os interesses da ambi- 
ção. Cláudio tinha allegado um alibi em sua defeca, e para pro- 
var a sua ausência da cidade na noite em que se lhe attribuia o 
seu crime, metteu o nome de Cicero no rol das testemunhas. Ê 
verdade que elle tinha desertado do partido do antigo cônsul, mas 
os importantes serviços que lhe tinha prestado no seu consulado, 
lhe faziam esperar que o grande orador viria em seu auxilio com 
toda a autoridade do seu nome, 'naquella perigosa conjunctura. 
As suas esperanças foram illudidas ; Cicero, sem duvida por um 
sentimento de dever, e não por intrigas ridículas, como inculca 
Plutarco, não foi tão condescendente como o ultrajado pretor, 
e depdz contra o reu. Apesar d'isso, e da notoriedade do beto, 
taes foram os meios de corrupção e de terror empregados con- 
tra os juizes, que Cláudio foi absolvido por maioria de votos (1). 
Desde esse momento, entre o homem nato defensor da ordem 
senatoria, e o patrício demagogo, se declarou uma guerra im-> 



(1) Sobre o processo de Cláudio eos inauditos meios de corrupção 
empregados para obter a sua absolvição, vej. Cie. Epist. ad Attic. L. 1, 
ep. 16* 



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— 128 — 

placaveL As peripécias succederam. rapidamente 'neste terrivel 
drama de sedições e ementas violência v que apressou almeida 
da liberdade romana. Esta Jucta deu origem a algumas das mais 
brilhantes orações de Cícero, taes como a pro domo sua, de Han 
ruçrícut» responsis e pro Milone. É 'nellas que se, incontra o que 
sabemos de mais autbeotico sobre este acontecimento, e acerca 
da divindade chamada a.ltaa deu**. 

A narração que deixo feita é. tirada das duas que Plutarco 
fai d'*ste notável succeaso, nas biographias- de Gesar e de Cíce- 
ro, Em nenhum outro autor antigo se ineontra a aventura, da 
Cláudio &Q eircuraatanciadau A dar-lhe inteiro credito, Cláudio 
introduzindo-se no palácio de Pompeia durante a celebração dos 
mistérios, só teve em vista aproveitar a ausência forçada de seu 
marido, para mais* a seu salvo satisfazer sua criminosa paixão. 
Entretanto confrontando a versão de Plutarco com as numero- 
sas allosôes de Cícero ao mesmo succeaso, é licito crer que o 
biograpb* grego não é rigorosamente exacto em todos os pontos 
da sua narração. Dupuis conjectura que Cláudio não se arrisca-* 
caria áqueUa temerária aventura, se não fosse levado pelo desejo 
de presencear os estranhos mysterios da Boa deusa. « As damas 
romanas* diz Dupuis, não teriam levado • a devoção tão longe 

como as egypcias roas se ali se não passasse alguma scena 

luhrica e divertida para um moço libertino, Cláudio não exigiria 
de soa amante uma: condescendência, cujos resaltados podiam ser 
tio funestos para ambos. » As razões de analogia entre os mys- 
terios da Boa deum e outros de um caracter licencioso, que sa- 
bemos o paganismo celebrou no Egypto, na Grccia e na mesma 
Itália, e a furiosa satyra de Juvenal, dão uma certa plausibili- 
dade á conjectura do autor franoez ; mas ella adquirirá um alto 
grau de probabilidade» senão de certeza, se corrigirmos a narra* 
çâo de Plutarco pelas palavras de CiCero. 

Em primeiro logar parece -me pouco verosímil que o interior 



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— «24 — 

da casa de César fosse t&o desconhecido a Cláudio, que d'ahi pro- 
viessem parte a sua desgraça. Cláudio era um dos mais conspí- 
cuos e activos corifeus da facção de que César era chefe ; fora em 
obsequio a essas intimas relações que o ambicioso patrício tinha 
^dissimulado o ultraje feito á sua honra. Ainda* depois do seu pro- 
cesso, o demagogo se jactava em pleno senado d'essa valiosa inti- 
midade, produzindo cartas que César lhe dirigia das Gallias, no 
tempo da mais cordial familiaridade (1). Entre homens assim re- 
lacionados, pertencentes ambos á mais aka aristocracia de Roma, 
h&o é de presumir que faltassem os banquetes, as visitas, as confe- 
rencias e outras occasiftes de mutuo accesso ás habitações um do 
outro. Mas se na verdade Cláudio introu tanto âs cegas na casa 
do pretor, muito menos crivei é que a escrava de Pompeia, pos- 
tada expressamente á porta do palácio para o receber, em vez de 
o conduzir immediatamente a um logar seguro, o deixasse estou- 
vadamente 'num corredor, exposto á curiosidade de uma multi- 
dão de mulheres, que se achavam dentro do edifício. A invero- 
similhança augraenta, quando Plutarco nos descreve Cláudio, at- 
traido atravez de tantas, salas pelos affagos de Abra até ao pró- 
prio logar em que se celebravam os mysterios. A probabilidade 
está em que elle para ahi se dirigisse espontaneamente. Se esse 
não fora o seu verdadeiro destino, a escrava de Pompeia o teria 
desde logo conduzido para o seu quarto, onde depois foi incon- 
trado. As liberdades de Abra com uma pessoa que ella julgava 
do seu sexo e da sua condição; liberdades de que provavel- 
mente resultou descobrir-se que o vestido de mulher lhe não po- 
dia pertencer ; o facto de ter sido este reconhecimento no mesmo 
logar do sacrifício ; emfim o próprio trajo de pmltria, que lhe 
proporcionava a vantagem de presencear o espectáculo, conser- 
vando-se afastado de uma classe, onde mais facilmente poderia 

(1) Cie. pro domo sua. 



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_225 — 

ser reconhecido pelas clamas da alta aristocracia ; todas estas cir- 
cumstancias conspiram para fazer acreditar que o atrevido man- 
cebo se propoz assistir aos vedados mysterios, que com effeito 
chegou a presencear, e, para assim dizer, a tomar 'nelles parte. 
Talvez na sua cega temeridade, elle não tivesse oalculado todo o 
perigo do seu arrojo, e não presumisse que havia de encontrar 
'naquelle recinto uma tão fervorosa devota do culto, como lhe 
saiu a escrava de Aurélia. É isto que as allusões de Cicero, ainda 
que cautelosas, como o pedia o respeito do culto, vem, a meu 
ver, confirmar. 

Cicero, em uma de suas orações, tinha que defender-se das 
accusações de impiedade que este desprezador dos deuses lhe pro- 
movia. Dirigindo-se então aos pontífices, diz elle ironicamente, 
mas de um modo que parece revelar os verdadeiros motivos de 
Cláudio : « Ora vede, ó pontífices, Yêde que homem tão religioso ! 
Se o julgardes acertado, Yisto que isso pertencia ao vosso sa- 
grado ministério, adverti-o de que na mesma devoção se deve 
guardar uma certa moderação* Não convém ser demasiado su- 
persticioso, i Pois que necessidade tinhas tu, continua Cicero, no 
mesmo tom sarcástico, voltando-se para Cláudio, que necessidade 
tinhas tu, levado por uma superstição de velha, de presencear o 
sacrifício que se fazia na casa alheia ? Que simplicidade a tua de 
pensares que os deuses se não podem propiciar, se tu não to- 
mares parte 'num culto só próprio das mulheres ! (1) » Depois se- 
gue-se o parollelo entre a dedicaçãotde Quinto Metello e o atten- 
tado de Cláudio, onde, como já vimos, Cicero diz expressamente 
que seu perseguidor assistira (interfuim) aos mysterios da deusa. 
Em outra de suas orações, depois de incarecer a santidade dos 
mysterios, acrescenta : « Não ha memoria de que tão augustos 
mysterios fossem nunca violados , ou tratados com desprezo ; nunca 

(1) Cie. pro domo sua. 
TOM. III. IS 



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— Í26 — 

homem algum deixou de possuir-se de horror â simples idéa de 
os ver; só Cláudio teve o arrojo de os presencear (1). » 

Desinvolvendo e fundamentando a hypothese de Dupuis, tive 
em vista elucidar um facto histórico e por elle um ponto pouco 
averiguado da mythologia romana. Estou porem convencido de 
que todo o descrédito accumulado por antigos e modernos sobre 
os mysterios da Boa deusa é somente devido ao attentado de 
Gáudio. Por mais estranhas que podessem parecer aos nossos 
olhos as scenas que se passassem no santuário da deusa, longe 
' da vista profana dos homens, nem antes nem depois d'aquelle 
desacato, ha noticia de outro facto, que prove que o abuso das 
intenções raystícas das ceremonias tivesse chegado ás monstruo- 
sas orgias que descreve Juvenal. Os poetas, e entre outros o 
nosso autor (2), serviram-se d'aquelle grande escândalo para dis- 
pararem sobre as pobres mulheres seus epigrammas libertinos. 
A mesma diatribe de Juvenal é suggerida pela aventura de Cláu- 
dio (3). Os modernos, tomando estas exaggeraçôes ao pé da le- 
tra, converteram o santuário da deusa 'num verdadeiro centro 
de prostituição (4). Por muito tempo se pensou que os artistas 
em Roma se tinham também apoderado do assumpto. Suppu- 
nha-se que na ViUa Pamfili, em Roma, existia uma estatua de 
mármore antigo que representava Cláudio no trajo de psaltria. 
Winkelman, e outros depois d'elle, desfizeram esta illuslo (8). 

(1) Cie. a Hanop. resp. % 

(2) Vej. Ovid. Ars amandi 3, v. 637. 

(3) omnes 

Noverunl e Mauri atque Judei, quaa psaltria penem 
Majprem quam sunt duo Caesaris Anticatones, 
Uluc, testiculi sibi conscius, unde fugit mus, 
Intulerit, ubi velari pictura jubetur, 

£ua* cuirçue alteríus sexus imitata figura est. * 

Juv. Saty. 6, v. 336. 

(4) Vej. Alex. ab Alexandro, Geniales dies t. vi, c. 8. 

(5) Winkelman*s Werke s. Band, s. 465. 



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— 227 — 



TEMPLO DA BOA DEUSA 

Mais duas palavras acerca dos templos da Boa deusa. Cíce- 
ro diz que o templo d'esta divindade estava 'num prédio de T. 
Sexto Gallo, mancebo illustre, e que junto d'elle recebera Cláu- 
dio o golpe de que morrera no conflicto com Milão (1) ; Seria 
este templo diverso d'aquelle mencionado pelo nosso poeta, na 
incosta do monte Palatino? Ignoro-e. Este era edificado sobre 
um morro chamado a rocha sagrada, e por esse motivo se dava 
também á deusa o nome de Bona dea subsaxanea. Atex. ab Ale- 
xandra faz menção de outro templo d'esta deusa situado na via 
nova, junto de outro dedicado à deusa bis (2). 

JOSÉ GOMES MONTEIRO. 



NOTA SEXTA 

PAGINA 21 — VERSO a 
BAIRROS DfiRMU 

Roma, a cidade por excellencia, circunscripta ao monte Pala- 
tino por seu fundador ou restaurador Romuk), e por elle aug- 



(1) Cie. pro Milone. 

(2) Genial, dies. Hv. 6, c. 8. 

15* 



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— 228 — 

mentada depois com o Capilolino, foi successivamente ampliada 
por seus successores. Tulto Hostilio ajuntou-Ihe o monte Celio; 
Anco Mareio o Aventino, e, transpondo o Tibre, parte do Ja- 
niculo. Sérvio Tullio annexando-lhe o Quirinal, o Viminal, e o 
Esquilino, cingiu a cidade de novos muros, que foram fortifica- 
dos por Tarquinio o soberbo. 

Este recinto teve o seu maior desinvolvimento no império 
de Aureliano. A forte muralha que em seu tempo se fabricou 
tinha um giro de treze a quinze milhas, segundo os melhores 
cakulos. Das vinte e duas portas que davam ingresso à cidade 
omitto os nomes para não ser prolixo. Apontarei comtudo a Ro- 
manuta, a Mugonia e a Trigo ni a, por serem as primitivas, e ás 
quaes acresceram a Carmental e a Janual no segundo recinto 
de Rómulo. 

Sem me fazer cargo da divisão ordenada "por Sérvio Tullio 
em quatro bairros, conhecidos pelos nomes de regiões Suburana, 
Esquilina, Collina e Palatina, descreverei, o mais resumidamente 
que me fôr. possível, os quatorze bairros em que Augusto dividiu 
a capital do seu império, por ser esse o meu propósito. 

O primeiro bairro (régio) era o da Porta Capena. Ahi pri- 
mava, extramuros, o famoso templo de Marte, restaurado por Au- 
gusto, e ahi tiveram assento os templos votados por Marcello á 
honra e á virtude ; o da Tempestade, mandado construir por Me- 
tello, pelo perigo em que se vira com a sua armada ao subju- 
gar a Córsega; os dedicados a Minerva, Mercúrio e outros; as 
thermas de Severo e Commodo ; o arco de Druso ; o circo de 
Caracalla ; o lago ou fonte de Vespasiano etc. As moradas (for 
sulae), segundo os cálculos de Publio Victor e Sesto Bufo, as- 
cendiam 'neste bairro a quatro mil duzentas e cincoenta, as ca- 
sas principaes e melhores (domai) a cento e vinte uma. 

O segundo era o Celimontano. Pertenciam a este bairro o tem- 
plo de Baccho, o de Cláudio e outros ; o campo Marcial ; o mer- 



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— 229 — 

cado maior (maceUum magnum) ; a casa de Cláudio Ceotimalo, 
mandada demolir pelos augures para melhor desempenho do seu 
ministério ; a bella estatufe equestre em bronze de Marco Auré- 
lio, junto á casa em que fora creado etc. Aqui as moradas or- 
çaram em três mil, e as casas maiores em cento e trinta e três* 

O terceiro era o de Isis e Serapis, que ahi tinham um tem- 
plo. Indicarei como fazendo parte d 9 este bairro o amphitheatro 
Flávio, mais conhecido pelo nome de Coliseu, fundado por Ves- 
pasiano, e onde se accommodavara oitenta e sete mil espectado- 
res ; o pórtico de Lívia, construído por Augusto ; a casa de Plí- 
nio o moço ; as thermas de Tito ; os jardins de Nero etc. As 
moradas subiam a duas mil oitocentas e sete, e as casas maiores 
a cento e sessenta. 

O quarto era o da Via Sacra, ou do Templo da Paz ; tem- 
plo famoso, onde Vespasiano depositou os melhores despojos do 
templo de Jerusalém, destruído por Tito. Assignam a este bair- 
ro o arco Fabiano ; o magnifico templo da Concórdia, construí- 
do porXâvia; o de Faustina; os de Vénus e Roma; o colosso 
do sol em mármore, de cento e vinte pés de alto ; a estatua 
equestre em bronze de Clelia ; a soberba casa áurea de Nero ; o 
arco de Tito ; as thermas de Domicio ; a sumptuosa casa de Pom- 
péo, que depois possuiu Marco António ; a de Spurio Cassio de- 
molida pelo povo ; o foro ou praça de Nerva, onde Alexandre 
Severo mandou matar, suífocado cora fumo, a Vetronio Turino, 
seu cortesão, por abusar das graças e favores do principe ; o tem- 
plo de Jano Quadrifronte etc. Moradas duas mil setecentas e 
cincoenta e sete, casas maiores cento e trinta e oito. 

O quinto bairro era o das Esquilias, a que allude o texto. 
Aqui o amphitheatro Castrense, e, extramuros, o Vivario, onde 
recolhiam os animaes destinados aos jogos e combates d'aquelle 
amphitheatro ; o circo e obelisco de Heliogabalo ; o templo de 
Minerva Medica ; o lago de Prometheo ; os Irofeos de Mário; a 



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casa doe Elios ; a de Virgílio, junto aos jardins de Mecenas * o 
campo Esquilino e o Viminal ; a casa de Sérvio Tullio ; os tem- 
plos e bosques dedicados a Juno Mefife e Lucina ; o theatro de 
nora, aonde concorria o povo ás danças lascivas dos jogos flo- 
raes; o mercado de Livia (macMum Livianum); o arco em 
honra de Galliano; as casas de Pérsio e Propercio; o lavacro 
de Agrippina, mài de Nero ; o templo de Júpiter Yimineo ; o 
Castro Pretório, ou alojamento das guardas pretorianas ; o tem- 
plo de Yenus Ericina, assim chamado de Erice, logar da Sicí- 
lia, d'onde fera trazido o seu simulacro ; o templo de Hercu- 
les, e o da Honra ; o monte Sacro, papa onde se retirara a pi** 
be romana desgostosa dos patrícios ; a famosa casa do juriscon-* 
sulto Aquilio etc. Contavam-se 'neste bairro três mil oitocentas 
e cineoenta moradas, e cento e oitenta casas maiores. 

O sexto era o Alta Semita. Ahi o templo de Ftdio ; o do 
Quirino, reconstruído pelo cônsul Lúcio Papirio, e onde este fez 
collocar o primeiro relógio do sol que se viu em Roma ; o da 
Fortuna Publica, e o dedicado à saúde por Junio Bubulco; o 
Senaculo ou senado das donas, onde se celebravam as matronaes , 
e outras festas solemnes ; as thermps de Constantino ; os dois ca- 
vsallos oolossaes em mármore pelo mesmo transportados de Ale- 
xandria ; o Capitólio antigo, fundado por Numa sobre o Quirí- 
nal, onde tinham culto Júpiter, Juno e Minerva ; o templo de 
Apqllo e outros ; o circo campestre de Flora ; as famosas ther- 
mas de Diocleciano, de que fazia parte a bibKotheca Ulpia, trans- 
ferida do templo de Trajano ; a casa e os jardins de Sallustio ; 
o pórtico miliariense de Aureliano ; o campo Scelerado, onde se* 
pultavam vivas as vestaes incestuosas; a casa de Pomponio At- 
tico etc. As moradas 'neste bairro perfaziam o numero de ires 
mil quinhentas e cinco, as casas maiores o de cento e quarenta 
e cinco. 

O sétimo era o da Via Lata. 'Nelle registam os autores a 



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— 231 — 

columna Tiburtioa; a casa de Marcial; o templo de Qairíuo, 
mandado construir por Augusto, e o do Sol, fundado por Aure- 
liano; o aqueducto da Agoa virgem, restaurado por Cláudio; o 
arco triumphal de Gordiano ; o de Vero e Marco Aurélio, e o 
de Donaiciano ; o templo dedicado á Fortuna Redux ; o pórtico 
de Constantino ; os cavallos em brome de Tiridates, rei da Ar- 
ménia; o campo d'Agrippa; o Deribitorio, onde se pagava & 
milícia e se faziam donativos ao povo ; o sepulcro de Caio Pu- 
blick), extramuros, e o da família Claudia ; a capella Capraria, 
assim chamada por ter esculpida a effigie da cabra Amalthea etc. 
Aqui as moradas subiam a três mil tresentas e oitenta e cinco, 
as casas maiores a cento e vinte, 

O oitavo e mais illustre era o do Foro Romano. Figuravam 
'neste bairro os Rostros, ou tribuna onde costumavam orar em 
publico ; a Cúria Hostilia ; o Comício, onde se promulgavam as 
leis e eram castigados os delinquentes ; a figueira Ruminai, de- 
baixo da qual, segundo a tradição, foram amamentados pela 
loba os dois gémeos Rómulo e Remo; a basílica Porcia, onde 
os tribunos da plebe administravam justiça ; o templo de Ró- 
mulo; o dos deuses Penates; o de Júlio César; o de Castor e 
Pollux ; o da Victoria, no mesmo sitio em que fora edificada é 
custa do povo a casa de Valério Publicola ; o átrio de Vesta, 
no logar onde existira a regia ou palácio de Numa ; o templo e 
o bosque d'aquella deusa, onde se conservava e adorava sobre os 
altares o fogo perenne, alimentado peias vestaes, a cuja gnarda 
fÒra confiado o Palladio tutelar, ou simulacro de Minerva, trasido 
da Grécia ; a basílica Júlia, com os quatro tribunaes em que se 
subdividia ; o arco de Septimio Severo e o de Tibério ; o templo 
da Concórdia e o de Vespasiano ; o da Saturno, onde se estabele- 
cera o erário romano ; a columna miliaria erigida por Augusto ; a 
estatua equestre em bronze de Domiciano, no logar onde se dúia 
ter existido o lago Curcio ; a Cloaca Máxima, obra dos Tarqui- 



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— 132 — 

tiios ; a columna rostral de Duilio, e as dedicadas a Júlio César, 
Cláudio e outros; o templo de Jano Quirino; a Choncellaria 
Senatorial (secretariam senatus) ; o foro de César e o templo de 
Vénus Genitrix ; a estatua equestre em bronze doirado do mes- 
mo César ; o foro de Augusto e' o templo de Marte vencedor, 
onde se reunia o senado em occasiôes de guerra ; o sumptuoso 
foro de Trajano e os edifícios adjacentes ; a soberba columna ao 
mesmo dedicada pelo senado ; o templo da Fortuna, construído 
por Lucullo ; o foro Boario e os templos contíguos ; a tocha Tar- 
peia ; o templo de Juno Moneta, e o de Júpiter Tonante, dedi- 
cado por Augusto ; o cárcere Tulliano, onde incerravam os con- 
demnados á morte, cujos cadáveres depois, à vista das turbas, 
eram lançados aos degraus das gemonías, e arrojados ao Ti- 
bre pelo algoz ; o templo do Asilo sobre o Capitólio ; a biblio- 
theca capitolina ; o Atheneu fundado por Adriano ; o templo de 
Júpiter Óptimo Máximo, onde as estatuas, as pinturas, os escu- 
dos, os despojos dos inimigos, os troféos, as jóias e os metaes pre^ 
ciosos avultavam em tanta copia que o tornaram um dos mais 
famosos da antiguidade. Nas visinhanças do Capitólio tinha Oví- 
dio a sua residência, como se deixa ver do que elle mesmo es- 
creve na elegia 3. a liv. i. dos Tristes: 

et adhuc Gapitolia cernens 

Quae nostro frustra j une ta fuere lari. 

As moradas 'neste bairro eram em numero de três mil oi- 
tocentas e oitenta, as casas maiores de cento e cincoenta. 

Ao nono bairro deu o nome o Circo Flaminio. Ahi regis- 
tam o pórtico, a escola, a cúria e a bibliotheca de Octavia, ir* 
mã de Augusto ; o templo de Apollo ; o theatro em honra de 
Marcello, edificado por Augusto ; o templo de Bellona e a co- 
lumna bellica ; os dois templos dedicados a Hercules, um deao- 
minado das Musas (Herculis Musarum) outro Custode; os de 



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— 233 — 

Vulcano e Neptuno ; os de Juno, Diana e Marte ; o theatro de 
Pompéo, que foi o primeiro edifício permanente d'este género 
que se fez em Roma, e onde, segundo afirmam, havia togares para 
oitenta mil espectadores ; o templo de Vénus vencedora, e o da 
Fortuna equestre ; a cúria de' Pompéo, onde mataram a César ; 
o pórtico de Octávio e o de Filippo; o soberbo pantheon de 
Agrippa ; as tbermas e os jardins que este por sua morte legou 
ao publico ; o Campo Mareio, onde se celebravam os jogos mar- 
ciaes e equestres ; as therraas de Nero, denominadas depois Ale- 
xandrinas ; a casa particular e o circo de Alexandre Pio ; o sum- 
ptuoso mausoléu de Augusto ; o relógio do sol, e o obelisco que 
lhe servia de gnomon, transportado de Hieropolis no Egypto por 
ordem do mesmo imperador ; o recinto ou estacada (septa, ovile), 
onde as tribus do povo romano eram chamadas a dar os seus suf- 
fragios; a Vi lia Publica, ou palácio em que se alojavam os em- 
baixadores do inimigo; o pórtico de Europa; os amphitheatros 
de StatiKo Tauro e de Trajaho ; o theatro de Balbo ; o campo 
menor e os passeios adjacentes ; o pórtico de Pompéo e o das 
cem columnas, denominado por isso Hecatonstylon ; o colosso 
de Júpiter, eregido por Cláudio ; o arco dedicado ao mesmo im- 
perador, e o de Marco Aurélio ; o templo e a columna de An- 
tonino Pio ; o pórtico dos Argonautas ; o templo de Isis, e o de 
Minerva Chalcidica ; a Naumachia de Domiciano ; os jardins de 
LucuIIo ete. Contavam-se 'neste bairro duas mil setecentas e se- 
tenta e quatro moradas, e cento e quarenta casas maiores. 

O decimo era o do Palácio sobre o monte Palatino. Aqui se 
diriam situadas a caverna Lupercal, próxima á figueira de que 
acima se fez memoria ; a casa de Rómulo, e a quadrada ; a Cú- 
ria antiga ; a dos Salios etc. 'Neste bairro edificou Augusto o 
palácio Augusta], sede do império romano, d'onde tomaram o 
naroe de palácios as casas maiores, e mais esplendidas. D'elle fa- 
ziam parte a casa e a bibliotheca Tiberiana, o templo de Cali- 



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— 23í — 

gula etc. Da extraordinária magnificência e riqueza com que foi 
ampliado por Nero dão testimunho Suetonio e Tácito. Sobre o 
Palatino primavam também o famoso templo de Apollo, onde os 
poetas costumavam recitar em publico as suas obras ; o pórtico 
e a bibliotheca adjacente; a ponte de Calligala; o templo de 
Vesta ; o de Augusto, começado por Livia e concluído por Ti- 
bério ; os de Baccho e Cybele ; o de Júpiter Stator e outros ; o 
arco de Constantino; a sumptuosa casa de Quinto Catulo; as 
de Lúcio Crasso, Cícero, e Cláudio ; a de Marco António etc. As 
moradas sommavam duas mil seiscentas e sessenta e quatro, as 
casas maiores oitenta e oito. 

O undécimo era o do Circo Máximo, que deu o nome a to- 
do o bailm 'Neste circo, de dois mil cento e oitenta e sete pés 
de comprido, e novecentos e sessenta de largo, assistiam aos jo- 
gos circenses duzentas e sessenta mil pessoas, segundo escreve Plí- 
nio. Construído primitivamente por Tarquinio Prisco, foi amplia- 
do e restaurado por Júlio César, e por alguns dos seus succes- 
sores, que o aformosearam com um sem numero de columnas, 
estatuas e obeliscos. Junto ao circo notavam-se o templo do Sol, 
e o da Juventude ; o dedicado a Baccho, Ceres e Prosérpina por 
Aulo Postumio Dictador ; os de Flora, Vénus, Mercúrio e ou- 
tros ; a Ara Máxima, onde se prestavam os juramentos soiem- 
nes. Pertenciam igualmente a este bairro o templo da Fortuna 
Viril ; a casa de Quinto Cícero ; o foro Olitorio ; a columna La- 
ctaria ; o templo de Jano, votado por Duilio e dedicado por Ti- 
bério ; o da Piedade ; o da Esperança etc. Aqui as moradas su- 
biam a duas mil e sessenta, as casas maiores a oitenta e nove. 

O duodécimo era o da Piscina Publica, que assim se cha- 
mava um antigo reservatório destinado aos exercícios de nata- 
ção. 'Neste bairro foram construídas por Antonino Caracalla as 
thermas denominadas Antoninianas ; ahi figuravam também ts 
jardins de Asinio Polliâo ; o campo Lanatario ; o Septisonio ou 



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— 233 — 

sepulcro de Severos o templo da Boa Deusa, construído por 
Adriano ; a casa particular do mesmo imperador ; o altar e o 
bosque de Laverna etc. As moradas ascendiam a duas mil qua- 
trocentas e oitenta e seis, as casas maiores a cento e quatone. 

O decimo terceiro era o Aventino. Ahí as thermas de Va- 
rio ; o templo de Diana ; a casa de Licinio Sura ; o templo da 
Lua, e o de Minerva ; o de Juno Regina, construído e dedicado 
por Caraillo ; o da Boa Deusa, chamada também Haia ou Fau- 
na, cujo ingresso era aos homens vedado ; a casa particular de 
Trajano ; o antigo altar de Júpiter Elicro ; a casa de Ennio ; o 
templo, o átrio, e a bibliotheca da Liberdade. 'Neste átrio, re- 
construído por Asinio Polliâo, fundador da bibliotheca, existia 
o Tabulario, ou archivo dos censores, onde as leis eram affixadas. 
Extramuros, e junto ao Tihre, o templo de Hercules, e o da 
Esperança, o de Apollo Medico ; o pórtico de Emilio Lépido e 
Emilio Paulo ; o de Marco Fulvio Censor e outros ; o grande 
empório, o arsenal e o desembarcadoiro ; os celleiros de Galba 
e de Yargunteio ; o foro Pistorio ; a pirâmide sepulcral de Caio 
Cestio etc. As moradas 'neste bairro eram em numero de duas 
mil quatrocentas e oitenta e oito, as casas maiores de cento e três. 

O decimo quarto, finalmente, era o Transtiberino. D'elle for- 
mavam parte a Naumachia de Augusto ; os jardins de César, por 
eJle legados ao publico ; o templo da Fortuna Forte, e o da For- 
tuna Dúbia ; o foro Piscatório { os jardins de Galba ; o bosque 
de Furiíia, onde foi morto Caio Gracho ; a casa de Simmaco, 
prefeito de Roma, incendiada pelo povo ; o lago de Filippo ; o 
famoso templo de Esculápio, na ilha Tiberina, onde era reve- 
renciada a cobra trazida de Epidauro, cidade do Peloponeso ; os 
de Júpiter e Fauno na mesma ilha ; o monte e o campo Vati- 
cano ; o circo, o obelisco, e os jardins de Nero ; o templo de 
Apollo ; os jardins de Domicia ; a immensa mole ou mausoléu 
de Adriano, emulo do de Augusto, convertida depois em forto- 



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— 236 — 

leza por Honório; o sepulcro de Marco Aurélio; a pirâmide 
de Scipião Africano etc. As moradas 'neste bairro eram ao todo 
quatro mil quatrocentas e cinco, as casas maiores cento e cin- 
coenta. 

Á vista d'este rápido esboço quem não dirá que Roma era 
digna de ser, como foi, a capital do mundo conhecido ! 

JORGE CÉSAR DE FIGAMÈBB. 



NOTA SÉTIMA 



PAGINA 25— VERSO 5 



Madre das flores vem. 



Dizem, e assim parece, que das floraes nos ficou o costume 
de ingrinaldar as portas e janellas no 1.° de Maio. Vai isso cain- 
do em desuso, mas não de todo. Nas aldêas (e na classe humilde 
do Porto) faziam grinaldas e ramilhetes de flores diversas, em 
que predominavam infallivelmente as maias (flor da giesta) e as 
punham nas portas e janellas. Os menos primorosos mettiam 
apenas um ramo de giesta florida nas portas. Em pequena per- 
guntava eu o que isto significava, e me diziam as velhas: £ 
para não entrar o maio em casa. Hoje só dizem os que ainda 
conservam essa usança : é costume. 



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— 137 — 

Não sei se este reflexo das floraes ainda apparece em todo 
o reino. 

Para desarraigar os povos do paganismo, e os affeiçoar à re- 
ligião christã, dedicou a Igreja o mez de Maio à Virgem Ma- 
ria, e mudou em festejos religiosos os folguedos mythologicos. 
No primeiro domingo de Maio, ha, em algumas igrejas, em que 
se festeja Nossa Senhora, o costume de distribuir pelo povo ra- 
minhos de flores, e emquanto se distribuem, lançam dois meni- 
nos folhas de rosas sobre o povo. A esta festa se chama a festa 
da rosa. 

Os adornos floridos, ou maias (que assim lhes chamam) com 
que o povo infeita as suas moradas no 1.° de Maio, creio que 
foram olhados como coisa de pouca monta, ou ficou sendo como 
um festejo á Rosa de Jericó. E também muitas rosas de Jericó 
se intrelaçam nas maias. 

D. MARIA PEREGRINA DE SOUZA.. 



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— 238 



AOTA OITAVA 

PAGINA 25— VERSO 18 
JUÍZOS HUIAHOS 

Hominum sententia fallax : 
Opiniões do mundo inturva o erro. 

No sentido lato do termo, toda a sententia é a expresso de 
um juizo, é uma proposição. Quererá dizer o autor que toda a 
proposição, que enunciar um juizo de homem é fallivel? Não: o 
autor por certo, nãp quer dizer tal. 

Para bem intender-se o que o autor quer dizer, é mister ir 
buscar a chave de interpretação a uma das luminosas theorias 
de mr. Cousin, a do criterium da impersonalidade da razão. 

É um facto que umas tezes julgamos como indivíduos, ou- 
tras como humanidade. 

Quando julgamos como indivíduos, fazemol-o em nome da 
própria intelligencia ; a qual, como tudo o que é individual em 
nós, é susceptível de mais e menos, condicionada e finita. Em 
tal caso, a expressão que damos a nossos juízos, tem sempre um 
valor relativo ; é, pouco mais ou menos, como estas : parece-m, 
creio, a meu ver, etc. E, sempre que julgamos assim, implicita- 
mente admittimos a possibilidade de erro da nossa parte; nem 
implica que seja verdadeira opinião contraria á nossa. 

Quando porem julgamos como humanidade, fazemol-o em 



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— 139 — 

nome e por autoridade de outra razão objectiva, universal e abso- 
luta, que em nós appareee, sem vir de nós, sem ser propriedade 
nossa ; razão que, sendo essencialmente a mesma em todos os ho- 
mens, em todos os tempos e logares, é o laço de unidade intelle- 
ctual do género humano. Quando nossos juizos téem esta origem, 
a forma, que, lhes damos, leva o cunho de verdade irrefragavel. 
Já não dizemos: creio, intendo, parece-me; o que dizemos é ab- 
soluta e positivamente: « E. » Juizos d' esta ordem téem toda a 
autoridade, da razão universal que os dieta, e são por isso de 
uma verdade absoluta. 

Quando a sentença, é expressão de um juizo da primeira es- 
pécie, enuncia uma opinião individual ; é a decisão de uma in- 
telligencia ; a qual, por isso mesmo que é finita e limitada, pode 
cair em erro. Então pode o erro, a não sabendas nossas, in- 
troduzir-se em nossos juizos ; e a sentença que os expressar ha 
de ser fallivel. como elles. Só de sentenças d'esta espécie é que 
pode dizep-se com Ovidio : 

Hominum sententia falia x. 

Mas quando a sentença fòr a expressão de um juizo da se- 
gunda ordem, então será sempre verdadeira, porque a razão im- 
pessoal e absoluta d'onde taes juizos vem, não pode inganar-se 
nem inganar-nos. Esta razão, que não é nossa, revela-se á nossa 
todavia, por meio de umas poucas de verdades à priori, a cujo 
complexo dava Platão o poético nome de logos (medianeiro) ; 
porque taes verdades são, com effeito, o único ponto de conta- 
cto entre a razão de Deus e a intelligencia do homem. Quando 
alguma d'estas verdades desce e vivifica um juizo nosso, este fica 
absoluto como cilas ; a proposição que o enuncia, é de uma ver- 
dade e universalidade incontestáveis. Nas sentenças (Testa ordem 
não pode entrar o erro^ 

«Mas que razão é esta, perguntara alguém, que sem ser do 



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— 110 — 

homem, 'nelle irradia, e cujos juizos, de uma verdade absoluta, 
reúnem ao cunho de universalidade o da infallibilidade ? » 

Não cabe nas insaochas de uma nota a exposição da tfaeorâ 
da razão impessoal ; theoria a que recentemente se tem irrogado 
a pecha de pantheismo ; mas que, contida em certos limites, tem 
constantemente visto a seu lado os mais abalisados philosophos, 
assim antigos como modernos. 

Esta razão a que aqui alludimos, é a mesma que Fenelon 
incontrava no âmago de todas as suas demonstrações acerca da 
existência de Deus, e que muita vez o obrigava a exclamar: — 
« Razão ! razão 1 não és tu o que eu procuro ? » 

É a mesma razão que Bossuet, no seu tratado Do conhe- 
cimento d* Deus, reconhece não ser outra coisa senão «a in- 
telligencia é divina communicando-se â intelligencia humana. » 

É esta razão acerca da qual diz o padre Malebranche : « A 
razão que alumia o homem, é o verbo ou sabedoria do próprio 
Deus ; porque toda a creatura é um ser particular, e a razão que 
esclarece o espirito do homem, é universal. » 

£ a mesma razão, acerca da qual escreve Locke, no livro 
iv 9 cap. .19 da sua Tentativa sobre o intendimento humano: «A 
razão é uma revelação natural, por meio da qual o Pai da Luz, 
origem eterna de todo o conhecimento, communica aos homens 
esta parte da verdade que lhe aprouve deixar ao alcance das fa- 
culdades naturaes de cada um. » 

É esta mesma razão, acerca da qual escreve S. Justino no 
seu Apologético o seguinte : « Tudo o que conhecemos, e cuja 
verdade percebemos, vemol-o á luz do Verbo, que é a razão eter- 
na, da qual participa o género humano. » 

É esta mesma razão que Séneca, na epistola 66, define 'nes- 
tes termos : « Ratio nihil alind est quam in corpos humanum 
pars divini spiritus mersa. » 

£ a mesma razão, da qual dizia Cicero : « Quid est, mm di- 



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eam in komine, sed in ornai cotio atque Urra, ratione divinius? 
Est enim ratio hominis cum Deo societas et communio, et uni- 
versus mundus una civitas communis deorum et hominum potest 
estimari. » 

Emfim, é esta mesma razão, acerca dá qual diz Platão, no 
livro 6.° De republica: «Deus, o pai, a unidade, o bem, gera 
um filho, absolutamente a elle similhante. Este filho é a sua in- 
teligência, a sua razão, o seu verbo e manifestação na contin- 
gência dos tempos ; è o sol intelligivel, pelo qual vè nossa in- 
telligencia, e do qual o sol vièivel que nos derrama a luz nos 
olhos, é apenas uma sombra. » 

Por grandes e respeitáveis que sejam as autoridades que ahi 
deixamos registradas, não é nossa intenção, apontando-as, ali- 
cerçar 'neiias uma theoria philosophica ; não é tal. O nosso in- 
tuito é só mostrar que a theoria da razão impessoal não é um 
paradoxo, não é uma theoria d'antes d'hontem ; é pelo contra- 
rio, uma doutrina, tão antiga como Platão, a. qual tem sido cons- 
tantemente seguida e professada pelos mais orthodoxos e abali- 
sados ingenhos, antigos e modernos. 

MARCBLL1AN0 RIBEIRO DE MENDONÇA. 



TOM. III. 16 



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— J4i — 



NOTA NONA 



PAGINA 29-VERSO 92 E SEGUINTES 



llinguem se admire de que Flora, contando a Ovídio o mara- 
vilhoso nascimento de Marte, lhe peça guarde segredo, para que 
não chegue o caso aos ouvidos de Júpiter. A deusa tinha razào, 
e o contrasenso não é tão grande como parece á primeira vista. 
O deus Tonante não era tão perspicaz, nem tinha tanto poder, 
como muitos o tem querido. Flora conhecia-* de perto, e o nosso 
Bocage parecia ter d'elle igual conhecimento, quando 'num dos 
seus melhores sonetos também pede aos zéfiros lhe guardem um 
segredo dos ouvidos de Júpiter ; 

não façaes isto patente, 

Que nem quero que o saiba o pai dos numes! 
Cale-se o caso a Jove omnipotente. 

Com effeito, revolvendo a mythologia, descobre-se facilmente que 
Júpiter não era um deus todo poderoso e sabedor de tudo, mas 
sim um deus inganador, capaz também de ser inganado, e a 
quem deram que fazer varias conjurações e sacrílegos attentados. 
Quando os gigantes se atreveram a escalar o ceo, quem sabe o 
que seria do deus do raio, se Baccho o não auxiliasse em tão 
dificultosa situação. 

Sendo omnipotente, precisa de transformar-se em cisne, para 



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— «43 — 

alcançar a Leda ; em toiro para roubar a Europa ; em carneiro 
para perseguir os deuses ; em águia, para arrebatar Ganymedes ; 
em satyro para ganhar a Antiope; emfim, era um deus ridícu- 
lo, metade do tempo divindade, e a outra metade bruto. £ bruto 
se poderia considerar physica e moralmente : deus de mau exem- 
plo, assim na terra como no ceo ; devasso por natureza, só via 
o prazer na immoralidade ; só era poderoso no fingimento e na 
traiçôo. 

Como previdente e sábio, não nos parece também fazer me- 
lhor figura. 

Preparara-lhe os deuses uma conjuração, e o sábio deus, que 
de nada sábia, cheio de espanto e reconhecimento, premeia a 
Stix (pie lh'a denunciara. Não sabe do amor que Ixion consagra 
a Juno, e mesmo depois d 9 ella lh'o declarar, faz experiência, e 
só acredita porque vê ! Ignora que sua mulher tenha atraiçoado 
a Semeie, e pedindo-lhe esta que se lhe mostre em toda a sua 
gloria, cede ao pedido, e não se lembra de que a sua magestade 
pegaria fogo á casa e faria perecer nas chammas sua amante. 
Prometheu vai ao ceo roubar-lhe o fogo, e o esconde no talo de 
uma planta. 

Outros muitos factos poderíamos ajuntar, mas julgamol-o su- 
pérfluo. O que temos dito é bastante para justificar o cautelo- 
so proceder de Flora, que em pedir segredo a Ovidio prova de 
mais que Júpiter não ouvia aquella revelação. 

Mas porque não guardaria Ovidio este segredo, e o publica 
'num poema a todo o mundo? 

Não sabemos que resposta poderá ter esta pergunta. 
Por ventura reconhecendo, como Flora, a incapacidade de 
Júpiter, nem sequer lhe concede os rudimentos da instrucção 
primaria, e não receia que o seu poema por elle seja lido. Ou- 
tros dirão, que a franqueza inherente aos poetas não permittia 
que Ovidio, contando a conversação da deusa, omittisse aquella 

16* 



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— i« — 

circunstancia. E até mesmo, não faltará quem diga que devendo 
Flora conhecer a fraqueza humana, e adivinhar as coisas futu- 
ras, já deveria saber que Ovídio lhe publicaria o segredo, e muito 
de propósito lh'o disse, para que o fizesse. 

Nós não poderemos seguir nenhuma opinião a este respeito, 
porque nada nos elucida sobre este ponto. Todavia, parece-oos 
que Ovídio, nem por crer Júpiter tão ignorante, nem por fran- 
queza poética, que de certo não chega a tanto, nem tão pouco 
por erro da fraqueza humana, viria revelar-nos um segredo, que 
uma deusa pedira lhe guardasse. 

Outros motivos, e sufticientes, lâ elle teria para o fazer. 

Assim, em vez de censurarmos o poeta, devemos antes sup- 
por que podendo Flora incontrar-se com elle 'noutras occasite, 
em alguma lhe concedeu talvez, a publicação de tal segredo. 

AUGUSTO LUSO DA SILVA. 



NOTA DECIMA 

ê 

PAGINA 31 — VERSO 24 
OS JURAMENTOS 

1 endo promettido ao illustre traductor (Testes Fastos, d'Ovidio, 
escrever uma nota sobre o assumpto que elle mesmo escolhesse, 
coube-me por sorte o juramento, a propósito d'este verso : 

Tomou por testemunha a Estigia yeia. 



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— 115 — 

. Reparando na origem d'este juramento que era privativo dos 
deuses, e que data d'aquelles bons tempos de Júpiter Tonante, 
ainda menos fabulosos que os d'hoje, tenho pena de que não es- 
teja em moda jurar pela estigia veia para ver por ahi castigados 
os falsos juradores e juramenteiros com a prohibição de bebe- 
rem por nove annos o néctar (ckampagnt, moêcatel de Setúbal, ou 
vinho do Porto) depois de jazerem em profundo lethargo pelo 
espaço de um anno. 

Creio que poucos seriam os perjuros; porque dormir um 
anno inteiro, e não beber em nove annos, era castigo tão cruel 
que os espertos e os espirituosos se lhe esquivariam cumprindo 
fielmente as soas promessas solemnes. 

É a veia estigia uma fonte da Arcádia, e uma derivação 
do styx, rio do inferno, que corria em torno d'elle nove veies. 
As suas aguas eram venenosas e mortíferas, e Júpiter querendo 
recompensar o serviço que fizera a divindade, que presidia a este 
rio, de lhe haver descoberto uma conjuração dos deuses, decre- 
tou o juramento da estigia veia para que as suas aguas fossem res- 
peitadas e temidas pelos próprios moradores do ceo. 

A ninfa que presidia ao sobredito rio era filha do Oceano* 
e de Thetis, e mãi da victoria, da força, e do valor; três di- 
vindades que auxiliaram Júpiter no combate contra os Titães. 

Dada esta genuina explicação acerca do juramento da eftt- 
gia veia, achamos também que o juramento em geral, foi igno- 
rado dos primeiros homens, e até mesmo d'aquelle primeiro ho- 
mem que Eugénio PeUetan creou, antes do burro, na sua Pro- 
fissão de fé. 

Era ignorado, porque acreditavam mutuamente na sua boa 
. fé, e na sua palavra ; mas depois que o interesse pessoal os des- 
uniu, e appareceu a fraude e o artificio para se illudirem e in- 
ganarem uns aos outros, introduziu-se o juramento como um meio 
poderoso de segurança e de precaução contra a inconstância, e 



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— 246 — 

infidelidade das suas promessas, afiançando-as e ibrtificando~os com 
o sello da religião, na certeza de que o homem que não receasse 
de ser infiel, recearia, pelo menos, de ser impio. 

Assim como a discórdia produziu a mentira, a impostura, e 
os discursos ambíguos, e capciosos, também deu origem ao ju- 
ramento tão funesto àquelles, que o quebrantam. 

Aquelle que jura toma por testemunha das suas promessas, 
ou dos seus actos, o Deus da sua religião, sujeitando-se ao cas- 
tigo que só esse Ente Supremo, vingador e omnipotente pode 
infligir à sua perfídia. 

Os persas, por exemplo, juravam pelo sol, e os scythas peio 
ar e pela sua espada, que era o mesmo que jurar pela vida, e 
pela morte. 

Os gregos e os romanos tomavam por testemunhas os seus 
deuses ; e de todos os que maia particularmente presidiam aos 
seus juramentos eram a deusa Rde$ 9 e o deus Ftdioê. Mas as 
romanas juravam por Juno ; lá teriam suas razões. 

Não parecendo suficiente abono o simples juramento sem 
ser acompanhado de signaes exteriores e prestado com certas so- 
lemnidades, adoptaram-se estas, e a primeira formula, de que ha 
noticia, é a de prestar o juramento levantando a mão direita. 

Estes e outros muitos juramentos solemnes, eram sagrados, 
sendo os seus infractores havidos por homens detestáveis, e pu- 
x nidos com a infâmia, e com a morte, excepto os oradores, os 
poetas, e os amanteg que equivalem hoje, ou deviam equivaler 
aos deputados e advogados, aos magistrados e homens d'estado, 
e aos empregados públicos. 

Sendo verdade que a força e a efficacia do juramento de- 
pende da impressão, que faz sobre o espirito dos homens o medo. 
de incorrerem na justiça divina, é necessário que àquelles que 
juram creiam na divindade omnisciente, que premeia, e castiga. 
Se não têm essa firme crença, que é o que mais fortemente os 



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v — 147 — 

liga á verdade, e ao fiel cumprimento das suas promessas, e se, 
pelo contrario, a religião dominante do estado é dominada pela 
corrupção, e depravação dos eostumes, pelo indifierentismo, ou 
pela incredulidade, nada ha mais inútil, e subversivo da moral e 
da religião do que o juramento. 

Comtudo talvez que por essa mesma rarto de serem muito 
poucos aqueUes que consideram o juramento como o mais res- 
peitável e o mais santo dos actes humanos, tenha sido e con- 
tinue a ser, cada vez mais, praticado, e usado. A admissão, e a 
generalisação dos juramentos está na razão directa do nenhum 
credito e confiança que merecem aquelks a quem é imposto, e 
'neste sentido são uma ceremonia inútil á sociedade, e que of- 
fende a Deus, e áquelles que São obrigados a prestal-os. 

Todos os codigas civis, e penaes prescrevem o juramento, e 
estabelecem penas .graves contra os perjuros. Os legisladores 
partem do principio, que o juramento nasceu da perfídia, e que 
ninguém merece credito não jurande, ou que no paiz para o 
qual legislam hasta los cielos mtenfat, e por isso aripliaram, e 
tem propagado até ao infinito o uso, e a pratica dos juramentos. 

Assim, nos tribunaes a primeira pessoa e o livro mais in- 
dispensável, e sine quo non, 6 o dos Santos Evangelhos por causa 
dos multiplicados e diários juramentos dos autores, dos réus, dos 
louvados, dos peritos, dos interpretes, dos tutores, dos subtuto- 
res r dos curadores, dos defensores, dos embargantes, dos árbi- 
tros, dos arbitradores, dos membros do conselho de família, dos 
jurados, e das testemunhas. 

Os juizes, os advogados, os escrivães, os officiaes de justiça, 
e todos os funccionarios públicos, esses não podem entrar em 
exercido sem a ceremonia do juramento. 

Por qualquer coisa, e para qualquer acto, é necessário um 
juramento, um termo, uma sentença que o julgue, e os seus res- 
pectivos emolumentos. 



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— 218 — 

A forma do juramento consiste em pôr a mão sobre os Saio- 
tes Evangelhos, beijando-os ou não, porque 'neste ponto não ha 
jurisprudência fixa. 

Se dois, três ou cem indivíduos tidos e havidos por muito 
honestos, honrados, e independentes vão a um tribunal depor 
sobre a verdade de um facto que elles mesmos viram e presen- 
cearam, o seu depoimento não merece credito algum se acaso 
não juraram previamente ; mas se duas ou três testemunhas, que 
vivam da tua agencia, comparecem a depor, pondo a mão nos 
Santos Evangelhos, estas podem constituir a prova legitima para 
tirar a vida, a honra e a propriedade a qualquer. 

Não podendo duvidar-se do pouco caso, e da nenhuma con- 
sideração em que é tida a santidade do juramento, seria mais 
conveniente decretar a sua abolição, e até mais, religioso attento 
o preceito de « não jurar o santo nome de Deus em vão. » E 
se eu tivesse voto na matéria, ou pertencesse 6 sociedade da 
admiração mutua afim de ser calorosamente apregoada e defen- 
dida, e até mesmo biografada a minha descoberta, em quanto 
se não tratasse seriamente de promover a educação morai e re- 
ligiosa do clero, nobreza e povo, proporia «e adoptasse a júris* 
prudência dos pretos da Africa occidental relativa ao juramento, 
introduzindo o afamado juramento de indúa. 

Isto não é tão desarrasoado como parece, porque, segundo 
nos conta um nosso escriptor moderno que escreve em Paris, 
passa por lá em provérbio que a Africa começa áquem dos Pi- 
reneos, e, então, se somos africanos, e vamos 'neste progresso, 
não era muito que furtássemos aos pretos, nossos irmãos, uma par- 
te do seu systema de jurisprudência, attestada por um outro es- 
criptor nosso e jurisconsulto 'numa Memoria da Academia (1). 
O juramento de iniúa ê um meio de prova judicial, uma 

(1) O dr. António Gil. 



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— 149 — 

espécie de juizo de Deus, que consiste 'numa bebida feita com 
a casca da arvore chamada indúa ou xncu$sa> drástico fortíssimo 
que o juiz milongueiro prepara e dá a beber, em igual porção, 
aos contendores que nSo querem conciliasse, perdendo a deman- 
da aquelle em quem a tal beberagem produz anciãs e agonias 
de morte. 

Seria orna novidade como qualquer outra ; ofto se escarnecia, 
e insultava tantas vezes a santidade áo juramento doa Santos 
Evangelhos ; os contendores não deixaram de pagar as custas ao 
meio; e sendo necessário importar a casca de indúa em grande 
quantidade, era mais um género tributável, e por consequência 
uma nova fonte de receita, que podia atenuar consideravelmente 
o deficit dos orçamentos. 

NSo vemos meio termo, ou o juramento da indúa, ou o da 
estigia vea. 

Mas continuando com ô que está, e que desmente todas as 
idéas do progresso que nos absorvem, progresso que Victor Hugo 
na Legenda dos séculos diz ser o grande fio mysterioso do laby- 
rintho humano, resta-nos ainda fallar dos juramentos politicai 
e de fidelidade, que prendem com os tempos feudaes dos senho- 
res e dos vatsallos. 

Quando se observam estes farçalhôes dos juramentos políticos 

Nulle voix ne pcut rendre et nulle langue ecrire 
Le bruit dÍTin que fit la tempéte du rire. 

HHo de elles acabar com os últimos vestígios da santidade, e da in- 
violabilidade do juramento, porque, ou tenham o seu fundamento 
na honra, ou na religião, é sabido que, em politica, a honra e 
a religião é o interesse. A distancia da perda ao ganho é justa- 
mente a que separa o juramento do perjúrio. 

Ha homens muito honestos, e muito de bem, que tem ju- 
rado as cortes de Lamego, o sr. D. Joáo vi absoluto e o sr. 



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— 250 — 

D. João vi constitucional, o imperador Napoleão, as cartes de 
1820, a carta de 1826, o sr. D. Miguel logar-tenente, eosr. 
D. Miguel absoluto, o sr. D. Pedro imperador, rei, e regente, 
a constituição de 1838, a sr. a D. Maria n, a carta pura, a 
carta reformada, a carta addicionada, e jurariam a dictadura 
permanente, o absolutismo, ou a republica ibérica. 

Para estes a religião do juramento é a theoria do perjúrio : 
tudo é bom, e tudo é mau ; tudo é ganho ou perda ; a consciên- 
cia é inteiramente estranha a esta multidão de juramentos e pro- 
messas contradictorias, e emfim, o que se chama juramento não 
é outra coisa sendo a habilidade de conservar ou ganhar o po- 
der à custa da honra. 

Não haverá por ahi homem politico, funccionario publico, 
magistrado etc. que não tenha prestado, em sua vida, meia dú- 
zia de juramentos diversos. 

£ se acaso alguns recusam jurar uma nova ordem de coisas, 
estou inclinado a crer que não é pelo justo receio de violarem 
o antigo juramento prestado, mas é, ou para crearem dificul- 
dades ao novo governo, ou porque, em todo o caso, a perda da 
sua posição individual é certa, ou porque intendem que a sua 
recusa hade ser recompensada e paga com usura pela restaura- 
ção do antigo governo. ' 

Todas as theorias absurdas sobre o juramento politico tem 
nascido das dissenções politicas ; são fructos das paixões dos par- 
tidos, e é tão vivo e tão vehemente o desejo de cada um Fazer 
triunfar as suas opiniões, que é tido e considerado como uma pa- 
lavra vi e banal o juramento, que todos os povos deviam res- 
peitar, que todas as consciências deviam honrar, e que a reli- 
gião e as leis deviam consagrar como a prova da verdade, e o» 
penhor da fé. 

Eu não sei que haja na língua portugueza, e em outras mui- 
tas linguas, palavras mais usadas, e mais significativas do que 



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— «51 — 

estas jurar e fartar. Os verbos jurar e furtar conjugados em 
todos os tempos, e por todos os modos, são os dois maiores ele- 
mentos do viver da sociedade moderna. 

DB. ANTÓNIO JOAQUIM DA SILVA ABRANCHES. 



NOTA DECIMA PRIMEIRA 

PAGINA »— VERSO 7 
A MUTUIA IAS CU» I IS MAS CUTHSS IAS MOÇAS 

A famosa doutrina das crises teve a sua origem e o seu desen- 
volvimento na Grécia ; teve depois o seu esplendor e predomínio 
em Roma. Foi Hippocrates o primeiro que trotou das crises e 
dos dias críticos; foi Galeno quem primeiro reuniu 'num corpo 
de doutrinas as idéas até ali dispersas nos livros do celebre an- 
cião de Cós. Por muitos séculos depois viu-se a attençào dos mé- 
dicos dirigir-se para esses fenómenos, que ora lhes fugiam a 
uma rigorosa apreciação, ora pareciam obter novos fundamen- 
tos na observação dos factos. Por centenares d'annos ainda foram 
assim levantadas discussões sobre discussões, duvidas após duvi- 
das, em que cada preceito ia encontrar outro mais decretorio e 
positivo na experiência e nos conhecimentos physiologicos. 

Que influencia taes doutrinas, falladas e discutidas ampla- 
mente no decurso de muitos séculos, deveriam ter sobre o espi- 
rito tanto dos homens illustrados, como do vulgo, não é difficil 



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— 252 — 

de conhecer. Poetas e letrados, seriam por ventura os que mais 
sentissem esse influxo, e os que de idéas então geralmente re- 
cebidas, deixassem mais vestígios em seus escriptos. È realmente 
o que parece acontecer. 

Vejamos porem o que eram as crises, as maneiras diversas 
por que ellas foram definidas, o que são, ou o que podem signi- 
ficar para a medicina actual. Posto o primeiro e essencial fun- 
damento para a admissão dos dias críticos, mais fácil será de- 
pois avaliarmos o que a este respeito pode haver de philosophi- 
ca, de racional e de verdadeiro. 

O termo crise, que uns suppoem ter sido tomado da tribuna, 
e outros da arte militar, significa juizo de (xptuw). Hippocrates 
designava por elle toda a alteração, transporte ou excreção de 
matéria morbifica, sobrevinda durante a marcha de uma doença, 
qualquer que fosse o seu resultado final. Á sua doutrina da crue- 
za, da cocção, e da digestão da matéria morbifica ligava elle a 
interpretação d'aquell'outros fenómenos críticos ; porque estes não 
eram, as mais das vezes, senão os actos pelos quaes se transfor- 
mava, mudava de situação ou era evacuada essa matéria que sup- 
ponham junta á massa do sangue. 

Galeno que colligtu e ampliou estas idéas, definiu mais bre- 
vemente a crise, dizendo que ella consistia em toda a alteração 
súbita na doença, quer em mal, quer em bem. D'ahi a classifi- 
cação das crises: da lymou solução, que era a crise insensível 
em que a matéria morbifica desapparecia a pouco e pouco, sem 
se dar a conhecer a maneira por que esse processo era eflectua- 
do ; da crise salutar, por onde vinha o restabelecimento da saú- 
de ; da crise má, ou aquella em que a doença se aggravava, ou 
subsistia no mesmo grau ; da crise mortal, em que a morte suo 
cedia immediatamente ; da crise regular, e irregular; da crise 
perfeita e imperfeita ; da crise segura e perigosa, e d'outras de- 
nominações não menos especiosas. 



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— 158 — 

Depois de Galeno foi a crise definida uma espécie de com- 
bate entre a natureza, ou as forças medicatrises, e a doença ou 
as causas morbificas. Então os médicos começaram a ter como 
mais positivamente perigosa qualquer intervenção da medicina 
activa 'nestas luctas, em que elles suppunham a natureza do me- 
lhor lado. Os humoristas foram os que mais se occuparam d'es* 
tas doutrinas ; e estabelecendo a necessidade da elaboração, eli- 
minação ou assimilado do crudum qtiid, por vezes exemplifica- 
ram as idéas de Hippocrates pela maneira mais estravagante ; 
por exemplo, pelas operações que se passam na preparação cu- 
linária dos alimentos, comprehendendo todos os tempos a que 
Galeno havia já chamado pepatmos. 

Com todo o grande desenvolvimento de que eram susceptí- 
veis, ora auxiliadas do resultado da observação, ora muitas ve- 
zes involvidas com as mais cerebrinas e singulares concepções, fo- 
ram estas as doutrinas que não só estiveram por muitos séculos 
admittidas nas escolas, e eram publicamente ensinadas com tanta 
fé, como aconteceu com os princípios de Aristóteles ; mas deram 
mesmo origem a niuitas obras, certamente de grande mérito e 
ingenho. São bem conhecidos, entre centenares d'outros, Duret, 
BaiHou e Prosper Alpino, e autores ainda mais modernos, taes 
como, Fernel, Sydenham, Stahl, Baglivio, Van-Swieten e StolI, 
que todos se occuparam das doutrinas das crises, e até alguns 
commentaram largamente tudo que a esse respeito havia accu* 
raulado o medico romano continuador das doutrinas de Hippo- 
crates. 

Ao celebre Reil, todavia, pertence a gloria de haver discu- 
tido e apreciado com rara sagacidade toda a doutrina das cri- 
ses. O erudum quid foi reconhecido como uma supposição erwo- 
nea, tanto em razão de facto, 'num grande numero de casos, 
como no sentido depreciação das causas finaes. As febres nas- 
cidas das commoções de animo, d'uma ferida, d'uma simples va- 



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— 251 — 

rinçao atmospherica, podiam sem duvida dizer com acerto que 
provinham da admissão d'um principio acre, d'uma matéria pec- 
cante, d'um crudutn qwid. Por outra parte, ficava demonstrado co- 
mo nas pessoas fortes e anteriormente sãs eram os pretendidos es- 
forços de eliminação, a crise, violenta e incoercível, ao passo que 
nas pessoas fracas, nos escorbuticos e nos escrofulosos, 'naquel- 
les que tinham os humores mais alterados, o movimento critico 
se mostrava menos enérgico ; a natureza falhava nos seus fins, e 
era contradictoria na medida dos seus esforços ! 

Pode-se dizer que foi desde então, e não obstando todos os 
abalos por ella já recebidos nas apreciações anteriores, que a 
doutrina das crises veiu occupar na medicina o logar que justa- 
mente lhe compete. Reil não negou a existência daá forças ma- 
dicatrises, ou esta tendência que as moléstias agudos apresentam 
para terminarem pelo estado de saúde. Mas sem ir alem da 
rigorosa significação dos factos, viu 'nellas as forças próprias da 
vida, pôi de parte as hypotheses, por vezes ridículas, e nada jus- 
tificadas. 

Assim a interpretação já antes feita por Troxler, poude por 
fim vingar. A crise começou a ser tida como uma demarcação 
que algumas vezes se pode assignalar na marcha das doenças, 
quer para o seu crescimento, quer, e mais vezes, para a sua des- 
apparição. A crise considerada racionalmente, sem addicionar 
coisa alguma ao que os factos depõem, ficou sendo um fenóme- 
no positivo para muitos casos, mas seta fixação de sede, sem 
presupposição de matéria eliminavel, e não importando senão nm 
conjuncto de circunstancias, aliás de grande variedade, e geral- 
mente favoráveis, para a terminação da doença. Estão 'neste caso, 
por exemplo, as excreções pelos diversos emunctorios, as quaes 
muitas vezes precedem a terminação das doenças agudas. 

A medicina que logrou emancipar-se de hypotheses não ra- 
ro prejudiciaes, porque atavam os braços dos médicos, e muitas 



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— Í58 — 

vexes os rediriam á posição de meros espectadoras 4a marcha 
da doença, confiados m crise que se devia annunciar, a medi- 
cina entrou 'num caminho mais útil, porque foi assim levada a 
actuar quando a sua intervenção se mostrasse necessária. É 'neste 
sentido que se explica plausivelmente o dito de Bouelle apresei* 
tando seu irmão : O sr. Bardeu matou mm irmão que aqui ve- 
des. Bordeu, o celebre medico, que tinha um respeito supersti- 
cioso pela autoridade de Htppocrates, havia ficado espectador 
inactivo em presença d'uma pneumonia das mais violentas, e em 
resultado da qual o irmão de Roudle esteve a ponto de suo- 
cumbir. 

Com este breve conhecimento do que seja a crise, e pres- 
cindindo das muitas questões que prendem com este fenómeno, e 
com a maneira de se haver o medico em presença d'elle, íax-«e 
agora mais fácil avaliar a parte da doutrina que dia respeito aos 
dias críticos. 

Quando se observa a marcha das doenças vè-se que em mui- 
tos casos caminham dias com certa regularidade, tendo por via 
de regra uma duração mais ou menos susceptível de ser limita- 
da. Em outras circunstancias, menos frequentes, a doença mar- 
cha desordenadamente, apresentando para o fim, (Tordinario, pa- 
roxismos de varia gravidade, e por differente modo manifestados, 
a que se segue algumas vestes a terminação felix, ou a morte im- 
mediata do doente. 

Esta noção. simples de pathologia geral, que já havia moti- 
vado a fundação da doutrina das crises, e que em grande parte 
é ainda hoje admissível, deu também origem á apreciação e ao 
estabelecimento de dias críticos. Os médicos suppozerara que es- 
tas crises se observavam mais em certos dias do que em outros, 
e tendo coroo perigosa a intervenção medica, onde a crise se 
não havia manifestado ainda, procuraram estudar miudamente 
quaes eram esses dias. 



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— 2R6 — 

Assim, admittíram primeiro que as doenças agudas termina- 
vam ao 7.°, ao 14.°, ao 20.° ou ao 40.° dia, e chamaram a 
estes dias radicaes ou principaes. Depois estabeleceram que ea* 
tre estes dias outros havia também críticos, mas não por exoet~ 
lencia, como os primeiros ; sendo d'aquelle modo assignalados o 
9.°, o ii.° e o 17.°; depois o 3.°, o 4.° e o 5.°; depois o 6.% 
em summa, que era o menos favorável de todos, o mais rara- 
mente critico, recebendo por isso de Galeno o nome de tyranno. 
O 8.° e o 10.° vinham na ordem dos dias pouco vantajosos para 
as crises ; depois o 12.°, o 16.° e o 18.°, em que as crises ra- 
ras vezes se manifestavam. O 7.° que era para Galeno o dia das 
crises salutares, deixava de o ser igualmente pára outros* assen- 
tando Archigene a sua preferencia pelo 20.° ou 21.°, o que si- 
gnifica a maior dessidencia de opinião que em matérias de fa- 
cto, se tal nome merecem, se poderia encontrar. 

Mas estas supposiçdas eram perfeitamente gratuitas, provin- 
do da computação de casos clínicos que não se mostravam jamais 
completamente idênticos, a razão dava logar a admittir, como 
hoje é de rigor, que todos os dias da doença são sujeitos a cri- 
ses, e que não. ha nenhum em que a mais salutar, como a mais 
fatal, não possa acontecer. 

D'esta controdicçào procuraram salvar-se os defensores da 
exacçâo das doutrinas das crises, classificando os dias em indi- 
cadores, contemplativos ou decretorios, intercalarios ou provoca- 
dores, e vários. Os indicadores annunciavam que a crise com* 
pleta ia dar-se. Era o 4.°, que annunciava a crise do 7.°, o 
1 1.° que fazia o mesmo em relação ao 14.°, e o 17.° a respei- 
to do 20.° Os dias intercalarios eram o 3.°, o B.°, o 9.° f o 13* 
e o 19.°, sendo que toda a crise acontecida 'nestes dias, e prin- 
cipalmente no 5.° e no 9.°, dava aso a temer uma recaída. 
Os dias vários, quasi sempre sem significação, eram o 6.°, o 8. # , 
o 10.°, o 12.°, o 16».°, e o 18.° se as doenças se prolonga- 



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— 257 — 

vaia. Depois vinham os dias quariemrios eu setni-êeptenarios, a 
contar do 21.°, que constituíam então os dias críticos; isto é, 
o 27.°, o 34.° e 40.° Com o nome coUectivo de dias médicos 
eram classificados todos os que decorriam na doença, exceptuando 
o 7.°, o 14.°, o 16.° e o 20.°; porque no intervallo d'estes 
estava a occasiâo mais favorável para a applicaçfto dos remédios. 
Por fim os dias da doença eram também divididos em dias pa- 
res a impares, sendo estes os mais próprios para as crises das 
moléstias biliosas, e os primeiros para as das doenças sanguíneas. 

'Neste labyríntho de classificações e de cálculos para que 
cada medico» segundo sua observação, suppunha possuir uma me- 
lhor base, não havia nenhum comtudo, por mais enthusiasta que 
fosse, que se nfto resignasse com a fallibilidade. Concebe-se como 
uma doutrina assim baseada deveria excitar o exame e as oppo- 
posições dos homens de génio ; e na verdade não faltou quem a 
exemplo de Àsclepiades, desde logo se afastasse da maneira de 
penaar de Hippocrates, e d'aquelles que, mais que o próprio pai 
da .medicina, tinham exaggerado a significação dos dias críticos. 
Entretanto a época mais fatal para a doutrina dos dias críticos 
foi a da renascença das lettras e sciencias. 

A primeira dificuldade com que sempre luctára a computa- 
do dos dias críticos, e que o fora ainda quando elles realmente 
existissem, era a de saber como se devia intender um dia em 
medicina. Parecia que todasjis discussões 'neste ponto só tinham 
por fim embaraçar mais a questão ; e supposto a maioria inten- 
desse por dia medico o espaço de vinte e quatro horas, como o 
dia natural, nunca os observadores chegaram a poder fixar o 
momento em que o dia medico começava. 

Esta questão estava porem presa a outra igualmente irreso- 

luvel ; porque para marcar precisamente o principio do dia me* 

dico fora necessário conhecer com exacçSo o ponto de partida 

da doença. Nas moléstias que começavam por um calafrio, nas 

TOM. III. 17 



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— 158 — 

que se annunciavam subitamente por fenómenos sensíveis, a com- 
putação parecia fácil, ainda que rigorosamente o não fosse. Mas 
se a doença, como mais vezes acontece, não tinha o seu princi- 
pio bem claro ; se, como boje dizemos, não era possível marcar 
limites entre o estado de saúde e o de imminencia mórbida, en- 
tre este ultimo e a doença propriamente dita, a doutrina doa 
dias críticos não podia calcular o primeiro dia, nem mais nem 
melhor os outros que se lhe succediam. As discussões sem nu- 
mero, as extensas dissertações que por séculos intretiveram os 
médicos mais favoráveis a taes doutrinas, não poderam, nem po- 
deriam de certo adiantar uma questão d'esta natureza, e foi por 
conseguinte outra parte da doutrina que passou desacreditada no 
conceito de muitos. 

Tudo isto era porem pouco em comparação com outras dit- 
ficuldades que achava o calculo dos dias críticos. 'Numa crise 
que durava uns poucos de dias, qual d'elles devia ser conside- 
rado o critico? 'Numa doença aguda que, para assim dizer, se 
incravava 'noutra doença, como determinar o dia em que ama 
certa crise se tinha dado ? De que maneira distinguir oa fenó- 
menos que tanto se poderiam ter na razão de críticos, como 
de symptomas próprios das doenças? Quaes d'esses fenómenos 
eram causas, quaes d'elles effeitos? As hemorrhagias nasaes, os 
vómitos, todas as evacuações chamadas criticas, são, em geral, 
symptomas de doenças, e caracterisam mais a existência e a na- 
tureza d'ellas, do que as crises, ou os dias críticos. 

'Nestas, como em outras numerosas questões, os grandes vo- 
lumes, e os mais aturados esforços não podiam supprir a falta de 
base de que se ressentia a fixação dos dias críticos e os caracte- 
res da crise, a ponto de que o próprio Bordeu, um dos mais 
fortes sustentáculos da doutrina das crises, chegou a conside- 
ral-a como obscura, vaga e susceptível de grandes erros. 

Idéas scientificas d'esta ordem eram pois insustentáveis, ou 



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— ÍS9 — 

inúteis e perigosas ainda quando mais plausíveis. A sciencia dos 
números applicada à medicina só a podia fazer assim mais in- 
t»rta. Embora os propugnadores de taes doutrinas reconhecessem 
as excepçõos numerosas com que os contrários lhes argumenta* 
vam ; por isso mesmo talvez, mais era para temer a inactividade 
do medico na presença das mais instantes eventualidades da mo* 



A verdade é que quanto mais profundamos o conhecimento 
da doutrina das crises, em relação aos dias críticos, tanto mais 
ficámos convencidos do abuso de palavras e dos erros que os mé- 
dicos accumularam para sujeitar a marcha e o prognostico das 
doenças a leis impossíveis, ou interpretar, segundo idéas subita- 
mente systematicas, os fenómenos mórbidos. D'aqui a inutilidade 
de avaliar todas as diversas questões que téem na crença dos 
dias críticos o seu ponto de partida. Assim o téem comprehen- 
dido os médicos (Teste século, para os quaes todo o grande edi- 
fício levantado pelos antigos só tem o interesse archeologico. 

Em resumo, podemos dizer que sujeitos como estão todos os 
actos da vida a uma marcha mais ou menos regular, e a uma 
periodicidade que se manifesta em muitas das mais importantes 
fancções da economia animal, as doenças, como actos vi taes, não 
podem constituir excepção à grande lei que abrange e dirige taes 
condições. Mas d'aqui a estabelecer as regras d'essa marcha e 
d'esses períodos, por pouco que sejam variáveis entre si, sempre 
diversos, ás vezes por circumstancias que escapam aos nossos 
meios d'analyse, vai uma distancia infinita. As folhas d'uma ar- 
vore, que são sempre folhas sujeitas a certas condições de forma 
e de grandeza, conservam comtudo entre si diferenças taes que 
nunca duas d'ellas serão perfeita e inteiramente idênticas. Ou- 
tro tanto se pode dizer das doenças, ainda no género de mais 
regular manifestação, onde dois casos idênticos se não incontram 
jamais. Pode o medico avaliar com mais ou menos approxima- 

17* 



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— 260 — 

ç&o, em virtude d'essa lei de regularidade e de periodicidade, s 
duraç5o e a terminação da doença, como também a sua gravi- 
dade, ou a das suas complicações pela natureza dos órgãos e das 
sympathias orgânicas ; mas não pode sujeital-as ao rigor numéri- 
co sem emprehender a mesma obra dos Titães. Taes foram com 
effeito os trabalhos de dois mil annos, e taes foram também os 
seus resultados. 

Esta maneira de considerar a fixação dos dias críticos, não 
contende com o que em respeito ás crises em si mesmas ha de 
verdadeiro, qualquer que seja a explicação que as differeutes es- 
colas possam dar ao facto. No tocante, por exemplo, á desloca- 
ção das doenças, influindo para bem ou para mal, segundo a 
maior ou menor importância do órgão, ou órgãos sobre que os 
fenómenos deslocados se transportarem, está uma demonstração 
do que seja a crise ; sendo por tanto na natureza que a própria 
therapeutica tem achado a razão de mais d'um dos seus pode- 
rosos recursos, promovendo uma como crise artificial ; é assim 
na medicina revulsiva o» no methodo derivativo, apesar de to- 
das as oppostas reflexões que foram ouvidas não ha muito as 
academia de medicina de Paris. 

'Neste sentido, ainda muito do que os trabalhos dos médi- 
cos da antiguidade tinham estabelecido, é extremamente aprovei- 
tável, e as bases apresentadas por um medico do século passado, 
Londré-Beauvais, são em grande parte verdadeiras. O seu co- 
nhecimento é todos os dias necessário á cabeceira do doente; 
mas a applicação é que demanda a maior perspicácia e o mais 
fino tacto, para que se não contrarie um esforço salutar da na- 
tureza, ou se não tome como tal o que é fenómeno próprio da 
doença, da continuação do qual pode estar dependente a vida 
do enfermo. 

Estes sãos* princípios que a medicina aceita sera repugnân- 
cia nem contradicção, porque são verdadeiros. A doutrina das 



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— 261 — 

crises, como a estabeleceram os antigos, cedeu 4 attençfco que 
absorvia em proveito de novos caminhos para verdades mais úteis, 
e os progressos das sciencias medicas, na metade volvida do nosso 
século, podem de certo assegurar, que com muita vantagem tro- 
camos. 

DB. JOSÉ ANTÓNIO NAIQUSS. 



NOTA DECIMA SEGUNDA 

PAGINA 49- VERSO 19 

LBmmus 

vibateaubriand foi altamente injusto quando asseverou em seus 
escriptos- que a veneração aos mortos datava do christiams- 
mo. O seu zelo pela honra do culto foi talvez quem o induziu 
'nesta injustiça para com a humanidade pretérita. Nilo ; em to- 
dos os tempos, em todas as crenças existiu a idéa de um Ente 
Supremo, principio do espirito» que divaga no seu envoltório, e 
regressa depois á sua origem. Lamartine foi mais longe ; o seu 
Jocelyn crê immortal o espirito dos irracionaes : elle diz ao seu 
c5o, que apoz uma ausência de três mezes vai encontrar muri- 
bundo, e que o affaga doidejante : 



Non, quand ce sentiment s'éteindra dans ses yeux 
il se ranimera dans je ne sais quels cicux 
De ce qui s'aima tant la tendre sympathie 



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— 262 — 

brame ou plante jamais ne meurt anéantíe: 
Dieu la bríse un instant mais pour la reunir, 
son sein est assez grand pour nous tous contenir ! 
Oui, nous nous aimerons comme nous nous aimâmes ; 
qu'importe à ses regarás dcs instincts, ou des ames? 
Par tout oíi 1'amitié consacre un coeur aimant, 
par tout oú la nature allume un sentiment, 
Dieu n'éteindra pas plus sa divine étincelle 
dans Fétoile des nuits dont Ia splendeur ruisselle, 
que dans Thumble regard tie ce tendre épagneul 
qui conduisait Taveugle et meurt sur son cercueil ! ! ! 

Que seria de nós, se essa crença n&o existisse ?... Que seria 
das nossas mais caras affeições, perdidas de sobre a terra?— A 
crença da immortalidade da alma é uma ponte lançada atravei 
dos abysmos da morte ! Aonde vai dar essa ponte ? Ninguém o 
sabe... e comtudo, raros se arremessam a sotopôr o abysmo, que 
os não alumie 'nessa hora extrema uma luz ineflavel, explen- 
dida, mysteriosa! É que esse espirito que surprehende os se- 
gredos do ceo, não pode jazer aniquilado no pó da terra ! 

Em uma das minhas prelecções no Grémio Popular, disse eu : 

« Pobre povo romano ! Por entre o esplendor das tuas con- 
quistas, antigas e modernas, negreja a tua ignorância, a tua cre- 
dulidade, a tua superstição ! Essas cordas triumphaes, ovaes» ob- 
sidionaes, cívicas, muraes, castrenses, e rostraes, eram engodos 
armados ao teu fanatismo assolador ! Para teres um código civil 
foste pedil-o a Athenas ! Derrocando os thronos do mundo, não 
derrocaste um só altar do polytheismol Não quebraste um só 
de seus talismans, tão fúteis como ridículos ! » 

Censurei Chateaubriand, e fui injusta, como elle! Deixar ao 
pobre povo as suas superstições, que constituem a sua força mo- 
ral ! Deixar ao pobre povo as suas illusões fagueiras ! Triste 
d'aquelle que d'ellas não participa ! Pensais que a aridez da phi- 



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— Í68 — 

losophia proporciona à nossa alma as suaves consolações que 
lhe depara a superstição? Enganais-vos ! O legislador dieta os 
seus códigos penaes; que importariam para o bem da sociedade 
essas leis escriptas, e archivadas somente na idéa dos lidos» se 
no coração das mftis não existisse outro código» mais portátil» 
mais comprehensivel, mais conforme 6 natureza humana ? A re- 
ligião ! A religião, que nos educa o espirito, em quanto a lei só 
o corpo nos educa ! Á religião» que dimana do ceo ; em quanto 
a lei dimana da terra ! Em todas as crenças antigas e moder- 
nas» a idéa de outra existência perennal» immutavel nos seus 
aceidentes, tem induzido o homem a conduzir-se o melhor que 
pode segundo as máximas preponderantes da sua época. A ver- 
dade é só uma : assellal-a-hei com o meu bom Lamartine : 

chaque honune a son jour, éhaqne àge sa darté» 

ehaque rayon d'en haut sa part de vénté, 

et que lui seul il sait combien de jour ou d'ombre, . 

contient pour ses enfans ce rayon toujours sombre!. . . 

O. MARIA JOSÉ DA SILVA CANUTO. 



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— 264 — 



NOTA DECIMA TERCEIRA 

PAGINA 5i- VERSO 5 
■EDO AOS MIADOS 

Meia noite. Silencio profandissimo etc. 

Esta maneira de afastar espectros usada pelos romanos, e 
descrípta por Ovidio, recorda-me uma antiga superstição das al- 
deãs do Minho» hoje caída em desuso, em todas, ou em quasi 
todas. Â pessoa, que se cria perseguida por espirito, ia á meia 
noite com ura alqueire de grãos (quási sempre de painço por ser 
de mais rendimento), e o lançava a um cantinho de bouça on si- 
tio ermo. Este era o alimento da alma penada, mas não devia 
gastar mais de um grãosinho por anno. Já se vê que havia ali, 
com que entreter a larva por muitos séculos. E emquanto dura- 
va o mantimento a alma penada não podia deixar o seu dester- 
ro. Cercava-se o sitio do degredo com sebe ou parede, e nin- 
guém colhia depois coisa que Deus criasse no tal cantinho ex- 
commungado. Todos se afastavam com terror e pressa, se a ne- 
cessidade os approximava do sitio em que estava uma alma de- 
gradada. Não me foi dado descobrir as ceremonias que se usa- 
vam ao degradar a alma, se as havia. Ninguém me soube dizer 
mais sobre isto. 

Outra abusão mais comesinha havia para arredar, não le- 
murcs ou condemnados, mas almas do purgatório. Quando lem- 



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— 2«B — 

brava alma do outro mundo, resava-se-lfie um Padre Nosso e di- 
zia-se no fim: — Toma lá este, mas não é para avesar. — Sem 
este jocoso offerecimento, era muito de recear que o espirito im- 
pecesse ao offerente, para conseguir mais orações., Outra : Se um 
espectro apparecia a alguém, devia gritar~6e logo : Da parte de 
Deus te requeiro digas o que queres ; far-se-ha, se poder ser. 
Era preciso não esquecer as palavras se poder ser. Se não se di- 
ziam, bem alto e bom som, corria risco o vivo de ficar com a 
alma do morto, até se cumprirem as ordens do outro mundo. 

Para nos livrarmos de ter apparições, ou de sonhar com um 
morto, ha remédio (ainda hoje usado por alguns) é beijar a sola 
dos çapatos do cadáver. Esta superstição deve porem ter só voga 
entre o» muito medrosos; porque é tido por felicidade sonhar 
com defunto como se estivera vivo. 

Havia maia uma crendice, de que se conservam restos no 
alto Minho. Apenas morria alguém, queimava-se-lhe a cama, para 
que não ficasse com a vontade de cá tornar. Estas, e outra* 
muitas superstições que ha, e crenças de duendes em todos os 
povos, bastavam para provar a immortalidade da alma. Em par- 
te nenhuma," que eu saiba, se temiam os espectros de bois, ou 
fantasmas de carneiros. 

D. MARIA PEREGRINA DE SOUZA. 



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— 266 — 



NOTA DECIMA QUARTA 

PAGINA 65— VERSO 16 

imiRnui 



É 



nobre o assumpto da fuga cTEneas ; a piedade filiai está pr- 
sonalisada do heroe que affeito aos combates e ás victortas, flto 
duvida subjugara ao peso de seu velho pai para o salvar do in- 
cêndio de Troya ; ha no seguimento da esposa e do filho o des- 
involvimento d'aqueila confiança, d'aquelle amor que no ultimo 
trance implora sempre o auxilio do esposo e do pai ! Eneas é 
por tanto o fraco esteio de toda a família, e cheio de um certo 
terror pela scena que o cerca, procura um caminho que o salve, 
e salve os seus. 

Este assumpto tratado pelos poetas gregos e romanos tem 
sido reproduzido tanto pelos antigos como pelos modernos ar- 
tistas. 

Dos modernos, citaremos algumas das melhores composições 
de que temos noticia, sobre o mesmo assumpto : 

Do grande Rafael existe uma composição em que o artista 
representa esta scena com a maior simplicidade, e com aquella 
verdade de desenho que o caraclerisa. 

O Dominiquino, no seu quadro ainda existente na galeria 
do Louvre, aproveitou a situação em que o velho Ànchises re- 
cebe das mfios de Creúsa os deuses penates salvos do grande in- 



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— 267 — 

cendio. O quadro de Dominiqiiino não é d*aquelles que chamam 
a attenção do espectador, mas é tratado com a mestria e saber 
próprios do autor. 

A composição do quadro de Frederico Barocci, sobre o mes- 
mo motivo, é bella. Eneas curvado sob o peso do velho Aochi- 
ses procura um caminho para fugir ao perigo que o circunda. 
O joven Iuk> amparasse ás basquetas da ooiraça do pai não po- 
dendo obter cTelle a mão, por isso que ambas seguram o corpo 
do venerando ancião. Greása segue o esposo em estado de per- 
feita confusão e desalinho. 

As linhas geraes (Testa composição são beflas, e o grupo do 
filho e pai é bem imaginado; encontramos todavia pouca ele- 
gância de formas no Eneas, no Iulo, e até na Creúsa; o Eneas* 
mais parece um soldado robusto, a quem o próprio heroe in- 
cumbira de salvar seu pai do que o filho de Vénus; o luto 
não apresenta a belleza que se espera do filho d'aquelle he- 
roe ; e a Creúsa talvez mais no caracter exigido, e mostrando 
a agitação de que deveria estar possuída, é comtudo inferior no 
desenho. 

O género heróico é quanto a nós de grandíssima dHfcolda- 
de ; diremos mais, é este género quasi exclusivamente reservado 
aoe artistas que téem bastante lição dos poetas, e que podem 
conceber as acções heróicas, inspirados, como elles. 

Os esculptores gregos traduziam no mármore toda a befteia 
ideal, a que tendia a perfeição dos poetas e dos artistas d'aquel- 
les tempos. Os usos, os jogos públicos, e o enthusiasmo requin- 
tado pela belleza corporal, faziam com que os artistas procuras- 
sem a summa perfeição tanto na verdade das formas, como na 
elegância d'ellas. Nos tempos modernos tem sido muito mais dif- 
fieil encontrar quem comprehenda essas bellezas, ou pelo menos 
quem as imite; entretanto no secuto xvi em que começaram 
a renascer as artes, recomeçou o gosto para o estudo do bello ; os 



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— 868 — 

poeta* de novo se dedicaram à epepêa dos antigos, e os escul- 
ptores, architectos e pintores a imitar igualmente os seus tra- 
balhos. 

• As producções dos grandes mestres dos séculos xvi e xvh, 
ganhando sempre no colorido, e nos effeitos ópticos e de perspecti- 
va, ressentiram-se sempre de um estilo pesado, mesmo nas com- 
posições allegoricas ou épicas. Este estilo tornou-se cada vez 
maia exagerado, e foi David que, acompanhando as novas idéaá 
republicanas, e por isso procurando imitar nas suas obras o es- 
tilo seguido nas antigas republicas da Grécia, sacudiu o jugo de 
um costume mal intendido que muitas vezes fazia com que os 
assumptos mais sublimes da historia antiga fossem reproduzidos 
com adornos dos séculos xvi, xvn e xvin ; nos theatros não era 
raro vér o grande Alexandre de Macedónia de cabelleira em- 
poada, e nos quadros ou estatuas, Vénus penteada á Luiz xv! 
Parece que os artistas para agradarem á época em que viviam 
quando tratavam qualquer episodio de historia antiga, quasi sem- 
pre faltavam á verdade do costume para dar aos seus quadros 
certa harmonia com os usos do seu tempo. 

Rubens, tão grande na harmonia dos tons, foi um dos que 
mais faltas commetteram d'este género. 

David, como já dissemos, e o esculptor Canóva refutaram 
tudo o que se fazia d'antes, e começaram a estudar o antigo 
confo elle é ; as estatuas gregas foram por tanto os seus únicos 
modelos e o estudo d'ellas applicou-se a todas as composições; 
o natural estudava-se, porem corrigia-se pelo antigo. 

Hoje desamparado jà o systema de David para a pintura r 
segue-se mais de perto o modelo vivo estudando-se com mais 
rigor a natureza e o costume ; este ultimo systema, que actual- 
mente vigora, e com o qual se ganha tanta verdade, afasta por 
isso mesmo os artistas dos assumptos de maior gravidade, con- 
*tentando-se em geral com os trabalhos de género ; por isso que 



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— 269 — 

mais facilmente se lhes prestam os modelos» e com mais certe- 
za obtéem um resultado. 

Na esculptura tem-se comtudo conservado mais o rigor do 
antigo, apesar d'alguns esculptores modernos como Pradier c ou- 
tros, quererem imprimir-lhe um certo typo que hoje nos parece 
elegante, porem que 'para o futuro talvez tenha a mesma sorte 
da escola extincta por Canóva ; variando (Testilo tem ainda ou- 
tros seguido, nos assumptos sagrados, as linhas da escola de Ra- 
fael. 

Os assumptos heróicos precisam de um grande estudo sobre 
os modelos antigos, acompanhado da constante observação da na- 
tureza. 

A grande trágica dos nossos dias, madame Ristori, ha de for- 
çosamente ter sempre em vista estes dois pontos para conseguir 
tão admiravelmente os effeitos da scena ; um artista que queira 
dedicar-se ao grande género hade fazer os mesmos esforços. • 

O sr. António Manuel da Fonseca, educado em Roma pelas 
lições de Camucini, e ainda sob a inspiração da escola de Da- 
vid, abálançou-se a executar sobre a tela um quadro de grftndes 
dimensões representando a fuga d'Eneas. 

O autor, pelas ultimas correcções que fez no seu quadro, 
colloca o heroe na occasião de sair por uma das portas da ci- 
dade, sustentando nos braços o velho Anchises ; Creús* segue o 
esposo e segura a mão esquerda do filho ; Eneas de cabeça ergui- 
da parece procurar o caminho mais seguro. 

Acerca d'este quadro tem apparecido pela imprensa tantos e 
tão variados juisos críticos, que julgamos inconveniente agora fa- 
zer a sua analyse, limitando-nos tão somente a dixçr que. nos pa- 
rece um dos melhores trabalhos do seu autor. 

MANUEL MARIA BORDA LU) P1NHB11Q, 



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270 — 



NOTA DECIMA QUINTA 



PAGINA 73-VERSO 47 E 18 
RAPTO BE EUROPA 

VERTIDO DE MOSCHO 
E DEDICADO 10 HELENISTA INSIGNE, E INSIGNE POETA POBTUGUBZ 

ANTÓNIO JOSÉ VIALE 

Sonhara um dia Europa um sonho incantador, 
todo influxo da mãi das Graças e do Amor. 

Era a noite no termo, em que, esperando a aurora, 
mais doce reina o somno ; hora, aprasivel hora, 
em que o vigor exhausto aos membros se refaz ; 
hora, em que, estranho ao mundo, o espirito se apraz 
nas meigas illusões dos sonhos, que fagueiros, 
contra o costume seu, nos faliam verdadeiros. 

No andar superior do palácio real, 
a agenoria princeza, em leito virginal, 
Europa, dorme ainda. Em sonhos está vendo 
travarem-se por ella 6s mãos de Marte horrendo 
duas partes do mundo : Ásia, (Talem ; de cá, 
o pátrio continente em que ella própria está. 
Tem uma e outra a forma, a face, feminina ; 



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— 271 — 

mas esta, conterrânea ; aquella, peregrina. 

A primeira, por filha a reivendica : — «O ser, 

« quem, senão eu, lhe ha dado ? aqui foi sen crescer ; 

«foi aqni seu florir...» — Da outra os fortes braços 

a cingem entretanto ; e ella áquelles abraços 

não resiste ; ir se deixa. — « Europa é minha ! » — diz 

a soberba estrangeira — «o fado assim o quiz; 

« o oráculo m'a dá. » — Em seu convulso leito 

'nisto a donzella acorda, alvorotado o peito ! 

swige ti emula! o sonho, o que viu, e inda vé... 

não crê ser illusão ; ser um annuncio cré. 

Senta-se, e longo espaço immovel se conserva, 

que os dois vultos rivaes presentes inda observa ! 

Solta por fim a voz : — « Que, nume aqui me traz 

« estas visões ! ? » — exclama — « e quando em tanta paz 

« descanço adormecida, a que vem, tão violento, 

« um sonho, um sonho assim, turbar meu pensamento ? ! 

«Quem era essa estrangeira? essa mulher... que eu vi?! 

« que súbita affeição por ella não senti ! 

« e ella, com que ternura ao peito me apertava ! 

« como era maternal o olhar que em mim fictava ! 

« Tornem-me os immortaes propicio o sonho meu. » — 

Levanta-se ; a buscar suas sócias correu ; 
sócias suas na edade, egualmente donzellas, 
dignas do seu amor, illustres, meigas, bellas ; 
coro que a segue sempre, e quando aos campos sai, 
e quando as danças tece, e quando ao banho vai 
no fresco umbroso Anauro ; ou quando finalmente 
boninas vão colher no prado florescente. 

De Europa onvindo a voz, todas correndo vem ; 



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— 27Í — 

cada qual já na mão o seu cestinho tem, 
cm que hade arrecadar das flores a colheita. 
A turba folgasan, parte ; lá vai direita 
aos chãos onde tem d'uso ir mais vezes brincar, 
por ser entre rosaes, e ouvir-se aos pés o mar. 

O cesto da prínceza era na arte prodígio : 
feitura, e rico don do sábio fabro anfigto 
a Lybe, quando Amor a Neptuno a juntou. 
Á bella Tbelephaça, apoz, Lybe o doou ; 
eram do mesmo sangue ; e ThelejMiaça o dera 
á sua filha Europa. A industria não espera 
ter gloria igual jamais : do artista a mão subtil 
primorosos 'nesse oiro unira assombros mil : 
lá, se via esculpida, em forma de novilha, 
já sem nada de ninfa, Io, de Inacho a filha ; 
viam-se os ágeis pés as ondas retalhar ; 
nadava; azul escuro era o cariz do mar; 
e dois homens, de lá, da costa, era pé nas fragas, 
a admirar que uma vacca assim fendesse as vagas. 
Depois, estava Jove ; a dextra do immortal, 
via-se, mimos toda, affagar o animal. 
D'esse aspecto illusor, logo apoz, desvestil-o ; 
e Io, outra vez mulher, co'o deus ao réz do Nilo. 
Da septenflua corrente eram prata os caudaes; 
de bronze a vacca ; de oiro o rei dos immortaes, 
Tal por dentro o lavor. Com o fim do estranho caso 
se arraiava por fora o âmbito do vaso : 
via-se lá Mercúrio; o eterno velador, 
Argos, lhe estava junto ; o astuto embahidor 
decepa-lhe a cerviz; o sangue purpureja, 
em pavão se converte; o pavão se espaneja, 



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— 273 — 

alardeando ao sol seu fulgido matiz ; 
da nobre cauda aberta alça as plumas gentis, 
como vela de barco a resvalar nas ondas. 
D'estas plumas a curva é que veste as redondas 
bordas do cesto rico, obra do Lemnio deus, 
e don de Thelephaça à filha, amores seus. 

Mal se viram á solta em seus dilectos prados, 
lançaram-se a folgar. Cada qual seus cuidados, 
entre mil flores, punha em procurar a flor 
mais de sua affeição : dos narcisos o olor» 
praz a uma ; outra, quer o jacintho ; a violeta, 
é <Testa ; o serpol, d'essa. A terra se atopeta 
co*o flóreo desbarate. Alem, se lucta ; quês 
cada uma apanhar primejjra o bem-me-quer. 

Por outra parte Europa andava emtanto ás rosas, 
co 1 um grupo de fieis, formosa entre as formosas, 
qual de Paphos a deusa entrê as Graças louçãs. 

Oh brincos da innocencia ! oh doces horas vfts ! 
cedo lhe ides fugir. Das flores a colheita 
está por pouco ; o cinto, o cinto que se estreita 
na virgínea cintura, em breve o soltará. 
Jove a divisa, pasma, adora-a, d'ella é já ; 
pois o idalio farpão, que ri da omnipotência, 
mal 'nella os olhos poz, com súbita violência 
partiu chegou rompeu lhe abrasa o coraçfto. 

Medroso da consorte, e ardendo em ambição 
de render a princeza, occulta a divindade, 
some em taurina forma, a eterna raagestade. 

TOM. !»• 18 



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— 274 — 

Não era um toiro, não, como esses que ohseroes 
nas leziras pastando, ou presos no» curraes, 
ou que vão arrastando os carros gemedores, 
ou revolvem co'a relha a gleba aos lavradores; 
todo amarello escuro, a fronte só lhe tem 
redonda malha argêntea ; azul, que a nascer vem, 
é dos olhos a luz accesos de ternura. 
Duas pontas iguaes c'roam-lhe a catadura, 
imitantes no airoso à lua em seu crescer. 
'Neste aspecto fallaz sumido o ethereo ser, 
entrou Jove no prado. As tímidas donzellas 
nfto fogem do animal, que se approxima d'eltas ; 
approximam-se d'elle; e folgam de o tocar. 
Na fragrância que exhala, embalsama-se o ar ! 
todo o vergel do prado é menos rescendente ! 

Apenas chega ao pé da princeza innocente, 
pára ; lambe-lhe as m$os, os pés, o collo ; faz 
quantas caricias pode. A fronte, não minaz, 
também ella lhe alTaga ; o limpa d 9 alva espuma ; 
limpo, o contempla ; o beija, uma vez, e mais de uma. 
Então, o ouve mugir ! um suave mugir ! 
tio suave! tão bom!... que lhe parece ouvir 
de uma flauta migdonea os sons melodiosos ! 

Dobra o toiro ante Europa os joelhos nervosos ; 
encara-a prasenteiro ; e encurvando a cerviz, 
lhe offerta o largo dorso. — « Avisinhai-vos » — diz 
Europa ao lindo rancho — « é vir ! é vir sem medo ! 
« bem vedes quanto é manso, e como poisa quedo ! 
« vinde ! e 'nelle comigo., * aocias, voa sentai. 



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— 275 — 

« Que festa vamos ter ! Deitado, reparai, 

« para todas dá campo o lado seu macio ; * 

« sentemo-jios ; será como ir sobre um navio. 

« Não ha pVigo nenhum, nenhum ! não é feroz 

« como os outros ; discorre ; oh ! se tivesse voz, 

« como foi dada à gente, e soubesse exprimir^-se !... » 

Diz ; senta-se no toiro, esbelta, audaz, e a rir-se ; 
iam seguir-lhe o exemplo ; o toiro que feliz 
já tem quanto anhelou... parte; os ares subtis 
rasga vôa é na praia* Em balde a afllicta dama, 
para traz revirada, as caras sócias chama ; 
os braços lhes estende ; e UTos estende em vão ! 
nem já podem ouvil-*. O roubador então, 
no mar comsigo dá. Nada como um golphinho ; 
afasta-se da terra ; o liquido caminho 
as plantas não lhe molha ; e o turbulento mar 
vê-se ante elle, de humilde, as ondas aplanar. 
Às balêas, em torno ao grão senhor dos numes, 
retoiçam de alvoroço ! os delphins em cardumes, 
mergulham té o abismo, e, doidos de prazer, 
do immenso plaino á flor tornam a apparecer ! 
as Olhas de Nereu, das húmidas moradas 
saem todas ; e vem sobre monstros sentadas, 
desfilar na presença ao arbitro dos ceos ; 
e Neptuno, que exulta entre horror de escarcéos, 
esse, o próprio Neptuno, honrando o irmão celeste, 
lhe espelha todo o mar ; d'alegre azul lh'o veste ; 
de planície em planície elle mesmo o conduz ! 
Rodeiam-n'o os tritões, que surdiram á luz 
das cavernas sem fim que habitam no profundo: 
e no torcido busio, em cântico jocundo, 



18* 



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— 276 — 

fazem troar ao longe o carme nupcial 

ao par que ora transpõe seu lustroso cristal ! 

No entanto Europa vai no toiro omnipotente ! 
'num dos cornos segura uma das mãos tremente... 
a outra, a cada instante a abaixar, a compor, 
a veste purpurina, abrigo do pudor; . 
leve abrigo ! que o vento às vezes, quando passa, 
lhe ondula, e, mal cor tez, não raro lhe arregaça ! 
E tanto a abaixa, e tanto, (ingénua timidez !) 
que a barra á flor do mar se molha alguma vez. 
Infuna-se o amplo veu sobre os hombros da bella ; 
subleva-a, como barco arfa cojn plena vela. 

Ai 1 do paiz natal, ai ! quanto longe está ! 
costas, onde o mar bate, esvahiram-se já ! 
nem sequer já descobre o pincaro de um monte ! 
mar, sem fim, sob os pés ! ceo, sem fim, sobre a fronte ! 

Olhando em torno... exclama: «Onde vamos?! quem és, 
« divino toiro ? ! ó tu que sob os duros pés 
« calcas sem medo o pego ? ! as naus, o oceano açoitam ; 
« mas á planicie undosa os toiros não se aflbitam ! 
« aguas doces á sede encóntral-as aqui ? 
« onde vés um só pasto ? occulto acaso em ti 
«vai um deus? mas então... se és deus... como se explica 
« praticares acções que nunca um deus pratica ? ! 

« Não vão delfins á terra ; ao mar toiros não vem ; 
«tu... por terra, ou por mar, corres, se te convém; 
« são-te remos os pés ; talvez teu peso grave, 
« se o quizesses alçar, cortara os ceos como ave ! 



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— Í77 — 

« Ài ! mísera ! deixei os paços de meu pai ! 
« de um toiro me fiei, que levando-me vai, 
« tão perdida, tão só, por este horrível ermo 
« de aguas ! aqui ! alem ! mais longe ! aguas sem termo ! 

« Mas tu, Neptuno ! ó tu, que das ondas és rei, 
« presta-me o teu favor ! quem me leva, não sei ; 
« mas descobrir espero o deus que me encaminha ; 
« que, certo, um deus protege esta viagem minha. » — 

Calou-se ; e vozes toes o toiro lhe volveu : 
— « Virgem ! não hajas medo ; anima-te ; sou eu ; 
« sou Júpiter. Meu ser, se lhe apraz transformar-se, 
« transforma-se ; tomei por ti este desfarce, 
« e 'nelle vou cortando esta immensa extensão. 
« Vé quanto pôde amor por ti 'num coração ! 
«Mais um momento... e Greta, afortunada estancia, 
«a terra que mais amo, ilha da minha infância, 
« vai dar-te emfim repouso. Ali, os hymeneus 
«teceremos; ali, de egrégios filhos meus, 
«que todos reinarão, serás mãi. » — 

Seguiu mudo. 
Era immensa a promessa ; o fado cumpriu tudo. 

Já Creta se descobre. Aportam. O animal 
desapparece ; é Jove. O cinto virginal 
deslaça á casta Europa. O leito do noivado 
pelas Horas gentis lhes fora preparado. 

A donzella foi mãi ; e ao terno Jove seu 
com Glhos de alta fama o nome engrandeceu. 

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO. 



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— 478 — 



NOTA DECIMA SEXTA 

PAGINA 77— VERSO 24 
IAUDADES DA PATBIA 

As saudades da pátria são, talvez, ainda hoje o ultimo dos no- 
bres sentimentos que desamparam o homem. 

Acabaram de todo a dedicação e os altos feitos de nossos an- 
tepassados ; porem, ausente da pátria, ninguém terá o coração tão 
frio que lhe não vote uma lagrima de saudade. Quando leio este 
aflectivo trexo dos Argeus a finarem-se de melancolia na terra 
estranha, ponho-me a scismar, também eu, no aflecto com que 
Ovídio pintou isto, e logo sem querer o vejo a elle mesmo cur- 
tir ainda peiores amarguras, desterrado, não da Grécia para a 
Itália, mas de Roma para os gelos entre bárbaros do norte. 
Não me posso ter, que não copie da minha memoria para aqui 
aquella tão mimosa elegia m de Camões, que também como 
experimentado entendia muito (Testas maguas. 

O sulmonense Ovídio desterrado 
Na aspereza do Ponto, imaginando 
Ver-se de seus penates apartado : 

Sua chara mulher desamparando, 
Seus doces filhos, seu contentamento; - 
De sua pátria os olhos apartando : 



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— 179 — 

Não podendo encobrir o sentimento, 
Aos montes já, já aos rios se queixava 
De sen escoro e triste nascimento. 

O curso das estreitas contemplava, 
E aquella ordem com que discorria 
O ceo, e o ar v e a terra adonde estava. 

Os peites por o mar nadando via, 
As feras por o monte, procedendo 
Como sen natural lhes permittia. 

De suas fontes via estar nascendo 
Os saudosos rios de crystal, 
À sua natufeza obedecendo. 

Assi só de seu próprio natural 
Apartado se via em terra estranha, 
A cuja triste dor não acha igual. < 

Só sua doce ta Usa o acompanha, 
Nos soidosos Versos tjue escrevia, 
E nos lamentos coto que o campo banha. 

D' esta árté toe figura a fantasia 
A vida coto Que morro, desterrado 
Do bem que em outro tempo possuía. 

Aqui contemplo o gosto já passado, 
Que nunca passará por a memoria 
De quem o trás na mente debuxado. 

Aqui vejo a caduca e débil gloria 
Desenganar meu erfd co'a mudança 
Que faz a frágil tida transitória. 

Aqui me representa esta lembrança 
Quão pouca culpa tenho : me entristece 
Ver sem razão a pena que toe alcança. 

Que a pena que com causa se padece, 
A causa tira o sentimento d'ella; 
Mas muito doe a que se não merece. 

Quando a roxa manhã, doirada, e bella, 
Abre as portas ao sol, e cahe o orvalho, 
E torna a seus queixumes Philomela ; 



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— 2«0 — 

Este cuidado que co'o somno atalho. 
Em sonhos me parece, que o que a gente 
Por seu descanso tem me dá trabalho. 

E depois de acordado cegamente, 
(Ou, por melhor dizer, desacordado, 
Que pouco acordo logra um descontente) 

De aqui me vou, com passo carregado, 
A um oiteiro erguido, e ali me assento. 
Soltando toda a rédea a meu cuidado». 

Depois de farto já de meu tormento, 
Estendo estes meus olhos saudosos 
À parte d'onde tinha o pensamento. 
- Não vejo senão montes pedregosos ; 
E sem graça, e sem flor, os campos vejo, 
Que já floridos vira, e graciosos. 

Vejo o puro, suave, e rico Tejo, 
Com as concavas barcas, que nadando 
Vão pondo em doce effeito o seu desejo. 

Umas com brando vento navegando, 
Outras com leves remos brandamente 
As crystallinas aguas apartando. 

De ali fallo com a agua que não sente, 
Com cujo sentimento esta alma sai 
Em lagrimas desfeita claramente. 

Ó fugitivas ondas, esperai ; 
Que pois me não levais em companhia» 
Ao menos estas lagrimas levai ; 

Até que venha aquelle alegre dia 
Que eu vá onde vós ides, livre, e ledo. 
Mas tanto tempo» quem o passaria? 

Não pode tanto bem chegar tão cedo: 
Porque primeiro a vida acabará, 
Que se acabe tão áspero degredo. 

Mas essa triste morte que virá, 
Se em tão contrario estado me acabasse, 
Esta alma assi impaciente adonde irá ? 



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— 2»1 — 

Qae se ás portas tartaricas chegasse, 
Temo qae tanto mal por a memoria 
Nem ao passar do Lethe lhe passasse. 

Que se a Tântalo e Ticio for notória 
A pena com que vai, e que a atormenta, 
A pena que lá tem terão por gloria. 

Essa imaginação, emfim, me augmenla 
Mil magoas no sentido, porque a vida 
De imaginações tristes se contenta. 

Que pois de todo vive consumida, 
Porque o mal que possue se resuma, 
Imagina na gloria possuída. 

Até que a noite eterna me consuma, 
Ou veja aquelle dia desejado 
Em que a fortuna faça o que costuma ; 

Se 'nella ha hi mudar-se um triste estado. 

Na vida que o sr. conselheiro José Feliciano' de Castilho es- 
creveu de Ovidio na sua Grinalda aos Amores vi que as sau- 
dades da pátria não eram só uma affecçao do animo, mas dege- 
neravam até 'numa doença corporal, e que podia conduzir & 
morte ; doença que Ovidio padeceu e de que se finou. Mas no 
mesmo escripto, para descontar em parte a pena que me fez esta 
noticia, aprendi que a terra do degredo do nosso poeta não era 
em realidade tão feia e barbara como elle a pintava, ou por me- 
lancolia, ou por conveniência. 

Seja como fôr, Deus nos dé viver e morrer onde nascemos ; 
eu pelo menos deixo correr mundo a quem quizer, e digo muito 
contente no roeu canto do Minho como là no seu cantinho de 
França dizia não me lembra já que poeta : 

Beauí arbres qui nTavez vn naitre, 
Bientot vous me verrez mourir. 

D. MARIA DO PATROCÍNIO DE SOUSA. 



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— 282 — 



NOTA DECIMA SÉTIMA 

» 

PAGINA 83- VERSO 14 

CASTOR B POLLUX 

Liastor e Pollux, conhecidos pelo nome patronímico de Dios- 
cures, do grego Ac** Kowpot, que quer dizer — filhos de Júpiter 
— sào, segundo Homero, filhos de Tindaro rei de Sparta, e de 
sua mulher Leda, e irmãos de Helena e Clytmenestra. Tradi- 
ções posteriores consideram Pollux e Helena filhos de Júpiter 
e de Leda. Júpiter dominado de um violento amor pela esposa 
de Tindaro, metamorphoseou-se em cysne para a seduzir na oc- 
casi&o em que ella se banhava nas aguas do Eurotas. Júpiter or* 
denou a Vénus que tomasse a forma de águia, e fingindo-se per- 
seguido pela rainha das aves, foi refugiar-se no collo de Leda* 
Esta teve de Júpiter um ovo de que nasceram Pollux e Helena, 
que gosaram da immortalidade, em consequência da sua origem 
divina ; e outro de seu marido Tindaro, de que nasceram Castor 
e Clytmenestra ambos mortaes. Apollodoro segue outra tradição. 
Conta elle que Júpiter namorado de Némésis, se metamorphoaeou 
em cysne, e perseguiu Némésis, que para lhe escapar se trans- 
formou em pata. Foi Némésis que deu a Leda o ovo que tinha 
tido de Júpiter, e é por tanto a verdadeira mfti dos dois Dios- 
cures. Outros suppoem que Castor e Pollux deveram o ser a Jú- 
piter, e vieram ao mundo dentro do mesmo ovo. 



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— 283 — 

Castor e Pollux nasceram em Amiclea, outros dizem que 
em Pephnos ; outros finalmente que na cidade de Thalamos. 

Tendo Tbeseo raptado Helena, sonegando-a aos olhos de to- 
dos, sob a vigilância de Èthra, roãi d'este heroe, os Dioscu- 
res irritados por este rapto e captiveiro, voam A Attica, apode- 
ram-se de parte do paiz, chegam a Aphidna, perto de Athenas, 
libertam sua irmã, e apoderara-se de Ethra, que fazem captiva, 
poupando ao saque e à matança a cidade de Athenas. Em reco- 
nhecimento doesta generosidade os athenienses lhes tributaram 
honras divinas. Castor e Pollux acompanharam Jasão á Colchide, 
fazendo parte da expedição dos argonautas, & conquista do ve/o- 
cino. Durante o trajecto uma furiosa tempestade se levanta, e 
tendo os argonautas implorado o soccorro dos deuses de Samo- 
thracia, viu-se de repente descerem do ceo, e poisarem sobre a 
cabeça dos dois Dioscures dois feixes de raios luminosos. Desde 
então os nautas, quando em alto mar, e noite de tormenta, viam 
apparecer no tope dos mastros estes dois lumes, os tomavam como 
an núncio de próxima bonança, e os veneravam em honra de Cas- 
tor e Pollux. Ainda hoje continua entre os marinheiros a vene- 
ração por este phenomeno igneo, que é conhecido pelo nome de 
lume santo ou fogo de San? Elmo. 

Vi claramente visto o lume vivo, 
Que a marítima gente tem por santo, 
Em tempo de tormenta e vento esquivo 
De tempestade escura e triste pranto. 

'Nestes versos certifica Camões a existência doeste pheno- 
meno ; e Bocage o cita no final d'um magnifico soneto : 

Às densas trevas despedaça o manto ; 
Faze em signal de próxima bonança 
Brilhar no ethereo tope o lume santo. 

Espectáculo sublime ! prova a mais sensível do poder da fé ! 



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— 284 — 

No meio da mais completa escuridão só interrompida a espaços * 
pelo clarão dos relâmpagos, para deixar ver aos miseros nave- 
gantes o que são e o que podem mettidos dentro de quatro ta- 
boas, ora elevados no .dorso negro das montanhas de ondas, ora 
sepultados nos abysmos, e vendo cahir sobre elles e engulil-os 
essas mesmas montanhas ; ao estrondo dos trovões que repetido 
por mil eccos saídos das profundas do oceano parecem abalar o 
universo até aos seus fundamentos ; no meio de todo este hor- 
ror, de toda esta consternação vê-se apparecer no tope dos mastros 
uma luz, e vozes humanas, com toda a unção religiosa, com todo 
o ardor da fé, com todo o enthusiasmo da esperança, clamam 
unisonas : salve, salve, corpo santo ! 'Nestes trances d'angustia os 
menos desgraçados são os que não tem conversado com a scien- 
cia, e podem conservar essas piedosas abusões. A sciencia lhes 
diria : o que vós suppondes um bom annuncio mandado por Deus, 
não é mais do que um phenomeno natural, produzido por uma 
eausa natural, a electricidade, auxiliada pela configuração pon- 
teaguda dos mastros. 

£ no fim de tudo o espirito fica mais illustrado, mas o co- 
ração mais vasio; sabe-se roais, e cré-se menos; e a crença é 
mãi da esperança, e esta a consolação única dos desgraçados. 

Muitos mithologos dizem que Elmo é corrupção de Helena, 
e que quando apparecia um só dos dois lumes era presagio de 
redobramento da tempestade, e então se attribuia a Helena, nun- 
cia de desgraças. Hoje toma-se conforme alguns Santo Elmo por 
abreviatura de Santo Anselmo. Os marinheiros ao appareciroento 
do lume santo invocam, uns Santo Anselmo, ou S. Thomé como 
os francezes, outros S. Gonçalo como os hespanhoes. 

Chegado ao paiz de Colchos Pollux venceu no combate do 
Cesto a um monstruoso gigante filho de Neptuno. Os dois Dios- 
cures fundaram na Colchide a cidade de Dioscurias depois Sa- 
bastopolis ou Soteropolíg, e boje Iskuriah. 



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— 288 — 

São diversas as opiniões dos mythologos sobre a morte de 
Castor. Uns, como Pindaro, suppoem que elle acabou ás mãos dos 
aphareidas cujos principaes chefes eram Idas e Lincèo, dispu- 
tando os despojos de uma expedição guerreira que os Dioscures, 
altiados dos aphareidas effectuaram na Arcádia. Outros dizem 
que Castor foi morto à traição por Lincèo, em consequência da 
inveja que Idas e Lincèo nutriam contra Castor e Pollux pela 
preferencia que Leucippo dera aos dois Dioscures, concedendo 
a Castor a mão de sua filha Pbebe sacerdotisa de Minerva e 
a Pollux a m3o de sua filha Hilaira sacerdotisa de Diana. Pol- 
lux ardendo em desejos de vingar a morte de seu irmão perse- 
guiu os matadores até ao tumulo de Àphareu, pai de Lincèo e 
Idas e ahi matou Lincèo, no mesmo tempo em que Júpiter ful- 
minava Idas com um raio. Outros suppoem porem que Castor 
acabou em uma guerra entre Athenas e Lacedemonia, quando 
Sparta foi sitiada pelos aphareidas, levantando-se-lhe mausuleos 
em Argos, em Sparta e junto a Therapne. Pollux amava tão ex- 
tremosamente seu irmão, e sentiu tão violenta dor pela sua morte 
que supplicou a Júpiter lhe concedesse morrer com este irmão 
querido. Júpiter deu a escolher a Pollux, ou ir habitar o olympo, 
ou participar da immortalidade cora seu irmão. Pollux aceitou 
este ultimo partido, e os dois irmãos viviam e morriam alterna- 
tivamente. Funda-se este roytho em que uma das duas estrellas 
Castor e Pollux, que são as principaes da constellação Gemi- 
nis, se occulta no horisonte quando a outra apparece. 

A apotheose dos dois Dioscures seguiu de perto a sua morte ; 
levantaram-se-lhes templos em Athenas e em Sparta, sua pátria, 
foram adorados como deuses protectores da navegação, e consi- 
derados também como tutelares da hospitalidade, e encarregados 
de punir os que a violavam. Seu culto espalhou-ae depois por 
toda a Grécia e Itália, e invocaram-nos em diversas tribulações 
e desgraças, sob os epitbetos de Megalm Theoi, tfAnactos, 5b- 



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— 286 — 

teros, e outros ; e confundiram-nos muitas vezes com os deuses 
Samothracios, Caribes, e Coribantes. 

Pollux foi insigne no combate do cesto, do pugilato, e em 
todas as sortes de jogos de destreza e de força. Castor distiu- 
guiu-se pela sua habilidade em domar e dirigir corseis ; por isso 
os dois irmãos presidiam cada um a seu género de jogos olym- 
picos, sob os cognomes de Pix Àgatos, Hypodaraos, Hypilades, 
Tftchypotos; e os competidores os propiciavam com votos e of- 
frendas 

os pugiles valentes 

a Pollux propiciem ; 

Os domadores de frisões ardentes 

O obsequio seu ao seu Castor enviem. 

Os romanos foram ardentes adoradores dos Dioscures ; fiae- 
ram-nos figurar muitas vezes á frente dos exércitos, e invocavam 
a sua protecção e favor para animar o valor dos soldados ; coo- 
fundianwios em muitas occasiões com os penates Pilumnus e Pi- 
cumnus. Os homens juravam pelo templo de Pollux Aode PqI; e 
as mulheres pelo de Castor Aede Castor. Ordinariamente eram 
representados por dois formosos e esbeltos mancebos, montados 
em dois cavallos brancos, e com bonet do feitio de meia casca 
de Avo para recordar o d'onde tinham saído ; rematado com es- 
treita. Em Roma no dia da festa de Castor e Pollux enviavfr-ae 
ao seu templo um cavalleiro vestido do mesmo modo qm os 
Dioscures montado em um cavallo branco, levando outro peto ré- 
dea para indicar que os dois irntàos não estfto ao mesmo tempo 
no ceo. Na praça do Capitólio vèem-se duas estatuas cotamaes 
tle mármore branco com bonet da forma de meio Avo, tendo aas 
hombros a clamyde ou capote militar, e tendo cada -uma um car 
vailo pela rédea. Sfto as estatuas de Castor e Pollux. 

Desde as mais remotas eras os astrónomos escolheram os dais 
Dioscures para emblema ou representativo do terceiro signo do 



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— 287 — 

sodiaco, *Num monumento achado na igreja de Nossa Senhora 
de Parto, o qual remonta ao reinado de Tibério, os dois gémeos 
representam a constellação do terceiro signo, e bem assim sobre 
a porta da* igreja de Strasburgo. 

Os dois Dioscures são representados na constellação de Ge- 
minis por dois manfcebos nus, estreitamente abraçados. Esta cons- 
tellação compõe-se de 64 estreitas visíveis; entre ellas figuram 
Castor e Pollux, que são de 2.* grandeza. Para achar esta cons- 
tellação traça-se mentalmente uma linha partindo de Àntaxes, 
passando sobre o e, í, e um pouco abaixo do 6 da grande Ursa, 
terminando 'num parallelogrammo de 7 estreitas. As 1." (Testas 
são Castor e Pollux. 'Nalgumas espheras o signo de Geminis é 
representado por dois pavões. O sol entra 'neste signo a 21 de 
maio ás B horas e 1 1 minutos da tarde, tempo médio ; e sai a 
22 de junho à meia hora 43 minutos da madrugada. Columella 
marca a 14 das calendas de junho a passagem do sol em Gemi- 
nis, isto é, a 18 de maio, dia «m que também a celebra o nosso 
Ovídio, expondo a seu modo 'num quadro breve mas de bella 
poesia, o rapto de Phebe e Hilaíra pelos dois Tindarides. 

No meio de todos estes roythoa e ficções uma idéa grande e 
sublime se descobre, que nos enche de veneração e respeito para 
com esses povos da antiguidade, hoje chamados bárbaros ; é esse 
culto poético, essa maneira delicada, toda espiritual, toda inspirada 
do faetlo, do grandioso, com que elles perpetuavam em monumen- 
tos indestructiveis, a memoria das acções grandes, e generosas, e 
tnmnnittiam a todas as gerações futuras o amor de todas as vir- 
tades ci viças e domesticas. Que ha ahi nos monumentos moder- 
nos que possa pAr-se a par doesse monumento eterno, immorre- 
doiro, doesse monumento tão grandioso, tão sublime, tão cheio 
de poesia, de sentimento, levantado pelos antigos ao anor fra- 
ternal ? í Milhares de annos tem passado, e esse monumento está 
hoje tio vive e brilhante pêra nós, como o foi para os artigos. 



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— 28& — 

As virtudes são filhas do ceo; e ha nada mais tocante, mais 
bello, mais magnifico do que symbolisal-as por essas centelhas 
de luz divina, que brilham para todos com resplendor que nunca 
esmorece ? ! A pedra é muda ; o bronze nfto o é menos ; mas as 
estreitas faliam, como falia a lua, como falia o murmúrio doa 
rios, como falia a brisa, como falia toda a natureza ! é que não 
ha voz mais eloquente do que a sua ! 

ANTÓNIO MARIA BAPTISTA. 



NOTA DECIMA OITAVA 



PAGINA 9i— VERSO 3 

LUGUOA S 0T1BW 

Facta canam ; sed erunt qui me flnxisse loquantur, 
Nullaque mortali numina visa putent. 

Propõe-se o poeta cantar coisas verdadeiras e não fingidas 
ou por elle inventadas, que isto quer dizer a palavra /acto, que 
vale o mesmo que vera et non ficta. Pelo principio doeste livro, 
e por todo o conteúdo do poema se vé que Ovidio era respeita- 
dor das divindades e da religião d'aquella idade. 

Desde o tempo de Cicero, e talvez antes, davam os sábios 
pouca importância ás falsas divindades, e nfto criam 'neltas ; já 
Lucrécio tinha publicado o seu poema materialista em que des- 
cria das deidades do olympo ; porem Ovídio* fiel ás antigas cren- 



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— £89 — 

ças, celebrou os deuses em seu poema dos Fastos (de que se per- 
deram os últimos seis livros) o qual Qão é outra coisa mais do 
que o calendário das festas religiosas dos romanos. 

Pode suppdr-se, sem muito aventurar, que Ovidio compoz o 
seu poema em opposição ao de Lucrécio seu rival ; e, compara- 
dos uiDjCoro outro, pode também dizer-se que os Fastos de Oví- 
dio, são uma reacção religiosa contra a doutrina impia de Lu- 
crécio. Tão verdade é que a demasiada acção produz sempre in- 
fallivel reacção 1 

Differentes na carreira poética que seguiram, estes dois gran- 
des poetas correram também diversa fortuna. Lucrécio, materia- 
lista e incrédulo, não foi feliz, que a si mesmo deu a morte 
na idade de quarenta e quatro annos ; Ovidio, crente e religioso, 
foi bemquisto do povo, acolhido com favor na corte de Augusto, 
e soffreu com animo imperturbável os trabalhos do exílio. Lu- 
crécio peccára por corrupção do entendimento; Ovidio por ex- 
travios do coração : para este houve allivio e refrigério, remi- 
grando o seu cadáver á cara pátria, como alguns suppoera ; para 
aquelle só houve desesperação e opprobrio, descendo ao averno, 
réo de lesa divindade! Quanto mais culpada é pois a mente al- 
tiva que contra o ceo se atreve, do que o frágil coração que ás 
paixões succumbe! 

Posto que de idéas oppostas, não era porem Ovidio inimigo 
de Lucrécio, nem de negra inveja possuído, pois deu vida ao 
poema da Natureza^ que já parecia condemnado ao esquecimento 
com aquelle bem conhecido distico : 

Carmina sublimis tunc sunt peritura Lucreti, 
Exitio terras quum dabit una dics. 

De sublime Lucrécio alto e divino 
os versos morrerão co'a natureza : 
uniu-sc d'elle e d'ella o grão destino. 

TOM. III. 19 



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— 290 — 

Pondo de parte a natureza dos assumptos que trataram os 
dois poetas, não pode ncgar-se que ha mais poesia e mais de- 
cência em Lucrécio do que em Ovídio, e que é muito aceitarei 
a opinião de Pongueville a este respeito : « Lucrèce, diz o sábio 
académico francez, represente les dieux sommeillant enivrés dè 
néctar et de voluptés, mais O vide les peint effirénés ànps leors 
impurs désirs, et tout souillés de vices. » 

J. I. BOQUETE. 



NOTA DECIMA NONA 



PAGINA 91 -VERSO 5 
ESTRO P0BT1G0 
Est Deus in nobis 



Concordam os annotadores de Ovídio em dizer que o deus de 
que elle aqui falia é o instincto poético : Tnstinctus quidem poe- 
ticus; pode comtudo dar-se mais elevação a este pensamento, 
vendo 'nelle uma luminosa prova da existência do Ente Supremo, 
e da espiritualidade da alma humana. 

E na verdade, a mole immensa da terra que pisamos, esses 
assombrosos globos que voltêam sobre nossas cabeças, essa in- 
commensuravel abobada dos ceos que por toda a parte nos rodêa, 
provas sâo mui certas da existência do Ente necessário, causa 
prima de todos os seres, increado e creador, que rege o mundo 
com a sua providencia ; mas n5o é prova menos certa e incon- 



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— 291 — 

cussa doesta verdade» o mundo abreviado, isto é, a creatura que 
se chama homem, considerada não tanto em seu organismo, como 
em «9 nobres faculdades de sua alma, 

A prova porem máxima, a meu ver, da existência do Sobe- 
rano Creador da natureza, e da espiritualidade da alma humana, 
é a mente bem formada, engenhosa e grandíloqua de um ver- 
dadeiro poeta. 

Se toda a alma humana é uma faisca da luz divina, a do 
poeta é luminoso raio que visivelmente brilha ; _e se, na phrase 
da Eacriptura, cada um dos homens pode dizer que Deus lhe 
enviou a luz do seu rosto, dando-lhe uma alma racional, signa- 
tum est super nos lúmen vukus tui, Domine (Ps. iv, 7) ; o poeta 
com mais razão pode affirmar : Est Deus in nobis, em nós está 
Deus, isto é, em nós brilha a mais convincente prova da exis- 
tência de Deus. Ha, houve um verdadeiro poeta ? Logo ha um 
Deus. — Ha, houve um engenho poético ? Logo a alma humana 
é iramaterial, é espirito. 

A própria palavra poeta, segundo a sua origem do verbo 
mato, fazer* erear, nos está dizendo que elle é creador, pela in- 
venção com que dá o ser a variados assumptos que em sua mente 
concebera, e pela novidade da forma com que dá vida e formo- 
sura áquelles pensamentos tão sublimes, áquelles escriptos quasi 
divinos que admiramos, e excedem a admiração, e que obra são 
do génio creador dos poetas ; por isso podem elles com verdade 
doer : Est Deus in nobis ; vive, e obra em nós uma virtude di- 
vina, emanação celeste, fogo sagrado que nos anima, unccão iqe- 
liflua que nos commove, magico poder que os corações abranda, 
um ser que não é matéria, porque a matéria é inerte e bruta, 
um sopro indisivel, que não é vulgar inslincto, senão etbereo 
lume que de Deus emana e para Deus nos attrahe. 

Este pensamento, assim aformp6eado, foi expendido pelo 
mesmo poeta #a sua Ar$ amandi onde diz : 

19* 



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— 292 — 

Est Deus in nobis, sunt et commercia coeli; 
Sedibus aethereis spiritus ille venit. 

Anima Deus nosso peito, temos trato com o ceo, e das elhe- 
reas moradas nos vem divinal inspiração, ou segundo a traduc- 
ç3o de Yerso a verso por A. F. de Castilho : 

Ha dentro em nós um deus; seu fogo nos anima; 
anda o corpo na terra; a mente lá por cima. 

E um commentador do poeta exprime-se 'nestes termos : 

aNarn & Divinitate fit, ut ita excalescant poete ad excu- 
dendos ex ingenio versus, et ad mentem altius attollendaro, quod 
sine numine fieri non posset. >r 

Por certo, se não houvesse Deus, e se a alma humana não 
fosse espiritual, não haveria nem poderia haver poetas. A maté- 
ria, por mais perfeita que fosse, nunca chegaria a conceber, a 
compor, e a dar a lume a Miada de Homero, a Eneida de Vir- 
gílio, a Jerusalém do Tasso, e os Lusíadas de Camões. 

'Neste mesmo sentido escreveu Cicero, apesar de não ser 
poeta, pois diz : « Poetam natura ipsa valere et mente* vercibus 
excitari, et quasi divino quodam spiritu inflari. >» De natura Deo- 
rum. 

Este pensamento, que se acha repetido por Virgílio nas Geor- 
gicas liv. ív, na Eneida, liv. vi, e por Lucano, não é privativo 
dos romanos, mas já vinha dos gregos, por quanto S. Paulo, oran- 
do aos athenienses no Areópago, em cujo recinto vira um altar 
consagrado ao Deus desconhecido, Ignoto Deo, disse-lhes, fal- 
tando d'aquelle Deus : « In eo vivimus, movemur et sumos ; » 
'nelle vivemos, 'nelle nos movemos e existimos (Act. xvii, 28); 
e acrescenta : « Sicut et quidam vestrorum poetaram dixerunt 2 
Ipsius enim genus sumus ; » Como disseram alguns de vossos 
poetas : Somos geração sua. 

É de saber que S. Paulo, quando citou aquellas palavras 



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— 293 — 

. ípsius enim genus sumus, referiu um hemistichio, ou meio verso 
do poeta grego Arato : Teu ydp Kaí ybm e^sv. 

Este poeta era natural da Sicilia ; viveu duzentos e setenta e 
sete annos antes de Jesu Christo, e passou a maior parte da sua 
vida na corte do rei de Macedónia, Antigono Gonatas. Foi medi- 
co, critico, philosopho e mathematico i compoz obras scientiiicas 
sobre medicina e astronomia, em prosa e verso ; das em prosa 

. nada nos resta, das em verso restam-nos os Phenomenos e os Pro- 
gnósticos (bzivouívz hiowj.ziz, ensinando : 'naquelles, o logar e o 
apparecimento das es t rei las no ceo ; e 'nestes, o prognostico dos 
tempos pelos signaes naturaes. 

O hemistichio referido por S. Paulo é do principio dos Phe- 
nomenos, cuja versão se lê em Calmet 'nestes termos : 

A Jove'incipiendum est, cujus oblivisci nefas est. 

Omnia Jovis sunt plena, 
Me vias, plateas, et hominum coetus replet, 
Maria omnia, et portus Jove pleni 
Sunt, et ubique Jove indigemus, 
Hujus enim genus sumus. 

A Lapide dà outra versão, mas nem um, nem outro, traz o 
texto grego. 

Este ímpeto, impetus hic, a que o commentador chama com 
razão poetarum furor, e os italianos fúria poética, e nós estro 
poético, é o caracter distinctivo do vate mormente quando se en- 
thusiasma em poema heróico, e se remonta ás adiantes musas 
para, com sua inspiração, embocar épica tuba e cantar sublimes 
feitos. Bem possuído estava (Testa verdade o nosso poeta quando, 
na invocação da sua epopéa, disse no sentido dos poetas italia- 
nos, que lhe eram mui familiares : 

E vós, Tágides minhas, pois creado 
Tendes em mi hum novo engenho ardente ; 



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— 29i — 

Dai -me uma fúria grande e sonorosa 
E não de agreste avena, ou frauta ruda; 
Mas de tuba canora e bellicosa. 

Canto i. 



J. I. BOQUBTE. 



NOTA VIGESSIMA 

PAGINA 101— VERSO 2B 
JUIM BB PÁBIS 

JJo Ida sobre o cume, 
De arvoredo virente á basta sombra, 

Aonde clara fonte 
Sonora cahe e a meditar convida, 

Paris, o gentil filho 
Do monarcha dardanio, ha muito espera 
Ás três deusas do olympo as mais formosas : 

Juno, esposa de Jove, 
Minerva, e a que nasceu do mar espumeo. 

Por Júpiter mandado 
O alipede Mercúrio, o divo núncio, 
Ao troyano pastor ordem trouxera 
Para ali decidir o grande pleito, 

Que a Discórdia raivosa 
Entre as três divindades suscitara, 



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— Í85 — 

Quando, não senão convidada ás bodas 
De Thetis e Peleu, lançou na mesa 

O disputado pomo, 
O qual trazia escripto : á que é mais bella. 

Vinha a aurora assomando. 
Fita a vista no ceo, olha o mancebo 
Como alastra do dia a mensageira 

De rosas o oriente, 
Por onde venha o sol dar luz ao mundo. 

Porem súbito brilho 
Inunda o firmamento, e de três pontos 
Como que três auroras vem crescendo. 
Eil-as mais perto já, eil-as — são ellas, 

As peregrinas deusas, 
Que em meio de translúcidos fulgores, 

Ao Ida se dirigem, 
Como a rivaes convém, por varias sendas. 

Paris de vêl-as treme, 
£ os olhos fecha por tal lume cegos ; 
Abre-os era fim, que Júpiter lhe infunde 

A tempera celeste, 
Por que possam soffirer tamanho incêndio ; 
Abre-os, e vê-as que do vôo poisam 
Jâ do alto monte no relvoso cinjo. 

Verte o ar ambrósia, 
E de effluvios divinos se embalsama ; 
Correr disséreis roais suave a fonte, 

Mais verdejar a relva, 

E as flores desbrocbarem 
Que são de leve por seus pés tocadas. 

Tudo lhes rende preito, 



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— 296 — 

Tudo respira amor, e brota encantos. 
Então ao rei do eco que lança o raio 

O pastor escolhido 
Em fervorosa prece se encommenda, 

A qual ao throno ethereo 
Sobe veloz, e Júpiter a aceita. 

Respeitoso depois volve-se a ellas, 
E diz : 6 deusas, perdoai se eu ouso 
Até vós elevar a mente e a vista ; 

Sigo a ordem suprema 
Do que governa (uespaço, o tempo e tudo ; 

E força pois cumpril-a ; 
Porem que nSo incorra em vossa ira, 
Seja qual for a decisão, eu peço. 
Juno responde : anima-te, mancebo, 
Do mundo inveja, a quem os nuraes amara, 

Ser juiz da belleza 
A ti, bello entre os mais, de certo cabe. 
Julga-nos, aguardamos a sentença. 
Como ella, as outras duas encarecem 

Os encantos do joven, 
E o acerto da escolha, procurando 
Ambas co'a voz, o gesto e os doces modos, 
E com estes louvores captival~o. 

EHe as vê e contempla, 
Passeia de uma á outra o olhar atónito, 

Cogitando perplexo, 
E sem que se decida, fica mudo. 
A qual d'ellas se deve dar a palma ? 

Juno levanta a fronte de rainha, 



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— 297 — 

Co'a vista impera, acostumada ao mando, 

Mas se a volve, captiva 
Todos, pois captivou o próprio Jove : 
Palias de olhos azues 'nelles reflecte 
O Empyreo, e a alma sublimar parece ; 
Inspira o rosto seu sciencia e gloria. 
Vénus, Yenus no olhar toda é brandura, 

Ri-Ihe o prazer nos lábios, 
E o seu fallar os corações penetra. 

O cabello não prende, 
Como as outras, avara, mas nas costas 
Alvas de neve poisa em ondas (Toiro ; 
Não se rebuça em veste roçagante, 
Servem-lhe de vestido as próprias graças, 

Deixando ver as formas 
Nuas, sem veo como as não sonha a mente. 

Só como adorno a cinge 
A pe trina que a amor tudo sujeita. 
Assim pensa o mancebo, e já seus olhos 
Não vagam de uma á outra duvidosos ; 
De Paphos e de Gnido vence a deusa, 
E a ella o pomo da bellesa entrega.. 

Recebe-o Gytherea entre sorrisos 
E lhe diz : a teu lado serei sempre 
Quando o p'rigo pedir ; de Troya amiga 

Hei de pugnar constante 
Por ella, quer na terra, quer no Olympo. 

A ti dar-te-hei a taça 
Do prazer e a* ventura nos amores. 

Emtanto Juno, ao carro seu já sobe, 



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— 298 — 

E Minerva a acompanha, porque ajuntam 

À cólera e a vingança 
Agora as que o ciúme desunira. 

Fulminam seus olhares, 
£ os lábios seus a indignação e ameaça. 
Maldicto sejas tu, Saturnia exclama, 
Seja Troya maldita, e a raça impura 

Que nos seus campos vive ! 
D'ella e de ti vingar-nos saberemos; 

Exemplo memorando 
Que ha de assustar as gerações vindoiras ! 

E tu, Vénus, remonta 
Ao Empyreo, e alardeia a tua gloria ; 

Saberás quem mais pode : 
Se tu, que filha és da salsa espuma, 

Ou se eu, de Jove esposa, 
Que o leito seu, e o seu poder quinhôo, 

E a bellica Minerva 
De todas suas (ilhas a mais cara. 
'Nisto elevam-se ao ar e desparecem. 

Vénus, Paris consola, 
E contra ambas soccorro lhe promette. 
Deixa-o em fim na terra, e ao divo assento 

Bapida se levanta, 
Por gosar do triumpho entre os mais deuses. 
Ahi Palias e Juno já na idéa 
A vingança traçavam, que devia 
Por tantos annos flagellar os povos. 

O dardanio pastor de ouvil-as treme 
Por si e pela pátria, 



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— 299 — 

E, modo, meditando 
Fica no longe e lúgubre futuro. 

Emtanto as divindades, congregadas 
Do Olympo sobre o cume, 

Tinham presenciado o grande pleito, 

Com que os ceos a Discórdia perturbara ; 
E, decidida a causa, 
Havendo espVado as deusas, 

Para os seus aposentos se encaminham. 



J. RAMOS COELHO. 



NOTA VIGESSIMA PRIMEIRA 



PAGINA 103— VERSO i 
CABRA 

A deusa Carna foi originariamente uma ninfa, que tinha o nome 
de Grane, e era filha de Oxilo, e de uma Hamadryade. 

Era dotada de uma rara formosura, e vivia pela maior parte 
em um bosque nas margens do Tibre, entregue ás distracções 
da caça. Mais de um mancebo lhe fez declarações de amor, as 
quaes ella frustrava com artificiosos estratagemas ; até que, por 
fim, não poude resistir ás perseverantes e apertadas diligencias 
de um amante de elevada condição. 

Jano, o famoso deus do paganismo a quem estavam consa- 



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— 3<fo — 

gradas as portas das casas, acertando de ver por acaso a formosa 
ninfa, sentiu-se desde logo repassado de uma paixão extrema ; e 
para conseguir o ser correspondido, recorreu ás mais ardentes 
supplicas, e a todo o género de instancias e excessos que ú des- 
atino de um amor arrebatado pôde suggerir. Logrou afinal os 
seus intentos ; e em compensação do sacrifício a que obrigara a 
ninfa, concedeu-lhe o valioso poder de presidir á conservação 
das couceiras e gonzos das portas, e de afastar d'estas as aves 
agoireiras e as de rapina, bem como todos os desastres e infor- 
túnios. 

Os encantos da ninfa, a sua vida de caçadora nos bosques, 
a engenhosa resistência aos mancebos que a requestavam, a aven- 
tura de Jano, e, finalmente,* o terno e sentido episodio do pe- 
rigo a que esteve exposto o recemnascido Proca, ao qual a ninfa, 
por effeito dos poderes que recebera de Jano, acode, salvando-o 

das garras de mysteriosas aves de rapina tudo isto é des- 

cripto admiravelmente por Ovídio, em versos deliciosos, que só 
o sr. Castilho sabe trasladar condignamente. 



As crenças ingénuas, quanto imaginosas do primitivo paga- 
nismo foram multiplicando as faculdades beneficentes da nova 
deusa. Afora os grandiosos poderes que lhe liberalisou Jano, fo- 
ram-lhe tombem attribuidos : l.°o dom de preservar as crean- 
cinhas da influencia funesta dos génios maus, afastando-os dos 
berços em que ellas dormem o plácido somno da innocencia; 
2.° o precioso encargo de presidir á conservação das visceras do 
corpo humano em estado de vigor e de saúde. 

É porque as manifestações do sentimento religioso são como 
os rios ; vão a pouco e pouco engrossando, á proporção que per- 
correm longas distancias. Nem sempre o caminhar progressivo 
de taes manifestações é allumiado pela razão; mas ainda assim, 



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— 301 — 

não ha muito que lamentar, quando não surgem aberrações que 
o bom censo, ou a moral condemnam. 



Como divindade que presidia aos órgãos vitaes internos do 
corpo humano, para o fim de os conservar sãos e vigorosos, era 
Cama a intercessora dos romanos, quando supplicavam a con- 
servação da saúde, e o desenvolvimento perfeito e normal do co- 
ração e das demais vísceras do organismo animal (1). 

O primeiro romano illustre, que, 'neste sentido, lhe fez sa- 
crifícios solem nes, foi o famoso Junio Bruto. Tendo expulso de 
Roma Tarquinio, o soberbo, julgou dever significar á deusa Carna 
o seu reconhecimento, apresentando-lhe adequadas offrendas no 
primeiro dia do mez de junho, o qual provavelmente, do nome 
do libertador de Roma, se ficou assim chamando (2). 

A razão por que Bruto consagrou á deusa Carna tão agra- 
decidas demonstrações, e lhe erigiu um templo no monte Celio 
(se é que não existia já o templo), foi porque a dissimulação 
que podéra sustentar, occullando por muito tempo o que tinha 
no coração, fora o meio efficaz de realisar prosperamente os seus 
arriscados projectos ; e por quanto a deusa Carna presidia á mais 
nobre víscera do corpo humano, natural era, segundo as suas 
crenças, endereçar-lhe a expressão dos seus votos e gratidão (3). 



(1) Hanc Dcam vitalibus humanis prceesse credunt. Ab ea denique 
petitur, ut jecinora etxorda, quwque sunt intrinsecus víscera, salva con- 
servei. (Macrobius. Salumalcs. Lib. i, ca|>. xn). 

(2) Nonnulli putaverunt, Junium mensem a Junio Bruto, qui pri- 
mus Roma cônsul factus est, nominatum ; quoâ hoc mense, id est, Ka~ 
lendis Juniis, pulso Tarquinio, sacrum Carnw Dece in Caelio monte voti 
reuêfecerit. (Macr. id.) 

(3) Et quia cordis beneficio, cujus dissimulatione Brutus habebatur, 



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— 302 — 

Os manjares que era estylo servir nas mesas, por occasiâo 
da festa de Carita (celebrada no 1.° de junho), consistiam em 
pedaços de gordo toicinho, e em um guisado de favas, mistura- 
das com farinha: alimentos, que em verdade nada tinham de 
mimosos ; mas eram nutritivos, substanciaes, e próprios para res- 
taurar as forças, e dar vigor ao corpo (i). 

Era assim que ás calendas de junho se dava a denominação 
vulgar de Fabariae, por isso que as favas, que a terra apresenta, 
como em sazão própria, 'naquelle mez, eram offerecidas nos sa- 
crifícios (2). 

Ao descrever os singelos, e quasi rústicos alimentos que se 
apresentavam nas festas da deusa Cama, faz Ovidio notar o quão 
mudados estavam os costumes dos romanos, em comparação do 
luxo que reinava nas lautas mesas do seu tempo, cobertas de es- 
tranhos, esquisitos, e mui custosos manjares: 

« Cama diz elle, é uma deusa antiga : não quer outro* aU- 
meutos, senão os do seu tempo: abstem-se (V essas iguarias que 
o luxo foi buscar por toda a parte, até ás mais remotas regiões 
da terra. » 

Lição moral engenhosa, que o poeta dava aos seus contem- 
porâneos, já então degenerados da veneranda simplicidade de ou- 
tras eras ! Lição moral interessante , que ainda hoje seria provei- 
tosa a milhares de creaturas ! 



idoneus emendationi publici status exstitit, hanc Deam, quae vitalibus 
prmest, templo sacravit. (Macr. id.) 

(1) Pinguia cur Mis guslentur tarda kallendis, 

Mixtoque eum cálida tit faba forre, rogas f 

Ovidio. 
Cuipulte, diz Macrobio, / abaria et larido sacri/icaíur ; quod vires 
maxime his rebus corporis roborenlur. 

(2) Nam et Kalenda Junia f abaria vulgo vocantur, quia hoc m**- 
se adulta faba divinis rebus adhibentur. (Macr. id.) 



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— 303 — 

De differentes modos se encontra escripto em diversos auto- 
res o nome da deusa Cama: 

Carda, Carita, Cárdia, Cardinea, Crane, Comia, Cama. 

É, porem, certo que todos estes nomes se referem a uma 
só deusa, Cama, tal como Ovidio a apresenta, no complexo de 
attributos de que a reveste. 

Os primeiros nomes apontados podem provir do grego x«p&«, 
coração, ou do latim cardo, couceira, gonzo. De Crane fariam 
figuradamente Cama, ou pode ser que este nome viesse do abla- 
tivo latino carne (vitalibus enim praeerat). 

Não damos grande importância a esta especialidade ; e só a 
indicamos, para que não faça duvida o modo diverso por que se 
encontra escripto este nome em Macrobio (Satumales) ; em Santo 
Agostinho (De civitate Dei); em Graevio (Thesaurus Antiqui- 
tatum Romanarum); em Samuel Pet. (Lexicon Aniiq. Bom.), 
ete. etc. 

Fora fácil desmvolver os pontos que tocamos ; e maioroente 
faríamos uma dissertação volumosa, se ousássemos acompanhar 
a crítica moderna, quando encara as religiões da antiguidade nas 
soas formas symbolicas e mytbologicas, ou quando se occupa de 
tnythologia comparada. 

O traductor illustre dos Fastos honrou a nossa humildade 
pedindo-nos uma nota, e nós julgaríamos abusar da sua delica- 
deza, se lhe apresentássemos um tratado, 

JOSÉ SILVESTRE RIBEIRO. 



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304 — 



NOTA VIGESSIMA SEGUNDA 

PAGINA 103- VERSO 9 

PfflTIFIGES 

Justa dignidade foi creada por Numa. Era vitalícia, e objecto de 
geral veneração. 

Aquelle rei, tirado do arado, para se pôr á frente de um 
povo, ainda não bem constituído, entendeu não poderia consti- 
tuil-o melhor, que levando-o para o culto da Divindade. . 

Na execução não andou acanhado. Era o Suramo Pontífice 
juiz supremo de quantas contendas religiosas se podiam suscitar. 
Não era subjeito a tribunal ou autoridade alguma, nem a dar 
contas ao senado nem ao povo. Tinha inspecção nos demais sa- 
cerdotes e nas vestaes. Regulava o culto, as ceremonias, os sa- 
crifícios. Determinava quando deviam celebrar-se as festas, que 
não tinham dia fixo. E era tal o seu poder que pela simples de- 
claração de um dia festivo, prendia as mãos ao povo, aos ma- 
gistrados, e até ao rei. Entendia sobre os livros das prophecias 
e oráculos. Era a elle que pertencia escrever os Fastos de Roma, 
obra monumental, da qual se perdeu parte, devorada pelas cham- 
mas, 'numa das invasões d'aquella capital. 

Ao Summo Pontífice foram só dados três collegas, com os 
quaes elle formava um collegio, a que presidia ; mas este numero 
veiu a ser augmentado. A jurisdição do collegio limitava-se em 



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— 305 — 

Roma, e seus subúrbios : mas veiu a estender-se mais. Os negó- 
cios eram decididos á pluralidade de votos, ainda que o resul- 
tado se expedisse pelo presidente. £ se este algumas vezes exor- 
bitava, d'elle se recorria para o mesmo collegio. 

Ha sempre no poder, uma tendência para se centralizar. Esta 
tendência disfarçava-se, cora o muilo respeito que se tinha a 
Numa : porem depois d'elle, e com o andar dos tempos, os Sum- 
mos Pontífices foram a pouco e pouco annullando o collegio, go- 
vernando independentemente d'elle, reuni ndo-o raras vezes, e se 
o faziam era por uma espécie de deferência, ou por algum mo- 
tivo particular. 

Quando, por morte de Metello, César foi elevado a tão alta 
dignidade, os seus titulos á consideração publica eram já mui- 
tos. Tribuno militar, Questor, Edil etc, ninguém se tinba tor- 
nado mais agradável ao povo, ninguém tinha excitado mais o 
publico enthusiasmo. E v não havia então para elle coisa, que 
mais ambicionasse. No dia das eleições, abraçando sua mãi ba- 
nhada em pranto, lhe tinha elle dito : ver-me-heis hoje ou Summo 
Pontífice ou desterrado. 

Orador, philosopho, politico, César conhecia qual era a im- 
portância da religião, e quanto ella podia concorrer para o seu 
futuro engrandecimento. Aquelle, que disse que seria mais fácil 
fundar uma cidade no ar que uma sociedade sem religião, disse 
uma grande verdade. E tal tem sido o pensamento de todos os 
grandes legisladores. 

As balizas do summo pontificado, tão limitadas antes, che- 
garam a não ser outras senão as da extensão do império. O 
que, principiando em César, continuou em seus successores. Os 
governadores das províncias consultavam o Summo Pontífice e 
recebiam respostas ás consultas que faziam. 

Ultimamente, ao succeder Graciano a seu pai Valentiniano, 
os membros do collegio pontifical apresentaram-lhe as vestes pon* 
TOM. III. 20 



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— soe — 

tificias, que elle recusou, como impróprias de um príncipe chris- 
tão. E assim acabou essa dignidade pagã. 

Nós temos outra muito mais respeitável, sagrada, e a que 
nenhuma pode comparar-se : a do papa. Este nome designa o 
vigário de Jesu Christo sobre a terra, o Summo Pontífice da 
Igreja Christã, e aquelle a quem compete o poder supremo de 
toda ella. Cons. Trid. Sessão 6 de reform. c. i, sessão 15 de 
Poenit. c. 7. 

. JOSÉ JOAQUIM RODRIGUES DE BASTOS. 



NOTA VIGESSIBf A TERCEIRA 

PAGINA 107— VERSO 3 
AS FEITICEIRAS E BROXAS MS RftlAIOS 

JT eiticeiras, ou feiticeiros, a que os romanos chamavam empsalr 
maiores, eram os que pretendiam curar achaques com certas ora- 
ções, ou palavras compostas em forma de versos, ou psalmos (1), 
o que talvez venha do diabólico mago Anselmo Parnense, como 
pretendem Martim dei Bio (2), e Torreblanca (3). 

S. Thomaz com todos os Summistas nega a efficacia de taes 
formulas, que não passavam da intenção de quem as proferia. 

(1) Uamas in Method. pag. 3, fl. 372. 

(2) Magic. liv. i, cap. m. 

(3) Liv. xh, cap. xxu. 



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— 307 — 

Todavia porque algumas vezes acontecesse, ou fingissem que acon- 
tecia colher-se fructo de taes embustes, é certo, que os povos dos 
primeiros séculos attribuiam grande importância a cantigas, ver- 
sos, e ri th mos, para operar milagres. Virgílio diz (1): 

Carmina vel possunt coei o dedocere Lunam ; 
Carminibas Circe, sócios mu ta vi t Ulyssis; 
Frigidus in pratis cantando rumpitur anguia. 

Para destruir cearas, e secar fontes, diz Ovídio (2) : 

Carmine laesa Ceres sterilem vaneseit in herbam, 
Deficiunt laesi carmine fontis aquae. 
Ilicibus glandes, cantataque vitibus nva 
Decidit et nullo poma movente fluunt. 

E para tudo que se queria diz Alcimio (3) : 

Hinc est laudato, quod possunt carmine Marsi; 
ou melhor como diz Ovídio (4) : 

Quid enim non carmina possunt? 

Com taes rithmos invocou Celestina a Plutão nas palavras : 
« Conjuro-te triste Plutão senhor das profundidades iufernaes, im- 
perador da corte damnada, capitão soberbo dos espíritos con- 
demnados, senhor dos sulfurios fogos, que os ferventes Ethoas 
brotam ! » 

De outras invocações faz menção Virgílio (5) : 

Você vocans Hecaten, Coeloque Ereboque potentem. 



*(i) In phprmac. eclog. 8 

(2) Lib. ni. Âmorum, eleg. 6. 

(3) Alcimio Âvito, lib. n. 

(4) Metam. liv. vil. 

(5) Àen. lib vi. 

20* 



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— 308 — 

Horácio (1): 

Hecaten vocat altera, sevam 
Altera Thesephonem. 

Estas invocações eram com voz maviosa, ou de trovão ; ou 
arremedando o ladrar dos cães, o susurro das aves nocturnas, ou 
das feras como diz Lucano (2) : 

Tunc vox Lethaeos cunctis pollenlior berbis 
Excantare Deos, confundit murmura primum 
Dissona, et humanae multum discórdia linguae 
Latratus habet ília canum . gemitusque luporum 
Quod trepidus bubo, quod strix nocturna qucruntur, 
Quod strident ululantque ferae, quod sibilat anguis. 

A estas variedades de vozes, também juntavam vários ges- 
tos,, como alevantar as mãos, os olhos e rosto para o ceo. Vir- 
gílio diz (3) : 

At pater Anchises óculos ad sydera laetus 
Eitulit, et coelo palmas cum você tetendit. 

Outras vezes apertando os ouvidos, descalçando os pés, des- 
cobrindo os hombros ; Ovidio (4) : 

Egreditur tectis vestes induta revi actas, 
Nuda pedem, nudos bumeros infusa capillos. 

E Tibullo (5) : 

Vincla que de níveo detrahit ípsa pede. 



(1) Sat. 

(2) Pharsal. liv. vi. 

(3) Âen. liv. ii. 

(4) Metam. liv. vn. 

(5) Liv. i, eleg. 5. 



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— 309 — 

Virgílio : 

Unum exuta pedem, vinclis que in rtste revincta. 

Ainda lhes faltava porem o tempero de certas hervas para 
acautelar as falhas da mezinha. 
Virgílio (1) : 

Has herbas, adque haec Ponto mihi lecta venena 
Ipse dedit Moeris: nascuntur plurima Ponto. 

Com as quaes fazia metamorphoses de homens em brutos, 
resuscitava almas, e movia as coisas de uma para outra parte, 
por meio de feitiços* como diz o mesmo poeta (2) : 

His ego saepe lopum fieri, et se condere silvis. 
Moerim, saepe animas imis excirc sepulcris, 
Atque satãs alio vidi traducere messes. 

Por isso Tibullo chamou a estas hervas más (3) : 

Sola tenere malas Medeae dicitur herbas, 

e péssimas lhe chama Glaudiano (4) : - 

Nec me latuere fluentes 
Ârboribus succi, funestarumque potestas 
Herbarum : quidquiji letali germine pollens 
Caucasus, et Scythicae vernant in carmina rapes, 
Quas legit Medea ferox, et callida Girce. 

E para mais solem ne invocação lhe juntavam agua, fitas, e 
insenso macho. Virgílio (S) : 

(1) Pkartn. eclog. 8. 

(2) Virg. supra. 

(3) Liv. i, eleg. 2. 

(4) Liv. i, in Ruffin. 

(5) Pharm. eclog. vm. . 



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— $10 — 

Effer aquam, et molli cinge haec altaria \illa; 
Verbenasque adole pinguis, et máscula tura : 
Conjugis, ut magicis sanos avertere sacris 
Experiar sensus ; 

E finalmente mandavam juntar todo o que ha de mais- re- 
pugnante, monstruoso e extravagante ; escuma de cães damna- 
dos, entranhas de lince, embigo de hiena, tutano de veado» co- 
bras, lagartos, e cinza de fogueira de Fénix, como diz Lucano (1) ; 

Huc, quidquid fetu gemiit Natura senistro, 
Miscetur. Non sputna canum, quiboa unda timori est 
Víscera non lyncis, non durae nodus hyaenae 
Defuit, et cervi pasti serpente medullae ; 
Non puppim retinens, Euro tendente rudentes, 
In medi is echínus aquis, oculique draconum, 
Qaeque sonant feta tepefacta sub alite saxa 
Non Arabum volucer serpens, innataque rubris 
Aequoribus custos pretiosae vipera conchae; 
Aut viventis adhuc Lybici membrana cerastae; 
Aut cinis Eoa positi phoenicis in ara, 

£ com taes drogas conjuravam Plutão e a todas as notafaili- 
dades infernaes, sem esquecer o famoso cão Cerbero ; como usava 
fazer a madre Celestina, segundo se lê na "famosa tragi-comedia 
de Calisto Ymelibea obra de Fernando Bojas anteriormente sup» 
posta de João de Mena: «Eu te conjuro ó Plutão» pela vir- 
tude e força d'estas vermelhas lettras, pelo sangue d'aquella no- 
eturna ave com que estão escriptas, por aquelles nomes, e si- 
gnos que 'neste papel se contém, pela áspera peçonha das víbo- 
ras, de que foi feito este azeite etc. » E por esta mesma for- 
mula costumavam invocar o demónio como conta Homero de 
Orce, Horácio de Canidia, Lucano de Erichtho, Virgílio de Or- 

(1) Phars. liv. vi. 



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— 311 — 

pheo, e Ovídio de Medea. E o demónio gostava de que o ameaças- 
sem para ceder aos encantos como diz Stuckio e como Celestina 
obrigava a Plutão (1): «Se o não 6zeres immediatamente, se- 
rei tua capital inimiga, lançarei a luz nos teus infernaes apo- 
sentos etc. » E assim fazia também a Hecate a feiticeira Erich- 
tbo de Lucano (2) : 

Stygiasque canes in luce superna 
Destituam ; per busta sequar, per funera, custos 
Expeliam tumulis, abigam vos omnibus urnis 
Teque Deis, ad quos alio procedere vultu 
Ficta soles; Hecate, pallenti tabida forma. 

Para adivinhar o futuro recorriam à magia. 

DA MAGIA 

A magia é a arte de adivinhar o futuro. E comprehende : 

1.° A Hydromancia, arte de adivinhar pela agua; por isso 
os antigos adoravam os rios, as fontes, e os tanques, como at- 
testam Macrobio, Martin dei Rio, e Santo Agostinho (3). 

2.* Geomancia, a arte de adivinhar pela terra. 

3/ Acrimancia, mencionada por Mantuano, arte de adivi- 
nhar pelo fogo, onde lançavam péz, ou accendendo tochas feitas 
com péz, e em forma de certas figuras como contam dei Rio (4) 
e Bulengero (S) : se a chamma saía unida e direita prognosti- 
cava felicidades ; se, pelo contrario, dividida e obliqua, infortú- 
nios ; se de repente se apagasse, perigo imminente ; e por isso os 

(1) Trag-com. act. m. 

(2) Phars. liv. vi. 

(3) De Civ dei, liv. viu, cap. fin. 

(4) Liv. iv. 

(5) Liv. in. Divin. cap. xi. 



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— 311 — 

antigos veneravam o fogo, chamando-o deus Vulcano como nota 
Prudcncio (i): 

Ipse ignis, nostrum factusqui "servi t in usum 
Vulcauus perhibetur 

ou intitulondo-o com o nome de Vesta como diz este mesmo 
Ovidio 'neste poema dos Fastos: 

Nectu aliut Vestam, quam vivam iateligc flammam. 

4. a Chyromancia, arte de adivinhar pelas raias ou linhas 
das mãos; em que parece fora insigne Aristóteles (2). 
^ S. a Necromancia, arte de adivinhar pelas sombras, ou cor- 
pos dos mortos; teve esta a sua origem na crença da immor- 
talidade da alma, que os romanos julgavam igual á divindade, 
tendo assim o dom de responder sobre os futuros ; por isso seu 
luto era mais um festejo com hymnos aos seus próprios paren- 
tes e amigos, como attestam Plularcho (3) e Plinio (4); ainda 
destituídos de figura visivel, como canta o propheta rei (5) Spi- 
riius vadens, et non rediens, não passando por isso de sombra» 
fantásticas, como dizem Tertuliano, S. Thomaz e Claudiano. 

A estas Gguras pertencem aquelles diabretes ou demónios do- 
mésticos a que os antigos chamavam lares, ou penates, se os julga- 
vam bons ; e se pelo contrario, larvas, ou lemures; genericamente 
os latinos lhes chamavam manes; os francezes farfadels ou lutin; 
os italianos parsaroli, maçapengoli ; os hespanhoes doendes, e os 
portuguezes trasgos ; os quaes atterram os moradores das casas, 



(1) In Symmac. 

(2) Problem. iv, section x. 

(3) De consolai, ad Âpolon. 

(4) Liv, ii, cap. lxiii. 

(5) Psalm. 102, vers. 16. 



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— 313 — 

appareeendo-lhes em traje de frades, de defuntos amortalhados, 
e outras figurilhas ridículas, de que a gente sensata se ri, como 
dizem Bodino, Tyreo e dei Rio. 

Pelo nosso direito incorria na pena de morte quem usava 
doesta arte Levitico (1): «Vir, sive mulier, in quibus pytho- 
nicus, sive devinationis spiritus fuerit, morte morietur, lapidibus 
obruant eos, sanguis eorum sit super eos. » 

Como toca Alcimio (2) : 

Cum lamen eductas infernis sedibus umbras 
Colloquium miscere pufent, et nota rcferrc 
Spiritus erro ris, sed qui baccbatur in iílis 
Ad consulta parat vanis responsa 6guris 
Ne vero multis dicamus singula verbis, 
Pracscnti illusus damnabitur ille percnni 
Judicio, quisquis vetitum cognoscere tentai. 

A Physiognomonia, arte de adivinhar pelas feições do rosto, 
em que Aristóteles era insigne ; e S. Gregório Nazianzeno por ali 
conheceu, vendo Juliano em Athenas, que o império viria a ter 
'nelle um famoso tyranno, o que fez exclamar a Nicephoro (3): 

Deus boné quantum malum romã num fovet imperium! 

Como diz o Ecclesiattico (4) : « Ex visu cognoscitur vir, et 
ab occursu faciei cognoscitur sensatas. Amictus corporis, et risus 
denttum, et ingressus, hominis denunciant de illo. » E elegante- 
mente o nosso Ovidio (6) : 

Paranimo qnoque forma suo respondet in illa : 
Et genus, et fácies, ingenium que simul. 

(1) Cap. xx. 

(2) Carm. liv. ii, 15. 

(3) Liv. x, cap. xxxvn. 

(4) Cap. xix. 

(5) Fast. liv. vi. 



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— 314 — 

Foi peias disformes feições do rosto, e do corpo, que Mar- 
cial conheceu as perversas qualidades do mordaz Zoilo. 

Crine ruber, niçer ora, brevis pede, lumina laesus, 
Rem magnam praestas, Zoile, si bónus es. 

Dotes que Deus reparte, com quem quer, e lhe parece. « Di- 
videns singulis prout vult. » 

Âríolomancia, a arte de adivinhar pelos Ídolos, e pelas aras, 
como diz Santo Izidoro (1) : « Arioli dicuntur, qui circa aras ido- 
lorum nefarias preces emittunt ; et funesta sacrificia offerunt, iis- 
que celebrantibus daemonis responsa accipiunt. » 

Esta arte foi entre os antigos muito acatada ; Cicero o dá 
a entender, (2) : « Proaris et focis certandum. » D'onde veio o 
provérbio : « Amicus usque ad aras. » A que Yirgilio allude (3) : 

Tango aras, mediosque ignes, et numina testor, 
Talibus orabat dictis, aras x que tenebat. 

Aruspicinia, arte de adivinhar pelas entranhas, fibras, mem- 
bros, partes, e mais circurastancias da victima ; e teve sua ori- 
gem de Tages filho do génio, e inventor dos agoiros, como di- 
zem Cicero (4), e Plutarcho (8) : e d'ella faz menção Ovidio (6) : 

Indigene dixere Tagum, qui primus Hetruscam 
Edocuit genlem casus aperirc futuros. 

E Lucano (7) : 

Fibris sit nulla fides, sed condi tor artis 
Finxerit illa Tages. 

(1) Etymol. liv. viu, cap. ix. 

(2) De Natur. Deor. liv. ih. 

(3) Aen. liv. iv. 

(4) De Leg. liv. li. 

(5) InSyll. 

(6) Metam. liv. xv. 

(7) Liv. i. 



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— 315 — 

A Aruspicinia se dividia era oito partes: a l. a se chamava 
Tumatices, que era a arte de adivinhar pelos movimentos da vi- 
ctima ainda viva ; se não resistia no caminho para o sacrifício, 
se estava quieta em quanto a amarravam, nem se espantava 
quando lhe espargiam o vinho na cabeça, era bom signal ; se pelo 
contrario, dava funestos presen ti mentos (t) : 

Appellite aris candidum tergo bovem, 
Curvoque nunquam colla depressum jugo, 
Opima sanctas victima ante aras stetit. 

2. a A fàrithomancia, arte de adivinhar pelo sal com fari- 
nha de cevada, a que chamavam mola, com o que salgavam a 
carne das victimas, como diz João Stuckio (2) : 

Sparge salsa colla taurorum mola. 

3. a A Oinomateia, arte de adivinhar pela côr e substancia 
do vinho, que se derramava nas victimas, d'onde Xerxes, rei 
dos persas tirou funesto agoiro por se lhe converter o vinho em 
sangue por mais d'uma vez : « Infusum namque pater ejus vi- 
nom ia san guinem non se mel, sed iterum, et tertio conversum 
est. » E Virgílio (3) : 

Vidit Thuricremis cum dona imponeret aris, 
Horrcndum dictu, latices nigrcscere sacros, 
Fusaque in obscenum se vertere vina cruorem. 

4. a A Extispicinia, arte de adivinhar pelas entranhas, mem- 
bros e fígado do ente sacrificado, sendo mão presagio se alguma 
lesão se encontrava. Séneca enumera algumas: 



(i) Senec. In Oedipe. 

(2) De Sacrif. fl. 98. 

(3) Aen. Hv. iv. 



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— 316 — 

Cor marcet aegrum penitus ac mersum latet, 
Livent que venae magna pars fibris abest, 
Et felle nigrido tabidum spumat jecur. 

5. a A Anthropomancia, arte de adivinhar pelas entranhas 
dos homens ; com o qual espectáculo muito se recreavam Helio- 
gabalo, Hadriano, Valeriano, e Juliano imperadores ; o que du- 
rou até ao tempo de Juvenal : 

Pectora pullorum ri roa tu r, et exta catelli, 
Interdum pueri. 

6. a A Pyroseopta y arte de adivinhar pela forma da chamma 
do sacrifício : se subia em forma de pyramide, grandes fortunas ; 
se dividida, desgraças. Lucano (1) : 

Scinditur in partes, geminoque cacumine surgit 
Thebanos imittata rogos 

E pelo esplendor, subida, e estrépito do fogo, Ovidio (2) : 

Surgat ad hanc vocem plenam pius ignis ad aram 
Detque bonum voto lucidus omen apex. 

Se consumia a victima depressa, feliz agoiro; se pelo con- 
trario, infortúnios, como diz Séneca (3) : 

Quid flamma? Largas jamne comprendit dapes? 
Súbito refulsit lumine, et súbito occidit. 
Utrumne clarus ignis, et nitidus stetit, 
Rectusque purum verticem caelo tulit, 
Et summam in auras fusus explicit comam? 
An latera circa serpit incertos viae, 



(i) Phars. liv. i. 

(2) De pont. liv. iy, eleg. ix. 

(3) In Oedip. act. ii. 



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— 317 — 

Et fluctuante turbidus fumo labat? 
Non una fades mobilis flammae fuit. 

7. a A Captumantecia, arte de adivinhar pelo fumo : se su- 
bia vagaroso da pyra, ou da victima, bom signal ; se pelo con- 
trario, mào ; como dizem Cardano (1) e Ovídio : 

Et nova fraterno veniet concórdia fumo 
Quam vetus accensa separat ira pyra. 

Se postos sobre a pyra absorviam o fumo, e o podiam sup- 
portar, se tinham por ditosos ; pelo contrario, desgraçados. £s- 
tacio (2) : 

Ille coronatos jam dudum amplectitur ignes 
Fatidicum sorbens vultu flagrante vaporem. 

£ também se chamou Libanomancia à adivinhação pelo fu- 
mo do incenso, de que falia o mesmo Estacio : 

Thura, ne supra volitante aliaria fumo. 

8. a e ultima. Spodonomancia, a arte de adivinhar pelas cin- 
zas do sacrifício : se nas ultimas cinzas havia chamma, era bom 
signal ; como aconteceu nas da mulher de Gimon (3) 

Adspice corripuit trcmulis altaria flammis 

Sponte sua, dum ferre moror, cinis ipsc. Bonum sit ! 

A Bcbdomancia, arte de adivinhar por meio de dois pausi- 
nhos iguaes, encantados para darem respostas, com certas cere- 
monias, e ritos. Ao que allude o propheta Osias (4) : « Populus 
meus de ligno interrogavit, et baculus ejus annunciavit ei » ou- 

(1) Liv. da Vera sapient. 

(2) Thebaidoê liv. x. 

(3) Virg. Eclog. viu. 

(4) Cap. iy. 



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— 318 — 

trás vezes tinham na mão uma varinha, e segundo a inclinação, 
assim agoiravam, e se chamava virga divinatoria, ou virga Moy- 
sis ; por analogia 6 prodigiosa vara de Moysés com que obrou 
tantos milagres na presença dos magos de Pharaó ; e a esta cha- 
mam os hespànhoes varilla de virtudes, e os portugueses vari- 
nha de condão; a uma similhante allude Virgílio (1): 

Tum virgam capit hac animas ille evoeat orço. 

De outras faz menção Ovidio (2) : 

Ora vcnenata tetigít miranlia virga. 

Arithmancia, arte de adivinhar por cômputos, e por isso 
Platão a chamou arithmetico-vaticinio (3). 

É de dois modos ; um que chamam Arithomancia dos gre- 
gos, sobre o valor das lettras, d'onde tiram os motivos para o 
agoiro ; como diz Raymundo (4) ; a outra dos caldéos, que de- 
vide o alphabeto em três décadas, com a repetição de algumas 
lettras, declarando por números os nomes, que por meio doesta arte 
se consultam, e attríbuindo a cada numero seu planeta, de cuja 
influxo derivam seus agoiros, como dizem ReucUinio (J>) e Bulen- 
gero (6). Com o numero 666 significou o evangelista S. João 
o nome do anti-Christo, como explica Ribera : « Qui habet in- 
tellectum com puten tnumerum bestie, numerus enim homi- 
nis est ; et numerus ejus sexcenti, sexagintasex (7). » Bem como 

,(1) Âen. liv. iv. 

(2) MHam. liv. xiv. 

(3) Plat de Repub. liv. viu. 

(4) Ânti-chryst. cap. xx c $eg. 

(5) In Cabal. liv. u. 

(6) Divin. liv. iii, cap. xxi. 

(7) Apocalyp. cap. xm. 



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— 319 — 

em Jesus se acha o numero 888, segundo affirma Escarlatino (1), 
mas como o não explica também o deixo por enigma para al- 
gum curioso. 

Á similhança doesta é a Aleeiromancia, que ensina a adivi- 
nhar pelo alphabeto, distribuído em iguaes partes ; e posto um 
grão de trigo sobre cada lettra, se offerece a um gálio, para que 
coma, observando quaes as lettras d'onde o gálio comeu os pri- 
meiros grãos ; e d'ellas tomam o fundamento para a prophecia ; 
como attesta Cuvarrubias (2). 

D'esta usou o imperador Valente querendo saber quem lhe 
succederia ; e porque o gallo comeu primeiro os grãos que es- 
tavam sobre as lettras t h b o d, sem mais nem menos man- 
dou logo matar a todos os Theodoros, Theodotos, Theodulos, e 
Theodosios, que havia; para em quanto vivo não ter de quem 
se receiasse. Como attestam Zonaras (3), Nicephoro (4), Jam- 
blico (5), e Bulengero (6). Todavia convém saber que a Valente 
succedeu no império Graciano, como se vê de Gassiodoro (7). 

A Dactylomamia arte de adivinhar por anneis feitos com 
certos caracteres, e encantados com certos ritos, e ceremonias, 
para taes usos, como dizem Bulangero e Anniano (8). E d'estes 
eram os sete anneis, que Jarcas deu a Apolonio Thyaneo, os 
quaes tinham sete estrellas com sete nomes gravados, sendo um 
para cada dia da semana, e com elles alcançava quanto queria, 
como conta Philostrato (9). Assim era o annel, que um feiti- 

(1) In Homin. symbol. fl. 248 

(2) De fals. prophetia, liv. n, cap. xi. 

(3) Tom. ih. 

(4) Liv. xi, cap. xlv. 

(5) Liv ih. 

(6) Divinat. liv. m, cap. xl. 

(7) In Chronic. ad Theodoricum. 

(8) Liv. xxix. 

(9) Liv. ni, cap. ih. 



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— 320 — 

ceiro deu a Petronia, que como diz Santo Agostinho curara acha- 
ques ; mas por intervenção do demónio, como explica Moura (1). 
E assim era o prodigioso annel de Giges rei de Lydia, que o tor- 
nava invisível ou visível, como queria ; Mexia attribue tal virtu- 
de a certa pedra que tinha engastada (2); com tudo Heródoto (3), 
Bulengero (4) e Mayolo (6) pretendem que é encanto. 

A Onomancia, que é a arte de adivinhar pela significação, 
força e ethymologia dos nomes, como mostra Santo Izidoro (6). 
Por isso Esaú rçparando no nome de Jacob disse (7) : « Juste, 
vocatum est nomen ejus Jacob, supplantavit me altera vice.» 
Abigail disse de Naboth (8) : « Justa nomen suum stultus est. » 
David de Achildema (9) : « Vir bónus est, et bonnm portat no- 
men. » Esta arte exerceram Augusto César, em Nicopolis, como 
conta Glycas (10) ; Pompeo no cerco de uma cidade, como diz 
Valério Máximo, e por isso Ovidio diz : 

Nominibus semper omen adesse solet. 

Também usavam d'esta arte por anagrantmatismo, empre- 
gando as lettras d'um nome com diversa composição; se o que 
se lia era bom também o era o agoiro, e vice verta. Por exem- 
plo; Aristóteles, em anagramma, dá Iste sol erat. Saul rex y Lux 
eras. David es rex ; Dei dux eras. O nome Otho secundns, Th 
decus honos. For lisongear Filippe m de Castdla em 1602, de- 

(1) De incantat. opusc. i sect. n. 

(2) De la Silva de varia lecci, pag. iv, cap. i. 

(3) Liv. ii. 

(4) Dict, cap. xxxv. 

(5) Dier cm. tom. ii, coloq. m. 

(6) Liv. orig. cap. vi, 

(7) Genes. xxvii. 

(8) Reg. ii, cap. xv. 

(9) Ibid. cap. xviii. 

(10) Ânn. pag. m. 



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— 321 — 

cifraram os doutores das escolas d'aqtiella monarchia, Ftlippe de 
Áustria, era la fé pide ser tuia. João Azor João Brodeo (t). 

Cephalomancia, arte de adivinhar pela cabeça d'ura homem, 
javali, barro, ou qualquer outro animal ; assada nas brasas, e 
encantada oom ritos e palavras, pela qual o demónio dava res- 
postas a quem o consultava, como diz Pedro Gregório (2). Esta 
veiu dos egypcios, que costumavam pedir oráculos á cabeça de 
um barrico ; e por isso entre elles era tão venerada a cabeça do 
asno, como diz Maiolo (3). D. AÍFonso x, o sábio, de Castella, 
prohibio o uso d'esta arte na 1. i, tit. xxm. En cabeça de ho- 
tnt morto, o de betíia. Na cidade de Zamora costumava o de- 
mónio dar SU8S respostas aos antigos dentro de uma cabeça de 
metal, como dizem Tostado (4), e Yepes (5) ; e do mesmo modo 
fallou em muitas caveiras, como na de Polycrito, de que conta 
Pleomnio (6), na do gentio como diz Plinio (7), e na de um 
magico, como traz Pico (8), e não é menos notável a caveira do 
hespanhol Trajano imperador romano, que fallou a S. Gregó- 
rio como' referem João Diácono (9), Aegydio (10), e Mortim 
Moda (11). 

Estoicheiomancia a arte de adivinhar pelas primeiras pala- 
vras que se encontram nos livros, servindo-se das obras de Ho- 
mero, ou Virgilio, ou mesmo outro autor. Dos primeiros pe- 

(1) Pag. 1, liv. n. 

(2) Miscel. liv. i. 

(3) In syntag. jur. pag. 3, liv. xxxiv, cap. m. 

(4) Cap. xxi, q. xix. 

(5) Hist. inoc. dela guardiã cap. iv, fl. 60. 

(6) Liv. MiraMle. 

(7) Liv. xvn, cap. v. 

(8) Liv. vu Praenoso. 

(9) In vit. S. Greg. 

(10) De Sacram. disp. xi. 

(11) De purga. cap. xix. 

TOM. III. 21 



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— 322 — 

riodos que liam se formava o agoiro. E d'esse modo se conta 
que Sócrates conjecturara o dia da sua morte ; e muitos impe- 
radores o bom, ou máo resultado da sua vida, como escrevem 
Suetonio (1), e Justo Lipsio (2). 

Coscinomancia^ arte de adivinhar por uma joeira, crivo, ou 
peneira encantada, a qual atavam a uma tenaz e alevantavam ao 
ar com dois dedos para descobrir algum delicto ; se emquanto 
se proferiam alguns nomes, a joeira acenava, esse era o crimi- 
noso; como notam Bulengero (3), e Guvasrubias (4). 

Cleidomancia arte de adivinhar por um cravo de metal, cra- 
vado num circulo cheio de lettras barbaras. Por esse meio se pre- 
tendia descobrir os ladrões, que estando presentes logo ali per- 
diam um olho, como diz Maiolo (8) : 

A Craiomancia arte de adivinhar por um' páosinho, que o sa- 
cerdote mettia na bocca dos escravos, para conhecer dos furtos 
domésticos ; como notam Moura (6), Sanches (7), e Marcial quan- 
do disse : 

Utque sacerdotis fugitivus liba recuso. 

Omphalomancia, arte de adivinhar pelos nós da veia umbili- 
cal, que a creatura traz no embigo quando nasce. Quantos nós 
tinha, outros tantos filhos havia de ter. E foi d 1 esse modo, que 
a parteira assistente a Rebeca, adivinhou, que ainda depois de 
nascer Esaú, havia de nascer Jacob, como conta Torreblanca (8). 



(1) In vila Tiber. 

(2) Liv. ii, cap. xu. 

(3) Liv. iii de divisut. cap, xxxi. 

(4) De fals. proph. 

(5) Tom. ii, cante, colloq. m. 

(6) Sect. ii, cap. vi. 

(7) Liv. iv, Decai. cap. iv, pag. 13. 

(8) JurU spirit. liv. viu, cap. xxv 



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— 323 — 

Ámniomancia, arte de adivinhar pela túnica, ou membrana, 
que cobre a cabeça da creança quando nasce; de cuja cor ver- 
melha, branca, ou livida, as velhas e feiticeiras costumam agoi- 
rar a boa ou má fortuna da creatura, como diz Leranio (t). 

Párdenomancia^ a arte^ de adivinhar se a mulher está vir- 
gem, ou dando-lhe a beber a pedra achates, se a vomitava, a 
davam por violada, como referem Bulengero (2), e Guilhelmo 
Parisiense (3), ou cingindo-lhe uma fita ao pescoço; e se pe- 
gando nella com os dentes a tiravam facilmente por cima da 
cabeça, também nào estava já pura ; a cuja practica allude Ca- 
tullo (4). Practica ainda hoje em uso. 

Non illam notrix, orienti luce revisens 
Hesterno collum poterit circandare filo. 

A -Catropomancia, que é a arte de adivinhar por espelhos 
encantados, para conhecer do termo das doenças ; como diz Pau- 
sarias, (8) : « Inspiciunt in speculum, et ex ejus imaginibus pe- 
riturus ne, an victurus sit aeger. » E como de Pythagoras conta 
Rhodiginio (6). 

A Christolomancia, adivinhar por meio de pedaços de cris- 
tal pelos quaes attesta João Azor (7) que o demónio respondia 
por figura como na agoa. 

Axiomancia, adivinhar por enchós e raachadinhas luzentes ; 
a que alludiu o propheta rei: «In securi, et ascia dejecerunt 
eam ; » arte de que também fallou Plinio (8) : 

(1) De ocult* natur. liv. xn, cap. vm. 

(2) Liv. in, cap. xxxiv. 

(3) De Univers. pag. fin. cap. xxxn. 

(4) In nupt. Pelei et Thetit. 

(5) In Archad. 

(6) Ântiquit. lection. liv. ix, cap. xxm. 

(7) Moral. tom. i, liv. ix, cap. xiv. 

(8) Liv. xlvi, cap. xix. 

21* 



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— 324 — 

Qui pluvias, specula, et pclves, nitidasque secares 
Inspicit 



A Ca$trolomancia, que é a arte de adivinhar por garrafa ou 
redoma cheia d'agoa, pondo-se diante doesta um menino ou me- 
nina com vela accésa na mão e proferi ndo-se com olhos fitos 
na agoa : « Angelus albus, angelus sanctus, per tuam sanctita- 
tem et per meam virginitatem etc. » palavras em que entra o de- 
mónio, como diz Torreblanca (1). Outros fazem o signal da cruz 
com azeite na garrafa que entregam a moça virgem, e ao pé d'ella 
escrevem : Santa Helena : recitando por detraz (Telia de joelhos 
três vezes a oração de Santa Helena como nota dei Rio (2). 

O Augúrio, que é a arte de adivinhar pelas vozes diversas 
das aves; como o trinar do rouxinol, o tinir da milh$ira, o tru- 
cilar do tordo, o pissitar do estorninho, o grassitar do pato, 
o gemer da rola e da pomba, o gruir do grou, o arensar do 
cysne, o pipiar do falcão, o cacarejar da galinha, o pupillar do 
pavão, o zunir da abelha, o gloterar da cegonha, o remedar do 
papagaio, o trinfar da andorinha, o cocular do cuco, o fretenir 
da cigarra, o que tudo são vozes próprias de cada um d 'esses 
ánimaes, e significativas, como diz o autor da Philotnela (3). E 
d'ali Auguria, ou Avium garria, arte muito seguida entre os ba- 
bilónios, chaldeos, egypcios, hebreos, gregos e romanos; e para 
todos era de maior reputação, como dizem Aristophanes (4), Cí- 
cero (8), e Origenes (6) ; e d'ella faz menção Estacto Papinio (7) : 

(1) Epit. Mag. liv. i, cap. xiv, ex. n.° 2. 

(2) Magic. liv. m, pag. 2, q. iv, sect. ix. 

(3) Liv. xi. 

(4) Liv. de Avib. 

(5) De devinat. 

(6) Contra Celsum liv. iv. 

(7) Thebaid. vers. 47. 



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— 325 — 

Júpiter omnipotens, nam te pernieibus alis 
Addere consilium, volucresque implere fuluri 
Ominaque, et causas coelo defferre latentes. 
Accipimus r 

E Virgílio (1): 

Gui pecudum fíbrae, coeli cui cidera parent 

Et linguae volucrum, et proesagi fui minis ignes. 

O Auspiáo, arte de adivinhar pelo vôo das mesmas aves; 
« A vi um inspicia » dizia santo Izidoro (2). Os antigos na mesma 
ave cantando presagiavam agoiro funesto; voando, auspicio fa- 
vorável ; como do mocho contam Mayolo (3), Bulengero (4), e 
Alexandre ab Alexandro (5), o que também celebra Virgilio (6) : 

Solaque culminibus ferali carmine bubo 
Soepe queri, et longas in fletum ducere vocês. 

As mesmas aves tinham seus favoritos; entre os gregos a 
pega se via propicia aos namorados ; entre os romanos a pomba 
aos reis» como nota Aristophanes (7) ; e o cysne só aos navegan- 
tes era agradável, como diz Virgilio (8) : 

Cygnus in auguriis, nautis gratissimus alis 

Hanc optant semper, quia nunquam mergitur aqnis. 

Havia aves sempre funestas, como da gralha diz Virgilio (9) • 

(1) Aen. x. 

(2) Ethimol. liv. vm, cap. vi, q. in. 

(3) Dier ean. 

(4) D. liv. m, cap. vi. 

(5) Genial, liv. v, cap. xxvu. 

(6) Aen. iv. 

(7) De avibus. 

(8) Aen. 

(9) Eel. i. 



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— 326 — 

Saepe sinistra cava proedixit ab illice cornix, 

em quanto havia outras sempre faustas e de boa estrea, como 
conta Homero (1): 

Sic ei loquenti advolavit dextra avis. 

Outras vezes tomavam agoiros não só das aves, mas das pa- 
lavras, encontros, acções, reparos, tropeços, e de quaesquer cir- 
cumstancias, por leves que fossem ; como diz João de Mena (2), 
introduzindo a fallar de si a Celestina : « Todos los agueros se en- 
derezom favorables, ó yo no se nada desta arte. Quatro hom- 
bres que he topado, a los três llaman Juanes, y los dòs son cor- 
nudos : la primera palavra que oi por la calle fue de achaque de 
amores ; nunca he tropezado como otras vezes ; las piedras parece 
que se apartan, y me dan lugar, que passe; ni me estrobem las 
faldas; ni sento cansancio en el andar; todos me saludan, ni 
perro, me ha ladrado ; ni ave negra he visto. » 

Homero considerou esta arte ridicula na pessoa de Heitor (3) : 
Emfira seria nào acabar nunca o pretender enumerar e de- 
finir todas as artes de adivinhar dos antigos; e todas condem- 
nadas pela igreja, taes como o sortilégio, adivinhar por dados, 
naipes, e sortes ; Horispicio, e Horoscopio, adivinhar pelas ho- 
ras ; Cabala Arábica, adivinhar por lettras, e figuras ; a Astri- 
maneia, pelas estrellas, as vidas e nascimentos ; Phitonicia, Ima- 
ginaria, Characteria, Li g atura, Breviaria, Notória, Encanto, 
Prestigio, Chimica, Astrologia Judiciaria, etc. e muitas outras, 
- que o curioso poderá vêr largamente no antiquíssimo Ennio o 
qual as reprova como erróneas. 



(1) Iliad. xm. 

(2) In Trag. Calixti et Mrtibeae act. iv. 

(3) íliad. 



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— 827 — 
Estacio Papinio (1) as reprova também : 

Astrorumque vices, numerataque semita Lunae 
Thessalicumque nefas 

Juvenal as despreza (2) : 

Nemo mathematicus genium indemnatus habebit. 
In cujus manibus, ceu pinguia succina, tritas 
Cernis ephemeridas 

Lucano as detesta (3) : 

At Figulus, cai cura Deos, secretaque mundi 
Nosse fuit, quem non stellarum Aegyptia Memphis 
Aequaret visu, numerisque moventibus astra. 

E o insigne Thomaz Moro (4) com evidencia as desmente. 

Astra tibi aetbereo pandunt sese omnia vati, 
Omnibus, et quae sint fata futura, monent: 
Omnibus ast uxor quod se tua publicat, id te 
Astra, licet videant omnia, nulla docent. 

E como as pulverisou com o seu peculiar tino o nosso pre- 
clarissimo padre António Vieira, na sua Historia do Futuro. 

Chyromancia, arte de adivinhar pelas raias das m&os : divi- 
de-se em duas partes oppostas. 

A primeira a x que chamam Chyromancia phisica e natural , 
porque se basea na compleição humana, derivada das proporções 
do temperamento e delineaçio da mão do homem, a que Aris~ 



(1) Thebaid. liv. m. 

(2) Sat. vi. 

(3) Phar$. liv. i. 

(4) Attrolog. 



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— 328 — 

totcles (i) chamava muilo recreativa ; bem como Alberto Ma- 
gno (2) ; e outros como Martin dei Rio : « Ratio est, quia per 
lineas et partes manus considerat ipsam corporis temperiem, 
et ex temperie corporis probabiliter indagat animae propensio- 
nes. » 

A segunda, a Chyromancia astrológica, porque divide a pal- 
ma da mão em montes, praças, e linhas, que ftccommodam di- 
versos planetas, de cuja natureza, e influxos toma fundamento 
para predizer futuros etc. É reprovada, (em quanto a outra -é 
licita) por bons autores, como Sixto Quinto Eymerico, e muito 
expressamente o nosso Lusitano Barbosa que diz, que pecca mor- 
talmente quem offereçe a mão a uma sigana, ou egypcia, para o 
que vulgarmente se chama ler a buenadicha, com o animo de 
lhe dar credito, ou -mesmo por divertimento se nisso der escân- 
dalo. 

Melhor ainda dizia o meu doutíssimo mestre de lógica, o sr, 
fr. Francisco de S, Luiz, para exemplo do perfeito dilema; di- 
zia elle : « Não devemos deixar ler a buenadicha, porque ou nos 
prognosticam boas, ou más novas ; e ou se verificam ou não : ve- 
rificadas as boas, perdem o merecimento da surpreza ; não veri- 
ficadas, doemo-nos do mallogro ; e as más verificadas encontram 
o animo cansado com o receio do que emfim aconteceu ; e não 
verificadas, o que ha que possa compensar tanto penar já adian- 
tado ? » E que por tanto qâo deviamos deixar ler a buenadi- 
cha. 

Pondo pois esta de parte, segue-se a outra da qual o philo- 
sopho dizia : « Deus et natura nihil agunt frustra » é por tanto 
a única admissível. O mais curioso consulte Hermes Trisme- 
gisto, João Taysnerio, Octávio Escarlatino, Torreblança, Coib 

(1) Problem. iv, 10. 

(2) Liv. i. 



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— 329 — 

rado Vripina, Pedro Aponcuse, Aristóteles, e Ennio, um dos 
mais antigos escriptores, depois de enumerar como gente ociosa 
haruspices, astrólogos, e interpretes de sonhos, e os favoritos da 
deusa lzis, dá a razão: 

Non enim sunt ei, aut scicntia, aut arte divini, 
Sed superstitiosi vates, impudentesquc Harioli, 
Aut inertes, aut insani, aut quibus egcstas rmperat 

Porque n9o são por arte, ou por sciencia Teridicos prophe- 
tas; sfto fanáticos vates. Hariolos sem pejo, e sem vergonha, 
inerte gente, ou louca ; ou d'aquelles a quem subjuga e man- 
da a baixa, e vil pobreza. 

Cícero (1) assim qualifica a feiticeria : «vulgi opiniones, 
que in máxima inconstantia veritatis ignoratione versantur. » 

Horácio (2), não menos philosopho que poeta, ao amigo 
ufano por n&o ser dominado da avareza, diz : « Isso n&o basta. 
É preciso nHo crer que ha brucbas ! n 

, . . . , caetera jam simul isto 

Gum vitio fugere? caret tibi pectus inani 
Ambitione? caret mortis formidine, et ira? 
Somnia, terrores mágicos, miracula, sagas, 
Nocturnos lemures, portentaque Thessala ridesT 

Horácio pois n&o se contenta em rir das feiticeiras ; exige 
que todo o homem honesto, faça outro tanto. 

Plínio (3) fallando de certas hervas, diz: «quas magicas 
esse dicunt » sitando a Pythagoras, e Demócrito como sectários 
da magia. Plutarcho e Josépho porém affirmam que Pythagoras 



(1) De Nat. Deor. liv. i. 

(2) Epiit. //, liv. li. 

(3) Liv. xxiv, cap. xwu. 



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— 330 — 

nunca escreveu sobre magia, e que as obras que se lhe attri- 
buem, são de fama publica de certo medico. 

Platão por varias vezes para exemplo da impostura e da men- 
tira, apontou os encantamentos e os magos. 

Séneca ensinou que era só próprio de ignorantes o crer em 
encantos. 

Ulpiano chamou impostores aos que se applicavam aos en- 
cantos. 

Plinio muitas vezes repetiu que nenhum sábio lhes dava cre- 
dito ; e que elle até se envergonhava de occupar-se d'isso. E que 
para mostrar quanto era cega a opinião do vulgo, bastava dizer, 
que não obstante serem bem conhecidas, e claras as razões dos 
eclipses, continuava sempre « in magna parte vulgi » a persuasão 
de serem obra de feiticeiras. 

Finalmente Tito Livio, como verdadeiro historiador, limi- 
ta-se a relatar os prodígios que se dizia terem acontecido ; re- 
conhecendo tanto a sua falsidade que diz (1): «quo magis cre- 
debant simplices, et religiosi homines, eo etiam plurima nun- 
tiabantur. » £ em outra parte : « Mihi vetustas res scribenti, 
néscio quo pacto antiquus sit animus, et quaedam religio tenet. » 
Para não deixar de referir quanto aquelles sábios ouviram, e cre- 
ram. 

Contra a magica ou feiticeria podem ler-se Lactancio, Mi- 
nucio Félix, e outros. 

Bem conheceu Homero o uso que na poesia se podia fazer 
d'estes prejuízos populares; d*elles se serviu ampliando-os com 
suas bellas e engenhosas ficções. 

Assim, no seu poema da Ilíada, feita para instruoç&o doa 
grandes, não metteu magica ; falia de reis, guerras, politica, e 
grandes fortunas; em quanto na Odyssea, pelo contrario, que 

(t) Liv. xxiv, pag. 193, et Og. 



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— 331 — 

parece destinada ás outras classes ; porque é composta de paixões 
dorinarias, factos particulares, e domésticos, lá entram todas as 
magias, ou feiticerias da crença do vulgo. Assim ali vemos» que 
com palavras se faz parar o sangue ; com bebidas se tornam ho- 
mens em brutos; e por virtude d'uma varinha tornam ao seu 
estado natural ; e emfim que até se pode communicar com os 
mortos. 

O poeta chama à sua Circe, deusa. Esta mandou Ulisses a 
casa de Plutão, para consultar Tiresias ; e d'esta vez fallou tam- 
bém com as outras almas. Com esta invenção formou Virgilio o 
seu vi livro, Dante todo o seu admira Vel poema. 

Nos outros poetas Medea faz o mesmo que a Circe de Ho- 
mero, ou a feiticeira de Theocrito, que obrou tantos prodígios 
para captivar seu amante. 

Aos poetas gregos seguiram os latinos enfeitiçando suas poe- 
sias com encantos maravilhosos, que o vulgo acreditava. Virgí- 
lio (1): 

Carmina vel caelo possunt deducere lunam : 
Carminibus Circe sócios mutavit Ulissis: 
Frigidus in pratis cantando rumpitur anguis. 

Trazer á terra podem estes versos 
Lá d' esse ultimo ceo a mesma lua: 
Com taes versos de encanto mudou Circe 
Os companheiros do sagaz Ulisses. 
A fria cobra nos amenos prados, 
Encantada com versos arrebenta (2). 

Fazer três nós com três fios de diversa côr, queimar loiro 
com betume ; e usar de hervas colhidas no ponto. 

Necte tribus nodis ternos Amarylli colores, etc. 

(1) Ecl. viii. 

(2) Leonel da Costa. 



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— 382 — 

por virtude das quaes a feiticeira chamava as almas dos sepul- 
chros, « animas exire sepulcbris » são quatro segredos da arte re- 
velados. Ovidio (1)- põe na boca de Medea o seguinte: 

cum volui ripis mirantibus amnes 

In fontes rediere suos : concussaque sisto, 
Stantia concutio cantu freta : nubila pello, 
Nubilaque induco 

E continua : 

. . jubeoque tremiscere montes. 

Et mu gire solum, manes que exire sepulcris. 
Te quoque, Luna, trabo 

De outra feiticeira diz : 

Hanc ego nocturnas versam volitare per umbras 
Suspicor, et pluma corpus anile tegi. 

E em outra parte : 

Evocat antiquos proa vos, a ta vos que sepulcbris. 

Ninguém como Lucano, que enchia meio livro só de mara- 
vilhas, encantos de versos, e mezinhas de hervas, com que a fei- 
ticeira da Thessala revocou a alma de um morto, para este res- 
ponder à consulta de Sexto Pompeo, sobre o coito da guerra; 
o qual morto tantas novidades deu ! 

A feiticeira podia prolongar, ou encurtar a vida; e se ella 
quizesse até chamar ao mundo todos os milhões de mortos, « ces- 
sissent leges Erebi. » E se algum se atrevesse a tardar só um 
instante.... esta proferiria certo nome (e esse seria o ultimo es- 
forço da sua sciencia), ao som do qual se mudaria a face do 

(1) Metamorph. liv. vn. 



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— 333 — 

Erebo, entrando nelle o sol. E este nome era Demogorgon. E 
quem sabe o que por cá iria então ! Teríamos outro cahos. 



ORIGEM DA FEITICERIA OU MAGIA 



Plínio diz que a magia veiu de Zoroastres, e Osthanes, no tem- 
po de Xerxes ; e que Eudoxo usara d'isso seis mil annos antes 
de Platão, e Hermippo cinco mil antes da guerra de Troya. 
Justino, contradicto por Deodoro, diz que o inventor da magia 
fora Zoroastres rei dos bactrianos « primus, dicitur, artes magi- 
cas invenisse. » Àrnobio attesta de fama, que no tempo do Ni- 
no, e de Zoroastres, « non tantum ferro dimicatum, et viribus, 
verum magicis, et chaaldeorum reconditis, disciplinis. » A ma- 
cia foi attribuida a Orpheo, Osthanes, Hydespes, Dordano, e 
Pytbagoras ; e também a Zoroastres, creatura fabulosa, que os 
críticos duvidam se fora. um só, se foram seis, ou nenhum, como 
cooclue Huecio (1): «Id colligo suppositam esse Zoroastri per- 
sonam. » E n&o obstante coroo seus correm trezentos e vinte e 
três versos, colligidos de vários autores, com o titulo de Orá- 
culos de Zoroastres. Sendo de notar que, nestes mal se falia em 
magia em dois aonde diz: «Quando vires algum demónio ter- 
restre sacrifica uma pedra, gritando : « Mnizurim ! » Psello diz 
que esta voz « Mnizurim » faz logo chegar um demónio maior, 
que afogenta os menores, quando pretendem perturbar. É certo, 
porém, que antes de Homero não ha feiticeria escripta. Poste- 
riormente Alberto Fabrício enumera até setenta autores, que 
d 9 isso mais peculiarmente trataram ; sendo os mais curiosos Nau- 
dé, Stanly, Gapaisi, Apuleio, Bruker ; e não faltou mesmo quem 

(1) Demon. cap. r, 



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— 334 — 

fizesse a magia anterior ao diluvio, e ensinada por anjos máos. E 
Plutarcho (1) depois de muito discorrer conclue assim: «D'este 
modo procede, e continua a fabular-se dos mágicos. Às redis cu- 
riosas novidades, porém, neste género, perderam-se talvez, com 
os escriptos dos poetas cyclicos, de que falia Horácio, Clemente 
Alexandrino, e Eusébio (2) na sua Preparação Evangélica, em 
uma passagem que allega, como de Sanchoniaton ; em que se 
diz que elles cantaram os combates dos gigantes e dos tiUtes. 
Heródoto attribue a sua origem a duas velhas (3). 



LEGISLAÇÃO CONTRA A FEITICBR1A E SEUS DELICTOS 



Nas leis das republicas gregas, não se encontram penas con- 
tra a feiticería (ou magia, que é o mesmo) (4) ; e assim se tem 
julgado (8). Nas romanas a lei cornelia, dos veneficos, só se enten- 
de da propinaç&o de veneno; isto é quando a titulo de feiticería 
se empregam drogas venenosas. Dos romanos o primeiro juriscon- 
sulto que tomou o caso a serio, foi Júlio Paulo (6), no tempo 
do imperador Alexandre Severo, nas suas sentenças, aonde se 
apontam os seguintes malefícios: «Sacra impia, nocturnaque; 
interficere; qui hominem emmulaverint ; Vatecinatores, qui se 
Deo plenos assimulant : summo supplicio aifici placuit id est, 
bestiis objici, aut cruci suffigi : ipsi autem Magi vivi exuruntur. » 
Os primeiros lançados às feras e os outros queimados vivos. Em- 

(i) De If. e of. 

(2) Liv. n. 

(3) Liv. ii. 

(4) Dissert. Epist. 

(5) Congress. pag. 321. 

(6) Sent. liv. v, cap. xxm. 



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— «55 — 

fim a pena de morte se tornou geral a todo o que, « aut nefa- 
rias preces, aut mágicos apparatus, aut sacrificia funesta cele- 
brare conetur (1). » 

No tempo de Constantino condemnava-se á morte quem « ani- 
le incantamentum ad leniendum adbibuisset dolorem (2). » 

Algumas vezes a titulo de encantos, praticavam horríveis as- 
sassínios, roubos, e vinganças : « Ut quisque suos conficiat ma lis 
artibus tnimicos (3). » Pelo que a lei ordenou : « In m ale fiei is vo- 
luntas spectatur, non exitus (4). » 

Depois seguiu-se a lei pela qual se condemnava «qui mala 
sacrificia fecerit (S). » 

Outra sorte de malefícios, refere Horácio (6) : trazem as fei- 
ticeiras ou bruxas, uma creancinha presa, rompem-lhe a pre- 
texta, e a insígnia de nobre para d'elle fazerem sacrifício aos 
infernos ; juntam muitas coisas estranhas, incluindo pennas do 
nocturno pássaro strix ; uma d'ellas abre uma cova aonde me- 
tem o menino estendido de sorte, que o anterior da cabeça, e 
corpo fique de fora ; debilitam-no lentamente approximando-lhe 
frequentemente à boca vários manjares ; e quando está quasi ex- 
pirando, o abrem para lhe tirarem o fígado e demais entranhas. 
E de tudo isto se fazia uma espécie de mezinha amatoria, para 
render o esquivo amante de Canidia. Desenterravam os cadáve- 
res dos sepulchros, e de seus membros e ossada se serviam. As 
creanças eram seu alvo favorito. 

Lampridio diz : que Heliogabalo estava sempre cercado de 



(1) Cod. Theod. de malefic. liv. vh, cap. ix, tom. xvi. 

(2) Id. liv. iu, e xvi, cap. vm. 

(3) Id. de Malefic. liv, v. 

(4) Jeut. liv. v, tom. xxm. 

(5) De liv. xlvih 4, 8, liv. xiv. 

(6) Epod. v. 



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— 33* — 

ioda a sorte de mágicos, e se deleitava em observar &9 entra- 
nhas dos meninos exta puerilia. 

Di&o, diz que Didio Juliano matava muitas creancinhas para 
fazer encantos ; e que Avito juntava por arte magica muitos me- 
ninos e d'elles fazia cruéis sacrifícios. 

Eusébio na sua historia diz: que um dos primeiros magos 
do Egypto exhortara o imperador Valeriano a fazer execrandos 
sacrifícios, aconselhando-o que juntasse muitos menino*, os sa- 
crificasse, e abrisse as entranhas dos recem-nascidos. E que Ma- 
xencio coroava suas maldades, ora abrindo mulheres pejadas, 
ora examinando entranhas de creanças ; e ainda outros nefan- 
dos feitos praticara para invocar os demónios. 

Sparciano escreve que Juliano « haec amentia, ut per ma- 
gos pleraque faceret. » 

Em um templo da cidade de Garra, se achou o cadáver de 
uma mulher, pendurado pelos cabellos, cujo ventre tinha sido 
por elle aberto, « ut persarum victoriam in jecure ejus inspice- 
ret. » No seu palácio de Antiochia se acharam muitos caixões 
cheios de cabeças humanas, « et innumera in puteis demersa 
xorpora mortuorum. » Diz Àmroiano, que no tempo de Valente 
confessara Pollenciano Tribuno, ter extrahido de mulher viva o 
feto antes do parto, « infernis manibus excitis. » Achilles, com 
o não ser alTecto á magia, sacrificou à alma de Patrocolo doze 
nobres mancebos troyanos segundo refere Homero. 

Plinio diz que Pythagoras, Empédocles, Demócrito, e Pla-^ 
tão viajaram muito para aprender a magia. Deodoro (1) diz, 
que elles foram ao Egypto, «ad jura, et disciplinas gentis co- 
gnoscendas. » Justino diz, que fora Pythagoras ao Egypto e a 
Babylonia, «ad perdiscendos siderum motus. » Cicero, porém 
diz : « Cur Plato Àegyptum peragravit ? Ut a sacerdotibus bar- 

(1) Lív. ii, cap. iv. 



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— 337 — 

baris rtutaeros* et caelestia acciperet » Mas de taes pbilosophos 
parece que deve entender-se, que seu estudo se dirigia ás scien- 
«as, e nfio á feiticeria. Todavia é certo que a magia tocou o seu 
sewth ; porque philosophos e príncipes a estudavam e seguiam. 
Quantas vexes se conhece o bem e segue o mal I Ovidio disse 
m figura de Medéa : 

Video ineliora, proboque 

Deteriora sequor * 

Séneca no Hypolito com as vozes de Pbedra : 

* - Ouse memoras seio 

Vera esse, nutri*, sed furor cogit sequi 
Pejora 

Petrarcba no tríumpbo da Fama : 

Et veggio il megiio, et at peggior m'appigKo. 

E Garsilasso em um dos seus sonetos : 
Conosco lo mejor, lo peior apruebo. 

O que o nosso Camões traduziu : 

Que conheci mil vezes na ventara 
O melhor, e o peor segui forçado. 

E na primeira écloga da Ethica Pastoril: 

Parece coisa fatal. 
Mas isto de Adão nos vem. 
Que conheçamos o bem 
E fujamos para o mal* 

Tinha pois a magia tocado o máximo da sua importância, 
e de sua maldade ; seguia-se a sua punição, e a par d'isso a per- 
TOM. III. 22 



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— 338 — 

seguição. Por muitos séculos os tribuuaes da Europa deliraram 
furiosos contra a feiticeria e a hrucharia. Em 1481 se introdu- 
ziu em Hespanha esse feroz tribunal, chamado santo inquisição, 
e em Portugal e seus domiuios, no meado do século xvi rei- 
nando D. João iu (o Piedoío). Em França foi Napoleão quem 
a aboliu em 1808 ; em Hespanha as cortes de 1814 ; e em Por- 
tugal a revolução do Porto de 21 cTagosto de 1820. 
Em um período de três séculos contam-se: 

Queimados vivos 3fc:6&8 

Queimados em estatua - 18:049 

Gondemnados a prisão e galés 288:214 

Total 340:921 

E todos confiscados, victimas da tanta inquisição ! Sem con- 
tar as victimas de Fernando vu <T Hespanha, as da Sicília, Flan- 
dres, Sardenha, índias, e de Portugal. Havia autos de fé especiaes 
à discrição dos inquisidores ; outros, periódicos, em os grandes 
dias de gala, como de nascimentos, e outros anniversarios dos 
reis (1). 

O auto de fé mais recente de que eu tenho noticia, foi o 
de uma feiticeira em Coimbra, no anno de 1715, como attesta 
de vista Braz Luiz d 9 Abreu, familiar do santo officio, no seu 
Portugal Medico (2). 

Sobre a inquisição pode ver-se a Historia da Inquisição de 
Goa por Delton, cirurgião francez, impressa em Paris em 1720, 
e o Diccionario Panteon, na palavra Auto da fé! A nossa Or- 
denação do Reino, obra de Philippe n (também o Pio), contém 

(1) Dicc. Panteon. Paris 1852. Vid. auto da fé. 

(2) Pag. 615. 



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— 339 — 

no liv. v o titulo dos feiticeiros, cuja pena era também a mor- 
te; a qual regulou para três séculos e meio t até h publicação 
do nosso Código Penal, publicado em 1882; no qual o seu au- 
tor, o sr. Manoel Duarte Leitão, não julgou necessário já tal ti- 
tulo, nem coisa que com isso se parecesse. 

Estava reservado â geração presente acabar com uma pena- 
lidade que faz vergonha ás gerações passadas. 

No Âlmanak de Lembranças para o anno de 1860, do meu 
amigo Castilho (Alexandre), não obstante ainda se lê o curioso 
artigo Bruehas em Soure, que se fosse em outro tempo... Hoje 
mal serve para recreio ou nojo. 



AS BROCHAS B OS BRUCHOS DOS ROMANOS 



(4. a ESPÉCIE DE DEMÓNIOS VIVOS) 



As bruehas eram denominadas pelos romanos Lamias, deri- 
vado do nome de uma fera da Africa deserta, que tendo na ap- 
parencia rosto de mulher, peitos crescidos e agradável presença, 
attrae com gestos os incautos e os devora, como conta Dioni- 
lio. Lamias, Gorgonas, Ephialles e Mormoliches ; Ephialte, que 
é o Incubo dos latinos; e dos Mormoliches veiu o Papão. «Sil- 

vanos et Faunos, quos vulgo incubos vocant, 

)> diz Santo Agostinho (1). E na vida de S. 

Paulo se lê, que caminhando Santo Antão pelo deserto encon- 
trara um homem com cornos e pés de cabra; e que pergun- 
tado quem era respondera ser um cTaquelles a quem a cega gen- 
tilidade « Faunos, Satyros, aut Incubos vocare solebat. » 

(1) Civit. Dei. cap. xv, xxm. 

22* 



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— 340 — 

Outros lhe chamam strigae, ou antes striges, de um pássaro 
nocturno, assim chamado ; porque costuma de noite ranger com 
o bico, como diz Ripa (1). Das quaes Burmano (2) diz: «Has 
autem strigas putabant esse mulieres Sagas. » E o mesmo em 
outro lognr. « Quae striges comederunt nervos tuos ? » Às quaes 
segundo Petronio (3) era crença do vulgo que «puerum invola- 
verant. » E Ovidio diz : 

Est illis strygibus nomen, sed nominis hujus % 
Causa, quod horrenda stridere nocte solent. 

Sâo as bruchas e bruchos a gente illudida pelo demónio, a 
troco de promessas maravilhosas, como ver terras longínquas, 
poder tornar-se invisível, e a inpunidade no gòso dos mais tor- 
pes deleites. £ sôo mais as mulheres illudidas que os homens, 
porque é proverbial a leviandade da mulher : 

Quid levius fumo? Flamen? Quid flamine ventos. 
Quid vento? Mulier. Quid muliere? Nihil. 

E sâo mais requestadas as mulheres do que os homens por 
serem tidas pelo grilhfio do mundo, como as chama Oven (4) : 

Garcerís est instar tellus ; qaasi moenia coelum, 
Custos peccatum; vinculaquae? Mulier. 

O que Francisco da Torre traduziu (S) : 

Dura carcel viene a ser 
La tierra, muro elevado 



(1) De noct. temp. cap. clxv, n.° 6. 

(2) Cap. cxxxit. 

(3) Cap. Lxm. 

(4) Liv. i, epigr. un. 

(5) Symbol, telect. 165, liv. ii. 



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— 341 — 

£1 ciclo, Guarda el peccado, 
T Cadena? La muger. 

Ou também por serem mais curiosas, e mais propensas à li- 
cença, e mais constantes no segredo de suas maldades, como di- 
zem Siraancas (1),- Basimo (2), e Biusfeldio (3). 

Por artes diabólicas, e feito pacto com o demónio, dá-lhes 
este para Anjo da Guarda um diabrete ; ou como dizem os hes- 
panhoes maestrillo, ou martinillo, para elte as adestrar, e levar 
por ares e nuvens até ás paragens aonde todas juntas usam ce- 
lebrar seus conventiculos, e divertimentos ; e para isso se untam 
primeiro com certos unguentos, e invocam Satanaz, com nomes 
peregrinos, como Gob 9 Giver, Hiruel, Hubuel, Ladre bu, Hum- 
ores, Tegi, Malmon. E elle as espera em varias figuras fantás- 
ticas corno de homem, gato ou bode, e com ellas practica actos 
immundos, fusilando no ar como faria em corpo palpável. E, se 
nessa occasião estão presentes algumas noviças, elle as marca nas 
espáduas, em signal de seu captiveiro; e em recompensa ellas o 
beijam na parte mais iramunda. Do que tudo dâ bem larga no- 
ticia D. João Perez de Montalvão (4). E d'ali partem a chupar - 
creancinhas de leite ; porque, mais tenras, e innocentes, menos 
podem resistir; ou porque das mãos, cabeça e pés, truncados, e 
cosidos com o sangue compõem o seu famoso unguento, sem o 
qual não podem ir aos seus conventiculos ; como dizem Biusfel- 
dio (5) e Grillando (6). Ou porque se capacitam (maxime as ve- 
lhas) que bebendo sangue de creanças, tornam a remoçar, coroo 



(1) Decathol. 

(2) De Ari. Mag. 

(3) In rubr. de malefic. et mathenat. 

(4) Para lodos foi. mihi 233. 

(5) Confese. malefic. prae. x. 

(6) De sortileg. 



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— 342 — 

adverte Marsilio Ticino (1). No Peru e Panamá quasi todas as 
velhas eram bruchas, e andavam sempre a commetter infanticí- 
dios (Testa forma ; como na historia d'aquellas províncias attesta 
Pedro Gieza (2). Da mesma sorte que entre os romanos houve 
muitas de que faz menção Ovidio (3) : 

Nocte volant, puerosque petunt nutríeis egentes, 
Et vitiant cunis corpora rapta suis, 
Carpere dicuntur lactantia víscera rostris 
Et plenum poto sanguine guttur habent. 

E para melhor exercerem a sua prenda se transformam em 
animaes, e assim se introduzem pelas casas para chupar os re- 
cemnascidos, até os deixarem exhaustos, segundo S. Thomaz (4), 
S. Jeronymo (8), e Santo Agostinho (6). 

E se topam com meninos engraçados por sua frescura, loi- 
ros, brancos, alegres e bera creadinhos, se os não podem chu- 
char, de raiva e inveja lhes dão o quebranto, ou mal d 'olho por 
fascinação ; como diz S. Thomaz (7), e com elegância toca Rou- 
teos (8): 

Sic strix dirá óculos, et totós fascinai araens 
Artus, et lento consumit corpore tabo; 
Horrendum facinus. 

Tão pestilente era a sua vista, que fez dizer a Plutarcho (9): 

(1) De vita longa liv. ii, cap. xi. 

(2) Descriptio Indiae pag. 2, cap. fin. 

(3) Fast. liv. vi, 

(4) Quoest. xii, artic. 2. 

(5) Epist. ad S. Paulo. 

(6) De Civit. Dei cap. xviii. 

(7) Q. i, 67, artic. iv. 

(8) Liv. de venat. 

(9) Simpos. decad. v, probl. vii. 



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— 313 — 

EnlheUdae fuerant pulchri per colla capilli, 
Sed tum dirus homo conspectae influminis undis 
Invidit, turpisque invasit prolinus illam 
Morbus, et invidia corrupta est gratia formac. 

E tâõ terríveis eram seus efeitos, como o poeta os descreve : 

Pallor in ore sedet, ma cies in corpore totó : 
Nusquam recta acies, livent rnbigine dentes, 
Pectora felle virent: lingua est suflfusa veneno. 

É tal a força, ou disposição phisica dos seus olhos que Vir- 
gílio disse (1 ) : 

Néscio, quis teneros oculus mini fascinai agnos. 

Jerónimo Vida (2) conheceu um homem de tão pestífera 
vista, que bastava fitar os olhos para matar homens, ou brutos ; 
murchar flores, mirrar fructos, seccar arvores, e revolucionar o 
mundo. 

Quandoquidem memini Tusci alta in rupe Viterbi 
Ipse senem vidisse ferum, cui dirá rigebant 
Ora, gravesque oculi, suffecti sanguine circum; 
Fronsque obscena, situ, hirtique in vértice cani. 
Ille truci (scelas!) obtutu genus omne necabat 
Reptantum, teneras animas, parvasque volantes. 
Quin etiam si quando hortos ingressus, ubi annus 
Exuit expleto turpem novus orbe senectam, 
Floribus, et passim per agros incanuit arbor, 
Ille hortis stragem dedit, arboribus que minam 
Spemque anni agricolae moesti flevere caducam. 
Nam quocumque aciem horribilem intendisset, ibi omnes 
Gernere erat súbito afllatos languescere flores. 



(1) Eclog. 3. 

(2) Liv. ii. Bomby ctn. 



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— 344 — 

E Sennerio (1) até diz, que os que padecem de ophtalmias, 
e inflammaçôes d'o!hos as podem coramunicar a outrem ; de cuja 
opinião é também Ovídio (2) ; 

Dum spectant oculi laesos, laeduntur et ipsi : 
Multaque corporibus transitione nocent. 

O remédio contra a fascinação e quebranto, ou feitiços das 
bruxas, era, logo que urp olhar fosse suspeito» dizer: Benza-o 
Deus! ou cuspir fora, porque tinham para si que o cuspo tinha 
a virtude de neutralisar toda a fascinação ; como traien) Plí- 
nio (3), Eliaoo, e a isso allude Pérsio (4) : 

Infami digito, et lustralibus ante salivis 
Expiat, urentes óculos inhibere perita. 

E Tibullo (5): 

Despuit in molles, et sibi quisque sinus. 

Usavam também trazer ao pescoço das creanças alguma coisa 
torpe e vergonhosa, para affastar delias os mios olhos, como 
conta Varrão (6), d'onde veiq o uso dos dixe$, oq cUgetes, como 
v. g. a figura da m3o com todos os dedos cootrahjdos, que de 
alguma forma traz ao sentido a forma de priapo, ou genital hu- 
jnano, que é coisa bem vergonhosa e torpe, como nota D, Ra-* 
mires dei Prado (7), explicando a Marcial (8) : 



(1) Pratica liv. vi, pag. 9, cap. i de fascin. 

(2) Amor. liv. i. 

(3) Liv. x, cap. xxii, liv. xxviii, cap. jv., 

(4) Sat. ii, 

(5) Eleg. liv. i, 2. 

(6) De ling. lat, liv. vi. 

(7) Ad Marcial, liv. i, epigr. xcm. 

(8) Liv. ii, epigr. xxvm. 



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— 315 — 

Et tu digitam porrigito mediam. 

Coro o andar dos tempos, estes dixes ou digites, foram to- 
mando formas menos deshonestas, que são as que ainda hoje 
usam; e que vulgarmente chamam figas; e eram, e são ordina- 
riamente dp oiro, prata, marfim, coquilho, ou azeviche, como 
diz o mesmo Ramires, e para prova traz estes versos de Gaste- 
tonio: 

Ut pueri caveant laedentia lumina matrum 

Collo apensa regunt signa Priape tua. 

Jíomine nostrates dixerunt Hinga pudico 

Namque malis tantis islã medetur avis. 

E emfim também usavam da pedra bezoar como conta El- 
pidano (1), da fada silvestre, como diz Aristóteles (3), e da cau- 
da do lobo, como lembra Ronseo: 

Pars caudae prodesse viris, qnos fascina vexant. 

Mas tudo isto de nada vale dizem Abulence (3), João Es~ 
ealiger (4), e Pedro Giruelo (5) ; e o que importa é oppor-lhes 
algum contra-veneno, para 1 o que Quinto Sereno Sammonico (6) 
muito recoramenda o trazer um alho ao pescoço das creanças : 

Praeterea si forte premit strix atra puellos, 
Virosa immulgens exertis hubera labris, 
Allia praecepit Titini sententia necti. 

Doeste antídoto, o alho, ainda hoje usam muito os rústicos. 



(i) De Venenis. 

(2) Prob. xxxiv. 

(3) In Genes, cap. xxi e Paradox iv, q. 10-16. 

(4) De sublilit, exerc. 346. 

(5) De super tit. pag. 3, cap. v. 

(6) Gap. Infantibus strige inquietatis. 



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— 346 — 

Quem quizer mais larga notícia sobre fascinação e quebranta*, pode 
ler o nosso fr. Manoel de Azevedo (1), e D. Francisco Henri- 
ques (2), os quaes nada deixam 1 a desejar. 

Assim não havia que fiar nas bruxas, e nem só quanto ás 
ereancinhas, mas ainda as mulheres e homens, toda a espécie 
de vivente, e ainda os mesmos mortos lhes serviam de pasto; 
porque era seu mimoso prato a carne humana ; e peores que os 
mesmos lystrigonios, que quando isso lhes faltava, nem a seus 
próprios filhos perdoavam, como referem Plínio (3), Eusébio (4), 
Tertuliano (5), S t Jeronymo (6), o Tiraquello (7). O mesmo 
contara dos bactrianos, e mais Índios orientaes, como occiden- 
taes, Cicero (8), Valério Máximo (9) ; dos do Peru, Garcilaso£10) 
e dos do Brazil, o historiador Ferreira (11), e outros muitos au- 
tores. 

E por fim á mingoa de corpos mortos de fresca data, se 
contentavam com cadáveres já corruptos, como notam Sebastião 
Miguel (12), e Baptista Codronchio (13), a que alludiu Pau- 
lino (li): 

Quin et funeream saniem satiabat, et ossa 
Lambebat 

(I) Correcção d* abusos. 

* (2) Soccorr. Delphic. liv. h, cap. i. 

(3) Liv. vn, cap. x. 

(4) De Praepor. Evang. liv. i, cap. in. 

(5) Contra Marcion, liv. i. 

(6) Contra Jovin. 

(7) Liv. ii. Genial, cap. v. 

(8) Liv. i. Tuscul. 

(9) Liv. ii. 

(10) Comm. 

(II) Hist. Ind. dec. iv, liv. viu. 

(12) In Peumoleg. > 

(13) De morbis. 

(14) Liv. viu. 



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— 347 — 

ETibullô (1): 

Et tépido devorat ossa rogo. 

E o mesmo Ovidio cantou de Medéa : 

Per túmulos errat sparsis disjuncta capillís, 
Rapta que de tepidis colligit ossa rogis. 

Por esta razão costumavam os antigos gravar nos sepulchros 
as quatro lettras : S. T. T« L: — Sií Tibi Terra Levis de que 
faliam Tibullo (2), Ovidio e Marcial : 

Sit tibi terra levis mollique tcgaris arena. 

Como quem supplicava aos deuses que a terra não embara- 
çasse o contacto da divindade com os mortos para os livrar dos 
insultos dos demónios, ao que allude Quintiliano (3). D'onde 
veia também o uso de gravarem nas sepulturas as lettras : H. R. 
I. P.» Hic requiescat in pace ; e d'aqui veiu o uso do nosso Jfe- 
quiescat in pace, adoptado pela Igreja Catholica, e que se canta 
sobre a sepultura no acto do enterro do christão ; também para 
d'ali afastar os máos espíritos, como ensina Basílio Ponce (4). 
E era por isto que na Thessalia por muitos séculos foram guar- 
dados os sepulchros ; para que o demónio, e seus agentes não per- 
turbassem os mortos, nem roubassem seus membros, para seus 
banquetes, e malefícios, como referem Apuleio e Bulengero (5). 
£ a razão principal é para escarnecer a perfeição do homem ; 
para isso lhes tiram olhos, cabellos, dentes, unhas, ossos, cavei- 
ra, carne podre ; e também laços, e túnicas de enforcados, como 

(1) Liv. i, eleg. ii. 

(2) Liv. ii, eleg. iv. 

(3) Decl. x. 

(4) Variar. Disput. pag. 1, q. 2. 

(5) De Mag. liv. 2, cap. xix. 



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— 348 — 

referem Séneca, Lucano, A pulei o, Joáo de Me na, Sebastião Mi- 
guel, Marti m dei Bio, e Cesário Bulengero (1). 

De todas estas partes faz circunstanciada jnenç&o Lucano (2). 
- Das túnicas mais clara menção faz Propercio : 

GincUque funesto lanea vitta viro. 
Em quanto á podridão e virolencia dos corpos corruptos: 

Ni gramque per artus 
Stillantis tabi saniem, virusque coactum 
Sabstulit, et nervo morsus retinente pependit. 

E em quanto ás caveiras, dentes, e mais membros do corpo : 

Thesalis incubuit membris, atque oscula fingens 
Truncavit caput, compressaque dentibus ora 
Laxavit, siccoque haerentem gutture linguam 
Praemordens, etc. 

De todos estes ingredientes fazem mezinhas diabólicas con- 
tra os vivos; empestando hervas, fructos, iguarias, unguentos, 
e pós maléficos á saúde, á amizade, imagens, e figuras similhan- 
tes às pessoas que pretendem offender ; e por muitos modos dam- 
nificar, já lançando-os pelos caminhos, casas e vestidos ; já un- 
tando as paredes, escadas e limiares, e até os leitos das pessoas 
a quem desejam empecer, com o que fazem varias moléstias, 
como loucura, furor, tristeza, ou matam de repente, como larga- 
mente contam Paulo Gri liando (3), Espringerio (4), Remigio (5), 

(1) Aedversus Mag. liv. n, cap. xix. 
(8) Phars. 

(3) De sortil. q. 5. 

(4) Mali. pag. 2. 

(5) Liv. i, doem. 



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— 349 — 

dei Rio (1), Cardano (2), e Maiolo (3). Em todos os séculos, e 
até no tempo de Moysés foram uso taes malefícios. Os magos 
de Pharaó usaram de taes pós e unguentos, como conta Philo (4). 
Muitos no tempo dos Imperadores foram victimas dos pós ; como 
conta Xiphilino (5). Na cidade de Salassia houve no anno de 
1536, como refere Cardano (6), tanta mortandade, que ficou 
deserta grande parte da cidade. Em Guasola, povoação d'Africa, 
confessou um feiticeiro, por nome Helzana, que uma grande mor- 
tandade que ali houvera fora devida aos seus pós, e unguentos ; 
como attesta Maiolo. Em Milão, Pavia» Lodi, Cremona, Pa- 
lencia, Parma, Verona, Bolonha, Mantua, e outros Iogares do 
Piemonte só no anno de 1630 morreram d'isto, mais de um 
milhão de pessoas. Do que resultou que Philippe iv de Castella 
em 7 d'outubro do mesmo anno publicou um decreto com gra- 
veslpenas contra os introductores de taes malefícios nos seus es- 
tados; e grandes prémios a quem descobrisse os perpetradores. 

Tudo traz Torreblanca (7). 

Também usavam as feiticeiras introduzir seus bruchedos nos 
travesseiros, nos colchões das camas, nas coiceiras das portas, e 
em covas pelas casas, ou nas pias da agua benta, e nas caixas 
do tabaco, para assim contagiar a quem lá tocasse. 

Em quanto ás imagens, e figuras que representam as pes- 
soas da sua quizilia, também costumavam as feiticeiras, e bru- 
chás fazer muitas espécies d 9 estas. E nestas pregavam alfinetes, 
agulhas e pregos, já atravessando-lhes o coração, os rins, a ca- 

(1) Liv. ih. 

(2) Liv, xvi. 

(3) Tom. ii, can. colloq. m. 

(4) VUaMoyses. 

(5) Vit. Domitian. e commod. 

(6) Liv. xv, cap. viu. 

(7) Jw. Spirit. liv. xii, cap. vh. 



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— 350 — 

beça, e mais partes importantes do corpo ; invocando ao mesmo 
tempo o demónio, para que taes pessoas padecessem como se aqoel- 
les bicos lhes atravessassem seus membros. Como referem Es- 
pringerio, Baptista Cadronchio, Toledo, e Paulo Grillando, que 
diz : « Imagines fabricabant, quas spinis, acubus, clavis, vel 
aliis rebus acutis in gutture, renibus, pecture, faemure, costis, 
vel ventre, vel aliis in locis perforabantur, ut verum corpus 
maleficiendi, et easdem patiatúr puncturas, et paenas, ac si in 
ejus corpore vere perforare cootigerit. » Estas imagens, ou simu- 
lacros, eram feitas de farrapos de panno, de là, ou de cera e 
barro ; de cera, como a de que falia Ovídio (1), feita pela fei- 
ticeira Medéa, que lhe trespassava o figado: 

Devovet absentes, syipulacraque cerea Gxit, 
Et miserum ténues in jecur urget açus. 

De outra também de cera faz mençào Virgílio (2) : 

Limus ut hic durescit, et haec ut cera liquescit 
Uno, eodemque igni ; sic nostro Daphnis amore. 

E de mais três ou quatro falia Bodioo (3), e de uma Zacuto 
Lusitano (i), todas de cera. De panno eram as figurilhas feitas 
pelas bruxas Sagana e Canidia, talvez por ellas furtado ás pes- 
soas representadas, de que falia Horácio (5) : 

Lanea, et effigies erat, altera cerea major, 
Lanea, quae poenis compescerat inferi orem, 
Cerea suppliciler stabat, servil i bus utque 
Jam peritura modis. 

(1) EpUt. Hipsypil. 

(2) In Pharm. eclog. viu, 

(3) Dem. liv. n. 

(4) Deprex. liv. m, observ. cxxxix. 

(5) Sai. i, liv. i. 



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— 351 — 

£ quando queriam dar cabo de alguém, deitavam no lume 
a figura, .e ficavam certas de que á medida que ella se ia der- 
retendo, assim lajnbem a tal pessoa se definhava e morria. Como 
deu a entender Ovídio (1): 

Quodque pice adslrinxit, quod acu trajecit habcna, 
Obsetum menta torret in igne caput. 

Por cansa d'uma (Testas figuras, em attitude de quem lança 
uma setta, perdeu a vida Daffo rei da Escócia, como contam Boe- 
tho, Cardano (2) e Maiolo (3), como aponto na minha nota sobre 
o culto doa deuses lares. £ tal era a importância que os antigos 
davam a estas figuras, estatuas, e simulacros, que os chamaram 
fataes, dependendo d'elles muitas vezes a sorte de uma pessoa, 
de um logar, cidade ou reino, como diz P. Gregório (4), o que 
fez dizer a Virgílio : 

Fata regunt orbem, certa stant omnia lege. 

Á imitação d'isto foi o Palladio, ou imagem de Palias, em 
Troja, como diz Pierio (B) ; o Collosso, on simalacro do sol em 
Rhodes, referido por Maiolo. A estatua de bronze que represen- 
tava um soldado de armas brancas com malho de ferro batendo 
sobre uma bigorna, a qual estatua, e soldados pintados nas pa- 
redes foi descoberta em um subterrâneo cTuma torre ao pé da 
cidade de Toledo, antes da destruição da Hespanha, como conta 
Rassis (6), assim era a estatua de Tito Sempronio, feita de már- 
more com um livro na mão esquerda, e um estoque na direita, 

(1) Fast. 

(2) Variet. liv. xv. 

(3) Tom. li. 

(4) Tom. m. 

(5) Hierocl. 

(6) Hist. Cladis Hispan. cap. xu. 



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— 352 — 

que os romanos guardaram na antiga Júlia Celsa, e existiu até es- 
tes últimos séculos, que foi por despreio mettida no alicerce de um 
palácio, como conta Marcos Xavier (1). Muitas d'estas estatuas 
eram como authomatos dispostos para dar respostas acertadas, 
como se fossem animadas de juizo ; como era a cabeça de metal 
da cidade de Zamora, a qual logo que lhe apparecia algum ju- 
deu, dizia com voz clara : judeus adest ! da qual fazem menção 
Abulence (2), e Yepes (3). Assim era aquella cabeça que pos- 
suía Henrique de Vilhena, a qual a toda a hora lhe relatava 
com vozes claras, quanto se estava passando nas mais remotas 
partes do globo, e que D. João n de Castella mandou derre- 
ter, como contam João Eusébio (4), e Valle de Moura (5). Tam- 
bém S. Thomaz quebrou a cabeça de bronze feita pelo seu mes- 
tre Alberto Magno, porque esta um dia lhe disse aonde estava 
um livro que elle nSo achava na livraria do dito seu mestre, 
como referem Tritenio, e outros citados por Bozio. 

No numero dos prodígios entra o celebre sino de Vililha, 
no reino de Aragfto, perto de Saragoça, onde antigamente foi a 
Júlia Celsa dos romanos, o qual sino por si só toca, todas as 
vezes que a christandade se acha ameaçada de algum mal im- 
minente ; como dizem Hieronimo Zurita (6), Marianna Histo- 
riador, Jaime Bleda, Martin dei Rio (7), e Lusitano Valle de 
Moura (8). Torreblanca attribue este prodígio ao dito do pro- 



(1) In Pontificall pag. 4. 

(2) In. Num. cap. xxi. 

(3) Hist. Innocent. cap. iv. 

(4) Pag. 2. 

(5) Liv. de encant. opusc. i, sect. n, cap. 18, n.° 16. 

(6) Ann. Ârag. 

(7) Mag. 

(8) De encant. 



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— 383 — 

pheta rei «Dcdisti metuentibus te signa, ut fugiant à facie ar- 
cus. » D'onde veiu o dizer Manilio : 

Sic Deus instantis Fati miseratur in orbem 
Signa per effectus, Caeliqae incendia mittit. 

O antidoto contra tão terríveis flagellos eram os sacramen- 
tos da Igreja Christâ. Agua benta, missa, relíquias de santos, o 
signal da cruz, ladainhas, e orações ; como recommendam Be- 
larmino, Borio, dei Rio, Cesário, Lurio, Santo Agostinho, Bins- 
feldio, Cassiano, e emfira o concilio tridentino ; e sobre tudo o 
que melhor prova é a invocação da Virgem Maria Nossa Se- 
nhora, porque só á vista da sua imagem fogem todos os demo- 
. nios. 

Namque Deum merita 

Anima virgo venena domat. 

As bruxas tiveram sua origem idêntica á das feiticeiras ; sua 
historia, criminalidade, e sorte foram também idênticas. 

GONÇALO TELLO DE MAGALHÃES COLLACO. 



TOM. III. 23 



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— 354 — 



NOTA VIGESSIMA QUARTA 

PAGINA 107— VERSO Í3 

08 lESIiraEIROS E MESIHHEIRAS DOS ROIUIOS 

%2 ue o remédio venha de Deus, de algum anjo, ou do diabo, pou- 
co importa; com tanto que a cura se faça, disse Paraceiso (1): 
An Deus, an angelus, an diabolus aegro opem feral, non inie- 
rest, modo curetur aeger ou como diz S. Lucas (2) : Salutem ex 
inimicis nostriS) et de manu omniwn qui oderunt nos» O que o 
adagio castelhano traduziu : Hagase el mifagro, y hagalo el dia- 
blo. E que maior victoria, ouvi eu um dia ao meu particularís- 
simo amigo Castilho, do que fazer do diabo pregador í S. Thiago 
obrigou o demónio a trazer-lhe á sua presença Hermogenes, como 
conta S. Thomaz (3) ; S. Domingos fez que o demónio lhe pe- 
gasse na luz, para de noite se allumiar ; assim como Santa Te- 
cla o fez varrer-lhe a casa, e prestar-Ihe outros serviços, como 
refere João dos Santos (4); S. Martinho Verox, franciscano, 
obrigou o demónio a carregar com elle para atravessar um rio 
caudaloso ; e não contente ainda fêl-o acarretar enormes pedras 



(1) L. de Caelesti Medecina. 

(2) C. I. v. 71. 

(3) 2, 2, q. 90 art. 2. 

(4) L. 1, Hist. orientalU c. 91. 



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— 355 — 

até ao convento de Nossa Senhora da Conceição de Toledo, conta 
Hortiz (1). 

E como se poderam operar taes prodígios sem ter pacto, ou, 
como vulgarmente dizem, parle com o demónio ? ! S. Paulo (2) 
disse : Non sunt facienda mala, ut eveniant bona. 

Muito embora curandeiros e curandeiras invoquem o nome 
de Deus, da Virgem, santas ou santos, e as almas de todos os 
justos, sempre silo diabos, ainda que façam milagres, como en- 
sina o mesmo Christo, por S. Matheus (3) : Multi dicent mihi 
in illa die: Domine, Domine, nonne in nomine tuo prophcta- 
vimus, et in nomine tuo doemonia ejecimus, et in nomine tuo 
virtutes multas fecimus f Et tunc confítebor Mis : quia nunquam 
novi vos : discedite a me, qui operamini iniquitatem. De um me- 
sinheiro depravado em costumes, dizia S. Marcos (4) : Magister, 
vidimus quendam in nomine tuo ejictentem doemonia, quia non 
sequitur nos. 

Usam os curandeiros muitas vezes de palavras, e versos, 
pondo a mao no doente, na ferida ou outra qualquer parte por 
onde corra sangue, e proferindo-as com ar solemne; e para 
exemplo bastará o que cita Cardano : » 

Sanguis, mane in te; 
SiaU Christus fecit in se : 
Sanguis, mane in tua vena; 
Sicut Christus in sua poena : 
Sanguis, mane fttus; 
Sicut Christus fuit crucifixus. 



(1) Àput Bravum Disp. Ápologet Sect. 4 t resol. 48. 

(2) Ad Rom. c. 3. 

(3) C. 7, v, 22. 

(4) C. 9, v. 37. 

23* 



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— 3B6 — 

Por estas e outras foi queimada viva aquella feiticeira já 
apontada no capitulo das feiticeiras ; e estes versinhos traduzidos 
em portuguez, faziam parte da sua sentença. 

Quando isso não bastava, usavam de palavras peregrinas, co- 
nhecidas ou desconhecidas ; como as apontadas por Martinho de 
Aries (1): 

Dominas dixit : pax in caelo, pax in terra, 
Pax in isto Allion, yrustem. 

Para a gota coral, e outras graves doenças recitavam, como 
era segredo, ao enfermo, o que refere Gatinaria : 

Gaspar fert myrrham : thus Melchior ; Balthasar aurum ; 
Haec tria qui secum portarit nomina regum 
Sohitur a morbo Christi pietate caduco. 

E como isso nada operasse, repetiam as palavras apontadas 
por Taranta : 

Purget et mundet, et muniat nos. 
E como isto nada faça, recitam as que traz Gordonio : 

Erat spumans, et stridens. 

O provérbio bespanhol diz : 

Las dolências atrozes 

Las yerbas se las curan no las vozes. 

(1) Traet. de superstion n.° 45. 



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— 357 — 

Com ervas faziam muitas mesinhas ; para a gota usavam da 
erva alterco, vulgo fava de porco, colhida ao pôr do sol» andando 
a lua do signo de Aquário, óu de Piseis, e applicando-se à parte 
da dôr, dizendo estas palavras, que ti*z Irallianno : 

Abjure te herba sacra per sancta nomina Joath, 
Sabath, et Donac EUn, Deus qui Urram formavit, 
Et fecit maré fluviis abundan* flueniibus, et qui 
Exskavit uxorem Loth in statuam salinariam, 
Abjuro inquam te, ut resistas fluxioni pedum. 

E se não obram, recitam as que traz Varrào : 

Sista, pista, rista, xista. 

£ por ultimo essoutras: 

Negat Apollo pestem crescere 9 
Quam nuda virgo restriíigat. 

Para dysenteria, e outras idênticas enfermidades, applican- 
do o dedo a tal logar : 

Soe non, soe non, soe rum. 

£ se n&o corresponde o suecesso, então dizem estas para toda 
a qualidade de fluxo: 

Carat, cara 9 sarite, confirma, consona, imaholite. 

Para sacar ossos da garganta dizem : 



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— 358 — 

Egredere os, quem admodutn Jesus Christus 
E sepulchro Lasarum eduxit, et Jonam ex coete. 

E como nem assim» repetem com mais força: 

Blazius Martyr, et servus Christi dicit, ant 
Ascende, aut descende. 

Para dores de dentes : 

Galbay, Galba, Galdei, Galda. 
Para facilitar o parto dizem ao ouvido da gestante : 

St*, cimy due. 
Para a paronchimia : 

Pú, pu 9 numquatn ego mdeam per. parietem repere. 
Para mordedura de cão damnado ; 

Irioni, Rhibori, Estera, Kuber, faie. 
£ por ultimo: 

Gax, ppx, max, drux, adimax. 

Finalmente para todas as febres escrevem 'num papel esta 
ilavra, e o deitam ao pescoço do enfermo. 

ABRACADABRA. 



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— 359 — 
O que aconselhou e seguiu Quinto Sereno : 

Inscribis in chartae, quod dicitur abracadabra, 
Saepius, et subter repetis: sei detrake swnmam, 
Et inagxs atque magis desint elementa figuris, 
Singula, quae semper raptes, et caetera figes, 
Donec in angustum redigatur littera conutn. 

Mas depois Sereno reconsiderou, e se retractou : 

Multaque praeterea verborum monstra silebo ; 
Nam febrem vario depelli carmine posse 9 
Vana superstUio credidit. 

Esta é a summa dos mesinheiros, podendo ver-se os vários 
autores que d'isto tratam largamente, além dos já citados, Na- 
varro, Soares, Sayro, Bonacinas, Martim del-Rio, Sanchez, Maio- 
lo, etc. 

DOS BENZILHÕBS E BENZEDEIRAS 



, Benzilhões ou saiutatores, como os romanos lhes chamavam, 
eram aquelles que pretendiam curar achaques, só com a sua pre- 
sença, ou de coisa sua, sem o auxilio de remédios, nem her- 
vas, ou palavras, como diz Moura (1). 

S. Thomaz (2) diz que ha taes a quem Deus concedeu tal 
graça, grátis data, e S. Paulo (3) : Alii gratia sanitatum 9 allii 
uno spiritu, alii operado virtutum. 

(1) Tract. de incant. opusc. 1. 

(2) 1, 2, q. 111. 

(3) Âd Corinth. i. c. 12, 14. 



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— 360 — 

Assim curavam os reis de França as alporcas, pondo a mito 
no enfermo, e dizendo : Rex tetigh, Deus te sanat, como affir- 
mam o papa Bonifácio (1), Genebrardo (2), Bozio, e outros. 
Assim curavam os reis d'Hespanha o mesmo achaque, como diz 
Valdez (3) ; e tinham o poder de lançar o demónio fora dos 
corpos, como dizem Cassaneo (4), Puente (5), e D. Joio Sofar- 
zano (6). Assim curavam os reis de Inglaterra, e benziam an- 
neis, que davam contra o mesmo achaque, como conta Polydoro 
Virgílio (7) ; mas isto foi só em quanto foram catholícos romã* 
nos, como dizem Bozio (8), Sanches (9), e Moura (10). 

Usavam os benz\lhões % para a hidrophobia, o aipo, bera, 
colhido â meia noite ; ou um pedaço de pão, depois de masti- 
gado por elles, como diz Del-Rio (11). Omitto os embustes com 
que elles muitas vezes se escusavam; como a presença d'outio 
benzilhão, temor de revelar coisas estranhas, a entrada em for- 
nos ardentes sem prejuiso seu, etc. ; como ainda entre nós se 
está vendo, especialmente este ultimo caso ; o que se está pra- 
ticando annualmente em Pombal, na Senhora da Guia, em Chào 
de Couce, por occasiSo da festa de Nossa Senhora d'este nome, 
ao que se chama a festa do vodo, porque todos a podemos ir 
ver sem recorrer a Vera-Cruz 9 Pedro Bodino, Pedro Tyreo, e 
Leôncio, 

(1) In canonizat. S. Ludovici reg. 

(2) Dedignit. reg. 1. 1. 

(3) Hispana, cap. xvi. 

(4) In cathol. glor mund. 

(5) Narch. cap. ti. 

(6) De jure Indlar. 

(7) Mthu 140. 

(8) larl. de sig. Eccles. 

(9) Liv. ii. 

(10) De seet. 2, cap. q. n.° 12. 

(11) Liv. i. 



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— 361 — 

Usam elles dar-se a conhecer entre si, por um signal em 
forma de cicatriz, chamado pégáda de Sanfà Catharina, ou pal- 
ma de Santa Quitéria, como referem Torreblanca, Tertuliano, 
Remigio, e Binsfeldio. 

Praticam seu officio grátis, dizem; mas recebem de tudo 
quanto podem, com a maior hypocrisia, especialmente dos rús- 
ticos, sempre crentes na impostura ; e chamam sua profissSo : Arte 
de Santo Anselmo. Os italianos lhes chamam : discípulos de Santa 
Catharina ; os belgas : filhos de Parasceves, porque tem para si, 
que quem nasce em sexta feira santa traz comsigo este condão,* 
Assim o affirma Moura (1). 

Haverá dois annos que ainda existia em Villa Sécca 9 fregue- 
sia do districto de Coimbra, um d'estes heroes, que fazia prose- 
lytoe, e recebia beatas e forasteiros, de dia e de noite, em sua 
casa, e na igreja, a ponto de inquietar as autoridades. Eu o vi 
no edifício do governo civil d'esta cidade, acompanhado de um 
robusto mancebo seu ajudante, ambos trajados & rústica, mas 
confortavelmente, e cabello â nazarena ; aos quaes, a muito custo 
d'elles, o governador civil, o sr. Maldonado, fez cortar o cabello 
á escovinha, e exhortou gravemente para descontinuarem de seu 
contrabando. 

Á nossa antiga Ordenação do Reino, 1. 5, t. 3, Dos feitir- 
ceiros, e t. 4, Dos que benzem cães, ou bichos, sem autoridade 
de cl-rei, ou dos prelados, punia estes delictos com pena de açoi- 
tes, até pena de morte. O novo Cod. Pen. publicado em 1852 
omittiu tudo isto em harmonia com o progresso das luzes do 
século. A este século, e em especial á geração presente estava 
reservado o abolir taes penas e seu revoltante tribunal : a in- 
quisição. 

Da revolução do Porto em 24 de agosto de i 820 data entre 

(1) Tract. de incant. opusc. 1, sect. 1. 



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— 362 — 

nós a abolição da denominada santa inquisição ; que em trezen- 
tos e vinte annos condemnou ás eh animas, galés, açoites, e con- 
fiscação trezentos e quarenta mil novecentos e vinte um desgra- 
çados ; sem contar as victimas entregues ao carrasco por Fer- 
nando vn de Hespanha, inquisições da Sicilia, Flandres, Sar- 
denha, ef índias de Portugal. 

E desde então, como se soltassem os diques ao progresso, 
vimos pela primeira vez um barco movido a vapor, e hoje o va- 
por é já o principal motor por mar e por terra, na viação e 
nas fabricas de maior importância, como a casa da moeda, a im- 
prensa nacional e outras particulares etc. etc. ; vemos o gaz ap- 
plicado á illuminação das cidades, como Lisboa, Porto, e Coim- 
bra etc., aos estabelecimentos particulares, e ás mesmas casas; 
a electricidade empregada nos telegraphos, e tudo isto dando em 
resultado a mais prodigiosa rapidez, e economia das forças do 
homem. Tudo isto beto claro prova que le monde marche (1) 

mas que Ia roce humaine a encore bien des généralions à 

épuiser avant dfarriver a sa grandeur. — 6. sand. 

GONÇALO TELLO DE MAGALHÃES GOLLAGO. 



(1) E. Palletan, lú monde marche. 



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— 363 



NOTA VIGESSIMA QUINTA 



PAGINA 109— VERSO 8 



Jtloje também ha mins aves que espicaçam entranhas e cora- 
ções; porem nem ha varas que as afugentem, nem entranhas 
suínas que as satisfaçam. 



D. MARIA PEREGRINA DE SOUSA. 



NOTA VIGESSIMA SEXTA 

PAGINA H3— VERSO 2 

TUS PUBLICAS E OSTRAS HUHDBXAS BOIARAS 

vtoncordam todos os historiadores em que p império romano 
excedeu a todos, em grandeza e magnificência ; porque também 
ainda não houve príncipes ou magistrados tilo desejosos da utilt- 



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— 364 — 

dade geral como os de Roma, nem mais do que elles, amigos 
do engrandecimento da soa pátria. 

A multidão dos seus templos, circos, theatros, amphithea- 
tros, praças publicas, banhos, aqueductos e outros magnifico» 
edifícios, que nunca foram nem tão soberbos em architectura, 
nem tão numerosos em algum outro povo da antiguidade, ainda 
boje em decadência e ruinas, nos attesta o poder e grandeia 
d'aquelle império. 

Descrevendo Ammiano Marcellino a entrada do imperador 
Constâncio na cidade de Roma diz : « que para qualquer lado 
que volvesse os olhos não descortinava senão maravilhas, pare- 
cendo sempre que a ultima, era de todas a primeira. » 

Foliando Plinio dos monumentos e construcçôes admiráveis 
que havia em Roma, milagres as appellida ; e leva o encareci- 
mento a ponto de affirmar, que se alguém as reunisse, bem se 
poderá cuidar estar vendo todo o mundo. 

Sete obras extremou em todo o orbe a fama As quaes deu 
o nome "de maravilhas, mas quem poderá crer serem as mais 
admiráveis essas obras havendo-as tão sem conto, credoras d'esse 
titulo no recinto d'uma única cidade ? ! 

De feito deixando nós de considerar a cidade de Roma no 
seu todo, e observando-a por partes, não podemos escurecer que 
são milagrosos quaesquer d'esses monumentos, e que nunca iguaes 
se contemplaram em toda a redondeza. 

É que Roma, tão grande pelas suas leis, como pelos seus mo- 
numentos, era, no dizer de Virgílio, a destinada a reger e civi- 
lisar os povos, o que não levaria a cabo, se p prestigio da soa 
grandeza a par da força de suas armas os não domasse e conti- 
vesse. 

Não foram as obras de recreação como os theatros e circos, 
as únicas em que os romanos dispenderam quantias fabulosas; 
outras edificaram também, cuja utilidade os gregos não com- 



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pretenderam, apesar do seu adiantamento, e não eram estas in- 
feriores era magnificência. 

Falíamos dos aqueductos, fossos subterrâneos e vias de com- 
municação. 

Descrevendo Plínio na sua Historia Natural, os cannos de 
limpeza da cidade, diz ter sido aquella a mais agigantada em- 
preza que nunca se vira, sendo para espantar a pertinácia de 
abrir e furar tantos montes com o que Roma veiu a ficar como 
nos ares suspendida ; e tão largos e altos eram aquelles cannos, 
que se podia andar por elles em barcos, diz Strabão, e até a um 
cairo davam transito. 

Sete d'aquelles cannos com uma inclinação tal, que a cor- 
rente d'agua rojava por elles ante si tudo, qu^pto encohtrava, 
foram mandados construir por Àgrippa, (outros datam de Tar- 
quinio Prisco) e no tempo de Plínio tendo já decorrido cem an- 
nos e mais, ainda não mostravam o mais leve signal de ruina. 

Se dos fossos subterrâneos passarmos aos aqueductos não nos 
parecerão estes menos assombrosos. 

O mesmo Plinio fatiando dos que el-rei Anco Mareio man- 
dam fazer dentro de Roma denomina-os milagres não vencidos, 
invicta miracula, em razão das montanhas que foi forçoso ras- 
gar, e da construcção mais que agigantada que foi preciso fa- 
zer para a perfeição de tal fabrica, e isto dentro no só anno da 
sua edilidade. 

Depois tratando dos de Calígula e Domiciano diz que a ava- 
liar-se bem a quantidade d'sgua que elles levavam, tanto para 
os togares públicos, como para os particulares, a sua extensão, 
o grande numero de arcos que foi necessário alçar, e finalmente 
as obras que demandavam para se continuarem, como valles que 
seria preciso aplanar etc., era forçoso confessar, que nunca houve 
empreza mais alta, neiri mais admirável em parte alguma. 

Quatorze eram os aqueduetos^era Roma, segundo Procopio, 



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— 366 — 

e vinte segundo Publio Victor, cujos canaes abobadados, tão al- 
tos eram, que por elles podia transitar um cavalleiro, parte sus- 
pensos em arcadas, varias das quaes chegavam a vencer cento e 
nove pés d'altura. 

Júlio Frontino, para quem os aqueductos constituíram o si- 
gnal principal da grandeza do império, fallando d'aquellas arca- 
rias, diz que as pirâmides do Egypto de modo nenhum se podem 
confrontar aos aqueductos, nem na utilidade, nem no arrojo. 

Quando Leandro Alberto, -que prestou especial attenção ao 
remanescente d'aqueductos, que ainda no seu tempo existiam, diz 
que nunca jamais o espirito humano concebera empreza tão ad- 
mirável, não peccaria em exageração? Á fé que sim, pois em 
verdade, apesar de serem os aqueductos e cannos subterrâ neo s 
obras estupendas, pequenos nos tem de parecer logo que os com- 
pararmos com as estradas, que tanto o |k>vo romano como os im- 
peradores fizeram na Itália e nas suas províncias ; e se não ve- 
jamos. 

Em quanto esses fossos subterrâneos não excediam a cidade 
de Roma, e os aqueductos, em numero de quatorze, ou quando 
muito de vinte, como dissemos, não tiniram de extensão mais 
de cinco ou seis léguas, excepto o de Cláudio, que Plínio diz 
ter o seu começo a vinte léguas de Roma, em tamanho numero 
e extensão eram as estradas, que partindo do sub-pé da coirama 
Milliarium Aureurn, centro da cidade, atravessavam a Itália como 
raios de circulo, para d 9 ahi se continuarem de porto em porto, 
ou de terra em terra, até ás extremidades do grande império, 
que no dizer de Ovidio abrangia o mundo inteiro : R&mnae 
spatium e$t urbis et orbis idem. 

Era por meio d'aquellas estradas como por certos nervos, ten- 
dões e artérias, que a cidade de Roma, cabeça do império, tnns- 
mittia vida e movimento a todas as suas províncias. 

De Leão seguiam estradas até ás extremidades das Gallias 



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— 367 — 

mandadas construir por Ágrippa, sendo notáveis pela sua exten- 
são, e pelas dificuldades, que foi preciso vencer, as quatro se- 
guintes: a que atravessava as montanhas d'Auvergne até às ex- 
tremidades da Aquitania ; a que ia ao longo do Rheno continuan- 
do até ao oceano ; a que passava Borgonha, Champanha, e Pi- 
cardia até ao oceano occidental ; e a que finalmente transpunha a 
Gallia Narbonense até à praia de Marselha ; todas tão solidas e 
bem construídas, que ainda hoje existem vestigios d'ellas. 

Nas Hespanhas e em Inglaterra eram igualmente tão pasmosas 
pela sua construcção e grandeza, que de pais a filhos ficou em 
tradição haverem sido fabrica de gigantes. 

Pelos Alpes, e mar de Veneza se communicava a Itália com 
as províncias orientaes. Aquiléa era centro de vários caminhos, 
cujo principal levava a Constantinopla. 

Outros menos importantes se espalhavam pela Dalmácia, 
Croácia, Hungria e Macedónia. 

Um d'elles se estendia até a foz do Danúbio, chegava a Tor- 
nes, e nfto acabava sendo onde a terra já não parecia habitável. 

Tal era a correspondência das vias de communicação, áquem 
e alem do estreito de Constantinopla, que se podia ir de Roma 
a Milào, a Aquiléa, sair de Itália, atravessar a Esclavonia, per- 
correr a Natolia, Gallicia, Souri, passar a Antiochia, Phenicia e Pa- 
lestina, ao Egypto pela Alexandria, ir ter a Carthago pelo Cly- 
senos, e parar no Mar Vermelho depois de se terem medido duas 
mil trezentas e oitenta léguas 

Finalmente desde as extremidades occidentaes de Hespanha 
e Africa, até ao rio Euphrates, e outros logares orientaes da Ásia 
maior, havia vinte a vinte e cinco estradas, cada uma d'ellas do 
comprimento de mil e quinhentas a mil e seiscentas léguas, não 
foliando ias transversaes, como se pode ver na carta chamada 
Peutingeriana. 

Esta multidão de caminhos, se a considerarmos em quanto 



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— 368 — 

á extensão, é já admirável ; mas que não será quando meditar- 
mos nas difficuldades que foi necessário vencer, rompendo bos- 
ques, aplanando collinas, cortando montanhas, atterrando e esgo- 
tando lagoas, levantando pontes etc. ! 

Se as estradas na extensão do mundo, eram um symbolo do 
poder dos romanos, na Itália propriamente dita, eram também 
um padrão eloquente da sua competência nas artes. 

Eram ellas na distancia de oito e dez léguas de Roma, mol- 
dadas de templos grandes, medíocres e pequenos, Âedts, Fana, 
SaceUa y d'arcos de triumpho, jardins* banhos, fontes etc., de modo 
que os estrangeiros que a Roma se dirigiam, vendo tantos edifí- 
cios públicos, e particulares, julgavam estar já na cidade, quando 
ainda se achavam bem distantes d'ella. 

Dividiam-se esses edifícios em sagrados e profanos. 

Entre os sagrados avultava o templo de Marte não longe da 
porta Capena sobre a via Appia. Cahido quasi em ruinas pela 
sua antiguidade, foi depois restaurado e ampliado por Scylla, que 
empregou cem columnas de mármore na sua reedificaçào por 
onde podemos rastrear as suas bellezas. 

D'este edifício é que Ovidio faz menção no passo que cha- 
mou por esta nota : 

No mesmo dia se festeja Marte 
no que á porta Capena está fronteiro 
templo erecto já fora da cidade, 
mas não remoto da impedrada via. 

O da deusa Bona perto do qual Cláudio foi morto por Mi- 
lão ; o das musas, obra de Fulvio Nobilior ; o da honra e vir- 
tude, na via Nomentana. 

O sacello da deusa Naenia invocada pelas carpideiras. O ma- 
gnifico templo de Baccho a duas milhas de Roma, e que serviu 
depois por muito tempo de tumulo á familia Constantina. Alem 



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— 969 — 

d*estes templos, e doutros muitos que seria difficil enumerar, 
bavia a marginarem as estradas, e servindo-lhes de principal or- 
namento um sem conto de túmulos que levavam os olhos aos 
viandantes. 

Por uma lei das doze taboas 

Hominem in urbe ne sepelito neve urito 

era expressamente prohibido o enterramento na cidade, sendo 
comtudo exceptuadas doesta lei as vestaes, e os imperadores e 
algumas familias da cidade distinctas como a de Valério Publi- 
cola e Tuberto. 

Aos Fabricios foi concedida a mesma honra, mas os seus 
descendentes nfio quizeram gosar d'este privilegio contentando- 
se com a ceremonia de serem os seus corpos levados ao grande 
mercado de Roma, onde se lhe punha um archote acceso por 
debaixo d'elles, como signal de que podiam, querendo, ser ali 
sepultados. 

As sepulturas dos primeiros reis mostravam a simplicidade 
de seus costumes, roas desde* que os romanos se enriqueceram 
com os despojos da Ásia, e tomaram dos gregos o gosto do luxo 
e magnificência, construíram como elles, soberbos túmulos, cujo 
exterior era ornado de columnas, de estatuas, a pé e a. cavallo, 
carros tríumphaes etc. Notaremos entre elles o de Augusto que 
Strabão chama Mausokufy Caetaris, edificado não distante da 
via Plaminia, construído de mármore branco muito reluzente, 
de vários andares, tendo no cume a sua estatua de bronze muito 
maior do que o natural. 

Os imperadores seguintes até Adriano ali foram quasi todos 
sepultados. 

Também erigiam cenotaphios, ou túmulos honoríficos, á glo- 
ria d'aquelles de quem se n&o achavam os corpos, mortos no mar 
tom. in. Í4 



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— 970 — 

ou na terra em serviço da pátria e lhes gravavam seus epitaphios 
como nos verdadeiros túmulos ; o que fez diíer a Ovídio 

Et saepe in tumulis sine corpore nomina legi. 

Todos estes túmulos costeavam as estradas, e não era só com 
o intuito de as aformosentarem ; tinham também por fim trazer á 
memoria dos caminhantes o aequat omnes cinis, de Séneca. Ahi 
jaziam as cinzas dos poderosos, dos potentados, dos generaes que 
tinham conquistado reinos e províncias, e comtado cinco ou seis 
pés de terra lhes bastavam na morte, porque a morte os igua- 
lava aos mais pequenos. 

Eram também um incentivo de valor, de amor da pátria, e 
de todas as boas acções a quantos nelles attentavam. Ali dor- 
miam as mais e os avós dos que viviam. 

Imital-os em tudo, seguindo-lhes o exemplo, percorrer o ca- 
minho que elles trilharam, vigiar o seu repouso para que lho 
não perturbassem, defender como elles a pátria se a aggredissem 9 
era mais do que uma piedade, era uma obrigação para os que 
haviam herdado seus nomes, ou se haviam ennobrecido com o 
brasão da sua historia. 

Se acaso o inimigo se avisinhasse da cidade, qual seria o 
cidadão tão cobarde, que- não pegasse em armas para defender 
a terra onde jaziam os ossos d'aquelles, que tantas vezes a ti- 
nham conservado è ampliado ? ! 

Estas pompas mortuárias, que se viam em torno de Roma, 
ataviavam principalmente a via Appia desde a pyramide de Caio 
Sestio até â rotunda fúnebre de Cecília Metei la. 

Nestas e noutras estradas que levavam á capital do grande 
império, não se viam só as columnas, e pyràmides dos grandes fa- 
vorecidos da fortuna ; viam-se também sepulchros de pequenos ri- 
valisando muitas vezes em inseri pçdes e ornatos com os dos mais 
nobres cidadãos. 



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— 371 — 

Tal era por exemplo o de Palias, liberto de Tibério, edifi- 
cado na via Tiburtina ; e na via Salaria a duas milhas de Roma, 
o de Licínio, barbeiro d 1 Augusto, que inspirou a Varrfto estes 
dois versos: 

Marmóreo Licinus tumulo jacet, at Gato parvo, 
Pompeius nullo; quis putet esse Deos! 

Taes eram, contrapondo-se ás lapides singelas do povo, as 
d'alguns outros que buscavam fazer-se lembrados pela ostentação 
vaidosa da sua ultima poisada nefte mundo. 

Não denunciava ludo isto que a rainha do orbe, havendo at- 
tingido o apogêo da civilisação começava em fim o periodo da sua 
decadência ? 

Mas em todo o caso o homem encontrava uma lição por onde 
quer que voltava os olhos ; a vida inspirava-se com a morte, 
tendo-a sempre presente, e o mesmo stoicismo ao dizer do dis- 
tincto poeta Mery parecia annunciar nas suas obras a estrella do 
Evangelho que já lá se levantava no horisonte. 

Faltando agora nos edifícios profanos, apenas mencionare- 
mos os arcos de triumpho, porque parece haverem elles sido 
mais particularmente destinados para o ornamento das estradas. 

Estes arcos erectos para perpetuarem a memoria dos podero- 
sos que ennobreceram e ampliaram o âmbito de Roma, foram 
depois também levantados á memoria dos que se tornaram ce- 
lebres por virtudes e generosos feitos. 

Coostnriam-se nas vias principaes, taes como a Triumphal, 
dè que falia Aurélio Victor ; a Appia com especialidade ; como a 
Regina viarum, tinha magníficos arcos de triumpho, porque era 
também por ella, que a maior parte dos triumphadores, como a 
mais espaçosa e mais ornada de magníficos edifícios, eram leva- 
dos pela porta Capena para d'ahi seguirem por uma rua larga 
do mesmo nome até ao capitólio. 

24* 



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— 37Í — 

Aos capitães victoriosos que tinham morrido antes do trium- 
pho, também se lhes erigiam arcos. A Druso que morreu na 
Germânia, entre as muitas honras que lhe fizeram, mandou o 
senado construir um de mármore com o titulo de germânico 
para elle e seus descendentes, em memoria de haver submettido 
aquelles povos. 

No logar em que á via Appia se juntava a via Domiciana 
via-se outro que o senado mandara erigir em honra de Domi- 
ciano. 

Outros finalmente se notavam em differentes vias em honra 
dos imperadores, servindo de exemplo os bellos arcos a Augusto 
na cidade de Rimini, e muitos outros eregidos á memoria dos 
que se encarregaram de reparar ou construir as vias de coramu- 
nicação. 

Se as vias de communicação são para todos os povos em ge- 
ral grande elemento de civilisação, e prosperidade, que não se- 
riam para o povo romano que tantas províncias e reinos submet- 
teu por meio cTellas ao seu poder ! 

Pela facilidade que havia de correr da extremidade de um 
paiz a outro, debaixo do domínio d'um só, parecia que todo o 
mundo se tinha mudado numa única cidade. Habitantes de tan- 
tos paizes, de costumes, génio, e linguagens tão differentes, fo- 
ram ali recebidos como cidadãos romanos, no tempo de Antoni- 
no o Pio. 

É que Roma calçando as suas estradas, e cònduzindo-as até 
ás extremidades do seu grande império, tinha feito mudar a sua 
natureza e condições de cidade nas de um mundo inteiro. 

Tudo quanto cada região criava, tudo o que mares, rios, 
e lagos tinham de melhor, tudo o que as artes dos gregos e 
bárbaros podiam produzir de mais raro e excellente, tudo era 
conduzido 6 cidade de Roma, tornando-se esta o empório com- 
mum do universo. 



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— 373 — 

Tão conhecidas e avaliadas eram as difficuldades que foi 
necessário vencer para a construcção de tão agigantada empreza 
e tfto conceituadas as suas vantagens publicas e particulares, que 
levaram um distincto escriptor a dizer, que se no tempo em que 
a Grécia arrolou as suas sete maravilhas, existissem já as vias 
romanas, sem nenhuma duvida foram ellas, não a oitava, senão 
das oito a primeira e a única em todo o mundo. 

D'essa immensa rede de caminhos romanos ornados de tudo 
quanto podia deslumbrar a vista e enthusiasmar apathicos, que 
podemos dizer aqui ? Diremos com mais razão o que Leandro 
Alberto disse dos aqueductos : 

«Nec enim majus quicquam excogitari posse ingenio hu- 
mano arbitror. 



É encargo digno dos magistrados superiores em cada repu- 
blica, o conservarem as vias de communicação em tal estado, que 
o povo possa por ellas transitar seguro e commodamente. 

Assim o entenderam os povos da antiguidade, e por isso 
nunca davam a superintendência das estradas senão aos perso- 
nagens mais eminentes do seu paiz. 

O senado d'Athenas reserva va-a para si. Lacedemonia da- 
va-a aos seus reis como um direito magestatico. Thebas, e outras 
principaes cidades também a não confiavam senão ás pessoas 
mais elevadas em dignidade. 

Em tanta importância tinham este cargo os romanos, que» 
diz Dion, depois de seu império ter chegado ao apogéo do es- 
plendor ainda julgavam fazer uma honra a César Augusto, ele- 
gendo-o intendente geral das estradas no recinto de Roma. 

Durante a realeza, e mesmo perto de duzentos annos depois, 



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— 374 — 

descuraram os romanos da viação publica. A origem d'estes tra- 
balhos data do tempo em que o seu domínio, se estendeu aos 
povos circumvisinhos. Às dificuldades que encontrava a marcha 
de seus exércitos, e a conducção das mercadorias, fez-lhes co- 
nhecer a necessidade de construir estradas. 

Censores, cônsules, tribunos do povo, commissaríos tirados 
dos homens mais importantes da republica, e finalmente Augusto 
e seus successores, foram os magistrados que em Itália se en- 
carregaram das grandes obras das vias. de communicação. 

A Appio, coube na qualidade de censor a gloria de ser o 
primeiro que, seguindo o exemplo dos carthaginezes, a quem se 
attribue geralmente a invenção de calçar os caminhos, fez atra- 
vessar a Itália no comprimento de trezentas e cinooenta milhas, 
por / uma estrada de tal esmero que nunca foi excedida em 
magnificência, e que vinte séculos não foram capazes de des- 
truir. 

Outros censores também foram encarregados d'estes tão ateis 
trabalhos, dando o seu nome ás vias que construíam, como para 
se immortalisarem. 

Aos cônsules Flamioio, e Emílio se devem a via Flarainia e 
Emilia, as mais bellas depois da Appia, levando a primeira do 
campo de Marte a Ri mini, e a segunda de Roma a Aquilée. 

A multiplicidade d'estas obras não podia já ser confiada a 
um ou outro magistrado, e por isso se crearam commissarios com 
o nome de curatore* viarvm, cargo de tanta consideração que 
foi Júlio César o primeiro honrado com elle ; o que o fei des- 
baratar parte da sua fortuna. 

Diz Cicero que estes trabalhos eram de tal modo considera- 
dos, que se Therme, senhor romano, tivesse acabado a repara- 
ção da via Flaminia teria sido cônsul e collega de Júlio César. 

Finalmente sob o império de Augusto e seus Buccessttnes» 
principalmente de Vespasiano e Trajano, muitas e importantes 



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— 375 — 

reparações se fizeram na Itália, e grande numero d'estaidas se 
abriram á circulação do publico. 

Os arcos que em muitas partes se viam, e os que em suas 
minas se vêem ainda, bem nos attestam o agradecimento do 
povo aos Seus imperadores, que tanto a peito tomaram os (lio úteis 
e civilisadores trabalhos da viação. 

Roma e Rimini admiraram os bellos arcos levantados a Au- 
gusto, por ter reparado a via Flaminia, não sendo menos no- 
tável, o que a esse mesmo imperador se erigiu no mais alto 
dos Alpes, por haver cortado aquellas montanhas, abrindo cami- 
nho às suas legiões, e subjugando por este modo differentes po- 
vos, que defendidos pela inaccessibilidade do terreno tão graves 
prejuisos haviam causado ao império. 

A Vespasiáno e Trajano não foram feitas menores honras, 
porque também não foram poucos os signaes que deixaram da 
sua magnificência. 

Notaremos por exemplo a abertura' que Vespasiáno mandou 
fazer no monte Apenino, de mil pés de comprimento, com a 
idéa de encurtar a via Flaminia. Mas o príncipe, que depois de 
Augusto mais despezas empregou neste género de trabalhos foi 
sem duvida Trajano. 

Para continuar a via Appia em linha recta no comprimento 
de dezaseis milhas, encheu este imperador, como outro Hercu- 
les, o lago de Poncio, que era composto de fossos navegáveis que 
se estendiam desde o fórum Apii até ao templo da deusa Fero- 
nea perto de Terracina, havendo ahi, dizem, vinte e três cida- 
des, antes que as aguas tivessem innundado aquella região. Ora 
se Plínio reputa milagre que este lago tivesse inundado em um 
instante vinte e três cidades, não menor milagre reputaremos 
nós, o que fez Trajano detendo-o por meio de assombrosos di- 
ques, e restituindo-o em parte a terra firme. 

Não foi só em Itália que este e outros imperadores se tor- 



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— 376 — 

naram celebres pelas suas obras neste gcnero. A elles se devem 
muitas e boas estradas, que. por toda a parte cortavam as suas 
províncias, sendo notáveis as que debaixo da sua imraediata ins- 
pecção se construíram em Hespanba e Portugal ; como vehios pelas 
inscripções tiradas de varias columnas, que existiam nas estradas 
de mil a mil passos geométricos, chamados por isso milliarias, 
onde se inscreviam os nomes dos magistrados que as construíam. 

Esta península, por isso e pelas agigantadas obras d'outros 
géneros que ali fizeram, parece ter sido a mais amada dos im- 
peradores. 

Em Hespanha logo que Augusto fechou o templo de Jano, 
tratou de concluir uma grande via começada havia tempo pelos 
cônsules, tornando-a mais larga e extensa e continuando-a de 
Medina a Gades, o que se sabe por uma inseri pç5o que existia 
em casa de Fernando Carrera. Muitas outras se fizeram poste- 
riormente. 

Augusto teve tanto a peito o desenvolvimento das vias .de 
communicação que mais de oitenta estatuas de prata, corues, 
equestres, e de quadriga,que os seus, admiradores lhe tinham eri- 
gido nos templos e nos banhos públicos, foram por elle mandadas 
apear e fundir, para o seu producto ser applicado parte á cons- 
trucção do templo de Júpiter Palatino, parte ás estradas do império. 

O valor d'estas estatuas havia de ser immenso porque, sobre 
tudo as quadrigas, eram conforme aos numerosos exemplares de 
mármore que vemos ainda hoje no museu do Vaticano. 

Mas os que viram consumir tantas riquezas por quero tinha 
em maior conta os templos e as estradas do que os monumen- 
tos 6 vaidade não poderam senfto louvar o pensamento do que 
se tinha sacrificado ás vantagens publicas. 

Vespasiano, a exemplo d'Augusto, dirigiu também para a 
Hespanha a sua attenção particular. 

Foi debaixo da sua direcção que grande numero d'estradas 



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— 377 — 

ahi foram reparadas ou construídas Citaremos entre outras a que 
se estende de Capara a Medina, cidades distantes cento e dez mi- 
lhas uma da outra* como se vê por uma inscripção copiada de 
uma columna em Medina. Tito e Domiciano, também ahi repa- 4 , 

raram e construíram muitos caminhos. 

Mas, diz o sábio Jeronymo Surita, se as obras que Trajano 
fez em Itália são dignas de admiração, muito maior nos mere- 
cem, as que elle emprehendeu na Hespanha, tanto pela sua gran- 
deza como pela sua magnificência. 

E na verdade, bastam as alterosas pontes, que elle ahi cons- 
truiu para nos testificarem o poder d'aquelle príncipe. 

A ponte de Salamanca que a elle se attribue, foi uma obra 
digna do seu nome. 

Era ella composta de vinte e seis arcos de trinta e quatro 
metros de alto e vinte e três de largo, com seus pilares de oito 
metros de grossura. 

Se não ha certeza de que fosse elle quem a mandou construir, 
é fora de toda a duvida que a Trajano se deve o caminho de Sa- 
lamanca continuado por meio d'essa ponte ; porque nelle havia 
inseri pçôes que assim o certificavam. 

A ponte d'Alcantara que Plinio chama Norba Caesarea tam- 
bém a elle se attribue. 

Esta ponte tão digna pela sua magnificência de attestar a ma- 
gestade de um imperador era de seis centos e dez pés de com- 
primento distribuída em arcadas de oitenta e quatro pés de lar- 
go e duzentos de alto que podia rivalisar com a sumptuosa ponte 
que elle construiu sobre o Danúbio. 

Varias inscripções nos attestam as muitas .estradas que elle 
e seus suecessores fizeram nesta península. 

André de Rezende menciona uma inscripção achada entre 
Lisboa e Medina que bem mostra ter havido uma estrada entre 
estas duas cidades. 



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— 378 — 

Pelas inscripçôes que apresenta "Bergier, se averigua o quanto 
Adriano, seu successor, se occupou em beneficiar a Lusitânia. 
As obras perto de Capara e a bella estrada entre Braga e Cha- 
ves, a elle se devem. 

Antonino, o Pio, também algumas obras fez neste pais. 

Por ultimo diremos que André de Rezende faz menção de 
oito estradas em Portugal devidas aos imperadores romanos. • 

É certo que elles tiveram uma grande predilecção pela pe- 
nínsula hispânica, uma de suas províncias mais estimadas, e 
com relação a Trajano e Adriano, não deve isso admirar-nos por 
que o primeiro era d'origem, e o segundo por nascimento bes- 
panhol. 

A avaliarmos as estradas de Itália, por esses restos que ainda 
hoje existem, eram ellas mais bem construídas do que as outras, 
principalmente as vias Appia, Flarainia e Emília, que sendo fei- 
tas ha mais de dois mil annos, ainda em partes estio em muito 
bom estado. 

As pedras que as calçam são de bazalto mais duro que o 
mármore. 

Talhadas irregularmente em pentágono e hexágono de um, 
dois, e três pés de lado, e tão justamente assentes que em va- 
rfos logares não se poderia metter de permeio o gume d'uma 
faca. Tem esta pedra cerca de um pé de grossura. 

São geralmente estas estradas mais elevadas do que os ter- 
renos adjacentes. E nos sítios onde São enterradas, cortaram-te 
montanhas e até grandes rochedos, como se vê em Termina, 
chegando o corte a ser de perto de cento e vinte pés, servindo 
para o piso a rocha, depois de lavrada em sulcos para que os ca- 
vados não escorregassem. 

Esta solidez maravilhosa da via Appia, e outras romanas, 
não provinha só da grossura e dureza das pedras, e sua colloca- 
ção, mas do massiço do leito em que assentavam. 



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— 379 — 

Eu observei, diz o padre Honfaucon nas suas antiguidades, 
entre Velettis e Sermoneta, uma parte da via Appia d'onde ti- 
nham tirado as pedras de cima ; o que me deu aso para estu- 
dar de espaço a estructura d'aquelle maciço. Era o fundo pedra 
bruta, ou cascalho, e ligado a um cimento tão forte que dificil- 
mente se podia romper. 

Por cima havia uma camada de caliça do mesmo modo ar- 
gamassada com pequenas pedras redondas. As pedras grandes da 
calçada encaixavam-se facilmente nesta camada de caliça ainda 
molle. Achava-se ahi a profundidade necessária para essas pe- 
dras de grossura desigual, como dissemos ; o que nfto poderia 
acontecer se as grandes pedras fossem assentes sobre a pedra 
bruta, ou primeira camada. 

Tinham as estradas em muitas partes suas margens, ou pas- 
seios para os peões, com largura de dois pés, e altura de um pé 
e meio e que talvez também servissem para ajudar a montar 
a cavallo; porque naquelle tempo ainda se não usava d'estribos. 
Era a largura ordinária d'estes caminhos de qnatorze pés, o pre- 
ciso 6 justa para dar togar ao transito de dois carros. As outras 
estradas fora da Itália eram differentemente construídas. Parece 
que na Bélgica ainda duram alguns remanescentes d'ellas ; eram 
muito mais largas do que as da Itália. 

Para construirás, diz Bergier, traçavam^se primeiro dois re- 
gos, ou se estendiam duas cordas perallelas, para marcar a lar- 
gura ; depois cavava-se o terreno intermédio até certa profundi- 
dade. Feito isto deitavam ali uma argamaça de cal e aréa, gros- 
sura de polegada, e sobre esta assentavam como primeira cama 
lagedo de dez polegadas d'altura, assentes as lageas umas sobre 
as outras, e ligadas com um cimento muito resistente. A segun- 
da era formada de pequenas pedras redondas, telha, cascalho, ca- 
liça, e outros entulhos provenientes de demolições de edifícios, 
tudo muito bem batido e misturado com um cimento, fazendo 



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— 380 — 

um argamaçado de oito polegadas de grossura. A terceira da 
grossura d'um pé, constava d'um cimento composto de terra gor- 
da e cal. Por ultimo a superfície era de caliça ligada também 
por outro cimento. 

A crusta assim construída pôde resistir até aos nossos dias 
em varias partes da Europa. 

Eram estas estradas muitas vezes sobresalientes aos terrenos 
comvisinhos dez, quinze, e vinte pés, de modo que, diz também 
Bergier, nos alinhamentos de cinco a seis léguas, como os ha- 
via na Bélgica, dir-se-hia ao vêl-os ao longe, que eram dois cor- 
dões verdejantes, atravez dos campos ; porque os seus taludes eram 
por toda parte cobertos de herva e musgo. 

Todos esses grandes trabalhos, foram executados por quatro 
classes de homens : legionários ; artífices ; povos provinciaes ; es- 
cravos, ou criminosos. 

Augusto, obrigado para manter a paz, a conservar vinte e 
cinco legiões, e persuadido de que a ociosidade amollecia os sol- 
dados, occupava-os conjunctamente com o povo chamado a estes 
trabalhos. 

Apesar das immensas despezas que o império fazia com os 
seus exércitos, chegando a haver no tempo d'Adriano, duzentos 
mil infantes, quarenta mil cavallos, sem metter em conta tre- 
zentos elephantes, e dois mil carros de batalha, apesar de sus- 
tentar sobre as aguas do mar dois mil navios redondos e mil e 
quinhentas galeras, e de muitos dispêndios obrigados pelas suas 
conquistas, ou conservação das províncias, ainda, diz Appiano 
Alexandrino que viveu nessa era, os fundos applicados is es- 
tradas eram tfto consideráveis, que não só as tornavam comino- 
das, e perduráveis, senão que até as alindavam com pedras de dis- 
tancia em distancia, para servirem de assento, e ajudarem ao via- 
jante a montar a cavallo; estatuas nas encrusilhadas para lhes 
indicarem o caminho, e outros ornamentos de que jâ falíamos. 



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— 381 — 

Os tributos aos povos para a construção das vias publicas 
eram grandes, na verdade, e em tão diversas coisas lançados que 
no dizer de Plínio nem as sombras das arvores escapavam, nem 
mesmo o ar que se respirava, e d' isto se queixava S. João Chry- 
sostomo. 

Apesar d'isso, o que vemos é que os povos conheciam tanto 
a utilidade das estradas, que não só muitas vezes reparavam a 
espensas do seu bolsinho, a parte que se avisinhava das suas 
habitações, mas emprehendiam outras obras de maior vulto, com- 
prazendo-se com seguirem d'este modo o exemplo de muitos im- 
peradores. 

A ponte de Chaves em Portugal sobre o rio Tâmega, foi 
construída pelos habitantes d'aquella província. A de Évora, como 
vemos por uma inscripção que traz Bergier, teve a mesma origem. 
Ainda mais. Eram raros os testamentos em que não houvesse um 
legado para as obras d'estradas, e muito principalmente para as 
construcções de pontes. 

Estes legados que os magistrados romanos intitulavam ad 
pias causas, eram, como este titulo o está mostrando, considera- 
dos por elles como uma prova de religiosidade. 

E tanto assim era, que os pontífices foram os primeiros que 
as construíram, e d'ahi vem o dizer Varrfto que a palavra vem 
de pons e facere, fazedor de pontes. 

A primeira que passa por ser por elles construída foi a ponte 
Publicia sobre o Tybre, e posteriormente de alvenaria e. pedra 
por Emílio, sempre com grandes pompas religiosas, e presidindo 
os pontífices. 

Foi (Testa ponte chamada depois Emiliana que o imperador 
Heliogabalo foi precipitado ao Tybre. 

Em Roma no tempo do seu esplendor, eram oito as pon- 
tes, e as de toda a superfície do império innumeraveis ! e chegou 
a tanto o enthusiasmo d'aquelle povo pela utilidade d'esta cons- 



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— 38Í — 

tracção, que até Marco Varrão tenente de Pompeo na guerra dos 
piratas emprehendeu reunir à Itália a Macedónia, por uma ponte 
de madeira que não teria menos de vinte e cinco léguas de com- 
primento na parte mais estreita do mar Jonio 

O arrojo não foi por diante, é verdade, mas é á falta detém* 
po que a isso se deve attribuir, e não á dos meios que sobravam, 
no àizer de Plínio. 

Que admira que tanto se fizesse até mesmo para satisfazer 
fantasias d'um tyranno como Calígula, que ambicionando ser le- 
vado em triumpbo por modo differente de seus predecessores, man- 
dou construir uma ponte no golfo junto a Poussolo de quasi duas 
léguas ; que admira ditemos, quando todos os braços e todas as 
riquezas d' uma infinidade de nações, eram chamadas a concor- 
rer tanto para as obras de verdadeiro préstimo, como para sa- 
tisfação de stultas vaidades ? Nada. 

Foi d'este modo que Roma, grande pelas suas conquistas, 
grande pela eloquência de seus oradores, pelo génio de seus poe- 
tas, e o esplendor dos seus monumentos, o foi ainda mais, pela 
immensa rede de estradas, que retalhando quasi toda a superfí- 
cie, então conhecida, do mundo, tanto contribuirá para a prospe- 
ridade e civilisação d'equelle poderoso império. 

JOSÉ MOREIRA FREIRE MANOEL D* ABOIM. 



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OS FASTOS 



DE 



PUBLIO OVÍDIO NASÃO 

COI TRADUCÇiO El TERSO POMMJEZ 

POR 

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO 

SEGUIDOS DE COPIOSAS ANNOTÀÇÕES 

POR 

#CAfl TODO* 08 BSGRIPTOBES P0RTU6UEIES COHTEMPDRAJIEOS 



TOMO III— PARTE D 



LISBOA 

POt OtDRM E NA IMPRENSA DA ACADEMIA BK AL DAS SCIENCIAB 



MDCCCLXII 



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— 383 — 



NOTA YI6ESSIMA SÉTIMA 



PAGINA 113— VERSO 21 



U yrrho logo depois de dada a batalha de Heraclea contra o 
cônsul Lavíno mandou propor ao senado a entrega dos prisio- 
neiros, que tinha feito nesta batalha, sem resgate ; ajudar os ro- 
manos a conquistar toda a Itália ; e pedir unicamente para si a 
sua amizade, e a inteira segurança para os tarentinos. 

Appio Cláudio, o cego, um dos maiYillustres personagens de 
Roma, retirado dos negócios por causa da velhice e da cegueira, 
vivendo em repouso, e sabendo das offertas que se faziam ao se- 
nado, ouvindo o rumor que corria de que o senado estava dis- 
posto a aceital-as, não poude conter-se, e, cheio de impaciên- 
cia, deu ordem aos seus escravos para que carregassem com elle, 
atravessassem a praça, e o apresentassem no logar aonde se acha- 
va reunido o senado. Á entrada da porta, seus filhos e genros, 
pegando-lhe e ampara ndo-o, conduzirara-no á sala. O senado ven- 
do-o entrar, guardou silencio para testimunhar honra e respeito 
a um senador tão distincto. 

Depois que occupou o seu logar, sem tomar assento, fallou 
nestas formaes palavras : « Romanos : até este momento tinha jul- 
gado uma desgraça a perda da minha vista ; mas hoje julgo maior 
desgraça não ter perdido também o ouvido, e ter de ouvir vos- 



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— 384 — 

sas vergonhosas resoluções, e desgraçados tratados, os quaes vão 
abater toda a gloria de Roma, conquistada por seus próprios tra- 
balhos. Aonde porem esses discursos cheios da vossa arrogância, 
que fizeram ecco por todo o mundo? Dizíeis vós que, se Ale- 
xandre Magno viesse à Itália no tempo da vossa juventude e 
do vigor da idade de nossos pais, não conservaria hoje a repu- 
tação de invencível ; mas que pela sua fuga ou pela sua morte 
teria acrescentado um novo lustre á gloria de Roma. Agora mos- 
traes que todos esses grandes discursos roais não eram que uma 
louca e vã presumpção, pois que temeis hoje os Cheonios e os 
Molossos, que tem sido sempre preza dos'Macedonios; e tremeis 
ao ouvir o nome de Pyrrho, que tem passado a vida em zum- 
baias a um dos guardas de Alexandre. Ao presente anda elle 
erradio pela Itália, menos para soccorrer os gregos d 9 estes lo- 
gares, do que para fugir aos inimigos que, tem na sua própria 
terra ; e ousa prometter-vos a conquista da Itália com aquellas 
mesmas tropas que não poderam collocal-o em estado de con- 
servar uma pequena parte da Macedónia. Não presumais que ai- 
liando-vos com elle ficaríeis desembaraçados ; vós attrahirieis to- 
dos os seus alliados, que vos desprezariam e olhariam como po- 
vos fáceis de ser vencidos por qualquer que os queira atacar» se 
Pyrrho se retirar sem levar o castigo do seu atrevimento, ainda 
depois de ter obtido os tarentinos e os samnitos por paga dos 
seus insultos. » 

Apenas Appio acabou de fallar, todos os votos foram a favor 
da guerra (vide Plutarcho). 

A inesperada apparição d'Appio no senado, o respeito, e ve- 
neração, que lhe tributaram, attendendo á sua illustração, ge- 
rarchia, velhice e cegueira, denotam que, embora cego, se oc- 
cupava mais da gloria de 'Roma do que das delicias munda- 
nas. 

Via Appio com os olhos do entendimento os. males da pátria, 



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— 385 — 

em quanto os que tinham vista, distrahidos pelas delicias do mun- 
do, desmaiavam nos brios em presença dos males da pátria. 

Cegou Appio depois de educado, e não perdeu por isso a in- 
telligencia. Vô-se pois que nem a intelligencia depende da vista, 
nem esta d'aquella. Um individuo pode cegar, conservando a in- 
telligencia ; pode ser idiota, conservando a vista. D'estes factos a 
antiguidade não tirou illacção alguma, e só commemorou a exis- 
tência d'algum cego, que pelo esforço da intelligencia, educado 
oralmente, se fez celebre pela sua instrucção. 

Assim vemos Didymo, que nasceu no iv século na Alexan- 
dria, e cegou aos cinco annos de idade, alcançar um vasto saber, 
e fazer-se celebre naquellp cidade, onde os conhecimentos nesse 
tempo se concentravam. Philosopho e mathematico occupou uma 
cadeira naquella famosa escola, então florescente. Teve por dis- 
cípulos S. Jeronymo, Buffino, Palladio, Izidoro, e outros não 
menos distinctos. Didymo compoz muitas obras, sendo uma del- 
ias o Tratado do Espirito Santo, que S. Jeronymo traduziu em 
latim. Morreu no anno 398, na idade de oitenta e cinco annos. 

Homero, o divino Homero, o mestre da poesia grega, que 
cegon mais tarde, não chamou a attenção dos antigos sobre esta 
classe da sociedade. 

Diodoto, ainda que cego, foi por algum tempo mestre de 
Gicero ; e com grande admiração de seu discipulo, descrevia as 
figuras mais complicadas da geometria. 

A antiguidade, commemorando estes factos celebres na his- 
toria da humanidade, não tirou illacções favoráveis a esta classe 
de indivíduos, principalmente para os cegos de nascença, nem 
attendeu á multidão d'estes indivíduos, o que não admira, visto 
que estes melhoramentos philantropicos andam sempre a par das 
grandes revoluções sociaes. 

Sendo permittida a escravidão entre os romanos, que senhor 
de escravos teria interesse em crear um cego? A creação d'ura 
tom. m 25 



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— 386 — 

cego de nascença poderia apenas servir para crear um bobo, e 
este entrar aos jogos bárbaros de seus degradados companheiros. 
A maior parte dos cegos de nascença, á nascença eram mortos 
por serem uma propriedade onerosa. Pode ainda sustentar-se esta 
conjectura attendendo a que nos libertos não apparece upi cego 
que se fizesse libertar por qualquer talento. 

Em Sparta os cegos de nascença eram lançados no Eurotas. 
Hoje mesmo em algumas partes do Oriente os cegos recemnas- 
cidos passam incontinente da vida á morte. 

A estes costumes bárbaros, que parecem datar do berço das 
nações, achamos princípios oppostos nos livros antigos. No Le- 
vitico vem este passo : Nan maledices surdo, nec coram coeco po- 
jkj offendiculum ; não digaes mal do surdo-mudo, nem apresen- 
teis tropeços adiante dos pés do cego. A Escriptura Sagrada está 
cheia d'estes preceitos, que abonam justos melindres para com 
09 indivíduos atacados d'uma cruel enfermidade. 

O restabelecimento dos direitos doestes infelizes para toma- 
rem parte na communidade é devido á religião christã, moral 
sublime que nivela os azares da fortuna e da natureza. Ainda as- 
sim, arcbivando a historia o nome d'algum cego celebre, oco»- 
mum dos cegos ficou condemnado a mendigar para acudir ás 
suas mais urgentes necessidades. 

Em 1265 S. Luiz rei de França creou o primeiro asylopara 
os cegos pobres, destinado a conter um certo numero d'elles sal- 
vando-os do estado abjecto em que viviam pelo seu desamparo. 
Aquelle asylo foi igualmente recommendado ao mundo cbristào 
por um discurso de Clemente iv. 

Não obstante aquelle passo civiiisador a sorte de taes infeli- 
zes pouco ou nada tinha melhorado em 1425, como se deu» 
ver (Teste passo : « dans le champ-clos forme à l'hôtel d'Aima- 
gnac, ou enferma quatre aveugles couverts d'armures et armes 
de batons, avec un porc de forte tatlle q*i (ievaii être b prix 



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— 387 — 

de celui qui le tuerait. La lutte commencée, les panvres aveu- 
gles poorsuivant Panimal et frappant sans voir, se portaient à 
eux-mêmes de si rudes coups, au grand plaisir des spectateura 
etc. » Vide Journal de Paris, mez de agosto, no reinado de Car- 
los vi e Carlos vn, pag. 104. 

Diderot, excitado pela habilidade que um cego de nascença 
tinha na arte de distillação, levado do seu espirito investigador, 
foi o primeiro escríptor que apresentou uma obra sobre, os ce- 
gos de natividade, que tem por titulo Lettre sur les aveugks, à 
Vusage de ceux qui voient. Acham-se neste escripto, de mistura 
com observações justas e engenhosas, muitos paradoxos. 

V. g. este o maior dos absurdos; que elles não crêem na 
existência de Deus porque não podem crer na luz do sol. D'este 
absurdo resultou-lhe ser mettido na Bastilha. 

A este escripto parece que num século eminentemente phi- 
losophico deviam succeder outros que viessem elucidar esta im- 
portante questão ; nada porem se fez. 

Os médicos tratavam das doenças d'estes infelizes : os phi- 
lanthropos procuravam os meios de lhes alliviarem as misérias; 
porem a possibilidade de um cego de nascença desenvolver o seu 
entendimento nas trevas eternas, ou poder peia educação obter 
uma arte ou officio de que vivesse, nfto occupou, ou não foi di- 
gno de occupar os homens da sciencia. 

Se como vimos se cita o nome celebre d'este ou d'aqnelle 
cego nesta ou naquella arte, officio, ou sciencia, se se escreveu 
por isso a sua biographia, não se incommodaram a inquirir por 
que meios chegou a alcançar tal celebridade, e julgaram que a 
sciencia do espirito humano nada tinha que fazer com os cegos, 
attribuindo a celebridade d'estes a um prodígio! Em 1707 os 
ingleses Viram com indifferença o célebre Saundérsoti, que ce- 
gos tió primeiro anno de idade, occupar uma cadeira vaga por 
râdttê de Wbfstón, e expltear a pbiiosophia de Newton. 

28* 



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— 388 — 

Estes factos, que deviam onnullar a fictícia estatua de Con- 
dillac, e as doutrinas de Locke, passaram inadvertidamente ; por- 
que não se meditou na intelectualidade dos cegos de nasci- 
mento. 

O invento do ensino dos surdos-mudos de nascença por Ja- 
cob Rodrigues Pereira, judeu portuguez, natural de Peniche, 
que tanto espanto causou na corte de Luiz xv, e que attrahiu 
a attenção do abbade de PEpée, o qual votou a sua vida e for- 
tuna ao ensino doestes infelices, não devia deixar de chamar a 
mesma sollicitude sobre os cegos de nascimento, condemnados, 
como os primeiros, á tutela das familias, ou a mendigarem de 
porta em porta. Em 1784 appareceu Valentim Hafly com o seu 
methodo de ensino a leitura em relevo para a educação dos ce- 
gos, e pela pratica do seu methodo tirou os cegos das condi- 
ções degradantes, e mostrou que depois de educados podiam vi- 
ver do seu trabalho. 

A cultura do talento dos cegos, e os vastos conhecimentos 
d'alguns, não são já attribuidos a um prodígio, pelo contrario to- 
dos reconhecem serem o fructo de educação. 

O cego, que, segundo a expressão do dr. Blacklock, cego de 
nascimento, é um verdadeiro preso no universo (vide Encyclogra- 
phia Britânica, artigo Blind), é um homem susceptível de edu- 
cação, e como tal digno de tomar parte na instrucção publica, 
e merece mais protecção da parte dos governos. 

À educação dos cegos pode dividir-se em duas partes : uma 
é a educação commum, a outra é a applicação d'esta na propor- 
ção do talento ; ao tajpnto proporcionam-se os meios ; as peque- 
nas capacidades destinam-se ás artes e officios. D'esta forma me- 
Ihorar-se-ha a sorte do infeliz cego. 

Depois da descoberta de Hátty tem apparecido génios que 
fazem espanto. Alexandre Rodeubach, que cegou aos onze annos 
de idade, é um dos discípulos de Hatty, que fazem vulto na bis- 



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— 389 — 

toria dos nossos dias. Em 1830 foi escriptor politico ; e em 1831 
foi eleito deputado 6 camará dos deputados da Bélgica. Foi este 
cego que fez o discurso da independência da sua pátria. É o 
único exemplo que ha na historia d 9 um cego ser eleito deputa- 
do ; pelo menos não tenho noticia de outro (vide Les aveugles et 
U$ sourds-muets, seg. edic. 1885). 

(i) '• 

A que se reduz a sorte dos cegos entre nós ? Reduz-se a an- 
darem a pedir esmolla, pesarem constantemente sobre as famí- 
lias, e serem tutelados quando tenham de herdar fortuna. 

Portuga] tem provavelmente quatro mil e tantos cegos, e dois 
mil e quatrocentos e tantos surdos-mudos, e não tem um insti- 
tuto para estes infelizes ! Todo este pessoal pesa sobre a socie- 
dade laboriosa. 

As chamadas classes da Casa-Pia de Lisboa, tanto dos cegos 
como dos surdos-mudos, terão correspondido em alguma coisa 
ao que se está passando em França, Alemanha, Inglaterra, Es- 
tados-Unidos ? Creio que não. É um facto innegavel que na Casa- 
Pia cegam maior numero de creanças por causa das doenças dos 
olhos endémicas na casa, do que se ensinam os cegos ali rece- 
bidos para este fim. 

Em vista do exposto, nós carecemos d'um instituto de ce- 
gos e surdos-mudos, aonde se eduquem estes infelizes, e se cu- 
rem alguns dos surdos-mudos, visto ser curavel o surdi-mutis- 
mo ; e aonde a cegueira (sendo um mal eterno) diminua na pro- 
porção da civilisação. 

Dufau, director do Instituto Nacional dos Cegos de Paris, 



(1) O autor editor d'es|fi obra por mais instantes que fossem os obse- 
quiosos esforços do illustre annotador, não pôde de sorte alguma admit- 
tir oqueelle no trecho supprimido lhe dirigia, seduzido pelo enthusias- 
mo ou da amizade, ou do patriotismo. 



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publicou em 1850 na segunda edição da sua obra Des ajoeugles* 
considerações sobre o seu estado physico, moral e intellectual, 
com a exposição dos meios próprios para melhorar a sua sorte 
com a ajuda da instrucção e do trabalho. Esta obra eruditíssima 
constituo a historia da educação dos cegos ; ensina o homem in- 
vestigador a entrar no systema ; e prova quanto o nosso século 
tem conquistado neste ramo da instrucção publica. Termina pela 
lista dos cegos celebres educados nos institutos depois da desco- 
berta de Haúy. A lista é o corollario mais significativo de taes 
instituições. Poder-se-ha fazer uma igual lista dos cegos celebres 
educados na Casa-Pia de Lisboa ? Não ; porque os não tem ha- 
vido. Deixemos & solicitude do governo as reformas que esta nota, 
já longa, lhe poder suggerir. 

ANTÓNIO MARIA DOS SANTOS BRILHANTE. 



NOTA VIGESSIMA OITAVA 

PAGINA 445- VERSO M 

0? GA8AVIT08 ENTOE 08 ROlàMS 

(começavam entre os romanos as núpcias depois de se consul- 
tarem os agoireiros que prognosticavam* o futuro, por meio do 
canto, vôo, pasto das aves, ou por qualquer outra coisa a que 
se ligava a superstição. Crença absurda, mais ou menos enraixa- 



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— 391 — 

da em todos os paizes, que produziu os ídolos, os génios invisí- 
veis, os duendes, os trasgos, as bruxas, os vampiros, e mil ou- 
tras extravagâncias. 

Depois de consultados os agoireiros faziam sacrifícios ao ceo, 
e á terra, como aos primeiros esposos que foram unidos por laço 
indissolúvel, offereciam também um sacrifício a Minerva deusa 
da virgindade ; outro a Juno, que presidia especialmente ao ca- 
samento ; e em seguida a todas as divindades que se desejavam 
tornar propicias. 

Evitava-se cuidadosamente celebrar matrimonio nos dias con- 
siderados aziagos, taes como as calendas, as nonas, os idos de 
cada mez, e bem assim, segundo diz Plutarcho, eram prohibidos 
nos dias de festas publicas, e durante todo o mez de maio, di- 
zendo esta probibição só respeito ás donzellas, e perraittindo ás 
viuvas o casarem nos dias de festas publicas, com o fim de se- 
rem menos notadas do povo entretido em celebrar as suas so- 
lemnidades; o que prova que as segundas núpcias nas mulhe- 
res, eram entre os romanos mal conceituadas. 

Mesmo entre nós, as segundas núpcias não são vistas com o 
mesmo interesse, o mesmo alvoroço, e regosijo das primeiras ; e 
a própria igreja lhes não concede bênçãos ; comtudo difficil é 
ter, e por consequência emittir uma opinião sobre este assum- 
pto, que pode apresentar-se de tão diversas formas. A viuva que 
perdeu um esposo adorado, e extremoso que o seu coração es- 
colhera, e que fizera a ventura dos seus dias, deve ser fiel á sua 
memoria, e consagrar ao luto e saudade, os tristes dias da sua 
amarga viuvez, ou dará uma fraca idéa do seu amor e sentir. A 
viuva que perdeu um esposo a que foi sacrificada por contractos 
das famílias, autoridade paternal, e muitas outras causas que po- 
dem dar-se, é desculpável, se voHa a contrahir para sua felici- 
dade o que uma vez contrahiu violentada e por obediência. Con- 
cordo em que seja mais respeitável a que guarda a sua viuvez, 



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— 39Í — 

mas também concedo que pode haver casos taes, que justifiquem» 
ou pelo menos desculpem, as segundas núpcias. 

No dia do casamento penteavam a noiva, apartando-lhe o 
cabello com um ferro, ou ponta d 9 uma frecha para indicar que 
ficava sujeita ao marido ; depois apartavam-lh'o em seis tranças 
à imitação das vestaes para indicar que a desposada estava vir- 
gem ; ornavam-lhe a cabeça com uma grinalda de Dores de ver- 
bena, que a noiva devia colher por sua mão, e por cima um 
veo branco ou da côr de açafrão a que chamavam flameo for- 
que as mulheres dos sacerdotes, ou sacrificadores denominados 
jlamines e entre os quaes era prohibido o divorcio, assim o tra- 
ziam ; calçavara-lhe uma espécie de cothurnos da côr do veo, e 
bastante altos para parecer de estatura magestosa; também era 
branco o vestido ou da côr de açafrão, mas sem enfeites, e com- 
pletava o vestuário um cinto de pelle d'ovelha atado em nó que 
o noivo desatava invocando Juno, no momento em que a des- 
posada se dirigia ao leito nupcial. 

Nos primeiros séculos de Roma usavam pôr sobre a cabeça 
dos noivos um enfeite com a forma d'uma canga, ou jugo de 
arado, designando o casamento como um verdadeiro jugo, d 9 onde 
se deriva o termo cônjuges. Ao matrimonio, pelos encargos e de- 
veres que pesam sobre os que o contrahem, bem cabe o epitheto 
de jugo, mas jugo agradável e suave, quando existe união, e os 
sentimentos se identificam. 

Tornar-se-ha porem jugo insupportavel, basta á idéa de que 
só a morte o pode aniquilar, quando a educação, génios, e von- 
tades se não ligam ; e sobre tudo quando a afleição não é tão 
viva e reciproca, que mutuamente se desculpem alguns pequenos 
excessos, sempre reprehensiveis, mas que a não existir uma ami- 
zade verdadeira e. solida, em pouco tempo passam aos amuos; 
dos amuos, 6s pequenas altercações ; das pequenas, ás grandes ; 
d'estas, ao aborrecimento, tornando-se então o jugo insupporta- 



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— 393 — 

vel. Seja a esposa attenta no comprimento de todos os seus de- 
veres, dócil, e meiga ; seja o esposo condescendente, delicado, e 
não abuse d'esse poder que os homens se arrogaram ; proscre- 
vam-se os enlaces que se não fundam no verdadeiro amor, e es- 
tima; proscrevam-se aquelles que as ambições e sórdidos inte- 
resses promovem ; amem-se e respeitem-se mutuamente, e o ca- 
samento, longe de ser um jugo insupportavel, será a felicidade 
mais perfeita que a creatura pode encontrar na terra. 

Figuravam arrebatar a noiva dos braços de sua mãi, ou pa- 
rentes, em memoria do rapto das sabinas, que Romtilo, primeiro 
rei de Roma perpetrou ; e para significar a justa dor que ella 
tinha ao separar-se de seus pais, dor que a todas em iguaes cir- 
cnmstancias parece que deve acompanhar* 

Em verdade, por muito decidida que seja a dedicação, por 
muito excessivo o amor, por muito intimo e profundo o senti- 
mento que conduz a mulher ao homem da sua escolha, qual 
será aquella que nesse dia solemne e tão ardentemente desejado, 
que vai coroar todos os seus votos, não leve comtudo uma sau- 
dade, um pezar occulto vivo e pungente, deixando aquelles que 
lhe deram o ser, lhe prestaram os ternos cuidados da infância, 
e a quem a prendem laços também tão sagrados ? Desventurado 
do esposo que receber em seus braços nesse primeiro dia, uma 
mulher toda jubilo e prazer, que bem curta será a sua ventura ! 
Nunca a filha ingrata, será esposa virtuosa e dedicada. 

Sendo destinada a noite para estas ceremonias nupciaes, o 
figurado rapto da joven desposada, era feito á claridade de cinco 
archotes de pinho, que cinco mancebos levavam. Este numero 
cinco era symbolico, e em bonra ás cinco divindades principaes, 
e favoráveis ao casamento: Júpiter, Juno, Vénus, Diana, e a 
deusa Persuasão. 

Saia a desposada da casa paterna precedida por dois mance- 
bos cobertos de capas ; seus pais a conduziam pela mão ; outro 



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— 394 — 

mancebo levava o facho do hymeneo que era de pilrtteiro, e que 
os convidados e amigos dos dois esposos tinham o maior cuidado 
em arrancaç-lhe das mãos, apenas a noiva chegava à habitação 
do esposo, com receio, pelas virtudes que attribuiam a este fa- 
cho, de que viesse a servir a fins sinistros; persuadidos como 
estavam de que escondido pela noiva debaixo da cama, ou met- 
tido pelo esposo num sepulchro bastava isso para occasiooar a 
morte de um v ou de outro. 

As idéas erróneas sHo sempre um mal positivo, a superstição 
embrutece os povos, fazendo-os crer em orna serie de disparates 
que repugnam á razão, e os lançara no ridículo. Sendo isto una 
verdade incontestável, e ao alcance da mtelligencia maia medío- 
cre, é bem para sentir que escriptores, aliás d'um talento res- 
peitável, e infinito merecimento, porem mais amantes do mara- 
vilhoso e sobrenatural que da verdade, tenham sustentado e cor- 
roborado com seus escríptos opiniões e crenças extravagantes, de 
que se não colhe um único resultado proveitoso. 

Pelo caminho cantavam o hymeneo. Também invocavam Tha- 
lassio que tinha casado com uma das sabinas roubadas pelos ro- 
manos, e cujo casamento se dizia ter sido muito ditoso. Lop> 
atraz da noiva levavam uma roca bem carregada de lâ e com e 
seu fuso, em signa] de que devia occupar-se em fiar. Lemao 
também açafates com as suas jóias, enfeites, e bonitos para a 
creança que nascesse. 

Com quanto este pensamento da noiva levar os bonitos p"* 
a creança que nascesse, pareça á primeira vista um pouca sin- 
gular, se elle tendia a despertar na joven esposa, a idéa das con- 
sequências quasi infalli veis do seu novo estado, predispondo»*, p* 
assim dizer, para bem desempenhar os sagrados deveres de afr* 
o pensamento era bello, e perfeitamente combinado. A mvlbtf 
cTantemão preparada para este acontecimento solemne, eêf&*° 
com prazer, e talvez com avidez. Quantas veies a idéa do aornr 



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— 395 — 

do seu filhinho, lhe traria o sorriso aos lábios ! Quantas vezes 
imaginando colher as primeiras caricias, e o primeiro balbuciar 
do innocentinho, apertado nos braços, o seu coração palpitaria 
apressado ! O filho, assim desejado e esperado, acba-se ao nascer 
rodeado do amor e ternura maternal ; ao desenvolver-se nessa 
idade tenra e apta para receber toda a qualidade d' impressões, 
tendo mãi extremosa e esclarecida, pode conseguir um excellente 
porvir, porque d'essa primeira educação dependem quasi sempre 
as inclinações e a sorte futura do homem. 

Apenas a noiva chegava a casa do noivo, que estava ornada 
de grinaldas de flores, e folhagem, apresentavam-lhe agua, e fogo, 
significando que ia tomar parte na sorte de seu esposo, e ao 
mesmo tempo lhe deitavam agua lustral, symbolo de que a des- 
posada devia entrar pura e casta em casa de seu marido. Em 
seguida perguntavam-lbe como se chamava, ao que ella respon- 
dia Caia por ser prohibido aos noivos dizerem o seu verdadeiro 
nome no dia das núpcias; o esposo tomava sempre o nome de 
Gaio e a esposa lhe respondia então : « Se tu és Caio eu sou Caiar) 
que quer dizer : «se to és o senhor e pai de famílias, eu sou a 
senhora e mfti de famílias. » Juste preteução a que aspira a mu- 
lher, quando troca a sua vida simples e pacifica, pelos encargos 
e cuidados do matrimonio. Se a não indemnisasse (Telles o veMe 
um dia senhora do seu pequeno mundo, governando, dispondo, e 
sendo respeitada por aquelles que lho compõem, qual seria o seu 
horisonte ? Se todos os homens levassem até ao centro do lar do- 
mestico, a autoridade e mando, que neste ponto devem depor e 
eoofiar a suas esposas, sempre que as reconheçam isentas de ca-* 
prichos, e que pelas suas qualidades se tomem digna» do gover- 
no e regimen de suas casas, qual seria neste mundo a regalia da 
mulher? Sem vontade sua, e em tudo sujeita aos autores dos seus 
dias ; sem vontade sue, e em tudo sujeita aos que a educaram ; 
por ultimo se fosse sem vontade sua, e em tudo sujeita ao ma- 



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— 896 — 

rido, a vida da mulher seria uma espécie d'escravidão desde o 
berço até á sepultura. 

Este nome pois de Caia que as jovens desposadas romanas 
tomavam, também era em memoria de Caia Cecília esposa de 
Tarquinio mulher ornada de virtudes, activa, laboriosa, e cuja 
memoria devia produzir e inspirar-lhes o estimulo e amor ao 
trabalho, artigo indispensável á felicidade domestica. 

O trabalho ennobrece e exalta a creatura ; quem trabalha 
cumpre a sua missão, e obedece á voz do seu Greador. Depois 
da castidade, o amor do trabalho, é o primeiro dote que o ho- 
mem deve procurar na companheira da sua vida. Dote incom- 
paravelmente superior aos bens da fortuna, que uma eventuali- 
dade qualquer dissipa ; em quanto a mulher laboriosa e econó- 
mica não só conserva a sua pequena ou grande fortuna, mas de 
dia em dia a augmenta, ajudando o esposo, se a sua posição é 
medíocre, ou tornando-o duplicadamente rico, se é abastado. Con- 
cedendo-lhe Deus a ventura de ser mãi, seus filhos, e filhas edu- 
cando-se por ella com o bom exemplo, principal incentivo paia 
uma boa educação, serão um dia dignas copias de tão bello ori- 
ginal : elles habilitados para serem uns dignos chefes de famílias* 
saberão escolher a mulher que como taes lhes convém ; ellas fa- 
rão como sua mãi, a ventura d 9 aquelles a quem se ligarem. 

Depois a joven esposa atava uma pouca de lã á porta, e a 
untava com unto de porco, e de lobo, para affugentar as feití- 
cerias e encantos. Concluida esta ceremonia, as mulheres a leva- 
vam em braços para dentro de casa, sem tocar no limiar da porta, 
consagrado aos deuses Penates, e & deusa Vesta. Logo que en- 
trava lhe entregavam uma argola com chaves, indicando que fica- 
va encarregada do governo da casa, depois do que a convidavam 
a assentar-se sobre o vello d'uma ovelha immolada, para lhe ad- 
vertir que ficava obrigada a tecer e arranjar os vestidos de seu 
marido e filhos. 



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— 397 — 

Pouco depois começava um esplendido banquete, durante o 
qual os tocadores de flauta executavam diferentes peças. Acaba- 
da a ceia, matronas honestas que tinham casado só uma vez, 
conduziam a desposada á camará do noivo, e a mettiam no leito 
nupcial. Então o noivo, antes d'entrar, atirava nozes aos rapazes 
que o tinham acompanhado, em signal de que largava os jogos 
da infância, impróprios do homem já feito, e tomava agora os 
mais sérios encargos ; e os mancebos e donzellas cantavam o epi- 
thalamio, com cantigas livres e lascivas, que reputavam podero- 
sas contra os encantamentos e feitiços que podessem impecer aos 
jovens desposados ; invocavam também grande numero de peque- 
nas divindades ás quaes os romanos por occasião (Testas cererao- 
nias davam diversas attribuições. 

No dia das núpcias, na véspera, e no immediato os paren- 
tes presenteavam os noivos. Neste ultimo dia o esposo dava um 
banquete aos parentes e amigos, ao qual assistia a noiva recli- 
nada a seu lado, e empregando em suas practicas termos tão 
pouco decentes, que geralmente quando se queria designar um dis- 
curso excessivamente licencioso lhe chamavam discurso de noiva* 
Com sobeja razão se podem chamar bárbaros a esses tempos 
remotos, com usos e costumes tão repugnantes como este. Custa 
a crer que a decência, a modéstia, e o pudor, verdadeiros attra- 
ctivos, e as mais brilhantes jóias de que a mulher pode ador- 
nar-se, fossem já tão grandemente menosprezadas. Que respeitp 
podia inspirar a mulher que assim se rebaixava ? Que attençSes 
podia esperar a que assim se degradava, e publicamente esque- 
cia a sua dignidade ? Graças a Deus que ao menos hoje pode- 
mos dizer: outros tempos, e outros costumes. 

Depois d'este ultimo festim o noivo offerecia sacrifícios a Jú- 
piter, Juno, Vénus, e outros deuses. 

Quando uma viuva tornava a casar-se havia o mais escru- 
puloso cuidado em tirar da camará não só o leito nupcial, e to- 



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— 398 — 

dos os moveis que haviam servido ao finado, mas até a própria 
porta da camará mudavam com o intento de desviar os máos 
presagios que tinham annunciado a morte do primeiro marido. 

Quem diria que Roma, tão impregnada de superstições, fana- 
tismo, e idolatria, havia de tornar-se um dia a sede apostólica ! 
Corotudo assim aconteceu. Roma fundada no anno de 752 antes 
de Jesu Ghristo, que não foi ao principio mais do que um gran- 
de burgo, ou covil de ladrões, que foi depois successivamente go- 
vernada sob o poder de reis, cônsules, e imperadores, antes de 
Jesu Christo, e deptfis de Jesu Ghristo, e da passagem dôs go- 
dos por duques dependentes dos exarchas de Ravenna, e afinal 
pelos papas, é hoje a capital dos estados ecclesiasticos e de todo 
o mundo catholico. 

Ao concluir esta nota, tenho a pedir humilde perdão por dei- 
xar apparecer o meu nome entre os de tantos litteratos iilustres, 
no meio dos quaés eu sou como um átomo na immensidade, e 
como pareça contradictorio que conhecendo-me bem, ouse collo- 
car-me entre tantos talentos distinctos, cumpre-me dar uma ex- 
plicação franca e sincera, e com ella um publico testimunho da 
minha gratidão, para o que peço vénia. 

Na minha triste orfandade, e total desamparo em que me 
vi pela morte de meu respeitável e honrado pai, sempre por 
mim chorado, o sr. José Heliodoro de Castro, o único protector 
que na qualidade de meu paroebo, e antigo amigo de meu pai, 
procurei, foi o ex. m0 sr. commendador José Jacintho Tavares, 
cujas raras qualidades ninguém ignora, nem ousa negar. Amigo 
verdadeiro (e como elle o sabe ser) do pai, votou-se de coração 
a ser o protector da filha : a sua mão bemfaseja enxugai! as mi- 
nhas lagrimas ; os seus respeitáveis conselhos me téetn guiado ; e 
a sua paternal protecção se tem empregado com uma actividade 
e um zelo acima de toda a expressão, dom o fim d'a»egurar-me 
uma subsistência. 



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— 399 — 

A veneração, o respeito, e a gratidão de que me sinto pos- 
suída por tantos e tão grandes benefícios, sei-a eu ; alguém ha- 
verá que a comprehenda, mas nem eu, nem pessoa alguma se- 
ria capaz de a descrever. Sei bem que neste ponto desagrado ao 
meu generoso protector ; sei que a sua excessiva modéstia ha de 
aflligir-se com esta minha sincera confissão ; sei mais, que hade 
porfiar comigo para que a omitta, mas não o consente o meu 
reconhecimento ; bem me basta a magoa de o não poder expres- 
sar como o sinto. 

O ex. mo sr. José Jacintho Tavares, com um talento e me- 
recimentos pouco vulgares, trabalha sempre tanto em occultar o 
muito que possue, quanto trabalha por fazer apparecer e brilhar 
o pouco que nos outros encontra ! Na sua alma verdadeiramente 
elevada e nobre, nunca teve entrada a inveja ; por isso fezer o 
bem, e exaltar o merecimento dos outros, é todo o seu fim, que 
tio claro patenteia a nobreza dos seus sentimentos, e a bondade 
do seu coração. 

Dominado por estes desejos que revelam tanta candura e vir- 
tudes, cega-se ao ponto de julgar descobrir o merecimento até 
aonde elle realmente não existe, como acontece comigo. Isto fez 
com que o ex. mo sr. Tavares, fallasse de mim com elogios que 
estou bem longe de merecer, ao sr. Castilho, dando logar a que 
o traductor dos Fastos de Ovidio, por intervenção do mesmo ar. 
Tavares, 9e dignasse de me fazer o honroso convite de escrever 
orna nota para o seu livro. 

Nunca aspirei a litterata, nunca pela imaginação me passara 
que o meu nome podesse figurar em publico, e teria com os meus 
vivos agradecimentos pedido uma escusa, se o meu respeitável 
protector não tivesse mostrado desejos de que eu aceitasse o hoo- 
voao convite. 

Nào escrevi por vaidosa», escrevi por agradecida. 

D, MAMA 00 GABMO DE CASTRO. 



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— 400 — 



NOTA VIGESSIMA NONA 



PAGINA 111 -VERSO 8 
6 FOGO DO GLOBO 

liazões de sobra havia para os povos da antiguidade considera- 
rem a terra como a morada de todos os elementos productores 
do fogo e das chammas, que as forcas interiores do globo arro- 
jam á superfície exterior da crusta terrestre por numerosas bo- 
cas. E de feito, segundo a tradição e a historia, nenhuma re- 
gião do globo tem sido mais clássica na variedade, extensão, e 
complexidade dos phenomenos immediatamente ligados aos fo- 
gos subterrâneos do que todo esse vasto trato da crusta terres- 
tre que olha ao Mediterrâneo desde o Atlântico até 6s monta- 
nhas do Cáucaso e os desertos da Arábia, e por consequência 
mui justificados fundamentos para o nosso poeta estabelecer a 
identidade entre a terra e Vesta deusa do fogo, como veremos no 
decurso d'esta nota. 

O mar Mediterrâneo, como se sabe, banha a Europa meri- 
dional, o norte da Africa, e o occidente da Ásia, communican- 
do ao poente com o Atlântico, e quasi que tocando pelo oriente 
com os mares da índia pelo golfo Arábico ou mar Vermelho. As 
suas margens recortadas em mil seios de formas e grandexas va- 
riadíssimas, constituem outras tantas bahias, golfos e mares, on- 



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— 401 — 

de vem desaguar muitos dos principaes rios da Europa, da Afri- 
ca, e da Ásia occidenta). 

Numerosas ilhas povoam este bello mar. 

Situado astronomicamente debaixo da zona temperada, a maior 
parte dos paizes que o circumdam são os mais pittorescos, apra- 
siveis, e inspiradores de toda a terra. Formadas de um solo fe- 
cundíssimo e coberto de um ceo vivificador e ameno, partici- 
pando em geral das mais excellents condições climatológicas que 
se podem desejar para os gosos da vida, estas regiões abençoa- 
das, repelimos, não podiam deixar de ser avidamente aprovei- 
tadas pelos primeiros homens descidos do plan*alto do Iram e 
que irradiaram pela Europa e índia, Ásia menor, Arábia e Sy- 
ria. 

« Não é somente um clima proximamente uniforme, diz mr. 
Boblaye (t), e um mesmo mar banhando as suas margens que 
formam da península ibérica, da Itália, da Grécia, da Syria e 
d'uma parte da Ásia menor uma região physica distincta ; é tam- 
bém a uniformidade da sua constituição geognostica hoje conhe- 
cida desde Lisboa até ao Li bano. Os povos d'estas diversas re- 
giões podiam nas emigrações tentadas sobre esta larga zona en- 
contrar sempre o mesmo ceo, as mesmas qualidades de solo, as 
mesmas formas e aspectos, as mesmas producções, e todas as cir- 
cunstancias physicas que tão profunda influencia exercem sobre os 
povos na infância da civilisação. Pelo contrario tudo mudaria de 
aspecto e natureza se se dirigissem pelo norte ou pelo meio dia ; 
então encontrariam ainda os povos dois caminhos a seguir do 
oriente para o occidente, um pelas arêas d 9 Arábia e da Africa, 
o outro atravessando os immensos steppes das planícies terciárias 
do norte da Ásia e da Europa. » 

E qualquer que tenha sido o grào de prioridade e a excel- 

(1) Expedição identifica á Moréa. 

TOM III. 26 



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— 402 — 

lencia da civilização das velhas China e índia com respeito à ci- 
vil isação dos outros povos também d'antiguidade, é comtudo cer- 
to que os fundamentos de toda a nossa civilisação nos vieram dos 
egypcios, dos gregos, dos romanos, d'esaa plêiade de raças e de 
nações emfim, que, em differentes logares e tempos, desde os pri- 
meiros Pharaós até aos califas, viveram e floresceram nos vastos 
paizes confinantes com o Mediterrâneo e o Ponto Ensino : povos 
de cujo seio saíram tantos e tão grandes poetas, philosopbos e 
artistas, a maior parte dos quaes tanto honraram a Deus e be- 
neficiaram a humanidade com as suas doutrinas, com as suas mo- 
numentaes obras ; uma grande parte d'ellas ainda hoje illuminam 
o naturalista, o poeta, o jurisconsulto e o artista. 

Assim as margens do Mediterrâneo serão sempre de uma 
grata recordação, não só para os povos do occidente, mas para 
toda a humanidade, cm quanto o faxo da civilisaç&o derivar da 
Europa moderna. 

Mas estas vastas e interessantíssimas regiões mediterrânicas, 
com a doçura do seu clima, a fecundidade e riqueza do seu solo, 
com o numero, variedade, e intensidade dos mais surprehendentes 
e maravilhosos quadros da natureza, onde o poeta, o naturalista, 
e mesmo o prosaico burguez, encontram a inspiração, o admirá- 
vel, o sublime e o goso, encerrariam em milhares de paragens 
permanentes paraísos, se o seu solo não estivesse comprehendido 
em uma das mais extensas zonas de actividade volcanica que 
reage sobre a superfície do globo, e encarregada pela Providen- 
cia de fazer um dos primeiros papeis nas modificações seculares 
e incessantes do relevo doesta parte da crusta terrestre. 

Cora efeito esta zona, a mais regular e extensa de toda a 
terra, começa no archipelago dos Açores, dirige-se ás costas de 
Portugal, abrange a parte meridional da península Ibérica, o no- 
roeste d\Africa, a península Itálica e a Grécia, a Ásia menor, e o 
mar Negro; e atravessando o Cáucaso, o mar Caspio, e o mar Arai, 



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— 403 — 

penetra «o centro da Ásia, indo terminar na Vertente meridional 
do Tbiaoschan e comprehendendo, segundo Humboldt, 120° de 
longitude por 38 a 40° de latitude, zona cujo eixo coincidindo 
quasi com o do systema do levantamento dos Alpes principaes 
comprebende em si o accidente mais notável da crusta terres- 
tre, a cadèa do Hyraalaia, a mais elevada de todo o globo (1). 

Que milhares de convulsões desastrosas e de horríveis paro- 
xismos, acompanhados de numerosas alterações locaes de geo- 
graphia physica, não se têem dado, depois da apparição do ho- 
mem sobre a terra, em todo o grande trato que demora desde 
as costas de Portugal e de Hespanha meridional até á Ásia cen- 
tral ! 

Porque scenas de assolação e de morte não têem passado, ora 
umas ora outras d'essas numerosas cidades e povoações que des- 
de a mais remota antiguidade até hoje, têem vivido e florescido 
sobre esta grande zona ! Umas, subvertidas nas entranhas da ter- 
ra, ou eagulidas no seio dos mares ; aqui sepultadas debaixo das 
soas próprias ruinas ou das cinzas e da lava dos volcões ; ali inun- 
dadas e varridas até aos seus fundamentos pela evasão de enor- 
mes massas liquidas dotadas de um movimento quasi instantâ- 
neo e impetuoso, e formadas pela intgmecencia e projecção das 
aguas do mar, dos lagos, ou dos grandes rios. Os terremotos de 
Lisboa, da Calábria, de Caracas, e ainda outros dos nossos dias 
são apenas um simulacro das tremendas catastrophes d'esses tem- 
pos. 

Testemunhas presenceaes e victimas de horrível e magestoso 
conjuncto de todos os phenomenos naturaes que têem precedido 
e acompanhado aquellas scenas de destruição, e cujos effeitos 
constituem a verdadeira expressão da actividade volcanica da zo- 
na mediterrânica, os povos habitadores d'estas regiões, tão cul- 

(1) Syttema de montanhas 3.° v. p. 1203. 

26* 



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— 404 — 

tores como foram das sciencias e das lettras, n3o podiam deixar 
de consignar nos seus annaes todas aquellas tremendas cataslro- 
phes, e d'estudar com o interesse que o assumpto reclamava, to- 
dos os phenomenos que respeitam aos fogos subterrâneos, e qoe 
prendem era geral com a physica do globo. 

Á sciencia moderna, diz o sr. E. de Beaumont (1) não foi 
a primeira a occupar-se d'estas importantes questões : a China, a 
índia, e a Pérsia, assim o deixam bem conhecer nos seus mythos 
cosmogonicos. Os quatro rios do Paraíso terreal nascem naquel- 
las regiões. Os arménios pretendem conhecer ainda sobre o monte 
Ârarat o logar onde parou a arca de Noé. Os poetas gregos e 
latinos celebraram os ciúmes entre o Cáucaso e o Atlas» e col- 
locaram junto és colura nas de Hercules o jardim das Hespérides 
e as ilhas Afortunadas. Agitada desde a Pérsia até Lisboa pelos 
mais espantosos terremotos, esta zona ainda tremula, vacillante, 
como que imperfeitamente consolidada, formava o eixo do aiH 
tigo continente, e ia terminar no oceano Atlântico, nas para- 
gens onde outr'ora existia (se acaso não é pura fabula) a Atlao- 
tide de Platão. 

De todas as ilhas de erupção que fazem parte de cadéas vol- 
caTiicas, a mais importante pelos extraordinários, continuos e ter* 
riveis phenomenos de que tem sido theatro, é, no sentido de Hum- 
boldt, a ilha de Santorino, com as outras pequenas ilhas perten- 
centes ao mesmo foco volcanico. A primeira erupção, diz o ab- 
bade Pegues na sua historia das ilhas de Santorino, que deu exis- 
tência à ilha d'este nome, fez uma magnifica obra porque produ- 
ziu uma ilha assaz encantadora para merecer o nome de CalliMa 
ou a Muito Betta; e na verdade muitos attractivos devia ter of- 
ferecido a Cadmo para ali estabelecer a primeira colónia grega, 
e mais tarde chamar a Théro ainda mais outra colónia. 

(1) Systemes dei montagnes 3.° 1293. 



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— 405 — 

Mas esta formosa ilha, como que muito mal segura sobre os 
seus fundamentos, não podia ser estável no seu primeiro estado ; 
e entòo uma das mais medonhas catastrophes de que ha noticia 
na historia dos volcões, e preparada nas entranhas da terra de- 
baixo dos seus próprios fundamentos, fez engulir pelo mar uma 
parte d'esta admirável ilha, retalhando-a em três novas ilhas e 
occasionando provavelmente a morte aos seus habitantes (1). 

A superGcie reunida das três ilhas de Santorino, Theracia e 
Áspronisiy a sua disposição, a forma, natureza e estado das suas 
massas, offerecem as mais claras provas de que faziam parte de 
uma única cratera d'um volcào ainda em actividade (2). 

O grande cone d'erupç3o, que tinha por base aquellas três 
ilhas, e por cuja cratera foram vomitadas todas as matérias que 
as constituem, desappareceu nos abysmos dando em resultado a 
formação do golfo elliptico de Santorino. Mas este phenomeno 
devia, dizem os sábios autores da expedição à Moréa, ter acon- 
tecido em uma época comparativamente muito recente, e talvez 
mesmo depois da ilha ser habitada pelos homens; chegando o 
abbade Pegues a pretender que elle succedesse depois de Heró- 
doto, pelo facto d'este eminente escriptor nada dizer sobre tfto 
grave acontecimento ; e porque o amontoamento e desordem das 
massas que a ilha offerece no seu aspecto externo não justifica 
o nome de Callista ou Muito Bella que lhe deram as primei- 
ras colónias. Séneca aventa uma falsidade palpável, quando diz 
que viu nascer a ilha de Théra, sendo aliás certo que a The- 
racia separada d'aquella, já existia no seu tempo. Beaudran, fal- 
laodo d'esta separação, colloca-a no anno 307 da nossa era (3) 
em manifesta opposição ao que escreveram Justino, Plinio, Stra- 

(1) Pegues. Historia da ilha de Santorino. 

(2) Expedição scientifica á Moréa, u vol. II parte. 

(3) Pegues. Descrip. da ilha de Santorino. 



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— 406 — 

bão, Pausanias e Plutarcho. Moltebrun é neste ponto ainda mais 
infeliz, dizendo que a separação se dera em 1608 também da 
nossa era. Plínio porem, que nesta questão em nada contra- 
diz as noticias e narrativas dos escriptores que o precederam, 
ou as dos seus contemporâneos, diz formalmente que a Thera- 
cia se separou da Théra 233 annos antes de Christo (1) opinião 
seguida por Lebeau na historia do baixo império. Como quer que 
seja a energia do foco volcanico de Santorino ou Théra não di- 
minuiu até boje. Segundo Eusébio, Justino e -Plutarcho, a ilha 
de Hiéra, a mais antiga das três Kaymmeni a velha Camena, e 
pertencente ao systema de Santorino, foi arremeçada fora das 
aguas 190 annos antes de Christo ou 47 annos depois da se- 
paração da Theracia; e dedicada a Plutão e aos deuses infer- 
naes. 

Strabão, faltando da emersão d'esta ilha, diz, que durante 
quatro dias as chammas vindas do abysmo atravessavam as aguas 
para se lançarem na atmosphera ; o mar fervia naquellas para- 
gens, e de repente, do meio dos fogos submarinos, se ergueu 
para a atmosphera uma ilha composta de escorias, tendo em cir- 
cumferencia mil e quinhentos passos romanos (2). 

Séneca, referindo-se ao geographo Possidonio, eiprime-se do 
seguinte modo a respeito da apparição da Hiéra : 

« Viu-se primeiro ferver e espumar o mar e deixar escapar 
um fumo negro e espesso ; depois sairam do seio das aguas e 
com grandes inter vai los, espadanas de matéria luminosa simi- 
Ihantes á luz dos relâmpagos ; em seguida grandes rochedos fo- 
ram arremeçados á superfície das aguas, uns ainda intactos, ou- 
tros já reduzidos a pedra pomes ; e por fim assomou ao nivel do 
mar o viso queimado de uma montanha que successivamente foi 

(1) Pegues. Descrip. da ilha de Santorino pag. 125. 

(2) Expedição identifica á Moréa, n vol. n parte. 



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— 407 — 

crescendo em todas as suas dimensões até ao ponto de formar a 
Hiéra (1). » 

Segundo Justino, no mesmo dia em que esta ilha surgia do 
seio das aguas acompanhada de grandes tremores de terra, in- 
tensos abalos se faziam seutir na Ásia, occasionando grandes de- 
sastres em muitas cidades, e fazendo engulir outras nos abysmos 
que se abriram à superfície do solo. 

Ovidio nas suas Metamorphoses^ referindo-se aos dois últimos 
philosophos, descreve este phenomeno com muita propriedade, diz 
Humboldt, e alem d'isso em muita harmonia com um passo de 
Aristóteles relativamente à immersão de uma ilha eruptiva (2). 
Por Pausanias consta a circumstancia mui notável de que nos 
momentos em que a ilha Hiéra se mostrava A superfície das 
aguas, outra ilha situada a pouca distancia de Lemnos, e então 
conhecida com o nome de Chrysia, era engulida no seio das 
aguas. 

Este phenomeno, diz o abbade Pegues, reunido a outros mui- 
tos da mesma espécie, e aos quaes devem a sua existência mui- 
tas das ilhas do mar Egèo e que por tantas vezes têem abalado 
e devastado Nicomedia, Constantinopla e outra cidades, autorisa 
a suppor que o foco volcanico de Santorino se extende a todo o 
archipelago desde o mar Negro até às costas da Syria e ás ilhas 
Jooias. 

Mas a ilha de Hiéra estava ainda incompleta. No anno 19 
de Chrísto surgiu o ilhote de Thia ou 8 Divina, que segundo 
Pomponio se incorporou á Hiéra : « No anno 726 da nossa era 
o mar ferveu por alguns dias, diz Fleury, e do seu seio saia 
como de orna fornalha ardente, um vapor espesso que dilatando- 
se a pouco e pouco se converteu todo em fogo ; o mar vomitou 

(1) Expedição identifica à Moréa, u vol. n parte. 
(S) Cosmos, i vol. pag. 276. 



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— 408 — 

pedras pomes com tanta força e em tão grande quanti- 
dade, que foram cobrir as costas marítimas da Ásia menor, de 
Lesbos, d'Abydos e da Macedónia ; e a terra que surgia, mas que 
não foi projectada alem do logar da erupção, formou como uma 
ilha de fogo que se uniu á antiga Hiéra. » 

Lebeau, na sua Historia do baixo império, expressa-se a res- 
peito d'este phenomeno do seguinte modo. « Viu-se este anno 
um d'esses prodigiosos esforços da natureza que espantam o uni- 
verso e cuja lembrança se conservará por toda a posteridade. A 
vinte e sete léguas ao norte da ilha de Creta, entre as ilhas de Tke- 
ra e Theracia, no mez de agosto, viram-se ferver as aguas como 
se estivessem sobre uma fornalha ardente, d'ellas saia um vapor 
que pouco a pouco se condensava e se convertia em espesso fu- 
mo. Repetidos trovões bramiam do fundo das aguas agitando ao 
mesmo tempo o mar com violentos abalos ; rochedos can jentes 
surgiam para a atmosphera, como outros tantos fornos vomitando 
chammas, que ameaçavam incendiar todas as ilhas visinhas. Du- 
rante muitos dias uma grande quantidade de pedras calcinadas 
se projectava aos ares até alturas prodigiosas, e cahindo no mar 
era levada até ao Hellesponto, e até às costas da Macedónia, 
communicando á agua durante este longo trajecto o calor in- 
tenso que tinha. » 

Em 1457 recebeu esta ilha o seu ultimo acréscimo acom- 
panhado das mesmas terríveis circumstancias que acabamos de 
indicar no periodo precedente ; mas não ha, que conste, descri- 
pções especiaes d'este novo phenomeno ; o que se sabe apenas é 
que a parte encorporada neste ultimo paroxismo (1) consta de 
um espaço coberto de pedras queimadas onde não cresce erva 
em consequência da aréa se achar ainda quente ; e que de tem- 
pos em tempos rebenta nestes logares fumo e fogo. 

(1) Pad e Ricardo em Pegue* e Expedição scientifica á Moréa, ii vol. 
ii parte. 



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— 409 — 

Segando o testimunho do padre Ricardo, em 1650 depois 
de muitos abalos e trovões subterrâneos sentidos nestas para- 
gens, espadanas de fogo e de fumo espesso e infecto subiam aos 
ares; estes phenomenos cresceram em intensidade, succedendo 
os abalos e as detonações com rapidez, até que o volcfto come- 
çou as suas dejecções expeliindo matérias incoherentes, acompa- 
nhadas de turbilhões de chammas, e de fumo, que abrasavam e 
escureciam todo o ar, e de grandes detonações e relâmpagos pro- 
duzidos pelas matérias emittidas : a ilha de Colombo surgiu nas 
visinhanças do grupo de Santorino no fim (Teste paroxismo, mas 
paro desapparecer immediatamente com o mesmo apparato sinis- 
tro e assolador. 

Sophocles cita os turbilhões de chammas vomitadas pelo vol- 
c&o Mosychlos, que já nfio existe, situado na ilha consagrada a 
Vulcano. Segundo aquelle mesmo poeta parece que os fogos d'este 
volcào cessaram no tempo de Alexandre, e que a cratera dos Jlfo- 
syehlos fora engulida pelo mar juntamente com a ilha deserta de 
Chyrse de que já falíamos, e que servira de morada a Philocte- 
te* (1). 

À ilha de Milo, pertencente ao archipelago, e similbante à 
de Santorino na sua forma geral, teve uma origem também vol- 
canica ; o enxofre, o alúmen, o sal marino e as escorias, encon- 
tram-se com frequência A superfície do terreno. O seu solo, fen- 
dido em todos os sentidos, conserva nas proximidades d'estas fen- 
das uma alta temperatura, e tdo elevada, que introduzindo-se a 
m&o em alguma d'estas aberturas se experimenta a sensação, ou 
o ardor da queimadura ; por ellas se escapa grande quantidade de 
matérias gazocas. 

A temperatura elevada do solo volcanico de Milo, continua 
Virlet, diz-nos que esta ilha está ainda sendo actuada pelos fo- 

(1) Como* i, 535. 



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— 110 — 

gos subterrâneos, muitos togares da sua superfície sào verdadei- 
ramente ardentes (1). 

As ilhas Argentina e Polymo (as Queimadas) são daas ilhas 
volcanisadas representando as imagens de rastos incêndios que ti- 
vessem abrasado todas as rochas de que são compostas. Segando 
Virlet todos os factos provam que estas ilhas assentam sobre um 
vasto foco volcanico. Os escolhos e recites situados ao noroeste 
de Lemnos, diz Humboldt, indicam ainda o logar onde no mar 
Egéo houve ootrWa um volcão activo similhante aos outros vol- 
cões da Itália e da Grécia. 

Heródoto falla-nos das minas de naphta da ilha de Zante, 
o pez mineral da Albânia era lavrado do tempo de Plínio ; e o 
petrolio da ilha de Koraka também foi conhecido na alta anti- 
guidade (2). 

As emanações gazozas do isthmo de Corintho, as fontes ther- 
maes e mineraes, senão todas, a maior parte nas ilhas do ar- 
chi pélago e de Corintho em relação com as outras emissões do 
interior, revelam bem a existência dos fogos subterrâneos e do 
calor que existe na parte do seio da terra, correspondente a to- 
das estas paragens. 

Os antigos povos da Ásia menor chamavam paiz do fogo á 
região que servia de limite entre a Phrygia e a Mysia. Aqui, se- 
gundo Strabão, havia três bocas ou crateras situadas sobre mon- 
tanhas cónica», formadas de escorias e de lavas, e por onde saiam 
fumos e outras emanações ; os tremores de terra eram tio fre- 
quentes nestas paragens que tornavam mui perigosas as habita- 
ções ou as moradas que ali se estabeleciam. 

Villiam Hamilton, que recentemente visitou a Ásia menor, 
encontrou cada uma (Testas três bocas no vértice do seu raspe- 

(1) Expedição identifica á Moréa. 

(2) Hiitoire de$ Progrés dê la Oeologie, vol. i, pag. 441. 



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— 411 — 

ctivo cone, e a mais Occidental d'ellas a quinhentos pés (feitu- 
ra sobre a planicie adjacente, do seio da qual sala uma torrente 
de lava (t). Nas visinhanças d'aquelles cones ha roais trinta, si- 
milhantemente levantados sobre a planície, segundo testirounha 
aquelle viajante. 

D*entre outros muitos phenomenos d'esta cathegoria que se 
dão na Ásia menor, citaremos ainda a montanha de Chimera de 
Lycia que os antigos gregos consideravam um volcão, mas que 
longe de ser o que elles pensavam, não é mais do que uma mon- 
tanha, do vértice da qual sai uma corrente permanente de gaz in- 
flammado entretido é superfície do solo pela actividade volcanica 
da região , e a qual conserva uma temperatura tal que não pode 
supportar-se a três passos de distancia. Esta emissão gazosa que 
sai por uma abertura de dois pés de largura, e através de rochas 
serpentinosas, é acompanhada de numerosas línguas de fogo que 
se escapam por immensas fendas lateraes abertas no solo, sem que 
nunca se apaguem (2). 

As manifestações da existência dos fogos subterrâneos na ca- 
déa caucasica não são menos admiráveis e eitensas. Ao noroeste 
da cadêa existem os volcões de lodo da península de Taman 
guarnecendo a costa oriental da Criraea numa extensão de vinte 
léguas, e cujas erupções são acompanhadas de grandes rugidos 
subterrâneos, tremores de terra, jactos de matérias viscosas, emis- 
sões de fumo e de gazes inflammaveis, cujos phenomenos se jul- 
gam dependentes da mesma causa que determinou o levantamen- 
to do eixo trachytíco d'aquella cadêa (3). Na parte sudoeste da 
mesma cadêa no Bakou (Chirwan), e na península Gaspianna 



(1) Cosmos iv, 705. 

(2) Idem iy, verso 661, 289. 

(3) De Verneuil. Mem. de Societ. Qeol de France, vol. vm, 1838; 
Buli. idem vols. vil e vm, 1836, 1837. 



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— 412 — 

(TAbscheron, ha os fogos e as fontes de naphta, as emissões la- 
viças e gazozas em mui larga escala. 

A quinze kilometros da cidade de Bakou manifestam-se in- 
tensas emanações gazozas no estado de combustão, que lançam 
de si uma luz pallida e azulada. Estas emanações escapam-se de 
uma montanha que de tempos em tempos emitte também do vér- 
tice e dos seus flancos consideráveis porções de lavas ardentes. 
Estes phenomenos, conhecidos desde os mais remotos tempos, 
téem recebido o nome de fogos do Bakou, e dado ao paiz a 
mesma denominação de paiz ardente ou paiz de fogo, que se dá 
ao da Phrygia, que acima citamos. 

Na península (TAbscheron acha-se o solo tão impregnado de 
gazes sulfurosos e inflammaveis, que os habitantes do paii para 
obterem luz dentro de suas cabanas, basta-lhes enterrar na tem 
um canudo de ca o na, revestido de um ioducto de cal, pelo qual 
sobe um jacto de gaz que accendem como se pratica na illomi- 
nação das grandes cidades (1). 

Os centenares de bocas e de fendas que se conhecem na 
cordilheira caucasica, tanto nos cumes das montanhas elevadas 
de seis a sete mil pés, como nas vastas planícies adjacentes, lao- 
çam tanta quantidade de chammas desde a mais remota anti- 
guidade, que bem justifica a pretenção de se tomar a região mon- 
tanhosa do Cáucaso por um foco tiphonico. Pherecydes de Sy- 
rosque, que viveu no tempo da 58.* olympiada, dizia que a ex- 
tremidade do mundo passava por ser uma montanha de fogo. Os 
antigos, diz Humboldt dando o Cáucaso para a residência de 7y- 
phêo, quizeram perpetuar as lembranças das erupções volcanicas 
d'esta cordilheira ; e tanto que Cáucaso, Graueasum, ou Groca- 
sum, como indistinctamente lhe chama Plinio (2) é composto de 



(1) Bcscherelle. 

(2) Cosmos, iv vol. 691. 



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— 413 — 

duas palavras do sanscrito, Kás brilhar e graven rochedo, e se- 
gundo Boklen, na reunião das quaes ; Clausen e outros preten- 
dem ver a significação de montanha ardente (1). 

Como quer que seja, o conhecimento de todos estes pheno- 
menos, e o de muitos outros que referiremos, perde-se na noite 
dos tempos; e tanto que segundo Abich todos os pontos geo- 
graphicos a que ultimamente nos temos referido estão situados 
em linhas determinadas que têem uma relação evidente com o 
geral levantamento dos estratos, e no sentido do seu deslocamen- 
to ; o que é uma prova, senão incontestável, ao menos mui plau- 
sível, de que todos aquelles phenomenos datam de uma era an- 
terior á apparição do homem sobre a terra. Ainda mais : segun- 
do Humboldt a cadêa caucasica é, áquem da grande depressão 
aralocaspianna, o prolongamento da falha devida ao systema vol- 
canico do Thianschan e do Asferah que atravessa a Ásia central 
de este a oeste. Pois bem ; no prolongamento d'aquella grande 
linha geológica (de uma data anterior à apparição do homem) e 
sobre a cadêa referida, manifesta-se fogo e chamma em milha- 
res de paragens, ascendendo do interior da terra para a sua su- 
perfície por um sem numero de poços e algares : e em uma das 
vertentes do Pes-charo, vêem-se sair continuamente chammas, 
fumo, e correntes de matéria mineral, como se fosse gordura 
derretida ; phenomenos que não podem deixar de ter uma re- 
lação próxima com aquelle grande accidente, e por consequência 
serem conhecidos desde todos os tempos. 

Sabe-se que os volcões de lodo, as emanações de napbta e os 
poços salgados occupam na parte sudoeste da cadêa caucasica uma 
superfície de duzentas e quarenta milhas quadradas de forma tri- 
angular, tendo por base o litoral do mar Caspio, e por vértice um 
ponto situado perto de Schagdagh ; a linha media d'esta figura 

(i) Cosmos, iv vol. 631. 



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— 414 — 

diz Humboldt, corresponde á direcção que tem seguido constan- 
temente os frequentes tremores de terra que se fazem sentir nesta 
região. 

Se nos internarmos na Ásia alem da cadêa volcanica do 
Thianschan, toparemos «ora as fontes de fogo e as montanhas ar- 
dentes do Ho-Schan na parte oriental do celeste império, onde, 
em uma das vertentes do Kouen-Lun, se mostra a chamma ar- 
dente, assim chamada pelos chins, e conhecida entre elles desde 
as mais remotas eras ; phenomenos que como se sabe são de uma 
origem subterrânea e continuamente entretidos pela actividade 
volcanica (1). 

Mas estes fogos nem sempre vem á superfície do solo em 
virtude da simples e livre acção das forças interiores do globo : 
o calor e a luz retidos nas entranhas da terra também se explo- 
ram e lavram como uma substancia útil. 

A sonda, e a arte de sondar, que tantos beneficias tem feito 
e continuarão a fazer á civilisação, como toda a gente sabe, fo- 
ram inventados pelos chins na mais alta antiguidade, sendo um 
dos principaes fins do invento buscar fogo e luz no seio do nosso 
globo. Estas acquisições, ou esta lavra de luz e de calor, tem Jo- 
gar, entre outras paragens do centro da Ásia, nas províncias do 
sudoeste do celeste império no limite do Thibet, como diz Hum- 
boldt no seu Cosmos, onde o terreno se sonda a centos de metros 
de profundidade para obter premanentes jactos de fogo ou de ga- 
zes em combustão. Estes gazes de uma luz arroxada e com um 
cheiro algum tanto bituminoso, são depois levados em tubos de 
bambu para as povoações afim de illuminar e aquecer os apo- 
sentos. 

Deixemos porem estas regiões da Ásia onde os fogos subter- 
râneos se manifestam á superfície do solo em uma larguíssima 

(1) Cosmos vol. iv y 393. 



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— 415 — 

extensfio, e voltemos ao Mediterrâneo, à Itália» onde, como se 
sabe, residem outros centros (Tactividade volcanica não menos 
admiráveis, e que muito mais conhecidos foram do nosso poeta 
e dos escriptores gregos e romanos. 

O Etna, que Lyell appellida o gigante dos volcões da Euro- 
pa, é uma eoorme mootanba situada perto da costa, na Sicília» 
com 331 4 m d'altura e trinta e uma léguas de perímetro na base* 

A sua forma, longe de ser a de um cone propriamente dites 
assimilba-se aos restos de um cone. elliptico, no qual a parte 
do sudoeste teria desapparecido deixando dois lábios que circum- 
screvem um immenso circo conhecido com o nome de Valrdel- 
Bove, vasto abysmo de cinco milhas e meia de diâmetro ; em cu* 
jos flancos, formados de precipícios com 600 a 900 m d'altu- 
ra, está escripta, diz o sr. Elic de Beaumont, em caracteres 
inextinguíveis, a historia das commoçdes que deram ao Etna as 
formas e grandeza que se lhe reconhecem. 

Pindaro, alludindo a este enorme volc&o, charoou-lhe ao ne- 
vado Etna, a colnmna do ceo, montanha que conservando gelos 
eternos na sua superfície, encerra em seus profundos antros a 
sede de um fogo inaccessivel donde emana um turbilhão de fu- 
mo durante o dia, e uma chamma avermelhada e viva durante 
a noite, e donde emfim se destacam rochas candentes, as quaes, 
rolando pela montanha, vão precipitar-se no mar com medonho 
estampido (1).» 

Numerosas fendas ou algares de muitos metros de largo, e 
communicando mais ou menos directamente com a chaminé prin- 
cipal, sulcam a montanha e deram saída ás lavas e ás emissões 
d'outr\>ra, em quanto que perto de oitenta cones parasitas des- 
tribuidos pelas encostas e dispostos em grupos elegantes, offere- 
cem as mais características e magniBcas scenas da Europa (2). 

(1) Lyell. Princ. m, 143. 

(2) Idem, 138. 



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— 41« — 

Uma grande accumulação de lavas sobre toda a superfície eu* 
cobre a natureza da rocha de que é formado o grande cone, e 
revela bem uma alta antiguidade ás erupções d'este volcão, e 
tal, que as tradições muito remotas accusam ao Etna as mesmas 
formas que hoje se lhe reconhecem. 

Com eífeito Diodoro da Sicilia diz-nos que antes da guerra 
de Tróia houvera no Etna uma erupção, e que os aborígenes si- 
cilianos, que habitavam a ilha antes dos siculos, foram obrigados 
a asylar-se na parte mais occidental da mesma ilha para se esca- 
parem às erupções do Etna, que já duravam alguns annos (1); e 
segundo Humboldt, Hesiodo conhecia as erupções devastadoras do 
Etna que tiveram logar antes do estabelecimento das colónias 

gregas. 

Thucydedes informa-nos que no sexto anno da guerra do Pe- 

loponeso as visinhanças de Catania foram devastadas por uma 
corrente de lava saída do Etna, phenomeno que se seguiu á ter- 
ceira erupção que, segundo este escriptor, tivera logar na Sicilia 
depois do estabelecimento nesta ilha da primeira colónia gre- 
ga (2). Outro escriptor diz-nos que o exercito carthaginez quan- 
do marchava contra Siracusa, fora detido por uma enorme cor- 
rente de lava saída do Etna, e a qual perto da cidade de Ger- 
raré tinha vinte e quatro milhas de comprimento por duas de 
largo (3). 

Mas na opinião de Humboldt a erupção histórica mais an- 
tiga d'este volcão é aquella que teve logar no reinado de Hie- 
ron e durante o segundo anno da 75.* olympiada, e da qual nos 
faliam Pindaro e Eschylo (4). 

Os escriptores gregos e latinos davam também a Sicilia para 

(1) Cosmos tom. i, 526. 

(2) D'Âubeunas, Geolog. n vol. 

(3) Diodoro d'Âucuisson. 

(4) Cosmos tom. i, 526 e 527. 



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— 417 — 

morada de Thyphéo ; e Pindaro alludindo a esta divindade, amas 
vezes lhe dá o Etna para tumulo, outras diz que o corpo de Ty- 
phéo é tilo grande que occupa uma vasta extensão a assentando 
a Sicília e os campos- Phelegréos sobre o peito do monstro (1) » 
sendo crença que quando se mechia abalava a terra, fazendo-lhe 
vomitar fogo, e surgir ilhas do seio do mar. 

Strab&o, quasi cinco séculos depois, disse com Pindaro (posto 
que em forma differente) que os volcões da Sicília, dasr ilhas Li- 
parí, Ischio, e o Vesúvio communicavam entre si, e que toda a 
região a que elles pertencem está assente sobre um foco volca- 
nico (2). Este mesmo celebre geograpfao foi o primeiro que deu 
a Sicília separada da Calábria em consequência das commoçôes 
da terra, dizendo que depois que se abriram as bocas do Etna e 
que estas começaram a vomitar fogo, e que a lava em fusão e 
massas d'agua foram expellidas, é que o litoral ficou menos ex- 
posto aos tremores de terra, do que quando a Sicília estava uni- 
da à Itália inferior, e que os respiradoiros volcanicos se conser- 
vavam tapados. 

É bem sabido que a abundância de gesso, e de sal, as fontes 
bituminosas e thermaes, a abundância de rochas volcanicas, e as 
desmanteladas crateras de outras eras que se encontram na Si- 
cília especialmente no districto de Moiabula,* são verdadeiras re- 
líquias das reacções ali exercidas pelo primitivo trabalho dos fo- 
gos subterrâneos hoje em apparente quietação á superfície do so- 
lo d'esta ilha. 

As erupções do Vesúvio, o mais notável dos volcões da Eu- 
ropa meridional depois do Etna, foram desconhecidas nos tempos 
históricos anteriores a Plinio : era então uma grande montanha das 
vísinhanças de Nápoles, notável pela sua altura e forma cónica, 



(1) Cosmos tom. nr, 228. 

(2) Idem tom. i, 526, 531. 

TOM. III, 27 



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— 418 — 

com uma boca crateriforme conhecida hoje com o nome de Som- 
ma ; era um velho volcão em repouso cujas lavas amphigenicas, 
differentes das que hoje expelle, e que se encontram tanto na Sotu- 
rna como no solo onde se assentaram os primeiros fundamentos ou 
alicerces de Herculanum e Pompêa, attestam bem o seu antigo 
trabalho. Em plena tranquillidade desde os mais remotos tempos 
históricos, o Vesúvio foi para Ovidio o mesmo que são hoje para 
nós os volcões extractos do Auvergne e da Catalunha : sessenta 
e dois annos depois que este grande poeta veiu ao mundo, se ve- 
ria talvez um dos maiores paroxismos que tem affligido a Itália : 
a primeira erupção histórica do Vesúvio com a qual desappare- 
ceram Herculanum, Pompêa e Stabias, 

Mas se o Vesúvio descançava desde as eras ante-historicas, 
não acontecia outro tanto aos mais volcões da Campania e muito 
menos aos volcões da Ischia. 

A situação relativa dos respiradoiros volcanicos do Vesúvio e 
da Ischia induz-nos a crer, diz Lyell, que a uma distancia da su- 
perfície, comparativamente pequena, elles se communicam por cer- 
tos canaes, e que cada um d'estes volcões serve alternativamente 
de saída te lavas e aos fluidos elásticos que se desenvolvem nas 
regiões subterrâneas correspondentes áquellas localidades : e por 
uma supposição análoga pode admittir-se que a Itália meridional 
e a Syria também se correspondam subterraneamente, mas a 
maior profundidade e por intervenção cfaquelles ou d'outros ca- 
naes (t). 

A noticia circunstanciada que nos deixou Plinio da primeira 
erupção histórica do Vesúvio e das succedidas posteriormente no 
systema de volcões napolitanos, leva-nos por uma natural indoe» 
ção a peq$a? qual tem sido a actividade dos fogos subtemaa* 
que precederam o repouso d'este volcão, e quaes os seus ter- 

(1) Princ. dê Geol. m, 43. 



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— 419 — 

riveis effeitos em toda esta parte do continente italiano, das ilhas 
d'Ischia. 

Do continente sabe-se que o Àverno, hoje um lago ameno, 
era outrora um foco de vapores deletereos como aqueiles que 
acompanham as dejecções dos volcões propriamente ditos : este 
iago occupando talvez a boca d'uma antiga cratera, asphixiava to- 
das as aves que voavam por cima das suas aguas e era tido como 
a entrada dos infernos. O Monte Bárbaro que lhe está próximo 
é um volcão em repouso com uma profunda cratera, ao lado do 
qual se levantou com medonho apparato em 1538 o votcSo de 
Monte Nuovo. A solfatara de Pozzuoli é outro volcfto pertencente 
ao mesmo grupo dos acima enumerados mas que tendo perdido 
a sua actividade ainda hoje expelle gazes sulfurosos e vapores. 

A respeito das ilhas d'Ischia a tradição* parece inculcar que 
nos mais afastados tempos estiveram em uma completa inactivi- 
dade. Strabao referindo-se a Timéo diz que este cita uma tradi- 
ção pela qual constava que pouco antes do seu tempo, o Epomôo, 
principal montanha situada ao centro da ilha, tinha vomitado 
fogo, sendo este phenomeno acompanhado de grandes convulsões, 
chegando mesmo a asseverar-se que então tivera nascimento a 
cratera do Monte Corvo, situada nos flancos d'aque)Ia montanha. 
No sentir de Strabão a Procida que se acha junto da Ischia diz-se 
formada á custa d'esta ultima ilha ; e Plinio fundando~se na de- 
rivação do nome lhe dá também a mesma origem. 

O que se sabe porem de um modo mais positivo acerca das 
erupções das ilhas d'Ischia, com referencia aos mais antigos tem- 
pos históricos, é que a -emersão das crateras de Monte Retaro e de 
Monte Corto foram acompanhadas de tfio medonhas erupções vol- 
canicas que as primeiras colónias gregas se viram forçadas a eva- 
ctfctas. 

Em seguida os erythrenses primeiro, e os chaldeus depois, fo- 
ram também obrigados, a abandonar estas ilhas em consequência 

27* 



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— 420 — 

* 

dos grandes tremores de terra e das exalações ardentes que ali se 
desenvolviam. E posteriormente, 380 annos antes de Christo, 
tendo Hieron, rei de Syracusa fundado uma colónia nestas mes- 
mas ilhas, viram-íe os novos moradores obrigados a desampa- 
ral-as, em razão d'outra grande erupção que ali sobreveiu e cu- 
jas lavas accumuladas suppõe-se terem formado os promontórios 
de Zaro e de Garuso (1). 

Os phenomenos e as catastrophes succedidas nas ilhas Liparí 
na Sicilia não foram menos celebres do que aquellas de que tem 
si do theatro os paizes adjacentes aos outros grupos volcanicos que 
temos citado, tanto pelo seu apparato e extensão, como pelo nu- 
mero e actividade dos volcões e crateras que aquellas ilhas en- 
cerram. Sobre este particular deixemos fallar a Humboldt que 
melhor do que ninguém nos dá d'elle uma resumida mas ver- 
dadeira idéa. 

A Chimera e o Strotnboli (antiga Strongyk) são as duas mon- 
tanhas ignivomas cuja permanência fundada em documentos au- 
thenticos, data da mais alta antiguidade. A eminência cónica de 
Strotnboli formada de dolente, é duas vezes mais alta do que a 
montanha ignivoma da ilha Volcano, cuja ultima erupção se 
deu em 1778. A incessante actividade, do Strotnboli é compa- 
rada à da ilha Lipari por Strabão e por Plinio, que attribuiam 
às suas chammas, isto é, ás suas escorias, uma pureza e um brilho 
tanto maiores quanto menos intenso era o seu calor. O numero 
e a forma das pequenas bocas por onde o fogo se escapa são muito 
variáveis ; uma d'estas bocas não tem mais de vinte pés de diâ- 
metro, e pela temperatura rubra em que se acha, assimilha-se h 
boca de um alto forno : a qualquer hora que se olhe para dentro 
da cratera vê-se a lava em fusão subir e derramar-se. Ainda hoje 
os marinheiros se orientam muitas vezes pelas erupções do Strot*- 

(1) Ptine. de GeoU m, 51. 



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— 421 — 

4. «• 

boliy as quaes desde as mais remotas eras ainda não foram in- 
terrompidas A direcção das columnas do vapor e das cbammas 
que se escapam da cratera servem ainda hoje, como serviam aos 
antigos gijBgos e romanos, para prognosticar os ventos nocivos 
ou bemfazejos. Polybio, cuja descripção revela um conhecimento 
singularmente exacto do estado da cratera, dá a ilha de Stron- 
gyle para residência de Eolo,' acrescentando que segundo as ob- 
servações sobre os fogos de Volcano que violentamente se esca- 
pavam da cratera, se descobriam diversos signaes que presagia- 
vam as mudanças dos ventos (1). 

Desde os mais remotos tempos se conhecem na Toscana as 
erupções de vapores aquosos acompanhados de hydrogenio sulfu- 
rado, com uma temperatura de 110 a 120°, e designados no 
poif com o nome de Lagoni; a ejecção vinda do interior da 
terra por fendas que communicam com a superfície do solo ma- 
nifesta-se em columnas brancas de vapor, que se elevam para a 
atmoBphera até á altura de 10 a 20 m (2). Este Lagoni afloran- 
do em grupos.de dez, vinte, e trinta, estão dispostos em uma li- 
nha recta, que parece devida a uma fractura de trinta a qua- 
renta kilometros de comprido. É uma reminiscência dos pheno- 
menos volcanicos da época terciária. 

Também é conhecida desde muito tempo a fonte inflamma- 
vel de Baguo na Toscana, e bem assim outras muitas neste du- 
cado, e no de Lucques. 

Os terrenos ardentes de Pietra Mala na cumiada dos Appe- 
ninos s&o muito frequentes, -e bem assim as repetidíssimas ema- 
nações de hydrogenio que ali occorrem. No alto Appenino ha 
numerosas fontes de gazes inflammaveis, aguas thermaes, e cor- 
rentes de gaz. que se utilisam na illuminaçSo dos banhos de la 

(1) Cosmos iv, 289. 

(2) Binat. Geol. applic. 



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— 422 — 

Poreto (I). Emfim as fontes ardentes e mflataroaveis d f esta parte 
da Itália foram muito conhecidas, diz o sr. visconde d'Ai€hiac, 
de Pausanias, Strabão, Piinio e doutros sábios e poetas da anti- 
guidade. 

Limitemos por aqui a enumeração dos pbenomenos devidos 
aos fogos subterrâneos que se téem manifestado na zona medi- 
terrânica e dos quaes tiveram conhecimento os antigos escripto- 
res gregos e romanos, e procuremos dar em curtíssimos traço» 
uma leve idéa do que se tem aventado acerca da fluidez ignea 
do nosso globo já tão suspeitada, senão preconisada pelos antigos 
philosophos e poetas anteriores a Ovidio : fluidez que tanta rela- 
ção se diz ter com os pbenomenos volcanicos de toda a ordem, e ' 
com os fogos subterrâneos ; e que a ser assim duplicadamente jus- 
tifica a identidade de Vesta com a terra. Porem como saia fora 
dos limites d'esta nota expor as differentes theorias que tem le- 
vado o Convencimento ao espirito de todos, ou de quasi todos os 
naturalistas, de que o nosso planeta esteve primitivamente num 
estado de fluidez ignea, e no qual se conserva ainda * máxi- 
ma parte da sua massa, conteuda e encoberta por uma delgada 
crusta solida, o que seria escrever uma larga historia da cosmo- 
gonia moderna, bastará fazer d'algumas d'ellas uma indicação 
summaria para lembrar os nomes respeitáveis dos seus autores, 
e para affirmar que a hypothese do calor central da terra está 
abonada por uma serie de considerações theoricas da mais ele- 
vada transcendência deduzidas da physica e da astronomia. No 
1.° volume da Historia dos progressos da geologia do sr. viscon- 
de d' Archiac lá estão tratadas, com a critica e talento que tanto 
distinguem este hábil geólogo, todas estas theorias, e de ciyo li- 
vro estractamos muitas das linhas que passamos a escrever. 

«A terra, como queria a escola plutoniana, dizia Árago, 

(1) Histoire dcs Progrès de la Geologie, i vol. 



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— 423 — 

como queriam Descartes e Leibnitz, mas uns e outros sem pro- 
vas demonstrativas, é um verdadeiro sol enorustado, euja tempe- 
ratura elevada pode com segurança ser invocada todas as ve- 
zes que a explicação dos phenomonos geológicos assim o exi- 
gir (1). » Porem o celebre autor da Mechaniea celeste, profun- 
do conhecedor da economia dos ceos, fundado tanto nas condi* 
ções que regem os movimentos planetares e na grande excen- 
tricidade das orbitas dos cometas, como nas importantes desco- 
bertas d'oulro sábio seu contemporâneo do outro lado da Man- 
cho, William Herschel, feitas no immenso e surprebendente do- 
mínio da Astronomia Sideral, Laplace, digo, estabeleceu a hypo- 
these da successiva extensão da atmosphera solar até aos con- 
fins do nosso systema planetar ; e d'ella deduziu por uma serie 
de considerações em harmonia com as leis da astronomia e com 
o principio da attracç&o universal, que os planetas foram porções 
da atmosphera solar que elle successivamente abandonara em vir- 
tude da concentração da mesma atmosphera em volta do sol. 
D'esta arte as moléculas d'uma d'estas porções da matéria va- 
porosa obedecendo ao império da attracção e és leis da irradiação 
do ealor num dado momento, constituíram a massa fluida do 
nosso planeta,- a qual depois, e em consequência do resfria- 
mento, se cobriu d\im invólucro solido. Augusto Gomte admit- 
ttftdo a hypothese de Laplace, e parecendo ter sujeitado ao cal- 
culo todos os jiados que a este respeito a sciencia pode ministrar, 
chegou a este resultado geral: suppondo o limite mathematico 
da atmosphera solar successivamente levado até aos diversos pla- 
netas, o tempo da rotação do sol era em cada uma das épocas 
sensivelmente igual ao da revolução sideral actual do planeta cor- 
respondente (2). 

(1) Annuaire du Burèau des longitudes pour 1'année 4834. 

(2) Histoire des Progrès de Geologie, tom. i, pag. 2. 



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— 424 — 

Lengjet ampliando a hypothése de Laplace e considerando a 
matéria vaporosa diífundida pelos espaços infinitos, não só coo- 
clue pela primitiva fluidez ignea de todos os corpos do nosso gys- 
tema, mas faz ver : i.° porque em cada systema os movimentos 
de translação e de rotação são dirigidos em um mesmo sentido; 
2.° porque 6 que nos planetas superiores se encontra menor den- 
sidade e uma rotação mais rápida ; 3.° porque é que a densidar- 
de dos satellites é menor do que a dos planetas ; 4.° e como é 
que o satellite inferior de cada planeta pode ser privado <Tat- 
mosphera. 

Outro sábio, mr. Angelot, abraçando a idéa de Biot, de que 
um momento virá em que a grande lei da attracção universal 
cessará de ser universal, estabelece que, se esta lei deve ter um 
fim, é porque teve um principio ; e neste presupposto apresenta 
essoutra hypothése. « Houve um momento,* o momento inicial, 
no qual a matéria estava disseminada por todo o espaço no es- 
tado de moléculas equidistantes e isothermicas. E servindo-se da 
theoria atomistica, em que todos os átomos da matéria ponde? 
ravel tèem um mesmo calor especifico, suppõe que o univeno 
estando neste estado, a attracção começou a manifestar-se se* 
guindo-se-lhe as diversas phases d'esta acção. » Assim chega a 
explicar a formação de todos os systemas solares do universo, 
comprehendendo as neblosas. £ da rapidez com que as molécu- 
las se deviam precipitar para os diversos centros que se haviam 
formado, Angelot suppõe que essa rapidez bastaria para produ- 
zir no centro da massa uma temperatura enorme a ponto de, em 
concorrência com as acções chimicas, elevar a temperatura do 
systema solar a um tal ponto, e por consequência a da terra, 
que produzisse a fusão de todas as matérias (1). 

De la Beches conformando-se com a hypothése de Laplace 

(1) HUtoire des Projjrès de la Geologie, tom i, pag. 5. 



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— 425 — 

e com as deducções a que este astrónomo chegou relativamente 
á origem dos corpos celestes, entra em considerações de muito 
interesse, tanto acerca do que devia resultar do antagonismo en- 
tre o calórico e a attracção, com referencia á condensação da ma- 
téria gazosa, como acerca do effeito do resfriamento sobre as prin- 
cipaes substancias que constituem as partes solida, liquida, e ga- 
zosa da crusta do nosso globo, concluindo pela existência do ca- 
lor central. 

Ladame admitte para base da theoria da terra : i.°a forma 
que tomaria uma massa liquida sujeita ao movimento de rota- 
{Ao ; 2.° a disposição regular das massas que compõe a terra e 
a densidade crescente da superfície' para o centro; factos que se 
demonstram com a nutação do eixo do espheroide no equador, 
pela grandeza do achatamento comparada com a grandeza da ro- 
tação diurna, e pela densidade media da terra ; e d'estas bases 
conclue pela primitiva fluidez ignea do nosso globo movendo-se 
em um centro, cuja temperatura era inferior ou muito visinha de 
zero. Então recebia a terra a acção dos raios solares, porem de 
um modo desigual, como agora 1 , accum.ulando-se este calor re- 
cebido em uma mais forte proporção no equador do que nos po- 
ios; sendo por estes que o encrustanjento devia começar reves- 
tindo cada um dos poios d'uma calote solida, as quaes crescendo 
para a zona tórrida deviam acabar por juntar-se e cobrirem a 
terra d'uma crosta resistente e de desigual espessura. O autor 
d'esta theoria deduziu dos seus cálculos que esta espessura deve 
ser maior de dois mil metros no polo do que no equador. 

Hopkins nas suas investigações sobre a geologia physica, de- 
pois de uma discussão mathematica acerca das relações que exis- 
tem entre a precessão dos equinoccios, a notação lunar, a nuta- 
ção solar, e as hypotheses da terra ter sido ou não toda solida, 
não só concluiu pela existência da fluidez ignea no interior do 
nosso globo ; mas achou que a espessura da crusta solida que cor- 



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— W6 — 

responde à precessão dos.equinoccios, é de um quarto a um quinto 
do raio terrestre. Devendo porem notar-se que os cálculos a que 
o sábio professor de Cambridge se deu nestas transcendentes ques- 
tões, o levaram a suspeitar que não existem communicaçSes dire- 
ctas entre os orifícios volcanicos e a superfície fluida do núcleo 
central da terra ; ao contrario que a matéria dos actuaes voledes 
reside em reservatórios d'uma extensão illimitada, constituindo 
lagos subterrâneos, mas não verdadeiros oceanos de matéria em 
fusão (i). 

Poisson admittindo as idéas de Laplace, isto é, éonvindo na 
primitiva fluidez ignea estabelece, que, em virtude da pressão 
crescente das camadas da matéria liquida que constituíam o nos- 
so globo, e não em consequência de uma temperatura exterior, 
muito menor do que a da massa liquida, passaram successsiva» 
mente todas estas camadas para o estado solido, começando no 
centro e terminando nos mares e na atmospbera; de modo 
que hoje, e mesmo desde muito tempo não existe já* diz este 
celebre geometra, nem o mais pequeno vestigio d'aquel)e primi- 
tivo calor ; attribuindo o augmento da temperatura que se noto 
nas regiões subterrâneas, á desigual temperatura dos espaços que 
a terra com o systema solar atravessam no sentido da constela- 
ção do Hercules. Esta hypothese « apesar do nome do seu autor 
e dos cálculos sobre que a funda, não corresponde, diz o sr. vis- 
conde d'Archiac, às condições que exigem hoje não só a geolo- 
gia porem a physica e a astronomia, por isso mesmo que é ba- 
seada sobre uma serie de supposições gratuitas (2). » 

Muitos outros naturalistas modernos que se tóem occapado 
da physica do globo téem concluído pela actual fluidex ignea ou 
pelo calor central, e feito derivar d'este estado da massa interior 

(1) Histoire dcs Progrès de la GeologU, vol. i, pag. 25 a 30. 

(2) Idem pag. 23. 



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— 427 — 

uma porte, e a mais importante, dos pbenoroeoos que como causa 
mais immediata tem modificado a crusta solida da terra nas dif- 
ferentes phazes por que tem passado desde a consolidação dPoquella 
mesma crusta até ao tempo actual. 

Se as tbeorias e <as provas indirectas ministradas pela physico 
e pela astronomia nos affiançam a fluidez ignea do interior da 
terra» outra ordem de considerações, e um cortejo de provas mais 
directas, algumas mesmo experimentaes, vem por seu turno con- 
firmar a existência cTaquelle mesmo estado do interior do globo. 

Passaremos em revista estas provas. 

Um dos factos mais palpáveis que accusam e comprovam a 
existência do calor central da terra, é o successivo augmento de 
temperatura da crusta solida da superfície para o centro. Em todos 
os logares onde se tem praticado escavações que excedem alem 
do ponto onde cessa a influencia do calor solar, consultando a 
temperatura quer das rochas quer do ar a differentes distancias 
da superfície do solo, o tbermometro tem sempre, e invariavel- 
mente, accusado em todas as partes do mondo onde as investi- 
gações geológicas tem podido chegar, um successivo acréscimo 
d'esta mesma temperatura com o augmento da profundidade ; 
facto cuja constância se dá, quer nos poços que descem abaixo 
do nivel dos mares, como em muitos poços e galerias das minas 
d'Ioglaterra que attingem cem, duzentos, trezentos e mais me- 
tros abaixo cTaquelle nivel ; quer nas excavações feitas na massa 
solida do relevo dos continentes ou das ilhas, Centre as quaes 
podemos citar as minas do Peru e do México cuja profundidade 
chegando a S00 m , abaixo da superfície do solo, está ainda mil 
metros e mais acima do nivel do mar. 

Os poços engatarias das minas sfto pois aquelles logares da 
terra onde com mais facilidade e proveito se tem procedido a 
mui cuidadosas e multiplicadissimas observações sobre o acres- 
si mo da temperatura da crusta solida, não tanto para comprovar 



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— 428 — 

este facto, boje inaccessivel a toda a duvida» mas para conhe- 
cer e determinar a lei segundo a qual se dà aquelle acressimo. 
Todavia por pouco que se considere nas dificuldades d'aqoella 
determinação, antolhando-se-nos immediatamente as variadíssimas 
influencias locaes que devem naturalmente .perturbar a lei pro- 
gressiva do acressimo : lembraremos por exemplo as proprieda- 
des physicas e mineralógicas das rochas atravessadas onde se fa- 
zem as observações, a structura d'estas massas, a proximidade dos 
duetos por onde transitam as aguas atmospherícas e as aguas 
thermaes, a altitude do logar e a constituição physicit do solo 
etc. Não obstante porem estas e outras muitas causas perturba- 
doras, acontece que se a lei do acressimo do calor da crusta 
terrestre não tem podido ser determinada de um modo rigoroso 
pela observação directa da temperatura das rochas e do ar nas 
minas, tem-se comtudo conhecido que, exceptuando algumas ano- 
malias e casos extremos, ella varia entre limites tão próximos que 
se pode considerar o augmento da temperatura da crusta terres- 
tre da superfície para o centro em 1° por cada 27 m , contados na 
vertical segundo uns, e de I o por cada 30 m segundo outros ob- 
servadores. 

Poisson na sua theoria mathematica do calor admittiodo por 
um momento esta lei de progressão achou que á profundidade de 
~ do raio terrestre a temperatura da crusta seria de 2:000°, e 
que no centro da terra excederia a 200:000°. 

Outra prova do augmento do calor interior da terra e cor- 
relativa com a precedente, deriva immediatamente das aguas ar- 
tesianas. O numero de poços d'este género que se tem aberto 
na Europa, na Ásia, na America, e no norte da Africa é im- 
menso, attingindo muitos dos respectivos furos as grandes pro- 
fundidades de 500 a 700 m ; e em todos elles se tem achado 
um augmento progressivo na temperatura das suas aguas á ra- 
zão de 1° proximamente por cada 30 m de profundidade. Facto 



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— 429 — 

este que, na presença das leis da physica geológica que regem as 
condições das aguas artesianas, não pode deixar de ser tomado 
como uma natural consequência da crescente temperatura das 
camadas solidas de cujo seio aquellas aguas repuxam. 

Mas a elevada temperatura do calof interior da terra adquire 
uma nova e concludente demonstração, com o que se tem ob- 
servado a respeito das aguas thermaes. Estas aguas mostram-se 
em todas as regiões do globo, desde o nivel do mar até 4:000 m 
d'altura, e debaixo de todos os parallelos desde a Groélandia ou 
da Islândia até ao equador (1) : ellas atravessam indistintamen- 
te, quer as camadas sedimentares de todas as idades e naturezas, 
quer as rochas crystallinas, volcanicas ou plutonicas, e das quaes 
recebem os seus princípios mtneralisadores. 

Alguns poucos naturalistas pretendem ver nos phenomenos 
chimicos devidos á oxydaç&o das bases' alcalinas no interior do glo- 
bo, e mediante a presença do ar e da agua, a causa da tem- 
peratura das aguas thermaes ; emquanto outros e a maior par- 
te, mais conformes com a importância geológica doestas mesmas 
aguas e com as relações que por todos os lados se revelam en- 
tre a sua temperatura e os demais factos que demonstram a exis- 
tência do calor interior da terra, entendem que aquella causa é 
toda physica e unicamente devida a este mesmo calor. Laplace, 
Arago, Humboldt, Bischof e tantos outros naturalistas respeitá- 
veis assim o pensaram, entenderam e demonstraram (até onde 
podem chegar as demonstrações sobre estas questões que pren- 
dem com a physica do globo). E com effeito nflo se comprehen- 
de' coroo é que augmentando a temperatura da crusta solida da 
superfície para o centro nas relações numéricas proximamente, 
que acima notamos, e existindo os pontos de partida das aguas 
thermaes em regiões inferiores ás das aguas artesianas, se re- 

(1) HUtoire des Progrès de la Geologie tom. i, pag. 476. 



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— 430 — 

corra a uma causa chi mica para dar conta da temperatura ele- 
vada que aquellas aguas acçusam na sua emergência. Alem de que 
cabe notar aqui, que aguas thermaes e mineraes se mostram em 
certas partes do globo subordinadas ao eixo das cadéas, como acon- 
tece nas montanhas da Saxonia, da Bo^emia, da Sicilia e nos Pj- 
reneos. Nesta ultima cadêa, áh Forbes que as nascentes ther- 
maes rebentam mui perto das rochas eruptivas taes como dos gra- 
nitos, das diorites etc., e cuja erupção deslocou as rochas «tra- 
vessadas (1). Noutras partes onde as rochas vokanicas d'outras 
datas se manifestam mais ou menos desenvolvidas lá se -vêem as 
aguas thermaes em relação com ellas e rebentando mesmo das 
suas fendas, mostrando por assim dizer a sua commum erigem. 
No ducado de Nassa u, diz Daubeny, as aguas thermaes seguem 
seis* linhas de falha ou de deslocação ; e que reconhecera nó de- 
partamento de PÁude dos Pyreneos orientaes, na Provença, e em 
Inglaterra, uma similhante disposição (2). 

A Grécia, a Itália, a Islândia, o archipelago dos Açores, a 
America central, as ilhas do Mar do Sul etc. são outros tantas 
paizes clássicos onde a imraediata dependência das aguas ther- 
maes com os volcões em actividade se mostra em uma larga es- 
cala e onde esta relação pode ser examinada sob todos os pon- 
tos, de vista. Do mesmo modo nas regiões dos volcões extractos, 
e naqaellas onde os vestígios do primitivo trabalho volcanico é 
bem patente, e ainda mesmo naquellas onde os indícios são maia 
remotos, em todas ellas, onde se manifestam as aguas thermaes» 
reconhece-se depois d^gum exame que estão sempre subordinadas 
ás rochas volcanicas, ou ás linhas de fractura como os repre- 
sentantes dos respiradoitos volcanicos das passadas eras da vida 
do globo. 



(1) Histoire des Progrès de la Geologie, pag. 436 e 437. 

(2) Idem pag 437. 



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— 431 — 

Outra ordem de phenomenos que por sua parte também con- 
tribue para demonstrar a existência dos fogos subterrâneos, co- 
mo pretendem alguns eminentes geólogos, são os volcões de lo- 
do, as nascentes de petróleo e de naphta, as emissões de gaz 
inflammave) e outros tantos análogos que se téem mostrado e 
continuarão a mostrar desde a Itália até ao império celeste, na 
America e era outras regiões do globo onde o trabalho volcani- 
co se acha em plena actividade. 

A origem dos carburetos hydrogenados que muitos geólogos 
tem considerado como o producto da distillação de massas com- 
bustíveis d'origem vegetal, tem sido tomada por outros como 
um producto dtaigem vokanica. Virlet tratando das fontes e 
minas d'asphalto e de bitume mineral da Grécia e d'outras re- 
giões (1) dii que em se reflectindo bem nas condições em que 
os bitumes mineraes téem sido encontrados com alguma abun- 
dância, nos convenceremos de que a sua geração e emissão de- 
penderá mais ou menos directamente dos phenomenos volcani- 
eos; que na pluralidade dos casos vem aquellas substancias inti- 
mamente ligadas, seja com os depósitos de sal gemma, do en- 
xofre, e mesmo com os saes ammoniacaes, seja com certas ro- 
chas igneas ou volcanicas, taes como alguns granitos, wakrtes, 
basaltos etc. ; apparecendo mesmo em varias partes em relação 
com as fontes thermaes e mineraes. Este geólogo registando a 
jopiniào de Reichenbach que as fontes de petróleo, e outros jazi- 
gos de carburetos de hydrogenio são devidos simplesmente a uma 
distillação lenta e em baixa temperatura das massas de carvão, 
acrescenta que « esta hypotbese é inadmissível porque aliás sirai- 
Ihantes jazigos não teriam podido perpetuar-se em um tão gran- 
de numero de séculos. Para somente alimentar as fontes bitumi»- 
nosas de Zante, conhecidas desde o tempo de Heródoto, teria 

(1) Bui de S. G. de Fr. 1834, tom. iv. 



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— 432 — 

sido preciso a enorme quantidade de 174,000,000 quintões de 
carvão ; e como ellas sào de certo muito anteriores aos tempos 
históricos, succede que nem todas as minas de carrilo dlngla- 
terra reunidas, teriam bastado para alimentar estas fontes por 
meio de uma distillaç9o lenta. E estendendo estas considerações 
aos phenomenos bitaminosos de Bakou, que como se sabe da- 
tam de tempos immémoriaes, nem todos os depósitos de canfto 
de pedra do mundo reunidos teriam bastado á producçfto d'aqoel- 
les phenomenos, desde o mais remoto tempo histórico ate ao 
presente (1).» 

Finalmente, a ejecçSo da lava e a d 9 outros productos em 
ignição expellidos pelas crateras e pelas fendas abertas nos ca- 
rnes e nos flancos de numerosos volcões dispersos sobre a cros- 
ta terrestre, são os phenomenos que â primeira vista mais fa- 
zem lembrar a fus&o ignea do interior do nosso globo. 

Todos os naturalistas que têem estudado as regiões volcani- 
cas mais clássicas encontram as actuaes montanhas ignivomas for- 
madas em parte à custa das rochas volcanicas de outras eras e 
que ainda hoje cobrem tractos de mui extensa superfície. E por 
tal forma se liga a succes&o dos phenomenos que tem produzi- 
do os volcões extinctos e os actuaes, que seria irracional, dizem 
o sr. visconde d'Archiac e o barão de Buch querer quebrar esta 
cadéa. Como separar os phenomenos que produziram por um la- 
do o derramamento da trachyte e do basalto do Auvergne, e por 
outro os volcões extinctos da mesma região, e ainda os d'aqoel- 
les que produziriam uma ou mais bocas em actividade se por- 
ventura ainda ali se manifestasse o trabalho volcanico ? À obser- 
vação e a sciencia têem mostrado que estes phenomenos longe de 
serem a consequência de um novo modo de obrar das forças na- 
turaes do interior do globo, representam ao contrario a continua- 

(1) fíuUrir* des Progrès dê la Geologie, tom. i, pag. 4S1. 



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— 433 — 

0o de um mesmo' trabalho, não interrompido desde as mais aias* 
tadas épocas da historia da terra. Se a denudação e os outros 
agentes da successiva destruição e regeneração das formas do glo- 
bo, téero apagado todo o vestígio das bocas d'emisaão volcanica 
emergidas á superfície da crosta terrestre nos períodos terciário, 
secundário e anteriores, nem por isso é menos certo que o tra- 
balho volcanico exerceu sempre a sua actividade desde as mais 
remotas datas geológicas que se tem podido assignar à vida do 
nosso planeta ; e a prova encontrai no grande numero de rela- 
ções que prendem as rochas volcanicas d'outras eras com uma 
grande maioria dos accidentes do relevo da parte conhecida da 
crusta terrestre : accidentes estes tão conhecidos em geologia, que 
não ha cadéas de montanhas e grandes linhas de fractura, que nfto 
ofiereçam um concurso de reminiscências do primitivo trabalho 
volcanico, mais ou menos bem expresso no mesmo relevo, segun- 
do a data a que ellas se referem. Assim também hoje a distri- 
buição geographica dos volcões se apresenta de um modo tal que 
não deixa a mais pequena duvida de que ella está subordinada 
is mesmas causas que determinaram as grandes linhas orogra- 
phicas, e que deram aos continentes e aos archipelagos actuaes a 
feição principal que os caracterisa. Todas as ilhas volcanicas do 
Mar do Sul, diz L. de Buch, em logar de offerecerem uma for- 
ma cónica e constituírem grupos isolados, são ao contrario es- 
treitas e alongadas, dirigindo-se segundo orna mesma linha, e 
por um modo tal que bem mostram formarem parte de um to- 
do, de uma cadêa, cuja direcção « reprodus quasi exactamente 
sobre uma grande extensão, a configuração da costa da Nova 
Galles do Sul. » O limite exterior do continente da Ásia é guar- 
necido por duas series de volcões ; os das ilhas de Sunda a oes- 
te, e os das Philippinas e Mollucas ao norte (i). « A immensa 

(1) HUUrire de$ Progrès de la Geologie, tom. i, pag. 582. 
TOM. III. 28 



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— 434 — 

massa oxydada que forma o continente da Ásia, continua L de 
Buch, impede toda a communicaç&o do interior com a atam- 
pbera ; porem esta pôde abrir-se sobre os bordos do contineote 
formando uma immensa falha que o guarnece, e segundo a qual 
se estabeleceram os volcões que servem de canaes áquella com- 
rouuioaçfto (i). » 

« Deve-se ao sr. E. de Beaumont, diz o sr. visconde d'Ar~ 
chiac, o taber-se, que a enorme protuberância montanhosa que 
corre entre o oceano Pacifico por uma parte, e os continentes 
das duas Américas e da Ásia pela outra, dirigindo-se do Ghili 
até ao império dos Birmans segundo a direcção de um semi- 
círculo máximo da terra servindo de eixo central a esta liah» 
volcanica em sig-iag, não se afasta também da tona littoral de 
que acima falíamos (2). » Aquelle mesmo geólogo eminente diz no 
seu Syttema de Montanhas, que se se juntar o Etna com Tene- 
riffe teremos um arco de circulo máximo segundo o qual se di- 
rige o eixo do systema volcanico do Mediterrâneo ; eixo que par* 
tindo do pico de Teneriffe comprehende o Etna, o Volcano, o 
Stromboli, Santorino, os montes Argeo e o Ararat na Arménia, 
e o pico elevado de Demavend na Pérsia* Este eixo volcanico 
erusa-se no Etna com outro que vem dirigido do norte para o 
sul, e que o sr. E. de Beaumont denominou sjstema de Tenaro, 
em consequência d'alguns accidentes notáveis da Moréa, perten- 
centes a este sjstema passarem pelo cabo d'aquelie nome. A este 
systema não só pertencem as mais importantes deslocações do solo 
da Grécia, como observaram os autores da Expedição ãcmtifca é 
Moréa, mas porque é a elle, diz o sr. de Beaumont, que se referem 
tanto os volcões recentes, posto que ex ti netos, da Sardenha, como 
a zona thermal da Toscana, a abertura do valle do Tibro desde a 



(1) Histoire des Progrès de là Geologie, tom. i, pag. 282. 

(2) Idem. 



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— 135 — 

soa origem até Roma, e outros accidentes importantes da Itália 
meridional. A linha que junta o nó do grupo volcanioo das ilhas 
Lipari com o Etna e Vesúvio, é ainda ffarallela a este systema. 
Esta linha, continua o sr. E. de Beaumont, frisa o bordo Occi- 
dental do massiço ainda activo do Volcâno, e passa próximo do 
Stromboli : coincidindo com o grande diâmetro da base total do 
Etna, vai no cabo Pássaro, dirige-se pelo ponto mais culminante 
dos Abbruzzos, roça a costa da Istria, e vai terminar na Bobemia» 
próximo da montanha de Eger « onde se vê, num isolamento tto 
singular, o pequeno cone de escorias conhecidas por Kammtr- 
JfaJU. » Emfim a observação dos factos tem mostrado que estes 
dois systemas com os systemas volcanicos dos Andes e do JapSo 
e com o systema de levantamento dos Alpes, occidentaes, s3o 09 
os que deram ao relevo do mundo as suas ultimas formas. 

Se por um lado os factos e as considerações que deixamos 
expendidas nos evidenceam a mais notável dependência* entre a dis- 
tribuição, a grandeza, e as formas de parte do relevo da crusta 
solida, e o trabalho activo dos fogos subterrâneos, por outra esta 
mesma relação se harmonisa de um modo admirável com a theo- 
ria sobre a origem dos volcões mais geralmente seguida. Bischof, 
um doa sábios que com mais intelligencia e mais aceitação do 
mundo scientifico se tem occupado d 9 estas questões, partindo do 
facto geralmente admittido de que a temperatura da terra cres- 
ce progressivamente da superfície para o centro, e que neste 
acréscimo as massas passam ao rubro, e d'estè ao branco ; esta- 
belece que a agua do mar e dos lagos intervém nas regiões sub- 
terrâneas, como um dos agentes d'actividade volcanica, como já 
o fizeram entender os philosophos d'outros tempos, e como que- 
rem muitos geólogos respeitáveis nossos contemporâneos. Neste 
presupposto Bischof faz depender o repouso, a recrudescência, 
e a actividade dos volcões, seja da consolidação da lava, do der- 
retimento ou da soldadura das paredes dos canaes que commu- 

28* 



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— 436 — 

nicam o foco . volcanico com o fundo dos mares ; seja rompeu- 
do-se ou desobstruindo-se estes mesmos canaes por uma causa 
qualquer. « Como a crusta terrestre tende constantemente a au- 
gmentar d 9 espessura pela successiva addição de novas camadas 
contra a sua parede interna, a ruptura da mesma crusta torna-se 
cada vez roais difficil, sendo muito pouco provável que os voloôes 
extinctos abram de novo as suas bocas d'emissão. » Poder-se-faia 
acrescentar em abono d'esta hypothese, diz o 9r. visconde d'Àr- 
chiac, que o successívo augmento da crusta solida diminue o ac- 
cesso fácil das aguas do mar no interior da terra ; e que remon- 
tando aos periodos geológicos mais antigos, se cneontra que os 
phenomenos dependentes d'acção ignea do interior são tanto mais 
multiplicados quanto mais antiga é a data» ou quanto mais del- 
gada era a peilicula terrestre ; e por consequência mais directas 
e mais fáceis eram as communicações do exterior com o inte- 
rior (1). £ pois claro que produzindo-se os grandes planos de 
fractura da crusta terrestre até ás regiões onde começa o esta- 
do d'ignição das massas subterrâneas, é por elles que mais dire- 
ctamente se estabeleceriam as communicações do mar com essas 
mesmas regiões ; e por consequência muito natural que fosse se- 
gundo aquelles planos, ou segundo direcções proximamente pa- 
rallelas a elles, que a actividade volcanica da época actual se ma- 
nifestasse ; facto este que se vé confirmado de um modo geral na 
distribuição dos volcões seguindo linhas parallelas a grandes por- 
ções de costas continentaes, e a outros accidentes da* superfície 
como já fica referido. 

Mas ás aguas thermaes, á lava dos volcões e aos demais pro- 
ductos eruptivos dependentes dos fogos subterrâneos, junta-se ain- 
da outro termo, os productos metallifefos, cuja influencia appa- 
rentemente modesta faz um papel importante na serie de phe- 
nomenos que tem reagido sobre a crusta terrestre. O ferro, por 
(1) Hirtoire de$ Progrès de la Geologia tom. i, pag. 589. 



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— 437 — 

exemplo, o cobre, o chumbo, o manganez, o cobalto, o arsénico 
e um grande numero (Toutros princípios, não só apparecem nas 
layas dos volcoes modernos, distribuídos pelas rochas volcanicas 
das outras datas geológicas ; mas o que é mais, o geral dos jazi- 
gos metaUiferos propriamente ditos estão sempre subordinados ás 
mesmas rochas volcanicas, ou tèem coro ellas uma dependência 
absoluta. Âs caixas ou fendas que encerram estes mesmos jazigos 
communicando com as regiões inferiores da terra e correspon- 
dendo, como se sabe, a linhas de fractura ou de deslocação de- 
terminadas pela emersão das rochas volcanicas, foram um outro 
género de respiradohros (análogos ás fendas demissão de rochas 
volcanicas de outras eras), e onde mais tarde se alojaram pela 
sublimação e pela deposição todos os sulfuretos que constituem as 
jazidas metalliferas, como bem revelam a composição, a structu- 
ra e o modo de ser doestas massas no seio da terra. Ainda mais : 
as regiões muito accidentadas e que em datas anteriores 6 nossa 
mais trabalhadas foram pelos fogos subterrâneos, são por via de 
regra aquellas onde se encontra uma mais vasta jazida de sulfu- 
retos metallicos. 

Se o que levamos dito nos conduz a admittir uma origem 
commum aos productos volcanicos e aos productos metaUiferos, 
o exame d'outros factos leva a analogia muito mais longe. De 
feito, em toda a parte, onde se encontram aguas thermaes se vêem 
estas senfpre associadas ás rochas volcanicas, ás jazidas metallife- 
ras, e em relação com as linhas de fractura como já se disse em 
outro logar d'esta nota. Os seus contentos mineralisadores, tem- 
nos dito a chimica que são em geral os mesmos que se encon- 
tram na composição das rochas volcanicas. D'este modo reunindo 
todos os factos que a similhante respeito temos exposto segundo 
o seu gráo d'aflinidade ou de relação, chegaremos á seguinte con- 
clusão : que as aguas thermaes pela sua composição, pela sua tem- 
peratura, e pelas condições em que se mostram incorporadas com 



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— 438 — 

os jazigos melalliferos e com as rochas volcanicas, constituem com 
estas rochas e com os sulfuretos metallicos um grupo de pheuo- 
menos ua apparencia distinctos, mas todos elles dependentes de 
uma mesma origem, o calor central da terra. 

É por esta assimilação que os geólogos mais distinctos do 
nosso século foram levados a dizer, que as aguas thermaes e os 
jazigos melalliferos são volcões extinctos pertencentes a antigas 
datas ; ou melhor ainda são os últimos termos do trabalho vol- 
canico manifestado 6- superfície do nosso globo em differentes da- 
tas e sob differentes formas. 

Podemos pois bem admirar a notável e providencial ordem 
que a mão de Deus imprime em todas as suas coisas. Expondo 
a humanidade aos terríveis efíeitos das catastrophes occasionadas 
pelo trabalho das forças interiores, prodigalisou-lhe em compen- 
sação uma parte útil do producto d*esse trabalho nas matérias 
primas mais indispensáveis aos usos da vida, taes como o enxo- 
fre, o alúmen, a pouzzolana, o asphalto, o petróleo, as aguas das 
caldas e mineraes, e sobre tudo os jazigos metalliferoa, um dos 
elementos maia essenciaes vivificadores da civilisação. É um ver- 
dadeiro legado d'actividade volcanica d'outras eras. 

Por tanto volcões, tremores de terra e terremotos, inunda- 
ções, transformação de continentes em mares e d'estés em conti- 
nentes, jazigos raetalliferos, aguas thermaes etc. são tudo conse- 
quências do trabalho subterrâneo ; são o resultado do movimento 
operado pelo calor interior do globo, auxiliado pela acção secu- 
lar dos agentes exteriores. Era do calor derramado pelas entra- 
nhas da terra que Platão fazia depender todos os phenomenos 
volcanicos e a temperatura das fontes thermaes ; causa única de 
todos os phenomenos que deixamos enumerados» na apparencia 
tão independentes, a qual já fora apontada no celebre livro dos 
presagios de Johannes Lydus contemporâneo de Platão (1). 

(1) Comos, tom. iv, 



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— 439 — 

À formação da lona volcanica mediterrânica, data pelo me- 
nos do meado do periodo terciareo. Consultando as regiões onde 
o trabalho d'esta zona se tem manifestado de um modo mais 
clássico e instructivo, a Itália e a Grécia, reconhecer-se-ha que 
a actividade volcanica tem obrado sempre, de um modo perma- 
nente e intenso, em toda esta parte meridional da Europa des- 
de aquella antiga data até ao tempo actual. São prova d'esta an- 
tiguidade e do incessante trabalho volcanico naquellas regiões, a 
presença das conchas fosseis sub Appeninas que se vêem nos tu- 
fos volcanicos estratificados da ilha d'Ischia e dos campos Phle- 
greus ; os despojos de cetáceos, d'elepbantes, e de hippopotamos 
encontrados no tufo de Roma; as conchas fosseis nas encostas 
do Epomêo; a emersão da montanha gibbosa do Etna e a pos- 
terior formação do circo elliptico do Val-de-Bove em um dos 
seus flancos; o contornamento e os accidentes das camadas de 
tufo volcanico que constituem o systema de collinas dos campos 
Phlegreos; os accidentes e deslocamentos produzidos nas rochas 
voleanicas da Itália e do archipelago grego determinados pela 
elevação do systema de Tenare etc. 

De uma parte do trabalho volcanico que produziu os mais 
modernos d'estes accidentes devia já ter sido testimunha a espé- 
cie humana, pois que o homem não é tão recente sobre a su- 
perfície do globo que não venha muito d'alem dos tempos his- 
tóricos, e não tenha presenciado e sido victima de muitas ca- 
tastrophes das quaes nem vislumbres de tradição chegou ao co- 
nhecimento dos primeiros historiadores e poetas da antiguidade. 
Os despojos da. industria humana aliás tosca e grosseira e que se 
encontram a muitos metros de profundidade nas margens do Bál- 
tico, nas costas do Chili, como refere mr. Lyell nos seus Prin- 
eipioi ; e a achada dos numerosos utensílios de rochas duras en- 
contrados muitos metros abaixo da superfície dos depósitos al- 
luviaes de alguns rios da França, da Suissa e da Alemanha, são 



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— 440 — 

outros tantos documentos de geologia archeologica que junto a 
outros que se vão recolhendo, abonam a supposição de mr. Eiis 
de Beaumont acerca da anterioridade do homem aos systemas vol- 
caniços da cordilheira dos Andes na America e ao de Tenore na 
Europa. 

A Grécia porem é de todas as regiões europeas aquello que(i) 
desde as primeiras idades históricas reúne sobre o seu solo todas as 
circunstancias favoráveis para se conhecerem as causas mais po- 
r derosas das modificações d'esta parte da superfície terrestre, como 
já temos feito sentir nesta nota, começando a nossa indicação sum- 
maria dos phenomenos volcanicos pelo archipelago grego. Todos 
os grandes phenomenos da natureza, diz um sábio do nosso tem- 
po, ali se offerecem à meditação da philosophia intimamente liga- 
dos ás causas immediatas que os produziram : a antiguidade das 
tradições dos gregos e a actividade ainda poderosa das forças vol- 
canicas, junta d'alguma sorte a historia do homem com as revo- 
luções do globo que por toda a parte tem deixado os seus vestí- 
gios. A narração fabulosa de Delos, a apparição súbita d' Ana- 
phea, os dilúvios de Deucalião d'Ogyges e de Samothracia são 
uma prova clara da ligação que existe entre estas catastrophes e 
as tradições dos antigos gregos (2). 

Por um lado os repetidos movimentos do solo da Grécia e 
da Itália nos primeiros tempos históricos e determinados pela 
acção dynamica do interior com todos os seus resultados assola- 
dores e afilictivos; por outro as bancadas espessas elevadas nas 
planícies de Megaride, da Messenia, da Thracia, e da Ásia me- 
nor encerrando conchas fosseis de molluscos apenas alteradas, e 
similhantes áquellas que ainda hoje vivem sobre as costas e mar- 
gens dô Mediterrâneo, não só denunciaram ha já mais de trinta 



(1) Expedição identifica á Moréa. 
(9) Idem. 



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— 441 — 

séculos, que uma parte do continente se tinha formado no seio 
dos mares e que fora depois elevado, mas todos estes phenome- 
iros deram aos philosophos da antiguidade a chave para compre- 
henderem as grandes causas que téem presidido ás modificações 
da crusta da terra. Não admira pois que Pythagoras, Platão, 
Strabao e outros sábios seus contemporâneos tivessem idéas ver- 
dadeiras e philosophicas acerca das forças interiores do globo. Foi 
seguramente çste vasto exemplar da zona volcanica do Mediter- 
râneo, o estudo das cosmogonias até então estabelecidas, e sobre 
tudo o grande e sublime génio de que era dotado Platão, que le- 
vou este grande philosopho, no quadro do mundo que collocou em 
fim do seu Pkedon, a assentar o gérmen da theoria do calor cen- 
tral e da fluidez ignea da terra. Segundo as idéas geognosticas 
d'este philosopho, diz Humboldt, o Pyrophlegetonte com relação 
á actividade volcanica faria proximamente o mesmo papel que 
hoje faz para os mesmos phenomenos o calor interior da terra e 
o estado de fusão ignea das massas profundas segundo as nossas 
idéas a simifhante respeito (1). 

Vejamos porem num curtíssimo resumo quaes foram as rela- 
ções que se admittiram e consignaram entre os fogos subterrâ- 
neos e as principaes cosmogonias dos primeiros tempos históri- 
cos. 

Se recorrermos á remota civilisação da índia encontraremos 
no código de Manon e na mythologia dos indus uma theoria, a 
mais antiga de todas as conhecidas, a qual revela bastante co- 
nhecimento dos phenomenos naturaes e uma observação esclare- 
cida, embora aquelle código não seja obra de um só homem, ou 
nelle trabalhassem differentes indivíduos, e em épocas diversas, 
como suspeita Lyell (2). A theoria que se deduz de Manon re- 

(1) Cosmo» i, pag. 528. 

(2) Princ. Gtol. i vel. 



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— 442 — 

duzida ào seu mais simples enunciado é a seguinte: a terra 
está sujeita a uma suecessão eterna de catastrophes oniversaes, 
separadas por longos periodos de tranquillidade apenas interrom- 
pidos por catastrophes ou modificações parciaes devidas aos efei- 
tos das causas ordinárias. 

Esta theoria segundo pensa Lyell podia ter tido duas ori- 
gens differentes : « Ou os vestígios claros e palpáveis das antigas 
revoluções que tiveram logar em todos os pontos da superfície 
do nosso planeta, ou os despojos animaes e vegetaes que se en- 
contram nas camadas solidas do globo ; » factos que tanto aos 
brami nes, como aos padres do Egypto, como aos outros observa- 
dores contemporâneos serviriam, quando mais não fosse, para cor- 
roborar a doutrina da suecessiva destruição e reforma do mundo. 

A cosmogonia egypcia admittiu que o mundo era sujeito a 
conflagrações e a dilúvios, e que estas catastrophes eram o meio 
de que Deus se servia de tempos em tempos para pôr termo â 
malicia humana (l) N e purgar a terra dos crimes commettidos; 
o mundo depois regenerava-se e o homem apparecia num estado 
de perfeita innocencia e felicidade ; e foi esta degenerado e re- 
generação que deram logar á fabula da idade de ferro e da ida- 
de de oiro dos antigos tempos. 

A agua umas vezes e o fogo outras, eram os agentes da des- 
truição e da reforma : a conflagração era a mudança das formas 
exteriores occasionadas pelo fogo interior da terra. 

Os stoicos, diz Lyell, adoptaram sem reserva alguma o sys- 
tema de catastrophes destinadas com certos intervalles a produ- 
zir a destruição do mundo ; segundo elles o diluvio extinguia a 
espécie humana e todos os mais seres orgânicos, e a conflagra- 
ção destruía as formas do globo pela dissolução ignea (2), Os pe- 

(1) Princ. de Geol. vol. i. 

(2) Idem vol. i, cap. ii. 



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— 448 — 

riodos de tranquillidade chegaram a ser determinados pela volta 
simultânea de todos os corpos do nosso systema planetário a um 
mesmo ponto do ceo ; volta que, como se sabe, representa o giro 
completo da linha dos Áspides em 26:000 proximamente, e o qual 
phenomeno astronómico era já conhecido não só no tempo dos 
gregos, mas no dos chaldeus, remontando mesmo à mais primi- 
tiva civilisaçào do povo egypcio. 

€abe notar aqui que hoje um sábio astrónomo mr. Adhemar 
fundado no mesmo facto da precessão dos equinoccios que acaba- 
mos de citar, e tendo em attenção o balanceamento ou oscilla- 
0o do plano da ecliptica determinada pela nutaçfto luni-solar, 
concluiu que em cada intervallo de 10:500 annes a terra soffire 
alternativamente uma inversão na ordem das estacões com rela* 
çáo aos príncipaes pontos da sua orbita terrestre, e uma dimi- 
nuição de oito dias, para a duração total da primavera e verão 
reunidos ora num ora noutro hemispherio ; isto é, a duração to- 
tal do outono e do inverno reunidos do nosso hemispherio exce- 
derá oito dias proximamente á duração total da primavera e do 
estio. E pensando com Humboldt que por estas condições e 
em virtude da maior irradiação, a quantidade do calor accumu- 
lado no hemispherio austral deve ser menor do que no hemisphe- 
rio do norte, conclue também que se formará no polo austral uma 
calote de gelo de 785:000 léguas quadradas de base, com a qual 
resultará um angmento para o eixo da terra e uma descentrali- 
saçao para o centro de gravidade da mesma terra. Mudando po- 
rem aquellas circunstancias com os movimentos seculares da li- 
nha dos Áspides com a mudança do centro de gravidade da terra, 
e passado um certo tempo, o derretimento d'aqnella enorme massa 
de gelo produzirá ura diluvio, que se dirigirá do sul para o nor- 
te. O mesmo phenomeno se reproduiirá depois para o polo bo- 
real, com igual intervallo dando os mesmos resultados e assim 
alternadamente. Segundo esta theoria os dilúvios tem-se produ- 



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— 444 — 

rido e produzirão 6 superfície da terra todos os 10:500 annos 
ora do sul para o norte, ou do norte para o sul. O diluvio bí- 
blico, o movimento do diluvio alpino, a marcha dos blocs er- 
ráticos, e a época do frio já accusada pela geologia ; a abertura 
do canal da Mancha e outros muitos phenomenos physico-geolo- 
gicos são referidos por Adhemar e por outros 6 época do derre- 
timento da calote de gelo outr'ora formada no polo do norte. 

Se approximarmos esta theoria, aliás muito racional, do qua- 
dro assolador das terríveis catastrophes produzidas pela acção vol- 
canica, porque não veremos nesta jutocção a cosmogonia dos stoi- 
cos que acima citámos ? Não se encontrarão nesta mesma juncçfto 
consubstanciados os princípios fundamentaes das cosmogonias egy- 
pcias e a do código de Manon? 

Não foram tanto as longas viagens ao oriente executadas por 
Pythagoras nem a sua prolongada residência no Egypto, que con- 
tribuíram para dar á cosmogonia d'este philosopho o cunho da 
racionalidade que a distingue ; a actividade volcaoica da Grécia 
e da Itália devia, pelas considerações que acima expozoroos, ter 
concorrido poderosamente para se assentarem as bases da cosmo- 
gonia pythagorica. Ovídio nas suas Metamorphom expôe-ms as 
doutrinas de Pythagoras e com ellas as proposições geraes que 
respeitam ao mqndo inorgânico deduzidas da observação dos phe- 
nomenos naturaes : nestas proposições acha-se estampado o prin- 
cipio da modificação successiva e constante a que está, sujeita a 
terra . em virtude da acção do fogo, e da agua embora não ad- 
mitta o apparato das catastrophes universaes ; é o trabalho inces- 
sante d'aquelles dois poderosos agentes tál como elle se manifesta 
hoje e se .tem manifestado desde os mais remotos tempos histó- 
ricos, segundo aquelle philosopho, obrando sobre a crosta terres- 
tre com intensidade e em extensões variáveis. 

Aristóteles adoptou as proposições de Pythagoras sobre a phy- 
sica do globo, embora Censorino diga que aquelle philosopho 



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— 445 — 

participava- da opinião das inundações e das conflagrações uni- 
versaes, mas que Lyell (1) referindo-se á opinião de Lipsio diz 
ser exaggeração de uma passagem que se encontra no Tratado 
do$ Meteoros d'aqoelle philosopho. 

Porem Strabão foi mais longe e mais positivo ; reunindo as ob- 
servações e theorias racionaes que lhe legaram os philosophos que 
o precederam, os numerosos factos e phenomenos por elle colligi- 
dos nas suas repetidas viagens, entre as quaes se nota no segundo 
livro da sua geographia a importância que lhe inspiraram as cau- 
sas que deram logar és conchas fosseis que se encontram em to- 
gares muito afastados do mar, estabeleceu a theoria do duplo 
movimento das partes solidas da crusta terrestre, isto é da emer- 
são e da submersão dos continentes e das ilhas determinadas pe- 
las forças interiores da terra, e que por consequência os mares 
subordinados a estes movimentos e deslocações das partes solidas 
invadem os continentes e as ilhas e se retiram dos logares que 
ontr'ora cobriam : « Os dilúvios, os tremores de terra, as eru- 
pções do interior, o levantamento súbito do leito dos mares, eis 

o que faz alevantar ou abaixar as aguas. se, como somos 

forçados a confessar, não somente as ilhas podem surgir dos ma- 
res, mas também os continentes, seremos igualmente forçados a 
admittir que tanto os pequenos c.omo os grandes tratos de terra 
podem spbmergir-se. Tanta razão temos para considerar Sicilia 
ama porção deslocada da Itália, como uma ilha arrojada do fun- 
do dos mares pelos fogos subterrâneos.... (2) » 

É tempo de cerrar esta nota que já vai longa ; e se dentro 
dos seus limites não podemos coroprehender uma plena demons- 
tração physico-geologica da propriedade do pensamento contido nos 
versos do nosso poeta a que esta nota se refere, deduz-se todavia 

(1) Histoire des Progrès de la Geologie vol. xxxi e txxm. 

(2) Strabão na Bxp§àiçào identifica á Moréa. 



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— 446 — 

dos factos e das theorias que imperfeitamente esboçamos : que o 
calor do interior do nosso globo é um facto não só geralmente 
recebido por todos os naturalistas de hoje, mas jâ conhecido e ad- 
mittido pela maioria dos philosophos dos primitivo» tempos histó- 
ricos ; que os focos volcanicos residem sobre o núcleo incandes- 
cente ou nas regiões inferiores à crusta solida, como também o 
pensaram e escreveram os antigos sábios nas cosmogonias que noa 
legaram ; que a maior parte das catastrophes a que a humanidade 
tem estado e está sujeita e as principaes causas da successiva mo- 
dificação das formas exteriores do nosso planeta, dependem da 
acção dos fogos subterrâneos como muito bem disseram os phi- 
losophos que precederam a Ovídio e como também o sentia este 
sábio poeta ; que a região volcanica mediterrânica é uma d'aquel- 
las que desde todos os tempos tem sido o theatro das maia me- 
donhas e terríveis catastrophes que mais tem assolado e aflligido 
o género humano. 

Existem, diz Platão, no interior da terra e em volta d'eaae 
interior, canaes subterrâneos de todas as grandezas. A agua cor- 
re ali em abundância, porem correm também o fogo e corrente 
de vasa liquida mais ou menos impura similhante ás torrentes de 
lodo que na Sicilia precedem a erupção das torrentes de fogo. 
« O Pyrophkgetonte despeja num espaço immenso cheio de fogo 
ardente e activo onde forma um lago maior do que o mosto 
mar. » « Este rio de terra fundida e de vasa é a origem geral, dix 
Humboldt, dos pbenomenos volcanicos. » Tal é o Pyrophlegeton- 
te, acrescenta Platão, do qual algumas pequenas partes se esca- 
pam em torrentes de fogo para a peripheria terrestre ; isto é as 
escorias e as lavas volcanicas são partes destacadas do próprio 
Pyrophlegetonte ou da massa em fusão, sem cessar em movi- 
mento nas entranhas da terra (1). E na essência a verdadeira 

(1) Comos iv, 299. 



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— 447 — 

idéa do calor central e da fluidez ignea dos modernos como já 
observámos, quer se adoptem as theorias de Buffon ou de La- 
place, as de Langlet, Bouchepom, ou de Hopkins ou de la Be- 
che, quer seja o resultado da concentração rápida das molleculas 
da matéria como lembram Morin e Angelot, é sempre a mesma 
coisa, o mesmo principio, o fogo derramado por toda a massa 
interior do globo, o Pyrophlegetonte de Platão (1). 

Mas este fogo como que eterno, incessante e activo no seu 
trabalho, posto que só conhecido pelos seus effeitos manifesta- 
dos por toda a parte do mundo, não será Vesta recolhida no seu 
sacrário cuja cúpula arqueada i formada pela crusta solida da 
terra? 

Nôo será Vesta a representação mystica da fluidez ignea do 
interior do globo já suspeitada nos antigos tempos, tão geral- 
mente admittida pelos geólogos modernos ? Não teria Ovídio em 
todos os factos que temos enumerado, nas theorias e cosmogD- 
gonias que o precederam e que deixamos indicadas, raades de 
mais para dizer que a terra e Vesta são uma e a mesma coisa e 
que eterno fogo arde em ambas occulto ? 

Estamos convencidos de que sim. 

CARLOS BIWIBO. 



(1) Podem cônsul ta r-se estas theorias em Buffon, Épocas da natu- 
reza \ em Laplace, Systema do mundo; em Lyell, Principio* de Geologia; 
e na Historia dos Progressos de Geologia i vol. 



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— 148 — 



NOTA TRIGESSIMA 

PAGINA MI — VERSO 12 
C0LL0CAÇÍ0 PO ORBE TUAfUBO NO HRIIB80 

£j\9 concisa, e elegantemente as idéas dos antigos áeerea do 
que era a terra no universo : ura corpo espherico, cercado pela 
atmosphera, suspenso no espaço, e fixo no centro do systema 
planetário. 

Eram os antigos poetas mui versados nas sciencias, especial- 
mente na astronomia ; por isso Quintiliano disse : Nee poetai 
legisse satU est.... nec si rationem siderum ignorei poetas tnteí- 
ligat, qui (ut alia miltam) toties ortu oecasuque signorum in de- 
clarandis temporibus utuntur. O espectáculo dos ceos, as belle- 
zas da natureza foram a origem das primeiras inspirações, como 
deviam sel-o, da idéa de Deus, e do infinito. 

Curioso por natureza o homem desejou aprender a ler nesse 
livro que o Crèador pòz diante de seus olhos, e encetou um es- 
tudo que passados tantos séculos ainda continua sem poder ter- 
minal-o, tanta é a extensão do livro, tantos e tão variados os 
mysterios que elle encerra! E todavia é a sciencia astronómica 
a mais perfeita e completa das que o homem investiga» e consti- 
tuo o melhor padrão levantado pela intelligencia humana ; uma 



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— 440 — 

aureola de gloria cerca a fronte de Hipparco, Galileu, Kepler e 
Newton que a crearam e desenvolveram. 

Não foi entre os romanos que a astronomia nasceu, ou mais 
floresceu ; a protecção que davam ás bellas artes, â eloquência, 
6 poesia, á esculptura etc. não se repartiu igualmente com as 
sciencias da natureza; o astrólogo e o astrónoma confundidos 
um com o outro foram mais vezes odiados que protegidos. É na 
tranquillidade que acompanha a paz que as sciencias costumam 
prosperar. 

Começaram os estudos astronómicos a ter alguma importân- 
cia em Roma pelo tempo de Hipparco. Hipparco de Nicpa na 
Bithynia o maior astrónomo da antiguidade, a quem Delambre 
chama o primeiro astrónomo (1), o inventor do astrolábio, da 
trigonometria espherica alem cf um grande numero de descober- 
tas importantes, foi o primeiro que, coordenando os conhecimen- 
tos, fez da astronomia uma sciencia. O impulso dado por Hip- 
parco chegou até Roma, onde se ignoravam os princípios que na 
índia, no Egypto e na Grécia eram, ou tinham sido, do domí- 
nio de todos. Sulpicio Gallo predizendo um eclipse antes da ba- 
talha de Paulo Emilio, fez o nee plu$ ultra da astronomia, diz 
um escriptor cujo nome nos esquece lastimando a pouca ou ne- 
nhuma protecção que os romanos, ainda nos seus tempos de maior 
civilisaç&o, deram a esta sciencia. 

A época em que viveu o nosso poeta (Ovidio) foi mais feliz ; 
Júlio César lido nas sciencias astronómicas e essencialmente pro- 
tector das sciencias e lettras, representa o praso mais interessante 
de Roma na historia da astronomia (2). Floresceram então Hy- 
gino, que uns dizem ser d'Alexandria, outros das Hespanhas, 
que catalogou as coostellações e que foi amigo de Ovidio. Mani- 



(1) Vide Arago, Viés des hommes illustres, Hipparque. 

(2) Vide Bailly, HUioire de Vaêtronomie moderne. 
TOM. III» 



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— 450 — 

Ho que escreveu um poema que teve as honras de ser a pri- 
meira obra astronómica que foi dada ao prelo em 1473 (1), 
Vitruvio, e Germânico César um dos traductores do poema de 
Arato. 

A reforma Juliana para a qual se reuniram em Roma os 
astrónomos mais notáveis, reforma que Sosigenes do Egypto tio 
bem preparou que satisfez as necessidades religiosas e civis até 
Gregório xm isto é durante quinze séculos, naquelle reinado se 
executou. 

Todavia as doutrinas astronómicas do tempo do poeta estio 
bem longe da verdade. 

As primeiras impressões produzidas pelo movimento dos as- 
tros na abobada celeste desde o apressado caminhar da lua que 
vemos deslocar-se a cada instante até ao vagaroso movimento 
apparente das estreitas, fizeram suppor que o universo tinha por 
centro a terra, á roda da qual giravam os astros, idéa que li- 
sonjeava o amor próprio do homem, e que parecia harmonisar-se 
com os phenomenos observados. 

Comtudo parece indubitável que os mais antigos astrónomos 
da Índia, da China, e especialmente do Egypto ensinaram que 
a terra era movei e o sol fixo. Nfio eram os factos que serviam 
de fundamento a esta opinião ; eram theorias sobre a importân- 
cia do fogo e por tanto do sol sobre os outros planetas, pois a 
observação era nada, a theoria tudo ; nfto era esta que se amol- 
dava áquella ; eram os factos que se dobravam e torciam até ser 
possível accommodal-os a bitolas já preparadas. Pythagoras e a 
sua escola, admittiram a mobilidade da terra ; Philolau, que vi- 
veu pouco mais ou menos pelo anno 398, propagou esta idéa e 
a da fixidade do sol. Arago diz que foi na leitura das doutrinas 
d'este philosopho que Copérnico recebera as primeiras idéas do 

(1) Vide Bailly, HUtoire de Vaêtrtnumie moderne. 



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— 451 — 

seu systema (1) ; segundo Bailly foi nas obras de Cicero que o 
grande astrónomo se inspirou. 

Philosophos e historiadores discutem ainda qual foi a verda- 
deira opinião de Platão sobre este assumpto ; um passo mui ob- 
scuro do Timeu falia do movimento da terra ; porem a immobili- 
dade do nosso globo foi mais sustentada por Platão, que assim 
concorreu para se estabelecer a doutrina que depois Aristóteles, 
e Ptolomeu fizeram triumphar, só depois d'uma lucta que durou 
séculos se pôde restabelecer a verdade dos factos ; tanto podem 
as theorias seductoras. 

Hoje ninguém discute se a terra se move, ou não ; seus mo- 
vimentos estão conhecidos com a perfeição que só é própria das 
mathematicas, quando o calculo tomando factos bem averigua- 
dos os combina, liga, discute e generalisa. 

Dizia Laplace (2) Quoi que la rotation de la terre soit main- 
tenant itablie avec toute la cerlitude que les sciences physiques com- 
portem, cependant une preuve directe de ce phénomène doit inte- 
ressar les geometres et les astronomes. Poucas provas directas do , 
movimento da terra tinham sido apresentadas até aos últimos 
tempos; porem ultimamente tornou-se esta questão de grande 
interesse e muitos factos se apresentaram como prova da rota- 
ção do globo ; o mais notável foi a experiência do sr. Foucault 
em 1851 conhecida desde logo dos homens de sciencia e dos 
curiosos. Quando se suspende um peso na extremidade d'um 
comprido fio, e se faz oscillar, observa-se que o plano d 9 oscilla- 
ção do pêndulo gira em torno da vertical fazendo com o meri- 
diano um angulo cada wt m9WT. A esta demonstração, a mais 
rigorosa possível, juntaram-se alguns factos dos quaes menciona- 
remos apenas os mais curiosos. Quando ae projecta um corpo 



(1) Tie de Copernic. 

(2) Vide Slements de pkysique tom. i, ap pendi x. 

29* 



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— 452 — 

verticalmente vai cahir para o lado de leste. A baila que sai da 
espingarda desvia-se para a direita do alvo. Nos grandes mares 
como o Atlântico e Pacifico ha correntes cuja direcção depende 
do movimento do globo ; assim um observador collocado ao norte 
e no meio do mar vê as aguas correndo para a direita. Os ven- 
tos geraes que tanto caracterisam os climas intertropicaes, bem 
como as correntes superiores do equador para os poios, são evi- 
dentemente produzidos pelo aquecimento do globo combinado com 
a sua rotação. Os rios no hemispherio boreal quando desembocam 
nos mares levam para a direita as perturbações que as suas aguas 
trazem. Com estas, e outras provas tem a. sciencia moderna ve- 
rificado a grande questão do movimento diário da terra. 

Em vez de repouso ha muitos movimentos ; bem longe esta- 
vam os antigos de suppor que a matéria e o movimento são in- 
separáveis e eternos. 

JOAQUIM ANTÓNIO DA SILYA. 



NOTA TRIGESSIMA PRIMEIRA 

PAGINA 121— VERSO 20 
A E8PHERA DE S YRACUSA 

As espheras armillares, e as celestes e terrestres, são d'invenç3o 
mui antiga : no artigo esphera da Encyclopedia Methodica lê-se 
que S. Clemente d 9 Alexandria assevera que os antigos sacerdo- 
tes do Egypto já d'ellas usavam. A mais notável esphera cons- 



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— 453 — 

truMa na antiguidade, é a que se attribue a Archimedes, e da 
qual faliam muito» escriptores. Glaudiano a memora nos seguin- 
tes versos: , 

«Jura poli rerumque fidem, legesque Deoruro 
Ecce Syracusius transtulit arte senex. 
Inclusus variis simulatur spiritus astris, 
Et vivum certis molibus urget opus. 
Percurrit proprium mentitus signifer annum 
Et simulata novo Cynthia mense redit. 
Jamque suum rolvens audax industria mundum 
Gaudet, et homana sidera mente regit (1). » 

A esphera construída por Archimedes dizem que era de vi- 
dro, e que apresentava em círculos que a cercavam os movimen- 
tos dos astros. 

Cest de lui qu'on a dit qifil avait fait une sphére de ver- 
re, dont les cercles suivaient avec régularité tous les mouve- 
ments du ciei (2). 

Cícero faltando d 9 Archimedes diz : « qui cum lunae, solis, que 
errantum motus in operam allegavit, effecit idem quod ille qui in 
Timaeo Platonis mundum etc. » 

Parece pois indubitável que o celebre geometra e physico de 
Syracusa, construiu uma esphera que pela perfeição de seus mo- 
vimentos foi objecto de admiração dos antigos ; um dos tradu- 
ctores de Archimedes, David Rivalt, fazendo a biographia do sá- 
bio syracusano assim se exprime : « ut totius compaginis coeles- 
tis speciem et imaginem hominibus sui saeculi exhiberet qua a 
sensibus ad intellectum facilius supremi corporis notitia transiret, 



(1) Ârchimedis operae trad. de David e Valério Máximo liv. viu, 
eap. vii (De industriae) neste só ha parte dos versos. 
(9) Encyclopeáie métkodiqne. Archimedes. 



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— 454 — 

spbaeram composuit. Et boc instrumento omnes motas coekate» 
et quidquid est in suprema mole ita affabre imita tus ent. d 

Não se deve confundir a relação geométrica que ha entre o 
cylindro e a esphera, e que constitue uma das mais importantes 
descobertas de Archimedes, com a esphera de que acabamos de 
fallar. Archimedes tinha em tanto apreço esta descoberta que 
durante a sua vida parece que por mais d'oma vez mostrou de- 
sejos de que sobre a sua sepultura se coliocasse uma esphera e 
um cylindro o que com effeito se verificou. 

Marcello, o general romano que tomou Syracusa d'assalto, re- 
conhecendo toda a intelligencia, e energia que Archimedes des- 
envolvera na defeza da sua pátria, pondo em acção o que ensi- 
navam a mechanica e a physica mais adiantada d'aquelle tempo, 
lastimou a morte do sábio e fez se levantasse sobre a sua sepul- 
tura um monumento que terminava superiormente por uma es- 
phera e um cylindro ; monumento que Cioero, sendo questor na 
Sicilia teve a felicidade de descobrir. 

Poderia á primeira vista parecer que o poeta filiava d'uma es- 
phera que se achava suspensa no ar, porem parae-nos que não 
deve ser esta a intelligencia dada ás palavras do poeta. 

Archimedes, quando se banhava, descobriu que um corpo 
mergulhado num liquido perdia parte do seu peso; estudando 
este ponto d'hydrostatica chegou a estabelecer o principio cha- 
mado d' Archimedes : um corpo mergulhado num fluido» perde 
uma parte do seu peso igual ao peso do volume de Doido que 
desloca. Por tanto para que um corpo possa estar suspenso m 
atmosphera é necessário que pese tanto como um igual volume 
d'ar ; é o que suceede a um balão d 7 ar rarefeito, ou cheio d'um 
gaz especificamente mais leve que o ar. 

A invenção dos aerostatos é muito moderna; todos os es- 
criptores que (Telia faliam são d'opinião que apesar das idéas 
apresentadas em alguns escriptos depois do século xvu, a gloria 



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— 45B — 

pertence indubitavelmente aos irmãos Moqtgolfier. Assim pode- 
mos asseverar que não era possivel haver em Syracusa uma es- 
phera suspensa ; hoje mesmo seria isso quasi impossível de ob- 
ter por isso que nos balões mais perfeitos ha uma endosmose 
atravez do tecido que os forma entrando ar e saindo o gaz conti- 
do, de modo que passadas horas quando muito, — dias, o balão sé 
contem ar e tendo o peso augmentado cahe o corpo. Assim jul- 
gamos que a. esphera de que falia Ovidio era uma esphera ar- 
millar; provavelmente nío seria a que Archi medes construiu, 
porque depois da tomada de Syracusa, é quasi certo que os ro- 
manos a enviariam para Rmm< «mo objecto curioso e impor- 
tante, mas alguma copia d'aquelle modelo. Gonsta-nos mesmo 
pefe leitura da vida d 9 Archimedes de quatro espheras siroilhii- 
tea á sua. Na esphera arraillar a terra estaria collocada no cen- 
tro e equidistante dos planetas, e estreitas ; e é talvez isso o que 
se deve deprehender das seguintes palavras : « Nota-se aU do «*- 
fimo e do summo distar igual medida a térrea moUe. 

JOAQUIM ANTÓNIO DA SILVA. 



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— 456 — 



NOTA TRIGESSIMA SEGUNDA 

t 

PAGINA 133— VERSO 14 
ASF0G0EOA8 

tia uma costumeira no mundo, que dura até hoje, e cuja ori- 
gem se perde na noite dos tempos ; coisa, ao que parece, dos pri- 
mórdios do género humano : são as fogueiras do solsticio do es- 
tio, entre nós chamadas do S. João. Qual porem a causa (Teste 
uso, na apparencia tão pouco razoável, de accender fogueiras de 
noite, não já no natal ou no solsticio de inverno, que então fo- 
ram ellas bem vindas, mas quando o sol dardeja a prumo os 
seus raios ? Custa na verdade a conceber o motivo de tão estra- 
nha e singular usança ! Porque é de noite e não de dia con- 
tra o costume das festas da antiguidade da gentilidade pagã, 
quasi, senão todas religiosas, e aonde o útil se unia com o agra- 
dável e duplicadamente se obtinha ? Os mysterios eram de noi- 
te, e as festas eram de dia, com mui raras excepções. Prende- 
ria por ventura este uso immemorial e quasi universal, com o 
culto de Vesta ou do fogo, imagem do sol ou da divindade a 
quem representa na sua acção incessante e benéfica, e, ao mes- 
mo tempo creadora e destruidora ? A çarça çrdendo no Hore- 
be, e as linguas de fogo que desceram sobre os apóstolos, que 
outra coisa mostram ser do que figuras visíveis do mysterioso 
commercio do mundo dos espíritos com o mundo dos corpos, ou 



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— 457 — 

do mundo increado com o mundo creado, se é licita a expres- 
são, com o mundo creado em tempo e visível ? Terão ellas algu- 
ma relação com este symbolo ou mytho do fogo, imagem appa- 
rèote da divindade? Parece-me que a explicação de tudo isto a 
envolve da mesma sorte a sombra da noite» que encobre a ori- 
gem do uso a que temos alludido. 

A explicação engenhosa que dá Court de Gebelin no seu 
Mundo primitivo e Tratado do génio allegorieo dos antigos ou 
das attegorias orientaes e a Historia do calendário resolve de al- 
guma forma e até certo ponto o mysterio d'este costume de 
accender fogueiras no estio, attribuindo-o ás festas do principio 
mais antigo do anno novo, que era na sua opinião d'elle no 
solsticiò do verão, e segundo a tradição mais antiga, que atlri- 
buia a esta época ou estação do anno a origem do mundo ou 
da terra ou do apparecimento do homem sobre a terra ; e d'ahi 
vinham as denominações de maio e junho ao derradeiro mez do 
anno findo, e ao primeiro do novo anno, o mais velho e o mais 
moço, maior et júnior, sendo, que ainda que esta etymologia só 
parece adaptar-se às línguas do Lacio, é provável que as raizes 
sejam communs ás línguas orientaes, ou que passavam por pri- 
mitivas. 

Sem embargo, e salvo o respeito devido ao grande investi- 
gador da antiguidade, e ao seu systema de interpretação allego- 
rica, não me satisfaz a explicação, que se parece de alguma sorte 
com a que Ovídio dá um pouco mais adiante neste mesmo li- 
vro dos Fastos 9 do costume que as damas romanas tinham de 
descalçar-se em passando junto do Fomtn ou pela via nova que 
era ao pé d'elle, em memoria do tempo em que ali houve uma 
lagoa que tinha de passar-se a pé descalço 

Et pede velato non adeunda palas, 
no qual tempo ainda por ventura não haveria o uso das alpar- 



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— 458 — 

cas, que indubitavelmente presuppõe uma idade de civilisação 
mais adiantada, do que aquella em que não havia o Fórum nem 
por consequência a cidade meio democrática, ou cujo principal 
symbolo democrático qinda então era um lago d'agua, povoado 
apenas de juncos, cannas e salgueiros. 

Dos elegantes versos de Ovidio, em que elle conta este pe- 
queno episodio, posto na boca de uma velha pela mais bella das 
prosopopeias, parece que o motivo de descalçar-se a matrona em 
observância da usança, não era outro que o de nâo haver de pas- 
sar-se a lagoa pede velato ; mas do dito passo de Ovidio se está 
mostrando pelo nome de curdo que dá ao lago que a razão do 
costume era provavelmente por ser um logar santificado por aqvelie 
heróico feito de Curcio, como o era o logar onde ardia a çarça, 
santo pela presença de Jehovah que ordenou a Moysés se des- 
calçasse porque estava num logar sagrado, o monte de deus He- 
reb. Deus disse a Moysés : « não te approximes e descalça-te por- 
que estás em logar santo, sohe calciamentum de pediam tuis: fe~ 
cus enim, in quo stas, terra saneie est. » 

Assim é, e não pode deixar de ser com as fogueiras de noi- 
te, que nesta quadra do anno se usam quasi por todo o munda, 
cuja tenacidade e quasi universalidade de usança pede uma causa 
mais alta, um motivo mais poderoso consagrado a algum mya- 
terio, do que a queima dos restolhos das paliKas ou as festas do 
principio do anno, tão sabidas de todos e usadas dos romanos e 
de outros povos, mas t?o outras e diversamente caraeterisadas 
em cantos e bailes e brindes e estreias e folias e visitas entoa 
amigos e conhecidos, como eram as festas janeiras quasi por aa- 
sim dizer do nosso tempo e principio do nosso anno, idêntico ao 
aborígene do antigo Lacio, cuja antiguidade remota demonstra a 
sua situação á beira do grande valle do Mediterrâneo, restos pro- 
váveis posto que infesados da primeira civilisação que nelle jaz 
sepultada. 



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— 459 — 

E a razão mesma está mostrando que a poderosa causal do 
inveterado e sempre constante uso das fogueiras no estio abra- 
sador e de noite, e o costume de saltaram por cima d'ellas, sem 
outras solemnidades nem festas, ou quando muito com alguqp can- 
tos e bailes em roda d'ellas, é um culto primitivo e um mysterio, 
ou uma purificação pelo fogo, e quão antigo seja, prova-o a sua 
mesma simplicidade, culto familiar, porem publico, e anterior aos 
templos, ás aras, aos sacrifícios, e ao sacerdócio, culto de Vesta 
ou do fogo, elemento o mais apreciável depois do diluvio, e o 
mais temido e respeitável como symbolo. 

Ainda então, ao que parece» se não tinha forjado o ferro ou 
se n&o sabia com elle extrahir da sílice as faiscas do lume na 
occasião necessária, ou para allumiar de noite ou para os outros 
misteres para que elle serve. A sua festa, a festa da sua inven- 
ção era a fogueira, ao mesmo tempo symbolo e sacrifício, e não 
se sabendo provavelmente guardar o lume tão necessário e de 
uso tão quotidiano, entregou-se é guarda de uma donzella sob 
graves comminaçôes para o não deixar apagar, e a quem se pro- 
hibiu o amor para estar sempre vigilante sobre o precioso depo- 
sito, cuja perda irreparável, em quanto se não soube fazer o fo- 
go, era uma calamidade para o género humano nascente. Depois 
cessando a necessidade, o que até ali o tinha sido, converteu-se 
em culto ou emblema como único templo o que mostra a ori- 
gem patriarchal. Parece que nos mysterios e festas da nossa au- 
gusta religião existe algum vestígio d'isto não só nas luzes com 
que se allumiam de dia, cuja causa não pode ser a que se lhe dá 
comummente de ser em memoria das catacumbas, e no cirio 
paschal e lúmen novum que se costuma accender no sabbado de 
alleluia. 

ANTÓNIO GIL. 



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— 460 — 



NOTA TRIGESSIMA TERCEIRA 

PAGINA 125— VERSO 90 

G6I0 08 TEMPOS JULGAM 08 TEMPOS 

l/e longe vem o costume de chamar bom ao tempo passado. 
A razão talvez seja porque só o que é grande deixa rastos, e os 
males pequenos passados nos escapam, e os presentes nos amo- 
finam. 

Todas as épocas téem vícios e virtudes predominantes. 
nosso bom tempo, que já lá vai, era achacado, dizem, á hypocri- 
sia ; o presente, que os vindoiros chamarão talvez bom, pode ser 
alcunhado do peccado contrario, o — descaramento. Qual será 
peor? O Supremo Juiz o dirá. 

D. MARIA PEREGRINA DE SOUSA.. 



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— 461 



NOTA TRIGESSIM A QUARTA 

PAGINA i3i — VERSO iS 
CAPITÓLIO 

Muitas guerras tiveram que sustentar os romanos ; e para não 
começarmos de mais longe notemos aquella tão longa em 259 
contra os volscos, isto é, estes é que faziam a guerra aos roma- 
nos, assim como igualmente a faziam os equiculos. Foi nesse 
tempo que Cincinato largou o arado para se encarregar da dieta* 
dura só em quanto foi necessário, tornando depois á vida pri- 
vada. Vem aqui ad rem o referir o que nos aconteceu num dos 
annos passados em Génova : visitando o estabelecimento dos sur- 
dos-mudos, perguntamos a um filho do marquez Pallavicini de 
Florença quem tinha sido (mais próximo aos nossos dias) um ho- 
mem, que se podia assimilhar a Cincinato. Elle não atinou á 
primeira vez, mas logo depois concordou com o pensamento, 
que nós lhe não havíamos declarado, e escreveu na pedra Was- 
hington. Graças ao abbade de 1'Epée, e ao abbade Sicard. 

Nesta mesma guerra se distinguiu C. Mareio, conquistando 
Coriola, pelo qual facto mereceu o nome de Coríolano. Muito com- 
bateram os Fabios, mas por ultimo foram mortos numa embosca- 
da. Finalmente Servilio pareceu ter terminado aquella campanha 
batendo completamente os vejentes. Depois o valente Camillo sub- 
jugou os fidenates, tomando Falena. Este não era precisamente 



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— 46i — 

o nosso assumpto, mas serviu-nos de introducçfto para elie. Com 
effeito no anno 363 começou a tremendíssima guerra contra os 
gallos, commandados por Brenno, que atravessando os Alpes veia 
á Itália. Alguns annos depois querendo Arunte vingar-se dos 
seus compatriotas, foi ter com os gallos estacionados ao pé dos 
Alpes, fazendo elogios ao paiz de Chiusi, os quaes, commandados 
por Brenno, foram assediar a cidade. Nessas circumstancias estes 
povos de Chiusi pediram auxilio aos romanos, os quaes expediram 
embaixadores a Brenno para que desistisse da sua empreza ; mas 
não querendo elle ceder, excitaram os chiusinos a aguentarem-se, 
e elles empunharam as armas, Q. Fábio, um dos embaixadores, 
na batalha, matou um dos gallos, que era nobre, o qne indi- 
gnou tanto a Brenno, que cheio de furor, marchou contra Roma. 
Vencido o exercito romano no logar em que o Allia se lança 
no Tibre, os gallos avançaram, entraram na cidade, e foram as- 
sediar o Capitólio defendido por Hanlio. Mais abaixo diremos al- 
guma coisa sobre aquelle edifício. Depois de um assedio que os 
romanos sustentaram valorosamente pelo espaço de sete meies, 
viram-se obrigados a ceder com algumas condições gravosas ; mas 
neste momento, chegando de repente a Roma o dictador Furio 
Camillo, annullou o tratado, e desafiou Brenno para entrar em 
batalha. Esta foi muito sanguinolenta, e mesmo os que fugiam, 
sendo encontrados por Camillo, foram todos passados ao fio da 
espada na via Sabina. Entretanto os gallos, estabelecidos na Itá- 
lia, pelo andar do tempo tentaram novas guerras contra os ro- 
manos, que nem sempre foram igualmente felizes. Faz honor 
aquelle feito d'armas depois de tantos sofrimentos, entrando o 
da fome, que d'abi é que vem o que fabulosamente se refere de 
Júpiter. A maior parte da mocidade romana tinba-se recolhido 
ao Capitólio, e chegando a fome ao seu auge, contam que Jú- 
piter advertindo em sonho os romanos, cercados pelos gallos, que 
fizessem pftes da farinha que lhes restava» e que os lançassem 



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— 463 — 

nos arraiaes dos gallos, e fasendo-o, o inimigo perdeu a espe- 
rança de tomar a praça pela fome, e levantou o cerco ; e d'aqui 
é que lhe veiu o nome de Júpiter Pistor, que qiíer dizer padei- 
ro. De muitos outros modos se chamou este filho de Saturno, 
como aqui poderíamos referir, mas que não o faremos para não 
sermos muito extensos. Bem sabido é o terrível ataque dos gal- 
los, quando aquelles oitenta senadores desceram do Capitólio para 
a praça contigua. Nem a sua dignidade, nem as suas cãs foram 
respeitadas, e o inimigo cahiu sobre elles como canibaes. 

Mas não faltemos ao que annunciamos ; digamos alguma coisa 
sobre o Capitólio. 

É este o nome de uma das sete collinas de Roma. Á imita* 
ção do que Numa Pompilio havia feito no Quirinal, edificando 
ali um templo, assim se fez no monte Saturnio, erígindo-se tam- 
bém ahi um templo, e mudando-se-lhe o nome de Saturnio em 
Capitolino. Este, que é um dos mais famosos de Roma, se divide 
em duas summidades, havendo entre ellas uma curta planície, 
denominada entre-montes, onde no dia d'hoje está a praça. Ao 
norte está a parte capitolina, e ao sudoeste a rocha Tarpea, e 
mais antigamente rocha de Carmenta, nome derivado da mãi de 
Evandro, que ali foi sepultada. Fazendo-se uma escavação por 
ordem de Lúcio Tarquinio Prisco, o velho, se achou uma ca- 
beça humana, que alguns dizem era jà simples caveira, e que se 
pretende ser de um homem chamado Tolo, ou Tullio, etrusco. 
Por este motivo se diz que sendo caput toli, ou íol/i, se deu 
ao monte o nome de Capitólio. Neste logar celeberrimo se reu- 
niam as autoridades, e ali se decidiam os negócios mais impor- 
tantes do estado ; d'ali se dava a lei ao mundo inteiro, e ali de- 
liberava o senado. Entre os montes se achava um asylo para re- 
fugio dos servos, com o intuito de se augmentar a população. O 
Capitólio era cercado de muros grossíssimos, de que ainda hoje 
ba restos. Erigiram-se nelle, isto é, naquelle monte, edifícios e 



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— 464 — 

templos grandiosos. O primeiro foi o de Júpiter Feretrio, que 
Rómulo pela victoria que alcançou dos ceninenses lhe dedicou. 
Este nome de Capitólio pelo decurso do tempo, se deu aos tem- 
plos, e mesmo a outros edipcios, como se Tê do que nos diz 
Gellio : Erant coloniae qpasi effigie* parva populi romani, to que 
jure habebant theatra, thermas et capitolia. Se em logar de ser 
isto apenas, uma nota, fosse uma dissertação, poder-no6*hiamos es- 
tender talvez triplicadamente, mas no caso presente seria uma in- 
congruência o emprehender uma tarefa mais longa. Apesar d'isto 
sempre diremos alguma coisa do Capitólio moderno. A cruz veiu 
substituir os tropheus do paganismo. Hoje não se abaixa a ca- 
beça a Júpiter, ajoelha-se, e saúda-se a santa cruz de Jesu Chris- 
to, pois que felizmente em logar dos Neros, e dos Caligulas, ali 
governam os successores do Príncipe dos apóstolos. Deve-se a sua 
moderna decoração a Paulo m, que se serviu para isso de Buo- 
narotti. Depois d'elle a Pio rv, e a Gregório xm. Xisto iv tinha 
posto a estatua de Marco Aurélio na praça de S. João em La- 
trão ; mas Paulo m trouxe-a para a praça do Capitólio. O mu- 
seu capitolino é estupendo, foi começado por Clemente xn, e 
continuado pelos seus successores, Benedicto xiv e Clemente 
xm. O seu estado actual deve-se a Pio vn. Vê-se no pateo a 
famosa estatua de Marforio. As satyras, tão usadas d'antes em 
Roma, se faziam por meio (Testa estatua, e da de Pasquino, que 
sç acha na praça (Teste nome, encostada ao palácio Braschi, já 
mutilada. No dia d'hoje se acha ali o senado, e os conservado- . 
res, que se podem considerar dois tribunaes distinctos. Justa- 
mente no logar em que estava edificado o templo de Júpiter ca- 
pitolino, se acha uma igreja catholica, que primeiro se chamou 
Santa Maria de Capitólio, e que agora se denomina Santa Mar 
ria (VArarCoeli. Estiveram lá os benedictinos em 1282 ; mas In- 
nocencio iv deu-a aos franciscanos, e Eugénio iv mandou para 
lá os menores observantes. Foi restaurada pelo cardeal Caraffa, 



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— 465 — 

e tendo tido alguma ruína, se reparou no principio (Teste sécu- 
lo. Deus queira se conserve para se dar culto ao Omnipotente 
em desaggravo do que ali se deu a Júpiter Pistor, a Júpiter Ca- 
pitolino, e a Júpiter Tonante, fazendo-se tão grande injuria â 
verdadeira divindade ; e concluiremos esta nota com os motivos 
que se deram para aquelle ultimo epitheto do filho de Saturno. 
Conta-se que viajando Augusto de noite em Hespanha em tem- 
po da guerra cantabrica, cahira ura raio perto da sua liteira, 
que assombrou o seu servo ; por isso, quando tornou a Roma, 
edificou dquelle magnifico templo em honra de Júpiter Tonan- 
te, o qual com o correr dos tempos foi restaurado por Septimio 
Severo, e por Caracalla, vendo-se ainda um fragmento da inscri- 
pçào bstitver... que se lé no ornato da frente que está volta- 
da para o lado do foro romano. 

MARQUEZ DE LAVRADIO. 



Em additamento á nota supra transcrevemos aqui um soneto, 
que em qualidade de pastor d' Arcádia com o nome de Falaro 
Sybalio, numa academia, que teve logar no capitólio, ha talvez 
mais de um quarto de século, recitámos em honra de S. Pedro. 
# NSo era Jove capitolino, que ali se festejava: não. Era sim ao 
vigário de Jesu Christo, ao porteiro do erapyreo, ao martyr do 
Janicolo, que nós iamos tecer um elogio, e diante de quem Ía- 
mos curvar o joelho, e inclinar a fronte. N8o tendo achado a 
integra do soneto, necessariamente o damos com algumas alte- 
rações. 



tom. ui. 30 



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— 466 — 



SONETO 



Á falsi Dei non giá, né a vani Eroi 

Di Tebe, o Sparta, o Atene, o Laxio a foggia; 
Má ai supremo Signor, e ai fidi suoi 
Oggi di mille laudi un canto poggia. 

Sá deirali dei venti ai liti Eoi 

Rapidi volan gl'inni, e ognor si sfoggia. 
L'angelico cantar e quel dé Tuoi, 
Intenti ad encomiar chi in cielo alloggia. 

Di Roma ai Protettor, a Pietro, il santo, 

Che per amor di Cristo, e dei suo gregge, 
Mártir morí, lieti cantiam le lodi. 

Viva fe, speme, amor c'impetri intanto, 
Gli vizt a debellar opposti a legge, 
Finche ciascun di noi sull'Etra il godi. 



MABQCBZ DE LI V» ADIO 



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— 467 — 



NOTA TRIGESSIMA QUINTA 

PAGINA 435 —VERSO 8 
PADARIá AHTWâ B I0MM1 

\J dia y dos Idu$ de junho (9 de junho) era de festa em Roma 
para os padeiros. Com flores enfeitavam os seus moinhos, e os 
jumentos, motores (Testes apparelhos e companheiros de fadigas 
d'aquelles operários, ornados com grinaldas, coroas de flores e 
pães enfiados em collares postos ao pescoço, eram passeados ovan- 
tes pela cidade. 

Foi Vesta a deusa ou, como hoje disséramos, padroeira dos 
pistores, (padeiros) os quaes lhe commemoravam o dia, com estas 
procissões extravagantes, que paravam a prestar adoração deante 
do altar de Júpiter Pistor : altar erigido, no Captiolio como diz 
Ovidio, por occasião do oráculo com que Júpiter salvara os ro- 
manos de um apertado cerco posto pelos gallos. 

Não era porem aquelle dia de total feriado para os pistores, 
porque a sensualidade não transigia nem com a religião. Queria 
o povo romano pão molle todas as manhãs ; era um habito, e 
preciso era satisfazer-Ih'o. 

Quem diria que, correndo depois a idade media, os senho- 
res feudaes, que fariam enxotar dos charcos as rãs importunas, 
não teriam a exigência de um pão appetitoso quotidianamente ! 
Só de dias a dias tinha o castellão o pão alvo e macio que hoje 

30* 



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— 468 — 

come logo de manha o ínfimo operário das cidades. E quem 4irt 
quanto pão duro ainda se come pelas províncias, não só nas chou- 
panas dos camponezes, mas 6 mesa de abastados lavradores! A 
falta de padeiros públicos fazia, na idade media, com que as fa- 
mílias fabricassem o seu pào, e não convinha, como não convém, 
fabrical-o diariamente para poucas pessoas. 

Com o christianismo desappareceu o idolo pagão dos padei- 
ros, mas conservou-se por muito tempo a tendência doestes para 
se reunirem debaixo da protecção de alguma divindade. Os col- 
legios e as corporações dos officios da idade media tinham os 
seus patronos, e no dia do orago dos padeiros faziam estes an- 
dar em festas e procissões fogaças e pães-cavalleiros. 

Foi também usança em a noite de natal levar o chefe de fa- 
mília para casa ás costas, ornado de folhagem verde, um gran- 
de amassador de madeira, em que tivesse sido manipulado o pão 
de todo o anno, e os bôllos para esse dia, e mettia-o por fol- 
guedo no fogo, & roda do qual estava reunida alegremente toda 
a família, e assim passavam a meia noite. Ainda se observam hoje 
festejos da meia noite do natal. 

Mas tornando 6 Roma antiga ha noticia de que no casamen- 
to de Fábio e Metella, entre outras ceremonias, e libações de vi- 
nho, leite e mel, figurou um pâo de certo cereal, chamado em 
latim far, offerecido e apresentado pela noiva. É por este pão 
de far que se ficou chamando a este casamento confarreação. 
Flamine, Dial, sacerdote de Júpiter, não podia casar-se senão 
pelo matrimonio da confarreação, que era o mais sagrado. Pa- 
rece que era o far, em vez de trigo, uma espécie de cevada oriun- 
da da Alemanha, mas que se dava também na Campania. Nos 
sacrifícios lançavam os sacerdotes sobre as victimas o far em fa- 
rinha misturada com sal ; e a etyraologia da palavra immolaç&o 
provem de mola (mó) porque aquelle cereal era moido. O appel- 
lido de Pisão derivado de pinsere, pisar, e o de Pilumnui dado 



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— 469 — 

ao inventor do pilão para pisar o trigo, significam que o povo 
romano fora essencialmente agrícola. 

Existiu em Roma numa padaria dependente da casa de Mur- 
mura um quadro pintado em uma parede, no qual se represen- 
tava um sacrifício feito a Fomax, deusa dos fornos. A esta, em 
certo dia do anno marcado pelo grã-curião, se faziam, em todas 
as cúrias, diante de um forno, os sacrifícios chamados fornacaes. 

Por debaixo d'aquelle quadro, em segundo emoldado, havia 
serpentes pintadas, symbolisando o génio do estabelecimento, as 
quaes subiam arrastnndo-se para um altar, onde estavam expos- 
tas diversas offerendas. Dois pássaros pequenos, com os bicos 
abertos, as azas estendidas e perseguindo grandes moscas, para- 
sitas alados não menos incommodos e nocivos em uma padaria 
do que em outra qualquer parte, occupavam as extremidades 
d'esta pintura bastantemente engenhosa. 

A 2 de fevereiro eram os Quirinaes ou Quirinu*, festa de 
Rómulo, porem chamava-se-lhe também festa dos fornos, porque 
quem não solemnisava os fornacaes por qualquer motivo, reme- 
diava essa falta sacrificando a Quirino. Jano, a quem só eram fei- 
tas oblações modestas ; tinha igualmente offertas da flor de fari- 
nha com sal, e de certos bollos crus, ou cosidos, tendo a forma 
de uma mão com os dedos juntos. 



Em Roma as fabricas onde era moido o trigo, feita a fari- 
nha em massa, e esta em pão, chamavam-se pistrinas. Esta pa- 
íavra antiga tinha a sua origem de pisar, porque os primeiros 
romanos ignorando a arte da moagem do trigo, torravam-no pri- 
meiro para o despirem da sua pellicula, e pisavam-no depois num 
gral para o converterem por fim em massa. 

As pistrinas tão conhecidas e regularmente organisadas no 



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— 470 — 

tempo d 9 Augusto ainda não existiam dois séculos antes. Foi só 
depois da guerra contra Perseo, no anno de 580, que Roma teve 
pistores públicos. O povo fabricava para si mesmo o seu pilo, e 
este trabalho pertencia ás mulheres. Mas os romanos ricos raau- 
davam-no preparar pelos seus cosinheiros, e não davam o nome 
de pistor senão a quem lateralmente lhe pisava o trigo. 

Houve muitas pistrinas em Roma, e, imperando Augusto 
contavam-se duzentas disseminadas por todos os bairros da ci- 
dade. Alguns dos pensionistas da Annona f que era uma insti- 
tuição para distribuir ao povo necessitado o trigo quasi de gra- 
ça, senão grátis, davam o seu grão a moer naqaelles estabele- 
cimentos, e outros só levavam o pão já manipulado para coser 
nos seus fornos. Porem, os donos de certas pistrinas também fa- 
bricavam pão por sua própria conta, e o mandavam inteiramen- 
te prompto para a venda ao Fórum Pistorium, mercado de pão 
no Aventinoy ou ás próprias casas dos cidadãos. Alguns d'estes 
avençavam-se com os pistores, e entregavam aos escravos, por 
quem lhes era mandado o pão a casa, uma quantia de dinheiro 
adiantada, suficiente para o fornecimento do pão por certo tempo. 

A casa de Murmura tinha, como disse, uma pistrwa por 
dependência, e o pistor era um liberto d'aquelle romano. Pas- 
sava-se da casa para a pistrina por um atrium tétrastylo, no cen- 
tro do qual estava um compluvium de mármore, e contiguamente 
no meio diurna vasta camará quasi quadrada, havia a alguma dis- 
tancia umas das outras, quatro pedras grossas, cylindríformes, 
muito similhantes a dois cones partidos, e juntos um sobre o 
outro pelos seus lados de menor diâmetro. 

Estas pedras porosas, ásperas e de côr cinzento-escuro, pe- 
dra pomes, pousavam sobre uma pequena base circular. Tudo 
junto tinha pouco mais ou menos a altura de um homem regu- 
lar. Eis-aqui como eram os moinhos romanos para o trigo. Cada 
moinho compunha-se de uma parte fixa e de outra giranfe. A 



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— 47Í — 

parte fixa de forma cónica chamava-se marco de moagem, meta 
moUndaria, ou por abreviação meta, em ratão da sua parecença 
com as metae, ou marcos dos circos. A meta fazia corpo fixo coro 
a base circular. A parte movei (Teste apparelho era a metade do 
cone, çhamava-se catiUus, e estava sobreposta á meta. Sobre as 
suas paredes exteriores havia uma armação forte de madeira. O 
machinismo d'esta armação servia para conservar o caulins sus- 
penso e equilibrado, para poder girar, afim de moer o trigo que 
cabia, na base circular, em farinha. De todo o machinismo, c 
processo da moagem, pode fazer idéa quem tiver visto um dos 
actuaes moinhos rústicos. 

Havia mós jumentarias e mós manuaes, quer dizer, movidas 
por bestas, ou por homens. As bestas que serviam para esse tra- 
balho eram burros, mulas e garranos. Os homens eram pobres 
que se alugavam para esse exercicio penosíssimo : tão penoso que 
os pistores condemnavam a elle os seus escravos, quando preten- 
diam punil-os das faltas que houvessem commettido; e não só 
os pistores : qualquer outro cidadão podia como pena gravíssima 
mandar um servo para os moinhos, como se vé nas comedias de 
Plauto a cada passo. Pobre Plauto ! elle mesmo lá foi dar tam- 
bém ; a mão que tanto enriquecera a litteratura pátria a puxar 
uma atafona ! as coisas do talento poético não andavam melhor 
ha dois mil annos, do que hoje. Esses infelizes deviam vigiar tam- 
bém todo o processo da moagem, e attender a que a farinha saisse 
como se desejava. O processo que se empregava para esses mo- 
tores animados e humanos fazerem girar as mós, era igual ao com 
que hoje se faz trabalhar o gado em as noras. 

Havia também em Roma azenhas toscas, taes quaes ainda 
hoje são observadas pelos campos, pertencentes a pobres agricul- 
tores. 

Era recebido em ceiras de junco o trigo que os pobres, ou 
os escravos das pessoas da classe media, levavam às pislrinas para 



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— 472 — 

ser moído. E nestas havia crivos de crinas de cavallo, peneiras 
de fios de lif\Jio de varias grossuras, amphoras e vasilhas de la- 
tão e de barro, para conterem a farinha, q agua, a massa e o 
fermento, não faltando um poço para o serviço da officioa. 

Que differença entre aquellas fabricas, as melhores do tempo 
das grandezas romanas, e as que hoje existem aperfeiçoadas ! Que 
progresso desde o tempo em que eram compostas de uma só casa 
.logea, onde os moinhos tinham por motores entes miseráveis, e 
escravos a quem se atava uma prancha larga de madeira ao pes- 
coço, para não poderem levar á boca faminta algum punhado de 
farinha, e desde a idade media que se lhe seguiu, em que a pani- 
ficação era grosseira manufactura, da cosinha particular feita pe- 
los servos da gleba e suas mulheres, até hoje que muitas pada- 
rias existem por esse mundo, com edifícios mais vastos do que 
as habitações dos cônsules romanos, ou dos senhores feudaes ! Edi- 
fícios de architectura bella, solida e apropriada, com dois, Ires, 
quatro andares, com cem janellas grandemente rasgadas, por on- 
de através d 1 amplas chapas de vidro esmerilhado entra em tor- 
rentes a luz do dia, e sai de noite por centenas de bicos a lux 
de gaz ! 

Numa fabrica d'estas trabalham pouco os homens e muito 
as ma chi nas. Garros iropellidos por vapor trazem-lhe o grão te 
portas, e d'ahi sempre a vapor sobe, desce, percorre em todas 
as direcções todos os andares, e a mechanica escolhe-o aqui, lim- 
pa-o acolá, despe-lhe a pellicula, lava-o das impurezas, tritura-o 
nas mós, separa-o em qualidades de farinha, amassa-o, tempe- 
' ra-o, tende-o, cose-o e offerece-o appetitoso ao paladar* 

Os apparelhos do progresso da industria do pão são obras 
acabadas de sciencia e arte, mathematicamente calculadas para 
serem premiadas em concursos universaes. 

Na exposição universal que teve logar em Paris em 1851* 
appareceram limpadores de grãos, onde estes passando por jogos 



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— 479 — 

de crivos e escovas saem limpos de toda a poeira, cryptogamos, 
e outros corpos estranhos ; operação fundamental para a boa pa- 
nificação. A força de. um cavollo é bastante para numa só hora 
limpar dezaseis hectolitros de trigo. Expozeram-se vários appa- 
relhos de diversos autores e systemas. Com uns, empregando~se 
a força de um homem, podem ser lavados quatrocentos hectoli- 
tros de trigo em vinte e quatro horas ; com outros podem ser 
limpos, descascados, lavados e seccos immediatamente os £rãos. 
A saúde publica lucra muito com estes processos de limpeza, e os 
grãos privados da sua epiderme dão farinhas mais alvas, que não 
perdem nada das suas qualidades quando envelhecem. Se era pre- 
ciso primeiro para a descascação do trigo molhal-o com agua onde 
se tivesse dissolvido uma porção de cal, ou de carbonato de so- 
da, hoje já se conseguem resultados perfeitos com a simples rao- 
Ihagem d'agua pura. 

Os apparelhos da moagem são compostos de pedras espe- 
ciaes, e de muitas variedades, para as diversas qualidades de 
grãos. Ha mós formadas de pedaços de pedras da rigidez de sei- 
xos. O processo de picar as pedras é hoje uma arte, baseada na 
geometria, para que os veios acertem, passando uns por cima 
dos outros, como dentes que hão do morder os grilos. Os veios 
das mós são feitos com o picão dirigido pela mão do homem ; 
porem, com mais vantagens, também são a pp] içadas ás pedras 
machinas que para aquelle fim foram inventadas, e conseguem 
melhor resultado, dispensando a intelligencia e a aptidão que 
precisa ter o operário. A operação de picar as mós com as ma- 
chinas, é feita tão brevemente que quasi não interrompe o tra- 
balho da moagem. 

Para que a fricção das pedras, quando em acção, as não 
aqueça tanto que queimem a farinha, são adaptados ás mós appa- 
relhos de aeração ou ventilação, pelos systemas de insufflação 
ou aspiração de corrente continua. A ventilação poupa as pe- 



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— 474 — 

dras, evita a evaporação alcoólica das farinhas, e por isso estas 
saem mais rijas, alvas e nutrientes. As mós com aqoelles appa- 
relhos trabalham aceleradamente sem inconveniência, produzem 
melhor farinha, e em maior quantidade por ser mais fina. Um 
par de mós pode reduzir a farinha quinze a deiaseis hectolitros 
de trigo em vinte e quatro horas, e para a moagem ser boa é 
preciso que a pedra girante dê setenta voltas por minuto. 

Pelo que respeita aos motores, em logar do trabalho dos ba- 
ços dos escravos, dos burros, das azenhas grosseiras e doa mo- 
vimentos irregulares das velas dos moinhos de vento, tem sido 
adoptadas turbinas, a que uma pequena corrente de agua dá for- 
ça para fazer trabalhar quarenta, e mais pares de mós ao mes- 
mo tempo; e são applicadas machinas a vapor, podendo ter a 
força dos cavallos que for appetecida ; já existe em França umi 
que faz trabalhar cem pares de mós simultaneamente. Isto não 
obsta a que seja detido o exercício do numero de mós que con- 
vier, sem interromper o das demais. 

De gazas de fios de seda são feitas as peneiras, e de tal ar- 
tificio que peneiram e seccam a farinha, e assim com esta se- 
gunda operação fica menos sujeita a ser ardida. O estrondo que 
faziam os peneiros primitivos tem sido reduzido a um suido qnasi 
imperceptível. 

Mas que contraste ! A par d'esta oppulencia de progresso in- 
dustrial ainda a maior parte do fabrico do pão é feito com os 
processos primitivos, e escravo da rotina, do habito, dos precon- 
ceitos, da timidez dos capitalistas, da falta de riqueza ou da sua 
má distribuição. Nas grandes cidades o progresso vai triumpban- 
do, nas pequenas é experimentado, nas povoações rústicas quasi 
não é conhecido ; e onde o progresso não entrou é fabricado o pão 
em pequenas porções, que não comportam os appareibos conve- 
nientes, e por isso sai mais caro e menos bom. 



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— 475 — 

Passamos á coqiposição dos pies. 

Segundo os mais antigos monumentos da historia egypcia foi 
junto de Niza, ou Bethsanea, no Valle do Jordão, que Isis en- 
controu o trigo e a cevada crescendo espontaneamente, cereaes 
até então desconhecidos do género humano. Deodoro da Sicília 
certifica isto mesmo. E tarnbem, conforme o Génesis, na Pales- 
tina é que foram descobertos os cereaes, e que teve origem a 
agricultura. Nos túmulos da Thebas Egypcia foi achado trigo e 
p&o, e apesar de trinta ou quarenta séculos d'existencia foi ve- 
rificado que não se tem alterado ou mudado a sua espécie. 

Quando Isis e Osíris no Egypto, e Ceres e Triptolemo na 
Grécia descobriram os processos artificiaes da cultura do trigo» 
as populações até entoo errantes em procura de uma subsistên- 
cia precária, fixaram-se no solo, e a civilisação nasceu com a 
agricultura. O trigo e a cevada propagou-se então nas zonas cli- 
matéricas que lhe são próprias. A Itália, de feracidade prodigio- 
sa, teve muitas variedades de trigo. No tempo de Varrão, a pro- 
ducção media do trigo era de cinco sementes por uma, ainda 
que elle cita que em alguns cantões privilegiados da Itália e da 
Etruria era de dez a quinze por uma. Cicero disse que em toda 
o Sicilia a producção era de cinco por. uma. 

Na época d 9 Augusto, o siligo da Campania produzia ordi- 
nariamente 4 sextarii de farinha por modius de grão, quando 
era escolhido, e 6 quando não passava por essa operação. Alem 
d'isso dava mais 1 \ modius de Dor de farinha ; 4 sextarii de 
farinha grossa e outro tanto de sêmeas; — 16 sextarii faiem 1 
modius (o modius equivale a 6,50 hectolitros) por tanto o mo- 
dius de siligo produzia 8 partes de farinha ordinária, 1 £ de 
flor, 4 de farinha grossa e 4 de sêmeas. Total 14 \. A quebra 
era o que absorvia a moagem. v 

O siligo de Piza produzia 5 sextarii de flor de farinha por 
modius, e do mais na razão do da Campania. O siligo de Clu- 



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— 476 — 

sium, e o de Aretina, produziam até 6 partes de flor. O «ligo 
da Africa rendia geralmente metade por modius, 8 sextarii de 
pollen ou farinha fina, mais 4 sextarii de farinha de segunda 
qualidade e outro tanto de sêmeas. Estas quantidades de produc- 
ção dependiam também da maneira por que o trigo era prepara- 
do para a moagem. Se o regavam com agua salgada, para obter 
farinha mais alva, rendia menos do que quando era raoido secco, 
mas dava mais algumas sêmeas. O triticum da Apúlia dava muito 
boa flor de farinha. A finura das peneiras concorria também 
muito para a alvura das farinhas. Alem das farinhas de primei- 
ra e segunda qualidade obtinham os romanos outra composta de 
sêmeas muito finas, de que faziam o pão denominado de cão. 

Diz-nos Plínio, que no seu tempo, o preço médio, prtlium 
huic annonac mediae, era da 40 ases (10 sestércio* ou 480 réis) 
por cada modius de farinha, que custava 48 ases (IS mterciot 
ou 540 réis) sendo peneirada. O pollen ou flor de farinha cos» 
tava exactamente o dobro. 

Este autor marca o peso relativo do trigo em grilo para a 
farinha, como sendo de 16 para 20, e pesando cada modius 
13 5 libras, o preço da libra de farinha commum feita em pão 
de família deve ter sido .de 45 réis, e o preço do pão de laxo 
de 90 réis. 

No tempo que decorreu de Cláudio a Tito, e que foi aquelle 
em que viveu Plinio o Antigo, o dinheiro tinha pouco mais ou 
menos o valor que tem boje em Londres. 

Os romanos começaram por comer o trigo cru ou somente 
amollecido com agua, e passaram depois a comel-o torrado. Pli- 
nio diz que é a Numa que a Itália deveu o processo da torrifi- 
cação dos cereaes, a invenção do forno, e a dos vasos para tor- 
rar os grãos. Por fim inventaram a arte da moagem, mas a pri- 
meira farinha foi comida simplesmente amassada e crua. Â pri- 
meira farinha foi feita triturando os grãos entre duas pedras, mofi- 



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— 477 — 

das 6 mão, e posteriormente numa espécie d'almofariz. Os romanos 
nos sacrifícios que faziam aos seus deuses serviam-se sempre da 
imagem da vida ou dos costumes dos tempos anteriores, e por isso 
conservaram por muito tempo nos sacrifícios a ceremonia de pisar 
cereaes nas pedras sagradas, e de os torrarem no fogo divino. 

Os soldados alimentavam-se de massa de farinha crua que 
faziam para muitos dias. 

A joeira para limpar os grãos, o processo para separar a se- 
mea da farinha foram inventados em seguida. Mais tarde, e de- 
pois de muitas experiências infelizes é que foi junto o fermento 
A massa, mas sempre crua até que o acaso ensinou que a cose- 
dura evitava que azedasse, e fazia que fosse conservada muito mais 
tempo. 

A farinha era amassada em cubas de pedra. Desde a inven- 
ção do fermento não foi comido em Roma sendo pão fermenta- 
do, e a fermentação era geralmente produzida com uma porção 
de massa desfeita em vinho doce. A farinha de milho era con- 
siderada excellente para fazer este fermento, porque podia ser 
conservada todo o anno. Faziam também, com sêmeas finas, fari- 
nha que amassavam com vinho branco novo de três dias. Forma- 
vam d 9 isto bollos pequenos, ou trochiscos que seccavam ao sol. Na 
occasião de se servirem d'elles molhavam-os com agua quente, 
juntando-lhe flor de farinha de cevada, e depois amassavam-os 
com outra qualquer. Com este processo obtinham pão excellen- 
te. Oito onças de fermento eram bastante para um modius de 
farinha. Mas não se podia preparar esta espécie de fermentos 
senão pelo tempo das vindimas. O fermento que os romanos fa- 
ziam quando não podiam obter outro era de farinha de cevada 
molhada com agua, e formada em bollos de libra, que eram co- 
sidos ou na lareira bem quente, ou num prato de barro sobre 
cinza e brazas. Logo que a massa se tornava loira tiravam-na do 
calor, e a mettiam em vasos tapados onde a deixavam azedar. 



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— 478 — 

Quando os romanos faziam pão de cevada servÍ8m-ae para o 
sen fermento de farinha de chicbaro, em proporção de 2 libra 
para 8 \ rnodius. Depois passaram a fazer o fermento da mesa» 
farinha ; salgavam a massa, cosiam-na em bollos e a entregavam 
à sua própria fermentação até que azedasse. Por fim deixaram-ae 
de a coser, e serviam-se somente da massa guardada da véspera. 
Dispunham porem a fermentação fazendo a massa com agua quen- 
te. Os romanos pensavam geralmente que qoem se sustentava de 
pão fermentado era mais vigoroso. 

Ura medico inglez, ultimamente, é de opinião de que o fer- 
mento faz perder 10 £ das propriedades nutrientes do pão, e ma 
ehimico e mechanico inventou um apparelho para fazer pio, sem 
fermento de massa. Este apparelho faz passar, e cruzar em todas 
as direcções, pela massa de que ha de ser feito o pão, corren- 
tes de acido carbónico para dividir as molleculas, e fazel-o leve- 
dar. Pode dizer-se que esta massa é fermentada com ama espé- 
cie de agua de soda, pois que outra coisa não é o acido carbó- 
nico junto * agua da amassadura. Outro medico também inglez 
sustenta que o pão fermentado desenvolve muito a gordura hu- 
mana, e estabeleceu um systema therapeutico, pelo qual privando 
os indivíduos de toda a alimentação fermentada estes perdem 3 
libras por mez de peso e adquirem rigidez de fibras. 

O pão dos romanos excedia \ ou £ o peso do trigo de que 
era feito, conforme as suas espfecies e qualidades. Goncebe-ae isto 
attendendo a que o trigo era colhido inteiramente secco. O pão 
ordinário, feito com farinha de que só extrairiam uma pouca de 
semea, tinha dobrado peso do trigo de que se compunha. 

O forno das padarias estava contiguo ao k>gar em que se 
moía o grão, assim como os amassadores, e diversas parteleiras 
para arrumar os pães em quanto levedasse a massa, e para os 
collocar depçis de cosidos. 

A forma interior do forno era um redondo perfeito de cinco 



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— 479 — 

pés, pouco mais ou menos, de diâmetro. Debaixo havia um re- 
eeptactito para brazas, e adiante uma cavidade formada numa 
loge», na qual deitavam a cinza. Á esquerda, quasi junto da 
boca do forno* um vaso pegado á alvenaria era destinado para 
receber a farinha que deitavam na pá, para evitar que a massa 
se lhe pegasse quando a entornavam. 

O uso de fornos não era geral para toda a espécie de piles. 
Alguns eram cosidos sobre o cimeiro, ou mettidos em vasos de 
metal ou de barro, cobertos e circundados de brazas. Estes pães 
eram redondos ordinariamente. 

Certas qualidades de pães tomavam o seu nome da maneira 
por que era operada a sua cosedura, e por tanto tinham o nome 
de dibani os cosidos pela maneira que deixamos explicada. Es- 
te» eram pães de côdea, muito agradáveis para comer mesmo 
sem eoaáocto. Os cosidos nos fornos eram conhecidos por /wr- 
nacei. Outros pães eram denominados pelo modo por que se fa- 
riam» assim como os spensticos, por serem feitos à pressa. Mui- 
tas tiravam o seu nome dos conductos com que eram comidos, 
por exemplo os ostrearius que eram servidos com as ostras. Á al- 
gum provinha-lhe o appellido da sua delicadeza, como os orto- 
logamêir pães bollos, na composição dos quaes entrava algum vi- 
nho, pimenta, leite e um pouco d'azeite ou gordura ; ou da sua 
forma como os pães quadrados, cobertos de pequenas gravuras, 
e temperados com endro, azeite e queijo. 

Fariam os romanos certo género de pães de que era amassada 
a farinha com ovos e leite. No tempo de Augusto foi introduzida 
em Roma, e levada do paiz dos Parthos, uma qualidade de pão 
chamado aquático, porque leve e esponjoso embebia os líquidos 
facilmente : chamava-se-lhe também partico. O melhor dos pães 
ordinários era o de siligo, e o mais procurado dos pães de luxo 
o picentirw. O fabrico d'este era o seguinte : deixavam humede- 
cer a massa durante nove dias ; no decimo estendtam-na em folhas 



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— 480 — 

delgadas e leves, e amassavam-na em seguida com o sueco de 
uvas passadas ao sol ; cosiam-na depois em vasos de barro, que 
quebravam mesmo dentro do forno. Este pão não era comido 
sendo molhado, e a maior parte das vezes em leite coro mel. 
Quando se lhe deitava por cima este liquido doce dilatava-se 
como uma esponja. À industria de fazer diversas qualidades de 
pão é hoje a mais atrazada das industrias que datam do tempo 
dos romanos. Advertiremos porem que estes chamavam pão a 
bollos, de que hoje ha grande variedade, e que nas popinae (ta- 
vernas) o pão de que se alimentava o povo, por exemplo, os ar- 
tífices e os grammaticos, era ordinário e negro, de trigo ou 
cevada, chamado pão plebeo. Nestas lojas era vendida também 
uma bebida chamada alica, feita de grãos fermentados, e orna 
comida chamada lagarta, composta de massa de flor de fari- 
nha, em forma de fatias delgadas, cosidas em um molho de pi- 
menta. 

Os ediles inspeccionavam os mercados do pão, e vigiavam 
para que o preço d'este estivesse em relação com o seu volume 
e qualidade. 

A palavra parasita significava inspector de trigo na Grçcia, 
porque esse nome era o de certos ministros dos altares, encarre- 
gados de vigiar sobre o trigo colhido nas terras affectas aos tem- 
plos. Os pães que comiam os parasitas custavam um as. 

Os escravos dos romanos ricos recebiam quasi unicamente 
para seu sustento uma ração de trigo de 5 modii por mei, ou, 
diariamente, o que lhe correspondia. 

Catão, no capitulo que trata dos alimentos da familia agrí- 
cola, calcula o sustento diário dos trabalhadores segundo as di- 
versas estações do anno em 4a K libras romanas de pão, de qoe 
a media representa 3 libras, peso de marco. 

Salustio em um fragmento de historia prova que os plebeus 
habitantes de Roma, dotados pela lei firwnmtaria, recebiam cada 



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— 481 — 

um, assim como os prisioneiros, 5 modii de trigo por mez, e que 
este sustento era apenas suficiente. Por tanto, o consumo diário 
que fazia de trigo um escravo, um prisioneiro ou um plebeu, era 
de pouco mais de 2 libras, peso de marco, e um camponez de 
3 libras. 

Como os romanos não conheceram antes da era christã nem 
os moinhos de vento, nem as pedras molendarias próprias, tão 
superiores para a moagem a todas as outras pedras, é fácil d'ex- 
plicar a differença do consumo de trigo em Roma em relação 
ao consumo actual de toda a Europa. 

Parmentier provou que, não muito distante de nós, depois 
do século de Luiz xnr, a arte da moagem recebeu tão grandes 
aperfeiçoamentos que a differença da antiga para a moderna 
moagem faz com que uma certa quantidade de trigo dé hoje 
dobrada quantidade de pães. Isto quer dizer que cada individoo 
come hoje metade do peso de trigo, mas dobrado volume de pão. 
Assim se explica facilmente a enorme desproporção entre o con- 
sumo diário de trigo que fazia um romano antigo, e o que faz um 
europeu da actualidade. À causa era toda da imperfeição da moa- 
gem e da panificação. Assim se explica o seguinte facto referido 
por Plínio, e que Boeckh indica de passagem. A farinha era 
vendida em Roma por um preço muito elevado em relação ao 
preço do trigo em grão. Outra coisa não podia ser, porque a 
imperfeição do processo da moagem, que estava na sua infância, 
devia fazer despezas consideráveis. 

Na idade media o pão foi todo grosseiro, e na Itália o pão 
alvo não era usado senão quando se convidavam estrangeiros. O 
que todos comiam ordinariamente era de farinha de trigo, mistu- 
rada com a de centeio, e em 1358 não havia ainda em Milão 
senão um forno publico em que cosiam pão alvo. Todos fabricavam 
o seu pão em casa, e de dia3 a dias, mas de rigor em vésperas 
de grandes solemnidades como natal e paschoa. Por essas occa- 
TOM. IH. 31 



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— 482 — 

siões faziam tombem grande quantidade de bollos, e doeste uso 
ainda hoje ha vestígios. 

Pouco antes da exposição universal de 1855 começou a idéa 
de desenvolver a factura do pão, e nesse concurso foram exibi- 
dos apparelhos notáveis para esse fim. 

O grande principio para a boa panificação consiste em pre- 
parar o glúten da farinha, de maneira que attinja o seu máxi- 
mo de dilatação sob a influencia da fermentação primeiro, e do 
calor depois. Obter isto, dadas as condições que são necessaria- 
mente variáveis, segundo as quantidades dos productos empre- 
gados, é a maior dificuldade. 

A simples mistura de agua e farinha reúne e faz adberir as 
molleculas de glúten, mas este não se forma em membranas elás- 
ticas senão depois de ser bem dobrado, redobrado, puchado e 
tendido regularmente. A intelligencia e a força do homem, com 
quanto seja elle que ainda pratica pela maior parte esta opera- 
ção, apesar da divisão do trabalho, não tem conseguido a per- 
feição dos resultados obtidos com os amassadores mechanicos, e 
o preconceito absurdo de que para a amassadura é preciso o ca- 
lor do braço humano, e a sua transpiração, é irrisório. Tem-tt 
feito apparelhos mechanicos que amassam trezentos kilogrammas 
de farinha em quarenta minutos. 

Os fornos aperfeiçoados pela engenharia, de que muitas pa- 
darias fazem hoje uso tem o nome de aerothermos, economisam 
muito combustível, e não derramam ou perdera calor que mo- 
leste os torneiros. É cosido neiles melhor o pão, e por isso sai 
mais sadio e augmentado era volume. 

O melhor pão da actualidade é fabricado em Paris ; e este 
pão é uma excepção para o resto do mundo ; porem, é preciso 
notar que ainda não chega á mesa do consumidor em estado de 
perfeição pelo que respeita ao aceio da soa confeição, e paga-w 
por elle mais do que vale. 



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— 483 — 

Os camponeses na maior parte do mondo ceifa» ainda a es- 
piga quasi a uma e uma, e coro cila muitas vezes lhes é pago o 
salário. Á falta de gado tem de a debulhar com o mangoal, e 
praticar depois uma serie de operações, em que outrem toma 
parte e fica cora porção do género. O que resta por fim ao tra- 
balhador para comer, à custa de despezas e fadigas, é um pão 
tão grosseiro coroo o das eras maia distantes de nós. 

Em França e Inglaterra ha quem tenha pensado recentemente 
em fabricar, para alimentação dos exércitos, um pão nutriente e 
sadio, composto de farinha e carne. Com quanto isto pereça uma 
invenção moderna data de tempos mui distantes, porque na Gré- 
cia, onde os habitantes beberam a farinha dissolvida em agua, e 
a comeram torrada sem fermento em pratos de barro, o alimento 
de que geralmente se serviam depois, era de trigo pisado e amas- 
sado com carne. 

Calculôu-se em 1855 em Paris que cem kilogrammas de 
trigo deram : 

1.° — 68 § de farinha alva que produziram 91,798 kilo- 
grammas de pão alvo. 

2.° — 6 § de farinha trigueira de que se fizeram 7,981 ki- 
logrammaa de pão. 

3.« _ 19 2 de sêmeas. 

As despezas de fabrico sobrecarregam desde séculos o preço 
do pão ; mas a juncção da moagem à padaria, em ponto gran- 
de, é o alvitre que se agita actualmente para fazer baixar o seu 
preço. D'este sjstema existem já bastantes estabelecimentos em 
diversos paizes, e mesmo em Lisboa temos os da Manutenção 
Civil, de João de Brito, de Ferreira Nunes. 



Tratemos agora dos operários da industria panifera. Em Ro- 
ma eram pela maior parte escravo» que dormiam nas cavalhari- 

31* 



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— 184 — 

ças das bestas do trabalho dos moinhos, e quando melhor num 
sótão por cima. 

Cada género de pão era feito por pistores especiaes, entre 
os quaes os siliginarios que faziam o pão de siligo tinham o pri- 
meiro logar. Cada pistor mestre de padaria, ganhava em dinhei- 
ro, reduzido a moeda vulgar hoje, 250 réis. 

Mas não havia entes mais desgraçados e para lamentar, do 
que os escravos occupados nestes estabelecimentos. Embruteci- 
dos pela fadiga e pela miséria, a natureza não os desenvolvia, e 
tomar-se-hiam antes por creanças do que por homens : tão pe- 
quenos e enfesados eram. Via-se atravez dos andrajos, que mal 
os cobriam, apparecer a pelle arroxada de pisaduras, e as cos- 
tas sulcadas de chagas feitas pelo azorrague. Alguns não tinham 
por vestidura mais do que um pedaço de farrapo, para lhes es- 
conder os quadris. A sua physionomia era horrível : as pálpebras 
inflammadas, e a vista quasi perdida pelo calor do fogo, e pelo 
fumo denso dos fornos ; os cabellos meio rapados, e a marca de 
escravos fugitivos na testa. A pallidez, produzida pelas soas an- 
gustias, era ainda augmentada pelo pó de farinha que os cobria. 
Dir-se-hia ver espectros quando se olhava para estes desgraçados 
trabalhando com as pernas peadas por pesadas correntes de fer- 
ro. Como accessorio d'estes infelizes juntava-se ás portas das pis- 
trinas uma classe de mulheres, não menos miseráveis, que ven- 
diam os seus affagos aos escravos ahi empregados ou mandados, 
por um pouco de trigo, alica, e d'ahi lhe provinha o nome de 
alicartae. Só em Roma, sentina de todos os vicios poderia a mi- 
séria degradar tanto a espécie humana. 

Existem vestígios da instituição das corporações dos officios 
desde os tempos mais remotos. A Grécia tinha as suas camara- 
darias, e em Roma houve desde o seu berço os collegios dos ar- 
tífices, a que o poder publico autorisava, ou dava existência no 
estado, e algumas vezes na ordem politica. Os artistas reunidos 



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— 485 — 

em corporações eram considerados a quarta classe do estado. São 
attribuidas a Numa essas instituições. O desejo que teve de fun- 
dir as duas nacionalidades, a dos romanos e a dos sabinos que 
se odiavam mutuamente é que o fez conceber aquella idéa de reiH 
nir por classes de officios todos os artífices sem distincçfto de na- 
ções. 

Estes collegios tinham ritos particulares, devoções especiaes, 
os seus estatutos, os seus patronos, os seus sy ndicos e a sua po- 
licia. Diversas funeções do serviço publico, como a da provisão 
dos géneros, e do serviço imperial, estavam a cargo de muitos 
de entre elles, e por isso eram indemnisados com monopólios. 

A politica dos imperadores, e as conquistas do christianismo 
foram multiplicando a classe dos cidadãos romanos, e estenden- 
do a emancipação dos escravos. Os homens de trabalho condu- 
zidos pelo clero, que era em grande parte recrutado de entre 
elles, elevavam-se na hierarchia social â medida que se abatia o 
patriciado moribundo. Na época em que o império romano des- 
abava debaixo dos esforços dos bárbaros já estava semeada no 
mundo a classe media, destinada para tão grandes coisas. A no- 
breza guerreira dos povos germânicos, e a hierarchia feudal atra- 
zou muito o seu desenvolvimento. A invasão dos barbtfros con- 
teve debaixo do jugo o trabalho, que foi o quinhão dos vencidos. 

Porem, o instincto de defeza dos indivíduos da mesma pro- 
fissão fazia associar até os povos do norte. A escravidão conti- 
nuava a perder terreno. Um vencido era ura servo, e considerado 
abaixo d'um escravo, mas nem todos os vencidos foram servos. 

Entre a confusão, e os conflictos da sociedade na idade me- 
dia, os artífices e os commerciantes reuniam-se por profissões, e 
sob a invocação da Virgem e dos santos, para se defenderem 
mutuamente das exacções e violências dos senhores, e do clero ; 
da gente da corte e da gente da guerra; ou contra a rapina 
dos indivíduos de todas as classes. 



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— 486 — 

As corporações dos officios compunham a principal ferça guer- 
reira das cidades, na época em que estas lactaram para se forma- 
rem em commimas. Mas a idéa de inferioridade e servidão, atre- 
lada ao exercido do trabalho, dominou por muito tempo, tanto 
na organisaçdo publica como nos costumes. 

Os reis e os senhores feudaes eram considerados como se- 
nhores do trabalho dos seus súbditos e vassallos. Dispunham dos 
mestrados d'artes e officios, e exerciam jurisdição sobre os oom- 
merciantes e artífices. 

Para cada um dos officios tinham os reis officiaes mores, e 
por tanto, assim como ainda hoje existe o titulo honorofico de 
trinchante mór e outros, havia então também o de padeiro mór, 
mas em exercício effectivo, com jurisdição sobre todos os pa- 
deiros, aos quaes podia taxar e justiçar. 

Contra a liberdade natural do trabalho houve de uma parte 
o poder do homem livre sobre os escravos, o do senhor sobre os 
servos, e o dos reis sobre os vassallos e súbditos, para ordena- 
rem, autorisarem ou regularem o trabalho; e de outra parte, o 
monopólio que protegia os operários proscrevendo ou suflocando 
em seu proveito toda a concorrência. 

Os direitos individuaes, por toda a parte humildes e peque- 
nos, primeiro soffiriam todas as afrontas, e mendigavam todas 
as protecções, depois adiantaram-*e, fallaram, transigiram, com- 
bateram, por fim levantaram a cervís, estipularam em seu no- 
me, cresceram, subjugaram, e fizeram-se dominadores. As cor- 
porações tiveram chefes que, similhantes a reis, se fiíeram temer 
e respeitar. 

Morto o feudalismo ficaram os reis a crear officios, e Lnii 
xiv de 1691 a 1709 creou mais de quarenta mil, que todos 
foram vendidos em proveito do thesouro publico. Chegou em 
França a não se poder effectuar compra alguma, mesmo paia 
as necessidades mais urgentes da vida, sem que se chamasse o 



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— 487 — 

juramentado que tinha comprado o privilegio exclusivo de veri- 
ficar, pesar, medir etc. Turgot deu a iniciativa para a abolição 
das corporações, e em 1791 foram supprimidas. Depois d'isto 
já tem sido regulados e limitados certos officios. 

A padaria esteve, como as outras profissões, organisada eit 
corporações. O padeiro precisava ter carta de mestre, e para a 
obter devia convenientemente, perseverar com paciência por mui- 
tos annos na posição de moço de forno, e por fim fazer uma obra 
prima, quer dizer, confeccionar, amassar com perfeição e coser 
uma determinada quantidade de farinha ; uma parte convertida 
em pães alvos e de rala, e outra em pães de leite e de fantasia, 
do feitio de roscas e outras formas, tudo conforme o regulamen- 
to do santo da invocação da confraria. Obtido o mestrado com 
grande custo de dinheiro e rendas a pagar, devia dirigir-se só 
a certos moinhos, coser em certos fornos, vender em certos bair- 
ros, e segundo a natureza do privilegio que lhe tivesse outorga- 
do o castellão, o município, o mosteiro, ou o rei. 

A revolução franceza, proclamando com a economia politica 
de Turgot o direito ao trabalho, tornou a profissão de padeiro 
livre como todas as outras. Mas tendo sido a falta de pão um 
dos elementos que mais concorreram para a revolução, Napo- 
leão, primeiro cônsul, decretou que ninguém exercesse a profis- 
são de padeiro sem licença previa do prefeito da policia. As con- 
dições d'esta licença foram a obrigação de fabricar uma deter- 
minada porção de pão por dia, e de fazer um deposito de fari- 
nha, que podesse garantir aquelle fabrico por certo tempo. Ne- 
nhum padeiro podia diminuir o numero das suas fornadas, sem 
autorisaçào do prefeito da policia, nem largar a sua profissão, 
senão seis mezes depois de ter participado a sua intenção. Todo 
o padeiro que a deixasse sem permissão, ou interdicto do chefe 
administrativo, ainda que não fosse senão momentaneamente, 
perdia o deposito que tivesse feito de farinha. Foi creado o syn- 



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— 488 — 

dicado da padaria, nomeado com a presença do prefeito da po- 
licia, composto de quatro membros tirados de vinte e quatro ou 
de quarenta e oito padeiros dos mais antigos, para servirem de 
árbitros entre a policia e os padeiros. Os pàes deviam ser das Cor- 
nas, e dos pesos determinados, e vendidos na loja ou mercado 
que lhe competisse. Era obrigativo que fossem bem confeccionados, 
convenientemente fermentados, devidamente amassados, bem co- 
sidos, bem enxutos e postos á venda ás seis ou sete horas da 
manhã. Houve prohityç&o de empregar certos trigos, farinhas, c 
processos para fazer o pfto artificialmente branco ; mas se nio ti- 
nha a alvura desejada e as qualidades requeridas era apprehendi- 
do, destruído e perseguido o padeiro. Os padeiros sujeitavam-se 
a todas estas disposições que se julgavam urgentes para a hygiene 
publica. Ainda mais : quem se dedicava òquelle officio entendia 
que ficava virtualmente sujeito á taxa do pilo, qualquer que ella 
podesse vir a ser, e que era estabelecida pelos corregedores, sem 
poder ter remissão. Isto tudo quer dizer que tinha revivido a 
idade media, com todo o seu espirito. 

O regimen de regulamentos e a taxa do pão ainda boje existe 
em França ; porem o numero dos padeiros já não é limitado se- 
nSo na Baviera, na Saxonia e na Dinamarca, quer diíer, em 
Munich, Dresde e Copenhague. Comtudo, na maior parte dos 
paizes, os padeiros tem antes de abrir os seus estabelecimentos 
de preencher formalidades e condições. Sfto simples formalidades 
na Bélgica, na Holanda, na Prússia, na Áustria, na Sicília e 
em Portugal. São ainda condições de aprendizagem, e outras 
mais onerosas, em muitas partes da Alemanha, assim como oo 
Wurtemberg, na Saxonia, em Brunswich, nas cidades de Ham- 
burgo e Lubeck, na Polónia, na Dinamarca, e na Suécia, onde, 
alem do mais é preciso para ser padeiro, ter sido admittído á 
communhSo. 

As formalidades são nullas nos Estados Sardos, na Toscana, 



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— 189 — 

na maior parte das cidades de Hespanha, e na Inglaterra. Em 
poucos paizes são os padeiros obrigados a terem reserva de tri- 
go. Na Baviera ainda está decretada, mas não se executa. Na 
Áustria ainda é observada. Renunciou-se a ella em Copenhague 
em 1845, como inútil. 

A taxa do pão está estabelecida tanto na capital, como nas 
princtpaes cidades da Bélgica, na Holanda, em Francfort, no 
Wurtemlierçj, na Saxonia excepto Dresde, na Baviera, na Áus- 
tria, na Polónia, na França. Foi extincta desde 1833 em Tu- 
rim, em Génova e nas mais cidades do Piemonte. Em Londres 
deixou de existir em 1815, e a população da Escócia expul- 
sou-a no reinado de Jorge n. Foi abolida em Lisboa em 1833. 
Em Nápoles deixou** a autoridade cahir em desuso. Na Chris- 
tiania em Norwega, só recorrem a ella em occasiões da escacez 
de cereaes, e em Majença só & taxado o pão de centeio. 

Existe na Haya uma espécie de caixa económica, formada 
com uma contribuição lançada sobre todos os padeiros, a qual 
entra na taxa do preço do pão. Com os fundos d'esta caixa São 
indemnisados os padeiros quando o preço do pão é excessivo. 

Em Mayença a cidade pode suspender ou prohibir os padei- 
ros, e em 1848 foi abi estabelecida uma padaria, por uma so- 
ciedade de beneficência, mas a cidade tomou conta d'ella e sof- 
freu perdas enormes. Em Nápoles, em caso de escacez de ce- 
reaes, o governo estabelece fornos, e faz vender o pão por pre- 
ços módicos. 

Em Barcelona, se os padeiros levantam o preço do pão, a 
autoridade obríga-os a baixal-o em proporção dos preços corren- 
tes dos mercados do trigo. Em Milão, doze padeiros estão obri- 
gados para com a municipalidade a vender sempre por um pre- 
ço menor, todas as qualidades de pão fabricado pelos outros es- 
tabelecimentos, mas tem em compensação o privilegio de fabri- 
car pães de luxo, que não são taxados, e cora os quaes se in- 



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— 490 — 

demnisam d'aquella diferença. Em Varsóvia, na occasifr da es- 
cacez de cerara, a policia compra-os e fabrica-os em pães de 
qualidades inferiores, que faz vender ás classes operarias por pre- 
ços reduzidos. Em Paris tem sido empregado muitas vezes osyste- 
ma de compra de cereaes pela municipalidade, que tem com isso 
perdido sommas immensas. Porem, ultimamente em França, as- 
sim como em Portugal, e por muitas partes, em occaaiôes de es- 
cacez de cereaes, é adoptado provisoriamente o systema inglez de 
portos francos para estes géneros, e fica livre aos commercian- 
tes e padeiros, o cuidado, pelo seu próprio interesse, de abaste- 
cer os mercados. 

Em Paris tem dado a autoridade algumas vezes, aos pobres, 
vales para comprarem o pão por preço inferior ao seu valor. Isto 
era feito também na Roma antiga. Romã, que vivia no tempo 
dos imperadores, dos trigos das províncias estrangeiras, porque 
foi sempre o seu destino viver de conquistas, soffria fomes hor- 
rorosas quando as colheitas falhavam, ou não lhe chegavam re- 
gularmente os cereaes. 

Para dar remédio a estas crises instituiu-se o prefeito da 
Annona, cargo de tal importância que até foi exercido por Pom- 
peo. Este prefeito tinha a seu cargo, conforme as circunstancias 
o requeriam, comprar cereaes, fazer depósitos d'elles, vendel-os 
com preços baratos ou dal-os. O povo pobre era alistado na An- 
nona, para receber dos seus beneficios. O numero de alistamen- 
tos chegou a ser espantoso. O imperador Augusto reduziu-o a du- 
zentos mil indivíduos, e estabeleceu por sua conta 12 frumctUa- 
ções, isto é, uma só distribuição por mez. A ração era de cinco 
roodti, os quaes a vinte e uma libras por modius faziam em me- 
dia cento e cinco libras, que produziam mais de cento e trinta 
de pão. Eram pois quatro libras e quatro onças para ração diá- 
ria, ou dezasete onças pelo menos por cabeça, sendo cada ração 
para uma família composta de três indivíduos. 



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— 491 — 

Sustentava a Ànnono a sexta parte da população, porque dava 
pão a duzentos mil, e vendia-o a um milhão e quinhentos mil ou 
um miíhão e seiscentos mil indivíduos. A fome» que promovia 
rebelliòes, assustava tanto os imperadores que, o divino Augus- 
to, numa occasião em que só havia em Roma viveres para três 
dias, tinha resolvido envenenar-se, se os navios que esperava com 
trigo n&o chegassem antes da fome ; mas chegaram, e a salva- 
ção da pátria foi attribuida á fortuna do imperador. 

Assim, os imperadores romanos tinham de dar o pão quo- 
tidiano ao povo escravo ; os senhores feudaes nos tempos poste- 
riores aos seus servos de gleba ; e hoje, que não ha nem escra- 
vos nem servos de gleba, é a liberdade commercial que provê 
os homens livres. ' 

Estas três phases da civilisação, significadas pela alimenta- 
ção dos operários, marcam o progresso da industria panifera. 
Temos primeiro o pão confeccionado pelos escravos, depois o ma- 
nipulado pelos servos, e hoje o fabricado pelo homem livre. Pri- 
meiro o pão do martyrio, depois o da amargura, por fim o do 
trabalho independente. 

Eis-aqui resumidas a biographia da padaria, e a genealogia 
do padeiro (1). 

POLYCARPO LINA. 



(1) Às asserções (Testa nota são colhidas nos principaes poetas e his- 
toriadores latinos, e nos publicistas modernos C. Dezobry, A. Jourdier, 
D. de la Malle, G. Molinari, Coquelin, Gerando, Moreau de Jonnés e 
ooftros. 



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— 492 — 



NOTA TRIGESSIMA SEXTA 



PAGINA 139- VERSO 19 

PALLADW 

llio, filho de Tros e de Callirhoe, andava construindo a cida- 
della de Ilion ou Tróia quando saindo um dia da sua tenda en- 
controu o simulacro de Minerva que do ceo ali cahira. Era umi 
estatua de um metro e quarenta centímetros de altura, tendo a 
forma de mulher na parte superior do corpo, e adelgaçaodo-se 
gradualmente na parte inferior, mas sem feitio humano, á ma- 
neira de algumas das estatuas dos nossos jardins. Tinha na ca- 
beça o capacete, na mão direita a lança um tanto inclinada, e no 
braço esquerdo o escudo cobrindo o corpo. Tal era o Paliadio. 

Guardou llio a dadiva celeste e consultou o oráculo o qual 
declarou que Minerva protegeria a cidade que possuísse aquella 
imagem e que era mister edificar um templo expressamente para 
ella. Assim se fez logo, porem esse templo construído na pró- 
pria cidadella de Tróia ardeu, sendo todavia salvo o Paliadio pe- 
las mãos de llio que de o encarar de face cegou, e só recupe- 
rou a vista depois por graça especial de Minerva. Estes successos 
diz-se terem occorrido no xiv século antes do nascimento de Jesu 
Ghristo. 

Durante a celebre guerra de Tróia, Diomedes e Ulysses sa- 
bendo que o Paliadio protegia a cidade contra os ataques dos 



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— 493 — 

gregos, tentaram apoderar-se d elle ; porem como os troianos ti- 
vessem alem do precioso original eahido do ceo outras estatuas 
em tudo similhantes á primitiva, consta que os dois astutos gre- 
gos se enganaram roubando um falso Palladio, e não o verda- 
deiro, o qual Eneas trouxe para a Itália com os outros deuses. 

Os romanos para evitarem que o Palladio fosse roubado man- 
daram fazer á imitação dos troianos varias outras estatuas simi- 
lhantes e as collocaram no templo de Vesta. O verdadeiro Pal- 
ladio foi depositado em um logar occulto conhecido unicamente 
dos sacerdotes. 

Vesta, a casta filha de Saturno e de Rhea, a irmã de Jú- 
piter, protectora do lar domestico, do fogo interno da terra e 
do próprio orbe, ficou pois guardando no seu templo a estatua 
de Minerva.' Vesta e Minerva eram as primeiras divindades en- 
tre os deuses chamados Penates, e o culto de uma e de outra 
remonta aos primeiros tempos de Roma. Numa Pompilio esta- 
beleceu quatro vestaes na cidade de Roma e este numero foi 
elevado a seis nos seguintes reinados. Estas sacerdotisas tinham 
por obrigação conservar no templo o lume sagrado que em honra 
da deusa devia arder perennemente. Faziam voto de castidade 
por todo o tempo do sacerdócio que não excedia trinta anãos e 
depois podiam casar. Se deixavam apagar o fogo, o que era para 
os romanos um signal de calamidade ímminente, eram açoitadas 
como os escravos, mas se quebravam o voto de castidade eram 
enterradas vivas. Entravam ao serviço de Vesta dos seis aos dez 
annos, usavam túnica comprida e veo, e traziam na mão um fa- 
cho ou uma candêa. Ás vestaes estava pois confiada a guarda do 
fatidico simulacro de Minerva e tão cautelosamente o esconde- 
ram que nunca mais se soube d'elle. Esta crença do Palladio foi 
por certo uma das mais vivas entre as muitas do povo romano, 
e tão universal ert a opinião de que a estatua de Minerva asse- 
gurava a defeza e protecção celeste, que ainda hoje o nome de 



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— Í94 — 

Palladio é applicado na nossa linguagem vulgar para deaigntr 
pessoas e coisas que podem amparar e proteger. Os compilado- 
res da ultima edição do Bicáonario de Moraes confundiram o 
Palladio com o Àncilio afirmando que era um escudo venaradç 
como coisa religiosa entre os romanos antigos, de cuja conser- 
vação dependia a do império, 

O Palladio não era um escudo mas uma estatua» e tanto 
este simulacro de Minerva como o broquel, também cabido do 
ceo no tempo de Numa e conhecido pelo nome de Àncilio, per- 
tencem aos reinados anteriores 6 republica e não ao império. 

O Àncilio era um broquel de feitio arredondado na parte 
superior e inferior, e semi-circular convexo dos outros dois la- 
dos. Numa Pompilio asseverava que lhe cahira do ceo; e pua 
que lh'o não podessem roubar mandou fazer ouse broqueis in- 
teiramente iguaes confiando-os á guarda e vigilância de dose sa- 
cerdotes chamado» Ànciles, celebres peias procissões que faziam 
em Roma, pelas canções antigas que cantavam mesmo sem as 
entenderem e pelas danças que executavam na festa chamada 
dos Ànciles que se fazia no mes de março. 

Os romanos tinham uma grande quantidade d'estes taUsmans 
sagrados, fundados nas tradições históricas d'esse grande povo, 
ou nascidos da natureza, permitta-se-me a expressão modernís- 
sima, descentralisadora do culto pagão. E muito notável coisa é 
que os vestígios d*essas crenças não são difficeis de encontrar em 
eras muito posteriores, apesar da mudança dos principio» reli- 
giosos, do desenvolvimento da philosophia, da liberdade da dis- 
cussão e de tudo quanto constitue o progresso e a cvviliaaçfo da 
humanidade. 

Ê certo que os capitães mais nomeados da antiguidade, al~ 
gms soberanos de não menor valia e os sacerdotes de quasi to- 
das as religiões souberam aproveitar as disposições crédulas dos 
povos para cvearem esperanças e brios, patriotismo e heroicidade, 



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— 495 — 

e até elementos de disciplina e de ordem na multidão, por meio 
d'estes invenções maravilhosas sempre de origem sobrenatural e 
divina, porem se a necessidade de taes expedientes provinha das 
circumstancias extraordinárias dos tempos, a força moral dessas 
crenças tinha por origem a propensão geral para tudo quanto é 
maravilhoso e fora do alcance da nossa immediata comprehen- 
são. É a essa disposição do espirito humano que se deve attri- 
buir a successão não interrompida de crença em acontecimentos 
milagrosos desde os tempos mais remotos até aos nossos dias. 

O século xix que assiste com seriedade e ás veies com fé és 
experiências das mesas girantes, dos espíritos que obedecem á 
voz de quem os evoca, e mesmo aos ensaios já caducos da mes* 
merismo, anterior ao soinnambulismo artificial de Puysegur, nèo 
pode mofar do Palladio de Troya nem do Àncilio de Roma. 
Apesar do decurso de trinta e dois séculos a propensão geral 
para acreditar facilmente todos os successos maravilhosos, comer* 
vou-se intacta de geração em geração. A prova d'esta fraqueza 
instmctiva do espirito humano, encontra-se a cada pagina da his- 
toria geral da humanidade. Oráculos, adivinhos, sibylias, Ibao- 
raatargos, possessos, feiticeiros, magicas, varinhas de conda©, fa- 
das e mil outras crenças, formam a successâo genealógica das ma- 
ravilhas actuaes a que nós mesmos temos vontade de prestar ho- 
menagem apesar da philosophia de cujos progressos andamos vai- 
dosos, e sem embargo do scepticismo de que nos gabamos por 
moda para occultar a fome e sede de crença que nos não des- 
ampara. A facilidade de acreditar, é a mesma que nos tempos 
primitivos ; os prodígios é que são diíferentes e accommodados á 
nossa civilisação, ás propensões do nosso espirito e até ós nossas 
paixões. 

O homem aceita com ancioso fervor a intervenção benévola 
de um poder occulto e invisível, e em todas as dificuldades da 
vida se soccorre d'elle com injusta desconfiança das próprias for- 



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— 496 — 

ças e com esquecimento ainda mais injusto do préstimo das fa- 
culdades com que o Creador o dotara em harmonia com o 6m 
da humanidade e do individuo. Fraqueza é, e grande, mas por 
maior que seja, não é menos certo que nesse ponto o espirito 
humano é subjugado pela idéa da omnipotência do Ente Supre- 
mo, cujo alto poder confessa mesmo na direcção desvairada da 
sua £é. Sem esta relação entre o Creador e a creatim, sem este 
nexo entre o visível e o invisível, e sem esta sugeição da força 
relativa á força absoluta as ficções milagrosas da infância da hu- 
manidade não teriam encontrado a facilidade de transmigração 
que as trouxe até ao século actual e que lhes abrirá a porta dos 
séculos futuros, até que pelo progressivo aperfeiçoamento da hu- 
manidade o homem possa convencer-se da sua força e de que 
ella não é nem pode ser inferior aos fins da creação. 

Quando o principio religioso conseguir despojar-se do eovo- 
lucro material de que a nossa fraqueza o tem revestido em to- 
dos os tempos, o espirito do homem terá confiança inabalável 
em si próprio, e esta crença acabando com a possibilidade de 
quaesquer ficções milagrosas, não será um acto de orgulho mas 
sim a homenagem mais completa ao poder e á sciencia do Crea- 
dor. 

Paris 6 de novembro de 1859. 

ANTÓNIO AUGUSTO TEIXEIRA DE VASCONCELL08. 



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— 197 — 



NOTA TRIGESSIMA SÉTIMA 

PAGINA 143- VERSO tO 
BBOTO CALUICO 

\Juando as águias romanas, soberbas por milhares de victorias, 
dividiam entre si o império do mundo, e, estendendo azas de 
protecção sobre as nações preiadas, lhes rasgavam o seio, tin- 
gindo com sangue o chão das conquistas, coube a Decio Junio 
Bruto, então pro-pretor romano, subjugar as terras da Hespa- 
nha, conhecidas pelos nomes de Lusitânia, e Callecia ou Galli- 
sa ; as quaes, segundo attesta o celebre geographo Strabão, ti- 
nham também a denominação commum de Lusitânia ; pois que, 
diz este autor, ella demorava pelo lado do occidente, desde o 
Tejo até ao Douro, e d'ahi se prolongava para o norte até ao 
cabo Nerio ou Céltico, boje de Finisterrae ; seguindo depois até 
ás montanhas das Astúrias, e d'ellas descendo pelo Tejo até ao 
Oceano (1). 

Nem a bellica sciencia dos já então proclamados dominado- 
res do mundo ; nem as nuvens de soldados, que do oriente des- 
ciam a combater os habitantes d'esta orla occidental, depois de 

(1) Strabio liv. v. 

TOM. III. 32 



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— 498 — 

haverem promettido aos seus deuses ganhar para a capital do 
mundo aquelle bello diadema da Europa toda ; nem o immenso 
eco de suas victorias, repetido alternadamente por uma e ou- 
tra margem do Mediterrâneo; nem tudo, em summa 9 que só 
por ser da romanos apavorava, pôde acovardar aquelles povos 
desconhecedores das grandezas e civilisações do império, mas pre- 
zadores estrénuos da sua liberdade. 

Entrincheirados nas mais alcantiladas serras do seu paiz 9 
nesses reparos offerecidos pela natureza á defensão do solo e da 
família, mais de uma vez Bzeram os lusitanos levar ao Tybre a 
noticia de uma derrota ; mas nem por muito se esconder, nem 
por bravamente pelejar logra a pomba fugir ao abutre que do 
alto a cobiça : Decio Junio Bruto venceu a 6nal aquelles povos 
jà tão celebres por sua tenaz resistência ! 

Foi nas montanhas próximas a Braga, talvez nas do Gerei, 
que dizem haver sido sobremodo encarniçada a guerra da de- 
fesa, e assim parece deveu de ser, pois que, porque os povos 
d'aquelle togar se chamavam callaicos ou gallegos, como hoje se 
diria, quiz Decio Junio Bruto tomar para si, como brazão di- 
gníssimo, e despojo que se lhe antolhava immorredoiro, o cogno- 
me de Callaico ou Gallego. Tal fora a valentia empregada pelos 
lusitanos gallegos (como o citado Strabão lhes chama) em de- 
fenderem sua pátria, que o chefe romano, já nomeado pro-con- 
sul, e depois de ter vencido trinta cidades équem do Douro, e 
muitas outras terras da Hespanha, estremou d'entre todos aquelle 
povo, como o que este general mais se gloriava de ter subjuga- 
do. Dir-se-hia esta honra mais do vencido que do vencedor, e 
tanto ella avultava que não só o capitão romano, mas também 
os povos circumvisinhos, e em honra sua, se foram chamando 
gallegos do que provem ser boje este nome extensivo a tamanho 
reino. 

Prova do que diz Ovidio, se d'ellas houvesse mister seu di- 



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— 4D9 — 

íer, seria a seguinte inscripçSo, que vem nas taboas capitofi- 
nas (1): 

• D. JUNIUS. M. F. tf. N. BRUTUS. 

CALLAICU8. ANHO. D.C.X.V.I.I. 

PBO. COS. DB. 

LUS1TANBI9. ET. CALLAICB19 

BX HISPÂNIA. 

ULTEBIOBB. 

O que traduzido' quer dizer: Decio Junio Bruto gallego, filho 
de Marco e neto de Marco Bruto, no anno 617 (da fundação 
de Roma) tendo pro-consul tenceu os lusitanos e gallegos na Hes- 
panha ulterior. 

Duas reflexões mui dignas ambas de reparo me suggere o 
appellido adoptado por Decio Junio Bruto. Uma, o quanto va- 
lia para os romanos a crescensa d\im nome, e como este uso se 
adulterou com os tempos ; outra, a injustiça com que da pala* 
vra gallego se tem feito quasi o synonimo de homem vil e es- 
tulto, notoriamente entre nós, os descendentes d'esses tão dignos 
defensores da pátria. 

Os romanos, segundo era seu nascimento e estado* assim usa- 
vam de dois* três, ou quatro nomes ; sendo o ultimo quasi sem* 
pre um signa! de muita distincç&o, como se deu com Decio Ju- 
nio Bruto, que tomou o cognome, ou, como também se dizia 
nestes casos, o agnome de Gallego, em razão de ter vencido tto 
poderoso e temivel inimigo, qual era o povo assim chamado. £ 
aquelle simples adjectivo, aquelle acrescentamento ao nome da 
família, aquelle epitheto de Gallego, junto ao titulo de pro-con- 
sul romano, e saudado pela grita infrene do povo rei, no meio 
dos regozijos e festas triumphaes, ordenados pelo senado* eram 

(1) Garcia de Rezende, ÂnHg. liv. ih. 

32* 



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— 500 — 

o que em nossos tempos se traduz pelos titulos de duque de 
Malakoff ou de Magenta, com a única differença, porem, não 
direi se grande ou pequena, de que então eram os veteranos en- 
canecidos na guerra, era o povo dos circos, era Roma com tudo 
que havia de roais soberbo, e, a final, era uma pagina gravada 
nas taboas do Capitólio, que assim confirmavam aquelle baptis- 
mo voluntário do individuo victoriado, e recommendavam ao 
mundo inteiro o conquistador da Lusitânia como digno do nome 
de Gallego! Hoje é a cortezania dos paços, s&o as damas das 
salas, e é um pergaminho imperial com o titulo de duque, que 
festejam os modernos Pélissiers! (1) 

Quanto á segunda parte de meu reparo qu8o longe iria elie 
se não deixasse ao senso intimo de cada um o reflectir na fla- 
grante injustiça com que alcunhamos gallego* os homens, que 
têem, quasi sempre, por único crime o viver laborioso! Em um 
e outro hemispherio, onde se falia a língua de portugueses, e 
principalmente no Brazil, gallego já quasi não quer significar o 
filho da Galliza, pois a este se chama antes hespanhol, mas sim 
o portuguez ou gallego propriamente dito, que por seu trabalho e 
industria mais contribue para adoçar os enfados do rico ocioso !... 

Se não fosse a intenção nada teria de injuriosa a palavra, 
por quanto desde o Douro para o norte até ao cabo de Finis- 
terrae, como vimos, gallegos foram todos, e de gallegos se pre- 
gavam, não só os bracaraugustanos, ou filhos de Bracara Augus- 
ta, hoje Braga, mas até mesmo um general romano, o qual teve 
pelo melhor brazão, appellido tão illustre. 

A civilisação, operadora dos grandes milagres da fraternisa- 
ção, ha de um dia tolher a lingua aos maldizentes, a esses que 



(1) Os romanos davam o titulo, ou antes a graduação de duque (dai) 
ao capitão que levava os homens á guerra ; por isso lhe julgo uma accep. 
ção di Aferente da dos nossos tempos. 



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— 501 — 

téem por liberdade o isolamento, e fazer que se corrija uma falta, 
que, se nem sempre significa má intenção da parte do que a com- 
mette, é todavia um indesculpável anachronimo no século que 
decorre, e impróprio a povos que marcham no caminho do pro- 
gresso. 

Decio Junio Bruto Gallego fez do £eu appellido uma gloria ; 
mas u qualidade de romano por coisa nenhuma elle a houvera 
trocado. Sejamos nós também assim, pois quando se nasce por- 
tuguez ou gallego nem francez gostamos que nos chamem. 

VALENTIM JOSÉ DA SILVEIRA LOPES. 



NOTA TRIGESSIMA OITAVA 

PAGINA 159- VERSO 22 
WCEBTKXA DAS BALAIÇAS DO IUHD0 
Sao nobres, sio reaes os crimes grandes 

É bello este verso na minha fraca opinião ; e nos diz que de 
longe vem a má sina de se olharem como homens grandes os gran- 
des criminosos. 

Despreza-se o ente obscuro que furta um lenço, e se corteja 
o industrioso que pelas tralhas ou pelas malhas se apodera de ri- 
quezas alhéas ; aborrece-se o salteador que tira a bolsa e a vida 



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— 502 — 

a alguns viandantes, e admira-se o conquistador, que á custa de 
mar de sangue e de rios de lagrimas "subjuga reinos estranhos. 

Dizia contudo o nosso Gonzaga que a verdadeira grandeza 
consiste em viver justo. Os bons poetas (ou poetas bons) os de- 
votos sinceros, os ignorantes simples, e os sábios privilegiados fo- 
ram sempre da opinião do nosso bom cantor lyrico. 

Os lábios de uma parricida podiam dizer : 

São nobres, são reaes os crimes grandes. 

Mas a gente que odeia o mal deve achar tanto mais infame, 
quanto maior for, a maldade. E assim o julgará o próprio crimi- 
noso quando chegar aquella hora de que disse o grande Victor 
Hugo: 

Qoand le vrai tout-a-coup parait, quand la vie òte 
Son masque, et dit: « Je sois la mort. » 

D. MARIA PEREGRINA DE SOUSA. 



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508 — 



NOTA TRIGESSIMA NONA 

PAGINA 167- VERSO 5 
MUSICA 

densorino, depois de haver tratado das relações numéricas mys- 
teriosas, que tanto deram que fazer aos philosophos da antigui- 
dade, e de applicar aquellas cabalísticas theorias ás relações que 
julgava descobrir entre três determinadas épocas da gestação do 
feto humano, e as três consonancias musicaes de quarta, quin- 
ta, e oitava, passando em seguida ao elogio da musica, dá-nos a 
conhecer quaes eram as funcçôes, o modo de vida, e os privilé- 
gios dos flautistas, e que entre esses privilégios, se còmprehendia 
este de andarem vagueando pela cidade, vestidos como quizessem, 
mascarados e ébrios, nestas festas de Minerva (1). Duas eram as 

(1) Nec vero incredibile est, ad nostros natales musicam pertinere; 
haecenim, sive in vôce tantummodo est, Sócrates ait, sive, ut Aristoxe- 
nes, in você et corporis motu ; sive in his, et praeterea in animi motu, 
ut putat Theopbrastus : certe multumobtinet divinitatis, et animispro- 
movendis plurimum valet. Nam, nisi grata esset immortalibus diis, qui 
constant ex anima divina, profecto ludi scenici, pia candor um deorum cau- 
sa instituti non essent : nec tibicen omnibus supplicationibus, in sacris 
aedibus adhiberetur non cum tibicine triumphus ageretur : non Appolini 
cithara, non Musis tibiae, caeteraqueid genus essent adtributa ; non tibi- 
cinibus, per quos numina placantur, esset permissum, aut ludos públicos 
facete ac vesciin Capitólio, aut Quinquatribus minusculis, idest,idibus 
juniis, urbemvestUu quo vellent, personatis temulentisque pervagari. Cen- 
surinus, DeDie Natali, cap. xn. Delaudibus musicae, ejusque virtute. 



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— 504 — 

• 

festas (Testa deusa, chamadas Quinquatrias, as grandes, que come- 
çavam em 19 de março, e duravam cinco dias, e as pequenas, 
que são estas de que falia Ovidio, que se celebravam em 13 de 
junho, e só duravam um dia. 

Frequente e havido em honra era o frauteiro 
nas eras que lá vlo 

Não sabemos que fundamento teve o poeta para dizer que os 
flautistas (muitas vezes nome genérico de músicos), fossem em 
tempo algum considerados* ou honrados em Roma. Não faltam 
pelo contrario documentos para provar que os músicos sempre 
ali foram tratados com desprezo, posto que algumas vezes remu- 
nerados generosamente ; porem a recompensa pecuniária pode en- 
riquecer, mas não honrar. 

Accresccu que um Edil fixou por termo 
aos saimentos fúnebres dez músicos. 

A limitação do numero dos flautistas' já tinha sido prescrípta, 
juntamente com outras restrições sumptuárias, para pôr cobro ás 
demasias do luxo dos funeraes, na x. a das xn taboas da lei, 
compiladas e decretadas pelo governo dos Duumtnrt, no anno 
de Roma (u. c.) 302 (1). Tinham porem cabido em desuso es- 
tas prescripções, e em 441, durante a censura de Ap. Cláudio, 
e C. Plantio, que Tito Livio distingue com o epitheto de illus- 
tre (clara), estes magistrados, persuadidos de que tinham sido os 
músicos que haviam introduzido e propagado em Roma o gosto 
immoderado dos prazeres, a mollicie e a relaxação dos oostu- 



(1) Eianimatum corpus quando componitur domi, et foras effertar, 
non plus, quam três mulieres, reciniis capite operto, lugere, ipsum ca- 
dáver purpuriis fasciis involvere, et deccm tibicinibus summum ire eas- 
quias, jus esto. 



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— 505 — 

mes, trataram de os reprimir, e com esse intuito, prohibiram- 
Ihes o uso em que estavam de banquetear no templo de Júpi- 
ter, e Ap. Cláudio, sendo logo depois edil, ajuntou a esta de- 
feza a renovação das determinações da lei antiga. Os músicos, 
irritados de se verem assim esbulhados do direito de cantar e 
de viver lautamente (cantendi apulandique jus), abalaram todos 
juntos da cidade, e foram refugiar-se em Tibur. Tito Livio e Va- 
lério Máximo referem este acontecimento, e o regresso dos mú- 
sicos a Roma, de um modo differente, e o primeiro, caracteri- 
sando o facto de coisa em si insignificante, declara que não fa- 
ria menção d'elle, a não ser a sua connexão com a religião (1). 
Valério Máximo também merece ser citado, porque a sua nar- 
ração confirma a impressão que causou geralmente em Roma a 
deserção de todos os músicos em massa, e a angustia em que 
ficou o senado vendo assim por aquelle facto interrompida a ce- 
lebração dos sacrifícios e de todas as ceremonias religiosas, de 



(1) Ejusdem anni (u. c. 443) rem dictu parvam prae te rirem, ni ad 
religionem visa essetpertinere. Tibicines, quia prohibiti á proximis cen- 
soribus erant in aede Jovis vesci, quod traditum antiquitus erat, aegre 
passi, Tibur uno agmine abierunt: adeo ut nemo in urbe esset, qui sa- 
crificais praecíneret. Ejus rei religio tenuit senatum ; lega tosque Tibur 
miserunt, ut darent operam, ut bi homines romanis restituerentur. Ti- 
burtini, benigne polliciti, primum adccitos eos in curiam hortati sunt, 
uti reverterentur Romam: postquam perpelli nequibant, consilio, baud 
abhorrenteabingeniis nominum,eos adgrediuntur. Die festo alii aliosper 
speciem celebrandarum cantu epularum causa invitant, et vino,cujusavi- 
dum ferme genus cst f oneràtos sopiunt; atqueita in plaustra somno vin- 
dos conjiciufft, ac Romam deportant ; nec prius sensere, quam plaustris 
in foro relictis, plenos crapulae eos lux opressisset. Tunc concursus populi 
factus, impetratoque, utmanerent, datum, ut triduum quotannis ornati, 
com cantu atque hac, quae nunc solennis est, licentia per urbem va- 
garentur; restitutumque in aede vescendi jus iis, qui sacris praecine- 
rent. Tit. Liv. lib. ix, cap. xxx. 



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— 506 — 

que os músicos eram parte integrante e indispensável (í). Foi 
por isso que o senado mandou uma embaixada a Tibur, a qual 
nada conseguiu da pertinácia dos músicos, sendo necessário para 
os trazer á cidade empregar um estratagema apropriado para 
aquella qualidade de gente, consilio haud abhorrenU ab mgcnut 
hominum, como diz Tito Livio, que consistiu em lhes dar lauta 
mesa, e os embriagar com bons vinhos, conduándo-oa depois 
como mortos para o Foram, em um carro, onde somente deram 
por si com o romper da aurora. Não consentiram elies todavia 
Gear em Roma sem lhes serem restituídos e ampliados os seus 
privilégios. Observa Tito Livio (1. c.) que isto se passava durante 
os preparativos de duas grandes guerras; o que bem prova a 
importância que se dera a este negocio religioso. 

Em pena da sacrílega arrogância 

o deus o pendurou, despi u-lhe a pelle. 

Este infeliz satjro foi Marsyas, celebre tocador de flauta de Ce- 
lenes na Phrygia, de cujas lagrimas e sangue se formou o rio 
conhecido pelo seu nome. 

Diremos agora alguma coisa a respeito da jnusies dos roma- 
nos, e da musica antiga, limitando-nos a breves e incompletas 
noções, únicas a que o espaço e a mingua de conhecimentos nos 
autorisa. 

(1) Tibicinum quoque collegium solet in foro vulgi óculos in secon- 
vertere, quum inter publicas privatasque ferias, actiones personis tecto 
capite variaque veste velatis, concentusque edidit. Inde tracta licentia. 
Quondam vetiti in taede Jovis, quod prisco more factílaverant, yesei, Ti- 
bur irati se contulerunt. Quorum ministério senatus deserta sacra aon 
aequo animo ferens, per legatos a Tiburtibus petiit, ut eos gratia sva 
romanis templis restituerent ; quos illi in propósito perseverantes, in- 
terposita festae epulationis simula tione, merosomnoque sopHos, plaustris 
in urbem devehendos curaverunt; quibus et nonos pristinus restituUis, 
et bujusce lusus jus est datum. Vai. Max. lib. u, cap. i. 



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— 507 — 

Dos etruseos receberam os romanos os primeiros rudimentos 
da architoctura, das artes, e especialmente da musica e da mí- 
mica. Durante a peste que assolou Roma no anno 390 u. cl, os 
romanos, para applacar a cholera celeste, celebraram, pela ter- 
ceira vez depois da fundaçèo da cidade, um ketUternium, ou ban- 
quete dos deuses. Por esta occasião se compoxeram novos hym- 
nos, que o povo, afeito só aos espectáculos do circo celebrados 
pela primeira vez por Rómulo para festejar o roubo das sabi- 
nas, escutou com interesse ; e a mocidade, sempre atreita à fol- 
gança (jocobunda) ajuntou a estas poesias, gesticulações grossei- 
ras, e danças rústicas. Como porem a peste continuasse, manda- 
ram-se vir da Etruría alguns brçantes (ludiones) os quaes, sem 
versos nem tregeitos, executaram danças, balançando-se gracio- 
samente ao som da flauta. Esta novidade agradou muito aos ro- 
manos ; e como na lingua toscana o nome de farçante era his- 
ter, d'ahi veiu chamarem-se depois histriões os actores indíge- 
nas, os quaes abandonaram as antigas toscas farças, improvisa- 
das sem arte, e começaram a representar d'ali em diante sai;-» 
ras harmoniosas, acompanhadas de canto, regulado pelas modu- 
lações da flauta, com o accionado apropriado. Tal foi a origem 
da comedia entre os romanos (1). 

No tempo de Sérvio Tollio parece que não havia ainda em 
Roma outros músicos alem dos corneteiros e trombeteiros, únicos 
mencionados no recenseamento, creado e mandado executar por 
aquelle príncipe no anno 197 de Roma, os quaes formavam dnas 
centúrias da quinta e ultima classe dos cidadãos, a mais nume- 
rosa de todas, a que era aggregada uma centúria do resto do vul- 
go, exempte do serviço militar. D'aqui resulta que, ou nSo eram 
então ainda conhecidos em Roma senão aqoelles instrumentos bel- 



(1) Tito Livio, lib. vii, cap. ii, e Valério Máximo lib. n, cap. it, 
S tw e seg. 



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— 508 — 

licos, ou que se havia outros, não mereciam sequer os seus tan- 
gedores de ser mencionados no registro censual, que assim os 
igualava aos escravos, que também nelle não figuravam (1). Hou- 
ve depois um grande numero de instrumentos chamados flautas 
(tibiae) que formavam um género, composto de muitas espécies 
ou variedades. Notaremos de passagem que alguns etymologistas 
pretendem derivar de tibia (flauta) o nome da canella da perna ; 
o que tenderia a fazer crer que já havia flautas antes de haver 
canellas, opinião que me parece algum tanto arrevezada. Nesta 
não cahiu o nosso curioso etymologista Constâncio, que derivou 
o termo anatómico de tibia, de tios, que no idioma egypcio si- 
gnificaria calcanhar! Voltando ao nosso assumpto, diremos que 
Plinio (2), tratando das invenções e dos inventores, menciona 
quatro espécies de flautas : a charamella (fistula), a flauta sim- 
ples (monauhm), a flauta obliqua (tibia obliqua), e as flautas 
duplas (geminas tíbias) ; e Terêncio, nos títulos das suas come- 
dias, falia das flautas iguaes dextras e sinistras (moios lecit Flat- 
cus Claudii (filius) tibiis paribus dextris et sinistris), de flautas 
desiguaes (tibiae impares), e de flautas serranas ou tyrianas. As 
qualificações de tibiae pares, tibiae impares, tibiae dextras et *t- 
nistrae, referiam-se sem duvida ás flautas duplas, com uma só pa- 
lheta ou embocadura commum, ou com duas separadas, mas que 
se podiam embocar ao mesmo tempo, sendo as duas flautas iguaes, 
ou differentes uma da outra em diâmetro, ou em comprimento, 
e ficando necessariamente uma cTellas á direita, e a outra á es- 
querda. A flauta obliqua era similhante á nossa flauta travessa e 
Plínio diz ter ella sido inventada por Midas da Pbrygia, entre- 
tanto que os egypcios attribuem a sua invenção ao seu rei Osí- 
ris (3). A flauta, simples a principio, e limitada a três oo 

(1) Vide Tito Lívio, lib. i, cap. iuii. 

(2) HUt. nat. Hb. ni, cap. tvii. 

(3) Vide Atheneu pag. 184 mihi. 



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— 509 — 

quatro notas, já no tempo de Horácio rivalisava com a trom- 
beta (1). 

Os instrumentos de cordas foram usados mais tarde, e a pri- 
meira menção que encontrámos do nome genérico de tocador 
d*elles (fidicen); foi em Valério Máximo, e Tito Livio (2). Va- 
lério Máximo conta que C. Duilio, que foi o primeiro que al- 
cançou uma victoria naval dos carthaginezes, e que por ella trium- 
pèou, sempre que depois de jantar se recolhia para casa, costu- 
mara ir acompanhado de um homem com uma tocha accesa» e 
precedido de um flautista e de um guitarrista (praceunte tibicine 
et fidicine), e Tito Livio, que nos indica a data da celebração 
d'este triumpho (493 de Roma) acrescenta que os cidadãos ti- 
nham tolerado (ttUitque cimtas) que C. Duilio, não satisfeito com 
esta honra (honare isto non contentus) se arrogasse aquelou- 
tra sem exemplo, de triumphar todos os dias ! Tito Livio nesta 
critica, inspirado pelo instincto previdente e prophetico, presen- 
tia no futuro o deplorava! e funesto resultado do abuso das distinc- 
ç8es honorificas. £ com effeito o triumpho diário de G. Duilio, 
foi o preludio dos triumphos do baixo império, que deram cabo 
da significação e do valor d'aquellas honrarias ; como o esbanjar 
que por ahi vai de títulos e ordens, depreciando cada vez mais 
esta preciosa recompensa moral ameaça de a reduzir brevemen- 
te a senir mais de vergonha que de ufania. 

Mr. Fetis (3) é de opinião que os instrumentos de cordas 
rectas são originários do occidente, e os de cordas obliquas do 
oriente ; e Juvenal parece corroborar esta opinião nos versos da 
sua satyra terceira : 

(4) Tibia non ui nunc orichalcho vincta, tubaeque 
Aemula, sed tenuis simplesque foramine pauco. 

Hor. Da arte poética, vers. 203. 

(2) Vai. Max. lib. hi, cap. ti, $ iv. Tit. Liv. lib. xvii, cap. mi. 

(3) Résumé philotopkique de VMstoire de la musique, pag. 64. 



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— 510 — 

Jam pridem Syrus in Tiberím de flaxit Orontes, 
Et linguam et mores, et com tibicine chordas 
Obliquas, nec non gentilia tympana secam 
Vexit. 

Os gregos porem, sempre vaidosos, nunca reconheceram (in- 
justamente como depois mostraremos) estas origens orientaes, e 
attribuiram todas estas invenções aos seus deuses 6 aos seus be- 
roes. Por muito tempo resistiram elles, com bee rarto, ao au- 
gmento de cordas na lyra, e ao emprego na sua musica dos 
instrumentos de muitas cordas e de grande extensão de notas, 
que lhes vieram do oriente, sobretudo depois daa guerras de Ale- 
xandre. Os romanos também nôo usaram d'estes instrumentos 
senão depois das guerras d 9 Ásia, qúe começaram no anno da fun- 
dação da cidade 862 (1). 

Os romanos nunca tiveram musica propriamente sua. Povo 
essencialmente guerreiro e conquistador, as suas idéas nSo pro- 
pendiam para a cultura das artes que só florescem à sombra 
da paz e da tranquillidade. A sua riqueza porem, e o luxo que 
com ella nasce e se desenvolve, bem depressa despertaram o appe- 
tite e a necessidade dos divertimentos e passatempos seosuaes, e 
a musica nôo podia deixar de ser um d'ellesi Abandonaram to- 
davia os romanos a cultura e o exercício d'esta arte aos gregos 
que sempre a prezaram, que a consideravam como o primeiro e 
mais essencial elemento da educação, próprio para desbravar e 
amenisar a rudeza natural do homem, e habilitado para a vida 
publica e social, e que tinham formado uma escola particular 
sua da musica. Foi por tanto a musica dos romanos essencial- 
mente grega; gregos eram os músicos theoricos e práticos, e 



(1) Luxuriae erfm peregrinae origo ab exercitu asiático infecta in 

urbe» est tunc psaltriae, sambustriaeqae, et convmlia ladionmn, 

oblectamenta addita epulis. Tit. Liv. Iib. xxxix, cap. Vi. 



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— 511 — 

mesmo os fabricantes de instrumentos em Roma. Todas as obras 
de musica que escaparam ás devastações dos bárbaros e is eru- 
pções do Vesúvio, e mesmo as que foram escríptas já na era 
christã, eram em grego, e segundo os princípios da musica gre- 
ga (1). Esta musica porem também não era inteiramente origi- 
nal, e levando mais longe as pesquisas, não pode deixar de se 
reconhecer que a musica, grande parte dos instrumentos musi~ 
coes, bem como os primeiros elementos das outras artes, das 
«ciências, e da ávilisação, nos vieram do oriente, berço do gé- 
nero humano. Quanto á musica especialmente, as antiguidades 
do Egypto nos d&o a conhecer naquelle paiz a existência de um 
systema instrumental numeroso, rico e variado; entretanto que 
os monumentos da Grécia nos offerecem apenas pobres lyras de 
seis ou sete • cordas, sem braço nem pontos para variar as entoa- 
ções, e flautas tão imperfeitas que era necessário mudar de ins- 
trumento para passar de um a outro tom. Tudo para nós raiou 
do oriente, como d'ali raia sempre o sol, emblema da luz e da 
claridade. Praza ao ceo que a repercussão do extremo occidente 
nos não venha de envolta com as trevas e a confusão. 

Com a multiplicação dos instrumentos de cordas, maior ex- 
tensão das notas da escala, e augmento excessivo do instrumen- 
tal, viram-se os cantores obrigados a violentar a voz para se fa- 
zerem ouvir por cima de tão formidável acompanhamento, isto é 
a berrar em vez de cantar ! Nihil sub sole novum. Outro tanto 
acontece agora pelo mesmo motivo; e assim degenerou, então 
como agora, a musica, estragando e depravando o gosto de ma- 
neira tal, que os ouvintes applaudem com frenético enthusiasmo 
os berreiros mais descompassados ! Os romanos nunca conhece- 
ram a musica dos prodígios, que também desappareceu da Gre- 



(1) Vide Antiquas Musicas Auctorss SepUm, graece et latine Marcus 
Metbomkts restitui* et notis explicavit, Amstelodami 1652. 



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— Slí- 
eía com este progresso, ou mais exactamente eom esta deplora* 
vel transformação da arte. Platão data tanta importância à mu- 
sica que julgava que toda a alteração ou mudança neHa impor- 
tava uma revolução no estado ; porem Cícero, não obstante o elo- 
gio que a musica lhe merece, já nfio sentia com a mesma força 
os temores do grande philosopho grego (1). Em outro logar Cí- 
cero, observando o pernicioso effeito do mào exemplo dos gran- 
des sobre os costumes do povo, reputa as suas reflexões a este 
respeito mais bem fundadas que as de Platão (2). Jà se vê que 

(1) Assentior enim Platoni, nifail tamfacile in ânimos teneros atçue 
molles influere, quam vários canendi sonos : quorum dici vix potestqoaja- 
ta sit vis in utramque partem. Namque etincitat languentes, et langue- 
facit excitatos, et tum remktit ânimos, tum contrahit ; civitatumque hoc 
multarum in Graecia interfuit, antiquum vocum servare modum: qua- 
rnm mores lapsi ad mollitiem, pariter sunt immutati cum cantibus; 
aut hacdulcedinecorruptelaque depravati, ul quidam putant ; aut, quam 
severitas eorum ob alia vi tia cecidisset, tum fuit in auribus animisque 
mu ta tis etiam huic mutationi locus. Quamobrem illequidem sapientis- 
simus Graeciae vir, longeque doctissimus, valde bane labem veretur. Ne- 
gat enim mutari posse musicas leges sine mutatione legum publiearum. 
Ego nec tam valde id timendum, nec plane contemnendum puto. Illaquí- 
dem, quae solebant quondam compleri severitate jucunda Livianis <et 
Noevianis modis, nunc, ut eadem exsultent, cervices oculosque pariter 
cum modorum flexionibus torqueot. Graviler olim ista vindicabat vetos 
illa Graecia, longe providens, quam sensim pernicies illapsa civium âni- 
mos, malis studiis malisque doctrinis repente totas civitates everteret: 
si quidem illa severa Lacedaemon nervos jussit,quos plures quam septem 
haberet, rn Timothei fidibusdemi. Gicero De Legibus, lib, u, cap. xv. 

(2) É tão bella a passagem de Gicero, sempre tão nova e tão cheia 
de verdades eternas, que não podemos resistir á tentação de a transcre- 
ver aqui integralmente : 

« Nec enim tantum mali est peccare príncipes (quanquam est magnunt 
hoc per seipsummalum), quantum illud, quod permulti imitatores prin- 
cipum existunt. Nam licet videre, si velis replicare memoriara tempo- 
rum, qualescumque summi civitatis viri fuerint, talem cmtatem foiaw; 



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— SIS — 

Cícero assim pensava porque já não conhecia a musica antiga, 
e as suas idéas se achavam modificadas pela musica do seu tem- 
po. Que nftusica seria aquella primitiva dos egypcios, dos pbeni- 
cios, dos hebreus, e dos gregos, que operava Untos prodígios 
cantados pelos poetas, e celebrados pelos mais insignes philoso- 
phos e escriptores da antiguidade ? 

Fraca idéa podemos fazer da musica antiga pelo que d'ella 
nos resta. Com effeito o padre jesuíta Menestrier pretende que 
o modo por que se lé e se canta nas igrejas vem da maneira por 
que os antigos liam e cantavam publicamente (1). Mr. de Cha- 
teaubriand diz, que segundo uma antiga tradição, o canto dos 
mortos (provavelmente o Libera me Domine), é o mesmo que 
se cantava nas pompas fúnebres dos athenienses no tempo de 
Péricles (2). Pretendem alguns que o celebre hymno de S. Jo&o, 
Vi queant laceis, do tempo de Carlos Magno, fora originaria- 
mente composto no tempo da famosa poetisa Sapho, adaptado 

quaeeunque mutatio morum in principibus exislerit,eamdeminpopulo 
secutam. Idque haudpaullo estverius, quam quod Platoni nostro placet, 
qui, musieorum cantibus, ait, mutatis, tnutari civitatum status. Ego au- 
tem nobilium vita victuque mutato, mores mutari civitatum puto. Quo 
perniciosius de republica mereutur vitiosi príncipes, quod non solum Tí- 
lia concipiunt ipsi, sedea infundunt in civitatem: neque solum obsunt, 
quod ipsi corrumpuntur, sed etiam quod corrumpunt, plusque exem- 
plo, quam peccato nocent. Àtque haec lex di la tatá in ordinem cunctum, 
coangustari etiam potest. Pauci enim, atque admodum pauci, honore et 
gloria amplifleati, vel corrumpere mores civitatis, vel corrigere possunt. 
Cie. De Legibus lib. in, cap. xit. 

(1) Traité des représentatums en musique, aneiennes et modernes. Les 
théatres étaient encore ouverts, lorsque le chant s'introduisit dans les 
églises; et la passion de notre seigneur étant une espéce de tragedie, il 
y a beaucoup d'apparence qu'on imita, enla chantant au peuple, le chant 
des tragedies de la vient qu'on la fit chanter par diflérentes personnes et 
sur différens tons. 

(2) Génie du Christianisme, 3.* parte liv. i, cap. ii. 
TOM. III. 33 



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— 514 — 

depois a varias odes de Horácio, c passado finalmente d'estas 
para aquelle hymno (1). Voltaire diz finalmente que a Melopea, 
que Aristóteles na sua Poética considera como uma parte essen- 
cial da tragedia, era um canto singelo e simples como o do pre- 
facio da missa, que é uma verdadeira Melopea (2). Na supposi- 
çao pois de que estas tradições sejam bem fundadas, devemos 
forçosamente crer que o modo de cantar estas musicas antigas 
differia essencialmente do cantochão, que lhes corresponde, das 
nossas igrejas ; espécie de berreiro monótono, sem inflexão nem 
sentimento algum análogo aos textos sagrados, e que em vez de 
commoção terna, elevada e devota, só pode suscitar impacientes 
desejos de que se acabe. Não podemos por tanto ajuizar, por estes 
fragmentos assim executados, do que era a musica antiga, como 
já observámos. Ainda está por fazer uma analyse completa e 
uma apreciação esthetica, que haj# de nos esclarecer, e de nos 
fazer conhecer cabalmente aquella musica, e a razão dos seus 
prodigios. Sobre este interessante assumpto aventuraremos algu- 
mas idéas, sem todavia presumirmos dar-lhes a menor importân- 
cia. Começaremos por estabelecer alguns princípios. 

1.° A musica, segundo J. J. Rousseau, é a arte de combi- 
nar os sons de uma maneira agradável ao ouvido. Segundo mr. 
Charles Soullier (3), a musica é a arte de combinar os sons de 
maneira própria para commover a alma e fallar ao coração. A 
primeira é uma definição puramente sensual ; a segunda inteira- 
mente espiritual ou sentimental : ambas por tanto deficientes. 
Mr. Fetis remediou este defeito definindo a musica, o resultado 
da combinação dos sons, cujo objecto é commover a alma de 



(1) Estai sur la musique ancienne et moderne, it vol. in 4.°, Paris, 
tora. i, pag. 43. 

(2) Dictúm. Philosoph. art. chant. 

(3) Nouveau Diction. de Musique. Paris 1855. 



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— 515 — 

differentes maneiras, e agradar ao ouvido (1). A segunda defini- 
ção conviria mais á musica primitiva, e a primeira 6 musica que 
se seguiu, e mais ainda á musica actual. 

2.° O poder, algumas vezes incomparável» da musica, tem a 
sua razão na essência mesmo do som, e no privilegio que lhe 
pertence exclusivamente, de despertar no fundo d'alma e do co- 
ração os sentimentos Íntimos e latentes, que ali se acham dor- 
mentes, dando-lhes vida e movimento. 

3.° O som e o estrondo tem por causa primaria o movi- 
mento vibratório particular, excitado nos corpos sonoros ou elás- 
ticos, e manifesta-se por essas vibrações, que communicando-se 
ao ar, os transmittem ao ouvido. 

4.° O órgão auditivo do homem é privado da faculdade de 
distinguir e apreciar os sons, cujas vibrações por segundo são 
menos de 32, ou mais de 8200. 

#.° Uma escala de oitava dentro d'estes limites contem to- 
dos os sons da natureza apreciáveis pelo órgão auditivo do ho- 
mem, e é um typo de comparação pelo qual se podem afíerir e 
classificar quaesquer sons dados. 

6.° As oitavas ascendentes ou descendentes podem conside- 
rar-se infinitas em numero ; porem fora dos limites indicados 
(4>.°), o som grave produzido por menos de 32 vibrações por se- 
gando, transforma-se para o nosso órgão auditivo, em estrondo 
confuso e inapreciável ; e o som agudo de mais dé 8200, con- 
vertesse em um tinir ou chilrar estridente e indeterminado. 

7.° O órgão auditivo do homem também não pode seguir 
nem ouvir distinctamente nota por nota, uma suecessão d'ellas 
cuja rapidez excede os limites da velocidade perceptiva do mes- 
mo órgão; ou por outra, quando as notas correm mais que o 
ouvido. 



(1) La Musique à la portée de Umt le monde. Paris 1855. 

33* 



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— 516 — 

Apreciada segando estes princípios, reconhece-ae que a mu* 
sica antiga não se afastava das regras que poderiam estetica- 
mente deduzir-se dos mesmos princípios, fundados nas leis da 
natureza. Já fizemos ver, e os últimos textos de Cícero a que 
nos referimos corroboram, a resistência que encontraram todas 
as mudanças, todas as alterações na musica primitiva. O aug- 
mento das cordas nos instrumentos, e das notas nos modos ou 
toadilhas d'aquella musica, foi viva e longamente impugnado; 
porem a final prevaleceu a tyrannia da moda, oil cedeu a resis- 
tência á lei fatal da humanidade, que lhe não consente perma- 
necer em um estado de immobilidade fixo e inalterável por me- 
lhor que elle seja. Conservaram todavia por muito tempo os an- 
tigos, e especialmente os gregos, a sua musica dentro dos limi- 
tes traçados pela natureza. O seu systema musical que compre- 
hendia a principio apenas quatro notas (o tetrachordium)* pas- 
sou depois ao intervallo de septima (heptachordium), que foi len- 
tamente crescendo, e que nos primeiros tempos da era christà, 
jâ abrangia uma escala de três oitavas e uma segunda, contan- 
do desde o lá grave do baixo, até o si agudo da voz de sopra- 
no ; extensão ainda razoável, uma vez que o baixo não transpo- 
zesse os limites naturaes da sua voz esforçando-se para attingir 
as notas dor tenor, nem o tenor para attingir as notas do sopra- 
no, nem finalmente o soprano para chegar violentamente ás no- 
tas fora do alcance natural da sua voz. Assim o systema da mu- 
sica antiga comprehendia somente os sons* médios e naturaes, 
tanto da voz humana como dos instrumentos, e evitava no canto 
os sons agudos de qualquer espécie de voz, que não se produzem 
sem um esforço violento que os transforma mais ou menos um 
estridor ou grito, destruindo a suavidade que o canto exige para 
ser canto; e nos instrumentos os sons indeterminados graves e 
agudos, isto é os estrondos e os guinchos que ferem o ouvido. 

Simples em summo gráo, não usava aquella musica de ou- 



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— 517 — 

trás consonância* além da oitava, ou quando muito também de 
terceira como alguns pretendem deduzir dos versos de Horácio : 

Sonante mixtis tibiis carmen lyra, 
Hac Dorium, illis Barbarum? (1) 

Não conheciam em todo o caso os antigos o que nós chama- 
mos harmonia, e empregavam esta palavra para designar uma 
cantilena ou successão de notas. Os seus concertos de muitas vo- 
zes ou instrumentos eram, segundo a opinião mais acreditada, 
e o que Séneca diz clara e formalmente (2), unisonos, a que cha- 
mavam Homophonia, ou em oitavas, a que chamavam Antipho- 
nia, que hoje tem renovado os compositores modernos, como fez 
Belini no famoso dueto dos Puritanos, e Donizeti e Verdi em 
diferentes coros e peças das suas operas (3). 

Não conhecendo a harmonia, não era o canto dos antigos 
acompanhado por um instrumental harmónico, que sempre en- 
cobre, e algumas vezes torna difficil, ou impossível, a sua perfei- 
ta discriminação e audição. Assim é que um árabe que gostava 
muito de ouvir a Marselhesa, tocada no piano simplesmente com 
a mão direita, quando o pianista queria acompanhar a cantilena 
com a mão esquerda, o interrompia agarrando-lhe nesta mão, e 
dizendo-lhe : esta não, somente a outra ; tomando por outra peça, 
o acompanhamento, que o impedia de ouvir e distinguir a pri- 
meira (4). 

(1) Epoâon, ode n ad Maecenatem. 

(2) Nonne vides quam multorum vocibus chorus constet? Unas ta- 
men ex omnibus sonus reditur. Aliqua illic acuta est, aliqua gravis, ali- 
qua media. Accedunt viris feminae, interponuntur tibiae. Singulorum 
ibi latent vocês, omnium apparent. Senec. 

(3) Vide Dissertation tur la symphonie des andem , tom. iv des Me- 
moires de LUterature de VÂcademie Royale, pag. 117. 

(4) Fetis, Resume Philosophique, pag. 81. 



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— 518 — 

Era também a musica antiga de andamentos graves e len- 
tos, e a sua influencia neste ponto ainda por muito tempo se 
sentiu e conservou na musica moderna, nas notas chamadas lon- 
gas e breves, que d'ella d esap pareceram, e foram substituídas 
pelas semi-colcheas, fusas, scmi-fusas, e outras notações ainda mais 
acceleradas, contemporâneas das novas indicações de presto, prés- 
tissimo etc. N. P. Os effeitos prodigiosos da musica primitiva, da 
musica dos Orpheus, procediam provavelmente da sua mesma nimia 
simplicidade ; da restricção da escala a um diminuto numero de 
notas ; da essência e pureia do som ; da expressão ou aceentua- 
ção inspirada da execução ; e porventura também do estado phy- 
sico e moral da humanidade, a qual mais perto que nós da crea- 
ção, ainda se acharia mais tenra, mais virginal, mais impressH 
vel, menos embotada e callejada pela multiplicidade sempre cres- 
cente das sensações, pelo choque das impressões, e cooseguinte- 
mente mais apta para sentir e para produzir energicamente quaes- 
quer commoções physicas e moraes. Esta parece-nos ser uma ex- 
plicação plausível das maravilhas que se contam da musica pri- 
mitiva, que pouco a pouco se foram desvanecendo com os pro- 
gressos cfella e da humanidade. 

Já dissemos quanto basta relativamente á simplicidade pro- 
veniente da restricção da escala. Pelo que respeita à essência e 
pureza do som (§ 2.° dos princípios), observaremos a diíferença 
ímmensa que existe entre a sensação causada por uma voz pura 
e argentina, soando com expressão uma simples nota, e a d'essa 
mesma nota, idêntica pelo numero das vibrações, produzida pela 
marcha lenta e preguiçosa de um d'esses monumentos de uma 
civilisação ex ti neta, ou de uma civilisação na infância, por uma 
nora, ou por um carro de bois, que entre nós ainda existem 
como para symbolisar, e nos lançar em rosto o estado da nossa 
civilisação actual. 

Agora pelo que toca á expressão ou accentuaçâo da musica, 



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— 519 — 

exporemos uma observação que muitas vezes temos feito, e que 
todos podem fazer e verificar. Uma peça de musica cuja execu- 
ção é inspirada e dirigida pelos sentimentos d'alma, communica 
aos ouvintes dotados de senso musical uma sensação análoga 
áquelles sentimentos. Nós costumamos dizer neste caso; que a 
musica nos enleva, nos arrebata, nos electrisa ; o que os france- 
zes exprimem por fait venir la chair de poule ; ao mesmo tem- 
po que para explicar este mysterioso não sei que do executante, 
dizem : Ha le diable au corps, ou il est possédé du feu sacré. 
Ora essa mesma peça de musica, executada por um imitador 
nâo inspirado, deixa frios e impassíveis os ouvintes. Qual serô a 
causa d'este notável phenomeno, que frequentes vezes se mani- 
festa? Será por ventura o ente humano dotado de alguma es* 
pecie de apparetho electro-magnetico, cujo fio conductor seja o 
som, ou a palavra, quando cTelle dimanam ? 

Vejam agora os sábios da escriptura 
Que segredos são estes da natura. 

Jâ demos a entender que esta nossa observação é igualmente 
applicaveí â poesia, á eloquência, e 6 declamação. 

£ de crer que a expressão da musica antiga, que na opi- 
nião de Theophrasto consistia, como diz Gensoríno «tn você, et 
côrporis mota, et praeterea in animi motu » tivesse uma grande 
parte nas maravilhas produzidas por aquella musica. 

A musica dos romanos nos tempos do baixo império, tinha 
inteiramente degenerado em estrondo e arruido. Conta um dos 
escriptores da Historia Augusta (1), que no reinado de Carino e 
de Numeriano, entre os espectáculos inventados por estes impe- 
rantes, se dera um concerto no qual se ouviram tocar ao mesmo 
tempo cem trombeteiros, cem flautistas, cem tocadores de outra 

(1) Historiae Augustae Scriptores. Flavii Volpini Syrácusii Carinus. 



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— 5i0 — 

espécie de flautes (pythaulas), e cantar ou berrar cem coristas ! 
Se attendermos que este concerto monstro havia de ser unisono 
ou em oitavas, poderemos imaginar a que estado de empeder- 
nido endurecimento era necessário que tivesse chegado o órgão 
auditivo dos assistentes para poder supportar incólume aqnella 
estrondosa e atroadora syraphonia ! Não podemos admirar-nos 
doesta espécie de surdez particular, quando agora mesmo os fa- 
ctos nos estão provando que o nosso órgão auditivo se pode en- 
durecer e callejar a ponto de ser surdo e insensível ás musicas 
verdadeiramente euphonicas, suaves e delicadas. Affeito ás sen- 
sações produzidas pelo forte e volumoso estrondo das orchestras, 
reforçadas pela nova e numerosa familia dos instrumentos metalli- 
cos, e pelo deplorável abuso dos instrumentos de percussão, o ór- 
gão auditivo acha insípidas e desenxabidas as musicas sem ber- 
ros e sem atroadoras sonoridades. É notável a analogia que existe 
entre este estado actual da musica moderna, e o da musica ro- 
mana do baixo império ; porem a musica actual excede aqueila 
nos defeitos comprehendidos nos princípios 4.°, 6.° e 7.° ; para 
exemplo do que bastará citar o piano de oito oitavas, e os pres- 
tidigitadores pianistas. Em abono porem da musica moderna de- 
vemos dizer que o seu estado actual é somente uma deplorável 
aberração das regras do boro gosto e da boa razão, que sempre 
devem presidir ás concepções e producções das bellas artes. No 
fim do século passado e princípios do actual a musica moderna 
tinha-se elevado a um sublime gráo de perfeição, e também en- 
tão se mostrou capaz de produzir maravilhas (1). A reacção a 



(1) Les chanteurs célebres du xvm sifcle na furent pas moins re- 
nommés pour leur faculte d'exprimer que pour la beauté de leur méca- 
nisme. On en rapporte des cboses qui parailraient fabuleuses aujoor- 
d'hui. On connait rhistoire de Farinelli, donl lavoixetrexpressiontou- 
cbantes guérircnt 1c roi d'Espagne Philippe v, d'un accès de mélaocolie 



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— 5*1 — 

favor da boa musica clássica jà começou, e progride com grande 
força em França, e como de lá tudo nos vem, e nos chegará 
em breve o alamiré, esperemos que nfto tarde muito em nos 
chegar também de Paris a moda da musica suave e amena, e 
o resgate dos nossos ouvidos do intolerável captiveiro das alga- 
zarras musicaes. 

VISCONDE DA CARREIRA. 



noire qui faisait craindre pour sa raison. Raff, sanvant la vie de la prin- 
cesse Belmonte, mise en danger par les suites d'un chagrin violent, en 
lui faissant répandre un torrent de larmes, atteste encore quelle était la 
pnissance d'expression de ces chanteurs prodigieux. Sénésino, chanleur 
d'nn mérite extraordinaire, oubliant son role pour embrasser Farinelli, 
qui venail de chanter un air avec une perfection miraculeuse; la Ga- 
brielli, touchée jusqu'à laisser parraitre Témotion la plus vive, a prés 
avoir entendu Marechési chanter un eantabile, et Grescentini faisant 
Terser áes larmes à Napoléon et àtoute sa cour dans Romeo et Juliette, 
sont encore des preuves de la puissance d'eipression que possédaient 
ces dieux du chant. Fetis La Musique à la portée de tout le monde pag. 
234. Vide estes nomes na Biographia universal dos músicos do mesmo 
autor. / 



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— 522 — 



NOTA QUADRAGESSIMA 



PAGINA 167— VERSO 21 



A cidade chamada antigamente Tibur, e hoje Tivoli, acha-se 
situada a cinco léguas pouco mais ou menos distante de Roma 
sobre um monte escarpado que é parte d'uma ramificação dos 
Appenninos. Da altura em que está assente se despenha o rio 
Teverone (antigamente Anio) formando junto d'ella uma grande 
catadupa. Preceps Anio, de Horácio. A sua origem remonta a 
mui afastada antiguidade. Foram seus fundadores, segundo se 
cré, o grego Tiburto, e seus irmãos Catillo e Coras, que depois 
da morte de seu pai Amphiarau no cerco de Thebas passaram 
â Itália ; d'onde lhe veiu o nome de Tibur, tomado do mais ve- 
lho dos três fundadores. D'esta origem fazem menção os versos 
de Virgílio : 

Deixam então os tiburtinos muros, 
Povo que o nome tem do irmão Tiburto, 
Catillo e Goras, os argivos moços. 

(En. liv. vh, vers. 670). 

Ao que parece, era esta cidade já antes da fundação de Roma 
uma das mais poderosas do Lacio, segundo os versos do mesmo 
poeta : 



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— 523 — 

Cinco grandes cidades já concertam 
As armas para a guerra : Atina forte, 
Tibur soberba, Ardèa, Crustumero, 
E a turrigera Antemna. 

(En. liv. vn vers. 629). 

O seu poder não a exemptou porem do jogo dos romanos, 
que sob o cominando de Camillo a submetteram cerca de 400 
annos da fundação de Roma. 

Com o andar do tempo fez-se Tibur mui afamada em toda 
a Itália pela formusura da sua situação, e pela presença e ame- 
nidade dos seus contornos. Sobranceira á queda magnifica do 
Anio, dominando da sua altura extensos horizontes, cercada de 
aguas, de pomares e de verduras, 

Et preceps Anio, et Tibarni lucus, et uda 
Mobilibus pomaria rivis 

ella devia a estas qualidades a reputação em que era tida. Mui- 
tos poetas romanos, e principalmente Horácio que nella residiu, 
faliam da sua amenidade, e celebram suas bellezas. A frescura 
do seu clima era tal, que, segundo uma crença popular, fazia 
mais branco o marfim, ao que se refere Marcial no epigramma : 

' A trigueira Lycoris foi-se a Tibur 
Crendo que tudo lá se torna branco. 

(Liv. iv Ep. l). 

A salubridade dos seus ares era também proverbial entre os 
romanos, como o indicam os seguintes versos, em que o mesmo 
poeta contrapõe Tibur á Sardenha naquelle tempo mui doentia: 

Não ha logar onde escapeis á morte : 
Quando ella chega, Tibur é Sardenha. 

(Liv. iv Ep, xlviii). 

Com estas vantagens, e pela sua proximidade de Roma, era 



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— 524 — 

Tibur, ou antes os seus arredores, o logar predilecto onde os 
romanos costumavam ir passar os verdes. Ali tiveram soas vi- 
las, ou casas de recreio deliciosas, Horácio, o grande lyrico ro- 
mano, os poetas Catullo seu antecessor, e Tibullo seu contem- 
porâneo, o ministro d'Augusto e celebre protector das lettras 
Mecenas, Quintilio Varo, o cônsul que depois foi morto com 
as suas legiões na Germânia ; e o imperador Adriano. De Iodas 
estas villas existem ainda hoje mais ou menos restos, sendo os 
mais consideráveis os das sumptuosas residências de Mecenas e 
de Adriano. 

A villa de Mecenas, que dominava do alto da collinà o valle 
onde corre o Anio, ostenta ainda em seus pórticos derrocados 
soberbos vestígios do que foi. A de Adriano, mais sumptuosa, e 
que abrangia um circuito de dez milhas, apresenta em suas ruí- 
nas menos o aspecto d'uma habitação particular que o d'uma 
cidade destruida, tal era a sua grandeza, e o numero de cons- 
trucções que encerrava. Tendo visitado as províncias do seu vas- 
to império, este príncipe quiz imitar nesses jardins os monu- 
mentos e os sitios que mais admirara nas suas excursões. Bas- 
tará enumerar estas obras, juntamente com os edifícios propria- 
mente romanos incluídos no mesmo recinto, para se fazer idéa 
da grandeza d'aquella villa : é Ghateaubriand quem os menciona 
fazendo no Itinerário a descripção das suas ruinas. O palácio do 
imperador, a bibliotheca, os hospícios, a praça d'armas, as ther- 
mas, o hippodromo, o theatro, o estádio, a naumachia, os tem- 
plos de Hercules, de Júpiter, de Diana, de Vénus, de Plutto e 
Prosérpina, as imitações dos edifícios gregos da Academia, do 
Liceu, do Pecilo, do Odeon, do Theatro, do Prytaneu, um tem- 
plo imitando o de Serapis no Egypto, prados fingindo o valle de 
Tempe, oiteiros figurando o Ossa e o 01 j rapo, tudo isto ali fora 
agglomerado pelo capricho d'esse senhor do universo. 

Bem menos sumptuosa, porem destinada a não menor ceie- 



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— 525 — 

bridade, era a residência em que ara século antes d 1 Adriano ha- 
bitara nesses mesmos logares outro príncipe pela realeza do en- 
tendimento. Ainda ao pé da villa arruinada de Mecenas se des- 
cobrem boje no cimo d'um oiteiro os últimos vestígios da que 
pertencia a Horácio. No dizer de Chateaubriand, que ali pas- 
sou, a natureza do logar não permittia que ella fosse grande; 
mas em compensação estava bel lissi ma mente situada, desfructando 
d'aquella altura uma vista immensa de paizagera. Era nesse re- 
tiro, descripto pelo poeta no começo da epistola xvi do liv. i 
dirigida a Quinctio, que elle costumava passar o melhor tempo 
do anno, trocando pela solidão do campo a corte d'Augusto, e 
gosando da convivência com Mecenas. Era á sombra ameníssima 
d'esses bosques, e ao suave murmúrio d'essas fontes, que elle 
colhia, como o diz na ode 3. a do liv. iv, muitas das inspirações 
que a sua musa encantadora nos legou. Ali foram compostas a 
ode 7.* do liv. i, em que elle antepõe esses logares aos mais for- 
mosos da Grécia, a ode 13. a do liv. ui em que celebra a fonte 
de Blandusio, mais esplendida que o vidro, a epistola vn do liv. 
i dirigida a Mecenas, a 10.* do mesmo liv. dirigida a Fusco 
Aristio, a 16.* do mesmo liv. dirigida a Quinctio, e outras poe- 
sias. 

O que fica dito refere-se propriamente à antiga Tibur. A 
moderna Tivoli, é uma cidade apenas de cinco mil habitantes, 
e cuja importância está longe d'igualar a que a tradição attri- 
bue á antiga. O que a faz notável, e muito frequentada pelos 
viajantes, são as eternas bellezas da sua situação e dos seus con- 
tornos, e não menos o espectáculo das ruínas que apresenta. En- 
tre estas as que mais avultam são as da villa d 9 Adriano, e as 
dos templos de Vesta e da Sibylla Tiburtina situados sobre o 
precipício d 9 onde se despenha o Teverone. Entre as bellezas na- 
turaes sobresahe esta cascata que forma o rio, cahindo ruidosa- 
mente na fraga chamada pelos podemos a gruta de Neptuno a 



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— 526 — 

cincoentyi pés de profundidade. Alem d'e9ta outras cascatas me- 
nores, formadas por braços da principal corrente, despenham soas 
aguas no mesmo valle, dando todas a estes sitios os mais bellos 
aspectos, e essa frescura que os antigos tanto apreciaram. 

Nos arredores de Tivoli ainda hoje, como nos tempos da 
antiga Roma, se vêem muitas villas magnificas pertencentes a 
nobres e opulentas familias romanas. A mais sumptuosa é a que 
no século xvi mandou construir o cardeal d'Est, e onde afir- 
mam alguns que Ariosto compoz o seu immortal poema d'Or- 
lando. 

ANTÓNIO AUGUSTO SOARES DE PASSOS. 



NOTA QUADRAGESSIM A PRIMEIRA 



PAGINA 177- VERSO 2 



iVlas que divindade era esta ? Bem pouco se sabe de certo. Pa- 
rece que já no tempo de Ovídio não era Summano bastante co- 
nhecido, o que dificilmente se explicaria se tivessem os povos 
tido claras noções do deus, da sua linhagem e attributos ; oo ao 
menos o corpo sacerdotal. Santo Agostinho (De Civ. Dei, ív, 23) 
diz : « Ignoro quem seja aquelle Summano, ao qual os antigos ro- 
manos attribuiram os raios nocturnos, e que adoravam com maior 
devoção do que ao próprio Júpiter, a quem pertenciam os raios 
diurnos. Depois que foi construído o insigne e sublime templo 



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— 527 — 

de Júpiter, a multidão concorreu toda a elle por causa, da sua 
raagestade, de sorte que apenas se encontra quem se lembre de 
ter lido, já que não de ter ouvido, o nome de Summano. » 

Creio mesmo que nunca foi bem conhecido. Os romanos 
eram muito positivistas para estudarem a òosmogonia e a theo- 
gonia da sua religião, e não tinham por isso idéas exactas dos 
deuses que adoravam. A mythologia não fazia parte do seu sys- 
tema divino. Ha excepções a esta regra, mas explico-as a mim 
mesmo pela fusão das divindades romanas e gregas, que attri- 
buiu áquellas os mythos d'estas : e isso não se dá a respeito de 
Summano, ao menos directa e immediatamente. 

Não seria elle um Júpiter tenebroso, presidindo ás tempes- 
tades nocturnas, e lançando raios sobre a terra verticalmente, 
quando o Júpiter diurno somente os arremessava oblíquos ? 

Não seria, pelo contrario, como queriam os povos do La- 
cio, o mesmo que Plutão, divindade infernal, de quem diz Silio 
Itálico que presidia á noite ; em quanto que Júpiter era < o rei 
da luz e da claridade, segundo Macrobio ? 

Não seria, antes, um deus especial com império sobre as al- 
t mas dos mortos (tnanes), como seu nome parece estar dizendo 
(SummanuSy de Summus maniwn) ? 

O nosso Gamões inclina-se á segunda doestas supposiçôes, e 
diz (c. iv, est. 33) : 

Ó tu Sertório, 6 nobre Coriolano, 
Catilina, e vós outros dos antigos, 
Que contra vossas pátrias, com profano 
Coração vos fizestes inimigos ; 
Se lá no reino escuro de Summano 
Receberdes gravíssimos castigos, 
Dizei-lhe, que também dos portuguezes 
Alguns traidores houve algumas vezes. 

Mas a verdade é que tudo são conjecturas. Não achei nada 



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— 528 — 

que me esclarecesse as duvidas, e justificasse qualquer preferen- 
cia razoável por uma, antes que por outra das três supposições. 
Pareceu-me por isso que me seria licito seguir uma quarta, que 
logo direi, e que me suggeriu a leitura de alguns livros que con- 
sultei para corresponder do melhor modo possível ao honroso en- 
cargo que me foi distribuído. 

A obscuridade e a confusão que dão fundamento a estas du- 
vidas provam, quanto a mim, que o povo romano não tinha 
idéas claras d'este deus, e que nem sequer procurara tel-as em 
tempo algum pela razão que expuz. 

A esta minha supposição pode objectar-se o caracter tão re- 
ligioso dos romanos, que não se coaduna com o indifferentismo,que 
ella deixa suppor, e somente a pode também explicar. Mas quem 
nos diz que a classe lettrada de Roma não procurava addríde con- 
fundir as idéas do povo para que elle não penetrasse na sua phi- 
losophia do bom e do mào principio, que se resumia num só e 
mesmo Júpiter ; espécie de manicheismo, de que abundam ves- 
tígios, tanto na Itália, como na Grécia? 

O que precede indica a quarta supposição, mera opinião pes- 
soal minha. Eu penso que este Summano é o composto informe 
de Júpiter Fulminante ou Tonante, de Plutão febrão, e de Dis 
(o Zeus 4 grego), rei dos manes. Alguns mythologos opinam que 
estes três nomes exprimem pura e simplesmente outros tantos 
attributos de Júpiter, que a philosophia materialista do paganis- 
mo, ainda mais que a superstição, obrigara a personalisar, como 
o único meio fácil de os tornar intelligiveis ao povo. Sendo as- 
sim, não vejo dificuldade em que Summano seja a representa- 
ção do máo principio, ou Júpiter complexo, também autor do 
mal. 

A procedência d'este Summano mais me confirma nesta sup- 
posição, que mui humildemente submetto ao bom juizo e esclare- 
cida correcção de pessoas mais autorisadas. Quer-me parecer que 



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— 529 — 

não será um thema inútil para mais largas investigações no cam- 
po tão amplo e tão rico da mythologia, que não é outro que a 
revelação prevertida ; e por iàso creio se me não levará a mal 
que diga a este respeito alguma coisa. 

Já nos fins do século passado, Court de Gébelin dizia nas 
suas Allegorias orientaes (pag. 42) : « Todas as divindades, todas 
as mythologias, todos os cultos, tiveram uma única origem. Quan- 
tas mais mythologias se reunirem, mas facilmente se achará esta 
solução. » E Benjamin Constant, que também não pode ser sus- 
peito, escrevia na sua, obra Da Religião (tom. i, pag. 114): 
«t Percorrendo a Europa, a Ásia, e tudo quanto conhecemos da 
Africa ; partindo da Gallia, ou mesmo da Hespanha, e passan- 
do pela Germânia, a Tartaria, a índia, a Pérsia, a Arábia, a 
Ethiopia e o Egypto, por toda a parle acharemos usos iguaes, cos- 
mogonias similhantes, sacrifícios, ceremonias, opiniões guardando 
entre si conformidades incontestáveis ; e encontraremos estes mes- 
mos usos, cosmogonias, sacrifícios, ceremonias e opiniões na Ame- 
rica, no México e no Peru. » 

Á autoridade d'estes dois illustres sábios protestantes posso 
ajuntar a do padre Gabriel Fabricy, que diz: 

« Que força de testemunho, que prova mais decisiva a fa- 
vor da certeza da revelação do que este concerto de todos 

os povos na conservação constante e uniforme (apesar da dis- 
tancia dos tempos e dos logares, apesar da diversidade quasi im- 
mensa dos costumes e das línguas) das tradições preciosas sobre 
muitos pontos perfeitamente ligados com a religião primitiva do 
género humano (Títr. primit. tom. i, pag. 31).» 

Seria fácil mostral-o nas mythologias do paganismo, compa- 
rando-as com a doutrina da revelação sobre Deus, a Trindade, 
a creação do homem, o peccado original, a promessa da redem- 
pção, o diluvio, a immortalidade da alma, o ceo, o purgatório 
e o inferno etc. : mas para evitar a diffusão, limitar-me-hei a 
TOM. ih. 34 



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— 530 — 

mui breves considerações sobre um ponto mui estreitamente li- 
godo ao assumpto d'esta nota. 

Sabemos todos que o Génesis suppõe conhecida a tradição 
da revolta dos anjos mãos contra Deus quando conta a historia 
da creação, e a da prevaricação de nossos primeiros pais, pela 
qual entrou no homem e no mundo o antagonismo do bem com 
o mal. 

Essa lucta eterna, depois que as paixões depravaram o co- 
ração e obscureceram as intelligencias dos homens, fez-lhes es- 
quecer o dogma da creação, do peccado original etc. ; e não 
souberam depois explical-a senão como o resultado da acção con- 
tradictoria de dois princípios rivaes, quasi com o mestao poder 
creador e actual, os quaes para se estorvarem mutuamente pro- 
duziram todos os phenomenos do mundo material e intellectaal, 
servindo-se para isso do ministério das intelligencias inferiores, 
ou génios. Estes distinguiam-se pela côr: branca para os bons, 
c preta para os máos. 

Mr. Guigniaut (Relig. de Vantiq. tom n, pag. 410 e 1206) 
mostra-nos que tal era a doutrina dos etruscos que pertenciam 
â raça dos povos pelasgos. Attribuiam a génios, côr de carne 
ou branca, as operações benévolas, e a* outros de côr bronzeada 
ou preta, as operações malévolas ; e chamavam a estes génios., 
penates, e laras, ou simplesmente manes. 

O seu Júpiter era subordinado aos deuses velados, (como diz 
Séneca). Abaixo d'elle, algumas divindades secundarias tinham 
obtido de sua munificência o poder de também lançarem raios : 
e entre ellas figuravam Juno, Minerva, Vejove, Svmmano etc. 
Esta delegação affigura-se-me que designa outras tantas opera- 
ções differentes, ou faculdades de Júpiter, expressadas por ou- 
tros tantos nomes, que se personalisaram depois. 

Tornando a Summano. Se não se sabia ao certo quem era, 
também se ignorava em que tempo entrou seu culto em Roma. 



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— 531 — 

Noel pretende que foi Tito Lacio quem levou ali o culto (Teste 
Deus. Eu inclino-me a crer que, sendo uma divindade etrusca, 
e por tanto grega e oriental* circumstancia que tenho presente, 
seu culto teria sido introduzido em Roma, no tempo de Numa 
Pompilio, o legislador politico e religioso dos romanos ; e que 
admittiu na sua religião muitas divindades, ceremonias e prati- 
cas dos habitantes da Etruria, e dos latinos, habitantes do La- 
cio, embora então as modificasse, ou o andar dos tempos o fizesse 
em épocas posteriores. 

Sabe-se que, com o nome de Sumtnano, invocaram os po- 
vos do Lacio a Plutão, rei dos manes: e que na Etruria tinha 
Summano um soberbo templo. Diz mr. Guigniaut (obr. cit., pag. 
549), apoiando-se em Proclo, que por uma antiga tradição cons- 
tava que os pelasgos admittiam uma triade demiurgica, cujos 
membros eram três Júpiteres : Jupiter-Jove, Jupiter-Neptuno, e 
Jupiter-Plutão. Não seria por esse motivo que os etruscos ado-^ 
ravam com tanta veneração a Summano, o Jupiter-Plutão da 
mythologia pelasgica? Eu creio que sim; e acho nelle confir- 
mada a supposição de que vim expondo os fundamentos. Não os 
desenvolvo mais detidamente, porque faço apenas uma nota mo- 
desta sobre um ponto mythologico, e não uma dissertação. É 
isso tarefa que pertence a homens inteligentes e eruditos, e não 
a mim. 

Em Roma estava, nos primeiros tempos, a sua imagem de 
barro collocada no cimo do temido de Júpiter ; e supponho que 
se limitava a isto a consideração que lhe davam fora dos casos 
em que algum raio nocturno aconselhava aos romanos que lhe 
fizessem sacrifícios para o apasiguarem. Mais tarde, por occasião 
da guerra de Pyrrho, teve de certo maiores cultos ; comtudo Cí- 
cero conta qué, tendo cahido sobre esta imagem um raio, lhe le- 
vara a cabeça, que não se podia achar em parte alguma por mais 
diligencias que se fizessem ; e que sendo os arúspices consulta- 

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— 532 — 

dos, responderam que o raio a lançara ao Tibre num logar que 
designaram, onde se achou em perfeito estado. Parece que já 
teria diminuído a veneração com a lembrança do beneficio. Plí- 
nio (Hist. Nat. xxix, 4) conta que os irmãos Arvales (espécie 
de sacerdotes que Rómulo instituiu), quando o raio cahia sobre as 
arvores, procuravam reconciliar Summano com os homens iro- 
molaodo-lhe cordeiros pretos ; e algumas vezes Ibe offereciam em 
sacrificio expiatório cães, que eram crucificados em p&os de sa- 
bugueiro, 

Summano teve um templo, que se lhe construiu no Circo 
Máximo, junto ao da Mocidade ; e um altar no Capitólio. Celebra- 
va-se a sua festa no dia 2i de junho, sacrificando*se-lhe dois 
carneiros pretos, ornados de fitas da mesma cor. 

JOSÉ MARIA DE SOUSA, MONTEIRO. 



NOTA QUADRAGESSIMA SEGUNDA 



PAGINA 18â - VERSO í 
PRIVILE6I0 DAS ilES 



As aves, talvez por se qpproximarem mais dos astros, ao que á 
vista se nos figura, foram sempre havidas como boas adivinhas. 
O mocho e a coruja, como só de noite soltam seus gritos, e es- 
tes monótonos e tristes, são tidos como núncios de desgraças. A 



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— 533 — 

poupa pelo contrario, que apparece na estação risonha, e canta â 
luz do dia, prognostica abundância, e recommenda economia. Di- 
zem que ella repete poupa o pão. E, se dobra muito o seu can- 
to, deve-se attender mais â recommendação : sefá o anno pouco 
abundante. As andorinhas são olhadas como excellentes hospedas. 
As casas em que ellas fazem seus ninhos serão muito felizes. Ha 
outro passarinho que nas aldêas goza da mesma aura popular que 
as andorinhas, ou por ventura de mais ainda. Chamam-lhe (não 
sei se em todas as aldêas) lavandisca, e asseveram que vai lavar 
os pés ao Senhor. Seria um grande peccado matar aquella ave- 
sinha, ou tirar-lhe a liberdade. Traz ventura ás casas ou pessoas 
de quem se appróxima. Esta superstição ao menos tem a vanta- 
gem de proteger estes innocentes e inofensivos animaesinhos con- 
tra as travessuras dos rapazes do campo. 

D, MARIA PEREGRINA DE SOUSA. 



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534 — 



NOTA QUADRAGESSDf A TERCEIRA 



PAGINA 181 -VERSO 
F0GACID1DE DA TIDA 

Flue o tempo; vem tacita a velhice; 
uns apoz outros como os dias fogem ! ! 

Diz o commentador de Ovidio ad usum Delphini que esta 
sentença fora adduzida muito a propósito pelo poeta quando che- 
gava ao fim do sexto mez, que é o ultimo que resta dos Fas- 
tos: « Quam apposite, diz elle, sententiam hanc egregiam inter- 
ponit Naso, cum se ad finem mensis properare vidit. » £ porem 
preferível a opinião de um commentador anonymo que suppõe, 
com bom fundamento, que Ovidio compozera aquelle poema na 
sua mocidade» e que, estando já adiantado em- annos e sentindo 
os estragos da velhice, o emendara para o dar á luz, e que en- 
tão, intercalara aquella mui verdadeira sentença, a qual mais se 
refere á pessoa d'e!le poeta do que ao assumpto do poema. Diz 
assim o commentador alludido: «Interponit non incompte sen- 
tentiam temporis cito labentis, quod jam consenuerat poeta, cum 
emendaret opus, et esset hos sex libros editurus ; Labunlur, in- 
quit, têmpora et nos senescimm annis tacitis ; Rapimur in sene- 
ctam annis tacite fluentibus. » 



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— 535 — 

Este mesmo pensamento se lè em Horácio» o qual disse, 
talvez com mais graça : 

Ehen, fugaces» Posthume Poslhume, 
Labuntur anni : nec pietas moram 
Rugis, et instanti senectae 
Afferet, indomitaeque morti. 

O que assim traduz o nosso Elpino Duriense : 

Ai ó Póstumo, Póstumo, os fugaces 
Annos escapam, nem virtude as rugas 
E a imminente velhice embargar pode 
Nem a indomável morte. 

Sinrilhante ao límpido arroio que entre boninas e alvas arêas 
desliza suas frescas aguas, depois vai engrossando sua corrente, 
já nao limpida e pura mas turva e lodosa, até que se despenha 
caudaloso no oceano, se abysma e o nome perde, assim começa 
a nossa vida, assim progride e finda : Têmpora labuntur more 
fluentis aquae. 

Na primavera de nossos dias tudo nos parece esperançoso, 
sereno 6 bello ; mas estes dias, poucos e fugitivos, escoam-se in- 
sensivelmente, e de nós se ausentam para nunca mais os ver- • 
mos ! Na crescença de nossos mezes, no estio da vida, cresce 
também o volume de nossa existência, mas com elle crescem 
cuidados, inquietações e dissabores; e no momento em que o 
vento das paixões começa de agitar-nos, mais veloz é o curso 
da vida, já nâo brando e sereno, mas agitado e turbulento ! 

Na plenitude de nossos annos, quando mais nos parece pos- 
suirmos os bens da vida, já em nós se vai amortecendo aquella 
resistência que a natureza oppõe á lei da destruição a que todo 
o ente organisado está sujeito ; e como esta força de resistência 
vai sempre diminuindo, augmenta, na razáo inversa, a decaden- 



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— 586 — 

cia do nosso ser até que, pela decrepitude» se precipita no ocea- 
no da vida futura ! ! 

Para fazer parar na carreira o fogoso corsel, descobriram os 
homens duro freio que o sopêa e doma ; para impedir o ímpeto 
do baixel ligeiro que sulca as ondas» descobriu a náutica pode- 
roso meio, amainando as velas ; também achou a sabedoria hu- 
mana meio seguro para enfrear o fugitivo movimento da rodante 
machina, que penetra os montes e transpõe os valles em curtos 
momentos ; mas não ha meio nem invento humano que embar- 
gar possa o fatal curso, involuntário e forçado, da vida huma- 
na ! Quer o homem parar em qualquer ponto da sua existência, 
mas uma voz interna lhe grita : « Anda, anda para diante ! » E 
ainda que a não sinta, invisível força o impelle; então conhece 
a verdade das palavras do poeta: Tacitis senescimus annisl 

Bem fará pois o philosopho christ&o, quando vir que o tem- 
po lhe foge e a vida lhe escapa, em voltar os olhos ao paasado 
e repetir as palavras que um sábio benedictino (D. Calmet) man- 
dou abrir por epitaphio na campa da sua sepultura : Mullum Itai, 
muUum scripsi, mullum oravi, utinam bene! 

Também seria bom que podesse imitar o imperador Carlos v 
que, depois de atroar o mundo com o estampido de suas armas, 
■ se recolheu ao silencio de um claustro, para, dizia elle, tnefer 
tempo entre a vida e a morte. Mas onde está esse claustro?! 

Conta-se que madama de Sévigné, tão douta e judiciosa como 
era, não podia conformar-se com a idéa de envelhecer; o que. 
vendo seu confessor, homem sábio e avisado, lhe disse com gra- 
ça : « Madame, il faut savoir vieillir. » Deixemos pois correr o 
tempo, e saibamos envelhecer. Não queiramos ser moços na ve- 
lhice ; e se, por nossos annos, não agradamos aos mancebos, de- 
mos-lhes o exemplo da amenidade no trato, da sabedoria nas 
acções, e da prudência nas palavras. 

JOSÉ IGNACIO ROQUgTTB. 



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— 537 — 



NOTA QUADRAGESSIMA QUARTA 



PAGINA 183- VERSO 9 
COMAS' 

CAftTA À 8BNH01A CONDESSA D'OYBNHACSBN B ALMEIDA (d. HBNRIQUBTà) 

111.»» e Ex.«» Sr.« 

Y. ex* tem ornado com o seu nome o Almanach de meu ir- 
mão ; v. ex. a honrou-me sempre cora a sua benevolência, desde 
antigos e bon9 tempos, quando podemos dizer que estávamos ou- 
vindo e adorando presente uma das musas; emfim v. ex.* her- 
dou d'ella, como filha, a par com a bondade mais serviçal, um 
espirito fecundo e brilhante, e uma erudição copiosissima. 

Espero por tanto que v. ex. a se prestará sem dificuldade a 
escrever e assignar uma nota para o poema dos Fastos de Chi- 
dio, que eu estou imprimindo em portuguez, todo commentado 
de passo a passo pelos nossos principaes escriptores e escriptoras. 

O mote para a glosa, que v. ex. a pode fazer em prosa ou 



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— 538 — 

em verso, como quizer, são os versos 791 e seguinte do livro 

sexto : 

Lucifero subeunte Lares delubra tuleront 
Hic, ubi 6t docta multa corona manu ; 

o que a minha traducção deu assim : 

No subsequente sol, delubro aos Lares 
se fundou no logar, onde se affanam 
mãos tão artistas a tecer coroas. 

Não podia offerecer nada mais próprio a ?. ex.* do que flo- 
res e coroas ; tudo lhe é muito domestico e familiar. 

V. ex. a conhece a sua Itália moderna como a antiga ; disser- 
te-nos pois, ou por sciencia, ou por inducções, ou por conjecturas 
(que o talento ás vezes adivinha) «obre qual era o logar de que o 
poeta aqui nos falia ; que industria, e por quem exercida, se por 
homens se por mulheres, esta de entertecer capellas ; se era mer- 
cado descoberto, ou em lojas ; se as flores eram naturaes, ou ar- 
tificiaes, (no supposto de as haver artificiaes já nesse tempo, o 
de que eu me não recordo ter achado menção nos meus clás- 
sicos) ; finalmente para que serviam, para que se pode conjectu- 
rar que serviriam, aquellas coroas, que o nosso autor nos diz se- 
rem muitas e muito bem feitas. Seriam para os banquetes dos 
regalões ? é provável ; todos os poetas (aliam d'esse luxo antigo. 
Seriam para os amantes pendurarem de noite ás portas das suas 
namoradas ? também é possível ; pelos mesmos poetas noa consta 
esse costume, o qual hoje com o gaz e com a guarda munici- 
pal seria inteiramente impossível. Hoje Ovidio, Propercio, e Ti- 
buli o, se se lembrassem de pôr, por obra o que a este respeito 
nos contam nas suas elegias, figuravam todas as manhãs na parte 
da policia. 

Queira v. ex. a escrever sem esforço, e com toda a sua ado- 
rável naturalidade, o que' lhe parecer. Dè-me estas coroas anti- 



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— 539 — 

gas destrinçadas a brincar, e eu affianço a v. cx. a que os nos- 
sos leitores !h'as pagarão com outras que não hão de dar o mí- 
nimo azo para questões. 

Tenho a honra de me assignar 

De v. ex.« admirador, e servo 
o mais affeclivo e reverente 

Lisboa 9 de. outubro de 1859. 

A. F. DE CASTILHO. 



É 



BWOSTÀ 

.1 



bem verdade que seu irmão quiz ama (Violeira da minha 
lavra para o 'seu a Ima na eh, e condescendi. Eu sou filha d'AI- 
cipe, tenho essa ventura, e herdei certamente a mais sincera es- 
tima pela família Castilho ; mas agora não me parece que possa 
obedecer ao que v. deseja, sem embargo de todos os incensos 
que dá ao meu espirito fecundo e vasto engenho! Ora, pobresi- 
nha de mim ! ! os poetas, e pintores téem licença de dizer, e pin- 
tar, o que bem lhes parece. Quer v. uma nota minha para o 
poema dos Fastos de Ovidio, para apparecer impressa ! ! Estes 
Fastos o que são? eu nunca os li, porque minha mãi não me 
deixou; e quando um dia lhe perguntei o que eram, respon- 
deu-ine : « É uma coisa, que você não precisa saber. » Quem 
muito ama, muito obedece, nunca mais procurei saber o que 
eram. O que eu sei muito bem, é que não sei nada ; e ha quem 
diga, que esta é a verdadeira sciencia, pois que sempre ha que 
aprender. 

Gomo v. se contenta com as conjecturas, farei uma com' 



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— 540 — 

sua licença. Direi pois que as taes capellas, eram de fiares na- 
turaes que as jovens romanas cultivavam nos seus jardins, para 
as darem aos irmãos, digo, aos noivos, quando estes regressa- 
vam das guerras, e nos combates tinham feito muitas gentile- 
zas, e valentias. Elles para mostrarem o quanto os penhorava esta 
mimosa lembrança, dirigiam-se ao oratório dos seus queridos Pe- 
nates e lá depositavam as capellas, e os ramilhetes recebidos das 
bellas damas, como um penhor da sua constância, até que os 
deuses lhes concedessem a mão tão desejada. Mas se os cavalhei- 
ros nada haviam feito, que merecesse o applauso e estima pu- 
blica, deitavam-se as coroas ao chão, pisavam-se, desfolhavam- 
se as flores, até (içar tudo como os malmequeres, flor agoirenta, 
e amarella ! Esta cor em linguagem das flores, quer dizer des- 
gosto, ou desprazer. Muitas haviam de ser as lagrimas por se 
haver tão mal empregado o tempo. Assim como a lingua portu- 
guesa, com pouca corrupção, quasi parece latina, as damas ro- 
manas eram também como as portuguezas, a quem só agradam 
valentes. Que tal lhe serve esta minha erudição? Quantas, e 
quantas haverá assim ? Se fosse apadrinhada de algum nome ára- 
be, persa, ou arménio, de quem já não existisse livro antigo nem 
annaes, que bella figura faria ! deitava pés nos olhos a maia de 
meia dúzia ! Se os romanos não fossem mais modernos qoe os 
chinezes, talvez o livro chinez antigo Chou King podease ser- 
vir ; principia elle pela vida do imperador Yao que viveu 3943 
annos antes da era actual. 

Ora basta de despropósitos. Tenha paciência; v. assim o 
quiz ; são as flores do meu jardim. Quanto aos quisitos, que não 
levam resposta, haverá muita outra senhora que saiba respon- 
dér-lhe a seu gosto. Quanto a Ovidio, Propercio, e Tibollo, não 
os conheço. Talvez sejam três velhos jarretas, que visitavam mi- 
nha mãi. Ella entretanto mandava-me ler Kempis y que depois do 
Evangelho, e as Epistolas dos apóstolos, não acho nada mais per- 



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— 541 — 

feito : ahi acho quanto me é útil para o ceo, aonde quero ir ; e 
para o mundo aonde Deus, ainda me quer. 
Sou etc. 

De v. 

Paço das Necessidades, 13 de outubro de 1859. 

D. HENRIQUETA CONDESSA d'0YBNBAUSEN E ALMEIDA. 



E agora ! Havemos de nos ficar assim em branco, sem di- 
zermos coisa alguma aos leitores sobre um assumpto que mesmo 
entremostrado pelo poeta nos alegrou a alma com o festivo das 
cores e suavidade das fragraneias? revolvam-se memorias velhas, 
conversemos. 

Subir ás origens é em qualquer estudo o primeiro ímpeto 
do animo curioso ; mas d'onde, e de quando, traremos ás cordas 
o seu principio? Logar ou logares, tempo ou tempos, tudo es- 
queceu ! As memorias cTesses ephemeros enfeites» murcharam, 
eahiram, perderaro-se, como elles ! 

Presumem historiadores, e só pelo presumirem o asseveram, 
terem sido simulachros de deuses os primeiros coroados ; logo de- 
pois os seus pontífices e sacerdotes ; depois os potentados, por 
andar nelles çonsociada a magestade pontifícia* com a do impé- 
rio; depois os próceres e senhores, como participes e emana- 
dos do poder soberano ; depois os guerreiros victoriosos, os gran- 
des beneméritos, os martyres, e os bemaventurados ; finalmente 
os epicureos, os regalôes, os poetas, e ainda ao presente os gran- 
des artistas, as noivas, e as casquilhas em geral. 

A nomenclatura das coroas, a individuação de suas mate- 



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— 842 — 

rias, a sua destinação, compõem só per si um estudo compli- 
cado, que de fugida acenaremos. 

O primeiro coroado foi Saturno, diz Pherecydes ; foi Júpi- 
ter, vencedor dos gigantes, responde Diodoro; foi Jano, acode 
Fábio Pictor ; pois não foi senão Isis, contende um autor egy- 
pcio. Fosse quem fosse: a coroa de Saturno era de parras, ou 
figos novos brancos e pretos, representativos dos dias e noites; 
a de Júpiter, de carvalho, loiro, ou raizes ; a de Jane, de loi- 
ro ; a de Isis, de espigas de trigo, por ter ella ensinado a cul- 
tivado ; a de Juno, de ramos de marmeleiro ; a de Baccho, de 
pâmpanos com seus cachos, e também de heras ; a de Ceres, de 
espigas de trigo, pela mesma razão que a de Isis ; a de Plutão, 
de cy prés te; a de Mercúrio, de oliveira, hera, ou amoreira; a 
da Fortuna, de agulhas de pinheiro ; a de Apolto, Calliope, e 
Glio, de loiro ; a de Pan e Cybelle, de ramas de pinho ; a de 
Lucina, de dictamo ; a de Hercules, de choupo ; a de Vénus, 
Hymeneu, e Gomo, de rosas e murta; a de Minerva, e df*Gn- 
ças, de oliveira ; a de Vertumno, de feno ; a de Pomooa, de 
fructos ; a dos Lares, de myrtbo e alecrim ; a da Flora, e òm 
Musas da poesia lyrica, dança, e musica, de flores ; as dos Bios, 
de caniços; a de Vesta, de raizes. Estas raizes condecoravam 
muito não só a Júpiter, como dissemos, mas também a Hercu- 
les, e aos príncipes divinisados ; finalmente as coroas daa Ninfas 
tutelares das arvores, se compunham das próprias galas das soas 
respectivas clausuras verdejantes. 

Coroa vam-se «os immoiadores; coroavam-se as victimas; oo- 
roavam-se os altares e as portas dos templos ; até os mortos e 
suas casas, os túmulos e suas urnas, se coroavam. Isto pelo que 
toca 6 religião. 

Pelo que pertence á milícia, houve : 

Coroa Triumphali e esta de três gráos e maneiras : a Lawna 
Insigne de loiro sem bagas, que o triumphador levava na cabe- 



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— 543 — 

ça ; a de loiro artíBcial, fabricada de oiro, que lhe ia impendente 
da mão de um official ; e a terceira, d 'oiro também, decretada 
e enviada ao general victorioso e ausente, onde quer que as. ar- 
mas o detivessem. 

Coroa obsidional, ou graminia : de relva e boninas incultas ; 
premio de summa conta para os que desafrontavam de cercado- 
res um arraial romano ; esta offertavam-na agradecidos os des- 
cercados. 

Cívica : um ramo de carvalho com glandes ; tocava ao que 
tinha salvo em conflicto a um concidadão, e morto o seu ini- 
migo ; esta, tributava-a no principio o salvado ; depois arroga- 
ram os imperadores a si a honra de a conferirem. 

Mural : coroa áurea á feição de muro com suas torres ; ga- 
lardoava ao soldado que primeiro investia e transpunha o muro 
d'uma cidade assediada. 

Castrense ou Vallar : áurea também, do feitio de estacaria ; 
remuneração do valoroso que primeiro prorompia no arraial hos- 
til. 

Naval, Rostrada ou Clássica : áurea, imitante a esporões de 
navio ; recompensa do que primeiro saltava d'armas em punho 
dentro em galé combatente e a apreçava, ou de almirante que to- 
mava ou desbaratava frota inimiga. 

Oval : de murta ; para o general que não chegara a trium- 
pho, mas conseguira ovação. 

Okaginea : de oliveira ; para ganhar esta não era mister pôr 
o peito às lanças, bastava ter concorrido cora o conselho, ou 
qualquer industria bellica para se vencer. 

Nas coroas .aristocráticas, achamos como primitiva a Radia- 
da ou Raiada, que tendo sido de deuses a principio, foi mutua- 
da também para uso de imperadores romanos ; era de oiro, com 
raios e estreitas. 
. Por serem já muito para áquem das antiguidades que anda- 



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— 544 — 

mos revolvendo, remetemos ao escuro as diversas coroas impe- 
riaes de Alemanha, Rússia, e França ; as reaes, as de duques, 
de marquezes, de condes, de viscondes, e.de barões, assim como 
o que se poderia dizer das auréolas e resplendores, que são as 
coroas dos santos. 

Mas, detenhamo-nos aqui um breve instante : de que nas- 
ceria esta usança tão geral de se ataviar por excellencia a ca- 
beça humana? Ao vestido, ao calçado, aos sombreiros, deram 
entrada os Trios e as calmas, os ventos e as chuvas, as humida- 
des e asperezas do solo, os insectos e os reptis. Depois o vesti- 
do, o calçado, e os sombreiros rústicos, simplices, informes a 
principio, foram-se com o progresso das artes desenvolvendo, 
variando pelos conselhos da fantasia, melhorando em matéria, em 
formas, em cores, em brilho, em graça, em distineção, era pom- 
pa, em opulência ; por modo que insensivelmente se chegou da 
folha de figueira do pai Adão e da ínãi Eva, e da ainda menos 
que folha de figueira dos selvagens, até ás guarda-roupas, guar- 
da-joias e toucadores, que devoram num anno de uma só famí- 
lia o que poderia manter a cem faroilias modestas por todo um 
século. É a lei do progresso. A satisfação de uma necessidade 
real, conduziu por passos contados a necessidades novas; e o 
cumprimento (Testas, logicamente deduzidas, eflloresceu afinal 
na magnificência, que é innegavalroente um bem, ainda que mui- 
tos males parciaes entrem como ingredientes na sua composição. 
É assim que o palácio mais alteroso descende por linha recta da 
choça de penedos e feno, e esta da arvore ôca ou da caverna ; 
e é assim também que a ascendência de S. Pedro de Roma vai 
parar num idolo tosco em cima de alguma leiva. 

A que precisão natural havemos porem de attribuir as co- 
roas, que nem preservaram jamais das intempéries, como o bar- 
rete e o chapéo, nem dos golpes na cabeça, como os capacetes 
dos antigos, e as chapas metallicas das barretinas modernas? so- 



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— 545 — 

iuçâo histórica plausível ao quisito não a Atinamos ; consultemos 
a fantasia. 

Ê a cabeça admirável cidadella do nosso corpo; na cabeça 
nos enthesoirou a natureza as faculdades com que dominamos 
todas as suas outras creaturas, abrangemos os tempos, calcula- 
mos» influímos o futuro» e nos mostramos imagens e vice-ge- 
rentes do Creador. Na cabeça morpm os sentidos, atalaias e mi- 
nistros sempre alerta dVssas mesmas faculdades ; para o mesmo 
foco lá dentro concorrem de todas as partes as moções gerado- 
ras de todas as idéas ; as idéas ali se elaborara» se combinam, 
se modificam, se formulam em pensamentos e vontades, que o 
mesmo corpo, escravo intelligente e prompto, não tardará a con- 
verter em obras. A cabeça é o capitólio com o seu senado omni- 
potente ; tão senado e tão capitólio, que até os reis e os deuses 
são ali feitos e desfeitos, julgados e sentenciados. 

Espherica á feição do mundo, que nella parece photogra- 
phar-se e resumir-se, a cabeça merecia realmente a predilecção 
com que o Supremo Artífice se comprouve de a enriquecer tam- 
bém por fora, não só com o mais esmerado da formosura, mas 
com a expressão, já sonorosa, já muda, mas sempre clara e elo- 
quente, dos sentimentos, dos affectos, das alegrias, das triste- 
zas, do abatimento, e do entbusiasmo; a phisionomia e a voz 
são as duas metades da linguagem, a linguagem faz apparecer a 
súbitas em scena o homem intimo. O ignorante, como o sábio, 
sente, sabe por instincto que tudo isto, e muito mais, é a ca- 
beça; nas incertezas embaraçosas, bate na fronte, como para 
acordar a alma ; para testemunhar veneração, descobre-a e in- 
clina-a; desprezo, ergue-a e engrandece-se ; dúvida, ou nega- 
ção, meneia-a como a sacudir a idéa que lhe despraz ; quem se 
purpúrea com o pejo? as faces; quem surri à belleza? os lá- 
bios ; quem chora na afflicçáo, e na ternura ? os olhos ; qual é 
a moeda áurea para o commercio do amor materno, paterno, 
TOM. III. 35 



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— 5*6 — 

filial, fraternal, e conjugal ? o beijo. Diante do espelho, ao lao- 
çar-lhe o ultimo olhar para se partir para o baile, a mulher 
carregada de sedas, rendas e jóias, nada considera com tanta 
complacência como o seu próprio semblante, a parle nobilissi* 
ma do seu ,todo, a que a arte nada teve que ajuntar, e nada ou* 
sou encobrir. Que havia pois mais congénito a esta consciência 
universal, da importância da cabeça, que a idéa espontânea, ins- 
tinctiva, e também universal, de a ennobrecer ainda, se possível 
fosse, e de a tornar mais querida e mais venerável aos circunstan- 
tes? só faltava achar o como; não parecia fácil. Mas a natureza 
lá estava para inspirar : o ceo nocturno tinha coroas de estrei- 
tas ; as estrellas, coroas de raios ; o globo, coroa de constela- 
ções ; a aurora, coroa de rosas etheras ; o sol coroa de res- 
plendores ; os montes, coroas de selvas ; o mar, coroa de artes 
e conchas ; as vagas, coroas de espumas prateadas ; as fontes, co- 
roas de limos e canaviaes ; as arvores, coroas de verdura ; as Do- 
res, coroas de pétalas ; os fructos, coroas de folhas ; muitas das 
mais bellas aves, coroas de pennas, e a mesma cabeça. humaaa 
já também tinha coroa nativa de madeixas de ébano, de oiro, ou 
de prata que nfto é menos coroa. Pois então acudam as plantas 
tributarias com suas ramas e matizes a sobrecoroar esta coroa 
primitiva ; acuda o rei dos metaes, receba formas emblemáticas, 
saiam do oceano as pérolas, c os.coraes, das minas as pedrarias 
•scintillantes, dos pássaros as melhores pennas para se imporem 
diadema ao rei da creação, e à rainha doesse mesmo rei, o qual 
nada vira superior a si, se a não visse a ella. Se as coroas da pri- 
meira, da segunda, e da terceira espécie, as dos deuses, ou ho- 
mens divinisados, as dos heroes, e as dos magnates, se trança- 
ram e fundiram para requintar venerações, não tardou en appa- 
recer quarta e ultima espécie de coroas inventadas pejas Graças, 
aceitas pelos Prazeres, os Jocos e os Risos, adoptadas por Como, 
Baccho, e Pomona, por Vénus, pelo Amor, e pelas Musas; são 



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— 347- 

estas as coroas convivaes, as mais ephemeras, más as mais deli- 
ciosas de todas as coroas. 

Tornou-se o convívio da mesa na christandade, e assim per- 
maneceu por séculos, um acto serio, com o sen quid religioso. 
Entravasse a elle orando. O pai de familias, presidente, benzia 
com o signal da cruz os primeiros manjares ; ao, levantar, da- 
vam-se graças ; durando a refeiç&o, nâo se recusava esmola e co- 
mida ao mendigo ; malediceneia e provocações a rixas, eram es- 
tranhadas e banidas; em summa, dizia»se o altar da mesa, e 
como tal se respeitava. Acudia á memoria dos lidos na Bíblia à 
seia Paschal, e á dos eruditos profanos os banquetes de Vacuna 
e das Cbaristias. 

Já porém não tinham sido assim os avós idolatras d'estes nos- 
sos avós, a quem nós hoje em dia pouco também nos assemelha- 
mos. Pagãos repassados de athicismo no gosto e nos costumes, 
faziam da sala de mesa um templo de festa voluptuosa. Ao mes- 
mo tempo que para o regalo do paladar contribuíam coro tudo 
que de melhor creavam as terras próximas e remotas, o ar, os 
rios, os lagos e os mares; a musica, a leitura dos poetas, as 
danças, as representações e os jogos, tinham a seu cargo variar 
sainetes nos intervallos do repasto (1). D'entre os commensaes se 
elegia por acctamaç&o, ou se tirava á sorte, o rei do vinho, re- 
gulador e arbitro da ordem e quantidade dos brindes, que se 
exhauriam por taças artisticamente lavradas, nSo descabidas em 
aeias pontificaes, ou sacrifícios aos Deuses Máximos. As mesas, 
aguentadas em pés esculpidos com primor, embutidas de tarta- 
ruga, de marfim, e de oiro, alcatifavam-se, como o pavimento, 
de folhas de rosas chovidas dos tectos arthezoados. Em cami- 
lhas estofadas se reclinavam os convidados a três e três depois 



(1) Podc-se ver Tito Lívio li?, xixix cap. vi. Petronio na seia de 
Trimalcião. Horácio e os elegíacos a cada passo. 

35* 



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— 548 — 

de lavados, perfumados com essência*, vestidos em roupas ele- 
gantes, e calçados de novo, tudo da guarda-roupa do Ámphi- 
trião. Aqui, uma formosa meio cabida e recostada sobre o seu 
cochim alto, quasi tinha a cabeça no peito do seu visinho da 
esquerda ; ali, era um mancebo que achegava ufano a sua ao 
seio de uma visinha nem sempre indiferente ; todas estas cabe- 
ças eram poetisadas por coroas, qual a qual mais cheirosa e mais 
garrida ; chegando ás vezes o requinte do goso a virem escravas 
engrinaldar-lhes também os pés. 

Porque se coroavam aquellas frontes? Seria só para que á 
Juz dos alterosos candelabros de bronze em que ardiam os óleos 
mais fragrantes, se disfructasse o aspecto d'um jardim vivente, 
e movediço, um quadro campestre de ninfas e silvanos, no cen- 
tro mesmo dos mais urbanos faustos ? Seria ; mas não era só 
isso: tinha-se que às fontes da cabeça comprimidas tolhiam ao 
fumo dos vinhos o treparem ; e a certas flores, em particular ás 
rosas, se attribuia a virtude de preservaria embriaguez. 

Se bem que as famílias meãs, e as dos artífices, não podiam 
certamente aspirar a estes refinamentos dispendiosos, profusos 
deviam elles ser não obstante, â vista das riquezas, de todas as 
partes do mundo accumuladas em Roma pela conquista. 

Para florirmos esta prosa, recordemos aqui o que o nosso 
poeta nos disse no livro v no seu longo colloquio com a própria 
deusa Flora. * 



Tentava perguntar-lhe o porque havia 

tão lasciva soltura em suas festas ; 

porque eram jogos seus mais livres que outros. 

Mas acudiu-me logo ao pensamento 

ser deusa jovial, e cujos mimos 

co'o prazer, co'as delicias se entrelaçam. 

Florente c'roa nos guarnece as frontes ; 

a mesa do festim tapetam rosas ; 



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— 549 — 

ébrio conviva, com listões de tilia 
presa a grinalda, que lhe aperta as comas, 
dança, tendo por mestre o próprio Baccho. 
Ébrio também lá canta o namorado 
á surda porta da formosa amante; 
essências nos cabellos lhe reluzem ; 
flóreo diadema os cinge. Assumptos sérios 
não nos tratam florigeras cabeças ; 
nem cabeças florigeras se abaixam 
a tragar agua chilra. Em quanto os homens 
beberam do Achelóo, e não tiveram 
para o desincruar purpúreos mostos 
;de que servia a rosa? O deus das uvas 
ama as flores ; se as c'roas lhe são gratas, 
que o diga aos olhos de Ariadne o signo. 

< Toda a espécie de flores e hervns aromáticas se podia em- 
pregar na contextura das grinaldas convivaes, excluido só o ai- 
po, como votado que era aos defuntos, e por tanto de ruim agoi- 
ro. No tempo das rosas tinham ellas, e com razão, a primazia; 
a rosa fora proclamada por Sapho a rainha das flores. 

À coroa de flores naturaes trançadas umas com outras, cha- 
mava-se pactilis, plectilis ou plexilis. Quando as flores eram trun- 
cadas dos respectivos pés, e cosidas em embrechado numa tira 
de fazenda, tinha a coroa o nome de sútil; sútil era a coroa dos 
salios, que primeiramente fora variegada, e depois se reduziu a 
rosas estremes, não inteiriças, como as dava o rosal, se não es- 
colhidas as pétalas mais perfeitas, e cosidas delicadamente, que 
parecessem flores vivas, e das mais bem creadas. 

Doestas duas espécies de coroas vêgetaes, pactilis e sútiks, 
se guarnecia, alem da cabeça, o pescoço também, ficando pen- 
dentes* as extremidades, pelo que então se diziam coroas longas. 
Ainda osramaes de contas das beatas lembram aquelle estilo, 
até pelos seus nomes de coroa e rosário, que vale tanto como 
rosal. . 



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— 850 — 

Quem attentar no amplo uso que se fazia de coroas vegeta- 
tivas, não só nos bródios lautos, mas nas portas das casas em 
que se festejava recemnascido, nos jogos públicos como premio, 
nos sacrifícios, nas pyras fúnebres, nas oblações aos Gnados, na 
passagem dos triumpbos, nos presentes namorados e em oblatas 
aos umbraes das queridas, não se admirará de saber que pelos 
arredores de Roma era curiosidade lucrativa e frequente dos fa- 
zendeiros a jardinaçâo de flores para capellas. 

Gabe ainda reflectir em que o immenso uso que se fazia de 
aromas devia consumir quantidade espantosa de flores finas. A 
cidade de Capua na Gampania consta que tinha um bairro Se- 
plasia cheio de logeas de cosméticos e perfumarias ; pois bem Ca- 
pua, a deliciosa que tanto enervou aos carthaginezes de Annibal, 
não era nesse tempo mais voluptuosa nem mais Capua do que de- 
pois o saiu Roma sob os imperadores 

Catão, o mestre da agricultura, citado por Plinio no livro 
xxi, capitulo i, recommendava aos hortelões semearem flores co- 
ronárias das mais mimosas. 

O naturalista no capitulo x do mesmo livro, se detém a dar 
regras para se haverem de óptima qualidade estas variadas filhas 
da primavera, destinadas a expirarem no meio das alegrias dos 
homens. 

Columella, elegante agrónomo, cuja prosa e cuja poesia lem- 
bram ainda o recemfindo século de Augusto, persuadia no seu li- 
vro x a creação de boas flores para as grinaldas ; oiçamol-o logo 
apoz a sua tão aprazível descri pção da amena e florida primavera 
italiana : 

Camponios, que ceifaes co'os dedos rústicos 
de Flora os tenros dons : colmem-se os cândidos 
viminios cestos co'os jacinthos cérulos; 
feixes de rosas o apertado vinculo 
do junco estoirem ; bem-me-queres áureos 
façam impar os canastreis mais túmidos. 



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— 551 — 

Presto presto 1 Vertumno as flóreas dadivas 
já vos aguarda cm seu mercado esplendido ; 
correi, correi, que a veniaga é prospera! 
ao volverdes, de Roma, oh que delicia 
ver-vos vir bordejando a passos trémulos,- 
o dorso alliviado, a mente júbilos, 
(mercê do amigo Baccho) e a sempre es titica 
bolsa aldeã, com bellos cobres túrgida. 

O mercado das flores, adjacência do templo de Vertumno, 
ficava provavelmente na descida do Aventino para o Tibre; e, 
ou era nessa praça mesma, ou em alguma das ruas convisinhas, 
que deviam ter suas logeas os artífices de coroas mencionados com 
louvor pelo nosso poeta. 

E depois também, como 

' em tanta antiguidade não ha certeza, 

bem pode ser que em logar de trançantes de flores os versos que 
pretendemos commentar, e de que se esquivou a Musa que a 
principio invocáramos, se referissem antes a ourives de coroas 
de prata, oiro, e gemmas, ou porventura a bordadoras de outras 
grinaldas artificiaes. 

Segundo Plinio, a tão esquisita delicadeza tinham ehegado 
estas coisas no seu tempo, que da índia ou d'alem da índia vi- 
nham coroas de sedas de cores, e perfumadas ; não querendo já 
então as damas servir-se de outras. 

A invenção das flores artificiaes na Europa teve, segundo o 
mesmo autor, uma tão poética origem, que nenhuma lhe pode- 
ria inventar mais acertada um poeta amante sonhando entre mur- 
tas numa sesta de verão nas margens do Illysso ou do Peneu. 

Vénus e o Amor crearam sem duvida muitas artes ; na es- 
timativa de Ovídio crearam todas ; bem lh'o ouvistes : 



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— 552 — 

Vénus, Vénus á sórdida bruteza 

do primevo existir subtrahe os homens, • 

inspira-lhes o aceio, o alinho, as artes. 

Por ella a poesia entrou no mundo; 
dis-se, que ante os umbraes inexoráveis 
de uma esquiva beldade, á luc destrellas, 
e ouvido apenas das nocturnas auras, 
foi primeiro cantor magoado amante ; 
quando tudo dormia, amor velava ; 
e, para obter mercê, tecia coroas 
de flores novas que aljofrava o pranto. 

Da anciã d'exorar desdéns de isentas, 
o discreto faltar brotou não menos ; 
4 carecer d' eloquência poderia, 
quem de seu coração tratava os pleitos? 

Artes gentis, que abrilhantaes a terra 
delicias do viver, não sem motivo 
se diz que a mãi de Amor ha sido a vossa; 
quiz-se agradar, crearam-se os prodígios. 

É com effeito ao Amor que se refere (suppositicia ou .histo- 
ricamente) a invenção de duas artes lindíssimas e mui semelhan- 
tes entre si : a arte do retratista, e a do floreiro. 

Em eras tão antigas que ainda a pintura não era nascida, 
vivia, fosse onde fosse, diz a lenda, uma namorada das roais finas. 
Atormentava-a sua má fortuna com frequentes e longas ausên- 
cias forçadas do seu querido ; fechava então os olhos para o ver, 
e para o ver ainda melhor se adormecia. 

Uma rapariga, e então alvoroçada no interior, não pode dor- 
mir sempre, nem estar sempre de olhos cerrados ; mas também 
como tel-os abertos quando não tinha para lhes dar o suave pasto 
de que elles necessitavam ? era forçoso acudir áquella mingua ; 



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— 533 — 

soccorreu-se aos deuses com orações ; supplicou-lhes prodigio com 
que o seu ausente se tornasse presente. 

Alguma potencia compassiva lhe acudiu com uma inspiração 
(havia de ser o Amor). Tudo quanto pertencia ao mancebo caro 
lhe era caro ; até a sua sombra. Se ao menos a sombra lhe po- 
desse ficar ali quando elle se retirasse ! Experimentemos, diz 
ella, e logo a mão cândida bosqueja com um carvão na parede 
alva os contornos da figura esbelta do mancebo, que está sor- 
rindo desvanecido de ver como é idolatrado, mas que ainda não 
adivinha o que nessas linhas magicas se contem de futuras ma- 
ravilhas ; partiu. A solitária já pode esperar sentada defronte do 
espectro mudo que o talento do seu amor evocou do nada ; passa 
as horas a contemplal-o, emprestando-lhe por um esforço da fan- 
tasia as formas interiores que lhe fallecem, as cores, a vida, o 
movimento, a voz, e a ternura, a ternura que ella tem de so- 
bejo para repartir: 

Illam absehs absentem auditque videtque; 
Ausente ao seu ausente está ouvindo e vendo. 

Esta visão estática trouxe nova inspiração ; pediu aos suecos 
das berras e das flores, ás argilas desfeitas em agua, talvez até 
a alguma gota do sangue de suas veias, com que fixar dentro 
no contorno vasio, a fronte, os cabellos, os olhos, as faces, os lá- 
bios, tudo, até o traje. Quando voltou o amante, houve de re- 
cuar diante d'aquelle homem inesperado, d'aquelle intruso nos 
penates das suas affeições ! mas, recahindo logo em si, reconheceu 
a própria imagem que já no espelho nativo das aguas haveria 
considerado; sorriu complacente, ora para si mesmo, ora para 
a feiticeira que o duplicara, e, graças a cujo artificio, ninguém 
já poderia apartal-o do seu thesoiro; tal foi o primeiro retrato. 

O progresso das artes havia de percorrer interminável cami- 



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— SSi — 

nho para chegar, de tentativa em tentativa, de achado em acha- 
do, desde esse filho inculto do amor e da saudade, até ás effigies 
instantâneas debuchadas em nossos dias coro a mais impeceavel 
exacção, sem pincel nem tintas, pelo pintor dos pintores, pelo 
sol, só hoje verdadeiramente rei das artes. Mas quem podesse 
ainda assim mostrar-nos hoje aquella branca parede de choupa- 
na ! Como se não apontaria com enlevo para a expressão de vida 
que a pobre rústica, mestra de si mesma, segunda mài e immor- 
talisadora do seu querido, infallivelmente havia de ter impresso 
numa effigie que os seus olhos estudavam de continuo, e a sua 
m&ode continuo retocava para poder ser rebeijada a cada mo- 
mento ! 

Agora os retratos das flores : 

Aqui estou eu mui contente de poder introduzir 6 vossa pre- 
sença o mais curioso de todos os noticiadores do mundo velho, 
e fazer com que vos conte elle mesmo o que lhe consta do as- 
sumpto. Ora escutai-o com attençâo, que é nada menos que o 
nosso velho Plínio, o delicioso BulTon das idades pretéritas (1): 

« Fora a principio costume, falia elle, coroarem-se os vence- 
dores nos certames sacros com ramos de arvores. Depois é que 
se começaram as coroas a variegar com matiz de flores ; do que 
lucraram, sobre maior formosura, o realce das fragrâncias; in- 
venção esta oriunda de Sicyone, e filha do engenho do pintor 
Pausias e da ramalheteira Glycera, por quem elle se morria de 
amores. Representava Pausias na sua pintura as coroas que ella 
engenhava ; ella, á competência de qual poderia mais, fantasiava 
outras e outras, de continuo, sempre diversas ; andavam a arte 
e a natureza em desafio. Ainda hoje em dia se conservam os 
quadros d'esse artista, e nomeadamente um, que chamam Ste- 



(1) HUt. Nat. liv. xxi, cap. m. 



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»• U It 

— odo — 

phaneplocos, no qual a retratou a ella em pessoa. Foi isto para 
cá da centessima Olyrapiada. » 

Que pena é que esses painéis de Pausias, e esses floridos 
diademas da sua Glycera, com dona e tudo, quaes o naturalista 
ainda teve a fortuna' de os contemplar, não podessem resistir 6 
voracidade dos annos, e chegar até nós ! 

Por aqui acaba o que a nossa erborisação litteraria no cam- 
po da antiguidade nos deparou de mais alguma valia, ainda que 
fútil, para a historia das coroas. 

Se das flores artificiaes noutras terras e em tempos mais 
achegados houvéssemos de fazer historia, interminável escriptura 
seria sobre impertinente. 

A ephemera duração doestas filhas da primavera, tão ami- 
gas, e sócias, e confidentes, e incitadoras dos prazeres, que des- 
abrocham, riem e passam como eHes, por força que esteve sem- 
pre aconselhando aos espíritos voluptuosos, artísticos, poéticos, 
namorados, e feminis, que apurassem todo o seu engenho para 
as perpetuarem em effigie, a fim de as terem aihda presentes 
quando ellas já não fossem ; por isso a arte floreira nos appa- 
rece cultivada, e crescendo, e melhorando-se de anno para anno, 
e de dia para dia, não só nos conventos de religiosas de Itália, 
em França, em Inglaterra, em Alemanha, em Portugal, na Ma* 
deira, nos Açores, no Brazil, mas na índia, e na Chjna, e até 
entre selvagens americanos. 

A arte do florista auxiliada pela chi mica, pela historia na* 
tural, pela mechanica, pela riqueza, pelo gosto, e pela moda, as- 
cendeu emfim a tal fastigio que a natureza vencida parece ha- 
ver-lhe posto o seu noh plus ultra no monumento do rei dos 
floristas, Constantino, Constantino o portuguez. 

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO. 



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— 556 — 



NOTA QUADRAGESSBtfA QUINTA 



PAGINA 183 — VERSO 9 

DEUSES LiRBS E PEIUTES 

JLjares, nomes dos deuses domésticos dos romanos, de origem 
etrusca, que presidiam á guarda das suas casas, familias, e tú- 
mulos, como seus génios tutelares hereditários. Eram os Lares 
dois filhos gémeos da ninfa Lara, ou Larunda, e de Mercúrio, 
ou de Júpiter, porque de ambos reza a roythologia disputarem 
esta paternidade. 

Eram deuses da mais alia jerarchia celestial (dos deuses ro- 
manos também havia aristocracia) ; e como taes eram também 
considerados no numero dos Penates propriamente ditos, sendo 
seu culto muito anterior áquella fabula, porque Virgílio dii: 
que Eneas salvara a grande custo os Penates, por ordem de Hei- 
tor : 

Sacra suos que tibi commendat Troja Penates. 

Os Lares, de uma palavra etrusca, Lac, que significa prín- 
cipe, ou presidente, segundo Vossio e Scaligero, eram represen- 
tados em esculptura de pedra inteiriça, vestidos com pelle de cão, 
e tendo aos pés um cão, e algumas vezes por si só um cão sym- 
bolisava estes deuses, como symbolo que sempre foi da vigilân- 
cia, da amizade, e da fidelidade. 



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— 557 — 

Lares, segundo Arnobio, vem do grego, e significa vicus, a 
morada, e também se tomava pelo lume, á roda do qual os rús- 
ticos de então, como os nossos bons aldeões de hoje ainda cá 
usam, faziam as suas pobres refeições, e rezas. E ainda hoje entre 
nós onde se accende o lume se chama lar ou lareira ; lararium 
chamavam os romanos ao sitio aonde tinham guardados com o 
maior recato os seus deuses Lares ; sendo ainda hoje tão acatada 
a lareira, e o mesmo lume, que o cuspir-lhe, dizem, i peccado, 
e quem o ousasse seria tido por impio. Lares se chamava também 
a casa, a morada paterna, ou própria, e onde cada um nasceu. 
Assim diziam elles como nós dizemos ainda : regressar aos pá- 
trios lares, ou á pátria, faltando de quem fez maior ausência á 
sua familia. Lares, erofim, era tudo que ha de mais caro à vida. 
Homo sitie lare, era o mesmo que dizer pobríssimo, ou que não 
tem onde cahir morto, ou por outra : eira, nem beira, nem ramo 
de figueira. De lar vem limiar, a entrada principal de uma casa ; 
de lar vem solar, a originaria morada das familias nobres; e 
assim como homo sine lare, pobríssimo ; assim também não ha 
fidalgo sem seu solar, fidalgo do castelhano, hijo de algo, íHho 
de alguém. Estes deuses Lares, identificados com os Manes, deu- 
ses de segunda ordem, estendiam seu poderio da morada aos 
campos, e até sobre os mares. Assim havia Lares urbani, pa- 
tronos ou padroeiros das cidades ; compi tales, das encruzilhadas ; 
violes, das estradas ; vicorum, dos bairros ; cubiculi, do quarto da 
cama ; permarini, dos mares ; hostites, dos inimigos ; rurales, dos 
campos ; domestici, familiares, privatu das casas das familias etc. 
Lares para tudo, para todos, mas Lares Primti, distinctos de La- 
res Publici, eram os dois filhos de Larunda, aos quaes ao depois 
juntaram o génio de Gesar, no tempo dos imperadores. 

O christianismo nada tem que invejar nisto aos pagãos ; haja 
vista aos santantoninhos das portas das quintas, sem o que não 
ha quinta de nome ; o qual ordinariamente lhes vero do seu san- 



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— 558 — 

to, orago, ou patrono, cora o seu nichinho na frente da porte 
principal. E n&o só as quintas, mas todos os estabelecimentos 
públicos e particulares, as cidades, villas, aldèas, as praças, as 
fortalezas, as ruas, as ilhas, as embarcações, desde as mais fa- 
mosas caravelas que em 1 502 levaram Vasco da Gama è Iq- 
dia, até ao mais modesto barco Santo António e Almas, que 
actualmente faz carreira do Algarve para Lisboa, tudo tem o 
seu patrono, um santo, e as mais das vezes d'elle tiram o sen 
nome. 

Nomes de outra espécie vão hoje dando às coisas : 
Nao D. João vi, fragata D. Maria n, corveta Amélia, rua 
dó visconde da Luz, (rua nova aqui em Coimbra) e assim em 
tudo mais. E porque ? AUeri tempi, alteri pensieri. 

Outro romanisrao são os painéis das almas nas encruzilha- 
das, e de que tanto abundam as saídas d'esta cidade, ao que 
ahi para a serra chamam espanta diabos. Não só isso : cada misé- 
ria tem por seu patrono, ou, como vulgarmente lhe chamam, por 
advogado um santo : S. Jerónimo, advogado dos raios ; Santa 
Barbara, dos trovões ; 5. Thiago, dos moiros e das cabaças ; 
Santo António, do perdido, (e peccante d'ellese a coisa não appa- 
rece logo rezado o seu responso, porque corre risco de ser mer- 
gulhado no pote da agua) ; Santa Luzia, dos olhos ; S. Braz, da 
garganta ; S. Matheus, das sezões e das boninas, e em premio só 
lhe dão trigo furtado ; 5. Jorge, do gado vaccum, (e quando ai* 
gum boi tosse, grita logo o lavrador : S. Jorge ! animal) ; 5. Kpo 
dos larápios, (e suas offerendas é de rigor que sejam telhas far- 
tadas ao mais malfazejo da visinhança, pelo que corre risco de 
qualquer dia (içar com a calva â mostra) ; Santa Rita, dos im- 
possíveis; S. Gonçalo d? Amarante, dos casamentos das velhas; 
S. Martinho, dos bêbados ; de Santo Hilário não fatiemos, pela 
mesma razão que fica no tinteiro o deus Priapo dos romanos; 
e quem tiver maior curiosidade consulte lá a mythologia dos ro- 



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— 559 — 

manos, e cá a qualquer velha d'aldêa ; e, finalmente o archanjo 
S. Miguel, anjo da guarda de todo o fiel christão ; como prin- 
cipe e capitão general da milícia celeste, é também o anjo tu- 
te ar da guerra, tendo sido o que no ceo deu ao inimigo com* 
mura a primeira batalha campal ; como diz o evangelista Águia : 
Michael et AngeU eju$ praeliabantur cum dracone, ei draco pu- 
gnabat ei AngeU e/tw. 

Os deuses Lares, porem eram commummente o mesmo que 
Penates, diz Ovídio (1), e são estes que vamos ver que eram os 
propriamente ditos. 

DOS DEUSES PENATES 



Eram também os Penates deuses dos romanos, e já antes (Tel- 
les dos etrusco» ; e também se chamavam Lares ; roas convém 
distinguil-os dos outros Lares, e dos Manes, também deuses; 
porque os Penates, eram considerados de origem divina, e por 
isso deuses públicos, deuses políticos, e da mais alta gerarchia, 
em quanto os outros, sendo de invenção humana, eram secun- 
dários ; e por isso também se chamavam Semones, quasi hotni- 
nes, semi-dei. 

Penates do lat. penitus, por serem guardados no mais inti- 
mo recinto da casa (2) ou como diz Cícero (3) de penus, que 
eram as coisas necessárias em uma casa de família, como vive- 
res, etc. e assim como de optimus, maxirnus, optimates, magna- 
tes, assim também de penus, Penates, para mais se exaltar a 
sua máxima importância. 



(1) Fast. ii. 

(2) Isidoro, liv. viu. 

(3) De Nat. Deor. ii. 



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— 560 — 

Chamaram-se também Praeslites das palavras latinas, praes- 
tare opem, dar soccorro ; e também Penetrales, do latim pene- 
Irales ; e os logares onde eram venerados penetralia, ou lararia, 
ou sacraria, e finalmente os definiam proverbialmente, penes 
nos nati, aut quorum benefieiis pemtus vivamus, et sdamus (1). 
Estes deuses eram pois os patronos, ou padroeiros dos impé- 
rios, das cidades, e de povos inteiros ; e também quando esco- 
lhidos por particulares eram deuses domésticos, como os próprios 
Lares. O numero e nome d'estes deuses não é liquido. Segundo 
Hacrobio eram Júpiter ; /uno, Minerva, e Vesta; outros junta- 
ram Neptuno, Apollo, o Ceo e a Terra, Saturno, Ceres, Pria- 
po, Plutão, etc. Estes deuses celestiaes eram representados em 
estatuas de pedra; os outros em imagemsinbas de páo: aos ce- 
lestes sacrificavam em altares; aos terrestres em aras; aos in- 
fernaes (que também os tinham) em covas, ou espeluncas : aos 
celestes ao nascer do sol ; aos terrestres ao meio dia ; e aos in- 
fernaes no occaso : aos celestes, animaes brancos, e machos (por 
crerem nestes maior virtude para a geração), aos infernaes fê- 
meas. 

Cada um tinha seus templos, e muitos seus sacerdotes, oo 
sacerdotizas, que ali mantinham seiripre lume acceso, e faziam 
seus sacrifícios, sem faltar dos magos, cujo officio principal era 
fazer sacrifícios e preces, explicar os deuses, e suas genealogias. 

A cada um dos deuses mais celebres dedicavam diferentes 
animaes : a Júpiter, a águia ; a Juno, o pavão ; a Neptuno, o ca- 
vallo ; a Marte e a Esculápio, o gallo ; a Baecho a lynce ; a Vé- 
nus e Apollo, o cysne ; a Diana o corvo. 

Também lhes consagravam differentes arvores : a Júpiter, o 
carvalho e a azinheira ; a Baecho, a hera ; a Pan, o pinheiro ; a 
Vénus, a murta ; a Minerva, a oliveira ; a Plutão, o cy preste (que 

(1) Macrob. liv. iii e ir. 



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— 501 — 

ainda hoje está sendo para os túmulos um ornato de rigor) ; a 
Apollo, o loireiro ; 

Aux plus savants auteurs, com me aux plus grands guerriers, 
Apollon ne promet qu'un nom et des lauricrs. 

e a Hercules (1) o álamo branco. 

Todos estes deuses dividiram entre si o universo. Júpiter, 
porem, imperava sobre tudo, e até sobre os outros deuses ; Ju- 
no (2) esposa de Júpiter, presidia aos casamentos, e aos nasci- 
mentos ; Minerva, h agricultura, a todas as artes e sciencias, como 
inventora de tudo, que ha bom ; por isso Ovidio lhe chama a 
deusa dos mil trabalhos ; Saturno, ao tempo. 

£ todos estes deuses tinhafa seus dias de festa marcados no 
calendário, sacerdotes, ou sacerdotisas, e livros próprios para os 
sacrifícios. 

Os livros mais notáveis, segundo Cícero, eram os Harauspi- 
cinios, Fulguraes, Auguraes, e Rituaes. 



(1) Hercules, Fidio, Sanco ou Sango, que tudo quer dizer Hercur 
les, como attesta uma lapide da collecção do palácio Farnese, na qual 
se lia : Saneo Sancto Semone Deo Fidio ; e Festo Pompeo diz : Herculi 
aut Sanco, qui scilicet idem est deus. Varro fallando do deus Fidio diz: 
Homo esse sanctum (L. sanctum) ab sabina língua, et Herculem ab Grec~ 
ca. £ Lívio liv. vmdiz: Boni Semoni Sango (L. Sango) sensuerunt con- 
sacranda. 

(2) Juno com ter tido três filhos de Júpiter seu esposo, Hebe, Mar- 
te, e Vulcano, passava por esposa virgem ; sendo a única de todas as deu- 
sas do olimpo de quem se não contasse alguma infidelidade e por isso 
lhe chamavam a casta Juno. 

TOM. III. 36 



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— 562 — 



DOS DEUSES MANES 



Manes, (do latim manere^ ficar). Almas dos mortos, fantas- 
mas nocturnas. Anjos, ou demónios segundo foram bons ou méos 
em vida. 

A crença na imroortalidade da alma, e o desejo de n&o per- 
der para sempre os que nos foram mais caros, por seus prestan- 
tes serviços & pátria, ou á família, morrendo bemquistos, origi- 
nou o culto dos Manes. A roythologia dos pagãos os honrou como 
divindades dos túmulos e do reino da terra. Tiveram altares em 
Trezena, no templo de Diana, aonde se lhes fazia uma festa 
ou sacrifícios, quando os julgavam irritados. Em Atbenas se lhes 
fazia uma grande festa solemne, durante a qual eram defesos os 
casamentos. Na Itália, e em todo o império romano, se manti- 
nha igual respeito aos Manes. Numa lhes consagrou o segundo 
mez do anno ; os particulares lhes erigiram altares. As inscrip- 
ções sepulchraes começavam pelas lettras iniciaes s. t. t. l. ele- 
gantemente decifrado por Marcial : 

Sit tibi terra levis, molliqne tegaris arena. * 

Era para que os mortos mais facilmente se achassem em 
contacto com os deuses Lares, e ao abrigo dos demónios irem 
entender com elles, e cevar-se em seus cadáveres (t). 

(1) A essa crença, e medo dos demónios allude Tibullo: 

El tépido divorat ossa rogo. 

E Ovídio. de Medea canta: 

Per túmulos errai sparsis disjuncta capillis, 
Raptaque de tepidis colligit ossa rogis. 

Porque tinham para si que os corpos, ossos, e exuvias dos mortos 
eram visitados pelos seus deuses nos sepulchros, para os guardarem das 



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— 563 — 

D'ali veia o uso de gravar nas campas as lettras h. r. i. p. 
(Bk requiescat in pace), o que a Igreja Catholica adoptou, como 
rito, e usa cantar sobre as sepulturas dos mortos, para d'ali 
apertar, e afugentar os espíritos immundos. 

Depois se lia em algumas medalhas : Diis Manibus, aos deu- 
ses Manes ; Laribus augusti. E assim passaram os Manes a iden- 
tificar-se com os deuses Lares, fazendo á porfia a guarda das ca* 
sas, das famílias, e dos túmulos. 

De inscripções dos antigos consagradas á memoria dos justos, 
nos oflerece o barão la Chatre, no seu riquíssimo Diecionario 
Panteon a seguinte e bem curiosa inscripçâo : 

« Tu nunca deixaste de existir 6 Proleo ; mas tu só passas- 
te à região mais aprazível; tu estás no seio das delicias, nas 
ilhas afortunadas, livre de todo o mal ; tu lá estás gosando da 
suavidade dos campos elysios ; tu já não sentes nem fome nem 
sede; tu, emfhn, lá vives sem pena, com luz sempre pura, e 
mais perto do radioso olimpo. » 

Parece que o culto dos Manes, ou tributo de veneração dos 
vivos para com os mortos, vai crescendo com a civilisação. A 
principio enterravam os mortos nas próprias casas, depois junto 
dos templos, e por ultimo dentro dos mesmos templos, como 
ainda entre nós se pratica, na maior parte das províncias. Os 
cemitérios são de muito fresca data. A cidade eterna deve o seu 
cemitério da Lapa, ao cerco do Porto, em 1833; para onde 
o rei soldado, quando morreu em 1834, mandou o seu coração 
em penhor de gratidão, pelo generoso acolhimento que ali ti- 
vemos durante o alludido cerco ; e lá se guarda com toda a ve- 
neração encerrado numa redoma de vidro na capella da Lapa. 



crueldades e malefícios dos demónios. £ para que a terra não servisse 
de estorvo deprecavam aos vivos, que os não sobrecarregassem muito; 
como dá a entender Quintiliano na declamação x. 

36* 



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— 564 — 

Lisboa deve os seus cemitérios dos Prazeres e do Alto de S. 
João, por idêntico motivo ao cerco da capital em 1834. Coim- 
bra deve os seus cemitérios do Pio, e Santo António dos Oli- 
vaes, á cholera-raorbus de 1856, e á febre amarella de 1857; 
e serão precisos outros tantos, e tão grandes ilagellos para se 
generalisar em todo o reino tão salutar providencia ; que quando 
não Tossem outras considerações, como a higiene, bastaria o ser 
um seguro contra a precipitação dos enterros, com grave risco 
de sermos enterrados vivos. 

O cemitério mais notável que eu tenho visto ou de que te- 
nha noticia é o Pire Lachaise, um dos cemitérios de Paris, inau- 
gurado em 21 de maio de 1804, na extensão de mais de trinta 
hectares de superfície; em 1852 contava jà mais de cincoenta 
mil monumentos, qual a qual mais sumptuoso, todo simetrica- 
mente ornado com arvores de vista, com uma numerosa- compa- 
nhia de jardineiros occupados assiduamente na cultura de innu- 
meraveis jardins que decoram aquelles monumentos. 

Aquella segunda Paris dos mortos é muito frequentada mes- 
mo em dias de semana ; mas aos domingos ali aifluem um sem 
conto de familias de todas as classes, maxime das mais elevadas 
da sociedade, para junto dos túmulos dos seus, orarem, e re- 
garem as flores com as suas próprias lagrimas. 

£ eu digo como o nosso bom Ovídio : 

Parva petunt Manes ; pietas pro divite grata est 
Munerae ; non ávidos stix habet ima deos. 

De todos estes cardumes de deuses, ou idolos escolhiam os 
romanos, ad libitum, os seus Lares (ou Penates) , segando a 
sua devoção, para ornato do seu oratario (lararium), e lhes re- 
zarem. O imperador Alexandre Severo, por exemplo, tinha num 
oratório (lararium) as imagens de Apollo, Orpheo, Abrahâo, 
e Chrislo ; e noutro oratório tinha as effigies de Virgílio, e de Ci- 



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— S65 — 

cero» para se encomendar in horis matutinis. Os romanos, alem 
de muitos centos de deuses, adoravam a febre, a adversidade, o 
pavor, o gorgulho, o pulgão, o escaravelho, e outros muitos bi- 
cha roços, destruidores dos fructos, e os egypcios até a cabeça ' 
do burro adoravam. 



CULTO DOMESTICO DOS DEUSES LARES 



(IN FOCO) 



Rem divinam nisi compUalibus, in compito, aut foca ne fa- 
rias : disse Catão. 

O culto dos deuses Lares ou era particular (in foco) ou pu- 
blico (compitalibus) ; o particular era nas casas, e quotidiano ; e 
consistia em terem no mais recôndito da poisada no seu orató- 
rio (lararium) figurinhas de páo, representando as divindades 
de sua devoção, enfeitadas com fitas, e flores (vernis floriam et 
aestivis), renovadas pelo menos duas vezes no anno, como em 
nossas povoações ruraes usam enramar pelo anno adiante as la- 
reiras e os oratórios. Tinharo-lhes diante luz acceza, symbolo da 
vigilância, e algumas vezes lhes depunham ao pé, como offerenda, 
a bulia, ornato deposto pelas creanças quando estas entravam na 
idade juvenil. Ali, ou junto do lume, era aonde faziam seus sa- 
crifícios os pobres, lançando ao fogo uma porção do seu melhor 
prato ; libando todos com vinho puro (vino puro) y por um co- 
pinho (vasculum), e lançando o resto na luz do oratório, ou no 
lume, se não havia victima. Na casa dos ricos havia altar, sa- 
cerdote, flores, fitas, e incenso e sacrifício de animaes domésti- 
cos e fieis, como cães, carneiros, e bezerros ; e solemne libação 
(vino puro): libando primeiro o sacerdote, depois passando o 



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— 866 — 

copito para todos provarem ; por fim o resto era entornado nos 
cornos da viclima. 

Ad caelum cum você, manus et muncra libo, 
Intemerata focis, 

diz Virgilio. 

Costume é ainda dos nossos rústicos, e de sua cortesia, quan- 
do bebem vinho, nunca beberem todo o conteúdo no copo, con- 
tando sempre com os circumstantes ; depois de beber passar o 
copo ao mais considerado ; .e este fazer outro tanto, até chegar 
ao derradeiro, o qual deixa sempre (o que também é da ceremo- 
nia) algum restosinho, que entorna, lançando-o com ar de mys- 
teriosa 'expressão. 



CULTO PUBLICO DOS DEUSES LARES 



(COHPITALIBUS, IN COMPITO) 



Rem divinam nisi compiíalibus, in compito, aut foco nefa- 
das, repetimos que recommendava Gatito, enthusiaste d'estas 
festas. Era pois de rigor, que taes solemnidades fossem celebra- 
das nas encruzilhadas dentro ou fora das povoações ; pela mesma 
razão porque se buscam as esquinas das praças, o terreiro da 
igreja da freguezia etc. para affixar editaes, annuncios, pasquins, 
e proclamações ; que é por passar ali mais gente, para ter noti- 
cia do que se pretende. 

Havia naquellas festas exposição de figurinhas dè cera e lã 
suspensas. Estas figurinhas, estes simulacros algumas vezes eram 
de cera e barro ; como o feitiço contra Daphnes de que falia 
Virgilio ; 



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— 567 — 

Limus ot hic durescit, et haec ut cera liquescit, 
Uno eodemque igni ; sic nostro Daphnis amore. 

De três ou quatro faliam Bodino e Zacuto Lusitano feitas só 
de cera. Outras vezes eram de cera e lã, ou pano talvez fur- 
tado á própria pessoa contra quem eram feitas aquellas carica- 
turas, ou ollegorias; como as da fabrica das feiticeiras Sagana, 
e Canidia, efe que falia Horácio (1): 

Lanea et effigies erat, altera cerea maior, 
Lanea quae poenis compescerat inferiorem, 
Cerea supliciter slabat servilibus usqtie 
Jam peritura malis. 

E se por ventura a malquerença era figadal, e queriam dar 
cabo do individuo odiado, atiravam com o estafermo a uma fo- 
gueira, e ficavam muito crentes de que â medida que este se ia 
derretendo, e tisnando, assim a tal pessoa se ia definhando, e 
mirrando até acabar, como dá a entender Ovidio : 

Quodque pice adstrin&it, quod acu trajecit abena, 
Obsutum menta torret in igne caput. 

Outras vezes faziam essas figurinhas, só de cera, como a 
que fez a feiticeira Medea, que Ovidio diz que a feria, e lhe 
traspassava o fígado : 

Devovet absentes simulacra que cerea flxit 
Et miserum ténues in jecur urget açus. 

As feiticeiras acima celebradas ndo eram as únicas insignes 
artífices d 9 esta espécie de manufactura diabólica ; a mulher de 
um certo Enguerrano em França foi por isso muito afamada. 
E nfto havia que zombar dos taes bonecos. Duffo, rei da Esco- 

(i) Liv. viu. 



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— 3«8 — 

cia finou-se (talvez de susto) por causa d'um doestes ttires tras- 
passado de setas, que emprebendeu lhe apontavam para.elk; 
em Paris foi degolado um illuslre cortezão, por ser encontrada 
em seu poder uma das taes figurinhas, com alguns caracteres 
gravados, cabeça e peito traspassados com agulhas; um Sumrao 
Pontífice morreu de quizilia, diz Crespeto, de ver-se ridicnlisa- 
do em uma figurinha ; mas acrescenta o mesmo, que o feiticei- 
ro que a fez, pagara caro o atrevimento, sendo esfolado vivo, 
e depois feito em postas. O efleito d'aquellas figurinhas era ma- 
gico, faiei nador, e diabólico, segundo Zonaras Glycas, Del-Rio, 
Maiolo, Bolengero, e Pedro Gregório Tholosano. 

Os deuses Lares eram também Rurales, protectores dos. cam- 
pos, e das cearas, e por isso lhes competiam as mesmas honras 
que a Ceres, e a Priapo. 

Fizeram-se-lhes oíFerendas dos priocipaes fruetos da estaç&o 
e de chacina de porca. A porca, como fêmea, pertencia aos deu- 
ses de segunda ordem, ou semones ; roas os deuses Lares, Lar 
rundos, tinham duas naturezas: eram divinos em quanto filhos 
de Júpiter, ou mesmo de Mercúrio (porque já se sabe que am- 
bos tinham suas preterições âquella paternidade) ; e eram huma- 
nos por parte da mài, a ninfa Lara ou Larunda, que era ama 
guapa cachopa das margens do Tibre. E por tanto â porca era 
bem sacrificada áos deuses Larundos ; até porque bem. pode ser 
que a raãi noutro tempo tivesse guardado animaes d'essa espé- 
cie, e lhes presidisse, como os filhos depois presidiam a todo 
que havia de mais recôndito, desde o quarto da cama (c*bkn- 
lum) 9 até aos mais altos destinos do império romano. Demais : a 
porca também symbolisava no seu sacrifício a destruição dos 
damninhos das cearas, e nada o é tanto como o porco, que 
não farto de devorar os fruetos revolve o chão até ás raízes para 
as pôr ao sol ; e também podia ser porque o porco sempre foi 
tido por animal immundo ; e assim inculcavam que se devia dar 



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— 569 — 

cabo da porcaria. E entoo nada mais natural do que destruir ns 
fêmeas, que são indivíduos importantíssimos na geração, até 
pelo que sào de prolíficas. Ainda haveria outra razão nào menos 
forte : os romanos nos primeiros seiscentos annos (até á guerra 
pérsica) eram t&o sóbrios, que ainda nos banquetes não passavam 
de ovos e mel, para primeiro prato; e para segundo, fructas 
e erva* ; nào conheciam o p8o, e quando muito se regalavam de 
papas de trigo, cevada, e favas, como attesta Âlex. ab Alexan- 
dro • nfio faziam por tanto uso das carnes, e por isso desconhe- 
ciam as vantagens da creação dos porcos. 

Em obsequio aos mesmos deuses Lares se faziam solemnes 
libações. Emfim os seus festejos se renovavam mensalmente. Can- 
tão recommendava, que fossem muito devotos doestas festas ; e 
que em vez de mensaes, as tornassem mais frequentes, ao menos 
nas calendas, idos, e nonas. 

Eram estas folganças religiosas as suas romarias, aonde alegres 
todas as classes concorriam e todas tinham que levar offerendas 
de flores, fitas, e primícias dos fnictos ; e cada um levava tam- 
bém, se queria, suas figurinhas, para pendurar á vergonha do 
mundo, na encruzilhada, e para rogarem aos deuses que so- 
bre aquelles simulacros descarregassem todas as suas iras. Estas 
figurinhas exprimiam, ou deviam exprimir, e symbolisar quanto 
o permittia a habilidade e poesia do artista, os padecimentos 
do offerente e a causa ou causador (Telles ; isto é, a oppressào, 
e o oppressor. Ali assim podiam queixar-se todos, de tudo, e 
de todos ; com tanto que se explicassem pelas taes figurinhas. 
Era a festa uma espécie de liberdade de imprensa : as figuri- 
nhas os typos ; typographos, collaboradores, redactores, todos o 
podiam ser; e ledores eram todos absolutamente, porque todos 
entendiam, ou se faziam explicar a significação da figurinha ; 
que era sempre a expressão de grande tyrannia, e apontava o 
tyranno. Por isso quando Catão bradava ao povo romano : com- 



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— 570 — 

pitalibus, in compito I valia o mesmo que quando o fanático 
Robespierre gritava a la lanterne, a la lanternel Queria dizer: 
arrancai a mascara aos vossos oppressores ! Que elles, ao menos 
não folguem com uma completa impunidade ; entregai-os ao des- 
prezo publico, á publica irrisão; jé que 1 sobre elles não podeis 
exercer a pena de talião. Quando Catão recomroendava cele- 
brassem estas festas mais frequentes, e de mensaes as repetis- 
sem ao menos nas calendas, nos idos, e nonas, era o mesmo 
que dizer, que de mensal, que era o seu período, o fizessem beb- 
domadario, semanal. E se podesse elle o tornaria diário, isto é, 
periódico de todos os dias. E o seu efíeito era prodigioso; a 
prova 16 está em Duffo, e no Pontífice, que morreram fascina- 
dos pelas figurinhas ; e mesmo era Ovidio, se o poeta não mente, 
quando diz que sentia repassado o fígado 

Et miserum ténues in jecur urget açus. 

Verdade é que a immunidade não era tão ampla, que não 
houvesse exemplos em contrario, como o do feiticeiro, que foi 
esfolado vivo; roas nem por isso deixavam de trabalhar as figu- 
rinhas contra os abusos e os tyrannos. Estas festas, estas rega- 
lias acabaram com um golpe d'estado. O imperador Constantino, 
alcançando as grandes victorias contra Maxencio, desde Turim 
até Roma, attribuiu a fortuna das suas armas ao Deus dos chris* 
tãos e logo que se achou senhor da Africa, e da Itália, decla- 
rou o christianismo, religião dos estados romanos, por ura decreta 
de Milão no anno 313. Muitas praticas supersticiosas todavia ra- 
dicadas nos povos pelo correr dos séculos vieram coando de ge- 
ração em geração até aos nossos dias e mais ou menos transfor- 
madas, mais ou menos christianisadas, mais ou menos civilisa- 
das, ainda hoje estão in termos trando bem clara a sua origem 
Do culto dos Lares conservamos nós maia que de nenhum 



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— 571 — 

outro vestígios manifestos ; pelas províncias, aldêas e serras so- 
bre tudo. 



Coimbra. 



GONÇALO TELLO DE MAGALHÃES COLLAÇO. 



NOTA QUADRAGESSIMA SEXTA 



PAGINA 185- VERSO ií 

' HERCULES HJSA6ETE 

muitos Hercules nos a p parecem figurando em diversos tempos 
confusamente misturadas a historia e a fabula. Ê porem innega- 
vel a existência de um Hercules grego, a quem se attribuem os 
mais assignalados feitos de força e valentia, e $s vezes também 
de barbárie : os seus doze trabalhos bem conhecidos são de toda 
a gente, por pouco lida que seja nos poetas. Deodoro de Sicília, 
dá três Hercules ; Arriano, dà quatro ; Cícero, dez ; e alem de ou- 
tros citados por differentes autores, Varrâo numera quarenta. 

O Hercules egypciaco parece que deve merecer-nos especial 
consideração, porque entre outras proezas suas diz Deodoro que 
subjugando grande parte do mundo, também livrou da persegui- 
ção do tyranno Bu&ires as Hespérides. 

Do velho Hesperio, Hespérides chamadas. 



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— 572.— 

Neste verso distingue o nosso Camões 'o arcbipelago de Cabo 
Verde, e diz : 



Onde o cabo Arcinario o nome perde, 
Chamando-se dos nossos Gabo Verde. 

É de suppor que chamasse Hespérides équellas ilhas, em ra- 
zão das excellentes laranjas que produzem, de casca Gnissima, 
grandeza rara e sabor delicioso. A musa poetisou aquellas ilhas 
methamorphoseando-as no jardim das Hespérides, tio rico pelos 
preciosos pomos de oiro. 

Represenla-se Hercules* egypcio a aguentar o mundo que pe- 
sara nos hombros de Atlas ou Atlante. 

O Hercules oriental sabe-se que teve um templo em Hespa- 
nha numa villa (Tartessus) da fundação dos phenicios. Uma de 
suas obras foi o estreito de Gibraltar, dizendo alguns autores que 
Africa e Europa eram até áquelle tempo unidas, e que Hercu- 
les lhes cortou a juncçâo. Os montes Calpi e Abyla, parecem 
monumentos que attestam a tradição de que sâo não menos me- 
moria as proverbiaes columnas e o Non plus ultra. 

O Hercules indio, appellidado Bello, julga-sc geralmente ser 
o Hercules phenicio, de que falia Heródoto. Que muitos beroes, 
por fortes e celebres tiveram o mesmo nome, ou appellido, afir- 
mam alguns autores, variando em noticia e opiniões, mas o que 
é historia e não fabula, é a existência do Hercules forte, admi- 
rável grego thebano. 

Hesiodo, ainda que muito posterior a Orpheu e Homero, 
dá-nos extensas noticias na sua Theogonia e Cosmogonia das fa- 
bulas e mythos gregos communs á sua Geographia e Chronologia. 
Hercules é um dos principaes vultos mythologieos ; herdeiro dos 
segredos astronómicos de Urano e Atlas, apparece com as pri- 
meiras idéas da Chronologia, Cartographia, e Geographia. Os 



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— 573 — 

trabalhos de Hercules «parecem referir-se á grande catastrophe, 
origem do Mediterrâneo. 

Hercules, para os gregos, foi o inventor da astronomia. Fa- 
bulosa, ou verdadeira, será esta mais uma noticia que se es- 
conde nas sombras da antiguidade, atravez das quaes vemos ao 
pallido reflexo de uma lâmpada sepulchral uma' civilisação per- 
dida ! rico despojo de tantas gerações ex ti netas; substituídas por 
outras que incultas desfilaram nas trevas, antes do christiamsmo^ 
brilhantíssimo sol da redempçSo do mundo ! 

Finalmente Hercules diz forte, diz colosso, é synonimo de 
força e grandeza. O nome.de Hercules, estendendo-se por toda 
a terra, sobe ao firmamento qnde assoma consteUação boreal, e 
nas estreitas, de que é composta, a imaginação do poeta cré 
observar as acções eminentes que lhe esclareceram a fama!... 

Àdreittindo, como hypotheses, a existência de muitos Her- 
cules exercendo muitas galhardias de prodigiosa heroicidade, bus- 
quemos nas ruinas do passado os fragmentos de todas essas tra- 
dições ; reunamos todos esses feitos, e de todos esses heroes fa- 
çamos um só!... procuremos entre os monumentos que lhe con- 
sagraram um com o qual mais sympathisemos ! É o templo de 
Hercules Masagete... Eil-o!... Salve!... 

Que pensamento sublime exprime aquella estatua m ages tosa, 
que sustenta uma lyra na mão robusta. Que mysterios revela ! % 

Seja-nos concedida a liberdade ou licença, de interpretar 
uma expressdo figurada.. Ali vê-se desaggravada a natureza cruel- 
mente ultrajada, no assassinato da esposa e filhos, e depois na 
humilhação do heroe fiando numa roca aos pés de uma rainha, 
escravo de seus caprichos ! 

A lyra, em vez da massa e da roca, é o emblema da har- 
monia do espirito sobranceiro á matéria ! 

£ a força moral triumphante ! 

A luz vencendo as trevas ! 



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— 574 — 

Hercules Musagete é o colosso animado com o espírito de 
heroe! E 

Para que hão Ceasse d' esta sorte 
uma obra immortal sujeita á morte, 

deificaram-o ! 

É Hercules e Clio, o heroe e a historia. O heroe prote- 
gendo as musas, as musas eteroisando o heroe. 



HERCULES MUSAGETE 



Heroe que exploraste da força os thesoirw» 
e foste no mundo temido leão l 
tiveste de sangue manchados teus loiros ; 
louvores do averno, dos teus maldição. 

Depois ! eis-te escravo ! curvado, opprímido ! 

astuto menino captivo te fez! 

tens roca por sceptro!. . . . vence u-te Cupido: 

perdido já louco!. . . . tfOmphale eis-te aos pés! 

Mas basta! dos fortes o somno é d'instanles! 

o fuso co'a maça, no pó se envolveu : 

num templo acordaste ! dez thronos brilhantes 

ali vès erguidos! um d'elles é teu! 

Não pode a matéria dar gloria sublime, 
vem força divina teu nome exaltar! 
aqui só virtude no canto se exprime ; 
as musas não sabem heroes humilhar. 

D. ANTÓNIA GERTRUDES PGSICH. 



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— 575 — 



NOTA QU ADRAGESSIMA SÉTIMA 

PAGINA 23— VERSO 8 
OBSERVATÓRIOS PARA A ASTROROMIA C PARA A METEOROLOGIA 

CARTA DO TRAMJCTOR A SUA EXCELLENCIA O SENHOR CONSELHEIRO 
MARINO MIGUEL VRANZIN1 

111.»° e Ex.»° Sr. 
Meu respeitável e bom amigo 

INunca recorri nem ao saber, nem á officiosidade de v. ex. a , que 
não viesse muito bem servido e satisfeito. Aqui está o porque, 
sem previamente consultar a vontade de v. ex.*, eu envio já aqui 
a v. ex. a objecto para uma nota á minha trpducção dos Fastos 
de Ovidio ; nota que v. ex. a de certo se não recusará a fazer e 
assignar, pois nenhum dos nossos litteratos e sábios a quem te- 
nho distribuído iguaes tarefas, m'as ingeitou até agora. 
Diz o poeta : 

Inda nos hombros do robusto Atlante 
não assentava a machina sidérea. 

Cubicava eu que a nota de v. ex. a discorresse sobre este 
Atlante aguentador dos ceos, e cujo nome se estendeu como ti- 



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— 576 — 

tulo âs cartas cosmographicas, e translatamente a muitas ou- 
tras ; que nos dissesse, podendo ser, alguma coisa sobre o que 
poderia haver de histórico recôndito nessa fabula ; se o monte 
de que se fez o tal gigante não teria sido, em apartadas eras, 
um observatório. Alguns dizem (com que fundamento melhor o 
saberá v. ex* do que eu) ter existido com esse nome um rei da 
Mauritânia muito dado ao estudo dos ceos. D'aqui, parece-me, 
desce bem bom e natural caminho para fallar de observatórios 
astronómicos, passando facilmente d'elles para os meteorológicos, 
importância e progresso d'uns e d'outros ; o que num e noutro 
assumpto ha, pode, ou deve haver entre nós. 

Emfim eu não peço isto nem aquillo ; peço o que jô pedi : 
uma nota escripta e assignada por v. ex. a , de qualquer exten- 
são, forma e estylo que a v. ex. a agrade. 

Tenho a honra de me assignar 

De v. ex.» 

Admirador e servo, amicíssimo 

e obrigadissimo 
Lisboa 21 de novembro de 1859. 

A. F. DE CASTILHO. 



SEGUNDA CARTA AO MESMO 



111.»°' e Ex.»° Sr. 
Meu respeitável amigo 



£j tão grande e inabalável o empenho de incluir o nome de v. 
ex. a como incrustação preciosa nos commentarios ao meu livro, 
que ainda me permitto insistir depois d'esta, recusativa mas ob- 
sequiosa, carta de v. ex. a 



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— 577 — 

Antes de tudo proroguemos o praso até ao fim do corrente 
anno. 

Agora, com esta ampliação no tempo, façamos ainda mais 
para commodidade de v, ex. a : substituamos á tarefa nimio vasta, 
outra mais limitadinha aos estudos habituaes e predilectos de 
v. ex. a 

Em muitos logares dos Fastos de Ovídio ha prognósticos do 
tempo. Vento d'aqui qu dacolá, chuvas, temporaes, saraivadas, 
calores, etc. 

Observações meteorológicas desenvolvidas, ou mesmo embryão 
d'ellas, não havia de certo no seu tempo ; mas a tendência para 
lunarios perpétuos, que já então não era nova, e que em toda 
a parte produziu, mormente por entre os camponios, um grande 
numero de rifões sobre o tempo, e depois os almanachs proféti- 
cos, astrológicos etc, esta tendência, digo, não era já uma per- 
cursora das observações meteorológicas modernas, como estas o 
estão sendo provavelmente de uma verdadeira* sciencia meteoro- 
lógica, com grandes e importantíssimas applicações ? 

Quem melhor do que v. ex. a nos pode tratar de tudo isto? 
mesmo sem abrir livros, e como quem conversa, o pode v. ex. a 
executar. 

Espero pois que v. ex. a nos não falte; peço-lh'o por tudo 
quanto ha, e agradeço-lh'o como remate de todos os favores de 
que já sou devedor a v. ex. a 

O passo a que a nota ha de ser applicada, eu cá o procu- 
rarei depois; deve ser o primeiro em que Ovidio falle de al- 
gum doestes prognósticos. 

Tenho a honra de me assignar 

De *. ex.« 
Lisboa 30 de novembro de 1859. 

A. F. DE # CÀSTILHO. 
TOM. III. 37 



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— 878 — 



A nmMILMA E tED Wlf II 

Us variados e complicados phenomenos que offerece a nossa 
atmosphera, devidos âs numerosas combinações, e ao movimento 
dos gazes de que é composta, combinados com o vapor da agua, 
com o calórico, a electricidade e a luz, são tão antigos como o 
mesmo globo que envolvem até á altura de 1 5 léguas, e por isso 
em todos os tempos excitaram a contemplação do homem, cuja 
existência physica e moral está tão intimamente ligada com o 
ikrido que o cerca. 

Desde as mais remotas eras perceberam os médicos que a 
applicação do conhecimento dos phenomenos da atmosphera exer- 
cia uma immediata e poderosa influencia na pratica da medici- 
na. O celebre Hippocrates já a recommendava como uma scien- 
cia essencial que devia guiar aquelle que, á similhança de uma 
divindade benéfica, se encarregava de attenuar ou extinguir as 
enfermidades que affligem a humanidade ; porem se do nosso in- 
teresse individual passarmos a outras considerações importantes, 
ficaremos convencidos de que a meteorologia, ou conhecimento 
dos phenomenos atmosphericos é sciencia assaz importante a to- 
dos os respeitos : a influencia dos meteoros sobre a vegetação é 
tão conhecida e poderosa que não carece de discussão, e forma a 
base da agricultura, podendo-se afoitamente asseverar que o an- 
damento atmospherico do anno, decide muito mais do resultado 
das colheitas, do que todos os processos da mais apurada cul- 
tura. f 

A meteorologia acha-se por tanto destinada a prestar pode- 
rosos auxilios ás duas grandes sciencias a que o homem tributa a 



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— 579 — 

maior veneração, lembrando-Ihe a todos os instantes a medicina 
e a agricultura. 

É pois evidente que a necessidade de attender á própria con- 
servação o tem obrigado a estudar os phenomenos do fluido em 
que vive, e d'este estudo se originou esta útil sciencia ; mas os 
antigos infelizmente ignoravam os verdadeiros princípios da phy- 
sica do globo, achando-se ao mesmo tempo privados dos indis- 
pensáveis instrumentos de precisão que as ulteriores gerações fo- 
ram successi vãmente inventando e aperfeiçoando afim de avalia- 
rem os effeitos d*aquelles phenomenos ; fixando os seus valores de 
uma maneira permanente para se transmittirem aos vindoiros, 
e se poderem comparar. O thermometro, o barómetro, o hy- 
grometro, e o udometro, avaliando numericamente a intensi- 
dade do calor, a pressão da atmosphera, a sua humidade e as 
chuvas transmittidas á superfície da terra, produziram maravi- 
lhosos effeitos, repetindo-se as observações em um grande nu- 
mero de pontos do globo ; porem só no nosso tempo é que tem 
tomado grande vulto, estendendo-se a sua útil applicação a ou- 
tras sciencias. Actualmente todos os governos á porfia, tem es- 
tabelecido numerosos observatórios nos seus estados para deter- 
minarem os climas respectivos, e ainda ha pouco o celebre as- 
trónomo Haury, dos Estados Unidos, conseguiu fazer uma feliz 
e útil applicação á náutica para dirigir as derrotas do oceano 
com o maior proveito e segurança, abreviando notavelmente as 
viagens e indicando os centros mais tempestuosos, com o auxi- 
lio das suas cartas hydrographicas meteorológicas tão aprecia- 
das pelos navegantes ; porem convém notar que, para se conse- 
guirem resultados proveitosos á sciencia, é indispensável possuir 
numerosas observações particulares em uma longa serie de annos 
que comparem e eliminem as irregularidades eventuaes, afim de 
se poderem descobrir e determinar as leis predominantes que re- 
gulam a intensidade e successão dos phenomenos em cada um 

37* 



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— 580 — 

dos pontos do globo ; estas não só dependem das causas já men- 
cionadas, mas também da posição geographica dos sítios, da sua 
altitude sobre o nivel do mar, da sua proximidade ou afasta- 
mento das montanhas, dos bosques, e de outras causas locaes 
que igualmente influem naquelles pbenomenos. 

Era Portugal foi mui pouco atteodido este ramo das scieo- 
cias physicas até ao fim do século passado, existindo apenas algu- 
mas observações desconnexas que, pelo seu pequeno numero e cur- 
tos periodos de duração, de nada podiam servir para a determi- 
nação dos variados climas do reino. Foi no anno de 1816 que 
o nosso respeitável amigo, o fallecido doutor Bernardino Anto- 
nio Gomes, um dos mais illustres e abalisados médicos portu- 
gueses de nossos tempos, nos fez notar a grande falta que havia 
de observações meteorológicas aliás indispensáveis para as suas 
investigações sobre a constituição medica do clima de Lisboa. As 
suas judiciosas reflexões nos fizeram nascer o desejo de o coad- 
juvarmos em tão útil empreza, pelo que, nesse mesmo anno, es- 
tabelecemos na casa da nossa residência um pequeno observató- 
rio meteorológico no qual se observava diariamente, e em horas 
determinadas, a temperatura exterior do ar, a pressão baromé- 
trica, o estado da atmosphera, a direcção e força dos ventos do- 
minantes, e a quantidade de chuva cahida. Alguns indivíduos da 
nossa família foram devidameute instruídos para nos auxiliarem 
nesta tarefa, e supprirem as nossas ausências. Estas importantes 
observações continuaram sem interrupção desde 1816 até 1826. 

Acontecimentos domésticos dolorosos interromperam esta se- 
rie de trabalhos até que em 1835 foram novamente continua- 
dos, terminando em 1858. Então cessou a necessidade do nosso 
auxilio pela creação do bello observatório do infante D. Luiz, 
o qual pela exactidão e apuro com que ali se praticam as obser- 
vações diárias*, assim como pela abundância e perfeição dos seus 
magníficos instrumentos, e pela intelligencia e zelo dos obser- 



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— 581 — 

vadores ali empregados, nada tem que invejar aos melhores ob- 
servatórios europeos. Gomtudo cabe-nos a honra de termos nós 
sido dos primeiros que neste paiz praticaram por tão longo espaço* 
e com tanta constância, uma serie não interrompida d'essas ob- 
servações para se determinar o clima de Lisboa ; servindo ellas 
de termo dé comparação para tempos futuros. Ainda ha pouco, 
para satisfazermos aos desejos do illustre director d'aquelle es- 
tabelecimento, aproveitando as nossas observações de 33 annos, 
podemos determinar, com bastante exacção, a lei que regula 
a distribuição mensal, e a quantidade das chuvas que annual- 
mente cahem em Lisboa. Por essa oceasião, demonstrávamos nós 
a útil applicação que se poderia fazer d'aquella enorme quanti- 
dade de aguas se fossem empregadas na lavagem dos canos de 
esgoto das ruas da cidade, pois que o seu volume equivaleria a 
350 anneis que funccionassem sem interrupção metade do anno. 
Essas nossas reflexões foram impressas no Diário do Governo 
d.° 59, do mez de março de 1859. 

Julgámos pois ter demonstrado as grandes vantagens que se 
devem colher para o futuro pela continuação d 9 aquellas observa* 
ções, hoje tão geralmente seguidas e apreciadas em toda a Eu- 
ropa, a ponto de serem comparadas diariamente entre os prin~ 
cipaes observatórios do continente coro o auxilio do telegrapho 
eléctrico. 

Lisboa 30 de janeiro de 1860. 

MARINO MIGUEL FRANZ1NI. 



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NOTA QUADRAGESSIMA OITAVA 



PAGINA 107 -VERSO 41 
ESTRIGES B BRUXAS 

Ijrande affinidade tinham as estriges com as nossas bruxas! 
Mas, se ellas antes de aves foram velhas, porque não tornariam 
depois á sua primeira forma ? Nio vai longe o tempo em que 
geralmente se cria que vinham de noite as bruxas chupar as 
creanças. Não havia por isso creancinha que não trouxesse ta- 
lisman para afastar muita coisa ruim, e principalmente as bru- 
xas. 

O recemnascido em quanto se n&o baptiiava corria mais ris- 
co de ser chupado ; e para defender o innocente punha-se-lhe no 
travesseiro uma thesoira aberta, por ser arma defensiva, em for- 
ma de cruz. 

Ainda hoje ha restos d'estas abusões pelas aldèas. 

D. MARIA PEREGRINA DB SOUSA. 



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— 583 — 



NOTA QUADRAGESSIMA NONA 

PAGINA 185- VERSO 13 

FOI 
CARTA 10 TRADUCTOR 

Meu caro poeta, respeitadíssimo eollega e sempre amigo. 

fedistes-me uma nota para o vosso livro. Esquecestes-vos de 
que a aridez da magistratura sécca os loiros do Parnaso. Não pude 
satisfazer-vos. 

Prometti-vos alguma humilde composição para enlaçar á ul- 
tima palavra da vossa obra : /iro. Nem isso pude. 

Fui então ao meu antigo manto de trovador. Rasguei-Ihe 
um pedaço, e ahi vai. É um episodio dos derradeiros cantos da 
minha lyra. 

Se não quadra ao vosso livro, pelo mérito, quadra ao thema 
que me concedestes, pelo assumpto ; e patenteia a -boa vontade 
e affectiva deferência do 

Vosso cordeal amigo 
VISCONDE DE G0UVEA. 



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— 584 — 



O MEU LYRIO 



Porque aceitaste, ó donzella, 
nessa alma pura e singela 
a rombo triste amigade ? 
á cVoa do meu mar ty rio 
juntaste o ultimo lyrio, 
roxo lyrio de saudade. 

E-tu vieste, senhora, 
tão innocente e mimosa, 
assentar-te em meu caminho 
cheia de vida e formosa. 
Nem posso passar avante 
sem aspirar o fragrante 
aroma da linda rosa. 

Nessas faces purpuradas 
trazes, donzella, estampadas 
doçuras do coração. 
Nesses negros olbos ha de 
ler qualquer a lealdade 
da tua casta affeição. 

• 

Sobre essa fronte elevada 
tens do talento o pharol. 
O teu olhar pensativo 
é como um meigo arrebol, 
que atravez de branda arajem 



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— 8*5 — 

nos assignala a passagem 
eutre as sombras, entre o sol. 

Ou dances, falles, ou rias, 
brotam meigas sympathias 
de cada passo que dês. 
Como hei de eu, virgem, passar, 
vendo a cada teu olbar 
rendido o mundo a teus pés ? 

Eu poeta, e peregrino, 
que de longes terras vim, 
porque nasci noutras eras, 
e tu tão longe de mim ? 
de que serviu encontrar-te ? 
para te ver..., e deixar-te, 
deixaf-te ficar assim. 

Possas, donzella formosa, 
ser tão feliz, tiu> ditosa 
como os anjos são no ceo. 
E não te esqueças então 
d'um ardente coração, 
que passou junto do teu. 

Mas como passar avante!... 
e quem ha de atraz volver!... 
Deixa sentar-me ao teu lado 
por um instante sequer. 
Disseste que sim ? Bem hajas. 
Sob esse manto que trajas 
vou minha lyra esconder. 



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— 586 — 

Vou escondel-a. E não mais 
cantarei risos nem ais, 
pois quero morrer assim. 
Da c'roa do meu martyrio 
tu és o ultimo lyrio; 
não passo avante. Eis meu fim. 



VISCONDB DE GOUVEA. 



FIM DO TBRCBI10 B ULTIMO TOMO 



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IMHCE ALPHABETICO 

DO CONTIDO NA 

TRADUCÇÂO DO POEMA DOS FASTOS 

E MAS 

RESPECTIVAS NOTAS 

(a ADDICÇÃO DE DM (n), DECLARA SE Ê NOTA ; NiO O BATENDO Ê TEXTO) 



TOM. PAG. 

Abelhas. . 11 85 

» de Aristeu I 39 

» (n) " II 651 

Abortos * I 67 

» (n). I 504 

Abril — Porque razão interessa este mez áCasa Cesárea II 105 

» — Propriissimo á deusa Vénus II 119 

» — Sua etymotogia grega : . . II 109 

» — Sua etymologia latina (aperire) II 113 

» — Sua relação com Vénus .-. . . II 119 

» — Sua relação com Vénus (n) II 397 

Açafrão — Na flor d'esta planta é transformado Croco III 29 

Acampamentos dos romanos (n) I 580 



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— 588 — 

TOM. PAG. 

Achilles hospeda a Hercules com o centauro Chiron, seu mes- 
tre, na caverna do monte Pelion III 45 

Adivinhação e prophecia (n) I 457 

Adónis — Sua transformação em anémona III 29 

Advento de Saturno á Itália I 25 

» » » (n) I 391 

Aerostatica (n) I 546 

Agamemnon castigado por Diana III 37 

Aggrippa filho de Tiberino II 109 

» pai de Rómulo II 109 

Agoiro em Roma I 155 

Agonaes (festas) I 33 

» — Repetem-se do mez de janeiro aos 21 de maio III 87 

Agua de condão tomada pelos mercadores al5 de maio na fonte 
de Mercúrio, junto á porta Capena, trazida para lustração 

das suas fazendas III 81 

Aguas mineraes I . . I 29 

» (n) I 409 

Águia (constellação) na noite de 25 de maio. III 89 

» de Júpiter (constellação) acabada de descobrir a 1 de 

junho III 113 

Alba filho de Latino II 107 . 

» pai de Epito II 107 

Albula primitivo nome do Tibre I 119 

Amor (n) II 881 

Ampelos ou o Vendimador (constellação) ainda se avista em 5 

de março . . . . .' II 45 

* Amulk) manda lançar no Albula, depois Tibre, os sobrinhos 

Rómulo e Remo I 119 

» morto por seu sobrinho Rómulo 11 11 

Anchises filho de Capis. TI 107 

» pai de Enéas nascido de Vénus II 107 

Ancilio baixado dos ceos. . II 41 

Ancilios de Mamurio. II 43 

Anémona flor em que é transformado Adónis Ill 29 

Anua Perenna burla a Marte namorado de Minerva II 77 

» — Cantares licenciosos das moças nasuaromaria II 77 



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— 589 — 

TOM. PAG. 

Anna Perenna — Quem é II 61 

» será Io? II 75 

» será a irmã de Dido? II 61 

» será a lua? II 75 

» será a padeira dos Bovis II 75 

» será Temis? II 75 

» será uma das Plêiades? II 75 

» — Sua fesla e romaria á beira Tibre II 59 

» — Sua historia explicada (n) II 292 

Annaes dos Pontífices (ri) •. I 261 

Ànnibal derrota o general e cônsul romano Caio Flaminino. . III 181 

Anno antigo começado em março — Oito provas d'esta verdade II 19 

» de dez mezes .'. II 15 

» de Numa * I 7 

» — Razão de começar no inverno I 17 

» — » » » (n) I 331 

» dos romanos (n) I 217 

» » (a) I 298 

» de Rómulo I 5 

Antenor, troiano, veiu á Itália II 111 

Antiguidades gregas na Itália II 111 

Apollo esfolla o satyro flautista III 173 

Appellidos entre os romanos I 63 

» » » e entre nós (n) I 499 

Appio funda o culto de Bellona por occasião da guerra com os 

Tuscos III 113 

Aquário — Desce o sol d* este signo e entra no de Piseis . ... I 127 

» desponta I 93 

» (Sol no) I 71 

Ara Máxima fundada por Hercules I 63 

Arcádia — Sua antiguidade e origem do seu nome I 51 

Arctofilax — Occaso d'esta constellação aos 7 de junho III 117 

Argeus — Procissão em 16 e 17 de março II 91 

» ao Tibre, quatro explicações d'esta usança III 73 

Ariadne — Sua coroa (constellação), seu nascimento e origem. II 51 

Aricia (Bosque de) II 31 

« — Fonte de Egeria neste bosque II 33 



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— B90 — 

TOM. PAG. 

Áricia — Singular governo d^ste bosque II 33 

Arion — Sua fabula I 87 

Aristeu — Sua fabula I 39 

Artes — É Vénus quem lhes dá origem II 115 

Ascendência romana por Tróia até Júpiter II 105 

Ascenção de Rómulo ao ceo I 129 

Asdrúbal morto por Lélio em 24 de junho III 181 

Asilo — Festa nelle I 85 

» e templo de Vejove, fundação de Rómulo II 47 

Assaraco filho de Troe II 107 

» pai de Gapis II 107 

Assédios antigos (sua pertinácia) (n) I 597 

Astronomia ignorada dos antigos romanos II 15 

Astronomia, seus louvores I 31 

Attis e Cibele (n) II 472 

» — Sua transformação em violeta III 29 

Augusto— Decreta-se-lhe o titulo de Pai da Pátria I 91 

» — Etymologia do seu nome I 65 

» — Excellencia do seu cognome I 63 

» — Funda no Foro Augusto o templo a Marte Ultor. . III 63 

» — Origem d'este titulo (n) I 478 

Aventino — Antigo luco is suas abas II 35 

» — Cidade fundada junto a elle por Evandro I 57 

» — Como neste monte se fabricou a via Publicia ... III 37 

» — Festas da Lua neste monte II 101 

» filho de Remulo II 109 

» pai de Proca II 109 

» (Sagração do templo de Palias no) III 175 

Aves sacrificadas I 45 

» — Sen privilegio (n) III 532 

Atares — Poder de os afugentar (vide) Oxiacânta. 

Aziago o primeiro de março para casamentos. II 49 



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— 591 — 



TOM. PAG. 

Bacchanaes em 17 de março II 81 

» — (Origem dos libos nas) II 83 

Baccho — O dia da soa festa é também de festa a Ceres II 91 

» — Festas gregas triennaes em sua honra I '43 

» — Inventor do mel. . . , II 85 

» invocado pelo poeta para explorar particularidades das 

festas matraes III 145 

» — Sacriíicam-se-lhe cabra e cabro I 37 

» — Seus amores com Ariadne II 51 

» — Sua creação III 147 

n (n) II 306 

Bácora deve-se immolar a Ceres II 151 

Bairros de Roma (n) III 227 

Balanças do mundo — Sua incerteza (n) III 501 

Banho das romanas na festa de Vénus em 1 d'ábril II 119 

Belloaa — Anniversario do seu culto, fundado por Appio, aos 

4de junho III 113 

» — Seu templo diante da Columna Bellica III 113 

Boas festas — Razão d'ellas * I 19 

» (n) I 345 

Boi não se hade immolar a Ceres II 151 

Bois— Origem de se sacrificarem I 39 

Bona (deusa) — Investigações sobre a sua natureza e as snas 

festas (n) III 209 

» — Seu templo, defezo a homens, fundado no Saio, 
calçada do Aventino, por Claudia, e restau- 
rado por Livia III 21 

. » —Sua festa III • 21 

Bootes (constellação) — Apparece em 11 de fevereiro I 93 

» — Seu occaso em 5 de março II 45 

» — Sua desapparição aos 26 de maio III 89 

Bosque de Aricia II 31 

» » — Era lá a fonte de Egeria II 33 



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— 592 — 

TOM. PAG. 

Bosque de Aricia — Singularidade do seujgoverno II 33 

Bovis (Aldèa) (A padeira dos) será Anna Perenna? II 75 

» (A estatua da padeira dos) será a de Anna Perenna?.-. . II 77 
Bruto — Aos 9 de junho se lhe deu o cognome de Callaico (gal- 

lego) III 143 

» — Astúcia d'este para se aproveitar da resposta de Del- 

phos I 157 

» o Callaico (w) III 497 

Bruxas e estriges (n) III 581 

» e feiticeiras dos romanos e dos modernos (n) III 306 



Cabra e cabro sacrificados a Baccho I 37 

» Olenia (constellação) amamentou a Jove menino III 17 

Caco I 59 

Cadella — Razão de se immolar II 211 

Cies celestes II 211 

>> (n) II 576 

Cães sacrificados a Hécate I 43 

Calendário correcto por César II 21 

» reformado por Numa ainda não sai certo -II 21 

» de Júlio César (n) I 229 

Calendas I 9 

» (n) I 298 

Callaico (gallego) aos 9 de junho se deu a Bruto este cogno- 

mento III 143 

» (Bruto)(w) m 497 

Callisto — Sua fabula I 95 . 

Cálpeto filho de Capis II 109 

• » pai de Tiberino . . II 109 

Camillo — Erige o templo de Juno Monéta no Capitólio III 111 

Campo Mareio — Jogos equirios nelle II 59 

Câncer — Seu nascimento em 19 de junho III 175 

Cancro (signo) — Seu occaso I 33 

Caniculares II 211 



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— 593 — 

TOM. PAG. 

Cão de Erigone — Nascimento d'esta constellaçãoaos 22 de maio III 87 

» representado aos pés dos Lares Prestites — Razão porque III 19 

» » » » » (n) III 556 

» — Seu nascimento. Ultimas chuvas II 207 

Capena. (Vide Porta etc). 

Capis filho de Assaraco II 107 

» » de Épito *. II 109 

a pai de Anchises II 107 

» » de Calpeto II 109 

Capita — Quatro etymologias doesta invocação de Minerva. . . II 97 

» (Minerva) — Sua capella ás faldas do Celio II 95 

Capitolino. (Vide Júpiter etc). 

Capitólio (n) III 461 

» — Ara de Júpiter Pistor nelle e sua origem IH 131 

» cercado pelos gallos III 131 

» em dia de anno bom Ill 

» — Templo, de Juno Monéta erecto neste monte por 

Camillo em 1 de junho III 111 

» — O Termo ou Termino conserva-se nelle I 149 

Carístias I 145 

» (h) I 609 

Cármen ta profetisa a grandeza romana I 55 

» » » » (n) I 457 

» e seu Alho Evandro I 51 

» —Seu vaticínio a Ino III 153 

» — Suas festas I 51 

» » I 67 

Carmentaes — Festas de Carmenta I 51 

Cama (densa) a 1 de junho III 103 

» (n) III 299 

» — Razão porque preside ás portas III 103 

j» ou Grane ninfa do bosque Helerno janto ao Tibre, vio- 
lada por Jano III 103 

Carneiro (signo) — Passa o sol d'elle para o Tauro em 20 de 

abril n 185 

» — Seu desapparecimento e sua origem II 97 

» — Seu occaso a 25 d'abril II 207 

TOM. III. 38 



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— 3»í — 

TOM. WC. 

Carpeadeiras — Encommendam-se a Minerva no primeiro dia 

dos quinquatrios II 93 

Carseole (aldèa) — Caso succedido lá— Razão da queima das 

rapozas II 181 

Cãs e rugas (n) III 197 

Casa Cesaria saudada pelo poeta II 213 

Casamento — É-lhe aziago o 1.° de março II 45 

Casamentos — Provam mal celebrando-se aos 9 de maio;praso 

das Lemurias III 57 

» entre os romanos (n) III 390 

» mal estreiados (n) • I 577 

» — Quando é que no mez de junho começa bom 

praso para elles III 115 

Castor e Pollux (estrellas) I 77 

» » — Presagiam bonança nas tempestar 

des Ill 87 

» raptam as princezas Phebe e EUaira. Mudam- 

se em constellação III 83 

» (») m 282 

Castração (if) II 461 

» dos sacerdotes de Cibelle II 192 

Cavallos — Carreiras d'eJles no Circo Máximo em 19 de abril II 181 

» — Sacrificados ao Sol I 41 

Cegueira (n) III 383 

Celeu — Herdade d'este velho onde depois se veiu a edificar a 

cidade de Eleusis II 159 

» hospeda Ceres O 161 

» pai de Triptolemo II 163 

Celie (monte de Roma) — Capella de Minerva Capita nas soas 

faldas II 95 

» » — Jogos eqniriosnelle em 13 de março II 19 

Cereaes — Nestas festas vestimentas brancas II 173 

» (festas) — Trajes brancos III 43 

» (Vide festas etc). 

Ceres acabou com o rude sustento das eras primitivas II 149 

» acalma a sua fome com somo de papoilas II 163 

» continua a sua peregrinação n 167 



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— 595 — 

TOM. PAG. 

Geres cura o menino Triptolemo filho de Ceieu II 163 

» — O dia da sna festa, é também o de Baccbo II 91 

» ex horta o poeta aos lavradores para que a festejem. ... II 149 

» hospedada por Celeu II 161 

» — Jejuns dos Mistes nas suas festas II 163 

» — Não se lhe ha de immolar o boi, sim a bácora II 151 

» — Sacrifica-se-lhe a porca I 37 

» — Sua peregrinação por terra, mar, e ceos, á procura 

de Prosérpina II 155 

» e Tellns — Invocam-se I 73 

» — Victimas nos seus sacrifícios (n) II 523 

Certames equestres a 12 d'abril II 149 

César — Abril 15. É este dia véspera da outorga do titulo de 

imperador a César e seus descendentes II 179 

» — (Ànniversarío da derrota de Juba por) em 8 d'abril. . II 147 

» apunhalado na cúria em 15 de março II 81 

» corrige o calendário II 21 

» demole um soberbo palácio onde se veiu a edificar o pór- 
tico de Livia III 165 

» Germânico (n) I 255 

» invocado t 79 

» —Recebe para si e seus descendentes o titulo de impe- 
rador em 16 de abril II 179 

» — O sacrário de Vesta seguro sob a protecção da Casa 

Cesárea III 143 

» — Saudação do poeta á Casa Cesárea II 213 

» toma o titulo de Pontífice em 6 de março II 47 

» -^-Universalidade da pax no seu tempo I 31 

» '(n) II 621 

Césares — Razão porque lhes interessa o me* de abril II 105 

Chafariz de Mercúrio junto á Porta Ca pena onde os mercado- 
res vão aos 15 de maio buscar agua de condão III 81 

Chiron — Assumido ao ceo por Júpiter e transformado em coas- 

tellação de quatorze estrellas III 49 

» ferido com a seta heryada de Hercules III 47 

» hospeda a Hercules na sua caverna do Monte Pelion. . III 4$ 

» medico III 47 

38* 



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— 59G — 

TOM. »AG. 

Cibelle coroada de torres II 129 

» — Estrondo nas suas festas 11 127 

„ — Invoca o poeta as Mnsas por meio d'ella. II 126 

» — Origem da castração dos seus sacerdotes II 129 

» — Razão dos banquetes entre os cidadãos na soa festa II 143 

» — (Razão dos estipes esmolados a) II 143 

» — Razão do Moreto nos seus* festins II 145 

„ — Razão de se chamarem Gallos os seus sacerdotes. . . II 145 

» — O seu culto proveiu de Tróia II 131 

» — Sua derrota desde a Frigia até Roma II 135 

» — Suas festas em 4 de abril II 125 

» — Tirada no seu carro por leões II 129 

» e ÀUís(n) II 472 

Circo — Festas descompostas nelle, nas Floraes, eu 2 de maio .III 25 

» Máximo — Carreiras de cavallos em 19 d'abril II 181 

» » — Festas cereaes nelle em 12 d'abril II 149 

» » — Queima das raposas a 19 d'abril t . II 181 

Civilisação — É Vénus quem lhe dá origem. \ II 115 

Claudia fundadora do templo da deusa Bona, reformado por Lí- 
via III 21 

» Quinta — Sua maravilhosa historia II 137 

Cloris — Ê o nome de Flora entre os gregos III 25 

Cognomentos em geral I 63 

Coiceiras. (Vide Oxiacanta). 

Colchos recebe o velo de oiro II 101 

Collocação do orbe terráqueo no universo III 121 

» » » » (k) m 448 

Columna bellica diante do templo de Bellona Dl 113 

Comiciaes (dias) I 9 

Concórdia (deusa) deriva junho de juncçio III 101 

» (Festas da), de Jano, da Salvação Publica, e da Paz. II 101 

» — Origem da sua festa I 69 

» — Sagração do seu templo ,.....* I 69 

» — Sua festa I 69 

» (Vide templo da etc). 

Conjuração das donas para não terem filhos I" 67 

Conjurios ao nascer do sol (it) II 551 



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— $97 — 

TOM. PAG. 

Conso (deus) — Sua festa; rapto das Sabinas II 25 

Constantino (portuguez) rei dos floristas (Vide Coroas). 

Consolado— Succede á realeza I 171 

Contagem decimal (n) II 225 

Convivência — É Vénus quem lhe dá origem II 115 

Corça — Sacriflca-se a Diana •. I 43 

Cornucopia — Sua origem III 17 

Coroa de Ariadne (constellaçio) — Seu nascimento e origem. . II 51 
Coroas de flores naturaes e artiGciaes, sua origem, sua histo- 
ria, seus diversos usos (n) III 537 

Cervo, Serpente e Cratera — Nascimento e historia d* estas três. 

constellações em 14 de fevereiro I 103 

Crasso — Sua destruição e morte junto ao Eufrates aos 9 de 

junho III 143 

Cratera, Corro e Serpente— Nascimento e historia d'estas três 

constellações em 14 de fevereiro. I 103 

Crises nas doenças (») Ill 251 

Croco — Sua transformação em açafrão III 29 

Culto da Paz em Roma. I 77 

Culto romano— Suas festas (n) «I 512 

Cunho do estipe explicado I 25 

Curió institue o culto e a ara dos Lares Prestites em 1 de maio III 19 

Curraes e gados — Sua lustração II 187 

Custodio (Vide Hercules). 



Dárdano filho de Electra e Júpiter II 107 

» pai de Erichtonio ... t II 107 

Delphim — Seu nascimento em 10 de junho III 145 

» e Orion (constellações) acabam de se descobrir em 17 

dejunho... III 175 

» (Vide Golphinho). 

Delphos — Consulta-se o seu oráculo I 155 

» — Sua resposta I 155 

Desinnodoadores encommendam-se a Minerva no primeiro dia 

dos Quinquatrios, 19 de março ' II .93 



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— 598 — 

TOM. PAG. 

Desterro de Ovidio (n) I 201 

Deuses — Castigos infligidos por elles aos seus desprezadores 111 31 

» — Procissão das suas imagens II 149 

» — Seu concilio* para salvarem Roma III 131 

Devenlre de porco bom para afugentar as estriges. ..« III 107 

Dez (numero) . : II 19 

Dia de anno bom I 9 

» guardado entre os modernos e não entre os 

romanos (n) I 335 

» no Capitólio I 11 

» (h) I 345 

» — Razão de não ser de guarda entre os ro- 
manos I 19 

» — Razão de sedar nelle o estipe I 21 

» — Razão de se darem nelle estreas doces . . 1 21 

Dia aziago para casamentos, o 1.° de março II 45 

Dia de finados I 135 

Diana castiga a Agamemnon III 37 

» » Meleagro III 37 

» -sacrifica-se-lhe a corça 1 43 

Dias comiciaes I 9 

» críticos nas doenças (n) III 251 

p fastos e nefastos 1 7 

» » » comiciaes e nundinaes (n) I 292 

» nundinaes 1 9 

» romanos (n) 1 287 

Didio — Aos 10 de junho commemoração d'este general III 155 

Dido — Sua vida e morte II 4tt 

Dinheiro em Roma (w) I 385 

» romano (n) I 350 

Diomédes (grego) casa com uma filha de Danno rei da Appélia II 111 

Donas— Sua conjuração para não terejn filhos I 67 

Donzellas não se devem casar durando as Parentaes I 137 

Dormideiras infuzas em leite e mel; poção usada das mulheres 

no 1.° d 'abril em honra a Vénus e porque II 121 

Dormideiras. (Vide papoilas). 

Duello de Eneas e Mezencio. . .' II 205 



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— 599 — 



TOM. PAG. 

Edis da plebe. Os primeiro» eleitos são os Publicios III 35 

Egeria II 31 

» — Explica a Numa o oráculo de Fauno. Com o sacrifi- 

cio da vacca forda Volta a fertilidade II 179 

» e sua fonte no bosque de Aricia II 33 

Electra mãi de Dárdano II 107 

Eleusis (cidade) edificada na herdade do velho Celeu II 159 

» — Seus mysteriòs (w) II 658 

Bliciação do raio II 35 

(h) II 249 

Ellafra e Phebe raptadas III 83 

Eloquência — É Vénus quem lhe dá origem II 115 

finca ustica (pintura) entre os antigos (n) II 351 

» entre os romanos (n) II 365 

Eneas filho de Anchises e de Vénus II 107 

» pai de Iulo II 107 

» — Seu duello com Mezencio II 205 

» —Sua fuga de Tróia (n) III 266 

— Sua vinda com os deuses pátrios á Itália II 111 

fipito filho de Alba II 107 

» pai de Gapis II 107 

Equinoccio Ternal'em 26 de março II 101 

Equinas (festas) I 171 

Equinos (jogos) (n) I 604 

» » em honra de Marte. II 59 

Equos e Volscos vencidos pelos romanos III 175 

Erato (Musa) — Etymologia do seu nome II 127 

» — Explica o estrondo nas festas de Cibelle. . ... . II 127 

Erichthonio filho de Dárdano » II 107 

» pai de Tros II 107 

Ericinna — Razão d'este nome dado a Vénus II 203 

» (Vide Vénus). 
Erigone — Seu cão (constellação) nasce aos 22 de maio. ..... III 87 



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— 600 — 

TOM. FiG. 

Esconjuração do raio II 35 

» dos Manes III 51 

Escorpião (constellação) — Emerge metade d'elle II Bi 

» » — Seu nascimento aos 6 de maio. ... III 49 

» » — Seu occaso em 1 d'abril II 123 

Escravidão (n) II 241 

Escripta dos antigos (n) I 306 

Esculápio fulminado, deificado, e posto nós ceos Ill 179 

» — Historia de Hippolito despedaçado e resussiUdo 

por elle III 199 

«> (n) m : I 421 

» e Júpiter — Seus templos na ilheta do Tibre I 31 

Esculptores encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos 

quinquatrios II 95 

Esculptura dos antigos (n) II 902 

Esmaltadores encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos 

quinquatrios II 95 

Esmalte entre os antigos (k) II 351 

Esmintheu — Fada este oráculo império e duração ao povo que 

possuir o Palladio Ill 139 

Espectros — Porque se chamaram lemures III 57 

Esphera de Syracusa III 121 

» » (if) III 452 

Estatua de Jano — Razão porque estava junto ás duas praças. . I 27 

» da padeira dos Bovis sob o nome de Anna Perenna II 77 

*> » » » (h) . . II 292 

Estatuas de metal entre os antigos (n) II 367 

» (n) II 302 

Esterilidade das mulheres* curada com a flagellaçao lupercaL . I 123 

» da terra e gados no reinado de Numa II 175 

Estipe— Explicação do seu cunho I 25 

» — Razão de o darem em dia de anno bom I 21 

Estreas doces em dia de anno bonr — Porque? I 21 

Estriges (aves) III 105 

» e bruxas (n) Ill 582 

» — Sugam o menino Proca III 107 

Estro poético (n) III 290 



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— 601 — 

TOM. PAG. 

Etymologia de fevereiro I 81 

Etymologias gregas abundantes no latim II 111 

Eufrates — Destruição e morte de Grasso junto a este rio III 143 

Eumenides II 131 

* (n) II 476 

Europa — Seu rapto III 71 

» — Seu rapto por Júpiter (n). Traducção do idilio de 

Moscho II! 270 

Evandro desembarca com muita gente sua na Itália II 111 

» funda cidade junto ao Aventino I 57 

» bospeda a Hercules I 59 

» e sua mai Carmenta 1 51 

Expiações—Superstição d'ellas I 81 

» — VIo-se buscar ao templo de Vesta II 187 



Fabios— Excidio d'elles I 99 

» — (ir) ' I 566 

Faliscos — Ahi funda cidade Haleso descendente dos Atridas. . II 111 

Fastos (DiasJ I 7 

» (n geral) I 177 

Fauno consultado por Numa II 177 

» — Egeria explica a Numa o seu oráculo; co'o sacrifício 

da vacca forda volta a fertilidade II 179 

» — Sua festa ........* 1 99 

» Hercules e Ompbale I 109 

» e Pico consultados por Numa sobre o modo de se escon- 
jurar o raio II 35 

Faustulo e Larencia criam a Rómulo e Remo II 11 

Favas com farinba e toicinbona festa de Grane, livram de mal 

de entranha III 109 

» com farinba e toicinho na festa de Grane. — Origem d'esta 

usança m 109 

Febrnas I 81 

» (n) I 544 



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— 602 — 

TOM. PAG. 

Fecundação das mulheres estéreis pela flagellação Inpereal ... I 193 

Feiticeiras e bruxas dos romanos e dos modernos (h) III 306 

Feraes — Durando ellas encerramento dos templos Ill 57 

Feral — Sua etymologia I 139 

Ferroadas de vespas (w) II 317 

Fertilidade — Volta com o sacrifício da vacca forda II 179 

Festa no asylo I 85 

» á densa Tacita ou Muta I 139 

» de Cármen ta I 67 

» da Concórdia I 69 

» de Gonso — Rapto das sabinas II 25 

» de Fauno I 99 

» dos parvos 1 133 

» » (w) 1573 

» de Quirino 1 199 

Festas Ágonaes I 33 

• Carmentaes I 51 

» cereaes no Circo Máximo em 12 de abril II 149 

» do culto romano (n). . I 519 

» descompostas no circo : Floraes III 25 

» equinas I 171 

» fornacaes : I 133 

» gregas triennaes a Baccho I 43 

» de Jano I 9 

» lu per cães em honra de Pan, e origem d'ellas I 105 

» matraes; bolos nestas festas III 145 

» » ou das mais em 11 de junho* III 145 

» » — Para ex piorar partic ularidades d'esta festa , in- 
voca o poeta a Baccho Ill 145 

» paganaes I 73 

» parentaes I 135 

» sementinas I 71 

» terminaes I 147 

» tubilostrias em honra de Vulcano III 87 

» vinaes (n) II 566 

Fevereiro — Despedida d'este mez I 173 

» — Sua etymologia I 81 



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— G03 — 

TOM. PAG. 

Fevereiro — O ultimo mez do aono antigo. I 83 

Fiandeiras— Encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos 

Quinquatrios U 93 

» (n)* II 341 

Fidio. (Vide Sanco). 

Fim (n) III 583 

Finados (dia de) I 135 

Flagellação lupercal fecunda as mulheres estéreis — A origem 

d'isto data do reinado de Rómulo 1 123 

Flamine Dial — A sua mulher não se penteia no 1.° de março. II 45 

» Quirinal — Sua oração a Robigine II 207 

Ftaninio — Derrota d' este general, cônsul romano, por Annibal. III 181 

Flamma — Etymologia de Focus, fogão Ill 125 

Flauta inventada por Minerva III 171 

Flora brindou a terra com as flores III 29 

<i castiga os romanos com esterilidade 111 39 

» conta a sua historia ao poeta III 25 

» deusa também da agricultura 4 III 33 

» entre os gregos Gloris III 25 

» invocada pelo poeta '. III 25 

» -*- Marte lhe promettera haveria culto na futura Roma. Ill 33 

•» —Oração que o poeta lhe dirige Ill 45 

» -«-Promessa feita pelo senado a ella, cumprida por jL. 

Postumio Albino e Marco Propicio, Lenas, cônsules. . III 41 

» — Razão do seu nome. III 25 

» . — O senado a propicia com promessas de festas. III 41 

» — Seus amores e casamento com Zepbiro III 27 

» — Seus influxos na mocidade • III 33 

d — geus jogos — Razão de serem desmandados III 41 

» — Seus vergéis dotaes III 27 

» -—As suas festas não foram sempre annuaes III 37 

Ftoraes — Conclusão destes jogos começados aos 28 de abril. . III 25 

» ' (jogos) —Sua origem Ill 35 

» (Vide jogos). 

Flores dadas á terra por Flora III 29 

» naturaes e artifíciaes — Seu uso em sacrifícios, em co- 
roas, em banquetes etc. (n) Ill 537 



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— 60i — 

TOM. PAG. 

Focus, fogão — Sua etimologia: Flamma ou Fovere III 125 

Fogo do globo (k) UI 400 

Fogueiras (w) Ill 456 

saltadas (n) II 552 

» » nas festas de Pales — Razões porque II 191 

Fome em Thebas II 09 

Fonte -de Egeria no bosque de Àricia II 03 

Forda. (Vide vacca etc.) 

Fornacaes (festas) .*. . . 1 133 

Fornax e Vesta — Sacrifício nas padarias a estas deusas 1TI 127 

Fortuna — A imagem de Senrío anuviada de togas no seu templo 

— Varias explicações Ill 157 

» — Suas festas em 24 de junho no seu templo á beira 

doTibre III 181 

» Publica — Anniversario do seu templo no Quirinal aos 

25 de maio III 87 

» » Sagração do seu templo no Quirinal em 6 d'abril II 147 
» » (Vide Jogos Julianos ou da etc). 
» Viril — Porque razão, onde, e como as romanas a fes- 
tejavam II 121 

Fovere — Etymologia de Focus, fogão III 125 

Frauteiros — Minerva explica ao poeta as suas folias.' III 167 

» — Suas folias pela cidade Ill 167 



Gabios tomados ardilosamente pelo príncipe Tarquinio I 153 

Gados e curraes, sua lustração II 187 

Gallo sacrificado á Noite 1 49 

Gallos cercam o Capitólio III 131 

» cercando o Capitólio (n) Hl 461 

» — Razão de assim se chamarem os sacerdotes de Cibelle . II 145 

Ganso sacrificado a Io I 49 

Geminis (signo) — Entra nelle o sol aos 18 de maio III 83 

» » —Sua historia" III 83 

Germânico César (k) I 255 



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— g<k; — 

TOM. PAG. 

Gestação— Seus mezes (n) II 237 

Glycera ramalheteira grega. (Vide Coroas). 

Golfinho (constellação) — Sua ascenção I 51 

» » — Sua historia e seu occaso I 87 

Grandeza romana prophetisada por Carmenta I 55 

Grane, ou Cama, ninfa do bosque Helerno junto aoTibre, vio- 
lada por Jano III 103 

» (n) •. III 299 

» — Favas com toicinho e farinha na sua festa livram de 

mal de entranha III 109 

» — Jano lhe dá numa varinha de oxiacanta o domínio das 

coiceiras, e o poder de afugentar os asares III 105 

» — Salva o menino Proca III 107 

Gravadores encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos 

Qoinqualrios II 95 

Gravidez — Seus mezes (n) II 236 

Grinaldas. (Vide Coroas). 



Haleso descendente dos Atridas, funda cidade nos Faliscos ... II 111 

Hebes — Deriva junho de juventude III 99 

Hécate — Sacrificam-se-lhe cães I 43 

Helerno junto ao Tibre — Grane ou Carne sua ninfa, violada 

por Jano neste bosque III 103 

Helles e Phrixo — Sua fabula II 99 

Hell esponto — Sua etymologia II 101 

Henna — Rapto de Prosérpina junto a esta cidade II 151 

Hercnles Custodio — Seu templo fundado em cumprimento de 

uma prophecia sibillina III 115 

» Fauno e Omphale I 109 

» fundador da Ara Máxima I 53 

» hospedado na caverna do Monte Pelion, pelo Centau- 
ro Chiron e Achilles III 45 

» hospedado por Evandro I 59 

» — As Musas adoradas no seu templo fundado por Mar- 
eio Philippe pai de Mareia em 30 de jnnho III 183 



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— GOG — 

TOM. PAG. 

Hercules Musagete (n) m 57! 

» e os seus templos («) I 469 

» ..Tem á Itália II iii 

Hiades (constellação) — Apparecem completas a 2 de Maio . . m 23 

» » — Doas versões sobre quem ellas fossem . III 23 

» » irmãs de Hias Ill 23 

» » — Seu nascimento aos 2 de junho III 113 

» » — Seu nascimento aos 27 de maio Ill 89 

.» » — Seu occaso em 17 de abril II 181 

» • — Sua etymologia III 23 

Hias irmão das Hiades III 23 

Hippolito castigado por Vénus III 39 

» — Sua historia, e resurreição por Esculápio Hl 177 

» Virbio no Bosque de Aricia II 31 

Hirieu hospeda na sua choupana a Júpiter, Neptuno, e Mercú- 
rio in 57 

Historia e occaso do Golfinho I 87 

Hóstia e Victima — Sua origem I 35 



Idade de oiro reinando Saturno na Itália I 27 

Idas e Linceu. (Vide Linceu e Idas). 

Idos I 9 

» (n) , I 298 

Ilheta do Tibre — Templos de Júpiter e Esculápio I 31 

ília filha de Numitor II 109 

ília mãi de Rómulo II 109 

Do guarda o Palladio na cidadella— Laomedonte imita a lio. III 141 
» —No seu reinado cahiu dos ceos junto á sua cidade de Ilion 

o Palladio III 139 

Imagens dos deuses em procissão II 149 

Imperador — Bebe-se á sua saúde no banquete Caristico I 146 

» — Titulo concedido a César para si e seus successo- 

res em 16 d'abril n 179 

Império — Paz actual em todo elle I 75 



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— 607 — 

TOM. PAG. 

Incenso (n) I! 309 

Incineração dos fetos das vaccas pela dei das veslaes, para que 

fim II 175 

Industria dos metaes e pedras entre os antigos e os moder- 
nos (n) II 367 

Inferias com que Rómulo applaca os manes do irmão assassi- 
nado II 53 

Ino, malvada rainha de Tbebas II 99 

» —Sua deificação em Matuta e de Learcbo em Palemon 

ou Portuno III 153 

a recebe o vaticínio de Garmenta III 153 

» e Melicerta — Sua historia III 147 

Inverno partido ao meio em 10 de janeiro I 51 

» — Porque principia nelle o anno (n) I 331 

» — Razão de principiar nelle o anuo I 17 

Invocação a Tellus e Geres 1 73 

Io — £acrifica-se-lhe o ganso * . . . . I 49 

» — Será Ánna Perenna? II 75 

Itália — Advento de Saturno a ella I 25 

» — Antiguidades gregas nella II 111 

» — Evandro desembarca com muita gente sua nella II 111 

» — Reina nella Jano na idade de oiro I 27 

» «—Vem a ella Antenor troiano II 111 

p — Vem a ella Eneas com os deuses pátrios II 111 

lulo filho de Eneas II 107 

» —Origem da casa Júlia II 107 

» pai de Posthumo Silvio II 107 

p 00 Júlio o mesmo que Aschanio ou Silvio. 



Jacinto, transformado na flor do seu nome III 29 

Janiculo monte, assim chamado da residência de Jano I 27 

Jano dá a Grane numa varinha de oxiacanta, o domínio das coi- 

ceiras, e o poder de afugentar os asares Ill 105 



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— 608 — 

TOM. PA6. 

Jano — Sua festa, a da Concórdia, ada Salvação Publica» c a da 

Pai •".; II 101 

» viola a Grane ou Garna III 103 

» — Razio de se lhe brindar, antes de qualquer sacrifício. . I 19 

» — Reina na Itália na idade de oiro I 27 

» — Sua estatua junto ás duas praças I 27 

» e sua festa I 9 

» — Sua origem, forma, e attribotos I 13 

» — Sua residência dá nome ao monte Janiculo I 27 

Jogos equirios (n) I 60* 

» flora es — Caçadas de animaes imbelles nelles III 45 

» » — Razão de acudiren\a elles as meretrizes Ill 43 

» » — Razão de serem nelles variegados ostrajes quan- 
do nas cereaes são brancos . III 43 

» » no theatro II 211 

» » — Três diversas razões de nelles se accenderem lu- 
zes . . 111 43 

» Julianos ou da Fortuna Publica em 8 de abril II 147 

» MegalesiosT- Razão d'elles II 145 

Jove menino amamentado pela cabra Olenia III 17 

» (Vide Júpiter). # 

Juba — Anniversario da sua derrota por César em 8 de abril. . II 147 

Juízo de Paris (n) III 294 

Juízos humanos (n) III 238 

Julianos. (Vide Jogos etc). 

Júlio César (n) II 4121 

Jumento sacrificado em Lampsaco, por terdesaprazido a Priapo ; 

e, por ter salvado a Vesta, coroado de rosquilhas. Ill 131 

» — Sacrificado a Priapo I 43 

Jumentos dos atafoneiros ornam-se de collares de rosquilhas; 

e de flores as mós m 127 

Juncção — Origem de junho 111 101 

Junho — Sua origem : Juncção III 101 

» » Juno 111 93 

» » Juventude III 99 

» — Suas diversas etymologias Ill 91 

Juno — Dá Marte á luz no Propontide III 33 



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— 609 — 

TOM. PAG. 

Juno — Inauguração do seu templo no Esquilino pelas mulheres II 31 
»• Moneta — Seu templo erecto por Gamillo no Capitólio. . III 1 11 

» Lueina , II 31 

» » — Etymologias d* esta invocação I 125 

o — Origem de junho III 93 

» Sospita I 83 

» tem por filho a Marte por influição da flor do campo 

Olenio ' III 29 

Jopiter — Sua águia (constellaçio) acabada de descobrir a 1 de 

junho . . . . t III 113 

» — Ama a Juturna I 141 

» Capitolino — Sacrifica-se-lhe a vacca forda, e o mesmo 

em cada uma das trinta cúrias II 175 

» e Esculápio — Seus templos na ilheta do libre I 31 

» Estator — Sagração do seu templo em 27.de junho. . , III 183 

» Invicto — Seu templo, aos 13 de junho III 167 

» Neptuno e Mercúrio hospedados na choupana de Hi- 

rieu III 57 

» pai de Dardano II 107 

j> Pistor — Sua ara no Capitólio e sua origem III 131 

» rapta Europa III 71 

» — SacriAca-se-lhe a ovelha I 63 

» (Vide Jove). 

» — Sua sciencia (k) III 242 

» vencedor, abril 13 II 173 

Juramentos dos deuses antigos e dos modernos (n) III 244 

Juturna amada por Júpiter I 141 

» — Fundação do seu templo I 51 

Juventude — Origem de junho III 99 



Labyrinthos (n) II 282 

Lacio já antes de Rómulo tinha em grande veneração o deus 

Marte II 13 

Lala, Lara, Larunda ou Muda — Quem seja esta deusa I 141 

TOM. III. 39 



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— 610 — 

TOM. PAG. 

Lampsaco — Sacrifica o jumento por ter desaprazido a Priapo; 

e por ter salvado a Vesta coroado de rosqu ilhas III i31 

Laomedonte imita a lio guardando o Palladio IH 141 

Lara, Lala, Larunda ou Muda-— Quem seja esta deusa I 1+1 

» (De) nascem os Lares I 1+ 3 

Larencia e Faustulo criam a Rómulo e Remo II 11 

Lares— Cada bairro de Roma festeja três, senda o terceiro Au- 
gusto Hl 21 

» — Como eram ©utr'ora as refeições e elles lhes assistiam. III 125 

» — Libações no banquete Caristico a elles. » 4 . . I 1+5 

» nascidos de Lara I 1+3 

» — Sagraçio do seu templo no dia 27 de juabo , 111 183 

» Prestites — Altar consagrado a elles antigamente por Cu- 
rió , IH 19 

» » representados com um cão aos pés tudo mim 

monolito IH 19 

» » — As suas effigies antigas já não existem no tem- 
po de Ovídio III 13 

Latino filho do Posthumo Silvio II 107 

» pai de Alba II 107 

Lavradores — Exorta-os o poeta para que festejem a Ceres. . II 1+9 

Leão — Occaso de parte d'elle I 85 

» (signo) — Seu occaso em 2+ de janeiro I 71 

Lélio mata Asdrúbal em 2+ de junho 111 181 

Lemuraes ou Lemurias — Festas aos 9 de maio Ill +9 

Lemures — Nome dos espectros — Sua origem IH £7 

Lemurias — Durante ellas incerramento dos templos Ill 57 

» — No antigo anno de dez mezes já estas festas se fa- 
ziam e em maio III 49 

» (n) III 261 

» — O triduo d'esta festa fúnebre é aos 9, 11, e 13 de 

maio III 57 

» — Sua etymologia ; corrupção de Remurias III 53 

» ou Lemuraes — Festas aos 9 de maio Ill 49 

Lencótbee— Invocam-na as matronas não em favor dos filhos 

senão dos sobrinhos III 155 

' J prognostica derrota ao general PuWio Rutilio Lupo 111 155 



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— 611 — 

TOM • PAG. 

Leucóthee — Razão de nSo entrarem servas no «eu templo. . . III 165 

Liba mes e Libos — Etymologia d'e)les II 85 

Liberdade— Seu templo II 173 

Libos — Origem d*elles nas bacchanaes II 83 

», — Razão de se coroar de bera a mulher que os reparte. II 89 

» — Razão de ser mulher quem os reparte II 87 

» — Razão de ser velha quem os reparte II 89 

» c Lihames — Sua etymologia II 85 

Libra (signo) — Chuva no seu occaso e terminação dos jogos 

em 8 de abril ,. . / II 147 

Linceu e Idas noivos de Pbebe e Ellaira vingam-nas raptadas 

por Castor e Pollux III 83 

Lira (constellação) — Seu nascimento I 33 

» » » aos 4 de maio III 49 

» » — Seu occaso I 85 

» » — Total desapparecimento d'ella I 71 

Liras (h) in 241 

Lívia — Ediflcou-seo seu Pórtico no chão d'um soberbo palácio 

demolido por César III 165 

» — Restaura o templo da deusa Bona fundado por Claudia III 21 

» sagra o templo da Concórdia III 165 

Loba aleita a Rómulo e Remo. I 121 

» e o picanço de Marte sustentam a Rómulo e Remo II 9 

Lodo Applicado como remédio ás ferroadas das vespas (n). ... II 317 

Lotis e Priapo I 43 

Lua — Será Anna Perenna? II 75 

» — Suas festas no Aventiuo em 30 de março. . .' II 101 

Lucina — Sua etymologia ; I 125 

» (Juno) '. II 31 

» — Oração das romanas a esta deusa II 31 

Lúcio Postumio Albino e Marco Propicio Lenas cônsules, com- 
prem a promessa feita pelo senado a Flora III 41 

Lueo antigo ás abas do Aventino II 35 

Lucrécia — Sua historia. I 157 

Lucrécio e Ovídio (h) m 288 

Lupercaes — Festas em honra de Pan— Sua origem I 105 

Lupercal— Origem d'eate nome I 117 

39* 



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— 612 — 

TOM. PAG. 

Lupercos — Fecundam com a flagellação as mulheres estéreis I 123 

,> — Razões de serem nus I 107 

Lustrarão dos gados e curraes II 187 

Luto romano pelo desapparccimento de Rómulo I 131 



Magestade segundo a Musa Poltmnia é etymologia de maio. . III 5 

Maia, segundo a Musa Caliíope, etymologia de maio III 13 

Maias (n) III 236 

Maio — Investigações sobre a sua etymologia III 5 

» (n) ...... .". III 189 

» — Origens d'este mez (x) m 191 

» — Sua etymologia segundo a Musa Calliope: Maia III 13 

» » » o » Polymnia : Magestade III 5 

» » » » » Uran ia: Maiores III 11 

Maiores, segundo a Musa Urania etymologia de maio III 11 

Malefícios de péssima qualidade (n) III 363 

Mamurio II 31 

» fabrica os Ancilios II 43 

Manes — Geremonia da sua esconjuração Ill 51 

Mareio Philippe pai de Mareia III 183 

Marco Propicio Lenas e Lúcio Postumio Albino cônsules, cum- 
prem a promessa feita pelo senado a Flora III 41 

Março — Oito provas de haver sido este mez o principio do afino 

antigo • II 19 

» — Origem d'este mez (n). II 217 

» primeiro mez do anno de Rómulo consagrado a Marte. . II Í3 

» — O seu primeiro dia aziago pára casamentos II 45 

» — Sua etymologia II 5 

» variava entre os vários povos comarcãos de Roma II 15 

Marinha dos antigos e dos modernos (n) n 401 

Marte Bisultor — Templo sob esta invocação consagrado por 

César pela victoria dos Parthos III 71 

Marte cognominado Ultor festejado no templo dedicado por Au- 
gusto César no Foro Augusto III 63 



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— 613- 

TOM. PAG. 

Marte — Gonsagra-lhe Romnlo o primeiro mez do seu anno. . II 13 
» — Festa no seu templo junto á Porta Gapena a 1 de ju- 
nho III 111 

» invocado pelo poeta II 55 

» já antes de Rómulo tinha no Lacio primazia I 13 

» — Jogos equirios em sua honra em 13 de março II 59 

» — Maravilhosa origem do nascimento d'estc deus III 29 

» namorado de Minerva é burlado por Ânna Perenna ... II 77 

» - nasce no Propontide III 33 

» promettera a Flora haveria culto na futura Roma III 33 

» — Razões de figurarem as mulheres na festa d'estedeus 

a 1 de março II 21 

*> e a vestal Rhea Silvia II 5 

Massinissa derrota Siphaz em 24 de junho. III 181 

Matraes. (Vide festas etc). 

Matronas — invocam a Leucótbee, não em favor dos filhos se- 
não dos sobrinhos III 155 

Matuta — Fundação do seu templo por Sérvio Tullio em 10 de 

junho III 157 

» — Seu templo na praça Boa ri a em Roma III 145 

Médicos encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos Quin- 

.quatrios II 95 

Medo aos finados (n) III 264 

Medusa — Do seu sangue nasce o Pégaso (conslellação) II 49 

Megalesios. (Vide Jogos etc). 

Mel — Sua invenção por Baccho II 85 

Meleagro castigado por Diana III 37 

Melicerta e Ino — Sua historia III 147 

Mente (deusa) — Seu templo votado por occasião do terror da 

segunda guerra púnica III 117 

Mercadores festejam a Mercúrio aos 15 de maio III 81 

» — Oração a Mercúrio aos 15 de maio Ill 81 

Mercúrio festejado pelos mercadores aos 15 de maio III 83 

» , — Invocado pelo poeta III 59 

» » » aos 15 de maio III 79 

» — Oração dos mercadores a este deus aos 15 de maio III 81 
» — Seu chafariz junto á Porta Ca pena, onde os mer- 



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— 614 — 

TOM. P«. 

cadores vão aos 15 de maio tonar agua de con- 
dão '. . III 81 

Mercúrio — Seu templo fronteiro ao Circo Máximo, dicadoaos 

aos 15 de maio .. .' IH 79 

» Júpiter e Neptuno, hospedados na choupana de Hi- 

rieu III 57 

Meretrizes festejam a Vénus II 203 

Mesinheiros e mesinheiras dos romanos (ir) III 354 

Mestres de escola encommendam-se a Minerva no primeiro dia 

dos Quinquatrios II 95 

Metaes — Industria da sua fabricação entre os antigos e os mo- 
dernos (n) II 367 

Metaníra mulher de Geleu e mãi de Tríptolemo II 163 

Metello salva do fogo os objectos sacros III 141 

Mezencio— Seu duello com Eneas II 305 

Mezes — Annos de dez II 15 

» da gestação (n) II 237 

» dos romanos (n) I 298 

Milícia romana (n) II 230 

Milvio (constellação) descahe para a Ursa em 17 de março. . . II 91 

» » — Suá historia II M 

Minerva Capita — Sua capella ás faldas do Celio II 95 

» explica ao poeta as causas das folias dos frauteiros. . Ill 167 

» inventa a flauta Ill 171 

» — Quem são os que a devem festejar nos Quinquatrios. 
(Vide carpeadeiras, tecedeiras, desinodoadores, 
tintureiros, sapateiros, médicos, mestres de es- 
cola, gravadores, esmaltadores, esculptores e poe- 
tas) . 
» — Os seus Quinquatrios dão principio cm 19 de março II 93 
» — Seu nascimento celebrado no primeiro dia dos Quin- 
quatrios U 93 

Mistes iniciados no fculto de Ceres — Seus jejuns/ II 163 

Moedas — Systema d'ellas entre os romanos (n) 1 350 

Monéta. (Vide Juno). 

Moreto (n) II 483 

» — Razão de o apresentarem nos festins de Cibele. ... II 145 



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( — 616 — 

TOM. PAG. 

Morte de Cbiron e sentimento de Achilles Ill 47 

Muda, Lara, Lala, ou Larunda— Quem seja esta deusa I 141 

Mulheres na festa de Marte a 1 de março— Raxão porque. . . II 21 
Multas— Applicação das impostas pelos primeiros edis da plebe 
á celebração dos jogos floraes e á construcção da Via Pu- 
blica no Aventino III 37 

Mundo (Incerteza das balanças do) (n) III 501 

Murtas Banbam-se á sombra d'elias as romanas em honra a 

Vénus no 1.° de abril II 119 

Mnsagete (Hercules) (n) '. III 571 

Musas adoradas no templo de Hercules fundado por Mareio 

Philippe pai de Mareia em 30 de junho Ill 183 

» — Invoca-as o poeta por meio de Gibelle II 125 

Musica (n) III 503 

Muta ou Tacita — Festa a esta deusa , I 139 

Mutina— Sua victoria II 175 



Narciso — Transformado na flor do seu nome III 29 

Nascimento da constellação Lira I 33 

» das constellações Serpente, Corvo, e Cratera — 

Sua historia , I 103 

Nascimentos e oecasos heliacos (n) I 248 

Navegação dos antigos e dos modernos (n) II 480 

Nefastos (dias) I 7 

Neptuno, Júpiter e Mercúrio, hospedados na choupana de Hi- 

rieu III 57 

Noite ?-— Sacrifica-se-lhe o gallo I 49 

Nonas % I 9 

i (f) * I 298 

Numa amansa a ferocidade romana II 33 

» — Seu anno I 7 

» consulta a Fauno no seu bosque — Resposta do deus. . II 171 
d consulta a Pico e Fauno sobre o modo de se esconjurar 

o raio II 35 



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— 616 — 

TOM. Fifi. 

Numa t- Esterilidade da terra e gados no seu reiaado II 175 

» recebe do ceo o Àncilio e manda fabricar outros por 

Mamurio II 43 

» reforma, e ainda não acerta, o calendário II 21 

Numero dez II 17 

Numilor succede no governo de Alba a seu irmão Amulio morto 

pelo sobrinho Rómulo II 11 

n fllho de Proca ; II 109 

» pai de ília II 109 

Nundinacs (dias) I 9 



Oblações a Vesta em 6 de março II 47 

Observatórios (n) III 575 

Occaso e historia do Golfinho I 87 

» do leão (signo) I 71 

» da Lira I 85 

» de parte do Leão (signo) . I 85 

» do signo do Cancro I 33 

Ócio dos dias santificados (n) I 335 

Ocresia mãi de Tullio e serva da rainha Tannaquil I 163 

Oiro (idade de) reinando Saturno na Itália I 27 

Olento (campo) — A sua flor, maravilhosa origem de Marte. . . III 29 

Omphale, Fauno e Hercules I 109 

Origem troiana das Parentaes 1 135 

Orion (constellação) emergido em parte no dia 26 de junho. . . III 183 

» » —Já se não vè aos 12 de maio III 63 

» » — Seu occaso II 147 

» » — Seu occaso em 11 de maio III 57 

» » — Suahistoria III 57 

» » — Sua singular geração III 61 

» (gigante) e companheiro de Diana III 63 

» , » tornado constellação e porque III 73 

» e Delfim (constellações) acabam de se descobrir em 17 de 

junho III 175 



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— 617 — 

TOM. PAG. 

Ovelha sacrificada a Júpiter I 63 

Ovelhas — Origem de se sacrificarem I 41 

Ovídio— Seu desterro (n) I 201 

» e Camões (n) , . . . II 314 

Oxiacanta — Varinha dada por Jano a Grane para ter o domí- 
nio das coiceiras e poder afugentar os azares III 105 



Padaria antiga e moderna (n) III 467 

Pai da pátria — Titulo decretado a Augusto I 91 

Paganaes (festas) I 73 

Pales invocada pelo poeta II 185 

» — Oração dos pastores a esta deusa II 187 

Palilias II 185 

» — Fogueiras saltadas nestas festas e varias razões d'este 

costume II 191 

Palladio cahiu dos ceos junto á cidade de Ilio no reinado de lio III 139 
» — Fada o oráculo Esmintheu império e duração ao 

povo que o possuir III 139 

» — Guarda-o lio na cidade] la. — Laomedonteimitaallo III 141 

» (n) III 493 

» — Roubam-no reinando Priamo III 141 

» — Vem dar a Roma e se enlbesoira no templo de Vesta III 141 

PalUs— Sagraçao do seu templo no Aventino III 175 

Pan — Festas Lupercaes em honra d'elle e origem d'ellas. ... I 105 

Pancadas d'amor (n) I 572 

Papoila como afrodiziaco (n) II 456 

Papoflas matam a fome a Ceres II 163 

Parentaes (festas) I 135 

» » — Castigo de se haverem interrompido. ... I 13 
» » — Durante estas não se devem casar viuvas 

nem donzellas I 1 37 

» » — Incerro dos templos durando estas 1 139 

n » — Seu ultimo dia I 139 

» j> —Sua origem troyana I 135 

Piris julgando as três deusas (n) III 294 



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— 618 — 

TOM. PAG. 

Parvos— Sua festa I 133 

» » (n) , I 573 

Pastores — Sua oração a Pales II 187 

Pausias (grego) pintor de flores. (Vide Coroas). 

Pai actual em todo o império I 75 

» (festas da), de Jano, da Concórdia, e da Salvação Publica II 101 

» — Seu culto em Roma I 77 

» universal no tempo de César I 31 

Pazes dos romanos com os sabinos devidas á heroicidade das 

mulheres II 29 

Pégaso (constellação) — Seu nascimento e origem. II 49 

Peixes (signo) — Occaso de um d'elles em 3 de março II 45 

Pelion — Monte em cuja caverna Chiron e Àchilles hospedam 

a Hercules III 45 

Pentear defezo á mulher do fia mine Dial no 1.° de março. . . II 45 

Pescadores do Tibre — Suas festas aos 7 de junho III 117 

Phebe e Eli a ira raptadas III 83 

Phrixo e Helles —Sua fabula < II 99 

Picanço — Ave de Marte sustenta a Rómulo e Remo II 9 

Pico e Fauno consultados por Numa sobre o modo de escon- 
jurar o raio II 35 

Pintura en cáustica entre os antigos (n) II 351 

» d » romanos (n) II 355 

Pirrbo — No tempo das suas guerras, sagração do templo de 

Summano III 177 

Piseis — Entra o sol neste signo 1 137 

Plebe romana no monte sacro (n) II 293 

Plêiades — Começam a descer em 2 de abril II 123 

» — Explicações de se não avistar uma das sete II 123 

» — Uma d'ellas será Anna Perenna II 75 

» (sete strelio) — Seu nascimento aos 13 de maio III 71 

Poesia — Ê Vénus quem lhe dá origem II 115 

Poeta — Explica-lhe Minerva as folias dos frauteiros III 167 

» no desterro II 113 

Poetas encommendam-se a Minerva no primeiro dos Quinqua- 

trios II 95 

Pollux e Castor I 77 



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TOM. PÀG. 

Pombas — Sacrificadas I W 

Pontífices dos pagãos e dos chr islãos (n) IH 304 

Pontífice — Toma César este titulo em 6 de março II 47 

Porca sacrificada a Ceres I 37 

Pórrima e Postverta I 69 

Porta Capena, junto á qual ha a fonte de Mercúrio III 81 

(h) H 482 

» — Templo de Marte junto a ella III 111 

Porta Collina — Templo e festa de Vénus no seu templo junto 

a esta porta H 203 

Portas — Razão porque são presididas pela deusa Carna III 103 

Posthumo Silvio filho de Iulo II 107 

» pai 'de Latino II 107 

Postverta e Pórrima I 69 

Prestites. (Vide Lares). 

Príamo — No seu reinado roubam o Palladio Ill 141 

Priapo e Lotis I 43 

» — Sacrifica-se-lhe o jumento I 43 

» — Sacrificam-lhe o jumento em Lampsaco por lhe ter 
desaprazido, e por ter salvado a Vesta, coroam-no 

de rosquilhas III 131 

» — Sua fabula no convívio de Vesta III 127 

Primavera com razão festejada pelas matronas II 29 

» — Começa esta estação em 24 de fevereiro I 171 

» — Parte-se a meio em 25 de abril II 207 

» — A sua entrada a 9 de fevereiro 4 93 

Proca — Este menino sugado pelas estriges III 107 

» » » salvo por Grane III 107 

» filho de Aventino II 109 

» pai de Numitor * II 109 

Procissão das imagens dos deuses II 149 

» vestida de branco pela via Nomentana ao bosque da 

Robigine II 207 

Promessas e ex-voto no bosque de Aricia. .• II 33 

Prophecia (w) I 467 

Propontide — Terra do nascimento de Marte III 33 

Proposição e invocação a César no livro n I 79 



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— 620 — 

TOM. PAG. 

Proposição e dedicatória do poema I 3 

» do poema (n) I 207 

Prosérpina passa metade do anno no inferno metade na terra II 173 
» — Peregrinação de Geres por terra, mar, e ceos á 

sua procura II 155 

» raptada em Henna II 151 

Prostituição entre os romanos (n) II 553 

Publicios — São eleitos edis da plebe III 35 

Publio Rutilio Lupo — Prognostico de derrota feito a este ge- 
neral por Leucóthee III 155 



Quinquatrio — Porque se dá este nome ao dia 13 de junho. . III 171 

Quinquatrios menores em 13 de junho III 167 

» de Minerva dão principio em 19 de março II 93 

» — O primeiro dia d'elles (nascimento de Miner- 
va) é incruento .• . . II 93 

» — No segundo, terceiro e quarto dia d'elles gla- 
diadores no circo . . ; II 93 

Quirinal— Etymologia do nome d'este monte I 133 

» — Sagração do templo á Fortuna Publica neste monte 

em 6 de abril II 147 

» — Templo da Fortuna Publica neste monte em 25 de 

maio • IH 87 

Quiri no — Sua festa , I 129 

» — Suas etymologias I 129 

» — Templo' a Rómulo sob a sua invocação aos 28 de 

junho III 183 



Raio — Sua eliciação (n) II 249 

» — Preservativos contra (n) II 278 

Raposas queimadas no Circo Máximo II 181 



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— 621 — 

TOM. PAG. 

Rapto de Europa III 71 

» pôr Júpiter (n) III 270 

Realeza abolida 1 151 

» — Succede-lhe em Roma o consulado I 171 

Regifugjo aos 24 de maio Hl 87 

Religião — É Vénus quem lhe dá origem II 115 

Remo c Rómulo 1115 

» creados por Larencia e Faustulo II 11 

» lançados ao Albula depois Tibre, por ordem 

do tio Amulio I 119 

» lançados ao Tibre e salvos II 9 

» são amamentados pela loba I 121 

» são sustentados pela loba e picanço de Marte II 9 

» — Seu nascimento + II 9 

» — Seus exercícios juvenis II 11 

Remorsos personificados nas Eumenides (n) II 476 

Remulo filho de Aggripa II 109 

» pai de Aventino II 109 

Remurias — Etymologia de Lemurias" III 53 

Rhea Silvia (vestal) amada por Marte e mãi de Rómulo e Remo II 3 

Robigine — Oração do flamine* Quirinal a ella II 207 

» — Sacrifica-lhe ovelha e cadella o flamine II 211 

Roma (Abolição da realeza em I 151 

» (Agoiro em) I 155 

» — Anniversario da sua fundação II 195 

« — Gomo os dois foros d'esta cidade foram paues em tem- 
pos mais antigos III 137 

» — Concilio dos deuses para a salvarem Ill 131 

» (Culto da pai em) I 77 

» deve mais qxxe todo o mundo honrar a Vénus II 117 

» em luto pelo desapparecimento de Rómulo I 131 

» — O Palladio afinal vem dar a esta cidade e se entbe- 

soira no templo de Vesta •. III 141 

» — Seu terror ardendo o templo de Vesta Ill 141 

» — Seus bairros (n) III 227 

» — Sua fundação II 13 

» — A sua grandeza prophetisada por Carmenta I 55 



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— 622 — 

TOM. P1C. 

Roma — Templo da mãi Matuta na praça Boaria III 145 

Romanas banham-se festivamente na festa de Venos a 1 d v abril II 119 

» sem destincção de estados, festejam a Vénus II 119 

Romanos — Amansa-lhes Numa a ferocidade II 33 

» — Castigados por Flora com esterilidade III 39 

» primitivos, destros nas armas, ignorantes na astrono- 
mia II 15 

» reconciliados com os sabinos pela heróica mediação 

das mulheres : II 27 

» — Suas guerras com os sabinos II 25 

Romaria e festa de Anna Perenna II 59 

Romarias (n) II 286 

Rómulo (Anno de) i I 5 

» apparece a Júlio Proculo I 131 

» consagra a Marte o primeiro mez do seu anno. ..... II 13 

» celebra inferias para applacar ao irmão assassinado.. III 53 

» filho de ília II 109 

» funda o templo e. asylo de Vejove em 7 de março ... II 47 

» — Luto romano seu pelo desapparecimento I 131 

» mata a Amulio e restitue o governo de Alba a Numi- 

tor \ II 11 

» Quirinò — Seu culto I 131 

» — Seu templo sob a invocação de Quirino aos 28 de 

junho III 183 

» — Sua ascenção ao ceo I 129 

» e Remo I 115 

» » creados por Faustulo e Larencia. II 11 

» » lançados ao Albula depois Tíbre, por ordem 

do tio Amulio I 119 

» » lançados ao Tibre e salvos II 9 

» » são amamentados pela loba I 121 

» » são sustentados pela loba e picanço de Marte. . II 9 

» » — Seu 'nascimento II 9 

9 » » — Seus exercícios juvenis II 11 



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623 — 



TOM. PAG. 

8abâo (n) II 318 

Sabinas — lntermettem-se pacificadoras entre os sabinos e os 

maridos romanos II 27 

» raptadas na festa do deus Gonso II 25 

Sabinos— «Sua guerra contra os romanos II 25 

» — Templo fundado por elle no Quirinal a Sanco Fidio . 

ou Semo III 115 

Sacerdócio romano (n) II 585 

Sacerdotes de Cibelle { eunuchos) II 129 

» — Suas dífferentes espécies entre os romanos (n) .. II 585 

Sacerdotisas — Razão de serem virgens as de Vesta III 123 

Sacrifício de aves I 49 

» de bois /. I 39 

» de cabro e cabra a Baccho 1 37 

» dos cães a Hecate I 43 

» da corça a Diana I 43 

» cruento, o primeiro o da porca a Ceres. 1 37 

» do gallo á Noite I 49 

» do ganso a Io 1 49 

» do jumento a Priapo * I 43 

» » (Vide jumento sacrificado). 

» a Júpiter I 85 

j> nas padarias á deusa Fornax e a Vesta III 127 

» da ovelha a Júpiter '. I 63 

» de ovelhas — Sua origem I 41 

» de pombas I 49 

» da porca a Ceres I 37 

» a Termino na via Laurentina I 151 

» a Vesta I 85 

Sacrifícios de cavallos ao Sol I 41 

» incruentos * I 37 

» » e cruentos (n) I 430 

» — Razão de principiarem todos por um brinde a 

Jano I 19 



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— 624 — 

TOM. FAG. 

Saggitario (constcllação) — Seu nascimento em 3 de maio — Sua 

hisloria III 45 

Sagração do templo da Concórdia 1 69 

Salios II 31 

» (n).. , II 578 

» — Origem do seu nome, das suas armas e do seu cantar II 43 
Salvação Publica (festas da), de Jano, da Concórdia, e da Paz II 101 

Sanco (divindade) — Festa aos 5 de junho III 115 

» -r-Seu templo no Quirinal fundado pelos antigos sabinos III 115 
Sapateiros encommendam-se a Minerva no primeiro .dia dos 

Quinquatrios II 95 

Saturno— Seu advento á Itália I 25 

» » (n) • I 391 

Saudades da pátria (n) II 390 

» » » ; Ill 278 

Saxo (calçada do Àventi no)— Templo da deusa Bona III 21 

Sciencia de Júpiter (n) 111 243 

Sei 11 a solcmnisa o templo de Hercules Custodio Hl 115 

Segunda guerra púnica — Por occasião d'ella votação d'um 

templo á deusa Mente 111 117 

Sementinas (festas) I 71 

Semo. (Vide Sanco). 

Senado — Propicia a Flora com promessa de festas Ill 41 

Serpente, Corvo e Cratera — Nascimento e historia d'estas três 

constellações , I 103 

Servas — Razão de não entrarem no femplo de Leucothee. ... III 155 
Sérvio — A sua imagem annuviada de togas no templo da For- 
tuna — Varias explicações III 157 

» Tullio funda o templo de Matuta em 10 de junho III 157 

Sete strello. (Vide Plêiades).' 

Sexto Tarquinio — Sua historia I 151 

Sicília (n) II 529 

Sileno — Anecdota d'este com os vespões II 85 

Siphaz derrotado por Massinissa em 24 de junho III 181 

Sol no Aquário I 71 f 

» — SacriGcam-se-lhe cavallos I 41 

Solino (grego) fundador de Sulmona II 111 



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— 628 — 

TOM. PAG. 

Solsticio estival — Termina em 26 de junho III 183 

Sospita (Juno) I 83 

Stare — Elymologia do nome de Vesta : III 123 

Sulmona fundada pelo grego Solimo II 111 

Summano— Sagração do seu templo no tempo das guerras de 

Pirrho III 175 

» (n) III 526 

Superstição das expiações I 81 

Syracusa (a esphera de) (n) III 452 

Systema monetário dos romanos (n) 1 350 



Tácita ou Muta — Festa a esta deusa I 139 

Tanaquil (rainha) III 163 

Tarpeia I 29 

» (n) I 403 

Tarqurnio toma ardilosamente a cidade dos gallios I 153 

» (Lúcio) usurpa o throno de Roma III 159 

» (Sexto)— Sua historia I 151 

Tauro (signo) começa a apparecer aos 14 de maio III 71 

» — Passa o sol do Carneiro a elle em 20 de abril II 185 

» — Sua historia Ill 71 

» — Suppoem alguns ser Io III 73 

Tecedeiras encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos 

Quinquatrios ! II 93 

Telégone — Sua antiga fundação na Itália II 111 

Tellus e Ceres — Invoca m-se : I 73 

Tempestade — Festa no seu templo convisinho ao de Marte. . . III 113 

» — Seu templo junto ao de Marte III 113 

Templo e asylo de Vejove, fundação de Rómulo II 47 

» da Concórdia — Sagração d'elle I 69 

» » sagrado por Livia em 11 de junho III 165 

» á deusa Mente votado por occasião da segunda Guerra 

Pânica ; IH 117 

TOM. III. 40 



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— 626 — 

TOM. PAG. 

Templo da Fortuna Publica no Quirinal Ill 87 

» da Tempestade junto ao de Marte IH 113 

» de Vestal- Sua rotundidade III 121 

» • » — Sua simplicidade e pobreza na primitiva. Ill 121 

Templos encerrados durante as Lemurias e F érea es III 57 

Têmpora es com ped risco em 14 de abril II 173 

Terminaes (festas) I 147 

Termino (deus) —Sua festa (n) I 578 

» » — Elogio d' este deus I 149 

» » — Prece a elle I 151 

» » — Sacrifício a elle na via Laurentina I 151 

Terra e Vesta são uma III 143 

Theatros gregos e romanos comparados com os modernos (n). II 502 

Themis será Anna Perenna? II 75 

Tbienne a ultima das Hiades — Seu nascimento em 15 de ju- 
nho III 173 

Tiberino filho de Calpeto II 109 

» pai de Aggripa II 109 

' Tibraes — Festas dos pescadores do Tibre aos 7 de junho. ... III 117 

Tibre — Á beira d'elle festa e romaria de Anna Perenna II 59 

» — O bosque Helerno junto a elle III 103 

» — Seus pescadores — Festas aos 7 de junho III 117 

» — Templos de Júpiter e Esculápio na sua ilheta I 31 

Tibur — Sua antiga fundação na Itália 11 111 

» (w) III 522 

Tindarides. (Vide Castor e Pollux). 

Tinturaria dos antigos (n) II 327 

Tintureiros encommendam-se a Minerva no primeiro dia dos 

Quinquatrios II 93 

Tira-nodoas entre os antigos (n) II 318 

Tivoli. (Vide Tibur). 

Toga libera — Quatro diversas razões aventa o poeta de a to- 
marem os mancebos a 17 de março II 89 

d — Tomam-n'a os mancebos a 17 de março II 89 

Toiro. (Vide Europa). 

» (Vide Tauro). 
Trabalhar — Prohibido religiosamente (n) I 335 



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— 627 — 

TOM. PAG. 

Triptolemo — Como esteve para sair immorlal e veiu a ser o pro- 
pagador dos dons cereaes II 1 65 

»~ filho de Celeu curado por Geres II 163 

Tropheus de armas e estatuas no templo de Marte Ultor . III 65 

Trombetas — Sua lustração no ultimo dia dos Quinquatrios. . II 97 

Tros filho de Ericthonio \ II 107 

» pai de Assaraco II 107 

Tubilustria — Festa do ultimo dia dos Quinquatrios II 97 

Tubilustrias — Festas em honra de Vulcano III 87 

Tui lia — Sua impiedade contra o pai — Usurpação do throno por 

L. Tarquinio. III 159 

Tullio filho de Vulcano e de Ocresía serva da rainha Tanaquil III 163 

» — Maravilhoso fogo nos seus cabellos sendo menino. . . Ill 165 

» — Sua imagem no incêndio do templo ficou i Ilesa .... III 163 
» (Vide Sérvio etc.). . " 
Tuscos — Guerra com elles — Àppio funda o culto de Bellona 

em 4 de junho III 113 



Ulisses veiu á Itália II 111 

Ultor — Gognomento de Marte. (Vide Marte). 

Universo (Como está collocado nelle o orbe terráqueo) (n) III 448 

Ursa (A) não tem occaso I 97 



Vacca forda sacrificada faz voltar a fertilidade II 179 

» » a Júpiter Capitolino e em cada uma das 

trinta cúrias II 175 

Vacuna — Duram reminiscências da usança das refeições na sua 

festa Y iil 125 

Vejove (Asylo e templo de) — Fundação de Rómulo II 47 

» (n) II 279 

» — Sua etymologia II 49 

40* 



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— 628 — 

TOM. PAG. 

Vejovc — Sua imagem no templo do Asylo. . . .' • . . II 49 

Vendimador (constellação). (Vide Ampelos). 

Tentos vários em 15 de fevereiro I 125 

Vénus — Banho das mulheres na sua festa em 1 de abril II 119 

» castiga a Hippolito III 39 

» — Com toda a propriedade lhe é dedicado o abril. . . . . II 117 
» concede ás mulheres suas devotas, costumes, formosura, 

e fama honrada II 121 

» cria a religião, a convivência, a ctviMsaçao, as artes, a 

poesia, e a eloquência II 115 

» Ericina — Sua festa no seu templo junto á porta Collina II 203 
» festejada pelas romanas de todos os estados sem distino- 

ção II 119 

» — Festejam-na as meretrizes II 203 

» incendida por virtude das papoilas infuzas em leite com 

mel II 121 

» — Invocação que o poeta lhe dirige para cantar o mex 

de abril II 103 

» mãi de Eneas II 107 

» (n) n 385 

» perseguida pelos Satyros depois do banho II 119 

» — Roma mais que lodo o mundo lhe deve coitos II 117 

» — A sua imagem éabluida solemnemente no 1.* d'abril II 119 
» Verticordia— Seu culto — Explicação historico-etymolo- 

gica II 12Í 

» — Viçosos presentes das meretrizes a esta deusa II 203 

Verão — Seu principio aos 13 de maio III 71 

Verbenas (Historia da velha das) I 41 

Verticordia. (Vide Vcnus Verlicordia). 

Vertumno— Etymología do nome d'este deus III 137 

Vespas — Suas ferroadas (n) , II 317 

Vcspões — Ànecdota de Silcno com elles II 85 

Vesta — Gomo eram outr'ora as refeições c lhes assistia esta 

deusa III 125 

» — Em 28 de abril se festeja esta deusa por haver sido nelle 

recebida ao paço imperial II 211 

» — Etymologia do nome d'esta deusa: Vis e Sure III 123 



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— 629 -* 

TOM. PAG. 

Vesla — Etymologia de Vestíbulo III 126 

» —Explicação de uma frase ritual na sua oração III 125 

» — Fabula de Priapo no seu convívio III 127 

» — Identidade da terra e d'esta deusa ; physica do mundo 

e do fogo III 121 

» invocada pelo poeta aos 9 de junho.' III 119 

» — Limpeza do seu templo III 173 

» — Oblações a ella em 6 de março , II 47 

« — O Palladio a final vem dar a Roma e se enthesoira no 

seu templo III 141 

» — Prato que dos banquetes se offerece a esta deusa „ ... III 125 

» — Razão de serem virgens as suas sacerdotisas III 123 

» — Rotundidade do seu templo III 121 

» — Sacrificam o jumento em Lampsaeo por ter desapra- 
zido a Priapo; e pela ter salvado coroado de rosqui- 

lbas III 131 

» (Sacrifício a) I 85 

» — Seu culto data em Roma do anno xl da fundação da 

cidade III 119 

» — O seu sacrário seguro sob a protecção cesárea III 143 

« — Simplicidade e pobreza do seu templo na primitiva. . III 121 

» — Terror de Roma ardendo o seu templo III 141 

» — Vão-se buscar expiações ao seu templo II 187 

» e Fornax — Sacrifício nas padarias a estas deusas III 127 

» e Terra são uma III 143 

Veslacs — Insineração dos fetos das vaccas pela sua deã — Para 

que fim II 175 

» infiéis — Seu soterramento. , III 143 

Vestíbulo — Sua etymologia: Vesta III 125 

Via Nomenlana — Vai por ella a procissão ao bosque de Robi- 

gine II 215 

» Publica no Aventino — Como se fabricou III 37 

Vias publicas e outras grandezas romanas (it) III 363 

Victima e Hóstia — Sua origem .- I 31 

Victimas nos sacrifícios a Ceres (n) II 523 

Vida (Fogacidade da) (n) III 534 

Vinaes — Festas em 23 de abril II 203 



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— 630 — 

TOM. PAG. 

Vinaes (festas) (n) II 566 

» » — Razão de coincidirem com as de Vénus Eri- 

cinna e pertencerem a Júpiter II 203 

Violeta — Flor em que é transformado Attis III 29 

Vis — Etymologia do nome Vesta III 132 

Viuvas — Não se devem casaV durante as parentaes I 137 

Viuvez (n) ' I 265 

Volscos e Equos — Vencidos pelos romanos , . . . III 175 

Voto de César na batalha philipense do qual se originou o tem- 
plo de Marte Ultor III 67 

Vulcano pai de Tullio Ill 163 

» — Tubilustrias, festas em honra d'esle deus em 23 de 

maio III 87 



Zephiro (vento) — Começa a correr de feição para navegantes 

italianos a 16* de junho III 175 

« — Seus amores e casamento com Flora III 27 



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