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Full text of "Os gatos, publicação mensal, d'inquerito á vida Portugueza"

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FIyLHO D'ALMEIDA 



os GATOS 



PUBLICAÇÃO 
DIXQUERITO Á VIDA PORT'JGUEZA . 



1V.° íj— 20 (l(! Julho (ie {892 



SUMMARIO 



A MASCARADA DA MORTE TESTAMENTO DUM 

CONTRACTADOR DE BENEFÍCIOS CORTEJOS FÚNE- 
BRES d'aLUGUEL, E DEDICATÓRIAS NAS FITAS Á 

VONTADE DO FREGUEZ AS COMMISSÕES DE CAN- 

GALHICE VISITA AO CEMITÉRIO, E PHVSiONOMfA 

BURLESCA DOS JAZIGOS OS DE CAMPAINHA ELKC- 

TRICA, OS DE BANQUINHA DE CABECEIRA E TOLDOS 

DE RAMAGí:M FERRAGEÍRO ESPIRITUALISTA, SEUS 

DICTAMES EPITAPHIOS-TABOLETAS A INCONSOLÁ- 
VEL DE TRÊS MARIDOS, SEGUIDA DE CONSELHOS 

AOS QUE SE CASAM NO CEMITÉRIO DOS POBRES', 

CAMPAS TREPIDANTES PSVCHOLOGIA DO TERROR 




II os GATOS 

— os EPiTAPHios humildes: Maria julia, ramei- 
ra, E ROZA JOAQUINA, CREADA DE SERVIR O QUE 

NUNCA FEZ MAL AO SEU SEMELHANTE, E e QUE PRES- 
TOU SERVIÇOS Á INSTRUCÇÃO EPITAPHIOS EM VER- 
SO E EPITAPHIOS FIGURADOS BRINDES d'anNOS 

AOS DEFUNTOS INQUÉRITO DO FigaVO SOBr.E A 

PSYCHOLOGIA DOS MACaCOS: SE DÃO GUINCHOS 
d'aLEGRIA Á PAPAROCA ? SE MANIFESTAM POR GES- 
TOS SENTIR A MUSICA ? CARACTER CATHEGORICO 

DAS NOSSAS RESPOSTAS, COM EXEMPLOS DA HIS- 
TORIA CONTEMPORÂNEA O FESTIM DA MADAMA CA- 
NÁRIO, COM BREVÍSSIMOS APUNTOS QUANTO Á IN- 
TELLIGENCIA DOS OUSTITIS EXPLICA-SE POR PSY- 
CHOLOGIA O PKENOMENO DA AGUA NA BOCCA SO- 
CIABILIDADE E JORNALISTICIDADE DOS ORANGOS 

ESTUDOS EXPERIMENTAES DO DR. SOLLIER SOBRE 

AS COMIDAS DE BORLA MACACOS MELOMANOS : O 

VIOLINISTA SIVORI, E EFFBITOS CURIOSOS DO HYM- 
NO REAL SOBRE O SR. JOSÉ LUCIANO — ORANGO AMO- 
ROSO — VIAGEM REAL A COIMBRA, OU COMO SE CON- 
QUISTAM AS CIDADES TELEGRAMMAS PARA OS 

JORNAES — A ACADEMIA PERANTE AS MAGESTADES 
AMANHÃ. 




J:^^>- 



2 de jitlho. 

Foram segurameate as disposições testamen- 
tárias do sior H., fuiaiio que no Bairro Alto ex- 
plorava um commercio de vinhos e tabacos, 
juntaraeiííe com a monomania da evidencia, 
que me pozeram no eucalce das mascaradas 
mortuárias de que hoje vou traçar a chrouica 
estrava gante. 

O sior H. quando chegou a um pé de rela- 
ções com jornalistas, entrou a achar a quitan- 
da dos vinhos pouco á altura dos seus méritos 
=vender vinho é realmeute uma profissão em 
que ninguém falia de nós — vae, meteu-se a 
emprezario de toiros e a contractador de bene- 
fícios, até que morto de fígado e tendo toma- 
do gosto aos reclames dos jornaes, redigiu elle 
mesmo, seis necrológios, para insei-ir no dia do 
seu trespasse, em seis jornaes — seis vezes em 
cada jornal — alternando-se os textos d'unsprós 
outros, em lermos do pnblico se persuadii' de 



4 OS GATOS 

que em cada papel se tivessem occupado do 
sior H., seis redactores. 

Porem não fica n'isto a exliibicão do pifio 
megalómano, que organisára as suas coisas por 
guiza a ter na morte o melhor dia da sua vida, 
ordenando aos lierdeiros cobrirem-lhe o caixão 
com duas ou três dúzias de coroas, ricas todas, 
e tendo nas fitas dedicatórias de clubs e figu- 
rões mais em successo nos racontares da capi- 
tal, acrescendo o encargo de o acompanharem 
á cova alguns daquelles illustres personagens 
(dizia os nomes), e mijarem-lhe discursos dois 
€u três que fossem deputados e jornalistas — Ma- 
galhãesLima em todo o caso — condição sem a 
qual toda a herança ficaria sem valor. 

Seguia-se uma Hsta de remunerações para 
cada convidado^ por escalas de popularidade e 
roupa branca, verba para tipóias e coroas voti- 
vas, e emfim traslado do estylo em que cada 
supposto offertante seria obrigado a exalçar, nos 
baixos das fitas, a memoria do illustre cidadão 
ftque todos deploramos»). 

Na Rua Nova do Almada, esquina do Chiado, 
o sior P. Z., com loja de pompas fúnebres, of- 
ferecera ás famílias, dias antes, pelos annun- 
cios dos jornaes, esta singular mistificação: 



os GATOS 5^ 

transportar ao cemitério os defuntos com coroas 
d'alugiiel, a preços Ínfimos, pondo-se-liies nas 
fitas dedicatórias, d vontade do fregmz. 

Espavoridos pelo terror de perder os contos 
de réis testados pelo slor H., os herdeiros ti- 
nham vindo ter com o negociante de homena- 
gens fúnebres fingidas^ a pedir-lhe de mãos 
postas que os salvasse, por forma ás disposições 
testamentárias se cumprirem, sem menos cabo 
das pessoas citadas a comparecer, pelo sior H., 
no seu enterro. 

E á hora d'eu chegar á loja, graças ao espi- 
rito inventivo do logista, quazi todas as difficul- 
dades iam de vencida ; quero dizer, por uma 
modesta espórtula, sociedades recreativas e 
scientificas consentiam na burla de se deixarem 
prestar honras fúnebres a um maluco que nem. 
de vista conheciam: homens illustres de todos 
os partidos aceitaram com alvoroço^ n'estas 
epochas de crise, a proposta de seguirem o ■ 
comboio mortuário por meia libra, tipóia á par. 
te ; quanto cãs coroas do féretro, combinou-se 
que fossem d'aluguel, e com dedicatórias, que- 
enterro findo, seriam descoladas das fachas, ser- 
vindo para outros passamentos pelintras^ como 
novas. A respeito de Magalhães. . .Eis onda- 



6 OS GATOS 

torcia a porca o rabo, precisamente porque o 
illustre cosmopolitera pozera o d'elle á parede, 
e liem como republicano, nem como amigo, ac- 
ceõia a via toni troar na sepultura do defunto. 
Era o diabo 1 Tinha-se-lhe já variado umas pou- 
(^as de vezes os termos da escriptura, acrescen- 
tado á esmola algumas cifras... explicaram-lhe 
mesmo que o sior H., leitor assiduo do Século, 
nove annos, permanecera democrata, apezar d'es- 
sa leitura ; mas Magalhães Lima moita, moita I 
([ue não ia e que não ia! e quanto mais lhe 
retrucavam que havia d'ir, que havia d'ir ! 
mais beliscões lhe dava no cotovello, a que não 
fosse, o Silva Graça ... 

D"informa em informa, indagação em inda- 
gação, cheravisco em charavisco, vim a apurar 
sobre a comedia da morte ainda outras estra- 
vagantes minudencias. Que ha académicos, ge- 
neraes, conselheiros d'estado, directores de 
banco, etc, cujos alfinetes costeia em parte a 
gorgeta percebida de se alugarem ás agencias 
fúnebres como figurantes de préstitos pompo- 
sos. 

A Academia Real das Sciencias, a Sociedade 
de Geographia, a Maçonaria, a Casa Real, a Uni- 
versidade, o Grémio Artístico, etc, incluem no 



os GATOS 7 

seu budget anniial, secretamente, a titulo de 
proventos fixos^ verbas derivadas d'esta ganan- 
cia, tirando-se á sorte, nas epochas de renova- 
rão funccional, as cliamadas commissões de 
cangalhice, especialmente encarregues d'este 
particularíssimo mister de carpir em nome da 
conectividade, o enxun-o pagante, por um inva- 
riável preço de tabeliã. 

Que a este engenhoso recurso financeiro dis 
corporações e personagens illustres do reino 
vinha correspondendo por banda do publico 
uma procura successivamente augmentativa^ 
um paladar exhibicional que todos os dias se 
requintava, por forma que o dinheiro outr'ora 
gasto com pobres d'azylo, nos enterros, hoje 
todo se polarisa no sentido de os substituir por 
vultos d'importancia. 



Era isto progresso ? A megalomania d'alon- 
gar cortejos mortuários pela encadenção (factua- 
hdades illustres, offei-endas, e estardalhaços 
discursivos (que foi o que ficou do centenário 
de Gamões, exaltado pelos philosophos como 
um acordar de nacionahdade) a( aso revela um 



8 OS GATOS 

povo marchando para a civilisação n'um poean 

de gymiiastas? Será preito á chimica dar por 

I exemplo quinze tostões ao José Júlio, para este 

^acompanhar ao cemitério o meu sapateiro, que 

se imaginou um dia homem de sciencia, por 

• chamar á graxa um preparado? 

N" estas cogitações saio uma maiiliã té aos 
Prazeres, a vêr se nas campas continuava a 
-cangalhice grotesca dos trespasses, ou se os ho- 
mens, varados de respeito, ha^^am estacado às 
portas da podridão subterrânea, para ahi des- 
ligar os mortos do entremez das exéquias der- 
í radeiras. Pobre Hamlet gastralgico ! porque ou- 
- sei eu julgar um instante, ermos de farça, esses 

• ossuarios duma capital de lúgubres fantoches! 
Os cemitérios de Lisboa não passam afinal de 

.grandes feiras de chacota, onde a galhofa dos 
vivos parece que se compraz a fazer surriada 
aos que estão mortos. A chufa ahi reveste as 
modalidades todas que vão do versículo biblico 

• iíelebrando a castidade duma pecora, té à la- 
pide commemorativa da philantropia evangeli- 
sta d'um preguista. Oh céus, que troça! Nem 
os aííectos de família escapam á assuada, a 
própria tristeza chorando ramella, em vèz de 
lagrimas. 



os GATOS 9 

«Este monumento encerra 
Aquella que muito amei 
E junto a ella virei 
Descançar na mesma terra. . . 

O seu nome eu vos direi 
Para que também venereis 
Os restos da que chorarei 

Maria se chamava, 
José era o sobrenome, 
Peixoto se appelidava.» 

Jacente á rotunda do mausoléu do chimico 
Aguiar, o esposo a chorar a esposa, em verso : 

«Levavas tudo na vida, 
Esposa sempre adorada. . .» 

e infinitos de quem a legenda diz «bom cida- 
dão, bom pai, e M amigo» — o que é, do fu- 
meiro do tumulo, estabelecer uma concorrên- 
cia funesta ao bacalhau. 

Ruas e ruas do Campo Santo se percorrem, 
suiprehendido da analogia d'ellas com certos 
arruamentos da Baixa: os sepulchros, como 
lojas, metem-se grandellescamente á cara de 
quem passa, cada proprietário chamando a 
. attenção [tor qual mais mirabolante ètalage de 



10 os GATOS 

cliochiees, coroas, poesias, faianças coloridas, 
ornatos de vidro, trabalhos de chroché, tape- 
tes pés de leito — a confusão mais forte, quan- 
to mais se approximam, com o exhibicionismo 
de hoje, as inscripções tumulares, das taboletas. 
E' o merceeirismo da rua alfacinha em mor- 
to, o esgare da caveira em vèz da cara, o pos- 
tiço da lagrima litteraria torcendo pelo senti- 
mental a piedade, em chufa discursiva. 

«...A' MEMORIA DE... 

apenas crmdo o Banco *** foi eleito seu the- 
zoureiro, cargo que sem interrupção exercitou 
até ao fim da vida 

CIDADÃO HONESTO NA VIDA PUBLICA E PRIVADA 

morreu honrado sem honrarias do seu valimen- 
to com os poderosos da terra, nada aproveitou 
para si, muito para consolar alheios males 

VIRTUOSO PAE DE FAMÍLIA 

os affectos domesticas foram jjara a sua alma 
pura uma aspiração do ceu. 



os GATOS 11 

MODELO D'A1ÁIZADE 

os dtfros sacrifícios que ella ás vezes cjrige, lhe 
pareceram sempre suaves 

GENEROSO E BEMFAZEJO 
fe: muitr>s ingratos. Deus não esquecerá, elc.>-> 

Ao pé dos bairros velhos, onde sepiílchros 
tisnados pela edade^ esquecidos de coroas, e 
com as inscripções delindo á lima do desleixo, 
poisam entre os pontos d' admiração dos bons 
cyprestes, outros bairros recentes, de pedras 
brancas, legendas novas^ flores e passeios mar- 
giuaes acabados de bater, emprestam á fúne- 
bre colina um ar jocundo o prospero — jazigos 
alinhados, com seus i)ortellos verdes, seus va- 
sos de fayança, suas cruzes ornadas, e por 
dentro um conforto de cubatas, uns gestos de 
visinhança cavaqueadora, fazendo adeusinho, 
onde pela expressão vivida das casas té admi- 
ra que não passem na rua, hortaliceiros, e ás 
esquinas não haja botequins. 

Esta expressão tanto mais flagrante^ quan- 
to jioi' certos detalhes se reconhece como nin- 
guém já hoje abstrae da morte, a vida. 



12 OS GATOS 

A grotesca pergunta dos palhaços de circo, 
na pantomima do enterro «primo, estás morto 
on estás vivo ?» todos a temos ido fazer á boc- 
ca dos caixões, como o prova os Prazeres, onde 
não são raros os jazigos com campainha eléc- 
trica, banca de cabeceira, e naturalmente, pot- 
de-chambre. 

Nos Douradores fmou-se um ferrageiro, gran- 
de somitego, mas pelando-se pela immortalida- 
de da alma. Ordem para os herdeiros todos os 
mêzes lhe levarem ao jazigo, o balancete... 
Reparem nos mausoléus dos logistas: não ha 
um só que não tenha toldo, com manivela e lík 
treiro das confecções ; e quazi se espera vel-os 
lá dentro, em esqueleto, sentados, a fazerem gi- 
rar os polegares, por entre arrotos. 

Insisto na analogia que architectonicameu- 
te o Campo Santo tem com a cidade. Quem 
uma vèz divaga nos Prazeres, jamais se furta 
á imperiosa obsessão d'este detalhe. Os bair- 
i-os correspondem aos bairros, justapòem-se 
— o cemitério possue a sua Baixa, o seu 
Buenos-Ayres, o seu Campo d'Ourique, o seu 
Bairro-Alto e a sua Alfama. Ha cazebres com 
lucarna e fuligem nos muros, a placa do segu- 
ro entre as janellas; ha o palacio-mansarda, 



os GATOS 13 

vindo a baixo^ com o seu brazão musgoso so- 
bre a porta; ha os chaleís catitas, com dois 
cães de fayança no vestibulo; os palacetes bur- 
guezeSí jardins, vidros de cores, uma placa na 
hombreira cjue diz «cartas» — e nos jazigos mu- 
nicipaes, em commoda, encostados ao muro^ os 
grandes prédios de seis andares p'ra poucos te- 
res. Por mais se faça, não ha meio de n'esta 
lerra curiosa estar acabrunliado um só momen- 
to, uma ironia hygienica sae dos coizas, com 
o azul do ar, as paysagens do rio, o carnaval 
gritante das «homenagens derradeiras», e mais 
que tudo a expressão habitada que sae de den- 
tro de cada um d'esses sarcófagos. Lisboa, ca- 
pital nostálgica, só verdadeiramente é Madiid, 
depois de morta; e se assim explica como as 
mais intransigentes viuvas saiam do cemitério — 
todas casadas. 

N'uma avenida nova, um ri(|uissimo jazigo 
de lavrantaria gothica, com alllictas estatuas 
guizando em pedra a magna do costume, tem, 
sobre a porta, uma inscripção plangente de 
viuva (^esta memoria voto ao meu chorado es- 
poso D. X., modelo de virtudes, que Deus per- 
mittiu deixar-me n'este mundo de martyrios^ a 
soffrer sua ausência irreparável ...» Aos dois 



14 OS GATOS 

lados outras taboletas descendo, com intruji- 
ces da velha a dois maridos mais, té na ulti- 
ma se dizer enfim que o quarto resolve res- 
tituii-a aos ires que ella espichou. D'estas pde- 
lidades turgesce a ucharia dos Prazeres. Ai do 
matrimonio se os namorados fossem gargarejar 
aos cemitérios ! 



Encruzadas por series, as ruas quadriculam 
para dentro dos seus maimoreos quarteirões 
pequeninos quintaes de campas razas, núme- 
ros bj'ancos com placas negras, cyprestes, ce- 
dios, moitas d" arbustos, herva e jaziguiniios 
de pobres com parapeitos de sacada. E' a ci- 
dade obscura dos de caixões aterra, dospromet- 
tidos das larvas, tragados por não poderem pa- 
gar-se uma salgadeira de pedra com perpetui- 
dade, longe dos roedores subterrâneos. Colai o 
ouvido ao peito d"essas campas; se como di- 
zem, o coração é o ultimo a morrer, talvez al- 
gumas segredem a que ideal votaram a sua der- 
radeira pulsação. Terra vibratil, conta se d'es- 
ses mortos esquecidos, a quando os devoraste, 
elles soffreram. De feito, inda não hou';e meio 



os GATOS 15 

(restabelecer a insensibilidade absoluta, post 
mortem, e as affirnintivas scieniificas não bas- 
tam para gaiantir o repouso eterno, promettido. 
Alguma coiza d"espirito fica a bruxulear na car- 
ne que apodrece, e por isso talvez a igreja inter- 
diz a cremação, esse refugio dos torturados pe- 
las apprehensões agonicas do au-dcli\!. 

Até porque indo aos covaes reparar na dis- 
posição da terra carnívora^ é impossível não 
vèr signaes de lucta em toda a parte, Covei- 
los que teem dormido a sésla sobre as covas, 
constatam que a certas horas o chão trepida 
no sentido do diâmetro vertical da sepultura^ e 
por seiies de quatro ou cinco estremeções. São 
bule-bules hgeiros, que podem explicar-se poi- 
correntes electiicas desagi-egando-se da chimi- 
ca sepulcbral, em plena actividade â hora áo 
calor ; por deslocações de gazes fugando entre 
as repas dos intestinos putrefactos, mas prin- 
cipalmente, cuido, por contracturas musculares, 
attenuadas embora, por onde a forma humana, 
inda com instincíividades de vida, reage aos 
primeiros assédios do minério . . . 

Por instantes dir-se-hia se apercebem em cer- 
tos aspectos de terra, pedaços de seres que esta- 
mos a conhecer sem poder explicar d onde 



16 OS GATOS 

nem como. Essas porções de fluido vão-se iso- 
lando por fim da argilla solta, e a poder d'es- 
forços lá adquirem typos ondeantes : a gente 
não os vè, mas elles segiiem-nos, a todo o ins- 
tante parece que vão tomar-nos da manga e fa- 
zer pst, e o seu hálito calafria d'um regelo dia- 
bólico a nossa nuca, até que nos voltamos, e 
ainda os vemos u'um recanto d'alea, fugindo 
entre a sombra abafada dos, cyprestes. 

Cada bairro de mármore quadricula um d"es- 
tes melancholicos jardins de covas razas, onde 
as mais ricas teem grades de pau, e leitos de 
ferro entrelaçados de sardinheira e rosas de 
toucar. Nomes sem títulos, epitaphios singelos, 
memorias de povo envergonhadas de chorar 
deante de quem passa. 

«.4 Maria JuUa, morreu no hospital, edade 
19 annoSj, olferecem as suas amigas : anuo de 
1889 „. Escuso d"explicar a condição de Maria 
Júlia, ou dizer que amigas são essas que pa- 
gam coval aparte ás mortas do hospital. Ha só 
uma classe de mulheres capaz d'esta admirável 
misericórdia, que Jesus talvez adevinhasse 
quando levantou da terra a Magdalena. A es- 
paço uma ou outra pedra coberta de ferrugem, 
atirada d'um antigo iraneiro p'ra outra cova, 



os GATOS 17 

lettras delidas, longínquas datas, 180S, 1814, 
e a gente detem-se com uma saudade d'aquel- 
les moitos mysteriosos que viram tantas coi- 
zas^ e que distantes apenas d'um século, já nin- 
guém sabe dizer donde vieram. 

a Rosa Joaquina, do lofjcir cVÁlqueidão de San- 
to AmarOj, foicreada de servir: este jazigo o man- 
daram fazer em memoria da sua dedicaçãOj, bom 
ser V iço j, e exemplar fidelidade „ E' um jaziguinho 
muito pobre, por cima um cypreste inda novo 
desgrenha a carapinha verde aos voos dos pás- 
saros, em torno as gredas deram de si, deixan- 
do á ílòr da terra uns côncavos de tumba, borbo- 
letas en haustos, como almas corporisando em 
insecto a sua anciã de voltar — e raizes fulvas 
furando, para triturar lá baixo craneos d'ope- 
rarios . . . 



Voltando aos ricos. 

Balaustrada de mármore circumtornando uma 
eça com tocheiros «.aqui jaz. . . filho legitimo 
do snr. . . e da sr.^. . . nasceu. . . sahiu de 
casa de seus avôs onde fora educado^ na tenra 
edad^ de 11 annos e 3 mezes, viveu sempre 



18 OS GATOS 

incogi/ito íJf seus parentes, viveu SíWjíre na 
bua aniumia com gs seus semelhantes, não só 
em Portugal, como no Brazil, como nas Amé- 
ricas nespanholas, onde rezidiu por algmn tem- 
po; nunca assignou papel algum, para perse- 
guir o seu semelhante, cumprindo sempre com 
a maior promptidão todos os seus pagamentos, 
etc. . . » 

Typo trepitapliio dictado pelo próprio, com 
a basofia das naturezas envelhecidas no autonria- 
tismo da iionra commercial. O nunca assignou 
papel algum é d'uma alma aspirando a ura 
préstito cívico de canzeiros. Adorável vaidoso I 
De cpaantos encostos seria englobado esse espi- 
rito de concórdia, tão digno da assimilação sen- 
timental dos agiotas ? Estamos-te a vèr, velho 
boníssimo, estamos-te a vèr co'a baiba em pas- 
sa-piollio, aparando botes dos pedinchões, só 
pelo prazer de te gabares depois de morto. 
E admiras-te com essa forma de bondade, \i- 
sinha da tolice, admiias-te de teres vivido era 
boa paz com os teus «semelhantes 1» Semelhan- 
tes em que, espécie dingenuo ? Na chuchadei- 
ra de te não pagarem, tu que cumpriste sem- 
pre com a maior promptidão, os teus pagamen- 
tos? 



os GATOS 19 

Mas onde o aiito-exhibicionismo attiiige o 
cumulo da inbofia é no in memoriam do histo- 
riador Luz Soriano^ ditado por elle próprio ao 
mausoléu com estatua de bronze, onde repou- 
sa. ((Notável se tornou este cidadão entre os seus 
contemporâneos, tanto pelo grande empenho com 
que abraçou e defendeu a causa constitucional, 
como pela sua dedicação ás lettras, tornando-se 
escriptor distincto, e favorecedor benemérito da 
instrucção primaria, e superior.,, Como repor- 
tage é verídico^ mas não sei poi"que, acre- 
ditam-se sempre estas coizas melhor por bocca 
alheia. 

Ha ainda outros, quiçá roidos do pulgão da 
idiotia. Por exemplo, do mausoléu d'um profes- 
sor da escola militar pende entre coroas, um pai- 
nel singular: o retrato do extincto cercado das 
noticias impressas por occasião do passamento, 
o nome dos jornaes e a data á penna, e algu- 
mas gottas de cola chorando por entre os re- 
mendos d'esta estapafúrdia grosseria. Quenir 
por acaso lê, não pôde evitar risos de môfa,- 
Correio da Noite diz que o professor cahiu 
de lesão cardíaca: o da Manhã attribue-lhe a 
morte á diabetis : o Século a dar-lhe cincoents 
annos, o Diário de Noticias a pôr mais dez : es- 



20 OS GATOS 

les^ como pi'ofe?sor, acham-' ío um excellente 
díeíe de família^ aquellespara lhe enaltecer os 
talentos militares dizem que estava á bica para 
a promoção ao posto immediaío. E a pobre pho- 
íographia triste, babando um risopalhdo entre 
aquellas imbecis locaes da jornalice à pressa, 
direis se queixa do derespeito hoirivel de que 
é victima — ninguém a escuta^ um ramo de hera 
apenas colea do pedestal, como a pedir mise- 
ricórdia ao viandante. 

Mausoléu com enigma, typo raro. «.aqui jaz A. F. 
Pedrosa. . . », a palavra Pedrosa figurada numpé 
humano^ n'um D, e numa rosa, tudo esculptado 
na lapide, minuciosamente. Influencia do Al- 
maimch de Lembranças ? Indubitável que alli 
reside um incorrigível charadista. Quem passa^ 
«staca, e emquanto encommenda a Deus o mor- 
tOj vae-lhe decifrando o apellido, para o man- 
dar depois áquella parte. Em poesia abundam 
specimens de fazer inveja ao syndicato Canta- 
gallo. 



«Calha- me a mim a sorte 
De ser alvo da infelicidade 
Vejo -me perdido e desgraçado 
Na felôr da minha edade. . . 



os GATOS 2í 

Que linda mocidade eu passo, 
Para a vista dos meus manos, 
Estou farto de padecer, 
Ha dois bem longos armos. 

"Vim a este mundo 
Para ser tão desgraçado ! 
Antes me tivessem á nascença 
O pescoço apertado...» 

em baixo a assigiiatura por inteiro. 

Na occasião dos aimiversarios fúnebres, o 
costume de dar presentes ao morto pareceu- 
me ir revestindo o caracter dum a bufoneria ori- 
ginal. O usual é trazer photographias, com al- 
gumas linhas de texto alTectuoso — como se o 
defunto viesse á noite, cá fora, tomar nota do 
nome dos olTertantes, para lhes ir deixar cartões 
ao outro dia, O espectáculo é quanto pode ser 
d'estapafurdio : aqui e além, em bocetinhas 
de folha, envidraçadas^ sobrecasacas risonhas 
olham o espectador como a lhe perguntar se 
vae meio litro — damas de broxe, a três quar. 
tos, fazem mirada com um ar de gargarejo — 
meninas de cabellos cabidos... e por entre fitas 
com dedicatórias de lettras de papel, todos es- 
tes clichés tirados para mais alegres destinos^ 



22 OS GATOS 

espreitam^ volteiros, em grande pandega, em 
galhofa, como uma nichada (ie cavallões jogando 
os quatro cantinhos. 

Vocês acham grotesco, e ainda por cima indi- 
.í,mam-se comigo. Se eu lhes podesse dizer a in- 
:Sondavel tristeza que me enluta! O culto aos mor- 
tos, esse doloroso soluço da saudade perpetuan- 
do a fé nas lapides das tumbas, eis em que o 
tornaram as desmoralisadas raças lisboetas, 
sem poesia domestica, sem laços de familia, 
sem religiões, sem crenças, sem delicadeza 
d'alma e sem caracter, gentes que atiram aos 
mortos o escarneo da mais jogralesca litteratice, 
^ondo na cidade d'espectros o mesmo cunho re- 
les que a capital do paiz ha muito tem. 

Para a diagnose do caracter collectivo, o mo- 
ralista escusa pois de perscrutar os hábitos dos 
homens. Tem nos Prazeres o tombo da banda- 
lheira nacional. 



7 de julho. 

O Figaro, sobre variações d'um inquérito á 
psychologia dos macacos, pôe aos seus leito- 
jes um questionário a que apendicularei modes- 



os GATOS 23 

tameiite algumas notas observaes do meu res 
tricto convívio com estes nossos desagradáveis 
parents pauvres. 



1.° — E' positivo que a macacaria faça ouvir 
algum grito ou brado especial, semelhando lingua- 
gem articulada, no momento em que se lhe apre- 
senta paparoca ? 



Leitoies e subscriptores do Figaro escrevem 
ao estravagante jornal, que é positivo, mas fa- 
zem a confii-mação summariamente^ e apenas 
um repatriado do Borneoe Singapura, o sr. Gaetan 
de Maulne, cuida ter conseguido fixar as primei- 
ras palavras d' uma linguasimiesca, contando que 
a sua macaíjuinha japoneza diz Wan-Ki! Wang- 
Ki ! Wang-Kihi! quando tem fome, Hin-ouan ! 
ouan! Ouk-iko! quando tem sede^ Ki! KUpoulouki 
Koukld! quando nos quer dirigir seus cumpri- 
mentos, e uma multidão d'outras caballas leve- 
ladoras nos macacos, d'uma intelligencia refle- 
xiva, paredes meias da do homem, que é como 
se sabe a flor do arbusto animal, selleccionado. 

A minha proverbial modéstia e ignorância 



24 OS GATOS 

do íVaiufcz e.^ciiiu» inii^ecem-me ilelransmittir 
á folha de Paris ii'este momento o apuro do 
miiiío que [.odeiia dizer sobre a matéria; en- 
tanto íoimiilarei d"aqui meu pasmo relativo ao 
i;oiíco que se sa])e la fora sobre os mysterios da 
alma macacal. Quando ha poucos dias madama 
Canário, a illusti'e cabareteira do Chiado, servia 
á imprensa da capital um bodo de honra, esca- 
moteado em reclame^ graças a um vidro de mon- 
tra por onde o publico viu jantar de graça os 
jornalistas, fácil teria sido ao estudioso colher 
da mimica e guturalidades diversas dos con- 
vivas, signaes á farta para a confecção d'um 
tratado da falia nos bugios. 

De feito^ notou-se que a simples vista do 
cartão do bodo determinava n'estes animaes a 
principio, grande alvoroço, revelado em pinchos 
e coirimento de baba aos cantos do focinho, 
depois do que lhes refulgia no faseias (as es* 
pecics que teem o faseias moveD um sudário 
d" orgulho, como se o facto d'um jantar de bor- 
la os elevasse mais que o diploma de sócios da 
Academia. Repaie-se que sendo o festim da 
madama Canário só para dois dias depois, os 
actos que aponto não são de natureza a íiliar- 
mol-os só no instincto animal de manducar — 



os GATOS 25 

como quando se api-eseala milho a imia galli- 
nha — ha n'elles verdadeiras encadearões de 
raciociíiios., actos <le memoria orgânica e adqui- 
rida, e instantâneos d"intelligencia que i)arece- 
riam inverosimis, dada a espécie inferior em 
que foram observados. Porem não pára aqui a 
surpreza do psychologo. A' medida (JUí; a hoi-a 
de comer ia cliega.ndo, notou-se que em cada um 
dos orangoSj genons e. oustitis que compunham 
o rancho dos convivas, começava a surgir 
phenomenos de social)il idade extraordinários. 
Poi' exemplo alguns pozeram camisa lavada, 
outros ornaram-^e de casacos de gala e cha- 
péus de forma tubular: estes fpram ao Grandel 
la comprar gravatas, luvas aquelles, e coiza 
pasmosa ! três ou quatro das espécies mais 
intelligentes, depois de jejuar três dias, foram 
para lá chuchurubiando coizas que os Gaetan 
de Maulne facilmente explicariam por francez. 

Não fossem estes argumentos convincentes — 
da própria scena do jantar infeiúria outi'OS, de 
sua natureza iirespondiveis : por exem[»!o, ao 
toasi, os brindes, perante os quaes, apezar das 
asneiras, não podemos negar a estes bichos 
uma espécie de linguagem aiticulada. 

Se a amplitude do ponto o permittisse, ha- 



26 OS GATOS 

via cfexplanar aqui detalhes cliriosissimos, por 
onde inferir té certo ponto a argúcia quazi hu- 
mana dos macacos. Basta um detalhe. Consta- 
tam as observações do dr. Paul Sollier (') que 
nos chamados macacos jantareiros, á semelhan- 
ça do que succede nos idiotas, os signaes d' ale- 
gria augmentam quando a comida é de borla, 
ou em casos pagantes, quando o creado do res- 
taurant errou a conta para menos. 

Mais: substituindo algum dos pratos, por pa- 
lha, o animal dá profundos signaes d'irritação. 

2.° — E' positivo que a macacaria manifeste 
■perante a musica, quaesqiier signaes de prazer 
ou (l" impaciência ? 

Resposta. A attenção espontânea dos quadru- 
manos para os sons era um facto já antiga- 
mente verificado. Sobre a attenção voluntária 
houvera controvérsias, porém Romanes acaba 
d^estabelecer d"uma maneira positiva como ella 
reveste o caracter d'um movimento intelli gente 
seguido d'emoções de variada amplitude, con- 
forme os sons se produzem com intermittencias 



(') Psychologie de Vlãiot et de Vlmhècile— lib. 
Félix Alcan, Paris, 1890. 



os GATOS 27 

e intervallos refilares, como na musica, ou não 
passam de simples luidos ou continuidades do 
mesmo acorde monotonamente ejaculado, como 
no arroto e seus congéneres. O violinista Sivo- 
ri gabava-se de ter fascinado macacos nas flo- 
restas ameiicanas, e varias madamas pianivo- 
ras, possuidoras de saguis^ registram em suas 
memorias que estes animaes riem ou clioram, 
batem as palmas, contradançam, pòem a mão 
sobre o coração^ rolam os olhos, quando se 
lhes faz musica, notando-se que o caracter ex- 
pressivo d'esta esteja em unisooo com a sensi- 
bilidade critica que o animalsinho deixa vèr. As 
pessoas que vivem nos segredos da corte e in- 
timidade do conselheiro José Luciano de Cas- 
tro, muito bem sabem que este illustre esta- 
dista, exemplar degenerativo dos dryopithevua, 
gorillas broncos, cuja raça se julgava extincta, 
não resiste a masturbar-se em ouvindo o hym- 
no da Carta, facto este que o distancia do* go- 
verno des'que S. M. adoptou para seu exclusi- 
vo batuque, aquelle trecho. Ainda outros casos 
precisam a aptencia da macacada para a mu- 
sica. Um orango-tango que na Polytechnica 
dava pelo nome de José Júlio, exemplar rarís- 
simo de deptomano, ou macaco larapio, mau 



28 OS GATOS 

grado as bestialidades da casta, não era isem- 
plo d'uma tal ou qual sensihlerie. D'uma vêz 
tocaram-lhe a Sonâmbula. Poz-se a mecher as. 
orelhas, nos duos d'aír»or. 



11) iíe Jfilhr,. 

SS. M)!. coíiíiuuam attacadas da monoraa- 
nia das viagens, e nada parece as desviará da 
re^abofe um só raomenlo. Ainda o anno passa- 
do esba/ijaram as economias do Porto e Beira 
Baixa inaugurando com as suas nunca assaz 
auKiilas presenças a epocha d'indigencia que 
aquelies laborioso> [lovos estão soflVendo — já ho- 
je abrem licença nova a correrias, n'uma caça 
de prestigio que pouco se lhes faz retrograde 
os encargos dos municípios, e vá semeando a 
fome entre as i»opulações esperdiçadas a Ihes- 
deitar foguetaria. 

Não sou dos que prescrevem os arraiaes en- 
tre os deveres dos impeiantes, e paia mim 
tenho que os deuses da terra, como os do ceu, 
tudo teem a ganliar com viver na abstracção da 
sua nuvem, especialmente quando a Providen- 
cia os haja feito, em vêz d"ApolIos, cervejeiros. 



os GATOS 29 

A conquista das cidades já as não fazem pes- 
soas, mas ideias^ e o acto de fomar posse, mes- 
mo platónico, hoje só para o povo constitue mo- 
tivo d^assuada. 

Tudo entretanto passaiia á boa conta, se os 
povos em vez d'esfomeados estivessem fartos, 
se os governos em véz de politicos fossem na- 
cionaes^ se as escolas e os celeiros regurgitas- 
sem, se a agricultura florisse, e em toda a na- 
ção emfim houvesse motivos pnia ser grato, ou 
sequer benévolo, á monarcliia. 

Dada esta plenitude da fortuna publica, 
fossem embora podres os cimos, a corte igna- 
ra, o burocracismo politico cupido e infama- 
do, pouco se daria ao paiz a forma do gover- 
no, sabido como nas nacionalidades dotadas 
d'ineciativa não é exclusivamente d'ella (jue 
impende, como outrora, a recta directriz do 
seu destino histórico no mundo. Mas com- 
nosco é differentissimo. Ha dois séculos que 
perdemos a probidade civica e a consciência 
d'uma missão qualquer na carta geographica : 
a vontade nacional não se formula senão por 
fragmentos de protestos irrisórios, onde o egois- 
mo referve por detrás d'uma rethorica miserá- 
vel; não ha fiar dos messias, que são valores' 



30 OS GATOS 

a rebater no dia seguinte áqaelle em que se 
julgam populares. . . 

De sorte que não havendo, na deliquescencia 
actual, reacção organisada a neutralisar as in- 
fluencias nefandas da podridão politica im- 
perante, por pequena influencia que esta tenha, 
comtudo sempre será bastante para dictar leis 
a sabor da sua crápula, para ir sangrando os 
pagantes a beneficio das coteries de chuchado- 
res, para fazer pela fome o rapto dos que pro- 
testam, e envinagrar emfim pela espionagem 
e pela intriga, os cada véz mais raros intransi- 
gentes. A esta certeza d'impunidade obedece 
o plano das viagens realengas, sem fallar nos 
quinhões de regiibofe e pagode naturaes em 
pessoas novas, inconscientes do valor do di- 
nheiro, e sem outra occupaç.ão a mais do que 
entreter o tempo seja como fòr. A pretexto 
d"infantis curiosidades, por fabricas, fogos de 
vistas, azylos de cegos, descargas d'artilharia 
e múmias de rainhas exhumadas, ahi vão SS. 
MM. em salão doirado, pela província fora, com 
uma penitenciaria de ministrelhos e reporters a 
rabo, esvasiar os pés de meia dos municipios, 
interromper a faina das cidades e dos campos, 
incommodar toda a gente, só pelo afan dô 



os GATOS 31 

dizer gostámos muito a coisas de que ninguém 
gosta^ e eslá muito bem a coizas de que toda a 
gente diz, está muito mal ! Com a jornada de 
Coimbra, as necessidades de pandega vão in- 
quinadas^ parece, de tentativas de soborno. 
Aguardou-se por exemplo que a epocha dos 
exames, já no termo, dispersasse pelas casas 
dos pães, os estudantes — mas havendo por Coim- 
bra ainda alguns que os reclames das gazetas 
affectas podessem especificarem globo por, Aca- 
demia Coimbrã. D'esses poucos, os raros intro- 
mettidos no preparo das festas, permittirão que 
a reportage diga «os estudantes disputam se a 
maneira de melhor engalanar a cidade^ e rece- 
ber os régios papa-leguas>K Como Coimbra, ape- 
zar de deserta de batinas, podia lembrar-se das 
soluções que o governo deu á greve, ordem pa- 
ra admittir a acto os recalcitrantes corajosos, 
que entre a perda do anno e a perda do brio, 
não hesitaram. 

E assim estrumados os ânimos para na via 
latina se abafarem os morras, e para na estação 
velha se supprimirem os manguitos, podem os 
conquistadores entrar pola cidade : o futrica é 
benigno, os capellos não mordem, e Coimbra 
emfim, que vive de hospedes, ha-de gostar im- 



52 OS GATOS 

trienso da frescata, Apezar irestrangeiras, SS. 
M.vl. personificam já bem a impievidencia por- 
lM<(ueza. . . gastar á foita, cliiicliiirubiar a nação 
Dmquanto houver tutano. . . Amanhã? Oi'a adeus! 
O conde de Paris tem massa, e o povo dorrni- 
jilioco inda agora se voltou pr'ó outro lado. 



FIALHO DALMEÍDA 



os GATOS 



PUBLICAÇÃO 

d'inqueríto á vida PORTUGUEZA 



N.M5 — 2deSepíeffi!)rodel892 



SUMMARIO 

Rescripto perdido no paço da Universi- 
dade ; QUEM SEJA o SIGNATÁRIO ExPLICAÇÂO 

DA VIAGEM REAL Á LuSA AtHENAS PaPEL 

moderno DOS REIS E SUAS RESPONSABILIDADES Á 

FACE DA CIVILISAGÃO PoRQUE SE DIZ TANTO 

MAL DAS MONARGUIAS NoVO PROGRAMMA DE 

CONDUCTA REGIA ! ABAIXO OS FINGIMENTOS ! 

Os MESUREIROS DA CORTE, OS POLÍTICOS E OS 

PEDINCHÕES SEM TRABALHO De COMO O PAÇO 

É A PRIMEIRA CASA POBRE DO PAIZ ReSENHA 

DAS FESTAS DE OoiMBRA, PELO CAVALHEIRO FES- 



II os GATOS 

TEJADO As PHILARMONICAS FUTRICAS E OS 

SETE PARTIDOS DE BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS 

A FARDA DO GOVERNADOR CIVIL E AS FONTES- 
MIRACULOSAS DE CERVEJA — VeREADORES, CA- 

PELLOS, PADRES E BACOCOS CoSTA AlLEMÃO 

ENTREGANDO AS CHAVES DA CIDADE GORTEJO 

DA ESTAÇÃO VELHA PARA A SÉ, E IRREVERÊNCIA 

AMOROSA d'uM CAVALLO FARTUNS DE POVO 

SUJO E AR EMBIRRENTO DO CORPO CATHEDRATICO 
PaLAOC REAL SEM REI NEM ROQUE Pst, 

ó Dona Amélia ! — Alviçaras a quem achar 

O CADERNO DOS PENSAMENTOS PROFUNDOS, PER- 
DIDO POR S. M. ENTRE FORMOZELHA E VeRMOIL 

— Ovações em bom uso — Baile tricano no 
PATEO DA Universidade — A Farroupeira, o 
Vira E o padre Chaves — Cantigas popula- 
res, E DESCOBERTA DE SUISSAS NAS BAILARINAS 

— Serenata no Mondego — O astrólogo 
Peixoto ensina S. M. a Rainha a mecher nas 
lunetas — Coimbra de noite, voluptuaria 
irresistível das suas festas — A Universi- 
dade MORTA E as línguas VIVAS DlSCURSO 

do PAE PaUUNO acerca da CREAÇÃO DO MUNDO, 

DO Bernardo Ayres, e do vinagre — Em con- 
clusão, Dias Ferreira ! 




Meu caro Dias Ferreira. 



Tinha-me promellido que se eu alijasse 
do minislerio o Oliveira Martins, a jornada 
de Coimbra seria excepcionalmente luzida 
para os reis. Por mais d' uma vez lhe ouvi 
jurar que a cidade estaria inteiramente ao 
meu dispor, com o commercio prestes a pen- 
durar a oeile nos galhardetes dos arcos trium- 
phaes, com a Universidade decidida a es- 

• Foi este manuscripto achado 2)or alguém no pateo 
da Universidade de Coimbra, na manhã scguinlc ao dia 
em que SS. MM. deixaram a Lusa Athenas — da Costa e 
Silva. Damos-lhe publicidade pelo mordente interesse 
das revelações que ahi se fazem ; mantem-se fielmente 
o texto, apenas notando aqui e alem as descahidellas 
ortographicas de que vinha recheado. 



4 OS GATOS 

tender os capellos no trole largo dos cavai- 
los do meu carro, e com o bronco povo em- 
fim, prosternadoe com palmas, a me sagrar 
monarcha na helienica terra da arrefada e 
da sebenta. 

Confiado na cerleza das suas falias, ali- 
jei o Martins, perdendo assim a inslrucliva 
amizade dos vencidos j e condescendi a vir, 
apezar do calor, pelo seu braço, a este pic- 
loresco e sarnoso burgo universitário, terra 
de resvalo para os Braganças, onde verdade 
seja não fui mais feliz que os meus anteces- 
sores. Como o desastre foi cerce, agora que 
vou partir de Coimbra para nunca mais ahi 
tornar, não me soíTre a paciência a sua são 
de que me comam os papalvos, e para seu 
castigo darei a conhecer as razões porque 
você não estará presidente do conselho muito 
tempo. Este rescripto lh'o envio na indigna- 
ção das primeiras impressões, não em rei- 
nante que as obrigações do cargo forçam ao 
fingimento d'um jubilo pateta, mas tal como 
o faria um particular perspicaz a quem meia 
dúzia de paspalhões quizesse inpingir gato 
por lebre. Aqui onde me vê, Zé Dias, í)ão 
cuide que eu seja dos cegos que só apre- 



os GATOS 6 

ciam as coizas pelo palpér, e dos ingénuos 
que se julgam amados só porque o minis- 
tério das obras publicas expede ás cidades 
cebo para fogaréus em tijellinhas. 

Os monarchas do meu tempo provem lo- 
dos d'uma escola d'adversidade que os pre- 
dispõe desde o berço a chuchar os povos 
com finura superior á que os povos dispen- 
dem a chuchal-os a elles ; e se a nossa to- 
lerância ás vezes parece de?dobrar-se em 
magnanimidade ante as aíTrontas, não é que 
nos íaile coragem pr'a sarjar as vaias dos re- 
beldes, senão porque vislo ser ávida moder- 
na lur^a chacina, é mais forte aquelle que no 
síniggle conseguir mostrar maismalandrice. 
Ora eu estou farto de conhecer a gente com 
quem vivo, e de soletrar nos jornaes a mons- 
truosa diíTamação do poder que represento. 
As coroas quanto mais honorárias vão es- 
tando, tanto mais responsáveis a opinião as 
torna pelos desastres que a má cabeça dos 
povos acarreia. Nas epochas religiosas Deus 
pagava as favas das calamidades scfffidas 
pelos homens: os tempos mudaram, e agora 
é á cabeça dos reis que são allribuidas to- 
das as faltas de juizo dos seus súbditos. 



6 OS GATOS 

Não deixarei passar portanto uma das 
poucas occasiões que tenho tido para pôF 
tudo em pratos limpos, e ao cabo d'apanhar 
de contrários e meus, tão grandes sovas, 
formularei aqui minhas censuras, como 
se este libello houvesse de sahir na folha 
official. Do questionário por mim enviado 
aos imperadores e reis da velha Europa so- 
bre as virtudes e trato de seus povos, a 
quando pela questão ingleza me passou pela 
cabeça abdicar, recapilula-se sobre rigoro- 
síssimas eslatisticas que é no meu reino que 
formilham, de cima a baixo, maiores e mais 
cafrarias de malandros. Aos que pois me 
lançam em roslo a dynaslia mórbida de D. 
João IV e descendentes, contraporei ess'ou- 
tras de polilicos inhabeis, de genlishomens 
cynicos, de burguezia sorna e de plebe sem 
vergonha, que éa historia da sociedade por- 
tugueza de ha trezentos annos para cá. Po- 
vos e reis, podemo-nos dar as mãos pelo 
conjunclo homogéneo que fazemos, repartir 
quinhões eguaes na gloria de havermos feito 
d'este rectângulo de paysagem um dos ma- 
nicomios mais typicos da degenerescência 
humana em desfillada pr'á demência. 



os GATOS 7 

Bem sei que abrindo os livros da histo- 
ria, toda a responsabilidade do mal é debi- 
tada aos reis, e toda a causalidade do bem 
pertence aos povos : o caso de resto expli- 
ca-se por os monarchas não serem historia- 
dores nem jornalistas, e por as casas reaes 
serem já bastante pobres para poderem ar- 
rematar a consciência dos Pluta^chos. Hoje 
a questão é viver, e como somos na Europa 
doze contra duzentos milhões, a nossa força 
está apenas na impassibilidade de fingir que 
somos ainda os proprietários da humanida- 
de. Esta impassibilidade custa-nos, é certo, 
innarraveis sacrificios — sacrificios d'orgu- 
Iho, de dignidade, de dinheiro — sorrir a 
tudo, dizer que sim a tcdo, pagar sem re- 
gateio... e sobrelevando, a humilhação im- 
posta de beber as affrontas dos jornaes sem 
poder ir ás redacções dar bofetadas. 

E' o que mais peza á minha esthesia 
de homem, este marlyrio de toda a vida ter 
que deixar a iíijiiria impune, e de como cal- 
manle só me ser permiltido pela therapeu- 
liça da Carta desviar para os pombos balas 
que aproveitariam melhor abrindo ventila- 
dores na cabeça dos jornalistas. 



8 OS GATOS 

Lá me resignaria á tolerância d'essa3 
animadversões sem ódio, impressas unica- 
menle como síratagema de raloneiros qi:e 
sob pena de morle mandam os ricos depo- 
sitar tantos conlos de réis na toca d'uma ar- 
vore, se em taes adversários eu não ante- 
sofresse já a abjecção de ter que os acceitar 
depois como ministros, sustentáculos do 
throno,e... confidentes. Eis a bistoria de lo- 
dos os maraus meus partidários: é percorrer 
os partidos, não se encontra um que não te- 
nha começado vida a injuriar-me. A principio 
a hombridade real inda reage, afastando os 
mais porcos, e fazendo sentir uma ponta de 
desprezo aos mais infames ; mas lá vem de- 
pois a necessidade de transigir pr'a não fi- 
car sósinho, e cercado de mariolas, che- 
ga-se a velho tão descarado ou mais que 
todos elles. Por exemplo, S. M. el-rei meu 
pae morreu com fama de não acreditar na 
honra de ninguém. Mas em vinte e oito an- 
nos de candonga politica, em que demónio 
havia d'elle acreditar? 



Fique-se entanto sabendo que não de- 



os GATOS 9 

sejo seguir as pisadas do pobre sceplico let- 
írado a quem devo a massadoria de ser rei, 
eque tenciono inaugurar a todo o transe, no 
meu programma de chefe, um systema bem 
diverso d'aquelle por que elle julgava com- 
prar os grandes, trazendo ao mesmo tempo 
contentes os pequenos. Apezar de trineto de 
D. João VI, o principe talú de quem reco- 
lhi acorpaturaobesa e a beiçola cabida, gi- 
ra-me nas veias o sangue de Sabóia, tenho o 
nariz truffado de meu avô materno: não hei- 
de pois ficar no tombo unicamente como um 
exemplar de reinante manso, nem contrariar 
jamais os meus Ímpetos victor-manuelescos, 
deixando-me explorar como um dromedário 
de caravana. Quero definilivamsnte tornar- 
me um homem franco e enérgico, e repellir 
de mim a subserviência hypocrila com que 
nos paços porluguezes usam os reis fingir 
de tolos. O ponto é diffici! e acarretar-me-ha 
certas quisilias, porque o meu primeiro acto 
vae ser pôr no olho da rua todos os maricas 
e mesureiros que lá pelo paço enchem de 
ihedio minha enclausura triste de reinante. 
A' uma, a sensaboria d'elles desagrada-me, o 
tormento dos reis sendo o convivio dos au- 



10 os GATOS 

licos sem mocidade : á outra, a escola lilte- 
raria que elles formam pôe-me de mal com 
o publico, que imagina talvez que eu inspire 
as sensaborias que elles escrevem... de braço 
dado. 

Uma vez liberto d'esse viveiro de somni- 
feros a quem devo mais horas de mau hu- 
mor do que a todas as opiniões republica- 
nas, alijarei por meu turno os trambolhos 
politicos, mandando descançar os velhos, e 
estampando na cara as incapacidades d'al- 
guns novos. Estou farto a valer dos grandes 
homens eleitoraes, que já não seduzem nin- 
guém, porque em politica, como na Univer- 
sidade, os accecit servem só para galardoar 
bacharéis estupidarrões. Outra cáfila a zur- 
zir seja a dos parasitas que de chapéu na 
cabeça e memorial na mão, sabem ao cami- 
nho dos reis com insaciabilidades d'atrevi- 
dissimos malfeitores. Não ha philarmonica 
de xarépes, kermesse de faniqueiras, filha 
deheroe, familia liberal, e azylo de pucellas 
arrependidas, que mensalmente se não per- 
mitia vir-me furar o ventre da hsta civil, a 
vêr se o milho corre da facada, e sem inda- 
gar se a crise que os indigenta a elles, não 



os GATOS 11 

lerá feito do paço a primeira casa pobre do 
paiz. A exploração loca por vezes raias de 
chantage, com um descaro que a necessidade 
explica menos do que certos instinctos de 
parasitagem peculiares a este «cavalheiroso» 
povo portuguez. Porque no fim de contas 
que ganho eu em dar muito mais do que 
recebo ? Popularidade ? Conheço-a, vae toda 
do ministério do reino e obras publicas, para 
as regiões que me decido a percorrer. A' 
minha chegada todo o estimulo das cidades 
é pedir-me dinheiro e mandar caiar as fron- 
tarias. Os municipios querem madeiras e 
colchas pr'ás tribunas, os particulares fi- 
cam-me com a loiça e colchões que o almo- 
xarifado expede pr'a meu uso, e para ser 
completa a sovinice, até as aucloridades 
roubam nos discursos a grammatica que 
podem, ás tenças de não ser um género de 
primeira necessidade, e serem os policias 
já poucos para a físcalisação das padarias. 
Todos podem gastar os rendimentos como 
queiram, ler os filhos que fôr do seu agra- 
do, fazer nos seus prédios as modificações 
que lhes pareça, trajar ernfim, comer, be- 
ber e dizer o que lhes venha á phanlasia. 



lá os GATOS 

Só OS pobres reis manietados ao figurino 
constitucional que lhes dita uma mascara e 
uma albarda para cada acto cómico da vida, 
só elles hão-de permanecer constantemente 
deante de tudo e de todos como uns bone- 
cos de pau. sem emoções nem gestos expon- 
tâneos, dando tudo a intrujões mais ricos 
do que elles, ouvindo discursos parvos, visi- 
tando fabricas e ateliers sem prodiicçãonem 
meta industrial, regalando a progénie a sa- 
bor do preço das inscripções, rezidindo em 
cazebres sem luxo e sem contbrlo, prohibi- 
dos de fazer troça, de rogar pragas, de jo- 
gar á pancada, de sahir sós, andar de noite 
ou ir ás taberninhas bebericar n'uma hora 
de volage... E meu caro Dias Ferreira, es- 
tou fartíssimo I Gomo posso eu ser rei, sem 
ainda uma só yez ter sido homem? Os meus 
ministros mostram-me apenas o que elles 
querem que eu veja, isto é, a vida nacional 
nos seus aspectos burocráticos, povoações 
comprimidas por policia, monumentos cadu- 
cos, azylos mal cheirosos, e pessoal cabis- 
baixo que me cospe na mão beijos ensaia- 
dos á pressa n'um manequim. Ora isto é a 
parte resequida e chocha do meu reino, a 



os GATOS 13 

porção civilisada nos seus aspectos (i'incur- 
valura d'espinha e falta de caracter, pois os 
livros ensinam que a humanidade fecunda 
é brutal, e era essa que eu necessitava de 
vêr a todo o transe. 



Será pois na qualidade exlra-official de 
rei homem como os mais, de rei farto d'in- 
bofias, farto de ministros, farto de conse- 
lheiros, farto de governadores civis, farto de 
corte, de bandeirolas, bombeiros, hymnos 
e sécca3, que eu lhe vou criticar as festas 
de Coimbra, e exprimir como gostaria de 
vir á cidade do Mondego gozar detidamen- 
te as maravilhas dos seus templos, as ce- 
rimonias decrépitas da sua Universidade, 
os beijos das suas tricanas, o ondeante idyl- 
lico dos arrabaldes, e mesmo, podendo ser, 
as sarrafuscas dos seus capas-e-batinas c'os 
vacões. A primeira coiza onde ler mão, se- 
ria a escolha das partes constitutivas do cor- 
tejo que me viesse ao desembarque, e donde 
eu baniria tudo o que de longe fedesse a 
farroupagem. Philarmonicas por exemplo, 
quatro pontapés no sêsso e rolhas nos 



14 OS GATOS 

trombones ! Nada como o hymno da Carta 
para me fazer encavacar fora de portas. E 
essas de Coimbra então tocavam-no d'uma 
forma que parecia a Marselheza com gola 
de velludo, tingida no Camburnac. Ahi es- 
lão os inconvenientes de ter deixado saliir 
o Arroyo da Universidade 1 Sobre os bom- 
beiros não soíTrearei sequer os impropérios. 

O meu ódio ao bombeiro vem das Cru- 
zadas, e lurgeceu quando meu mano Affon- 
so foi arvorado em commandante honorário 
dos da Ajuda. Em Lisboa ainda se explicam ; 
são frequentes os fogos, e apagar-se-hiam 
logo se o bombeiro voluntário não existisse. 
De sorte que para divertenga do publico, 
necessário se faz deixal-os atrapalhar os ser- 
viços d'extincção. Mas na provincial em 
Coimbra, onde nem sequer comburesce a 
mioleira dos mais sapientes cathedralicos, 
como explicar tão variegados salvadores? 
D'ahi, que typosl Verdadeiramente o futrica 
só duas aptidões atavisticas possue: a d'ir- 
nião do Santissimo, e a de levar lambada 
do estudante. 

Se o trajam de bombeiro, vejam-lhe o 
capacete : é a caldeirinha das esmolas, em- 



os GATOS 15 

borcada ; observem-lhe a marcha niarcial, 
são as gambaias doridas de quem se precave 
contra uma chulipa vis a tergo. Na lista de 
proscripção viriam depois dos bombeiros, as 
auctoridades. A farda vermelha do gover- 
nador civil inda hoje me faz ophtalmias. Qae 
intensivo escarlate de fachada 1 Inda estive 
em ver se o marquez d*Alvito, que é garoto, 
lhe escrevia nas costas : ha dobrada, mas 
estes nobres, verdade, teem tal repugnân- 
cia em pintar as taboletas dos coUegas... Fe- 
lizmente a rainha apertou-lhe o naris com 
certa força (era a snrpreza) e em plena cal- 
ma, com jubilo vimos o menstrual funccio- 
nario principiar a deitar cerveja pela bicas 
do chapéu armado. 

E os vereadores, as caras dos capellos, o 
reitor, o bispo e as gentes do meu séquito?!... 
Não me tenho ainda da surpreza com que 
ao chegar á estação velha, o presidente da 
camará desata a parvoejar que a minha en- 
trada na terra «assignala uma epocha inol- 
vidável nos fastos da historia, e Coimbra se 
sente feliz com o eu lhe entrar nos pene- 
tracs — quanto lh'o permitlem as adensa- 
das nuvens do ceu cahginoso da pátria.» 



16 OS GATOS 

Era de ver o ar funéreo dos munícipes pe- 
rante a arenga do descompassado conse- 
lheiro. Eu, furioso, porque escutar d'isto 
emporcalha mais que uma nódoa de 
gordura 1 E o homem tudo era que eu 
acceitasse duas chaves de pasta doirada, 
«as chaves d'este alcaçar da sciencia, fun- 
didas no finissim^o ouro, que se acen- 
dra no crysol das mais puras dedicações» 
que uma espécie de gallego-pagem, cora 
meias de linha e suissas^ estendia n'um 
barranhão de follia, a geito de reféns. Em- 
purrei o gallego com mau modo, e para ta- 
par a hocca ao parvo, penduricalhei-o logo 
alli com o habito da Conceição. Já tinha o 
de dizer asneiras, e assim fica com dois. 

Ahi se põe o cortejo a caminho da cida- 
de, que de longe parece deserta e não pro- 
gnoslicar nada de bom. Levo o coração cer- 
rado de tristeza, em trezentas visitas offi- 
ciaes a terras do meu reino., nem um só 
íunccionario intelligente, physionomias cú- 
pidas ou bestiaes por toda aparte, nenhum 
expontâneo jubilo vindo a mim... A bisonhe- 
ria dos que me cercam, communica-se-me ; 
sinlo-merisivel, sem uma palavra, sem uma 



os GATOS 17 

ideia, com a saliva pegada no ceu da bocca. 
O que eu daria por ser o rapaz que alli eslá 
no passeio, parado, em vestão curto, a rir 
da caramunlia que eu vou fazendo entre es- 
tes brutos! 

A cada instante, pára a carruagem, on- 
das de povo fétido convergem das bocadas 
das ruas, contra mim : é uma curiosidade 
parada de gente que soffre e não tem valor 
para se queixar... Vieram dos seus estábu- 
los fétidos do Caramulo e da Bairrada, bi- 
sonhos, caras rapadas de fradinhos, a tez côr 
de cinabre, vestidos de burel, sem meias, a 
ex{iressão fanática, os olhos jezuiticos, lendo 
na phantasia, a arder, como na Covilhã, o 
desejo d'um rei que fosse d'oiro, com ges- 
tos d'ido!o, sobraçando cornucopias de li- 
bras, em cascatas doiradas, sobre a turba. 
O meu aspecto gordo desaponta-os; a fic- 
ção que elles teem da magestade real não 
é a que eu produzo, e vão-se com o meio 
riso sorna do maioio ludibriado, batendo os 
tamancos, sem resposta ao chapéu que em 
vão lhes tiro, com o meu braço de pau mo- 
vido por uma corda de relógio. Percorremos 
um labyrintho infindável de ruellas, umas 



18 OS GATOS 

subindo, outras descendo, cobertas de ban- 
deirolas ignóbeis, mastros de baile campes- 
tre, tapises de rosmaninho e folhas de lou- 
reiro. De sorte que se degladiam no ar três 
cheiros typos : o cheiro a trampa, o cheiro 
a Semana Santa, e o cheiro a escabeche. 
Melhor: a universidade, o bispo e o João 
das iscas, os Ires núcleos fundamentaes d'es- 
te «alcaçar da sciencia» fedorento. 

Eis-nos chegados á Feira sob um ca- 
lor de trinta e oito graus — hymnos, fogue- 
tes, e um povaréu no largo, que me pare- 
ceu ser o da Covilhã inda com as camisas 
e piugas das outras festas. Qualquer pobre 
viajor chegado ao termo d'uma viajem lon- 
ga, por um tempo de canicula, o que faria 
era banhar-se e espairecer da travessia. 
Para os pobres reis o banho substituc-se 
porém pelo Te-Deiim, e em vez da socega 
antes de jantar, n'uma rede de pennas com 
mosqueiro de seda e leques d'aveslruz, vá 
d'apanhar umas calças, Rua Larga, até á 
Porta Férrea, debaixo do paHio, á pata, en- 
tre matrullas irreverentes, traz d'uma pro- 
cissão de coca-roxas. Felizmente que em 
meio da solemne tristeza dos capellos deu 



os GATOS 19 

um cavallo a nota natural, um cavallo sem 
curso nenhum, simples cavallo de soldado, 
infinitamente saudável e expansivo, o qual 
agradando-lhe as éguas d'um landeau, dei- 
tou abaixo o cavalleiro e... 

Eu corri logo a assistir ao lançamento 
(estas coisas agradam sempre aos reis agri- 
colas) e ainda vi bombeiros decepando a 
machado o fogo do bucefalo, que um fâmulo 
do bispo levou, fumegante, em salva de 
prata, para o relicário das onze mil virgens, 
em Santa Cruz. 



Ao entrar debaixo do pallio a Universi- 
dade, lembrei-me de Nosso Pae aos entre- 
vados — e que entrevado moral este insti- 
tuto 1 — e então pude ver n'um pateo de 
quartel, derodeado d'edificios sem caracter, 
uma alpendroada de pavilhão de caça por 
frontaria, bem de face e a toda a altura das 
suas vestes jezuilicas, parte d'esse corpo do- 
cente universitário que tanto mal tem feito 
impunemente. 

Quasi tudo caras erabirrentas, sem a ar- 



20 OS (JATOS 

chiteclura d'officio, onde a rigidez substituiu 
a mobilidade physionomica pela mascara. 
Mesmo algumas dir-se-iam modeladas por 
caricaturas cerâmicas do Bordallo, com as 
maçãs do rosto furando pelles pergaminho- 
sas, as lunetas paradas, e os craneos co- 
bertos pela borla, no seu ar vasio de limpa- 
pennas. Aqui e alem, cataduras marmóreas 
de repontões praxistas, affeitos a thronar 
despoticamente entre os rapazes, cabeças 
peladas com a visão lateral perscrutadora, 
passadas nos calcanhares, fincando firme, 
pelo habito d'esmagar as resistências, e por 
toda a parte esse insupporlavel ar absor- 
vente de predominantes locaes, de senhores 
da terra, que os pedantes lomam, á forçado 
se sentirem cortejados. 

Dizem que ha entre elles alguns de valor 
indisputável, mas quantos sornas deletérios 
rolinisando a mocidade á sombra d'uma le- 
gislação escolar indigna de homens livres ? 
Nada mais do que entrando os claustros 
universitários, indo a certas aulas com púl- 
pitos de sanefas de cyrio, se reconhece a 
necessidade de derribar aquillo tudo a pi- 
careta, para sobre as ruinas erguer uma 



os GATOS 21 

escola moderna, com um regimen libérrimo 
como a Polylechnica de Lisboa, clara e ele- 
ganle entre jardins e grandes ceos, sem 
cárceres, nem foros, nem velharias medie- 
vaes que façam do estudante a viclima do 
mestre, e do magistério um ripanso de me- 
diocridades. 

Jantar de gala: inda esle marlyrio de 
respirar o farlum de gente que só toma ba- 
nhos de suorl Apenas enlro, começa-me a 
faltar o ar na casa, as salas são pequenas, 
os moveis grandes, as janellas estreitas, os 
convivas mal cheirosos. Nas alcatifas cober- 
tas de pingos de cera e nódoas de vómitos 
prchistoricos, tropeçam-me as esporas de 
generalissimo, e a cada trambulhão, verea- 
dores abealados correm a mim dizendo, Do- 
minas íecum. 

Por toda a banda, nu paço, uma desor- 
dem de gentes sem governo : dentro não ha- 
via um tareco, um prato, um enxergão, uma 
banheira (gabaram-me as bellas índias an- 
tigas que um dos reilores aqui achou, e se 
sumiram); de sorte que foi necessário man- 
dar vir tudo dos palácios do Porto e de 
Lisboa. Esse tudo nem mesmo chegava a 



22 OS GATOS 

ser o indispensável, e com os desleixos da 
embalagem e as delongas portuguezas do 
caminho, vieram as coisas aos poucos, parte 
quebrou-se no comboio, e outra parte che- 
gou só quando parliamos. Até por não che- 
gar a loiça enxotámos convivas para a mesa 
dos creados. 

Ai Dias Ferreira, em que desagradável 
batuque me veiu metterasuasemcerimonia 
de presidente do conselho letlras gordas ! 
De que gente ordinária me cercou I Veja 
como elles bebem o molho pelos pratos e 
fazem caretas d'orangos a engulir a porção 
fibrosa dos espargos. Se isto continua ver- 
me-hei forçado a avisar o Gosta Allemão de 
que se não á'\z pst, oh D. Amélia! á rai- 
nha, nem é polido fazer pontaria com bolas 
de pão aos meus carachás. Demais sinto- 
me burro, e o culpado é você. Dias Ferrei- 
ra, porque deixou em Lisboa o caderno dos 
pensamentos prolundos,compromettendo-me 
assim o successo da viagem. Sem o caderno 
dos pensamentos profundos, que impressão 
grandiosa heide eu deixar no espirito d'esla 
gente ? Já reeditei três phrases celebres da 
Covilhã; e se não fosse porquê, soltava uma 



os GATOS 23 

que agora me saiu, propia p'ra álbum. «A 
faculdade de direito é o peor de todos os 
cicios.» Hein? Mesmo catita, e com a van- 
tagem de se poder dizer da ociosidade. 

Papança finda, mostro desejos d'ouvir 
dançar e cantar a tricanage, o que é o meio 
de varrer a zoeira calhedratica que circula. 
Levam-me á varanda que deita para o pa- 
teo, e apenas entro, enthusiasmode palmas 
e vivorio. D'onde demónio conheço eu este 
enthusiasmo? Oh Nazareth, eu já paguei a 
conta d'este enthusiasmo, n'alguma parte... 
Vá indagar. Corre o palmipede, e averigua 
que o que eu acabo de ter é uma ovação 
velha, uma ovação reservada desde o anno 
passado para quando o Magalhães Lima 
viesse revolucionar o 23. Como não veio, 
os iniciadores cstimularam-n'a com vinho 
rascante, e deram-n'a de trespasse á casa 
real, por meio preço. Emfim, vou estar em 
face do verdadeiro povo, o ingénuo, o sim- 
ples, o expansivo e cândido populacho das 
veigas do Mondego ! Tricanas finas, cabecita 
de rola e olhos de febre, a roupinha bran- 
ca enfeitada de grega, a saia em pregas, os 
pés na chinella de bico, pisando com mimo 



24 OS GATOS 

O chão poeiroso ! Por certo ides desenrolar 
perante os vossos reis toda a rusticidade 
encantada dos vossos bailes locaes, cheios 
de requebros, que faliam da fonte, do S. 
João, das descamisadas e dos beijos furta- 
dos das vindimas, na embriaguez do mosto 
e dos abraços. E' sem duvida o Vira, a Far- 
roupeira, ou o Estaladinho, as rondas em que 
vos requebrareis, mãos dadas co*s nossos 
rapagões, denes'que as guitarras frun-fru- 
nem, e a cantadeira desgrenhe a melopea 
amorosa aos ares da noite. Começa o gui- 
tarredo, os pares ordenam-se, e desço mais 
uns degraus para vêr de perto esses rosti- 
nhos brunos de vinte annos. . . A musica 
tem um sabor d'operela onde não ha meio 
de vêr desenhar-se um canto do paiz ; ares 
de poika, coisas de passo ordinário, tudo 
quanto emfim um maestro d'infanteria pode 
applicar de moderno aos pulos dos labrós- 
tes. Das cantigas cantadas, umas são do An- 
tónio Nobre, outras do Fogaça, outras da 
Amélia Jenny, todas litterarias, e absoluta- 
mente nenhuma anonyma e popalar.Falseada 
a proveniência da musica e da poesia, res- 
tava ao menos a aulhenticidade das cacho- 



os GATOS 25 

pas ; quando subitamente a rainha solta um 
grilo.... 

— Quel horreur ! Mais elles sont toiítes 
barbues, ces femmes lá ! 

Quero defendel-as, desço ainda uns de- 
graus para affirmar-me e vir bailar com el- 
las, como Pedro I nas snas noites sem dor- 
mir, e oh misericórdia! em vez de moças, de- 
paro com calhedralicos em travesti de peco- 
ras, mamas postiças, e calcanhares bambo- 
leados. Este sediço burocracismo coimbrão 
proposilaem me azedar o thedio até a náu- 
sea, não contente de me enlaipar d'estupidez 
com aranzeis e cerimoniaes da era dos con- 
ventos, inda por cima me veda o contacto de 
todas as coizas simples e robustas ; peço-lbe 
académicos, dão-me o Bernardo Ayres, can- 
tigas populares e servem-me a Amélia Jenny, 
tricanas, tricanas, e surgem-me o padre Cha- 
ves e o Paulino, de lavradeiras, aos estali- 
nhos c'os dedos, eonalgatorio a suar na ce- 
bollada do vira, por debaixo do saial da ca- 
melote I Ah grandecissimas velhacas, que as 
arrebento com dois pontapés na bocca do 
corpo 1 Tira d'aqui mal-os marmanjões dos 
bandurristas, que se as bispo outra vez neste 



26 OS GATOS 

disfarce, lhes farei vitriolar pelos bedéis, os 
pontos mortos 1 



Observatório, noile sem lua, eslrellas, e 
Coimbra de redor toda em balões venezianos. 
O meu martyrio segue n'um criveiro d'es- 
topadas calhedraticas : por toda a parte o 
lente obseda-me de niaiseries que eu não pos- 
so crer provenham do universilarismo chocho 
que domina os altos estudos d'esla terra. Qua- 
zi chego apersuadir-me que os de talento se 
afastaram de propósito, deixando a cicero- 
nia da casa aos pataratas. Depois do Alves 
de Sousa, nunca o crelinismo scienlifico re- 
entrara em mim com um tal poder de em- 
bestação. Ai Dias Ferreira! offego, oíTego, 
pensando que o Rocha Peixoto — segundo 
aslronomo, como elle próprio se diz — 
poderia vir repetir-me as provações astro- 
nómicas porque me fez passar na celebre 
noite. Leia na Ordem o relato d'essas aven- 
turas e perceberá que o homem não con- 
tente de talhar para si um papel de lente 
bi-concavo, inda por cima nos veste, a mi- 



os GATOS 27 

Ilha mulher e a mim, sanbenitos de tolos ca- 
ricatos. ^ Em6m quando conseguimos fugir 
a astrologia dos Peixolos e ouiros pislosgas 
e mágicos dalmanack, nossos olhares volta- 
dos para o rio, poderam ver toda a feeria 

• o indigitado auctor d"este rescripto tem carradas c 
can-adas de razão. As informações do astrónomo Pei- 
xoto á Ordem, sâo d'mna inconveniência tanto mais 
desacreditante para as regias pessoas, quanto maior a 
lorpice com que vem stenographadas. Em cortezào 
bacoco, Peixoto astrónomo, para creditar o berreiro que 
fez á entrada dos reis no observatório, começa por pôr 
em duvida a espontaneidade das outras ovações, e 
"... pareceu-lhe que SS MM. nào esperavam aquella 
manifestação, naturalmente porque nào tinha sido com- 
binada, e porque não foi assim a da estação do cami- 
nho de ferro. . . » Nào ha como um innocente para pôr 
tudo em pratos limpos ! A sublinhar a perspicácia dos 
soberanos, fal-o com a surjjreza de quem esperava 
achar dois palerminhas «... a rainha foi para a va- 
randa da rua da Trindade e á sua disposição puz logo 
a melhor luneta terrestre, de que se serviu repetidas 
vezes para observar os barcos e os balões. Como a 
noite estava escura, não podia distinguir as pessoas 
que iam nos barcos, e assim esteve entretida a obser- 
var os barcos em passeio e com sensível agrado. Com 
uma ligeira indicação que tive a honra de fornecer-lhe 
para o uso da luneta, scrviu-se d'este instrumento com 
promptidão e habilidade, que admirei, nem foi preciso 
acrescentar-lhe eu mais indicações.-. Está a gente a 
ver na noite escura a rainha a procurar as pessoas dos 
barcos, toda contente jior nào vêr nada, e em compen- 
sação saber mecher a hmeta, e Peixoto babando-se pe- 
rante a argúcia com que a pobre senhora, quanto mais 
lhe seguia os conselhos no tocante á mcchida da lu- 



28 OS GATOS 

do espectáculo que por nosso enfadonho 
mister estávamos prohibidos de gozar. De 
cima da espécie de torreão onde estávamos 
presos, era para todos os lados uma monta- 
nha de tectos e ruellas, fímbrias de luzes, 
clarões de chapa viva sobre os muros, cima- 

neta, tanto menos toscava dos pontos perscrutados.» 
«Um episodio curioso, ajunta elle. Lembrou-me alguém 
(com franqueza não sei quem) que preparasse a luneta 
para S. M. ver e a acommodasse á sua vista, isto 
quando expliquei como S. M. devia fazer para poder 
vêr bem, quando lhe mostrei um botão de que tinha de 
servir-se para este eflPeito, o que, repito, S. M. perce- 
beu e logo executou com notável promptidào. E' claro 
que eu podia dirigir a luneta convenientemente, como 
dirigi, para o ponto que mais importava vèr-se bem, o 
que logo tinha feito. Mas o que evidentemente eu não 
podia fazer era acommodar a luneta ao olho de S. M., 
como pretendia o meu officioso iustructor. A' indica- 
ção d'este sorriu-se a rainha, e perguntando eu então 
a S. M. se era um pouco myope ou se via bem á dis- 
tancia normal, respondeu-me logo que bem sabia que 
só ella podia acommodar a luneta á sua vista. Tive, 
como devia, o cuidado de mover eu mesmo lentamente 
o botão até que S. M. visse bem pela luneta 5 e depois, 
tendo sido por vezes desarranjada a luneta de que se 
serviram outras pessoas, foi sempre S. M. quem a di- 
rigiu para os barcos e a acoramodou aos seus olhos.» 
Este segundo astrónomo é de cahir ! Se manusear 09 
astros como manusea a synthaxe, deve ter descoberto 
muita asneira no firmamento. Razão tinha o legista 
que mandasse os professores de dez em dez annos pa- 
ra os bancos dos rapazes, que sobre crescerem os 
chumbos em instrucçâo primaria, livrar-se-hiam os es- 
tabelecimentos do Estado d'estas pestes. 



os GATOS 29 

lhas e portaes resahindo a carvão de man- 
chas claras, e assim té ao cães e á Porta- 
gem, donde a maré popular fazia subir 
té nós os marulhos da sua especlação. Além. 
dos cães, o leito d'areias do Mondego, ris- 
cado pela ponte e com sua regueira d'agua 
banhando os choupos da margem fronteiriça, 
o leito do xMondego eslendia-se como uma 
vala commum, da Portella ás trevas do Chou- 
pal, aqui e além pintalgado de tímidas lu- 
zitas, de vagas muzicatas, e instantâneos me- 
teoros de foguetes. Em Santa Clara e S. 
Francisco, repiques de sinos, vozeios de pra- 
zer nos bailaricos, e de toda a banda um 
cheiro a raça voluptuosa que se entrega, 
procurando as boscagens para as cabra-ce- 
gas do amor, ciosa de contados. Você, Dias 
Ferreira, por certo não perceberia no ar 
cl'estes effluvios, os políticos deixam de ser 
homens muito cedo; mas quando inda se 
não fez vinte e oito annos, seja-se rei ou se- 
ja-se cabreiro, o cheiro da femeína errante 
em noites de festa, em chmas cálidos como 
este, o cheiro da femeína ou alkaloide se- 
xual da fêmea avulsa, enfia pela mufla d'um 
homem e enrasca-o, co's diabosl se elle não 



30 OS GATOS 

enfia logo a rabo d'uma typa. Confesso, hou- 
ve um momento em que a minha vontade foi 
amolgar o telescópio na carapinha aérea do 
Peixoto, pôr os outros sachristães na meri- 
diana filar, pelo gasnete, e raspar-me para 
a pandiga em companhia do Mário, de cha- 
péu desabado e bocca de sino a dar e dar 
nos tacões de prateleira. Veria você se o rei- 
de Portugal, tão calumniado pelo sobrece- 
nho que o medalhão da vida official lhe im- 
põe continuamente, d'esta vez não arranca- 
va ao povo das praças um movimento irre- 
sislivel de sympathia e de calor, como ou- 
tr'ora o tio Miguel no cercado de Muge, pe- 
gando os ardentes bois da casa Cadaval. 
Porque a verdade é esta, vocês querendo 
formar um rei, tem-me exposto á multidão 
como um pedante. Com a idade que eu le- 
nho, a rigidez que me impõem só é natural 
em jezuilas e hydrocephalos. Mas ouviram? 
eu quero molhar os pés, já disse, quero ir 
preso, quero deitar pontas de charutos nas 
chancas dos gallegos, jogar á pancada, pôr 
o relógio no prego e apanhar moléstias de 
senhoras. Reclamo o tirocinio de rapaz que 
me não deram, e sem o qual a vida adulta 



os GATOS 31 

perde o sabor eo tom d'experiencia. Já meia 
noite. Esses barcos da serenata vem ou não 
vem ? Gomo o Mondego não leva agua, afi- 
xou a municipalidade um edital, dois dias 
antes, mandando que os conimbricenses fos- 
sem verter as suas á Lapa dos Esteios, d'on- 
de pelas horas da serenata as soltariam, por 
forma a produzirem no areal um simulacro- 
sinho de corrente. Ora é meia noite, inda 
faltam dois litros, e ahi ficamos nós á espe- 
ra de que para se attingir o liquido de que 
os barcos precisam, alguém tenha vontade! 
Não vi Coimbra ao luar. Até n'isso, você, 
Dias Ferreira, é desastrado. Mas deve ser 
um espectáculo único de poesia e socego 
adormecido. Ao amanhecer e entardecer, 
que serenidade fina a da paisagem I mesmo 
n'eslas epochas do calor a bruma paira, e 
montes e arvores tomam travez d*ella uma 
tonalidade gris perle, muito doce. As tran- 
ças d'agua deixam os barcos vogar com uma 
uma amorosa complacência, recolhem as la- 
vadeiras, vozes apelam-se, pequenos luma- 
reus para a ceia dos barqueiros, e vagas 
velas quadradas, em guião de junco chinez, 
vão ao de manso, rente co's chopos e sal- 



32 OS GATOS 

gueiros, perdendo-se nas sinuosidades da 
oulra margem como espectros hydrophilos 
regressando ás grutas das ondinas. Então o 
coro das rãs acorda os socegos plácidos das 
quintas (minha mulher ateima que é o con- 
selho de decanos a ensaiar os latins para a 
recepção do Bernardo Ayres) apellando-se 
d'umas tribus para as oairas, a bruma es- 
pessa mais, são nuvens, e borrifos de chu- 
va enchem o ar d'uma frescura hilariante. 
Sob o gaz, a cidade parece um bocado de 
Lisboa, com casas braziíeiras, azulejos, sac- 
cadas fundidas, quartos andares, trapeiras e 
policias. 

Tanto os monumentos velhos teem no- 
breza, quanto os contemporâneos suam 
chinfrinice. Das janellas do paço, ao acor- 
dar, todas as manhãs nos riamos a vêr, fron- 
teiro, o Pedro Penedo parado a meio do lar- 
go, tendo o Guimarães Pedrosa pela mão. 
Só hontem o funerareo reitor desvaneceu 
nossa illusão, dizendo que o supposto par era 
um monumento académico a Camões, figu- 
rando o objecto mais alto um monolinlho, e 
o mais pequeno um leão de bronze sem tes- 
tículos, que symbohsará, supponho, a aca- 



os GATOS 33 

demia. Isto nos leva a observar qae em 
Coimbra, alcaçar de sciencia, onde a moci- 
dade e o saber ha séculos dominam, nem 
d'uma nem d'oulra coisa ha vesligios d'ira- 
mortalidade ou tradição, e tudo o que a ci- 
dade possue de grande, ou traz a rubrica 
dos frades ou traz a rubrica dos reis. 

Mercê do regimen medieva! que ainda im- 
pera, a acção do professor sobre o rapaz é 
deprimente, e por outro lado não é melhor 
a do rapaz sobre o resto da população. Coisa 
singular! Com três mil varões das famílias 
eleitas do paiz, todos na edade da força e 
da saúde, Coimbra nem sequer é um posto 
de padreação seleccionada. A raça indígena 
é doentia e d'umaservilidade medrosa onde 
se sente o despotismo da miséria vivendo 
de sobras: nos rostos das serventes, lias, fi- 
lhas e irmãs por bastardia dos primeiros no- 
mes das classes cultivadas, os raros nimbos 
de belleza teem a gafal-os a escrófula e a 
anemia : apenas nas mãos, aqui e além, si- 
gnaes de casta, e alguns olhos académicos, 
envergonhados de brilhar em rostos de des- 
calças. 



34 OS GATOS 



Abalo de Coimbra desesperado, a ceri- 
monia do capello acabou de m^esgotar as 
forças da paciência: uf! basta de lauspe- 
rennes cathedra ticos, ou a hydrophobia do 
latim meprohibirá de tão cedo ir ás egrejas. 
Irra, camellos, que é muito abusar da fé 
d'um pobre reil A' chegada, Te-Deum, latim; 
em Santa Cruz, latim ; latim no almoço do 
bispo; latim na abertura do tumulo em 
Santa Clara; na capella da Universidade, 
latim; lalim nocapello.lalim, latim, sempre 
latim 1 Até me fizeram ler uma arenga lati- 
na aos doutoraes. Devia ter dito mais bar- 
baridades que o Paulino, mas relevem-se-me 
as sensaborias oratórias, primeiro por não 
serem minhas, segundo por eu não ter ca- 
pello nem borla, implicando responsabilida- 
des de sábio e expositor. Ha-de-me ficar de 
memoria que nas minhas relações com a 
Universidade, não fallou um só professor 
sem se estender. Pobre Universidade mor- 
ta I Comprehendo agora porque preferes o 
latim ás linguas vivas. A asneira assim não 
é tão accessivel, e a própria banalidade to- 



os GATOS 3:) 

ma foros de profundeza. Em resumo, Zé 
Dias, o meu real desagrado tem suspenso 
um cutello por sobre o seu pescoço. A sua 
cabeça responde pelo insuccesso d'esla via- 
jata, e haverá que rolar ignominosamente 
no mesmo decreto em que eu, demillindo-o, 
por desprezo mande subir o José Luciano á 
presidência. Porque foi você o incitador e o 
gerador d'este desastre, Obrigou-me a ac- 
quiescer na vinda a Coimbra, jurando que 
se acordara tudo sem difficuldade e sem 
despeza, e pondo a jornada como um sello 
de reconciliação entre a coroa e a juventu- 
de estudiosa, malquistadas desde as primei- 
ras sarrafuscas de ha três annos. Que os 
rapazes viriam das suas terras estender-me 
capas no caminho I Que o povo me beijaria 
as roupas, de joelhos. E sem exigir mais 
obras, Coimbra emGm, a cúpida estragada 
a quem nada aproveita, esportularia dinhei- 
ro como pródiga, só para eu ter recebimen- 
los de Cezar e alelluias de deus transfigu- 
rado. Gaio na arriosca de mais uma vez l^er 
fé na solidez das suas combinatas ; despre- 
venido e ingénuo, venho por ahi fora a pen- 
sar nos vivas dos rapazes, a antever o mar 



36 OS GATOS 

de cabeças adolescentes, a febre das mãos 
rufando palmas, o fogo dos olhos felichisa- 
dos a um aceno do meu sceptro-pingalim — 
e de solas novas, para nào sujar as capas 
estendidas. 4' minha chegada vem as auclo- 
ridades, vem os bedéis, vem os professores, 
vem os bombeiros, vem os padres ; tudo 
quanto recebe para ser fiel ás instituições. 
O resto, m(5Íla I 

Por consequência, amigo Zé Dias, faça 
as suas malas para se pôr ao fresco antes 
das eleições .... 




FIALHO DALMEIDA 



os GATOS 



publicação 
d'inquerito á vida PORTUGUEZA 



N.°46 — 21 de Septembro de 1892 



SUMMARIO 

Os SYMBOLISTAS E DECADISTAS CÁ DE CASA ", 
CONSTATAÇÃO DO CARACTER LITTERARIO PELO PAS- 
CIAS, HEREDITARIEDADE, MEIO SOCIAL E EDUCA- 
ÇÃO. PrOVA-SÈ a LNCAPaCIDADE DE SEREM OS 

PORTA-BANDEIRAS DA POESIA DECADISTA, E COMO 
A SUA OBRA NÃO PASSA d'uMA IMITAÇÃO GROS- 
SEIRA DOS FRANCEZES. — ARGUMENTO MACARRO- 
NICO d'uM POEMA, E DISCUSSÃO DAS BASOFIAS RE- 
VOLUCIONARIAS d'um POETA. — A Epiphania dos 
Licornes, ou contricçÃo d'um Figaro que se 
TORNOU Basílio. — Génio da asneira e factu- 



n os GATOS 

RA DE REPUTAÇÕES PELO ESTROMBOTICO. OBS- 
CURIDADES E CHATEZAS NEPHELIBATAS. Dom 

Briolajija .so6 as côr de mosto, mais conhecida 

POR COMPLICADAS DECORAÇÕES DE LEGENDA VE- 
LHA, — BeLLEZA KiRIAL DESTE POEMA. EuGE- 

NIO NAS SUAS JUSTAS PROPORÇÕES. — OaNDYSMO 

POÉTICO d'Oliveira Soares, e caracter misti- 
ficador DO Exame de consciência e Paraíso 
Perdido. — Intervém uma dama com piada. — 
Como aos vinte annos se é mystico, revista 

DOS travestis do auctor p'rá galeria 

Soares, poeta latino. — Necessidades d'e- 

MOÇÃO NA poesia ; A LEI DE TyNDALL SOBRE O 

rythmo, e sensibilidades peculiares de cada 

estado poético. gomo os versejadores ma- 

nuseam a rima rica. o que é a rima rica, 

seu rapel depressor na poesia portugueza. 
— Versos sem ideias, e grandíloquo, pato- 
GNOMONico d'idiotia. — Não tenteis comprehen- 
del-os, E QUE vão para a charrua. — Em con- 
clusão. 




Os symbolistas e decadistas cá de casa 
são uns rapasinhos joviaes e bem portados, 
com a digestão fácil, a alegria prompla, e o 
coração sujeito a um tic-lac de que nenhu- 
ma commoção violenta altera o rylhmo. A 
sua historia pregressa dá-lhes um socego 
de vida e uma benignidade deducação e de 
leituras, que de forma alguma predispõem 
á nevropathia seus encephalos d'adolescen- 
tes. Isto se reconhece na maneira melhodi- 
ca com que elles fazem já, sendo tão novos, 
suas edições d'obras completas, no ideal de 
conforto burguez, forrado a papel, que todos 
teem da vida cívica, na forma correcta de 
vestir e d'aparlar o cabello, e até na calcu- 



4 OS GATOS 

lada arlificiosidade com que aos vinte annos 
(a edade das grandes fomes de Verlaine, e 
das vagabundagens de Rimbaud alravéz de 
lodos os acasos da bohemia mendicante das 
velhas cidades de França e d'Allemanha) 
elles buscam para propalar seus nomes uma 
eslravagancia poética que os ponha em foco 
nas esquinas da apalhia lilteraria da sua ge- 
ração. 

Hereditariamente nada conteêm tampou- 
co que lhes desequilibre a funcção nervosa, 
ou n'elles sublinhe sequer laivos de vesânia 
d'onde tarde ou cedo venha a brotar uma 
arte detraquée. São filhos de lentes, de mé- 
dicos, de proprietários, a quem os estudos 
profissionaes não prejudicaram a saúde e 
a descendência, e que muito embora oc- 
cupando, ou tendo occupado, na vida 
scientifica ou burocrática, logares distin- 
ctos, comtudo evitaram sempre queimar a 
carcaça no auto-de-fé dos excessos de labor 
cerebral, que vicia a propagação, e tanta vez 
faz pagar aos filhos as dividas physiologicas 
dos pães. Quem os encare de face, a san- 
gue frio, logo n'elles reconhece organismos 
de saúde, de formato pequeno mas relezo, 



os GATOS 5 

caras symelricas, craneos de typo tranqui- 
lisador e olhar sereno, e mãos tão cuidadas, 
dedos Ião direitos, movimentos tão pouco 
desconnexos, impaciências Ião pouco adun- 
cas, que não ha duvidar se esteja em pre- 
sença de seres Íntegros, bem comidos e bem 
tratados, d'intelligencias conspicuas, não 
creadoras, senão repetidoras, d'artistas emfim 
que embora aptos para fruir na arte uma 
maneira de ser própria, jamais conseguirão 
sahir da nobre mediania litteraria que o ta- 
lento menstrua, mas onde raro o génio ma- 
cabro erriça a sua careta hiante de hypo- 
gripho. 

Também a sociedade e o meio onde elles 
pairam, a geração litteraria onde elles se fi- 
zeram, não podiam compolir-lhes o savoir 
faire de poetas para uma corrente d'inno- 
vadores nephclibatas, porquanto nem essa 
sociedade, nem essa geração, nem esse meio, 
limitados e tranquillos, da vida universitária 
e provincial, podiam trabalhal-os por forma 
a desconjunctarem o justo equilibrio de fa- 
culdades que já individualmente assignei 
para os srs. Eugénio de Castro, Oliveira 
Soares e João de Castro. 



6 OS GATOS 

De feito, que sabem esses rapazolas aos 
20 annos, com mezadas de familia, cavaquei- 
ra amena nas republicas escolásticas da alta, 
tricanas prestes, paysagens remançosas, lim- 
pidos céus, horisontes mnsicaes, e por toda 
a parte promessas de fortuna e silhuetas de 
salgueiros e monumentos históricos, que as 
baladas do rio melancholisam, as guitarras 
e as troças juvenescem d'um evohé de vida 
inberbe — que sabem elles da grande vida 
marlyrisante dos que não podem voar por 
ter de pôr todos os dias a panella ao lu- 
me, e dos que tendo-se feito ura nome, re- 
bentam de marlyrio ignorado para o levarem 
intacto té ao frontespicio d'um livro origi- 
nal ? 

Ingénuos como rapazinhos, bêbedos de 
petulantes amanhãs como afilhados das on- 
dinas, sem necessidades de metal, acordan- 
do ás manhãs co'o habito fresco e a bocca 
sem saburras, não sabendo se ha fígado, não 
sabendo se ha talhos, mercearias e pulhas 
que a gente tem de subornar para ir viven- 
do — ignorando por cima, os felizes, quan- 
tas humilhações custa aos trinta annos d'um 
homem fanado, a noite d'amôr que uma 



os GATOS 7 

crealura gracil vende, a quem lh'a pede, em- 
bora na divina lingua d'um poela grego ou 
ílorenlinol — como podiam elles, esses sa- 
dios e esses mansos, ser os portadores das 
perversões d'este final de litteratura pessi- 
mista, eroto-mystica, inconfidente, epilepti- 
sada da dôr de viver, com desejos de morte 
e terrores da sepuUura, vaidosa e pusilane, 
pregando o amor sem posse e violentando 
ao mesmo tempo a natureza, nihilista e egoís- 
ta, hamlelica, impulsiva, escorrendo luz e 
escorrendo pederastia ? 1 



Claro eslá que todas as fontes da dôr mo- 
derna, incomprehendidas, todos os seus pro- 
fundos veios d'inspiração lhes ficam, por 
esse tacto, sonegados : razão porque a poe- 
sia dos srs. Castros e Soares não podia 
deixar de ser o que é, uma imitação dos 
defeitos grosseiros do decadismo, e uma 
caricatura ridicula das estravagancias a que 
alguns symbolistas malucos teem levado em 
França e na Bélgica a arte de cantar. Não 
é a acuidade evocativa de certas imagens e 



S os GATOS 

vocábulos, nem a estranheza hyslerica de 
certos estados de razão ou d'alma que os 
poetas das Horas, do Exame de consciência 
e da Alma Posíhiima mais particularmen- 
te sugaram dos seus modelos francezes, que 
equivaleria isso a uma identificação moral ab- 
soluta, cujo primeiro resultado seria sinceri- 
sar a arte d'elles té aos exiremos d'uma auto- 
biographia ingénua e apaixonada. O que esses 
moçoilos com delicia copiam são os trucs, as 
pochades meio arte, meio intrugice, os toni- 
troantes vocábulos de significação obscura, 
torcida, fora do seu lugar, o abuso das let- 
tras maiúsculas, e a alteração proposital em- 
fim de todas as regras poéticas que possam 
pôr a metrificação ao abrigo das maluqueiras 
de rapazes.Em prosa como em poesia, o sym- 
bolismo d'elles não consiste, como Banville 
diz, «em nunca ir á concepção da ideia em 
si,» mas é uma serie d'omissões, inversões, 
deducções, que tiram a clareza á phrase, á 
ideia o seu declive limpido e synthetico, tor- 
nando a litteratura n'uma espécie de palim- 
pséste, meio obsceno, meio religioso, onde 
o sentido é incomprehensivel por lhe falta- 
rem palavras pelo meio. Querem uma pro- 



os GATOS 9 

va ? Ahi vae o argumento do livro Horas, do 
sr. Eugénio de Castro. 

«Silva esotérica para os Raros apenas : 

abertas as eclusas, corvetas, como cathcdraes flu- 
ctuantes, seguindo inéditos itenerarios por atlânticos 
virgens ; 

«terraço ladrilhado de cipolino e agatha, por onde o 
Symbolo passeia, ai'chi-episcopal, arrastando flamman- 
te simarra bordada de Suggestòes, que se alastra, oleo- 
sa e polychroma, nas lisonjas ; 

«concerto de adequadas musicas implorativas ou mo- 
rosas, raro estridentes ; 

• complicadas decorações de legenda velha mantelan- 
do o pudor dos episódios simples ; 

«preces d'um hereje arrependido, votos castos d'iun 
antigo libidinoso, pesadelos e irreligiosas hesitações 
d'um recente convertido ; 

«Tal a obra que o poeta concebeu longe dos bárba- 
ros, cujos inscientes apupos, — ai nâo é de esperar — • 
n»o lograrão desvial-o do seu nobre e altivo desdém de 
nephelibata. 

« E se Deus todo pocUroso lhe der geuio e saúde, 
para breve novas colheitas.» 

Claro que isto não é prosa, nem program- 
ma, nem argumento, nem coisa nenhuma ; 
é uma trapalhada sem nexo, que se acredita 
concebida longe dos bárbaros, por ter sabi- 
do com certeza do hospital de RilhafoUes. 
A par da escriptura macarronica, ha n*esla 
silva p'ra raros, uma altivez de tal sanha in- 
sulsa, uma pretensão do provar do fino em 



10 os GATOS 

tanta maneira solérte, que nem Victor Hugo 
nem Junqueiro jamais do alto dos seus mon- 
tes escreveram com tão chispantes raios, na 
taboa eterna, alei mosaica para o povo prós- 
ternado ao de redor. E nada menos do que 
uma poética nova, do que um ideal novo, do 
que uma lingua, uma imaginação, uma eu- 
phonia e um rythmo inteiramente inéditos e 
desconhecidos até hoje, o que alli se pro- 
mette — o todo sobrepujado do extasi ceno- 
bitico d'uma alma desilludida da carne, e 
que refugia em Deus o seu terror da perfí- 
dia humana. Enira-se no texto da obra, após 
d'eslas estridulas promessas, e depara-se o 
seguinte. Na Epiphania dos Licornes (epi- 
phania dos hcornes não lembra ao diabo 1) 
uma espécie de ladainha em que as remi- 
niscências d'orações d'infancia ennastram 
nas parvoices, e em que pedaços da Ave- 
Maria confinam com recuas e recuas de pa- 
lavras antigas, postas de propósito para bo- 
qui-abrir d'espanto o pobre diabo, e com 
imagens tiradas de leituras e factos de que 
o sr. Eugénio de Castro nem sempre attin- 
giu lucidamente a significação. 



os GATOS 11 



Kyrie cleison, Christe eleison, 
Lua deitada, marinheiro a pé, 
Lua deitada, marinheiro a pé, 
Kyrie eleison, Christe eleison. 
Hoje ha banzé. 

«O toda vestida de Ihama, e luciolante de pedrarias, 
O sempre em meio das sororaes polyphonias 
Dos burcelins, das mibelias gementes, das violas, 
O sempre Insinuante e Cardeal entre os turibulos acce- 

sos, 
Derramadora de eucharisticas esmolas, 
Estrella dos Mareantes, das Orphaudades e dos Presos, 
Consoladora dos que tombam do andaime 
Da Illusão, Santa Maria, Màe de Deus, auxiliae-me ! 
«A minha Mocidade tem cabellos brancos : 
Sou o menino, que, uma noite, os Saltimbancos 
Roubaram, sou o Lis á janella d'um palácio em fogo, 
E a Noiva Lilial n'uma casa de jogo. 

«Que é dos idos explendores dos 
Soes mortos ; noiva dos profanos em 
relvas de pastoral, vinhos cascatan- 
tes, horabros nympliaes, caravellas 
aurifl amantes buscando chymericas 
Américas ? 



"Tive puniceo manto, que era, no chào, puniceo azeite ; 

Adaga temperada de Nurcmberg, 

Em cujo punho uma sai)hira, entre opalas de leite, 

Era uma tulipa azul em Spitzberg. 

«Tive falcões e falcoeiros, 

E nas de por])hyro varandas 

De meu castcllo, arrabilciros 

Tocavam, resplendentes de opalandas ; 

Tive castello de granito, 

Granito rozeo de Syena, 



12 OS GATOS 



Tive taça d'ambar do Egypto, 

E colchão d'eseolliida pena ; 

Tive leito de faia (tal Salomão), sob cortinas 

D'aiireos tissus, onde dormia adur 

Geado d'alvas popelinas 

E de bordaduras d'Assur ; 

Auôes em seda alva de jaspe, 

De meu eastello no átrio mudo 

Sobre as lisonjas de diaspe, 

Erguiam rios de velludo ; 

Balsamyrrhando o manso ar, 

Em de cobre babylonicas caçoilas. 

Fumegavam rezinas de Madagáscar, 

Do fogo entre as ruiuas cenoilas ; 

N'um celleiro ladrilhado de sardonia 

Tive tulhas de pedras raras : 

Turquezas do Cairo e da Macedónia, 

Diamantes frigidos, sem taras, 

Peridotes, obsidianas, 

Kubis de Dgiamschid, húmidos de siuopla, 

Sueiras, esmeraldas de Juba, cymophanas, 

Eozicléres de Yisapura, jacinthos de Constantinopla. 

«Os francezes levaram-me tudo: a 
adaga nurembergueza, a taça d'am- 
bar do Egypto, os rubis de Dgiams- 
chid e as torquezas da Macedónia. 
Para quando o armistício, para 
quando ? 

«Tive um parque cheio de lagos 

E de cegonhas brancas, como lythurgicas pratas, 

Povoado de aromas vagos. 

De murmurancias de cascatas, 

E de figuras de basalto ; 

Onde, em tanque d'agatha, um hydro 

D'onyx vomitava alto 

Uma girandola de vidro ; 



os GATOS 13 



E onde, soberbos como Núncios, 
Com suas caudas d'oiro ardente, 
Iam pavòes, sob quincuncios 

De rhododendros, lentamente, lentamente, lentamen- 
te. . . >* 



E mais além 



« . .Da cidade do Mal augmenta o estrépito 
N'uma rubra heiuoptysia o Sol decrépito, 
Golfeja sangue pelo ceo grisalho . . 
Thuribulo da tarde um lago fuma, 
E, na sua assumpção, a Lua é uma 
Branca Primeira Communhào n'um Talho ! 



('Bárbaros : uma Voz de setim 
branco chamou por mim. Todo ves- 
tido de linho, vou para a Torre do 
Conceito Puro. Fui o Fraco e o Ne- 
gligente e o Diamante de Golconda 
engastado em zinco : hoje sou o 
Beato e o Mago. Não tenteis cora- 
prehender-me : iião me comprehen- 
derieis. Fazei clangorar o olifante 
das Paixões ruins. Serei surdo. E 
vinda a hora muito esperada, do li- 
vramento.» 



Hão-de concordar que o conjuncto é a 
mais não disparatado, e que ha razões para 
se contestar a mesma bôa fé d'esta poesia. 
Na diversidão dos géneros litterarios, occu- 
pa o ver^o já um tão minúsculo logar que 
nâo valeria a pena fazer passal-o d'arle a um 



14 OS GATOS 

jogo de paciência, e a uma habilidadesinha 
de serão. Porque, enlendamo-nos. Se a tal 
Epiphania dos Licornes é o acto de conlric- 
ção d'um antigo devasso (Fraco e Negli- 
gente) qae tendo cedido ao peccado, conser- 
vou todavia, a alma luminosa (diamante de 
Golconda engastado em zinco), tornando-se 
pelo arrependimento e exaltação extática em 
Maria, no Beato e no Mago que vai para a 
Torre do Conceituo Puro, surdo ao olifante 
das Paixões Ruins, deve esse threno vir tres- 
passado todo da emoção do acto, e conter 
em si o reviramento psychologico que de- 
terminou a conversão da alma do poeta. E 
essa emoção onde estremece ? No Kyrie elei- 
son da lua deitada e do marinheiro a pé? 
Na confissão de que o sr. Castro seja a noi- 
va lilial n'uma casa de jogo? No puniceo 
manto que era no chão puniceo azeite ? Nos 
arrabileiros e nos anões em seda alva de 
jaspe? Nas lisonjas de diaspe, no «fogo en- 
tre as «ruivas cenoilas» no «para quando o 
armistício, para quando ?» no hydro vomi- 
tando a girandola de vidro, ou na lua que 
lembra ao poeta uma primeira branca com- 
munhão n'um talho? 



os GATOS 15 

Pois não se eslá vendo que n'estes versos 
onde palavras de cathecismo se misturam a 
confissões de peccados não commeltidos, e 
a suggeslão das imagens e credos deriva 
d'um inconsciente folhear de livros de rezas 
e folhas de bonecos da coloriage franceza 
d'Epinal, não se está vendo que n'esta mi- 
chorfada falta completamente o sentimento, e 
não ha uncção nem perversidade, e tudo é 
feito de cor para fazer o incauto dar cavaco ? 
Por ventura a superabundância de descripti- 
vos, com seus embutidos estapafúrdios de 
quincuncios, licornos e olifantes, não lhes 
incutiu já a suspeita de que o poeta procura 
meterno livro, co'a maior somma de brilho, 
a menor somma possivel de pensamento ? Es- 
ta poesia dá-me a impressão d'uns meninos 
de fraldinhas húmidas, a quem a ama en- 
sinou mal as orações, que elles inda por ci- 
ma deformam em versos errados, cuidando 
rejuvenescer com isso a lei de Deus. 



Fica entendido entanto que não é o deca- 
dismo que eu vergasto — toda a forma d'arte 



16 OS GATOS 

é viável e fecunda, desde que seja a expres- 
são sincera dum momento da vida — mas 
certos decadistas francezes demasiado pre- 
ciosos para serem os portadores d'alguma 
ideia- mãe, e os seus macaqueadores de Por- 
tugal, demasiado infantis para que o sorri- 
so publico lhes não sublinhe galhofeiramente 
as farfalhadas. Porque eu já disse : a deca- 
dência dos srs. Castro e Soares não lhes 
está no espirito, na lassidão enervada, na 
saciedade, na maladie equivoque, ou na 
pregação da inutilidade de tudo, como 
no soneto de Verlaine que atraz citei, e que 
é toda a autopsia d'uma geração. A deca- 
dência está simples e puerilmenle em certoR 
rebuscados de forma, vicios d'estructura 
grammalical, e obscuridades de glossário, 
que são o que os mestres francezes teem de 
mais ridicuío e de peor. Lá vem por exem- 
plo na Epiphania dos Licornes, o verso es- 
trebuchando em melros diversos, a fingir que 
deita sangue pela bocca de haver feito a 
volta do mundo de todos os ideaes; lavem, 
entrecortando series de quadras, onde as ri- 
mas alternam geralmente, pequenos períodos 
era prosa pretendendo imitar os famosos 



os GATOS 17 

versos livres que a Rimbaud foram suggeri- 
dos pela «prosa poelica ou rythmada» de 
Maria Krysinska, meio termo entre o verso 
e a prosa, e que mais parecem rubrica no 
poema do sr. Eugénio de Castro, do que 
propriamente litteratura, accrescendo que 
nem lêem estranho, nem originalidade, nem 
préstimo ; e a par do catholicismo mystico 
que não é de modo nenhum factor d'escola 
adstricto ao decadismo, mas um caso parti- 
cular de Verlaine que os poetas de cá 
trasladaram para a sua copia, n'uma garo- 
tada deplorável d'irrespeilo ; a par d'umas 
exhibições de passado orgiaco, inteiramente 
postiças, e onde não ha amargura, nem blas- 
phemia, nem saudade, porque não existiu, 
esse passado, apercebe a gente nos poetas, 
mencionadamente no sr. Eugénio de Castro, 
outra velleidade ainda, a do instnimentismo, 
que é como já disse uma tendência para fa- 
zer poesia provocando emoções não com o 
sentido das palavras, que por fim é abolido, 
mas com eíTeitos de sonoridade na maneira 
de combinar as syllabas, identificando assim 
a poesia á musica, isto é, liquidando d'uma 
vez co'a poesia, o que deixa realmente os 



18 OS GATOS 

poetas n'Lima apalhia para e simples déreis 
Lears crelinos. 

O poemeto da Dona Briolanja, espécie de 
fryptico em parelhas de yersos, onde se fi- 
gura uma dama aguardando, ajaezada de ri- 
quezas, o eleito, que alfim a leva á benção 
nupcial, é no livro do sr. Castro um descri- 
ptivo de côr Riais coherente, e que máo gra- 
do o preciosismo da talha, todavia se rece- 
be com uma porção de curiosidade enterne- 
cida, prevenido como se é pelo poeta, á por- 
ta do poema, de como este seja «complicadas 
decorações de legenda velha mantelando o 
pudor dos episódios simples.» 

(fDona Briolanja vai com suas aias 
Sob as côr de mosto vesperaes olayas. 

Vae com suas ais, leva fino leque, 
Cauda de velludo pallido de Utrecht. 

Leva broche aonde sangra uma espinella, 
Pende-lhe da cinta sonora escarcella. 

Leva anneis de cobre com aventurinas, 
Brincos de sueiras, manto de agnelinas. 

Dona Briolanja vae com suas aias 
Sob as côr de mosto vesperaes olayas... 

Dá a impressão de ter sido inspirado 



03 GATOS 19 

n'uma illuminura, bárbaro e ritual como el- 
la, e ressequido e ósseo sob'as pompas das 
cores e a artificiosa decoração das palavras 
dos chronicons. 

«Toda, toda branca, toda em seda branca, 
Sua cauda é lácteo tanque que se estanca. 

Vae ajoelhar-se o bi-anco par noivai 
N'uiii de rica Ihama rico sitiai. 

Gemera os psalterios, gemem as violas, 
Brilham as Casulas, brilham as Estólas. 

Ciriaes de prata luzem sobre o altar, 
Thuribulos d'oiro dançam pelo ar. 

E o Bispo arrastando sua rubra capa 
Lança aos dois esposos a benção do Papa.» 

Hemos de confessar que isto é bonito, com 
kyries de ladainha e rythmos de bailada : 
mas sem phantaslico, d'um estranho posti- 
ço e feito de propósito para enlarrecer a in- 
genuidade dos leitores, e é o que me re- 
volta ! 

Sempre porém que o sr. Eugénio de Castro 
se resolve a abandonar as esquisitices de 
glossário e as comparações de matoide em de- 
manda de celebreira, o poeta que fica é d'uma 



20 OS GATOS 

infinita graça requintada, jungindo aos mo- 
dernismos mais acres, arcaísmos cheios de 
sabor de livros velhos, velhos estofos, velhos 
baixos relevos, por onde aqui e alem bru- 
xuleia um estrosinho de cândido namorado, 
E' este, me parece, o Eugénio que registra- 
rão para a historia do preciosismo lyrico 
contemporâneo, os bibliophilos solicitos de 
minúsculo, e ahi figurará no primeiro soclo 
o nome do meu amigo, a quem os compul- 
sadores censurarão ter sido um dos mais 
incorrigiveis mistificadores da sua grei. 



Procuro depois nos livros do sr. Oliveira 
Soares, caracterislicas, siyos com que descri- 
minar a sua poesia entre as dos Castros, e 
á proporção que o leio desvanece-se-me o 
intento de o pôr em oratório como patrono 
d'uma arte original. Porque tudo nos versos 
d'elle se funde em dandysmo e artificio, e á 
parte uma estravagancia agradável de certos 
detalhes postos de propósito para o hrouhaha 
das gentes cândidas, nenhuma coisa mais ca- 
pta a minha alma, des'que a emoção estáau- 



os GATOS 21 

sente e a sinceridade é ponto controverso. 
Exame de consciência e Paraíso Perdido sâo 
as duas espécies de smoking d'uma paixão 
experimental, mandadas fazer ao talhe de 
cinla e hombros d'uma alma irónica, por um 
costureiro de certa habilidade. Opoelacor- 
lou-os, provou-os, vesliu-os, e achando que 
lhe ficavam bem. já não quer d'outros. Livros 
modelados pelos de meditações dos antigos 
ascetas, onde em vez de Jesus uma mulher, 
e cada mcditnção repetindo as lithanias an- 
teriores por oulras palavras, muitas letlras 
maiúsculas e alguma impertinência. Certa 
dama que os leu, diz lembrar-lhe Soa- 
res um rapaz que depois d'um namoro 
infeliz, ficasse tonto. E' formular a obsessão 
do poeta em forma de chasco, mas verdade 
que se não chega a fazer d'esse amor, 
por aquelles livros, uma ideia lá muito in- 
teressante. Em primeiro logar a figura da 
dama não sahe nitidamente das muitíssimas 
raridades que o poeta confusa e aristocrati- 
camente lhe atlribue. Mesmo considerando 
esse vulto apenas como synthese do femini- 
no eterno condensado, as coisas que o sr. 
Oliveira Soares divulga d'elle5 das suas mãos, 



22 OS GATOS 

dos seus vestidos, da sua belleza e da sua 
raça, são tão vagas e externas que não ha 
meio de descobrir por sob os véus da múmia 
o principio intelligente que despertou no sr. 
Oliveira Soares Ião grande amor. Ora preci- 
samente esse principio é que daria o fer- 
mento dramático do livro, não exclusivamen- 
te por si, mas nas cambiantes psychicas que 
a sua affectividade acordasse no espirito do 
cantor. Em segundo logar, des'que no Exa- 
me de consciência e Paraiso Perdido a alma 
d^ella está ausente, o poeta, esfriado da exa- 
cerbação que no homem amante causa 
sempre o farisco da mulher amada, em 
vez d'acciisar nos seus versos os ardores 
d'uma imaginação viril, ébria de vida, o que 
faz é atirar novenas para o vácuo, psalmo- 
diar misereres sobre o cadáver d'uma paro- 
dia de paixão; e n'este conjuncto de ladai- 
nhas monótonas, d'uma religiosidade chei- 
rando ainda aos desinfectantes da fronteira, 
n*este breviário da insensibilidade gommo- 
sa, travestida de levita, julgou o auclor 
ter dado a nota do irreparável moder- 
no, que desestriba o amor do «contacto 
das mucosas», tão somente admittindo nu- 



os GATOS 23 

peias d'almas, e enlevos mysticos semelhan- 
tes aos que fr. Thomé de Jesus linha pela 
Virgem, nas suas noites de monge mutila- 
do. A impressão que me produzem os ver- 
sos do sr. Oliveira Soares é a d'um discí- 
pulo do Conservatório fazendo as suas pro- 
vas de galã de joelhos aos pés d'um mane- 
quim. A dicção é lalvez elegante, a figura 
distincla, a voz de boa agua : porem a cada 
passo reflecte- se-lhe no jogo o manequim 
que elle invectiva, de sorte que não ha meio 
d'abstrahir o actor, da peça declamada. O 
catholicismo é também ou Ira mistificação 
em voga n'este grupo, e despega-se-lhe dos 
versos apenas raspada a crosta exterior. 
Frizei a insocíabilidade entre as caracterisli- 
cas dos temperamentos lillerarios contempo- 
râneos \ e nos nossos cephehbalas vemol-a 
revestir um typo d'insoluncia que é o exa- 
gero do orgulho infantil ao apropriar senti- 
mentos que não peza. De feito, não tendo 
os Ires poetas de quem fallo, signal algum 
do génio degenerativo, decorrendo-lhes a vi- 
da plácida e o ambiente iniellectivo pouco 

1 Gatos, n.° 43, pag. 20. 



24 OS GATOS 

hostil, escrevendo elles livros medíocres e 
sendo apenas uns neuraslhenicos simu- 
lados, aqnella insociabilidade não pode ser 
senão resultado do mimo, e por forma alguma 
consciência da auctoria d'uma obra incom- 
prehendida e superior. Existe n'elles, vê-se, 
determinada porém por moveis pueris ; e 
existindo, como harmonisal-a então com o 
sentimento religioso, desde que a religião é 
um sociomorpliismo cósmico, com a socia- 
bilidade por laço aglutinativo do homem ás 
forças do universo, ao universo depois, e ao 
seu principio ? 

A origem de toda a religião é o desejo ; 
sem necessidades não haveria deuzes, e co- 
mo as potencias de quem dependemos se 
chamam divindades, incluiu o artista entre 
as mais prestigiosas, a mulher. Porém a 
mulher fonte da vida, vaso das gerações, 
fecunda no riso como no amplexo — jamais 
a virgem perpetua, a solteirona recusando o 
flanco á perpetuidade das raças, symbolo 
estéril da invalidez dos seres tresviados do 
papel para que a natureza os foi formando. 
Renovar o culto mórbido dos ascetas á fê- 
mea intangivel, á fêmea insexual, mesmo 



os GATOS 25 

sob perfumarias de dandysmo e o docel 
d'um ideal d'amor transfigurado, alem de 
me parecer uma monstruosidade indigna 
de homens validos, nem sequer para o caso 
subjeito tressua o encanto da penitencia,, 
porquanto os nephelibatas do meu conto são 
gozadores da vida até á olheira, e a respeito 
de crenças, baul baul troçariam Jesus se 
elle voltasse. 

Emfim o myslicismo do sr. Oliveira Soares 
ainda podia ser um embuste sem raiz senti- 
mental n'um coração com sopros d'agonia, 
e a sua obra poética permanecer bella ape- 
zar d'isso, perfeita e plástica como um baixo 
relevo historiado ao deredord'um typo d'in- 
sensivel. Infelizmente nem esse consolo fica 
no enxoval do noivo mystico, cujos lithanias 
por vezes se estafam em circumloquios fas- 
tidiosos, e levam a excentricidade a porem 
em rima os latins do Palito métrico: 



«...Et floridas Hymnus virtutis,^ 
Cansa laetitiae Juventiitis, 
Sinas dalcissirnus salatis...» 



Pela physiologia se sabe que a lingua 
rylhmica do verso, cujo fim é exprimir emo- 



26 OS GATOS 

ções antes de ludo, lera a mesma emoção 
por causa prima. Tudo em nós se rythmisa 
sob a influencia de sentimentos dominado- 
res : rythmisa-se o gesto, rythmisa-se a vóz, 
rythmisa- se o pensamento, porque a diffu- 
são nervosa espargindo a excitação mental 
travez dos membros, confirma a lei de Tyn- 
dall e Spencer, segundo a qual toda a agi- 
tação é transformada em movimento ondula- 
tório regular. A cada estado de sensibilidade 
deve então corresponder uma vóz do espirito 
poético em acção — versos pallidos quando 
a emoção é nulla, cheios de harmonia quan- 
do o sentimento é forte e caloroso, ^ e estas 
impressões pela lei do contagio sympathico 
voam do verso, promovendo estados d'alma 
idênticos entre o poeta e o seu leitor. Nos 
versejadores fatigados ou insensíveis, a emo- 
ção que é impossivel produzir pelo senti- 
mento, tentam suppril-a por via d'excitantes 
e artifícios (o papel das especiarias nas comi- 
das sem sustancia nem tempero) e vem o caso 
dos nephelibatas explorando a ênfase, os 

1 «On pourrait definir le vers ideal: la forme qm 
md á prendre toute pensée émue.» 

M. GCTAU. 



os GATOS 27 

epilhetos eslrombolicos, as imagens archi- 
destemperadas, e a intrujice da incompre- 
hensibilidade edas letlras maiúsculas a que 
me vim referindo mais atraz. Entre estes 
apperitivos destaca principalmente a rima 
rica, já explorada pelo romantismo, e cada 
vez mais em voga para mascarar cretini- 
sações de pensamento. 

Scientificamente a rima não passa do meio 
de tornar sensível o fecho do verso ; tem na 
poesia um papel portanto limitado, embora 
poetas d'ella se valham como dos alcatruzes 
d'uma nora, para lhe sorver pelos furos a 
inspiração. Se íazendo-a exhorbilar d'esta 
medida, admiltirmos a escamoteação da 
rima rica, iremos dar a um pormenor rela- 
tivamente banal da poesia, valores que só 
podem deslumbrar ouvidos rudes, e assim 
terá retrocedido a arte, de qualro séculos, ao 
tempo em que o publico ainda physiologi- 
camente inhabil para a percepção do hiatus, 
se comprazia na repetição dos mesmos sons 
acompanhada de diíTerença de sentidos. A 
poesia ficará pois reduzida, co'a rima rica, 
como Banvilie diz, a «uma serie de harmo- 
niosos calembúrs», e calcula-se o que fica- 



28 OS GATOS 

ria d'ella abatendo da pouquíssima impor- 
tância que já tem no nosso século, a deses- 
tima em que necessariamente cahirá se os 
poetas liquidarem exclusivamunte em rima- 
dores. Por desgraça é esta a tendência qua- 
zi geral dos portuguezes, e o primeiro si- 
gnal de decomposição d'uma reviviscencia 
em que ha dez annos muitas pessoas che- 
garam a ter fé. 

Os eíTeitos depressores da rima rica, ou 
substituição da ideia por aventuras conti- 
gentes do mero encontro dos sons, esmiu- 
çar-se-hão melhor pensando no seguinte : 
!.• — nos poetas a exagerada procura da 
rima vem a tocar com o tempo as raias da 
mania, e d'esse instante não verão elles no 
verso mais que pretextos para jogos mala- 
bares. Consequências : a impossibilidade re- 
mota ou próxima de desdobrar rigorosa e lo- 
gicamente o fio do pensamento; desordens 
psychicas vedando ao artista todos as leis 
d'associação d'ideias ; dispersão das facul- 
dades creadores, perda do sentimento da 
côr e da proporção, e esgoto final por um 
processo mechanico ou glu-glu continuo de 
palavras cantantes, medeante o qual apõe- 



os GATOS 29 

sia acabará por se tornar n'uma esgalhada 
(i'estravagantes bugigangas. Oaristos, Horas, 
Exame de Consciência, Alma Posthuma, Bí- 
blia do Sonho, Só, Livro d'Aglais, etc, lo- 
dos os nfiodernos estão cheios d'eslas ape- 
lintradas lafularias, signaes de miséria es- 
tanque com que os mendigos doidos embru- 
lhados na coberta da cama julgam fazer-se 
passar por imperadores. 2." — eliminada do 
verso, pelo escamoteio da rima rica, a ex- 
pressão concisa e lapidar do pensamento, não 
só o poeta desaprende de pensar, como de 
fallar: o pensamento incha, diz Guyau, e 
distende-se o palanfrorio de verso em ver- 
so, té deparar a rima exótica que se procu- 
ra. Começam então os saltos mortaes na cor- 
da da metaphora e da periphrase, os inci- 
dentes deslocando a nitidez das linhas mães 
da composição, o relay paper do pitoresco 
em galopados d'estravagancia atravez dos 
cérebros vasios. 

A's hypertrophias de linguagem succede 
o adelgaçamento da ideia e a aniquilação 
gradual do sentimento. Poeta morto em con- 
clusão. O próprio azialismo da rima acaba 
por lhes reduzir e empobrecer o vocabula- 



30 OS GATOS 

rio, que é já por fim um moinho de musica 
trazendo ao ouvido do leitor os mesmos so- 
los. Querem exemplos ? Vão aos chamados 
poetas tropicaes, e ali encontrarão rimas de 
tal maneira uniformes, que notadas duas ou 
Ires, adevinham-se logo as outras, n'uma 
invariável successão de zig-zagues. 

Desnorteados em plena charneca árida 
d'uma arte sem ideaes, nem seivas, nem phi- 
losophia nem encanto, d'uma arte que elles 
não crearam nem sentiram, esses rapazes 
quando a consciência os saccode n'um vis- 
lumbre mais lúcido, lançando -lhes em ros- 
to a estúpida farça a que se prestam, esses 
rapazes para esconder a litubiação apodam- 
nos de bárbaros, dão-se altitudes myslerio- 
sas, chamarrados de tilulos agaçantes. Não 
tentei comprehender-me ; não me comprehen- 
derieis! E o caso é que o publico embatuca 
e não tem coragem para lhes chamar char- 
latães. 

Bem ao contrario, é n'esse momento que 
a critica porlugueza começa a achal-os re- 
volucionários e verdadeiramente criginaes. 
Veda-lhes a paralysia psychica lucidez verbal 
para um conceito ? Aos alinhaves de phra- 



os GATOS 3Í 

ses insulsas dão o nome de symbolos, e es- 
tá promptoí A verborrhragia força-os a pala- 
vrear a esmo inarticulados glus-glus de pa- 
vões vaidosos? Ghamam-se então promposa- 
mente instrumentistas, e cada uma d*estas 
incapacidades origina por seu turno um mo- 
vimento poético, que segue o seu caminho e 
fez aíieptos. Ha bestas p'ra tudol No entre- 
tanto os chefes permanecem rigidos e mitra- 
dos nas hsonjas, onde se arrastam oleosos 
e polychromos, com as puniceos mantos, os 
qnincuncios e as noivas espirituaes das suas 
almas viuvas. Teem uma coiza boa, não que- 
rem agradar, nem ser comprehendidos, e só 
escrevem versos para os raros. Alguma vèz, 
vendo a maneira como se esgatanham uns 
aos outros, como se descriminam em seitas, 
se disputam o báculo primaz do movimtnto 
poético iniciado, e a respeito de si próprios 
escrevem, com diferentes pseudonymos, gro- 
zas sem fim d'arligos laudatorios, alguma vez 
poderia parecer que elles fossem gajos sabi- 
dos na vidinha, cultivando o reclame como 
o Fonseca das cautellas; jamais nephelibalas 
isolados na nuvem, como deuzes. Mas é enga- 
no ; o que elles pretendem não é chocalhar- 



32 OS GATOS 

se á aura publica, senão conseguir que as 
suas doutrinas vinguem, chegado ao que tor- 
narão á obscuridade honestamentCc Pois que 
sobre myslicos são ao mesmo tempo mon- 
ges do silencio,cumpra-se o fado — não se íal- 
le mais na sua obra. Este irá para a torre 
do Conceito Puro, aqueíle para o tumulo gla- 
cial do seu desprezo altivo. Não tentemos com- 
prehe?idel-os, não os comprehenderiamos. Quem 
vae, vae, quem está, está. 



^ ^ 



FIALHO DALMEIDA 



OS GATOS 

publicação 
d'inquerito á vida portugueza 



N.°47 — 5deODtDÍ)rodei892 



SUMMARIO 

Corridas de toiros no Campo Pequeno: 

ESTADO DO TOUREIO NACIONAL. FaLTA DE 

toiros e falta de toureiros ; razões. o que 

rksta do antigo bandarilheiro portuguez. 

Necessidade de contractar hespanhoes parà 

TODAS as corridas, E INFLUENCIA DA ESCOLA 

HESPANHOLA SOBRE OS NOSSOS ARTISTAS. Su- 

BIDA DE NÍVEL DO TOUREIO : ABAIXO AS PEGAS, 
VIVA A SORTE d'eSPADA ! As FERRAS DE GA- 
DO, ESCOLA d'aTLETAS. MoRTE DO TOIRO CO- 
MO REMATE HERÓICO DO TOUREIO. ReDONDEL 

DO Campo Pequeno, exterior enganoso, mi- 
séria CHINFRIM DA DECORAÇÃO. PlPEL DA 

MULITDÃO nas CORRIDAS DE TOIROS. CaMA- 

rotes, mulheres e toilettes. — Se haverá uma 



n os GATOS 

REPARTIÇÃO TECHNICA E ARTÍSTICA NA CaMARA 

Municipal, e para que se lhe paga? — Como 
os frequentadores da tourada lisboeta não 

DÃO MANCHA, E NECESSIDADE DE RESTABELECER 

OS PICTORESCOS TRAJOS NACIONAES. InYASÃO 

HESPANHOLA NAS CASAS D*ESPÉCTACULO. Um 

ARTIGO FEROZ DO Imparciãi — António Viço 

NO GyMNASIO : PHYSIONOMIA do ACTOR EM VIL- 
LEGIATURA, E ARTE DE BEM REPRESENTAR SEM 

RECURSOS PHYSICOS. DRAMATURGIA PREDILECTA 

DE ViCO : O MELODRAMA HESPANHOL, ESPOLIO DO 
ROMANTISMO. — EcHEGARAY, ESCRIPTOR GENIAL 
E EMPANTURRADO. CaRACTER ORATÓRIO DA SUA 

OBRA. — Mala Raza, obra prima do theatro 

MODERNO. — Intuição dramática de Viço, es- 
crupuloso caracter das suas figuras. — A 
corte diverte-se. — Em Cintra, gralhada 

DE PEGAS SOBRE ENGANO d'uM VÍS-á-VÍS. O 

BAILE FeTRE E a FALTA DE DECORO. — CoMO O 
ADMINISTRADOR DE CaSCAES EXPULSOU QUAREN- 
TA HESPANHOLAS DOS SEUS DOMÍNIOS. AMAZO- 
NAS PORTUGUEZAS TRIUMPHANTES. AsSEDIOS 

MONARCHICOS MOTIVADOS POR AQUELLA EXPULSÃO. 
CaSCAES de LUCTO, NOITES DE THEDIO E FAL- 
TAS DE CARAMBA. PrOGNOSTICA-SE O REGRES- 
SO DAS TRONCAS EM OITO DIAS. — CoNCLUSÃO, 




Í7 de septemhro. 

A paixão das touradas acaba de soffrer 
em Lisboa uma recrudescência aguda desde 
que se inaugurou no Campo Pequeno o no- 
vo circo. Em velhos e novos crepila o phre- 
nesi d'esse velho torneio tão historicamente 
ligado aos regozijos nacionaes, e uma onda 
de sangue forle, Irúzida da consciência ar- 
dente da raça, de novo remeche no sentido 
do toureio os antigos Ímpetos viris do povo 
porliigupz. 

Embalde alguns preciosos faniquenlos,lo- 
mando por bondade d'indolf^, cachexias pas- 
sivas de caracter, embalde elles tentaram 



4 OS GATOS 

pregar a selvageria das toiradas, explicando 
o enlhusiasmo geral por ferocidade d'instin- 
ctos, e sentimentalisando o boi com litha- 
nias românticas de chóchinhas. Todas as 
almas foram surdas á mariqueria d'esses 
bóias, e ás invectivas d'elles pedindo a pro- 
hibiçâo das corridas e a prorogaçãoao toiro 
das regalias que a Carta Constitucional ga- 
rante ao homem, um desusado clamor fre- 
meu das boccas, e as trinta e sete praças de 
Portugal oncheram-se de gente, a acclamar 
fora de si toiros e toureiros. 

De sorte que o veredicto publico está pro- 
nunciado, e a corrente avoluma-se, inutili- 
sando despedaçadoramente as ultimas bar- 
reiras. () povo portuguez dispensa escolas, 
jardins d'acclimação, industrias d'arte, go* 
vernos sábios e géneros baratos ; não está 
porém resolvido a privar-se de toiradas, e 
haverão que fazer-lhe a vontade, e que aper- 
feiçoar quanto pos?ivel o exercício do único 
^ort que lhe faz bater o coração. 

Assente pois que os toiros sejam a diver- 
são que mais ebulliciona o sangue peninsu- 
lar, e que todas as tentativas de substituil-a 
ou attenual-a tenham de resvalar na violen- 



os GATOS 5 

cia dos apupos, vejamos um pouco o estado 
actual do toureio poituguez. E' deplorável, 
no respeitante a toiros e a toureiros. Pro- 
priamente toiros, quasi que não existem no 
paiz, onde nos últimos sessenta annos a rez 
brava tem amoUecido quasi tão depressa 
como o homem. 

Alguma que aindr nos nossos circos, ar- 
ranca, fal-o por favor especial ao nosso Bo- 
tas, mas em arremedo apenas, e logo pedindo 
desculpa ao toureador, se o oíTendeu. Todas 
as formuzuras do antigo toiro indomável, da 
fera clássica, insensivel ao cança»;o, magni- 
fica de chispa, veloz como o relâmpago, cor- 
pulenta 6 bufando a fúria em primorosissi- 
mas investidas : lodos os altributos antigos 
do boi estampa, fixando a musculatura, a li- 
geireza, a synieiria lyrica dos cornos, a ana- 
tomia do pé e a elasticidade do espinhaço, 
hoje estão regressando á fealdade palurdia 
das raças domesticadas, ao burguczismo 
chato do boi servil, do boi de charrua, com 
ideias conservadoras, educado no collegio de 
Campolide, irresoluto, esbofante, que acceita 
a farpa parado, e finge de terrivel raspando 
com a ponta da sapata o chão da arena. 



6 OS GATOS 

As causas d'cste abastardamento, são diver- 
sas, e entre as principaes deve contar-se a 
estupidez do ganadeiro, que pouco a pouco 
destruiu a selecção natural pela mistura de 
sangues conspurcados, e baixou o toiro a 
pastagens atravessadas por muita gente, fa- 
miliarisando desfarte a rez com o homem. 
e amollecendo portanto aquella para a lide, 
Pelo que respeita a toureiros, aparte al- 
guns novos, de cavallo, o resto são curiosos 
sem experiência nem vocação para o tras- 
leio, princípios d'artista esticados pela li- 
sonja na monotonia dos primeiros passes, 
ou esqueletos d'antigas mediocridades arvo- 
radas em glorias da arena por mercê da 
ignorância dos modernos. A esta lazeira das 
quadrilhas se attribuirá t.imbem o abastar- 
damento dos bois bravos, porque os maus 
toureiros por via de regra são poltrões, e por 
força hão-de preferir a bichos indomáveis, 
os anemicos boisinhos de cartão que por to- 
das as nossas praças temos visto. Porém, 
não contentes de serem poucos e maus, inda 
por cima os toureiros portuguezes por ahi 
andam, á semelhança dos actores, desempar- 
ceirados e dispersos. As praças da provin- 



os GATOS 7 

€Ía absorvem muitos que por falta d'uma 
contrastaria critica intransigente, breve se 
viciam e assapateiram, desviando-se das no- 
bres prescripções do jugo puro, e trocando 
na arena os dictames de Frascuelo eLagar- 
lijo, pela tauromachia grotesca do pae Pau- 
lino. Outros, sem coragem para cortar com 
os preconceitos sociaes que põem o toureiro 
d'officio n'uma meia ralé pouco estimável, 
jogam de porta com a arte tauromachica, 
pousando toda a vida em amadores por ob- 
sequio, e evitando as responsabilidades do 
cargo por uma espécie de dilettantismo que 
nem lhes dá gloria, nem proveito, nem tão 
pouco socialmente os cota mais acima. E 
assim chegámos a não poder formar para o 
Campo Pequeno uma genuína quadrilha 
portugueza, d'algum fôlego, e nos arriscare- 
mos a ver amanhã, como no theatro, a arte 
nacional expirando sem herdeiros, ligitimos 
ou bastardos, e as praças fechadas á mingua 
d'artistas, parallelamente ao já terem de fe- 
char por não haver ganadeiros conscencio- 
sos. 



os GATOS 



Entretanto não se deixe morrer por falta 
d*artistas a paixão toural dos portuguezes; 
se não houver nacionaes, venham de Hes- 
panha ; se as mediocridades de cá teimarem 
em nada fazer de progressivo, a critica im- 
parcial favorise a pauta lauromachica, e abra 
a barreira aos estrangeiros illustres que pos- 
sam e devam vir a Portugal fazer escola. 
Desde que o publico paga sem regatear os 
bons espectáculos, ás emprezas compete of- 
ferecer-lh'GS na allura de darem brado, e de 
o deixarem fremente d'emoção. A eífectivi- 
dade de quadrilhas hespanholas na nossa 
arena não pôde senão redundar em vanta- 
gens impagáveis, como sejam: i.' — fazer 
ganaderias, porque sendo a emoção do tou- 
reio producto de dois factores, toiro e tou- 
reiro, o facto de ser magnifico esle, consti- 
tuirá os donos d'aquelle no firman de lhe 
crear reputação equivalente. 2/ — fazer tou- 
reiros, pela aprendizagem quotidiana e me- 
ihodica, pelos estímulos do orgulho antago- 
nista, e mais que lado per esse instincto 
d'imitação sagaz dos portuguezes, ao qual 



os GATOS 9 

devemos quasi toda a nossa vida artislica e 
industrial. 3.° — apurar o gosto das praças, 
elevando-lhes o critério, lornando-as intran- 
sigentes para todas as espécies de palhaça- 
das^, e fornecendo enfi geral ao publico, para 
a grande festa nacional, uma educação, co- 
mo dizer? mais scienlifica. 

Duvido mesmo já que os afficionados do 
Campo Pequeno, pela maioria exigentes e 
sabedores da tecímica taurina, se achem 
dispostos a tolerar espectáculos só com por- 
tuguezes, e viverá pouco quem não chegar 
a vêr d'aquelle redondel não só expungidos 
os maus artistas, como também ampliadas 
e refeitas por completo as corridas de tou- 
ros, que entre nós são ainda um espectáculo 
branco e sem calastrophes. O que eu peço, 
e todos apoiam de certo, é que as auctori- 
dades consintam em collaborar com as em- 
prezas na subida de nivcl das touradas, em 
termos de n'esse deslumbrante jogo he- 

• o boi para curiosos, os intermédios cómicos com 
pretos, macacos, « bois que depois de corridos vem co- 
mer á mão dos donos, todas estas exibições carnava- 
lescas que deshonram o torneio, devem ser riscadas dos 
regulamentos taurumachicos, e interdictas pela au- 
etoridade até nos mais recônditos cerca dos de provinda. 



10 os GATOS 

roico se accumular a maior porção d*eslhe- 
lica, com a menor somma possível de perigo. 

Para se conseguir um tal desideratum, 
proporiaeu na tourada portugueza a suppres- 
são das pegas, e a immediata adopção da 
morle do toiro em pleno circo. Para mim o 
que ha nas nossas corridas d'estupido e 
alarmante, é a pega. Não lhe diviso arte, 
não lhe descubro vantagens, nem saberia 
jamais juslificar o enlhusiasmo da multidão 
por semelhante estupidez. 

Se os moços de forcado para cada corrida 
variassem, disputando-se os logares para 
contraprovas publicas de força physica, lá 
se justificariam os applausos pelas pegas 
como um signal de nação valente, sagrando 
no terreiro os seus atletas. 

Sob este ponto de vista quasi me sinto 
posto a desculpal-as nas ferras de gado, 
porque ahi éa adolescência da aldeia luctan- 
do toda com a adolescência das boiadas; e 
assim as ferras tornam-se em grandes re- 
vistas de força muscular, certamens de pul- 
so e corno, d'onde o atletismo humano sae 
radioso, entre as fremencias da justa e a 
olympica vaidade de se ter sobrepujado a 



os GATOS 11 

fera, symbolica para o homem da natureza 
hostil que o circumtnrna. Mas na praça de 
toiros, tal não succede. Os moços de for- 
cado são sempre os mesmos, homens tira- 
dos das suas occupações de campo ou de 
cidad-", mais ou menos alcoólicos, trocando 
o ramerrâo do trabalho manso por uma vida 
de boleus que ameiaedade osmalad'aneu- 
risma, sem que pelo exemplo das suas proe- 
zas elles estimulem algucm ao cultivo da 
força e aos livres actos de bravura e de co- 
ragem. 

Entre a brutalidade inútil das nossas pe- 
gas, e a immunda ferocidade dos cavallos 
extirpados nas praças de Hespanha, franca- 
mente não sei qual demonstre maior selva- 
geria, pois entre nós a qualidade das victi- 
mas compensa quasi n quanlidade das dos 
nossos visinhos e cunhados. Quanto á morte 
do toiro, é uma cousa absolutamente indis- 
pensável no grande toureio d'uma nação pe- 
ninsular. Abater a fera, eis o complemento 
d'essa lucta cyclopica com o homem, o ul- 
timo quadro da tragedia onde o tyranno ne- 
gro esperece ás mãos do galã bordado a oi- 
ro, d'espada alta, e apotheotico como o ar- 



12 OS GATOS 

chanjo Miguel sobre o diabo. Lisongeia o 
orgulho, aquece os nervos, acordando os 
instinctos d'acção pelo correr do sangue e o 
espectáculo spasrnico da agonia. 

Oh, é supremo I Todos os particulares do 
toureio tendem a elle, evohitivamente, em 
successivas cadencias d'arte e agilidade. Cor- 
rer toiros sem morte é como vencer uma ba- 
talha sem as honras do Iriumpho: o vence- 
dor não exaltado, facilmente se confunde 
co'o vencido, e esta nobre scena de desfor- 
ço que os moleirões dos legistas vão aba- 
tendo no homem, a pretexto de civihsal-o, 
esta necessidade instante de \encer que em 
nós existe, e de que a corrida de toiros é a 
figuração peninsular mais altaneira, nada a 
intensifica melhor que a rez tombando, com 
a lingua traçada, aos pés de Guerrita im- 
movel, todo nas pernas, em selim escarlate, 
bello da deslumbrancia conlractil do anda- 
luz no cheiro do sangue, e com a mão di- 
reita inda erguida, da estocada mortal que 
acaba de vibrar. 

Pela prohibição formal das pegas e na- 
cionalisação da sorte d'espada, a corrida de 
touros portugueza, com os elementos nali- 



os GATOS 13 

VOS e tradiccionaes que já possue — as suas 
sumptuosíssimas cortezias, o Irasteio de ca- 
Tallo, a faina de capote ebandarilhas, — ter- 
se-ha tornado na mais augusta, na mais des- 
lumbrante ena mais grandiosa phantasia he* 
roica que povo algum da terra, depois do 
circo romano, inda creou ; e esse assom- 
broso espectáculo não terá a manchal-o uma 
particula só de barbaria, será antes um com- 
pósito d'audacias e finezas estheticas, viril e 
entretanto requintado, decorativo e dramáti- 
co como nenhuma opera, e arrebatador té ao 
paroxismo em que a perversidadehumanaes- 
tonteia como um phillro, — sem traz de si dei- 
xar manchas de crime ou soíTrimento, 



Tudo está por fazer, repito ainda, e se 
para o terreiro normal do Campo Pequeno 
faltam artistas e bois do lypo inpeccavel, tão 
pouco as pretenções ornamentae$ d'aquella 
praça, e o aCBcionamento toural dos espe- 
ctadores, estão á altura da supremacia orgu- 
lhosa que conviria dar ás corridas de touros 
da capital. Por emquanto o redondel do Cam- 



U os GATOS 

po Pequeno só exteriormente impõe certa 
grandeza, e essa mesma arremedada ao es- 
tylo macaco-arabe dos nossos amigos hespa- 
nhoes. Por dentro é a miséria exigua e pe- 
lintra dos janotas de fato rico e de tripa va- 
sia, que a gente vê porhi palitando os den- 
•es depois de terem bebido um copo d'agua. 
Porque ainda que o drama taurino seja por 
si só um espectáculo etnpolgante, é incon- 
testável que a multidão tem no conjuncto 
um dos papeis mais salientes. E' ella o di- 
zeur da peça : necessário então se faz pôl-a 
era evidencia, e Irajal-a com o pictoresco 
que a sua verve requer á luz da rampa. Ora 
no Campo Pequeno o espectador não tem 
destaque, a praça come-o, reílue-o bisonha- 
mente para o interior de cacifros d'eslabulo, 
agglomera-o em pinhas incommodas oníle os 
joelhos d'uns se enterram pelas costas dos 
outros, e qualquer gesto mais vivo diverge 
em sccco, pela compressão transversal, no 
epigastro do parceiro que fica ao lado. A'parte 
oslogares de bancada, os mais baratos e os 
melhores de todo o circo, o resto ê uma ver- 
dadeira peste, que nem deixa desfructar des- 
embaraçadamente o panorama, nem prepara 



os GATOS 15 

tam pouco na mancha geral da enchente, 
pontos de côr onde a pupilia se detenha. A' 
pobreza verdadeiramente pulha da imagina- 
ção que repartiu os logares, e pôz o risco 
geral do amphitheatro, acresce ainda a por- 
caria infame dos materiaes decorativos, a 
absoluta carência de gosto, e a estupidez 
compacta ressumbrante de cada promenor. 
Logo á primeira vista, as altíssimas mu- 
ralhas da praça, nuas e inúteis, dão a im- 
pressão d'irmos vêr correr toiros dentro d'um 
poço, e pergunta-se se aquella altura cyclo- 
pica que deixa ás duas ordens de camaro- 
tes, por fundo, grandes supeiGcies verlicaes 
impossiveis de decorar, terá por fim prohi- 
bir as entradas de borla até aos próprios 
passarinhos. Os camarotes, onde é de sup- 
por se instalem de preferencia as mulheres, 
centro borboleante de todos os espectáculos, 
e facha de resistência pois de toda a belleza 
e de toda a côr, os camarotes que com a 
polychromia dos vestidos, o passarinhar dos 
leques, o rufiar das plumas e das fitas, a 
impaciência dos gestos eo frenesi espiritual 
dos focinhitos, deveriam ser como o arco iris 
do amphitheatro, e avançar sobre a arena. 



1« os GATOS 

abrazando inda mais o toureio de tons ar- 
dentes — os camarotes pôl-os o architecío á 
sombra d'uma reles coliimnata de gare po- 
bre, delgadinha, anemica, em ferro fundido, 
semcapiíeis nem bases historiadas, sepa- 
rando-os por baias de cavallariça, e pondo- 
Ihes um balcão de quarto andar na diantei- 
ra. E' verdadeiramente não ler faro nenhum 
da distribuição compósita d'uma grande ca- 
sa d'espectaculol A tribuna real deveria ser 
por outro lado o centro de symetria artisli- 
ca da praça, o remate decorativo a cujas 
pontas viessem prender-se as duas ordens 
de camarotes. Pois viram o que o architecto 
d'ella fez no Campo Pequeno : uma espécie 
de gaiola ou tronco de ferrador com des- 
vãos lateraes onde mal pode installar-se uma 
creança, fasqueados de trapeira no tecto, 
papel de casa de hospedes, e columnatas e 
rendinhas de ferro fundido no estylo muni- 
cipal dos kiosques de verter aguas. 

E' pifio, é indecente. Os toiros são o úni- 
co espectáculo alegre do paiz, o único onde 
o portuguez tem graça, e onde os seus ins- 
tinctos satyricos, tomando forma d'insectos, 
por toda aparte vão mordendo os cachaços 



) 
\ 



os GATOS 17 

do ridículo, entre rizadas e bromas de ca- 
hir. E' necessário por consequência não lhe 
tirar esse caracter jovial, e bem ao contrario 
fazer a alegria reflorir não só do aspecto ge- 
ral do amphitheatro, como dos mais peque- 
ninos valores da decoração. 

Architeclura, pintura, desinvolução con- 
cêntrica de bancadas, etc, tudo deve ten- 
der a sublinhar o espectador, accnmulando 
de roda d'elle colorações alegres, formas fle- 
xuosas, magnificência e luz em jorros hilla- 
riantes. R onde esiá isso no miserável redil 
do Campo Pequeno? O corrimão por exem- 
plo da trincheira falsa, em vez de ser feito 
por uma balaustrada de mármore, é um po- 
bre fio enfiado em supporles de ferro mal 
batido; nas escadarias e patamares dos se- 
ctores não ha logar para um vaso ou uma 
estatua ; os fauttuih, que são dos logares 
mais caros, alem d'incommodos e duros, 
quazi não deixam fazer ao espectador ura 
movimento. Eu não sei bem até que pontoa 
auctoridade interfere no risco dos monu- 
mentos levantados pelo dinheiro particular. 
Deve existir talvez na Gamara uma reparti- 
ção aferidora não só das condições de se- 



18 OS GATOS 

gurança, como lambem do gosto artístico. Que 
essa repartição technica descura constante- 
mente os seus deveres, permittindo que nas 
melhores ruas de Lisboa se levantem bar- 
racas ignóbeis, torres de dez andares en- 
casquetadas de trapeiras, três e quatro se- 
ries, ás cavallitas umas nas outras, não 
causa espanto: é coqueluche velha, e burro 
matreiro não tem emenda. Agora estender 
esse desleixo a construcções da importância 
do circo tauromachico, eis o que não pode 
passar sem protesto violentol O municipio de 
Lisboa necessita de reformar pela base a sua 
engenheria, que é do século passado, e á 
hora presente, alem de bastante cara, con- 
tinua a fazer da capital um aldeão. 



Outra coisa nos falia nas touradas, a toi- 
letíe, e mais apparelhos accessorios d'esta 
ordem d'espectaculos. Se o portuguez está 
vinculado ás loiradas por uma ininterrupta 
tradição de muitos séculos, onde collaborá- 
mos todos, reis, ^ fidalgos, povo, saltando á 

1 Desde a dynastia d'Aviz que a arte de picar toiros 



os GATOS 19 

praça 'a lidar rezes selvagens, se a corrida 
de loiros é Gnal mente a grande festa, por- 
que a não honraremos vestindo rigorosa- 
mente para elia o noFSO bello trajo nacional ? 

Que melhor occasião para resiiscilar o 
costume que tão deslumbrantemente fica ao 
portuguez? jaqueta justa ao tronco, larga- 
mente debruada e com alamares de seda 
pingando passamanerias caprichosas — cinta 
vermelha ou azul, tonkin ou lã, cingindo 
ventre e tronco, alê ao sterno, seus ca- 
dilhos pendentes sobre a anca — a calça 
d'alçapão, cerce na perna, modelando a 
musculatura e terminando em pata d'ele- 
fante — e sapato de prateleira emfim, ca- 
misa molle com botões de cadeia, gravata 
de côr viva, em nó corredio, e chapéu largo? 

Não se pressente logo como o aspecto do 



vem cultivada com phrenesi pelos filhos das mais illus- 
tres casas do paiz. O senhor rei D. Sebastião, o aus- 
tero, o casto 6 esbrazeado raata-mouros que dizia phra- 
ses carnívoras junto dos túmulos d'Affonso Henriques 
e João II, n'uma viagem que fez d'Evora para Faro, 
com tornada do Algarve até ao paço de D. Constantino 
de Bragança, em Villa Viçosa, assistiu e tomou parte 
em cerca de trinta e oito touradas, d'envolta com bo- 
bos e gentishomens da corte, chegando a matar de ca- 
vallo, com o rojão, algumas feras. 



20 OS GATOS 

circo mudaria, e como essa turba-muha sem 
palria que o atulha, logo tomava caractere 
expressão regional ligada á diversão? Com 
as mulheres, o mesmo rigor severo e abso- 
luto. Ir a uma tourada, de chapéu, importa 
a mesma quebra d'elegancia do que entrar 
D*uma soirée com sapatos de praia, em coi- 
ro cru. Tão pouco quadram os estofos som- 
brios a esse ar de desenvoltura e expansão 
juvenis, subentendidos na ideia da tourada. 
Quem está triste vae para a egreja; quem 
já se sente velha, fica em casa. Vestidos le- 
ves, hillariantes, pintalgados de coisas d'a- 
guarella; fichus de gaze com grandes flores 
de retroz na cercadura ; cabeças leves, em 
penteados deixando a nuca livre, e com um 
molho de cravos ou geraneos por cocard ; 
mangas Tosca, pufando largamente até ao 
cotovello, e d'ahi para baixo cingindo o an- 
tebraço, o punho, para colarem-se depois em 
milene Recamier, até ao meio da mão : tudo 
isto dictado n'um estylo pessoal, não pelas 
modistas, mas pelas próprias clientes, a sa- 
bor do tom mais condizente ao seu género 
de belleza, nuances de cabello e grão de 
pelle... Encham a praça d'espectadores ves- 



os GATOS 21 

tindo á porlugueza, ponham nos camarotes 
mulheres de claro, com sombrinhas de ren- 
da, os chalés de selim colgando vivamente 
a amura dos balcões, e transformado lerão 
por uma forma hillarianle e imprevista 
áquella pobre praça de toiros, mazombia, 
soturna, onde o elemenio femenino é rele- 
gado para a sombra, onde as madamas vão 
com fatos de pezame, e o publico em geral, 
vestido de cinzento, a côr dos ursos, a ca- 
beça encapsulada em cocos cosmopolitas, 
lembra uma garrafeira com um ou outro 
gargallo a espumar gazosa, em vez de Cham- 
pagne fino. 



iS de septembro. 

Quasi todas as nossas casas d'espectacu- 
lo, actualmente funcionantes, estiveram oc- 
cupadas durante os mezes de verão por ar- 
tistas hespanhoes — António Viço no Gym- 
nasio ; a companhia infantil no Coiyseu; 
MazanlinijCara-Ancha, Guerrila, Espartero 
e Angelo Pastor no Campo Pequeno... Fre- 
quência abundantissima, honorários á farla> 



22 OS GATOS 

e em toda a linha as ovações mais calorosas. 

Tanto montou para o Imparcial de Ma- 
drid garantir aos seus leitores que a histo- 
ria do segundo premio de Badajoz pozera 
os porlugnezes n'uma fúria perigosissima 
contra os hespanhoes que se aventurassem, 
desarmados, a vir passar algum tempo ás 
nossas praias. 

Claro que não sendo a parvoice previle- 
gio especial dos plumitivos da nossa pátria, 
o artigo do Imparcial em nada altera a re- 
ciprocidade de sympathia artística dos dois 
povos, devendo talvez attribuir-se a desforra 
d'a]gum caballero madrileno a banhos na 
Figueira, a quem o proprietário do hotel rou- 
bou talvez na conta. Não sendo portanto fino 
generalisar a um reino as galleguices banaes 
d'um malcreado, voltemos costas ao caso, e 
vejamos um pouco as artes de Madrid, no 
ponto aliaz circumscripto do grande actor 
que ao Gymnasio veio representar. 

António Viço, que actualmente conta cin- 
coentae quatro annos, cincoenta e quatro fi- 
lhos, e cincoentae quatro rouquidões, hoje é 
apenas um phantasma d'actor leonino, da 
grande raça empolgante que o romantismo 



os GATOS 23 

fez no mundo inteiro. Na rua despersuade por 
completo a estatura magnifica que se soube 
fazer sobre o tablado. E' um homem balofo, 
mortiço, barrigudo, d'olhar exlinclo, perfil 
inexpressivo, andando em passinhos dúbios, 
com uma expressão clerical de cocheiro de 
casa rica, n'essa apathiad'animal noctivago 
que só o gaz revivesce, e a nevrose da scena 
consegue accordar do seu turpor. Pela con- 
versa molle, pelo longínquo ar da attenção er- 
rante em paizes de chimera, pela familiari- 
dade exterior do tracto bom rapaz, dá o ty- 
po usual do comediante no apogeu, do ho- 
mem celebre representando a eterna farça 
da modéstia melanchohca, que radica pela 
bondade as admirações da galeria, e facilita 
aos triumphos o caminho mimoso da aíTei- 
ção. 

Este conhecimento pratico da vida, jun- 
gido ao que uma analyse minuciosa lhe apu- 
ra do jogo scenico, breve permite reconsti- 
tuir em António Viço um actor onde a ex- 
periência collaborapor egual com o talento, 
para a intensíssima impressão que elle pro- 
duz. O que sobretudo ha n'este artista d'ex- 
cellente, é que sendo elle ao mesmo tempo 



24 OS GATOS 

um hespanhol e um incarnador de drama- 
turgias românticas, haja conseguido á força 
d'esludo permanecer em scena, natural, de 
todos os tempos — como hespanhol e como 
actor. António Viço que ao cabo de vinte e 
e cinco annos de palco doma perfeitamente 
os escolhos da scena, acha-se hoje n'esse 
principio da ruína em que a natureza torce 
as voltas ao homem, quando a sciencia e a 
arte tinham precisamente acabado de lhe dar 
a ultima demão. D'aqui uma porção do cu- 
rioso prazer de o ver representar guiando o 
papel por caminhos onde os seus recursos 
naturaes se esfalfem menos, apropriando a 
vehemencia té onde a sua curta respiração 
de cardíaco lhe não corte a expressão por 
um accesso de tosse ou uma falha de laryn- 
ge, substituindo muita vez o grito pelo ges- 
to, completando a palavra comida pelo olhar 
— n'uma palavra, compondo os lypos com 
promenores tão subtis d'intelligencia, com 
uma energia tal de personalidade, que afinal 
lhe fazem perdoar o já não possuir em scena 
juventude, desinvolturas de sangue, audácia 
de recursos, as primeiras condições d*irre- 
sistibilidade do actor especialisado, como 



os GATOS 25 

Lemailre diz, nos papeis de jeune prémier, 
Apezar porem do talento grave que o do- 
mina, e da experimentada certeza que lhe 
honestisa tudo quanto faz, a escala de crea- 
ções de Viço é, como a da maior parle dos 
adores, mui limitada, e n'esía mesmo cam- 
biantes ha de que elle só pallidamenle at- 
tinge a trama interior. Além d'isso a litte- 
ratura que o fez, nem sempre vem ca- 
lafriada do grande sopro: muitas das peças 
do seu reportório escreveu-as o pantafaçudo 
Echegaray para no actor sublinhar alguns 
recursos d'excepção... reproducções de sce- 
nas de morte, narrativas estridentes de tom 
épico, ou então desenlaces dramáticos á 
hespanhola, venho a dizer com pouca lógi- 
ca, rethorica estridente, e apropriações mo- 
raes algo pedantes. 

Sob este ponto de vista não temos senão 
a censurar o artista, de tão má impressão 
nos haver deixado sobre a lilteralura dra- 
mática do seu paiz. MalaRaza aparte, e um 
ou outro acto destroncado aquie além, tudo 
o mais no reportório de Viço rescendia ao 
melodrama para espavorir collegiaes, ao me- 
lodrama onde os personagens marcham pelo 



26 OS GATOS 

caminho da catastrophe, um pouco em ca- 
bra-cega, e sem saberem onde aquillo tudo 
irá parar. 

Uma tal lilteralura, ainda preponderante 
em Hespanha, aoqueparece, mercê das pre- 
dilecções oratórias do hespanhol, deve-se 
considerar liquidação do romantismo, im- 
mobilisada pelo orgulho d'esse povo inimi- 
go figadal de toda a civilisação iniciada 
pelos outros, patriota até á tolice, e muito 
mais imbuído do quo nós nas prosapias do 
seu antigo predomio universal. Certo, a dra- 
maturgia moderna inda por muito tempo se- 
rá romântica. O realismo, quazi morto no 
romance, só conseguiu dar no theatro frias 
comedias d'analyse e de salyra, e este ou 
aquelle arreglo dramático sem sabor, sendo 
natural que as suas tentativas fiquem por 
ahi. Entanto comprehender-se-iano theatro 
um romantismo modernisado, servido por 
todas as subtis acquisições do pensamento 
contemporâneo, verosimile lógico, qualquer 
que seja o mundo em que se passe; jamais 
o romantismo á Radcliffe, enphatico, monó- 
tono, em ladainhadas lúgubres, jogando com 
punhaes de folha e bexigas de porco, defor- 



os GATOS 27 

mando a estructura dos caracteres e o ry- 
thmo da vida, e mesmo pelo lado da forma 
litteraria, baixando a arte ;i uma vacuidade 
imaginativa de malucos. Foi esta a impres- 
são que me ficou da mor parte dos dramas 
d'Echegaray que ouvi no Gymnasin : iheses 
sem realidade, situações sem coherencia, 
magnificas phrases sem maior rigor do pen- 
samento, e aparte alguns momentos de gé- 
nio, uma aridez d'interesse até á fadiga do- 
lorosa. E' negar ao chefe dos dramaturgos 
hespanhoes contemperaneos, valor corres- 
pondente ao delirante enthusiasmo com que 
as platéas visinhas o recebem? 

Por certo não. O talento fogoso d'E(-he- 
garay marca no ceu hespanhol uma orbita 
fulgente, mas salvo uma ou outra peça, é 
necessário para lhe vibrar da obra empha- 
tica, ser castelhano de nação. Todos os ac- 
tores hespanhoes que ouvi no Gymnasio 
se resentem doesse exagero de corda, e teem, 
para manter o diapasão d'essa lilleratura 
castelariana, de por vezes deformar-se em 
inverosimise plangentes griíadores. O úni- 
co que resiste é António Viço, á uma por- 
que os annos lhe quebraram a fogosidade 



28 OS GATOS 

indómita dos collegas, á outra porque a sua 
experiência e iaiento scenicos sabem já cor- 
rigir admiravelmente pelo trabalho do ac- 
tor, as epilépticas rajadas do seu dramatur- 
go predilecto. N'aquellas selvas de meta- 
phoras scintillanles e de situações parado- 
xaes sem profundeza, sakespereanas por fo- 
ra, Viço intercala rasgos d'uma intuição sa- 
gaz do trágico moderno, pedaços de com- 
posição psychologica escrupulosamente fun- 
didos gota a gota, ante os quaes o especta- 
dor consciencioso lamenta que esse occaso 
d'artista não tenha empregado o calor dos 
seus últimos raios a illuminar só figuras 
d'obras primas. Quem uma vez o ouviu na 
Mala Baza, incondicionalmente admira uma 
das mais completas organisações d'actor dra- 
mático que ultimamente teem vindo a Por- 
tugal. 



25 íie sepiembro. 

A corte villegia e balneia nos remanços 
de Cintra e de Cascaes, d'onde me chegam 
rumores das suas mais recentes aventuras. O 



os GATOS 29 

baile da rainha sogra, na sala das pegas do 
paço de Cintra, trouxe o incidente do mi- 
nistro da marinha tirar para par, vis-a-vis 
do rei, em vez d'nma dama da rainha, como 
a pragmática ordenava, certa outra que por 
tal honra pareceu excepcionalmente favore- 
cida do ministério, desandando as pegas da 
sala logo a fallazarem do caso, a invectivar 
a moral, e a chamarem escândalo ao que 
afinal não passou d'um simples engano de 
contradanças, quasi vulgar em reuniões on- 
de os ministros não vêem bem, e a multidão 
por outro lado quer vêr — de mais. A'illustre 
e indignada senhora que nos escreve a pe- 
dir cautério pr'o incidente, opinarei não ser 
elle de trama a fazer cahir a dynastia 
ou adeantar a putrefacção da sociedade. 
Mudar a dama é muito menos inoffensivo do 
que fazer cerco ao rei, e por Cascaes; ao 
que se diz, ha quem lhe faça um cerco fu- 
rioso. Tudo isto são minuscularias arranja- 
das ao sabor da maledicência de quem não 
tem mais nada que fazer. Peor caracter teve 
o baile da embaixatriz d'Inglaterra, e toda- 
via aristo algum, á hora do convite, sequiz 
lembrar do ullimatum. Hemos nós d'exigir 



30 OS GATOS 

enlão que a austeridade de porte seja elás- 
tica, e só lome caracter grave quando os 
ministros se enganam na collocação dos 
vis-á-vis ? 

A guerra de Cascaes foi também outro 
episodio galante da quinzena. A requeri- 
mento do cônsul d'Hespanha foram expulsas 
de Cascaes umas trinta ou quarenta Irongas 
hespanholas, que para lá tinham ido ás so- 
bras da genlilhomeria equestre e pedestre, e 
que pelos modos, em amazonas intrépidas, 
não contentes com terem tomado posse da 
villa, já começavam a refilar osgatazios para 
se apoderarem também da cidadella... Não 
pareceu isto bem ás amazonas poríuguezas, 
que escudadas na moral,e cônscias da priori- 
dade que o principio da naturalisação deve 
trazer á offerta, coagiram o administrador 
do concelho a pôr fora de concurso as sale- 
rosas, sob pretexto de não serem damas 
comme il faiií, e não se precisar lá de cas- 
telhanas para tomar castellos ás... francezas. 
Ahi vem pois, caminho do exilio, essas re- 
voluccionarias da alta escola, n'um esfusiar 
de carambas e outros gritos de guerra 
madrilenos, com os chapéus de pluma, ás 



os GATOS 31 

tres pancadas, as sobrancelha a despegar, 
meias cabidas, pernas de vêr a Deus dentro 
das malas, furiosissimas, rogando pragas, e 
propositando adberir ao manifesto republi- 
cano para dar nas instiluições, o golpe mes- 
tre. E' muilo grave, e d'aqui apontamos a 
insurreição da Antónia ás Novidades, por 
que a denuncie ao governo com flamulencia 
superior á que usa empregar para as as- 
sembléas secretas dos sargentos. 

Entretanto sou a dizer que a ordem d'ex- 
pulsão senão manterá em Gascaes por mui- 
lo tempo. Por todos os motivos. Primeiro, 
ella retirou de Gascaes a alegria das noites, 
quando depois de ceia e antes da balota, á 
rapaziada occorre fazer sobre a areia da 
praia, um pouco de sexo. Segundo, ás pró- 
prias senhoras faz falta a caslelhanada d'es- 
sas desbocadas raparigas, que vindas dos 
prosíibulos médios de Madrid e das fabri- 
cas de tabacos de Sevilha, em pouco tempo 
acham meio de na boa roda, por intermédio 
dos cavalheiros, interferir um pouco na so- 
ciedade intima das madamas. b'aqui a oito 
dias, quando Gascaes, tornada á piíysiono- 
mià pot-au-feu que S. M. a rainha Amélia 



32 OS GATOS 

intenta dar-lhe, reconhecer como para as 
raças ociosas évasia a vida honesta, eisem- 
ptos d'aroína os beijos permillidos ; quando 
homens e mulheres, fartos de thalamo, co- 
meçaram a desejar freneticamente uns extra, 
ás escondidas, mesmo que a auctoridade seja 
inílexivel e os propósitos da soberana no- 
bilissimos, mesmo que caia o ceu e o terra- 
moto engula o mundo inteiro, não haverá 
meio de desviar de Gascaeso turbilhão ma- 
gnético do deboche, gémeo da ociosidade e 
annulador benemérito de todas as predile- 
ções humanas destreladas dos rails physio- 
lógicos. Enião, ainda que se levantem as 
pedras, o administrador achará meio de 
readmittir o alegre bando de nereidas ; S. 
A. o duque d'Orleans chegará a Cascaes 
subitamente, e a villa cobrir-se-ha de col- 
chas e arcos de triumpho, levantados pelos 
mais estapafúrdios sócios do Sporting, ha- 
vendo comboios expressos, vivas á Hespa- 
nha e ao direito divino, e uma hespanhola 
até, sorteada pela loteria da Misericórdia, o 
que é o meio d^interessar todos no regabofe 
que o descaramento e o dinheiro só folga- 
damente permittem a dúzia e meia. 



FIALHO D'ALMEIDA. 



os GATOS 



PUBLICAÇÃO 
D'iNQUERITO i VIDA POETDGUEZA 



r48 — 20deOutQbrodel892 



SUMMARIO 

Pequena romaria á fabrica de fayança de 

BORDALLO, NAS CaLDAS DA lUlNHA. EsTADO 

da fabrica e forque se não diz da l^uçaria. 
— Aesculptura de Oordallo : talha manue- 
lina E DESCRIPÇÃO minuciosa d'eSTA PEÇA. 

Ornatos do galbo, motivos gothicos e pisca- 
tórios QUE o CIRCUNTORNAM. — De GOMO O 

gargallo é um vaso de partículas, lam- 
boyante. — Analyse racional d'uma obra 
decorativa, regras de harmonia entre a 
forma e o motivo ornamental. — Vaso grego 



II os GATOS 

E ADORNOS MEDIEVAES, SUA AUSÊNCIA DE LÓGICA 
E INCONGRUÊNCIAS, — TrABALHO CONCEPTIVO DA 
TALHA, CISÃO MORTAL ENTRE A DECORAÇÃO E A 
FORMA DO OBJECTO, SUA INSTABILIDADE E APPA- 
RENCIA FRÁGIL DAS DUAS AZAS. VaLOR DA TA- 
LHA, COMO TENTEIO DE CERÂMICA NOVA. — Ge- 
NIO INTUITIVO DE UORDALLO E ESFORÇOS PARA 
FUNDEAR A ARTE NACIONAL NO SUBSOLO DA TRA- 
DICÇÃO HISTÓRICA E ANTIGAS MARAVILHAS MOS- 
TEIRAES. íMiSULA E ESTATUETA DOINFANTE D. 

Henrique. — Jarra Cunha Vasco. — U drama 
DA Paixão para o Bussaco caracter clás- 
sico das figuras ANTIGAS, SUA AUCTORIA E 
DESTRUIÇÃO VANDALICA Á PEDRADA. JeSUS HO 

olwal de Giietsmcmi. — Traição de Judas. — 
Passagem do Cedron. — Pujança da scena 
Em casa d^Annás ; o velho doutor da lei, e 

GUARDAS DO TEMPLO ARRASTANDO O ReDEM- 

PTOR. — Jesus blasphema Em casa de Cai- 

pháS : TRES MAGISTRADOS EPILÉPTICOS, E EX^ 
PRESSÃO BESTIAL DOS PHARISEUS. Em CaSa 

de Herodes. — Conclusão. 




27 de septembro. 

Pequena romaria á fabrica de fayanças 
de Bordallo, nas Caldas da Rainha, para de 
perlo estudar a gestação laboriosa d'um gé- 
nio isolado, e a indifferença soez d'um pu- 
blico cretino. A fabrica suspendeu por falta 
de dinheiro : quando já estava cheio e acoa- 
gulado de loiça um forno Minton, subita- 
mente o cofre eslanca-se, e os accionistas 
debandam, deixando Raphael Bordallo en- 
tre um pessoal d'aprendizes e officiaes que 
lhe pediam pão. 

Não truxe das Caldas notas para dizer 
da fabrica e da louçaria artística ou trivial 



4 OS GATOS 

que ella labora, e porque semelhante tra- 
balho seja impossível d'esmiuçar á simples 
reminiscência, reserval-o-hei para quando, 
melhor ensinado, valha a pena informar o 
leitor com probidade. O que por agora me 
traz das Caldas ás pagina^í ásperas e repu- 
tadamente hostis d'este pamphleto, é o de- 
sejo de fixar uma expressão do génio de 
Bordallo, que me parece ainda pouco co- 
nhecida, e de fazer a exacta reportage d'u- 
ma das obras mais estranhamente originaes 
que ha muito tempo vêem luz na esculptura 
do paiz, A coiza irá d'esta vez escorreita e 
sem arrebicados, á uma porque o estylo ca- 
seiro põe o escriptor desilludido ao nivel da 
bestealidade do seu tempo, á outra porque 
eu a respeito de primores de forma, saben- 
do já que publico arremangado tenho á 
perna, decido alfim não deitar pérolas a por- 
cos. 

A cerâmica de Bordallo abrange artefa- 
ctos de loiça caseira ou decorativa, azule- 
jos, telha de cores, etc, constituindo a 
produção usual da fabrica, e obras d'es- 
culptura, que são na dpsabrochante curva 
da vida artistica do meu amigo a terceira 



os GATOS 5 

grande phase monumental do seu talento. 
D'estas ultimas, que são o alvorecer na es- 
culptura nacional d'uma era dramática só 
episodicamente renovada depois de Macha- 
do de Castro, por um ou outro artista mal 
sazonado e pouco activo, salla com lampe- 
jante evidencia uma comprehensão indivi- 
dual de synthetisar a vida pela forma, 
e uma evocação do antigo em tanta ma- 
neira pujante, violenta, desenvolta, encyclo- 
pedica, que esse amador cl'esculptura con- 
seguiu em quatro annos d'ensimesmação 
sobre dois livros, maravilhas como nenhum 
profissional nosso, antigo e moderno, seria 
capaz derealisar em quarenta de pencionis- 
mo atravez os ateliers de Roma e de Paris. 
O caso custa a roer n'uma affirmativa 
simples de conversa, prevenido como se está 
contra os exageros da amizade em caça de 
cathedraes para os seus santos: mas vale 
a pena ir ás Caldas só para modificar este 
estado de descrença, e saudar em Raphael 
Bordallo um dos génios creadores mais pro- 
fundamente originaes do mundo contempo- 
râneo. 



os GATOS 



Até á hora da minha estada nas Caldas, 
a bagagem de grande esculptura de Bor- 
dallo, constava do seguinte : 

— Talha manuelina, sobre pedestal do 
mesmo typo. 

— Baídaquino e misnla gothica, com es- 
tatueta do infante 13. Henrique. 

— Scenas dramáticas da paixão de Je- 
sus, para as capellas da matla do Bussaco. 

Descrever uma por uma cada qual das 
peças referidas, é um trabalho inglório, seja 
qual fôr a lucidez dos planos descriptivos. 
A mais imperfeita photographia sem duvida 
excede, como justeza d'apunto, tudo quan- 
to de mais rigoroso e methodico eu escre- 
ver. Entanto, mau grado a exiguidade dos 
meios de que disponho, não ha remédio se- 
não aguar aqui algumas pallidas figurações 
das peças cima ditas, e começarei pela ta- 
lha manuelina, que o sr. D. Carlos acaba de 
comprar. Tem o contorno da bilha portu- 
gueza, o bojo em pêra invertida, estrangulada 
bastante no gargalo e afusando airosamente 
para o pé, que o esculptor perfilou numci- 



os GATOS 7 

po historiado. Na parte ornamental conta 
três partes : bojo, gargalo e lampa, abraça- 
das todas três n'uma cinzelaria golhica muito 
doce, feita de motivos religiosos dos ve- 
lhos túmulos d'Alcobaça e da Batalha, e al- 
guns accessorios humildes da zona piscató- 
ria portugueza, como sejam, entrançados de 
canastra, redes, algas e roldanas. A deco- 
ração do bojo é uma espécie de colar que 
abraça a bilha pelo terço médio da redon- 
deza, feito de cinco fiadas de motivos, a sa- 
ber: de cima para baixo — 1.' corda em- 
breada, cheia de nós e rodellas de cortiça, 

firolongamento da que forma as azas da bi- 
ha, e de que ao depois se dirá mais limpa- 
mente — 2.' rede com peixes circuitando o 
bojo n'uma espécie de lufo preso entre dois 
pequenos frisos salientes — 3.°, grande ar- 
caria golhica, columnellos e rozaceas, cerca 
d'um palmo de largo, inspiração dos nobi- 
líssimos estylos da Batalha — 4.°, cinto d'a- 
zulejos em relevo, imitados dos sarcófagos 
dos filhos de D. Ignez ; d'espaço a espaço 
brazões pequenos de cinco quinas, sem coroa, 
e circundados d'algas que os engastam, en- 
cocharrando-se de dentro para fora — 5.®, 



os GATOS 



remate ou franja do colar, formado por 
meios SS oppondo-se em pequeninos co- 
rações de typo phantasioso. 

Esta ornamentação é interrompida nos 
quatro pontos cardeaes, por quatro baixos 
relevos formando medalhões. Os que ficam 
por baixo das azas da talha, representam 
scenas de caravellas e naus proando a ter- 
ras mysteriosas, onde a legenda gothica 
á'India e Africa, explicativas. Os da pre- 
pendicular á linha d'aquelles, dão os bustos 
do infante D. Henrique e de Camões, com 
Sbas legendas assi, e todos quatro em- 
moldurando em folhas d'alga. As azas da 
talha forma-as uma corda breada, com ro- 
dellas de cortiça aqui e além, e que parecendo 
nascer no platô do bojo, arma de cada lado 
d'este, em oito de conta. Chegada porém á 
guarnição, em vez de a interromper, a cor- 
da passa por traz de dois brazões da rai- 
nha Leonor, padroeira das Caldas e funda- 
dora e doadora do seu benemérito hospital 
e misericórdia, d'onde diverge apoz, pr'a se 
ligar á que fazia o primeiro dos cinco cola- 
res ornamentaes que atraz fallei, e que por 
seu turno, chegando aos medalhões do in- 



os GATOS 9 

fanle e de Camões, arma em coruchéu ou 
frontão, remalando pela esphera armilare a 
cruz de Christo. 

Se o leitor percebeu do meu discurso, 
naturalmente calcula como esta decoração 
lilhurgica epagã veste o corpo da talha n'u- 
ma heráldica pompa de historia heróica e 
plebeismo, onde os olhos se vão, babando o 
romantismo das grandezas pátrias, abolidas. 

Como lhes dar ideia agora do gargallo? 
Imaginem que sobre um d'esses cânta- 
ros que as raparigas de Coimbra levam á 
fonte, bojudos, e comduasazitasempccento 
circumflexo aos lados do boccal, alguém 
coUocava a pixide gothica d'alguma das 
nossas Sés monumentaes, uma pixide que 
Gil Vicente tivesse feito sobre desenhos de 
Garcia de Rezende, em golhico flamante — o 
sextavado péd'esmaUe e rendas manuelinas, 
burilado como o pé do cálix da Sé d'Evora; 
e assente n'este, um edifício gothico de seis 
pilares, acabando em espigões rendados d'al- 
gas, e desligando de si, a meia altura, ramos 
que divergissem para com os oppostos darem 
seis coruchéus miniaturaes, d'uma invero- 
símil expressão de custodia dos Jeronymos 



10 os GATOS 

e porta-paz da Casa da Moeda, sob que fi- 
cassem, entre pilar e pilar,capellitas golhicas 
com perspectivas de columnellos, e fandos 
d'ogiva, ájour, mui delicados... N'essasca- 
pellas ou nichos, abrigando-se, symetrica- 
mente, os brazões das Caldas e de Lisboa, 
os monogrammas da fabrica e do ceramista, 
e emfim grupos d'eslatuetas microscópicas, 
reproduzindo parte da esculptura que Bor- 
dallo já fez para o Bussaco. A ponta dos co- 
ruchéus projecta-se em espigão té ao re- 
bordo do gargallo, esguia como a supplica 
de dois braços elhicos, que se apoiassem, 
sem valor, a uma ogiva em oitos de vitral, 
sobranceira ás capellas e fazendo como uma 
espécie de segundo pavimento do ediGcio. 
Restaria fallar da tampa ou cobertura : é um 
telhado de seis aguas, a cujos espigões sera- 
fins chimericos voam, de mãos postas, e ten- 
do no topo a esphera armilar e a cruz de 
Ghristo. 



A talha assenta n'um pedestal onde os 
motivos ornamentaes fundem e derivam do 



os GATOS 11 

mesmo unisono d'inspiração religiosa e po- 
pular. E' um cipo rectangular de metro e 
tanto, carregado ao dorso de quatro leões 
heráldicos, dormentes, como os que é uso 
topar de guarda aos velhos túmulos. As 
grandes faces mostram a alto relevo, ao 
centro, n'um fundo d'azulejos mouriscos re- 
produzidos da Batalha, as armas da rainha 
Leonor, que fingem manter-se em posi- 
ção por via da corda breada que vol- 
teia e fura de cada banda, o cipo, cheia de 
nós e rodellas de cortiça. Na face de cima, 
torna-se a vêr a corda rodeando como uma 
serpente symbolica a ara circular que jus- 
tapõe ao pé da talha, e pequenos brazões 
de cinco quinas, cercados d'algas e nós de 
corda, formando como o coroamento das 
grandes arestas verticaes do pedestal, que 
são truncadas, e a truncatura vestida d' um 
entrançado de canastra (industria local) co- 
mo os que se vêem em certos detalhes da 
Batalha e da Madre de Deus. 

Não pude admirar esta maravilhosa peça 
senão crua, e é de suppôr que a aposição 
das tintas lhe transforme o contorno, e o ca- 
racter até, completamente. Tal como a vi, se 



12 OS GATOS 

bem que n'ella eu reconheça fodos ou quasi 
todos os caracteres d'uma obra máxima, 
comtudo não deixarei de fixar alguns repa- 
ros breves que o ohserval-a bem me sugge- 
riu. Começarei por notar que toda a obra 
d'arte obriga a manutenção d um accordo ló- 
gico, imprescindivel, entre os seus elementos 
constituitivos: no caso presente, entre a for- 
ma, e os ornatos que a revestem, entre a fi- 
liação d'aquella e a origem d'estes, devendo 
esse accordo observar-se, para que ioda á 
peça seja harmónica, não só na questão 
d'adorno e forma, mas até nas relações com- 
parativas, iniciaes, de hnha para linha. 

Quando contemplo um objecto d'arte (um 
vaso ornamental, seja o exemplo) o primeiro 
acto do meu espirito é despir esse vaso de 
todos os arrebiques que o enfeitam, e con- 
siderar-lhe attentamente a íorma primitiva. 
No caso Bordallo essa forma é, já disse, a da 
bilha portugueza, isto é, um vaso grego da 
primitiva e ingénua infância da olaria, com 
seu caracter pagão accentuado, e purissimas 
curvas, d'uma voluptuosa expansão de bus- 
to virginal. Conhecido o contorno e perfil do 
vaso simples, o meu segundo acto é depois 



os GATOS 13 

estudar o caracter dos adornos que o re- 
restem : no caso Bordallo são elles na 
maioria inspirados ou bebidos na epocha 
golhica, d'uma arte já requinlada, sabia e 
culminante, cujo caracter em Portugal foi 
essencialmente religioso. Tratando de ver 
depois se a decoração serve no vaso, no 
ponto de vista do casamento e reciproco 
accordo das linhas, do eslylo, do typo, e até 
do destino social das duas coisas, averiguo 
que estou deante d'um vaso simples, com 
decorações mui complicadas, que tenho n'um 
vaso pagão, decorações do typo catholico e 
mystico, e tanto este conjuncto briga no meu 
espirito, que eu não saberia pronunciar-me 
lucidamente sobre o destino social da peça 
resultante. E' um vaso religioso ? E' uma 
peça de hall ? Não sei dizer ao certo, tanto 
os seus elementos de formação provem de 
fontes que vou a suppôr heterogéneas e an- 
tagónicas. 

Observe-se cuidadosamente a talha na sua 
forma ingénua e desadornada, o galbo mol- 
lemenle lascivo como um quadril de deuza 
nua, o esvasado dos seusdechves voluptuo- 
sos, todo elle carne e vida livre, trazendo a 



14 OS GATOS 

ideia d'uma nudez dançante e gargalhante, 
em pleno sol d'Athenas, por occasião das 
festas a Ceres... não lhes parece que os or- 
namentos gothicos que a enfeitam, com suas 
linhas rigidas e arestas cutilantes, seus 
coruchéus em prece, de mãos postas, suas 
arcarias de claustro, lembrando penitencia, 
jejuns, pelles lividas, ossos de rojo ante os 
aliares, mosteiros e sombra, entrechocam no 
espirito dois estados moraes irreconciliáveis, 
suggeridos pelas duas ideias de catholicis- 
mo e paganismo, d'expansão vital e peni- 
tencia, de volúpia ridente e maceração pe- 
los flagicios? 

Vamos depois ao trabalho propriamente 
inventivo da lalha, e repara-se no seguinte: 
que ella já não conserva sob a decoração as 
linhas mães do vaso grego inicial ; ceifa- 
ram-lhe o gargallo, substituindo-o por um 
vaso de parliculas maravilhosa e genuina- 
mente flamboyanle. E' um attentado ás leis 
da decoração ? Os entendidos fallem. Pare- 
ce-me todavia que uma vez passada em jul- 
gado a possibilidade de juntar n'um produ- 
cto decorativo, a ourivesaria de D. Manuel, á 
bilha d'Extremoz, haveria talvez meio de go- 



os GATOS 15 

thicisar o collo da talha sem deformação ou 
sequestro da sua forma primitiva. Pois não 
é verdade ? Tudo estaria em tomar o mo- 
tivo gothico ideal, núcleo da decoração, e 
desenvolvel-o por forma a elle vestir o gar- 
gallo da bilha, s«m lhe alterar as linhas prin- 
cipaes. O sutaque religioso seria assim elimi- 
nado, o contorno e perfil da obra ganhariam 
assim graça mais leve, até porque a estabi- 
lidade da talha augmenlaria. Porque, fixe- 
mos outra coiza de passagem. Não basta 
que o objecto d'arte seja estável, é absolu- 
tamente necessário que o pareça, e logo ao 
primeiro aspecto se imponha como tal. Ora 
a talha de Bordallo dá um pouco a impres- 
são de violar as leis do equilibrio, apparen- 
temeníe, está dever, se se compara a exigui- 
dade de diâmetro do pé, com o aliaz consi- 
derável volume do gargallo e cobertura or- 
nada que o remata. Por este lado ainda se 
descobre melhor a cisão mortal entre a de- 
coração e a forma do objecto, porque a ins- 
tabilidade faz vêr na talha dois vasos so- 
brepostos, e nunca um producto artislico 
homogéneo, desabrochando fecundamente 
dum motivo uno e logicamente indissolu- 



1« os GATOS 

vel. Ainda outro detalhe chocante: a fragi- 
lidade e rígido perfil das ansas de corda, 
partindo em oito de conia, da expansão 
maior do galho, a fazer azas. Essa rigidez 
diria por exemplo bem n'um gomil gothico, 
de bojo secco e contorno ascético, genuino 
e typico da epocha ; porém n'um vaso de 
quadris cheios, agride avista, pelo despara- 
lellismo de duas parles expansivas da talha, 
azas e bojo, cujas curvas geradoras me pa- 
rece deveriam ser do mesmo typo. Depois 
esse grande vaso monumental realisado em 
cerâmica por engano, pois tudo n'elle exige 
uma versão definitiva em metal forte, esse 
vaso monumental, posto não sirva, haverá 
que ser transportado d'uma banda para a 
outra; e que desastrado ousaria fazei -o pe- 
las azas, sem arriscar-se a vêr pedaços no 
solo uma obra de tão laboriosa e larga ges- 
tação ? 

Estas observações não constituem de mo- 
do algum critica a uma obra que o cera- 
mista concebeu e realisou dentro d'uma crise 
eslhetica, cujas determinantes lhe são pes- 
soaes, e impulsivas portanto da sua inspi- 
ração, da sua educação e da sua índole. O 



os GATOS 17 

que eu estive a fazer foi anles o andaime do 
meu sonho d'uma jarra ornamental, obede- 
cendo a uma lógica d'arte que me pertence, 
e fora da (jual não spí vibrar. 

De resto, casmurro seria o que não 
quizesse vêr na talha de Bordallo o grande 
estylo d'uma intuição gt^nial buscando fun- 
dear a arte hodierna nos subsolos fecundos 
da tradição histórica e das antigas ma- 
ravilhas mosleiraes ; idiola seria o que 
pola supposta incongruência do critério de- 
corativo do ceramista, pelo seu ar lé'agora 
fragmentário e insubmisso, desvaliasse 
aquella peça, em toda a parle rara, do ex- 
traordinário valor que ella contem como ten- 
teio de cerâmica nova ; e por criminoso te- 
ria o que, reportado aos modelos tantas ve- 
zes lambidos de estrangeiros, não sentisse 
perante aquolle bocado nacional, tão nobre- 
mente portuguez, esse novello d'emoção dos 
desterrados ao avistarem por entre as cordas 
da nau, a primeira fímbria da terra em que 
nasceram/ 

• Eis ahi uma composição de jarra moderna, feita 
por Bordallo a pedido do jornalista Cunha Vasco, que 
me parece um primor d'elf!gaucia orni-manista. A fór- 



1« os GATOS 

A estatueta do infante D. Henrique, e ni- 
cho gothico que lhe serve de supporle, é na 
obra séria de Bordallo um entretém d'en- 
cantadora contextura, posto entre a talha 
manuelina e as figuras dramáticas do Bus- 
saco. A figurinha pretende dar o tom secco, 
um tanto hirto, mas naturalista já, da es- 
culptura medieva em transição p'rá Renas- 
cença. Tem o chapéu desabado que lhe 
põem na cabeça as pinturas do tempo, o veu 



ma do galbo é a do cântaro aleratejauo,mais alongado^ 
o colo, alto e com dez arestas nítidas delimitando su- 
perfícies planas, á jour, como o gargallo do celebre vaso 
d' Alhambra, que esteve em Lisboa na exposição das 
Janellas Verdes ; o rebordo ou bocca, formado, no pon- 
to em que as arestas findam, por dez abelhas era ati- 
tude de caminharem para dentro da jarra, e no ponto 
em que findam as facetas intermédias, por dez redue- 
ções microscópicas dos pratos celebres da fabrica, que 
assim cingem a bocca do vaso u'uma espécie d'aristo- 
cratico circolí^ Duas azas em braços arqueados, cheias, 
magnificas, feitas d'uma haste de girasol e uma haste 
de papoula, cobertas de folhagem, e encostando as 
grandes flores termiuaes, abertas, á nascença do gar- 
gallo, uma por cada banda, por forma a adornal-o sem 
prejuízo dos feitios originaes que elle já tinha. 

Bojo e cori^o da jarra, tudo liso: só da banda do gi- 
rasol uma rede com peixes, decorando ingenuamente 
um pouco do primeiro, e da banda da papoula um me- 
dalhão com a cabeça de Cunha Vasco, e um grande la- 
garto, curioso, cuja cauda nervosamente ondula no se- 
gundo. 



os GATOS 19 

descendo, a lhe dar umas poucas de voltas 
ao pescoço, e uma roupa monástica, esguia, 
cahindo quasi sem modelar o corpo, e amor- 
talhando- o com uma rigidez de magistrado 
e monge-cavalleiro. Com uma das mãos faz 
viseira sobre a testa, e por baixo d'ella os 
olhos altos teem o ar d'estar mirando ao 
largo alguma caravella suspirada. No tra- 
balho da misula e baldaquino, a mesma so- 
lemne graça, religiosa e cantante, paten- 
teada já nos motivos gothicos da jarra, e 
que é o calafrio da Batalha na nervosidade 
dum poeta assombrado por essa incompa- 
rável obra prima. O baldaquino tem seis fa- 
cetas, separadas por pilares, sobre que se 
implantam pequenos obeli.^cos semelhantes 
aos do gargallo da talha já descripla. Fa- 
zendo platibanda, ornatos de corda, em ara- 
besco, e nas facetas rozaceas com escudos 
d'armas e monogrammas da fabrica e do es- 
culplor. Sobranceira a estas, a cúpula, toda 
enrocada á jour, com uma pinha por lan- 
terna, e arcos-butantes fazendo a ligação 
da pinha aos obeliscos. A misula figura uma 
base de columna terminando por uma pinha 
dalgas enroladas. Partindo d'essa base, um 



20 OS GATOS 

corpo de seis capellas ogivaes, em tudo se- 
melhante ao do gargallo da talha manuelina, 
só com a differença de cada capella ter 
sobre o tope, n'umaespheraarmillar, a cruz 
de Christo. As capellilas circuitam uma es- 
pécie de peanha curta, simples, onde se 
apruma a estatueta. 



Entra-se agora na obra do Bussa^io, en- 
commendada para substituir os antigos bar- 
ros, alguns tão bellos, que povoavam as ca- 
pellas dispersas pola malta, barros que 
muitos attribuein a um monge do convento, 
e de que ao ci?rto nunca se poude averiguar 
a procedência, N^essas velhas esculpturas, o 
modelador seguia um pouco a moda italia- 
na, no arranjo clássico das roupas, no con- 
vencionalismo parado dos gestos, e na egual- 
dade desesperadoramente serena dos perfis. 
A antiga Paixão do Bussaco, fosse de fra- 
de, fosse de profissional, o certo é que se 
resentia d'um espirito devoto e d'um cinzel 
pouco nervoso ; o terreno escapara ao mo- 
delador extático de celeste, e a emoção na- 



os GATOS 21 

turalisla da vida substiluiu-a elle por uma 
espécie d'espiriíualisação pomposa, oratória, 
que dava a toda essa obra tão longa, o as- 
pecto glacido d'uma successão de quadros 
vivos. Quando os frades se foram e a vene- 
rável matia da serra (um dos pouquissimos 
logares verdadeiramente sagrados de Portu- 
gal, onde, em certas ruas, ninguém devia en- 
trar senão descoberto e pensando em Deus) 
ficou entregue ao comprazer dos carvoeiros 
e salteadores foragidos da Bairrada, para as 
estatuas de barro das capellas começou essa 
escruciação terrivel d'apupos e pedradas que 
á mesma hora ia afrontando as frontarias 
dos mais conventos c oratórios abandona- 
dos. Tão descarada bestealidade ficou moda 
muilos annos ainda entre os mariolões e al- 
fenis vindos de sucia, até á matta. Estudan- 
tes de Coimbra, filhos- familias da Beira e 
da Bairrada, toda a alimária rica e impune 
a quem os pães instigavam contra os 
frades depois de se terem locupletado nos 
roubos dos conventos, para matar o tem- 
po, antes ou depois dos pic-nics, lá iam 
aos tropo-galljopos, borrachas sorvidas, 
apontar aos narizes e aos dedos das figuras, 



22 OS GATOS 

arrazar até ao ultimo caco d'essa piedosa e 
melancholica liturgia, e ainda por cima es- 
crever na parede branca dos nichos, obsce- 
nidades grosseiras d'energumenos. D'essa 
infamissima campanha, se pela calissa dos 
oratórios buscarem bem, hão-de apurar es- 
tranhos documentos, porque muitos malan- 
dros assignavam por baixo os seus dichotes, 
e eu mesmo vi a lápis, ha três ou quatro an- 
nos, n'uma das capellas da matla, a relação 
d'apuro dum d'esses jogos de pedrada, onde, 
adeante do nome d'um conhecido ministro 
d'estado, magistrado integerritno e pol lição 
Hberal de velha stirpe, então estudante, lhe 
era contada uma devaslação de sele cabe- 
ças de santos, e nove dedos polegares de 
phariseus, com a nota de ganhou entre pa- 
renthesis. A obra que Raphael Bordallo está 
creando para substituir as exlinctas escul- 
pluras, corre eminente risco de ser trucida- 
da como a antiga, mercê da seWageria vil 
d'um povo que o constitucionalismo des- 
aprendeu da fé, sem lhe deixar sequer 
emoção pr'ás formas d'arte. Não me compete 
a mim codificar a morte para prophylaxia 
d'estes entre nós continuados crimes de bom 



os GATOS 2S 

gosto, se bem tenha por certo que de ha 
muito elles estariam exiinctos se cada vân- 
dalo colhido em flagrante recebesse summa- 
riamente, no posto de guarda próximo, um 
razoável par de bastonadas. Até á minha vi- 
sita ao atelier das Caldas, Bordallo tinha 
promptas quarenta e sete figuras, de tama- 
nho natural ou reduzidas, segundo o espaço 
e o pé direito das capellas, com distribuição 
por oito lances da tragedia christã, que voa 
dizer. 

No Horto: com uma figura única, a do 
Christo ajoelhado, postura lassa, mão es- 
querda sobre o peito, o braço direito n'um 
toro adusto d'oliveira. Foi a primeira mode- 
lação humana de Bordallo, e d'isso se atrai- 
çoa, porque amosenda, não tem contempla- 
ção dolorosa, nem espiritualisação nem ori- 
gem divina, fallando-lhe até a expressão 
própria d'essa desfallencia terrivel de quan- 
do o hysterico judeu, prevendo a morte, du- 
vida quasi da sua missão reveladora. O in- 
terior do sanctuariosinho destinado a esta 
figura, deverá ser povoado de troncos d'oli- 
veira, nodosos, esgalhados, que já estão fei- 
tos, sendo a parede do fundo envidraçada, 



24 OS GATOS 

para sobre o vidro se colorir um ceu crepus- 
cular, umas ultimas ourellas de sol poslo, e 
por entre os troncos o archanjo da allucina- 
ção que teve o Redemptor n'aquella hora 
de desalento. 

Traição de Judas, no olival de Gelhsmani, 
alguns momentos depois de Jesus estar posto 
em oração. E' o momento clássico do beijo. 
« Chegando- se Judas a Jesus, lhe disse, eu 
vos saúdo, mestre, e o osculou. Ao mesmo 
tempo aquella turba de homens armados, 
lança mão de Jesus, e os discipulos aterra- 
dos, desampararam-no e fugiram.» O grupo 
é ainda um pouco magro, e sem grande ca- 
racter a mimica do beijo, de resto diíBcil de 
visionar por forma destoante das milhares 
de versões conhecidas em pintura e escul- 
ptura, d'esla passagem. Jesus tem a cabeça 
coberta com o manto ; Judas approxima-lhe 
da face os beiços trémulos, e com uma das 
mãos segura a bolsa do dinheiro. Um guar- 
da do templo á direita, arranca a espada; 
por traz d'uma arvore um oulro coca, e pelo 
fundo espalham-se diversos, n'uma attilude 
lúgubre de cilada. 

Passagem do Cedron, «aqui se consi- 



os GATOS 26 

dera, reza a legenda da antiga capella 
do Bussaco, a ponte do Cedron por ondd 
Christo N. Senhor passou, e os tyrannos o 
lançaram abaixo sobre as pedras que estavam 
no rio, e ficaram rignaes impressos como se 
vêem no dia de hoje.» Duas figuras, S. Pedro 
e S. João, o primfiro cabido de joelhos, a 
mão esquerda apoiando o buslo meio ergui- 
do, que se alonga, pondo a cabeça na pos- 
tura da allenção varada d'atonia, e os olhos 
sobre algumas poldras do rio, que a direita 
aponta com os nodosos dedos de povo, pa- 
ra os silios em que devem jazer signaes da 
queda. Este S. Pedro é já um segurissimo 
estudo d'expressão, com a esguia cabeça co- 
berta do panno árabe, a barba hirsuta, o 
perfil judaico doloroso, bem lançado nas flu- 
ctuantes roupas do clima ardente, e com 
dedos trémulos e roídos que dão a edade e 
a angustia n'um admirável jacto de realida- 
de. A figura de S. João vê- se de pé, curvada 
para o sitio que o outro indica; tem a ca- 
beça coberta pela capa, as madeixas cabi- 
das, a face inberbe d'uma adolescência pu- 
ra d'ephebo transido, e em todo esse corpo 
modelarmente enroupado, d'uma silhueta 



26 . OS GATOS 

fremente, é ainda na physionomia das mãos 
qae se concentra o espanto trágico do epi- 
sodio. Nada de clássico ou convencional no 
duo rezuhante ; é uma scena arrancada á 
sensilividade creadora d'um génio esponta- 
neamente intuitivo, simples e grande, envolta 
no sentimento mystico d'um frei Bartholomeu 
lido em Flaubert e nos livros de Renan. 

Em casa d'Annàs: columnata ao fundo, 
e sobre um tripé, da esquerda, uma bacia 
de cobre com fogachos . Annás, sobre uma 
espécie d'estrado, atlende Jesus que os guar- 
das e servos arrastam para elle, entre inso- 
lências. E um velho judeu de lypo octogená- 
rio, a bocca de peixe babando caducamente 
os sons tartamudeados, barbicha rara, e com 
um grande nariz de pássaro carnívoro. . . 
Quasi uma múmia, com o aprumo difiQcil da 
cachexia senil que só a perversidade faná- 
tica epileptisa. Tem o turbante árabe um 
pouco á banda, o caftan aberto, e na cintura 
d'especlro a facha lassa ; a mão direita apoia 
na cadeira, vê-se-lhe a esquerda no ar co's 
dedos chocalhantes, esbrugados, a unha era 
garra — dedos d'animal de sangue frio, vis- 
cosos da morte próxima, onde o gesto diz 



os GATOS 27 

lassidão e ódio entre a descoordenação dos 
movimentos. Traz d'elle um árabe, de pé, 
põe no turbante a mão esquerda, vê-se-lhe 
ocotovello nu na manga larga, ossos de nis- 
tico, e olha Jesus fazendo uma mimica d'es- 
panto. N'um dos degraus do estrado, aos pés 
d'Annás, um venerável judeu contempla o 
nazareno austeramente, a mão direita per- 
dida na grande barba em rio de magistrado, 
e sobre a testa o cinphinin ou boceta de 
coiro em que se guarda a lei de Deus, dis- 
tioctivo dos doutores da lu, e geradora de 
pensamentos justos. A cara é soberba, o ar 
de grande raça, olhos cheios de venerabili- 
dade e pensamento. Estas Ires figuras oc- 
cupam o fundo da scena, onde no silencio 
paira o quer que seja de terrivel, quando 
Jesus avança, manietado, com a túnica em 
pedaços, os cabellos cabidos, suando frio 
na face esbofeada. Três judeus que o arras- 
tam, põem na frialdade do âmbito a nota da 
plebe lisongeada pela acquiescencia muda 
dos mandões. Um d'elles, de capacete e 
lança, apoia-se no hombro de Jesus, a lhe 
segredar a ultima insolência. Outro levanta a 
mão pr'alhe espalmar em cheio uma bofela- 



28 OS GATOS 

da; e em todos Ires o membrudo das linhas, 
a deformação bestial das mascaras e dos 
corpos, põem um contraste animal na ana- 
tomia escolhida dos personagens superiores. 
Em casa de Caiphás: tribunal, no mo- 
mento em que Jesus perguntado se se sup- 
põe o verdadeiro Deus, responde «que re- 
construirá em três dias o templo do Senhor.» 
Relruca-lhe Caiphás, que era summo sacer- 
dote aquelle anno «Mas confirma, confirma 
pelo Deus vivo, que és effectivamente Chris- 
to, filho de Deus!» Jesus então «íw o dis- 
seste, e mais vos digo que alguma vez ve- 
reis o Filho do Homem sentado á direita da 
magestade divina, e vindo sobre as nuvens 
do ceu julgar o mundo.» A estas palavras 
Caiphás rasgou os seus vestidos, um magis- 
trado cobriu a cabeça com o manto, e ainda 
ouiro, furioso, desceu o púlpito do tribunal 
aos gritos de «blasphemou I merece a mor- 
te.» No primeiro plaíio está de pé Jesus, 
visto em perfil, serenissimo, direito, a cabeça 
descoberta e a face pura, en^re dois esbir- 
ros furiosos — um que o empurra, toman- 
do-o pela ligadura das cordas que o manie- 
tam, outro de taganle no ar, direito ao ros- 



os GATOS 29 

to, que o braço d'um terceiro defende, in- 
terpondo-se á vergastada com um gesto de 
rude misericórdia. Na concepção e realisa- 
mento d'esta passagem, Ião profundamente 
scenica, um tumulto de génio terrificante 
passa, rajando e torcendo, como um simoun 
do deserto, os personagens. Esses corpos de 
padres fanáticos não são mais que os escra- 
vos escruciados das impressões que os es- 
furiam. Nos sacerdotes que julgam e nos es- 
birros que arrastam o criminoso, o mesmo 
assombro da blasphemia ouvida esparvona 
em contorsões e esgares de raiva hysteri for- 
me. Gaiphás é verdadeiramente uma figura 
€m coíip de vent: a túnica de corda, a sa- 
marra franjada de cainpainhas, o busto em 
espiral sobre a cintura, a cabeça nos céus, 
a bocca em gritos, rasgando o peito co'as 
garras d'inquisidor cxhautorado — uma fi- 
gura a que os olbos se pegam, mas onde se 
não concentra o espanto todo da calastro- 
phe, que rebenta lambam da damnação do 
que cobre a cabeça, dilacerante de blasphe- 
mia religiosa, n'uma attilude de fuga e ter- 
ror que a casa venha a terra, e ainda do 
movimento de rasgar das mãos do que des- 



30 OS GATOS 

ce a escada, tão fero d'energia, e eslranho, 
e cómico, magro como um espectro, o pes- 
coço ás cordas, a cara de gato bravo, a 
bocca de Gorgona, barbicha ao vento, e o 
grande nariz de pássaro carnívoro. 

Em casa de Herodes, n'uma apparatosa 
camará de príncipe oriental, cortinados, co- 
lumnas, tapeçarias e tropheus. O déspota 
acaba de fazer a sua toilelle, eetá deitado 
n'Lim leito de cochins e estofos preciosos, 
que as concubinas cercam, familiares, co- 
bertas de joalheria e semi-nuas. N'uma do- 
bra do tapeio, aos pés do leito, um dogue 
acorrentado, com a cabeça chata e o olho 
d'esguclha, em sangue, refilando — uma 
pomba no ar, voando sobre o leito, e outra 
no chão, ligeira, biqueteando aqui e além, 
com geitos de vaidosa: depois no primeiro 
plano o grupo tumultuoso dos judeus tra- 
zendo a Jesus manietado, um grupo estu- 
pendo de violência viril e brutalidade ple- 
bea em gáudio de maldade. O contraste en- 
tre as duas bandas do quadro, impõe-se 
logo. Na pessoa de Herodes, leve vestido 
n'um saião de brocado e pérolas e aljôfares, 
braços e pernas nuas, manilhas d'oiro mas- 



os GATOS 31 

siço, anneis nos dedos, e cinturão de Iha- 
ma com fecharias d'oiro cinzelado, lê-se a 
enervancia dormente do devasso que mal 
pode abrir as pálpebras, de deboche, o gesto 
quebradiço do cynico sensual a quem tudo 
é indifferente; mas simultaneamente esse 
eífeminado lem chispas de chacina, o sar- 
donismo de quem não exitaria em martyri- 
sar pr'a se entreter, e a insolência preciosa, 
mascada, do criminal alliando na alma cruel 
a ideia da libidinosidade, á ideia da tortura. 
Em torno as escravas parecem ser como el- 
le, sensibilidades estanques pela copula ; da 
esquerda uma mulata, aos pés do leito, tem 
o corpo n'um panno de iistrões orientaes, a 
cavapinha travada por uma banda de seda 
que lhe mantém os bandós em posição, o 
tronco nu, seios crespos como fructos, e 
tantos braceletes, colares, pingentes e 
amuletos, que ella recorda não sei porque 
certas descripções de Salambô, nas festas 
de Tannit. Outra, de pé, na cabeceira do 
leito, traz uma ânfora nas mãos, e attenta 
em Jesus a modo enternecida. E' uma sul- 
tana do typo architectural das raças nobres, 
de cabecinha pequena, perfil intelligente. 



32 OS GATOS 

toucada de luxo e explendida de jóias. E no 
meio da scena Jesus temos olhos tristes do 
revolucionário que vae entregar o seu san- 
gue inutilmente: a physionomia pende-lhe de 
paciência, lodos os sons da queixa proletá- 
ria, eterna, gemem na sua bocca, entre os 
baldões dos carrascos e a curiosidade ape- 
nas pictoresca da canalha humana por quem 
morre. Essa canalha tressua bem das figu- 
ras dos três guardas do templo que o con- 
duzem, e cuja força estupenda rompe do 
barro n'uma incomparável animalidade de 
músculos e gestos. A' esquerda um d'e!les 
agarra Jesus pelo peito da túnica, avança a 
perna esquerda, e pucha-o brutalmente 
para o leito do autocrata : visto do costas o 
seu arranco é da mais expressiva violência, 
todos os músculos lhe jogam sob a túnica, 
a perna direita inclina-se sob a pressão do 
esforço, íirmando-se na ponta do pé, cujo 
calcanhar erguido distende as correias da 
sandália: eaquilloludo meche, ondula, ar- 
ranca, musculatura, ossatura, aponevroses, 
pelles, estofos de vestidos, fumegando a 
expressão por cada dobra, dando a selva- 
geria viril por cada slriadura. 



FIALHO D'ALMEIDA 



os GATOS 



publicação 
d'inqurito á vida portugueza 



l 



«."ig— 14(ielioíeiiibrodel892 



SUMMARIO 

Ainda as esculpturas do Bussaco, e de 
COMO ESSA OBRA É TODA nanativa — Physio- 

NOMIA DO GÉNIO DE BoRDALLO I AS IMPERFEIÇÕES 
E AS PERFEIÇÕES PaRQUE E CHALET DA FA- 
BRICA DE FAYANÇAS VlSITA ÁS OFFICINAS, DE 

NOITE — Para a historia da tolice, entre- 
ACTO cómico espairecido d'anedoctas — Tho- 
MAZ Ribeiro, notas humorísticas d'um velho 

parlamentar o THEATRO INFANTIL E A SUA 

revista do ANNO D'ONDE VEM AS CREANÇAS 

QUE REPRESENTAM EmBAVECIMENTO DOSPAES 



II os GATOS 

E TORMENTOS d'uMA EDUCAÇÃO MENTAL MUITO 

PRECOCE — Surménage e faltas de hygiene 

As ACTRIZINHAS CANTORAS, OS COROS, E QUA- 
LIDADE LITTERaRIA das PEÇAS QuANTOS d'eS- 

SES ACTORES CHEGAM AO FIM? — PrEDICADOS 
SCENICOS AOS DEZ ANNOS ! VOZES, GESTOS, IN- 
CONSCIÊNCIA DOS PAPEIS, E FADIGA PHYSICA ES- 
MAGADORA — Lei sobre o trabalho dos me- 
nores — Conclusão. 




1 de novembro. 



Viu o leitor no numero antecedente o des- 
criplivo dos grupos plásticos destinados a vi- 
sionar á contemplação dos forasteiros doBus- 
saco, esse sympathico e suggeslivo marlyrio 
d'um allucinadodo bem, sobre cuja memoria 
o espirito humano desperta da barbaria anti- 
ga, fundando sobre um madeiro de palibulo 
uma nova moral e uma nova consciência. A 
esculptura de Raphael Bordallo c toda nar- 
rativa, nem outra concepção da christologia 
era de suppôr gerasse uma cabeça d'artista, 
pouco disposia a especulações de symbolo- 
gia religiosa. Bordallo é sob o ponto de vista 



é os GATOS 

d'esles problemas difficeis,um ingénuo com- 
mentador da fé da multidão, e como tal pos- 
suído da crença corrente, e disposto a ex- 
pressal-a por um critério naturalista, seme- 
lhante ao que os flaubertianos empregam 
para stenographar os dramas sociaes. Para 
a sua arte, o caso de Jesus deu-se eíTectiva- 
mente conforme a reportage e os commen- 
tarios dos livros santos : Jesus é para elle 
o Ghrislo das prophecias judaicas, o envia- 
do directo do Deus grande, o espirito-carne 
descendo ao mundo para ensinar o exemplo 
da jusliça, da confraternidade e do perdão. 
A obra do Bussaco é por consequência mais 
do que uma arle de modelagem e estudo 
d'atlitudes ; é um estado mental inconscien- 
te, avocado das recordações catholicas dos 
primeiros annos, e expresso pelas formulas 
da escola lilleraria em que o artista des- 
abrochou e se fez homem. Todavia estas 
duas impulsivas nem sempre conseguem cer- 
zir-se ao ponto de darem um todo homogé- 
neo e sem ranhuras ; basta observar em 
qualquer dos grupos passionaes que atraz 
descrevo, o realismo franco, livre-pensador, 
das figuras profanas, e a espécie de mystica 



os GATOS 5 

rigidez convencional do Christo, para advir 
em que a inspiração de Bordallo passando 
dos judeus ao redemptor, trepida, hesita, va- 
rada do respeito da lenda, receosa d'ames- 
quinhar-se dando ao filho de Deus allures 
de condemnado; numa palavra, acobardan- 
do-se de restituir a essa figura de nihihsta 
manso, que pregou o desdém pelo Estado, 
pela administração, pela justiça, pela fami- 
lia, pela propriedade, pelo trabalho, por io- 
das as engrenagens mães da vida social, em- 
fim, a physionomia e a postura que uma re- 
constituição scienlifica lhe fixou. Este con- 
trasenso ingénuo não prejudica por forma 
alguma o drama sacro, que de mais a mais 
Bordallo formula para uma turba-multa de 
forasteiros antes beatos do que analystas, 
n'um paiz onde o chrislianismo continua a 
ser intransigentemente semita, e onde nin- 
guém vê no Christo o pretexto allegorico, 
local, d'uma divinisação solar d'origem arica. 
Temos pois d'encarar esse drama na poé- 
tica e supersticiosa bonhomia de que o in- 
pregnou o esculptor, qual dispensando-o da 
intenção symbolica e philosophica, qual re- 
duzindo-o a ura caso de tribunal, n'uma 



6 OS GATOS 

terra de fanáticos estreitos e aduncos pha- 
riseus de gestos nevropathas. N'este campo 
restricto, a obra de Raphael Bordallo é, sal- 
vo as primeiras figuras da serie, que são 
tentativas de quem subitamente acorda es- 
tatuário, d'uma belleza e força d'expressão, 
grandes e raras. Um génio ardente, sem edu- 
cação profissional nem modelos prestes, des- 
ajudado, aparte, falho d'applausos, com mi- 
sérias de dinheiro e grandes anciãs de vida 
d'espirito, em meios sumptuosos, arranca da 
lama plástica rodilhões de formas truculen- 
tas, fragmentarias por vezes, mas todas el- 
las vibrantes e doidamente inventivas, d'u- 
ma energia foetal d'almas de monstros, d'u- 
ma perspicácia de creação cheia de sonhos ; 
e mercê do estranho fogo conceptivo que o 
domina, eil-o forjando n'esses barros iner- 
mes uma humanidade diversa da contempo- 
rânea, nervosa, sua, desarreigada do con- 
vencional, hierática e feroz, subtil e bruta, 
onde nos dessous se encordoam, o lineamento 
d'uma raça, e inquietantes sensações rajan- 
do ao travez d'almas conlusas e doentes. 
Em certas figuras (exemplo Caiphás e os 
dois magistrados que barafustam, quando Je- 



os GATOS 7 

SUS confessa ser o Chrislo ; exemplo o car- 
rasco de Herodes e o doutor de barba mo- 
saica, que está sentado á direita d'Annás) a 
lucidez de Bordallo é d'um illuminismo tal, 
á força d'arte, que o esculptor simplesmente 
intuitivo parece desdobrar-se em erudito, e 
este em psychologo, os dois approximando 
de nós uma Judeia ritual, spectral, de pé, 
longínqua de dois mil annos de civilisação, 
e com os «tantes por cento j) de barbaria 
allucinante que a antiguidade oriental tres- 
sua dos escombros e textos litterarios que 
nos deixou. Eu não poderia aílirmar que al- 
guma vez, n'essa esculptura de curioso, fa- 
lhas de modelagem não atraiçoem a ausên- 
cia d'essas pequeninas sabedorias que as 
pacientes lições de três annos d'escola en- 
sinam aos esculplores de profissão, e elles 
tanta vez manuseam para mascarar a au- 
sência do talento. Convenho até que na obra 
de Bordallo de quando em quando haja de- 
formidades ou rudezas anatómicas : mas com 
que ululante audácia, com que desespero 
magnifico, com que revoltada eloquência, 
esse excepcional aprendiz visiona os subma- 
rinos da catastrophe christã tomada ao vi- 



8 OS GA.TOS 

vo ! dando direchercheáo movimento, da pai- 
xão, da fé a toda a brida, com uma elasti- 
cidade de factura, um calor d'enlaces, um 
imprevisto de raccourcis, um ar respirante 
emfim de historia domada, que é impossi- 
vel não vêr por traz d'aque]la furiosa labuta 
d*esgares, gritos, reviravoltas, tragedias, o 
gérmen vivaz d'uma passionologia d'arle pes- 
soal, inédita entre nós, e verdadeiramente 
extraordinária em qualquer ponto do uni- 
verso em que florisse. Não foi intento meu, 
nem para illucidação do leitor valeria dar 
aqui descripções minuciosas ; por isso omitto 
a scena de Jesus no tribunal romano de 
Gabbatha, deante de Pilatos, ainda em pre- 
paro, e uma das que Bordallo compoz com 
mais aprumo. Dos outros episódios, fiz a 
correr a silhueta passional, como remember 
para os que por acaso já tivessem visitado 
o atelier das Caldas da Rainha, não me sendo 
porem possivel em espaço tão curto promeno- 
risar maquettes onde os estranhos possam 
vêr d'aquella obra pujante, alguma coisa. 



Lembro-me da impressão espavorida que 



os GATOS 9 

me causou o entrar no atelier d'esculplura 
de Bordallo, uma noite, a primeira vez que 
fui á fabrica. Tinhamos jantado juntos, Bor- 
dallo e eu, n'uma immensa sala de hotel 
quasi ás escuras, onde o artista referira os 
contratempos e agonias dos ullimos mezes 
da empreza cerâmica, parada em plena for- 
ça, e aguardando um milagre de capital, ca- 
da vez mais problemático. Para chegar do 
hotel ás installações da fabrica do fayanças, 
seguimos por um caminho silencioso, com 
um ou outro lampeão mortiço, de petróleo; 
depois, lá adeante adensava-se a treva, arvo- 
res desconformes ás duas bandas das bar- 
reiras, abobadando o alto n'um tunnel de 
que não podíamos medira profundeza., so- 
cego, espanto... té que de repente um latido 
de rafeiro nos fez deter junto a uma cancella 
rústica, que era a entrada do parque da fa- 
brica, todo em sombra, somnolencia, e quie- 
tação. N'uma clareira perto, alguns passos 
além, uma sombra de casa rústica, com seu 
quadrado destore illumiuado. Bordallo cha- 
mou o guarda a que amainasse o cão, veio 
uma lanterna, e trepando pela escadinhola 
exterior do chalet, feita de toros de cortiça com 



10 os GATOS 

vasos de begónias e trepadeira, achámo-nos 
n'uma espécie de cabana suspensa, conce- 
bida n'uma original e campestre phantasia. 
Tecto e paredes era tudo forrado d'esteiras 
de labúa, das que a genle pobre aproveita 
para dormir nos tempos de verão. A meio 
da peça havia, desde a porta d'enlrada, um 
biombo de papel aguarellado de rãs e plan- 
tas d'agua, resguardando para a direita um 
canto d'alcova, com o mosqueiro de cassa 
de Malaca, tapetes caseiros, e grupos de 
pbotographias queridas em Iropheu, e deli- 
mitando para a esquerda o resto do espaço, 
que era ao mesmo tempo sala, gabinete de 
trabalho, casa de jantar, e toilette. Todas as 
humbreirase cimos dejanellas e portas, fei- 
tos d'entrançados de canastra, uma das enge- 
nhosas industrias campestres da região, hoje 
perdida; moveis de pinho, sem tinta nem 
vernis, respeitando as formas tradiccionaes 
do escabello e do tamborete detripeça, com 
pinturas representando flores eanimaes, no 
pinho cru : á altura da cimalha, prateleiras 
com faianças portuguezas de Darque, Coim- 
bra, Caldas e Lisboa ; vasos com flores no 
lavatório e bancado trabalho Jivros disper- 



os GATOS 11 

SOS, e por cortinados e slores, pedaços d'al- 
godoaria portugueza e oriental, cheios de 
desenhinhos vermelhos, verdes e doirados, 
d'uma época em que a estamparia e a arte 
balbuciavam, com a graça das suas poíy- 
chromias hirtas e voantes. 

Era n'aquelle tugúrio a residência de Bor- 
dallo, improvisada com nove libras e uma 
pouca d'imaginação archi-estouvada, ao 
mesmo tempo labrega e dislincla, entre as 
arvores do parque esmorecidas de sede, e 
aquella noite d'agosto, sem hálito, aboba- 
dando os campos somnolentos. As officinas 
e ateliers da fabrica de cerâmica ficam a meio 
do parque, n'um alto que as terras fazem 
a cerca d'uma centena de metros do cami- 
nho. Estão espalhadas aqui e além, por dois 
ou três corpos de conslrucção vaslissimos e 
solidamente travejados, onde destaca o cor- 
po principal, sobre uma escadaria d'azulejos 
mouriscos, vasos exóticos, e monstros de 
jardim de loiça polychroma. Tomando a 
lanterna do guarda, Bordallo conduzia-me 
pela ladeira, lançando o jorro de luz sobre 
alguma magnólia ou palmeira mais esbelta, 
e a obsessão da fabrica suspensa, desorien- 



12 OS GATOS 

tando-lhe as faculdades da aUenção para a 
escrucianle ideia fixa de tanto trabalho em 
raina, tanlo talento esparso a procurar en- 
tre as reminiscências da obra alheia, e os do- 
lorosos partos da concepção individual, fora 
do tempo, o puro escorço da obra valida, da 
forma pura, da linha ideal definitiva na ce- 
râmica, d'inslanle a instante corlava-lhe o 
dialogo, e era doloroso seguil-o por esses 
plainos da invectiva e da queixa contra tu- 
do, no isolamento d'um coração sumptuoso 
que para gestar precisa, como o de todos os 
grandes plásticos, circumjacencias de luxo, 
calores de publico, e as homenagens eo oiro 
dos magníficos senhores da Renascença. E 
isto o que a multidão não comprehende, e 
toda a gente imagina subjeitar os génios 
creadores ao regimen económico e domestico 
dos simples amanuenses, dos creados de ser- 
vir, e dos vendedores de presunto, avaros e 
limitados. 

Bordallo avarento, videiro, arranjadinho, 
far-me-hia no espirito um compósito em 
verdade caricato, pelo que lhe sei da ima- 
ginação cheia de hyperboles, pela variabili- 
dade de humor inquieta e remordente, pela 



os GATOS 18 

inexhaurivel riqueza da plelhora, e terribiliíá 
▼erliginal da concepção. Artistas d'este mol- 
de não podem gerir-se mais por contas de 
sommar, ter fundilhos nas calças, e contos 
de réis a render no Monte-Pio. O quantum 
de cerebralidade susceptivel de caber n'um 
craneo funccionante, reverte para as facul- 
dades estheticas a energia vital em que ne- 
cessariamente dessangra as outras faculda- 
des, e errado vae quem não quizer ver nos 
grandes artistas, productos teratologicos do 
espirito, razões prevaricantes, insensiveis a 
umas sollicilações para que estão aptos os 
cérebros normaes, e em compensação vi- 
brando d'outras, com um poder de lucidez 
innarravel. As coisas são o que são, e a ga- 
leria bossal haverá que resignar-se e fazer 
excepções pr'ás excepções. 

No atelier d'esculptura, uma vez chega- 
dos ao vastissimo hangar das officinas, uma 
scena ph;inlaslica se desenrolou á minha 
vista: o jorro da lanterna ia por um chari- 
vari de braços e cabeças, umas vermelhas, 
outras côr de cobre, desesperadas todas, e 
infundindo pavor na carbonosa sombra do 
ambiente. Por um instante, a minha mente 



14 OS GATOS 

altonita dil-a-heis arrastada a um pande- 
monio de febre e pezadellos ; soldados, es- 
birros, Chrislos, doutores da lei, ludo me- 
chia, procurando justificar-se, vindo a mim 
demaxillas convulsivas, com discursos apho- 
nos, Iressuantes da angustia de não acharem 
em mim justificação. O feixe da lanterna 
esclarecia de cada qual o accenlo impetuoso, 
fazendo-o saltar do fundo, correr nm ins- 
tante á bocca do proscénio, depois do que 
relegava-o á penumbra, correndo a outro, 
como se tivesse pressa em o ouvir depor no 
litigio travado entre Bordallo e a indiÍTeren- 
ça do seu publico. D'este instantâneo phan- 
tastico sob que eu vi pela primeira vez as 
esculpturas do Bussaco, sahiu talvez a im- 
pressão d'assombro sob que as descrevi, pa- 
ginas atraz. Escuso dizer que não tenho por 
definitivos os juizos que n'eslas paginas 
exaro sobre as differentes questões que uma 
vida estudiosa traz ao meu espirito. Mas do 
que eu não abdico é de os exprimir tal qual 
a minha rasão yibratil os entrevê no ins- 
tante em que os defronta, e de os relevar 
nos planos em que a justiça me aconselha 
que os releve. Desattender a obra d'um ar- 



os GATOS 15 

tista a pretexto de que elle gasta quanto ga- 
nha, enão soube ser o modelo dos guarda- 
livros, é uma imbecilidade que sobre gro- 
tesca tem o seu tanto ou quanto de velha- 
ca. Não tenhamos sobre as obras d'arte as 
opiniões dos agiotas. Os povos que apre- 
ciam os productos do espirito pelo custo 
metallico da factura, giram n'um espirito de 
conservação que em vez de virtude é, pelo 
contrario, egoismo, e este critério gordo, se 
os aparentelha co's brutos, por certo lhes 
não dá na civilisação direitos hegemónicos. 



iO de Novembro. 

Entre as chapas dilectas da tolice indí- 
gena, uma conheço, a forma aphorislica, que 
é a mais cultivada pelas populações bem 
fallantes do paiz. A asneira lapidada em 
sentença, tem para os tolos a vantagem de 
parecer coisa profunda, e para os espertos 
a desculpa de muitas vezes passar por ironia. 
Doesta maneira foi augmentando para uns a 
horda dos pensadores, epara outros a hor- 



16 OS GATOS 

da dos mordazes, quando, segundo a esla- 
listica, sóadosidiolas ê que começa a estar 
mais crescidinha. Quem de longe a longe 
assiste á representação de comedias origi- 
naes, fica assombrado da quantidade de pra- 
zer que ao publico causa a baboseira em 
forma de churrilho. Quanto menos sentido a 
coisa faz, quanto mais disparatada é a arma- 
ção da phrase insalsa, tanto mais parece que 
o publico integra o espirituoso auctor no 
olympo dos cerebraes com direitos a estatua 
— como se essa obra calina fosse a ver- 
dadeira Comedia Humana a escrever d'uma 
sociedade de chanfrados e hydrocephalos. 
Quando assim se perde a intellectualidade 
do riso, eé abolida a ideia na contracção da 
mascara physionomica, a policia só tem a 
fazer uma coisa: encerrar os que riem eos 
que fazem rir, n'um manicomio. Pela cida- 
de, avulso, a cada instante ha chispas d'es- 
sa cretinisação geral de que os humoristas 
constituem o recanto divertido. 

Varias causas concorrem para a emissão 
da asneira em formas académicas : a pedan- 
teria meriodinal de fallar bem é uma d'ellas, 
e a segunda seja a convicção em que se está 



os GATOS 17 

de que a sonoridade noblifica tudo quanto 
se diz sem ideia nem conceira. Ha dois do- 
mingos ia eu pr'os loiros n'umchurriãodos 
americanos, quando, nos bancos cheios, com 
a alegria do sol e a perspectiva d'uma tarde 
real com boas sortes, começou a se produ- 
zir nos espectadores um desusado bem es- 
tar, algo ruidoso. Paliavam todos, riam, con- 
tentes, e um cavalheiro do commercio, que 
levava um jornal, buscando a propósito, co- 
meçou a descrever a outro os horrores de 
Hamburgo invadida pelo cholera. Como a 
sinistra narração não desse eíTeito, por uma 
transposição, vistosa aliaz, o cavalheiro cita- 
do começou então a applical-a, detalhe a de- 
talhe, á capital : Lisboa em pânico, as egrejas 
abertas, os enterros de noite, cadáveres e 
doentes de rustilhão na mesma maca... Co- 
meçava no carro já a movimentar-se um certo 
espanto, pararam as conversas, e alguns 
monosylabos de damas acabaram emfim 
de levar para o narrador os restos d'olhos 
que até ali tinham ficado distrahidos. Mo- 
nologo findo, o segundo cavalheiro ergueu 
a vista clara e imposante sobre os mais, 
passou a mão pelos beiços, e com espaçada 



18 OS GATOS 

VOZ (l'auctoridade, deu o substracto philo- 
sophico da coisa, n'este gosto : 

— E' dictado antigo que a peste traz fo- 
me e guerra... 

Silencio profundo, todos suspensos, e o 
cavalheiro correndo outra vez o olhar na as- 
semblea, depois de se assegurar da impres- 
são que estava produzindo : quanto a mim, 
o cholera, fome pode trazer, sim... (nova 
olhadella) agora guerra, o que se chama 
guerra... não traz. 

O assombro dos passageiros não se des- 
creve: os olhos ficaram extáticos, parados 
no orador como n'um deus, e alé ao Campo 
Pequeno ninguém ousou mais abrir o bico, 
ou perturbar sequer da besta o silencio au- 
gurial. 

Casos assim são aos milhares todos os 
dias. No caminho de ferro iam dois jorna- 
listas conversando; um d'e!les, a reler o re- 
sumo do movimento annual de população 
que o Noticias trazia, essa manhã, chegado 
aos matrimónios, exclamara: 

— Caramba ! muito se casa em Lisboa! 

— Principalmente os homens, acudiu o 
segundo, que é ministro d'estado, academi- 



os GATOS 1» 

CO, e oulras albardas de merilo, equivalentes. 
No recinto de pesagem do hippodromo, 
uma larde de corridas, cerlo genlleman de 
sobrecasaca clara dizia ao companheiro: 

— Vê lá se eu conhecerei fulano bem... 
(pancadinha no hombro) andámos lisicos ao 
mesmo lempol 

Em S. Pedro d'Alcanlara, no terraço de 
baixo, dois brazileiros n'um banco esbode- 
gavam-se, n'essa lassidão cerebral que lêem 
os ricos por muitos annos inactivos. Bem 
vestidos de novo, pingados de berloques, 8 
com diamantes de reis nos dedos de balcão, 
os pobres homens buscavam no ar pretexto 
para a reedição d'alguma antiga caturreira, 
e era doloroso vel-os seguir o vôo das mos- 
cas, passarem as creanças, ajoujarem-se 
creadas e guardas municipaes, sem que 
nenhum d'esles incidentes da vida de jar- 
dim lograsse arrancal-os áquella amollecida 
e eterna estupidez. Subitamente o gordo de- 
cidiu-se, lançou a vista aos céus — linda 
tarde, seu Borges 1 

O Borges fez um gesto vago de cabeça, 
e extenuado do esforço que fizera: 

— Está... se a memoria me não falha. 



20 OS GATOS 



Referia eu a um espirituoso, e mesmo po- 
deroso jornalista, antigo parlamentar batido 
por Iodas as desillusões dos homens e das 
coisas, esta espécie de cegueira que produz 
n*um individuo, ou n'um grupo, em certos 
casos, uma calinada em tom senteneioso, 
quando elle para confirmar o dito pinturilou 
a seguinte scena estravagante. Sendo mi- 
nistro d'instrucção publica o conhecido Tho- 
maz Ribeiro, apresentou-se uma reforma 
multando os pães que não mandassem os fi- 
lhos ás lições. No partido contrario contravie- 
ram em bater a medida, porsysthema, e in- 
timado pr'a isso á ultima hora o desenfas- 
tiado parlamentar cima alludido, entrou este 
na camará sem saber patavina da matéria. 
Abriu-se a sessão, peço a palavra! discurso 
largo e cheio d'apostrophes, ípie todos ap- 
plaudiam, conforme é d'uso em S. Rente 
quando os oradores não sabem o que di- 
zem. Chegado ao capitulo das multas, o fun- 
dibulario cruel, de punhos cerrados, fume- 
gando do exilo oratório, cresceu para o mi- 



os GATOS H 

DÍstro uns quatro passos, e pôz-se a dizer: 
— Quanto a miillar os pães, por qual pro- 
cesso ousaríeis vós, senhor ministro, alten- 
tar contra a liberdade da ignorância nas fa- 
milias ? 

— Pelo processo das coimas, disse Tha- 
maz, varado, e com o lápis em flexa na pou- 
pa de cabello dianteira. 

— Pelo processo das coimas, céus que 
vejol Estranha affirmalival Evasiva mes- 
quinhai Por ventura v. ex.^ sabe juridica- 
mente descriminar, coima, de multa? 

Viu o Thomaz Ribeiro fazer-se branco, 
abrir a bocca estanque d'argumentos, e ca- 
hir na cadeira, espapaçado. 

— E por meu turno, accrescentava o nar- 
rador sinceramente, eu fiz o mesmo — por- 
que também não sabia. 

Com os homens succede o mesmo do que 
com os toiros no trasteio. Ha um momento 
em que elles ficam cegos, surdos, patetas, 
deslumbrados. Póde-se-lhes dizer seja o que 
fôr, porque a impressão é igualmente ful- 
minante. Um marido cahindo em casa sobre 
o espectáculo da mulher mail-o amante. Vera 
a allucinação do revolver, o desgraçado vae 



2a OS GATOS 

esmigalhar a cabeça ao felizâo... Vae este, 
berra-lhe : 

— Cautella que assassinas o pae de teus 
filhos I 

Ora, sob a influencia hypnotica d*esla# 
phrase, novenla e nove vezes por cem, o po- 
bre diabo deixa cahir o revolver e começa 
a gritar : 

^Meu Deus que ia eu fazer I 
porque aquella coisa do pae de seus flhos 
acaba de lhe esmiolar a cabeça perturbada, 
e na atrapalhação já não reflecte se o pae 
é elle, se o pae é o outro, ou mesmo se o 
verdadeiro marido foi, alguma vez, algum 
dos dois. 



[^ de Novembro. 

Vae para dois annos que um emprezario 
de Lisboa explora, ora n'ura iheatrinho pró- 
prio, tamanho d'uma caixa, ora em mais 
vastas scenas, os trabalhos de representa- 
ção scenica d'uma companhia de creanças. 
A' força de ver reclamar nos jornaes os pro- 



os GATOS ^ 

digios d'arte do microscópico elenco, fui-me 
á rua dos Condes escutal-o, sobreavisado 
um pouco contra tão apregoada maravilha. 
O espectáculo abriu por uma espécie de re- 
vista politica, toda cheia d'allusões aos mais 
escandalosos pratos de S. Bento. Um patar- 
reco rachitico, com uma voz entrecortada, 
fazia o Zé Povinho, guardando o passapio- 
Iho, o chapéu braguez e o fato de saragoça 
com que Raphael Bordallo o inventou. Uma 
pequena triste, de capote e lenço, fazia a 
velha dos Pontos nos ii, e no campo da ca- 
ricatura pessoal, desde o Marianno até ao 
Vallada, tudo alli tinha sua figuração inson- 
sa e delambida, em figurinhas de bigodes 
postiços e chapéu alto, papagueando slulli- 
cias de jornal chalro, com o entono de quem 
com razão não percebe absolutamente nada 
do que diz. D'espaço a espaço, uma borbo- 
letasinha de dez annos, bonita, galante, fa- 
nada já por todos os saracoteios da diva em 
botadella de luzio prós monsiús de bidro no 
olho, entrava pelo fundo em diíTerenles dis- 
farces, dengosa de cotovellos e com a bocca 
sangrante de carmim, para vir cantar á boc- 
ca de scena, n'um fio de voz angelical prós- 



-24 OS GATOS 

tiluida por trinados, arietas e coplas d'uma 
ínoral cambaleante, onde a sua figurinha 
triste resahia como uma flor molhada de de- 
jectos. O coro respondia também por boccas 
innocenles, vinte ou trinta creanças larvadas 
de pobreza, olheirentas, com typos d'azyla- 
das, coitadinhas, botando os versos no zan- 
garreio do B-A-ba das antigas mestras de 
leitura ; e entre essas trinta, duas ou três na 
adolescência, e com todo o feitio do ralo de 
bastidor mais inquietante. 

O eífeito d'esla infância votada ao mar- 
tyrio de decorar as a>neiras de peças que 
até em iheatros de gente adulta se não po- 
deriam supportar sem reprezalias, pode cal- 
cular-se na proporção da melanchoha im- 
Hiensa, varada, que alanceava os poucos es* 
pectadores que havia pola sala. Prohibido 
n'aquelle sitio, perante inconscientes crean- 
cinhas, o direito de protesto — porque além 
das intenções certo altruístas do emprezario, 
todas as manifestações d'intelligencia pre- 
coce fetichisam d'unia maneira doentia a 
ternura sentimental da nossa Índole, e contra 
si próprio vae quem pretenda reagir a tão 
laxa inclinação — ficava-nos o recurso d'a- 



os GATOí^ 25 

companhar desconsoladamente o espectáculo 
alé ao fim, e eu fui um d'elles, porque me 
não restassem duvidas quando á legitimida- 
de das pequenas considerações que vou fa- 
zer. Perfeitamente sei d'onde procedem as 
creancitas arregimentadas na desenxaliida e 
precoce companhia. Quasi todas são filhas 
da rua e da miséria, brotadas em lares on- 
de escaceia o pão e sobram os tormentos, 
onde o trabalhador não tem salário e a viu- 
va rebenta a labutar para trazer illudida a 
barriga, e agazalhado o corpo dos seus filhos. 
A perspectiva d'uma diária, embora magra, 
vinda da exploração dos talentos de pobres 
monstrinhos que a oíBcina não quer ainda, 
e a escola primaria tornaria talvez mais 
ignorantes,tentasem duvida os pães, cujo mi- 
serável dia a dia lhes não dá serenidade ou 
lucidez para cogitarem no perigo de surmé- 
najar assim rudimentares cerebrosinhos de 
sete a nove annos. Essa diária trazida pe- 
las creanças ao cabo da semana, provenien- 
te d'um trabalho nobre, artista, ao passo 
que beneficia a família, dá aos progenitores 
uma espécie de basofia, iutelkctual, fidalga, 
d'aquella de que o povo mais gosta, por- 



36 OS GATOS 

que ella representa uma passagem de nivel 
da classe serva, para as chamadas clas- 
ses superiores. Eslá-se a ver o triumpho 
d'um d'esses pequerruchos, na sua casa, no 
seu prédio, no dia seguinte ao d'um debute 
auspicioso. Os jornaes a fallarera, visinhos 
que foram ver, os companheiros da pedra 
deslumbrados, os parabéns e os presentes, 
todas essas mimosas victorias emfim que re- 
frangidas da celebridade do joven actor, vão 
alluminar também d'um raio immortal os 
pobres diabos que o acaso investiu da missão 
de o atirar cá para este mundo. Taes satisfa- 
ções não se descrevem ; seja-se embora pre- 
vidente ou cultivado, não ha pae nem mãe 
que em face das contraprovas precoces do 
seu menino, se não sinta disposto a lhe pedir 
todos os dias mais esforços, e de maravilha 
em maravilha, sem repararem na creança que 
se definha, nos olhos que se acarneiram, na 
viveza infantil que se adormenta, na sensi- 
bilidade que se preverte, na innocenciaque 
se vicia, os desgraçados progenitores, com 
alguns annos d'esle regimen, onde julgavam 
ter formado um vivo, não encontram talvez 
mais do que um sonâmbulo, tanto os bal- 



os GATOS 27 

does da educação artificial dada á ereança 
lhe foram liquidando o génio em idiotia. 

Um cavalheiro lamentava deante de mim 
o filho único que perdera, roído de consum- 
pção á entrada da Escola Polytechnica. Es- 
tou a ouvil-o dizer, limpando as lagrimas : 
só um consolo me resta! é quecomquator- 
ze annos apenas, o meu Arlhur levou á co- 
va todos os preparatórios do lyceu, dois an- 
nos de conservatório, e pratica de francez e 
inglez na perfeição 1 Pois querem crer? Ne- 
nhum de nós teve coragem para chamar as- 
sassino a este allucinado da instrucção I 



No caso sujeito já estou a ver as attenuan- 
tes que a sensihlerie contraporá á manifesta 
repugnância que me causa esta escamotea- 
ção da infância pela arte. 

Ao iheatrinho apendem, leio nos jornaes, 
aulas de portuguez e francez, onde os pe- 
quenos artistas se ingurgitam da cultura 
mental preparatória da sua vida de futuros 
comediantes. Esses bastidores de bonecas 
onde elles e ellas vão desemburrando os ta- 



28 OS GATOS 

lentos scenicos innatos, lêem além d'isso 
mira de fornecer ao theatro nacional a escola 
pratica elementar que o conservatório nega 
aos predestinados de proscénio, e todas es- 
tas vantagens combinadas com ess'outra de 
se arrancar á miséria pequenos que não sen- 
do actores, seriam gaiatos, e que não acei- 
tando a esmola do emprezario, teriam fome, 
todas estas vantagens hão-de predispor a 
pieguice do publico favoravelmente ás com- 
panhias dramáticas decreanças. Semelhante 
Denevolencia, repilo, é mister combatel-a vi- 
vamente, já porque ella representa uma vio- 
lação dos direitos da infância, a que está de 
guarda a lei sobre a regulação do trabalho 
dos menores, já porque por outro lado a 
educação geral ou individual não ganha 
absolutamente nada com o permitlir-se que 
bebés de quatro a dez annos façam vida 
d'aclores profissionaes. Inútil repelir aqui 
todas as razões de physiologia e moral que 
teem feito os educadores optar pelo desen- 
volvimento espontoneo das creanças, des- 
viando-lhes do caminho as sobrecargas com 
que não pôde a sua resistência vital e a sua 
edade, e ensinando- lhes, como diz Spencer, 



os GATOS 3» 

O menos possível, para as fazer achar o mais 
possível. Gomo se Irata d'organismos ten- 
ros, de funccíonalismosínhos friáveis, todo 
o desenvolvimento da infância, que é muito 
lento, carece de ser auxiliado exclusivamen- 
te n'um sentido physico, por forma que os 
trabalhos nem forcem nem attinjam sequer 
os limites de resistência d'esse conjuncto de 
vísceras para assim dizer em formação. Já 
era uma emboscada á raça dar ás crean- 
ças, nas officinas, trabalhos ínusculares 
capazes de fatigar adultos robustíssimos, e 
nas escolas primarias e secundarias exer- 
cícios de memoria que tão terrivelmente o 
paiz tem pago na baixa intellectual verda^ 
deiramenle assustadora das gerações dos 
últimos trinta annos. Juntem-se os esgotos 
das duas depressões, a psychica e a mus- 
cular, e far-se-ha ideia do attentado que 
é consentir que os pequerruchos repre- 
sentem por oíBcío. A' tarefa verdadeira- 
mente estarrecedora das recitas, quatro 
horas a fallar n'um ambiente confinado, 
em caracterisação, ás chammas da ribal- 
ta, que desacomodam a vista, e no meio 
de lonas desagregando de si princípios mi- 



30 OS GATOS 

neraes, ajuntar-se-hão durante o dia as es- 
topadas dos ensaios e das lições (se acaso 
algumas ha), o estado dos papeis, e infini- 
tos d'esforço emfim, mais que neces?arios 
para fazer do theatro um hospital, com to- 
das as gafarias do internato o mais suspeito. 
Examinar detalhadamente cada qual d'es- 
sas figurinhas da revista... musculaturas 
molles, orelhas despegadas da cabeça, o an- 
dar derreado e carneirento, dedos renflés nas 
extremidades das phalanges, incurvações 
do systema ósseo provenientes do esforço 
dos gestos repetidos e das attitudes conven- 
cionaes que o palco quer... Metade da com- 
panhia prepara-se para morrer de tisica 
aos quinze annos, quando a outra metade, 
para escapar á morte, venha para a rua ven- 
der cautellas, ou resvalado haja a menos 
decente occupação. A todos os signaes 
d'uma fadiga que a debilidade congénita 
ainda faz mais lastimável, outros dese- 
quilíbrios acrescem, revelados em particu- 
laridades de piso, de voz, de jogo scenico. 
Fallei atraz das cabotinices e dengosidades 
que em scena mostram algumas das figuras 
principaes da companhia, o saracoteio dos 



os GATOS 81 

quadris, o jogo de hombros e a postura a 
Ires quartos das cantoras... As vozes tendo 
de ser emittidas, ou para cantar, ou para 
fallar, n'uma altura de timbre accessivel á 
massa geral d'espectadores, e de pronunciar 
extensos periodos, muitos difficeis, e quasi 
todos com recortes litterarios, a pouco tre- 
cho oíTegam de cangaço, e sente-sea respi- 
ração dos pobres pequenitos, curta e jacti- 
tante, cortando as tiradas de fifias, e atrai- 
çoando na vocalisação um esforço de laryn- 
ges seccas e de linguas emperradas no tra- 
balhar dos sons sem ideia, e dos eíTeitos 
oratórios sem digestão mental do que elles 
representam. D'este dizer de cór nasce tam- 
bém um pouco a tristeza apathicaque lêem 
na scena quasi todos. E que admira? Pri- 
vando a creança dos conhecimentos próprios 
da sua edade, e trocando-os por outros que 
ella de forma alguma pode absorver, pro- 
duz-se um estado de paragem cerebral que 
a bestifica, e lhe vem ao rosto em depres- 
sões de traços, em vacuidade d'olhos, e 
abaixamento dos cantos da bocca, com que- 
da do beiço exprimindo a estupidez. Consi- 
derem-se um pouco as peças que lhes dão 



«2 OS GATOS 

para fazer; que obscenas trapalhadas, que 
diálogos torcidos, que falta d'accessibi lida- 
do aos cerebrosinhos de seis annos 1 Gomo 
exigir d'esses bambinos o sentimento litte- 
rario, e a desarticulação do ser a capricho 
das coleanles nervuras do papel? como lhes 
pedir espontaneidade, frescura, verve, no 
estylo graphico de dizer, e o presentimento 
dos motivos da acção, quando os papeis só 
pelo lado da memoria os impressionam, e 
os pobres diabos nem sequer podem ligar 
duas ideias? Provem d'aqui o ar occo, au- 
tomático, coado, com que elles impingem o 
sermão que lhes ensinam, succedendo que 
os gestos não tem correspondência com o 
sentido dos discursos, que a voz é exangue 
e sem cheios nos pontos em que a acção 
mandava aquecer o timbre, o tom crescer ; 
e a razão physiologica deprehende-se : as- 
sim como para o olho das creanças, toda a 
visibilidade apparece, por manchas, sem 
perspectiva nem planos relevantes, assim 
perante a sua inlelligencia também appare- 
cem as ideias, rebatidas, de sorte que a voz 
que as exprime não pode ter ainda inflexões 
inlellectuaes, filhas do eu, senão aquellas 



os GATOS 33 

que o ensaiador lhe martella, e que ella 
controverte e desloca a cada instante. 

Resumo pois que as companhias infantis 
nem como regalo artístico, nem como exer- 
cício experimental, teem cabimento, e que a 
policia sanitária comelte um crime assistin- 
do impassivel a este martyrio da infância em 
beneficio das distracções d'um publico bes- 
tiaga, como o nosso. Não é negar que as 
aprendizagens longas não façam os profis- 
sionaes melhores e mais perfeitos. O homem 
seria incapaz de qualquer esforço, se o não 
habituassem desde a infância a trabalhar. 
Entanto para as profissões intellectuaesnão 
é aqueUa a edade; prodigios aos dezannos, 
palermas aos quinze, e d'ahi para cima, 
derreados I 



^ 



FIALHO D'ALMEIDA 





publicação 
d'inque)íiito á vida PORTUGUEZA 



N.°50 — 16 de Dezembro de 1892 



SUMMARIO 

Duas recepções de gare, espaventosas — 
Chegada de Limita, e reclame monstro do 
Século POR via d'uma carta de Salgado — 
AdhesOes e mensagens dos nossos correligio- 
nários — Viva o Garnot portuguez e hur- 

RAH pelo futuro PRESIDENTE DA REPUBLICA I 

— Limita em padiola, sua integração no Sé- 
culo, E assignatura extraordinária sem pa- 
gamento DE JÓIA — Recita de honra, hymno, 

ALMOÇOS, E DO CARRASCÃO QUE SE BEBEU — LlMI- 
TA força da natureza, E CAGAÇO do GOVERNO 



II os GATOS 

PERANTE UM TAL DEMOLIDOR — A MANIFESTAÇÃO 
SUBVERSIVA DO MaTTOS MoREIRA, A PARTIDA 

DOS REIS, E A CAPITAL EM ESTADO DE SITIO 

O SR. CONDE DA FOLGOSA, PRESIDENTE DO CON- 
SELHO A DIAS — Projecto d'uma recepção 

REAL NUNCA SONHADA AJlSSÃO DIPLOMÁTICA 

DE S. M. A REGENTE : VISITA AOS QUARTÉIS, ÁS 

PRISÕES, ÁS SAPATARIAS E ÁS ESCOLAS PARA 

QUE SERVEM AS ORDENS MILITARES MlSSÃO 

DIPLOMÁTICA DE FoLGOSA — QuEM DIABO É, E 

DONDE DEMÓNIO VEM? AsSEMBLÉA DOS ANI- 

MÃES PARA ESCOLHER UM REI, OU DE COMO AS 
PROJECTADAS MAGNIFICÊNCIAS DERAM n'uMA CAN- 

GALHICE d'aRRAIAL LlMITA TRIUMPHANTE, E O 

SEU BARRETE PHRYGIO DE DORMIR SAGACIDA- 
DE d'um repórter DAS Novidcides. — Inquérito 

Á CREADAGEM FoLGOSA SOBRE A BOMBA, E DE 
COMO A EXPLOSÃO NÃO FOI NA CABEÇA DOS DRA- 
MATURGOS — Gil Vicente e os damascos — 
Desastres artificiaes do attentado, ou o 

cocheiro ESCRIPTURADO PARA MORTO — En- 
SAIO GERAL DAS VICTIMAS — GoNGLUSÃO. 




5 de dezembro. 



Esta foi na verdade a quinzena dos gro- 
tescos, a paschoa dos purrios onde a cidade 
abriu alas para substituir á vida seria, obs- 
cenas cabriolas de macacos. A historia d'es- 
te final da nacionalidade que eslá a pedir 
incorporação provincial n'uma visinha forle 
que lhe laganteos rins de prostituta — d'este 
íinal de nacionalidade onde o povo repre- 
senta um papel inda mais vergonhoso do 
que os espantalhos e mandões que se laus- 
perennam ahi cynicamenle — se no dia da ca- 
taslrophe quizer exemplificar como senhores 
e servos eram dignos da infâmia a que rola- 



os GATOS 



ram, baslar-lhe-ha detalhar ponlo por ponlo 
os carnavaesa que vimos d'assislir. Tivemos 
primeiro o tribuno Lima, caixeiro da demo- 
cracia monopolisnda por acções a beneficio 
d'uma empreza de noticias, cançado de par- 
vajolar em almoços francezes e hespanhoes 
a conhecida homiha do jesuita e do rei, de 
dedo no ar e gaforina hirsuta a ferro quen- 
te, á espera na fronteira que os emprezarios 
lhe inventassem reclame para uma recep- 
ção de gare, espaventosa. A diva torcia-se 
em Madrid, ingurgitada d'acordos jacobinos, 
cançada,como elle próprio dizia, d'aturar as 
banalidades hespanholas, e emfim no ápice 
da gloria, em lilhographia d'Epinal, amea- 
çando a triplice-alliança com a confederação 
latina nos gatazios. Esse reclame afinal sur- 
giu fumante, e foi uma carta amarga de Sal- 
gado,increpando Limita de deslealdades par- 
tidárias, d'eslupidez vaidosa, e mesmo n'um 
lance de paixão exagerando uma pbrase que 
esciipta fora, sabem-no lodos, para não ser 
tomada ao pé da lettra. Aquella carta, re- 
cebida com protestos platónicos, em prosa e 
verso, por muito povo, e a maioria dos nos- 
sos collegas da imprensa, serviu para dia- 



os GATOS 5 

manlinisar ainda mais o caracter de Limi- 
ta, porém ma! iria ao programma do Século 
se elle a não transfizesse logo em fonte de 
receita, abrindo suas columnas a Iodas as 
sandices collectivas ou isoladas, epistolares 
ou lelegraphicas que os admiradores do tri- 
buno houvessem por bem mandar á redac- 
ção — francas de porte e com a assignalura 
d'anno adeantada. 

D'esta forma se organisou umborborinho 
de curiosidade de redor do agitador albino, 
armado em victima, de sorte que annun- 
ciada a sua vinda do estrangeiro, sempre 
houve trezentos patetas com que lhe arranjar 
uma claque (jiie o palmojou na gare do Ro- 
cio, chamando-lhe futuro presidente da repu- 
blica, Carnot portuguez, comer com asseio, 
e outras inconsciencias broncas d'este lote. 
A rara genlé séria que ainda excepcional- 
mente grassa na cidade, ao saber d'esta fes- 
tarola patusca, do género das que o Bap- 
tista tem por Setúbal nos dias de jantar com 
vinho a rodo, e das que a chorada Gecilia 
Fernandes tanta vêz pagou á linha nas ga- 
zetas, encolheu os hombros, benévola, e 
comsigo admirando mais este expediente ad- 



6 OS GATOS 

ministralivo do hábil Silva Graça, com o di- 
zer que hoje em dia todas as fundações são 
licitas ao prestigio, havendo uns que o con- 
quistam pelo talento e pelo estudo, e outros 
que o vão simplesmente colher aos cartazes 
das esquinas, e aos loasts dos banquetes 
cosmopolitas, onde por ninguém se enten- 
der, é facílimo aos parvos arrematar pal- 
mas de heroes. Raríssimas pessoas real- 
mente se sentiam dispostas a contrariar o 
bródio d'esses quatrocentos caixeiros desem- 
pregados, de roda do seu homem, cujo al- 
cance politico^ poderá quando muito dar 
nome a um fun-ga-ga fora de portas, a uma 
aguardente pólvora, a um sabonete ou a 
uma marca nova de bolachas, mas cujas qua- 
lidades neutras o tornam de sua natureza 
inoffensivo, e naturalmente propenso a viver 
da democracia como outros por ahi virem 
d'inscripções. Por consequência o cortejo 
foi por alli fora, Limita em padiola, da es- 

1 Próximo á revolta do Porto, esteve Limita em 
Coimbra a conferenciar c'os estudantes, e vindo-se a 
fdUar u'uina revolução provável para cedo, lembrou o 
tribuno que se a coisa liouvesse de se fazer um dia, 
escolhessem antes umas ferias, para se evitar aos re- 
volucionários a perda d'auuo. 



os GATOS 7 

tacão doRccio para aruaFormoza, no meio 
do riso publico, meio piedade meio troça, 
sem que subissem por isso os fundos da re- 
publica, descessem os fundos da monarchia, 
a Batalha deitasse supplemento, ou pare- 
cesse menos immaculado o caracter de Li- 
mita, o seu olhar menos albino, e menos 
diamantina a sua tempera, feita d'apertos de 
mão 6 cartas de namoro. Os que a jantar 
sentiram as palmas, disseram entre si: é Li- 
mita qne chega, salero! como se diz aos sab- 
bados, lá vae o bando dos toiros, quando se 
ouve a corneta dar signal ; e absolutamente 
ninguém mudou d'ideias, ou estragou por 
isso a digestão. 

Integrado o tribuno em sua ociosidade 
aíTectuosa na testeira do Século, aviso novo 
de que as columnas da folha ficavam aber- 
tas ás parvoiçadas solrtarias ou collectivas, 
epistolares ou telegraphicas que saudar vies- 
sem o monumental recenchegado — francas 
de porte, claro, e com a respectiva assigna- 
tura d'anno em vales do correio. Esta cele- 
breira condimentada em clienlella pagante, 
valeu ao Secidonovos successos de tiragem, 
dando de sobreselente para dois almoços de 



8 OS GATOS 

honra, com sauterie de damas castelhanas ^ 
Continuaram as festas por três dias, e houve 
no Princine Real recita de ofala, estando Limi- 
ta em camarim colgado de damascos, coroas 
de buxo, e sendo-lhc tocado o hymno á en- 
trada, de pé, no meio d'estrepilosas ovações. 
Por esta occasião lhe chamou um, por car- 
ta, o «homem de mais prestigio do partido 
republicano», e Angelina Vidal, a pythonisa 
vermelha do club Sola e Vira^ tomando o 
verbo, lhe desferiu das varandas uma ode, 
onde Limita ia ao par do arcanjo da Vi- 
ctoria, complelando-sea allegoria com Gra- 

• Extracto do próprio Se ido o raconto suinmario doa 
banquetos : houve no primeiro vinte e sete saúdes, e 
trinta e quatro no segando. Calculan>lo que cada con- 
viva absorvesse a decilitro por saúde, tesnos que no fim 
do primeiro almoço estava cada qual com dois litros e 
sete di'CÍlitros de vinho no bucho, e três Htros e quatro 
decilitros ao cabo do segando. Os speeehs entretanto 
não fizeram a menor allusào ao advento da republica, 
e mesmo ao cognac, que é (juando a paixão democrá- 
tica mais se incende, os camaradas politicos de Limita 
limi-taram-se a brindar pelas prosperidades do Século, 
e pelas senlioras e meninos uns dos outros. Ia vi/m >e- 
ritas. Se esses republicanos cuidassem na republica, 
acaso teriam hesitado em proclamal-a, cora três litros 
de vinho na barriga ? Outra v^-rsão talvez poréni se 
nos imp'~o, e vem a ser que Silva G-raça por economia 
aguasse o vinho, espichando o do pipóte d'oude tira a 
politica chilra do jornal. 



os GATOS 



ça, de Mercúrio, e Silveira de bochechas 
infladas, assoprando n'um cartucho de papel. 



O leitor que olhou para esta choca apo- 
theose, como para uma pandega de faias, 
feita em familia, de banzaras, e sem propó- 
sito algum d'escandaIo europeu, por certo 
não está disposto a acredi!al-a emanação da 
grossa massa seria do partido republic;ino, 
partido de protesto, cada vez menos dis- 
posto a render pleito aos Desmoulins cabel- 
leireiros. Por consequência fez incluir como 
devia a festarola a Limita entre as manifes- 
tações da liberdade de fazer barulho por 
pouca couza, indo mesmo á concordância 
de que para o desfructe da estima publica 
não ha nada como não se ter uma única 
qualidade dominadora e superior. 

Pois caro amigo I emquanto no seu espi- 
rito a recepção a Limita era equiparada, sob 
o ponto de vista da importância social, aos 
mais minúsculos e inofensivos fait-divers 
do dia a dia lisboeta, verhi-gralia, ao bando 
dos touros, ás prisões dos padeiros, e á for- 



10 os GATOS 

mozura branca e á formozura corada do per- 
fumista universal Pereira d'Al[neida o go- 
verno do sr. Dias Ferreira, os partidos dy- 
naslicos,a corte, transidas d'espanto,ao sentir 
as palmas ao tribunojulgaram chegada a ho- 
ra da matança, e eil-os tartamudeanles, ignó- 
beis de cagaço,obsessionados de cárcere e de 
degredo, lançando-se reciprocamente a culpa 
das poucas-vergonhas próximas e remotas, 
e sem atinar com parede onde arribar o nau- 
frágio dos Irazeiros receosos de chinello. Este 
terror subiu de pânico, quando da esquina do 
Mattos Moreira,indo el-reygorditoyla mas sa- 
lerosissima de las reinas dei mundo a embar- 
car no expresso, para as festas colombinas, 
quatro portugiiecitos, lhes gritaram, viva a 
pátria! no que a policia achou, com razão, 
motivos de captura, visto terem os defensores 
da realeza tornado o viva a pátria n'um syno- 
nymo integral d'abaixo a monarchia. 

Levados os gritadores sicários para o se- 
gredo, abalados para Madrid os reis, deli- 
bera o conselho de ministros reunir-se em 
sessão perpetua, declarando a capital em 
estado de sitio, e pegando a decretar medi- 
das d'espavenlo, em guisa de reverter a es- 



os GATOS 11 

fervencia revolucionaria mnaníe (palavras da 
/?e/òrwa)n'umaoíTegaíile e a maviosa deaion- 
slração d'amor aos soberanos portuguezes, 
ao lempo synthetisados na illuslre princeza 
que os pariu. Por que a reconquista de Lis- 
boa fosse rápida, lançou-se a regente dona 
Pia (madama havida por mui lo feslrjeira e 
bailona no escamoteio das sympalhias po- 
pulares) á pesca dos applausos, e foi nomea- 
do um presidente de conselho a dias, um 
tal Folgosa, homem da privança e créditos 
do outro, e o qual por ser dono do Colyseu 
chegou a imaginar que tinha nas mãos o 
povo, que por ter sido furriel de lanceiros, 
se attribuia domínio entre o exercito, e em- 
fim que por basto chegado ao ministério, 
era natural fosse querido entre a policia 
secreta, especialmente encarregada de des- 
tramar conspirações e votar no governo a 
meios preços. 

Ahi lemos pois o presidente de conselho 
novo e a rainha velha, em peditório de sor- 
risos de boila para a coroa, qual empenha- 
do em acumular fallarios e pacotilha» por 
forma que a espera a D. Carlos deixasse a 
perder de vista a manifestação cagada a 



12 OS GATOS 

Magalhães. O mot d'ordre intransigente, in- 
condicional, imperioso, era que se metesse 
n'um chinello as demonslracções do club 
Sola e Vira e da a^^sociação de recreio Mor- 
talha e Onça na estação do Rocio, por traz 
das quaes a candonguiceoííicial teimava em 
vêruma pata da hydrarepiibliqiieira, amea- 
çando: e que se não poupassem despezas, 
o ponto sendo que ás tenças de marqueza- 
dos e pariatos, de futuras concessões de for- 
necimentos para o exercito, etc, os cavalhei- 
ros promotores do batuque régio se dispo- 
zessem a adeaníar as sommas necessárias, 
de que se lhe pagaria depois juros e capi- 
tal, sabe Deus como. 

Começaram immediatamente as corruma- 
ças. A regente, atacada d'uma romantite agi- 
tante. Ião particularmente grave de prognos- 
tico nas circumjacencias da menopausa, 
inda os seus augustos filhos não tinham pas- 
sado a fronteira, já n'uma espécie d'inquie- 
tação espiral sahia a visitas officiaes por 
asylos, cadeias e quartéis. Na penitencia- 
ria, depois de fazer aos presos iodas as es- 
pécies de perguntas contrarias á boa ordem 
do estabelecimento, e de simular deante dos 



os GATOS 13 

assassinos e ladrões que alli definham, quan- 
tidade d'aínicçõese misericonJias um pouco 
descabidas, a lai ponto levou as demonstra- 
■ções do seu siisceplibilismo, que se lhe não 
abreviam a visita, teria mandado esvidar to- 
da a cadeia. Amando a pompa, foi em galeota 
dourada a bordo dos navios, eo espectáculo 
das salvas, quo fazem, estardalhaço, como as 
kermesses, resolvendo-se tudo em fumacei- 
ra, o espectáculo das salvas e dos marujos 
nas vergas, soltando vivas, coitados, para 
não irem com ferros ao porão, galvanisou os 
byslericos nervos de S. M.,como em tempo 
algum succedera quando ella^Ta uma rainha 
verdades. Vem nos jornaes o ar de profun- 
do conhecimento com (jue assistiu ás mano- 
bras da maruja, e os officiaes tantas coisas 
technicas lhe ouviram sobre náutica, que 
enlresuspeitam fosse ella quem inventasse os 
barcos a vapor. Saltou d'ahi nas escolas 
scienlificas, e na Polytechnica, estando o Pi- 
na a mascar physica, com variações de cal- 
culo infinitesimal, a rainha, escreve o Dia, 
fez taes lregeitosd'olhos e de dedos, tantas 
corcovas de górja, que sahimos todos con- 
vencidos d'ella saber ainda mais que o pro- 



14 OS GATOS 

fessor. Pincha d'ahi na artilharia, e eslá tu- 
do parvo c'os prodígios de valor e saber 
que revelou. Agarrou em canhões, parliii 
balas a murro, oíTereceu modelos seus de 
lanternetas e pólvoras sem fumo, e deri- 
vando Q^eslas competências athlelicas e 
scientificas para pequenas argucias senso- 
riaes de fino faro, teve artes d'adevinhar 
pela prova do rancho quantas balatas ti- 
nham cabido a menos no caldeiro, e de que 
lavrador era o azeite que não tinha sido dei- 
tado ao bacalhau. D'arlilharia faz-se trans- 
portar pressurosa ao Limoeiro, d'aqui a sa- 
padores, de sapadores á lia Lconarda, e por 
toda a parle o seu ar entendido, o seu sorriso 
crispado,e a toilelte fúnebre de santa captam- 
Ihe a sympathia dos simples, que mal podem 
comprehender como uma rainha desça de 
palácio, com as azas enroladas em papel de 
seda, n'uma caixa de rt beca, a pedir votos. 
Em sete dias de regência (sempre se- 
guindo as apotheoses dosjornaes) a sr/ D. 
Maria Pia deu lições de governo ao filho 
ausenie, na arte de ocomprcmetter perante 
os siibditos, d'estragar dinheiro em gorge- 
tas dobradas, que nós pagaremos como uns 



os GATOS 15 

parvos, e de que ella como cosluma lerá 
feito mais um parafuso para as suas azas 
(i'anjo carideiro. Também, consol-ímo-nos : 
não lhe faltou visitar um estabelecimento, 
meller o nariz n'uma marmita, dar razão a 
uma queixa, ver um hospital, um quartel, 
uma sapataria ou um hervanario, e por on- 
de passou choveram feriados, salvas, me- 
moriaes e gestos de hombros. Para a revista 
do anno ser completa, até lhe arranjaram 
um dia d'assignatura, que S. M. illustrou 
nomeando ministro d'eslado honorário um 
Terra Nova de palácio, e enrodilhando aos 
cueiros dos netos as bandas de duas ordens 
com que é costumo galardoar os que arris- 
cam a vida n'Africa, pela pátria, e que os 
pequenos terão mijado e borrado a esta hora 
e com insouciance egual a quem lh'as deu. 



Emquanto a excelsa princeza assim tro- 
tava na popularidade, vestida de Senhor do s 
Passos, ecomcabellos chimicos espavoridos 
ás brizas philanlropicas, dizei-me ó numes 
que mirabolantes projectos cachoavam por 



16 OS GATOS 

baixo da cabelleira do Folgosa ? Essa espé- 
cie de Burriay do segundo turno, esse ino- 
pinado presidente do conselho para pessoas 
tristes, occupando mezes antes simplesmente 
na vida a profissão modesta de consorte, por 
quaes phiílros galvânicos o arvorou Zé Dias 
em fogueteiro mor da realeza, e d'onde proce- 
de a força que o alevanta de súbito á impo- 
sanle posição de juiz de chegada, na corri- 
da dos reis para Lisboa? 

Vae uma pessoa ao Larousse e não lhe 
topa sequer um dado biographico; não ha 
menção d'elle nas escolas, nas academias, 
nos cenáculos bancários, nas emprezas in- 
duslriaes, nas pugnas de parlamento, e 
quando m.uito lembra-se o Chagas de o ter 
visto patrulhar Zé Dias no desterro, ou ha 
memoria de o terem querido fazer juiz d'ir- 
mandade na freguezia do Soccorro. Quem 
sabe d'onde elle vem ? Quem me pode di- 
zer p'ra onde elle vae? E entretanto o seu 
valimento é de força a Zé Dias lhe entregar 
á partida as chaves da cidade, pra que elle 
ponha e disponha, dê ordens, especa oífi- 
cios, despache com os directores geraes, ca- 
nalise a seu gosto o movimento dos minis- 



os GATOS 17 

terios. mande a guarnição, amphibise a ma- 
rinha, decrete a gala, e tudo isto d'uma ma- 
neira tão natural e tão simples, que lodos 
acham graça, e ninguém se sente disposto a 
protestar 1 Apenas os reis dão ala pr'a Ma- 
drid, e com elles Zé Dias, a conferenciar 
com Sagasta sobre a importação crescente 
de hespanholas, Folgosa, senhor do reino, 
convoca ao seu roqueiro da rua da Palma, 
uma côrle de sapateiros e mercadores apa- 
niguados, para ahi se acordar sobre o rece- 
bimento da volta, aos viajantes. Trovejaram 
programmas nas discussões da assembléa : 
alguns propunham imia demonstração na- 
val junto á estação manuelina, espectáculo 
inexequivel, por a companhia das aguas se 
não prestar a innundar o Rocio gratuita- 
mente ; de seu lado os mercadores apoia- 
vam antes uma parada de cavallaria e in- 
fantaria sobre o Tejo, facto imprevisto, e 
com a vantagem de, estragando-se os far- 
damentos com a agua, poderem os propo- 
nentes impingirão governo outro fornecimen- 
lo monstro de pannos podres, o que ainda 
mais já se vê, reforçaria as suas convicções 
ultra-monarchicas. 



18 OS GATOS 

No impossível de desdobrar as feslas com 
magnificência reciproca pelo elemento soli- 
do e liquido da Lisbia, por á ullima hora 
um festeiro mais astuto descobrir que as ma- 
nobras de cavâllaria no Tejo corriam risco 
de metler no fundo alguns esquadrões, sem 
mór proveito, foi a demonstração naval re- 
duzida a um mastro de navio espetado no 
Rocio, e preencheu-se o resto com a pom- 
pa de bicos de gaz, bandeiras e areia en- 
carnada, queé costume estatelar por agosto, 
nas ruas pobres, á passagem dos cirios da 
Atalaya. Indo estiveram em erguer arcos 
Iriumphaes pintados por scenographos, por 
onde os reis passassem, como oulr'ora Ge- 
zar voltando da conquistadas Gallias; vae, 
reliveram-se, porque das duzentas cartas 
mandadas a ricaços, pedindo massa, sóqua- 
torze ou quinze voltaram com duas de seis 
e muitas adhesões. De mais, os arcos de 
triumpho, além de caros, tinham a desvan- 
tagem de presupôr no recemchegado um 
triumphante, e a fallar a verdade nem os 
mais ferventes mignons das Necessidades 
ousariam impor o sr. D. Carlos, coitado, co- 
mo tal. Sobrestiveram p3Ís os membros da 



os GATOS 19 

grande commissão, Folgosa á frente, em 
reslringir o bródio, na medida dos pequenos 
recursos subscriptos, ficando ludo no cesto 
da gávea, n'um fogo de vistas, e n'um bodo 
de tostão e duzentos grammas d'arroz a ca- 
da pobre munido d'atteslado de pobreza... 
que os parochos passam á razão de doze 
vinténs, fora papel. 

Gliegou-se a mandar aviso aos sportmen 
da côrle, concitando-os a uma guarda de 
honra de cavalleiros montados em corcéis 
de grande preço, para fazerem cauda ao 
landeau da míigestade, mas ninguém deu 
de si, e os que accederam, pediam á com- 
missão, pilecas d'emprestimo, e doze mi! 
réis para desencaravilhar do Mó os trajos 
de cerimonia. Da interferência do elemenlo 
popular no grrande preslito, relata lambem 
a chronica terem-se convidado alguns alum- 
nosde Talma, a cooperativa pontas de cigar- 
ro e artes correlativas, e a parturi'^nte-fu- 
nebre-familiar d'Alcabideche, única que se 
apresentou com musica,n'um Rippert ornado 
d'alfavaca de cobra,e com dois bidés doirados 
por cornija. 

Durante todo este tempo a actividade de 

2 



^ os GATOS 

Folgosa não socega, e eil-o pelos minisle- 
rios, a requisitar, de chapéu na cabeça, imi- 
tando os gestos do Burnay. A' ordem d'elle 
o serviço do correio interrumpe-se, por lhe 
serem os carteiros precisos para a corres- 
pondência da manifestação espontânea ás 
magestades. Os trens de praça estão todos 
tomados, pelas esquinas, á espera que elle 
passe d'uns pr'os outros, com a coroa de 
conde alada á lapeJia por um elástico; aca- 
bou-se a areia encarnada no mercado, a poli- 
cia anda á paisana distribuindo bilhetes de 
gare,comprando pombos,transportando ban- 
deiras, fazendo cordas de buxo e outros ac- 
cessorios inherenles á manutenção da ordem 
publica ; quanto ao telegrapho, não ha meio 
de fazer passar um lelegramma — vinte e 
quatro horas que a chancellaria da Palma 
notifica aos bilhares da província o advento 
do seu homem a grão mestre de cerimonias, 
o que faz dizer aos marcadores labregos, nO 
inlervallo da coçadella dos piolhos: este e»- 
íápor, caragOy é que tem xortel Prestes e sem 
uma expediliva palavra que avise o intruso 
d'estar sendo inconreniente, arsenaes, mu- 
seus, jardins, quartéis, tudo se lhe abre, 



os GATOS 21 

para que dle tome rressa feira da ladra as 
farraparias liisloricas que mór se Iheafigi;- 
rem para exhibição no arraial judengo on- 
de mais uma vez se cobrirá d'escarneo a 
monarchia. E assim o exercito que lem uma 
disciplina e uma hierarchia próprias, e as- 
sim a marinha, cuja gloriosíssima liisloria, 
afervorada por Iradicções de séculos d'es- 
forço e abnegações incomparáveis, é sagra- 
da até para os mais sceplicos, passam pela 
vergonha de ser manuseados porum antigo 
furriel armado em homem indispensável, 
juntamente com a areia encarnada, os bicos 
de gaz e os gallegos que espetrram os mas- 
taréos, manuseados d'aIlo, a despeito das 
praxes disciplinares, sem disfarces officiaes, 
nem receio d'afrronla a duas corporações 
que é indispensável reservar da corrosão de 
troça que está deliquescendo tudo por ahi. 
Elle tem carta branca para fazer de Lisboa 
uma vilrine agradável ao seu real patrão. A 
14 de novembro intima o almirantado, arran- 
que do quartel dos marinheiros o grande 
mastro do pateo, onde as praças íazemexer- 
cicio, e o faça transportar e recompor, com 
cesto de gavia e cordagens, para o pé da 



'22 OS GATOS 

estatua do do Mindello (se o Amaral recal- 
citra, demiltido!) — ordem á escola naval a 
qae os aspirantes se produzam na gare, a 
17, para fazer guarda de honra a elle e ás 
mageslades (quem não comparecer será ris- 
cado!) — ordem á guarnição para formar 
alas no transito do cortejo, ordem aos func- 
cionarios, ordem á corte, feriados nas oíB- 
cinas, grande gala no jornal ofBcial, com- 
[»oios a preços reduzidos, interdição na gare 
a pessoas sem jerarchia monarchica esla- 
belecida — e tudo isto por deliberação d'el- 
le, com severas penas, demissões, multas, 
conselhos de guerra e bilhetes de borla 
para o grande concerto de S. Carlos. . . A 
tal ponto a omnipotência do seu vulto as- 
soldadou Lisboa, sob a regência, que de- 
pois dos Jeronymos inda se não vira cathe- 
dral magestatica: s. ex.' mesmo persua- 
dido de que as festas fossem para authen- 
ticar a enxertia da sua coroa de conde, em 
coroa de monarcha. Depois d'um largo dia 
de fainas, chegada a noile, encontravam- se 
no castello da Rua da Palma a rainha ve- 
lha e o presidente do conselho novo, o re- 
gente e a regente, e ciumentos da aura que 



os GATOS 23 

se julgavam usurpar na posse publica, in- 
lerrogavam-se, aosrepellões, sobre o que ti- 
nham arranjado de melhor para o cortejo. 
Sobretudo o suppposto favor do antigo fur- 
riel enlre o cxercilo, incommodava S. M., 
sempre empolgadora do prestigio, e que em 
íillos brados lastimava o ter dado homem 
por si no recrulamento. A' chegada dos reis, 
limbos os dois, vendo no ocaso os seus sete 
dias de governo, oíTereciam o maríyrio da 
(íbscuridade próxima em holocausto ás pro?»^ 
peridades do throno e a bem da pátria, e 
envaidecidos da sua propaganda, irrecusá- 
veis d'exito, fechavam as mãos e diziam 
«lemos o paiz aqui», fitando de seus palá- 
cios o ponto hypothetico do horisonle em 
(juesuppunham jazer o alcaçarde Limita, o 
lerrivel fuliculario do «faz hoje annos o 
nosso amigo...» o Carnot porluguez, o fu- 
turo presidente da republica! 

E inútil explicar as festas, depois d'i?to: 
d'um lado um povo sem expansibihdade, 
velhaco e parvo, em tudo adiando j-retexto 
para vadiar no meio da rua: do outro al- 
guns Barnhuns sem dinheiro nem influencia^ 
procurando aquecer gente morta com cabo- 



24 OS GATOS 

tinagens e fogueies, e em conclusão, nenhum 
interesse nacional chispando do meio d'esle 
pagode ! Não seria pois pelo simples redi- 
culo episopico que eu me detivesse a des- 
crever as pompas da chegada, tanto mais 
que isso eslá feito para umas poucas de via- 
gens realengas, e a chronicad'uma éa chro- 
nica de todas, porque os festeiros são os mes- 
mos, e a Índole sorna da multidão pouco varia 
de provincia para provincia.A novidade does- 
tas é outra, a capitulação vergonhosa do 
governo perante um jolda de pândegos que 
elle tomou pelo partido republicano, o ter- 
ror que á coroa veio d'uma sublevação mo- 
tivada por dois gritos, e tanta consciência 
de fraqueza e insignificância, um tal desa- 
nimo, um tal medo, que o próprio Magalhães 
Lima recebe com as festas do regresso hon- 
ras oíSciaes d'anlagonista do monarcha por- 
luguez. De feito, a origem do charivari Foi- 
gosa não foi outra senão o ciúme do rei pe- 
lo commis, o desejo de mostrar que a coroa 
vale ainda mais que o barrete phrygio, de 
dormir; senão veja-se-lhe o aproposito, e 
estudem-se os detalhes d'uma e d'oaIra re- 
cepção. Realmente não seria por o monar- 



os GATOS 25 

cha ter ido a Madrid tramar uma alliança 
que pode ser cara á nossa autonomia, que 
se lhe fez á volta tamanho espalhafato. Tão 
pouco seria pela adoração pessoal que S. 
M. el-rei e sua esposa inspiram aos parti- 
dários do regimen dynaslico, porque mau 
grado a indiscutivel nobreza d'ambos, o seu 
caracter leal e a sua gentileza, os monar- 
chas bem sabem que não gosam entre essa 
gente, adorações, estando sem amigos n'ura 
paço onde os velhos conselheiros de D. Luiz 
deram logar a ambiciosos velhacos e a wal- 
sistas. 

A opportiinidade das festas foi unicamen- 
te uma ciumeira insidsa por Limita, filha 
do governo ter tomado á leltra os vivas do 
club Sola e Vira, e de desconfiar que o tri- 
buno encarnasse o formidável partido de 
desgostosos da realeza, ignorando, o desgra- 
çado, que esse partido só pode proclamar a 
republica depois de morto o ultimo republica- 
no. N'esta illusão, trataram de justapor nu- 
onero a numero, o programma da recepção 
real, ao programma do recebimento a Ma- 
galhães : mesmas scenas na gare, grande 
cortejo até á residência, espectáculo de gala 



26 OS GATOS 

n'um theatro, e só os dois almoços do Século 
substiluidos por um bodo no Aterro, onde 
sobraram pobres e faltaram donativos. 

Que irrisória e ignominosa fanlochada! 

Ahi lemos no mesmo nível de cul- 
minância politica, no mesmo prato da ba- 
lança, equilibrando-se — d'um lado o rei 
de Portugal e os seus partidos, defensores, 
aulicos, exercito e marinha — de outro, Li- 
mita e os trezentos palmistas da gare do 
Rocio; d'um lado o poder consliluido, com 
predominio assente na tradicção de mais 
de sete séculos, e na posse real de toda a 
espécie de força organisada, do outro laaa 
uma parcella Ínfima da demagogia caseira, 
inoffensiva, cambaia, para rir; e assistindo 
a esta exhautoração formidável do poder, 
cinco milhões d'almas emporcalhadas ein 
plena face por um governo que nem sequer 
exteriormente já reconhece a monarchia o 
direito do mais forte I 



Para a celebreira do emprezario ser com- 
pleta, e a gratidão real ler ganchorras onde 



os GATOS 27 

prender veneras á vontade, até rebentou 
uma dynamilada no solar do sr. conde da 
Folgosa, de tal maneira anarchislica, assus- 
tadora, destruidora, vingativa, que escutada 
na redacção das Novidades, nem sequer in- 
terrompeu o somno do guarda-portão que 
adormecera a quatro melros do sinistro. 
Como este phenomeno acústico se explica, 
só inventando Tyndall e Helmollz uma ano- 
malia nova ás leis da vibração, suppondo 
na dynamite por exemplo faculdades de re- 
pórter, e imaginando que apenas rebentada, 
a bomba fosse á redacção das Novidades, 
dar a noticia, para voltar depois ao ponto 
de partida, a fazer damno. Interroga-se a 
creadagem do palácio, e uma sopeira, es- 
tando na cosinha, ouviu o tiro, emquanto 
outra á janella não poude discernir se fora 
tiro, ou se seria um traque da patrulha. 
Embalde os peritos constatam que tendo a 
dynamite uma força expansiva prodigiosa, 
devendo seguir-se á explosão, estrondo hor- 
ri.-íono, e o projéctil destroçar quanto lhe 
estivesse adjacente, os simples factos da 
creada ter duvidas, do guarda-port ão não 
acordar, e de nem sequer a cpliça da mu- 



2S OS GATOS 

ralha do palácio ter cabido, logo á grossei- 
ra analyse demonslram em vez da Índole 
destruidora, antes a Índole pyrolechnica da 
bomba, que a não ter sido rhelorica, foi com 
certeza uma bomba... de pataco. 

Porem o sr. conde quer por força ser vi- 
ctima dos demagogos, faz-lhe conta o pa- 
pel de marlyrdo throno, e então com umas 
cascas d'auctoridade que lhe ficaram dos 
festejos, sempre a ateimar que tem sicários 
á perna, entrava por decreto as leis da chi- 
mica, ordenando que a bomba seja para to- 
dos os effeitos, dynamite, metendo-lhe o sr. 
Dias Ferreira este perigo na conta dos ser- 
tíços que o governo haverá que lhe pagar. 

Chegado o estampido á redacção das No^ 
vidades, o esculca auricular que estava de fa- 
china, tomando a direcção do som, averi- 
guou que elle viera, na direcção do vento, 
dos sitios do Intendente, e eil-o espavorido a 
procurar na rua, informações. Gomo a ex- 
plosão lhe parecesse provir da Rua da Pal- 
ma (são as próprias informações das Novi- 
dades), o esculca subiu o Chiado, desceu a 
Rua do Alecrim, espraiando-se pelo Aterro, 
onde os calraeiros, apezar da sua boa yon- 



os GATOS 29 

tade, lhe não poderam mostrar vestígios do 
sinistro. Romulares. Terreiro do Paço, Riia 
do Ouro, e emfim no Rocio nova admiração 
do moço em não encontrar sequer no cesto 
dagaveaas visceras estrompadas d'um:i vic- 
tima. Chegou-se a D. Maria, e acercando-se 
d'um dramamifero que sabia, com a coroa de 
loiro ás três pancadas, pergunlou-llie, apon- 
tando a massa do iheatro, se acaso houve- 
ra lá dentro alguma coisa. O dramamifero, 
baixando as pálpebras com peso, e os can- 
tos da boccad'oiro com mysterio, fez o gesto 
tolhido de quem não pode fallar, e acrescen- 
tou. . que era segredo de coníissão. Já por es- 
se tempo o thealro estava atochado dos da- 
mascos que lhe iam sendo remettidos pela 
estrada de Rraga, em carroça puxada por 
seis girafas de smoking. 

— Não ouviram um tiro? perguntava o 
repórter a toda a gente. 

Estava na columnata o damasqueiro re- 
commendando a uns poucos de porquinhos 
da índia, de nomes críticos, o reclame com- 
mercia! da sua fructa, e o repórter das Novi- 
dades revistando-lhe os craneos verificou quu 
â explosão não podia ter-se dado n'el!es, pe- 



30 OS GATOS 

la razão de nem sequer terem miolos. Ví.ns 
de cima do frontão, Gil Vicente que ouvira 
a pergunta do tiro, respondfu brutal que 
fora elle com uuia indigestão de damascos 
que se cagava para todaaquella illustre as- 
scmblea. 



De canto em canto, de praça em praça, 
de rua em rua, alii prosegue o pobre diabo 
na faina d'atinar com o foco da noticia sen- 
sacional do dia seguií)le, o caso da bomba, 
a famosí» bomba do dynamite bonoraria, 
sacramento da confirmação dos pinlale- 
gretes que se querem fazer togar de gran- 
des viillos. Quando os acasos da marcha 
alfim o conduzem, esbofado de respiro, até 
ao «local do incidente», já viu trotando 
para as redacções dos jornaes muitos facto- 
res que por ordem do sr. conde levavam o 
caso tétrico ao commenlario dos plumitivos 
«sequiosos de justiça». O jardim do solar 
parcct-u-lhe fúnebre, com um chafariz ao 
fundi», e por entre as moitas pccpienos mau- 
soléus recordando o cemitério do Barba 



o» Gatos 31 

Azul. Na sala de despacho das festas, rez- 
do-chão, onde o sr. conde estava acabando 
de diclar as ul limas noticias, vários creados 
jaziam sobre enxergas, com grandes feridas 
pintadas expressamente nos membros, pelo 
tronco, e ennodoando-lbes as roupas, san- 
gueira á'. porco comprada ao litro ás fres- 
sureiras. Tinham sido chamados a Ioda a 
[)ressa dois pedreiros, com ordem de der- 
rocar rapidamente a bombreira do palácio, 
profundando o sinistro no ponto bypothe- 
tico em que o sicário devera ter pousado a 
dynamile, e o sr. conde, meltendo vinte e 
cinco tostões no bolso do cocheiro, dava-lhe 
as ordens: — depois de pintado e prompto, 
deitas-le na porta, entendes ? c quando a 
policia chamar por ti, diz que estás moito. 

Este manejo açulara a curiosidade do 
repórter, mas fizeram-no mudar de rumo 
immediatamente, a pretexto de que indo-se 
proceder ao ensaio geral dos feridos, não 
convinha que elles se produzissem deante 
da imprensa não sabendo bem os seus pa- 
peis. 

O sr. conde da Folgosa passou então 
pelo questionário a que é uso os entrevistei- 



32 OS GATOS 

ros submetierem os «heroes do dia» : como 
se chamava, o estado, os annos, as doen- 
ças, e se ^-ípor acaso» sabia lêr e escrever? 
Lá salisfez como ponde as indiscrições do 
alviçareiro, e chegados ao capitulo da dy- 
namite, o homemsinho, de carteira espal- 
mada e molhando o lápis, pediu promeno- 
res sobre a calastrophe. 

— A respeito do estrondo, uns ouviram 
de mais, outros de menos. V. ex.* que pen- 
sa sobre o caso? 

— Penso, respondeu com nobilissima 
simpleza o nobre ex futuro marqnez do 
Cesto da Garia, que o explosivo traiçoeira- 
mente arrojado contra mim, fosse effectiva- 
mente a dynamite, e em grande dose, como 
se prova pela derrocada a que os pedreiros 
estão acabando de dar a ultima demão. Se 
o estrondo da bomba não esteve porem á 
altura dos instinctos sanguinários dos meus 
algozes, não se lhe attenuem por isso os ef- 
feitos mortifero-escamados; ha agora umas 
bombas de dynamite, medonhas, do peso de 
sete kilos, que matam sem estrondo, e se 
chamam por isso, silenciosas... de Singer. 

— De Singer ? 1 



os GATOS 33 

— Bombas terriveis:incendian<lo-se, der- 
rocam mundos: deixadas em casa, cosem 
ceroulas que é uma perfeição. 

— E quantas desgraças pessoaes daria a 
bomba ? 

— O que se chama pessoaes, deu a es- 
quina do prédio, muitos feridos, 'e um morto 
em postas, se o lempo o peimitlir. 

— V. ex,* inlaclo, felizmente. 

— Inlaclo? Ora essa ! Tenho uma ferida 
grande sobre o sacro, uma echymose pro- 
funda na cabeça, eparlida em cinco postas, 
esía perna. 

— E' então rabo, cabeça e postas. Mas 
V. ex.*, se me não engano, equilibra-se em 
pé famosamenle. 

— Não vê que estas fracturas por alten- 
tado politico só no dia seguinte é que ap- 
parecem. 

— Tão perigoso d'estado, ao menos res- 
ta ao sr. conde a satisfação do martyrioci- 
vico nobremente satisfeito, e a certeza de 
que o governo não deixará sem recompensa 
os seus serviços. 

— Ah meu amigol Já ficava contente se me 
dobrassem as rendas do potril. Só o que eu 



34- OS GATOS 

gastei em fogo preso 1 Convenho também 
que um marquezado me assenta como o le- 
treiro nas pilulas Dehaut. Mas de Ceslo da 
Gávea, é caricato, e quanto a marquez da 
Bomba, obseda-me o escrúpulo de todos os 
dias ter que limpar ao Diário de Notwias, o 
meu titulo... 




FIALHO D'ALMEIDA 



os GATOS 

PUBLICAÇÃO 

D 'inquérito á vida PORTUGUEZA 



N.^õl — 7 de janeiro de 1893 



SUMMARIO 

Primeira representação da Estrada de 
Damasco e parentesco d'ella com o On ne 
badine pas avec Vamonr, de iMusset. — A 
Egéria da peça e seus louvores — Reclames 
preparatórios D'um «succESso*, ou como in- 
tendem A arte os nossos collegas da imprensa. 
— Inquérito dos amigos de Braga quanto 
AOS motivos anti-gentlemanicos da rateada 
— Sobre a influencia das redingotes no tem- 
peramento litterario. — Alexandre Hercu- 
lano E os fatos novos — De como a rateada 
DA Estrada foi injusta. — Caracteres com- 
pósitos d'uma peça : acção, convergência das 
scenas ao desfecho, e requisitos artísticos 
do dialago. — Applicada a doutrina ao Ss- 



II os GATOS 

gredo da Confissão e á Estrada de Damas- 
co, imfere- se que não prestam para nada 

Moveis secretos da critica optimista, e lista 
das pôas que prohibem os reporters de thea- 
tro de ser sinceros. llga aduaneira de 

CRETINOS, AO DEREDOR DAS PEÇAS PÍFIAS 1n- 

TIMA-SE A GENTE HONESTA E CULTA A QUE REA- 
JA — Estado abjecto da litteratura con- 
temporânea, E PERIGOS PÚBLICOS DE DEIXaR 

SUBIR OS «ESPERANÇOSOS ESCRIPTORES)). TrA- 

DICÇÕES E DEVERES DO NOSSO PRIMEIRO THEATRO 

litterário. — O Frei Luiz de Sousa e a pa- 
TEADA Á Sobrinha do Marquez. — Paralello 

entre a PLATÉA de hoje E a PLATÉA DE HA 
CINCOENTA ANNOS. CrETINISAÇÃO DOS ACTO- 
RES PELOS DRAMATURGOS. QuEM NÃO SABE ES- 
CREVER, APARA CALOS 1 — Missão depura- 

DORA do GALLINHEIRO, QUALIDADE INTELLECTUAL 
DOS FREQUENTADORES, E SUA CATHEGORICA IN- 
TERVENÇÃO NAS GLORIAS DO THEATRO PORTU- 

GUEz. — Tasso no Cego, e Emília das Neves 
NO Gladiador de Ravena. — O grito, tirem 
dalii o nome de Garret ! — Conclusão de 

QUE É necessário PATEAR AS OBRAS MÁS PARA 
escarmento dos asnos E RESSURREIÇÃO DO 
gosto NACIONAL. 




15 í/e dezembro. 



Represenlou-se em D. Maria uma pecita 
do sr. homem de leltras Alberto Braga, a 
Estrada de Damasco, ullima d'uma triologia 
de necedades a que a empreza tem recorri- 
do para contento dos noticiaristas dos jor- 
naes, de que ella depende, e principalmente 
para armar á villania e estupidez do pu- 
blico de Lisboa, chegada a um extremo que 
se não pode abranger sem náuseas de des- 
prezo. A Estrada de Damasco é um simula- 
cro de namoro bastante estúpido, lardeado 
de noticias do carnet mondain das Novida- 
des^ sendo a catastrophe puxada pela fila 



4 OS GATOS 

d'um sapato. Gomo causa determinante ins- 
piradora leve ama espécie de xarope James 
que desagregou das cavernas psychicas do 
auclor talento scenico avonde para a expe- 
ctoração lilteraria de quatro actos — esse 
xarope, lê-se n'um artigo do Popular, sendo 
a leitura que o parisiense Pina lhe fez do 
On ne badine pcis avec Vamour, de Musset. 
Braga tão aparvalhado ticou com a lei- 
tura que começou a fazer a Estrada 
aos domingos, quando não tinha mais nada 
que fazer. Ao fim d'um certo numero d'ocios 
semanaes, a obrinha prestes, tornou o dra- 
maturgo a abrir a porta á sua Egeria, e 
appareceu esta de clamyde, com uma tuba 
na dextra, a apreciar por junto a maravi- 
lha que inspirara. Como houvesse doces 
sobre a meza, a maganona tantos d^elles 
filhou do papeluço, que ás duas por três, 
sobre já não serem horas d'estar lúcida, 
principiou a não poder estar também inde- 
pendente. Por consequência traceja, na fe- 
bre digestiva dos doces, para o Popular, 
uma ladainha opipara á comedia, c dotada 
de novas e preciosas qualidades, do mais 
puro modernismo, e filiando-se no mesmo 



os GATOS 5 

género dramático a que pertence a Soiiris e 
o Monde oú l'on sennuiAa Pailleron, as Pat- 
(es de mouche de Sardou, a Francillon de 
Dumas filho, o Pnrisien de Gondinet...» e 
accrescentariaeu a grandessissima... se para 
hombrear co'a gentilhomeria de tão illustre 
salsa, não propositasse hoje escrever com 
rendas nos manguitos. 

Esta cantanta repeliu-se pelos jornaes 
dias antes da Estrada em scena, em series 
d'outras elogiosas parvoiçadas, onde esga- 
niram quasi todos os cães vadios que desem- 
penham pelos diários o papel de críticos de 
ihealro. «Ha muito que uma platéa não ou- 
ve prosa dramática conduzida com tamanha 
naturalidade, com tanta verve, com tanto 
espirito, e tão superior e litteraria compre- 
hensão do que é o dialogo moderno dentro 
d'uma sociedade moderna» dizia um. «A 
peça do nosso collega, além de ser um ad- 
mirável trabalho d'observação da parte da 
sociedade porluguezamais difficil d'estudar, 
contem ao mesmo tempo elementos litte- 
rarios de tal valia que deve ficar no theatro 
clássico, para exemplo...» dizia outro. E 
por qui fora a enfieira de chalrices com que 



6 OS GATOS 

se protegem os nullos quando ha uma de 
doze a ganhar co'a celebreira d'am pagante. 
Subiu a Estrada á scena, e o gallinheiro en- 
ihusiasmado pelos reclames que lhe prognos- 
ticavam successos nunca vislos, ao escutar 
esses pobres episódios descoloridos, vascon- 
sos, com falia d'ar e a espinha sem concei- 
ra, Ião pulhamenle se viu ludibriado, que 
n'um generosissimo relâmpago d'equidade 
paleou a peça, chufou a claque, e mesmo 
entrecruzou lambada com alguns borlistas e 
bufos daempreza, mais particularmente rai- 
dosos de tornar publico o seu enlhusiasmo. 
Este signal d'independencia do gallinheiro, 
filho da liberdade d'opinião que os costumes 
eleis garantem, e aauctoridade tem obriga- 
ção de respeitar nos finaes d'acto, todas as 
vezes que não interrompa a scena ou amea- 
ce a bôa ordem da soirée, foi recebido pela 
platéa entre insolências, e mesmo valeu ao 
auctor, por banda dos analphabetos de mo- 
nóculo que enchameavam a sala, alguns ap- 
plausos que eu não desejaria ao mais im- 
becil dos meus demolidores. A' testa do 
Gomplot estavam os «críticos» que haviam 
reclamado de véspera a Estrada de Damas- 



os GATOS t 

CO, estavam os amigos do aactor, coagidos 
por educação a transformar o enterro em 
baptisado, e ainda algans pobres ingénuos 
patetas que o fauteuil de borla ou a opinião 
do maior numero facilmente levam no enxur- 
ro dos que pateam só... de luva branca. Esta 
triste sociedade á qual o gallinheiro não 
deslolera o direito d'applauso, sem discus- 
são das impulsivas indecorosas ou piedosas 
que possam motival-o, tão persuadida está 
porém da sua culminância artistica, que já 
nem reconhece direitos reciprocos aos con- 
trários: em termos que em 0. Maria quem 
dá pateada, é suspeito, e só quem applaudir 
merece as honras d'apreciador imparcial e 
justiceiro. 

No dia seguinte á primeira representação 
da Entrada de Damasco os destemperes dos 
jornaes contra os pateanles, e os elogios á 
peça, desembestaram por guiza a não selha 
deixar de suppôr recebimento de gorgeta. 
Os mais benignos declaram nos seus comte- 
rendus da Estrada de Damasco que ha mui- 
to se prepositara do gallinheiro um enxova- 
lho ao sr. Braga, que a peça é deliciosa ou 
nunciadora pelo menos d'um escriptor thea- 



8 OS GATOS 

Irai de grande marca, e que são desprezi* 
veis anonymos e indignos sacripantas todos 
os que para se pronunciar sobre uni caso 
lilterario «occultam sua cobardia na sombra 
onde se lhes não pode pedir responsabili- 
dades.» Outros ainda a quem o talento dra- 
mático de Braga não logra encegueirar tan- 
to como as redingotes e peitilhos com que 
os alfaiates e camiseiros fazem de simples 
cabides, Paillerons, subscrevendo de cruz 
quanlo á premeditação de desfeita ao dra- 
maturgo, explicam-n'a todavia pelo natural 
ciúme que a gentes pobres e cabaceas ins- 
pira sempre um retezo peralta como Braga, 
de quem o parisiense Pina diz «que sabe 
vestir lindamente uma casaca, dar o laço da 
gravala, calçar sapatos de vernis, e parado- 
xar enlre dois goles de chá com figuronas 
da melhor sociedade \)) Finalmente os ter- 



1 E' curiosa a razão que fez dar com alguns noticia- 
ristas cm fabricantes de peças de theatro. Inda ha pou- 
co, dando conta da instantaneidade de factura d'uma 
comedia aliás escripta com talento, diziam os jornaes, 
«que o escriptor a fizera em dois mezes, para tapar a 
bocca a alguns credores.» Frequentes vezes se lê nas 
secções theatraes do syndicato. "O ilíustre F. começou 
uma coisa de grande fôlego^ que destina ao theatro X. 
para ser jeita pelo eminente ou pela eminente H., e que 



os GATOS 



riveis e auctoritarios ainda, como o Correio 
da Maíihã e o Dia, não conlenles de pôr o 
gallinheiro em cheque pelas más prendas e 
anonymalo irresponsável que lhe outorgam, 
inda por cima reclamam contra os protestos 



estará impreterivelmente prompta no dia iul^ do mez se- 
guinte.» Dir-me-hão se não vae n'esta noticia iinplicito 
o descrédito da obra annunciada ! Está-se logo a ver 
que o illustre F. é um rufiào sem escrúpulos nem brio, 
porque em vez de, escrevendo, pairar no sonho cérulo 
do bello, que abstrae do espaço e do tempo, abstrae do 
individuo «um certO" para somente crear seres que são 
rezumos de grupos, o que procura é fabricar sensabo- 
rias para escamoteio d'um certo publico e exliibiçâo 
dos recursos d'um certo artista, que ás vezes é o que 
elle possue em scena de mais ordinário e de peor. Com 
este mesquinho ideal de fazer massa com a paslnacei- 
ra publica, produzindo peças á hora, para eiicadremeiít 
de tal actriz, e aproveitamento d'um certo scenario ou 
guarda-roupa da empreza., como é que pode alguém 
dar no theatro obra durável ? Alexandre Dumas filho, 
Augier, Sardou, e outros experimentados obreiros do 
theatro moderno, com uma cultura litteraria completis- 
sima, uma experiência de proscénio inegualavel, c re- 
cursos d'ob8ervação e espirito sem rival na litteratura 
dialogada contemporânea, a (juando prenhes de peça, 
depois de cheios os seus cadernos de planos, monogra- 
phias de typos, pontos culminantes de dialogo e para- 
doxo, no dia cm que se resolvem a escrever a obra pla- 
neada, apontada, carpintejada scena a scena, rctra- 
hem-se meio anno nos seus gabinetes de trabalho, nas 
suas casas de campo, sequestrados do convivio, e todos 
absorvidos na communhJio suprema do seu talento á 
meza da Arte. Verdade seja que aqucllcs mestres, apar 
dos nossos dramamiferos contemporâneos sào umas po- 



10 os GATOS 

d'elle, correctivo (liein?), dizendo que a pa- 
leada estugou do ódio de mucosas gástricas 
famintas, maceradas por uma aguardente 
emética de ginginha. 

Ora eu não figurei na paleada do gal- 

sitivas miUidades, e pov isso bastou ao sr. Braga não 
sahir seis domingos para ter realisado uma obra que o 
nosso Pina pôz entre a Soui-is c o Monde ou Von «'en- 
TiMíV, de Pailleron. 

Sobre a apreciação da Estrada pelas folhas, haveria 
também coizas a explorar, divertidissimas. O Dia diz 
que pelas alturas do segundo acto rebentara no galli- 
nheiro uma tempestade fie paleada, e por seu lado es- 
crevem as Novidades que foram só quatro os patean- 
tes Quatro pateantes que fazem uma tempestade, ca- 
ramba ! não são homens, sào elementos. <■ Porem esta 
reacção foi reprimida logo pela platéa, que fez ao nos- 
so amigo uma ovação delirante.» 

Delirante n'este caso quer dizer, de delirium tremena. 

Procedendo depois á votação dos actos em mérito 
absoluto, um dos panegyristas da Estrada diz que o 
primeiro francamente não presta, opina outro que o que 
não presta é o segundo, e assim gagueja outro a respei- 
to do terceiro, e emfim outro, do ultimo. Como os par- 
voeirões são solidários, averigua-se pela cerzidura dos 
quatro panegyricos que a Estrada de Damas^.o nào tem 
uma unii*a palavra supportavel ; e ahi está como d'um 
coro de jumentos sahe o verdadeiro juiz sobre a peça, 
e a justificação formal da pateada ! 

Mais. Tratando-se d'um producto da intelligencia, 
a pretendida inveja dos pateantes pelo auctor da Et- 
trada de Damasco deveria mirar-lhe o talento de pre- 
ferencia aos hábitos sportmanicos e elegância inflam- 
matoria de vestir. Por consequência se os panegyi-is- 
tas do seu Braga frizam na pateada o ciúme pelo sport- 



os GATOS U 

Unheiro, a noite da caballa, nem desfeitea- 
ria Ião pouco a peça do sr. Braga, pois ten- 
do-se dado em D. Maria trez, do mesmo 
género, e não sendo aquella a mais tola, 
forçoso seria conservar-me na Estrada so- 
cegado, e só lastimando que a jiisliça não 



man e deixam na sombra a emulação pelo escriptor, é 
que n'este ultimo realmente não haverá de que ter ciú- 
mes. D'onde se infere que o defendem,acquiescendo sem 
restricçào na sua mediocridade — fideputas sào estes 
defensores ! — e levando os azedumes da controvérsia 
para um campo de modas d'onde o sr. Braga sahiria, 
se nós quizessemos, atolado em ridículo até á nuca. 
Infelizmente para o leitor, o sr. Braga nào tem culpa 
da fascinação que o seu alfaiate exerce sobre a estu- 
pidez dos seils adoradores, e até julgamos que o seu 
bom senso de pobre rapaz na sessentena terá tremido 
pelas responsabilidades inherentes ao papel de Brum- 
inel que lhe querem fazer representar. Tanto a missão 
toilettica do sr. Braga é subalterna e governada, que 
escova elle próprio a sua roupa, usando para as suas 
nódoas, benzina, e escolhendo fazendas com duas fren- 
tes, para as mandar voltar de trinta em trinta mezes. 
Eu mesmo lhe conheço umas calças de baile remen- 
dadas com um artigo velho do sr. conde de Ficalho. 
Quanto a «vestir bem uma casaca", é coisa que já tem 
feito a fortuna de creados de meza. De dramaturgos, 
nunca. Ibsen é corcunda, Sliakspeare e eu escrevemos 
sempre em mangas de camisa. A elegância é uma vir- 
tude litteraria tão subalterna, que uma vez manda- 
ram de Londres, a Herculano, um fato rico ; vae elle 
oíFcreceu-o ao gallego que o servia. Ora até ao pre- 
sente nào consta que fosse o gallego o auetor da His- 
toria de Furtugal. 



12 OS GATOS 

garrotasse antes do sr. Braga, os outros mal- 
feitores. 

Eniretanio, apezar dos pateantes do 
gallinheiro votarem pelo desprezo as mise- 
ráveis vaias dos maltrapilhos que os insul- 
tam, eu, como escriptor e como publico é 
que me não resolvo a assistir impassível 
aos desconcertos d'este syndicato de direi- 
tos d'auctor e outras mixordias indecenles, 
e dissecarei o caso cerce, agora que cahiu a 
Estrada,^ provado foi que o gallinheiro linha 
razão. Como o assumpto é largo e a linha só 
se traia por processos de medicina radical, 
devidirei este discurso em Ires paragraphos: 
o primeiro sobre os criticos nas suas rela- 
ções com os actores e os dramaturgos : o 
segundo sobre os espectadores e seus di- 
reitos d'applauso ou de protesto, e o tercei- 
ro emfim sobre a impreterível necessidade 
de, para bem do paiz, a gente proba desa- 
lojar de Ioda a parte os troca-tintas. 



I í — Que vem a ser uma peça de thea- 
tro? 



os GATOS 13 

E' qualquer eíTabulação ou crise psycho- 
logica, desenvolvida ou commentada pelo 
auclor em forma dialogai. Simples anedocla 
ou problema moral de certo fôlego, a peça 
exprime-se por um certo numero de scenas, 
argumentadas em crescendo té um desfe- 
cho que deve ser o motivo real de todo o 
arcabouço. Estas scenas deverão desenvol- 
ver-se e brotar umas das outros, reforçan- 
do-se a cada instante com revelações soli- 
darias dos personagens, e o dialogo que as 
formula claro que só é bom quando cingir a 
acção de perto, isto é, quando puzer a maior 
somma de brilho na maior sòmma de curteza, 
esta contendo a maior somma de documentos 
jusiificalivos do valor moral ou simplesmente 
imaginativo do desfecho. D'aqui se infere — 
1." que toda a peça de iheatro necessita ab- 
solutamente d'uma acção — 2.*, que todas 
as scenas não convergentes ao desfecho, so- 
bre contraproducentes na obra, devem ex- 
plicar-se por debilidade mental do drama- 
turgo — 3.°, que a formuzura ou viveza do 
dialogo só é real quando a expressão gra- 
vada da phrase provenha não da musica 
simples das palavras, mas da eneri[ia ejus- 



14 OS GATOS 

teza que a própria força do assumpto em- 
presta á linguagem do escriptor. Tomem-se 
agora para texto de referencia d'estas con- 
dições primordiaes de toda a obra scenica, 
as borracheiras que D. Maria representou ul- 
timamenle: vejam se são capazes de me dizer 
qual seja o enredo do Segredo de Confissão 
e da Estrada de Damasco, de me explicar a 
desinvolução geométrica das suas scenas, 
de me destrinçar a linha moral ou simples- 
mente anedoclica de cada typo, ou de me 
rezumir sequer em quatro palavras o intui- 
to e o fim revelador de qualquer d'aquellas 
miseráveis escrófulas litlerarias. Relativo a 
enredo, assumpto, acção, tanto é coisa que 
n'aquellas peças não existe, que a audição 
pode começar indislinctamente por qualquer 
dos actos, sem mor abalo na comprehensi- 
bilidade final do espectador. A respeito de 
sequencia e loojica de scenas, tanto quasi 
todas são supérfluas, que o Segredo podia 
ficar só com o quarto acto, fazendo-se pasta 
dos mais p'ra malar moscas, e a Estrada 
só poderia tornar-se aproveitável adiccio- 
nando-se sem mais preâmbulos o casa- 
mento da ingénua ao episodio do sa- 



os GATOS 15 

pato, e cahindo o panno ahi pelo meio do 
segundo acto — o que linha a vantagem de 
se sahir mais cedo, e haver tempo para di- 
zer mal do dramaturgo na própria noite 
d*elle nos ter moído a paciência. Ora fallin- 
do as peças d'enredo e não se prestando a 
situações a desinvolução concêntrica das 
scenas, como é que uns idiotas d'uns criti- 
licos dizem maravilhas do dialogo, preten- 
dendo até impól-o na Estrada de Damasco 
como um elemento certo de successo? A 
scinlillancia lilteraria (dado o caso de a haver 
na obra do sr. Braga, o que eu contesto) só 
lem valor a quando refrangida do assum- 
pto — a phrase pela phrase não tem mais 
cabimento em parte alguma — e só se esses 
patetas chamam belleza ao acaso d'aquelles 
diálogos conterem todas as partes gramma- 
licaes da oração, e em tal caso não valeria 
a pena disculil-os, e acabava-se a turra 
affastando-os pela gola do casaco. 

São estas coizas d'uma intuição tão crys- 
tallina, ha uma lógica tão rudimentar no 
postulado d'eslhelica que as fomenta, que 
mesmo lendo-se o cérebro d'um porco, a 
ninguém é permittido incertezas sobre o va- 



16 OS GATOS 

lor artístico e dramático das peças altima- 
mente dadas em D.Maria: semsaborias qae 
não provam nada, não interessam nada, não 
dizem nada, nem prestam para nadai Quem 
as applaude pois, de duas, uma; ou é um 
imbecil sem educação litteraria nem gosto 
apresentável, ou ligado ao successo d'ellas 
por uma razão de nalureza vergonhosa, é 
um velhaco a quem cumpre esfolar sem 
complacências. Se o leitor quizer ter o tra- 
balho de se informar sobre os pollucionaes 
que por essas folhas se occupam d'arlistas, 
de representações dramáticas, e d'empre- 
zas de theatros, e mais particularmente dos 
que por se arrogar justiça do seu lado co- 
brem d'insultos os espectadores não deci- 
didos a claquear com elles torpezas como o 
Segredo de Confissão e a Estrada de Damas - 
CO, reconhecerá pouco mais ou menos o se- 
guinte: 1.* — os patusquinhos atesta das 
secções theatraes dos periódicos, e occupa- 
dos da critica dramática, accumulam geral- 
mente estas funcções com as de Iraducto- 
res e auctores de peças cujo successo ou 
resvalou pelo buraco do ponto, ou se en- 
treteve no cartaz a poder d'arlificios de re- 



os GATOS 17 

clame. 2." — nenhum d'elles tem nome lit- 
terario de valimento, e quasi todos são igno- 
ranlissimos farçolas sabidos do noiiciario 
dos fogos e parles de policia, género mal 
pago, para a secção de bastidores, d*onde se 
protegem ou alemorisam as emprezas, se 
conquista o coração das actrizes e 4 sub- 
serviência dos actores, e emfim se intruja o 
publico inpingindo por obras primas as mais 
insulsas e ignóbeis babozeiras. 3." — os 
que por acaso não traduzem ou assignam 
peças, teem da mesma forma notas suspei- 
tas no cadastro, em virtude de serem os an- 
tigos amantes ou pretendentes das actrizes, 
cunhados, companheiros de caza ou deve- 
dores insolvaveis dos dramaturgos, commen- 
saes e convivas dos emprezarios, ou futuros 
candidatos dramáticos preparando terreno 
para a admissão d'alguma pecita a solo ou 
em coilaboração com auctor feito. Mais ex- 
plicado: esses senhores que nos mais lidos 
jornaes de Lisboa ousaram duvidar da pro- 
bidade e bôa fé dos pateantes do Segredo 
de Confismo e da Estrada de Damasco, dis- 
parando-llifs injurias que o maisrefece gal- 
lego teria pejo d'assacar contra o freguez 
2 



18 OS GATOS 

que lhe cerceasse a espórtula d'um frete, 
alem d'intelleclualmente inaptos para em 
qualquer assumpto (l'arte emittir juizo claro, 
Ião pouco pelos seus precedentes péssimos e 
esfacelo moral inplicilo n'algum dos para- 
graphos cima ditos, lêem direito de voto sobre 
questões em que a pardo valor mental prin- 
cipalmente se requer lizura de caracter, e 
abslração de toda e qualquer ideia de su- 
borno. 

E' positivissimo que grande numero d'el- 
les parlicipa do syndicalo de direitos d'au- 
lor que põe ultimatuns ás emprezas por via 
dos periódicos, manusea os artistas a sabor 
dos seus benesses, e descaradamente vae 
roubando o publico por todos os artifícios 
da chantage mais indigna, desde empurral-o 
das peças boas para os seus arreglos de 
sandices, té amordaçar pelo decredito a li- 
vre voz dos que ás primeiras pegadas 
da matrulla, desatam a gritar aqui d'el- 
rei! 

Estes cavalheiros pois para fazer opinião 
manquejam de tudo quanto é capaz de 
tornar uma opinião limpa e vivavel : co- 
mo escriptores são umas bestas, como 



os GATOS 19 

indivíduos falta-lhes a seriedade que dá 
o desinteresse e o credito anterior. 



}i então o publico começa a perceber entre 
que manejos de cáfila anda explorado, e por 
que razão sahindo tanta vez das primeiras 
representações furioso conlra a estupidez dos 
auclores dramáticos «originaes», com pasmo 
depara ao dia seguinte artigos de critica su- 
blimando a peça que se lhe afigurara a 
mais não chocha e imbecil. Já comprehen- 
de também porque se chama ao gallinheiro 
assalariado, anonymo, maltrapilho, bêbedo 
e faminto; porque se explicam por ciúmes 
de toilette desastres que se não poderiam 
explicar por ciúmes de talento, e porque se 
forjam emfim aureolas d'odio litterario de 
roda de craneos que nenhum de nós dese- 
jaria ter p'ra escarrador. E' necessário que 
se livre pois da lutella d'esses chamorros 
chalros cuja camisa limpa não desculpa a 
alguns a estupidez mal reputada; é ne- 
cessário que reaja com o seu próprio crité- 
rio, o seu próprio gosto, a sua própria in- 



20 OS GATOS 

dependência, contra essa liga de sacripan- 
las que fazem dinheiro com a ignorância e 
a timidez das plateas, e vão reduzindo a 
litteratura, expressão suprema da perfeição 
moral e psychica d'um povo, a um vergo- 
nhoso stadio de creiinismo e abjeçãode que 
até se ri o brazileiro, desillndido do antigo 
amor que lhe mereciam os nossos esforços 
d'arlistas e buriladores da lingua mãe. A 
tolice, mesmo de casaca, é tão despresivel 
como a bebedeira. Não seja cúmplice da 
beslificação nacional pela tolerância com que 
vae deixando subir essa onda de mediocres; 
em toda a parte o advento das bestas é fu- 
nesto ; uma vez recebidos, a sua descarada 
audácia ala-se a tudo: de dramamiferos to- 
lerados passarão a directores de museus e 
bibliothecas, a legisladores de instrucção, 
reitores d'escolas, a directores geraes e en- 
carregados de projectos — é a historia dos 
grandes burocratas que depois da geração 
de Garret inundaram os logares proeminen- 
tes, e a quem só se deve a rebaixa actual 
da administração publica em todos os ramos 
— e se nós estamos quotidianamente a 
amaldiçoar essa funesta camada que Irium- 



os GATOS 21 

phou por compadrio, como é que somos in- 
coherentes ao ponlo de não ver que a nos- 
sa tolerância lhe está preparando uma suc- 
cessora inda mais pullia? 

De mais, D. Maria lem tradições alga 
ele\adas. e só ha pouco tempo cahiu na 
albergaria d'engeilados e gagos que ora 
está. Passou por ali uma aristocracia d'arte 
elegantissima, escriplores e comediantes 
que depois de mortos, por desgraça nos- 
sa, parece que legaram o iheatro aos 
seus porteiros. Alli viu luz o Frei Luiz 
de Sousa, que o lúcido Quinet poe na tes- 
teira da tragedia moderna, como incita- 
mento aos génios debutantes ; ali subiram 
á scena muitas comedias e dramas de escri- 
ptores nacionaes, desorientados, certo, mas 
com chispa; alli temos visto o melhor da 
dramaturgia europea nova, e alguma anti- 
ga; n'uma palavra, n'aquelle palco onde 
hoje se toleram ratos finórios como o Segre- 
do de Confissão e a Estrada de Damasco, 
faz cincoenla annos que foi pateada a 5o- 
brinhado Marquez, isto quando já Garret fora 
sagrado o piimeiro escriptor do seu paiz. 
Retrogradámos, ou a comedia do viscondes 



22 OS GATOS 

é de facto peor que a doLorjó ?Veja o pu- 
blico a que vilipêndios me leva a sua cri- 
minosissifna tolerância ! Compare n'um re- 
lance essas duas plaléas separadas por um 
abysmo de cincoenta annos, a que pateou a 
Sobrinha, e a que fez desesete audições á 
Confissão: a primeira feita de gente inculta 
e ainda rude, tendo porem dalitteraturaum 
ideal resplandecente, n'uma tpocha em que 
as escolas inda não estavam produzindo 
como hoje, tanta copia de monos sem espirito 
e de cabeças sem força nem deliberação; a 
segunda feita dos soit dizanh representan- 
tes da alta cultura litteraria e scieniificado 
paiz, uma plaléa de médicos, de engenhei- 
ros, legistas, eruditos e homens d'arte, com 
grandes sommas deleitura, pretensões, ares 
de illustrada — e equiparando depois as res- 
ponsabilidades artísticas d'uma e d'outra, 
diga-me se lhe não dá vontade d'enxovalhar 
em plena face essa engoiada e apathica so- 
ciedade que se deixa empolgar na plalea 
por meia dúzia de claquistas pagos, e outra 
meia de críticos intrusos e suspeitos ? Per- 
guntaria eu a esses cultivados que fazem o 
grande fundo d'espectadores das premiares 



os GATOS 23 

de D. Maria, o qae é qne os interessa a elles 
nolheatro, e p'ra que !hes tem servido tan- 
tos annos perdidos sobre livros, se os seus 
nervos de lama hão-de continuar a receber 
com a mesma impassibilidade o Ami Fritz 
e a Madrugada, as Pattes, de Mouche e di Es- 
trada de Damasco, e se perante aíTrontas ao 
gosto como certas permières originaes que 
o iheatro dá, elles hão-de continuar mudos 
e broncos a não reagir com a altivez dos 
seus brios enxovaIhados,atirando as cadeiras 
para o palco, obrigando os críticos a seguir 
o caminho das cadeiras, e emfim correndo 
com a tal dramaturgia original p'rô meio da 
rua ? 

Aconselharíamos também aos actores de 
robustez, como Brazão, se não prestassem a 
representar d'aquellas caçoadas. Dá caspa 
cerebral decorar palavras d'imbecis. Por 
mais talento que se tenha, sae-se de fazer 
peças d'aquellas, n'um chinello. A estupi- 
dez tem limites de tolerância; quem não 
sabe escrever, apara callos, e não é por 
sempre usar casaca que um dramamifero 
sem talento c menos brulo. 



24 OS GATOS 



Provado pois que a platéa de D.Maria é 
incoffipativel com a liberdade de critica e 
voto sobre as peças, visto uns serem do 
syndicalo dos direitos d'auctor, e acharem 
outros anli-chic a paleada aos peceiros alei- 
jados que nos chanlam, a quem fica reser- 
vado o papel de jury n'essa audiência so- 
lemne que é a primeira audição d'umaobra 
scenica? Resposta simples: o papel de ju- 
ry fica reservado ao gallinheiro, íjue de 
resto em todos os iheatros litterarios do 
mundo tem completa auctoridade para fa- 
zer e desfazer reputações. Porque ahi não 
subsistem as razões cohibitivas que vedam 
cá baixo á platea a franqueza de se pro- 
nunciar sinceramente sobre o valor d'uma 
audição. Reparem nos frequentadores da 
platéa: é a claque, são os «criticos», são 
janotas e namorist;^s sem bestunto, e emfim 
pessoas indecisas, sr^m predilecções dramá- 
ticas averiguadas, indo ao theatro para se 
mostrarem, ou fazer horas, que a claque fa- 
cilmente empolga e qualquer opinião late- 



os GATOS 25 

ral imbecil deixa conlenle. Um regicídio, 
deixar a litleralura á mercê d'estamixordiaI 
Vejam-se agora os familiares do gallinheiro: 
é a parte mais illustrada e culta das esco- 
las, estudantes que miram largo, por cima 
das lições, os mundos d'arte, vibrando dos 
puros exlasis do génio, possuindo-se afun- 
do das creações poéticas dos artistas ; são 
os espirilos simples e fortes dos que sem 
dinheiro nem camaraderiassociaescompro- 
mettedoras, pedem ao iheatro as emoções 
complexas da sua epocha, coisas que os fa- 
çam sonhar, pensar, soíTrer, talentos d'es- 
criptores e d'actores que faliam altg uma 
lingua fremente que lhes visione um pouco 
isso que «anda no ar do tempo», e elles 
não sabem exprimir senão por anceios 
?phonos,e escapadas hamlelicas d'espiritos 
ainda em construcção. A par da sua fres- 
cura d'alma e receptividade vivíssima para 
o bello, esta luminosa família acha-se por 
outro lado em excepcionaes condições de 
pureza de critério, porque ella não tem re- 
lações com escriptores, nem com actores, 
nem janta em casa d'emprezarios, nem es- 
creve para os jornaes, nem veste smokings 



26 OS GATOS 

comprados com o trabalho das actrizes; vae 
para ali com o seu logarinho pago, o ouvi- 
do altento e o caracter rebelde ás conspira- 
tas, gozar a sua noite, sem se importar com o 
que dirá o Jayme Victor, nem querer saber se 
a pragmática permilte sobre a peça opiniões 
alto e sonantes. O seu verediclum tem pois 
privilégios entre os de todos os mais espe- 
ctadores, porque espadana d'uma sinceri- 
dade que se escora na justiça, e arranca 
d'uma eloquência feita exclusivamente 
d'intellectualidade e de paixão. Quem pode 
deixar de ter por ella respeito ou sympathia, 
se é o paladinismo eslhetico que falia em. 
nome da emoção que classifica de trapos as 
casacas, e só ao talento puro rende preito? 
Das apreciações dramáticas dos microce- 
phalos que fazem proteccionismo ás merca 
dorias uns dos outros, o gallinheiro ri-se - 
passa adeante, porque gente falhada não se 
discute, e seria trabalho perdido incutie 
ideaes d'arte em creaturas só preoccupadar 
de dinheiro. Ora desde que os espectadores 
da imperial afinquem na idéa de que o bas 
ter dos seus pés é m.uitos milhões de veze- 
superior, como juizo critico, a todas as batis- 



os GATOS íi7 

das de mãos da gataria pingada lá de bai- 
xo, e de que o direito d'aprpciação perante a 
obra d'arte é tanto mais livre quanto mais 
culto o juizo e mais integro o caracter de 
quem na fôr julgando; desde que os espe- 
ctadores da imperial convenham n'isto, le- 
rão elles creado por si sós, para as peças 
de iheatro, uma temivel instancia lilteraria, 
única capaz de sustar o diluvio de cretinice 
que está cobrindo d'opprobrio os nossos 
palcos. 

Não é de hoje que a supremacia do gal- 
linheiro ganhou foros d'avançada. Pergun- 
tem aos velhos comediantes d'onde sahiu o 
sacre para as grandes figuras litterarias ou 
dramáticas da scena portugueza de ha 
trinta annos. Evoquem os manes de Ma- 
nuela Rey, d'Emilia das Neves, de Santos, 
d'Epiphanio, de Roza pae,^ d*Antonio Pe- 
dro, d'AImeida Garrett e de Mendes Leal, 
e elles confessarão que ao gallinheiro de- 
vem o melhor e mais transcendente nimbo 
da sua gloria. Do gallinheiro foi que na ce- 
lebre noite do Cego, em que o impeccavel 
Tasso fazia um protagonista desgraçado, 
uma vóz de mulher gritou entre soluços — 



28 OS GATOS 

abençoado o pão que ganha aquelle homem ! 
— e d'alli lambem que na primeira do 
Gladiador de Ravenaj quando Emilia des-^ 
fechava a tragedia com um d'esses grilos 
que lhe vinham do peito em borbotões de 
génio allucinanle, chamado otraductor, La- 
tino Coelho, os estudantes de medicina lhe 
mandaram semi-loucos que a beijasse. 
D'aquelle obscuro cacifro pois cheio de me- 
morias, vibrante ainda dos refulgentes de- 
lirios de nobilissimas gerações d'espectado- 
res, Dodem continuar a sair movimentos 
collectivos de justiça, porque o espirito é o 
mesmo e a auctoridade artislica subsiste- 
Ihe, muito embora a decadência vergonhosa 
do theatro haja invertido o signa! ás ova- 
ções. A vóz que ha vinte dias gritava na 
primeira áâ Estrada de Damasco — risquem 
d'aquelle panno o nome de Garrett! — é a 
mesma que abençoou talvez na noite do 
Cego, o Tasso, e que mandava Latino pros- 
ternar-se ante o perfil olympico d'Emilia, 
no grande e terrífico final do Gladiador. Se 
depois d'isto a pelinlragem da «critica» ar- 
ma ao descaro de reprehender labrega- 
mente o gallinheiro, só porque elle na es- 



os GATOS 29 

cala das recompensas não equipara as re- 
dingoles do Braga á massa encephalica do 
Shakspeare, o gallinheiro sem responder 
por um só gesto ás vaias d'essa tropa, cons- 
tata todavia que o fado não é novo ; é co- 
nhecida a algazarra que os patos antes e 
depois das trovoadas, usam fazer, nas estru- 
raeiras. 



^ 



VIDA IRÓNICA 



W 



mtm 



POR 



Por todo o corrente niez de janeiro sairá a publi- 
co, dos prelos da nossa casa, um volume d'oitavo, quatro- 
centas e tantas paginas, edição de luxo, onde Fialho 
d'Almeida traça o quadro, completo quasi, da vida de Lis 
boa, durante o espaço d'alguns mezes, sem omissão de ne- 
nhum promenor, caricatura, aspecto ou lance critico. A 
Vida Irónica é o diário razonado d'um humorista raro dis- 
posto a transigir com as amarguras ou petulâncias da sua 
verve, e engloba sob uma forma fácil e impetuosa, tudo 
quanto um pintor tem de mais fino, fluido e brutal nas 
suas tintas. Physionomias litterarias, quadros de socieda- 
de, aguarellas de rua e de café, theatro, dramaturgos, au- 
etores, tudo ahi passa, e ninguém é poupado n'esse rodo- 
pio de galhofti, de gentilezas, e de chicotadas. 

O livro é além d'isso uma obra d'estylo largo e fácil 
arcaboiço ; lê-se em três noites, sem mau humor, sendo 
natural até que no fim da quarta todos achem razão ao 
que por lá se diz de mal, de toda a gente. 

Os Editokes. 

Os pedidos podem desde já ser dirigidos a 

MONTEIRO k C.\ Editores 

Rixa, cios lietrozeií^os, 7'S, 1.° 

LISBOA 



os MYSTERIOS 



FRANC-MACONARIA 



LEO TAXIL 



Versão do padre Francisco Correia de Portocarrero 



Com ama dedicatória do auclor a 



S. M. A RAINHA D. AMÉLIA 



Esta obra, illustrada de mais de lOO gi*a>'vi- 
rai*, compradas expressamente no estrangeiro, que 
mereceu ao auctor um breve de S. S. O PAPA LEÃO 
XIII, e foi louvada pelos principaes arcebispos e bis- 
pos da Europa, constará de dous volumes sendo a dis- 
tribuição feita em fascículos de 3í2 pag^iiias 
de texto, com quatro ou mais gravuras. 



HISTORIA 

RMOLUcio nmíu 

POR 

Traduqãu de Maximiano Lemos Júnior 



lUustrada com perto de OOO g-i^avuras — 

as mesmas da edição franceza — e dividida era quatro 
volumes distribuídos em fasciculos de 16 pag., em 4.» 



Assignatura permanente para estas esplendidas pu- 
blicações, em fasciculos semanaes ao preço de 

100 Réis - Pagos no acto da entrega - RéíS 100 
Ver os prospectos e fasciculos specimens na 

AGENCIA IMYERSAL DE PLBLItAÇÕES 

75, Bua dos Retrozeiros — LISBOA 



FIALHO D'AyVIEIDA 



os GATOS 



publicação 
d'jnquerito á vida PORTUGUEZA 



N.' 52 — 24 de Fevereiro de 1893 



SUMMARIO 

Morte de Roza Araújo, sua historia pre- 

GRESSA E origem COMMERGIAL DeSENHA-SE 

o pastel cócó e reza- se da sua importância 
histórica e effeitos psychologicos inter- 
ferência do pastel no caracter lisboeta 

Convívio litterario de Roza Araújo, e pre- 
ço DAS RELAÇÕES SOBRELEVANTES Á PRIMITIVA 
CONDIÇÃO SOCIAL RoZA AraUJO HOMEM PO- 
LITICO, FIADOR E PRESTAMISTA CHRONICO DOS 
CORRELIGIONÁRIOS AMIGOS DE COMER LiSBOA 

VELHA E Lisboa nova — De como a Avenida 



n os GATOS 

SEJA UM CORREDOR CHEIO DE BURACOS — EXOR- 
BITÂNCIAS DE CUSTO E CONTRASENSO ARCHITEC- 
TONICO DESTA OBRA — Os PALÁCIOS, OS JAR- 
DINS E OS CAZARÕES CoMO SE CRIA O ESTYLO 

ARCHITECTONICO RoZA ArAUJO PHILANTRO- 

PO, SUAS GENEROSIDADES PARTICULARES, E ACÇÃO 
DA SUA BONDADE NA BENEFICÊNCIA PUBLICA 

RozA Araújo grande homem popular — Gran- 
deza, DECADÊNCIA, E MORTE DE CeZAR BiROT- 
TEAU — A miséria CRESCENTE DE LiSBOA E IN- 
POTENCIA DA CARIDADE PARA ESTA CHAGA SOCIAL 

— Mendigas trágicas — As paralyticas, as 

CEGAS, AS leprosas — LiSBOA DE NOITE Ca- 

ridade meticulosa, e egoísmos terríveis que 

ELLA ENCOBRE CoNCLUSiO. 




iO de fevereiro. 

Roza Araújo que uma apoplexia varreu 
para assim dizer ás portas da miséria, teve 
como homem particular e liouiem politico 
uma historia sympathica, das mais tristes: 
a d'um filho do povo percorrendo com uma 
espécie de boa fé infantil, uma vereda as- 
saltada de bandoleiros e rufiões. Seu pae 
cursara toda a vida a pastellaria com suc- 
cesso, angariando para esso filho único a 
independência d'algumas centenas de con- 
tos, juntados ao balcão, em chinellos de 
trança e bonnésinho de seda, n'uaKi quoti- 
diana assistência á venda das doçarias con- 



4 OS GATOS 

feccionadas na enireloja. O pastel que fi- 
zera o segredo da sua forluna, acabara por 
usurpar a alcunha de côcô ao bom do ve- 
lho, e alastrado por Lisboa, terra de gulo- 
sos, fizera-se uma das boas coisas da ter- 
ra, ganhando direitos de preferencia em to- 
das as bandejas de sobremeza e copos d'a- 
gua. Já pelo aspecto ia direito á benevo- 
lência dos freguezes, com o seu feitio d'al- 
guidarinhode barro por vidrar, o typod'ul- 
cera coberta de pomada, a pasta tenra, eo 
o cheiro a canella, beato, infundindo uma 
volúpia molle com regorgitações de saliva 
sob a língua. Entre as curiosidades monu- 
meniaes da capital á beira Tejo, começou o 
pastel cócô a ter njenção admirativa no ma- 
nual do viajanie, enfileirando entre os Je- 
ronymos, a estatua equestre e a capella de 
S. Roque, e impondo-se aos philosophos 
como uma das mais salientes arestas do ain- 
da mal interpretado génio lusitano. Tasqui- 
nhado na escura e modesta loja da traves- 
sa de S. Nicolau, com dois dedos de Car- 
cavellos, á hora do lunch, não conseguia 
elle maiormenle impor-se á cogitação pa- 
ihetica dos pensadores, lanto o seu gosto 



os GATOS 5 

dulceroso adormecia o paladar n'um ar- 
roubo carolla e sachristiaco. Mas pouco a 
pouco essa dormente sensação começava a 
desperlar na sensibilidade phenomenos gus- 
tativos singulares; a impressão do pastel 
comido produzia allucinações n'outros sen- 
tidos, e entrando na torrente circulatória ia 
a determinar estados d'espirilo, ou o que 
é mais — estados de caracter. Quem se ap- 
plicar um pouco ao estudo da interferência 
das comidas na vagarosa formação do ser 
moral, e souber da porção de pasteis com 
que as creanças de Lisboa se ingurgitam, 
não poderá negar, por mais que queira, fosse 
o côcô, durante os últimos trinia ou qua- 
renta annos, o principal regulador do ca- 
racter lisboeta. Ao pastel como fundo ali- 
mentar me persuado se deva atlribuir o ar 
limido, languinhento, sem vontade, que 
apanagia em Lisboa a adolescência mascu- 
lina e feminina ; ao pastel a derreação dos 
nossos rins, a tinta deslavada da pelle, a 
emaciação muscular, a raridade de barba, 
e a falta de pigmento e crespalura dos ca- 
bellos. Quando com tal dieta o adolescente 
ascende a homem, dado o caso da tuber- 



4» OS GATOS 

culose o não ter chapado antes de nul>il, o 
ser resultante entra a desagregar de si uma 
lazeira automática que o reproduz cm si- 
mulacros d'acção dignos de dó : vomol-o 
então suprir pelo namoro a expressão pas- 
sional própria da edade, sahir chumbado 
em francez, fugir ás responsabilidades do 
estudo pela cabula, e contrahir emfim al- 
guns vicios de que o mais inoíTensivo é 
aprender a gastar, sem produzir. 

Roza, Araújo filho foi talvez por esta die- 
ta quotidiana do pastel, uma das primeiras 
e das mais completas victimas de seu pae. 
Inda sem barba, as suas predilecções fo- 
ram-se desviando da cupidez da vida do 
balcão, lãoseccamente pratica, que o velho 
pasteleiro embirrava em lhe incutir para o 
tornar n'um futuro milionário, direito a ou- 
tras farofias abstractas que o haviam de 
tornar n'um satélite d'astros políticos e lil- 
terarios de meia linta, em cujo convivio a 
sua medíocre cabeça sossobraria, pela bon- 
dade irresoluta, n'uma perpetua victima 
d'escamoteações pouco decentes. Ingénuo e 
curto, sem qualidades de lucta, e com a ti- 
midez titubiante dos ambiciosos a quem 



os GATOS 7 

falta uma directriz mental a lhe encorajar 
a linha de conducta, o rapazola ao vêr de 
perlo o ascenso dos jornalistas e meelin- 
^ueiros que a fatalidade lhe dava por con- 
vívio, quiz imilal-os um pouco nos succes- 
sos, de sorte que muito cedo começou a 
tratar mais d'eleições que de pasteis, e a 
espargir no angario da popularidade ba- 
rata das esquinas a dessorada energia que 
Deus já lhe dera, manca de vontade, e que 
bem empregada teria servido quando mui- 
to para lhe trazer á clientella dos doces 
mais algumas centenas de gulosos. Para 
não ter o ar ridiculo n'esse cenáculo de 
beaiix espriis onde as suas aspirações de 
homem publico ardiam por brilhar, acos- 
tumou-se a suprir com generosidades de di- 
nheiro a lacuna das suas faculdades incul- 
tas e reslrictas, e cedo a burra paterna co- 
nheceu quanto custa a um papalvo cear á 
meza dos deuses, e por que sangrias passa 
um ingénuo, primeiro que conheça a fundo 
a poilridão moral dos intelleclivos que o 
desfiuctam. Como era rico e era bom, 
d'cssa bondade irresolula onde entra como 
factor principal o medo do ridiculo, apenas 



8 OS GATOS 

correu fama das snas primeiras largue- 
zas, formou-se de roda d'elle uma espécie 
de grande circulo d'assaUantes, e os correli- 
gionários polilicosiam-lhe amortisando com 
honrarias banaes o que particularmente lhe 
pediam em soccorros de libras e fianças. Da- 
tam d'aqui os seus primeiros triumphos ca- 
marários, e a popularidade meio sympa- 
ihica, meio bufona, que a sua regência do 
municipio lisboeta lhe creou. Foi essa a 
quadra das transformações fundamenlaes 
da capital, a era dos bairros inteiros abai- 
xo, das ruas de grande margem e arvores 
no asphaito, a febre do monumental re- 
pentino, sem plano, ao sabor das phanta- 
sias do pastel, que tendo transformado, é 
certo, para melhor a hygiene d'este grande 
moitão de casas fétidas, comtudo não dei- 
xou na sua restauração nem um só laivo 
architectural digno d'applauso. Roza Araújo, 
coitado, não tinha culpa. Para a sua mais 
que modesta competência, o papel de de- 
molidor já era muito, e Deus sabe quanta 
actividade insólita para a sua gordura, e 
quantos sacrifícios de dinheiro e credito 
ruinosos para os seus haveres, particular- 



os GATOS 9 

mente lhe vinha custando a sua bella aspi- 
ração de barão Haussmann alfacinha, de 
marquez de Pombal sem terramoto, entre- 
vendo n'um instincto de burguez precavido, 
o futuro da capital, mas não podendo dar 
corpo a esse grande sonho, por deficiência 
mental, que demais a mais o pae lhe dei- 
xara ficar incullivada. Mesmo em principio 
aquella aspiração de reconstruir fora res- 
tricta, taquanha quasi, porque ninguém 
pensara em reedificar Lisboa por comple- 
to, mas simplesmente em abrir entre o Ro- 
cio e o arrabalde, um cano d'ar, a cujos 
lados viesse colar-se o furor de construc- 
ções que os brazileiros ricos começavam a 
mostrar em tenebrosos prédios de seis an- 
dares e aguas furtadas. Assim se fez a 
Avenida, que é como se sabe um corredor 
de cantaria, com altos muros cheios de bu- 
racos, palmeiras de cabellos nas pernas, e 
um obelisco-lhermometro marcando no pri- 
meiro de Dezembro o zero da temperatura 
patriótica. Uoza Araújo não teve a menor 
responsabilidade ou ingerência nos typos 
de construcção que os architeclos e mes- 
tres d'obras adoptaram ; no entanto, agora 



10 os GATOS 

que a Avenida está toda bordada de casas, 
olhem p'ra ella e digam-me se não parece 
diclada pelo ideal paralcllepipedico d'um 
confeiteiro I Proveio este desastre de Roza 
Araújo não ter a seccundal-o um enge- 
nheiro que fosse ao mesmo tempo homem 
de génio e homem de gosto, e de tudo se 
haver planeado e executado de rustilhão, 
com pressa d'acabar. Não se calcula os en- 
traves que o pobre homem soffreu antes de 
dar na terra o primeiro tanchão de picare- 
la. Apenas se faliou em deitar abaixo as 
grades do Passeio, primeiro foi uma fúria, 
depois foi uma guerra, depois foi uma tro- 
ça. — O que elles querem é as grades, pa- 
ra as vender, diziam os rapaces. A forçado 
habito levara os velhos a imaginar que se 
acabava o mundo no dia em que para aso- 
cega do almoço lhes faltasse aquelle triste 
redil arborisado. Uns por causa do ripan- 
so, outros por causa das sopeiras, outros 
por causa da musica, o certo é que nin- 
guém queria consentir no sacrifício do Pas- 
seio Publico á Avenida, e a par d'esta op- 
posição pueril, a do ciúme e a do interes- 
se : proprietários de prédios casmurros, do- 



os GATOS 11 

nos de hortas ainda não previstos na mina, 
d'oiro a fazer co'as expropriações trama- 
das ao ouvido, e inimizades politicas em- 
fim, buscando intrigar uma obra que credi- 
tava o auclor na gralidão dos mais intelli- 
genles... A Avenida votada, outra campa- 
nha começa, mais terrivel ! Não ha vintém, 
é necessário pedir; e assim se estanca um 
empréstimo, e outro, e outro, e tudo pere- 
ce no sorvedoiro d'esse melhoramento par- 
cial que ameaça arruinar o município, e 
que negociado com socego, tomando por 
base a expropriação por zonas, sahiria gra- 
tuito, dando de sobejo para todas as phan- 
tasias em que o arcliilecloe o jardineiro no 
fim da obra quizessem derivar. 

Insisto no que poderia ter dado a Aveni- 
da, se a camará partindo d'um estudo de 
transformação architectonica bem guiado, e 
sabendo que para essa artéria convergiriam 
todas as novas construcções luxuosas da 
classe rica, dictasse a esta lypos de resi- 
dência, não nos seus detalhes meúdos, que 
isso seria um attentadoásleis da variedade, 
mas dentro d'um quadro d'estylos subjeito 
a um ensemble, e frizando o monumental da 



12 OS GATOS 

grande rua. Eis o que teria affaslado d'a- 
quelle silio os prédios merceDarios, os pré- 
dios commodas, com janellas de bico e pla- 
tibaiidas de loiça para vidrar, e o que mul- 
tiplicaria as perspectivas por uma diversi- 
dade sem fim de typos palaciaes, dando a 
esse eixo novo de Lisboa, a grandeza sce- 
nograpliica que lhe falia, e o ar de grande 
terra que já agora só com um terramoto 
novo pôde ler. E' realmente magua olhar 
da praça dos Restauradores, té á Peniten- 
ciaria, o bisonho canal de casarões saloios 
que arrolam sobre a via, chatos eallissimos, 
com seus telhados opacos. Incarnas de ce- 
leiro, magras varandas, e divisórias d'ala- 
guer cheirando ásovinice dos senhorios. Uos 
pouquissimos palácios que lá restam, apenas 
o do marquez da Foz tem grande lypo, o 
resto concebido n'um typo de cartonagem 
chinfrinole, dizendo o desfructe ou a estu- 
pidez do architeclo, a farofia paluda dos 
donos, e a irremessivel chateza mercieiral 
do nosso lempo. Gomo essa ambigua Lis- 
boa nova é bem a Babylonia catita do Fon- 
tes, e como se sente na sua recta banalida- 
de o vasio da sociedade soez que o deificoul 



os GATOS 13 

Entendam que eu não exigiria queá voz de 
Roza Araújo espaventasse da terra uma ar- 
chitectura inédita, commemorativada edade 
d'oiro dos syndicatos. Um eslylo não se in- 
venta, é obra de séculos, começa por uni ca- 
pricho d'arlista,que adequado ao destino da 
pessoa ou coisa a que se adapta, consegue 
calar na multidão sympalhicamenle. A gera- 
ção seguinte contempla esse capricho e mo- 
difica-o ; vem outra e faz o mesmo, e segui- 
damente assim, té se obter por cristalli>a- 
çõessuccessivaso resumo de perfeclibilidade 
que o torna belleza lógica, belleza typica, e 
o que é mais, belleza util. 



A par das torturas soíTridas para levar a 
cabo as obras da Avenida, o que para Roza 
Araújo era a parte difficil da gloriola que 
lanto prezava a sua innocente vaidade de 
popular metido com magnatas, outros cui- 
dados mais fáceis, mais ternos e harmonio- 
sos com a sua fraqueza doce de bom ho- 
mrm, lhe enchiam o coração de mimos evan- 
gélicos, parecendo que elle se quizessejus- 



14 OS GATOS 

lificar d'aquella presidência camarária, pa- 
ra que em sua consciência se julgava in- 
compelenle, por aclos ignorados de philan- 
Iropia, e protecções paternas aos infiniia- 
menle humildes de Lisboa. E' assim quase 
começa a vêr o nome d'el!e na fundação 
d'asylos e de creches, e em obras de cari- 
dade errática, onde a sua bolsa vasa conti- 
nuamente o pecúlio dos contos de réis her- 
dados de seu pae. Inexgotavel de boa fé, 
cândido inalteravelmente apezar da reserva 
melallica que lhe baixa, e das ingratidões 
que mesmo no auge já começa a soffrer 
dos biltres a quem serve, uma palavra basla, 
da rainha, do rei, dos grandes influentes, mi- 
nistros, jornalistas, para elie pôr fazenda e 
tempo ao serviço seja do que fôr; e nas 
subscripções para creches, albergues no- 
cturnos, ampliação ou reforma d'um asylo, 
levantadura d'uma estatua, Roza Araújo 
deixa sempre por baixo da sua firma a cifra 
em branco, sendo os iniciadores quem na 
preenchem, talvez por cima mofando d'essa 
encantadora basofia, ou prevendo sequer o 
gáudio da debacle para abater as cristas do 
irresoluto e obeso parvenu. Os jorndiQS n'este 



os GTOS 15 

comenos conseguiram tornal-o em typo 
d'evidencia, a caricatura apoderou-se-lhe da 
barriga, aquella barriga em forma de canto 
de chaise-longue, posta ao travez das perni- 
las bambaleantes, sobre que elle parecia 
sentado, e que era um dos resultados da di- 
latação estomacal a que o levara na moci- 
dade o regimen do pastel. Uma vez popu- 
lar, a malrulla dos canzoeiros impa sem 
conta ; ja não eram sómenle os governado- 
res civis sem cheia e furiosos de luxo e 
meza lauta, já não sómenle os ministros 
roídos de batota, os ex-governadores do ul- 
tramar, as condessas-canaslras e as boas 
mulheres desempregadas, quem, pretex- 
tando camaraderias politicas e alrazo de 
rendas, saccavam contra a burra d'elle a 
descoberto. Eram lambem os jornalislasi- 
nhos de noticias, as actrizes, os actores, 
pastelleiros, camiseiros, retrozeiros, panto- 
mineiros, amigos d'uns, p?rentes d'outros, 
Ioda a cambada colossal que por Lisboa 
respira, engorda e vive de calotes, forrando 
ao trabalho a energia gasta nocturnamente 
a emprehender quem ha-de cahir com bago 
ao outro dia. Tornou-se moda encostal-o ; 



16 OS GATOS 

por fim eram já inimigos, desconhecidos, 
sucia sabedora dos seus acanhamentos, que 
o procurava na camará, na loja, pelas ruas, 
e que olhando-o nas pupilla?, rudemente, 
lhe pedia dinheiro como quem pede pontas 
de cigarro. Roza Araújo por cobardia e 
frescura d'alma, nunca í'oi capaz de recu- 
sar: quem chegava via-lhe a mão estendi- 
da, o riso Iristo, e o geslo da cabeçorra ac- 
quiescendo aos pedidos mais disparatados. 
Houve um momento em qne para assim di- 
zer toda a gente lhe deveu dinheiro, ou ser- 
viços de dinheiro, e cm que a sua gaspi- 
Ihada fortuna, para sustentar o pé das ge- 
nerosidades que não cessavam, e iam n'um 
pavoroso vortilhão de desgovernos, houve 
que valer-se do credito, e disfarçar a com- 
pleta exhaustão com expedientes. Aos pri- 
meiros alarmes da pobreza, Roza Araújo 
nem quizera acreditar n'esse phantasma: 
chegado aos pináculos da consideração e 
do respeito, tendo uma rua crismada c'o 
seu nome, presidente da camará n'umas 
poucas de vereações laboriosas, fundador 
de creches, the.-oureiro d'estaluas civicas, 
popular, choraria talvez como Alexandre a 



os GATOS 17 

pequenez da lerra, inquirindo se haveria 
m.'iis nome a conquistar. Havia, infelizmente, 
o seu credito commercial compromettido, o 
bem estar resultanie da certeza de ser rico, 
e finalmente a revancheáos, seus demolidores 
e adversários, que farejando a ruina, tinham 
começado a levanlar-lhe barricadas e aen- 
venenar-lhe as mais simples intenções. Elle 
ainda doesta vez não queria crer. Pensava 
que a todo o tempo lhe acudiriam os grandes 
personagens por quem nos dias gordos fi- 
zera sacrifícios, e que o seu prestigio poli- 
tico e a memoria dos serviços civicos que 
prestara, o livrariam do opprobrioda falên- 
cia, intervindo na hora dolorosa, e arranjan- 
do-lhe um niodus vivendi reparador dos des- 
falques de tantos annos de mãos rotas. Lan- 
çando um corajoso olhar ao destroço dos 
seus bens, pensou nos successos que ás 
vezes coroam um golpe de mão rápido e 
audaz, e então esse commerciante que não 
soubera dirigir nunca uma casa, empenhou 
o ultimo credito para fazer abrir por essa 
Baixa Ioda, cinco ou seis. Em menos de 
dois mezes funccionavam por sua conta Ires 
pastellarias, uma no Porto e duas em Lis- 
2 



18 OS GATOS 

boa, uma camisaria, dois reslaurants, e lião 
sei que outras locandas de retalho. «Loja 
com uma só poria e o dono dentro», costu- 
mava dizer o velho côcô, á guiza de prolo- 
quio. As d'elle tinham, muitas porias, por- 
tas talvez de mais para a cidade, e o luxo 
do café-restauranl da Avenida, apreciado 
em duas ou Ires dúzias de contos, coberto 
d'espelhos, com salas vaslas e desafogos de 
grande estabelecimcnlo, espavoria um pou- 
co a rara clienlella, nmu local onde pela 
força do habito não fazia apetite entrar para 
comer. De mais, era inexperiente ou mar- 
cenaria á gerência e direcção de todas es- 
sas lojas, parecendo que não bolisse ao vi- 
vo c'os sacrifícios terríveis de que o pobre 
Rosa Araújo lançara mão para as montar; 
de sorte que a pouco e pouco essas derra- 
deiras esperanças de salvação foram rolando 
em medonhos deficits, cada vez mais dififi- 
cilmente cobertos, té lhe crearem uma ban- 
carota inevitável. 

N'esse dia tremendo. Rosa Araújo recor- 
dando-se dos que salvara gratuitamente, em 
tremendíssimas crises financeiras, correu a 
expor sua deshonra a alguns que lhe de- 



os GATOS 19 

viam tudo, e que passado o perigo, oulra 
vez na fortuna, se tinham esquecido de lhe 
restituir, como cumpria, os capitães. En- 
controu, já se vê, muitos braços abertos, 
muitos suspiros condoídos, muitas disserta- 
ções sobre a coragem, vagas promessas, pa- 
lacuada, palanfrorio, mas nenhum dos an- 
tigos devedores pareceu reparar fosse o di- 
nheiro o único salvaterio para a afflicção 
que trazia alli espavorido o pobre diabo. A 
quantos pés se rojou, foram palavras o 
máximo de soccorro que logrou trazer 
d'essa tão vilipendiosa via-sacra. Gomo 
sempre succede, eram os credores peque- 
nos quem arremetera primeiro a importu- 
nal-o. Roza Araújo deixou-se manielar por 
elles como um pandilha insolvavcl, e para 
as primeiras voracidades fechou o caffé- 
reslaurant, leiloando a mobilia por um de- 
cimo do valor. Ao mesmo tempo limitava 
ao possível o tratamento das três ou qua- 
tro casas que sustentava, despedia crea- 
dos, reduzia pensões, e dava tudo á mati- 
lha, ficando a dieta, e reconhecendo, tarde, 
que por mais que desse, um sorvedoiro fica- 
ria sempre hianlc a devoral-o. Ahi começa 



kO os GATOS 

a espiação d'esse homem justo, tremenda, 
aspbixica, sem confidencias, cada vez mais 
lorlurante á proporção que os dias passam, 
pois elles approximam a dtshonra publica 
a longos passos, e cairá o veu das suas ul- 
ceras profundas, e esvair-se-ha,quem sabe, 
a lenda cívica tão trabalhosamente adqui- 
lida I Duzentas vezes vae renovar junto dos 
poderosos a' sua imploração de homem per- 
dido, feila em voz iimida, curvado e tor- 
cendo as mãos de desespero ; mas agora que 
elle já não serve, não empresla dinheiro, 
nem faz eleições, nem dá janiares de borla, 
nem serve de fiador aos valdevinos, os ami- 
gos debandam-lhe á formiga, e os raros fii-is 
apenas lugram, tão pobres como elle, alcan- 
çar-lhe uma ou oulra delonga de prazo para 
os débitos. Volla-se, e de lodos os lados lhe 
cerceia o caminho a deirocada; obsedam- 
no as contas por centenas, umas que elle 
já linha psgo trez ou quatro vezes, outras 
que elle não subscreveu, outras que julgava 
pagas pelos debitanles. Para lodos os lados 
o descrédito : o dos amigos que se justifi- 
cam de o evitar, com reticencias ; o dos ini- 
migos que lhe não perdoam as antigas vic- 



os GATOS 21 

lorias camarárias; o dos credores, a quem 
o dinheiro cega, e a exhautoração da vic- 
lima vae tardando. Apertado n'este circulo 
de ferro, o desgraçado n<ão tem para os que 
o abandonam uma só palavra de despeito ; 
por ventura adviria na cilada em que cahira 
a quando rico, tarde reconhecendo a estofa 
dos canalhas que o tinham explorado e rou- 
bado infamemenle — nenhuma d'estas trai- 
ções porem ressumbram queixa dos seus 
lábios, e a sua fidelidade d'alma é tão com- 
pleta, que á hora das recriminações supre- 
mas, accusado de n'um transe d'agonia ler 
pago dividas com o pecúlio d'uma artista e 
o dinheiro d'uma associação de beneficên- 
cia, esse que para justificar-se poderia ter 
revelado tantas fraudes, prefere curvar a 
cabeça e deixar-se abysmar n'uma irreme- 
diável perdição. 

Desde essa hora, Roza Araújo não teve 
mais ah'gria, e todas as lassidões da morte 
moral dando pretexto ao corpo para se ex- 
tinguir n'um prazo physiologíco, com<^çam 
a lhe escavar rapidamente a sepultura. 
Com o barrelinho de seda e o ventre flá- 
cido, eil-o volta a vender pasteis na loja de 



22 OS GATOS 

seu pae, mas esse retorno humilde á vida 
d'origem não faz senão culilar-lhe as tor- 
turas interiores, mercê da suspeita horrível 
d'em cadafreguez estar embuscado um mal- 
dizente ou um credor. Como Cezar Birol- 
leau no dia seguinte á fallencia, o pobre 
diabo perdeu o dom de fitar quem se llie 
achegue; tem a face cabida, o beiço inferior 
n'um momo que é a bestialisação da ma- 
gua nas pbysionomias pouco lúcidas; falia 
sem pensamento, á flor dos lábios, n'um fio 
de vóz a cada instante interrompido entre 
as asphixias do respiro ; e ao longo dos 
muros, na rua, de cabeça curvada, eil o es- 
gueirando-se como um criminal confesso, las- 
timável e alheio a toda a ideia de reintegra- 
ção social ou de bem estar. Quotidianamente 
os familiares assistem ao demudar da sua 
face, n'ella deletreando esse «diagnoslic de 
coup d*oeil» que certas doenças mortaes 
revestem externamente; emtanto elle parece 
não dar por males physicos. tanto o moral 
se estorce n'um inferno de horríveis sobre- 
saltos. N'esta lucta horrorosa resaltaria por 
banda do vencido, uma innarravel anciã de 
viver — de viver para oxigenar o seu caso 



os GATOS 23 

ante a cidade, para pagar integralmente as 
suas contas, para se lavar, n'uma palavra, da 
nódoa da fallencia, única que a consciência 
do lojista não perdoa, quando essa forma 
d'escrupulo radica na hereditariedade de 
muitos séculos de honra de balcão. Infeliz- 
mente, lançando calculo ao tempo necessá- 
rio para, dados os recursos da casa, se po- 
derem embolsar todas as partes reclaman- 
tes dos seus débitos, achava-se que só 
muitos annos volvidos Roza Araújo poderia 
emfim rehaver a antiga integridade. E até 
esse problemático restauro, necessário ve- 
getar na sombra aviltante do caloteiro pu- 
blicamente perseguido, servir pasteis á fre- 
guezia, d'olhos no chão, tragando os chas- 
cos d'uma cidade implacável para os timi- 
dos, e emfim abdicar de vez aquella sua 
gloriola de homem publico, aquella preoc- 
cupacão immortal de vulto illustre, a bem 
da qual a sua vaidade de burguez fizera 
tanto, e a^jora alli jazia a seus pés, na lama, 
como um dominó de setim, findo o entrudo. 
Tamanhos sacrifícios se lhe afiguraram pre- 
ço exorbitante para quo, depois das dificul- 
dades vencidas, inda lhe restaria na vida a 



24 OS GATOS 

desfruclar ; de mais a doença cardíaca, agra- 
vada pelas preoccupações moraes esmaga- 
doras, ia-Ihe carceando curto a paciência, 
cortando-lhe a respiração, curvando-lhe pa- 
ra a sepultura o arcabouço, e foi assim 
que a piedosa morte se amerceou do pobre 
homem, precisamente quando tudo o mais 
começava a abandonal-o. 



15 áe fevereiro. 

A miséria que ha poucos annos em Lis- 
boa a bem dizer não passava da industria 
d*a!guns vadios sem vocação para o traba- 
lho, e d'algumas megeras em exploração 
das crias pela esmola, começa a tomar na 
capital caracter trágico, e a surgir como a 
suppuração d'um descalabro social irrepa- 
rável. A crise que em muito pouco prejudi- 
cou a gente pobre da provincia, visto a sua 
feição quasi exclusivamente industrial, ao 
apanhar as classes serventuarias da capi- 
tal, gente imprevidente e regalona, sem pé 
de meia, afoita ao viver immoral do dia a 



os GATOS 25 

dia, Ião pela gorja as estrangula, que os 
destroços de centenares de famílias por hi 
andam na rua a pedir esmola, afora outros 
que o suicídio e a doença lêem reduzido a 
estrume nos covaes.Gomo a recolta dos derél- 
sinhos pinga .constantemente nas mãos dos 
mendicantes, e o acto de pedir esmola vem 
a tornar-se, ao cabo dos primeiros ensaios, 
n'um modo de vida infiniiamente malscom- 
modo que o trabalho officinal, a mendicân- 
cia para muitos deixa de ser o recurso ex- 
tremo d'um instante de miséria, para, per- 
dida a vergonha, se tornar alfim em pro- 
fissão. Aos miseráveis por destino juntam- 
se pois os miseráveis por expediente, aos 
verdadeiros pobres, os malandros verdadei- 
ros, e é o que mais fatiga a caridade, e faz 
pagar aos infelizes as chantages dos vadios. 
Do coro d^aquellas victimas um grupo salta 
sobre todos, que me confrange a alma de 
tristeza. E' a das velhitas que á noite, 
quando o frio de janeiro regela mais, pas- 
sam na semi-somhra dos prédios, entre as 
cotovelladas dos felizes, vestidas d'escuroe 
examines de vergonha, balbuciando suppli- 
cas que são talvez restos de historias, eon- 



26 OS GATOS 

de á evocação de Deus, se juntará, quem 
sabe? a desesperança dos que nem já de 
Deus ousam esperar apelação. D'essas al- 
cachinadas crealuras, algumas são verda- 
deiramente os espantalhos d'antigos dra- 
mas familiares, as espiadoras resignadas 
dos inconfessáveis peccadosda sua geração, 
e são as que se acobertam mais co'a som- 
bra, as que supplicam com mais receio das 
insolências, e as que, mesmo repellidas, bai- 
xando a vista, tremulas do desaforo de le- 
rem fome, inda por cima tentam abençoar 
quem nas repelle. Desce a noite como um 
capuz colossal sobre a cidade, amplificam- 
se os bairros, os prédios crescem, e as ruas 
se anastomosam em inextricáveis arboren- 
cias, desconformes da sonolência trágica da 
sombra. Já os operários passaram do tra- 
balho, e o cen vem rente aos tectos afer- 
rolhar as aspirações para as alturas. Nos 
burgos pobres, socego, vultos com pressa, 
o gaz babando clarões onde esses restos de 
vida teem a incerteza de coizassem destino. 
A hora em que os pobres ceiam e os ricos 
jantam, a hora do peixe frito nas tascas, 
dos clarões de gaz nos cafés ricos, e das 



os GATOS 27 

salinhas do jantar tressuando a cognac e a 
fumos de charuto. Na humidade da noite, 
rumores confusos, trepidações de febre, 
americanos cheios em rails que nunca fin- 
dam, coslureiritas seguidas, vitrines fiam- 
mejanles, tipóias a galope, quatrocentas mil 
almas que mastigam; e n'esse egoismo 
monstro da digestão d'uma cidade, as po- 
bres velhas, encostadas aos muros, resfo- 
legando o esfacelo dos pulmões asthmaticos 
do frio, as pobres velhas lá descem, coitadi- 
nhas, dos bairros lúgubres, para vir esmo- 
lar nos centros de concorrência. Algumas, 
gordas, com restos de chailes amarfanha- 
dos na cintura, teem a faceira enxundiacea 
dos cardíacos, olhos de cinza, um fio de 
voz na bocca endolorida ; e a espaços pa- 
ram', esfalfadas do caminho, os chinellos na 
lama, a falta d'ar no arquejo do respiro, 
partilhadas entre a anciã de pão e a anciã 
de reponzo. Greaturinhas sem interesse, 
eil-as estendem a mão com medo que as 
conheçam, balbuciando suas lastimas a 
custo, e o transeunte aíTasta-se, seccado já 
d'outros pedidos, e sem reconhecer n'essa 
lúgubre carcaça a sua antiga patroa d'em 



28 OS GATOS 

esludanle, a pobro mãe cl'um camarada 
morto, ama amiga d'oulr'ora ou uma pa- 
renta. N'esla cidade tamanha, a desgraça 
tem edições tão caprichosas I Aquella de 
prelo, lenta, com as pálpebras lufadas d'e- 
dema, a bocca parva e a mão estendida a 
medo, é uma viuva que eu conheci conten- 
te ha coisa de dez annos. O marido linha 
uma pequena loja de tabacos, viviam bem, 
adorando e vestindo de velludo um filho 
que ha pouco lenjpo, já homem, indo fazer 
a cobrança d'uma casa, fugiu para Hespa- 
nha com o dinheiro e duas raparigas. O 
velho para pagar vendeu a loja, e pouco 
depois morreu de congestão. Ha-de haver 
duas noites quiz interrogar a mendiga sobre 
o destino que levara o rapazola; vaeella que 
me via, baixou a vista, eafaslou-se a tremer 
como uma hidra descoberta. A perturbação 
da mulher alfinetara porem a minha rocam- 
boleria mental de novellista, e vim a saber 
que o filho vive pelos cafés de camareras, 
nos chinquilhos d'Arroios, uma vida de sou- 
tenêur larapio e desordeiro, e que é a po- 
bre mãe quem no sustenta, cada vez mais 
doida pelo pulha, á proporção que a rein- 



os GATOS 29 

cidencia d'elle loma o caracler moral d'in- 
corregivel. 

Oulra, hespanliola, que estaciona á poria 
(lo Leão d' Oiro, sollicilando a piedade do 
quem vae para jantar, tem uma historia ainda 
mais desesperada. Tinha dois filhos ouiivos, 
6 adoecendo d'um lypho, fora levada a tra- 
tar pr'o hospital ; por lá esleve semanas, era 
no fim do semestre, e quando sahin achou 
a casa alugada, e nem filhos, nem uma en- 
xerga sequer onde dormir. Principiou a in- 
dagar pela visinhança o paradeiro dos dois 
canalhas, vindo a saber que propositando 
d'antemão que a pohre não escapasse, ha- 
viam dividido os tarecos, jogado as cristas, 
comido em pandegas o espolio; depois do 
que fora o mais velho para o Porto, eslan- 
do no Limoeiro o mais novo, por uma his- 
toria de cumphcidade em notas falsas. His- 
torias d'eslas contam-se ás series e enchem 
Lisboa d'espectros esfaimados. Quem pas- 
sar na rua do Ouro em certas noites, nos 
baixos do Montepio Geral lobrigará, escoa- 
do ao muro, um vulto negro, vulto sem cor- 
po, apagando-se nos vaivéns da multidão 
como uma sombra. Não se lhe vêem mãos 



30 OS GATOS 

imploralivas, ponla de rosto, hausto oa mur- 
múrio por onde adevinhar um ser vivente. 
Imraovel na vertical lucluosa dos seus tra- 
pos, o pequeno espectro parece que dormi- 
ta ; não pede esmola e é evidentemente uma 
mendiga; ás vezes no torvelinho da mairulla 
que tem pressa, um cotovello bruscamente 
desloca-a da parede: ella remexe um mo- 
mento, deita um suspiro, e ouira vêz recahe 
na mesma quietação. Esse suspiro, porque 
crises de martyrio augusto se transfillra, bom 
Deus ! para exhalar-se assim pallido do co- 
fre d'esse peito que por coração só tem re- 
cordações ? Gomo a pobresinha não pede, 
cada qual vae andando o seu caminho, e 
noiles e noites passam sem que a miserável 
logre ver recompensado o tormento de vir 
alli expôr-seá multidão? O seu vulto porém 
causa surpresa, com a cabeça no peito, as 
mãos no chaile, incorpórea e semelhante a 
uma escorridella de tinta sobre o muro. 
Alguma compassiva dama varada pela atli- 
tude glacida da pobre, busca na bolsa um 
cobre bemfazejo, e do espantalho de trapos 
uma mão tremulenta se destaca, uma mão 
de velhinha torturada, d*ossilos débeis, pu- 



os GATOS 31 

nho esbrugado, branca da exanguidez das 
velhas pelles que foram bem tratadas, e on- 
de braceletes lelintaram, quem sabe, n'ou- 
tro tempo... Ainda estas são as relativa- 
mente queridas do destino, e bem que mi- 
sérrimas, desfruclam por ventura d'uma 
certa autonomia. Deus lhes consente ainda 
que se arrastem pelos seus próprios pés, por 
essas ruas, não façam nojo ao menos, e 
possam fallar e mostrar o rosto triste á com- 
paixão. Mas as enfermas, as paralyticas de 
bocca torta, patetas, tartamudeando gague- 
jos d'animaes desesperados ; as aleijadas, 
grotescas, confeccionadas de restos que a 
natureza amputou com vida, d'oulras crea- 
ções sãs e perfeitas ; as cegas, de physiono- 
mia hesitante, a tatear com gestos infantis, 
no seu cárcere medonho, a perversidade hu- 
mana que ri alto... Que humilhações nefan- 
das que ellas sofrem, e como pagarão amar- 
go a illusão de soccorro que a mendicidade 
da rua lhes faculta I Não lhes bastava a des- 
graça de lhes faltar o lume e o pão na casa 
inhospita, e de terem de para comer, mostrar 
seus males, senão que também se lhes volte 
em asco a caridade, e lhes fuja do regaço a 



32 OS GATOS 

esmola que o bemfeitor evita, pelo agoiro de 
lhes topar co's aleijões. Porque a verdade é 
esta : noventa e nove vezes por cem, a com- 
paixão do transeunte é simplesmente um ca- 
so d'egoismo. O menor particular serve de 
pretexto a uma recusa: tal que para esportu- 
lar cinco réis, exige pobres de sobrecasaca e 
chapéu alto ; outros que afinam com os cor- 
cundas e os chaguentos, c muitos que ima- 
ginam que todos os cegos são fingidos, e to- 
dos os filhos das pobres tomados d'aluguel 
a uma associação de compra-chicos. O egoís- 
mo dos felizes até no acto de fazer bem mette 
aggressões, e para elles a felicidade só é ver- 
dadeiramente um gozo psychico quando dis- 
posta de modo a fazer avivar pelo contraste 
os martyrios d'esses dedassés de lodos os 
festins. 




FIALHO D'ALMEIDA 



os GATOS 



PUBLICAÇÃO 
d'jNQUERITO Á vida P0RTU6UEZA 



N.'53 — 15 de Abril de 1893 



SUMMARIO 

Leilão de D. Fernando e vida ephemera 

DA OBRA d'aRTE CHIG — PlNTORES DO CYGLO 

romântico: AnnunciaçÃo, Metrass, Lupi, e 

AUSÊNCIA de quadros SEUS NO MUSEU DAS Ja- 

nellas Verdes — Necessidade d'uma galeria 

DE pintura moderna ONDE SE VÁ ESTUDAR A 

MANEIRA DOS ARTISTAS NACIONAES Em QUE O 

«SELECTED» ME APODA d'eSCRIPTOR LICENCIOSO 

— Representação do «Parfum» pela Judic, 
com assistência de toda a alta roda a 



II os GATOS 

PEÇA COMO LITTERATURA E COMO MORAL, COM 
RECAPITULAÇÃO DE HAVER NO TAL «SELECTED» 
UMA GRANDE FALTA DE PUDOR ExPOSIÇÃO DO 

Grémio Artístico — As tristes málhoas — 
Salgado e Silva Porto : estagnação da pay- 
sagem no realismo pelintra de ha dez annos. 





15 áe março. 

O leilão do espolio de D. Fernando, que 
se lem eslado a lealisar por estes dias, n'u- 
ma dependência do paço das Necessidades, 
dispersa ao vento dos negociantes e coUec- 
cionadores uma considerável parle d'esse 
mngot d'obras d'arte que foi o enlevo e o 
sonho do pobre rei consorte. Não se pode 
dizer seja um compósito de maravilhas, esse 
espolio, podado como foi já pelos herdeiros, 
das suas melhores peças de processo; en- 
lanlo é curioso estudar pelos documentos á 
vista a quantidade de pacotilha que os reis 
são obrigados a pagar para animar as ar- 



4 OS GATOS 

tes, e por elles ver como o convencional en- 
canece cedo a obra dos artistas. Esculptu- 
rinhas românticas, quadros de fructa e com- 
pota sobre fructeiros arrebicados, peixeiras 
com caras de duqueza, scenas de campo 
dramatisadas á guiza de scenario d'opera, 
tentativas cerâmicas sem caracter, procuran- 
do imitar escolas em vista — tudo quanto 
n'uma palavra a engenhosidade cria de pi- 
caresco, n'um paiz onde o génio artistico é 
chifarica e as escolas d'arte nunca passaram 
de tentativas officiaes sem valimento — tudo 
alli mostra o seu faseias matuto e desyme- 
trico, dizendo a desorientação da esthetica 
porlugueza de ha trinta annos, e a quantia 
de dinheiro esbanjado a abeberar rapazes 
sem talento. Com os pintores portuguezes 
d'esse tempo, que o fallecido rei D. Fernan- 
de apadrinhou, e cujas obras-specimens se 
podem ainda ver reunidas por alguns dias 
no leilão das Necessidades, succedeu pouco 
mais ou menos o que d'aqui a vinte annos 
se dará com muitos d'esses cujos quadros 
agora nos parecem conter em si caracteres 
de coizas immortaes — isto é, dos debutan- 
tes opimos d'agora, grande numero ficará 



os GATOS 5 

pelo caminho, e irá empallidecendo gradual- 
mente a obra d'oulros, á medida que a oxi- 
dação lhes embrunecer as tintas, e que a 
ironia do tempo enfim, partindo do pretex- 
to de que a melhor Iheoria d'arte é sempre 
a ultima, pegar de lhes descolaras telas das 
molduras, substituindo-as por novas, e ar- 
remessando os auctores das velhas, d'uma 
vfz, para o cemitério dos diccionarios d'eru- 
dição. Entretanto apezar da inaptidão con- 
génita da raça para conceber e crear obras 
pujantes, apezar da duração transitória d'u- 
ma pintura e escuiptura inquinadas por todas 
as repercussões maniacas da moda, apezar 
do ensino viciado dos artistas, e do despre- 
zo do grosso publico pelas chamadas «obras 
d'arle nacionaes» ainda d'aquella plêiade 
dos nossos pintores românticos, buscando 
bem, achariamos, n'esse leilão de casa real 
que se esfacela, três ou quatro bocados me- 
nos mortos com que fazel-a figurar nas Ja- 
nellas Verdes, ao lado dos muitos que lá fi- 
guram com menos direitos talvez de solo e 
de nação. Temos deixado escaparem-se por 
mãos anonymas todas as pinturas dos re- 
presentantes do periodo romântico em Por- 



6 OS OATOS 

tugal, e a verdade é que o museu nacional 
não possue um só dos quadros bons d'An- 
nunciação, Christino, Metrass e Lupi, sendo 
diíBcil hoje adquirir bocado que os exprima 
a Ioda a altura. 

O conto de reis que o governo destinara 
a acquisições para o museu, gaslou-o o ins- 
pector n'um par de jarras galeadas, n'umas 
chapas d'espada ornamental, e n'uma salva 
repousséê sem mor valor, e valha a verdade, 
o museu não é tão rico em obras modernas, 
que possa dispensar-se de dar guarida aos 
poucos artistas nacionaes que conseguiram 
transpor a mediocridade do seu tempo e 
viver alem do elogio mutuo das exposições. 
Supporiamos até dissesse bem, apoz de tan- 
tas salas de pintura religiosa, fundo de re- 
sistência de toda a quadraria das Janellas 
Verdes, um ou dois salões contendo teias 
portuguezas modernas, dignas d'essa honra, 
atravez das quaes podessemos ver as im- 
pulsivas e propulsivas d'um ramo d arte que 
em sessenta annos já lem custado ao paiz 
seu par de contos. Lupi e Annunciação so- 
bretudo, vergonha é que não estejam no 
museu com figuração condizente aos nomes 



os GATOS 7 

que deixaram; deixaram dispersar-lhes 
o espolio, passarem os leilões onde a seu 
lempo teria sido fácil gansar as telas typi- 
cas, de sorte que quem vier ás Janellas Ver- 
des só acha d'aquelles pintores nobilissimos, 
bocadinhos, havendo que creditar-lhes os 
méritos sob palavra de honra, falia d'outras 
provas convincentes. 

Outro tanto diríamos para um ou outro 
quadro dos pintores contemporâneos. As Ja- 
nellas Verdes possuem já d'esculptores re- 
centes Ires ou quatro amostrinhas, adquiridas 
como prova d'adeanlamento e premio de co- 
ragem, mas nunca vi que o zelo dos gover- 
nos tenha descido a honrar a modernissima 
pintura porlugucza, pondo um Silva Porto 
na galeria consagrada a pintores novos. Es- 
tamos a visitar ha uns poucos d'annos expo- 
sições de pintura em Lisboa e Porto, onde a 
cifrado producção orça por duzentas ou tre- 
zentas telas annuaes. Parte d'esta obra consi- 
derável, sei-o perfeitamente, é pacotilha, mas 
não havia meio de dar quinhentos ou seis- 
centos mil réis pela compra do quadro melhor 
de cada exposição, e iniciar com essas lentas 
acquisições uma sala de novos no museu ? 



os GATOS 



ÍQ de março. 

O meu amigo P., conspícuo moço, que 
com o seu poucochinho de miolo tem sabi- 
do fazer a vida lindamente, lembrou-se ha 
dias de lançar sobre a minha obscuridade 
o olhar commiserando, e d'amerciàl-a com 
algumas palavras de louvor alternadas por 
outras tantas condiccionaes ponderativas e 
paternas. Abordando-me na rua, findo o 
jantar, depois de me pôr fraternalmente a 
mão no hombro, e de me anediar o pello 
com alguns diminutivos carinhosos, come- 
çou a desfazer-se em lastimas sobre a mi- 
nha falta de geito para a vida, acolchoando 
esses lamentos de conselhos que eu deveria 
seguir para com brevidade romper a labo- 
riosa miséria em que vegeto. 

Depois de me conceder algumas aptidões 
plumitivas que eu agradeci esforçando-me 
o possível por ter um rubor de collegial na 
face cândida, começou elle por verberar a 
minha desorientada maledicência, filha d'u- 



os GATOS 9 

ma mysanlropia feroz que me não deixava 
servir um grupo, nem ter fé n'um credo, 
nem acceitar por bom nenhum trabalho fei- 
to. Retrato d'esta deliquescencia interna, o 
estylo em que eu escrevia, áspero, desagra- 
dável e servido muitas vezes por um voca- 
bulário de carroceiro. Como o estylo é o 
homem, inferia o meu querido P. pela mi- 
nha soltura da lingua o desescrupulo moral 
impróprio d'um espirito elevado, e nada at- 
tinente ás minhas aspirações de pamphleta- 
rio flagelador. 

Porquanto todas as coizas se podiam e 
deviam tratar hoje de luva branca, e era 
preciso ver pouco para não reconhecer que 
o selected da sociedade portugueza, aquelle 
que vae á frente, o que faz o nivel e a qua- 
lidade da opinião preponderante, era um 
corpo social digno de preito, impado d'illus- 
tração e solidas virtudes e altruismos gera- 
dores de luminosíssimos e espontâneos mo- 
vimentos. 

Eu, a sorrir, citei-lhe os casos da quin- 
zena que desmentiam dos conceitos óptimos 
o tal selected: mulheres fugidas aos mari- 
dos, maridos auctorisando pelo seu despre- 



10 os GATOS 

zo as perdas das mulheres, recebedores ge- 
raes e thezoureiros de companhias, no es- 
trangeiro, a monte, depois d'uma limpeza 
geral aos cofres fortes, e quanto á philan- 
tropia da chamada classe preponderante, 
quasi tudo exhibição d'egoismo e modos de 
passatempo, sem alcance chrislão nem cari- 
dade. 

— Por consequência a moral. . . 

Ia o Parfum, pela Judie, em ultima re- 
cita de serie no ihealro da Trindade. En- 
trámos precisamente quando subia o panno 
e a orchestra dava o ultimo assoprão na tu- 
bulagem dos clarinetes. Conte-se a peça. O 
Parfum é um droguisla inventor de perfu- 
marias, accummulando estas aptidões com 
as de deputado e marido d'uma creaturinha 
interessante, e que ha tempos anda a con- 
feccionar e a espiar no fundo do seu labora- 
tório a invenção gloriosa de certo perfume, 
que será a sua obra prima, e revolucionará, 
pela finura exótica, o mundo dos cheiros, 
creando ao inventor reputação universal. 

Precisamente essa tarde os distilladores 
do perfumisla acabam de produzir na sua 
forma definitiva a maravilha, que n'um ac- 



os GATOS 11 

cesso d'orgulho o auctor faz vir á sala, fu- 
megante ainda, para azabumbar com ella, 
não só a esposa, que o admira e adora, co- 
mo lambem certo perfumisla rival que eslá 
prezenle. Trazido o perfume, todos os na- 
rizes se acurvam sobre o vaso, apercebendo 
então em vêz do compósito d'essencias ra- 
ras preconcebido pelo que se esperava da sa- 
bedoria do perfumista, uma d'estas degene- 
rações d'olfacto, complicadas, e mais próprias 
para despertar a náusea do que para dar ideia 
dos jardins orientaes. U perfume supremo, 
pois, a obra prima do illustre cosinheiro d'es- 
sencias, não passa d'uma fedentina de labo- 
ratório, insupportavel, e n'esla apreciação das 
ominisciencias chimicas do artista só um 
continua illudido, é elle mesmo, e só outro 
prosegue a ter ciúmes da volátil bernndaga : 
é o perfumista rival, que a si mesmo jura 
descobrir o preparo myslerioso de tão extra- 
vagante porcaria. Horas do comboio para 
Versailles ; necessário que o deputado corra 
á sessão do parlamento, e eil-o alii parle, 
depois dos parabéns da esposa e dos empre- 
gados da officina, e das ovações do chimico 
collcga, enauseados e affliclos lodos pelas 



12 OS GATOS 

emanações do horrível vapor que paira no 
ambiente. Apenas os dois perfumistas de- 
bandam, a caçarolla do cheiro é mandada 
levar para o laboratório a toda a pressa: 
vae a creada, ao passar com ella pela alco- 
va, tropeça n'um fauteuil, entorna a mixor- 
dia, putrifica-se o ar, e ahi fica a perfumista 
prohibida d'essa noite dormir na cama con- 
jugal, sob pena de morrer d'asphixia. Como 
a casa é pequena, a pobre dama, forçada a 
repudiar o thalamo, tem d'ir dormir para 
um cacifro de creados, perto da escada, e 
precisamente vago essa noite por se ter des- 
pedido á ultima hora a cosinheira. Ora, uma 
vêz a dona da casa deslocada do seu ninho, 
as peripécias que rezultam, d'uma insolitez 
cynica e porca, constituem todo o arcabou- 
ço hillariante do entremez. 



Começa o segundo acto por a perfumista 
inquirir da creada de quarto ás quantas ho- 
ras chegou de Versailles seu marido, e a 
serva de responder que o deputado passou 
a noite fora, devendo só ás dez da manhã 



os GATOS 13 

chegar a casa. Espanto da dama, que atei- 
ma que elle entrou, visto razões... matrimo- 
niaes, basto palpáveis e que não é licito ne- 
gar, mesmo ás escuras. Porém a creada de 
quarto, certíssima do que affirma, breve 
convence a patroa de que o senhor não re- 
colheu ; quanto ás razões documentaes, se 
não foi pezadelo da senhora, é que ha lam- 
bareiro mettido na funcção ! A semelhante 
suspeita, a dona vae aos ares ; não, é uma 
mulher honesta, uma esposa exemplar, e 
por coiza alguma Irahiria a fidelidade ju- 
rada ao perfumista. Entretanto, entretanto, 
a terrível certeza errissa-lhe os cabellos ; 
dormiu com um homem, é positivo, e não 
sendo esse homem seu marido, então! en- 
tão!... Ora, des'que o marido não foi, toca 
a inquirir quem poderia ter vindo em seu 
logar. Agora, á furiosa revolta do pudor es- 
garçado, um estimulo novo açula a perfu- 
mista, vêr bem de face o hospede com quem 
praticou as leis da hospitalidade, saber se é 
velho, novo, bonito, feio, discreto ou Im- 
guareiro, e como o natural é começar pelo 
principio, ella approxima-se do ajudante do 
laboratório, galhardo moço, que em proble- 



14 OS GATOS 

mas de chimica mais d 'uma vêz lem feilo as 
vezes do patrão. Effeclivamenle, depois d'a- 
ma pratica bastante emmaranhada, o pobre 
rapaz confessa ter dormido essa noite tora do 
seu quarto; ajustara no primeiro acto certa 
entrevista nocturna com a creada,e tateando o 
cubiculo d^ella ás escuras, bem podia ser que 
se tivesse enganado no caminlio. Scena de 
lagrimas — que desgraçai um homem tão 
bondoso 1 — e agora não ha remédio; uma vêz 
que o mal está feilo, é prepararem as ma- 
las e fugirem, para esconder o adultério em 
qualquer parte. Quando já promplos para o 
desterro os dois involuntários culpados teem 
preparado as bagagens á pressa, averiguâ- 
se que a porteira puxou o cordão a certo 
retardatário que ás Ires horas da manhã ba- 
tera á porta. Quem fosse, ignora, estremu- 
nhada de somno como estava ; é natural po- 
rém que o retardatário fosse o marido. Po- 
réui o marido não apparece, logo foi outro 
— e dois 1 — o que desespera cada vêz mais 
a situação periclitante da perfumista, e dis- 
pensa os fugitivos do desterro a que d'an- 
lemão se haviam condemnado. Mas quem 
poderia ser o intruso, quem? Eis o problema 



os GATOS 15 

novo que o ajudanle e a palrôa desde essa 
hora s(i propõem resolver. Por uma serie de 
peripécias complicadas, vem a saber-se qu€ 
o segundo perfumista, rival do inventor, pre- 
meditando caçar o segredo do perfume ao seu 
collega, se lhe introduzira em casa myslerio- 
samente, podendo talvez serelle quem, ma- 
drugada, puxasse o cordão da campainha. O 
salafrário é casado e horrendo como um bo- 
de ; imaginarão por tanto o asco e o horror da 
bella perfumista... Mas a salgalhada não pára 
n'este ponto, porque o segundo ajudante do 
laboratório também consta que passou fora 
de casa parte da noite; por consequência. .. 
Ires! E de perder a cabeçal e quanto mais 
elles procuram, hesitantes na escolha, tanto 
mai^' diíficil se faz a averiguação «lo parti- 
Ihador do thalamo conspurcado. 

Finalmente ás dez horas da manhã entra 
o marido, extenuado, derreado, respondendo 
ás perguntas da esposa ambiguamente. Peri- 
pécias novíssimas que o leitor me fará o pra- 
zer de dispensar, ao fim das quaes o desfe- 
cho da peça reata os seus episódios vis d'esta 
maneira. O primeiro ajudante, tendo dado 
rendez-voíis á creada de quarlo, passou o 



16 OS GATOS 

melhor da noite n'uma espécie de duo se- 
xual, peccaminoso^ sob os ledos honestos do 
patrão. O segundo ajudante, depois do chá, 
foi dormir com a mulher do segundo perfa- 
mista, o perfumisla rival, que assim foi cas- 
tigado de dar caça ás invenções do seu col- 
lega. E quanto á dona da casa, sob a emi- 
nência de ler dormido com um dos três fre- 
cheiros, á sorte, se conseguiu ficar incólu- 
me, deve-o á confusão do marido, que ajus- 
tando com a cosinheira uma noitada, fora a 
deshoras metter-se-lhe na cama, onde em 
yêz da cosinheira estava a esposa, devido 
ao fracasso da caçarola do perfume. 



Apreciaram da comedia pelo entrecho, 
edificados de que assumpto assim dúbio lo- 
grasse caplivar a inspiração do libretista. 
Perdoar-se-lhe-hia entanto a obscenissima 
embrulhada, se ella vestida fosse por uma 
litteratura faiscante e explendidissima. Mas 
nem tal desculpa subsiste, porque o Parfiim 
é d'enire as borracheiras irancezaspara uso 
das meretrizes e dos pulhastros viajantes, a 



os GATOS 17 

mais inqualiOcavelmenle ignóbil da serie, 
escripla n'um estylo de latrina, arrevesado, 
sórdido, insalubre, a insistir constantemenie 
na torpeza, sem um dito subtil que orecom- 
mendeá tolerância da policia, á misericórdia 
da critica e ao pasí-atempo sequer do espe- 
ctador. 

N'um paiz em que a lettra dos costumes 
fosse lida n'uma caitilha austera, por uma 
sociedade cônscia do seu brio, canalhas que 
se atrevessem a representar publicamente 
uma infâmia d'aquellas receberiam a vergas- 
ta nos lombos como ensino, e a expulsão da 
fronteira, a pontapés. Certo ha em Paris 
uns theatros, tolerados como casas de pas- 
se, onde as mulheres perdidas vão fazer ca- 
ça aos estrangeiros que vem á capital da 
França despucellar-se. Gomo para o utili- 
tarismo francez a corrupção é um género de 
commercio como qualquer outro, a policia 
dos costumes fecha os olhos e deixa que os 
Parfums façam receita como chamariz dos 
estróinas cosmopolitas, certa de que nenhum 
francez que se preze ousaria lá levar a filha 
ou a mulher. Dois ou três annos depois,os cai- 
xeiros viajantes que sahem de Paris em giro 
2 



18 OS GATOS 

de quinquilharias avariadas, chamem-se el- 
les Judies ou Jules Jaluzols, ao aportar ás ca- 
pitães de paizesexlinclos como o nosso, que 
elles reputam terra de basbaques, despe- 
jam-lhes nos armazéns toda a ucharia gro- 
tesca das suas malas, desde as crinolinas 
até ás tragedias, e a sociedade da moda, a 
gente civilisada, o selected, lá corre ufano a 
fazer successo ao article Paris que o velha- 
co francez de propósito fabricara para en- 
grolar o estrangeiro desmoralisado. 

Descripta a peça, e delineado o valor lit- 
terarioe moral do seu enlrecho, vamos dizer 
dos que estavam a uuvil-a no iheatro da Trin- 
dade. No camarote de honra, S. M. el-rei, far- 
dado, e comas duas rainhas em grande ves- 
tuário de soirée. Ao lado as damas de honor e 
os oíBciaes da sua casa civil e militar. Na pri- 
meira ordem e nas frisas, tudo quanto em 
Lisboa vale, como diz o lUustrado, pela aris- 
tocracia d'um espirito, pela celebridade d'um 
nome ou pela douradura d'um milhão. Pre- 
sidentes de conselho presentes, futuros e 
pretéritos, banqueiros, capitalistas, alta búr- 
guezia, aristocracia, corte, tudo, absoluta- 
mente tudo o que em Lisboa gosta de ser 



os GATOS 19 

colado entre as siimmidades espirituaes da 
roda dirigente, que dieta a lei e faz da «aus- 
teridade moral» um lemma de brazão — tudo 
lá estava, encasacado, de tira branca, luvas 
bordadas a preto, meias de seda e pérolas 
no peitilho. Uma selecção d'elegancia como 
ha muito tempo não vi outra, e quem a fos- 
se espreitar, descido o panno, imaginal-a- 
hia na espectativa d'algum grande aconte- 
cimento litterario nacional. Todos esses ca- 
valheiros que representam o selected (sem- 
pre o selected I) da sociedade portugueza, tão 
desdenhosa sempre pelo vulgo, tão intole- 
rante sempre pelos radicalismos lilterarios 
que possam ferir-lhe a sensibilidade aristo- 
crata, tão sabiamente altiva nas leis do gos- 
to, tão exigente, tão formalista, tão deli- 
quescente, tão desavergonhada e tão hypo- 
crila — todos esses cavalheiros, não conten- 
tes de dar á cidade o espectáculo d'applau- 
dir sem rebuço uma comedia obscenissima, 
inda por cima tinham acarretado á exhau- 
loração a honra do seu lar, fazendo-a ou- 
vir ás maninas e ás esposas, e apreciando- 
Ihe os dichotes por entre estridolas e des- 
honeslas gargalhadas. Os fauteuils do bal- 



20 OS GATOS 

cão estavam inleiramenle cheios de senho- 
ras, as mais bellas, graciosas e inpeccaveis 
que os salões de Lisboa fazem brilhar nos 
seus chás das cinco horas, e algumas, ideaes, 
com decoles quadrados, corpinhos directó- 
rio, saias d'estofo aéreo, em tons suaves, 
cobertas de jóias e com biquinhos d'esmal- 
te inimilavel, tinham a rir das reticencias 
pornographicas da peça, uma candura Ião 
cysnea, lanla leviandade nos olhos, um des- 
caramento casto por tal forma excitador, 
que fosse eu o marido d'alguma, ficaria per- 
plexo ao querer destriçar íentre esse extasi 
immundo, minha mulher das outras creatu- 
ras ? Findo o espectáculo, uma raparigui- 
nha de fatos curtos, com um capuz de vel- 
ludo carmezi, ia fazendo a critica da peça 
ao seu papá — Meu Deus, é muito fresca... 
e o papá fez bem em não ler deixado vir a 
mana mais crescida! 



N'este ponto espero que o leitor conclua 
o que eu não lhe posso estar aqui a dizer 
ponlo por ponto. Passo em revista as desa- 
taviadas paginas que n'uma vida de chro- 



os GATOS âl 

nista já longa me tem sido dado traçar ao 
acaso dos assumptos correntios, e por mais 
que insista não descubro n'essa obra d'oc- 
casião, fortuita e pallida, um só motivo, uma 
só phrase, por onde caiba a fama d'escri- 
ptor licencioso que me arrogam. Uma ou 
outra vez irei buscar ao vocabulário plebeu, 
convenho, epithetos que os chamados buri- 
ladores de salão põem de parte, ou chico- 
tadas e cautérios que de modo nenhum re- 
presentam grosserias de propósito, senão 
pura e simplesmente o gorgolejo que á mi- 
nha indignada franqueza arrancam certos 
assumptos sociaes colhidos em flagrante. De 
sorte que «immoralidade», a havel-a, não é 
a que rechina do verbo rude d'eslas chro- 
nicas, salubre de resto, mas a que bortoeja 
do flanco que uma sociedade corrupta ofiíe- 
rece ao bistouri. Não ha palavras immoraes, 
mesmo em pamplileto ; assumptos torpes 
não podem ser tratados em linguagem vir- 
ginal, e é bom que se saiba que quem ma- 
neja uma penna deve ter do papel d'escri- 
ptor noção mais estridente do que espremer 
phrases cândidas para entretenimento de 
madamas que vão á Trindade applaudir o 



22 OS GATOS 

Parfum, como cocottes. De mais, como ler fé 
nas ausleridadeslillerarias á'umselectedque 
faz ovações ao Parfum na noite do mesmo 
dia em que me declara a mim licencioso? Li- 
cencioso, porque eu lhes não ponho em pi oza 
de cão fraldeiro, fedendo á leucorrhea .'ibs- 
Irusa das alcovas adulterinas onde ellas in- 
tercalam Bellot comas leituras dos livros de 
orações, essas sensaborias mórbidas, esses 
idyllios suspeitos a que as acostumaram os 
escrevinhadores ataxicos da geração que vae 
correndo. Licencioso porque se faz taboa 
raza aqui da periphrase lamecha que ha cin- 
coenla annos tresvia entre nós o espirito 
litterario, que ou consiste em escrevern'un> 
estylo de creanças, ou em occultar as ex- 
pansões do estro humano n'uma aravia de 
capangas onde a melifluidade não exclue a 
bestiíicante hypocrisia. N'essa sociedade on- 
de deliquesce tudo em podridões subcutâ- 
neas, e onde o espirito da formula, a reli- 
gião das apparencias nem chega a satisfa- 
zer mesmo a illusão dos mais ingénuos, co- 
mo aturar se exija para escriptores nacio- 
naes a luva branca, quando não ha cabotino 
f rancez que a não faça delirar, de luva pre- 



os GATOS 23 

ta? As filhas d'aquelle banqueiro e as cu- 
nhadas d'aquelle general, esse antigo mi- 
nistro, esse chefe de partido, esse polluido 
deputado, todos os conspícuos P.P. emfim 
da maçonaria de tartufos que acorrenta o 
paiz ao snobismo das suas viciosas conve- 
niências, todos esses me expliquem por qual 
duplicidade repellem elles um escripio onde 
no silencio do seu quarto toparam com uma 
palavra «mal soante», e ao mesmo tempo 
aceitam de mãos rotas uma comedia onde á 
vista de todos andam em exhibição, três 
horas, os órgãos genitaes de quatro malan- 
drões e uma mulher. Não, não me dispenso 
do vomito que esta moral intermiltente me 
provoca, e se valesse a pena o desprezo, eu 
explicaria a todas essas bonecas desdenho- 
sas como é que o pudor assim interpretado 
toma o caracter d'uma aberração nympho- 
maniaca das mais tristes. 



24 í/e março. 

Ao fim de três exposições do Grémio Ar- 



24 OS GATOS 

íistico, sociedade organisada menos para fo- 
mentar as artes do que para prover ao mé- 
nage dos artistas, já se está vendo qual o 
futuro provável do tal grémio, que será re- 
trahir cada vez mais para mysantropias nos- 
tálgicas os verdadeiros pintores, deixando 
aos curiosos o furor de se exhibir. Esta ex- 
posição é já de feito o symptoma prenunciai 
do advento do curioso á gloria da publici- 
dade, a feira franca da pintura conslituida 
em prenda feminina, e inscripla no catalogo 
das habilidades de mãos, ao lado do bor- 
dado a torçal, das flores de sabugo e dos 
lavores propios do sexo. Exhaulorado a tal 
ponto um congresso d'arte cujos inicios, se- 
não triumphantes, pelo menos deixavam 
prever ao Grémio um futuro de conscencioso 
esforço e honesta laboração, poucas sympa- 
thias lhe restarão da critica imp:ircial : á uma 
porque a ideia d'arte seja incompalivel com 
a do negocio ao metro, á outra porque não 
é mais possível tomar a serio certamens on- 
de a pintura ameaça tornar-se em carta de 
curso de meninas casadoiras. E' doloroso 
assim vêr frustrado um tentamen sympathico 
de regeneração picturial, e liquidarem em 



os GATOS 25 

apromptadores para exame, moços artistas 
que o destii)0 fadara talvez para mais viris 
reputações. A exposição actual offerece de 
pictoresco esta imprevista nota de reclamo; 
e vem a ser que ha discipulas assignando 
com doze lições quadros que os mestres es- 
pozeram no anno passado, e mestres que 
para sublinhar os progressos das discipulas 
não duvidaram subscrever como trabalhos 
seus patacuadas que nenhuma d'ellas quiz 
expor. Correndo as salas d'exposição uma 
por uma, é-se ferido pela quantidade de 
mercearia que ressumaa pintura portugue- 
za, e pela paragem chalra de talento e de 
processo em que a ciganice da venda para- 
lysou a acção até dos mais conscenciosos 
estylislas. Rarissimos, pode-se aíBrmar, pen- 
sam em arrojar-se a uma elocubração de 
sonho esthelico supremo, e em pôr o seu no- 
me ao canto d'uma pintura com vislumbres 
d'obra definitiva; ninguém progride, e o que 
é mais terrível, quasi, quasi todos retrogra- 
dam. Esta conclusão final é deplorável, e 
escandalisa tanto mais, quanto é certo ter 
o odioso retrocesso por movei causas que 
deshonram profundamente o officio de pin- 



26 OS OATOS 

tar. Essas causas são de sobejo conhecidas 
enão gastarei carvão para as ferver. A edu- 
cação preliminar d aíeter foi em quasi lodos 
os artistas descurada, raros desenham, poucos 
conhecem de theoria sequer a sciencia dos 
tons e perspectivas, rarissimos sabem obser- 
var, e os que observam não concluem, do que 
rezuha nenhum sentir o quadro, e conse- 
quentemente sabel-o compor in mente, an- 
tes de lhe dar realidade. A todas estas de- 
sagradáveis desfallencias juntar-se-hão as 
necessidades de dinheiro, levadas nos mais 
reputados a uma cubica de vendilhões á coca 
de se encher, e sobrelevando, o completo 
desprezo que lhes merece o publico grossei- 
ro, o publico pagante, incapaz de sentir as 
obras pessoaes, de ser tocado por uma ex- 
cepção de gosto tergiversante do ramerrão 
banal oleographico, edesafiando-os por isso 
mesmo, a elles, artistas, ao rien faire do qua- 
drinho de dez libras, com duas bestas, um 
parreiral, e a ponte d'Aigés onde na Judia 
está Jerusalém. 

Tenho medo d'apontar exemplares com- 
provativos das insuíBciencias intellectuaese 
moraes que atraz fixei, e pelas quaes vejo 



os GATOS 27 

apagar-se a febre d^arte sob que ha seis ou 
sele annos se iniciara o grupo do Leão. Nos 
artistas parados o melindre profissional é 
uma ulcera dolorosa, tocar-lhe ó fazel-os 
soffrer horrivelmente ; e de que serviria isso ? 
— á hora em que vamos já não brotaria da 
raclagem qualquer reacção salutar para a 
pintura porlugueza. 

Não poderão dizer os pintores queámin- 
goa de publico lhes esmorecesse a antiga 
actividade,porquanto mesmo nos annos maus 
seguidamente o publico concorre a comprar 
telas, fornindo áquelles garantias de vida 
que elle sonega aos melhores dos seus mo- 
dernos escriplores. Tão pouco alegarão lhes 
tenha faltado o applauso da critica, os rui- 
dos da voga e as sympalhias geraes da op- 
nião. Tudo isso teem tido ás regaçadas, e 
eis o que torna a sua apathia deshonesta, 
porque na plena seiva em que estão parar 
não é uma crise psychica da edade ; parar é 
uma ronha de typos que se alapardam sob 
o para-sol de nomes feitos, e querem intru- 
jar o seu tempo com painelices pelintras e 
leilõesinhos de pintura acarneirada. Pois não 
é justo exigir á paleta d'arlistas superiores co- 



28 OS GATOS 

mo Silva Porto, cuja technica completa e cu- 
ja sulil annolação não podem mais preoc- 
cupal-o sobre os meios de fazer em que tro- 
peçam os seus collegas, não é justo exigir, 
dizia eu, d'essa surprehendente aptidão de 
paysagista e animalista, de quando em em- 
quando um quadro mestre, onde o seu estro 
fique sobredoiíado na concepção immortal 
d'uma obra prima? Vejam-se as suas ex- 
posições de sete annos : é tudo ensaios, 
apontamentos mais ou menos completos d' 
uma obra de fôlego que o artista, com uma 
cobardia singular, evita d'anno para anno, 
preferindo viver aii joiír lejoiír do prestigio 
que se fez na esperança desilludida sempre 
do publico, e adiando para as kalendas gre- 
gas a apotheose suprema a que tem jus. 

Digani-me se não é realmente um crime 
deixar dormir nas fáceis gloriolas do qua- 
drinho ao alcance de todos esse pincel que 
poderia sem grande esforço, quintessencian- 
do um pouco as suas bellas faculdades poé- 
ticas em gérmen, interpretar em três ou 
quatro telas typicas as grandes commoções 
da nossa vida rural, apercebendo d'esla não 
o detalhe enterno, a nota anedocticaousen- 



os GATOS 29 

limental, que é o que Silva Porto explora e 
pinia nos seus languores de poeta pregui- 
çoso, mas as divinas núpcias e segredos Ín- 
timos da terra, mãe benévola e pródiga, os 
fecundos e maternos âmagos da paysagem, 
a gynecologia esplendida do húmus, toda a 
epopeia dos laços que prendem emfim a na- 
tureza bruta ao ser, este á idêa, e a ideia ao 
sonho immalerial. 

Abanco em frente do grande quadro de 
carneiros que passa por ser uma*das coisas 
capitães de Silva Porto; bocado de dois 
metros, onde, por uma azinhaga esboroenta 
dos calores d'agoslo, vem uns carneiros, um 
burro e um pastor. Na barreira da esquer- 
da ha uns silvados, piteiras á direila, e aci- 
ma d'estas uma oliveira ferrugenta, comida 
de poeira, queimada dos ardores do sol e 
pondo uma silhueta doente, hostil, n'um 
ceu de trovoada. Toda a figuração da scena 
é escrupulosamente composta do modelo, e 
tão authenlica a poeira do fundo que uma 
pessoa a chegar- se e a ficar com o casaco 
branco d'ella. Pode-se estudar também cada 
accessoriosinho da pintura, está tudo exacto, 
no seu logar, com uma factura tão nilida. 



30 OS GATOS 

e uma consciência do minúsculo por tal 
forma escrupulosa que é impossível destrin- 
çar na lã dos carneiros fio que não seja pura 
lã, e na ramada das silvas folha que não te- 
nha sido vista a microscópio. Photographe- 
se agora a tela, e tão exacta é a copia, que 
pelo cliché não ha meio d'apurar se a ma- 
china apontava a um quadro, ou se visou 
realmente uma scena natural. Eis ahi, me 
parece, a melhor critica aos carneiros de 
Silva Porto, schemmados pela photographia 
té uma copia banal do modelo morto, e au- 
Ihenlicos ao ponto do artista abdicar do eu 
sonhante, para n'essa obra depor apenas 
como uma testemunha imparcial. Quando o 
pincel assim se enfeuda á realidade por 
uma forma tão árida, por mais valor que se 
tenha o sacerdócio do ideal é lettra morta, 
e d'esse instante, perdido o dom d'evocação 
poética na arte, opaysagista não passa d'um 
empalhador da natureza. 

O Christo, de Salgado, me parece, ape- 
zar da convenção theatral que o grava a 
branco ii'uma serrania aspérrima em cre- 
púsculo, a única tentativa de paysagem psy- 
chologica que ainda me foi dado olhar nas 



os GATOS 31 

exposições do Grémio Artístico. Escuso-me 
absolulamenle a vêr n'essa melodrama liça 
phantasmagoriâ a revoada de talento origi- 
nal que os fetichislas do auctor lhe outor- 
gam um pouco á ladiable, e mesmo me pa- 
rece qne suíTocada a estranheza da visão 
primeira, gradualmente empallidece a im- 
pressão do quadro no espirito já desalvoro- 
çado de quem olha. Conhecem de certo a 
tela, não me cangarei portanto a esquissal-a 
em minudencias. 

O Nazareno acaba de deixar no olival de 
Guelhsmani os discipulos amadornados de 
fadiga. E' a hora dos fortes que não tendo 
mais a espreital-os, linguareiros, tiram de 
súbito a mascara impassivel, ficando então 
fracos e humanos na negação da sua origem 
de seres excepcionaes. Prezo d'essa amar- 
gura insondável dos remidores de mundos 
frustrados pelo egoísmo estúpido da turba, 
Jesus adentra-se sósinho pela charneca en- 
sombrada, ella também, pelos pezadellos 
violetas do crepúsculo. Não é uma paysa- 
gem de vale, extensa, onde os pensamentos 
vão como corcéis, o ermo onde o pintor pin- 
tou o seu protogonista, mas uma espécie de 



32 OS GATOS 

resvaladeiro estreito, suffocante, com riban- 
ceiras a pique, penedos, rosmaninhaes, for- 
mas confusas, uma espécie de cuva trágica, 
vidrada d'angustia, e reenviando aíflicla- 
mente a alma do Redemptorao espectador. 
A figura do Chrislo é posta n'uma das pon- 
tas d'essa grande paysagem roxa de seis 
metros; tem uma lunica branca em pregas 
ílucluantes, illuminada por dentro á Jablo- 
koff, e alça a cabeça com a expressão ita- 
liana d'um tenor que fosse cantar o sonho 
do Propheta. Por toda a tela se é ferido 
pela quantidade de motivos grosseiros com 
que ella arma á emoção desprevenida, e 
pela factura berrante dos violentos contras- 
tes em que é dada. A preoccupação moral 
porém sobreleva em muito essa óptica de 
theatro, e mau grado a mm-en-scène de 
quadro dissolvente, a tela consegue impõr- 
se por uma intenção profunda de conceito, 
qual a de dar pela paysagem o estado mo- 
ral do personagem, e fazer ler n'aquella pe- 
nedia sinistra, como n'um espelho, a dolo- 
rosa ulceração interior do Moralista divino 
á hora do abandono. 



FIALHO D'ALMEIDA 



os GATOS 



publicação 
d'iiíquerito á vida portugueza 



«." 54— 27àeJQDho(iel893 



SUMMARIO 

Cr-NTENARIO DO THEATRO DE S. CaRLOS 

Seus pretextos, dispêndios e fins — O que 

TEM sido o nosso THEATRO LYRICO Os «EN- 
TENDIDOS» MUSICAES E CLASSIFICAÇÃO DOS ES- 
PECTÁCULOS POR ORDEM DE LOCARES ENTRE- 
VISTA COM Gervazio Lobato sobre a sua re- 
tirada DO THEATRO T ALENTO SCENICO E PES- 
CADA COSIDA — Uma opereta hillare sobre 
OS duellos — Critica da peca e reparos >o- 
bre a injustiça flagrante da sua satyra en- 



2 OS GATOS 

VOLVENTE KiM QUE SE PROPÕE UMA MODIFIGA- 

ÇÃOSíNHA NO Fli\AL PoRQUE SE FECHOU A Ta- 

PADA DA Ajuda — Palácio da exposição agrí- 
cola, E DESLEIXO DOS PARQUES E JARDINS QUE O 

circumdayam — Baldios onde SS. MM. melhor 

PODEM ensaiar AS CRIAS DOS COELHOS— Em 

Portugal todas as coisas roas são prohidi- 
DAS — Bello Marreto, chronista de suas 

REAES MaGESTADES. 





30 de março. 

No mez de julho próximo futuro comple- 
ta-se cem annos que por iniciativa de Far- 
robo foi inaugurado o thealro de S. Carlos, 
e agora que ninguém pensou ainda em se- 
riamente resolver a crise de Irabalbo que 
recrudesce, as reclamações dos credores es- 
trangeiros que balem á porta, a carestia da 
alimentação e residência cada vez mais do- 
lorosas par^ as chamadas classes depen- 
dentes, jornaes, banqueiros e dilettanli gran- 
des e pequenos, tudo é conluiarem-se, quo- 
tisarem-so, reunirem-se. para que ao cen- 
tenário da opera italiana não falte nenhum 



4 OS GATOS 

dos atiraclivos com que é uso celebrarem- 
se os acontecimentos de luxo, quando os 
escora a vaidade de dúzia e meia d'ociosos, 
de braço dado com m.eia dúzia d'argenlarios. 
Pouco importa que o pão falte cá dentro e 
falte lá fora o credito e o bom nome, que os 
cslabelecimentos de credito derruam, min- 
gua d'amparo, e feneçam os estabelecimentos- 
d'instrucção, mingua de zelo. A turba-multa 
dos gozadores da capital tem musica estran- 
geira ? Ha duas grozas de millionarios para 
ostentar equipagens na Avenida e fazer 
claque á pbilanlropia scenograpbica da 
rainha? O resto é bagalella, e tudo está, 
diz um jornal, em fazer o theatro de S. 
Carlos «centro de concorrência para o fausto 
e brios d'uma capital que se diz civilisada.» 
]N'esta conformidade pois já se pensa em 
pedir ao governo um crediío extraordinário 
para tornar o centenário da inauguração de 
S. Carlos uma obra de preceito, o consenso 
unanime sendo que se não poupem despe- 
zas para dar brado na Europa com tal fes- 
ta. De toda a banda chovem alvitres, ideias 
de pompa e pretextos d'esbanjar o dinheiro 
do paiz em bagatellas. Toda a gente esque- 



os GATOS 5 

ceu de repente as agonias próximas e ins- 
tantes, trocando a angustia da situação ac- 
tual, desesperada, pela fascinação da festa 
que ha-de ser essa noite de julho, relem- 
bradora das tantas com que o iheatro de 
S. Carlos mais d'uma vêz tem engordado as 
casas de penhores. E no fim de contas, 
mesmo sob o ponto de vista da musica, que 
é apezar dos seus grandes foros d'arte se- 
ria, um passatempo, qual tem sido o papel 
de S. Carlos na desinvolução das artes na- 
cionaes e no cultivo religioso da emoção ? 
Acaso alguma vez se viu sob a influencia 
de tantos annos de subsidios lyricos, surgir 
entre os frequentadores de S. Carlos um 
gosto fino, um critério acústico educado, 
uma paixão philosophica e forte pela obra 
genial dos grandes mestres? Em cem annos 
d'exercicio, a historia das paixões musicaes 
que S. Carlos tem abrigado, nunca passou 
em bôa justiça de charivaris sem importân- 
cia, iniciados pela claque, inspirados pela 
sympathia pessoal d'um cantor pandego, 
pela belleza d'uma prima-dona algo dengosa, 
ou então pelos bilhetes de favor do empre- 
zario. 



6 OS GATOS 

E percorrer em noites de semana, aht 
do segundo para o terceiro aclo, a galeria 
e disposição dos frequentadores habituaes 
d'aquelle templo. A única emoção palpitante 
está no gallinheiro, logar pobre, esconso e 
recôndito, onde algum melomano extático, 
d'olhos fechados, deixa librar a phantasia 
a sabor da inspiração que a musica es- 
pirala. D'ahi para baixo, quanto mais se 
descer, menos se encontra ; uma ou outra 
camará escura mental repintando aqui e 
além pedaços melódicos, em coloridos pes- 
soaes, poetisados ; alguma prima-dona de 
terceiro andar, inédita e furiosa, fincando 
as futuras glorias da sua estreia sobre os 
fiascos dos cantores de profissão, e o resto 
admirações e extasis sem alma, phrases de 
cor a respeito da voz d'uma, do phrasear 
d'outra, da nasalidade do barytono e da es- 
cola melódica do maestro, tudo quanto em- 
fim os Bedéckers do theatro lyrico aconse- 
lham para na bôa roda se não passar por 
japonez. Descendo á plateia, só visto . . . 
Nas primeiras filas de faiiteuih, que eram 
antigamente os logares caros, uma caterva 
real d'individuos dedassés, sem domicilia 



os GATOS 7 

moral, ao fanico da ceia ou do emprego, co- 
coties, janotas entretidos por níulheres, ve- 
lhas sem sexo, jornalistas sem nexo, e an- 
tigos solteirões sem dentes á procura d'um 
meio de distracção. E' d'aqui que partem 
os movimentos d'applauso ou de protesto, 
os artigos criticos d'escacha, os rapapés ás 
deusas e os bofetões por motivos de ciúme. 
Para traz é massa avulsa, pés frescos, na- 
moristas: os que ficam da esquerda, namo- 
ram a segunda ordem da direita, e vice-ver- 
sa, por forma que para estes a opera é sim- 
plesmente um meio de distrahir a mamã ou 
o marido, e ter quatro olhos piscanços sem 
reparo da bella sociedade. 

Tal é a sala que musicalmente dieta em 
Portugal as leis do gosto, intimida os can- 
tores, e tem pretenções de lá tora passar 
por entendida. Gomo sob o ponto de vista 
do utilitarismo reinante as instituições se 
apreciam na rasão do proveito immediato 
ou remoto que são capazes de dar aos fun- 
dadores, perguntar-se-ha que benefícios au- 
feriu a musica nacional n'estes cem annos, 
com os enormes dispêndios que o theatro 
de S. Carlos nos custou. Indo aos archivos 



8 OS GATOS 

da casa e historiando summariamente o 
successo das ultimas operas nacionaes n'a- 
qaelle palco, apura-se que os espectadores 
de S. Carlos, escandalosamente benévolos 
por mais d'uma vez com operas estrangei- 
ras de nenhuma valia, se lêem mostrado in- 
transigentes com os trabalhos de maestros 
porluguezes, pateando o Eurico, paleando 
o Arco de SanfAnna, pateando o Elixit da 
Juventude, di Der elita, impedindo a represen- 
tação do D. Bibas, recebendo de mau hu- 
mor o Frei Luiz, desdenhando do valor da 
Dona Branca^ e finalmente não dando o me- 
nor signal d'inleresse quando ha poucos mè- 
zes S. Carlos deu dois pontapés na Irene 
d'Alfredo Keil, que a cidade de Turim acaba 
de consagrar por entre ovações calorosíssi- 
mas. E' d'uma pouca vergonha inqualificá- 
vel! Conviríamos em que não seja d'aza- 
bumbar o mundo o movimento musical por- 
tuguez dos últimos vinte annos, todo elle no 
estado de tentativa, como de reslo as outras 
manifestações seriaes de bellas-artes ; mas 
nem a creação da grande opera é coiza tão 
fácil que possa estabelecer o precedente de 
só se aturar o que é sublime, nem os gran- 



os GATOS 9 

dtís compositores abundam no mundo já fei- 
tos, por forma a não valer a penna dar 
hausto a debutantes. Em qualquer dos ca- 
sos seria a platea de S. Carlos a ullicna a 
quem de direito coubesse o pronunciar-se 
sobre a musica nacional, acerbamente ; á 
uma porque tralando-se duma obra porlu- 
gueza, a sua obrigação moral fora applau- 
dil-a; á outra porque dada a estupidez col- 
iossal de que essa platea ha leito praça, 
cumpria-lhe antes, em caso d'insuccesso, 
manter-se em espectativa, que não afixar 
ruidosamente opiniões sobre matérias para 
que não tem cartas de guia. 

Gehibrar por consequência o centenário 
diurna casa que só tem dado lucros a es- 
trangeiros, e só tem servido para enlreienga 
de ricos e vadios, d'uma casa que nos custa 
mais cara que uma escola e a quem a edu- 
cação geral nada deve em prol do bem com- 
mum, é sobre prova de snobismo estulto e 
caricato, um signa! de desnacionalisação 
para juntar aos mais que temos dado. U 
centenário de S. Carlos ainda valeria como 
começo de regeneração, se essa estapafúrdia 
festa de janotas fosse o signal d'uma vida 



10 os GATOS 

futura mais adentrada aos interesses nacio- 
naes. Temos por esse mundo uma alluvião 
de cantores a fazer vida, e alguns magnífi- 
cos, que muito conviria installar entre nós, 
des'qne S. Carlos fosse, como devera ser, o 
grande templo da opera portugueza. Não 
digo que passássemos toda a epocha a ou- 
vir o António d'Andrade, o Álvaro Roquelte e 
a Júdice da Costa a gargantear um repor- 
tório exclusivo d'Alfredos Keils, viscondes 
do Arneiro, Noronhas e Miguel-Angelos. 
Entanto esmaltando com a maioria d'aquel- 
les nomes o elenco do iheatro, inscrevendo 
no reportório com eíTectividade as operas 
mais bellas, já assim se daria corpo a um 
grupo d'apticiões abandonadas, e satisfação 
ao patriótico desalento que allega que de 
nenhum tentamen glorioso somos capazes. 



1 de maio. 

Deram os jornaes noticia de por desgos- 
tos d'uma opereta da Rua dos Condes, ca- 
bida em desagrado, se retirar do iheatro, 



os GATOS 11 

Gervazio, o libretislít hillare que Ião bem 
recebido íoi em Portalegre aqui ha tempos. 
O caso foi soado, e grande numero dos 
que costumam rir das embrulhadas do 
grande theatrista correram em massa, cho- 
rosos, a lhe pedir sustasse a tétrica am^^aça, 
e não fosse para Valle de Lobos um ho- 
mem que se por um lado poucos contactos 
tem com Herculano, por outro, como Rabe- 
cão Grande só hyperbolicamente pode equi- 
parar-se aos frescos de Pompeia. 

Não vem a p^llo explicar o interesse in- 
tenso que os trabalhos theatraes de Gerva- 
zio despertam em geral, mas sempre direi 
que ouvindo as folhas rosnar da abalada do 
escriplor para o silencio, com grande grila 
deplorei também, tão dura perda, d'alli pro- 
posilando logo ir á Rua do Passadiço enlre- 
vistal-o. Encontrei-o, já se vê, fecundo e fero, 
largamente adiposo, sentado á banca com 
uma careca de margrave, e repartindo a sua 
aclividade entre uma opereta nova e uma 
pescada cosida com batatas. Se era certo en- 
tão não escrever mais ? Riu-se á Falslafl", e 
com aquelle gaguejo cheio de bonhomia, es- 
pécie de reticencia rida que tão bons direitos 



12 OS GATOS 

d'auclor lhe lem valido, concedeu-me dizer 
que sem pescada cosida, viver não dava a 
conla, e uma vez no bandulho a pescada, for- 
çoso era resliluil-a... em peças de três actos. 
Por consequência, sustada a tiragem lillera- 
ria, como a pescada com batatas lhe fosse im- 
preterivelínenle necessária ao temperamento, 
entoxicar-lhe-hiam o sangue as ptomaíuas 
theatraes que a pescada lhe fazia no intes- 
tino, e d'ahi a morte, coisa do diabo para 
um vivedor regalào como elle estava. 

Apontando-rae a pescada e o caderno 
novo da opereta: — hein? se não eslava 
alli patenteado o seu processo de trabalho ?... 
Por uma banda mascava a pescada, por ou- 
tra banda deitava a peça: nada de peça 
sem pescada, nada de pescada sem peça... 
Em conclusão, não se retirava do thealro, 
porquanto não podendo viver sem peixe co- 
sido, não produzir theatro, era morrer. 

— iVJas, disse eu, se está averiguado que 
essa abundância de veia cómica provenha 
especificamente do peixe, porque não subs- 
litue V. a pescada antes por algum comes- 
livel menos hillareaceo? 

— Já experimentei o beef, mas é peor. 



os GATOS 13 

porque aveia cómica subslilue-se então veia 
dramaiica. 

— Realisa v. na verdade uma forma de 
talento inexplicável, o talento por causa das 
comidas. . . Experimentou já alguma vez 
por acaso comer herva ? 

— Oh, essa quasi que não tem influen- 
cia sobre a qualidade especial das minhas 
ideias, e se adrego a manducal-a, perco para 
assim dizer a personalidade d'escriptor, e 
nada escrevo. 

— O caso é physiologico. Absorpção mais 
fácil, quantidade menor de reziduos diges- 
tivos. Mas derivando d'assumpto, que obri- 
nha nova traz propositada hi no caderno ? 

— Uma opereta hillare sobre os duellos. 

— Que o assumpto é recente, e por certo 
V. despejará no libretto copia das ptomainas 
laes que a pescada cosida lhe diz faz. Já a 
tem toda ? 

— Um acto apenas, que me parece des- 
tinado a um successo incomparável. Posso 
conlar-lh'o a correr, se lhe dá gosto. 

— Fu quasi que não ousava pedir tanto. 

— Em cerla rua da Baixa dois sapateiros 
teem questões por causa d'um seu collega 



14 OS GATOS 

da província. Um é da casa real, um sapa- 
leirinho videiro, pondo bandeira nos dias de 
gala, 6 trabalhando especialmente em forma 
torla. Outro, o offendido, é uma espécie de 
sapateiro associativo, mui democrático — 
Ião democrático que sendo a loja d'elle ahi 
para o pé do Carmo, umas vezes por outras 
não se importa d'ir ate á rua dos Mouros, 
d'avental. 

— E vae, produzido o aggravo, o demo- 
crata manda ao aristocrata testemunhas 

— Duello á pistola, tiros pr'o ar a vinte 
e cinco passos de distancia, com a clausula 
feroz do combate seguir até ficar alguém es- 
tendido morto. 

— O theatro representa pois, estou a vêr, 
os dois sapateiros no campo da honra. 

— Que no caso subjeito accumula esta 
funcção com a de Campo Pequeno. Ora o 
adversário que primeiro chega, abanca 
n'uma tasca a petiscar mal-a companha. Fal- 
iam da pugna, e em vozes tão altas que o 
taberneiro tudo percebe. Vae, como o taber- 
neiro é ao mesmo tempo aucloridade 

— Belloj Bello! Lá começa o enredo a 
deitar as mãosinhas de fora. 



os GATOS 15 

— tendo já visto muitos duellos 

desfechar por um almoço de reconciliação e 
pescadinhas, em vez d'exercer sobre os ad- 
versários a sua fiscalisação impeditiva e pa- 
cifica de regedor, o que faz é ir renovando 
o rascante das canecas, e passar lembrete 
aos amigos a que venham depressa vêr a 
pantomima. 

— E' bem achado. 

— Ahi chega ao campo o outro adversá- 
rio, o sapateiro democrata, e quando o 
que petiscava na tasca vae a pagar a conta 
ao taberneiro, esquece-se de lhe gorgetear 
pinguemente a discrição, o que esfuria o tra- 
tante, que só n'esse momento se lembra do 
seu papel de regedor. 

— Estou a ouvir d'aqui a ária do taber- 
neiro escamadissimo, detalhada na mu?ica 
do Cyriaco 

— Encontro dos duellistas, que se saú- 
dam n'um motivo de rabecões muito gro- 
tesco, e coro das testemuhas, occupadas a 
medir o terreno e a carregar de bala os ca- 
nos das pistolas. Quando já os adversários 
postados em face, averigua Miguel Slrogoff 
que não estão sendo observadas com{)leta- 



Ib' os GATOS 

mente as praxes do duello. O sapateiro aris- 
tocraladista do seu rival vinte e cinco passos, 
emquanto este se distancia d'aquelle, vinte e 
seis. E sabedor das regras como poucos, 
Miguel SlrogotT 

— Miguel Slrogoff? 

— Sim, o juiz do campo. 

— Ah, o juiz do Campo Pequeno. 

— Qual I o juiz da pugna, o que manda, 
põe e dispõe as coisas do duello. 

— Já comprehendo. E' o papel do baixo 
cómico. 

— Entrementes tem carregado as pisto- 
las a fidalga d'Arronches. 

— -A fidalga d'ArronchesI... Mas para 
que diabo apparece como testemunha do 
duello essa fidalga? 

— Homem, como é duello d'um sapateiro 
da casa real, e esta creação agradou nas mi- 
nhas outras operetas O peor é que na 

Rua dos Condes não haverá quem faça este 
papel. Precisava d'um actor que como figura 
correspondesse a isto: uma barriga com uma 
pennaatraz da orelha. Você conhece algum ? 

— Não lhe fazendo transtorno que a bar- 
riga tenha algum cabello. 



os GATOS 17 

— Ora a fidalga d'Arronches que como 
monarchica de gemina nulre pelo sapateiro 
jacobino um o'dio assolapado, proposita fa- 
zer marosca na carga das pistolas, e ás es- 
condidas mete uma bala de miolo de pão na 
destinada á barriga do seu cliente, ao passo 
que envenena com óleo de mamona a des- 
tinada a fazer espichar o adversário. 

— iMuito catita! 

— Prestes a ferir-se a lucta, entre a se- 
gunda e a terceira palmada do juiz do 
campo, vê-se uma chusma de gente arre- 
bentar detraz de um muro, e romper o coro 

Sustem por Deus as sanhas furibundas ! 

entrecortado pelo arioso 

Presos estaes, presos estaes ! 
Olél Olé! 

do taberneiro regedor, vindo a calrafilar os 
rivaes em desforço da gorgeta recusada na 
taberna. 

Immediatamente coristas e comparsas 
enchem a scena em gnão tumulto, armados 
d'oculos, seringas, paus de vassoura e ou- 
9 



18 OS GATOS 

Iros apetrechos guerreiros de presa e al- 
cance, e todo este mundo faz cerco aos 
duellistas, incilando-os com qss... qss.., de 
grande alacridade. O inesperado porem sobe 
de ponto quando entre repiques de sinos 
surge o prior do sitio, todo em lalares ves- 
tes, como uma branca communhão n'um ta- 
lho, como diria o Eugénio de Castro, e no 
meio das seringas volvendo respeitosas 
á bainha, espórtula sua predica christã 
sobro os duellos, citando aos duellistas 
como exemplo os contendores do velha 
e novo Testamento que em questões pes- 
soacs preferiram antes esmurrar-se as 
focinheiras do que lançar màos de pisla- 
rólas assassinas. A predica parece exercer 
grande pressão moral sobre os sanhudos 
balalhistas, que saccam dos ranhosos para 
enxugar as lagrimas de conversos, e entre- 
mentes que o coro entoa o 

Milagre ó céus, milagre è este que 



sobre um motivo lento dos fagotes, o cura 
tem coagido com citações latinas o juiz do 
ampo ao descarrego das armas — sobre oc 



os GATOS 19 

que, reconhecida a aulhenlicidade do pão 
ázimo no miolo das balas, vae a exigir que 
cada qual dos sapateiros, em lestemunho 
d'espirito religioso, commungue a que lhe 
era destinada. Na confusão porem as balas 
Irocam-se, indo a de miolo de pão parar ás 
tripas do sapateiro republicano, e estando a 
d'oleo de mamona eminenie nos dedos do 
prior sobre a lingua estendida do sapateiro 
aristocrata. E' n'este momento que a fidalga 
d'Arronches reconhecendo o dedo de Deus 
nas consequências nefandas do seu crime, 
avança em grandes gestos de Lucrécia pela 
scena, e leonina de remorsos, deila aos gor- 
gomillos a pilula purgante, arrancada aos 
galtarros do prior. 

— Que maravilhosa scena, meu Gervásio ! 
e como essa pilula de ricino é o mundo so- 
bre que se equilibra, tão lúcido, o principio 
moral do bem sempre triumphaLite ! 

— Esta agonia é uma passagem seme- 
lhante á de Valentim no Fausto de Gounod : 
coristas de redor confeccionam papas de li- 
nhaça, e a preghiera 

Pela barriga morro , ú deus dos boticários ! 



20 OS GATOS 

que a fidalga diz rasgando o falo, fecha os- 
tentosamente a peça, no momento em que 
os padrinhos declaram satisfeita a honra 
dos clientes, e vem uma commissão em 
nome da cidade fehcilar os heroes pela co- 
ragem qne mostraram — ouvindo a pre- 
dica do prior sem no correr. 

— Lindo trabalho, esplendido Gervásio. 
se bem que como satyra ao duello algo pi- 
cado d'exageros que são profundas injus- 
tiças. N'esle libreto pretende você mostrar 
que os desafios polas armas, laes como en- 
tre nós se interpretam, não vão além d'ar- 
remedos grotescos tendendo a fazer com que 
os adversários, por uma viagem d'ida e volla 
ao chamado campo da honra, se despensem 
realmente de desforçar a supradita no cha- 
mado campo da lambada. Peço para refle- 
ctir um pouco na calumnia assacada pela 
sua obra sobre a valentia d'um povo que 
desde as cruzadas vae á guerra. Supponha 
que o duello tal como vossa mercê o enge- 
ringonsa, em vêz de ler por gladiadores, dois 
sapateiros, metia antes jornalistas. Acredita 
que houvesse algum capaz d'enlregar ques- 
tões de pundonor á confidencia d'ura tas- 



os GATOS íl 

queiro, e de consideral-as liquidadas pelo 
discurso d'um padre e dois liros de pista- 
róla para o ar ? 
Gervásio redarguiu : 

— Essa critica provém de você imaginar 
o assumplo do meu libreto verosirnil, coisa 
que jamais me passou pela cabeça, verdade, 
verdade. A minha opereta não passa d'uma 
charge, porque não iia meio de crer que sa- 
pateiros se batam como eu pinto, quanto 
mais transportar o caso a escrevinhadores 
cujo papel, supponho, é dirigir a opinião. 

— Que ? ! pois a arenga do prior, a pen- 
dência de honra epilogando com uma salva 
para as nuvens, os cumprimentos da com- 
missão e as aclas dos padrinhos refazendo 
uma consciência nova aos pislolistas, é tudo 
brincadeira, charge, pura invenção jocosa 
do seu caco ? Nada d'isso se deu por Lis- 
boa, em tempo algum? 

— Absolutamente nada, pois mais que 
ninguém, amigo, persuadido estou da per- 
feita seriedade do duello entre homens de 
jornal. Ainda ha pouco tempo um houve, 
sobejamente grave pelas circumstancias de 
ferocidade em que foi feito. E se nenhum 



22 OS GATOS 

dos combatentes feneceu, é que ao menino 
e ao borracho 

— Muito me praz de lhe ouvir trovar Ião 
justa homagem. Pode ser que a pescada co- 
sida exagere a entrite cómica ao meu escri- 
ptor, mas acquiesçamos em que lhe edulcóra 
também divinamente as lealdades dalma e 
coração. 

— Em bôa bora o digal 

— Por consequência não sendo a sua 
peça, como diz, mais do que uma pyrote- 
chnia hillare d'espirilo inventivo, não me 
poderia você fazer cerla modificaçãosinha 
no final ? 

— An? 

— Não poderia fazer, por exemplo, com 
que a fidalga d'Arronches depois dos arran- 
cos da pilula começasse a fazer, um depoi- 
mento sobre o empréstimo de D. Miguel ? 



25 de maio. 

A pretexto de certa cacetada esgrimitia 
por um faia á cabeça d'um guarda campes- 



os GATOS 23 

tre, acaba a administração da casa real de 
prohibir as visitas á tapada d'Ajuda, salvo 
nas quintas feiras, em que está publica, pa- 
rece que por ser dia feriado entre os cace- 
tes homicidas. Ignoro porque motivos se 
veda ao publico uma propriedade que alem 
de ser do Estado, isto é, de todos, pouco ou 
nada contem dentro dos muros que possa 
ser deteriorado pela visita livre do passante. 
O antigo palácio da exposição agricola, em 
vidro e ferro, ires pavilhões ligados por uma 
espécie de galeria em meia lua, ficou depuis 
da exposição fechado e entregue ao mais 
criminoso e estúpido abandono, não se lhe 
reparando os desastres da invernia, deixan- 
do quebrarem-se-lhe os vidros, cair a ardó- 
sia dos telhados, e só ha pouco recambian- 
do-se para lá um certo museu agricola, que 
no palácio do conde d'Almada dava bem 
triste ideia da portugueza agricultura. Dos 
barracões e hangares que conslituiam os 
annexos da exposição, e custaram caríssimos, 
ninguém mais tratou nem quiz saber. Foram 
totalmente destruidos os jardins que alcati- 
favam o montículo sobre que se erguia o pa- 
lácio central da exposição. Grande parte das 



24 OS GATOS 

maltas plantadas por esse tempo, com ar- 
vores de luxo, fracliferas e de sombra, co- 
mo ninguém mais as tratou, seccaram-seoii 
foram degenerando em rachilicas e cor- 
cundas. 

Finalmente aquelle recinto que na sua 
parte accidentada e florestal poderia tor- 
nar-se, com dispêndio pequeno, n'um es- 
plendido parque a dez minutos de Lisboa, 
mesmo sem sacrificio das terras d'onde a 
casa real colhe a cevada e a fava que ha mis- 
ter para seu uso, aquelle recinto pelo aban- 
dono e o desleixo asselvajou-se, de sorte quo 
não houve meio d'aproveilar a recreio publica 
as profusas dezenas de contos alli gastas 
por occasião do certa men agricola. Ora as 
sollicitudes e disvellos que todas estas coi- 
sas não lograram captar da administração 
da casa real, emquânto fora mister olhar 
por ellas seriamente, acaba de mereccl-as 
uma réics, insignificante e daninha crea- 
ção de coelhos bravos, com sede na região 
montanhosa da propriedade, e que S. M. 
cubica desenvolver para seus gozos de ca- 
çador commodisla, á custa dos prazeres bu- 
cólicos do pubhco, que já se ia afazendo a 



os GATOS 25 

ver na Tapada a mais deliciosa eslanciade 
melancholia e flirlação. 

Ignoro a qualidade dos Iranslornos que 
a vedação d'aquelle passeio silencioso cause 
ao povo. mas não me esquecerei de dizer 
a inconsolável viuvez queelleintromeltenas 
minhas ruminações mentaes darligoleiro. 
De lodos os jardins e parques públicos de 
Lisboa, nenhum como alapada lem estado 
moral jusiaponente ao meu caracter. Enor- 
me, deserto quasi, cheio d'escaninhos de 
sombra e pellucias de ceara, olivaes, moitas 
d'ulmeiro e pitospóro, madresilvas, favaes, 
selvas d'aroeira e arbustos de charneca, 
aquelle immenso cercado a dez minutos do 
centro de Lisboa, era o meu jardim das oli- 
veiras, o deserto nostálgico onde, três vezes 
negado pelo publico, antes de cantar o Pi- 
na, eu ia prosternar-me ao Deus dos my- 
santropos, a lhe pedir desviasse de mim o 
cálix onde no vinho rutilo da vida tinham 
calíido moscas como o José Luciano e o 
Hintze fiibeiro. Quantos milhares de ma- 
nhãs e tardes, emboscado nas moitas, á 
borda das rigueiras, de bruços sobre a her- 
va, eu não li e reli livros amados, emquanto 



26 OS GATOS 

OS pardaes grazinavam «quem será este 
maduro ?», — o rio espraiando a sua aguada 
immaterial lé ao Bugio, e a massa da Ajuda, 
com a torre de gallo dando quartos, os ca- 
saes de Montes Claros, os moinhos e os ou- 
teiros riscados de courellas, pondo no fundo 
da vislaróla, cantante, uma nota de castello 
solar em burgo lavrador. O solitário que 
vindo do coração da cidade com a ca- 
beça azoada do marulhar da vida lisboeta 
logre peràer-se nos concentrados silêncios 
da Tapada, e topar alnm com ulgum d'a- 
quelles nichos de socego, á beira (l'um lago, 
na meia laranja do observatório, na escada- 
ria do palácio da exposição, ou mais sobran- 
ceiro ainda, trepando a escarpa por detraz 
das conslrucções, certo não pode furlar-se 
á gratidão do Creador ter feito a natureza 
Ião bonita, e ao borboleteante amor com 
que Lisboa fanatisa plumitivos «desequili- 
brados» a quem ella dá de comer o pão dos 
cães e o caldo negro do.... Amorim. Que 
projecto de livros, artigos, phantasias, eu 
não tenho curtido por aquelles recantos bons 
familiares, com o caderno de notas entre 
os dedos, o cérebro longe, no erratismo li- 



os GATOS 27 

vre d'uma ave superior buscando os cimos ! 
Poucos passeios de Lisboa lerão como este, 
ambiente de mais litilante e fidalga sug- 
gestão, longe de parialos, litleratos, syndi- 
catos e feijões carrapatos, ares de raelan- 
cholia mais nobre, virtuosidades de tom 
mais pitorescas. 

JNa primavera, agora, certos dos seus si- 
tios selvagens são verdadeiros bosques de 
m^adresilvas onde teera conservatório os rou- 
xinoes. Rouxinoes mysantropos, ronxinoes 
orgulhosos, que não cantam em ouvindo 
passar gente na estrada. Para escutal-os é 
necessário ser amigo velho, ir devagarinho, 
pé cá, pé lá, para lhes não assustar os filhos 
na escola de solfejo, de sorte que elles te- 
nham as mais exhuberantes provas do mimo 
com que desejam ser tratados. Posto fora 
d'estelogradoiro esquecido da grossa massa 
dos passeadores que costumam prostituir 
com a sua banalidade os silios poéticos, re- 
legado pelos egoismos da realeza ciumenta 
das crias de coelhos, para os passeios da 
Lisboa central onde não ha meio de psycho- 
logisar uma theoria artistica sem ter a as- 
phixial-a logo a cara de manjar branco do 



28 OS GATOS 

Carlinhos Valbom, venho perante a admi- 
nis Iração da casa real, como Diógenes^ recla- 
ma r o sol que um principe mo tira, sob pre- 
textos de caça, sabendo talvez que eu nada 
mais possuo que eile me possa confiscar. 
S.M.lem outros sitios mais próprios e me- 
lhores do que a Tapada onde estabelecer o 
quartel general das suas hecatombes. Tem 
por exemplo a cabelleira do nobre conde 
de Valtnças, tem o recinto Magalhães Lima, 
tem Moçambique, tem os artigos políticos 
do Melicio, tem os livros do Luciano e tem 
o grémio artístico. Não ponha pois os caça- 
dores de borboletas litterarias na contingên- 
cia de deverem as suas innccentes ílirla- 
ções a bilhetes de favor. Feche-lhes o par- 
lamento embora, escorrace-os da Academia^ 
ponha baionetas caladas nos empregos que 
elles alguma vez pretendam em detrimento 
dos que desbarretam perante os quatro bu- 
cefalos que na Avenida teem a honra de o 
puxar. Eu cá por mim não me importo! 
Mas quanto á Tapada, cuidado ! que eu sou 
muito bom, mas quando me tocam nos meus 
interesses, não é o primeiro que empandeiro 
para o exilio. Realmente não ha nada inte- 



os GATOS 2& 

ressante em Portugal que não seja prohi- 
bido. Alé para vender sapatos velhos na 
feira da ladra é preciso licença especial. 
Recantosinho piloresco por quem o foras- 
teiro bohemio se enamore, vem logo quem 
quer que seja dizer que não pode estar, que 
é prohibido — e toca de pôr uma grade com 
um soldado da guarda municipal. O admi- 
rável parque da Pena, adquirido pelo Es- 
tado para passeio publico dos que villegiam 
por Cintra, terra onde tudo quanto é bom 
está fechado a sete chaves, foi açambarcado 
logo pela realeza regalona que o foi vedando 
senão em todos, pelo menos em grande 
parle dos seus alcandores e dependências. 
A tapada das Necessidades, fechada. O rei 
não quer! Os jardins de Belém, fechados. 
O rei não dá licença ! Fechada a tapada 
da Ajuda. O rei não tem coelhos. Ora não 
ha maior pouca vergonha ! Por este cami- 
nho ainda são capazes de fechar a cabeça 
do Sérgio sob pretexto de S. M. querer fa- 
zer lá dentro um viveiro d'ideias p'ra seu 
uso. 



30 OS GATOS 

30 de maio. 

S. M. a rainha, depois do que o Maneio 
diz sobre os seus afagos aos boisinhos deve 
desfazer se da ferradura apanhada em Ven- 
das Novas, e pregar-lh'a ao pescoço, dnndo 
assim preito ás lambiçocas do chronisla das 
suas caricatas sensibleries.Q[\e\rii o leitor exa- 
minar as velhacarias do periodo que trasla- 
do, a vêr S8 n'outro paiz não era elle summu- 
la para escadeirar o artista com meia dúzia 
de fretes de changuiço. «A rainha saindo do 
templo encaminhou-se para junto das car- 
retas, e o mais desprelenciosamente possivel 
começou acariciando os bois. Um murmúrio 
d'admiração correu por lodo o largo comple- 
tamente apinhado de povo, um frisson d'en- 
ihusiasmo agitou lodos aquelles corações... » 

Admiração ? Enthusiasmo? O Marrelinho 
venha á barra explicar-se, quando não, não 
abiscoita a ferradura de mérito agricola. 
Porque emíim, dada essa coisa trivial que 
é um afago a um boi, se realmente os de 
S. M. alvoroçaram o povo alemtejano, certo 
o alvoroço não proviria da caricia, mas do 
sitio; quanto ao frisson d'enthusiasmo, ej-ijue- 



os GATOS 31 

ce-se o estafermo de que ha uma cornadura 
nas armas da cidade. Foi por consequência 
inconveniente duas vezes, inconveniente, 
insolente, archi-indecenle — em recordar á 
princeza equivocos ingénuos, e em recordar 
aos maridos coisas tristes. Segue o [)ateta, 
«ai a nossa rainha que não lem vergonha de 
fazer festas aos boisinhos 1 dizia do nosso 
lado uma rapariga do povo para um velho 
que tentava occultar umas lagrimas que lhe 
corriam pelas faces, servindo-se-lhe das ru- 
gas, coms de rails, para mais íacilmenle 
deslizarem. . . » Lagrimas deslisando pelos 
rails das rugas. Que imagem ferro-viaria tão 
catita ! Mais não diz se ao chegarem á es- 
tação do Irazeiro, houve foguetes. 

A dar credito aos madrigaes com que elle 
bispolea á Luiz XV, as magestades, o povo 
do Alemtejo seria uma espécie de bicho do 
malto prestes a desatar-se em pranto de 
cada vez que lhe passa á porta um estran- 
geiro. Ora a verdade é que os alemtejanos 
nunca choram, pelo menos por motivos in- 
diíferenles, e que a visita dos reis em nada 
lhes poderia espremer ao canto do luzio a 
glândula da ternura, sabido na provincia 



22 OS GATOS 

que quando as mageslades viajam, os im- 
postos augmentam — ou apparece algum 
novo mal ás planiações. 

«S. M. a rainha, fallando comigo ha 
pouco, disse: creio que a minha visita a 
Beja é um dos casos mais felizes da minha 
vida.» E' a phrase da Covilhã, voltada na 
costureira, e servindo nos batuques bejenses 
como nova. Marreto, como todos os chronis- 
las parvos, presta aos seus panegyrisados a 
fajardiceda sua própria idiotia. Não ha meio 
de se sahir esculptural da proza esconsa de 
taes taii-bilatis. S. M se não diligenciar 
precalar-se das entrevistas dos reporters af- 
fectos á monarchia, deniro de pouco, sem o 
sentir, terá ganho uma reputação d'infancia 
cerebral Que será o successo cómico das suas 
vellegialuras á pro^^incia. Em verdade <{ue 
isto nos peza summamente, porque com a 
sua formozura e a sua bondade, a illusire 
princeza poderia crear-se na admiração do 
povo um verdadeiro typo de rainha, se pro- 
positasse emfim ter um ar mais de palácio, 
apanhando menos ferraduras pela rua, afa- 
gando menos boisinhos pelas praças, e di- 
zendo pelos salões menos ingenuidades. 



FIALHO D'ALMEIDA 



OS C3JLTOS 

INQUÉRITO Á VIDA PORTDGDEZA 



A morle de Silva Porto trouxe ao enter- 
necimento artístico dos que amaram a obra 
e o homem, a ideia, tradiccional aliaz, de 
se lhe fixar n'um monumento a gloria cân- 
dida. Alvitres d'uns e d'outros precisando 
o projecto, opinaram logo desde colocar-se- 
Ihe a estatua ao centro d'uma praça, té re- 
duzir-lhe as proporções d'immortahdade a 
um simples busto sobreposto a uma espécie 
de bloco de granito. Vou dizer o que me pa- 
rece sobre o caso, suppondo que todos co- 
nhecem a posição de Silva Porto na pintura 
porlugueza, e a justiça que seja fazel-o lem- 
brado ás gerações d'emocionaes. O estudo 
da sua pintura, computado pouco mais ou 



2 OS GATOS 

menos em quatrocentos ou quinhentos qua- 
dros, pela maior parte de pequenas dimen- 
sões, reservo-o para quando discípulos e 
adoradores levarem a feito a exposição da 
obra completa, porque só ahi veremos em 
toda a lucidez o corpo esthetico que a arte 
de Silva Porto formava no seu espirito, e a 
luminosa historia do seu sonho da paysagem, 
tão organicamente ligado ao feitio physico 
e á discreta penumÍDra em que o artista 
sempre respirou. O que fragmentariamente 
se poderia alvitrar sobre a natureza moral 
nas suas relações com os productos da pal- 
leta, já por varias vezes o escrevi n'este 
pamphleto com a sinceridade e o ardor de 
quem desejaria vel-o ascender depressa aos 
cimos, e a impaciência de quem, sondando 
o curto fôlego da vida, receava não ver ex- 
ceder-se ao sublime essa admirável virgin- 
dade de melanchohco pantheísta. 

Está claro que dada a physionomia ar- 
tistica de Porto e a qualidade especial da sua 
obra, não são ellas d'estatura a atravancar c' 
um bronze a praça publica, mesmo nos casos 
da mais incondicional admiração: primeiro 
porque o publico não poderia nunca admi- 



os GATOS 3 

ral-o como estatura dominante na vidacivica 
do paiz, onde tantas grandes ligaras aguary 
dam que a divida de homenagem lhes seja 
paga: segundo porque realmente se não com- 
padeçam com o penetrante perfume minúscu- 
lo da obra, dum caracter tão intimo, tão para 
poucos, os ambientes largos, frios, demo- 
cráticos e banaes, por onde carroça a vida 
pratica e tumultuaria da multidão. O monu- 
mento tem de ser pois, não uma estatua colos- 
so, á altura dos segundos andares, mas um 
busto, collocado não n'um centro de largo, 
mas n'um macisso de flores formando sqnare, 
ou num^ pelouse orvalhada de jardim. Algu- 
ma coisa de mimo, cinzelada pelos amigos, 
collaborada por todos os discípulos, peque- 
nina, graciosa, á altura dos beijos e dos 
ramos., tocada como uma jóia e deante de 
quem toda a gente pare e se enterneça. 
Porque os monumentos grandes não são 
para a adoração, mas para o respeito ou 
para o enfado. Gomprehende-se que a es- 
tatua d'um rei esteja alta, porque ninguém 
necessita olhar para ella. Mas a efígie d'um 
artista como Silva Porto, que legislou não 
sobre oppressões mas sobre estados dalma, 



4 OS GATOS 

a bôa Ironte cândida desse commentador 
amoravel da nossa vida rústica, tão nublada 
de compassivas misericórdias pelas simples 
coizas da aldeia e da boiada, essa deve~nos 
estar perto da mão porque lhe enxuguemos 
o suor agonico do olvido, perto da bocca 
porque lhe beijemos a bocca pura d'evan- 
gelista extático no bello, perto dos olhos por- 
que todos os dias, na íianagem da tarde, ao 
fim da hda, possamos ir vêl-a e dizer-lhe 
t adeus, querido mestre!» Como Silva Porto 
nunca foi popular e deve sel-o, pois os pínca- 
ros da intelhgencia humana em todo o mundo 
estão actualmente na arte e na sciencia — a 
pohtica deixando de ser um pináculo para se 
tornar n'uma caverna — não só a qualidade 
do monumento será factor de propaganda, 
como também o local onde o erigirem. Por 
exemplo no largo da Bibliotheca, acho ab- 
surdo: primeiro porque esse largo seja na 
vida de Lisboa, um arrabalde: segundo por- 
que elle de modo nenhum defronte com a 
frontaria ou portada da Escola onde Silva 
Porto professou. A Escola das Bellas Artes 
não tem por emquanto frontaria, nem tão 
pouco entrada, por emquanto. Não existe 



(JS GATOS 5 

como edifício. E' um cazarão provisório 
que á Academia emprestou a Bibliotheca. 
Em poucos armos ver-se-ha forçada a de- 
sabelhar d'esse cacifro, e n'esse dia em que 
desprezivo abandono íicaria coUocado o 
pobre Silva Porto t . . 

Já n'outro sitio, (aliando do gosto desas- 
trado com que a merceeirice oílicial ia lan- 
çando as bases monumentaes da Lisboa 
nova, tive occasião d'alludir ao ridiculo es- 
tylo das estatuas e á barafunda grotesca com 
que as «commissões organisadoras de mo- 
numentos» installavam estes no primeiro 
saguão disponível, sem o menor respeito pe- 
la magestade immortal dos seus heroes. 
N'este momento Lisboa tem apenas dois 
sitios que transformar em g;aleria de mortos 
celebres; tem o Aterro para estatuas de na- 
vegadores e grandes capitães, e tem a Ave- 
nida para as estatuas dos modernos. «Quan- 
do se fallou em levantar a Luiz de Camões 
o bronze que todos conhecemos, escrevi eu 
ba (inço annos, não sei onde, e se esco- 
lheu para este auto-de-fé a angulosa e ar- 
chi-torta praça do Loreto, uma obscura voz 
que nenímm dos proeminentes quiz ouvir 



6 <>S (MTOS 

lembrou que o monumento do poeta devera 
inaugurar entre nós um luminoso cyclo de 
justiça, atravez do qual iriamos pagando, 
pela consagração publica do mármore e do 
bronze, a grande divida da gratidão portu- 
gucza a todos os titans e semi-deuses 
immortalisados nas estancias das Liiziadas. 
O local mais adquado á exhibição d'essa 
galeria vastissima de heroes e grandes gé- 
nios — a começar por (jamões e a acabar no 
infante D. Henrique — era o Aterro, e cum- 
pria crear um typo de pedestal e de ta- 
manho d'estatua que bem dissessem na fa- 
cha de terra conquistada ao rio, entre as 
arvores das alamedas e taboleiros de relva 
sempre verde, em termos do estrangeiro 
entrando o Tejo ser recebido na margem 
por aquella guarda de honra de navegadores 
e de poetas, matliematicos, chronistas, guer- 
reiros, descobridores e grandes capitães que 
fazem o mundo heróico do poema, e são o 
orgulho da nossa historia, e por ventura já 
hoje a razão de ser da nossa autonomia. » Não 
supponha algum parvo que isto fosse decre- 
tar de chapelada monumentos para todos 
quantos desde o século X í V até ao X V í I 



os GATOS 7 

estão á espera d'elle. O rnunicipio faria, 
cl'accordo com as sociedades sabias uma 
espécie de resenlia chronologica de todos 
os vultos dignos de homenagem, marcando 
local para a estatua de cada, sobre a^pelou- 
se dalameda ou jardim tomada ao rio, isto 
no percurso kilometrico que vae da quazi 
embocadura do Tejo, nas alturas d' Algés 
ou pouco mais, até ao topo opposto da ci- 
dade, ahi por Santa Apolónia, onde termi- 
nam com as obras do porto os grandes 
aterros destinados á avenida marginal. Pou- 
co a pouco então o culto mais ou menos 
fervido das commissões patrióticas iria er- 
guendo, segundo as preferencias e os teres, 
o monumento ao seu descobridor ou aven- 
tureiro favorito, em sitio d'antemão marca- 
do na grande fileira, e assim ao cabo d'an- 
nos, completa a galeria, o espectáculo seria 
quanto pode ser de feérico e magnifico — qual 
na frente do histórico rio que viu tantas 
grandezas, erecta em bronze a plêiade das 
figuras colossaes que as emprehenderam, 
contando no oiro das inscripções o passado 
d'um povo sem competidor na historia ma- 
ritima do universo! 



8 OS (íaTOS 

Da mesma forma opino que a Avenida 
seja, sob o ponto de vista de monumentos, 
exclusivamente uma galeria de modernos. 
Fallo d'artistas, sábios, literatos, phylantro- 
pos, e expulsaria os três ou quatro politi- 
castros com que alguns querem já poUucio- 
nar aquelle sitio. Lisboa começa a ter por 
demais estatuas politicas, e infamante seria 
que ella tolerasse a par de devassarrões an- 
tigos, como o sr. D. José I e o sr. D. Pedro 
IV, pantomimeiros somenos, ma\s modernos, 
como o sr. Saldanha e o sr. Fontes, lem- 
brando ás eras as deploráveis fontes de cor- 
ruptella que a sua vara fez manar d'onde 
tocou. Herculano, Garret, o grande Camillo, 
Anthero do Quental, Soares dos Reis, Ce- 
zario Verde, Annunciação, Silva Porto ser- 
tanejo e Silva Porto paysagista, o chimico 
Aguiar, António Pedro, Manuela Rey, Roza 
pae, etc, toda a constellação esplendida de 
nomes que fixaram na moderna civilisação 
porlugueza um ponto d'avanço, escalando 
á gloria n'um século onde o principio de 
conducta é escalar ao syndicato, todos es- 
ses leriam nos rei voes floridos da Avenida, 
aos dois lados, por entre palmeiras e plan- 



os GATOS 9 

tas decorativas, galeria larguissima onde en- 
fileirar seus vultos luminosos: o typo doestas 
consagrações tomando formas originaes, 
caracteres impecáveis d'obra prima, bustos 
veliementes em pequenos sócios decorados, 
estatuas em pcdesíaes mui baixos, reprodu- 
zindo esses homens n*alguma das attitudes 
familiares ou movimentos decisivos da exis- 
tência. Monumentos pequenos, creados se- 
gundo um tvpo de serie que tornasse harmo- 
niosíssimas as perspectivas do conjuncto. 
Porque o monumento grande vê-se mais pelos 
caracteres d 'ostentação, que pela ideia; dis- 
pendioso e de realisação diííicil, é um obs- 
táculo á multiplicação d'estas homenagens, 
isto a par de perder pelas proporções am- 
phticadas o seu caracter humano e fallante, 
e se tornar emfim n'um trambollio atravan- 
cando a cidade para embasbacação do 
forasteiro. 



O commissario de policia expediu ha dias 
para a fronteira um tal De Bassini, que no 



10 05 GATOS 

dizer das entrelinhas d uma noticia sensa- 
cional das Novidades se propunha escrever 
em Lisboa as memorias de Jacques Casa- 
nova, sob pretexto de lições de canto ás se- 
nhoras da alta sociedade. 

Esse De Bassini era ainda aqui ha cinco 
annos um tenor de meia sorte, e aconte- 
ceu-lhe calhar no D. José da Cármen com 
um successo de brilho que por Lisboa lhe 
valeu notoriedade. Tendo perdido a voz, vi- 
via actualmente de três notas que lhe fica- 
ram para papeis de recados, apenas lhe 
rendendo o preciso para se não dizer vives- 
se d'outra coisa. Nos seus bilhetes de visita 
de Paris, os que corriam mundo pelos en- 
tresols onde Pransini macheava antes d'el- 
le as metrites chronicas das 'tites chattes abor- 
recidas do amor de chaise-longue, uma sin- 
gularidade tornava-lhe o nome particular- 
mente interessante 

24 centimetios* 

sendo pasmo de todos que esse tenor 



os GATOS U 

aphono jactanciasse (i'ainda possuir um ór- 
gão tão extenso. Nominaes ou reaes emfmi, 
estas qualidades métricas que haviam cons- 
liluido a sua gloria no bel canto, de Bassi- 
ni as quiz tornar em fonte de receita, e eil-o 
buscando a protecção d'uma sua patrícia por 
de mais celebre nas estroinices do sport 
phillantropico, e que sem mais exame, dizem, 
o annexou com dois mil francos d'entrada e 
licença para escrever nas malas a designação 
de cantor do séquito privado. Chegado a 
Lisboa ao mesmo tempo que a noticia de qua- 
trocentos contos de saques sobre o thezouro 
portuguez, De Bassini não logrou escandali- 
sar tanto as susceptibihdades patrióticas do 
partido monarchico, como a conferencia de 
Badajoz, convindo aquelle em que para os 
créditos da nação era muito mais deletério 
ir engajar lá fora a união ibérica do que os 
tenores com vinte e quatro centímetros de 
registro. 

Mercê d'este critério recusou o sr. Fran- 
co Castello Branco a proposta que lhe fize- 
ram os repubhcanos d'uma segunda recita 
d'aquella sessão parlamentar em que Val- 
bom e Alpoim foram sublimes, e que d'esta 



*2 os GATOS 

vêz viria a molde como revindicação patrió- 
tica onde Portugal mostrasse ao mundo os 
numerosíssimos recursos de \inte e quatro 
centímetros que possue, de ponta a ponta, 
sem necessidade alguma de se deixar... inva- 
div pelo estrangeiro. iVesta segunda audi- 
ção é que verdadeiramente teriam cabimen- 
to o viva do sr. Alpoim á independência 
nacional, e a grande scena lyrica do orador 
Valbonsinho, rebolando os olhos, agarrado 
ao amor da pátria, sentimento pelo" qual o 
liysterico vencido dizem sentir uma ternura 
ancestral e posierior. 

O caso do tenor não foi porem cifrado 
pelos senhores monarchicos na lista dos de- 
lictos merecedores do stygma de traição á 
pátria, e permaneceria incólume se á ulti- 
ma hora. já pagos os dois mil francos 
darrhas, e divulgadas as primeiras basofias 
do escripturado, o conselho de ministros 
nao reconhecesse incompatibihdade em san- 
grar do cofre das innundações a annuidade 
de 800^000 réis que promettida lhe fora 
por escriptura. 

De mais esta intromettida súbita d'um 
estrangeiro musico na vida da corte, ad- 



os GATOS 13 

vindo em epochas de pauta proteccionista, 
começou d'oirender também gravemente os 
instrumentistas uacionaes, e choveram re- 
presentações ao governo pedindo concurso, 
internacional sequer, com provas praticas, 
d'onde apurar co'a máxima justiça as apti- 
dões de cada candidato. 

Semelhante concurso traria entanto coa- 
lisões angustiosissimas ao muito nobre jury 
que o julgasse, á uma por pôr a corte de 
Lisboa em cheque com a Itália, potencia 
amiga, á outra por não haver propriamente 
diapasão afinado por lei para tal espécie 
d'inslrumentos, sabido como o systhema mé- 
trico não preceitua entre nós da unidade a 
seguir n'este género secreto de medidas 
d'extensão. Consultadas as instancias supe- 
riores da industria e arte sobre o que hou- 
vesse no paiz em antigo e moderno, nobre 
ou plebeu, capaz de levar de vencida os 
vinte e quatro centímetros de registro do te- 
nor, responderam pela commissão de monu- 
mentos o sr. Luciano (iOrdeiro, depois d'an- 
dar pelos sarcófagos manuelinos, com uma 
guita, a tirar números, eo dr. Joaquim Tello, 
director da industria, ao cabo d'inquerito 



14 OS GATOS 

idêntico na exposição dos Jeronymos, que em 
vista do atrazo manufatureiro nada havia 
ainda portuguez a competir com o elemento 
italiano, posto modernamente se tivesse já 
crescido muito, sendo d'esperar que em 
pouco tempo, puxando pela fibra do povo, 
se conseguisse fazel-o egualar, senão exce- 
der, o singular phenomeno contractado em 
Paris para na corte dar lições de musica. 
N'um manuscripto da Bibliotheca da Ajuda 
é que, depois de grandes procuradas, pa- 
rece que o notável investigador Ramos Coe- 
lho chegara a apurar certa referencia ao 
pagem Alcoforado, padreador da Senhora 
Duqiieza, d'onde inferir suspeitas quanto á 
desconforme extensão da sua voz; mas a 
descoberta foi controvertida por Luciano 
n'uma memoria, e a discussão augmentou 
afinal a obscuridade, parecendo que se al- 
guma grande coiza houve, sumiu-se tudo 
nas entranhas da casa de Bragança. 

Estas e outras graves cogitações levaram 
o conselho de ministros a recuar perante o 
fiasco do concurso, e estava redigido o de- 
creto outorgando o exclusivo da musica 
palaciana ao De Bassini, quando de repente 



os GATOS i5 

O ministro da fazenda lembrou que a Asso- 
ciação Commercial podia erguer a voz se- 
gunda vez. Foi por todas as sete pastas um 
terror pânico, e a extirpação dos vinte e 
quatro centimetros, do solo portuguez, foi 
ordenada como razão d'Estado. em 8 ho- 
las, sendo chamado á pressa o operador 
Moraes Sarmento. . . 

Ora emquanto estes successos tumultua- 
vam entre os silêncios patrióticos dos srs. 
Alpoim e Carlos Valbom, ílagelladores emé- 
ritos das monstruosidades jacobinas, que 
fazia De Bassini, a imbelle victima da sua 
própria deformidade ? De Bassini, o musico 
anormalissimo, auto-suggestionado de portu- 
tuguez por pertencer congenitamente á Casa 
dos Vinte e Quatro^ De Bassini exhaustos em 
em comezanas de hotel os dois mil francos, 
procurava trabalho, diz n'uma carta, tal 
como uma ingénua menina de romance. 
«... apenas vi que alguns jornaes critica- 
vam a protecção que pretenderam dar me 
as excelsas pessoas de quem na suppliquei, 
resolvi-me a procurar lições de canto, nos 
quinze dias que estive em Lisboa, e dada 
a sympathia de que como artista gozo 



16 OS GATOS 

(...Vamonr est tm enfant de vingt quntre centimétres...) 

já tinha encontrado bastantes, principalmen- 
te entre as senhoras de Lisboa.» 

A caridosa protectora dignara-se dizer-lhe 
quando elle lhe fora pedir trabalho em Ro- 
ma « vá para Lisboa e veremos. » Em Lisboa, 
senhoras a quem fizera a honra d'offerecer 
serviços músicos, quazi todas lhe disserau 
também » vamos a vêr», revirando o cartão 
de visita entre suspiros; e algumas depois 
de visto, pediam espaço d uns dias, a mo- 
dos d'abstractas, e mandavam-no lá lornar 
«para vêr outra vêz.» Ao cabo de quinze 
dias já tinha encontrado bastantes, acres- 
centa elle ingenuamente. «Foi-me então 
perguntado que logar tinha eu na corte. 
Maravilhado que se soubesse uma coisa que 
julgava ignorada por todos, respondi que 
não sabia, mas esperava obtel-o a breve 
trecho.» Recapitula «creio que esperar um 
posto não é uma chantage nem um delicto! » 
De certo não, mesmo porque até os postos 
sejam entre nós coisa sanccionada por de- 
cretos e planos do governo. Exemplo, o da 
Fonte Bôa, e os postos de desinfecção, ca- 



os GATOS 17 

da vêz mais necessários para expurgar o 
paiz (ias podridões doiradas que o infestam. 
Pelos trechos da missiva transcripla, que 
podem lêr-se de resto em quazi todos os 
jornaes monarchicos da cidade, nem se preci- 
sa quando as lições começassem, nem tão 
pouco o preço poruiuzia, nem a duração, nem 
a hora, nem sequer a maneira de as dar, do 
professor. Por consequência haverá que se 
dirigir consulta á epislolographia paralella, 
muito em segredo catando-a dos promeno- 
res musicaes que ella tiver. Ahi está por 
exemplo um pequenino bilhete da viscon- 
dessinha de X., uma das primeiras discipu- 
las do portento, á sua amiga baroneza de 
H., veraneando em Cintra e que pelo tele- 
phone lhe pedia informações, -i De Bassini, 
querida, leva quinhentos francos por lição, 
o que é a ruina, dados os outros quinhentos 
com que meu marido paga a lição d'elle. 
Exige alem d'isso (como é bastante orgulho- 
so) que as senhoras lhe estejam sempre de 
joelhos, e a tal ponto esta exigência pare- 
ceu excessiva que o visconde agora só lhe 
aceita as explicações — voltando as costas.» 
A generala de P., hna culévra, passionenta 



18 OS GATOS 

por musica á coalisão d'ella mesma soprar 
concertantes nas protuberâncias do marido, 
a generala de P., depois duns prologo- 
menos : — «De Bassini, historias ! não se li- 
ça sabendo nada. . . á uma é caro, e á ou- 
tra não repete.» 

O desavergonhado entanto, regorgitan- 
te de cédulas por essas primeiras lições pa- 
gas á bocca do . . . cofre, desenvolvera em 
pleno iiotel uma magnificência pródiga e 
sultana. 

Quotidianamente almoços e jantares era 
sala decorada com as pratas melhores, fru- 
ctas de luxo e vinhos escolhidos, carruagens 
e passeios aos sitios pictorescos, convites a 
um. convites a outro, com meias reticen- 
cias sobre o mysterio d'aquella insólita vo- 
ga e d'aquella fortuna incomprehensivel. 
Gomo todos os rufiões em posse de segre- 
dos, De Bassini exagerava-lhes sempre que 
podia a importância, estendendo a muitos 
lares peccados authenticos apenas nos des- 
regrados costumes de quatro ou cinco. Em 
quinze dias não houve grande dama que 
elle não ensinuasse aos amigos como discí- 
pula sua na grande musica fin de siécle. 



os GATOS i9 

a quinhentos francos por lição, e a tal pon- 
to o ciúme d"esses triumphos entrou d'aziu- 
mar os professores portuguezes sem tra- 
balho, que para os combater organisou-se 
a liga dos alferes para pernoitar, sociedade 
orpheonica para nacionaes maiores de vin- 
te centimetros, com certamens ao ar livre, e 
uma walsa a premio para o sócio de mais 
infatigável. . . vocação. 

Desde essa hora a guerra estuou sem tré- 
guas, entre o orgulho lusitano espicaçado, e 
esse vil estrangeiro que imaginara desmon- 
tal-o com os seus desusados recursos mu- 
sicaes. Se em questões de registro De Bas- 
smi podia bellamenle levar de vencida a li- 
ga dos alferes, o certo foi não conseguir 
degladiar com elles quanto ao preço, pois 
muitos até já de graça davam lições de con- 
traponto, antepondo-se ao adversário por 
todas as girias do reclame mais protervo, 
desde sahirem á rua com pães de bico na 
algibeira das calças, até pinlarem-se á gre- 
ga na transparência das cartas de jogar. 
Todavia este movimento de revindicação 
patriótica não seria fecundo, como diria o 
Alpoim, se a polilica não tenta absorvel-o, 



20 OS GATOS 

acaudilhando ao conselho de ministros todo 
o orpheon d'alferes p'ra pernoitar. Foi então 
que o aventuroso tenor se viu perdido, e 
comegou d'emmurchecer melancholicamente 
a sua (para que assim o digamos) inspira- 
ção. Todas as protecções se lhe negaram de 
repente, escamugiram-se-lhe as discipu- 
las á formiga, faltou-lhe o dinheiro, fal- 
tou-lhe o credito, emagreceu, cahiu, e tão 
reduzido estava, que na suprema hora de 
ser expulso, esse prostituto musico adstricto 
aos mysterios nymphomaniacos da corte, bel 
cavalier renegado por suas damas, ao chegar 
á apalpadeira do governo civil, apenas dos 
vinte e quatro centímetros lhe restariam uns 
miseros quatorze. 

Em quinze dias, dez pontos de descida. . . 
Oh estes câmbios ! Pobre De bacio ! 



A 27 de Julho passado foram abertas 
nas galerias a poente dos Jeronymos, uma 
exposição de productos fabris, e uma ou- 
tra das escolas industriaes, circunscripção 



os GATOS 21 

sul, esta ultima contendo provas do fim 
d'anno, e algumas amostras, já anteriormente 
vistas, do estado de certos ramos do ensino 
officinal. A exposição industrial mirava, nos 
dizeres do catalogo, apreciar a influencia 
da pauta proteccionista sobre o desenvolvi- 
mento ulterior de certas industrias portu- 
guezas, provendo os redactores d'aquella 
d'informações por onde se podesse experi- 
mentalmente beneficiar ou desamparar as 
industrias que valesse ou não valesse a pe- 
na proteger; e mais mirava mostrar as excel- 
lencias de fabrico e qualidade de grande nu- 
mero de productos paralellos aos similares 
até agora vindos do estrangeiro, vulgari- 
sando por ultimo no sentido optimista o 
adoantamento do fabrico portuguez compa- 
rativamente ao revelado nas exposições an- 
teriores. O catalogo não canta no pream- 
bulo, do papel da exposição das escolas in- 
dustriaes, a par da da industria, mas quem 
duvida fosse para se apreciar da influencia 
exercida pela educação artística e otíicinal 
do operariado novo sobre diversas indus- 
trias que na galeria dos Jeronymos se apre- 
sentam com relativo brilho e luzimento ? Por 



22 OS GATOS 

consequência a primeira interrogação sug- 
gerida no espirito do visitante, é se ao cabo 
de nove annos d'ensino industrial começou 
já de radiar alguma meilioria d'elle sobre a 
industria portugueza; e seja a segunda o 
discutir se a seis mezes d'applicação da 
nova pauta já é licito tirar conclusões quan- 
to ao desenvolvimento industrial que eila foi 
chamada a fomentar. O primeiro problema 
uma vez posto, escusado remirar com saga- 
cidade a exposição das escolas industriaes, 
para logo dizer que d'aquelles nove annos 
d'ensino não ha na industria nacional três 
mezes de diíTusão sequer, methodisada, 
sendo verdadeira lastima tanto dinheiro 
gasto para d'elle se tirar tão pouca utili- 
dade. 

As causas d'esta paralysia são diver- 
sas, cabendo responsabihdade d'ellas a toda 
a gente. 

Por um lado os alumnos, filhos de gente 
pobre, desfructadora e imprevidente, mal 
frequentam com regularidade os cursos es- 
colares, porque os pães apenas as creanças 
podem trabalhar, enviam-nas para as obras, 
trocando assim pelo magro salário que ellas 



os GATOS 23 

lhes possam ganhar, toda a possibihdade 
d'uma educação artística completa, e pro- 
ventos futuros necessariamente mais pingues 
que d'ella rezultariam a quando o operário 
formado pelo curso officinal da escola e co- 
nhecimentos technicos que paralellamente 
lhe fornece o curso scientifico. 

Percorrendo os cadernos de matricula 
das differentes escolas industriaes de Lisboa 
e seus arrabaldes, facilmente se reconhece 
í.", que os alumnos enviados á escola sem 
frequência paralella n'alguma officina ou 
fabrica, são raríssimos; 2.°, que a maior 
parte segue os cursos industriaes depois 
d'um dia de trabalho fatigante para ganhar 
o pão quotidiano, o que sobre ser um argu- 
mento a favor do dia normal de oito horas, 
exphca por seu lado a espécie d'automa- 
tismo e delhedio com que muitos vão ao es- 
tudo, e a facilidade com que ao menor pre- 
texto o interrompem; 3.°, que as matriculas 
da escola industrial, abertas no começo do 
anno com espantosa frequência, vão pouco 
a pouco rareando, cá proporção que o tra- 
balho na fabrica durante o dia accumula 
cançaço de noite para noite, este alhando-se 



24 OS GATOS 

á indolência meridional de corpos mal ali- 
mentados e propensos, naturalmente, pelas 
enervancias do clima, ao rien faire e ás se- 
ducções e devassidões da capital. 

Daqui rezulta um terrível deficit datten- 
ção, d'estudo, e de frescura de faculdades 
assimilativas que dá de si retrocessos em 
vez de progressos, e invalida por centenas 
o futuro doperarios que em pouco tempo 
seriam mestres magniíicos, se não fora o 
mau sestro da surmáiage, e a viciosa situa- 
ção que alem citei. Quem uma vez fallou 
com os filhos do povo de Lisboa não pode 
furtar-se a um sentimento d'admiração 
perante as perceptivas extraordinárias da 
sua intelligencia, tão subtilmente maleá- 
veis, tão espontâneas, tão bellas, e duma 
docilidade que é terreno propicio para n'ellas 
se talharem corporações d'industria sem ri- 
val. A par porem d'estes luminosíssimos 
predicados, um defeito de raça inutilisa ir- 
remessivelmente esta phalange, a falta de 
tenacidade, a variabilidade de humor, a im- 
paciência d esperar, o que faz com que to- 
dos esgotem a energia nevrotica nos pri- 
meiros esforços, e ao cabo d'elles se abor- 



os GATOS 25 

reçam, iniitilisando assim todo o trabalho 
anterior. Jantar agora a este regimem falha- 
do dos discípulos, as deíiciencias estructu- 
raes da escola que o regimem das economias 
successivamente vae amputando pela mão de 
ministros incapazes, pela dictadura d'ins- 
pectores cretinos, e indolência e inaptidão 
technica d'um professorado analphabeto, 
aparte um ou outro estrangeiro ou nacional 
mais conscencioso. As reformas que as es- 
colas industriaes teem soffrido nos últimos 
annos, mirando ás ce^as um exclusivo pro- 
gramma de mesquinharias económicas, não 
fizeram senão estaçalhar o plano funda- 
mental dos fundadores, plano lógico e in- 
telligentemente scientiíico, que requeria ir- 
se desenvolvendo num sentido pratico e 
oííicinal a pouco e pouco, e que as successivas 
mutilações charivarisaram até ao dispara- 
tado cahos em que ora está. 

Effectivamente seguindo as exposições 
parciaes das differentes escolas repara-se 
em que a par da imperfeição de muitos tra- 
balhos, e da excessiva brunidura d'outros 
que o professor corrigiu secretamente, tam 
pouco estes façam serie por onde adevinhar 



26 OS GATOS 

as linhas directrizes de cada curso, e re- 
compor n'um todo uniforme os estudos das 
diíTereníes cadeiras e officinas de que a ex- 
posição nos mostra aqui e alem apenas uma 
ou outra prova fragmentaria. Ha uma tra- 
palhada de desenhos, bordados, pinturas, 
pespontos e planos de perspectiva, que dei- 
xam o visiiante perplexo sobre a crislalo- 
graphia dos programmas d'ensino, e ao 
mesmo tempo acordam n'elle um sentimento 
de desconfiança quanto á boa fé d'aquellas 
exposições. Em muitos ramos da exposição 
das escolas industriaes (por exemplo, no de 
desenho industrial, o ramo ornamental) não 
ha intermédios, e as aguarellas expostas ou 
lêem a ingenuidade bronca que revela o es- 
tudante tímido e sem regras, ou são bocados 
magníficos onde o nome do alumno parece 
apenas o pseudonymo do pincel do profes- 
sor. A surpreza é por consequência enorme 
e dolorosa quando uma observação demo- 
rada, por mais que faça, não consegue des- 
cobrir atravez d'aquelle montão de provas, 
nos seus successivos planos de desenvolvi- 
mento, o crescendo de progressos feito por 
duas ou Ires gerações d'alumnos que venliam 



os GATOS 27 

seguindo, umas atraz d'outras. uma dada es- 
pecialidade industrial, parecendo que essa 
marcha gradual não exista nas escolas, e 
tudo se reduza a uma apparente engrolação 
do publico pacovio. Esta surpreza inda mais 
se incende e desespera notando que lia 
alumnos d'escolas industriaes a expor ha 
trez annos as mesmas provas, e que o gosto 
de certos modelos, sem duvida objectos 
d'escolha dos professores, permanece bár- 
baro e chato eternamente, escolhido a esmo 
e sem a indispensável convergência a uma 
tentativa d"estylo visando a originalisar, a 
dar caracter de região, aos futuros productos 
artísticos das industrias nacionaes. Esta ori- 
ginahsação, nacionalisação ou como lhe quei- 
ram chamar, seria o papel de prova d'um 
inspector írés comme il faut, a sua inter- 
ferência d'espirito superior na marcha do 
ensino, e subentende-se por consequência 
que semelhante cargo só possa ser exercido 
por indivíduos d'educação artística requin- 
tada, superiormente cuhos, escravisados por 
Índole á paixão d'arte, e absolutamente fora 
portanto dos moldes amanuensaes com ^\ue 
o sr. Luciano Cordeiro, ou lá quem é, espar- 



28 OS GATOS 

lilha a vacuidade do seu caco e a merceei- 
rice ridicula do seu gosto. 

As razões pelas quaes nove annos d'en- 
sino industrial não lograram ainda a mais 
pequena ingerência esthetica na industria, 
devem-se pois tirar do que atraz deixei es- 
bridado a curtos golpes — venho a dizer que 
não ha cordão umbilical ligando a escola á 
officina, nem poderá haver tão cedo, porque 
o operário massado, fica a meio caminho 
dos cursos, porque as reformas absoluta- 
mente idiotas dos últimos ministros ankylo- 
saram a acção civilisadora da escola sobre 
a industria, porque o professorado, muito, 
é incompetente, e mesmo desleixado, e emfim 
porque a inspectoria. . só á gargalhada. 
Ignoro se os directores das escolas industriaes, 
os dedicados, algo teem feito para contra- 
balançar, na esfera de sua influencia, es- 
tes entraves deploráveis. Na escola Marquez 
de Pombal sei eu que o sr. Marques Leitão 
tenha estabelecido aos aprendizes de certas 
officinas, uma pequena diária, para os li- 
xar á frequência escolar, vencendo assim a 
cupidez ou miséria das íamilias que logo 
cedo querem fazer dinheiro com o trabalho 



os GATOS 29 

das creanças. O mesmo ultima a coiistruc- 
ção dos hangares annexos ao edifício da 
escola, para onde serão trespassadas certas 
officinas que asphixiavam em cacifros sem 
capacidade para abrigar sequer os pouquís- 
simos alumnos que lá iam. N'esla escola 
professam professores da melhor capacida- 
de, como o sr. Cezar lanz, homem laborio- 
so e assiduo aos seus deveres, e o sr. For- 
milli, artista de raça, cuja influencia seria 
decisiva se a assiduidade lhe fosse na pro- 
porção dos créditos de que goza, e se qui- 
zesse fechar ouvidos ás machinações da 
mediocridade indígena que uma ou outra vêz 
descóca a pedir «a nacionalisacão do ensi- 
no», isto é a expulsão do elemento estran- 
geiro que lhe faz sombra, e onde o ensino 
conta ainda assim alguns dos seus subsí- 
dios professoraes de certa robustez. 

Tam pouco, por culpa das inspectorias, 
se tem procurado aquecer certos núcleos 
de talento benehco surgidos na plena bana- 
lidade do professorado «anonymo" do en- 
sino industrial. Guiada por um critério d'ar- 
tista inteligente, lembrára-se a Sr.^ D. 
Maria Bordallo, a quando professora das 



30 OS GATOS 

rendeiras de Peniche, d'expiirgardaalmofada 
das suas alumnas lodos os desenhos inca- 
racterislicos, defeituosos, tortos e idiotas 
que a ignorância, o desleixo e a desorien- 
tação secular d'aquella industria portugue- 
za decadente, pouco a pouco tinham intro- 
duzido no fabrico, substituindo-cs ^^or pi- 
ques organisados sobre correctos desenhos 
da sua composição, esta subordinada ao 
aproveitamento de velhos motivos nacionaes 
decorativos, desde os peixes, as conchas, os 
varechs e a«i algas costeiras da região, até 
aos arabescados tão idealmente volitanles 
do Convento de Thomar, dos Jeronymos e 
da Batalha, e ás vermicellas, grinaldas e 
chicoreasdo Luiz XIV freiratico e excessivo 
que é costume nominar d'estylo D. João V. 
Era uma tentativa de naturalisação da ren- 
da nova aos infinitamente simples da natu- 
reza pátria das rendeiras, e ao tradiccional 
tão subhmemente afixado nas architecturas 
gloriosas da grande epocha: as duas únicas 
memorias capazes de fazer vibrar a alma 
portugueza, assegurando caracteres de na- 
ção a essa industria que sem elles facilmen- 
te pareceria imitada das similares de Bru- 



os GATOS 31 

xellaS; Hesp>anha ou França, conforme a fi- 
nura da teia e o estylo do canevas impresso 
no pique. Emquanto isto fazia, [)rocurava a 
Sr/ D. Maria Bordallo afeiçoar os bilros 
das suas discipulas á confecção das rendas 
finas, espumosas e leves como as de Bru- 
xellas, com linhas de diametr® impercepli- 
vel, que por signal então se não fabricavam 
no paiz, conseguindo assim um núcleo de 
rendeiras cujo trabalho logo á primeira ex- 
posição captou a estima, pelo que deixava 
aperceber d'uma direcção mirando os fins 
mais elevados. Por uma fortuidade qual- 
quer, nada para o caso, foi a illustre senhora 
forçada a deixar a escola, e aquelle núcleo 
d'esforço que bastaria desenvolver no seu 
sentido primevo para talvez dentro de pou- 
co vermos no mercado europeu e america- 
no as rendas de Peniche, rivaesdasdeBru- 
xellas na trama e apar d'isto inconfudi- 
velmente portuguezas no modelo, aquelle 
núcleo desdenharam-no por estupidez con- 
génita, a successora, e por ignorância ou apa- 
thia o encortiçado inspector que então gras- 
sava nas escolas industriaes dacircumscri- 
pção sul. O resultado é a actual exposição 



32 OS GATOS 

de rendas de Peniche, feita sobre modelos 
da Moda lUustrada ou quer que o valha, e 
contrastando a todos os respeitos com a 
soberba prova que ainda ha pouco mezes 
deram as novas discipulas da Sr.* D. Maria 
Bordallo na exposição do armazém Barrei- 
ra, que todos viram. 



FIALHO D'ALMEIDA 



OS C3-_A,TOS 

INQUÉRITO Â VIDA POílTUGUfZA 



No niiiiiero anterior, írizando as iililida- 
des deinunstialivas da exposição dos Jcro- 
iiyiiios, alviíiáuios que ella se leria organi- 
sado provável e prineipalmenle p'ra dois 
fins: iíiosliMr a acção de nove annos d"en- 
sino industrial sobre as indusliias, eesludar 
a iníluencia da pauía sol ire os progressos 
industriaes de seis inezes de proieccionismo 
rigoioso. Deixámos já n'a(|uelle [uimero es- 
nierilliado o primeiro ponlo. mostrando não 
liaver o ensino indusliial em nove annos 
produzido a menor intluencia iicnelica so- 
bre as industrias poiluguezas, mercê da 
anaichia dos programmas, da deficiência 
dos mestres e da falta d'appli('aeão dos es- 



2 rsS GATOS 

colares. Estudaremos agora um pouco al- 
gumas exposições parciaesdindustriaspor- 
tuguezas, aíim d'inquirir o caminho que ella? 
seguem, e do como valha a pena prote- 
gel-as ou deixal-as. 

Quem alíentamente percorra as galerias 
dos Jeronymos íacilmenie apercebe d'eníre 
os artefactos patentes (juacs osquesãopro- 
duclos únicos do curioso armado, para o 
caso, em industrial, e quaes os que sejam 
rcprezentanfes de géneros cí)mmerciaes ven- 
dareis, d°oude o prodncfor (irou a esmo um 
exemplar para amostra ou typo de fabrico. 

Claro (pie no primeiro caso a industria 
não existe, e o objecto exposto, frncto da 
haiiilidosidade d'um operário ou pequena 
oíBcina sem producção, por forma alguma 
de\e reprezentar apeilo altendivel ao pro- 
teccionismo da pauta, que augmentando os 
direitos d'entrada para os artigos similares 
do estrangeiro, lesa por esse facto o consu- 
midor, sem dar fomento a industria que se 
veja. E claríssimo também ({ue no segundo 
a vida da industria só poderá ser apreciada 
com lucidez e assomos de justiça, rjuando 
ao exame lecimico do artefacto nas suas 



os Gatos 3 

qualidades de maleria )3rima o de mão 
d'ohra, se ajunlar o computo da producção 
aiinual, o numero de operários c macliinas 
cm acção, e lambem principalmente as con- 
dicções de preço, deduzidas do custo do 
fabrico annexando-se-llie um premio de 
trabalho equitativo. Ora na galeria dos Je- 
ronymos as exposições de números únicos 
abundam, e perante ellas, a seis mezes 
apenas de pauta, o espectador não pode 
descernir se laes ol)iectos são apenas ca- 
prichos de curioso querendo mostrar que 
cá tombem se faz, se mais do que isso, len- 
tamens receosos d'industrias creadas sob 
propósito de pouco a pouco se irem desen- 
volvendo em escala commercial. Por conse- 
quência a exposição não consegue provar 
n'este ponto a(piillo que pretende, e por ex- 
cessivamente têmpora apenas stereotypa uma 
exhibição de vaidade burocrática dando ca- 
ça a portarias de louvor. 

Como os jornaes reclamam que tudo 
aquillo se lez sem mói' acréscimo de des- 
peza, deixe-se passar ovante o dr. Tcllo, 
director da industria, sem agravar com isso 
as responsabilidades que lhe inpendam de 



4 OS GATOS 

saber lanlo dlndiistria. romo nós sabemos 
de rhinez, <^ sem regatear lambem o (jue de 
louvável haja n'um esforço, (fiie embora fi- 
liado f'm inslinríos d'imilação Inconsciente, 
comtndo algum proveito traz sem{3re, agua- 
do embora, para a vida económica do paiz. 
A eN posição lem como disse um fundo 
de pacotilha corriqueiro, já de resto conhe- 
cido ('in iodas as nossas exposições indiiS- 
triaes. mas ipie (Testa vèz surge d'um su- 
bsolo suspeito, pedindo previlegios (pie 
foi lastimável dar anies de se saber o que 
os prodiictovp^ intentam íazer d'elles. Escla- 
recerei com alguns casos saccados entre os 
profusos de que está cheia a galeria. Toda 
a gente se recorda de vêr pelos armazéns 
de n)oveis um ivpo de cadeira-lamborete, 
costas e assento d(^ cabedal envernisado 
d'escm'o, pregaria de lalão sem cinzeluras. 
e traballio nos paus ru<iimentarmente com- 
posto (Talgumas voltas de toi'no e um ligei- 
ro meio-tlerão no coroamento do espaldar. 
Este objecto sem valor artistico. mas no en - 
tanto agradável á vista, e mesmo elegante 
e fino para o preço, era um dos diversos 
que a marcenaria franctza popular cá nos 



os GATOS .S 

mandava, lillio dinduslrias a bem dizer só 
exercidas para liiocinio d'a{)rendizcs ou 
Dieslrcs marceneiros de íraea < nvergadura. 
Os coiros eram uma simples gravura a 
íogo. ou estampagem obtida pela baiedura 
da pellc bumedeeida sobie os escavados e 
os cbeios d"um modelo. A madcini. b!'am!a 
do fibra, laia, eucalipliis ou ({ludípicr oulra 
barata e íacil de l;dbar, peiíiiilfia ao arlili- 
ce mais leigo, por meio de tornos aperfei- 
çoados, uma produceào diária rápida e abun- 
dante, poi- íorma que o ol»jeclo, l>aralo nas 
suas matérias primas contbienles, bnralo 
na nicão d'obra, eliegav;; ao coiísumidor de 
Lisboa por duas libras, Ires libras o máxi- 
mo, tendo sabido das olVicinas írancezns 
por cinco ou seis mil réis a rebentar. A no- 
va pauta, tendo em vista nacionalisar a in- 
dustria das cadeiras-lamboretes. íecliou a 
importarão íranceza correspondente, sem 
indagar se no paiz baveria as industrias 
iiuxiliares, as matérias primas e o expe- 
diente do producção ollicinal capazes de 
prover ás necessidades do consumo, em 
condições de preço e pcrleição justilica- 
doras do proteccionismo que Ibe pedia o 



os GATOS 

fabricante. Ora, cslá na galeria dos Jerony- 
mos uma cadeira tamborete, f ibrico nacio- 
nal, de modelo franccz, e não passando, já 
se vê, duma servil imilação. 

Madeira, coiros, pregaria, formato, soli- 
dez, trabalho de marceneiro e estampador, 
ludo é singelo, corrente, corriqueiro, e 
aquillo pouco mais valerá que cinco ou s; is 
mil réis. Pois querem saber quanto pede o 
expositor por este mimo da industria nacio- 
nal protegida a sete chaves? Trin/a e seis 
mil réis, ou uma guarnição de casa de jan- 
tar, áozQ cadeiras, 432^000 réis, preço 
duma mobilia arlistica de pau santo! Gomo 
tudo neste mundo é consequência do facto 
anterior, e causa do posterior, fomos d'alli 
consultar um iniciado no critério philoso- 
phico da pauta, que nos explicou a exorbi- 
tância do custo, n'estes teimos «não vê vo- 
cê que em Portugal não ha por emquanto a 
industria dos coiros trabalhados, por forma 
que para estas cadeiras é preciso estampar 
ou gravar os coiros expressamente, procu- 
rando curtidor que nas horas de maré se 
preste a tal serviço; porque elles, coitados, 
teem mais que fazer. . Estampados os 



os (ÍAKtS 7 

foiíos, temos as inadeiías, carissinias, por- 
(jue a verdade é nós não (ermos madei- 
ras por em(|iianto. . . Sanadas porem es- 
tas duas diííiculdades, o resto é bagatel- 
la; ainda (jue. fazendo os nossos marcenei- 
ros por dia apenas a falha d'nma cadeira, 
só para elles é necessaiio dednzir do pre- 
ço, entre (juinze tostões e dois mil réis. 
Por({iie meu amigo, é triste dizei- o, masa(|iii 
para nós, o pai? não tem por ('m(|nanío mar- 
ceneiros. . . 

— lJir-me-í)a n'esse caso o (pie Ivm por 
eniípianfo o paiz, alem d'iima relinadis- 
bima estupidez. Para lazer uín t;unboiete é 
necessário coiros: não ha coiros. Necessá- 
rio irtadeii'as: não ha madeiras. (Ipcraiios: 
não lia (i()erarios! O (pie prolege pois a 
paula n"esfe ramo? Simplesmente a dimi- 
nuição dos direitos alfandegários, e a cupi- 
<lez de meia dúzia de mariolas (pie sob o 
nome de fabricantes (piei em fazer da \v'i 
uma capa de ladrões. 

Acode o meu interlocutor: 

— Ha injiisti(;a. Pedir trinta e seis mil 
réis por uma cadeira de seis mil, não me 
parece revele inslinctos galunaes; ó antes 



8 OS GATOS 

uma maneira diplomalica cie dizer (jiie se 
não quer produzir Irastes d'aquelles. Palie- 
mos frio. O marceneiro pordigiiez é em ge- 
ral filho dum pae que toda a vida passou 
sem diluir os miolos na ideação de novida- 
d(!S. Então acha deshonesto rene^^ar. a me- 
moria dos seus, engerócando outra coisa 
que não seja canapés de palhinha e bancas 
de pé de gallo. 

— Mas sendo esse industrial dos que 
mais se esfalfaram a pedir protecção para as 
industrias, é que tencionava fazer da cadei- 
ra exposta o debute d'uma industria pro- 
gressiva. 

— Qual industria, senhor! Foi uma te- 
lha. Evolutir de cadeiras, para que! se evo- 
lução de Irazeiros é coiza que não ha nes- 
te paiz? 

— Olhe que lhe esqueceu o «por em- 
quanto. • 

— Ainda se o consumidor mordesse, 
pagando o artefacto pela exorbitância das 
oito libras marcadas na tabeliã, lá podia o 
desvanecimento do artifice condescender a 
reproduzil-o em series commerciaes. Mas 
por desfnícte; que elle, interesseiro, não é. 



os GATOS 9 

Como não morde, embucha, o pobre diabo, 
e assim o proleccionisino da paiila e o gra- 
dual abandono da industria protegida, sup- 
primindo pela .ausência do objecto, a neces- 
sidade social (|ue llie corresponde, determi- 
nam uma acção simplifica nle, salvoseja be- 
netica para o liomem, visto regiessarem-no ás 
edades em que elle, por só se sentar no chão, 
havia um calo approxiinadamenle no si- 
tio . 

— Em (]ue o simplicador devia ter uma 
bomba de pataco. 

Eis ahi o espirito industrial de muitos 
avocadores da nacionalisação do trabalho 
pelo desterro da concorrência estrangeira 
— da concorrência que em muitos casos, 
longe d'invalidai'-lhe o futuro, o estimulava, 
ao contrario, pertilando-se-lhe cá direita co- 
mo um emulo. Não vender nem deixar ven- 
der, tal é o Icmma, tjue já seria perverso 
se peor não houvera no geniceu das indus- 
trias nacionaes. 



Toda a gente maior de vinte annos pos- 
suiu ou possue ainda um d'aquelles guar- 



10 os GATns 

da-cliiivas inglezes ou íraiicezos, de bengala 
fina e solida como ("erro. sem pezn quazi, 
direita n'uma ponteira daço cónica e polida, 
com seu castão de marfim, maçanela ou 
cajado plaqneado de metal: e de varetas 
finas, solidamcnle engrenadas, ílexiveis e 
prendendo uma seda de negro azul mais 
leve do que o ar. Este engenhoso instru- 
mento que fechado e enrolado não faria 
volume maior do que o duma bengala de 
passeio, possuia a extiaordinaria virtude 
de passar de familia a família, inalleravol, 
sem descoser nem se lhe quebrarem as va- 
reías, nem se lhe picar a seda nos vincos, 
nem chuva ou sol lhe comerem a côr ao cabo 
d í três ou quatro annos d^exercicio. Custaria 
quando muito de quatro mil e quinhentos 
a cinco mil réis, posto em Lisboa, e o seu 
serviço d umbella e l)engala — conforme se 
trazia aberto ou enrolado -constiluia-o n'uma 
espécie de companheiro inseparável, d*amigo 
quotidiano, doce de trazer pela rua, sem o 
menor enfado do dono, com todas as modas, 
Iodas as estações, estados d'espirilo e tons 
de vestuário — representante ligitimo duma 
industria seria, elegante, honrada, inalte- 



os GATOS H 

ravel, que desappareceu na onda d'explo- 
ração galuna com que modernnmente o 
induslrial dá caça ao dinheiro do comprador. 
Pouco a pouco, á medida que o fabrico de 
guarda-cliuvas adquiriu enire nós foros de 
nação, esle maiavillioso iraste começou a 
fugir sublilmentc das lojas, a rarear nas mãos 
dos íranseunles, a (juadruplicar de preço, 
e a ser desviado da circulação emfim pelo 
fabricnnie alacinha proposiíando auferir 
co"as suas imilações, ganhos mais pingues. 
A industria em grande dos ,1'uarda-chuvas 
de seda segm-amenle conia em Porlugal 
quinze annos de cuHura, e «piem comparar 
algum dos seus primeins exem[)lares com 
os que modernamenie sahem das oííicinas 
porluguezas, fácil reconhece que ao passo 
que o preço augmcnia, a solidez e perfeição 
do fabiico não (em fcilo senão retroceder. 

Tome-se pai"a lermo d'exame um guar- 
da-chuva de libra, fabrico nacional, dos (pie 
a Rua Nova do Almada opiparamente clas- 
sifica, (k primeira. 

Supponha-se um dia de chuva em grossas 
bátegas, rajada pelo vento encanado por uma 
rua de prédios allos, Íngreme, e de quinze 



12 OS GATOS 

cm quinze melros corlada de travessas. Veiu 
uma pessoa cora o guarda-chuvasiiiho aberto 
á saliida da loja, catita, em folha, sentindo 
um prazer em ouvir tamborilar a ciiuva sobre 
o grão da seda nova, cantante e reteza nas 
suas doze varetas de metal. Momentos de- 
pois, ao estender a mão para aperiar a d'um 
amigo, algumas gottas da bátega humedece- 
ram-na, e como é a mão (|ue segura o guar- 
da-chuva, d\ú começa o castão (reste a des~ 
tingir uma cola pegajosa e languinhenta^ 
<]ue arrasta a pintura comsigo, e fica nas 
mãos em nodas d'ocre, e inicia a derrocada 
enfim do famoso traste adquirido a preços 
de ricaço. E' a primeira desillusão sobre a 
autonomia da industria nacional, triumplia- 
dora —operários que envernisam com gom- 
ma arábica os castões dos guarda-chuvas 
— mas a contrariedade, remediavel, e com 
pequeno dispêndio o traste voltará a ser 
uma perfeição. Vae, n'isto cogitando, á volta 
do Pote das Almas, uma barba-clioca al)al- 
rôa-nos, e em uivos de possessa desata con- 
tra nós aqui del-rei. Reboliço medonho, um 
formigueiro de povo, cotovelão, policias: é a 
velha com u:!i olho vasado, e esse olho pinga 



os GATOS 13 

d'uina lias vajelas do nosso guaida-eliuva, 
tal como uíii-buriié na ponta d'uiri palito! 
Camiidio do governo civil examinamos então, 
varados (resliipor. suceessivamente as doze 
varetas uma a uma. Ha qualro (|ue reben- 
taram logo da circumíerencia do panno, e 
que resalieíu zagunclsanles. como ouiros 
tantos lira-ollios; quanto ás outras oito, le- 
varão caminho idêntico, porque íoram liga- 
das á pressa, com linlia podre, e o mesmo 
succede á seda. cujas costuras, alinhavadas 
apenas, franjam o tecido, deixando ver pelos 
buracos o ceu a íazer manguitos pai-a as lin- 
dezas da industria nacional. 

Noite no cagarrão. sinistra, obssedados 
pela recordação da voz da barba-choca, com- 
nosco ás turras em que lhe havemos de pa- 
gar o olho dameixa, por um novo — e em 
ponto granoe. Causa de tudo a(juillo, o guar- 
da-chuva ouve a conversa, aberto :i seccar 
n'um canio do calabouço infecto em que 
jazemos. Reconhecer nx'ssc cangalho ignóbil, 
o faful da véspera, coiza impossível, tanto o 
castão sem vernis, as varetas a esmo no 
panno deslinjido da agua, a bengala inchada 
e torta para um lado, o ar pandilha e gingão 



li os GATOS 

de fadista cocho, desnalurisam o formato e o 
destino d'esse objecto arlislico talhado para 
companheiro d'um homem comme il faut. 

Apen-is, fiança prestada, nos restituem 
o hvre curso das pernas e dos braços, so- 
braçamos d'um pincho o giiarda-chuva in- 
vahdo, e em dez uTuiutos eis-nos caliidos no 
patife do bengalcií^o que nol-o vendeu. 

— Ollie praislo, seu pulha, ejusti(i([ue-se. 

— Ah, o guar(hi-chu\a de honiiMii. Houve 
grossa invernia lá por casa , . São vinte e 
cinco tostões a mais pelo concerto. 

A indignação da libra perdida substi- 
tuc-nos a pahivra por uma espécie de cacarejo 
phonelico d onde se vêem sahar chuveiros 
de perdigotos. 

O homem, branco. O guai'da-chuva entre- 
nós coíDO um abysmo. 

Até que afinal o constricto da raiva faz- 
nos rebentar da bocca coizas feias. E' 
um começo de volta á lucidez. E agarramos 
no homensinho por um braço. — Uepare 
n'csle castão que você mo impingiu por ma- 
deira preciosa. E' cerejeira Lirunida com o 
verniz das suas almorrodias. Agora siga pela 
bengala fora, até á ponteira. Ande! 



t>S GA'lí.>S i5 

— Sinto eslar loila. diz com iiiii jíeslo de 
pezames o méco, alapardando-se. 

— Torla como você. n'um arco, quando 
DOS qaer tirar uma libra da algibeira. 

— O cavalheiro. . . 

— -Agora o panno. E isto seda, é isto 
tinturaria, é isto commercio? E as linhas 
podres, e as varetas partidas 

— Também [jara que havia do cavalheiro 
cxpór o guarda-chuva assim a cargas d'agua? 

— Oh animal, pois diga- me o destino so- 
cial dum guarda-chuva . . . 

— Ser, quando chove, um guarda sol. 
Nem d'outro modo se com prebende a pro- 
tecçãu a esta industria nacional. Pois o ca- 
valheiro queria que ao íim de ijuinze annos 
d*experiencias o fabricante porlugucz desse 
um artefacto indifferente á agressão das in- 
tempéries, n'uma epocha cm que a sensi- 
bilidade é tudo em obra d arte? 

— Mas em ultima analyse: para que de- 
inonio serve ao compi-ador i:m traste d'esles? 
A chuva entorta, ao vento (piebra, ao sol 
dcstinge 

— E coiza miraculosa! sem deixar de ser 
por isso uma fonte de riqueza nacional 



1í'' os GATOS 

— Para o productor. Mas para o com- 
prador? 

— Ambos Icem a ganhar co's artefactos 
de fraca duração. O productor por causa 
das vendas, o consumidor por causa das 
ínodas; e a circulação do dinheiro é o alcance 
final de todas estas intrujices. 

— O grandecissimo ladrão sae-se philo- 
sopho. Parece o Marçal Pacheco a defender 
os bonds Hersent. 

— Diga também um [jouco hygienista. 
DesVjue se perca a confiança em ai^azalhos, 
menos se sahirá á rua em tempo mau, o que 
pelo meno^ evita uma pessoa constipa r-se. 
E cavalheiro, os defluxos são na pathogenia 
das doenças agudas o que é o credito em 
todas as desinvnluções de bancarota, uma 
causa occasional que conduz á morte. 

— Creditado em mais dois pontapés pela 
consulta. 

— Uma palavrinha: vae os vinte e cinco 
tostões pelo concerto? 

— Que remédio! se a missão da indus- 
tria nacional é depennar-nos . . Entanto, 
por precaução a incautos, não seria supér- 
fluo escrever por cima d'algumas d'essasga- 



os GATOS 17 

lerias de productos indígenas, pegados com 
cuspo, e armando á escamoteação do freguez 
cynicamente, aquelie obsceno verso com que 
já Bocag*^ diademára a industria nacional 
do preto Ri liei ro 

«Industria de mostrar, não de. . ■> 

dizem o resto no Curso Superior de Lettras 
a Ioda a pessoa que se aprezentar munida 
d'atleslado. 



Não se julgue porem o auctor d'estas notas 
cancerado de pessimismos ao ponto denegar 
os definitivos successos de muilos ramos do 
trabalho portuguez. Em bastas industrias o 
progresso é evidenie, e o escrúpulo do fa- 
brico revela-se já na abundância da procura 
e volimtaria convergência da sympathia pu- 
blica a esses productos do typo forlc, liom- 
breando com o estrangeiro de cabeça alta, 
empenhados em bem servir (piem se lhe 
achegue. Eslãon'estecaso grande numero de 
fabricas de productos metallicos, fundições de 
ferro e bronze, como a Promittente que pro- 
duz machinas, como a Xavier C.Milho, que 



18 OS GATUS 

pruduz aliai;» agrícola,, como a Ferreira ácC* 
que produz candieiros e suspensões, como 
a Frederico Collares, Tliiago António da 
Silva, Marcello G.^ Silva, Progresso Indus- 
trial e Empreza Indusírial Lisbonense. 

Aqui não ha já o caipirismo do productor 
armando á ingenuidade lorpa do publico, 
expondo o que não produz, occullando os 
meios do como vive. No seu caminho anda-se 
á vonlade, vê-se pular a mão d'obra, e o 
industrial estimulado pela rivalidade dos 
collcgas empenhar-sc n'uma incessante ba- 
talha d'aperl*eiçoamenlo. quanto ao objecto e 
quanto ao preço —o mais seguro penhor para 
uma induslria attingir a edadeadulla e cons- 
tituir uma honesta via de riqueza. 

Estão n'este caso lambem algumas fabricas 
de vidros, cerâmica, íayança, mobilias, algo- 
dões, jutas, lanifícios, papeis pintados, arti- 
gos de camisaria. calçado, encadernações, 
e diversos artefactos de pesca, construcção 
naval, selleiro c correeiro. Não é todavia dizer 
que tenha sido tão ovante o jirogresso que a 
ullima palavra esteja dita na impeccabilidade 
fabril d'estes differenles ramos de trabalho. 
De modo alguuj. Especialmente no segundo 



os GATOS 19 

grupo cl*industnas ha melancholicas nótulas 
a pôr sobre o avafiço um pouco descoor- 
dtnado em que vão indo. Accenlua-se 
a falia d'in(uito commercial na maneira por- 
que são feiías mailas d'aquellas exposições 
parciaes, pois em quazi (odas íaltatn os 
preços, e os objcclos andam a esmo, desse- 
riados d'uma ordem regular que os exhiba 
por escala d"usos práticos, e ascenso de 
preços proporcional ás difliculdadcs do fa- 
brico Esta classificação razonada, não seria 
suporflun. como cuidam, porque serviria ao 
publico de menemonica para fixar coizas 
que clle d*outro modo es([uecc apenas volte 
cosias ao producto. Também é descurado o 
pictoresco, não sob o ponto de vista da ri- 
queza (Vinvolucros, mas nestoutro mais mo- 
derno do conjup.cto d accessorios que possam 
dar á exposição parcial, valor eslafislico, 
archilectonico, ou quahpier ouiro reprezen- 
talivo da complexidade social da industria 
exposla. Raríssimos induslriaes etíectiva- 
mer.tc se lembraram de collocar a par dos 
productos da sua fabrica, a pbotograpliia 
d'csla, com as officinas, as machinas. o gru- 
po d'operarios, e nas cosias do cartão de 



20 OS GATOS 

visita da casa, em quatro linhas, a historia 
(ia fabrica desde a fundação, mencionando 
os principaes productos fabricados, o numero 
doperarios, a quantidade de Irabalho an- 
nual, a media das jornas, o numero de 
horas vahdas diárias, a estatistica da assi- 
duidade e frequência á officina, e todos os 
demais pormenores servindo emfim para a 
historia da industria nas suas relações com 
o proletário e o fabricante, sem esquecer as 
escolas appensas á officina, os montepios, 
as caixas daposentação e sociedades de re- 
creio, no caso de as haver. A utilidade 
d "uma revista d"induslrias assim feita salta 
á intuição sem mais preparo; só d'esta for- 
nia estatistica é que uma exposição é o in- 
ventario do trabalho d'um povo, e só assim 
ella conseguirá fazer de cada visitante um 
crente e um patriota. A occullação dos pre- 
ços importará a suspeita d'uma producção 
irregular e intermittente, executada confor 
me a offerta e a lorpice ou esperteza do 
comprador, por contracto ao ouvido — o que 
é mais que bastante para denunciar uma 
industria sem confiança em si, e exploração 
em vez de commeicio licito. E' o caso de 



os GATOS 2{ 

muitas das fabricas (Je laniíicios. (|iie pro- 
duzem dimilação. cnlaladas para viver nos 
galíarros dos mercadores e nllaiates, o cu- 
jo labor precisa se deslutelc das ladroeiras 
d'estes intermediários parasitas (jue se en- 
riíjuecem a roubar descaradamente o pu- 
blico sem (|ue ninguém Ibes venlia á mão 
por laes finezas. Por certo conbecem a his- 
toria da acção coercitiva d'esles pulhas, e 
apenas lha lembrarei como incidente. A 
maior parle das fabricas de lanificios não 
possue em Lisboa armazéns de venda a re- 
talho onde o consumidor adíjuira o artefacto 
ao preço da fabrica, o que faria descer o 
custo do vestuário a metade quasi do <[ue 
elle representa actualmente. A industria de 
laiVificios que entre nós progrediu nos últi- 
mos annos a grandes passos, pre< isou para 
viver, ao iniciar-se em grande, de se enfeu- 
dar por completo á maçonaria dos merca- 
dores e alfaiates, os quaes, reconhecendo- 
se indispensáveis, abusaram do produclor. 
como é costume, policiando com olheiros 
seus todas as portas por onde a industria 
podes^e ler com o publico relações directas 
e leaes. Chegada a hora da emancipação, 



-22 OS GATOS 

isto é, quando a arle íle tecer e tingir indele- 
velmente os eslofos de lã tocara a meta de 
podtT viver sobre si, mostrando productos 
originais de valiosa e solida envergatura, o 
mercador que desde muito a trazia escravi- 
sada, -em vez de pa('tuar com cila um lucro 
honesto, do que tratou foi d'aproveilar-llie 
o trabidlio para um seiviço de falsificação 
de fazendas estrangeiras, das que a moda 
vulgarisa, e p;.ra toda a gente consliluem, 
com o ( xliibicionismo de hoje, uma necessi- 
dade inadiável superior talvez á de comer. 
N'esta conformidade a pauta que por um 
lado dava auxiho aos fabricantes de lanifí- 
cios. livrando- os da concorrência dos grandes 
centros productores, por outro ainda mais 
os metia entre mfios do mercador e do al- 
faiate, que á sondjra d"ella continuaram a 
impingir casimiras francczas, cheviotes in- 
glezes, flanellis alleuiãs, feitas todas em Al- 
cântara, Arroios, Campe Grande, Arrentcl- 
la, Alemquer e Covilhã, esobre cujo exclusivo 
o intermediário exerce direito de senhor, 
fdhando-as a módico custo, para as resti- 
tuir depois ao consumo pelo preço das es- 
trangeiras, agravado dos exorbitantes direi- 



os GATOS %i 

los da paulH piuleccioiíista. Todos possuí- 
mos algum par d"essas ostenlosas calças em 
locido de mallia ou enlrançado diagínial, 
muito coneclo, com seu fio de seda reluzin- 
do, e padrões salpimentando-se copurclji- 
(ju)uienle de ties cores discrelas, em que 
dominam o cinzento, o castanho ou o rubro 
atijolado. Custa de seis ale nove mil réis. 
conforme a reputação e os ares do alfaiate. 
Se pretendendo minar a sutil trama do 
estofo e filiação industrial em paralello 
com a faroíia gallica ou lirilannica (|iie nos 
bortoeja da tolice, olhamos o bilhclinlio do 
corte, por inquirir a que terra d'alem Pyre- 
neus daremos a honra de nos vestir as tí- 
bias da girafa, logo anlecipando-se, m-.-stre- 
ras-^a nol o fará reler collado cá ponta da 
fazenda, em inglez ou em francez, com a 
marca da alfandega e a factura até subscri- 
pta pelo gerente da fabrica estrangeira d on- 
de veio. Nada j)or consequência mats au- 
tenticamente inglez ou francez do que este 
trajjo, que entretanto nasceu a 1 'gua e meia 
de Lisboa, n'um tear d'Arrentella, entre os 
dedos d um tecelão de melenas o bocca de 
sino, que o imitou á vista da amostra es- 



Vi os GATOS 

trangeira remellida pelo mercador ao geren- 
te da fabrica, com um pedido certo de cor- 
tes, a ti"es mil réis por cada, e proliibição 
formal da fnbrica vender ao publico, o quo 
transgredido imporlaria uma quebra formal 
de relações. — Mas, dirá o leilor, e o bilhe- 
tinho? a marca da Alfandeiía? a factura da 
fabrica eslranwira asslí^nada o rubricada? 
Vy ludo tcão verdadeiro como o cheviolc ou 
a cazimira, e com a vantagem de durar ao 
sol muito mais tempo. 

Eu tive este inverno um falo (também os 
lenho, e pela durnção forçada, ficam histó- 
ricos, o que pelo menos n'islo se approxi- 
ma a minha vida, da d'el-rei D. ,íoão VI) 
d'um tecido avellã, rijo de tom, grave, en- 
corpado, e que o alfaiate a muito custo ce- 
deu, por ser para mim, á razão de vinte e 
ci;:co mil réis, farpella inteira, com juras, já 
se vê. de ser francez o estofo precioso, 
d'uma fabrica que já não fazia mais, e cuja 
factura me mostrou com sellos e carimbos. 
Ha quatro dia^, parando na secção delani- 
ficios deante da montra Alçada & C* Mou- 
saco, da Covilhã, com surpreza se me de- 
para a cazimira estrangeira do meu falo, a 



os GATOS 25 

lies mil réis por melro, da uual pedi amos- 
tra, verificando enlão serem a porlngueza c 
a IVanceza exackiínenle a mesma coisa. Oia 
como Ires melros de cazimira vestem mn 
liomem, ajnnkmdo aos nove mil reis do pan- 
110, seis mil a mais para feitio e aviamentos, 
recapilula-se (pie o meu falo avellã deveria 
custar ípiinze mil réis o máximo, e cpie o 
alfaiate porlanio colara na differença entre 
^inle cinco mil, e (juinze mil, a miniia igno- 
rância das suas prendas de descai-adissimo 
gatuno dislarçado em ralé de mercador. Es- 
te roubo não imaginem constitua um caso 
extraordinário: é (pioíidiano na rua Augus- 
ta, desde o Rocio ate ao Arco; sobe depois 
a rua do Ouro. emporcnlha as lojas e arma- 
zéns das travessas jacentes — depois do que 
liépa ao Cbiado, para seguidamente alaslrar- 
se por lodos os bairros onde não é costume 
por oia andar em fralda. O con>umidor in- 
feliz se alguma vez cuidar de reagir contra 
essa cáfila de biltres, mais reincidentes no 
crime ((uanlo mais completa a certeza de 
cpie a judiciai-ia só se encoraja a montear 
ladrões sem domicilio, perplexo St- adiará 
sobre a eííicacia dos meios de defender-se; 



2í» OS <iAT()S 

0(1 iPÍFitegrar os ;ilfaiates no spulinu nto da 
honra, pelo cão, ou só ir escolher íazen.las 
armado de dois peritos, e um Irabuco — para 
desempale. Perscrutarão depois qual o nio- 
livo porque, accusadas de cumplicidade n'es- 
les roubos de tantos milhares de contos, as 
fabricas de lanifícios não protestam contra 
elles distribuindo profusamente os seus ca- 
íalogos de preços e amostras annuaes, abrin- 
do venda a retaliio nos principaes centros 
de consumo, e regulando finalmente o preço 
lia ahaialaria com a estabelecida (foíficinas 
lie corte por sua conta? ííonestamente só se 
pode explicar por indolência, jamais pelos 
desfalques que uma liga de iiiCicn<!ons e 
ídfaiates lhes poderiam mover, sustando- lhes 
a clienlella. Quanio mais ífe observa nas 
suas dilTercntes secções a exposição, tanto 
mais se soletra na chamada industria nacio- 
nal, não uma expansão juvenil do trabalho 
jungido generosamente em panóplias de pro- 
gresso, (ierramando a lelicidade em cearas 
para lodos, e adquirindo a riqueza por in- 
peccaveis dons de lealdade; mas uma gene- 
ralisação perversa da cilada armada ao ho- 
Hiem, o torte ao fraco, o avaro ao perdula- 



os GATOS 27 

rio, O esperto ao idiola. De cada industria 
iniciada, a intrujice, como uma videira de 
rnoscalel, suspende os cacho.-: cola-seaboc- 
ca sedenia, os bagos são doirados, mas que 
quisilia! morde-os a gente e em vez de res- 
cendenle mosto eslá vinagie. As que tentam 
marchar direito são tão poucas, que a meio 
caminlio apenas dez ou doze, esfalfadas na- 
da mais que por liavercm caminhado vinte 
passos, servindo-se da pauta á laia de muleta 
lá vão claudicando pela proeirosa ladeira a 
c<ijos bordos as outras pedem esmola, inca- 
pazes de se levantar pelo seu pé. As mes- 
mas grandes industrias nacionalisadas por 
vinie, trinia annos d'installação no solo pá- 
trio, acham-se presas pela ausência quasi 
total de matérias [)rimas, indissoluvelmente, 
ás industrias e culturas estrangeiras, de sor- 
te que um bloqueio de certa latitude faria 
em dois mezes fechar todas as fabricas. A 
lã vem principalmente de llespanha e de 
duas ou três republicas da America, pois a 
nacional, altenla a má qualidade dos car- 
neiros e suas alternativas de fartura c fome 
na pastagem, oííerece no mesmo íio dois ou 
três diâmetros ditíerentes, sendo nor isso 



?8 OS GATOS 

aproveilaila só (in obras de qualidade iiiíe- 
rioi'. Os algodões, que nós já lecemos tão 
l)em, vem da America ingleza e do Brazil. 
e muilo pouco das nossas possessões d'AfVi- 
ca, onde íacilimo íôra produzil-o em quan- 
tidades colossaes. O trigo é pela m;iior parte 
americano, russo ou mairoquiiiO; porque o 
Alemlejo cm pousios apenas seive para liy- 
polhecas no Credito Predial. O íerro vem 
d'lnglaterra e da Suécia, o carvão d'Ingla- 
lerra, as pelles do Brazil. (até os cornos, 
parece incrível! vem de (ora)— e «pianlo :t 
madeiras de conslrucção vamos buscal-ns a 
lodn a parle, exce|)lo ãs nossas florcslas da 
Africa e da índia, ou ás monlanhas e du- 
nas porluguezas do continente, onde, pinhei- 
ros aparte, os camponezes selvagens e os 
agentes elcitoraes contrariados deiíam fogo 
ás plantações (jue algum governo mais sivi- 
cnltor se lembra de fazer. O único producto 
ingenito do solo é o liometn. é esse (|ue nin- 
guém cultiva, divide-se em trabalhadores e 
mandriões — os trabalhadores vão para o 
Brazil morrer a montes, c os mandriões 
que eram antigamente amanuenses, agora 
começaram a tornar-sc industriaes. 



os GATOS 29 



Se a mão d'obra caminhíi e a industria 
protegida se divulga, de duas, uma: on pro- 
segue a imitação litteral do artigo estran- 
geiro, com uma pobreza d'ideaes que faz 
quisilias: ou a viver a industria d"inventivns 
próprias, saltacom dolorosa eloquenciaa falta 
duma direcção artislica nacionalisadora do 
producto, ea perfeita inutilidade que tem sido 
até hoje a escola industrial para o opera- 
riado portuguez. O desmantello ('• n'esle 
ponto quanto pode ser de fnsligavel. Pro- 
duz-se por exemplo em Portugal, desde a 
tessitura aperfeiçoada dos algodões, chitas, 
percales e adamascados muito hellos— e 
n'outros ramos fabris, jutas, papeis pinta- 
dos, hourretíef^ e mobiliário para lodos os 
géneros e destinos. É uma alegria ver cres- 
cer debaixo dos olhos tanta manipulação de 
trabalho colleclivo. saber que tudo aípiillo 
já. se faz em Portugal, só com este senão 
algo irritante — o de não haver um bocadinho 
só cheirando a portuguez. Para o caso das 
chitas, indaguem n'uma fabrica amiga so- 
bre os mechanismos e technica doesta in- 



30 OS GATOS 

dustria O algodão sobre que ha-dc ser es- 
tampada a chila, vem dlnglalerra todo, te- 
cido em peças; desenhos ou aguarellas de 
padrões, vem dlngltlerra a amostra ao fa- 
bricante, que escolhe d'esse refugo estran- 
geiro o que lhe agrada, e encommenda de- 
pois os cilindros gravados para cada côr 
correspond' nte; as tintas são quasi todas 
previlegio dos mestres da oííicina, inglezes 
a duas libras diárias, que raros se desca- 
hem a ensinar aos operários, tinturaria. To- 
do o trabalho nacional no fabrico das chi- 
las consiste pois em induzir o algodão in- 
glez de preparo chimico para o obrigar a 
receber fixamente as cores da estamparia, 
na cilindragem d'esta, e talvez no fabrico 
d'algumas cores rudimentares. O resto é tu- 
do inglez. incluindo as drogas que ser\em no 
preparado das tinturas; ' e ha nove annos 
que temos nas escolas professores ensinando 



^ Em Porluíiul só se tece o algodão dos itannos 
crus c ubretaniiados, e o panno que serve na estam- 
pagem da cliita azul ordinária, este em pequeníssima 
quantidade. Casos de fabricante que envie de Portu- 
gal uma aguarella para padrão de chita portugueza, 
são raríssimos, porque mesmo não haveria quem nos 
fizesse em condl^^ões de gosto original. 



os rrATO:*; M 

deseiilio ornarnental. gravura em inelaes e 
não sei so lintiiraria e ciiimica industrial! 
Por onde se Iresviarn os operários sabidos 
d;) escola com a iniciação complela ou in- 
completa d'estas artes? O que fazem os pro- 
fessores que não dão mostrss de si n'esles 
certamens, e S(> servem para expor, como 
um da escola de Faro, vergonhosos crayons 
de fazer riso a bf^hfvs do collegio Froebel? 
Com as jut-is e papeis de forrai' succede o 
mrsmo. execução correcta, cores excellen- 
tes, padrões arabescados e vistosos, mas lá 
eslá a ffriff^' do cosmopolitismo fabril na- 
tnralisado á pressa para iritrujar a |)aula, 
e impingir a um publico sensaborão restos 
das novidddes industriaes inglezas e fran- 
ce/.as d(í ba ipiirize annos. Insisto í»'esta des- 
nacionalisação geral da industria nascente 
on radicada por me parecer f(ue fora mis- 
ter desvial-a dos pi-ocessos da copia servil, 
pn'cisamente agora que a mão d'obra pro- 
gride, e o publico parece disposto ;( accei- 
tai- na manufactura uma porção de r)Ovo com 
resaibos darte que lhe recordem typos na- 
ciciiaes. Visitar poi* exemplo na galeria dos 
Jetonymos, o mobiliiirio, é vir de lá com a 



;i2 os GATOS 

cabeça em agua de lauta amostrinha de mo- 
veis gibosos, copiados dos álbuns france- 
zes, e d'uma calilice a deixar vêr nos inte- 
riores burguezes noções d'elegancia per- 
íeiíaniente inspiradas, no copiirchiquismo 
obsceno das cocotíes. E' por toda a par- 
le fauleuih de bambu doirado, com da- 
mascos verdes e azues, de ilôres escan- 
dalosas, chaises-longues d'alcouce. razas ao 
uivei do chão, como para exliibições sexuaes 
depois de ceia, secretarias e bufetes de se- 
nhora, género japonez d'armarios hudando 
em tecto de pagode, relevados a fogo e com 
vagos oiros pegados á pressa em madeiras 
de caixa de cíiarutos. Duas ou (res vitri- 
nes d"armadores, postas em estrados, ao fun- 
do da galeria, e parecendo conter amosíra 
dos trabalhos usuaes das casas exposiloras, 
illucidam inquieladoramenle o publico sobre 
o conforto das classes capitonadm, onde, 
como não podia deixar de ser com taes mo- 
bílias, o incesto e o adultério se estatelam 
numa lista de monstruosidades pompeia- 
nas. 

E que admira? se por ventura as exposi- 
ções de moveis a que a alludo synthetisam o 



os GATOS 33 

íypo usual rrinstalação duma família rica ou 
lémediada, não ha n'essas casas um único 
movei que aproveitado não suggira ao apro- 
veitador uma ideia perversa, uma projecção 
anatómica congestiva, e uma necessidade 
pornographica ou estercoraria. Nos gabi- 
netes cerceados de stores. vifraes, cortinas, 
reposteiros, alcatifas, biombos, colchas, a 
luz morre em crepúsculos que amollecem o 
gesto, tirando-lhe a independência delibe- 
rante. para o hypocrisiar em caricia e em 
attracção ; o ar carbonifica-se d'uma espes- 
sura acida, que pelas difficuldades de o 
respirar propende á somnolencia; e como 
os estofos amortecem a bulha dos passos e 
das vrjzes, um mysterio sachristiaco desagre- 
ga-se, d'onde a tendência de dizer ao pé da 
bocca coizas que ganhariam em se não di- 
zer mesmo em voz alta, na rua, sob as vis- 
tas perscrutantes do total. A cerceação da 
luz e a fermentação do ar ambiente deter- 
minam já de si estado mental, e esse esta- 
do converge a filo desde que o movei pela 
sua forma e molleza dê a posição do corpo, 
acirre á preguiça, e emhm conceiíe as con- 
gestões erráticas parciaes. Não se imagine 



34 OS GATOS 

que isto é theoria. E a mobília e a casa 
quem, mais que a educação, formam o ser, 
e basta um exemplo, o de ter diminuido nas 
cidades a proliferação humana des'que foi 
inventada a chaise-longue. para se avaliar do 
quanto cumpre fazer obedecer a linha do 
movei a uma philosophia hygienica funda- 
mente estudada nas suas relações com a fa- 
mília e co'a moral. 

Ora a exposição de moveis alem de não 
conter nada que em artigos de conforto e 
luxo exprima a elegância visionada por um 
gosto serio, de gente limpa, tam pouco no 
mobihario modesto, trivial, quotidiano, des- 
venda coizas por onde fazer ideia da sala, 
da casa de jantar e da alcova d uma famiha 
pobre ou remediada. Ha moveis manuehnos 
de que a gente ignora a serventia, contado- 
res de prateleirinhas e balaustres, inventados 
para papagaios fazerem habilidades, quar- 
tos de dormir segundo estampas que o Ál- 
bum de Vehenhte pour la Franee et pour l'é- 
tranger classifica d'estylo Maria Antonieta, e 
que teem tanto de caros como de ronflantes 
— uma casa de jantar em nogueira, estylo 
chato, francez, d'exportação, onde a hnha 



os GATOg 35 

recta agride a visla — e cabides, cadeiras, 
sccrelarias, copias do inglcz pelos modelos 
rígidos do Huíel Terminus — coizas avulsas, 
tentativas ao acaso, rcpn dacção, repetição 
automática, sabbatina par i mostraras pren- 
das do árthta. bôa exeiução aqui c alem 
lalvez, mas nenhuma li.:a tentativa para 
com os elementos tradiccionaes se crear o 
typo de mobília nacional para todos os pre- 
ços, em madeiras das nossas terras, com- 
posição dos nossos artistas, c reminiscên- 
cia das nossas velhas artes d'esculptor. ' Está 
claro que eu não ignoro as difficuldades a ven- 
cer, para dapóz eruditas procuras se trans- 
plantar alOm para o moderno um typo de mo- 
bília porluguez. A' uma não abundam nos 
museus os genuínos exemplares; cá outra, 
especialmente em mobílias de luxo, nunca 
o eslylo nacional foi uma coiza definida in- 



(*) A casa Couto, do Porto, expoz na Avenida em 
ti^mpos uma serie de mobiliário popular (^xtromu- 
ineníe inlorossante, fio qual pnssno nm álbum com 
desenhos e preços calculados ao sabor dos tercíí de 
cada coujprador. Não era propiiamento mobilia de 
caracter nacional, mas como tentativa anti-rotineira, 
era sympalliica, pelo lado económico es|)ecialmente. 



36 OS GATOS 

teirnmente. Os lamborctes e traslnria de 
torcidos que desde os scculos XV e XVI 
enxamearam nas nossas ricas rezidencias, 
vieram do paiz liollandez por muito tempo, 
com o qual por via dos feitores faziainos um 
commercio d'arle considerável. Com as via- 
gens d AlVica e as descobertas da índia e 
do Brazil começámos a reproduzir em ma- 
deiras preciosas lodos os lypos usuaes da 
mobília flamenga que importávamos, e assim 
passámos á Europa trastes ccnliecidos por 
porluguezes, como arcazes, bufetes, conta- 
dores, a que quando muito tinliamos anne- 
xado entre as minuscularias d'adorno, os 
tremidos, e que não eram mais do que a reedi- 
xão do flandrino em estofo rico. A lavran- 
taria dos coiros servindo na revestidurados 
bahús e tamboretes, foi por longos annos 
também um artigo d*imporlação, expedido 
de Hamburgo e Anveres para Lisboa; já 
por fim iam de Portugal os desenhos para 
gra\ar lá fora, o só nos meados do século 
XVI a industria se implantou entre nós, 
chegando a um estado dapuro e perfeição 
surprehendentes. Com os cordovões ou coi- 
ros de Córdova, de que ha spccimens tão 



os GATOS 37 

bellos em vermelho e preto, estampados a 
oiro d'a!lo relevo, o mesmo suceedia. 

Pri:)!Ílivameníe vieram deHespanha, mas 
ao depois a industria aclimou-se e conse- 
guiu viver de vida própria. Nas suas linhas 
fundamenlaes porem nunca a mohilia flan- 
drina se modificou pela aclimapícm porlu- 
gueza, e apenas passando á índia, e entre- 
chocaido-se com a arle indigena, originou 
esses moveis d'embutidos microscópicos, em 
marfim, madeiras de cores, tarlarugas, pra- 
tas, de cpie são typo os contadores e as com- 
modas apoiadas sobre monstros. Chega-se 
á epocha de D. João V, e a revoada d'es- 
culplura excessiva e solar que enche de su- 
bhmes talhas d'oiro os sancluarios de cinco 
mil igrejas e capellas, a renovação archile- 
ctonic.t que transfigura a physionomia das 
igrejas, fazendo maravilhas na decoração 
interior dos grandes edificios, (ex. as três 
salas d'entrada do Arsenal do Exercito, es- 
pecialmente a se'gund;i, que é uma surpre- 
hendcnte boceta de rei prednlario c requin- 
tado) ao chegar á mobdia, apenas toca ori- 
ginalmente alguns grandes leitos, uma ou 
oulra cómoda que pode muiio bem passar 



38 OS GATOS 

por Luiz XIY abastardado, e por fim esmo- 
rece na banalidade jezuilica, sem maiormen- 
te assignalar-se em typos caraclerislicos. 
De sorte que não existem na arle antiga do 
paiz motivos tradiccionacs sobre que crear 
um mobiliário de luxo inconfundivelmente 
portugueZ; a menos que um archilecto ou 
ebenista de génio, por selecções successi- 
vas, por tentativas d'arrojo semelhanles ás 
que a casa Leilão começou a fazer para in- 
dividualisar na ourivesaria o eslylo D. João 
V, consiga um dia extremar d'entre a mar- 
cenaria espúria, o esqueleto ideal, flagrante, 
inédito, dum mobiliário que derivando em- 
bora dos contadores torcidos da Flandres 
ou das vermiccllas e plumas frisadas do rei 
sacrílego, comtudo divirja d'ellas no sen- 
tido d'uma emancipação total do estrangei- 
ro. Já não seria tão espinhosa a tarefa se 
em vez de mobiliário rico, intentássemos re- 
constituir sobre restos da antiga marcena- 
ria nacional, um mobiliário de pouco preço. 
Bastaria tomar para isso a antiga cadeira- 
tripeça, o leito, a cadeira pintada d'Evora, e 
a banca de pés divergentes, rústica, das ca- 
banas do Alemtejo e Beira Baixa, para, ar- 



os GATOS 39 

tisticando um pouco estes modelos, lermos 
um !ypo oti,ííinal d'uma mobilia de povo a 
"AIAS, não linda. De feito, que falta ácadeira- 
tripeça. tão giacilmente caprina, com seu 
assento de [)au e o espaldar radiando em 
lyra rústica, para se tornar n'um movei de 
gabinete, de casa de jantar, ou de salão? 
Um pouco de lorno nos pés, alguns aese- 
nlios a fof^^o ou pinturinhas em etrusco ou 
pastoral borboleleando nos clieios da ma- 
deira, uma enccradura ou polidura a lhe dar 
lom, e emlim qualquer ligeiro frontão d'es- 
culptura esboçada, á maneira suissa. sobre 
as vagas cimalhas do espaldar. A cadeira 
pintada d"Evora, que é relativamente mo- 
derna, dos fins do século passado o máxi- 
mo, teve por antepassado a judia, mais fina 
de madeira, lisa de pau> também, o assen- 
to de tabúa,e pintada d'umacôr unida, avellã, 
amarello salmão, azul dagua, sobre a ([ual, 
destacante, um sulco a escuro, e nas guar- 
das da espalda sua paysagensita ou gru- 
po de figuras. A cadeira d'Evora é feita de 
pinho verde e tabiia ordinária, pelos car- 
pinteiros d'escada da cidade, e apóz vae a 
pintar a óleo a uns certos troca-tintas, pia- 



40 OS GATOS 

tores populares sem instrucção nem disci- 
plina, que sobre os costados lhe atiram co- 
pia de flores de roza e d'eloendro — a flor 
das ribeiras d'Africa e do Alemtejo —preen- 
chendo o resto de vermelhos e azues muito 
berrantes. Custa de deseseis a desoito vin- 
téns, em qualquer feira do districlo, um tras- 
te d'estes, que apezar de grosseiro é regio- 
nal e encantador de pitoresco; e uma cama 
larga, de pinho, alta de taboas, com sua 
barra de rozas jovialmente toucada de duas 
urnasinhas etruscas na cimalha, nunca vae 
alem de três a cinco mil réis, na razão do 
caminho a que está do centro productor. A 
banca de pés divergentes, a banca-tripeça 
de cozinha, feita dazinho, contemporânea 
do sapateiro das cavernas(?) e que pode apre- 
ciar-se de resto, já civilisada, em faia bran- 
ca, com seu plateau d'azulejos, na mobi- 
ha popular d'eslylo inglez, a prateleira 
p'ra loiça, o oratório e a arca de ferrolho, 
pintada de rozas, á moda d'Evora, eis ahi 
lambem trastes primevos que bastaria cor- 
rigir nos accessorios, escolhendo madeiras 
seccas e mais finas, introduzindo aqui e 
aleai formas elásticas, levezas de contorno, 



os GATOS M 

diminuição de pezo e alados de "pintura 
ornemanista, para com pequeno dispêndio 
e diversa educação do operário se conse- 
guir em breve um mobiliário popular in- 
comparavelmente alegre e original. Infeliz- 
menle os cadeireiros dEvora não teem per 
emquanlo escola industrial, e que a tives- 
sem, ninguém Ines compelliria a instrucção 
para estas fulricalhas! 

Eis em resumo algumas notas á margem 
sobre o que me pareceu surprehender de 
miu na exposição industrial. Torno a dizer 
que estas observações, filiadas de resto no 
offegante desejo de vêr o trabalho nacional 
medrar de vida própria, por forma alguma 
querem dizer falia de fé no fuluro da in- 
dustria inleUigínlemente protegida, e no 
esforço sympalliico que é já esse montão 
de coizas a esmo na galeria dos Jeronymos. 
O que ellas representam apenas é impa- 
ciência por tanto tempo perdido a vencer 
diíTiculdades caricatas, a jactanciar trium- 
plics que não são mais que deshonestas ar- 
timanhas, e a espernear emfim entre diffi- 
culdades derivando d'uma falta de plano 
na reorganisação fabril da nossa teira. 



SXJ]\J[]M^?LI^I<> 



o thealro de D. Maria e a euliuda de Lucinda Si- 
lufx'?. — Deilicagáo do actor [lelo ivdamo. — Os con- 
sa}íiados do proscénio e suas birras, basofias e de- 
f(-ifõs. — Brazão, o olympico. — Luciuda Siuiões, adi- 
\iiia. — Augusto Hozii o iuiinitavel, t* João hoza, o 
coiiceucioso. — Siltiiu-tci; d'esit'S artistas t- do tuaie que 
s(' disser. 



FIALHO D'ALMEIDA 



OS (3-J^TOS 

iíiU'ERlTO A' VIDA PORTUGUSZA 



U desastre dos adores de 1). Maria no 
Brazil, e uma (jnestão iiriíante (rescriplura 
d.'aclrizes ijue ha pouco tempo cliouteava os 
jornaes. esporeada a medo, pelos reporlers, 
na ansencia dos dramalurp:os-criliros inte- 
ressados pelos direilos d'aucloi' em manter 
o estado-nnfe. de novo actualisa toda a serie 
de ([uesilos que siiccessivamenle lemos pro- 
[loslo sobre a situação cada vrz mais ron- 
ceira do tíiealro poriujíuez 

Já dispersamente dissemos o que nos 
tinha parecido suprehendei' de mau nas 
producções dramáticas originaes, e não é 
azado reeditar vindictas que por certo lião-de 
surgir. cenlu[dicadas de fúria, no anno dra- 



os GAT(^S 



malico (|uo começa. Simplesmente guiaremos 
as curiosidades da Iribu artista para o (jiie 
se passa em bastidores de D. Maria, acon- 
selliarido aquella a que reaja, por bem de 
todos, contra as prosapias do elenco nobre, 
actual, da companhia. 

O caso é áspero de pensar pelos proces- 
sos simples das feridas contusas, n'uma 
terra onde pela estreiteza do meio e a rede 
dos interesses não pode havei- coizas autó- 
nomas, e n'nma classe onde quanto não 
seja elogio incondicional, é uma offensa, 
a pagar-se em moeda d'odio vingativo. En- 
tanto, como a companhia do theatro de D. 
Maria é a questão do outono, e se falia 
muito em dissolução de parlamentos, salubre 
parece averiguar também se o ideal dramá- 
tico pode governar com taes reprezentantes, 
não vamos nós agora achar inulil o Fuschini 
e bacoco o Bernardino, e envolvei' em ido- 
latrias terríficas, cabotinos menos valiosos 
e muito mais bem pagos. Demais, propondo 
correcções hygienicas na casa de Garret, por 
forma ala^uma miramos deilar-lhe abaixo os 
pilares e inutilisar-lhe os colchões comple- 
tamente: aquella hospedaria ainda tem tal- 



os CrATns :\ 

vez inoveis iiiagiii ticos, praias arlislicas, c 
loiças ({lie mesmo aniigas e radiadas, ainda 
por longo lenipo, com alguns gatos, poderão 
reíniregar o palácio na sua liabilual snmiuo- 
sidade. N'esle sentido começaríim jornaes 
uma cruzada (|uc logo ás primeiras cargas 
produziu etíeitos primorosos, e Lucinda 
Simões pode íelicitar-se de entre penetrar 
no llieatro por uma portaria do ministro, e 
uma demonstração sympatiiica da imprensa, 
ter preferido a ultima, deixando a outra aos 
estudantes cabulas a quem para a admissão 
n'uma escola superior, íalta latim. 

1']sta vjcloria porem, |iosto minúscula, tão 
vaidosos deixou os assaltantes, (pie pelo si- 
lencio d'esles vejo a campanlia terminada, 
e islo surpreliende-me, porque a questão 
do tliealro de D. Maria é mais complexa, e 
em muilo pouco a resolve a escriptura 
d'uma comediante que se resolvi; a acabar 
os dias rruma cooperativa de velliice. 
(Cooperativa de velhice é carregado:' 
(Inido (juenão. Km arle,(piem pára, morre, 
e lia (piantos annos olha a genie para D. Ma- 
ria e vè os adores a íantocliinar no mesmo 
silio'.' De mais a geração ipie succedeu á ro- 



4 OS GATOS 

nianiica, do leinpo dEmiiia das Neves, ti- 
rante alguos momentos de Santos, onde pro- 
duziu ella um artista verdadeirauíenle gran- 
de e excepcional? O theatro moderno, litte- 
rario de dialogo, sem catastroplies, alem d'ar- 
rcfecer a alma, leve o mau sestro de traves- 
tir de prodígios umas creaturas que mesmo 
favoravelmente julgadas nunca passaram de 
medianias doiradas e de correctns e esculptu- 
raes mediocridades. Animal-as emquanto 
persuadidos da sua possibilidade de progres- 
so, il-as benevolamente tolerando, visto o des- 
consolado argumento de não haver melhor no 
alfobre nacional — perfeitamente — mas nun- 
ca admittindo ^^ue ellas se imponham ao 
critério geral como intangiveis, nem lhes 
tomando a serio tam pouco a filáucia de 
constituirem na arte um principado inde- 
pendente. Desde porem que a arte de re- 
prezentar se reduziu no theatro de D. Maria 
a uma sinecura dartifices monocordios. ba- 
tidos na repetição dos mesmos trucs, des- 
naluralisando a dicção a sabor das suas 
nielopeas aslhuialicas e d'uma falta de pes- 
quisas onde a individualisação dos papeis 
consiste em Ía/AT caliiar os typos no mesmo 



os (;ato.-> li 

auloinalo palliJo e cangado, é tlever de todos 
os que criticam insurgir-se contra uni es- 
tado de coizas (jue está fazendo da scena 
poi'tiigueza uma oratória succursal do par- 
lamento, e de seis ou sete comediantes o 
alvo d'uma íoi'luna arlislica (jue necessai'ia- 
menle lesa o gosto, e só tem servido \n\ra 
engordar inexpressivos manequins. 

N'esta conformidade daremos as i'apidas 
silhuetas d'algu'is acloi"es e actrizes que 
por sua posição no iheatro visam o pnpel 
de modelos, e a (piem por isso mesmo cabem 
responsabilidades inlierentes á região semi- 
divinal em cpie se movem. 



Eduanlo Brazão. 

Figui'a d'aclor b-ancez. índole ardente, 
braços descomnifinaes, e uma vóz sem lle- 
xibilidade com tendência a eni'i(|uecei' o som 
pelos rugidos. E' a íigui'a piiiR'i[)al d;i com- 
panliia, e as suas btllas intrometidas, reve- 
lando um buscador audaz de lances s.cenicos, 
lá vão |)ercorrendo Ioda a escala de genei^os 
onde o lado brilbante [)0ssa dar-l!ie ensejo 
a elíeitos calorosos. A sua galeria é exien- 



t) ÕS GATOb 

sissima, e se não deixa um grande papet 
scienliíicamenle composto, de lóra para den- 
tro, á Goquelin, deverá isso atribiiir-se á 
sua Índole oratória de porluguez desamorado 
dos infinitamente pequenos da psvchologia, 
e apenas vendo pela rorlicula emplialica, 
creações destinadas a emocionar plateas que 
não pensam. Tem na dislribuição dos pa- 
peis, oiço dizer, a parle do leão, gostando 
de confrontos, pouco, e evitando em scena 
por isso todas as situações em que o*pul)lico 
podia comparal-o desvantajosamenle a al- 
gum dos mais. No Othello por exemplo, lago 
irrita-o, por lhe parecer que os applausos 
não visam exclusivamente o ciúme de moiro 
([ue elle enrouquece a dai' nos possiveis da 
sua artilicialidade de sceptico alfacinha. 
Como todas as Índoles de proscénio, recebe 
mal que se triumphe e medre ao lado d'elle; 
a evidencia é uzeira e vezeira em sovinices 
d'estas. e na vida de Iheatro a lucta pela 
voga é uma coiza tão rude, íjue muitas vezes 
os artistas gaslam em intrigalhas debaslidor 
o talento que depois lhes vem a fazer falta 
para o desempenho dos papeis. E' por isso 
talvez que ha uns annos para cá quazi tcda 



os GATOS 7 

a coriipauliia estacionou, explorando j)elo 
rodriguiniio a aflectividacie estúpida do vul- 
go, e gaizando o reporlorio iiovo com os 
Ires ou quatro nai-ises de cera creados pai-a. 
o veliio. Ejla paragem não é apenas nociva 
pelos entraves locaes ([iie determina, senão 
poress'oulros ipic generalisa em Indo ipianto 
tem relação com uma ideia de conjunclo. 
No tlieati"0, como na rua. as liguras paradas 
perturbam o livre transito; os indivíduos 
activos veem-se obrigados a contornar esse 
obstáculo, visto comO; sendo elle grande, lhe 
não possam passar por cima, e ó o caso dos 
actores novos, annos e anni^s á espera (pie 
a policia da critica restabeleça a circidação 
• pie um mal entendido orgulho se compraz 
iiinterromper. Comparada á dos societários 
seus colleiías. ainda assim a carreira de Hra- 
zão não se pode dizer posesse ponto: pri- 
meiro, é um talento tórrido, com accumula- 
ções de seiva em plena floração; a edade 
não lhe peza. ;i vida regorgila-lhe em bor- 
botões da esbelteza dúctil da ligura. e yen- 
do-o na scena repetir-se, explorar dos jxipeis 
apenas a oratória, lançar tá vóz e os l)i'aços 
em certa altura dos actos, como para salvar 



8 OS GATOS 

a nado a peça, o que se apercebe nào é 
com cerleza no aríista iim lolo eslampie, 
senão alguém que em face de broncos, 
guarda o oiro de lei p'ra lhes lançar des- 
prezivamente uns lenlos de laíão. D"estas 
escamolearões somos lodos culpados, e não 
só no Ihealro, mas em ludo, pois com o nos- 
so ar de bonliomia sei'vil. d'enlhusiasmo 
fingido, iudo nos é por egual indiííerente: 
um individuo ou utn íaclo vivem no nosso 
espirito apenas para o momento em que 
apparecem; insistem, supponhamos. e logo 
a íadÍLa que isto nos causa se iransíorma 
rapidamente em irritação — do (jue acotilece 
resolverem-se ás vezes peia irbçacoizas([ue 
tinham entrado em nós pela ternura ou pelo 
exlasi. Esta a falia d"lnteresse dasnalurezas 
cachelicas de leitura, dos espirilos pairantes, 
que em todos os meios intelligenles usam 
ser os maioraes da opinião; suslada a sua 
influencia na arte. ficarão as questões á mer- 
cê das inslinclividades desordenadas da 
turba, que assim achará tudo mau ou ludo 
bom, conforme lhes bala ou não bata o 
coração. D'esta soiie acontece ([ue os acto- 
res poiluguezes sejam quazi todos feitos 



^ÉiM^^^^^^^^ai ^ 



os GATOS 9 

pelo publico ordinário, que os ensaia a ti- 
rante das suas apetencias grosseiras, lornan- 
do-os em mei"OS figurinos d'unia sensiblerie 
d'occasião. Não posso dizer se a edade, co- 
berta d"experiencia, e apaziguada nas sedes 
de brilhante que fazem o continuo anlielo do 
actor cego de palmas, recapitulará um dia 
em Eduardo Brazão as esperanças ma.\in)as 
que alguns partidários seus pozeramnoseu 
estro. E' possivel que abandonando os pa- 
peis de galan, de linha janota, fatigada a 
íarynge dos berros cavos que levanlam aos 
domingos as plateas de caixeiros, e sazonado 
o artista f)elos martyrios do estudo que á 
hora dos cabellos biancos amoedam o ca- 
racter n*um typo adentrado á cogitação das 
modalidades do ser inlerioi-, d'esta ensi- 
mesmação moral surja um actor verdadeira- 
mente forte para nos dar centros de peças, 
detalhados para dentro, já sem aspandilhi- 
cí?s discursivas ipie são o fácil do olTicio, e 
lie que todo o creador tem obrigação de fu- 
gir como d'umaborloejadeshonesta. Em Edu- 
ardo Bi'azão valeria a pena investir contra 
esta bai'reira formidável, alem da .(piai só 
se é verdadeiramente no iheatro um lypo 



iO os GATOS 

superior, porque depois dos aclurcs român- 
ticos contemporâneos d^Emilia nenhum como 
este se revelou mais bem dolado, sendo pena 
que o publico lhe peça tão pouco, e que 
elle, rom uma escala (raplidões tanto ao 
moderno, não tenha feito por egualar-se aos 
grandes comediantes, desprezando a pepi- 
neira fácil dos applausos, desbridando o ta- 
lento á custa de marlyrio, cravando as unhas 
na alma té o sangue lhe espirrar na plasti- 
cisação d'uma galeria esculplada com todas 
as vesânias e resaibos da psychologia indi- 
vidual conteiíiporanea. tão pathologica, tão 
louca, e de que um grande observador faria 
o laboratório de shakespearisacôes estranhas 
e terríveis. 



Lucmila Simões. 

O alvo das idealisações Ifiealraes n'este 
momento: Cleópatra no Nilo, lirada por tri- 
tões que são dramaturi^os extáticos nos di- 
reitos d'auctor que ella lhes renda, e não 
vendo as provações funestas que lhe vae 
acarretar a evidencia que se fez na ancie- 
dade d'um publico seíjuioso d'ullra-chic. 



os GATOS H 

Cerlo, entra os liumbraes de D. Maria co- 
roada de rainha, como se o lliealro não 
fosse, á laia do paiz, pequenino de mais 
para ler duas, e como se a viuva, mesmo 
morganática, se resignasse a envelhecer íóra 
do ihrono! 

Ouando, ave migradora da scena por- 
tugueza, suprema de juventude impassivel 
como todas as creaturas que provaram do 
amor apenas o pizzicalo. vinhn a Lisboa 
repetir com seu marido o thcalro almiscarado 
e nobre de Feuillet, tudo o que no seu jogo 
havia d'esbalido e sem resaibo, resgalava-o 
essa qualidade eterna, embevecente, a ado- 
lescência da mulher bella de \inte annos, 
pouco amorosa embora, spleenelica e su- 
prindo nos nervos mortos facilmente a pai- 
xão pela coquetice, e o deliquio sentimental 
pela ironia. Das paixões poéticas que fez 
alvorecer então, com a sua candura enig- 
mática de sphinge, pupila do marido, nos 
corações dos esludanleS; íar-se-hia uma jan- 
gada a lhe dispensar o transatlântico de 
regresso — oh sim, uma jangada viva d'in- 
genuos platonismos! — enaslrando-as de 
Lisboa ao Hrazil, por cima do mar, tantas e 



íi (tS GATO? 

lanlas, e onde os seus pés enxutos pisas- 
sem, por toda essa intérmina distancia, uma 
alcatifa de floritas feitas de lieijos sem hi- 
^'0(1 e. 

Deslas fugaces fugas pela pátria. Lucinda 
Simões deixou na arlo uma impressão de 
tina transcendência, e na plianfasia túrbida 
dos novos alguma coiza de semelfiante á 
passagem d'uma estatua levada em procis- 
são por entre coros d'escravos deslumbrados. 
As suas longas viagens, a sua belleza i-ai-a. 
de busto um pouco forte, alta e com umcba- 
peu Gainsbourougb de plumas pretas, a 
castidade das suas mãos senhoriaes, puras 
de pelle. um pouco largas de chave como 
as de rainha D. Amélia, onde brilhavam 
escudeles d'anneis na lassidão spleenelica 
dos dedos— a sua voz de garganta, agacante 
de todos os artifícios da preciosidade litte- 
rariaque se enfuna — tudo isto concorria para 
lhe nimbar a mocidade n'uma lenda de gé- 
nio CUJO mysterio deixava no theatroum ras- 
tro olympico, a ponto dos poetas se fazerem 
por ella sapateiros — Fernando Caldeira, 
f^xemplo, o pespontador dos Sapatinhoíi de 
í^eíim. Voltou annos depois, senhora já, trin- 



^ 



TvS GATO? í:í 

tando irarltosíiinente entre dois tillios. e a 
sua helleza. peidida ■d\i\\)oy')s'u]i\áee{hereal, 
accentuava as ([ualidades mães (jue ;;nleiior- 
mente deixara suspeitar. Kra agora uma 
rnuilier lorle e eslylisada a primor no toHet- 
(e^ o busto curto e os circuntornos da cinta 
sem ampliora, como os das mullieres ple- 
beas (jue amamentam, a cabeça grande e for- 
temente articulada n'um pescoço, que para 
phidiesco ser precisaria de pelo menos con- 
tar mais duas vértebras. No C()rle do perfil 
nenhuma atrevida aresta pondo alertas na 
ondulatuia paiada das feições: naris pe(|ue- 
no. de lóbulo redondo, baldaipiinancío uma 
bocca de golpe, pródiga quanto pode ser 
de commissui'as d'ironia: queixo sem (|ui- 
llia. lindando uma lace commum de ser sem 
luctas: e apenas nos olhos castanhos, lím- 
pidos d'agua, ramudds de pestanas, a con- 
rentração da vida preliensil (jue lhe íalta- 
va íio resto da ligura. Fallei do seu buslo 
sem esvasados, comendo-lhe a cintura e 
dando á implantação do tronco nos (|iia- 
dris uma linha sui'da de matrona: íallei 
do pescoço cm-to. incapaz de continuar, sei- 
pentinando, os coqueleios da c.ibeça — o 



14 OS GATOS 

<|ue é o [);ii-enlesco da mulher co's cvsnes 
wagnerianos — e lodavia estes dois senões ca- 
pilaes d*ai'c!iilcclura mal lhe prejudicam, 
nos vestuários decotados, a estylisação im- 
peccavel dos hombros c do peiio. a esculp- 
tura dos braços, que são únicos, e o modelado 
das espadoas, frio como pedra, evocação de 
Praxilcles, á ílôr do qual papel algum cala- 
íria um raslio de mors-amor. K e.sla frial- 
dade de Juno sem desejos, ressumbranle 
das feições, propagada á rythmia molle dos 
gestos, que lhe transparece na vóz em pre- 
guiçosos dialectos lilterarjos, onde um ou 
outro desdém metallico transpira. D"a(|ui já 
se infere portanto a qualidade de theatro que 
mais se lhe coaduna e quadra ao tempera- 
mento, e que deve ser um íhealro de dialogo 
correcto e fabulisação paradoxal, um íhealro 
fallado confortavelmente em salões cheios 
de Stores, plantas carnosas c pufs de setini, 
sabendo ás parabolisacões mordentes do 
moderno, sem tumultos nem gritos, todo 
sensações artificiaes, banhos de leite e taças 
de Champagne, dehatendo requintes, trágico 
a frio, escorando a sua anemia nos vicios 
pallidos da moda, e incomprehensivel fora 



í)S GATOS ^H 

(lo ar lillerario <la e[iocha, da lilleralura 
arialytica e dos íigurinos macabros da esla- 
ção. Já adevinharam ({ue se estereolvpa assim 
ama inoarnadoru do líiealro de Dtinias titlio, 
de Vicloiieii Sardou. e porvenUirad*Aiigier, 
se lhe exagerarmos um pouco recursos 
dramalicos ate agora imperieilamente com- 
provados nos successos surdos da Adriana 
Lecouvreur, da Princeza deoryes e da The- 
reza Rwjuin. E' uma actriz de comedia, mas 
só d'alla comedia, e dentro d'esla ainda o 
seu reportório perfeito é limitado. O ({ue é 
que se lhe conhece na obra de verdadeira- 
mente allivolo e superior? A Suzana do 
Demi-Muiide, o primeiro acto da Tliereza 
Raquin, e algumas scenas melhores do Di- 
vorçons. O resto, para uma actriz sem nome, 
era magnihco. mas tractando-se da sacerdo- 
tisa cumpre encaral-a á labareda di) fogaréu 
do génio que a sua reputarão C(mstante- 
nienlf' tem d'atiçar no aliar da arte. 

Por isso dissemos (|ue a protissão claus- 
tral de Lucinda Simões em 0. Maria, tiran- 
do-lhe o mirabolante das reapparições in- 
tervaladas por grandes periodos d'ausencia 
e de repouso, e pondo-a em quotidiano con- 



16 OS GATOS 

lacloco'a i'ilta!la,nocessariameiiloli;nerá((ije 
trazer á caprichosa bobemia algumas dece- 
pções cruéis dentro de pouco. 

PrimeirO; constituída em figura principal 
nos llieatriniios maus onde antigamente 
apparecia, Lucinda Simões, semrivaes, ajías- 
tava de si (juakjuer ideia de confronto. 

Segundo, escolhia ella mesma as peças 
onde se «jueria mostrar. S() apparecendo 
em scena preparada por longas e estudiosas 
pesquizas no papel, e isto se lhe não reme- 
diava as incorrecções que a falta d'uni en- 
saiador massacrante e auctoritario acirra 
em todos os comediantes envaidecidos, atte- 
nuava-lh'as pelo menos o possível para não 
transparecerem nas suas creações os dispa- 
rates de conjuncto que tão frequentes são 
nos nossos palcos. Agora é diverso. Lucinda 
Simões deixa de ser para muita gente a sem 
rival; vae apparecer n'umtheatro onde cada 
primeiro comediante não pensará senão em 
distrahir do seu nome a effusão da platea 
egoista e variável, comprometendo-lhe os 
successos que, mesmo desastres, todavia 
lhe ficavam no Príncipe Real. indiscutíveis. 
E" uma actriz de comedia í' Pois approxi- 



os GATOS 17 

iiia-se a hora tie se suiiiirein de D. Mai-ia 
as damas dramáticas, Virgínia poi- doente, 
a Falco por cancada, e emparral-a-lião pa- 
ra os papeis violentos, onde o seu tempera- 
mento molle e a sua voz de cabeça, com fun- 
dos duros, incapaz ifum soluço, d'um 
spasmo, d"um grande movimento, llie pro- 
vaião que em Iheatro os (jue não solírem, 
não interessam. Terá de baixar a (•al)eça, 
como de resto os demais seus coUegas do 
elenco, ao jugo da tlisciplina do palco, todo 
commercial, une manda acceitar os papeis 
no ponto de vista das conveniências de .lo- 
dos e nunca para lisonga exclusiva das vai- 
dades senhoris dalta ou de l)ela— marcan- 
do-os em duas sessões, obrigando a coin- 
pòl-os e sal)el-os em quinze dias. e a repe- 
til-os depois deante do publico, mal deta- 
lhados, comidos, sem novidade, sem inven- 
ção, sem psychologia. entre ciumentos col- 
legas que lalseiam a deixa, ou levantam o 
tom p'ra nos estender na altura em ijue o 
publico poderia não applaudir senão a nós. 
Ora para de todos estes recifes fazei um thro- 
no, é necessário não só como intelligcncia 
ser um cimo, senão também como esforço 



18 OS (tATíIS 

possuir uma extraordinária disciplina de 
írahalho. E Lucinda Simões não a tem, e 
como talento de scena, apezar de lli'o con- 
lirmármos. não esquecer que ella é ha quin- 
ze annos a actriz d'um S(') papel — o ([ue 
francamente é pouco para astro. 



Augusto Roza, 
que é veidadeiramente um caracter de pal- 
co, íadado. pelas etíeminações do luxo. pa- 
ra os íogos latuos da scena, que o ponto 
apvaga ou assopra, conforme— ^aconteceu-llie 
íer tido talento umas quatro ou cinco vezes. 
F()ra em rapaz uma figurita melódica de Vau 
Reers, verde de pelle, o narisito no ar. bus- 
cando caça, dois olhos côr de pombo, e uma 
boquita em aro que lhe ficou assim das ex- 
clamações do cidadão Tremnitz da Sr.^ An- 
goí. Hoje, com quarenta e pico, da gentile- 
za antiga resta o nariz, armado em ventas 
pelo abuso das perfumarias que o enfras- 
cam. os olhos C()r de pombo, um pouco ex- 
tinctos: e quanto á boquita, posto inda em 
aro, jtá por Lá conta o seu dente ou dois, 
mais falsos do que Judas. Vestindo bem, 



U> (iATOS VJ 

gaslaiido na gravata inais lalenlo du com- 
posição do (jiie na miíie-en-scéne. fallando 
como quem gorgoleja as palavras na saliva, 
lanlo goslo de si fazia em scena. que si) na 
pintura dos ollios gastava todas as noites o 
curso completo da Academia Real de liei- 
las Artes. Debutou en\ D. Maria n'uma es- 
pecialidade de papeis onde a sua Índole de 
janota cinico^ coleava. com frivolidades fran- 
cezas, sorvidas n'uma rápida assimilação 
do que vira fazer •àc?>jeuneii-prcniier dramá- 
ticos de Paris. A voz, d'uín timbre desegual. 
quasi toda de cabeça, tornava-se impi-opiia. 
como (piasi todas as dos seus collegas, pa- 
ra a vilalisação dos relances palheticos, e 
d'abi o sabir cantada e recomida no tim das 
plirases, pela curleza asphixica do fôlego, 
e o quebrar-se nas passagens de força — 
d'onde a recorrência ás resonancias de gor- 
ja sempre que o papel pedia vebemencias 
e transfigurações passionaes de coração. 
Tal o motivo j)0r(pie os seus papeis dramá- 
ticos são i'idiculos. todos, e portpie os seus 
galãs e meios centros d"alta comedia sejam 
talvez das suas composições mais duradou- 
ras. 1^] como Lucinda Simões, um artista edu- 



20 



OS GATOS 



cado no lliealro de Sardou e de Dumas, e o 
Septmoiilsda Estrangeira deu a revelação do 
quanto poderia caiTiinharn'esíe ao direito, ca- 
so annos depois não cristaUisass«. como Nar- 
ciso, na adoração das próprias formosuras. 
Não se lhe pode negar como artista, um gosto 
innato. e certa intuição vivaz na perscruta 
exterior dos personagens; figuras suas. co- 
mo o D. Cezar de Bazan, o amigo Fritz da 
primeira maneira, e certos bocados de pa- 
peis a esmo pelos dramas históricos, teem 
á primeira vista uma espécie de magnifi- 
cência (|ue se impõe, victoriosa. estontean- 
do a frieza da analyse. e alacrisando a phan- 
tasia pelo picloresco intenso dos detalhes. 
Quem lhe não conhece a famosa entrada de 
costas do D. Cezar, e o sua mãe inda inve?.,. 
da Estrangeira? Todavia, se para o gros- 
so publico inculto e lorpa estes luzentes de- 
calcos são tudo o (jue eile comprenhe e 
aceita na fortuita psychologia dos persona- 
gens de theatro. nem por isso os inquéri- 
tos da critica terão que ficar perpetuamente 
extasiados perante o artista que d'elles fez 
cavallo de parada, ou desconvirão do prin- 
cipio de que quanto mais altas as aptidões 



HS (iATOS -Jl 

do actor p'rá vida scenica, tanto inaior de- 
va ser a tyrannia em do talento lhe arrancar 
successivas e intensas creações. Augusto 
Boza é um actor que (|uasi em plena ado- 
lescência (Tarle engagueceu, como Rrazão, 
á força d'esse orgulho estulto ({ue é o re- 
zultado da bajulação tomada a sério, e mer- 
cê da qual sossobram, em certas vaidosas 
oi'ganisações de cabotinos, lodosos assomos 
de lucidez — em termos do lalento degenerar 
n'uma espécie de bugiaria inconsciente. A 
necessidade de manter o publico n'uma em- 
basbacação especlante que os seus recursos 
naturaes poderiam estender, quando muito, 
aos limites de quatro ou cinco foruuilas co- 
nhecidas, levou-o, em certa altura da sua vi- 
da iheatral, a forçar a corda, sahindo dos 
papeis irónicos para o drama, e percorren- 
do com a mesma monotonia enphalica todos 
os géneros onde uma caraclerisação picto- 
resca e accentos guturaes lhe poderiam fa- 
zer reputação de hei esprif. Menino bonito 
da empreza, aucloridade e voz em Iodas as 
resoluções do grande conselho, tem nas 
sessões voto dobrado — porque o mano João 
nunca formula o seu. senão por monosylla- 



ns GATOS 



bos^e representa na harmonia da balança 
o peso opposto ao que Roza Damasceno e 
Brazão fazem pesar, no outro prato. Entre 
estes dois grupos, o ciúme de palco, que o 
publico só conhece por entre um simulacro 
de fraternaes demonstrações, é um d'estes 
sentimentos cauterisantes, coleantes, medro- 
sos da publicidade e prohibidos d'explosão 
directa, sob que rechina a vida do actor ad- 
mirado, dia e noite em paralello continuo 
c'o seu emulo. Toilos os principios d'epo- 
cha, fins d'epocha. meados d'epocha, quan- 
do na peça nova tem papel d'espavenlo al- 
gum dos Rozas, corre o boato de (|ue o il- 
luslre lírazão pensa em deixar o theatro, 
por desgostos; ou se é Brazão (jue Irium- 
pha, o mesmo boato esíumaceia, respeitan- 
te aos manos descontentes. Com as patea- 
das. idênticos regougos, prosapias d'insubs- 
tituibilidade, ameaças de que se vão, que 
não precisam, e depois d'elles o diluvio — 
mas coiza singular! quanto mais co'a re- 
tirada nos acenim, tanto com mais ferre- 
nha gula se esbofam na guerreia dos pa- 
peis, por disputar-se o favor da galeria. E 
que admira? a pingadeira é rica e delicioso 



■)S GATOS 2:; 

e folgado o oíiicio a mais não ser. . Oan- 
no passado, no íim da epocha, repartiram 
por ({uatro, desoito contos: por conseguinte 
não haja medo (jue abalem sem alguém os 
pôr de lá p'ra fora, pois aquelles que a pai- 
xão d'aclor não aparafusa ás ta boas do 
prosceni.». lá teem a judiaria cúpida do di- 
nheiro ;i junjil-os á panelinha de sabidos 
compadres que se estão rentando para o 
povo. D'aqui porlanto um modnsvivendicu- 
jas concessões reciprocas, se nem sempre 
teem podido evitar tentativas de quebra de 
contracto, e ameaças de separação escanda- 
losas, todavia permitle a ambos os grupos 
o respirarem n'uma tal ou (jual autonomia. 
D'uma banda Roza Damasceno, esquecida 
da edade. agarrada ás ingénuas (|ue ella 
aboneca co'as polichinelices d'uma voz en- 
ferrujada, põe como condicção o não lhe es- 
cripturarem senão divns rançosas, carcaças 
de fêmeas que façam valer pelo absurdo o 
({ue a interessante artista ainda possa exhi- 
bir d'alerta e espevitado. D'outra banda. 
Augusto Roza, desasocegado por ciiimeiras 
idênticas, vigiando com desesperados olhos 
a porta de scena por onde um faial acaso 



á't US (iATUS 

d'escnplLira íaça eulrai' o jiivenii galã (jue 
lhe íierrole d'um pinclio os successos gutu- 
raes dos ullimos seis annos. No fundo, es- 
tes desesperos da evidencia na escalada 
d'uma gloria fugitiva, lêem seu ressuino to- 
cante, que pulsa de fraqueza humana, e é 
natural na tiragem d'estas organisações ar- 
tiíiciaes que vivem de brouhahas. Recom- 
por o martyrio do comerliante amimado que 
e'nvelliece á espreita (jue uma noite de de- 
bute lhe derroque os trinta annos d'ovações 
enthusiastas, é visionar nos seus sinistros re- 
cessos esse calvário medonho onde vem a 
morrer todas as celebridades fatiadas, acto- 
res, oradores, por entre o encolher de hom- 
bros da turba esquecida da emoção que el- 
les lhe deram. Não é propriamente a doen- 
ça do coração que ao cabo de delíquios que- 
bra as molas do ser a esses desterraaos — 
o abandono é que os rebenta, o silencio 
glacial é que os acaba; novas glorias suc- 
cedem e ninguém já tem uma palavra para 
as nossas; os periódicos não nos incensam 
mais as deslumbrantes noites de delirio. a 
multidão não se volta se passamos: a obs- 
curidade, que é de todos os insultos, o mais 



lis (IA TOS áo. 

cvnico, asphixia-nos, e seis mezes depois de 
deixar a scena. o artista não lem já nome: 
é um tal ou uma tal, (jue lizeiam chorar ou 
rir nossos avós. . . . Gomprehende-se por- 
tanto (jue sendo a gloria do actor uma let- 
tra á vista, todos elles laçam, p'ra se não 
submergii'. osíorços desesperados; mas este 
capitulo (' historia sentimental, e a arte, que 
é uma deusa, seria ridícula descendo do 
carro jjara pôr rataplasinas nos aleijões das 
suas victimas. Augusto Roza — tornando ao 
velho tliema — é na moderna historia do 
theatro de D. Maria cúmplice e reu de dois 
deploráveis attentados. Reu, porque poden- 
do ter sahido um artista fero, está reduzido 
por basolia a uma simples utilidade black- 
boulée d'applausos chalros, junant de chie 
todos os papeis ipie o enamoram por (pial- 
quer accidente estravagante. Cúmplice, por 
com os outros societários do theatro só ter 
pensado em si. e na arte, pouco, não Irans- 
mittindo aos novos um conselho só da escola 
adfjuirida, nem preparando Iam pouco gera- 
ções successoras, pelo egoismo de se acha- 
rem lun dia sós no campo das receitas. Estas 
duas accusacões devem lancai-se em rosto 



-26 



(js gatos 



de lodos os que em D. Maria se vangloriam 
de sustentar as tradicções do theaíro por- 
tngaez. Não ha um único comediante pela. 
arte; é tudo actores pelo pul>lico e para o 
publico — embaciado o brillio da juventude, 
estafados os recursos physicos do debute, 
quando estas coisas não contam mais para 
a seducção da (urba lorpa. os pobres dia- 
bos appa recém então como os espantalhos 
de si próprios, não creando nada alem do 
exagero do que fizera o successo das suas 
noites de triumpho. Houve por exemplo 
uma epocha em que Augusto, Roza não via 
nos papeis i;enão Septmonts: pastelleiros, 
janotas, boticários, tudo tinha a chancella do 
famoso malandro ih Estrangeira. Quem não 
conhece o ranço deixado pelo OlheUo nos 
papeis dramáticos de Brazão ? e o da tilha 
do Rei Caramba, nas rainhas de Roza Da- 
masceno? Imaginam que estas repetições 
cararterisem sempre pobreza d'invenção "^ 
D'uma vez, increpando ein palestra um dos 
artistas, sobre a mania d'elle dar a toda uma 
serie de papeis, o verniz d'um cerio em ([nc 
ticára consagrado, redarguiu-me. sorrindo, 
o dom tunante: você que quer? o publico 



os GATOS 27 

gostou . . . Agradar ao publico, eis a caria de 
guia para a gloria. A' uma, é esla na arle 
de representar, a poria íacil; á oulra, to- 
mando por critério artislico toda e qualquer 
lisonja servil ao idolo grosseiro, quanto n'a- 
quella arle houver de profundo e raro, è 
alijado ao mar como arrheologia caturra de 
que só os eruditos mascam o inútil ponti- 
lhado. Começa pela dicção, onde desde a 
poncluação e do fôlego da phrase dando o 
preí^ipilar ou o relentar do movimento, até 
á sensibilidade da voz dando a vibração de 
tal sentimento ou ideia transmissível, tudo 
é falhado e interpretado ao capricho da au- 
ra epiléptica do artista, constituido para o 
caso em nevrostolo. Já havia a designação 
de voz de theatro para exprimir certas gutu- 
ralidades de bode emitidas por entre modu- 
lados de bocca. fallando, como diz o povo, 
à politica; de ha uns annos para cá. os 
actores, [ireoccupados dachar uma algara- 
via nova que picasse a curiosidade da gale- 
ria, teem fabricado dentro daquella espé- 
cie d'uivo ou miado, series d'oulras vozes 
chérrotaníes, qual mais falsete, para occul- 
tar estragos de larvnge que a asihma ou a 



28 OS GATOS 

edadellies Irazeni. depois de cada allaque de 
labagismo ou dinílueuza. O etíeito d'esla 
emissão vocal defeituosa, filha d achaques 
ou de uiaus hábitos phonelicos determina- 
dos por uma necessidade d'enphase com 
que o actor portuguez supre a emotividade 
de papeis que não entende, ou que não es- 
tuda, clioca principalmente as pessoas de 
gosto que vão ao theatro poucas vezes, e a 
(|uem ellfts lodos dão uma impi'essão deber- 
radores de club ou de fantoclies, e por imi- 
tação determina na pronuncia e na falia lis- 
boeta uma serie de modulações e defeitos 
grammaticaes que desvirtuam o espirito da 
lingua, e intiltram melopeas janotas na con- 
versa das classes ditas «illustradas» da ci- 
dade. Basta frequentar a meia tijella elegan- 
te dos caifés e /ive 6 cloch para dentro da 
preciosidade equivoca dos genlilhomens da 
gomma, das demoizellas uterinas edas mada- 
ma^litleraticicas, reconhecer os imitadores ex- 
tasiados de Brazão, d'Augusto, daPiozaeda 
Lucinda, e ter ganas de os saccudir alli mes- 
mo, tesamente, com quatro chufas d'arriei- 
ro. Mercê da dicção convencional, a ondu- 
latura melódica que o auctor dera á sua pro- 



US GAT(.>S 2ií 

vSa, c alterada, preverlidu o sentiJo da lira- 
da — umas passagens falham por excesso 
de íorça dada á passagem anlerior— certos 
detalhes não rendem o etfeito para que lia- 
YÍam sido calculados, a linha do lypo que- 
bra-se, e (juando a tirada atíecta para o eí- 
feito dramático uma espécie de desordem, 
o actor levado no clieio da oraloria, não 
põe n'essa desordem, como devera, a har- 
monia, embrnlha no mesmo tom impressões 
distinclas. volta a explorar effeitos esgota- 
dos, ignorando que «cm dicção é sobi'etndo 
durante o repouso que se prepara o movi- 
mento, isto é, (pie as evoluções de senti- 
mento se produzem quasi sempre íóra do 
texto. » e ipie «exprimir o que está escriplo, 
nem sempre é no trabalho do actor, a coisa 
principal. » E o caso é (|ue o publico é tão 
lorpa, a critica tão cega, e de tão bòa boc- 
ca os dramaturgos, que quanto mais aquel- 
la escamoteação do títere é torpe, tanto nutis 
deslumbrados os patetas licam deanle do 
seu macaco predih'clo. 



30 os (lATÕS 

João Roza. 

Decadência iilil. com uma caneira onde 
vislumbraram aqui e alem ligm'as estimá- 
veis. Ignoro se teve talento; conversado pa- 
recia que não; representado ks vr^zes pare- 
cia ((ue sim. e o cerlo ('■ (jue eu enfeixo as 
minhas opiniões no cabaz onde a maioria 
dos seus apreciadores pozeram conVas tlc 
loiro, franjadas de exagero! Foi lia quinze 
annos nos papeis de galã. um esbelto se- 
ductor, d'essa viril ((ualidade portugueza, 
cheia de musculo, de geslo quente e d'olhar 
procreadoí'. que as anemicas das frisas, ca- 
sadas com aranhiços, levavam idealmente 
para casa, ao fim dos amorosos lances no- 
l)res das comedias de Sardou e de Dumas. 
O marquez de Prestes do Poirier, o Girard 
da Estrangeira, o filho natural dos Foiír- 
chariihauU. e outras figuras mais d'esta ana- 
tomia cavalheiresca, constituem na sua pra- 
leleira artistica a faiançaria mais cuidada, 
e com effeilo são ellas hypotheses necessá- 
rias emipianlo nas comedias para lamilias 
fôr moda idealisar, em joguetes patheticos, 
esse espirilo convencional do bem que é de 
iodas as phantasmagorias litlerarias a que 



os (iATOS M 

mais losislenleinenle cilhoii na moral dos 
lares l)Gm comidos. Tardo da íalla c com 
amearos de gaguejo num ou n'oulro ai'i'an- 
co de pronuncia. João lioza teve, para dis- 
farçar esse defeilo. o trabalho paciente d'um 
tisico (jue quer íazer-se á viva íorça n'uni 
gymnasta. e esse lirocinio o salvou durante 
tempo das difliculdades ingratas da sua ar- 
te. n'um -género de papeis onde quíilrjuer 
peijueno defeito seria um entrave dui'0 ao 
seu presiigio de proscénio. A evoluçHo da 
edade. accentu;iudo-llie os defeitos plione- 
ticos, fel-o derivar, poi' uui atilado instincto 
d'artis1a. para os centros de comedia e dra- 
ma onde a composição interior do papel, 
mais complicada, dispensa já os brilhos 
plásticos do corpo, sobrelevando-os com o 
estudo doulios detalhes psychicos, pelos 
quaes o aclor se desdobra em typos, e a 
oratória decorada e commum dos galãs />c^/- 
hUres cede o passo talvez a creações. N'es- 
la altura porém, João lioza, para triíuufdiar 
do grande escolho careceria de faculdades 
analyticas que nem a trama lianal dn sua 
inlelligencia. nem oscabedaes da sua Icilu- 
ra. lhe podi.-MVi fornir lucidamenl(\ e \)0\- is- 



as '/S (.Aios 

so íoi t|ut' os seu8 papeis de ceniro, raros 
llie ticaram, esculpturaes. na galeria, sal- 
vando-se apenas aíjuelles (jue. como o Luiz 
XI e o Vago. pela abundância dos delallies 
cortantes e das rubricas pitorescas, estavam 
natuialmente dissecados no texto, não len- 
do o actor que invenlar de sua cabeça se- 
não trucs--onde doesta vez os defeitos de 
João Ro?a condissei'am conj íuigurancias de 
verdadeiras qualidades. Por estas razões íi- 
cará na historia do thealro. como ora está 
na companhia, em medalhão d'aclor cons- 
cencioso — cons^cencioso de mais ás vozes, a 
ponto da gente se chegar aaíiligir com tan- 
ta consciência. Parecerá que gagueja os pa- 
peis: não, é a sua maneira escrupidosa de 
os detalhar. O escrúpulo, eis o seu lemma! 
Um desenhisla que no jornal Pontos nos II 
enchia os fundos das caricaturas de Bor- 
dallo. a tal nonio levava o escrúpulo d'esla 
iarefa. (pie d'uma v('z mandando-se-lhe co- 
piar uma photographia onde um borrão 
cahira. não só copiou a photographia, como 
desenhou o borrão no silio próprio. Tal a 
(idelidade de João Roza como actor. Dá a 
[diolographia do typo que o dramaturgo p()z 



■Ai'^Mm^^ 



na pí'rn, iruis dá o borrão Uimhein — por 
convScifíiiciíí. Ks(jueci(lo. Pára-llic o ameri- 
cano ;i poria e elle cuida (]iie o amigo é que 
tem de sp apeai-. Nunca sabe de nada, diz 
(|ue sim a ludo. e o resto é com o Augusto. - 
(Jae pelo buraco do ponto peça sobre (pie 
laça presagios íavoraveis, e o mesmo acon- 
tece com ;)s actrizes, cujo talento só sf* com- 
prova para, elle, lóra do tablado, liatào ne- 
cessário, estimável como artista, e com mn 
respeito symj)a(liico pela memoria do pae, de 
quem elle julga seguir a escola (Mipliatica e 
vibraíile. Tbeoricttmenle. é como lodos os 
seus demais collegas. uma miséria, não len- 
do um livro, não percebendo a linlia [)sy- 
chologi<a dum papel, mas com uma esj)e- 
cie d"instincto (pie por vezes llie supre o 
(]ue lhe falta. Os seus padi'es são celebres; 
tem uma maneira de os enlernecer entor- 
tando a bocca. (í íallando de bochecha, que 
é dos Irucs da scena o mais decrépito, e va- 
lha a \erdade também, o mais gostado. Nos 
intervallos dos padre.s deila-se aos reis da 
historia portugiieza, por íorma a seguir os 
lypos de íaccinora (pie nos dá o Manuel de 
Macedo im JliMovui do {lhaga,s. gravados 



u 



os (iATOS 



pelo Alberto. O sen í). João II do Duíjne de 
F/2^í/ parece arrancailo a um theatro minho- 
to, pelas íeslas da Pasclioa — por onde elíe 
barafusta é um fedor ({ue tomba, a carne as- 
pada. 



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