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Full text of "Os musicos portuguezes: biografia-bibliografia"

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os MÚSICOS PORTUGDEZES 



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MÚSICOS PORTUGUEZES 



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FO» 



JOAQUIM DE VASCONGELLOS 



ZÃektt Uehi! LUMí 

GOBTBJL 



VOLUME I 






PORTO 

IMPRENSA POKTUGUEZA 

1870 



^-**^-*^ tlu. HU.UZ.^ 



O^Wa^ /u5. \h 



O^l /\ut^ (g^jg 






^ ^ ^ 






Nul eommencement n^est grand ni beau 
diseDt^ils, mais n*7-a t*il pas un 
imineuse mérite à commencer? 

F£ti8, Biographie Universelle dts Musidens, 
YoL II, pag. \íò. 



NORONHA 



NORONHA 



IDEIAS PRELIMINARES 



Je plaina qnkonque, en lúant oe li- 
ire n*y reconnaitrat pas Taccent d'une 
Yoix BÍncère et les palpitatioiíB d*im 
coBUT affamé de juBtice. 

L. BiiÁMO, Hiêtoirt de la BévoluHan firangain. 



Cada época; cada ciyilisaçSo tem uma forma d' Arte que a 
caracterisa^ e esta verdade é de fácil intuiçSo. A esculptura; a ar- 
chitectura, a pintura e a musica representam quatro civilÍ8aç3e8 
differentes que se succederam: Ciyilisaçfto grega^ Edade media, 
Renascença, tempos modernos: século xvm e xix. Cada uma 
d'estas Artes pertence a uma das épocas mencionadas com ex- 
clusSo das outras. 

A Grécia, legou-nos o Laocoonte, (a) a Vénus de Milo, o 
ÂpoUo de Belvedere. 

Do seio da Edade media, surgiu a architectura com as suas 
manifestaçSes mais explendidas nas Cathedraes de Colónia, Mi- 
mo, Sena, York 



X IDEIAS PBELIMIKARES 

A Renascença^ produziu Rafaele d^UrbinO; Buonarotti, 
Vinci, Corregio, Ticiano e Díirer. 

Emfini; os tempos modernos apresentam-nos como represen- 
tantes da ultima Arte: Ilsendel, no Oratório, Mozart^ na Opera, 
Haydn, Becthoven e Berlioz na Symphonia, e Bach, em cujo ta- 
lento extraordinário se desenham muito antes^ todos os géneros 
de musica desenvolvidos depois admiravelmente pelos seus suo- 
cessores. 

Cada povo teve pois, segundo a época da sua existência e 
da sua duração, uma parte mais ou menos importante em cada 
uma das Artes que acabamos de mencionar. Portugal também 
nSo ficou atraz das outras naçSes cultas que se distinguiram 
n'este sentido, e posto que não possamos apontar na nossa His- 
toria artística um Thorwaldsen, um Baphael ou um Mozart, ti- 
vemos entretanto artistas de grande mérito, e se não fosse a nossa 
incúria e perguiça habituaes, quando se trata de cousas portu- 
guezas, já ha muito o povo saberia soletrar os seus nomes. 

Aqui devemos confessar, e com bastante pezar nosso, uma 
verdade para nós bem pouco lisongeira; não temos uma Historia 
das Bellas-Artes em Portugal. Este facto não se commenta — é 
uma vergonha! Escondamos o rosto que deve corar de pejo 
diante da Europa que olha admirada para nós; cubramos de- 
pressa essas lacunas vergonhosas em quanto a critica não vem, 
fria e imparcial, com um traço de penna ríscar-nos da lista das 
naçSes civilisadas. 

A falta existe; será por não termos nomes illustres? 

Não, mil vezes não ! 

Sejamos menos sollicitos em applaudir e exaltar o que é 
estrangeiro, e façamos a devida justiça ao que é portuguez, ao 
que é nosso. Tivemos grandes architectos, excellentes pintores e 



IDEIAS PBEUMIKARES XI 

musicos notáveis; mas o vulgo ignora os seus nomeS; a sua 
historia^ porque não ha livros que falem d^elles, e procura em 
vSo um nome^ uma data^ com que possa refutar as accusaçSes 
atrevidas de alguns estrangeiros^ ainda mais ignorantes do que 
elleSy que nos classificam de povo semi-barbaro. 

DirSO; que se deram muitas circumstancias infelizes que 
impediram o apparecimento de uma obra doesta natureza; em- 
bora, nSo eram ellas de tal ordem, que a sua realisaçSo fosse 
impossivel; a prova, é o livro que emprehendemos e levamos ao 
fim, sobre uma Arte, que entre todas as suas irmSs, foi a que 
mais sofireu e que passou pelas phases mais funestas. 

Trabalhem! 

Entretanto aquelle que desejasse ter uma ideia da parte que 
tomamos nas Bellas- Artes, poderia sempre encontrar algumas no- 
ticias relativas a este assumpto ; são poucas sim, e imperfeitas, 
mas não temos outras nacionaes de que possamos lançar mão. 

Taborda (b) Yolckmar Machado (c) o Cónego Villela da 
Silva, (d) o cardeal Saraiva e sobretudo, Barbosa Machado, foram 
os únicos que nos deixaram algumas noticias mais importantes 
que podiam servir áquelle que intentasse construir a Historia 
das Bellas- Artes n'este paiz. 

Ainda assim estes escriptos, com excepção de dois, (Lista de 
artistas portuguezes e Bihliotheca Lusitana) tratam só da Esculp- 
tura, da Architectura e da Pintura, deixando no silencio mais 
injusto, a Musica! Por mais que pensámos, não podemos adivi- 
nhar a razão que levaria homens, aliás de saber e de pensar ele- 
vado, a praticar semelhante omissão. Seria por julgarem esta Ar- 
te menos digna do que suas irmãs? 

La musique est une seience et à la fois un art. 



Xn IDEUfl FBELDfnrABKB 

A rerdade doeste axioma, ennuxicíado por Fétis, o primeiro 
critico, o primeiro historiador, o primeiro mestre em matéria mu- 
sical, que existe, está assaz provada, para que se possam admittir 
duvidas a este respeito. Qual é pois a razSo, porque tem a 
Musica sido tratada como irmS bastarda das outras Artes, quan- 
do ao mesmo tempo (contradicçSo notável) a dizem filha do céo? 

Mais partotd à peu pròõ, la musique, deshéritée des prenh 
gatives de sa noble origine n'est gu'une enfant troufoée gu'<m sem' 
Me vovloir contraindre à devenir une filie perdoe. 

Berlioz. Les Soirées de TOrchestre. 

Qual a razSo, porque se protegem ainda hoje as outras Ar- 
tes, subsidiando os seus discípulos para irem estudar nas gran- 
des capitães da Europa, animando-os com distincçSes, e se dei- 
xam no maior abandono os artistas-musicos? 

Que preferencias escandalosas sSo essas em um paiz, que se 
diz 8^ eivilisado, liberal, e justo t 

Acabem pois com ellas, e só assim terSo respondido a estas 
perguntas, e evitarSo que ellas se repitam. 

Feitas estas observações, é fácil de explicar a decadência a 
que chegamos em uma Arte em que fdmos grandes, em que ti- 
vemos nomes que a Europa venerou, respeitou e respeita ainda, 
quando já no próprio paiz d^elles se esqueceram e ninguém trata 
de decifrar na lapide tumular o nome gasto e apagado d^esses 
varSes illustres. 

Accusamos a injustiça dos homens! 

Accusamos a avareza dos reis I 

Accusamos a fatalidade ! 



tDEUS FBEUinKAREB XIII 

Acearamos a injustiça dos homens^ porque olvidaram ob vul- 
tos gigantes de seus antepassados^ para exaltarem a grandeza 
liliputiana de nomes estrangeiros. 

Accusamos a avareza dos reis, porque se cobrem de purpura 
e de veludo, quando o Artista, mal vestido e mal agazalhado 
implora a caridade dos extranhos; porque esbanjam o dinheiro 
do povo, ainda húmido de sangue e«.de suor, em banquetes e caça- 
das, em festas aonde se arrasta a virtude até ao lodo, quando o 
artista nSo tem o pXo quotidiano e morre nos braços da mi- 
séria!! 

Accusamos emfim a fatalidade, porque ella nos roubou as 
obn» dos nossos grandes artistas, sepultando-as debaixo das 
minas dos terremotos e debaixo das brazas dos incêndios. • • « 



m • • 



Ainda depois de termos considerado todas estas causas, que 
poderiam dificultar o apparecimento de uma Historia das Bellas- 
Artes, mas nSo impossibilital-o ; repetimos — esta falta, é para 
nós motivo para uma grande tristeza e para uma grande ver* 
ffonha. 

Estimaremos do coraçSo que ella desappareça, que venha 
uma intelligencia clara e robusta, preencher a lacuna; mas lem- 
bramos ao futuro author, que nSo entre desprevenido n'essa tare- 
& árdua e ingrata aonde sSo mais os espinhos, do que as rosas. 

DirSo talvez que somos pessimistas — embora; digamol-o 
com franqueza, parece-nos o nascimento d'essa obra quasi im- 
possível n'esta época. A primeira condição de um livro que his- 
toria uma Arte ou uma Scicncia, é a critica; e temos nós críticos? 

De nome, sim, de facto — nSo. 

A sciencia da critica está tuo atrazada cm Portugal, que de- 
vemos renunciar por cmquanto a semelhante livro. Obras rela- 



XrV IDEIAS PRELIMINARES 

tivas ás Artes e ás Sciencias nSo se encontram ; pelo outro lado^ 
chovem os poemas ensôssos^ os romances em estylo cotinesco, os 
dramas de grande espectaculO; e sobretudo os almanacks e folhe- 
tos patrióticos ; estes últimos apparecem em tal quantidade e mui- 
tiplicam-se com tal rapidez^ que os seus authores já acham diiS- 
culdade em os baptisar convenientemente. 

Hesitáiíios se deviamos fazer menção d^esses homens desin- 
teressados^ ostentando a bandeira do patriotismo, que traz no re- 
verso a devisa: Egoísmo; porém a nossa indignação venceu para 
fustigar aqui com algumas palavras, essas criaturas indignas,, 
que até com o patriotismo d'um povo generoso especulam ! 

Quando por acaso apparece um livro so&ivel, acorda a sen- 
zala dos pseudo-criticos (e) do seu lethargo habitual e faz desabar 
sobre a cabeça do pobre author uma tal saraivada de elogios, que 
elle convicto da auhlimidade do seu génio e talento sem igtial, dei- 
ta-se a dormir sobre os louros adquiridos à si hon marche; o resul- 
tado d'esta erupção panegyrica, é fácil de prever: o author 
medita bem, pensa profundamente e escreve entre a ceia e o al- 
moço uma obra prima, que é então a estolidez distillada em 
quinta essência ! 

Novo chuveiro, nova trovoada e assim por diante. 

Ora n'estas circumstancias, é impossível a apparição de um 
livro notável sobre qualquer ramo dos conhecimentos humanos, e 
particularmente sobre Bellas- Artes; porque, se algumas obras ha, 
que exijam uma critica illustrada e conscienciosa, são certamen- 
te as doesta natureza, pelas circumstancias especiaes em que de- 
veriam ser creadas. 



IDEUS PBELIMINABES XV 



II 



Vimos, como é que os nossos compatriotas trataram a Arte 
e os artistas, seus filhos ; agora examinaremos o que fizeram os 
estrangeiros. 

Estes muitO; os primeiros nada. 

Ninguém quererá de certo estabelecer um parallelo entre os 
livros de Taborda (f) Volckmar-Machado, (g) Xavier Lobo, (h) 
Villela da Silva (i) e os de Raczynski, (j) Robinson, (k) Mm*- 
phy, (1) Lucas, (m) Balbi, (n) I^orkel (o) Gerber, (p) e Fétis ; (q) — 
seria um absurdo; renovava-se o episodio da tH da fabula. 

Os extranhos até aqui nos levam a palma. E triste vêr es- 
trangeiros mais abalísados nas cousas de Portugal, do que os pró- 
prios nacionaes; (r) em verdade, custa a confessar esta culpa a 
quem ainda tem em si um sentimento de honra e de dignidade; 
mas é forçoso fazer a dura confissão, não em segredo, perante o 
f5ro limitado da nossa consciência, mas em voz alta, diante do 
mundo civilisado ; façamol-a, que é já meio caminho andado pa- 
ra o arrependimento sincero. 

O desleixo em que tem vegetado entre nós as Bellas-Artes, 
desamparadas de auxilio de protectores e de vocação de protegi- 
dos, tirando alguma rara intelligcncia d^aquellas que medem em 
um relancear d^olhos o futuro e ousam e podem dar robusto im- 
pulso ao presente: este desapego por tudo o que é nosso, lavrou 
tanto, que nos fez hospedes da terra natal» (s) 

Citamos estas palavras que são de um portuguez, para lição 
nossa, e com o desejo intimo de as vermos mais tarde desmenti- 
das por provas eloquentes. 

Alonguemos os olhos pelo livro da Historia, evoquemos o 
passado, e veremos surgir do pó do tumulo, as sombras vcneran- 



Xn IDEIAS PBELDf mASESl 

das de muito filho illustre doesta terra, que vos contarSo cousas 
taes — que hão-de parecer antes contos de fadas, do que verdades 
da historia. 



m 



KXo é esta a occasiSo de.&Uar da historia das Bellas-Artes 
em Portugal e dos seus representantes, e a indole doeste livro tam- 
bém não noUo permitte; passaremos pois em silencio as três pri- 
meiras, para fallarmos mais detidamente da ultima, e até hoje a 
mais descurada, a Musica. 

A sua historia tem sido considerada debaixo de diferen- 
tes pontos de vista, conforme os authores que d'ella se tem oc- 
cupado ; d'ahi nasceram os differentes systemas que vemos nas 
obras que tratam doeste assumpto ; (t) mas, ofierecendo nós este 
livro a algumas poucas intelligencias claras que ha n'este paiz e a 
alguns coraçSes sinceros, porque só esses comprehenderSo o pensa- 
mento do seu author, e não podendo nós exigir d'essas intelli- 
gencias um esforço superior aos seus conhecimentos — adoptamos 
n'esta exposição, o methodo mais simples e incontestavelmente 
o melhor, porque á simplicidade reúne a maior clareza. 

Consideremos o primeiro ponto de vista ; consideremos a Mu- 
sica, em geral. Vemol-a passando por modificações infinitas, ora 
favoráveis, ora adversas, transformando-se segundo os tempos, 
segundo os talentos mais ou menos felizes que a cultivaram, e 
seguindo durante esta carreira aventurosa, certas leis invariá- 
veis =leÍ8 do progres8o=^, que em si mesmo encerram o princi- 
pio de suas determinações. 



IDEIAS PBELIMIKARB9 IVU 

N2o iremos muito longe para dar a rasSo philoêophica d'efl- 
íbs modificaçSeSy ou antes transformaçSes; é bem simples a ez- 
plicaçSO; que á primeira vista parece dífficil. O espirito humano^ 
que tende ao aperfeiçoamento, foi caminhando de hjpothese em 
hypothese, de raciocinio em raciocinio, até chegar a uma d'essas 
leis de que acima falíamos ; a intelligencia trabalhou, mas a cu- 
riosidade e muitas vezes o acaso, não fizeram pouco para chegar 
a esses resultados. Os passos foram, ao principio, incertos e vaga- 
rosos. A Arte depois de nascida, fazia os primeiros ensaios, guia- 
da pela intelligencia humana, assim como o infante, levado 
carinhosamente pelo braço materno e animado pelos raios de 
amor que lhe aquecem o coraçSo timido e receioso, e o convidam 
a estreiar-se no caminho da vida. 

A incerteza e a hesitação primitivas, foram desapparecen- 
do; á medida que os annos decorreram, ganharam os passos em 
firmeza; a Arte andou mais rapidamente conforme o impulso sen- 
timental dos talentos que as épocas produziram e que lhes trans- 
mittiu o vigor e a vida que os influenciava. 

£stava feita a Historia da musica. 

A criança cresceu, ganhou forças — tomou-se homem. 

Estas metamorphoses da Arte, inspiram tanto mais admira- 
ção, quanto são excepcionaes as condições debaixo das quaes 
eUas se realisam. Examinemos alguns factos. 

Tomamos três grandes periodos da historia do mundo mo- 
derno, 08 mais vitaes o orgânicos para a constituição politica da 
Europa. Parallelamente vemos as manifestaçSes das formas dW- 
te, reflectindo de um modo fatal as revoluçSes do meio social. 
Com as invasSes germânicas, nasce a ideia do canto, que hade 
tomar faladas as línguas modernas ; (Vtco) com o passado, o can- 

2 



XVni IDEIAS PBELIHINABES 

to exprime a confraternidade dos povos latinos ; com a reforma, 
o canto é a secularisaçSo da intelligéncia, e da existência bur- 
gueza. 

S84 — 375 

Santo Ambrozio, bispo de Milão dá Principio da invasSo dos poros, 
principio ao canto, com o nome de 
Ambrostano, 

693 — 600 

Gregório Magno, reforma o canto Consolida-se o papado I ! ! ! 
ambrosiano, que com a jancçSo do 
AtUiphoTiario centonianOf toma o 
nome de canto gregoriano. 

1580 — 1581 

Cacini e Feri (t)dàoo primeiro pas- Consolidação da J?e/orma de Luthero; 
BO para a musica dramática ; nas- os Paizes-Baixos sacodem beroica- 
ce a Opera. mente o jugo de Felipe n. (u) 

O canto renasce com uma sociedade nora, no meio da agonia 
de mna sociedade velha, decrépita, gasta, enferma, vivendo uma 
vida artificial, cheia de vícios e pobrissima de virtudes. A prece 
cantada, ouve-se pela primeira vez no meio dos gemidos das vi- 
ctimas, do fragor e estrépito dos combates, no meio da morte e 
da vida, quando do Leste e do Norte da Europa se precipitam as 
ondas das massas populares, rolando por cima dos carvalhos sa- 
grados de Thõr e de Júpiter Capitolino, para caírem, como um 
mar que chega á borda de um precipicio, cataracta immensa, so- 



IDEIAS FBELDimARES ZIX 

bre o império romano, esmagando cidades, reinos e povos no 
sen corso tempestuoso. 

A reforma do canto, inaugurada pelo Bispo de Mil8o, effe* 
ctuarse e consolida-se conjunctamente com o poder temporal do 
papa, uma das instituições mais criminosas, mais hypocritas, mais 
odiosas, que conta a historia ! É a ella que cabe o peso da maior 
parte dos crimes commettidos pela humanidade; por isso se arras- 
ta hoje, velha moribunda, encostada a um báculo de vidro, que 
se chama o sceptro de um rei. 

Saltemos a 1580. A atmosphera moral dos povo»«hriBt8os, 
profundamente abalada pelos criminosos excessos dos ministros 
ào altar (!!!) durante uma vida indigna de oito séculos, desde 
Ghregorio I até LeSo x, condensa-se em turbilhSes de nuvens amea« 
çadoras e o rugido do trovão que se sente ao longe, quando 
Wjcliffe apparece, augmenta em 1419 com o crime de Constança, 
desenvolve-se, ganha forças — e solta depois o raio, que em car« 
reira desenfreada vinga Huss, (v) esmaga a Inquisição, e vibra 
no corpo do papismo o golpe mortal, que vertendo sangue até hoje, 
nos apparece com o aspecto de chaga gangrenosa, que só pro- 
gnostica a morte. Sicut cadáver, 

Luthero tinha apparecido. Em 1517, fixava as suas Theses 
admiráveis na egreja de Wittemberg, contra o trafico infame das 
indulgências, (w) 

A atmosphera até ali pestilencial, era já sS e consoladora. 
A Reforma, sustentada por Zwingli, (1519) auxiliada pela nobre- 
za de caracter de Melanchton; em 1541 e 1563 em perigosa 
existência pelo Radicalismo de Calvino e de alguns doutrinários 
exagerados, resolve-se em 1580 n'uma solução explendida com o 
Concordienhuch (x) da egreja lutherana. 



XX IDEOLAB PBELIJiQHABflS 

N'e88e anno memoraTel, nascea a Opera. P^ri, Cacoioi ^ 
Monteverde, marcam as três phrases do principio ; Mozaii, Bo»- 
sim « Meyerbeer caracterisam aa do fim (1739). 



IV 



Se é do maior interesse para os músicos, a Historia da sna 
Arte, não o deve ser menos para quem quizer dizer com ufiiaia: 
desen^olvi-me e cresci com as ideias salutares de uma edu* 
caçSo verdadeiramente liberal. Uma Arte, nSo é património ex- 
cIusíto de uma classe, ou de uma nação ; ella abre os braços a io- 
da a alma que sabe sentir, a toda a intelligencia que sabe pensar. 
Só 08 vendilhSes, sSlo expulsos do templo. 

La muêique se fait belle et charmante pour ceux qui Vai- 
ment et la respecteút; elle n'a que dédain et mépris pour ceua qui 
la vendent. 

Beblioz. Soirées de TOrchestre. 

 influencia poderosissima que todas as Bellas-Artes e par- 
ticularmente a Musica, exerceram sobre os destinos da humani- 
dade, desde que ella nasceu até hoje — só um louco, falto de toda 
a intelligencia, a quererá negar ; infelizmente esses loucos não sSo 
poucos, porque a ignorância é muita. Limitando-nos a Portugal 
vemos essa triste cokorte, infelizmente bem numerosa, graças ain- 
da i influencia do despotismo politico e á do seu condigno irmSo, 
o despotismo religioso ; o primeiro, acabou ha apenas 40 annos ; o 
segundo, apesar de perseguido e odeado pelos poucos homens ver- 
dadeiramente liberacs que faaa'e8ta terra, ainda experimenta em 



TnBTAg FBELIMINASES XXI 

tegredo as suaa forçaa e origina as desordens deploráveis que 
estamos presenceando. (7) 

Quem quizer^ que examine as suas forças; calcule aquillo 
que sabe e aquillo que ignora; depois siga, se tiver Tontade; e 
bríO; o cuninho para o qual este livro serve de indicador. 



Fomos seguindo a Arte do primeiro ponto de vista em que 
nos tínhamos collocado, desenhamos imperfeitamente o quadro que 
diante das olhos; resta-nos considerar a outra pkase da 
a Biogrofhia das êeug repreêentantêê. Esta parte, nSo é 
certamente a menos explendida, antes pelo contrario, sem a se- 
gunda nlo havia a primeira, sem a Biographia^ não havia a His^ 
teria* 

As theorias que formam a-Historia de uma Arte, sSo elemen* 
tos pas9Ívo8y que nSo £Etzem, senfto surgir i voz de um génio que 
os invoca ; esse génio, é que tem de ser considerado ; é o elemen* 
to que manda, e que toma sobre si toda a responsabilidade do 
mandato ; é o elemento que combate, é o elemento que soffire, é o 
demento que trabalha, é o elemento que se sacrifica. 

Quem combate, tem direito ao nosso respeito. 

Quem soffire, tem direito á nossa sympathia. 

Quem trabalha, tem direito ao nosso reconhecimento. 

Quem se sacrifica, tem direito á nossa gratidSo eterna. 

SSo estes os mandamentos, que todo o homem probo e justo 
áeve ter na memoria, para honrar os martyres que nos propereio* 
o presente e para respeitar os apóstolos que hlo-de faoili* 
o jnvnm aos nosso» irmlos do ssoulo vindotm. 



Xm IDEIAS PREUMINABE8 

O segundo ponto de vista, considera a Arte; nSo já em si 
mesma, de um modo vago e abstracto, apontando-nos as theorías 
das differentes transformaçSes pelas quaes ella passou, mas sim 
nas suas manifestaçdes individuaes, indicando-^nos a parte que 
representaram os differentes individues que d'ella se occuparam. 

É d'esta segunda phase da Arte, que nos vamos occupar no 
decurso d'este livro. 

Qual é o poema, qual é o romance, qual é o drama, que pode* 
rá reunir um conjuncto de episódios mais variados, mais inte- 
ressantes e mais patheticos, do que a Biographia dos músicos cele- 
bres e dos grandes artistas? Se a Arte é um encanto perpetuo do 
espirito e do coraçSo, e se a musica, como as plantas generosas, 
se nutre da seiva mais delicada e mergulha as siias raizes nas 
fontes mais profundas da vida, devemos considerar os authores 
das grandes concepçSes do génio e os seus interpretes gloriosos, 
como uns Bemi-deuses, que encerram em seu peito todas as paixSes 
da terra e do céo. 

Parámos sempre, desde que soubemos sentir, dominados 
por um respeito profimdo, e por uma admiraçSo sincera, dian- 
te d'esses vultos admiráveis da Historia das Artes, que impel- 
lidos por um poder sobrehumano e guiados pelo seu génio, 
descerraram maravilhas, prodigalisando-as ás geraçSes, que des- 
conhecendo o valor inestimável da offerta, as acolhiam a maior 
parte das vezes com um indifferentismo insultante. NSo ha- 
verá decerto alma nobre e coraçSo elevado, que, depois da leitura 
da Biographia dos Músicos, nSo sinta uma sympathia irresistivel 
por esses heroes da Arte, que, no meio das vicissitudes dos sécu- 
los, as mais das vezes rodeados da miséria mais profunda, attrí- 
bulados pela fome e pela sede, combateram com admirável valor a 
ignorância e o gosto depravado das turbas, que lhes pagavam as 



IDEIAS PBELIMIKARES XXIU 

soas sublimes producçSes com a mais vil ingratidão. Quem have- 
rá que ii2o admire esses homens, (se homens são!) e se não prostre 
de joelhos diante de tanta grandeza d'alma, e de tão sublime ge- 
nerosidade?! 

Que fizemos nós pelos nossos artistas? 

Com que pagámos os legados preciosos que nos deixaram? 

Aonde ha um livro que cite os seus nomes, aonde, dizei?. • • 



VI 



Quando no redemoinho das revoluçSes sociaes, baqueiam os 
thronos e desapparecem as naçSes, sobrenadam n'esse mar de mi- 
nas e de cadáveres alguns nomes gloriosos que legam ás geraçSes 
vindouras a lembrança dos povos que acabaram. SSo elles os mar- 
cos que indicam aos séculos futuros a existência de um povo, que 
foi poderoso e grande, mas que guiado pela traiçSo e pela des- 
honra, se desfez em pó. 

Respeitemos pois esses nomes, levantemos a esses martyres 
da Arte um monumento digno das suas grandes almas. O tribu- 
to é tardio, mas mais vale tarde, do que nunca! 



vn 



o que em seguida transcrevemos acerca da historia d'este 
livro, foi accrescentado ultimamente ao prologo ; a ideia primitiva 
era deixar tudo em silencio; nem a teríamos alterado, senSo ce- 
dêssemos aos pedidos de alguns amigos que achavaioQ necessária 



1. 



A explica^ do systema pelo qo^ reconstruinuMi um passado «#- 
quecido, e a iadicaçSo das fontes, por ordem cbronologica, aonde 
f5mos beber aquíllo que sabemos. 

A mençZo dos nomes que nos auxiliaram n'este difficoltoiK) 
trabalho, deviamol-a á justiça e 4 verdade em primeiro logar, e 
depois & gratidSo e & amisade. 

Eis a Historia; 

Ha mais de um anno que haviamos chegado a PortugaI| 
e transportados para um novo meio politico, intellectual e ar- 
tístico, era natural que encarássemos a nossa posição debaixo 
doestes três aspectos; a poIiticiiTiunca foi nossa &vorita; encon- 
tramol-a quasi sempre impudica; a sociedade de Portugal causa- 

I 

va-nos extranheza; só a Arte, é que primeiro nos feriu sensi- 
velmente* 

Ouvíamos fallar vagamente em artistas portuguezes ; no Vs^ 
lacio de Crysta} no Porto, tínhamos lido em 1865, amu> da nos4a 
chegada, o nome de Mábcos Pobtuqal; em Coimbra, faIU* 
vam-nos os mosteiros e as cal^edraes em architectos de historias 
legendarias; admirávamos o púlpito maravilhoso de Santa Cru^y 
esse sonho de iirtista inspirado; contemplávamos em silencio os 
paneis da sachristia, e soava-nos ao ouvido o nome de Qhrw 
Vasco. . • Gran- Vasco, nome, que vinha com o seu brilho dissipar 
por algum tempo a nossa tristeza, no meio de tanto esquecimento. 

As Artes foram as nossas companheiras mais fieis e a quem 
nos affeiçoámos mais cedo. 

Vínhamos da Allemanha; voltávamos anciosos á pátria, de^ 
ppis de 6 annos de longa ausência, mas de lá trazíamos iiinda a 
saudade, esse delicioso pungir de acerbo eêpinhol 

Lc^nbravamo-nos de Beethoven e de Mozartj pensATamos 

«4 Qoi^ n êm SçhiUer; «travessamos i» Fr«pfi«i q w meio 4^ 



m «iAfl nsiAHINABIIS ZZV 

recQTÍaçBes explendidai do Louvre, de Versaillet^ da Dres- 
den. . • • Appareciiv-no0 duplamente nua, a nossa pobreza. 

Repngnava^noB porém a ideia, de que fossemos realmente tSo 
pobres, artisticamente fallando ; as obras lá estavam desmentindo 
tudo; essas cathedraes, essas estatuas, esses painéis, provaram 
claramente o contrario. Indagamos, e foi assim que conhecemos os 
nomes de Jo2o de Castilho, Áffonso Domingues e Sequeira. 

A pintura, a architeotura e a esculptura, tinham os seus re- 
presentantes; fintava a Musica. 

Porém n'esie assumpto o silencio era insondável; is nossas 
ItttenrogaçBes successivas, suceediam negativas successivas; al- 
guns encolhiam desdenhosamente os hombros e sorriam-se da 
aesaa pergunta, que achavam ingénua t 

Travou-se entio em nós uma lucta surda; ou haviamos de 
acreditar que a divina Arte nunca aqui penetrara, e aeceitar a 
ideia borrtNTOsa, de que estávamos em terra de selvagens, ou entSo 
era fi»rcoso trabalhar, descobrir. 

O amor pelas Artes e sobretudo pela Musica, nossa amante 
predileeta> deeidiu a questSo. N2o houve obstáculo que valesse 
perante a nossa vontade. 

Haviamos entSo (em 1866) recebido a Bíograpkiê ITmvsf*- 
isHe deã MUnciens (a) de Fétis ; procuramos o nosso conhecido 
Marcos Portugal e lêmoe a sua biographia e as demais alguns ar- 
tistas ; o numero ia augmentando sempre e a nossa surpresa tam- 
bém ; cm wn dia corremos sem descançar os 8 volmnes, pela ordem 
alphabetica e achamos 80 a 90 músicos portugueaes I 

Eminkal a batalha estava ganha. O nosso trabalho já nie 
era uas tributo do respeito, de admiraçlo e de sympathia presta- 
do á Arte a aos artistas; era um dever sagrado^ 



ZXVI IDEIAS PBELmiNÁBBS 

Dizia-nos a consciência, que na nossa Historia artisiica, ha- 
via um crime, uma mácula da mais feia e vil ingratidão. 

Convinha laval-a, ou pelo menos apagal-a; todos os outros 
trabalhos foram postos de parte; a ideia de uma Historia artis- 
tica, levantava-se sublime e grandiosa. 

D'ella descemos á realidade do trabalho. 

Como o assumpto era novo, forçoso foi procurar um fio que ' 
nos guiasse ao exemplo, authorisado pelos grandes escriptores 
especialistas. 

A impossibilidade das grandes obras encyclopedicas, nas 
mSos de um só trabalhador, está hoje assaz provada para al- 
guém se aventurar em novas tentativas; eis a rasSo, porque os 
assumptos se vSo dividindo e as especialidades vSo apparecendo 
cada vez mais caracterisadas; succede isto nas Sciencias, na Lit- 
teratura e nas Artes. 

Fétis, creando a Biographie Vhii>er9elle des Muêiciens, ten- 
tou fundar para a Musica uma: Encyclopedia biographica e bi- 
Uiographica; o immenso saber do author, a sua actividade es- 
pantosa, uma energia e uma perseverança que causam a maior 
admiraçSo, todo este conjuncto de bellos dotes, produziu uma 
obra grandiosa, mas nZo perfeita. 

As difierentes naçSes nSo encontraram lá muitos dos seus 
artistas, ou se lá existiam, estavam as biographias incompletas e 
inexactas; era a consequenòia fatal da universalidade da obra; 
Fétis, embora collocado em Bruxellas ou em Paris, no meio de 
uma grande actividade artística, litteraria e scientifica, nSo pôde 
descer ao exame minucioso da Biographia e Bibliographia ar- 
iistica de cada paiz; a sua attençSo dividiu-se pelos povos civi- 
lisados da Europa, e dividida ella, havia de fraquear forçosa- 
mente em algum ponto. 



IDEIAS PSELIMIKARES XXVII 

Todos estes mconvenientes desappareceram no momento^ 
em que os difiereates paizes reconheceram a necessidade de tra- 
balharem cada um no seu edificio artistico; Lipowski, apresen- 
tou o seu Lexiconder ThnkUnatlerBayem^s; Dlabacz^ fez o mes- 
mo para a Bohemia e Moravia, KUnstler Lexicon fUr BceJmun 
und Màhren; Sowinski, publicou: Les Muêicíens polanais, e C. 
A. Hoffmann^ escreveu: Die TonkUnHler Schleêiens, mais tarde 
continuado por Kosmali e Elarli. 

Esta divisSo do trabalho nSo pareceu ainda perfeita e ulti- 
mamente manifestou-se uma tentativa mais nbtavel^ já nlo tendo 
por fim, como as antecedentes a Bio-Bihliographia artística de 
um paizy mas sim de cada cidade em especial. Um exemplo d'este 
ultimo systema, encontramol-o na obra de C. de Ledebuhr: TVm- 
kãnstler Lexicon Berlin's, von den âltesten Zeiten bis auf dié 
Oegenwart. Berlin, 1861. 

Todavia, esta innovaçao nSo se pôde applicar senio a um nu- 
mero mui limitado das cidades da Europa, que tenham uma 
chronica artistica que infiuisse deveras na Historia da Arte. A 
estas poucas cidades pertence a capital da Prússia ; eis a rasSo 
porque o livro de Ledebuhr se encheu de factos interessantes e 
até hoje ignorados por todos os biographos. 

Nós, trabalhando pela nossa pátria, adoptamos o systema de 
Hoffinann, Dlabacz, Sowinski, etc, que era o único applicavel á 
Historia artistica d'este paiz. 

A grande e bella obra de Fétis, cedeu, depois de explorada, 
o logar á BiUiotheca Lusitana de Machado, e á Bibliotheca ERs- 
pana de D. Nicolau António. 

O primeiro, merece-nos especial mençSo pelo seu saber pro- 
fundo, pelo seu zelo louvável e sjmpathico a fiivor das Artes; nlo 
exageramos, se dissermos, que foi elle quem evitou que op restos 



JDCVm IDEIA9 Plt&UliaKABKiB 

da noflsa tre^dição atiutica, ficassem sepultados para sempre e 
que esta soffiresse^ depois do golpe tSo terrivel da destruição da 
explendida Bibliotheca de D. JoSo iv, um outro uSo menos pro- 
fundo e que devia ser mortal. 

A a BiI>lioiheea Luêitana a primeira origem da nossa Bio- 
gr^pkia 6 BiUiographia artística; foi n'esta fonte que bebeu 
Forkely (aa) o primeiro, que li fora fèe conhecer os nossos antigos 
e celebres músicos ; Qerber (bb) colheu doeste ultimo os seus apon- 
tamentos; que augmentou com outros que possuia; Fétis, (cc) 
percorreu sobretudo a Biblio&eea Luêitana que nSo explorou 
como devia. Consultou ainda os trabalhos dos dois allemSes, po»- 
to que d'elles tirasse pouco proveito, citando-os apenas inciden- 
temente. 

KÓS; que fomos os últimos a trabalhar, emendámos, augmeur 
tamos e criticamos os trabalhos dos nossos antecessores. 

Em seguida ao exame das duas BihlioihBcas, (Lusitana e 
Hispana) consultamos o Dictionario Bibliograpkico de Innoeenr 
cio da Silva, a Lista de alguns artistas portuguezes pelo Cardeal 
Saraiva, o Essai Statistique de Balbi^ as Observações (aliás pouco) 
sritieas de Yillela da Silva ao mesmo, es dois Diccionarios de 
artistas de Gerber, Biogràphisches Lexicon der Tonkiktsder e 
Neues Biogràphisches Lcxieon der TonJcUnstler, complemento do 
priflEieiro; e livro de Forkd, AUgemeine Litteratur der Musik, 
as Chronicas das differentes Ordens monásticas de Poriugiod • 
um. nSo pequeno numaro de clássicos portuguezes, 

£xaminámos ainda oa folhetins (dd) de PlatSo de* Vaxei 
publicados na Gazeta da Madeira, sob o titulo: A MusicOi em 
P^tugol; 06 artigos de Fonseca Benevides sobre o mesmo assum- 
pfity w Ar^im Pittoresfio; eonsultin»>a emfim para algumas 
triflgiajibkM iaabdM •• jomaea: â^Hte da Uépo^ GÍÊepmm 



I0XXA8 PESSUmilAlES XXCL 

dm TTmatroê, JievUta dos Eêpeetaeuloê, Arekivo Piitorweo, 
(Biographías de José Maurício e de Marcos Portugal, por Inno* 
ceneio da Silva) lUuHrcição popular. Jornal do Commereio (ex- 
tdUnU biographia de Marcos Portugal) ete. etc. 

Alem doestas fontes, conaultámos aioda uma grande quanti- 
dade de outros livros nacíonaes e estrangeiros, que, oom^vanto 
trouxessem noticias mui escassas e ás YtxA% bem inexactas, oom- 
tudo completavam-se uns pelos outros, e assim dava o exame de 
dois ou três in-folios, para uma ou duas biographías. 

Kão mencionamos para maior brevidade os differentes titu- 
les d'esse8 livros, porque o fazemos nas biographias respeetivas. 

Eis em poucas palavras a origem histórica (Biographiea e 
BiUiographica,) d'esta obra; a parte critica, é quasi exclusiva* 
mente nossa, por isso que a critica teria em matéria musical, 
nSo existiu até hoje. 

Estivemos desde o principio da obra até quasi á sua conclu* 
são, completamente isolados n'um trabalho novo e por isso obscu- 
ro; esta circumstancia explicasse bem. 

Nunca contámos com o auxilio alheio, por isso mesmo que 
se appellassemos para elle, obtinhamos simplesmente, ou uma gar- 
galhada irónica, ou um sorriso compadecido ; nio divulgámos os 
nossos esforços para nSo nos citarem a historia de D. Quixote, 
batalhando contra os moinhos de vento, porque assim havia de 
acontecer em um paiz, aonde o trabalhador sincero, que ama a 
verdade e a justiça, ó recebido no primeiro passo que dá, pela in^ 
veja e pela má fé. . . Os exemplos sSo frequentes. . . 

Publicar um programma, prometter antes de saber até aonde 
podiamos cumprir a promessa, era feio, era acreditar demais na 
credulidade de uma gente já deveras deaoronte com tantoq 
annuncios feitos « • . . . dcbaldò. 



XXX IDBIÁ8 pselhonabes 

A8BÍm se explica o silencio que se guardou com esta obra, 
até & sua conclusSo. 

Devemos porém á verdade a seguinte confisslo : que fomos 
auxiliados generosamente por alguns homens dedicados^ logo que 
elles reconheceram a sinceridade das nossas intençSes. Manda a 
justiça e a nossa amizade^ que aqui fiquem os seus nomes imprés- 
sosy para a pátria lhes poder agradecer aquillo que em nome 
d'ella recebemos. 

Em primeiro logar citamos Joaquim José Marqueá. 

A este homem distincto deve a Arte os mais valiosos servi- 
çoS; e apesar de tudo, o seu nome é apenas citado por alguns ama- 
dores dedicados e homens estudiosos, porque outros mais felizes 
e menos modestos, foriun ceifar a coara que o primeiro semeou 
com grande trabalho. 

£ esta a fonte riquissima, d'onde tem sabido modernamente 
tudo o que sobre Musica se tem escrípto em Portugal. 

Os factos sSo eloquentes. 

Innocencio da Silva obteve as noticias mais interessantes da 
sua biographia de Marcos Portugal, d'este homem benemérito; o 
mesmo succedeu com a excellente biographia do nosso grande 
compositor, publicada no J. do Cammereio, anonymamente. 

António Feliciano de Castilho, construiu o prologo da Lyra 
portugueza com as noticias do mesmo cavalheiro ; todas, ou quasi 
todas as noticias publicadas no Jornal do Commercio de Lisboa, 
relativas á nossa Historia artística, e mesmo ao movimento mu- 
sical do estrangeiro, devem-se aos seus esforços; uma modéstia 
excessiva que nada justifica, e uma generosidade grandiosa — eis 
as causas porque tanto trabalho e tanto sacrifioio ficaram até hoje 
ignorados; o seu nome não é conhecido, porque o author antepdz á 



IDEIAS FBELDOnsrABES XXXI 

satisfiíiçSoy aliás justíssima^ de uma gloria merecida, um amor pu- 
ro e elevado pela Arte, um patriotismo sincero e ardente. 

Quando conhecemos este homem benemérito, a sua primei- 
ra ideia foi offerecer-nos os seus trabalhos; infelizmente nlo os 
podemos acceitar; um cavalheiro distincto: Platão de Vaxel, che- 
gara primeiro do que nós, e tinha encontrado a mina ríquissima, 
cujo achado imnca lhe cessaremos de invejar, e que deu em re- 
sultado um bello fructo que o publico brevemente appreciará. , 

Joaquim José Marques soubera que FlatSo de Vaxel se pro- 
punha escrever a Historia da Muêica em Portugal; esta ideia 
pol-OB em contacto; foi isto em 1867, nós chegámos em 1870; 
já era tarde; resígnamo-nos, e recusamos- sempre as ofifertas ge- 
nerosas do nosso amigo, porque entendiamos que faltávamos á 
lealdade, acceitando trabalhos que nSo nos pertenciam. 

PlatSo de Vaxel teve a generosidade de nos mandar offere- 
cer por intervenção do nosso amigo os seus apontamentos bio- 
graphicos e bibliographioos ; recusámos sinceramente penhora- 
dos, até que uma resolução extrema da parte d*estes dois cava- 
lheiros nos coUocou na obrigação de acceitar um sacrificio que 
noa pareceu, e parecerá sempre injusto. 

Resolveram não publicar o Diccianario de Artistas portíA- 
guezes, que servia de complemento á Historia da Musica, e offe- 
recer-nos os apontamentos para os refundirmos n'este livro. 

Protestamos, porém já era tarde. 

Platão de Vaxel havia-se retirado ha um mez para a Rússia, 
e o nosso amigo Marques, destruiu todas as nossas objecçSes com 
a declaração positiva e firme : de que nada publicaria do Diceio- 
nario, se eu não acceitasse as noticias offerecidas. 

Necessário fpi ceder, porém infelizmente o adiantamento 
d-^sta obra, que ia jána letra Rj não consentiu que nos utilisasse- 



XXZIt IDBUB FBELnOKABBS 

mo8 dos offerecimentoB dos dois desinteressados amigos, sealo 
de uma maneira muito limitada. 

Ficarão pois as outras noticias anteriores á letra R, para mna 
oeoasiSo mais opportuna. 

De noTo repetimos, que nSo concordamos com a ideia que os 
dois cavalheiros tiveram á ultima hora. A circumstancia de ter 
tomado o nosso Deceícmario maiores proporçSes, nlo justifica de 
maneira alguma semelhante resolução, pois ha certas descober* 
tas, certas inducçSes e certas applicaçSes, que só os olhos do pró- 
prio author podem descobrir e que um outro escríptor, embora 
conhecido no assumpto, difficilmente descortinará. Demais, sendo 
o methodo de PlatSo de Vaxel, diverso do nosso e as suas fontes 
também differentcs d'aqueUas, onde fomos trabalhar, decerto que 
08 resultados haviam de ser differentes. 

O apparecimento de ãmbs obras ^n matéria completamente 
desconhecida, devia alcançar mais de perto a verdade do que 
uma só, principalmente seguindo cada qual um caminho diverso; 
a critica e a discussão, nascidas do exame e da confrontação das 
duas obras, apurava mais facilmente a verdade e determinava 
com mais certeza, qual dos systemas de reconstrucção hisioriea 
fora o mais vantajoso; o que agora não pôde ser, visto no nosso 
trabalho refiectir-se apenas a nossa individualidade. 

Eis a rasão, porque sentimos que se tivesse tomado seme* 
Ihante resolução; é grande a generosidade que procede doesta ma> 
neira, porém por muito que tenhamos de agradecer a tão distin- 
ctos cavalheiros, não podemos applaudir semelhante sacrificio, 
porque nos peza a consciência de admittir o nosso interesse acima 
do da Arte. 

Tenáinamos estas observaçSes, lembrando mais nmá vez á 

g7ftti4ãof^bika o fi0mo do JUo^tum JõeÔ Mâi^q[u6B> tímb tmi h(^ 



IDEUS PRELIMINARES XXXIII 

mem benemérito e que com o maior zelo e sincero amor da Arte, 
com a generosidade que só um bcllo coração pode ter, trabalha 
ha mais de 10 annos com uma coragem tanto mais admirável, 
que nunca foi agradecida com uma única palavra. 

Rasgamos aqui o véo de uma modéstia excessiva, porque 
assim o manda a justiça. 

Mencionamos ainda os nossos amigos, Dr. Vieira de Mei- 
relles, Lente de Medicina na Universidade de Coimbra, e Theo- 
philo Braga. 

Ao primeiro, devemos alguns apontamentos interessantes que 
nos cedeu com a maior amabilidade ; é este uxn dos poucos cava- 
lheiros de Coimbra, verdadeiramente affeiçoado ás Artes, e que 
tem recolhido subsidios valiosos que bem desejáramos vêrapro- 
•veitados. 

O segundo, investigador incansável, que se encontra sempre 
ao lado de quem trabalha sinceramente', auxiliou-nos com os seus 
valiosos conhecimentos, enriquecendo esta obra com apontamen- 
tos de grande interesse; durante a impressão, tarefa, cuja diffi- 
culdade, como escriptor novel, nito tinhamos avaliado & primeira 
vista, recebemos muita vez os seus conselhos apreciáveis. 

Eis ahi explicadas, a origem do livro, as causas do seu ap- 
parecimento, a ideia c os sentimentos que elle encerra. A in- 
tenção foi nobre e patriótica, e convictos o dizemos, porque o 
nosso desejo, foi sei*vir a pátria; foi, levantar um monumento 
singelo a uns nomes illustres, que estavam olvidados na me- 
moria da geraçlto moderna. 

Aqui jazem 400 músicos portuguezes. 



Coimbra, junho — 1870. 



XXXIY IDEIAS PRELIMINARES 



(a) Ignora-se o aathor doeste grupo admirável ; a ultima supposiçlo 
recáe sobre três artistas de lihodes. 

(h) Eegraa da arte da PúUuray Lisboa, 1815. 

(c) Coílecção de Memorias relativas ás vidas dos pintores , esctãptores, 
architectos e gravadores portuguezes. Lisboa, 1823. 

Íd) Observações criticas ao Ensaio estatistico de BcUbi, 1828. 
-^oderiamos citar ainda alçumas obras relativas a esta Arte, que nSo 
tem infelizmente a importância das primeiras ; s2o: Diogo Rangel de Macedo: 
A nobreza da Pintura^ 1728. Fr. Felipe das Chagas : Arte da Pintura, João 
Rodrigues Lcâo: Parecer em defeza da Pintura. José Gomes da Cruz : Carta 
apologética pela ingenuidade da Pintura, Luiz da Costa, Quatro livros da 
simetria dos corpos humanos, traduzido de Albrecht DUrer 1589, e Felipe 
Nunes: Arte da pintura, 1615. 

(e) Sociedade do Elogio mutuo, em Lisboa. 

?f) Op, cit, 

(p) ^P- cit, 

(n) Diálogos sobre a Pintura. 

(i) Op. cit. 

(j) Les Arts en Portugal, lettre^s addresées à la Société artistíque et 
sctenti fique de Berlin, Paris, 1846. E talvez a única obm séria que trata 
da Historiadas Bellas- Artes 11' este paiz; a memoria de Raczynski deve ser 
sagrada para quem ainda entende a signifícaçJk) da palavra gratidão; para 
que os zangãos iitterarios, que tem pretendido atacar o Iívto doeste estran- 
geiro generoso desappareçam, basta o sopro de um homem honrado. 

Do mesmo author : 

Dictionnaire historico^nrfistique du Portugal, pour faire suite à Vou- 
vrage ayant pour titre: latjs Arts en Portugal. Paris, 1847. 

Com este cscríptor distincto, deu-se a injustiça vergofJiosa, de ser re» 
recebido na Academia Real das Sciencias de Lisboa, só em 1860, Í3 annos 
depois dos seus importantes trabalhos. 

(k) A antiga Escola portugueza de Pintura. Estudo sobre os quoálnm 
aUribuidos a Grão-Vasco, publicado por ordem da Sociedade pfvmotora 
das Bellas-Artes, pelo Marauejs de Souza -Holstein. Lisboa, 1868 in-8.<* gr. 

(1) Traveis in Portugal. London, 1795. 

(m) V Architecture en Portugal. Mélanges ktitoriques et archéologiques. 
Paris, 1870. 

(n) Essai statislique sur le royantme de Portugal et Algarves, compare 
aux autres états de VEurope et suivi d^un coup aceil sur Vctat actuei des 
Sciences, des lettres et des beaux-arts parmi les portugais des deux hémis- 
phéres. 2 vol. in-8.* 

Este livro, que tem também dado que fazer aos zangãos da nossa litte- 
ratura, é sério, e digno, apesar de algumas inexactidões que contém. NSo é 
crime pelo qual se possa condemnar um livro ; se assim fosse, era necessá- 
rio destruir a maior parte das obras que se tem escripto. 

Ha porém Catões Iitterarios qne não o entendem assim : Catões, que se 
compram e que se vendem, Calões modemisados. Estes pseudo-crí ticos e 
pseudo-litteratos, não querem esse defeito. Não vêem os zoilos que com es- 
sas exigências assignam a própria condemnação. 

O Essai statistiqtie, será sempre na opinião de uma pessoa inspirada da 
verdadeira justiça, uma obra boa e que nos prestou um grande serviço. 

Balbi era um homem intelligente, illustrado e de grande fundo scien- 
tifíco; que o diga o seu Abrégé de Géographie. 

(o) Allgemeine Litteratur der Musik. Leipzig, 1792 in-8.® 



IDEUS PRELIMINARES XXXT 

(p) Hiêiariêcheê (und Nettes historischtf) hiographiêáíe» Lexicon der 
TonkUnsiler. Leipzig, 1790-1814, 6 vol. in-8.« 

(q) Biograpkit UniverselU des Mimcienê et Biblio^aj^ie génirale de 
la Mu^que, Detuethme édUwn. Paris, 1866, 8 volumes in-8.* Obra monu- 
mental 

(r) Nos outros ramos da Litteratura e da Historia, dá-se a mesma 
triste coincidência, que nos cobre de vergonha. 

Em Historia : SchseíFer. 

Em Historia litteraria : Boutei-werck, Sismondi, F. Dénis, Bellermann 
e Ferdinand Wol£F. 

Em Estatistica : Balbi e Vogel. 

Em Linguistica: Friedrích Dictz. . . . 

(s) Rebdlo da Silva, Jornal dai Bellaa-Arteê, A Epiphania, n.* 1, 
1843. 

(t 1) Ch. Bumey. A general History of Mubíc, London, 1776-1789, 
4 voL m-4." gr. 

6. Martini. Storia delia Musica, Homa, 1757-1781, 3 vol. in-4.* 

J. N. Forkel. Allgemeine Geschichte der Muêik, Leipzig, 1778, 2 vol. 
in-4.» gr. 

Fétifl. Hiêtoire généraU de la musique. Paris, 1869, 8 vol. in-8.» etc. 

(t 2) Membros aa Academia florentina^ á qual pertenciam ainda Vín- 
cenzo Galileo, pae do immortal Galileo-Galiloí, (E pur si muove !!! 1633.J 
Giovanni di Bardi di Vemio, Giacomo Corsi, Pietro Strozzi, Rinuccini (poeta) 
Mei Tantiquario) Emilio dei Cavalicre, etc. 

(u) Nove annos antes, a noite de S. Bartholomen. Te-Deum laíidamus 

em Roma 17 annos depois, Edito de Nantes, dado por Henrique iv 

de França. Felipe ii, morre. £m 1609, Felipe iii expulsa 800:000 mouros. 
AHespanha vivin então, morreu depois e resuscita agora. 

!i^ Q^MMMb^em 1415, apesar da palavra imi)erial de Sigismundo. 
w) Os frades e outros agentes do papa, corriam pela Europa, can- 
tando: 



So hald das Geld im Kasten klingt, 
Die Seele avs dem Ftgftuer^ springt. 

Traducçio litteral : Logo que o dinheiro soa na caixa, 

Salta a alma do purgatório. 



Triste, triste, mil vezes triste ; onde estava entSo a religiiSo do mar- 
fyr do Golgatha? 

Íx) Livro de Concórdia, 
y) AUudimos aos acontecimentos recentes dos Açores. 

ri) Paris, 1866, 8 volumes in- 8.», 2.« edição. 

faa) Allgem. Lit, der Musik, 

a)b) Op, cit, 

(cc) Op, eit, 

(dd) Era o nnico trabalho que tinhamos até hoje sobre a Musica em 
Portugal, visto o estudo de Fonseca Benevides, a referir apenas como in- 
cidente ; todavia, sentimos dever dizer, que está completamente adulterado 
com 06 erros mais grosseiros, o que é tanto mais para admirar, que Platão 



XXXYI IDEUS PltEUMINARES 



de Vaxel teve por collaboradores, homens como José Klyestre Ribeiro e 
Agostinho Martins qae deviam estar melhor informados. 

O author merece-nos sjmpathia pelo empenho que mostrou, em nos 
querer prestar um serviço ; todavia a verdade em primeiro logar ; estamos 
convencidos que o escriptor emendará os erros do seu primeiro trabalho na 
Hiêtoria da ihtsicOj que em breve tem do entrar no prelo. 

Esperemos até lá para nos convencermos de que não nos enga- 
namos. 



os 



MÚSICOS PORTUGDEZES 



A 



ADÃO (Vicente Ferreira) — Obtivemos o nome doeste artista 
por um acaso feliz^ folheando uma Dissertação (a) do nosso theo- 
rico SolanOy de que adiante faltaremos com mais vagar. 

Pertenceu Adão á Capella real de D. José e de D. Maria l; 
onde tocava clarim, (b) 

Nada conhecemos mais doeste artista, a não ser dois Sone- 
tos (c) que recitou na mesma occasiâo em que Solano leu o seu 
Discurso — 24 de Novembro de 1779. Transcrevemol-os pela cu- 
riosidade : 

I 

A FRANCISCO IGNACIO SOLANO 

Se entre as Artes, que tanto a gente preza, 

Arte divina a Musica se chama, 

N'ella goze Solano illustre fama, 

Sublime privilegio, e mór nobreza. 
Abre com chave mestra alta empreza, 

Que das nossas paixões modera a chamma; 

Pois sem a força que a harmonia inflamma : 

Tomara ao rude caos a Natureza. 
Pega na lyra, imprime-lhe doçura. 

Com que a todos já levas a victoria 

N'esta edade presente, e na futura : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 

6óbe com cila ao Templo da Memoria, 
£ de lá mostra aos bomens a Tontura 
De ver na terra uma porçio de Gloria. 

De Vicente Ferreira Adão, Clarim da Casa Real. 

II 

Á PURISSLMA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA 

Virgem da Conceição, os teus louvores 
£u quisBcra cantar ; mas dignamente 
Só 08 Anjos, Senhora, docemente 
Podem da tim origem ser cantores : 

Só clles sSo perfeitos Professores 
Da Musica, que deve eternamente 
Dar graças ao Senhor Omnipotente 
Por nao manchar-to em teiut Progenitores : 

Do peccado de AdSo fuste exceptuada. 
Que para d'elle ser Co-Bedemptora, 
Nao havias em culpa ser gerada : 

Esta prerogativa que se adora 
Na tua Conceição immaculada 
Só tem no Céo a Musica sonora. 



(a) Dissertação sobre o Caracter, Qualidades e Antiguidades da Musi- 
ca, em obsequio da Immacvlada Conceição de Maria Santissyna Xossa Se- 
riAoia. Lisboa, 1780, pag. 26. 

b) Clarim ou Claron, (em portugncz antigo) espécie de Trombeta. 

[c) Ibid. pag. 26. 



s 



ABREU (António da Cunha de) — Foi discípulo de Frovo, e 
copiou em 1678 uin dos livros doeste compositor, intitulado : Bre- 
ve explicação da Musica. Ms. ih-4.** É tudo 6 que d'elle sabemos. 

AFFONSO V. — Decimo segundo rei de Portugal e Algarves. 
Nasceu em Cintra a 15 de Janeiro de 1432 e àhi morreu a 28 de 
Agosto de 1481. Este príncipe, dotado de uma intelligencia viva 
para as artes e sciencias e dé um desejo ardente de conliecimen- 
tos, foi o primeiro monarcha portugncz que lançou as bases para 
uma Bibliotbeca no seu palaoio em Évora, e que mandou chamar 
da Itália alguns sábios para escreverem a historia de Portugal. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 3 

As artes em geral, e particularmente a Musica, deveram-lhe 
muita estimação. Tristão da Silva foi seu Mestre n^esta ultima 
Arte. Foi também um dos protectores zelosos da Capella real, 
que emiqueceu com maior nimiero de cantores. 

AGUIAR (Alexandre de) — Natural do Porto, porem ignora- 
ra-se a data do seu nascimento, assim como a eschola em que 
aprendeu a Arte que cultivou com tanta distincçiio. Pertenceu 
como musico á Camera do Cardeal Rei D. Henrique, e depois á 
capella de Filippe n, de Hespanha. Foi um artista hábil em um 
instrumento que Machado (a) denomina — Viola de 7 cordas — 
merecendo pelo seu talento o cognome de — Orfeo. 

Era egnalmente bom cantor, e a esta circumstancia deveu 
eDe ser admittido ao serviço dos monarchas acima mencionados, 
que o trataram com distincçSo. 

Alem de instrumentista e cantor, ibi também compositor da 
maior parte das peças, que cantava, acompanhando-se com a 
viola; a lettra dos versos para os quaes compunha a musica, tam- 
bém era sua. 

Voltando em 1603 de Madrid para Lisboa em \xm coche, 
morreu afogado em uma torrente, entre Talaverlla e Lobon, pe- 
recendo egualmente n'esta catastrophe Francisco Corrêa da Silva, 
filho segundo de Martim Corrêa da Silva, Embaixador de Portu- 
gal junto a Carlos v. Succedeu este triste caso a 12 de Dezem- 
bro de 1603. (b) 

Apesar de nSo conhecermos as composiçSes de Aguiar, que 
em seguida ennmneramos, devemos crer no seu mérito, se consi- 
derarmos que nSo era de fácil accesso a entrada na Capella de 
Filippe II, que estava então em um estado florescente, provida de 
bons cantores e dirigida por músicos illustres. Entre as suas com- 
poeiçSes distinguiam-se principalmente as: 

LamentaçSes de Jeremias* — Estas composições cantavam-sc 
em Lisboa na Semana Santa. 



n 



a) Bibliatheca Lusitana, vol i, pag. 93. 

Baptista de Castro, no Mappa de Portugal, t. u, p. 346, 2.* ediçSo, 



4 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

indica a data de 1605 ; julgo ser erro, pois Castro iárou a sua noticia de Bar- 
bosa Machado ; nSo sabemos explicar esta divergência de outra maneira. 



ALCOBIA (. . .)— Tenor, citado por Balbi no Emíi StatisU^ 
que. Residia em Lisboa em 1822. 

ALMEIDA (Aatonio de) — Mestre d« Cathedral do Forto, sua 
pátria. Viveu no meado do século xvi. Fétis (a) attribue a este au- 
ctor a musica de um Oratório^ ci\ja texto foi publicado com o ti- 
tulo: La humana sarça abrazada, el gran Martyr 8. Laurentio 
Coimbra, 1556, in-4.^ Presumo que ha aqui engano da parte do 
illustre critico belga, e que Almeida foi sámente o auctor do liyro 
mencionado (b) e não compoz musica alguma para o texto; esta 
hypothese é tanto mais provável, visto que Almeida foi um poeta 
cómico tnsigney na phrase de Machado, que cita em abono d'esta 
asserção a seguinte obra: La humana sarça aírazaday el Gran 
Martyr S, Laurentio^ — Coimbra, por Thomé Carvalho, Impres? 
sor da Universidade. 1556, in-4.** 

(&) Biographie unívers. des Mustcieiís. Paris, 1866, 2.®^ ed. vol. i, p. 76. 
(b) Btbliotheca Lusitana, vol. ii, p. 197. 

ALMEIDA (Fr. Fernando de) — Natural do Lisboa; religioso 
da Ordem de Christo, que professou no convento de Thomar em 
1638; (a) onze annos depois, isto é, em 1656 alcançou o cargo de 
Visitador da sua Ordem. Foi um dos melhores discípulos de Duar- 
te Lobo, e muito estimado por D. João iv, que estava bem no caao 
de appreciar o talento de qualquer compositor, tanto pelos seus 
conhecimentos tbeoricos e práticos, como pela critica intelligen- 
te de que era dotado. Attendendo a que professara em 1638, sup- 
põmos que nasceu Qm 1618, pouco mais ou menos. Falleceu em 
Thomar, (b) a 21 do Março de 1660. Entre as suas numerosas 
obras distinguem-se as seguintes: 

1.) Um livro que cornprehende: LarmntaçSes^ Eesponsoríos e 
Misereres dos três Qfficios da Q^artUj Quinta e Sexta-feira da 
Semana Santa. — FoL Ma. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 5 

D. JoSo IV, Bstando em Thomar e ouvindo algumas doestas 
composições, achou-lhes tanto mérito, que mandou tirar uma :C0- 
pia do livro; estas producçoes foram depois cantadas em Lisboa, 
na Capella real por ordem do mesmo príncipe. 

O livro autographo existia ainda no meado do século xvni, 
no convento de Thomar. 

2.) MÍ9êa a doze vozes. — Conservava-se n^ Bibliotheca Real 
da Musica, em Lisboa, (c) destruída pelo terremoto de 1755. 

Fétis (d) falia a propósito doeste compositor n'um convento de 
S. Thomaz, (Saint-Thomas) onde professara e do qual fôra Visi- 
tador; suppômos haver engano, e ser este convento de S, Thomaz 
o mesmo convento de Thomar. 

(z) Fétis Biographie Umverselle, ri — 75, cita a data de 1636; Ger- 
ber, yfeues hiat. Lexicon der Tankimstler. vi — 74, traz a nossa. 



(b) E nâo em Lisboa, como diz Fétis, ibid. 

(c) - ■ ■ '- 



[c) iTidex das Obras q%te se conservam na Bibltotlieca Real da Musica, 
impresso por Pedro Craesbeck. Lisboa, 1649. gr. in 4.*» de 521 pag. l.» parte 
BÓ. Barbosa Macbado indica tambcm as datas 1645, Bihlioikeca Lusitana, 
Yol. iii — 385; e 1648 (ibid. vol. m — 800). A primeira (1649) parece-nos a 
unica verdadeira. 

(d) Bioffraphic Umverselle des Musiciens, vol. i — 75* 

ALHEIDA (C. F. de) — Violinista distincto e compositor para 
o seu instrumento. Estava no principio d'este século em Madrid 
ao serviço do rei de Hespanha. 

Ha d'este artista: 

Seis Quartetos para 2 rebeoas, violeta e violoncello, grava- 
das em Paris — 1798, Pleyel. 

A Oazeta musical de Leipzig, (1,^ anno pag. 555) traz uma 
apreciaçSk) d'é8tas composições; infelizmente não a podemos re- 
produzir, porque só a conhecemos de nome; além d^isso é quasi 
impoasivel obter aqui o celebre jornal allemSo de que acima fal- 
íamos. 

ALMEIDA (P.^ Ignacio António de) — Âbbade de S. Pedro 
de Penedono, bispado de Lam^o. Nasceu em GuimarSes a 18 
de Fevereiro de 1760, e morreu a 25 de Outubro de 1825. 



6 OS MÚSICOS PORTUGDEZES 

Foi fBSiÈO de Jeronymo Oftetano de- Âhneida e Josèplia Luí- 
sa, e baj^tísado na egreja d& intígne e real OoUegiada de No8«a 
Sentora da Oliveira. Entre a» SBas ikmpoBiçSes encontnai^ae 
Officios de dêfunctos, variaB Missas, um Stahat Mater, Oficias 
da festa de Ramos e da Semana JSasíia* Giande^parte daa inaa 
composiçSes existiam no archivo do axvebiipo de Braga, em etrja 
cathedral foi mestre da Capella durante muitos annos» NBo sabe- 
mos se estas composiçSea estavam na pvte do paâaeío archíepi- 
scopal que ardeu ha podoo tempo» - - ' 

ALTARBKOA (Maneei Ignacio da 8il^a)~Peeta'e- amador 
distincto na musica. Tocava com egual talento flauta e rabeca» 

As noticias da sua vida podem vêr-se em Wolf; na Historia 
da Litteratura BraziUira* 

^ ÂLlàltO (...) — l^oramos oseu appellído, e das suas cir- 
cumstanGias pessoaes sabemos apenas que fora Licenciado. Dedi- 
cou a Âffonso y, em louvor da conquista de Árzillâem 1472, tmi 
Qfficio com a solfa de CantochSo, que se havia de cantar em acçSo 
de graças por esta victoria alcançada pelas armas portuguezas. 
O titulo doeste officio é: 

Vesperae, Matvtinum et Laudes cum Antiphonis et figuris 
tmísitis de inclrfia ac miraculosa victoria iii' Africa parte ad Ar* 
zillam, era 1472. 

O autographo existia na Bibliotheca do Infante D. Pedro. 
Estava eseripto em noveiblhas de pergaminho e encadernado em 
bezeiTò sobre taboas com bmobas^ ò que indica claramealea an- 
tiguidade da obra. Esta composiçSo perd^t-sey pois existia só o 
excanplar autographo que mencionamos, porque n2o conhecemos, 
nem ouvimos fallar em outro qualquer. SupposiçSo esta bastante 
desanimadora, mas talvez a única verdadeira, que nos priva de 
uma das primeiras producçoes da arte em Portugal. 

AVGEIiO (. . .) — Qantor subsidiado na Itália pelo governo de 
D. JoSo VI* Depois' de c<wpletar oe seus .estados artistíoocr^ vol- 
tou para Lisboa aonde estava em 1821. 



os MDSKJOe PQETUfíDEZES 7 

'MtUOB ^. Smôi d09)**^]!i(a8ceu na^ primeira metade do se- 
loulaxvn^ e entrou a 6 de J«a«^ijro del656 na Ordem doB Jerony- 
moi^ ^e peofesBpa ]M> mosteiro de Belém. Tocador dehiurpa> yir- 
^ÉQOiftD na irioUt vlàgembeu (a) o <y>n^aitor; era reputado contra- 
^Mfttieta difltia(iolo« Morrea no conyento de Belém, a 19 de Janeiro 
^e 1709; foi natural*de Uaboa. 
. ' GbmpSa: •• 

l-«) Bè^pamãorio$ para todosoê Feêtas dé primeira elaese. 

2.) Pifamos de Vedras e Màgnificctê» 

3.) Diversae Missas, Vilhancicos e Motetes. 

Estas obras existiam no convento de Belen^ n«í tcanpo em que 

Mariíado escrevia o primeiro yolmne da BiblíoiAeca Lusitana. 

... , . 

(a) Instrumento qne deu origem ao yioloncello ; n2o differía essencial- 
mente d*e8te instrumento; era porém um pouco mais pequeno. 

A1IJ08 0^. Lnift d08)'-^M<mge Carmelita. Foi um dos 
JiiaiS' applandidos musieoB qne houTe na corte, no começo, do se- 
eoloysmíii (a) 



^^ Fr. José Pareita de SanfÁmia, Chroniça doê Carmeliki* calça- 
dos. Lisboa^ 1745, toI. i — 375. 



AMOS (Simia dos) — Sabemos apenas que fôra nm doa dis* 
cipnlos distinctos de Manoel Mendes. 

AinUt (P.* Fr. DoBdngoa de 8ant') — Caat(»r-Mór no oonven- 
to da Santíssima Trindade. O desastre de 1755 Tein pôr termo a 
nma Tida esperançosa^ que contava apenas 33 aanos. Ficoo. es- 
magado debaixo das minas de sen conrentO; qnando officiava na 
eapeUa da GoneriçSo. 

Este mnsico distincto era tamb^n dotado de nma habilidade 
rara sobre o rabedk). 

^ JJniA ^. Joaqnim de Sant*) -^Religioso trinitario como o 
aatoeedeate. Pereceu na mesma oecasiSo. (175$) e logar. £rá af- 



8 GS MÚSICOS PORTUGUEZES 

famado como bom organista, e favorecido pela natureza com uma 
Toz excellente. 

A propósito de orgSo, não podemos deixar de mencionar 
aqui OB dois celebres instrumentos que pertenciam ao convento 
da SS. Trindade, e que eram considerados no numero dos melho- 
res órgãos da capital; egualinente bellòs eram três instrumentos 
que estavam no coro do convento de Nossa Senhora da Graça, em 
Lisboa; o maior doestes três era muito antigo, e celebre pela sua- 
vidade das suas vozes e talvez o melhor órgão da capital. Os in- 
strumentos acima mencionados, pertencentes ao convento da SS. 
Trindade tinham custado cada um 25:000 cruzados no fim do se* 
culo XVI (1569)! 

Tudo se perdeu cm 1755. 

ANNIBALINHO (. . .) — Conhecemos este musico pelo livro de 
Volckmar Machado (a). Foi um dos cantores da Capella Patriar- 
chal e talvez um dos que D. João v mandou vir da Itália, por 
que ou era portuguez, (como o nome parece indicar) e n^este caso. 
estava estudando a musica na península itálica, ou foi um dos 
italianos que D. João v mandara chamar a Lisboa para reforçar 
e melhorar a execução na Capella real. 

Foi egualmente pintor e um dos scenographos do theatro de 
D. João v formado no paço, c onde a Opera italiana fez a sua es* 
treia em Portugal a 4 de novembro de 1737 (b). 

(a) CoUecção de Memorias relativas, às vidas dos Pintores, EsaUpto- 
reSy Architectos e Gravadores portuçuezes. Lisboa, 1823, ia 4.o 

(b) Emquanto ás noticias relativas ao estabelecimento da Opera em 
Portugal, sen desenvolvimento e decadência, vejam- se as biographias de D. 
João V e D. JoBÓ. 

imniNCIAÇÃO (Fr. Gabriel da)— Natural de Ovar (a). Nas- 
ceu em 1681 (b) o foram seus pães Andrade Francisco de Aguiar 
e Izabel de Carvalho. Foi mesmo na sua pátria que aprendeu os 
principies fundamentaes da musica c ahi entrou na Ordem fran- 
ciscana a 6 de Setembro de 1706. No convento de Leiria comple- 
tou a sua educação com a frequência dos estudos superiores, e 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 9 

oomo na soa corporação lhe conhecessem as bellas dlsposíçSes 
musicaes, foi nomeado vigário do côro dos conventos de S. Fran- 
eisco em Coimbra^ Porto e ultimamente em Lisboa. Vivia ainda 
em 1747. Publicou: 

THEOBIA 

1.) Arte de Cantochão para uso dos Religiosos Francisca- 
nos observantes da Santa Provinda de Portugal. — Lisboa, na 
Officina da musica — 1735, in 4.^ 

O titulo que Forkel (c) dá a este 1í\to diíFere um pouco do 
que acabamos de apresentar, isto é: 

Arte de Cantochão resumida para o uso dos Religiosos 
Franciscanos observantes da Santa Provinda de Portugal; o 
resto concorda. 

Esta olnra na opinião de Lmocencio da Silva é rara, (b) e não 
existe na Bibliotheca Nacional. AnnunciaçSo dedicou-se ao Ímpro- 
bo- trabalho de ordenar e reformar a livraria pertencente ao Coro 
da Cathedral de Lisboa, livraria que serviu, como o templo, de 
pasto ás chammas em um desastre occorrido em 1707, a 10 de 
Junho; 48 annos depois desapparecia a riquissima livraria de 
D. João IV em um incêndio mais horroroso ainda. 

Como se não bastasse a ignorância e a brutalidade dos ho- 
mens, veiu o fogo ajudar e concorrer para a ruína quasi total das. 
nossas preciosas relíquias artísticas 1 

PRATICA 

1.) Livro de Antiphonas e Feriaes desde a Dominga de Pas- 
choa até ao Advento. — Folio. 

2.) Livro de Antiphonas e Feriaes que prindpia no Adven- 
to até Sabbado de AUeluia. — Folio em pergaminho. 

3.) Livro de Missas próprias das Domingas que principiam 
na primeira do Advento até ao Sabbado de Pentecosten. — Folio. 

4.) Livro de Missas próprias desde a Dominga do Espirito 
Santo até á ultima post Pentecosten, 



10 0& HU8IC03 FoarrueuEzacs 

5J) Lif>ro ãe Mtsscu de Santa8:--->--Fo]io. * * 

6;) Mem de Mima» partictdarésxí 4 vfmes. 

7.) Livro do Offido da Mina de Defunetoê, Offieio doãSe^ 
ligiosoa com varias Antiphonas de Suffragioe pelos Religiosos. — 
Folio. . ' 

8.) Offiicio do Archanjo 3^ Migv/d para o Convento de S. 
Francisco do Porto* 

9.) Matmial e Ceremomal do canto ^ que pr^Muraiva para a 
impressSo. 

(a) Fétís, Biograph, Univ. Yol. n — 112, indica Lisboa; parece-nos 
ser erro. 

(b) FotkAt Mgememt IMeraiwr der MusiL LeípBg'1792, par. 90L 

(c) Ibid. 

(d) DiecAmario Btbliogrc^Jncõ, Vol. m— 105. 



ANinniCIáÇiG (PhiUppe da)--0(mego regular d» flauta^ 
Cbruz« Nada xnaiB aabemoB d^teartíita,' 

Esoteveu:. 
< Acompanhamentos para Orgào, de IfymnoSy Miesas e tudo 
o mais. que ft&xsanta no oôm^dos Oonegos regularea Lat^aneiuies 
da CongregaçBo Brformadarde S« Groz deCoimlim.**-1754> 1^1. 

. .' ■ • ' ' • " » 

ANTÓNIO (P.*. . ;)r^MoBge francisoano^ profesBor de Musi- 
ca no Rio de Janeiro na primeira metade do século xix. cCeat (a) 
utt três grand piamste et son talent a été admire parBachicha, 
Jofié-Maorício (b) et TaOemand Neukomm.» (c) 

(a) Balbi, Essai sUUistique sur le royaume de Portugal et d^Algarve. 
Paris, 1822. Vol. ii— ocix. 

(b) Este José Maurício n2o é o professor de Coimbra, más sim o pa- 
dre. José Maurício Nunes Garaia» > 

(c) Celebre orgauista e pianista (1778-1858); foi discípulo do ilUistre 
Haydn. 

^ ' ANTOIDO. (Fra]iciaoo)«^E8culptor portugoez; discspolo de 
José de Almeida. • 

Tiuha-se dedicado também i murica^ o era dotado de imia 
voB de baixo Jbuutaate deseinrolvida» Entnmem 1790 paasaa Ir* 



eS^ MUSICDB POBTUGUEZffiS 11 

mandade de Santa Ceeilia e dirigia em 1791 ^ 17d2 a &ata de S. 
Lucas dos Fintores^^na Oapelia de Santa Joanna. Mmnseu sexage- 
iMoio^ poixeo mais ou menos em 1785 ou 1796. 

e 

ANTOHIO (Fr. José de Santo) — Mandou imprimir: 
EUimentos de Musica por Frazenio. de Soyto Jenaton, (ana- 
gramma) Lisboa, por António Vicente da Silva. 1761 in 4.^ de 
Id pag. Um -exemplar doestes Eleraentoã^xisÚA na Imairia do ex- 
tincto convento de Jesus^ com a indicação i^. 

33 

AHTOIHO (Fr. Urbano de Santo) — Musico theorico e critico, 
Examiwddir synodal do Fatriarcbado e das três Ordens militares, 
Qualificador do Santo Officio, Iieitor de Theologia etc. ,Na Nova 
Jngtrucção musical encontramos uma apreciação doeste livro feita 
por^ordem dos ctaisores da Inquisiçlo. por este cxilíoo. Urbano de 
Santo António, depois de jorna analyse que occupa cinco paginas 
em que elletece os maiores elogios ao livro de Solana, eonvida os 
aeufl ooU<^as e superiores ã approvarem a publicaçSo, .como sendo 
jsmA oIhvi destãnacbijb^ estabelecera fama do seu auetor e aser a 
^ria de Portugal^ Este exame critico traz a data de 30 de Maio 
de 1763, no Hospício dos Menores reformados da Província da 
4aabidii, n<r:^08ipital Beal de todos os Santos. 



/.. 



\ 



ABálQUL (Hãtlieiia de)'~^LeDte de Musica na Universidade 
de Coimbra por provisilo de 96 de Julho de 1544, e Mestre da Ca- 
thedral de Coimbra. Parece que foi anteriormente (1530) Mestre 
de Capella na Sé de Lisboa. 

Escreveu: 

Tratado de Cantollanoy ContrapunciOfporMkíkeodeAran" 
da. Maestro de lã capilla de la Se de Lixboa. Dirigido ai {Oa/ã" 
trissimo seSlor D. Alonso Cardenal Infante de Portugal, Arçobis- 
pode láwkoa y Jnspo de Eitota, Comen4cti€MnUh de Alci3Íbàça.Cvm 
privilegio real. Lisboa, 1533 por German Ghillardey (a 96 de Se» 
ti$sirâ>i]^, «égttjidos.Q exempladr que «xasainamois) in 4r.~^ de iv — 
144 f»g^.ííiQlíBpxer9A9»*^A parte rdativa ao Otmtochão tem iv — - 



12 GS MÚSICOS PORTUGUEZES 

71 pag., a relativa ao Canto mensurahiU (a) y contrapuento iv — 
66 pag. Ambos os Tratado» estão em letra gothida, clara e bem. 
impressa. 

A primeira parte trata, como dissemos do CantochãOy apre- 
sentando as suas regras elementarmente; nada se encontra de 
notável n'e8ta porte em queestSo accrnnuladas as doutrinas pesa- 
das e obscuras d'aquelles tempos. 

O génio de Palestrina ainda nSto tinha espalliado pela arte 
da Península o seu fogo vivificador. 

Tennina o auctor esta parte, fallando d*aquelles que ousam 
pôr em duvida os dogmas musicaes que còllocam a musica entre 
o el 8Íy él no (sic) e diz : 

«Oh, sentidos tão remotos! Oh coraçSes tão duros! Sahi da 
vossa cegueira e dureza, pois mostraes que a causa da vossa igno- 
rância, está em não quererdes tributar o devido reconhecimento 
a nossos passados, que nos deixaram a verdadeira doutrina que 
d'elles devemos conservar, mesmo que por insensatos a não in- 
tendamos...» etc. 

O tratado do canto mensurabile segue o plano do tratado de 
CanfocA^. Apresenta durante o decurso da obra exemplos a 2, 3 
e i vozes com as regras dispostas confusamente, é termina com 
um resumo em 9 folhas; segue um appendice: De ContraptmctOy 
em que resume as regras ou conclusiones (sic) acerca do contra- 
ponto sobre o Cantochão. 

(a) Canto dè orgSo. 

ARAÚJO (Pr. António de) — Monge cisterciense no convento 
de Sàlcedas e successivamente mestre de Noviços, abbade do 
Mosteiro de S. Pedro das Águias e abbade dos Religiosos de S. 
Bento de Castris, perto de Évora. Foi um excellente desenhar 
dor; as suas obras, que eram numerosas, andavam espalhadas 
pelos conventos do reino. 

A julgarmos pelo testemunho de Barbosa Machado, desenha- 
va com admirável perfeição os livros de musica e outras obras; 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 13 

residindo uliimamente em Alcobaça, escreveu em 1636 o Indesc^, 
dos liyros e descripçHo dos emblemas e figuras que existiam na. 
mesma livraria. Conservava-se em Alcobaça. Este artista apre- 
ciável era natural da Villa da Rua, Bispado de Lamego. 

ARAÚJO (Francisco Corrêa de) — Presbytero, bom professor. 
de musica e excellente organista. Tocava este instrumento na 
Egreja coUegial de S. Salvador de SeviUia, onde foi Reitor da Ir- 
mandade dos Sacerdotes, sendo eleito em seguida Bispo de Segó- 
via. Morreu a 3 de Janeiro de 1663* A sua familia era distincta 
e antiga. Calcula-se o seu nascimento pelos annos de 1581* 

Existem muitas duvidas a respeito da nacionalidade doeste 
artista, que alguns musicographos dizem ser hespanhol. Expore- 
mos claramente o que ha contra e a favor doesta hypothese; o pu- 
blico julgará a que paiz deve ser incorporado, se a Portugal, se 
a Hespaoha. Inclinamo-nos á primeira opinião, que nos pareço 
ser a mais proVavel pelas rasoes que vamos expor. 

A favor da primeira supposiçâo apresentamos a autbpridade 
de D. Nicolau António (a) a quem como hespanhol interessava 
maia nm» affimação em contrario. Hilarion Edava (b) combate 
esta opinião com rasSes, que (perdoe-nos a ousadia) pouco ou nada 
pezj^m. Diz o sábio compositor hespanhol: que o nome de Corria 
n2o è portuguez. PcrdUo! c t^ portuguez como o de Araújo; sSo 
ambos mui vulgares em Portugal. A conclusão que o composi- 
tor madrileno tira, dizendo que Araújo era de origem portugueza 
pelo lado materno, por ser Araújo um nome portuguez e de ori- 
gem hespanhola, e por ser Corrêa um nome hespanhol, é mais 
engenhosa que verdadeira e cáe á vista das rasSes apresentadas. 

Não nos leva intenção alguma particular á discussão doesta 
questão, mas sim o desejo do conhecermos a verdade, e de a apre« 
sentarmos ao publico, que já se nutre demasiadamente de men- 
tiras, para que lhe estraguemos o critério com mais alguma. 

Hespanhol e portuguez é a mesma cousa, são dous povos, fi* 
lhos de mna mesma mãe, separados só pela vontade antipathica 
de luna madrasta. Esta questão com que a verdade agora, lucra, 



14 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

resolver-BO-ha d'aqai a pouco mais satisfactoriamente/ porque eu- 
tSo não haverá differença entre portnguezes e hespanhoes. 

Assim como succedeu com o nome, ha também divergências 
sobre o titulo das obras do nosso compatriota. SSo: 

Tientos y discursos músicos y Factdtad orgânica. Parece ser 
o verdadeiro titulo, pois Eslava o copiou de um exemplar que en- 
controu na Bibliotheca Nacional de Madrid; o theorico bespanhol 
apresenta em uma das suas belks obras (c) a analyse d'este livro* 

Em vista doestas circumstancias temos de apresentar como 
errados os titules mencionados por D. Nicolau António, (d) Ger- 
ber (e) Forkel (f) e Barboza Machado (g). Este ultima cita: 

Factdtad orgânica, Alcala por António Amão — 1626 folio; 
parece que examinou a obra, porque diz: cNas advertências 
doesta obra, Parte i, folio 2, promette mais duas outras : 

Uma: Casos morales de la musica^ e outra De Versos» 

Julgamos ser uma ediçZo separada da Fa^uUad orgânica^ 
que, no livro que Eslava examinou em Madrid, viría.junta com 
os Tienios y discursos músicos. 

Talvez seja esta a verdade e n^este caso teriam Gerber e For- 
kel rasSo, apresentando estes titules como pertencendo a obras 
diversas e separadamente impressas. Pelo outro lado teria tam- 
bém Eslava rasSo para apresentar os dois titules doestas duas obras 
reunidas n'uma só e como pertencendo a um só escripto. 

Andávamos fluctuando entre estas diversas opiniSes, e com- 
nosco fluctuava também a verdade, quando tivemos a felicidade 
de encontrar em um catalogo francez (h) o titulo exacto d'esta 
obra t2o fallada, Eil-o: 

Libro de tientos y discursos de musica pratica e theorica 
de organOf intitulado : Factdtad orgânica^ con el qual, y con mo- 
derado estúdio y perseverança, qualquer mediano taiíedor ptiede 
salir avantajado en ella, sabiendo destramente cantar Canto de 
Organo y sobretttdo teniendo Jmen natural, Alcala por António 
AmSo — 1626, folio de 5 folhas preliminares nSo numeradas, (este 
numero comprebende também o titulo) 26 folhas de texto e 204 
de musica em liçSes de solfejo. 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 15 

A vista d^esteQ eadfirecimentos^ parece que devem cessar 
todas as duvidas; ainda asaim nâo sabemos explicar como é que 
o titulo de Eslava, sendo copiado de um exemplar genuinO; nSo 
concorda com este. Esta divergência confirma-nos mais na nossa 
supposiçSO; que : ha differentes ediçSes do livro de Araújo e tal- 
vez algumas mais completas do que as outras. Talvez que assim 
se expliquem as citações. de D. Nicolau António, Machado, Ger- 
ber e Forkel, tão diversas nos titules. 

Fétis (i) é o auctor que na citação d'esta obra se aproxima 
mais do nosso titulo. 

Hilarion Eslava diz. que as peças contidas n'e9ta collecçSo 
Th/enioê y discursos, sao umas setenta. 

No fim da obra gaba-se Araújo de ter apresentado n'ellas 
cousas que nunca foram olvidas. 

Posto que algumas d^essas innovaçoes sejam extravagantes 
diz o mesmo critico, não se pode ne^ar que Araújo fosse um ar» 
tista de génio e um organista de mérito mui distincto. 

No catalogo em que falíamos estava p exemplar marcado 
em 400 francos ! (72|0OO reis). Apesar da raridade do livro acha- 
mos este preço exorbitante; admirou-nos também a certeza com 
que o individuo que redigiu o catalogo, affirma, que; cjamais 
exemplaire se soit trouyé dans un catalogue ni de vente, ni á prix 
marque. • A segunda asserção talvez seja admissivel^ a primeira 
porém, é duvidosa. O preço mais. elevado que na nossa .opinião se 
pôde pedir pelo livro, se attendermos á sua raridade e maior ou 
menor valor de conservação, é de 60 a 80 francos. . 

NaBibliotheca musical de D. João rv existiam o autographo 
dos Comos morales de la Musica e algumas cpmposiçSes de Araú- 
jo, taes como PsalmoSj Motetes e Vilhan^icos, e varias poesias. 

(a\ Bthlioihcca Hispana* Appeodice, ypl. ^, p. 322. 

(b) Distiocto compositor hcspanhol, crítico estimado e actual Director 
do Conservatório de Madrid. 

>c) Museo orgânico espaiioL Madrid, 1853,: foi. Prologo. 

rd) líibl, Hisp. vol. II, pag. 332. 

[e) Notes histórisch hiogfraphisthes, Lexieon der- ToniUnsêier, Ldpzig, 
179C-1813, vol. I, p. 136. 



16 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 



S 



f^ AUffemeine TJtercUur der Musik, Leipsig, 1792, pag. 332. 
(tn Biidioihtca Lusitana, vol. ii, p. 136. 

(h) Catalogue (Tune Òelle collection de livres anctens et modemes rela- 
tifs à la Musique et à la Danse. Licpmannssohn & Dufonr, Paris, 1869. 
(i) Biographie Untverselle, vol. i, p. 125-126. 



ASSUMPÇÃO (Soror Archangela Maria da) — Esta religiosa 
é auctora de um Canto pastoril com caracter religioso, represen- 
tado e cantado no convento de Nossa Senhora da ConceiçSto das 
Religiosas de Santa Brígida, no sitio de Marvilla. 

Ignoramos, se a religiosa, auctora dos versos, também foi 
quem escreveu a musica para os coros e para umas phrases sol- 
tas, em forma de Recitativo, que se encontram no poema. 

£ provável que assim fosse, pois n'aquelle tempo estava a 
educação musical muito generalisada nos conventos, como se vê 
por varias noticias que deixamos escriptas no decurso doeste li- 
vro. Eis o titulo do folheto : 

Festivo applauso em qiie uma Religiosa como pastora, e os 
Anjos como músicos, no convento de Nossa Senhora da Conceição 
das Religiosas de Santa Brígida no sitio de Marvilla, celebra- 
ram o nascimento do Menino Jesus. Lisboa Occidental, na ofici- 
na de Joseph António da Sylva, Impressor da Academia Real^ 
1737, in-4.«» de 21 pag. 

O poema foi dado á estampa por um amigo da Religiosa', 
que lhe accrescentou umas notas em Latim. Tem 33 oitavas, 5 
quadras e 5 sonetos de differentes religiosas, alem das phrases 
soltas dos Recitativos. 

As oitavus eram recitadas pela pastora ou Zagalla e de vet 
em quando interrompidaô pelos coros e recitativos. 

Os versos sSo muito ingénuos. 

AVILEZ (Manoel Leitão de) — Mestre de Capella em Grana- 
da no principio do seculõ xvii, (1625) logar que lhe conquistara 
a sua reputação. Nasceu em Portalegre e pertenceu á eschola d^ 
António Ferro, que firequentou sendo Moço do Coro, na Cathe- 
dral da sua pátria. Na Bibliotheca d^Ej^-Rei D. João iv, existiam 
as seguintes obras d'este compositor : 



os .MÚSICOS FORTOGUEZES 17 

10 Mi$$a$ a 12 votes. Estante 36^ N.^ 812. 
2«) Missa de Nossa Senhoray a 8 vozes. Estaate 36> N.<^ 807. 
Outras muitaa Missas aadavam espalhadas pelas mSos dos 
curiosos d'esta arte. 

AYRES (...) — Amador; tinha uma excellente voz de barí- 
tono, dotada de bastante agilidade na execução de composições 
nacionaes e estrangeiras no estylo italiano. Estava estabelecido 
em 1822 como negociante no Rio de Janeiro. Era também um 
dos oompofiit<)ire8 de Modinhas mais festejados na capital do Bra- 
sil. 



B 



BACfflIGHAv(. . .)' — Nome singular pertencente a um pianista 
de talento que fazia parte da Capella Real de Lisboa, no começo 
doeste secnla (1620), e depois da do Rio de Janeiro. 

Enk dotado de um talento verdadeiramente extraordinário, 
sendo sobretudo notável pela expressão admirável com que des- 
empenhaiva as suas improvisaçSes, mérito esta, que é o caracte- 
rístico das grandes viríuosi. Bachicha em 1820 nSo tinha ríval. 
Os últimos annos da vida d'este artista foram obscurecidos por 
unoa^desgraça, a que só podemos comparar a surdez de Beethoven. 
BachiehA endoudeceu! Parece porém que a loucura tinha desper- 
tado n'eUe, mais vivo ainda, o sentimento artistico. Um novo mun- 
do> que só elle podia ver, enchia-lhe a alma de tristezas e alegrias 
extranhafl, que ríam e choravam nas vozes do seu piano. Então o 
seu talento tomava proporções surprehendentes, a inspiração le- 
vavaro a alturas ignotas d'onde bem cedo descia á realidade; os 
dedos. afirouxavam pouco a< pouco, o sorriso apparecia; o artista 
tinha morrido, e o louco resuscitava! 

Assim foi vivendo eum dia«^morreu. 

t 



18 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

D^elle ficouy pois nSo temos composiçSo alguma que dei- 
xasse, apenas a memoria, que pela opinião unanime dos seif s con- 
temporâneos bem merece ser legada á posteridade. 

BALDT (João José) — Contemporâneo de Marcos Portugal e 
compositor de musica sacra. Foi musico da Camará real e orga- 
nista de mérito. 

O actual par do reino é, segundo cremos, filho d'este artista. 

Legou-nos muitas composições, taes como Missas, Matinas 
da Conceição^ e uma Litania em lá. Estas composiçSes eram es- 
timadas. 

BAPTISTA (Fr. Francisco) — Nasceu na villa de Campo- 
Maior (Alemtejo) e vestiu o habito dos Eremitas de Santo Agos- 
tinho. Foi discipulo de António Pinheiro, e parece que aprovei- 
tou bastante com as liçSes doeste hábil mestre, pois sabemos que 
fôra Mestre de Capella em um convento da sua ordem na cidade 
de Córdova. A sua actividade artistica resume-se nos annos de 
1620-1660, pouco mais ou menos. 

Compôz varias obras musicaes, porém ignora-se de que na- 
tureza eram; existiam na Bibliotheca Real da Musica, (a) 



(a) Index das Obras qiie st conservam na Livraria Beal da Mu- 
sica, Lisboa, por Paulo Craesbeck, 1649, 4.« gr., 1.» parte. 



BARBOSA (Árias) — Discipulo do sábio Angelo Politiano em 
Florença, e Lente da cadeira de Eloquência cm Salamanca, que 
occupou durante vinte annos. (a) 

Foi chamado depois a Lisboa por D. JoSo ui, sendo ahi mes- 
tre dos irmSoB d'el-rei. Ignorasse ao certo a época da sua morte, 
que uns fixam em 1520, outros em 1530. Foi natural de Aveiro. 
Barbosa é mencionado n'este livro por ser auctor da seguinte obra: 

Epcxmetriaj ou tratado da gerado dos sons. Sevilha, 1520, 
in 4.** Forkel (b) pretende ter sido publicada em Salamanca, fan- 
dando-se na auctoridade de Sulzer, (c) que nSo menciona a cidade 
de Sevilha, como logar da impressão. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 19 

O auctor queixa-se n'esta obra, do mau effeito que produziu 
nSo BÓ na musica, mas também na pronunciação vulgar e poética 
das syllabas e das palavras, a introducçHo dos géneros em har- 
mónico e chromatico: mSeripserunt ille relectionem magnificam 
doctam vòeremque, in qua multa questus est quod non modo must- 
ce temporum vitio indignam passa est jacturam ãuonm generim 
enarmonici et chromatici, cum tempestaie nostra vix diatónico 
cantetur; sed etiam' quod percere vocum syllabarum que tumpoe- 
ticae, tum còmmunes pronunciationes.i^ 

Barbosa parece pertencer á escola de Isaac Vossius. (d) 
Esta seita dava como provadas todas as fabulas que se contavam 
do effisito extraordinário da musica grega, attribuindo este á va- 
riedade do seu rhytmo. Negava toda a belleza á musica moderna, 
que considerava «m aborto da arte e que julgava indigna de oc- 
cupar a attençSo dos homens intelligentes. As provas que estes 
partidários da musica antiga apresentavam em abono das suas 
opiniSes, reduzia-se a pouca cousa ou nada. Divertiam-se a mi- 
mosear os seus adversários com toda a qualidade de palavras ex- 
quisitas e pouco sonoras, tiradas do Diccionario do baixo hxtim. 
• NSo se pôde realmente defender uma idéa com armas mais fracas. 

(a) Forkel, Allgtmeine Literatur der Musik, pag. 441, traz também 
Ariíis. Este nome equivale a Ayres, como vemos pelo nome de Ayres Pi- 
nhel, juiipconsulto, que em latim era Anos Pinei. 

(h) Ibid. 

(c) AUgemeint Theorie der schoenen Kumie. Leipzig, 1792-1794, p. 376. 

(d; Celebre i)hilologo nascido em Leyden em 1618. Publicou o seguinte 
li%T0, que fez bastante sensaçSo no seu tempo : De Poematum caniu et vi- 
rtbuê rnytmú Oxford, 1673, in 8.** 

Morreu com a dignidade de cónego cm Windsor, (Inglaterra) a 21 de 
Fevereiro de 1689. 

BARCA (Francisco) — Natural de Évora, e freire da ordem 
militar de S. Thiago que professou no convento de Palmella a 26 
de Dezembro de 1626, onde entrara no anno precedente. Foi Mes- 
tre de CapcIIa no seu convento cm 1640, e exerceu depois o mes- 
mo cargo em Lisboa, no Hospital Kcnl de Todos os Santos, (a) 
onde morreu. 



20 OS MÚSICOS PORTUGUEZBS 

Áfl soas numerosas obras, todas manqscriptas^ coBservitTam- 
se na Bibliotheca Real da Música antes de 1755* 



(a) Gkrber, Neu» Hiêt, hiogr, Lexicon, vol. i, pag. 261, transporta er- 
roneamente a capella doeste Hospital para uma egreja d'£Yora. 



BELEH (Fr. António de) — Nasceu em Évora em 1620 e re- 
cebeu o habito de S. Jeronymo no cojiyento do Espinheiro a 29 
de Janeiro de 1641. Aprendeu a musica no celebre Seminário da 
Cathedral da sua pátria, alcançando pela distincçSo com que cur- 
sara os seus estudos musicaes os logares de Vigário do Coro e 
Mestre de Capella no convento de Belem# Âhi morreu a 3 de 
Março de 1700; admirado pelos nacionaes e respeitado pelos es- 
trangeiros. 

Em 1667 tinha sido nomeado Prior da sua ordem em atten- 
ç3o ao seu comportamento exemplar e serviços á religiSo. 

Compôz : 

1.) Livro de Sesponsorios para todas as festas de !.• Classe 
de. Estante, (a) 

2.) PsoJmos a4j5 e6 coros, para as festas de Christo e de 
Nossa Senhora. 

3.) Missas a 4,6 e 8 vozes. 

4.) Lamentais da Semana Santa, a 4,6 e 8 vozes. 

5.) Misereres a 3 coros. 

6.) Misereres a 4,-5 e 6 coros de 4 vozes cada um. 

7.) Oração de Jeremias a 4 vozes. 

8.) Listes do Officio de Defunctos a4e8 vozes. 

9.) Vilhancicos para todas as festividades. 



(a) Estes Reaponsorios cantavam-se no convento de Belém no tempo de 
Barbosa Machado, que os classifica com o titulo yago de Obra de grande 
estudo e primor. 

Fallando também da Oração de Jeremiaa, diz que era de grande de- 
voção e suavidade, (Bibliotheca Lusitana^ vol. i, pag. 218.) 

Ab composiçues de Fr. António de Belém, conservavam-se pela maior 
parte no Mostdro de Belém, e algumas poucas na Bibliotheca musical de 
D. JoSo iT. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 2Í 

I 

BELLO (João Fradesso) — Discipnlo de Fr. José Marques e 
bom organista. Viven na ilha da Madeira e morreu em 1861. 

ÂB suas composiçSes sacras gozam a reputaçSLo de serem cor- 
rectas, as idéas claramente concebidas e bem executadas. Honre- 

■ 

mos o musico que teve a coragem de luctar contra o gosto depra- 
vado de um publico, acostumado aos imbroglii musicaes de um 
Casimiro, de um Bispo AtLaide, etc. ; esta resistência indica uma 
alma bem formada, uma alma de artista. 

BEBHARDES (A. J.) — Pianista e compositor, do qual conhe- 
cemos varias reducçSes para piano, tiradas das Operas de Rossi- 
ni, Bianea e Faliero, Turco in Itália, etc. 

BOHTEHPO (João Domingos) — Eis vaa> dos nomes que hon- 
raram e honram ainda a Arte em Portugal, tanto como composi- 
tor, como instrumentista. 

Nasceu em Lisboa em 1775 (a) e segundo outra opinião em 
1781. (b) Deizou em 1806 a sua pátria para cultivar em Paris as 
suas bellas disposiçSes musicaes, que já eram grandes. Ahi este- 
ve bastante tempo, seguindo depois para Londres. Em 1818 en- 
contramol-o de novo em Paris, fugindo ao clima inhospito da In- 
glaterra, onde tinha vivido alguns annos. Deu na capital das ar- 
tes alguns concertos em que foi justamente apreciado, recebendo 
então a consagração do seu mérito artístico. Dois annos depois 
despedia-se de Paris e voltava a Portugal, onde viveu até morrer 
em Lisboa a 13 de Agosto de 1842. (c) 

'Bomtempo como verdadeiro artista que era, e vendo o estado 
lastimoso a que chegara a divina arte na sua pátria, tentou le- 
vantal-a do estado de abandono em que jazia, fundando para isso 
a primeira Academia Philarmonica em Lisboa; porém os aconte- 
dmentoâ de 1823, essa politica torpe e vergonhosa que tanto mal 
tem feito a este desgraçado paÍ2, veiu anniquilar apoz trez annos, 
o pensamento generoso do artista portuguez que viu morrer a sua 
iáèa favorita perdida e abandonada. 

Em 1833, já Director do Conservatório na secção musical, 



22* OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

foi nomeado Mestre de D. Maria n e da Infanta B. Isabel Maria, 
depoÍB condecorado com acommenda de Christo e ultimamente 
nomeado Chefe da orchestra da corte, depois da entrada de D. 
Pedro IV em Lisboa. Este artista jaz no cemitério dos Prazeres 
em sepultura própria. 

O seu retrato em lithographia, encontra-se em uma coUecçâo 
de retratos dos homens illustres que sobresahiram em Portugal 
no século xix, editada por António José dos Santos, 1843-1844. ^ 

Eis a lista incompleta das suas composições; dizemos, in- 
campletay porque em 1820 já o numero das suas composiçSes su- 
bia a 22. Sâo: 

1.) Primeiro concerto de piano com acompanhamento de or- 
chestra, 

2.) Segundo concerto de piano, idem. 

3.) 8o9iata8 para piano. Sabemos que uma d'ellas: Grande 
Sonatepour le Forte piano, fora impressa em Paris, 1803. (d) 

4.) Differentes FantasicLS e Árias variadas (Airs varies) pa- 
ra piano e orchestra» 

5.) Variações sobre o Fandango; obtiveram muitos applau- • 
SOS nos seus concertos em Paris e Londres. 

6.) Varicí^ks sobre o hjflnnonsAioJíolmglezGhdsavethe king. 

Escreveu também muita musica sacra que o cardeal Sarai- 
va (e) diz ser no estylo de Haendel e Haydn ; veremos já até onde • 
chega a verdade d'esta apreciação* 

Obtivemos conhecimento das seguintes composiçSes: 

7.) Messe de Sequiem à quatre voix, choeurs, et grand orches- 
treavec accompagnement de Piano à défavt d'orchestre, ouvrage 
consacré á la mémoire de CAMÕES par J. D, BomUmpo, Chez 
Auguste Leduc, éditeur Marchand de musique au grand mag€uin, 
Eue de Richilieu, n.^ 78^ folio de 205 pag. 

Chamamos a attençSLo do leitor para a analyse, que apresen- - 
tamos mais abaixo doesta celebre Missa. 

8.) Varias Matinas. 

9.) Responsorios dos mortos. Foram executados na egreja de > 
S. Domingos, a 21 de Março de 1822, em commemoraçSo da mor- 
te da rainha D. Carlota Joaquina. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 23 

10.) Missa solemne com coros e orchestra, cantada no mesmo 
templo em Julho de 1821 para festejar a promulgação da Consti- 
tuição. 

11.) Missa de Requieni^ feita para as exéquias de D. Maria i. 

12.) Missa de Eequierriy feita para as exéquias de D. Pedro iv. 

Estas duas ultimas Missas são composições notáveis. 

13.) Metkodo de Piano-forte com exercido em todos os gene" 
ros, etc. Offerecido á Nação Portugueza. Londres, 1816. (f) 

Bomtempo escreveu uma opera: Alessandro n'elVIndie. 



Messe consacreó à Ia mémoire de CAMÕES, (n.^ 7) 

AKALYSB 

Missa dedicada a CamSes! 

Lembrança generosa e sympathioa de um verdadeiro artista, 
que levantou um bello monumento ao poeta immortal, cincoenta 
annos antes da naçSo portugueza se lembrar que tinha uma di- 
vida sagrada a pagar, uma divida de três séculos! 

Cumprimos o nosso dever de critico e de historiador, analy- 
sando a bella composição de Bomtempo e fazemol-o com tanto 
maior empenho porque reconhecemos a necessidade de prestar toda 
a justiça a um grande artista que uma pátria ingrata, tão cedo 
olvidou. 

Examinando a Historia da Musica sagrada, desde o momen- 
to em que o homem, ajudado pelo sentimento e pela inspiração, 
trouxe para a composição do esiylo sacro elementos de uma or- 
dem superior áquelles, de que então dispunham os artistas, e que 
eram meramente especulativos, descobrimos em assumptos reli- 
giosos três methodos distinctos de intrepretação musical. 

O primeiro, a que chamaremos hierático ou canonieOy con- 
siste na imitação das formas adoptadas durante a edade me- 
dia e Renascença, formas ainda até certo ponto um pouco limita- 
das e ainda algum tanto convencionaes, mas não isemptas de 



14 OS UaSICOS PORTlíânEZES 

um BMithiientoinyvtíoo, formas prodimdas pelo^eiçirito «eieiíti- 
&iso ainda pouoo methodioo e determinado quecaracteríaa a re- 
nasc^iça. 

Oicvanni Pierluigi da PàUtirinaé a maÍB alta «cpresalo 
doeste eetylo. 

O segando modo, a que podemos- chamar humanoj consiste 
em traduzir musicalmente o sentimento religioso debaisoiao pon- 
to de vista individual, empregando todos os reeuMos que ia musi- 
ca òfSdrece para a intrepretaçSo dodrama religioso. Este modo^ 
como se vê, essencialmente dramático, foi inaugurado por Pergo- 
lese e Mozart e seguido mais tarde por Beetíioven, Mendelssohn^ 
BoBsini -e quasl todos «s compositores modemés^^dotades de yet^ 
dadeiro talento. 

£ com effeito, hoje, só nos commovem as obras doestes gran* 
des poetas que descreveram o homem-Deus e nSo o Deus-homem. 

As abstracçSes mysticas perderam quasi todo o poder com 
que fascinavam os crentes do século x e seguintes até principios 
do século xvi; para que hoje enteindaimoB devem fidlar-nos tn- 
UiUigenUimmte tanto ao coraçSo, como 4 razSo. 

O terceiro modo de intrepretaçSlo, é um modo de timMiçãí^. 
 niusica nSo se liberta ainda das convençSes medievaes, mas 
j4 se dedcobre n'dle a affirmaçSo humana e d'estes dous-demrah 
tos misturados (eanomco e humano) é que resulta a feiçSo cara- 
cterísca das obras primas de Haendel, de Bach e de outros génios 
da eschola allemS. 

Para citarmos um exemplo mais ao alcance da maioria dos 
nossos leitores, lembraremos a scena da Egreja na opera Faiuto 

r 

(g) de' Gounod em que a côr local é conservada pelos contrapcm" 
tos do orgSo, emquanto a expressSo dramática mais geral, re- 
sulta das modtdaçSes e dos fragmentos melódicos que predomi- 
nam durante o Recitativo de Mephistopheles. 

Na missa de Bomtempo nota-se o segundo modo de intre- 
preta$So, por estar escripta no estylo livre e dramático. 

O compositor forceja sempre por exprimir com propriedade 
o sentido das palavras, escolhendo ratreM vastosTeeurses da^er- 



os imSICOS VOSTUQWSZES ss 

49llfl8trft A8 aBsodaçSes 4^ oppoaiçBes de timbres mais £arVoraveig i 
>Hitr0i»0taçKo dos wtios s^itimentos que lhe mq>ira a prosa da 
Egreja, n'uma palavra^ pertence á eschola de Mozart. Em algu* 
mas partes até imita certas formas do sea illustre predecessor co- 
mo no Qmd «tim miser^ em que o desenho do acompanhamento 
das l.*** Rabecas é ideotico com o acompanhamento da Zocfymo- 
^MídeUozast. (h) 

Tal foi o poder magico e fascinador doeste trecho incompa^ 
isvaly que ^^uasi nenhmn compositor dq)0is tem apresentado a 
iritoaçSo dramática descripta por Mozart na Laorymoêa — denma 
maneira original e independente ; parece que quando chegaemiu) 
aponto cntieoy perdem toda a individualidade, ficam «Mumtados 
-«n^sontemplaçlo extática, onvindo apenas as harmonias celestes 

^A par d'estas pequenas sombras, descolpaveis pela visinhan- 
9a 3o "mito mais elevado qne existe nca arte musical, quantas bel- 
Jeaas originaes, « em geral quanto vigor de concepçXo I 

O Iilfciroito: Beguiem CBterfwm dona e», Domine, piriíicipia 
com xnsipiafãsnmo da orchestra produzido pelo jnzztco^o do quar* 
ietto .e dos timballes cobertos ; os oboés, depois d'este daro-escuro 
tmaúcal, soltam uma phrase muito simples em terceiras ; o empre- 
go do timbre d'este instrumento, depois das harmonias preceden- 
tes, produz um bello effeito poético, comparável á voz da inno- 
eeneia humilde que do meio da twrbapeecatfyrvmi se levanta da ter- 
Ta, implorando a misericórdia infinita. 

O odro entra logo em seguida a esta pequena e admirável 
intEoducçSo, com um crescendo que vem abrir nas palavras :< Te 
deett hymmts, passando o tom 4e menor para maior. A insisten- 
cia da nota nt^ repetida pelas rabecas e violetas tem grande ener- 
gia eionui muito sensível o dwdnwmdo que se segue até ás pa- 
lavras : et tibi reddetur que sSo cantadas piano. Immediatamen- 
tee sem transiçSo passa a orchestra "psjní fortisêimo em quan- 
to o coro canta o: Ewa^udi orationem* Os violinos repetem o 
^láimol (1.™ corda,) como anteriormente no diminuendo repeti- 
ram o ut (S.^ eovâa,) porém ^ difiÍ9ren$a de tímbrq mais £ami- 



26 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

nil n'e8ta cordA do que na l.**, e a altura do som produzia aqui 
um effeito saliente: vemos o supplicante anciosO; que receia não 
ser attendido e treme perante a presença terrivel do Juiz su* 
premo. 

O final: et lux perpetua é admirável; na sua simplicidade 
apparece a aurora do dia celeste e da fraternidade universal? 

O jSyrie é enérgico e solemnC; porém inferior ao Dies irae 
que segue depois. 

Temos de repetir aqui mais uma vez o que dissemos a res- 
peito da Lacrymosa de Mozart e do (^id sum miser de Bom- 
tempo. 

Estes grandes poemas do terror religioso nSo se prestam a 
intrepretaçoes expressivas muito differentes; as combinaçSes so^ 
noras dá orchestra já foram n'e8te caso empregadas com tanta 
propriedade por Mozart^ o génio incomparável do compositor 
allemSo ^esgotou e applicou de tal forma todos os recursos har- 
mónicos para o drama religioso, deu-lhes tantas e tSo variadas 
formas no seu Requiem e nas suas missas, que é quasi impossí- 
vel tratar este thema sem repetir a ideia do mestre. 

O próprio Berlioz para traduzir este pagina — Dies irae — 
da musica religiosa, augmentou extraordinariamente as propor- 
çSes da orchestra, introduzindo na sua composição já instrumen- 
tos novos, já multiplicando o numero de instrumentos até entSo 
empregados isoladamente, como fez para os tymballes. (i) 

O nosso Bomtempo reduzido ás forças da orchestra de Mo- 
zart, não fez, nem podia fazer mais do que elle ; escalas chro- 
matícas e diatónicas nos instrumentos de cordas, tremidos, aocor- 
des staccato.une percorrem toda a massa orchestral — eis o colo- 
rido do Dies irae. 

É porem ainda surprehendente o partido que tira de tSIto 
parcos .elementos; tudo está apropriado, a musica cinge-se sem- 
pre á palavra do verso, traduzindo a sensação com força e ver- 
dade. 

Deve particularmente notar-se a marcha harmónica com que 
termina a primeira parte e que é uma bella inspiração. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 27 

No Tvha Mirumy apparece a influencia de Mozart em' toda 
a evidencia. A phrase do tiUtiy é muito análoga á do bcísso na 
Reqmem de Mozart^ os desenvolvimentos s3o porém em tudo 
differentes e a instrumentaç^ de Bomtempo tem n'este trecho 
um brilho e uma sonoridade perfeitamente em harmonia com a 
ideia da trombetta convocadora. 

Meyerbeer na scena da resurreiçSo das freiras no Roberto ^ o 
Diabo (j) produz um effeito especial^ uma impressSo do outro mun- 
doy pelo emprego dos &gottes em diio; é exactamente com o mes- 
mo efieito que Bomtempo abre o : Jvdex ergo cum sedebit, uma 
das partes mais caracteriscas da sua Missa. O desenho do acom- 
panhamento sempre persistente^ salva-se da monotonia desagra- 
dável pelas- modulações que vae atravessando, e pinta com toda 
a verdade musical, a agglomeraçSo sempre crescente dos homens 
em volta do tribunal supremo. 

' Estão esperando a decisão fatal — a sentença eterna, sente- 
se a anciedade de toda essa multidão immensa que vem pesar na 
balança infisdlivel as suas culpas, mais quò as suas virtudes, e 
essa anciedade é communicada irresistivelmente ao auditório pela 
phrase da orchestra que pinta admiravelmente a agitação e an- 
ciedade d'aquelle immenso auditório. Eis, que do meio da multi^ 
dão que se conservava silenciosa, attonita pelo espanto da resur- 
reiçSo, se ergue a voz: Misericórdia! Quid sum miser! 

Não sabemos, se Bomtempo foi muito religioso ; o que é ver- 
dade, é que foi um artista que quando produzia, sentia fortemen- 
te e com a mesma força exprimia os seus sentimentos. Foi um 
verdadeiro poeta. 

Sirvam-nos de testemunho estas paginas do seu Requiem. 

Qudd sum miser, dizem primeiro os sopranos, em seguida os 
baixos, seguindo-se e misturando-se as di^rentes vozes, até se 
enfeixarem no coro total, em quanto as rabecas suspiram no acom-: 
panhamento as suas phrases plangentes e os instrumentos de sô« 
pro vão entrando successivamente, junctando-se, dividindo-se e 
dialogando novamente. Tudo geme, tudo chora, tudo supplica, 
gemeiUem et contristatem. É a grande lamentação, é o terror uni- 
versal! 



28 OS MDSIOOS PORTUGUEZES 

Ob trechos maia salientes depois doestes sSo o : Ingemiseo tamr 
quam réus, saturado de uma melancholía mui suave, e o Agnus 
Deiy onde se revelam mais uma vez as qualidades dramáticas do 
nosso artista. 

O Canfutatis e Benedictta, nSo sSo tSo notáveis, posto que 
ainda n^elles se reconheça a mSo do mestre. 

Synthetisando o que dissCTios e considerando a obra no seu 
todo encontramos as seguintes qualidades. Em primeiro logar: 
Unidade de estylo sem monotonia, nem fraqueza, unidade que^ 
resulta sempre, quando a concepçSo vigorosa imprime n'uma obrai 
o cunho de uma só individualidade. 

O tecido harmónico é de uma correcçSo, que nem exdue a* 
novidade, nem a energia; a instrumentação revela sempre um^ 
gosto distincto e elevado, identificaçSo perfeita da palavra e da 
nota, que traduz sempre com muita expressão e propriedade. O' 
sentido da pfarase. ElevaçSLo do pensamento musical que tem de 
um lado grandeza e austeridade, do outro o sentimento humano; 
a paixSo e a inspiração celeste. Devemos entretanto, a bem da 
verdade confessar o lado fraco de Bomtempo, que lhe tem sido pi^ 
judicial o mais possivel, devendo-se attribuir èm parte (k) a este 
defeito a obscuridade em que se tem conservado as suas obiras» 

Bomtempo nSo tinha o instincto melódico; é o que se desco- 
bre n'e8ta sua aliás bella obra; raras vezes soube exprimir o seu 
pensamento com esses cantos felizes que são para os composito- 
res a garantia mais segura à^ attençSo da posteridade, os dia- 
mantes, luminosos das suas coroas artisticas e que conservam o 
nome d'esses immortaes em luz perpetua através da penumbra 
dos séculos. 

Mas, se ao lado d'esta deficiência encontrámos tantas quali- 
dades brilhantes de saber, de imaginação, de sentimento e mes- 
mo de inspiração e sobre tudo um poder descriptivo extraordiná- 
rio, nSo devemos ser cúmplices n'um silencio, que além de anti- 
patriótico, é deveras injusto. 

O vulto de Domingos Bomtempo, levantasse tio alto acima 
das figuras quasi liliputianas dos seus tristes cóllegas contèmpo- 



os MUSIOOS FORTUaUEZES 29 

raneoBj que seriamoe nós todos os portugaezes, injustos e ingra- 
tos, se nSo esculpíssemos o seu nome em lettras de ouro nas pa- 
ginas da nossa Historia artistica. 

Saúdo pois, em nome de todos os meus compatriotas a me- 
moria gloriosa de João Domingos Bomtempo ! 

Se o compositor foi notável nSo o foi menos o instrumentis- 
ta; eis o que Balbi (1) nos diz do pianista: 

cTous les Portugais s'accordent á placer Bomtempo au pre- 
mier rang parmi les pianistes. Ce jugement a étê confirme par 
les étrangers à Londres, à Paris et ailleurs, ou cet artiste a bril- 
lé par son talent extraordinaire, sans que la comparaison qu'on 
.était à même de &ire de son talent avec d'autres artistes de pre- 
nUer ordre ait pu diminuer Feúthousiasme excite par la douce 
expression et Tinconcevable rapidité qu'il déploie dans Texécu- 
tion des morceaux les plus difficiles.» 

Não sabemos, se a falta de instincto melódico que lhe notá- 
mos na Missa se revela também nas outras composições sacras e 
profanas, principalmente na sua Opera: Alessandro nelFIndie. 

O exame da Opera devia decidir esta questão, pois em umá 
Missa ainda nSo se nota tanto a falta de idéas melódicas, como 
na composição de qualquer trecho de musica lyrica, que vive por 
assim dizer, quasi exclusivamente da melodia. 

Fazemos estas ultimas observações para que algum critico 
mal avisado nSo tenha a idéa infeliz de querer generalisar as con- 
dusSes da nossa analjse applicando-as a todas as demais compo- 
siçSes de Bomtempo. 

Os contemporâneos falando da Opera citada, concodem-lhe 
talento dramático e uma imaginação brilhante, o que vem con- 
firmar o que dissemos na analyse da Missa, mas não falam da 
inspiração melódica. 

(a) I. F. da Silva, Diceianario Biblio^aphicoj vol. iii, pa^. 363. 

íb) Fétis, Biogr. Universelle des Mustcieiíêy vol. ii, pag. 24. 

(c) Fétifl, ibid, diz 1847. 

— Estes dois escríptores nio concordam nas datas ; as de Fétis são : 

Nascimento, 1781. 

Partida para Fiança, 1806. 



30 OS MUSIOOS PORTUGUEZES 

DcpoiB, viagem a Inglaterra e Tolta a Paris, 1818. 

Volta para Portugal em 1820, e morre cm Lbboa em 1847. 

— I. da Silva indica as seguintes : 

Nascimento, 1775. 

Sabida de Portugal, 1795. 

Volta á' pátria em 1820 pouco mais ou menos, e morre em Lisboa a 13 
de Agosto de 1842. 

Julgo serem estas ultimas datas mais exactas. 

(d) Quasi todas as obras de Bomtempo foram publicadas em França e 
Inglaterra, em bellas edições. 

Em Portugal mui poucas se imprimiram, o aue explica bem a sua ra- 
ridade. As principaes pertencem ao ultimo periodo da actividade artística 
de Bomtempo. 

(e). Lista de alguns artistas portugtiezes, pelo Bispo Conde D. Fran- 
cisco ae S. Luiz. Lisboa, 1839, in 4.®, apparecen primeiro no jornal o Be- 
creio. 

(f) I. da Silva, Dicc. BibUogr., vol. m, pag. 363, inclae n^esta obra 
nns Elementos de Musica, indicando o titulo, sic : ElemerUos de Musica e 
Methodo de tocar Piatio-forte, etc. 

(g) Vide Partition d*orchestre. Paris. 

(n) Vide Hequiem, partition d*orchestre. Paris. V.* Launer, 

(i) Exemplo, vide o admirável trecbo: ^Tuòa mirum da sua Messe de 
Hequiem, 

(j) Vide Partition d^orchestre. Paris. 

(k) Dizemos em parte, porque a outra parte que é bem maior, recáe 
sobre nós, portuguezes, que mais uma vez provamos a mais feia ingratidão 
para com um grande artista. 

(1) Essai statistique, vol. n, ocviii e ocix. 



BOTELHO (Fr. Estevão) — Natural de Évora; filho dos no- 
bres Domingos Botelho de Vilhena e Maria de Aragão, e nascido 
em 1629 aproximadamente. 

Professou o instituto canónico de S. Agostinho a 29 de Ju- 
nho de 1650, e foi Prior dos Conventos de Arronches e Loulé. 

Deixou em manuscripto um: Tratado de Jfu^tca^ vários Mo- 
tetes e Vilhancicos. 

BRAHUDO (Fr. João) — Compositor talvez portugiiez. 
Solano cita na sua obra (â) vários exemplos d'este onctor; 

(a) JVVva instrucção 7nueicaL Lisboa, 1764, in 4.«, Disciinso m, p. 246. 

BRITO (Estevão de)— Mestre de CnpeUa nas Cathedracs de 
Badajoz e Málaga. Foi discípulo de Filippo de MagalliSles com 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 31 

quem rivalisou, alcançando pelas suas obras grandes applausos 
em toda a Hespanha. (a) Viveu na primeira metade do século 
XVII e deixou muitas composições, que se conservavam na Biblio- 
theca Musical d'el-rei D. JoSo iv, em Lisboa antes de 1755. 
Eram: 

1.) Tratado de Musica. Ms. Estante 18, N.® 513. 

2.) Motetes a4,5e6 vozes. Estante 20, N.^ 569. 

3.) Motete: Exurge quare obdormis Domine, a 4 vozes. Es- 
tante 36, N.*> 809. 

4.) Vilhancicos da Natividade. Estante 28, N.^ 697. 

(a) Barbosa Machado, Btbliotheca Limtana^ vol. i, pag. 753. 



c 



CABRAL (António Lopes) — Freire da Ordem militar de 
Christo e cantor das capcUas de Affonso vi e D. Pedro n. 

Nasceu em Lisboa em 1634 do casamento de Pedro Lopes 
Cabral e Filippa de Sousa. Foi beneficiado das egrejas de Santa 
Uaria de Thomar o de Santa Maria do Castello de Ponte de Li- 
ma, e morreu a 6 de Dezembro de 1698, sendo sepultado na ca- 
pella do claustro de S. Francisco. 

CABRAL (Camillo) — Companheiro de estudo, na Itália, dos 
dois irmZoB Lima e do João de Sousa Carvalho. Foi subsidiado 
pelo governo de D. José, que o tinha mandado para o Consen^a- 
tório de Nápoles a fim de completar a sua educação musical. 
Quando os quatro artistas voltaram para Portugal, foram os dois 
Limas e Cabral nomeados professores no Seminário Patriarchal, 
e Carvalho, como o mais hábil dos quatro, recebem' a nomeação 
de Mc8tt?e«da família real pelo fallecimento de David Pcrez. 



3Sl OS MUSICO» PORTUGUEZBS 



CAETANO (Ff. Lojs de S.) — Monge franciscano^ natural de 
Felgueiras^ comarca de Guimarães^ onde nasceu em 1717, sendo 
filho de Manoel Martins de Freitas. Professou no convento de S*^ 
Francisco de Guimarães a 12 de Dezembro de 1733; onde estu- 
dou as disciplinas ecclesiasticas e obteve em seguida a patente 
de pregador. 

Aos seus conhecimentos no CantocbSo e á sua voz agradá- 
vel deveu o lugar que alcançou de Vigário do Coro do convento 
da sua ordem em Lisboa. Não é talvez certo ter sido sub-chan- 
tre de convento algum na capital, como Fetis (a) assevera, pois 
nSo notamos esta classificaçãcr em nenhimia das noticias que exa- 
minamos relativas a este compositor. 

Compôz a musica da seguinte obra, escripta pelo padre fr. 
Manoel de S. Dâmaso : 

Coroa seráfica tecida de puras e fragrantes flores pelo ar- 
dente affecto dos padres menores da Província de Portugal, para 
com summa melodia ser offerecida em a4:ção de graças nos coros 
Franciscanos e no das mais religiZes sagradasj todas amantes da 
pureza Marianna, Lisboa, na Officina Joaquiniana da Musica. 
1744, in 4:.^ 

Fétis, (b) cita-o ta^ibem como o auctor da lettra doesta obra, 
quando apenas compôz a musica para ella. 

(a) Biogravihit UniversélU dea Muaiciens, vol. n, pag. 143. 

(b) Ibid. 

f 

CAMPOS (João Ribeiro de Almeida) — Presbyterooebular,^ 
Mestre de CantochSo no Seminário episcopal de Coimbra no fim 
do século XVIII. Mestre de Capella na Cathedral de Lamego, pro- 
fessor e examinador de Cantochão no mesmo bispado. Suppde- 
se (a) ser o mesmo que se encontra matriculado no primeiro anno 
juridico (1785-1786) com o nome de João Ribeiro do Almeida. 
Campos, filho de António Coelho de Campos, natural de Vizeu. 
Ignoramos as demais circumstancias da sua vida, sabendo apenas 
que fôra Bacharel formado em Leis pela Universidade de Coim- 
bra. E auctor das seguintes obras: 



ÔS MÚSICOS PORTUGUEZES 33 

1 .) Elementos de Manca, Coimbra, na Real Imprensa da Uni- 
versidade. Dedicatória a Francisco de Lemos de Faria Pereira 
Coutinho, Bispo de Coimbra, etc. (b) Anno 1786, in 8*^ peq. de 
Tiii, 92 pag. com uma estampa. Este livro que era destinado 
para uso da aula do paço episcopal de Coimbra, é hoje raro por 
estar a maior parte da ediç2o em papel, no deposito da Impren- 
' sa da Universidade. 

2.) Elementoê de Caritochão, offerecido» a S. A. R. o êereniê- 
ntno 8nr. D. João, príncipe Regente. Destinadoe para n$o do no^ 
vo Seminário de S. M. A. Ajuntando-ee-lhe a$ Ceremoniaê e Can- 
torias maiê precisas para a visita que os eoccsUentissimos Bispos 
fazem ás Egrejas das suas Dioceses. Lisboa, 1800, na Oficina 
patriarchal de JoSo Procopio Corrêa da Silva, in 4.®, de 71 pag. 

Este livro teve certamente numerosas ediçSes, porque en- 
contramos um exemplar da edição de 1859 (!) O titulo, formato 
e numero de paginas é o mesmo; o logar da impressZo é que va- 
ria, sendo a edição de 1859 impressa no Porto. 

Temos pois, ediçSes successivas no espaço de cincoenta e 
nove annos até i de 1859 do Porto, Typographia Commercial. 

Nlo sabemos se deixou composições, mas é provável que ti- 
vesse escripto alguma cousa. 

(a) L F. da Silva, Diccionario BxbliographicOj vol. it, pa^. 26. £ ver- 
dadeira «sta suppoeiçao, porque o prologo do livro de Almeida Campos, 
vem aaaigiiado : JoAo Bibeiro de Almeida e Campos, quando o frontispício 
trax apenas : Jo2o Ribeiro de Almeida, estudante da Universidade de Coim- 
bra. Naa edições dos EUmentoê de CcLiUocJtào, (1800 e 1859) vem cgual- 
mente o nome qne adoptamos. 

(b) Este prelado foi o fundador da aula de Musica do Paço Episco- 
pal, cajá regência foi incumbida mais tarde a José Maurício. 

CAimoaiA (Joaé Avelino) — Professor de clarinette no Con- 
servatório de Lisboa em 1838. Foi um artista distincto e applau- 
dido nas principaes cidades da Europa, onde deu concertos. As 
suas composiçSes para clarinette sSo numerosas. 



fAWHBfHA (p.« Lnii) — Nasceu na freguezia de Nossa Se- 
nhora das NeveS; perto de Beja em 1585; foi filho de Cosmé Ver- 

3 



84 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

mellio e Branca do Monte, familia nobre e opulenta; Fez os seus 
primeiros estados na Companhia de Jesus a 26 de Dseaemlnro de 
1600. No anno seguinte partia para as MissSes da índia, onde 
esteve doze aanos* Passando depois para a Ethiopia, diego^ a Do- 
far e ooeultou-se no porSo da galeota que o conduzia. Ahi mes- 
mo aprendeu a.lingua amarina (idioma indígena) e aproveitou-se 
d'ella para instruir os habitantes ccmvertídoB do paiz no manejo 
de diversos instrumentos em que era hábil, para dar Aseim' mais 
explendor ao culto cathoUco. Esta tentativa sahiu porém. camaos 
christSos, porque o Imperador, (a) advertido doeste facto e dota- 
do de getaio pouco {diilannonico, ordenou a expulsSo de todos os 
crentes e á testa da lista proscriptiva, collocou o Patriarcha, D. 
AiSbnso Mendes. Cardeira, para fugir á p^iseguiçSo, oocuUou^se, 
foi porém descoberto e morreu atrozmente supplioiado a 13 de 
Abril de 1640. 

(a) NSo 86 admire o leitor da barbaridade do príncipe índio. Este, in- 
stmido pelofl próprios jesnitas no manejo da tarquene áoB anjif^koê, quis ex- 
perimentar nma vez o effeito de taes instrumentos n'a^uèlles que d^cUes 
uzavam em nome de Ckriêto e da Saiúa Religião CcUhohca! Era o desejo 
de um discípulo ambicioso de conhecimentos, e bom discípulo era elle — de 
mestres (|ae n2o podiam ser melhores ! O que lastikpamos, é que o nosso 
musico tivesse sido o objecto da experiência. 

CSARDOSO (. ..) — Pianista e discípulo do Seminário Musical 
de Lisboa, mais tarde Conservatório Real de Musica, (a) Viveu 
no principio d'este século (1820). 

(a) Vid. Decretos de 5 de Maio de 1835, e de 15 de Novembro de 1836. 

CARDOSO (José Marques) — Natural de Macau. Escreveu: 
Methodo de Mimca. 1853. Nada mais sabemos a seu respeito. 

CARDOSO (llanoel)— Capell2o de D. JoSo m, natural de 
Lisboa, onde nasceu no meado do século xvi. Escreveu: 

Pcusionarumjuxla Capellce Regtee Lusitance conmietudtnem. 
AeeerUuê ratianvm integre observan^. Leiri»; per Ânlonilim Ma- 
ríz; 1575; folio. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 85 

CARDOSO (Fr. Manoel) (a)— Freire da ordem doB Carmeli- 
tas calçadoBy babito qw vestiu a 5'de Julho de 1589. Foi o mais 
celebre organista "e ^ontrapontista que houve no seu tempo em 
Portu^ e Castella, (b) Mestre d» Capella da Cathedral de Eto* 
n- e discípulo do Seminário musical da mesma cidade. Tinha 
Bascido em 1569 na viUa de Fronteira (c) no Alemtejo, de Fran- 
eisoo Vaz e Isabd Cardoso. A reputaçSo de excellente musico e 
inaigiie organista (d) de que gosava em Portugal, augmentou ain- 
da mais, quando apresentado em Madrid a Filippe iv para lhe 
offereoer um livro de Ifíssas,; este monarcha o gratificou gene- 
rosamente^ nOmeando-o, além d'isso, Mestre da sua Capella. 

Um compositor tão distincto n2o podia escapar faciknente á 
atlençilo de D. JoXo iv, que honrou o artista, visitando-o varias 
ve^bs e cbamaildo-o frequentemente ao paço para o consultar so- 
bre assumptos musicaes. Foi extr^namente modesto, qualidade 
tanto mais apreciável; quanto é raro, mesmo em artistas de certa 
ordem* 

Aostítulotf já mencionados^ accrescem os de Sub-Prior do 
convento de Lisboa, Mestre de Capella ahi mesmo e o de Defini- 
dor da sua Ordem em 1628 e em 1647. 

Quando D. JoSo rv teve a idéa de ornar a Bibliotheca Real 
da Musica com os retratos dos mais celebres compositores por- 
tttguezés, coHòcou em primeiro logar o de Cardoso» Esta aoçSo 
praticada por esto príncipe sympáthico nSo deixa de tor uma cer- 
ta importância- relativamente ao mento d'este compositor. 

Morreu a S9 de Novembro de 1650; (e) foi sepultado no 
antigo cemiterío do convento de Lisboa com o seguinte epitaphio: 
. AqiHJcuí o P/ Manod Cardoêo, Mestre e Varão in$igne na 
Arte da Musicam 

CompÔz : 

1.) Livro dé MagnijicaB a 4 e 6 vozes. Lisboa, por Pedro 
Craesbeck, 1613. Folio gr. 

2.) Livro de Misêcu guaternis, quinque et êex vocibus. Oljs- 
sqpone apud Petrum Craesbeck, 1625. Foi. gr. Dedicado ao Du- 
que de Bafcellos, depois D. JoXo iv. 



86 OS MÚSICOS PORTUGDEZES 

3.).Mi$s<B quaiemiê et sex voeibug, liber Heundtu. Ibi apud 
Laurentíiun Oaesbeck, 1636. Foi. Offierecido ao mesmo prínci* 
pe, senão Duque de Bragança. 

4.) Mi»9(B B. Virginiê quaUmis ei sex vocibus, liber tertiuê 
ad 8, C. J9. Majestatem PhUippi JVj Htêpaniarum Regiê ac navi 
Orbiê ImperiUorem. Ibi apudeumdem Typograpk., 1646. Foi. gr. 

Uma das missas que se encontra n'esta ooHeeçSo, e que é 
composta sobre as palavras : Philippue Prudenê, póde-se oonsi- 
derar^ senSo como a sua primeira, ao menos como uma das suas 
melhores ccmiposiçSes. (f) 

5.) Livro qu/e camprehende tudo quanto 9e canta na Semana 
Santa. Lisboa, por Lourenço Craesbecky 1648. FoL OflEorecido a 
D. JoZo IV. 

A Bibliotheca Real da Musica possuía, entre outras muitas 
obras d'este auctor, as seguintes, em manuscripto: 

6.) Cinco MisêOê. 

7.) Um Magnificat. 

8.) Doiê Hymnoe. 

9.) Uma Antiphona de diversas vozes. Estante 35, N.® 800. 
10.) Missa de 8 vozes. Estante 35, N."» 802. 
11.) Missa de 9 vozes. Estante 35, N.<> 802. 
12.) Doiê Vilhancieos do Natal; o primeiro a 3 vozes e o 
segundo a 6. Estante 28, N."" 704. 

OompoE também Psalmos, Responsorios a diversas vozes, 
Liç^s do Officio de Defuntos, e os celebres Motetes^ que se cos- 
tumavam cantar em Lisboa durante os Passos, no meado do sé- 
culo XVII. 

Manoel de Faria, (g) &llando d'este celebre artista, n'uma 
das suas obras, diz : 

— Desde, el Carmelo altissimo el Cardoso 
Que excede ai gran Ruger, se le acompa&a. 

(a) Fétis, Btogr. Univ. vol. n,.paff. 187, accrcacenta-lhe o nome de 
Francisco, (sic.) Francisco Manoel Cantoso; julgamos ser engano. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 37 

* 

Barbosa Machado, Bibl. Luni., voL m, pag. 218; Baptista de Castro^ 
Mappa de Fcrtuffol, toL u^ pag. 350^ e D. Nicolau António^ BibL Hiêp.j 
ToL I, pag. 265, e8crevein-n'o como acima indicamos. O seu epitaphio trâs 
também o mesmo nome. 

Cb) Castio, Mappa de Portugal, voL n, pag. 351. 

(c; Fétís, engana-se quando o diz natural de Beja ; egual erro eom- 
metea Nicolau António ; e Gerber, HiH, Biogr,, Ltancon £r Tonkunêtler. 

(ã\ Pedro Dinis, Das Ordene reUgioao» em PorU$gal^ pag. 267 e 26a 

(e) Castro, Mappa, etc. loc. cit : dis 24 de Dezembro, recitando o 2*e- 
Detém LáMudamus. 

(1) Pedro Din», lot. eU. 

CARMO (António do) — É Volckmar Machado; (a) que nos dá 
noticia doeste musico^ como sendo mestre do pintor António Fer- 
nandes Rodrigues. Nada mais sabemos d'elle. 

(a) CoUecção de Memorioõ, pag. 288. 

CABXEIRO (Fr. Kanoel) — Freire da ordem dos Carmelitas^ 
natoral de Lisboa e excellente organista, (a) Professou a 20 de 
Maio de 1645 e morreu 50 annos depois^ a 29 de Agosto. Foram 
seus pães António Carneiro e Anna de Figueiredo. 

CompSz: 

1.) Beêpanioríoê e Li^fes das Matinas de SahSado Santo, a 
2 caros. 

2.) Responsorios das Matinas da Paschoa, a 2 coros. 

8.) Missa de Defuntos e as primeiras Liçdes de cada JVo 
ctumo, a 2 coros. 

4.) PwXmos, Motives e Vilhxncicos, a diversas votes. 

(a) Fétis, Biogr, Univ., voL n, pag. 192. 

BARBEIRA (António) — Compositor e Mestre de Capella dos 
Beis D. SebastiSo e D. Henrique. Das suas obras, diz um theori- 
00 do século xvn, que deviam ser piais agradáveis aos ouvidos 
d'aquelle tempo do que do presente, se dermos credito a Pedro 
Thalesio, que as examinou, (a) Carreira deixou estas composições, 
na maior parte Motetes e LamentaçlteSj a seu filho, para que as 
mandasse imprimir. Julgamos serem as seguintes : 



38 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

1.) MUêa dè Beata Virgine^ pèr Annum. 

2.) Miêsa Redemptoris Mater. 

3.) Regina Cedi. 

4.) Salve Regina. 

5.) Tota pulchra eH (de Nossa Senhora da Conceiçltò.) 

6.) Antiphona de Nossa Senhora. 

(H,yArte de Cantoehão. Coimbra, 1617, in«4.% cap. B6^ M. TpAg. OS, 72 
e 136. Esta apreciação referida por Barboaa Machado, {Btbl. lÃmí^ yoL i» 
paff. 232) està em contradição com as palavras respeitosas com que Tha- 
leno falia do áigniètimo Mestre. (Attey pag. 70.) 

Barbosa Machado intitala-o também, apesar da citaçZo mencionada. 
Insigne profe»9or de Musica, no principio da soa pequena biograpliia. 

CARREIRA (Fr. António) — Filho do precedente. Vestiu o ha- 
bito de S. Agostinho e morreu em Lisboa em 1599| Victima do 
contagio que n'esse anno devastou grande parte* dcT Lisboa. A sua' 
morte repentina foi a causa de terem desappareeidò as snasx^m- 
posiçSeS; recolhendo D. JoSo rv apenas dguns Motetes è Lamen- 
taçZes na sua preciosa Bibliotheca musical. 

Foi semilhante ao pae na destreza e suavidade da Musica, (a) 

Entre as obras d'este jbven compositor 6itavam-se coino aa 
mais notáveis : 

1.) Dtias Lamentaçves da Semana Santa. 

2.) Motete: Circumderunt me, a 6 vozes. 

3.) Motete : Illumina óculos meos, a 6 vozes. 

Estavam na Bibliotheca de D. JoSo iv. E^ante 36. N.® 810. 

(a) Bibliotheca Lusitana, yol. i, pag. 332. 

' CARREIRA (António) —^Mestre da capella dâ Cathedral de 
Compostella, e sobrinho do primeiro Caireira. 

Este celebre artista deixou obras preciosas^ que D. JòSo iv 
achou dignas da sua famosa Bibliotheca; (a) o^de foram religio- 
samente guardadas. 

(a) Vid. i.* Parte do Catalogo impresso em 1649, 4.* gr., por Pedro 
Craeslíeck. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 39 

CARVALHO (João José Fernandes de) — Compoeitor, pianis- 
ta e Professor de Musica no Portos no principio d'este secnlo; a 
sua memoria ainda se conserva em algumas fiunilias antigas. 
Nasceu na Anadia em 1783; nos primeiros annos da sua edade 
foi cantor, yindo ein 1815 dar liçSes de piano na cidade do Por- 
to. Apesar da sua única composiçSo impressa ser publicada em 
LondreSy nunca viajou, nem mesmo visitou Lisboa, Os seus ar- 
ranjos de piano eram para uso das pessoas a quem ensinava. Mor- 
reu miseravelmente/em 18S3; em resultado de uma queda, fi- 
cando quasi até ao fim da vida aleijado* de uma mXo. Deixou 
bastanlB.fl^'fiIhos'dor séuségiindo matrimonio eiú uma pobreza tZo 
extrema, que foi preciso recorrer a uma subscripçSo pelas íSeuni- 
lias aonde tinha sido professor. 

Vimos d'^ste artista uma gnuxde quantidade de varíaçSes, 
reducçSes e fantasias sobre niotivos de Operas^ que no seu tem- 
po foram mais i^plaudidas em Portugal. São: 

1.) Symphonia de Othetto. Rossini ; para piano. 

2.) Symphonia da Oazza ladra. Rossini ; arrai\jada para o 
mesmo instrumento. 

3.) Thema de uma modinha branUira^ com varíaçSes para 
piano, assim como todos os números que seguem. 

4.) Qran Dueito do Crociqto tn Egipto. Me3f:erbeer. 

5.) Extracto da Ária di Gemma di Vergi. Donisetti, ar- 
ranjada livremente. 

6.) Cachticha, com varíaçSes. 

7.) Introducção de Moyiés no Egypto. Rossini. 

8.) TheToa de Paesiello (Barbeiro de Sevilha) com 4 varia- 
ç8es. 

9.) Coro do Zampa. Herold, arranjada livremente. 
10.) Ária final da Cenerentola. Rossini. 
. 11.) Nel corpiú non mi sento. Paesiello, com 4 varíaçSês. 
12.) Std Margine d'un Rio, aría italiana, com varíaçSes. 
. 13.) Ameema ária com outras varíaçSes. 
14.) Thema de Mozart, com varíaçSes. 
15.) Sofíaia. 



40 OS MÚSICOS FORTUGUEZES 

16.) Foiw. 

17.) Hj^mno attemõo de Haydn, com variaçSeB. 

18.) Grande vaUa. 

19.) Tiema de Othello, com yariaçSe». 

20.) Pregkiera de Moyêéê, oom uma varíiiçlo. 

21.) Th^ma de Francisco de PiMila d* Rocha Pinto, com 
varíaçSes. 

22.) Theima he^panhol, com 4 variaçSes. 

23.) Fo/UT hriUia$U Variatianê for the Piano-FòrU cn íhé 
eel^raied air Rvle Britannia, campoêed and dêdicated to ihé 
Engliek Nation. London, published bj T. Welsh, at the Rojai 
Harmónio Institution. 

Tivemos a felicidade de arrancar estas composiçSes ao vau* 
dalismo destruidor que sacrifica n'este mal fadado paiz tanta obra 
de arte, tanto producto da intelligencia humana no campo vastis» 
simo da sua acçSo. 

Nas composições que acabamos de citar mostrasse o auctor 
apenas como pianista dotado do bastante habilidade mechanicay 
relativamente i epocha em que escreveu ; dizemos apenas coma 
pianista, porque nas suas compòsiçSes revela pouca sciencia theo- 
rica; assim por exemplo: o N.^ 23, pag. 2, está escripto de uma 
maneira incorrecta oom relaçSo i harmonia. Este defeito é tanto 
mais para admirar porque se dá em uma musica impressa, e em 
Londres. 

CARVALHO (João de Sonsa) — Compositor dramático. Foi 
um dos melhores Mestres do Seminário Patriarehal e professor de 
composiçSo, ahi mesmo. 

D. José mandou-o para a Itália conjunctamente com Jero- 
nymo Francisco de Lima, Braz Francisco de Lima e Camillo Ca- 
bral, para completarem a sua instmoçSo musical. De volta a Por- 
tugal, foram os quatro artistas empregados no Seminário, sendo 
Carvalho nomeado pela sua superioridade Mestre da Familia Real, 
depois do fallecimento de DaVid Perez. Os seus discipulos mais 
distinctos foram António Leal Moreira e sobretudo o celebre Mar- 



os MÚSICOS POBTUGUEZES 41 

C06 Portugal. Carvalho era natural do Alemtejo. Parece-nos o 
mesmo que Gkrber (a) cita no' seu Diccianario com o nome de 
GHovanni Sou§a. O escriptor aUemIo teve conhecimento doeste 
no8iK> compositor examinando um catalogo italiano (b) de com- 
po8Ít(Hre8 dramáticos do século passado. 

Conhecemos, infelizmente apenas de nome, as seguintes ope- 
ras de Carvalho : 

1.) Amore induHrioêOj cantada em 1769 no tbeatro do Pa- 
lácio da. Ajuda pelos músicos da real camará. 

2.) Eumene^ ibid. a 6 de Junho de 1773| no anniversa- 
rio de D. José. 

3.) Angélica^ em Queluz em 1778, nos annos da princesa 
do Brasil^ D. Maria Benedicta. 

4.) Teêiaridé, argãnauULj ibid. 1780. 

5.) Sdeuco, Ré di Siria. 4;^lttz, 1781 ; anniversarío de 
D. Pedro m. 

6.) Evêrmdo //, Eé di Ltíhmnia. Ibid. 1788. 

7.) Tcmiri, palácio de Ajuda, 1788. 

8.) Hnãtmi^me. Queluz, 1783. 

9.) Aidane. Ajuda, 1784. (c) 
10.) Adroõto, Si degli Argivi, 1784; annos de D, Pedro lu. 
11.) NMuM € Egli. (d) Ajuda, 1785. 
18.) NwM Pampilio, Serenata, ibid, 1789. 
13.) O monumento immartal a 8 de Junho de 1776, espécie 
de cantata, executada na sala do Tribunal da Junta do Commer- 
cio para as festas da ínauguraçlk) da Estatua de D. José. (e) 

Jo2o de Sonsa Carvalho escreveu também muito para um 
Jornal de Modinhoê que se publicava em 1793. (f) 

(a,) Neutê hút, hiogr. Lexic der Tankun$tUrf vol. iv, pag. 221. 

Çbj índice de 'Spettac, tecUr, 

(c) Fonseca Benevides, Arekiro PiUareseOy toI. o, 1866, pa|ç. 148, in- 
dica 1787. Uma noticia publicada no Jornal do Camínercio, de Lisboa, (16 
de Uarço de 1868) indica a nossa data, 1784. 

(Á) £ste mesmo escriptor, Toe. eit, indica só Nettmno — fabula pasto- 
rH — cantada na ^uda nas festas do casamento do Infante D. João e da 
prínceza de Hespanna D. Carlota Joaqoina. 

(e) Estas fióstas fnram brillutntes. A parte musical fomeeeo três graa* 



42 OS MÚSICOS POBTUaUEZES 

des exeenço^ artisticaa, que foram: Nopximeiro dia, C| de Junho i,e 1775;. 
o Demofoordt de Jomelli, no palácio da Ajuda ; no segundo, dia 7, VErot 
eoroiMUoi^ Serenata em Italiano, de David Perez; « no terceiro, dia 8: OM»- 
nuíMtUo immortalf opera cantada em portuguc^ (Benevides, .Ar^ivo PU- 
toresco, vol. ix, 1866, pag. 148.) Esta opera ou antes cantata, representada 
em easa de Anselmo Joró da vna Sobral foi escripta pelo Badiavd Theo^ 
tonio Gomes de Carvalho e posta em musica pelo nosso lurtista. Fr* C3|^|iilio, 
da Conceição, Gabinete histórico^ vol. xvi, pag. 314. 

K*e8ta mesma obra (vol. xvn, pag. Í82 e 304) enoontram-se pnmiéiio- 
res curiosos acerca do festival artístico do segundo dia, 7 de Jipho. J^ani 
o desempenho deWEroe coronato foram chamadas as melhores voses e ih- 
strumentos, e a ezeeuçâo d*esta Serenata foi gratificada por 20 peças de 
6$400 réis ou 128^000 réis a cada uma das vozes e 4 a cada um dos içs* 
trumentístas I David Perez recebeu pelo seu trabalho 412$500 réis, dona- 
tivo enorme mesmo para aquelles tempos ! 

(f) Yid. Gazeta de Lisboa d*esse mesmo anno, 17d3« 

CASIMIRO (Joaquim) — Ha poucos aimos fáoAA que o corpo 
doeste musico descaoça. debaixo da terra; porévo^ obedecendo, a 
um dever sagrado de escriptor consciencioso que noa presames; 
de ser, diremos d'elle a verdade; nSo tocamos no cadáver^ seria 
sacrilégio, anidyisamos o musico, que é a niosaa obrigaçXo. 

Foi Mestre da CapeUa, Fatriarchal de Lisboa e deixou nur 
merosas composições sagradas e .pro£anaa todaA inéditas^ feli^-* 
mente. . / 

As primeiras sSo um canevoa de musica em . estylo dramuti'» 
co-sacrO; predominando o primeiro^ ou, como diz PlatSo de .Va-p> 
xel, (a) sSo: Misao^y MoteUSy etc., sobre motivos de operaa italia- 
nas ! O que ouvimos doeste compositor nas ^rejas de Lisboa ej 
Porto vem confirmar esta opiniSo. 

E para admirar que um discípulo de Fr. Joaé Marques da* 
Silva escolhesse estylo t2o detestável para as suas composiçSes 
sacras. Infelizmente não foi só elle que o adoptou; Hego, Gallio, 
Barros, Masiotti e um bispo Athaide foram os dignos coUegas de 
Casimiro ! 

Os contemporâneos denominaram-n'o o Donizetti português t 

Nlio sabemos porque. N3o é de certo só a facilidade com- 
mum a um e outro compositor que os pôde approximar ; nio é isso 
de maneira alguma sufficiente para que se possa estabelecer entre 
elles um parallelo. Ignoramos que haja outra analogia entre o oe^ 



os MUSICOB PORTDGUEZES 48 

lebre, eompoBitor itaHiuio e o thusIco liortoguez. O qne Bonizettl 
nSo tínha eerUnx^te c^ a yaidttde «á^ proittiapçlo do pârtaguee. 

Demais Oasimiro ntmca foi artista, pois como p poctia.ôçr 
nm Iioviçm^ qu9 ígxioraodo o fim'.Ql6fadis8Ímo da maissuUime 
de todas ás Artes, Tendeúdo-a e prostitidndo-a á plebe, tinha por 
aspiraçSo jui^ç^ o.agrado do vulgo, Âm iurba ignam? Como é in- 
digno o homem, que ren^a a sua individnaBdade para ir vestir 
o espirito ç(»n as idéas baixas e vis da plebe! — é o lacaio servil- 
que renega a.^tu^idade de homem livre que pensa, sente e quer, 
que despe o manto augusto da liberdade para ir vestir a &rda 
agaloada de falsos ouropéis dè bonecos autómatos que se dizem 
reis. . • 

O povo também pôde ser rei despótico, tem-n'o sido algu- 
mas veses na Historia, e é commetter o mesmo servilismo, a mes- 
ma baixeza ser escravo do povo ou servo de reis. 

DirSo* talvez que somos severos em demasia para com Casi- 
miro; nSo, ftzemos apenas justiça. O código penal da socieda- 
de politica tem castigos, mais ou menos severos, para crimes mais 
ou menofl grandes. A sociedade aitistica também tem o seu: é a 
Qonsciencia de todo o critico austero e d^ todo o artista verdadei- 
ro ; este ultimo indica uma pena sevmssima para quem commette 
o crime de Casimiro; applicando-a, fiiaeinos apenas justiça. 

Kepetimos: Casimiro nunca foi artista; tenha-se em maior 
conta este nome augusto, que devia ser guardado pela honra das 
naçSes, para que nlo acontecesse ser usurpado por tantos escre^ 
vinhadores sem vergonha, que ostentam diante dos olhos dos 
ignoraantjea, no meio da chusma das gralhas, as pennas empresta- 
das do pavSo! 

(a) A Musica em Portugal. GaxeUa da Madeira^ n.* 18, de 19 de Ju- 
nho de 1866. 

CASTEUáilO (D.:nraiici0eo)^-Como o appellido d'este ar- 
tista pôde indozir o leitor em algum erro, advertimos que este' 
musico é portuguez, apesar do noiiie parecer significar o con- 
trario. 



44 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

Foi CcMiego regrante de Santo Agostinho e Mestre de Capei- 
la no eonveato de Santa-Cms de Coimbra. 

Julgamos ter sido nm musico mui distincto e de bastante 
erudiçSo moaioal; (a) esta noasa opiniSo funda-se no pedido de al- 
gumas das suas oomposiçSes qm Filippe n fez ao CapelUo-Mór 
da Capella real de Lisboa^ D. Jorge de Athaide. Eram ellas umas 
LamêfUaçSeê e Braiadoê ias PaixISeê, que se cantavam noEscu- 
ríal em 1590. 

Só quem desconhecer a importância que a Capella real de 
Madrid tinha, musicalmente fallando, no reinado do Inquisidor- 
Reiy é que poderá negar o alcance d'este pedido. 

(a) Castro, Mappa de Portugal^ yoL u, pag. 349. 

CASTRO (D. nrai Agoattsho de) — Compositor, que prepara- 
va um livro de Musica paim a impressio, sendo também auctor de 
outras obras praticas. Nada mais sabemos d'este artista. Barbo- 
sa Machado é mui lacónico a seu respeito. 

GASZBO (fkhiiA Nrairt de) — Este celebre jurisconsulto 
portuguea vem aqui mencionado, por estar incluído em um Le- 
xicon aUemIo (a) de sábios illustres e artistas de todas as naçSes, 
no numero dos bons artistas músicos dos séculos xvi e xvn. 

A sua biogniphia encontnuvse-ha facilmente em qualquer li- 
vro especialista; por isso indicamos aqui apenas as datas do seu 
nascimento e morto: 

Braga, 7 de Fevereiro de 1571. — Lisboa, 19 de Outubro 
de 1632. 



(a^ Dr. C. G. Joecher, ÀUgemeineê Oelekrim Leodeon. Leifnig, 1750- 
1751, 4 vol. gr. in-4.«0 auctor foi Professor de PhHosophia, Histona e Me- 
dicina, em Leipsig (Sazonia.) 

CASTRO (Haaod António Lobatd de)— É Barbosa Macha- 
do (a) que fisUa: Cidadio e vereador da Cidade do Porto, filho 
de Manoel AfEbnso Lobato e Maria Ântonia daPaixSO; nasceu na 



QS MÚSICOS POBTUGUEZDEIS 45 

tíDa de Baicellofl no AroebispAdo de Braga, sendo tio nobre por 
ascendência como erudito fèlã applieaçSo com que cuHivaTa as 
Bciencias amenas e severas* 

Metrificou em lingoa castelhana com suare elegância; mor- 
reu na pátria a 8 de Agosto de 17X1^ oom 40 amios de idade. 

Além de outras obras litterariaacompoi: 

Vilkaneiçoê jue $e cantavam na Sé CaUedral do Porto em 
as Matinas e Festa da gloriosa Virgem e Martyr Sania Ceeilia. 
Coimbra, na Officina do Beal CoUegio das Artes da Companhia 
de Jesus. 1712, in-12.'' 

(a) Bibliotheca Lusitanaj voL m, pag. 181. 

CASTRO (Rodrigues de) — Estudante israelita em Salaman- 
ca, onde se doutorou, e depois Professor de Medicina e Philoso- 
phia em Hamburgo, onde se estabelecMi em lfi76. (a) 

Foi ahi muito respeitado e ppocuiado pelo sen saber. Falle- 
ceu a 19 de Janeiro de 16S7 mais do que ootogeoarío. 

Publicou: 

1.) De oficiis w^sdico^poUíicis^ site Meêicuê^liíiems» Ham- 
burgo, 1614, JIl-4.^ (b) 

. Forkel (o) dá«nos nm titulo um pouoo dilferente e que nos 
parece ser mais exacto: 

Medicas politicos, sive de ojficiis Medieo-politieis tractatus. 
Hamburgo, 1614, in-4.** 

Esta obra encerra algumas idéas curiosas relatiyas ao effBito 
physico da Musica sobre os homens e sobre os animaes* Eneon- 
tram-se nas seguintes partes do livro: cLib iv, cap. xiv: ut de- 
cmoiistrertnr, noa minus utiliter quam honeste adque prudenter 
f in morbis musicam adhiberi : ipsius encomia proemittuntur. 

cCap. XV. Notantur ac regicientur Musice abusus. Gap. xvi 
cMusic» excellentia, atque prsBstantia, rationibus, auctorum suf- 
cftagiis et experímentis oompvobatur.» 

Estas malferias oceupam ao lodo 13 pag. in-4*^ 



46 OS MUaiCOS P(«TUGUEZES 



(a) Gerber* Hiti, Diogr. Lexk&n de TonkwnêUer, toL i, pmt* 258, dis 
1594. 

}) Fétís, Biogr. Univ., vol. n, pag. 209. 
;) Allgem. lÂUraL de Mtuik, pag. 11. 



n 



CATHAIiniA (Rr. Hanod de Santa) — Natural de Olinda 
(Brazil;) e monge carmelita. 

Abstrahindo das suas qualidades como pregador e theologo^ 
consideramol-o aqui só como compositor. 

EiScreTeu: 

Suave karmanta sobre 6 vozes quA são as Cinco palavrões que 
f aliou Nossa Senhora, in-4.^, Ms. (a) 



(a) Fr. Manoel de Sá, Memoria histórica dos Escriptores do Carmo, da 
Provinda de Fortu^, cap. 72, pag. 868. 



ÇQAGAB (Fr. Um dM)— Natural de ViUa Nora de Perti- 
mSo (Algarve). Foi educado no convento de 'Nossa SeiJiora de 
Jesus em Lisboa e pfofessoit o. instituto sersfioo a 14 de Maio de 
1606. Possuía uma bella voz que aperfeiçoou com o estado^ sen* 
do nomeado Vigário do Corb^ Mestre de Noviços e ultímamente 
Director da Capella do Mosteiro de S. Francisco, perto de Sibres** 

M<HTeu em Lisboa em 1640^ no convénio da soa ordem. 

Compôz : 

1.) Officios da Semana Santa. Ms. 

2.) Manual para todo lo que se canta fuera dei Coro eonfor- 
me éL uso de los FraUesy Monjas dei Sagrado Ordem de Peniten- 
cia de N. P. S. Francisco dei Reyno de Portugal y Ca&tilla^ 
in-8.« 

Este livro contém uma enum^raçlo de todas as ceremonias 
do Coro e Altar em todos os actos solemnes do anno^ conforme o 
Missal e Breviário Romano, impresso no tempo de Urbano viii. 

• 

GHATES (Joio Dias) — ArtMta eitadi» por Villeis d» Silr«, (a) 
que lhe dá o título ti^ de ioatnunenttflta, oennmai^ Bafin por 



os MÚSICOS PORTUGTJEZES 47 

o ter omittido no seu Ensaioy esquecimento nSo merecido para 
com nm artista distincto. 

Pertence á primeira metade d'este secolo (1820). 

(a) ObierviMçoee criticas sobre alguns artigos do Ensaio estatístico do 
Btino de Portugal e Algarvts^^xAAvitiáo em Faria por Adriano Balbi. Lis- 
boa, na Impressão regia, 1828, m-4.*, pag. 128. Artigo: Musictk. 

* 

CHIARI (Senbora) — A morte, que ceifou esta Tida preciosa 
no vigor da juventude, levou também as esperanças que os seus 
talentos musicaes promettiam; tinha uma voz de soprano de um 
bello timbre. Esta artista pertenceu á primeira metade do século 
presente. 

CHBISTO (IV. Estevão dé)— Freire da Ordem militar de 
Chrísto no Convento de Thomar. Viveu primeiro em Lisboa, e 
depois em Madrid, onde esteve adjuaoto i CapeUa real; flofes- 
eeu segundo parece no seeulo xvi. 

Este artista tinha uma reputação distincta «orno excellente 
eontnqKmtista. Foi chamado a Madrid por empenho do capdllo- 
Hiòr*D. Jorge de Athaide para dirigir a musica da SemanaSanta, 
segundo o uso da Oapella Sixtinai A execuçSo foi magistral (a). 

Deixou algumas composiçSes de bastante valor, (b) e morreu 
no Convento da Luz, perto de Lisboa em 1609. 



(a) Castro, Mappa de Portugal, vol. ii, pag. 348. 



í) Ibid; sic: admiráveis (!) Ezpriniimo^nos mais moderadamente do 
qne ò nosso cqllega do seeulo passado, porque receiamos cahir em alguma 
parcialidade. £ o systema que seguimos em todo este livro. 

CHRISTO (Fr. João de) — Monge de Cister, cujo habito ves- 
tiu a 8 de janeiro de 1614, professando solemnemente a 10 de 
Janeiro do anno seguinte. 

Foi na^tnral de Lisboa, onde nasceu no começo do seeulo 
xvn, morrendo no Mosteiro de Alcobaça a 30 de Julho de 1654. 

Era considerado pelos seus contemporâneos como um excel- 
lente organista e compositor de meritby ^pialidade que se pode de- 
duzir do exame das suas obras. 



48 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Sío:. 

1.) O texto doê PaixSes a 4 voze$. Cantava-se no conrento 
da Ordem durante as festívidades da Semana Santa. 
2.) Cctlendcu da Natal e de S. Bernardo. 

CHRISTO (Fr. Loia de)— Habil organista da Cathedral de 
Lisboa, e monge carmelita a 19 de Maio de 1642. Era filho de 
Thomaas Dias e Sebastíana Gomes. As datas do sen nascimento 
e morte sfto 1625, e 27 de Septembro de 1693. 
* Compoz: 

1.) Paixikê do$ 4 EvangeUgtctê, a 4 voze$^ 

Barbosa Machado, (a) fatiando doesta composiçSo, exprime- 
se da seguinte maneira: 

cForam as primeiras que sahiram depois das que compoz o 
celebre Geri de Ghersen (b) Mestre de Capella do Príncipe Al- 
berto, S^ihor dos Estados de Flandres.» Deixo toda a responsa* 
bilidade d'esta affirmaçSo ao douto Abbade de S. Sever. 

Fétís, (c) Atilando do nosso compositor e Ao Cónego de Tour- 
nay nada diz a este respeito; nem menciona mesmo cemipoai^ 
alguma de Ghersen semelhante i do nosso artista. 

O mesmo fez Dominioo Cerone, (d) que devia fiillar da inno- 
vaçlo do musioo belga, principalmente fiusendo uma mençlo hon- 
rosa doeste compositor no seu Mdopeo, 

2.) LiçZeê de Defunetoêj Motetes e Vilhanctcoê. 

(a^ BíU, LuêiL voL m, ^ag. 83. 

ObS Deve Icr-se : Gangenc de Ghersen. 

(c) Biogr. Ufdv. vol. ii, pag. 297, e vol. iii, pag. 473, e 474. 

(d) Melopeo v maeHrOf iraetado de rnutica tntorica y jfrtUica ete, Ná- 
poles, por JuRii Bautista Gargano y Lucrécio Nucci, impressores. Anno 
de naestra Salvaciçn de mdcxui. FoL de 1160 pag. 

COELHO (. . .) — Compositor distincto do principio doeste se- 
culoy digno de mençlo no género das Modinhas. 

COELHO (a) (P.*^ Manoel Rodrigues) — Excellente organista 
e tocador de harpa; pertencia á Ci^pellaTeal para onde entrou no 



• os MÚSICOS PORTUGDEZES 49 

começo do século xvu (1603), onde foi sempre estimado durante 
▼inte amios quó n'eUa tocou. Antes de occupar este logar tinha 
sido organista. nas cathedraes de Elvas e Lisboa. Sabe-se que 
nasceu na primeira d'estas cidades, antes de 1583, pelo que se 
deduz do prologo do seu livro. 

£scf€^eu: 

Mores de Musica para o instrumento de Tecla e Harpa. 
Compostas por o Padre Manoel Rodrigues Coelho, CapeUão do 
sendço de Sua Magestade e Tangedor de Tecla de sua Seal Ca- 
pella de Lisboa, natural da cidade de Elvas. Dedicado á A» S, 
C. S, Magestade dei Rey Philippe terceiro das Hespanhas. Com 
licença do S. Officio da Inquisição^ Ordinário, Paço. Em Lis- 
boa, na Of&cina de Pedro Craesbeck. Anno Dfii (b) DCXX, in-4.^ 
ft»l. peq. de zu-233 pag. 

Na Bibliotheca Publica do Porto (Estante Y. 13-58) existe 
um exemplar muito bem conservado ; fui esse que examinámos. 

Contem este livro: 

24 Tentos, 3 de cada tom, são 8. — Kyries por todos os 7 
signos começando em C, sol, S,fá, ut=^e acabando em Bfá. 

4 Susancu (c) sobre o CantocJtão da Susana^ cada qual dif- 
ferente e todas a 4 vozes, (d) Tiple, Alio, Tenor e Baixo. 

4 Pange lingua, sobre o Cantochão de breves em cada voz. 

4 Ave Maris Stella, sobre o Cantochão de semi-breves em 
cada voz. 

5 Versos sobre os passos da Ave Maris Stella. 

8 Tons em versos para se cantarem ao Órgão ou Harpa^ cada 
verso guasi sempre a Õ, porém a voz que se canta, não se tange» 

Mais 8 Tons a versos sobre o Cantochão em cada voz para 
cu Magnificas e Bemdictos. 

O auctor apresenta-sc no Prologo com uma grande modés- 
tia. Dix : que não o podem accusar de atrevido por publicar o li- 
vro, porque confia que os curiosos de Tecla e Harpa aproveita- 
rão com elle, e por ser o primeiro livro que apparece em Portu- 
gal para estes instrumentos: Pois com esta Arte e o Talento (que 
Deus me deu por sua immensa bondade) tenho fructificado e apro- 



50 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

veitoíndo a mmioê ditcipuloê em vartas^ patieê -éPesU ^Bêyno ande 
fui bem recebido, não èô nfi^ 8é d'Slva$, minha e^japrimiita 
e natural, onde me criei e daedade de S annoe já n*4st& eehuhvap 
moa também na Sé de Uêboa, d'ende mún para o eerviço de Sna 
MageHade. 

•Pernucneoia no logar de CapellSo e Tangedor de Tecla de 
Saa Magestade ha 17 annos senão com os meredmenioê que con* 
vém, ao menoa com satitfação de todos os que d'esta Arte tem ca- 
nheciniento, quando escrevia este prologo^ (e) tendo passado pelo 
rígoroso exame que na Real Capella fez, estando a elle presente 
no Goro o muito reverendo Prelado d'eUa com todos os capellSes 
e cantores. 

Diz que escreve nllo para grangcar gloriai n^as sim para ser- 
vir a pátria, advertindo que as Flores de Musitá nio s^ ^ara 
principiantes, mas sim para Tangedor arrasoado. Que não vem 
ensinsir os princípios de Tanger Tecla, ihas itin dair InditaçSes 
para os Tangodores. 

Desculpa-lse de duaá quintas Seguidas, que ás vexes einpre* 
ga, por serem aquelias que os auctores admittem, isto é uma 
maior e outra menor. 

I Tal era aii^ o apego com que os nossos antigos composi- 
tores adheriam & severas regras do Contraponto e do Cantochio 
que prendiam em um laço d« ferro os s^ítimetitos do drama hu- 
mano, abafando^simplacavelmente. 

Muito tarde nos deixaram os cânones da musica religiosa em 
liberdade! No principio do livro vem uma apreciação feita por 
Fr. Manoel Cardoso. Transcrevemos a opiniio do celebre con- 
temporâneo, que Coelho diz ser^homem de singular erudição : 

M Vi a musica dfeete livro por m'o pedir o Auctor d'eUe. 
Achei n'eUe muita variedade de passos, grossa excettente e.airo- 
say as falsas em seu lugar, muy bem ocempmAadas^ e <m tudo me 
parece digno, assi do seu Anetor, como de ser impresso, para 
proveito dos que d'eUe tiverem noticia. » 

•Dada no Carmo dç Lisboa, hnje, 21 de Julho de 1617. 

Frei Manod-CttfdosoTnr ' 



os MÚSICOS P0RTUGUEZE9 51- 



■\ •"* t* « \ 



D^xris negàtm Tarios^Sonetog^ sondo vau de M«noel de Pino, 
HhMril (k SiMDpgeBtade tn ál<Aan^a ãel atdor; fiina Cançant 
de AaOmio^fiaMPes^lÂfciifleoa^ CVtpelUCo Ciintor da Oapella reftí 
de Soa SfagQntade^' cmtro soat^to do- niosiao aactor o uma gravura 
em madeira qtie rcprcBenta Santa Cecília a tocar orgslo e uns an- 
JM que a aoompaoiíam. Segnem-sc 283 pag. numeradas só de um 
lado. O cxtímpkir da Bibliothcca puhlka do Porto ietn^ mais duas 
pagmas deiniisieamanuseripta; porem muito jiosteriorá do livro, 
índice *e Erratas, ' 4 piig. 

•'-^•" ^ RacsVÀíki; DUUómíUre ayHtttitguf., piifr.' W «224j e o Cardíal Sa- 
raiva, JAsia de artistcut^ pag. 48, inoiídoiinni 08tc noinc qno estjl de accor». 
do com o qnc vem na obní. Iiiiiocciício F. da Silva, Vice. JJtbL vol. v^, pag. 
$2, jfiTga mf^ errrt, man- h^ó é. • ■ • 

. (bJÍJfctiij.Jíw^r. Unh; vol. vm pag. 288, traz ICOO, nao c exacto. Ra* 
czyiiski/; o Bispo-Coudc trazem a data A*erdadcira. 



(«) K o mesmo «fti« IVnto». 



Porqae tudo. o qnc passa no instrumento de qnatro nao serve, 
por 'qtiknto o instrtimeiíto iiao declara mais, cpankando d'aí(ui tudo fica pa- 
recendo o mesmo, o que nao é nas vozca linmanast. =» CoeJJiú, 
..* j^fj^lAgOy ddxoUv o serviço.^ ca^hedral de Lisbop. ^ 1603. 



COHGfilÇÃO (António da) — Foi um dos oantorfs mais nota* 
v%ÍB de*miujnr saeva em^Povtngalr e também um dos mais apre- 
iwdot*. Nasceu em Lisboa a 8<de Doa^emliro de.l&79, e foram seus 
pães iántonio Diaa e Catkarina Dias. Os seus estudos de musica 
auxiliados por bellas disposiçSQsnatucaes o habilitaram para en- 
trar ainda muito novo na-CapeMa renlv Vestiu o habito trinitario 
noxonvciito do Lisboa, quando apenas contava 15 annos, e ahi 
<r:0eu neine já enèie>«6lehro afttfshiaranaKiedade mais dislincta 
de Lisboa que eonoorriá a» tnnVcnftD para cmvã^ ! 

v; O encodto povím «assou repontínananots com proftmdo pezar 
de toda a corte, poèqsie posMO^depoia doestas oxlraardiíiarias eon-r 
eorresMaa, tnwstonKM^^» a «na vos d® tal manotaa^ .que mesmo 
q«asKla*iallira ditfettmente se«percebia» 

Diaem que iiírra elle ^/àofrin tpe^padi^ kk Deus o livrasse 
de múíéíí^f cpie neeÍATa pt^huviavfolançmr.tno precipício dã van^ 
yhria^' Qm^ $otai»!àt preconceitos e de ideias ôeas I 



M OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

A Condessa de Serem, sua confessada; fez-lhe sumptuosas 
exéquias e toda a corte yeiu prestar na morte a derradeira home- 
nagem ao talento, que tantas vezes tinha admirado em vida. Ehc- 
pirou a 28 de Junho de 1655. 

Machado fallando dos dotes musicaes doeste artista notayd 
dis: c jiie a iua voz era datada de ewnma agilidade, eanara melo- 
dia e armonica coneonaneia^, (a) 

(a) BtbL lAi9Ít* YoL i pag. 245. 

COHCEIÇÃO (Fr. Bamardo da) — Theorico do século passa- 
do; publicou: 

1.) O eccleêioêtico instruido ^cientificamente na Arte de Can- 
toehão. 

2.) ifodo fácil e claro para aprender Cantochão. Publicou- 
se em Fevereiro de 1789. 

COHCEIÇiO (FilUppe da)— Professo da Ordem Militar espa- 
nhola de Nossa Senhora das Mercês, porem nascido em Lisboa. 

Viveu no século xvii, e sabemos que fez alguns Vilhancicos 
do Sacramento e N(Ual, que existiam na Bibliotheca de D. Jòlo 
IV, nas Estantes 27. N.« 686. Est. 28. N.^ 707, e 29. N.« 720 (a). 
Eram composiçSes de mérito. 

(a) Index da Bibliotiicca real de Musica. 

COHCXIÇÃO (IV. Hanoel da) — Monge franciscano. Escríptor 
theorico que vivia em Lisboa no meado do século xviii. 

Foi primeiro guardião do convento de Santa Maria de Je- 
sus de Xabregas e depois Vigário do Coro ahi mesmo. 

Escreveu: 

Manitah romanum seraficum ad ítsumfrairum Minorum AU 
mae provinciae Algárbiormn ordinie iSaneti ^Francisci per vtile 
etiam parochiê atçue êocerdotilma sactdaribue etc. etc. Pars i 
et n. Ulyssipone, ex praelo Bcmardi Ferandes Qayo. Musicàe 
Typ. Ânno 1746 in-S."* de xiv (nao numeradas) 338 pag. 



os MÚSICOS POBTUaUEZES 58 

A segunda parte doeste JíaniiaZd é: Ex prado Míehaeli Md- 
nêêcal da Cosia, Saactí Officii Tjrpographi. Anno 1746—284 

O livro indica todas as ceremonias religiosas conhecidas na 
«grej& assim como o CafUoehão correspondente a cada uma d'el- 
las. A primeira parle trae uma dedicatória á Virgem com a inge- 
nuidade do costume. O exemplar que possuímos é da segunda 
ediçSo (1746) correetior et aueta. 

Ignoramos se teve mais ediçSes. 

COHCEIÇÃO (Huno da) — Um dos lentes de Musica da Uni* 
versidade de Coimbra de cuja cadeira tomou posse a 22 de No- 
vembro de 1691^ que occupou até morrer a 8 de Fevereiro de 
1737. Nasceu em Lisboa do casamento de JoXo Soares Cardoso 
e Francisca Coutinho, tendo recebido ainda muito novo o habito 
trinitarío a 22 de Julho 1672. 

Os seus conhecimentos na theoria e pratica da Musica al- 
CABçaram-lhe a distineçZo acima mencionada concedida por pro- 
visZo regia de D. Pedro u. Compoz: 

1..) Pêolmoê, HynmoM e Motete», a diverêoê vo%eê» 

2.) Vilhancicoê do Natal, ReU, Conceição e vários Santoê* 

COWaBSÇÃO (Pedro da) — Morrer com 21 annos^ na força da 
inspiraçSo e levar comsigo para o tumulo as esperanças de um 
povo inteiro que o olhava com orgulho^ eis a historia de Pedro 
da ConceiçSo. 

As suas oomposiçSes eram : 

1«) Jtfunca a 4 coros para uma comedia que se representou 
no paço em applauso da Sereníssima Senhora D. Marianna d' Áus- 
tria. 

2.) Lia COM musica a 4 vozes, representada no Convento de 
Santa Clara de Lisboa. 

3.) A Leira e Sol/a de um Vilkancico para cada dia da ire- 
%ena de Santo António. 

4.) VUhaneieos a 3, 4 e 8 voses para o c<mvento de Odi- 
vellas. 



54 08 MÚSICOS PDRTUCPUEZBS 

5.) In exiiuhrctel de JEgypiò a 4^tàtBt. Malèteftíiãádo wy 
brè o Cantochão ào tnesmo Fsá&no. ' ' • 

Pertenceu á ordem da SS; IVindud^;, que profbffiou a 15 éb 
Setembro de 1706, tendo -naacido Bm 1691.* * ' • . 

Borboto Machado (a) dias : < íjfaefonáaxa ãoè' número t armo^ 
nteos iaeê producçõis qne^ãttMtam niíope^u/^naúMawibro ixuiéfnÊh^ 
fes9oreê mais perítoscfehtas dtiãi^ Artèê.i^ ' . ' • . v- 

Fétis (b) qualiflca-o àezcompoêti^Bur ãhtíngué, ' * ' • 

ia) Bthl. Imsíí, voL ut paj». 669. 
(b) liiogr. Univ. vol. ii pag. 345. 

CONCEIÇÃO (Fr. Raynmiid^ da) ^— Viveu no fim do século 

XVIII. £ auetor do seguinte livro : i -' 

Manual ãt iítãà cgfuè êe cantu^fiíMfêò iJòrú:GoÍÊáhrsí 1765. 

CONDE (Silva)'— Amador e ò primeiro toòador de flauta no 
Brasil na primeira metade doeste *8eeiilo'(1680)« 

Era cirurgii&o^tto-BSo èè Janeii^''etiirhft^ estudado- em In^a- 

terra a Medicina e a Musica. ' '•' . ' 

A sua execuçSo* cansou at^ uKr mn» eerta admiva$lo. 

> 

CORDEIRO (P."" Antonio> — Frea^by tero é Sub-CSumtro da Ca- 
thedral de Coimbra no século xvii. Fez addiçiBecr «' eorreeçBès ao 
tratado xle Cantúchuo de JoXo Martins, que publieou^em 8.^ edi- 
çSo com O' seguinte titulo : 

AHe de CufUochão cwnposta por João Martinê^ auffnmnkvia 
por António Cordeiro. Coimbray por Kic^mi Carvalho* 1625 ^ 
in-8.^ Parece haver uma edíçlo precedente dè>i612, iil»8»^(a) 

(a) Gerber, Neues. fíkò, lÁÒjfK Leo^i^n, voK i, pag. lèà, 



v ►• 



CORDEIRO (João) — Botn organista, natural 4e Lisboa. Foi 
Mestre dà Familia Real e vlVeU nos reinados de D. ' Joeâ e D. 
Maria i, fim do scculo xviii e principio do XIX« ' 

Deixou algumas oomposíçSds sacras e profimas \fm rerelam 
mérito. 



os JáUSieOS POETUGUEZES 5? 

CQBREA (Hfpriqne Carlos)— Freiíte, da. ordem militfir de S. 
Thiago e Mestre de Capella na QatkedraL de Coimbra, logar que 
pelft soa iB&tracçâo.e tal^to, musical Ib^ foi, concedido .pelo Bispo 
de Coimbra, D. António de 3ousa e Ya^concellos. 

Vestia o habito da sua ordem a 24; da Julho de 1716, tendo 
nascido em Jisbpa a 10 de Feyereiro de 1680, do ci^amento de 
Félix Thomaz Corrêa e Marianna do Brito e Oliveira. ., 

Applicou-se ,t8o assiduamente ao estudo da Musica que em 
breve excedeu seu Mestre o P.® Domingos Nunes Pereira, col- 
locando-se na composição á altura de Marques Lesbio, (a) Mes- 
tre da Capella Real. 

Este compositor vivia ainda em 1747, segundo o Cardeal 
Saraiva, (b) 

A lista bastante extensa das suas ^composições que^ em se- 
guida apontamos, é ainda assim incompleta: 

X,) Reêpanaorios da9 Míiitinas de Quarta, Qmnta :e Sexta- 
feira da Semana Sanki it 8 VQze^. ' 

\ 2.) Re9p(m^orios. das.Matin^9 da Quarta^ Quinta e Sexta- 
Feira da Semana Santa a 4 vozes. 

So) lUsponèorioè da4. Motim» de Santa Luzia f^ JQíkocisti 
juttitiam, a 4 vozes com Rabecas. 

4.) M^iyfònsãrioê da Fesia do Natal a 4 vozes com Rabecas 
e ReAecdes obrigais. 

6.) Respotisorios das Matinas de Santa Ignez a 3 Tiplesp 

6.) Responsorios das Matinas de Santa Cecília, O* Beata 
Cecilia,a8vQíiíesam2cl(irins. 

7.) Al^^ Lamentação, Cogita^it Dominus, de Sexta Feira 
a 4 Tiples do 2.^ tom por hmol, • 

8.) A mesma a Duo (Contralto e Tenor) com acompanha- 
mento extrcÊvagante, do i.? tom, ponto haiaco. 

9.) A mesma a Solo^ Tiple, com 4 Rahecòes obrigados, 
IQ^Ex tractatu S. J^gostini. Liçio 4/" doe Matínas de Sex- 
ta-FeivaMaior-a 4 vozes, 2 Contraltos e 2 Tenores, do U^ tom. 
11.) Festinemus ingredú- Lição 7.* das MfUinas- de SextOf^ 
Feira Maior.a 4 vozes. do 2^tim por bmol. « 



56 OS MUSI003 PORTDGUEZES 

12.) MMtete mei Deuê a 12 vozeê de 4.^ tom* 

13.) Ovtro a 4 vozes do 2.** tom por bmol. 

14.) Outro a 3 vozeê do 2.^ tom por bmol. 

15.) 6 Motetes de 4 vozeê do 7J^ tom, um ponto cítOf jtce 
servem para a Vià Sacra e começam: Bajulans siM crucem. 
Exeamuê ergo Domine Jesu. Angariaverunt Simenem, Filiae 
Jertisalem. O' vos omnes. Defecit guardíum Sepulto Domino. 
Serviam para a procissSto do enterro do Senhor. 

16.) 12Motetes.S^: 

1.* Tristtê ui ajuma mta a 4 vates, 

2.* Domine mistrtrt do 4.^ iom. 

S.* Converte nos do tf." tom, 

4.<* Domine Jesu a 3 vozes egunea (Tenores) do 2.* tom por bmol, 

5.* Ave Sanctum Corpus a 4 vozes do 2.* tom, 

6.* Tota pulchra esi Maria a 4 votes do !,• tom. 

7.* AUna Redemptoris Mater a 4 votes do 5,* tom, 

8.* Ave Ragina a 3 vozes do $.* Unn. 

9.* Anna pareus a 4 vozes do 8,* tom, 
10." Benedictuê qui venit a 4 vozes do 4.^ tom, 
ll.<* Outro a 4 vote» do 1,^ tom ponto baixo, 
12y OtUro a 4 votes do 2.* tom por bquadro, 

17.) GrraducU, Tracto, Verso e Offertorio da Missa das Do- 
res de Nossa Senhora a 4 vozes com 2 Rabecas e Rabecão obri-- 
gado. O Tracto e Verso são do 1.^ twn um ponto baixo, O Offer- 
torio a Duo é do 5.^ tom, um ponto alto. 

18.) Chradual de Nossa Senhora, Benedicta et venerabilis, a 
4 vozes com 2 Rabecas e Rabecão obrigado, do 6J^ tom, 

19.) Gradual e Ave Maria^ a 4 vozes do 2.^ tom. 

20.) Ghraduaes, Tractatus e Verso da Missa do Sacramento^ 
uns a 4 vozes outros a3, 2 e Sólio. 

21.) Invitatorio das Matinas do Naicd^ a 4 vozes com um 
coro de instrumentos, do 4.^ tom. 

22.) Gradual e Verso para a Missa da nouie do Natal, do 
1.^ tom, com um coro de instrumentos. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES M 

23.) ConJUeor iihi Damine^ a 8 vozeê do 2.^ iam por bmol. 

24.) LaudcU pueri Dominum^ a õ vozes do 6/* tom. 

25.) Grradual da Missa de Quinta-feira Maior, Christusfa- 
eius esi pronobis obediens^ a 8 vozes do 2*^ tom por bmoh 

26.) Três Responsorios de Defunetos, Memento mei Deus, 
sBndo dois a4e o terceiro a 8 vozes, todos do 2.^ tom por bmoL 

MUSICA DE ESTANTE 

27.) Duas Magnificai; uma do 2.^ tom e a outra do quarto. 
28.) Verso para a procissão de Palmas do 1/* tom. 
29.) Defensor Alm4B Ilispaniee. Hymno de 8, Thiago. 
30.) Ladainha de Nossa Senhora a 4 vozes do 8.^ tom. 
31.) Vilhancicos do Natal y Festa dos Reis, Conceição, Sor 
Cfwnento e outras Festivi^Lades a solo a 2, 4, 6 e 8 vozes. 



n 



a) Tide a sna biogrAphia. 

Lista de alguM artistas portuguezeg. Lisboa, 1839, pag. 46. 



CORRÊA (Lourenia) — Celebre cantora do fim do século xviii 
e principio do soculo xix. Foi dÍBcipula de Marinelli, celebre so- 
prano da capella de Carios iii, Bei tle Hesponha. 

Debutou primeiramente no Theatro Real de Madrid era 
1790; alcançando logo um triúmpho completo. 

Passados dois annos partiu para a Itália e ahi se repetiram 
os applausos de Madrid, quando se apresentou ao publico de Ve- 
neza nos papeis de prime donne. 

Todas as grandes cidades da Itália (a) tiveram a felicidade 
de ouvir a cantora portugueza, sempre victoriada nas suas ex- 
cursSes artisticas. 

Brílbou em Nápoles no Theatro de S. Carlos^ durante trez 
annos consecutivos. Este facto, que é para admirsr em um povo 
dotado de um génio essencialmente mudável e sempre ávido da 
novidade, indica claramente o mérito que Lourenza Corrêa devia 
ter, e o talento superior de saber fixar durante t2o longo período 



M OS MUSIOOA FOBTUGlWa^ 

& atteDçlo de um povo artístico e u'^udl6 teippo mpi HUBifúl de 
contentar. 

£Én 1810 enoontniinol-ta. subitamente em Paris na Opera- 
Boffii; a causa da pouca sensaçSo que ahi produziu deve-seats 
tribuir á ciicunstanoia de^.e9tar a sua outr^ora beKa voz, j4 cansa- 
da4 Algum. teiúpo depois doeste suecesso retirou-se.dch theatro* 

O silencio que em Portugal e mesmo no estrangeiro se tem^ 
guardado a respeito doesta artista, é tanto mais injusto, quanto é 
grande a reputaçSo /^ue alcançou em Hespanba e durante as suas 
Tiagenfl^artístiôasi na Italia« :íj 

Damnto,! dieyemos/erêr^. qiiAe.nik^>podia ser: ar^ta de- «egun^tn 
ordemy a cantora. qu^aeapiseseiitaif». hm Madi;id, qua)^ abi.e^ 
tavam os maiores artistas e compositores do século: Marif^ij^ 
Msmfísedif BrwneUiy CujfureUi, JSóoe^ríat! e outros, e.n^vm tem- 
po em que o gosto do publico madrilma deyia í|er.|prçosa^ei|t^ 
ei^igente, estando acostumado aps prodígios, opeiratios p^os gran- 
des cantores sabidos da escholã immortal do século ^a3sa4o#f < 

Além do peso que devem fazer estas 'observações na balança 
da critica^, accresce a opiniSD imparcial de Fétitf, (b) que confirma 
o que acabamos de dizer, escrevendo no seuibello livro: — On 
admirait la beauté da sa voix et layerfjMtím d^ sa in4thode(l) — 
Lourenza Corr^ nasceu em-Lisboa^em.lTiTl^p^m .igaaran9^'ft 
data da sua worte, aSsim como o logar onde morreu* 

O retrato doesta celebre cantora foi pintado por A. Barbini 
e gravado em MillSo ^r OrBòggi. - 






(sí) TdÚBfBtogr, XJniv, de» Muêtdens, voL ir, pag. 365. 
(b) Ibid. £ até provável que o critico belga a ouvisse, tendo deixado 
Paris só em Idll. 

CIHtR&A (l[a]ioel>--Oa{)eliao daQathedraldeSeviUui( 
porém português nascido em Lisboaé ConhecemHBe as se^guiat^s, 
composiçSes manuscriptaa d'eate aiKtor^ que.se.eiacontravam na 
Bibli<^âieca mu^eal ^Xi^boa^% ^ r^.;.: 

10 Salvfi Regina, aAm^*^, K^vta^te 33». N.« 77. 

2.) Miêerfacttiê «tim. Motete à 6 vozes. Estante 33, N.^ 771* 



08 10MOO» POBTUeUEZES 59 



3;) MUericof êi Mhemtor Dontínuê, a 6 vúZêê. EBbuàb 38^ 

4«) Vkraséêt in lAiehm} M^eUaS ífotê9. Estante 88, N.<* 

&•) Né dêmUnqtêàê fkê, a 6 ^welt, MaUéêf. i 

^.yPtià^ Ikhninè fUviM naãtpá9,a ««{mm. Bstuité 86; N> 

811. •'■ "• i • • .. ■ 



", •. 



MBHBâ (Pr. MttHiAl)'— Mefltv»^ OAiikeAnd de SmigoMAr 
(16S5) e ditcipalo de FernSo de MagalIil!ds.i(«>KÍMoa« enlAih 
boft ri» fim do' Mêttlo xvs « perienoeU' á oídem citmolítaiiâ, onde 
fi)S o6toi]Mtotoi#o- do eoiàpmtbT Fr.' Mmx>el Oardoio^ de ^ttem jA 
iallàikiod.''- •.:'>. - ..:'x 

Fétís' (b) dia ter elido Me»ti^ ãé Ca^Dft dir SantA Cfttharniâ 
flBi'169fr;'jlttf0'iilo menciona ologiir. • , ^ v 

liÍBdiiidoi(«>peio^ outro lado^ quer qae*£iMe Jleviie de:iun' 
convento dâíraa i»nlem «m^^MflAndy âfttM^d» oeoupftp^oimesaio 
etir^naOathedMt-èê^&AiiagoBiMU' ' - "-• ••> 

' CbftAO ooneilfair 0Bta»'0pitii9e» tSòdfveraaBf -HaveiAtahres 
MMbi tnn terceiro MtuMiel CV>yrêft? - 

Na BibKotheca de D»^ Jojlo iv oonMnwvmm*0e variat obvas 
doeste comporitor distincto e entre eUas «obresabiao ibUáit:» • 

Adjuva nas Bèu», a 6 vozes. Bslante 36 N.*" 809. 



.' » I 



fa) Tftmbcm se pódc lôr : Filipnt de Mt^galtót^*' 
?b) liiogr. Univ. vol. ii pag. 365. 
(e) B9i. Lnêit, vol. ui pag. 282. 



CMZA (AMMiia) — Artista portiiguM. imidwita em Viamiá 
d'AiMtriaeni 1722 e mesmo antes. Vivia ainda, em 1790. Ger^ 
hêf(t^ «Uhaób niiH^ ideia i^éMe- mtlsktd^ singubr q^B- se iàÊlm de- 
d!caÂ>'ágnitarra. '- • - 

Sia ó emdito aflemiU), qiie Gosta prooanwa dar áaíiiás çom- 
posiçSes um caracter extremamente original; pela introdueçSo de 
harmonias novas o modnlaçSés singidares epor umadH^isSo rhy- 



.1 



60 OS MUSICOB PORTDGUEZES 

tmicA ei^ecial; tudo isto oom o intuito de nSo ser aocusado de 
imitar um artista qualquer seu predecessor ou contemporâneo. 

Esta particularidade do compositor, refleetia-se em sentido 
diverso no seu caracter, que nSo era menos singular. 

Com quanto vivesse em más circumstancias e até mesmo po- 
bremente, nSo aceeitava esmolas de ninguém. £ um signal hon- 
roso; ha esmolas que humilham ; as dos reis por exemplo. 

Sentimos n&o poder dar uma apreciação das suas composi- 
çSes; talveas que a fortuna corue mais tarde os nossos esforços 
incessantes e nos permitta o conhecimento de alguma d^ellas» 



(a) Hutoriath, hiogr. Lexieon der Tankunêtler^ Leipzig 1790. vol. t 
pag. 304. 



COSTA (Affonso ¥at da) — Cantor distincto e compositor de 
musíea sacra e talvez profiema. (a) Estudou em Roma, sendo ahi 
discípulo dos maiores professores entSo existentes, (b) 

Terminados os seus estudos voltou a Portugal d^onde foi eha^ 
mado aos lugares de Mestre de Capella em Badajoz e depois ao 
de Ávila, permanecendo bastante tempo n'este ultimo, onde recer 
bia um bom ordenado. Fonnon em ambas as cidades discípulos 
distinctos. 

N&o se conhecem as datas precisas do seu nascimento e óbi- 
to, talvez 1610, porém colloca-se a sua existência entre o fim 
do século XVI e principio do seguinte. O Bispo Conde (c) quer que 
fallecesse em 1599 ; parece-nos ser antes a data do seu nascimento. 

D. JoSo IV, sempi*e zelloso e intelligente, velando pela repu- 
taf^ dos nossos artistas, mandou procurar as obras de Costa, col- 
locando-as em seguida na sua riquíssima Bibliotheca musicfd ; es- 
tavam na Estante 28, N.^ 710 — e um dia, um minuto desfez o 
trabalho de tantos annos ! 

Costa era natural de Lisboa» 

(a) Sappomos ter escripto também no género profano, porque Barbosa 
Machado diz : ' « As suas obras musicaes, priíicípcUinente as sagradas, man- 
dou procurar £1-Rei D. JoSo i?» etc. esto principcUmente é si^pnficativo. 



es MÚSICOS PORTDGUEZES 61 

(b) Gerber, Netieê hUL Hoçr. Lexicon iier Tonkêil, VoL i, pn^. 798 d» : 
Era cJii respeitado pelos mais celebres professores, por causa dos seus ta- 
lentos mtièicaes, 

(e) UMa de alffuns artistas portvguezes, pag. 45. 

COSTA (Fr. André d») — Bom compositor de raoBÍca sacra o 
dotado de um talento raro para a harpa^ qualidade que o classifica 
oomo o primeiro harputaqm Portugal produsiu» 

Fez parte da Capclla dos reis D. Affonso ti e D. Pedro ii^ 
que protegiam e estimavam o artista portuguez, honrando-se a si, 
e á Arte. 

Foi Lisboa o berço d'este celebre artista c também n'esta ci- 
dade o surprehendeu a morte a 6 de Julho de 1685) na flor da 
edade. 

Tinha recebido o habito trinitario no convento pátrio^ a 3 
de Agosto de 1650. 

Devemos lastimar a curta existência d'este artista, e.que a 
Frovidencift termiiiasse tSo cedo a vida de um s6r que tik> intelli- 
gentemente havia creado, privando-nos dos mdUiores froctos do 
seu talento, e impedindo que elle podesse legar a tradição do 
■eu methodo e do seu estjlo como tocador a alguma intcUigencia 
artista, gémea da sua. Infelizmente também nSo chegou a impri- 
mir nenhuma das suas composições, que se conservavam pela 
BUiior parte na Bibliotheca d'El-Rei D. JoSo iv, destruída pelo 
terramoto de 1755. 

Eram: 

1.) MisêOê de wirios eoroê» 

3.) Confiteor iihi a 12 vozes* 

3.) Be4xt{ onnes a 4 voteê. 

4») Latêdaie pueri Dominvm a 4 vozes. 

5.) Confiteor a 8'vozcs. 

6.) Ladainha a Nossa Serúiora a 8 w>tes, 

7.) Responsorios da Quai-ta, Quinta e Sexta Feira da Sema- 
na Santa a 8 vozes. 

8.) Texto da PaixSo da Dominga de Palmas e de Sexta 
Feira Maior a 4 vozes. 



«I 03 MUSICOS< PORTU0U£ZE& 

9.) VUkattcicot da ComeeiçSh», Natab.t,ttdt a4f Sj-8 « 12 

•eOÇTA. (António Cwrta da)— ^Nuttural de ViU^r Viçeiaa; ma- 
dramático inldyíigente.e mM^ < • /- . , « 

Visitou « ItalÍA e FbulÂiei^ letrado {mIu' tKNDtad^ iAMeiav^elr 
de saberjToItott jé Toilto 9i.Í0rt^gi$l.fiím»çFmi^^nl6lT na sua 
pstíia. (a) .. > ■..•.'-.-...•>. .1 ,' I' ,.,! . 



» • . 1 ■ • í , I 



capiti 



(a^ Francisco Moraes Sardiuha, Pamasêo de Villa V%ço9a;Ví9TO ^^^4 
itulo 2.<» 



* \ 



^ COSTA (Félix, Jotiida)' — Naaeeu>.em Id^l^om a ÂQ,d€t K^^oo.-» 
bnoi de 1701^ jando.£UiO(detrJo2o.dA CWaJB^ Çali»ríMi 

Luisa Feiretra^de Andrade. Miõrreu em 1760* ;,./.•. ., 

EscreYeu: >n- • ,■^, •.■'■•:*', ; v.^ i^. . 

JíkiHea . revelada de G<méímp(mt0 ctmfiimçiú ifM» cmnpre- 
kende tmria$ Son^Ua-de Çra'Wkj Jtebew e uan<^ MUimpfiê.ei ^Gpnr 
firfíatf. Ms. ,•.■'. S.I . i; '1 ': - 

Foi também instmiioi na PjiUoipphia^ Pqiwíaí ,e. Dkioitoi: 
tf i!ida tovBâdo çnpdUo n -este. iiHima:^faciddade« 

.1, C9SCA (nrnciacQ dt)r-27fama]4<>TaiKi09>/peii» d^^ÇMeoi: 
de Christo e Beneficiado na Egtcja de N^s^a ÇenbQpca da Ci9Rie9Í-< 
çSo do/Lisboa* .. r. •.• -- ^'•.•. )i ••• 

. /Machado (a))a|íribuera este.imctor^Gov^i^isuwitoB ya9tos na 
Theoitia e j(ia;.eompoitÍ9So, . . r . . , ; .. 

. Mofreu em.l667'na capital^ e dei^ott:>M ; 






(a) Bibliotheca Luêitana, yol, ^y^ pf g. ^31, / , . 






. ..COSTA (Ftmicíído fdnardo da)^^Deve]aQA áijiui4iça pma 
moifSo. particttlac d'/eftte ,avti«^ «jmf^ieo. ^^V^iuniaaoOWQ^r , o 
^Q0«p dever com toda a rectí^tte dn que flâiioi8,jcilpiwie»« .. 



os MÚSICOS P0RTUGUEZE8 88 

^ Fratodsoò Edtiardo da-CoKtó, nasceu cm Lanrego ^ 15 de 
Março de 1818. Sabemos que fôra seu pac, José Luiz da Oosta, 
que casara em Vianna com uma senhora, cujo nome ignoramos. 

O-pce, oecapado no» Gartorios doesta ultima cidade, nSo en- 
contrando alli os recursos necessários para a sua existência, Teiu 
pára Lamego e aki nasceu o neeso artista. 

- A fiunilia foi augmentondo, mas nSlo augmentava a fevtuna, 
que parecia íugir-lhes adversa, e os pães movidos pela Necessida- 
de, abandonaram Lamego seguindo para o Porto, onde chegaram 
em 1822. ''■■•■ .■ 

£spcrava-os ahi melhor sorte. 

O pae, inclinado á musica que cultivava, tocando clarinete, 
pensou «<n dará ídg^^s -dosãihosuma educaçlo musical. Logo 
iM4s&mé^ das liçSes nMou com^uma sagacidade natural as gran* 
des disposições do jdven Eduardo, que em breverem entre os 
quatro filhos o discípulo predilecto. ^' 

' O primeiro campo em que ^ futuro artista mostrou a sua ha- 
MHtlade foi*em um velho ♦namcoráe o/ propriedade do pae e em 
que elle se distinguiu tão cedo, que ainda em verdes annos era ji 
adníirádo nas casas dos amigos da familift. '" 

Estes, animados por um sentítÉtento benévolo, brindaram o 
mancebo com um bom piano que tinha sido encommendado em 
Londres. Como se p6de imaginar, a alegria dè !tVancisco Eduar- 
db nlo foi pequena.' De posãie do belb instruknénto, tonimt-áe di- 
gno da offerta, dedicando-se seriamente ao estudo da Arte, guia- 
do títtííffte pelos conselhos dó pae extremoso qu<ji iKtfkhfitm esforço 
poupava para dar aos filhos uma boa educilção moral e artística. 

Francisco Eduardo, como O'ttiaií»'t«tent0Á0, pk&ttieipava de 
uma maneira mais directa das siiás attéftçSes; a sua oducaçSo ar- 
tística foi-se aperfeiçoando com o estudo dos bons methodos, tan- 
to de Piano, comede Musica fheòricá* 

Chegamos a 1833. Durante este anno e os que se lhe segui- 
non^ e qM fofaíii pf$rturbados peks luctas itífdstinas, originadas 
pelóidMiqae de^dois principiou oppóstòs, ^ ó joven artista' cami- 
nhando atnir^ 4ÍÉte difife^nkades da :^rtè e «iiitDftââo-ré com os 



04 OS MUSICX)S PORTUGUEZES . 

«icomiofl que lhe faziam nas reuniSes onde manifestava o sea iãr 
lento precoce. 

Foi em nm dos brilhantes saraus, que se davam n^aquelles 
dias, ora de alegria, ora de amargo desengano, que D. Pedro iv, 
como conhecedor da Arte, admirou o raro talento do joven pia- 
nista, a ponto de manifestar, em uma conversa com dois dos seus 
i^udantes (J. Calça e Pina, e BarSo de Saavedra) o desejo de en- 
viar o pianista a França (a) para lá completar a sua educaçSo ar- 
tística e vir occupar em seguida os legares de Mostre da real ca- 
mará e da familia real, vagos pela morte do celebre Marcos Por- 
tugal. 

- Nao sabemos qual a raziío porque este pensamento, depois 
de terminada a guerra, nSo foi avante. 

Talvez que D. Pedro iv, cuja attençSo era por assim dizer 
completamente absorvida pelos negócios públicos, se esquecesse 
da bella ideia que outr'ora tivera. 

.0 que c certo, 6 que o artista nSo foi a França e perdeu por 
isso as immensas vantagens que teria colhido de uma excursSo 
artística d capital das Artes. 

Terminado o cerco em 1834, começou Francisco Eduardo a 
escrever, principiando com alguns ensaios de quíntettos e sextcttos 
para vários instrumentos (b). 

A visita feita ao Porto em 1835 por D. Pedro e sua filha, pro- 
porcionou ao artista a occasiSo para um Te-Dettm a grande or* 
chestrãy que se cantou na egreja da Lapa. 

Parece quo o cxito doesta composiçSo foi lisongeiro, pois 
pouco depois (1836) encontramol-o no theatro de S. JoSo, á testa 
da eompanhia lyrica, dirigindo tudo o que era relativo ao canto 
com satisfaçlo de todos. 

Foi por este tempo que Francisco Eduardo tentou fundar 
uma Sociedade Philarmonica, projecto que foi realisado graças á 
boa vontade do alguns amigos do artista e á illustraçSo de alguns 
dos seus coUe^, que comprehenderam felizmente o alcance de 
semelhante ideia. 

As primeiras reuniSes verificaram-se na rua, entSo denomi- 
nada de CamSes ; com a sympathia que a instituiçZô inspirava, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 65 



aagmeiítoa a affioencia, e Fraacísoo Eduardo^ que mais do que 
ninguém contribuirá com o seu trabalho e com os seus modestos 
recursos para o sustento e engrandecimento da Soci^dadey viu 
com BQUflivel prazer, como a sua ideia predilecta ensaiada com 
tanto cuidado, crescia em forças e vigor. 

A6 mesmo tempo que a Arte se rehabilitava com estes esfor- 
ços, lucrava o artista também com a actividade que desenvolvia. 

O bispo do Porto, entSo D. Jeronymo Bebello, ouvindo por 
toda a parte os elogios feitos ao talento e á grande modéstia do 
artista, chamou-o para Mestre e Organista da Sé Cathedral com 
a ideia de se utilisar dos serviços do professor, que ainda n'este 
logar deixou memoria de artista distincto e mestre consciencioso. 
Foi durante esta época que começou a trabalhar mais activamen- 
te, produsindo muita musica sacra que adiante mencionamos. 

Estava o nosso artista no meio dos seus trabalhos, quando a 
iorte veia feríl-o gravemente descarregando sobre elle o primeiro 
golpe. 

A doença que principiara em 1854, arrastou-o no anno se- 
guinte para o tumulo! 

Como artista devemos julgal-o imparcialmente, porém atten- 
dendo sempre ao meio artistico em que se desenvolveu e i educa- 
^ que n'elle recebeu. Em um paiz outr'ora grande nas Artes e 
especialmente na Musica, porém no tempo de Francisco Eduardo 
da Costa cabido na miséria artiHica, traficando com a Arte, nSo 
podia o nosso compatriota ser maior do que foi, e foi notável por 
isso mesmo que os seus ooUegas eram pequenos. O seu talento 
manifestava-se na facilidade com que tocava quasi todos os in- 
atmmentoB da orchestra, alguns d'elles bem e o piano superior- 
mente. 8e a voz dos seus contemporâneos varia na apreciação da 
liabilidade technica, é comtudo unânime em declarar a expressão 
admirável do seu tocar e em que se revelava sempre como artista 
notável. 

Se á maior parte das suas composiçSes sacras falta o cara- 
cter severo e grandioso, a expressão austera e a inspiração mys- 
tka dos grandes génios, nota-se n ellas uma grande facilidade de 



66 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

composi^ e aqai e acolá uma certa linguagem musical e oertas 
phra-e., que 86 podem dizer germens de fructos que nunca ama- 
dureceram. 

O artista de talento, também era um homem aympathioo, 
alliança que n8o é sempre constante. 

t Perfeito modelo de hansjilhoa, bom irmão, bom amiga e ex- 
eellente amigo dos 0eti8 collegas,^ assim o pinta ingenuamente mn 
contemporâneo. Apesar de ser dotado de génio triste e pei;i8ativo, 
nSo fíigia da sociedade dos seus amigos, conversava ale^çemente 
e era estimado em toda a parte pela sua modéstia e cortesia. 

Diz ainda o mesmo contemporâneo : que as Damas j^òrtuen- 
ses o tinham em tanta estima, que não se pr^tavam da boa vonta^ 
de a cantar nos saraus^, se o joven artista não as €Uiompa,nhat^* 

Lancemos ainda um olhar de despedida sobre esta eurta 
existência de 37 ai^ios, tSo nobremepte preenchida, sobre, o artis- 
ta de cora$So e sobre o homem honrado, que nos prendeu para 
sempre com os laços irresistiveis da saudade. 

D^aqui enviamos em nome de todos os portuguezes um voto 
de agradecimento aos amigos do nosso artista, que lhe levanta- 
ram no Prado do Repouso um mausoléo, intrepretando assim o 
sentimento da opinião publica. 

É uma lembrança d'além do tumulo levantada perante o pu- 
blico indifferente* 

Damos a lista das composições que conhecemos, mas Jolga- 
mol-á incompleta. Algumas encontram-se no Archivo da. Socie-. 
dade Philarmonica do Porto, porém a maior parto estava nas 
mSos dos numerosos amigos do auctor, quando esto falleceu : 

1 .) Te-Deum a grande orchestra. Executou-se na Çapella real 
da Lapa (Porto) por occasiao da visita de D. Pedro iv. e de.Il. 
Maria u em 1835. . . , ^ 

2.) Missa àenomine^ de, SarUa Isaiel. 1836.. 

3.) Missa a grande orchestra^^ dedicada á Sociedade Philar-. 
monica. 

4.) Grande Missa, dedicada á Ordem Terceira de S. Fran- 
cisco. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 67 

5.) Credo, dedicada á mesma Ordem. 
6.) Miêta com Órgão e vozes e acompanhamento de Baixos, 
dedicada ao Bispo do Porto. 

7.) Grande Missa com acompanhamento de orchestra, offerc- 
cida ao Conde de Ferreira. 

8.) 2 Missas com acompanhamento de orchestra. 
9.) 2 Missas mais pequenas. 
10.) ff Credos. 
11.) 4 Graduaes. 

12.) Libera me a grande orchestra. Eáta coínposiçSo era mui- 
ta estimada pelos contemporâneos. 

13.) 4 Responsorios á grande orchestra^ que serviram nas 
exéquias de D. Maria n, mandadas celebi*ar pela Camará do 
Porto. 

14.) 6 Symphomas (Fantasias para orchestra.) 
Francisco Eduardo da Costa era Cavalleiro do Habito de 
Chrísto e Membro do Conservatório real de Musica de Lisboa. 

COSTA (João Evangelista Pbreira da) — Compositor dramá- 
tico que escreveu varias operas das quaes conhecemos apenas 
duas: 

1.) Trilnito d virtude^ cantou-se em S. Carlos em 1.828. 

2.) Egilda de Provenza. (a) 

Temos ouvido fallar em cançSes e modinhas doeste auctor, 
porém ainda nSo as vimos; parece até que se publicaram algu- 
mas das mais notáveis em um livrò inglez relativo a uma via- 

_ 4 

gem a Portugal. 

Se a memoria nSo nos engana, foi impresso em Londres em 
1827 in-4.® por iniciativa de J. dá Silva Carvalho e ornado de 
beUas gravuras em cobre. Ignoramos o titulo. 

A filiaçSo artística de Evangelista Pereira da Costa, tem de 
ser feita cotno discípulo e imitador de Rossini. 

O compositor portuguez como quasi todos os seus contem- 
poraneoB^ deslumbrado pelo explendor das creaçoes musicaes de 
Rossini, imitou o estylo do maestro de Pesaro nas formas das 



68 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE8 

suas symphonias e até nas suas melodias, úm quaes deu o caracter 
espontâneo e jovial que caracterísa as bellas inspiraçSes da Ita- 
liana in Algeri, Turco in Itália, Elisabetha^ Zdmira e de ou- 
tras operas. 

Na Ouverture da Egilda de Proventa poderá o leítof verifi- 
car as nossas asserções, e notará a simplicidade elegante com que 
está escripta a introdueção : Andante con moto a J • 

No Allegro, que é sempre a parte mais importante das Ou- 
vertures d'esse tempo, satisfaz plenamente as esperanças que ha- 
víamos concebido pela leitura do Andante. AUi encontramos mo- 
tivos distinctoS; bem conduzidos no seu desenvolvimento, instru- 
mentação clara, e n'esta um colorido especial que nada tem de 
Vulgar. Já vê o leitor, quam cedo brilhou n'este paiz o sol rossi- 
niano que já entSo tinha espalhado a sua luz explendida pelo mun* 
do inteiro; não é para admirar que o nosso compatriota juntasse a 
sua admiração á que unia em um sentimento unanime os habitan- 
tes da Europa, desde as margens do Sebeto até as do Newa e da 
Moskwa; Iciam-se os livros (b) doesse tempo (1820-1822) e fazer- 
se-ha entSo uma pequena ideia do enthusiasmo que Conservava o 
Velho mundo em sobresalto. 

E ainda não tinha apparecido a Semiramisy nem Guilherme 
Tellf... 

A influencia do génio italiano desappareceu infelizmente 
mais depressa do que era para desejar, e veiu substituil-a outra 
influencia que foi funesta, porque foi tyrannica e longa em de- 
masia. Falíamos de Verdi. E representante d'est'outra tendência 
musical, entre nós, Francisco Norberto dos Santos Pinto. 

(a) A propoEiito doesta opera, parece ter havido uma disciutoâo artístí- 
ca entre João Evangelista Pereira da Costa e Mercadante, ficando este ul- 
timo bastante derrotado, segundo consta pela voz publica. 

(b) Vido entre outros : Comte G. Orloff, Eêsai wr V Historie de la mu- 
sique en Italie depuis les temps les phs anciens jusqu^a nos jours. Paris 
1822, in 8.», vol. n, pag. 260, 261 e 262. 

COSTA (Rodrigo Ferreira da) — Cavalleiro da Ordem de 
Christo, Bacharel em Direito e Mathcmatica o Sócio da Acade- 
mia Real das Sciencias de Lisboa. Falleceu cm 1834 ou 1837. 



os MÚSICOS PORTUGUJIZES 6? 

£ aator do seguinte livro: 

Principioê de musica ou Exposição methodtca das doutri- 
va» da sua eamposiçSo e execução, Lisboa, 1820-1824, 2 volu- 
mes in-4.® 

Ordem do 1.^ Volume: Titulo, Ordem para a impressão, 
àfyãsk pela Academia Real das Sciencias, — ErrataSy Privilegio^ 
Prologo. Explicação dos signaes usados na obra; xvi — 181 pag« 
e 5 estampas. 

Ordem de 2.^ Volume: 

T)ítulo, Erratas, Advertência, iv — 281 pag. e 10 estampas. 

Creio que estaa gravuras nSo se encontram em todos os 
exemplares da obra. Contem exemplos explicativos ao texto, 
uma nota sobre o Metronomo de Maelzel, etc. 

O anctor promettia um terceiro volume que não se chegou a 
publicar. 

Ferreira da Costa diz no prologo, que não existe um único 
tratado de musica em portugnez, em que os principies da Arte 
estejam expostos com methodo e clareza. Parece-me esta asser-» 
(So um pouco exagerada, porque apesar de imperfeitas, temos 
obras que ainda que inferiores á de Costa, nSo eram n'aquelle 
tempo para desprezar, por exemplo as Artes de VareUa, de Lei- 
is, etc. 

2I'um tratado preliminar dá o nosso theorico noçSes geraes 
e Bufficientes de tudo o que diz respeito & parte physica e mathe-* 
imitiea dos sons e dos intervallos. 

O r^Ato da aua obra está dividida em três partes : 

Al.* trata da musica métrica e rhytmica, isto é de tudo 
O qqa diz respeito a divisão do tempo e do compasso, da melodia, 
^ notu^ih) e da Arte do canto. Termina aqui a 1.* parte e o 1.^ 
volume. 

A 8.* parte, que está incluída no 2.^ volume, diz respeito á 
harmonia, ao contrapcmto, e á composiçSo em todos os seus ge* 
ueros. 

A 3.* parte, que nSo appareeea, devia tratar da musica imi- 
tativa e expressiva. 



70 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

Ignoramos as caiúaa porque a obm íicou incompleta e lasti- 
mamos que nSô apparecesse t&sta nltima parte^ eertamenie smab 
interessante de todas, e que tratava de uma matéria sobre que 
nSo ha (que íiós saibaíhos) tiada eserípto em portuguez.- 

É má sma a que pei^segue as nossas eousaa artísticas ; ou os 
autores morrem e dentam as obras manuseriptas, ou se^sepu- 
bliicam, fieam inèoitiplétas, ou os terremotos sepultam depois de 
publicados, os ultiitios restos d'ellas. , 

Se alguma tem a felicidade de escapar milagnosmneute ato« 
dos estes perigos, enearregam-se os homens dardestnâçlotf 

Os-Priiitiptoá^iié Musica de Ferreira da Gosta-nlo mafèeem 
de maneira alguma o silencio ingrato em què o publico os dei^ 
xou; o livro tem mérito e talvez seja o melhor que- temos em por- 
tUgueu. ; ' 

A obra YiZo appresenta ideias airojadas^ n^u descobertas 
importantes, segiie apenas o impulso das ideias artisiâoas e^seien- 
tifieas da época;; n^isto fefe o que podia; nem niSs temos direito de 
esri^rmais. ■>•.!. . - ^ 

Costa reproduz efn pairte as ideias de MomigHy (^ e da\£R- 
ci^Upédie Wéthoãiqué, em qu6 tinhami trabalhado antecedente- 
mente Ginguené e Fraimrg,^ depois o AHbadj^ F&jfiàiu. 

NSo se pôde negar que a obra esteja escripta (relativamente 
i época) com certa clareza, e poderia ser útil ainda hoje, se nSo 
fosse tSo diíEciente nos exemplos. 

O escriptor procurou dar todo o desenvolvimento á parte da 
sua obra que trata da baa*monia, e o capitiilo da Harmonia sue- 
cá^mo,. posto que ponoiso,. mereee em geral ^gíos; o capitulo 
das Modtda^ks poderia ter sido tratado coiíi inais methodo e 
mais extensamente, mas quasi todos os recursos d'este ramo da 
harmonia só ultimamente é que tem sido aproveitados, sendo Bee- 
thoven o primeiro que se libntou do jugo das antigas escholas, 
produzindo efieitos p^eitamente novos^ como se- pôde vêr pela 
leitura das suas Symjjàoniasy e especialmente àt, Symphonia he- 
róica '{1° Allegro) eãfk Syn^honia paHoral. (b) 

Em quanto ao Contraponto e Fhiga que vem na 2/ parte: 
Harmonia progressiva, limita-se o escriptor a dar uma ideia sue* 



os MÚSICOS P0RTUGUEZE8 7^ 

gíuU d'et»te ramo da Ârto^ em que os primeiros mesires portu- 
gueses fiuram iougoose que deve ser a base dos estudos de todo 
aqiielle«qiie iqiiiaw chegar a ijgvma .proficiência na Musica. 

Concliiiiiiee peis^ diaerido^que jeste lifiop* notável paia o seu 
tenqpo, aSo pôde mais servir eomo obra didaetíeay sobretudo quan- 
do posswMios es •thitad«s.de P<mêw<m^ JS^Uha e ^inoipaimente 
e bello «valioso» livro de- LÍlitM>. que por cyrtarcon escriptos em 
firancez nSo sSo menos aocesiveis A maior parte d^aqueUes que se 
dedicam m qaalqner estudo ^espeoidativo, 

nufii.aesabeo qiiaako<a obra^foi aproi^ada no se9 tempo e o 
8WVÍ90 Yalkseiqiile pjrostov a muitos^ eteoios 0ã seguintes phra* 
seadeBaIbi: 

* «b.i. ant^ir d^na onvrag^.vrailaeBt.dassique^ dansle quel 
il fait toujours marcher de pair les théories mathématiqueS| et 
pli^nqua» aveo les oonnaissances musicaJies. iNratiq\ies* 

«Mk -Qosta enseigne d^unemaníière elaire et &eile las prineipes 
db oé^.artyj^ jjDS^'a pff^ntdsM.la pMtie d^rique avait tou- 
jours été tndté ou avec trop de sublimité et presque pas de pra* 
tíque, ca tout empiriqueinentet ptesque aansTai^i d'aoeun de 
cfli»pín]iei|pe8 iinéd deiar phjjfitíqueet des scietiees «uxiliaires qui 
doivent en êtse-lesbaseif príâeipiJes,» (d) ' 



# • ■» 



(a) La seule vraie théorie de la mwigue^^tUe à çeux qui excelUnt dam 
eet €urtj conane à ceux qui en êont aux prtmiers Hèments^ ete. Paris, (sem 
data). ' ■' ■ . 

(b) Eneyi^opéàie m^hçdigut^ Musieuc publOt^r 2d.M. Framery Gui- 
gu^é et dt Mamtgny^YmÈ l791-18t8, 2 vol. ín 4.*» 

(o) Vid6 1' í^aflítim dSpiv&Mfrs' •d/sstas doas syvpbonias. Pana V.« 

Laonery.sQccesBCiir £. Giroâ. ; : . , ^ 

(it) Èsêai Statiêttquey *voí/u, ]^íig, ocvij. 



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V C0811 (flsbaafiãO' d|i>Tr-Cavalleiro professo da Ordem de 
eSkriatoy e Jlestse deOapeUa doa Beis D» Affonso vxe D. Pedro u. 
iV. Agostisbo de> SantaMeiia (-a) dia^ .que. pertenoeiMi também á 
capella de D. JoZb 1V> depois da ácelattaçlo d'este príncipe. 



n os MÚSICOS PORTUGUEZES 

Além de compositor foi também cantor distinoto. A morto 
de D. JoSo IV que tinha sido eea protector, como o era de todos 
os artistas, impressionou-o tanto, que abandonou desgostoso o 
seu logar para ir procurar a morte na próxima guerra da Suc- 
cessSo contra a Hespanha. 

A rainha D. Luiza de QtismSo notando a falta doeste artista 
e ignorando o motivo da sua ausência^ mandou-o chamar. 

Perguntando a Rainha a rasSo porque nSo queria continuar 
na sua carreira artistica. Costa respondeu-lhe: quo o sentímeiíio 
da dor profunda causado pela morte do seu protector o tinha obri- 
gado a procurar na vida agitada da guerra um alivio para a sua 
tristeza. 

A Rainha respondeu-lhe virilmente : Cantad én la ea^iUa, 
que ti Uorar dexad vós para mi. O artista obedecendo a esta in- 
timaçSo enérgica, ficou. 

Devemos crer que devia gozar de grande fortuna, poia indo 
a Infanta D. Maria, filha natural de D. Joio iv, visitar os ba» 
nhos das Caldas, sustentou a comitiva fidalga que acompanhava- 
a princeza, com muita profiísSo á sua custa. 

Nasceu em AzeitSo e morreu em Lisboa a 9 de Agosto da 
1696. No tempo de Machado, encontrava-se a sita sepultura na 
egreja do Carmo. 

Compoz : 

1.) Psalmos de Completai a 8 vozeê, 

2.) Missa a 8 vozes. 

3.) Missa de Estante a 4 vozes. 

4.) Duas Itçdes de Defunctos a4 e 8 vozes. 

5.) Motetes vários a 4 vozes. 

6.) Mtserere a 8 votes. 

7.) Vilhancicos do Natal, Reis, Conceição e Sacramento a 
4,6e8 vozes. 

Estas obras encontravam-se na Bibliotheoa raal da Musica e 
entre as mSos dos curiosos d'esta Arte. 

(a) Saiiduario Mariatio. Lisboa, 1707, vol. i, pag. 497, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 78 

COSTA (Tktorino José da) — Natural de Lisboa e freire da 
Ordem de S. Bento, com o nome de Victorino de Santa Ger^ 
irades. 

Foi diflcipulo de Fr. Plácido de Souaa, irmllo do Marques 
das Minas. 

Advertido de melhores ideias, despiu a mortalha de frade e 
entregou-se á Musica, Poesia, Mathematioa, Astrologia e His* 
teria. 

Trocou o útil pelo inútil. 

Machado cita entre varias obras que tivera promptas para 
a impressZo uma; 

Arte de Cantochão para uso dos principiantes, in-8.^ 

Fétis (a) cita a mésjna obra doesta maneira: 

Arte de Cantochão para uzo dos principiantes, Lisboa. 
1737, in-8.*^ Parece pois certa a supposição de Forkel, (b), que 
nSo eneontraodo a data da impressão da obra em Barbosa Ma- 
chado 8U[^z, certamente com justo motivo, que tivesse sido 
impressa entre 1730 e 1740« 



ía^ Biogr, Uakf. tu, psg. 871. 

[b) ÁUgemeine LitereU, der Mustk, pag. 301. 



CODTINIO (D. Franoísco José)— Filho de D. Manoel Pe- 
reira Coutinho e de D. Maria Thereza da Silva e Távora. 

Nasceu em Lisboa a 21 de Outubro de 1680. (a) 

Seguiu primeiramente a carreira militar e tomou parte na 
guerra da successSo de Hespanba, distinguindo-se em Mon- 
santo. 

Depois dedicou-se á Musica, alcançando uma oerta habili- 
dade sobre o Cravo e sobre a Yiola. 

Sabe-se que morrera em Paris a 13 de Fevereiro de 1734, 
ottde êatAVat havia annos; emquanto á causa da sua doença, di- 
vergem as opiniSes; Fétis (b) escreve que fallecera em virtiide 
de operaçSo- da pedra que fora intentar á capital da França, e 
Machado (c) quer que fosse um neurísmal 



74 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Fui sepuhado no Convento dos Canneiitas descalços de Pa- 
TíBy na capella de Santa. Theieaia. 

Machado cita differeates elogios de varioB antoresA eite 
ewio$a; pareoe-nos ser o nnieo nome que lhe podemos dar. 

Eis algumas das suas oomposiçSes: 

1.) Te-Dewn Laudamuê a 8 coroa; cantava-se na casa pro- 
fessa de S. Roque^ a 31 de Dezembro de 17S2» (d). 

2.) Mista a 4 coros com Clarins, TlmbaUs e Rabecas (sin- 
gular orehestra!) intitulada Scala aretina. 



M FétiB, Btogr, Vnw., vol. ii, pag. 383, cita 1671. 



Ibid. 

(c) BtbL Luêif.^ Tolr tr, pag. 134» 

(d) Gazeta de ÍÃêboa de 7. de Janeiro de 1723. 



» ' ' 



CROECER (Luís da Maia)— Vide D, Carlos diJwntt Maria; 

CRUZ (D. Agostinho da) — Nasceu em Braga em 1595: Fer^ 
tenceu á CòngregaçBo do Santa Cruis de Coimbra e tctaòa o ha- 
bito da sua Ordem a 12 déS^eitlbro de 1609^ rabindo até á 
dignidade de Cónego. * 

Foi um artista dotado de bellos talentos musicaes e eonh^ 
eido e iqireeiado pelos homens mais competeivtes do seu tempo, 
como um excellente rahequista, insigne iangsd^fr de Órgão e eoi»' 
positor dê merit4>. • / . ; 

Distinguta^se particulaimente no logar de Mestre do Oôro 
do opnyenta dè^S. Vicente de Fóra^ Esoreven e impraniu as se- 
guintes obras: 

li.) Lgradé Artoy ou Arte de tanger Rabeca. Lisboa 1639. 
Folio. Dedicada a D. JoSo de Mascarenhas, Conde de Santa 
Cru^. 

2.) Prado musical para Órgão» Dedieado á Sereníssima 
Mageetade d'EURei D. João IV. Ms. 

8.) Arte de Cémtoehãç por estylo nave, Ms« 



1 Jt • - ' ■ ' • '.i » -i ■ . • h • t • •' 



os MÚSICOS PORTUGUEZKS 75 

4.) Arte de Órgão comjigurat mui curwsai; comporta como 
a antecedente em 1632, e dedicadaa ambas a El-Rei D« JoSo iv. 
Fonnava paroTaTelmente mm só volume <soln este titulo: . > . 

Duas Artes, uma de CrnítochãQ por estylo novo, e outra de 
Órgão com figuras mui curiosas j ccn^^osias no anno del6â2. (b) 



(a) Barbosa Machado, BUd. LuêiL ■• 

(b) Forkel, 4^jfm. LUseraJtur derMimk, {)ag. 296. 



CRUZ (Fr. Felipe da) — Natural de Lisboa e freire da Ordem 
militar de S. Thiago no convento de Palmella. 

Este artista gosava de grande fama no seu tempo^ a ponto 
de ser qualificado de insigne, por Pédrb Thalesío. (a) 

Exerceu primeiramente o cargo de Mestre de Capella da Mi- 
sericórdia de Lisboa e depois partiu para Madrid onde foi Capel- 
iSp e Eemokr de Felipe iv. 

D. JoSo rv^ apenas subiu ao throno mandou-o chamar e fel-o 

MesEtre da sua C^peKa* 

Eftta &cto depSe bastante a favor de :C!rftz.; >D. Jo2o iv tinha 
ttn talento espepiat para eseolhaa doesta ordem. 

Na sua Bibliotheca de Lisboa, encontravam^se as seguintes 
obraa maimscriptas d'este autor: 

1*) ARssa a 10 vozes sobre o thema^^f^ Quel robxon podeis te- 
ner.pata,»o me querer* {b). > : . . . i . 

2.) Missa sobre o thema:=Solo regnas tu en ^. spxOffere- 
eida a Felipe iv, quando^ ainda estava em Hesponha em imjas pa^ 
lavras sé inelaem as vogaes de Joannes Qmutus^ ,Bte mi. (c) 

3.) Psalmos de Vésperas e Completas, a 4 coros. 

á*) Motetede.DefumetQs: DinUtte me, a 12 votes. Estante 
33,N.^771. 

5.) Motete. Vivo ego, a 5 vozes. Estante 36, N.° 809. 

6*) Viihancieos a diversas vozes* 



(a) ArU de Cantaçha»,, Coimbra^ 1617, m-iJ", eap. 36, foi. 6^ 

(b) Era vulgar n'aquelle tempo a escolha de Canções profanas para 
thema d 'uma Missa ou de outra qualquer compoaiçSo sacra. 



7Í 08 MÚSICOS PORTUOUEZKS 

(fi\ Machado. BM. Lmt,^ ^oL u, pag* 69 c 7Qp fiiJlaado d^eeta Miasai 
diz : G artificio de que constava era ordenar ora em wna vos, ora em outra, 
as êy/UtÃoà do íhema e oã vozes da Musica que oorrespondiam doesta sorUt 
só, la, réffOf %U, rei^, mi. 



CRUZ (D. Oaapar dá) -^Cónego regalar da Oídem de Saat* 
Agostinho e Mestre de Capella no Convento de Santa Cruz de 
Coimbra. Escreveu as seguintea obras que eatAvam maniiscriptas 
na Bibliotheca de Francisco de Valhadolid: (a) 

1.) Arte de Cantochão recopilada de vários authores. Ms. 

2.) Arte de Canto de Órgão. Ms. (b) 



(n) Vid. a sua biographla. 

(b) Machado, BibL Lusit., voL n, pag» 348, dis Que a «Itima obra 99 
achava encadernada em poder de Francisco de Yalhaaolid ; da 1.* nada dix 
mais, do que acima mencionamos. Forkel, ÂUgem, LiteraJt, der Musik, pag. 
492^ pretende que estavam ambas oneademadas em 1 volume, em poder do 
artista mencionado. 



CRUZ (João Chriaoatomo)^— Da ordem de S. Domingos; na.- 
tural de Villa*Franca de Xira, onde nasceu em 1707. Vivia ainda 
em 1731 no estado de IVeebytero. Escreveu: 

àbthóio brmíe eelaroem que $em prolixidade, nem eonfuaSo 
se eoeprimem oa neceêsarios principioi para ifUeUigeneia áa Aiié 
da Ihuiea. Cem vm Appendixdialogieo que eetvirá de Indêx da 
Obra e de lição doe Principiantes. Lisboa por Ignacio Bodrigoea* 
1748— in^.». 

CRUZ (Fr. MathauB da) — Religioso pertencente á Ordem doa 
Carmelitas içados. 

Era conhecido como exoell^ite Tenor no primeiro quartel 
doeste século (1820) (a). 

(a) YiUeUt da Silva, Observações oritiau, psg. 127. 

CUNHA (D. Maria Benedicta de Brita e) — Excellente soprano 
que brilhava em Lisboa no começo d'este século; esta senhora 



os MÚSICOS P0&TUGUEZB8 T7 

iktfigtA (que bem lhe podemofl dar eete nome) era dotada de um 
tak&to mndical que manifestava na execução dos b^odbos mais dif- 
ficeis da musica italiana e allemS, com um brio e eicpressSo di- 
gna doB melhores artistas da Itália. Suppômos ter fidlecido ha 
bastante tempo. 

GTRO (Theodoro)— «Compositor de musica sacra que rirea 
no meado e fim do século passado. Deixou varias obras das quaes 
conhecemos apenas um Te-Dewn. 



D 



BELGADO (Coama) — Celebre cantor portuguez do século 
xvn e Mestre de Capella na Sé d'£vora. 

Nasceu na villa da Cartuxa. As suas composiçSes, que eram 
numerosas, legou-as elle ao convento do Espinheiro da ordem de 
S. JeTMymo de Lisboa; constavam àeMotetes e LameníaçS^^ (a) 

Escreveu também uma obra sobre a theoria da Musica in- 
títuiada: 

Manual de Manca dividido e^n três partes, dirigido ao muito 
aUo e esclarecido Príncipe Cardei Alberto, Archiduque d^Aus- 
iria, Segenie doestes Beynos de Portugal* 

Começa: «Os gregos que nos deixaram a Musica» e acaba: 
cVive e reina para sempre. Amen.j» Ms. 

Forkel fallando d'e6te artista classifica-o: Beruhmter portu- 
giesiscker Saenger, 



(a) Vid. Francisco GalvSo Maldonado, Mtmorlas para a BíhL portu- 
gnesa, 

(b) AUgem. Literal, der M^uik, pag. 492. 



7a os MÚSICOS P0RTUGUEZE8 

DEUS (n. ABtonio da Madre de) — ía) Carmelita, habito que 
vestiu a 5 de Jdlho de 1680. Natural de Lisboa e filho de Or^o-' 
rio CatalSo e Joaima Cardoso. Foi discipulo de Duarte Lobo e de 
Fr. Manoel Cardoso. • 

Occupou o cargo de Vigário do Curo e de segundo Mestre 
de Capella no seu convento eni Lisboa. Morreu em 1690. (b) As 
composíçSes que em seguida apontamos, estavam depositadas ná 
Bibliotheca musical de Lisboa, e* outras andavam espalhadas em 
poder dos amadores. 

Sao: 

1.) Matinas da Quinta, Seosta e Sátòado da Semana Santa 
a 8 vozes. Constavam de Lamentardes, Li^es, Responsorivé, Mi- 
sereres, etc. 

2.) Invitatorio e Responsortoé das Matinas de Paschoa, 

3.) Primeiras li^ks dos Nocturnos do Officio de Defuntos. 

4.) Dois Misererès a 3 coros. 

5.) Psalmos e Motetes a diversas voi^s. 

(a) Parece ser o mesmo musico que o subsoqueiite; entretanto Fétk,-' 
Biogr. Univ. vol. v, pag. 396, apresenta-os como sen^o dois artistas diffe^ 
rentes. 

(b) Machado, Bibl, Luêtt. voL iv, pag. 43, traz a data 1792, porém no 
mesmo livro, vol. i, pag. 317, indica 1690. Fétis, ibid. escreve também este 
mesnio numero, que tetn talvez mais probal^lidades de ser ò vei^adelro. 

DEUS (Fr. António da Madre de) — Fes parte da CapeDii de 
D. Joilo IV e assummiu depois da 'morte d'e8le príncipe, em 1656, 
a direcção da Capella de seu filho D. Âffonso vi. 

A sua actividade artística comprehende os tonos de 1620 
e 1660. 

Era natural de Lisboa. 

As suas composiçSes e^stiam na Bibliotheca musical de 
D. Joio IV. 

DEUS (Fr. Felipe da Madre de) — Natural de Lisboa c Re- 
ligioso da Ordem militar de Nossa Senhora das Mercês, cujo ha- 
bito vestiu em Hespanha. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 79 

Voljtando jÁ no seinada de D. JoSo iv . a Poitagal, fei acolhi- 
do. j>or e^te príncipe sympathico. com o maior agr^^^ 

P. AffoQ^ VI 21S0 se esqueceu da estima que seu pae [tribu- 
tara a este contrapontista distincto e nomeouto Director da Mur 
sica da sua Camera. 

EscreyeQ para o theatro real muitos Tonos (a) aA.Toof^qiu» 
ae conservavam pela maior parte na BibUotbeca real da Hu^ica* 
. D, Francisco Hanuel de Mello, (b) menciona aJguns. 

São: 

1.) Tono 3.^: DenengaSíate Morena. 

8.) Tono 4.^: Madama nueêtro$ ojiieloê, 

3.) Tono 9.^: En losfloridoB albores^ 

4.) Tono IOJ^: Ala el palanque Galanes, 

50 Tono i3.^• Ah SeHoresl 

6.) Tono 17 J": Rayava d Sol por los cvmbres, 

7.) Tono 19.^: Quien és aqwMa Dianat 

8.) Tono 23.^: Yo soy viejo, y no veo nada. 

NSo é certo ter sido este compositor o mestre de D. JoSo iv, 
como Glerbar (c) pretende^ :maa sim JoSo Lourenço Rebelio, de 
quem adiante &llarenios: 



(a) Eaite%.Tonos eram canções a duas e. oiais voares, que oa italianos 
ehaoiam Madrigaíi e de que Lco, Durante, Maremio e CoBtUa nos deixa- 
ram modéloB peifeitos. 

Oaí\ . Obtas metriaa-f^ Avena dè Torpêuebove. 

(e) ifeues hisL biogr, Lexicon der Tonkuruf., vol. iii^ pag. 284. 



DIAS (DioggD)-:— Mestre da Cathed^ral d^ JSv^Mra, onde estu- 
dou a musica quando era moço da egreja mencionada. 

Nasceu na villa do Crato, (Alemtejo)» 

Deixou vmrias composições que devem existir no Cartório 
da Cathedral de Évora. 

D. DIHIZ — Kasceu em Lisboa em 1261; e morreu cm Santa- 
rém a 7 de Janeiro a 1325. 



80 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Fundador da Univcrdade de Coimbra em 1290, instituiu a 
aula de Musica quo n'ella incorporou» 

O primeiro Lente d'eata aula teve 2|d40 reis de ordenado 
annnaly o que nSo é tio pouco como o leitor imaginari. Esta 
quantia calculada em moeda de hoje, equivalia a 177^840 reis! 
(a) tal em a differença do valor que entSo tinha o dinheiro. 

Que e8ta somma 2(340 reis era mxu importante para aquelle 
tempo, nl&o ha duvida alguma, aliás nSo se explica eomo este lo- 
gar tivesse sido requestado até por estrangeiros. 

O ordenado foi augmentando successivamente até chegar 
no anno de 1597 á somma de 50(000 reis. (b) ■ 

A reforma dos Estatutos abaixo mencionados, feita a 20 de 
Julho de 1612, fixa o ordenado em 60(000 reis, declarando pre- 
cisamente: — que o Lente nSo teria outro encargo além da leccio- 
naçSo da sua aula e a regência da Capella da Univerdade, (que 
andava quasi sempre ligada á cadeira) para que d'esta maneira se 
evitassem asfaltas que atraaavam o ensino musical dos alumnos. 

Esta aula de Musica teve uma sorte mui aventurosa, passan- 
do por alternativas de decadência e prosperidade, om florescente 
e governada por músicos como Telles, Nuno da Cimeeição^ JFV. 
António de Jems^ Tlialeaio etc., ora desorganisada e esquecida 
debaixo da direcção de um Manod Ferreiraj jazendo no maior 
desleixo e abandono. 

Assim a encontrou José Maurício, quando foi nomeado Len- 
te de Musica por provisSío regia de 18 de Março de 1{02. (c) 

As matérias que se tratavam na aula, segundo a ordem dos 
antigos Estatutos, erajn; 

Cantochão^ 

Canto de Órgão e 

Contraponto, 

Porem, este ensino demasiadamente modesto, ficou mais mp- 
desto ainda, pela ignorância e priguiça de Lentes indignos, de 
maneira que, quando José Mauricio recebeu por ordem do rei a 
herança de Ferreira, estava o ensino redUaido a algum Cantoch2o 
macarronico e a algumas liçSes puramente theoricas de Canto de 



os MC8I00S PORTUOU£K£S g| 

Orgto! 09 emano pratíoo nBo se ietnlNnmi o digno Ferreira, pro- 
Taveliiiente por o jalgar deniocessario! 

'hào i«io êe fturia em meia iiora; também oom tnáis econo- 
mia de tempo se poderia ter feito em cinco minuioii* A ^oria da 
realÍMiçlto d'esle ideal, etitava reserrada a FlorMdio SàrtMtito. (d) 

O projecto de reforma feito por José Maurício e ii^reBenfla* 
do a D» JoId ti pAo Bispo D. Francisoio dfe LeuRw, e p(of elle 
aocdto, poz termo a esle abandono lastimoso; segtmdo o noro re- 
galamento devia o Levite de Musica eftsinii^: 

Cantoehãoy 

Canio de Org3o, 

Contraponto c 

At0mpanhãmienio (Instruroentaçlo.) 

A aula era diária e durava hora e meia. A abertura reàli» 
sou-se a 10 de Maio de 1802, e graças âo credito de José líau- 
rícioy povoOu-se aqueUa aula atéaH deséria dé MmefOBoi oAivin- 
tes; a hora e meia marcada nXo foi suf&ciente, e a duraçde dò en- 
sino teve de se alongar até duas horas e meia e três horas ! O nu- 
mero dós disciptilos ia crescendo eltraordínAriameilte e a sua ap- 
plicaçlb) indicava bem a confiança que elles tinham na instruccSo 
6 inlelKgencia do mestre, que se admirava doa resdtados 4»btidos 
e que e:ftcediam todas as suas esperanças. 

Depois da morte doeste professor consciencioso, começou nor 
va época de decadência debaixo da direcçSlo de um D. Frunctêco 
e de flomneto Sarmento, e assim chegou a antiga aula de mu* 
sica rapidamente ao estado vergonhoso (e) em qtic a encontramos 
hoje. Está separada da Universidade c abriga-se rachitica e mo- 
ribunda em um velho edificio a que chamam Lyceu d que tnais 
parece um palheiro do que um templo da Arte. 

Este estabelecimento musical, antigamente foco DC instru- 
cçZo e BctBsciÂy é hoje o aktro oicde se A^mrRA a iqkorancia 
E amm ffi ASSAsstKA a ntJsiCA I 

Eis a lista chronologièa dos Lentes do Musica na Universi- 
dade de Coimbra. Apesar de bastantes esforços que eiApri^gámos, 
nio a podemos dât mais completa: 



82 OS MÚSICOS PORTUGUBZES 

Mátliias de Aranda — Nomeado por ProviaZo regia de 26 de 
Julho de 1544. 

Balthasar Telles — Nomeado por ProvísSo regia de 2 de No- 
vembro de 1549. 

Fedro Thalesio — Nomeado por ProvisSo regia de 19 de Ja- 
neiro de 1613. 

Fr. António de Jesus — Nomeado por Proviaio regia de 27 
de Novembro de 1636 até 15 de Abril de 1682. 

Fr. Nuio da Conceiçio — Nomeadp por ProvisSo r^gía de 22 
de Novembro de 1691 até 8 de Fevereiro de 1737. 

Manoel José Ferreira — Ignoramos as datas quç lhe dizem 
respeito. 

José Maurício — Nomeado por ProvisSo regia de 18 de Março 
de 1802 até 12 de Setembro de 1815. 

D. Francisco. . . — Ignoramos a data da sua nomeaçSo. 

António Florêncio Sarmento — Idçm. 

0. 0. 0.— em 1869. 



Dr. Bodrigaes de Brito, Memorias palitioas, v<^ n, pag. 78. 
Eêtaiutos da U/Uversidade, 1654. A clausula que fazia vagar este 
logar de ires em trcs annos, parece que não M sempre observada. 

(c) A nomeM^ para este logar era feita por carta régia, chamada 
Provuâo» Tal era a importância que os Reis de Portugal ligavam a este 
eargo. Â Musica fez logo desde a fàndaçSo da Universidade, parte do 
QtMdrivium, 

(d) Vide a sua biographia. 

(e) Pede ser qne h^a por ahi algum patriota incrédulo que julgue as 
nossas expressões exageradas; a esse recommendamos que veja e qoa ss 
convença da triste verdade ! 



DÓRIA (José) — Ha tao pouco nos deixou este homem distin- 
cto^ que ainda estarão de certo na memoria de todas as pessoas 
que o conheceram, as qualidades raras do amigo e do artista. 

Triste sorte a que corta o fio da vida a essas intelligencias 
raras, que nos enchem estes duros e áridos caminhos da nossa vi- 
da com as flores mais preciosas de um talento privilegiado. 

Cruel CEttalidade que creou mais um epitaphio, destruindo 
mais uma vida; felizmente que o nome ainda vive, e viverá de 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 83 

certo em quanto entre nótí houver um ultimo sentimento genero- 
so^ bom e justo. 

Nasceu em Coimbra a 9 de Novembro de 1824 e ahi falleceu 
a 25 de Maio de 1869. 

Parece que ninguém adivinhou a intelligcncia artistica de 
José Dória que de certo mui cedo se manifestou. 

Umas poucas e mui limitadas noçSes que tinha da Arte, fo- 
ram-lhe communicadas pelo musico José Máximo Dias, Mestre 
do Seminário Episcopal, no principio e meado d'este século. 

Este auxilio durou pouco mais do que um anno e nSo chegou 
a dois ; mesmo as liçSes não se succediam regularmente, porque 
outros estudos impediam José Dória de se dedicar seriamente á 
sua Arte favorita. 

Por isto se vê, que pouco ou nada poderia ter aproveitado, 
demais sendo o Mestre bastante vulgar. 

Estas lições cessaram de todo quando o mancebo entrou 
para os estudos secundários, e assim ficou elle entregue aos seus 
próprios recursos. 

O qoe sabia do meclianismo do Piano de pouco lhe valeu, 
visto ter abandonado o estudo doeste instrumento no principio do 
caminho. 

Sobre a Viola, denominada vulgarmente de Arame, e que 
elle começava a estudar, se concentrou a sua attençSo. 

O seu talento artístico tinha encontrado o instrumento ne- 
cessário ; já não havia que hesitar assim o comprefaendeu José Dó- 
ria e o futuro provou bem a verdade do seu pressentimento. 

Em pouco tempo já era &llado o talento com que tocava este 
instrumento singular; o Fado de Coimbra, se celebre cra^ mais 
celebre ficou pela Viola de José Dória. 

Já nDio havia rivacs presentes, nem possibilidade de os ha- 
ver para o futuro. 

Estavam assim as cousas e assim ficaram por muito tempo, 
ate que um dia o nosso fadista se escapou até Lisboa, levando a 
celebre Viola a pedido de uns amigos da capital. 

* 



84 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

Lá 86 tocou diante de um auditório escolhido o celebre e já 
Uo fallado Fado de Coimbra. Mas, ou fosse a singularidade da can- 
çAo popular, ou fosse a novidade do instrumento, o seu timbre ex- 
tranho e som mysterioso, talvez mesmo todo este conjuncto de cir- 
cumstancias deixou o auditório admirado sim, mas nSo debaixo da 
impressSo, que o hábil violista tinha imaginado. 

Algumas das damas que estavam presentes parece que enun- 
ciaram levemente o desejo de ouvirem no instrumento alguma 
ária italiana, alguma cousa mais culta do que o Fado popular. 
José Dória justamente ferido no seu orgulho, determinou tirar uma' 
boa e leal desforra. 

Voltou a Coimbra e pediu a um amigo seu, pianista e algum 
tanto compositor, o favor de lhe arranjar algumas pequenas phanta- 
sias sobre motivos de Operas italianas. 

O amigo accedeu e fee umas três ou quatro reducçSes agra- 
dáveis com acompanhamento de Violão. Se bem nos recordamos^ 
eram sobre o Trovador^ Macbeth, Sapho e n8o sei que mais. 

Depois de estudadas estas peças e de ter augmentado o re- 
pertório oom algumas composiçSes originaes, eil-o de novo, cami- 
nho de Lisboa. 

 segunda visita foi um triumpho completo, a opinião do au- 
ditório um pouco severa durante o primeiro ensaio, foi tomada de 
assalto. Os ouvintes £k»ram admirados diante de semelhante meta- 
morphose; e se a primeira visita foi uma pequena provação para 
o nosso artista, comtudo nlo a devemos lastimar, pois ella influiu 
decididamente sobre o talento de José Dória, dando-lhe uma di- 
recção difierente, e abrindo-lhe mais vastos horisontes artisticos. 

O violista comprehendeu que os recursos do seu bello instru- 
mento não se limitavam só ao simples, ainda que poético Fado; 
exercitou as suas forças e conheceu que chegavam para muito 
mais. 

O estudo sério do seu instrumento, que tinha principiado de- 
pois da primeira e memorável visita a Lisboa, produziu succeesi- 
vamente os mais bellos resultados. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 8à 

Assim foi que um dia, em 1859 v^iu a Coimbra o celebre 
prestidigitador Hermami e ficou maravilhado diante do tocador e 
do instromento. Â sua admiraçSo foi tal, que convidou o artista 
a acompanhal-o nas suas viagens ao estrangeii^), ass^gurando-lhe 
bons recursos e melhor recepçfto. 

Assim estivesse o nosso artista tSo convencidoí como o esta- 
va o enthusiastíco allemlo, que decerto se teria aproveitado de 
semelhante offerta. 

Infelizmente nlo pode ser; mil obstacujos o impediam, e 
entre muitos, o mais imperioso: a sua clinica na cidade. José Dó- 
ria ficou. 

Os annos passaram até Outubro de 1865, época em que o 
vimos. 

Era entllo um bello homem, figura viril, um dos raros e ver* 
dadeiros typos da península, que hoje tio dificilmente se encon« 
tnmi. 

Ouvimos a sua Viola, as suas CançSeê pefunmdareêy o seu 
Fado emfim, tudo nos pareceu um sonho, uma cousa phantastica. 

Nds, que tínhamos percorrido em peregrinaçSo artistica a 
AUemanha, a França, a Inglaterra, viemos encontrar i^nas che- 
gados a Portugal uma surpreza nunca imaginada. 

Quem nos diria, que depois de termos sentido o effeito d'es- 
sas orchestras magicas, animadas pelo sopro inspirador e arden- 
te de Beethoven, Moaart, Haendel, Weber e Berlioz, — haviamos 
de encontrar n'este Portugal, n'um cantinho da £urq[», um in- 
strumento pequeno, modesto e débil — para nos causar tio estra- 
nhas e agradáveis sensações! 

A Viola de José Dória ficou sendo desde entio também nos- 
sa amiga, amisade que durou quatro annos e que de certo nSo 
morreu com o seu dono* 

Aqui damos a lista quasi completa das suas composiçSes 
para viola: 

1.) A Dôrl 

2.) Eesignação. 

3.) Saudade, 



86 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

4.) 2 WaUas burlescas. 
5.) Capricho burlesco. 
6.) Canção ingleza, 
7.) Queixume. 
8.) Um Sonho. • 
9.) Canção Tyroleta. 
10.) / Rememher, lembrança de Inglaterra. 
12.) Mazourka. 
13.) Demlento. 
14.) Lamentos. 
15.) Caprichosa. 
16.) Serenata. 
17.) Desdém. 
18.) Incógnita. . . 
19.) Tangro: -áí^ que ferro! 

21.) iíxnia«ta «aòr6 a H^a2«a (2o Pardon de Ploermel. 
22.) Variações sobre o Carnaval de Veneza. 
23.) Marcha solemne. 
24.) Preghiera. 

25.) Capricho de Concerto (IntroducçSo — ^Andante — Scherza' 
—Final.) 

Resta-nos dizer alguma cousa a respeito doestas composições. 
NBo fallaremos de todas, já porque nos falha a memoria^ já por- 
que entre ellas ha inferiores e superiores ; escolhemos pois as que 
tiveram maior fama e que nós também entendemos serem as mais 
apreciáveis. 

Em primeiro logar a Dor! 

Quem haverá em Coimbra que nfto ouvisse a Dor} 
Quem nHo se sentiu impressionado por aquella melodia tris- 
te c melaneholica^ queixa suspirada, que se escapa de vez em 
quando da voz do pobre homem do povo que ás vezes fedia essa 
triste linguagem, linguagem que tao pouca gente entende! 

Que diremos da Saudade, do Queixume^ do Desalento, da' 
Serenata (!) do Desdém (!) canções verdadeiramente peninsula- 
res, indiscretamente roubadas ao povo e suspiradas na Viola co- 
mo jamais Trovador cantou! 



os MÚSICOS PORTUGUEZBS 87 

NSo temos menos a louvar as suas oomposiçSes burlescas : 
2 Tangos, 2 VaUcis, e um Capricho; a elegância, o bom gosto e 
uma variedade de effeitos nunca ouvidos caracterisam estas ideias 
musicaes. 

A Can^ inffieza é pretenciosa como o seu titulo, e tem pelo 
seu estylo, affinidade burlesca, com as que acima mencionamos. 

 Canção do Tyrol lembra os valles da Suissa e os seus gra- 
níticos gigantes, o Ranz der KOhe e o alegre Jodeln do joven 
pastor. 

A Marcha tinha entre outras cousas apreciáveis, uma parte 
muito notável, toda em harmónicos, que José Dória tocava artis- 
ticamente. 

Mais difficeis e complicadas eram a Fantasia sobre a Walsa 
do Pardon de Ploermel, e as Variais sobre o Camawíl de Ve- 
neza, 

O Capricho de Concerto é certMnente a mais notável d'en- 
tre todas as suas c(Mnposiç8es. 

N'ella se encontram reunidas todas as diftcuMades possíveis 
e imagináveis na Viola, todos os effeitos de harwumieos, eordoM 
dufim$j triplas, trinados (I) dedilhaçàOf de sourdine^ ete. 

Em toda a peça se revela uma originalidade e uma tal abun- 
dância de effeitoa novos, que espanta. 

A Inirodução abre com umas harmonias extraahas e uns ef- 
feitos curiosos de cordas ds^pias. 

O AMiamíte é pouco caraoterístico;'ainda assim tocado por elle, 
sempre se ouvia com agrado; em compensação é seguido de um 
AUegro, ou antes de um verdadeiro Seherzo, que é admirável 
de brio, de originalidade e de distínçlo. Modelo perfeito do 
Seherzo beethovenesco, e que esciqMm, como por um milagre, dos 
dedos do violista e veiu misturar-se com as ideias suaves e tristes 
da Península. 

O Final do Capricho de Concerto j é formado por uma bdla 
Marchay bem rhytmada e com uma boa accentuaçio marcial. 

Umas phrases imitando um toque de Trofmhetas, terminam 
brilhantemente esta notável peça. 



18 03 XUSfiX>9 FORTUailBZSS 

AinâA deveuM &ckiur com aisunos inJ^ms aobre o fado 
e n iMi^eif» eoiM Jo«i DoriA # e«eeiil«T». 

dente! NSo haverá decerto leitor algum que nSo tenha olvido M 
««HO» WM v«9 o od^Anre J<kií« cb Cuimbruy e a»tSo 'toiro wrido 
por Joié Dorv^ poueoA fomm w SbUmm que «e podiam gnb^ 
d'«8M» 

A tftoçSo popiikr iH^i^FeMi prtm^úp^ ^imidoft, tai» «afei|& 
nem adorno; depois vinlut a primeira variante, a segunda^ a àer^ 
eoÍN^ 4««rta, viinta^ •es;ta» dizimai vigemoa^ no ft«^ já swi nu'^ 
moPQ^ ^m jiMrio .€««tàiwo e inea;gotayi^^ 

Prodigio de imaginaçSo, que deixava na alma do ^gpgicta4a» 
^^% ^i|pn^a48o fir^Sm^t difiícU d^ aoalyaar peUa v«riadaa cor- 
das qittQ ^ ia fei^ir Jio.eoraçSo dq ouvinte^ 

Era ouvir e admirar, a variedade e àoeentiiaçS» dramatica>4o^ 
rhytino> a iriqueza e abundaiioia das variantes, dos aooemios, o 
maravilhoso da execuçilo ! 

A Q^usl^ popiAvi tvisiomenta monotana, tMMMifofiiuwar^e «m 
queixa plangente, passava de repente á agita/^ febril» vaàimfif- 
va, permai»eeiaaQT«$aaporalg«iatoupa,eontiniiAvaaasÍ9ieB»la<i- 
gHÍi^ abwdoP^} Teomdoí^ xiovamente» abrandava, e subia ain- 
da do pianiêsimo mais suavaj d'um sttspiíwr in^eKM^tivel até JL 
fwrií^, do wnfrgada , dsoencadM^do-sc por oarrida» e «xpqjes phan- 
tosticos que iam terminar n'um uUÍBfta «uspiíol 

Ii0i)6L|)iVavf-i;M3# Í9to iim d^esses bellos contos de lioffmann, 
qoif^ que s^ gente sonha muito tempo depois de os, ter lido, 

O Fímí^ ]EíyQdigiom Q^yiík-m assiei diante unia Wa o doaa 
até, sem caps^u^ nem o auditório nom o locador» 

Quem têr estas linhas he^ de julgas que uia fiaemea d'esta 
1|âogr{^ÍA wpA co^to impottsivel» Peia aio d assim; appdto para 
pessoas insuspeitas, appello para a opiniSo luianim^ das pesaiuis 
q9e o ouviram cm Coimbra e em Lisboa; appeHo para a testemu- 
nho ii^p^tíMAte 4e NoixHiha; de Coasoul e de Hada»e Rej*Bal- 
Ia que ouviram o noseo artista, pauicoa igaeaes antea da aua morte 
em Lisboa, em uma i*euni3to do Marques de CasteUo-Melhor. 



os MUSIGOS PORTUQUEZES 89 

. ^TdAte Noronha, ooma a celebie caalm» ficívam egualmente 
«ãmiradog do tocador e do iastroineato ; e»4a ultima distíaj^itt o 
vioUata, iiriiidaiMlo*o com o sou rotrato em que se lia uma r^eren* 
cia mui haitfoia para a ikmmo artista. 

fiaotâHM que José Daria já nilo ora» (como elle mesmo di- 
sia) senão a sombra do que fòra em outros tempos, tautos eram 
ji os progressoe da doença que o havia de roubar poucos mezes 
depoi» «Ds afieotoa doa seus parentes e amigos., 

A x^apaij» da lactura das composiçSes que meneionamos 
atoaa, da^^emos ainda dizer* que algumas tjkx se pestavam a 
uma intrepreiaçlk) ooaveuieote, pela naturesa especial do insttu* 
mento _ 

Aa cançSSes simples, despretentiosas, os Tangos, os Fadoêy as 
Serêmii4^9ji ouviam-se com mais ag^o do que essas peças de 
lairgo fialego^ eaasajphaiitanaa díffioeia que rile tocava sobre moti- 
TOS d» Okperafi. 

A Yiola nSo é instrumento para assombrar pela dificuldade 
do meehanismo, moa b4 para dizer bem uma pequena cançSo po- 
pidar que se easinua entSo facilmente no ouvido. 

Essas Phantftsias sobro a 8afho, Madmih, Trovador y essas 
variafBea sobre o Carfèavalde Veneza, até mesmo oproprio e aliáa 
hello Capricho dó Coanurté, eram trechos, que estavam deslocar 
dos paii^-aquaUe dabil o pequ^ao instrumeuto, cuja sonoridade 
dSo chegava para tão grande» esforços. 

Se eUes agradavam, dcvia-se isso á virtuosidade única do 
vidista, que imi^nou e oreou um mechanismo espeeial para os 
exeeutar; tradiç2o que fiea oertamente perdida, pois um talento 
como Joaé Dória, raras vezos tem succesãor. 

Daiacou tamb^n muitas composições para Piano e para Car^ 
to; abafcrahimes d'dlas por serem menos notáveis e mesmo porque 
a imporiaiicia do artista estava toda eoneettirada na Viola e nas 
peçaa para este uiatrumento. 

Todas eslaa eomposiçSes ficaram em manuscripto, salvo uma 
oa entra mra que foi lithographada. 



90 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Das eomposiçfefl para FS»2a>*nem luna jiâibi pttbliâaãa; o 
anctor nSo sabia notar a sua musica; tocava de cór è sempre dés^ 
assombradamente umas trinta e tantas peças para a Viola, tour 
de force que fazia, graças a uma memoria privilegiada. 

As poucas composiçSes que ha notadas, fol*am-n'o por amigos 
do auctor, que assim tentaram salvar relíquias artisticas* 

Apesar doesta falta de instrucçSo, era o instincto musical n'el- 
le tSo forte, que mn dia, fallando-nos em escrever uma OpereUa 
e objectando-lhe nós com a difficuldade de levar avante semelhan- 
te ideia, com os conhecimentos musicaes que tinha, — respondeu- 
noB eloquentemente apresentando*nos dois ou Ires dias depois uma 
pequena Ouverture, com os motivos necessários, bem condnxidos 
e bem desenvolvidos* 

Fez istO) sem uma ideia sequer de harmonia, guiado apeUaií' 
por um instincto admirável e por algumas pottcasindieaçSésliluè 
lhe haviamos dado sobre a apresentação e conduçSo das ideias me-' 
lodicas. 

Pciftvtimente surpreheAdidos por semelhante^ i^uHado, nSo 
tivemos remédio senfto* accedér aio* 't>edido^dé •éíBchf^ft^é^tim' ttl^ttiy' 
para a Attora Operettaf José Dona fiéz apenas mais nrtílhtóti^), 
creou^nmas bonitavarietas e depoii? morreu, cahindo tudo ém és^ 
quecimento, pois nada tinha es<»*ipto do que fizera. ' 

' Examinem-^se ag«»ra imparciahnente todos estes fiitetos que 
apresentamos até aqui^ em toda a luz da verdftde ; Oonsidet^se o' 
triste isolamento artistico em que José Doria viveu a melhor pai^ 
te da sua vida ; o nenhum auxilio quereoebeQ de pessoa^ extranha, 
a influencia pemi<tiosa de um meio artistico detestável e despre-* 
zivel, — e chégar-se*ha depois certamente áconclusSo: de que com 
aquelle homem se procedeu injustamente, sem amôr e sem res- 
peito, porque ninguém lhe estendeu generosamente a mSo, para 
o lyadar a. ser o artista para qué Deus o tinha creado* -Ptfdo ficou 
em gérmen n'aquella natureza artistica, tudo se perdeu. 

£ scena triste, aqudla que alg^umas vezes presenceámos, 
quando José Doria se accusava amargamente de ter fugido á vo- 
caçSo, quando via uma carreira outr'ora bella e esperançosa per- 
dida para sempre ! 



os MÚSICOS PORTUGUBZES 91- 

CortavA o ooiȍSq> ver como elte ae dirigia as mais amargas 
leorimiuaçSes, — elle, que menos ^ulpa poderia ter em^al infeliei^ 
dade. 

Debalde tentamos oonvencel-o, respondia-nofl entSo triste- 
mente: Ganhai a vida aperdelrnf * - . - 

Oh cruel^. mas verdadeira duplicidade! 

Portugal teve wn Medico de mais, maê wn grande artista de 
menoeJ •. 

Fosémi no^qi;^ a Providencia fes, nSlo ha atoear; aeceitemos 
as QOtt^aa só da vUSo de quem. as pdde conceder» 

José Doría. foi artista, já o vimos; a sentença a respeito do 
homem moral, ouve-se na bocea eloquente do povo de Coimlnra) 
que o proclama o seu maior bemfeitor ; converse^se com o iKMnem 
rude do povo, ^ou comoJiomem da sociedade, e entSo ouvir-se- 
hão historíaSi que serSo sempre o elogio maitf grandioso do seu 
caraet^., 

. PUARTE (EJ^Rei Som)— ^I^biodecimo rei de Portugal, e um 
dos distinctissimos filhos de Dom JoSo i e de Dona Filippa de 
Leneaatre. Heinou dçsde 1438 a 1488- O seu Livro do Leaisdm- 
selheiro é imia verdadeira Enciclopédia que resume toda a sabe- 
doria da edade media; a sua livraria era das mais ricas da Eu- 
ropa, como vemos pelo Catalogo dosi eens livros de uso. O seu no- 
me merece figurar entre os músicos portugueses, por issovque 
escneveu:- 

Do Jiegymento que se deve ter na Capelia para ser bem' 
regida* (Leal Conselheiro^ Cap. LBV, pag« 449.) 

Do ttínpoqae se detean noe offiUos da CapMa. (Id. ib. cap« 
LRVi, pag. 455.) 

DUFRAT (. . .) — Parece sei* d'orígem firimcesa* Foi anaidor- 
violinista distincto. 

Viveuem Lisboa no principio do seeulo presente. (Baíbi.) 



■ « 9 



99 OS MÚSICOS PORTUGXJEZES 

IHHULO (loflé Joa^piim) — Artista muito i^reciado ao prin- 
cipio doeste seeulo (1'820X como exoellente tenor. E tado o que 
d'elle Babemos pela citaçSo do Coaego Villela da Silva, (a) 

(a) Obêtrvaçôeê cHticaa, pag. 127. 



E 



SDOLO (Henrique) — IrmSo dos seguintes abaixo nomeados. 
Artista qué pertencia em 1830 á orchestra da companhia Ijríca 
do theatro de 8.. JoSlo (a) na qualidade de chefe das 2/' Rabecas. 
Nada mais podemos dizer d'este artista. 

(9,) ProgrfiJniaem disiiril^uido» na, 1.* noite da Bq)resentaQSo da nova 
Companhia Italiana na cidade do Porto, a 30 de Janeiro de 1820. — Porto 
Typ. da Viuva Álvares Bibciro So Filhos. Era emprezario F. NicoKni. 

EDOLO (João Frtocisco) — Artista notável sobre a Violeta, 
em qfue era j4 admirado, quando contava apenas 12 a 14 annos« 

Nada sabejpiQs das suas circumstancias pessoaes. Parece que 
o mento doeste artista merecia da parte de Balbi/ de mais a maia 
Gont^o^poj^aiieiP; uma noticia wais çireumstanciada do que aquella 
que lemos no seu Essai ^éatístíque; infelizmente o geographo ita- 
liano nSo o eqtcndou assim. 

£fiOLO (José Franoisco) (a)— Irmão do precedente e violi- 
nista de mérito. O seu talento egualmente precoce, já aos 12 an- 
nos se admirava poderosamente, e robusteceu-se a ponto dQ ser 
mais tarde (1820) encarregado da direcçZo da orcbestra nâ Ope- 
ra do Porto, (b) 



08 MÚSICOS PQRTUaUEZES 99 

Resumindo e coneentrando abi toda a. sua actividade^ conse- 
guiu coUocar o theatro de S. JoSa n'um estado florescenie e dar 
ás obras primas de Mayer; Coccia^ Cimarosa^ Faesiello^ Rossini 
e outros, uma execução digna de elogio. 

Honremos pois a memoria de José Edolo, sobretudo agora 
que deploramos a decadência a que chegou o nosso segundo thea- 
tro lyrico pela incúria do governo, pela ignorância crassa do pre- 
tendidos dilettanti que o frequentam e que vão lá exibir a força 
de seus tacSes e de seus pidsos, e pela indifferença de un^a bur- 
guezia rica, mas essencialmente estúpida e avara. 

São poucas as composições que conhecemos de Edolo c essas 
poucas salvámol-as das mãos de um imbecil, que as queria ven- 
der a um fogueteiro, (c) 

Sao: 

1.) Symphonia de Otkello^ composta por Kossini e arranja- 
da para Piano-Forte. Porto— 1819 1.» ediçSo. (d) 

2.) Walsa para Piano. 

3.) Walsa para o mesmo instrumento, (e) 

4.) Modinkoêy das quaes a 4.^ tem palavras itaUanas : éOra- 
zie agVingani tuai.^ 

(a) Balbi no Essai slcUistiquef cita José Gaspar ^dolp ; porém o nome 
que maicámos parece -nos mais exacto. 

Encontcamol^ na edição da éiympkania de OtheUo de que acima fal- 
íamos. 

(b) Um programma da Corapauliia lyríca (o que mencionamos na bio- 
graphia antecedente) de 1820 dá-lhe os titnlos de Mestre e 1.* Rabeea da 
Orcnestra. 

(c) Esta crcatura infeliz explicon-mc então a ras3o porque ia vender 
as musicas aos fogueteiros, dizendo: «Quequer^-meu seubor, é quem dá 
mais, porque gostam de papel grosso para os fpguetes.» (! !) 

(d) £ uma bcUa edição de musica gravada ; o frontispício é de um gra- 
vador allcmao João Frederico Sternberg. Era editada egualmentc por um 
allem2o, António Hcller, — Kua das Flores. No fundo da pagina do fron- 
tispido vem J. F, Edolo ^ escnJ.piu, Anno. 1819. D 'onde parece concluir- se 
qne Sternberg não fez senão o frontispídow 

Teria entuo o nosso artista sido ao mesmo tompo, musico de mérito e 
gravador distincto. 

(e) Vide: Jornal de Modinhas de. 1830, 



94 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

ELIAS (Fr. Antio on António de Santo) — Carmelita. Nas- 
cen em Lisboa no fim do século xvn^ talvez 1680. 

Foram sens pães Francisco de Sousa e Maria Cardoso. Pas- 
soa grande parte da sua mocidade no Brazil, professando no con- 
vento carmolitano da Bahia a 8 de Abril de 1697^ onde tinha en- 
trado um anno antes. 'No seú regresso a Lisboa foi nomeado Mes- 
tre de Cafiiella no convento da sua ordem^ cargo que exerceu du- 
rante 3 aniíOs. Foi egualmente harpiéta na Cathedral de' Lisboa 
depois da sua Volta a Portugal; distinguiu-se n'este difficil in* 
slmttietito. Em 1745 ainda ciistia no convento do Carmo, (a) 

Morreu no convento pátrio em 1748. 

As suas composiçSes são : 

1.) D^Detim laudanms, a 4 coros com diversos instrumentos^ 

2.) Responsorios das Matinas dos 3 dias da Semana Santa 
a 2 toros. 

3.) Responêorto das Matinas do Natal, Feàta da Purifica- 
ção^ ét Nossa Sevhora do Carmo e Santo André CorsinOj a 2 
coros có*n Rabecas t Flautas. 

4.) Missa a4 e 8 vazes c&rà diversos instrumentos. 

5.) Psalmos e 3íagnificas, a4 e8 vozes com instrumentos. 

6.) Hymnos a 4 vozes de Estante. 

7.) Vilhancicos do Natal, Reis, Santa Cecília e S. Vicente 
a 2 coros tom instrumentos. 

8.) Uma cantata feita por occasião do anniversario do ca- 
samento de D. João V. 

E^tas composições éncontravam-se no fim do século passado 
no mosteiro de Belém. 



(a) &*iinta Âana, na Chronica dos Carmelitas, vol. i, pag. 788, cha- 
moa-lhe: Professor das Artes da Musica e Contraponto. 



ELIAS (Fr. Manoel) — Pertenceu á Ordem de S. Paulo. Eis 
o que acerca d'elle se lè em Balbi : «organiste renommé et bon 
compositeur.» (a) 

(a) Balbi, Essai statittlqtief vol. -u, pag. ccxr. 



PS^ MUaiGOS PpBTUGUEZBS 9$ 

ESGOTAR (Andr^ de) — In^trufnentista do século xn. Na 
Boa juventude partiu par^t^ índia (1550) oude ensiaou a toear o 
infitrumçnto depppúnado Cb(u:afaielinha ou JBq6^ em que era mui 
habjl|,e 4cii^u.9'9queIIasiiegiSefiiy. que, pe)a primeira vea ouvímu 
semylhante instrumento^ muijto«.d>6çipqJÍQg. 

Qnwdo.vdltou ao reino foi lego rocebido jaa Cathe^al de 
Eyoca.como.Iilestice do seu.instiumonto.e largamente remtmerado 
pejlO; Cardeal Q,.. IJenrique, eniSo prelado d'aqueUa egroja. 

. . Exerceií^depois o meaioo magisteirio na Capella da Univer- 
sidade e.na Cathedral de Coimbra a pedi4o d$ Bispo D, Manoel 
de Meneses, 

Escreveu: 
. , . ^rU musiçajpara tanger o instrumenío da Charamalinha. Ms, 

.No Ârchivo da Camará Municipal de Coimbra, Registo de 
1578 — 1579, Tomo iv, folio 241, encontramos dois documentos 
curiosos com rela^So a este artista e a outro chamado Lazaro Lo- 
pes; ti^ws^ç^vepnolros pela sua curiosidade*. A orthographia é a 
do original, marcámos porém algumas viigulas para intelligen- 
cia do texto;.o original uSq tem n^m^ uma; . 

1." . 

< ■ • r 

i * 

Dom Nuno de Noronha do consellio de eU^B^i boso êenhor. 
Reitor da universidade Dos, e^udos de Coimbra: Faço êoher que 
Lazaro Lopes morador nesta cidade he hum dos charamellas que 
serve jfesta univerçidade no oj^io de. tanger a^ santos a Festcís 
conForme ao contrato que he Feito com os ditos charamellas e 
por bem do estatuto guoza do previlegio do estudo j e disto man- 
dei p<zsar esta certidão ao dito Lazarp Lopes job mexi sinal ^ selo 
em Coimbra, seis de Fevereiro, ' ' 

António da Silva ho Fez de mill quinhentos setenta e nove 
anuQs. (1579). Dom Nuno de Noronha.=sIiegiste'8e:^== Macedo. 



»6 08 MÚSICOS PORTUGUEZES 

CerteFijuo eu andre deecohar (André de Escobar) meHts 
doi charameUas da see (Sé) e nniverçidculê de$ta tidadedê Ooím^ 
hra que Lazaro Lopes hee charamela da dita êU e tem dezamiã 
mill reis de ordenado (16|000 réis) de charamela e asi «eree a 
dita univerçidade asi e da maneira que servem os mais e sem eZe 
não se pode tanger. Certificuo o asi, oje quotizo de Peveli^iro de 
tiuU quinhenios setenta e nove nnos, andre descobear. 

A qual sertidão e previlegio do Smkor Reiior Foi Regista- 
da no livro da Camera desta cidade, diguo que foi apresentada 
aos officiaes da camera e tnandarão que se comprisé, oje dez defe^ 
vereiro de 1679^ 

ESCOBAR (João de) — Musico o poeta% Viveu no coHieço do 
século XVII. 

Cultivou a sua Arte com muita distincçSo e publicou: 

1.) Collecção de Motetes* Lisboa — 1620, in-4.^ 

2.) Arte de Musica tkeorica e pratica. 

O catalogo da Bibliotheca d'£l-Rei D. JoSo iv^ que mencio- 
na este livro, não diz se fôra impresso ou se ficara manuscripto. 

ESTEVES (João Rodrigues) — Musico e escriptor themoo« Vi- 
veu na segunda metade do século xviii. 
Nao conhecemos as suas obras. 



F 



FAGOTE (Sintonio Marques) — Mestre da capella de D. JoSo iv 
e distincto tocador de fagote. E provavelmente a explicação mais 
rasoavel que podemos dar do seu nome. 



os MÚSICOS FOBTUGUEZBS 97 

Escreyeu: 

MUhúdo cu Arte para o instrumento Fagote; ficou prova- 
Y«liii€&té BÍflttuscripto, como aoontecea á maior parte dos nossos 
monumentos artísticos» 

Sentimos nlo poder dar mais ampb notieia a este respeitO| 
apesar daft diligencias que para isso fiíEemos. 

■ 

TAREft (Henrí((ae do) — Mnsíoo português do século xvn. 
Foi Mestre de Musica na Parochia de Santa Justa e Nossa Se- 
nhofa dos Martyres de Usboa, tendo já exercitado o mesmo car- 
go na 'Egnj^ Matriz da villa do Crato. 

FMimeea á esdiola do celebre Duarte Lobo com quem, se- 
gundo Machado, (a) chegou a rivalisar. Compôz para exercício 
das funcçSes da capella do Crato : 

. Vários Serviços compUtoSy ^ue se oonaerFavam em vários 
conventos do Reino. 

(a) BUd. LueU., toL u, pag. 448. 

TàBJk (UÚM da Costa e)— Katmrai da Ghiarda, nascido a 14 
de Outubro de 1679, sendo filho de Costa Homem e Antónia 
Corrêa. 

Fez na sua pátria os primeiros estudos e recebeu as ordens 
de Presbytero em 1724. Pouco depois, em 1727, foi nomeado 
Âbbade de Santa Comba de Eiras-Deiras, perto da Villa de Âr- 
eos de Valdevez, passando em seguida para a Abbadia de S. Pe- 
dro de Ruivaens, província do Minho, cargo que exercitava quan- 
do Machado escrevia a sua Bíblioikeca Lusitana. 

Publicou: 

1.) Fabula de Alfeo e Aretusa^ fiesta harmónica con toda la 
variedade de instrumentos músicos con que la Reyna, nuestra se- 
tara D. Maria de Áustria celebro d real nombre dei Bey, nues- 
tro seSMr 2>. Juan V, a 24 de Junto d*este aíío de 1712. Lisboa^ 
por Miguel Maaescal, ImiMssor dd-SautOiOfido, 1712^ in-4.® 

T 



98 OS MÚSICOS POBTUGUEZES 

2.) El poder de la Harmonia, fie$ta de Zarzuela çue a loê 
felices afios dei Rey nuestro ieííor D. Juan Vse represento en tu 
real palácio el dia 22 de Octubre de 1713. Lisboa, en la Officina 
real Delandesiana, 1713, in-4.^ 

3.) Vilhancicoê çue se eantaron con vários instrunUentos el 
dia 22 de Enero de 1719 en los Maytines dei glorioso y invicto 
martyr S. Vicente, patron de ambas Lisòoas en la Metropolita-' 
na Cathedral dei Oriente. Lisboa^ en la imprenta de la Musicai 
1719, in-S.^ 

Constava esta coUecçSo de 8 VUhancicos de vários metros* 

4.) Vithancicos que se eantaron el dia 22 de Enero de 1721. 
Lisboa na dita Officina, 1721, in-8.® Cantaram-se assim como os 
dos N.^ 5 e 6 na mesma festa e na mesma egreja que os ante- 
cedentes. 

5.) VUhancicos cantados el dia 22 de Enero (Janeiro) de 
1722. Lisboa, ibid. 1722, in-8.^ 

6.) VUhancicos cantados el dia 22 de Enero, 1723. Lisboa, 
ibid. 1723, in-8.« 

FEUZ (Fr. Joio de S.)— -Religioso trinitario e pregador ge- 
ral da sua ordem. 

Nasceu em 1689 e foi uma das numerosas victimas do ter- 
remoto de 1755. 

Era considerado pelos contemporâneos como um compositor 
distincto, hábil organista e bom tocador de rabecSo. 

KSo conhecemos as suas composições. 

FERMOSO (JoSo Fernandes) — Nascido em Lisboa pouco mais 
ou menos em 1510; foi Mestre de Capella de D. JoSo in. 
Entre as musicas religiosas que compoz, distingue-se: 
Passionario da Semana Santa. Lisboa, por Luiz Alvares, 
1543, foi. É também a única obra doeste auctor que se imprimiu* 

FERNANDES (António) — Mestre de Musica na Egreja de 
Santa Catharina do Monte Sinai, Vigário do Coro na paiocbia de 



os MUSIC30S PORTUGUEZES 99 

Santa Catharina de Lisboa e nSo Mestre de Capella^ como diz o 
Cardeal Saraiva, (a) 

Teve eschola publi^ca onde ensinou a musica. 

Viveu no fim do século rvi e era natural de Souzel (Alem- 
tejo). 

O Cardeal Saraiva dá-o como fallecido antes de 1625. 

Parece erro. 

Escreveu: 

1.) Arte de Musica de Canto de Otgam e Cantocham y pro- 
porç^ da musica divididas harmonicamente. Dirigida ao insi- 
gne Duarte Lobo, Quartanario e Mestre de Musica na Sede Lis* 
loa. Em Lisboa^ por Pedro Craesbeck, 1626 (b) peq. in-4.® de 
xn — (incluindo o titulo) 125 pag. numeradas de um só lado. 

O frontispicio gravadoy que representa a arvore genealógica 
da Musica coroada com o retrato severo de Duarte Lobo, não ap- 
parece em todos os exemplares da obra. 

Divide-se em 3 Tratados. 01.^ aponta os principios geraes 
da Musica (46 pag.) O 2.^ ensina o CantochSo; e o 3.® trata das 
ProporçSes. (79 pag.) 

O que dissemos a respeito do preço fabuloso do livro de Cor- 
rêa de Araújo (c) repetimol-o aqui com relaçSo a este. O preço 
da Arte de Musica de António Fernandes^ como quasi todas as 
obras portuguezas mencionadas no catalogo firancez (d) que abai- 
xo indicamos (N.<« 233—319—629—740—762) vem muito 
exagerado. Esta apreciação falsa das nossas obras musicaes, pro- 
vém da fiilta de esclarecimentos relativos á nossa Bibliographia 
artística^ fisJta, que por um lado produz uma elevação de preço em 
livros que por pouco ou nada se recommendam, e pelo outro lado 
determina um preço muito baixo a livros estimados e raros. 

Esta obra mencionada no catalogo indicado por 110 firancos^ 
poderá pagar-se com 10 a 20; 

Demais a obra não é tão rara^ que não tenhamos já encontra- 
do uns 6 exemplares, sendo um no catalogo de Liepmannssohn 
et Dufour, outro na Bíbliotheca nacional, um terceiro (mutilado) 
em poder de J. da Silva, o quarto em um catalogo de uma Biblío^ 



100 os MÚSICOS POBTUGUEZES 

theca (e) rendida ha pouco no Porto, o quinto em poder de nm 
amigo nosBo e o sexto de que somos possuidor. 

O redactor ou bibliophilo que elaborou o catalogo, accusa 
Fétis de ter mencionado o titulo da obra com mui pouca ezacti- 
dSo na sua Biographie Universelle, (yoL ni, pag. 308). 

Sentimos que o escriptor francez nSo reja mais do que mos- 
tra n'e8ta asserção. 

Este livro escripto por um discípulo enthusiasta de Duarte 
Lobo, merece-nos especial attençSo, pois d'elle podemos ooUi- 
gir alguma cousa acerca do methodo d'ensino d'aquelle grande 
homem. 

Quasi todos os livros didácticos sobre Musica, anteriores a 
este, e mesmo muito posteriores, apresentam as regras relativas 
ao canto e composiçSo empiricamente, nSo como dadas pela exr 
periencia, mas sim como tradiçSo de mestres, (f) 

António Fernandes nSo se contenta com isto; procura de- 
monstrar, procura reduzir tudo a um principio único, e forceja por 
estabelecer a verdade dos seus principies em demonstrações arith- 
meticas. 

O author punha d'esta forma em pratica o exame scien- 
tífico applicado á Musica, e inaugurava assim um methodo ana- 
lytico novo que devia produzir mais tarde resultados admirá- 
veis, creando a parte scientifica da Arte, a AcutAica, e estabele* 
oendo scientificamente, em solidas bases, os principies da Har- 
monia. 

O livro de António Fernandes é emfim um indicio do me- 
thodo verdadeiramente scientifico que, para o seu tempo, Duarte 
Lobo empregava, e v6-se que este homem pertence áquelle gran- 
de século XVI em que a humanidade, libertada intellectualmente 
por Luthero, ousou interrogar a verdade pela primeira vez. 

2.) E^licação (g) doê segredoê da Musica em a qual breve- 
mente se expende ae caueae das prineipaee cousas que se contém 
ma mesma Asie. Esta obra, classificada como importante pelos 
esetíptoiíee Contemporâneos, existiu na BiUioibeca de D. Jdo iv. 
Mé^felio* 



os MÚSICOS POETUaUEZES 101 

3.) Arte da Muêiea de Canto de Órgão compoda por um mo- 
do muito differente do costumado, por um velho de 86 annoê de- 
êtfoêo de evitar o ócio. Mfi. folio. 

4.) Theoria do Manieordio e sua expltceíção. Ms. 

5.) Mappa universal de çual^r cousa cusim ncttural como 
Occidental que se contém na Arte da Musica com os seus géneros e 
demonstrasses mathematicas. Ma. foi. 

Os autographoB doestes três últimos volomes existiam na li- 
Traria de Musica de Francisco de Valliadolid. (h) 

NSo sabemos, se António Fernandes deixou oomposiçSes; 
a darmos credito a D. Francisco Manodi de Mello (i) e JoBo 
Soares de Brito, (j ) devia ter sido ttm theorico mui distiocto ; o 
primeiro qualifica-o : um dos maiores sujeitos que a Musica deu a 
Portugal. 



^) Lida de Artiêta» portug., pag. 45. 

(b) Barbosa Machado, Bibl, lAuit., toI. i, pag. 269. Fétis; Biogr. 
lMv.f YoL m, pmg. 208, indicam a data: 1626. Cremof ser eiro, pois L da 



SflTa, Diee. Bâl., toL i, pag. 137, indica a data, 1626 ; além d'ÍMO este ul- 
timo escriptor teve occasiao de examinar dois exemplares d*esta obra, um 
na Bibliotaeca nacional, e outro que 6 propriedade sua. 

O catalogo francei que mencionamos em segoida, trás também esta 
mesma data, assim como os dois que tivemos em nosso poder. 

M Vide a sua biograpbia. 

(d) Catalogue d^une líUe eoUéctum de livru Ttlaiife ò, la Musique et 
à la JDanae, pag. 15, N."» 319. 

M •" Catalogo dos livros raroê ou curiosos JBte* Lisboa, ICaio de 1869. 

(í; Vide: ArU MitUma de Manuel Nimes da DiLva (Prdiscio), e Arte de 
CantiDÍhãoy de Aranda (Prefacio). 

(g) Pedro Dinis, Das Ordens rdigioios em Portugal, pag. 267 e 268, 
trás: Especulação de segredos da Musioa^eta. 

(h) RectiÇcamos aqui um engano de Fétis ; nSo era o autograpbo da 
1.* obra me existia na Bibliotheca mencionada, mas sim os autographos da 
3.% 4.* e 5.*9 como se vê na Bibl, Lusit., yoL i, pag. 269. 

Íi) Carta dos Auetores portugueses a Manoâ Themudo da Fonseca. 
}) Theair. LusU LUter. 

fBKKASDEi (P.* Diogo)— CapellSo-cantor da Capella real 
de Filippe n e de seu successor. 

Tinha nascido em Faro, e morreu em Lisboa a 6 de Março 
de 1S99 com a opinilo de santo, que mereceu pela abn^gaçlo 
caridosa que havia mostrado durante a sua vida. 



102 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

FERNANDES (P.* Hanoel) — Mestre de Musica; viveu na 
ilha da Madeira no meado do século xvi. Era cónego de uma das 
egrejas da ilha. Foi Mestre de composiçSo do celebre Francisco 
de Valhadolid. 

FERREIRA (Cosme Baena) — Primeiramente, Moço da Ca- 
ihedral de Évora, sua pátria; depois Mestre da Cathedral de 
Coimbra e Prior de S. JoSo de Almedina na mesma cidade. 

Foi professor e compositor de mérito, 

Compoz: 

1.) Enchiridion Miêsarwn et Vesperarum. 

2.) Officium HebãamadíB Sanctcs. 

3.) Responaoríos do Officio de Defuntoê a 4 vozes, Ms. 

FERRO (António) — Sabemos só que foi natural de Portale- 
gre e Director da Capella d'esta cidade. 

A sua principal gloria é ter sido Mestre dos artistas JoSo 
Gt)mes, Manoel Leitão de Avilez e Manoel Tavares. Machado (a) 
chama-lhe: grande professor. 

(a) BibL IauU. yoL n, pag. 669. 

FIGUEntEDO (António Pereira de) — Mais um musico portu- 
guez e mais um nome estimado nas Sciencias e nas Artes. 

Cursou os estudos no collegio de Villa Viçosa, instituiçSo 
celebre que formou tantas intelligencias distinctas. 

Successivamente Organista de Santa-Cruz em Coimbra e 
membro da CongregaçSo do Oratório de S. Filippe Nori em 1794 
(a), foi conquistando uma reputação estimável pelas suas obras 
sobre Philosophia, Poesia, etc. até que morreu a 14 de Agosto de 
1797; tinha nascido a 14 de Fevereiro de 1725 em Ma^, villa 
da Comarca de Thomar, do casamento de António Pereira e Ma* 
ria de Figueiredo. 

A musica que já na adolescência o deliciava, foi uma das 
suas occupaçSes (b) favoritas; a lista das suas oomposiçSes é nu- 
merosa. Eil-a em parte: 



os MÚSICOS POBTUaUEZES 103 

1.) Pêàlmo=sLaude ESermalem^a 4 voze$ com tícampch 
fthamento de Rabecas e Trompae. 

2.) Hymino=^ Tantum ergo Sacramentufn=a 4 vozes com Ra- 
becas. 

3.) Hymno de S. Filippe Ner{^=Pangamus Nerissseom 
(tcompanhamento de 2 Rabecas e Órgão. 

4.) Oração de Jeremias gue se canta em Sexta-Feira maior 
a 2 Tiples. 

5.) Os Mótetes: Plorans, ploravii in nocte. 

6.) Adjuva nos Deus. 

7.) Stabat Mater. 

8.) O' Jesu mi dulcissime. ^ a4 vozes. 

9.) Concaluit cor meum, dedicado a S. Fi- 
lippe Nerij de 2 Tiples com acompa* 
nhamento de Rabecas. 

(^ Fétísy Bioar. XJniv.f ToL ti pag. 483, dix 1744; julgo qne é erro. 

(b) O CardealSaraiva {lAtta^ pag. 45) escreve, oue os autograpliOB da 
maior parte doestas composições existiam em poder do P.* António de Castro 
e qae passaram por morte d*este para as mãos de um sábio distincto falleci- 
do em 1838, que analjson os escríptos de Figueiredo e escreveu a sua Bio- 
srapbia. Porque não publicaria o Cardeal o nome do tal sábio?: assim tal- 
vez seja impossível encontrar as composições mencionadas. 

"Êm vista d'estas noticias nSo pôde ter lo^r a affirmaçSo de Fétis, di- 
lendo que todas estas obras se perderam no mcendio de 1755, noticia que 
eUe cqinoia de Machado, Bibl. Limt,y voL iv, pag. 52-53. 

FIGUEIREDO (José António de) — Encontra-ae entre o nume- 
ro doe bona organistas citados por Villela da Silva, (a) 

A soa actividade artística comprehende o fim do século xvili 
e principio do século xix. 

(a) Observações criticas, artigo : Musica, pag. 128. 

FIGUEIREDO (Lnis Botelho Froea de) — Philosopho e Cano- 
nista, natural de Santarém, e ahi nascido a 11 de Dezembro de 
1675. Foi filho de Mattos de Figueiredo Torres e Helena Annaya 
e Sousa, íamilia distincta. 



104 OS MUSIOOS PORTUGUEZES 

Em virtude de uma recusa que recebeu a um pedido justo 
sobre umas mercês que lhe competiam, retírou-se ao SemÍDario 
do Varatojo e depois partiu sem ter professado em 1715 para 
Hespanha, onde casou e se estabeleceu. 

Exerceu ahi os cargos de Advogado dos Concelhos reaes e de 
Corregedor em Alicante. Morreu n^esta ultima cidade a 15 de Ou- 
tubro de 1720. 

Citamos aqui este nome por ser Figueiredo autor do livro 
que segue adiante, escrípto no estylo gongorista da época; pare- 
ce ser fructo da sua estada no Seminário do Varatojo. (É impresso 
eml714.)Ea-o: 

CÔTO celeste: Vida Musica em êolfa métrica da esclarecida 
Augustiniana B. Ritta, advogada poderosa dos impossiveÍ9(IJcam 
um Ramilhete dos seus milagres colhido na Floresta das suas Vir^ 
tudes; Com hum encómio mais á m^ma Santa e hum Período la- 
tino d sua Morte. Lisboa, por António Pedroso GalrSo — 1714 
ín-4.* de vra — 176 pag. (a) 

Parece pois, que este livro pertence ao numero de alguns que 
ostentam por ahi titules ficticios, que com a sua obscuridade mys- 
tica, própria da época, enganam os menos cautelosos. 

Mencionamos por isso aqueUes que conhecemos; 

Fr. Balthazar Limpo: Doze Fugas de David. Lisboa, 1642| 
folio. 

SebastiSo Pacheco Varella: Numero vocal* Lisboa, 1702, 
in-4.* 

Lereno: Viola de Lereno. Lisboa, 1787, in-4*^ 

(a) Contem effectivameiite a narraçAo da vida e morte da Santa em 
uma espécie de poema, dividido em 4 partes ou cantos a que o aoctor cha- 
ma vous, (I. da Silva, Dicc, BibL, voL v. pag. 232.) 

FIGUEIROA (Diogo Ferreira de)— Natural de Arruda, perto 
de Lisboa. Ahi nasceu em 1604. Foi ao mesmo tempo poeta e 
musico distincto e obteve em 1648 pelas suas qualidades artisti- 
cas o logar honroso de Cantor da Capella real de Lisboa. 

Morreu n'e8ta posiçSo a 19 de Maio de 1674. 



os HUSIOOS POBTUGUEZES 105 



Nlo «abemos que deizasBe compoBÍsSes suas; apenas d'elle 
oonheoeinos algninas obras em prosa e verso, taes como os Deê- 
maioB de Maio etc« 

FOGAÇA (Rr. João) — Natural de Lisboa, (a) onde nasceu em 
1589, sendo filho de Francisco Fogaça e de Luiza da Silva, 

Professou o instituto de S. Paulo ^ foi Mestre de Capella no 
eoorento da Serra de Ossa, cujo habito tomou a 31 de Agosto 
de 1603. 

Pertenceu á escbola de Duarte Lobo, onde foi discípulo dis- 
tincto. D* JoSo rv, que apreciava o mérito d'este excellente com- 
positor^ deu-lhe uma penslo annual de 48|000 reis, somma mui 
svakada para aquelles tempos. As testas coroadas de hoje já nSo 
tem semelhantes lembranças. Que o digam os poucos artistas que 
temos! Morreu na capital, em Agosto de 1658. 

Teve também muito talento para o desenho e executou á 
penxia três livros para o cdro do convento da Serra de Ossa. (b) 

Compôz muitas MoteUê^ MÍ89a$, etc., dos quaes indicamos 
alguns: 

1.) Bomo naiuê de muliere. 

2.) PeUi mea* 

3.) Reêponde mihu ^ a8 vozeê 

4.) Parce mihi* 

5.) Spiritue meuê^ na Estante 59, N.^" 771. 

6.) Verea eH in luctum, a 6 vozes. 

7.) Lacrymoea die$ iUa^ a 6 vozee. 

8.) Quis dabii, capiti meo, a 4 vozes. Estante 36, N.® 809. 

'9.) Beaíi Dei genetrix a 4 vozes. Estante 36, N.<> 818. 
10.) Missa defunctorum a4e 8 vozes. Estante 33, N.^ 770. 

Estas composiçSes existiam na Bibliotheca de D. JoSo iv. 



(a) Castro, Mcmpa de Portugal, vol. n, pag. 349, indica VHIa-ViçoBS 
contra a opniio de FètiByBiogr. univ.<, yoL ui, paç. 284; Machado, Bibl, Lu* 
siLf vol. n, pag. 658 e 659, e Gerber, Neues, hi$t, Tnog, Lex, toI. n, pag. 161. 

(b) Um era das Festas dos Santos e o outro das Festas da benhora ; 
Maenado nSo indka o titulo do terceiro. 



106 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

FOLQUE (N.) — Amador distincto. Flautista^ official da ma- 
rinha portugueza e filho do general Folque do mesmo nome. Vi- 
veu em Lisboa no começo doeste século. (Balbi.) 

FONSECA (P.* Christovio da) — Jesuíta, natural de Évora, 
e um dos melhores compositores de musica sacra do seu tempo. 

Foi professor de musica no collegio dos Jesuitas em Santa- 
rém até 19 de maio de 1728, anno em que falleceu. Foi sepulta- 
do no cemitério do dito coUegio. Tinha nascido em 1682. 

Entre as suas composiçSes distinguia-se um: 

1.) Te-Deum a 4 coroê. (a) 

2.) Vesperasj cantadas em Agosto de 1727 na egreja de S. 
Roque; esta execuçSo artistica foi desempenhada pelos músicos 
mais distinctos que havia entSo na corte. 

(a) Talvez seja a mesma composição que vem mencionada com o titu- 
lo : Te-Deum lauaamuê na Gazeta de Lisboa de 2 de Janeiro de 1721 ; vem 
classificada de: admirável, O mesmo joraal dá-lheno N." 14 de Agosto de 
1727 o titulo de: insigne na Arte da Musica. 



FONSECA (D. Fr. Joio Seixas da)— Natural de S. SebastiSo 
(Brazil). 

Nasceu a 6 de Maio de 1681 e vestiu o habito benedictino a 
16dejulhodel713. 

Foram seus pães Francisco de Seixas da Fonseca e Maria 
da Rocha Fiúza. 

Em Roma captou a benevolência de Clemente xm que o fez 
Bispo de Âreopoli no consistório de 28 de Septembro de 1733, 
sendo sagrado na egreja de Santo António dos Portuguezes 
pelo Cardeal Giovanni António Guadanhi, sobrinho do pontifioe. 

Indo a Florença n'uma das suas excursSes pela peninsida 
itálica, imprimiu ahi o seguinte livro: 

Sonatas de Cravo, compostas por Ludovico Justino da Pis* 
toya. — ^Florença 1732, com uma dedicatória aoinfanteD. António. 

FONSECA (Lúcio Pedro da) — Mestre da Capella ducal de 
Villa-Viçosa em 1640 e discipulo de Manoel Rebello. 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 107 

Era natural de Campo-Maior (Álemtejo.) 
Compôz: 

Varias obrai muticaeê; estavam manuBcríptas na Bibliotheca 
real da Musica. 

FONSECA (Hicolan da) — Mais mn discípulo de Duarte Lo- 
bo. Mestre de Capella na Cathedral de Lisboa e Cónego da 4/ 
Prebenda n'esta egreja. 

Viveu no principio do século xvif (16150 

Escreveu muito, como se vê pelo Catalogo da Bibliotheca 
dEI-Rei. (a) 

Entre as suas obras distinguia-se particularmente uma: 

Missa a í6 votes. 



fa) Vide o Index das Obras que se conservam na B^liotheca recd da 
Musiea. Lisboa 1649, in-4.% por Pedro Craesbeck. 



FONSECA (Ricardo Porflrio da)— Ka phrase de PlatSo de 
Vaxel: (a) Talento extraordinário j mas pouco cultivado. Morreu 
em 1858. Foi organista da Egreja ingleza no Funchal e deixou 
oma grande copia de Hymnos para a Egreja anglicana, Sonatas 
para Piano e uma Symphonia que se tocou na Sociedade Philar- 
monica do Funchal, (b) 

Porfirio da Fonseca tinha sido discípulo de JoSo Fradesso 
Bello. 

(a) Apontamentos para a BkbonB, da Musica em Portugal, na Gaseta 
da Madeira de 19 de Junho de 1866. 

(b) Esta sociedade existiu desde 1840 até 1848. 

FRAHÇA (P.^ Luiz Gonaaga e) — CapellSo Cantor e Musico, 
da Egreja Patriarchal de Lisboa, no meado d'este século (1820- 
1830). 

Deveu a D. Miguel o grau de Cavalleiro do habito de Nossa 
Senhora da ConceiçZo, a medalha de ouro com a real eí&gie (sSo 
as próprias palavras de França) de Sua Magestade Fidelíssima 
£1-Bei Nosso Senhor, o Snr, D. Miguel i, etc., etc., etc. 



108 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Este nosso compatriota esteve ainda á testa da aula de Can- 
tochSo da patriarchal^ sita na Sé de Lisboa. 

Escreveu: 

Compendio ou explica^ meíhodica das regrai mais impor- 
tantei e necesiarias, tanto para a intelligencia do Cantoehão 
theorico como pratico, e para saber escrever e compor, segundo 
o systema das sete votes: Do, Ré, Mi, Fa^ Sol, La^ Si^ etc. Lis- 
boa, na impressSo regia, 1831, in-4.^ de vm, 132 pag. 

O livro comp3e*se de duas partes: A 1.^ trata do Cantoehão 
liso ou batido (a) e figurado, até pag. 56 ; seguem os exemplos e 
solfejos nos differentes tons até pag. 102. 

A obra fecha com um Áppendix em que se trata dos Rudi- 
mentos da Musica métrica, em 10 liçSes, com exemplos. — Index. 

(a) Ainda se dis também : Canto plano. 

FRARCHI (Gregório) — Excellente pianista que existia em 
Lisboa pelos annos de 1816 e 1817 ; depois partiu para Ingla- 
terra com um cavalheiro inglez, o celebre Beckford, (a) ao servi- 
ço do qual entrou. 

(a) Este estrangeiro distíncto, homem de verdadeira iUnstraçâoe dota- 
do de mn fprande sentimento artístico, ficou sendo credor da nossa gratidlo 
pela maneura verdadeiramente soberana com aae protegeu tudo o que era 
necessitado n'este paiz e todo aqueUe que manifestava um tal ou qual talen- 
to e aue sabia attrahir a sua casa com a maior delicadeza e am^bUidade, 
para lhe encher a bolsa de dinheiro e o coração de coragem. 

Lembremo-nos só das transformações maravilhosas porque elle fez pas-* 
sar o palácio de Monserrate em Cintra, que estava reduzido a um montio 
de ruinas I 

Este nobre inglez que tencionava fixar a sua residência em Portueal, 
viu-se obrigado a retirar-se doeste paiz em virtude de uma recusa aue ihe 
f5ra dada j^o marquez de Ikliuíalva, a quem tinha pedido a mSo de uma 
filha bastarda. 

Beckford era grande de maia para tdo pequena gente, nSo era mar- 
quez, mas era filho de WUUam BecJtford, o que bastava para o coUocar a 
par da primeira nobreza do mundo. 

Abençoada Bevoluçâo franceza, que atirou com os brasões para a tra- 
peira de Montfaucon I 

A recusa de um titular caduco privou Portugal de um homem que era 
a Providencia do pobre e do artista. 

Beckford alliou-se depois com uma das primeiras fry^^ílj ftff da Ingla- 
terra. 



os MÚSICOS PORTUOUEZES 109 

FRANCISCO (Fr. Lais de S.) —Conhecido no seccdo del>aixo 
do nome de Luiz Pinheiro, Natural de Lisboa, filho do Dr. Tho- 
mé Pinheiro da Veiga e de D. Catharina de Oliveira. 

Efitodon Direito Civil em Coimbra e foi Senador da RelaçSo 
do Porto e ConmÚBsarío da Ordem Terceira d'esta cidade. 

Professou no convento de Santo António da Figueira a 3 de 
Outubro de 1652 e morreu a 5 de Novembro de 1696. 

Entre muitas obras theologicas que escreveu, encontram-se 
as seguintes, sendo a primeira um sermonario e a segunda rela- 
tiva á Musica : 

1.) Quartettos e SextilhM cantadas pela solfa de diseursoê 
predicativos sobre os dous Hymnos das Matinas e Vésperas da so^ 
lemnidade de Corpus-Christi no triduo annual festivo gue se faz 
ao desaggravo do S3. Sacramento pdo sacrilego desacato que 
contra eUe se commetteu na freguezia de OdiveUas no anno de 
1676. (a) Coimbra por José Ferreira, 1682 in 4.^ 

2.) Globus canonum et arcanorum^ linguas Sanctoe ac divi- 
nos scripturce. (b) Bomcsy 1686. O capitulo ix do 10.™^ livro tra- 
ta da musica dos Hebreus j segundo as indicaçSes que o velho tes- 
tamento fornece. 

(a) Castro, Mappa de Portugaly vol. n, pag. 15, indica a data 1671. Este 
roubo foi praticado no Sacrário do mosteiro de OdiveUas. 

(b) Paseeyini, BibL Select. pag. 223. 

ISEITAS (. . .) — Violinista residente em Lisboa no princi- 
pio doeste século. (1810-1830.) 

Distinguia-se pelo brio e sentimento da sua execução. 
Seu filho seguia com empenho louvável as pizadas de seu pae. 

ISEITAS (Ignacio de) — Compositor. Vivia em Lisboa e com- 
pôs algumas Symphonias para orchestra. 

Talvez que este artista e o antecedente sejam uma e a mes- 
ma pessoa. 

Pode ser quatste livro seja lido por algum estrangeiro, e que 
este ligue á palavra i^mpAonúe uma significasSo queellanSotem 



110 os MÚSICOS PORTUQUEZBS 

em Portugal; aqui n^este bello paiz^ que em certas cousas é a pá- 
tria da confusão, chama-se Symphonia indistinctamente a uma 
Ouverture d'Opera^ a uma FavJtana orcheetrada, emfim a qual- 
quer peça mais ou menos desenvolvida que tenha acompanha- 
mento de orchestra; todas estas espécies entram na mesma cias* 
sificaçSo: é tudo Symphoniaf 

O género de musica a que compete este nome, difficil e su- 
jeito ás regras da Symphonia daesica, como a crearam Haydn, 
Hummel, Beethoven^ Mendelssohn e Berlioz^ parece-nos que nunca 
foi cultivado seriamente em Portugal; nSo existe por falta de vo- 
caçSo dos portuguezeSy mas sim por nSo haver no paiz vm único 
estabelecimento, onde se ensine dignamente a Arte. 

A miséria entrou nos nossos dois Conservatórios (a) e com 
ella vivem abraçados, graças á pobreza sórdida dos nossos go- 
vernos que lhes regateiam o pSo quotidiano, a miséria de alguns 
contos de reis para gastarem centenares d^elles em divertimentos 
dignos de um Polichinello. Os nossos Conservatórios realisaram 
o grande problema: Vivre de rieni (b) 

Em Portugal nunca se executou uma só das obras primas de 
Beethoven e estou convencido que quasi a totalidade dos nossos 
compatriotas ignora até os títulos das Symphonias do illustre al- 
lemSo. 

De Berlioz, nSo fallemos ! 

Ainda não ha muito tempo encontrámos em um dos números 
da Chronica dos TkMiros (único jornal nacional que se occupa 
díts Artes) a seguinte apreciaçSo: 

Haydn e Mozart indicam a infância da Arte; de Beethoven 
nSo se fallava — Bossini era o progresso e Verdi o apogeu da 
Arteim 

Perguntamos: Onde deixaria este critico — sans culotte — a 
vergonha, quando rabiscava estas apreciaçSes?. . . provavelmen- 
te no tinteiro d'onde extrahiu a tinta para se passar um attesta- 
do de idiota. 

Um conselho: Lembramos JRilhafoUes. • • (c) 



.•* 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 111 

(a) O do Porto oontenton-se com o título modesto de: Aeaãema ly* 
rica (l) De Coimbra nâo podemos fallar, pois a antiga eschola da Arte, é 
lioje apenas mna espelunca, onde se toca, 

(d) Como o burro de Buridan. Bnridan tinha um borro e quis aeosta- 
mal-o a viver sem comer etc. 

(c) Esíabdecimento cuêoz utU para curar doudoê, . . 

FREITAS (João da Matta de) — Artista e compositor. Conhe- 
cemos d'elle apenas mna Sonata para o bandolim. 
Parece porem que deixou mais composições, (a) 

(a) GoMda de Lisboa, 2.* sapplemento n.* 9, de Fevereiro de 1793. 

FROYO (João Alvarez) — Natural de Lisboa e ahi nascido a 
16 de Novembro de 1608^ era sobrinho do celebre antiquário 
Chupar Alvarez Lauzada, 

Pertenceu á eschola de Duarte Lobo^ e tomou-se tão esti- 
mado como o próprio Mestre. 

D. JoSo rv para premiar os seus talentos^ nomeou-o seu Ca- 
pellSo e Bibliothecario da sua riquíssima livraria musical. 

Foi também Mestre de Capella na Cathedral de Lisboa^ on- 
de alcançou um Canonicato da 4.^ Prebenda. 

Morreu a 29 de Janeiro de 1682; o seu corpo jazia na Ca- 
thedral da sua pátria. 

THEOBIA 

Escreveu : 

1.) DÍ9cur909 sobre a perfeição do DiatJiesaron e louvores 
do numero quaternário em que elle se contém com um encómio so- 
bre o papel que mandou imprimir o Serenissimo Bei Z>. João IV 
em defeza da moderna Musica, e resposta sobre os dois breves ne- 
gros de Christovão de Morales. Lisboa^ por António Craesbeck) 
1662 (a) in-4.* 

Frevo reproduziu n'e8ta obra parte dos argumentos de An- 
dré de Paep (b) a £Eivor da quarta considerada como consonância 
perfeita, e pretendeu também provar pelo testemunho de grandes 
sábios e santos que nSo ha Arte mais própria de reis, sábios e to- 
dos 00 homens grandes, do que é a Musica. 



112 OS MUSICX)S PORTUaUEZES 

Ha uma tndaçSo latina d'e8ta obra que está em poder de 
Fétisy porém ignora-se quem seja o seu author. 

2.) Speetdum universale in guo ea^Mtuntur omnium ibi am- 
Untorum Auctorum loci, vhi de qaolibet Muêices genere dísseruntj 
vd agunt. 2 vol. foi. Ms. 

Da maneira como Forkel (c) se exprime^ poderá alguém jul- 
gar que as 589 paginas mencionadas, comprehendem os 2 volu- 
mes do Specvltan univertcde; nSo é assim, pois ellas formam ape- 
nas o 2.^ volume, que é o único que conhecemos pela noticia que 
nos dá Machado, (d) que o teve algum tempo em seu poder. 

O distincto Bibliographo diz-nos que estava escripto em ad- 
miráveis caracteres; constava de 589 pag. menos o Index; sup- 
p8e ser obra erudita e dÍ2 que tinha algumas palavras gregas em 
cujo idioma mostrava ser versado o seu author. 

Forkel ou se enganou, quando leu a Biographia de Frovo na 
Bibliotheca Lueitanaj que cita no seu livro, (e) ou entSo ezpri- 
miu-se mal. 

3.) Theoria e Praetiea da Manca. Foi. Ms. 

4.) Brew explica^ da Musica. Ms. in-4.^ (f) Ambos estes 
N.^ estavam na Bibliotheca real da Musica. 

PRATICA 

5.) Livro de Hymnoe in-4.^ foi. gr. Ms. 

6.) Livro de Miseae a 4 vozee. 

7.) DwiB Missas de coros. 

8.) OvJtra a 16 vozes. 

9.) Dois Psalfnos da Nôa a 8 vozes. 
10.) Psalmos de Vésperas a8, lOe 12 vozes. 
11.) Pscdmo de Completas a 20 vozes. 
12.) Diversos Motetes a3 e4 vozes. 
13.) Seis Besponsorios da NouU do Natal a 8 vozes. 
14.) InvitaUnio dò Officio de Defunetos. 
15.) Besponsorios do mesnu> Officio; 2 à8 vozes e um a 12 
vozes. ^ 



os BIUSKfOg PQRTUaUEZES m 

16.) TraçiUB doã Domingéu da Quarewna. 

17.) Tkcto da Paixão da Dominga de Samos e Sexta-Feira 
Maior a 4 vozes. 

180 Misêr^re a 16 vozes. 

190 Loímentaçilies de diversas vozes, 

20.) Vilhancicos de diversas Festividades a4,6e8 vozes. 
A maior parte doestas composiçSes existiam na Bibliotheca 
4e D. Joio lY. 

(a) Fétis, na Biogr, Univ, Yol. in, pag. 849, traz 1622; parece-nos 
ser erro ^pograpldoo. 

(b) Natural de Gent EeereTeu : De conêonantiis êtu pro Diatesaron 
Ubri duo. Ântaerpia. 1568, in-S.** O9 argumentos que este tneoríco apresen- 
ta a âtvor da aua ideia sÂo finacos e pouco acceitaveis ; quem quiier co- 
iJiecer esta questão mais a fundo leia : Mathuon, Der vollkommene Ca- 
pellmeiêter ti. «. w. Hamburg 1789 foi., 8." parte, cap. 12 pag. 807; do 
meamo autlior: Da$ Foreehmdt Orchuter. Hamburg, 1721. 8.* 2.* Par- 
te; e Zarlino, SuwUmenti muncQli. Yenetia — 1588, pag. 188. 

Íc^ ÂUgem. Juit. der Munk, pag. 498. 
d) Bibl. Luêit,j Tol. n, pag. 68Ô. 

(c) AUg, LU, loc. cit : 

{f) Machado, loc. eit, pag. 585, diz que viu esta obra primorosamente 
transladada em 1878 por António da Cunha de Abreu, discípulo de FroYO. 



G 



GALLÃO (P.^ João) — Sabemos apenas que fôra Mestre da 
Capella ducal de Villa- Viçosa, no principio ena primeira metade 
d'eate século, e que era natural do Alemtejo. 

Deixou algumas composiçSes sao^as que nSo s8o conhecidas. 

GAMBOA ^ero de) — Abbade, compositor e professor de 
Moaica, conhecido no meado do século xyii. (1640.) 
£ citado por Fr. LeSo de S. Thomaz. (a) 



(a) Beméictina Lusitana. Coimbra, 1644-1651, vol. u, pag. 42. 

S 



114 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

GABCIA (Francisco) — Viveu na segunda metade do século 
XYi. É conhecido como auctor de uma CoUecçSo de Missas, pu- 
blicadas com este titulo: 

Missas de vários Tonos. Lisboa, por Pedro Oraesbeck. 1609, 
foi. João Franco Barreto faz menção d'este author e da sua obra 
na Bibliotheca Portugueza manuscripta. 

GARCIA (Padre José Maurício Nunes) — Este compositor tem 
sido confundido por yarios authores com José Maurício; hoje 
está averiguado que são duas entidades distinctas. (a) 

Abbade, Cavalleiro da Ordem de Christo e primeiro compo- 
sitor da Capella Real do Rio de Janeiro, logar, que compartilhou 
com o celebre Marcos Portugal. 

Nasceu n'esta ultima cidade, a 22 de Setembro de 1767 e 
morreu a 18 de Abril de 1830. (b) Temos ouvido tecer os maio- 
res elogios a este artista por pessoas distinctas e entendidas. 

Entre as suas numerosas composições, distingue-se particu- 
larmente um Te-Deum cantado no Rio de Janeiro em 1791. (c) 
Balbi (d) diz que nunca sahira do Brazil, o que é mais uma rasão 
para admirarmos o seu talento. Este compositor possuia a collec- 
ção mais completa de musica que havia no Brazil, e mandava vir 
constantemente as melhores composições que appareciam na Alle- 
manha, Itália, França e Inglaterra. 

Garcia foi discipulo distincto do Conservatório do Rio de 
Janeiro, fundado pelos Jesuitas e destinado á educado musical 
dos negros. (Garcia era mulato.) 

E chegada a occasião de darmos aqui uma noticia a respei- 
to doesta curiosa instituição musical d^uma Sociedade religiosa, 
que no meio dos erros e vexames que commettia, acertava em al- 
gumas medidas. E Balbi (e) que falia: 

«Nous croirions n'avoir atteint qu'imparfaitement notre but, 
si nous ne disions ici en passant un mot sur une espèce de Con- 
servatoire de musique établi depuis long-temps dans les environs 
de Rio-Janeiro, et qui cst destine uniquement à fonner des nè- 
gres dans la musique. Cette institutiou est due aux Jésuites, aiusi 



os MÚSICOS PORTUGTJEZES ' 115 

que toutes celles établies au Brésil, avant Tarrivée da roi qui Be 
rattachent à la civilisatíon et à rinstruetion du peuple (?) (f) 

cCet ordre puissant^ qui était le plu8 riche propriétaire de 
cette vcute corUrée (! !) possédait une plantation de prés de 20 lieues 
d'étendue (M !) nomée Santa-Cruz; à Fépoque de la suppréssion 
des JésuiteS; cette propriété fát réunie^ avec tous les autres biens 
iimneublesy aux domaines de la couronne. Lors de rarrivée da 
roi à Rio de Janeiro, Santa-Cruz fut convertie en maison royale. 
Sa Majesté et toute la cour furent firappés d^étonnement, la pre- 
mière fois qu^elles entendirent la Messe dans Téglise de Saint- 
Ignace de Loyola à Santa-Cruz de la perfection avec laquelle la 
musique vocale et instrumentale était exécutée par des riègres des 
deux 96X68 j qui s'étaient perfcctionnés dans cet art d'après la mè- 
thode introduite plusieurs années auparavant par les anciens pro- 
priétaires de ce domaine, et qui heureusement s'y était conservée. 
Sa Magesté, qui aime beaucoup la musique, youlant tirer parti 
de cette circonstance, établit des écoles de premières lettres, de 
composition musicale, de chant et de plusieurs instrumcnts dans 
sa maison de plaisance, et parvint en peu de temps à former par- 
mi ses nègres des joueurs d^instruments et des chanteurs três ha- 
bites. Les deux frères Marcos et Simão Portugal ont composé 
tout exprès des pièces pour ces nouveaux adoptes de Terpsicho- 
re, qui les ont parfaitement executées ; plusieurs ont été aggré- 
gés panni les musiciens des chapelles royales de Santa Cruz et 
de San ChristovSo. Quelques-uns même sont parvenu à jouer 
des instruments et à chanter d'une maniire vraiment étonnante. 

cNous regrettons de ne pouvoir donncr les noms du premier 
violon^ du premier fagot et du premier clarinette de San Chris- 
tovSo, et de deux nègresses qui se distinguent parmi leurs com- 
pagues par la beauté de leurs voix et par Vart et Vexpression 
qu^elles deploient dans le chant. 

cLes deux firères Marcos et les plus grands connaisseurs de 
Rio de Janeiro en font le plus grand cas. Sa Magesté a assiste 
bien des fois à des cérémonics réiigieuses oíi toutc la musique a 
été exécutce par ses esclaves musiciens. 



lie os MDBIOOS PORTUGUEZES 

cSon Álteue Boyalo le Prince du Brésil, (mais tarde D. Pe< 
dro IV), qui possède des talents extraordinaires en musique, (g) 
qui compose avec autant de gout, que de facilite, et qui joue de 
plusieurs instruments, entre autres du fiigot, de la trombomie, de 
Ia fl&te et du violou, a beaucoup contribué à perfectiomier oet 
établissement, unique dans son genre, par Tencouragement qu'il 
domie à ces nègres et par les grâces qu'il leur prodigue. H n'7 a 
pas bieu longtemps qu'il a chargé les firères Portugal de compo- 
ser des Operas qui ont été entièremoit executes par ces Afii- 
cains, aux applaudissements de tous lef connaisseurs qui les ont 
entendus.» 

(a) Biograpkia de José Maurício (de Coimbra) por J. da Silva, Ar^ 
ehivo Pittoresco, voí. vn, n.- 208, 212, 224, 235 e 246. 1859. 

(b) Bioaraphia ou Elogio hiêtorieo d^eete compositor por Porto Ale- 
gre, na Bevtêta trimensal do Inatituto, toI. xet, pag. 354 — 378. 

(c) Gazeta de Lisboa, de 10 de Maio de 1791. 
fd) Eêêai êtatiêtique, yol. u, ocvm. 
íe) Ibid. ocxm-coziY. 

I Desejávamos saber, o que é que Baibi entendeu por : inHrtietum du 
peuptéf 

Como podia uma corporação religiosa que seguia a Dimaa: todoi oi 
meios são bons para chegar a um fim, como podia uma corporaçSo e de- 
mais corrupta mstmir um povo, senSo corrompendo-o ? e um povo ainda no 
berço da civilisaçâo, que precisava de uma mãe caridosa, e não dos affii- 
gos felinos de homens perdidos e de ministros indignos do nome que os- 
tentavam e que vilipendiarHJunf 

Que instrucção é essa, que ensina a ler um povo, e que lhe prohibe a 
leitura do primeiro livro que elle deve lêr, do livro da Verdade, do livro da 
Moral, do livro da Justiça, do livro mais sagrado que tem a Humanidade? 
• . .emfim da Biblia, mas da Biblia verdadeira ento da Bíblia retalhada t 
mutilada pela thesoura da mentira e pelos sophismas dos padres f Olhe- 
mos para o Norte, para a Lus, olhemos para a Gtermania, para a Sueda, 
Noruega, Inglaterra, Dinamarca, emfim para as terras por onde passou o 
soj^ro vivificador da palavra de Luthero e veremos em cada um d^esses 
paues um povo, contente, ami^ da Verdade, do Dever, do Trabalho. 

O dia encontra a Biblia suoerta e a noite fecha-se com a Biblia ; é ella 
a' ama de que queríamos fallar ; entreguem-lhe essa criança que se chama 
povo, para <}ue ella beba no seu peito o leite da Verdade. 

A Bibha catholica, a Vulgata, é falsa, está escrípta em IcUim e é cara; 
o povo é ignorante e é pobre. . . 

(g) A^e a sua biographia. 

GASPAR (Fr. Manuel) — Eremita de Santo Agostinho. Per- 
tence ao fim do século xvni e principio do actual. Dedicou-se ao 
género sacro, sendo as suas composiçSes estimadas. 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 117 

GAZDLLA (. . .) — Excellente trompista. Viyea em Lisboa no 
começo doeste século. 

Balbi cita também como artistas distinctos sobre o mesmo 
instromento mis irmãos N. N. 

GIL (Frei) — Ignora-se o appellido d'este compositor. Foi nar 
tmral de Lisboa e viveu no fim do século xvi e principies do xvn. 

Pertenceu á eschola de Duarte Lobo^ da qual foi um dos dis- 
cípulos mais distinctos, e regeu a capella do convento de S. Fran- 
cisco na Guarda. 

Machado (a) diz ter professado o instituto da Terceira Or- 
dem Seráfica da Penitencia e que passara para a Provincia da 
ObservaçSo de Portugal, exercitando em ambas estas corporações 
o logar de Vigário e Mestre do Coro, que elle regeu dignamente, 
velando por mna boa execuçZo que de todo se tinha descurado. 

Esteve também na Catalunha, porém ignora-se, se ahi exer- 
citou algum cargo. 

Morreu no convento de S. Francisco da Guarda em 1640. 

Deixou obras numerosas em Ms. As principaes sSo : 

l.)8 Missas de diversos tons que c(mstarii de diversas vozeê* 

2.) Psalmos de diversos tons. 

3.) Psalmos de Completas a 6 vozes. 

4«) Motetes a 4 vozes. 

(a) Btbl Lttèit.f roL n pag. 380. 

GIL VICENTE. — Poeta cómico portuguez, o mais original e 
o mais fecundo que até hoje temos tido. 

Os biographos d'este portuguez celebre, nSo concordam no 
logar do seu nascimento, que uns fixam em GuimarSes, outros 
em Baroellos e ainda alguns ha que dizem ser Lisboa a sua pá- 
tria. 

Esta ultima opiniSo parece ser a mais certa; deixamos en- 
tretanto aos verdadeiros biographos d'este homem illustre (que 
nés nSo o podemos ser senSo pelo lado musical) o cuidado de es- 



118 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

diarecer esta controvérsia que pouco importa para o fim especial 
com que escrevemos estas linhas. 

A familia de Gil Vicente era nobre, e o futuro poeta frequen- 
tou muito cedo a corte de D. João n, abrilhantando mais tarde 
os ser?^ da corte de D. Manoel e D. JoSo in; foi um dos per- 
sonagens mais estimados d'aquelle tempo, pelos seus dotes litte- 
rarioB e artísticos. 

Teve muito talento para a musica, pois sabemos que escre- 
veu composiçSes no estylo sacro, que foram ouvidas com applau- 
80 no seu tempo. 

O celebre Erasmus, estudou de propósito a lingua portu- 
gueza para lêr os Autos do fundador do nosso theatro nacional. 

As suas obras sSLo o mais vasto pecúlio para a historia dos 
nossos costumes Íntimos do século xvi e para a glossologia por- 
tugueza. 

Era elle quem representava os seus Autos e o que compunha 
a musica das AríaSj Vilhancetes e Enselaãas com que no velho 
Theatro costumavam sempre terminar as peças. 

No auto da Syhilla Cassandra^ representado em 1503, vem 
a seguinte rubrica: 

Acabada assi sua adoração, cantaram a seguinte cantiga, 
feita e ensoada pelo author. 

E no Auto da Fé, representado em 1504, termina com a in- 
dicação : 

Cantam a 4 vozes uma enselada que veiu de França (I) e assi 
se vão. • . 

No Auto dos quatro Tempos, representado em 1505, também 
sele: 

Até chegarem ao presépio vão cardando uma cantiga fran- 
eezas etc. 

Por estas citaçSes (a) se vê que Gil Vicente, além de ser 
compositor, conhecia também a musica estrangeira, que introdu- 
ziu nos seus Autos, 

Também devia ser coreographo entendido, para combinar 
as danças com que as suas peças acabavam. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 119 

Nas rubricas dos seus Autos encontram-se innumeros factos 
que attestam o seu trabalho musical, que nem sempre consistia 
na melopêa ou tonadilbas populares, mas em cantos a 4 vozes, 
acompanhados de instrumentos ou a canto de órgão. 

Os Autos d'este poeta se fossem hoje representados, facil- 
mente se aparentariam, fazendo-se-lhes algumas pequenas altera- 
ç8es, com o género das Zarzuellas. 

Este grande homem que fundou e creou o nosso Theatro na- 
cional, era também um politico convicto e um dos poucos homens 
que em Portugal se levantaram a favor da secularisaçSo da so- 
ciedade. Foi o primeiro que combateu a odiosa ambição do dero 
e também um dos que primeiro pressentiu o movimento da Re- 
forma. 

Ainda ao certo se nSo sabe a data da sua morte; diz-se que 
fallecêra em Évora em 1536, para onde tinha acompanhado a 
corte. 

Foi sepultado no convento de S. Francisco da mesma cidade, 
com o seguinte epitaphio, que elle mesmo compozera, e que se 
encontra nas suas obras: 



O grSo Jni20 esperando 
Jazo aqtii n'esta morada 
Também da vida cançada 
Descançando. 

Perguntas-me, qnem fui eu? 
Âttenta bem para mi, 
Por que tal fui como ti, 
E tal hasde ser como eu. 
E pois tudo a isto vem 
O Leytor, do meu conselho 
Toma-me por teu espelho 
01ha-me| e olha-te'bem. 



(a) Ohroà de Gil Vicente, por J. G. Monteiro e J. V. Barreto Feio, 
VoL X, pag. 61, 75 e 92. EdiçSo de Hamburgo, 1834. 



12Ò OS MUSÍCOS PORfUGÚÈZBâ 

Yicente Paulá — Fillia do nosso gfa&dé poeta 6omico Ôil Vi- 
cente e de sua mulher Brimca Bezerra. 

Segundo a tradiçSo repetida por todos os escriptorés, eôUá>' 
borava com seu pae nos Autos representados na corte de D. Ma* 
noel e D. JoSo iii. 

Barbosa Machado, (a) diz que se perdeu um Livtò de C<h 
mediai que escrevera. 

Por documentos officiaes, (b) sabense que eitk 1571 era Moça 
da Camará da Infanta D. Maria. 

No livro da Casa da Rainha Dona Catharina, apparéce ó 
home de Paula Vicente com o assentám^to de Tangedora. (c) 



(a) BibL Luê., artigo JPaula Vicente. 

(b) PriTilegio de 3 de Setembro de 1571, coneedbndo-lhe % ][)roprieda- 
de exclQsiya das obras de seu pae. 

(c) Juromenlia, Obrcu de Camões^ yol. i, pag. 22, dis que a palavra 
Tangedoray indica c Mestra das donzeUas» (?) 

OIORDANI (Caetano) — Professor violinista e diefe da o^cht^ 
tra do Theatro de S. Carlos em 1821. 



GIORDANI (João) — Irmão do precedente e professor de Vio- 
loncello, Violeta e RabecSo no Conservatório de Lisboa. Morreu 
em 1858. 

As suas composiç3es sacras sBo á Cueírkiro; foram appUu- 
didaS) já se vê; o vulgo acaricia as nullidades. 8imilia cum simu 
libtis. . . 

Fr. José Marques qualificava-o mui justamente: Musico de 
agua doce. Giordani foi também 1.^ Violoncello do Theatro de S. 
Carlos, Mestre da Capella da Patriarchal e predecessor de Casi* 
mirO; seu digno coUega. 

GLORIA (Catharina da) — Religiosa dotada de uma voz que 
Fr. Manoel da Esperança, (a) no fogo do enthusiasmo, classifica de 
angélica; tal era a sua perfeiçSo e suavidade» 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 121 

Séria betn bom sàber-sé até onde chegaram as ideiad musi- 
cães do nosso frade, para reduzirmos esta dassificaç&o hyperbo- 
Uea ás proporçSes da Terdadeira critica. 

(a) HUtúria Serafica^Uithotk, 1666-^1721, ToL i psg. 602. 

GLORIA (Fr. Gabriel da) -^Natural de Cucunha, cabeça do 
Oovto do Mosteiro de Santa Maria de Salcedas da Ordem de S. 
BemardO) cajo instituto professou a 4 de Janeiro de 1663, no Con* 
Tento de S. JoSo de Tarouca. 

Estudou Theologia em Coimbra, foi Âbbade do convento de 
Aguiar em 1684 e ultimamente Qeral da sua CongregaçSo em 
1699. Compois: 

Vtlhaneieoê para as Festas de Christo, Nossa Senhora e 
Samtoe quê se edd^am no Real Mosteiro de Alcobaça. Ms. 

GÓES (Damião de)— ^Nfto é intençSo nossa apresentar aqui 
uma biographia completa doeste pprtuguez illustre ; a indole does- 
te livro nSo nol-o permitte, e além d^is^o, quem quizer conhecer a 
vida d'este homem celebre pôde encon^ar facilmente a sua bio- 
graphia &sk qualquer livro especialista. Limitar-nos-hemos pois a 
Gonsideral-o aqui só debaixo do ponto de vista musical, dando ao 
mesmo t^npo a sua biographia resumida. 

Becommendamos entretanto aos estudiosos a leitura da ex-* 
ceUente biographia de Lopes de Mendonça a respeito da vida re- 
ligiosa e philoBophica de DamiSo de Góes. 

Nasceu em Alemquer em 1501 da familia mui distincta de 
Raf Dias de Gh>es e Isabel Lini, sendo baptisado na egreja ma- 
triz de Nossa Senhora da Várzea. 

Depois de ter estudado diligentemente com mestres distin- 
ctos c(»npletou os seus estudos na entSo celebre Universidade de 
Pádua. 

Nomeado por D. JoSo m e D. SebastiSo, sucessivamente 
embaixador de Portugal na França, Itália, Suécia, Polónia, Dí- 
fiamarca, e junto á corte de Roma, ganhou com as suas excellen- 



122 OS MUSICX)S PORTUGUEZES 

tes qualidades a affeição de vários reis e do papa Paulo m, que 
era também seu amigo particular. 

Depois de 14 amios de viagens fixou a sua residência em 
Lovania (Paizes Baixos) aonde viveu até 1542 ; tendo tomado par- 
te activa no cerco posto a esta cidade^ n^este mesmo anno pelo 
exercito francez^ foi feito prisioneiro e conduzido a França d^onde 
sahiu resgatado só por 2:000 ducados. 

Durante as suas viagens tinha começado a publicação de al- 
gumas das suas obras, como a Historia do primeiro e segundo 
cerco de Diu, a Desc7npção da Embaixada ao Preste Joãoj im- 
pressas em Lovania, Colónia e Pariz. 

Chamado a Portugal por D. João m, foi nomeado em 1546| 
Guarda-Mór da Torre do Tombo, e pouco depois Chronista-Mór 
do Reino. Esta nomeação é contestada por alguns escriptores. (a) 

Em algumas viagens que fez pela Allemanha, relacionou-se 
com muitos sábios doesta nação e principalmente com o celebre 
Erasmus e Glaréan, e foi nas conversações com este ultimo em 
Friburgo (Baden) que teve occasião de lhe mostrar os seus profun- 
dos conhecimentos musicaas. 

A amisade constante que uniu desde então estes dois homens 
até á morte, é tuna prova de respeito e consideração mutua entre 
estes dois amigos. 

Para avaliar bem o mérito artistico de Góes, basta dizer que 
Glaréan (b) não duvidou incluir no seu Dodecachordon (c) um 
Motete de Góes : Ne laetaris inimica mea, a 3 vozes, (d) que Fé- 
tis (e) diz estar bem escriptOy no estylo de Josquin Deprès (f) e 
que tem só o defeito de alguma nudez na harmonia. 

Este defeito além d^isso, não é só de Góes, mas também 
particular a outros compositores da época. 

Mais adiante diz o sábio critico belga: 

^Ses études dans la musique avaient été ceUes qu*av/rait pu 
faire un rnaitre de chapelle. II jov>ait bien de plusieurs irisitrur 
ments.'» 

Góes também cantava as suas composiçSes. 

Esta escolha que Glaréan fez, unindo no mesmo livro o nome 
de Góes aos de Okeghem, à'Obrecktj de Josguin Deprls e d'outros, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 123 

prova bem a consideração em que o musico portuguez era tido 
pelo sábio de Glaris^ que Fétis classifica como wai dos authores 
que exposeram a theoria da Musica com mais clareza e saber, no 
século xvi* 

Mais adiante, a pag. 22, escreve : il (le Dodecachorãon) offre 
la preuve la plus complete du profond savoir de Glaréan dana 
eet art. Tout y eet traité avec ordrè, méthode et Vesprit d'analy8e 
y hrille à un haut degré, 

Glaréan (h) diz mais, &llando de Góes: in componendis 
Symphoniis magnas artifex^ et a cunctis doctis viria amatua plw- 
rimum. 

O Catalogo da Bibliotheca musical de D. João iv (i) indica- 
va muitas composiçSes de Góes, que n'ella existiam. 

Machado (j) diz que estas obras eram muito apreciadas em 
Portugal, onde eram executadas nas principaes egrejas do reino; 
estavam na Estante 21, n.^ 592, e consistiam principalmente em 
Motetes a3y4, 5 e6 vozes. 

No raríssimo livro: Cancionea aeptem, aex et quinque vocum (k) 
encontra-se um outro Motete de Góes. 

Deixou também um Tratado theorico da Musica, citado pe- 
lo Cavalheiro d'01iveira. (1) 

Um homem de intelligencia tão elevada, tão sábio e tão lison- 
geiramente acolhido pela melhor sociedade do século xvi, não po- 
dia escapar á inveja dos Inquisidores, que pelos meios mais torpes 
e indignos alcançaram a confiscação dos seus bens e o seu degre- 
do, que por muito favor ioi cumprir no convento da Batalha, (m) 

Ahi morreu em 1573, (n) assassinado (segundo a opinião 
verdadeira) pelos esbirros da Inquisição, que no seu trafico infa- 
me de vidas e de mortes ainda pôde encontrar um punhal para 
aquelle nobre peito. 

Resende dedicou a este homem illustre o seguinte epi- 
gramma: 

Elige estro na vis horom te nomine dici 
An Phoebi, an Orphei dulcis uterque modis. 
Aut (si non Bpemisgenua) a qno Musica primam 
Inventa est nobis sis Damiane Tubal. 



124 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

O povo que ama os caracteres Tivamente acoentoados e que 
tem por instincto a tendência de consubstanciar em um nome as 
qualidades dominantes que caracterisam um indiriduO; dava a 
GK)es a alcunha de — Musico. NSo podia deixar de ser assim; a 
qualidade de musico^ era a que mais lhe saltava aos olhos; o po- 
vo d^aquelle tempo nSo podia comprehender GK)es, como Historia- 
dor e Sábio, porque era ignorante e rude, mas podia imaginal-o 
musico, 

A ignorância nSo exdue o sentimento. 

Para maior gloria d'este nosso celebre compatriota citaremos 
as palavras do notável historiador e critico allemSo Gerber, (o) 
que abre a biographia de Góes com as seguintes palavras que tra- 
duzimos textualmente : 

Este homem qvs era comparado com os maiores compositores 
do seu tempo, merece uma noticia mais extensa do que aqueUa que 
inserimos no outro Lexicon^ etc. (p) 

Ás qualidades de politico profundo jxmtava as de homc^pi da 
mais fina educação. Cantava muito bem, escrevia versos e pu- 
nha-os em musica, alcançando assim a estima dos sábios e homens 
illustres. 

Ha muitos retratos d'este author e artista* Citamos os me- 
lhores : 

1.) No Theatrum virorum eruditione. clarorum. 16SSy foL 
Pintura de E^raft, gravura de Glume, formato 16.*^ 

2.) Outro retrato tn-4.® ÍLraft, pinx. Glume, sculpsit. 

3.) Elogios de Donas e Varões illustres da Nação Porh^ 
gueza, Lisboa, Imprensa Regia, 1806, in-4.® 

4.) Universo Pittoresco. Imprensa Nacional, 1842, n.** 16 ; 
bella lithographia de P. A. Guglielmi. 

5.) GoeSy A. Duerre se. in-4.° 

(a) Fr. Manuel de Ti^eiteáo, Dissertação para apurar o catalogo dos 
Chronistas Mores, I. da Silva, Dicc, BibL, vol., n, pag. 123. 

(b) Poeta, philosopho, mathematico, tustoriador e musico. 

Foi um dos homens oue mais trabalharam a favor das Sciencias e 
das Artes, no século xvi. Nasceu no Cantão de Glaris (Suissa). 

(c) Glareani, Dodeoachordon^ Basilae, per Henrichum Petri mense sep- 
tem ftono Virginis partum mdzlvu, folio. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 125 

(d) Encontra-se também em : A general HUtory of the seience andpra- 
eUet of Music. Londoo, 1776, (5 vofí, vol. ii. 

Oí\ Biogr. Univ.y vol. iv, pag. 46. 

(f ) Um dos maiores compositores do fim do xt século; discipulo do ce- 
lebre Jean Ockeghem, nascido na Bélgica, condado de Hainaut. Ignora-se 
a data precisa do seu nascimento que se colloca entre 1450 e 1455. Primei- 
ro, Mestre de Capella na Cathedral de Cambrai, depois Chantre da capella 
pontifical de Sizto tv e ultimamente Decano da egreja de Notre-Dame de 
Conde. Morreu a 27 de Agosto de 1521. 

(e\ Biogr, Univ., vol. iy, pag. 20. 

ínj Vide Dodtcctchordon. 

(i) Indtx ou Catalogo da Bibliothtca Rtal da Munea, Lisboa, por 
Fedro Craesbeck, 1649, in-4.* gr., l.« Parte. 



n^ Bibl, Lusit,, Yol. I, pag. 617. 



Candoneê septem, sex et quinque vocum. Longe graviêêinuB jttxta 
oc cunenissima» in Germânia tnctxime Kactenu» typis non excuaat. Au^stos 
Vindelieorum, Melchior Kriestein excudebat anno 1545, peq. in-4.° obl. 

As outras composições que se encontram n'este livro s&o de : Dietrich, 
Maiêtre Jean^ Adrten VilUiert, Josquin Deprhê, Lnipi, Noé Clattdin, TiU- 
mann Susato, Consilium, Benedict, Johannis Hengel, Morales, Jorius^ 
Wènder, Tkomas Crequiãon^ Herdin, Jacquet e de vários anonjmos. 

A) Vide as suas obras. 

(m) O motivo doeste processo indigno foi a suspeita de connivencia 
com o partido reformador da AUemanha, com cujos chefes (Luthero, Me- 
lanchton e Calvino) se tínha relacionado na AUemanha. 

(h) A respeito da data do seu fallecimento reina grande confusão: 
BarboÁa Machado (BibL Lusit. tem 1567, Fétis. Biogr, Univ,, vol. iv, pag. 
46, traz 1560 ; e Hawkins, A general History of the seience and practice of 
Music, London, 1776 (5 vol. m-4.») voJ.ii, indica até 1590 (!) 

A data mais provável é a que indicamos. 

(o) Hisi, biogr, Ltxicon de TonJninst., vol. ii, pag. 351. (sic) Dieser 
Mann, der zu seiner Zeit den groeszten componieten gleich geschaetzt tcur- 
dCj verdient den Musikfreunden bekannter zu sein, ais er, etc . . . ' 

Er sang sehr gut, schrieb Verse und setzte sie selbst in MusiJc, etc. 

(p) Hist, biogr, Lex., vol i, pag. 521. 

GOMES (João)— Natural. de Veiros (Alemtejo). Foi Thesou- 
reiro-Mór e Musico da Capella Real de Villa Viçosa, onde mor- 
reu em 1653. 

Sahiu da eschola de António Ferro e foi mn professor e com- 
positor distincto. 

Compôz : 

Diversas obras de Musica, Ms. na Bibliotheca musical de 
D. JoSo rv. 



126 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

GONÇALVES (João) — Natural de Elvas e musico da Catho- 
dral de Sevilha; deixou algumas composições manuscríptas indi- 
cadas no catalogo da Bibliotheca real da Musica. Viveu no seca- 
lo XVI. 

GOUTÉA (Francisco Mendes de) — Foi um dos discípulos dis- 
tinctos da celebre eschola de Manoel Mendes. 

Ignoramos todas as demais circumstancias da sua vida. 

GUEVARA (Francisco Vellei de)— Filho d'uma fiunilia dia- 
tincta. Viveu no século xv e escreveu: 

De la RecUidad y experiência de la musica. 

Machado (a) diz que esta obra fora impressa^ porém nSo in- 
dica^ nem a data, nem o logar de impressão. 

(a) BibL Lunt,y vol. ni, pag. 765. 



I 



INFANTE (Dom Luiz)— Príncipe portuguez, filho de El-Rei 
D. Manoel. 

Nasceu na villa de Abrantes, a 3 de Maio de 1505, e mor- 
reu a 27 de Novembro de 1555. 

Acerca do seu talento musical diz Costa e Silva (a) : 

O infante Dom Luiz professou a musica com muita pericia, 
tanto vocal como instrumental e ajudando o conhecimento gue ti- 
nha do contraponto com o seu grande saber em Mathematica, pny- 
duziu algumas composições que foram muito applaudidas, 

A auctoridadc cm que se basea a asserção de Costa e Silva, 
é o que do Infante Dom Luiz, escreveu Pedro Nunes, (b) o nosso 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 127 

celebre mathexnatico: strenuissimum se prebuisset ntsi inter missa 
studia revocasset Arithmetieam^ Geometricam, Musicam et As- 
trologiam nisi precaluisset, et vero rmnc reliquarum Scienciarum 
omamenium animum excolere non eessat . . • 



8 



á) Ensaio hiographieo-critico, yol n, pag. 328. 
Carta a Dom João nz. 



j 



JERONTHO (Fr. Francisco de Sam) — Mestre de Capella no 
mosteiro de Belém, onde professou a 25 de Novembro de 1728. 

Tinha nascido á 4 de Março de 1692 em Évora, de Paschoal 
da Silva Garcia e Maria Rodrigues da Silva, e ainda vivia em 
1747, segundo a opinião do Bispo-Conde; aprendeu a Musica na 
Cathedral da sua pátria com o compositor Vaz Rego, e distin- 
guiu-8é pela habilidade com que compunha musica sacra para 
grande numero de vozes. 

As suas composições ficaram manuscriptas e eram: 

1.) Besjponsorios das Matinas de S. Jeronymo a 4 coros com 
todo o género de instrumentos. 

2.) Besjponsorios ãus mesmas Matinas a 4 vozes de Estante 
sobre o Cantochão, 

3.) Besponsorios da Semana Santa. 

4.) Besponsorios das Matinas do Evangelista S. João que 
se cantaram no convento de Évora dos Cónegos seculares do Evan- 
gelista, no jubileu secular d' este santo. 

5.) Missa a 8 vozes obrigadas; Fétis (b) classifica esta com- 
posição: ouvrage d'un gr and mérite, 

6.) Te-Deum Laudamus fundado sobre o Cantochão, 



128 OS MÚSICOS PORTUODEZBS 

7.) Hymno do E$pirito Santo j S. Jeronymo, Santoê Marty- 
reê e Confeseores a 4 vozes sobre o Caniochão. 

8.) Psalmos de Vésperas e Completas a 8 vozes, 
9.) Motetes e Vilhancicos para diversas (^c^oftS^f. 

(a^ Lista etc.y pag. 46. 

(b) Biogr, í/htv., vol. ir, pag. 441. 



JERÓNIMO (Roque) — Artista portuguez^ que servia no thea- 
tro de S. JoSo (a) em 1820 como cravista e sub-director da or- 
chestra dirigida então por José Francisco Edolo. (b) 

Devia ser um musico mui apreciável, e segundo entendemos 
basta a escolha que o consciencioso Edolo fez d^elle, para o acre- 
ditar. 



fa^ Programma do empresário F. NicolinS, j& por veies mencionado. 
(b) Vide a soa biographia. 

JESUS (Fr. António de) — Religioso trinitarioi natural de 
Lisboa. 

Ainda muito novo entrou na celebre eschola de Duarte Lobo, 
onde estudou assiduamente. Os seus conhecimentos musicaes va- 
leram-lhe a sua nomeaçSo de Lente de Musica na Universidade 
de Cíoimbra, que teve logar a 27 de Novembro de 1636; occupou 
este cargo até á sua morte a 15 de Abril de 1682* 

Foi muito estimado por D. JoSo iv e morreu em Coimbra, 
onde jaz sepultado na egreja dos religiosos trinos com este honro- 
so epitaphio: (a) 

Fr. Antomus a Jesu 

]tf usicus Academicus professor 

Vir religiosíssimas, 

Et zelo divini cnltos ardentissimns 

In quo, et sablevandis panperibus 

Totum Cathedrae stipendium consummebat 

Obut 15 Aprílis, 1682. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 129 

Ennumeramos as suas principaes composiçSes que estavam 
na Biblíotheca musical de D. JoSo iv; eram: 

1.) MUm do 1.^ Tom a 10 vozes. 

2.) MisM a 12 vozes. Estante 36, N.<> 805. 

3.) Duas Missas a 8 vozes. Estante 36, N.^" 805. 

4.) Dixit DominuSf do 8.^ Tom, a 12 vozes. Estante 34 , 
N.<» 793. 

5.) Um Vilhaneico d Natividade de Nossa Senhora; a lettra 
é de D. Francisco Manoel de Mello, (b) 

(a) Caatro, Mappa de Portugalf vol n, pag. 346, qualifica-o de pro- 
fessor estupendo (!) 

(b) Obras métricas^ Avena de Terpsicbore, Tono 26, pag. 70. 

JESUS (Frei (tabriel de) — Monge cisterciense no mosteiro 
de Alcobaça, onde professou a 21 de Abril de 1676. 

Foi bom harpista, excellente organista e muito versado 
no Contraponto. 

Tinha nascido em Leiria em 1650, pouco mais ou menos.' 
Morreu em 1708. 

A sua obra principal sSo: lõ Motetes da Via-Saera com as 
lettras da Escriptura Sagrada^ competentes a cada estaçSo. 

Estes Motetesy escriptos em estylo nobre e austero, canta* 
vam-se no convento de Alcobaça. 



JESUS (Ignes do Menino) — Cantora religiosa mui celebre 
no seu século. (1630) 

Era considerada como um prodígio (!) pelos seus contempo* 
nineos. 

Fr. Manoel da Esperança exprime-se a seu respeito da se* 
gointe maneira: (a) 

cFoi esta Religiosa na brandura e muita suavidade, com 
que cantava um verso, o assombro do seu tempo, e quando se 
disia que cantava, nilo cabiam na egreja os que a vinham ouvir. » 



(a) História seráfica^ vol. j, pag. 602. 
9 



130 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

D. JOÃO IV — A historia doeste príncipe todo o portuguez a 
conhece ou deve conhecer; agora* o que muito poucos sáberiU), é 
a extraordinária actividade que desenvolveu a favor de uma 
ArtC; que mais do que nenhuma outra contribuo para a civilisa- 
çSo dos povos, e que foi enthtmaaticamente cultivada n'esta terra, 
e nobremente protegida por homens, que alem de reis, eram ar- 
tistas, o que vale bem mais ! 

As cordas compram-se muitas vezes com o sangue de niji 
povo e vendem-se depois pela sua honra; ha muitos exemplos 
d'isso. O GÉNIO não tem preço. 

Nasceu em Villa- Viçosa a 19 de Março de 1604 e morreu 
em Lisboa a 6 de Novembro de 1656, sendo sepultado no con- 
vento de S. Vicente de Fora. A educação esmerada que teve, 
avivou-lhe mais o gosto nascente da Musica; assim foi que alcan- 
çou com a lição de Mestres sábios uma erudição vasta e um gosto 
distinéto, qualidades que se revelam nas suas obras theoricas e 
nas suas composiçSes. 

Animado por uma. ideia grandiosa, e agradecido aos artis- 
tas que honravam o seu paiz e que elle protegia com a generosi- 
dade e amisade de um irmão, fundou a Bibliothecâ Real da 
Musica, onde se haviam de archivar as obras dos grandes compo- 
sitores nacionaes e estrangeiros e onde os músicos portuguezes po- 
deriam encontrar todos os subsídios necessários para os seus es- 
tudos. 

A Bibliothecâ surgiu e povoõu-se com as obras primas da 
Arte desde o meado do século xv; a riqueza doesta immensa col- 
lecção era extraordinária e vê>se pelo Catalogo d'ella, impresso 
em Lisboa por Paulo Craesbeck, 1649 (a), que contém 521 pag. 
in-4.^ gr. ; note-se bem, que era só a i.* Parte (b) do Index, como 
diz Machado; (c) sabe Deus quantas seguiriam ainda! 

Platão de Vaxel (d) diz que esta Bibliothecâ estava encerra- 
da em 40 caixas ; mas então como se explica a existência das Es- 
tantes que Machado menciona, (e) e onde as musicas apparecem 
collocadas por números? 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 131 

Demais; como é que poderiam caber em 40 caixas as musi- 
cas que enchiam mais de 60 Estantes, cada uma com 700 a 800 
Números? Para que serviam ellas? Confessamos que nunca nos 
veiu á ideia a coUocaçSo de uma Bibliotheca musical em caixas. 

Conjunctamente com as composições dos músicos portugue- 
ses, tinha D. João iv mandado coUocar os retratos dos composi- 
tores nacionaes mais distinctos, nSo sabemos se até os dos estran- 
geiros. 

O terremoto acabou em poucos instantes com tudo ! 

Que perda immensa para a Arte I Foi o golpe mortal dado 
na nossa Historia artística e que, até certo ponto, foi causa do pro- 
fundo esquecimento em que têm ficado sepultados os nomes glo- 
riosos dos nossos artistas. 

Se a Arte portugueza perdeu com este triste desastre, quan- 
to nSo perderia a Arte em geral. 

Quanta obra prima de compositores estrangeiros, quanta pé- 
rola preciosa n2o se perdeu conjunctamente com aquellas que 
eram nossas! 

As providencias que então se deram, nada dizem da celebre 
Bibliotheca de Musica; folheamos muito livro para isso, foi tudo 
em ySo! 

Devemos pois tirar a triste conclusão de que tudo se perdeu ! 

Fechamos depressa esta desoladora noticia, porque é um de- 
ver bem penoso e bem duro, aquelle que nos obriga a escrever 
estas linhas. 

D. João IV teve vários Mestres ; em quanto Duque de Bra- 
gança, foi discípulo de João Lourenço Rebello, (f) e depois, de 
Boberto Tomar, (g) O Discipulo honrou os seus mestres; as pro- 
vas s3o os seus livros e as suas composiçSes, que passamos a men- 
cionar. SSo: 

1.) Defensa de la Musica moderna contra la errada opinion 
dei Obispo Cyrillo Franco. Al seííor Juan Loreço Rabelo, Portu- 
guês de Tiacion, Fidalgo de la casa dei Sereníssimo Rey D. Juan 
d Quarto de Portugal, Commendador de la encomienãa de S. 
Bartholomé de Rabal, de la Ordem de N. S. Jesu Christo, y as- 



13Í OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

êistente en d permeio dei mismo Sefíor. Lisboa, 1649 (h) in-4.® 
de 56 pag. Esta obra foi publicada anonjona. (i) 

Baptista de Castro (j) dá o titulo d'ella em português e 
diz que fôra impressa em Roma. I. da Silva (k) classifica isto 
de engano; talvez que assim seja, mas também pôde ser que fos- 
se uma edição portugueza, feita em Roma a que Castro consultou, 
o que nSo é impossível, visto terem estado pouco antes da aocla- 
maçSo de D. João rv e mesmo depois d'ella, vários compositores 
portuguezes na capital da Itália, que se teriam n^este caso encar- 
regado da ediçSo. 

Devemos também crer que Castro nSo affirmou a ediçSo de 
Roma só por vontade de phantasiar, porque declara terminante- 
mente: (1) que a viu, sic: il/elle (D. JoSo rv) vi o tratado da 
Defensa da Musica impresso em Roma, sem expressar anno, nem 
nome d'autor, porém trazia em seu louvor vm Soneto acrosti- 
CO» etc. 

Esta obra foi muito elogiada por Frovo, (m) D. Francisco 
Manoel de Mello (n) e outros, e traduzida em italiano com o ti« 
tulo: 

Difensa delia musica moderna contra le false opinioni dei 

Vescovo Cirillo Franco, tradotta di Spagnuolo in italiano, sem 

data, nem logar de impressão. SuppSe-se ter sido publicada em 

Veneza, visto ter a gravura do titulo a assignatura C DoUetta 

fecit in Venetia. 

Os exemplos de Musica, que se encontram no fim da ediçlo 
original, foram supprimidos em alguns exemplares da traducçSo. 

Forkel (o) enganou-se, affirmando que este livro trata da De- 
feza da musica antiga, quando succede exactamente o contrario. 

O sábio musicographo allemSo incorre em outro erro, quan* 
do dá a data de 1666 para a tradução italiana, e affinna que fiSra 
impressa em Perugia. 

A opinião de Cyrillo Franco, Bispo de Loretto, que morreu 
em Roma com a dignidade de Commendador e Administrador do 
Hospital de S. Spirito in Sassia, tinha sido emittida em uma car- 
ta (p) dirigida por este prelado ao seu amigo o cavalleiro Ugoli- 
no Gualteruzzi. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 133 

O bispo itijiano, depois de mencionar os elogios qne foram 
concedidos á musica antiga, declara-se calorosamente contra a 
musica moderna^ criticando-a amargamente e dizendo que tinha 
perdido o poder de mover a alma, etc. 

D. JoSo ly, partidário zeloso da Musica moderna, sahiu a 
campo, combatendo, é verdade, um pouco tarde já, em defe- 
za d'el]a. O seu livro mostra muita erudiçSo musical (q) e acaba 
com três exemplos de Musica a 4 partes, sem nome d'author; tal- 
vez sejam do próprio D. JoSo iv. 

Ofierecemos ao leitor a seguinte analyse da Defensa de la 
muêica, como tributo justo á reputaçSo do seu author o ao mérito 
intrinseco da obra. 

ANALTSE 

D. JoSo IV dedicou o livro a JoSo Lourenço Rebello, como 
flignal de estimação pelo seu talento e pela valia de umas compo- 
siçSes que Rebello lhe offertára; constavam de Missas, Psalmos, 
VilhancicoSj Motetes, etc. 

Analjsaremos primeiro a carta do Bispo e os seus argumen- 
tos e depois as respostas de D. JoSo rv, para decidirmos no fim 
a favor de quem estiver a justiça. 

CyriUo abre a sua carta a Messer Hugolino Gucdteruzzio, 
narrando os fabulosos effeitos da musica antiga, especialmente da 
grega. 

Conta-nos as historias milagrosas dos Modos Phrygio, Ly* 
dioj Dorio e Mixolydio. 

Ao Modo Phrygio attribue a guerra entre os Lacedemonios 
e 08 Cretenses, porque um musico que tocava este Modo, fôra ex- 
citar uns e outros. 

Este mesmo Modo, tocado diante de Alexandre o Grande, e 
dos seus officiaes, excitou de tal forma um d^elles, que o levou a 
puxar da espada contra o seu príncipe, etc. 

O Modo Lydio produzia um effeito contrario e acalmava a 
ira e a cólera excitadas pelo Modo Phrygio. 



134 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Em abono do Modo Dorio, cita o facto de ter o Rei Agam- 
memnon deixado janto a sua esposa Clytenmestra o musico Do- 
ria (d'onde vem o nome d'este Modo) que com seu canto havia 
de afugentar d'ella as ideias más e incutir-Ihe gravidade, modés- 
tia e virtude. 

Emfim fallando do ultimo Modo, o Mixolydio^ attribue-Ihe o 
effeito de produzir Plantos, gritoê y lamentos. 

D. JoSo vi começa pela refutaçSo (o que nSo lhe deu muito 
trabalho) de todas estas fabulas pueris^ que todavia ainda no 
, tempo do Bispo, encontravam muitos ouvidos crédulos! 

Áccusa-o em primeiro logar de nSo ter definido bem os Mo- 
dos que menciona, porque o Modo Dorio, em contrario do que 
diz o Bispo, dá: seso y razon e o Modo Lydio é choroso e me- 
lançholico, próprio de mugercillas, que en las perdidas gritan, 
lloran y se lamentan. 

Emfim o iExolydio nSo proáuzisi planios, gritos e lamentos, 
como diz o Bispo, mas era altivo, e provocava á grandeza; ora 
era triste, ora convidava á alegria, isto é participava dos Modos 
Lydio e Dorio. 

O Bispo desculpa-se de nSo ter o Modo Dorio produzido o 
, eíFeito desejado em Clytemnestra, dizendo que iBgisto só a sedu- 
zira depois de ter matado o musico Dória. 

D. JoSoiv responde maliciosamente: €qiMndo Agamemnon 
ledexó el Musico ya el sabia quien ella era; y el musico se presu- 
ma (sin ser juyzio temerário) que podia servir mas que de cantor 
a Clytemnestra. 

Com a mesma malicia explica o real escriptor o caso succe- 
dido entre o Rei da Dinamarca e o soldado que elle matou, de- 
pois de ter sido excitado pelo Modo Phrygioy dizendo que: <£n 
estas tierras otra cosa mueve mas que la musica, y yo me holgára 
de saber, quando tanto se enfureció, que horas eran (!) 

O Bispo confundiu esta anedocta com a que referimos aci- 
ma : de Alexandre e do seu official, trocando uma pela outra. 

Cyrillo Franco deseja musica appropriada a cada um dos gé- 
neros da musica ecclesiastica, Kyries, Agnus Dei, Gloria, Cre- 
do, JSanctus, Pleni sunt, Psalmos, etc. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 135 

I 

Queixa-Be da falta d'e8ta concordância e do8 títulos extrava- 
gantes que alguns compositores punham nas su^ composiçSes^ 
citando a celebre Missa de Josquin Deprès: HerctUes, Dux Fer- 
rari(B (r) e & àe: El Hombre armado. 

A falta de propriedade na musica sacra e d'alii o seu pouco ef- 
feito, nota elle também na musica profana, exceptuando apenas 
a Pavana (s) e a Ocdlarday (t) a cujo «son tanto que lo oyen 
aquellas galantes mugercillas de la puerta San Roque, comiençan 
a bailar, como si sentieran el Dythrambo de Bacco.» (u) 

O Bispo entende mesmo que a Qullarda e a Pavana se fa- 
çam «quanto mas brincac^s e çapateadas, hasta que los mismos 
bancos, sillas y bufetes se metan a baylar.» 

D. Jo2o IV concorda que é necessário para o bom effeito da 
musica religiosa, que cada género tenha um estylo appropriado, 
nega porém que á Musica moderna falte essa condição. 

Diz que é injusto lançar em rosto aos compositores o esco- 
lherem tal ou tal titulo para as suas obras, pois ninguém vae ÍBr 
zer juizo d'ellas 2>6Zo iitxdo. 

Demais este uso era uma homenagem á pessoa a quem a 
obra era dedicada, e dava logar a bellas combinações harmónicas, 
que exigiam muito saber e talento, (v) 

Esta explicação que D. João iv dá é verdadeira, e tanto 
assim, que querendo o papa Marcello extirpar o uso da musica 
de egreja, sob o pretexto de que já não preenchia a condição para 
que tinha sido creada, Palestrina levantou-se com toda a sua con- 
sciência de catholico e com toda a authoridade de um homem de 
génio, contra semelhante resolução, dando até o exemplo, escre- 
vendo trez admiráveis Missas a 6 vozes e entre ellas a mais ex- 
plendida de todas as suas composiçSes a: Missa Papas Marcelli, 
dedicada a Paulo iv. 

Já se vê, que a ideia infeliz que o Papa Marcello tivera em 
um momento de mau humor, foi abandonada immediatamente. (w) 

Contra as razSes que o Bispo apresentou para desacreditar 
a musica moderna, fallavam todas as explendidas creaçSes de Pa- 



186 Oa MÚSICOS PORTUaUEZES 

« 

lestrínAy aa bellas oomposiçSes de Josquin Deprès, de Okeghen, 
de Geri de Ghersen e de muitos outros homens notáveis. 

Se o Bispo desejava ouvir musica seria na egreja^ musica 
própria para mover á piedade e á devoção, segundo elle dizia^ 
bastavam-lhe algomas poucas composições dos auctores mencio- 
nados. 

D. Jo8o IV recommenda áquelles que nSo crêem no effeito da 
musica moderna a audiçlo dos Textos de la Paeeion dei Marteã 
y Miercolee soneto y algunos dichos dei Christo y de los discipU" 
los de Gferi de Ohersen (x) e 4 LavaerUa^íes de los 3 dias, Motete y 
Canciones do mesmo author^ y conoeeran la verdad en la mudanr 
ça de sus ojos e rostros. 

Egual effeito attribue D. João rv ás musicas de Capitan, 
(Matheo Romero) por exemplo aos seus Tonos e principalmente a 
um Madrigal: Si vipiace que io mora, a 6 vozes» 

O que parece encommodar seriamente D. JoSo iv, sSo as gra- 
ves accusaçSes que Cyrillo Franco dirige aos compositores de 
Musica sacra^ contemporâneos ou seus antecessores. 

For isso cita o nosso enthusiastico defensor além das com- 
posiçSes que mencionamos já, muitas outras que são de Affónso 
Ferrabosco, Marenzio, Cláudio Monteverde, Alexandre StriggiO| 
Juanelli; Príncipe di Venosa, Felipe de Monte, Luys de Vittoria, 
Okeghen, lodoco Platense, Henrique Isaac, Felipe Bogier, Jos- 
quin Deprès, Gfórí de Ghersem, Enricus Tidi etc. 

D. Joilo IV indica também muitas composições de Palestrina 
de que possuía 24 Libros, 12 de Missas, 6 de Motetes, 2 de 0/*- 
fertorios, 2 de Hymnos, 1 de Magnijicat e 1 de Lamenta^llks. (y) 

A esta longa lista de nomes e de composições de artistas es- 
trangeiros, acrescenta D. JoSo iv as mais valiosas obras dos se- 
guintes músicos portuguezes: 

Gabriel Dias, Motete: Assumpsit Jesus, admirate suat iur- 
hae, passagem: Ingleber Turlur. 

Juan Loreço Rabello, Psalmo: 

1.) Qtií habitat, passagem non tttnebis a tímore nocturtèo. 

2.) Frates sóbrii estote das Completas, onde diz : etrcuit. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 137 

AffonBO LobOy Motete: Cum turba plurimum^ passagem : m- 
dU9et máxima. 

Bem SQ vê, que o Bispo xAo tinha rasSo, nem podia accusar 
de insufficiente, firia e sem expressBo, a musica moderna, quando 
ella própria apresentava em »ua defeza nomes tZo illustres, pe- 
rante os quaes desappareciam, como nuvens diante do vento, to- 
dos esses nomes fabulosos dos inventores dos Modos gregos. 

Suppondo mesmo que a Musica grega fizesse os effeitos phan- 
tasticos em que o Bispo se compraz, observa D. JoSo iv, que nSo 
era só a Musica que impressionava o auditório, mas também e 
muito, a representação dramática, 

O povo entSo comprehendia o musico e o actor, e por isso 
podia rir e chorar com elle; porém no século de Cyrillo Fi*anco 
e de D. Joio iv, entre 500 pessoas que estivessem em uma egreja, 
n2o havia 20 ou 80 que soubessem o latim a ponto de comprehen- 
derem o texto da Missa. Como é que o povo havia entSo de com- 
mover-se ás palavras: Kyrie eleison^ se elle não sabia o que ellas 
significavam? 

EIstas observaçSes de D. JoSo iv, s9o muito judiciosas e o Bis- 
po, se vivesse no tempo em que a Defensa de la Musica^ foi 
escripta, acharia decerto dificuldade em as refutar. 

Mais um ponto vulnerável acha Cyrjllo Franco nos compo- 
sitores modernos, e vem a ser o desejo: cque el Canto seâ bien 
cortado de fugas^ j que en el mismo tiempo que uno dize: San-- 
ctusj diga otro: Sabaoth, y otro: gloria tuat. 

D. JoSo IV objecta simplesmente: cque dize esto, porque 
no sabe, y como no sabe, por esso nota lo que es saberá. 

O facto de haver ou nilo Fugas n'uma Missa, nada tem com 
08 effeitos que Cyrillo Franco deseja; o e^iylofugato repetido em 
demasia, enfada e encommoda, porém posto no seu logar, dá um 
certo earacteristico á composição, de que um musico conscien- 
cioso quasi nunca prescinde. 

Fechamos esta exposição; pelo que ficaescripto terá o leitor 
avaliado a força dos argumentos de Cyrillo Franco. 



138 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

E verdade que a musica nSo andava no melhor caminho 
quando o Bispo de Loretto escreveu a sua Carta, porém não esta- 
va perdida e a prova é que se salvou da crise em que oscil- 
lava. 

O Bispo nZo procedia com justiça, negando a faculdade de 
mover a alma a uma Musica que tinha tido tão illustres repre- 
sentantes; nSo devia condemnar a Arte moderna e a Musica mo- 
derna, para nos vir recommendar um sjstema musical, que se os 
artistas de entSo o tivessem adoptado, teria conduzido a Arte para 
sempre á sua mina completa. 

Com effeito, que outro resultado se poderia ter colhido da 
adopção dos Modos Phrygio, Lydio, Dorio, e Mixolydio e da 
supposta Musica, harmónica, chromatica, e diatónica dos gregos? 

Deixemos finalmente o Bispo em paz com a sua credulida- 
de e o seu enthusiasmo ingénuo por uma musica olympica, que 
os argumentos- de D. João rv reduziram ás proporçSes de uma 
m^ra hypoihese, 

2.) Respuestas á las dudas que se puzieron á la missa : 
Panis quem ego dabo de Palestrina, impressa en el libro quinto 
de sus Missas. Lisboa^ 25 de Setiembre de 1654. in-4.® de n — 
29pag. 

Ha uma traducçSo italiana d'esta obra com o titulo: 

Riposte dli dvhii proposti sopra la missa: tPanis quem 
ego dabo9 dei Palestrinay stampata d'elle sue Messe, tradotte de 
spagnuolo in italiano. — Roma per Mauritii Belmonte, 1655, in- 
'4.®, sem nome de author, porém no principio, por cima do Sone- 
to e no fim traz as iniciaes Z). J?. O frontispício gravado que re^ 
presenta vários emblemas e instrumentos músicos, traz as armas 
de Portugal. 

O Abbade Baini indica um titulo um pouco differente: Dub- 
bil i qualiforono proposti sopra la messa: Panis quem ego dabo 
dei Palestrina, che va stampata nell quinto libro delle sue messe 
a* quali si risponde informa di dialogo. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 139 

SOKETO 

Al Autor encnbierto D. B. sobre Ias Dadas y Respnestas a 
la Missa de Palestrina. 

Oráculo dei eido ai mtmdo dado, 
Resaelveme una Dnda, que desseo 
Entender de tu pluma, pues la yco 
Lr bolando tan cierta en lo dudado: 

No puede Autor incierto, ser nombrado 
£1 que Bolo en certesaa base empleo, 
Poniendo dei armonico trofeo 
Obelisco, a verdades consagrado ? 

Bespondeme (Sefior) bien advertido 

Tu livro, lo que ciira el nombre incierto : 
Un tesoro, dize, es mas escondido. 

Gran respuesta ; emperò mayor acicrto 
Alio ser, por mistérios que be leido, 
Llamarte felizmente £l Emcubiesto. 

ANALT8E 

Este livro importante é mais um testemunho do mérito de 
D. JoSo IV como theorico e como critico e uma prova irrefutável 
do seu profundo saber na Theoria da Musica. 

Ignoramos quem propuzera as duvidas sobre a Missa de 
Palestrina a que D. JoSo iv respondeu com tanta sciencia. 

Cifravam-se em quatro pontos principaes, a saber: 

I. De que tono eeat 

n. Qu^ pareeiendo ser segundo tono, porque razon empteça 
fuera dely settima y onzena ariha de la cuerda final f 

m. Si está bien formada la Missa procediendo por estos 
ierminost 

IV. Q^e supuesto 'estar el tono de la Missa mal formado, 
pueda estar bien echa, conforme ai Motete sobre que se hizof 



140 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

A todas estas perguntas responde D. JoSo rv em forma de 
dialogo, com a maior clareza e com uma lógica tanto mais sega- 
ra, que cada uma das suas explicaçSes vem acompanhada de 
exemplos tirados dos melhores e mais celebres authores do seu 
tempo e anteriores ao século xvii. 

Estas citações revelam os vastos conhecimentos de D. JoSo 
rv, na Sciencia musical e mostram que elle conhecia epossuiana 
sua nunca assaz apreciada Bibliotheca, tudo quanto havia de 
melhor e mais precioso na Theoria é na Practica da sua Arte. 

N'esta obra se encontram citadas e aproveitadas intelligen- 
temente as principaes obras de Palestrina, de Ferrabosoo, de 
Adriano Willaert, de Felipe Rogier, de Guerrero, de Jorge de 
Lahele, de Christobal de Morales e os livros theoricos de Cieo- 
nides, de Juan Giudeto, de Stephano Yanneo, de Horácio Trigri- 
no, do P.* Augino, de Boêcio, etc. 

Este livro pequeno, de aspecto modesto e despretencioso nSo 
se faz valer, assim como a Defensa de la Musica, pelo seu for- 
mato, mas nem por isso deixa de valer tanto ou mais do que es- 
ses in-folios que ás vezes tem mais pezo material do que valor 
intrínseco. 

A pag. 28 vém uma Condusion em que o author concentra 
o que escreveu no livro e diz : 

«Resumiendo mi parecer (si à cazo no me he declarado bien) 
digo que la Missa por los finales es segundo tono (1.* e 2.* Per* 
gunta) commixto: porque participa de vários tonos, como se ve 
en el primero Kyrie, no deziendo el final con el principio, empe- 
çando como si fuera 6, 7 ó 8 tono. Lo mismo enel principio de la 
Gloria, Credo, etc. Quedando los finales en dissonância con los 
princípios antecedentes. Y en lo tocante a la formation de la 
Missa (3.* Pergunta) (conforme a lo que tengo dicho) está mal 
formada, por no empeçar el Tenor quinta ariba o octava dei fi- 
nal: pêro conforme ai mottete, (é de Lupo Lupi, celebre compo- 
sitor do século xvi) está bien ordenada, porque haviendo Pales- 
trina de hazer sobre el, no podia dexar de empeçar, el Tenor en 
aquella conformidad, por responder ai Tiple por los mismos in* 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 141 

tervallos, pues respondiendo en otra fomia, y feneciendo confor- 
me id principio, vénia a hazer la Missa de otro tono, que no era 
el mottete, mas (como he dicho) la culpa que se poede poner a 
Palestrina, es, escojer tal mottete para hazer Missa sobre el. 

cLa Missa está echa con gran jnizio, porque aun que los fina* 
les son dissonantes, y no dizen con los principies, de lo que atraz 
está dicho, con todo quedando tono ai principio, donde ha de em- 
peçar la parte, que sigue, como tengo declarado enel fin dei 8. 
Kyrie, para el principio de la Gloria, y mas partes* 

cHe dicho lo que me parece sobre las propuestas que me hi- 
zieron sobre esta Missa, y en las respuestas dadas no es mi inten- 
cion condenar a Palestrina, porque le tengo por mui docto, scien«> 
te, y considerado en sus composiciones, por haver visto todas sus 
obras, que estan em mi poder, las quales constan de: 

Dou livros de Missas à4,6y 6 vozes. 

(Faltava n'esta coUecçSo imp(Hi»nte a Missa Assumpta est, 
impressa em 1585 e o Livro de Missas a 8 vozes, impresso em 

1601.) (z) 

Dos livros de Ofertórios à 5 vozes. 

Siette livros de Motetes a4,ô,6,7 e8 vozes. (Eram dois li- 
vros a 4 vozes, e os 5 restantes a 5, 6, 7 e 8 vozes.) 

Vh livro de Himnos à 4 vozes. 

Otro de Magnificas à 4 vozes. 

Primero y segundo livro de Madrigales à 4 vozes. 

Dos livros de Madrigales à 6 vozes. 

Uno de Letanias. 

Otro de LamentíUiiones. 

Missas yotras obras que no se imprimieron, en los mismos 
borradores de sumano.» 

O Abbade Baini (aa) agradecido a D. Jo2o iv pela defesa que 
tomou a favor da Missa de Palestrina, menciona a obra do nosso 
celebre author e apresenta uma critica da mesma Missa e uma 
anedocta sobre a questSo suscitada; tanto a critica como a ane- 
docta do mui erudito e respeitável critico, são de t2o grande in- 
t^^sse, que nilo podemos resistir á tentação de a transcrever, pa- 



142 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ra que o leitor conheça ao menoB uma pequena paroella, de um 
livro tSo valioso como é a Biographia do sábio Abbade. 

Ouçamos: 

cE stato già detto nel cap. 6^ di questa 3. sez. che íl Pier- 
luigi dedico nel 1590. a Ghigliehno duca di Baviera il libro quin- 
to di messe: e chè in questo libro '^i trova fra le altre la messa 
a 4 voei intitolata: Panis quem ego dobo. Giovanni cosi la inti- 
tolòy perche lavorolla sopra il mottetto simile, Pania quem ego 
daboj composto già molti anni indietro da Lupo Lupi ed im- 
presso nel 1532. nella raccolta di mottetti denominata dei fiore- 
(bb). Awenne poi nel 1654. quando già era cessato intera- 
mente in Roma Tuso delia |)ra^tca antiea ed unicamente si atten- 
deva alio stile orgânico che in un ritruovo di musici, alcuni sac- 
centelli millantatori di erudizione, misero díscorso deli' accenna- 
ta messa dei Pierluigi; e non poço inveirono contro la medesima. 
Si trovo quivi fortunatamente un tale che ne prese la difesa; e 
non contento di aver confuso in você quegli scioli, voUe anche 
pubblicar con la stampa Tapologia delia messa anzidetta. Fece 
pertanto imprimere senza luogo, e senza stampatore un piccolo 
libretto in 32. pagine, cui pose a frontispizio: Dubbi, i qualifur 
rono proposti sopra la meesa: Panis quem ego dabo dei Palee- 
trina, che va stampata nel quinto libro deUe sue Tnesse a* quali 
si risponde informa di dialogo, L'autore si segnò in fine Incer- 
to autore con le iniziali D. B. a di 26. Settembre dei 1654, Li 
dubbi preposti, e le rispote dell^anonimo sono, come apresso. 

Dubb. 1. Di che tono sia la messa^ Panis quem ego dabo? 

Risp. É dei secondo modo, o tono ecclesiastico in D. (D la- 
solre). Di fatto il tenore, che est rector, et guida tonorum canta 
da A. ad a. cioè da La, a la; ed è diviso aritmeticamente nel D, 
o Re, in cui si posa. 

Dubb. 2. Che parendo essere dd secondo tono, per qucd ra- 
gione comincia fuori di esso in settijna, ed undécima sopra la 
corda Jinalef 

Risp. Cosi usarono sovente di fare gli antichi musici: e ciò 
perche anche i canti gregoriani incominciano in seconda, in ter- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 143 

za, in quarta, in quinta, in sesta, ed in settima dalla corda finale 
dei tono, o modo in cui sono scritti. 

Dubb. 3. Se la messa 9ia ben formata procedendo per quês- 
ti terminif 

Risp. Propriamente parlando (e segnatamente nel genere or- 
gânico) non sarebbe formata bene: ma e per Tesempio dei canto 
stesso gregoriano, e per Tuso dei compositori antichi non può nel 
canto puro voc^e, di genere antico, di prima pratica, tacciarsi di 
errore. 

Dubb. 4. CTie, eupposto ti tono delia messa essere mal for- 
mato, possa però la messa stessa essere henfatta, conforma ai mot- 
tetto, sopra il qwdefu composta f 

Bisp. La messa essendo conforme in tutto e per tutto ai mot- 
tetto, è benissimo fatta nel genere antico di prima pratica, e 2a- 
vorata con gran giudizio. 

Conchiude Taut^ore: Non é mia intenzione di condannare il 
Palestrina: perche lo tengo per molto dotto, perito, ed atcorto 
neUe sue composizioni: e per aver io visto tutte le sue opere, le 
çuali sono in mio potere. 

Fin qul Testratto fedele deli' operetta deli' autore D. B. Io 
però mi credo in dovere di aggiugnere alcuna cosa di piu in di- 
fesa di questa messa, e dei Pierluigi. 

1. La messa è lavorata egregiamente sopra tutti i temi, anzi 
sopra tutte le frasi dei mottetto : Panis quem ego dobo 1 . par. — 2. 
par. LocvixÂS est DominuSj dei Lupi. I mirabili e variati lavori, 
che Giovanni ricavò dali' árido tronco di quell' oltramontano ad- 
ditano la penna di Virgílio che si riveste di Ennio. 

2. La messa è di uno stile assai piii forbito dello stile dei 
mottetto. Perciocciíè il Lupi, quantunque valorosissimo composi- 
tore, era spesso inesatto nel maneggio delle false: era non di rado 
mancante di armonie: era trascurato nel sottoporre le parole alie 
note: era secco e poverissimo di pensieri secondarii. Âltronde il 
Pierluigi in questa messa è esattissimo, come sempre, nei con- 
trappunti: è ricchissimo di armonie; diligente nella coUocazione 
delle sillabe sotto le note ; è fecoiídissimo di bei pensieri ausilia- 



141 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

riiy di concetti e firasi analoglie ed omogenee, figlie dei temi ach 
sunti. 

3. Essendo Ia maniera dei mottetto dei Lupi una maniera 
di comporre piu da sueno, che da canto ; e ciò giusta la moda di 
quella stagione; il Pierluigi nellamessa si adattò anche a questa 
maniera. £ perciò ei si decise di dedicare siffatta messa non alia 
cappella apostólica, non ad un sommo Pontefice, ma ai daca di 
Baviera. £ la ragione è chiara. Avendovi in quella corte molti 
sonatoriy e certamente solendovisi sonare (e ballare) le composi-* 
zioni vocali (sagre e pro&ne), volle Giovanni che in quel volume 
di messe, affinchè riuscisse pi& gradito, vi fossero composisioni 
puramente da canto, e composizioni da suono insieme e da can* 
to. Se ben si disamina questa messa, si conosce essere di una ma- 
niera non usata dal Pierluigi nelle composizioni ecclesiastiche di 
puro canto. Scorgesi a colpo d' occhio essere la medesima lavo- 
rata con queUa spessezza di note, e di accordi, che richiede il 
suono, e schifa il canto puro vocale: con una circolazione di toni 
Boverchiamente ncercata, la quale com' è dilettevolissima nel suo* 
no, cosi è pericolosissima nel canto puro vocale : con una mesco* 
lanza ora successiva, ora simultânea di temi e di firasi in 3. mag- 
giore, e di temi e di frasi in 3. minore: riunione quanto aliena 
dalla sodezza dei canto puro vocale, altrettanto solleticaate gra* 
devolmente Forecchio nei capricci dei suono, e nei soUazzi delia 
danza: con quella misura regolare di periodi nei temi, e nelle ris^ 
poste, di cui se si diletta il canto puro vocale, di essa però ha 
d' uopo costantemente, e per essa si guida il bailo, ed il suono. 

3.) Concordância da Mu8Íca e passos da Collegiada dos 
maiores professores desta Arte* Ms. 

4.) Prineipios de Musica, quem foram seus primeiros auto* 
res e os progressos que teve. Ms. 

' PRATICA 

I 

5.) Dous Motetes. Sahiram no fim das obras musicaes de 
JoSo Lourenço Rebello. — Bomae, Typis Mauritio et Âmadei Bèl^ 
montiarum, 1657 m-i.'' 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 145 

6.) Magnificai, a 4 vozes. 

7.) Dixit Dominas, Domine Tneo, a 8 vozes. 

8.) Laudate Dominas omnes Gentes, a 8 vozes. 

9.) Concertado sobre o Cantochão do Hymno — Ave Maris 
SteUa. 

10.) Paixões de Domingo de Ramos, a 4 vozes. 
11.) Paixões dê JSexta Feira Santa, a 4 vozes. ' 

12.) Crux fidelis inter omnes; Motete (cc) a 4 vozes, Soprano, 
Contralto, Tenor e Baixo. 

Esta composiçSo é notável. 

A contextura harmónica é distincta, correcta e apresenta 
tentativas de innovaçlo qae nSo sSo vidgares na época. 

Em tudo se nos revela este príncipe, como um verdadeiro ar- 
tista. 

Algumas das primeiras obras vem mencionadas por Caetano 
de Sousa, (dd) 

Quasi todos os escriptores contemporâneos prestaram home- 
nagem aos talentos artísticos de D. JoSo iv. Limitar-nos-hemos a 
mencionar alguns poucos. Entre elles citamos primeiro, o elogio 
que Eduardo Medeira (ee) faz a este artista, chamando-lhe: Musa- 
rtan Corypheum e em outro logar: Orpheum Lusitanum; este 
testemunho é importante, porque Medeira possuia também gran- 
des conhecimentos na Arte musical. 

Fétis (ff) menciona-o com as seguintes honrosas palavras: 

La musique avait été Vohjet des études spéciales de ce prin- 
ee, et il était devenufort hahile dans cet art. 

Sousa de Macedo (gg) classifica-o : o musico mais sábio do seu 
tempo; esta apreciação parece-nos exagerada, apezar dos gran- 
des dotes de D. João iv, como theoríco e como compositor; ó 
certamente classificaçSo de cortezSo. 

Agostinho Macedo escreve : (hh) 

cCantibus sacris ita delectatur, ut non modo eos libenter 
andiat, sed qua poUet usque ad admirationem musicaram rerum 
scientia Davidis instar hymnos scientissime componat, quorum 
harmonis témplá resonant.» 



146 OS MUSICfOS PORTUGDEZES 

Manoel de Galhegos, (ii) diz: 



— Cuidadoso, sollicito eDgolfedo, 
No immeiíso Mar da Musica procura 
Ir por algum caminho desujsado 
A dar novos preceitos á doçura: 
£ a descobrir na orgânica armonia 
Números novos, nova melodia. 



Quando douto, e armonico pretende 
Encher de varias flores um Motcte 
Com graça superior as vozes prende; 
E com tanta destreza um passo mete, 
Que antes, que este suavíssimo feneça 
Outro mudando de intençSo começa. 



Por novos modos, nova variedade 
Faz caminhar a voz : talvez a obriga 
A que fuja com rara suavidade, 
Talvez a que galharda um passo siga. 
Ora com ley de números lhe manda 
Que trémula se quebre, e pare branda. 



Este príncipe illustrado por grandes dotes ai*tistico8, ficou 
ainda lembrado na memoria do seu povo, como um rei bom e jus- 
to, pelas suas qualidades pessoaes. 

Costumava elle dizer, que todo e qualquer vestuário lhe ser- 
via, isto é, não precisava de falsos ouropéis, e que qualquer comi- 
da lhe satisfazia o paladar. 

NSo era nos acepipes de uma mesa luculliana que se dispen- 
dia entSo o dinheiro do povol 

O seu retrato enconlra-se em obras mui diversas. 

Citamos entre aquelles que foram feitos por estrangeiros os 
seguintes : 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 147 

1.) Cochinptnx. Desrocher se. gr. ín-8.® 

2.) in-4.^ peq. Avbry se; do mesmo gravador, outro retrato 

Como o mais anthentico portuguez, no : 

3.) Epitome chronologico da Historia dos Reis de Portugal 
ordenado por J. C. de Figanilre, Lisboa — 1838.. Gravura em 
madeira. 

(a) Index de Obras que se conservam na Bibliotheca real da Musica^ 
impresso em Lisboa por Paulo Craesbock) in-4.<»4?r. de 521 pag. 1.* Parte. 

Machado indica em outras partes da sua Bibliotheca Lusitana tam- 
bém as datas 1645, (voL m, pag. 385) e 1648, (vol. ui, pag. 800); a mais cer- 
ta é 1649. 

(b) Fétis. Biogr. Univ. yol. iv, pafç. 436, quando falia doesta Biblio- 
theca : Une bibliot^tie immense, etc. e Cette riche btbliothhque, refere-se ao 
catalogo acima mencionado e aue elle julga ser o Index completo da Li- 
vraria da Musica; que diria o illustre crítico belga, se tivesse notado que 
Barboza Machado diz expressamente (BibL LusU. vol u, pag. 571) que só 
fôra impressa a i.* Parte do catalogo ? 

(e\ BibL Lusit. vol. n, pag. 571. 

(d) A Musica em Portugal, Gazeta da Madeira, n.« 9, de 29 de Marco 
de 1866. 

(e) Machado refere sempre nas Biographias que encontramos na sua 
Bibliotheca, Estantes e nem uma só ves, Caixas. 

(f) Vide a sua Biograj^ia. 

{e\ Musico inglez, discipulo do celebre Gaugeric de Ghersen. 

(h) Fétis, Biogr. Univ. vol. iv, pag. 346, que viu este livro, diz que 
n2o traz nem data, nem logar de impressão, porém uma nota manuscríçta 
que se encontra em um exemplar da Bibliotheca imperial de Paris, indica 
claramente a data de 2 de Dezembro de 1649. 

(i) As razoes, que em seguida apresentamos, apontam claramente o 
nome do author. 

l.« Fétis viu o exemplar referido da Bibliotheca de Paris, que traz 
a seguinte nota manuscnpta : O author doeste livro é o Bei de Portugal 
D. João IV. Foi feito a 2 de Dezembro de 1649, como se vê a pag. 44 e de- 
Tom-^o em Lisboa em 1666, como sendo um livro muito raro (lí) 

Esta affirmação é verdadeira, porque apenas se conhecem mais dois 
exemplares doesta obra preciosa, um na Bibliotheca Nacional e outro em 
poder do actual Duque de Palmella, segundo ouvimos dizer. 

2.^ No verso da folha, que precede a epistola dedicatória a JoSo Lou- 
renço Eebello assignada \y.D.(Lhix Bragantiae) ineertus auctor, encontra- 
ae um Soneto acróstico composto por author aesconheddo em louvor de 
D. Jo2o rv e da Musica moderna, em que se lê nas letras iniciaes o Titulo : 
El'Rey de Portugal. 



148 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Transcrevemos o Soneto por curiosidade : 

El que la nueva mtisica defiende, 
Jjuso escritor, con peregrinas flores, 
B^etratar sabe en métricos colores 
Efectos, con que el alma se suspende. 
Injusta pluma, desluzir pretende 
Del Arte en vano, armonicos primores ; 
Enquanto sus defensas superiores 
Vluma discreta felismente emprende 
Oráculo divino és todo quanto 
^pulsáveis de accusacion mantida, 
'Todo mistérios, que el respeito occulia 
\ence censuras criticas en tanto 
Gloriosamente el arte presumida 

j discutir de intelligencia culta. 



(}) Mappa de Portugal^ vol. nr, pag. 154, 1.* edição. 

(k) Dicc. Bihl, vol. III, pag. 281. 

(l) Mappa de Portugal, vol. ii, pag. 350, nota 2.*, 2.* edição. 

(m) Discurso sobre a perfeição do Òiathesarom, Lisboa, 1662 in-4.*, por 
António Craesbèck de Mello. 

(n) No Prologo doPanthéon, !.• Parte, diz : •Real nosdió una moder- 
na Juirmonia con que a toda suavidade deasó illustre y aòligada; na Carta 
dos Authores portnguczes : E ouiro sobre todos os mais celebres levantado 
na defeza da Musica moderna, que por ella se viu não só real, mas defen- 
dida. 



(o) Allgem, IMerat. der Musik, pag. 98. 

(pj " - - - - 



)) Vem incluída na collecção : Letteri illtistri, publicada por Aldo 
Manucio, em Veneza 1567, e é datada de 16 de Fevereiro de 1549. 



/ ^q) Palavras teztuaes de Fétis, Biogr. Univ. vol. iv, pag. 436. 

{t) Esta celebre Missa, uma das suas mais bellas composições, foi of- 
fereciaa pelo author a Hercules i d^Est, Duque de Ferrara, em signal de 
gratidão pela protecção generosa que tinha recebido doeste príncipe, quan- 
do residia em Ferrara. 

A missa: dei Hombre armado podia ser, ou a de Palestrina ou a de Jos- 
quin Deprès, é provável aue fosse d'e8te ultimo. 

(s) Dança muita usaaa na corte de França no tempo dos Yalois; toca- 
va-se e cantava>se ao mesmo tempo. A Pavana era tocada por oboés e sa- 
cabuxas (espécie de trombetas) e acompanhada pelo tamboril. 

Este acompanhamento, de rhjtmo binário e sempre constante, (uma 
longa sobre o tempo forte, duas breves sobre o tempo fraco) formava um 
contraste singular pela sua insistência riiytmica, com o cafUo da Pavana, que 
podia variar independentemente do movimento do tamboril. 

Esta dança era séria, em opposição ás contrarias (Gavotte, Branlt^ 
VolteJ que já no tempo dos Valois, qualificavam de déhontiu. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 149 

No tempo em que foi inventada servia principalmente para os reis, 
príncipes e senhores mives exibirem publicamente a sua habilidade ; mais 
tarde degenerou porem esta dança também em dehoTUée, tomando-se em 
exibição das bellas pernas das duqnezas e príncezas da época. 

O exemplo vinha de cima, e ainda hoje se lê em escríptores da época 
a descrípção doestas scenas galantes ; um d'elles a propósito da Volte men- 
ciona como virttiose n'esta dança, a formosa Margarida de Yalois, esposa de 
Henrique xv qui mantrait êesjambes qu^elle avaitfort belUs. 

O nome da Pavana vem de um dos movimentos da dança, em que os 
bailarinos formavam uma figura semelhante á cauda aberta do Pavão. 

O cavalleiro servia-se para isso da sua capa e da espada; a dama do 
seu vestido e do leque. 

(t) A Galharda appareceu em Roma e dançava-se com duas figuras, a 
)/i, movimento alegre, (homem e mulher) ; os seus passos eram muito varia- 
dos e muito complicados, o que tomava a dança difficil para quem a qui- 
zesse executar bem. 

(u) O Dythrambo de Bacco formava um dos estvlos da musica grega, 
que se chamava Ba^chico por ser dedicado ao Deus ]Bacco. Alguns autno- 
res dáo-lhe também o nome Mesotdes, O caracteristico doeste cstylo consis- 
tia no emprego dos sons médios do systema. 

(v) Com effeito, muitas vezes o compositor adoptava as palavras da de- 
dicatória para texto da Missa, o que dava logar a combinações scientifícas 
de uma grande diíBculdade. 

Felipe Bogier, Mestre da Capella de Filipe ii de Hcspanha em uma 
das suas Missas usou d'este artificio, sic : 

€ Phi-li— ppus, Se-cun-dus-Rex-HÍ8-pa— ni-oe. 
mi-mi — ^ut — re—ut — ^ut — ^re — mi-fá — mi-ré. 

As variadas formas porque as notas se haviam de combinar com as pa- 
lavras do texto, estavam todas sujeitas a numerosas regras que creavam 
grandes dificuldades para o compositor. 

Entre os nossos artistas alguns houve que escreveram obras doesta na- 
tureza. 

(w) Esta ancdocta é contestada por alguns authorcs, comtudo se ella 
é veraadeira, será isso mais um titulo de Gloria para Palestrina. 

(x) D. JoSo IV possuia varias Missas, Motttts e Canciones d'e8te au- 
thor em Ms., e mais obras dos melhores discípulos da sua eschola, que elle 
oueria publicar; nSo sabemos se o fez; é de crer porém, que tudo se per- 
aesse com a Bibliotheca da Musica. 

Qr) Vide pag. 141 uma lista mais completa das obras que D. João iv 
possua de Palestrina, cinco annos mais tarde, em 1654. Algumas d'estas ul- 
timas eram autographos ! 

^z) Nota do author. 

(aa) Memorie storico-eritiche delia vtta e delle opere di Giovanni Pier- 
Ivigi da Palestrina. Roma, dalla Societá typographica, 1828, vol. ii, pag. 
359-362. 

^b) Tre sono i Lnpi, che fiorirono nel secolo xvi. Lupo, Giovanni, e De- 
aideno. Le opere di Lupo Lupi si trovano nella raccolta indicata dei Fiore, 
nella raccolta dei FruttOj e varie se ne conservano inedite nel nostro archi- 
vio. Le opere di Giovanni Lnpi si hanno e nelle menzionate raccolte, e nel 
lodato nostro archivio. Di Desiderio Lnpi si legge nell* Essai sur la musi- 
que To. 3. pag. 448. Lupi Didier, bon musieien, a misen tntísique les ehan' 



150 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

9<m8 õpiritutlUi de Guillaume Cruerret, imprimées ehex Diushemn. H est nom- 
mê dane le prologue du quatrieme livre de RabtlaU, Anche il dottor Burney, 
Hiêtory of tnuêie, To. 3. pag. 262. couosce Boltanto Desiderío Lupi. 

(cc) Vide Anthologie univerêelle de Musimie êcusTée. repertoire des 
Maitres des xv»% xvi"*, xvn*«, xviii'**, et xdl"*, s&cles, par Georges Schmitt, 
2 Series em 22 volumes ; Paris, 1869, Veuve £. Repôs, successeur £. Girod. 
Encontra-se no 7,^ volume da 1.* Serie. A composição de D. João nr está 
em companhia de outras de Orlando di Lasso, Menc^li, Martini, Victoria, 
Haendel, Groce, Viadaaa, Casciolini, Colonna, Pitoni, Calegari, Bufiò, Pa- 
lestrina, Casali, Cifra, Arcaddt e de Lotti. 

(dá) Historia genealógica da Casa Eeal portuguezOj vol. vii, pag. 240, 
241, 242. 

(èe) Novae PhUoêophim et mediciníB, Lisboa, 1658 in-8.* disp. 9, voL 
n, parte 1.* sect 6, n,^ J. 



(ff) Biogr, Univ. VoL rv, pag. 436. 
23 n.« 15. 



»y • — » X — r» 

Eva e Ave, ou Maria Triumphantef Lisboa, 1676. Parte 1.* Cap. 



(bh) Propug. IajuU. GalUy pag. 100. 

(ii) Templo da Memoria. Lisboa, 1635, in*8.« Livro !.• 

D. João T — O titulo de MagnanimOy que a Historia deu a 
este principO; é bastante merecido pelos seus actos, posto que a 
intenção que os inspirou não fosse sempre a mais louvável ; a vai- 
dade fez ainda n'cste caso o papel principal. 

NSo foi ella muito lisongeira para com um monarcha que 
promoveu o Aqueducto das Âguas-livrcs, que creou as Bibliothe- 
cas da Universidade de Coimbra, de Mafra, das Necessidades, etc. 

Se as Sciencias lucraram com estes serviços, não foram tam- 
bém olvidadas as Artes n'este movimento geral, que deu alguns 
bons resultados. 

A musica entre estas, deveu serviços valiosos a D. JoSo v. 
Foi elle quem elevou a celebração do culto divino na Patríarchal 
a um explendor desusado em Portugal, e fez dizer aos contempo- 
râneos portuguezes e aos estrangeiros, entSo aqui residentes, que 
a egreja metropolitana de Lisboa, rivalisava em pompa e riqueza 
com a Capella pontificia em Roma! 

E verdade, que em quanto na capital se cobriam as paredes 
dos templos com sedas e ricos veludos, em quanto os altares bri- 
lhavam deumaTTiaTieira verdadeiramente pagã^ de ouros e pedra- 
rias, lá se iam perdendo as nossas colónias, 8o£Erendo nós perdas 
consideráveis na terra e no mar. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 151 

Andavam entSo as nossas naus prestando auxilio ao papa 
contra os Turcos! 

O povo sem instrucçSo, sem liberdade, sem vida, esmorecia 
debaixo do governo de um príncipe despótico e licencioso, (a) para 
quem nSo bastavam os immensos rendimentos das colónias da 
America, sobrecarregando ainda o povo com tributos pesados I 

Depois de termos mostrado o lado vulnerável doeste luxo des- 
medido, não podemos deixar de confessar as vantagens que elle 
trouxe ás Artes, e principalmente á Musica. 

A ostentação no rito ecclesiastico, trazia comsigo a mesma 
ostentaçSo na parte artistica do culto, isto é uma execuçSo mu- 
sical primorosa, digna do apparato das ceremonias ecclesiasticas. 

Devia concordar uma cousa com a outra. 

Assim surgiu a excellente Capella da Patriarchal, por elle 
reformada e reconstruída, segundo um plano verdadeiramente 
grandioso. 

Aproveitamos esta occasiZo para fazer um pequeno Esboço 
histórico da Capella de Musica em geral, e d'esta de Lisboa (Pa- 
triarchal) em particular. 

Já por vezes havemos dado, e continuaremos a dar no de- 
curso d'este livro, alguns doestes apontamentos relativos á His- 
toria da Musica em Portugal, (b) 

NSo estamos a isso obrigados pela natureza da nossa obra, 
porque nSo s3o elles próprios de um Dicctonario biographieo, e 
poder-se-iam dispensar, se já estivesse escripta a Historia da 
Musica em Portugal, mas como nem sequer com isso se tem so- 
nhado, damos aqui estas noticias, que não sSo destituídas de in- 
teresse e que poderão servir áquelle que se quizer dedicar á re- 
construcçSo da nossa Historia artística. 

Temos de subir até á época do dominio dos Suevos (c) para 
encontrarmos os primeiros vestígios da Capella Beal. 

O anno 569, é a primeira data positiva; é a época do reina- 
do de Theodomiro que, segundo a narração do Concilio de Lugo, 
tivera já por Capellães-Móres, os Bispos de Dume. 



152 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Esta Capella devia ostentar uma certa grandeza, pois os seus 
cargos eram occupados por pessoas da mais alta jerarchia. 

Os successores de Theodomiro herdaram dos seus antepas- 
sados este uso de ter Capella, que se conservou em Portugal mes* 
mo depois da fundação da monarchia. 

Já no reinado de D. Affonso Henriques vemos o Arcebispo 
de Braga, D. Payo Mendes (d) no cargo de CapellSo-Mór; ao 
mesmo tempo ou pouco depois, encontramos eguaes cargos na 
Egreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães, (e) na de 
Santa Cruz de Coimbra, em Santarém, na de Santa Maria da Al- 
cáçova, e em Lisboa nas parochias de S. Bartholomeu, S. Marti- 
nho e^na egreja de Nossa Senhora da Escada, perto de S. Do- 
mingos, (f) 

Este uso foi-se generalisando nos reinados seguintes de 
D. Sancho i, D. Affonso ii, D. Sancho ii, D. Affonso in, até 
D. Diniz, em cujo século se organisa definitivamente a Capella 
Real, que entra no segundo período da sua existência. 

Ora, é incontestável que desde o tempo de Theodomiro (569) 
já se cultivava a Musica na Capella real, porque por noticias ante- 
riores, do século V, vemos a musica introduzida já nas ceremo- 
nias ecclesiasticas. 

O Canto sacro é cultivado em toda a sua pureza e recom- 
mendado pelos prelados que assistiram ao primeiro Concilio de 
Braga. 

Este canto devia ser seguramente o Canto Ambrosiano, de- 
terminado em 384 por Santo Ambrósio, Bispo de MilSo, pois o 
Grregoriano s6 foi introduzido nas cerimonias da egreja no fim do 
seciúo VI (593). 

Attendendo ás circumstancias da época, só podia chegar esta 
ultima innovação a Portugal, no principio do século vii. 

Os prelados de que acima falíamos eram nada menos do que 
os Bispos: Pancracio de Braga, Elipando de Coimbra, Pamero 
de Idanha, Arisberto do Porto, Deodato de Lugo, Oekuio de Mé- 
rida, Pantomio de Ayeda, Tiburcio de Lamego, Âgacio de Iria, 
Pedro de Numancia, prelados illustrados, cujos conhecimentos 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 153 

moBicaes nSo eram inferiores aos dos seus collegas de Sevilha e 
de Toledo, (g) 

Um dos paragraphos do Concilio determina: Que o canto lú 
targico seja uniforme, e que não se cantem nas egrejas poesias vul- 
gareSf entre os Psahnos y Li^lkna. 

Esta recommendaçâo dá-nos a entender: 1,^, que o Canto 
ecclesiastico (Ambrosiano) já estava introduzido nas egrejas da 
Península; 2.^^ que a musica popular tinha já invadido os templos 
no século v. 

Apesar da observaçSio dos prelados do Concilio, ficou o povo 
tomando sempre parte activa no canto ecclesiastico, até esta in- 
tervenção se tomar uma influencia^ depois de ter creado uma das 
formas da musica religiosa da Peninsula, forma que nSo se en- 
contra na musica sacra das outras naçSes, e que vem a ser o : Vi- 
Uutncico. 

Comtudo, a resistência do povo teve de ceder mais tarde dian- 
te de uma intimação mais forte, que lhe prohibia expressamente 
de misturar os seus cantos profanos com os sagrados da egreja. 

£m outro logar teremos occasiSo de desenvolver mais lar- 
gamente a historia d'esta lucta artistica entre o povo e o clero. 

NSo deve admirar-se o leitor de encontrar entre nós a musi- 
ca popular tSo cedo ; a circumstancia da invasão do canto popular 
no canto ecclesiastico, indica claramente que o primeiro estava já 
caracterisado na sua forma (a prova encontramol-a adiante) e que 
sahia forte, e cheio de vida da garganta doplebeu^ no campo, nas 
mas e até na egreja, (O mesmo succedia em outras partes.) 

A sua influencia ia transpondo os limites que lhe tinham sido 
determinados; é que o sentimento do povo e a sua individualida- 
de nSlo se destroem com uma sentença, com um decreto ou uma or- 
dem de um Concilio, ainda que seja de um Concilio no século v ! 

Foi este o motivo, porque a observação dos prelados reunidos 
em Braga, nSo teve o effeito desejado. Sé uma prohibição expres- 
sa, que veiu mais tarde, pôde banir a yoz do plebeu da egreja, 
como indigna (!) 



154 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Esta prohibiçSo teve por triste resultado : o papel pcusivo 
que os catholicos representam hoje nas suas egrejas, papel de ver- 
dadeiros autómatos! 

Sobre as egrejas protestantes nSo teve esta prohibiçSo in- 
fluencia alguma, porque os povos do Norte, menos passivos e fl^- 
maticos do que os do Sul, nSo se deixaram desalojar dos seus direi- 
tos e acolheram de braços abertos o homem que os personificava. 

Esta resistência fez com que a voz do povo nSo morresse na 
egreja protestante, como morreu a do catholico. 

Os protestantes têm os seus admiráveis Chordle, Nós, n2o te- 
mos cousa alguma, porque o antigo FtZAancíco já nSo existe hoje. 
Eis a consequência de uma ordem injusta. 

Voltando á musica popular e á sua historia, dissemos acima 
que a sua forma estava caracterísada já no século v. NSo deve 
admirar esta circumstancia, porque se formos procurar a sua ori- 
gem, nSo a encontramos, de tSo longe vem ella envolvida nos den- 
sos véos da nossa origem nacional. 

Os antigos Lusitanos cantavam as suas leis em Musica, e 
apresentavam-se nos mais sangrentos combates com musicas, can- 
tos e bailados tSo alegres, como o deviam ser aquelles de que usar 
vamnas festas mais divertidas. 

Este uso caracterisou-se ainda mais, quando os Gbdos, inva- 
dindo a Peninsula, introduziram os jograes ou rum», que ganha- 
vam a sua vida a cantar poesias em louvor dos Heroes. 

Temos pois segundo vimos, o canto ambrosiano estabelecido 
nas egrejas de Braga, de Coimbra, do Porto e de Lamego, e nas 
suas respectivas capellas de Musica. 

Entre as formas do canto religioso, temos positivamente de- 
terminadas, segundo a citaçSo do Concilio: os Psaimos e Li^teê, 
duas formas que se adaptavam a muitas variantes (h) da musica 
ecclesiastica. 

É de crer que os outros géneros fossem também cultivados, 
porém como até agora nSo encontrámos dados positivos, nada af- 
firmamos. 

A Arte foi progredindo, cultivada com mais ou menos estu- 
do nas Capellas mencionadas, e assim encontramos já no fim do 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 155 

século xu (1199 — D. Sancho i) na egreja de Santa Cru2 de Coim- 
bra, uma daa formas mais perfeitas da musica sacra o : Te-Devm 
lavdamus, (i) 

Esta mesma noticia diz que se cantara n^essa occasiSo tam- 
bém uma Ladainha. 

Vemos por isto que a musica seguiu até aqui uma eschala 
progressiva e assim continuou sempre, até ao fim dos séculos xiil 
e principio do xiv, reinado de D. Diniz. 

Este príncipe, foi o primeiro rei de Portugal que instituiu 
no seu palácio (entSo Castello de Lisboa) a primeira Capella Real, 
que coUocou debaixo da protecção de S. Miguel. 

Foi n'ella que se cantaram talvez pela primeira vez as Horas 
canonieasy segundo o rito romano, depois de dado o consentimen- 
to pelo Bispo de Lisboa, entilo D. Jo%o Martins de SoalhSes. Este 
prelado obrígou-se em 1331, em signal de reconhecimento pelos 
beneficies que tinha recebido d'El-Rei, e com o beneplácito do 
cabido, a manter, por escríptura publica, (j) dois CapellSes com 
seus Mousinhos, isto é Acolytos, n%o só na sobredita Capella Real 
de Lisboa, mas também na de Torres-Vedras, que alli instituirá 
a Rainha D. Beatríz, mSe d'El-Rei D. Diniz. 

A acclamação de D. Affonso iv inaugurou o terceiro período, 
que comprehende uma phase de decadência, durante os reinados 
successivos até D. Duarte, que se esforçou por a elevar ao antigo 
estado de prosperidade. 

Entramos no quarto período, que se estende até á morte do 
Cardeal Rei D. Henrique. 

A parte musical da CapeUa acima mencionada tinha sido ul- 
timamente muito descurada, a ponto de ser necessário um alvará 
de D. Duarte, expedido a 18 de Março de 1437, em que El-Rei 
ordenava a fiel observância das disposições anteriores, estabele- 
cidas por D. Diniz, para reparar os abusos que se tinham intro- 
duzido no governo da Capella. 

Em seguida a esta ordem levantou o ordenado do CapeUSo- 
Mór a 210:000 livras annuaes, entregando este logar immediata- 
mente a Affonso Vicente, (k) 



156 OS iroSICOS PORTUGUEZES 

Seu filho D. Affonso v^ intelligente e instruído na Mnsica, 
continuou a ideia de seu pae^ nomeando mais CapellSes e aug- 
montando o numero dos cantores. 

Diz o chronista Francisco BrandSO; (1) que para a execnçSo 
das Horas canónicas, estabelecidas^ como vimos, por D. Diniz, 
mandara D. Âffonso v vir uma copia do Ceremoniai que os Reis 
de Inglaterra usavam na sua Capella, para por ella se regularem 
os seus CapellSes. 

Esta noticia n%o parece verdadeira e está em contradicçSo 
com um breve (m) do papa Eugénio iv, em que este pontifice con- 
cedia a licença pedida, mas só com a condição, de que as ceremo- 
nias ecclesiasticas seriam celebradas, segundo o Rito Romano. 

Assim foi nos reinados seguintes de D. JoSo ii e D. Manoel. 
O primeiro enriqueceu-a com varias rendas e dotou-a com muitas 
regalias que alcançou do papa Xisto iv. 

D. Manoel seguiu os passos de seu cunhado, engrandeceu- 
do-a com novos privilégios e transferindo-a vantajosamente para 
o magnifico palácio da Ribeira que tinha mandado construir no 
Terreiro do Paço, coUocando a Capella debaixo da guarda de 
S. Thomé, Protector da índia. 

A primeira coUocaçZo foi no logar do Tribunal da Mesa da 
Consciência, onde esteve até ao anno de 1581, como se podia 
ler na memoria, inscripta em uma lapide embebida na parede 
por cima do assento do Presidente, que dizia: 

D. O. M. 

Sub honore D. Tbomao Apostoli 

Hic Bex Emmanuel Capellam Regiam 

Dicavit et translata fuit anno 

— 1581— 
LOCUM PROFANARI VETAT REUOIO. 

O ultimo vestígio d'esta capella desappareceu com a de- 
struiçSo do seu antigo pórtico a 2 de Abril de 1751. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 157 

D. JoSo III mostrou egual empenho na conservaçSo e me- 
lhoramentos da Capella Real, augmentando, já o numero dos mu- 
sicos, já enriquecendo-a com donativos valiosos^ novos privilé- 
gios e ornamentos de grande valor. 

Entre outras regalias que alcançou do favor do Papa Adria- 
no VI, menciona-se o indulto de poder rezar-se na Capella Real 
todos 08 Sabbados do Anno^ o Officio de Nossa Senhora e nas Ter- 
ças Feiras o do Archanjo ,S. Miguel, nSo sendo dias clássicos ou 
duplex, (n) 

A dominaçSo dos Felippes, longe de prejudicar este estabe- 
lecimento religioso e artístico, ajudou e facilitou a sua existência, 
que de dia para dia se ia alargando satisfactoriamente. 

Com a acclamaçSo de Felippe ii, começa o quinto período. 
Este príncipe dotou-a a 2 de janeiro 1592, com os primeiros esta- 
tutos, estando ella debaixo da direcção de D. Jorge de Athaide. 

Constavam elles de 20 capitulos; indicaremos apenas aquelles 
que sSo relativos á musica; pôde ser que alguém julgue esta no- 
ticia desnecessária; embora, a nossa consciência de escríptor 
obriga-nos a certos escrúpulos ; é por ella que nos guiamos ; sSo 
cousas, que não se sabem e que poderão servir aos vindouros, é 
caminho que se aplaina. 

Os VI primeiros capitulos nada trazem«de interessante, sal- 
tamos por consequência ao : 

Capitulo vii. — Trata do numero dos Capellães. 

Diz que haja, além do Capellão-Mór, Deão e Thesoureiro: 
30 Capellães, 26 para rezarem no Coro e os 4 restantes para con- 
fessarem ; manda também que todos tragam lobas e sobrepelizes, 
salvo os que forem Freires das Ordens de Christo e de S. Bento 
de Aviz, porque esses trarão mantos brancos dos seus hábitos so- 
bre as lobas. 

Os Freires do Habito de S. Thiago não trarão mantos, senão 
sobrepelizes, conforme a sua Regra, e todos jimtamente rezarão 
na Capella as Horas Canónicas Romanas, 

Capitulo viii. — Trata do provimento dos Capellães, que 
quer sejam todos filhados. 



158 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Capitulo ix. — Do Mestre das Ceremonias; ordena que se- 
jam dois, escolhidos d^entre os CapellSes. 

Capitulo X. — Dos Cantores, Tangedores e Porteiros. Diz 
que haja um Mestre de Capella e 24 Cantores, 6 de cada voz, 2 
BaixSes (fagotes) e uma Cometa, os quaes Cantores serSo iam- 
hemJUhadoa; diz mais que haja: 2 Tangedores de OrgSo, 4 Por- 
teiros da Capella, e que nenhum d'estes ministros poderá entrar 
n'ella, nem ir nas ProcissSes com espadas, nem com sombreiros, 
nem capas de capello, senão com manteos ou farregoilos compri- 
dos, que pelo menos passem de meia pemai com barretes, ca- 
rapuças ou gorras. 

Capitulo xi. — Dos Moços de CapeUa. Ordena que haja 18, 
de bom nascimento, vida e costumes; que tragam roupas compri- 
das, que pelo menos lhes dêem quatro dedos abaixo dos joelhos e 
na Capella, lobas com mangas até aos pés, e os que as tiverem, as 
trarSo tozadas por todas as partes; e tanto que algum d'elles ca- 
sar, será logo riscado e passará a outro fôro. 

Capitulo xii. — Dos Moços de Estante; diz que haja 4. 

Os capitules seguintes até ao xvn nada tem de particular. 

Exceptuamos ainda o Capitulo xiv, que trata da Distri- 
buição. 

Por elle se vê, que a despeza total, feita então com a Capel- 
la Real, subia a 1:572|482 rs. Pouco depois já era de 4:666| rs. 

Felipe n augmentou a datação até 2:000$000 réis, que foi 
sempre subindo, graças á munificência regia ; como adiante se vê, 
só a despeza feita com o pessoal artistico subia no tempo da dota- 
ção de Felipe ii a 1:740$000 réis. 

Capitulo xvii. — Dos ordenados que recebiam cada anno 
os Ministros da Capella; entre estes contavam-se: 

1 Mestre de Capella (o) com o ordenado de. . • 80|000 réis 
24 Cantores, com 50|000 réis cada um 1:200$000 > 

2 Organistas ou Tangedores a 50$000 réis. . . 100|000 » 
18 Moços de Capella a 20$000 36Q$000 » 

Total 1:740$000 réis 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 159 

Era esta a despeza (p) feita com a parte artística da Capella, 
despeza avultada para aquelles tempos. 

A 30 de Agosto de 1608 fez Felippe ii algumas pequenas 
alterações no regulamento mencionado, a pedido de D. Jorge de 
Atiiaide, entSo CapellSo-Mór, e ordenou que se reduzisse o nume- 
ro dos Capell2es a 24, e que d'estes fossem três Letrados, e os 
restantes Confessores, com um accrescimo de ordenado (q) na im- 
portância de 10$000 réis de côngrua (e 3 moios de cevada, com 
a obrigação de terem mula). 

Na parte musical houve tambcm algumas alteraçSes; o nu- 
mero dos Cantores ficou reduzido a 17, sendo 4 Tiples (Sopra- 
nos) 5 Contraltos, 5 Tenores e 3 Baixos, (ou Contra-baixos, co- 
mo então se denominavam). 

Felippe ni continuou a proteger esta instituição artistica a 
que o seu antecessor tinha dedicado tanta attenção. 

Os Vice-Beis de Portugal, nomeado^pelos Felippes, estavam 
encarregados de velar pela prosperidade da Capella Real, e diga- 
se a verdade, não se cansaram de a dotar com melhoramentos ma- 
teriaes e com disposições que indicavam intelligencia e boa von- 
tade ; estes fidalgos esclarecidos, eram os Marquezes de Castello- 
Bodrigo e de Alemquer; este ultimo, esperando em 1619 a visita 
de Felippe ii á Capital, mudou a Capella para o primeiro andar do 
palácio da Ribeira, por ser incommoda para £1-Rei a collocação 
anterior, visto que estava por baixo dos seus aposentos. 

A mudança politica occorrida no dia 1.^ de Dezembro de 
1640, em nada alterou o estado prospero da Capella. Os melhora- 
mentos n'ella realisados foram sempre em marcha progressiva, e 
a fortuna da Capella Real continuou sempre ajudada pela intel- 
ligencia e dedicação de D. João iv. 

O príncipe, que tinha creado a boa reputação da Capella du- 
cal de Yilla-Viçosa, esforçou-se por elevar esta á altura d'aquella. 

D. Pedro li, seu filho, dotou-a com um palácio proprío, onde 
se estabeleceu o Thesouro da Capella Real ; existia este edificio 
no sitio da Calcetaria, junto da Casa da Moeda, como consta de 



160 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

uma inscripçSo aberta em letras de bronze, em uma pedra lavra- 
da, e feita pelo Conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes : 
Eil-a: 

Sacram aeque snppellectílem 
Begii Sacelli 
Ilaec domas condit, 
Ac vere Begiam ConditorcB monificenciani, 
Pietatem, Beligionem aperít, 
Aug^stíssimi videlicct Principia Pctri, 
Cujos auspiciis, et ezpensis 
Erecta, compta, ditata est 
Aono ab asserta ofbis salute 

MDCLZXXII 

A vindicata Lusitana libertate xui. 

Este edificio do Thesouro da Capella Real nSo chegou a exis- 
tir um século, porque foi demolido em Abril de 1751, quando 
D. José doou as casas existentes no sitio da Calcetaria ao CoUegio 
dos Principaes da Igreja Patriarchal, para alli estabelecerem o 
Tribunal da Congregaçl&o da administraçSo da fazenda e thesou- 
ro da mesma egreja. 

Saltamos os reinados de D. Âffonso vi e de D. Pedro n 
que preenchem o aextp período; é caracterisado por uma segunda 
phase de decadência temporária, que se transforma com o reina- 
do de D. JoSo y, n'uma época brilhantíssima de vida artística. 
De um lado a guerra denominada da Acclamação, do outro as 
desordens interiores, provenientes do casamento infeliz de El-Rei 
e das discórdias com seu irmão, o infante D. Pedro, tudo isto de- 
via occupar quasi exclusivamente a attençSo de Affonso vi e do 
Conde de Castello-Melhor, seu valido. 

Nas Artes, foi do certo aquillo em que menos se pensou n^es- 
te reinado. 

O mesmo succedeu no immediato de D. Pedro n. 

A guerra da Acclamação, terminada depois de 26 annos de 
mortífera lucta, foi substituída por outra peior, europêa, que nos 
envolveu também, a Guerra da Successão ax> throno de Hespanha. 



N 



os MÚSICOS POTTUGUEZES 161 

O reinado de D. Jo3(o v veiu terminar esta ultima calami- 
dade e fechar dignamente o sexto período, o rmie brilhante de to- 
dos elles. 

Foi certamente a este príncipe que a CapeUa Real devea os 
mais valiosos serviços, e a prova está no que vamos escrever. 

Apenas tinha sabido ao throno, entendeu que era necessário 
melhorar religiosa e artisticamente a CapeUa Real, e accrescentou 
para isso, á verba destinada para as suas despezas, a quantia de 
1:600$000 réis tirados do rendimento da Alfandega da Capital, 

O seu auxilio não parou ahi ; pouco depois vieram novos pri- 
vilégios reaes e regalias pontificias, e a formação da numerosa 
collegiada de S. Thomé (r) dotada com a importante somma de 
12:550|560 réis. Tomou posse a 16 de Maio de 1710. 

Este ultimo donativo foi accrescentado com mais 2:400|000 
réis, provenientes do augmento de 100|000 réis ao ordenado de 
cada Cónego (18) e de 50|000 no dos Beneficiados (12). 
, A ostentação de D. JoSo v, não se contentava com tSo pouco ; 
achou que a dignidade de Arcebispo era pequena para a sua corte, 
que elle pretendia transformar em uma nova Yersailles; apellou, 
pois para a condescendência de Clemente xi, que em Bulia de 7 de 
Novembro de 1716, (In supremo aposttãatus aolio) sanccionou a 
creação de um Patriarchado em Portugal, debaixo da invocação 
de Nossa Senhora da Assumpção. 

O Arcebispado de Lisboa ficou então dividido em duas par- 
tes, mna oocidental, sujeita ao Patríarcha, a outra oriental, de- 
baixo da jurisdicção da Sé de Lisboa. 

Esta divisão acabou a final também, por Bulia de Benedi- 
cto XIV, passada a 13 de Dezembro de 1740, (Salvatorie noetri) 
que incorporou a Sé, na Egreja patriarchal, ficando esta livre da 
sua rival. 

Não contente ainda, uniu ao titulo de PcUriarcha o de Capei- 

lào-Mór, e alcançou de Clemente xii ainda a purpwra cardinali- 

eia, (s) dignidade que ficou em virtude da lettra da bulia, d'alli 

em diante unida ao titulo de Patríarcha. 
11 



16Í OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

A união das duas jurisdicçSes ecclesiasticas de Lisboa, se- 
guiu-se a creaçSo de um novo e numerosissimo collegío, um no- 
vo maná de regalias e privilégios; jóias preciosas, peças de ouro 
e objectos de prata em grande numero, (t) , 

A dotaçSo da Capella Real, suficiente até alli, já n!o podia 
chegar para tão numeroso cortejo, por conseguinte fez para ella 
nova dotaçSo annual e perpetua de 200 marcos de ouro, isto é de 
mais de 60:000 cruzadoB, pagos do rendimento dos bens da co- 
roa, e da renda dos quintos das Minas G^raes; accrescia ainda o 
grande producto da Leziria da Foz de Almonda. 

Mais abaixo daremos uma ideia do rendimento grandioso da 
egreja patriarchal e da Capella que n'ella fSf>ra incorporada. 

Esta ultima lucrou sempre com estas transformaçSes; á pro- 
porçZo que os rendimentos da Egreja Metropolitana iam augmen- 
tando, assim crescia o numero dos músicos da Capella, que já 
não entravam ao acaso, como nos tristes tempos de D. Fernan- 
do, D. Affonso rv e D. Pedro i, mas sim, só depois de um exame 
rigoroso. 

D. João V, mandou para que a execução fosse primorosa, 
vir os melhores artistas italianos, que n'aquelle tempo eram os 
mais admiráveis cantores que havia, graças ás celebres escholas 
de canto, fundadas por Porpora, Dominico Gizzi, Fedi, Amadori, 
Pistocchi, Redi, Peli, Brivio e muitos outros, em Nápoles, Roma, 
Bolonha, Florença, Modena e Milão. 

Os artistas italianos eram largamente retribuídos e forma- 
vam em 1754, com os nacionaes, um grupo de 130 Cantares t 

Depois d'este anno, augmentou ainda consideravelmente o 
numero indicado, pela entrada de outros artistas, que tinham vin- 
do posteriormente da Itália, e pelo augmento dos Capellães-Can- 
tores. 

Jisk parte instrumental da Capella, sabemos apenas que exis- 
tiam 4 Organistas, na data indicada, e na composição encontra- 
mos só um compositor de Solfa italiana, isto é provavelmente o 
que hoje chamaríamos: Professor de Canto, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 163 

Se porém carecemos de noticias que nos indiquem a forma- 
^jto da massa instrmnental, podemos concluir que nSo devia ser 
pequena, nem fraca, para estar em proporçSo com a força da par- 
te vocal, composta de 130 vozes. 

Demais, a existência, de 4 Organistas na Capella, indica cla- 
ramente que havia pelo menos 2 Órgãos; podia ser que estes in- 
strumentos substituíssem a orchestra, como se usava ainda então, 
ou a completassem, porque mesmo a orchestra usada nas Operas 
d'aquelle tempO) estava apenas no seu desenvolvimento. 

Tomava-se assim mais fácil uma execuçSo musical, porque 
um bom Organista, encontrava-se mais facilmente, do que os in- 
strumentistas (que eram raros n'esse tempo) necessários para a 
formação de uma boa orchestra. 

Apresentamos em quadro separado um orçamento resumido 
dos rendimentos, e despezas da Egreja Metropolitana e da Capei- 
la Real, na parte musical. 

Estes apontamentos sSo curiosos e entram na serie dos Docu- 
mentos relativos á Historia da Musica em Portugal. (Vide o or- 
çamento.) 

Este resto (68:520^749 réis) era dividido entre o CapellSo- 
Mór e os 24 Príncipaes, de sorte que cada um d'estes últimos fi- 
cava com um rendimento annual de mais de 7:000|000 réis, e 
n'aquelles tempos ! 

O pessoal da egreja patriarchal subia em 1747 ao numero 
extraordinário de 444 pessoas, nSo incluindo o Capell8o-Mór; 
d'este numero pertenciam á parte musical 132 e as restantes ás 
outras íuncçSes ecclesiasticas. 

Por estas indicações imaginar-se-ha a grandeza e sumptuo- 
sidade da Egreja Metropolitana e da Capella musical, que podia 
entSo comparar-se ás melhores da Europa. 

Todavia a prodigalidade de D. João v nSo ficou por aqui, 
porque achando pequeno e mesquinho o edificio em que a egreja 
patriarchal e a Capella estavam estabelecidas, entoideu que era 
necessário um novo monumento. 



164 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

Esta resolução nlo foi seguida, porque as pessoas consulta- 
das para a construccSo da egreja, eram de Yotos mui differentea 

£ provável que, se esta ideia tivesse ido avante, teríamos 
hoje em logar de um palácio de Mafra, dois. 

Fazemos apenas esta conjectura, *porque nSo sabemos se 
as ideias artísticas de D. Felippe Ibarra, então architecto de 
D. JoSo V, eram as mesmas do seu coUega de Mafiui JoSo Fre- 
derico Ludovici. 

Todas estas grandezas que acabamos de enniimerar, desap* 
pareceram no fatal desastre de 1755; depois d'esta catastrophe, 
ordenou o Cardeal a mudança da Basilica para as ermidas de 
S. Joaquim e de Sant'Anna, que tinham resistido ao terremoto 
e que estavam próximas do palácio do Marquez de Abrantes, 
em Alcântara. 

Um novo tremor de terra, operou uma nova mudança na 
existência d'esta Egreja provisória, que foi abandonada, e obri- 
gou os seus ministros a celebrarem o culto ao ar livre no jardim 
do mesmo fidalgo; tal era o terror que a catastrophe de Novem* 
bro tinha inspirado aos habitantes de Lisboa! 

Pouco depois doesta ultima mudança, construiu-se n'esse mes- 
mo ponto, uma barraca de taboas e lona, em que se começou a 
officiar a 24 de Dezembro de 1755. 

Eis a que ficara reduzida a sumptuosa Basilica Patríarchal 
e todas as suas preciosidades ! 

Era porém urgente a necessidade de um novo edifieio apro- 
priado e decoroso para n'elle se estabelecer novamente a egreja 
metropolitana e para isso aproveitou o Cardeal o grande palácio 
principiado pelo Conde de Tarouca no logar da Cotovia. 

A transformação operou-se e.a egreja foi inaugurada a 8 de 
Junho de 1757. 

A ceremonia da benção coube a Monsenhor Bernardes • 
Monsenhor GuimarSles inaugurou n'e8se mesmo dia o Altar-Mór 
com a primeira Missa. 



os MÚSICiOS FORTUaUERES 165 

A Capella Real de Musica^ cuja existência andava estreita- 
mente ligada á da própria Basilica^ sofiBreu com todas as desgra- 
ças que afligiram esta ultima. 

A época florescente de D. JoSo Vy foi infelizmente bem cur- 
ta; quando o Cardeal Patríarcha tentou renovar o culto nas er- 
midas mencionadas de S. Joaquim e de Sant^Anna^ ainda lá ap* 
pareceram alguns capellSes cantores, porém a maior parte anda* 
va dispersa; uns estavam mortos, outros feridos e impossibilita* 
dos do serviço, outros ainda escondidos, dominados pelo terror 
que o espectáculo lhes tinha incutido na alma. 

Os artistas estrangeiros, nSo menos impressionados do que 
os nacionaes, fugiram para as cinco partes do mundo, com receio 
de nilo escaparem de uma segunda catastrophe. 

£ assim ficou o coro do templo des^o. Comtudo na nova 
egreja que fôra construida e de que acima fedíamos, estabeleceu 
o architecto nada menos de d Coretos para a Musica. 

E de crfir que elles brevemente se povoassem de novos ar* 
tistas, porque assim o devemos concluir, se attendermos i pro* 
tecçSo excepcional que D. José dava á Musica, imitando por ech 
te lado ainda mais grandiosamente o seu antecessor. 

Entramos com este reinado, no penuUimo período histarieo 
da Capella, que se estende até á morte de D. Jo&o vi. 

A actividade e o talento de David Perez, que desde 1752 se 
tinha estabelecido em Portugal e que fôra pouco depois nomeado 
Mestre da Capella Real, levantou depressa o nivel artístico da 
execuçSo. 

As obras primas de Palestrína, Haendel, Jomelli, e de Dar 
TÍd Perez ainda foram ouvidas uma ultima vez n'aquelle recinto 
sagrado. Depois veiu o reinado de D. Maria i, d'essa pobre louca 
que se divertia em exercícios do mais subtil beaterio. 

O resultado foi ella endoudecer; já se vê, que a Musica na- 
da lucrou com a sua doudice, pelo contrario ; as disposiçSes jnatê 
estúpidas e mais prejvdiciaes (u) para as Artes, eram lançadas 
a publico com um atrevimento indigno, dando a entender cla- 
ramente o triste estado intellectual da rainha e de seus conse- 
lheiros. 



166 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Veiuem segoida aregencia e reinado deD. JoSo Ti^ o Falstaff 
da nossa Historia, seu egual na coragem e na intelligencia! (v) 

O talento e os esforços do nosso grande Marcos Portugal na- 
da poderam conseguir do idiotismo e pnsilanimidade doeste princi- 
pe; por isso o nosso compositor se retirava para a Itália sempre 
que podia, apesar dos seus titules de Mestre da Capella Real e 
de Suas AUezat. D. Jo%o vi fugiu em seguida para o Brazil ; lá 
se estabeleceu novamente a Capella Real, sobre os fundamentos 
de um bom estabelecimento artistico fundado pelos Jesuitas. 

Já falíamos largamente a seu respeito na Biographia do 
P.* Joêé Maurício Nunes Garcia; para lá enviamos o leitor curioso 
que queira ter noticia mais extensa sobre o Conservatório dos 
Negros. 

Parece porém que esta juncçSo das duas escholas musicaes 
deu poucos fimctos, coUocadas como estavam debaixo da protecçSo 
de tSo mau Mecenas, como era D. JoSo vi. Porém, segundo o 
que sabemos, nunca ella chegou n'este reinado a um grau notável 
de prosperidade, não obstante os esforços reiterados de Marcos 
Portugal e do seu talentoso coUega o P.® Nunes Garcia. 

Com a morte doeste príncipe começou o oitavo e o ultimo pe- 
ríodo de existência da Capella Real; tem durado até hoje, e mar- 
ca a terceira phase de decadência, peior do que as duas antece- 
dentes, porque chegamos em quanto á Capella Real de Musica, 
ao ultimo grau de decadência, á: miséria artística. 

Para melhor intelligencia d'este curto esboço e para o leitor 
poder ter presentes, em um lance d'olhos, os factos mais memo- 
ráveis que pertencem á Historia da Capella de musica dos nos- 
sos Reisy incluímos, em separado, um Quctdro histórico que com- 
pleta na sua synthese as ideias espalhadas por este artigo. 



(a) Frederico n, Bei da Prússia, passando em revista no seu 
vel livro: Hisloirt de mon tempSf as diiferentes testas coroadas do seu tem- 
po, pinta-nos D. Jo2o r, com a verdade severa e implacável do historiador 
e do moralista: 

<Don Joan n*était oonnu que parsa passion bizarre pour les eérémo- 
nies de Téglise. U avait obtenu par un oref du pape le droit d'avoir nn 
patriarche, et par un autre bref celni de dire la messe, à la consècration 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 167 

prés. Sei pláiflín étaient des fonctíons sacerdotales, ses batiinentB| des eon- 
yents; ses armées des moines, et ses maitresses, dcs réligieuses. > 

(b) Vide DE Biografhia de D, Dini» algumas ideias históricas sobre a 
Cadeira de Munca na Universidade de Coimbra e sobre os seus Lentes, 

Vide mais na Biograpbia do P.* José Maurício Nunes Garcia, a Hir- 
teria do Conservatório musical dos Negros^ estabelecido no Bio de Janeiro 
pelos Jesuítas. 

Vide também na Biograpbia de D, José, o Esboço histórico da Opera 
em PortUjgaL 

(c) 'Airtureti. Capilla Btal de Madrid^ apud Carafa, De Capella Regis 
ytríusqne SicãuBj cap. i, n.* 7. 

(d) Vide Doação regia feita aos 6 dias das Kalcndaa de Junho de 1146, 
existente no Cartório da Sé primacial de Braga, e diz : 

«Insnper dono tíbi, atque concedo in Cúria mea totnm illnd, quod ad 
clencale omcium pertinet, scilicet, Capellaniam, Scribaniam et caetera om- 
nia, qusB ad Pontiíicis curam pertinent, ut in manu tua, in manu sucesso- 
rum tuomm, qui me dilexerunt, totum meum consilium committo.» 

(e) Antiguidades de Portugal^ por Gaspar Estaco. Lisboa, 1625, cap. 
25, n.« 6. 

(f) D. António Caetano de Sousa, Historia genealógica da Casa Real 
portuguesa. Lisboa, 1735-1749. vol. x. 

(g) M. Soriano Fuertes, Historia de la Musica espahola desde la ve- 
nida de los Fenicios hasta ti aho de ÍS60. Barcelona, 1855-1859, 4 voL in 8.*, 
YoL I, pag. 110. 

Becommendamos a todo o amador e artista sincero, a leitura d*esta 
obra interessante e ntíl ; em outro logar occupar-nos-hemos mais largamen- 
te d'ella. 

(h) Os Psalmos tiveram a sua origem musical e litteraría entre os He- 
breus, e attribne-se a sua invenção ao Bei David, que ainda hoje se quali- 
fica com o titulo : de Psalmista, 

Comprehendiam muitas espécies, que eram : 

Psaímos em canto attemado^ attribuidos a S. Ignado, Martyr no tempo 
de Trajano. 

PsaUnos dominicaes para as Vésperas dos Domingos, 

Psalmos festivos ou para as festas dos Santos. 

Psalmos feriaes, (feriali, che se cantano con você dimessa.) 

Psalmos para os Graduaes de Defunctos, 

Psalmos duplos solemnes, solemnes duplos, Psalmos di TeruL 

Isto é em quanto ás voses ; com relação á composição musical, disem-se 
Psalmos de Capella, cantados só pelas vozes, ou acompanhados pelo OrgSo 
e Contrabaixo. 

Psalmos concertantes (concertati) ou com instrumentos, estes ainda se 
dividem em Ripieni, o^ divisi in Vtrsttti, 

ÂB Lições eram, ou de Nocturnos ou de Officios de Defanetos, ou da 
Semana Santa, 

Estas ultimas cantam-se em algumas Capellas com musica figurada a 
Solo ou também a mais vozes, com e&ro, 

A Musica figurada, como o Idtor talvez saiba, foi inventada no sécu- 
lo de Guido d*Ai«zzo. Estava em opposição á Musica coral, cuja melodia 
se desenvolvia sobre notas de eguaf valor; a Musica figurada, pelo contra- 
rio, apresentava a sua melodia em notas misturadas, de differente yàlor e 
movimento. 



168 OS MÚSICOS FOBTUaUEZBS 

Ao piincipio, á syllaba Umgoj con^etía tuna note Um^a^ ás^Uába òrif^ 
ve, uma nota breve. 

Já se vê, que a syllaba lanffa durava o duplo da breve. 

Maii tarde a invençfto dos vários valores das notas, libertou completa- 
mente a Arte, até ali escravisada. 

Este principio da Musica figuraUij como lhe chamam também os ita- 
lianos, desenvolvido depois mais largamente, deu oríçem á musica dramáti- 
ca moderna, livrando a Musica antiga áojugo que sobre ella exercia a pro- 
êodia e a poesioy e tomando-a uma Arte independente e a verdadeira 2t»* 
guoffem doa sentimenioê. 

(i) Chronica Conimbricense; eFloreê dê He^panha, por António de 
Sousa de Macedo. Coimbra, 1727, pag. 23. 

(j) Monarchia lAiêitana, por Frei Bernardo de Brito, António Bran- 
dão, Francisco BrandSo, Raphael de Jesus, e Manoel dos Santos. 1597-1727. 
▼ol. foi. Part 5, livr. 17, Cap. 48 ; e livr. 18, Cap. 9. 

(k) Criado do Infante D. Henrique, irmSo de D. Duarte. Vide a soa 
Biographia. 

Ç) Monarchia Lusitanay pag. 441. 

(m) Diz : — «Cum itaque in dicendis Horis Canonicis morem Romansa 
fEcclesiaB in Capella tua observari speciali devotione desideris. . . Horas 
«Canónicas per Capellanos et Cantores tuos pro tempore existentes, necnon 
«Missas, et Officia nujusmodi dicere valeant, nec teneantur, rivoluerint, ad 
«morem, vel ordinem alium super his observandum.» 

(n) Caetano de Sousa, Historia genecUogica, voL n das Provas» pag. 
758. 

(o) Além do seu ordenado tinha 50 moios de trigo; este, e todos osmais 
Mimstros quando estavam doentes, tinham Medico, CirurgiSo e Botica, se- 
gundo se entende da lettra d*este mesmo Capitulo ?xvn) dos Estatutos. 

(p) Vide o Quadro das Despegas da Capella Èeal, em Í69Í, !,• Doca* 
mento histórico. 

(q) Com a Instrucção no Seminário gastava-se n*aquelle tempo a quan- 
tia de 1:800#(XX) réis, (!!) isto é, quasi quatro vezes o dinheiro que se dia- 
pendia com o azeite dos candieiros da egreja. 

Bons resultados se haviam de colher d'este maravilhoso systema ! ! 

(r) Compunha-se de 6 Dignidades, — incluindo o DeAo, 18 Cónegos, 12 
Beneficiados, além de outros Ministros, subordinados todos ao CapellSo- 
M6r. 

O Deão tinha 400$000 réis de côngrua, cada uma das 5 dignidades 
3009000 réis, cada um dos 18 Cónegos, a mesma quantia; cada um dos 12 
Beneficiados 150$000 réis, e cada um dos Mansionarios 80$000 réis, etc. 

Para mais explicações. Vide Bulia (Âpostulatus ministério) de Cle- 
mente XI, de 1 de Março de 1710 ; vem no vol. i do Codex Titulor. S. L. £. 
pag. 11. 

(s) Bulia de 27 de Dezembro de 1737 : Inter prctcipuos ÂpostoHcimi- 
nisterii, 

O Patriarcha já gozava em 1717 do tratamento de Cardeal, em virtu- 
de de um Alvará de D. JoSo v, datado de 17 de Fevereiro. 

(t) Para o leitor fazer uma ideia doestas preciosidades artísticas, men- 
cionaremos a mais notável ; o objecto é de tanto interesse e t2o curioso, que 
n8o resistimos á tentação de o descrever aqui, ao menos superficiahnente; 
queremos f aliar da /amota crus de prata, que pertencia á Egrejá Patrku*- 
chaL 



08 MÚSICOS PORTUGUEZES 169 



^Ttíkk ndo mandada fiwer em Bmna e Floroiça, B%gmão os desenhos 
do eelebre Arrighi Romano e custou a D. JoSo y, 300:000 crusados ! Era 
toda de prata madça, dourada e da altura de 17 palmos (!!) sobre uma ba- 
se quadraneolar de Sjpalmos e meio de diâmetro. 

£m todo o comçnmento da cruz. via-se a vida de Chrísto e os Myste- 
rios da Virgem adnurayelmente esculpidos, allistoria da Egreja Patriar- 
dial e a do Império e das conquistas portuguesas. Os desenhos ane ser- 
viam de quadros a estes assumptos, estavam profusamente adomaaos, com 
cherubins, génios, symbolos, bieroglyfioos, etc. e tudo esmaltado a lapis-la- 
soli, rubins e diamantefl» 

Nove riquíssimos castiçaes, completavam esta obra .digna de um Ben- 
vennto Cellini. 

O terremoto de 1755, que nos destruiu tantas preciosidades artísticas, 
também nSo se esqueceu d esta. 

Os castiçaes e a cruz ornavam o Altar da Capella-Mór da Patríarchal, 
80 nos casamentos régios, baptismos, etc. Para as outras festividades ha- 
via ontrofl serviços, que oomquanto fossem muito inferiores ao primeiro, 
eram ainda magníficos. 

(u) Entre outras medidas é notável a<]|uella que prohibia ás mulheres 
a entraida no palco ! Vide o Esboço hittorteo da Opera, fiiographia de D. 
José. 

(v) Este príncipe analphabeto teve dois artistas que o immortalisaram 
dignamente, no seu palácio da Ajuda. 

Ezaminem-se os freêcoê de CjrriUo Volckmar Machado, de celebre me- 
moria, e do mntor Foschini, sobretudo o quadro da Camcka, em que D. 
Jo2o VI está fazendo a figura de um Tritão ! 



JOÃO XZI — Mais conhecido pelo nome de Pedro Hispano; 
A biographia do philosopho, do papa e do theologo nSo pertence a 
este livro, em que pôde ser considerado apenas como escriptor na 
litteratnra masical ou como compositor. 

Começando a soa carreira como Prior de Santo André em 
Mafra, depois Cónego, DeSo da Cathedrai de Lisboa e Thesou- 
reiro-Mór na Sé de Braga, subiu á Dignidade de Arcebispo does- 
ta ultima cidade, porém nunca chegou a exercer este cargo, prcr 
ferindo a sua cadeira de Bispo em Frascati (a) e o seu barrete de 
Cardeal do mesmo nome; provavelmente já olhava a tiara ponti- 
ficia como uma presa que lhe havia de cahir infallivelmente nas 
mSos e por isso aproximava-se a raposa das uvas. 

Emfim obteve o que desejava em 1276, depois da morte de 
Adriano v, porém pouco gosou o dolee far niente, porque a 16 
de Maio de 1277 morreu miserrimamente esmagado pelas ruinas 
de uma casa em Viterbo, depois de um pontificado de oito mezea. 



170 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

A este papa Buccedeu um outro papa, que se o leitor se re- 
corda, foi pirata antes de ser pastor das almas catholicas, cir- 
cumstancia que a historia teve a malicia de registrar. . . 

O nosso patrício JoSo xxi, apesar de se ter dedicado com es- 
pecialidade ás sciencias, nSo esqueceu as Bellas-Artes» 

Possuia bastantes conhecimentos musicaes e até se diz que 
escrevera uma extensa Diêêertação musical^ dirigida a um Bispo 
inglez, chamado Fulgentiuê. 

Parece que o manuscripto autographo d'este trabalho existe 
na Bibliotheca de S. Paulo em Leipzig, (b) (Saxonia). 

(a) Pequena cidade de 6-7:000 habitantes na Pravineta di Boma. Está 
em uma sitaaçSo mui pittoresca e agradável, e é por isso o ponto de re* 
unifto de moitos eatrangeiroB dutinctoB na estaçflo calmosa. 

Perto da cidade eneontram-se as ruínas da celebre e antiga Tuêculum 

Ça) W. £. Teutzel, Monatliche Gfprcoeht, 1692, pag. 71§ e 

t). Frabicii, BM. Lai, m, ti inf. €iety pag. 648. 

JOAQinM (Hanoel) — Primeira rabeca do Theatro da Opera 
e da Capella Real do Rio de Janeiro no principio e na primeira 
metade do presente século. 

JORGE (D. JoSo) — Mestre de Ignacio Solano, Passo- Vedro, 
Luciano Xavier dos Santos e outros. 

Era considerado como um dos melhores professores porta- 
guezes do seu tempo. 

O segundo discipulo que mencionamos, (Nicolau Ribeiro de 
Passo-Vedro) chama-lhe insigne (a) no juizo critico que £elz do 
livro de Solano, e dá á sua eschola o epitheto de /arnosa. 

Segundo as declaraçSes que este artista ahi faz, parece 
que o systema de D. JoSo Jorge, se limitava ao ensino de um me- 
thodo claro e fácil que excluia as innovaçSes de Solano e todo o 
systema de invençSes menos acceitaveis. 

Diz o mesmo critico: 

cÉ verdadeiramente, Excellentissimo Senhor, este Livro 
uma Nova Inêtrucção de Musica^ porque ainda que no meu ma- 
gistério pratico os seus fundamentos, que bebi com seu author 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 171 

na fiEonosaEschoIa do insigne Mestre D. JoSo Jorge, nem por isso 
deixa de ser próprio a esta admirável obra o titulo, com que se 
publica; porque aquelle estimável homem, posto que tendo conhe- 
cimento da vainedade das opiniões de Escholas seguidas por mui- 
tos Doutos em differentes Nações, se desviou d'ellas, e só estabe- 
leceu a sua doutrina na denominação dos próprios nomes das vo- 
zes da Musica: desterrou do seu Magistério as imaginais e sup- 
posições das vozes não comprehendidas em os nomes dos seus 
próprios intervallos, nos (^su^^ fundamentos firma o Âuthor does- 
ta Obra o seu verdadeiro systema: com tudo não reduziu aquelle 
grande Mestre a sua doutrina a uma ordem de regras perceptí- 
veis, nSo a mostrou praticável geralmente, nem a expoz em o fá- 
cil e intelligivel Methodo, com que a trata, e explica este seu be- 
nemérito discípulo, mas tSo somente propôz, e ensinou aquelle 
insigne Mestre as suas liçSes, deixando aos seus Discípulos ar- 
bitraria a matéria d'ellas; de sorte, que sem embargo de serem 
os fundamentos d'este Discipulo os de seu Mestre, as RegraSj^ o 
Meíhodo, e a fácil percepção de todo este Novo Systema do Âu- 
thor, é uma invençSo estimável (b) e útil, nSo só para os Portu- 
gueses, mas para todos os Professores de Musica das ovJtras Na» 
ções, etc., etc.» 

Passo-Vedro, fSetz n^estas linhas, sem o querer, um verdadei- 
ro elogio a JoSo Jorge, dando-o a conhecer como um professor des- 
pido de intoUerancias e de preconceitos de eschola, isto é verda- 
deiramente liberal no seu systema de ensino e na sua doutrina. 

Esta liberdade de acçSo e de pensamento que JoSo Jorge 
concedia aos seus disciptdos, honra-o em extremo. 

NSo conhecemos infelizmente, nem de nome, uma só das suas 
composições, porém é certo que escreveu, e muito talvez, pois 
quasi todos os exemplos de solfejo, que se encontram na Nova In- 
strucção musical sao de D. JoSo Jorge, exceptuando alguns pou- 
cos de David Perez, (c) Leonardo Leo, (d) Jomelli (e) etc. 

(a^ Nova Instrucção fMíHcàl, de Solano. Lisboa, 1764, pag. uii, Car- 
ta do Beneficiado Nicolau Ribeiro de Passo-Vedro ao Arcebispo de Lace- 
demonia. 



17Í OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

(h) Vide a BiograplÚE de Franciseo Ignado Solano. 

(c) Celebre compositor hespanhol do século xviu, discípulo de Francesco 
Manciíú, Mestre do Conservatorio de Loretto em Nápoles, na egreja de San- 
ta Maria delia Solitária. Vide adiante a sua biographia. 

(d^ 1694-1746 — Mestre de CapeUa, grande compositor e artista do 

Íríncipio do século passado. Foi com Alessandro Scarlati, sen ptedeoeseori 
>urante e Feo, o fundador da celebre eschola de Nápoles. 
Distinguiu-se egualmente no género sacro e profano, 
(e) 1714-1774 — Discipulo do precedente e compositor celebre. Adnn-> 
rayel nas suas Operas, nos seus Oratorios e nas suas Missas. Os contem- 
porâneos concederam-íhe o titulo honroso de Gltíck da Itália, 

Trabalhou para o Theatro da Opera no reinado de D. José e para a 
sua Capdla. Vide a biographia d*este príncipe. 

D. JOSÉ. — Apesar de antipathisannos com a figura históri- 
ca doeste príncipe^ nSo podemos negar o auxilio.efficaz que preá- 
trou ás Artes, e em particular á Musica; auxilio, que, ou resul- 
tado de uma vaidade de rei, (o que é mais provável) ou convic* 
çSo de um espirito elevado em um homem distincto no pensa*- 
mento e no sentir, sempre foi uma protecção efficaz e valiosa. 

Longe de ser um D. JoSo iv, que era artista, foi um prín- 
cipe (como ha tantos!) que considerava a Musica como um pas- 
satempo agradável, como imia distraoçSo is dissertaçSes admi- 
nistrativas e financeiras do seu ministro favorito. Este, diplo- 
mata ju8qu'au hout des ongles, vendo a indifferença e o aborre- 
cimento que ao rei inspiravam os negócios do Estado, e notando 
a sua inclinaç&o para as Bellas- Artes, tratou de favorecer pode- 
rosamente esta ultima para o affastar cada vez mais do governo, 
cujas rédeas estiveram desde entSo sempre na mão do audacioso 
ministro. 

A época gloriosa (musicalmente fallando) á qual vamos pas- 
sar agora revista, deveu a sua origem á preguiça de um rei e á 
ambiçSo de um cortezSo ! 

Assim é que se explica o dispêndio de milhSes, que se gas- 
taram com os Theatros de Lisboa (Opera italiana e Ajuda) de 
Salvaterra e de Queluz, milhSes que o económico ministro via, 
com um sorriso nos lábios, rolar do erário real. 

Intercallamos n^esta biographia algumas noticias sobre a 
Historia da Opera em Portugal, sua origem, progresso e deca- 
dência. 



08 MÚSICOS POBTUGUEZES 173 

Âlém de cumprirmos uma promessa, talvez prestemos al- 
gum serviço apresentando bom numero de factos, uns completa* 
mente ignorados, outros apenas na obscura lembrança de poucos 
amadores. 

As escassíssimas noticias que temos espalhadas aqui e acolá 
a respeito da Historia do Theatro lyrico, nSo nos permittem dar 
sempre a certeza dos factos que affirmamos. 

Nos nossos futuros trabalhos, desde já fica feita a promessa, 
trataremos de emendar os erros que tiyermos encontrado^ ou que 
uma critica imparcial e sensata nos haja indicado. 

Para bem apreciarmos as noticias que em seguida inseri- 
mos, deyemos descer ás primeiras origens da nossa litteratura 
dramática, e ainda mais longe, ás representações publicas nas 
praças e Pateos de Comedicu. 

Os mais antigos que chegaram ao nosso conhecimento, eram 
o PcUeo das Fatigas da Farinha, (a) perto do local onde se acha 
hoje o tribunal da Boa-Hora, já arruinado, talvez pelos annos de 
1588, e o Pateo da Bitesga ou Mouraria^ cuja collocaçSo ainda 
hoje 86 ignora e que existia provavelmente em algum dos sities 
que ainda conservam o mesmo nome. 

Foi n'este ultimo logar que se representaram vários Dramas 
e Comedias de António José da Silva, que foi preso pela Inqui- 
sição e queimado no Auto da fé (!!) que se executou no campo 
da La (Terreiro do Trigo) em 19 de Outubro de 1739. 

Além d'estes dois pateos havia o dos Condes, na rua do mes- 
mo nome, o do Bairro Alto, no fim da rua da Rosa, no Pateo do 
Conde de Soure, o da Rua da Praça da Palha, fireguezia de San-^ 
ta Justa, e que apparece em 1593, e emfim o Pateo da Rita das 
Arcas; ha duvidas a respeito da existência d'este ultimo, que al- 
guns escriptores confundem com o primeiro, suppondo ser o mes- 
mo que o antecedente. 

Este Pateo das Arcas, destruído entre 1697 e 1698 por um 
incêndio, em remltado da malevolencia d'uns vtsinhos que tinham 
janeUas para o pateo, foi reedificado em maior escala á custa do 



174 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

Hospital de Todos os Santos (b) no local, onde começa a Rua 
Augosta, próximo do Rocio. 

NSo fazemos aqui a descripçSo minuciosa d'este Pateo, que 
foi decididamente o maior e mais importante que teve Lisboa, 
por ser assumpto extranho a este livro em qae apenas falíamos 
dos Pateos de Comedias pela relaçlo que possam tor com a Mu- 
sica e por isso com a nossa Historia artística. 

Recommendamos entretanto aos curiosos, os interessantes 
folhetins qne S. M. A. Nogueira inseriu no Jornal do Commfírcio 
de Lisboa, debaixo do titulo: Archeologia do Theatro portuguez; 
lá encontrará o leitor o que aqui falta. 

NSo tomos dados positiyos para affirmar que n'esses Pateo$ 
de Comedioê a musica fizesse parte do espectáculo, porém é de 
presumir que ella alli figurasse ; o povo que tinha desde os pri- 
meiros tempos da monarchia invadido as egrejas com a stut mu- 
sica, apesar de todas as advertências e mesmo prohibiçSes expres- 
sas das authoridades ecclesiasticas, nSo deixava de certo escapar 
uma occasiSo tio propicia para manifestar a sua veia artística 
em um logar, onde nenhum veto de um poder odioso vinha im* 
pedir a expansJlo da sua alegria» 

É pois de crer que a Musica figurava n'essas ComediaSi 
Autos, Tragedias, exposiçSes de Presepes ou Loas e mais repre- 
sentaçSes sacras e profanas. 

NZo nos restam factos como já dissemos, porque nSo nos rea- 
tam vestigios d'es8a parte artística do nosso antigo Theatro por- 
tuguez, porém devemos crer, que o que succedia nos outros pai- 
zes no mesmo século, se repetia entre nós egualmente. 

O povo sente e sentiu em toda a parte da mesma maneira a 
sua dôr e a sua alegria, e assim traduziu de certo uma e outra, 
cantando. 

Já os Autos de Gil Vicente (c) tinham, no principio do sé- 
culo XVI, incutido no povo o gosto de introduzir a Musica nas re- 
prescntaçSes dramáticas e este, que tanto se enthusiasmou com as 
bellas producçSes do génio de Gil Vicento, de certo nSo se es- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 175 

quecea do bom effeito que faziam nos seus Autos, as Cantigas e 
VUhanceteê portuguezes e as Enselladas que vinham de França. 

Este uso continuou provavelmente depois, até se introduzir 
nos Pateos das Comedias e de apparecer na primeira representa- 
çlo a 11 de Julho de 1594, no PcUeo da Bitesga. 

A parte que a Musica tomava nas representaçSes dramáti- 
cas, ficou sendo porém ainda mui pouco importante; limitava-se 
a algunia enséílaaa ingénua ou a alguma cantiga despretenciosa 
e quanto muito a algum Coro. Só no principio do século xvui 
(1712) é que encontramos em Portugal os primeiros vestigios de 
uma verdadeira influencia musical nas representaçSes dramáticas. 

Esta influencia nSo partiu porém do povo, mas sim das clas- 
ses privilegiadas da sociedade. 

Representavam-se entSo na corte de D. JoSo v umas/ofttflew 
dramatiBodas em que a Musica era talvez já o elemento domi- 
nante. 

A Fabula de Alfeo e Aretkusa de Luiz da Costa e Faria (d) 
Ibi de certo a primeira tentativa para a introducçSo da Opera em 
Portugal (1712). 

El poder de la Harmonia fJíeHa de zarzuela, do mesmo au- 
thor, é outra tentativa para o mesmo fim, um anno mais tarde. 

Estas producçSes tem, se nSo nos enganamos, para a Histo- 
ria da Opera em Portugal uma importância egual a que se at- 
tribue á cOpérarBallet» na Historia da Opera em França. 

Se a Circi no Ballet de la Reine de Baltazarini, foi para es- 
te ultimo paiz um dos passos mais importantes para a apresenta 
ç2o da Opera, nSo julgamos que as duas producçSes conhecidas 
de Faria, tivessem menos influencia no desenvolvimento da Ope- 
ra em Portugal. 

Em França era a fabula de Circé em 158]. o assumpto es- 
colhido ; entre nós formava egualmente uma fabula o enredo, a de : 
Alfeo e Arethuea em 1712. 

A Zarzuela, cujos, primeiros elementos encontramos já em 
Gil Vicente, apparece entre nós desenvolvida só em 1713, com El 
poder de la Harmonia. 



176 OS MÚSICOS FOBTUGUEZES 

A represeutaçSo d^oBtas peças e de outras análogas preoedea 
a verdadeira Opera que fez a sua estreia^ já formada e completa 
em Lisboa, no anno de 1720. 

Devemos porém notar que estes progressos eram desde o 
principio do século xviii até esta ultima data, no palácio real da 
Ajuda, apenas apreciados pelas classes privilegiadas que tinlvam 
entrada nos Paços reaes. 

O povo ficou estacionando em quanto ao seu movimento ar* 
tistico nos pequenos ensaios musicaes dos Autosy das Camedioê e 
dos Entremezes; apenas em 1730 apparece um producto indire- 
cto da sua influencia nas Operas de António José da Silva, d&* 
nominado o Dr. Judeu. 

Chamamos as producçSes dramáticas d'este escriptor, de pro* 
posito : producto da influencia popular j porque nSo podemos acre- 
ditar, que as Operas do Judeu Silva fossem alguma imitaçSo ser- 
vil da Opera italiana, que tinlia poucos annos antes feito a jtoa 
entrada em Portugal. 

A influencia d*esta só se poderia ter feito sentir depois de 
1735, época em que começou a popularisa^ da Opera, até alli 
só ouvida nas festas da corte. 

Ora, as primeiras Operas do Judeu datam de 1736 — Laby* 
rintho de Creta, 1737 — Ouerras do Alecrim e Mangerona, 1737 
— -ils variedades de Proteo, 1738 — Precipicio de PhaetonU. 

Em outro logar examinaremos esta questSo com mais cui- 
dado e vagar, e até lá nos convenceremos se erramos, ou se acer- 
tamos. 

Temos pois, como o leitor terá visto, duas influencias traba- 
lhando cada qual em sentido diverso; de um lado está o elemen- 
to popular, fazendo valer todos os seus esforços para produzirem 
resultado, a Opera Popular, do outro, vemos o elemento cortezSo 
trabalhando na propagaçSo da Opera italiana. 

O combate era desegual para o povo ; o elemento popular 
succumbiu, porque encontrou como adversário, uma ideia já ma- 
dura, completa e acceita pelas classes mais poderosas da socie- 
dade não só em Portugal, mas também na Europa. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 17Í 

De um lado o desenyolvimento tardio da Opera popular, do 
outro a falta de um homem de génio que fizesse valer todos os 
seus recursos, assim como Monteverde o fizera para a Opera ita- 
liana, eis as duas causas principaes porque nos falta hoje uma 
Opera nacional. 

Ficou assim o campo livre á Opera italiana. 

Esta apparece-nos primeiro a 22 de Outubro de 1720, an- 

niversario d'El-Rei e não em 1737 como afiirmam PlatSo de Va- 

xd, (e) A. Nogueira, (f) Fonseca Benevides (g) e muitos outros 

que copiaram este erro uns dos outros. 

A prova d'esta nossa affirmaçSo encontra-se em um libretto 

da Opera H Triumfo ddle virtu, representada no Real Theatro 

do Paço da Ribeira. 

Foi pois esta a primeira scena em que appareceu a Opera 
italiana em Lisboa. 

N^CBse Theatro executaram-se depois posteriormente para o 
fim do século xvm muitas Operas. 

O Theatro que existia antigamente defronte do convento da 
Trindade, improvisado em umas casas que para esse fim aluga- 
ram uns músicos italianos — (companhia Pagheti) foi a segunda 
scena em que appareceu a Opera italiana em Lisboa (1735) e a 
primeira em que o publico lisbonense pôde admirar a maravi- 
lha artistica, realisada meio século antes por Monteverde. 

Até ali estava o gozo de semelhante espetaculo reservado só 
para as classes privilegiadas; o povo de Lisboa gostou da novi- 
dade e foi assim que surgiu já no anno seguinte (1736) imia no- 
va companhia da Opera italiana. 

Ignora-se todavia onde o edificio se alojou. 

Em 1739 temos ainda mais outra no Theatro da Rua dos 
Condes, já em plena prosperidade, levando Operas como o De- 
métrio de Schiassi, 1739. Merope de Giacomelli^ 1739. E Ve- 
logeso de Sala, no mesmo anno. Ciro reconosciuto de Caldara, 
1740, etc. 

KSo é pois verdadeira a data de 1770, que Nogueira (h) ci- 
ta, como sendo a da construcçSo do Theatro. 



178 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

Só agora entre estas duas ultimas datas 1736 e 1739, é que 
podemos coUocar a de 4 de Novembro de 1737, que corresponde 
á primeira representação da Opera italiana no Theatro de D. 
JoSo V (Ajuda). 

Este espectáculo teve lisongeiro acolhimento, durante todo 
este reinado, chegando no immediato a um grau de esplendor que 
fez do Theatro régio de Lisboa talvez o primeiro da Peninsula, 
se nSo da Europa. 

A leitura das linhas seguintes provará se exageramos ou nSo. 

Chegamos emfim ao século de D. José, em que encontramos 
nada menos de quatro bellos Theatros de Opera italiana, susten- 
tados grandiosamente pela mSo generosa do rei e pela bizarria 
da primeira sociedade de Lisboa. 

Eram elles o Theatro da Ajuda, o de Salvaterra, o de Que- 
luz e emfim o ultimo, o grandioso edificio situado perto do Tejo 
e que denominaremos d'agora em diante: Opera do Tejo. 

O Theatro da Ajuda datava da construcçSo do mesmo pa- 
lácio e é ahi que nos apparece a Opera pela terceira vez em 4 de 
Novembro de 1737. 

Entre as peças que lá se representaram com todo o explen- 
dor citaremos as seguintes : 

Eroe Cinese — David Perez, 1753. 

Ipermestra — David Perez, 1754. 

Cavaliere per amare — Piccini, 1764. 

Ifrancese hrillanti — Paesiello, 1765. 

Solimano — David Perez, 1768. 

Clemenza di Tito — Jomelli, 1771. 

Armida ahbandonaia — Jomelli, 1773. 

Olympiade — Jomelli, 1774. 

Demofoonte — Jomelli, 1775. ' 

Le Trame deluzo — Cimarosa, 1790. 
E ainda o Oratório de Haydn: B Ritomo di Tobia, (i) 1784. 

O Theatro de Salvaterra, construido como o da Ajuda por 
Bibiena, apresentou n'esse século uma lista de Operas ainda mais 
numerosa e nSo menos brilhante. 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 179 

Citamos entre ellas as prineipaes: 

La FarUesca — G. Hasse, 1753. 

Didone abbandonata — D, Perez^ 1753. 

Demétrio — D. Perez, 1753. 

Iphigenia tn Tauride — Jomelli, 1776. 

Lvcio Papirio — Paesiello, 1775. 

Socrate imaginário — Paesiello, 1788. 

Ultalianna in Londre — Cimarosa^ 1788. 

Gli Due Baroni — Cimarosa, 1791. 

Ricardo, Cor di Leone — Qrétry, 1792., etc., etc. 

O Theatro régio de Queluz nada ficava a dever a estes dois 
e também n'elle se applaudiram as melhores Operas d^aquelle 
tempo ; na lista que examinamos, das representadas em Queluz 
no fim do século passado, (1763-1785) encontramos sobretudo 
Operas portuguezas. 

Eram as prineipaes: 

Gli orti esperide — Luciano Xavier dos Santos, 1764. 

Palmira di Tehe — L. X. dos Santos, 1781. 

Te9eo — J. Francisco de Lima, 1783. 

Endimione — J. de S. Carvalho, 1783. 

Adrasto — J. de S. Carvalho^ 1784. 

JZ Ratio di Prosérpina — J. Cordeiro da Silva, 1784. 

Arehelao — J. C. da Silva, 1785. 

Apenas encontramos imia Opera de Piccini : 

L' amante ridiculo deltiso, 1763, 

e duas de David Perez : 

L'iêola desahitatay 1767. 

Ritomo di Vltfsse in Itizca, 1774. 

Besta-nos fidlar do ultimo e mais explendido de todos os 
Theatros de Lisboa, da Opera do Tejo. 

Este Theatro foi construido pele já citado Bibiena (j ) com 
o auxilio de Ázolini, (k) inaugurado a 31 de Março de 1755 e 
destruído apoz sete mezes de uma existência gloriosa e talvez 
vnica nos annaes da Arte. 

Ârchitectos de talento, scenographos insignes, compositores 
celebres e cantores imminentes, tudo contribuiu para elevar esta 



Í80 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ficena á altura de primeira da Europa^ n'nina época em qae os 
theatros explendidos não eram raros. (1) 

As sommas que se despenderam na sua construcçSo e susten- 
to durante poucos mezes apenas, foram verdadeiramente extraor- 
dinariaS; se é yerdade o que nos dizem os escríptores d'aquella 
época. 

Este templo augusto da Arte, eccoou com as Tozes extraor- 
dinárias dos mais celebres castrati do século XYili e ouviu as ins- 
pirações mais sublimes dos immortaes compositores da época. 

Lisboa chegou a admirar no curto espaço de alguns mezes 
os artistas mais notáveis d'este século dos grandes cantores. 

Eram elles Elisi, Caffarelli (! !) Manzuoli; Giziello(!) (n) 
Veroli, Balbi, Luciani, Raaf, Raina, Ouadagni^ e Salino, (o) 

Era uma verdadeira: Constellatíon of great singerêy na 
phrase enthusiastica de Bumej. 

Os ordenados doestes artistas eram enormes para aquelle 
tempO) pois sabemos com certeza (p) que dois d'entre elles Con- 
ti (q) e Caffarelli recebiam cada um 72:000 francos, (12 a 
13:000|000) cantando apenas 2 ou 3 mezes! 

Accrescentemos a' esta somma os ordenados (r) não inferio- 
res dos outros cantores^ scenographos, compositores, orchestra, 
as desfiezaé extraordinárias da mise en schne, etc. etc. e ter-sè-ha 
então uma pequena ideia do orçamento verdadeiramente fabulo- 
so d^aquelle theatro. As Operas representadas eram pela maior 
parte de David Perez e de Jomelli. 

O primeiro estava á testa da Opera que elle dirigia com a 
sua experiência e que administrava com talento pouco vulgar. 

O segundo, Jomelli, quando residia na sua Villa de Tln- 
frbscata di Napoli, recebeu de D. José o pedido de duas Operas 
(s) e diurna Cantata, que o príncipe portuguez retribuiu genero- 
samente com 1:200 ducados de ouro. 

Balbi (t) pretende que Jomelli recebia uma pens&o de D. 
José, e que elle lhe devia mandar uma partitura de todas as 
operas que compunha para a corte de Wurtemberg; nSo noa 
parece esta asserção muito exacta. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 181 

Para que tado concordasse, chamou D. José a Lisboa os me- 
lhores scenographos, conhecidos n'aquelles tempos, para ornarem 
o Theatro real com os seus pincéis admiráveis ; citaremos os mais 
distinctos pela ordem dos seus talentos : Nicolao Servandoni, (u) 
Bibiena, Lourenço da Cunha, Bernardes, Azzolini, Berardi e Fe- 
liciano Narciso. 

Entre os machinistas devemos citar ainda Servimdoni e Pe- 
tronio Manzoni. 

NSo admira pois, que com estes elementos se podesse orga- 
nizar um Theatro lyrico único na Europa, pela mise en scène, 
pelos artistas que n'elle cantavam e pela orches^a poderosa que 
os auxiliava, 

A estreia de David Perez no Demofoonte e a descripçSo das 
maravilhas representadas n^essa noite, desvanecerá todas as duvi- 
das que possam apparecer em presença de semelhante affirmaçSo. 

Felizmente que a citação que vamos fazer nJlo é de um por- 
tnguez, porque n^esse caso podiam-n'a julgar parcial; extrahi- 
mol-a do livro de Bumey, (v) livro digne dfélogeSj seguindo Fé- 
tis (w) e homem essencialmente verdadeiro e que nenhum inte- 
resse poderia ter em íaltar á verdade, sem honra nem proveito. 

A representação do Demofoonte em 1752, foi pois uma es- 
treia e um triumpho completo para o author e para os dois princi- 
paes interpretes: o soprano Giziello e o tenor Raff. . 

Eis o que nos diz Bumey: 

clt was besides rendered magnificiant in the performance bj 
a powerful orchestra and decorations that were extrem^y splen- 
did. (x) 

cBut the theatre of his portuguese Majesty, which was ope- 
ned on the Queen^s birthday, March 31."^ 1755, subpassed ih 

HAOKITUDE AND OBSEBVATIONS ALL THAT MOPEBN TUSSS CAN 
^AST> (! !) 

Estas palavras devem-nos encher de orgulho, sobretudo por 
serem pronunciadas por um homem, que nas suas viagens pela 
Ifalia^ França, Allemanha, Inglaterra, Paizes-Baixos, etc., tinha 
visto e apreciado o que n^esses paizes havia de mais admirável. 



182 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

Ainda nSo acabaram as maravillèos. 

Na Opera Alessandro nelV Indíe (7) do mesmo compositor, 
appareceu um corpo de cavallaria (z) (segundo Volckmar Macha- 
do, 400 homens!) e uma imitação áeLpJuUange macedónia! 

Um dos estribeiros reaes montava um soberbo cavallo que 
representava o Bucephalo, e que se movia á musica de uma mar- 
cha que David Perez tinha composto expressamente para a oc- 
casiSo. 

cOne of the king's riding masters rode Bucephaltu, to a 
march which Perez composed in the Manige to the grand pas of 
a beautiful horse.» 

A vista de semelhantes recursos e de tão firme vontade, fi- 
cavam os pretendidos (aa) tours de force de Farinelli no grande 
theatro de Madrid á sombra, apesar dos poderes illimitados de 
que o celebre sopranista estava revestido. 

Os librettos doestas peças, que se distribuiam aos espectado- 
res, eram magnificamente impressos em formato grande e tinham 
as principaes scenas das Operas, abertas em agua-forte por Be- 
rardi. 

Tivemos occasiSo de examinar dois d'esse8 librettos (bb) e 
confessamos que nunca vimos coisa mais explendida! 

SSo das Operas: 

La Clemenza di Tito, poesia de Metastasio; musica de An- 
tónio Mazoni, e 

Alessandro nelV Indie, poesia de Metastasio, musica de Da- 
vid Perez. 

O primeiro libretto tem 9 gravuras em cobre, sem nome de 
author e o segado 8, abertas em agua-forte por differentes ar- 
tistas: Berardi, Le Bouteux e Doumeau. 

Não sabemos quaes das scenas representadas sejam as maia 
expicndidas, e á vista do que alli vemos não nos admiram as 
citaçSes de Bumey e de outros escriptores da época. 

Na Clemeza di Tito sobresahem a Scena V. do 1.^ Acto, que 
representa o Átrio dei Templo di Oiove-Statore e parte dei Foro 
liomano. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 183 

A scena vm do mesmo Acto : Ritiro delizioso nel Soggior^ 
no Imperiale sul Colle Palatino; cremos piamente que este sce- 
nario fosse delizioso. 

A scena vni do Atto secondo: Qallería Terrena adomata 
di Statue corrispondente a Giardini, devia ser explendida de 
effeito de perspectiva e de riqueza. 

No Atto terzo, Scena prima: Camerachiusa con Porte, Se- 
dia e Tavolino con sopra da scrivere, vemos um gabinete en- 
cantador no gosto Pompadour com íundos pintados á Boucher e 
á Watteau; devia ser um verdadeiro modelo de coquetterie. 

NSo mencionamos para maior brevidade as outras scenas, 
posto que algumas d'ellas não sejam inferiores em luxo e rique- 
za ás que descrevemos. 

Agora seja feita uma observação em que os nossos leitores 
decerto já se anteciparam; refere-se ao anachronismo flagrante 
que reina constantemente entre o scenario doestas duas operas e 
entre os personagens, a acção e a época em que ella se desen- 
volve. 

Quem conhecer a historia dos outros Theatros contemporâ- 
neos da Europa e tiver visto os scenarios dos principaes, no século 
passado, hade notar em todos o anachronismo que se observa 
n'este. 

A moda era n'aquelle8 tempos uma necessidade tão império- 
sa, que os espectadores não prescindiam d'ella no Theatro, mes- 
mo no palco. 

Por isso não devemos extranhar que aqui fizessem o mesmo. 
No libretto de Alessandro nelV Indie observa-se a mesma 
singularidade. 

Entre as scenas distinguem-se^ a primeira no atto primo: 
Campo di Bataglia su le rive delV Idaspe. 

A scena está juncada de armas, tropheus, cadáveres de sol- 
dados e até de corpos de cavallos. 
Scena xi, no mesmo Acto : 

Oran Padiglione d' Alessandro vicino alV Idaspe, con vista 
delia Reggia di Cleofide sulV altra sponda ddfiume. 



184 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Scena prima^ Atto secondo: 

Gahinetti reali, deslumbrantes de riqueza e de gosto plian« 
tastico. 

Scena xi, no mesmo Acto: 

Appartimenti nella Regia di Cleofide; nSo menos explen- 
dida que a antecedente. 

Scena x, Atto Terzo: 

Parte interna dei Tempio di Bacco magnificamente illumi' 
nato, e rivestito di richissimi Tappeti, etc. 

Este supposto Templo de Bacco é nada menos do que uma 
espécie de cathedral em estylo gothico florido e phantasiado (!) 

No fundo havia : due grandisnme Porte in prospetto, che 
ei epalancano ali' arrivo d*Ale8sandro e scuoprono parte delia 
Regia e delia Cita illuminata in Lontananza (!!) 

Ainda bem que estes librettos existem impressoS; aliás podia 
passar este modesto esboço por um conto das Mil e uma Noites. 

Aos incrédulos que se queiram convencer de visu recommen- 
damos que se dirijam ao nosso amigo Joaquim José Marques, 
amador dos mais distinctos, que teve a amabilidade de nos fa- 
cultar estes preciosos librettos para um exame minucioso. 

Estas noticias podem parecer em geral exageradas e até my- 
thologicas; a alguns leitores ; por isso temos transcripto textual- 
mente de escriptores fidedignos, as passagens que lhes dizem 
respeito. 

A posteridade compete dar agora o seu voto. 

(a) J. M. A Nogueira. Archeologia do iheatro portugitee, 1588-1762, 
no Jornal do Commerdo de 6 de Abril de 1866, N.*" 3737. 

Çb) Hoje Hospital de S. José. 

(c) Vide a sua Biographia. 

[à) Vide a sua Biographia. 

íy A Musica em Portugal, Gazeta da Madeira^ de 31 de Maio de 1866. 

(f; Archeologia do Theatro. Jornal do Commerdo de 5 de Abril de 
1866 N.» 3736. 

(s\ Archivo Piitoresco, Vol ix — 1866 pag. 147. 

ín) Archeologia do Theaíro, loc. cit. 

(i) Este celebre Oratório soffreu em 1793 umas alterações feitas pelo 
author ; em Lisboa ouviu-se pois, segundo a tradição primitiva. 

(j) Giovanni Cario Bibiena, italiano, architecto distíncto, ao serviço 
de D. José. 



os MÚSICOS PORTUCÍUEZES 185 

(k) Egaalmeate arcHtecto. Veio da Itália para o ajudar no risco da 
grande Opera. 



Íl) Madrid, Milão, Berlim, Nápoles, Florença ete. 
« 



[m) Balbi, Essai stcUistique traz Egizielli; é erro ; o seu verdadeiro 
nome èJioaehimo CorUi. Giziello, é um appelÚdo que lhe proveio de seu 
mestre Domenico Giz2sL 

^n^ Este celebre artista allemilo esteve em Lisboa desde 1752 até 1755. 

(o; BalÍDO, ou II Boloffnese, Foi discípulo de Pistocchi (eschola de 
Bolonha) e um dos tenores mais afamados do seu tempo. Foi chamado a 
Portugal para o logar de primeiro cantor da Capella real e morreu em 
Lisboa a 12 de Agosto de 1760. 

(p) Ch-Bumey^ÁgenercUhiêtory ofMustc, London— 1776-1789. Yol. 
rv, pag. 570; e Balbi. Essai statist. Yol. u — oov. 

(q) Conta-se a seguinte anedocta relativa a Giziello e que ainda hoje 
é repetida por escriptores da maior reputação. Executando este celebre 
eoõtrato uma cantata, (composta provavelmente por Jomelli ; talvez fosse 
a que D. José lhe tinha encommendado quando estava em Nápoles, depois 
de ter resignado o seu cargo de Mestre de Capella do Duque de Wttrtem- 
berg) — para festejar o nascimento de um dos filhos de D. José, diz-se que 
ficara este príncipe tão impressionado pela maneira admiravôl como este 
artiBta milagroso executou uma aría pastoril, que o presenteara com uma 
gaUinha e 20 pintainhos de ouro do maior valor l ! 

Repetimos, esta historia vem firmada entre outros, pelo nome de Fétis. 

(r) Balbi, o celebre tenor italiano quebrílhou em Lisboa em 1755, re- 
cebeu por duas estações 132:000 francos ou 24:000 cruzados! 

Segundo outros, tiveram Caffarelli e Conti 36:000 cruzados ou reis 
U:400e000. 

(s) Aqui em Portugal, voga a opiniilo de que David Perez é por* 



togn^^ 



falso ; nasceu cm Nápoles em 1711 filho de um hespanhol alli esta- 
belecido no principio do século xvir. 

Apontamos em seguida a lista chonologica das suas operas, represen- 
tadas em Lisboa, são : 

1.) Demofoontt em 1752* 

2.^ Artaserst em 1753. 

3.) VEro cintst em 1753. 

4.^ Iftrmtstra em 1754. 

5.^ Adriano i» Syria em 1754. 

6.^ Olympiadt cm 1754. 

7.) AUssandro neWIndie em 1755. 

Esta opera tinha sido representada pela primeira vez em Génova em 
1751 e foi depois cantada cm Lisboa com musica nova. 

8.) Siroe em 1756. 

9.) Solimano em 1757. 
10.) Enea in Itália em 1759. 
11.) Giulio Cesare em 1762. 

A sua actividade artística em Lisboa, começou em 1752 e acabou em 
1778 com a sua morte. 

David Perez recebia como Mestre da Capella Keal a quantia de 
50:000 francos I A este ordenado devemos ainda accrescentar o de Mestre 
dos Infantes, da Prínceza do Brazil e o de Compositor da Opera 1 ! 

(t) Celebre compositor italiano do XVIII século. Nasceu em Aversa (Rei- 
no de r^apoles) a 11 de Setembro de 1714 e morreu em Nápoles a 28 de 
Agosto de 1774. 



186 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Ab duas Operas de que em seguida falíamos, sSo : U Vdúgeêo e Enea 
ntl Lazto, já representadas em Stuttgart; alternavam com as operas de 
Da\dd Perez. 

O primeiro distinguia-se peífi factura artística do tecido instrumental^ 
pela grandeza t expresêão do penêafkenío; o segundo pela elegância e gra- 
ça doa suas melodias, unidas a fiel expressão £is palavras, 

(u) As duas de que falíamos : II Velogeso e Enea nel Lazio, Vide : 
Saverio Mattei, Memorie per servire alia vita dei Metastasio, Elogio dei 
JommellL In CoUe— 1785 in-a» 

ív) Essai statist, Vol. ii — ocr. 

(w) ScenograpUo italiano dotado de talento extraordinário. 

Dirigiu a Opera de Paris durante 18 annos. Os reis de Portugal, de 
Inglaterra, França e Polónia disputaram-se mutuamente este talento ma- 
ravilhoso que acabou em Roma em 1766. 

^z) Á aeneral History of Music, Vol. iv, pag. 570. 

M Biog, Univ, Vol ii, pag. 121. 

(z) Note-se que o critico inglez está fallando da antiga opera, que nao 
eoffiria a menor comparação com o esplendido theatro construído em 1755, 

(aa) <0n this occasion Perez new set the Opera oíÁlessandro neWIndie, 
in wbicn Opera a troop of horse appeared on the stage, with a macedo- 
nian phalanx. . . » Vol. iv, pag. 571. 

^b) Fétis, Biogr. Univ, Vol. yi pag. 484. <0n vit dans cet ouvrage 
un corps de cavallerie et une imitation de la phalange macédonienne, 
d'aprés lo recit de Quinte Curce. > 

(cc) O cantor mais espantoso (le plus étonnant, Fétis, Biogr. Univ. VoL 
u, pag. 82) do xYiii século! 

Homem excepcional que Fétis, nada pródigo de elogios, menciona com 
as expressões mais extraordinárias; faltam-lhe as palavras para apreciar 
devidamente este phenomeno artistico ; fallando da sua voz diz : il posséda 
la plus admiraUe voix de soprano (Farinelli era castrato) qu'on ait peut-; 
être jamais entendue!; mais adiante: lui, que la nature et Tart avaient* 
doué de la mise de voix la plus admbrable etc. 

Este artista depois de ter tido triumphos sem precedentes na historia 
artística, durante as suas viagens pela Itália, Allemanha, Inglaterra e 
França, fixou-se em Madrid onde obrou prodígios, curando Fehppe v se- 
gundo outros, Carlos vi, de uma melancholia a que parecia succombir, 
unicamente com a sua voz e o seu canto admirável, (! !) 

Este artista foi o favorito doeste príncipe e de Carlos ni e dispunha 
de todas as honras e distíncçòes na corte de Hespanha. 

A instancias suas, mandou Felippe v organisar um Theatro para a 
Opera italiana no Palácio de Buen-Ketíro, para onde Farinelli chamou 
os melhores cantores que havia então na Itália. É d*este celebre theatro que 
acima falíamos. 

Este artista nasceu em Nápoles a 24 de Janeiro de 1725 e morreu a 
15 de Julho de 1782. Com a sua morte perdeu a Arte o mais illustre re- 
presentante da eschola immortal do século xvia, cujas ultimas tradições 
desappareceram com Crescentini. 

Os cantores de hoje berram e não cantam, graças ás cabaletas de Yerdi, 
Petrclla e outros. 

Reconunendamos a esses portentos e aos seus admiradores banaes, a 
leitura de uma das anedoctas da vida de Farinelli, que se refere á historia 
do seu duello artístico com o Trombetista allemão e mais tarde com o ce- 
lebre BernacchL 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 187 

(dd) 1.^ La Clemenza di Tito, Dramma per Musica da rapprescntarsi 
nell^Estate deIl*anno udccly etc. Lisbona, ndla Be^a Stamperia Sylvian- 
na, e dell*Accademia Beale hoocly. in-4.<^ de 25 pag. Liccnza 2pag. e 9 gra- 
vuras cm cobre. 

2.« Allessandro nelVIndie, Dramma per Musica da rapprcsentarsi nel 
gran teatro nuoramente eretto alia real corte de Lisbona, NcUa Primavera 
dell'anno xdcclv. Lisbona, Nella Regia Stamperia Sylviana, e delV Acade- 
mia Beale xdcclv in-á.* de 53 pag. licenza 2 pag. e 8 gravuras a agua forte. 



JUSTINIANO (Abbade) — Natural do Rio de Janeiro e pia- 
nista da força de Torriani e Franchi. 

Compoz muita musica sacra para o convento em que resi- 
dia antes da secularisaçSo dos bens ecclesiasticos. 

Vivia no Rio de Janeiro em 1822. 

JUSTINIANO (António de S. Jeronymo)— Natural de Lis- 
boa, onde nasceu a 4 de Outubro de 1675, sendo filho de Antó- 
nio Gonçalves e Magdalena Esteves da Silva. 

Foi discípulo de Lesbio no estudo do Contraponto e pro- 
fessou a 2 de junho de 1697 no convento de S. Bento de Enxa- 
bregas, onde foi Mestre de Capella durante seis annos. 

NSo sabemos para onde se retirou depois de exercer este 
ultimo logar. 



L 



' LACERDA (D. Bernarda Ferreira de) — Nasceu esta senhora 
celebre em 1595, de pães nobres, que eram Ignacio Ferreira Lei- 
tão, Cavalleiro professo na Ordem de S. Thiago e Chanceller- 
Mór do Reino, e de sua mulher D. Paula de Sá Pereira. 

Foi admirada no seu século como um prodígio, pelos seus 
vários talentos que manifestou nas Sciencias philosophicas, ma- 
thematicas e históricas. 



f 



189 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Foi muito instruida na Bhetorica, Historia e Poesia e fidla- 
va as linguas mais cultas da Europa, alem do Hebraico, do Gre- 
go e do Latim. 

Mencionamos aqtii esta senhora por causa dos seus talentos 
musicaes, porque segundo testemunho fidedigno^ tocava com a 
Tmior perfeito muitos instrumentos harmónicos, (a) 

Na Arte de Debuxo e Miniatura, ninguém houve que a igua- 
lasse; são palavras do mesmo escriptor. ' 

A fama das suas virtudes e do seu saber, grangeou-lhe a 
nomeação honrosa de Mestra dos filhos de Felipe ui. Bei de Hes- 
panha, D. Carlos e D. Fernando, sendo preferida entre o nume- 
ro de grandes sábios que havii^ no seu século. 

A illustre senhora não acceitou porém este cargo e ainda 
hoje se ignora o motivo de semelhante recusa. Talvez que o bu- 
lido da corte e a vida agitada de uma grande cidade aSastassem 
esta mulher sabia, que estava accostumada ao socego e descanço 
da sua livraria. 

En)re as lembranças que nos deixou do seu vasto saber e 
profundo engenho, temos a Hespanha libertada. 

Foi também quem promoveu a fundação do Convento dos 
Carmelitas Descalços que se construiu em Goa. 

Morreu a 1 de Outubro de 1644 com 49 annos de idade, 
admirada e festejada por todos os escriptores contemporâneos que 
lhe deram o nome de: Heroina. 

(a) A. Bebello da^Costa, Deacripçao topográfica t histórica da ct- 
dade do PoHo. Porto, 1789, in-8.», pag. 357. 

LAGE (P.® António Rodrigues) — Presbytero secular^ Mestre 
de Ceremonias da Santa Egreja Patriarchal de Lisboa. 

Ignoram-se as outras circumstancias da sua vida. 

£ author do seguinte livro curioso : 

Alti sonancia sacra restaurada e relação harmónica do me- 
thodo e regulação com que as vozes dos sinos das duas formosas 
torres do relógio e ordinário, regiam o governo efuncçSes con- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 189 

itituidcu em a Saneia Egreja Patriarchal lisbonense. Obra cu- 
riosa e não menos necessária para com a permissão do tempo se 
restituir o primitivo e mais acertado regulamento, etc. 

Do mesmo modo se descreve toda a instrucção theorica e ne- 
cessária para a modulado dos mesmos Sinos, ordinária e pra- 
eticamente insinuada em dous diários annuaes^ um do anno 1760, 
outro de 1761, etc. Foi composta em 1769. 

O único exemplar doesta obra, talyez mesmo o autographo, 
existe em poder de Innocencio Francisco da Silva que noi-o des- 
creve assim : (a) 

cO manuscripto original e autographo doesta obra perfeita- 
mente conservado, forma um grosso volume de XLvni, 407 pag. 
in-4.^ adornado com desenhos feitos a aguarella que representam 
a fachada da torre do relógio em Mafra. 

cTem no fim a seguinte advertência: Este livro manuscripto 
foi dedicado e offerecido pelo Mestre de Ceremonias António Ro- 
drigues Lopez ao Beneficiado Victorino Carlos Martins de Bri- 
to, e por sua morte seus herdeiros e sobrinhos o entregaram ao 
P/ Thesoureiro Matheus Simões para da sua parte o offerecer á 
JEa?."* Congregado, que pelo mesmo Thesoureiro o fez remunerar 
aos sobrinhos do dito Beneficiado; e resolveu que com outros, tam- 
bém importantes, se guardem na Secretaria da Repartição da 
Egreja, para se não entregar a pessoa alguma sem ordem do Tri- 
bunal, e sem passar recibo quem o receber, para haver de se con- 
servar manuscripto,^ 

Ainda bem que a obra não ficou na mSo do espirito illustra- 
do que se dignou redigir esta nota; queria vêr o livro enterrado 
em algum archivo, sem proveito de ninguém, para cair depois 
nas mãos de algum vândalo que o destruisse ! 

(a) Dice. BibL, vol. i, pag. 268-259. 



LEAL (Elentherio Franchi) (a) — Mestre do Seminário Pa- 
triaichal nos reinados de D. Maria i e de D. João vi. 



190 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Foi aposentado em 1838; pouco mais ou menos. 

NSo podemos admittir a opinião de Platão de Vasel, (b) que 
o dá como fallecido em 1820; porque o Bispo-Conde nos diz na 
sua Lista, pag. 46, impressa em 1839; que vivia aposentado do 
seu cargo. 

Vaxel; &llando de Leal cita principalmente uma Missa de 
Requiem, e acha as MatiruM da Conceição que o príncipe regen- 
te lhe encommendára; escriptas no estjlo theatral e sobre-carre- 
gadas iefiorituri no canto e no acompanhamento; este juizo pa- 
rece ser verdadeiro; pelo que temos ouvido dizer; não admira; 
era a mania dominafate da época. 

(a) A Musica em Portugal. — Gazeta da Mcuietra, de 14 de Junho de 
1866, traz o terceiro nome doeste compositor, como Franco; o indicado pe- 
lo Cardeal Saraiva é o qne seguimos, por nos parecer o único verdadeiro. 

(b) Ibid, loc. cit. 

LEAL (JoSo) — Pertenceu a uma familia em que era por as- 
sim dizer hereditário o talento musical; (a) por talento musical 
entendemos aqui não essa habilidade mais ou menos pronunciada 
que se revela em um ou outro individuO; mas sim um dote raro 
e precioso que a natureza só a mui poucos concede. De toda a íbt 
milia; foi João Leal o mais notável. 

As suas Modinhas eram numerosas e muito estimadas no 
principio d'este século e a execução que desenvolvia na Viola era 
pouco vulgar; tocava também outros instrumentos e era dotado da 
melhor voz de tenor que se conhecia então no Rio de Janeiro ; a 
sua execução era tão primorosa; que no Brazil o comparavam a 
Vacani (b) pela maneira notável como Leal imitava até á iUusãO; 
a execução e o talento doeste artista. 

Foi militar e occupava o posto de major no corpo de estado- 
maior do exercito. 

Este facto de transmissão hereditária de uma faculdade ar- 
tística é vulgar na historia ; os exemplos mais notáveis, encon- 
tram-se nas famílias Bach; Wcber; Kontski; Âmati; Vemet, Van- 
Dyck; EstienuC; Devrient; etc. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 191 

(a) Vem aqui a propósito transcrever a seguinte nota de Balbi: J^Ma» 
õUxiist,, voL II, ccxYii. Le talent ponr la musique parait être héréditaire de- 
puis qnatre genérations dans cette famille. 

M. Leal, le père, qui est un des meilleurs médecins de Rio de Janeiro, 
joue parfaitcment dn violou, et a des connaissanees rares en musique. II a 
dix enfants, dont sept garçons, qui tous ont étudié à TUniversité de Coim- 
bra, 0& ils se sont rormés en diverses facutés. 

Ces dix enfants ont apprís la musique et jouent parfaitement quelque 
instrument ou chantent avec beaucoup de grftce et precision. 

II est impossible de déciire lliabiiité avec laquelle les membres de cette 
famille exécutent seuls ou aidés de quelques amateurs distingues, les chefs 
d^ceuvres de CSmarosa, de Rossini, de Marcos Portugal et d autres grands 
maítres italiens ou nationaux. 

£m 1808 cette famille se rendi t à bord du Foudroyant vaissean de U- 
que anglais, commandé par Sir Sidney Smith, qui avait acompagné le roi 
actuei, alors, prince r^ent au Brésil, et y joua seule une pièce it^lienne. 

Le perè Leal a deux fréres, docteurs en medicine, qui sont pareillement 
grands amateurs de musique. 

Leur père avait été aussi médecin, et jouait de plusieurs Instruments. 
On dit la même chose de leur a'íeul (!) 

Ce fait dont Tauthcnticité ne saurait être revoqué en donte, a fait dire 
à quelqu* un que la famille Leal possèdait le sen» musique. 

n>) Nâo encontramos nota d este cantor nos Dtccionarios de Musica 
de Fetís, Choron et Fayolle etc. apesar de Baibi o classificar: grand artiste. 

LEAL(...) — InnS do precedente; possuía uma voz de su- 
prano de grande extensão e executava â perféction (Baibi) as 
melhores árias das obras primas italiannas e das composiçSes na- 
cionaes. 

LEAL (Fr. Higuel) — Monge Cisterciense no Mosteiro de Al- 
cobaça a 8 de Setembro de 1646, e Prior do Convento de Nossa 
Senhora do Desterro, em Lisboa, sua pátria. 

Entre as suas composições distinguia-se particularmente 
uma: 

Missa a 9 coros, foi composta para se cantar na translada- 
ção do SS. Sacramento para o sacrário novo da Capella-Mór de 
Alcobaça. Não se executou pela difficuldade de unir harmonica- 
mente 36 vozes (os coros eram a 4 vozes) e uma orchestra, ou 
orgSo. 

Talvez que a algum critico menos modesto pareça esta com- 
posição irrisória, porém a esse aconselhamos a leitura da Biogra- 
phia de Benevoli e então verá que a execução doestas composi- 



192 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ç3eB a grande numero de vozes, nSo só era possiyel, mas até mui* 
tas vezes eram obras de grande mérito. 

Além d'ÍBSo Leal seguia o impulso artistico da época, im- 
pulso essencialmente savant, 

Benevoli (a) ainda nSo se contentou com 36 vozes, mas com- 
poz uma missa a 12 coros ou 48 vozes reaesi Esta composição 
foi executada na egreja de Santa Maria' sopra Minerva por 150 
professores a 4 de Agosto de 1650. 

Benevoli nâo nos apparece isolado n'este género de compo- 
sição, porque 15 annos depois da execução da obra mencionada, 
ouvia-se na mesma egreja uma composição idêntica de Gianset- 
ti, (b) egualmente a 48 vozes. 

Ainda no meado do século passado, encontramos um compo- 
sitor notável : Gregório Balabene, (c) escrevendo uma Missa tam- 
bém a 48 vozes; este artista era tão estimado, que a corte de Por. 
tugal não duvidou encommendar-lhe pelo seu Embaixador em 
Roma, um Dixit a 16 vozes, ou 4 coros reaes; esta composição 
foi experimentada na Egreja dos doze Apóstolos por 150 canto- 
res. N^esta mesma occasião se cantou a Missa mencionada, que 
produziu um effeito confuso no ouvido do auditório; talvez que a 
inexperiência dos executantes de um lado, e do outro a fraqueza 
dos coros, que não poderam tomar sensiveis as entradas das par- 
tes de cada um, contribuíssem para o resultado desfavorável do 
ensaio, porque Fétis (d) classifica esta composição un chef-iPtBuvrt 
depatience et de savoir. 

Aos verdadeiros amadores damos a noticia agradável que o 
Abbade Santini, (e) residente em Roma, fornece aos artistas e 
amadores, copias doesta Missa, mediante o modesto preço de 10 
escudos romanos. 

Voltando á composição de Leal, dissemos que não pôde ser 
executada. Ainda também n'este caso podia ser, que a falta de 
bons cantores impedisse a execução; seria também difficil arran- 
jar o numero sufficiente para a execução de uma Missa a 36 vo- 
zes, em imi género que exige conhecimentos mui sólidos da parte 
dos artistas que a elle se dedicam. 



os MÚSICOS PORTUOUEZES 19â 

Machado, (f) &Uando doesta compòfiiçBo, di£ que estava com- 
posta com Bingtdar ideia e regulada pdoB preceitos da Arte, 

ã) Celebre compositor e contrapontiBta do século xvn. 
asceu em Boma em 1602, e assumiu a 7 de Novembro de 1646, a di- 
reeç2o da capella do Vaticano; falleceu em Roma a 17 de Julho de 1672. 

(b) Compositor distíncto da eschola romana. Viveu no meado e fim do 
século mi e foi Mestre da Capella de S. Gíovanni di Laterano. 

(c) Nasceu em Roma no meado do século xvui e morreu em 1800 apro* 
limadamente. 

(ã) Biogr. Un%v.j vol. m, pag. 230. 

(e) Compositor contemporâneo e mui erudito. Possue uma das mais 
bellas e ricas coileocoes de musica sacra. Nasceu a 6 de Julho de 1778 e 
e vive retirado em Roma. 

Este artista sjmpathico reuniu esta coUecçSo depois de um trabalho 
immenso, copiando mesmo por sua m&o, musicas, cujos orLi^inaes estavam 
perdidos no chSos das Bibliothecas, e restituindo-os assim a Arte. Honra a 
Santíni! 

(f) Btbl. Luê.f vol. m, pag. 474. 

LEITÃO (Lnii António Barbosa) — Cantor na Cathodral de 
Braga no fim do século passado e principio doeste século. É tudo 
o que d'elle sabemos. Já o dissemos e agora o repetimos: nko so- 
mos nós os culpados da brevidade de algumas noticias sobre mu« 
sicos nacionaes que aqui inserimos, mas sim os escriptores d'a* 
quelle tempO; que por desleixo ou por ignorância, nos deitaram 
08 apontamentos lacónicos que apontamos. 

LEITE (António da SiltH) — Mestre da Capella nacional dò 
Porto, e depois da Cathedral da mesma cidade. Ignoramos as ou- 
tras circumstancias da sua yida. 

Publicou: 

1.) Remmu> de todas as regras e preceitos de Cantoria as- 
sim da Musica mêtricaj como do CantochãOy dividido em duas 
partes. Porto, por António Alvares Ribeiro — 1787, in-4.® de 
VI — 43 pag., com duas estampas, uma relativa á Musica métri- 
ca (N.^" 24) e a segunda relativa ao CantochXo, (N."* 44.) 2.* Parte. 

O auctor proDaettia no fim dA obra (pag. 48) dar brevemen- 
te ao prelo mais duas obra*, sendo uma : 

Arte de AcovnpanhamentOy e outra Arte de Conttapontò. 

13 



194 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

2.) Estudo da Ouitarra em que se expõe o modo mais fácil 
para aprender este instrumento. Porto — 1796, na mesma typo- 
graphia, foi. de 40 pag. de texto e 23 folhas de musica gravada. 

3.) Seis Sonatas de Guitarra com acompanhamento de Ra- 
beca e duas Trompas ad libitum, offerecidas a S. A» R. a Se- 
nhora D. Carlota Joaquina, princeza do Brazily 1792, folio. A 
parte do Violino tem 17 pag., a da Guitarra 19, e o da 2.^ Trom- 
pa, 7. 

Possuímos um exemplar doestas Sonatas, porém fÍEdta-nos a 
parte da 1.* Trompa. Apesar de todas as diligencias, ainda nSo 
a podemos encontrar. 

Julgamos porém que será fácil reconstruil-a, principalmen- 
te tendo á vista as partes da Guitarra, Violino e sobretudo a da 
2.* Trompa. 

Ouvimos dizer ao Maestro Noronha e a mais alguns artistas, 
que Leite compozera uma grande quantidade de musica sacra. 

Até agora só podemos alcançar a noticia da seguinte obra: 

4.) Tantum ergo a 4 vozes e orckestra. Porto (?) 1815. 

5.) Hymno patriótico a grande orchestra, cantado pela pri- 
meira vez no Real Theatro de S. João, da cidade do Porto, no 
dia em que se festejou a coroação de S. M. F. o Senhor D. 
Joào VI. 1820. 

O exemplar que possuimos, está em partitura d'orchestra e 
em edição exceUente, da casa Ignace Pleyel et fils ainé. 

A gravura da musica é de Richomme, e basta este nome pa- 
ra dar luna ideia da execução artistica doesta composição. 

O Hymno traz um retrato mui lisongeiro de Sua Magestade. 

Mencionamos ainda por mera curiosidade um outro livro de 
Leite; postoque não pertença á Bibliographia musical, citaremos 
por ser do mesmo author. É: 

Modo pratico para todo o CaihoUco se confessar bem (!) 
com orares apropriadas para antes e depois da ConJUsão e Com- 
munhão. Porto, Imprensa do Gandra. 1826, in-8.^ peq. de 47 pag. 

As orações são em verso. Que inspiração infeliz o levaria a 
fazer tão maus versos sobre assumpto algum tanto obscuro? Leite 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 195 

aconselha ao penitente que eBcolha um bom c(mfes8or{\) homem 
santo (! !) e prudente. 

Parece-nos que estamos vendo o pobre peccador a correr 
mundo com a lanterna de Diógenes na mão. . . 

Leite compoz muitas Modinhas para um jornal de Musica de 
1793, que se occupava d'este género de composiçSes. Podemos ci- 
tar como compositores populares d'esta especialidade, além de 
Leite, João de Sousa Carvalho, António José da Silva, António 
José do Rego, João de Mesquita, Francisco Xavier Baptista, Jo- 
sé Caetano Cabral, etc. 

LEITE (P.^ José) — Este religioso da Companhia de Jesus 
compôz a musica para um Drama allegorico, representado em 
Lisboa na aula do collegio de Santo Antão, a 18 de Julho de 1620. 

Lititulava-se: Angola triuimphante. (a) Dividia-se em 14 
scenas e tinha por assumpto uma comparação de Portugíal com 
Angola. 

Sobresahia n'aquella composição principalmente um cdro de 
vozes e de instrumentos muito ajustados, (b) 



n 



a) Que ideia singular ! 

Gazeta de Lisboa de 25 de Jolho de 1720. 



LEOCADIO (José) — Flautista, discípulo de Conde, e quasi tão 
distincto como o seu mestre. 

LEONI (José Karía Martins) — Compositor e professor do 
principio d'este século. £ author de um : 
Methodo de Musica, 1833. 

LE8BI0 (António Marques) — Citamos gostosamente o nome 
d'este artista distincto, que foi um dos nossos melhores composi- 
tores, e que em um tempo em que os músicos de talento não eram 
raros em Portugal, soube fixar por longo tempo a attençSo pu* 
blica. 



196 OS MÚSICOS PORTUanEZES 

Nasceu em Lisboa em 1639. (a) 

Compositor já aos 14 amios, excitou a admiraçSo de JoZo 
Soares Bebello com uma composição sua, e dÍ2-se que o celebre 
mestre de D. João iv declarara entSo; que Lesbio TÚria a ser toa 
do9 maiore9 contrapontiêtoà de Portugal. 

O tempo não desmentiu o juizo favorável de Bebello, pois 
Lesbio' eleyou-se a cima de quasi todos os compositores contem- 
porâneos, causando grande admiraçSo a nacionaes e estrangeiros 
com as suas numerosas composições, que infelizmente ficaram na 
maior parte manuscriptas na Bibliotheca musical de D. Joio iv. 

A sua applicação constante á Arte, e a maneira distincta 
como n'ella se revelava, alcançaram-lhe em 1698 o logar de mes- 
tre da Capella real e a estima de D. Pedro ii, de D. Maria Isabel 
de Neuburgo e de D. Catharina, Bainha de Inglaterra, de quem 
era hospede constante no paço, pelo gosto que a princeza achava 
na sua conversação. 

O que realçava ainda mais o merecimento de Lesbio, era 
uma grande modéstia e a maneira benévola e imparcial com que 
apreciava o talento alheio. 

A morte veiu surprehender este artista sympathico no meio 
de seus trabalhos, a 21 de Outubro de 1709, na véspera do dia 
de Santa Cecilia, quando estava para concluir a Gloria Patri da 
Magnificai a 8 vozes, que era destinada á Capella real. 

Lesbio é o author da letra e musica das composiçSes que 
passamos a ennumerar: 

1.) Vilhancicos qae se cantaram nas matinas da festa da 
Conceição, Natal e Reis. 1660-1708. 

2.) Vilhancicos qae se cantaram na Egreja de Nossa Senho- 
ra de Nazareth dos Religiosos- descalços de S, Bernardo em as 
matinas e festas do glorioso 8. Oonçalo. — Lisboa por Miguel 
Manescal, impressor do Santo-Officio, 1708, in-8.^ 

3.) 8 Vilhancicos; estavam em poder do Conde de Unhão, 
que 08 tinha encommendado. 

é«) Psalmo=IHxit Dominv>s=a 8 vozes. 

5.) Miserere a 8 vozes. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 19t 

6.) Lamentações da Quarta, Qiuinta e Sexta-Féira da Se- 
mana Santa a 12 vozes. 

7.) Alma redemptoris Mater a 8 vozes» 

8.) Magnificat a 8 vozes. 

9.) Salve Regina a 8 vozes. 
10.) Delicia juventutis me<e. 
11.) Adjuva nos Deus a 6 vozes. 
12.) Responsorios do Officio de Defunctos a8 e 12 vozes, 

Escrevea e compoz também imia grande quantidade de Ro- 
mances profanos de que falia (b) D. Francisco Manoel de Mello, 
e a musica e poesia de muitas outras composiçSes^ como Vilhan- 
cicos da Conceição, Natal, Reis e Lamentações a vários Santos a 
2, 3, 4, 6, 8, 11 e 12 vozes, que seu cunhado Manoel de Sousa 
Pereira^ Conservador da Livraria Real de Musica, tinha coUigido 
para os mandar imprimir. Formavam vários volumes. 

Machado, viu o primeiro volume que continha Romances^ 
porém diz que nlb sabe aonde ficou depois da morte do seu possui- 
dor primitivo. 

Lesbio deixou muitos discipulos. Citamos os mais distinctos : 
António de S. Jeronymo Justiniano, Fr. Manoel dos Santos, e 
Fr. Miguel Leal. 

Transcrevemos sobre Lesbio estes versos d'um escriptor na- 
cional: (c) 

Lesbins ille cboris sacri moderator alorís 
More cadens numeris MariaB dmn verba sonoris 
Âptat Appolinea disponens arte figuras 
Non sibi de lauro patitor connectere Musas 
Sertã renidentem BteUata in sede coronam 
Certufl habere. 

Em quanto estreita ao numero sonoro 

De airosa melodia 

As palavras da cândida Maria, ^ 

Dispondo em vocês puras 

Se por arte ApoUinea altas figuras, 



198 OS MUSI(X)S PORTUaUEZES 

Morrendo como Ciane, acha desdoiiro 
Das Musas acceitar o verde louro, 
Tendo por certa no estrellado assento 
Coroa de mais alto luzimento. 

(a) A data, 1660, que Fétis, Biogr. Unw,, voL v, pag. 463, traz, nlo 
é exacta, assim como o nome : António IaMo Marqw9. 

(b) Obras meiriau, Avena de Terpsichore, Ton. 8 e 10. 

(c) P/ António dos Beis, Enthtuicumus Poetieus, n.* 142. 

UMA (Braz Francisco de) — Fez os seus estudos muslcaes 
na Itália (Nápoles) a expensas de D. José; quando voltou á pá- 
tria foi collocado no Seminário patriarchal^ conjunctamente com 
seu irmS0| que é o objecto da noticia seguinte. 

UMA (Jeronymo Francisco de) — Irmão do precedente e pro- 
fessor do Seminário patriarchal no tempo de D. José. Foi com 
seu irmSo pensionista do governo na Itália, e estudou em um dos 
conservatórios de Nápoles; voltando a Lisboa alcançou o logar 
indicado. 

Nasceu em Lisboa a 30 de Setembro de 1743 e falleceu a 
19 de Fevereiro de 1822. 

Deixou algumas operas, que abaixo mencionamos e que fo- 
ram muito estimadas em seu tempo. 

A opinião dos artistas ainda é hoje mui favorável a este com- 
positor. As operas são: 

1.) Zo Spirito di contradizione, cantada no Theatro de Sal- 
vaterra em 1772. 

2.) Teseo, cantada em Queluz, 1783. 

3.) OU Orti Eaperide, Ajuda, 1779. Este assumpto já fora 
tratado 15 annos antes por Luciano Xavier dos Santos. 
• 4.) HercuU e Hebe, 1785. 

5.) La vera constanza. Ajuda, 1789. 

USBOA (B. da Silva) — Temos doeste escriptor uma traducçSo 
portugueza de uma biographia de Haydn, publicada em França 
com este titulo : 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 199 

Notice historique sur la vie et les ouvrages de Joseph 
Haydn, membre associe de V Institui de France, et d'un grand 
nombre d'Acadêmies, lue dans la scéance puòlique de la classe 
des Beaux-Arts, le 6 Octobre 1810 par Joachim le Breton, sécrá- 
taire perpltuel de cette Acadêmie, etc. Paris^ ISIO, in-4.^ 

Parece-nos, que é a única biographia que ha em portuguez 
do illustre clássico alIemSo. 

Louvamos o empenho de Lisboa^ porém sentimos que esco- 
lhesse para a sua traduçSLo uma noticia cheia de anedoctas e de 
factos inexactos^ em logar de qualquer das boas biographias de 
Qreisinger, (a) Dies (b) ou Simon Mayer. (c) 

fa^ BiographÍ8che Notiztn Hher Jostph Haydn. Leipzig, 1810, in-8.* 
rb) Haydn'8 Biograpkie nach mUndlichen Erzãhlnngen deseelòen, Wien, 

1810, in-a* 

(c) Brevi notizte istoriche delia vUa e ddle opere di Giuseppe Haydn, 

Bergamo, 1809, in-8.» 

LOBO (D. Affonso) — Compositor distíncto. Viveu pelos annos 
de 1555. 

Foi primeiramente Mestre de Capella em Lisboa e depois 
nomeado a 18 de Setembro de 1601 para o mesmo cargo na egre- 
ja primacial de Toledo; onde passou o resto da sua vida. Lope 
de Vega; qualificava-o : um dos maiores artistas do seu tempo. 

As suas obras (Missas, principalmente) existiam espalhadas 
pelas Bibliothecas do Escurial^ na Capella Real de Madrid e em 
varias egrejas de Hespanha. 

' Uma d'ellas; a Magnificat a 8 vozes, inserta no seu Livro de 
Motetes, que foi publicado^ encontra-se na interessante e mui pre- 
ciosa publicação de D. Hilarion Eslava : Lyra Sacro-hispana. 
Madrid, 18. . . 1869. 10 volumes, foi. 

LOBO (Duarte ou Lúpus) — Um dos nossos mais celebres 
compositores no estylo sacro, .e chefe d'eschola. 

Debaixo da sua direcção, formou-se um grande numero de 
compositores e artistas, dos quaes citamos os mais dístinctos : 



m oa Musicoa portuguezes 

Cbristoyam da Fonseca, Frovo, Fernando de Almeida, Fa- 
ria, Fogaça,, António de Jeaus, Fr. António da Madre de Deoi 
eto. (a) I 

liobo aprendeu a musica com o celebre Manoel Mendes, 
mestre da Cathedral de Eyora, e tanto se applioou, que egnalou e 
talves até excedeu q próprio mestre. O primeiro cargo, que foi 
chamado a occupar, foi o de Director da Capella do Hospital real 
de Lisboa em 160Q, e depois passou para o mesmo logar na Ca- 
thedral doesta cidade, que regeu pelo espaço de 45 annos. Du* 
rante este longo período levantou a reputaçSo da Capella, que ia 
diminuindo pelo pouco zelo dos seus antecessores e alcançou oom 
a sua vontade e energia uma execução digna de uma Capella de 
primeira ordem. 

Morreu como Reitor do Seminário patríarchal, cargo para 
que tinha sido nomeado já com 103 annos. 

António Fernandes (b) fez muitos elogios a Lobo, e eram 
certamente merecidos, pois os seus contemporâneos sSo unanimes 
em o applaudir e reconhecer como um verdadeiro talento musi- 
cal; ainda hoje, quando já três séculos passaram sobre o seu no* 
me e sobre as suas composiçSes, sSo ellas estimadas por músicos, 
como Fétis. Esta circumstancia lisongeia-nos muito, e constituo 
na nossa opinião o maior elogio que se possa fazer a Duarte 
Lobo. 

O que caracterisa principalmente o talento d'este artista, é 
a facilidade com que escrevia a grande numero de vozes ; é sabi- 
do, que as difficuldades do contraponto, que sSo grandes, quan- 
do se escreve para dous coros ou 8 partes reaes, augmentam con- 
sideravelmente para as composiçSes a maior numero de vozes. 

Não é pois pequeno o mento de Lobo, considerado só quQ 
seja por este lado. 

O celebre Benevoli, de quem já falíamos (c), teve grande 
influencia sobre o estylo do nosso artista; confessaremos porém, 
em abono da verdade, que o compositor italiano escreveu cood 
mais pureza do que o portuguez, o que em nada diminuo o mé- 
rito doeste. Entre os seus discípulos aquelle que levou até ás ul« 



Oa MÚSICOS PORTUGUEZES 201 

timas conaequencias o sTsiema de Lobo, foi Fr. Migael Leal na 
sua celebre missa a 9 coros ou 36 vozes reaes. 
Eis as composiçSes que conhecemos de Lobo: 

OBRAS PRATICAS 

1.) CanticwnMàgnificat g^ttu>r vociius, Antuerpi» ex Of- 
ficina Plantiniana Moreti, 1605| foi. gr.; contém 16 Magnificas 
de diversos tons. 

2.) Natalicice noctis responsoria, quatuor et octo vocilus. 
3.) Missa ejtudem noctis, 8 vocibus. 
4.) B. Virginis Marias Antiphona, 8 vocibus. 
5.) B. Maria Virginis Salve choris, triluset vocibus undenis. 
6.) B. Marice canticum: Magnificai quatuor vocibus, Ân- 
tuerpiíe, apud Joanes Moretum; 1611; (d) foi. gr. 

7.) Misses quatuor, quinque et sex vocum. Ibi; per eumdem 
Typ. 1639; ibl. gr. No principio vem um Asperges e Vidi aquam 
a 4 vozes» 

8.) Misses qujoiuor, quinque, sex et octo vocibus, Ibi; apud 
Balthazarem Moretum, 1621, foi. gr. 

9.) Officium defunctorum, em Cantochão. Lisboa^ por Pedro 
Oaesbeck; 1603, in-é.^" 

10.) Liber Processionum et Stationum ecclesice Olyssiponen' 
sis in meliorem formam reda^tus. Ibi, apud Petrum Craesbeck; 
1607. 

11.) 10 Psalmos de Vesporas, de diversas vozes. Estante 86, 
N.<> 814. 

12.) õ Missas, 4 Li^ks de Defuntos e a Sequencia da Mis- 
sa, a 4,6, 8, 9 e mais vozes. Estante 36, N.<> 806. 
13.) Motetes de Defunctos. N.^ 810. 
14.) 2 Vilhancicos ao SS. Sacramento. Estante 28, N.® 703. 

OBRAS THE0RICA8 

15.) OpnsQula inmica nunc primam sdita. Antuerpi», 1603, 
in-4.* 



202 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

Os números 11; 12, 13, 14 e 15 existiam todos na Biblio- 
theca musical de Lisboa. 

Faria lembrou-se de Lobo com as seguintes estrophes: 

£1 Lobo en la theorica lustroso 

Doeste studio, que tanto oydo engafia. etc. 

(a) Quem quizer conhecer os outros discipulos de Lobo, veja a primei- 
ra tabeliã 83moptica das Escbolas. 

(b) Arte de mtiaica de canto de órgão e de cantochâo, etc. Lisboa, 1626 
in-4.» 



íc) Vide a Biograplúa de Fr. Miguel Leal. 

\a) Fétis, Biogr, tlniv.y voL v, pag. 347, traz 160 

[e) Fonte de Aganipe^ part. 2. roem. 10, ést. 72. 



LOBO (Heitor) — Famoso organista (a) que em 1559 concer- 
tou o órgão grande de Santa-Cruz, accrescentando-Ihe mais re- 
gistos e sugeitando-o a reformas tão profundas, que equivaliam 
ao trabalho de uma nova factura. Foi também manufactor de um 
orgSo e de um realejo (b) curioso, com doçainas e charamellas. . 

Esperamos voltar mais tarde á questão dos Órgãos e dos 
artistas que se dedicaram a esta industria; o assumpto, que infe- 
lizmente ainda está virgem, não é de pequena importância. 
Queira o leitor convencer-se á vista da seguinte nota que extra- 
himos de um livro authentico (c) e que nos deixou nSo poucas sau- 
dades de tempos que já lá vão: 

«Nos princípios do século xvn havia em Lisboa 70 mestrea 
de canto, 6 mestres que faziam manicordios e 5 que faziam or- 
gSo.» 

(a) D. Nicolau de Santa Maria, Chronica dos Cónegos Begrantesy vol. n, 
pag. 329. 

(b^ Idem, Ibid. 

(c; Nicolau de Oliveira, Livro das graiidezas de LUboa^ pag. 181. 

LOPES (Lazaro) — Artista, que vem já citado em dois docu- 
mentos da biographia de André d'Escobar. (a) 

Tocava o instrumento denominado : CharameUa, e servia na 
Sé, aonde estava empregado no officio de tanger a Santos e Festas. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 203 

Era egaalmente tangedor do mesmo instrumento na Capella 
da Universidade de Coimbra em 1579 e tinha 16$000 réis de or- 
denado, somma importante para o tempo e que devia collocar o 
artista n'uma certa independência. 

(a) Vide a sua biographia, i.« e 2."* documento, 

LUIZ (Francisco) — Presbytero e Mestre da Capella da Sé 
de Lisboa; nasceu n'esta cidade no meado do século zvn e mor- 
reu a 27 de Septembro 1693; jazia sepultado na parochia de 
Nossa Senhora dos Martyres. 

Compoz : 

1.) Texto da Paixão da Dominga de Samoa e de Sexta-Fei- 
ra maior a 4 vozes, Ms. 

2.) Psalmos e Vilhancicos para differentee vozes. Ms. 

LUSITANO (Vicente) — Celebre theorico do xvi século! 

Nasceu em Olivença; passou a maior parte da sua vida em 
Viterbo e em Padua^ e vivia ainda em 1551 em Roma. Concor- 
damos com Fétis, que attríbue o appellido de Lusitano á quali- 
dade de Vicente ser portuguez ; os italianos tinham na edade me- 
dia e principio da renascença o costume de designar os artistas 
estrangeiros que se estabeleciam entre elles, e até os próprios ita- 
lianos, com os nomes das suas respectivas nacionalidades ; pode- 
ríamos citar em abono doesta nossa asserção muitos exemplos, li- 
mitar-nos-hemos porém a lembrar: H Spagnuoletto, H Borgonhese, 
Portogallo, Régio Montanus, Gabríelli la Ferrarese, Bartolini de 
Faenza, Vincenzo da Modena, Rafaele di Urbini, II Veronese, 
Pico de la Mirandela^ Pedro Hispano e muitos outros. 

O que dá ainda mais força a esta hypothesCi é nSo ser o no- 
me de Lusitano patronimico usado entre nós em tempo algum. 
No nome Vicente, concordam Fétis (a), Forkel (b), Bumey (c), 
Machado (d), e o cardeal Saraiva (e) ; este ultimo até traz sim- 
plesmente o nome: Vicente. 



204 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

A repntaçSo de Lusitano proyeia-lhe do livro que escreveu 
e que em seguida apontamos, e principalmente de uma discussSo 
occorrida entre elle e o celebre Nicola Vicentino. Esta questSo, 
que excitou um grandíssimo interesse no século xvi, nasceu d'eS' 
ta maneira: 

Sahindo no fim de Maio de 1551, Vicente Lusitano e Ni- 
cola Vicentino de uma casa aonde acabavam de assistir á execuçSo 
de um trecho musical a varias vozes, composto sobre o Canto- 
chSo da Regina Cálij entraram, como era bem natural, na appre^ 
ciaçSo da composição que tinham ouvido. 

Lusitano pretendia que era do género diatónico ; ora é claro 
que esta opiniSo devia encontrar um inimigo terrível em um ho- 
mem, que, como Vicentino, queria resuscitar os géneros chromati- 
CO e enharmonico dos gregos e applical-os ao systema harmónico 
da época, que era sobretudo diatónico. O italiano, exasperado 
com 08 argumentos do theorico portuguez, chegou a avançar no 
calor da questSo, que nem elle (Lusitano) nem nenhum musico po- 
dia dizer precisamente em que género de musica escrevia, e de- 
clarou que o podia provar. Lusitano apesar d'esta dedaraçSo nSo 
desistiu da sua opinião, o que deu origem a uma aposta de dous 
escudos d'ouro, somma considerável n'aquelle tempo. 

Os dois antagonistas apresentaram as suas opiniSes aos ar- 
tistas Ghisilino Dankerts e Bartholomeo Escobedo, chantres da 
Capella pontifical, que foram escolhidos para juizes da questSo. 
Chegado o dia da discussSo, isto é a 7 de junho de 1557, fal- 
laram ambos os músicos na Capella pontificial do Vaticano em 
presença de todos os chantres d'ella, vários cardeaes e outros 
grandes dignatarios da egreja romana; e tSo bem defendeu Lu- 
sitano a sua opinião e refutou a do italiano, que este ultimo foi 
condemnado a pagar os dois escudos d'ouro, que constituíam a 
aposta. 

NSo conhecêssemos nós mais nada da vida de Lusitano, além 
doesta discussSo, que bastaria ella para o classificar como um 
theorico mui distincto e de grandes conhecimentos na seiencia 



os MÚSICOS PORTÍIGUIEZES 205 

da soa arte, pois ]\So seria certamente facíl vencer um adversá- 
rio de quem Bnmey diz : 

cHe was a practical musician, and appears to have kHown 
liifl bnsiness; in hin treatise he has explained the difficulties in the 
Music of his time with such cleamess; as wonld have been useful 
to the student and honorable to hirnself^ if he had no split upon 
enharmonic rocks and chromatic quick-sands.» Fétis (g) confir- 
ma esta apreciação^ dizendo que Vicentino era tido no seu tem- 
po por un musicien savanL Depois de considerarmos o mérito 
do adversário, que ainda em cima era poderosamente protegido 
pelos representantes da casa d'£ste (h), devemos também atten- 
der ao logar da discussão, que se effisctuou diante do auditório 
talvez mais illustre d'aquelle tempo. Honremos pois a memoria 
de Lusitano ! 

Vicentino encolerisado contra os árbitros, seguiu o seu pro- 
tector a Ferrara e tratou de delinear logo o plano de uma grande 
obra (1) que publicou depois, e em que elle descreve a questão que 
teve com Lusitano; pôde ser que alguém, illudido pelas apparen- 
cias de verdade que a obra apresenta, em vista dos documentos 
que n'ella estão incluidos, aprecie a discussão que houve entre os 
dois theoricos de uma maneira menos favorável para o nosso com- 
patriota; por isso advertimos, que Vicentino alterou completa- 
mente o estado da questão, torcendo-a pouco lealmente para dar 
ás soas rasSes uns vizos de verdadeiras; Vicentino substituiu na 
sua obra, ao objecto particular da questão julgada, uma discus- 
são de theoria diversa da que se tratava; a rasão doeste procedi- 
mento é obvia. 

Cautella pois. 

Esta discussão mencionada por Árteaga (i), e a maneira 
como o author italiano a apresenta, indica bem, que elle não com- 
prehendeu o estado d'ella; Guiseppe Baini (j) relata esta contro- 
vérsia como toda a clareza e minuciosidade no livro que abaixo 
citamos, pois teve o cuidado de consultar os manuscriptos origi- 
naes que existem na Capella Pontifical e principalmente o livro- 
de Dankerts. (k) 



206 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Podemos felizmente apresentar ao leitor toda a citaçSo rela- 
tiva a esta questão^ que ainda muito depois de resolvida, excitou 
ainda por longo tempo, o mundo artístico da Itália e da Europa* 

Vão também conjunctamente algumas noticias biographicas 
de muito interesse, relativas ao adversário de Lusitano. 

cNon sia discaro ai lettore di risapere alcuna cosa dei Vi- 
centino detto r arcimusico, e deir accennata controvérsia. D. Ni- 
cbla Vicentino fu maestro in Ferrara alia corte deli duca Álfonso l, 
ed insegnò la musica operativa, ed il suonar di tasti, in cui ai 
dir dei Doni giuniore fu molto bene esercitato, ai ridetto duca Ál- 
fonso, ai cardinal Ippolito seniore di lui fratcllo, ch'ebbe tra suoi 
famigliari TAriosto, ed alia monaca suor Leonora di loro zia, 
come puré ai figli dei duca, cioè £rcole ii. ed Ippolito giuniore, e 
alie figlie di Ercole, Anna, Lucrezia, e Leonora, e tutti ne profit- 
tarono sodamente, ed alti elogi ne riportarono, siccome pnò 
vedersi nelFantica musica ridotta alia moderna pratica dei me- 
desimo Vicentino pag. 10., nella dedica che fece alia nominata 
Lucrezia Francesco Patrizi delia sua Deca istoriale delia poéti- 
ca, nella lettera, che Bartolommeo Ricci serisse da Venezia ai 
duca Ercole nell^anno 1548. in cui la nominata Annaaddò ama- 
rito, e nella dedica di Gíglio Gregório Giraldi dei terzo de' suoi 
dialoghi Bulla storia de' poeti. 

cNon molto dopo Y esaltazione d' Ippolito giuniore ai cardi- 
nalato avvenuta li 20. di Decembre 1538. lasciò il Vicentino 
la corte di Ferrara, e tutto si dedico come cappellano e maestro 
ai servigi d' Ippolito. Trovandosi portanto in Roma, empório 
allora fioritissimo di ogni maniera di colti musici, incominciò 
egli a spargere qua e là n'e ritrovi de' professori di musica pa- 
recchi cenni delle sue arcane musicali cognizioni nei due generi 
sconosciuti cromático, ed enarmonico ; e dono a varie persone le 
copie di un suo libro di madrigali, che fatto aveva stampar in 
Venezia con il seguente speziosissimo titolo: 

€Deir único Adriano Villaert discepolo D, Nicola Vicenti- 
no Madrigali a õ voei per Teórica e per Pratica da lui com- 
posti ai nuovú modo dd celeberrimo mo maestro ritrovcUi. Lib, i. 
Venezia ÍS46. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 207 

cL' mcontro di quest' opera in Roma non corrispose alie lu- 
singhe dei Vicentino^ perciocchè solo si celebraramo i solecismi 
dei titolo spezioso, onde non potendo egli trovare per cotai via 
quella superiorità di fama^ che aveva speratO; continuo ad annun- 
ziare con arcane anfibologie le sue recôndito cognizioni; le quali 
non Yolle mai comonicare ad alcuno sotto il pretestO; che allora 
le renderebbe pubbliche^ quando avesse ottenuto una situazione 
a se^ como la cappella dei Papa, o di altro sovrano per ricompen- 
sa dei quindici anni spesi per V acquisto di tanta scienza. 

cGli fu per ciò fatto riflettere da alcuni amici; che si alto 
silenzio oltre il non procacciargli nomC; lo avrebbe ben presto 
gittato nel novero dei cerretani, ond' ei finaknente s' indusse a 
stipolare un' apoca siccome fece in Roma il di 25. di Ottobre 
1549. per gli atti di Felice de Romaulis notaro di Camera, in cui 
promise a sei famigliari dei card. Niccolò Ridolfi (nipote per 
canto di sorolla dei Pont. Leone X.) i quali molto si dilettavano 
delia musica, di insegnare loro gratuitamente a cantare alcune 
cantilene da se composto nei ridetti due generi cromático, ed 
enarmonico, a condizione, che, sotto pena di duecento scudi, 
niun di loro potesse prima di dieci anni insegnare i ridetti due 
generi inusitati, o parlame, o scriveme per modo, che la cogni- 
zione di essi venisse a palesarsi. 

cQuesta nuova scuola di musicali misteri aperta in Roma a 
sei sole persone aguzzò per modo Ia curiosità dei maestri, che, 
per quanto il Vicentino fosse accorto, non seppe guardarsi dai 
lacei, che per ogni dove gK eran tramati. Soleva Bernardo Áòcia- 
joli Ruccellai tenere á|i^sso nella nobile sua abitazione accademie 
di musica. Un di nel fine di Maggio deli' anno 1551. vi si ese- 
gni fira gli altri un concerto composto sopra il canto gregoriano 
deli' antifona Regina CoelL Terminata T accademia sortirono 
insieme dal palazzo deIl'Acciajuoli, il Vicentino, ed un altro co- 
tai maestro chiamato D. Vincenzo Lusitano, e discorrendo delia 
musica eseguita, presero questione sopra il mérito dei ridetto 
concerto. Dopo alcun poço di dibattimento il Lusitano gittò la 
proposizione, che quel concerto in fine era una musica ptiramen- 



208 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

te diatónica: il Vicentino riscaldato^ rispose tosto: puramente 
diatónica? Voi siete ii bravo maestro! nemmen conoscete nna 
musica di qual genere sia. La disputa qui divenne accanita; 6 
non Yolendo nè V uno nè V altro cedere, convenuero finalmente 
ad istanza delle molte persone quivi radunatesi^ di eleggere due 
giudici^ e prescelsero di comun consenso Bartolommeo Escobedo 
di Segóvia; e Ghisilino Dankerts di Tholen in Zeelanda amen- 
due cappellani cantori pontificii, sommi compositorí; e profondl 
teorici; alia presenza de' quali avrebber detto le loro ragioni ; 
eglino avrebbero sentenziato inappellabilmente, e colui che fosse 
giudicato avere il torto, pagherebbe ai vincitore due scudi d' oro. 

cLa mattína dei 2. Giugno si recarono amendue i disputanti 
alia chiesa di S. Maria in Aquiro degli orfani ove trovavansi i 
cantori apostolici per la solenne messa dei SS. Sagramento, e 
pregarono V Escobedo, ed il Dankerts a volerst compiacere di 
giudicare la loro vertenza. Io, disse il Vicentino, mi sono offerto 
di provare, cJie nissun musico compositore intende di che generé 
eia la mueica che loro compongono, et queUa che ei canta comu^ 
nevnente ogni <A. Soggiunse il Lusitano : Ed io ho Hepoeto in no-^ 
me di tvJtii limueiciy et offertomi diprovare, che io so di che ge^ 
nere eia la mueica che oggidi li compoeitari compongono, et ei 
canta comummente. Ciò udito Y Escobedo, ed il Dankerts accet- 
tarono le parti di giudici. 

c Ayeva intanto risaputo il cardinal Ippolito questa disfida : e 
volle che si tenesse siffiitta disputa musicale nel suo palazzo alia 
sua presenza il giomo 4. di Giugno. 

tTutti vi si recarono ali' ora stabilita : manco peraltro il Dan- 
kerts eh' era dovuto partire da Roma per affari delia capella. 

cLa disputa fu eseguita in una gran sala con apparato degno 
delia magnificenza di quel grandissimo príncipe cardinale. Amen* 
due i disputanti per ben tre ore si distesero a sfoggio in musicali 
erudizioni, che divertirono piacevolmente la coltissima e nume- 
rosíssima udienza, ma che poço o nulla avevan che far con 1' as- 
sunto. In fine il cardinale pretendeva che T Escobedo pronun-» 
ziasse la sentenxa decisiva : ma eglí si scusò costántemeúte per 



os MÚSICOS POBTUaUEZES ÍQ9 

la mancanza deli' altro giudioe : e fá a^ornata la seconda dis- 
fida nel palazzo apostólico per la mattina dei di 7. di Giugno. 

cLa mattina dei 5. essendo tomato in Roma il Dankerts^ li 
dne disputanti forono da esso, e gli contarono quanto era avye- 
nato il giomo innanzi. Ghisilino però nomo avreduto^ disse loro^ 
che nel disputare a braccio si soleva sovente trascorrere in que- 
Btioni secondarie; onde meglio sarebbe stato, che amendue po- 
nessero in iscrítto le prove dei respettivo loro assunto ; e cosi il 
giadÍ2Ío sarebbe ponderatO; e la sentenza non soggetta ali' ar* 
bitrio. 

cScrissero di fatto il Vicentino ed il Lusitano la sua schedola 
di ragioni| ed inviaronla ai due giudici segnata V una e 1' altra 
il dl stesso 5. di Giugno. 

«La mattina dei 7. Oiugno nella cappella apostólica ai Va- 
ticano presenti tutti i cappellam cantori, ed inoltre Monsig. Gi- 
rolamo Maccabei vescovo di Castro, e maestro delia capella, 
Ânnibale Spatafora archimandrita di Messina, Mons. Marcanto- 
nio Falcone vescovo di Cariati, e Gian Francesco Caracciolo 
abbate di S. Angelo TasaneUo inviati dal cardinal di Ferrara, 
e molti altri signori che intervennero, si presentarono li due 
awersaríi. L' uno e Y altro propose il suo assunto, e quindi attac- 
caron la disputa, da cui per la seconda volta non si sarebbe po- 
tuto conchiuder nuUa. Allora i giudici dimandaron loro, se vole- 
vano, che la sentenza si desse sopra le ragioni esposte nelle res- 
pettivo schedole segnate il di, 5., ai che risposero quelli di si, e 
vi si sottoscrissero. Lette allora publicamente le due schedole o 
informazioni, passarono í giudici a dar la sentenza nei seguenti 
termini. 

€Chrisíinomtne invocato, ete.Noi Bartolameo Escohedo et 

GhÍ9ÍUno Dankerts giudici sopradetti per questa noatra diffini- 

Uva sententia et laudo in presentia ddla deita congregazione, et 

delli 9opradetti D. Nicola et D. Vincentio, presenti, inteUigen- 

ti, audienti, et per la detta sententia instanti: pronuntiano, 

êententiano, et laudiamo il predetto D. Nicola non haver in você 

fii in seritti provato sopra che sia fondaia la sua intentione 

U 



210 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

delia ma proposta. Imrno per qwmto pare in você et in scritti U 
detto D. Vincentio ha provato, che lui competentemente conosce, 
et intende di qual genère 8Ía la compositione, che oggidi comune- 
mente li compositori compongono, et si canta ogni di: come 
ogniuno chiaramsnte di sopra nelle loro informationi potra ve- 
dere. Et per guesto il detto D. Nicola dover esser condannato, A 
come per la presente lo condanniamo nella scommessa fatta tra 
loro come di sopra. Et coA noi Bartolomeo et Ohisilino sopra- 
detti ce sottoscrivemo di nostre proprie manu Dat. Romae inpa- 
latio apostólico et capella predetta. Die septima lunii anno sur 
pradicto (1551) pontificatus sanctissimi D* N, Domini Ivíii 
Pape tertii anno secundo. 

Pronuntiavi ut supra, ego Bartolomeu^ Escohedo, 

et de manu própria me subscripsi. 
^Pronuntiavi ut supra, ego Ohisilinus Dankerts, 
et manu própria me subscripsi. 

cPuó di leggieri immaginarsi quali fossero le smanie dei Vi- 
centino uomo di punto, e fastoso nelF ndire tali parole (le quali io 
ho trascritte dali' originale stesso dei Dankerts come vedrassi in 
seguito.) Pago per altro alF istante la sua scommessa. 

«n cardinal Ippolito ricevuta questa nuova per mezzo dei 
soprannominati prelati, lo Spatafora, il Falcone, ed il Caracciolo, 
che si trovaron presenti alia disputa di suo ordine nella cappella 
apostólica ai. Vaticano, prese parte a favore dei suo maestro 
D. Niccola, credendo di essere egli medesimo nella sentenza 
affirontato; e molto vi sarebbe voluto a tranquillizzarlo: ma for- 
tunatamente dopo alquanti giomi dovette partire per Ferrara, 
donde passo a Siena, e quindi di nuovo a Ferrara: e siccome fu 
seguito dal Vicentino rimase in Roma sopito il musicale peri- 
glioso incêndio. 

<D. Vincenzo Lusitano temendo, che potesse scoppiare col 
tempo alcun sotterraneo yulcano, penso bene di dare alie stampe 
un' operetta, che intitolò: 

alntrodu^ttione facilissima et novissima di canto fermo, et 
figurato contrapunto. Roma, per António Blado, 1563, incui si 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 211 

mostro per alcnn modo ammiratore delle cognizioni dei Vicen- 
tino; e cosi credette di assicutarsi. 

cH Vicentino pieno di fuoco e di coUera^ incoraggito dal fa- 
vore dei cardinale si pose a scrivere nn' opera, che termino in 
qnattro anni, e la intitolò: 

€L*antica musica ridotta alia moderna pratica con la di- 
ehiaraiione, et con gli essemjjj dei tre generi con le loro spetie, 
et con Vinventione di uno ntwvo strom^ento, nel quale ri contiene 
tutta la perfeita murica con molti segreti muricali, Appena tor- 
nato in Roma con il çiirdinale la fe stampare per António Barre 
il 1555. a spese dello stesso IppoHtO; siccome confessa nella de- 
dica. 

cNel cap. 43. dei lib. 4. di quest' opera riportò il Vicentino 
per brevità i cenni delia riferita contesa, ma alquanto sconcia- 
mente; perciocchè fra le altre vi sono tre patentissime inesattezze. 
Dice allapag. 95.; che la sentenza fu data dai due gindici il di 7. 
Gingno dopo quattro o sei giomi, dacchè furono loro inviate le 
informazioni: laddove nella pagina stessa a tergo confessa che le 
due informazioni furono scritte da se, e dal Lusitano il di 5. Giu- 
gno. 

«Dappoi afferma, che li due giudici fdrono d' accordo in- 
sieme, e fiEtcero la sentenza contro di esso, e la mandarono a pre- 
sentare ai cardinal di Ferrara in sua presenza per mano dei Lu- 
sitano; che il cardinale dopo averla letta gli disse, che era senten- 
ziato a pagare li due scudi d' oro; ed ei allora li pago. Per lo che 
sembra voler significare, che fosse data la sentenza dai giudici 
in congresso privato, lui assente, e che ei n'ebbe la nuova dal 
cardinale, allorchè presentogliela il Lusitano: intanto però alia 
pag. 98, o tergo fece egli stesso imprimere, che la sentenza fii 
data nella capella dei Papa, presente la congregazione dei can- 
tori apostolici, e presenti, intelligenti, andienti, ed instanti D. 
Nicola Vicentino, e D. Vicenzo Lusitano. 

cln terzo luogo vergognandosi egli stesso delia insussisten- 
za dei suo assunto cambia onninamente aspetto alia disputa e 
1' oggetto delia disfida, dicendo: (pag. 95.) D. Vicenzo era 



212 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

cP opimone ehe la musica che aUora si cantava era diatónica: 
et io gli risposi che rum era diatónica semplice, ma mista deUe 
parti piU lunghe dei genere cromático, e deli* enarmonicoj et 
deUe specie dei genere diatónico: et ci giocammo due scudi» 

«Egli però se amava di esser creduto in questo suo garbu- 
glio, doveva cambiare anche la sentenza^ o non riportarla; per- 
ciochè quivi chiaramente 8Í dice (pag. 97. a ter.) H Lusitano in 
você et in scritto ha provaio, che lui per uno competentemente 
conosce et intende di qual genere sia la composizione, che oggi 
communemente i compositori compongono, e si canta ogni dl: 
ed a questo titolo fu dichiarato vincitore delia disfida: dunque lo 
stato delia questione era questo; e questo era ciò che il Lusitano 
doveva dimostrare oontro il Vicentino, il quale non seppe nè in 
você nè in scritto provare sopra che fosse fondata la sua inten- 
tione delia orgogliosa proposta, che niun musico compositora 
intendeva di che genere fosse la musica che esso stesso compo^ 
neva. 

cE vero che il garbuglio fu pe'malistanti; ma chi vuole 
ingarabullare oonvien che sia molto scaltro. 

«Impressa, e pubblicata Topera dei Vicentino non essendo 
piii in Roma TEscobedo, (Bartolommeo Scobedo fu aggregato 
nella capeUa apostólica li 23. Agosto 1536. e parti di Roma alia 
residenza de' suoi benefizi li 25. di Ottobre 1554.) si vide Ghí- 
silino cader sopra tutto il peso di respondere, e difendere la sen- 
tenza. 

cCompose ei tosto un dottissimo trattato, il quale dubito, 
che non avesse il permesso di sostire alia luce per le stampe a 
riguardo dei cardinal Ippolito: io però ne ho veduto in Roma il 
MS. originale di pugno dei Dankerts nella biblioteca Vallicella- 
na segnato R. 56. num. 15. ed eccone il titolo: 

^Trattato di Ghisilino Dankerts musico, et cantore cappel- 
lano delia capella dei Papa sopra una differentia musicale 
sententicUa nella detta cappella contro il perdente veneralnle 
D. Nicola Vicentino per non haver poasuto provare, che niun 
musico compositore intende di che género sia la musica che esso 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 218 

ite8$o eompone, come 9Í, era offerto. Con una dickiaratione for 
cUiswma sopra i tre generi di essa musica, cioò Diatónico, Cro^ 
matico, et Enarmonico con i loro essempj a guattro voei sepor 
ratamente Puno da Valtro, et anco misti di tutti tre i generi 
inste/nus, et molie aitre cose musicali degne da intendere» Et ai" 
traccid vi sono alcuni concenti-apià voei in diversi Idiomi dal 
medesimo autore nel solo genere DixUonico composti. 

cKel proemío, e nei primi cinqae capitoli dei libro i. riporta 
il Dankerts la narrativa circostanziata di quanto occorse in detta 
yertenza: lo stato delia questione: le schedole originali delia in- 
formazione scritte dal Vicentino^ e dal Lusitano: e la sentenza: 
e tutto ciò con precisione di tempo, di luogo, e di persone, e con 
candidezza tale, che non può esser figlia se non delia verità. 

cPochi anni appresso anche T Ârtusi occupossi di questa dis- 
puta, e scrisse 1^ difesa ragionata delia sentenza data da Ghisi^ 
Uno Dankerts, et Bartolomeo Escóbedo cantori pontifici a favo- 
re di D, Vincenzo Lusitano contro D. Nicola Vicentino, sicco- 
me può vedersi n'ell' op. intit. Delle imperfezioni delia moderna 
musica. Begionamenti dui dei B. P. D. Oto. Maria Artusi da 
Bologna, Yenezia 1600 pag. 28. e segg. 

cln fine certo si è, che il Vicentino fii pe' snoi tempi un 
grandíssimo musico, fn un finíssimo suonatore, e parla nell' op. 
cit. quanto alia pratica delia musica d'una maniera, che forse 
oggí in molti articoli non si saprebbe dir tanto, e cosi aggiusta- 
tamente. 

f Quindi Yuoli avrertire, che le critiche contro il medesi- 
mo di Gio. Battista Doni giuniore nel Compendio dei traitato 
de' generi, e de' modi pag. 4., 5., 6. di Apostolo Zeno Lett. To. 
8. pag. 353. di D. Vincenzo Sequeno ne' saggi sul ristahHimen* 
to deW arte armonica de' greci, e romani cantori, tutte riguar- 
dano la sola teórica delli generi diatónico, cromático, ed enarmo- 
nico, che il Vicentino si figuro a suo capríccio, e non per queUo 
che ne rimane negli scrittori greci, de' quali ebbe scarsissime 
cogniziími, ae puré alcon ne conobbe. 



214 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

cL' orgoglio però, ed il credersí alcuna cosa di singolare 
nell' arte^ e nella scienza musica fu il trabocco in cui misera- 
mente egli cadde. Invento a sua mala ventura un cembalo di piu 
tastature per esegoírvi le musiche nei tre generi da se composti, 
e chiamollo Archicembalo; onde pretendeva di essere denomi- 
nato in corrispondenza delia sua invenzione, Farcimusico. 

cPose nella sua opera il suo ritratto con Fepigrafe ai di 
fuori: Incerta et occtdta sapientce ttuB manifestati mihi: di den- 
tro: Archicimbali divieionis Chromatici et Enarmonici gene/ríe 
pratioB inventor, sotto il ritratto : Nicolaua Vtcentinue aetatís 
suae XXXXUn., ed inseri nel cap. 64, dei lib. 3. pctg. 70. i se- 
guenti tre versi posti in musica a quattro voei; il primo nel gé- 
nero diatónico, il secondo nel cromático, il terzo nell'enarmo- 
nico, clie disgustarono per U loro orgogUo tutte le persone di 
buon senso : 

Musica prisca caput tenebris modo stistulit oitis* 
Dulcibus ut numeris priscis certantiafactis, 
Facta tua, Hyppolite, excelsum super asthera mittet. 

Se il Vicentino fosse stato piíi modesto, era uomo da giovar 
sommamente ali' arte; e le sue scoperte ridotte da esso in prati- 
ca tanto negli strumenti, quanto nell' esercizio delle voei saieb- 
bero State con vantaggio immenso adottate: ma la di lui presun- 
zione il fe tenere per un romanziere, e rovinò il tutto.» 

Hawkins, (m) Gerber, (n) Choron et FayoUe, (o) pretendem 
que Lusitano abandonara a sua opinião pouco tempo depois does- 
ta discussSo, e adoptara a do seu adversário; protestamos ener- 
gicamente contra semelhante asserção, que é falsa, pois as mes- 
mas opiniões de Nicola Vicentino e de Vicente Lusitano, discu- 
tidas na celebre sessSo do Vaticano, encontramol-as mais tarde 
sempre adversas nos livros doestes dois theoricos; quem fôr incré- 
dulo, compare as duas passagens da Ántica musica, livro 4, cap« 
43, foi. 95, e a do livro de Lusitano: Introdvaionefacilissima di 
canto f ermo, foi. 23, verso, edisSo de 1561. (p) 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 215 

ÁmboB 08 flystemas de Vicentino e de Lusitano tiveram os 
seas partidários entre os antigos theorícos ; porém mesmo aquelles 
que admittiam a possibilidade da applicaçSo dos géneros chro- 
matico e enharmonieo dos gregos á harmonia consonante, aceu- 
saram Vicentino (e com rasSo) de haver confundido os géneros 
chromatico e enharmonieo dos gregos, com os géneros a que eUe 
dá erradamente estes nomes. ZarUno (q) e Doni (r) até chegam a 
affirmar, que elle nunca lera os theorícos gregos e que nSo só igno- 
rava o que eram os géneros chromatico e enharmonieo doeste 
povo, mas nem sequer fitzia uma ideia bem exacta do género dia- 
tónico (!) 

Se houve alguns theorícos (Botrígarí e Doni) que admittiram 
a possibilidade da adopção dos géneros chromatico e enharmo- 
mcOy fizeram-no todavia com restrícçSes importantes ; o prímei- 
ro (s) concedia a admissSo só pelo sjstema mixto e temperado 
chamado pelos italianos: partecipato. Foi também debaixo d'este 
ponto de vista que Doni tratou da regeneração doestes géneros na 
musica moderna, (t) Mesmo no caso em que a theoría de Vicen- 
tino fosse admissively nem sequer se poderia glorificar com esta 
descoberta, porque esta tentativa já tinha sido feita na eschola de 
Bolonha, no começo do século xvi por Spartaro. (u) 

A todas estas rasSes mais ou menos fortes que aqui apresenta- 
mos contra a vã tentativa de Vicentino, accresce a ultima, a mais 
forte de todas; é a analyse que Fétis (v) nos apresenta de um 
exemplo de harmonia, supposta chromatica e enharmonica que se 
encontra no terceiro livro da Ántica Musica; o incansável musi- 
cographo belga mostra n'esta analyse o absurdo das successSes 
que Vicentino apresenta, e que são puramente phantasticas ; além 
disso também está provada (por Fétis) a impossibilidade da 
admissão dos géneros chromatico e enharmonieo na harmonia 
consonante, exceptuando os casos das attracçSes das dissonâncias 
natoraes, que se dão nos géneros mencionados, e o caso das 
relaçSes mídtiplas das alteraçSes dos intervallos. 

Citamos mais uma nota curíosa de Baini, a respeito da ap- 
plicação dos três géneros mencionados, e que vem coUocar ainda 
em melhor luz a ideia de Vicentino: 



216 08 MÚSICOS PORTUGUEZES 

«n Vicentino nella citata opera : U ôntica musica ridcttaolla 
moderna pratica, ínserisce varii esempi di composizioni ne' mm 
immaginati generi di musica: alia pag. 62. V ha il motteio a 
4 voei : H<iec dies quamfecit Dominas, tatto cromático. ÁUa pag. 
67. V ha il madrigale a 4. voei : 8oave e dolce ardore, tatto enar- 
monieo. Álla pag. 68. V ha il madrigale : a 4. voei: DoUe mio hen, 
ohe si può eantare in einque modi: 1. Diatónico^ 2. Cromático, 
8. Cromatibo, ed enarmonico. 4. Diatónico, e cromático. 5 Dia- 
tónico, cromático, ed enarmonico. Álla pag. 69. V ha il madri* 
gale a 4. voei : Madonna il poço dolce, e il moUo amaro, misto 
delle sepcie dei tre ridetti generi. Alia pag. 70 V ha i tre versi 
sopraccitati : musica prisca cc^nd, il primo in musica diatónica, 
il secondo in cromática, il terzo in enarmonica. Álla pag. 71. 
v'ha il: Hierusalem convertere ad Dcminum Deum iuum, a 5 
voei, tutto cromático. Io non istimo gran fatto queste compo- 
isizioni, nè vuò garantirle come tali quali il Vicentino le im^ 
maginava: molto però mi piace di leggere, pag. 61. a tergo, 
che in fine faceva egli eseguire queste ed altre siffittte oom« 
posizioni dai suoi scolari avendoli resi capaci di intoimre i diesis 
maggiori e minori, i semitoni maggiori e mínori, i toni maggiorí 
e minori, le terze minime, piíi di minori, e piú di maggiori, lí 
salti di piíi di quarta, di manco di quinta, e di piíi di quinta, ed 
altri per rapporto ai genere diatónico sproporzionati ed irrazio- 
nali. Per lo che ad evidenza vien dimostrato, che come il genere 
diatónico è il piíi semplice, ed il piíi naturale ali' uomo, coei 
V umana você può eseguire, e Torecchio gusta soavemente molte 
altre divisioni non diatoniche, siccome moltissime volte fece a me, 
à me che scrivo, udire il dottissimo D. Vincenzo Requeno neUa 
sua spinetta che accordava ora con le divisioni di Aristosseno, 
ora con qúelle di Archita, o di Didimo, o di Filolao, o dei siste- 
ma equabile, tutte ali' orecchio sommamente gradevoli.» 

Entretanto é curioso vêr como os sábios theoricos do xvi se- 
culo gastavam o seu tempo a encastellar argumentos sobre ar* 
gumentos, a favor de dois géneros de musica que nSo tinham ra- 



os MÚSICOS FOBTUGUEZES 217 

são de ser n'aquelle tempo, porque os elementos que lhe haviam 
de dar vida^ ainda não existiam; e todo este trabalho era origi- 
nado pela transmissão d'esses termos, que os gregos lhes tinham 
legado e cujos escriptos os theoricos estudavam então avidamen* 
te, termos estes, que não tinham a menor relação, nem com a to- 
nalidade do cantochão, que era a única então conhecida, nem com 
a harmonia que lhe servia de base. 

Conhecemos apenas uma composição de Lusitano: Motete, 
àexet octo vocffms, Romfe, 1551, in-4.^ 

Encontrava-se estacoUecção na Bibliotheca Real deMunich, 
quando G^ber escrevia o 4.^ volume do seu Diccionario (1813). 

Em compensação, citamos a seguinte obra, que honra o seu 
author : 

Introduttione, facilUsima e nomssima, di canto f ermo, fi* 
gvBToto, contraponto simplice, e in concerto con regole generali 
perfarefughe differenti sopra il canto f ermo a 2,3 e 4 voei, e 
cmpontioni, proportioni, generí Diatónico, Cromático, En- 
armonico. Roma, por António Blado, 1553, in-4.% de 86 paginas 
com o retrato do author. 

2.* edição: In Venitia appresso Francesco Marcolini, 1558 
in-4.^ de 23 folhas duplas, (x) 

3/ edição: In Venetia appresso Fr. Sampanetto, 1561^ 
in-4.^ 

Em Lisboa publicou-se uma traducção portugueza d'esta 
obra, por Bernardo da Fonseca. Lisboa, 1603. 

Parece-nos que fechamos dignamente esta biographia; citan- 
do a apreciação lisongeira que Fétis (y) &z d'esta obra : 

cTout ce qui concerne les fiigues, ouplutôt les imitations et 
ks genres dans ce petít écrit, depuis la pag 17 jusqu'à la page 23, 
de la deuxième édition, est digne d^intérêt et contient de fort bon- 
nes observations qu'on chercherait en vain dans d'antres ou- 
vrages.» 

(a) Biogr, Umv.j vol. t, pag. 278. 



218 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

H}^ AUgemeine Literaiur der Muêik, pag. 296. 

(c) History of Mune., vol. m, pag. 162. 

Ti) Bihl. Lunt. 

(e) Lista, pag. 49. 

{í) Celebres contrapontístas e compositores theoricos do xti século. 

íg^ Biogr. Univ.y vol. vin, pag. 340. 

(h) Mcolao Vicentino tinha sido mestre doestes principes poderosos, e 
era particularmente protegido por Hyppolito d'E8te, Cardeal de Ferrara; 
este ultimo ressentiu-se tanto da decisão dos árbitros, que teria certamente 
eziçido a annullaçSo da sentença, como satisfação p^oal, se não se visse 
obrigado a partir poucos dias depois da discussão, para Ferrara, e não ti- 
vesse voltado a Roma, senão quatro annos depois. 

(i) Rivolwsione dei thecUro mueiccUe italuino, dalla aua origine fino ai 
presente, Bologna, 1789, vol. vi, pag. 222. 

(j) Memorie êtorico-chriticke delia vita e deUe opere di GiovanniPier» 
luigi da Falestrinaj capeUano cantore, etc. Dalla Societá Typographica, 
1828, voL I, pag. 322-348, Nota 424 e 426. 

(k) Trattato di'Ghinlino Dankertê, musico et cantore capeUano delia 
capeUa dei Papa, sopra una differenlia musicale senteniiata nella dettacct* 
pala contra ilperdente venerabile. D. Niccola Vicentino, per non haver po» 
ttUo provare ene niun musico compositore intende di che genere sia la mu» 
sica che esso stesso eompone, come si era offerto. Con una dichiarationefa' 
cUlissima sopra i tre^generi di essa musica, ctoè diatónico, cromático et 
enarmonico con i loro esempi, a quatro voei separatamente Vuno dali* altro 
et anco misti di tutti tre generi insieme et molte aUre cose musicali digne da 
intendere, eto. 

Este. manuscripto importante encontra-se em Boma, na Bibliotheca 
Yallicellena com a marca K. 56, N.<^ 15. 

(1) Antica musica ridotta aÚa moderna practica, con la dichiaratione 
e con gli esempi dei tre generi con le loro spetie e con VinverUione d^un novo 
instrumento, etc. In Roma appresso de Antonio Barre, 1555, foi. Esta obra 
que trata dos três géneros : diatonico, chromatico e enharmonico e da sua 
applicaçSo á musica moderna, foi refutada por Artusi, no seu livro: Difesa 
ragionata daUa sentenza data da Ohisilino Dankerts e Bartolomeo Escóbe^ 
do, cantori pontifici a favor de D. Vincemto Lusitano contra D. Nicola Vi- 
centino, Bologna, in-4.<> ; a materia doesta brochura foi refundida em outro 
livro de -L. Artusi, intitulado : Delle imperfexioni delia moderna musica, 
pag, 14 a 38, Bagionamento primo, 

(m^ History of the Science and practice ofMusic, London, 1776, 5 vo- 
lumes, mA,^ 

(n) Neues historisch-Òiographisches Lexikon der TonkUnstler. Leipzig 
1810-1814, 4 vol. 

(o) Dictionnaire historigue des musiciens, artistes et amateurs, morta ou 
vivants. Paris, 1817, 2 vol. in-4.® 

(p) O cajpitulo dei tre generi concluo, sic : conde si mostra i stromenti 
fatti m fine di sonar il ^nere armonico, esser fatti in vano.* 

íql) Instituz, armontc. pari, 4, cap. 3. 

fr^ Compendio dei Trattato de* genere e de* modi. Cap. i, pag. 4. 

fs) H Melone, pag. 16 e as seguintes. 

[t) Aggiunto ai compendio dei Trattato de* generi e de* modi deUa mu- 
sicOj pag. 126 e seguintes. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 219 

(n) Vide Âaron : De inêtitiít, harmon. interprete. Io. Ant Flaminii 
Hber 2, cap. 9. 

m TraUé complet de rhartnonie, livr, troisième. 

íx) Bioqr, Untv,, vol. v, pag. 379. 

{j) GerW, Neues hist btogr. Lexkon der TonJcUnH,, vol. zr, pag. i42, 
nio menciona esta segunda edi^. 



M 



MACEDO (Manoel) — Compositor portugaez, residente em 
Madrid no xvi século; escreveu vários Motetes e Vilhaneicos, 
que nSo conhecemos. 

MACHADO (Manoel) — Natural de Lisboa e discípulo de 
Duarte Lobo. O talento de execução que manifestava em vários 
instrumentos^ valeu-lhe a nomeação de musico da capella de Fe- 
lipe m de Hespanha e Portugal. Vivia ainda em 1610. 

Na Bibliotheca real da musica encontravam-se as seguintes 
composições doeste author: 

1.) Cogitavit Dominus, a 4 vozes. 

2.) Lamenta^ de QuintorFeira maior, a 4 vozes. 

3.) Salve Regina, a 8 vozes. 

4.) Vários VilAancicos. 

MACHADO (Raphael Coelho) — Compositor e escriptor theo- 
rico. Natural da Ilha da Madeira^ onde nasceu em 1814; partiu 
para o Brazil em 1838, e ali fixou a sua residência; julgam ol-o 
hoje ÍEdlecido. 

Conhecemos doeste author um: 

1.) Methodo de musica ou Prtncipios de Musica pratica, 
para uso dos principiantes. 1842. 



820 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE3 

2,) Breve tratado de Barmonta, 1S61; das composiçSes: 
60 Melodias originaes, algumas das quaes foram traduzidas em 
italiano; escreveu também bastante musica sacra. 

3.) Diccionario musical, contendo todos as vocábulos da e»- 
eripturação musical, termos tecknicos da musica, etymologia dos 
termos menos vulgares e os synonymos em geral, etc., desde a sua 
maior antiguidade^ Rio de JaneirO; typograpliía franoeza, 1842| 
in-4.®, de 275 pag. 

E O unico Diccionario de Musica que temos em portuguez 
e que foi de certo bem util no tempo em que foi escripto. 

Machado também publicou as versSes portuguesas dos se- 
guintes methodos : 

4.) Methodo de Piano-Forte de Hunten. 

5.) Methodo de Flauta, de Devienne. 

6.) Methodo de Rabeca, de Alard. 

7.) Methodo de Quitarra de Carcassi. 

MADABRA (Affonso de) — O appellido d'este escriptor-theo- 
rico indica talvez a sua naturalidade. É verdade que nilo conhe- 
cemos cidade alguma em Hespanha ou em Portugal que tenha 
este nome. Talvez deva ser Madeira? 

KAGALHÃES (Felipe de) — Nasceu no jSm do século xvi 
em ÁzeitSoy na diocese de Lisboa. Foi discipulo de Manuel Men- 
des e de tal maneira se applicou ao estudo da musica e composi- 
ção, que os seus esforços dirigidos por um mestre da habilidade 
de Mendes, depressa o habilitaram a ser escolhido para Mestre 
da Capella da casa da Misericórdia, recebendo de Felipe n a mes- 
ma nomeaçSo para a Capella real de Lisboa. 

Magalhães deixou muitos discípulos; citamos os distinctos : 
Fr. Manuel Corrêa, Estevão de Brito e António da Madre deDeus. 

Foi muito estimado pelos seus contemporâneos; (a) as suas 
composiçSes manuscriptas, que eram numerosas e que citamos 
em seguida ás impressas, existiam archivadas naBibliotheca mu- 
sical de D. João IV. As composiçSes impressas de MagalhãeSi são: 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 221 

1.) Cantiea heattsnnuB Virginis. UljsBipone, apud Lauren- 
tías Craesbecky 1636; foi max. 

2.) Missa quíxtuor, quinque, et sex vocihus constantihus. Ibi| 
per enmdem Typogr: 1635^ foi. max. 

3.) Cantum eeclesicisticum commendandi animas corporajue 
sepeliendi defunctorum; Missa et Statianes juxta Bitum Sacro- 
Banctrn RomancB EcclesicB Breviarii Missalisjue Romani Cie- 
mentis VIII et Urhani VIII recognitionem ordinatio. Ulissipone^ 
apud Pedrum Craesbeck, 1641 m-4.^ 

2.* ediçSO; com firontispicío novo. Ibi, por António Alrares^ 
1642 in^.^ 

3.* ediçSOy Ântuerpise. 1691. m-4.® por Henrique AerisBens. 

Em um catalogo francez de Liepmanssohn et Dufour, (b) 
que já por rezes mencionamos^ vinha um exemplar d'esta ediçSo 
com o titulo um pouco alterado, sic: 

Cantum ecclesiasticum prcscibuê apud Deum, Animas juvan- 
dij corporaque humandi Defunctorum Officium, Missvm et Sta-» 
iiones juxta Ritum sacrosanctos romance ecclesice omnium eccle- 
êiarum Matris et Magistrae juxta Missalisque Romani novissi- 
mam recognitionem conficiehat, Ph; Mag: in Régio sacello Ca- 
peUanis Meritissimus Mesochorus Eruditissimus, ad Santiam 
Sacerdotem pauperum Ulissipponensium confratemitatis San- 
ctisinuB Trinitatis Et ipse dadalis. Nunc demo in hac postrema 
editione a mendis lucuienter castigatum, aljluenterque illustratum 
memptilus ejusdem confratemitatis id lucemprodiit. Antuerpise, 
apud Henricum Aertssens, Typographum Musices sub signo, 
Montis Pamassi, 1691. 4.^ de iv — 213 pag. (Bella ediçSo em 
caracteres vermelhos e pretos.) 

Este exemplar estava marcado em 25 francos, que é um pre- 
ço regular, e tinha no fim uma Litania cum quatuor vocibus 
d'este auctor; ignorámos, se esta condição se danos outros exem- 
plares da mesma ediçSo. 

Obras manuscriptas : 



222 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

4.) Mi89a do segundo tom a 8 vozes. Estante 36; N.^ S07. 

5.) Cogitavit Dominus; Lamentais de Quinta-Feira a 6 
vozes. Est. 33, N.*» 776. 

6.) Vilhancicos da Natividade a 7 vozes. Est. 28; N.® 702. 

7.) Motete: Circundederunt me a 5 vozes j para a Septua- 
gesima. 

8.) Motete: Exurge et ne repelias a 6 vozes, para a Sexagé- 
sima. 

9.) Motete: Esto mihi in Deum protectorem a 6 vozes, para 
a Quinquagessima. 

10.) Motete: Laetare Jerusalém a 6 vozes, para a Dominga 
da Quaresma. 

11.) Motete: Miserunt Judcsi a 6 vozes, para a terceira Do- 
minica do Advento; todos estes motetes estavam na Estante 36. 
12.) Litania eum quatuor vocibus; vem no fim do exemplar 
citado no catalogo francez; ignoramos se foi publicada tiunbem 
em separado. 

(a} Pedro Thalesio, Arte de Cantochâo, cap. 34,pag. 70, intitula-o : in- 
signe, e JoSo Soares de Brito, 7%e^. Litter, lit. Pn, 66, chama-o : peri- 
tissimo em um e otUro canto, 

(b) Catalogue d'ane belle colléction de livres de musique, 1869, in-8.* 

D. MANUEL — Decimo quarto rei de Portugal. 

Eis o que Damião de OtoeB (a) diz doeste principe, relativa- 
mente ao desenvolvimento artistico a que a musica tinha entSo 
chegado: 

cFoi mui musico 'de vontade, tanto que as mais das vezes 
que estava em despacho, e sempre pela sesta, e depois que se lan- 
çava na cama era com ter musica, e assi para esta musica de ca- 
mera, como para sua Capella tinha estremados cantores, e tange- 
dores que lhe vinham de todas as partes Deuropa, a que fazia 
grandes partidos, e dava ordenados com que se mantinham hon- 
radamente, e alem d^sto lhes fazia outras mercês, pelo que tinha 
huma das melhores Capellas de quantos Reis e Príncipes entSo vi- 
viam, (b) Todalos Domingos e dias sanctos janctaua, e ceaua 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 228 

com musica de charamellas, saquaboxas^ cometas, arpas, tambo- 
ris, e rabecas, e nas festas principaes, com atabales e trombetas, 
que todas em quanto comia, tangiam cada um per seu gyro; (c) 
alem doestes havia músicos mouriscos que cantavam e tangiam 
alaúdes e pandeiros, ao som dos quaes e assi das charamellas, har- 
pas, rabecas e tamboris, dançavam os moços fidalgos (d) durante 
o jantar e cea; o serviço era esplendido como a Beis pertence 
etc. etc.» 



(&) Chronica de D, Manoel, cap. 84. 



Esta apreciação tem certa importância por ser feita por um homem, 
que era deveras artista. Vide a sua biographia. 

(c) Esta circmnstancia dá que pensar 1 

(d) Não hayia de ser desengraçado, ver fímccionar hoje este corpo co- 
reographico; estamos convencidos, que o êxito não havia de ser menor, dan- 
do-se demais o caso de serem algumas >das dignas consortes d*esses mui 
dignos senhores, mui entendidas uesta especialidade. 

KANUEL (Joaquim) — Mulato dotado de talento nSo vulgar e 
particularmente notável na execução sobre o instrumento denomi- 
nado: cavaquinho, (a) Vivia no Rio de Janeiro em 1822, e é pro- 
vável que tivesse aprendido a musica no Seminário africano, 
fundado pelos Jesuitas, e de que já por vezes temos fallado. 

(a) Viola pequena de quatro cordas. 

HARIA (D. Carlos de Jesus) — Natural de Lisboa, filho de 
Manoel Alvares da Silva e Maria Corrêa de Oliveira. Nasceu em 
1713 e professou a 11 de Abril de 1734. Devia ser um bom can- 
tor, visto que occupava o logar de Cantor-Mór no real convento 
de Santa Cruz ^e Coimbra; (a) mais tarde foi Vigário do Coro 
em S. Vicente de Fora. Morreu em Santa Cruz, a 11 de Agosto 

1734. 

Publicou com o pseudonymo de P.* Luiz da Maia Crescer, 
que é o anagrama do próprio nome, uma: 

Arte de Caniochão, Coimbra, por António Sim3es Ferreira, 
Impressor da Universidade. 1726, in-4.® 



224 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Sahíu em seganda ediçXo mais resumida, como o sepiinta 
titulo indica: 

Resumo das regras geraes mais importantes e necessárias 
para a boa inteUigencia do Cantochao, com tona instrucção para 
os Preshyteros, Diáconos e Svbdiaconos conforme o uso Soma- 
no. Dado novamente ao prelo com vários accrescentamentos qm 
vão notados com este signal. * Coimbra, na Officina de António 
Sim5es Ferreira, Impressor da Universidade. Anno mdccxyi, 
in 4.® de ii — 92 pag. e Index, n pag. 

Houve pois mais do que uma ediçSo, e talvez que Fétis, For- 
kel, e o Pseudo-Catalogo da Academia tenham rasão, porque po- 
dia ser que ai/ edição, ou 1.", se intitulassem: Arte de Canto- 
chao e as subsequentes : Resumo. 

Lmocencio da Silva, que possue um exemplar d'este Resumo, 
quer que este ultimo titulo seja o único verdadeiro, contra a opi- 
niJío de Machado (b) Fétis, (c) Forkel (d) e contra o Pseudo-Ca- 
talogo da Academia que designam esta obra simplesmente : Arte 
de Cantochao; o mesmo auctor nega egualmente a existência de 
uma segunda edição, o que é falso, em vista da declaração de : 
dado novamente ao prelo, que se encontra na edição de 1741. 

(a) £ não em S. Vicente de Fora como diz I. da Silva, Dicc. Bibl, vol. 
n, pae. 32. 

^) Bibl. Lusit. vol. m, pag. 3, e voLxv pag. 87. 

ícj Biogr, Univ. vol. iv, pag. 441. 

(d) Algtm, LUerat. der Mueik, pag. 301 

MARIA (D. João de Santa) — Cónego regular de S. Vicente 
de Fora, natural de Terena, (Traz-os-Montes), Falleceu em Gri- 
j6 a 12 de Março de 1654, no convento de S. Salvador. 

Escreveu três (a) livros de Contraponto, dedicados a D. 
João IV, que existiam na Bibliotheca musical d'este príncipe; fica- 
ram provavelmente em manuscripto. 

PlatAO de Vaxel 8upp5e ter sido Mestre de capella em S. Vi- 
cente de Fora (?) 

(a) A Musica em Portugal, Gazeta da Madeira de 29 de Março 1866. 
N.<»9. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 225 

MARIA (Fr. Thomai de Santa) — Musico theorico que conhe* 
cemos 8Ó pela citaçSo de Solano (a), que falia de uma obra d'eBte 
âuctor intitulada: 

Fant, de Org.; talvez FantazicLê ou peças para órgão, Sola- 
no cita uma regra doesta obra no Livro i. Part. i cap. xii, da No^ 
va Instrucfão musieal. 

E provável que deixasse composiçSes que nSo conhecemos. 

(a) Nova irutrucção mtiMcaZ, Discurso m, pag. 246. 

HARTIHS (Joio) — Poeta e musico. Teve aula publica de ' 
CantochSo que foi fecundissima nos seus resultados, sahindo d'el- 
la numerosos discípulos que, com os seus conhecimentos apregoa* 
▼am a perícia do mestre. Viveu no meado do século xvi, (1558) 
e publicou em Sevilha, onde fôra Mestre de Capella, a seguinte 
obra, que em 20 annos teve nada menos de três ediçSes em Por- « 
tagal. 

Arte de eanto-lhano puetta y reducida en au entera perfec^ 
eion, segun la pratica, Sevilha, 1560, in-8.^ 

Foi traduzida en^ portuguez com o titulo seguinte: 
Arte de Cantochão, poeta e reduzida em sua inteira perfei- 
çSU^, segundo a pratica d'elle, muito necessária para todo o sa- 
cerdote e pessoas que hão de saber cantar, e a que mais se usa em 
ioda a christandade, (!) Voe em cada uma das regras seu exemplo 
apontado com as entoaqZes. Coimbra, por Manoel de Araújo, 
1603, in-8.« 

Segunda edição. Agora de novo revista e emendada de cou- 
súÃ necessárias pelo P.® António Cordeiro, Sub-Chantre da Sé de 
Coimbra. Coimbra, por Nicolau Carvalho, Imprensa da Universi- 
dade, 1612, (a) in-8.*» 

Terceira edição. Revista e augmentada por António Cordei- 
ro. Coimbra, 1625, in 8.® pelo mesmo impressor. 

Forkel (b) e Qerber (c), faOando doeste author, dSo o titulo da 
ediç2o hespanhola um pouco differente, sic : 

16 



226 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Arte de canto4hano puestay reducidanuevamenle enmen- 
tera perfeccion segun la practica. Este naevamente parece indi- 
car uma segunda ediçSo^ posterior á de 1560; é pena que os dois 
criticos allemães nSo indicassem a data^ conjunctamente com o 
titulo, para se determinar este facto com certeza; não tivemos oc- 
casião de esclarecer esta duvida na Biil. Hiapan. de Nicolau 
António, que foi a fonte d'onde Forkel tirou a sua noticia. 

A coincidência de Ghrber, explica-se talvez pela circum- 
stancia de ter copiado a sua notícia de Forkel. 

Ainda a respeito doeste musico ha a duvida da nacionalida- 
de; este caso repete-se frequentemente na Biographia dos nossos 
músicos. E um trabalho ingrato que se dá com a maior parte 
dos artistas portuguezes, que residiram em Hespanha nos sécu- 
los XVI e xvu ; aqui n'esta terra, estamos rodeados de ignorância 
profunda e de densas trevas em tudo o que entra no dominio da 
Historia das Artes, porque não tem apparecido como em Hespa-. 
nha, um Soriano Fuertes, ou um Eslava que abra os olhos á ce- 
gueira universal! — O historiador-bibliographo ha de fazer tudo! - 

Fétis (d) julga Martins hespanhol; a esta opiniSo oppômos a. 
de Forkel (e) e de Barbosa Machado, (f) que o d2o nascido em 
Portugal. 

(a) Esta data indicada por Fétis, (Biogr» Univ, vol. y, pag. 480) pare- 
ce-nos errada^porc[ue um exemplar doesta mesma edição, existente na Biblio- 
theca de um Bibliophilo inglez, (Catalogo dos livros raros da Bibliotheca 
de Sir G... Lisboa. 1869, In 8.«) traz a data, 1614. L da Silva {Dicc. BM, 
vol., III, pag. 415) indica também a mesma data; porém, se sedér o caso, 
aliás pouco provável, de pertencer esta data a uma edição que nos é desco- 
nhecida, retiramos as nossas objecções. 

(y\ Allgem, LitercU. der Musik, pag. 299. 

(a) Biogr. Univ. vol. v, pag. 480. 

Te^ Allgem Literat. der Musik. pag. 298. 

(f) Bibl. LusU., vol. u, pag. 692. 

MARTINS (Francisco)— Natural de Évora, filho de Manoel 
Martins e Angela Freire. Entrou no Seminário pátrio a 20 de ju- 
lho de 1629 e ahi se dedicou ao estudo da musica debaixo da di- 
recção de Pegado, com quem chegou a rivalisar. Foi mestre de Ca- 
pella na Cathedral de Elvas. Viajou em Hespanha. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 227 

Compoz: 

1.) Mtêsas diversoê a 4 voze$. 

2.) Pêolmos a 8 vozes, 

3.) Paiaàks do$ 4 Evangdistaa a 4 vozes. 

4.) Sesponsorios das Matincbs da Quinta, Sexta e Sabbado 
da Semana Santa a 8 vozes. 

5.) Motetespara o Lavapés a 4 vozes. 

Propoz e resolveu o Canon enigmático, cnjo distico é o se* 
guinte: 

La facilídad és sol-lá 
La que luze en mi letrilla 
Mi-ré j ré-mi-ré se toda 
Pués es só-lá peregrioa. 

Estes canons eram uma espécie de charcuias musieaes, mui- 
to em uso entre os compositores subtis do principio da Renasceu- 

■ 

ça; sobre a resolução d'elles poderá o leitor consultar a ultima 
parte do Traité du Contrepoint et de lafugue de Fétis. (Paris, 
Brandus^ 1845 ; deux parties in 4.^) 

O que deu origem a este cânon foi um desafio musical entre 
o nosso autor e um mestre da Cathedral de Badajoz, chamado Ee- 
migio; este, propozera-lhe um cânon cnjo distico era ut^ ré, mi, fá, 
sol, lá; Martins em resposta, apresentou-Ihe além do mencionado, 
mais outro com o distico : 

Ré-Wmi vendoso em sol-fá 
Ré-mi-gio de sol a sol 
Mas mi'farmi']ÍA 
La mí-rava y se r6-ía. 

Deixamos á penetraçSo do leitor a resoIuçZo d'estes proble- 
mas, que exigem mais subtileza do que génio musical, e com os 
quaes a esthetica nenhuma relaçSo tem. 



228 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

HARTTBES (Fr. Veríssimo dos) — Natural deLisboa, filho 
de Bartholomeu de Sá e de Catharina Baptista da Silva. Professou 
a ordem franciscana no convento de Santarém a 17 de Julho de 
1723; e foi Mestre de Cerimonias no convento de Nossa Senhora 
de JesuS; de Lisboa. 

Escreveu : 

1.) Directório fúnebre de Cerimonioê na Administração do 
Sagrado Viatico e Extrema Uncção aos enfermos; enterro no 
Officio de Defuntos j Procissão de Almas e outras funções per- 
tencentes aos mortos, com o canto que em todas se deve observar. 
Lisboa, por João da Costa Coimbra, 1749, in-4.® 

Este livro, mais tarde reformado e correcto por Fr. Fran- 
cisco de Jesus Maria Sarmento, (a) teve ediçSes successivas ató 
á sexta, (Lisboa), que é a ultima que nós conhecemos. 

2.) Directório ecclesiastico das Cerimonias de Cinza, Ramos 
e de toda a Semana Santa, conforme as rubricas do Missal Ro- 
mano e decretos da S. Congregação de ritos, com todo o Canto- 
chão que nos sobreditos dias se deve cantar. Dedicado á Snr.^ 
D. Maria Erigida de Sande e VasconceUos. Lisboa, 1755, in-4.% 
na officina de José da Costa Coimbra. 

Este é o titulo verdadeiro, que Machado (b) nSo traz certo. 

(a) Bikl. ljusit.y vol. m, pag .779, e vol. nr, pag. 274. 

MATTA (Fr. João da) — Natural de Lisboa, ondo nasceu em 
1716; foi filho de JoSo Machado e Maria Ferreira. Vestiu o ha- 
bito franciscano no convento de Nossa Senhora de Jesus, quando 
apenas contava nove annos, graça que lhe foi concedida pelos 
seus dotes musicaes, principalmente pela voz agradável de que era 
dotado e que se podia aproveitar para maior brilho do culto. A pro- 
fissBo solemne seguiu-se nove annos depois, em 1734. Cursou os 
estudos philosophicos no convento de Vianna e estudou Theolo- 
gia no CoUegio de Coimbra. 

Morreu a 3 de Junho de 1738, com 24 annos. . 

Â8 suas composições mais distinctas eram : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 229 

1.) iit^e Som rine »pina$, Motete, a 4 vozes. 

2.) O Patriarcha pauperum, Motete, a 4 vozes. 

3.) O Beatorum sede, Motete, a 4 vozes. 

4.) Missa de diversas vozes; devia cantar-se no dia em qne 
Matta celebrasse a primeira missa, por ter já recebido as ordena 
de presbytero. (Machado.) 

KATTOS (Fr. Eusébio de)— Religioso Carmelita e mn doa 
sábios mais distinctos de Portugal. 

Entrou na religiSo da Companhia de Jesus em 1644 e de- 
pois passou para a carmelitana. 

A sua erudiçSo oomprehendia, além da Musica que tinha es- 
tudado seriamente e para a qual era naturahnente dotado de dis- 
posiçSes vantajosas, a Theologia, Mathematica e Philologia. Se 
em cultor distincto das Sciencias, nSo o era menos das Bellas Ar- 
tes, pms i dedicaçSo pela musica juntava os dotes do desenho e 
da pintura, sendo eximio em ambas estas Artes, (a) 

Ignoramos se deixou algumas composiçSes. 

(a) P^dro DmÍ2, Das Ordens reliffiosasj pag. 28L 

HAURICIO (Joaó) — Dissemos na biographia do P.^ José Mau- 
rício Nunes Garcia, que o compositor de Coimbra tinha sido con- 
fundido^com o artista do Rio de Janeiro. Foi A. de Vamhagen (a) 
o author d'este engano ; como veremos, José Maurício e Nunes 
Garcia sSo duas entidades perfeitamente distinctas, que nada 
tem uma com a outra ; o prímeiro, em Coimbra, a reger a cadeira 
e Aula de musica, e o segundo, a centenares de milhas de distancia 
no Brazil, á testa da Capella regia, nunca se viram. 

Demos a César o que é de César; a Innocencio da Silva 
cabe o mérito de ter encontrado a verdade no chãos ; a Vamhagen 
devemos uma avaliaçSo fdsa a todos os respeitos, pueril mesmo, 
e exageradamente patriótica; veremos, porque. 

As noticias que aqui damos sSo extrahidas na maior par- 
te da biograi^iia do José Maurício (b) e da IntroducçSo e diaonr- 



230 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

BO preliminar do seu Methodo. Damos a primeira coiumbstan- 
ciada n'este artigo, omittindo os desenvolvimentos de Silva, des- 
envolvimentos perfeitamente supérfluos e que quasi sempre nada 
tem que fazer com o assumpto, e em que Silva se oceupa mais de 
si, do que do objecto da sua biographia; o que o author disse em 
20 ou 30 pag., in-8.^, poder-se-ia dizer egualmente em quatro ou 
cinco. Aprendam a fazer uma biographia com Picquot (c), Baini, 
Jahn, Marx, Oulibicheff, Nissen, Fétis, Wegeler, Ries, Hilgen- 
feld, Carpani, Crysander, Schmid e tantos outros, e depois ex- 
perimentem. 

Antes da biographia mencionada nenhuma outra havia; 
Silva accusa, e com razSo, os escriptores contemporâneos de se 
haverem esquecido nas suas obras, de José Mauricio. Nem o car- 
deal Saraiva (d), nem Villela da Silva (e), nem Alexandre Cra- 
voè (f) se lembraram d'elle: O primeiro caso, é mais admirável, 
pois sabe-se com certeza (g) que fora condiscípulo do nosso ar- 
tista; o segundo, dando na sua obra algumas noticias de músi- 
cos nacionaes, não diz uma palavra de José Maurício ; o tercei- 
ro caso nSo cede em curiosidade o passo ao primeiro; Cravoè fius 
outro tanto, apesar de se ter servido do Methodo de José Mauri- 
cio, cujas palavras transcreve algumas vezes textualffimU, para 
dar no seu livro um esboço lacónico e nú da origem, progresso 
e estado da musica no seu tempo, em Portugal ! 

Quem explica estes caprichos de escriptores? A perguiça, 
ou a má fé? 

José Mauricio nasceu em Coimbra a 19 de Março de 1752, 
filho de Manuel Luiz d' Assumpção e de Rosa Maria de Santa 
Thereza, segundo os livros do registo, pertencentes á antiga fre- 
guezia de Santa Justa da mesma cidade, na qual foi baptisado. 
Carecemos de noticias relativas á sua mocidade ; as que em se- 
guida indicamos, sSo apenas notas de I. da Silva; uns pretendem 
que seguira o curso theologico e outros, que se dedicara á medi- 
cina; o que é certo, é ter concluído em 1768 o curso de humani- 
dades, época em que se encontra matriculado no primeiro anno 
de theologia. NSo se sabe, se fez acto, nem, se se formou. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES áâl 

A respeito da sua educaçSo musical existem as mesmas du- 
vidas; nSo sabemos quando principiou os seus estudos musicaes^ 
os progressos que n^elles fez, os mestres que teve etc. ; tudo se 
ignora. Tentamos em vSo indagar a verdade; de tantos livros 
que consultámos, nem uma única noticia podemos alcançar, a 
este respeito. 

Esforço baldado; por isso nos limitamos ás noticias de Lmo- 
cencio da Silva, esperando por outro biographo que seja mais 
feliz. 

KSo podemos crer que José Maurício estudasse com Manoel 
José Ferreira, entSo Lente de Musica na Universidade; homem 
de profunda ignorância, professor incapaz, inepto e indigno do 
logar que occupava; eis a razSo porque a sua gerência foi vergo- 
nhosa, e só se pode comparar á que se está presenceando hoje. 
Ferreira era uma nullidade official, como as que chovem hoje sobre 
os estabelecimentos scientificos e artísticos de Portugal, princi- 
piando pela Universidade de Coimbra. É uma verdadeira praga 
de gafSfmhotos que nSo deixam escapar um grSo da sciencia se- 
quer! 

Dissemos que nSo era provável que José Maurício tivesse 
estudado o que sabia, com Manoel Ferreira, e dado mesmo o caso 
que assim nSo fosse, o mais que d'elle poderia ter aprendido eram 
08 rudimentos da Arte, que elle estudaria depois activamente 
oom algum outro professor dos que estavam entSo em Coimbra; 
esta hypothese talvez seja a verdadeira. 

A viagem que fez a Salamanca e que se pôde talvez collocar 
com mais probabilidade, antes da sua nomeaçSo para a Capella da 
Guarda, teve certamente grande influencia 'sobre as disposiçSes 
artísticas do nosso compositor; a cidade hespanhola, comquanto 
tivesse entSo já perdido os seus compositores illustres, (h) ainda 
conservava um certo caracter artístico, serio e digno, e à bella 
tradição das ideias artísticas dos seus compositores illustres. 

I. da Silva nBo sabe explicarbem o motivo de semelhan- 
te passeio ; nós, vemol-o bem claro; é necessário desconhecer com- 
pletamente o habito das peregrinaçSes artísticas, ainda hoje usa- 



23» OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

daSy e entSo muito em voga, para oonsenrar alguma duvida a 
este respeito. 

Quem sabe mesmo se fôra a Salamanca com a intençSo de 
concorrer a algum cargo da celebre cathednd? 

Depois de bastante demora na cidade hespanbolai Toltou a 
Portugal, dirigindo-se primeiro á Guarda, aonde foi benevolamen- 
te acolhido pelo bispo da diocese, D. Jeronymo do Carvalhal que 
satisfez os seus desejos, nomeando-o Mestre da Capella da Cathe* 
dral e Director da aula de musica, que este prelado esclarecido ti- 
nha creado no seu palácio, pouco mais ou menos em 1773, época 
em que fôra transferido da cadeira episcopal de Portalegre. 

Ignoramos as rasSes, porque José Maurício abandonou esta 
posiçSo, mas é provável que o artista sentisse que aquelle campo 
era demasiadamente limitado para a sua actividade e assim, di^ 
rigiu-se a Coimbra com a intenção de subir a uma posiçio mais 
elevada. Mal sabia elle a desconsideraçSo que o esperava e que 
ia cortando quasi a sua carreira artistica. Apresentou-se para 
esse fim ao bispo D. Francisco de Lemos, que o recebeu oom uma 
indifferença tanto mais indigna, que ia ferir um artista que já 
tinha occupado uma boa posiçSo musical. Entre o Bispo da 
Guarda e o de Coimbra, havia a differença que vae do homem 
illustrado ao verdadeiro burguez. DirSo, que estava desde 1789 
exonerado do cargo de Reitor da Universidade, porém restava^lhe. 
ainda muita influencia para feuser justiça ao artista português. 
José Mauricio desgostoso, retirou-se ao convento de Santa-Cras 
Gom tençSo de alli terminar a vida; já tinha tomado ordens me- 
nores e estava quasi a completar o tempo de noviciado, quando o 
Bispo agitado pelo remorso e sacudido pela justiça, o chamou de 
Santa-Cru2 e reparou o mal que fizera, nomeando-o Mestre da Ca- 
pella da Sé. O prelado cada vez mais contricto e arrependido, 
tratou de organisar uma aula de musica no paço episcopal e ain- 
da d'esta vez o encarregou da direcçSo, declarando-se ao meemo- 
tempo, seu amigo e protector. 

Fes o seu dever. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 283 

José Mauricio diz no seu Methodo, que regera esta aula du- 
rante doze annosy d'onde parece, que principiou os seus trabalhos 
em 1794; (o methodo foi publicado em 1806). EstaconclusSo que 
nSo é verdadeira; já induziu um escriptor distincto em erro. (i) 
Em um livro de Ribeiro, (j) impresso em 1789, pag. rv do pro* 
logo, diz o author, que José Maoricio ensinava antes d'aquelle 
anno e havia já escripto um Compendio de musica pelo qual se 
estudava entSo. Está pois bem claro, que a sua actividade artistica 
n'aquelle estabelecimento começou muito antes de 1791, talvez 
ém 1786. José Mauricio nSo cessava entretanto de estudar, 
ii2o só para utilidade própria, mas também para se dedicar mais 
dignamente ao ensino que estava, graças ainda ao lente Ferreira, 
quasi abandonado. Completou os seus conhecimentos musicaes 
oom o estudo das sciencias auxiliares, particularmente da Ma- 
thematica, que teve a felicidade de estudar com José António da 
Bocha. Entretanto ia o sábio Ferreira e o seu ensino caducan- 
do cada vez mais. A vergonha chegou a tal ponto, que o bispo 
nomeado Reitor-refbrmador em 1799, julgou ser necessário por 
teimo ao escândalo. Tratou da reforma; José Mauricio ela- 
borou o projecto que o reitor submetteu ao governo. As propos- 
tas foram aoceites e Ferreir a jvbilado por incapacidade ! ! I 

Reinava entSo D. Maria i, demente, e D. JoSo vi, pouco 
mais ou menos no mesmo estado intellectual. 

A nova nomeaçlk) recahiu graças ao acerto casual do gover- 
no e aos conselhos de D. Francisco de Lemos, em José Mauricio, 
que tomou posse da cadeira a 10 de Maio de 1802. (1) Esta no- 
meaçSo para Lente de musica, trouxe comsigo o encargo da re- 
gência da Capella da Universidade, que andava geralmente anne- 
xo ao primeiro, (m) 

O trabalho de José Mauricio nSo foi fácil. A Arte estava ex- 
pirando. Tudo o que se aprendia na antiga aula de musica antes 
da reforma, era algum Cantochão e Canto de Órgão, que se ensi- 
nava mal e porcamente. O ensino pratico nSo existia I Esque- 
cimento de Ferreira; ainda assim gastavam-se u'esta tarefii trin- 
ta minutos ! Achamos que era muito. 



234 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Tudo isto teve José Mauricio de remediar, e graças á Qua 
actividade, conseguia-o. 

O decreto de 18 de Março de 1802, mandava ensinar Can- 
tochão. Canto de Órgão, Contraponto e Acompanhamento; a ho- 
ra e meia destinada para esse fim na carta regia, nSo chegou, es- 
paçou-se a duas horas e chegou algumas vezes a durar três. 

O numero dos discípulos ia augmentando á proporçSo que 
a confiança renascia e chegou a ser tSo notável, que bastavam os 
discipulos da Aula da Universidade para povoar as orchestras das 
capellas de Coimbra. Foi para esta aula que José Mauricio es- 
creveu o seu MethodOj de que adiante fallaremos e que Florêncio 
Sarmento teve o descôco de substituir por um outro tBo insigni- 
ficante como o seu author. 

Activo nos cargos públicos que lhe tinham sido confiados, 
nSo o foi menos na vida particular. 

Na sua casa, situada no Bairro das Ameias, (n) reuniam-se 
os artistas e amadores mais distinctos de Coimbra e executavam 
as composiçSes mais preciosas de Haydn e Mozart, (o) entrando 
algumas do dono da casa; a familia de José Mauricio, longe de 
estar ociosa a ouvir, tomava uma parte activa n^estes saratis mu- 
sicaes. O chefe, que era também organista (p) tocava todos 
os instrumentos de arco; seu irmSo, Francisco Mauricio tocava 
rabeca e trompa e as suas sobrinhas eram amadores mui estimá- 
veis no canto. 

Corria assim a vida do nosso artista, pacifica e desassom- 
brada, quando de repente a invasão de Massenaem 1810 e a tá- 
ctica excêntrica de Arthur Wellesley, o obrigou a abandonar a ci- 
dade natal e a refugiar-se em Lisboa com a sua familia. Foi n'es- 
te intervallo que compoz o Mieerere tão fallado, que em seguida 
analysamos; executou-se pela primeira vez na Capella da Uni- 
versidade, um anno depois da retirada de Massena; na composi- 
ção só poderam figurar 3 vozes : tenor, baixo e soprano ,* as outras 
partes não poderam ser preenchidas por falta de cantores a quem 
se podesse confiar o desempenho ! I (q) A parte de tenor foi exe- 
cutada por um estudante, chamado Sá; dos outros cantores não 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 235 

&lla Innocencio da Silva. É provável que fosse a ultima com- 
posiçSo de José Maurício, porque pouco depois falleceu na Fi- 
gueira, a 12 de Setembro de 1815, fulminado por um ataque 
apopletico. Jaz sepultado no convento de Santo António da mes- 
ma villa. Em sua casa conservou-se por muito tempo o seu re- 
trato desenhado á penna por Basilio Ferreira Galarte ; estava 
collocado na parede da sala de visitas de José Maurício entre os 
de Pleyel e de Haydn. 

Citamos as suas composiçSes mais notáveis : 

OBRAS THEORICAS 

1.) Methodo de musica escripto e offerecido a 8. A. R* o 
Príncipe Regente nosso senhor, por José Maurício, destinado 
para as li^Ses da avia de musica da Universidade de Coimbra. 
Na real imprensa da Universidade, 1806, in-á.^. 

Primeiro vem a dedicatória ao príncipe regente, depois a 
IntroducçSo; em seguida um discurso preliminar, e emfim a parte 
que trata dos elementos fundamentaes da musica em 26 capitulos; 
o livro consta de xxxv-65 pag. e está ornado de 5 estampas es- 
plicativas, gravadas em cobre. 

OBRAS PRATICAS 

2.) Matinas do Natal a 3 vozes, com acompanhamento de 
órgão obrigado. 

3.) Matinas da Conceição. 

4.) Stahat Mater, com orchestra, que dizem rívalisar com o 
deHaydn??...l...!...l..??(r) 

5.) Officios da Semana Santa, 

6.) Duas trezenas de Santo António. 

7.) Dous volumes de Missas para as Festividades de todo o 
cmno. Os originaes conservavam-se, bem como os acompanha- 
mentos de orgSo, nos archivos da Cathedral. 

8.) Matinas do Sacramento^ com orchestra. 



236 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

9.) Grande Miêsa a 3 vozes, idem. 

10.) Miesa do Advento e Quaresma a CantoeJião, alternado 
com o acompanhamento. 

11.) Differentes Psalmos de Vésperas. 

12.) Uma collecção de Responsorios para a Semana Santa. 

13.) Varias Sonatas, etc. 

14.) Miserere a 2 coros com orchestra. 

15.) Outro Miserere. E esta a composição de que tanto se tem 
fallado. Vamos cumprir a promessa que demos, de analysar esta 
producçSo; não fazemos o mesmo ás outras, por terem menos 
importância e por nSo as havermos ainda ouvido, nem examinado. 

ÁNALTSE 

Desde que pela primeira vez ouvimos mencionar em Coim- 
bra o nome de José Maurício e o seu afamado Miserere, nasceu 
em nós a curiosidade assaz justificada, de conhecer essa composi- 
ção que por todos era louvada sem restrícçfto alguma. 

Tratamos de a ouvir, porém infelizmente sempre estivemos 
ausentes de Coimbra durante as festividades da Semana Santa, 
tinica occasião em que se toca este Miserere. 

Assim se passaram alguns annos, até que o ouvimos em 
1869, na Sé Nova. 

Para lá fomos acompanhados de um amigo, amador enten- 
dido c de boa educação musical e de um artista e compositor hes- 
panhol, que por acaso se achava em Coimbra. 

Ouvimos o Miserere e devemos confessar, que a decepção 
foi grande, realisou-se o Mons parturiens a montanha gemeu, 
gemeu. . . e pariu um rato, ridicvlus mus. 

Voltamos para casa contristados; a nossa esperança, de ou- 
vir alguma cousa grandiosa, desappai^eceu de súbito, para dar lo- 
gar a um amargo desengano. 

A execução foi indecente, tanto pelos cantores como pelos 
instrumentistas; os primeiros desempenharam cada um o seu pa- 
pel ad liUtvm, com a máxima liberdade de inspiração! 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 237 

O Soprano gorgeava o Eece enim em notas impossíveis tira- 
das da tonalidade chineza; o Tenor devaneava com uma imagi- 
naç2o esquentada o Libera me; e o Baixo executava proezas inau- 
ditas na Fuga: Tunc imponet. 

A parte instrumental acompanhou dignamente, 

O effeito cómico d'este concerto, nem sequer Rabelais o po- 
deria imaginar nas suas horas de alegria* 

Por uma audiçSo d'esta ordem nSo nos atreviamos a fazer 
juizo da obra; tratámos pois de haver alguma copia do Miserere, 
o que conseguimos n%o sem muito trabalho. 

Procedemos ao exame, que depois ainda se tomou mais mi- 
nucioso e perfeito em um manuscripto antigo de* 1813, anno em 
que José Maurício escreveu a sua obra. D'esta maneira apazi- 
guamos o receio de que a nossa primeira copia estivesse erra- 
da, porque confrontámos as duas. 

Eis a nossa opinião, que emittimos sem prejuízo de outra 
mais perfeita* 

A composição abre com o Órgão e l^rompaSj em mi bmol 
que precedem de 3 compassos (movimento quaternário) a entrada 
do Soprano, Tenor e Baixo: Miserere mei Deus; esta parte nada 
tem de saliente; a phrase do Órgão é, vulgar, sem caracter, por- 
que se move independentemente das vozes e lhe falta a expressão 
e grandeza necessárias, para pintar musicalmente a situação dni- 
matica que as palavras indicam. 

As vozes fazem um papel secundário ; a ideia de cada uma 
d^ellas é pequena, e as phrases de que se compSe, são apenas 
imitaçSes, umas das outras. 

Este trecho tem apenas 38 compassos; egualmente curtos^ 
são todos os outros. 

O AmpliuSy Tenor e Soprano, passa desapercebido; o dialo- 
go das duas vozes não pôde ser mais pobre de imaginação e de 
Arte; o Órgão e as Trompas seguem atraz como fieis escravos. 

O Baixo fica mudo, e certamente com razão. 

Passamos silenciosos pelo Tihi solijyeccavi; parece que Mo- 
zart, Haendel, Palcétrina e Bach, não existiram para José Mau- 
rício ! 



238 OS MUSIC30S PORTUGUEZES 

Eece enimy solo de Soprano; resultado «sgorgeios da dama; 
no resto, pobreza franciscana. 

Auditui meo 

Cor mundum, ezercicios de solfejo para Tenor e Baixo; So- 
prano, silencioso, 

Bedde mihi pelo Tenor, Soprano e Baixo, José Maurício faz 
repetir no acompanhamento do OrgSo, a phrase de entrada do 
Miserer^ mei Deus; as trompas fazem o mesmo. 

Ignoramos, que sympathia podesse ter o author por uma 
phrase tSo insignificante, a ponto de incommodar os ouvintes com 
a sua repetição até á saciedade ! 

Xíieram^/s= devaneios de Tenor. Onde estáveis vós, David 
Perez, Jomelli, Mozart? 

Qiwmam; a melhor parte do Miserere e que revela alguma 
arte; infelizmente cur^, de 31 compassos; a influencia benigna 
que o guiou n^este trecho, desapparece completamente no Beni- 
gnefac domine. 

Em conclusão temos uma Fuga sobre o Tunc imponet, 

A insignificância de semelhante trecho está abaixo de toda 
a medida; aqui é que se revela toda a pequenez do author ; o mo- 
tivo é uma simples escala diatónica que o Baixo desce pelas pa- 
lavras : Tunc imponet super alta — e que sobe por: — re twum. 
Quando o Baixo chega á sjllaba tu^um entra o Tenor: Tunc im- 
ponet, repetindo em imitação exactamente a mesma escala, 

O Soprano, é a única voz que se desenvolve com mais inde- 
pendência das outras, comtudo sempre mesquinhamente. Âs ou- 
tras, não largam cada uma a sua escala favorita, teimando até ao 
fim atravez de 97 compassos de fastidiosa audição ! 

O author indicou com cautella, o movimento: Allegro 

non molto. 

Resumindo em poucas palavras o que dissemos do Miserere 
e apreciando em separado a importância de cada uma das suas 
partes executantes: o Orgãoy as Trompas e as três vozes, é que 
avaliamos devidamente a obra. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 239 

TomemoB primeiro o Órgão; nunca se viu um instrumento 
tSo grandioso e tSo bello^ e de que se podem tirar effeitos tSo ex- 
traordinários^ reduzido ao papel servil de acompanhador escra- 
visado. 

É. necessário ter admirado o poder doeste instrumento or- 
chestral para conceber a indignação que se apoderou de nós ao 
Ter assim o gigante das nossas orchestras, reduzido ás propor- 
çSes de um pjgmeU; de o ver^ mudo e silencioso; asphixiado de- 
baixo de um poder brutal, soltando apenas de vez em quando um 
gemido rouco ! 

Quem outíu na AUemanha, a pátria clássica do organista, 
os sons armoniosos do Órgão que enchem as abobadas das cathe- 
draes gothicas com os jorros das suas esplendidas arménias; 
quem ouviu essas notas portentosas, feridas por mSo de artista 
inspirado, elevando-se acima de centenares de vozes, no meio do 
chorai sublime, esse só, é que pode dizer o que é um Órgão e 
qual é a sua linguagem ; esse só, é que poderá dizer, que senti- 
mento sobrehumano nasce d^essas vozes consoladoras, enviadas 
do ceu para alliviai^ e commover a alma do christSo piedoso, que 
ajoelha na casa de Deus. 

Oh ! felizes tempos esses, quando ajoelhados no templo pro- 
testante, nos embalávamos n'uma illusSo ingénua, que nos fa- 
zia acreditar que a Arte seria em toda a part^ um culto, uma' 
religiSo humana ! 

E entretanto havia de ser aqui em Portugal, na nossa pátria, 
que havíamos de conhecer a realidade, que havíamos de ver a 
Arte descida do seu pedestal augusto e transformada em vergo- 
nhoso officio ! ! 



É terrível este poder da Arte e da inspiração a que não re- 
siste nem o hereje, nem o sceptico, nem o malvado. 

Por isso acreditamos n'essa lenda religiosa que representa 
Stradella na egreja. Os assassinos approximam-se do coro aonde 
o organista executa o seu Hymno sublime; os fascinoras, entram, 
escutam e param dominados por uma vontade superior, a mão 



240 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

esconde o punhal, o joelho treme, dobra-se e ob assassinos jun- 
tando as mSos, oram diante do altar ! 

O artista ainda debaixo do poder da inspiraçSo, passa silen- 
cioso e desarmado por entre os malvados. 

Quando se vê a Arte depois doestes resultados, reduzida ás 
suas ultimas expressões, nSo pôde o homem sincero ficar silen- 
cioso. O Órgão, cuja historia legendaria encerra a anedocta 
passada, ficou nas mSos de José Mauricio como um cordeiro, se- 
guindo as vozes com tal obediência e servilismo, como o c3o fiel 
que segue submisso o seu dono, com medo do chicote. 

Até as trompas lhe levam vantagem; que cassoada indigna 
se fez com esse instrumento; que papel foram dar a esse bello or- 
gSo de Santa Cruz, esse primor d'Ârte, hoje também reduzido ás 
proporções modestas de um realejo, graças á avareza indigna, 
sórdida e repugnante do governo, e á ignorância e ao vandalismo 
de um afinador de iufima espécie, que retalhou, profanou e bruta- 
lisou esse magnifico instrumento. 

A orchestra de José Mauricio comp8e-se de dwu Trompa$. 
• • • • . singular orchestra para um Miserere! 

Que havemos dizer d'ellas? 

Que tocam ás vezes juntas, ás vezes separadas, ora uma, ora 
outra : a. b. a. b. • • ab. ab. • • b. a. b. a. . • ba. ba 

Ficam ainda as vozesy as pobres vozes, que se desforram da 
modéstia do Órgão e das Trompoê, gorgeando e devaneando do-^ 
cemente em abandono delicioso. 

Do colorido dramático do Miserere^ das suas qualidades ex- 
pressivas, dos seus accentos grandiosos, da sua linguagem ma- 
gestosa, da elevaçSo, energia e inspiração das suas ideias — nSo 
falíamos, porque nada disso existe. 

Eis nua e crua a verdade. 

Bem sabemos que os críticos, sábios iUustres e compositores 
de talento (por metaphora) de Coimbra, vão lançar sobre nós o 
anathema; embora, asseguramos-lhes que temos paciência evan- 
gélica para lhes ouvir o sermSo e no fim d'eUe puxar pela férula 
milagrosa, que lhes dará vista e claridade. 



os MÚSICOS POETUGUEZBS 2il 

Temos ainda a coragem de inaugurai* em musica o reinado 
da sS rasSo e do bom senso, para acabsr de uma vez com essas 
nuUidades officiaes que abundam em Portugal e nao poueo em 
Coimbra; de reduzir a um silencio sensato esses apregoadores 
assalariados que arrastam pelas praças publicas os idolos de 
baiTOy vomitando asneiras e f andioes e queimando um incenso 
podre que infecta o ar e os pulmSes d'aquelles que querem TÍTon 

Q;ueremos liyrar a Arte d'um trafico tanto mais infamO; que 
eqpeoula e conta com a ignorância do maior numero. 

Para que se enche o templo de Coimbra com uma muItidSo 
ignorante (artisticamente fallando) que vae apregoar em chusma 
os rasgos sublimes de uma musica problemática? 

Para que farça tSo ridicula? 

Foram exactamente essas nuUidctdeê officiaoê, que por igno- 
rância absoluta da Arte^ crearam ao iíiâerere de José Maurício a 
reputaçSo falsa de que tem gosado até bojo; foram esses dvuto^ 
res, que, sentados na Capella da Universidade em suas cadeiras 
doutoraes, quaes Beis de Comedia em throno de papelão, procla- 
maram de cima d'elle, o decreto que qualificava o Miêerere de 
stMimô e tnexcedzvdJÍ! 

A b6a gente de Coimbra, ignorante como é, e por isso im- 
possibilitada de fiizer juízo próprio, aeceitou a infallibilidade do 
veredictum e assim chegou a reputação da obra até nós. 

Se ainda ha pouco um escriptor aliás mui distincto o bene< 
mérito, Innocencío Francisco da Silva, teve a ideia extravagante 
de depreciar Pergolese para lhe oppor José Maurício I (s) Con- 
oebe-se semelhante absurdo; comparar o boi com a rZ da fa- 
bula? 

Desculpe-nos o illustre bíbliographo, mas andou mal ; nSo 
podemos consentir que se offsnda a Arte, attacando injustamente 
um dos s^is nomes gloriosos* 

Pergolese tem o seu StabtU JUater^ que está novo e forte 
ajiesar de ter 130 annoê de edadôy e que ficará sempre bello em 
quanto no bomem houver uma ultima scentelha de fogo e de en* 
thusiasmo artístico. 

16 



242 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Um outro litterato notável e erudito distincto, A. de Vam- 
hageii; teve a ideia infeliz de comparar om Stabat de Joeé Han- 
ricio a ontro de Hajdn. (t) 

O Gigante em firente do pjgmen! 

Isto é nma puerilidade^ uma calumnia! 

Vamhagen conhece Haydn por ventura? sabe o peso que tem 
esse nome? viu por acaso alguma vez na sua vida a aureola 
brilhante que circunda ha 130 annos o nome d'este artista im- 
mortal? NSo^ de certo ; é impossível, aliás n2o tinha escripto o qué 
transcrevemos. 

Pois, meus senhores, nós lhes vamos dizer, o que significa 
esse nome e essas quatro lettras. 

Hajdn é: 

1.® O creador da Sjftnphonia. 

2.^ O anthor de quatro Oratórios admiráveis: Ritomo di To- 
hia, Die Jahreszeiten, Die SchxBpfung e Die steben Worte des 
ErUBserê am Kreuze. 

3.^ O author de 50 Quartettos explendidos e de innumeras 
outras obras perfeitas, no mesmo género. 

4.® O author das 12 admiráveis Symphonicu de Londres. 

Eis só os príncipaes titules de Hajdn á posteridade e á glo- 
ria immorredoura; havia ainda muito a dizer, se q espaço nol-o 
permitisse; entretanto o que fica escripto, reduzirá toda e qual- 
quer objecção ao silencio e mostrará a Vamhagen a imprudência 
da sua comparação. 

Sentimos, que fossem logo dois escriptores distinctos e que 
sSo credores da nossa estima, os que avançaram apreciaçSes tio 
levianas, commettendo um crime de leso-respeito contra a Arte; 
mas convém desvanecel-os de um erro imperdoável, e que os 
desacreditaria em todo e qualquer outro paiz, que nSo fosse Por- 
tugal, aonde a ignorância em matéria de Artes é tSo geral, que per- 
mitte a cada um dizer o que lhe vem á cabeça ! 

Para nós é caso de consciência, a extincçSo de preconceitos 
t2o inveterados a favor de nullidades officiaes e de absurdos tao 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 243 

grandes, que vão ferir sem respeito e sem dó, o que ha de mais 
elevado e sublime na Arte! 

Estamos esperando por uma aeeusaçSo que o leitor de certo 
nos dirigiu já^ por estar a ultima parte doesta biographia em con- 
tradicção com alguns pontos da primeira; as apparencias porém, 
illudem. 

NSo somos nós, que redigimos as noticias biographicas, que 
tSo no principio doeste artigo ; tirámol-as apenas da biographia 
que Innocencio da Silva inseriu no Panorama; declinamos pois 
toda a responsabilidade. 

Nasceu em nós desde o principio a desconfiança de tanto elo- 
gio, e sobretudo depois de termos examinado o Miserere, 

O que o compositor foi, já o vimos; agora a sua actividade 
em prol da Arte, o seu zelo pelo ensino musical da Capella do 
Paço, da Universidade e de Santa Cruz, avalia-se bem, se dis- 
sermos que apezar da concorrência a essas aulas de que I. da 
Silva e o próprio José Maurício tanto faliam, e apesar do avulta- 
do numero de seus discipulos, não houve um único contralto pa- 
ra fazer uma parte no Miserere! 

Como se explica semelhante contradicçSo? 

NSo queremos dizer, que o ensino não melhorasse com a ge- 
rência de José Mauricio, porém estamos longe de concordar, que 
produzisse os resultados que Silva menciona. 

José Maurício estava, é verdade, um pouco superior ao Len- 
te Ferreira, todavia d'ahi ao professor perfeito, ao mestre exem- 
plar, vae bom caminho. . . 

E singular a fatalidade da verdade que, com uma pequena 
objecção, deita o castello de mentiras mais bem architectado em 
terra! 

Limitamo-nos na biographia de José Maurício, de propósito 
a reproduzir os elogios banaes de I. da Silva; todo esse arrazoado 
de conclus8es falsas e de factos inexactos para depois, com uma 
simples analyse, destruirmos todos esses erros e pôr as cousas na 
verdadeira luz. 



Í44 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Acabamos. 

A queda da reputação doeste compositor será tanto maíor^ 
quanto foi elevada a posiçAo que lhe quizeram dar injustamentei 
com prejuízo de outros mais dignos e grandes, que mereciam 
primeiro essa distincção. 

Ao ouvir os elogios banaes que se fazem a esse pobre Aftêé- 
rere, que deveria ter ficado sempre envolto em modesto silencio^ 
parece que a Arte não existe fora d'elle. 

A esses espirites ingénuos recommendamos : 

O Bequiem de Mozart. 

O Stabai Mater de Pergoleae. 

A Salve Regina do mesmo autbor. 

O Miserere de AUegri. 

O Libera me de Jomelli. 

0$ Mattutíni dei Morti de David Perez. 

A Missa: Papce Marcelli de Palestrina. 

O Messias de Hcendd. 

Oratório: Die Passion (Evangel. Math^) de Bach. 

A Creação de Haydn. 

A Messe de Requiem de Bomtempo etc«, etc«, etc» 

[a) Historia do Bratilj Madrid. Yol u, pag. 302. 

b) Panorama. Vol. ii, 1859, N.« 203, 212, 224, 235, 246. 

(c) Boccherini, Palestrina, Mozart, Mozart, Moxart e Beethoven, Mo- 
zart, nâo tem conta, Beethoven, Beethoven, Bach, Uaydn, Uaendel, òluck 
etc Picquoty o biographo de Boccherini, eastou 18 annos em investígaçoes, 
para alcançar iima composição doeste autnor immortal, que lhe faltava ! 

(á) Lista de alguns artistas portuguezes, 

ly Observações criticas ao Ensaio estatístico de BaJJbi, 

m Mnemosine lAisitana. Vol. ii, N.» xii. 

ia) Silva di2 : é certíssimo; declinamos a responsabilidade. 

(n) Negamos que os houvesse; pois que a florescência da Cathedral foi 
apenas nos séculos xvi e xvii. 

(l) Vamhag^n, Historia do Bntzil. 

g) Nova Arte de Viola etc. por Manoel da Paixão Bibeiro, Coimbra, 
Imprensa da Universidade, 1789, in-4.* 

Q) NSo sabemos com que razSo I. da Silva diz no Panorama, 1859, 
pag. 236, que tomou posse a 3 de Junho de 1802? Josó Mauricio indica na 
mtroducçSo do seu Afethodo, pag. xv, positivamente, a data : 10 de Maio 
de 1802. 

Ím^ Qaem desejar ter noticias mais amplas a respeito da Aula de Mu- 
, leia o peqaeno Esboço histórico doesta institoiçao na biographia de 
D. Diniz. 



os MUSIOOS PORTUGUEZES 8i^ 

^ (n) Aind» habitada em 1859 pelos «eus parentes. Era entílo ainda tív» 
a viuva de seu irmão Francisco Maurício, em edade já muito avançada. A- 
"filha d*esta sodiora, eaaou com om inglês, Matheus Prell, fornecedor do exer- 
cito de Artíinr Wellealej e retirou-se depois com sua mãe e seu» filhos 
para uma quinta próxima de Coimbra, no sitio da Zombaria. A antiga casa 
de José Manricio situada no Beco das Fomalinhas, parece que ainda está 
cm poder da sua familia. 

(o) £m Portugal desconfaece-se outilissimouso doestes pequenos concer- 
tos mmiliares. Aratrahindo dos concertos públicos executados pelas Socie-^ 
dadesde Quariettos de Leipzig, Paris, Londres etc., e referíndo-nos só a estes 
saraus musicaes dados no seio das familiss — vemos a distancia enorme que 
iios sqiara dos paises ainda menos civilisados da Europa; porque, digamos 
«ma verdade embora amarga, em Portugal não se fiooe o que êlío eoncer' 
toB, Felianente temos os artistas, mas faltam os ouvintes. Liszt, quando 
visitou Lisboa, teve um successo medíocre, attendendo á reputação c|ue o 
precedia; Boraberg, o seu predecessor, teve um acolhimento também fho em 
rdação ao seu talento admirável. 

8e os concertos em que se manifestam os primeiros talentos do Mundo, 
são pouco concorridos, entulfaam-se em compensação os passeios públicos 
nos dias sancti ficados com uma multidão barbara aue escuta avidamente as 
inspirações do mr. Lecoq e Offenbach, apresentadas em pratos sujos pela 
fliaranga de Lanoeiros, ou pela banda dos c^guinhos, para depois ir mis- 
turar esta mostarda musical com o bacalhau, azeite e batatas de um jan- 
tar fourguez, que se devora na primeira taberna próxima. 

A ezceilente banda dos marinheiros, cuja dissolução nunca cessaremos 
de lastimar, foi supprímida por economia, pois custava-nos um 1 :000$000 
réis e tanto; era bem pouco, uma rídicularía ; mas o Deficit^ o Deficit cUter^ 
rodar y o Deficit medonho, o Deficit í o Deficit!! o Deficit IH que nos engole, 
gritava a burgnezia, gritavam os deputados da esquerda, da direita, do 
torto e do avesso, emmn todos os mais patriotas ! 

Que £azia uma economia de um conto, ou dois, mesmo que fossem, em 
um Djtficit de 6:000?? uma gottad^agua no deserto?? 

£ um segredo que provavdmente nunca sahirá da cabeça oca do minis- 
tro, que o imaeiuon. 

Isto fica oito eom re£erencia a lisboa. Os concertos no Porto, dão-se 
no jardim de 6. Lazaro ; o nome doeste santo é significativo. 

Pcrdoem-nos este desdiwfo; necessário é, que alguém diga ao menos 
uma vez a verdade 

Voltemos ao assumpto doesta nota ; pôde ser que mais tarde, tendo vi- 
da e intelligencia, tratemos esta questão separadamente em outro livro, com 
o desenvolvimento que ella merece, pela sua importância magna. 

Diziamoe nós, que não gosavam os portuguezes das vantagens de uma 
edocação artística no seio da familia; já assim não é em França, na Ingla- 
terra e sobretudo na Allemanha; em qualquer doestes paizes, principalmen- 
te no ultíno, assiste-se por assim dizer em quasi todas as ca#as, não exce- 
ptuando ainda as mais modestas, a reuniões musicaes (geralmente duas ve- 
vcs por semana) aonde se executa tudo o que entra na classificação de: Karn- 
mer^mtmk; (musique de chambre). 

Estes concertos familiares encontram-se até nas villas c aldâas; na 
easa do rico. ouvom-se os trios, duetti, quartetti e quiutetti de Mozart, Bee- 
thoven, Weoer, Boccherini e Viotti, e na cabana do lavrador, canta-se o 
chorai haimoiiíoso e inspirado de Luthero : Eine /este Burg ist, unser Gott ! 



246 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Abre o dia, abre-se a Biblia e canta-sc ; decima o dia, fecha-se a Bíblia e 
canta-se. Santa vida ! 

ABsistimos muitas vezes a estes concertos do rico e do pobre ; n^este 
a consciência clara e límpida, n'aquelle a íntellígencía e a honradez. 

No lavrador, a religião da alma; no rico, a religião da Arte, sua irmã; 
a execução era mais ou menos boa, segundo a força dos amadores, e se al- 
gumas raras vezes, ouvimos as obras primas da eschola allcmã e italiana 
mal tocadas, devemos pelo outro lado confessar, que assistimos a muitas 
audiçues era que os executantes depunham perante o auditório o título mo- 
desto de amadores, que este convertia por ser justo, em outro mais elevado. 
Esta ideia talvez nunca vingue em Portugal; só se o nosso povo, áe Burro 
que é da realesa, passar á terceira phasc da sua existência; se se transfor- 
mar no Leào de Victor Hugo, sacudindo da sua crina o boneco-pygmeu 
que só se sustentara até alli por um equilíbrio de casae-cou. Mas isso é pouco 
provável ; a índole do nosso povo não é propensa a saltos tão arrojados ; a 
justiça em Portugal vae mais devagar, imita a lesma ; o burro ha-de passar 
a cavallo e dirão : — depois a leão; quem sabe? 

£m 1793, o povo imitava o raio e cortava cabeças, reacs e imperiaes, 
esmagava monstros e justiçava tyrannos, despedaçava thronos e levantava 
a estatua do homem livre. 

Em Portugal nunca se conheceram e respeitaram bem estes factos 
grandiosos, respondeu-se-lhes com o adagio: De vagar se vae ao longe. Esta 
prudência burgueza, deu em resultado o aniquilamento das Industrioê^ doê 
tSciencias e doa Artes, que hoje presenceamos. Por isso repetimos, salvo um 
acontecimento, extraordinário, que nada annuncía, continuaremos n*este 
somno musical, que se vae transformando em lethargo. 

Repetimos : a ideia da educação artística nafamilia, não passará tal- 
vez nunca de um sonho dourado, porque, como ella já está no meio da es- 
cala do desenvolvimento artístico de um povo, são necessários grandes es- 
forços e uma vontade enérgica que obrigue o espirito de uma nação a trans- 
por rapidamente esse caminho extenso, que os outros já andaram. E dêmos 
nós já algum passo para elle? 

Temos nos um só Orphéonf Nós, que nos gabámos de servir em muitas 
cousas de modelo á Hespanba monarchica — o que significa bem pouco — 
porque é que não a imitamos n^este sentido?? A Hespanba diriçida por 
iSoriano Fuertes, e Hilaríon Eslava, dois ^homens egualmente distinctoe 
pelo talento e pelo saber, já fundou os seus Orphéons ha um bom par de 
annos! 

Em abono da verdade, devemos dizer que esta palavra é desconhecida 
em Portugal, apesar dos esforços de alguns homens illustrados, que tenta- 
ram debalde explicar a sua significação e fundar estas associações admirá- 
veis que deram até hoje sempre resultados milagrosos. Em Lisboa traba- 
lharam Frondoní, Dubini e Cossoul, pae, (foi discípulo do Conservatório de 
Paris) a favor doesta ideia ; e no Poi'to, Noronha e Salvíní ; estes últimos 
chegaram até a mandar imprimir as primeiras cadernetas que deviam ser- 
vir aos orphéonistas que vimos e examinamos em casa d*este ultimo cava- 
lheiro, no inverno de 1868 ; a ideia parecia que ganhava raízes, e coincidia 
felizmente com um acontecimento importante, a Exposição internacional do 
Porto, em 1865 ; no Palácio de Crjstal deviam-se fazer os primeiros ensaios; 
a ideia foi abandonada covardemente pelos burguezes que pareciam ter 
acreditado n'ella e que não tiveram a coragem de a sustentar ; custava algum 
dinheiro ; surgiu ainda o fantasma aterrador do Deficit, e tudo fugiu espa- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 247 

Yonão l Os dons iniciadores, vendo-se sós e nflo tendo os meios materíaes 
para alimentarem o pensamento generoso a aue se tinham dedicado, aban- 
donaram-n*o, quando tinham esgotado os últimos esforços. Ultimamente 
ainda Sousa Telles apresentou este assumpto em uma prelecção feita na 
Academia philarmonica em Maio d*este anno (1869); dizia o Diário de 
Noticias de 22 de Maio de 1869: que o orador tratara dignamente o assum- 
pto dos orphéorotiê !!! 

O seguinte qui-pro-quo, vae por conta do dito jornal — orphéoron é um 
instrumento da iamilia dos alaúdes* O que atras avançamos, fica em pé, 
06 Portugueses não sabem o que é um OrpJUon, 

Vergonha ! Vergonha ! . . . 

O desinteresse e a intelligencia com que o orador tratou este assumpto 
magno, de nada valeram. 

Depois da primeira walsa já ninguém se lembrava do que tinha ouvi- 
do minutos antes; estava tudo em contemplaç&o estática a admirar as 
obras primas de Godfirej; estava tudo delirante (é o termo da moda (]ue 
nasceu do successo estupendo de Louise, Im Blanchisseuse e que se applica 
igualmente ao cancan e á musica -j- -f-,) dizíamos, estava tudo palpitante 
e regorgitante de idiotice, que durou até não sei que horas da manha. Não 
se faz ideia do enthusiasmo delirante (ainda) aue Maòel, Les Gardes de la 
Beine e outros extractos doesta ordem tem produzido em Portugal. Tal é o 
ímpeiio da sensualidade. . . queremos dizer sensibilidade! 

Tiremos ainda uma conclusão final, e acabemos esta nota, que já vae 
longa. 

A Allemanha, tem as grandes festas musicaes do Bheno e os Choral- 
rereine ; a França tem o Grand festival dos orphéons, em Paris ; a Bussia 
tem a celebre Capella imperial de S. Petersburgo e os concertos admirá- 
veis das suas bandas marciaes ; a Inglaterra tem Saint-Paul c o hymno su- 
blime das 6:500 vozes de crianças, (*) cantando : 

Ali people that on earth do dwell 

Sing to the Lord with cheerfnl voice ! etc. 

Hjmno que arrancou em 1853 ao velho Cramer, estas palavras : Cosa 
stupenda ! stupenda ! la gloria d^ell Inghilterra ! 

Portugal . . . tem o Conservatório de Lisboa, que nem sequer choristas 
fornece para o theatro de S. Carlos ; o Porto tem uma cousa que tem um 
outro nome, Coimbra tem outra cousa, que tem outro nome e que se pôde 
dizer pouco inferior a qualquer aringa musical do reino de Haussa. 

Governo, aristocracia, burguczia, mirae-vos bem n'este espelho que a 
verdade vos apresenta. 

(p) Os doeios que I. da Silva e outros tem feito ao talento de orga- 
nista ae José Maurício, são tão absurdos, como os que se fizeram ao Mise- 
Terem 

Adiante apreciamos a maneira como o author portuguez se serviu do 
Órgão j e redurimos todas essas pieguices ás devidas proporções. 

Oxalá que Johann Sebastian âich. Cari Philipp Bach, Haendel, Bux- 
tehude, e os outros representantes immortaes do Orgãoy lhe perdoem seme- 
lhante crime, que nós não temos generosidade para tanto. 

(q) Esta circumstancia é eloauente, e destroe com uma verdade terri- 
vel essas fabulas a respeito do desenvolvimento e florescência das aulas 
que José Maurício dirigia ! ! 



UB OS MÚSICOS PORTUGtJEZES 

(r) Retta saber a qual dos dob Stábai «e mfere Vanliagett, se ao d« 
L^psig, ediçAo : Brdtkopf e Hertel, se ao de Londres, 17§4, porqae o 
primeiro ò mais um Oratório do que um Stabatj e entio o absurdo da eom- 
paraçâo a ioda é maior. 

(8^ Vide Panorama, 1859 pag. 24ft. 

(t) Vide: Historia do Bra*U, citada por Iimooencio da Silva, 

(*) £8ta instituição: Cliorety CAt/dreyi, fundada por Geoi^ni em 1764^ 
sustenta-se unicamente oom o producto d'este concerto annual e com as 
offertas das clafMes abastadas ; o governo Snçles nfto àk um unieo subsidio 
aos estabelecinicntos artísticos do pais ; a iniciativa do ddadSo, supre to- 
das estas faltas ; sirva-nos isto de estímulo. 



HAZZA (José) — Pertencea á musica particular da Gamara 
Real no fim do século passado. (1780.) 

Parece ser um doa músicos que D. José tinha mandado vir 
da Itália, para povoar os explendidos Theatros da Opera^ i^ada 
e Salvaterra. 

Em uma obra de Solano (a) encontram-se dois sonetos does- 
te artista. 

Foram recitados na mesma occasiSo que o discurso, abaixo 
mencionado de Solano; o primeiro, em louvor do teórico porta* 
guez, o outro em honra da Furissima Conceição de Nossa Se« 
nhora : 



A FRANCISCO IGKACIO 80LAK0 

Sonoro Corifco, qne cm teus conceitos 
Deste á Pátria a maior utílidade, 
Só para que a futura e nossa idade 
6e instruísse nos Rjthmos mais perfeitos: 

Bcdoastcs a fáceis os preceitos 

Da Arte, filba da Delia Divindade 
Mostrando eora clareea, e ingenuidade 
De teu estudo os nuus sábios effeitos. 

Mas ainda aipu n2o pára o teu intento. 
Que a maiores progressos destinado 
Queres á Pátria dar hum novo augmento| 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 849 

Abriado-tte cainho traatajado, 

Onde em nova Aula ename o teu talento 
As regras de hum saber tão avultado. 

II 
i njBSBSOiX CONCEIÇXO BB K0S8Â SENHORA 

YiSa, Bainha dos Ceos, Virgem Haria, 
Na Yossa Conceição Mysteriosa, 
Fostes quem, o Universo, prodigiosa. 
Livrov do grande horror, em que jada. 

y^ que destoa a mais aanta harmonia 
Ao mundo confundido, e a paz ditosa, 
Nunca aparteis de nds a poderosa 
M2o, que do mal nos livra, e ao bem nos guia. 

Já que fostes suavissima Cantora, 

Aprendendo no templo doces Hymnos, (b) 
Que offerecieis a Deos com voz canora, 



Fasei qne de Francisco ca 

Sejio só, 6 Beatíssima Senhora, 
Para se dar á Igreja Cantos dlnos. 

Este soneto vem assignodo por 
Joêé Masga^ Musico instrumentísta da camará do S. 1^1. F. 

(a) Diãgertação sobre o Caracter, Qualidadeê e Antiguidades da Musi- 
eo, em obsequio do admirável Mjsterio da Immaculada Concciçfto de Ma- 
m, fiantwwima, Neasa Banhora. Lisboo, 1780, pa|^. 24 « 26. 

(b) O auctor das poesiaa cita com toda a mgenuidade : Vide: Damo, 
aaL €Ò, B.* 14, etc. e seg. 

MAZZA (Romfio) — Ilieorieo e artiata, tidvez ItalianO; que vi- 
Tcm na aegmida metade do aecnlo xviii. ProTavelmente irmlo do 
precedente S. Mansa, e como cHe chamado da Itália para a Musi- 
ca di Comera de D. José. 

NSo conhecemoB aa suaa obras. 



250 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 



ihO^TT; 



(Eduardo) — (a) Este sábio imprimiu uma serie de 
dissertações intituladas : Novor philosophice et medicince — Lisboa 
1650, in-8.°; n'ella se encontram, dous artigos que tractam; o 
primeiro: Inaudita philosophiíB de Viríbus musicce, e o segundo: 
De Tarentula. 

Para se comprehender como este capitulo possa dizer respei- 
to á musica, observaremos, que na Sicilia e sul da Itália existe 
um insecto do género arachnide, cuja mordedura produz uma af- 
fecçSo nervosa que se manifesta por symptomas convulsivos. Para 
curar este mal, empregavam-se musicas alegres e de rhytuno ani- 
mado (^/g), que determinavam nos doentes uma reacçSo benéfi- 
ca, (b) Este insecto chamava-se Tarentula, e ás musicas que lhe 
serviam de antidoto, deu-se o nome de Tarantella, (c) que ainda 
hoje subsiste para acompanhar as danças populares em Nápoles. 



(ibl\ Forkel; Allgem. Literat. der Musikf^psLg. 11, escreve: Edo, 

(b) Este facto posto fora de duvida pelos testemunhos de muitos médi- 
cos contemporâneos, mostra quam impressionáveis eram os povos da pe- 
nínsula itálica; e já podia fazer prever que era n'e8se povo tão felizmente 
dotado, que haviam de apparecer os génios que tanto illustraram a musica. 

(c) Um modelo admirável doeste género, encontra-se na Muetit de Por- 
tictf obra prima de Auber. 



HELGAÇO ou MEL6AZ (Diogo Dias) — Monge e Mestre de 
Capella na cathedral d^Evora e natural de Cuba, (Âlemtejo) onde 
nasceu a 11 de Abril de 1G78, morrendo em Évora a 9 de Maio 
de 17pO. (a) Foram seus pães, Âffonso Lourenço Melgaço e Maria 
Ferro. Entrou no seminário da sua pátria com 9 annos, aonde com 
um estudo assiduo, alcançou conhecimentos que o habilitaram a 
exercer o cargo acima indicado e o de Reitor do Seminário de 
Évora, de que fui mais tarde encarregado. A sua sepultura encon- 
tra-se n'essa cidade, no convento de Nossa Senhora dos Remé- 
dios dos carmelitas descalços com o seguinte epitaphio. : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 251 

Flebili oecabuit, qoi Bcivit in orbe Magister coelestem Musam com- 
manicare títíb. 

A si fnnera Laudem jacet obrutus nma. 
Non fama in tumulo contumalata jacct 
AeteriuB vivet, Melgaz post funera lustrís. 
Donec erunt bomine, sidera donec erunt 

As suas composições, que eram numerosas e estimadas pe- 
los maiores professores da Arte, (b) ficaram manuscriptas no Car- 
tório da Capella queelle dirigia ; constavam de Miserereê^Psalmos, 
Eesponêorioa, Hymnos e uma colIecçSo de varias composiçSes sa- 
eras, que abaixo citamos. 

SSo: 

1.) Motetea da Quareama. 

2.) Missa feriai a 4 vozes. 

3.) Motete de Defuntos a 4 vozes, 

4.) Gloria laus et honor da procissão da Dominga de Ra- 
mos a 8 vozes. 

Estas obras escriptas em dous volumes de papel imperial e 
com o frontispício illuminado, e dedicadas ao Arcebispo de Évo- 
ra^ Fr. Luiz da Silva em 1694, parece que ainda estSo no Cartó- 
rio da Catbedral de Évora. 

5.) Faiares dos 4 Evangelistas, 

6.) Adoração da Cruz em Sexta-Feira maior e o Motete: per 
Monte Olivetiy tudo a 4 vozes. Estas duas composiçSes estavam 
n'outro livro dedicado também ao mesmo prelado. 

7.) Missa chamada da Batalha, a 2 coros, 

80 Sequencia da Resurreição, Fentecostes, do Corpo de 
Deus, e de Defuntos a 2 coros, 

9.) Lamentaçdes da Semana Santa a 2 coros e a 6 vozes. 
10.) Miserere a 8 vozes, 
11.) Outro a 12 vozes, 

12.) Fsalmos de Vésperas de Christo e da Senhora a 5, 6, 
e 12 vozes, 

13.) Fsalmos de Completas que se cantam na Sé de Évora 
nos Domingos da Quaresma e o Cântico: Nunc demitis a 4 coros. 



152 OS MÚSICOS PORTUGDEZES 

14.) LíçSm de Défiados a 8,4 e 8 voz$9, 

15.) ResponBorios do Natal a 2 coros. 

16.) Ladainha de Nossa Senhora^ eado Roêorio que anti- 
gamente se cantava no convento de 8. Domingos com Motetes a 4, 
6 e 8 vozes. 

17.) Hymnos e AntipTumas para varias festas a 8 vozes» 

18.) Rex tremendce rnagestatis; Motete a 4 vozes. 

19.) Salve regina a 4 vozes. 

20.) Vilhancicos para as festas de Christo, Senhora e vá- 
rios Santos. 

Estas obras conservavam-se pela maior parte com merecida 
estimaçSo no Cartório da Cathedral de Évora. 

(a^ líacLado, Bibl. LmU, voL ir, p. M e 99, indica 1600. 
(b) A nossa data também é confinnada por Benevides. A Musica em 
Portugal^ Archivo PUtoresco, 1866, vol. iz, pag. 103. 

MELLO (Dom Francisco Manoel de) — Nasceu em Lisboa, em 
1611. A sua educaçflo litteraria fez-se no CoUegio de Santo An- 
tão, aonde cursou humanidades e aonde ouviu as liçSes do P.* 
Baltfaazar Telles. Por morte de eeu pae, seguiu a carreira das ar- 
masy militando na Catalunha ao tempo em que o Duque de Bra- 
gança era elevado ao throno portuguez, depois da expulsa^ dos 
Felipes. Por mandado de D. João iv voltou a Portugal^ distin- 
guindo-se pelos seus prestantes serviços nas guerras da fron- 
teira e ao mesmo tempo nas festas do paço, em Almeirim, aonde 
fez representar a sua linda comedia de costumes: o Fidalgo 
Aprendiz. 

NSo se haviam passado quatro annos, quando em 1644 
D. JoSo rv o mandou prender repentinamente e conduzir i Tor- 
re de S. JuliSo; ali permaneceu seis annos, occupado nos seus 
trabalhos litterarios, até que deveu a soltura i intervençBo de 
Luiz XIII de França, que o estimava muito e que em uma car- 
ta a El-Sei de Portugal pedia a sua liberdade. A causa, porque 
D. JoSo lY, o maior protector dos artistas portnguezes, tanto 
perseguiu este homem anperíor, & ainda hoje um mjsterio inson- 



r 



os MnSICX)S POBTUGUEZES 253 

davel; diz-se qae foram tin» amores com a Condessa de Villa 
NoTa e Figueiró^ conjimctamente com as intrigas dos inimigos 
do desgraçado ministro, Francisco de Lucena. 

A respeito da soa actividade artistica, ha mnito que dizer. 

D. Francisco Manoel de Mello tere relaçSes intimas com os 
maiores mosioos do século xvii e para elles escrevia a letra dos Vi- 
IhcÊneicoê do Natal e Madrigales para muêicay ai modo iialiano. 
£ certo, que este sen trabalho durou somente de 1641 a 1644, tem- 
po em que decahiu da graça real. 

D. Francisco de Mello frequentara a corte de França, como 
se vê pela alta estima em que o tinha Luiz xin,e tendo D. JoSo iv 
conhecimento profundo de todo o movimento musical que se pas- 
sava na Europa, fácil foi um accordo para introduzirem nos di- 
vertimentos do paço 08 primeiros germens da Opera» 

Assim andaram estes dois Ixomens egualmente notáveis, por 
algum tempo de mãos dadas. 

Pelas rubricas das soas poesias, temos conhecimento de uma 
Opera representada antes de 1644, que se intitulava: Juicio de 
Paris, Nas suas Obtas ainda se conserva, o Prologo heróico para 
una Comedia en Musica 6 Drama cantada (a) com a seguinte ru- 
brica: Baxará desde el ayre en una nube, un gallardo Pastor que 
representa la figura de Paris. 

Logo em seguida traz um Coro de Ninfas prevenido a la 
Musica dei Juicio de Paris. 

E também : El Juicio de Paris, pi^venido a la Loa cantada 
de una real comedia. Por todos estes factos se toma incontestável 
a existência dos primeiros ensaios da Opera italiana, ainda en- 
volta e em gérmen, nas ideias artísticas da Opira-Ballet ; porque, 
oomquanto nSo tenhamos nem a musica, nem a lettra do Juicio 
de Paris; comtudo pela natureza mesmo do assumpto, podemos 
concluir que esta Comedia en musica, 6 Drama cantada j não pas- 
sava da forma artística acima mencionada. 

A mythologia era sempre explorada em todos os sentidos 
para estas representaçSes. 



254 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

A hypotheae de não ser o Juicio de Pária mais do que uma 
imitação das Opéras-Ballet, representadas em França de 1580 
a 1645, época em que o Cardeal ministro Mazarin introduziu em 
Paris uma companhia de cantores italianos e com ella a Opera 
italiana; é tanto mais provável que, tendo estado D. Francisco 
de Mello na corte de Luiz xiii, de quem era mui estimado, de- 
via lá ter visto representar os bailados phantasticos e mythologí- 
cos: Le Triomphe de Minerve, 1605; Ddirance de Renaud, 1616; 
Lee Aventures de Thncrhde danslaforêt enchantée, 1619; Mari- 
ne, 1636; e uma multidSLo de outros. 

A imitação era natmral e para nós está a questão decidida; 
demais a representação doestes bailados coincide com as viagens 
do nosso escriptor. 

Assim como a Opéra-Ballet nos veiu de França, onde ella 
nasceu, assim a Opera italiana, a sua forma mais perfeita, veiu 
da Itália. 

A França estacionou em 1580 com a Cirei, porque todos os 
bailados seguintes que se representaram, até ás Noces de ThétÍ8 
et de Pélée, 1664, não tiveram a importância da Circé, para o de* 
senvolvimento da Opera italiana, 

A Itália, consubtanciada artistico-scientifico e litterariamen- 
te, na Academia florentina, continuou a ideia nascida em França 
e assim vemos a Opéra-Ballet, chegada á sua perfeição em 1580 
com a Circé, transformada em Florença na verdadeira Opera ita- 
liana, cujos primeiros iniciadores se chamam pela ordem chro- 
nologica das suas producçSes, Caccini, Peri, Emilio dei Cava- 
liere, Monteverde e Cavalli. 

Depois d'este movimento, cujo mérito cabe unicamente á 
Itália, estacionou esta, tomando a França a dianteira; este ulti- 
mo paiz, parou de novo e a Itália conservou a palma por algum 
tempo. 

Este progresso alternado, em que os dois paizes andaram 
fluctuando, e que foi* partilhado mais tarde pela Allemanha, que 
offuscou por algum tempo todos os outros paiifces— òontinuoií até 
aos nossos dias. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 255 

Em oatro logar desenvolveremos esta intèressantissima 
qaestSo. 

Algnmas dansas da corte, usadas em França e Itália, se 
acham citadas como da moda, em Portugal, na scena do Fidalgo 
Aprendiz, em que este na sua rudeza, as ridicularisa, comparan- 
do-as com as nacionaes : 

Mestbb : Podeis entrar n*um saráo 

Segando o bem que aprendeis. 
Gil: Pois, mestre, que mais sabeis? 
1ÍZ8TBE : Uma AUaf um Pé de Xibau, 
Galharda, Pavana rica; 
E n^estas, novas mudanças. . . . 
Gil : Tende, que isso nSo são danças, 
SenSo cousas de botica. 
Sabeis o Sapateado f 
O TeroUerof o Villâof 
O Machachimf 
MesTBE : Senhor, nio. 

Gil : Pois sois mestre minguado. 

Esta scena retrata-nos ao vivo um velho fidalgo, querendo 
comprazer com os novos usos da corte, dando-se ao ridiculo de 
aprender a Cralharda e a Pavana. (b) 

D. IVancisco de Mello, era o libretista dos compositores que 
D. Joio rv protegia. 

Eis os artistas nacionaes e estrangeiros, que compozeram 
Tonos sobre lettra de D. Francisco : 

Miguel de Herrera. 

Fr. Felippe da Madre de Deus. 

Fr. Luiz de Christo. 

Gaspar dos Reis. 

António Marques. 

Marcos Soares. 

Felippe da Cruz. 

Fr. António de Jesus, e o insigne : 

João Lourenço Rebello. (c) 



iSa os MÚSICOS POBTUâUEZES 

Acciímiilamos aqgi esaes.ZW)^, ji eitados na biographia de 
cada compositor, para mais facilidade de um exame sjnthetice» 

Existiram xta rica Bibliotheca Musical de D. Joilo w^ mas 
de que apenas resta a letra nas obras do nosso potygrapho : 

Musica dei Maestro Migotl Berrara : 

Tono I. Escriviose de Buenos Páscoas a la Mag* de la Rey^ 
na de Inglaterra; para que se cantasse en su Camará : Vengo a 
daros Buenas Páscoas. 

Tono II. Para caniar-se a la misma Sereníssima Reyna. 
Despues de un sarao real em que dançarem los Reys: Apeose el 
Firmamento, etc. 

Musica dei maestro P. M. Fr. Felipe de la Madre de Bios : 

Tono III. El Retrato de una Dama hecko de Naypes: De- 
sengana-te Morena, etc. 

Tono IV: La linda Franceza: Madama vuestros ojuelos, etc. 

Tono IX. La Travessura atapada: Ala ai palanque Gala* 
nes, etc. 

Tono XIV. Corte en la Aldeã: Enseladãla Real a las Damas 
dei Palácio: Ah Senhores, etc. 

Tono XVII. Novela desdichada: Bayava el Sol por laa cum- 
bres, etc. 

Tono XIX. Belleça no conoc{<2a:Quien es aquella Diana^ elc« 

Tono xiu: Pidieronse Iúã Coplas que siguen pára eontínuar 
un Tono, que a la primera copla se havia hecho: Yo soy cíego y 
no veo nada, etc. 

Musica dei maestro P. H. Fr. Loii de Christo : 

Tono V. Lutos y Lagrimas de la divina Lieis; Lucir con las 
sombras Lieis etc. 

Tono VI. Lvios hermosos: Con embidias de la Gala^ etc. ' 

Tono XI. Justificacion de temores: Temer la hennosura Ju* 
ana, etc. 

Tono XII. La terrible hermosura: El Basilisco cucaraado. 

Musica dei maestro Gaspar de los Reys: 

Tono VII. Desengafíos idtimos amorosos: En vauo aadais 
Fensamiento, etc. 



03 MU9IÇ08 P0RTUGUB2Ea »4T 

Tono XVI. Dama de CahoB negros: Blanca de los CabQs ne- 
gros, etc. 

Tono XYiii: Dama que eeperdto entre la muehêdumbre: Â- 
postara yo que avia, etc. 

Musica dei maestro António Marques: 

Tono VIII. Despedida sin esperança : O quam bien desplie- 
ga el ajre^etc. 

Tono X. Saudades desesperadas: En esta obscura noche. 

Musica dei maestro Juan Suares Rebello: 

Tono XV. La primavera: Combidò la Primavera, etc. 

Musica dei maestro Esteval de Faria: 

Tono XX. Celebrando ?a raridad de unos ojos: Unos ojos sin 
color, etc. 

Musica dei maestro Hareos Soares: 

Tono XXI. La òella Madrina: Sy a ser Madrina vas Jua- 
na, etc. 

Tono XXII. ffaviendo Uegado dos Damas a su Porteriapara 
subir a Palácio, se hallava dorn\ido el portero a quien llama- 
ron en vano; y por celebrar esta açcion, se escrevio este Tono: 
Buelen nuestras seiloras, etc. 

Tono XXV. Jacarilla de devacion, en lajiesta de San Franr 
cisco: Quien es aquel de Io pardo, etc. 

Musica dei maestro Felipe de la Cnus : 

Tono XXIV. Dama en noehe de luminárias: Sy apagar quie- 
res Lúcia, etc. 

Musica dei maestro P. H. Fr. António de Jesus : 

Tono XXVI. En Fiesta de Natividad de la Virgen: La buena 
dicha os empieço, etc. 

D. Francisco Manoel de Mello, também conheceu e até exa- 
minou o celebre livro de D. João iv: Defensa de la Musica mo- 
derna (d) A prova está qo Soneto de Elogio ai Opúsculo que en 
Defensa de la Musica moderna escribió un grande Principe. 

17 



258 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Eil-o: 

£n esta j aquella acdon úempre lograda 
Creo, 6 Sefior, que nasce en fíierça, eu buelo 
Tu pluma, a defender la vos dei Cielo, 
Del mundo a defender Ia voz, tu espada. 

Que una j otra pronuncien celebrada 
Tu fEuna que me admiro ! Sy a tu selo 
Deve, docto el valor, dulce el desvelo 
Âquella el verse fllustre, esta illustrada. 

Defiende, pues, la vos que canta 07 vivas, 
Con que el Cielo, a Ia voz dei Mundo abona, 
Y a vocês, cada qual, tu voz derrama. 

Devrânte mas favor, que les redvas : 

Bien que el Cielo en su voz, tu ser prçgona, 

Bien que el Mundo, en su voz, tu nombre acclama. (e) 

D. Francisco de Mello teve conhecimento da Defensa de la 
Mxuica de D. JoSo iv, quando já se achava preso. O Conde 
Camareiro Mór, emprestara-lhe o livro para ler nas soas horas de 
BolidZo; o desgraçado poeta, restituiu-lh'o com o seguinte soneto: 

Faça-me hoje mercê vo' senhoria. 
Se a grandeza aos pequenos se dispensa, 
De lhe dizer ao Anthor d*esta D^ema^ 
Que nos defenda todo o santo dia. 

£ pois que tem tal mio para a Armonia 
(Que é parte que anda co'a brandura apensa) 
Me defenda também de tanta offensa. 
Que é muita ji, se vae de zombaria. 

Se 08 avexados defender pretende, 
N2o gaste seu valor por vãos caminhos. 
Já que as defensas lê, já que as entende. 

Ouça 08 corvo8 também co*s passarinhos ; 

Que a Musica a si mesmo se defende, 

£ o pranto é só, quem ha mister padrinhos, (f) 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 259 

Este bello soneto, revela-nos a sorte do poeta; a rabrica ex- 
plica-nosy como a Defensa da Musica moderna lhe chegou á mão : 
€Ao Conde Camareiro mayor, havendo-lhe tomado o livro da De- 
fensa da Musica modema^^ A misericórdia que o poeta implora, 
bem dá a conhecer a magestade real do author do livro. 

Durante o tempo da liberdade de D. Francisco de Mello, 
fiindara elle uma Academia Litteraria, chamada dos Generosos, 
segundo o gosto italiano, (g) 

Esta Academia era artística e litteraria a um tempo. Em uma 
Stflva, D. Francisco convida a um amigo para que com os seus 
músicos acudisse á Academia de Musica e Poesia. 

Os músicos citados para o sarau, que principiava ás seis ho- 
ras da noite, eram Brito, Lima, Moraes e Manoel Carvalho, (h) Em 
um romance que intitula: Introducção festiva a kua Academia de 
Músicos e Poetas, cita os nomes de Antão Themudo, e Carva- 
lho, (i) O Soneto XXXI da Lyra de Clio, é en aiaòança de los Mú- 
sicos de la Academia. Embora por estes factos se não possa con- 
cluir em rigor que tivéssemos no século xvii uma Academia de 
Musica, vê-se comtudo que estavam muito em moda as reuniSes 
artistico-litterarias, em que os concertos musicaes occupavam 
uma parte importante. D. Francisco também era compositor, 
como vemos por esta citação de Barbosa Machado : 

Ojfficio de Sam João Baptista, com Hymnos, Responsorios, 
e Orações,, publicado com o pseudonymo de Innocencio da Pai- 
xão. Ms. 

Depois de seis annos de duro e cruel cativeiro, D. Francis- 
co Manoel de Mello saiu em 1650 dos ferros, recomeçando as suas 
viagens pelas principaes cortes da Europa com um nome sup- 
posto. 

Depois voltou a Portugal, onde morreu em 1670. 



Oi\ ^fras Métricas, t. n, pag. 92, ed. 1665. 



Factos communicados por Theopbiio Braga, eztrahidos da soa 
Hidòria do Theatro partuguez^ em dois volumes ainda inéditos. 

Graças aos seus esforçor constantes e á sua amisade generosa, obtive- 
mos 08 apontamentos curiosos doesta bio^phia ; pois á sua cooperação se 
deyB todo o intaresse que ella possa inspirar. 



260 OS MÚSICOS PQBTUGUEZES 

c) Vid. M rau biograpbiaB,nesapeUidiQflicaaipe(aite8. 

^d) Vid. a 8ua biograpoia. 

Te; Obroê mttricoê, t ii, pag. 47, soneto xcin» 

ff) ISoneto uxsnu^ da liba de Cahape. 

[g) D. Francisco de Mello, fimdando esta sociedade, imitava o qne ti- 
nha Tisto no estrangeiro e principalmente na Itália, onde as tBoeiedades ar- 
tistico-litterarias, nasceram primeiro em 15d0, com a Academia ^orentína, 

£ sabido^ que foi doesta reunido de homens illustrcs : poetas, músicos e 
sábios, que partiu o movimento da Renascença. 

Esta câobre sociedade contava entre os seus membros : Giovanm di 
Bardi di Vemio, Giacomo Corsi, Pictro Strozd, Vincencio Galileo, Rinucci- 
ni (poeta) e Mci ; mais tarde vieram os artistas Peri, Caccini e Émilio dd 
•Cavaliere, dar maior importância á parte artistica da Academia. 

rh) Silva z, Viola de Talid, paff. 164. 

(i) Romance xzvix, Viola de Taíia, pag. 212« 



MENDES (Jacob Franco) — O primeiro violoiioellicíta portu- 
guês e um dos tocadores mais distinetos que n Europa tem ou- 
vido. 

Este artista e o que se segue, seu irmSo, nasceram ambos de 
uma familia de israelitas portuguezes de Âm»terdam. 

Pi*8Bgery (a) também mestre de seu irmfto, que é o objecto 
da biographia seguinte, e Bertelmann (b), foram os «eus primei- 
ros mestres. Em 1829 foi mandado por seu pae a Vienna, Bcmdo 
ahi discipulo de Merk, professor de violoncello no Conservatório 
imperial de Musica. Jacob, menos resoluto que seu irmlo, hesitou 
ainda dois annos, sem saber se devia aproveitar o seu tfúento nas- 
cente, ou se devia consideral-o unicamente como complemento da 
sua educaçSo; porém em 1831 adoptou definitivamente a carrei- 
ra artistica, e ainda no mesmo anno, dirigiu-se a Paris -e abi to- 
cou pela primeira vez em publico em um concerto dado por Hum- 
mel, sendo bem recebido. No fim d'este anno voltou aos Paizes- 
Baixos e recebeu do rei o titulo de violoncellista da c&rte. Em 
1833, visitou a ÂUemanba em companhia de seu irmSo, dando con- 
certos em Leipzig, Dresden, Francfort, sendo ambos muito ap- 
plaudidos. Em Weimar tomaram-se a encontrar com o celebre 
.Hummel, que sempre benévolo e generoso, protegeu com o seu 
credito os dois jovens artistas. Em Haya, eaperava-o uma nova 
honra, a sua nomeaçílo de violoncello-solo do rei Guilherme l. . 



03 MIISICOS PORTUGUECE» m 



Foi entBo que ockmeçoti a occupar-se seriamente da compo-^ 
siçSo, eserev^ondo os seus primeiros Quartettosfar^ instrumentoa 
de corda, um dos quaes foi coroado pela Sociedade neerlandeza 
instítuida para a propagação da muítica. Em 1836 partiram os 
dois irmãos para Paris, a fim de aperfeiçoarem os saus talentos 
com a convivência e com os conselhos dos celebres artistas que 
entSo estavam na capital da França« 

Jacob estudou ahi tão energicamente, que se collocou em pou- 
00 tempo a par doa mais h€ibeÍ8 viídQnceUisiíu (c) da época (d)» 
Oa concertos que deu com seu irm3o eml840 e 1841 foram mui* 
to apreciados pela maneira notável, como os dois artistas execu- 
tavam a musica clássica allemS. 

Um escriptor distincto, (e) £&Uando doestes concertos^ dia: 

cDès 1840 ils ont pris une position trha êlevée comme vir- 
taosea-compositenrs. Bs ont organisá à Paris des séances de 
munqaeeUaaiqne, qoi onteadareteatÍMemeBtetqoi Bontréatée. 
dans la mémoire des vrais amateurs. Retoumés à Paris en 1843, 
il 7 donna plusieíira concertSi qui ont atire un public d'élite. 
J. Franco-Mendes a reçu les plus hautes marques de sjmpathie et 
d'estime de son souverain Guillaume ni, protécteur éclairé des ar- 
tistes, ainsi que de plusieurs souverains, II est déeoré des ordres 
de la Couronne de Chène,, d'Isabella, la Catholigv4 (!!) d'Adol- 
phe de Kassau, d.* classe (!!!) d: de la Branche Eimestine de 
Saxe.» 

Foi por esta occasiSo, que a morte de seu irmito o veiu ferir 
no intimo do coraçSo; a dor que lhe causou este golpe fatal, foi 
tio intensa, que durante uns poucos de annos n2o sahiu da HoUan- 
da, para nSo vêr os logares em que tantas vezes tinham rivalisa- 
do um com o outro ; limitou-se apenas a daj- alguns concertos nas 
principaes cidades dos Paizes-Baixoa. £m 1847, encontramol-o em 
Bonn, assistindo á inauguração da estatua de Beethoven. Cede- 
mos a palavra a Berlioz (f) para narrar o incidente desagradá- 
vel que ahi occorreu: 

cM. Franco-Mendes avait eu la malheureuse idée de tenir à 
8on solo de violoncello, malgré celui de Gana (g) qui llavait précédé 



262 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

et celle plasmalencontreuse encore, dechoisir pour thème de sa 
fantaisie des airs de la Dona dei Lago de Rossini; il a dono été 
três mal reçu. Et pourtant Fair: O mattutini albori est une bien 
fraiche et poétique inspiration et M. Franco-Mendes joue délicieu- 
sement du violoncelle; mais il est hollandais (h) et Rossini est ita- 
lien; de là double colère des fanatiques de la nationalité alleman- 
de. Ceei est miserable^ il faut Tavouer.» 

Não é para admirar que um publico cansado por uma audi- 
ção de quatro horas e tendo assistido a dois grandes concertos nos 
dias antecedentes, não estivesse disposto a ouvir o artista; e Fran- 
co-Mendes devia conhecer o passo melindroso que ia dar, tocan- 
do, n'uma occasião como aqiiella e diante d'uma assemblêa, que a 
natureza e importância da festa tinha tomado fSematica — uma fan- 
tasia sobre themas que não fossem allemães. 

Se o procedimento do artista portuguez foi um pouco irre* 
flectido, devemos também dizer que o publico se portou grossei- 
ramente. 

Transcrevemos em seguida o programma do concerto, que é 
importante. 

1.) Cantate por orchestre et choeurs LiszL 

2.) Ouverture d'Egmont . • . . ^ Beethoven^ 

3.) Concerto de Piano par M.* Pleyel. . . . Weber. 

4.) Air de Fidelio par M.*"* Novello Beethoven, 

5.) Air de Mendelssohn parM.^^^Schloss. MendeUsohn. 

6.) Adelaide par M.*^ Kratky Beethoven. 

7.) Fantaisie sur des thèmes de D. Juan 

par Ganz Mozart. 

8.) Concertino sur des thèmes de Weber 

par M(Bser McMer. 

9.) Fantaisie sur des airs de La Dona dei 

Lago de Rossini, par Franco-Mendes. • Mendes. 

10.) Air de Faust par M.^ Sachs C .. • • Spohr. 

11.) Chant de Haydn par Staudigl ( ^^ .. Haydn. 

12.) Differents ccDurs 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 263 

De Boim voltou a Ámsterdam e ultimamente fixou a sua re- 
sidência em Parisy onde vivia ainda em 1862. 

Das suas composiçSes, que sSo numerosas, conhecemos as se- 
guintes: (j) 

1.) VaricUions êur la Cavattne du Pirate pour vioL*''' et 
Piano. Op. 15. Mainz, Schott. 

2.) Fantaiãie sur la FiUe d'Egypie (Opera de Jules Beer) 
pour Viol.*"* et Piano. 

3.) VaUtê MUarUes pour VioL«^ et Piano. Op. 2T. (k) 
Da sua nuaica de eamera, conhecemos: 
4.) Variatians brilhantes sur un thême natíonal allemand, 
avec aoc^y d'Orchestre ou de Piano; dédiés à J. Merk. Op. 28. 

5.) Fantaieie Sur=la Donna dei Lago=de Rossini pour 
Viol.*°* avec acc.* de Piano ou d'Orchestre. Op. 36. 

6.) Six Capríces pour Violancelle, dediés a Mr. Noblin. 
Op. 37. 

7.) OrandDuopour deux VioUmceUeSj dedié à Âug. Franch- 
homme. Op. 38. 

8.) ÉUgie pour Violoncelle, avec acc.* de Piano. Op. 40. 
9.) Fantai9ie pour Viol.*°* 8ur=Le Diable à récole=i (Ope- 
ra de E. Boulanger) avec acc.* de Piano. Op. 41. 
10.) Impromptu, solo avec acc.* de Piano. Op. 42. 
11.) Secand Ghrand Duo pour deux Violoncdlee* Op. 47. 
12.) Adagio pour quatre ViolonceUes. Op. 48. 
13.) (iuatre mélodies sans paroles pour Violoncelle avec 
acc.* de Piano. Op. 51. 

14.) Riverie, Solo pour Violoncelle et Piano. A S. M. D. Pe- 
dro V, Roi de Portugal. Op. 50. 

15.) Noctume pour Violoncelle et Piano. Op. 55. 
16.) Premier Quintetto pour 2 Violons, Alto e 2 Violoncel' 
le$. Ámsterdam, Roothaan. Op. 16. 

17.) Second Quintetto pour 2 Violonsj Alto e 2 VioUrncelles. 
Leipzig, Hoffineister. ^ 

18.) Quatuor pour instrumente à eordes; couronné par la 
Société musicale des Pays-Bas. 



tu os HUSIOOS PORTUOUEZES 

CSoii^osiçiSes aotaveia, todaa as tres; sobretudo a ultima, ob- 
jecto de uma distiueçik) especial. 

Oomo se vâ pela numeraçio do autbor, esta nossa lista é mui- 
to incompleta, porque o N.^ 15 traz a designaçSo : Op^ 66^ Nlo 
podemos ser mais extensos, porque as composiçBes do nosso ce- 
lebre compatriota são graças á nossa miêeria artiitica oompleta* 
mente ignoradas em Portugal! ! Ás poucas que citamos, vieram- 
nos a muito custo de Paris. 

Entretanto Fraaco-Mendes, tem ainda uma grande quantida- 
de de Caprichos, Melodia», VariaiçlSe» e Fantaêia$ sobre Operas 
modernas, para o seu instrumento. 

Entre as composiçSos de vulto, lembramos ainda um Címeèts 
éopara ViolonceUoy (1862)differente8 Quartetioê, Qaintettoê, um 
Sextetto, OcteUoê ^ uma Ouvertttré à grana orekêsíTt (18$2} è 
outras cozoposiçSes orehestraes, 

(ê^ Violinista e oolnpoaitor nsscido em Amsterdadif em 17S8. 

(b) Compositor e professor do Conservatório real de Musica de Ams* 
terdain. 

(c) Palavras de Fétis, Bio^. Uni^^ voL m. pag. 813. 

(d) Que eram, nem mais nem menos : Bomoerg, Franclihommey Merk 
e ostros d'e8ta ordem. 

(e) G. J. Grégoír. Les Artideê mundenê nierimndaU. Anvers, 16$^ 
in-8.« pag. 77. 

(f) Les SovritB de Vwa^vfrt. Paris, 1854. in-15.*, pag. 884. 
tg^ Este artbta, era primeiro violoocello da Opera de Beriim. 

(d) Bcrlioz não conhecia a origem de Franco-Mendes; até hoje ainda 
ninguém se lembrou de conquistar a Portugal, este grande nome que a Hol- 
landa nos quer roubar. 

(i) Estes dois números, nem foram ouvidos, porque o publico saciado 
de tanta musica, tinha já quasi evacuado a sala. 

i) Os NameroB â, 5 e 9, sSo da casa editora: SchomeDberger. Paris. 
k) Os Números 4, 6, 7, 8, 10, 11, 12, 13, 14 e 15, sSo da casa S. Bi- 
chault 

KHIDES (José Fra&úo) — Irmfto do precedente. Nasceu a 4 
de Maio de 1816, d'uma familia distincta de israelitas portagna*> 
aeS| refugiada em Amslerdam ha bastante tempo. A energia qne 
já na infância mostrara, dicidindo-se^t seguir a carreira musical, 
e que nada tkJia podido enfraquecer, trinmphou emfim) conce- 
dendo-lho seus pães a licença de seguir a sua carreira &T(Nrita. 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 266 

Pnoger, tambçm mestre de seu irmSo, dea-lhe as primeiras 
liçSes de musica. Não repetimos aqui um legar commum tantas 
veses enunciado e tSo poucas vezes applicavel, por mero patriotis* 
mo : se dissermos, que os seus progressos excederam todas as es- 
peranças do mestre e de seus parentes, não offendemos a verdade. 
Em pouco tempo, senhor do mecanismo da rabeca, entregou-se lo- 
go á composiçSo da qual tinha o instincto, e que estudou sem mes- 
tre, (a) 

Em 1831, encontramol-o já em Paris e em Londres, relacio* 
nando-se oom os artistas mais celebres d^aquelle tempo ; em segui- 
da vemol-o na Allemanha, captivando em Dresden, Francfort, 
Weimar, Leipzig, etc» a amizade de muitos artistas com o seu gé- 
nio affikvd e modesto» De volta a Paris em 1836, recebe ahi os 
conselhos valiosos do grande Baillot, estuda, e alcança a maneira 
verdadeiramente notável, como intrepretava a musica clássica, so- 
bretudo os Quartetos e Quintettos de Mozart e de Beethoven. Os 
concertos que deu em 1840 e 1841, n'este género de musica, con- 
junctamente com seu irmSo, attrahiram a. attençSo dos mais dis- 
tinetos artistas, da Allemanha e da França. Foi ent2o, que come- 
çou a sentir os sjmptomas da terrível doença que o roubou pou- 
co depois ao mundo artístico da Europa e estendeu no leito da 
morte, o artista que dava tSo bellas esperanças. Apenas chegado a 
Haya, onde tinha ido restabelecer-se, recebeu um convite para ir 
tocar diante da corte do Rei dos Paizes-Baixos. 

Eil-o de novo em peregrinação artística, esquecendo os sofiri- 
mentos e a morte. Mas ella vingativa, vigiáva-o de perto, e ainda 
no principio da vida, deu-lhe o gélido abraço, e eil-o que morre, 
(febre cerebral) cuberto de flores e de applausos, quando ia per- 
correr em triumpho a HoUanda. O concerto dado diante da corte 
e do rei, foi a sua ultima coroa artística e valeu-lhe a nomeaçSo de 
viohn solo de la cour. Reinava então Guilherme ii. 

Az suas composições mais notáveis, sSo: 

Dois quartetos para 2 RaòeccUy Violeta e VtolonceUo, oo* 
roados ambos pela Socxedode nserlandega instituída para apro* 
fagãção dm Musica. 



266 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Deixou em manuscrípto uma Phantcma para rabeca sobre 
motivos da Norma, e vários solos para o mesmo instrumento^ 
assim como Duettos para Rabeca e violoncello^ feitos conjuncta- 
mente com seu irmSo. 

(a) Palavras de Fétis, Biogr. Univ.^ voL m pag. 313. 

MENDES (Manoel) — Compositor de grande mérito, e que 
teve a gloria de formar discipulos como : Duarte Lobo, Manoel 
Rebello, SimSo dos Anjos, Felipe de MagalhSes e muitos ou- 
tros, (a) 

Nasceu em Évora, no meado do século xvi, e occupou os le- 
gares de Mestre de Capella em Portalegre e na sua pátria, duran- 
te o episcopado do cardeal D. Henrique. Morreu a 16 de Dezem- 
bro de 1605. Escreveu e compoz: 

1.) Arte de Cantoclião \ 

2.) Varicís missas a 6 vozes. > Ms. 

3.) Magnificat a 4e 6 vozes. ) 

4.) Motetes a differentes vozes; e outras composiçSes que se 
encontravam na Bibliotheca musicai de Lisboa. 

Manoel de Faria (b) dedicou-lhe estas estrophes: 

Del Mendes raro a la Nobleza cubo 

£1 canto, que es de oydos el arrobo, etc 

Baptista de Castro (c) diz, que Mendes gosava no seu tem- 
po do titulo de: príncipe da musica. 

^a^ Vide a tabeliã synoptica das differentes Escholas musicaes, 
hS Fonte de Âganipe^ part. ii. Põem. 10 est. 73. 
(c) Mappa de Portugal^ vol. ii, pag. 351. 



MENDONÇA (Luiz de Pina e) — Cavalleiro da Ordem de Chris- 
to. Nasceu na cidade da Guarda, solar da sua familia, e foram seus 
pães, Pedro de Pina Osório e Luiza Osório da Fonseca. Cursou 
os seus estudos em Évora e morreu na Quinta do Pombo, perto 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 267 

da Quarda. Foi um homem muito instruído ; o sequestro que o 
governo lançou sobre os seus bens depois da sua morte, fez com 
que se perdessem algumas das suas obras. Entretanto sabemos 
que nos deixou, além de alguns escriptos sobre mathematica e cos- 
mographia, Varíoê optuctUoê pertencentes á theoria da musica. 

(1650.) (a) 

Mendonça yiveu na segunda metade do século xvii e foi 
membro da Sociedade real de Londres. 

(a) Stockler, Origem e Progressos das Mathematicas em Portugal, 
pag. 53. 

MENEZES (D. João de) — Poeta da corte de El-Rei D. JoSo ii 
e do principio do reinado de D. Manoel. Foi um dos que mais con- 
correu com os seus versos para abrilhantar os celebrados serSes 
de Portugal, dos quaes com tanta saudade fala o rígido Sá de Mi- 
randa. Sabe-se, que, con^o quasi todos os fidalgos do seu tempo, 
cultivou a musica. No Cancioneiro de Resende, vem umas tro- 
vas suas, com a seguinte rubrica: 

Trova» gue fez Dom João de Menezes por letra de uma com-- 
postura que fez de canto d'orgam, que se canta todas por três vo- 
zes per uma só. Foi. 16, col. 1. 

MIRANDA (Dr. Francisco Sá de) — Nasceu em Coimbra em 
1495. Seguiu os estudos na Universidade de Lisboa, onde fre- 
quentou ainda muito moço os serSes da corte d'El-Rei D. Manoel. 
Visitou a Itália, como entSo se usava entre a fidalguia e como 
bem se queixa Jorge Ferreira em uma de suas comedias. Regres- 
sou á patría alguns annos depois de ter sido acclamado D. JoSo iii, 
de quem foi sempre amigo, e que lhe ofiereceu a Commenda das 
Duas Egrejas, no Arcebispado de Braga, quando desgostos parti- 
culares o fizeram abandonar para sempre a vida da Corte. Refu- 
giado na provincia, viveu, antes de casar, em casa do seu amigo 
António Pereira Marramaque, e depois de se aparentar na casa 
dos Machados, viveu o resto de seus dias, até 1568, na quinta da 
Tapada. O caracter doeste poeta, é altamente sympathico para os 



268 OS MDSIOOS P0RTUGUEZE8 

que estudam a sua vida^ que por si, é baataate romanesca. Do seu 
gosto pela musica, conservou-nos umamemoria, D. Gbnçalo Cou- 
tinho; que assim diz na Vida que anda junta áediçSo de 1612: 
ctangia violas d'arco, e era dado & musica, de maneira que com 
nSo ser muito rico, tinha em sua casa mestres d'ella custosos, qn» 
ensinavam a seu filho Hieronymo de Sá, de quem se diz que foi 
extremado n^aqudla arte ; e contava Diogo Bernardes (a quem se- 
guimos n'estas notícias) que quando o ia a ver, vivendo em Ponte 
de Lima, sua pátria, lhe mandava tanger o filho em diversos instni- 
mentos, eo reprehcndia algama vez de algom descuido. • . » Seu 
cunhado, Manoel Machado de Azevedo, D. João de Menezes, e 
muitos outros fidalgos, cultivavam como elle a musica, o que mos- 
tra que esta Arte formava parte da educaçSo da nossa nobresa. 

Nas duas biographias seguinte^, alteramos a ordem alpha* 
betica pda conveniência de conservarmos juntas, três vidas Uga* 
das pelo sangue e pela Arte* 

Hieronymo de Sá, filho do celebre poeta Francisco de Si de 
Miranda, e de sua mulher D. Briolanja de Azevedo ; na Vida d^ 
êeapae, escripta por D. Gonçalo Coutinho, antes de 1612, en- 
contrarse uma phrase que nos dá a entender que tivera grande 
fama de musico : ctinha em sua casa mestres d'ella (musica) cus- 
tosos, que ensinavam a seu filho Hieronymo de Sá, de quem se 
diz que foi extremado n'aqu^a artQ.» « 

Hanoel Machado de Azevedo, Senhor das Casas de Côrte, . 
Vasconcellos e Barroso, e dos Solares d^ellas, e das Terras de £n- 
tre-Homem e Cavado, Villa de Anares, Commendador de Sousel 
na Ordem de Aviz. Era filho de Francisco Machado, e de Dona 
Joana de Azevedo, e cunhado do grande poeta, Francisco de Sá 
de Miranda. Cultivou a musica, como sabemos por esta passagem 
da sua vida, escripta pelo Marquez de Montebello: cSupo lama-* 
sica, danço mejor que muchos; fué de los primeros que en Por* 
tngal tocaran laud con destreza; la qual tuvo tambien en la pin-» 
tura, y poesia.» (a) A affeiçSo que lhe devera esta forma da arte, 
se vê por esta outra passagem : «Todas sus curiosidades de quan- 
do moço avia dexado, solo el laud tocava algunas vezes, gastan- 
do la major parte dei tiempo en el retiro de su oratório.» (b) 



QS MÚSICOS F0BTUGUEZE3 269 

(a) Vida de Manoel Machado de Azevedo, por el Marqaez de Monte- 
bello, pag. 3L A edição conhece-se pela data da estampa do brasSo, que é 
de 1660. 

<b) Id. ih. p. IZL 



MENEZES (Fr. Laiz César de) — Monge cannelita e sábio 
theoricoy qne se dedicou principalmente ao estudo do Cantochão. 
Escreveu n^este ramo da Sciencia musical uma grande OiraemS 
vdumeê, (a) qne infelizmente nSo conhecemos. 

(a) SanfAnna, Chronica dos CarmeliUUf toL i, 756. 

MENEZES (Rodrigo António de) — Celebre guitarrista portu- 
guez. Os escriptores contemporâneos (a) tecem os maiores elogios 
a este grande artista e mencionam o sucesso extraordinário (b) 
dos seus concertos na Âllemanha e particularmente na cidade de 
Leipzig (Saxonia) em 1766. 



(tí\ Gerber, Ne^ies histor, biogr, Ijexicon der TonkUnstlery vol. i, pag. 728. 
(b) São as próprias palavras de Gerber, ibid. 



MESQUITA (. . .) — Bom pianista; tinha estudado no Semi- 
nário musical de Lisboa com os seus collegas Cardoso e Leal. 

MIGONE (Francisco Xavier) — Nasceu em Lisboa a 27 de 
Maio de 1811 de pães portuguezes. 

O seu primeiro mestre, foi o conhecido compositor Fr. José 
Marques da Silva; depois dos primeiros estudos feitos debaixo da 
direcçSo d'este hábil compositor, entrou para o Seminário patriar- 
cha], que entSo estava em um ediiicio construido para esse fim 
no largo da Ajuda. 

Continuou n'este estabelecimento a sua educaçXo artística 
debaixo da direcçfto do mestre acima nomeado ; o proveito que 
d'ella tirou foi grande, porque as suas disposições natiiraes, eram 
auxiliadas por um estudo aturado. 



270 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Em 1830, sahiu do Seminário depois de ter completado os 
seus estudos de Piano, Harmonia e Contraponto ; todavia accei- 
tou ainda por bastante tempo os conselhos de seu benévolo mestre. 

Foi ainda, graças á influencia e reconmiendação doeste ulti- 
mo, que obteve pouco depois a nomeaçSo de Lente de musica da 
Universidade de Coimbra, distincçSo plenamente justificada pe- 
los seus notáveis conhecimentos artisticos. 

Quando em 1835 se organisou o Conservatório, foi transfe- 
rido para este estabelecimento como professor de Piano e Secre- 
tario do Conselho da DirecçSo. 

Com a morte do nosso celebre Bomtempo, tomou Migone a 
direcçSo do Conservatório, ficando ainda como professor de Piano 
e Composição; os contemporâneos louvam os relevantes serviços 
que prestou a este estabelecimento artístico, organisando conve- 
nientemente as differentes aulas, creando outras novas, etc. 

Todos estes encargos ainda augmentaram mais tarde, com os 
de Chefe da Orchestra de S. Carlos e em seguida, Director ge- 
ral do mesmo theatro. 

O trabalho excessivo que resultava de todos estes serviços, 
foi tanto mais fatal para a saúde de Migone, que nSo tendo cal- 
culado bem as suas forças, desenvolvia uma actividade superior 
a ellas. 

Uma viagem que fez á Allemanha, França e Itália em 1857, 
a fim de escripturar uma companhia para o theatro de S. Carlos, 
longe de melhorar a sua já melindrosa saúde, aggravou mais os 
seus males. 

Na sua ausência, ficaram encarregados de o substituir os 
seus discipulos, Eugénio Mazoni e Eugénio Ricardo Monteiro de 
Almeida que haviam completado a sua educação artística. 

Ás portas do Conservatopio fecharam-se para sempre atraz 
do infeliz professor, porque voltou tão enfermo da sua funesta via- 
gem, que teve de abandonar completamente as suas obrigaçSes 
artísticas. Durante quatro annos se prolongaram os seus horríveis 
sofirimentos, até que expirou a 10 de Junho de 1861. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 271 

Foi sepultado no cemitério de Nossa Senhora dos Prazeres^ 
em Lisboa, no jazigo do professor de canto. Domingos Luiz Lau- 
retti. 

Deixon-nos entre outras, as seguintes composiçSes : 

1.) Cantata, para as provas publicas do Conservatório. 

2.) JSampiero, Opera cantada em S. Carlos em 1853. 

3.) Mocana, Opera cantada no mesmo theatro. 

4.) Orande Missa festiva; dedicada a D» Pedro iv. 

Cantou-se firequentemente na festa de Santa Cecilia. 

A respeito d'esta ultima composiçSo, diz Eugénio Ricardo 
Monteiro de Almeida: <(é de exceUente trabalho de composição. 

cOs Kyries, as Fugas e todo o Credo, pôde chamar-se-lhes 
uma obra primais (sic. chefe Sobra), (a) 

Posto que se possa suppor alguma parcialidade n'esta apre- 
ciação, por ser o author d^ella discipulo de Migone, comtudo que- 
remos acreditar o contrario, attenta a respeitabilidade do distinc- 
to professor do Conservatório. ^ 

Monteiro de Almeida nada diz do valor artistico das duas 
Operas, nem nós sabemos a recepção que o publico lisbonen- 
se fez a estas composiçSes; o esquecimento em que ellas cahi- 
ram, seria epi qualquer outra parte uma prova (ainda assim 
fiEdlivel) do seu pouco valor, menos em Portugal, onde a critica 
anda a jogar a cabra cega e o publico escolhe quasi sempre o 
seixo em logar do diamante. O que não vale um real, tem mui- 
tas vezes probabilidades de êxito e apresenta-se á luz do dia em 
cartazes multicolores, que fazem lembrar os papagaios do Ama- 
zonas; o que tem algum mérito, traz já em si mi recommenda- 
ção e fica olvidado. 

As partituras originaes das Operas e da Missa mencionada, 
foram dadas por D. Gertrudes Maria Migone, mãe do nosso ar- 
tista, ao Conservatório Real de Lisboa, onde existem. 

Os contemporâneos de Migone louvam-n'o como exemplar 
no cumprimento dos seus deveres e amigo de seus discipulos, que 
ainda hoje se lembram d^elle com saudade. 



272 OS MÚSICOS POBTUaUBZBS 

Além dos seas conhecimentos extrotordinario» (b) cm com- 
posição musical, sabia bem as línguas latina, italiana e francMa 
e possuía uma instrucçHo geral, rasoavel. 

Recebeu de D. Maria XI; o habito e commenda de Christo e 
o habito da Conceição. 



(a^ lUuêtração po^ndar, N.* 2, vol. lu. É de uma biograpUa inserida 
n^eate jornal por Monteiro de Almeida, que tiramos em grande parte os sub- 
sídios para esta. 

(b) Jbid. loCf cU' 



MILHEIRO (António) — Compositor bracharense, e pelo seu 
mérito Mestre de Capella na Cathedral de Coimbra e depois na 
de Lisboa, onde arranjou o canonicato do costume, (a) 

Viveu no começo e meado do século xvii. Publicou; 

Rituale Romanum Patdi Vjuêêu êditum tubjuncta caniuqtià 
adgeneralemregniconsuetudinem rtdacto, Conimbriess, apud ]!Ti- 
colaum Canralho, 1618, in-4.** 

Este livro teve numerosas ediç3es ; conhecemos além d'aquel- 
la as duas seguintes: 

Procenionalejuxta ritualis Romani Patdi Vpontificis ma- 
ximiju88u editum. Conimbríc», Ex Tjp. Antonii SimSes Ferrei- 
ra, Universitatis Typogr. Anno Domini, 1740, in-4.' grande 
de III-164 pag. O exemplar que possuímos, tem um accrescen- 
tamento de 8 pag* com Antiphonoê e Hyvmos em Caníoehão A 
Virgem, a S. Agostinho, a S. Theonio etc, ; é impresso em Lisboa 
em 1832, na Typographia regia. 

Processionale juxta formam ritualis romani, Patdi Vpon- 
tijicia maximijtAêsu editi. Lisbonse, 1749, ín-4.^ de 151 pag. e 
Index, apúd Josephum da Costa Coimbra. 

O exemplar que examinamos doesta edíçSo, vinha eonjuncta- 
mente com o ProcesêioncUe eolimbriensia eedesicB in quo conti" 
ncntur diversa RespoTisoria et AntiphowB, qtUB pro Stationibu» 
ejtmlem Ecclesice Cathedralis cantari solent in Dominicis de Fsé- 
tivitatibtis : 



os MÚSICOS P0RTUGUEZE8 Í73 

ExcdleMÍB9Ími Domini D. MicAaelis ah Annuntiaiionê 
ipsiusmet. Ecdesim zelosi8simi Episcopt jussu ex antiquis Pro- 
cesstanariê adhocin melioremcantum translata. Lisbon«d, 1750; 
m-4.^> de 75 pag. e Index, apud Josephum da Costa Coimbra. 

Possuímos ainda outra obra idêntica com o titulo: 

Processionarium monasticum juxta conauetudinem monacho- 
rum nigrorum Ordinis S, P. N, Benedicti Regnorum Portuga- 
li<B. Conimbricffi, apud Emmanuelem Rodericum de Almeyda 
etc. Anno Domini, 1691, in-4.** peq. de viil (nSo numeradas,) 
235-173 pag. A primeira parte até pag. 235, consta de Hymnos e 
AfUiphonas em çantochão, dedieadas á Virgem e avaries Santos. 
A Branda, contém Officios de defuntos, Officios ad inf ermos et 
mortuos spectantia, até pag. 173, egualmente em cantochão. 

Este livro foi impresso em 1691, por diligencias do Abbade 
geral da ordem benedictina. 

A maior parte das composiçSes de Milheiro, estavam na Bi- 
bliotàeca de Francisco de Valfaadolid, e algumas na Livraria real 
de D. JoSo IV. 

Deixou também em manuscripto um Tratado theorico da 
nmõica. 

(a) Canopicato da quarta prebenda. 

HIRÕ (. . .) — Discipulo de Bomtempo, nasceu em Portugal, 
VíBB filho de um musico hespanhoL Esta noticia, que julgávamos 
sem fundamento, tomou visos de verdadeira, porque ouvimos re- 
petil-a e confirmal-a por Noronha a quem o próprio Miro a com- 
municára, quando o nosso artista esteve em Buenos- Ayres. 

Em 1836, assumiu a direcção do theatro de S. Carlos, onde 
fez rei^esentar um anno depois a sua opera séria: Atar. 

J. J. Marques dá (a) esta ultima como representada em 1833 
com outras duas, que sSo o: Sonâmbulo e o Triumpho de Lysia. 

As suas op^as Virgínia e a Marjueza subiram á scena em 
JL840. Ignoramos o acolhimento que o publico fez ás suas pri- 
meiras producçSes; as duas ultimas parecem ter revelado bastan- 

18 



274 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

te mérito; a symphonia da Marqueza ainda hoje 83 executa com 
applauso em Lisboa e particularmente na Madeira. 

Recapitulando por ordem chronologica a ennumeraçSo das 
operas de Miro, temos: 

1.) Átarj ó La Rivolta, delV Seraglio, em 1833. 

2.) n Sonâmbulo, em 1833. 

3.) Tríumpho de Lyèia, em 1833. 

4.) Virgínia, em 1840. 

5.) Marqueza, em 1840. 

6.) Atar, Opera seria, Lisboa, 1837. (b) 

7.) Virgínia, opera italiana, Lisboa, 1840. (c) 

8.) II Sogno dei Zingano, no Theatro das Larangeiras em 
1844. 

9.) Os Infantes em Ceuta, texto de A. Herculano, na Aca- 
demia Philamionica, em 1844. 

(a) Vide uma noticia intcre9sante que este amador zeloso inseriu em 
um clo8 nmneros do Jornal do Cammercio de 1868. 

(b) Nâo confaudir esta Opera com outra de Coccia (1820). 

(c) Dictionnaire lyriqne ou Hiatotre âes Opérciê, representes en Fran- 
ce et à VEtranger, par Félix Clémcnt et Pierre Larousse. Paris, 1867. 

SaXILIM (Francisco do Valle) — Contrapontista distincto e 
Cantor da Basilica patriarchal. Conhecemos doeste author uma 
carta dirigida a Ignacio Solano (6 de Março de 1763) a propósito 
do apparecimento da Nova Instrucção musical, em que o author 
aprecia esta obra, elogiando-a muito, como sendo primorosa, de 
grande vantagem e de infinito trabalho. 

MÓNICA (Fr. Martinho de Santa) — Nascido na celebre ci- 
dade de Évora e filho de Manoel Martins e Úrsula Rodrigues. En- 
trou na ordem de S. Agostinho, no mosteiro de Nossa Senhora 
da Graça, em Lisboa, a 11 de Abril de 1610. Foi Mestre de Ca- 
pella no seu convento e director dos noviços em 1632. 

As composições doeste author eram estimadas e consistiam 
em: Varias obras musicaes; estavam depositadas na Bibliotheca 
real de Lisboa. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 275 

HONTEIRO (João Mendes) — Nasceu em Évora na segunda 
metade do século xvi e foi musico tao dístincto, que o rei de Hes- 
panha não duvidou chamal-o para Mesti*e de uma das suas capellas. 

Monteiro triumphou de todas as difficuidades de um exame 
rigoroso e foi preferido, entre muitos adversários perigosos para 
um logar que era cubicado pelos maiores artistas da peninsula. 

Pertenceu á eschola do illustre Manoel Mendes. A maior 
parte das suas composições que consistiam principalmente em 
Motetes, encontravam-sc na Bibliotheca musical de D. JoSo iv 
antes do terramoto de 1755. 

MONTE (Fr. José do Espirito-Santo) — Pregador geral jubi- 
lado da Congregação da Ordem Terceira, e Ex- Vigário do Coro 
do Convento de Nossa Senhora de Jesus da cidade de Lisboa. 
Autbor tlieorico^ que nos deixou a seguinte obra: 

VindicioB do Tritono com um l»*eve exame tJieortco-crítíco 
d<u legitimas, solidas, e verdadeiras regras do Canto Ecclesias- 
tico segundo os usos presente e antigo da Santa Madre Igreja de 
Rema. Dirigido á maior gloria do Deos Altissimo, utilidade e 
perfeição dos Ministros de toda a Igreja Lusitana. Lisboa, 1791, 
in-4.*^ de vni-92 pag. Ní^ OfBcina de SimSo Thaddeo Ferreira. 

MONTE-MÕR (Jorge de) — O nome d'este artista e poeta foi 
tomado da terra da sua naturalidade, da Yilla de Monte-mór^ 
perto de Coimbra. Dos primeiros annos da sua vida, nos faz elle 
um retrato em uma Carta a Sá de Miranda, preciosa pelo seu alto 
valor histórico, (a) Extractamos alguns tercetos, e tiraremos de- 
pois as devidas inducçoes : 



De mi vida el discurso yo me oblígo 

A contartclo en breve, aunquc mas breve 

Fortuna se mostro para comigo. 



276 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE3 

Bíberas me crie dei rio Mondego 
Ado jamas sembnS el fiero Marte 
Dei Bey Marsilio a ca desassossiego. 

De sciencia alli alcance mny poea parte, 
£ por sola esta parte, joxga el todo 
De mi sciensia, y estyllo, ingenio j arte. 

£n Mosica gaste mi tiempo todo. 
Previno Dids en mi por esta via ; 
Para me sustentar por algun modo. 

No se fió, setlor, de la Poesia, 

Porque vio poça em my, y aunque mas viera, 

Vio ser passado el tiempo en que vaHa. 

£1 rio de Mondego y su Bibera 
Con otros mis iguales passeava, 
Sngeto ali^rudo amor y su bandera. 

Con elles a cantar exercitava, 

Y bien sabe el amor que mi Marfida 

Ya entonces sin la veer me lastimava. 

AquelJa tierra fiié de my querida, 
Dexéla, aunque no quise, por que veya 
Llegar el tiempo ya de buscar vida. 

Segundo a hypothese rasoavel de Ticknor, (b) Jorge de 
Monte-Mór nasceu antes de 1520 ; n'e8teg versos se yê, que a 
sua educaçSo^ foi divertir-se com os rapazes da sua igualha nas 
areias e margens do Mondego^ até que, desprovido de meios, teve 
de ir ganhar a custo a sua vida, entrando nos exércitos hes- 
panhoes que então militavam nos Paizes Baixos. Jorge de Monte- 
Mór^ á falta de bens, possuia tuna prenda que o tomava acceita- 
vel nas principaes cortes: era imi excellente Musico; a este dote 
confessa elle o dever a sua siistentaçUo. De facto foi admittido 
naCapella amò^ulante do príncipe Felippe, (c) que veiu a merecer 
o nome de : Demónio do Meio Dia, Outra opinião, fal-o seguir a 



os MÚSICOS PORTUGUEZES Í77 

eamiva das armaa, depois de ter sido musico em Hespanha. (d) 
Esta asserção nSo combina com os factos. Jorge de Monte-Mór 
apaixonara-se em Hespanha por uma mulher linda, a quem elle 
chama com o nome poético de Marfida; emquanto seguia as ar- 
mas na Itália e Flandres, ou lá viajava com a Capella ambulan- 
te, a sua amante casou com outro. Succedeu isto antes de 1542, 
por isso que n^este anno foi publicada em Valença a historia dos 
seus amores em uma Novella Pastoril, chamada Diana^ que 
arrancou um brado de admiração geral em toda a Europa, e 
inaugurou a moda das novellas pastoris, (e) Em 1552, tratou-se 
o casamento do príncipe D. JoSo, filho de El-Bei D. JoBo m, com 
aprínceza D. Joanna; por este tempo acompanhou-a Jorge de 
Monte-Mór a Portugal, e como documento incontestável d'este 
fSu!to nSo conhecido pelos biographos, temos a própria Carta do 
poeta: 

£n este médio tiempo la estremada 
De naestra Lusitama alta Princesa, 
£n quien la fama siempre está occupada : 

Tavo, seâor, por bien de mi rudeza 
Senrirse, un bazo ser aleyantado 
Con sn saber estraílo, y su grandeza. 

£b cuja Casa estoj ora passando 
Con mi cansada musa, ora en esto, 
Ora de amor 7 absencia estoj quexando. 

Ora mi mal ai mundo manifesto 

Ora ordeno de partirme, ora me quedo, 

£n una hora mil vezes mudo el puesto, etc. 

Ka Biographia Universal de Michaud, erradamente se con- 
funde a Princeza D. Joanna, mulher do Principe D. João, com 
a rainha D. Catherina, mulher de El-Rei D. João in. (f ) É indis- 
putável ter Jorge de Monte-Mór residido em Portugal em 1552 ; 
porém a sua terra já lhe não agradava, andava triste e morria de 
saudades por Hespanha, e pela sua vida de aventuras. Na Carta a 



278 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Sá de Miranda o confessa. Neste tempo, já Sá de Miranda vivia 
retirado da corte, na sua quinta da Tapada, como se vê pelo 
verso: 

Paes entre el Duero y Minno está encerrado 
De Minerva el thesoro, a quien iremos? 

Jorge de Monte-Mór acbava-se solitário em sua terra; foi 
este sentimento de tristeza que o dirigiu a casa de Sá de Miranda. 
E como esto o recebeu? Como uipa grande alma e um bello cara- 
cter que era. O generoso amigo, vendo que elle quer voltar de no- 
vo para Hespanha, recommenda-lhe que não abandone a protecção 
da Princeza D. Joanna, esposa do successor de D. João ui: 



Levanta los sentidos ai amparo 
Tan seguro 7 tan alto como tienes 
Doesta Princeza nucstra, un sol tan claro. 

No scas como muchos; que sus bienes 
Bicn no conoscen, mira que acontece 
A poços lo que a ti, si bien te avienes. 



As palavras de Sá de Miranda, são de um alto senso e de 
uma amizade franca. O tempo em que Jorge de Monte-Mór dei- 
xou para sempre Portugal, é fácil de determinar, se nos lembrar- 
mos que foi em 1554 que morreu o príncipe D. João. Pouco depois 
de 2 de janeiro doeste anno, ou ainda em 1553, regressou para 
Hespanha, e acompanhou em seguida Felippe u na sua viagem a 
Inglaterra, a qual terminou a 8 de Outubro de 1555. (g) Jorge 
de Monte-Mór, exaltado pela gloria da sua Diana, deixou a 
Hespanha, viajou pela Itália, e morreu em um duello em Turim, 
a 26 de Fevereiro de 15G1. (h) A sua vida acha-se recapitulada 
em um soneto de Faria e Sousa, que dedicou a este celebre escrí- 
ptor o seguinte epitaphio : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 279 

Naceste Jorgo no Yenusto monte 

Que o Mouro quiz fazer sua Colónia 
Adonde te entregou Musa Meonia 
O numeroso Pay de Faetonte. 

Na Ibéria viveste da alta Fonte 

Que outro Monte mais preza em Traçia Aonia ; 
£ noutro monte da saberba Ausonia, 
Passaste irrevocável Acheronte. 

Pequeno em major Monte emfim nasceste 
£ em Piemonte nSo pio feneceste: 



De Monte em Monte andou tem paço humano ; 
O feliz tu, se o espirito puzcste 
Lá no Monte do Olympio Soberano. 

(a^ £sta carta foi publicada na edição das Obras de Sá de Miranda 
em 1595, e elipiinada em todas as outras, até que se reproduziu novamente 
na de 1904. £ por isso que os biographos nuo tem d'ella tirado o devido 
partido. A Theophilo Braga e ao seu talento investigador, devemos ainda 
as importantes descobertas que citamos na Biographia d*este celebre poeta 
e artista. 

íb) Ticknor, History of Spanish litter, t. iii, cap. 33. 

(c) Nicolau António, Bihliotheca Hispânica Nova^ t, i, pag. 539; 
Ticknor segue esta opinião. Porém Barbosa, na Bibliotheca Lusitana, 
t. n, pag. 809 e sqq. e Gerber, N, h. Bioar, Lex,, vol. iii, pag. 452, seguem 
a contraria, dizendo que fora musico da Capella Keal de Madrid. 

^d) Barbosa, loc, cit. 

\eí\ £diç2o citada por Ticknor, como alta raridade, 

hS Michaud, Op, cit, t. xjux, pag. 490 e 491. 

(g) Luiz Cabrera, FUippe ii, rei de Hespanha, pag. 31. 1619. 

(h) Barbosa j loc, cit.; Álvaro Perez, P. ii, da Diana, ed. 1614, p. 362. 

MORAES (João da Silva) — Foi um dos nossos mais fecun- 
dos e um dos mais notáveis compositores de musica sacra ; Lisboa 
tem a gloria de o contar no numero dos seus filhos mais illustres, 
pois foi ahi que nasceu, a 27 de Dezembro de 1689 do casamento 
de António da Silva Moraes e Domingas Rodrigues. 

A sua educaç^ musical deveu-a a Fr. Braz Soares da Silva, 
Reitor do CoUegio para onde tinba entrado; e de tal maneira a 
aproveitou, que no concurso á regência da Capella de musica da 
Casa da Misericórdia^ tiverem todos os pretendentes de ceder 



180 OS MUSIOOS P0RTUGDEZE8 

diante do$ conhecimentos profundoê que Moraes tinha revelado 
no exame; e assim tomou elle posse do logar que tSo gloriosa- 
mente conquistara, a 1 de Julho de 1713. O mesmo succedeUrCom 
o logar de Mestre de Capella da Cathedral de Lisboa; o seu no* 
me parecia um talisman que fazia desapparecer os obstáculos 
e que confundia os seus adversários. Tomou posse doeste ultimo 
cargo, a 27 de Maio de 1727| depois de ter governado sempre di- 
gnamente, o primeiro, durante 14 annos. Ignora-se a data da 
sua morte, porém sabe-se que ainda occupava este ultimo logar 
em 1747. Moraes possuia uma das Bibtiothecas musicaes mais 
preciosas de Lisboa. As suas oomposiçSes são em grande nume- 
ro, como dissemos. 

Eis a pequena parte de que podemos haver noticia: 

1.) Responsorioe da Festa do Natal, a 8 vozes. 

2.) Idem, a 4 vozes. 

3.) Outros j a 4 vozes, 

4.) Responsorios da Epiphania, a 4 vozes, com rábécas^ 

5.) Idem de S, João Baptista, a 4 vozes, com o mesmo acom- 
panhamento. 

6.) Responsorios da Festa do Evangelista, a 4 vozes. 

7.) Responsorios da Festa de S. Vicente; dos quaes é o ter- 
ceiro do primeiro Nocturno : Ecce jam in sublime ager, aSvo- 
zes, do quinto tom alto com rabecas ; o terceiro do segundo Noc- 
turno: Custodívit illum Dominus, a 8 vozes, do sexto tom sem ra- 
becas e o segundo do terceiro Nocturno: Cognito santo ejus ab- 
cessa, a 4 vozes do oitavo tom, sem rabecas. 

8.) Responsorios da Festa da Conceição da Reza dos Fran- 
ciscanos, a 4 vozes, sem raòecas. 

9.) Idem da Festa da Purificação, a 4 vozes, com rabecas. 
10.) 8 Responsorios da Festa de Santa Mónica, a 8 vozes, 
com raòecas. 

11.) 8 Responsorios da Festa de 8. Jeronymo, a 4 vozes. 
12.) Diversos responsorios da Festa de Nossa Senhora do 
Carmo, a 4 vozes, com rabecas. 



os VDSICX)S FORTUQTJEZES i81 

13.) Sêipotuorios de Santa Cecília: O beata Cecilía, aévo- 
zêê, do texto tom eom rabecas. 

14.) Sesponãoríoê de Santa Cecília gu^ começam: Cecília me 
Hiiflit ad voa a 8 vozes, do quinto tom oito com rabeccu e tromòetcu. 

15.) Todos os Responsorios da Quarta, Quinta e Sexta-feira 
da Semana Santa, a 8 vozes* 

16.) Os mésmos a 4 vozes. 

« 

17.) IjxmenteL^Ses do primeiro Nocturno da Quinta-feira, a 4 
vozes, com rabecas; aprimeira, do sexto tom; a segunda, do pri- 
meiro tom baixo e a terceira, do segundo tom. 

18.) Mais outras vinte a trinta (!) até o Tibi-Soli peccavi. 

19.) Lamêntaçào primeira de Quarta-feira a 6 vozes, do ter- 
ceiro tom. 

20.) Lamenta/çies dos três dias da Semana Santa do rito do- 
minicano, a 4 vozes. Duo e Solo, 

21.) Miserere mei Deus, a 3 coros, do segundo tom por Imol. 

22.) Outros de 3 coros do sexto tom. 

23.) Idem a 3 coros do quinto tom, 

24.) Idem a 3 coros do segundo tom por bmol, 

25.) Idem a 4 vozes do sexto tom, com rabecas, 

26.) Idem a 4 vozes do sexto tom, sem rabecas, 

27.) Idem a 4 vozes do quinto tom, 

28.) Idem a 4 vozes do terceiro tom, 

29.) Idem a 8 vozes do segundo tom por bmol, com rabecas, 

80.) Psedmos de prima com o seu hymno, do primeiro tom, a 
4 vozes com rabecas, 

81.) Psalmos de Noa com o seu hymno, a 4 vozes, do oitavo 
tom, com rabecas, 

32.) Outros a 4 vozes do sexto tom, com rabecas, 

33.) Psalmo; Domine probasti me, a 8 vozes, com rabecas, 

34.) In convertendo, a 4 vozes, eom rabecas, 

35.) Beati omnes, a 4 vozes, do quinto tom, eom rabecas, 

36.) Magnijicat, a 8 vozes, 

37.) Idem, a 4 vozes do quinto tom, 

38.) Invitatorio da Festa do Natal, a 8 vozes, do quarto tom. 



282 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

39.) Idem da Festa da SS. Trindade, a 8 vozes, do sexto tom. 
40.) Invitatorio de S. Vicente, a 8 vozes, do terceiro tom. 
41.) Venite exultemos Domine, a 8 vozes, sem rabecas, 
42.) Te^Deum Laudamus, a 4 vozes do sexto tom, com rahe- 
cas e Trombones. 

43.) Idem a 4 vozes do quinto tom, ponto alto, com rabecas. 
44.) Outro, a 4 vozes do quinto tom ponto oito, com rabecas. 
45.) Outro, a 3 vozes do quinto tom. 
46.) Missa a 5 vozes do oitavo tom. 

47.) Oraduaes e Offertorios para todas cu festividades da 
egreja, a 4 vozes; alguns com rabecas. 

48.) Ladainha de Nossa Senhora a 4 vozes do sexto tom, com 
rabecas. 

49.) Pange lingua, a Duo; do primeiro tom, com rabeccu. 
50.) Outro a 4 vozes do quinto tom, ponto alto. 
51.) OiUro a 4 vozes do quinto tom. 

52.) Sequentia da Missa do Corpo de Deus: Lauda Sion Sal- 
vatorem^ a 8 vozes do quinto tom, ponto alto. 

53.) Sequentia da festa da Paschoa: Victima paschoaliS; a 
8 vozes do segundo tom por bquadro* 
54.) Motetes do Sacramento: 

O' salutaris hóstia, a 4 vozes do sexto tom. 

Outro, a 4 vozes dó sexto tom. 

Caro mea, a 4 vozes do quinto tom. 

C Sacrum Conviviam, a 4 vozes do quinto tom. 

2Vacfo Demum Sacramentum, a 4 vozes, do quinto tom 

natural. 
Caro cibus, a 4 vozes do quinto tom alto. 
Qu^d non capis, a 4 vozes do quinto tom. 
55.) Stabat Mater dolorosa, a 4 vozes. 
56.) Veni Sponsa Christi, a 4 vozes, 

57.) Glories Virginis Marice, a 4 vozes do primeiro tom por 
bmol, com rabecas. 
58.) Hymnos: 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 283 

Extãtet orbis gandiis, a 4 vozes do quinto tom ponto alto, 
com raòeecu. 

Deu» tuorum militum, a 4 voze» do oitavo tom, com rabecas. 
Jesu corona gloria, a 4 vozes do sexto tom, com rabecas. 
Coelestis Urbs Jerusalém, a 4 vozes do quinto tom, ponto 
alto, com rabecas. 

Isto Confessor, a 4 vozes do segundo tom. 
Ave Maris Stella, a 4 vozes do primeiro tom. 
Vent Creator Spiritus, a 4 vozes do quinto tom, com ra- 
becas. 

Outro a 4 vozes do segundo tom por bmol. 
Jesus dvlcis memoria, a 4 vozes do primeiro tom, com ra- 
becas. 

Summe parens clementice, a 4 vozes do sexto tom, com ra- 
becas. 

59.) Responsorios: 

Oaudeat in codis, a 8 vozes do quinto tom. 
Viri JSancti, a 8 vpzes do terceiro tom. 
Outro a 4 vozes do oitavo tom oito, com rabecas. 
Absterget Deus, a 4 vozes do quinto tom alto, com ra- 
becas. 
Tradiderunt corpora sua, a 4 vozes do qtiinto tom, com 
rabecas. 
60.) Seis Vilkancicos, a 8 vozes, para a festa de Santa Ce- 
cilia. 

61.) ViUiancicos do Natal, a 4 e 5 vozes, e de outras festivi- 
dades, que excediam o numero de 50 ! 

Se sommarmos estas composiçSes^ obtemos o numero extraor- 
dinário de mais de 180 obras musicaes, repartidas por uma vida 
que durou 50 a 60 annos; parece que sempre é verdade terem fi- 
cado estas obras todas manuscriptas; a obrigaçllo que, temos de 
relatar estes £EUitos corta-nos o coração ; este dever penoso torna-se 
is vezes um verdadeiro suppliciol! 

Na Nova instrucção musical de Solano^ vem uma aprecia- 
çSo critica a respeito d'esta obra, mandava fazer a pedido de 
D» José. 



284 OS MÚSICOS PORTDGUEZES 

O juizo de JoSo da Silva Moraes, é em extremo favorável 
ao nosso theorico. O celebre compositor portngaez assigna-se: 
Mestre de CapeUa da Basílica de Santa Maria. 

A carta traz a data: 16 de Jmiho de 1763. 

MORAES (D. João da Soledade) — É anthor de um: 
Methodo de musica, — 1833. 

MORAGO (Estevão Lopes) — Mestre de Capella da Catkedral 
de Vizeu e bom compositor; as suas obras conservavam-se na Bi- 
bliotheca musical de Lisboa antes do desaatre de 1755. 

MORATO (João Taz Barradas Muito-Pão e) — Nasceu em 
Portalegre a 30 de Abril de 1689 e foram seus pães, Manoel Bar- 
radas Lima e Isabel Lopes. Aprendeu a musica no CoUegio dos 
reis da Casa de Bragança em Villa- Viçosa e occupou os legares de 
Regente do coro da Egreja parochial de S. Nicolau de Lisboa Occi- 
dental, e depois o mesmo cargo na Basilica de Santa Maria Maior. 
Vivia ainda em 1747. 

Um manuscripto (a) existente em poder de J. César de Fi- 
ganière e que contem vários opúsculos, que parecem ser autogra- 
phos, dirigidos contra Solano, indicam uma questSo acalorada 
que houve entre estes dois escriptores sobre pontos da theoria 
musical. No fim de um doestes pamphletos, houve por bem o nosso 
author accrescentar ao seu já comprido nome, três appellidos e 
uma particula (sic:) JoSo Vaz Barradas Muito-PSo e Morato 
Gonçalves da Silveira Homem ! ! Provavelmente era para o nome 
nSo desdizer das epigraphes das suas obras, com titulo» sem fim. 

Escreveu: 

1.) Flores musieaes colhidas no jardim da melhor lAçSo de 
vários Âuthores, Arte poética de Canto de Órgão, índice de Can* 
toria para principiantes com um breve resumo das regras mais 
principaesy e regimen do Coro segundo o uso Romano para os 
Subchantres e Organistas, Lisboa, na Officina da Musica, 1735, 
in-4.^ de xvi — 120 pag. e uma estampa no fim. (b) 



os MÚSICOS POETUGUEZES 285 

Em um exemplar que possuímos, encontramos um titulo 
um pouco differente, sendo: 

Flores mu9ic€U8 colhidas no Jardim da melhor Lição de vor 
rios Authores* Arte pratica de Canto de Órgão. índice de Can- 
taria para principiantes, com tan breve resumo das regras mais 
principal de (c) aCompanhar com Instrumentos de vozes, e o co- 
nhecimento dos Tons assim naturaes, como accidentaes, Offereci- 
da ao senhor D. Gabriel António Gromes. Lisboa Occidental, na 
Oficina da Musica, Ánno de 1735. Com todas as licenças neces- 



Fétis (d) indica uma segunda edição d'esta obra com o titu- 
lo primitivo um pouco alterado, mas também in-4.^ A parte rela- 
tiva ao Gantochão foi publicada depois em separado. 

Esta snpposiç&o de Fétis parece verdadeira; a prova encon- 
tra-se no livro de Forkel (e) que indica o titulo doesta segunda 
edição (sic:) 

Ftòres musicaes colhidas no jardim da melhor lição de vá- 
rios authores. Arte poética de Canto de Órgão. índice de Cere- 
monta para principiantes com um breve resumo das regras mais 
principaes de ac&mpanhar com instrumentos as vozes e o conheci- 
mento dos tons assim naturaes como accidentaes. Lisboa, na Offi* 
cina da Musica, 1738 in-4.^ Em contrario á affirmaçSo de Forkel 
e de Gl-erber (f), que o copiou, esta ediçSo nSo é mais accresoentada 
que a primeira; pelo contrario, falta-lhe a parte relativa ao Can- 
tochão que, como muito bem diz Fétis, foi publicada em sepa- 
rado. 

Apesar do que fica dito, temos um exemplar da 1.^ ediçZo 
(1735) que traz o título exactamente, como acima deixamos in- 
dicado; titulo este, que Forkel e Fétis dão como pertencente só á 
segunda edição. 

O nosso exemplar tem x pag. antes do principio da obra, 
incluindo o Index. É possível, que a ordem da paginação fosse al- 
terada quando encadernaram o exemplar, mesmo porque o que 
temos em nosso poder, está algum tanto damnificado, faltando-lhe 
as paginas 77 e 78. A estampa de que&Ua L da Silva e que jul- 



286 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

gamos ser a 3í3o dos Signaes, estava no exemplar que tivemos 
occasiSo de vêr, collocada entre as paginas 6 e 9. O nosso tem 
também só 113 pag., em logar de 120, como I. da Silva in- 
dica. 

2.) Preceitos Eccieaiaêticos de Canto firme para heneficio e 
uzo commum de todos, Lisboa, na Officina Joaquiniana da Musi- 
ca, 1734, in-4.« 

3.) índice de Ceremonias para principiantes com um brew 
resumo das regras mais principaes do acompanhamento com tn- 
strumentos, das vozes e o conhecimento dos tons assim naturaes 
como occidentaes. Lisboa, na Officina da Musica, 1738, in-4.® 

4.) Breve resumo de Cantochão com oã regras maisprincu 
pães e a forma qtie deve guardar o Director do Coro para o sus- 
tentar firme na corda chamada: Coral, e o Organista quando o 
acompanha, Lisboa, na Officina da Musica, 1738, in-4.^ 

5.) Breve resumo de Cantochão, dedicado a El-reiD. João rv; 
existia na Bibliotheca musical doeste príncipe; talvez fosse o au- 
tographo do N.® 4. 

Este tratado abreviado de Cantochão, é o que fôra publicado 
anteriormente na primeira ediçSo das Flores musicaes; na segun- 
da edição d'esta obra, publicada em 1738 já elle nlo vem. O nu- 
mero 3, também não me parece mais que uma publicação em se- 
parado, do índice de Ceremonias, que todavia vem na segunda 
edição das Flores musicaes, sem vir na primeira. 

6.) Domingas da Madre de Deus e exercidos quotidianos 
revelados pela mesma Senhora, Lisboa, 1733, na Officina da Mu- 
sica; esta obra foi publicada com o pseudonymo de: João Gbnçal- 
ves da Silveira. São Rezas e Antiphonae postas em musica e de- 
dicadas á Virgem. 



(9) I. da Silva, Diee, BtbL Vol. rv pag. 47. 

(b) I. da Silva possuo um exemplar doesta obra. 

(c) Forkel, Allgtm, Litterat, papf. 301, e FétÍ8 Biogr, Univ. Vol. iii, 
pag. 192, indicando o titulo da 2.* edição do livro de Morato, dizem : índice 
de Ceremania ; deve ser : Cantoria j I. da Silva, Dicc, BtbL Vol. iv, pag. 47, 
e Gcrber. — N, h, b, Lex. d. T. vol. iii. pag. 4õ9: com um breve resumo das 
regras mais principaes de acompanhar com instrumentos as vexes. Deve ser, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 287 

com nm Òreve resumo de accompanhar com instrumento de vozes etc. ; o resto 
do titulo yein exacto. Insistimos sobre estas pequenas dififerenças, porque 
bSo ellas ás vezes causa do um trabalho immenso para o escríptor, que em 
vista da diíFerença dos títulos imagina edições que nunca existiram, caindo 
assim em graves mexactídões e produzindo ainda mais confusão, em assum- 
pto já de sobejo n*ella envolvido. 

(d) Biogr. Univ.y vol. vr, pa^. 192. 

fe) Allgem, LUterat, der Mupik, pag. 301. 

[f) Neues hist, biogr, Lexicon der Tonkilnstler, vol. in, pag. 459. 

MOREIRA (António Leal) — Natural de Lisboa, onde morreu 
ha perto de 30 annos. Professor no Seminário patriarchal e com- 
positor distincto demusica sacra e profana. Da primeira, conhe- 
cemos algumas Missas e nm&Antiphona: Pax Jerusalemi; esta 
ultima composição mereceu a honra de ser publicada na Ingla- 
terra, em traducção ingleza. Nas suas composições sacras, predo- 
mina a expressão, como qualidade característica. Algumas das 
suas Operas, cuja lista em seguida apontamos, foram muito ap- 
plaudidas. São pela ordem chronologica: 

1.) Sffacs e Sofonisba, em Queluz, nos annos de D. Pedro lil, 
a 5 de Setembro de 1783. 

2.) Vlrrmiinei di Delfo, drama allegorico, cantado a 12 de 
Abril de 1785 na Ajuda, no casamento do infante. 

3.) EstJier, oratório em 1786, no mesmo theatro. 

4.) 6li Eroi spartani a 2Lde agosto de 1788, na Ajuda. 

5.) Gli Affeiti dei génio lusitano, drama allegorico, canta- 
do na Casa Pia do Castello de S. Jorge, em 1789. 

6.) E Natale Avgusto, drama allegorico, representado em 
1793 no palácio de Anselmo José da Cruz Sobral, pelo nascimen- 
to de uma prínceza. 

7.) A Heroina lusitana, em 1795, no theatro de S. Carlos. 

8.) A Serva reconoscente em 1798. 

9.) A Saloia enamorada em 1793; burletta em portuguez, 
cantada no benefício de Dominico Caporallini (castrato) no anuo 
em que se abriu o theatro de S. Carlos. 

10.) Raollo, no Theatro de S. Carlos, em 1793. 
11.) A Vingança da Cigana, burletta era portuguez, can- 
tada em S. Carlos em 1794 em beneficio de Caporalini. 



Í88 OS MÚSICOS POBTDGUEZES 

MORTE (D. José da Boa) — Cónego regrante de Santo Agos- 
tinho e Organista estimado no principio doeste século (1820). Nada 
sabemos das suas circumstancias pessoaes. 

MOSCA (José Alves) — Organista conhecido no principio 
doeste século. Vem citado nas Observações criticas de Villela da 
Silva, (a) ao Essai statistique de A. Balbi. 

(a) pag. 128. 

MOURA (P.* José Luís Gomes da) — Natural dos Pousadou- 
res, termo de Arganil; bispado de Coimbra. 

Estudou no Seminário de Coimbra e foi ordenado Presbíte- 
ro a 19 de Março de 1763, para a CongregaçSo dos pios Operários^ 
fundada no mesmo Seminário em 1757. Entre vários cargos ec- 
clesiasticos que ahi exerceu, citamos o de Mestre de Cerimonias 
em 1787. Occupou egual posto na Capella da Universidade e 
morreu em 1817. Foi tio do philologo José Vicente GUimes de 
Honra, que estudou debaixo da sua direcçSo. 

Escreveu: 

1 .) Ritual das exéquias, extrahido do Ritual romano ao qual 

se ajunta a missa de Requiem, com os ritos e cerimonias particu- 
lares. 

2.) Methodo para aprender o Cantochão; terceira edição j (a) 
novamente correcta e accrescentada com uma missa sohmne. Lis- 
boa, 1825, in-i.*' 

(a^ I. da Silva, de quem extrabknos esta noticia, cita só esta ediçSo no 
Dicc, ÈibL, vol. lY, pag. 427. 

MOURA (Pedro Alvares de) — Cónego das Çathedraes de La- 
mego e Coimbra. Esteve bastante tempo em Roma, onde impri- 
miu algumas das suas' composições, sendo ahi muito protegido 
pelo cardeal António Colonna e por Paulo Sforza, marquez de 
Progénie, que apreciavam muito o seu talento. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 289 

Compôz: 

1.) Um livro de Motetes, a4, 5, 6 e 7 vozes. Rom», 1594, 
apud Nicolaum Mutium. Dedicado a Paulo Sforza. (a) 

2.) Um livro de Missas a diversas vozes. Foi. Ms.; existia na 
Bibliotheca de D. João iv. 



(a^ Fétis, Biogr, Univ., vol. y, pag. 219, enganou-se^ dizendo que este 
livro fora impresso em Coimbra ; também não é exacto qae vivesse ainda 
em 1694, porque o cardeal Saraiva na sua Lista, pag. 48, dá-o como falle- 
cido antes de 1594. 



FIM DO VOLUME I. 



PoBTo — Impsessa Pobtuoubzá — 1870 



os MÚSICOS PORTUGDEZES 





os 



MÚSICOS POKTUGUEZES 



tIOSIIAf NU- tUlIMRAPNU 



POB 



JOAQUIM DE VASCONCELLOS 



Lichi! Lichtl Liehi! 

GOXTBX. 



VOLUME n 



PORTO 

IMPRENSA POETUGUEZA 

1870 





os 



MÚSICOS PORTUGUEZES 



tlOSRAPNIA-tlIlIMIIAPHU 



POB 



JOAQUIM DE VASCONCELLOS 



lAcht! Lichtl Liehtl 

GOXTHB. 



yoLUME n 



PORTO 

IMPRENSA PORTUGUEZA 

1870 



NqI commencement n^est grand ni beaa 
disenfils, mais n*7-% t*il pas un 
immenBe mérite à commencer? 

FÈtiB, Biographit UniverteUe dtê Mimeieni. 
Yol. u, pag. 140. 



os 



MÚSICOS PORTUGUEZES 



N 



H. N. — Com estas íniciaes indica Balbi (a) um compositor 
que escreyea a musica para o drama: O Juramento dos Numei, 
que foi representado no dia da inauguração do Theatro de S. JoSo 
(Opera) do Rio de Janeiro, a 15 de Outubro de 1815. cBon com- 
positeur, rempli d^idées originaleB:^ : eis o juizo de Balbi. 

(a) Eêfoi giatuty toI. u, pag. ccrn. 

NATIVIDABE (Fr. Francisco da) — Escreveu a seguinte obra: 
Novena da Senhora SaníAnna, com o $eu officio. Lisboa, 
por Manpel José Lopes Teixeira, 1708, in-12.^ ' 

Sahiu sem o nome do author. 

NATIVIDADE (João da) — Natural de Torres. Monge francis- 
cano em 1675 e fallecido em Lisboa em 1709. Deixou em ma- 
nuscripto varias composiçSes no estylo religioso, que eram entio 
estimadas, apesar do seu author ser apenas um curioso. 

NATIVIDADE (Fr. Miguel da)— Natural de Óbidos; (Estre- 
madnra) professou a ordem cisterciense em Alcobaça, onde entrou 
a 8 de Setembro de 1658. 



8 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

Foi Mestre de Capella d'e8te convento durante 6 aimos, e 
oocttpou o cargo de Cantor-Mór ahi mesmo. 

Deixou: 

28 Psalmos doê Vesperai ciitercietues, eompoHoê em diver- 
êoB tom e em numero ternário maior; enxa muito estimados na 
mosteiro d^Alcobaça, onde existiam. 

NáZARETH (P.* Joio de)— Natural da villa da Pederneira, 
(Âlemtejo) e filho de JoZo Fernandes e Cecilia Rodrigues. Favore- 
cido pela fortuna e dotado pela natureza com uma bella figitra, 
entregou-se de alma e corpo, aos prazeres mundanos, escandali- 
sando o publico com as suas façanhas. Um sonho bastou para ope- 
rar uma mudança completa no espirito do nosso D. Juan en Aer- 
he; tomou repentinamente ordens no convento de Santo Mias de 
Lisboa, e teve o mau gosto de flagellar o corpo, que tantas vezes 
tinha flagellado a virtude. 

Foi eleito Reitor do convento de Villar e reedificou a sou 
egreja. (a) Dirigiu o seu convento durante 14 aonos e morreu a 
27 de Fevereiro de 1478. 

Compôz: 

1.) Officio e Hymnoê de S. Gregório magno, S. Jeronymo, 
Santo António e S. Clemente, Martyreê, 3* Nicolau Biepo o ou- 
troê santoê* 

2.) Officio de Nossa Senhora, chamado: da Vigília, que 
todos os sabbados se cantava nas casas da CongregaçSo, como 
o P.* Francisco de Santa-Maria. (b) 



(a) Barb. Machado, BibL Lus., voL vu, pag. 708, faz entrar o oéa na 
coDBtrucçSo ! 



WS 



(b^ Chronica dos Cónegos seculares do Evangelista, livro S.% Cap. n, 

• oo. 



NEGRÃO (Henriqae da Silva)— Escriptor theorico e Orga- 
nista da Basilica de Santa Maria. Viveu na segunda metade do 
século XVIII e foi contemporâneo de Esteves e Mazza. 



os MÚSICOS PORTUGDEZES 9 

Apesar das nossas diligencias, nlo podemos alcançar noti- 
cias das obras doestes três theoricos, que suppomos terem ficado 
em mannscriptOy pois ainda as n2o ouvimos citar a ninguém. 

Na obra de Solano (a), vem uma apreciaçSo critica doeste 
compositor acerca do mérito da Nowi inttrucção muêical. 

NegrSo abunda em elogios para com o seu author, que elle 
denomina : o fundador da Eêeola portugvssa de canto. 



(a) Nova trutrucção mitêical. Carta sexta: data de 18 deFeveraro de 
1763w 



NERI (Felipe) — Pianista de talento, que alguns até antepSem 
a Torriani. C!ompôz umas Fantasia» e Themas variados para o 
seu instrumento. Cultirava a musica como amador e occupava 
em 1831 o posto de capitlto^ no exercito de Moçambique. Tinha 
nascido em Lisboa. 

NOGUEIRA (D. Vicente) — Natural de Lisboa^ onde nasceu 
em 1586. Foi filho do Dr. Francisco Nogueira^ caralleiro da or- 
dem de S. ThiagOy desembargador da Casa da SupplicaçXo e con- 
selheiro doestado. 

As relaçSes poderosas de seu pae, obtiveram-lhe quando con- 
tava apenas 12 annos o fôro demoço-fidalgo (moço-êervente). De- 
pois de completar os estudos philosophicos a que sô tinha dedi- 
cado, foi nomeado senador da Casa da SupplicaçSo, tomando pos- 
se doeste logar a 13 de Março de 1613. Exercitou também o car- 
go de Cónego da Cathedral de Lisboa. 

A fortuna que o tinha fiirorecido na pátria, acompanhou-o 
mesmo no estrangeiro. 

Felipe lY, nomeou-o senhor de RIos-Frios e conselheiro de 
estado; o príncipe Leopoldo, archiduque d' Áustria, fel-o camaris- 
ta da chave dourada, (porteiro-mór) que era uma das distincçSes 
mais cubicadas na o$rte austriaca (!) 

Esteve também ao serviço do imperador da Allemanha e do 
papaj dos quaes recebeu também varias distincçOes. 



10 os MÚSICOS PORTUGUEZES 

Morreu em 1654 em Roma, no palácio do sea amigo, o car- 
deal Francesco Barberino, Vice-Chanceller da egreja romana. 

Âdmira-nos, como este homem dotado àê uma intelligencia 
rara, andava á caça de distincçSes, quasi sempre concedidas pela 
idiotice em premio de mnaimmoralidade! 

Nogueira conhecia as linguas latina, grega, caldaica, sj- 
riaca, arábiga, franceza e castelhana, e possuia além de grande 
instrucçHo na Mathematica e Historia, muitos conhecimentos mu- 
sicaes; nSo sabemos se deixou composiçSes, que se alguma vez 
existiram, ficaram em manuscripto e estarão hoje provavelmente 
perdidas. 

NUNES (. . .) — Bon violoncelle à Lisbonne. (Balbi.) 

NUNES (António Joaquim) — Um dos nossos bonscomposi- 
{ores de Modinhas; residia no Porto, na primeira metade doeste 
século ; foi também bom cantor. 

Será talvez o mesmo que o antecedente? 

Conhecemos d'este author as seguintes composições que pos- 
suímos em Ms. O N.^ 2, parece-nos até ser autographo. 

1.) Speranza lusinghiera; cavatina dei Sig.' Pucitta, arran- 
jada para piano. 

2.) Improviso «Temo bem niio acredites.» 

Citamos pela sua ingenuidade o se^^undo verso : 



— Não, d^amar ninguém se exime 
Ama o tronco, a rocha, a flor; 
Dâo vida a todo o Uniyerso 
Os doces mimos d*&mor ! etc. 



3.) DuoLê Modinhas. 

4.) Hymno Constitucional. Cantou-se no Porto, no Theatro 
de S. JoSo, em Julho de 1826. Letra de J. N. Gandra. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 11 

Fez egaalmente a musica para tuna Canção ou Cantata pa- 
triótica qiie se executou nos festejos^ que os babitantes da içua de 
Santo António fizeram na occasiSo em que chegou ao Porto a no- 
ticia do Juramento da Constituição^ (6 de Julho de 1826). 

Ouvimos failar^ e com louvor, em Operetas-Comieas d'este 
artista; infelizmente nSo as conhecemos. 



o 



OLIVEIRA (António) — Monge franciscano. Exerceu a sua 
actividade artistica no principio do século xvii, como Mestre do 
Coro da egreja de S. Julião, em Lisboa. Visitou Roma em edade 
já avançada e ahi morreu, pouco tempo depois da sua chegada. 
Tinha nascido em Lisboa. 

Ás suas composições conservavam-se em grande parte na 
Bibliotheca musical de El-Rei ; constavam de Missas, Psalmos, 
Motetes e Vilhancicos. 

OUVEIRA (Joaquim de) — Notável cantor portuguez que per- 
correu a Itália, cantando nos principaes theatros da peninsula 
onde foi recebido com applauso. 

A sua actividade artistica, resume-se entre 1750 e 1770. 

ORÃO (. . .) — Sabemos só que foi segundo Mestre de Capella 
na Cathedral de Lisboa, e professor de contraponto de Marcos 
Portugal ; é este o seu principal titulo ao nosso reconhecimento. 

OSÓRIO (Jeronymo) — Bispo de Silves (Algarve.) Nasceu em 
Lisboa em 1506, e morreu em Tavira, a 20 de Agosto de 1580. 



12 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Em uma das obras d'este prelado intitulada : De Regiê insti- 
tutianea, et dieciplina, libr: octo. Colónia^ 1588; in-8.®; eiícontra-se 
no fim do quarto livro^ pag. 122-125; um capitulo qiie trata: De 
Musica Uberaliê diêciplina; Musica regihue maxime neeeuaria* 
Cantu ad fiectendum animum nihil efficaeiue^ 



p 



PÁDUA (Fr. João de) — Monge no Convento de S. Francisco 
de Lisboa; onde foi Vigário do Coro. Viveu na primeira metade 
do século xvn (1631) e publicou um: 

Manuale Chovi, secundum tisum Fratrum Minorum et monia- 
lium S. ClarcB, nunc denum correctum et in nrnltie auctium,juxta 
Missale et Breviarium Romanum Pij F. Pont. Max, et Ciem, 
VIU autoritcUe recognitum, Lisboa, 1626; in-4.^ de xu-506 pag. 

PAIVA (...) — Violinista distincto ; falleceu no Porto pelos 
annos de 1818. Nada mais sabemos d'este artista; queBalbi qua- 
lifica de : excMent • 

PAIVA (António de) — Compositor de musica em Lisboa, 
onde viveu no sectdo xvi. Nada mais sabemos doeste musico. 

Talvez seja o mesmo artista que Raczynski (a) designa com 
o titulo de : peintre de la eaur. 

E verdade que este, falleceu em 1650; meado do século xvn^ 
quando a nossa noticia colloca a actividade d^aquelle, um século 
antes ; pôde ser que haja erro na primeira data. 

(a) Dictionnairt hUtorieo-artutíque du Portugal, Paris. 1B47, pag. 217» 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 13 

PAIVA (João JoBó de) — bompositor portaguez. Escreveu a 
musica para um Baile, que se representou no theatro de S. JoSo, 
no principio d'este século intitulado: D. João de Castro em Dc^ 
bui* O assumpto é tirado do livro de Jacintho Freire de Andra- 
de (a) com algumas alterações, que o compositor do Bailado, Pie- 
iro Maria Petrelli, julgou conveniente introduzir. Esta Dança 
foi executada a 4 de Fevereiro de 1810. 

Os artistas que n'ella figuraram eram quasi todos portugue- 
ses, excepto Petrelli, primeiro bailarino absoluto e Carlota Li- 
sini. 

Os Personagens eram desempenhados pelos seguintes ar- 
tistas : 

D. JoSo de Castro — Francisco António Ferreira. 

D. Diogo de Almeida — P. Maria Petrelli. 

D. Leonor — Maria Rita de Mesquita. 

Cala BatedSo — José Corrêa de Mesquita. 

Zelinda — G. C. Lisini. 

Zanguebar^ 

Catul > Nobres indianos. 

Badur ) 

Talvez que este compositor seja o mesmo que o violinista 
Paiva, visto a coincidência do nome e da data. Esta supposiçSo, 
nSo é mais que uma hypotbese, visto nSo termos dados positivos 
a este respeito. 

A acçSo, tal, qualella apparece desenvolvida no libretto que 
examinamos, concedia a composição de uma musica enérgica e 
dramática, no estjlo descriptivo. 

NSo sabemos até que ponto o compositor se utilisou d'estes 
recursos, porque nada conhecemos da musica do Bailado. 

As disposiçSes scenicas do 1.^ Acto, indicam uma tempesta- 
de que surprehende o navio de D. Diogo de Almeida. Devia ser 
um tredio de musica descriptiva. 

No 2.^ Acto, ha uma Marcha guerreira indiana, que prece- 
de o casamento de Cala e de Zelinda. (b) 






14 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Ob noivos assistem em seguida a um bailado. As outras si- 
tuaçSes do Acto, prestam-se a uma musica toda dramática e yehe- 
mente. 

O 3.^ Acto, offerece uma invocação religiosa cantada pela 
tripulaçSo dos navios de guerra que D. JoSo de Castro conduz á 
índia, (c) 

A Scena do cárcere (4.^ Acto), nSo cede em vigor dramático 
a palma á situação do final do 2.® Acto, talvez pelo contrario lhe 
seja superior. Entretanto a acçSo n elle, nâo é muita; no ultimo 
(5.^) nota-se o mesmo defeito; termina com um coro geral e uma 
dança no fim. 

(a) Vida de D. Jo&o de Castro. 

(h) Coincidência notarei com o 4.* Acto da Africana, de Mjs^rerbeer. 
(c) Outra coincidência, Acto 3.*, Choeur des Matelots : O ffrand Saint 
Dominiquc. 

PAIVA (D. Heliodoro de) — Homem de talento, dotado de uma 
aptidão extraordinária para as Sciencias e para as Artes. Além 
de Musico, foi um dos nossos bons pintores (a) e desenhava ex- 
cellentemente. (b) Pertenceu á ordem dos Cónegos regrantes de 
Santa-Cruz onde tinha estudado, e viveu no xvi século, parte em 
Coimbra (1500), parte em Lisboa, que o Bispo-Conde (c) diz ser 
a sua pátria. Machado (d) é da mesma opinião. 

Foi filho de Bartholomeu de Paiva, guarda-roupa de El-Bei 
D. João III e vedor das obras do reino, e de Felippa de Abreu. 
Fallava o Grego, Latim, Hebraico, e tocava Órgão, Rabeca e 
Harpa, cantando egúalmente bem, a ponto de ser classificado pe- 
los mais celebres professores de musica: o Orfeo d^aquelle século ! 
Os seus conhecimentos na sciencia musical, eram sólidos e foi 
principalmente hábil no contraponto. 

Esta apreciação que transcrevemos de Machado, é confirma- 
da por D. Nicol. de Santa Maria, (e) cEra cantor e musico mui 
destro e contrapontista; tangia órgão e craviorgão com notá- 
vel arte e graça; tangia também viola d^arco e tocava harpa.» 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 15 

Pode ser que Iiaja exagero n^estas apreciaçSes; em todo o 
caso, é inegável; que Paiva foi mn artista de muitissimo mérito 
e que excedia em amptidões artisticas a maior parte dos seus 
coUegas contemporâneos, em cujo numero se contavam (limitan- 
do-nos a Portugal) muitos compositores e artistas de mérito dis- 
tincto. 

Egualmente apreciável como artista e como homem, Paiva 
unia aos seus vastos conhecimentos litterarios e artisticos, uma 
modéstia pouco vulgar em homens doesta qualidade. 

Regeitou por differentes vezes os offerecimentos generosos de 
D. João lu, seu colaço, (f) e que outros com mais ambição, teriam 
de certo aceitado com jubilo; um bispado, não era cousa que se 
desprezasse, sobretudo n^aquclla epoc-a tenebrosa, em que um pre- 
lado era um pequeno déspota na sua diocese ; em logar de cor- 
deiro — um lobo. 

Morreu em Coimbra, a 20 de Dezembro de 1552. Resta-nos 
rectificar um erro commettido por Manoel do Cenáculo (g) ; o ver- 
dadeiro nome de Paiva, é Heliodoro e não Hilário, como o Arce- 
bispo de Évora indica em uma das suas obras. 

As suas numerosas coinposiçSes existiam em Ms. no mos- 
teiro da sua ordem, em Coimbra e eram : 

1.) Varias Missas. 

2.) Collecção de Motetes a varias vozes, para varias festi- 
vidades ^ eram: mxd stmves, (h) 

3.) Varias Magnificais a canto de Órgão. 



(a) Comte de Racz\Tiski : Dictionnaire kistorico-arttsiique du Portu- 
gal^ pag. 217. 

(b) Taborda, Begras da Arte da Pintura y pag. 155. B. de Castro, 
Maj]^ de Portugaly pag. 362. 

(c) Lista, pag. 37. 

(d) BibL Lu9it, Vol. ii, pag. 432, 433. 

(e) Chranica dos Cónegos regrantes^ Vol, ii, pag. 329. 

(f ) A mae de Paiva, tinha sido ama doeste personagem. 

(g) Memorias hiatoricas do ministério do púlpito, Lisboa, 1776, § quar- 
to, pag. 134 e 135. 

(h) Chronica dos Coneg. regr: Vol. ir, pag. 329. 



16 ÓS MÚSICOS PORTUGUEZES 

PAEILiO (José Joaquim de Oliyeira) — Primeira rioletta no 
theatro do Funchal, onde residia no principio d'e8te século; as 
suas composiçSes sacras: Mii9as, Matinas e um Requiem, ca- 
recem de inspiração (P. de Vaxel); parece que escreveu também 
alguns trechos para o seu instrumento. Deve ji ter fidlecido ha 
bastantes annos. 

PALHá. (Fr. Affonso de) — Nasceu em Portugal, onde estu- 
dou a musica; residiu durante a maior parte da sua yida em 
Córdova, onde morreu em 1450 ; as suas composições sacras eram 
numerosas e bastante distinctas pela elegância do seu estylo. 

PALOHINO (José) — Musico que viveu em Portugal no fim 
do século passado. Instrumentista da Camará de S. M. F. a Bai- 
nha D. Maria i. 

Descobrimos este musico em uma DissertaçSo de Solano, (a) 
ji por vezes mencionada. N'ella encontramos dois Sonetos d'este 
artista; um dedicado i Musica, na occasiSo em que Solano recita- 
va o discurso mencionado, outro feito para o mesmo dia, em hon- 
ra da Purissima ConceiçZo de Nossa Senhora. 

Julgamos satisfazer 'a curiosidade do leitor, transcreven- 
do-os do impresso do theorico portuguez. 



i MUSICA 



Tu bella irmft 4a doce Poezia, 

Que a0 duras magoas em prazer trocando, 
Os tristes corações arrebatando, 
8offocas n'alma a muda hjpicoiidria : 

Tu, que a sonora magica harmonia 

Nas sombrias cavernas espalhando 
Plutão, e as negras Fúrias abrandando 
Eoridice trouxeste á luz do dia : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 17 

Ta, que a bravos Leòes domaste a sanha, 
Ouve os louvores de que és so dina, 
Jamais te seja a minha Musa estranha : 

Baive-se embora a inveja viperina, 

Em quanto os coraçues de gosto banha 
O alegre som da Musica Divina. 

II 

Á puríssima conceição de nossa senhora 

Tu, que por lei dos immortaes destinos 

Geraste o grande Deus, que a egreja adora 
Tu, que és das virgens Vir^nal senhora, 
i Ouve no Cóo cantar teus gratos Hjmnos. 

Sc das altas virtudes pouco dinos 

SSo 08 louvores, que eu decanto agora 
Ao som da branda Musica sonora, 
Suba teu Nome aos Astros Crjstallinos. 

Respeita o Mundo os teus merecimentos ; 
Solano, anime o teu louvor, em quanto 
A Musica suave enfrca os ventos : 

Froteje, quem proteje esta Arte tanto ; 
£ as doces Vozes, doces Instrumentos 
Sirvtto só de louvar teu Nome Santo. 

(a) DUêertação sobre o Caracter, Quálidadea e Antiguidades da Mu- 
ncOf pag. 25 e 26. 



PAREDES (Pedro Sanches de) — Beneficiado e Organista da 
egreja de Óbidos. Viveu na primeira metade do século xvii e 
morreu na capital, em 1635. Foi egualmente instruido nas Le- 
tras e nas Artes; deixou-nos: 

1.) Lamentações paraim Semana Santa^ a differentes vozes. 

2.) VilJiancicos para a Festa do Natal; estas obras existiam 
em manuscripto na egreja d'Obidos, quando Machado escrevia a 
Bibliotheca Lusitana. 



18 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

PAULINO (João) — Bom violoncello da Opera (S. Carlos) 
peloB annos de 1822 ; suppomos ter fallecido. 

D. PEDRO I — Oitavo rei de Portugal; nasceu em 1320, 
começou a reinar em 1357, e morreu em 1367. Ao seu nome 
anda ligada a sentidíssima tradiçilo dos amores de Ignez de 
Castro, e algumas outras lendas terriveis, provas da impassibili- 
dade da sua justiça. 

A tradiçãlo litteraria também o considera como um trovador 
da eschola provençal portugueza, no periodo jogralesco, e até 
ha pouco ainda se lhe attribuiam três poesias que andam no 
Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, (a) El-Rei D. Pedro 
comprehendeu perfeitamente o espirito do poder monarchico, 
e foi imi dos que mais restringiu a prepotência dos fidalgos e do 
alto clero portuguez; o seu instincto de justiça, tomava-o commu- 
nicavel com o povo, e assim talvez sem o conhecer, infundiu-Ihe 
a consciência da sua força, como mais tarde se mostrou na exis- 
tência do jBroço popular, na acclamação do D. João I. 

Ao contrario de todos os monarchas da Europa, que, leva- 
dos pelo cultismo provençal, despresavam a poesiapopular, El-Rei 
D. Pedro, tomava parte nas festas publicas, fazia- se acompanhar 
dos pobres jograes, e alegrava-se com as suas danças e cantile- 
nas. E por isso, que o povo dizia d'elle : que ou nunca devera ter 
nascido, ou nunca devera morrer. 

NSo querendo que o espirito publico se effiminas^e com as 
musicas requebradas das cançSes provençaes, prohibiu todos os 
instrumentos, que não fossem a trompa ou a cometa; seguia a 
mesma intenção das Leis de Partidas, que prohibiam aos caval- 
leiroB, o darem ouvidos aos cantos que não versassem sobre fei- 
tos de armas, (b) 

O seu talento artístico reflecte*se em seu filho El-Rei D. João i, 
que amava a musica, e que chegou a eicrever : Pscdmos certos pa-- 
ra finados, dos quaes fala o Leal Conselheiro. Aqui extractamos 
alguns factos que nos mostram o sabor artístico dos divertimen- 
tos de D. Pedro i. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 19 

cOutras cousas assinaladamente achamos pela major parte, 
em que ElRey D. Pedro de Portugal gastava seu tempo, v. g. 
em fazer justiça, e desembargos do Reyno. em monte, e caça, de 
que era muy inclinado, e danças, e festas, segundot aquelle tem- 
po, em que tomava grande sabor, que a duro he agora para ser 
crido. Estas danças erSo a som de huas trombetas, que então usa- 
vaS, na3 curando de outro instrumento, posto que ahí o houves- 
se, (c) Se alguma vez lho queriaS tanger, logo se en£Eidava delle, 
6 dizia, que o dessem ao demo, e que lhe chamassem os trombetei- 
ros. Ora deixemos os jogos, e festas, que ElRey ordenava por 
seu desenfadamento, nas quaes de dia, e de noite andava dançSr 
do, por mvLj grade espaço; mas vede se era bem saboroso jogo, 
vinha ElRej em bateis de Almada para Lisboa, e sahia8-no a 
receber os Cidadiíos, e todos os Misteres, com danças, e trebe- 
Ihos, segundo estonse usava3, e elle sahia dos bateis, e metia-se 
na dança com elles; e assim hia atè o Paço. 

E reparay se foj bom desenfado, e graça: jazia ElRej em 
Lisboa huma noite na cama, e porque na3 lhe vinha sono para 
dormir, fez levantar os moços, quantos dormiaS no Paço, e man- 
dou chamar João Matheus, e Lourenço Paulos, que trouxessem 
as trombetas de prata, e fez acender tochas, e meteo-se pela 
Villa em dança, com outros; as gentes, que dormiaS sahiraS às 
janellas a ver que festa era aquella, ou porque se fazia; e quan- 
do virão daquella maneira a ElRey tomáraS prazer de o ver as- 
sim alegre, e andou ElRey assim gra8 parte da noite, e tomou-se 
ao Paço em dança, e pedio vinho, e frutas, e lançou-se a dormir. 

Na5 curando mais de falar em taes jogos; ordenou ElRey 
de fazer Conde, e armar Cavalleyro a João Áffonso Tello, irmão 
de Martim Affonso Tello, e fez-lhe a mayor honra em sua festa 
que até aquelle tempo fora vista, que Rey algum fizesse a seme- 
lhante pessoa. Porque ElRey mandou lavrar seiscentas arrobas 
de cera, de que fizeraS cinco mil cirios, e quando o Conde hou- 
ve de velar as suas armas no Mosteiro de S. Domingos dessa Ci- 
dade, ordenou ElRey que desde aquelle Mosteiro até os seus Pa- 
ços, que he assaz grande espaço, estivessem quedos outros tantos 



JO os MÚSICOS PORTUGUEZES 

mil homeiui) todos, e cada hum com seu cirío na ma3 acezo, que 
davaS todos muitos grandes lumes, e EIRey com muitos Fidalgos, 
e Cayallejros andava por entre elles dançando, e tomando sabor; 
e assim despendera? graS parte da noite, e ao outro dia, estavaS 
grandes tendas armadas no Rocio a cerca daquelle Mosteiro em 
que havia grandes montes de pa3 cozido, e assaz tinas de vinho, 
e logo prestes copos porque bebessem, e feira estavaS ao fogo va- 
cas inteiras em espetos a assar, e quantos comer queriaS daquella 
vianda, tinhaS-na muito prestes, e a nenhum era vedada; e assim 
estiveras sempre, em quanto durou a festa, na qual foraS arma- 
dos outros Cavalleyros, cujos nomes naS curamos dizer.» (d) 

Esta citação, dá-nos algumas ideias para a Historia dos. cos- . 
tumes da corte de D. Pedro i e ao mesmo tempo indica-nos a 
' maneira, como o povo participava das festas da corte, regalan- 
do-se em comezainas estupendas, onde matava a fome por alguns 
dias, 

ia) Cancumeiro gercU, folh. 72, edicç2o de 1516. 
rb; Part n, tit xxi, lei 20 e 21. 

[c) Vide a lei que prohibia o uso de todos os instrumentos, que liSo 
£of«em ou tranUtettoê ou trompas. 

(d) Chronica de ElBey D. Pedro 7, secundo Fernão Lopes, pelo P.« 
J. P. Bayam. Lisboa, 1760, pag. 76, 77 e 78. 

D.PEDRO IV. (António José d'Alcantara)— Como já por ve- 
zes fizemos no decurso doeste livro, deixamos & historia o trabalho 
de apreciar os erros e os acertos politícos d'este príncipe, para nos 
occuparmos imparcialmente da parte da sua biographia que en- 
tra na natureza d'esta obra. A historia ji o julgou, a Arte não. 

De novo aqui repetimos, que nSo vendamos os olhos á cri- 
tica, que nSk) nos guiamos por um patriotismo mal entendido e 
que forceja por não vêr os defeitos dos artistas nacionaes, para 
pelo outro lado examinar as suas qualidades atravez de um mi- 
croscópio; seguimos o caminho que a sS razão nos aponta, espi- 
nhoso sim, mas o único certo e que conduz & Verdade. 

Nasceu em Lisboa em 1798, a 19 de Outubro. A suaeduca- 
^ foi desprezada, o que devemos agradecer ao snr* D. JoSo vi. 



os MÚSICOS PORTUGTJEZE» 81 

e principafanente á 8iir/ D. Carlota Joaquina, de saudosa me- 
moria! Se o príncipe se desenvolveu depois, foi isso. devido á sua 
esoellente organisaçSo e firme vontade. Foi no Brazil, para onde 
tinha partido em Novembro de 1807 com seus pães, fugindo 
covardemente diante das águias gloriosas de NapoleSo — que re- 
cebeu aa primeiras liçSes de composiçãLo de Neukomm (a) e apr«i* 
deu a tocar alguns instrumentos, (Fagotte, flauta, rabeca. . .) 
quasi sem auxilio de mestres. 

Durante a sua estada em Paris, escreveu uma Opera em 
portuguez, cuja Ouverture foi tocada no Théâtre-Italien, em No- 
vembro de 1832. Também compoz vários trechos de musica reli* 
giosa, uma Symphonia a grande orchestra e o Hymno da Consti^ 
tuiçSo, gravado em Dresden (Frise) e em Hamburgo (Boehme). 

O antigo Conservatório africano (b) do Rio de Janeiro, de- 
veu-Ihe mui valiosa protecçSo durante a sua estada no Brazil. 
Moiren a 24 de Septembro de 1834. 

Ta) 1778-1858. Celebre organista e compositor notável. Foi Mestre da 
Capella de D. Pedro vr, no Rio de Janeiro, durante quatro aanos, logar qua 
era generosamente retribuido. Foi discipolo de Michael Hajdn e depois 
de sen illustre irmão : Joseph Hajdn. 

(b) Vide a Biographia de José Maurido Nanes Garcia« 

PEDRO (João)— Publicou uma: 
Arte de viola franceza^ em 1839. 

PEDROSO (Manoel de Moraes) — Natural de Miranda e au- 
tbor de um livro de theoria musical com o nome de : 

Compendio musico ou ÂHe abfyreviada em qm se contm. as 
regrais mais necessárias da Cantoria', Acompanhamento e Contra- 
ponto. Porto, na Officina do capitSo Manoel Pedroso Coimbra — 
1751 in-4.*^, de 47 pag. 

O livro é offerecido á mais fiarmoniosa cantora do Ceu: Ma- 
ria Santíssima, com o soberano titulo da: Assumpção, 

A parte relativa á Cantoria, conta 12 pag. ; a do Acompa- 
nhamento, outras tantas; a do Contraponto segue até 45. índice, 
no£m. 



22 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Esta ediçSo é preferível á de 1769, (segunda) pela nitidez da 
impressão, que é em caracteres vermelhos e pretos ; pelo menos 
assim o vimos em um exemplar que está em poder do professor 
C. Dubini no Porto, que teve a amabilidade de nol-o mostrar. 
A impressão de 1769, é feita não só em typo preto, mas também 
mais imperfeito e em papel mais ordinário. Também não encon- 
tramos nos exemplares d'esta ultima edição a declaração impres- 
sa do Privilegio, que D. José concedeu ao author durante 10 
aonos, e que vem no fim da edição de 1751. 

Temos noticia de uma segunda edição, feita egualmente no 
Porto, na Oíficina de António Alvares Ribeiro Guimarães. Anno 
de 1769 ; e á sua custa impressa. 

PEGADO (Beato ou Bento Nunes) — Viveu no principio do 
século XVII, e foi um dos melhores discipulos de António Pinhei- 
ro e depois, seu rival (a). Dirigiu a Capella da Cathedral de 
Évora. 

A Bibliotheca de Lisboa, possuia as seguintes obras doeste 
author, em manuscripto: 

1.) Parce Domine a 7 vozes; motetepara a Quaresma. 

2.) Hei mihi Domine a 6 vozes; responsorios de Defuntos, 

3.) IR sunt qui cum muiieribtu non sunt coinquinati; mo- 
teto dos Santos Innocentes. 

4.) Ad te suspiramus; motete para a festa de Nossa Se- 
nhora, 

(a) Btbl, lAiait, YoL i, pag. 507. 

PENA (Peixoto da) — Natural de Traz-os-Montes e o mais 
famoso e perito instrumentista que se conheceu no seu século. 
A responsabilidade d'esta asserção, cabe a Macedo (a). Baptista 
de Castro (b) reproduziu-a, e é do seu livro que a transcrevemos. 
Cedemos a palavra ao nosso collega do século passado; perdoe o 
leitor; o estylo de Castro não é dos melhores, mas: Variatio de- 
hctat. Ahi vae pois a historia: 



os MÚSICOS PORTUQDEZES 23 

cÂchando-Be em Castella e no Paço do Imperador Carlos v, 
se admirou elle (Pena) que os Músicos temperassem os seus ins- 
trumentos ; ellea zombando, Ihé deram uma viola destemperada, 
para que tangesse: pegou n^clla Peixoto, e de tal maneira regu- 
lou a positura variável dos dedos, que soube produzir consonan- 
cias e suspender docemente os ouvintes.» 

Por esta narração se conhece a antiguidade dos tours de force 
entre os nossos artistas. Em todo o caso a difficuldade era séria. 
Pena devia ter um ouvido perfeito ; além d'isso devemos ter em 
conta a doce suspensão dos ouvintes, que também deve valer ai- 
g^uma cousa, visto o auditório ter sido composto de artistas que 
deviam^saber distinguir o bom do mau. 

Em uma folha volante, que por um acaso nos veiu á mSo 
e que nem mesmo suspeitamos a que livro possa pertencer, en- 
contramos uma referencia curiosa á anedocta histórica que acima 
transcrevemos. 

Eil-a: 

cLá rompe um estrepitoso baile ao som das castanhetas &- 
voritas e d'uma viola tocada por um franciscano quasi tSo afama- 
do tangedor n^este paiz, como na corte do imperador Carlos Y, o 
Peixoto da Pena. etc.» 



ffi 



Macedo. Eva e Ave, part. i, C 23^ num. 8. 
Mappa de Portugal j vol. ii, pag. 352. 



PENITENCIA (Fr. António da)— Nasceu em Lisboa em 1605 
e professou o instituto franciscano no convento de Vianna do 
Alemtejo, a 28 de Novembro de 1622. 

Foi bom cantor e Vigário do Coro, no mosteiro de Arraiolos, 
(Évora) onde morreu a 14 de Dezembro de 1648. 

Deixou : 

Varias Obras de Musica; que nSo conhecemos. 

PEREIRA (P.* António) — Compositor de musica sacra. Nas- 
ceu em 1725 em Lisboa; as suas obras perderam-se com a rui- 
m^ da Bibliotheca de D. JoSo iv. 



S4 OS MÚSICOS PORTUGXJEZES 

Eram: 

1.) Diversoê misscLS, a4 e8 vozes. 

^.) Magnijicat, a 8 vozes, etc. 

PEREIRA (Domingos Nunes) — Natural de Lisboa, onde nas- 
ceu no meado do século xvii. Foram seus pães, Diogo Ribeiro e 
Brígida da Costa. Esteve por muitos annos á testa da Cathedral 
de Lisboa, tendo primeiro exercitado o mesmo cargo na Miseri- 
córdia d^essa cidade. Poucos annos antes da sua morte, rctirou-se 
para uma propriedade que possuia no logar de Camarate, perto 
de Lisboa e ahi morreu a 29 de Março de 1729. Foi sepultado 
na Capella-Mór da Ermida de S. Pedro, á entrada do logar de 
Camarate. 

Fétis, (a) dá-o como pertencendo á ordem de S. Domingos e 
fallecido no convento da sua ordem em Camarate ; não é exacta 
esta affirmaçSLo, pois que o mosteiro de Nossa Senhora do Soccor- 
ro, que é aquelle, de que o musicographo belga falia, não perten- 
cia a ordem dominicana, mas sim á dos carmelitas calçados. 

Machado (b) chama-o simplesmente : presbt/tero* 

As suas composições eram entre outras: 

1.) Responsorios da Semana Santa, a 8 vozes. 

2.) Idem dos Officios de Defuntos, a 8 vozes. 

3.) Li^s de Defuntos, a 4 vozes. 

4.) Confitebor, a 8 vozes. 

5.) Laudate pueri Dominum, a 8 vozes. 

6.) Laudate Dominum omnes gentes, a 4 vozes. 

7.) Vilhancicos e Motetes, a 4, 6 e 8 vozes. 



faj Btoffr, Univ., vol. vi, pag. 482. 
^b) BibL Lu8it.<f vol. i, pag. 714. 



PEREIRA (Harcos Soares) (a) — Lmão do celebre Jo8o Lou- 
renço Rebello. Nasceu do casamento de João Soares Pereira e 
D. Domingas Lourenço Rebello, filha de Gronçalo Bebello da Ro- 
cha e D. Maríanna do Valle. Presbytero e Mestre da Capella du- 
cal de Villa-Viçosa; nasceu em Caminha no fim do século xvié 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 23 

D. João iv chamou-o depois a Lisboa e entregou-Ihe a di- 
recção da soa capella. Ahi morreu a 7 de Janeiro de 1655. 

Deixou em manuscripto muitas Missas, Psalmos, Motetes e 
Responsorios, que existiam na Bibliotheca real antes do terre- 
moto. 

As principaes eram: 

1.) Missa a 12 vozes. 

2.) Psalmos de Vésperas, a 12 vozes. 

3.) Psalmos de Completai, a 8 vozes. 

4.) Psalmo terceiro da Sexta feira, a 8 vozes. 

5.) Motetes: 

Um a 4 vozes. 
Dois a 5 vozes. 
Dois a 12 vozes. 
6.) Dois Responsorios da Festa da Conceição, a 8 vozes. 
7.) Invitatorio de Defuntos, a4 e8 vozes. 
8.) Idem, a8 e 16 vozes. 
9.) Te Deum Laudamus, a 12 vozes. 
10.) Calenda de S. Clara, a 8 vozes. 
11.) Calenda de S. Francisco, a 8 vozes. 
12.) Calenda de S. João Baptista, a 8 vozes. 
13.) La bella Madrina: Si a ser Madrina vas Juana, etc. 
TonOy (b) vem nas Obras metric€is de D. Francisco de Mello, 
Avena de Terpsichore. Tono xxi. 

14.) Haviendo llegado dos Damas a su Porteria para subir a 
Pcdacio, se hallava dormido el portero a quien llamaron en va- 
no;y por celebrar esta accion, seescrvio este Tono. Buelen nues- 
trás seiloras etc. Tono xxii, ibid. 

15.) Jacarilha de devacion el lajiesta de S. Francisco : Quien 
es aquel de lo pardo etc. Tono xxv, ibid. 

O estylo de Marcos Pereira, assemelhava-se muito ao de seu 
irmão, que elle tinha escolhido para modelo. 

(a) Fétís. Bioffr. Univ., vol. i, pag. 483, diz Salvador; parece-me ser 
engano, assim como o facto do seu nascimento em Villa-Viçosa. 

(b) A respeito doeste género de composição, veja-se a biofçraphia de 
Fr. reupe da Madre de Deus e de D. Francisco Manoel de Mello. 



26 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

PEREIRA (Thomaz) — Nasceu em S. Martinho do Yalle, con- 
celho de BarcelloSy em 1645, sendo filho de Domingos da Costa e 
Francisca Antónia. 

Pertenceu á Companhia de Jesus^ cuja roupeta vestiu a 23 
de Septembro de 1663 e foi missionário na China^ para onde tinha 
partido da índia, em 1680, segundo uns, e segundo outros, em 
1692 (a) com um padre do mesmo nome: Thomaz Pereira, (b) Ca- 
ptivouahi a estima do imperador, que soube sempre conservar até 
á sua morte, occorrida em 1692 em Pekin. 

Gerber, diz que alguns escriptores suppoem, ter sido a Mu- 
sica e o talento de Pereira n'esta Arte, a causa da grande influen- 
cia que este artista exercia sobre o animo do imperador. 

Diz ainda o author allemSo, que este jesuita fazia um papel 
muito importante na corte do celeste império desde 1680 até 
1692 • Em uma carta ao imperador, gabou-se Thomaz Pereira de 
elle e seus collegas, terem trabalhado já ha 20 annos na con- 
fecção de varias obras scientificas, entre outras em uma sobre a 
Musica. Também attribuem a este escriptor a factura do grande 
OrgSo que existia entSo no CoUegio dos Jesuitas em Pekin. 

O Christianismo deve a Pereira um serviço importantissimo, 
pois foi elle quem negociou o tratado pelo qual se permittiu a ce- 
lebração do rito catholico em todo o império chinez. 

Escreveu e publicou (c) na lingua Sinica (d) um Methodo de 
musica practica e especulativa, dividido em 4 partes, que o impe- 
rador mandou traduzir em tártaro; suppomos esta obra perdida, 
porque nunca ouvimos fallar d'ella. E a eterna infelicidade da sor- 
te, que persegue as nossas cousas artísticas! 

A ser verdade o que dizem Forkel e Gerber, parece que dei- 
xara eomposiçSes escriptas em lingua chineza : Ging nach Indien 
vo er Vieles in chinesicher Sprache componirt hat. 

Não posso sequer imaginar, d'onde Forkel tirou esta noticia; 
cita Machado, porém o author portuguez nada diz a este respeito. 

Gerber (e) affirma também este facto curioso, dizendo: Ausser 
vielen Oesãngen, welche er in chinesischer Sprache in Mueik 
gesetzt hat, hat er auch in Mstj hinterlassen: Musica etc. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 27 

D'esta citação, conclue-se que as composiçSes eram cân- 
ticos ou hymnos sagrados, (Gesange) talvez para uso dos pro- 
seljtos. Temos os dois escriptores alIemUes por demasiadamente 
conscienciosos e verdadeiros, para suppôr que esta noticia fosse só 
mna mera invenção. 

(a) Fétís. Biogr. Univ,, vol. vi, pag. 483 e Gerber, HisL hiogr. Lex, 
voL II, pag. 103, indicam: 1680; a data 1692, que é menos provável, ba- 
seia-se Forkel, ÂUgem, Literat, 498, e em Machado, BibL IauU, toL iii, 
pag. 746. 



>^ Machado, Btbl. Lustt, vol. iii, pag. 746. 



íc) Machado, ibid.j dá este tratado como manvscripto. 

rd) O Bispo-Conde, Lista, pag. 49, diz que estava escripto em ehinez. 

[e) N, hisL biogr. Lex. YoL ui, pag. 674. 



PEREZ (David) — A respeito d'este artista^ vide a Nota s. 
da biographia de D. José. Como a sua importância está concen- 
trada na Historia da Opera italiana, reservamos para entSo imia 
noticia mais extensa. 

PIMENTEL (Pedro) — Excellente organista ; morreu em 1599 
c deixou uma CollecçHo de composições para órgão, intitulada: 
Livro de Cifra de varias obras para se tangerem no Órgão. 
Machado (a) julga que fora impresso. 

(a) Btbl. Lusit.y vol. m, pag. 610. 

PINNA (António de) — Poeta e compositor. Ignoramos as suas 

circumstancias pessoaes. Compôz e imprimiu : 

Vilhancicos; primeira e segunda parte ; in-S.^ 

Oerber (a) suppSe ter sido, não só o author da musica, mas 

também da Icttra. 

(a) Neues hist. hiogr. Lexicon der Tonkãnstierf vol. m, pag. 716. 

PINNA (Manoel de) — Artista que pertenceu á Capella Real 
de Lisboa, no começo do século xvii. Publicou: 



í 



S8 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Vilhancicoê y Romances à la ncdividad de JetUrChrUto y 

oiros Santos» 

PINEDO (Thomaz de) Lusitanas — Author theoríco. No seu 
Commentario Auctorwn, dedicado a Stefano de Urbibus Axostel. 
Edit.y 1678, foi., encontram-se excellentes dissertaçSes sobre a 
Musica Maihematica e a Arithmetica Analógica* 

PINHEIRO (António) — Foi um dos mais distinctos composi- 
tores poii;uguezes no estylo sacro; Mestre da CapeUa ducal de Villa- 
Yiçosa e depois da Cathedral de Évora. 

Nasceu em Montemór-o>Novo (Âlemtejo) e foi discípulo do 
celebre Francisco Guerreiro, com quem segundo Machado che- 
gou a rivalisar. 

Formou excellentes artistas (a) e morreu com um nome in- 
vejável, a 19 de Julho de 1617. Deixou entre muitas composi- 
ções notáveis, a seguinte, que é também a única que vem citada 
nsL Bibliotheca Lusitana. Intitula-se: 

Cântico da Magnificai, a differentes vozes, foi. gr. Esta obra, 
mna das mais notáveis de Pinheiro, desappareceucom a destrui- 
çSk) da Bibliotheca preciosa de D. João iv. 

Tantos annos de trabalho, annuUados em alguns minutos ! 

(a) Vide as tabeliãs STnopticas das differentes escholas portuguezas. 

PINHEIRO (João) — Bom compositor. Nasceu em Thomar, 
onde foi religioso professo da Ordem de Christo ; morreu duran- 
te a primeira metade do século xvii. Na Bibliotheca Real da 
Musica, encontravam-se algumas composições de Pinheiro; outras, 
existiam no mosteiro de Thomar. Citamos as de que podemos ob- 
ter noticia exacta: 

1.) Ave regina codorum, a 12 vozes. Estante 36, N.® 815. 

2.) Afflictio mea, a 6 vozes. Estante 36, N.** 810. 

3.) Domine sinefurore tuo, a 6 vozes. Estante 36, N.* 809. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 29 

« 

PINHO (António de) — Natural de Abrantes (Extremadura). 
Foi admittido primeiramente como Menino do Coro, crubindo de- 
pois ao grau de cantor. Posto que dotado de bastantes talentos 
musicaeSy as disposições naturaes d'este artista, inclinavam-se 
mais para a poesia do que para a musica. 

PINHO (Manoel de) — Compositor e musico da Capella Real 
de Lisboa, sua pátria. Escreveu: 

1.) Vilhancicoa y RoTnances a la Natividade dei Ni^o Jesuã, 
nuestra Senora y vários Santos, 1.* Parte, Lisboa, por Pedro 
Craesbeck, 1615, in-S.^ 

2.) Vilhaneicos y Romances etc; 2.* Parte. Ibi, pelo mesmo 
impressor, 1618. Dedicados á snr.* D. Antónia Pereira, filha do 
dr. Luiz Pereira. 

PINTO (...) — Violinista e director da orchestra do theatro 
da Rua dos Condes, em 1820. 

PINTO (F.) — Nada sabemos das suas circumstancias pes- 
soaes. 

Conhecemos este artista apenas pela seguinte composiçXo 
para piano. Ignoramos, se será por ventura algum dos músicos 
seguintes : 

1.) Fantasia for two Performers on one Piano-Forte, com- 
posed and dedicated to his particular Friend J. P. Menezes 
Esq.' London. Printed for the Author by L. Lavenu. 

PINTO (Francisco António do Nascimento) — Compositor de 
musica B&CTB,, (Missas) á Casimiro, posto que um pouco superior 
a este. Foi organista em Lisboa, e morreu em 1861. 

PINTO (Francisco de Paula da Rocha) — Natural do Porto; 
nasceu em fins do século xviii, e morreu no meado do nosso sécu- 
lo. Foi um dos maiores amadores que a Musica tem encontrado 
em Portugal; os seus dois irmãos, que foram cónegos da Sé do 



80 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Porto, distinguiram-se também pelo seu gosto'artistico. Franscisco 
de Paula, tocaya piano por mera curiosidade, mas admirava to- 
dos os que o ouviam, pela originalidade de suas composições, que 
eram todas improvisadas. A sua celebridade em Portugal, durou 
de 1818 a 1823. Foi amigo intimo de João José Fernandes 
de Carvalho (a) e era este professor de piano, que escrevia os im- 
provisos d'aquelle bello talento. Francisco de Paula era rico, e 
talvez a esta circumstancia deveu o não ter dado cultura ao seu 
talento musical; esteve em Inglaterra aonde casou antes de 1832, 
e lá se fez admirar como um grande improvisador. 

Transcrevemos mais alguma cousa a respeito doeste amador- 
artista, que Balbi (a) affinna ter sido um verdadeiro phenímeno 
de talento musical. O escriptor italiano diz : 

cSanS' avoir jamais étudié la musique, guidé par son seuI 
génie et les excellents maítres qu' il a eu occasion d'entendre, il 
est parvenu à executer avec autant d'expression que d^exactitude 
des morceaux de la plus grande difficulté, composés par d'autres 
maítres. 

Personne n'a jamais su mieux que lui faire, comme on dit, 
cfianter le piano: ce qui est três rare même parmi les artistes les 
plus distingues. Nous n'avons pas été peu surpris de voir des 
morceaux de sa composition imprimes à Londres, que d^autres 
musiciens avaient notes, et dans lesquels il a su reunir la plus 
brillante imagination et le goút le plus exquis à Tobservation de 
toutes les régies; ses Sonates entre autres, ont beaucoup de mérito. » 

Se Balbi não exagerou o mérito de Rocha Pinto, devemos 
confessar, que foi o phenomeno que elle diz; e então, não se- 
ria fácil suppõr até aonde este amador teria chegado, se vivesse 
n'outro meio artistico, se tivesse tido uma boa educação musical, 
que desenvolvesse o talento extraordinário com que a natureza o 
tinha dotado ; <que teria sido Pinto, se em logar de nascer n'eate 
paiz, onde a Arte vive tão tristemente, tivesse apparecido na 
França ou na Allemanha, onde a Arte é uma religião santa e 
o artista, o seu sacerdote, que vive querido e respeitado pelo rico 
e pelo pobre? 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 31 

Se ao menos ainda houvesse noticia de algumas das compo* 
siçSes de que Balbi falia; porque é que o escriptor nSo as ennu- 
merou? 

Que desleixo, que incúria ! 

Quem sabe, se elle o tivesse feito, até onde se revelaria o 
plagiaio de muito author estéril e impotente, que hoje está go- 
zando de uma reputação fictícia á custa do talento do nosso com- 
patriota !- 

Depois de traçarmos estas linhas, facilitou-nos o acaso o 
exame de algumas composiçSes d'este bello artista. E verdade, 
que sSo apenas umas pobres migalhas ; comtudo, n^ellas se mani* 
festa a força de um talento pouco vulgar: 

1.) WaUa. Ms. 

2.) Sonatina, Ms. Doesta composiçSlo existem duas copias 
separadas do Rondo final. 

3.) Wàlsa, Ms. composta para os annos de sua mulher. E in- 
teiramente desconhecida, porque Francisco de Paula, nunca deu 
copia d'ella a ninguém ; a que actualmente existe, foi escripta de 
memoria. 

4.) Thema, Ms. de Rocha Pinto, variado por João José Fer- 
nandes de Carvalho. 

5.) Mais três VahdSj em Ms. 

Entre estas composiçSes, distinguem-se principalmente as 
soas VciUcLs; n'ellas se revela um grande sentimento artístico 
que varia incessantemente as suas inflecçoes; embalam-se em 
uma doce rtverie; as ideias tem originalidade e distincçfto; a 
arte, que não falta de modo algum n^çstas pequenas, mas formo- 
sas producçSes, está occulta artisticamente debaixo de uma sim- 
plicidade elegante. 

As suas ideias melódicas, fazem-nos lembrar as inspiraçSes 
vaporosas de Weber, no Oberon o: Elfenreigen! / 

Es schaukeln dio Wellen. . • 



32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

(a) Vide a sua biograpbia. 

(b) Essai êtatistique, vol. ii, pag. ccxi e ocxn. 

« 

PINTO (Francisco António Norberto dos Santos) —Nasceu 
em Lisboa em 1815 e falleceu em 1860. 

A sua educação esteve entregue a varies mestres ; de canto: 
Theotonio José Rodrigues, de rabeca: José Maria Christiano, de 
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim 
Botelho. 

O instrumento da sua predilecção: a Cometa de Chaves, 
aprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre! 

Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real 
de Lisboa, Professor da aula d'instrumentos de metal, Musico da 
real Camará e 1.^ Cometa de chaves na orchestra de S. Carlos. 

As suas composições assaz numerosas, são infelizmente mui- 
to desiguaes; nos seus Bailados e Operetas, revela bastante mé- 
rito, nas suas Symphonias (suppostas; Fantasias orchestradas) 
porém, é muito fraco. 

As suas composições sacras tem melhor reputação. 

Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci- 
tamos: 

\.) A Adoração do Sol. 

2.) A Coroa de Adriano. 

3.) Erkoff. 

4.) O Lago das Fadas. 

5.) O Annel. 
• 6.) 0« Cuscos e os Quitos. 

7.) Narciso á fonte, 

8.) Telenriaco na Ilha de Calypso. 

9.) A Queda de Ipsaia, 
10.) As ModisUxs (cómico.) 
11.) Ermtt. 

12.) Palmyra ou a Nympha do Orbe. 
13.) Os Estudantes em Ferias. 
14.) Branca-jlôr. 



os MÚSICOS FOBTUGUEZES 83 

15.) O Órfão da Ald3a. 
16.) Ahindor. 
17.) Zaide. 
18.) Os dos Oemeos. 
19.) Os Cyganos. 
20.) Nabuco (1 acto só). 

No theatro de D. Maria, dançaram-se os seguintes bailados 
com musica sua: 
21.) O Bolero. 

22.) Hymeneo de Tkétis e Cloé. 
23.) O Alcaide de Faro. 
24.) O Templo de Salomão. 
25.) O Conde de S. Helena. 
26.) O Tributo das 100 donzellas. 
27.) O Estrangeirado. 
28 .) O Mineiro de Cascões. 
29.) O Propheta. 

Em outros Theatros, representaram-se ainda os seguintes; 
30.) A Degolação dos Innocentes* 
31.) Rainha e Aventureira. 
32.) A Familia do Avarento. 
33.) O Alfageme de Santarém. 
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios. 
35.) Baile de Creados. 
36.) As três cidras d^amor. 
37.) A Fada do Fritz. 
38.) Diabo a quatro. 
39.) Os Amores de um fidalgo. 
^Q.) As Raridades. 
A\.) A Odaliska. 

42.) O que convém para a fortuna das mulheres^ Burletta. 
43.) A Casa mysteriosa, Opera cómica. 
44.) O Theatro e os seuà mysterios, Burletta. 
45.) O Dr. Sovina, idem. 

3 



84 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 



MUSICA SACRA 

46.) Quatro Mísbcls, a 4 vozes. 

47.) Quatro Missas, a 3 vozes. 

48.) Três Collecçoes de Officiospara a Semana Santa. 

49.) Diversas Matinas, Misereres, Novenas, Te-Deums, etc. 

MUSICA POPULAR 

50.) Estreias poetico-musicaes, para o anno de Lill, por An- 
tónio Feliciano de Castilho e F. Â. N. dos Santos Pinto. Lisboa, 
1853, de xxxi-67 pag. de texto e de 53 pag. de Musica. 

As differentes peças que compõe a parte artistica d'este li- 
vro, são de todo insignificantes; nem sequer uma ideia original, 
distincta; é tudo de uma vulgaridade chata, exceptuando talvez 
o Hymno dos Lavradores que tem ainda algum movimento. 

O resto: Hymno da Caridade, Invocação a Deus, (digna pro- 
ducçao de um Commendador), Graças ao levantar da eschola, em 
que a phrase do Coro: (Raiou luz na escuridão», é roubada es- 
candalosamente a não sei que Opera italiana, Hymno á distri- 
buição dos Prémios, ideia roubada a outra Opera italiana. 

Ainda nos falta o Hymno do trabalho, musica de Moraes Pe- 
reira. Diz António Feliciano de Castilho: «E incrível a rapidez 
com que este h jmno se propagou na ilha de S. Miguel, até ao fun- 
do da classe menos litteraria e menos cantante. Em poucas sema- 
nas, depois que se estreou na primeira exposição industrial da 
Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes, cantavam-n'o os ope- 
rários nas oí&cinas, os rústicos na lavoira, os descalços pelas 
ruas, as senhoras nas suas casas de lavor e nas suas salas; can- 
tavam-n'o os barqueiros e pescadores; cantavam-n'o os soldados; 
cantavam-n'o os prezos, todos o cantavam. A belleza da musica, 
era a única explicação doeste phenomeno, tinha dado fortuna á 
poesia.» 

Até que emfím acabou a citação; cremos piamente que o 
tal Hymno do Trabalho, produzisse esse enthusiasmo inaudito; 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 35 

o que devemos lastimar, é que o gosto universal estivesse desvia- 
do por tão mau caminho ; o tal Hymno é ridiculo na ideia, na 
forma e na expressão, e de uma trivialidade só comparável ás 
contradanças e polkas que se ouvem por ahi gaitadas no realejo 
ambulante. 

Castilho, recommenda o Hymno como afugentador de somno- 
lencias; é falta de escrúpulo receitar assim, sem mais nem menos 
lUD narcótico tHo forte! 

O resto da musica é ridicula, para não dizer outra cousa. 

Castilho intitula então F. N. dos Santos Pinto um genio tão 
fecundo, como hrilhantefífí 

Casimiro, compositor tmminenteff 

Oh! critica, que apello perigoso fazem á tua generosidade! 

Este livro foi uma tentativa para a introducção da musica 
no ensino das escholas primarias ; ideia generosa, bella, profunda 
e que havia, sendo bem executada, produzir fecundíssimos resul- 
tados. 

Pela iniciativa que n'ella tomaram, são António Feliciano 
de Castilho e F. N. dos Santos Pinto, dignos de todo o elogio. 

A maneira porém, como o segundo se conduziu na sua par- 
te, que é a única que aqui temos de apreciar, foi desanimadora 
e provou do sobejo a sua incapacidade para semelhante aposto- 
lado. 

Era bella a missão, de introduzir um certo gosto artístico 
no povo portuguez ; fazel-o participar d'esse gozo superior quasi 
unicamente reservado para as classes abastadas e levantar-lhe a 
alma abatida; mas a tarefa era superior ás forças dos iniciado- 
res; por isso emmudeceram os apóstolos e perdeu-se a sua dou- 
trina, e ainda hoje passamos pela vergonha, de não termos sequer 
uma ideia de ensino musical nas nossas escholas primarias. 

Norberto dos Santos Pinto, deixou ainda 18 Symphonias, 
(Fantasias para orchestra) grande numero de Solos para diffe- 
rentes instrumentos, varias Marchas para banda marcial e mui- 
tas outras peças de menor importância. 

Como acima dissemos, o mérito doestas composições ó mui 



86 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

diverso; as suas Symphonias por exemplo, sSo de tuna pobreza 
extrema, salvo uma ou outra excepção. 

No archivo do Theatro Académico em Coimbra, existe um 
grande numero d'ellas, intituladas: Gratidão, Reconhecimento, 
etc., etc., dedicadas a pc{][uenos e grandes. 

A insignificância de taes producçSes, revela-se ainda mais 
pela maneira como são intrepretadas e reduzidas á vitima ex- 
pressão musical, por uma orchestra, que outr^ora rasoavel e mes- 
mo boa, é hoje apenas a vergonha da Academia. 

As composições de N. dos Santos Pinto, ressentem-se em 
geral, da falta de originalidade nas ideias e de vigor de concepção. 
Casimiro, o inaugurador da musica verdiana, applicada impia- 
mente ao estylo sacro, teve infelizmente bastante influencia sobre 
este artista, que, seguindo então o impulso da moda, perdeu gran- 
de parte da sua individualidade. 

Um outro compositor teve também parte nas suas producçSes; 
foi Verdi. 

Não houve influencia musical que mais tyrannicamente di- 
rigisse o gosto do publico em Portugal, como aquella que exerce- 
ram as operas de Verdi desde o apparocimento do Trovador. Sem 
querermos analysar aqui, se foi nociva ou não, tal influencia, 
limitar-nos-hcmos a dizer, que o nosso compatriota soffreu com 
ella. Se teve algum dia poesia na alma, substituiu-a com La 
donna é mobile 

PINTO (Jorge Frederico) — Este artista e o que segue, fi- 
guram n'c8te livro, como filhos de família portugucza, comquanto 
nascessem ambos em Inglaterra. 

Esta ultima clrcumstancia, que foi meramente filha do acaso, 
não tem para nós o valor da primeira, que se refere aos laços do 
sangue; por isso não hesitamos agora, nem temos hesitado até 
aqui, em proceder d'esta maneira; demais, sempre será bom re- 
cordar estos nomes sympathicos, votados sem razão a imi silen- 
cio ingrato. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 87 

Jorge Frederico Pinto, nasceu em Lambeth a 25 de Septem- 
bro de 1805. 

A sua avó, a celebre Miss Brent (a) deveu a sua educação, 
que bem dirigida por esta senhora de talento, produziu mais 
tarde os melhores frutos. 

As tendências musicaes que a creança manifestou, foram 
desde logo aproveitadas. 

Os seus progressos na rabeca foram tão rápidos, que, ainda 
mui novo, já tocava em publico Concertos no seu instrumento. 
Apenas chegado aos 8 annos, foi necessário despedir o primeiro 
Mestre de rabeca, porque o discipulo já o excedia, e assim foi con- 
fiada a direcção do joven artista a Salomon, (b) Director da Opera 
dd Londres, que vendo as bellas disposiçSes do joven, se prestou 
generosamente a ensinal-o, sem retribuição alguma. 

As liçSes e os conselhos d'este artista consciencioso, foram 
de grande utilidade para J. Pinto que, salvo algumas pequenas 
indisposiçSes, filhas do seu génio juvenil, conservou sempre uma 
lembrança saudosa e um profundo respeito pelo seu benemérito 
professor. 

Jorge Pinto, depois de vencer as grandes diíBculdades da 
rabeca, dedicou-se também ao piano, para ter recursos mais segu- 
ros, poder dar mais liçSes e exercitar-se melhor na composição. 
A rabeca ficou desthronada por este ultimo instrumento, que ficou 
sendo o seu favorito. Em pouco tempo aperfeiçoou-se de tal ma- 
neira, que, apenas com 12 annos, foi contratado para tocar Con- 
certos de Piano no Theatro de Covent-Garden, e os applausos que 
ahi obteve, espalharam pela Inglaterra a fisuna do seu nome. 

Egual enthusiasmo o acompanhou sempre nos BathrConcerts 
e nas reuniões musicaes de Oxford, Cambridge e Winchester. 

Em 1820 partiu para Edimburgo como seu professor, e per- 
correu em seguida as principaes cidades da Escossia, deixando 
em toda a parte muitas saudades do seu talento e das suas bellas 
qualidades. 

Em seguida a esta excursão artística, passou a França, on- 
de foi acolhido com toda a distincção; voltou ainda no anno se- 



38 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

guinte (1821) a Paris, recebendo os mesmos calorosos applaaflos, 
e regressou a Inglaterra, acompanhado pela fama e pela fortuna. 

Aos 16 annos apresentou a sua primeira composição em que 
tinha introduzido a melodia venetianna: Mamma mia (c) e mna 
ária franceza, tirada da Opera : Richard CcBur de Lion, 

Este primeiro ensaio teve a felicidade de attrahir aattençSo 
de Johann Cramer, (d) que teve sempre uma opinião mui distincta 
dos seus talentos artisticos. 

As outras composições seguiram-se com pequenos interval- 
los, sustentando-se o seu author sempre n'uma altura respeitável. 

Em 1825, encontramol-o em Birmingham para onde tinha 
sahido a fim de dar um concerto. Uma constipação que ahi apa- 
nhoU; complicada com uma tosse forte, por ter dormido n'uma ca- 
ma húmida, foi o principio da doença que lhe destruiu a saúde. 

O pouco cuidado com que tratou este incommodo, produziu 
uma expulsão de sangue, todavia atalhada a tempo pela habili- 
dade de um medico eminente. 

Porém o génio pouco cauteloso de Pinto, não evitou os in- 
commodos futuros, até que uma segunda constipação provocou 
uma hemorrhagia, e postoque fosse curada a tempo, não deixou 
todavia de produzir mais tarde effeitos funestos. 

Tendo sido convidado em Novembro de 1825, para dirigir 
e tomar parte nos 7 concertos annuaes de Oxford, não pode as- 
sistir senão a um e aindaque muito doente, não desceu da sua 
reputação. 

Foi esta a ultima audição artistica que deu ; sahiu de Oxford, 
e retirou-se para New Road, onde esperava, longe da sociedade 
e do bulicio, recobrar a saúde e terminar algumas composiçSes 
importantes. 

As melhoras eram poucas ao principio, mas tendo-se mani- 
festado depois symptomas favoráveis, mudou de ares, por conse- 
lho dos médicos e acceitou o convite de um amigo que residia 
em Mitcham, condado de Surrey. Os cuidados que ahi lhe dis- 
pensaram e que previam tudo o que podia contribuir para o seu 
restabelecimento, produziram uma convalescença; porém os seus 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 39 

amigos nSo o poderam fixar por mais tempo e asaim tiveram de 
ceder ao seu desejo de voltar para New Road. 

Sua mae, inquietada com estas alternativas de saúde e de 
doença, aconselhou-lhe o celebre Dr. Pitcaim; entretanto toda a 
BoUicitude e toda a sciencia do grande medico de nada valeram, 
a.onde a medicina já nSo podia prestar auxilio algum. 

Jorge Pinto voltou pois n'um estado de grande fraqueza 
para Little Chelsea, a fim de experimentar uma nova mudança 
de ares; estas peregrinaçSes já eram inúteis, pois no dia 23 de 
Março de 1806, expirou, depois de ter abraçado ainda uma ulti- 
ma vez, carinhosamente a sua mSe. 

Tinha apenas 20 annos e seis mezes I ! 

O seu corpo foi sepultado em St. Margaret's Westminsteri 
ao lado de sua avó, Mrs. Pinto, antes Miss Brent. 

Este artista teve uma educação distincta, muita leitura e uma 
excellente comprehensSò, qualidades que revelava ainda em dis- 
cussões alheias á sua Arte. 

Das suas qualidades moraes, não temos provas menos bellas. 

Generoso para com os desvalidos, humano para com a mi- 
séria, visitando já aos 18 annos as prisiles e distribuindo pelos 
seus desgraçados inquilinos o contheudo da sua pequena bolsa; 
affisiçoado aos seus amigos, que nSo raras vezes auxiliou com soc- 
corros superiores ás suas forças: eis o quadro sympathico, que 
nos pinta o homem moral. 

As suas composições sSo numerosas, apesar do pouco tempo 
que viveu : 

1.) Fantasia on a Venetian melody cMamma mia» and a 
frendi airfrcm the Opera of Richard, Cceur de Lion, para Piano. 

2.) First set oflessonsj dedicated to Miss Griffiths. 

D'estas composições diz um biographo : (e) cwhich, for in- 
vention and science, few have equalled at his age.» 

3.) Sonata, dedicated to his firiend, Mr. John Field. (f) 

4.) First set of canzonets, dedicated to Lady Aylesford. 
tThese truly elegant compositions, full of pathos and beautiful 
melody, greatly enhanced his reputation.» (g) 



40 OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

5.) Second set of eanzonets. 

6.) Concerto, for Violin. 

7.) Duetsfor the sarna instrument. 

8.) A Colleetion of Sonatas for the Piano^Fortôx toith a 
Violin accompamment, dedicated to Miss. F. G^ordon. 

9.) Rondo for the Piano-Forte, 
10.) Minuet in et bmol, 

 este Minuetto, accreseentou o author mais tarde, um TWo 
para o poder repetir. 

Além doestas composiçSeB, publicou muitas outras que xi3o 
chegaram ao nosso conhecimento^ assim como uma grande CoUeo- 
çSo de canzonets, impressas em separado; mencionamos como 
as mais celebres, as seguintes: 

Dear is my litU native vale. 

The Tear. 

I%eWish. 

llamour timide. 

Sappho to Phaon, 

Uive alonefor love. 

No longer noto Iseek delight. 

In vain to forget the dear maid. 

Todas ellas tiveram uma rápida extraoçSo. O author tencio- 
nara publicar ainda muitas outras, o que uma morte prematura 
impediu. 

A respeito do seu talento, como pianista, diz o biographo j& 
citado, que poucos artistas o excederam em gosto, execuçSo e 
brio. O seu talento eraegualmente grande na rabeca, instrumen- 
to em que traduzia os seus mais intimes sentimentos. 

cln the pathetic, none could touch the soul more poweHully ; 
Bone could more effectually enliven the mind by a gay move- 
ment. • • 

Mr. Salomon, a keen and accm*ate observer, said of him, that 
had he lived and been able te resist the allurement of society, 
England would have had the honour of produdng a second Mo- 
aart. (! !) 



os MÚSICOS P0RTUGXJEZE3 41 

^ft) Cantora notarei no meado e fim do século xvxxi. A soa creaçSo 
principal, foi o papel que desempenhava no Artaxerxes do Dr. Ame, e que 
o author tínha escrípto expressamente para ella. 

(b) Notável chefe d^orchestra e Mestre de Concertos em Londres. 
Tomou-se conhecido pelos afamados Salomons- Concerte que o eelebre 

Hajdn dirigiu durante dois annos e em que tocaram os maiores artistas do 
mundo; entre outros figuraram lá: Yiotti, e a celebre Mara, (depois rival 
da nossa Todi). 

(c) Aría, (me o immortal Paganini aproveitou mais tarde para as suas 
eelebres variações intituladas : Carnaval de Veneza. 

(d) Celebre pianista clássico, e compositor de glande talento ; res* 
tam-no6 d'elle os eelebres Eludes para Piano. 

Nasceu em Mannheim em 177 1 e morreu em 1858, em Kensington. 

(e) The Jlarmonicon. London, 1828, pag. 216. 

£ d'este jornal de musica, que extranimos os principaes elementos pa- 
ra esta biomiphia. 

(f) Celebre pianista e compositor notável ; conhecido principalmente 
pelos seus bellos Noctumes, género de musica aue elle creou. 

Nasceu em Dublin em 1782 e morreu em Moscovia, a 11 de Janeiro de 
1837. 

(g) Harmemicoiu pag. 21^. 

PIMTO (Thomaz) — Filho de Guilherme Pinto que foi o che- 
fe doesta família^ alliada em Portugal e Itália com a melhor no- 
breza, (a) 

Seu pae, emigrado da Itália por causa de um escrípto des- 
Êivoravel ao governo, refugiou-se em Inglaterra, perdendo assim 
o cargo importante que occupava em Nápoles. 

Li se sustentou algum tempo, servindoHse para isso dos seus 
variados conhecimentos; depois, casou com uma senhora protes- 
tante; porém a differença de religião trouxe uma separaçSo com- 
sigo, ^n viitude da qual a mSc ficou encarregada da educação 
dos filhos. ^ 

Guilherme Pinto, apesar da decisão do tribunal, tomou a 
educação do filho mais velho sobre si; o pae tinha descoberto 
n^elle grandes dotes artísticos e não queria que a vocação preco- 
ee da creança se perdesse. 

Chamava-se ella : Thomaz Pinto. 

Mui cedo entregue a mestres hábeis, vemol-o já na eda- 
de de 9 annos apenas (!), dirigindo uma orchestra em St'Cecílía'8 
Hall, em Edimburgo, e tocando Sohs de Corellí. 



42 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

A fama d'este prodígio foi auginentando, mas as homena- 
gens que lhe prestavam, tomaram-n'o perguiçoso. 

Chegando porém o celebre Giardini em 1750 a Londres, e 
ouvindo-o Pinto, não pôde resistir ao enthusiasmo que este artista 
causou, e de novo pegou na rabeca, convencendo-se que ainda 
nl&o tinha chegado á perfeiçSo desejada. 

O estudo assiduo a que então se dedicou, fez, com que elle 
d'alli em diante estivesse habilitado a tocar qualquer musica, em- 
bora difficuljtosa, í primeira vista. 

Depois da sahida de Giardini da Opera, tomou Thomaz 
Pinto a direcção d'ella, occupando em seguida o logar de 1.* ra- 
beca no theatro de Drurj Lane. 

Casou duas vezes ; a primeira, com uma cantora allemS: Sy- 
billa Gronamen, e depois com a celebre Miss Brent. 

Do primeiro matiúmonio teve muitos filhos, dos quaes so- 
breviveram apenas dois; um varão, que entrou na marinha ingle- 
za e que morreu em Madras, e uma filha, que foi a mãe do celebre 
Jorge Frederico Pinto, objecto da noticia antecedente. 

As circumstancias financeiras da família, aggravadas ainda 
por uma especulação infeliz do seu chefe, obrigaram-n'a a reti- 
rar-se para Edimburgo (b), onde o nosso artista falleceu em 1763. 

O seu retrato foi gravado em 1777, em folio grande. 

(a) Um dos antepassados de Guilhenne Pinto, foi Gran-Mestre de 
Malta. 

(b) £ não para Dublin, como Gerber diz, N, Hist. Biog, Lex, Yol. m, 
pag. 719. ^ 

PIRES (Alexandre José) (a) — Natural do Porto, e composi- 
tor distincto em todos os géneros de musica (Balbi). Deve ter fal- 
lecido ha bastantes annos. As suas Modinhas eram muito apre- 
ciadas em Portugal. 

Salvámos por um acaso feliz as composições que menciona- 
mos, uma das quaes (N.^ 6) tem toda a apparencia de aato- 
grapho. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 43 

1.) Cavatina de Crescentini: f Languir d^amore 
cnidel mi vedi!» arranjada para Piano. 

3.) Tempestade. Trecho descriptivo para piano e 
canto. 

3.) Modinha: cTem amor e tem juizo.» ^ Mb. 

4.) Modinha: cSe me virem ser ingrato.» 

5.) Modinha: cFinalmente as leis do Fado!!» 

6.) Leiê Sonatas para duas Guitarras. 

7.) Dois Tercetos: 

Eacata bella deidade, 

AUegro: Ouve Bozinda, ouve Bozinda, o meu clamor. 

í Vou Amada, ao som da Ijrra, contar-te meu padecer. 
\Alltgro: Deiza-me amada, ser ventaroso. 

No fim d'este manuscripto, encontramos ainda três pequenas 
oomposiçiles com o nome de Modas; citamos uma estrophe só, de 
cada uma, para que o leitor possa admirar o sentimento ingénuo e 
.^ifirescura doestes versos, provavelmente populares: 

l.« Moda 2.* Moda 

Nas faces divinas, £m a linda boca, 

£m um fogo leve De mbins formada 

Se via arder Se viam aljoíres 

Á mais pura neve. De côr engraçada. 

3.* Moda 

Um disputa ao outro 
Á taboa partida ; 
£ qual mais ligeiro 
Vae perdendo a vida ! 

8.) Valsa para Piano. 

(a) Balbi. Essai statistimtt, vol. ccxziii cita Piret^ simplesmente. 
Julgamos ser este o nome verdadeiro e completo. 



44 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

POLICARPO (...) — Bom víoloncello da Opera do Rio de 
Janeiro (theatro de S. JoSo) em 1822. 

PORTO (...) — Baixo, natural da cidade do Porto. Acom- 
panhou D. João VI ao Brazil e ahi ficou; pertenceu á CapeUa real, 
ouá Opera do^Rio de Janeiro. 

PORTO (Pedro do) — Natural da cidade de que tomou o 
appellido. Vivia no reinado de D. João iii e foi Mestre da Ca- 
thedral de Sevilha e da CapeUa dos reis de Hespanha; as suas 
composições eram muito estimadas e particularmente notável um 
Motete: Clamabat autem Jesus, que Barros (a) intitula : o Píoncife 
DOS MoTETES ! Poi*to, esteve também algum tempo em Lisboa e foi 
muito estimado por D. JoSo lu. 

(a) Antíguidades de Entre Douro e Minho cap. 7.* 

PORTUGAL (Marcos António da Fonseca) — Chegamos a um 
dos pontos capitães d'este livro; é-nos impossivel começar a 
biographia doeste celebre compositor, sem desabafarmos a in- 
dignaçito que nos transborda da alma, quando vemos um ho- 
mem superior, que tem jus á nossa gratid^Lo, que ainda hoje 
honra a Arte, e o seu paiz, esquecido, quasi ignorado de seus 
compatriotas. E necessário que um litterato iminente, que um 
compositor belga (Fétis) nos venha dizer: Olhae, para alli, olhae 
— foi um grande artista. 

O povo responde, e pergunta, Artista? Arte?. • • Arte é offi- 
cio, oíBcio é Arte I 

É triste; esta confusão nSo é só da grammatica, não é só 
das ideias, esta confusão indica uma affecção grave, uma doença 
na alma do povo que confunde o Artista com o artífice, e cujo sen- 
timento esthctico adormeceu, morreu talvez, cedendo aos impulsos 
grosseiros e vis, que se desenvolvem á proporção que os mais no- 
bres enfraquecem. A causa d'este facto dará talvez que pensar 
aos psycologistas, para nós está o problema de ha muito re- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 45 

Bolvido; nSo accusamos o povo do triste estado a que chegou; 
accusamos o governo, sim, o governo de ha 40 annos, que destros 
as artes, que paralisa as sciencias, que nos di a liberdade ma* 
terial, mas que nos rouba a intellectual, agrilhoando*nos á igno- 
rância e consentindo para isso a propaganda de uma classe cle- 
rical; suja, immoral e fanática, que se tem coberto de crimes e de 
vergonha. 

Assim andarão as cousas até que alguns homens sinceros 
venham abrir os olhos ao povo, e lhe mostrem o cancro que roe 
a sua existência. 

Não sabemos que haja de Marcos Portugal, um único monu- 
mento, por mais humilde que seja, levantado á sua memoria. Se 
ainfta ha pouco se lembraram de Camões, fallecido em 1580* 

£ verdade, que Portugal foi uma nação, e é hoje um nome 
apenas, nome vilipendiado pelos francezes e especialmente pelos 
inglezes, pelos nossos desinteressados amigos, pelos nossos Iti- 
times, que ainda ha pouco nos deram provas de amisado /rança 
e. . . . O nosso artista também se chamava infelizmente. • . . Por- 
tugal! 

A memoria d'este homem celebre, ha tanto tempo olvidada 
pelos seus compatriotas, tem sido ultimamente avivada pela intel- 
ligente investigação de alguns litteratos e amadores distinctos, 
que, movidos por um interesse sincero pela Arte e pela pátria, 
tentaram reanimar a indifferença insólita dos philisteus d'este 
paiz. 

Já Gerber (a) nos falia honrosamente de Marcos Portugal, 
como adiante veremos ; Chorou e Fayolle (b) fazem no seu Dic- 
cionario a simples menção : compositeur portugais, enviando o 
leitor para o SuppUment. Infelizmente no supplemento nada ap- 
parece, desculpando-se os authores, dizendo: que as matérias 
augmentaram de tal maneira, que foi necessário deixar tudo para 
um terceiro volume (que não appareceu) ou refundir as noticias 
numa segunda edição da obra. 

Esta fonte ficou pois estéril. 

Forkel (c) nada diz de Marcos Portugal. 



46 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Estavam assim as cousas, quando Fétís publicou o seu bello 
livro: Biographie univerêdle des Musiciens. Ahi encontramos 
uma noticia^ que comquanto nSo fosse perfeita e completa, toda- 
via, pela maneira como estava redigida, e assignada por nome 
tfto authorisado, serviu muito o credito do nosso celebre artista 
e augmentou a gloria do seu n<Mne. 

Os outros escriptores nacionaes e estrangeiros, utilisaram-Be 
principalmente d'esta ultima fonte, repetindo pouco mais ou me- 
nos o que o celebre biographo belga havia escripto; e assim vi- 
mos as noticias de Fétis, reproduzidas na ^ouv^ZZe biograpJuegé- 
nérale de Firmin Didot (vol. XL, 1862, coL 867), na Ckronka 
dos Theatroê (N.^ 9, de 7 de Junho de 1865, pag. 4) nos artigos 
de Fonseca Benevides (d) e nos folhetins de Platão de Yaxcl. (e) 

Estas tentativas, mais ou menos iructiferas de escriptores 
nacionaes e estrangeiros, animaram um escriptor benemérito por- 
tuguez, em indagações que vieram trazer muita luz para a bio- 
graphia do nosso grande artista, e nSo pouca honra para o seu 
author. 

Foi Innocencio da Silva o primeiro, que apresentou umabio- 
graphia bem encadeada e baseada em factos mais certos, e por 
isso não é pequena a divida de nós todos, a pagar ao fecundo tra- 
balhador, divida, já muito augmentada pelos mais valiosos servi- 
ços, feitos anteriormente á nossa litteratura. 

Sentimos porém, que o nosso compatriota attacasse na soa 
biographia tão injustamente e até com falta de respeito, um ho- 
mem de valia mui superior; um homem, a quem a Arte deve ser- 
viços tão imminentes, que não ha remuneração possível para as 
pagar. 

Este homem, credor da estima, da gratidão e do respeito de 
todos os artistas e de todos os paizes em que a Arte é cultivada, 
também nos prestou mui grandes serviços e não era decerto com 
accusaçSes, a maior parte infundadas e injustas, que elles se de- 
viam retribuir. 

Adiante veremos a prova do que fica dito. 



os MÚSICOS PORTUGDEZES 47 

£ singular, ou antes /eta^ a ingratidXo com que se tem pa- 
gado a nobre generosidade de alguns estrangeiros, que trabalha- 
ram com o maior desinteresse para nos engrandecer, e para dissi- 
par com os seus escriptos os erros e as tolices que se dizem lá 
fora sobre a nossa pátria. 

Balbi, Raczynski e Fétis, eis os nomes de três homens que 
foram e ainda são apreciados mui injustamente pelos nossos com- 
patriotas ; e entretanto Baibi, deu-nos o seu Essai statistique que 
no seu tempo era, e ainda hoje é, um bello trabalho para a Estor 
tistica, para a Geographia e para a Historia litteraria e artis- 
tica do nosso paiz. 

Balbi é por exemplo, a wiica fonte para a Biographia dos 
nossos músicos no principio d'este século. 

Baczjnski, levantou o primeiro monumento para a Historia 
das Artes em Portugal, monumento que não existia antes, e o 
único que temos até hoje. 

Fétis, fez para a Musica, o que o litterato prussiano fez para 
a Pintura, Arckitectura e Esculptura. 

E verdade, que antes d'elle havia as noticias de Barbosa 
Machado na Bibliotkeca Lusitana, e as de Gerber (f) e For- 
kel; (g) todavia, a raridade de qualquer doestas obras é grande 
hoje, circumstancia esta, que toma o seu exame e o conhecimento 
das noticias artisticas que lá vem, impossível para o maior nu- 
mero. 

Gerber e Forkel, resuscitaram os nossos artistas, cuja me- 
moria estava enterrada na Bibliotkeca Lusitana; e Fétis, tirou 
dos livros dos dois eruditos aUemSes, o que elles tinham colhido 
da obra de Barbosa Machado. 

Esta nova ressurreição, devemol-a ao celebre critico, que 
archivou n'uma obra, os nomes de que já ninguém se lembrava 
apreciando, criticando e recommendando com a sua authorisada 
voz, as obras dos nossos artistas, lembrando-as assim ao exame 
dos homens competentes. 

Como se vê, o serviço não foi pequeno e por isso tanto 
maior será a nossa ingratidão, se não o reconhecermos. 



48 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Desculpem-nos esta digressão^ porém julgavamol^a necessá- 
ria, para desviar os nossos litteratos de um procedimento descor- 
tez e injusto, impróprio para nos affeiçoar a estima e a conside- 
ração dos homens justos e verdadeiros. 

Deixamos atraz o fio da nossa biographia, na apreciação do 
trabalho de Innocencio da Silva a respeito de Marcos Portugal, 
e depois de termos avaliado as suas qualidades e os seus de- 
feitos, devemos ainda mencionar o ultimo e mais importante 
estudo sobre o nosso artista, publicado no Jornal do Com- 
mercio de Lisboa, N.°» de 10, 11, 12, 17 e 22 de Fevereiro de 
1870. 

Esta excellcnte biographi a devesse á cooperaçSo de dois ca- 
valheiros distinctos, que sao: 

Joaquim José Marques, já por vezes mencionado n'esta obra, 
e o Dr. GuimarFles. 

Trabalho de investigação, amor da Arte, apreciaçSes em 
geral certas e uma gratidão honrosa parfi aquelles que escre- 
veram anteriormente sobre o mesmo assumpto e que, embora não 
acertassem em tudo com a verdade, prestaram serviços que nSo 
se podem desconhecer. 

Nós, a quem coube a sorte de sermos os últimos a trabalhar, 
aproveitaremos as fontes que até aqui indicamos, extrahindo de 
cada uma d'ellas o que nos parecer mais exacto e mais proveito- 
so, e augmentaremos os íactos já conhecidos, com algumas noti- 
cias que colligimos de livros estrangeiros, principalmente alie- 
mães. 

Marcos Portugal nasceu em Lisboa a 24 de Março de 1762. (f) 

A incerteza e a confusão que envolve a vida doeste homem 
notável, começa pelo nome, que ora é Marcos António Portugal, 
(Jornal do Commercto, I. da Silva e Balbi (g), ora Marcos An- 
tónio Simão (Fétis) (h), ora Marco Portogallo (Gerber), ora Porto- 
gallo simplesmente (Choron et Fayollc), ora Marcos António, (i) 
ora emfim : Marcos António da Fonseca (ou d'Affonseca) Portu- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 49 

gal; nome qne se encontra em uma partitura: (j) Licença pasto- 
ril, representada a 26 de Julho de 1787, no theatro do Salitre. 

Adoptamos este nome por nos parecer o mais exacto, visto 
ser o primeiro que existe impresso, 2.^, por se encontrar em uma 
das primeiras composições mais importantes do autbor, e 3.^ por 
estar repetido em uma outra composição, uma Cantata, (k) re- 
presentada a 8 de Dezembro de 1788. 

Mais tarde, é provável que o nosso artista cortasse o nome 
Fonseca, para maior brevidade e que na Itália ainda o dimi- 
nuíssem mais, reduzindo-o a: Marco Portogallo, como sempre foi 
1U0 n'aquelle paiz. (1) 

 sua filiação é ignorada, e hoje difficil será averigual-a no 
meio da indifferença geral pelas Artes e pelos Artistas. Da sua 
família, conhece-se apenas um irmão, Slmlo Portugal, egualmen- 
te compositor e que adiante mencionamos, e uma irmã casada com 
António Leal Moreira, compositor distincto, de que fizemos ji 
menção honrosa no 1.^ volume. 

Sobre a sua educação musical, ha apenas noticias mui va- 
gas; suppSe-se ter entrado em 1770, com 8 annos de edade, no Se- 
minário patriarchal, aonde aprendeu os primeiros elementos theo- 
ricos da Arte, completando a sua educação artística debaixo da 
direcção immediata do então celebre João de Sousa Carvalho, 
Director do Seminário. 

Parece que frequentara também o Seminário de Santa- 
rém, (m) aonde recebeu liçSes do Cónego Oallão, depois Mestre de 
Capella na Patriarchal. Este nome parece explicar o outro me- 
nos verosimil de : Orão, que Fétis indica como mestre de Marcos 
no contraponto, e que classifica como segundo Mestre de Capella 
na CathMral. (n) 

Segundo este, teve ainda liçSc^ de canto de Borselli, cantor 
da Capella real e dos Theatros reaes, (o) trabalho que rematou 
a sua educação artística; doesta sorte, era natural que as suas pri- 
meiras composiçSes fossem, como Fétis diz: ensaios de canzonetas 
ca árias italianas para orchcstra, producçScs que eram o fructo 

dos seus últimos estudos. 
i 



50 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Linocencio da Silva contradiz esta affirmaçSo, fundando-fle 
em qae o Catalogo aiUographo (p) das composições de Marcos 
Portugal; nada menciona d^essas aricu italianas^ mas sim varias 
composições sacras, isto é, primeiro um Miserere a 4 vozes, em 
1776, depois uma Ladainha a 4 vozes, em 1779, com acompanha- 
mento de cravo, para o Seminário, e outras obras. 

Este facto tem relação com a noticia de Innocencio da 
Silva, dizendo que recebera o complemento da sua educaçSo ar- 
tistica no Seminário; se isto é verdade, é de suppor que lhe en- 
sinariam antes a facturado algum trecho religioso, de um Te Deum 
ou de uma Ladainha, do que a composição de árias ou canzonetas 
italianas, 

Comtudo, nSo podemos crer que Fétis inventasse esses fac- 
tos que Silva contesta, poisque o biographo belga attribue á 
influencia de Borselli a viagem que Marcos Portugal fez a Ma- 
drid e que decidiu a sua sorte ! 

O mesmo Borselli, sempre interessado pelo seu protegido, 
alcançou-lhe com a sua influencia o logar de acompanhador de 
Cravo no thcatro de Madrid. Quem sabe, se foi até o cantor ita- 
liano que o introduziu em casa do Embaixador de Portugal, que 
suspeitando no joven artista uma futura gloria para a sua pátria, 
lhe forneceu generosamente os meios, para passar á Itália? 

Estes factos encadeiam-se tão naturalmente uns nos outros, 
que é impossível serem inventados; Fétis, houve -os certamente 
de alguma fonte qne nos é desconhecida e por isso nSo devemos 
negar aquillo que nSo sabemos. 

Esta explicação referc-se ás lições de canto de Borselli ; o 
facto de não se encontrarem as árias italianas, mencionadas 
no catalogo de Marcos Portugal, assim como outros, que Fétis 
cita com toda a segurança, indica simplesmente que o cata- 
logo era mui deficiente; n'esta opinião somos acompanhados 
pelo biographo do Jornal do Commercio. 

Ora, esta defficiencia leva-nos mais longe, a ponto de pormos 
em duvida a authenticidade do referido catalogo de Marcos Por- 
tugal, pois até hoje ninguém a evidenciou com os documentos ne- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 51 

oeflssríoB. A affinnaçSo simples e isolada de Araújo Portalegre (q) 
nSo basta; Silva e o biographo do Jornal do Commercio, repeti- 
ram o que o escriptor brazileiro disse, sem terem documentos 
comprovativos á vista. 

Mais adiante veremos como o catalogo ainda está em con- 
tradicçSo com algumas noticias verídicas de Gerber (vide, mais 
abaixo), que as escreveu muito antes de Fétis fazer a sua bio- 
graphia, com outras de Platão de Yaxel, do Jornal do Commer- 
cio, e de outros authores. Tudo se conspira contra o tal catalogo! 

Ainda haveria talvez uma hypotbese para explicar a falta 
de menção das taes árias italianas; podia ser, que Marcos as 
considerasse pouco dignas de figurarem n'elle. 

Beatemos o fio partido ; vemos Marcos Portugal, partir para 
Madrid com o seu Mestre Borselli, que lá lhe alcança o logar de 
acompanhador, no Cravo da Opera italiana, quando contava ape- 
nas 20 annos de edade. Uma circumstancia imprevista veiu fa- 
vorecer as pretençSes do joven compositor; foi a protecção do Em- 
baixador portuguez em Madrid, que advinhára n'elle o artista 
que a Europa admirou mais tarde. O embaixador ouviu, talvez 
mesmo a convite de Borselli, o nosso artista, e eis que o diplo- 
mata, enthusiasmado com os seus talentos, o manda á Itália para 
se animar com o ar perfumado da península, e com as melodias 
sentidas e inspiradas dos seus celebres filhos. 

Em 1787, vemol-o pisar o solo doesse admirável paiz, que 
mais tarde havia de ser o primeiro e o mais enthusiastico admira- 
dor das suas producçSes. No anno seguinte, escreve a sua pri- 
meira opera: VEroe cinese, para o Theatro de Turim; o pouco 
êxito d'esta primeira tentativa, não desanimou o artista, e foi 
compensado mezes depois, com o successo extraordinário da se- 
gunda opera-buffa: La Bachetta portentosa, que excitou a admi- 
ração dos Genovezes pela quantidade de phrases e de ideias no- 
vas que caracterisavam a maior parte dos trechos, (r) 

Depois doeste successo, não podia o compositor estacionar; 
assim o entendeu Portugal, e nos dois annos euccessivos, vemofi 



52 OS MUSICX)S PORTUGUEZES 

duas novas operas em scena, e acolhidas com o mesmo enthoBias- 
mo que a segimda. SSo : 

L'AÃtutto,q\xe não obteve menos applausos na primavera de 
1789 em Florença, e H Molinaro em Veneza; no carnaval de 
1790, que poz o remate á suareputaçilo. (s) 

Doestas 4 Operas nSo ha sequer vestigios no catalogo e en- 
tretantOi nSo só Fétis as attribue a Marcos Portugal com toda a 
segurança e boa fé, mas também encontramos a terceira, na AV 
^a 12 do Jornal do Commercio de 22 de Fevereiro de 1870, 
como executada cm S. Petersburgo, em lingxia nissa, pelos annos 
de 1795 a 1797. 

F. Clement e Larousse (t) também Indicam uma representa- 
çSo em 1789 em Florença. A ultima: U Molinaro, vem men- 
cionada por Qerber (u) como cantada em Breslau (Sllesia, 
Prússia) em 1792, dois annos depois de ter apparecido na Itália. 

O catalogo também nada diz de outra Opera: L' Isola pia- 
cévole, (v) cantada a 26 de Janeiro de 1801 ! 

Que coincidências são estas, que vem contradizer o catalogo 
H'umas poucas de partes e por em duvida a sua authenticidade? 

Gcrber nâo podia copiar Fétis, porque escreveu o comple- 
mento do seu Diccionario em 1813; e Fétis não fez o mesmo, 
vice-verêa, porque nSLo menciona a representação da Opera cita- 
da, na Allemanha. A citação que se refere á Bussia, foi fornecida 
por P. de Vaxel; e a da Opera: L' Isola piacévole, é referida por 
T. Oom, cscriptor consciencioso. 

Esta primeira viagem á Itália, é posta ainda cm duvida pela 
existência de varias Burlettas e Dramas allegoricos, i*epresenta- 
dos no Theatro do Salitre, desde 1787 a 1790. (w) 

Em um dos bilhetes de uma Imrletta representada em 1788, 
vem qualificado (segundo I. da Silva) de : Mestre da Musica do 
dito Theatro e Compositor-Organista da Egreja Patriarchal. 

Diz mais Innocencio da Silva, que durante o mesmo inter- 
vallo (1787 a 1790) compoz varias Missas, Psalmos, etc., para a 
Patriarchal e para a Capella real de Queluz. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 53 

A oontradicçSo apparente em que estSo aqui, as noticias de 
Grerber e de Fétis e as de I. da Silva e do Jonml do Commercioi 
talvez se explique da seguinte maneira: se suppozermos essas 
Burlettas, eseriptas para o theatro do Salitre e as composições sa* 
eras para a capella de Queluz^ como feitas antes da viagem á Ita«> 
lia, (1787) ; é natural; que depois da fama de Marcos Portugal co- 
meçar a penetrar na peninsula^ os seus possuidores se lembras- 
sem d^ellas e as executassem na ausência do artista. 

Continuemos. 

Sobre as outras viagens de Marcos Portugal; reina a mesma 
discordância entre os biographos. Fétis pretende que voltara a 
Portugal em 1790, depois da representação de II Molinar o, e fora 
apresentado ao rei (D. Pedro iii) que o nomeou Mestre da sua Ca- 
pella; este factO; copiado pelo biograpko da Chronica doê Thea- 
tro8, é evidentemente inexacto, visto o rei ter fallecido em 1788. 

Devia ter aproveitado bem o tempo da sua estada (1790) em 
Lisboa, pois no anno seguinte, em 1791, volta de novo á Itália e 
di em Parma: La Danna di génio vólúbile; em Roma : La Vedova 
raggiratrice; e em .Veneza: II Príncipe di Spazzacamino, cdont 
Téclatant succès excita Tintérêt dans toute ritalie.i (x) 

I. da Silva e o J. doCommercio, determinam esta viagem de 
uma maneira mui diversa* 

O primeiro, quer que Marcos Portugal permanecesse na 
Itália desde 1792 até 1799 (fixando assim a 1.* viagem, sem di- 
zer nada da 2/) o que é um erro, aliás não se explica a existên- 
cia de duas Farçcu^ feitas em Lisboa em 1794, e de duas camporí- 
çSes sacras, feitas para a Capella real de Queluz em 1798 e 

1795. 

Mais próximo da verdade, andou o J. do Commercio; que 
suppSe as duas viagens no intervaUo de 1792 a 1799 : a primeira^ 
sahindo da Itália no segundo semestre de 1794 e voltando no 
primeiro de 1785, e â segunda entre 1795 e 1799. 

Já se vâ, que os dois biographos não concordam com as ou- 
tras viagens que Fétis menciona, dizendo: 



54 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

cSes fonctions de maitre de chapelle da roi de Poitagal, 
obligeaient Portogallo à retoumer à Lisbonne de temps en temps, 
et à 7 faire d'assez long séjours; mais son penchant le ramenait 
toujours en Italie, ou ses travaux étaient accueillis par dH unani- 
mes applaíiãissements. 

cSon demier vojage eu lieu en 1815; il donnapendant le 
carnaval L' Adriano in Syria, à Milan.» 

Em contrario á affirmaçSo de Fétis^ determinam os nossos 
dois biographos a volta definitiva de Marcos Portugal em 1799, 
argumentando para isso com a representação de três operas que 
n^esse anno foram á scena em S. Carlos, e que eram as primeiras 
que o nosso publico appreciava. 

Foram: 

La Donna di génio volvbile, a 23 de Janeiro de 1799. 

Rinaldo d'Asti, a 25 de Abril. 

n Barane (ou Principe) di Spazzacamino, a 27 de Maio. 

Segundo o que entendemos, a representação doestas operas 
só, nSo prova a presença de Marcos Portugal em Lisboa. Agora 
a objecção que fazem ao facto referido em 1815; tem mais algum 
pezo; todavia nSo nos convence. 

Concordamos que Luiz dos Santos Marrocos, oocupando-se 
nas suas cartas, (que adiante mencionamos) tanto de Marcos Por- 
tugal, mencionaria n'ellas a viagem de 1815, se o compositor a 
tivesse emprehendido ; entretanto, como as cartas mencionadas 
sl&o só dos annos 1811 (uma), 1812 (três), 1813 (uma), e 1817 
(uma), nSo admira que ellas n2o fallem da viagem feita em 1816; 
demais, o silencio de Marrocos a respeito de Marcos Portugal, 
desde 1813 a 1817, é significativo; então, se o maestro estava na 
verdade no Rio de Janeiro, como é que o sobredito Marrocos, 
fallando até 1813 tSo amiudadamente do nosso artista, se callou 
de repente durante 4 annos, sem dar uma única noticia? 

Deixo estas e outras consideraçSes já feitas, ao exame dos 
dois principaes biographos do nosso maestro ; nós, da nossa parte, 
faremos o possivel para esclarecer a verdade. 

Diz ainda o Jornal do Commercio : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 55 

cÂlém de qae em 1811, teve elle o primeiro insulto paraly- 
ticO; ficando leso de mn braço: e já contava 53 annos; e estava 
muito costumado aos confortos da corte, para emprehender tSo 
longa viagem. 1 

O accidente paralytico nSo podia impedir o artista de fazer 
a viagem, uma vez que ficasse curado ; a edade, na verdade avan« 
cada, e o conforto da corte, deviam valer alguma cousa, se a 
vontade de rematar com gloria, uma carreira bem principiada e 
brilhantemente sustentada, nSo fosse maior. 

Siío estas as supposiçSes que recommendamos aos que sus- 
tentam o contrario; o testemunho de Fétis, é em demasia pre- 
cioso, para ser desattendido por meras hjpotheses. 

Innocencio da Silva, accusa Fonseca Benevides, de ter escri- 
pto no Archivo Pittoresco: c Vindo frequentes vezes a Portugal 
o íllustre compositor portuguez, logo que podia, voltava á Itália, 
que foi sempre a terra da sua paixão.» 

A accusaçSo é de todo infundada, e a supposiçâo de Bene- 
vides muito verdadeira ; pois é natural, que o nosso compositor 
preferisse para a audição e execução das suas operas, a sua pátria 
artística á legitima, pois era a Itália que tinha fundado a sua 
reputação e espalhado a fama do seu nome, muito antes de Portu- 
gal se lembrar d'elle ; já em 1788 a primeira applaudia com enthu- 
siasmo a Bachetta portentosa, e foi só 11 annos(! !) depois, em 
1799, que se ouviu a primeira opera (La Donna di génio volu- 
hile) de Marcos Portugal em S. Carlos. . • 

Raras vezes, e sempre com pezar, se despedia Marcos Por- 
tugal da Itália; uma amisade, ainda mais, uma sympathia pro- 
funda pela sua pátria artística, faziam com que elle considerasse 
o seu cargo em Lisboa, mais como um incommodo, do que como 
uma honra. £ realmente, entre o Portugal decahido nas Artes, 
nas Sciencias e nas Lettras, devoto até ao excesso, pela bigoterie 
de uma rainha demente — e a Itália, hospedeira, generosa, grata, 
intelligente e artística, não havia escolha possível. De um lado a 
estatua — do outro, a mascara. 



i6 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Os theatroB de D. José, ha muito que haviam sido destraidos, 
e 08 artistas admiráveis que n^elles tinham brilhado^ estavam uns 
mortos, oatros dispersos pelas scenas da Europa. 

Dissemos que Marcos Portugal considerava o seu cargo de 
Mestre de Capella^ mais como um encargo pezado^ do que como 
uma honra; e realmente que attractivo podia exercer aquelle lo- 
gar, collocado debaixo de uma influencia artistica^ que só 
admittia o culto dos Psalmoê e das Ladainhcíêf 

Como não havia de sentir o nosso artista o pezo acabrunha- 
dor e mephjtico doeste meio intellectual e artistico^ quando vinha 
de respirar na Itália o ar impregnado da vitalidade inspiradora 
de Mozart; de Gluck, de Piccini^ de Jemelli^ de Sacehini; quan- 
do is nossas portas estava o immortal Boccherini, lançando pela 
Europa as suas composições admiráveis ! 

KSo queiramos pois attribuir a Marcos Portugal um patrio- 
tismo que não podia ter^ pelas circunstancias que acabamos de 
mencionar. 

Julgfunos ter exposto na devida luz todas as diffisrentes opi- 
niões, que vogam acerca das viagens do nosso celebre compa- 
triota; resta-nos avaliar a sua actividade durante este longo in- 
tervallo de 1787 a 1815. 

Deixamos Marcos Portugal em 1791 , na Itália, no meio do 
énthusiasmo universal que o Príncipe di Spatzaeamino (1793) ti- 
nha provocado. O nosso artista não descançava, apesar dos seus 
triumphos. As operas: Demofoonte em Mil2o, 1794; / due QMi 
em Veneza, em 1793 e 1795; ZuUma e Selima, 1796; Ulngano 
poço dura, 1796; U Ritomo di Serse, em Bolonha; H Diavolo a 
guattro, ossiã le Donne cambiate, 1797; e outras mais, foram a 
continuação dos seus triumphos e a consagra^ do seu génio mu- 
sical, que chegou a um dos pontos culminantes da sua carrràra, 
com á opera séria: Fernando in Mesêico, talvez a sua obra prima, 
representada em Roma em 1797, e escrípta para a cdebre Bil- 
lington. Desde então foi considerado no numero dos melhores 
compositores d^aquella época, (y) 



os MÚSICOS PORTXTGtJEZEB 57 

A sua fecundidade continuou naa operas: Non irritar le 
Donnê, em Placencia, 1799; Idante, na Scala em Milão^ em 1799 
6 1800; e Morte de Semiranude em Lisboa^ 1801, para a Catalã- 
ni; foi n'eBta opera que esta celebre cantora introduziu a famosa 
ária: San regina, e in mezzo alVarmi, tirada prinútivamente da 
SofoniAa e que a cantora italiana fez ouvir em quasi todos^ os 
concertos que deu pela Europa. 

A Semiramide, marca talvez o segando ponto culminante da 
earreira de Marcos Portugal, que é seguido em breve pelo ter* 
ceiro, depois das operas: Argenide, cantada em Lisboa a 13 de 
Maio de 1804, depois em 1806 em Londres, pela Billington e 
Brahame II Cia battino, rematando no Adriano em 8yria, em 
MilSo, 1815. 

Até aqui Fétis. 

Iimoeencio da Silva e o Jornal do Commercio nSo concor- 
dam, como vimos, com as viagens que Fétis menciona e nSo con- 
cordando com ellas, já se vê que fica a ordem, pela qual elle enu- 
merou as operas de Marcos Portugal na sua biographia, abalada* 
Todavia os authores portuguezes, occnpados que estavam, em 
destruir aquillo que Fétis escrevera, decerto com boas raz3es^ 
bSo se lembraram de reedificar o que haviam lançado por terra, 
e assim os vemos, ntilisando-se das próprias noticias do critico 
belga, principalmente no que diz respeito ás operas representa- 
das na Itália; uma ou outra excepçSo que haja, vêr-se-ha facil- 
mente na TabeUa êynoptica e ckronologiea que serve de esclare- 
cimento a esta biographia* 

Os nossos dois compatriotas, passando rapidamente pela his- 
toria da actividade de Marcos Portugal na Itália, fixam o seu re- 
gresso em 1799. Achegada do nosso artista coincidiu felizmente 
com uma época de florescência do nosso theatro de S. Carlos. Bri- 
lhava entSo em Lisboa o celebre Crescentini, cantor e empresário 
de S. Carlos; em redor do famoso eopraniêta, agrupavam-se a Ca- 
talaiii, a Qafibrini, Domenioo Mombelli, António Naldi e outros. 

Marcos Portugal aproveitou a protecçSo e a boa vontacb 
eom que o emprezario italiano animava os artistas naeionaes 



58 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

e estrangeiros, retribuindo yantajosamente os seus traballios. 
Recebeu logo uma ooUoeaçSo no elenco da companhia, a par de 
Fioravanti, com o ordenado de 677|000 réis; este rendimento 
augmentava com os ordenados de Mestre da Capella real. Mestre 
do Real Seminário de Musica e Compositor e Organista da Ca- 
pella da Patriarchal, além dos productos das suas numerosas 
liç8es particulares. 

Pouco depois da sua chegada, já em S. Carlos se represen- 
tavam as seguintes operas : La Donna di génio volubile, a 23 de 
Janeiro de 1796; Rinaldo d'Â$ti, a 25 de Abril de 1799, no 
anniversario da rainha; U Barone (ou: U Príncipe) di Spazza- 
comino, cantado a 27 de Maio de 1799. Os annos seguintes nSo 
foram menos fecundos, pois em 1800 temos o Adrasto; em 1811, 
L' Isola piacévole e La Morte di Semiramide. 

Foi esta a primeira opera de Marcos Portugal em que a Ca- 
talani cantou em Lisboa (z) em companhia de Crescentini, Praun, 
Domenico Nerj, etc., e desde então andaram o nome do nosso 
compositor e o da celebre artista, sempre juntos. N^esta opera in- 
troduziu a cantora italiana pela primeira vez, a depois tSo celebre 
ária: Son Regina, de que atraz falíamos. 

Marcos continuava compondo activamente; no curto inter- 
vallo de 1801 a 1806, desde a Sofonisba sAéstoArtaserse, encon- 
tramos nada menos de 12 Operas. Na ultima, estreiou-se apri^ 
ma donna Eufemia Eckart que vinha substituir a celebre Cata- 
lani, contractada pelos emprezarios dos theatros de Londres e de 
Paris. 

Aproveitamos esta occasiSo para lembrarmos um facto igno- 
rado pelos biographos da celebre artista italiana, e vem a ser: as 
suas relaçSes de amisade com o nosso compositor, que ella tinha 
conhecido durante a sua estada na Itália. 

Marcos Portugal habitava perto do theatro e fazia-lhe frequen- 
tes visitas, ensaiando em sua casa os papeis que ella devia can- 
tar em S. Carlos; e é de suppor, que nos 5 annos que esteve em 
Lisboa, desde 1801 a 1806, aproveitasse muito com as liçSes 
do maestro, que segundo o cardeal Saraiva (Lista, pag. 48), era 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 59 

coptímo Mestre de Canto e cantava com excellente estjlo em toz 
de Tenor.» Ainda hoje vive em Lisboa um discipolo de Marcos, 
chamado Silva, actualmente empregado no Thesouro, que, por 
ordem de sen mestre, acompanhou muitajs vezes a celebre artista 
nos seus estudos, ao piano. O nosso maestro ligava grande inte- 
resse ao aperfeiçoamento das qualidades artisticas da sua discí- 
pula, nZo só para maior gloria do seu nome, mas também porque 
a estimava como se fôra sua íilha. Fioravanti, que então se 
achava em Lisboa, nunca teve paciência para a acompanhar, 
em quanto Marcos Portugal o fazia sempre de bom grado, e 
quando nSio podia ir pessoalmente, mandava algum dos seus 
melhores discípulos e principalmente o tal Silva (que hoje tem 
perto de 90 annos). 

Cremos que estas noticias nSo serão destituídas de interesse, 
porque sSo completamente ignoradas e para nós tem o valor de 
augmentarem a gloria do nosso celebre compatriota, ligando o seu 
nome a outro também illustre. 

Constaruos que na typographia do Jornal do Commercio 
existem uns trabalhos, feitos acerca da mesma Catalani, que vem 
lançar uma nova luz sobre a vida doesta cantora, apresentando 
fiictos até hoje desconhecidos dos seus biographos. 

Estimaremos que elles appareçam, em honra do jornal que 
tanto se interessa pela Arte, assim ficarão, corrigidos os erros 
publicados no estrangeiro sobre a cantora italiana, como mostra- 
mos na nota Z.; e lá fora ficarão sabendo que, apesar de estar 
entre nós quasi amortecido o fogo sagrado, sempre ha um ou 
outro que o cultiva e o alimenta em segredo. 

Voltemos á nossa biographia; ficamos na data 1806. Foi 
n^este intervallo (1807) que teve logar a invasão franceza com- 
mandada por Junot. A familia real fugiu, tomada de um pânico 
espantoso, apressadamente para o Brazil, deixando a pátria e os 
seus súbditos, perplexos, no meio do terror de uma conquista á 
mSo armada. 

Marcos Portugal, não menos surprehendido da fuga precipi- 
tada dos seus protectores, não tomou ao que parece, logo a reso* 



60 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ki{^ de 08 acompanhar. Fétia, quer que partisse com elles e d'e»- 
ta mesma opinião é Balbi ; (aa) todavia^ o Jornal do Commercio e 
Innocencio da Silva pretendem que ficara e que dirigira a re- 
presentação do DemofoQide, dada a 15 de Agosto de 1808 para 
festejar o anniversario de NapoleZo i. 

O libretto da opera que examinamos, traz é Tcrdade, a 
nota: per festeggiare U Oiomo natalizio di au maestá, Ulmpe- 
rcUore de, Francesi, Ré d' Itália d Prottettare deUa Car^federor 
zione dei Rheno; e na segunda pagina: La Musica é tutia nuova 
dei celebre Sr, Maestro Marco Portugal; todavia nSo diz que a 
opera fosse dirigida por elle, como se costumava fazer nos anti* 
gos librettos. 

Uma circurnstancia^ vem porém resolver todas as duvidas; 
é a nota manuscripta, encontrada na partitura autographa do 
Demofoonie, que nos deixou o antigo copista do Theatro de 
S. Carlos : Joaquim Casimiro da Silva, pae do fallecido compo- 
sitor do mesmo nome e do actual copista do mesmo theatro. 

Diz a nota: cEsta opera foi encommendada a Marcos por 
um general francez, que morava na rua Formoza (de cujo nome 
nSo me lembro) e por cila recebeu (diziam) bom numero de 
moedas. A copia para o theatro, a copia de vozes e de instrwnen- 
iosj foi-me paga pela empreza.» etc. 

A partitura autographa que pertenceu ao Archivo Musi- 
cal do Êdlecido Conde do Farrobo, a quem o copista Casimiro a 
tinha ofiertado, e de que somos actualmente os possuidores, 
traz também a rubrica: originale nell auTio 1808, 

As tristes circumstancias em que estava o paiz, obrigaram 
o emprezario de S. Carlos a fechar o theatro em 1809. Conta-se, 
que por este tempo Marcos Portugal recebera propostas vantajosaa 
de algumas cortes da Europa, que o desejavam para o seu ser- 
viço ; é para sentir que o compositor não aproveitasse uma tSo 
bella occasião para sahir d'este meio artístico, e ir estabelecer a 
sua residência em alguma grande capital, onde os seus trabalhoa 
lhe haviam de dar mais gloria e mais proveito do que noBrazil. 
É porém de pieaumir, que a situação revolucionaria e indecisa da 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 6L 

Europa, o determinassem a rejeitar uma coIlocaçSo que elle nSò 
julgava duradoura. 

Sahiu pois entre 1810 e 1811 para o Rio de Janeiro, levan- 
do em sua companhia vários cantores e instrumentistas, fiados na 
boa estrella que os conduzia. Lá chegaram os navegantes e fe- 
lizmente não sofíreram decepção, porque o regente (mais tarde 
D. João vi) que gostava da musica, (dizem que o seu forte era: 
Cantochão) (bb) se lembrou das bellas festas que o talento do 
nosso artista lhe tinha muitas vezes proporcionado. 

Já dêmos no primeiro volume doesta obra (cc) uma ideia do 
estado de desenvolvimento artistico da capital do Brazil, quando 
o regente lá chegou. O Conservatório dos Negros estava em 
plena actividade, debaixo da direcção dos jesuitas, senhores 
absolutos d'aquellas teiTas. 

D. João VI, para apresentar uma ideia nova, da sua, já então 
celebre cabeça, lembrou-se de reformar o Conservatório afri- 
cano, e estabeleceu no seu palácio (maison de plaisance) (dd) uma 
eschola de composição musical, de canto, e de vários instrumen- 
tos, sobretrahindo assim o antigo estabelecimento á tutela dos je- 
suítas, o que deu bons resultados, como adiante veremos. 

Tratou depois, da organisação da Capella real, chamando 
para o serviço do coro e da orchestra, os melhores cantores c in- 
strumentistas que havia n'aquella cidade. Por decreto de 25 de 
Junho de 1808, transformou a Cathedral em Capella real, e por 
uma outra ordem, passada a 4 de Novembro do mesmo anno, en- 
carregou, José Mauriclo Kuues Garcia, da regência e inspecção 
da mesma. 

Todos estes decretos deram nenhum resultado, ou antes le- 
varam as cousas a maior decadência, apesar do talento e da acti- 
vidade de Nunes Garcia, que. Organista da Sé, havia 10 annos, 
e homem de grande mérito, não pude melhorar o estado da ca- 
pella, porque não havia instrumentistas bons e mesmo os que 
pertenciam a ella, estavam longe de ser perfeitos. Felizmente, 
a chegada do Marcos Portugal e o acolhimento favorável de 
D. João VI, que o nomeou logo Mestre da Capella real e da real 



62 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

cámarAy collocaram-n'o nas circumstancias de poder dar nova di- 
recção ao moTimento artístico. Os instrumenUstas e cantores qne 
o celebre maestro trouxera de Lisboa^ foram coUocados na orchea- 
tra da capeUa e assim melhorou tudo satisfactoriamente. 

O nosso maestro entrou de novo nos seus trabalhos^ compon- 
do para a CapeUa real logo em 1811, uma Miêsa e Matinas «o- 
lemneê, a grande orchestra. Á sua actividade augmentou ainda, 
quando a 12 de Outubro de 1813 se inaugurou o Theatro de 
S. JoSO; construido a expensas de uma sociedade composta dos 
principaes negociantes d'aquella praça e com o producto de 7 
loterias, que se fizeram de 1811 a 1813; (ee) Marcos foi encarre- 
gado da direcção do theatro e ahi se representaram varias das 
suas antigas Operas, e outras que escreveu expressamente para 
elle. 

D. JoSo VI, que, diga-se a verdade, sympathisava com o 
maestro, não deixava escapar uma occasiSo em que o podesse 
favorecer e assim o vemos successivamente nomeado. Director do 
Conservatório de Santa-Cruz {ou dos Negros) (S) conjuncta- 
mente com seu irmão ; Mestre da familia real e Director g^*al 
de todas as FuncçSes publicas. 

Uma carta de um contemporâneo, Luiz Joaquim dos Santos 
Marrocos, official de Secretaria no Rio de Janeiro, diz a 29 de 
Outubro de 1811, fallando doesta ultima nomeação: 

«Marcos António Portugal aqui teve uma espécie de estupor, 
(ataque paralytico) de cujo ataque ficou leso de um braço: elle 
tinha obtido de S. A. R. uma sege effectiva, ração de guarda- 
roupa, 600|000 réis de ordenado, e do real bolsinho aquillo que 
S. A. R. julgasse lhe era próprio e conveniente; além disto, ser 
Director geral de todas as funcçSes publicas, assim de egreja 
como de theatro, e em qualquer sentido; e para o parto espera 
também uma commenda,» etc. 

As finezas que o principe regente dispensava ao maestro, 
eram imitadas da mesma maneira pelas pessoas da corte, como 
vemos de outra carta do mesmo Marrocos, escripta a 7 de Outu- 
bro de 1812. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 63 

cMarcos António Portngal está feito um lord com fumoê mui 
stiíidoê. Por certa ária que elie compoz, para cantarem três fi- 
dalgas em dia dos annos de outra, fez-ihe o Conselheiro Joaquim 
José de Azevedo um magnifico presente^ que consistia em 12 dú- 
zias de garrafas de vinho de Champagne (cada garrafa no valor 
de 2|800 réis) e 12 dúzias de vinho do Porto. Elle já quer ser 
Commendador, e argumenta com Franzini e José Monteiro da 
Rocha.» 

Esta ultima distincçSo, a Commenda de Christo, que n^aquel- 
le tempo ainda era mui pouco vulgar, nSo tardou muito, cum- 
prindo-se assim a prophecia do invejoso Marrocos. 

Estas distincções successivas, e outras que mais tarde obte- 
ve, n2U> eram próprias para o tomar querido dos invejosos e mi- 
seráveis que existem sempre em grande numero n'uma curte, e 
é obedecendo ainda a este sentimento repugnante, que Marrocos 
escreve a 28 de Septembro de 1Ç13: 

«Simão Portugal é Organista da Capella real com os seus 
300$000 réis e appendices, ignoro, se com raçSo ; porém o irmSo 
tem-n'o introduzido com os seus conhecimentos, de sorte, que 
tem grangeado muitos discipulos e discipulas, que mandam suas 
seges a casa buscal-o; eu o tenho visto mil vezes nas ditas seges, 
e entre ellas a da Duqueza de Cadaval: por isso n&o tem rasSo de 
lamentar-se, porque é mui natural lhe provenham grandes inte- 
resses de seu exercicio. 

«O irmSo Marcos, ou o Barão d'Álamiré, tem ganhado a aver- 
são de todos pela sua fanfarronice, ainda maior que a do pão de 
16: é tão grande a sua impostura e soberba por estar acolhido á 
graça de S. Â. R., que se tem levantado contra si a maior parte 
dos mesmos que o obsequiavam: é notável a sua circumspecção, 
olhos carregados, cortejos de superioridade, emfim apparencias 
ridiculas e de charlatão: já tem desmerecido nas suas composi- 
ções ; e um grande musico e compositor, vindo de Pernambuco, 
e que aqui vive, e um seu antagonista, mostra a todos os que 
quizerem vêr, os logares, que Marcos furta de outros auctores, 
publicando-os como originaes. Como está constituído Director 



64 OS MÚSICOS POETUGUEZES 

do theatro e funcçSes quanto a musica, tem formado enormes in- 
trigas entre músicos e actores, de que se tem originado grandes 
desordens. Do novo theatro, que vae abrir-se para o dia de 12 
de Outubro, e que tem sido feito á imitação e grandeza de 
S. Carlos, a troco de despezas incriveis, queria Marcos ser des- 
pótico director com 2:000|000 reis, alem de beneficies e o me- 
lhor camarote da bocca; como encontrasse duvidas no seu em- 
presário, tem-se empenhado em desviar os actores, e para isso 
obrigando-os a exigir grandes mesadas. 

cÈ riso vel-o á janella, c em publico, todo empoado e em- 
proado, como quem está governando o mundo; mas emfim, tem 
um grande padrinho, epor este o ser, é affagado por outros. Bem 
dizia o desembargador Domingos Monteiro de Albuquerque e 
Anoiaral, chamando-lhe: o rapsodista Marcos! 

cO Plácido, irmão do Melitao, morreu ha dias de suas gran- 
des moléstias e com elle vagaram três officios: o maior que é de 
Inqueridor das jtistificííçdes do reino, no conselho da fazenda, e 
que rende de 4 para 5:000 cruzados, foi logo requerido por 36 
pessoas entre ellas alguns guarda-roupas ; porém a todos elles foi 
preferido o snr. Marcos António Portugal, a quem S. A. K. con- 
feriu a propriedade do dito oíHcio, com uma pensão de 400^000 
réis annuaes para a irmã do dito Plácido, ora aqui recolhida no 
convento da Ajuda.» etc. 

Esta carta merece alguns commentarios ; n^ella se manifesta 
bem todo o caracter invejoso de seu author, que não podia ver 
com bons olhos as distincções subidas que todos davam ao nosso 
maestro, e que elle, mau grado seu, teve a ingenuidade de men- 
cionar na carta. 

Marrocos falia em um grande musico e compositor, vindo de 
Pernambuco, antagonista de Marcos Portugal e que mostra a 
todos os que quizerem ver, os legares que o maestro furta 
de outros compositores, publicando-os como originaes; todavia 
Marrocos, occulta cuidadosamente o nome do tal grande musico 
e compositor, que parece ter vergonha de apparecer á luz do dia. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 65 

NSo podemos conjecturar quem fosse; as probabilidades se- 
riam a favor do seu collega José Maurício Nunes Garcia; entre- 
tanto, este era nascido no Rio de Janeiro e nSo em Pernambuco, 
e nunca retribuiu, as rivalidades e a inimisade de Marcos Portu- 
gal, (se algum dia ella existiu) com intrigas occultas, porque 
estava pela nobreza do seu caracter, acima de taes misérias. 

Em quanto is exigências do maestro, relativamente aos seus 
ordenados, ninguém tem o direito de o criminar por isso, poisque 
cada um pode pedir o preço que julgue á altura do seu talento; 
ninguém, a nHo ser o artista, deve ser juiz n'esta matéria ; os em- 
prczaríos tinham a faculdade de rejeitar as propostas de Marcos 
Portugal, uma vez que as achavam exageradas, porém nem elles, 
nem o snr. Marrocos se deviam ai*vorar em avaliadores de um 
talento que elles nSo podiam comprehender. 

O desembargador Domingos Monteiro de Albuquerque e 
Amaral, chamou-lhe rapsodUta pobre desembargador. . • 

Para pintar melhorem relevo o caracter de Marrocos, publi- 
camos ainda a seguinte carta, que nos dá a chave do enigma e 
que nos explica toda essa inveja mesquinha e a razSo das suas 
epistolas viperinas. E dirigida como as antecedentes e subse- 
quentes, a seu pae: Francisco José dos Santos Marrocos, que era 
Bibliothecario da Bibliotheca real do Paço da Ajuda. 

c3 de Julho de 1812.» 

c Também me lembra dizer a Y. M.^ para guardar no seu 
canhenho, que o rapsodista Marcos António Portugal, celebre 
candidato na fidalguia pela escala de dó, ré, mi, indo ver os ma- 
nuscríptos, por faculdade de S. A. R., teve a insolentissima ousa- 
dia de me dizer que toão$ elles juntos nada valiam, e que S, A.R. 
não fez bem em os mandar vir, antes deviam ser recolhidos na 
Torre do Thmboí Logo me lembrou o dito de Horácio : risttm te- 
neatis amici; porém mettendo a coisa a disfarce, olhando para 
os ares, lhe respondi que o tempo estava mudado e promettia 
chuva. Foi tão besta, que nSo entendeu; antes dando quatro 
fungadellae, voltou costas, e poz-se a ler os versos de Thomaz 
Pinto Brandão. Que lastima U 



66 OS MUSICJOS PORTUGUEZES 

Estas expressões baixas e sujas, tiradas do vocabttlario da 
praça do peixe, indicam até que ponto o seu anthor fora ferido 
com a observaçSlo do maestro, obscrvaçSo aliás justissima, porque 
melhor se teria feito em deixar os manuscriptos na Torre do 
Tombo, que nSlo os perderia Portugal em grande parte. 

Eis, como dissemos, a chave do enigma; e tanto é isto ver- 
dade, que as cartas subsequentes estSo todas cheias de diatribes 
furiosas, tendo Marrocos pelo contrario elogiado o nosso maes- 
tro antes da questão dos manuscriptos da Torre do Tombo, como 
se vê pela seguinte carta: 

«26 de Junho de 1812.» 

cHontem se cantaram umas magnificas Matina» novas, 
compostas por Marcos, e hoje a Mi»9a de Ojfieio: tudo por alma 
do defunto snr. Infante D. Pedro Carlos, na Capella Real, a que 
assistiu S. A. R., completando-se n'este dia um mez do fdleci- 
mcnto do snr. Infante.» 

Agora íica o leitor percebendo a razZo, porque o magnifico 
autfior das Matinas de Junho de 1812, se transformou no rapso- 
dista e plagiário de 1813. 

Dois annos depois, recebia Marcos Portugal a 30 de Dezem* 
bro de 1815 um officio do Secretario do Instituto nacional de 
França, em que este lhe noticiava a sua eleiçSo de Soeio corre- 
spondente, nos termos mais lisongeiros, dizendo que os composi- 
tores francezes (isto é Monsigny, Méhul, Lesueur, etc.) o conside- 
ravam como um dos homens que melhores serviços havia preHado 
ás Artes. 

Marcos Portugal, apesar de todas estas intrigas despreziveis, 
ia vivendo na corte, honrado por todos, disfructando uma bella 
posiçSlo que o coUocava em completa independência; a saúde po- 
rém vacillava, e em 1817 repetiu-se o insulto paralytico, de que 
se restabeleceu, segundo diz Marrocos, a 2 de Fevereiro de 1817... 
cpois que as circumstancias das paralysias n^esta terra sSo de es- 
perar; e agora o Marcos já está em convalescença de segunda.» 

É de suppõr que estes achaques repetidos lhe atacassem a 
saúde, todavia o maestro continuava occupando activamente to- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 67 

dos os seus cargos. Em 1817, compoz e dirigiu a execuçSo dos 
Ofieios e MiMa de exéquias de D. Pedro I; em 1819, escreveu as 
Matinoê, Offieio e Missa por alma do Infante D. Pedro Carlos, 
quando se collocaram os restos mortaes d'e&te principe no tumulo 
que D. Joio vi tinha mandado fabricar em Portugal. Ainda n'es- 
te anno, compôz um Te Deum para a Capella real, dirigiu no thea- 
tro de S. JoSo a sua opera L'Oro nan compra amore, compôz o 
drama: (e parece que também a lettra) Augúrio di felicita para 
o mesmo theatro, pela chegada do conde d'Eltz, embaixador da 
Áustria, que vinha ultimar o casamento do principe D. Pedro de 
Alcântara com a princeza D. Leopoldina, e escreveu mais uma 
Missa para celebrar a chegada da princeza. 

Em 1820 encontramol-o ainda, regendo uma Missa solem- 
ne, composta para celebrar o anniversario da acclamaçSo de 
£1-Rei D. JoSo vi. 

Aqui param as noticias até hoje recolhidas. No anno seguin- 
te regressou a corte para Lisboa. e o nosso compositor lá ficou, 
talvez por nio a poder acompanhar, em vista da doença que 
cada dia augmentava mais. 

Devemos crer que D. Pedro, amador distincto e protector 
zeloso dos artistas, o tratasse' com as attençSes devidas a um gran- 
de artista que alem de tudo, tinha sido seu mestre; ainda assim, 
a ausência de uma corte brilhante, a saudade seguindo esses na- 
vios que levavam todas as suas esperanças, a velhice que lhe ver- 
gava os hombros, a doença que o avisava, prognosticando um 
fim próximo, emfim até a diminuição dos seus ordenados por caut 
sa das difficuldades do thesouro imperial, tudo isto o deixavi^ 
triste e desanimado. > . ', 

Felizmente, nos últimos annos da vida, encontrou ea\ uma 
casa distincta, uma hospitalidade generosa;' talvez que..sei)a est^ 
refugio o compositor 'Vie9^ a 80ffi*er ainda ,priyaç8es.,e. pós, tiye^-i 
semos mais uma mácula na nossa Historia. artisjtica. A ]^Iarque;ç^ 
de Aguiar devemos agradecer este beilo e nobre serviço;. fi)i em 
sua oasaíque falleceu a 7 de Fevereijro de 1830)CQm 68 aonoa íut 
completos, sucçumbindo a :um ultimo ataque paraljtico. .Sobr,eT 



68 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

viveu-lhe sua viuva, porém ignora-se se deixou filhos. Foi sepul- 
tado na capella de Sant'Anna do claustro do convento de Santo 
António dos franciscanos, no Rio de Janeiro. 

O esquecimento .cobriu o tumulo do grande artista, até que 
um compatriota benemérito, M. de Araújo Porto-Alegre o desco- 
briu casualmente, quando procurava os restos do poeta e orador 
brazileiro António Pereira de Sousa Caldas^ Mandou-os encerrar 
em uma uma de madeira e lá estEo no convento, preservados do 
contacto sacrilego dos philisteus, graças á piedade de um homem 
que nos deu a todos um nobre e bello exemplo. 

Acerca do caracter de Marcos Portugal, escreveu-se muita 
cousa desfavorável; jd o leitor recebeu no que deixamos escripto, 
algumas noç5es a este respeito. Accusam-n'o os contemporâneos 
de vaidoso; podéra: n^ o podia ser um homem, recebido e victo- 
riado em toda a Itália; nos primeiros Theatros de Turin, Vero- 
na, Florença, MilSlo, Nápoles, Bolonha, Ferrara, Veneza, Pla- 
cencia; cuja fama tinha penetrado na França, na Allemanha, na 
Inglaterra, até na Rússia, na America, no velho c no novo mundo? 

Não podia ser vaidoso, um artista, nomeado Sócio do Insti- 
tuto de França, nomeaçfto cubicada por todo o homem de mérito, 
c que n'este caso particular tinha uma importância especial, pe- 
las palavras honrosissimas que a acompanhavam? 

Não podia ser vaidoso, um homem, coberto pelo seu sobera- 
no e pela melhor sociedade de Portugal, com as distincçSes mais 
apreciadas que se podiam entUo conceder a um grande artista? 
Decerto que todas estas honras haviam de convencer a final o ar- 
tista do seu mérito, e entSlo negavam-lhe a convicçílo do seu justo 
valor? 

Dizem que quando estava no Coro occupando o seu logar, se 
tomava reparado pelos seus ademancs excessivos, impróprios do 
logar e do acto religioso ; os invejosos vão até mais longe, dizen- 
do, que era tão pretencioso, que regia a orchestra do Theatro de 
S. João de um camarote ! ! Concebc-se semelhante absurdo? S('i 
quem não tiver uma ideia das attribuiçSes de um chefe de or- 
chestra, é que poderá ligar ainda alguma importância a seme- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES $9 

Ihante fiibula. Como é que um regente, pôde, longe da orcheatra^ 
dirigil-a convenientemente, apontar a cada um as suas entradas, 
marcar a expressão por meio da accentuaçSo imperceptível da 
batuta, enthusiasmar os artistas com o fogo do seu olhar e com o 
eathusiasmo do seu gesto; como pôde o regente fazer tudo isto e 
mais ainda, de um camarote? Só a inveja com a estupidez que lhe 
é própria, podia inventar uma historia tSo pueril ! 

E ainda o J. do Commercio faz supposiçSes sobre o caso. 

Os adversários de Marcos Portugal attribuem-lhe além d^es- 
tCy um outro sentimento mais feio, e vem a ser a inveja e o ciúme 
que teve de José Maurício Nunes Garcia, seu collega na Capella 
real. Innocencio da Silva, (ff) diz que o maestro lhe fizera sof- 
firer desgostos e humilhaçdes, que Garcia supportava com resi- 
gnação e generosidade; nSo sabemos se isto é verdade, o que é 
certo e terem morrido como amigos, estimando-se mutuamente, 
como dois grandes artistas que eram. Estas apreciações desfavo- 
ráveis do seu caracter, ficam refutadas com a affirmação do J. do 
Commercio: cTodavia a algumas pessoas que ainda conservam 
reminiscências de Marcos Portugal, temos ouvido dizer que era 
homem muito amável e de trato lhano. > 

Eis a biographia; aproveitamos principalmente os trabalhos 
do Jornal do Commercio, de Fétis e de Innocencio da Silva; a, 
primeira biographia, apesar de ser a mais completa, ainda tinha 
muito facto por aproveitar, muita indução importante para se co- 
lher e que os authores tinham deixado passar em claro. O traba* 
lho de Fétis, foi tomado na devida consideração e onde foi neces- 
sário, citamos o nome do illustre critico, apoiando com elle toda a 
affirmação importante. Emfim a biographia de Innocencio da 
Silva também teve a sua utilidade, apesar de a encontrarmos 
quasi toda refundida e melhorada no Jornal do Commercio. 

Não demos como se vê, exclusivamente a preferencia a nin- 
guém; apesar de nos inclinarmos mais para os trabalhos do Jor- 
nal do Commercio, não desprezamos as noticias de Fétis como 
I. da Silva fez, a quem só um excessivo amor próprio podia fazer 
dizer: (gg) que continham apenas ctêêerçdes, todcLS convencidas dê 



70 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

inexactidão flagrante, factos propoêtos ou antepostoê, daiou evi- 
dentemente erradoê, circumstancias inconciliaveiê, etc. etc.y re- 
matando com estas palavras pretenciosas: «Eis o que no artigo 
86 nos offerece do principio aofim^ (! !) 

ff A biographía de Marcos ficou por escrever» ; isto equivale 
a dizer: foi eu que a escrevi, o que não prova grande modéstia. 

Eis a verdade; o seu a seu dono, que é dictado portuguez, 
de lei. 

Apresentamos em seguida a lista das suas Operas e outras 
composições profanas e sagradas. As primeiras nSo vSo, como 
devia ser, pela ordem chronologica, que é a mais natural, porque 
as apresentamos para maior clareza no fim, n'um Quculro especial 
synoptico e chronologico ; adiante damos a classificaçXo,nSo menos 
interessante, feita pelos differentes paizes onde as operas de Mar- 
cos Portugal foram representadas. Como se vê, affastamo-nos do 
systema seguido até aqui por todos os biographos do maestro por- 
tuguez ; esperamos que esta innovaçSo, nSo imaginada pelos bio- 
graphos antecedentes, aproveitará ao leitor, que ha-de encontrar no 
Quadro synoptico, explicada com toda a clareza a popularidade 
de cada uma das suas operas, determinada pelo numero de reprc' 
sentaçoes; ensk primeira classificação que adiante fazemos: a pre- 
ferencia que se dava a certas e determinadas operas do nosso 
compositor, nos differentes paizes da Europa, e o grau da sua po- 
pularidade, em cada um d^elles. Damos n'esta segunda ennume- 
raçao o primeiro logar i Itália, porque foi este o paiz que fun- 
dou, propagou e confirmou a gloria de Marcos Portugal. 

Operas representadas na: 

ITÁLIA 

Turim 1.) L'Eroe cinese, opera bufia, representada em 

1788; é citada apenas por Fétis e ignorada 
pelos outros biographos. Advertimos que ha 
9 operas com este mesmo titulo ; distinguem-se 



09 MUSICO? PORTUaUEZES 71 

as de Glucky Sacchini e David Perez (Lis- 
boa, 1753-) 
Génova 2.) La Bachetta portentosa, opera buffa, cantada 

em 1788, mezes depois da antecedente. 
Florença 3.) UAstutto, opera biiffa, cantada na primavera 

de 1790. Foi cantada também em russo pelos 
annos de 1795 a 1797, no theatro de S. Pe- 
tersburgo. 
4.) II Cina, opera séria, representada no theatro 

alia Pérgola em 1793. 
5.) 7 due Gohhi, ossia le canfuzione nate delia 

Somiglianza, opera bufia, cantada em 1793. 
6.) La Vedava raggiratrice, opera buffa, cantada 

em Florença em 1794. 
7.) UAverUurieri, opera bufiGet, cantada em 1795 

n'mn theatro particular. 
8.) /Z Ritomo di Ser se, opera séria, cantada em 
1795, e repetida em 1797 no theatro alia 
Palla-corda. 
9.) ZtUema e Selimo, opera séria; em 1796, no 
theatro alia Palla-corda. Note-se, que ha uma 
opera de F. Orlandi, representada em 1813 
em Veneza, com ò titulo=Zulemo e Zelima=. 
Venesa 10.) II MoUnaro, opera buffa, representada no car- 

naval de 1790. 
11.) Rinaldo d'Asti, opera buffa, cantada em 1793. 
12.) /Z Príncipe di Spazzacamino, opera buffa, 

cantada em 1793. 
— .) J due Gobbi, ossia le confusione nate delia So- 

miglianza, opera buffa, cantada em 1795. 
13.) La Donna di génio voluiile, opera bufi&i, can- 
tada em 1796. 
14.) II Diavolo a qyattro, ossia le Donne cambiate, 
opera buffit, cantada em 1797« 



72 OS MÚSICOS PORTUGtJÈZES 

Teiiesa i5.) Za Jlfa«cÃera/ar/tituito^ opera bufFa, em lacto, 

cantada no tfaeatro S. Mosé, em 1797. 
» 16.) iZ Filosofo sêdicente, opera boffii^ cantada em 

1798. 
» 17.) Fernando in Messico; esta opera é eonside- 

rada no estrangeiro como a sua obra-prima; 
foi cantada em 1798, porém com musica diffe- 
rente d^aquella com que fora executada no 
anno antecedente em Roma, pela Biilington. 
f 18.) Alceste, opera séria, cantada em 1799 no 

theatro delia Felice. 
» 19.) Le Nozze di Figaro, opera buffa, cantada no 

theatro S. Benedetto em 1799. 
» 20.) La Madre virtuoea, opera séria, cantada em 

1798. E a mesma opera que=Semiramide,= 
Morte di Semirade,=Madre virtuosa, ==Ma- 
dre amorosa=. 
Parma ^—.) La Donna di génio volubile, opera buffa, can- 

tada em 1791. 
Milão 21.) Demofoonte; é uma das suas bellas operas no 

estjlo sérioi Foi cantada em 1794 na Scala; 
Fétis nSo indica o theatro, porém L. Romani 
(hh), traz : Sccda, exactamente com a mesma 
data, no Carnaval. 
1 — .) / due Gohbi, ossia le eonfuzione note delia w- 

miglianza, opera buffii, representada na Qaa- 
resma de 1796. 
» 22.) Idonte, ossia i saerifizi cPEcate, opera séria 

cantada em 1799, na Sccda. 
1 — .) La Donna di génio volúbtle, opera bufia; foi 

cantada na Primavera de 1799, na Scala. 
» — .) Idonte, opera séria, cantada no Carnaval de 

1800, na Scala. 
> 23.) Xe Donne cambiate, ossia il Cia bottino, opera 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 



73 



Hilio buffa^ cantada na Primavera de 1801; na 

Scala. 

Ha uma outra opera de Fioravanti^ cantada 
em 1813, no tbeatro nuovo di Napoli com o 
titulo : = U Cia bottino = . 
» 24.) Oro nan compra amare, opera buffii, cantada 

no Outono do 1808, na Sccda. 
» — .) L* Adriano in Syria, opera séria, cantada em 

1815, proYavehnente na Scala. 

Coubemos 27 operas com este titulo; entre 
as differentes partituras, distinguem-se as de : 
Pergolese, Hasse, Scarlatti, Cbristian Bacb e 
Cherubini. Em Lisboa, cantou-se em 1752 uma 
opera com egnal nome, de David Perez. 
» 26.) La Morte di Mithridate, opera séria, cantada 

em 1815, na Scala» 
Bokmba — .) II Ritomo di Serse, opera séria, cantada em 

1759, porém com musica diversa das repre- 
sentações de Florença n^este mesmo anno. 
Hapolea 27.) L'Ingano poço dura, opera buffa, cantada em 

Nápoles, no tbeatro dei Fiorentini em 1796. 
— .) Fernando in Meêêico, opera séria, cantada 
em 1797 pela Billington, para quem fôra es- 
cripta. 
28.) UEcqaivoco in ecquivoco, opera buffit, canta- 
da no Tbeatro grande, em 1798. 
Place&cia — .) Non irritar le Donne, opera buffa, cantada 

em 1799; foi á scena em outras cidades da 
Itália, com o titulo, =11 filosofo sedicente.= 
29.) Oratii Curiazi, oipera séria; foi cantada em 
1799, na abertura do novo tbeatro d'e8ta ci- 
dade. 



MmoB, 



T«roBa 



Ferrara 



ItaBMro das operai raprostatadas na Itália »= 29. 



74 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE8 

POBTUQAL 

Lisboa — .) La Danna di génio volubUe, opera buffit, can- 

tada a 23 de Janeiro de 1799 em S. Carlos, 
por Crescentini; Caporalini, Schira, Praun, etc. 

» — .) Einaldo d*Asti, opera bufia, cantada a 25 de 

Ábríl de 1799 em S. Carlos, pelo anniversarío 
da princesa do Brazil, D. Carlotta Joaquina. 
O poema foi arranjado novamente pelo poeta 
Caravita; e augmentado com mais i Acto, 
alem d^aquelle que fôra cantado em Veneza, em 
1793. Esta opera foi ouvida em S, Carlos 
por Caporalini, Zamperini, Praun, Tavani etc. 
A 25 de Fevereiro de 1783, subia á scena em 
Paris, uma opera de Saochini com titulo egnal. 

» — .) iZ Barane di Spcutzacamino, opera bufia, can- 

tada em S. Carlos a 27 de Maio de 1799, em 
beneficio de Tavani, por Schira, Caporalini, 
Rostrelli etc« É a mesma opera que foi á sce- 
na em Veneza, em 1793, com o titulo: =11 
Príncipe di Spazzacamino=. 

9 30.) Adrasto, opera séria, cantada em S. Carlos aa 

1800 ; vem citada no Catalogo do próprio Mar- 
cos Portugal. 

f 31.) Ul9ola piaeévole, opera séria, cantada em 

S. Carlos, a 26 de Janeiro de 1801; referida 
pela primeira vez nas Ephemerides musicaei 
(Revista dos Espectáculos) de T. Oom. 

9 — .) La Morte di Semiramide, opera séria, can- 

tada no Inverno de 1801 e desempenhada pela 
Catalani, por Crescentini, Praun, Domenico 
Nery etc. Fétis indica a representaçSo dada 
em S. Carlos, em 1802. Esta opera, é a mesma 
que foi cantada em 1798, em Veneza, com o 
titulo = La Madre virtuosa, =e que vem men- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 75 

Idiboa cionada no Catalogo de Marcos Portugal com 

o nome:=La Madre amoro8a=. 

O enredo dramático doesta opera, tem sido 
o assmnpto favorito de muito compositor ce- 
lebre, pois contam-se nada menos de 36 operas 
com este titulo, tratadas por differentes com- 
positores; entre elles vem: Gluck, Salieri, 
Cimarosa, Sarti, Paêsiello, Sacchini, Jomelli, 
D. Perez, Hasse, Oraun e ultimamente Mejer- 
beer e Rossini. Entre estas representaçSes, 
mencionamos as que se referem a Portugal. 

Em S. Carlos foram representadas, além da 
do nosso maestro, as dos seguintes authores: 
a de Borghiem 1798, e ade Rossini em 1826, 
que oflfuscou as antecedentes. No theatro de 
Salvaterra a de Jomelli, a 25 de Janeiro de 
1771. 

Marcos Portugal, quando fez representar a 
opera em S. Carlos, mudou-lhe o titulo para 
o que acima referimos; no libretto declara-se: 
qiie a muêica é toda nova. Esta referencia tem 
dois sentidos; ou significa: que a musica era 
nova para os lisbonenses, ou que fôra feita de 
novo sobre o antigo libretto. O J. do Com- 
mercio, conjectura, e talvez com razSo, que 
a musica cantada em Lisboa, foi a mesma 
que se ouviu em Veneza, e apenas o author 
Ihç introduziu uma cavatina, ou alguma ária 
• no papel de Semiramis, feitas de propósito para 
por em relevo as qualidades artisticas da sua 
cantora predilecta. Foi n'esta opera que a Ca- 
talani se estrelou em Londres, e n'ella intro- 
duziu a famosa ária: JSan regina e in mezzo 
aUfarmi, de que já atras falíamos e que perten- 
ceu originariamente i=Sofonisbaa=. A par- 



76 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Liiboa titura aatographa doesta opera, está detoal- 

mente na Bibliotheca nacional de Lisboa, que a 
comprou ao copista de S. Carlos, O. Casimiro, 
pela bagatella de 9f 000 reis ! 

> 32.) Sofonisha, opera séria, cantada em S. Carlos, 

no Carnaval de 1803, em beneficio da Catalã- 
ni; na execuçSío foi coadjuvada por Crescentini, 
Praun, Boscoli etc. O poema foi arranjado pelo 
Abbate dei Maré Compagno, segundo a trage- 
dia de Mestatasio. Pelas deelaraçSes do libret- 
to original, parece conduir-se que esta opera 
foi escripta expressamente para a Catalani. 

> 33.) II Tricmfo di Clelia, opera séria, cantada em 

S. Carlos em 1803 pela Catalani, por Crescen- 
tini, Angelleli Panizza ; o poema foi arranjado 
por Caravita, segundo o original de Sograsi. 

> 34.) Zaira, opera séria, palavras arranjadas por 

Caravita; a opera foi executada em S. Carlos, 
no estio de 1804 pela Catalani, por Mombelli, 
Praun, Gaetano Nery etc. Apesar de subir 
á scena em 1804, parece que estava já con- 
cluida em 1801 ; tinha grandes bailados, com- 
postos por Domcnico Rossi. 

y 35.) Merope, opera s^ia, cantada em S. Carlos a 

13 de Maio de 1819, anniversario de El-Bei 
D. JoSo VI. A execução foi confiada ás damas: 
Luigia Franconi, Theresa Appiani, Franceses 
Barlesina e L. Mari. Parece certo, que esta 
opera foi cantada muito antes, em 1804 ou em 
1805, em beneficio da Catalani. A partitura 
autographa, está em poder do actual copista do 
theatro de S. Carlos, Gabriel Casiitiiro. 

9 — .) Argenide, opera séria, cantada a 13 de Maio de 

1804, no anniversario do príncipe regente. Fo- 
ram executantes: a Catalani, Mombelli, Ma- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 77 

Lisboa tucei, e Olivieri. (Vide o Quadro chronologtco 

das operas; por elle se vê, que foi uma das 
composições mais applaudidas e mais repetidas 
no estrangeiro.) 

>' — ,) Oro non compra amore; talvez a sua melhor 

opera buffa, cantada no inverno de 1804; poesia 
de Caravita. Foi em beneficio da GrafForini, 
primeira dama huffa; executada por Praun, 
FranccBco Gafforini, Giuseppe Naldi, etc. 

A lyartitura autographa d'esta opera, que 
pertenceu ao archivo musical do fallccido Con- 
de do Farrobo, está em nosso poder. 

» — ,) Le Domie canibiate, opera buffa, poema de 

Guiscppe Fota. Foi cantada na primavera de 
1804, cm beneficio de António Palmini, sendo 
executantes: a GafForini, António Naldi, Pe- 
drozzi, e Palmini. Esta opera foi também 
cantada em Veneza, em 1797, com o titiJo II 
Diavolo a qtiattro, ossia le Donne caniJbiate; 
em difierentes theatros da Allemanha com o ti- 
tulo: Der Teufel ist los; e na Scala, com ou- 
tro titulo ainda, e vem a ser: Z/6 Donne cam- 
hiate, ossia il cia hottino. 

> 36.) Ginevra di Scozzia, opera seria, poema de 

Caravita. Cantou-se em S. Carlos no inverno 
de 1805, em beneficio da Catalani, acompanha- 
da pelos artistas: Matucci, Mombellí, Olivieri, 
e X ery . A opera foi posta em scena com gran- 
de cxplendor, sendo o scenario composto pelo 
celebre Mazzoneschi. 

9 37.) II Duca di Foix, opera séria; poema de Cara- 

vita, extrahido da tragedia de Voltaire. Can- 
tou-se em S. Carlos em 1805, em beneficio da 
Catalani; foi auxiliada por Matucci, Mombelli, 
Olivieri, etc. Esta opera nSo foi com menos 



78 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Liaboa apparato do que a antecedente ; na soena 6/ 

do Acto 11; havia a vista de um acampamento 
militar. 

• — .) Fernando in Mesneo, opera séria; cantada cm 

1805 pela Catalani, Matucci, MombeUi, Olí- 
vieri, etc. (Vide as representações de Veneza, 
1798 e Roma, 1797, Quadro synoptico.) 

> 38.) Artoêtr^e, opera séria; poema arranjado por 

Caravita sobre o original de Metastasio; re- 
presentoa-se em S. Carlos, no outono de 1806, 
em beneficio da prima dona Eufemia Eckart, 
ajudada pela Marianna Sessi, Mombelli, Gian- 
fardini e Fiiippo Senesi. A Catalani tinha sa- 
bido n este anno para Londres e Paris pek 
Hespanha. 

> 39.) Morte di Mithridate, opera trágica, com pala- 

vras de Caravita. Cantou-se no Carnaval de 
1806, em beneficio do primeiro tenor Mombel- 
li; os outros artistas eram: a Catalani, Matac- 
ci, Olivieri e Boníni. 

* — .) Demofoonte, opera séria, cantada em S. Carlos 

a 15 de Agosto de 1808, na recita extraordiná- 
ria mandada dar pelo general Junot, para fes- 
tejar o anniversario natalício de Napolelo i. 
Cantaram n'ella a Eckart, Nery,v Calderini, 
Bianchi, etc. Um libretto de 1819, indica que 
voltou á scena a 25 de Abril doesse anno, para 
festejar o anniversario da rainha D. Carlota 
Joaquina. Foi cantada n^esta segunda vez, pelas 
damas: Carolina Massei, Thereza Zapacci, 
Thereza Appiani, Justina Piacentini, Luigi 
Mari, etc. Esta opera foi cantada anteriormen- 
te em 1794, na Scala em Milão. Este assumpto 
tem sido também um dos favoritos, pois conhe- 
cem^se nada menos de 33 Demofoontes; entre 
estas partituras, distinguem-se as de Gluck 



os MÚSICOS PORTUGtJEZES 79 

Lisboa Paesiello, Hasse, Jomelli, (Ajuda, 1775) David 

Perez (Lisboa; 1752) e Graon. 

A partitura autographa, qae pertenceu ao 
archivo musical do fallecido Conde do Farro- 
bo, está em nosso poder. 
> 40.) II Triomfo di Gusmano, opera séria, cantou-se 

«m S. Carlos a 10 de Janeiro de 1810, e repe- 
tiu-se a 10 de Junho de 1816, segundo outro li- 
bretto ; foi em beneficio da prima donna Felice 
Vergé, ajudada pelos artistas : Carolina Nery- 
Passerini, Cario Barlazina, L. Mari. O Jornal 
do Commercio suppSe que fora escripta no Bio 
de Janeiro. 

Numero das operas representadas em Portugal »= 20. 



BSAZIL 



de Jan.*^ — ) Denwfoonte, opera séria, cantada no theatro 

régio, a 17 de Dezembro de 1811, anniversa- 
rio da rainha D. Maria i. Entre os cantores, 
encontra-se apenas uma italiana: a prima 
donna Scaramelli, que tinha estado em 1806, 
em S. Carlos. A outra dama, que se chamava 
Maria Cândida, era portugueza, assim como 
todos os outros cantores. 
9 — .) VOro non compra amore, opera buffa, cantada 

a 22 de Agosto de 1817, no theatro de S. Jo8o. 
• — .) Merope, opera séria, cantada a 8 de Novembro 

de 1817 no mesmo theatro. 

Numero das operas representadas no Brasil— 3. 



80 



OS MÚSICOS PORTUGUEZES 



ALLEMANHA 



Dresden — 



Breslaa — .) II Molinaro, opera bufFa, 'cantada em 1792 no 

theatro da Opera. 

Dresden — .) La Somiglianza, ossia I Gótòi, opera bufia, 

cantada no Theatro da Opera em 1793. 
.) Lo Spazza camino, opera baffa, cantada em 
1794, no mesmo theatro. 
9 — .) La Vedava raggiratrice, opera buffa, cantada 

em 1795, ibid. 
» ■ — .) La Donna di gemo voliibiU, opera baffii| can- 
tada em 1798, ibid. 
» — .) Le Doniie canibiate, intermezzo buffo, cantado 

em 1799; também se cantou em cUlemão com 
o titulo : =Der Teufel ist lo8=(o Diabo L sol- 
ta) ; o compositor Oestewitz (hh) escreveu mn 
Jinal para esta traduçSo. 

Yienna — .) Le Confuzione delia So9niglíama,opeTAhníbi, 

cantada em 1794, no Theatro da Opera. Foi 
também cantada em differentes outros thcatros 
da Allemanha, em aUemão, com o titulo=Vcr- 
wirrung durch Aehnlichkeit, oder die Beiden 
Bucklichten. 



Numero das operas representadas na Allemanha =7. 



FRANÇA 



Paris 



.) Non irritar Le Donne, overo il sedicente Filo- 
sofo, opera buíFa, cantada cm 1801, quando 
n'este anno se reabriu o theatro italiano por or- 
dem de Napoleão i. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES «l 

INGLATERRA 

Londres — .) Argeníde, opera séria, cantada em 1806 no 

King^s theatre pelos celebres artistas, BlUington 
e Braham. 



RÚSSIA 



S. Petanb.*" — .) IZ Príncipe di Spazzacamino, opera buffa, can- 
tada pelos annos de 1793 a 1796, em i^usbo, 
» — .) Argenide, opera séria, cantada entre 1794 e 

1795, egualmente em rusêo, 
» — .) Artaserêe, opera séria, cantada em riLSBo, de 

1794-1795. 

Total das operas representadas em Portugal 
e no estrangeiro =40. 



OPERAS TRADUZIDAS DO ITALIANO, DRAMAS COH MUSICA, ETC., 

CAITTADOS EM DIFFEREKTES THEATROS DE 

2.* ORDEM, EM LISBOA 

1.) Pequeno drama, feito para celebrar o anniversaiio da 
rainha D* Maria i, e representado no Theatro do Salitre a 1 7 de 
Desembro de 1787. A poesia, era de José Caetano de Figueiredo ; 
foi cantado pelos actores José Félix da Costa, António Manoel 
Cardoso Nobre, Nicolau Ambrozini, Yictorino José Leite e José 
dos Santos. 

2.) Jdyllio, cantado a 25 de Abril de 1788, no Theatro do 
Salitre, pelo anniyersario da Infanta D. Carlota Joaquina. A 
poesia era de José Procopio Monteiro, actor do mesmo theatro ; 



82 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

foi cantado por António Manoel Cardoso, Custodio José da Gra- 
ça e Victorino José Leite, com coros. 

3.) Licença pdsioríly que se representou no Theatro do Sali- 
tre, a 25 de Julho de 1787, para festejar o anniversario daprin- 
ceza D. Maria Benedicta. 

4.) La purÍ88Íma Concezione di Maria Santíssima, Madre 
dl Dio; cantata scenica da representarsi neW Oratório de S. Si- 
gnoria il sig,^ em 8 de Dezembro de 1788. 

5.) Gratidão, drama com musica, para ser representado no 
mesmo theatro e na mesma festividade, a 25 de Abril de 1789. 
Poesia de António Neves Estrella. Cantado por José Procopio, 
António Manoel Cardoso, Victor Procopio de Borja e Victorino 
José Leite; estes dois últimos faziam as partes de damas, (ii) 

6.) A Inveja abatida, pequeno drama, com musica, repre- 
sentado a 13 de Maio de 1789, pelo anniversario do príncipe do 
Brazil, D. João. A poesia era de José Procopio Monteiro, e foi 
cantado pelos actores José Porphyrio, Victorino José Leite, An- 
tónio Manoel Cardoso, Victor Porphyrio, etc. 

7.) A Noiva fingida, burletta em verso, representada no Sa- 
litre, em 1790. Era uma traducçSo de uma opera buffa italiana: 
=Le Trame diluse.= Foi cantada pelos actores Diogo da Silva, 
António Manoel Cardoso, Josó Arsénio, António José da Serra, 
Victor Porphyrio e Victorino José Leite j estes três últimos faziam 
as partes de damas. 

8.) Os Viajantes ditosos, burletta em verso, traduzida do 
italiano =1 Viaggiatore felice=. Foi cantada no Salitre, em 
1790, pelos actores Victorino, Silva, Cardoso, Victor Arsénio e 
Madeira. 

9.) O Mundo da Itia, burletta, traduzida do italiano, com os 
recitativos em prosa. Representou-se no Salitre, porém ignora-se 
a data. 

10.) A Casa de campo, traduzida do italiano =La Villa.= 
Cantou-se no Theatro da Rua dos Condes, em 1802,mas ignora-se, 
89 se imprimiu^ assim como as seguintes: 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 88 

11.) Quem busca lã fica tosquiado, burletta, traduzida do ita- 
liano ==U£cqaiyoco=; foi á Bcena no Theatro da -Rua dos Coa- 
desy em 1802. 

12.) O Sapateiro; representou-se no mesmo theatro e no mes- 
mo anno. 

13.) A ilascara; idem. 



BURLETTAS £ PEÇAS SECUNDARIAS, CANTADAS NO RIO DE JANEIRO 

14.) A Saloia namorada, burletta; cantou-se em 1812, na 
Quinta da Boa- Vista, pelos escravos do regente (D. João vi). 

15.) O Juramento dos Numes, drama allegorico, cantado na 
abertura do Theatro de S. Pedro d' Alcântara, (jj) a 12 de Outubro 
de 1813. A poesia era de D. Gastão Fausto da Camará Coutinho. 
Nas Memorias históricas do Rio de Janeiro, por Monsenhor 
Azevedo Pizzaro, diz este escriptor, que fora Bernardo José de 
Souza Queiroz o author do = Juramento dos Numes = ; parece ser 
erro, porque o Jornal do Commercio declara positivamente, que 
viu o folheto em que se diz, que íoi Marcos Portugal o author 
da musica. Entretanto, Balbi, (kk) fallando doesta composição, 
cita umas iniciaes: N. N. (vide ai.* pagina d'este volume), dei- 
xando o nome emanonymo; ora, se a composição foi escripta por 
Marcos Portugal, tel-a-ía collocado debaixo do. seu nome, por 
que menciona o nosso maestro honrosamente em outro logar ; 
pôde também ser, que houvesse dois dramas, um com miuica de 
Queiroz e outro com musica de Marcos Portugal. 

16.) Augúrio di felicita, ossia il triomfo dei amore. Serenata 
em 2 partes, cantada no Paço do Rio de Janeiro, em 1807, para 
festejar o casamento do príncipe real D. Pedro, com a archidu- 
queza D. lalaria Leopoldina. Foi executada pelos cantores da real 
eamera; a poesia era do próprio Marcos Portugal, que aprovei- 
tou quanto foi possivel, uns versos de Metastasio, como o libretto 
impresso, declara. 



U os MUSIOOS PORTUGUEZES 

Além Aã» compoêiçSés que ficàm nnencionadas, eterevea 
ttoitas òtttTM de ordem inferior : Cantatas, Sonatas para Pittd, 
Entremezes, Farças, etc.; doestas ultimas mencionamos: 

O Amor aríiJUê. 

A Coêianheira. 

A Ccua de café. 

Oi h<m$ amigoê. 

Devemos ainda fazer notar, que Marcos Portugal, introda- 
siu em roais de 20 operas de Cimarosa, de Gluck, de Paesiello, de 
Zingarelli, de Fioravanti, ete., representadas em S. Carlos, de 
1800 a 1806, debaixo da sua direcção: muitos trechos originaes, 
taes como cdros, árias, duettos e até acenas inteiras. 



PABirrURAS AUT0GRAPHA6 DE OPEBAS 



DB 



MARCOS PORTUGAL 

1.) La Morte ii Semirúa/nide, na BibliothecA nacional ds 
Lisboa. 

La Marte di Semiranúde. 

Zaira. 

La Marte di Mtthridate^ 

Merape. I NaBiUio- 

Ginevra di Scozia. > tbecareàl da 

Demofaante. i Ajuda. 

Fernanda in Meaico. 

Licença poêtoriL 25 de Janeiro de 1787. 

Pequeno drama. 17 de Dezembro de 1787.^ 
Entre estas partituras, apenas algumas sSo authcgraplias; 
aoppomos serem as que vSo marcadas com algarismos^ por se 
conheeerem ji os authographos das outras. 



S. 
3. 

4. 

"^ . 

5. 
6. 

7. 



os MÚSICOS PORTUGUBZa» 8S 

8.) Mêrope, em poder do copista de S. Carlos, Gabriel Ca- 
uimro. 

9.) DemofoonU, partitura ontr'ora pertencente ao Gtooeral 
Jaaoty Duque d'Abr«jQtea ; depois do antigo copiata de S. Carlos, 
Joaquim Casimiro da Silva; em seguida, dada ao Conde do Far- 
robo e hoje em nosso poder. 

10.) Oro non eampraamore; partitura oatr'ora do Conde do 
Farrobo; agora também em nosso poder. 

PossuimoB ainda os seguintes trechos isolados (em copias) 
de operas do nosso celebre maestro i 
Oro non compra amore. 
1.^ Symphonia, em reducf^ de Piano» 
i.^ Puetto e Recitat.=«=Signora mi perdonifsxem part. 
Argenide. 
1.^ Becitat. e Duetto:»cSi fido a me tu sei=«»em pairt. 
S.^ Recitativo e Duetto:=sTu Tami, e in cor per lui 337 
em partitura. 
Morte di Mithridaâe» 

1.^ CaTatina«»Partite deli' mio core»* em partitura. 
2^" Recitai, e Aria»=Per queate amare lagrimeBsem pari. 
Semtramide. 

1.® Ária = Qual palor! qual tema Is» em quartetto de 

instrumentos de cordas* 
2.*^ Duetto»:Non tremar io t'ofto il pettoi«=:fim partitura. 
Adrasto. 

Symphonia para Piano. 
n Duea di Foix. 

Cavatina: as La pena che sento?«7em partitura* 
Ritomo di JSer$e. 

1.^ Symphonia para Piano. 

2.^ Cavatina com coros, ae Qual rea viltade è questa^s 
em partitura? 
Artaserêe. 
1.^ Symphonia em partitura; ameama para duas flautas; 
reducçXo de Casimiro. 



86 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

2.* Aria=Non ti son padre=para Piano e Canto. 
3.® Recit. e Rondo ==Sospiranào afliitta e 8oIa=em part 
Zaira. 

Scena e ÂriaasOppresBO, agitato, tradoto in amore= 
em partitura. 
Triomfo di Clelia. 

Duetto=Al campo andiamo fra Farmi triomfar=em 
partitura. 
Orazi i Curiazi. 

Duetto=Svename ormai crudel=em partitura. 
Oinevra di Scozia. 

!.• Acto completo, em partitura. 
Em um Catalogo da antiga casa Launer de Paris, hoje 
E. Girod, encontramos com grande surpresa nossa, umas compo- 
sições de Marcos Portugal, que em seguida mencionamos. Em 
França lembraram-se do nosso artista já ha 10 annos, (pois o ca- 
talogo é de 1860) quando ainda hoje muito portuguez se espanta 
de ouvir o nome de Marcos Portugal, como de um artista e com- 
positor; parece que acordam de um sonho ; acceitemos esta lição 
que nos vem de fora, oxalá que ella nos aproveite. Eis os tre- 
chos publicados: 

La Donna di génio vohihile, 

N.^ 2. Cavatina S.=Per amor abbiamo. 

Nota. «Cette cavatine est de Marcello di Capua.» 
N.** 2. Terzetto. S. T. B.=Deh! vieni amato. 
N.® 3. Duetto. S. B.=Amor vi chiedo. 

Nota. «Ce duo est de Farinelli.» 
N.^ 4. Scena ed ária. S.=:I1 tenero mio core. 

Nota. cCet air est de Fioravanti.i 
N.® 5. Terzetto. T. B. B.=Dille, che i doni suoi. 
Segundo as dedaraçSes das notas do catalogo, se vê, que só 
08 números 2 e 5, são de Marcos Portugal. 
Oro non compra amore. 

N.^ 1. Duetto S. B. = Le agnelette il caro ovile. 
N.^ 2. Ária. B.=Alle vesti ed ali' aspetto. 



os MÚSICOS PORTUGDEZES 87 

m 

NSo deve estranhar esta circumstaneiá, porque este uso^ dos 
compositores introduzirem árias e duettos de outros authores nas 
suas obras, estava generalisado, como se vê nas paginas 21; 22; 
23; 24 etc. do mesmo catalogo francez. 

Na opera de Sarti: Le Nozze di Dorina, lê-se debaixo do 
N.** 2: tCe trio est de Mozart; no N.^ 4: tCe duo est de Mosca. 

Na opera: /. Nemici generosi de Cimarosa, N.^ 3: cCe duo 
est de Pavesi; N.® 4 : «Cet air est de A^reozzi; N.* 8 : tCe duo 
est de Pavesi. 

Na opera: Modista raggiratrice dePaêsiellO; N. 1 : cCe duo 
est de Mosca dans H Filosofo. 

No Matrimonio secreto de Cimarosa, N.^ 20 : <Ce duo est de 
Farinelli. 

Já se vê que estes plagiatos amigáveis, eram reciprocoS; 
porque, se Marcos Portugal se utilisou das ideias de Marcello di 
Capua, de Farinelli e de Fioravanti, também na opera La Moli- 
nara de Paêsiello, encontramos oN.^ 2, com a nota: cCet air est 
de Portogallo.w Na opera Gli Orazzi ed I Curiazi, de Cimarosa 
lê-se no N.^ 16 : cCette cavatine a été faite pour M.* Catalani 
par PortogcUlo. 

£ provavelmente a estes plagiatos que se referia o tal gran- 
de compositor, que Marrocos cita na sua carta de 28 de Septem- 
brode 1813. 

Apresentamos em seguida uma lista chronologica dos factos 
mais notáveis da vida do nosso celebre compositor, synthetisando 
em algumas paginas, o que dissemos n^esta longa biographia; es- 
colhemos para isso as datas que nos pareceram mais certas, entre 
as dos seus três biographos, sem distincçSo especial por um ou 
por outro. 

Adoptamos alguns factos mencionados por Fétis, nSo obs- 
tante as razSes do Jornal do Commercio e de Innocencio da 
Silva, porque nSo as julgamos sufficientemente fortes, para des- 
truir muitas vezes, apenas por meras hjpotheses, a affirmaçSo de 
vau facto pelo primeiro musicographo que existe. 

Nós nSo poderemos avaliar a veracidade dos fiactos meneio- 



M OS MÚSICOS PORTUQUEZES 

Bftdoa por Fétís, emqtumto nlo aoubermos le eimm dignas de fê, 
IM fontes d^onde tirou aquillo que em Portugal ignoramos. 

Até láp podemo-nos conservar apenas em espeetativa prn* 
dente; proceder d'outra maneira, seria faltar á lógica. 

£ verdade, que estão em contradicçSo com o Catalogo atdo- 
grafho de Harcos Portugal ; todavia nSo é só Fétis, que lhe écon- 
trariOy mas também Gcrber, T. Oom, PlatXo de Vaxel, Y. Mor- 
koff (li) e o próprio Jornal do Commercio ; a questio da autlientict- 
dade do catalogo, é muito melindrosa, e para nós nSo esti, nSa si 
resolvida, n^as até posta em duvida; admittindo mesmo, contra 
todas as apparencias, a authenticidade, é incontestável que o 
catalogo está muito incompleto, como já o provamos n'e6ta bio- 
graphia. 

£m outros casos porém, nZo tivemos a menor duvida em 
emendar os erros de Fétis, desde o momento em que as opiniSes 
oppostas do Jornal do Commercio, e de Innocencio da Silva, es- 
tavam sufSicientemente authenticadas. 

Julgamos ter procedido imparcialmente, e poder agora apre- 
lentar aqui a synthese dos factos, ci\ja origem e authenticidade, 
discutimos e analysamos com a maior boa fé e com toda a justiça. 



FACTOS DA VIDA DB MASCOB PCMmTQAL 

1762 , 24 de Março. Nasce em Lisboa. 

Innocencio da Silva {Arckivo Pittoreseo, vol. vn, pag. 
290. Fétis, (Biogr. Univ. de$ M^tieienã, rol. TU, 
pag. 105) indica a data 1763. 

1770 Entra no Seminário Patriarchal ; i^yrende ahi os rudimen- 
tos da Arte e completa os seus estudos debaixo da di- 
recçSo de JoSo de Sousa Carvalho, Director do Semi- 
nário. Jornal do Commercio. 

177 T Frequenta o Seminário de Santarém e recebe liçSes de 
Cónego GallSo. Facto duvidoso. 



os MÚSICOS PORTUGUEZÍS S9 

177 T Iiiç3e8 decanto de Borselli. PrimeirM compoAiçSea : Arioi 
e Can%onetiiê iuãianm^ com aeompanhauiento de or- 
chestra. Féfci«. Facto eontestado porlnnoeencio da Silva. 

1776 Primeira oompoaiçSo sacra: Jtfúeretv a 4 vote». 
I. da Silva. 

1779 Sepmda compe&içSa sacra: Ladainha a 4 voum, escrípta 
para q SemíBario. Idem. 

1782 Parte para Madrid com Borselli; é nomeado por infloon- 
eia doeste : A/iiOMpanhador d$ Cravo, na Opera. 
AjnresentaçSo ao Embaixador de Pcnrtugal; este fidalgo 
fornece-lhe os meios para ir estudar na Itália. 

17«7 Chega áltaUa. 

Facto contestado pelo Jornal do Commercio e por I. da 
Silva, assim como todos osoutros, até ádata 1797, in* 
dusive. O primeiro author^ colloea ai.* viagem no se* 
gimdo semestre de 1794| e a volta no primeiro de 1785 ; 
a 2/ entre 1795 e 1799. 1. da Silva, indica a 1.* via- 
gem em 1792y que elle prolonga até 1799, sem fallar 
da 2/ Estas supposiçSes tem poueas probabilidades de 
certeza, em vista dos factos mais positivos de Fétis. 

1788 Primeira opera: UEroe cinese, em Turim; pouco êxito; 
mezes depois, segunda tentativa com a Bachetia por-* 
tefUo9a, em Génova; grande enthusiasmo. Fétis. 

1790 H Moliiiaro, consolida a sua reputaçSo. Volta a Portugal 

e é nomeado MeHrt da Capella real. Fétis. 

1791 Segunda viagem á Itália. Fétis. 

1793 Sucesso extraordinário do Príncipe di SpaMOcamino^ 

Fétis. 

1794 B Demofoonte, na Scala, em MilSo. Fétis. 

1797 Fernando in Meeeicop em Roma, cantado pela BillingtiQii ; 
é considerada no estrangeiro como a sua obra prima. 
Fétis. 

1799 Chegada a Lisboa^ depois da 2.* viagem. J. do Com- 
mercio. 

1799 , 23 de Janeiro. La Dannadi génio va2ti&t7e; primeira ope- 
ra, cantada em S. Carlos. Idem. 



90 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

1801 , 1 de Maio. Abertura do Theatro italiano de Paris, por 

ordem do primeiro Cônsul NapoIeSo Bonaparte, com: 

N(m irritar U Danne ; grande suecesso. 

Moniteur universel e Qerber. {N. hiit. biogr. Lex, der 

TonkUnstl., vol. iii, pag. 754.) 

1801 \ RelaçSes de Marcos Portugal com a celebre Catalani; in- 

a > fluência do maestro portuguez sobre o talento doesta 

1 806 ) grande cantora. 

1807 Invasão dos francezes, commandada por Junot; fuga da 

familia real para o Brazil; Marcos Portugal fica. 
J. do Commercio. 

1808 , 15 de Agosto; anniversario de NapoleSoi. Marcos Portu- 

gal dirige o Demofoonte pessoalmente, em S. Carlos. 
Idem. 

1809 Fecha-se o theatro de S. Carlos, pelas circumstancias, 

precárias da empreza e pelo estado politico do paiz. 
Marcos Portugal resolve sahir do Reino. Propostas van- 
tajosas de varias cortes da Europa, feitas ao nosso ar- 
tista. A sua recusa. Idem. 

1810 
on 

1811 

1811 Chega ao Rio de Janeiro; reassume as funcç3es de Mes- 
tre da Capella real e da real camera. 
Missas e Matinas solemnes do Natal, a grande orchestra 
para a Capella real. Idem. 

1811 Soffre o primeiro ataque paralytico. Marrocos, 1.* Carta. 

1811 E nomeado Director geral de todas asfuncçZes pMicas, 
assim deegreja, como de theatro. Marrocos, 1.* Carta. 

1813 E nomeado Inqueridor das justificações do reino, com o 
rendimento de 4 a 5:000 cruzados; Director do Con- 
servatório de Santa-Cruz {dos Negros) conjunctamente 
com seu irmSo, SimSo Portugal, e Mestre da familia 
real, Marrocos, 5.* Carta. 



Parte para o Brazil, acompanhado por alguns artistas. 
Idem. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 91 

1813 , 12 de Outubro. Abertura da Opera (S. João) do Rio de Ja- 
neiro ; é nomeado Director e eompSe varias operas no- 
vas para este theatro. J. do Commercio. 

1813 T Recebe a Commenda da Ordem de Christo. Idem. 

1815 , 30 de Dezembro. Nomeação de Sócio eorreãpondente do 
Instituto nacional de França; officio honrosissimo do 
Secretario. Idem. 

1815 Ultima viagem á Itália ; despedida com : La Morte di Mi 
thridate. Fétis. Facto contestado pelo J. do Commer- 
cio e por I. da Silva. 

1817 Soffire segundo ataque de paraljsia. Marrocos/ 6.* Carta. 

1817 Officios de Defuntos e Missa de Exéquias, a grande or- 
ehestra, por alma do Infante D. Pedro Carlos. Dirige 
no Theatro de S. JoSo a sua Opera: Oro non compra 
amore. J. do Commercio. 

1820 Missa solemne, para celebrar o anniversario da acclama- 

çSo de D. JoSo vi. J. do Commercio. 

1821 Á corte volta para Lisboa. Marcos Portugal fica no Rio 

de Janeiro. Hospitalidade generosa da Marqueza viuva 
de Aguiar. Cessam todas as noticias até 1830. 
J. do Commercio. 
1830 y 7 de Fevereiro. Expira em casa da sua protectora, sue- 
cumbindo a um terceiro ataque paralytico. É sepul- 
tado no dia 8; na capella de Sant'Anna do clausti<o do 
convento de Santo António dos Franciscanos. J. do 
Commercio. 
í M. de Araújo Porto-Alegre encontra as cinzas do grande 
artista no convento mencionado; e manda-as collocar 
no mesmo logar, encerradas em uma uma de madeira. 
I. da Silva. 



9S OS MUSIOOS PORTDGUEZES 

miUCA SACRA 

a.) PáBUTURAS PESTENCEUTES i CAFELLA BEAL PA BEMPOSTA, 
QUB PASaABAM PAEA A8 NBCE88ID ADBS, B EStZo HO JB HA BI- 
BUOTSBCA BBAL DA AJUDA. 

1.) Miserere a Canto de Órgão para 4 vozu, eacrípto em 

1776» com 14 annoa. 

20 Ladainha a 4 vou», com aeampanhaminio de Cravo, 

para o Seminário, em 1779. 

8.) Pêolmoe a 5 voze», para a Patriarcbal. \ ^ 

4.) VarioM AntipKonaa» J^ 

5.) Re$pon$orioê. (^ 



6.) Ui$erér$ a 6 voze$. 



00 



7.) Duas Missa», a grande orchsstra, e outras para^^ 
a capella real de Qaeluz. 

8.) Duo» Missas de Canito de Órgão, para a Patríarchal; de 
1783 a 1784. 

9.) 3 Missas de eapella, a 4 votes e Órgão* 
10.) Uma Mt»»a grande. 
11.) Mattna» da Conceição, 
12.) P»almo» a grande orcksetra. 
LaMdate pueri Dominum. 
Dixit Dominu»^ 
Conjitebor. 
Miserere. 

Lauda Hieru»alem, 
LcUatus surn. 
Ni»i Dominus. 
13.) Credo a 4 vozes e orchestra, 1810. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 93 

h.) PABTITURÀ8 JLUtOQRAPHÀS QX7B VIERAM DO BIO DS JJMOROy 
X QUK EXISTEM NA BIBLIOTHECA DA AJUDA 

14.) Matinas do Natal j compofetas em 1811 para a oapella 
real do Rio de Janeiro, por ordem do regente. 

15.) MUia a grande orchestra, para a mesma festividade, 
em 1811. 

16.) Sequ/tntia de Pentecostes: =r± Yeni Sancte Spiritua, em 
1812. 

17.) Matinas completas :=In Epiphania Domima=ft, com 
acompanhamento de OrgXo e instrumentos de Vento. Execu- 
tou-se na capella real do Rio de Janeiro, por ordem do regente, 
em 1812. Sao 3 volumes. 

18.) Matinas da Quinta-Feira Santa para vozes e grande or- 
chestra; cantaram-se na mesma capella, em 1813; 3 volumes. 

19.) Miserere a grande orchestra; devia-se executar em Quin- 
ta-Feira Santa, na Capella real do Rio de Janeiro, 1813. 

20.) Grande Te Deum para vozes e grande orchestra; feito 
por ordem do regente para se executar em 1813, na capella real 
do Rio de Janeiro. 

21.) Sequentiaa grande orchestra, para se cantar na real Ca*- 
pella do Rio de Janeiro, no Domingo de Paschoa da Resurreiçio, 
em 1813. 

22.) Matinas novas, cantadas a 26 de Julho de 1812, para 
commemorar o fallecimento do Infante D. Pedro Carlos. 

23.) Versos tirados dos Psalmos, 2 e 6; a vozesy grande 
orchestra e Órgão obrigado, para se cantarem na real capella dò 
Rio de Janeiro, a 24 de Junho de 1813, em obsequio do nome 
do sereníssimo príncipe R. N. S. 

24.) MoUinas de S. Sebastião, para se cantarem na real ca- 
pella do Rio de Janeiro, em 1814. 

25.) Missa a grande orchestra, feita em 1814, por ordem de 
S. A. R. o príncipe regente, para se cantar na capella reah 

26.) Gfrande Missa; executada em 1817, pela chegada da 
{^rinceza real. 



94 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

27.) Credo, para vozes e orchestra; em 1817. 

28.) Officio e Missa de exéquias, a D. Maria i ; foram exe- 
cutadas debaixo da direcção do próprio Marcos Portugal. 

29.) Sequentia a 6 órgãos, para a real Basilica do Mafra. O 
maestro Miguel Angelo, disse-nos qiie encontrara n^esta meama 
Bibliotheca (Ajuda) uma Sequentia admirável de Marcos Portu- 
gal; pôde muito bem ser que seja esta. Infelizmente nao a pode- 
mos examinar, porque com as Bibliothecas de Portugal, succede o 
contrario das do estrangeiro : estão quasi sempre fechadas, para as 
raposas lá andarem ás uvas. 

30.) Officio e Missa de exéquias, por alma do Infante D. Pe- 
dro Carlos, em 1819. 

31.) Te Dôum, para a capella real; executou-se em 1819. 

32.) Missa solemne, executada em 1820, para celebrar o an- 
niversario da acciamaçao de D. João vi. 



Resta-nos agora dizer alguma cousa a respeito das qualida- 
des de Marcos Portugal como compositor, nos differentes géne- 
ros que tratou: Opera buffa, Opera séria, Musica sacra; exami- 
nar os defeitos e as bellezas das suas variadas compo8Íç8eS| 
emfím, por meio da determinação do seu estylo, dar-lbc a devida 
eoUocação no Panthéon artistico da sua pátria, e depois no ou- 
tro mais vasto que pertence á Arte de todos os paizes. 

Arasão, porque ninguém ou quasi ninguém, se tem lembra- 
do do nosso celebre maestro, é obvia; n^este paiz desventurado, 
cada um cuida apenas das suas couves e das suas batatas, e julga 
ter feito o seu dever. E triste. 

Era porém para admirar que lá fora tivesse succedido o 
mesmo, quando em toda a parte ha um ou outro litterato, critico, 
cantor instrumentista, ou compositor, que se esforça muitas vezes 
por trazer á luz do dia uma pérola perdida; era para admirar, a 
ignorância ou antes o pouco conhecimento das obras do nosso ar- 
tista, se não houvesse uma rasSo que a explicasse. É a 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 95 

das suas obras, porque só ha pouco é que se publicaram em 
Paris, alguns trechos das suas operas. (Vide pag. 86.) Apenas 
alguns theatros da Itália possuirão uma ou outra partitura auto* 
grapha ou copiada, pois aqui em Portugal, onde mais se de* 
moroa, conhecem-se apenas 10, uma na Bibliòtbeca nacional, 
outra em poder de G. Casimiro, duas em nossas mãos e as res- 
tantes na Ajuda. 

As coUecçSes particulares são ainda mais pobres, pois além 
da nossa, enriquecida ultimamente, pela generosidade de Joa- 
quim José Marques, não conhecemos outra; este ultiipo cavalhei* 
ro, possuia alguns trechos isolados da Semiramide, Oro non com- 
pra amorôj Argenide, etc. com que teve a amabilidade de nos 
presentear. Em mãos de particulares, conhecemos apenas a par- 
titura autographa da já fallada Merope, que pertence ao copista 
de S. Carlos, Gabriel Casimiro. 

São estas as informações que temos; não as julgamos infal- 
liveis e até folgaríamos, se apparecesse entretanto alguma mina 
desconhecida, que viesse desmentir o que deixamos escripto. 

Não obstante este esquecimento manifesto, ainda uma ou 
outra vez, surge dlmproviso uma noticia inesperada que vem des- 
mentir por alguns momentos um silencio tão injusto. Infelizmen- 
te estas lembranças são quasi todas de estrangeiros, (como adiante 
veremos) o que prova bem a nossa incuría e ignorância. 

Feitas estas observações, entremos na apreciação d'aquillo 
que conhecemos do nosso maestro. 

Principiemos com a Ârgenide, Recitativo cChe dubbioso 
sentier!» e no Tercetto: 

«Si fido a me tu seít, do 1.® Acto, Scena xii. 

Depois de alguns accordes surdos pela orchestra, ouve-se um 
solo de oboé; a ideia, uma melodia suave e triste, predispõe com 
o som melancholico do instrumento, o ouvinte para a situação que 
se vae desenrolar diante de seub olhos ; depois de um pequeno inci- 
dente pelas rabecas, exclama Argenide: cche dubbioso sentier!» 
e o oboé em resposta, recomeça o seu canto plangente; mas a 
phrase é cortada por uma nova interjeição : «Ohe oscure vie ! > . . . 



M OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ò oboé responde, continuando â ideia interrompida; cche tetro 
ipeoo. • . » Vemos a pobre Argenide em logar mjsterioso, nW 
subterrâneo escnro, á espera do amante; a anciedade da entrevis- 
ta, o medo que Ibe inspira o logar, a hora da noite, reflectem-BS 
no recitativo e no acompanhamento da orchestra ; a infelis chs- 
Bftâ pelo amante; Sebaste apparece e com elle novamente o mo- 
tivo do oboé. 

Argenide convida-o a fugir ; elle hesita, porque teme a có- 
lera do pae a quem vae roubar a amante : 

c Al caro padre, oh Dio ! 
Come rapir poss^io 
La sua felicita.» 

Argenide insiste, exclamando a bella pbrase : 

«Si fido a me tu sei, 
Deh siegui i passi miei. 
Amor ei assisterà!» 

Antes dos dois poderem tomar uma resoluçSo, slo snr- 
prehendidos por Xerxes, que alli fôra conduzido por Barsene, ri- 
val d'Argenide. 

AlUgro molto vivacé; â orchestra traduz a agita^ que s 
entrada inesperada vem lançar no animo dos dois amantes: 

cPerfidè: alfin palese 

£ 41 vostro indegno ardore. i 

Debalde imploram a piedade de Xerxes ; uma escala dá or- 
chestra em fòrtê, termina, quando o rei rompe com a phrsss 
enérgica, accentuada intencionalmente pelas rabecas: 

cNel careere pid orrendo 
8í traggft il figlio indegno ; 



os MÚSICOS PORTUGDEZES 21 

Vittima dei mio sdegno 
Sugli occhi ttioi morra. > 

O Andante a ^/|, que segue esta scena agitada, começa pelas 
1." e 2.** rabecas, que indicam a ideia em 4 compassos. 

cAh! chi mai in tal momento 
Ha pietà dei nostro amor?» 

exclamam os dois amantes ; a ideia em ambas as vozes é quasi a 
mesma, seguindo Sebaste a voz de Árgenide em terceiras ; a me- 
lodia, de uma expressão suave e tema, é acompanhada em frag- 
mentos pelas 1.** e 2.^ rabecas, oboés e fagottes; Xerxes nao 
se enternece, e exclama: 

cVa crescendo il mio tormento 
Piii mi awampo di furor.» 

Temos ainda um Allegro final. As rabecas começam com 
uma pkrase que encontramos mais tarde na ideia do eníenihle que 
temiina o t^rcetto. 

A situaçSo dos personagens explica-se com estas palavras: 

cQual tumulto sento ali' alma, 
Qual contrasto ai cor mi sento.» 

Tudo se agita, a orchestra (rabecas e violetas) em tremolo, 
as três vozes que se juntam na mesma phrase, destacando-se a 
de Arg^ide: 

cDel mio duol, dei mio lamento 
Âbbia il Ciclo alfin pietà.» 

A agitação augmenta; debalde os doie imploram cpietà» ; 
a voz teizâvd. de Xerxes, uliarajado no seu amor e na sua ambi- 

7 



98 OS MÚSICOS PORTDGUEZES 

çSo, responde : cNon y'è pietà» . Pe novo apparece a voz de Ârge- 
mide: «Del mio daoli ; tudo é em vSo; a sitnaçZo caminha para 
o seu desenlace: Piu mosso^ que abre com o coro: 

cOh che giomo di vendetta 
Di rigore e di spavento !> 

Toda a orchestra entra em jogo com as vozes e com o cfiro, 
desenvolvendo-se a phrase das rabecas no principio do AUegro: 

fQual tumulto sento ali' alma!» 

Este final devia produzir um bello effeito, porque tem brillio 
e etiergia; sobre o enaenMe do coro c das vozes, levanta-seaplira- 
se de Ârgenide, correspondida pelo tremolo das 1*^ rabecas, em 
quanto as 2/'; violetas e o resto da orchestra; acompanham as 
duas vozes masculinas e o coro. 

Este Tercetto está muito bem composto na forma e na ideia^ 
e podia, convenientemente interpretado, ainda hoje ser ouvido; 
as phrases de Ârgenide, de Sebasto, são como dissemos, quasi as 
mesmas e se aqui nSo vemos a paixão inspirada d£ Gluck, ou de 
Piccini, ha ainda a expressão tema e a suavidade feminil de 
Fioravanti e de Zingarelli. 

A ultima phrase de Xerxes, (Tenor Moinbelli) cujas pala- 
vras acima referimos, é difficultosa, e devia produzir um bello 
effeito, cantada por um bom artista. 

O Piu Moêso final, é egualmente difficil para as três vozes 
e dava a cada cantor occasiSo para manifestar a facilidade e a 
bravura no mechanismo da sua voz. 

« 

A orchestra nSb> tem pretenç5es a savantisme, nem a novi- 
dade de effeitos; é simplesmente a orchestra do tempo de Marcos 
Portugal, modesta e expressiva, aproveitando muito bem os tim- 
bres e os recursos mysteriosos dos differentes instrumentos de que 
se compSe, emfim preenchendo o seu fim. 

Vejamos o Duetto da mesma opera: (Acto u, Scena iv) 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 99 

«Tu Fami? e ancor per lui 
Nutri un segreto ardore?» 

Xerzes perdoou ao filho e á amante, somente para ter a cer- 
teza do crime, cujos indicios descobrira na Scena do Subterrâ- 
neo; manda chamar Argenide para lhe noticiar que Sebaste, re- 
conhecida a sua. innocencia, fora posto em liberdade e que lhe 
dava licença para voltarão seu reino. (Argenide eraprinceza dos 
Parthos.) Esta porém, não quer partir, para não deixar o amante : 

Abgenide: «Senti. . . oh Signor. . . 

Serse: «Ti spiega. 

Argenide diz-lhe então, em um recitativo apaixonado, que 
visto elle (Serse) não pertender a sua mão, lhe dê a do filho que 
ella ama, e por quem é correspondida. 

Xerxes, ferido profundamente no seu orgulho e no seu 
amor, exclama com dôr : 

«Tu Fami ?» e interroga de novo : «Tu Fami ?» «E in cor per 
lui nutri segreto ardore?» A dôr é tão pungente, a surpreza foi 
tão grande, que o rei, incredu]9, duvida ainda: «tu Fami?» 

O silencio de Argenide é eloquente. Xerxes dá então expan- 
são á sua cólera ; Argenide, arrepende-se debalde da sua declara- 
ção ; o mal é irremediável. Até aqui o duetto é vigoroso, tem mo- 
vimento e energia; a paixão e o ciúme, traduzem-se em bellas 
notas. O Piu Mosso: 

Argenide: «Numi che atroce sorte! 

Che disperato amor» 

Serse: «Ormai Festrema sorte 

Si appresti ai traditor !» 

não enfraquece e conduz a um bello e magnifico Adagio: 



100 os MÚSICOS PORTUGUEZES 

f A 8Í cradeli palpiti 
Piú non resisti Talma 
In van la dolce calma 
Cerca Fafflitto cor.» 

que sobresahe ainda mais, com um simples, mas poético acompa- 
nhamento das rabecas, violetas e clarins. Um AUegro curto, ter- 
mina no Primo tempo. Adagio : 

cDi tanti mali miei 
U fin qual mai sara?» 

KSo conhecemos a celebre ária de Hasse: cSe tutti i mali 
miei», immortalisada no Demofoonte pela Mingotti, (mm) todavia 
podemos affirmar sem estabelecer comparações, que a ária de 
Marcos Portugal, é bella pela sua expressão concentrada, pela pai- 
xão que exprime, e que se traduz desde o primeiro até ao ultimo 
compasso. 

Os recursos da orchestra foram convenientemente aprovei- 
tados ; ha variedade nas phrases dos differentes instrumentos, que, 
coUocados cada um no seu logar, apparecem na occasiSo própria, 
ajudando a traduzir a situação por meio do colorido especial de 
cada um. 

Da Morte di Mithridate, devemos mencionar o recitativo: 
fM^ascolta. Serba alia gloria», e a ária: «Per queste amare la- 
grime. » 

O recitativo em que Yonima implora o perdão do filho, to- 
mando sobre si toda a culpa, tem uma accentuàção dolorosa que 
nos commove e que interpreta bem a intenção da mulher que se 
vem offerecer em holocausto. 

Na Ária apparece em toda a força a paixão da amante que 
vem salvar o homem que adora : 

«Per queste amare lagrime. 
Per questo mio martiro, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 101 

Ah salva in lai, che adoro 
L'anima dei mio sen.» 

A orchestra acompanha apenas com as rabecas e violetas, ex- 
cepto nas clausulas finaes de cada phrase, em que entram todos 
DB instrumentos. Um solo de oboé serpenteia, através de toda a 
ária, como o ecco dos suspiros c das supplicas de Vonima. 

Temos em seguida, um Allegro viveis que começa com a 3/ 
estrophe do 2.^ verso : 

cDa fier tormento orribile 
Sento squarciarsi il core.» 

Ignoramos a rasão, porque o movimento muda aqui repen- 
tinamente para Allegro vivace, tendo ficado o 2.^ verso incomple- 
to, e sendo o sentido o mesmo. Pôde ser erro da nossa copia, to- 
davia a mesma historia repete-se adiante. Antes do começo e de- 
pois da 3.* estrophe, ha um incidente pela orchestra, que termina 
com a entrada da 4.^ estrophe. 

Com as palavras: «Ma la mia colpa è amore», entra um 
Lento e logo em seguida de novo : Allegro vivace. 

Aqui todavia, nSo corresponde a ideia melódica ao senti- 
mento que as palavras exprimem, porque o motivo, parece que 
foi feito apenas para recommendar a agilidade da voz que o can- 
tava; e tanto assim, que a orchestra fica reduzida ás 1." e 2." 
rabecas que acompanham com toda a simplicidade em 6.". 

Marcos Portugal faltou aqui á verdade dramática, porque a 
ideia é apenas um conjuncto defiorituri, de gruppetti e àepoints 
d^orgue, que tinham a sua rasâo de ser n^uma ária de bravura, 
mas não n'este logar, e accomodados além d'isso ás palavras que 
transcrevemos. 

Este abuso de falsear o sentimento para dar logar a um ef- 
f eito puramente vocal, ainda se repete em outros trechos do nosso 
maestro ; é verdade, que muitos dos seus coUegas contemporâ- 
neos eahiram no mesmo erro, cousa que se explica ás vezes pela 



102 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

falta de inspiração, ou pelo enfraquecimento d'ella, durante a 
ideia, ou ainda pelas exigências de arioB de hravuras e outros 
caprichos pueris, que as cantoras e cantores da moda impunham 
aos compositores ; estes, dependentes d'elles, nSo tinham outro re- 
médio senXo ceder, o que dava ás vezes imi triste resultado, como 
se vê n^este caso, em que Vonima se entretém em gorgeios suc- 
cessivos, sobrepostos ás palavras: 

cChe palpito, che sento, 

Che spasimo crudele 

Se momento piu funesto:» etc. (! ! 1) 

A continuação segue bem, até: cchiedo pietà di tei; porém 
na repetição: tche palpito, che sento» recomeçam os gorgeios, 
tal qual como da primeira vez e seguem até ao fim. 

Marcos Portugal fez este sacrifício certamente á sua amada 
Catalani (entrou n'esta opera em 1806), e estamos persuadidos 
que estes gorgeios, foram uma emenda posterior, porque no li- 
bretto original de 1806 que examinamos, encontram-se os ver- 
sos difierentes e exactamente sem aquella parte sobre que Voni- 
ma faz as evoluçSes da sua voz. 

A orchestra enfraquece sensivelmente desde que começam 
BA fiorituri, e não se levanta até ao fim. 

Da JSemiramide conhecemos uma aría: cQual palor! qual 
tema!» 

Parece-nos ser a celebre ária: cSon regina,i que a Catalani 
transportou da JSofonisba para aqui. 

As palavras difierem um pouco : 

«Qual pallor! qual tema I Ardire! 
Serbo ancora ivo! alma altera 
, Son Regina, son guerriera 
Ne mi vince un vil terror.» 

todavia a ária parece a mesma pela sua contextura musical. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 103 

O recitativo: cSconsigliata che fo!> enérgico e bem accen- 
toado, em que a rainlia se levanta do terror em que a lançou a 
appariçSo da Bombra ãe Nino, precede a magnífica ária: «Qual 
pallor! Qual tema!» 

NSo é só a grande dificuldade de execuçSo que se admira 
n'e8te trecho, circumstancia que illudirá certamente um ou outro; 
mas patenteia-se n'ella também uma grande energia e magestade, 
nas phrases: f Son regina, ne mi vince im vil terror» ; n'uma das 
passagens em queapparece esta palavra, ha um difficilimo j>otnt 
d^argue (cadenza) que se prolonga durante 5 compassos. 

A segunda parte da ária N<m tanto ÂUegro, mà Andante: 

«Ciei pietoso &usto arridi 
AUa speme dei mio cor.» 

tem uma ezpressSo mais moderada e mais religiosa; o coro en- 
tra também, alternando com o canto de Semiramide, até se unirem 
todos nas palavras : 

fUombre, i Numi, il Cielo, il fato...» 

Semiramide tennina a scena com a phrase : 

cChi potra comprender mai 
Tanta mia felicita. » 

repetindo a phrase de bravura do principio, que na palavra /eZt- 
cita, offerece oceasiSo para um novo point âforgue, que Vonima 
sustenta durante 9 compassos, movimento quaternário t, descan- 
sando em um ré hmol durante 3 tempos, e seguindo até ao fim 
com as escalas e os saltos mais arriscados. 

NSo podemos apreciar a orchestraçSo doeste celebre trecho, 
porque a copia pela qual fazemos esta pequena apreciação, está 
em Quartetto de instrumentos de corda; todavia pelo papel que 
estes fazem, se pede calcular a importância dos instrumentos de 



104 OS MUBICOS PaRTUGFDEZES 

vento, (metal e pau) qae decerto deviam ter um piqpel ma» im- 
portaate. 

A insiatencia nas cordas medias das rabecas e violetas, &i 
com as notas elevadas do soprano um bello contraste. 

Concebemos perfeitamente o enthosiasmo qne esta ária, 
(Fétis intitala-a: hfameux cSon regina») excitou em toda a Eu- 
ropa na bôcca da Catalani, cujo talento de execa^^ se apro- 
priava todas as difficuldades. Era com este trecho que deixavs o 
auditório perplexo, com as variaçSes de Bode e com outras árias 
de bravura, na expressão de Fétis: des concertoê de voix. 

Temos ainda a analysar mais um trecho da J3e9nira'midej o 
bello Duetto: cNon tremar: io t'ofiãro il petto.» 

Semiramide convida Ârsaoe a seguil-aao templo para se mu- 
rem, mas este, instruido antes de chegar a rainha, da sua ver- 
dadeira origem, recusa; esta, quer indagar a causa; Ársace he- 
sita em dar-Jhe a conhecer a verdade, mas cedendo emfim a<s 
seus desejos, mostra^lhe o rolo que lhe «itregou o QxSo-Saoe^ 
dote Oroe, Semiramide, conhecendo a suaterrivel aituaçlo, pede 
heroicamente a morte : 

fNon tremar: io t'offiro il petto, 
Nop pensar ebi a te diè vita: 
La natura inorridita 
Parli invano a mio favor*» 

A ideia que está subordinada a estes quatro versos, tem toda a 
vehemencia e energia das palavras que o poeta coUocou na bâoea 
da infeliz rainha. Toda a esperança se perdeu; Semiramide ofie- 
rece-se á vingança de Arsace. 

O filho, apesar do crime da rainha, nSo ousa tecar^e 'Com 
respeito pela mSe. 

cNol sperar, dolente affietto 

Solo ascolto in tal momento : 
Sol mi parla il doloe aocento 
Di pietade e deli' amor.:» 



os HUBICiDS POETUGtJEZES 105 

A phrase de Âraace, qtte começa como a antecedente de Semi- 
ramidc; mas que differe depois^ tem uma certa suavidade, mais 
característica na passagem: cSol mi parla il dolce accento» ; toda- 
via, é sem duvida muito inferior á primeira. Depois de umas 
phrases desencontradas, entram as vozes juntas nas palavras : 

cÁh dov^è una mano oli Dio ! 
Che versando il sangue mio, 
até: Non mi lasci in tal terror.» 

O acompanhamento é feito unicamente pelas 1.^, 2." ra- 
becas e violetas, de uma maneira muito simples. 

Depois da palavra f terror», dividem-se as vozes novamente 
e a attençSo fixa-se em um solo do 1.^ oboé, a que se reúne de- 
pois o segundo. 

As vozes juntam-se, passando por um Largo curto, ^j^, para 
o AUegro eomodo, movimento quaternário, com as palavras: 
cPartir, restar, vorrei», que terminam oomaestrophe cMi si di- 
vide il cor», aocentuada por tms accordas completos de toda a 
orchestra. 

Seguem umas phxases soltas, de Semiramide e Arsace, bem 
•acompanhadas pela orchestra, rabecas, violetas e trompas : As 
exdamaçSes: 

AuL Tilascio 

Sbií. Ascolta. • • 

Ab8. io parto 

Sim. Grudei! 

« 

tnanpicam a dor que agita a mSe e o filho, debaixo da im- 
pressSo de sentimentos differentes. A phrase : cPartir, restar vor- 
rei», uma espécie de càbaletta, (nn) reapparece piura dar depois 
logsr, nas palavras: cMi si divide il cor», a uma serie de fioritvH 
que nSo podiam vir em peor occasiSo e que fazem um effeito pés- 
simo, sQstentando-ae sobre as palavras sentidas e tristes de Ar- 
sace: 



106 OS MÚSICOS PORTUGDEZES 

cDa qual tormento Tanima 
A lacerarmi io sento, 
Che orribUe momento 
D'affiuio e di terror I 

E uma contradicçSo flagrante e absurda entre as palavras a 
as notas, que parecem gorgeadas sobre umi sentido completamen- 
te indifferente I 

Mais adiante invertem-se os papeis. Na repetição da estro- 
phe: cDa qual tormento», commette Ârsace a mesma impiedade 
contra a expressSo e a verdade do sentimento. Semiramide repe- 
te em opposiçSIo a mesma phrase antecedente de Arsace. 

O Duetto, concluo com um pequeno final ainda sobre o 
verso: 

f Partir, restar vorrei, 
Mi si divide il cor.» 

acompanhado por toda a orchestra. 

Entre as Ouvertures de Marcos Portugal, mencionamos pri- 
meiro a de Zr' Oro non compra amore. 

Oro non compra amore, titulo que resuscita e que resusci- 
tará ainda por longo tempo as recordaçSes agradáveis e as sau- 
dades d'aquelles felizes que poderam ouvir esta bella opera. 

A Ouverture ou Symphonia, abre por um Andante */|, com 
uma ideia distincta, executada pelas rabecas e violetas, sotto wh 
ce; a nota uníssona das trompas, cobre o effeito musical com 
um certo mysterio, que rompe no nono compasso com um chio 
de toda a orchesti*a; um descanço, quando recomeça ai.* 
phrase do Andante, seguido do outro forte, conduz ao Allejro 
molto vivace, attacado pelas rabecas que o levam em graciosas 
voltas até que pouco a pouco se misturam os outros instrumentos, 
oboés, flautas, trompas, fagotes, etc., dialogando e introduzindo 
cada um as suas phrases, apresentadas e desenvolvidas elegante- 
mente até ao fim, terminando esta ouverture, que para nós é, 
nSb) obstante a sua simplicidade, umas das melhores de Marcos 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 107 

Portugal; pela elegância e distincção da forma, e mesmo pelo 
effeíto obtido em vista dos poucos recursos que o maestro tinha 
á 8ua disposição. 

Ás outras Ouvertures: Adrasto, e Ritomo di Serse, tem 
as qualidades e os defeitos das Ouvertures ou Symphonias 
d'aquelle tempo : 

Comp8e-se de um Largo ou Andante, e de um Allegro, 
geralmente a parte caracteristica de toda a symphonia; um Fi- 
nalhrilhante, completa o quadro aos Andantes falhos de expres- 
são profunda e sentimento dramático ; em compensação, os AlU- 
gros tem a jovialidade e a graça distinctiva da sociedade frivola 
e elegante do século xvili. 

Infelizmente não podemos dar esta apreciação das obras de 
Marcos Portugal, tão completa como desejávamos, porque a nossa 
collecção é limitada, e mesmo porque a maior parte dos trechos 
chegaram tarde de mais ás nossas mãos, para poderem ser sub- 
mettidos a um exame consciencioso, o que, se o fizéssemos agora, 
atrazaria muitíssimo o nosso trabalho; como porém esperamos 
voltar mais tarde sobre este assumpto £Etvorito, teremos decerto 
occasião para poder completar de uma maneira mais perfeita, 
com exemplos á vista, (o que aqui não se pôde fazer) este ensaio 
critico sobre o nosso primeiro artista. 

Podíamos fazer promessas e expor planos que temos na men- 
te; com isso talvez alegrássemos algum artista ou amador apai- 
xonado; sentimos deveras que estes fiquem desconsolados, toda- 
via em questão de promessas, seguimos ainda aqui e sempre o 
fÍEtfemoB, o systema estabelecido no Prologo. 

Resumimos em alguns traços geraes, o que dissemos na 
crítica das differentes peças. 

O estylo de Marcos Portugal, tem uma affinidade intima 
com o dos compositores italianos do fim do século passado. Nem 
podia deixar de ser assim ; o maestro recebeu o complemento da 
sua educação artística na Itália e lá esteve debaixo da influencia 
de Zingarelli, de Hasse^ de Fioravanti e outros. 



108 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Ens&iou-se em um género que se tinha tomado o favorito de 
toda a Itália, graças ao talento dos compositores precedentes e de 
muitos mais; quando sahiu da peninsula, depois do seu génio ar- 
tistico ter desabrochado, veiu para Portugal e em seguida partia 
para o Brazil ; nSo visitou a AUemanha, (e foi isso uma infelicida- 
de) nem a França, que podiam ter dado uma direcçSo diversa ao 
seu talento, — ficou pois todo italiano; as diversas influencias da 
musica allemS contemporânea e da franceza, nSo provocaram, 
nem alimentaram uma lucta artistica e sentimental, d'onde a in- 
dividualidade de Marcos Portugal podia ter sahido incólume, 
nova e forte, fiructificada ainda pelos elementos que teria apro- 
veitado da eschola allemã e franceza. 

Foi o encontro doestas diversas influencias, hoje ainda mais 
accentuadas, que salvou duas grandes individualidades artisticas 
do nosso século: Meyerbeer e Rossini, e produziu duas obras 
grandiosas: Les Huguenots e Quilhaume TeU. 

Marcos Portugal, sahiu da Itália, obedecendo a um pammê- 
mo imitador; chegou a esta terra e como aqui as suas tendências 
artísticas nSo encontraasem elementos sérios de resistência, ficou, 
ainda longe da sua pátria, fiel partidário das tradiçSes italia- 
nas, obedecendo sempre a uma influencia que lhe lembrava a to- 
do o momento a sua filiação artistica. 

A sua individualidade, perdeu-se no meio doestas circmn- 
stancias e aqui temos também uma das rasSes, porque a musica 
de Marcos Portugal, parece-nos estar muito longe da esphera 
actual de desenvolvimento artistico. 

Só as grandes individualidades subsistem e sobrevivem aos 
séculos. E uma verdade da historia. William Shakaspeare, Qoê- 
the e Schiller, Dante, Luiz de Camões, Cervantes e Molière, na 
litteratura; RaEaele di Urbino, Rubens e Rembraudt na pintura; 
Miguel Angelo, Canova e Thorvaldsen na esculptnra e architec- 
tura; e na Musica Bach, (oo) Gluck, (pp) HsBndel, (qq) Mo- 
jeart, (rr) Weber, (ss) Beethoven (tt) e Berlioz. (uu) 

Eis os semi-deuses daintelligencia; os outros, seus imitado- 
res, sSo apenas satellites que giram á volta doestes grandes pia- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 109 

netas, ora mais perto, ora mais longe, attrahidos por força occolta 
e brilhando só da luz que lhes empresta o foco commum. 

Marcos Portugal pertence a estes últimos. 

O compositor portuguez, limitando as suas viagens á Itália, 
nSo pôde conhecer o primeiro génio da Arte: o immortal Mozart, 
que só entrou na peninsula graças ao trabalho de outro génio, 
que recebeu por muito tempo o seu influxo, graças a Rossini, (yv) 

Entre os annos de 1756 a 1791, tinha-se levantado um sol 
esplendoroso, que, descrevendo em limitado tempo uma carreira 
gloriosa, havia espalhado os seus raios explendidos por todo o do- 
minio da Arte, fazendo desabrochar um mundo de ideias novas. 

Infelizmente a brevidade da sua existência, deixou muito 
gérmen occulto que não veiu á luz ; muitos que o sentiram, cerra- 
ram os olhos, cegados por tanto esplendor, e poucos foram os fe- 
lizes que sentiram o fogo de seus raios. Marcos Portugal nSo o 
viu através dos satellites que lhe pretendiam empanar o brilho. 

Este facto toma-se evidente para quem examinar as pro- 
ducçSes do nosso compatriota. 

Voltamos is nossas primeiras ideias, depois doesta breve 
excursSo, porém necessária para fixar o caracter artistico do 
compositor portuguez. 

A sua importância parece estar toda concentrada na Opera- 
buffii, cuja forma caracteristica elle ajudou a fixar conjuncta- 
mente com Guglielmi, Cimarosa, Paesiello, Fioravanti e Zin- 
garelli. 

É verdade que o numero das suas operas sérias (22) é maior 
do que as do género buffo; (18) todavia nas primeiras não encon- 
tramos as qualidades necessárias que as podiam fazer reviver 
hoje. 

NSo procuremos n'elle a inspiração sublime, o sentimento 
profundo, a virilidade augusta, a expressão dramática, toda essa 
variedade de sentimentos que lançam o homem sobre as ondas 
incandescentes das paixões. A outros artistas coube a missão de 
fixarem e de darem forma immortal a esta feição verdadeira- 
mente grande e humana do tempo em que viveram. 



110 os MÚSICOS PORTUGUEZES 

A outros mais illustres coube essa coroa gloriosa que vemos 
brilhar na fronte de Gluck, de Jomelli, de Piccini. 

E verdade que nSo examinamos talvez a melhor prodacçZo 
de Marcos Portugal no género sério: Fernando in Mesêieo. 
A. Burgh, no seu livro (Anecdotes on Music, Londres^ 1814) qua- 
lifica a musica d'esta opera: de admirável; nSo sabemos se esta 
apreciaçSb) é verdadeira, porque nada d'ella conhecemos e mes- 
mo porque apesar dos nossos esforços, nSlo podemos obter, nem 
de Paris, nem de Londres, o livro do escriptor inglez para exa- 
minar a fonna que elle dá á sua critica e depois julgal-a. Fétis, 
fallando d'esta opera, também a classifica: peut-ttre son chef- 
d^ceuvre. 

Todavia pelo que conhecemos de outras operas sérias : Demo- 
foonte, Zaira, Semiramide, Morte di Mithridate, Argenide, des- 
cobrimos que lhe faltam em geral as qualidades d'aquelles gran- 
des compositores. 

Kão queremos dizer com isto, que as operas sérias de Mar- 
cos Portugal não tenham ideias aonde transparece um sentimento 
elevado e pathetico e uma expressão dramática que traduz fiel- 
mente as situações; para nos desmentir bastaria examinar a Ca- 
vatina : «La Pena che sento» do Duca di Foix, em que as phrases 
dos instrumentos de corda, que acompanham um recitativo, forte 
e dramático, tem um caracter todo romântico e expressivo. 

Estes casos estilo porém isolados, e nSo se determinam em 
qualidades distinctivas. 

Já uma outra ordem de expressão se descobre na Cavatina 
de Vonima: «Partite dei mio core» (Morte di Mithridate;) este 
trecho faz lembrar as suaves melodias de Rossini e é sem duvida 
uma das melhores inspirações de Marcos Portugal. 

A apreciação que fazemos do talento do nosso maestro, nos 
dois géneros sério e buíFo, está aliás confirmada na reputação 
mais universal das suas operas buffas. As representações dadas 
n'este género, no estrangeiro, tiveram um êxito esplendido ; é o 
que nos dizem os factos. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 111 

O Moniteuruniversel, de Maio de 1801/faUaiido da reaber- 
tura do theatro italiaoo por ordem do 1.^ Cônsul NapoleS&o Bo- 
naparte, diz : 

€Â segunda opera intitula-se: 

€Non irritar le Dorme; o assumpto é quasi o mesmo do 
AriêtoteUs amoroso; mas que importa o assumpto, quando se 
trata de Marcos Porto-Gallo (sic) compositor d'esta opera, uma 
das mais agradáveis que possa ouvir-se? Canto puro e melodioso, 
introducçSes engenhosas, acompanhamentos delicados, expressão 
mimosa e intençSes cómicas, desenho melodioso bom delineado, 
estylo brilhante e sustentado no papel da prima-donna, (Strina- 
aachi) taes sSb> os predicados que todos acharam n'esta encanta- 
dora composição.! 

A outra opera de que se fisJla aqui, era de Marcello di Ca- 
pua. (ww) O desempenho de Non irritar le Donne, foi confiado á 
Strinasachi, ao celebre tenor Lazzarini e ao não menos celebre 
buffo: Raffanelli. 

Também Gterber, (xx) fallando d'esta opera, noticia o seu 
sucesso em Paris. 

Se Marcos Portugal na opera séria não revela as qualidades 
carateristícas d'este género, já nSo succede o mesmo no género 
opposto. 

Os seus Allegros e Rondas, tem um caracter todo gracioso, 
um espirito fino, elegância e naturalidade ; emfim, reflectem fiel- 
mente o sentimento da sociedade aristocrática e frívola do sé- 
culo xvni. 

A orchestra de Marcos Portugal, compSe-se em geral de 
rabecas, violetas, violoncelloe, contrabaixos, flautas, oboés, cla- 
rins, trompas, trombones e £itgottes. 

A instrumentação é mui simples e natural ; nSo tem, nem 
podia ter pretençSes a savantisnie; o maestro aprendeu o que no 
seu tempo se sabia dos recursos da orchestra; seguiu os exemplos 
que tinha diante dos olhos nas obras dos compositores italianos, 
seus antecessores e contemporâneos; acompanhou a corrente artis- 
tica da época, nSo tentou innovaçSes, ou porque nSo se sentisse 



11» os MÚSICOS PORTUQUEZES 

com forças para isso, ou (e estahypotheBe é maiB natural) parque 
temia ir de encontro á tradiçSo, e ter a sorte de Paesiello, qoe^ 
quando voltava da Rússia tentou inaugurar nas suas opera» 
Barbiere di Seviglia, Filosofi imaginari e U Mundo delia Lana, 
um sjstema novo, trabalhando e aperfeiçoando mais as suas 
operas pela introducçSo de combinaçSes desusada» nos tredios 
isolados e nas peças de ensembU. 

Marcos Portugal continuou no caminho que via aberto ; to- 
davia, apesar do dominio limitado da sua orchestra, soube n'ella 
produzir effeitos graciosos, combinações novas e surprehendentes 
pelo efieito agradável que produzem e que tem o seu segredo no 
conhecimento intimo da natureza e qualidades dos differentes in- 
strumentos; a vantagem de explorar bem todos os seus timbres, 
vantagem n'aquelle tempo elevada á altura de uma sciencia, 
foi aproveitada com a maior intelligencia por Marcos Portu- 
gal. Este recurso a um tempo simples e milagroso pelos seus re- 
sultados, foi depois esquecido e só resuscitou pelo génio de 
Beethoven nas suas Sjmphonias (Vide a 6.% era fá, Sympkonie 
pastorale) (jj) e ultimamente ainda por Berlioz, na Symphonit 
fantastique e na de Romeo et Jvliette. O papel principal na or- 
chestra do nosso maestro cabe sempre aos instrumentos de cordas, 
que servem para acompanhar as vozes com os oboés e as flautas; 
este sjstema, que hoje parecerá pobre a um ou outro partidário 
ignorante da novidade, era certamente preferível ao barulho e á 
algazarra insupportavel que a maior parte das vezes, graças á 
grosse caísse, pratos e tam-tam, (zz) atormentam os ouvidos nas 
operas de Guiseppe Verdi, favorito doesta terra. 

Os metaes apenas sSo empregados com a massa total da or- 
chestra, nos accordes fortes e sobretudo nas scenas finaes. Os so- 
los são frequentes no oboé, na flauta, rabeca e violoncellp. 

Este papel menos importante que os maestros do meado e 
fim do século xviii concediam ás orchestras, justificava-se pela im- 
portância principal que davam ás vozes; todos os olhares se fixsr 
vam na estatua, o pedestal nSo lhe emprestava belleza alguma. 
O fito principal do artista era encontrar melodias mais ou me- 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 113 

nos notáveis pela inspiração, pelo sentimento ou pela graça e dei- 
xar depois aos cantores admiráveis d'aquelle tempo, o trabalho 
de as apresentar dignamente ao publico. Quatro ou cinco árias 
mais ou menos bellas e bem cantadas, faziam muitas vezes a for- 
tuna de uma opera. A melodia absorvia toda a attençiLo, conce- 
dendo-se á harmonia apenas o papel secundário de acompa- 
nhadora. 

Esta importância excessiva que se dava ás vozes, conduziu 
muitas vezes a desvios deploráveis. 

Como o cantor tinha em muitos casos a fortuna de uma opera 
na sua voz, inâuia grandemente sobre o compositor, e abusava da 
sua posição, exigindo d'elle sacrifícios que comprommettiam para 
o futuro a sua reputação. 

E esta talvez a origem das fiorituri, dos grupettij dos írí- 

ruuíos encadeados, e de todo esse sjstema de ornamentação, que 

produziu um estylo rococó applicado á musica, falsificando e 

. adulterando a expressão e a verdade dramática nas situaçSes 

mais sérias e mais solemnes. 

Já acima apontamos os tristes resultados doesta tendência 
artística e os desvios a que ella arrastou o nosso maestro. 

Se os compositores secundários fossem os únicos culpados, 
ainda bem, mas que havemos de dizer ao encontrarmos no immor- 
tal D. Juan, no AlUgro da Ária de soprano (N.** 22) do 2.** Acto, 
um doestes casos, sobre as palavras «Forse un giorno il ciclo ancor 
sentirá, a-a-a;» sobre esta letra estende-se uma passagem do peor 
gosto e cuja existência na partitura, magoou de tal maneira Ber- 
lioz (aaa) (de quem extrahimos este caso) que lhe fez dizer: t/e 
donneTtLis unepartie de mon sangpour effacer cette honteuse page 
et quelquea autres, dont on eat force de reconnaítre Vexistence dana 
969 ceuvres.i^ (bbb) 

Como se explica a existência doeste grande defeito na obra 
prima do immortal allemão, senão talvez pela demasiada conde- 
scendência que o compositor teve para com alguma cantora favo- 
rita, fraqueza que provocou a critica amarga, mas verdadeira de 
Hector Berlioz. 

8 



114 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Mencionamos este facto, para que n&o attríbuam só ao nos- 
so compositor; um abuso que elle compartilha com a maior parte 
dos seuscollegas contemporâneos; sirva-Ihe isto de attenuante. 

Não obstante estes defeitos, e outros menos notáveis, hoje 
mais sensiveis depois da appariçSo de Rossini, Meyerbeer, Ber- 
lioz, Gounod e de tantos outros, ainda hoje são as suas composi- 
ç8es procuradas; não Ha muito tempo que se venderam algumas 
para Inglaterra por bom dinheií-o. 

Pouco temos que dizer das suas composições sacras; a difi- 
culdade de as conhecer e apreciar, ainda é maior do que a de exa- 
minar as suas composiçSes profanas ; estas ao menos, achavam-se 
nos archivos dos theatros, onde um ou outro curioso podia ir ti- 
rar uma copia; as primeiras porém, enterradas como tem estado 
e ainda estão em Bibliothecas reaes, onde não entra viva alma, 
para não perturbar o estudo e a applicação das Magestades e Al- 
tezas, que nunca lá pSem o pé — estão sempre invisiveis aos olhos 
do trabalhador e do critico. 

A noticia que damos, da existência das partituras de Operas, 
e de musica sacra, na Bibliotheca real da Ajuda, tiramol-a do 
Jornal do Commercio; não affirmamos positivamente que lá exis- 
tam ainda, porque nos consta que o archivo se tem ido despo- 
voando mansamente, para completar a collecção da infanta D. Isa- 
bel Maria; já vê o leitor que a parábola da raposa é das uvas, 
tinha a sua rasão de ser. 

As operas de Marcos Portugal, que existiam no archivo de 
S. Carlos, foram roubadas por um ladrão (ccc) chamado F%el{\\) 
para as vender; oxalá que na Ajuda não esteja explorando também 
algum Fiel. . . 

Como dissemos, os manuscriptos estão fora do alcance do 
trabalhador, que, se quizer conhecer alguma composição sacra do 
nosso maestro, tem de ir ouvil-a a alguma egrcja de Lisboa, aon- 
de uma execução selvagem, brutal e indecente, lhe provará o res- 
peito e a gratidão dos noíssos patriotas pelo maior vulto da nossa 
historia artística. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 115 

Um escriptor estrangerrO; critico distincto e sábio musico- 
grapho diz, fallando das composições sacras do nosso maestro : 

cNous me connaissons qu'un três petit nombre de composi- 
tions de Portogallo, maítre de chapelle du roi de Portugal. Elles 
ont de la grâce et un rliy trae agréable : mais rien ne les recom- 
mande au point de vue de la musique sacrée.» 

Esta apreciação talvez seja um pouco severa. O nosso ami- 
go e compositor Miguel Angelo Pereira, nos disse (como atraz 
referimos) que encontrara bellas composições sacras na Biblio- 
theca da Ajuda; entre outras, a fallada Sequentia; este juizo tem 
para nós também algum valor, por ser de um artista sério, que 
não dispensa elogios a quem não os merece. 

Em Lisboa temos ouvido fallar muito bem do seu Te Deum 
(que lá intitulam grande) a pessoas de boa educação artistica e 
de gosto distincto. 

As outras composições secundarias, não exigem menção es- 
pecial; as suas Sonatas são mui fracas; das Cantatas^ nada co- 
nhecemos; examinamos o Hymno de 1808, feito a D. João vi, que 
começa: cEis Príncipe excelso» ; é digno da pessoa a quem foi 
offerecido. E notável a abundância de Hymnos, que ha em Por- 
tugal e que formam um ramo especial da industria artistica; es- , 
peramos ennumeral-os um dia. O que é notável, é a malicia re- 
finada com que os nossos compositores ridicularisaram as altezas 
e magestades, em musica Artistas impertinentes, não é ver- 
dade? 

O outro Hymno do nosso compositor, intitulado da Pátria 
ou patriótico, tem um toque mais vigoroso e mais originali- 
dade. Pos6uimol-o em tercetto, para Flauta, Rabeca e Yiolon- 
cello. 

Acabamos a analyse do estylo do nosso artista; sirva este 
trabalho apenas de ensaio e como percursor de outro mais sério. 

Fechamos emfim, e despedimo-nos com saudade da bio- 
graphia d'este grande homem, porque grande se tornou elle nas 
suas luctas artisticas ; não era fácil a victoria em um paiz, aonde 



116 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ao lado d'elle tiuha rivaes, como Cimarosa, Paêsiello; Generali, 
Piccini, Anfossi. 

Em Paris, luctou ainda a sua opera Non irritar h Dorme, 
gloriosamente contra a impressão produzida pelo Matrimonio u- 
greto de Cimarosa, pela Molinara de PaesiellO; e até pelo jD. Juan 
de Mozart ! 

Na Allcmanba tinha também adversários respeitáveis em 
Reichhardt, (ddd) Winter, (eee) Hiller, (fff) Weigl ; (ggg) c nSlo 
obstante as suas operas (sobretudo as huffas) foram applaudidas 
cm Vienna; em Dresden^ em Breslau e em roais cidades da Alie- 
manha. 

A sua fama transpôz o canal da Mancha, e lá se escutaram as 
suas inspirações pelas vozes de dois grandes artistas: a Billing- 
toneBraham. 

Ate na llussia se ouviu o seu nome, quando ainda nos tbea- 
tros de S. Petersburgo roscavam os applausos prodigalisados á 
Serva Padrona, aos Filosoji ivmginari, á Finta amante, etc. 

Applaudido no velho e no novo mundo, está hoje esquecido 
ingratamente n'um o n^outro. 

No theatro de S. Carlos, ainda não se lembraram de esco- 
lher uma das boas operas de Marcos Portugal, para darem uma 
récita histórica, e pagar um tributo de homenagem e de veneraçlo 
ao primeiro compositor portuguez, satisfazendo assim uma sau- 
dade, que decerto compartilhamos com todos os artistas e ama- 
dores portuguezes. 

A pátria indigna, nao so lembra de quem a illustrou com 
um nome respeitado; a pátria indigna, levanta estatuas a bonecos 
coroados e não se lembra do dito profundo de Carlos v: «A LOS 

NOBLES LOS HAGO YO, PÊRO A LOS ARTISTAS SOLO DiOS.» 

A ingratidão, sempre a feia e vil ingratidão ! 

Ainda não ha muito que um jornal de Milão (hhh) fallava hon- 
rosamente de Marcos Portugal, collocando-o a par dos primeiros 
compositores italianos do século xvm e dando-lhe lun logar hon- 
roso na Historia da Arte. Que vergonha para nós e que lição ! 

Hoje falia a posteridade, e essa faz sempre justiça cedo ou 
tarde ; essa^ dá-lhe um logar distincto no grande Panthéon da 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 117 

Arte. Li o vemos na illustre assembléa, no meio de Cimarosa^ de 
Paêsiello, Hasse (iii) Reichhardt e Zingarelli; na plêiada amável 
dos compositores elegantes, graciosos, cheios de franca jovialida- 
de 6 de espirito, que viveram no século sana soucú 

 illustre conferencia discute a vinda do seu Messias, e é 
certo que não se enganaram, porque em 1792 nascia elle em Pe- 
saro e chamava-se — Rossnn. 



SELAÇZO DAS GRÁIIDES CANTORAS E CANTORES QUE BRILHARAM 

NAS OPERAS DE MARCOS PORTUGAL 

Conduimos esta biographia, apresentando uma lista dos can- 
tores eminentes e das cantoras admiráveis, que alcançaram 
grandes triumphos nas operas do nosso maestro. Silo outros tan- 
tos testemunhos da sua gloria. 

Estes artistas pertencem quasi todos ao maravilhoso sécu- 
lo xvni. 

a) CANTORAS 

BILLINGTON (Weichsell) Elisabeth — Nasceu em Londres 
em 1765, de família allemS, e morreu perto de Veneza em 1818. 
A sua voz tinha uma grande extensão e era de uma pureza admi- 
rável. Durante a sua ultima visita a Londres, mediu-so brilhan- 
temente com a celebre Bandi, na Merope de Nazzolini. 

Pouco depois teve logar um outro duello nSLo menos terrível 
com a famosa Mara, rival da nossa Todi; já anteriormente se ti- 
nham medido estas duas grandes artistas em 1785, na mesma ci- 
dade. 

A Billington cantou em 1797, no Fernando in MesBico de 
Marcos Portugal, opera que segfmdo Fétis, fura escripta para 
ella. Parece que a repetiu depois em Londres. (Vide Burgh. 
Anecdoteê an Mu$ic) Cantou ainda com Braham na Argentde, re- 
presentada em Londres em 1806, no Ktn^s theatre. 



118 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

BARIU (Bondini) — Maria Anna — Grande artista do mesmo 
século! Nasceu em Dresden em 1780, de pães italianos e ialle- 
ceu em 1813. 

Esta eminente artista, cantou em Paris, na Donna di gé- 
nio volvhile, no Theatro Louveis; foi depois da terceira repre- 
sentação d'esta opera, que a insigne cantora morreu no vigor do 
seu talento, com 33 annos de idade! Paris inteiro acompanhou-a 
ao cemitério. 

As qualidades da Barili eram : pureza admirável, intona^ 
irreprehensivel e vocalisaçSo perfeita nas maiores dificuldades. 

N» B. Esquecemos de mencionar as representaçSes d'esta 
opera, no Quadro synoptico e chronologieo. 

6RASSINI — Joaephina — Insigne artista. Nasceu em Va- 
rese (Lombardia) em 1773, e falleceu em MilZo em 1850. 

Um dos seus maiores triumpbos, obteve-o no DemofoonU de 
Marcos Portugal, que cantou na Scala em 1794, com Marcbesi e 
Lazzarini. 

Estreiou-se n^esta opera e no Artaterse de Zingarelli. Scu- 
do, (jjj) fallando da representação do Demofoonte, diz: 

cLe succès de M.* Grassini fut éclatant dans ces deux ou- 
vrages, et son nom se repandit aussitôt dans toute ritalie.i Fé- 
tis (kkk) diz quasi o mesmo: 

cM.* Grassini parut pour la première fois sur le théatre de 
la Scala à Milan, au Carnaval de 1794. Elle y cfaanta avec Mar- 
cbesi et le tenor Lazzarini, dans VArtoÃerae de Zingarelli et dans 
le Demofoonte de Portogallo. Ses succès furent éclatants dans 
ces deux ouvrages; dès ce moment elle se posa comme une des 
cantatrices les plus remarquables de Tépoque, et bientôt après 
comme la première.» 

A sua voz era um contralto puro, forte e de bello timbre; a 
sua declamaç2lo era perfeita e tinha um caracter de grandeza e 
de elevaçSo que impunha e que subjugava pela sua expressSo. 

CÁTALANI — Angélica — Celebre cantora; nasceu em 1779 
em Sinigaglia (Estados romanos) e morreu em 1849 em 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 119 

Cantou em Portugal durante 5 annos, desde o inverno de 
1801; até ao carnaval de 1806; os seus triumphos foram nas ope- 
ras: Morte di Semiramide, Sofonisha, U Trionfo di Clelia, 
Argenide, Zaira, Merope, Fernando in Mesaico, Ginevra di 
Scozia, n Duca di Foix e Morte di Mitridate. 

Marcos Portugal teve como vimos^ relações com esta celebre 
artista e que só se interromperam, quando ella partiu em 1806 
para Paris. 

O seu talento como cantora, manifestava-se n'uma grande 
agilidade da voz, que Uie permittia zombar de quasi todas as 
dificuldades, sobretudo d'aquellas para que tinha uma &cilidade 
natural ; a sua intonaçSo era pura e brilhava ainda mais n'uma 
voz de uma grande extensSo; todavia, fsdtava-lhe a corda ex- 
pressiva, assim como era também muito deficiente na declama- 
ção, ora fria, ora exagerada. Entretanto, como os defeitos da sua 
arte de cantar, nâo estavam patentes senSo aos olhos da menor 
parte do publico, a maior cedia os seus applausos, vencida pelos 
tour9 de force da cantora italiana. Foi a Catalani que tomou a 
tSo fellada ária: Son regina, celebre na Europa, e espalhou por 
toda a parte o nome de Marcos Portugal. 

Na companhia de Crescentini tinha o bello ordenado de 
6:400|000 réis. 

Emfim, considerada isoladamente, é inegável que foi uma 
cantora de grande talento; todavia, as suas qualidades artisticas 
estavam mui inferiores ás da Billington, Barili, Grassini, Bordoni, 
Bandi, Mingotti etc. 

6AFF0RINI — Isabella — Insigne artista. Cantou nas seguin- 
tes operas do nosso maestro : Le Donne cambiate, na primavera de 
1804; Oro non compra amore, no inverno do mesmo anno. Como 
se vê, brilhou sobretudo no género buffo, que parece ter sido o seu 
&vorito, pois no elenco da companhia, escripturada em 1801 por 
Crescentini para o theatro de S. Carlos, vem classificada: jpnma- 
donna buffa, com 3:520$000 réis de ordenado. 



120 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

STRINÁSACCHI — Teresa — Artista distincta; cantou em 
1801 na opera Nan irritar le Donne, quando se reabria o TMa- 
ire italien; coadjuvaram-na Raffanelli e Lazzarini. Esta can- 
tora brilhou principalmente na Itália e em Paris, onde creou a soa 
reputação no Matrimonio segreto de Cimarosa, em que cantara 
admiravelmente. Parece que vivia ainda em 1828 em Londres, 
porém na maior miséria ! Tereza Strinasacchi tinha nascido em 
Roma, em 1768; uma sua irmã: Anna Strinasacchi, cantou em 
1787 em Mantua, como prima-donna, porém morreu nova. 

SESSI — Harianna — Nasceu em Roma em 1776 e morreu 
em 1847, em Vienna d'Austria; esta notável cantora, brilhou no 
Artaterse e em outras operas, sendo muito applaudida. 

TER6É — Felice — Prima-donna, que levou a 10 de Jimho de 
1816, o Trionfo di Clelia em seu beneficio. Fétis nao a men- 
ciona. 

ECKART — Eufemia — Prima-donna que cantou com a Sessi 
na mesma opera Artaserce em seu beneficio; Fétis, não dá noti- 
cia d'esta artista na sua Biographie uníverselle de9 Musieiens, 

Além doestas 7 cantoras de primeira ordem, mencionamos 
ainda outras de menos talento, como: Dorothea Buêsani, (com- 
panhia de Crescentini, i.* dama huffa com 2:400|000,) Cor 
Tolina Chiffoni, (companhia de Crescentini, 2.* dama huffa com 
1:200|000;) Luiza Franconi, Tereza Appiani; as duas ultimas, 
cantaram na Merope; e as seguintes de mérito secundário : Cã" 
rolina Massei, e Teresa Zapucci, Ouiaeppa PeUiccioni, Orsola 
Palmini, Ouiseppa Gianfardiniy J. Piacentim, Nery Patseri- 
ni, Franeesca Barlesina. 

b) CANTOBES 

CRESCENTINI — Girolamo— Celebre sopranista; nasceu em 
1766 em Urbani (Estados romanos) e morreu em Napolea. Can- 



os MDSIOOS PORTUGUEZES 121 

tou USB operas: La Donno, di génio volubile, La MorU di Semi- 
ramide, JSofontêba e Triunfo di delia. 

Foi elle que escripturou a Cat&lani e a Qafforini^ como em- 
prezario; em 1801. 

Este cantor, n'uma récita de Romeo e Criulietta de Zingarelli, 
dada no palaeio das TaUberias em 1808, produziu sobre o auditó- 
rio uma tal impressSo com a celebre ária: f Ombra adorata, aspet- 
ta», que as lagrimas saltaram dos olhos de NapoIeSo e de toda a 
corte que estava presente; o imperador, n2k> sabendo como retri- 
buir semelhante talento maravilhoso, enviou-lfae o grau de Ca- 
valleiro da Coroa de ferro. 

SCHIRA — . . . — Artista que cantou em S. Carlos na Donne 
di génio volvínle, com Crescentini, Caporalini, etc. 

Fétis (d) indica um nome: Franceêco Vincenxio Schira, Nas- 
ceu em Milfio em 1812, em cujo Conservatório estudou com Fe- 
derici e Basili. 

Em 1833 debutou na Scala com a primeira opera: Elena et 
Malmna. No anno seguinte, dirigiu o theatro Carcano, e em 1835 
foi chamado a Lisboa para Chefe da orchestra do theatro de 
S. Carlos, (Santo Carlos, sic, Fétis) onde fez representar em 
1S36 uma opera buffa: II Tríonfo delia Musica. Escreveu a mu- 
sica de uma grande quantidade de bailados que tiveram brilhan- 
te successo, alguns dos quaes foram também á scena nos theatros 
de Milão e de Vienna. Em 1837, deu em S. Carlos: / Cavalieri 
di VaUnta, opera séria, que lhe mereceu da parte d'El-Rei o 
habito de Christo, (FAbito dei Christo, sic. Fétis,) em testemu- 
nho de satisfação pelo seu trabalho. 

Sahindo em 1840 de Lisboa, partiu para Londres; esteve 
dois annos á testa do Princess's Theatre e succedeu a Benedict 
em 1844, no theatro de Drury-Lane. 

Em 1848 estava ainda em Londres, mas depois perdem-se 
08 traços da sua existência; 8upp8e-se que voltara a Lisboa, 
onde falleedra do eholera. 



122 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Extrahimos esta noticia de Fétis, por nos parecer curiosa 
apesar de não ter relação com o primeiro artista, como se vê pela 
dififerença das datas; além d'issO; nunca ouvimos fallar n^este com- 
positor, apesar de ter aqui vivido durante 5 annos ! 

MOMBFiTiTil — Domenico — Tenor celebre, e compositor no 
género sacro; brilhou em S. Carlos nas operas: Argenide, maio 
de 1804; Zaira, estio do mesmo anno; Fernando in Messico em 
1805; Ginevra di Scozta, inverno de 1805 ; no mesmo anno: U 
Duca di Foix; no carnaval de 1806, Morte di Mitridate, e no 
outono, Artaserse. Fétis não menciona a sua estada em Lisboa, 
mas sim a de um seu filho : Alessandro Mombdlij que não co- 
nhecemos. 

Este artista nasceu em 1751 em Villanova, perto de Ver- 
celli e morreu em Bolonha, em 1835. 

Na companhia de Crescentini, tinha um ordenado de 3:200$* 

HATTUCI — Pietro — Sopranista notável; distinguiu-se na 
Argenide, (Sebaste) com o antecedente (Serse); nas ofersa^: Fer- 
nando in Messico, Ginevra di 8cozia, II Duca di Foix e MorU 
de Mitridate. 

A sua estada parece ter sido de Maio de 1804, até ao carna- 
val de 1806 ; Fétis, nada traz a este respeito, apesar de fallar 
n'uma viagem que fez a Hespanha. 

Nasceu em 1768 e foi discípulo do Conservatório delia Fietà, 
dirigido por Sala; as noticias da sua vida param em 1811. 

Tinha em S. Carlos o ordenado avultado, de 8:800iKX)0 e 
vem classificado como 1.^ soprano. 

NALDI — Gioseppe — Excellente buffo italiano. Cantou no 
Oro non compra amore, no. inverno de 1804. Nasceu em 1765 e 
brilhou em Londres, França e Itália; morreu em Paris, em 1820. 
Entre os artistas da companhia de Crescentini, vem um: António 
Naldi, i.® huffo; não sabemos, se tem algum parentesco com o 
antecedente; cantou só: Le Donne cambiate, primavera de 1804; 
tinha um ordenado de 3:200|000, egual ao de Mombelli. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 123 

II — Lnigi — Insigne sopranista; brilhoa em toda a 
Europa; onde era considerado como o primeiro cantor^ no meado 
e fim do século xviii. 

Cantou o Demofoante na Scala, carnaval de 1794, com 
a celebre Grassini e o tenor Lazarini. Marchesi nasceu em MiliLo 
em 1755 e fiUleceu ahi mesmo em 1829. Em 1785, encontrou-se 
em S* Fetersburgo com a nossa celebre Todi. 

LAZZARDH — GostaTO — Excellente tenor. Cantou com o 
antecedente e a Grassini, o Demofoonte na Scala, em 1794, e 
com a Strinasachi e Raffanelli, Non irritar le Donne, no theatro 
italiano em Paris. 

Foi egualmente applaudido na Itália e em França. 

BRAHAM — John — Celebre cantor; nasceu em Londres de 
fSunilia israelita. Foi enthusiasticamente applaudido na Inglater- 
ra, França, AUemanha e Itália; tomou-se particularmente notá- 
vel na execução da musica de Heendel, a ponto de arrancar as 
lagrimas dos auditórios com a celebre ária: «Deeper, anddeeper 
still.» 

Este grande artista figurou com a Billington na Argenide, 
em 1806. 

RAFFAHELU— Luigi — Excellente huffo; nasceu em 1752 
n'uma villa da província de Lecce, reino de Nápoles. Este artista 
foi muito applaudido na Itália, Allemanha, Inglaterra e França ; 
n^este ultimo paiz, cantou no ThécUre italien, reorganisado pelo 
1.° Cônsul Napoleão Bonaparte, a opera: Non irritar le Donne, 
tendo por auxiliares a celebre Strinasacchi e Lazzarini. Raffa- 
nelli alcançou a sua reputação, menos pela belleza da sua voz ou 
pela arte do seu canto, do que pelas suas excellentes qualidades 
como actor. 

OLITIERI — Ludovico — Primeiro baixo da companhia de 
Crescentini, com o ordenado de 1:040|000 rs. Fétis nSo menciona 



124 OS MÚSICOS PORTUGDEZES 

este artista, mas sim um A. Olivieri, violinista difttincto, disd- 
pulo de Pugnani. Este artista, cuja vida foi moito aventurosa, 
esteve em Lisboa muito tempo, até 1814. NSo sabemoS; se tem 
alguma relação com o primeiro; as datas parecem concordar, 
porque o baixo Olivieri, cantou desde Maio de 1804 até ao outono 
de 1806, nas operas: Argenide, Zaira, Fernando in MeuicOf 
Oinevra di Scozia, Jl Duca di Foix, Morte di MUrídate e Ar- 
iaserse. Talvez que depois, cantasse em operas de outros autho- 
res e se demorasse em Portugal até 1814, anno que Fétis marca 
para a sua sabida. 

PANIZZÁ — Pompolio — Tenor distincto; cantou no Trumfo 
di Clelia, (Tarquinio) ; brilhou na Itália e deixou um filho que foi 
compositor e bom professor de canto, em Milão. 

ÁHGELLELI — Pietro — Cantor buffo ; distinguiu-se no Trion- 
fo di Clelia (Porsenna). Era 2.° buffo na companhia de Cres- 
eentini, com 960$000 réis. 

Mencionamos aqui um nome idêntico de um outro artisUy 
que teve aqui grande fama, porém anterior ao primeiro. E Oio- 
vanni Angeli, denominado Lesbina. 

Nasceu em Sienna, em 1713. Esteve desde a sua juventude 
ao serviço do Rei de Portugal, e foi aqui muito estimado. Depois 
de algumas aventures per iUeuses, (Fétis) retirou-se para a Itália 
e tomou ordens menores. 

A sua voz era pura, de timbre distincto e forte, e muito ex- 
tensa; a expressão era a sua qualidade característica. Morreu a 
10 de Fevereiro de 1778. 

O artista: Pietro Angeli, que vem no elenco de Crescentini 
com a classificação de 2.^ buffo, e com 960$000 réis de ordenado, 
parece ser o mesmo que o primeiro. 

Temos mencionado os cantores mais notáveis que se distin- 
guiram'nas operas do nosso compositor; accrescentamos ainda os 
seguintes, de que Fétis nSo faz menção : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 125 

Cãêtrati: Capòralini e Zamperini; (nSo confundir com a 
cantora do mesmo nome) Praun, que fez os papeis de Scipionena 
/So/bnííòa e de Nerestano na Zaira; Rostrelli, Boscoli, Pcdrozzi, 
Tavaniy Domenico Nery e G-aetano Nery; (este ultimo tinha no 
elenco de Crescentini, o titulo de i." huffo, com 1:020$000 réis) 
o segundo, figurou na Ginevra di Scozia (Ré) e Zaira (Lusigna- 
no). Terminamos com outros de ordem inferior : Francesco Gaffo- 
rini, (Crescentini, 2." tenor, 480|000 réis). F. Senesi, Bonini, 
Cario Barlasina, etc. 

(a) NettM hist. hiogr. Lexicon de Tortkêtl, Vol iii, pag. 754. 

(b) Diciionnaire hUtariqtte de$ Muêicien8,FanBj 1810 e 1811. YoL ii, 
pag. 173. 

(c) AUgem, LU, der Muêik. 

úí) A Muêicay Archivo Pittorcsco, vol ix, 186C pag. 77, 87, 95, 102, 127. 

(e) Gazeta da Madeira de 1866 N.** 4, 6, 7, 8, 9, 10, 17, 18, 19 c 20: 
A Musica em Portugal. 

(fl) Ov,cit. 

(g 1) Op. ctt, 

(f 2J Btographia de Marcos Portugal por lunoccncio da Silva, Ar- 
chivo PittorescOy pag. 290. 

Esta data foi enviada do Eio de Janeiro a Innocencio da Silva. 

Todas as diligencias que Joaquim José Marques fez a seu pedido, nos 
cartórios das differentcs parochias de Lisboa, nao deram até hoje resulta- 
do algum. Kesta pois saber a fonte d'onde I. da Silva houve esta informa- 
ção, para se poder apreciar o seu valor. Fétis indica o nascimento de Por- 
tugal um anno mais tarde, em 1763. 

(g 2) E98ai statiêtique^ vol. it, paff. ccvii, e Archivo PUtorescOj loc, cU, 

(n) Biogr. Univ., vol. vii, pag. 105. 

(\) Jornal de Modinhasy de 1793, publicado por P. A. Marchai Milccnt 

(J) O original autographo, está na Bibliothcca real da Ainda. 

(k) La puriêsima Concezzioni di Maria Santiesiína^ Madre de Dio^ 
cantata scenica da representarei neW Oratório di S. Signoria il sig. . . 
a 8 de Dezembro de 1788. (Vide o Quadro synoptico das Operas,) 

(1) Este uso antiquíssimo, ainda hoje se encontra na Itália ; os artis- 
tas, c sobretudo os músicos, são 14 conhecidos pelo nome e pelo appcUido 
simplesmente ; por exemplo : Leonardo Leo, Cláudio Monteverde, Giovanni 
LoUi, Gaetano Donizetti, Giuseppe Haydu, Gioacimo Rossiiii etc. 

(m) Noticia commuuicada ao J. do Commercio, pelo professor de Mu- 
sica, José Theodoro Hygino da Silva que a houve de sou mestre, Fr. José 
Marques da Silva. 

Ín) Biogr, Univ, vol vii, pag. 105. 
o) Borselli nlo podia pertencer á Opera itcUiana, como Fétis quer, 
(loc cU,J visto ter-se fechado o Theatro da Rua dos Condes, depois da 
expulsão da celebre Zamperini ; entretanto, é provável que pertencesse á 
Capella da Patriarchal, ou mesmo a alguns dos theatros do Paço em que se 
representava a opera italiana. O que parece fora de duvida, é que recebera 
lições de canto de Borselli, porque o Cardeal Saraiva, diz na Lista de 



126 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

algutu artistctê portuguexes, pag. 48, que era : «óptimo Mestre de Canto e 
cantava com excellente estylo em voz de Tenor.» Esquecemo-nos de men- 
cionar até aqui, eate facto ignorado por todos^os sens biographos, porisao 
adiante o repetimos. 

(p) Este celebre Catalogo^ foi publicado pela primeira vez por M. de 
Araújo Porto-Alegre, na Reviêta do Instituto histórico do Brazil, voL xxix, 
pag. 290 a 292, anno de 18G6. Este escríptor pretende dal-o como auto- 
grapho e assim parecem acceital-o, o Jornal do Commcrcio e I. da Silva, 
sem exigirem, como era licito em assumpto t^o importante, uma pro?s 
mais forte do que a simples affirmaçào de um escríptor, embora respeitá- 
vel. Demais, a authenticidade, fica, pelo que adiante deixamos dito, posta em 
duvida e por isso mesmo, bem necessário se toma uma prova mais evidente 
e mais acceitavel. Ficamos pois na espectativa. 

(q) Op. cit. 

(t) Tradução das palavras de Fétis, loe, ciL 

(s) Fétis. ibid, 

(t) Dictionnairt lyrique et Histoirt des Opiraê, etc Paris 1869, 
pag. 62. 

(u) N, hist. hiogr, Ltx, vol. ui, pag. 754. 

(V) T. Oom, Ephemerides musieaes, na Bevtsta dos Espectctculos, voL u, 
pag. 156. 

(w) Vide o Quadro synoptico t chronologico das Operas de Marcos Por- 
tugalf no fim doesta biographia. 

(x) Fétis, op, cit., pag. 106. 

(y) Ibid. Eram Piccini, Zingarelli, Fioravanti, Grétry, Monsignj 
Reichhardt, PaSsiello, Cimarosa. 

(z) Temos de rectificar aqui um erro commettido por Fétis. IHz este 
escríptor, que Schilling (EncyclcBpedte der gesammten musikalischen Wis- 
senschaften, Stuttgart í 835-1 840, 7 Volumes gr. in-8.«) confundiu, no artigo 
que traz sobre a Catalani, todas as datas ; um dos suppostos erros de 
SchiUing : a chegada da Catalani a Lisboa, em 1801, emenda Fétis com s 
data Í804; esta accusaçâo é infundada, porque o escríptor allem&o, escre- 
veu bem ; a prova temol-a no libretto da Morte di Semiramide, de Mar- 
cos Portugal, cantada no inverno de 1801 e cm que ella fez o papel prin- 
cipal. 

Os librettos da Sofonisha, carnaval de 1803; Trionfo di Clelia, 1803; 
Argenide, 13 de Maio de 1804 ; -^aira, estio do mesmo anno — refutam cla- 
ramente a asserção de Fétis, que pretende fixar a sua chegada a LisbcA, 
no fim de 1804. Basêa o celebre crítico a refutação que faz da data de Schil- 
ling (1801) na representação da Clitemnestre de Zingarelli e das Daccandi 
di Boma, de Nicolini, na Scala em que figurou a CatalanL Não contestamos 
a veracidade d^essas notícias, nem ellas estão em contradicção com as que re- 
ferimos porque como a Catalani, cantou a Morte de Semiramide só no in- 
verno de 1801, (como diz o folheto, que temos á vista) podia muito bem ter 
cantado as duas operas que Fétis menciona, no estio ou no outono d'este mes- 
mo anno. 

Parece-nos esta supposição verdí deira. Entretanto os 4 librettos de 
que acima falíamos, e que temos presentes, provam evidentemente qne a 
('atalani estava em Lisboa, no inverno de 1801 cahi ficou até ao carnaval 
de 1806, como provamos com o libretto da Morte di Mitridate, em que a 
celebre cantora fez o papel de Vonima; Mombelli (Mitridate) Matucci (Zi- 
faro) Olivieri (l^amace). 



os MÚSICOS PORTUOUEZES 127 

Schilling, apesar de ter fixado bem a primeira data, errou depois, 
dizendo que a Óatalani partira em seguida para Londres onde ficara até 
1806, anno em que a dá em Pai-is. 

Pelas informações fidedignas do Jornal do Commercio, sahia a Cata- 
lani de Portugal, so no outono de 1806. 

Pelo que deixamos dito, se vê, que os escriptores estrangeiros foram mal 
informados da sua estada aqui ; por isso esperamos com interesse pela no- 
ticia sobre a Catalani que sabirá brevemente á luz, no Jornal do Com- 
mercio de Lisboa, e que vem esclarecer muita cousa obscura a respeito da 
celebre cantora e dar bastantes novidades curiosas. Falíamos mais adiante, 
d^eete trabalho. 

(aa) Essai statist. Yol ii, pag. ocvii. 

(bb) Prova : o seguinte pasquim : 

Que fazes João? 
Faço o que me dizem, 
Como o que me dao, 
E vou para Mafra 
Cantar cantocbão. 

(cc) Vide a Biographia de José Mauricio Nunes Garcia, vol i,pag. 114, 
115, e 116. 

(dd) Balbi, Essai staíist. vol ii, pag. ccxiv. 

(ee) Este facto vem confirmado n'uma carta de Luiz Marrocos, de 29 
de Outubro de 1811 : 

aConcedeu S. A. K. 7 loterias para ajuda das obras do magnifico 
theatro de S. João, que está a edificar- se, e que pretende abrir-se para os 
annos de S. A. R.» ctc. 

Estas loterias fizeram- se a requerimento do Intendente geral da poli- 
cia; a 1.*, a 9 de Março de 1811 ; ainda n'este anno, mais duas; em 1812, 
duas e em 1813, ainda três ultimas. 

O tlieatro de S. João, tinha sido feito pelo risco de S. Carlos, se- 
gundo 08 desenhos do marechal de campo : João Manoel da Silva. Levan- 
tava-se no campo, outr^ora chamado dos Ciganos, Pelas noticias que res- 
tam d'elle, devia ser um grande e bello theatro, porque segundo testemu- 
nho fidedigno (Monsenhor Azevedo Pizarro, Memorias históricas do Rio de 
Janeiro) podia receber commodamente, na plateia 1:020 pessoas e contava 
112 camarotes, distribuidos por 4 ordens. 

A ornamentação era grandiosa; o scenario pomposo, e a tribuna real 
sumptuosa. O theatro foi inaugurado com o drama allegorico : O Juramento 
dos Numes, e uma peça apparatosa : o Combate do Vimieiro, (campanha da 
península ; acção perdida pelos francezes contra o exercito auglo-luzo). 

Este magnifico theatro foi preza das chammas, na noite de 24 para 25 
de Março de 1823, depois da representação dada para solemnisar o jura- 
mento de D. Pedro á nova constituição ; ficou completamente destruido. 

(ff 1) Da maneira como o Jornal do Commercio falia, a propósito 
doesta nomeação, parece que fôra D. João vi, que tinha destinado o antiga 
Conservatório dos Jesuítas «para a educação musical dos seus escravos.» E 
falso, pois D. João vi não deu nenhum destino novo ao antigo estabele- 
cimento de Santa- Cruz, que estava fiorescents muito antes da chegada 
do regente f pelo contrario, foi D. João vi e as suas innovaçues fantásticas, 
que ncntralisaram o effcito benéfico do Conservatório dos Negros e condu- 



128 OS arosicos portuguezes 

ziu este estabelecimento á sna ultima pliaso e á sua ruina. Para prova do 

2ue deixamos dito, lembramos o que atraz escrevemos, assim como o que 
issemos na biographia de José Maurício Nunes Garcia, sobre o Ctmêena- 
torio africano, 

rfi* 2) Archivo Pittoresco, vol. xi, pag. 351. 

(ffg l)Ibid., pag. 241. 

(uh) Fríedrích Christoph Gcstewitz, compositor allemSo. Foi Director 
do thcatro de Dresdeu, em 1790. Estudou com Hiller e compoz algmnas 
operas buffas; entre outras: VOrf ancila americana^ representada em 
Dresden cm 1790. 

Nasceu em Príescbka a 8 de Novembro de 1753, e morreu em Dres- 
den em 1805. 

(ii) Um decreto estúpido e que já fazia prever a demência da mulher, 
que para vergonha nossa, governava o paiz — prohibia ás mulheres a en- 
trada no palco, dando o golpe mortal na Optra ilaliana e no Tfitatro na- 
cionfU. Os jesuitas, authores do decreto, nao queriam as mulheres no palco, 
queria m-n'as para si. 

Oh! h^ocrísin, como és vil e baixa ! Oh reis bárbaros e rainhas inep- 
tas, que SOIS os últimos entre os homens livres, reflecti ! ou no presente, oa 
no futuro, a verdade vos stigmatisará com o sello do críme e da deshonra, 
assim como o fazíeis ao réprobos e innocentes que mandáveis agrilhoar ás 
paredes das vossas masmorras e lançar nas vossas fogueiras. 

(jj) O Jornal do Commercio, falia (N.« 4887 de 11 de Feverdro de 
1870) de um thcatro da Opera: JS, João, inaugurado no Bio de Janeiro a 
12 de .Outubro de 1813; porém no N.<» de 22 de Fevereiro, menciona nm 
outro theatro : S, Pedro d Alcântara, inaugurado no mesmo anno eno mes- 
mo dia e com a mesma peça : O Juramento do$ Numet l 

Parece haver erro ou troca n^estes dois factos. 

rkk) E$$ai a(ut,y vol. ii, pag. ccviii. 

(11) Annaeê da opera rtiasa desde a sua origem em 1755 até 1862, 
S. Peteisburgo. 1862. 

(mm) Celebre cantora do século xviii, 1728-1807. Esta ária que re- 
ferimos, foi composta por Hasse, que temendo encontrar na Mingotti una 
rival de sua mulher, quiz armar-lhe um rédc, crivando-lhe a melodia de 
difficuldades ; mas a artista percebendo a intenção do maestro, estudou-a 
e alcançou em toda a parte com a ária um triumpho completo, arrastando 
os auditórios com o seu canto expressivo e sublime. 

(nn) N'a(|uclles bellos tempos ainda nao se conhecia o que era tal cou- 
sa ; os compositores italianos tinham mais misericórdia com os ouvidos dos 
amadores. Contentavam -se com um Mondo despretencioso c agradável 
que deleitava o auditório ; hoje foi substítuido pela Cabaleita insupports- 
vcl, banal e enjoativa a ponto de causar dores de estomaa;o. Eis o que li- 
chtenthal (Dizzionario e Bibliographia delia Musica, Muano, 1826, vol. i, 
pag. 107) nos diz d'cstc artificio musical: 

«Neír antico Bondo il poeta (e massime Metastasio) dando ai person- 
nagio ad esprimere a parte un sentimento di tenerezza, di dolore o <£ giois, 
apprestava naturale occasione ai compositore di musica per Tinvenzione di 
símile cantilene. 

«Ma ora, esscndo la musica tutta rivolta alia sensualità e ai diletto, 
non solo nelle Arie modenie, ma anche ne' Duetti e Terzetti ancora, e per- 
sino n'e Finali occupano simili cantilene, ín ogni genere di situazione e 
d^affctti, il posto primário, di modo che, dopo un pidciolo Andante od An- 



ÔS MÚSICOS PORTUGUEZES 1Í9- 

âêiniatio lar Regina CaòaU^la apre la rídentõ bocca, e canticcbiando una 
specié di Walzer con nn ritmo e prosódia stra volta, modala co* gtaziosi & 
langaénti st eno nella favorita Terza e Sedta minore, e yola sulle ali d'an 
dolcé Eeo tntta çiubilante c gorgheggiante a tuono. II Coro ed i subaltcr- 
nl áp(>laudono tosto, ed Ella, tutta compiacenza, torna súbito a ribeare co- 
destí suoi fidi s^ibditi, ripetendo còlF uniforme pizzico dcgli strumenti la ce- 
leste melodia ; e questi accompagnano non di rado con galante mormorío 
le ultime cadenze, con cui termina immediata mente il pezzo sublime, aíHn- 
cbè non perdasi la delicatissima e dolcissima illusione dei non plus ultra 
deli' odienia espressione musicale.» 

Um dos compositores da eschola moderna, que tem levado a cabaletta 
até is ultimas consequências para a paciência dos ouvintes e para a musica 
sensualiêtcL, é G. Verdi, a quem compete por isso uma boa parte do espi- 
rituoso e irónico commentano que transcrevemos do livro de Lichtenthal. 

(oo) Â vida, a actividade, o génio, as obras admiráveis d 'este artista 
giçántesco nSo existem para Portugal. Nem as suas composições para Or- 
gSo, nem as de piano, nem os seus admiráveis Chorftle, nem as suas es- 
plendidas Missas, emfim nada, nada, nada, aqui se conhece. 

Miséria, Mis&rícBy antnia Miséria ! 

(pp) Com Gluck succede o mesmo. Apenas em S. Carlos se cantou ba 
69 annos^ uma opera doeste génio immortal ; todas as inspirações sublimes 
e todas as bellezas immorredonrás que enchem a admirável partitura de 
Orfi^ eP Euridiee, desde o Coro do \.^ Acto, até á admirável, sublime e 
incxcedivel phrase: • J'ai perdu mon Eurydice», tudo foi insufficientCpará 
fazer reviver a partitura. 

Miséria, Miserías, omnia 3ítseria!! 

*D<jr imerreichste aller Meister» — Bccthoven. 

(qq)- Homem desconhecido em Portugal. 

Opercts. — ' 

Oratórios. — 

Cantatas. — ' 

Musica de otgào. — 

3£iseruí, Miserics, omnia Miséria l í! 

(rr) Mozart ; d'este compositor Cantáram-eie em S. Carlos apenas as 
operas : 

Clemema di Tito — 1806. 

D. Jti«fi— 1838. 

Ultimamente tem-se repetido com eetropiaçucs successivas, até se che- 
gar ao disederatum, alcançado ha dois annos ou três, com uma execução 
que fez fugir os ouvintes, cobertos de pejo e de vergonha, perante uma exe- 
cução selvagem. 

Miséria, Miserioe, omnia Miséria ! ! t ! 

{ss) Weber ; homem desconhecido em Portugal. Ainda cm S. Carlos 
nSo soou até hoje uma só nota do FreichUtz, de Oberon, da Euryanthe, da 
Preciosa. Ouvimos dizer que o tenor Mongini fizera os maiores esforços 
para se levar a primeira opera á scena para brilhar n'clla, porém tudo foi 
em v3o. 

Miséria, Miserút, omnia Miséria ! ! ! ! ! 

(tt) Bcethovcn, homem desconhecido cm Portugal. 

Nunca aqui se executou uma única Sffmphonia do grande génio al- 
Icmlo. 

Miséria, Miserim, omnia Miséria f ! ! ! ! ! 

9 



130 , OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

No Concerto dado nltímamente pela Âsaociação musica, a 8 de Junho 
de 1870, devia-se executar o celebre Andante da Sympkonia em Là; xnts 
um atrazo na copia das partes da orchestra, adiou iudefinidameote a exe- 
cução do primeiro trecho de Beethoven, que se tocava em Portugal. A fa- 
talidade em tudo nos persegue! Ficaremos mais um anno em completa 
ignorância, até que a Associação musica se lembre novamente da sua 
ideia. 

^u) Homem desconhecido em Portugal. 

Bomto et Julittte, Sjmphonie dramatique. — 

Harold en Italie, symphonie. — 

Symphonie fanUutiqut. — 

Messes des Morts. — 

IJEnfance du Christ, 

Miséria, Misérias, ommia Miséria I !1 !!!I 

(vv) As composições de Mozart só começaram a ser apreciadas na 
Itália depois da apresentação que Rossini fez d*ella8 aos italianos, nas 
obras do segundo período da sua carreira, sobretudo no Barbiert di Sevi- 
glia, que em certas cousas, é o ecco de Figaro*s Hockzeily modificado, bem 
entendido, pelas qualidades particulares do compositor de Pesaro. 

(ww) ò nome verdadeiro doeste compositor é Marcello Bemar^ni ; o 
appellido «de Capua», provém da cidade aonde nasceu. As suas operas fo- 
ram applaudidas, sobretudo as do género bvffo, 

£m S. Carlos, cantou-se doeste author : R Comte di BeWtsmort, — 
1791. 

Txx) N, hist. hiogr, Lexicon, vol lu ; pag. 754. 

\yy) £xamine-se o Allegro, ma non ^re^ppo = Sensations douces à la 
campacne = phrase das i.*" rabecas, imitada pelas 2.**, repetida depois 
pelo e^ésj renovada pelos clarinetes e fagotes, e attacada no 27.* com- 
passo por toda a orchestra ; vcja-se ainda na mesma S^mobonia = Seéne 
prés du ruisseau ^ phrase das i." rabecas, imitada pelo oboés e fagotes; 
no mesmo trecho, 14.* compasso : í,* solo dos clarinetes e fagotes, dqiois 
flautas, clarinetes, fagotes, i.*' rabecas e vioUmcellos ; tremolo no resto da 
orchestra; recommendamos emfim a analyse da = Keunion joyeuse des 
villagcois = phrase das i,** e 2.*' rabecas e violetas, e = Chant des ber- 
gers =: . Os exemplos não tem conta. 

Quando é que a orchestra de S. Carlos se lembrará de abrir os olhos 
k cegueira universal, facultando-lhes os thesouros inexgotaveis, innumeros, 
e inexcediveis das Symphonias do génio allemSo ? 

Poderão objectar que não é musica para a nossa gente ; isso, é ama 
objecção absurda a que só um idiota poderá prestar ouvidos ; seremos nós 
então o único povo da Europa incapaz de apreciar o que ha de mais bello 
no género instrumental ? Não nos queiramos passar tão triste e miserável 
attestado, que nos reduz á ultima classificação, como povo incapaz de 
sentimento artístico. 

Haja vontade e coragem na orchestra do nosso theatro lyrico que em 
querendo, sabe muito bem cumprir o seu dever; não reservem só para um 
concerto extraordinário, aqui lio que se devera ouvir, sentir e compreheoder 
todos 08 dias para retemperar a alma gasta do ouvinte, que vem procurar 
no theatro uma distracção e um allivio aos pezados encargos do dia. 

Dêem-lhe a ouvir a musica que retempera, que fortalece, que encanta 
que educa, que enthusiasma a alma bem formada ; que soja S. Carlos um 
templo, mn refugio contra o mau gosto que nos attac^ por todos os lados ; 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 131 

ãae nao haja um culto exclasivo n^essa casa ; que seja um templo pan- 
Eieista aonde se admirem todas as manifestações do bello na Arte, sem se 
olhar, nem a nomes, nem a títulos. 

£ uma vergonha, que no primeiro theatro lyríco de Portugal, não se 
tenha ouvido até hoje uma opera de Wcber, uma opera de Mozart, (como 
deve ser) ou uma Sjmphonia de Beethoven l 

Beconmiendamos estas linhas aos artistas da orehcstra de S. Carlos ; 
da sua boa vontade, depende a rcalisaçilo d'aquillo que pedimos em nome 
de todos 08 verdadeiros amadores portuguezes ; esperamos da illustraçao o 
do sentimento artístico de tanto professor distincto, um sincero auxilio para 
transformar os desejos de nós todos, n'uma realidade palpável. 

(zz) Assistimos n*esta ultima estação musical de S. Carlos, á represen- 
tação do Ernaniy (por signal, que foi detestável, pelos cantores) e tivemos 
a paciência de seguir a partitura desde o primeiro compasso, at^ ao ultimo ; 




£m todas as 10 Symphonias de Beethoven, não se encontra um único 
compasso de grasse caísse, tam-tam ou pratos^ e note-se que são estas as 
composições orchestraes que produzem o efPeito mais surprehendente, 

A orchestra de Beethoven, compoe-se além do quartetto, apenas de 
fiavlas^ oboés, clarinetes, trompas, fagotes e contra-baixos. 

Que simplicidade de meios, e que resultados extraordinários ! 

(aaa) Memoiresde Hector Berlioz. Paris, 1870, pag. 64. 

(bbb) Rid. Em Note : 

■ Je ^ouve même Têpithète honteuse, insuffisante pour flétrir ce passage. 
Mozart a commis la contre la passion, contre le sentiment, contre le bon 
eoút et le bon sens, un des crimes les plus odieux et les plus insensés que 
ron puisse citer dans rhistoire de Tart. > 

Berlioz no fogo da sua indignação não se lembrou, de que o seu idolo 
Gluck, que elle eleva ás alturas mais ignotas (Vide Soirées de VOrchestre. 
Paris, 1853, e A travers chanis, ibid.) tombem commetteu um crime idênti- 
co na partitura do seu aliás admirável Orphée et Euridicey introduzindo no 
papel que Segros desempenhou, uma série de vocalises de muito mau gosto. 

Tece) Jornal do Commercio, de 22 de Fevereiro de 1870. 

(ddd) Distincto compositor allemão do século xviii. Nasceu em Koenigs- 
berg em 1752, e morreu em Halleem 1814. Deixou um grande numero de 
operas sérias e bufiFás, entre as quaes se distinguem, Brenno, JRosmonde, 
Bradamante ; no segundo género é notevcl a opera Die Geisierinsel, Rei- 
chhardt foi também um eseriptor theorico e critico distincto *, os seus es- 
críptos polilicos, dão-n'o a conhecer como um dos poucos homens que na 
Allemanha comprehenderam logo a Revolução franceza e fizeram justiça 
aos seus heróicos feitos. 

(ece) Compositor de mérito. Nasceu em Mannheim em 1754, e morreu 
em Munich em 1825. 

Entre as suas operas distíngucm-se Das Lahyrinih, Maria von Mon- 
UsJban e Das unterbrochene Opferfest, a sua obra prima e que ainda hoje 
é reprcficntada com grande applauso nos theatros da AUeuiauha. A sua.rc- 
putaçiio est;i todavia quani circumscripta a este paiz. 

(fff) O 8eu verdadeiro nome c : Johann Adam lluller ; nascon cm 
Wendisebossig (Silesia) em 1728, c falloeou cm Lcipaig eia 1804. Foi no- 
tevel como fundador e director do hoje celebre Coni5crvatorio de I^eipsig. 



Í32 08 MÚSICOS PORTUGUÈZES 

Sen filho, Fríedrich Adam Hiller (1768-1812) deiiott àlemnâtf operai 
comieoêy composições distínctas, ainda hoje applaudidas na Auemanha; en- 
tre outras : Das^Nixenreich, Das Donauweibcnen, e Das SchmuddcãeHchen. 

(KgS) Compositor distincto ; nasceu em Eisenstat (Hungria) e morrea 
cm Vienna d'Austria a 3 de Fevereiro de 1846. 

Entre as suas composições, distíngue-se tobretudo a sua opera : DU 
. Schweixerfamilie, ainda hoje celebre na Allemanha ; esta reputação é me- 
recida, pois a opera que omnmos na sua pátria, tem bellas inroiraçoes, so- 
bretudo pelo lado melódico. Em S. Carlos se representou em 1820: UBi- 
vaU di se êteêso, d*este author opera escripta originariamente para a Scal^ 

(hhhj N2lo reproduzimos a nota do jornal italiano, porque o tínhamos 
ém uma rolha volante, que perdemos ; todavia lembramos o numero do Jor- 
nal do Commtrcio em que a citaçSo se encontra ; é de 22 de Dezembro de 
1869, N.« 4:847. 

(iii) Celebre compositor do século xviii ; nasceu em Bergedorf, perto 
de Hamburgo cm 1669 e fallccen em 1783, cm Veneza. Este author tevê 
uma reputação universal no fim do século xviii e foi considerado no seu 
tempo como o primeiro compositor dramático, até que o apparccimento de 
Mozart e de Haydn o fizeram esauccer. Entre as suas operas distingoiam-se : 
Arta^trstf AUseandro ntlV Indte, ArminiOy etc. 

Estas composições tinham muito mérito para a^uelle tempo ; os seus 
cantos eram do uma grande suavidade, bem construídos, e uniam-se fiel- 
mente á exprcssSo das palavras ; a execução que os cantores adíniravds 
d^aquelle tempo davam ás suas árias, augmentava também o seu prestigio 
e a sua fama ; todana a falta de expressão enérgica e de verdade oramati- 
ca nas suas ideias, a pouca variedade das suas formas musieaes e a pobre- 
za da sua harmonia, lançou-lhe as obras no esquecimento, desde que 
Haydn é Mozart revelaram pelas eminentes qualidades das suas compoin- 
coes, todos os defeitos de Hasse, contrabalançando ainda as vantagens does- 
te ultimo, com talentos superiores. 

Foi este compositor, que ouvindo cm Milão o Mifhrtdatc de Mozart, 
composto aos 13 annos e representado em 1770, em concurrencia com o seu 
Ruggitro — soltou aquellas propheticas palavras : esta cacAXÇÁ vizeb-vos- 
fiUL ESQUECER A TODOS ! oraculo profuudo que o tempo não ousou desmentir. 

(jjj^ La Musique ancieniie et modeme. Paris, 1864, pag. 2. 

(kkk) Biogr, t/mu,, vol. iv, pag. 87. 

(111) Ibid,j vol. VII, pag. 465. 

PORTUGAL (Simão) — IrmSo do antecedente. Postoque mui- 
to inferior em talento, foi entretanto um compositor hábil e agra- 
dável; que mesmo nas operas em que collaborava com seu irmão, 
se soube fazer applaudir. 

A sua actividade artistica exerceu-se principalmente no Rio 
de Janeiro, aonde trabalhou para o Conservatório africano e para 
a CapellaReal. £tn Lisboa pouco escreveu, se exceptuarmos algu- 
mas composições feitas para a Capella de D. João vi e algumas 



0^ MÚSICOS PORTUGUEZES 13? 

turioê e (duettoB isolados, que ainda hoje se encontram. O seu in- 
strumento favorito era o piano, que tocaya muito superiormente 
a seu irmSo. Viveu quasi sempre no Rio de Janeiro. 

POUSÃO (Fr. Manoel) — Monge natural do Alandroal (Alem- 
tejo) e filho de Lourenço Rodrigues e Brites Fernandes. Profes- 
sou o instituto augustiniano no convento de Nossa Senhora da Gra- 
ça em Lisboa, a 16 de Maio de 1617. Foi discipulo de António 
Pinheiro e muito estimado por D. JoSo IV, que o elevou ao cargo 
de Mestre de Capella no convento de Lisboa; foi também pelas 
suas virtudes ecclesiasticas, nomeado Visitador da provincia e 
Mestre dos Noviços. 

Morreu em Lisboa, a 16 de Junho de 1683 com quasi 90 an- 
nos. Publicou: 

1.) Liber pasêtonum et corunij qtuB a Dominica Paimarum 
ufjue ad Sabbatum Sanctum eantari sohnt, Lugduni (Lyon) 
apud Petrum Guilliminis, 1576, in-fol. 

2.) Missa Defunetorum, a 8 votes. 

3.) Vilhancicos e Motetes. Existiam na Bibliotheca da Mu- 
sica, em Lisboa. 

FQBIFICAÇlO (João da) — Natural de Lisboa, aoade morreu 
II 19 de Janeiro de 1651. Pertenceu á CongregaçSo do Evange- 
lista, que professou no convento de S. Eloy, em Lisboa. Foi dis- 
cípulo de Duarte Lobo, je deixou: 

Varioà obras musicaes. Ms. Grande parte se conservava na 
Bibliotheca real de D. JoSo iv e em diversos conventos da sui^ 
iwngregaçSo. 



Q 



QUEIRpZ (Bernardo José d« Souaa) — Author supposto do 
^drapia o Jy^anutntQ dos JHumês, que segundo indicaçSes mais 



134 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

exactas, parece ter sido composto por Marcos Portugal, (a) Quei- 
roz era mestre e compositor do theatro de S, JoSo (opera) do 
Bio de Janeiro. 



(a) Vide a lista das : Durlettas e peçcu secundarias, cantadas no Bio 
de Janeiro, pag. 83 doeste voliunc. 



R 



REBELLO (João Lourenço ou João Soares) — Foi Caminha o 
berço d'este musico celebre; (a) ali nasceu em 1609, filho de 
JoSlo Soares Pereira e D. Domingas Lourenço Rebello. Apren- 
deu a musica provavelmente na Capella ducal de Villa Viçosa, 
pois em 1624, encontramol-o já ao serviço da casa de Bragança. 
Foi um dos nossos primeiros compositores, se dermos credito a 
Machado: muitissimo distincto nas suas producçSes, que brilha- 
vam pela originalidade das ideias e pela inspiração elevada, que 
as animava. A maior parte das suas composições, que eram sa- 
cras, foram executadas na Cathedral de Lisboa, cuja direcçSo 
estava encarregada a seu irmão, Marcos Soares Pereira. Teve a 
honra de ser Mestre de D. JoíLo iv, emquanto Duque de Bra- 
gança; dizemos uma honra, por ter sido este lun grande artista. 
O príncipe remunerou-o largamente com a doação de varias com- 
mendas, fôro de fidalgo, ctc. 

Já dissemos, que D. JoSlo IV era artista, e como tal respei- 
tava e venerava aquelle que fora seu Mestre e que era entSo um 
dos mais illustres artistas de Portugal. A sua estima, chegou a 
ponto de lhe dedicar uma das suas obras, a Defensa de la Mu- 
sica moderna; D. JoSo IV fez o seu dever. Depois de Deos, vem 
o artista, seu verdadeiro representante na terra. 

Rebello morreu a 16 de Novembro, de 1661, na sua Quinta 
de S. Amaro, perto de Lisboa, e jazia sepultado na parochial 
egreja da Encarnação, no logar da Appellação, perto de Lisboa. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 135 

Um livro de Psalmos e Miaereres, publicado em Roma, pa- 
rece indicar ter feito alguma viagem á Itália. Compoz : 

1.) Psalmi tum Vesperarum, turh Òompletorii. Item Magni- 
j£ca<^ Lamentationes, et Miserere. Romae, Typis Mauritii et 
Amadsei Belmontianmi, 1657, in-4.°, 17 vol. foi. gr. SSo: Psal- 
mosj Magnificas, Lamentares e Misereresj a 16 vozes, com haixo 
obrigado. 

2.) Victim4B Paschoalis, a 8 vozes: dtias a 1 de Compassi- 
nho, ea 2 ãe prolação maior, 

3.) Missas a 4,5 e6 vozes, de Estante, 
4.) Psalmos de Vésperas, a 4 vozes, idem, 
5.) Hyfttmos das Vésperas, a 4 vozes, idem, 
6.) Missa a 39 vozes, offerecida a D. JoSo iv, quando fazia 
este numero de annos. 

7.) Missa de coros, a 8e a 10 vozes, 
8.) Missa a 17 vozes, 
9.) Te Deum Laudamus, a 9 vozes, 
10.) Regina cedi Icetare, a 8 vozes, 
11.) Invitatorio de Defuntos, a3 ea 8 vozes, 
12.) Parce mihi, a 12 vozes, para as exéquias do príncipe 
D. Theodosio, pae de D. João iv. 

, 13.) Spiritus meus attenuahitur, a 8 vozes, para as exéquias 
de Luiz XIII, celebradas na egreja de S. Luiz em Lisboa. 

14.) Missa de Defuntos com a Sequencia e Responsorios, a 
12 vozes. 

15.) Credidi propter juod locutus sum, a 12 vozes, 
16.) Joseph, Filii David nocte timere, motete a 3 vozes, 
17.) Vilhancicos da Conceição, Natal e Reis, a 4,6,8 e 12 
vozes. 

18.) Diversos tonos, a 4 vozes, 

A maior parte doestas composições, estavam archivadas na 
Bibliotheca musical de Lisboa, aonde também se encontrava o re- 
trato de Rebello, mandado ali collocar pelo seu protector e amigo. 



(a) Fétís, Biogr, Univ.^ vol. tu, pag. 194, dix exceUerU compositeiir 
portngais. 



136 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

REBEUO (Manoel) — Mestre de Capella em Evqtii. Vivea 
na primeira metade do século xvii (1625) e era natural de Ayjf 
(Alemtejo). 

As auas composisSes estavam na Bibliotheca de lâshou p 

eram: 

1.) Parce mihi, a 6 vozes. 

2.) Laudate Dominam, a 3 vozes. \ 

3.) 4 Misereres do quarto tom, a 3 corqs. f^st. ^3, 

4.) Quommodo sedet sola civitas, a 3ea5 A}OzesÁ N*® 776. 
5.) Domine quando veneris, a 4 vozes, J 

6.) Omnes gentes plaudite manibus, motete a 8 vo^es. Estan- 
te 35, N.o 801. 

7.) Ave Virgo graciosa,, a 4 vozes. Estante 33, N,*77.0. 
8.) Ave regina codorum, a 4 vozes. Estante 33, N.^ 771. 
9.) Missa a 12 vozes do primeiro tom. Estante 36, N.® 808. 

Y Rebello qne pudo desde el monte 
Findo baxar ai Acheronte, etc. (a) 



(a) Manoel de Faria, Fonte de Âganipe^ part JK. Ppem. 10^ nom. 72 
e 78. 



REGO (António José do) — Compositor dramático e pianista. 
Ignoramos as circumstancias pessoaes doeste ^artista. 

Forneceu algumas Operas ao theatro de S. Carlos. Eram: 

1.) iZ Conte di Saldagna, em 1807 ; em coUaboraçSo com 
outros. 

2.) Triunfo d'Emilia, no mesmo ^nno. 

3.) L'ingano felice, em 1817. 

4.) Elisaòetha, em 1826. 

Para piano, escreveu : 

A Batalha do Bussaco. Peça militar e histórica par|i For^ 
Pi^no, 1812. 

Também foi director e editor de um Jornal de Modinhoi, 
que se publicava no mesmo anno. 



os ÍPJSIC0S K)»TUGUgZ3E3S 187 

BE60 (Pedro. Vaz) — Nasceu em Campo-M^or, (#) n^ 8 cie 
M^x^ de Jl,670 ; foi filho de Manoel Vaz Bego » Brites LopQs^ "E^ 
ittdott amuflic;^ no Senúni^io d^Evor^, sendo i^hi ^scipolo d^ Mel- 
gaço. Foi priineirai|i«Qte Mestre de C^pella na cathedraj ie £1- 
yAB e depois (em 1797) director da Capell^ ãfiL Cl^wtr» d'Evora 
SB?í cuja Qothe^r^l foi baob^el. AJb^ jnorre^ exercendo pi^ funcç3es 
de reitor do Seminário, a 8 de Abril de 1736* J^ W convento dft 
Cartuxa, fora d^essa cidade. 

Deixou-no8 ae seguintes comporiçfSes que ficaram manu- 
scríptas: 

THEORIA 

1.) Tratado de Musíea; ficou incompleto. 

^.) liefe^M, ^obre a eiftrada d(^ fj^oveno^ da MÍ¥9f^ ^Scftlft Are- 
.tina», comjposta pelo P.* Franciíqcp Y^i, Mestre ida Cuthiedral d^ 
JB9rpelona. (b) 

Fétis (c) traz o titulo um pouco %lj;^ado^ çtjle. : 

— Defensa sobre a entrada da novena da misses §obr^ fç scala 
4refii^/ cpmpop^ p^lo Mestre Jf r^Miíei^o y«Us^ Mfistr^ ÃA Ca- 
tfiedral 4o Qi^rcelona. 

PRATICA 

3.) Missa, a 4 coros. 

^,) Dwf^ ^M<t^ d^ íistantej com os titulos; 

A 1^ TarUum ergo Saeraménivi^, oem um rarÍBaimo enigma ao 

4sinuê Dti. (d) 
A 2.* 44 omnem Tonum; Machado àjf gue 4^^ob]^ n&o ú^h^ 

cgual(!) 

6..) P0nk»€tSj a 4 (Coros» 

7.*) Ifym^asj Motete» e Gradt^esj a diversas vozes. 
S.j) Za^nai^as^ 4ii Semana Sçíota, a 3 coros. 
90 Tefictfiisd^p^ixfo, a4 vofies. 
10.) Vilhancicos do Natal e Conceição, Epiphania, e de vá- 
rios Santos; a musica e as palavras eram egualmente do author. 



138 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Escreveu mais : 

11.) En alabanza de la Salve Regina que camptizo en musica, 
9u alteza real la êeriniêsima princeza de las Astúrias; romance 
heróico, foi., sem logar de impressão. Consta de 20 coplas. 

A maior parte das obras que acabamos de mencionar exis- 
tiam ainda no tempo do cardeal Saraiva (e) no cartório de musi- 
ca da cathedral de Évora. 

(b) Nio em Évora como dii Fétis, Bioffr, Univ., vol. yn, psLg. 201. 
(b) Forkel, Allaem, Litterat, derÁíusiky pag. 499, dá estes obras como 
existentes na cathe<ural de Évora. 



[c) Ibid. loc. dt. 
fd) Provavelmen 
^e; Lista, pag. 49. 



d) Provavelmente algum cânon enigmático. 



REIS (Gaspar dos) — Distincto professor de musica, e dis- 
cípulo do celebre Duarte Lobo. Foi Mestre da egreja parochial de 
S. Julião (1630) e assummiu depois a direcçSo da Capella da Ca- 
thedral de Braga, aonde morreu. 

Compoz: 

Missas, Psalmos, Motetes e Vilhancicos, a differentes vozes. 

Os authographos doestas composiçSes existiam na preciosa 
bibliotheca de Francisco de Valhadolid. (a) 

(a) Vide a sua biograpbia, lettra Y. 

REIS (João dos) — Musico da Capella Real do Rio de Ja- 
neiro; em 1822 e um dos discípulos do celebre Conservatório 
africano, fundado pelos jesuitas. Este mulato era considerado 
como o primeiro baixo do Brazil ; Balbi, diz-nos que D. JoSo VI 
o comparava com Mombelli pela semelhança da sua voz com a do 
celebre artista italiano. Espanta-nos esta asserçSo do celebre geo- 
grapho, porém nSo comprehendemos que relaçSo se podia encon- 
trar entre a voz de tenor, de Mombelli (a) e a de baixo profundo, 
de Reis, para estabelecer entre elles uma comparação. Ou Balbi 
se enganou, ou esta opiniSo é de D. JoSo vi, e entZo opiniSo de 
rei 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 139 

(a) Este Mombelli podia ser ou Alessandro Mombelli, aue cantou 
em Lisboa com pouco êxito, ou Dominico Mombelli — o celeore tenor, 
doeste nome. 



REIS (José da Silva) — Sábio contrapontista do fim de sécu- 
lo xym e um dos nossos mais distinctos violoncellistas. 

Conhecemos este artista por um documento que se encontra 
no principio da Nova Instrucçao musical, e que este artista assi- 
gnou. É uma carta dirigida aSolano, em que ellC; depois de uma 
analjse sussincta das theorias seguidas no livro, que elle nSo se 
cança de elogiar, o convida a publical-o para honra da naçSo 
portugueza e utilidade dos professores e curiosos. A carta vem 
datada de 15 de Março de 1763. 

RESENDE (André de) — O antiquário mais illustre de Por- 
tugal, segundo a authorisada opinião de Ferdinand Dénis ; nas- 
ceu em Évora em 1506, como se prova pelo seu testamento, es- 
cripto no 1.^ de Dezembro de 1573, no qual declara que ao tem- 
po em que o fazia, (9 dias antes da sua morte) contava sessenta 
e sete annos de edade. (a) Foram seus pães, Pedro Vaz de Re- 
sende e Ângela Vaz de Góes, de illustres familias do reino. Er- 
radamente se tem escripto que André de Resende era írmSo do 
não menos celebre Garcia de Resende, (b) 

O caracter artistico do primeiro author, revelado nos seus 
trabalhos de archeologia e historia, fez com que o Conde de Rac- 
zynski o inscrevesse no Diccionnaire historico-artistijue; (c) 
aqui apresentamos também o seu nome, por isso que se distin- 
guiu no século xvi pelos seus escriptos musicaes. Barbosa cita 
uma Carta do nosso antiquário a Bartholomeu Quebedo, em que 
lhe dá noticia das suas composiç($es. (d) A Carta, versa princi- 
pahnente sobre averiguações históricas e ethnographicas, e ape- 
nas duas paginas se referem á musica; mas essas sSo interessan- 
tíssimas nSo só para a vida do artista, como também para a his- 
toria da musica em Portugal, no século xvi. André de Resende 
recebera uma Carta de Bartholomeu Quebedo, sacerdote da Egre- 



140 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

ja de ToledO; a 13 de Janeiro de 1567, a qual fora escrípta em 
Junho do anno anterior; receiando que o i^eu amigo extranhasse 
a demora da resposta, desculpa-se, compensando-o com uma lon- 
ga carta, datada de Évora de 11 de Maio de 1567. Pela respos- 
ta de André de Resende, se vê que Bartholomeu Quebedo p tipIíA 
censurado por causa da musica de um Officio de Sam Gonçalo; 
Resende desculpa-se, attribuindo parte dos erros ao typograplio 
inexperiente, d^onde podemos seguramente inferir, que antes do 
|umo de 1566, já existia em Portugal uma tjpographia de masl- 
pa. Eis as próprias palavras de Rezende: 

fí Admiravelmente exaltas o Officio de Scun Gonçaioj Confu- 
sor, por mim composto. Na verdade folgo, e como te seja muito 
affeiçoado, nílo só folgo, mas exulto. Comtudo, em demasia cen- 
suras a modulaçSo do canto. Que haverá ahi que nSo censores? 
quando tSo estropiadamente foi ella impressa, que eu próprio 
que a compuz, nem ^ conheço, nem Julgo poder cantal-a de 
paaneira alguma. Porém, espero, que, lançando tu ao typogn- 
pho a mesma culpa attribuida por mim, em rasâo da tua equi- 
dade, nSo poderei ser apreciado. Oh varão doutíssimo, tendo 
jEipresentado o i^utographo da minha mão nas sessSes feitas pelos 
padres Pregadores do instituto de Santarém, approvada a escrip- 
ta, foi o exame do canto confiado a Frei Isidoro, teu patricio, e 
^uito perito em composiçSes musicaeá; e a mais outros quatro, 
para que nos seus mosteiros o ensaiassem no coro. Os quaes ten- 
do-o cantado uma e outra vez sem offender os ouvidos, vientm 
dizer aos padres, que nSo só approvayam a modulação, mas que 
tan^bem tinham ficado encantados com ella. £ como de commnm 
;Qu;cordo dissessem que merecia ser acceito, fui chamado ás^ssSo, 
aonde publicamente me elogiaram, desejando-me todas as felici- 
jdades. Accrescento mais. Todos aquelles que depois d^isto volta- 
ram para Lisboa, vieram gabar-se-me, de que, juntamente cona o 
padr^e Provincial, (Fr. Francisco Foreiro) cantando este Officio w 
barco, com a alegre suavidade do canto se haviam distraindo do 
.aborrecwenito da vii^em. Foi dado, depois d^isto, para se impri- 
mir a um monge, varão em verdade douto e probo, mas inexpe- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 141 

riénté nã arte tjrpograpliica^ e iiSo sei se iXó perito em oantar. 
Parec6-me para mim impossível que possa ser caútádo, a nlo SdP 
que áfinál se restitua a moduIaçSó á verdade do próprio autogra-^ 
pho, depois dos desconcertos do typographo ignorante. Não digo 
isto como se pretendesse isemptar-me de toda a culpa, e a quizesse 
lançar á custa do tjpographo. Kem tu, de outra sorte, me ábsol^ 
vas da culpa, se, desbastados os erros, a composição parecer mal-* 
soante. Se algum defeito existe por causa da pouca arte, confesso 
que isso me cabe. Com quanto não seja completsunente alheio a 
esta arte, trabalhei n'ella tanto, quanto competia a um homem 
destinado para o coro e para o altar. A gloria de Musico distincta 
nunca ambicionei. Tão somente, como alguns Officios da nossa 
egreja Eborense sahissem da minha lavra, da mesma ajimtei a 
dois o canto, a um, o da Rainha Santa Isabel, ao outro, este de 
Sam Oonçalo, bastante desgostado com o canto composto por ou* 
iros pára a letra de alguns meus Officios, seguindo systemas 
desvairados, com um modo ora levantado ora abatido e sem 
nenhuma rasão com o arseon kai tJíeêeon. Porém eu trabalhava, 
como julguei, para que a melopoia conviesse com o sentido o 
com a letra. E se me impões a norma dó canto gregoriano, na 
verdade este canto dos exodios e antiphonas, que todas as egre- 
jas adoptam, é gregoriano, e posso provar, que eu nada fiz sem 
exemplo. Evitei comtudo a perplexidade dos sons mais agudosy 
e a demora sobre as breves syllabas de muitas notas destituídas 
de accento.» (è) 

Como sacerdote da Egreja de Toledo, aonde o Cardeal Xi- 
menez restabelecera o culto mosaraòê, Bartholomeu Qucbedo, na 
Carta que em 1566 escrevera a Andró de Resende, perguntava- 
Ihe, SC antes do seu Oficio composto para a festa da Rainha Santa, 
existia algum outro. Resende, tendo n'esta carta respondido, que 
se entregara á composição musical por causa do mau systema 
que se seguia no canto, c na má interpretação que os músicos da- 
vam á letra dos seus Officios, diz : 

cCantava-se então aquelle Officio que tanto me indispoz, 
como testifiquei no prefacio. E esta foi a causa que me levou a eu 
mesmo compor um novo.» (f) 



U2 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

A occasiSo que levaria André de Resende a escrever a soa 
composição ou Officio de Santa Isaòel, seria pela festividade da 
confirmaçSo de Paulo rv, permittindo o culto da mulher de 
D. Diniz. 

Por estes extractos de tSo preciosa Carta se podem tirar aa 
seguintes inducçSes: que a musica religiosa era no século xvi 
muito cultivada nos conventos portuguezes, nos quaes se forma- 
vam sessões para examinarem e approvarem as musicas que me- 
reciam ser admittidas na liturgia. Que, depois de approvada a 
composiçZO; era ensaiada no coro dos mosteiros como prova final, 
voltando depois doeste exame á acceitaçSo definitiva. Vê-se tam- 
bém que em 1567 existia em Portugal um eximio compositor 
hespanhol, Frei Isidoro, natural de Toledo, que deu o seu pare- 
cer sobre a musica de André de Resende ; que em muitas egre- 
jas de Portugal ainda reinava o velho canto gregoriano, e que o 
seu exclusivismo absoluto também levou Resende a dedicar-se á 
composição, fazendo por esse motivo o Officio de Santa Isabel 
para o substituir pelo officio gregoriano, usado pelas freiras de 
Santa Clara de Coimbra. 

Que o Officio de Sam Gonçalo, de Resende, era de uma 
melodia suave e alegre, (talvez Vilhancico f) e não soturno como 
o canto-chão, se vê pela anedocta dos dominicanos que vieram 
de Santarém para Lisboa, cantando-o no barco para se distra- 
hirem do aborrecimento da viagem. 

Outro facto interessantissimo se descobre n'e8ta Carta a 
Quebedo com relação á Musica; é que em 1566 já existia em 
Portugal uma imprensa de musica, e que os mosteiros manda- 
vam imprimir os seus Officios do coro. Sabemos que o typogra- 
pho que imprimiu o Officio de Sam Gonçalo era um monge, ho- 
mem intelligente, mas muito pouco perito ainda na arte typogra- 
phica, d'onde resultou encher a composição de tantos erros, que 
só podia ser cantada seguindo-se unicamente o autographo. Por 
esta mesma Carta se vê, que André de Resende não queria dar-se 
por compositor, todavia, apesar de todos os seus trabalhos ar- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 143 

I 

cheologicos a que se dedicon com mais predilecçSo^ la escreven- 
do a letra dos Officios^ que elle punha depois em musica. Para 
remate da biographia d'este homem illustre, lembramos, que elle 
foi um dos poucos que reconheceu o talento de Gil Vicente, e 
nSo receiou de o confessar mesmo antes da morte do grande 
poeta dramático, (g) 

Tendo André de Resende nascido em 1506, e sido mestre 
dos príncipes, filhos de D. JoSo ni, (h) é muito natural que tivesse 
relaçSes directas com Gil Vicente, e qu& assistisse na corte ás re- 
presentaçSes cómicas doeste bello génio. Foi amigo do celebre 
Krasmo, com quem tomou relaçSes durante as suas viagens, e 
trouxe a Portugal o erudito Nicolau Clenardo. Segundo a nossa 
opiniZo, consideramos Resende e Damião de Góes, como os dois 
primeiros vultos da Renascença, em Portugal. 

Escreveu: 

1.) Officium et Missa Sanctae EUsahethae, Regina Porta- 
galiae. Ulyssipone, 1551, in-8.*^ 

2.) Officium et Missa Sancti Gundisscívi a Amarantho* 

fa) José Carlos Pinto de Sousa, na Bibliothtca Hiêtoriòa^ pag. 10, 
§ d, aÍ2 que André de Resende nascera em 1498. Facto que deve ser rejei- 
tado em yiflta da presente restituição. 

(b) Vide a biographia de Garcia de Besende. 



(c) Op. eU. pag. 242. 
(a\ Foi imp 



impressa em Lisboa em um folheto de 54 foi., em 1567, por Fran- 
cisco Garçflo, contendo: foi. 2, Carta ou dedicatória a D. Sebastífto; foi. 3 
a 8, uma Epistola em verso latino a D. Sebastião; foi. 9 a 38, Carta a 
Bartholomeo Quebedo, da ef^eja de Toledo, que estivera no tempo de D. 
Joio lu em Portugal ; foi. 39 a 54, Varias poesias latinas. Este opúsculo é 
de uma extrema raridade. Dom Nicolau António elogia esta carta com o 
titulo de doiUiêêima. Btbl. Htsp, 1. 1, p. 66, col. 2. 

(e) Eis o texto que vertemos : «Éeati confessòris Gundisalvi Officium 
a me compositum mire extollis. Gaudeo sane, et ita vere adfectum esse te, 
non solum gaudeo, sed exulto. Modulationem tamen cantus valde Ímprobas. 
Quid ni improbes? auum tam depravate typis excusa sit, ut ego eam nec 
adgnoscam, nec saltem cantare me posse nllo modo sperem, qui eam 
composueram. Spero tamen te, ipsam t3rpographi culpam a me praestau- 
dam, pro tua sequitate, non exístímaturum. Lgo, vir doctissimc, auto- 
graphum meae manns in comitiis sacerdotum Prsedicatorii instituti Scal- 
labi liabitis, quum obtulisscni, scríptura comprobata, cautus examjen com- 
miseum cst fratrí Isidoro, homini vestrati, musicse com)K>sitionis bcno pe- 
rito, et quatuor alils, qui cboragium in suis agcrent cenobiis. Qui quum semel 
atque iterum inoffense cantasscnt, retulcrumt patribus, non modo se modu- 



íéí os MÚSICOS PORTUGUÊZÈÍ 

tatioMm yrobafe, sed iíls «tiitt «itifice íuíbm deteetátotf. Q*úiiA|d^ itti^ 
conscnsa dictum cmct, placcre rccipi, in comitíum vocato, pnblice teta 
^^ti^, ét ab omnibus omniá niihi fcKcia exoptata. Addo amplias. Quotqooí 
iode OlMpouém rtidierunt^ mia eum provhiciali praefécto^ m aavi Offioaitf 
ipsum cantíUando, navigationis taediom jucunda cantus voluptate seae pro* 
polisse, gloríati ápud me sunt Data post id imprímendi provinciá moiúi- 
eho viro, Hercle docto él probo, sed impredsorúe artis ineiíperlo, fieqiXe ád^' 
qoam cauendí perito. Qui cum typograpko insigniter cjus rei ignaro, 
adfaunc modum rem gessit, ut nisi denuo ad autographi ípsius fidem moda- 
latio recudatur^ poáse cantari mibi sane TÍdeatur impòflâibfle. Neq«e boc 
dico, quasi culpam univeraam a me ablegam, et in tjpographum rejectem 
velim. l!^éque tn, si alioqui, pnctcr depravationém, absona composifío est, 
eulpam a me_ transferas. ISiquid peccatnm est, et minime ex aité fttctanir 
id ad me pertincre pcccatmn profíteor. Nam tametsi non omnino mdis ejus 
ártis fuerim, eatcnus tamen in ea laboraveram, quatenus opus erat bomim'' 
eboro et altari destinato. Caetimim litterarum atudiis ampliasr delectatoi, 
scriptoris non indiligcutís nomen aliquod, et sermonis mtorcm, qnoquomodo 
potui, consectatns sum. Quam felicitcr vídcrint lectorea. Musici exquisitio- 
ris decos non arobivi. Tantom, qatrni ofl&cia nonnulla hujus nostrse £bo- 
rcnsis ecciesise & mea officina prodicrínt, ex eadem, cantum adjeci daoboB, 
alteri Regín» sancts filisabet, Alterí huic Din Gundlsalvi, nímiruzn ofiea- 
sus cantu ab aliis in aliquot mea alia officia compósito, per diversa sjBte- 
mata evagantc, nuUaque ctrêeon kai theston ratione modo fastigato, modo 
àtpTéBêo, Atqui égó déderam, ut putavi, òpei^am, ne inttópoia sensui ae li- 
ter» non conveniret £t si ad gregoiíame conipositionis me nònkiam ádi* 
gis, si quidem bic exodíonim et antiphonarum cantus, quem omneseeclesi» 
seqcfuntur, Grégorií est, poíãutíi ostenderc níe nihil sme exempla fecisse. 
Vitavi tamen longiorum pneumatum pcrplexitatem, et super brcvis syila- 
bas cdeentu dóstitutaé morosam mi^tattnh notaruiá Inealéatronem.' Ái 
BatthoUmóefèm Ktbtãiuth EfUtòU^ foi. 9 a 10. 

(f ) «Quod interrogas de sanctse Regina^ Elisabet officio, an ante méoni 

boc aliud extaret Canébatm^que, tunc officiuih illud qguod me 

offcnsum in praefatione sum testatus. Eaque fuit éausa, ut novum i^ h- 
eercni.i Id. ib. foi. 11. Por cstà Carta 0c vÔ, que o Provincial a quem se re- 
fere Resende era o celebre Padre Francisco Foreiro. 

(g) Celebrado em uns versod da descripçáo dos festejos qud o Embai*- 
tvíàot D. Pedro de Mascarenhas fizera cm Bruxellas por occaBÍ2o do nas- 
cimento do príncipe D. Manoel. Estes versos foram pela primeira vei 
apreciados nas prosas auo antecedem o grande Diccionario da Academia, 
p. XIX, 1793 e mais tarde, copiados na ediçSode Hamburgo cm 1834. 

Acbam-ae a foi. 19, náo numerada do: L. And. Resendii, Genetkliaccn 
Principie lAtsitanij ut in Gcdlia Bélgica eelebratum esi, a viro elariss. 
D. Pctro Mascaregna, régio legato, Mense Deccmbri, M. D. XXXIL Bo- 
nonise, 1533. 

(h) Foi mestre do Infante Dom Duarte, cuja Vida, escreveu; e talvei 
sob a sua direcção artística, é que o Infante se tornou tSo distíncto na mu- 
sica. Eis o que Resende diz no capitulo vi do sou cseripto : «E tratando 
nas cousas da edade já mais esforçada e credda, foi 6 lâfknte, que haja 
gloria, dado á musica, e táo dextro cm clJa, que sem prever cautava qnal- 
quer peça que lho apresentassem e com gentil ar e melodia.» Apud ÉislO' 
ria dia LitUraiura portugutua, por Theopbilo Braga, p. 303. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 145 

RESENDE (Oarcia de) — Uma das organisaçSes artiãtícas^ 
mais completas que se tem revelado em Portugal; pertence ao 
cjclo dos grandes homens que fazem a transiçSo do século XV 
para o século xvi. EUe próprio confessa que nSo frequentara as 
escholas^ n'estes versos da sua Mtseellanea: 



Sem letras e aem saber 
Me fuy n*aquÍ8to meter 
Por fazer a qncm mais sabe 
Que ho que minguar acabe 
Pois eu mais nAo sej faxcr. 



Apesar d'esta confissão ingénua, Garcia de Resende foi um 
grande architecto, (a) um hábil desenhador, (b) um chronista 
pittorescoy um poeta jocoso, e um excellente musico. Filho do 
século XV, tinha a intelligencia encjclopedica dos Leonardo de 
Vinci e Miguel Ângelo, mas £a,ltava-lhe a liberdade, que o não 
deixou attingir o seu natural desenvolvimento. 

Filho de Franciãco de Resende, fidalgo da corte de ÂiSbn- 
so V, e de Brites Boto, Garcia de Resende, como se infere de vá- 
rios legares das suas obras, parece ter nascido em 1470* 

Erradamente se tem espalhado, que era irmSo de André de 
de Resende, que nasceu em 1506, e cujos pães tem nomes muito 
diversos, (c) 

Garcia de Resende entrou muito novo para o serviço 
d'El-Rei D. Jo3o n, como seu moço da camará; tendo em 1490 
passado para o serviço do Príncipe D. Affonso, é de crer que teria 
pelo menos 20 annos; por isso que, entrando para o serviço do 
monarcha com 15 annos, e somados estes com a data de 1470 vem 
a dar 1485, tempo em que D. João ii reinava havia já um anno. 
Com o seu talento poético, Garcia de Resende contribuiu muito 
para o esplendor dos afamados scrSes da corte de D. JoSo ii, e foi 
elle que salvou os versos de 286 fidalgos portuguezes, no Can- 
cioneiro geral. Como desenhador e architecto seria também elle 
o inventor das apparatosas festas que se fizeram pelo casamento 



146 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

do Príncipe D. Áffonso, e dos momos que se representavam no 
paço, e em que D. JoSo il tomava parte. Quando El-Rei, de- 
pois da tristeza em que cahiu; pela morte do Duque de Bra- 
gança e de VizeUy e depois da catastrophe de seu íilho e unioo 
herdeiro^ tinha horas de uma intensa agonia^ era Garcia de Re- 
sende que o consolava, tocando maravilhosamente guitarra, com 
que distrahia o monarcha, á imitação de David com o rei SauL 
Os poetas do Cancioneiro geral chasqueam-no por causa do sea 
gosto pela musica, e Gil Vicente na Tragicomedia das Cortes ie 
Júpiter, representada em 1521, diz dos que hSode ir acompa- 
nhando a Infanta D. Beatriz para Saboja: 



£ Garcia de Resende 
Feito peixe tamboril ; 
£ inda que tudo entende 
Irá dixendo por ende : 
Quem me dera mn arrahil, (d) 



Garcia de Resende dar-se-hia talvez ao ridiculo com a sua 
guitarra, como se dava com a sua rotunda gordura? Gil Vicente 
e os seus contemporâneos não o pouparam. Garcia de Resende, 
&la também dos músicos do seu tempo, na MisceUanea; e seguin- 
do na narração dos factos a ordem chronologica, cita o nome dos 
músicos mais celebres antes das representações que vira depois 
de 1502, do que naturalmente se infere que Sorzedas, Fontes, 
Francisquinho, Arriaga, o Cego, Vaena e Badajoz eram músicos 
portuguezes do século xv ou do principio do século xvi. Eis a 
strophe interessantíssima da Miscellanea, em que se ennumeram 
as maiores celebridades musicaes do reinado de D, JoZo ii e 
principio do de D. Manoel: 

Musica vimos chegar 
A mais alta perfeiçSo, 
Sarzedas, Fontes cantar, 
Francisquinho assim juntar^ 
Tanger, cantar sem raç&o ! 
Arriaga, que tanger ! 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 147 

O Cego, qae grSo saber 
No Orgam ! c o Yaena l 
Badajoz ! e outros que a penna 
Deixa agora de escrever. 

For estes versos vemos dois afamados cantores: Sarzedas e 
Fontes ; um cantor e executor chamado Francisquinho ; um in- 
strumentista Arriaga^ o Cego de um grande saber no Orgao ; o 
Vaena e o Badajoz. Estaria Garcia de Resende para com estes 
músicos, como D. Francisco Manoel de Mello para com a brilhan- 
te plêiada dos compositores do tempo de D. João iv? 

Esteve em Roma em 150G; e acompanhou em 1514 a em- 
baixada de Tristão da Cunha mandada por El-rei D. Manoel ao 
Papa LeSo x; (e) viu a Itália, o grande centro das artes e obser- 
vou de perto a admiração que se consagrava a Raphael, a Mi- 
guel Angelo e a Albrecht Dúrer. Elle o diz na Miscellanea: 

Vimos o gram Michael 
£ Alberto e Eaphael, etc. 

Em 1520, Garcia de Resende mandou edificar uma ermida 
na cerca do Convento de Nossa Senhora do Espinheiro dos Reli- 
giosos Jeronymos, sobre a porta da qual abriu as suas armas, que 
constam de duas cabras em palia, com outra por timbre. No pa- 
vimento doesta ermida jaz sepultado Garcia de Resende em uma 
campa de dez palmos de comprido e cinco de largura com este 
simples epitaphio: 

Sepultura de Gar- 
cia de Resende. 

(a) Baczynski, Diction. hiêtor.-artistique du Portugal, pag. 243. 
(h) Ckronica de D. Joào II, cap. 200, pag. 107. 

(c) Erro de Barbosa Machado, no vol. i, pag. 327 da Bibliotheea Lu-' 
nCana, emendado depois no vol. iy-, pag. 149. 

(d) Gil Vicente, Obras, t. xi, pag. 406. Ed. de 1834. 



148 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 



(e) DamiSo de Góes, Chroniea de D, João 11, P. m, cap. 55. O P.« 
Bartholomca Guerreiro diz : «No anno de 1506| mandou el-rei D. Manoel 
por Embaixador a Roma ao Papa Júlio ii, a Duarte Galvão. . . . Foram as- 
sessores da embaixada os Doutores Diogo Pacheco e João de Faria ; Se- 
cretario Garcia de Heseiidcv Gloriosa Coroa, Part x, cap. 7, pag. 41. No 
Catalogo dos Authores do Dicc. da Academia, considera-se o facto attri- 
buido ao anno de 1514 a inadvertência do Barbosa. 



RESURREIÇlO (Fr. António da) — Nasceu em Lisboa a 11 
de Fevereiro de 1621^ morrendo em Santarém a 17 de Janeiro de 
1686. Professou a habito franciscano a 10 de Abril de 1638; foi 
Vigário do convento da sua ordem em Lisboa^ e mais tarde eleito 
Definidor provincial. 

Fétis também lhe dá o titulo de Svb-Chantre, (?) cargo que 
exercera cm um convento da villa de Vianna do Alemtejo. Ma- 
chado nada diz a este respeito. 

Além de bom contrapontista, foi cantor hábil. 

Deixou em manuscripto diversas Matinas, Missas e outras 
composições sacras. * 

RIBEIRO (Manoel da Paixão) — Professor de grammatica la- 
tina e primeiras lettras em Coimbra. Foi discipulo de José Mau- 
rício. Escreveu : 

(a) Nova Arte de Viola, gue ensina a tocalla comfundameU' 
to sem mestre, dividida em duas partes, htinia especulativa e aur 
tra practica; com Estampas das posturas, ou pontos naturaest 
accidentaes, etc, e com alguns Minuetes e Modinhas por Musicas 
por Cifra, etc. Coimbra, na Eeal Officina da Universidade, 1789, 
in-4.^ de ii (pSo numeradas) v-51 pag. e 8 estampas. 

Em um catalogo francez, (b) que já por vezes mencionamos, 
encontra-se um exemplar com um titulo imi pouco difierente, sic: 

Nova arte de viola que ensina a tocalla com fundamento sem 
mestre, dividida em duas partes, com estampas das posturas ou 
pontos natura^, e com alguns minuettes e modinhas, por musica 
e por cifra, Coimbra, etc. 

O redactor do catalogo mencionado, para justificar o preço 
absurdo de 30 fr., accrescenta depois do titulo: Traité importaiú 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 149 

etfort rare* O methodo é; como já dissemos^ simplesmente me- 
diocre^ feito por um curioso que poucas noções tinha da sciencia 
musical; provavelmente nunca o leu. 

No prologo da obra declara o author as razoes que o mo- 
veram a publicar este escripto, nSo sendo professor doesta Arte, 
mas simples curioso. As ideias geraes foram tiradas da Encyclo- 
fedia methodica, do Diccionario de musica de Rousseau e dos 
Elementos de musica de Rameau; e os principies elementares, 
como a designação dos termos technicos etc., do Methodo de Mu* 
rica de José Maurício. 

A doutrina do acompanhamento nSo é exclusivamente do 
author; como parece entender-se da citaçSo de I. da Silva, (c) 
porque elle mesmo confessa que recebeu para ella os subsidios e 
08 conselhos de vários amigos. 

Temos ainda tmia outra Arte de tocar Viola, cujo author 
nZo conhecemos, e que se publicou em 1803, com o titulo: 

Arte de tocar Viola e outros instrumentos. 

Será alguma ediçSo posterior do livro de PaixSo Ribeiro? 

(a) O titalo que em seguida apresentamos é copiado de um exemplar 
que está em nosso poder. 

I. da Sflva, diz qae este livro, a Arte de guitarra, de António da Silva 
Leite, e a Arit de Órgão, de José Varella, sao as obras doesta espécie qae 
tiveram maior acceitação entre nós ; entretanto pelo que sabemos nenhuma 
d*eUae teve maia do qne uma edição. 

Que dirál. da Silva do Théatro eccUsiastico de Fr. Domingos do Rosa- 
rio que teve 8 edições ! do livro de Lusitano (IrUrodvUumt jactlisstma e 
navUsima di eanto fermo) que teve 4 edições, do Directoria fúnebre de Fr. 
Veriflsimo doe Martyres com 6 edições, e de mais algumas qne tiveram a 
mesma felicidade? 

(h^ Catalogue d^une belle colléction de musique, ete. Paris, 1869, in-8.* 

(c) 2>tec. BUL, voL vi, pag. 76. 



ROBOREDO (Vicente José Maria de)— Mestre de Capella na 
Cathedral de Braga; este musico distinctO; muito instruido^ mes- 
mo fora da sua especialidade, possuia uma das collecçSes numis- 
máticas mais ricas que havia em Portugal; contava ella nada me- 
nos de 2.000 números. 



150 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

ROCHA (Fr. Franciaco da) — Monge trínitario e imitador do 
estalo de Lourenço Rebello, que seguia na3 suas obras. Anotore- 
za dotou-o com disposiçSes tão brilhantes, que com 11 annos já 
tinha composto uma Mièsa a 7 vozes, sobre a escala descendente 
Uíy êol,fá, mi, ré ut. Parece que não correspondeu depois ás es- 
peranças que o seu talento precoce tinha feito crcar. 

Escreveu muito e mesmo bem, porém não sabemos que fizes- 
se nada de extraordinário. Fidleceu no convento pátrio a 12 de 
Janeiro de 1720 com 80 annos de edade. Os autographos de quasi 
todas as suas obras existiam na Bibliotheca preciosa do composi- 
tor JoSo da Silva Moraes. Citamos as mais notáveis: 

1.) Missa a 4 vozes das quatro Domingas da Quaresma, 

2.) Tracto da Quarta-Feira de Cinza, a 4 vozes. 

3.) Motete para o mesmo dia, a 4 vozes. 

4.) Tracto e Motete da primeira Quinta-Feira, a 4 vozes, 

5.) Tracto e Motete da primeira Dominga, a 4 vozes. 

6.) Idem para a Dominga de Ramos, a 4 vozes. 

7.) Idem da primeira Terça-Feira da Semana Santa, a 4 
vozes. 

8.) Idem da primeira Quarta-Feira de Trevas, a 4 vozes. 

9.) Idem da primeira Sexta-Feira Maior, a 4 vozes. 
10.) Motete para a Adoração da Cruz, a 6 vozes. 

Todas estas composições foram escriptas em 1690 e estavam 
autographas em um livro que existia na bibliotheca musical de 
Moraes. Ahi mesmo ainda se encontrava um outro volume auto- 
grapho, com as seguintes obras de Rocha; eram principahnente 
PscUmos de Estante, a 4 vozes. 

1.) Dixit Dominas. 

2.) Confitelor TiU. 

3.) Beatus Vir. 

4.) Laudate Pueri. v t> » ^ 

K\ T j A r, ' } Psalmos a 4 vozes» 

o.) Laudate Domxnum. 

6.) In Exitu Israel de Aegypto. 

7.) Credide propter guod locutus sum. 

8.) Beati omnes. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 



151 



9, 
10. 



Magnificai* 

Te Lueis ante tefininum* 



Temos ainda: 
11.) Miêsa, a 8 vozes do sexto tom. 
12.) Missa, a 8 vozes do sexto tom. 
13.) Idem, a 8 vozes do septimo tom* 
14.) Idem, a 7 vozes do oitavo tom. 
15.) Dixit Dominas, a 8 vozes do çpiinto tom. 
16.) Otdro, a 8 vozes do primeiro tom. 
17.) Idem, a 8 vozes do quarto tom. 
18.) Idem, a 8 vozes do septimo tom. 
19.) Laudate Dominam, a 8 vozes do septimo tom. 
20.) Idem, a 8 vozes do sexto tom. 
21.) Idem, a 8 vozes do septimo tom. 
22.) Laudate pueri Dominam, a 4 vozes do quinto tom baixo. 
23.) Outro, a 8 vozes do quinto tom. 
24.) Confitebor, a 8 vozes do septimo tom. 
25.) Outro, a 8 vozes do oitavo tom. 
26(.) Outro, a 8 vozes do quinto tom. 
27.) LoBtatus sum, a 8 vozes do oitavo tom* 
28.) Outro, a 8 vozes do oitavo tom. 
29.) Beatus vir, a 8 vozes do oitavo tom. 
30.) Outro, a 8 vozes do septimo tom. 
31.) Lauda Hiertisedem, a 8 vozes do oitavo tom* 
32.) Nisi Dominus, a 8 vozes do quarto tom. 
83.) Magnificai, a 8 vozes do septimo tom. 
34.) Outra, a 8 vozes do sexto tom. 
35.) Ih'Deum laudamus, a 8 vozes. 
36.) Tantum ergo Sacramentam, a 4 vozes. 
37.) Outro, a 4 vozes. 

38.) O' salutaris hóstia, a 4 vozes do sexto tom. 
39.) Lacrimosa dies illa, a 4 vozes; motete dos defuntos. 
40.) Textos das PaixSes da D(yminga de Ramos, Terça, Quar- 
ta e Sexta-Feira da Semana Santa, a 4 vozes. 
41.) Diversos Vilhancicos, a4,6 e 8 vozes. 



15S OS MÚSICOS FORTUGUEZES 

42.) Uma grande quantidade de Tono», a 4 vozes, qoe Ha* 
chado BibL LusiU, vol. ii^ pag. 279, chama ccastelhanoa». 

ROCHA (Joaquim Leonardo da) — Natural de Lisboa onde 
nasceu em 1576; filho de Joaquim Manoel da Rochai pintor e 
imitador de Vieira Lusitano. Dedicou-se também i pintura e i 
gravura em agwi forte* Foi além d^isso um dos bons toca- 
dores de crayo do seu tempo, e muito protegido pelo Marques 
d'Âloma pelos seus apreciareis dotes artisticos. Acompanhou em 
1780 o Bispo de Pekin D. Fr. Alexandre de Gouvêa á China. 
Depois do seu regresso a Portugal, casou e obteve uma pensSo 
do seu protector a titulo de pintor. Em 1808 dirigiu-se á Madei- 
ra, onde esteve á testa de uma aula de desenho para a qual es- 
creveu em 1810, um Methodo de pintura e de$mho» 

Ignoramos a data do seu fiallecimonto* 

RODRIGUES (António Fernandes) — Natural da cidade de 
Marianna (Brazil), e filho de um português e de uma creodla, 
mistura de raças mui frequente entSo ; fez os seus estudos clássi- 
cos no Brazil, dedicando-se especialmente ásBellas-Artes; entre 
estas nSo se esqueceu da musica, que aprendeu com António do 
Carmo. Visitou Lisboa em 1758 e partiu no anuo seg^nte para 
Roma, onde estudou Desenho e Gravura com os melhores mes- 
tres. Ahi ficou até 3 de Julho de 1760, anno em que abandonou 
a cidade eterna, seguido dos seus compatriotas: Joaquim Car- 
neiro da Silva e Félix José da Rocha o primeiro gravador, e 
o segundo pintor de miniaturas; esta sahida foi motivada por 
uma ordem regia, (a) transmittida ao Embaixador de Portugal em 
Roma. Os três artistas dirigiram-se a Florença e ahi se dedi- 
caram novamente aos seus estudos favoritos. 

Rodrigues voltou a Lisboa em 1762 depois de dois annos de 
ausência na cidade do Amo e dedicou-se ahi á gravura e archi- 
tectura. Quando o intendente da policia, Diogo de Pina Manique 
abriu uma aula de desenho na Casa Pia do Castello, foi entre- 
gue a sua direcçSo ao nosso artista com um ordenado de d00|000 
réis. 



08 HUSICOS POBTUGUEZES U9 

Ebí» aula aberta a 23 de Abril cie 17$1| acabou eom a 
invasSo franceza em 1809. Rodrigues morreu a 17 de Maio de 
1804 quaai octogenário. 

(a) IgnoranMM o motivo d*esta ordem de D. JoaL 

RODRIGUES (Fr. João)— Natural de Harvlo (Portalegre), 

Vireu no fim do século xvi (1560) e é principalmente co- 
nhecido como author de um Tratado de CANTOCHlo-fol. em 
que affirmava ter trabalhado 40 annos ! 

Machado (a) dis que este tratado fôra approyado em Roma 
por António Boccapadula^ Mestre da Capella pontifical e Se* 
c»-etarío do papa Oregorio xiu e pelo illustre P/ JoSo Luiz 
Penestrina, oráculo da faculdade musical, (b) Forkel (c) confirma 
esta asserção, dizendo que esta obra fôra muito apreciada por 
estes dous compositores notareis. Infelizmente parece que nBo se 
chegou a imprimir; malfadada sina que persegue as nossas obras 
artísticas ! Barbosa Machado diz-nos que o manuscripto d'este pre* 
cioeo tratado existia na Bibliotheca de Francisco de ValhadoUd e 
parece que o tíu, pois diz-nos que no Capitulo w, tratando Bo*' 
drignes do género enharmomco, declara que fôra achado por 
eile, sic. : c Aora nueyamente aliado por Fr. Juan Rodrigues ea 
Ia yilia de Marvan, bispado de Portalegre I> 

Que descobertas importantes nSo encerraria esta obra I Qn# 
•eri feito d'este precioso tratado? 



(fk) Bibl. Lui^ voL n, psff. 737. 

(b; Ou Giovaimi Pierliugi Palestrins; esta mndança do nome do com* 
potf tor Itafiano, é frequente em Machado. 

A iDscrípção do sen tmnnlo na biuilica do Vaticano, indica o nome de 
Joanneãf Pttnu^ Aloyêius, PrcBnestinuê. Musica prineepi. 

<e} Alistem. Uttrat. der MuõOc^ pag. 499. •Utm Werk soll rcm ma* 
■em Werth tein uid der Verfasser soll 40 Jahre daran gearbeitet babeo. 

Es wurde von dem pftbstl. Capellmeister António Bocapadula und roa 
O. P. Lng. Penestrina sefar getebatrt. 



154 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

RODRIGUES (P/ Kanoel)— Vide Manoel Bodrigaea Coelho. 

ROSÁRIO (Fr. António do) — Monge da ordem de S. Jeiony- 
mo que professou no Convento de Belém, a 17 de janeiro de 1702. 
Foi natural de Lisboa e filho de Domingos Nunes de Azevedo e 
de Catharina Maria da ConceiçZo ; nasceu a 20 de julho de 1682 
e ainda vivia em 1747. Foi compositor hábil e deixou as obnu 
que abaixo indicamos, cujos autographos estavam em seu poder. 
Eram: 

1.) Magnificai sobre o Cantochão dos oito ians» 

2.) Lamentações e Motetes da Quaresma e da Semana Santa 
a4y 6 e8 vozes. 

3.) Responsorios das Matinas da Conceição da Virgem a 
4 vozes. 

4.) Idem de S. Jeronymo a 8 vozes* 

5.) Vilhancicos a 4 eS vozes. 

6.) Oração nova de S. Josi posta em Cantochão» 

ROSÁRIO (Fr. Domingos do) — Vigário do Coro do conven- 
to de Mafira; Notário apostólico e Penitenciário geral da ordem 
seráfica (S. Francisco). Professou a 15 de Abril de 1722. I. da 
Silva nBo enumera estes cargos e diz simplesmente^ que fôra Can- 
tor-mór do convento da sua ordem, em Mafra, e que vivia ainda 
em 1759. 

£ author da seguinte obra que obteve desde 1743 até 1786| 
nada menos de oito edi^Ses, caso talvez imico, na historia da 
nossa litteratura musical. 

Theatro Ecclesiastico, em jue se acham muitos argumentos do 
Cantochão, para qualquer pessoa dedicada ao Culto Divino nos 
Officios do Coro e Altar; offerecido á Virgem SS. Senhora Noi- 
sa com o soberano titulo da immaeulada Conceição venerada em 
hvma das Capellas do Régio Templo de Mafra. Esta obra foi dada 
ao prelo pelo P.* Dr. José Corrêa Froes. Lisboa, 1743, in4«* 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 155 

ROSÁRIO (Fr. Vicente Maior do) — Author de uma Arte de 
Cantochão. Possuimos uma copia em Ms. doesta obra, que pelo 
titulo parece que foi publicada: Arte de Cantochão Ordenada e 
dada á luz Pelo P.* Vicente Maior do Rosário Para instmcção 
de 8eu8 Discipulos, Tomo 1.® in-S." de ii — 33 pag. Nada sabe- 
mos das circumstancias pessoaes do author. 



s 



SA (Hieronymo de) — Vide: Francisco Sá de Miranda. 

SALDANHA (Gonçalo Mendes) — Discípulo de Duarte Lobo 
e um dos bons compositores portuguezes. Nasceu no fim do sé- 
culo XYI em Lisboa, onde vivia em 1625 ; Foi irmSo do Padre 
António Mendes, author de uma tradução latina, inédita, dos Lu* 
aiadoê. Na bibliotheca real de musica encontravam-se as seguin- 
tes obras doeste compositor. 

Lauda HierusaJem Domxnus a 6 vozee. 

Beatus Vir, Motete do terceiro tom a 8 vozes. Estante 34, 



1. 
2. 

N.*> 788. 
3. 
4. 
5 

6. 
7. 
8. 
9. 
10. 



Idem do quarto tom a 8 vozes. Est. 34, N.® 793. 
Quomodo sedet sola civitas a 8 vozes. 
Outro Motete a 6 vozes. Est. 33, N.^ 176. 
Cogitavit Dominus a 8 vozes, ibid. 
Parce mihi a 5 vozes e outro a 8 vozes. Est. 33, N.^ 771. 
Hei mihi Domine, Motete a 7 vozes. Est. 36, N.^ 810. 
Miserere a varias vozes. 

Vilhancicos diversos ao Sacramento e Natal, e Eespon^ 
sorios a muitos Santos. 

11.) Tonos a 4 vozes, foi. in4.^; encontravam-se no tempo 



15< OS MÚSICOS PORTUOUEZES 

ÒM Barbosa Maehado, na Biblioiheca do Daque de LafoenSi que 
pertencido anteriormente ao cardeal de Sousa. 



8AHCH0 (Ignado) — Este musico negro é citado por 6e^ 
ber, (a) sem indicação de nacionalidade. Porém o nome do autbor 
parece ser portuguez^ ou hespanhol, pois nXo sabemos que estgs 
adoptado em qualquer outra lingua. Por esta razSo o induimos 
n'este livro. 

Do principio da sua yida^ sabe-se apenas que fôra transpor- 
tado a Londres por um capitSo de navio, na qualidade de escra- 
vo. Ahi obteve, graças á protecção de alguma alma compadeci- 
da ou de algum senhor rico, uma tal ou qual educaçSo artística 
e scientifica. O resultado nSo foi desfavorável. A inteUigencia de 
Sancho foi-se fructificando com os conhecimentos que adquiria, 
a ponto da cultivar depois com felicidade a poesia e a musica. 

Escreveu um Tratado theorico sobre esta ultima Arte, que 
dedicou a uma prínceza estrangeira, cujo nome se ignora, e á 
qual entregou o seu manuscripto. 

Parece que depois da sua morte se publicou uma coUeeçio 
de cartas doeste escriptor. 

Falleoeu em 1780. Ghrber cita no fim da biographia de San* 
cho, o Jornal eneyclopidijue, Mai — 1784, que talvez possa dar 
noticias mais minuciosas a respeito doeste author; infelizmen- 
te nlo podemos verificar a verdade doesta nossa supposiçlo, por- 
que nXo nos foi possível obter o jornal citado. 

(a) Neueê hiõL, Uogr. Lewieon der TanML voL nr, psg. 16. 

SANTIAGO (Fr. Traadaco de) — Carmelita descalço ; vestia 
este habito em Hespanha ; nasceu em Lisboa e fi)i um musico 
erudito, muito estimado por D. Jo8o iv que o tratava £unilia^ 
mente quando residia em Villa-Viçosa, e que em eignal de con* 
sidsraçlo, mandou oollocar o seu retrato (privilegio concedido a 
poucos) na sua bella Bibliotheca, onde já ^r^fífm aa anãs com* 
pqpiçBeB. Fm Msetra daa Cathfsdmas bflapankolaa de Planneia 



os MTJSIOOS PORTUaUEZES 15T 

(Ertremadnra) e Sevilha; (ÂndaIa8Ía) onde morreu a 19 de No* 
vembro de 1646. 

As suas composiçSes estavam nas Estantes 34; N.^ 787 e 35| 
N.« 797 e 804. Eram: 

1.) Dixit DominuB a 8 voze$. 
2.) Beatus Vir a 8 vozes. 
8.) Laudaté Pueri a 4 voze$. 
4.) Ni8i Dominus a 6 vozes. 
5.) Lauda anima mea Dominum a 12 vozes* 
6.) Ecee nunc benedicie DonUnus a solo ea4 vozes. 
7.) Cwn invocarem a 12 vozes. 
8.) Beatus Vir a 10 vozes do oitavo tom. 
9.) Q^amodo sedei sola civitas a 8 vozes. 
10.) Manum suam misit hostis foi., com, diversos instru» 
mentos. 

11.) Ego vir videns paupert(xtem meam, a 12 vozes com vól- 
tios instrumentos. 

12.) Eesponsorios da Q^inta^Feira maior e Sexta-Feira a 
8 vozes. 

13.) Salve regina a 16 vozes. 
14.) Ave regina ccelorum a 4 vozes. 
15.) Regina cedi Icstare a 8 vozes. 
16.) Dies ires, dies illa a 4 vozes. 
17.) VícHtmb Paschoalis a 8 vozes. 
18.) Si queris miracula a 8 vozes. 

19.) Diversos Matutes e Vilhancicos do Natal, Sacramento, 
Nossa Senhora e outros Santos. 

SANTOS (Duarte Joaquim dos) — Pianista de meritO; discipu* 
lo do celebre Hummel, (a) em Londres. Foi mestre de D. Maria n 
durante a sua ausência em Londres, e publicou n'essa capital um 
grande numero de composiçSes para o seu instrumento. Parece 
que se tinha dedicado ali ao ensino. Ultimamente residia na Ma- 
deira e trabalhava especialmente na composiçllo de musica sa- 



158 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

era. N'eflte género distingae-se a bue Novena de Santa Cecãia. 
Santos morreu em 1855. 

(a) Celebre compositor e pianista, e am dos chefes da escliola allemi 
de piano (1778-1837); foi discípulo do immortal Mozart 

SANTOS (José Joaquim dos) — Natural de Óbidos, discípulo 
de David Perez e contrapontista distincto no tempo de D. José. 
Em 1787; foi mestre do Seminário da egreja pati'iarchal e compo- 
sitor da mesma egreja. 

As suas composiçSes sacras sSo numerosas e cantam-se fre- 
quentemente em Portugal. 

1.) Missa em ré, a 4 vozes e órgão. 

2.) Missa emàó, a 3 vozes e orgõo. 

3.) Novena da Conceição» 

4.) Te Deum em sol, a 6 vozes e pequena orchestra. 

5.) Ladainhas emfiya 4 vozes e pequena orchestra» 

6.) Matinas de Santo António (para capella). 

7.) Matinas de Santo Agostinho, a 4 vozes e órgão. 

8.) 2 Jogos de Septanarios; um é propriedade da fregue- 
sia de Santa Ingracia e o outro da ermida da Boa-Nova. 

9.) Stabat Mater em sol menor, a 4 vozes com acompanhar 
mento de violetas e baixos. 

10.) Outro em dó menor, a 4 vozes e orchestra. 
11.) Um Officio de lavapés, a 4 vozes, 2 jogos de Officiosia 
Semana Santa (um dos quaes é conhecido pela denominaçSo de 
pequenos). 

12.) Miserere em ré menor, a 4 vozes. Paixões em fá, e nms 
Adoração da Cruz. Na Bibliotheca da Ajuda ainda se encontram 
as seguintes obras doeste artista: 

13.) Missa a 4 vozes, um Te Deum com orchestra, 4 Psalr 
mos. Vésperas a 4 vozes para Capella, e um Credo. 

Todas estas composições estSo em manuscripto. 
14.) Staòat-Mater a 3 vozes com orchestra. 

Aff suas producçSes sSo apreciadas cm Lisboa, todavia PI** 
tSo do Vaxel diz d'ellas : «mas quanto ás obras doeste au- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 159 

thor que ouvimos, bSo de estylo diffuso e quasi despidas de ins- 
piração, i 



SANTOS (Laciano Xavier dos) — Compositor dramático; vi- 
veu e escreveu no meado e fim do século passado ; as suas ope- 
ras e oratórios foram quasi todos ouvidos nos theatros reaes de 
Queluz e Ajuda. SSo: 

1,) Le Orazie vendicate, em 1762. 

2.) Gil Orti Esperide em Queluz, 1764. 

3.) La Danza, em 1766. 

4.) iZ Palladio conservato, cantada em Queluz em 1771 6 
na Ajuda em 1783. 

5.) Alcide Albinio, em Queluz, 1778. 

6.) Ati e Sangaride, serenata, cantada em Queluz em 177d 
por Ripa, Reyna, Orti, Torriani e Gelati. 

7,) La Oalatea. 

8.) Palmira di Tebe, serenata em Queluz, em 1781 por 
Orti, Reyna, Torriani, Ripa e Toti. 

9.) Esione, cantada na Ajuda em 1784 por Reyna, Ripa, 
Torriani, Marini, e Ferracuti. 

10.) Ercóle std Tago, cantada em Queluz, em 1785 pelos 
mesmos. 

Alem doestas operas e serenatas, temos ainda a mencionar 3 
Oratórios : 

1.) Isaacco, figiira dei Redentore, cantado em 1763. 

2.) La Pas9Íoni di Gesu ChristOj cantado na real Camará 
cm 1783. 

3.) U Ré pastore, cantado em 1793 no mesmo logar. 

Este author escreveu uma carta a Solano, (a 9.*) com data de 
5 de Setembro de 1763, elogiando muito a Nova inHimcção musi- 
cal e que vem na obra citada. No principio traz o nome de San- 
tos os seguintes titules: Compositor e Organista do Infante 
D. Pedro na sua real capella dos paços da Bemposta, Santos foi 
condiscipulo de Solano. Devemos accrescentar a estes titules o 



160 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

de Mestre de Capella da mesma; e em 1764^ mestre de musia 
d'El-rei. 

SANTOS (Fr. Hanoel dos) — Natural de Lisboa, filho de An- 
tonio Ferreira e Maria da Silva. Professou o Instituto de S. Pau- 
lo a S7 de Janeiro de 1686, e foi discipulo deLesbio, nome que 
honrou com a sua instrucçSo e saber. As suas oomposiçSes foram 
muito apreciadas n'este reino e tocadas principahnente na capells 
real de D. Pedro ii, para á qual compunha, recebendo um ordenado 
de 60|000 réis, (a) retribuiçSo elevadissima para aquelle tempo. 
Era eguahnente bom organista; morreu no convento pátrio a 19 
de Novembro de 1737 com o titulo de Mestre de Capella da Cor- 
te, Organista e compositor da capella teaí. Eis as suas princi- 
pães obras : 

1.) Texto das PaixSeê do Domingo de Ramos, Terça, Quait- 
ta e QuiniorFeira da Semana Santa, a 4 votes. 

S.) LiçSes de S. Agostinho e S. Paulo, das matinas de Qidiir 
ta-Feira, Sexta e Sabbado da Semana Santa, a 8 vozes. 

3.) Respdnsorios das Matinas da Quinta, Sexta e Sáhbado 
da Semana Santa, a 8 vozes. 

4.) Miserere mei Deus a 3 coros. 

5.) Te Deum laudamus a 3 coros; foi composto e cantado 
em 1708 na capella real, quando n'ella foi recebida a rainha 
D. Marianna d' Áustria, esposa de D. JoSo v. 

6.) In exitu Israel de Aegypto a 4 vozes de Estante. 

7.) Beatus vir a 8 vozes de prolação maior. 

8.) Vilhancicos da Conceição, Natal e Reis a 8 vozes para 
se cantarem na capella real nas matinas d'aquellas festividades. 

(a) Gerber Neues kist, hiogr. Lexicon, Vol. ir, pag. 18, transforma es- 
tes 60$000 réis em 60:000 realê8ou2:790e000 réis; o erudito mnsicofçrap^ 
allemâo jnlgou provavelmente que a nossa moeda reis, correspondia i espa- 
nhola reaUê. 

SARMENTO (António Florêncio) — As composiç3es que co- 
nhecemos d'e8te autlior s3o insignificantes e revelam nenhum me- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 161 

rito. Reduzem-se a ínarchas, hymnoè ctc. Um musico d'e8ta or* 
dcm era incapaz de sustentar vigorosamente a existência da aula 
de musica, que José Maurício tinha deixado já decadente, e as- 
sim foi ella descendo successivamente até chegar ao estado mise- 
rável em que se acha hoje. Chamamos a attençSLo do governo, e 
pedimos, e clamamos cm nome de todos os portuguezes para que 
em honra da nação, mande organisar novamente essa aula e a le- 
vante do estado veugokhoso (a) em que se acha, collocando á 
testa d'ella um homem activo, sério e intelligente, emfím um 
homem digno dos nomes Telles, Conceição, Thalesio, António de 
Jesus e outros que o precederam n'aquelle cargo. 

Sarmento deixou-nos o livro que se segue e que em seguida 
apontamos. É um resumo mesquinho do Methodo de Musica de 
José Mauricio e que não vale os 400 réis do seu custo ; não obs- 
tante tudo isto, o author era Cavallciro da Ordem de Christo, Len- 
te da cadeira de musica da Universidade de Coimbra, Sócio 
do Conservatório real de Lisboa, membro do Instituto da acade- 
mia dramática, emíim, uma nuUidade official. 

O livro de que falíamos intitula-se : 

Princípios elementares ãe Musica destinados para as lições 
da avia da cadeira de musica da Universidade de Coimbra, por 
A. F. S... Coimbra — Imprensa da Universidade, 1849 in-8.® 
O author fecha a introducção com as seguintes palavras: cCon* 
cluirei com dizer, que o meu fim na publicação dos presentes ele- 
mentos, ín o aproveitamento (da minha bolsa) dos meus discí- 
pulos, e o seu adiantamento no mais curto espaço de tempo pos- 
sível.» £ o tal systema dos individuos que querem tomar a scien- 
cia de surpreza e com nenhum trabalho ! O publico não carecia 
dos Elementos de Sarmento ; tinha o livro de José Mauricio, que 
longe de ser bom, era melhor. Mas em Coimbra, usam os Len- 
tes escrever compêndios com ideias furtadas aqui e acolá, desfi- 
gurados com emplastos originaes de um rídiculo supremo ; é uma 
verdadeira sciencia de retalhos, mas o negocio rende, porque 
os senhores de capello impSem estes plagiatos ao pobre estu- 
dante que, com o preço do livro podia comprar o compendio e o 
fi 



162 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

sea aathor e ainda assim ficava a compra um pouco cara. Flo- 
rêncio Sarmento especulou também com os seus Elementos. 

(a) Aos incrédulos aconselhamos qne se convençam da verdade das 
nossas affirmaçoes, vendo com os próprios olhos. 

SARMENTO (Francisco de Jesus Maria) — Natural da villa 
do Seixo (Beira) e abi nascido a 12 de Setembro de 1713. Cur- 
sou a Universidade de Coimbra, formou-se em direito e professou 
o Instituto franciscano a 17 de junho de 1732. Exerceu os cargos 
de Consultor da bulia da cruzada, Examinador das três ordens 
militares de Aviz, S. Thiago e Christo e em 1777 era ministro 
provincial da sua Ordem. Falleceu no convento de Lisboa, a 3 
de junho de 1790. Escreveu entre outras cousas dous livros rela- 
tivos á musica ; sSo : 

1.) Directório sacro doa ecclesiasticas ceremonias da benção 
e procissão dns candeas, da solemne imposição das cinzas; da 
benção e procissão dos ramos; e de todos os Officios da Semana 
Santa até Terça Feira de Paschoa inclusive. Lisboa, na Regia 
Officina Typ. 1772 in-4.** de vi, 350 pag. Segunda ediçSo. Ibid., 
1794 in-4.^; é provável que haja mais alguma. 

Esta ultima obra é uma edição mais correcta e augmentada 
Ao Director fúnebre de Fr. Veríssimo dos Martyres. 

2.) Directório fúnebre reformado, para as ceremonias s 
cantochão do officio de Defunctos, enterro e procissão das almas; 
modo para se officiar e administrar com perfeição o Sacrosanio 
viatico aos enfermjos. Obra utilissima para os parochos, regen- 
tes do Coro e mais Ecclesiasticos etc. — Lisboa na Regia Offi- 
cina Typ. 1773 in-4.®de iv-337 pag.; as ultimas 49 contém os 
exemplos necessários em cantochão. 

Este livro teve ediçSes successivas até á 6.*: — Lisboa. Na 
Officina Patriarchal de João Procopio Corrêa da Silva. Anno 
1794. 

O exemplar que possuímos d'esta obra, pertence a esta edi- 
ção; não sabemos, se houve mais alguma posterior, porém é pro- 
vável que fosse ainda reimpressa, pois como a obra tratava de as- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 163 

somptos de disciplina ecclesiastica, era natural que tivesse bom 
numero de compradores, entre os padres e frades, que era entSo 
a gente de que no nosso Portugal havia mais fartura! 

3.) Horas Mariannas Portuguezas com o officio menor da 
SS, Virgem Nossa Senhora, em Portuguez, Lisboa^ 1799, com 
privilegio real. Teve 20 edições successivamente augmentadas! 

4.) Horas da Quaresma, com a tradução e explicação das 
Missas, Mysterios e Festas principaes desde o Domingo da Sep- 
tuagessima até o quinto da Quaresma. Teve duas edições, sahin- 
do a 2/ mais accrescentada. 

Este author publicou ainda um grande numero de obras 
mjsticas e de disciplina religiosa, algumas das quaes tiveram nu- 
merosas ediçSes, como as Horas da Semana Santa, 11 edições 
até 17d9; Manoel ecclesiastico Litúrgico, 3 ediç. O christão en- 
fermo, 3 ediç. etc. 

SEIXAS (José António Carlos de) — tC talvez o maior orga- 
nista que Portugal produziu, todavia a pátria, sempre agradeci- 
da, conservou o seu nome tão esquecido como o de quasi todos os 
nossos artistas. 

Nasceu em Coimbra a 11 de Junho de 1704 e foi filho de 
Francisco Vaz e Marcellina Nunes. Morreu a 25 de Agosto de 
1742, isto é, apenas com 38 annos, com as dignidades de Caval- 
leiro professo da Ordem de Christo e de Contador do Mestrado 
da Ordem militar de S. Thiago. Parece que occupára também o 
posto de capitSo, no exercito. Partindo para Lisboa com a inten- 
ção de tomar ordens, espalhou-se do tal maneira a reputação do 
seu talento no órgão, que apesar de contar apenas 16 annos, 
foi escolhido para organista da Basilica patriarchal. A sua fama 
devia ser brilhantissima pelas noticias que nos dá Barbosa Ma- 
chado. 

Jaz sepultado no carneiro da irmandade do SS. Sacramen- 
to. Pouco tempo depois da sua morte, a communidade dos Ere- 
mitas de S. Agostinho dedicou-lhe solemnes exéquias no conven- 



164 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

to de Nossa Senhora, ás quaes assistia a maior parte dá nobreza 
em testemunho de saudade e admiraçlo. 

Deixou em manuscripto composições notáveis, das quaes in- 
dicamos as seguintes. 

1.) 10 Míssoê a4e8 vozes com orchestra. 

2.) Te Deum laudamue a 4 coroe, que se costumava cantar 
no ultimo dia do anno, na casa professa de S. Roque. 

3.) 700 Tocatas para Cravo (!) Machado (a) indica este 
mesmo numero. 

4.) Mais 16 outras. 

5.) Vários Motetes a 2, 3, e 4 vozes, com e sem instru- 
mentos. 

6.) 29 Tocatas de Órgão; Ms. de 198 pag. 

Encontramos esta ultima obra na Bibliotheca da Universi- 
dade, no deposito E, quando ahi procurávamos uns manuscri- 
ptos. Pertenceu á livraria do Mosteiro de Santa Cruz de Coim- 
bra e foi copiado (modernamente) pelo Padre Caetano da Sil- 
va e Oliveira. O livro está encadernado e contém 29 tocatas, me- 
nos o n.® 27, que sSo solfejos arranjados para uso do Seminário 
pelo Padre JoSo Jorge; estão eirados na maior parte. A tocata 
N.^ 26, tem a epigraphe Scarlatte. £ possível que seja o celebre 
Alessandro Scarlatti (b) ; as datas não discordam, pois este ul- 
timo nasceu em 1649 e falleceu em 1725. 

Gerber (c) cita dois retratos doeste nosso celebre compatrio- 
ta; um, pintado por F. Vieira e gravado por J. Daulle, folio gr: 
e outro gravado por Dancke in-4.® 

A fama do nosso author devia pois ter ultrapassado as fron- 
teiras de Portugal, para o escriptor allemZo ter conhecimento does- 
tes retratos. É inuito possível que o author do primeiro seja o 
celebre Francisco Vieira de Mattos denominado Vieira lusitano, 
que nasceu em Lisboa a 4 d'Outubro de 1699 e morreu ahi mes- 
mo em 1783; temos pois ligados os nomes de dois grandes ar- 
tistas, e com orgulho citamos aqui as palavras de Raczinski (d) 
a respeito de Vieira Lusitano : «peintre portugais, pouvait riva- 
User avec bon nombre des artistes étrangers les plus célebres, t 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 165 

(a^ Bibl. LuêtL rol. ir, |>a^. 198. 

(b; Celebre compositor italiano e um dos chefes da escliola de Nápoles. 
Deixou grande numero de O^ras, de Oratórios e de Missas, tfae o colloca- 
ram na primeira linha entre os grandes génios musicaes da Italm. Deixou em 
Gaetano Greco, Ijogroscino, Darante etc, discípulos dignos do seu nome. 

(c) HúL Biogr, Lex. vol. i, pag. 49. 

(d) Dict. hi9t. artisL pag. 296. r 

SEHA (Fr. Bernardo de JesuB oa) — Bom cantor e sábio con- 
trapontista; nasceu em Lisboa em 1599 e entrou no convento de 
S. Francisco de Vianna, a 5 legaas de Evora^ onde professou a 
10dejulhodel615. 

Foi durante muito tempo Vigário do Coro no convento de 
Nossa Senhora de Jesus em Lisboa^ e Mestre de Capella no seu 
convento; ultimamente fura nomeado Definidor da sua ordem. 
Morreu em Lisboa, no mosteiro de S. Francisco a 10 de Abril de 
1669. D. JoSo IV estimava*o muito pela sua bella voz e pelos 
seus conhecimentos na arte do contraponto. Deixou varioB êervi- 
ço$ campletoê de musica sacra. 



SERRANO (Kanoel Martins) — Musico portuguez. Occupou 
o logar de Mestre de Capella em Portalegre^ no principio do sé- 
culo xvui. 

Desconhecemos as suas composiçSes, porém encontramos 
amas Decimas doeste author em um dos livros theoricos de Mo- 
rato. (a) Transcrevemol-as por serem curiosas. 

A Joam Vaz Barradas Muito Pam e Morato, natural da ci- 
dade de Portalegre, Mestre da Capella de Musica do Coro da Pa- 
rochial Igreja de S. Nicolau. 

DECIMAS 

Vejo que s2o vossas Flores 
TSo fragrantes, t2o cheyrosaa. 
Que bem parecem ser rosas 
Com matiz de varias cores, 
Mereceis dons mil louvores, 



166 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

PoÍ8 toes flores sabeú dar. 
Flores para o Paladar, 
Flores para o entendimento, 
Flores do vosso talento, 
Com qne sabeis recrear. 

Flores tais contais firagancias 
NSo as vi, por mais que 11^ 
Porque de mi, para mi 
Formais temas consouancias 

Com t2o pequenas distancias 
Fazeis intcrvallos tais. 
Que os fructos bio de ser mais, 
Do que as flores, que dizeis, 
£ vos mais flores - sereis 
Com mil applauBOs que ouçais. 

Tao doutamente escreveis 
Vossas flores, que nao ba, 
Nem supponbo que baverà 
Quem se opponba ao que dizeis. 

N2o duvido ezprimentets 
De Zoylos, màos Coraçoens 
Mordazes desatençoens. 
Quem diz mal be o peyor, 
Digão mal, que do melbor 
Sempre ouve Contradiçoens. 

De vossas flores dissera 
Sem nenbuma aflectação, 
Que só são de Muito Pão 
Coibidas na primavera. 

Flores de tão alta esfera 
Com taes cores matisadas. 
Só as faz João Vaz Barradas. 
Nos Clarins da fama fiquem 
Tais flores, e se publiquem 
Com letras de Ouro Estampadas. 

A. P. e V. 

M. M. D* 
(a) Flareê muâiccicê, pag. ix e z. 



os MÚSICOS PORTUGDEZES 167 

8ILTA (. . .) — ^Primeiro clarinete do Theatro italiano (S. JoSo) 
do Bio de Janeiro e da Capella real, no primeiro quartel doeste 
século. Era considerado como o primeiro artista do Brasil, no 
seu instrumento. 

SILVA (Alberto José Gomes da) — Compositor e organista do 
século passado. Ignoram-se as circnmstancias relativas á sua 
vida. Viveu no meado do xvin século e deixou-nos uma obra in- 
titulada: 

Regras de acompanhar para Cravo, ou Órgão, E ainda 
tombem para qualquer outro instrumento de votes, reduzidas a 
breve methodo, e fácil percepção, (a) Dedicado a 8. M, F. 
2>. Joseph I Q, D. O. Lisboa^ na officina Patriarchal de Francisco 
Luiz Ameno, 1758 in-4.^ de vui, 39 pag. e Index, 2 pag. Al.* 
parte tem 4 paginas de exemplos, a 2.*, 8 paginas; estes exerci- 
cios nSo dão uma opinião favorável do gosto e do saber do seu 
author. 

Esta opinião é de Fétis, (b) que examinou esta obra, como se 
vê; lastimamos ter de lhe juntar a nossa, em virtude do exa- 
me feito em um exemplar que possuimos. A obra mesmo, não é 
mais do que um resumo de regras e de preceitos elementares, 
sem pretençSes a compendio ou livro de doutrina. 



(&) Náo é Artt de Musica como diz I. da Silva, Dioe. Bibl. voL i, 
pag. 24. 

(b) Btogr. Univ. vol. ir, pag. 55. 



SILVA (António da) — Organista e compositor da Capella 
real da Ajuda, no fim do século passado ; compositor de talento e 
discipulo predilecto de David Perez. Estreiou-se no género sacro 
com o Oratório: GHoas, Se di Giudà, que se cantou na camará 
real em 1778, pelos artistas Bejna, Orti, Bipa, Torriani, Pnzzi 
e Ferracuti. 



168 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

No anno seguinte ouviu-se em Qaeltiz a soa SereneUa: La 
Chãatea, cujo êxito foi tilo grande, que ainda pelos annos de 
1792, Ferracuti cantava nas reuniSes de Lisboa uma ariad'ella: 
==Áh, taci, Alcide amato.= 

O Marquez de Rezende (a) que cita este caso, qualifica Silva: 
ceximio contrapontista e predecessor de Marcos Portugal». 

Em 1782, cantou-se ainda em Queluz, a opera: Callirroi tn 
Sira, em 2 Actos. 

Cultivou também o género sacro e deixou varias composi- 
ç8es, das quaes conhecemos apenas uma Mis9a em ré, a 4 voui. 

Das circumstancias da sua vida, pouco se sabe, todavia pa- 
rece que vivia ainda em 1817. Recapitulando, temos : 

1.) La Oalatea, serenata cantada em Queluz em 1779* 

2.) Callirroé in Sira, opera, ibid em 1782. 

3.) Oioas, Ré di Oiudà, oratório, cantado no palácio da 
Ajuda em 1778. 

4.) Missa a 4 vozes, em ré. 

(a) Pintura de um Outeiro Nodumo, pag. 44. 

SILVA (Ayres António da) — Cavalleiro professo da Ordem 
de Christo; nasceu em Lisboa a 15 de Abril de 1700, sendo fi- 
lho de D. Manoel Pereira Coutinho e de D. Maria Thereza da 
Silva e Távora. Principiou a estudar a musica com sete annos, 
dedicando-se á rabeca, rabecão de 4 e de 7 cordas, (!) (a) i flauta 
e violeta. Cursou os estudos superiores na Congregação do Ora- 
tório de S. Filippe Nery, defendendo conclusões publicas ; era 
também Bacharel em Artes pela Universidade de Coimbra. 

A sede de conhecimentos, levou-o em 1723 a Paris, Aleala 
e Valhadolid; compôz diversas Missas, Psalmos, Ladainhas e 
um Te Deum laudamus, com diversos instrumentos; estas com- 
posiçSes feram bem recebidas; é o que nos diz Barbosa Machado. 

(a) Não sabemos qne tivesse existido semelhante instrumento ; tslvex 
houvesse engano de Machado, na dcsignaçíto ; os rabecões (contre-basse) 
aue conhecemos, sSo de 3, 4 e 5 cordas, qne ainda hoje se usam nas gran- 
des orchestras da Allemanha e França. 



os MÚSICOS PORTUaUEZES 169 

SlLYk (Fr. Brás Soares da) — Freire da Ordem militar de 
ChriBto e Reitor do coUegio real dos meninos oríSos de Lisboa; 
apenas sabemos que foi mestre de JoSLo da Silva Moraes; todavia 
basta este ultimo titulo para o qualificar honrosamente. 

SILVA (Franctaco da Costa e) — Mestre da Cathedral de Lis- 
boa e Cónego da quarta prebenda. Aos conhecimentos tlieoricos e 
practicos da Arte musical que tinha começado a cultivar desde a 
infimcia, deveu o logar citado, onde permaneceu até á sua morte, 
occorrida a 11 de Maio de 1727. Era natural de Lisboa; igno- 
ra-se a data do seu nascimento. 

Compôz as seguintes obras que ficaram todas em Ms. 

1.) MtBsa a 4 vozes com todo o género de in$trumentoê. 

2.) Misererea 11 vozes com orehestra, 

3.) Motetes para se cantarem ás Missas dos Domingos da 
Quaresma. 

4.) Lamentação primeira da Quarta-Feira de Trevas, a 8 
vozes. 

5.) Texto da Paixio de S. Marcos e 8. Lucas, a 4 vozes. 

6.) VUhancicos de 8. Vicente e 8anta Cecilia, a vozes e or* 
cJusira. 

7.) Eesponsorios do Officio de defunctos, a 8 vozes e orches- 
tra; foram compostos para as exéquias de Luiz xiv, mandadas 
celetmur pela colónia franceza na capella real de S. Luiz, em 
Lisboa. 

SDiTA (Gomes da) — Compositor e pianista, do qual temos 
apenas uma pequena noticia, extrahida de Oerber. (a) £m um de- 
posito musical (b) da Allemanha, encontrava-se no fim do sécu- 
lo ZYni, (1780) um manuscripto d'este author; compunha-se de 
Seis 8onatas para Piano. 



(&) Hiêl, hiogr. Lex. vol. n, pag. 519. 
(b) Wesfpkalisekc Musãkanãkmg. 



170 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

BTLYk (Joio Cordeiro da) — Compositor dramático de talen- 
to. Nasceu em Lisboa, mas ignora-se quando; em 1817 ji tinha 
fallecido e de bastante idade, pois tomando mesmo a data da sua 
primeira opera, (1764) devia ter pelo menos 70 a 78, annos se 
suppozermos que a escreveu com 20. 

A corte julgou recompensar os seus talentos, nomeando-o 
Organista e Compositor da Capella real da Ajuda. 

Ha quem pretenda que este artista estudara na Itália, fim- 
dando-se n'uma citaçSo que Balbi (a) faz de um Cordeiro, que es- 
teve estudando em Nápoles; nada se pôde entretanto concluir de 
uma citaçSo tSLo vaga. 

Além das operas que adiante mencionamos e que foram em 
tempos passados muito bem recebidas, deixou outras composi- 
ções de menos valor. Modinhas, etc. 

As suas operas sSo: 

1.) Arcádia in Brenta, no theatro de Salvaterra em 1764, 
por Maruzzi, Vasques, Orti^ Leonardi, Cavalli, Principi e Oior- 
getti. 

2.) iZ NcUale di Oiove, em Queluz em 1778. 

3.) Edalide e Canãnse, cantada na Ajuda em 1780, por 
Reyna, Orti, Torriani, Ripa e Toti. 

4.) II Ratto di Prosérpina, em Queluz em 1784, por Bep^y 
Ripa, Torriani, Marini e Venturi. 

5.) Árckelao, em Queluz em 1785, por Reyna, Ripa, Tor- 
riani, Marini e Ferracuti. 

6.) Telemaco nelV isola di Cálypso, em Queluz em 1787 por 
Reyna, Ripa, Ferracuti e Marini. 

7.) Megara tebana, em 1788 na Ajuda, por Reyna, Gelati, 
Policarpo, Marini e Ferracuti. 

8.) Lindane e Dcdmiro, na Ajuda em 1789, por Reyna, Oe- 
lati, Marrochini, Sclettini, Manna, Capellani e Bartolini. 

9.) Philemone e Bauce^ em 1789. 

A estas composições temos de ajuntar ainda no género sacro: 

10.) Salomé, madre de* siette martiri Macabei, oratório can- 
tado na Ajuda em 1783, por Reyna, Ripa^ Torriaxâ, Ferracuti, e 
Venturi. 



os MÚSICOS POSTUGUEZES 171 

Na Nwa Inêtrueção mmical de Solano^ «QMX)ntra-8e mna 
carta doeste compositor em que elle o convida a publicar a sua 
obra, elogiando-a; acarta traz a data de 12 de Agoàto de 1763, 
Bom Suocesso. 



(a) Eêêoi Haiiêtf vol. n, pog. ocxy. 



SILVA (Joaquim Carneiro da) — Natural do ^orto^ onde nas- 
ceu em 1727 ; tocador de flauta e artista gravador. 

Dirigiu a aula de gravura, fundada em 1769, sendo remu- 
nerado com 500|000 réis de ordenado. Visitou o Brazil no tem- 
po da sua mocidade, e fez ahi parte de uma sociedade de amado- 
res músicos a que pertencia JoSo Henriques de Sousa e outros, e 
que organisava no Rio de Janeiro saraus musicaes. Depois de 
17 annos de ausência, voltou a Lisboa em 1756 e partiu no anno 
seguinte para Roma. A ordem de D. José, (a) enviada em 1760 
a D. Francisco de Almeida, então Embaixador de Portugal em 
Roma, obrigou Silva a deixar a cidade romana; dirigiu-se a Flo- 
rença e alii completou os seus estudos. Como gravador deixou 
numerosos discípulos. 

(a) Vide a biograplna de António Fernandes Rodrigues. 

SILVA (Fr. José Marques de Santa Rita e)— Foi Mestre da 
Capella da Bemposta, no reinado de D. JoSo vi e discípulo de 
Joio José Baldy. Nasceu no Alemtejo e morreu em 1837. (a) 

O Cardeal Saraiva diz d'este artista: 

cFoi hum grande tocador de piano e o mais distincto acom- 
panhador de OrgSo em todos os systemas de acompanhar. Foi 
também insigne compositor tanto de capella, como de instrumen- 
tal e deixou muitas peças de sua composiçSo que mostram o seu 
grande merecimento.» 

Estas asserções do Cardeal sSo um pouco patrióticas, todavia 
ainda que tenhamos de restringir algum tanto esta apreciaçito, 
nSo negamos o fundo de verdade que ella contém. Examinamos 



172 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

algumas composiçSes qae possaimos d'este author, e nem a todas 
podemos com justiça^ applicar as palavras do cardeal ; a desigual- 
dade ás vezes é grande; em algumas das suas obras sacras, &lts 
ora a originalidade da concepçSoy ora a perfeição da forma, eo- 
irando o artista em moldes puramente convencionaes eji gastos; 
as suas ideias n2o tem sempre a elevação do assumpto, nem a pu- 
reza da forma, cedendo a inspirações menos felizes ; também 
ouvimos é verdade, outras composiçSes que revelam qualidades 
superiores ; assim por exemplo notamos na Mis$a que foi executa- 
da em Santa-Cruz em 1868, pelas festas da Rainha Santa, um 
estylo severo, e ás vezes, até grandioso ; uma expressão enérgi- 
ca, unida a um instincto melódico que o guiou bem. 

Parece-nos que esta desigualdade encontra a sua origem, na 
necessidade em que o artista estava ás vezes, de tratar de en- 
commendas o£Sciaes quando a sua inspiração não o obrigava a 
escrever. 

As suas composiçSes para Piano: SoncUcu, VariaçSe$, etc, 
revelam uma certa elegância de factura, porém não mostram as 
qualidades imminentes que o primeiro nome poderia iàxer lem- 
brar; as suas ideias não tem, nem o desenvolvimento necessário, 
(qualidade indispensável n^este género de composição) nem a pro- 
fundidade de concepção e de inspiração, que nas obras primas 
dos grandes compositores vem filiar todas as ideias, por meio de 
um tecido admirável, n'uma ideia primordial. 

Se aquellas qualidades e estes defeitos não lhe concedem 
um logar de primeira ordem, dão-lhe como justa eompensaçZo 
ainda um logar honroso, e tanto mais apreciado, que poucos en- 
contra a seu lado. 

Depois de feita a devida justiça, não podemos deixar de 
louvar o artista que soube, no meio do dcBenfreainewto em que 
andava a Arte, suster o bom gosto que parecia succumbir ; que 
soube stigmatisar e desmascarar publicamente, um hom^oa como 
Joaquim Casimiro, qualificando-o de miísico de agua doce, acçSo 
tanto mais corajosa e louvável, que o ia pôr em confiicto com a 
maioria do publico, adorador estúpido das banalidades grotescas 
do insigne compositor. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 173 

Apesar dos esforços de Fr. José Marques e de mais alguns 
poucos, a corrente do mau gosto rompeu todos os diques, levan- 
do a gloria de Casimiro ás mais remotas aldeias e avassallando 
um mundo de philisteus ! 

Hoje, a Arte mera morreu em Portugal, salvo alguns fracos 
lampejos, e em logar das obras immortaes dos grandes artistas 
da Itália e da Allemanha, em logar mesmo das boas composições 
artísticas que temos no paiz, ouvimos nos templos da capital e 
do Porto uns pot-ponrris nauseabundos de musica verdiana, gai- 
tados com uma desfaçatez indigna durante os actos mais sérios 
do culto ! (b) 

Fr. José Marques nSo chegou felizmente até nós, para poder 
presencear este desconchavo philarmonico. 

£i^ as composições que conhecemos do nosso artista : 

MUSICA SACRA 

1.) Nove Misêoê a 4 vozes com orchestra, 

2.) Motetes a ãífferentes vozes, 

•3.) Um Miserere. 

4.) Dous Credos, 

5.) Um Te-Deum lavdamus. 

Na Bibliotheca real da Ajuda ainda existem as seguintes 
composições authographas : 

6.) Te Deum a 4 vozes e órgão, para se cantar na Real Ca- 
pella da Bemposta por occasião da chegada d^EMtei D. João vi. 

7.) Psalmos com mxisica de Capella : 

Dixit Dominns. 
Confilébor, 
Ihatuê vir, 
Laudatt puert. 
Ijaudate Dominum, 
Lauda Hieruêolem. 
Btati omnes. 
Magnificai. 



174 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

8.) jResponêortos de Pa$ehoa. 

9.) Matinas da Exaltação da Santa Cruz, a grande tni- 
trumental. 

10.) Responsoríos para a festividade doe Santos Seis, em 
1818. 

11.) Matinas de Sahbado Sancto, Lamenta^^, Miserere; 
existem só as partes da orchestra; porque as partes das vozes e 
do orgSo, já de lá sahiram para o arcbivo da Infanta D. Isabel 
Maria 

MUSICA PEOFANA 

6.) Hymno dedicado a D. Jodo VI, em que as pakyras 
rivalisam de ingenuidade com a musica. 

7.) Varias Sonatas para piano. 

8.) Variações para piano sobre o thema: Grià la notte s'avi' 
cina (Zauberâõte). 

Entre os seus discípulos, distinguiram-se Miro, Xavier Hi- 
gone, Manoel Innocencio dos Santos (ainda vivo), JoSo Fradesso 
Bello; etc. 

Joaquim Casimiro nSo pôde, com justiça, entrar na lista dos 
discipulos de Fr. José Marques, porque este nunca o quiz reco- 
nhecer como tal. 

(a) Â Musica, por F. da Fonseca Benevides, Archivo PUtoreseOf 
vol. IX, 1866, pag. 128. P. de Vaxel indica erradamente: 1846. 

(b) Na egreja dos Congregados no Porto, prescnceamos ainda nSo ba 
muito, o espectáculo repugnante de outít durante o levantar da hóstia uma 
cavatina do Trovador, . . . 

SHiVA (?.* Manoel Nunes da) — Jesuita, natural de Lisboa, 
onde nasceu em 1678. Exerceu os cargos de Mestre de Capella 
na Egreja de Santa Catharina doesta cidade e da coUegiada de 
Nossa Senhora da Conceição, cargo que occupava em 1725. Foi 
também Director do Coro da Egreja parocbial de Santa Maria 
Magdalem^, e tinha sido discipulo de Frovo. Publicou o seguin- 
te livro : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 175 

Arte Minima que eom Semibreve Prolttçam (a) tratta em 
tempo breve, os modos da Máxima & Longa sciencia da Mu- 
sica, offerecida á Sacratíssima Virgem Maria Senhora Nossa, 
debaixo da Invocação da Quietaçam, cuja imagem está em a 
Santa Sé d'esta cidade. Lisboa, na Officina de Joam Galram, 
1685, in-4.^, de 44-52-136 pag. com 2 estampas, (frontispício 
gravado, representando vários instrumentos e a mSo dos sig- 
naes). Este titulo, é um jogo de palavras sobre os nomes dos sig- 
naes da antiga notaçilo, isto é : a Minima, a Semibreve, a Lon- 
ga, a Máxima, as prolaçdes, os tempos e os modos. Tudo isto 
quer dizer, que o livro ensinará em pouco tempo a arte da musi- 
ca, que por si só é diíBcultosa e exige longos estudos. 

A obra está dividida em três partes que correspondem á 
enumeraçSo das paginas que acima referimos. Primeiro encon- 
tramos uma Dedicatória á Virgem, que brilha pela ingenuidade 
das ideias, chamando-lhe Universidade de todas as sciencias, e 
dizendo outras amabilidades mais, e um Preambulo ao leitor 
(l-xu). A ordem das matérias é : Resumo da Arte de Canto de 
Orgam (1-16), depois Compendio da Arte dq Contraponto e 
Compostura (17-44) ; estas duas partes tratam da solmisaçSo, 
da notaçSo proporcional e dos primeiros elementos do contra- 
ponto. Um tratado de cantochSo (Summa da Arte de Cantocham, 
1-52) e uma analyse succinta de todas as partes da musica (Tra- 
tado das Explanardes e Index do mesmo, 1-136) formam o resto 
do volume. 

Esta ultima parte contém também umas explicações muito 
curiosas, relativas á Historia da Musica, que excedem, se é pos- 
sível, em ingenuidade e metaphysica musico-theologica, as ideias 
singulares do Preambulo. A obra foi concebida no espirito cân- 
dido e milagroso do tempo. 

Forkel, (b) fallando da Arte Minima, diz: <N'esta obra não 
só se ensinSo os principies fundamentaes da musica, mas tam- 
bém n'ella demonstra o author minuciosamente, a ligação que 
existe entre a sciencia musical e os outros conhecimentos secula- 
res e religiosos.» 



176 OS MITSICOS PORTUGUEZES 

I 

O sábio critico alIemSO; talvez illudido por alguma infor- 
mação parcial^ foi benévolo em demasia, porque a maneira como 
Nunes da Silva pretende mostrar a tal ligação, não pôde ser mais 
extravagante. Qualquer individuo se poderá convencer da ver- 
dade das nossas affirmaçSes, lendo só o 1/ capitulo do Tratado 
das EQcplanaçSe8:=áos louvores da Musica e do modo que d'ella 
se deve usar = , e o seguinte : = Dsi invenção da Musica e pes- 
soas insignes que a augmentárão e n^ella florescião == (foi. 13). 

Esta obra teve mais duas edições, em tudo conformes & pri- 
meira, menos no nome do impressor, que differe. 

A 2.*: Na Officina de Miguel Manescal, impressor do Santo 
Officio, á custa de António Pereyra & António Manescal. Anno 
de 1704. 

A 3.* edição: Na Officina de António Manescal, Impressor 
do Santo Officio & Livreiro do Sua Magestade e A sua custa 
impressa. Anno de 1725. 

(a) Forkely Âlleg, LU. der Mu*Íkj p. 289, diz: rtcopUação; é eviden- 
temente um erro, porque ate agora não encontramos esta alteração em 
nenhum exemplar. . 

(b) Ibid., loc. cit, 

SILVA (Policarpo José António da) — Excellente cantor por- 
tuguez; era primeiro tenor da Capella e da camará real, no mea- 
do e fim do século passado. William Beckford (a) deixou-nos 
nas suas bellas cartas sobre Portugal, a memoria d'este artista de 
talento, que diz ser fanioso tenor, admirável pela bravura e ra- 
pidez da sua execução. Silva, cantava nas salas acompanhando-se 
de um cravo (harpsicord). Em 1788, creou o papel de cLisan- 
dro » na opera GU Eroi Spartani de António Leal Moreira, re- 
presentada em Queluz. 

Policarpo era também compositor ; na Bibliothcca real da 
Ajuda, conscrva-se uma obra doeste artista : A Primavera, em 
nove nocturnos munições sobre versos de Metastasio; parece que 
esta composição foi impressa em 1787. 

Não sabemos quando fallcceu este excellente artista que 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 177 

soube rivalisar em Lisboa, com cantores como Beyna, Ferracuti; 
e outros. 

(a) Italy ; with aketclics of Spain and Portugal, vol. u, pag. 38 e 210. 

SILVA (T^Í8tio da) — Mestre de D. Affonso v e um dos 
primeiros músicos portuguezes de que ha noticia. A pedido 
d'e8te príncipe escreveu : 

Amableê de musica. O original existia na Bibliotheca da 
D. João IV. Assim se perdeu uma das primeiras producçSes da 
nossa litteratura musical ! 

Francisco Vellez de Guevara citava esta obra no seu livro : 
De la realidad y experiência de la Muêica. 

SILYEntA (Fr. Plácido da) — Filho de Bento da Silveira e 
SimSa de Moraes ; nasceu em Cacilhas (Extremadura) e entrou 
na Ordem militar de Chrísto, no convento de Thomar, a 5 de 
Abril de 1683. Foi hábil contrapontista e morreu a 8 de Março 
de 1736. 

Escreveu : 

1.) Processionale &Miê9aleac Breviário Samano a S. Pio V 
raeformatis decerptum, ConimbrictB ex Regali Artium ColUffio, 
1721, in.4.* 

2.) P$<dmo$, HymnoB e Motetes a diversas vozes. 

SILVESTRE (Gregório) — Nasceu em Lisboa a 31 de De- 
zembro de 1520, e abandonou muito cedo a sua pátria^ fixando 
a sua residência em Hespanha, aonde morreu em 1570. Apesar 
de ter nascido portuguez, Gregório Silvestre escreveu de tal for- 
ma em hespanhol, que as suas poesias occupam um logar de 
honra na Historia da litteratura visinha, pela grande influencia 
que exerceram, (a) O motivo que levou Silvestre para Hespanha, 
seria com certeza o mesmo que moveu Jorge de Monte-Mór 
a abandonar a sua terra natal; (b) Gregório Silvestre vivia 
tranquillamente em Granada, exercendo a profissão de orga- 

ii 



178 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

nista-jnór da Cathedral ; tendo ido muito cedo para Hespanha, é 
natural que fosse como cantor^ e que pelos estudos a que se de- 
dicou, fosse gradualmente subindo, até occupar tSo importante 
posição na sua carreira artística. 

No século xvi e xm, era Portugal que enriquecia a Hespa- 
nba dos mais distinctos músicos. Na educaçSo geral, a musica 
occupava uma parte muito interessante, e abundam os factos, 
em que vemos a nossa primeira nobreza dedicar-se conjuncta- 
mente á poesia e á musica, (c) 

Gregório Silvestre, como a maior parte dos artistas do seu 
tempo, também cultivou a poesia; teve relações intimas com 
Jorge de Monte-Mór, que nunca esfriaram, apesar das grandes 
luctas entre a eschola italiana e a eechola kespanhola, a qne 
cada um pertencia. Gregório Silvestre, sob as bandeiras de Cas- 
tillejo, foi um dos mais terríveis campeSes contra a primeira, 
introduzida em Hespanha por BoscSo ;. Jorge de Monte-Mór, seu 
amigo, seguia a imitação italiana, e respeitava iinmensamente 
Sá de Miranda por haver introduzido em Portugal a nova poé- 
tica. Gregório Silvestre reconciliou-se a final com a eschola ita- 
liana, escrevendo também no metro endecasyliabo. {d) 

E natural que não só pelo seu gosto poético, como pela po- 
sição artística que occupava na Cathedral de Granada, deixasse 
bastantes composições musicaes ; doestas conhecemos apenas vá- 
rios Vilhancicm e Entremezeê, e um manuscrípto : Arte de es- 
crever por cifra. 



(a) Tieknor, Hist, de la LittercUura cspaííolaf traduzida por D. Pu- 
cual de Gayangos c D. Henrique de Vedia, tom. ii, pag. 58 a 61. 
\b) Vid. a Biograpliia de Jorge de Monie-Mór. 

(c) Taes são : o Infante D. Luiz, o Infante D. Duarte, D. JoSo de 
Menezes, Sá de Miranda, Jeronymo de Sá, Manoel Machado de Azevedo, 
Garcia de Kesende, André de Resende, Damião de Groes, D. Francisco Mt- 
noel de Mello, Gil Vicente, e outros litteratos distinctos. 

(d) As obras de Gregório Silvestre foram reimpressas em Lisboa, em 
1592 -, o editor Pedro de Cáceres, traz uma vida do poeta, a qual Barbosa 
aproveitou na Bibl, Lvsit.j toro. ii, pag. 419. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 179 

SOARES (António José) — Nasceu em Lisboa a 2 dé No- 
vembro de 1783 e falleceu a 9 de Março de 1865. Foram seus 
pães Joaquim José Soares e D. Joanna Nepomuceno. Recebeu a 
sua educação nos Seminários de Yilla-Viçosa e da Fatriarch<al, e 
teve por mestres, em rudimentos : o F/ Joaquim Cordeiro Gal- 
tSo; em harmonia: João José Baldy, e em contraponto: Antó- 
nio Leal Moreira, que o chamava o seu discijmlo amado. 

Os seus estudos conscienciosos habilitaram-n'o para o logar 
de Organista da Santa Egreja Patriarchal, e foi n'esta ultima 
posição que requereu, depois de Moreira ter fallecido, o logar de 
Mestre do Seminário Patriarchal. El-Rei mandou informar o re- 
querimento ao Visconde de Santarém, que produziu os seguintes 
honrosos attestados: 

«O Visconde de Santarém, do Conselho de S. M. F., Ca- 
valleiro professo da Ordem de Christo, etc. etc.. Director dos 
reaes theatros : 

cAttesto que António José Soares, Organista da Santa 
Egreja Patriarchal, tem sempre servido com muito prcstimo e 
exacçâo em todas as funcçSes que por ordem de S. M. se teem 
feito na real Basilica de Mafra; que tem feito com toda a pon- 
tualidade as differentes composições que lhe tem ordenado para 
a dita Basilica, mostrando n^ellás sciencia e gosto : além d4sto 
attesto também, que tem bons costumes e se teçi- portado com 
muito boa conducta e por me ser pedida mandei passar a pre- 
sente que assigno 

Visconde de Santarém» t 

A este documento honroso^ podemos ainda juntar um se- 
gundo. 

Carta do Visconde de Santarém dirigida ao Cónego Manoel 
Vencesláo de Sousa : 

c O pleno conhecimento qué tenho da sciencia, conducta e 
estudo de António José Soareii, que foi aiumnò do Seminário da 
Santa Egreja patriarchal me obriga a dirigir a V. Bl."^ o reque- 



180 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

rimento incluso para ser enviado por V. 111.™* á real presença de 
£1-Rei N. S. O apreço que V. 111."** faz dos alumnos d'aquelle 
Seminário^ o modo porque o supplicante se tem distinguido pela 
séria applicaçZo e gosto que faz da sua proiissSo, me tira todo o 
receio de que V. III."* deixe de advogar o favor do supplicante, 
que tendo por aquelles titules merecido a minha estimação, fikz 
honra ao Seminário por onde aprendeu. 

£m quanto pessoalmente nSo tenho a honra de buscar a V. 
111."*, aproveito este motivo para certificar a V. IIl."* que sou ete. 

Visconde de Santarém. 

Um pedido tSo bem informado nSo podia deixar de ser at- 
tendido e assim ficou o artista encarregado de diversos ramos do 
ensino musical no Seminário, até que este foi annexado á Casa- 
Pia, no extincto Convento dos Jeronymos de Belém. 

Pouco tempo depois d'esta mudança, foi chamado pelo Im- 
perador D. Pedro iv para professor do mesmo Seminário, no- 
meaçllo que nBo acceitou, assim como outra feita posteriormente 
para um logar do Conservatório real de Lisboa, fundado recente- 
mente por D. Maria ii. 

A recusa d'estes cargos públicos, cujas causas nSo conhece- 
mos, dava-lhc mais ampla liberdade para se dedicar ao ensino 
particular nas principaes casas da capital, onde as suas qualida- 
des moracs nEo eram menos apreciadas do que as artísticas. 

Foi também professor de musica no collegio do Calvário e 
Mestre de Capella da Infanta D. Isabel Maria, no palácio de 
Bemfica. 

Os contemporâneos elogiam muito o seu talento no orgSo e 
no piano, e a sua grande habilidade como repentista. 

Escreveu muito, graças á idade avançada a que chegou. 
(82 annos) Entre uma grande quantidade de Missas, Te-Déwns, 
jogos completos de Vésperas, Matinas, Nocturnos, Responso- 
rios, Ladainhas, Motetes, Stahats, ctc. distinguem-se 2 lestas 
de Requiem, sendo uma de Capella e outra de instrumental, qu^ 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 18X 

dedicou ao Conde do Farrobo para as exéquias que na Egreja 
de Santo António da Castanheira (a ^j^ de légua do Farrobo) 
te celebraram por occasiSo da transladação dos restos mortaes 
do BarSo de Quintella. 

Além doestas composições sacras, deixou outras profanas : 
Modinhas em grande numero, trechos para Piano a 2 e 4 mãos, 
uma Symphonia para piano e orchestra, Duettos para Piano e 
harmoníum, varias cantatas, entre as quaes se distinguem duas 
principalmente; a primeira, dedicada a Anselmo Magno de Sousa 
Pinto em honra de D. Úrsula Todi, que se cantou no Palácio do 
Conde do Farrobo; a segunda: O Mérito exaltado, cantada em 
1818 no Theatro de S. Carlos, com muitos applausos. A propó- 
sito d'e8ta ultima composição, dirigiu-Ihe a Sociedade italiana 
do real theatro a seguinte carta: 

fSnr. António José Soares.» 

< A Sociedade italiana me encarregou de testemunhar a Y. 
a sua gratidSo pela maneira nobre e generosa com que Y. se 
prestou a compor e dirigir a bella musica do Elogio: H mérito 
esaltato, a que o publico fez a devida justiça de reclamar os spar- 
titos da mesma cantata. 

cA Sociedade deseja conservar nos seus archivos esta peça 
magistral, como um padrSo da sua gloria e pede-lhe, queira accei* 
tar benignamente o pequeno mimo que acompanha esta, como 
um «ignal da sua lembrança. E eu da minha parte aproveito esta 
occasiSo para exprimir-lhe os sentimentos de estima e considera- 
ção com que sou 

De V. etc. 

Luigi Chiari. 

«Real Theatro de S. Carlos, 12 de Dezembro de 1818.» 

As musicas de Soares ainda hoje se ouvem em Lisboa e 
principalmente na Ilha de S. Miguel, aonde, até em concertos 



182 OS MÚSICOS POBTUGUEZES 

públicos, se executam alguns trechos do seu segundo Stabat- 
Mater. NSo falíamos d'ella8; porque nada conhecemos. 

PlatSo de Vaxel (a) diz a este respeito: a sua grande Missa 
revela um conhecimento profundo do contraponto, mas também 
um estjlo pesado e pouca inspiração. 

Deixou três filhos, dos quaes o primogénito, seguiu as pisa- 
das de seu pae, dedicando-se sobretudo ao ensino particular; ho- 
je vive em Lisboa, retirado da actividade artística. 

António José Soares foi sepultado no dia 10 de Março e pou- 
co depois publicava a Nação um necrológio, elogiando mais uma 
vez as qualidades moraes e artísticas do fallecido mestre. 



(a) Gazeta da Madeira de 14 de Jiuibo de 1966; a data do íalleci- 
mcnto é 1865 e nio 1864. 



SOARES (f.^ Manoel)— (a) Presbytero do habito de S. Pedro; 
foi natural de Lisboa. Machado, (b) {aliando d'e8te compositor, diz 
que cultivara profundamente os preceitos da musica e que as suas 
composiçSes, executadas na Patriarchal de Lisboa, foram muito 
estimadas, chegando alguns dos excellentes músicos italianos, 
mandados chamar por D. JoSSo V (c) para a dita egreja, a afir- 
mar, que mesmo na Itália nSo havia quem competisse com Manoel 
Soares; (d) esta apreeiação certamente um pouco exagerada, fass- 
nos crer todavia no grande talento de que Soares devia ser do- 
tado. 

Morreu em Lisboa a 4 de julho de 1756 e jazia no cemité- 
rio dos padres da Congregação da missSo. Compoz: 
1.) Psalmos das Vésperas do Domingo, 
2.) Psalmos das Vésperas da Segunda, Terça, Quarta, Ojuin- 
ta. Sexta e Sabbado de Feria, 

3.) Psalmos das Vésperas dos Santos Apóstolos, 

4.) Psalmos das Vésperas dos Santos Martyres, 

5.) Psalmos das Vésperas dos Santos Confessores, 

6.) Psalmos das Vésperas das Santas Virgens, 

Estes psalmos eram todos a 4 vozes para Estante ; a haimo- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 183 

Bia baseava-Be sobre o cantoch2k> de cada um, e altemava-Be ca- 
da yeno com o coro. 

Este padre nunca disse missa, por se julgar indigno de ce- 
lebrar o santo sacrificio ; porque se ordenou entSo? 

(a) £ n2o Soavtê como diz Fétis, (Biogr. Univ, Yol. yui, pag. 57), que 
também se engana, quando diz que fôra monge, 

Ooi) Bibl, Luõit, yol. iv, pag. 250. 

(e) Vide o Eêboço hutartco da CaptUa real, na bioeraphia de D. Joio t* 

(d) Havia n^aquelle tempo os compositores Pergolese, Marcello, Leo- 
nardo Leo, Dnnnte e outroa. 

SOLANO (Francisco Ignacio) — TheoricO; nascido em Lisboa 
em 1727 ; ignoram-se quasi todas as circumstancias relativas á 
sua vida. 

Vivia ainda em 1793, (a) porque n'este anuo publicou H sua 
nltíma obra intitulada: Vindicios do Tono. Foi professor do Se- 
minário de Lisboa e mui diversamente considerado emquanto ao 
seu mérito. Rodrigo Ferreira da Costa declara os seus livros in- 
eomprehensiveis até aos professores, por indigestos, confusos e 
enunciados na linguagem da rançosa solfa das mutanças, e como 
incapazes de servirem de compêndios para dirigir os estudos da 
mocidade e os amadores que queiram conhecer a harmonia e o 
contraponto. 

A primeira classificação de c incomprehensivel » nSo é exa- 
cta^ pois se Costa nSo comprehendeu o nosso theorico, houve al- 
guém mais feliz a quem aconteceu o contrario e que nos explica 
com toda a clareza, as theorias de Solano. 

Fétis (c) diz : tCet ouvrage est le seul traité qui existe de la 
Bolmisation por les muances appliqueés à tous les tons et à tous les 
signes accidentels de la modulation de la musique modeme. La 
méthode de Tauteur consiste à trouver par des régies certaines, 
quelles sont les notes mi etfa, c'est-à^dire les notes du demi-ton 
ascendant; mais ces régies sont en si grand nombre qu'ellcs dé- 
montrent invinciblement Tabsurdité de la solmisation par les mu- 
ances dans la tonalité modeme.» O único defeito pois, do syste- 
ma de Solano está na sua complexidade e nSo na sua ineompre- 



184 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

hensibilidade. Nós mesmoi examinando a obra, nZo encontramos 
até, em relaçSo á tonalidade moderna, essa difficaldade de per- 
cepçZo. 

St Costa peca p(Hr um juizo em demasia severo, Cravoé (d) 
cáe no opposto, dizendo que as obras de Solano, mereceram, por 
excellentes que eram, e mereciam ainda em 1817 a approva^^ 
unanime dos professores de musica. 

Já dissemos, fallando de Morato, que houve uma polemica ac- 
calorada entre estes dois theoricos, talvez fosse até sobre o syste- 
ma apresentado por Solano. 

Eis as suas obras theoricas: 

1.) Nova Instrucção musical, ou tlieoriea pracHca da muH- 
ca rhytmica, com a qual se forma, e ordena sobre os mais sólidos 
fundamentos hum Novo Methodo e verdadeiro Systemapara cons- 
tituir um intelligente Solfista e destríssimo Cantor, etc« Lisboa na 
Officina de Miguel Manescid da Costa, 1764 in-4.^ de LX — (nSo 
numeradas) 340 pag. 

A este volume anda unido um Additamento á Nova Instruc- 
çSo musical, em que Solano trata das antigas regras da musica, 
e das doutrinas mais necessárias para a verdadeira intelligencia 
do canto de estante etc. ; consta de II-47 pag., e traz no fim um 
mappa com os signaes e indicações relativas aos principios da 
musica e que elle intitula: Epilogo enigmático e indicativo do 
primeiro discurso do compendio sttmmario, etc. 

Publicou-se um resumo doesta obra com o titulo: 

Nova Arte e breve compendio de Musica para lição dos prin- 
cipiantes, extrahida do livro que se intitula: Nova Instrucção 
musical, ou Theorica practica da Musica rhytmica; dedicada 
ao III."^ e Exc.'^'' Snr. Thomé José de Sousa Coutinho CasteUo- 
Branco e Menezes, etc, por seu amigo F. L S., Lisboa, 1768, 
in-4.^, na Officina de Miguel Manescal da Costa, Impressor do 
Santo Officio. 

Se é facto que esta obra foi prejudicada pelas que apparece- 
ram depois, tanto nacionaes como estrangeiras ^ se hqje o livro 
tem apenas um mérito histórico e archeologico para oom a iheo- 



os MÚSICOS P0RTUGUEZE8 185 

ria da Ârte^ é innegavel que prestou muitos serviços em seu tem- 
po e que foi muito applaudido por artistas de mérito^ portuguezes 
e estrangeiros. SSo testemunhas do que affirmamos; as numero- 
sas cartas que precedem a Nawi Instrução musieal, entre as 
quacB encontramos uma de D. Lucas Giovine, Mestre da Rainha 
etc.y outra de D. António Tedeschi^ doutissimo professor musico 
de S. M. F. na Capella real de Nossa Senhora da Ajuda ; outra 
de D. José de Porcaris, Musico Contrapontista e Mestre da Ba- 
silica patriarchal; outras de Passo-Vedro, de Henrique da Silva 
NegrSoy de Mixilim, de JoSo Cordeiro da Silva, de Luciano Xa- 
vier dos Santos, de José da Silva Reis, de um anonjmo (a melhor, 
e muito extensa) ; e emfim a mais importante, a de David Perez 
que transcrevemos em seguida: 

cSignore Francesco Ignasio Solano.» 

cD giomo 11. dei passato mesi di Giugno, di questo corren- 
te anno 1763. mi fá portata una dl lei stimatissima carta, con un 
libro Bcritto a mano, intitolato {Nuova Istruzzione Mwncale, etc.) 
e come dalla di lei carta osservo che penza questa sua virtuosa 
Fatiga metterla alie stampe, perciá ne abilita ancore il debbole 
mio talento á dame (unito agFaltri degni Professori da lei scelti) 
il sentimento ed approvazione* 

c£ come lei mi scrive, e dimostra nella sua Opera, che il 
Método communo alia (da mé respettabile) Nazione Portuguesa 
sia il solfeggiare le chiave di transporto rigorosamente col Nome 
dove le soggetta la forza degl'accidenti, approvo, e maggiormente 
lodo U di lei virtuosa Fatiga, che rítrovandosi ; questo Método 
nel dare gli primi principíj di Musica alli scolari; Tabbia facili- 
tato, e sminuzzato, con tante ragíone, e chiari Esempj, che con- 
quetta Nuova Isiruztione, o Nuova Escuola spero ne otterrá il 
âne, per il quale lei á tanto virtuosamente travagliato per la sua 
Nazione Portuguesa; col vedere magiormente stabbilito il detto 
Ketodo di solfeggiare e facilitate tutte le dijfficoltá, che ogni prin- 



186 OS MÚSICOS PORTUGDEZES 

cipiante di Musica potrebbe incontrare^ per arrivare ad esaeie 
(come lei Nota) un perfetto Solfista. 

Pertanto io spero será gradita, e desiderata la di lei Opera 
virtaoBamente travagliata ad utite commuDe delle studioai, e 
Principianti di Musica; ed io tutto core lo desidero, e con ogni 
affietto di vera estima mi dioo 

Devotissimo ed ubidientissimo servidore 

David Perez. 

Dair Ágiuta; a pié dei Real Palazzo. Li 29. Agosto 1763.i 

Todas estas cartas tecem os maiores elogios á obra de So- 
lano, recommendando-a como um livro útil e necessário, des- 
tinado a dar uma nova face ao methodo de ensino. Parece-nos 
também impossivel, que todos aquelles homens, alguns dos 
quaes, de reconhecido mérito e talento, e completamente in- 
dependentes, fossem elogiar a una você uma obra que danais, ia 
dar uma direcçHo nova ao ensino e por isso mesmo mais trabalho 
aos professores sem que ella tivesse, para a época, um verdadei- 
ro mérito. 

Parece-nos esta concordância um indicio daro de que a 
obra prestou em tempos, bons e valiosos serviços, e por isso era 
julgada favoravelmente por professores e discipulos, 

2.) Novo tratado de manca métrica, e rhytmica, o qual en- 
sina a acompanhar no Cravo, Órgão, ou outro qualquer Instru- 
mento, em que se possam regular todas as Espécies, de queie 
compSe a Harmonia da mesma Musica. Lisboa, na Regia Officijia 
Typographica, 1779, in-4.** de xvi-301 pag. 

3.) Exame instructivo sobre a musica multiforme, métrica, 
e rhytmica, no qual se pergunta e dá resposta de muitas couta» 
interessantes para o Solfejo, Contraponto e Composição: ses» 
termos privativos. Regras e Preceitos, segundo a melhor Prae- 
tica e verdadeira Theorica. Offerecido a S. A. R. o Senhor 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 187 

Z>. João VI, prifictpe do BraziL Lisboa, na Regia OíBcina Ty- 
pographica, 1790, in-8.^ peq. de xx-289 pag. Erratas. 

4.) Dissertcição sobre o caracter, qualidades e antiguidade 
da Musica, em obsequio do admirável Mysterio da Immacvlada 
Conceição de Maria Sanctissima, Nossa Senhora, recitado no 
dia 24 de Dezembro de 1779 para effeito de abrir, e estabele- 
cer n*esta Corte huma Aula de Musica Theorica, e Practica, Lis- 
boa, na Regia Officina Typographica, 1780, in-4.^ de 27 pag. 

Este discurso está recheado das fabulas mais absurdas so- 
bre os effeitos da musica antiga e moderna, e envolvido n'um 
veo obscuro de metaphysica intrincada, misturando-se n^elle o 
mysticismo e a credulidade religiosa com as ideias materialistas 
do paganismo. O author revela tanto aqui, como nos seus outros 
livros, uma vasta erudiç2lo, mostrando-se conhecedor das boas 
obras que havia ent2o sobre a Arte; todavia esta vantagem nfto 
resgata a má impressSo de tanta cousa obscura e pueril. 

5.) Vindicio do Tono» Exame das regras do canto ecdc' 
êiastico (cantochSo). Lisboa, ibid. 1793, in-4.^ de 50 pag. Este 
opúsculo foi publicado com as iniciaes F. I. S. do Valle, e é uma 
refutação de outro de Fr. José do Espirito-Santo Monte, intitu- 
lado: Vindieias do Tritono, 



(a) N2o sabemos como Fétís pôde concluir do titulo da Nova Ins- 
trueção vamcal^ que o author tinha já fallecido em 1764 ? 

(b) Principioê de musica, prologo. 

(c) Biogr, Univ. Vol viii, pag. 59. 

(d) Mnemoêine htsitana, YoL ii, pag. 181. 

SOUZA (Joaé Joaquim de) — Compositor de musica sacra do 
principio d'este século, mas já fallecido. Entre as suas composi- 
çSes merece ser citado um Stabat Mater, talvez a sua melhor obra. 

SOUZA (Fr. Plácido de) — Pertenceu á familia dos Marque- 
zea daa Minas ; foi professor de musica em Lisboa, no meado do 
século XVII e Mestre do nosso compositor Y. José da Costa. 



188 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE3 



T 



THALESIO (Pedro) — Primeiro Mestre de Capella na Citthe- 
dral de Granada, depois Lente de Musica na Universidade de 
Coimbra por provisão de 19 de Janeiro de 1613 (a). Attribue- 
se-lhe a fundaçSo da Irmandade de Santa Cecilia e cabe-lhe tam- 
bém o mérito de ter, quando nao introduzido, ao menos melho- 
rado muitissimo a execução dos coros na musica sacra. Antes 
da sua nomeação para a cadeira da Universidade, tinha sido 
Mestre de Capella na Cathedral da Guarda, no tempo do Bispo 
D. Affonso Furtado de Mendonça, que o tinha nomeado para 
este logar e cremunerado com avantajados prémios e salariosi, 
como diz o author. (b) Foi este mesmo prelado que, protegendo-o 
sempre, lhe alcançou a sua nomeação para a cadeira da Univer- 
sidade, quando foi transferido do Bispado da Guarda para a sede 
episcopal de Coimbra, 

Dissemos acima que se attribue a Pedro Thalesio a funda- 
ção da L*mandade de Santa Cecilia; e a este respeito apresenta- 
mos aqui alguns documentos, que não deixarão de ter algum in- 
teresse; conjunctamente com os primeiros, mencionaremos outros 
para provar que o nosso artista esteve durante bastante tempo na 
capital, onde exerceu o logar de Mestre de Capella, no Hospital 
real de todos os Santos. 

A estes documentos pertencem oç seguintes : 

DOCUMENTO N.** 1 

Assento qiie a mesa fez sobre o mestre da Capella 

«Aos 30 de Junho na mesa do despacho da Misericórdia, 
sendo presente o sr. provedor e irmãos da mesa, tratando como es- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 189 

tava vago mestre da capella do hospital^ e considerando as par- 
tes que se requerem para eate cargo, o sr. provedor disse que 
sua alteza lhe dissera que tinha muita satisfaçSlo de Pedro Tha- 
Icsioy e que n'el]e concorriam as partes necessárias ao dito cargo, 
assim por seu saber como sua virtude, assentou a mesa tomal-o 
por Mestre da capella do dito hospital, com o ordenado que to- 
dos 06 que tiveram este cargo até ao presente, como se verá nos 
livros da fazenda, aonde mandam que se faça este assento no dito 
dia de junho de 93 (1593) Manoel Pinto LeitSo etc. 

Verba á margem 

«A 2 de Junho de 94 (1594) fez a mesa mercê ao mestre da 
capella de 4|000 reis, cm logar da cama que havia de haver; e 
nSo haverá d'aqui em diante roupa nem cousa alguma por ella.» 

DOCUMENTO 3T.*^ 2 

Trculado de uma petiço que o mestre da capella fez, com um 

despacho da mesa, 

cDiz o mestre da capella d'este hospital, que por mandado 
de V. s** e mais srs. despejou as casas em que viveu até agora, 
e tem buscado outras, das quaes paga vinte mil reis, portanto 
pede a v. s.* e mercês, visto ser elle desacommodado das em 
que morava, lhe mandem pagar as que tem alugado no dito 
preço. E. K. M.» 

Despacho 

cOffereça o supplicante o traslado do assento que se com 
ellc tomou quando o tomar«nm por mestre de capella. Hoje 28 de 
novembro de 96 annos (1596). O provedor Francisco de Al- 
meida. » 



190 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

DOCUMEKTO K.' 3 

Troêlado do as^nto do Mestre da capella do Urro 
da deêpeza do anno de 93. 

cPedro Thalesio tem de ordenado 60 alqneires de trigo e 
vinte mil reis em dinheiro^ sendo 16^000 reis de ordenado e 
4^000 reis para um moço, e três qnartos de carneiro pelas fes- 
tas, e um alqueire de gr3o8, e a casa da escola que está na va- 
randa dos padres (os capellSes do hospital) e cama. 

Trará certidSo dos mordomos da capella como cumpre in- 
teiramente sua obrigação. Tem mais outra verba em outro livro 
de Francisco de Almeida sendo escrívSo, como receberá 4|000 
reis pela cama que lhe haviam de dar. Hoje 28 de novembro de 
96, Luís de Figueiredo. 

Despacho 

c A mesa ha por bem que se dêem ao supplicante cada anno 
10$000 reis para ajuda das casas em que ha de viver, havendo 
respeito a que se lhe tomarem as em que vivia, por nSo serem 
ordenadas ao mestre da capella, e as que lhe estavam ordenadas 
estarem na varanda dos clérigos onde o supplicante não podia 
pousar por ser casado. Hoje 29 de novembro de 96 (1596). 
E este despacho se rejeitará etc.» 

Pedro Thalesio devia ter abandonado o seu lugar de 1599 
a 1600, porque então já nSo se encontra noticia d'elle no archivo 
do Hospital de S. José dWde estas foram tiradas; succedeu-lhe 
o ?.• Simão dos Anjos de quem já falíamos no 1.^ volume. 

E natural que Thalesio se retirasse para a provincia, talvez 
chamado pelo Bispo da Guarda com quem podia ter travado re- 
laçSes em Lisboa. D'ali seguiu o prelado para Coimbra. 

Estes documentos são interessantes no que dizem respeito á 
situação material do Mestre da Capella, que não era nada mes* 
quinha^ se attendermos ás necessidades da época. 



os MÚSICOS PORTUQUEZES 191 

A admissSo de Pedro Thalesio como Mestre da Capella do 
Hospital^ prova que a promoção para este logar era feita sem 
escolha de nacionalidade porque parece que Thalesio era na rea- 
lidade hespanholy verificando-se assim a reciprocidade das rela- 
ç8es artísticas entre Portugal e Hespanha. No século xvi e xvii 
foi este ultimo paiz inundado^ na força da palavra^ por uma le- 
giSo de músicos portuguezes ; (c) a nossa visinha retribuía po- 
rém de uma maneira muito limitada este movimento artístico, 
e se algum artista hespanhol pizou no intervallo d'esses dois sé- 
culos o solo portuguezy para occupar algum logar importante, foi 
(como no caso de Thalesio) patrocinado por algum alto personagem 
a quem acompanhava. Podia ainda ser que Thalesio fosse algum 
d^esses portuguezes, que iam para Hespanha grangear fama e 
fortuna com os seus talentos e que voltavam depois á pátria, 
cheios de gloria e com um nome brilhante, para sollicitarem um 
logar digno dos seus nomes. 

Alem das noticias relativas á situação do artista, que se en- 
contram nos documentos citados, ha as outras, nSo menos inte- 
ressantes, que espelham os costumes da época; por exemplo a cir- 
cumstancia do artista n3Lo poder pousar na Varanda dos padres 
por ser casado, indica quSo profundas estavam ainda arreiga- 
das essas formalidades religiosas, filhas apenas de um fanatismo 
estúpido; em quanto se fazia questão de cousas tão insigni- 
ficantes, emquanto se discutia a inc9mpatibilidade de semelhan- 
te posiçSo, perante escrúpulos santíssimos, perdia-se o clero n'uma 
vida devassa dando os mais funestos exemplos ! 

Vejamos agora a segunda serie de documentos, relativa á 
Historia da Irmandade de Santa Cecilia. 

Os primeiros vestígios certos que apparecem, é em 1702, e 
conhecem-se por uma collecçllo completa de vilhanicos, que se 
cantaram nas Matinas festivas da padroeira da irmandade, 
a 22 de Novembro; esta collecçSo que abrange um longo inter- 
vallo de 1702 a 1722, sem interrupção, está quasi toda escripta 
cm hespanhol, menos o Vilhancico 8.^ do ^J^ Nocturno do anno 



192 OS MÚSICOS POBTUGUEZES 

de 1704; todos os outros cantados n'este mesmo anno, sio aindi 
escriptos em hespanhol. 

Temos fallado n'esta obra, já tantas vezes de Vilhancieoi, 
que nSo será desagradável ao leitor, ter pelo menos conhecimento 
da forma poética d este género de composição sacra, já que in- 
felizmente não podemos acompanhar o verso com a musica cor- 
respondente. 

Ft^nctco (c) 

1.® HOCTURNO 



1. — Quea ay de nuevo ? 
2. — Grandes cosas, 

que a um Niâo con naevas leyes 

se humillan três Kejes 
1. — Quien puede ser esse Infante 

que asai sus fuerças oprime? 
2. — £b Leon, aooque agora gime 

y es grande la nuuravilla, 

ai ver que un Leon se humilla 

a ser Cordero llamado, 

y en on superior bocado 

unir su Deidad ai horobre. 

1. — No es macho que tal renombre 
le dcn, pues sabe rendir 

2. — Venga pues, venga cl Abril 
cl Mayo venga, 

y para su corona flores prèvenga. 



Coplas 

£1 que cn campaiia de luscs 
las kucstes venciô alevosas 
oy se ha vcnido a las manos 
Ucno de paz, y de gloria. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 193 



£1 qne a los paizes baxos 
de la ticrra baxò agora, 
a despertar cl amor, 
que durmido hallò entre aombraa. 



Eis um pequeno dialogo e duas eoplas de uns Vilhaneicos 
.que se cantaram na capella d'El-Rei D. JoSo iv, nas Matinas da 
Festa dos Reis em 1655. Por este pequeno trecho se pode fazer 
já uma ideia da forma litteraria do Vilhancico, posto que essa 
forma vario nos séculos seguintes e fosse differente nos séculos 
anteriores. 

KSo é aqui o logar de indicarmos essas differenças e a nos- 
sa inteução era apenas, dar por meio doeste extracto, uma ideia 
da ingenuidade c do sentimento poético d'estas producçSes po- 
pulares. 

Da collecçSo de 1702, apresentamos o seguinte verso: 



A liçSo do amor divino 
Bem pódc em solfa caber 

Donde bâode ver 
Tudo em la para subir 
Nada em mi para descer. 



N'este exemplo já se revela o pedantíêmo do poeta ou do 
compositor, ou mesmo de ambos, que substituíram á ingenuidade 
do povo, á expressSo verdadeira e franca, ao perfume agreste 
d'essa poesia original, a vaidade do sàbichào e o seu calculo, 
frio de todo o sentimento e de toda a verdade ; o satantitmõ 
pretendeu avassalar tudo ao seu dominio, cnfeitando-se com es- 
sas flores mimosas do sentimento popular, como a %'elha mirrada 
e seca, que pretende disfarçar as rugas já sensiveis e numerosas, 
debaixo dos arrebiques de uma donzella. 

O Vilhancico foi um producto espontâneo e característico do 
sentimento popular, que era o único poeta capaz de fazer os ver- 
sos e de crear a musica para elles. Os compositores que quize- 
ram aproveitar esta veia artística, foram inspirar-se directamèn- 

i3 



194 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

te dos sentimentos do povo e nSo procuraram a realisaçSo das 
suas ideias, nos estreitos moldes do calculo musical. 

Depois de feita esta pequena excursSo, voltemos ao nosso 
propósito* 

Por este Vilhancico, tirado da coUecçSo de 1702, fica pois 
determinada com seg^urança, a existência da Irmandade de Santa 
Cecilia; esta era a principio, composta unicamente de cantores, e 
talvez compositores e um ou outro raro instrumentista; as orches- 
tras nSo começaram a apparecer, senXo com a introducçZo da 
Opera, porque antes d'este género de composiçSo, n3o havia ne- 
nhum que as oocupasse por pequenas que ellas fossem. 

As composiçSes eram escriptas só para as vozes, acompa- 
nhadas geralmente pelo orgiKo, e este auxiliado por um ou outro 
instrumento a êolo, tirado do quartetto ou por algum antigo ins- 
trumento de metal (Trompas ou Trombetas). 

Depois da introducçSo da Opera, devia a arte instrumental 
ter-se desenvolvido singularmente e causado por isso graves pre- 
juízos ás regalias da irmandade, pois em 1760 requereu ella: que 
todo» oê muMicoê fossem obrigados a pertencer á irmandade, e 
esta, no alvará de 15 de Novembro do mesmo anno que deferia 
a sua supplica, vem designada com o titulo : Irmandade de Santa 
Cecilia do» cantores da corte. 

O provedor e mais irmXos allegavam, que a irmandade ei- 
tava nmito decadente, e que exercitavam a arte muitas pessoas, 
que nSo só nSo eram professores, senSo que nada sabiam de mu- 
sica. El-Bei D. José satisfez a petição, e ordenou que ninguém 
podesse exercer a arte ou por estipendio em dinheiro ou em gé- 
neros, .ou mesmo por presentes, sem ser professor e irml&o de 
Santa Cecilia, e quem desobedecesse a esta ordem seria multado 
em 12|000 réis, pagos da cadeia, sendo metade para a irman- 
dade e metade para o hospital. 

Este favor real foi renovado por alvará de 27 de Janeiro de 
1766 porque, segundo a allegaçXo do requerimento, o primeiro 
original tinha desapparccido com o terremoto ; houve porém uma 
alteraçSo que excluiu a clausula do provedor ser nobre e que 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 195 

para admissZo dos irmãos se formassem artigos de pureza de 
sangue. A ordem de D. José cumpriu-se e até se facilitou a en- 
tradai dando-se licença e admittindo-se lettrados, médicos e ci- 
rurgiSes. Os irmSos pagavam 2|400 réis de jóia e 960 réis de 
atmual. 

Logo depois do terremoto, estabeleceu-se a irmandade na 
fireguezia dos Marlyres. 

Bem desejávamos dar mais noticias e mais completas doesta 
curiosa instituição musical que teve a felicidade de atravessar 
tantos séculos até aos nossos dias, porém nem sempre os resul- 
tados compensam o trabalho emprehendido, * por isso contente- 
mo-nos até melhor occasiilo. 

Voltamos á biographia de Pedro Thalesio. Á sua nomeação 
para a Cadeira de Musica em Coimbra, trazia comsigo a ne- 
cessidade de um systema de ensino mais completo, e por isso tra- 
tou Thalesio de dar ás suas theorías musicaes uma forma mais 
duradoura e assim publicou o seguinte livro: 

Arte de Canto Chão com huma breve tnstrttcção para os Sa- 
cerdotes, Diáconos, Subdiaconos & moços do Coro, conforme ao 
uso Romano. Coimbra, 1617, in-é."* de?-136. 

Obteve segunda edição: 

. . .Agora nesta segunda impressão novamente emendada & 
aperfeiçoada peUo mesmo Autor. Dirigida ao lUustrissimo & 
Reveredissimo Senhor Dd Affonso Furtado de Mendonça, Arce- 
bispo de Lisboa ék Governador deste Reyno de Portugal; sendo 
Bispo de Coimbra, etc. Em Coimbra, Na Impressão de Diogo 
Oomes de Loureiro. Anno 1628, in-4.^ de xii-136 pag. 

Thalesio tinha outros trabalhos entre mãos que infelizmen- 
te nSo appareceram; a elles se refere a seguinte passagem da 
sua Arte de Cantochão. (Dedicatória.) cE com o favor de V. S. 
lUustrissima hirão saindo a luz outras obras de mais considera- 
ção, que trago entre mãos.» 

O author repete esta promessa na pagina t Ao benévolo e pio 
Leitor:» E se entender, que doeste pequeno trabalho, lhes resulta 



196 OS MÚSICOS PORTUGUEZES » 

■ 

utilidade à Republica; se me accrescentarà o animo, deprosegiiir 
cousas maiores, que determino, com o &Yor de Deus tirar a luz.» 

Ainda no cap. l, pag. 1 da Arte, diz: cAssi seguirejaquios 
que me parecerem mais necessários pêra a intelligencia do Can- 
to chSo ; deixando de tratar do Canto, & Musica universal ; da soa 
origen & antiguidade ; da sua diffiniçSo & divisão ; de seus effeitos, 
& utilidades; da difPereça de Cantor, & Musico porq de tudo hço 
menção larga noutro CSpendio d^arte do Cato d'orgSo, cStraponto, 
cSposiçiKo, & outras curiosidades da Musica, que tenho entre 
mJlos.» 

Ignoramos as razSes porque os outros livros de Thalesio nÍo 
sahirara á luz, mas parece que o obstáculo que impediu a publi- 
cação da Arte de Canto de Órgão, foi a falta de caracteres (pro- 
vavelmente musicaes) para a impressão. 

£ para lastimar esta infelicidade, porque esses livros ha- 
viam de revelar qualidades talvez ainda superiores á Arte de 
Cantochão; não podemos deixar de louvar esta ultima obra, que 
revela um saber solido, diremos até muita erudição e que está 
escripta com bastante clareza, cousa em que contrasta singular- 
mente com muitas obras theoricas d'essc tempo, tanto nacionaes, 
como estrangeiras em que, òra uma erudição mal digerida, ora 
uma falta de critica e de methodo, enredava a sciencia &'um 
labyrintho de tkeorias, sem principio nem fim. 

Pedro Thalesio mostra estar ao facto de tudo o que se sa- 
bia no seu tempo, citando e aproveitando o que se tinha escripto 
até então, de melhor em Portugal e no estrangeiro. Entre os nos- 
sos theoricos figuram: António Carreira, Domingos Marcos Du- 
rão, João Dias, João Martins, Fr. Estevão de Christo, Felippe 
de Magalhães e Vicente- Lusitano; entre os estrangeiros, notam-se 
os mais sábios e notáveis authores; os espanhoes: Bermudo,Cbrí8- 
tobal de Morales, Francisco Tovar, Montanos, Salinas, Bisear- 
gui, Tapia Numantino, Miguel de Torres, Monserrate, D. Luiz 
Milan, além doestes encontramos: Stophano Vaneo, João de Mu- 
ro, (Jean de Muris) Cerone, Pietro Aaron, Nicolau Vicentino, 
Zarlino, Gafprí (Margarita Philosophicí) Zacconi, Artusi, Goi^o 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 197 

d'Ârezzo, Olaréan, Tinctor, Tigrini, Spataro, Papius (De Paep) 
etc. etc. Entre os antigos, notam-se citados : Aristóteles, Boêcio, 
Euclides, Ârístoxeno, S* Agostinho, S, Isidoro e outros* 

Como se vê, os seus conhecimentos firmavam-se em solidas 



(a) O Cardeal Saraiva (LUta, pag. 49) traz a data : 12 de Novembro; 
diz também que Thalesio fora medico (?) do Cardeal Alberto e Mestre de 
Capella do Hospital real de Todos os Santos em Lisboa, o que é verdade, 
como veremos. 



(hS Arte de Canto Chão, Dedicatória, pag. iv. 



(c) £8te facto notabilissimo encontra a sua prova nas biographias de 
muitos artistas que figuram n*esta obra. 

Vejam*se por exemplo as do Fr. Affonso de Palma, Gregório Silvestre, 
Manoel Corrêa, Jo2o Gonçalves, Manoel Leitão de Avilez, Fr. Francisco 
Baptista, Manoel Tavares, Nicolau Tavares, Affonso Vaz da Costa, Fran- 
cisco Corrêa de Araújo, Fr. Francisco de Santiago, Estevão de Brito, Fr. 
Manoel Cardoso, Fr. Felipe da Cruz, Jofto Mendes Monteiro, Manoel Ma- 
cedo, etc., etc. 

Deixamos para mais tarde o desenvolvimento que este assumpto me- 
rece pela SUA grande importância. Que a nossa Arte teve uma Historia 
brilhante, cujo ponto culminante se fixa nos séculos zvi e xvn, é o que nin- 
guém, salvo duas ou três excepções, sabia em Portugal; mas o que ninguém 
sonhou sequer até hoje, é que a arte portugueza tivesse tido uma tal exube- 
rância de seiva e de vida artística, que apenas uma parte (Telíaj fosse suf- 
ficiente para alimentar vigorosamente o sentimento esthetico de uma naçfto 
quatro ou cinco vezes maior, como era a espanhola I 

(d) Vilhancieoê aue 9e cantarão na Capella do mvyio Alto és muyto 
Poderoêo Bey Dom João o IV» N» S. Nat Matinas da Petta doê Reys do 
anmo de 1655» Lisboa, com todas as licenças. Na Officina Craesbeduana. 
Anno 16^. 



TAVARES (Manoel) — Discípulo de António Ferro. Chantre 
da Capella de D. JoSo iií e mais tarde Mestre das Cathedraes de 
Caenca (Castella-a- Velha) e Murcia, (Valência) onde morreu. Ti- 
nha nascido em Portalegre em 1625. 

Deixou as seguintes composiçSes que se encontravam antea 
.do desastre de 1755 na Bibliotheca real de Lisboa. 

\.) 4 Magnificas. 

2.) Veni in bortum meum a 8 vozes, Motete a Nossa Se- 
nhora. 

3.) Tota pulchra est : Motete a 7 vozes. Estante 35; N.^ 794. 

4.) Lauiate Dominum in Sanctis ejus a 8 vozes. 



19i8 OS MÚSICOS PORTUaUEZES 

5.) Pastorei loquebaniur aã invicem a 6 vozes. 

6.) Dixit Dominus a 10 vozes, do primeiro tom. 

7.) Idem a 14 vozes, do oitavo tom, 

8.) Beatus Vir a 12 vozes, do segundo tom. 

9.) Lauda Hierusalem a 8 e a 12 vozes, do sexto tom. 

■ _ 

10.) Loetatus sum a 12 vozes, do sexto tom. 
11.) Laudate Dominum omneh gentes a 8 vozes, do oitavo tom, 
120 Tasdet animam meam a 8 vozes. 
13.) Regina coeli Imtare a 8 vozes. 
14.) Salve Regina a 8 vozes. 

As obras que mencionamos desde o numero 2 até 14, encon- 
travam-se na Estante 33, N."* 799. 

TAVARES (llanoel dos Reis) — Compositor e medico, natural 
de Santarém; foi filho de Gaspar dos Reis e Helena Jorge. Mor- 
reu a 25 de Dezembro de 1696, com 96 annos de edade. 

Compoz: 

1.) Psalmos a varias vozes. Ms. 

2.) Ladainha de Nossa Senhora a diversas vozes. Ms. 

TAVARES (Nicolau) -7- Natural de Portalegre e discípulo de 
Manoel Tavares. Foi Mestre de Capella em Cadix, e Cuenca, 
morrendo n'esta ultima cidade apenas com 25 annos. As suas 
composiçSes existiam na Bibliotheca d'El-Rei antes de 1755. 

TEIXEIRA (António) — Natural de Lisboa, e ahi nascido a 
14 de maio do 1707, de Manoel Teixeira e Vicencia da Silva. 
D. João V mandou-o a Roma com 9 annos de idade, para apren- 
der a theoria e a composiçSo. Voltando a 11 de Junho de 1728 a 
Lisboa, foi nomeado em premio da sua applicaçSo, L® Cantor da 
Patriarchal e Examinador Synodal de CantochSo em todo o pa- 
triarchado. Machado (a) diz que as suas composiçSes eram innu- 
meraveis (!) cita porém só as mais distinctas; são : 

1.) Te Deum laudamus a 20 vozes, com instrumentos; can- 
tou-sé na casa professa de S. Roque, a 31 de Dezembro de 1734, 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 199 

em acçSo de graças pelos beneficies recebidos n'aquelle anno ; a 
esta Bolenuiidade assistiu a familia real com toda a corte. 

2.) Te Deum laudamus a 4 vozes. 

3.) Psalmos, Offertorios, LamerUaçZes e Motetesa 4 e 8 vo- 
zes, com e sem instrumentos» 

4.) 7 Opercu a 6 vozes com orchestra; Machado (b) diz que 
se representaram com muito êxito. 

5.) Miserere a 8 vozes com orchestra. 

6.) Missa a 8 vozes. 

7.) Missa a 4 vozes. 

8.) Psalmos de Vésperas a 4 vozes, compostos para a Egre- 
ja de Santo António dos Portuguezesy em Roma. 

9.) Te Deum a 9 vozes. 

S) BUbl. Lusit. Vol. IV, pag. 61. 
^ ) Rid» Uk. eit, 

TELLES (P.*) — Compositor dbtincto no género das modi- 
nhas. Residia no Rio de Janeiro no principio do século xix. 

TELLES (Balthasar) — Lente de Musica na Universidade de 
Coimbra, por provisão de 2 de Novembro de 1549. E tudo o que 
d^elle sabemos. 

THIMORES (D. Thereia Raimonda de)— Senhora de talen- 
to que pertenceu ao principio do século xviii ; esteve recolhida no 
convento das Dominicas da villa de Abrantes. Alem dos seus 
vastos conhecimentos na Litteratura e na Poesia, cultivava as 
Bellas- Artes com felicidade; ena Musica, tocando e cantando com 
suavidade, e destreza innimitavel» (a) Morreu em 1730. 

(a) Rebéllo da Costa, Descripção topograph. t hist, do Porto, pag. 359. 

TODI (Luísa Rosa de Aguiar) — Saudemos respeitosamente 
este nome celebre que vem com o seu brilho espalhar uma luz 
esplendida pelos annaes da nossa historia artística. Hoje que a 



200 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Arte vegeUi tSo tristemente em Portugal, liguemos as nossas sjin- 
pathias por ella, a um nome que a illustrou e que é talvez a de^ 
radeira ancora da nossa tradição artistica. 

Laiza Rosa de Aguiar, eis o seu verdadeiro nome, que se 
encontra no Tartufo do Molière, representado no Theatro do 
Bairro*Alto, em 1768. 

O appellido Todi, provem do marido, Francisco Xavier Todi, 
italiano e violinista distincto. Começamos pois por desvanecer 
uma duvida que reina com relação aos seus nomes de baptismo e 
uma vez fixada a authenticidade do nome referido, temos de 
apontar como errados os que lhe attribuem Fétis, (a) Oer- 
ber, (b) Ledebuhr, (c) Choron e Fayolle; (d) o primeiro ecicri- 
ptor descobriu é verdade, em um libretto de uma opera cantada 
em Berlim, o nome Lutgia ou Luiza, todavia nem por isso dei- 
xou de escrever por cima do artigo que lhe dedicou, o nome : Ma- 
ria Francisca, 

A donfusSo que principia com os nomes, continua sempre 
nos seus differentes biographos ; trataremos entretanto de resta* 
belecer a verdade, segundo as nossas forças, confrontando e criti- 
cando as opiniSes desencontradas. 

Os biographos mencionados concordam todos em collocar o 
seu nascimento, pelos annos de 1748, em Setúbal* A sua educa- 
ção artistica foi dirigida por David Perez e nSo foi este certamen- 
te um dos pequenos serviços que o celebre compositor nos pres- 
tou, durante a larga carreira da sua actividade artistica. As 
suas primeiras estreias parece que tiveram legamos Theatrosda 
Rua dos Condes e do Bairro Alto, onde desempenhava os papeis 
de êoubrette, (e) n'essas peças comico-dramaticas, imitaçSes im- 
perfeitas da Opéra-coTtuque; Balbi menciona a propósito d'esta 
circumstancia uma irmã, chamada Cecília (f) que se distinguia 
particularmente na tragedia; sabemos ainda que além d'esta figu- 
raram ali ainda mais duas: Isabel e Iphigenia Aguiar; foi prova- 
velmente nas pequenas arioã, duettos e reeitativos, de que esses 
dramas e essas farças estavam enfeitadas, que se ouviu primeiro 
a vozi da jovcn cantora. Ignoramos se o seu talento se manifes- 



os MÚSICOS PORTUGXJEZES 201 

tou em outro local inais apropriado; é verdade que Fétis (g) o af- 
firma, dizendo: cLes succès qu^elle avait eus dès son début au 
Théâtre de Lisbonne la firent, etc.» 

Esta noticia que é muito vaga, porque nZo determina em 
que theatro cantou^ confirma-se na RevUta dos Espectáculo», que 
annunciaa sua estreia em Lisboa como um verdadeiro triumpho, 
valendo-lhe a sua escripturaçílo para Londres; o jornal nSo re- 
fere também o theatro em que appareceu pela primeira vez. £ 
comtndo provável que a Todi continuasse, a par doestes pequenos 
ensaios praeticos, os estudos sérios, começados com o seu mestre, 
porque em 1777 encontramol-a na Operado Londres. 

Segundo Gerber, Fétis e Ledebuhr que concordam todos 
ii'aquella data, parece que foi a primeira viagem que fez a In- 
glaterra; todavia Chorou e Fayolle (h) fiillam de outra, feita 
em 1772 e em Bumey (i) vamos encontrar quasi a confirmação 
d'esta noticia; diz o escriptor inglez: 

.... t As for Signora Todi, sho must have improved veiy 
much stnce she was in England, or we treated her very unwor- 
thily; for though her voice was thought te be feeble and seldom 
in tune while she was here, she has since been extremely admi- 
red in France, Spain, Rússia, and Germany, as a most touching 
and exquisite performer. > 

Esta citaçXo altamente preciosa, revela-nos duas circum- 
stancias até hoje ignoradas; primeiro, conclue-se que a canto- 
ra portugueza devia ter visitado a Inglaterra antes de 1777; 
ora, CQmo nlo é crivei que os authores do Dictionnaire his- 
tarique inventassem ad libitum, a data 1772, é provável que a 
primeira viagem se realisasse n'este anno; o segundo facto que 
se deduz da citação, é que a voz da cantora portugueza tinha me- 
lhorado sensivelmente desde a primeira visita a Londres, ou en- 
tSo diz Bumey, «nlo a tratamos condignamente». 

Emfim seja verídica ou falsa, a viagem de 1772, o que nSo 
merece duvida, é a sua presença em Londres, em 1777. 

Cantou n'esse anno na opera buffa: Le due Comtesse de 
Paêsielk), mas parece que n2o foi muito applaudida na execução. 



202 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Fétis pretende que a natureza da voz e o género do aeu talento, 
não condiziam com o estylo da opera buffa; Choron e Fayolle 
são da mesma opiniiKo; a esta circumstancia accrescenta Bumey 
08 defeitoB da sua voz, que o publico julgou fraca e pouco segara 
nas intonaçSes; emfim fosse uma ou outra razSo, o que écerto, é 
que a artista resolveu nik> se aventurar mais no género buffe, li- 
mitando-se á Opera séria. 

A sua voz era ent2o segundo Gerber, Ledebuhr, Choron e 
Fayolle e Schneider, contralto e segundo Fétis um mezzo-êoprano 
de timbre um pouco coberto, circumstancia esta, que talvez lhe 
valesse a primeira classificaçSo. De Londres partiu ainda no verSo 
de 1777 para Madrid onde se apresentou na Olimpiajde de Pae- 
siello, e depois em outras obras de compositores cont^nporaneos. 
Como era de esperar, nSo foi pequena a admiraçSo do publico 
madrileno que applaudiu com endiusiasmo a intrepretaçSo da 
bella Opera de Paêsiello. (j) 

Em seguida a estes triumphos, partiu para Paris onde che- 
gou em Outubro de 1778; foi na celebre sala do Conc^rt spiri- 
tuel que se apresentou ao publico e causou a mais viva êen- 
soçdo. (k) Estes triumphos e os outros não menos difficeis, con- 
quistados nos concertos da Rainha em Versailles, augmentaiam 
muito a sua reputaçSo e consagraram o seu talento. 

Assim recommendada, voltou a Lisboa no verSo de 1780 e 
ahi ficou escripturada por um anno; em Outubro de 1781 volta- 
va a Paris em virtude de um contracto, feito com os Directores 
do Conoert spirítuel. As ovaçSes redobraram de enthusiasmo; 
eis o que nos diz o Dietionnaire histortque a este respeito: 
c Vers 1780 elle parut au concert spirituel. EUe y fit une sensation 
prodigieuse, et obtint un succès qui, après ditférens voyages, n'a 
fait que se confirmer. L'aurore de la musique commençait à luire 
en France: nous avions entendu des virtuosos célebres, mais au- 
cun n'avait encore reuni au même point les qualités analogues au 
goútnaissant de la nation. Cest par Texpression surtout que ma- 
dame Todi sait nous plaire; cette expression, qui animait sa 
voix, san âme, sa figure, parut ne rien laisser en elle à desírer.» 



os MÚSICOS PORTDGUEZES 203 

Como 86 vêy o talento da artista tinha attingido o seu pleno 
desenvolvimento. 

Oerber confirma a apreciação antecedente, dizendo : «Pelos 
annoB de 1780 (deve ser 1781; durante a 2.* viagem) estava 
a artista em Paris, cantando no Concert spirituel, e foi ahi 
que fondon a sua gloria, rívalisahdo les beaux'-^êprits (schõnen 
Gkister) nos elogios que faziam aos seus talentos artísticos, 
espalhando assim a sua reputação por toda a Europa.» De- 
pois d'e8tes concertos, parece que se dirigiu a Berlin, apesar de 
Reichhardt (I) fixar esta primeira viagem um anno antes, em 
1780; cantou diante do celebre Frederico n em um concerto 
dado em Potsdam ; (m) como se sabe, o rei, era inimigo da mu- 
sica italiana moderna; disse-lhe: que sentia ouvil-a cantar uma 
tal Bierhatamusik (Musique de Cabaret) e mandou-lhe no dia 
seguinte algumas arías de Ghraun (n) e de Hasse, (o) obser- 
vando-lhe que lhe dava 14 dias para estudar essa musica mais 
séria e depois a ouviria novamente. Na segunda audição agra- 
dou, e o rei offereceu-lhe 2:000 thalers (7:500 francos); a can- 
tora julgou nZo dever aceitar menos de 3:000, que era a quan- 
tia que a celebre Mara tinha recebido e exigiu a coUocaçSo de 
seu marido, na orchestra. Frederico ii, provavelmente ainda de- 
baixo da impressão dos dissabores que a Mara e seu marido 
lhe tinham causado, (p) recusou e a artista partiu. As opiniSes 
divergem a respeito da cidade que visitou em seguida; é todavia 
mui provável que se dirigisse para o sul da Allemanha, (q) porque 
a 28 de Dezembro de 1781, encontramol-a em Vienna d' Áustria 
dando um grande concerto poucos dias depois da sua chegada; 
a festa foi no Theairo francez e sahiu explendida, assistindo 
todos os Principes da casa imperial e um extraordinário concur- 
so, attrahido pela fama do seu nome já então eelehre em vários 
paizes, segundo diz a noticia, (r) O Imperador distinguiu-se entre 
todos, applaudindo com enthusiasmõ. 

Deu ainda um segundo concerto, a 18 de Janeiro de 1782 
em que foi geralmente applaudida; «o seu merecimento, e ex- 
cellente voz lhe tem grangeado n'esta C6rte a benevolência, e 



204 OS MUSICfOS PORTUGUEZES 

agrado de todo o Publico. > (b) Em 1782 voltou de novo a Berlim 
e acceitou a oiFerta de 2:000 thalers, porém com a licença de re- 
sidir em Potsdam, que foi concedida ; entre a 8ua estreia na capital 
da Prússia, a 13 de Dezembro de 1783 e o anno em que assignon 
o contracto, (1782) medeia um longo intervallo que a Todi apro- 
veitou provavelmente para daf concertos nas differentes cidades 
da AUemanha, pois no primeiro de Janeiro de 1783, (t) já estava 
de novo em Vienna. 

Esta nossa supposiçSo confirma-se com as seguintes pala- 
vras de Qerber: dm Sommer des 1783 *^. Jahres kam sie nach 
Deutschland und Hmdtete in den Rhein und Mayngegenden, vo 
sie nur hin kam, reichlichen Beifiall ein, insbesondere wurde sie 
zu Carlsruhe, wo eben der QrossfUrst ziigegen war, kõniglich be- 
schenkt.» 

No dia do anno novo, cantava a artista portugueza du- 
rante um esplendido jantar dado em honra dos Qran-Duques 
da Rússia (que se achavam em Vienná com o incógnito : de Con- 
des do Norte) e do Duque Eugénio de Wurtemberg; a festa 
n2o foi menos brilhante pela riqueza e sumptuosidade dos vestuá- 
rios e das baixellas, do que pelo talento da artista, que foi muito 
applaudido. 

Segundo Fétis, estava na primavera de 1793 em Paris, can- 
tando novamente no Concert spirituel; foi entSo que se encontroa 
com a celebre Mara e que se estabeleceu entre as duas cantoras 
uma grande rivalidade artística. ()erber, Chorou e FayoUe, Ghfoss- 
heim (u) e Scudo, (v) fixam esta lucta em 1782, todavia segui- 
mos Fétis, porque parece ter tido indicaçSes importantes de Fa^ 
renc, a respeito das suas soirées no Concert spirituel. A lucta es- 
tabeleceu-se entre aa duas grandes artistas e entre o publico, di- 
vidido em dois partidos: os Todistas e MaratiãUu, como em ou- 
tros tempos, em G^2uc/(t«to«ePtcanÍ0to«; entretanto esta questSo 
differia da primeira, em que os dois partidos inimigos se limitavam 
apenas aos epigrammas c hon mots. A victoria ficou indecisa; 
ó esta a verdade, confirmada por testemunhos importantes ; cada 
uma das grandes cantoras foi admirada no seu género, como me- 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 205 

recia; a palisa do canto expressivo, ficou á poitugueza; a do can- 
to de bravura, á italiana. 

Convém aqui rectificar um erro importante commettido por 
Escudier (x) a respeito d'c8te duello; diz elle: cUn incident vint 
encore augmenter le bruit que les succès de madame Mara avaient 
Boulevé dans la capitale. Une cantatrice italienne (!) d'un grand 
talent, nommée madame Todi, lui disputa le premier rang. Les 
deux rivales étaient soutenues par deux puissantes cotcries, et la 
querelle des maratistes et des íodistei, n'est pas un des épisodes les 
moina curieux de la fin du dix-huitième siècle. Les chances fu- 
rent longtcmps égales ; mais en definitivo la victoire resta à ma- 
dame Mara, que sa méthode supérieure et son ontente profonde 
des eflfets dramatiques plaçaient bien au-dcssus de sarivale, dont 
lavoix très-exercée, très-agile, manquait complétement d^expres- 
sion.» 

Orossheim (7) biographo da Mara, refere também a victoria 
da artista allemS, dizendo:. . . creiste darauf (1782) nach Paris. — 
Dort war die bertthmte Todi bis jezt ais uniibertreffbar geprie- 
sen worden. Der bescheidenen Marabangte vor dem Glantzo, der 
die Nebenbuhlerin umgab. Die Joumalisten hatten sich im Lobe 
der walirhaften grossen Todi erchõpft. Nachdem aber die deut- 
sche Phiiomele am Hofe zu Versailles und in Paris selbst aufge- 
treten war, stcUte man si bald Jener an die Seite, já man gab 
ihr in Kurzem den Rang âbcr ihr.» 

V K'um jornal de musica, inglez, (z) em que vem a biograpliia 
da Mara, copiada do livro de Orossheim, encontra-se a reproduc- 
^ dVste erro: cOn her arrival in Paris, shc found the cclebra- 
ted Todi in possession of the public car, and srunk from the splcn- 
dour which surrounded hcr illustrious rival. But no sooner had 
she sung before the rojai family at Versailles, and appeared in 
public in Paris, that hcr rcputation was established. Shc soon roso 
to o levei with her rival and in a short time was ranked by the 
cognoscenti a degree above hcr.» 

A primeira doestas noticias, contem incxactidSes graves, das 
quaes uma se refere á victoria da Mara e a outra ás qualidades 



206 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

de cada uma das cantoras. Â seganda citaçSo de GroBsheim, errou 
também, por patriotismo, glorificando a artista allemS de omaTi- 
ctoria que como adiante veremos, ficou incerta. Exceptuando a 
parte que diz respeito a estes erros, nZo podemos deixar de sen- 
tir um justo orgulho pelas palavras de admiração e de elogio que 
se encontram dirigidas á nossa Todi, n^estas duas citaçSes, prin- 
cipalmente na de Qrossheim. Dissemos que a lucta ficara indecisa e 
assim o affirmam Fétis, Gerber, Choron e FayoUe, Scudo (aa) e 
Schneider. (bb) Entre estes, Gerber, que era allemSo, n2o hesi- 
tou em diser: «Es gereichte ihr daselbest nochzum besondem 
Ruhm, dass sie sich im Jahr 1782 an der Seite einer Mara in dem 
Besitze ihres Beyfalls hielt.» 

Emquanto ás qualidades de uma e outra artista, vem a se- 
guinte apreciação, tirada do Dictionnaire hiêtorique, confirmar o 
que atraz escrevemos; parece ter sido feita por testemunha ocu- 
lar, o que lhe dá um grande valor. 

cEn 1782, madame Todi, eut madame Mara pour rívale. 
La voix de la première était large, noble, sonore, interessante; 
elle était fort étendue au grave, et l'était assez à Taigu pour les 
airs qu'elle se permettait de chanter. La voix de madame Mara 
était brillante, légere et d'une facilite étonnante; son étendue 
dans le haut était fort extraordinaire, surtout par son extreme éga- 
lité. Madame Todi avait sur la voix, lorsqu'elle chantait la gran- 
de expression, un ccrtain voile qui la rendait encore plus tou- 
chante. Le timbre de la voix de madame Mara était très-éclatant, 
très-pur, il ébraniait toutes les fibrcs de ceux qui Tentendaient. 
La voix de madame Todi était plus/at?<>raU6 à Vexpressian, qu'à 
la bravoure; mais son art savait tout vaincre et elle fiiisait des 
passages très-dífficiles avec beaucoup d'habiiité. Le genre le plus 
familier à madame Mara, était la bravoure; mais comme elle 
avait beaucoup d'âme et d^intelligence, elle chantait les rondcanx 
et les airs d'expression avec beaucoup de grace et de sensibílité. 
II est à rcmarquer que c'est par un air rempli de passages : A mo- 
rir se mi coiidania de Paêsiello, que madame Todi a d'abord éta- 
bli sa róputation en France ; et que madame Mara a constatóe 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 207 

la sienne par le rondeau d^expression de Naumaun (cc), 2\« m' in- 
tendi. 

Esta ultima circumstancia explica talvez, o erro de Escudier; 
e note-se bem, que se a noticia antecedente l^e concede a facul- 
dade expressiva, é apenas no rondeau; era uma expressSo ligei- 
ra que estava muito longe de exercer os effeitos profundos do can- 
to pathetico da nossa Todi. Entre a sensibilidade, e a expressão 
havia entSo e hoje, certamente a mesma diíFerença. Se nSo bas- 
tasse a dtaçik) antecedente, referiamos outra de Scudo, que repe- 
te pouco mais ou menos, a ideia da primeira: 

cArrivée à Paris en 1782, madame Mara y rencontra la To- 
di, cantatrice d'un mérite différent, qui possédait les faveurs du 
public. La lutte qui s'engagea alors entre ces deux virtuoses cé- 
lebres divisa les amateurs en deuxcamps ennemis qui se comba- 
tirent par des épigrammes et des bons mots, La Mara charmait 
les uns par les prodiges de sa vocalisation, par Fétendue et Téga- 
lité de sa voix; la Todi par la vérité de ses accents.-à 

Mais abaixo lemos: 

La Mara était une cantatrice de bravoure dans le genre de 
la Gabrielli et de la Catalani. 

cSon expression manquait de profondeur. EUe efUeurait la 
passion, et glissait sur les cordes pathétiques comme un oiseau 
léger.» 

Insistimos n'estas citaçSes, nSo só para desvanecer os erros 
mencionados, mas também, para dar uma ideia do enthusiasmo 
e da admiração sem limites, que cercava a nossa illustre cantora 
de uma coroa gloriosa. 

A maneira como o triumpho foi justamente dividido, nao 
devia lisongcar muito a Mara. Preferíamos ouvir a ária de Hasse 
Se tutti { medi miei, cantada pela Mingotti, e em que ella arran- 
cou lagrimas á Europa inteira — d execução embora perfeita de 
todas as arías de bravura da Cuzzoni e da Mara. Na nossa opi- 
nião, consideramos o talento que por meio do sentimento profiindo 
se eleva ás alturas sublimes do pathetico, superior cm valia, á 
habilidade natural ou adquirida que se manifesta nas vocalisaçSes 



208 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

embora mais prodigiosas. Esta qualidade póde-nos deixar admi- 
rados, maravilhados mesmo; mas nSo nos commove, nSo descei 
nossa alma a vibrar sympathicamente as cordas mais sensiveis 
do nosso coração. O talento no primeiro caso, eleva-se ás alturas 
do Génio, a habilidade no segundo, nunca attinge mais longe do 
que á altura do talento. 

Depois doeste curioso duello artisticO| dirigiu-se a Todi a Ber- 
lim onde se estrelou, segundo Gerber, no outono, e segundo Le- 
debuhr, em Dezembro de 1783, o que é mais certo. Ás primeiras 
operas que cantou, foi Alessandra e Poro de Graun e Lúcio Pch 
pirio de Hasse (dd). A acreditai*mos o que nos diz Ludwig Schnei- 
der, nilo foi bem recebida em Berlim, nHo egualando sequer a 
Eichner (ee). Gerber diz-nos a respeito d*esta estreia : que os ber- 
linenses lhe prodigalisaram menos elogios do que os habitantes 
das outras cidades da AUemanha, onde fôra ouvida. Parece que 
lhe notaram desigualdades e um arrastar na voz ; nSo gostaram 
da maneira como cantava o recitativo áfranceza, nem da for* 
ça excessiva do seu canto (Schreyen, berrar!) e da sua mimica 
affcctada. 

Também infelizmente foi muito mal ajudada nas duas Ope- 
ras; Conciliani, (íf) estava constipado, cantando apenas 5 vezes em 
logar de 10, quasi inipei-ceptivelmente e mal. Os outros artistas (no 
Alessandro e Poro; eram: Eichner, Grassi e Paolino; no Lúcio 
Papirio, além doestes: Tosoni c Coli) parece que nSo foram tam- 
bém felizes. 

A Musica das duas Operas não podia salvar a situação, pois 
segundo um critico do tempo: cA primeira, era a jpeor entre as 
operas de Graun e a segunda estava longe de ser a melhor de 
Hassc.» 

As circumstancias fataes da má musica, do auxilio insuffi- 
ciente dos seus eollegas e as qualidades peculiares da nossa artis- 
ta, não permittiram que ella se mostrasse na luz mais vantajosa. 

Gerber não se esqueceu de referir a impressão desagra- 
dável que o seu metliodo mixto, combinado pelo francez e italia- 
no, produziu no auditório. Frederico u era, como dissemos um 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 209 

melomanOy (gg) que tinha o mau gosto de qualificar a bella mu- 
aica 4e Piccini^ Sacchinii PaSsiello, Cimarosa. • • ! ! de Bierhauê" 
musik, termo próprio de um militar; na sua oOrte que seguia 
eserupvlosamenie o gosto artistico do velho Fritz, reinava um 
exclusivismo ridiculo^ que admittia como o nec plus ultra do 
bello, as operas de Hasse e de Graun e os seus concertos de 
flauta^ feitos ad hoc para o illustre guerreiro. Já se vê, que um 
auditório d'estes^ nSo havia de sjmpathisar com o methodo de can« 
to da Todi; e as suas qualidades tao admiradas em Hespanha, na 
França e no resto da Allemanha, haviam de encontrar um publi- 
co tXomal educado^ artisticamente fallaudo, — indifferente^ quan- 
do nSo hostil. 

Demais, reinava entSo em Berlim uma grande animosi- 
dade contra a antiga Opera, animosidade que vinha de longe; 
os críticos romperam por este tempo as hostilidades, e no Ifu- 
êikaliêcher Magaiztn de 1784, (pag. 75) publicado em Hambur- 
go, appareceu uma violenta diatribe, que pintava o triste estado 
artístico da Opera italiana, nSo obstante a presença da Todi, tSo 
applaudida na França e na Inglaterra. 

Todos estes successos desagradaram i artista portuguesa e 
como a Todi pedisse entZo uma gratificaçSo, pedido justificado 
pela ciroumstancia de ter o rei exigido (n^esse tempo ainda man- 
davam; 10 annos depois, eram mandados. . • .) que viesse para 
Berlim antes do tempo marcado para os ensaios. Frederico ii nSo 
acceitou a proposta, e a cantora despediu-se muito descontente de 
Berlim, cm principies de Fevereiro de 1784. Uma oíferta vanta- 
josa de Catharina il, chamou-a a S. Petersburgo, onde a esperava 
melhor sorte e mais justiça do que na capital da Prússia. A sua 
chegada á corte moscovita, deu logar â un êtuxis d'enihou8taêmê 
(hh) na Armida de Sarti. A imperatriz, protectora intelligente dos 
artistas, fez-se o ccho da opiniSo publica, presenteando a canto- 
ra portugueza com um magnifico adereço de brilhantes. A Todi 
ganhou tal preponderância sobre o animo da soberana, mo de- 
curso das outras representações, que era por assim dizer só por 
soa mSo que passavam todos Ofi favores da ctorínà. A historia 



210 OS MUSICX)S PORTUGDEZES 

de Faiinelli e de Felipe v, repetÍA-8e quasi ao mesmo tempo no 
norte da Europa, entre Catharina da Rússia e a Todi. Áccusam a 
cantora portuguesa de ter abusado d'esta familiaridade, senrin- 
do-se do seu poder para prejudicar os artistas que entSo se acha- 
vam em S. Petersburgo ; se é verdade, que ella promoveu a demis- 
sSo de Sarti, também é certo que o compositor italiano foi o pri- 
meiro que lançou a luva, chamando da Itália o celebre Marche- 
si (ií) para destruir o prestigio da Todi, ou ao menos oontrabalan- 
çal-o. Esta, irritada com semelhante procedimento, vingou-se 
fiizendo assignar a ordem que o demittia do logar de Mestre 
de Capella da Imperatrís ; Sarti ficou todavia com a protecçSo do 
principe Potemkin, que o collooou vantajosamente. 

NSo accusemos só a Todi, culpa, houve-a de parte a parte. 
Apesar das grandes vantagens que disfrutava em S. Petersburgo, 
onde occupava entre outros cargos, o de Mestra das prinoezas impe- 
riaes, nSo ficou ali por muito tempo,porque receiava a influencia do 
clima da Rússia, sobre a sua voz, influencia perniciosa que fiuia 
fugir ao mesmo tempo, Marchesi e depois Sarti, que por se ter de- 
morado mais, pagou este atrazo com a morte, que o suiprehen- 
deu pouco depois em Berlim, em 1802. 

A Todi acceitou por consequência o convite que o novo rei 
da Prússia lhe mandira fazer pelo celebre violoncellista Duport. 
Frederico Guilherme ii, seriamente empenhado na restauraçlo 
da Opera italiana de Berlim, decahida no reinado do seu ante- 
cessor, esperava muito do auxilio da artista portugueza. Diz Fé- 
tis, que o contracto feito, era de 3:000 thalers, residência no pa- 
lácio, uma carruagem da corte, a mesa servida á custa do rei e 
4:000 thalers de gratificação que recebeu em 3 annos. Nlo é ver- 
dade isto, porque segundo Ledebuhr, (jj) as propostas anteceden- 
tes partiram da artista e nSo do rei, que pelo contrario, lhe con- 
cedeu apenas o ordenado de 4:000 thalers, durante 8 annos. 

Esta inexactidSo de Fétrs admira tanto mais, que o critico 
belga, cita o livro de Ledebuhr a propósito doeste contracto ! Tam- 
bém nSo é verdade o que dizem Choron e FayoUc, de tun orde- 
nado de &:000 thalers ; (24:000 francos) adiante veremos sobre 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 211 

qae se funda esta noticia. O ajuste celebrado entre a direcçSo 
da Opera e a Todi; começava a vigorar a 13 de Dezembro de 
1786; comtudo ficou mais 6 mezes na Rússia e viajou depois tSo 
devagar, que só chegou a Berlim em fins de Septembro de 1787 ; o 
rei, apesar d'esta demora voluntária, ou forçada, mandou-Ihe en- 
tregar os 3:000 thalers correspondentes aos 9 mezes passados. 

Fétis pretende que a necessidade de acabar o seu contracto 
com o theatro de S* Fetersburgo, foi a causa d'este atrazo. Segundo 
o mesmo author, cantou ainda 6 mezes n'aquella capital, tendo fei- 
to primeiramente a sua estreia em Berlim, a 13 de Dezembro de 
1786; a primeira supposiçZopode ser verdadeira; o quenSo écerto, 
é ter a artista debutado na data mencionada, pela simples razSo de 
que a Opera italiana (kk) estava desorganisada e dissolvida e a 
reabertura teve logar só dois annos depois, a 11 de janeiro de 
1788, com SkAndromeda de Reichhardt. (11) E verdade que Lede- 
buhr (mm) affirma que o contracto entre a Todi e o rei, fôra ajus- 
tado a 13 de Dezembro de 1786, (que é a data de Fétis)- mas 
diz bem claramente : que chegou a Berlim só no fim de Setembro 
do anno seguinte. Houve pois engano. 

Já dissemos que a primeira Opera em que appareceu, foi a 
Andromeda de Reichhardt (nn), em que desempenhou o papel da 
protagonista. A opera de Berlim, fechada havia dois annos, 
abriu-se com grande explendor ; o theatro fôra reformado, os coros 
e a orchestra reforçados, e attendeu-se bem ao explendor da mise 
en sclne e a um numeroso e bem organisado corpo de baile; estas 
circurastancias vantajosas, ainda mais favorecidas pela boa distri- 
buição dos primeiros papeis e por uma boa musica, produziu geral 
satisfação, para que não pouco contribuiu, o talento da illustre 
artista que doesta vez apreciaram com mais justiça. Na represen- 
tação da Andromeda foi auxiliada por M."® Niclas, Grassi, Con- 
ciliani, Tosoni, Lamperi o Franz; repetiu-se 6 vezes, até 28 de 
Janeiro. 

A representação da segunda Opera, teve logar a 16 de 
Outubro de 1788, com a Medea in Colchide de Kaumann, para 



212 OS MUSICJOS PORTUGUEZES 

festejar o anniversario natalício do rei. A Todi fasia o papel prin* 
cipal auxiliada pela 2.* dama Rubinaoci, da Opera cómica. 

O carnaval em 1789 abria ainda com a Medea que se repe- 
tiu 6 Yczes; seguiu-se a 26 de Janeiro, Proterílao com um Acto 
de Reichardt, e outro de Naumann, fazendo a Todi o papel de 
Erfile ; devia também ter figurado nas representaçSes das mes- 
mas duas operas, dadas em honra da Erbstattfaalterin de Hollan- 
da, entSo de visita em Berlim; e nos muitos concertos que 
também se organisaram n^essa occasiSo. Apesar do bom ac(dhi- 
mento que doesta vez lhe tinham feito e até dos seus triumpbos, 
parece que a artista nSo estava contente; ainda apparecen no pa- 
pel de Ostilia na Opera Brennus de Reichhardt, representada a 
- 16 de Outubro de 1789 para festejar os annos da rainha; a exe- 
cuçSo fei explendida a todos os respeitos, figurando no papel prin- 
cipal (Brennus) o cantor Ludwig Fischer, ajudado pela Todi (Os- 
tilia) e ambos acompanhados pela Rubinacci e- pelos cantores: 
Conciliani, Tombolini e Franz. 

Como n'este anno acabava a sua escriptura, escreveu ao rei, 
pedindo um augmento de ordenado até 6:000 thalers, ou entXo 
a sua demissão. O monarcha prussiano que a tinha tratado 
sempre com muita delicadeza e consideração, respondeu-lhe: que 
comquanto não podesse accéitar a altéraçSo do contracto primi- 
tivo, desejava sinceramente que a idade (tinha ella entSo 40 an- 
nos) e o talento, lhe permittissem ainda por longo tempo disfiru- 
tar um ordenado tSo avultado. 

E a este pedido da artista que se refere o erro atras men- 
cionado do Dictionnaire hiêtorique. 

Nos principios de Novembro de 1789, sahia a Todi de Ber- 
lim; é o que devemos concluir do livro de Schneider (oo) que diz 
expressamente «Die Todi blieb nun noch bis zum Herbste und 
wurde dann durch Madame Lebrun ersetzt.» Vimos atraz, que 
ainda cantara no Brennus de Reichhardt, a ] 6 de Outubro de 
1789; a 20 de Dezembro do mesmo anno já nSo estava em Ber- 
lim ; (pp) devia-se pois ter verificado a partida entre fins de Outu- 
bro e principio de Dezembro; parece-nos isto bem claro^ todavia 



os MÚSICOS PORTUGUEZBS m 

Fétís rectificando o artigo dos authores do Dietíonnaire hUUh 
rique, copiado pelo author da noticia sobre a Todi, na Bíogra- 
pkie partative des eantemparains, contradiz com as suas no- 
ticiaB, as asserçSes, certamente bem fundadas, de Schneider. Se- 
gondo a opiniSo do critico belga, nSo é certo o que dizem os au- 
tbores mencionados; pretendem elles que a Todi partira de Ber- 
lim em Março de 1789 (I) de viagem para Paris, e que passando 
por Mayença (Mainz) cantara diante do Eleitor e que nSo en- 
trara em França por causa das desordens que alli tinham reben- 
tado. Fétis classifica esta ultima asserção de inexacta, porque se- 
gundo informa^^ eertے$ de Farrenc, Madame Todi cantou no 
Concert espirituel, a 25 e 29 de Março, todo o mez de Abril e pela 
ultima vez a 21 de Maio de 1789. Segundo o mesmo author, es- 
tava contractada para os concertos da Loge Olympique e ahi 
cantou varias árias de Paêsiello, de Cimarosa, de Sarti e uma 
grande scena, (Sarete alfin conterUi) composta para ella por Che- 
rubini. (qq) 

Como se vê, estas noticias estSo em plena contradicçSo com 
as que demos anteriormente do livro de Schneider e por muito 
positivas que estas ultimas sejam, também devemos attender & 
respeitabilidade do contradictor que affirma, estarem as suas as- 
serçSes provadas par des docufí^enU certaim; alépi disso en- 
contramos a confirmação de parte d'ellas, em uma noticia de 
um jornal portuguez que adiante copiaremos. O dilemna em 
que nos achamos é sério, e forçoso seria condemnar, ou as noti- 
cias de Fétis, ou as de Schneider^ ambas egualmente fundamen- 
tadas, se nSo nos parecesse que a difficuldade se poderá resol- 
ver do seguinte modo: £ certo que a Todi se achava em Berlim no 
Carnaval de 1789, que se abriu a 5 de Janeiro com a Medea %n 
Colehide de Naumann ; a 24 de Fevereiro ainda a illustre ar- 
tista estava na capital da Prússia, todavia ji pouco satisfeita e 
disposta a sahir. (rr) Desde essa data até Julho, não &lla Schnei- 
der de representação alguma, o que pôde fazer crer, e talvez se- 
ja a chave do enigma, que a Todi aproveitou este descanço e 
obteve uma licença para viajar, afim de dar concertos ; estes ti- 



214 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

veram logar primeiro nas províncias do Meno e Rheno; assim o 
affirma Qerber, (ss) fallando do concerto dado em Mayença dian- 
te do Meitor que elle retribuiu com 50 Louxã dfor; de uma soirée, 
dada no Liebhabereanzert, onde foi gratificada com 20 Karolin». 
Depois d'estes triumphos partiu para Paris onde chegou ao cu- 
mulo da gloria, despedindo-se a 81 de Maio de 1789* A artista 
tinha pois muito tempo para voltar a Berlim e figurar nas repre- 
sentaçSes dadas em honra da Erbstatthalterin de Hollanda. 

Acreditamos na verdade d'esta hjpothese^ que fizemos pa- 
ra desvanecer as contradicçSes em que pareciam estar Fétis e 
Schneider, e que talvez achem assim a sua explicação. 

O que nZo podemos admittir, é ter a Todi, depois de sahir 
de Paris, ficado em Hannover, por um contracto, até Outubro de 
1790! Que a cantora ahi desse alguns concertos é provável, e 
mesmo certo; mas que tivesse uma demora tilo longa, nSo é crivei, 
pois vimos que Schneider aíBrma ter ficado até o outono de 1789 
em Berlim, sendo substituída depois pela Lebrun. 

Sobre os concertos de Paris, transcrevemos em seguida a 
referencia do jornal portuguez de que acima falíamos. Diz 
elle: (tt) 

Paris, 7 de Abril (de 1789) 

cK^esta capital se acha presentemente huma celebre Canto- 
ra Portagueza, Casada com hum Musico italiano, por appellido 
Todi, muito bom Rebeca, a qual tem ganhado em difierentes 
Cortes da Europa, especialmente em S. Petersburgo, avultadas 
sommas, e preciosas jóias: por toda a parte tem sido reconhecida 
por grande Cantatríz, e o que mais admira he que, depois de s^ 
mSe de muitos filhos, e contar perto de 40 annos de edade, tem 
a voz cada vez mais excellente. Esta Quaresma no Concerto es- 
piritual de Paris, assombrou todas as Cantoras da primeira or- 
dem nacionaes e estrangeiras, e mereceu o nome de primeira 
Cantatriz da Europa. No Mercúrio de França de 4 d'este mez 
se lê a seu respeito o seguinte : 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 215 

tO grande concurso qae honkm houve no Concerto eêpiriiuàl, 
foi attrahido principalmente pela celebre Todi, a quem talvez de- 
T6mo8 o gosto, conhecimento e primeiro modelo de hum bom me- 
thodo de cantar. NSo porque antes d'ella nSo tivéssemos ouvido 
aqui Cantoras d'um grande merecimento; mas ou porque faltas- 
sem ao que pode commover-nos, ou porque nossos ouvidos nSo 
estivessem, ainda bem dispostos, ellas nZo causarSo em nós mais 
que huma impressão momentânea, ou prepar&rSo para a revolu- 
çlo, que só se deve á insigne Portugueza: se hoje conhecemos 
melhor o seu merecimento, se os seus musicaes talentos causSo 
em nós mais gosto, devemo-lo aos seus mesmos talentos. Na sua^ 
chagada esperávamos tomar a vdr aquella brilhante execução 
aquelle encanto da expressão, que tantos applausos lhe tinhão j& 
entre nós por alguns annos, grangeado: não exigiamos mais ; po- 
rém ficamos attonitos, quando percebemos os seus grandes pro- 
gressos na arte de execução, e em tudo o que o exercicio ajuda- 
do da reflexão e boa escola pôde ajuntar a hum talento já for- 
mado.» 

Honrosa referencia esta, feita por um jornal que gosava en- 
tão em França de um grande credito. 

Beatemos o fio interrompido: 

A cantora portuguesa sahiu de Berlim em Novembro de 
1789 e dirigiu-se á* Itália, brilhando ainda em Parma no carna- 
val de 1791. 

Não menor foi o enthnsiasmo que excitou em Veneaa, no 
outono, apesar da sua edade avançada; cantou naa operas 
Didone e CUofide; na noite do seu beneficio que teve logar oom 
a primeira opera, distribuiu-se no theatro uma gravura em co- 
lurê, representando a illustre cantora no papel de Dido, honra, 
ao que parece, muito rara n^aquelle tempo e que só era con- 
cedida a artistas de primeira ordem. Pela mesma occasião se 
distribuíram também algumas poesias, duas das quaes transcre- 
vemos em seguida: 



m 06 ICDSICOS PCHtTUQUEZES 

unoaTOBi 

A M tMntre rappretetUa Dídone 

t 

Tu di Didpno il core 
Si bcne a noi dipingi, 
Che da stopir non é, 
8e i|«ell* aideBfle anore 
Che per Etiea ta fingi, 
Noi b sentiam per te. 



A Febo giac^ amauiata 

£ comme iuferma ancor langue eoetel, 

Sc Dio dei canto e medico tu sei ? 



T"^ 



A lei mentre rappreêenta CUofide. 

Quando Promcteo eolla man ardita 
Plendere il fnoco ioeo 4pl finaamêote ; 
£i QMi dMi H mortali cha k vita 
Tu loro inf ondi, o Elisa, il sentilnento* 

N» prímimra de 1798 v^kaiOL a Portufal, a fin de deacaa- 
çar per aigum tempo daa fiidigaa da sua carreira g^erioaa, mas 
ni^iteda* 

Ua 9M paniflywn pela Heapaaha, ISm recebida em Madrid 
com graifele epfíkiiiio, Begnndo noa dia Gerber, apeaar de ji ter 
mSe de 8 fiUioa. 

No mesma amio da sua cbegada a Li^bea^ eaatea na Oua 
Pia» o Drama i/ríoo de d-ieraimiOavi: £a Preg i Hâe ra eawmKta e 
no palácio de Anselmo José da Cruz Sobral o Drama attegerise: 
n Natale Augutto, de António Leal Moreira; ambos ezecutadoi 
para festejar o nascimento da infanta D. Maria Thereza. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES S17 

A respeito da data da sua morte, reina grande eonfasSo. 
Qerber dix qne fallecêra em meado de 1793; Fétís, que aoceita 
esta opiniZoi refuta como &\bab as dataa de Choron e Fayollet 
ISlOf e de Schaeider: 1812; mas nem ims nem ontros, tem ra- 
elo, porqne Pedro Alexandre Craroé (un) ainda a dá como viva 
em 181 7, e Balbi (vv) dia que existia ainda em 1822: cet vit à 
Lfisbonne oii elle continue àjouir, par une oonduite digne d^élo^ 
gesy de Testime que ses talents lui avaiont méritée; depuis queK 
que temps elle a perdu la vue. » - ^ 

A artista estava pois cega, noticia que nos dil também a Se-^ 
viHa doê EtpwiacutoB : cUma violenta aflbcçXo de olhos que se 
agravou com o decorrer dos tempos, privou a iUustre cantora in- 
teíramenie do goso da vista.» 

Á ultima hora, depois da acabada esta biographia, soubemos 
as verdadeiras datas do nascimento e morte da nossa grande ar* 
tísta; devemol^» á bondade do nosso amigo, o Dr. José Bibeiro 
QmimarSds que nos mostrou a sua certidSo de baptismo e óbito, 
devidamente authenticadas. Segundo estes documentos, vê-se qua 
naseeu a 9 de Janeiro de 1753 e monren a 1 de Outubro de 1883, 
eom 80 annos e 9 meses incompletos; nlo deve pois haver duvida 
alguma em aoeeitar eetas datas; esta reetificaçlo veiu um pouco 
tarde para podermos reformar a nossa biographia; entretanto o 
que haverá a emendar, é apenas a data de 1748, que indicamos 
no principio, como sendo a do seu nascimento ; as outras estio suf- 
fictentemente firmadas por authoiidades respeitáveis e nSo foram 
calculadas pela primeira. 

Se agora tivéssemos de passar em revista o talento artis** 
tico da nossa Todi, nio poderíamos mais do que repetir o que 
já dissemos no decurso doestas linhas. Ainda Balbi disia em 
1822 : cOette artiste, qui a fsii admirer son talent dana toutes les 
grandes capitales de l^Europe, oà elle a excite le plus grand en- 
tfaousiasme par la beaaté de son diant aidé de tous les secoura 
qu^nne i^^nde aefarice sasi tirer d'une action bien oonduite, est déjà 
parvenu ^ im Iga très-avanoé eto.» 



218 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Mais adiante diz : 

cLa célebre Todi, dont toate FEurope a admire la voix, la 
méthode de chant et surtout la belle déclamation, a joué» etc. 

A artista era a um tempo insigne cantora e grande actris. 

Com eflkitOy como diz Balbi, os sens triumplios repetíram-se 
por toda a Enropa. Em Londres recebeu durante a sua pri- 
meira visita poucos applausosy porém foram pagos generosa- 
mente quando lá voltou; em Berlim succedeu o mesmo, figurando 
sempre nos primeiros papeis e sendo tratada pelo rei e pela oSrte, 
com toda a distincçXo ; em S. Petersburgo, o reinado do seu talen- 
tOy foi despótico, avassalando todos os coraçSes, na Itália £bi ap- 
plaudida apaixonadamente com um enthusiasmo que mioontrou o 
seu echoy augmentado em Madrid, duplicado em Lisboa e centu- 
plicado em Paris, já entSo a capital das Artes. Foi n'esta ultima 
cidade que a critica esgotou os seus idtimos elogios sobre o talen- 
to da grande cantora; Gerber escrevia cm 1792 : 

tDifficilmente se poderá imaginar umauntca perfeição que 
nSo lhe fosse attribuida pelos seus adoradores de Paris. Em ou- 
tras cidades descontaram-lhe algumas, reconhecendo-lhe todavia 
uma delicadesa, um mimo extraordinário, na execuçSo do Ada- 
gio, e o maior talento na applicaçSo de luz e sombra; a esta 
qualidade preciosa se attribuem os eflbitos extraordinários que 
produziu e;n França, onde era denominada simplesmente: lá 

CAHTATRICE DE LA NATIOn! » 

Mais abaixo lemos: 

tE entretanto nSo foi no Adagio que se estrelou em Paris, 
mas sim na aría de bravura, cheia de difficuldades: A morir $e 
mi eondanna de PaSsiello.» O seu talento era pois oomj^to. 

Temos uma satisfiiçSo especial em coroar esta serie de elo- 
gios com a valiosa apreciaçSo de um grande critico e sábio theo- 
rico (xx) que provavelmente ainda teve a felicidade de a ouvir. 

cll 7 a une évidence d'exécution qui, si elle pouvait être 
connue de tous les chanteurs, exduerait tout autre exécuiion: la 
celebre M.* ToDi seratt Ul gantateicb de tous les fsiÈCLKB: 
les autres manières d'exécuter qui ne s'en rapprodient pas, sont 



os MÚSICOS PCHITUGUEZES 219 

de mode. II serait important de connftitre et de suivre générale- 
ment Tévidence d'exécution; mais hélas! c'e8t aussi impossible 
que de répandre sor la terre entière les rayons Imnineux des gran- 
des vérités qui n^éclairent que les humbles demeures des vérita- 
bles philosophes.» 

depois d'esta8 palavras nSo sabemos qae mais se possa dizer! 

Grandioso elogio que affitsta para tSo longe a possibilidade 
de uma comparaçSo ! • • • 

A influencia do seu génio artistieo exerceu-se nSo só sobre 
o publico, mas também sobre os grandes cantores que a ouviam. 
A propósito de Garat (yy) diz Fétis : (zz) tUarrivée de MM."^ 
Todi et Mara à Paris, leur rivalité, et Téclat de leur talent dans 
des genres différents, occupèrent le public comme Tavaient fait 
précédemment Oluck et Piccini, et firent une profonde impres- 
sion sur Garat. Pour la première fois il eut Tidée d'un chant pur, 
élégant et correct, d'une vocalisation par&ite, et d'une expression 
natnrelle sans exagération et sans cris. Cest de ce moment que 
dateson talent. > 

O talento da artista, n3Lo era menos respeitável do que o ca- 
racter da mulher. tViveu em Lisboa por espaço de muitos annos, 
merecendo sempre a estima das principaes famílias d'esta capi- 
tal que lhe consagravam em geral, xuma particular e verdadeira 
affeiçSo.» Estas palavras de Thomaz Oom (aaa) encontram-se an- 
teriormente no livro de Balbi tet vit à Lisbonne oíi elle continue 
à jouir, par une conduite digne d'éIoges, de Testime que ses talen- 
ts lui avait meritée.» 

As suas discórdias com Sarti em S. Petersburgo, nZo podem 
destruir a verdade doestas apreciações, porque já em 1792 escre- 
via E. L. Gerber as seguintes palavras: Elogia-se muito o $eu 
caracter, a sua bondade, a eua modeHta e a $ua generosidade. 

Como esposa e m2e de familia, foi exemplar; a sorte rou-. 
bou-lhe porém seis filhos (segundo Fétis e Gerber : 8) quasi todos 
em tenra idade ; parece todavia que ainda existem netos e bisnetos 
em Lisboa. Casou duas vezes, a primeira oom Francisco Xavier 



S20 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

Todi ; iiBo le conhece o nome do outro marido. O primeiro era 
violinista distincto ; n'am catalogo de Musica de Hamburgo (3.^ 
ForUéttvng des B(íkm$chen Mtmkverxeiehnis; Hamburg, 1796) 
encontrarse um trecho com o seu nome, intitulado : Scena, Poro, 
ah! son, etc., con 10 Strom. 

Deixou uma fortuna avultada, producto honrado do seu 
talento, que Fétis avalia em 400:000 francos (80:000|000 réis) 
além de uma grande quantidade de pedras e jóias de grande va- 
lor. Oerber diz que possuia em 1792, 100:000 thalers, (ou 
875:000 fr.) e as jóias que trazia quando cantou na capital do 
Haunover, foram avaliadas em 40:000 thalers ! (ou 150:000 fr.) 
Talvez fosse o adereço com que a Imperatriz Oatharina n a ti- 
nha presenteado. 

Aguardamos com anciedade a biographia do nosso amigo 
Dr. José Ribeiro GuimarSes, porque esperamos que ella venha 
completar as lacunas que deixamos abertas, sobretudo nas noti- 
cias que se referem á sua educaçZo artistica, ao tempo em que aqui 
residiu antes da viagem a Londres, e depois do seu regresso. 

Confessamos que os nossos esforços nSo poderam produzir 
todos os resultados que desejávamos, porque nSo nos foi possivd 
obter todas as obras e jomaes estrangeiros necessários, únicas 
foQtes onde se encontram noticias sobre a illustre cantora, visto 
os authores portuguezes terem conservado ainda n'este caso, o 
mais injusto silencio a respeito de uma, das nossas glorias artís- 
ticas. NSo foi sem custo e trabalho que alcançamos os livros es- 
trangeiros (alguns d'elles raros) que aqui citamos, dificuldade que 
se comprehenderá facilmente, lembrando-nos que estamos oiio- 
lutamente isolados do movimento da litteratura musical estran- 
geira; a nossa ignorância artistica é completa; no elevado domi- 
nio da Arte reina a maior barbárie e os instinctos mais baixos, 
mais semucteã e mais grosseiros, revelam-se na predilecçSo por 
certo tum-zum bem conhecido. 

Lembre-se agora o trabalhador sincero, do auxilio que ha- 
víamos de achar na nossa tarefa inglória; nilo nos abate porém a 
descrença, nZo recuamos perante o trabalho, n2o nos falece o 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 221 

animo, qnando a empreza é elevada, por isso esperamos voltar 
mais tarde ao assampto favorito d'c8ta biographia, retemperando 
as nossas forças na eontemplaçSo de uma das maiores glorias ar^^ 
tisticas de Portugal. Porém, visto ninguém poder contar, com o 
futuro, porque ás vezes a sorte corta tSo cruelmente as mais 
bellas esperanças, deixamos no fim das Notas pertencentes a 
esta biographia, uma relação das obras que nSo podemos explorar 
e onde se acharão ainda mais subsidies do que aquelles que apro- 
veitamos; sSo na maior parte allemSs. 

Emfim, para coUocar os factos d'esta biographia em melhor 
luz e desenredal-os das differentes e contradictorias vcrsSes em 
que estão envolvidos, reduzimol-os a uma Tabeliã histórica e 
chronologica, como fizemos anteriormente com a biographia de 
Marcos Portugal. 

Acabamos, exprimindo um desejo: 

Que sirvam estas linhas, escriptas com o sincero empenho 
de levantar uma figura gloriosa e esquecida, ao menos de singela 
lembrança, até que a pátria se envergonhe da sua ingratidão; 
talvez que a aureola explendida, que em outros tempos mais feli- 
zes dardejava os seus raios pela Europa inteira, desde o Neva ató 
ao Tejo, desde o Tamisa até ao Tibre — nos disperte do somno 
em que vivemos e nos chame á triste realidade, e ao dever. 



F<iC'Simtle da assignatura da celebre Todi, feita a 17 de 
Maio do 1813, nos autos de inventario do seu marido : 




UA/7J\J 




S2Í OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

FACTOS DA VIDA DE LUIZA ROSA ]>B AGUIAR TODI 

1753 , 9 de Janeiro^ Kasce em Setúbal. 
1768 Apparece como Soubrette no Tartufo de Molièrej repre- 
sentado no Theatro do Bairro Alto. Balbí. 
até 

1772 Completa a sna educaçXo artística; primeira viagem & 
Londres. Choron e FayoUe. 

1777 Segunda viagem a Londres. Canta Le Due Conieêse, de 

PaSsiello; decide-se a sua vocaçSo. 
» Viagem a Madrid no vcrSo d'este mesmo anno. Olim- 
piade de Paêsiello; grande enthusiasmo. 

1778 Outubro. Primeira viagem a Paris; os seus triumphos no 

Concert spirituel e no Concert de la Reine em Versailles. 

1780 Volta a Lisboa no verSo, ficando ahi escripturada por 

um anno. 

1781 Segunda viagem a Paris, em Outubro. Novos e maiores 

triumphos no Concert spirituel. Parte para Berlim; con- 
certo em Potsdam. Frederico Ii; sua tentativa baldada 
para escripturar a artista portugueza. Ledebuhr. 
» Concertos na Állemanha meridional. 

> , 28 de Dezembro. Primeira viagem a Vienna. Grande 

concerto e magnifica recepção da corte e do publico. 
Gazeta de Lisboa. 

1782 , 18 de Janeiro. Segundo concerto em Vienna. Grazeta de 

Lièboa. Volta para Berlim ; aeceita o contracto anterior 
de Frederico li ; residência em Potsdam. Ledebuhr. 

1783 , 1 de Janeiro. Segunda viagem a Vienna; Festa do anno 

novo; canta n'um grande concerto dado em honra dos 
Oran-Duques da Rússia. Gazeta de Lisboa. 
» Primavera. Terceira visita a Paris ; encontro com a ce- 
lebre Mara e lucta artistica; Todiêtas e Maratistas, 
Fétis; segundo outros authores, em 1782. 

> No verão ; novos concertos nas provincias do Rheno e do 

Meno. Visita Carlsruhe ; o Grossfurt. Gerber. 



os BffUSICOS PORTUGUEZES 223 

1783 Dezembro. £streia-se em Berlim^ no Ales$andro e Poro 

de Qraun e Lticio Papirio de Hasse. Frieza relativa 
do publico. Schneider. 

1784 Principios de Fevereiro. Deixa Berlim e sabe para S. Pe- 

terabnrgo a convite de Catharina ii. Recepção entbu- 
siastica na Armida de Sarti. Magnifico presente da 
czarina. A sua influencia na corte moscovita. Discór- 
dias com Sarti ; a demissSo doeste. 

1786 Propostas de Frederico Guilherme ii, por intervençSo do 

violoncellista Duport. CondiçSes importantes da Todi, 
modificação. 
» y 13 de Dezembro. Ajuste do contracto ; demora posterior 
na Rússia. Ledebuhr. Concertos? Fétis. 

1787 Fins de Septembro; chega a Berlim. Ledebuhr. 

1788 y 11 de Janeiro. £ bem recebida na Andromeda de Reich- 

hardt; representações alternadas até 28 de Janeiro. 
Schneider. 
» , 16 de Outubro. Annos do Rei. Representação da Medea 
in Cohhide de Naumann. 

1789 , 5 de Janeiro. Carnaval. Repetições da Medea, A 26 de 

Janeiro: Protesilao com um Acto de Reichhardt e um 
de Naumann. Todi, no papel de Erfile. Concertos? 
» Em Março. Terceira excurslk) ás provindas do Rheno e 
Meno. Concertos em Mayença; o Eleitor; os dilletanti. 
Gerber. 

Fins de Março, (25 e 29) todo o mez de Abril, até 21 de 
Maio. Quarta visita a Paris; triumphos explendidos no 
Concert spirituel, e nos concertos da Logo Olympique ; 
cumulo da sua gloria. Cantatrice de la nationH Fétis. 
Gerber. 

> , 21 de Maio. Despedida de Paris. Concertos em Hanno- 

ver; volta a Berlim. 

> , 16 do Outubro. Annos da rainha; a opera Brennus de 

Reichhardt; Todino papel de Ostilia. Fim da sua es- 



224 OS MÚSICOS PORTUGUEZES 

críptura; pedido de augmento de ordenado; recusa do 
rei. Ledebuhr. 

1789 Novembro ; despede-se de Berlim e parte para a Itália, 
pela AUemanha* 

1791 Carnaval. Brilha em Parma; outono^ triomphoe em Ve- 
neza, ovações enthusiasticaB. 

1793 Primavera; volta a Portugal pela Hespanha; representa- 
çSes em Madrid com grandes applausos. Chega a Lis- 
boa. La Preghiera exaudita de Cavi. U Natale Auguã' 
to de António Leal Moreira. T. Oom. 
até Representações? Concertos? Perde a vista. • • 

1833 , A 1 de Outubro; sua morte. 



URLkÇAO DAS OBRAS EH QUE SE PODSBAO EVOONTBAB MAIS 
NOTICIAS SOBRE A CANTORA PORTUGUESA 

1.) Berlinische mustkcdísche Monatêchrift, 2.* Parte p. 48. 

2.) J. C. Spazi^. Berliniache mankaliêche Zeitung. Ber- 
lin, 1794, in-4.% N.^ 29. 

3.) Mercure. Jornal francez; annosde 1778, Outubro; 1781, 
Outubro; 1783, 1789; mezes de Março, (fim) Abril eMaio. 

4.) Reiehhardt. StudienfUr TonkUmtler und Mtuikfreunde. 
Berlin, 1793, in-4.% 2 Theile. 

5.) Mu$ikalÍ8cher Magazin. Hamburg, 1784, pag. 75. 



Tivemos conhecimento dos seguintes retratos da illustre 
cantora: 

1.) Pietri Bini dei. de Pian se. Venoz (Veneza?) 1791, gr. 
in-8.^ 

2.) Em Veneza, em casa de Theod. Vicro. 1792, in-4.^, com 
versos encomiásticos. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 225 

. 3.) Eate terceiro retrato, encontra-se no Pamasso de Fedi. 

Resta ainda, o qac se distribuiu no Theatro de Veneza, na 
noute do seu beneficio, e que parece ser o n.^ 2. Gerber {Hist. 
hiogr. Lex., vol. ii, pag. 73) menciona também um busto em ges* 
80, feito em Paris, por Mr. Merchi ; encontrava-se também em 
casa de Girardin (editor de musica ?). 

Ultimamente descobriu-se em Lisboa um retrato a óleo que 
está sendo restaurado. 

(a) Bioff. Univ.y vol. viii, pag. 233. 

(b) HiêL hiog, Lex., vol. ii, pag. 660. 

(c) TonkUnstUr-Lexicon Berlinde, pag. 599. 

(d) Dictumnairt historique dt» Munciens, vol. xi, pag. 3d0. 

(0) Balbi, Enai stcUiêtique, vol. ii, pag. ocxviii «La célebre Todi, dont 
tottte FEurope a admire la voix, la méthode de chant et surtout la belle 
déclamation, a joué pendant quelqaes années Ins roles de soubrctte eur le 
théfttre de Rua doB Condes» etc. 

(f) Ibid, ocxtx «Mademoiselle Cecilia, soeur de madame Todi, a si bien 
joaé lee deux premiers roles de VAlzirt et do la Zaire de Voltaire, traduites 
par le médeein Seixas, un des membres de V Arcádia, que ce savant, en tra- 
oaisant le poSme de la Déclamation de Bemard, lui appliqua les louanges 
du poete íí^nçais à la fameuse Clairon.» 

(g) Biog. Univ,, loc. cit 
(n) Dict. hiêt., loc. cit i 

(!) A General Uiãtory of Music,^ vol. iv, pag. 509. 

(j) As árias doesta opera e principalmente o celebre DueUoy b2o co- 
nhecidos pelos verdadeiros artistas e amadores ; o abandono inexplicável 
em que jazem as obras admiráveis doeste celebre compositor dramático, é 
mais um attestado vergonhoso, passado á ingratidão e ignorância doesta 
época. 

(k) Biogr» ÍTntt?., loc. cit. 

(1) StudienfUr TonkUnstler und Muêtkfreunde, etc. Berlin, 1793. 
(m) A Versailles da Prússia, residência real no verfto ; celebre na His- 
toria de Frederico ii ; ahi perto encontra-se o afamado palado Sans-Sauci 
c a magnifica villa da rainha Lonisa, situada na ilha dos Pavões. 

(n) Compositor do século xviii, 1701-1759. Mais celebre pelas snas re- 
lações com Frederico ii, do que pelas Operas e outras composições numero- 
sas qne nos deixou. 

Na AUemanha estíma-se muito o seu Oratório : Der Tod Jeru, que ain- 
da hoje é lá admirado. 

(o) J& Atilamos d*este compositor na biographia de Marcos Portugal. 
(Vide : nota iii.) 

(p) A grande artista conheceu na corte de Frederico ii o violoncellista 
Mara com quem casou, apesar da vontade do rei, que qneria impedir 
esta uni&o por causa dos maus costumes do futuro marido ; mas que a final 
cedeu aos pedidos da cantora ; esta, teve todavia de sofirer do rei, graves 
vexames por não querer tolerar o seu despotismo e a este respeito, conta-se 
o s^uinte : Estando o czarowitz, (depois Paulo i) em Berlim, e organisan- 
15 



226 OS MÚSICOS PORTUOUEZES 



do-se ama reprcsentaçilo na Opera, foi annnnciada á artista ; esta deu par- 
te de doente, porém chegada a hora da representação foi arrancada da ca- 
ma por 8 dragões, que a condaziram ao theatro,onde foi obrigada a cantar; 
estas e outras, fizeram com que a artista intentasse uma fuga com o ma- 
rido, que foi infeliz e afi^gravou ainda mais a situação dos dois esposos; 
uma segunda tentativa Tivrou-os emfim do um despotismo brutaL Sfto estes 
os dismfy^res do rei Fritz, a que se refere Ledebuhr ! (pag. 599). 

(q) £ mui provável que durante o caminho entre Berlim e Yienna, 
desse alguns concertos nas cidades por onde teve de passar. 

(r^ Grazeta de Lisboa, Supplemento ao N.* vi de 8 de Outubro de 1782. 

(s) Gcueta de Lisboa, N.** ix, de 1 de Março de 1782, Supplemento. 

(t) Gcueta de Lisboa N.® tu, de 15 de Dezembro de 1782, Supple- 
mento. 

(u) G. C. Groshcim, Dm Leben der KUnsUerín Mara, Caasel, 1823, 
in-8.** peq., pag. 32. 

Foi uma das artistas mais celebres do século xviu. 

Nasceu cm Cassei em 1749 c morreu, cousa notavd, no mesmo anno 
em que falleceu a sua rival, a 20 de Janeiro de 1833 ! A sua carreira ar- 
tística foi egualmente brilhante na Itália, na AUemanha, na França, na 
Knssia e sobretudo na Inglaterra, onde ganhou sommas fortíssimas, que 
com o producto das suas viagens anteriores, subiam a uma fortuna enorme ; 
mas depressa a perdeu pela sua prodigalidade c pelos vícios do marido, qao 
Jogava muito. 

£m Inglaterra ganhou em 15 dias, 70:000 francos; já se vê que os or- 
denados de hoje nao cstáo em disproporção. 

Com o producto de outras viagens^ arranjou porém uma segunda for- 
tuna inferior á primeira, mas ainda rasoavel, e cstabeleceu-se cm Moscovia; 
o incêndio doesta cidade deizou-a pobre, a ponto de ter de se dedicar ao en- 
sino do canto, o que melhorou a sua existência. 

Para darmos uma ideia do seu talento, basta o seguinte : 

Esta artista, não encontrando mais nada para estudar nos metiiodos 
d'aquelle tempo, que eram bem exigentes, (Caffarelli que o diga), lançou 
mão dos Concertos de flauta e de rabeca, que havia, para lhe ser\'irem de 
exercício diário ! 

A rival da nossa Todi era pois um adversário respeitável em todos os 
sentidos. 

(v) Ija Musique ancienne et modeme, Paris, 1854, pag. 367 e 368. 

(x) Vie et aventures des Cantatrices célhbres. Paris, 1856, pag. 200. 

(y) ^P' <^*''> P*g* 32. 

(z) The Hamumicon, London, 1828, pag. 27. 

(«aj Op. cif, 

(bb) (xesckichte der Oper und des kõniglichen Opemkauses in Berlin. 
Berlin, 1852, pag. 198. 

(cc) Compositor muito estimado no século xvm (1741-1801) c Mestre 
de Capella em Dresden. Deixou muitas Operas, Symphonias e muita mu- 
sica religiosa, entre a qual é celebre o seu Pater Noster sobre os versos de 
Klopstock. 

(dd) Schneider, ane menciona todas as operas em que cantou, nada 
diz da àleofide^ que Fétís e Ledebuhr referem; cm compensação falia do 
Atessandro e Poro de Graun ; talvez que o primeiro papel pertença a 
esta opera. 



os MÚSICOS PORTUGUEZES 22