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Full text of "... Pará e Amazonas: pelo encarregado dos trabalhos ethnographicos conego Francisco Bernardino ..."

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COMMISSÃO m MADEIRi. 



PARA E AMAZONAS 

PEIO 

ESCAIRCeUO MS TBlBtLBOS ITBIWIUPIII» 



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RIO DE JANEIRO 

TYPOGRAPHIA NACIONAL 



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COMMISSAO DO MADEIRA. 




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PARA E AMAZONAS 



PELO 



EACARREfiADO DOS TRABALHOS ETHROGRAPHICOS 



L<Hteaú tTtanctóco ct^eitktu^uto De omisa. 



1/ PARTE. 



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RIO DE JANEIRO 

TYPOGRAPHIA NACIONAL. 



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jcommiss.vo do madehcv. 



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l^urú e i%niazoiia»< 



A viagem do Rio de Janeiro ao Pará poucos iocidenles of- 
fereceu-nos e nem vale a pena descrever ipinuciosa mente o 
(jue por quasi todos é sabido. 

Como porém pôde ser de alguma utilidade, aqní dou as 
distancias dos diíTerentes pontos existentes entro o Rio de Ja- 
neiro e o Pará. 

Me parecem mais bem calculadas estas que apresento do 
que as que dá o illustrado Sr. Dr. Tavares Bastos na sua tão 
importante obra O valledo Amazonas. 

Foram-me ellas ministradas pelo Sr. capitaotenente Pedro 
Ilyppolito Duarte, commandante do vapor Pará, e conGr- 
madas por pessoas muito competentes. Incontestavelmente a 
distancia que vai do Geará ao Maranhão é maior do que a 
que vai do Maranhão ao Pará, mas no calculo do Sr. Dr. Ta- 
vares Bastos acha-se o contrario. 

milhas. 

Do Rio de Janeiro ao Cabo Frio 65. 

Do Cabo Frio aodeS. Thomé 9i 

De S. Thomé aos Abrolhos 276 

Dos Abrolhos á Bahia 300 

Da Bahia a Maceió 27^ 

De Maceió a Pernambuco.. 120 

De Pernambuco á Parahyba 70 

Da Parahyba ao Rio Grande do Norte 78 

Do Rio Grande do Norte ao Ceará 260 

Do Ceará ao Maranhão 395* 

Do Maranhão ao Pará 350 



-4-t: 



: : 



Eram qoasi 10 horas da manKã flo*día 5 de Fevereiro pro* 
ximo passado quando chegáj[nos*.á Bahia : ahi demorei-me, 
seguindo no mesmo vapor.p^dompanheiros^ que comigo ha- 
viam deixado o Rio. •/•/•/• 

Na tarde de 5 de Mfl);(^; tomei passagem a bordo do vapor 
Pará e na manha d^*dia7 cheguei a Maceió. 

Agradou-me a^^idji^e. A' amabilidade do Exm. Sr. Dr. 
Mendonça deva^ò»;ter visitado a cidade e os seus principaes 
estabelecimen(oV% * 

Saltámos em' nina excellente e muito extensa ponte aca- 
bada ha.talvez dous annos. Atravessámos a parte commer- 
cial da*£f4ad^^ tomámos o vagão da estrada de ferro e díri- 
gin^o^os Ipara a outra parte da cidade. Visitei a matriz, 
graiul<f*femplo, sem nenhuma architectura, mas muito bem 
$itua*do sobre uma pequena eminência e em frente a uma 
.\lJe1m praça. 
•/••.'••'Igualmente visitei o edifício em que funccionam a assem» 
*••: *bléa provinciais a bibliotheca e a alfandega. 

A^s4 horas da tarde seguimos para Pernambuco (i)^ onde 
chegámos na manha seguinte. 

Nenhum panorama podia ser mais lindo do que o que se 
nos apresentava. O sol erguia-se do lado do oriente, dissi- 
pando pouco e pouco o nevoeiro que pairava sobre a cidade, 
que parecia ir surgindo das aguas. 

Passámos o lameirão, recebemos o pratico a bordo^ entrá- 
mos no estreito canal que íica entre o recife e a cidade e anco- 
rámos no porto. 

O Recife (2), capital da provincia de Pernambuco, é uma 
grande e bella cidade: cortada pelos rios Biberibe e Capiba- 
ribe, é a Veneza do Brazil. 

Enchem-lhe o porto grande numero de navios de diversas 
procedências e é grande o movimento commercial que aJli se 
nota. 

E' defendida pelos fortes das Cinco Pontas, Buraco e Brum, 
monumentos de força material, diz o Sr. senador Pompeu, 
porém mais ainda de çloria nacional e poesia histórica: alll 
/ h^i^veram^combates dignos dos tempos heróicos; allise ins- 
creveram com a espada, sob o impulso da coragem, as su* 
blimes paginas de uma gloria immortal. 

Cortam-iheas ruas, em geral largas, diíTerentes linhas de 
bonds, que communicam os diversos bairros. 



(1) Pernambuco parece que se forma de duas palavras 
da lingua geral-paraná (rio) epoka (quebrar). Agua que« 
brando ou arrebentando na pedra ou guebra-mar. 

A gente do povo ainda diz Parnamoaco, que tem muita 
semelhança com Paranam-buco, 

(2) A cidade do Recife está situada a 8% 3' e ^'^ de latitude. 



— 5 — 

Largis € Mias pomies»sobrasikíaioeiireeUasa oiagaUka 
yoBie do Recife. coBoiíiBiraic diffsTMtes postos esilios. 

Lindos sio osambiides,oiide se osteauoi belUs chacans 
• palacetes. 

Eatre 05 bairros aio posso deixar de faier meacio especial 
dodaMacdaUna, ondeemam ponto denominado Passagem 
deMagdaleaa, ostenta-se deslumbrante e arrebatador pano* 
rama . O bairro de Santo António é a antiga cidade Jícurtcen. 
Heile acham-se o palácio do goremo, sitoado em frente do 
nma bella e bem arborisada praça, o arsenal de guerra, o 
tlieatro« a casa de correcçio, qne passa por ser a melbor do 
todo o Brazil, a asserabléa proTincuI, a camará municipal e 
muitos outros edificios. 

E* incontestaTelmente o Recife a prineexa do norte do 
Rrazil e quanto á bellexa dos arrabaldes e sítios pittorescos, 
é apenas inferior ao Rio de Janeiro. 

O palácio do eoTemo, o paço episcopal, o gymnasio, a ca* 
mara municipal, os conventis de S. Francisco e do Carmo, 
sio edificios bem notáveis e sel-o-ba também o noTo tbeatro^ 
que se levanta. 

A população da cidade é calculada em 100.000 almas. 

Visitei igualmente a cidade de Olinda, a Jíart» dos Ca- 
beies, anti^ capital de Pernambuco, fundada por Duarte 
Coelho e destruída e incendiada em 1631 pelos bollan- 
dezes. 

E* notável ainda não só pelas recordações históricas, que 
desperta, como pelos velhos monumentos que encerra, so- 
bresahindo entre elles a cathedral, os conventos deS. Bento 
e do Carmo e a santa casa da misericórdia. 

Começava a poética cidade a cahír em prostração, mas pa- 
rece que lhe vai actualmente dando vioa e incremento a 
linha férrea que a prende á nova capital. 

Nio terminarei estas linhas sem agradecer muito de co- 
ração aos distinctos cavalheiros os Srs. Dr. Augusto de Oli- 
veira e Luiz António de Siqueira os obséquios e atten^es 
que tio benevolamente me dispensaram. 

No dia 9 de Março ás 6 horas da tarde, deixámos Peruam* 
bneo e ás 5 horas da manhi do dia seguinte chegámos á en- 
trada da barra do Parahyba. 

Havia ebovido bastante, a cerraçSo era forte e o mar es- 
tava muito encapellado, de modo que somente depois das 6 
horas foi que conseguiu o pratico chegar ao vaõor. A's 9 
horas pouco mais ou menos fundeámos defronte oa pequena 
povoado do Cabedello, que dista três léguas da capital da Pa - 
rahyha. Tivemos deahi ficar fundeados até depois do meio 
dia, visto nao haver agua snfflciente na barra, por estar 
vasia a maré. 

A população da villa do Cabedello é calculada segundo o 
ultimo recenseamento em 1.000 a I.SOO almas. Fica á mar- 
gem do rio, cm uma linda praia, bordada por um extenso 



— ( j — 

co(fueiral e muitas mua^ubeiras (3), tamarineiros c outras 
arvores. As casas í^ão pequenas, sendo cobertas de palha a 
maior parte delias. 

O forte do Cabedello, tão notável na guerra dos hollan- 
dezes, está cahindo em ruínas. 

Perto do Cabedello e mais na entrada do rio» Geava o ce- 
lebre forte de Santo António, de gloriosas recordações. Ahí 
sustentaram os nossos um terrível combate, ahi foram ven- 
cidos e recuaram os hoUandezes. 

Eis como referem òs historiadores esse brilhante feito de 
g^loria nacional: 

t Em 1634, uma frota composta de 20 navios, conduzindo 
1.500 soldados, sem contar as fi^uarniçoes, sahe do Recife, sob 
as ordens do almirante hollandez Lichthardt, com des- 
tino á Parahyba, a fim de conquistal-a. Commandava as 
forças de desembarque o coronel Segismundo Schkoppe, e 
como adjuntos aos dous chefes iam o director-delegado John 
Gysselingh e o conselheiro politico Scrvatins Garpentier. 

< Teve o general portuguez sciencia desta expedição com 
antecedência e avisou logo ao governador du Parahyba^ or- 
denando a Lourençí) Cavalcanti, que tinha a seu cargo os 
moradores de Goyanna, para que com a gente que pudesse 
fosse em soccorro da Parahyba. 

< Apenas o governador desta capitania recebeu este aTiso, 
começou a prevenír-se. Fez uma fortiíicação na ilhota que 
o próprio rio Parahyba forma e a que chamavam 0$ Frades 
Bentos, e em uma restinga que ella estende em frente da 
barra, a meia légua e quasi no meio do rio e dos fortes do Ca- 
bedello e Santo António. Nesta paragem, muito apropriada 
para a melhor defesa de tudo, começou o governador a le- 
vantar uma bateria de sete peçjs,encarregando-a ao capitão 
Pedro Ferreira de Barros. Na parte do forte de Santo António, 
que já tinha artilharia em dous baluartes, fez uma trincheira 
com a competente estrada, forro e travezes, em um passo es- 
treit),que de um lado tinha um pântano impenetrável, e do 
outro o mar que tomava o caminho por onde o inimigo pre- 
cisamente havia de passar, se desembarcasse daquella banda. 

< Acbava-se ainda alli o capitão Lourenço de Brito Corrêa, 
que tendo sido solto pelos inimigos, de quem fora prisio- 
neiro, preparava-se para ir á Hespanha, porém abandonou o 
intento e ofTereceu-se para servir, sendo-lhe dado o com- 
mandodo forte de Santo António, tendo entre outros auxi- 
liares o Índio capitão Símeão Soares. 



(3) A mungiíbeira é uma grande e copada arvore, muito 
commum em todo o norte do Brazil . O fructo dá nma espécie 
de algodão, que serve para colchões e travesseiros. Da casca 
interior do tronco, que é muito fibroma, fabricam cordas de 
que commummente se servem nds canoas. A madeira é se- 
melhante á coriira e muito quebradiça. 



— 7 — 

« No fone do C.ibcdello, que é da oulra banda e mais porto 
da barra, inetteu-se todo o resto da genlo que havia. Dis- 
po^ta tudo assim^ esperou-so o inimigo. 

« A's 9 horas da manhã de 26 de Fevereiro de 1634 surge na 
altura doCabo Branco a esquadra holJandeza que ia á eon- 

Suista da Parahyba. Estava repartida em duas divisões : uma 
eu fundo em frente á barra e a outra foi ancorar uma légua, 
mais ao norte, na enseada do Lucena, da banda onde ficava o 
fort3 de Santo António. 

< Quando yeiua noite desembarcaram as tropas, que para 
logo sepuzeram em marcha para o forte, não suppondo 
achar em caminho a estacada que se havia feito e defendia o 
passo. Ainda que ficassem sorpresos ao encontrai-a, não dei- 
xaram por isto de investil-a com resolução, chegando al- 
guns a pôr-lhe a mão para saJtai-a. Foram repellidos e obri- 
gados a retroceder, mas tornaram a voltar armados de 
machados e marracos para derrubar as vigas, porém nada 
conseguiram, já achanoo agora mais reforçada a guarnição 
do ponto, e tornaram outra W' a retroceder com perda de 
gente, pelo que tratou de fortifica r-se. 

« Durante a madrugada investiram os hollandezes de novo, 
pela terceira vez, a estacada, na esperança de achar os nossos 
desapercebidos e dormindo, mas tornaram a ser repellidos. 

« Dnrante a noite haviam eiles levantado uma trincheira a 
tiro de espingarda da nossa, tendo nelía cestòes, que parecia 
e.<;perar artilharia, porém como a tinham de conduzir dos na- 
vios que estavam longe, trouxeram os nossos mais depressa 
uma peça do forte Santo António com a qual entraram a 
bombardear- lhe o acampa mento, fazendo-lhes grande damno. 

< Ao mesmo tempo que faz ia -se ist'),mandava o governador 
António de Albuquerque que 300 homens, dos quaes 200 eram 
Índios, fossem postar-se na retaguarda daquelle quartel, 
onde a mata era mais apropriado, para impedir ao inimigo a 
communicaçãocom os seus navios. 

« Ao amanhecer viram os nossos que o inimigo se havia re- 
tirado duranti3 a noite, havendo na sua trincheira apenas 
25 soldados e um sargento, e também estes não^e demoraram 
em embarcar para uma lancha, que os esperava. • 

A's 3 horas da tarde deixámos a Parahyba, ás 6 s pasmámos 
pela bahia da Traição e á 1 hora da manhã do dia ii de Março 
fundeámos em frente da cidade du Nau I, capital da província 
do Rio Grande doNorte,bnnhada pelo rio Piten^sie defendida 
pelo forte dos Reis Magos (i), que se acha collocado na extre- 
midade de uma peniasulu e no qual também está o pharol. 



(4) O forte dos Reis Magos, muito notável na guerra dos 
hollandezes, está ediflcado sobre os recifes, que o mar cobre 
em maré cheia e junto á barra, tendo perto a prai^, onde ha 
sempre cômoros de areia, que o vento ajunta. Foi tomado 
em 1Ç33 pelos hollandezes, que lhe deram o nome de Cívleít, 
em honra do eomninudante da expedição. 




- 10— 

Vapor, onde conversava eu com o commandante, dirigía-se 
a esto, 6 com elle trocou rapidamente algumas palavras. 
Desceram ambos apressadamente, e poucos minutos depois 
me foram chamar da parte do commandante. 

— Estará morrendo o homem, disse-me o immediato. 

Desci promptamente, e dirígi-me ao beliche do passageiro ; 
mas quando lá cheguei encontrei apenas um cadáver. 

No dia seguinte, depois de preenchidas todas as formali- 
dades da lei, foi lançado ao mar o cadáver do infeliz. 

Era a primeira vez que eu presenciava semelhante scena. 
O corpo, removido para um dos camarins do navio, havia 
sido amortalhado, prendendo -se-lhe aos pés uma pesada 
barra de ferro. Os offlciaes e a marinhagem estavam a postos ; 
sobre o cadáver desceram as bênçãos da Igreja ; lúgubre si- 
lencio reinava em torno de nós, porque até o ruido da ma- 
china havia cessado. O vapor estava parado. Entâo^ em voz 
grave e triste, pediu o commandante aos vivos que alli se 
achavam que orassem por aquelle irmão e companheiro que 
se finara. 

Depois, a um aceno seu, ergueu-se a prancha, e as aguas 
se abriram para receberem o cadáver. 

£ silenciosos e tristes nos retirámos ; o vapor continuou 
em sua marcha por alguns minutos interrompida; mas foi 
profunda a impressão que no meu espirito causou aquella 
scena a que pela primeira vez tinha assistido. 

A pobre senhora, que ahi vinha acommettida do mesmo 
mal^ conseguiu chegar ao Pará, fallecendo porém quatro ou 
cinco dias depois. 

Na noite desse dia e ao approximarmo-nos do Pará, fui 
testemunha de um espectáculo curiosíssimo e para mim com- 
pletamente novo. Era o phenomeno da ardentia, 

O mar, em uma grande extensão, estava coberto de luz 
phosphorescente de um eífeito deslumbrante. 

Era um immenso rastilho de luz, que corria, q[ue se agitava, 
que se abria, tomando formas phantasticas e de um eífeito 
magnifico. As rodas do vapor, agitando e revolvendo as 
ondas, produziam verdadeiros feixos de luz de uma belleza 
admiiavel. 

O commandante e o pratico mostravam-se contrariados, 

f»orque lhes não deixava a ardentia ver a luz do pharol que 
hes devia indicar o caminho. Pouco depois das 9 horas, nu- 
vens espessas cobriram o céo, o vento soprava forte, a ar- 
dentia foi-se pouco a pouco dissipando, a chuva cahia com 
violência e eu fui obrigado a recolher-me ao meu beliche, 
certo de que na madrucfada do dia seguinte estaríamos em 
frente da cidade de Belém. 

Não aconteceu, porém, assim; a noite tornou-se em extremo 
escura e chuvosa ; o pratico pôde apenas por um momento 
distinguir a barca-pharol, perdendo-a logo depois de vista. 
Sendo difflcíl a entrada da narra, em consequência de alguns 
recifes que alli existem, resolveu aproar para o mar e espe- 
rar que viesse o dia dissipara escuridão espessa que lhe dif- 
fic^Uava o caminho. A's 8 horas da mannã passámos pela^ 



baroa-pharol e pouco depois das 9 horas cortava o vapor as 
aguas barrentas do rio Guajará (5), que perfeita e aistin- 
cUmeate se destacam das do mar. 

A'5 11 horas passámos em frente á pequena povoação e fre- 
guezia do Mosqueiro. Ahi comecei a admirar a vegetação 
opulenta c poderosa dessas terras admiráveis, nas immensas 
matlas, formadas por arvores gi^aaiescas que margeam o rio. 
Ao meio dia começamos a distinguir as alias lorres da ca< 
Ihedrai de Belém. O calor era ontSo insupportavel; parecia 
qon nos aRbavamos esmagados sob a pressão de uma almos- 
phera de fogo : mas logo depois uma enorme pancada de 
cliava torrencial modillcou um pouco aquella temperatura 
abrazadora. A's 3 horas da tarde lançávamos o ferro diante 
da capital do Grão-Pará. 

A cidade de Belém, capital da província do Grão- Pará, ba- 
nhada pelo rio Guajarâ, afAuente do Tocantins e situada a 28' 
de latitude meridioonf, é uma cidade importante e de pros- 
pero e grandioso futuro. A sua actual populaçjn é calculada, 
segundo os melhores dados estai is licus, em Sz.OOO almas. 

Em 1749 era calculada a população de Belém em 6.500 ha- 
btlanles: em 1788 cresceu a 10.60U; em 1801 era deia.SOOe 
em 1820 era apenas calculada em 12.Í0O. 

Reflectindo acerca desse crescimento tão lento e da dimi- 
nuição havida no quinquénio de 1825 a 1830, exprime-se 

Baena do seguinte modo : • mas considerando que dentro 

do mesmo período a cidade ha sido o theatro de graves per- 
InrhaçSes da ordem e segurança publica e de quatro andaços 
de bexigas e sarampo, que atearam a i>esle nos habitadores 
sumelhante á que grassou desde o anno de 1743 até o de 1749 
por toda a província, com tanto estrago da humanidade, que 
tirou da população a terça parte, o sobredito duplo autoriza 
o juizo conjectural de que se não tivera existido a funesta 
influencia daqnellas causas para retardar o progresso da pn- 
pulação, a capital da província contaria no anno de 1825 
uma ri>rça numérica de moradores muilO maior, e hoje 
não seria notável a diETerença de Í83 foii^os o de 780 pessoas, 
que se deduz da confrontação da Taboa de 1825 com a de 
1830. • 

De um jornal que em 1869 publicava-se em Belám, consta 

3 uai ert a população approxímada da capital em Dezembro 
el863. 

Transcrevo aqui as próprias palavras do jornal, que não 
fez nm simples calculo seu, mas baseou-se em dados ofQciaes 
dignos de credito: 



(5)0 Gaajarã é a&luonte do Tocantins. Banha a cidade d 
B:5lém Q lem por afiluentes os rios ifojú. Acará e GuamA, 



— 12 - 

t PajmlafSo da capital.^ Segundo se 16 em um dos doeu* 
mentos, que acompanham o ultimo relatório do thesouro 
provincial, possuímos hoje uma estatística pessoa] da nossa 
capital, organizada no anno próximo passado pelo collector 
da decima urbana^ em execução dos g§ i.® e 2.% art. i.^ da 
Jei n.* 550 de 1867. 

Desse documento consta que a população da capital e de 
todo o perímetro da sua légua patrimonial é de 21.916 pes* 
soas. 

Eis-aqui como ella se acha classíQcada : 

Nacionalidades : 

Brazileiros 18,942 

Estrangeiros 3.174 

(Dos estrangeiros : 2 558 são portuguezes.) 

Condições : 

Livres 18.120 

Escravos 3.79fi 



O collector com os fundamentos o factos que aponta, en* 
tende que o numero de 21.916 habitante.se inferior ao real, 
não excedendo^ porém, estado 30.000. Estamos nisto de in- 
teiro accôrdo com as justas ob.servaç5es do collector. > 

Em 1864, segundo os dados estatísticos colhidos pelo Sr. 
conselheiro Brusque, e conflrmados no relatório desse anno 
apresentado á assembléa provincial pelointelíígentoc incan- 
sável Dr. Couto de Masralhães, tinha a província do Pará 
300.000 habitantes. O Sr. senador Pompeu catcula-a em 
320.000. 

Creio que muito pouco ou quasi nada terá augmentado, 
visto como díiferentes causas, que ainda terei occasiao de 
desenvolver, lhe tôm impedido o crescimento nestes últimos 
annos. 

O Grão-Pará, que até o anno de 1851, formava com a co« 
marca do Rio Negro, hoje província do Amazonas, uma só 
província, compòe-si^ hoje de 11 comarcas, que são as seguin- 
tes : conuirca da capital, de Bragança, d( Marajó, deMacapá» 
de (iimelá, de Breves, de Gurupá, do Santarém, de Óbidos, 
da Vigia c da Cachoeira. 

Fórma ainda com a província do Amazonas um só bis- 
pado, dividido em três vigararías geraes, sendo duas na pro- 
víncia do Pará, e abrangendo a terceira toda a província do 
Amazonas. 

Contém a primeira vigararia geral, cuja sóde é em Belém;, 



- 13 - 

48 frefrnezias (6)» tendo apenas âO (7) a segunda, denomi- 
nada do Baixo Amazonas, e coja sede éem Santarém. 

Desde a sua creação, foi a então capitania e hoje pro- 
yincia do Pará, governada por seis capiíães-móres, sendo o 
primeiro o seu iilustre fundador Francisco Caldeira Castello 
Branco. (8) 

Eo ultimo, Bento Maciel Parente, que tão triste nomo dei- 
xou á posteridade por numerosos actos de crueldade e mais 
ainda pela covardia com que entregou aos inimigos a for- 
taleza e a ilha de S. Luiz do Maranhão. 

Eis era resumo a historia dessa lamentável rendição : 

t A 22 de Novemhro de 1641 chegava á bahía de Âraçagy, 
quatro léguas a leste da cidade de S. Luiz do Maranhão, a 
expedição hollan^leza, que ia á conquista da capitania do 
Maranhão. Compunha-se a expedição de 14 navios, sob o 
commandodo almirante Líchtardt, estando as tropas de des- 
embarque sob as ordens do coronel Koin. 

«Teve o governador Bento Maciel Parente noticia immediata 
da chegada da expedição por diversos índios aiii moradores, 
e ordenou logo que fosso reconhecel-a n'unia lancha o capi- 
tão Francisco Coelho de Carvalho, que desempenhou salis- 



(6) As freguezias que formam a primeira vigararia gorai, 
são : 3é e SanfAnna (na capital). Abaete, Acará, Boja, 
Biimfica, Breves, Btijarú, Cachoeira, S. Caetano, Cairary, 
Cametá, Cintra, Caruçá, S. Dominíros, Guamá, I;;arai é-mi- 
rim, Iriíuya, Macajjá, Monsarás, Maaná, Mo»-ajul)a, Ponta 
do Pedras, Portel, Souzol, Vigia, Annajás, Biyão, Barcarena, 
Boa-Visla. Bragança, Capim, Chaves, Curralinho, Muzagão, 
Melgaço, Mojú, Mosqueiro, Nazareth (<lo Pará), Nazarclh (de 
Bragança), Oeiras, Ourém, Quati-purú, Salinas, Soure, To- 
cantins, Trindade, Viseu, Nussa Senhora da Victoria deMa« 
rapanim e S. Pedro de Pederneiras. 

(7) As freguezias que formam a 2." vigararia geral, são: 
Santarém, Alemquer, Juruty, Souzel, Aveiro, Gurupá, Itai- 
tuba, Monte-Alegre, Óbidos Porto de Moz, Villa-Franca, 
Almeirim, Alter do Chão, Arraiollos, Bolm, Faro, Pombal, 
Prainha, Veiros e Villarinho do Monte. 

(8) Havendo Alexandre de Moura nomeado a Francisco 
Caldeira Castello Branco rapitão-mór do uma expedição, que 
mandou seguir para o Amazonas, aílm de explorar aquelle 
rioe estabelecer alli os direitos da curôa portugueza, partiu 
este para seu destino com 200 homens s três navios ligeiros, 
c tendo chegado á margem oriental do rio Mojú, lança a 
três de Dezembro de 1615 os fundamentos da cidade de Be- 
lém do Grao-Pará, á mais de seis léguas acima da foz daquello 
rio, que elle julgava ser o Amazonas, começando as obras 
por um forto de madeira, apezar da opposição de diversas 
trlbus e especialmente os Tupinambás. 



— 14 — 

facloríamcnte a sua commissSo, voltando a dizer, que eram 
quatorze as embarcações e todas hollandezas. Isto porém 
não alterou o governador. 

< Ao amanhecer do dia 25 de Novembro entrou pela bahia 
de S. Marcos a frota hoilandeza, a cuja chegada mandou 
o governador salvar, como se fossem navios amis^os; mas 
vendo que elles não amainavam e nem respondiam e fa- 
ziam proa para o rio Bacanga, mandou então disparar-lhe 
toda a artilharia do forte S. Luiz, carregada de bala, que 
nenhum damno causa aos navios inimigos. 

« Estes por sua vez fazem também uma descarga contra o 
forte, com o mesmo resultado, e vão dar fundo em frente 
da ermida de Nossa Senhora do Desterro. Sem perda de 
tempo desembarcam logo mil hollandezes e tomam posição 
conveniente sem encontrar o menor obstáculo. 

< Os habitantes entorpecidos pelo ócio em que os tinha a 
frouxidão do seu governador, só trataram de fugir para 
o mato com suas familias, como único refugio para sal- 
var-sc e salvai -as, e tão açodados faziam isto, que tudo 
abandonavam, deixando até o necessário á própria subsis- 
tência . 

« Por sua parte correu Bento Maciel a metter-se no forte, 
acompanhado por cento e cincoenta soldados. 

« Vendo os hollandezes o que se passava, pensaram em 
aproveitar o pânico, aflm de se assenhorearem do paiz e pu- 
zeram-se em marcha sobre o forte. 

t Mandou então o governador ter com elles, dizondo-Ihes 
que aquella ilha era de el-rei de Portugal, que tinha em- 
baixadores na corte da Hollanda e que na tyrannia de uma 
tal invasão fazia abominável a todo o mundo o procedi- 
mento das suas armas. 

« Parouocommandanto hollandez e mandou dizer como 
resposta, que violentado por um temporal havia buscado 
aquella bahia, porque sabia bem, que a sua republica se acha - 
va unida aos interesses da monarchía portugueza, e que se 
fizera o desembarque de alguma parte das suas tropas, em 
forma de guerra, fora provocado pela opposiçãode tanla ar- 
tilharia ; mas que vendo-se ambos, se trataria amigavel- 
mente das conveniências de unia e outra nação. 

< Aceitou Bento Maciel a proposta e sahiu a tratar com o 
commandante hollandez, o qual conhecendo perfeitamente c 
estado em que elle se achava, não custou muito em conven* 
cel-o, que pelas ordens que linha do príncipe Maurício, go- 
vernador cm Pernambuco, «não podia já apartar-se daquclla 
ilha sem ordem dos Estados geraes, e assim concordava que 
elle continuasse no governo, até chegar resposta dos avisos 
que se iam' mandar para a Europa ; e que para quartel da 
sua gente nomearia o governador alguma parte da cidade, 
aonde lhe seriam fornecidos todos os mantimentos neces- 
sários, que pagariam pelos preços da terra com a devida pon- 
tualidade. 

« Concordou com tudo isto Bento Maciel, que sem a menor 
att^nçãoá sua dignidade e honra, só procurava salvar a vida 



- IS - 

e as riquezas que durante o governo linha ndquirJdo, c ex- 
pediu as ordens necessárias de conformidade com o pedido 
do general hollandez, recoltiendo-se á fortaleza. 

• Os Itollandezen.que já estavam lodos em terra, desQlnram 
para dentro da uidadii, praticando pelo caminho por onde 
passavam toda a casta de extorsão e iosullos para com os 
moradores, que linbam Qcado. 

• Em (juanio isto se passava, os ofSui^es, que estavam na 
fortaleza, persuadiam ao governador para que se dispuzesse 
paraadeTusa, porquanto não tardaria o inimi^'0 em buscal-o, 
ei o mais empenhado dí^o era o capitão Francisco Coelho de 
Carvalho, que depois Toi governador do mesmo Estado; mas 
Bento Maciel oppõz-se a isto e até reprovou o procedimento 
de um artilheiro, que, sem a sua autorização, havia postado 
em lugar conveniente algumas pei^s, que estavnm fora do 
íortJ, cobrindo-as com ramos de arvores para as nSo ver o 
inimigo e carregando todas com uietralha para atirar sobre 
elles(|uandi] avançassem. 

• Não tardaram os hollandezes em se apresentarem diante 
da [ortiieia, e o governador Bento Maciel, com a maior co- 
vardia i|ue époísivel imaginar-se, mandou abriras porias 
delia e Ibes entregou as chaves. 

• Não se demoraram em entrar, fazendo logo arrear o pavi- 
lhão portuguez e içando o seu, ao mesmo Iem[JO que pren- 
diam Ioda a euarnii^o, inclusive O covarde governador, que 
recebeu as^im immediaio pagamento do seu vil comporta- 
mento. 

• A 31 de Dezembro do mesmo anno fez-!o de vela para 
Pernambuco a esquadra hollandeza, deixando em Maranhão 
apenas uma guarnição de 600 homens, e levou comsigo o go- 
vernador Bento Maciel , que o Conde de Nassau mandou 
encerrar naforialeza dos Reis Magos no Rio Grande do Norte. 

« Pouco sobreviveu elle á sua vergonha, f a llecendo no t." 
de Fevereiro de l&ii, com 75 annos de idade.' 

Depois dos capiíàcs-móres, foi a capitania do Pará admi- 
nistrada por38capitães-geDerae3, sendo o primeiro Francis- 
co Coelho de Carvalho, que morreu em Cametá, e o ultimo 
António Josó de Suuza Manoel de Menezes, Conde de Villa- 
Flor e depois Duque da Terceira. 

Depois da Independência, tem sido administrada por 39 pre- 
siJentes e 33 vicc-presidentes, sendo o primeiro daquelles o 
coronel do 2.° regimento de niilicias José de Araújo Roso, 
nomeado por carta imperial de 25 de Novembro de 1833, u 
qnal tomou posse da admioislraçSoa 2 de Haiodel8!4. 

A província do Pará e em geral toda a zona banhada peio 
Amazonas, <i tida, não ssi se com razão, por muito salubre. 
E' verdade que não s3o raros os caí os de longevidade, ijua 
ahiapparecem. Nas minhas excursões por estas províncias 
tenho encontrado muitos velhos fortes, robustos e no gozo do. 
todas as suas faculdades intellectuaes. A 26 de Fevereiro pró- 
ximo passado falleeeu em Alemquer, niunfcipio de Santarém 
o preto livre Domingos Ramos Vieira com 103 annos o no dia 
10 de Uarço deste mesmo aano, falleeeu uma innS dQ Do> 



— 16 — 

mingos Ramos com 110 annos. Vive ainda uma outra irmã, 
que conta já 92 annos. 

São mui frequentes, como disse, os casos do longevidade 
nestas proviocias, onde existem muitos indivíduos com 90 c 
iOO annos e que ainda trabalham com o vi$|[or de moços. 

Em 1856 morreu em Óbidos^ com 136 annos, o velho Fran- 
cisco António Figueira. Era ainda muito forte. Com mais de 
too annos, contou-me o seu neto, que deve ter hoje mais de 
50 janeiros, ainda o velho Figueira trepava na palmeira 
Assahy, a fím de colher-lhe os fructos. 

Seu fílho Cosme António Figueira morreu com 85 annos. 

Rcferiu-mo o Sr. tenente coronel Joaquim José da Silva 
Meirellcs, um dos mais distínctos cavalheiros com quem tenho 
tratado e um dos homens mais intelligentes de todo o Ama- * 
zonas, que em 1872 havia fallecído em Óbidos um preto com 
mais de 120 annos, e asseverou me o Rev. vigário dessa ci- 
dade ter conhecido uma velhn tapuia, fallecida alli havia 
pouco, com quasi 150 annos. Diz Baena, no seu Ensaio Coro- 
graphico, e fique isto por conta delle que— consta do livro dos 
óbitos da igreja de Cajarv, que havia alli fallecído uma 
mulher india com quasi 200 annos de idade. 

Entretanto ein alguns lugares da província do Pará e espe- 
cialmente em Câmetá (9) reinam constantemente febres de 
máo caracter e que dizimam a população. Emanações palus- 
traes, que continuamente se desprendem dos lugares baixos 
e humiJos, devom serás causas determinantes dessas febres. 
Bem que os habitantes do Pará e do Amazonas apregoem ge- 
ralmente a salubridade dessas localidades e alguns factos lhes 
pareçam dar razão^ o que é certo, ó que as febres são, por 
assim dizer, endémicas nos lugares próximos ás mar^rens dos 
rios e que são conhecidos pelo nome de igapós e nas florestas, 
onde se encontram pantanoso alagadiços. 

f Com efTeito, diz o Sr. Barão da Yílla da Barra, que é au- 
toridade insuspeita, em um paiz, como este, onde o vigor da 
vegetação se póJe medir pela força do calor e da humidade 
sempre constante, é forçoso crer nessas emanações delecte- 
rias, resultantes da decomposição constante de detritos orgâ- 
nicos. > 

Em Cametá as epidemias que por vezes lêm assolado a 
província, têm causado os maiores estragos. Em 10 de Abril 
do corrente anno, escrevia o Sr. Dr. Joaquim Pedro Corrêa de 
Freitas para um jornal de Belém estas desoladoras palavras : 
t Talvez não seja exagerado dizer que não se encontram 30 
pessoas sadias e viíTorosas em Ga meta. > A mortalidade re- 
gulava então de 60 pessoas por mez, em uma população de 
2.000 almas npenns t Nonhuma localidade soíTreu mais estra- 
gos em 1855, por occasíão da invasão do cholera-morbus. 



(9) Cametá ou Camvtá foi fundada em Dezembro de 1635 
com o nome de Villa Viçosa de Santa Cruz de Cametá. 



— 17 — 

Visitando a sala das congregações do lycêo paraense^ vi allí 
um bello quadro commemorativo daquellas scenas de ileso* 
laçio e de dôr (10). A peste pareceu querer despovoar com- 
pletamente a bella terra em que viu a luz do dia um dos 
mais distinctos luminares da igreja brazílelra. (11) 

Bem que collocada quasí no equador e por assim dizer no 
centro aessa zona que os antigos consideravam inhabitavel» 
por cahirem perpendicularmente sobre ella os raios solares^ 
é entretanto mui supportavel a temperatura da cidade de 
Belém e de toda a província do Pará. 

Os ardores do sol são alli modificados pela grande quanti* 
dade de vapores, que se erguem dos rios e lagos, que de todos 
-os lados cercam, cortam e inundam a província. 

As noites em Belém sSo em geral agradáveis, e algumas 
vezes, sobretudo pela madrugada, cbega-se a sentir frio. 

As chuvas constantes concorrem poderosamente para a 
amenidade do clima . Nunca vi chover tanto como em Belém. 
Disscram*me que em outros tempos chovia todos os dias— do 
meio dia ás 3 noras—, que é justamente o tempo de maior 
calor. 

Durante 15 ou 16 dias que estive em Belém, apenas deixou 
de chover dous dias. Nos três últimos dias da minha estada 
alli, choveu torrencialmente, de modo que uma parte da ci- 
dade tornou-se quasi intransitável. 

Paliando das chuvas desses últimos dias, dizia o Diário do 
Grão-Pará : 

c Nos últimos dias de Março, cresceram tanto as aguas do 
rio Guajará, que a parte mais baixa da cidade ficou inun- 
dada. > 

Afflrmaram-me que em 1873, apenas em 92 dias tinha dei- 
xado de chover. £m 1870 omez de Janeiro teve 29 dias de 
€huva. 

Aqui damos a tabeliã das observações udometricas, feitas 
durante o anno de 1870, no pequeno seminário de Santo An- 
tónio, em Belém. 



■«» 



SIO) Este quadro commemoratívo daquellas scenas de luto 
e dôr, é obra de um notável pintor paraense o Sr. Cons- 
tantino Pedro Chaves da Motta, hoje professor de desenho no 
Jycéo. Mede o quadro 16 palmos de largura e 13 de compri* 
mento. Representa o presidente Angelo Custodio Corroa indo 
a Caraetá levar soceorros aos cholericos. O pincel revela 
naquelle quadro um hábil pintor. 

(11) O Marguez de Santa Cruz, D. Romualdo António de 
Seixas, arcebispo da Bahia. 
3 



«48- 

Dellas resulta que foram de chuva 196 dias. 

Mezes. Dias. Dias de chuva. Quantidade 

de chuva. 

Janeiro. ... 3! 29 OriSO^eii 

Fevereiro . . 28 25 0",233,943 

Março 31 25 O, 451,612 

Abril 30 26 O, 365,760 

Maio 31 26 O, 254,000 

Junho 30 19 O, 357,886 

Julho 31 11 O, 118,618 

Agosto 31 12 O, 083,820 

Setembro..- 30 6 0,033,020 

Outubro.... 31 9 O, 099,314 

Novembro.. 30 3 O, 042,418 

Dezembro... 31 5 O, 081,280 

365 196 2^302,306 

Somma da chuva cabida durante o anno de 1870: 

Èm poilegadas inglezas (1 poli. ingi.—0",0254).— 90.642 

Sollegaclas. 
íaximo mensal, Março 0™,4ol,612 

Mínimo idem, Setembro 0"',033,020 

Máximo idem dos dias chuvosos, Janeiro. ... 29 

Minimo idem idem idem, Novembro 3 

Quantidade média diária repartida sobre os 

36o dias do anno 0™,006,37 

Quantidade média repartida sobre os 196 dias 

de chuva 0",011,746 

Dias sem chuva 169 

O minimo da quantidade annual da chuva em Praga na 
Bohemia, é de O ,37,884 ; o máximo da mesma em S. Domin- 
gos, 2'",73,035; no Rio de Janeiro, é a quantidade annual de 
l",50,4õ3 ; em Paris, é a quantidade annual de 0'",57,000; o 
numero dos dias chuvosos 147 e a quantidade média diária 
4e 4"°*. 

Dous dias depois da minha chegada ao Pará, dirigí-me pela 
estrada de ferro a um dos mais lindos passeios da cidade — O 
marco de légua— assim chamado por haver alli um marco 
que indica o termo da légua patrimonial da municipalidade. 
' Passei pelo pittoresco arrabalde de Nazareth, onde osten- 
tam-so algumas chácaras que parecem querer imitar as dos 
arrabaldes do Rio de Janeiro. 

O bairro de Nazaretb é o da aristocracia paraense. No 
centro de uma praça ergue-se a modesta capella da Virgem, 
sob a invocação da Senhora de Nazareth. A festa que ahi 
celebram, é a mais popular e concorrida da capital. A gente 
da cidade para alli aíBue; por muitos dias duram os folgue- 
dos, com todas essas diversas peripécias, com toda essa suave 
poesia que costumam ter as festas do campo e que são desco- 
jihecidasnas nossas festas da cidade. 

O passeio ao marco da légua é um dos mais agradáveis pas- 
satempos de Belém. 



— ia — 

E' uma esirada larga^ direita, lendu uma le^ua deuoiu- 
primeDto, marginada em quasi ioda a sua oxtensiu por uiua 
mau de inagniQcaâ arvores, cas guaes sp maniresta em iDtla a 
sua força a seiva poderosa daquelle solo uberriao. Niisle 
passeio utatinal que atii Qz , pareuia-me respirar a yida por 
todos os pórose dilitaTa-me o corarão suave tranquillidade. 

Esqueci-me naquelie momenlo das tempestades que me 
tfim agitado a vida e parecia auea brisa da Ijonança me nf- 
f*f;3va ft fronte, que os cuidados e os contratempos t<:ra 
sulcado. 

Conlinuando essa bella estrada, qna leva á cidade de Bra- 
gaaça, enconlra-se s 1& ou 15 léguas um aldeamento dcgu* 
pado pelos iadins Temb(^s. Houve nesse lugar em ouiro tem- 
po um quilombo da negros fu>;idos, que no dia 6 de Janeiro 
de ÍB63, no tempo da administração do conselheiro Br usqae, 
foram perseguidos e batidos por uma partida commandada 
pelo então capitão e hoje teaenie coronel José do O' de Al- 
meida. Os negros do quilombo, vendo-se atacados; oppoze- 
ram seria resistência, ficando dons mortos e diversos feri' 
dos. Dos soldados apenas dons ficaram feridos. Disse-me unia 
testemunha occuIar,que noprincipio docombate bateram-se 
os negros cora muito denodo, mas depois de baverem ca- 
bido mortos os dous que mais ousados pareciam, delles se 
apoderara o terror e deixando cahir as armas, fugiram em 
debandada. 

Havia no quilombo para cima de 300 negros. Tinham for- 
mado um núcleo de povoação com casas solTrívelmenie re- 
gulares e uma igreja ainda não terminada e situada em nma 
GOllina denominada dcBelém. A povoação era á margem do 
rio Haracanan e cultivavam elles uma área maior de duas 
léguas. Afllrmaram-me que raríssimas vezes commettiam 
roubos e violências e acredita-se que tinha o quilombo quasi 
60 annos de existência. Consta do inlerrogalorio a que se 
procedeu, que tencionavam alies depois de terminada a ca- 
pella, roubar o vigário de S. Domingos, freguezfa situada à- 
margens do Gnajará, na confluência dos rios Guamá e Capim, 
para constituírem- no parocho da sua igreja. 

O phenomenn da pororoca devia particularmente attrahir 
miaba atlenfão. Tanto nelle Unha ouvido fallar, tantas des- 
cripçíSes pomposas havia lido a respeito, que não podia deixar 

nar essa occasiSo sem te!temunhal-o. A época era a mais 
Tavel; estávamos em fim de Março e as pororocas do 
eqninoxio são justamente as maiores. Quizver a mais notá- 
vel de todas, que é a da ilha Caviana, na foz do Amazonase 
junto ao cabo do Norte. Fol-me porém Impossível encontrar 
transporte para alli. Resolvi, pois. Ir ver a de S. Domingos, 
na confluência dos rios Guama e Capim. 

A's 11 horas da noltede35deHarço, sabide Belém com di- 
recção á fazenda do ir tenente coronel José Geraldo Barroso 
da Silva, em S. Domingos, de onde podia admirar o assom- 
broso phenomeno. 
Alli cheguei is 11 horas da manbS do dia %ò, fazendo o va- 



— 20 — 

por Mofú, onde havia embarcado e de cujo asseio e disciplina 
pouco bem poderei dizer, apenas quatro milhas por hora. 

São mui poéticos e piítoreseos os sítios que margeam o rio 
Guajará ate a freguezia deS. Domingos. 

Encoutram-se allí verdadeiras matas das palmeiras àenci- 
min^ásíS,'—as8ahy (iy, guaruman (i3), jvpaty (l^k), caraná 
(Í5), bacabá (IQ) e outras. Arvores enormes ergucm-se al- 
tivas, como querendo tocar no céo e de quando em vez, em 
meio de extensos cacoaes^ surgiam algumas cabanas cobertas 
de palha ou algumas casas de teJlm, a cuja porta assomavam 
vultos de homens ou de mulheres, que vinham ver o vapor 
que passava. 

A fazenda do Sr. tenente coronel Geraldo fica em uma po- 
sição magnifica, dominando um lindo panorama. Em frente 
o lio, e na margem opposta ha uma extensa linha de arvores 
gigantescas. Quando cheguei á fazenda, já havia tido lugar a 
pororoca Somente dahi a doze horas é que se renovaria o 
phenomeno. 

Nesse mesmo dia á tarde, dírigí-me em uma montaria e em 
companhia do mesmo Sr. tenente coronel Geraldo^ a um sitio 
pertencente a pessoas de sua familia . 

Interna mo-nos por um estreito ygarape' que me disseram 
ser bastante abundante de jacarés (reptis da ordem dos sau- 
rios e do género alligator), 

£' extraordinária a quantidade de jacarés, que infestam 
os rios e lagos, que abundam nas duas províncias do Pará e 
do Amazonas. Afflrmaram-me.e terei ainda occasiSo de veri- 
ficar pessoalmente a exactidão do que me referiram — que 
muitas vezes são as montarias, que cortam os rios, obrigadas a 
passar por entre alas numerosas desses temíveis amphibios. 

Ha muitos de um tamanho descommunal e que são verda- 
deiros monstros dessas paragens perigosas. 



(12) Assahy (euterpe edulis),é ama palmeira esguia e ele- 
gante. Da baga ou fructo fazem a celebre bebida ou vinho de 
assahy y de umacôr roxo-escura, muito saboroso e que passa 
por muito fresco. Dizem ter as propriedades nutritivas do 
chocolate e pôde supprfr qualquer alimentação. 

(13) Guaruman é uma palmeira pequena, muito fina e es- 
guia, de que fazem urupembas, paneiros ou cestos, etc. Ha 
três variedades— íj^uaruman-a^ró, guaruman-mirim e membe- 
ca. Estas duas ultimas servem para trabalhos mais delicados. 

(14) Jupaty, outra espécie de palmeira^ que abunda á mar- 
gem aos rios. (Rhaphia.) 

(15) Caraná (mauritia acuriata e maurítía hórrida) ambas 
com o nome de caraná. Servem as folhas para cobertura de 
casas e duram de 13 a 16 annos. 

(16) Bacabá (enocar pus -bacabá)^ outra palmeira, de cujo 
fructo multo oleoso fazem uma espécie de bebida bastante sa^** 
borosa e cuja còr semelha chocolate com leite. 



-21- 

Nas montarias muitas vezes atacam os homens, que as 
tripulam, mormente quando se vêem perseguidos e arpoa- 
dos. Tornam-se então furiosos e vibram com a enorme 
cauda taes pancadas nas montarias, que as quebram e fa- 
zem-n'as virar. Referlu*me um dos mâts destros pescadores 
de Óbidos e liomem sisudo, que arpoando uma vez por en- 
gano um jacaré, investira este furiosamente contra a mon- 
taria em que se achava e com tal força agarrara á borda da 
canoa, que despedaçou-a e victimas seriam do monstro, os 
que nella se achavam, se a mão possante de um remador não 
vibrasse contra a cabeça do monstro um golpe violento e cer- 
teiro, que atordoou-o, obrigando-o a largar a preza e a sub- 
mergir-se no fundo do rio. 

Como este, muitos outros factos me foram referidos. Af- 
flrmou-me Fr. Samuel, superior dos missionários capuchi- 
nhos, em Manáos, e um dos homens mais conhecedores das 
regiões banhadas pelo Amazonas e seus afflaenles, que nas 
cabeceiras dos rios e nos lagos interiores, são em extremo fe- 
rozes os jacarés, investindo contra as jangadas e montarias e 
assaltando os tripolantes. 

Os jacarés do Amazonas são em geral mui grandes, medin- 
do alguns 24 e mais palmos. A cabeça é immensa, alongada e 
pesada, constituí ndo só elia quasi a terça parte do seu com- 
primento. Os olhos superiores á superflcie do casco, parecem 
mostrara malicía e a ferocidade de que são dotados. A guela 
é enorme e tem armadas as queixadasde uma ordem de dentes 
muito fortes e ponteagudos. O corpo é sustentado por qua- 
tro patas cobertas de uma casca duríssima. O dorso, de côr es- 
cura, acoberto de escamas espessas e tão duras, que oíTere- 
cem resistência ás balas de espingarda, que nella se acha- 
tam, como no couro do búfalo ou do rhinoceronte. 

^ra matal-os é mister que seja feita a pontaria nos olhos, 
nos ouvidos, na parte inferior da garganta ou no ventre. 
Como tem as vértebras da garganta arredondadas e unidas 
umas ás outras por falsas costellas, sent3m grande difficul- 
dade em se moverem ou em mudarem de posição. Em linha 
recta correm com a rapidez da flecha, mas custam muito a se 
moverem em diiferentes posições, de modo que é fácil evi- 
tar-lhes a perseguição, cortando- lhes o caminho e correndo 
em zig-zag. Em terra são muito mais ferozes do que n'agua, 
e dizem que depois de se acostumarem á carne humana ^ão 
perigosíssimos, porque assaltam com muita temeridade. 

Ao passo que ó tão feroz e terrível o jacaré para com o ho- 
mem, é covarde e pusíilanime com a onça. 

Parece incrível o que vou referir, masé a verdade e facto 
muito commesinho que todo mundo conhece no Pará e no 
Amazonas. 

A onça agarra o jacaré pela cauda e devora -o, sem que 
este se atreva a fazer a menor resistência ; salta no rio ou no 
lago, puxa-o para terra, vira-o uma e muitas vezes, dá-lhe 
na queixada, mette-lhe as garras no ventre e martvrisa-o á 
imitação do gato antes de devorar o rato. Depois de haver as- 
sim martyrísadoaquelleimmensoe possante amphíbio,que alli 



— » — 

está quieto, immovel e como fascinado, pula sobre elle e co- 
meça a devoral-o pela cauda. Terminada a primeira refei^ 
cobre com folhas a parte encetada e afasta -se da victima, que 
ainda vive» e retira -se certa de que a encontrará no mesmo 
lugar quando voltar. 

Se por a hi acontece passar alguma pessoa, embravecesse 
o jacaré, abre a Ruela enorme e ameaça atirar-se contra a 
pessoa ; entretanto que espera, sem fazer o menor movi- 
mento, sem tentar sequer fugir, que volte de novo a onça 
para acabar de devoral-o. 

Referiu- me o Rvd. vigário de Silves, o Sr. padre Daniel 
Pedro Marqu3s de Oliveira, que uma vez encontrou em sea 
sitio uma onça devorando um enorme iacaré. Ao aproxi- 
mar-se do lugar em que se achavam ambos, fugiu a onça, 
deixando a preza com a cauda meio comida. Vendo-o, tor- 
nou -se furioso o jacaré, mas retirando-se o vigário e occul- 
tando-se a uma certa distancia em uma moita cerrada, que 
alli havia, viu voltar a onça, que aliás não era muito grande, 
e acabar de devorar a preza que alli havia ficado comoi sua 
espera. 

Não sei explicar essa espécie de fascinação que exerce a 
onça sobre esse gigante doa lagos, e dos ygarapes. Creio que 
duvidosa não si;ria a victoria em favor delle, se ousasse 
travar luta corporal com a onça, porque é prodigiosa a força 
que tem o jacaré na cauda e nas queixadas. Entretanto, 
não ha exemplo de haver elle tentado semelhante acommet- 
timento; deíxa-se covardemente agarrar pela onça e morre 
sem tentara mais pequena resistência. 

Parece a onça reconhecer a fascinação que exerce sobre 
elle, assim como parece respeitar a terrível phalange de 
dentes, que lhe enchem as queixadas. Antes de saltar 
n'agua, quando tem de atravessar algum rio ou lago, urra 
duas ou três vezes, como para annunciar a sua passagem^ 
o os jacarés, que seriam capazes de a devorar, se a não co- 
nhecessem, fogem espavoridos para o fundo dos rios ou dos 
lagos. 

Para atacarem mais a salvo, costumam os jacarés occultar 
o corpo debaixo d'agua, fícando-lhes somente os olhos pró- 
ximos á superficie delia, de modo a poderem espreitar a 
preza, sem correr o risco de serem vistos, e assim assaltam 
as pessoas que descuidadas se vão banhar á margem dos 
igarapés c dos lagos. 

Os lugares mais frequentados por elles são em geral nas 
proximidades das povoações. 

Durante a vasante dos rios e quando as praias ficam a 
descoberto, costumam sahir dos lagos e rios as fêmeas dos 
jacarés, a fim de irem depositar os ovos nas praias e igapós. 
D>ntre todos os animaes são talvez os jacarés os que mais 
variam de tamanho no estado adulto. Um jacaré talhado 
para 20 ou 24 palmos começa a multiplicar sua espécie antes 
deiíaver attinfridoSou 10 palmos. Na época própria sabe a 
fêmea do jacaré do lago ou do rio e procura na praia ou no 
Igapó um lugar abrigado, cava com as patas dianteiras um 



baracn oa areia e atU depoqila os oyos, que gerflmenle s$^ 
de M a 69, em camada? regaU rei, cqbrmdo-os depois cpu^ 
folbas secas. Triste do tinpruden^ qnè tirosse a iafelFcídade 
de SQrprendfil<a oeata operacio. A não fugir com a r«r 
pidei da flecha, s^rja devorado pelo monstro em uma lútà. 
corpo a corpo. 

QuaBi nancB se araata o jacaré ^o lagar em que se achaip 
depositados os aros, e quando a fêmea tem necessidade da 
aueatar-se, atii doa o mactko de guarda, para preservat>as 
de qualquer perigo, defendendo>os cora furor de i|ualquer 
aggressSo. N3o s^ encontra aqui o celebre ickneumon, qa» 
diiem ser o destruidor dos crocodilos ou jacarés do Ni'o 

A^ereraram-me diversas pessoas que os jacarés uunca 
atacam nofuiidpdos riose lagos, e que se pede passar^lmpu- 
nemeate porelles e até abalroa!-os. Disse-meoSr. tenente 
ooronel Meirelles, de quem acima fallei, que conheceu em 
Villa Bella um tapuio qae muitas vezes, armado de uma faca 
aâads, atirava -SB ao rio, mergaltiavae começava no fundo a 
matar jacarés, enterrando-lbea a faca na parte molle dp 
ventre. 

So Amazonas ha muiia Kente qae aprecia acame de um? 
espécie de jacaré (tingaj. Dicem ser um prato muito sabo- 
reio. Qae Uiesíaça bom proveito. Tanto esla espécie, como 
as outras, exha Iam de ai am cheiro activíssimo de slmiscar, 
queé Fealmenieipsnpportavel. 

Passei o rosto do dia, courersando com o Sr. tenente coro- 
nel Geraldo, qae com a maior amabilidade prestava-sea dar* 
me qaaesqner Informações, que delle exigia. Vi slii pela 

Srimeira ves a celebre seringueira ou arvore da borracba e 
e que para diante terei muitas vezes occasiSo de fa liar. 
yostroa-meumbem o ir. teneute corcnel Geraldo uma pe- 
quena arvore que cresce á margem doa rios e que dá nip 
fructo saoielbsndo cachoi de ura de umacõr csbraoquiçada 
«d'ondé eitrahe^se um líquido perfeitaoienle semelhante ã 

Komma arábica, fião-lhe o nome de sombra de boi. Vi tam- 
am aili e depois ém Óbidos e em diversos outros lagares ama 
fequena palmeira denominada pacova- catinga e de cujo 
roc,t3 de cílr vermelha exirabem uma excellenle Unta 
violeta. 

A's 10 horas da noite do dia 36, renovou<se o pbenomeno 
dfi poròroca. Havia chovido, a noite eslava escuríssima e pois 
Dio me era possível distinguir o movimento e a elevação das 
aguas do rio. Ouvi um som tongíaqno, como um raíilo sub> 
terraneo. Parecia o trovão muito prolongado, mas muito 
distante Depois o ruído foi-se tornando mais distincto--> 
eamiahava com extrema velocidade. 

Aquelle ruido prolongado e qae gradualmente se ia aug- 
iinentando, o silencio e a escuridão da noite,' aquelle céo pe- 
jado de nuvens grossas, a immobilidade das aguas do rio, qqe 
.paceeíam e«perar também o espantoso pbenomeno, quuahi 
.Tinha fremente, rugindo,— tudo isso me impressionara do 
jQfflmgdosingolir. 
^a^a Tb, mjl^ podia dl^tingaír por entra a cerracSo i^t 



— 24 — 

noite ; ouvia somente o rugido do monstro, que passava, qne 
corria com espantosa velocidade. Depois foi diminuindo 
pouco a pouco o som, as a^uas do rio agiiavam-se revoltas 
e formando ondas que se cfespedaçavam na praia Minutos 
depois tudo era immobilidade e silencio. Fechei a janeila e 
atirei-me na rede, scísmando no phenomeno, que não pudera 
Ter, mas cuja voz distin^tamente ouvia. 

Que mvsteríos ha ahi ? Que segredos sSo esses ? Que causa 
motiva tao espantoso phenomeno ? Já tinha ouvido aquella 
voz poderosa ; tinha agora anciedade de ver o phenomeno em 
toda a sua pujança e grandeza. 

No dia seguinte levantei-me muito côdo e depois de um 
passeio pouco prolongado pelas circumvizinhanças, vi<itc 
como tornara a chuva intransitáveis os caminhos, voltei para 
casa. 

Seriam quasi ii horas da manhã quando pareceu -me 
ouvir um ruido surdo, como o do trovão que echôa 
muito ao longe. Approximei-me da janeila enada pudedis» 
tinguir. As aguas do rioGuajará corriam tranquillas, como 
se não esperassem ou se não temessem a invasão do inimigo, 
que se aproximava. A vasante era completa, deixando a des- 
coberto, como coroas, os baixos e espraiados. O dia estava 
claro. Na extremidade do horizonte vi como forroarse uma 
ligeira linha de espuma, que ia raoidamente crescendo een- 
frrossando. O ruido havia-se tornado perfeitamente di.<tinclo. 
llouve como que uma suspensão nas aguas do rio, que cor- 
riam ainda havia pouco serenas e tranquillas. Dir-se-hia 
que tinham presentido o inimigo e comprehendido ooerigo. 
A linha de espuma ia crescendo espantosamente e aescre- 
Tendo como um semi-circulo em que prendi) o rio. Era uma 
muralha de espuma, uma va?a gigantesca, que enovelava-se 
e estoirava com fragor medonho. Depois aquelle immenso 
semi-circulo, por uma súbita e admirável evolução, formou 
uma grande linha, como uma diagonal, de uma perfeito 
completa e caminhou rápida^ ameaçadora, fremente, rugin- 
do, levantando espuma e levando adiante de si grandes tron- 
cos de arvoreSj, ramas, tudo, em uma palavra, quanto encon- 
trava no caminho. Em frente á casa em que me achava, 
desappareceu de súbito, parecendo como mergulhar, indo 
surgir mais violenta, mais ruidosa, em linha recta, mas 
tomando direcções diversas, algumas braças mais adiante. 

Não pude mais vêUa; formava ahi o rio uma volta ou co- 
toveilo, que me tirava a vista. Disseram«me que assim con- 
tinuava a pororoca até a junção dos rios Guamá e Capim, 
em uma distancia de nove milhas pouco mais ou menos, 
divi(líndo-se em duas partes, internando-se cada uma delias 
pelos dous rios. 

Calculam a marcha da pororoca em 18 a 20 milha? por 
hora. 

Immediatamente depois da passagem da pororoca, torna- 

ram-se as aguas extremamente agitadas, levantando ondas, 

a que dão o nome de banzeiros e que quebravam*se violentas 

11B praia. O rio eneheu*se subitamente^ de modo que em três 



— 28 — 

oa quatro minutos a agaa havia crescido de quatro a cinco 
pés. 

Muito 86 tem escrípto acerca da pororoca, mas ainda nin- 
guém pôde explicar satisfactoriamente esse assombroso phe- 
nomeno. 

Diz-se geralmente que o impulso das aguas do rio e a re- 
pulsio que aoffrem estas das agnas do mar» é o que motiva a 
pororoca. Entretanto manifesta-se ella em alguns rios eem 
algumas paragens, nas quaesé absolutamente nullaa influen- 
cia do mar. Asseverou-me o Sr. tenente coronel Labre, de 
quem terei ainda muitas vezes de fallar, que no rio Purús e 
na distancia de 690 milhas da foz. dá*se o phenomeno da po- 
roroca. A que eu vi, nasce ou levanta-se de uma ilha for* 
mada pelo rio Guajará (e outros dizem que de umas pedras 
que ficam perto da ilha) e a mais de 80 milhas da sua foz. Le- 
vanta-se, no momento em que começa a enchente» uma onda 
que cresce e corre, caminhando para a nascente do rio. Na 
occasião da vasante, acham-se completamente descobertas as 
praias que circumdam a ilha, ede repente, do lado que olha 
para a nascente do rio, forma -se a onda, que se transforma 
em pororoca. 

Eis o que a respeito áa pororoca escrevia o lllustrado Sr. 
Dr. Francisco da Silva Castro, no Diário do Grão Pará de 8 
de Março de 1860 : 

c Vou fallar do phenomeno chamado pelos naturaes do 
Brazíl pororoca e pelos portuguezes da Asía, macaréo, como 
se pôde ver em João d^ Barros, década 3.', livro 5.^ cap. i.**, 
o em Diogo do Conto, década 6.*, livro 4.^ cap. 3.° 

c A pororoca não se nassa somente em alguns rios perto do 
mor, como julga o Sr. varnhagen. Este estupendo phenome- 
no observa-se também longe da costa, a 30 e 40 e talvez [{O 
léguas domar, taes são o Guamá, o Mojii, o Capim, o Arary 
6 outros. Tami)em é certo, que se manifesta com toda a re- 
gularidade nas marés vivas perto da costa, em quasi todos os 
rios da Guyana Brazileira ou terras do Cabo do Norte, espe- 
cialmente no Araguary e no Amapá. E não é menos certo» 
aue nunca foi visto esse phenomeno no rio Amazonas, o que 
6 explicável pelo que se segue : 

c A primeira condição para que se dô a pororoca é a presen- 
ça das marés vivas e da sua encnente, em cuja occasíão reben- 
tam as pororocas, como se explicam os naturaes da terra. A 
segunda é a de um rio, cujo leito tenha pouco declive, seja 
bastante razo e sem embaraços ou cachoeiras na sua corrente, 
desde a foz até o lugar assignalado para a pororoca . 

< Succede então, que as aguas do rio represadas pela maré, 
que vai enchendo e ganhando força de momento para mo- 
mento, são vencidas por ultimo na sua marcha, saltando- 
lhes por cima a maré com grande estampido, que se ouve a 
três e quatro léguas de distancias e formando ondas tão 
altas e encapelladas. e um rebojod'agna$ tamanho, que alaga 
em poucos minutos espaços enormes e tudo destróe quanto 
diante de si encontra, enchendo de prompto o que havia 
vasado em horas i 
4 



c Já se vê que, para se dar o facto da pororoca, não é preciso 
a coDCurrencia da agua salgada ou do poderoso mar, como 
peosa o Sr. Vambagen, para se estabelecer o triumpho nessa 
lata, entre as aguas do monte e as da maréj que nem sem- 
pre são salgadas, i 

As províncias do Pará e do Amazonas» são dotadas pela 
p^tureza de um solo ubérrimo é fertilissimo^ assim fosse elie 
aproveitado pelos habitantes. 

A natureza ahi ostenta-se em toda a sua pujança e gran* 
deza. 

£ncontram«se por toda a parte arvores immensas, colos* 
saes^ verdadeiros gigantes das florestas^ que parecem querer 
lopetar com os céos. 

Rios caudalosos cortam as duas provindas em mil díffe* 
rentes direcções e entretém a fertilidade do terreno. 

t A província do Pará, diz Baena, é uma região amena e 
fértil^ que a natureza acobertou de viçosos vegetaes munidos 
de raras virtudes e de selvas magestosas, povoadas de excel* 
sas arvores» todas próprias do serviço náutico e civil» e que 
talhou de máximos la^os, de altas serras, de espinhaços de 
montes e de vastas veigas : o numero dos rios capitães 0^03 
seus afflaentes, que formam a sua admirável bydfrographia, 
é portentoso : seria íngreme erapreza formalizar uma lista 
hydrograpbica de todos ellescom a indicação da addição das 
nascentes vizinhas e da natural defluencia de uns em outros^ 
com a sua respectiva posição geographica. 

$ O torrão em geral é formado pelas terras mais capazes de 
premiar desvelos exercidos em cultival-as: a natureza as 
dotou de qualidades as mais próprias para a producçao e fer- 
tilidade : ellas podem ser florentes e abundantes ; assim 03 
seus habitantes, mais efflcazmente se aproveitem delias. ? 

E' admirável sem duvida a quantidade e a variedade de 
arvores, que formam as matas dessa zona em que domina 6 
magestoso rio, que mais semelha um oceano de agua doce, 
como já chamou-o alguém. 

Não são somente admiráveis pela grandeza e dimensões 
colossaes ; mas também pelas virtudes medicioaes de multas 
delias, e pelos diversos misteres e usos que Ibes pôde dar ^ 
industria. 

Agora mesmo que traço estas linhas» tenho sobre a mes^ 
diversas raizes e sipós aromáticos e de virtudes mais òi^ 
menos medicinaes. 

Não posso resistir á tentação de mencionar alguns mais 
notáveis. 

Iraiassibôâ.— Raiz bastante aromática com que costumam 
perfumar a roupa e lavar a cabeça. 

Mucuracá. — Raiz também aromática» e com que perfu- 
mam a roupa. Dizem que é empregada com bom resultado 
no tratamento de certas febres. 

Sipó*pocá. — Raiz aromática : empregam-na com bom re- 
sultado nas paralysias. 

Puraqué-caá. — Batata aromática com que perfumam a 
roupa. 



Corimbó. — Sl|)ó maito aromático: Iimbem serve para 
banhos. 

Com muita difflcutdade consegat obter, por empréstimo, 
um relatório da exposição agricola n induslrial da proria- 
cia do Pará em IS61, no qaal encontrei uma lista circam- 
sian:iada e mioaiiiosa das differentes madeiras que Acura- 
ram naquetia esposiçio. 

Resume esta lista qnasl todas as madeiras gne enriquecem 
aproviticia. A ella addii:íonarei algumas outras mais. Bem 
que seja extensa, não duvido transcrevel-a integra Imenlei 
^rque é coaveníente que saibamos miauciosamente tudo 
quanto nos Úh respeito e conbeçamos aa riquezas que pos- 
suímos: 

Abinrana do Rio Branco.— 4 palmos de grossura e6de 
comprimento: emprega-ge ra congtruccào civil. 

Abricti.— 4 palmos de grossura e 60 de comprimento: teu 
pOBco uso na consiruccSo. 

Acapú.— 8 a 10 palmos de grossura e 30 a 70 de oouipri' 
mento: emprega-se na construcçio naval e civil. 

Acapnrana.— Idem ; emprega-se em marcenaria. 

Aearlcoara.— Idem; na construccão civil para esteios, 

Atmecega.--3 a 4 palmos de grossura ; 40 a 4S de compri- 
mento ; para construccSo civil. 

Amapá —3 a & palmos de grossura, 30 a 40 de comprimento; 
idem. 

Ama parana.— Idem, idem. 

Anany.— 4 a 6 palmos de grossura, &0 a 70 de compri- 
mento; para construcçio naval e civil. 

Anauerá.— 4 a 6 palmos de grossura, SO a 100 de compri- 
mento; para construcçio naval. 

Andiroba briaca.— 10 a 12 palmos de grossura, 40a 80 de 
comprimento ; para cnostrucçao naval e civil. 

Andiroba férrea.— 4 a 7 primos de grossura, 30 a SO de 
comprimento ; para construcçio civil e do fructo exirahe-se 
aieiíe para lui. 

Ditada Tarxea.— Idem, idsm. 

Dita vermelha.— S a 6 palmos da grossura, 76 de compri- 
mento; para construcgão naval o civil. 

Andiroba rana.— 10 a 12 palmos de grossura, 40 a 80 de 
comprimento; porá construc;3o civil e da casca exirabe-se 
azeite para luz e sabSo. 

Angelim.— 13 a 16 palmos de grossura, flO a 100 de com* 
primento; para construcçio naval. 

Angelim pedra.— Idem, idem. 

Angelim ver molho.— Idem, idem. 

Dita da várzea,- S a 6 palmos de grossura, 80 a 100 de 
comprimento; para construcção navaie-civil. 

Araçarana. — 1 palmo de grossura, SO (1« comprimento; 
para construcçio civil e a sua casca 6 ezeellente lenha. 

Dlla da mau.— Idem, idem. 



mmU0 ; p^f^ ^^^m^tw:^ mtr^í ^ mil. 

A*«ik<é H^i7fftiliiMi«Aefr0Mif^,3^a99áecoaprúiealD; 
Êié^Um ^yf <iva aMlirâjSo sjf eosrtroeçSef . 
R4M;íurf .«-^ a lií (4iliMM)f 4e froinira, aO a 100 de coaiprí- 

Hê^urjfp^rf '^lá^m^Ukm, 

1tk%\n%!$ 4$ if$ru^.'^ a 9 iialmof de grossara, 40 a 00 de 
fAmpfíffUínur, p$r$ mêreé^.ntríê 
%fmi UnnKti.'^ a 3 y^\mff% de grofiara, 30 a 50 de eom- 

Uniui^n 4a virz^i*-'! i S palmot de frrossora, 20 a 90 de 
^ÀmpfUmfiio; pffuco tmado nii cofutratçòes. 

Btixo,— i a O palror>« de gro«f ora, 40 a 60 de comprimento 
para tumuinuíío oavil, cifil e marcenaria. 

i^êhmúnho dê ^urzeê.-^í a S palmos deRrMsura, iOaSOde 
eompftífmntf); tem pouco uio nas constrocções. 

Cmíú áo Miato.— i a 4 palmot degrossara, 20 a 40 de com- 
prííiímur, UUm. 

C^rnuMié,— I a 4 palmoa de grossara, SO a 40 de compri- 
mento ; para con»trucçio rivlL 

Cari)ilraria da várzea.— 4 a 5 palmos de grossara, 30 a 50 
de mimprím^^nto ; para constracçio civil. 

CttNlaiiÍM iro.— O a 10 poímos de grossara, 80 a iOO de com- 
prlmtinto ; para comitrucçfiu naval ; do sea en:recasco pre- 
para-N(i luc^llunto oitopa para calafetes. 

(«iiiirt^.— I a 3 palmos de (rrossura , 30 a 40 de comprí- 
mr^nto ; piirn conslruccSo civil. 

(ladro v^rmolho.— Ha iO palmos de grossura, 100 a 140 
de coinprlinonto; para construcçSo civil, naval e marce- 
naria. 

CtMiuIllio.— I a 3 palmoa de grossura, 30 a 50 de compri- 
mento ; pura ronstrucçKo olvll. 

('unxln»(tibolra. — i a 3 palmos de grossura , 20 a 40 de 
eomiirliuento; tom pouco uso nasoonstrucções. 

Cutarana da vartoa.— 3 a 5 palmos de grossura , 30 a 50 
deoomprhuonto; Idem. 

Cumaru.— 3 a 4 palmos de grossura, tO a 30 de compri- 
mento ; para ronstrucolo civil e marcenaria. 

CoudunU — 3 a 4 imlmos de grossura, 60 a 70 de compri- 
mento; para otmstruecfto civiK 

OupaUlta.— 5 a 7 palmos de grossura, 80 a 100 de compri- 
mento ; n4o tom por ora emprego. 

i«upiul»a.— O a 7 i>almos de grossura, 80 a iOO de compri- 
Memo ; |>ara e\mstraet«o naral e civil. 

IMia amar\>lla.— Idem. 

Illla preta.— Idem. 

Oui^úay.— Idem» idem; para marcenaria. 

Curttmy .-* Meni ; para consirntcio cíyU. 



— 19 — 

Envireira branca.— 6 a 8 palmos de grossura^ 60 a 80 de 
roínprimento ; tem poaco uso nas construcçõAS ; da saa casca 
fazem-se cordas. 

Dita preta.— Idem. idem, idem. 

Faveira de Santo Ignaclo.— 8 a i2 palmos de grossura, 80 
a 100 á& comprimento; para construcção naval. 

Dita da várzea.- Idem, idem; para construcção naval e 
civil. 

Faii .— 485 palmos de grossura, 40 a KO de comprimento; 
para construcção civil. 

Flor amarella.— 3 a 4 palmos de grossura, 20 a 30 de com- 
primento; idem. 

Genípapeiro.— 4 a 6 palmos de grossura, 30 a 50 de com- 
primento ; para marcenaria, coronhas de espingarda e formas 
para calçado. 

Geniparana vermelha.— 5 a 7 palmos de grossura, 40 a 60 
de comprimento ; para construcção civil. 

Guaiabarana. —4 a 6 palmos de grossura , e 30 a 40 de 
comprimento* para construcção naval. 

Guajaraby da várzea.— 8 a 10 palmos de grossura, 40a 60 
de comprimento; tem pouco uso nas construcções. 

Guariuba.— 4 a 8 palmos de grossura, 60 a 80 de compri- 
mento ; para construcção civil e naval. 

Dita amarella.— Idem, idem, e na tinturaria emprega-se 
a casca^ de que se extrahe tinta amarella. 

Gurajuba.— 4 a 6 palmos de grossura, 30 a 50 de compri- 
mento ; para construcção civil e naval. 

Inajaruna.— 20 a 40 palmos de grossura, 30 a 50 de com- 
primento; para construcção civil. 

Ipó da varz3a.*2 a 4 palmos de grossura, 30 a 50 de com« 
primento ; para construcção civil. 

Itaúba amarella.— 10 a 14 palmos de grossura, 90 a 110 
de comprimento; para construcção naval e civil. 

Dita vermelha.— Idem, idem. 

Dita preta.— Idem, idem. 

Dita pinima.— Idem^ idem. 

Jabuty-pé.— 2 a 4 palmos de grossura, 20 a 30 de compri- 
mento ; para marcenaria: madeira nova e por ora pouco co- 
nhecida. 

Jacarandá.— 2 a 4 palmos de grossura, 20 a 30 de com- 
primento; para construcção naval, civil e marcenaria. 

Jacareúba — 10 a 14 palmos de grossura, 110 a 130 de com- 
primento; para construcção civil. 

Juarataciú da várzea.— 4 a 6 palmos de grossura, 30 a 50 
de comprimento ; idem. 

Jutay da várzea.— 4 a 6 palmos de grossura, 30 a 50 de 
comprimento; idem. 

Dita de envira.— 4 a 5 palmos de grossura, 40 a 50 de com- 
primento; idem. 

Lacre.— 2 a 4 palmos de grossura, 20 a 30 de comprimento ; 
idem, e da resina se extrahe lacre. 

Limão-rana.— 5 a 7 palmos de grossura, 40 a 60 de conapri* 
mento; para construcção civil e marcenaria. 



— 30 — 

Louro abacate. ~8 a 10 palmos de grossura, 40 a 60 de com* 
prímento;paracoDstrucçãoDaTa]y civil e marcenaria. 

Dito amarello.— Idem, idem. 

Dito cuaarú.— Idem, idem. 

Dito branco.— Idem ; para construcção naval e civil. 

Dito pardo, dito passarinho, preto e vermelho.— Idem, 
idem. 

Macacaúba .— 4 a 6 palmos de grossura^ 20 a 30 de compri- 
mento ; para construcção naval, civil e marcenaria. 

Dita da mata, da terra firme e da várzea.— Idem, idem. 

Macucú.— 2 a 4 palmos de grossura, 40 a 60 de compri- 
mento; para construcção civil. 

Maçaranduba.— 12 a 14 palmos de grossura, 100 a 120 de 
comprimento; para consirucçHo naval e civil. 

Dita da matae vermelha.— Idem, idem. 

Maparajuba preta.— 6 a 8 palmos de grossura, 30a 50 de 
comprimento; idem. 

Dita da várzea.— 4 a 6 palmos de grossura, 40 e 60 de com- 
primento; para construcção civil. 

Matámata da mata.— 2 a 4 palmos de grossura, 16 a 20 de 
comprimento ; para construcção civil. 

Dito preto e da várzea.— Idem, idem. 

Maúba da mata.— 4 a 6 palmos de grossura, 16 a 30 de 
comprimento; para marcenaria. 

Mongubeirana.— 4 a 6 [)almos de grossura, 30 a 40 de com- 
primento; para marcenaria. 

Moreira deespinhos.— 2a 3 palmos de grossura, 20 a 40 
de comprimento ; para construcção civil e marcenaria. 

Morotó da várzea.— 2 a 4 palmos de grossura, 16 a 28 de 
comprimento ; pouco usado nas construcções. 

Muiraçacaca.— 2 a 4 palmos de grossura, 30 a 3õ de com- 
primento ; idem. 

Muiraçacaca*canga.— 2 a 4 palmos de grossura, 15 a 25 de 
comprimento ; idem. 

Muiracutiara.— 2 a 5 palmos de grossura, 15 a 25 de com- 
primento; para marcenaria. 

Dita cabocla.— Idem, idem e também para construcção 
civil. 

Muirapaúba.— 6 a 9 palmos de grossura, 30 a 50 de compri- 
mento; para construcção naval, civil e marcenaria. 

Mairapinima.— 1 a 2 palmos de grossura, 10 a 16 de com- 
primento; para marcenaria. 

Muirápiranga .— 6 a 8 palmos de grossura, 40 a 60 de com- 
primento; para construcção naval, civil e marcenaria. 

Muirapixuna.— 2 a 4 palmos de grossura, 30 a 40 de com* 
primento. 

Muirarema da várzea.— 2 a 4 palmos de grossura, 16 a 30 
de comprimento; pouco usado na construção. 

Muiraúba da mata.— 4 a 5 palmos de grossura, 50 a 60 de 
comprimento ; para construcção naval e civil. 

Muruxy.— 2 a 4 palmos de grossura, 16 a 28 de compri- 
mento; para construcção civil; a casca é empregada nos 
Gortumes e dá excellente tinta vermelha. 



-31- 

Hnioly.— 3a i palmos de grossura, 16 3 28 de compri- 
meoio ; para marcensrin, e como madeira summameDte fere 
emolle.é também usada como corliça. 

Óleo de moça,— 2 a 3 palmos de grossura, 3S a 30 de com- 
primento ; para construrção civil . 

Pacaperá da várzea. -1 a Spalmrs de grossura, IS a 23 da 
comprimento ;é pouco usado nas construcçSes . 

Pão amarelto.— 6 a 8 palmos de grossura, 60 a 80 de com- 
primento; pare construcçSo navaT civil e marcenaria. 

Páo d'arco. — 12 a 14 palmos de grossura, 60 a 150 de 
comprimento; idem. 

Pio de breu.— 1 a 3 palmos de grossura, 30 a 50 de com- 
primento: para conslrucção civil. 

Páo de breu da várzea. — 3 a 4 palmos de grossura , 30 a 
30 de comprimento; idem. 

Pio cruz.— 1 a X palmos de grossura, IO a 25 de compri- 
mento ; para conslmcçio naval, civil e marcenaria . 

Pio laranja.— 3 a 5 palmos de grossura, 30 a 50 de compri- 
mento; idem. 
Fâoinarflm. —Idem, idem. 

Páo mulato.— 2 a 4 palmos de grossura, 40 a 60 de com- 
primento; para marcenaria. 

Páo oiro.— 3b5 Darmos de grossura, 30 a 50 de compri- 
menio; para construecão naval, civil e marcenaria. 

Páoramtia.— Ia3 palmos de grossura, 30 a SOde compri- 
mento; idem. 
Páo rei. —Idem, idem. 
Páo roxo e rosa.— Idem, idem. 

Páo santo, páo santo macaco o páo setim.— 4 a 6 palmos de 
frossnra, 40a 80 de comprimento; idem. 

Papo de malam . — 2 a 3 palmos de grossura, 30 a 40 de 
comprimento; para constrncçílo civil. 

Paparaúba . — 2 a S palmos de grossura ; 30 a 50 de com- 
primento ; para construcçSo civil e marcenaria. 

Paracánba.— 3 a K palmos de grossura, 30 a 50 de compri- 
mento; idem. 

Dita das libas de Macapá. — S a 6 palmos de largura, 
80 a 100 de comprimento; para construcç3o naval e civil. 
Paracsxi . — 5 a 6 palmos ae grossura, 30 a 35 de compri- 
mento; para construci^o civil. 

Pataná (palmeira] ^— De 2 a 4 palmos de grossnra,30 a 50 
de comprimento; para marcenaria. 

Paricarána.- 3 a 4 palmos de grossura, 30 a 35 de compri- 
mento; para construcçlo civil. 

- Pariry. — 4 a B palmos de grossura, 40 a 50 de compri- 
mento ; para marcenaria; 

Pepino do mato. —1 a 2 palmos de grossura, 13 a 16 de 
comprimento- para construcçSo civil. 

- Ptquiá .— 10 a 12 pahnos de grofâura, 30 a 10 de compri- 
mento ; para construcçSo naval e civil ; da casca extrnlie-se 
tinia preta. 

Dito prelo.— Idem, Idem. 
Piqaiarana.— Idem, idem. 



— 32 - 

Piriquito da várzea. — 5 a 6 palmos de grossura, 50 a^ 
de comprimento; para construcção civil. 

Pítaicica. —3a o palmos de Rrossura, 80 a 90 de compri- 
mem ) ; para construcção naval e civil. 

Pitombeira.— 1 a 3 palmos de grossura, 30 a 50 de com- 
primento; para construcção civil. 

Raiz de cedro.— - Para construcção naval, civil e marce- 
naria. 

Sabuarana. — 4 a 6 palmos de grossura, 30 a 50 de com- 
primento ; para marcenaria. 

Sabuarana rosa. — Idem, idem. 

Sapucaia.— 10 a 12 palmos de grossura, 30 a 50 de comprí- 
mento; para construcção naval. 

Dita da várzea.— Para construcção naval^ civil e marce- 
naria. 

Sapupira branca e preta.— 8 a 10 palmos de grossura, 80 
a 100 de comprimento; para construcção naval e civil. 

Sebolinha da várzea.— 1 a 2 palmos de grossura, 15 a 25 
de comprimento; é pouco usada na construcção. 

Seringueira.— 10 a ií palmos de grosíura, 40 a 80 de com- 
primento; não é por ora usada na construcção; do seu leite 
se prepara a gomma elástica. (17) 

Sorva .—6 a 7 palmos de grossura, 50 a 70 de comprimento; 
para construcção civil. 

Sucumba da mata — 5 a 6 palmos de grossura, 60 a 80 de 
comprimento ; para construcção naval e civil. 

Sucuúba da mata.— 2 a 3 palmos de grossura, 40 a 45 de 
comprimento; para construcção civil. 

Tamanqueira de espinho.— 4 a 5 palmos de grossura, 40 a 
45 de comprimento; para construcção civil. 

Tamacuaré.— 8 a 10 palmos de grossura, 40 a 45 de com* 
primento; para construcção civil. 

Patajuba.— Idem, idem ; para construcção naval e civil e 
também para tinturaria. 

Patajubarana.— 5 a 6 palmos de grossura, 60 a 65 de com- 
primento; para construcção civil. 

Patapiririca.— 3 a 4 palmos de grossura, 30 a 40 de com- 
primento; para construcção civil. 

Tanary bran ;o.— 5 a 6 palmos de grossura, 90 a 95 de com- 
primento ; para construcção naval e civil. 

Timbórana.— 4 a 5 palmos de grossura, 30 a 35 de compri- 
mento; para construcção civil. 

Tinteira.— 3 a 5 palmos de grossura, 10 a 40 de compri- 
mento* para construcção naval e tinturaria. 

Ucuiiba da mata.— 4 a 5 palmos de grossura, 60 a 70 de com- 
primento ; para construcção civil. 



(17) Terei occasião para adiante de fallar mais detidamente 
da seringueira. 



-33- 

Ucaúba branca.— 4 a K palmos de grossura^ 60 a Tffde 
comprimento; por ora nSo é usada na çonstrnççSo ; da sua 
frata extrahe-se uma piateriasebac^a, própria para valas. 

Umiry da várzea.— 6 a'7 palmos de grossara, oO a 70 de 
cooiprimento; para constracçio naval e civil. 

OUa da ma ta • — (dem, idem . 

Umary : — i a 3 palmos de grossura, i6 a Si de com* 
primento: para marcenaria. 

Uxi.— ãa 8 palmos de grossura^SO a 70 de comprimento; 
para construcçao naval e civil. 

Uxirana da várzea.— Idem, idem. 

Yentona da várzea.— 4 a B palmos de grossura, 48 a 80 de 
comprimento ; para construcçio civil. 

Xurú.— 8 a 6 palmos de grossura, 90 a 98 de comprimento ; 
idem. 

Aléra destas arvores, devo também mencionar as seguintes, 
que não constam do relatório da exposição: 

Anda.— £' arvore de 28 palmos de comprimento e dous de 
grossura. A madeira leve e esponjosa serve para jangadas e 
tamancos. Dá uma amêndoa oleosa c purgativa, que embe- 
beda e mata o peixe. £' a arbor brasiliensis nucífera, fructu 
geminum nucleum continente, áe Pison e Maregravius. 

Fáo Brazil ( Brasilicum ligíium Pseudo^santulum rúbrum, 
de Maregrave, ou Ibiramtanga, seu lignum rubrum, ãePisên). 
— E' uma arvore de 60 e mais palmos de comprimento e 2 a 3 
de grossura, armada de espinhos curtos. 

Biriba.— E' arvore de 80 a 100 palmos de comprimento; 
de um âmago preto duríssimo ; é a pederneira dos mdigenas, 
que delia extrahem fogo pelo attrito. Serve para mastros de 
Darcos e para taboado de lorro de embarcações, por isto que 
é menos atacado dos buzanos. Também serve para esteios 
de casas. Da casca extrahe-se estopa para calafeto, a qual 
tem o nome de estopa da terra. 

Marupá .— Espécie de pinho. 

Eotre os estabelecimentos públicos que visitei em Belém, 
devo fazer menção especial do arsenal áfi marinha^ hoje sob 
a administração do Sr. capitão de fragata Manoel Carneiro da 
Rocha. 

Admirei a ordem, a disciplina e o asseio que alli encontrei. 
O Sr. Carneiro da Rocha tem lutado com grandes difficuU 
dades nos melhoramentos e reformas, que alli tem podido 
introduzir; mas a realização dos seus esforços prova que 
tudo pôde conseguir uma vontade tenaz e perseverante. 

Eis em resumo & historia dacreação do arsenal de mari- 
nha do Pará, segundo os dados offlciaes, que me foram mi- 
nistrados. 

Em Janho de i76i escolheu o governador do Pará, general 
Manoel Bernardo de Mello e Castro, a ribeira e praia do Hos* 
picíodeS Boaventura para estaleiros da primeira náo, que 
se devia denominar Belém, e que projectava construir. Para 
isto, pois, mandou levantar telheiros e offlcinas próprias de * 
construcçao naval, para o que requisitou e lhe foram en- 
viados da Ribeira de Lisboa os operários necessários. 
5 



-34- 

Em virtade da carta ré^ia de 6 de Jalhode 1761, regnla- 
tIzoq o governador o serviço das officínas, que se compunham 
4as de calafate, polieiro, ferreiro, carpinteiro, serrador e ta- 
noeiro, havendo mais 50 serventes, um patrão da galeota e 
^remadores. 

Em 1790 foi collocado um guindaste, semelhante aos de Lis- 
boa, sobre um cães de pedra. De ha muito que n§o existe 
esse guindaste, que foi substituido por um outro vindo da 
Ingfaterra em 1858, e que suspende 6 pesa em balança pró- 
pria até 10 toneladas de carga. 

Foram até o anno de 1800 construídas no arsenal de ma* 
rinha do Porá, 4 fragatas de 44 peças, 3 charruas, 3 bergan- 
tins, 12 chalanas canhoneiras, alem de uma infinidade de em- 
barcações miúdas para transporte, segundo attestou-o o ca- 
pitão general do Estado do Grão-Pará D. Francisco de Souza 
Coutinho, em seu relatório dirigido ao governo da metrópole. 

Em 1803 foi confirmada a nomeação de patrão-mór e cm 
1811 foi creado o lugar do capellão. 

Em 1817 foi lançada no estaleiro a quilha de uma fragata 
de 46 peças, com o nome de Leopoldina e que cahiu ao mar na 
primeira oitava da Paschoa em 1822, com grande pompa, sendo 
então intendente o chefe de divisão Joaquim Epiphanio da 
Cunha. Creio que foi nesta mesma fragata, que reiirou-se da 
província, depois da proclamação da independência, o então 
capitão- tenente João Pascoe Greenfell. 

Desde essa data, que de tanto progresso e gloria lhe foi, 
tem ido defínhando o arsenal de marinha do Pará, que actual- 
mente se limita a concertar embarcações e a construir lanchas 
e escaleres. 

« Longe e bem longe, escrevia em 1863 o Sr. conselheiro 
De Lamare, está o arsenal de marinha do Pará do que deve 
ser e mesmo doque foi em tempos coloníaes. De feito, quem 
conhecer os recursos naturaes, que offerece aquelia provín- 
cia, quem se recordar das importantes vantagens que dalll 
tirava a marinha portugueza em navios e madeiras, quem 
attender a que somente nas margens do rio Acará, que vem 
desaguar na bahia, que banha o líttoral de Belém, vegetam 
beiias madeiras de construcção, em quantidade saíficiente 
para abastecer por muitos annos o arsenal de maior movi- 
mento, por certo lastimará a decadência e completa insigni- 
ficância a que está reduzido aquelle estabelecimento. 

< Tiral-o desse torpor, dar actividade e movimento ás suas 
offlcinas, eleval-o ao gráo de prosperidade a que elle pôde na- 
turalmente atiingir, é prestar um incontestável serviço á 
marinha de guerra, fomentando ao mesmo tempo os iusfos 
int^^rosses e engrandecimento futuro de uma das provmcias 
do Império, que pela fertilidade do seu solo, pelas riquezas 
com que prodigamente a aquinhoou a Providencia, pôde mais 
amplamente compensar os disvelose cuidados, que lhe forem 
Jarj^Mieados. » (18) 



(18) Relatório do ministério da n^arínba de 1863. 



-35 — 

< Ninguém desFonhecc, contlniLa ainda o Sr. coosclheiro 
OeLiiniare, quanto importa dar vigomso impulsa a esto esta- 
belecimento, único situado de Pernaojbuco para o norte, e 
que de tio valioso auxilio póJe vir a si^ra marinha do Es- 
udoe n dos particulares, em uma proviacia como aquella, 
onde a industrii privada dSo oHerece os necessários recur- 
sos, e que por sua posiçila geographíca lem do tornar-se o 
centro de uma forca naval respeitável e de um importante 
commercio marítimo, prinripalmente sendo realizada a idéa 
da livre navegação do Amazonas. • 

Actjalmente carece existir mtiis actividade no arsenal de 
marinha do Para, não sd petos esrorços do intelligenie ins- 
pector, como porijue, alleadendo o governo imperial a uma 
palpitante necessidade, houve por bem augmeniar os jor- 
naes dos mestres e operários. 

Occupa este estabelecimento uma superfície de 89 braças 
de comprimento; a contar da entrada do porOo, na prsfa 
de Bage, ao portão que dá para o igarapã de S. José; lendo 
de TundG 71 1/3 braças da prea-mar média ao muro que re- 
para o arsenal da entrada. 

Lançando-se a vista para o lado do sul, dcpara-se com o 
riacho ou igarapé de S. José, amigameo to denominado Comt' 
ãiadoi peLces-boie que borda uma ílba. 

No centro da casa do inspector, achs-se collocada a ca- 
pella do arsenal, a qual já existia antes da edificação da- 
guella casa, que encerrou-a em seu âmbito. O orago ó 
S. Sebastião. 

Foi ella antigamente convénio de S. Boaventura, levan- 
tado á beira mar pelos religiosos Ja Conceição da Bjira e 
Minho, no aano de 1706, no sitio então denominado Porto 
Ao Tição, em tí6 braças de terreno doadas para essa fuu- 
dai^o. 

Pouco direi, por ora, acerca da inslrncção publica ao Pará. 
Demorando-me alli apenas 15 dias e tendo de examinar diflê- 
rentes cousas, não dispuz de tempo sufQciente para estudar 
esse ponto importanlissimo e que tanto interessa ao futuro 
engrandecimento da província. 

Beservar-me-hei para quando voltar da minha excursão 
ao Amazonas, consignando apenas agora o que tão por alio 
pude colher. 

Parece que as administrações qut tem (ido o Pará, se não 
tSm esquecido de promover e derramar a instrucção peto 
povo. Ua nesta província l64escolas publicas de ensiuo pri- 
mário, sendo 8S para o sexo masculino e 72 para o sexo femi- 
nino, frequenladasas primeiras por &.500 alumnos e as se- 
gundas por 1.300. Alem destas ha ainda 18 escotas parlicu- 
lares, sendo 13 para meníaoseSpara meninas. 

Pnocciona na capital um bem montado estabelecimento, 
sob a denominação de Lycea Paraense, no qual, regidas por 
hábeis professores, existem as aulas de grammatica latina, 
latinídade, francez, inglez, grammatica philosophica, rheio* 
rica, historia^ geograptiia, philosophia, technologia, physic», 
chiiBica, mathemaiicss, escripturafão mercantil, d""'"^"- 



musica. Comnrehende dons cursos? o lirocinio nojite Ivcen : 
o de humauidades e o conimercíal, compostos ambos* de tí 
cadeiras e percorridos o primeiro em seis e o segundo em 
trcs ânuos. 

Além dos dous estabelecimentos ej[)iscopaes, o pequeno e o 
grande seminário, sobas vistas e direcção do iliustradissímô 
prelado da igreja paraense e frequentados por grande nu- 
mero de alumnos, ha ainda não menos de sete coilegios parti- 
culares, perfeitamente montados e com crescido numero áé 
alumnos. Também achbu écho na provinda o pensamento 
das escotas nocturnas para adultos, que vai produzindo re- 
sultados magniOcos. Em 1872 foram ellas frequentadas por 
268 alumnos e consta-me que no corrente anno o augmento 
foi de mais de metade. Ha também uma escola nocturna des- 
tinada exclusivamente ao ensino de escravos e que em i87S 
era frequentada por 55 alumnos. 

A' expensas suas creou o Sr. bispo diocesano , no antigo 
convento do Carmo, um asylo para as meninas pobres da 
província, eque ahi recebem esmerada educação. Tive occa- 
sião de visitar esse estabelecimento, que é vastíssimo, tendo 
talvez capacidade para accommodar mais de 200 pensionistas. 
£' pena que os poucos recursos de que dispSe o prelado lhe 
não perniittam dar maior desenvolvimento áquella utilíssima 
instituição. 

Merece também menção especial o collegio de Nossa Se- 
nhora do Amparo, para educação das meninas, e mantido á 
custa do thesouro provincial ede uma subvenção geral. 

De um trabalho publicado no almanak do Pará, de i871^ 
coibi os dados seguintes, acerca deste importante estabeleci- 
mento : 

A idéa e o começo da realização de tão utíl casa, deve*se 
ao bispo D. Manoel de Almeida Carvalho, de saudosíssima 
memoria. Em 1824 começou este estabelecimento a receber 
200^000 da fazenda nacional, que de 1826 a 1830, por ordem 
do governo, fornecia também carne, farinha e luz ao collegio. 

De 1830 a 1833 foi este fornecimento substituído pela som- 
ma annual do 600^000. que em fins de 1833 foi reduzida a 
400|$000. Em 1837 ou 1838 foi esta quantia elevada a 800^000 
e logo depois a 2:000,^000, que tem subsistido até hoje. 

Foi originariamente instituído o collegio para educação de 
índias menores. Com o andar dos tempos, porém, foram sendo 
pouco a pouco admiti iilas meninats apenas descendentes de 
índias, depois as mestiças, mais tarde as brancas pobres e 
por fim chegou também a vez das brancas ricas serem admit- 
tidas, o que era evidente signal da transformação do insti- 
tuto. 

Quando em 1824 ou 1825, chegaram as cousas a este ponto, 
o digno bispo Souza Coelho, que já tinha feito muito sacríficio 
no empenho de manter o collegio, exigiu que as filbas dos 
homens abastados, que fossem admíttidas ou que já existiam 
no estabelecimento, pagassem 35]$5000 de comeuorias, vestin- 
db-se e calçando-^e a custa de seus pais. 

Foi o meio mais acertado e o único de sustentar o instituto. 



^?7 = 

Jjslin o exigia e aconselhava a necessidade. Desde então n3o 
leve o prelado de fazer sacriíicios como d^antes ; as quoxas das 
meninas abastadas, que afflaiuoi ao coljegio, as que o gcxverno 
lin{>erlal fornecia e algumas esmolas Importantes, s^Mdavam 
â maior parte das despezas. 

Uma vez assim transformado o edíficio de soa primitiva 
organização, era fácil prever que o estabelecimento estava 
próximo a passar a outras m^os e a outros directores, e eSec- 
tivamente assim aconteceu, logo ou pouco depois ao falle- 
cimento do bispo D. Romuafdo de Souza Coelho. 

H jje, este collegio que é, pelo menos, um dos mais bellos es- 
lalieiecimentos de educação de meninas em todo o norte do 
Império, é mantido por três d ifferentes fontes de renda: f)or 
seus próprios reditos, pela subvenção do governo imperial e 
principalmente por quotas votadas annúalmente peU as- 
semblea provincial. 

Diversas sociedades scientificas e litterarias promx>vom 
também na capital do Pará, a disseminação dos conhecí- 
jnenios. A grande iihprensa é allí representada pelo Diário 
do Grão Pará, Jornal do Pará, Diário de Belém e Liberal do 
Pará, que são diários. Ha mais a Boa Nova, que se publica 
doas vezes por semana, o PeUcano, que é semanal e diversos 
Jornaes de pequeno formato, como a Tribuna, o Tacape, a 
Pátria, a Luz da Verdade, o Santo Oficio, e outros. Annun- 
€iava*se o apparecimento próximo de um novo jornal^ que 
seria denominado Jornal do Commercio, 

Na noite do l.**de,Abril, embarquei no vapor Arary, com 
destinoa Ma náos^ capital da província do Amazonas. 

Pertence o Arary á companhia de navegação a vapor (Li* 
mitada) do Amazonas. 

c Na província do Pará, disse o Sr. conselheiro Corrêa de 
Oliveira, e eu acrescentarei, na provincia do Amazonas, 
onde ha uma vasta rede nnvegavFl, um labyrintho degran* 
des e pequenas vias fluviáes, que cortam a terra em toaos os 
sentidos e direcções, parecendo constituir um archiçelago, 
en necessário juntar á grande obra da natjureza a facilidade 
de transporte para tantos productos espontâneos, que ahi 
estão desaQando a colheita e extracção. A' esta necessidade 
lem o governo attendido, subvencionando as companhias de 
naveiçação e commercio do Amazonas, a fluvial P,araense, a 
costeira do Maranhão, a fluvial do Alto Amazonas e a em* 
preea de navegação do Tocantins e Ara^uaya. » 

São incalculáveis os serviços prestados por estas compa- 
nhias, sem as quaes não teriam as duas províncias tido occa- 
sIão de desenvolver os immensos recursos com que dotou-as 
â providencia. 

A primeira e a mais importante de todas e que cada dia 
quais se vai desenvolvendo e prosperando, graças á direcção 
intelligente do infatigável gerente o Sr. M. A. Pimenta Bue- 
no. éa companhia fluvial (Limitada) do Amazonas. 

Fói ella íncorp3radá no Bio de Janeiro em i85â pelo Sr. 
Barão de Mauá e começaram os seus vapores a funccionar no 
l."" de Janeiro de Í8S3. 



^38 — 

Em princípios de 1852, o negociante João Augusto Corroa, 
paraense recommendavel por sua actividade e relações com* 
merciaes e que a morte tão prematuramente rouboufao des^ 
envolvimento da terra que o viu nascer, apresentou ao go« 
verno imperial uma proposta, obrigando-se, mediante a sub- 
ven^o de 96:000^000, a estabelecer a navegação do Ama- 
zonas por barcos a vapor. Não julgou porém conveniente© 
governo aceitar a proposta, visto como não se obrigava o 
proponente a fundar os núcleos coloniaes, que o governo 
tinba em vista. 

Nos termos da lei n.« 586 de 6 de Setembro de 1850, por de- 
creto de 30 de \gosto de 1852, concedeu o governo imperial 
a Irinêo Evangelista de Souza, boje Barão de Mauá, a fa- 
culdade de incorporar uma companhia com o capital de 
i. 200 lOOOj^OOO, para o fim de sustentara navegação regular 
por navios a vapor entre a cidade de Belém e a de Manáose 
entre esta e a povoação de Nauta, no Peru. 

Do importante trabalho do Sr. Dr. Domingos António 
Raiol, intitulado Abertura do Amazonas, extrahimos os se- 
guintes e curiosos apontamentos: 

• Foi concedido á companhia o privilegio exclusivo por 
30 annos para só ella poder navegarem barcos a vapor entre 
Belém e Manáos e Manáos e Nauta. 

< Além disto o governo Imperial nos primeiros 15 annos se 
obrigou a prestar-lhe uma subvenção annual de 160:000^000 

feio serviço da primeira linha, garantindo a subvenção, qoe 
he desse o governo do Peru pelo serviço dn segunda, a cujo 
pagamento se obrigara até o máximo de 40:000^(000. 

c Durante os 30 annos do privilegio» a companhia era obri- 
gada a fundar nas immediações do Amazonas e dos seus con- 
fluentes 60 colónias de estrangeiros ou de índios, devendo 
ser aquelles da nação, que o governo designasse. 

c Para este fim lhe seria concedida gratuitamente a porção 
de terreno necessário p«ra as colónias ou aldeamentos, não 
podendo cada um destes estabelecimentos occupar menor 
espaço do que o indispensável para a sustentação de 3.000 
habitantes. 

< As colónias que a companhia fundasse, gozariam de todos 
os favores, que já tivessem sido concedidos ou qoe se conce- 
dessem a iguaes estabelecimentos no Império, salvas as res- 
trícçiSesdas localidades e do regimen administrativo. 

c O governo não concorreria com despeza alguma para fun- 
dação de colónias ou dos aldeamentos, mas obrigava«se a dar 
á companhia toda a protecção e auxílio necessário para fa- 
cilitar o contracto, vinda e estabelecimento tanto dos colo- 
nos como dos missionários que a companhia tivesse de trans- 
portar e bem assim para remover qnaesquer embaraços 
imprevistos, que se oppozessem á marcha e desenvolvimento 
da empreza. 

• Este contracto foi ínnovado por outro que baixou com 
o decreto n ."^ 14^5 de 2 de Outubro de 1854. 

< Foram então concedidos gratuitamente á companhia 70 



— 39 — 

territórios de daas legaas em quadro, cada am, em terreno^ 
derolutos, sendo 10 em ambas as margens e lagos adjaceoles 
do Piirús, 30 nas margens do Amazonas , 10 nas do Madei- 
ra, 10 nas do Rio Negro e Tapajós e 10 em quaesquer outras^ 
margens dos afSi^enies do Amazonas em qae conviesse á com- 
panhia formar, com approvaçào do governo imperial, aldea- 
mentos de Índios ou estabelecimentos agrícolas índastriaes. 

• Us territórios concedidos seriam medidos á cusia ds com- 
panhia na forma do regulamento de ã de Maio de i83i, e 
em compensação ficou a companhia obrigada a fundar 12 co- 
lónias, sendo uma na margem doJavary, duas nas mariceas 
do Purú'', quatro nas do Amazonas, quatro nas dus Rios Negr» 
e Tapajós, e uma d margem do Madeira, nos lugares que 
fossem approvados pelo governo imperial. 

• Cada uma destas colónias teria pelo menos 60O colonos im- 
portados á custa e diligencias da companhia, todos de origem 
earopéa e das nacOes que o governo imperial designasse ex- 
pressamente para cada uma. A metade do numero das ditait 
colónias seria fundada pelo menos dentro dos primeiros cinco 
ânuos o o resto dentro dos outros cinco ao mais tardar. 

( As colónias, que a companhia fundasse, gozariam das 
mesmas vantagens concedidas ou que se concedessem £ iguees 
«jtabelecl mentos no Império, uma vez que se uSo oppozes- 
sem ás clrcumstanciísespeciaes das localidades e ás conve- 
niências administrativas. O governo Imperial daria ú compa- 
nhia efQcazprotecçSo, na qual secomprebendia o auxilio de 
destacamentos militares, precedendo reclamação da mesma 
companhia e sendo verificada pelo governo a necessidade das 
providencias.» 

Doesameque fizemos dos relatórios desta empreza, co- 
lhemos os seguintes dados sobre a historia desta colonização, 
dados que copidmosqnasi textualmente : 

A companhia procurou cumprir as obrigações (|ue lhe eram 
impostas por este contracto, mandando logo, mediante salário, 
buscar colonos em Portugal, em numero sufflciente paru 
abrir as colónias, construir tiabiiaçQes, fazer derrubadas e 
plant8ç5es, assim como para dar principio aos estabeleci- 
mentos indnstriaes, que tinham de alimentar as futuras ne- 
cessidades das mesmas colónias. 

Feitos estes primeiros serviços, como preparatório; dos 12 
núcleos de povoa^Sesaquese tinha obrigado, pretendia entSu 
a com[)anhfa dar começoá verdadeira Importaçàode colonos 
que viessem estabelecer -se desde logo como foreiros nas 
terras de que ella tomasse posse por conccss5es do governo, 
conforme o contracto, ou por compra que fizesse a particu- 
lares, conforme autorizara á gerência, com a condição de qae 
fossem situadas as terras em localidades convenientes e por 
preços latimos. 

Dentro de um anuo da data do contractii, importou a com- 

fianbia l.OGl colonos portuguezes e 30 chins. A primeira co- 
oaia que fundou foi a de Mauá no lugar denominado Furo. 
abaixo das Lages, nas proximidades da capital da província 
do Amazonas, em um dos territórios concedidos pelo governo 



• - ^l. — 

Imperial, tendo a companhia obtido por compra 12 terrenos 
Wnmvtaos no perímetro da colónia. 

Até 31 de Dezembro de 1856 montaram a 67:000^$000 a^ des- 
pesas de. passagens, engajamento», férias^ come^tiveís e f< ri*a- 
menta dos colonos, compra de terrenos, gado e nten^itios, 
construc^s, medições, embarcações para o serviço da co- 
lónia, ordenados e sustento dos empregados. 

A segunda colónia que a companhia fundou foi a de Ita* 
eocUiara^ em terrenos comprados nas ímmediaçòes de Serpa^ 
coniiguo aos quaes fez depois o governo imperial a coniessSo 
de um território. Foi ahi estabelecida uma serraria com todo 
ó machinisnio necessário, assim como uma olaria, m* ntando 
asdespezas de ambas até o fim de 1856 á somma de 59:000^, 
além das despezas das férias, passagens, sustento, ferra- 
menta de colonos, compras de terreno, gado e uten>ili()&, em* 
barcaçòes, construrçoes, ordenados e sustento dos empre- 
gados; despezas estas que importaram cm 78:000,^000, perfa- 
zendo o total de 128:000^000. 

Incluídas as dividas dos colonos que se evadiram easdes* 
pezas feitas com outros que foram empregados em diversos 
misteres, tinha a companhia até Junho de 1856 despendido 
com a coluuizapSo a somma de 263:000^000 ! 

£ todo este dinheiro foi perdido: a colonização nSo vingou; 
os núcleos coloniaes viveram vida ephemera e extingui- 
ram -se por fim. 

O iltustrado Sr. Dr. Tavares Bastos, pensa que as experiên- 
cias coloniaes da companhia do Amazonas foram mal sue- 
cedidas por não terem sido dirigidas com perseverança, 
nem com o propósito resoluto de levar-se ao cabo a ten- 
tativa. 

c Não sabemos dos esforços que empregou a companhia 
para desenvt>lver esses núcleos de colonização, diz o Sr. Dr. 
Kaítil^ nem podemos entrar nas intendes, que teve neste 
ramo do serviço a seu cargo. O que, porém, nos parece fora 
de duvida, é que o systema adoptado não fora omaiscorve- 
nlente. > 

O Sr. Barão de Mauá, tratando do máo resultado da colo- 
nização, exprime-se do seguinte modo : 

t A grande questão da colonização, que aliás importa um 
interesse brazileiro de primeira ordem, carece ainda de mijiitò 
estudo para ser satisfactoriamente resolvida: a própria ri- 
queza das magníficas regiões amazonicas é um obire, por 
assim dizer, insuperável á realização do estabelecimento de 
núcleos coloniaes. 

«Não basta termos terras , que em fertilidade igualam, 
excedem mesmo ás melhores do mundo ; não basta que essas 
terras abundem em producções naturaes que despertam a 
cobiça do trabalhador menos ambicioso, mostrando-lhe ò 
natureza seus valiosos fructos promptos a serem colhidos; 
não basta que esses terrenos se achem em parte cobertos 
de annosos troncos , de frondosas arvores que só esperam 
ser derrubadas pela mão do homem para foinncerem as 
melhores e mais preciosas qnafidades de madeira ao coixr- 



— M — 

mercio c ás artes ; nSo basta, finalmente, a vontade a mais 
tenaz para conseguir um grande fim, pofsque, sem embarco 
de todos os elementos, nossos esforços só deram em resultado 
uma completa decepção. 

c T2o poaco se pôde attribuir o máo êxito desses esforços 
a erros administrativos nos meios de que se lançou mão. Para 
attrabir a verdadeira colonização era preciso dispor os ele- 
mentos necessários, e pois contracta r um forte numero ^e 
trabalhadores que viessem derrubaras maltas, fazer pjanta- 
^^(es lios principaes ^reneros de alimentação vegetai, levantar 
cabanas e estabelecimentos indusXriaes de natureza a satis- 
fazer as UHcessidades primitivas de futuras povoações agrí- 
colas, pareceria na verdade o meio mais racional, senão o uni- 
eo, de coQseguir-se mais tarde o fim que tínhamos em vista. 
Tudo porém falhou, não só porque o pessoal dos colonos por 
sua má indole não satisfez, como mesmo pelo principio eco» 
nomico de que o trabalho procftira o emprego de que pode 
auferir maior proveiU), sendo certo que no Ânoiazonaso braço 
vigoroso que trabalhe por sua cont», encontrará por longo 
tempo uma remuneração mais proyeítoça, do que o mais 
pingue salário que a industria ou a agricultura possam pa- 
gar. . (19) 

Mallograda a colonização e attentos os prejuízos s( íTridos 
pela companhia pediu o Barão de Mauá innovação do con- 
tracto, a qual lhe foi concedida por decreto de 10 de Outubro 
de 18d7| licando a mesma companhia exonerada das obriga- 
ções dos contractos anteriores acerca da colonização e com 
pleno domínio a todos os terrtnos, que lhe tinham sido con- 
cedidos. 

Da tabeliã annexa no mesmo decreto, constam todas as 
concessões de terras feitas á companhia pela maneira se- 
guinte : 

1— por aviso de 6 de Outubro de 1854, á margem do Rio 
Negro, entre os íuros abaixo das Lages e a cidade de Manáos, 
na pruvincia do Amazonas. 

3— por aviso de 12 de Novembro de 1855, sendo um na 
ilha das Araras, no rio Madeira ; um na martrem direita do 
Solimões, e meio nas immediações de Serpa, na província do 
Amazonas; meio a quinze milhas de distancia de Belém na 
provinda do Pará. 

13— por avíi^os de 23 de Outubro de 1855 e 3 de Janeiro do 
1886, sendo 2 no Javary, 2 no Purús, 2 no Madeira, 1 em 
Maués. 1 em Cararaucú, 1 em Mararanã, 1 em Villa Bella, e 3 
á escolha da companhia, no Rio Negro, província do Ama- 
zonas . 



(19) Relatório da companhia do Amazonas, de 1857. 
6 



— 42 — 

5~por avisos de 23 de Oatubro de 1855 e 3 de Janeiro de 
1856^ sendo um em Monte Alegre, um na Prainlia, um em 
Viila-Pobre, um em Itaqui, um em Tapajós, província do 
Pará. 

i— por aviso de 3 de Janeiro de 1856, no rio Trombetas, 
proviocia do Pará. 

O estado actual da companhia de navegação a vapor da 
Amazonas é assaz florescente. 

Tem a seu cargo nove linhas de navegação, mantendo todas 
com a necessária regularidade. 

A l.'^ linha vai de Belém a Manáos com escala por Breves, 
Gurupá, Porto do Moz, Prainha, Monte-Alegre, Santarém, 
Óbidos, Vílla Bella e Serpa ; tem duas viagens mensaes, 
sahindo os vapores do porto de Belém nos dias 2 e 18 de cada 
mez e voltando nos dias 15 e 30. 

A segunda linha vai de Manáoíi a Loreto, no Peru, tocando 
nos portos de Cudajaz, Coary, TefTé, Fonte-Boa. Tocantins, 
S. Paulo e Tabatinga. Tem uma viagem mensal. 

Percorrem a l.'e 2.' linha uma distancia de 1.813 milhas 
(3.358 kilometros, ou em viagem redonda 3.626 milhas). 

Eis a distancia em milhas dos differentes pontos em que 
tocam os vapores da primeira linha: 



Milhas. 

Da Bplém a Breves 146 

De Breves a Gurupá 123 

De Gurupá a Porlo de Moz 48 

De Porto de Mnz á Pra inha 96 

Da Prainha a Monte-Alegre 44 

De Monte-Alpgrn a Santarém 60 

Dj Santarém a Óbidos 68 

De Obídosa Villa-Bella 95 

De Villa-Bi^lla a Serpa 137 

De Serpa a Manáos 110 



Sào estas as distancias marcadas na tabeliã da companhia. 

Um disiincto officíal da marinha brazileira e que ha muitos 
annos com manda um dos vapores da mesma companhia, teve 
a bondade de fornecer-me a seguinte tabeliã, afiançando-me 
ser cila a mais bem calculada: 

Milhas. 

Da Belém a Breves 148 

De Breves a Itaquara 84 

De Itaquara a Gurupá 35 

De Gurupá a Porto de Moz 47 



— 43 — 

Hilbas. 

De Porto de Moz á Prainha 98 

Da Prainha a Monte* Alegre 41 

De Monte-Alegre a Santarém 63 

De Santarém a Alemqner 45 

De Alemqner a Óbidos 48 

De Óbidos á Vílla-Bella 95 

De Villa-Bella a Serpa 138 

De Serpa a Manáos ilO 

Os passageiros de 1/ classe qne de 

Bdlém vão a Manáos, pagam.... lOOMM) 

Os de 2.' classe, pagam 50A000 

Os de 3.' classe âSSOOO 

Os menores de 9 annos de l.'' 

classe 50^000 

Os menores de 3 annos ^ 

Eis a distancia em milhas dos differentes pontos em que 
tocam os vapores da 2.' linha ; 

Milhas. 

De Manáos a Cada jás 155 

De Cudajás a Coary 84 

De Goa ry a Teffé 107 

De TefTé á Fonte-Boa 133 

Dd Fonte-Boa a Tocantins 140 

De Tocantins a S. Paulo 95 

DeS. Paulo a Tabatinga 104 

De Tabatinga a Loreto 63 

Os passageiros de 1.' classe, que vSo 

de Manáos até Tabatinga^pagam* SO/KKK) 

Os passageiros de proa 20^!Í000 

Os menores de 9 annos da 1.' classe. 40^)000 

Os menores de 3 annos J 

A terceira linha vai de Belém a Cametá com escala por S. 
Domingos e Abaete, tem duas viagens mensaes ; sabem os va- 
pores a 10 e 25 de cada mez e voltam a 12 e a 27. 

A quarta linha navega nas agiias do Perue nas do grande 
estuário do Amazonas. Atravessa duas vezes este estuário; 
uma, da foz do Anajaz para Ma.^^apá, e outra^ da ponte da 
Pedreira (Barra N. do Amazonas) para Chaves, que fica na 
barra Oriental. Neste ultimo trajecto atravessa também o 
equador e toca na ilha Gaviana. 

A distancia da linha é de 498 milhas. 

A quinta linha é de Belém a Tapera, no Arary^ sahe e 
volta o vapor no dia 6 de cada mez. 

A sexta linha é de Belém a Soure ; tem uma viagem men- 
sal no dia 3 de ceda moz. 



A selima é de Belém a Óbidos, com escala por Breves^ Ga- 
rapa, Porto de Moz, Prainh», Monte-Alegre e.Sa^^arém; 
faz uma viagem mensal no did Iz de cada mez. 

A oitava pertence exclusivamente ao Baixo Tapajós, entre 
Santarém e Itaituba. 

A no;ia faz a navegação entre Santarém e Fai:o, com es- 
calas por Alt^mqaer, Óbidos e Maracanassú (Jurutjo d'onde 
penetra, para chegar a Faro, por um paraná-mirím do Ama • 
zonas, que vai ao Jamundá. 

A extensão total das 9 linhas é de 1.532 miibas (viagem 
simples) ou 9.064 milhas em viagem redonda, correspon- 
dendo a 16.786 kilometros, extensão quasi igual aNew*^YorK 
a Valparaizo, passando peJo cabo de Horn. 

Além de um grande e bem mointado trapich6 e das ofi- 
cinas bem appatelhadas para concerto e fabrico de emjbar- 
cações, possue a companhia iO vapores bem construídos e 
com excellentes accommadaçõea para. passageiros. 

Eis os nomes dos vapores : 

Arary.^De força de 200 cavallos e 738 toneladas. 

Manáos,^I\e força de 200 cavallos e de capacidade para 681 
toneladas. 

Belém. ^T)e igual força e capacidade. 

Obiifos.-De força de ÍQO cavallos e capacidade para 5.000 
arrobas. 

Tp.Japurú,^he força de 250 cavallos e de capacidade para 
840 toneladas. 

Soure.^Be força de 100 cavallos c capacidade para 414 to- 
neladas. 

Inca. —De força de 100 cavallos e capacidade para kiVí 
toneladas. 

Icamiaba.^jye força de 100 cavallos e capacidade para 41,4 
toneladas. 

7apa/d5.— De força de 200 cavallos e capacíds^de para 751 
toneladas. 

Áturiá. 

O estabelecimento das officinas tem sido de grande utili- 
dade á proviaci,a do Pará, visto como são alli admítUdos 
aprendizes que se dedicam á profissão mecânica, tendo já 
sabido dalli alguma bops içachinistas. 

No relatório que apresentou á assembléa provincial do 
Pará, assim exprimiu-se o Sr. vice-almirante De Lamare : 

« Tão identincaaa está a companhia do Amazonas, com o 
commercio dó valle ^ò Amazonas, que se não pôde tratar 
deste sem fazer referencia iquella empreza ; e pQl^, que v 
ella que, pelos seus grandes resiultados, mais de perto iiile- 
ressa ao assumpto dâ que me occupo, é deiJa também que 
tratarei com n\aior 4*'se9vo]vimeiito. 

« Contractada ein 1852 com o governo imperial, que pro- 
curava arrancar jO^^ província do atiatimentoem que jazia, 
á companhia inaugurou seú serviço éo^ Janeiro de 18^3. 



t Até essa época tndo o iraflco d'09 géneros de commercio 
era morusamente ft-iioem csDÕas, que raras vezes realiia- 
Tsm uma via^íeni redonda de Belém a Hanios, em menoiíde 
cinco meies, viagem que hoie se elTectna em 13 a iH dias, 
quando malto, compretiendidos os ctaco dias de demora em 
ManiOs, e nos dez pontos intermédios. 

• Os fretes nne orameafos nos barcos á vela, sendo oscu- 
lados de accòrdo com os commercíaaies carregadores para a 
navegação a vapor, ficaram muiio reduzidos; as distancias 
quasi desapiiareceram ; as comniunicaçOes lornaram-se rá- 
pidas e commodas; ss transacçQes tornando-semais activas 
nnillipllcsram-se, e, como consequência immedíala, o com- 
mercio ampliou o campo de suas esseculaçiJes, é medida que 
novos recursos avultavam ; e o vallo do Amatonas viu, em- 
ftm, entrar por suas portas a riqueza, a prosperidade e a 
civillsacjo, ha taulosscculos esperada. 

< As rendas publiiras qce acompanharam de perto a mar- 
cha do commercio, começaram igualmente a participar das 
vantagens resultantes da revolução económica e paciBca, 
produzida pelo vapor nas aguas do Amazonas. • 

DitpoiB do entrar em algun; pormenores para demons- 
trar que o desenvolvimento das rendas publicas é devido 
priactpalmente ao estabetecimenio da navegaçio a vanor 
no Amazonas, assim concluo o Sr. conselheiro De La- 
mare : 

• Resultado immeaso para uma regiSo [3o grande em ter- 
ritório, como pequena em população; e onde a industria» a 
agricniiura eram desconhecidas e quasi nullas até a época 
cm qne começou aquclla navegação. 

• E* pois, com razSo que se tem dito, quo do estabeleci- 
mento da navegaçSo a vapor no Amazonas data o extraordi- 
nário desenvolvimento da riqueza pubika do Pará, ou como 
se exprimiu ha pouco um dislinclo escriutor, nofso compa- 
triota : f A verdadeira descoberta do Amazoaas data de 
1833. ■ 

(A companhia auxiliada pelo governo imperial em seus es- 
forços, podo IÍjongear-se de ter satisfeito as vistas do mesmo 
§overno, concorrendo assim directamente para o rápido 
eseovolvimenio do commercio, para o progresso da indus- 
tria e das renda; publicas, au mesmo tempo que foi descor- 
tinando e preparando o terreno para os novos empreiteiros, 
ijuc provavelmente bio de vir de diversas partes do mundo 
para desfructar comnosco 03 bens de que a natureza encheo 
esta vasta regiSo, cuja vida, força e actividade esiSo e.^sen- 
cial mente no movímeaioqua.sl animado desse grande agente 
do progresso material das osçScs— ovapor. 

■ Os dons seguintes quadros, que se acham no relatório 
apresentadocm 30 de Junho de 1863 pelo Sr. Joaquim da 
Fonseca Guimarães, vice-presidente da companhia, dispen- 
sam outro qualquer corameularíopara provar que a sub- 
venção qne os governos Imperial e provincial prestam a esia 
empreza,c uma das dc.ipezas mats proditctivas, que figuram 
lauto no orçamento geral como no provincial.* 



— 46 — 

1/ período de 1838 a i 852: 

Quadros. Valores. 

Renda provincial 3.184:289/^401 

Renda da alfandega o. 396:204^163 

Valor da importação 22.361:723^737 

Valor da exportação 17.689:541^663 

2.^ período de 1853 a 1857: 

Quadros. Valores. 

Renda provincial ;. 8.001:705^1546 

Rendada alfandega 21.516:7546324 

Valor da importação 64.587:7835862 

Valor da exportação 75.304:084^799 

Augmento havido no período de 1853 a 1857 : 

Renda provincial 4.817:416^145 

Renda da alfandega 16. 120:550^161 

Valor da importação 42.226:060^125 

Valor da exportação 57.614:543^136 

No período de 1858 a 1864, segundo o relatório do Sr. Dr, 
Couto de Magalhães : 

Importação. 

1858—1859 3.946:363,^957 

1859—1860 4.709:8955560 

1860-1861 5.704:7455464 

1861—1862 3.618:9765206 

1862-1863 4.471 :3135653 

1863-1864 5.227:8955281 

Exportação. 

1 858— 1 859 3.917:1 035688 

1859—1860 5.912:8605040 

1860—1861 5.341:3035713 

1861 —1 862 4 . 602 : 2995657 

1862—1863 5 . 573 : 7685971 

1863—1864 5.827:2435079 

O valor total das transacções commerciaes no exercício de 
1863— 1864, calculado pelos dados offlciaes, os direitos a que 
são sujeitos os géneros e mercadorias importadas e exportadas 
montaram ásomma de 13.897:3385621. 

Comparado com igual valor do exercício de 1862—1863, 
12.042:4255801, temos em favor de 1863— 1864 o augmento 
de 1.854:9125820 ou 15,4 «/o. 

O valor officíal da importação, foi 

em 1869—1870 7.215:5245240 

O valor officíal da exportação foi 

em 1869-1870 ; 13.429:2615800 



— kl — 

E^lcs algarismos rallam muítnaltoem favor dos benefícios 
trazidos ao comoiercio peta companhia do Amazonas princi- 
palmente. 

Em 1869 transponona companhia 13.386 passaeoiro.'!, oh. 
lendo a receita de I51:918Í513. A dos fretes foi de 425:9C6f547, 
elevando-so a receita loial a 517:I8S5060. O valor da impor- 
UEãofoi a 6 903:422^330, mai.:61ã:í93d462que em 1S68, eo 
da exportarão foi de 8.531:384^450, mais 1.976;470f469 que 
Baqaelte anno. 

Tfrrainarei esta breve e incompleta noticia acerca da com- 



■ A subvenção de 720:0004000, que o Estado despende para 
gaiaoiire llrmar esta grande empreza, é sem duvida alia -, 
mas essa despeia é compensada annoal e progressivamente 
pelos benefícios e bons resultados que colhe a província do 
Pará e por conseguinte o Império, pois que o paiz inteiro 
ganha sempre com a prosperidade de qualquer das snas 
partes. 

t o estado florescente desta província, o augraenio cons- 
tante das rendas da sua alfandega, a propac^açãode machinas 
de vapor nas fabricas de assucar, a facilíclade das commu- 
nícaçòes entre esta província e a do Amazonas até á fronteira 
imperial deTabatinga, e da maior parle dos diversos pontos 
do interior com esta capital, são resultados g beDeflcíos pro- 
venientes da eiisiencia da navegação a vapor estabelecida 
pela companhia do Amazonas, garantida por aquella sub- 
venção do governo. São documentos vivos que provam [a 
grande utilidade dessa empreza, documentos que de certo 
não iCm sido consultados por aquelles vossos concidadãos, 

aue não estudaram bem o estado desta provinda anles « 
epois do estabelecimento da companhia de navegarão a 
vapor. » 

A companhia fluvial paraense foi incorporada pelo nego- 
ciante Joio Augusto CorrSa, que obteve da assembléa provin- 
cial uma subvenção suBlclen te para rea lizar aquella empreza. 
.1 prlncipif) em ponto pequeno, porém a que eile soube dar 
desenvolvimento rápido na qualidade de director, cargo que 
desempenhou até fallecer. 

Tum esta companhia sete linhas de navegação e cinco va- 
pores, que partem de Belém para os seguintes pontos: 

1.' Para Cairary, no rio Mojtí, fazendo escala pela fre- 
gaeziade Mojil. 

?.• Paraa fregneiia do Acará. 

3.* Para S. Miguel de Guamí, fazendo escalas por Bnjaril 
e S. Domingos. 

4.* Para Hazagão, fazendo escalas por Boa-Visia, Curra- 
' linho. Breves, Anajáse Macapá. 

5.* Para Portel, com escalas por Mnaná, Boa- Vista, Cur- 
ralinho, Oeiras, Breves e Melgaço. 

6.* Para Igarapé-mirim, fazendo escala por Abaete. 

?.■ Para BayJo, no rio Tocantins, fazendo escala por Ca- 
meli, Hocsjuba e Tocantins. 



— 48 — 

Oi ciaco vapores que lhe pertencem, são: 

Anajaz, 

João Augusto. 

Guamá, 

Mojú, 

Amazonas, 

Esta companhia é subvencionada pela província do Pari 
com 74:000^000 para as suas diversas linhas. 

A companhia fluvial do Alto Amazonas, possue seis va- 
pores que navegam nos rios Amazonas, Madeira e Purús. 
A linha do Amazonas navega entre Belém e Manáos, fazendo 
escalas oor Breves. Gurupá, Porto de Moz, Prainha, San- 
tarém, Óbidos, Tílía-Bellae Serpa. 

A linha do Madeira navega entre Manáos e Santo António, 
fazendo escaías por Canumam, Borba, Tabocal, Manicoré, 
Baetas, Juma, Crato e Cavalcanti. 

A iiaha do Purús navega entre Manáos e Hyntanahan, fa- 
zendo escalas por Manacapurá, Pnricútuba, Aruman, Boa- 
vista, Piranhas, Ariman, Jaburá, Canutama e Vista Alegre. 

Os vapores que actualmente possue são os seguintes: 

Amazonas . 

Madeira . 

Rio Branco. 

Andirá. 

Guajará. 

Jamary . 

Ariman . 

Os passa^^eiros de 1 .* classe que vão de Manáos a Santo An- 
tónio, no rio Madeira, pagam lOO^^OOO. Os que vão de Manáos 
a Hyutanahan, no rio Purús, pa^^am 125^000. 

Os menores de 9 annos pagam metade da passagem. 

Além dos vapores acima mencionados das companhias 
navegação á vapor do Amazonas, Fluvial Paraense e Fluvial 
do Alto Amazonas, navegam nos rios das duas províncias, 
com mais ou menos regularidade, os seguintes vapores par- 
ticulares: 

Giào, Madeira, Amazonas, Fortaleza, Alceste {peruano), 
Maissi, Duque d*Edimburgo, Américo, Fragoso, Teixeira dt 
Buiz. 

Terminava estas linhas, quando chegando-me ás mãos am 
numero do Diário de Belém, nelle li a noticia do projecto 
de fusão da companhia Fluvial Paraense na de Navegação 
á vapor limitada do Amazonas, mediante as seguintes clau- 
sulas : 

i.* A companhia Fluvial Paraense transfere todos os seus 
contractos com todos os seus direitos e obrigações eos seus 
bens abaixo relacionados pela quantia de 500:000^ (qui- 
nhentos contos de réis), á companhia de navegação a vapor 
do Amazonas (limitada) em dinheiro ou acções desta ultima 
companhia ao par, á opçào dos accionistas da primeira. 

2.' Ficam pertencendo aos accionistas da companhia Flu- 
vial Paraense o dinheiro, dividas e quaesquer outros va- 
lores não mencionados neste pròtocollo. 



3.* Todas as despeias de iraiisrerencias de contractos e de 
propriedade, csrrerSo por conta da companhia cãEsionarla. 

4.* Fica a cargo da companhia de navegação á Tapor do 
Amaionas (limitada) o pagamento da ^aantla de trinla e 
dons contos de réis ao thesouro provincial, valor do terreno 
em que está edificado o irepicne e prédio noro, em cam« 
primenlo da obrigarão conlrabida pela companhia Fluyial 
Paraense com o governo provincial. 

5.* Os materiaes existentes em deposito, bem como os 
utensilios de escripiorlo, serSo recebidos pela companhia 
cessionária pelo valor das respectivas entradas. 

6.* Fica sujeito este accdrdo, por um lado á approvaçSo 
da directoria da companhia de navegado á vapor do Ama* 
zonas (limitada), a qual deverá declarar se o aceita ou n3o^ 
dentro do prazo de quatro mezes a contar do primeiro de 
Innho do corrente anno; e por outro á approvafSo da as- 
sembléa geral dos accionistas da companhia Fluvial Paraense. 

7.' O pagamento dos referidos quinhentos contos de réis 
será feito em cinco prestações mensaes de cem contos de 
réis cada uma, sendo a primeira no acto da assignatura do 
competente contracto. Aos accionistas qae preferirem acçiSes, 
serSo estas desde logo integralmente distribuídas ou as res- 
pectivas cautelas. 

8.* A companhia de navegaçSo á vapor do Amazonas 
(limitada) e a companhia Pluvial Paraense, se obrigam a 
nio iniciar da presente data em diante, negociação alguma 
da mesma espécie com outra qualquer companhia de nave- 
gafSo fluvial desta província antes de findo o praio rererido 
na 6.* clausula. 

Bens a qae se refere a clausula 1.* deste protocollo : 

S vapores constantes do ultimo balanço.... 400:000â000 

2 trapiches e ponte 77:000jO0O 

38 apólices provinclaes no valor nominal X3:000,SOOO 

Rs. {nO:0(WjOOO 

E sendo lido e approvado este protocollo por ambas as 
partes contraclantes, se mandou lavrar o presente em dii- 
plicati, que vai por todos assignado. 

Pará, z9deHaiodel873.— OsuEMBBOS da goumissIo, ktc. 

Gomo disse, embarquei no 1." de Abril a bordo do Ararj/, 
eom destino a Manáos, capital da provinda do Amazonas e 
onde sabia que se achavam os membros da commissSo do Ma- 
deira, aos quaes me queria reunir. 

Para a minha volta deixava o exame mais minucioso da 
importanlissima capital doGrSo-Pará. 

eram 10 horas pouco mais ou menos da noite, quando 
cbegoela bordo. 

A noite estava húmida e fria. 

Depois de me dospedir do meu intima e bom amigo o Dr. 
Amerlen Marques de Santa Rosa, tim dos mais dislíncios me- 
1 



-80- 

dícos do Pará e um dos moços mais íntelligentes que conheço, 
«ubiá tolda do vapor, onde Já diversos passageiros tiaviam 
armado as rodes e tendo também como elles, realizado igual 
processo, deitei-me, sem entretanto poder conciliar o 
5omno. 

As redes s3o oleito de qne geralmente se servem os habi- 
tantes das províncias do Pará e do Amazonas e muitas vezes 
consiimemaunica mobília da gente mais pobre. No prin* 
cipio custei a habituar-me a esse género especial de dormida; 
no Pará não tive necessidade de acostumar-me a elle^ por me 
ter sido dada uma excellente cama; mas depois, obrigando- 
me a necessidade a aceitar a rode, porque mui raras vezes 
encontrava outra cama. cheguei por fim não só a acostumar- 
me a ella^ como até a achal-a bem commoda e bem apropriada 
para a terra. 

Os vapores das dlSerentes companhias que navegam nos 
fios das duas províncias, sSo dispostos de modo a poderem 03 

Sassageiros armar as redes na tolda. Sdmente as pessoas 
oentes e uma ou outra senhora, aproveilam-se das camas 
dos beliches. 

A' 1 hora da madrugada levantámos o ferro e o Arary 
cortou ligeiro e garboso as aguas do Guajará . 

A noite estava muita escura e tempestuosa e a chuva cabia 
com força, açoitando a cobertura da tolda e os flancos do 
navio. 

Ao passar nSo sei por que ponto da bahia de Marajó, e que 
é bastante perigoso, julgou prudente o commandante parar, 
visto como não lhe permittia a escuridão espessa que envol- 
via o vapor, seguir com a necessária segurança, 

A's 5 noras da manhã suspendemos de novo o ferro . 

Os passageiros eram em geral negociantes de Manáos, que 
tinham ido a Belém aviar mercadorias, e alguns indivíduos 
que iam procurar fortuna nos seríngaes do Madeira. 

Também se dirigiam -á capital do Amazonas dous dístinctos 
offlciaes da marinha peruana e membros da commíssão de 
limites entre o Brazil e o Peru e com os quaes tive a fortuna 
de travar, em ^oueo tempo, relações da mais cordial cama- 
radagem. 

O commandante do vapor, o intelligente Sr. Talisman de 
Vasconcelios, cavalheiro nãomenos distincto pelas qualidades 
do coração, como pelo tracto fino e delicado, fez tudo quanto 
delle podia depender para tomar*iios a viagem facii e agra- 
dável. 

Cumpro nesta occasiSo um dever, que me é assaz caro, 
agradecendo*lhe a obsequiosidade do tratamento, assim como 
a amabilidade com que se prestava a íomecer*me todos os 
esclarecimentos e notas, qne lhe pedia. 

Estava eu ancieso por entrar nas aguas do magestoso rio, 
que tantos segredos ainda encerra. 

A^<« 4 horas da tarde passámos por uma povoação, foe foi, 
ha seis annos talvez elevada á freguezia, com o nome de 
S. João Baptista do Curralinho. Tem uma igreja que nSome 
pareceu ma; a forma é olejgante. As casas, <]pie são contigua^ 



— 61 — 

á igreja, me pareceram boas, posto que um pouco baixas. Sâo 
em gera I de telha e novas . 

A's 10 horas da noite fundeámos no porto de Breves, pe- 
quena viila, situada á margem norte do furo Paraúaú, em 
ama ponta de terra, que corresponde á pequena enseada em 
cujo fundo se acha o furo queda communicaçao dalli para 
Melgaço. 

Acredita o Sr. Ferreira Penna que deveu esta villa o nome 
que tem a um antigo estabelecimento que alli possuiu, em 
tempos passados, um portuguez chamado Breves, o qual com 
seu irmão monopolisava quasi todos os géneros de commor- 
cio dos districtos vizinhos, as vantagens que dahi tiravam 
concorreram para dar importância a seu estabelecimento, ao 
pé do qual, ha 40annos, começaram a levantar barracas os 
seringueiros que para alli eram attrahidos pela abundância 
da borracha. 

£m 1850 a nova povoação augmentava com muitos habi- 
tantes de Melgaço e de outros lugares que para ella se mu- 
davam, merecendo ser então elevada á categoria de fregue- 
zia eem 1851 á de villa. 

Goliocada entre as aguas do Amazonas e do Pará, esta villa 
teria tido grande incremento se as febres lhe não dizimassem 
os habitantes. Pela sua posição ó o centro a que vai ter o 
commercio de Portel o Melgaço e dos rios Ana pú. Jacundá 
e Anajás e da maior parte do estuário que se estende ao 
norte, sul e sudoeste da ilha de Marajó. 

Todos os vapores e barcos que seguem do Pará com destino 
a qualquer ponto do Amazonas, tômde passar por Breves. O 
seu porto é um dos melhores para vapores, podendo estes 
atracar em qualquer ponte ao longo da margem. 

Não me foi possível ir á terra, e visitar a villa, não só por 
ser tarde, como porque me disseram que, em consequência 
das copiosas chuvas dos últimos dias, as ruas se achavam 
transformadas em verdadeiros lamaçaes. As casas me parece- 
ram velhas e arruinadas. 

A comarca de Breves, de que é cabeça aquella villa, com- 
p5e-se de quatro municípios, que são: Breves, Portel, Melgaço 
e Curralinho. 

No dia seguinte, ás 10 horas, pouco mais ou menos, en- 
trámos no Amazonas, e ás 3 horas e 20 minutos da tarde pas- 
sámos por Gurupá, antiga Mariocay e aldôa da missão dos ca- 
puchinnos da Piedade. 

Fica á margem do Amazonas, a 42 milhas acima do canal, 
do Tagipurú. 

A comarca de Gurupá, de que aquella villa é cabeça, consta 
dos municípios de Gurupá e Porto de Moz. Aquelle compre- 
b^ade as freguezias de Santo António de Gurupá^ Nossa Se- 
nhora da Conceição de Almeirim e Santa Cruz deVilIarínho 
do Monte ; este as freguezias de S. Braz do Porto de Moz^ 
Nossa Senhora do Rosário de Arraiolos, S. João Baptista do 
Veiros, S. João Baptista de Pombal e S, Francisco Xavier áe: 
âonzel. 
Era encantador o espectáculo que apresentavam as mar- 



— 82 — 

^<>n«doTaíripurú. A natureza se ostentava alli em toda a sua 
forç.i ^ helleza. Verdadeiras inattas de palmeiras, erguiam- 
^e eleita ntes^ causando admiração pela sua variedade e quan- 
tidade Entre ellas sobresahíam o assay, a popunha, cujo 
frueto de côr avermelhada tem uma massa oleoginosa; o jmi- 
tauú, que dá um frueto de côr roxo-escura e de cuja polpa 
Sí!! extrahc um azeite fino e claro como o azeite de oliveira e 
de que se pôde fazer o mesmo uso. 

De quando em vez extensos cacoaes indicavam a aproii- 
mação de alguma casa ou feitoria. Foi o cacáoe temos fé que 
o será ainda, um dos grandes ramos de riqueza das provín- 
cias do Pará e do Amazonas. Ainda hoje constituo a sua cul- 
tura a occupação regular dos habitantes dos municipios de 
Cametá e Óbidos. Actualmente eapezar da grande alta qne 
tem tido, pois que, valendo de 1840 a 1856— de 1^00 a 3i^ 
a arroba, custa agora 7,^000 e 8^000, vai sendo pouco a 
pouco alandonada a sua cultura nos outros pontos das duas 
províncias, em consequência da falta de braços para serem 
nella empregados, visto como absorvem os seringaes toda a 
gente que se podia empregar nesse mister. 

Ao incançaveISr. Domingos Soares Ferreira Penna peço 
licença para extrahír do seu trabalho acerca do cacáo, 
alguns apontamentos, a fim de unira esta noticia. 

Desde os primeiros annos da descoberta da America, foi o 
cacáo conhecido pelos europeus. Os Índios do México e prin- 
cipalmente os de Guatemala, que davam-lheo nome de caca- 
huaU^ faziam constante uso delle, desfeito em forma de cho- 
colate. 

A facilidade com que se encontrava o cacáo, o sen sabor e 
sobretudo a carestia ou falta de outros géneros de alimenta- 
rão, fizeram com que os hespanhóes residentes na America o 
apreciassem como um dos productos mais úteis e tão grande 
era a sua estima que durante longos annos os fructos ma- 
duros serviram de moeda corrente na America hespanbola 
eaté no Pará. 

Antes do fim do século XVI, segundo o testemunho do 
padre Joseph d^Acosta, a exportação do cacáo era já muito 
considerável, indo navios carregados delle para a Hespanha, 
e um corsário inglez em 1588 queimou no porto de Guatulco 
maisdecem mil cargas dessa mercadoria. 

Cultivado mais tarde nas colónias hespanholas e desco- 
berto em grande quantidade nas margens do Tocantins e do 
Amazonas, tornou-se o cacáo um producto precioso, quer 
como principio de alimentação para o indigente, quer como 
um regalo para as classes abastadas. 

Em 1739, disputava no Pará o cacáo aos novellos de algodão 
a honra de representar a moeda corrente, e uma ordem ré- 
gia desse anno expedida á requisição do governador e capitão 
general, mandou reservar para pagamento do fardamento 
a infantaria a sua colheita na costa desde o rio Jary até o 
cabo do Norte. 

Em 1728 só o collegío dos jesuítas recebeu em seus arma* 
zens 2.492 arrobas e 12 libras de cacáo. 



Refere Baena qne a camará do Pará pedira em 1749 ao go- 
verno fiae mandasse mais navios para ievarem a grande 
quantidade de caci^ qne se estava pdrdendo, havendo eniSo 
em cultivo mais d» 700.000 pés daqnella planta. 

Em I7S3 levon am navio para Lisboa 37. 435 arrobas e 18 
libras de cacáo em sementes e 4 arrobas e 3 libras em cho- 
colate. 

Parece, diz o Sr. Ferreira Penna, que o chocolate era i5o 
estimado pelos índios e europeas que hibitavam a America, 
quanto mal visto pelos hes^anhóes na Europa ; é o oue cla- 
ramente dá a entender o historiador padre loseph d'Acosia, 
nas seguintes palavras: 

■ O principal beaeQcfo deste cacjo é oma bebida que fazemã 
chamada chocolate, pela qual aSo loucos os moradores da- 
quella terra ; aos que nSo estio habituados a ella causa asco, 
pois tem por cima uma espuma e fermentação como de fazes, 
e é preciso ter fé robuítta para tragal-o, mas lá é uma bebida 
apreciada com que os iadios mímoseam as pessoas de distinc- 
Cao, que passam pela soa terra. Os besi)anhóes, principal- 
mente as hespanholas acostumadas no paiz, dlo a vida pelo 

negro chocolate Seja comof&r,oque é verdade.éque 

nSo o appetecemaqnellesque n5osSocreadosDestaopiniao.> 

A despeito desta repngnancia do paladar bespanhol uni- 
versalison-se o nsodo chocolate e Linêo o ennobrecen, dan- 
do-lbe o nome scientlQco de tkeobioma (alimento dos deuses). 

Transcrevo aqui, tirado da memoria do Sr. P. Penna, o 
trecho da carta do Sr. Brunet, acerca do modo do melhorar 
o cacáo . 

■ As sementes devem ser acondicionadas pela maneira se- 
guinte: tendo-se colhido os fructos e tirado com cuidado o 
invoiacro das sementes para obstar sua fermentação, limpa- 
seefaz-se seccar durante um dia, na sombra, essas sémen te.% 
qne ao depois sSo introduzidas em uma caixa de madeira^ 
no fundo da qual se deposita uma ca mada de terra Qna e penei- 
rada, ligeiriraenle húmida ou de terra vegetal 3om duas 
pollegadas de espessura. Sobre esta primeira camada de terra 
se faz uma oalra de sementes de uma pollegada de espessura. 



as de sementes , separadas umas das outras por uma poHc- 
gada de espessura pouco mais ou menos até a altura ae um 
pé. Cobre-se a ultima camada de terra com palha bem serca 
e disposta de maneira que encha exactamente a caixa sem 
impedir a penetração do ar e ohslc que a terra e as sementes 
te misturem durante a viagem. A caixa assim preparada é 
fechada com uma tampa também de madeira com grande 
numero de pequenos buracos e posta a bordo no convés do 
navio, em lugar onde esteja abrigada das aguas do mar, que 
tém a propriedade de alterar as sementes. 

■ Ãs sementes assim acondicionadas, sendo postas no porSo 
do navio, ou em caixas fecbadas oa perto das caldeiras da 
madiina do vapor, se deterioram igualmente. 

* Logo que a caixa tiverchegado ao seu destino, será im- 



» ay^inufult» «iH^rU» c as «ementes greladas durante a via- 

V u^ rlvU^uuU* om terreno fresco e preparado com antece- 
ivuotA om s\\u\U\\\oT lagnr apropriado. 

Ouviuto á romotiitn dos filhos de cacéoeiroSy eis ometnodo 

\[^M^^v» o pouoo dispendioso, do qual por veres tirei resul- 

( is^ (lopoiV do tor arrancado com as convenientes precauções 
nu * u;\v'drtmnllií'«r as raízes, e tirado as folhas, excepto a 
lao o vUiuha do hotUo terminal , mettem»se estes vegetaes 
m \\\m o»l\A do folha de Flandres , que tenha o seu com- 
ia uuoiUo» un qual fi3o dispostos sem tenra nem palha e suffi- 
t 'utoiuoiito AjMtrtados para que nâo seja possível entre elles 
nh^Yhuoiito nlKum durante a viagem. Fecha-se hermética- 
tuoult^ n rnixn, uotumando as bordas com uma camada espessa 
'.lo hrou, ronina ou outra qualquer substancia própria para 
i|ii(ar u ponutraçlo do ar na caixa. Desfarte conservei plan- 
tai vivuii durante três mezes; mas ó preciso evitar de in- 
iroiluxII-nH nas caixas, quando estejam molhadas com aguas 
.lo oliiivA ou orvalho. 

• Fliiiilmuute para maior segurança, póde-se mandar oa 
ihiiiiir c.omHlgo 06 ditos filhos de cacáoeiros em caixas com 
vldriiçaR na parte superior^ guarnecidas com uma grade de 
iriiiiio do forro^ no fundo das quaesse introduz uma camada 
111 turra ligeira, pouco húmida, onde estejam plantados aqnel- 
lon vnifotaes; sustenta-se a terra com palhas seccas mettidas 
.iiilrn ollas, Estis caixas devem vir no convés do navio em 
liiuaroM distantes das caldeiras da machi.na de vapor e abri* 
iinmiH do sol auanto fôr possível. > 

ICh^iiiii cmífm em pleno Amazonas, o Paraná-assu' dos in- 
.liljduaH, o maior rio do mundo em extensão, posto oue em 
lurgura soja um pouco inferior ao rio Negro, que ó o seu 
Hiiiior affluente. 

W realmente o Amazonas um verdadeiro mar d'dgua doce, 
. Hino chamou-o Vicente Pinzon , e mui raras vezes se lhe 
\Ain no mesmo tempo as duas margens, em consequência da 
lijundo quantidade de ilhas que neile abundam. 

An aguas s2o barrentas, toldadas e continuamente arrastam 
.(Ml Hua correnteza, mormente na enchente, verdadeiras ilhas 
•In cnriarana e enormes troncos de cedro e outras madeiras, 
•jiio froqui;ntomente abalroam com os vapores e tornam um 
iMiuco arriscada a navegação. As ilhas de canarana, vogando 
'I inorcô da corrente, fazem parar ás vezes os vapores, im- 
piwlludo-lhes o movimento das rodas. 

(loino disse, sSo barrentas e toldadas as aguas do Amazonas ; 
ilnpoMitadas em uma vasilha, deixam cahir no fundo um 
liiiuro de sedimento e tornam-se então claras e de sabor agra- 
ilitvol. Dizem que podem ser bebidas a qualquer hora e que 
II II mm fazem mal. 

Uitoiít pela primeira vez entra no Amazonas, fica absorto 
iiito n majestade daquelle rio gigante, de margens tão largas 
i« do um tão grande volume d^agua ; mas depois de algumas 
lioniM, vem a monotonia e o cansaço. £' sempre a mesma 
«•ouHa. Largas bahias e depois estreitos ou furos formados 
pelas ilhas e em cujas margens crescem embaúbas^ suma- 



úmM, maoaeaúba$ e de quando em rez algamas Daimeirasf, 
entre as qaaessobrèsàfaeiíi ojaaary^o tacnman eo marajá...» 
eis o que contínua e constantemente descortinam os o]hos(90). 

Foi Vicente Pinzon quem em 1500 primeiro descobriu a 
foz do Amazonas, tomando posse deile em nome da coroa 
portagueza. Pretendem os hespanbóes que foram suas cabe- 
ceiras descobertas pelo capitão Maranhon^ que fazia parte da 
expediçSo dé Piísarro e dahi o nome db rio MaranhSo , que 
ainda muitos ihe dão, desde a confluência do Ucayale até 
Tabatinga. Quarenta annos depéis da descoberta de Pinzon, 
deu Francisco Orellána a este rio o nome de Amazonas^ pelo 
qual ó universalmente conhecido , por haver, segundo pre- 
tende, encontrado na foz do Nhamundá, que se lança á mar- 
gem esquerda do grande rio e a 530 milhas da sua foz; mulhe- 
res guerreiras, com as quaes affirmou haver combatido. Os in- 
dígenas ohamavam-nas Icamiabas (2i} e Orellána dèu-ihes o 
nome áe Amazonas, Suppunha-as elle habitadoras das ca- 
beceiras do Nhamundá, na serra Itacamiaba e guardadas por 
varias tribus extremamente ferozes, como os Fariquis. Ta- 
garis, Guacaris e outras^ que habitavam as margens uo Ja-* 
munda. 

A existência das amazonas é ainda um desses problemas 
complexos, que a historia não tem podido resolver. B' verda- 
deira ou falsa a narjraçSo de Orellána ? Existiram ou não as 
amazonas ? Ha quem afflrme a sua existência, assim como 
ha quem consider-e a narração do viajante hespanhol como 
uma das muitas fabulas de que está inçada a historia. 

Seria possível a existência de um paiz^ de uma republica 
exclusivamente composta de mulheres, que tivessem achado 
meios de se conservarem e progredirem, sem que as fati- 
gasse o exercido das armas e o estado violento em que se 
achariam collocadas ? c Se fòr isto admittido, diz um cscríptor 
brazileiro, |á meio resolvido. estará o problema. > 

A existência das amrazonas ou mulheres guerreiras con- 
stituindo uma republica, e dírigindo-se por si sós, sem o au- 
xilio de homens, é tradição que remonta á mais remota 
antiguidade. 

Eis o que a respeito refere o historiador Justino, citado 
-peio Sr. Gonçalves Dias, em um beWo trabalho apresentado 
ao instituto histórico. 

ff Dous príncipes scythas Ylinos e Scolopito (22), expulsos 



(20) As arvores que mais abundam nas margens alagadas 
do Amazonas, são : Embaúbas, Aueranas, Mongyhas, Suma- 
úmas , Louro f Mututy, Paracaúba, Macacaúba, Assacú, 
Muiratinga, Ingá, Mary-mary (Cannaflstula), Catauary, Cas- 
tanha de macaco. Sapucaia, Envira, Paricá, etc. 

(21) No idioma tupi são chamadas Cun^át^iecut^maeiâiua- 
puyara, que quer dizer mulheres que vivem sem maridos a 
grandes senhoras. 

(22) Just. Hist.L.2, E. 4. 



--86-iir 

4a pátria pela fac^o dos nobres^ arrastaram com$ígo erande 
namero de mancebos {Ann. Mund. 1808), e se estabelece- 
ram nos confins da Cappadocia, perto do rio Tbermodonte» 
«ujeftando e occupando os campos Themiscyrios. AlH vive- 
ram por muitos annos no costume de depredarem os seus 
Tlsinnos, até que por fim morreram nas emooscadas que Ibes 
armaram os povos conspirados contra elles. 

f Suas mufbcres, viuvas além de exiladas, tomam as ar- 
mas» defendendo ao principio as suas fronteiras, e logo depois 
atacando as dos contrários ; renunciam ao casamento, que 
chamam antes servidão que matrimonio, e ousando um feito 
aem exemplo em século algum, consolidam sem homens a 
aua republica, e delles se defendem ao passo que os des» 
proznm. 

f E para que umas nlo parecessem mais felizes do aue 
outras, matam os poucos homens que restavam entre elías, 
I) logram vingar a morte dos cônjuges, com a dos seus con* 
flnantes. Depois, quando com as armas já tinham consegui- 
do paz, facilitam aos vizinhos os seus leitos. 

f Matavam os filhos varões (acrescenta Justino), e as 
filhas educavam ellas a seu modo, n§o no ócio e em occupa- 
çi5es mulheris, mas no trafego das armas, da equitação eda 
caça, queimando-lhes na infância o peito direito para que 
tivessem mais felicidade no tiro da seta, d'onde lhes veiu o 
nome de amazonas. 

c Houve entre ellas duas rainhas : Marpezia e Lampeda, 
as quaes dividindo entre si a nação, que já tinha crescido 
em forças, faziam alternadamente a guerra ; e bastava cada 
uma de per si para conter os adversários. 

c Díziam-se descendentes de Marte, para realçar o mérito 
de suas victoriascom a autoridade da religião. 

c Depois de subjugada a maior parte da Europa, apode- 
ram-se também de algumas cidades da A$ía. Alíi edificam 
Epheso e muitas outras cidades e licenciam uma parte do 
seu exercito, que volta para a pátria carregado de despojos. 

c A outra parte gue tmha ficado na Ásia para a defesa de 
suas conquistas, foi aniquilada com a morte da rainha 
Marpezia por uma erupção de bárbaros. 

c Quem acreditará, diz Strabão, que tenha jamais exis- 
tido exercito, cidade ou nação, composta só de mulheres, 
que demais a mais invadiam paizes estranhos, conseguindo 
não só bater os seus vizinhos, como também passar á Jonia, 
chegando a enviar exércitos além do Ponto-Euxino, até no 
paiz da Attica? E' a mesma cousa que se alguém dissesse 
q\xe os homem eram mulheres e as mulheres homens f (23) » 

Entretanto a crença das amazonas, por mais disparatada 
que fosse, nunca desappareceu completamente, de modo que 
a relação de Orellana achou facilmente quem nella acredi- 



(23) Strab. Geoor. L. il. 



— 57 — 

tasse, mesmo entre aqnelles qne menos apaixonados se mos- 
travam doromaaticoe do maravilhoso. Colomlio acreditava 
na existência das amatoaas ; Raleigh espalhou essa crença na 
Inglaterra ; Hernando Herrera asseveroD que a ouvira no 
Paragnay. porãm foi La Condamine qaem se incumbia de 
generatisal>a . 

Eis o qne acerca deste assomplo escraren no diário da saa 
viagem ao Amazonas: 

■ No decnrao da nossa viagem questionámos por Ioda a 
parte aos índios das dívenss nacSes, e delles nos inTormámos 
com grande cuidado se tiatiam algum conhecimento daquel- 
lag mulheres ballicosas, que Orellana pretendia ter encontra- 
do e combatido : e se era verdade que ellas vivessem fora do 
commercio dos homens, nSo os recebendo entre si senSo uma 
s6 vez por anuo 

• Todos nos disseram tel-o assim ouvido a seus pais, ajun- 
tando mil particularidades, muito longas de se repelirem, 
todas tendentes a conflrmar que houve neste continente uma 
republica de mulheres, que viviam sós, sem homens e que 
se retiraram para o interior das terras do lado do norte, pelo 
rio Negro, ou por um dos que pelo mesmo lado correm para 
o rio Maranhão. 

• Um iadio de S. Joaqaim de Omagnas nos disse que 
por ventura encontraríamos ainda em Coari um velho, 
caio pai vira as amazonas. Soubemos em Coari qne o 
inaio qne nos tinha sido indicado havia faltecido; mas Tal- 
iámos B seu Qlbo, homem de 70 annos, e commandante de 
outros da mesma iribu. E<te nos assegurou que seu pai 
tinha-as vi^to passar na entrada do Cuchlnare, vindas do 
Cayamé, que di^sagua no Amazonas, do lado do sul, entre 
Teffê e Coary ; que tinha faltado a quatro d'eotre ellas, que 
uma trazia um nlho ao peito ... que, deitando o Cachíuara, 
atravessaram o Grande Rio e tomaram o caminho do rio 
Negro. OmItlo certas minudencias ponco verosímeis, porém 
que nada imporram ao essencial do assumpto. 

' Abaixo do Coary nos disseram os índios a mesma cousa, 
variando soem algumas circumstancias; porém quanto ao 
ponto principal estavam todos de accõrdo. 

I Um indio de Mortigura, missão vizinha do Pará, ofFere- 
cea-se para mostrar>me um rio, pelo qual, segundo entendia, 
se podia subir até a pequena distancia do paiz em que na- 
qnella actualidade se encontrariam amazonas. Era esle rio 
o Irijé; e dizia o mesmo iodlo, qne quando tal rio deixava do 
ser navegável por cansa das cachoeiras, era preciso para se 
penetrar no pafz das amazonas, caminhar muitos dias pelos 



I Um veterano da gnarnicio deCayena, assegurou que, 
sendo enviado em um destacamento para reconhecer o paiz 
em 1726, havia penetrado entre os amiataaes, nação de 
orelhas compridas, qne habita além das cabeceiras do Oya- 
pock, e junto ás de um outro rio, que desagua no Amazonas, 
e quealli vira ao pescoço das mulheres as taes pedras verdes 



í 



— 58 — 

{t\\, c« i|iiit perguntando aos índios de onde as tiravam, res- 
]»(iiitlriAiii vswn (|U(3 lhes vinham do paiz dasmultieres que 
iiiiuíJNAiim marido, paiz que ficava a sete ou oito léguas de 
tlM:iiii*ia para u Judo do occidcnte. ' 

11. d('<'iiii(lo Arurca deste extracto de La Condamine^ faz o 
Sr (Mtii^Mivf.s i)iasasscp[uintes ponderações: 

• (lijuo disto se concluo, é que La Condamine, em princi- 

1. ^ ilo^tr Mirulo, achou no Amazonas a tradição dessas mu- 
tiffi^N i|Uit nin)(ucm vira, e somente lhe asseverava um indio 
(|r7U MuuitM que isso acontecera a seu pai. Note-so agora 
NU''i ^(*j4Uiido a própria relação deLaCondamíne, quem de- 
T^rj wv vi.sio as amazonas era o avô deste indio, como seu 
;>hi afllrniava ; mas morto este ultimo, já o neto dizia que não 
ira «I uv(\ mns o próprio pai que as vira. » 

Nií diário da viagem que em visita e correição das povoa - 
"pVíí da capitania de S. José do Rio Nefrro fez em 1774 e i775 o 
ouvidor o intendente geral Francisco Xavier Ribeiro de Sam- 
paio, encontrámos as seguintes linhas relativas ao assumpto : 

i Tinha eu lido, diz elle, no diário de Mr. de La Condamine, 
qnc illustrou esta povoação com a sua presença, as diligencias 
qaueste erudito académico fez aqui para averiguar a verda- 
deira origem das celebres amazonas, que deram causa ao 
nome deste famoso rio. O que me suscitou também a lem- 
brança de fazer as minhas averiguações. O dito Condamino 
relata rjue faliúra neste lugar com um indio, que teria 70 
innos de idade^ e que occupava certo posto naquelle povo ; 
e este o assegurara que seu avô, a3hando-se na povoação 
de Cuchíúuará (uma das bocas do Purús) vira umas mulheres 
amazonas, que tinham vindo do rio Cajamé, com as quaes 
tratara ecommunieára. 

< Perguntando pelo dito indio, achei que era o sargento- 
mór da ordenança José da Costa Pacorilha, já fallecido : 
porém outro indii doditolusrar, chamado José Manoel, al- 
feres da ordenança, homem já de 70 annos para cima e de 
bom propósito, natural da dita antiga povoação do Cuchiú- 
uará (que já hoje não existe, por se ter mudado para este 
lugar de Arvellos), me assegurou ter ouvido dizer muitas 
vezes ao nomeado sargento-mór o que este disse a Mr. de La 
Condaraine, assegurando-me além disso^ que era neste rio 
constante entre os indíos a tradição da existência das mu- 
lheres amazonas, do qual se retiraram, entranhando-se nas 
terras do norte dello, da boca do Rio Negro para baixo. > 

padre Ghristovão de Acunha, na relação que fez da via- 
gem du capitão Pedro Teixeira, exprime-se assim acerca das 
amazonas : 

1 Estes mesmos Tupinambás nos conQrmaram também o 
rumor, que corria por ti)do nosso grande rio, das famosas 
• mazonâSf das quaes tira o soa verdadeiro nome, e pelo qual 



Destas pedras fallarei mais adiante. 



é conhecido, depois qne foi descoberto até o pr6sente> nSo 
somente pelos que o têm navegado, mas pelos cosmographos, 
qae delle têm tratado. Seria cousa bem estranha, que este 
grande rio tomasse o nome de Amazonas sem algum funda- 
mento racionarei ; mas as provas qoe temos para assegurar 
que ha uma província de amazonas nas margens deste rio, 
fião tão grandes e fortes, que nÍo se pôde disso duvidar 
sem renunciar a toda a íe humana, t 

Depois de referiras averiguações feitas em Quito e Pasto 
sobre esta matéria, continua o padre Christovão de Acunha : 

cMas eu nio posso calar o que ouvi com meus ouvidos, 
e que quiz verificar, logo que me embarquei neste rio Ama- 
zonas. Disseram-me pois em todas as povoações por onde 
passei, que havia mulheres no seu paiz como eu ih'as pintava, 
e cada um em particular me dava delias signaes tão cons- 
tantes e uniformes, que se a cousa não é assim, é preciso 
que a maior mentira passe em todo o mundo novo pela 
mais indubitável de todas as verdades históricas. > 

Continuando a asseverar a existência das amazonaa, apoia- 
do em informações, que considera dignas de fé, ainda acres- 
centa o mesmo historiador : 

c Trinta e seis léguas abaixo da ultima aldêa dos Tupi- 
nambás, descendo pelo rio Amazonas, encontra-se da parte 
do norte outro, que vem da província das amazonas eque é 
conhecido pela gente do paiz com o nome de Cunuriz. 

c Este rio toma o nome dos índios, que habitam mais pró- 
ximos i sua boca. 

c Superiores a estes estão os Apotos, que faliam a língua 
geral do Brázil, mais acima estão os Tagaris, e depois os Gua- 
caris, que é o povo feliz, que goza o favor das valorosas mu- 
lheres Amazonas. Têm as suas povoações sobre montes de 
prodigiosa altura. Estes montes existem no lugar indicado, 
e se chamam vulgarmente u cordilheira da Goyana, que corre 
ao longo do Amazonas; entre os quaes ha um chamado Ta- 
camiába, que se eleva extraordinariamente sobre os outros, 
e que ó eateríl por ser muito batido dos ventos. 

c Estas mulheres se têm conservado sempre sem soccorro 
de homens, e quando seus vizinhos lhes vêm fazer visita no 
tempo assignalado, elias os recebem com armas na mão, que 
são arcos e frechas, para não serem sorprendidas ; mas 
logo que os conhecem, vão todas de tropel ás suas canoas, 
aonde cada uma pega na primeira itamãca (25) que encontra 
e vão prendera em sua casa. para nella receoer o dono. 

c No fim de alguns dias, voltam para as suas casas estes 
novos hospedes e não faltam de fazer igual viagem na mesma 
estação. As filhas que nascem deste congresso, são criadas 
pelas mãi3, instruídas no trabalho e no manejo das armas: 
quanto aos filhos não se sabe bem o que fazem delles ; porém 



(25) Itamáca (ride). 



— 60 — 

en ouvi dizer a um iDdio, que se tinha achado com seu pai 
nessa assemblóa, sendo ainda rapaz, que no anuo seguinte 
dão aos pais os filhos machos^ que pariram. Comtudo com» 
mummente se crê, queellas matam todos os machos, o que 
eu não sei decidir. Seja o que fôr, eilas tôm thesouros no 
seu paiZy capazes de enriquecer todo o mundo. 

t À barra deste rio, em cujas margens habitam as ama- 
zonas, está em dous gráos e meio de altura meridional, t 

Mas qual seria o verdadeiro lugar que habitavam as ama» 
zonas, se é que existiam ? 

Viu-as Orellana no rio Nhamundá ; mas o indio do que falia 
o Sr. de Li Condamine^ asseverou gue as tinha visto em 
Cuchiúuará e que tinham ido do Caiamé, que dista do Nha- 
munda para cima de cento e tantas léguas, e onde as não vira 
Orellana. 

Mas se não existiram as amazonas, que motivos tiveram 
Orolíana o o padre Christovão d'Acunha para nos asseverarem 
a sua cxistoncia? Porque então essa tradição constante^ 
uniforme entre os indígenas da America ? Foram estes que 
a transmittiram aos europeus, ou pelo contrario recebe'^ 
ram*nn dolles f Ainda no tempo em que o mundo scientiflco 
e littorarlose ocnupava com a dissertação de La Condamine, 
perguntou-se a Humboldt, diz o Sr. 6. Dias, se elle seguia 
a mosma opinião do viajante francez. Humboldt, que por si* 
nada tinha podido verificar, porque não comprehendia a lin- 
guagnm dos indígenas, julgou que se não devia rejeitar uma 
tradição tão geral, bem que perfeitamente aventasse quaes 
(«s motivos que puderam ter levado á exageração os escrip- 
tores que deram mais voga ás amazonas. Apresenta corotudo 
um testemunho que elle reputa de algum peso edá uraa ex- 
plicação que suppõe satisfactoria . O testemunho é do padre 
(lili o n oxnlicnçao é com pouca e bem pouca difTerença a 
niosma do La Condamine. 

« Porguntnndo, escreve o padre Gili, a um ináio quaquá, qxxe 

nnçAoM hnhitivam o rio Chuchivero, elle nomeou-me e 

ON aikcnmbrnanon. Sabendo bem a lingua tamanaque, compre- 
hondj Hom difllculdade o sentido desta palavra, que é com- 
poNta, o Mignlflca mulheres vivendo sós, O indio confirmou a 
minha otmorvação e conton-mo que os aikeambenanos era uma 
riMtnlIlo do mulheres que fabricam longas sarabatanas e 
nutroulHNtrumontosde guerra.... e que matam de pequena 
idado UN filhou varges > 

(Jitor lliimholdt que esta historia se reslnta das tradições 
doN IndloMdo Maranhão e dos Caraybas; mas o mesmo autor 
NoroMOonta quo o Indio do que falia o padre Gílí, ignorava o> 
onMlolhHMo. nAo tinha estado em contacto com os brancos, & 
iiÀu Nnhln (10 corto que ao sul do Orenoco existia um rio que 
NO oliMina doN aikeambenanos, ou das mulheres que vivem sós. 

lliimlMiídloonolúe então: «as mulheres fatigadas do es- 
Im^IimIo onoravldilo.omquo oram tidas pelos homens, se reu- 
lunun, otMUo noiíron fugidos, em algum mlenque, onde o de- 
M^Jo do otMinorvnr a nua Independência as tornaria mais 
|tU0rrvh'ii*i n»ooliorlam dopois visitas de algumas tribus vi- 



-61 - 

ziohas e amieas, taWei menos metbodicameQte do que o re- 
(érea iradicio.i 

laclinnr-um-hei também para a opiaião de Humboldt, dji 
o Sr. G. Dias, de qas não devemos rejeitar inteiramenle uma 
tradição Ião vulgarizada ; émesiropossivoi que ella tenha 
alKUoi fanilameolo na historia da BDiqallação doa nossos 
indigeDas, mas por outro lado, Eer<me-ha permiltído estabe* 
tecer ao mesmo tempo com o aulor das lavestigaçõe» Philo- 
sophicas não ser possível que em tempo ilgum tenha havido 
□em no noro mundo, nem em qualquer ontra parle, uma 
verdadeira .republica de mulheres confederadas e unidas 
por um pacto social, por leis e constituições particulares, 

3ue tenham propagado a sua descendência e o seu império 
nrante muitas idades, nSo admitlindo homens em sua com- 
panhia sen3ú uma sdvei por anno. 

E pois que só com as da America nos occupamos, rojamos 
se poderão ter existido verdadeiras amazonas. 

* As verdadeiras amazonas, cuntinúa o Sr. G. Dias, de- 
veram ter vivido em uma completa separação do outro sexo. 
Comtudo Orellaua afQrma tel-as visto em companhia de ho> 
mens, a quen: ellas dirigiam no combate, impondo-ihes mesmo 
no campo a pena dos csbardes. 

( Segundo em antigos historiadores se IS, exemplos ha de 
povos entre os qnaes predominava o sexo feminino. A este 
propósito Virey appella para o testemunho de Diodoro o Si- 
calo.e da obra que se intitula Embaixada ao Thibel. Ainda 
em tempoi posteriores, como nos afflrma um viajante mo- 
derno (26), as mulheres das Marianas exerciam em indo e por 
tudo o commando, excepto na guerra e na manobra de uma 
canfia. Mas sendo verosímil, como pretende Carli (37), que 
Diodoro o Siculo se tenha deixado illudir, quando refere qne 
as amazonas tinham império sobre os homens do seu paiz, 
parece também certo que entre os marianezes deu-se o 
mesmo facto que nos tempos feudaes e cavalleirosos da Eu' 
ropa, em que os homens mostravam extrema deferência para 
com as mulheres, sem que d'ahí se possa deduzir que ellas 
tenham exercido império em tempo algum. 

( Por outro lado não é possível crer, que os homens de 
uma nação se deixassem avassalar e subjugar completamente 
pelas mulheres, porque seria preciso para isso que todos elles 
(assem muito poltríies, e todas ellas muito resolutas, e que 
de um momento para outro Fe achassem todas com a con- 
sciência de uma superioridade que bem se lhes pôde contestar, 
emquanto que os nomens se sentissem aniquilados pela re- 
velação fulminante de sua inferioridade, cousa que os pró- 
prios bárbaros seriam os primeiros a não admlttir. 

«Sustenta Paws que podem os homeos sabmetter-ae ao im- 



(S6) Rierai.—VUnners~Ocianie, 1. 1." 
(27) LUt. Anc., lom. S." 



— 62 — 

perio de uma mulher, mas Dão á aristocracia olyçarchica 
ao sexo feminino. De facto, se as conveniências de alta poli- 
tica reclamam ás vezes a derogaçâo da lei salica da humani- 
dade, nunca as mulheres^ ou por força ou por astúcia^ pode- 
riam chegar a idênticos resultados.» 

Entretanto que motivos obrigaram Orellana a vulgarizar 
semelhante historia *f 

Reflecte Ribeiro de Sampaio, que, tendo Orellana desertado 
do exercito do seu general com a mais feia perfidia, necessi- 
tava encontrar alguma capa com que pudesse cobrir o seu 
delicto, fazendo-o ao menos esquecer com fingidas e mara- 
vilhosas narrações, de sorte que o mundo o tivesse como um 
bomem prodigioso. O que assim Ihesuccedeu na corte do 
imperador Carlos Y, para o que concorria o génio do século, 
em que faziam ruido as descobertas da America e os ânimos 
desejosos recebiam com admiração toda a qualidade de no- 
vidades, que d'ahi partiam. E qual outra mais própria para 
attrabir a attenção universal, que a historia das amazonas ? 
Eis o que a respeito de Orellana escreveu Robertson, na 
sua historia da America : 

c A vaidade natural aos viajantes que percorrem terras 
desconhecidas ao resto dos homens, e o artificio de um aven- 
tureiro, com sagacidade de engrandecer o seu próprio me- 
recimento, concorreram para dispôl-o a enxertar, em ex- 
traordinárias proporções, o maravilhoso á narrativa de sua 
viagem . Elle pretendeu ter descoberto nações tão ricas que o 
pavimento de seus templos era alastrado de placas de ouro ; 
e descreveu uma republica de mulheres guerreiras e belli- 
cosis, que tinham avassallado considerável trato das férteis 
blanicíffs por elle visitadas. Por mais extravagantes que 
foHH^Mn estes contos, bastaram para dar origem á opinião de 
fjue uma terra, abundante de ouro, famosa pelo nome de El- 
fjoradOf e uma republica de amazonas, podiam ser vistas 
m^ti parU5 do novo mundo, e tal é a propensão do género 
humano para dar credito ao maravilhoso, que só lentamente 
H com muita difllcnldade é que a razão e a observação tôm 
fisito dcMirezar semelhante fabula. Esta viagem comtudo, 
rrMf»mo de*<baHtada de embellezamentos românticos, merece 
ii4«r l^^mbrida, não somente como uma das mais memoráveis 
itc/:nrrttní'ÍHn daqnella época aventureira, mas também como 
o primeiro «uccessoque fez conceber algumas noções menos 
Ifnt^rf<;ft8ii das terras extensas, que se prolongam para o 
nrf^nUí detde m Andes até ao mar. > 

« K tio fi<frf<^itamente conhecia elle o génio da sua época e 
Am UHtíu /;oncídadio8, acrescenta o Sr. 6. Dias, tanto contava 
fiom o i'(^;itouue sobre alies produziria a narração de suas 
nviffitufAv^^sini exacreradas, que, como nos conta o padre 
IH$noHlí\'fâr\nti(ii(ÍH),íoia terra das amazonas o que elle 



(|N) Míiranony Am3zonas.'^MíiáTÍá 1684. 



Sedia ao Imperador Carlos V; e foi isso o gue lhe mereceu o 
espacho qao reqnería, porque obteve— carta paleote de go> 
Ternador generaMssimo do rio das amazonas — para o recom- 
pensar do as ter subjugado em nome de sua mageslade catbO' 
lica.i 

Ha entretanto um argomento em frvor âa narração de 
Orellana e queaqui apresento, sem comlado tomar absoiula- 
Tuentea sua defesa. 

Orellana commandava um navio ' nSo foi o único a com- 
bater as amazonas, niio se arliava so, acompanliava-o a guar- 
iií(^o do navio, que se n3o compunha exclusivamente de 
mariobeiros rudes e soldados Ignorantes, que facilmente 
pudessem ser illudidos, mos lambem de ofliciaes, que é da 
presumir tivessem certa educação, conhecimentos ecrilerio. 
Seriam oatros tantos protestos que ie levantariam contra a 
fabula engendrada porelle eem seu uuico proveito. Entre- 
tanto nSo consta qne um só se erguesse desmascarando o em« 
itnstQj e 3 narração de Orellana correu mundo, sem que 
qnaiqaer dos sens companheiros a contradissesse e desmen- 
tisse. Com elles cbejíou d pátria, onde referiu o maravilhoso 
snccessoem qne deviam todos ter tomado parte, e estes que 
sem duvida teriam sido interrogados, n3o desmentiram, nSo 
contradisseram o facto. 

Estariam todos peitados ? Teria havido occõrdo prévio ea* 
tre todos elles, do modo que nnnca trahissem o promessa que 
mutuamente se haviam feito ? Semelhante hypothese parece . 
ser ainda mais difQcil de veriBcar-se, do que a possibilidade 
da existência dessas multieres, que conslituiam uma ropn- : 
blicB e viviam na mais completa independência de homens. 
Apreciando a qucstSj eic todas as suas diversas faces, faz 
o Sr. 6. Dias as segnlnles ponderações que me parecem mni 
valiosas, mas n3o absolutamente concludentes e decisivas. 
< Entre os indígenas eram escassos os meios de subsis* 
lencia ; por esle motivo nSo havia grandes focos de popula- 
ção, e apenas pequenas aidèas de algumas mil almas, e 
todavia níío sedístrabíam homens para a lavoura, que era 
occupação quasi privativa das mullieres. A republica das 
amazonas devia ser igualmente mnito limitada, e mais es- 
cassos os seus meios de subsistência, por n3o haver classe 
algnma incumbida especialmente da agricultara. Ora, da 
mais populosa aldêa Tupinambá, deduzidas as vellias e as 
muito jovens, apenas se poderiam extrahir mil mulheres 
com animo e disposição bastantes para tentarem semelhante 
aventura. Snppondo qne estas logo depois de estabelecidas 
encontrassem Gargaris com os quaes se alliassem , haveria 
comtndo cansas para qne fosse espantoso o decréscimo da sua 
população. 

I Em primeiro lugar , nem todas seriam fecundas , nem 
loias conceberiam logo ; por outro lado demonstra a estatís- 
tica, qne nascem mais homens do que mulheres ; além disso, 
a experiência confirma a observação do vulgo, de qne nos 
primeiros annos do matrimonio nascem quasi exclusiva- 
msnie homens : as amazonas, rariando annoalmeute de ma- . 



— 64 — 

Tidos, teriam mais fílbos do que filhas, que unicamente apre- 
veitavam. 

< Depois, 4;oncebendo todas ao mesmo tempo, estavam 
pouco aptas para resistirem á aggressão dos inimigos, que 
Dão deixariam de se aproveitar de tão favorável ensejo. 

c Devendo pois nestes tempos criticos velar nas armas com 
mais assiduioade, e occuparem-se da própria subsistência, 
•esses exercicíos violentos deveriam occasionar maior quan- 
tidade de abortos. 

c Se emfim considerarmos que a raça americana era eé a 
menos prolífica de todas, que as mais gastavam três annos 
com um filho, antes de se poderem occupar com o segundo, 
concluiremos por ventura, que éimpossivel que em taes cir- 
cumstancias subsista uma republica de mulheres. 

c Ainda mais claramente : de 1.000 mulheres ficariam gra« 
vidas 800; e a proporção lhes é excessivamente favorável: 
destas 800, abortaria a quarta parte e seria maravilha que não 
abortassem todas ; temos porém 600 ; os filhos da maior parte 
destas serão homens, porque nascem mais homens do que 
mulheres, temos 350 homens ; nascem porém nos primeiros 
tempos do matrimonio qu&si exclusivamente varões, temos 
«dm resultado de mil mumeres, quando muito 150 filhas. 

c Occupando-se a mãi com uma só filha por três annos, 
porque sendo gémeas, uma delias, como dos filhos, tinha de 
ser sacrificada, vemos que a reproducção não podia deixar 
de ser triennaí. 

c Deduzidas as que morressem até a idade de 15 annos, as 
amazonas que succumbissem de enfermidades, por accidentes 
ou nos combates, temos que antes que as primeiras filhas 
•chegassem á idade de poder encurvar um arco^ já deixaria de 
ter existido semelhante republica. 

c Nem nos podem dizer, continua o Sr. 6. Dias, que 
sejam por este calculo desfavorecidas as amazonas, se excep- 
tuarmos o postulado de que cada uma delias gastaria três 
annos com a alimentação de um filho, eeste não nos pôde ser 
negado, porque éa imperiosa necessidade da vida selvagem. 

c Digo que nãoé o calculo exagerado contra as amazonas, 
porque é preciso que as circumstancias sejam antes mais do 
que menos favoráveis, para que uma população se possa du- 
plicar no espaço de 30 annos, attendidasas naturaes quantí- 
aades do sexo e da idade. 

c Ora seria isto o que acontecôra quando em qualquer povo 
de 1.000 mulheres núbeis, nascessem 150 filhas, que pas- 
«asHem dos 15 annos. Tornemos mais claro o exemplo. Bm 
ama população regularmente constituída, de 5.000.000 de 
almas, mais de metade, isto é, mais de 2.500.000 são mu- 
lheres; porque supçosto nasçam mais filhos do que filhas, 
como estes na primeira idade morrem em maior numero do 
que aquellap, chegam á idade púbere mais mulheres do que 
homens. Destas 2.500.000 mulheres (calculamos pelo mí- 
nimo) tirando-seas demasiadamente jovens eas que teriam 
rMHidoa idade da concepção, podemos calcular que ficariam 
.000.000 de mulheres de idade de 12 a 40 anãos. Ora, se 



— 6S — 

1.000 mulheres produzem i50 filhos, i. 000. 000 produzirá 
ISO. 000 ou 4.500.000 perto de 5.000.000 no espaço de 30 
annos. 

c Dever-se-hia ainda duplicar este numero, pois se at« 
tendermos a que as amazonas teriam engeitado os filhos va- 
rões, dobrariam por esta forma a sua população em i5annos. 

c Se attendermos por ílm a que consideramos que quasi toda 
a populaçãe das amazonas era prolífica sem velhos, nem 
crianças, nem mulheres que não estivessem em idade de ter 
filhos, concluiríamos que se pôde dar o caso de se dobrar 
uma popuIa(^o em cerca de três annos: o que por certo 
seria mais estupendo que a própria existência cias amazonas. 
Foi isto o que dissemos : que 1.000 amazonas poderiam ter 
4S00 filhos por anuo ou 1.500 em 3 annos ! 

c Ainda assim dissemos: nSo poderiam subsistir por 
muito tempo ; porque as guerras, as moléstias, as fadigas 
demasiadamente ásperas |)ara o sexo, os abortos provenientes 
de taes excessos, o incentivo que teriam os vizinhes para to* 
marem d'entre ellas escravas e mulheres, todas essas causas 
concorreriam para diminuir rapidamente semelhante popu- 
la^o. e enfraquecendo-a aggravariam mais a sua condição 
com tornar mais precária a sua sorte. Com a tutal aniqui- 
lação de taes insensatas, se vingaria a lei eterna da Provi- 
dencia que creou os homens para viverem em família. > 

Nas minhas excursões pelo valle do Amazonas ouvia cons- 
tantemente fallar de umas pedraò verdes, de maravilhosas 
virtudes, a que dão o nome indígena de mveiraquetan e 
que me diziam serem exclusivamente preparadas pelas ama- 
zonas. A quantos encontrava, perguntava pelas ditas pedras 
6 todos me asseveravam, sem discrepância, que t- ram prepa- 
radá^s pelas mulheres sem marido ou amazonas. A essas pe- 
dras attribuem propriedades maravilhosas e affirmam que 
curam certas enfermidades, como a pedra, a cólica nopbii- 
iica, a epilepsia, as moléstias de fígado e outras e que até 
preservam delias os que as trazem. 

c Mas estas mesmas pretendidas virtudes^ diz o Sr. G. 
Dias^ talvez não sejam senão uma recordação da crença po- 

Sular da antiguidade acerca de outras que taes pedras ver- 
es. O) antigos. Gregos e Romanos, compraziam-se com o 
verde brilhante da esmeralda, mais bella, no dizer de Plínio^ 
do que o verde da primavera ; pedra sempre brilhante, es- 
creve elle, sempre acariciadora dos olhos, quer visia ao sol» 
quer á sombra, quer de noite ao reflexo das luzes. A ellas 
também, além da belleza, attríbuíam-lhes innumeras vir- 
tudes. 

c Se porém os antigos, Plínio e Theophrasto, davam o nomo 
genérico de esmeralda a todas as pedras verdes, a mais esti- 
mada, a mais bella de todas, a verdadeira esmeralda, era a 
pedra dopaiz das amazonas a esmeralda da Scythía. Quero 
crer, portanto, não só que a intima correlação da historia, 
das pedras verdes com a das amazonas, é uma recordação da 
antiguidade, como que é desse facto que se originou a fé nos 
«eus pretendidos milagres. 
9 



« Sei que ein cada amnloio ou pataá se encontrará senipre 
HQi fragmento de itoiner»!. Sei que se se eserevesse a bi»ta* 

ria do> reitiços entre todos os povos, grande parte delia seria 
^ircupada com a cretina no pretendido poder de certas pechras. 
A!^im« com o qne levo dítOy longe estou de negar a importân- 
cia qu« na soa infância os povos tôm dado às pedras^ que se 
aftislam do rommúm^ como a todos os objectos, qne por al- 
guma singulsrídade ise destacam d'entre as prodncções da 
naturoza. Mamona America do Norte parece qne a pedra 
Terde foi veneiada debaixo de uma significação religiosa. » 

Raríssimas como sio boje as fhueiraquetans ou pedras 
Terdes, já porqne os Índios emuitis outras pessoas quenellas 
iciYditam e as apreciam, gnardam-nas coiuo verdadeiras 
precioiiidadcs o Já pela exportaçSo que delias se fez e se faz 
para a Europa, foi com grande difficuldade que consegui 
vêl-as. 

O Sr. J. Barbosa Rodrigues, com rara felicidade, pôde obter 
duas, quo examinei e peia minba parte tenbo promessa de 
«ma, quo so mo fôr dada, eomo espero^ apressar-me-bei em 
«nviui-a para o muzeu nacional. As que possue o Sr. Bar- 
bosa Rodrigues divergem na c6r; uana é quasi branca e a 
outra ú do um verde amarellado. Tem ambsis a forma de 
um rylindro de duas pollegadas de comprimento e meia de 
ttiamtitro e perfuradas loocritudinalmente. 

One pedras Hcrão estas? de que matéria se compõem? 
Rumm dá*lhc8 o nome úejade, pedra nepbritica ; Omalios 
rlaMHlflca-as na família das srlicides, como a espécie de um 
suli^enero, a queconsorva o nome de feldspatb. Humboidt, ' 

Íiorc^in, <li/ que o que nos gabinetes seobama atnttzontn^stein 
jM*(lrii das amazunas), não ó jade, nem feidspatb commum. 
i:omtudo, afflrma esto grande naturalista ter visto nma 
df^KHas pedniH, ({ue era umo saossurite, verdadeiro jacte, que 
orle totfm>Htica mento se nppruxima do feldspatb compacto e 
que (árniB uma da.s partes constituintes do Verde di Corsica 
ou do ilabbio. 

• Ora, diz o Sr. G. Dias, discordando tanto os autores na 
v\íiíns\\\{'Á\tfln desta pedra, que, sendo em extremo dura e 
rara, *S ftiMszar dlMio confundida com a pedra de acba (BeUs- 
iftin lifí Werner) muito menos tenaz, não é muito que a des- 
creva erida nm a seu mo/lo e ihe attribua natureza e cara- 
é*tereN (llfTerentes. E assim é. EmquantoOmalins a classifica 
ooiiio ntnfi NilicMe. Ruffon a considera como uma matéria 
rirlxta, servindo de transição entre as pedras quartzosas e 
AK nír.aeeas ou talquozas. Ruseando-se nas experiências do 
fjilriileo d'Arcet, ilo jue o jade se cnrlgece ainda mais ao 
fiitfo, tieniuade«se Ilufionquo a pedra das amaiíonas não é 
iirodffzMíi Iritmedlatamcnte pela natureza, mas que depois 
tíh trabalhada devora ter mo empregado o fogo para Ibe 
dar A extn^tria duresa quo a caraoterisa ; pois que estas pe- 
/Iran riikl«tem áii nielbores limas e só cedem ao diamaotH.» 

rfiríMlfOldf, nagundo qvo semeibantes pedras sejam nata- 
rsen do Amazona», descreve-ascomo recebendo UBtitrilbante 
polldd^ loinondo o cur verde esmeralda, translúcidas sas 



- 67 — 

kordaj, extrctnamcnle tenazes c íodotus, e tanto qnc talha- 
das cm tempos auiigos pelos iudfgtnas cm lamioas multo 
delgadas, perfuradas no centro e suspensas a um ílo, dáo 
um soai metallico quando percutidas por outro corpo 
daro, motivo poi que foram por Brongniart comparadas ás 
pedras sonoras que os cbineies empregam nos seus Inslru- 
menios de musica, a que chamam king. 

Sejaoquefdr, oqneécertoâ que as mufíra^ufíctns existem 
por aqui, oulr'ora em grande, o boje em mui pequena quan> 
lidade, Kuardadas como verdadeiras relíquias e geralmente 
attribufaa a stia prepora^So «Karnazonas. Os que combatem 
3 possibilidade da existeni^ia dessas mulheres, u3o podem e 
Dlo sabem explicar a verdadeira procedência dessas pedras. 
Grande era a quantidade que delias bavií. e é tradição en- 
tre os Índios qne em certa quadrado anno, a tribu que com 
as amazonas mantinha relações de amizade, ia bnscal-as em 
mio delias. Hoje com odusapoaieeimento dessas mulheres, 
sambem desappareccramaapêaraí. 

liXa me nfio parece ainda uma prova concludente e declsi- 
ra em favor dá evistcncia das amazonas brasileiras, mas c 
certamente um argumento mui valioso e capaz de faziT Tacll- 
laroespirlto. 
D*onde víiihnm aquellas pedras '? 

Se não eram as amazonas que as preparavam, como expli- 
eara sua procedência eoseú actual desapparecimenio? 

Antes de estudar esta questão, confesso que recusava pe- 
remptoriamente cr&r na evisteniia das amazonaG, que eu en- 
tSu considerava como uma dessas muitas fabulas, dessas nnr- 
raçiJes extravagantes de qne eslá cbeia a historia, e Orcllana, 
em minba opinião, não passava de um visionário e de um 
impostor. Hoje, iioróm, meu espirito vacilla, e posto que nSo 
tenha ainda razGes muito decisivas para cròr, tombem me 
n2o parecem absolutamente convincentes as raz&es dos que 
negam e combalem a possibilidade da íua existência. 

Ropugna-me boje lançar a Orellana o epIlbelQ de Impostor, 
sloda quando se pudesse provar de modo indubitável que 
■unca houvera existido a tribu das amazonas. 

Em muitas tribnsindigenasexercem as mulheres misteres 
e occnpaçdes qae, parece, deviam ser da competência cxclu- 
ulTadO! homens. 

Era poseivel que Orellana travasse peleja com algama trIbu 
na qual de parceria com os tiomeus, também combatessem as 
malneres. 

< Os que tivessem algnm conhecimento dos costumes dos 
selvagens da Ameriea,^» e «av44or tlJiteuo d« sampafn (iS)^ 
nSo ignoravam que habitam nella algumas naçSes, em que as 
molberes pelejam juntamente eom os homens, o que prc- 
mnlemente soõcade com inaumeraveis. 



<S9) Dtarfo da Viagem da ÇapitatíiaiQÍUoMçrOi 



— 68 — 

« i>;>niuturicú5, que de quatro annos a esta parte hostíli- 
s;uu as nossas po>oac5fs do rio Tapajoz, trazem comsifro as 
mulheres, as quaes na occasião do conflícto Ibes sabmíDfs- 
trauí as flechas, como se observou no combate, que com aquel- 
ia boliioosíssíma nacao teve o anno passado o commandante 
da fortaleza daiiuelle rio^ no qual sustentaram valorosamente 
o fo^o, que se lhe fez por um largo espaço de tempo. A na- 
^*ão ottomâca, uma das mais celebres do Orinoco, leva as suas 
mulheres á cuerra. O oflQcio destas é aproveitar as flechas, 
que ixs inimigos disparam e bervam, as qnaes entregam aos 
stHis paia novamente as lançarem aos inimigos. > 
Itasta de amazonas. 
Onde nasço o Amazonas? 

Diversas tOm sido as opini5es acerca do lugar preciso em 
que uasre o grande rio; porém a mais seguida é ciue nasce 
uo la^io llyaurlcorha ou Laurcocha, no dístríctode Huanuco, 
dode|>artamento de Tarmá, a 32 léguas N. N. E. de Lima, 
oapilal do Peru, com o nome de Tunguragua, que, partindo 
da extremidade oriental do dito lago, segue em directo do N. 
IS. O. entro as montanhas dos Andes, começando a ser nave- 
gável do ponto em que se lhe reúnem o Guanamá e o Pulcio, 
o até Jaen de Braça moros só o é em pequenas canoas que 
possam passar por sobro as cachoeiras. 

|)e iirneamoros se inclina a N« N. E., e a navegaçlo tor- 
nasse entfto mais franca até o Pongo, au?mentando-$c o vo- 
lume do sUHS aguas com os aflluentes Cbincbippi, Chacha- 
pulftM o S» Thíago, e tendo jú ent§o 250 toezas de largura. 

HttMMonta milhas abaixo do Pongo, que é um canal de seis 
milhas do romprimonto e poucas braças de largura, recebe 
ort rIoM Morona e Pastasa, que se suppõe nascerem nas proxi- 
midadoM do volcHode Sangay. Mais adiante recebe pela mar- 
gem dln^lta n (iualhaga o o Ucayale e pela margem esquerda 
o r.hanihiru o o Tigre, 
(lomrç^i ontflna ser conhecido pelo nome de Maranhão. 
Tonui a dlrerçHo do N. E. por espaço de 90 milhas, ang- 
inenlando o volumo de suas arruas comoNonaíe oNapo; ín« 
ellnN-'«o drpois para leste, recebe oCassíquím e entra no ter- 
ritório hraMJhflro em Tabatinga, tomando entSo a denomi- 
UiicAo do Solimõesati^ receber o Rio Negro. (30) 

NiMOo o Nnpo nus abas da cordilheira do Antizana, a 18 
loHO'!'» do Õuho, correndo por entre grandes roí-hedos. E' 
Uitvefiavel até o povoado do mesmo nome (Napo), de onde 



CIO) li AniftíonnM toma a denominação de Solimí es, talvez 
\\\\\ eniiNH do*4 InitloR Sorim^'S, que o habitaram desde a cob- 
Itnenrla do Hio Negro atoas fronteiras de Tabatíng?. 

|,ii roíidanilno poriam diz que o nome de rio dos Solimões 
f iin do» venenoN) foi-lhe dado provavelmente por causa das 
fli \(i» onvenenados de quo usavam os índios nabitantesde 
uno* nuirgont. 



-69- 

passa-se a Archídona. Algamas pessoas qae o tem navegado 
em canoas decommercio^ informam que o seu leito é conside- 
ravelmente obstraido de bancos de areia na estação da va- 
zante. As viagens de Orellana em i539, de Pedro Teixeira 
em 1638, e a relação do novo descobrimento do grande rio das 
Amazonas pelo i)adre C. d' Acanha, deram tal oa qual cele- 
bridade a este rio. 

Na distancia de 70 dias de viagem da sua foz, chega-se á 
confluência do rio Coca, onde Pizarro fez construir o barco 
em que Orei lana desceu o Amazonas. 

Segun'10 H*rndon, é de 80 braças a largura da foz deste 
rio. La Condamine calculou-a em 4£fô braças acima das ilhas 
que dividem a foz. 

Calculou-a Mow em 2i0 braças e Smith em 50 braças. 

O calculo de Mow parece ser o mais aproximado á exa- 
ctidão. 

Seis milhas abaixo de Taba tinga recebe o Javary, que di- 
vide o território do Brazil do dos Estados do Equador e 
Peru. 

Uma linha recta, tirada de Tabatinga até a margem direita 
do Japurá, defronte da fez do Apaporis, é a divisa entre o 
Brazil e oPerú, segundo o art. 7.^ da convenção de 23 de 
Outubro de i85i . 

As margens do Apaporis eram habitadas pelas seguintes 
tribus: 

latinas, Jupuar, Detuanás, Taninbuca-tapuias, Jabahanas, 
Macunas^Tocandiras, Uerimás, Barabatanas, Macús, Jacunas, 
Cumacumans e Júris, sendo todas ellas pacificas á excepção 
dos Macús. 

Recebe mais o Solim5es o rio Içá ou Puturaaio, Jutahy, Ju- 
raá, Japurá, Teffé, Coary, Purús e Rio Negro, tomando então 
dahi em diante o nome de Amazonas. 

Nasce o I á ou Putumaio nas cordilheiras próximas á ci- 
dade de Pasto, na republica do Equador, corre do occídente 
para o oriente, inclinando-se para o sul, em um leito des- 
igual e pedregoso. 

Communica com o Japurá por dous canaes, um superioras 
cachoeiras e que tem o nome de Peridá e outro inferior de- 
nominado Pureus. 

Por este rio, fazemos tal ou qual commercio com a Nova 
Granada. 

Os negociantes de S. Paulo de Olivença e de Taffé, sobem 
atéMocoá, capital do território de Caquetá, eparaalli levam 
mercadorias, como ferragens, bebidas, panno grosso de algo- 
dão, 3tc., e os granadinos descem até TeiTé, trazendo salsa, 
breu e diversas outras drogas, que colhem nas matas e mar- 
gens deste rio, habitadas em geral por indios pela maior par- 
te pacíficos. 

N I lugar denominado Japacuá existia ainda em i849 uma 
aldfta de indios : Passes e Júris. 

Meia milha abaixo da foz do Içá ou Putumaio, em lugar 

Souco elevado, assentaram os Hespanhóes um posto militar, 
enominado de S. Joaquim^ por occasião de tratarem com a 



coròa portQgneza ácerct da demareaçSo de limites; mas em 
1766 abandonaram -0^ reconhecendo qae em extremo crititia 
era a sua situado alli. 

Dous annos depoiR, 1768, o governador e capitSo general 
do Estado do Pará, Fernando da Costa de Atayde Teive^ maa* 
dou fundar no mesmo lugar uma povoação com a denomi*^ 
nação de S. Fernando (3i)^ com índios cajaviceoas e paria* 
nas. 

OJutaby ou Hiutahy parece que nasce nas montanhas do 
Cusco. Quanto se sabe deste rio, e bem pouco é, estriba -se em 
iiiforroações incompletas e vagas dadas p^Io^ indígenas 

Diz o capítáo-tenente Amazonas, que em 1560 P^drodeOr- 
súa, em demanda de minas auríferas e produrçôfs indígenas, 
desceu do Peru por este rio^ do qual passou ao Juruá, entran- 
do por elle no Amazonas. 

Ha também n ticia de haver um jesuíta hespanbo! entrado 
no Amazonas por este rio e por elle subido aos seus estabele- 
cimentos do Maraiíon. 

Nasce o Juruá do lago Rogagualo, no Pprú. São escuras aa 
suas aguas e desigual e pedregoso seu leito. 

« Presume-so fácil navegação para o Peru, diz o capitão- 
tenente Amazonas^ subindo por este rio f* pas^andose delia 
para o Jutahy: tal foi a que fez Pedro de Orsúa em 1560, e a 
mesma emprehendfa emsusf retirada, quando foi assassinado 
por spus offlcíaos insurgidos. » 

c Ha engano maniO-sto nesta asserçSo^ diz o Sr Wilkens de 
Mattos^ porque é facto histórico, que não admitte contro- 
vertia, que era 1559 o marquez de Canete, více-rei do Peru» 
fez partir P^dro de Orsúa á frente de uma grande expediçio 
em procura da cidade do El'Dourado e do lago Parimé; que 
este offlcial, sahindo de Cusrò para o norte, checou a Lamas, 
pequena povoação á margem boreal do rio Mayo, affluente 
do Huallaga o ahi fora assassinado pelo seu ajudante e com- 
panheiro, o tpnente Lopo dê Auuirre; que tencionando este 
Eroseguir na empreza confiada á sua vigilância, descora o 
'uallaga eo Amazonas até a sua foz, e navegando ao longo 
da costa das (ruyanas e de Venezuela, apossou-se da iltaa 
Ma^^garida, onde reforçou a sna tropa, e foi desembarcar na 
cidade Cumaná, com o fim de conquistar um império no 
continente ; mas sendo ahl batido pelas forças bespanholas^ 
foi conduzido preso para a Trindade, onde por ordem de 
Ph Ifppe II «o justiçaram. 

Nasce o Japurá ou Hyapurá nos Estados de Nova Granada; 
corre a E. S. E.^ em leito desigual e pedregoso, de onde deita 
um braço para o Orcnoco^ e começa a regar o território i^ra- 
xileiro. 

E' este rio navegável por espaço de 160 ou 180 leg«as, 
acima da sua foz^ começando então as cachoeiras, que o 
obstruem 



(31) Já não existe essa p ovoação. 



Belos Ipau^das de I7S0 6Í777 era pelo veio de^ta rio e ão^ 
seu conflueate Caraiarí, que limitavam as poss^{Ae$ porta- 
gjm%%s e lieapanboliis o majs oceídentalnieD^^.' 

Fn netta que em ji78i, se doa príocipío aos mais sérios 
irabaUios de deiqarc^gão por parte das ditas potencias, os 
qaaosse paralysaram, diz o capiíâo-tenente Amazonas, pela 
aai^easliodo comnis^ario portiiiniez Gbermont. por na ver 
este assi^nado com o hespanhol RM|apna o celebre lermo de 
20 de Maio de i78Í9 para se limiiara demarca^ no rio 
Apaporis, a não se estender ao Cumiari, como cumprid» sq^ 
gando a Intra do.^ tratados. 

F«>i também neile que se submetteu a nação Mara, ajus* 
tando paz(M)m o director do Marípí, Mathías José F^rnamles. 

Commiinica-se p fopur^ em divprisos pontas, com o Ua- 
pé.^ e o Rio Negro, a saber: Subindo-se o Uapés^téo sèa 
affliiente Jacarí ou Purureparaua, e por este acima até uma 
estrada, queda mar^rem occídenta! passa para o Cananarí^ 
que afftue no Apaporis. 

Ba foEdo Uppés até a do Purureparana, gastam-se de 25 
a SSdjias e passam-se 26 cachoeiras. Dizem ser este rio bas- 
tante at)andaate de j^ixe< 

à psssajcem dpPftTureparana eff^ctua-se em^ horas, e a 
do Ganiinari em 3 dias, teiidú-se de passar nove cachoeiras. 

J>a ÍQZ do Cai^noarí, descendo pelo Apaporis atèas maio- 
cas dos índios cumacumans, gastaro-se i2 dias, e dahi por 
Ijarra, i»assa-«8e ao Japurá em menos de meia hnra. 

|k>Qi> Nes?ro para o iapará ha seis communicaç5es : 

i/ Pelo riiO Çapurt subindo, sahe-S(í entre o rio T^^raira, 
quase lança no Apaporis^ pouco acima da sua foz. Tem o rio 
(^purl muitas cachoeiras. 

%.* Pelo rio Marié com 3 dias de via?em, sabe*se em um 
lg*s^ denominado Uanin, peio qual sóbe-se durante dnz ou 
doze dias, e desembarca-se na margem (esquerda, d'onde se 
atravessa em dons dias por terrenos alaira<iiçús até encon- 
irar-isea margem do rio Slamorité, pelo qual se desce ao Ja* 
pura em menos de um dia. 

d/ Pelo rio Cbiuará ou Teia póde-se passar para o Puapuá, 
%ie 4ie«|gaaiv) Japurá. 

4^* Ifii fiqi 4e 8 a 10 dias de viagem pelo Uneini acima, 
d^mtefca^se na margem esquerdía, e por um trajecto de 
péssimo caminbo, quese pôde vencer em dous dias, entra -se 
em <^m i^arap^, pelo qual se desce em duas boras ho rio 
Puapuá, do qual em seis horas çode-se ir ao Japurá. 

4f.* jSobe'<ae'em oito dias pelo rio Urubaxi, e attravessa<*8e 
por ama es^trada, que leva ao rio Marajá, afflueute do Ja* 
porá . 

6.* Pelo igarapé Queiçara, entre as cachoeiras do Pirá e os 
índios Manibas, sobe-se e com um dia de viagem, chega-se a 
XTBí "porto tio qttal "se atravessa etn dous dias para as malocas "• 
dos inditsGauiarís, na margem do Cananari; desce-se por 
este em meio dia e sahe-se em outro ponto de terra, que se 
v^aceem itm<dja,«oçoptraji4o-6e Oirjoi^raparaua, peh) qual 
se desce em quatro ou cinco dias ao Apftporis^ passau4o-s6 , 



-72 — 

deste ao Muritiparana^ que se lança no Japuri, acima da ca* 
choeira CopatL 

Esta commanica^o é mnito mais Tantajosa do qne a qu& 
se faz pelo Jaeari^ por evitar a cachoeira do Cananari^ e a do 
Salto, no Apaporis, que fica proiima da grande cachoeira d» 
Fama. 

Baena, em sen Ensaio Corographicú, assigna a este rio oito 
diflerentes hocas, que sid: 

1/ Da parte oriental, chamada Cada jás^gne dista seis le» 
goas do Gocbioará, terceira foz do rio Parus. (32) 

2/ Sem nome conhecido. 

3.* Capina. 

4/ Uananá. 

5.* Em frente da ponta da ilha Paranari. 

6.* Uaranapú. 

7.* Manhana. 

8.* Anatiparana. 

c Não parece a qaem observa o movimento das agaas neste» 
canaes, diz o Sr. Wiíkens de Mattos, acertada a denominado 
qae lhes df-u o autor do Ensaio ; porque para que pudessent 
alguns delles, que communicam o Solimoes com o Japurá^ 
ser considerados como bocas deste rio, seria preciso queelle 
por ellas despejasse suas aguas no Solim5es. Pelos três ca* 
naes superiores ( Auatiparaná, Manhana e Uaranapú ) não 
acontece isso. > 

Oá Hespanhoes^lão ao Japurá a denominação de Caouetá. 
Spix e Martins em 1819 subiram este rio até a cachoeira 
Araracoara (rauda de Arara), de onde regressou este, tendo 
Spix, por incommodo de saúde, flxado no lugar denominado 
Porto dos Miranhas. 

Affirmam estes dous notáveis escriptores que a foz do Ja- 
purá, quasí fronteira a do Teffé, offerece a largura de uma 
milha, pouco mais ou menos. 

Os Índios que habitavam as margens do Japurá eram : 
Pureus, Pacés, Juris^ Homanas^ Maparis, Juamis, Miranhas e* 
Coreiús. 

Os miranhas são antropophagos e distinguem-se pelo olhar 
defeiíuoho, empregando o anifíeio para isso. Pelo contrario- 
os Coreiús são em extremo humanos e hospitaleiros. Em 1782 
reco m me nd aram -se ellcs por actos taes de humanidade para- 
com os commissarios portuguezes e hespanhoes da demar» 
caçuo de limites^ que mereceram dellesas maiores demons-- 
traçõcs de esiima e respeito. 

Paliando do Japurá, assim exprimiu-se o meu bom e illus- 
tfado amigo o Sr. Dr. Adolpho de Barros Cavalcanti de La- 
cerda. 



1» 



(32) O padre C. d'Acunhs, citado por Southey^ tomou est» 
como a principal foz do Purús. 



^75- 

t A' vista do que foi oatr'ora, pode^se considerar este 
grande rio presentemente deserto. 

c Da foz^ na margem esquerda do SolimÕes, aquelle seu 
afSaente, existam apenas 12 choupanas com 70 habitantes, 
eontando-se entre eiles muitos Miranbas resgatados. Esta 

fraude tribu estende-se do rio Caynari, a 6 dias de viagem 
o Apaporis, até a cachoeira de Maracanan Coara, que é a ul- 
tima, occupandoa margem direita, e, segundo alguns prá- 
ticos, do afflaente Cuemani em diante, pela margem es- 
querda. 

c Nem um só Pacé ou Xomana encontra-se já no Hvapurá 
(Japurá), apenas se observam algumas raras relíquias das 
importantes tribus Hyury e Coretú, e outros poucos Caixanas 
que costumam alli apparecer em busca de cacáo. A niníor 
parte destes últimos vive nas cabeceiras do rio Mocó-minm, 
a 5 dias de viagem da foz, no Hiapurá. Ficando mais pró- 
ximos do Tocantins entretém relações com os mercadores 
deste rio. 

c Um só Macuna não existe hoje no Hyapurá. Ainda em 
nosso território, entre aquelle e o rio Negro, vagam os Macús, 
tribu que ainda se conserva no estado nómada. 

c O rio Meçay, a que se refere o tratado de limites de 1777, 
entra pela margem esquerda do Hyapurá, dons dias de via- 
gem áqueni da cochueíra de Arajacoara ou iO alem do Cu- 
paty. Os práticos daocomtudo o nome de Cachoeira grande 
a de Arara-coara e a dt^ Cupaty . 

c Na Corographía deBaena e no diciccionario topographico 
do Amazonas, é desi^nuda a primeira cachoeira do Apaporis 
com o nome de Cupaty, quando é elle hoje dado á serra e á 
primeira cachoeira do Hyapurá. 

• Produz alguma citniusào este troca de nomes, que a meu 
ver poder-se-ha remediar, comparando o resultado das novas 
observações astronómicas com as feitas em outro tempo pelos 
commíssarios de limitais de Portugal e Hespanha. 

• Quando se houver attendido a necessidade do mesmo gé- 
nero em lugares que mais de perto o reclamam, nâo se de- 
verá perder de vista a conveniência de estabelecer uma 
missão no Apaporis, ou melhor, nas proximidades da serra do 
Cupaty, para serem ahi reunidos os Miranbas e outras tribus, 
não só do Hyapurá, como do Apaporis. A sorte desses indios 
e a situação da fronteira ficarão assim mais ao abrigo de 



qualquer emergência 
«Oh 



'O lugar em que naquelle rio foi collocado um destacamento 
em certo tempo, fica situado na margem direita, oiio milhas 
áquem do Apaporis. O terreno é aUo, muilo fértil e cortado 
por um igarapé. Uma coilína próxima permitte observar o 
rio na extensão de 3 a 4 milhai aquém e além . Mas a circums- 
tancla de ficar em frente de uma grande ilha, a do Inambiâ, 
torna*o impróprio á fiscalisação. Pelo Paraná-mirim^ que se- 
para a ilha da margem esquerda, passam canoas em grande 
parte doanno, e é preciso muita vigilância para que sejam 
vistas na entrada e na sabida. Esta mesma razão tira toda a 
importância ao lugar para ser fortificado. 
10 



— 74 — 

< Xa tnarjrem esçaerda até perto do Apaporís, ourrenoé 
.i!li> (■ preíta-se bem ao eslabelecímealo da uma povoacio e 
if um furte. lfour« alli oiitr'ora nina aidéa de Caretús. Em 
frenire e pel» luariwm diraita pasia o Paraná-mirim da llo< 
l'j(-ji, i|ue r3o i tão fando como o do laambtl, e entra, aJdm 
distti, pouco aclmidas barreiras, obserraado-sa dahl facil* 
itti«nii>as faatas qaaodo passam. 

iK'i)rn>nie ã torra. Da primeira cachoeira, o Apaporis tem 
spi>t)as70« 80 braças de largura e é impossirel o passo 
achanilo-se as mirgcDS foriiOcadas. A serra alta de l.SfcO 
|>alintvf, ^ uma Mcollente atalaia em meio da planjcle. De 
*»a )4u''aro arislara-se as serras do Rin Negro e a collina de 
S. Paiih) de Olirenca, no SolJmOes. Em uma nora, por meio 
di« fóMS, põ4e-3e transmittír qualquer noticia do Alto do 
Hlo Ntfirro ao SolimSes, por intermédia do Cupaiy. 

I Ni»sa altura, a distancia entre o Auaporís e Hfapurá é de 
7M) tiDc.ts, mais ou menos, que se transpõem em meia hora. 
A sorr» Hi-a caíra os dous rios e domiDa-os perfeitamente. 

« Na rnnrgem esquerda doCupaly ha excellonles terrenos 
A« lavouras, que se prolongam muito slém, podeodoorvir 
a um irrande povoado, que tanto convirá ao Brazil possuir 
n»i|Ui>ll<> ponto. Acham-se alli duas malocas de Curotus, que 
)MMli'rf»m servir de núcleo i povoação, que se tentasse 
nimlar. 

< No Hirity-paranâ existem também pe()uenasald€as dos 
m<'smiis Índios. São activos e revelam boa Índole. O povoado 
que alll s" esiabelecesse, viria a ser no futuro o empório de 
lodo o rommeruio do Alto Hyapurá e à» grande regiio ba> 
nhnda por seusaflluenles. Aié a primeira cai'boeíra podem 
(*hP.;ar Imrcos a vapor de mediana gran 'C7a. • 

No rio Hyapurá, dii o infaiigavol Sr. Dr. Coutinlm, eiislo 
ourn, masniiosesabeem<]uecÍrcumstan(-ias. Aiér.- rli> ponto 
|iilili<-!U> ndmitilr que seja obundant^, parque os Índios que 
ihM'iinbi'1-em os processos aperfeiçoados para a extraição, 
apriiM'i)tam ás veies algumas porçõt-s em trora de ferra en- 
lajp fatendas. 

ih n>KatiVo que negociam no Hyapurá, informam que os 
i«ttlii*ii!inm grosseiramente da baleia, o que revela queante- 
rii>rinriilii andou por alli alguém que entendia da matéria. 

Ijrnora-re qual o lugar preciso em que nasce o Tfffé, qne 
ilHAItua em um lago ao nusmo nome, que rommunica com 
» iHitMinllM. O seu comprimeot) é considerável . Parece mais 
tt^ itu rio, que alargou -se muito, 10 léguas ani^s de chegar 
, £|iM, tlu tiitt<ttHt lavo que nwebe o rio na |iarte superior. 
""iMuaí do ri» TeiTi* slo de rôr proia, e seu rnrsn, fegundo 
IkarM priilii'os. pôde ser psiimado em 4S0 milhas. 
' «liidim que ainda habitam as soas margens sSo 
M. ^R estncio dartieia fHciiiiaacommunicaeJo, 
Dl pi>i)ueiio trajecto por terra, coit o Purus e 

ronheoldo ttoluBlvaineate dos exploradores de 
invarno podem subir grandes navios até quasi 
drsí e polo Torio navegam som obstáculo ca- 




-.75 — 

jnôas de seis palmos de calado. Segoe â direcção de N. E. 
O lago commuDíca com o Soliroues por meio de dous caDaes; 
o maior fica do lado deE. eporelletrainsitam os vapore^da 
fompaiihia ; o segundo dá passagem pelo inverno emente 
e acna»se do lado opposto. 

Grandes navios podem navegar no lago durante os quatro 
mezes de maior enchente e pelo verão, quando a vasante não 
é extraordinária £ndam bem canoas de aeis a sete palmos 
de calado. Em qualquer ponto póde-se dar fundo com segu- 
rança. 

< Corre o rio TeiTé com magestade^ diz o ouvidor Ríbfíiro 
de Sampaio; porque uma ilha da parte do poente, mas ainda 
no Amazonas, engrandece a sua barra, cstrettando-se depois 
algum tanto^ segue-se o lar^^o, que vem sahindo da grande 
bahia que este rio forma com largura de légua e meia 

< O Teffé desce do sul para o norte. £' navegável até dous 
mezes de viagem • 

« Produz salsaparrilha e porelle navega o gentio Mura. » 

Para que os leitores comprebendam as referencias que cons- 
tantemente faço acerca do phenomano da vasante e enchente 
do Amazonas e seus afluentes e de outros phenomenos, assim 
como de algumas expressões peculiares e locaes, abro aqui um 
j)arenthesis e soccorrer-me*hei sobretudo, para facilitar o 
«I8U trabalho, do excellente relatório do meu amigo o Sr. 
Dr. Adolpho de Barros. 

A pequena dífferença de nível do terreno da província do 
Amazonas, que ó pouco maior de 56 milímetros na direcção 
E. O. e a diminuta elevação do solo, as chuvas copiosas e pro- 
longadas de Novembro a Maio e a diversidade das aguas^ de- 
terminam esta admirável disposição hydrographici , que 
constituirá, quando no futuro convenientemente estudada e 
aproveitada, o maior elemento da riqueza da província e da 
grandeza do Império. 

Os braços da margem direita do Amazonas têm as suas ca* 
beoeiras 340 léguas distantes das dos que correm pela es- 
querda. O Ucayalle, Juruá e Tapa joz chegam a 12^ de lat. 8, 
e ainda mais adiante avançam o Madeira e o Purús. Os rios 
Negro e Branco vão a 3* e 4* N. 

As chuvas começam no sul e caminham para o norte, 
acontecendo por isso que as vasantes e enchentes nio coin- 
cidem nosdiíTerentes rios: quando os da margem direita estio 
vasios nas cabeceiras, tem ainda os da esqQer4a grande vo* 
]umed'agua. 

OHjrapurá, Içá, Napo, Maranhão ( continuação do Soli- 
m5e>) Ucayalle e Hallaí^a dimanam da cordilheira dos Andes. 
Nestes, portanto, as enchentes dependem simultaneamente 
do degelo e das chuvas. 

Como porém taes phenomenos deixam quasi sempre de 
Tealizar-se ao mesmo tempo, acontece muitas vezes que, 
quando alguns daquelles rios tÂm apenas attingldoo terme 
âa vasaate, outros já se aproximam da niâxima enchente, se- 
gundo « ma íor ou menor massa de suas aguas . 

Por esta razão o Amazonas recebe^ por multo tempo, em 



— 76 — 

sealmmenso seioum volame considerável d'agua e nSo ex^ 
perimenta desfalqae sensível, quando alguns dos seas nu- 
merosos tributários lhe faltam opportunamente com a quota 
devida, pois que outros se apressam em offerecer-lh'a com- 
pleta. 

O valle do Amazonas até as cachoeiras de seus affluentes, 
pôde ser considerado como um plano horizontal^ attenta a 
msígniflcante differença deseunível^ inferior, em todas as 
direcções, a um e meio palmo por légua. As aguas têm por isso 
corrente fraca logo que cessam as chuvas nas cabeceiras. Nos 
mezes de maior iMiixa parecem ató estagnadas nas barras. 

£P sempre maior que a dos seus tributários a corrente do 
Amazonas, calculada em três milhas por hora, termo médio. 
Para este phenomeno contribuo a drcumstancia de não coin- 
cidir a época da oscillacSo daquelles. 

Começa quasi sempre a enchente em Novembro e termina 
em Junho. Em 1861, o Río Negro declinou a 25 de Junho no 

fiorto de Manáose em 1861 a 5 do mesmo mez Nosannos do 
8511 a 1860 foram extraordinárias as enchentes, igualan- 
do-asas vasantesdo 1861 a 1862. A amplitude da variação 
checou a 67 palmos, entre as máximas osciilações. 

Nao 80 encontra tradição de terem as aguas transposto os 
limites a que subiram em 1861 a 1862 ; c pois póde-se admit- 
tir como exacto o maximum de 67 oalmos^ o médium de 57 
o ominimum de 40. Os limites de 1861 guardaram entre si 
adlMtanoin do44 palmos e2 pollegadas. A enchente desse 
anno foi 10 palmos menos que a do anterior, e a vasante ex- 
oodou nn mr.Hma proporção o termo ordinário. 

A (mohonto deste anno (1873) foi lambem uma das maiores 
6 A hora em que escrevemos estas linhas, já tem ella baixado 
maiu do douN palmos. 

O movimento ascensional das aguas do Amazonas é quasi 
InuoiiNlvel no comoço da onchonto. Espaços iguaes vão sendo 
lo|to niuVi porcorrldos om prazos cada vez menores. Da dia 
para dia Norolora*He a subida o avulta o crescimento. Des- 
•p|Nir«Hioni nrlmoIronN praias nuas, alaçam-se em seguida 
ou (orrnnoN imUuM,oobn«m-se depois MS Ilhas de recente for- 
mavAo ; inortf ulham hh arvores, afundam as barreiras, estrei- 
laiii NU rlliNtiodlrns, HNaKuas ^e espraiam, as margens recuam 
(uiliorli(UittiNii«iMl«rKsm, e em in(*ia<losde Março approxima- 
da 1110 II to OMo Inoonoohlvolo fabuloso assoberbar do rio, tem 
0hoj|iido A Itf iidí (llilaiioln dos pontos extremos. 

KiildOí a poutMMt pouro, ti>rna-so a marcha mais lenta, e 
VUl nM^ lorMNr*a0qua»t| Insonsivel nas proximidades do limite 
t^lifllHi*. NoNtiiosoade Novembro a Dezembro o crescimento 
^ <iUiiMMi latiu a iMpenHnN dos tributários mais próximos á foz, 
^sHMM«MMlo« «ojnni piM|ueno«(, não avulta muito o reforço. As 

8Maiid««(*iibooolrNiio doaurlnclpaes alHuentes chegam no 
mi'«Hi.o«) Uliio queproaut naquella época uma tão pro- 

MlIIí^Mm dun^roiivn (ii^ nível. 

^i^ Abriu Juuht) OH pequenos rios podem ser navegados 
iiH^IIIH^Mdiiii iiNVhM. Nesaos matosa navegação não se limita 
f^^jÍN^HlM«< solM^t^M margous passam em muitos lagares. 



— 77 — 

canoas do 8 a 10 palmos de calado: e é varando-as pelo centro 
das florestas, que se atalham as maiores voltas dos rios. A 
estes caminhos de travessia fluvial dá*se no paiz o nomo de 
furos o\i par anãs -mirins ; e o de igapó ao terreno baixo das 
margens, que fica alagado em grande extensão. As várzeas 
são também terras baixas^ mas só alagadas pelas grandes en- 
ehentes. 

A subida e descida das aguas caminham, termo médio, 10 
milhas em 24 horas. No Solímões a distancia percorrida nesse 
espaço de tempo é um pouco maior. 

A pequena elevação do solo e a grande altura a que chegam 
as aguas determinam esta extraordinária submersão de uma 
parte do território das duas províncias banhadas pelo grande 
rio Na provincia do Amazonas é avaliada em mais de me- 
tade de sua extensão a superflcie coberta pela enchente. As 
várzeas ficam encharcadas, os Igapósconvertem-se em outros 
tantos lagos, os igarapés em rios caudalosos, e estes trasbor- 
dando do seu leito e galgando as margens, espraiam-se livre- 
mente, inundando as terras em uma extensão que varia de 
uma até 20 léguas. 

E' por isto que muitos aíllucntes de primeira e segunda 
ordem que correm próximos o parallelos, communícam-se 
entre si por meio de braços, ordinariamente encabeçados nos 
lagos, que lhes ficam de permeio e que de suas aguas em 
parte se alimentam. Os chamados lagos são verdadeiras ba- 
cias desses canaes. Esta disposição é mais notável e frequente 
entre o Rio Negro e o Japurá, entre o Juruáeo Purús. entre 
este e o Madeira e,etc. A's mais das vezes é necessariotrans- 
pôr alguma distaní*.ía por terra. 

Quando mais tarde a população espalbar-se pelo interior, 
diz o Dr. A. de Barros, e a industria exigir em toda a parte 
o aperfeiçoamento dos transportes, poder-se-ha com pouco 
dispêndio canalisar quasi toda a província, evitando-se por 
largos annos as estradas, os mais custosos dos caminho sobre* 
tildo no Amazonas. 

Por mais de um ponto se pôde penetrar nos rios^ na qua- 
dra da enchente, em consequência da inundação dos terre- 
nos. Deu esta circubistancia lugar ao erro commettido por 
alguns viajantes, principalmente a respeito do Japurá, a 
quem quasi todos dão oito barras, quando realmente, segundo 
asseveram os homens mais entendidos e práticos, não tem 
mais do que duas bocas. (33) 

Os canaes que durante a estação das chuvas dão ingresso 
aos rios, independentemente de suas barras seccam pelo ve- 
rão; mas emquanto tem agua são aproveitados com vanta- 
gem, visto como encurtam as distancias e pcrmittem evitar a 
corrente dos rios, que é forte na enchente. 



(33) Relatório do Exm. Sr. Dr. Adolpho de Barros Cavai- 
nti de Lacerda, de Maio de 1865. 



canti 



— 78 — 

O ^rmo Paraná-merim (rio peqaeno) é applícado ao braço 
m»i> esirvito dos rios no iugar onde ba ilha, oq aos canaes 
»f«e«ri^>n leram pelo interior, ligando entre si os lagos e pan- 
laifta^. Muitas vezes as suas embocaduras acham*se na dis- 
taiHMa de 50 léguas uma da outra 

Eatr» o Purús eo Javaryé onde so encontram os mais es- 
tensi.^ paranàs -mirins, por ser essa a região mais baixa do 
Aiunonas. 

A* margens dos rios sao geralmente baixas o raras as bar- 
reiras ou terras altas. 

Sòos Í!?arapés são bordados de terra Qrme em maior exten- 
sS»^ e por esto motivo preferem-nos os raros habitant s, que 
$e<tedícam a algum género de cultura. 

Q.tanclv) o Atuazonns enche, repre.^a os tributários na esten- 
sio de dous terços do seu curso, phenomeno fácil de verifi- 
car« rm razão da diminuta correnteza nas proximidades das 
embocaduras, bem como pela circumstancía de conservar-se 
inalterável a cor das aguas junto a foz dos rios pretos. Em 
come\\mdoa vasante, tem lugar o escoamento, cresce a cor- 
rente divs aflluentos e cursam então as suas aguas. 

Nt*ssa t^poca, da confluência do I\io Wegro até quasi a villa 
Je ^Tpa, dlstingue-se cada vez mais pronunciadas, duas 
i;rada\,\k^s na oOr das aguas do Amazonas: uma maisama- 
r^reuta |unt<) a margem direita, outra escura do lado op- 
|H>?^to. FÍiruram dons rios correndo unidos no mesmo leito. 




Jo Hi<* N<^gro, Sómento mui perto da foz deste, observam-sc 
.^ha^;t algumas largas manchas escuras^ que sobrenadam 
,1*^ atftta* barrentas do grande rio. 

% e*n5<a da onchonto dos tributários é, pois, dupla, resul- 
lAiiJodahl olovaivm-so olles em certo tempo perto da foz, ao 
JJiJU^ ^w<* j* í<^*» baixado consideravelmente na parte su- 

'^^íllihi jw dovo Inforlr quo o Amazonas durante a cheia, 
^J7rtK^l>o graúdo tributo dos alíluentes de Tabatinga até a 

^'^iw^^ mmMu.que comova ^ porlodo das declinações, isto é, 

^^iTlliíUoiiw^ottndo as fontes, accodem-lhe os volumosos 

í2l!l^ t«lerlon»H rom o contingente de suas aguas e o gf- 

ÍISur*ttMont« MO na moMU» altura por algum tempo ainda. 



SAiai<»«»'* onoho. os sons tributários hão de encher tam- 
^^ .uTiiielhor, b«'» m» entumecer, nas proximidades da con- 
T^^ u ttiiibira ronlmoute estejam vasando. 
*TíiM «t^ítií ^ Amaionaí i de í .000 braças e a cor- 
\ IT^marla dn iluaa e meia a tros milhas. Em alguns 
I^^^Miwni virtude da Interposição das ilhas, as 

^^lí^à Wafàriam. «uardando a distancia de mais de qua- 
*W*^u^i ml hai' O ponto mais estreito do Amazonas, e 
« ^'^ÍTm ib ô« In»^^ *»« (fnrganta, ô em frente á cidade 
«íà^JS^tt^^^ 'a largura de rio ahi 

^^ffi,pyi!ntravoL do t milha apenas, e segundo o Sr. en- 



— 79 — 

genheJro Ágaíar Lima, de 860 braças ou 1.892 metros. A sua 
profundidade ó alli calculada em 70 a 80 metros. 

O Sr. Aguiar Lima, para achar a medida da largura do rio 
nesse ponto, mediu uma base e achou o resultado mencio- 
nado, que é o mais aproximado possível do de 869 braças^ 
medidas ha mais de um século, secundo o testemunhado 
padre Dr. Noronha. A diflerença de 9 braças pôde provir do 
período da estação em que torain uperadiib as duas medições. 
Eis os resultados obtidos p' r aqu^lle di^itíDcto engenheiro 
brazileiro e por elle comniuniiadas ao Sr. D. S. Ferreira 
Penna : 

c Do reducto ou fortim no lume d'agua á margem opposta 
em rumo 25'' S. O., 860 braças. 

« Do forte do rumo 18** S. O. ao mesmo ponto da margem, 
860 braças. 

< Do forte a outro ponto acima, no rumo 84^ S. O., 1 .120 
braças. 

< Do porto de cima ao mesmo ponto antecedente no rumo 
74° S. O., 1.146 braças. * 

Os lagos mais notáveis formados pelo Amazonas são: os do 
Saracá, Manacapurú, Manaquery, Cudajás, Autazes, do Rei, 
Derury e Anamá, na proviocia do Amazonas. Todos elles 
communicam-se com o grande rio, mesmo no verão. Só nas 
vasantes extraordinárias scccam completamente alguns ca- 
naes. 

Peio inverno, no interior dos lagos, de que alguns tem mais 
de 40 palmos de profundidade, navegam grandes canoas. 
ET nos lagos que durante o verão fazem -se as mais abundan- 
tes pescarias, principalmente do pirarucu, queconstitue um 
ramo importante docommercio da província do Amazonas. 

Em geral os navios podem fundear sem perigo em qualquer 
poutudu Amazonas, eviíandu-se todavia os lugares de forte 
correnteza e os que tem fundo de pedra. Durante o Inverno 
é perigosa a vizinhança das barreiras por cau&a do esboroa* 
nieuto das terras^ o que temsid<o causa de não poucos sinis- 
tros. No intuito de eviíal-os, convém procurar sempre as 
partes convexas das margens, onde, da mesma forma que 
nas abas dos bancos e nos remansos, o fundo e a corrente não 
são grandes. 

Os bancos do Amazonas, como acontece em todos os tios, 
sSo ifiui variáveis, mas o volume d^agna é tal que os conserva 
profundamente submergidos gra^nde parte do anno, permit- 
tindo livre direcção mesmo aos navios de maior calado. Pelo 
verão, o caminho torna-se mais extenso^ porque é preciso 
acompanhar as voltas do canal; porém o excesso da distaB* 
cia é compensado pelo enfraquecimento da corrente . 

Os bancos moveuiços^ em geral formados por uma cheia e 
que outra os faz desapparecer, são raros na entrada do Ama- 
zonas. Os fixos^ istoe, os que existem ha mnitosannoa^ tam- 
bém modíflcam-se com o andar dos tempos, crescendo ou 
diminuindo, ]evantando*se ou abaixando*se edeslocando-se 
em partes, segundo a maior ou menor violência das correntes, 
mas conservando sempre cei to aspecto que os faz reconhecer. 



-80- 

i^r.- .'. ?i J't:^ t«í sempre pliaróes, balizas e outros 
\ ^ l i..:i.n *jaaveganleosescoibosque deve evi- 

, ^ ^ ^..: :: :.- jirr eiemp/o, encontram se pharóes 
. " **^ ... - ;br LiNilmeale colloeados, quo muitos 
j 2: 1.1 1 n t a?íesíi Ja Je ha de pra t icos . 
- J.."^- i af i aS.^ suocede assim; aiudn nenhum 
* . " ' 1 ríTA.:* inJiVa aos navios a onírada e a 
^— ^..r "if Ts r-dj aijuella immensaemboca- 
::-.c cn-:eílo delia, que tem mais de 
-: r.Tjs .* ;jr*-uni e centenares de ilhas, 
... .- '.::-.■.• i^sSdíinase mais 5 pharoletes. 
.> -^ .-> ; r!t'»;ji:Je desmoronamento, em con- 
. ^ -.•;.> ;:.' : !'ijrvai fazendo na harranca 
... 1 !t-.v situado na costa do occeano 
H^ -. a íii* r.v^rs.ís pessoas entendidas, que 
• . N • ^v!o reconhecer, passando além 

• :.í^ • V :::-• SC encontra maior num^^ro de 

y • Jutahjr. Este phenomeno ti pro- 

. . X •r'/:Vssiouaos, pela círcumstancia de 

^ • .» . -vs. nossa região, osdous grandes 

.41.;'» í«.in'nthosis, que abri. 
• ii i V- Xjl a nascente do Coary. D.»saa:na 
^ i. .111». \\w dista t Ji milhas da foz do Purús. 
: . ?.t> ii' compii ncnloe 5 de largun. A an- 
4 . .'. 's. crcj ia em 1758, estwvc as<>'ntada 
•\!;l.icncia los três rios Conry, Uiurú- 
... ,*v.*ary í o autor e ficado lado de E Co- 
. ..:• i< líoioví* «nie so empregam na colheita 
. " :-.».4'i IVa <'clics;adoa caminhar por elle 
., ^. t^M!i\ d • Mirava Julho, na ve.íam grandes 
-! n s li» imIj.!.». No ver5.\coiiii>o ahai.ia- 
^ .i-i n;.*í. NO ^-av<;irn ígarilés na parte supe- 
V I»».» ..* ♦:í^' '. <í'.;ua lo o testemunho dos pra- 
X, .i.\ l • • n xS5 3 i-0 Icgoas. 
. >, j.-. .» K\ n Sr. Dr. Adolpho de Barros, 
'■. ;%,\<:\t ' <''»try. e dlo noticia do existi- 
, . li • Al* 'sà » nâs CJhocoiras dt^sii* rio, os 
r... *A ».u:' 1 '"ijuord.!. No Purú^ ha um 
. •,-. • í, J nI,« i:.' di r^r 6í le^ruas. Alli nâose 
... i . t.« • I.' M ^^^ Iuj:ar, j»«»rèm para o interior 
» I .« ..;» «A .« ;i i'x:o-í, quo jú livorani prínripío 
\ ...o* o-: -1 i • ^v* " «*'''*^*-^ *•*** campos do quo 
\ . i!.'- K í» <''tJi'.V# torrouosallosdo vallo do 
,,A »ii x'iNi i.iA'Ã* prosum-s,* â ahorluri de 
*. .. » \ ^ : M '!« iv' XV pro\.uloom muitas localida- 
V " . ».«* t'»*» \*»v .» ««/'^iiioom afj:ui:s pontos. • 

.... « »« «^ h s«ii.«N, ji^ >ii.w Ji;ud? são pretas, bem 

\ ,, .. » í • ixíivw »riovv;'ii'.'loivrrom pnra olago- 

... i %.' .» !^Maa\'t • i:i<o vvm o.^olimõos; fica 

♦. * , V.el i M.WU^ 4.' CVl.-UMO. :>Õ UÍS Vií:?anlC5 



» . *-•*•** 



— 81 — 

extraordinárias é que não permitte a passagem de navios 
que calem de 8 a 10 palmos. 

Diz Baena que acima da foz do Coary acham-se as ilhas 
Jurupari e Juçaras, onde constantemente fazem as tartarugas 
o sen desovamento. 

Ainda até hoje é desconhecido o ponto em que nasce o rio 
Purús. 

Sendo o mais considerável de quantos entram no SolirnSesr 

Sor sua margem austral, diz o capitão-tenente Amazonas, é- 
e presumir, venha de mui longe, ou seja, coroo pretendem 
muitos, o desagoadouro do lago Rogafiruallo. Corre de oeste- 
para leste, e lança-se no Solimões 45 léguas acima do Rio 
Negro. 

As sondagens feitas dão-lhe difTerentes profundidades : no 
inverno ou na occasilo da cheia só de 30 a 40 metros ; no 
verSo ou dnrante a vasante desce, conservando a profun- 
didade de 20 a 5 metros, segundo a maior ou menor distan- 
cia de sua foz á barra do rio Ituxy. As aguas, na vasante, 
baixam 20 metros pouco mais ou menos do nivelamento da 
cheia ao da vasante ; a largura é de 250 a 500 metros, de sua 
foz á barra do Ituxy. 

O nome Purús, diz o meu amigo o dístincto Sr. tenente 
coronel Labre, em sen interessante trabalho de que me hei 
de muitas vezes servir, deriva-se de purú-purú, que quer 
dizer pintado fou myra purú-purú, gente pintada, em língua 
geral). 

Em tempos idos, assim a gente do Amazonas e Rio Negro» 
chamavam os selvagens da nação Pamary, moradores neste 
rio, por serem elles pintados ou manchados de branco. 

c Tornam-se foveiros, diz o capiíao tenente Amazonas, os 
Índios que habitam «uas margens, defeito sem o qual nas- 
cem, e que se communica por cont^igio. > 

Com o andar dos tempos denominou-se o rio — Purús — » 
simpliflcando-se a palavra. O nome primitivo dado ao rio 
pelos Pamarys, era Wainy ; e os outros selvaíçens, que o ha- 
Bitam, dão. lhe difftírentes nomes, conforme o seu dialecto. 
Para melhor precisar as distancias e localilades, divíde- 
se o rio em Baixo- Purús da sua foz até o rio Tauanha, 505 
milhas; Mt^dio-Purús da foz do Tapanha ao rio Mamoryha- 
Orande, 385 milhas; e Alto-Purús da foz do Mnmoryha- 
Orande á^ cabeceiras do mesmo Purús, mil e tantas milhas. 
Por difft^rentes vezes tí^m oriranizado o governn expedi- 
res, com o ílm de descobriras cabeceiras d estn ri >. Uma das 
primeiras expedicõ^^s, senão a primeira, foi dlrif>i<la por um 
certo João Ca meta, que sónente che?ou até a embocadura 
•do Ituxy, percorrendo apeiia< 700 milhas. 

A sejTunda foi efiTectuada em 1852, por um indiviiuo de- 
Pernambuco, chamado Seraphim Salgado, que pmorrea 
1.2M)0mílhas, mas, é excepção do<< nomes e grandeza appa- 
fentede poucos tributários ou nfflaení^sdo ^^ivú- f a noticia 
importante da ausência de cachoeiras^ nenhum resultado 
valioso nffereceu a sua viasrem. 
A tenvira expedição foi em 1860 levada afffeito por Ha- 
ll 



Urbuno, lioBiem ba^untc JDtelligeDtee ousado, qneon - 
íTrUnio n3o partia c« di o fim de exploraras cabeceiras do 
pQfits, mas de dtf^íeobrirManalyqm*, segundo sadiziSjCiJin* 
mankava o Purúsconj oMadeira, acima das cachoeiras deste 
rio 

Em 1861 nova expedíç2o foi mandada, mas voltoa sam 
conSfignir re^tultado satisíactorio. De Janhode 1864 a Feve- 
reiro de 1865 procurou o Sr. W. Gbandiess explorar o rio 
em busca de suascabecelras, mas apezarde ter avançado 
mais que o pratico Manoel Urbano, não logrou resolver 
auuMlIe interessante problema bydrojrraphico. Chegou até 
i(r ty d«) Lat. tt. e á distancia de 1.620 milhas geograpbicas 
da foz. Sendo dn 716 inllhas, segundo o calculo do Sr« Dr. 
(^ut)nlio e do 706 segundo o du referido explorador, a dis- 
taiM'ia :ia fos ás barreiras de Hyutanaban, onde aquelle che- 

Sottj foi o rioestuJado pelo Sr. Chandiessem muito mais 
o duplo da extensão que primitivamente tinha sido. 

A 1.666 milhas da foz, no parallelode iO"" W\ divide-se o 
Purtis (Hii dous braços quasi iguaes, nenhum dosquaes re- 
prcMiiitn, entretanto, a metade do volume de ambos, quan* 
do rouniiloH. Ató esse punto tem ainda o PunJb» bastante lar- 
gura, iiiHs Á em geral muito raso, mesmo em Dezembro. 

De 11 a x3driiKe mcz,8ubiuoSr. Chandiesso braço direito, 
que Aprenentava no principio uma largura de 32 a 36 braças 
e mui pfuuiMiH uroíuiididudo, sendo és vezes preciso arras- 
tar a rniiAa. A 60 milliasdo entroncamento, esse braço aab- 
dívhlr^do om dous pequenos rios, quasi de idênticas pro- 
poi ç6ll^ . 

O iiinlor, com 6 a 8 braças de largura, não pôde ser per* 
rorriito em distancia superior a 8 ou 9 milhas, em virtude 
dii pouco fundo o foriiiísima correnteza. 

O lirnvi) do N., posto seja mais raso, é, até 20 ou 26 milhas, 
mnlii InrKO que o primeiro o parece alguma cou:ía niaiof . 
Tiiin nlAm dUto um iiíQuento, o que não se encontra nq 
outro. OIrito do aml)OS(S obstruído por pequenas cachoeiras* 

Arrotllin o Sr. («handiess que a nascença delles nSo pôde 
miar muito longe do ponto a que levou a sua excunio e 
lilvr^. iiA«i ulirnóusse de li** de Lat. S. 

\U\ II (MubooauuradoCurumahá, que desagua na margem 
r«i|(ii>iihi o lia distancia de 1 430 milhas da fos do Punto» 
Iniii cHiiMi largura média de 60a iOO braças, com2a2 Vad^ 
|irofiiiiill(liidH. 

Oaiil |Mrn rima adquire a corrente immensa veioeidade^^ 
nu vlriuito dn dilTi>reiivu de nivol, que é, entre esse lugar e 
ii um iiun o rio se divido n*uma distjncia de 126 milhas dè. 
470 iKiliiioH ou do 3,6 palmos por milha, sendo que a altar» 
ilan uKUMN uo ponto da bifurcac3o,soboa 1.608 palmos aeima 
«111 nlvoi ilit mar. 

Uma Uo sHiHira inclinação explica a rápida oscíilaçSo do: 
f K (||i«udo Hurrude desaliarem fortes aguaceiros. O Sr. 
illiaiidloHii tovo occa^lio do observar um desses curiosos pJi#^ 
iiomoii«m rofore^o do minlo seguinte : 

ê i:tu i«uchonto oiTorecou*mc exemplo da extrema rapidea 



— 83 — 

wm que elbs se operam no Allo-PnrÚ5. A chara eoiiieçi'U 
ás oito horas e meia da maohi e viajou ri«i acima. A's dáa< 
boras da tarde começou o rio a enctier ; is doas e meia en- 
chia qnatro palmos por hora. liais tarde a força da corren- 
texa nâo nos deixou viajar. No outro dia pela manha oo- 
mecDQ a vasante : ao meio dia tinham as aguas baixado i2 
a 13 palmos; de tarde estava o rio haixo, como d'antes, e 
oníra vez esuvamos arrastando as canoas. » (34) 

Isto conGrma a supposiçio de que as fontes do Purús se 
despenham de grandes alturas. Sem contrariar essa idéa« 
Bio hesita entretanto o Sr. Cbandiess em assegurar que o 
Punha nio tiarte dos Andes, conflrmando-o nessa crença a 
eircamstancía de não se encontrar em seu leito ou em suas 
margens pedaços de rocha granítica ou vulcânica^ ou mesmo 
de schistos silureanos. 

Oahi dedui que, se o rio que seguiu é o verdadeiro Purús^ 
como nio ha duvidar, este nio pode ser o Madre de Deus, o 
anal com maior somma de prolKibiliâade cahe para o BenI e 
Jbdeira. 

Ainda menos fundada parece a opiniio de que seja o 
Aquiry a cal>»'ceira do Purés, pela differença das aguas, mais 
claras e frias que as deste, como foi reconhecido pelo pra- 
tico Manoel Urbano, que o percorreu durante vinte aias^ 
no fim dos quaes teve de retroceder por falta d'agua. 

Seguindo esse caminho, o Aquiry, o limite navegável foi 
approximadamento de i.058 milhas da fos do Purús ; se- 
guindo até o fim o rio conhecido por este nome, a navegação 
estendeu-se a i.620 milhas. 

A differença, puis, de 562 milhas para mais estabelece a 
decidida primasia do segundo e excloe a opíniic que assig- 
sala e que parece todavia compartilhar o Sr. Chandiess. 

Na sua breve mas interessante memoria acerca do Rio 
Purús exprime-se do seguinte modo o incansável Sr. te- 
nente«coronel L^bre, de quem terei ainda muitas Yezes 
oceaslio de faltar : 

< O Purús comporta um grande volume d'aguas por soa 
largura e irrande extensão percorrida; é branca a còr de 
sua a^ua ; mostra muitas sinuosidades no seu curso, dei- 
xando de verão á descoberto muitas praias e altas ribancei- 
ras» De inverno, na sua maior euchente, sobe a transbordar, 
eobrindo uma zona de nunca menos de 12 a i5 milhas, 
nivelando-se com as aguas dos s^us ínnumeros lagos, os 
quaes excedem de i*inco mil. O Havapuá e o Jary são os 
ma*o''es, devendo ter mais de 30 milnas de circumferencia. 
fia aisrumas ilhas, sendo a de Uajaratul>a a principal : mede 
% milhas de largura, termo méiio, com uma extensão de 
18 a 20 milhas Deitaseo rio em um leito de areia e barro, 
tendo akumas pedras na^ barreiras das terras altas, porém 
4eixando franca a navegação. > 



(3i) Chandliss^s. Noíes on the River Purús, pag. 23. 



— 84 — 

A o\tPns3o percorrida por este caudaloso rio, contínua o 
Sr. iení*nte coronel Labre, das cabeceiras á sna foz, é por 
urna superficie de pouca decliv idade (come se \è de sua ae- 
clinação) por entre uma floresta densa e não interrompida. 
O solo ás margens se divide em terras altas e baixas; estas 
hIío cobertas d'agua periodicamente, de inverno, eaquellas 
Hão isentas de inundação. 

As terras sujeitas ás inundações sao misturadas e decòr 
parda com grandes camadas de estrumes vegetaes, e tendo 
no fundo das baixas e lagos grande quantidade de argilla. 
As terras altas sio de barro vermelho granitado e terrenos 
mui porosos ; e nos lugares povoados de palmeiraes são par- 
dacentas na superfície e misturadas ligeiramente de areia 
(• boas camadas vegetaes, sendo o fundo de barro vermelho. 

Om Invernos ou chuveiros ahi são longos ; as chuvas são 
copiosas, especialmente nos mezes de Fevereiro, Março e 
Abril, tempo da grande cheia e tra sbordamento do.rio, cuia 
(*nchonte começa no mez de Outubro e sobe até fins de 
Março. A vasnnto tem lugar em princípio de Abril até fins 
de Setembro; Isto no médio Purús. As enchentes e vasantes 
do FuriVs são periódicas e regulares; c uma pequena imi 
lação do Nilo; são porém alteradas de lugar a lugar, se* 
gundo ns distancias, pela grande extensão percorrid •, al- 
tí;rnnndo«He também as estações, começando o inverno e 
(» verão maiu cedo nas cabeceiras. Ha muita electricidade 
;itmoHpbrrica9 especialmente em piincipios e fins d'agua8^ 
produzindo estrondosas detonações, precedidas de quedas 
lie nuidos eléctricos : as chuvas se prolongam até o mez 
(ie Julho e recomeçam em Setembro. 

São Honsiveis ou conhecidas ahi .«^ómente duas estações, in- 
viíriío, que «o deve contar de i5 de Novembro a 15 de Junho, o 
v^rão, do fins do Junho a princípios de Novembro. Os invernos 
hao pontfMios pela cheia do rio e copiosidade das chuvas. 
Ilhtive em todo o verão, á excepção do mez de Agosto, e são 
liiivaH criadoras. Km todos os mezes ha cerração, sendo mais 
friMiuenie.H no Inverno. 

NoH mezcH de Julho, Atfosto e Setembro ha dias frios que 
(luram do Saté 8, e ocnisiõi s ha em que não se vô o soí au- 
líinte chHCH diíiK. (^Iiaipain a estas alternativas de tempera* 
ttira— friagem. O tliermoniftro de lUianmur baixa a i4gráos 
iliininte cmm^k dlnn, di^sccndo mais á noite. 

Oh ventoK sopram mais dn nord«*ste e também de noroeste 
(1 norte, e ha ronhtanles viiiiçõts tnntn no verão como no in- 
ví*rno. AppariTem tamliem ii*nipf*M»des e borrascas. 

Kniiftfii lio ait«> J'uiú>, |eio lado direito, três grandes 
;ií!hienle>» ; o Afaiá, * Ilyiiai i^ e o Aqulry. (35) 

O Arará ó na < mlocaoura mais estreito que oPurús; não 



' (K) O Hl • tenente i oronei Lribie, dá a este rio o nome de 

Anrot 



— 85 — 

aagmenta sensivelmente a largara deste^ mas chega quasi a 
duplicar a sua profundidade. 

o Hvaacú é também mais estreito^ porém alguma cousa 
mais run o; e nada lhe acrescentando nesta relação, aug- 
menta-lhe todavia consideravelmente a largura. O Aqulry, 
sendo tão lar^^o comoelle^e um pouco mais fundo, posto que 
de 'iienor curso, despeja as suas aguas, de enchente e vasante, 
com dobrada velocidade e impulso. 

Da mi rirem esquerda os principaes aflluentes são: o Ma- 
moryba-Grande, o Panynim e o Inauynim, que ainda não 
foram explorados. 

Da noticia do Sr. tenente-coronel Labre, transcrevo aqui 
a sej^uiiit) lista dosafflaent^^s mais conhecidos do Purús e das 
dístan< ias de sua foz. « Os afflaentes do rio Puiús, diz elle, 
con^itantes dest'3 mappa, são os priucípaes ecuja foz serviu de 
pont Mie observação ao viajante creographo W. Ghandless, 
manando as suas distancias em milhas ínglezas Além destes 
ha outros muitos de menor importância e de inferior gran- 
deza ; em cujo numero entram oscanaes (ou furos) dos lagos 
que são innumeraveís. > 

Nomes dos rios e afflaentes. Milhas 

inglezas. 

Paraná-pixuna 306 

Jacaré 360 

Taparihá ^5 

Mucuy 590 

Mary 653 

Ituxy : 692 

Míimuryha-Miry 745 

Slpatyny 762 

Manhiryha- Grande 870 

Pauyny 978 

lUHuyny i.073 

Aí-re i i04 

Canjíuity 1 . i70 

Ily uHf ú i 241 

Ar^' á 1.445 

Taranacá 1 .491 

Ciiryn.ihá . ; 1 .560 

Rxílá 1.618 

Curum:ihá 1.648 

Urbano 136) I 745 

Pat»s «.785 

Divisão do Purús ^37) 1 . 79 



w» 



(35) Cbandless deu a este ri<> o nome de Urbano, em honra 
do prâti'^0 Manoel Urbano da Encarnação. 

(37) E' neste ponto «lue se divide o Purús em dous braços, 
nm— braço norte do Pnrú^, e outro -braço sul do Purús. 
Tem 1.0^ pés de elevação do nivel do mar. 



V \v«i>l^^ ^^^ apresBDta o Pnrús até Hyatanaban é a mesma, 

V ^ LViUi^A uifferença, qae nfferece dahi por diante. Sómenie, 

'x!w»»Tuí*iuriil, á proporção que diminue a largura do rio, 

w«i'u<t|jU^o an curvas meneres e mais numerosas. 

' .\ oxti»urto do igapó, especialmente no baixo Purús^ mostra 

^ òuoi* mo mudança do canaldorioem tempos recentes. -A 

s^vi^ mal resiste á forca da correnteza nas enseadas. Além 

dlHto. aM a};uas superficiaes da várzea alagada penetram, BO 

\ò\i\\M da vasante, ató carnadas de barro pouco permeáveis, 

o tiutire estas passam para o alveo, desprendendo e fazendc 

o ^00 r regar grandes massas de terreno com a vegeta!(^o em 

p0. 

AMlm, o rio vai levando sempre a várzea, e aufonentando 
tt.H praias até chegarem a altura própria para a vegetaçio, e 
MO converterem então era igapó, com o que augmenta tam* 
liem a tortuosidade e comprimento do canal. 

Segundo o Sr. Cbandiess, pertence á classe terciária a 
formação geognostica do Punis. Como quer que seja, a parte 
lii^perior das barreiras, que são altas e successívas, consiste 
.Ntímpre em barro colorado, sem stralificação : abaixo deste, e 
ordinariamente abaixo da Hnna da enòhente, encontram-se 
varias camadas de arêa e barro stratificadas, algumas bas- 
tante inclinadas, e em certos pontos deixadas alii antes da 
deposição das camadas superiores. 

Nos regos pequenos produzidos pelas chuvas, na base das 
barreiras, bem como nas praias, existem pedaços de quartz 
arredondados; roas não ha notícia de alguma pedra ignea. 

Em um pseudo conglomerato, não de pedra, mas de con* 
erecções de barros, com i ou 3 palmos de grossura, acham- 
se, especialmente acima do Aquiry, pequenos pedaços de páo 
petrificado ou meto petrificado. 

Também tem-se descoberto pedaços de ossos fosseis, gastos 
pela agua e mesmo aiguns inteiros. Um ou outro desses 
(exemplares de fosseis contém algum azufureto de ferro, já 
decomposto, e com o sabor de sulfato de ferro. 

Nenhuma concha fóssil foi ainda encontrada na bacia do 
Purús ; o que, em falta de mamíferos, de qun também não ha 
snfflcíentes vestígios, serviria para determinar com a exac- 
tidão necessária a condição geognostica do terreno. 

Descrevendo o Purús, exprime«se assim o tenente-eoronel 
Labre : 

c De enchente ou vasante o Purús offerece ao viajante 
vistas mui soberbas, pittorescas e agradáveis: no transbor- 
damento do rio límitam-se as aguas ás V(n*dejantes matas de 
arvores altaneiras « frondosas, mostrando o seu berço es* 
tendido entre perpetua verdura. 

c Pelas margens aqui e acolá, levantam-se e esvoaçam aves 
ribeirinhas e cruzam no céo innumeras outras multicores 
que se transporum de uma á outra parte e vicc-versa, «bil- 
rando de mil modos em seu transito. 

c Durante a vasante, novas vistas, espectáculo aovo; am- 
bas as margens colirem«se de um tapete de verdura ; aqui e 
acolá, pelas sinuosidades do rio, notam-se bonitas praias de 




*bratica esoHâ arela^ onde pbasam Inntimeros bandos de df- 
yBtÉÈiS aves ribeirinhas, qae RrrasDam.prim e chilram de mi[ 
láiodos. AlgomHs, como a gaíy.iti, fazem os ninhos sobre a 
'lEtrèla; érariosoVer-lbesasoiuhaifas; amas preparam os ni- 
ilhus^ untras chocam ôs ovos, e já em outros nmh<isa ntira 
«geraçio sahe do s^n envoluirio, piando implume pela sensa- 
'çiò da vitalidade, c finalmente oulras já vesti Jas correm dos 
ninhos medrosas pian<1o, pedindo «soccorro, o (|ue, ouri^lò, 
'^cfode numerosa pnalansce de dMÍensores impotentes, esvoa- 

findo sobre as cabeças do^ visita ines ou ínlmt»ro8«^uiQ3handc 
tod^ vos, e fazendo o sen protesto á moio dos fracos can« 
tra a violência e extorsão dos grandes e poderosos. » 

As terras que mar^çôam o Purúa s§o em sua totalld»d6 
cobertas de vastas florestas rirj^etis e poucos campos. DivI* 
dem-se em altas (terra firme) e baixas (varzea), que sio inun- 
dadas pelas asruasda cheia. Estas servem para plantarse de 
verão; sâo bem estrumadas e prest^^m-se perfeitamente para 
a cultura da ranna, doarrez, cacáo, urucú^ banana, seringa 
e ontras plantas. 

As terras altas ainda se dividem em duas qualidades dís- 
tinctas, terras frescas e poderosas, de barro vermelho frra- 
loíitido e terras menos porosas e mais seccas, bem estrumadas 
por ama boa camada de húmus levemente misturado de 
afeia, com fundo de barro vermelho, mostrando, porém, 
na superficie còr pardacenti, em consequeneía das cama* 
das de terra vegetal, accumuladas pela acção do tempo. 
Sio povoadas de arvores magnificas, entremeiadas de nm 
vasto palmeiral , e banhadas por pequenos recatos em 
diff 'rentes sitios, e que fornecem boa af^ua potável e crys- 
tallína. Estes terrenos são quasi planos , appnreceudc 
de qnando em vez pequena? collinas com declivídades 
pouco sensíveis, cortaaas ou divididas por baixas de mui 
ponca profundidade; são roais adaptadas para a culti- 
Ttfç^o e prestam-se especialmente para o plantio do algodão^ 
da mandioca, milho, arroz, feijão, batatas, café, salsa e di- 
versas outras culturas. 

As terras porosas não lêm palmeiraes, constantemente hn- 
inidas durante o inverno^ seccam com a derrubada e pres- 
tam-se especialmente para a cultura da canna, arroz, milho, 
tsaráo, café, guaraná, salsa, etc. 

Ha poucos campos conhe^iilos para a criado de gado, um 
-dos maiores, posto oue ainda pouco explorado, dizem que de« 
tnora entre os rios Purús,Ituxye Madeira, estendendo-se de 
K>este a leste, desdeo Ituxy, t»assando pelas cabeceiras do Pa» 
«ihan até as cabeceiras do Mucuhv, iOO milhas pouco mais 
oa menos, e na distancia de iO a ií milhas da povoação fun- 
^da ha pouco tempo pelo Sr. tenente -coronel Labrn e que 
ji tanto promette. 

Muit IS riquezas e productos naturaes, já conhecidos do 
commercioe dos industriaes, abundam nas margens do Pu- 
Tú< e seas affluentes. 

Muito interesse deixa a sna extracção, depende porém 
também muito de actividade e pratica dos exploradores. Os 



— 68^ 

trabalhadores actuaes levam uma vida e hábitos especiaes^ 
grande pane dellesoaquasi todos vivem com hahitosecos- 
tames de povos nómadas; as suas cabanas sao mal contslroi» 
dase sem nenhuma das condições hygienicas, nãn plantam e 
nem críam^ de modo que lodus osg<'iierosalinit iiticio.% incla* 
«Ivea farinha, fio levados das praças do Pará e de Manáos, 
^ae também os importa, vendendo-os por preços fabalo- 

fOS. 

De semelhante assumpto fallarei mais largamente quanda 
tratar dos serio^^aes e da extracção da borrach», que, si*ja ái» 
to de passagem, é a maior e a mais funesta praga do valle do 
Amazonas 

Vi8ja-.«cda fozdoPurúsádoItaxyy diz o Sr. tenente-co- 
TOOfl Lahre^ e nã» se vô uma plantação, a não serem alftuns 
j)és de bananas e can na e difflcjlmente nas goteiras de al^u* 
jnas casas (barrdca^)alf;uns pés de mandioca e uaipy. (38) 

£' uma irrisão a industria agraria em terras de ião pro» 
4l?ío8a uberdade com uma população snperior a 5.000 habi» 
tante.H de gente civilisada 

O paíz não é pedregoso, sendo muito escasso de pedras em 
jBuaH margens e adjacências, excepto para o interior das tar- 
jas altaKP riosaffiaentes da direita, onde existe infinidade de 
pedras d íffHrenies. 

Nas margens do rio Acre, no tempo da vasante, mostrasse 
nas ribanceiras grande quantidade de salitre. 

Encontra-se em todaa oarte barros ou argiilas dííTerentes 
com prupríedade para o fabrico de ti jdo de alvenaria, telhas 
e toda a espécie de louça grossa. 

Acima de Yatiiiuríá existe a uJtima maloca d» trihu Jubery. 
A grande nação vpuriná ou ipurinan, habita desde o mé- 
dio até o alto Purus. 

£* tríbu muiio numerosa. Bellicoso por índole e sempre 
pn^parando ou esperando o ataque, o hipurinan larga muito 
poucas vezes o arco e flexa, desconfiando de quantos não co- 
nhece. 

Entretanto guerreia mais os de sua própria nação e seus 
Tizinhos do que as outras tribus. 

Apezar de serem completamente selvagens, são por natu- 
reza dóceis e delicados. 

Piízem muito pouco commercio, em troca de salsa, seringa 
6 óleo que vAo aprendendo a colher. 

Na iiiartfom esquerda do Parus, não muito distantes do rio, 
vi' cm os Jamamandys, entre o Mamoryha-Grande eoPauy- 
Diin ; porém na margem direita não se conhecem outros 
índios senão os Ipurínans. Filhos do mato e não do rio,, 
como diz o Sr. Dr. Adolpho de Barros, elles preferem morar 
no centro das terras. Me<imo os que já são mansos (e o devem 



Í38) No sul chamamos aipt ou atpim. 
Uíi geral, em todo o norte dão-ihe o nome de macachira. 



— so- 
ão pratico Manoel Urbano) estabelecem as suas malocas cerca 
de meia Ici^ua para o interior. Somente na época das tarta- 
rogas, sthem todos do centro e insta llam-se nas praias, onde 
ae al>ri^am do sol e da chava sobre uma ligeira cboça de 
braços de uii ana. 

TiYem completamente nús e a polygamia, que na maior 
]iartedas outras tribus é privilegio quasi sempre dfs tu- 
ehanas ou cbefes, é geral entre esses indíos, no mt io dos 
qaaesa mulher occupa por is<o condição muito infeiior. 

Apezar desses defeitos, parece que a cateshese dus Ipuri- 
Bans dará ^rrandes resultados. 

Nenhuma outra nação do Purús é tão grande e nenhuma 
promeite tantas vantagens, sem exceptuar os Pammarys, 
Infelizmente já muito entregues ao vicio da einhriasfuez^ 
fructo tilvez do seu primeiro contacto com a civiíisação bas- 
tarda, que lá osfoi procurar. Os Ipurinans são ainda como os 
matos virgens, têm todas as buas disposições da Índole pri- 
mitiva, poiéoi branda, sem os vícios e a depravação dos 
meio-(!ivilísados. Amansados e doutrinados, serão no Purús 
oqne são os Mundurucús no Tapajoz. 

Sâo baseados em informações «fSciaes e em particulares 
mui fidedignas os esclarecimentos e notícias que aiii deixo, 
acerca dos Ipurinans, entretanto mui diversamente se pro- 
nnncía a 8r'U respeito o Sr. tenente-coronel Lahre. • Tôm 
Índole perversa e máos instínctos os Ipurinans, diz elle^ 
e sio verdadeiros antropopbagos; entregam-se ex«*lusiva- 
mente aos negócios e praticas da guerra, pilhagem e as- 
sassinato. 

O Sr. Chandiess tem acerca do Ipurinans a melhor opi- 

Aiã». 

O Hyuacúéo limite dos Ipurinans. Dahi em diante co- 
meça a re^riâo habitada pelos Manetenerys, encontrando-se 
nadi^lanria de 6 a 7 dias de viagem daquelle rii) a estrada 
de que se servem estes, quando atravessam para o Jurúa^ 
que dbsemhoca no SolimÕos ; travessia que também realizam 
pelo pequeno rioTarauacá. 

Os Manetenerys são uma nação d'agua. Abandonam fre- 
qnentement* as malocas, mudam muitas vezes de habitação^ 
6 a maior parte do tempo gastam-no em viagens ou 
antes em pas>eios. São entretanto trabalhadores, cultivam o 
forno, de que fazem uso, colhem a salsa e o algodão que fiam 
€ tecem com admirável esmero e delicadeza, dando-lbe cores 
Taría<las e securas. Com elle preparam as camisolas com- 
pri las com que se vestem e os capuzes com que se cobrem, 
Irajo que beni revela o antigo contacto desses Índios com os 
mi^>i 'uari s catholicos. 

Mansos •■ int^llígentes, vão alegres ao encontro dos brancos 
e acolhem-nos sem desconfiança, mas com cer ta sobranceria . 
As mulheres são mui claras, de olhos grandes e tornam-se 
notáveis pela sua belleza e modéstia Infelizmente, se osMa- 
netenerys são mais civilisados que os Ipurinans, também são 
mais corrompidos. Furtam, quando podem, o que se lhes não 
^ner dar ou vender^ e mercadejam sem escrúpulo com a 



— «o — 

honra das mulheres^ qae aliás sao tratadas por ellcs em certo 
p6deiR:Qatdade. 

'Emprefcam os Maneteoerys diversas palavras de língua 
hespanhola, pelo que jalfi:am muitos que pertenciam elles ao 
território boliviano do Alto Purús. 

Quasi todos faliam mais uu menos no Jnrná e poucos o 
fazem ácarca do Ucayale. Paroce estar veriflrada a suppo- 
si^o errónea do pratico Manoel Urbano, quando julgou ter 
chegado pelo Purds perto de Sarayaco. Sem duvida quie^ram 
esses índios dizer-lhe que não estava lon^e do ponto em qae 
entiose achava elle pratico o varadouro para o Ucayale, por 
•caias a<raas costumam descer para aquella povoação peruana. 

Como quer que fosse, a posição gHOgraphica do Purús e a 
de Sarayaco afastam a idéa de semelhante proximidade. 

AefernoSr. Chandless quede um velho Manetene-ry ouvia 
quegaKiára dous illasem vararas canoas e 10 dias, rio abaiio, 
pelo Ucayale até Siirayaco^ onde conhecdra o padre António e 
▼ira fazendas de gado. 

c Um dos mais velhos da tribu, fallou-me de um padre An* 
tonio, a quem conhecera em Sarayaco, descrevendo-me a sua 
tonsura, imitando-lheos gestos nasceremonias da niis^a e re- 
petindo mui dístinctamente ou antes cantando, as palavras 
€ Espírito-Santo. > 

E mais adiante : 

c Disseram «me em Manáos, que esse padre Antenio era 
am frade italiano, que havia muitos annos tinha partido 
para explorar o Ucayale, induzindo ou obrigando a maior 
parte dos indiosa se estabelecerem em aldêas, e que muitos, 
nio se querendo sujeitar a isto, abandonavam o Ucajrale 
e iam estabelecer-se á margem dos rios que ficam para 
leste.* (39) 

Do rio Curruá até o Rixalá, não ha indios. Das proxifnida- 
des deste ultimo em diante começa-se a encontrar os Cana- 
marys. Esta raça, que não é boniti, tom muito boa Índole. 
Tio civílisados como os Manetenerys, embora menos em- 
prehendodores. não são todavia, como elles, desmoralisados 
e emprehendedcres. Usam de camisolas i^ruaes ás daquelles, 
o Umbem fabricam panno, posto que inferior. Na cabeça, 
em Tez de capuz, trazem ornatos de pennas escolhidas e 
de cAres brilhantes. 

Botre elles, tem oPorús o nome de Pacayá. 

Além da foz doCammahá existem os indios Gatianás traja- 
dos como osGaoamarys, ornados de pennas na cabeça como 
estes, porém no mais semelhantes aos Manetenerys, de cuja 
iadole participam, posto não sejam com elles parecidos nem 
nas feições, nem na estatura, que a tôm menor. 

dultlvam o famo, o algodão, o milho q colhem a seringa, 
•qFue alli se encontra em abundância e com a qual se alla- 
'aitm. 




) Chmilê$$*i Notes m ihe liiver Purús, pag. 18. 



— fl — 

Essa triba é a nltima 4o Alio Parus. Dahi por diante 
raros Tesliffios se observam da exísteDcia ou antes da jpas* 
tsàfcem de índios. Todavia parece que entras tribns habitam 
o Interior das terras, que mui raras vezes abandonam, oa 
o fazem temporariamente para virem ao rio em busca 
d'aRQa, qnando na maior força do verSo^ seccam provavel- 
nente as fontes e ijraraiiés. 

Disto persnade a existência de trilhos estreitos e quasi 
obstruídos, partindo das margens para o centro. 

Diz o Sr. tenente coronel Labre, que lhe consta haverem 
■o alto Purús mais as tribus Sf^ulntes : Âuainamary, Cnjí- 
ffenery, Carhapan, lroainanan« Ispínó^Caxixiniary, Carunan, 
Ui^aoanery, Tarumaty, Paicycy, XiHpunirv, Miriximandy, 
Mamury, Hymaniry e Araras para o Interior; e que além 
destas na outras de cujos nomes nSo sesabe, nos affluentes 
do Purús não explorados. 

As tribus Pamanan, Simarunan, Caripuna, CathaníchyBy 
Pamary« Jamamandy, Cazarrary e Uatanary, habitam as 
margens do médio Purú^ede seus affluentes. 

Os Pamanans vivem nas terras altas do rio Ituxy e parecem 
ser 08 mi*smos do ri» Mucuhy : são pacifiros e indolentes. 

Os Simarunans e Garípunas habitam as margens do rio Mu- 
cuhy e são pacíficos. 

Os Cathanichys, habitam as margens dos rios Mucuhy, 
ttarye Pacihan e as terras altas. São pacíficos por índole, 
asseiados, bem apessoados e claros. São cultivadores e fabri- 
cam louça de barro, que pintam e de que fazem commerolo 
mui limitado. 

Os Pamarys que habitam actualmente o médio Purús, ha- 
bitavam outr'ora o baixo Purús. 

Vivem nos rios e lagos, alimentam-se especialmente de 
neiíLee tartaruga; as suas cabanas são feitas nos lagos em 
jangadas ou balsas. 

São destros remadores, entregando-se ao trabalho do mar; 
sio verdadeiroscanoeiros; as montarias de que se servem e 
Aue tôm o nome de ubás, são por elles perfeitamente traha- 
oiiadas. Fazem alg'um trabalho na extracção dos productos 
Aaturaes, que trocam por mercad* rias e bebidas, esperial- 
mentea cachaça. Aquelles que estão maísem contacto com 
a gente civilisada, andam vestidos, porém voltando para as 
selvas andam nús. São os selvagens mais conhecidos desses 
lagares, por se não arredarem das margens dos rios e lagos, 
mo asquerosos e repellentes pelas moléstias de pelle, que 
Boffrem, as quaes se tém tornado hereditárias; tornam a 
pelle escabrosa, produzindo uma comichão horrível. São 
manchados ou pintados de branco, tornando-se foveiros, es- 
pecialmente as mãos e os pés. 

Temem muito as tribus guerreiras e quasi nunca se 
batem. 

Oi Jamamandys tôm os mesmos hábitos e costumes e vivem 
em terras altas e nas mesmas condições que osCathanichjfs; 
são agricultores; não fazem commercio e fogem do contacto 
civllisado. 



— 92 — 

Os Caxarrarys e os Uatanarys habitam o alto Iinsy, vi- 
TeDdoera Kfanilesatdèas: sio plantidorese paiiflu-os 

As iribus, Huza, diruhaty, Simauiry, CatoquíDa e Cipó, 
baditam o baixo Purús. 

Oã Ciiruhaiys habitam o Paraná-picliDna; sSo corpuiestoí! 
6 rehryi '"r. 

Os Símaniryj, Cataqnínas e Cipós habitam as matas do rio 
TapanUa . 

Sem uma s6 cachoríra qne lhe iotnrrompaocarsn, off^rece 
o Piirús uma navpRacio regalar e franca até a di^iauuia de 
400 lei;uas da foz ma uuia fraude parte do anou, rom ex- 
cepção somente dus metes de maiur vasante. 

Em meia altura -ias aguas, a proTuiirlidade perlo da foi é 
deSa 9 bradas no nanai, e SSO leifuas anima, eucontra-se 
ainda o mesmo fuado DO tempo da enchente. C^luulando-se 
com um abaixamento médio de 50 palmos, \e-s-; qup, ainda 
no liriiÍLe da vasante, os maiores navios podam nh^tçar a esaa 
distancia, pois que i inrllnai^io do leito do rio é diminuta até 
O no Uui-MJin e fó se torna bastante pronunriaila do rio 
Pauynim em diante. 

EmuUuus tut:aresarÍmadeHyunianahan,enRODtra-se ro- 
chedos enuiK-tados ás inarcens e piiucHS vezes no meio do rio. 
Os mai' notáveis são o baixio de Camary, formado por uma 
lage e que nos annosdesecca rigorosa iliSIrulta a passagem; 
e as |ie<iras de Yabfiurihá, qne nio impedem a navcgaçio, 
visto como nsssii um bom canal pela margem direita. Subn- 
todas as mais, qualquer vapor próprio para essa navegagio 
pôde passar livremiot* na meia vasante Na anehenf, nSo 
na o menor periico, pi>rque sobre ellas passam 4 i4 '/a tiraças 
d'agua. N<i termo da vasante fliam a dt-scoberloe com faci- 
lidade são evitadas. 

E' por conseguinte oPurús o mais importante a&luentedo 
Amazonas aió hoje conhecido. O iuruá, segundo as infor- 
mações dos práticos, nio Taz grande difTeren^a deste, mas 
ainda não foi devidamente explorado. Sem cachoeiras, sem 
gr» ndes correntezas, sem ilhas que lhe obstruam eleito, di- 
minuindo s prorundidade peia divisão das aguas, o Pnrils 
nio só ulTerece livre e mais extensa navegacãodo qne qual- 
qU' r outro dos tribatarios do grande rio, como estabelece 
COmmunicBçSo para a parte mais rica da America do Sul. 
< TfHçai na imaginação, dii o Sr. Tdvaris Bastos, o 

Jnadro grandioso dessas enormes correntes d'agua. que se 
espejam no Amazonas, que descem do ceniru da America 
do Sul em linhas parallelase próximas I Pesai na phantasia 
os desígnios do Creador qne dotou e^se immenso paii de 
tantos recursos t Náo 6 realmente o paraiio das geraçiJes fa- 
laras, como disse Huniboldt?> 

Teruiino esta brere e Incompleta notícia sobre o grande 
alllii.-nte do Amazonas, transcrevendo aqui o offleio que com 
data de 24 de Novembro de 1861 foi dlríjíl Ju ao presi Jente do 
Amazonas pelo Sr. Or. Couiinho, relativamente á viagem 
do pratico Manuel Urbano explorador do Pnrús. 

I No tiia Í9 do corrente. 3heKoaAs*tocapitaUManãos) Ma- 




I, que por ordem de Y. Ez. exi- 
leiro deste anno, fora ÍDcumbido 
de examinar a cammanicaçSo que diziam haver entre o rio 
PflnL'4 e a parte superior das cachoeiras do Madeira, sem o 
menor obstáculo. 

< A ser verdade o boato que corria, eslava resolvida s 
grande qaeslSo da navegação livre para Hato Grosso, de 
extraordinário interesse ao Império. Tbeoricamente fallaado, 
essa comiQuaicaçio entre o Alto Madeira e o Parilg, sem o 
embarago das cachoeiras, parece quasi ímpos^iivel; no en- 
tanto a noticia devia ser veriQuada, porque importava um 
m:;lhorami!nln de ordem superior, e tanto mais quanto a des* 
peza do primeiro reconhecimento era insliirniflcante. 

€ SesundoBs iuTorma^es de H^noel Urbano, eastou elle 
na viagem <la foz do Purus ao sen afiluenm Ituiy 55 dias em 
canAa mediana, subindo Adlslancia, pelo que ae póile con- 
cluir da navegação em canoas, deve regular de liÒ a 130 
léguas proximainenie. 

• Do ItusT seguiu no dia 19 de Abriln nsTegon lOOdias, 
tendo passado por 26 malocas de índios, 17 da tribu Ipurinã, 
ida Jubery. 2 da Jainamandy, 1 da Canamary, 3 da Mane- 
tenerj e 1 da Ipurinã e Canamary. 

1 Nãocontinuoua viagem em razão de ter encontrado dous 
iDdtos, que informaram não distar muito a povoação boli- 
viana de Sarayaco, de onde vinham e da qual é pastor o padre 
António; havendo, além delle, outras pessoas oiviiiãadas. 

• Até O pont) a que cbogou, informa Manoel Urbano, que 
podem, naépòi-a da énchentf, navegar vapores de G a 8 pal- 
mos de calaao Em certos pontos encontram-sc pedras no 
lei to do rio; mas não é embaraço que empeça a navegação. 

« A viagem de Ituiy em diante devia ser muito demorada, 
como foi, caminhando regularmenleSlegoas por dia, o que 
dá SOO, que junto a 120 perfazem a somma de 630 léguas de 
navegação. 

t A distiocia que vai da foz do Madfira á ultima cachoeira 
édeSSOleguai, pelas vollas do riu: dando-seo mesmo des- 
conto para oPurús vfi-se que, ou esle riu volta ao poenle,_ a 
partir de 200 léguas, segue bordando o p!a toque a essa dis- 
tancia se levanta no interior, e quE occariona as cachoeiras 
do U'>deira e de outros rios ãquem desti*, que afQuom no 
Amazonas pela margem direita, ou que, correndo parallela- 
mente a<> mosnio Madeira, a elevação do terreno é pouooscn- 
siv^-l, tanto assim que o curso duste é interrompido por 
cachoeiras. •* nquelle não tem senão al;.'umas pedras no leito. 

« Manoel Urbano, chegando ao nfUaente Aqutry, que dista 
33dhs de viiigcm ai'Iluxy, foi infurmado pelos índios desse 
ri'1, que O Mailcira se conimunicava com cl1e . Seguiu, pois, 
em suas aguas; mas, não tarilou em reconhecer que era falsa 
a liifurmaçã'), purque o cnnal, que diziam vir do Madeira, 
dimanava de nm outro afOuente do Purús. 

• Apezar disso, eoniiuuuua nave^-aro Aquiry, durante 20 
dia-:, ao flin dos quaes voltou, porque as aguas tinham bai- 
xado muito. 



-94 — 

t Nas margens deste rfo acharam-se doas esqueletos do 
grandes dimensões, dos qaaes troaxe Manoel Urbano, duas 
vértebras, uroaeostella e dons dnntes. A costella teve de ser 
lançada ao rio, porque a canoa não accommodava tão grande 
volume. 

< Não é possivel determlnar-se, mesmo aproximadamente^ 
a espécie a que pertencem os animaes, á vista dos os>os que 
vieram. 

c A partir doaffluente Seuinim, na maloca Caohapá.appa- 
rece grande quantidade de ^áesde potassa e soda e sulfureto 
de ferro, nas margens do Purús, e a$sira nos seus tributá- 
rios, principalmente no Aquiry. 

c Aiii senie-se frio, as aguas são muito salobras, e não ha- 
vendo cautela soffre-se de febres e dores intestínaes. 

Margem direita. Distancia a 

Ituxy. 
Sepatynim 6 dias. 

Tem iOO braças de largura e fundo de 15 palmos. 
Agua preta. 

Aicimam 7 • 

Tem 40 braças de largura ; sécca pelo verão. Agua 
preta. 

Tomehan iO » 

Tem 15 braças de largura; sécca. Agua preta. 

ManMriá^apé. 12 » 

Tem 50 braças de largura e fundo de 6 palmos. 
Agua preta. 

Seriuinim i5 » 

Como o antecedente. 

Aquií^ 33 » 

Tem 130 braças de largura e 20 palmos de fundo. 
Agua branca. 

Tiquirimam 49 » 

Tem 20 braças de largura ; sécca pelo verão. Agua 
preta. 

Hyuacú 58 > 

Tem 200 braças de largara e 20 palmos de fundo. 
Agua pardacenta. 

Aracá 75 • 

7em 00 braças de largura e 8 palmos de fundo. 
Agua branca. 



— 98 — 

Margem esquerda . Dittancia a 

Iluxy, 

Mamnriámirim 4 dias. 

Tem 40 bruças de largura e 6 palmos do fundo. 
Agua preta . 

Pauynim i7 » 

Tem 120 braças de largura e i5 palmos de fundo. 
Agua preta. 

SeuytUm i9 > 

Tem 50 braças de largura e 9 palmos de fundo. 
Agua preta. 

Ifiavynim 26 » 

Tem 800 hraçasde largura e 20 palmos de fundo^ 
Agua preta. 

Cangnitp 48 > 

Tem 40 braças de largura, sécca pelo verão. Agua 
branca. 

Taranacá 81 > 

Tem 30 braças de largura e pouco fundo. Agua 
branca . 

Informam que este ríocommunica-secom o Hyu- 
rui na época da encbente. Sendo assim, passa 
além das cabeceiras ilo Coary e Teffé, o que de 
alguma surte combina com a cai ta da Amerha 
meridional, organizada por Dufour. 

Margem esquerda. Distancia a 

Ituxy. 

Curian^han 88^ dias» 

Tem 25 braças de largura e pouco fundo. Agua 
preu. 

Rixala 91 > 

Como o antecedente. 

• Chegando ao Rixala e não sabendo em que altura se 
achava,. não podendo por falta de recursos seguir acompaiv- 
nbado do comboí, Manoel Urbano resolveu continuar avia- 

f em em montaria, deixando nesse ponto as canoas maiores 
'taba caminhado seis dias quando encontrou esdousin- 
dios, que deram noticia da povoação de Sarayaco. Desiae. 
iQforma(^s conclue-se até certo punto o que a razão já 
havia demonstrado, que é im|io^sivel passarse do Purue- 
AO alto Madeira sem oostaculo de cachoeiras. 

c A população indígena das margens do Purús calculasse 
em 5.000 almas. A ultima tríbu que encontrou Manoel Ur* 
bano, denominada Manetenery, é a mais numerosa ; planta, 
algodão, fia e tece pannos para confecção de redes e vestido» 



- 96 — 

(|De ifim muita scmellianle com os que nsam os bolivianos, 
qae dnsn-em pelo Hadeirs. As mulheres trazem somente uma 
laDKa. Vivem fartos, iSm ersndespacovaesá martzem do rio, 
e sio, om Reral, bem feiíose bonitos. A habilafão fixa desta 
tribuéao iniftrior. Manoel Urbano sappQa que olla d3o per- 
tence au Brazil, não só pela grande distancia i (jue i'.''tã do 
Aroatonas, como também pelos costumes, que ^ão lodos boli- 
vianos. 

• A' esla succede a Iribn Canamary, muiio propensa á 
aKricultura. Também planta algodão e as indins fabricam 
réies de boa tinnjidade. Os bomens andam nús e as mu- 
lheres usam de tanga. 

« Òi IgurinSs, que vCm após, occnpam uma grande ex- 
lensio dii Alt<i-PurÚ4; nSo plantam regularmeate, nem 
usam de vesiuarin ; as mulheres faieiã apenas urna folha 
verde sobre as psitesfenitai-s. São inclinados á iriiiírra, em- 

Íiregaodo «rande parte do lempo em seu^ preiiaralívos e en- 
eites: As outras iribus resp<'Íiam-os. Alguns i]u>' se tèm do- 
mesticado s3(i dóceis e muito propensos ao trabalho, não 
desmentindo até boje a bna fama de i)ue ^ozam. 

t A triíiu Jíinamaady, vidnha da IpuríriS, é nnmerosa e 
muito inclinada á lavoura, eiupregaado-se Umbem na caça. 
Soas iniiltieres usam de lan^ia. 

< Os luberys snffrem de impingens e outras moléstias de 
pelle, intvez deviJo á moradia em giráos sobre terras ala- 
gadas e enctiarcadas. Hninens emulheres são feios e as<|Ue- 
rosos Fazem pequenas ruças, e não ha quem lhes vcnçi na 
pesca. As tribus Ruerreiras não perseguem os Jubery.'<, por 
causa da humildade na tarai destes índios e a vocagão que tSm 
pela <iiusica ; soíTrendo e cantando abrandam a fen.cidade 
dos inimigos. 

( No Iluxy vive a tribu PamanS, que applica-se muito ao 
trabalho agriuola; os judios sSo claros, bem feitos e bonitos. 
Os instni mentos que empregam os índios na lavoura e na 
/abriraçãi do Sn e panmis, >5<i preparados por ellcs ; usam do 
machado de pedra e não lém conhecimento das nussas ferra- 
men las. 

< Hanoet Url)a'aõ inforiiia líiieclli^s desejam a civilisaçãoo 
nSo KfTeiidem di possuas que li rio, como accinli'ceu nesta 
Tia^'"'n . 

'* E' uma verdade focon testa ve), que o índio é natural- 
mente bim. As tribus ijiie r'"i«iem presentemente á rate- 
chesH, que ni<i crêem «o interesse que tomainns (n-lo seu 
bed) istar, pagando o benelliii cnm ingraii.lio; cskíis pxpe- 
rfmeniar.>m já o ind fã e brutalidade dos expl-madorcs dog 
ndssiis ^riifes, i malffii^a S'iiiibra das Ban^ritm ; e scin o 
di^Tní'iieiito prauiiui ppira tliilingnír a arciíi do ind ívi<tno, 
jalga>ii ver um ÍaImie:o no primeiro clvilisado que se lhes 
apri"!"nl». 

* Oiiii <•$ índios do Puriii, qua^ii no estado primiiivo, se- 
ria <-':iff'"iiBnio ensínar-sc a laieirhesc bera cniidida, i|ue ■ 
lem pr íMtf » olmracS" ni-ir.'!, o iraliallio i.ruiiini.nul ás 
JlfhlliiusS 3 do iudlo, o roao^ga Deus e ao {inaimo. • 




-97 — 

A qiiestio preliml Aar dás cabeceiras do Amaconas, alterou 
completamente o plano qaeea haTfa formulado na confecção 
dest^ trabalho, ou «ités creio que me nSo seria possível seguir 
«m plano certo e invariável» em consequência do modo tSo 
omormal por qae realiio esta commi»aOy sendo obrigado a 
ondat constantetiaente de um para outro ponto e sem poder 
fitar -me em lugar certo e estável. 

Héí de ir pots escrevendo» segundo as impress?^s do mo* 
mento e segundo a ordem por que me forem chegando os 
apontamentos e esclarecimentos de que tiver necessidade. 

Se me ttfr possível om dia, se o destino que inexorável me 
acompanha como a^ombra ao corpo me permittir algum des* 
canso, hei de entio reunir e coordenar estes apontamentos, 
que ahi vou deixando no papel, sem ordem, sem nexo e sem 
metbodo/e formarei com elles um livro, que talvez possa ser 
lido eom attençío e interesse. 

E' um serviço que pretendo e que desejo prestar ao meu 
páií. 

Ainda recebe o SolimOcs, a 908 milhas da foz, tomando 
entSo o nomo de Amazonas, o Rio Negro, que é um dos seus 
maiores aífluentes ede maior largura do que elle. 

Nasce o Rio Negro ao Oriente de Popavan. na Nova Granada 
ao N. EL do Caqueté, na latitude de r 30^ N e 36'' 49' O, de 
Olinda, segundo o Sr. capitão tenente Amazonas. 

Davam-fhe os Indígenas a denominação de Quiary e ainda 
a de Gurignacwrú, e na parte superior a de Ueneyá, 

Corre na direcção de E. S. E. e vem confluir com o Solimões 
em 3* 9' de lat. S. e 25* 17' de long. Neste lugar estreita con- 
sideravelmente, de modo a nao exceder de uma milha, 
quando á alguma distancia de soa confluência alarga tão 
Gonslderavelmente. de modo a ter de quatro a seis léguas de 
largura ou como diz o ouvidor Ribeiro de Sampaio^ de sete 
para oito léguas, na distancia de duas léguas da foz. 

Sem duvida nenhuma que a côr das aguas deste rio, que 
eonstrastam com as do Solimões, foi que deu motivo a lhe 
terem dado a denominação de Rio Negro, c Elias ( as aguas ), 
diz o ouvidor Ribeiro de Sampaio, vistas no ríQ são de um es- 
coro tão fechado^ que parecem um lago de tinta preta; porém 
a sua verdadeira côr ede alambre, como se conhece quando 
se tomam em um copo. Palas observações optlco-phisycas se 
n^m no claro conhecimento daqueila côr preta, que se deva 
proourar nas razões, de onde se tiram as causas da opacidade 
éos corpos. Uma só snperficie ou lamina daqueila agua é de 
eôr de alambre o transparente, mas nnindo-se diversas la- 
minas e superflciles turbam a transparência e causam a oça- 
eidade,e por consequência quanto maior fundo, tanto maior 
será oescuro.Oque-oem se observa, repirando-se queá borda 
Á água até três palmos de extensão, em que o fundo não 
chega a um, mostra a agua a côr de alambre. A causa desta 
côr de alambre conjectura-se provir dos bitumes, que encon- 
tra o rio nos grandes e multiplicados rochedos por onde 
Wassa em quasl todo o seu curso, descendo das cordilheiras 
ooFopayan. Outros querem que esta côr provenha das ar- 
13 



p 



Tores, ]ae innnda, por ser todo cheio de ilbas alsgadifas: o 
<qne não parece improvável. ■ 

< As aguas, diz La CoadamiDe, mostram aos olhos nm es- 
curo Ião carregado, que mais parece um lago de iinia preta, 
^io é difflcil de conceber que, uiiindu-se muitas laoiÍDas ou 
«uperfleies desta agua, hão de turvar ÍDrallivelraeDle a sua 
IraosparcDcra ; o quanto mais alio I&r o fundo, tanto maior 
deve ser o e^cu^o: daqui vem que junto á beira, onde o 
fundo á mais baixo a aguaquasí mostra a sua cõr natural. > 

O terreno qoe forma o valle do Riu Negro, segundo u rela- 
tório do Sr. engenheiro Joaquim L^ovigildo de Souza Coelho, 
eqne temosá vista, iiertence á tm-eira rorniacdo tieologia. 
A rocba predomínanleéopsamuiiío mais ou menos decom- 

SDsio. Em toda a extensão do rio encontram-se duas camadas 
em distinctas de argilla ; uma inferiur de argijla branca , 
flna, muilo plástica, e outra superior, colorida de vermelbo 
pelo oxido de ferro. 

Em muitos lugares esta ultima camada, em vez de ser de 
«rgtlla vermelha pura, é um composto delia e de areia e cons- 
titue uma camada argillo-arenosa. Em Thumar, Uoreira e oní 
toda a extensão do valle do Rio Negro, que Gca enire estes 
dous lugares, esta camada argUlo-arenosa é hi.s ante espessa 
«tem em grande quantidade sido levada pelas aguas do rio; 
por sua consistência esboròa-se ao niveí d'agua, que iotll- 
Irando-se a amollece e faz cabir. As duas povoações acimn 
estão ediflcadas em barreiras; e a agua todos os annos faz 
cahir parte do terreno que está a pique. 

Em S. Gabriel csia camada ainda tem areia, pordm n3o tão 
flna, como nos outros lugares; aliíaargilla eslámisturada 
com uma espécie de cascalha flno. No mesmo lugar ella tem 
uma espessura considerável em alguns pontos, porém no 

fiorto de desembarque dos navios que deseem o rio, não se 
be encontra vestígios, existindo somente a de argilla branca. 
Na margem esquer(ia do rio, no sitio Ananací, que fica 
entre a povoação de S. José eoluuar emqueexiniua deMa- 
(arabi, acontice o mesmo : todo o porto só tem a camada de 
argilla branca, faltando-lbe a outra, ou por ter sido levada 
pelas aguas, ou porque uo tempo em que ella se depõz, acha- 
Ti-se o terreno nesse Ingar acima do nível d'agu8. 

Ura exemplo ainda mais sensível da falta desta segunda ca- 
mada de argilla envermelhecída pelo oxido de ferro, é o que 
se Dúta era uma ilha eutre a cidade de Msnáos e a freguezia 
<le Tauapessassli, a mais perlo daquella. A ilha tem o nome 
de Boia-asstl, por se acbar na babia do raesmo nome. Ahi o 
lerreDo é argilla branca sem traços de outra camada, que 
existe sempre acompanbando-a em quasi todo o valle ilo rio 
« Wmbemsem TBSlfgloídB lerra vegetal. Entretanto nessa 
ilha encontram-searvores inamenus. £m grande parte da 
margem direita do rio, de Moreira para a saa foi, vfl-se per- 
feitamente a linha de separacSo dag dnaa eamadag. 
' Conví^m notar, diz ainda o Sr. engeDbeiro Souza Coelho, 
jqucem alguns pontos da camada branca, a argilla eslicoto- 
Tfda de amarello e algumas Tves de r6xo. 



— 09 — 

Em todo o leito do rio encontram-se pedras ora reunidas 
6 salientes, formando ilhas em caíos intervallos sedepòz a 
t«rra acarretada pelas agrnas e tem crescido arvores ora 
isoladas, algumas yezes salientes, outras vezes mergulhadas. 
Em alguns lugares, o porto é formado por um rochedo em 
pequena inclinação para o leito ; em outros, toda a base da po- 
voa((^o é um rochedo, sobre o qual em alguns lugares existe 
argilla vermelha. Todas as rochas desses lugares sao gra- 
níticas. 

Na fronteira do Cucúhy. são de granito, não só a serra do 
mesmo nome, como grande parte das áenominadas Mussiim^ 
Curicuriari e Jacamim. A do Cucuhyé toda de granito e um 
dos seus montes, o de S. José, tem quasi a configuração do Pão 
de Assucar da barra do Rio de Janeiro, com a unicà differen- 
ça de que o Pão de Assucar aflna-se mais para o 3imo do que 
aqnello. 

Nas margens do Rio Negro, de Barcellos para baixo, encon- 
tram-se pedras de origem sedimentaria, nas quaes predomi- 
na a cnl ou argilla. Elias apresentam-se em pedaços arrama- 
dos sem ordem ; pela acção das a^uas foi levada a camada 
de argilla sobre que estavam ; os uiversos stratos, e não se 
podendo mais sustentar na posição que occupavam, cahiram 
e despedaçaram-se uns sobre os outros e dubi provém a ma- 
neira porque estão atirados, bordando toda a oraia. 

No Aracary, lugar de uma povoação abandonada sobre 
nma camada, que se eleva regularmente a duas braças sobre 
o nível d'8gua do rio (em principies do mez de Outubro)^ 
eem alguns lugares a quatro braças, formada de areia com 
alguma consistência, existe outra de psammito em decom- 
posição. A primeira por sua pouca consistência foi esbura- 
cada pelas aguas e apresenta diversas arcadas, começan- 
do umas mais abaixo do que outras, de modo que com a 
de três palmos de espessura^ que fica-lbe por cima, appa- 
rece de longe, fingindo diversas casas e uma Igreja; pelo 
que dão a este lugar o nome de igrejinha. 

Pode-se dizer que de Barcellos para baixo só existe o 
psammito e que do mesmo lugar para cima é o granito que 
predomina. 

A formação de todo o valle do Rio Nengro é a mesma que 
se observa em Manáos, em que em alguns lugares vô-se a 
camada de argilla vermelha sobre a branca, resultado da de- 
composição do psammito, havendo comtudo camadas de 
argilla plástica Intercalladas. 

Em 1637 o celebre capitão«mór Pedro Teixeira, em sua 
sabida a Quito, descobriu a foz do Rio Negro e praticou com 
osUaranacoacenas (40) 



' (40) A i2de Dezembro de £639 chegou a Belém (capital do 
Pari) de saa viagem a Quito o capitão-mór Pedro Teixeira. 
Este plreclaro cidadão, diz um shronlsta, chegou a Quito nos 
fins 06 Setembro de 1638, sendo recebido com grande enthu- 



— lOJ- 
AbaixodapoToaciodeS. Gabriel, ficam as seguintes ca- 
choeiras, a contar de HaDáos: Taranonian, Haçaraby, Joa- 
oaby, 2.* Joanaby, Haribldá, outra sem nome. Guariba, Ca- 
manáos, mais três sem nome, Maríiiquí, Mabã, Perra do 
Veado, Pederneira, Santarém, Tapajós, l.ujobim, KikirDi* 
Inambú, Furnas, Mão e Arapassil. 
A cauboeira do taruman (&2), uivez a maU liada das ca- 



(42) A cachoeira do Taruman, conhecida geralmente fm 
Uanaospela denomfnaçSo de Cachoeira-erande para diffe- 
rançar de outra mais próxima á cidade e a que dão o nome 
CBcboeirlQba, é um sitio de tradicionaes recordacSes para os 
habitantes do Ingar. Diversas lendas me rereriram, que com 
ella tem Diais ou menos relacSo. Entre outras ba a lenda da 
Uyara tão popular no Amazonas e que nSo possa resistir à 
tentação de lambem referil-a aqui. Vai pouco mais ou menos 
como me foi contada. 

Desculpe-me o leitor se me nSo fõr posaivel dar-the aquella 
feifSo local e pittoresca, aquella poesia singela, que tanto 
realçam e embollezam semelbantes composicSes: 

A UIABA. 

Lenda, 

Era na taba de Manáos, boje a altiva princeia do Bio Negro. 

E um dia, nm moço tapuio, Qjho co tuchatta, dirí)(iu-se 
em uroa igara&o pequeno regato, que banha a ponta do Ta- 
ruman. 

Era um moço lindo, emais lindo â'entre todos os moços da 
sua tribu. 

Valente e ousado como elle nenhum outro havia appa^ 
recído. 

Ninguém com mais destreza manejava a zarabatana te- 
mirel, cuja flecha envenenada cortava em meio dos ares o 
\òo da aracuan. 

Ninguém coin mais coragem brandia o tacape e entesava 
o arco . 

Nos jOKas com que celebravam as festas, sempre a palma 
da victuria cabia ao moço tapuio^ asle quem os próprios an- 
ciSos se curvavam resi>eitosos. 

Era o orgulho da tribu e o digno enccessor do velho ta- 
chaua, qoe tantas vezes fizera morder a poeira aos ferozes 
mundurucúa. 

E um dia omogo tapuio dirigin-se em uma igara ao pe- 
queno regato, que banna a ponta do Taruman. 

Era uma tarde lindíssima e o sol qae descambava já por 
tris da eollina «Hnbreada por eapesaa mau, reflectla-se bri- 
Ibanlenatapuji.da T yia b^bia, formada mIoBío Negro. 
^^^Htt^^HHH^MHMo e transpareute do Ijorizonte, for- 



•^103 — 



ehoeiras ' do Rio Negro, fica a quatro léguas pouco miiè 
ou menos deManáos. Domina uma elevada ribanceira toda 



B triste como o canto da hiamara^ assim o semblante da 
moco tapuio. 

voltando do passeio bem tarde^ bavia atado a igara ao 
tronco da mamaurana e a noite levou-a sentado á soleira da 
maloca, pensativo, taciturno e proferindo de quando em vez 
paiavras entrecortadas e sem sentido. 

E a velha tapuia que amava-o com esse estremecimento das 
filhas das selvas, cborava silenciosa ao ver a tristeza pro- 
funda, que sombreava o semblante do filho. 

c Ouv»^, mSi, disse o moço, ouve, porque só a ti me atrevo 
a contar as tristezas, que me pungem a alma. 

€ Era uma moça tão linda., tão linda, como ainda não 
encontrei assim entre as filhas dos Manâos. 

« A tarde era bella e a igara vogava ligeira cm direcção á 
pontadoTaruman. 

< De repente ouvi como um cantar longínquo, como uma 
voz harmoniosa que se confundia com o susurrar da brisa 
por entre as folhas das palmeiras. 

€ E a igara cortava ligeira as aguas do rio e mais distinctos 
me che$çavam aos ouvidos os sons daquella voz que cantava. 

« E depois eu vi. . . Gomo era bella, mãí I Como era bella a 
mulher que allise achava I 

€ Estava sentada á margem do rio. Tinha os cabellos 
louros como se fossem de ouro, presos por flòrns de morerú 
e cantava e cantava, como nunca ouvi cantar assim. 

c Depois ergueu os olhos verdes para mim, 8<»rrin-se um 
momento, estendeu«me os braços, como se nelles me qui> 
zesse enlaçar e desappareceu cantando por entre as aguaa 
do igarapé, que se abriram para recebei- a. 

€ Mil, como era linda a moça que allí vi... Como eram 
melodidSDS os sons daquella voz que cantava I ■ 

Di>s olhos da velha tapuia cahiram pelas faces tostadas duas 
lagrima.s silenciosas. 

c Pilho, murmurou, não voltes mais ao igarapé do Ta- 
ruman. A mulher que alli vistes é a Uyara, filho t. . . Sea 
sorriso é a morte... não lhe ouças a voz, para que não cedas 
ao encanto.» 

E o moç> tapuio, sentado á soleira da maloca, deixou 
pender para o cnão a fronte pensativa. 

E no dia sefiruinte, ao pôr do sol, a igara descia de nova 
ligeira as aguas doTaruman 

Nella ia o moço tapuio, esquecido dos conselhos maternos. 

O que lhe aconteceu depois, ninguém sabe, porque também 
ninguém mais o vira. Diziam porém alguns pescadores, que 
ao passarem pelo igarapé do Tarumanem horas mortas da 
iioit\ viam ao longe um vulto de mulher, que cantava, e ao 
lado delia um vulto de homem. 

E quando algum mais ousado se aproximava, abriam-sa 
as aguas do rio e nellas os dous vultos se atiravam. 



fella de pedra ; lem oito hrsess em sob qneda e a cor- 
Tenteia é de qQatro milhas. £' formada por um Tecdadeiro 

parallelogranimoiiosiiijelrico, que mais parfce obra esme- 
rada da mBo dotromem doqDeoa natoreia. As margens s9o 
armadas de magcsKistjs arvoredos e o fondo da cacDoeira é 
todo como matiiado de pedras delicadas. 

A pancada d lio forte que chega-se a oavJr na di&UHCia 
it duaslegaas eo nevoeiro que se desprende e das aguas je- 
fleclido pelos ralos solares, forma um doa nuis lindos e des- 
lambrantes panoramas. 

A cachoeira de Camanáos fica em uma ponta formada por 
uma grande pedra na margem esquerda do rio. 

E' em um lucar desta ponta que descarregam as canOas 
e igarilés, que depois de haverem aeslin iiassaao a cachoeira 
pór meio de espias, s9o de novo carregadas acima da mesma 
cachoeira. 

A das Furnas é uma das mais bellas cachoeiras do Rio 
Negro. Ha no lugar da cochoeira um rochedo de faces planas 
e perpendiculares, de duas a três braças de largnra e duas 
de altura, acima do nível d'agua e que i^e estende da mar- 
gem esquerda para o centro do rio em fdrma de muro. Na 
extensão de 13 braças da praia acaba verticalmente, liais 
adiante e na mesma direcção existem grandes pedras tendo 
algumas ires braças de comprimenlo. E' enire n muro e 
estas pedras que fica a cachoeira das Furnas, e a agua corre 
ahi com extrema velocidade pela pequena passagem que lhe 
deixa o maro. 

Para quem sóhe o rio, antes de chegar ao dilo muro de 
pedra, ha nm porto de desembarque e uma pequena picada 
^ae conduz i uma praia acima da cachoeira. 

As duas cachoeiras de Camanáos e Furnas ficam nas mar- 
gem esqnerdas do rio e felizmente nio se estendem a mais 
de IO braças para o centro, perpendicularmente á direcção 
do leito, de modo que pdde um vapor passar pelo canal, sem 
soffrer o cffuito delias. 

Na cachoeira de Camanáos descarregam as igarítés, a fim 
de mais facilmente poderem ser pnxaiias i espia. O mesmo 
^i'se de S. Gabriel ao Cucuhy. 

Nas rochas que constituem as cachoeiras cresce uma planta 
de folhas carnudas e mui salitrosas, a q,ue os naturaes dão o 
nome de cururé, Desenvolve-se em grande abundância e 
forma assim sobre as pedras um como colchão macio por 
onde facilmente escorregam as canoas, sem que soíTram a 
menor avaria. Os moradores vizinhos, principalmente os 
ndios, aproveitam-se delia para ext ahireqi o sal de que 
oue fazem uso; de modo que o cururéé um recurso inestí- 
qiavel para os povos do alto Bio Negro. 

Entro os tríbulíirios oii aillufDies do Hio Negro avulta o 
Ri" Branco, que com elle perfeiumienle contrasta pela côr das 
aguas. E' o maior dos tribuiario» do graode tributário <U> 
Amazonas. Katra, na margem esquerda, Ki It^guas acioia da 
fOK, seíTuindo a direcção geral do sul. Prcttndcm alguns, 
que se forma este rio da juncção doUraricoeracomoTaculii; 




ottras qae o lirariooea k|í i na coatnajci» e o TatiMú 
tpeus am MBflame ; Kji com» f6r, itai?»», ógpws da dia 
jOBcfio é fiie iDBi tile • Bc»e ée Ri» Braaeo. Pereorre 
▼asias e ierteii caBpíaa&, Bai qrae§ le vai de ainnia wrvs 
útaenrQUtmáo a criãfio do fa4> aié a dsUMãa de Tf i««^ii»f 
da foi, oade sa acaba a racfc a dr a craade. B* asita díruru 
aliiiha daaefHraciDdaiacmaf dãE<enodasdoBi>5«i?rvaid 
vma e:nade dástancâa. A' eK»fifia 4^1 neus de Tanate, 
ctiegam até ttiefUMio but i:« qu^ d^ouBdaai de d a 7 ^\mot 
de ealado; Ba pane saperiar naTeraB taatea eaacaf rraii- 
des dnramie a catheaie. De Ha^ a loabo, q«e é qotado 
ehe^m as anaf á ati-T titara, »TÍia-«e • |4ãfaç»B da Ca- 
ehoeira-maide, seriLiad« :• ^«r^ dvCajntm, ■» Barr'^» es- 
querda. Por ahi^aúmL taieXíftarreraâMdt-eadc^^-qiiftBdo 
o /vra aeeea, siir (itniiiuuâo zu:a a Bav«rK»r-'f vcit:i« 
caBc^irca dewen mc^mo na i«boada da catbMra, o qoa 
prava ai*) ser iasaperareJ o fc-aacalo. 

Ha época da lui^r vasiair, tea & »alu« S ptioKif de aUara 
e aa eachtiie p:4eriisi p:r ii . -i £iT«*nr caa ki c^iliaaaf, r*- 
moreado-K almaiaç pacrat ^a« i^si tal-B^trridarf, .nra- 
sioaaado€»iT!raie»fo>ru^ tui Kaiidw djfcr^ai^f/Sirfe 'leTa» 
aléai da caefewin rraud^, k» aita rt^i&ra di-ac&iudaCa- 
ehaeiriaàa foe bÍ> oryôe • BM^Bç^r oti^iár«>:/ á »t^>^. 

Dr|K>B da ;^Bt3CB:« co Crknr-^r» r-vn»'. Tfcti:ú k 'á^s rri->« 
fls aufBB^ia ^a ^nsia ivi, t['^. ik * sL" j cKTb t * ^ ^"t^a sar^eífla 
djreiu c* rrjf CkZà:L*r. M-5i..i- i. l»nt: * Cri: r:=:*i , * 
pela eiqperéa «i rki» UankiiL t Mae-jar». 

€ Ibdaaie axriB;a» fcor»? i> tra^se^^ prjr terra« t'n o ea- 
pitBQHieKrsie Aãuai^ev, k iitasi àe wr3.f oni^it^ íz;/í' 
riorei ^-j ri^ fteiiaaari, r:'i£:ief;t' 4» Eeeiqsrt^v, {;:í*' firi- 
UtãM a «SBzaita^j cos is ^'j»:m'ítA^ í^xvnk e tiA.:iLitz\ 
e o Er»^> de T>Bex'^^U. 

« Amja « Bí:^ Braa^r^ «U* lia»taB> cabedal de anaf, iíz 
a BBTâlar B^tcir;» d^ Sa=L^», q^e ib^qubbiikbó Er^it» 
vias e fiaraf ie traBée *i:«B?ia« qa» xi» > d^^acaa», » mt^ 
aaprânjB!^ peteyane òr.r m^aa^vt v M«^aré, cslax> Ca- 
áBaácCamrâ, Cariran ^^ :» ri. Uaiiacar:, irrciid^-M a 
4^ík» qí^ > c lh::z::x, ;zé d;rr*^ atiças cjrr^zMriào 
e B> f«al éthm.u ea ^ Mahó e Brfi« o Pirar», tor 

b> B3- 




í, fmad'^ iMis dia ^ t^abb f*r lerra, se 

iL 
feraiitia a* aa^*fa '^ Tiifari ^^.rre o ry>lt:i;cs:ii, ^ae 
iBdi> ao Ei:-i)2:ic tj ?c«:^aBâeBfS> á^ ^>.:i-k< éã 
Cnaaa lAíiaaé^za, z.^iàawt^ unl<a aBKar*a:«^ n-^b d!a 
OSB («r lem jv T^rc^ti a^^ dtiA R^^risL-.x:: ' zae 
iv4 ã cfj&m^.':*^; aa:-^ d^ ÍBáâús d. P^ioNesm 



119 Qi ãaiiaa davam a e^e ri'^ a B4Be de (jMonra/. 



— 108 — 

c Pelo occídente desagua no Rio Branco o rio Coratirí- 
maní. O braço do occídente, que se une ao Taruiú, tem a 
nome de Uraricoera, o qual se julga ser o Rio Braacu con- 
tinuado, e nelle desagua o Parima, famoso pelo nume, mas 
não pela grandeza, pois é de pequena consideração. > 

O Urarícoera forma-se de dioerentes jorros, principalmente 
da serra Paracaina, que para elle affluem com • s nomes de 
Majari, Idume e Uaricapará. £' caudaloso e banba cam- 
pinas lindíssimas. 

As margens inferiores do Rio Branco (abaixo das ca- 
choeiras) bordadas de lagos, são por demais férteis para a 
cultura lo algodão arroz, cacáo^ café e tabaco. 

Suas matas contém requissimas madeiras e drogas precio- 
sas, como baunilha, breu, cravo, óleo de copahiba, salsa, etc. 

O Sr. Gustavo Waliis, que em 1863 percorreu o altuRia 
Branco, entre muitas outras curiosidades, deu noticia da 
existência de uma arvore gigante, da familia das bombaci" 
néas^ que até certo tempo aamittia-se como subdivisão das 
VMlvaceas, 

As dimensões desse colosso, segundo o Sr. 6. Waliis, são 
espantosas e ainda superiores, afflrma elle, ás do ce lebre boa» 
bab da Seoe^ambía, às Araucárias ádíS províncias do sul e ás 
Sequoia-weUingtonias da Califórnia e da Slerra Nevada . (43) 



(43) O professor Brewer, da academia das sciencias de Was- 
hington, mediu na Califórnia, uma arvore sabida, que Unha 
275 pés de comprimento. A maior arvore medida pelo Sr. 
Brewer, tinha 20 pés de diâmetro a 4 ou 5 pés acima do solo. 

Na Califórnia vèm-se muitas arvores, que sobem direitas 
até a altura de 200 pés, sem nenhum ramo, e ahi então 
abrem*se ostentando a mais espessa e luxuriante folhagem. 

A Austrália possue arvores que nas dimensões excedem 
muito ás da Califórnia. Dizem que a sua grandeza colossal 
forma um notável contraste com a pequenhez dos animaes 
que Ibe povoam as matas. De uma excellente brochura es- 
cripta pelo Dr. Ferdinand Mueller, de Melbourne, e que é 
talvez o homem que mais bem conhece a flora australiana, 
extrahimos as seguintes curiosas noticias : « Desde que, áit 
elle, a chusma dos exploradores de ouro abriu-nos o caminho 
das gergantas tão remotas de nossas montanhas, muito se 
têm occupado os homens da sciencia com tudo quanto tem 
relação com a maravilhosa grandeza de certas arvores da 
Austrália e em particular de Victoria. Temos á vista cifras 
fabulosas e que nem por isso deixam de ser verdadeiras, 
visto como basôam-se em medidas tomadas com o maior cui- 
dado. A arvore que até agora se julgava ser a mais alta 
d'entre todas, era o karrí-eucalyptus (eucalyptus colossea), 
medido pelo Sr. Pemberton Walcolt em uma das gargantas 
do rio Warren : tinha de altura quasi 400 pés e na concavi- 
dade do tronco podiam estar muito á vontade três c^val- 
leiros. A pedido meu, o Sr. D. Bayle mediu nos desfiladeiros 



— 107 — 

A arvore do alto Rio Branco mede 260 pai mos de diâmetro 
na coDa, o que dá 780 de circamferencia, abrangendo assim 
^.700 palmos quadrados de superflrie. Sob esse immenso 
tecto de verdnra, podem*se aocommodar perfeitamente 10.000 
homens e sem constrangimento podia viver uma familia em- 
pregada na lavoura. Otuyuyu, pássaro admirável pelo ta- 
manho (44)^ escolhe os ramus da grande arvore para lívrar-se 
das settas do indio^eJá nos píncaros zomba até da pól- 
vora. 

Essa arvore^ tSo notável pelas suas dimensões^ é a Sumau^ 
meirat mni conhecida nas duas províncias do Pará e Ama- 
zonas, e que geralmente se encontra nas margens dos rios de 
agua branca. 

O 6oaòa6 da Senegambia pertence á mpsma família da sa- 
maameira. Tem de diâmetro na copa 162 palmos e por con- 
sequência 576 de circumferencia, occupaiidn Assim uma su- 
perficie de 27.300 palmos quadrados. Religiosa mente vene- 
rado, está além disso o beababsob as vistas <1» autoridade. 
Sap^nSem os naturaes que essa arvore conta 5.000 annos de 
existência. Com 50 annosa nossa suma umeira adquire as di- 
mensões, que mencionei. 

A palmeira, que dá a piassaba, é abundantíssima no Rio 
Branco e em geral em todo o valle do Rio Negro. Dizem que 



de Dandenong um Eucalyptus amygdalina, já cabido, e achoa 
que tinha 420 pés de compriuieuto. A 10 milhas in^^lezasde 
Healsville, o Sr. G. Klein arhou um que mediu 480 pés. 

Em Dandenong, ura eucalyptus amytfdalina forneceu ao 
Sr. B. Hayne as seguintes dimensões : comprimento do 
tronco, do chão ao primeiro ramo. 295 pés; diâmetro do 
tronco na altura do primeiro ramo, 4 pés; comprimento do 
tronco desde o primeiro ramo até o ponto em que quebroa- 
se, 90 pés ; diâmetro do tronco no ponto da fractura, isto é^ 
a 385 pés du solo, 3 pés ; círcuniferencia do tronco a 3 pés do 
cbin, 41 pés. 

Fimlmente, na cadêa de montanhas, que se ergue por trás 
de Berwick, perto das cabeceiras dos rios Yarra e Latrobe, 
ha um eucalyptus amyqdalina, cujo comprimento o Sr. G. 
Robinson calcula em 500 pés e a circumferencia em 81 pés, 
a 4 |iés dn chão. O mesmo Sr. Robinson viu um fagus cun* 
ninghami com 200 pés de comprimento e 23de largura. 

(44) O Tuyuyu, dizBaena, é uma ave ribeirinha^ de corpo 
branco e aza e olhos pretos: sustenta-se de peixes. EdiOr^a o 
ninho no cocuruto da grenha das arvores mais proeeras : 
nSo põe mais de um ovo e dizem os curiosos que uma vez 
nasce fêmea e outra macho e que andam com as mais , até 
formarem um casal. Os tuyuyas andam em bandos e ha' lu- 
gares, como nas vistosas praias doSolimões, aonde apparecem 
em alas concertadas. Ha tufuyu que tem de peso para cima 
de 20 arratetis. ' 



— 108 — 

frnoto é bastante oleoso. A tona é eomposla de jnnoo^ mui 
delicados 6 flexíveis, arermelhados, qae cingem o lenho em 
voltas multiplicadas. Esta (irodacção vem ao mereaáo em 
rama^ e manipulada em espias e amarras de varias bitolas, 
que exportam geralmente para o Pará. B* de mn>ita ntilidade 
na marinha de guerra e mercante, tanto para ò fabrico de 
cordoalhas próprias para espias, como também para o de vas- 
souras e escovas para o uso de bordo e domestico. 

A fazenda nacional teve já por sua conta em Bararoá<hoje 
Xbomar) uma boa cordoaria, goe bem conveniente séria res- 
tabelecer, a fim de ser aproveitado um produeto tão procu- 
rado e de tanta applica^o na marinha nacional. 

O tucumé também extrahido de uma palmeira de tronco 
bastante espinhoso e sem ramos, e que abunda nas margens 
do Rio Negro e seus affinentes onantes om todo o valle re- 
gado pelo Amazonas. Do seu cimo partem oinoo a sete íolhzs 
rei^ortadas das qaaes se extrahem filamentos raatto ^eme* 
Ihantesao linho, sujeitos amais delicada fia^o, embora nm 
pouco mais escuros. O tucum manipulado em delicados cor* 
ãões serve no fabrico de lindas maqueiras, para redes e tinhas 
de pescar e muitos usos domésticos ; em cordoalhas torna 
est^s muito superiores ás fabricadas como Hnhoe canhamc 
eiiropêo,.taqto pela sua flexibilidade natural e resistência, 
como tHmbem pela soa duraçio exposta ao tempo. 

Também é abi vulgar o caratiá, de umaçlantai)astante ft- 
brosa, de onde se éxtrahe iima espécie de linho muito alvo, 
porém mais áspero que este. Quandp preparado em cordoa- 
lhas, torjia estas bastante resistentes. SSo, porém, sujeitas 
a pouca durado, quando expostas á humidade, fulga-áèque 
manipulado ocarati^eom alcatrSo poderá servir no appa- 
velho de navios e em outros usos. 

Igualmente ahi se encontra, como em quasi todo ;o valle de 
Amazonas, a castcutkeira, arvore mage!stosa e de grandes 
aapupemas, a qual produz ouriços, contendo doze a vint€ 
castanhas. E' um dos ramos de grande exportação dás pro- 
yincias do Pará e Amazonas. A madeira serve para construç- 
ão naval, e a tona, depois de bem macerada e limpa, é a 
estopa da terra, que é como a depominam e vem áomer" 
eado em pannos de maiores ou menores dimensões, par^ ter 
empregaaa no calafeto de embarcaçSes. Dos fructos.' que 
também serve para a alimentando, se extrahe um excellente 
(A%o próprio para a iitl^minaji^o, pintura, e sobretudo muito 
útil nas fabricas de maehinais metallicas e cuteilaria, pela 
propriedade que tem de impedir a oxidação de qualquer peça 
juntada com elle. A grande quantidade de castanheiras ^ue 
possue o Amazonas facilitaria muito o obter-se semelhante 
niateria em tal quantidade que não haveria necessidade de 
importar outras do estrangeiro. A casca dos ouriços é um 
excellente combustível. 

E já que ahi mencionamos alguna specímensde prodigiosa 
vegetação das margakis do Rio Branco, ou antes de todi» o 
immenso vaJte do Amazonas, vem também a pello mencionar 
differentes outras producç5es que ahi abundam, dotadas de 



— 109 — 

maravilhosas virtudes tberapeatieas» e cajo estado tasto 
aproveitaria á sciencía e á baroanidade. 

Ahi vão os seos nomes e as suas differentes applicações, 
segando os profissionaes e as pessoas praticas do lugar^ com 
as qoaeâ tenho conversado. 

— Cumbarú oa cumaru, oa barú oa ainda cumbary (dip- 
lerix odorata). E' ama arvore colossal, de folhas pennadaa e 
fofiolos alternos; as flôr«^s são uapílionaceas termínaes. dis* 
postas em racimo^ ; o fracto é legume ovóide, formado de um 
tecido espoi^oso, contendo uma única semente branca por 
dentro e coberta por uma pellicula escura. Esta semente é 
de sabor amargo, cheiro aromático particular e comparável 
ao do meliloto, porém mais activo. Comas sementes ou fa- 
TIS costumam aromatisar a roupa, e preservai-as assim doa 
insectos.. também deitam-nas no rapé, para dar-lhe bom 
cheiro. 

O Dr. Martins é de opinião que as favas podiam ser em- 
pregadas como nervino, analeptico, cordial, diaphoretico e 
emmenagogo. Guiburt demonstrou que a mataria gordurosa 
contida na fava era um principio immediato particular, que 
denominoa Counian/ia ; esta e aromática, branca, crysteU 
lína e appròxima-se muito aos óleos esstmciaes. 

A amêndoa é empregada em tintura alcohoiica^ na ddse de 
um a dous escropulos ; a casca de uma a duas onças em de* 
cocção, internamente. 

A tintura aproveita na amenorrhéa e o cozimento da 
casca nasyphills, podendo com muita vantagem substituir: 
o gnaiaco. 

^Cipó^guira (Bignonia guira).— Planta que vegeta no 
Alio Amazonas, onde a sua raiz é empregada em cozimento 
como drástico. 

^Cipó-carurú (Eschites caruru ou ecbites elexicaca).-^ 
Pertenceiá família das apoq^nias. E' uma pequena planta lei- 
tosa. Caute annuaL erecto, quasi simples sublenhoso» guar- 
necida de poucas folhas, de palmo e meio a dous de altura ; 
flores terminaes solitárias ou dispostas em paniculas de mui 
poucas áôres; a corolla é monopetala, tubulosa, granle e 
cftr de rosa. 

AS partes do vegetal empregadas são : o lenho ou cipó, a 
aaa acção é resolvente e drástica, em alta dose. 

Toma-se em infbsão oa decocção na dose de meia a uma 
onça. 

Serve contra a dyspepsia, o enfarte das vísceras abdomi- 
naes, a constipação do ventre e a febre gástrica. 

— Cuáxinguba ou lombrigueira ou Huapuim-uassú, Pertence 
á família das artocarpeas, segundo Martius, ou á dai» 
nrticaceas, segundo Duchesne. 

As partas empregadas do vegetal são : o leite ou gomma- 
resíná liquida, e acção ou virtude ó anthelmintica e caus^ 
liça. 

Toma-se de um a dous escropulos em café ou agua pela 
manhã em jejum, por alguns dias consecutivos. 
O seu eSeíto ó real, mas é também bastante arriscado c^ 



— no — 

sea emprego, porque pôde prodaztr Qma violenta gastí o- 
enterite alcecosa, em consequência da propriedade cáustica 
que possue e causar a morte em poucos dias. Na capital do 
Pará deram-sfí três casos ha annos; em uma das víctimas 
procedeu-se á autopsia e encontrou*se o tubo intestinal 
completamenie ulcerado. Isto porém succede ordinariamente 
quando se da o leite em maior quantidade do que a prc* 
»cripta. 

— Puchiry ou Puchury ou Puchury -mirim ou ainda Pe- 
churim. (Nectandra puchury major et minar, segundo Nces^ 
ou Ucotea pichury, segando Manias.)— Pertence á família 
daslaurínéas. £' uma arvore, que oroduz uma grande noz, 
que encerra duas amêndoas a que dão o mesmo nome da ar« 
Yure. Ha duas espécies de puchiry, grosso e miúdo—: este 
é mais delicado assim no gosto como no aroma. Esta arvore 
é peculiar do Rio Negro e seus aiHuentes. O S€U fructo, se- 
gando Baena, foi colhido a primeira vez em Í775. 

Emprega -ie o fructo ou antes a semente a que dão o nome 
de fava . 

Toma «se internamente em pó, na dose de um escropulo a 
ama oitava e emprega-se com resaltado contra a diarrhéa, a 
dysenteria, a leucorrhéa, a cólica e o cholera. 

— Amapá, (Mapouria guyanensís, segundo Aublet, ou Dc- 
]iocarpus soramía, segundo Decandole.) — Pertence á familia 
das rubiaceas. 

E* uma arvore alta, que cresce geralmente á beira dos 
rios. Dá um fructo muito doce e de côr avermelhada. 

As partes empregadas são as folhas e o leite ou gomma re* 
sina liquida. A sua acção éresolutiva. AdecocçãodasTlhas 
é usada em locções e collyrios contra as ophtalmias ; e o leite 
em emplastro estendido sobre a pelle e coberto com algodão 
aproveita nas dores arthríticas. 

— Âvençãoon Samambaia''açú, (Adiantam brasilianum ?) 
— Pertence a familia das filices, ou fetos. E' um arbusto de 
ramos grossos e folhas semelhantes ás da artemísia. 

A massa branca, contida dentro do tronco delgado do ar- 
busto, em decocção , formando uma espécie de caldo gom- 
moso, é empregada com vantagem no tratamento das mo- 
léstias pulmonares, nos catarrhos chronícos do peito, nas 
rouquidões , na consumpção purulenta , nas vomicas do 
pulmão, assim como também nas convalescenças demoradas. 

— Anani ou Uanani ou Nani, ou ainda Mani. (MorouDbea 
coccinea, segundo Aublet ou Symphonia globulifra se- 
gundo Linnêo filho.) 

Pertence á familia das clusiaceas, segundo Martins, ou á das 
guttiferas^ segando Duchesne. 

As partes do vegetal empregadas são a resina ou melhor 
gomma-resina, a qae dio vulgarmente o nome de leite, e 
qae é extrahiao por meio de incisões feitas na arvore e a 
casca. O leite ó resolvente e a casca é purgativa. 

Com algodão faz^se do leite emplastro e da casca meia onça 
para deeoeçio em nmai Ittnd^agna. 

Jtejyregi^ie iun útÊjgÊÊÊiÊÊÊã, rlieiuiiaiismaes e pleuro* 





— m — 

dinícas; nas pleurites chronicas, nos enfartes glandulares» 
nas obstrucções do figado ou baço, e em geral nas moléstias 
chronicas. 

— iítiiraptcama.— Pertence á família áasputaceas. Empre- 
ga*se toda a planta e particularmente a raiz. £' nm brando 
tónico. Erradamente considerado por alguns^ como estimu- 
lante do systema nervoso e aphrodisíaco. 

E' tomado internamente em decocçSo, na dose de nma onça 
para libra e meia d^agua ; e externamente em proporções 
maiores para banho geral. Serve contra a frouxidão dos ner- 
vos e fraqueza dos membros. 

— Cedro ou acayacà em lingua tupy. (Cedrus deodara, ce- 
dras brasiliaDUs, e segundo o Sr. G. Wallis— cedrela odo- 
rata.) — Pertence á antiga família das caniferas,e moderna- 
mente á das abietineas. Em prega -se a casca e também o 
lenho» 6 a ac(^o é febrífuga, tónica e diurética. 

Toma se internamente na dose de ama encapara libra e 
meia d^agua em decocçao; e externamente em maior quan- 
tidade para banhos parciaes ou geraes, e em carvão redu- 
xido a pó, para formar pomada com gordura ou óleo de anta. 

Como febrífugo, especialmente depois de combatidas as fe- 
bres intermittentes ; por espaço de vinte e mais dias de uso 
consecutivo do cozimento duas ou três vezes por dia. Exter- 
namente em banhos locaes ou geraes, para debellar as or- 
cbites, algumas inchações, e mesmo a aoasarca. 

A pomada ó bastante proveitosa contra as dydimítes oa 
orchites chronicas com endurecimento do órgão. Dizem que 
as. folhas verdes da arvore gozara de propriedade emména- 
gogas, diuréticas e diaphoreticas. 

Ha duas qualidades ae cedro, branco e vermelho. E' pre- 
ferido este ultimo. 

^Piraiuauara ou pimenta de buto.^E' uma arvore de terra 
firme e pouco alta. 0^ fruetos nascem em cachos e agarra- 
dos á arvore desde a base até o cimo. São de côr vermelha^ 
e semelhantes á pimenta. Ralados e bebidos em agua morna^ 
aproveitam nas diarrhéas, vómitos e dores de estômago. 

—Pafagu^ira.— Pertence á família das labiadas; a sua acção 
é excitante. Emprega-se externamente em decocçao na dose 

Íe ama e mais libras para banho i?eral. Serve para com- 
ater as dores rheumaticas, as metrices chronicas, as ed< ma- 
cias das articulações e os enfartes das glândulas lymph^ticas. 
. -— Uácataca ou Paracutaca,-- Xrwore frondosa que dá 
íractos em ouriços. E' da terra firme. O fructo ralado de 
modo a ficar reduzido a pó e bebido em agua morna, é excel- 
lente contra as hemorrhagias. 

— Apehi ou contra-herva, ou acariçoba, ou ainda herva do 
cojpUão (hydrocoiyle bonariensis ou hydrocotyle ambellata). 
—Pertence á família das umbelltferas. 

Emprega-se toda a planta, especialmente a raiz e os caules. 
Cresce espontaneamente pelos campos e é também encon- 
trada nas províncias do Ceará, Pernambuco, etc. 

A sua acção é aperiente, diurética, peitoral, e em alta dose 
é emética. 



— m — 

Toma*se internamente em decocçSo na dose de meia onça. 
lambem se emprega em agoa distíHada^ em xar(H>6 e em 
sueco expresso. 

£' applieada oonira os enfaries do flgado, rins, e em geral 
das yiscerasabdominaes, contra as tosses e os catarrhos pai- 
monares. A agua distilada ó usada contra as maneiras 6 
éphelides ds face. 

— Castanheiro ou zabucajo ou jacapucafo^ ou ainda sapu- 
caia (bertoletia excelsa^ lecvthis grandíflora ou lícytbis za- 
bncaio).— Ha duas variedades. A sua acçio é tónica, anti- 
ictérica, desobstruente e diurética, 

Toma-se internamente em decoc^^o na dó«e de uma a 
duas onças, sé ou acompanhada de camapú onabutua, pftra 
Hbra e meia d^agua . 

E' muito aproveitarei no tratamento da hepatite cbro- 
nica. da icterícia, em geral das affecçQes ehronlcas ou sub- 
agnoas das vias gástricas, e toma-se consecutivamente de- 
pois das febres intermittentes, por 15 a 20 e mais dias, o 
eoeimento, pela manhã e á tarde. 

— Macaranduba,^ Enxro em duvida, diz um dístincto 
botânico brazileiro e do qual tenho tomado a maior parte 
destas noticias, se esta gigantesca arvore será o Galactoden* 
drontaileiáe Humbo]dteBompland),oqual abunda na cor- 
dilheira dos Andes, especialmente na Goiumbia e que estes 
dous naturalistas classificaram na familia das artocarpeas. 
Os habitantes da cordilheira lhe chamam Paio de vacca ou 
arvore vacca. 

As partes empregadas s3o : o leite ou gomma- resina li- 
quida. A sua acção é resolvente e peitoral. 

Toítaa-se internamente combinado com algum cozimento 
emoliente ou peitoral (partes iguacs) ; e externamente ent 
emplastro estendido sobre a pelle e coberto com algodão. 

£' empregado com aproveitamento tías moléstias do peito. 
Os emplastros neste caso costumam applicar*se entre os omo« 
platas e sobre esterno ao mesmo tempo. 

A gente do sertão usa como alimento do leite desta arvore, 
qne extrahem por incfsOes feitas na casca da arvore e o 
misturam com café, chá e outras bebidas. O me£mo prati- 
cam os habitantes da cordilheira dos Andes com igual iéite, 
que tiram da sua Galactodendron utile por igual processo. 

Este leite coagula-se dentro de 24 horas, e assemelha-seá 
gutta-percha ou gettania, que também se extrahepor inci- 
sões de outra arvdre pertencente á mesma familia das sapo- 
faceas {Isona/ndra gutta)^ a qual vegeta em Bornéo e varias 
ilhas do archipalago malaio. A differença consiste apenas em 
ser a gutta-pèrcha trigueira^ emquanto que esta substancia é 
branca ; gozam porém ambas do mesmo gr&o de elasticidade . 
A ingestão deste leite no tubo alimentar produz constipação 
de ventre. 

Eis o que a respeito do leite da Galacíodendron escreve o 
Dr. Maout em sua obra de botânica : 

c E' branco e espesso, ofl<3recendo todas as propriedades 
physicas do melhor leite e além disso um cheiro balsâmico 



— 113 — 

muito n^radavel. A 5ua coiaposiçio chimica diíTereda do 
leite animai ; a manteiga é substituída pela cera, o cassam 
por ama sabstanoia azotada analoj^a á íiiirinn do saogae, o 
6ôro por um liquido assucarado, purém naoé menos nutriente 
do que o verdadeiro leito. So o íaziim ev.iporar brandamente 
ao fogo eonverte-sc em uma esfiecíe de frangipana o a parte 
lihrinosa, que se torna csjii^ssa, c^hala o cbeiro de carne 
fríia em unto. 

-- Caferana ou raiz dejaravê-nrn ou do j acamar u ou quas- 
êia do Pará (tachia ííuyan usis).— Pertence á familia das 
genfíianeas. È' da altura dtí nm borncm ; tem as folhas 
oblongas acuminadas, attenuad^is na Imse ; floras solitárias, 
axiJJares^ rintes e amarcllas; a rniz ó grande e vertical, 
quasí simples, de sabor muito ainurgo. A sua acção é tónica 
«anti-febril. 

£mprega-se para uso interno em infusão na dó5e de meia 
^ uma onça para libra e m^^a d'agua ou cm tintura na dósf 
de uma a duas oitavas, duas vozes por dia. Pode supprir 
com vantagem a quina. Eucoutra-so nas matas do rio Ja- 
purá, no município de Villa B^^lia da Imperatriz e na fre- 
{raeiia de Borba, no Madeira. Dizem que na ilha de Marajó 
lambem se encontra . 

'•^Guaraná ou guaraná-nba, em língua geral (paulinea sor- 
bilis),— Pertence á familia das sapindarms. Planta vivaz, tre- 
padeira em forma de sipó. Contém grande quantidade do 
caffeina, gomma, gmido, matéria gorda e tanníno. Emprega- 
do o fructo, reduzido á massa sob diversas formas. 

E' refrigerante, calmante, adslrinírente e sub-tonico ; é 
também reputado como anli-íebril. Toina-se internamente 
reduzido a pó ténue e fmo^ por meio de uma grosa, na dose 
de 2 a 4 oitavas para uma libra d'agua fria ou tépida adoçada 
eom assucar. 

Pôde repetirse varias vezos no dia esta mesma preparação. 

E' empregado com grande proveito nas diarrhéas, dysen- 
terias, cephaléas, nas moléstias das vias urinarias proce- 
dentes de relaxamento dos órgãos e nas excitações nervosas. 
O uso continuado do guaraná produz ínsomnia. Da raiz, 
que é amargosissima, usam os índios em infusão como pre- 
yentivo das febres intermittentes^ e dizem que colhem bom 
resultado desta pratica. Diz o Dr. Marliusqueo guaraná co- 
hibe a demasiada sensibilidade do plexo intestinal, corrobora 
o estômago o os intestinos e impede a excessiva evacuação 
do muco ; excita algum tanto os movimentos do coração o 
artérias* e augmenta a díaphorese. 

E' hoje introduzido na maioria medica europóa e empre- 
prado com vanlaíci^rn nas diarrhéas, cholera, dysentcria, in- 
digestão e enxaqueca * mesmo contra tísica tem sido applí- 
cadoeom vantagem ; é considerado como anaphrodísíaco. 

Ofructodá em cachos á semelhança dos da uva,e quando 
está maduro éde uma bella côr vermelha rutilante. A massa 
conhecida pelo nome de guaraná, propara-se da seguinte ma- 
neira: a amêndoa, que é escura e quasí do tamanho de uma 
avela, lorra-se, irilura-se bom om um pilão, ama"^sa-.''e de- 
i3 



— Ilí — 

pois com agndí e âá*se-lhe então a forma ou de magdaleõe^on 
oatra qualquer^ para por ultimo ser levada ao forno a seccar 
e endurecer. Assim preparada dura annos sem alteração. 
Abunda nos municípios de Maués e Yilla Bella da Impe* 
ratriz. 

— AariSo do Pará ou Jambú ou Jambú-api ou Jamburana, 
on í^má^i Pimenteira do Pará. (SpHanthes oleracea ou radi- 
oans.) — Pertence á família das compostas, synanthéroas, se- 
gundo Martins, ou á das radiadas, segundo Duchesne. E' 
planta decaulo ramoso ediffuso^ de folhas opposias peciola- 
das, larí,Mínent<'Ovaos, com a base obtusa ou subcordadasde 
um verde-arroxado, i».renadas, quasi dentadas ; pedúnculos 
terminaesuniccphalos, excedendo as folhai, flores disposta» 
em capítulos esphericos um pouco cónicos, de meia pollegada 
mais ou menos de diâmetro, qnasi compactos; flores amarel- 
las. Toda a planta, principalmente as ítòres, contém um prin- 
cipio estimulante, o qual reside em uma resina molle. E' 
além disto anti-scorbutica, sealagóga, odontalgica e vermí- 
fuga. Também passa por Ifthonlríplica. Mastigada produz 
na boca a mesma sensação que costuma produzir a raiz de 
pyrelhro, e como elle excita lambem a secreção da sa- 
liva . 

E' applicado em infusão e cm xarope, asssim como era 
locções, gargarejos e collutorios. 

E' empregado com vantagem contra escorbuto, as ulceras, 
que participam dnste vicio, os vermes inteslinacs e contra as 
dores de dente. E' também procurado para os usos culiná- 
rios. Nasce espontaneamente pelos lagos, igapós e margens 
dos igarapés. 

— íáanacmi ou Manacá ou Gerataraca ou Jcrataca, ou ain- 
da Mercúrio vegetal (Francisca uni flora).— Pertence á famí- 
lia das scrofularineas. E' um arbusto de folhas alternas, 
oblongas, aouminadas, inteiras, onduladas e curtamente pe- 
cioladas; flores solitárias e terminaes, corola monop^Uala, 
limbo dividido om cinco lobos arrcdondadov^e de perfume se- 
melhante ao narciso. Toda a planta e principalmente a raiz 
é impregnada de um principio- amargo e enjoativo, que esti- 
mula a garganta. 

Emprega-se internamente em decocção de meia a uma 
onça em libra e meia d'agua, ou em tintura alcoholica ou em 
infusão em vinho branco. 

E' um poderoso excitante do systema lymphatico e modifi- 
cador enérgico da indiosyncrasia eserophulosa ; é muito re- 
commendado na syphilis, no rheumatismo e na frouxidão 
dos membros thoraxicos eabdominaes. Também se emprega 
como antídoto nas mordeduras das cobras.venenosas. 

Desafia grande salivação e extraordinário movimento con- 
vulsivo nos lábios, língua e fauces . Dizem que promove o 
aborto. Dado em dose elevada obra como veneno acre. E' 
planta íqui muito usada pelas curandeiras e pagés com tal 
on qnal resultado. Ha duas qualidades desta planta, uma 
de íolha semelhante á do café e outra de folha mais cora- 
i»rida somolhante á da mangueira. A osla ultima duo (^ 



-i-JS 



— 115 — 

nome de Manacan de veado^ em virtude de um preconceito 
popular. Refere Bacna que os indios acreditam que 
alguém embriagando«se com eila e conversando depois com 
mulher pejada, lhe passa a embriague/, e indo ao mato caçar 
veados, acha-os e apanha-os sem dilficuldade, porque estes 
não correm, nem fogem. 

O extracto do manacan 6 empregado por algumas tríbus do 
Alto Amazonas para envenenaras settas. 

— Lacre ou páo de lacre , ou caaopiá cm língua tupy 
(vismia guayanensis ou vismia lomentosa ou vismia lacci- 
íera). — Pertence á familia das hypericineas , segundo 
Mariius, ou ádas euphorbiaceas, segundo Duchesne. 

E' uma arvore ou antes um arbusto de folhas ovaes oblon- 
gadas, pontudas, com pontos translúcidos, brancas- tomen- 
tosas por baixo, flores em racimas terniinaes compostas. 

Deste arbusto ubtem-se um sueco gommo- resinoso por meio 
de incisões feitas no tronco e ainda em todas as suas partes, o 
qual concretnndo-se, torna-sc em baí^ns còr de fogo. Esta 
gomma -resina, chamada Gomma lacre ou gomma gutla da 
Americay é resolvente e drástica e pôde substituir a verda- 
deira gomma guita. 

Emprega-se iiittirnamente em dccocçao na dósc de meia 
onça para uma libra <i'agua e externamente em maior porção 
para banhos. Aproveite nas moléstias das vias urinarias. 

Ha duas qualidades de lacre : branco e vermelho ; prefe- 
re-se o primeiro. 

— Cunambij ou. Conahi^ ou ainda Conat/u' (Phyllanthus co- 
nami).— Pertence á familia das euphorbiaceas. E' narcótica o 
diurética. Esta planta, de um cheiro viroso, muito usada 
pelos indios nas moléstias das vias urinarias, na diabétis, na 
retenção de urina, etc., é entretanto perigosa em virtude da 
sua propriedade narcótica; por isso deve ser administrada com 
a maior reserva e cuidado. As folhas frescas socadas e lança- 
das nas aguas dos rios ou lagos, embriagam os peixes e os 
trazem á tona d^aírua. 

— Gtiapw/ií.— E' uma planta trepadeira. Obra como tónico. 
A raiz criia ou assada no rescaldo, ralada e depois exprimida, 
para servir o liquido nas primeiras 24 horas, é empregada 
com muita vantagem nas ophtalmias chronicas. 

— Jaca7»icaá. — Pertonceá familia das euphorbiaceas. Em- 
pregam -se as folhas, em infusão, contra os vermes inlesti- 
naes. O seu emprego «arriscado particularmente quando nao 
89 elimina a flor. 

Nào ha certeza, diz o Sr. Dr. Coutinho, mas consta que 
no Rio Branco também existe ouro. Os indios desse rio ap- 

Sarecem com espingardas finas compradas aos inglezes de 
lemerara, e pensam algumas pessoas, julgo sem fundamento, 
que não é a troco de xirimbabos (45) nem de enfeites que elles 




(15) .\nimaes domésticos 



— 116 — 

obtêm armas de tanto valor, e sim a peso de ouro, que todos 
suppõem muito abundante. 

Noalto RioNeprrofoi achado um fragmento de sulfureto 
de ferro nos veeiros do quartz das rochas graníticas. 

São as margens do Rio Branco, assim como os demais rios 
queregamovalie do Amazonas, abundantíssimas de pira- 
rucu {vaêtftí gigas de Gastelnau). 

Este peixe sal?ado é um dos géneros que mais concorrem 
a facilitar a alimentação publica em geral e quasi que cons- 
tituo a l>ase do sustento de uma boa parte da população. A 
língua do pirarucu, duríssima como ferro, serve para ralar 
e é com ella que costumam os indígenas ralar a guaraná. 

A pesca cm geral no Amazonas e feita de diversos modos, 
empregando-se ora a rede ou a tarrafa, ora anzóes fixos em 
caniços ou em linhas apropriadas, oraharpões e frechas de 
diversas férmas, segundo a espécie do peixe ou crustáceo, 
ora tapando a boca dos lagos e dos igarapés, ora finalmente 
embebedando-os com o summo do timbó e cunamby (vege- 
taes venenosos). 

A pesca, porém, do pirarucu é dos seguintes modos: ser- 
vem-se algumas vezes do anzol ou frecha, outras do harpão, 
cuja haste tem ds 2 a 2 1/2 braças de comprimento, no mo- 
mento de subirá tona d'agua ou boiar, como dizem; do ca- 
mury, que é uma bóia com isca para chamal-o á superficie 
d'agua, e então harpoal-o ; ou tapando a boca dos lagos, ou fi- 
nalmente empregando o cacury, que é uma espécie de cer- 
cado. 

Os demais peixes são apanhados á rede, á tarrafa, á frecha, 
tapando-seos lagos e igarapés ou embriagando-os com o sueco 
do timbó e cunamby, como já disse. O tamhaqui e o sumby 
são pescados com anzóes especíaes 

A pesca do pirarucu é em geral feita nos lagos e rios que 
communicam com o Amazonas. Se o pescador erra o peixe 
ou 96 por qualquer motivo este lhe foge do harpão, dizem que 
reúne os filhinhos, mette-os nas guelras e com elles desap- 
parece. 

Não ha ainda medida nem regra, que eu saiba, nesta vio- 
lenta caçada. Tanto o grande como o pequeno peixe morrem 
á fisga, ao anzol e ao harpão, e não sorá para admirar que 
este importantíssimo recurso da pobreza venha a escassear 
em um futuro que talvez não esteja muito longe, porque 
accresce ao estrago feito pela mão do homem a diminuição 
considerável da espécie^ occasíonada em alguns annos pela va- 
sante extraordinária dos lagos. Em alguns pontos em que até 
então abundavam, já hoje se têm tornado raros e escassos. 

Seria de summa conveniência que as camarás municipaes 
respectivas, ou quaesquer outras autoridades que tivessem 
semelhante competência, formulassem posturas ou regula- 
mentos, prescrevendo a época em que esta pesca devia ser 
feita, e estabelecendo condições que evitassem a aniquila- 
ção da espécie pelo estrago do homem. Os lagos não são mais 
do que viveiros, que devem ser cuidadosamente conservados 
para que possam abastecera população. 



- 117 - 

Como o piraracú oa sem duvida cm muito maior quanti- 
dade Qbandam em algum rios as tartarugas, e como aquelle, 
também sâo ellas victimas da mais violenta guerra. £' re- 
voltante o que se pratica nas praias, depois que as tartarugas 
alli sobem para df'po«itarem os ovos ! « Para as mulheres^ diz 
o Sr. eommandante n. L. Tavares, começa o trabalho, para 
os homens a mais desenfreada orgia. Milhares de milhares 
de ovos» desses germens de uma futura, e abundante ri* 
qneza, permitta-se-me a expressão, sâo sacrificados á vora- 
eidade dessas aves de rapina, para o fabrico da manteiga. 
Basta qu» se diga que uma tartaruga pòe, termo médio, 100 
ovos, e que para um pote de manteiga são precisos cinco 
mil, pouco mais ou menos.» 

c O apanho dos ovos nas praias, diz Baena^ é feito pelos in- 
dianos deste modo : cada um delles, munido de um feixe de 
varinhas adelgaçadas na ponta, decorre ao Jongo da praia, 
cravando-asá direita e á esquerda da direcção que leva e 
deixando-as fixadas no mesmo sitio em que notou na extre- 
midade delias os vestígios da porção amarella dos ovos : e 
acabado este sondamento, todos ellos surribam a areia da 
inbumação a.ssígnalada pelas varinhas e apanham os ovos^ 
os quaessão depois pisados e fervidos em tachos. > 

A carne das tartarugas c gostosa, diz o Sr. Ignacio Accioli ; 
estas nos mezes de Agosto, Setembro, até o principio de Ou- 
tabro, sabem dos matos alagadiços, onde se nutrem de her- 
vas e frutas : nos dias de sol quente sobem ás praias á en- 
zagar-se, voltando depois ao rio : nos fins de Outubro é 
que desovam, cada uma delias procura na praia o terreno 
mais enxuto a que chamam taboleiro e cavando-o na pro- 
fundidade de quatro palmos ou mais, segundo o seu tama- 
nho respectivo, ahi deposita os ovos em numero de 170 a 190, 
e cobrem o ninho, calcando-o com o pfíito. Conhece-se o lugar 
do taboleiro pelos altos e baixos, que forma na praia, porque 
nunca fica no nivel em que a deixou a vasante, e destes ovos 
se fabrica o azeite conhecido por manteiga o que constituo 
ura dos ramos fortíssimos do commercio do Pará e Rio Negro. 
Apezar de bem vasculhada dos ovos a praia, todavia os que 
ficam desenvolvem -se no mez de Dezembro com o calor do 
sol e as pequenas tartarugas procuram, de noite, os rios, 
INira escaparem á voracidade dos pássaros, que as esperam 
nesse transito. Muitas tartarugas sâo apanhadas vivas nas 
praias, outras em tapagens de rios no tempo da sua enchente, 
6 algumas sendo frechadas por elevação, no que sào insignes 
ce Índios, com frechas de ponta de aço, unida á liaste por um 
alvado e presa por uma linha enrolada, que chamam então 
sararacas. Os ovos são pouco menores que os :o ;ral linha, 
sua casca é membranosa e dagemma o ciara < > rretidas so 
forma o azeite: aos machos das tartarugas chamam capi- 
taris esão menores que as fêmeas. Ha outra qualidade de 
tartarugas conhecidas por ^racfljds, assaz pequenas em rela- 
ção comparativa áquellas, porém mais saborosas c sua carne 
demais fácil digestão. 

Omatamatâ. portenrentc ã moí^nia fomilin, habita unira- 



— H8 — 

mente nos lagos: o pescoço é desproporcionado assim como 
a cabeça e a concha cheia de tuberosidades e excrescências es- 
cabrosas. 

Ha ainda uma terceira espécie, qne é a Acambéoa. Tem a 
concha quasi chata. « Costumam encovar os ovos, diz Baena, 
nas praias das ilhas que jazem entre a villa de Souzele a 
primeira cachoeira. > 

A 8araraca(kJò) de que acima fallei, é uma flecha empennada 
impellida por um arco, tendo na parte superior um encaixe, 
a que dâo o nome de virote. £' composta de duas partes: do 
hastil, que é feito geralmente de canarana ou de j^aracaúba, 
e da ponteira, feita de madeira muito rija ou de ferro, de 
mais de uma pollegada de comprimento. Estas duas partes 
prendem-se uma á outra por uma linha de carauá, que ó 
muito forte, enrolada na haste. 

Armam a sararaca do modo seguinte: enrolam quasi toda 
a corda na flecha, deixando apenas uma pequena porção, de- 
pois esticam esta porção e introduzem a haste da ponteira no 
fundo do virote, qne fica deste modosegurona flecha. 

Atira-se por elevação no lugar em que a tartaruga faz re- 
demoinhar a agua. Calculam a distancia do animal, dão certo 
desconto para a queda c arremeçam â flecha, que sobe a uma 
grande altura, voltando em seguida, ficando cravada a pon- 
teira com a haste no casco da tartaruga. O animal foge ou 
mergulha, levando o harpão enterrado no casco. Em todo 
ocaso a flecha decompõe-se {sararaca), o fio de carauá se des- 
enrola e o hastil da flecha sobrenada, servindo de bóia para 
indicara carreira que a preza leva ou o lugar cm quejse 
acha. 

O comprimento da corda é sempre proporcionado á pro- 
fundidade do lugar em que a pesca é feita . 

E' uma maneira de pesca em extremo curiosa e divertida e 
aqui no Amazonas muitos indivíduos encontrei que são nella 
sobremodo destros. 

Hei de ainda provavelmente ter occasião de fallar das tarta- 
rugas e de descrever essa saturnal do apanhamento dos ovos, 
que tanto concorrerá para o despovoamento nos rios e lagos 
desses animaes tão úteis. 

Pescam o peixe miúdo com uma flexa que não é implu- 
mada, tendo na extremidade superior uma haste de madeira 
encaixada na (lech) e que termina em uma ponta de ferro, 
um pouco achatada. Acsta baste duo o nome de suumba. 

Também o pcixe-boi ou manaij em Jingua indígena, é muito 
commum no Amazonas o nos lagos e rios que delle se for- 
mam. 

E' o manatus americanus de Desmarest. 



(^) A paUlYn iOraraca, quer dizer cousa quo se des< 



— 119 — 

A semelhança da sua cabeça, quasi idc)itíca á da vítelia, Hio 
faz dar estadcaomíaação. Â carne, e com particularidade a 
do ventre, dizem ser muito saborosa. Este curioso animal 
attin^e a k metros c até mais de comprimento. 

Paliando acerca do peixe-boí, escrevia no seu curiosissimo 
diário de viagem o bispo do Pará D. Frei Caetano Brandão: 

c Entre as cousas que tenho aqui admirado, foi um cha- 
mado peixe-boi. Dísseram-me que era dos mais pequenos e 
comtudo seria do tamanho de um novilho de um anno. Só 
tem o focinho semelhante ao boi ; nada mais. Junto ao pes- 
coço vém-se-lhe dous pequenos braços e a cauda ; o resto tudo 
é carne muito succosa ; tem banhas como de porco e delias se 
extrahe muita cópia de azeite^ que contribuo para a fartura 
do Estado, como também a carne» que é semelhante á do 
porco. Este animal pare os filhos e os cria aos peitos ; sus- 
lenta-se unicamente de feno ou hcrva, que nasce nas mar- 
gens dos rios. . . • Asseguram-mo que ha peixe-boi que deita 
vinte a trinta potes de azeite ou manteiga. » 

Afflrma o Sr. Emanuel Liais, que o peixe-boi não é abso- 
latamente herbívoro, visto comer também peixe. 

Aqui no Amazonas todos me asseveram o contrario. 

Com a carne do peixe-boi fazem chouriços saborosos a que 
dão o nome áemixiras. 

< Ha outros peixes-boi, diz Baena, que diiTerem destes na 
corpulência, que é maior, e na gordura e toucinho, cuja 
quantidade é tal que mui pouca carne se lhes divisa. A estes 
chamam peixes-boi de azeite, porque só para isso servem. Nos 
lagos de Faro ha muitos desta qualidade c alguns tamanhos, 
que de um se pôde extrahir quasi uma pipa de azeite. » 

O peíxe*boi vive em geral nos rios e nos lagos de agua 
doce e mesmo salgada, 

c Com viagem de dous dias, subindo, diz o capitão tenente 
Amazonas, já se principiam a avistar, em longínquo hori- 
zonte, as elevadas serras, cujas abas, de 64 léguas em diante, 
obstruem o rio com cachoeiras. » 

E' sobretudo nas margens do alto Rio Branco que se encon- 
tram os lindos e tão afamados gallos da serra (47). Tem bico 
e esporões como o verdadeiro gallo, e um pennacho quasi 
da formatura de um leque aberto, que lhe principia do pes- 
coço até a ponta do bico, bordado todo o pennacho de uma 
orla encarnada. São em geral amarellos, menos a gallinha. 
1^0 Geará, em casa do meu amigo o Sr. de Vasconcellos^ vi eu 
um de lindíssima côr de rosa. 

Eis aqui o que na sua Coronraphia e naquella linguagem 
que lhe ó peculiar, escreve Baena acerca desse tão notável 
pássaro : 

« E' bellissimo entre todos os pássaros do sertão do Pará 
o denominado gallo da serra. 



(47) O gallo du serra c o pipra nipricola de BulTon. 



— 120 — 

c o sea valto, maior que o de um pombo, é ernptumsrdo 
de branda côr do ouro hrílhanto c a crista levantada da 
mesma côr, enfeitada na orla de vermelho. No vôo trans- 
cende o maçarico real e o seu canto assemelha-se ao clangor 
agudo do clarim mavórcio. 

« Este pássaro lavra o ninho de terra no intimo recôncavo 
dos penhascos ou sobre a superfície das serras^ esteja ou ii«o 
essa superfície vertical ao horizonte ; c fícam tão duros, que 
com sobeja diíficuldade se pódedesmantela(-os: a suo figura 
tem parecença de um pião de guarita de muralha. 

c Éetes garbosos pássaros, continua elie, tôm o uso do sa- 
hirem uma vez no anno do seu habitual recesso e appare- 
cerem no contorno das paraíjons habitadas. Os caçadores 
referem que elles costumam pousar nas franças de qualquer 
arvore de empinado tupc e delias descer alguns para formar 
ao pó da mesma arvoro um terreirinho bem limpo, em torno 
do qual deixam remanccer certos pequenos arbustos, em 
cujas hastes cmpoleiram-so e alternos passam de utn para 
outro arbusto e descem ao terreirinho, onde travam ligeira 
dansa até cançar: depois remontam a grenha da arvore^ da 
qual se arremessam outros para exercitarem a ntesma coréa 
genial. Tendo todos acabado de brincar, arrancam d'alli, 
deixando um companheiro de atalaia, o qual raras vezes 
abandona o lugar antes de ser substituído: e se acontece 
que o caçador o mata, ou se ellc próprio se ausenta, os galtos 
elegem logo outra arvore. Estes pássaros são mui variáveis 
no alimento ; diariamente buscam cíbato em todas as arvores 
fecundas. 

< O destro caçador para os prôar tece laços mui subtis no 
mesmo lugar que elles preparam para os seus britcos ou ^- 
preita a occasião em que elles gozam as delicias do banho nas 
correntes junto aos penhascos, á sombra dos qnnes lhe faz 

Sentaria para que lhe chegue o tiro. E quando por qualquer 
estes modos nada consegue , mettc um pedacinho de Mh» 
de ubim (48) entre duas palhetas de Uarumá (49), eas npplica 
a bocca e assopra de tal sorte que arremeda o canto do gallo 
da serra: e por este reclamo obtém que esta ave se approximê 
e venha a ser victima do som da morte. 

t A feniea destes pássaros é totalmente diíferente na côr das 
pennas ; cila equivma-se muito com uma gallinha preta.» 

Uma outra ave, que abunda nas margens do Rio Branco é 
a Acauan, do tamanho pouco mais ou menos de um gavião 



(48) Ubim, diz o mesmo Bacna que c uma arvôreta ulip:i- 
naria, que nasce om raaior cópia nos terrenos onsopad os. 
Tem um pequeno tronco parecido com a canna da índia. 
As folhas são largas, curtas c bifurcadas o o talo comprido. 

(W) Uarumá, ha do duas espécies: iwrumá-m/riw, qMe ô 
uma planta que cresce direita, com folhas larjras, c o uarumá- 
nssii, que icm o tronco (?rn^so »^ poucos ffalhos. 



— 121 — 

real e que só se nutre de cobr.is e ins.^ctos venenosos. Cha- 
mam-na acauan, porque no grito alto c prolongado que solta 
parece proferir esta palavra. 

As pessoas supersticiOFas considoram-na agoureira de 
grandes males e ca Iam ida '1 es. E' inimiga da cobra. Quando 
saecede avistar alguma, tem certa siinh.t, que, usando delia, 
apparece Jogo outra acanan: repentinamente investem ambas 
contra a cobra^ por maior que esta soja, por diversos lados, 
escudando-se com uma das azas. Emquanto está a cobra oc- 
oapada com a que tem em frente, a outra fere-a pelo lado 
opposto, de sorte que, cançando-a assim, matam-na a seu 
salvo e comem na. 

Também infestam aquellas parasrens grande numero de co- 
bras, como, entre outras , as cascavéis e as araraòoias e pa- 
rauaboias, 

A araraima é toda escarlate, ao passo qne a parauabnia é 
de um verde claro. Anirmaram*mo que estas duas ultimas 
espécies são tâo venenosas cumo o surucucú e jararaca, 

Ecomo de cobras falloaqui, vem a pello dar noticia de 
uma planta denominado Paracary e que é geralmente no 
Pará e Amazonas considerada como antirloto ou contraye- 
Heno das mordeduras do cobras, picadas de arraia>, lacráos 
e outros animaes venenosos ; noticia que deve interessar so- 
bretudo áquelles que habitam roças, fazendas de creacão de 
gado e outros lugares em que abundam esses animaes. 

Para vulgarisaçào desta noticia, aproveilo-mo de uma im- 
portante memoria escripta pelo illustrado Sr. Dr. Francisco 
da Silva Castro, que t'íve a bondade de in\< fornecer. 

Foi o Sr. António Francisco Pereira da Costn, conhecido 
por António Angico, e morador em Santarém, quem chamou 
primeiro a attençSo para esta planta a respeito das suas vir* 
tudes antivenefícas e lhe deu o nome de Paracary, em razão 
delia vegetar mui abundantemente no seu sitio, estabelecido 
aas margens do lago Paracary, na comarca de Santarém. 

« Devo, todavia, declarar que não ó só aili que floresce se- 
melhante planta, diz o Sr. Dr. Castro: por toda a parte ó 
encontrada na dita comarca e é muito ae crer que o mesmo 
sacceda pelas outras desta província. Nesta capita] (^Belém) 
cresce espontaneamente pelas estradas de Nazareth, S. Jero- 
Bjmo e cemitério, e em geral por todas as rocinhas (chácaras) 
do arrabalde : dentro dos muros do cemitério acha-se em 
extraordinária abundância. Posso mesmo assegurar que será 
facilmente encontrada por qualquer, que a procure, em todos 
os terrenos roçados de novo, nos pastos e nas campinas ou 
terreiros de qualquer fazenda rural, porquanto tenho sido 
informado por muitos lavradores, a quem a tenho mostrado, 

2Qe ella existe cm suas terras , sendo alguns destes fazen- 
oiros do Acará, Guama, Barcarena, Cametá e Marajó. • 
Em diSerentes lugares de Manáos encontrei eu em abun- 
dância essa planta . 

Não é pelo nome áe paracary^ que ó mais vulgarmente 
conhecida e sim pelo de hortelã brava ou hortelã do campo. 
Em Belí^m, no Pará, dá-llic o povo o nome do 5. rcdro-c^ô, 
16 



— 122 — 

que qaer dizer herva de S. Pedro. Os indígenas d3o4hc o* 
nome de boia-caá, que significa herva de cobra. Em Per- 
nambaco é conhecida pelo nome de meladinha. 

£' uma planta herbácea , segando o Sr. Dr. Castro, de 
caule tetragono, de um, dous e ás vezes mais pés de altura,, 
de ramos oppostos, cujas folhas sao simples, oppostas e ovaes 
agudas; ligeiramente aromática, quando se dilacera entre 
os dedos , participando do cheiro da hortelã e da melissa oa 
herva-cidreira ; suas flores sao completas, de còr arroxada^ 
nascem na axilla das folhas e grupam «se em capítulos ou co- 
rymbos pedunculados ; tem um cálice gamoséphalo, tubu- 
loso com cinco divisões; a corolla é gamopetala, tubulosa e* 
irregular, dividida em dous lábios, um superior e outro 
inferior : os estames são didynamicos e perfeitos ; o ovário» 
sustentado por um disco hypoginio e quadrilobado, depri- 
mido no centro, de onde nasce um estylete bifido ; cortado 
pelo meio deixa ver quatro cavidades, contendo cada uma 
um ovulo: finalmente o fructo é composto de quatro akenios 
monospermos, encerrados no interior do cálice, que é persis- 
tente. 

A'vista dos caracteres assignalados, não resta a menor du- 
vida, aflirma o Sr. Dr. Castro, de que a planta em questão 
pertence a uma das familias mais naturaes e importantes do 
reino vegetal, qual a das Labiadas^ (Juss.), Didynamia-MO'- 
nogynia (Linn,), grupo que conta em seu selo um numero 
considerável de individues. 

Eis como o Sr. António Francisco Pereira da Costa chegou 
ao conhecimento de que antidoto contra o veneno da cobra^ 
era o paracary : 

Sendo as margens do lago Paracary e os campos imme- 
diatos tão fartos de cobras venenosas^ particularmente das 
cascavéis, boiacinningas e outras, assim como de jacruarús^ 
que são reptis da classe dos saureos e que somente dííTerem 
do cameleão por terem a cor cinzenta e o focinho biâdo, raro 
era o dia cm que não visse o Sr. Pereira da Costa um com- 
bate entre animaes daquelles dous géneros. Notava porém* 
constantemente, que depois de algum tempo de luta fugia o 
jacruarú da cascavel e guiado pelo seu instincto natural pro- 
curava o arbusto, hoje chamado paracary, para delle comer 
algumas folhas e premunir-se desfarte contra o veneno da 
cobra inoculado em seu corpo pelas feridas recebidas na oc- 
casião da briga. Depois de restaurado voltava ao combate 
e se novas feridas recebia, logo outra vez procurava o 
contraveneno. Uma e muitas vezes observou o Sr. Costa 
este facto que não passou desappercebide- perante o seu 
espirito perscrutador, e desde logo comprehendeu que na- 
quella planta subsistia o remédio contra o veneno da cobra 
c outros animaes da mesma ordem. Epois projectou expe* 
rimentar a dita planta no primeiro animal mordido pela 
cascavel, a fim de reconhecer se realmente possuía a sin* 
guiar virtude que suppunha ter. Foi um cão de caça, 
que dou lugar a primeira experiência, e pouco depois um% 
vitclla se prestou á secunda. Em ambos os casos foram q^ 



— láS — 

rcsuludos assaz faToraveis ; os animaes sobreviTeram e se 
euraram com admirável rapidez. Muitas oatras experien* 
cias se fizeram saccessivamente^ tanto em animaes domésti- 
cos, como no homem e sempre os retaliados foram satisíac- 
tórios. 

Generalísoa-se pois a noticia de semelhante descoberta, 
acrescenta o Sr. Dr. Castro, e hoje não ha na comarca de San* 
tarem ama só pessoa que deixe de acreditar nos benéficos 
efleitos de semelhante planta. A muitos criadores de gado 
oqtí referir casos de caras operadas por meio delia en: seus 
animaes, mordidos por jararacas, surucucús, surucucaranas, 
cascavéis, paracaboiase outras cobras igualmente venenosas. 
Gonsta-me que hoje é raro o caso do perda de alguma rez 
mordida por cobra, salvo quando não pôde ser acudida a 
tempo. 

O seu uso ou emprego é tanto interno como externo, para 
destruir o veneno das cobras e arraias. Internamente tem-se 
applicado o sueco esprimido da planta fresca ou verde, na 
dóae de meia chávena, duas ou três vezes, com intervallo de 
hora de uma a outra dose e externamente em cataplasma 
formada de toda a planta secada e posta sobre o lugar offen- 
dido, mudando-se a cataplasma, logo que esteja secca. 

Contra a picada dos marimbondos ou cáuas, lacráos e ou- 
tros animaes, considerados venenosos, l)asta usar somente da 
cataplasma. O seu emprego não se tem circumscripto somente 
ao homem: algumas espécies de animaes domésticos, como o 
boi, o cavallo, o cão, etc, tôm participado de igual applieação 
e todos têm colhido felizes resultados. 

Por mim mesmo, aflirma o Sr. Dr. Castro, tenho observado 
dons casos . bem significativos do aproveitamento de seme- 
lhante planta empregada no homem. Foi um delles obser- 
vado em Santarém ; uma picada de cáua no dedo da mão com 
grandes dores pelo braço e muito rubor ao longo da veia ce- 
phaliea correspondente, e tudo cessou como por encanta- 
mento com a só applieação de uma cataplasma da planta 
secada e posta sobre o dedo ferido. Foi o outro uma ferrada 
de arraia, observado nesta capital (Belém), que cedeu rapi- 
damente em poucas horas, cessnndo a dôr, que o doente sen- 
tia na perna e abatendo a inchação enorme, que havia no 
pé ferido, isto tudo alcançado por meio da mesma planta, 
empregada interna eexteruamento. 

Sob a forma de tintura alcoholica, diz o Sr. Dr. Cnstro em 
"um addendo á sua primeira memoria, é eíllcassissiino o ;>a- 
racary contra as mordeduras de cobras e picadas de caufts, 
lacráos, centopeias, aranhas-carangueijeiras e arraias. 

Applica-se externa e internamente: externamente sobre 
o lugar mordido ou ferido em algodão ou fios ensopados na 
dita tintura, e internamente diluída cm agua fria ou mesmo 
pura. Para crianças bastará uma colherinha de chá da 
quarto em quarto de hora, misturada com outra igual de 
agua e para pessoas adultas uma colher de sopa da mesma 
forma e no mesmo espaço de tempo. Quatro a seis doses 
serão sufllcicntes para completar a cura. 




V^.'^.*' M«;\-<i Vil' I .íppíi/.irão therapoutica do para* 
ly^. >x^ >iu*i:.k' a ;<r .t»ii*«o e com elia se combate não 

^>ji,» ^V«K«i'«^^^'^'*^MCK-a, »iiz ainda oSr. Dr. Castro^ ma- 
.WíIM^nv .vwi^^lmtíuie s«»iín^ a pelle c nos rins ; naquolia 
■^%**^>» '\,^'>si>í.t. íTraml^ prurido, copioso suor e phljrc- 
M»^ <j(w.i{A> >':>zes cuni ilostM) volvi mento do bolhas cheias 
lnjb» ¥{44 10 SK^ro.purv.lenlo e de extensas erysipelas ; e 
yj|^.««:K» uiiiario por extraordinária diurese. Além 
.jj^ >^ :«iiiíKMi jitbrf o systema lymphatico e o apfia* 
:^Jb»^<te4rv*tKHMiiiV Tarore também gozar de proprie- 
ji^iau«»vpt)ii>:h*a N*m pronunciada, 
^li vir(u«Í4!» U^ta sua ar^*5o e modo de obrar^ tem sido 
^uvw.4 1» iu:rnu e oxterna mento no tratamento de varias 
-riMt«!^i^ «(* iviie, (ar^s romo os dartbros, eczômas, tinha» nas 
ai^hr^i«k^t»em i;oral na syphilis secundaria e inveterada. 
lJS#nMa»«ate^ 4ada sob a forma de tintura na dose de uma 
^jj^^Miiivas, sõuu associada ao licor de Van-Swieten, na 
i|i^ JvmiM Ditava om oito onças de cozimento da mesma 
^ifVi^t^WA stfr tomado em duas ou três partes iguaes du» 
HHHv^d», ic|H^lindo-se r-sta preparação todos os dias por 
Im^ií» uui. doas e mesmo três mezes consecutivamente. 
KjJrMmout* <^ ompre^ada ou em pommada ou em tln- 
21^ pêt9i rrii^vOes nos iuprares aíTectados ; e a tintura pôde 
St WMMto simples ou mi.sturada com alcohol camphorado, 



»ui«iiíi ainda o Sr. Dr. Castro, tem sido coroada de 
ll^a resultado a sua appllcação interna no tratamento da 
gH^ldia^ catarrhos astbmaticos e tQsses nervosas rebeldes. As 
IJ^Us aconselhadas nestes casas são as seguintes : 

Tintara de paracary onças ^ 

Klixir paregorico americano (50). . . » 1 

flM'Se nma colher de chá deste licor de manhã em jojum 
imtn á noite ao deitar, cm uma chávena de cozimento da 
-MfM berva paracary, isto sem interrupção, até se acabar 
Sala dose. 

m tratamento da elephantiasis ou lepra também é emnre- 
iiaita planta. Nas moléstias chronicas dos rins, na ays* 
Mia, na amenorrhóa, na dysmenorrhéa e nos enfartes do 
Moebaço tem sido usada com reconhecida vantagem e 
rareltamento. 



P) Formula do elixir : 

F Ópio bruto oitavas 3 

lí^- A^frio igx « 

^r Acido benzóico í^* * '^ 

Óleo essencial de aniz grãos 36 

jUeohol ammoniacal libra i 

lepois de oitn dias do digestuu. 




— I2r> — 

Aiada uma ultima notícia de um remédio eontra morde- 
duras de cobris : De um livro publicado em New-Ycrk e 
que tem por titulo Trinta aunos da vida de um caçador ex* 
trahimos ose^^uinte : 

« Quando um câo em nossas terras é mordido por uma 
cobra, abre ímmediataraente uma cova e melte-se nelia até 
desapjMrecer a inchado. Sabendo eu isto e vendo um amigo 
mordido «mum«t perna por uma eobra> mandei lo^o abrir 
no chio um buraco deSO polieg^idas de profundidade e nelie 
metti a perna do doente, cobrindo-a muito bem de terra^ 
paira lhe não entrar o ar. Sentiu-se iogoalliyiado, masdabi 
a poucos instantes, tornou-se-lhe a dôr tão intensa, que me 
fot preciso empregar toda a força para que se conservasse 
immoyel. No fim de três horas de roartyrio, eonseguia con- 
ciliar o somno e dormiu durante duas horas, no fim das quaes 
aceordou muito fresco, coujo se nada tivesse tido. l^xaminou- 
se-lhe a perna, estava branquíssima e fora a peçonha extra* 
hida por uma espécie de sucção ma<riea . > 

Ouvi dieerque em alguns lugares da província de Minas 
empregam também esse meio. 

Em 1725 celebrísou-se no Rio Branco o indío Ajuricaba, 
um dos mafs poderosos chefes dos manáos. A natureza ha- 
yia-o dotado de animo intrépido e guerreiro. Tinha feito ai- 
liança com os iiollandezesda Guyana cuia os quaes negociava 
em escravos, aggredindo os estabelecimentos portuguezes e 
arrebatando-lbes os indígenas, que ia vender aos holian- 
dezes. 

GovernaTa então a capitania do Pará o general João da 
Maia da Gama , que , tendo notícia daqueljas correrias , 
mandou a Belchior Mendes de Moraes com um corpo de 
infantaria, a fim de guarnecer as povoações invadidas. 

ApenaschegouBelchior ao Rio Branco, teve logo noticia 
de que acaba v<a Ajurical)a de invadir o carvoeiro, e de apri- 
sionar muitos Índios. 

Partiu immediatamente em seu seguimento e três dias de- 
pois encontrou a esquadrilha de Ajuricaba, que compu- 
nha -se de 25 canoas. Segundo as instrucções que tinha, li- 
mitou-se Belchior a reprehender severamente o chefe manáo 
ea tomar-lhe os prisioneiros. 

Depois disto^ deu-se pressa Belchior Mendes em guarnecer 
as povoações e em proceder á devassa, de cujo resultado 
<leu conhecimento ao governador, que dirigiu-se ao governo 
da metrópole, representando contra as violências de Ajuri- 
eaba, provaiias pela devassa, e juntamente as de outros 
príndpaes faccinorosos^ como eram as dos irmãos Bebari e 
Baiari, assassinos de Caranumá. 

Ordenon o governo da metrópole que se fizesse guerra 
áquelies chefes. 

Tratou logo o general de cumprir a ordem, preparando 
um luzido contingente, cujo commando confiou a João Paes 
4o Amarai, com ordem de se unir a Belchior Mendes. Con- 
seguiram estes deus capitães terminar com felicidade a guer- 
ra. Ajuricaba cafaiu prisioneiro com mais dous mil Índios, 



— 120 — 

mas sendo remettído para o Pará, teve a habilidade de pro« 
Tocar na canoa em que ia uma sublevação, que com muita 
diiliouldade pôde ser suilocada. Mallogrado o plano que 
havia formado^ suicidou-se Ajuricaba^ atirando-se ao rio. 

« O que na verdade ó mais celebre na historia de Âjuricaba, 
diz o ouvidor Sampaio, é que todos os seus vassallos e os mais 
da sua nação, que lhe tributavam o mais âel amor e obediên- 
cia, com a iilusão que fazem na phantasia estas razoes, pare- 
cendo-lhes quasi impossível que elie morresse, pelo desejo 
que conservavam da sua vida, esperavam por elle, como pela 
vinda de el-rei D. Sebastião esperam os nossos sebastianistas.» 

Na margem septentrional do Rio Branco lança-se o rio Pa- 
rimá, de tanta nomeada, posto que não passe de um pequeno 
rio. Persuadiram -se os Hespanhóes de que os Peruvianos, 

Eara s*e subtrahirem á sua perseguição no tempo da desco- 
erta do Perú, emigraram levando todo o seu ouro e se re- 
fugiaram nas margens desse rio ou antes desse lago, onde 
fundaram a cidade de Manóa dei Dorado, Os escriptores hes- 
panhóes davam isto por tão certo, que muito dinheiro se 
tom gasto em emprczas e viagens para descobrir o famoso 
lago. « Jamais ribeiro tão insignificante, diz o capitão te- 
nente Amazonas, causou tanta bulha e occupou tantas capa- 
cidades, nem tão solitário e iniiocente custou tanto á humani- 
dade.» As viagens de Pizarro, Orellana, Orsua, Guesada 
Utre, Berrie e muitos outros, não tiveram outro flm. 

Em uma carta offlciai, apprehendida por WalterRaleigh, 
quando procurava descer a Guyana, lia-se o seguinte ende- 
reco : t A Diego de Palameca, fiovernador y capitan general 
de Gvyana, dei Dorado, y de la trinidad. » 

Também os Inglezes se persuadiam daquella existência, o 
é corrente que as viagens de Raleigh não tendiam a outra 
cousa mais do que a verificar semelhante descoberta. De 
todos os exploradores foi elle o mais infeliz, porque não só 
perdou o filho na expedição, como foi decapitado por ordem 
do Jacob I , sob o pretexto de ser suggestor de emprezas 
frívolas 6 chimericas. 

Vô-sede um Atlas, impresso para acompanhar a geogra- 
phia de Mr. François, sf r collocado o lago Parimá nas cabe- 
ceiras do Rio Branco, descripto igualmente nos mappas de 
Brau, Gaumiila e outros. Os próprios Holiandezes não dei- 
xavam de acreditar na existência desse lago, em cuja pro- 
cura subiu Nicoláo Orstman em 1741 pelo rio Essequibo. 
Depcis do muitos trabalhos e fadigas conseguiu sahir no Rio 
Negro, de onde pa<ísou-se para Cametá. Refere o ouvidor 
Ril»ciro de Sampaio que ainda alli existia em 1743, onde o 
encontrou, lamentando a inutilidade da suaempreza. 

Em Março de 1775 ainda tentou Le Clero semelhante expe- 
dição, chegando a Barcellos, guiado pelos índios Piraiuanas, 

A'quem do Rio Branco recebe ainda o Rio Negro pela mar- 
gem esquerda o Hyauapery, e além o Padauary eCanaberys, 
os quacs, posto que inferiores ao primeiro, são todavia muito 
importantes e podem ser navegados em grande extensão. 

o líyaunpt rv j:'i foi nav«»gndo ViO lo«^'uas. 



— 127 — 

O Ganaberys on danabury ou ainda Cabebary comina* 
nica com o canal Cassiquiare pelo rio Umarinaui, qae desem- 
boca na sua margem occidental e de cuja parte superior se 
passa por pantanaes ao rio Baciomoni ou Baciomonari^ que 
desagua na marpem oriental do Cassíquiarí. c Além desta 
communicaçao, diz o ouvidor Ribeiro de Sampaio, tem outras 
mais remotas ; porque vencendo -se por terra e com jornada 
de um dia ou pouco mais , a errando serra que lhe fica ao 
poente, se chega aos riachos Baú e Uniabi, que fazem barra 
na mesma margem oriental doCassiquíari. E por semelhante 
modo se communica também com a parte superior do Rio 
Negro pelo rio Diroiti, que desagua abaixo de Marabitanas 
da margem septentrional do Rio Negro e pelos riachos Unia 
e Ineui, que fazem barra na mesma margem acima de Mara- 
bitanas. » 

O maior affluente do Rio Negro na margem direita é o 
Uapés, que entra acima das cachoeiras ; depois seguem-se o 
Içana e o Xié ou Ixié. 

Dez léguas acima da povoação de S. Gabriel e 206 da con- 
fluência do Rio Negro , desagua pela margem direita o rio 
Ucayari, que, no idioma dos indios Manáos e Bares, significa 
rio de agua branca. E' mais conhecido peie nome de Uapés 
ou Guapés, visto como os indios que lhe povoam o tronco 
principal chamam-se Uapés. 

Pretende-se que nasça de umas serras entre os rios Cu- 
miari e Nesrro, reunindo-se-lhe pela esquerda um braço do 
Quiavari. Os indígenas aílirmam ser o Uapés ramo de um rio 
caudaloso, que procura o oriente e a que chamam Aniyary 
ou Guabiary, que vem dos lados do norte. O padre Dr. Josó 
Monteiro de Noronha, no seu Roteiro, dá a esse rio, que vem 
do norte, o nome de Anyiari ou Uaiyari. 

Corre o Uapés do occidente, parallelo aos rios Negro, Içana 
e Ixié, e desagua por duas bocas, que lhe forma a interpo- 
sição de uma ilha de figura triangular e de talvez 60 milhas 
de circuito. 

Vinte e cinco léguas acima do povoado de S. Joaquim 
desagua no Uapés o rio Tiquié, onde em i749 encontraram-se 
pedras, que depois de fundidas, reconheceu-se que eram de 
prata (51). Por este rio pode-se ir ao Apapuris. Três dias de 
viagem acima da foz do Uapés começam as cachoeiras, das 
quaes a mais notável é a Ipanoré, e temíveis pelos medonhos 
vórtices que formam. 

As pedras de que é semeado o rio Uapés, occupam o es- 
paço de cincoenta léguas, subindo da povoação de S. Joa- 
quim, e continuando depois de algum intervallo até a foz do 
Capuris. 

A iribu dos Uapés dislingue-se por terem furados as ore- 
lhas c labío inferior. Recommenda-se também por admittir 



(oi) Viil. o fíntpiro do padre Dr. Josr Monteiro do Noronha. 



— 128 — 

entro si vários frráos de nobreza, a qne serve de distinetiyo, 
como ordem militar, nina pedra branca, mailo lisa e de fí» 
gura cylindrií^a, furada para lhe passarem um cordão com 
que a trazem pendurada. O tamanho exprime o c:ráo de no* 
bretzsí ; ns prtacipaos usam de pedras de meio palmo deoooi* 
prímento.- 

No rio Içana habitam os Banibahas e os Uureqmenas, ce« 
lebres peia communicaçio i|ue antigamente tiveram com os 
brincos conquistadores. O seu idioma comprehende alguns 
nomos hebraicos. SSo antropophagos e servem-so de uns cor- 
dões com que transmittem seus pensamentos a pessoas dis- 
'tant4?s, qutf entendem e sabem decifrar os respectivos nós. 
Também servem para o uso arithmetico. 

Os indioK do Rio Ne^ro e seus affluentes sSo os mais hábeis 
na confecção do celebre veneno com que hervam as flechas. 

c O veneno das flechas, diz o Sr. Gonçalves Dias, herva dura, 
curare^ como dizem os viajantes francezes, ou urari, como 
dizem os fllhos do Amazonas, é um instrumento de destrui» 
çio como Deus creou poucos neste mundo. Qualquer animal, 
mesmo daquelles de maior porte, expira em alguns segundos, 
principalmente se o toxico se introduz nas proximidades do 
coração; todavia os naturalistas preparadores podem tirar 
delle grandes vantagens^ desde que se conhece o seu antídoto 
tão prompto no seu contra -offeito como o próprio veneno, 
fiste antídoto é o chioruretode soda ou sai commum. » 

O sueco do limão dizem também ser um antídoto poderoso. 

c Diz Baena que esse veneno é extrahído de um cipócha* 
mado Virariy grosso^ escabroso e guarnecido de folhas pare- 
cidas com as da maniva. A sua manipulação, continua elle, 
consiste em mascotar a casca, borrifal-a com agua fria, des- 
tilal-a H fervôl a ao lume, até ficar o sumo inspissado em 
ponto de linimento. Para augmentar a energia do toxico, 
addtcionam-lhe suecos exprimidos de outros vegetaes e cipós, 
que sejam de natureza venenosos. » 

O uirari, diz o Sr. Ignacio Accioli, sem a mesma commix- 
tnração de outras partículas vegetaes e animaes, é mortífero. 

Pertence á classe dos cipós, dá-se nos lugares paludosos, 
suas flores tetrapetalas são de còr amarella pallida, ás quaes 
succedem pequenos fructos do formato de uma fava, n^uma 
capsula periforme. Os Índios são ciosos em patenteara ma- 
neira do fabrico ; todavia este consiste na extracção por meio 
do fogo dos suecos vjnenosos da casca, que ó escabrosa, e raí- 
zes colhidas no tempo de verão, tomando na acção do cozi- 
mento uma forma expressa, á qual então reúnem outras 
substancias vegetaes venenosas e formigas tocandeiras, guar- 
dando depois o veneno em pequenas panellas, onde se con- 
serva em continua fermentação, que perde pelo trato do 
tempo, tornando então a soífrer nova ebulição no fogo, mis- 
turando-se-Ihe o tucupi ou summo da mandioca. 

Conhece-se a perfeição da composição do veneno, tocando 
com qualquer ponta impregnada de sangue, adquirindo esto 
instantânea coagulação ; se porém não coagula momentanea- 
mente, volta do novo para o foí^o o veneno e são mui preju- 



— 129 — 

(líciaes os rapores qaeexhala daraaie a decocf^o âqaelles 

3De os recebem peis boca ou nariz, operação esta qae os iu- 
ios, pornocira, ancarregam Ai relhas decrepius a ianieis. 
Oanimal qaeé ferido pela frecha impregnada de turorí, 
fica no primeiro momeato como attonitoe sorpreso;Ímine- 
dtaUmente depois sobrevem-lhe Tertigens, torpor, Tomilos, 
se diuo é sDSceplivel, e a morte. 

No esudo de torpor od rertigem em que se acha, pude ser 
sem resisieocis posto em gaiola ou janla, ÍDtroduijndo-se-ilw 
defMJs lu boca ama pedra od melhor uma solução de sal de 
i-ozioba Quando o BDirnal volta a íi acha-se preso, mas em 
um estado de prostraçio, que lhe dÍo permitte aas primofras 
horas o menor acto de cólera ou desespero . 

CoDserTam as flechas Impregnadas de Tenenoa sua força 
por longos annos e antes de arremessal-as costumam os índío! 
:iiettel-as na boca para as salivarem. Nenhum ma) lhes fax 
isto, porque o perigo está somente no contacto do veneno com 
o sangue. 

O mais abundante destes venenos é o virari de Tooantins, 
II qnalé porlsso malseonhecido. Comludo são fortes todos 
t|Usntos se fabricam no Sol imões e leus afUuenies.Os iodf genas 
do VuTúi preparam-Do bastante enérgico, e talvei melhor 
que o de Tonantins. No rtoJapuri encontra -se deexcellenle 
iiaatidade, mas é principalmente nos tios Negro e Branco 
onde melhor merece a soa terrível repouçlo. 

Hoje procuraactiTàT o telano por meio daaccio desse ve- 
neno. 

Em geral, em vez das flechas, hcrvam os índios pequena; 
setlas a que chamam Curabis, e despedem por meio da zara- 
batana. 

E' a zarabatana uma arma terrível e certeira. Dentro de 
tubo interior, Introdnzem uma setta de paxiúba hcrvada cu- 
rabi ena extremidade superior da seita enrolam um poacc 
de sumaúma, de forma que lape hermeticamente o orifício 
do cylindro e ofToreça tal ou qual resistência ao ar, para set 
expellida com mais violência. 

Este meio pôde ser de muita utilidade aos naturalistas 
preparadores, porque nem só nio se espanta oanimal, acon- 
lecendo errar-se o tiro, nem se estraga a pelle, no caso de 
acertar-sei comotambem porque, com o emprego opportunc 
do antídoto, podem apanhar os indivíduos — aves ou feras, 
que careçam possuir vivas. 

Além dos rios acima mencionados, recebe o Itio Negro mais 
de setenta tribulartos de menor gr.>adeza, sendo quasi todof 
de agua preta, e alimentados com as aguas de lagos princi- 
palmente na parte inferior das cachoeiras. 

E' por esta raz3o que, apezar dos grandes tributários de 
agua branca, predomina 8 còt preta no rio. Esta eiplicaç3o 
entretanto nSo parece razoável a alguns. O que á, porem, 
certo é que as aguas pretas provam invariavelmente dos 
lagos e dos terrenos pantanosos, seja qual f&r a sua constí- 
tniçio, e as aguas braacas das coilinas oa das serras. A cÃr 
preta, portanto, é dsTida á preseota de matérias vegeiaes 



— 130? — 

em decomposiçSo» e as aguas brancas ás matérias roine- 
raes. 

Antes de passar adiante, direi algumas palavras acerca ()s 
catechese e ciTilísaçio dos indígenas do valle do Amazonas. 

E' triste de dizeUo ; mas, é a verdade : a catechese no valle 
do Amazonas muito pouco tem produzido. 

Não é opinião somente minha» é de todos quantos por aqui 
têm andado, de todos os que aqui vivem, e que tombem se 
acha consignada em quási todos os relatórios dos presidentes 
que tdm administrado as duas províncias do Pará e do Ama> 
zonas. 

As sommas, embora diminutas, que despende o Estado com 
esse importantíssimo serviço e de tio vital necessidade, es- 
gotam-se sem deixar vestígios ou pelo menos sem que apro- 
veitem a essas tribus selvagens, que povoam os rios que 
banham o valle immenso do Amazonas, e que não poucas 
vezes comroettem actos de hostilidade contra os explorado 
res e viajantes que até ellas abrem caminho, e contra os ex- 
tractores dos productos naturaes, que por ahi abundam. 

Três séculos, diz o Sr. Dr. Adolpho de Barros, parece não 
terem sido tempo bastante para destas florestas vizinhas da 
civilização, arrancar á ignorância barbara, em que vivem^ 
tantos infelizes flihos da natureza. 

Em um paiz chrístao, em um paíz civilísado, a dous pas- 
sos, por assim dizer, da cruz e das livres Insiituições, á cuja 
sombra nos abrigamos cultos e tranquíllos, vagam tribus in- 
teiras, entregues ainda, como ha trezentos annos, como ha 
mil, aos instínctos feros e grosseiros da natureza primitiva : 
barbaras, pagãs e antropophagas f 

Cumpre ainda reconhecer uma verdade, amarga do dizer 
porém que é necessário repetir. O pouco que existe feito 
neste elevadíssimo assumpto, épela maior parte obra de 
outros tempos. 

c O homem das selvas, dizia ha iO annos o Sr. Dr. F. G. 
de Araújo Brusque á asscmbléa provincial do Pará, o homem 
das selvas continua errante nas desertas matas que abundam 
nesta província. 

c Por toda aparte, onde penetra o homem civílisado nas 
margens dos rios inhabilados, alli encontra os traços não 
apagados dessa população que vagueia sem futuro I 

t E a pobre aldêa, ás mais dns vezes por elles mesmos er^ 
giiidn em escolhida paragem, onde a terra lhes offerece mais 
ampla colheita da pouca mandioca, que plantam, desappa- 
rece de todo, pouco ten\i)o depois de sua ijsongeira fun- 
dação. 

€ O regaião, formidável cancro que corróe as artérias na- 
turaes do commercio licito das povoações centraes, desviando 
delias a concurrencia dos incautos consumidores, não con* 
tente com os fabulosos lucros, que assim aufere, transpõe 
< uddz enormes distancias, e lá penetra também no choça do 

índio. 

c Então a aldêa se converte para logo n'um bando de servi* 
dores, que distribuo a sou talante, mais pelo rigor, do que 



13! 



pela tna^^r». ft-:-* ':i--c->- »--i.::<. ;j* *3;::'rr.:* lâ 
€ Peto a *.ia-- >i :. : i .c : - >c irrr í e i r>;:% i .-^c^r^ ^->i ^ j i - 



£a Stí^^kbro 2e iBiS2,^l;•^:3.i^-^el^^i!B o :nc>xc* Sr. xa* 

« Ca Beabaxaa du província? ui- Inii^rk' a t dl Iam li£U> 
€ tio TariadAi b^^-d»^ s^rlvaress c.xo nesta. 

«Per toJa a parte, em u^asss u^recfOes.vnde peia rez pr:- 
riein rii^nra.cdio toiLii-rs :.T::]>ai .. li ta Ie-afOE:r£r»< 
u«ça§desfa |>'«psia7i>rrra2t^, ;a. «!fr>c3idaii TAgueii ns> 
feiras eatre^OTr a c- a te n j . n .< ce > 1 x e>ic o . 

«A iad j.e ffrral das iritus :. iir.t--!.."*- è de i4i, e s excef- 
Cio de ai^'aiQa> h irias, qae ;• riiar.exu e:ii rsiado purs- 
meate selriçem, o islL-eaa ? a^^ :íTí^Iít br:.cJv e f-Tt^ur.^ 
as tHêç^ de nosfa >xiè !ade. 

•Eo trela n to nada se tem feiío p:r elles. 

«Xâo ba nm svaiJearir:::: r ---hr ; c«5 na^leciS de popu- 
la(io existentes, enirera^íS i t-r.vrià inexperi-^neia, reaneni 
<• trbte as|>=rí:o dohomeci Si íjinijr da civilizado e já Tv»* 
^eadode akans vici.s, ^ae c•:^r^-::n a Telha s.viedade. 

«São novas sxieiades -^uese ..r«n!am ; mas qne ca re^r^i 
desde o iea e<'iD<rÇo do priQri[>^! vlemento de saa consoli- 
dado: a r^^újilo e a morõildâi''. 

€Oatr'or4,rc>çand-j as ^â&uJiiJ^ j j 2*:-vita o centro de nos>r> 
florestas, se ersaeram cu^rle^s, •:-* ;uedraram através de 
iBçentes sacrifício? «^ que í jrani ô t^rço de algumas florei?- 
eenits povoações. H.Je eiD dcssà : -rra Là > hi usi saccrdi ;-' 
4|ae te destine a e^se nli^tt^r ::aa]3DÍiari'\ que a reli^iâ-^ 
aecnseILa e a civljL^çâo reci;^:i:s !... PjIo menos eíi ji 
perdi a esperança de encontral-o. ■ 

A caiecbese encintraaciaainK-ntJ-co valle do Amazonas 
ianameras difficnldades e emfcjr£>:x>s. Ojtr*ora, é certo, 
«erviu eila de pretexto para frequealfS e deploráveis extor- 
sões e violeniia:? ; mas tanit^em c innegavel qne deixoa de si 
al^os vestigios, algans boas ir uj tos, qae ainda hoje sa to- 
rçamos. 

O catecbameno era maftas vezes nm escravo e nâo uni 
doutrinando e as missões eram ihíus uma caçada de homens 
do qne nm apostolado. Mas a pár de todos rsses tristes ex- 
ressos, de toda essa deplora vd drrturpação do mais sagrado 
dos ministérios e da mais sublime das virtudes chrisias, 
muitos esforçados missionariJ»s, verdadeiros apóstolos e Iv- 
nemeritos da humanidade, derramaram largamente com a 
palavra santa crença e com a crença a civilização no seio 
áàfi tribus ferozes, que povoavam as matas. 

Hoje, quem vai ao encontro do indio, no fundo de suas 
florestas virgens e no interior desses rios sem fim ? 

Raríssimos Ao os missionários que acodem a esse appello 
da humanidide e os poucos que existem, salva uma ou 
imtra excepção bem rara^ nao p«}nelram com a pala- 



— 132 — 

vra iT^s Inhios e a cruz eríxuida na mão por através dpssas 
íloreslns espessas em quí* dorme o indio á .sombra da ijçno- 
rância e da barbaria ; não vão alli levar-ihe o pão do espí- 
rito e o presente sublime dessa luz benéfica e creadora^ que 
viviflca o espirito e alimenta o coração. Limitam-se a esta- 
belecerem-se, e mesmo assim lutando com as maiores díffi- 
culdades, á margem de um rio, na boca de um igarapé e já 
muito fazem quando conseguem levantar uma capella em 
torno da qual se grupam índios, que já têm o contacto social 
e que com o baptismo da civilização bastardo, que Ibes levoa 
o regatão, receberam também a innoculaçuo do vicio e dos 
máos babitos. 

Convém entretanto que flque bem patente, por amor da 
Tordade e da justiça, que a causa do quasi nenhum resul- 
tado que a catechese tem dado, não provém dos missionários 
ou pelo menos não provém somente delles. E' certo que para 
esse estado de cousas concorre também a ausência de provi- 
dencias e de recursos, sem os quaesnão podem deixar de ser 
improductivos quaesquer esforços e sacrifícios da parte 
desses homens. 

Lutam aqui os pobres missionários, tão reduzidos como são, 
com difflculdades de transporte, com difficuldades de alimen- 
tação, com um clima ardentíssimo, verdadeira atmosphera 
de fogo e com febres ()aludosas e intormittentes, que abatem 
a coragem a mais decidida, a mais tenaz e prostram a mais 
robusta constituição. Na arriscadíssima empreza a que se de- 
vem entregar, nem ao menos contam garantida a sua segu- 
rança individual sempre ameaçada, — já não fallo por parte 
dos Índios que vão converter , mas por parte dos regatòes, 
cujos interesses e extorsões contrariam ; e nem lhes propor- 
cionam meios e recursos que de alguma sorte mitiguem e 
attenuem as difflculdades com que vão arrostar. 

O missionário é sem duvida o primeiro elemento para a 
catechese, é o seu mais poderoso auxiliar^ mas o maior ini. 
mijro que a catechese tem , aquelle que mais embaraços lhe 
oppôe, que mais difficuldades lhe suscita, é o regatão. Menos 
bárbaro que o indio , porém muito mais corrompido, vive 
em luta constante com os missionários, que não permittem^ 
que não podem consentir que elles explorem , depravem e 
deshonrem o pobre fílho das seivas, a pretexto de commer- 
ciar com elle. 
O regatão é uma das pragas do Amazonas. 
€ São 08 regatões, escrevia o Exm. Sr. bispo do Pará, em 
data de 2i de Dezembro de i865 ao Exm. Sr. ministro do 
império, são os rega toes negociantes de pequeno trato, que 
em canoas penetram até aos mais remotos sertões para nego- 
ciarem com os índios. E' dífficil imaginar as extorsões e in- 
justiças, que a mór parte delles commettem, aproveitando-se 
da fraqueza ou ignorância desses infelizes. Vendem -lhes os 
mais somenos objectos por preços fabulosos, tomam-lhes á 
força ou á falsa-fé os géneros; quando muito compram-nos 
a vli preço e muitas vezes embriagam os chefes das casas para 
mais facilmente deshonrar-lbes as famílias. Emfimj não ha 



— 133 — 

immoralidade que Dão pratiquem esses cupidos avenin- 
reíros. » 

No relatório que em 1862 apresentou á assembléa legisla- 
tiva do Pará, exclamava cheio de indignação o Sr. conse- 
IbeiroBrusque: 

< Dó do Índio, senhores ; entregue a si mesmo, não encontra 
sempre nos laços da nossa sociedade a fraternidade que a 
civilização lhe promette; mas a dissimulação, o engano e 
muitas vezes o rigoroso trato, que o repelle e o força a em- 
brenhar-se de novo no silencio aas matas 

< Dóceis ao contacto de intelligencia mais cultivada do que 
a sua, o índio acolhe beni;?no em sua maloca aquelles que o 
procuram. Certos disso não faltam aventureiros, que, trans- 
pondo enormes distancias, penetrem até o lugar de sua resi- 
dência, e mediante o adiantamento de alguns objectos, que o 
índio reputa de subido apreço, dentro em pouco ganha impé- 
rio sobre a iribu, a qual governa a seu bel prazer. De entào 
em diante ninguém mais aili entra e a vontade do regatão é a 
lei que rege, em quanto elle ahi permanecer pelo tempo ne- 
cessário a seus negócios. E o pobre indiolhe obedece cega- 
mente !... 

« Para logo os destina á colheita do óleo de castanha, á ex- 
tracção da salsa e de outros productos naturaes ; e quando 
passados trts ou quatro mezes de árduo trabalho, regressa ao 
premio da aidèa, elle lhe faz a couta de modo queomisero 
indiolhe tlca devendo ainda. 

c Para que possais aquilatar, continua o Sr. conselheira 
Brusque^ográodeusura e immoralidade deste commercio 
execrando, eu vos darei a taxa do preço de algumas merca- 
dorias vendidas ao pobre indio no alto Gurnpy e no Capim, 
conforme ouvi de alguns Índios que â instancias minhas lívo 
commigo nesta cidade. 

« No Gurnpy um corte de calças de algodão ordinário, que 
custa nesta cidade i^OOO, é dado ao indio em troca de um 
poledeoleodecopahyba, que contém de uma canada e meia 
a duas canadas, e que vale por conseguinte neste mercado 
20iK)00. 

< Uma arma de fogo ordinária no valor de 5^000 é dada em 
troco de três pote^i de óleo 

« Um barril de pólvora que custa 17^00 é o equivalente de 
8 potes. 

« Outro tanto succede no Capim, e em qualquer outro lugar 
nesta província, onde o regatão commercía com o mísero 
indio. 

c Agora mesmo trilha as matas do Candírú a população in* 
teira da aidCa dos Turys do rio Capim em busca de óleo e na 
caça de jabutys para certo regatão, que imperiosamente os 
distribuiu para estes serviços; entretanto que deixaram al- 
gumas roças de mandioca, que plantaram, e as pobres chuu- 
panas dasuaaldêa no mais completo abandono. 

c Ainda não é tudo. Rude embora, o indio ama a família e 
preza os tenros filhos. Pois bem, é o.^autuarío da família, ó 



— 134- 

regaço do amor paternal o terreno em que o regatio exerce 
áâ yczes soa mais bratal ferocidade. 

< Qaando não seduz a esposa, rapta a filha e qnasí sempre 
arranca do grémio da família tenras crianças, que em seu 
regresso aos povoados reparie entre seus comparsas t. . . . 

i E o pobre indío soffre liumilde este duro tratamento e 
acolhe de noTO noanno seguinte o regatão, que continua seu 
rredore regalo da mesma al3êa! 

< Arestas causas se devem attribuir as desavenças, que ti- 
veram lu^ar na atdôa Taquateua no alto Gurupy, no mezde 
Outubro do anno findo entre os índios da tribu Tembés e al- 
guns regatOes, das quaes resultaram a morte de nove indi- 
víduos. 

«Segundo as informações quecuidadosa mente colligí,Poly- 
carpo José Tavares, negociante no Alto Gnrupy, maltratava 
com palavras e corporalmente os indígenas que negociavam 
rom elle, pertencentes á maloca Traquateua, e ahi chegando 
Francisco Pachola, José Clemente e outros, também negocian- 
tes, começaram a ter o mesmo procedimento, em virtude dos 
exem pIOM de Polyca rpo . 

cRafael António da Silva seduziu e levou para sua compa- 
nhia a mulher do indio Tororoy, 

cPrancísco Pachola não qniz entregar a mulher de Joaquim 
Pof^ú, que estava trabalhando com elle. 

«Aestes factos sps^uíram*se imprudentes demonstrações de 
desprezo, provocações, ameaças e alguns espancamentos feitos 
nas pessoas dos índios, que mais se distíngaiam nas queixas 
contra os autores daquelles factos, que não foram senão mais 
um élo da longa radôa de vexações porque os regaiões fa- 
ziam passar aquella pobre tribu. 

« Então sete mancebos mai^ destemidos executaram o plano 
de vingançi, assassinando barbaramente alguns rcgatões e 
Míus dependentes. 

«A essas scenas de horror prati'*adas por homens selvagens 
sem a menor idéa da moralidade das suas acções e sem impu- 
tação, S(*guiram-se outras dignas de severa repressão, por te- 
rem sido executadas por aquelle mesmo, que fora incumbi- 
do pelo delegado de policia do termo de comparecer naquella 
localidade, com o fim de restabelecera segurança Individual 
e proteger outros regatõos, que lá se achavam. 

«O encarregado desta diligencia prendeu os ifidios queen- 
rontrou e os espancou barbaramente até revelarem os nomes 
de todos os que tiveram parte nos assassinatos referidos. 

c Não achando ainda bastante o rigor deste trato abusivo e 
criminoso, arrancou do seio de algumas famílias indígenas 
novo crianças, que remetteu para Viseu I. . . 

c Em resultado desta infeliz commlssão a aldôa desappare- 
4*en e a choça do índio foi reduzida a cinzas I • 

Em 1864 referia o Sr. Dr. Adolfo de Barros os seguintes 
factos á assembléa legislativa da província do Amazonas: 

« Pouco depois de minha chegada á província, vieram a 
fsta capital o chefe ou tuchaua e alguns índios da tribu 
Maués. 



— 135 — 

«Trajava agaelle, eamisade ordíDarioríseadodealgo^^Soe 
f alça de xuarte azul» parecendo intimamente penetrado da 
belieza át semelbante vestidura, porque o índio é por natu* 
rexa proiíensoa c^rtainstínctiva vaidade, d^ondelhe vem a 
predilecto aos adornos e atavios. 

< Entre outras f ousas procurei informar-me do preço da- 
qaellas peças de rouia. 

< Cada uma custara ao pobre tuchana a ba?ate]la de tima 
arroba de guarand, i.mo é, o valor de 25^000 a 30^00. t 

Um outro facto: 

« No rio Purús estava fundeada em certa altura a coberta 
de nm regatSo portuguez de nome A,,, 

« Passa um inaío já meio civilíí^aJo com algnmas arrobas 
de seringa, fructo doseu trabalho daraate o anno, e destina- 
das ao pagamento de um seu credor. 

« Propõe-lbe o regatãoa <*0'npra do ?eneroe como nao foise 
aceita, attrabe o indioá «oborta e facilmente o embriaga, 

< Nesse estalo transporta o para a sua canOa, amarrado 
então á popa da embarcação; deUa Ibe um ou dous objector 
de nenbum valor e um garrafão de aguardente : apos2>a-se da 
seringa ; e, o que dá a esta scna de torpe espoliação um cu- 
nho de oynica perversidade^ cortaa amarra da canoa e deixa- 
a ir, levaJa pela forte corrente do rio, com o mísero tomado 
do somno profundo da embriaguez f 

c Q.uanaonodia seguinte acordou, conheceu*S8 o índio 
roubado e na distancia do três dias do lugar em que ador- 
mecera ! Voltou a reclamar a borracha ; mas nada conseguia 
senão trabalhar por espaço de três mezes para quem tão vil- 
mente o despojara» sem outra recompensa mais do que pro- 
messas que nnpca foram realizadas. > 

Desta vez, felizmente^ não ficou o crime de todo impune, 
porque, chegando o facto ao conhecimento do digno presi- 
dente da província, mandou e^te collijir as necessárias provas 
ê instaurar processo ao seu autor. 

Constantemente iliudidos em sua boa fé, perseguidos e 
atormentados por esses homens sem consciência, sem religião 
e apenas incitados pela mais cynica e criminosa ganância, , 
victimas de mil espolíaç5<iS, vendo arrancados de seus braços 
o filbo^ a mulher, os parentes, não se limitam muitas vezes 
os Índios a se embrenharem no mais espesso das matas como 
feras acenadas e a evit^irem todo e qualquer contacto com 
essa civilisação^ que de tão funestas consequências lhes foi. 
Filhos da natureza, sentem a indignação queimar-lhes o 
sangue e procuram na vingança, não o esquecimento, mas o 
desabafo, mas a expansão da dor e da raiva ; e as represaiias 
começam. 

Os annaes das duas províncias do Pará e do Amazonas 
acham-se cheios dessas scenas de violência e de sangue, a 
maior parte das vezes provocadas pelas violências cia morosas, 
petas extorsÕL^s sem nome de que são victimas os pobres in- 
dígenas. 

Nem sempre a vindicta dos índios recahe contra aqueiles 
que a provocaram ; muitas vezes a frecha hèrvada erra o alvo 



— 136 — 

e yai ferir de morto a qaem nenhuma offensa hatia com- 
mettido. E'que o regatão deixou de si tão execranda me- 
moria, que o Índio desconfla de tudo e de todos quantos não 
'pertencem á sua raça. Em todos os brancos^ em todos os que 
lhe procuram as matas elle julga ver um regatão, istoé. um 
homem que não hesitaria um momento em^esbonrar-lhe o 
lar^ em raptar-lhe os filhos e em abusar vilmente da sua 
boa fé. 

E a desconfiança é cega e não raciocina. 

c Creio firmemente/ disse o Sr. José de Miranda da Silva 
Beis (52), que grande parte dos actos de brutal e feroz bar- 
baridade por indígenas selvagens perpetrado> < ontra indiví- 
duos ou pequenas povoações civiiisadas, são menos devidos 
a máos instintos entretidos peia ignorância, do que á repre- 
sália oa desrorço das violências que alguns ambiciosos (^ara 
com elles niuiias vezes praticam, apoderandose delles ou dos 
entes a elles mais caros efor^andoos a permanecerem, com<) 
que escravisados, sem retribuição alguma em seus árduos 
trabalhos c talvez bem deshunanamente tratados; o que os 
leva a crer que geralmente os homens civilizados os perse- 
guem como mimipos. » 

Ahi transcrevo alguns dos factos mais tristemente notaveií;, 
algniras das scenas mais lameri laveis que tôm enlutado os 
anraes das duas províncias nestes últimos annos: 

A 22 de Outubro de 1855 os Waupésàsi aidéa do Coração dn 
Jesus as. assinaram a Serafim e Miguel, que acompanhavam o 
mesmo director, o qual conseguiu escaí ar, tosto que grave- 
mente ferido. 

Estes mesmos índios já anteriormente haviam assassinado 
os renaiões João da Silva, José Perequeté, José Theodoro, 
Miguei Wilkens e Sebastião Nogueira. 

Em Novembro de 1858 os Parintintins assassinaram a 
António Primo de Góes e Manoel José e feriram grave- 
mente a Bartholomeu Francisco de Góes. * 

Em 1860, no Crato, rio Madeira, perpetraram os Parintin- 
tins cinco mortes. 

Em Setembro do mesmo anno, no rio Jurui, os Colinos 
assaltaram o regatão Innocencío Alves de Faria e seus com- 
panheiros, assassinaram a um destes e feriram a quatro. 

Em 1863 os Mameris, do rio Jauapery, appareceram no 
districto de Tauapessassú e derramaram o terror na popu- 
la^^o. 

Em 3 de Junho do mesmo anno foi a casa do commer- 
ciante José Francisco Montei ro,estabelecido cm Baetas, no rio 
Madeira, assaltada pelos P rintintins, que assassinaram Anna 
Thereza de Almeida, de 60 annos de idade, e feriram a Su- 
zana Francisca do Rozario, José Gonçalves Ferreira, Bazilio 
António Rodrigues e outros. 



(52) Relatório apresentado á assembKa legislativa do Ama 
20Da$ em 1871. 



— 137 — 

Em 1863 os Ipunnãs, no Parus, «rsassinaram o italiano 
Carlos, companheiro do Sr. W. Chandiess. 

Bm Deiembro do mesmo anno os Jauaptr^t assassinaram 
a Joaqnim Galvão e a um seu escravo. 

Em 1865 nm grupo ds indfns selvagens assaltou no rio 
Waritti a dous fillios de Joio Galvio. 

Bm Harço do mesmo anno tentaram os indíos Unimiris 
assaltara popnlacio de Ayrão. 

A 10 de Outubro de 1866, os Mageronas, uo Alto Javiry, 
atacaram as duas canõaj, que conduiiam os membros da 
commísBJo mixta, que por p»rte do Braztl e do Peru explo- 
ravam esse r(o para a fixação dcs limites, resallando a morte 
dodisllncto capitão tenente João Soares Pinto, o ferimenlo 
grave em uma perna do secretario da ommjs^ão peruana 
D. Manoel Raude yPat Soldan e o ferimento levo de mais 
oito pessoas 

Em 1868, DO rio Jauappry, assassinaram os Haimirys ;i 
UanoelJoiio o a sua ramílin rom|0!ia de doze pessoas. 

Em 1869, na foz do rio HachaJo, asíaliaram m Pnrintin- 
tins a nn:a < aoõa e n ataram a fleci adas dous dos tri[ olaotes, 
conduzindo os ladaveres para suait ma'ocas. 

Em Setembro do meí^mo anno, o; Jumas, no Alio Purú^, 
assassinaram a Ce>ario José de Hrsquiia ea Emíliara, su^i 
comi anheira, roalando díverfo^ objecios, que entontrarani 
na larraca das victinas. 

Este lamentável aionierimenTo é allrÍbui(?o i imprudên- 
cia de um vellio chamado Ca ridailf, ')ue eninntiando-seiom 
nragrufode^imnuiri/j, (|ne Ihv. alienaram rom «i-sios amis- 
lofos, tete a [rlále Icmbinnra de FObre eliesdií-parar um 
tiro de fspiíi^arda. 

Os Índios que até entSo q3o ilnham hostilisaiíu a niugnem, 
piomelteiam vingar-se. 

O ra.-.;o bavia-se da lo em ISliS. Os Ximanirys espreitavam 
occastSo nmía para vin^'arem a offensa riue tinham reuebid» 
do velbo Caridade, e o Infeliz Hesqutia e sua romianbelra 
Toram »* víutlmas do^ inslinctos desses selvai^ns. 

Oa«:assina'o do iialiarioCarlot éattribuido áoa>aUaqu<! 
elle^ tendo si'io recebido ■ om loJa a hospitalidade pelos Ipu- 
rmas, teve para rom uma índia, mui joven, e mulher de um 
d04 princí[aes desía Iribu. 

Osaclo-' de l^arbaridade dos índios líim i^uasí sempre uir:i 
causa, fliba da imprudência ou perversidade datjuelles quit 
selSmemronta de civilizados e chrfMios. 

Hesq^uiia e sua companheira expiaram a imprudência do 
Telho Caridade, que tão selvaticamente procedeu para com 
os Ximanrry«, denominados talvei erronr am eo le Jumas. 

Eis como o Exm. Sr, Wilkens de Mattos refere esie facto : 

• No dia 2 de Setembro ( 1669 ) uma borda de Índios sei- 
Tagens, denominados Jumai, atacaram a feitoria do súbdito 
portuguez Cesário José de Idesquilae oa^íiassinaram ea uma 
mulher de nome Emiliana, que em companhia do mesmo 
vivia, roubaram muitos objectos que alli encontraram, p. 
decauiiaado os cadáveres tla$ duas viitíma?. levaram us 
18 



— 138 — 

cabeças, que quiaze dias depois foram encontradas na 
aa'o'a dos mesmos antropophagos pelo valente e haroa- 
nitario subdelegado do Allo*Purús, Manoel Francisco da 
Bocha, que, abandonando oiseus uiais graves ínterts^es, 
reuniu todos os cidaJao>q^ue pôde encontrar» nacionaes e es- 
trangeiros, e com imminonte risco da própria existência, 
atravessou densas malas e largos igapos, ato descobrir a 
maloca dos selvagens, a quem procurou attrahir ; mas sendo 
recebido a flecbadas e successívos ataques^ teve de os repellir, 
tomando de asfalto a rasa delles, onae não só encontrou as 
mercadorias roubadas, como os craneos, já deseccados, das 
duas victimas e mais um terceiro, que denotava ser de 
mulher e antigo. 

< Acontecimento tao selvático e inesperado, derramou o 
terror na !aborio^a população desse vastíssimo districto, e 
trouxe não pequenos prejuizos á industria extrat^tiva^ e, 
conseguiu temente^ ao commercio, que se alimenta dos pro- 
ductos daquePa; e DDaiores seriam sem duvida esses pre- 
juizos, se ao serem aqui recebidas no dia 10 de Outubro tão 
lamentáveis noticias, que o referido subdelegado Rocha veiu 
pessoalmente comniunu ar, não tivesse eu, de accòrdo com o 
Dr. chefe de policia, feito partir no dia li desse mez para 
o lugar do acontecimento, o vapor Pará^ levando arma- 
mento, um offlcial e praças do corpo provisório, que chega- 
ram ainda a tempo de evitar que o susto e o desanimo, de 
que se actava dominada a população laboriosa, não causas- 
sem uma total interrupção nos trahalhos extractivos, o que, 
se tivesse acontecido, produziria um desfalque de mais de 
duzentos contos nas transacções commerciaes daquelle fa- 
moso rio. • 

Os Parintiniins, ainda no anuo findo, repetiram os ataques, 
que tornam, por as^im dizer, inhabilavel farte da região do 
Mndeira. 

Os Uaymirys puzeram em sohresalto ha poucos mezesa po- 
voação do Ayrão e as freguezias de Tauapessassú e Moura, 
praii(ando nesta ultima scenas verdadeiramente deplo- 
ráveis. 

Communicando á assembléa legislativa do Amazonas estes 
tristes acontecimentos, assim S3 exprime o Exm.Sr. Dr. Do- 
minjTOs Monteiro Peixoto: 

< Occupando as margens do Rio Negro, por occasião da sua 
vasante, como o fazem ha alguns aunos, começaram por as- 
.^altar as canoas que transitavam e por ultimo atacaram a 
freguezia de Moura, obrigando seus habitantes a se refugia- 
rem em uma ilha vizinha. De possi3 da povoação, roubaram 
e destruíram todos os objectos encontra-los nas habitações, 
e frecharam uma criança por seus pais esquecida em uma 
rede. 

< Também um cida ião, que já tinha servido no corpo pro- 
visório, (ahiu victiroa de uma setta arremessa Ja pelos sel- 
va ^'ens. 

c A Taifa de força nesti guarnição, me impediu de enviar 
(ara a iocalidale uin desta amento de linha, logo que cor* 



— 139 — 

reram os primeiros ramores a este respeito; mas ordenei ás 
nutoridales da Kuarda nacional, qne destacassem ama força 
.safflciente a garantir at povoaçOes e activei a vinda de pra- 
gas para completar ocorpo provisório ehabilllar- me a tomar 
providenciai mais enérgicas, se ag circamslancias o axi- 

•Uaadei um oQtcial ao rin Haielra promover a reuniSo de 
{•nardaí nacionais 'e o recrutamento, eqaanlod'alli tinliam 
vindo algans reforços, como de Villa Bella. Serpa e diversos 
ponioi do SolimSes, cliegaram m rommaniraçSes dos tristes 
.iroatecimenlns r<'reridos.> 

OSr. Dr. Peixoto (et seguir {mmediatamente para Moura 
ama Torça commaada la pelo Sr. bri^-aleiro Barros Falcio. 

A ida da Torça produziu os bxneflcos eíTr^itis. que eram de 
esperar,restat>e tecendo a segurança na Irinaezia e garantindo 
05 seus babitaates, que haviam abaadoDadoca^a^eliaveres. 

Foi necessário Laiera^ oiatau próximas para Jiiper.'ar os 
Índios, que, apenas retira los da freguezia, eiani motivo de 
continuo fobresalto. 

XesíaocrasíSo houve alguns eocontroientreelles e a força 
sem que eatrclaulo huuvesiie oella alguma desgraça a la- 
mentar, 

Es?aí scenas, pois, de horror, esses actos de selvageria e do 
canibdllsmo são a maior ijarte das vezes provocados pelis 
vi9leaci8s e extorsÍ3es que sofTrem oí pobres iadigenas da 
parte doi regat&es. 

Bonse humildes como sSo os iadios, supporlam-n'ospor 
muito tempo, eoírrem-ii'os por muito tempo, dupois come- 
çam a queiXLir-w e como nem sempre ou quasi nunca lhes 
ia tem justiça ou porque muito distante e por consequência 
muito <raca é a acção da autorida le, ou então porque cou- 
niventGs sSo aí próprias autoridades, — começam as re- 
pre3alia> e apparece violento e selvagem o ínstlncto da 
vingança. 

Maí não é somente o indio, que vive no fundo das malo- 
cas, que se qu«ixa dos reíiaíQfS. 

Nas duas províncias do Pará e Amazonas ha contra elles 
geral indisposição. 

Huit'^ factos me l€m silo referidos de familiiis honestas e 
que viviam com certa abastança, hoje desgraçadas por esses 
homens, por essas sanguesugas sedentas, quase introduzem 
íorraleiramenie na chounana do agricultar, do pescador, do 
indio ja civilisado, e ahi levam a hediondez do vicio, a misé- 
ria ea deshonra. 

Clie^a a um sítio a canOa ile um regaião, se o dono do sítio 
on3opro.:ura, se lhe nio off.TRcea casa... N3o Importa. O 
resatlo já está habituado a isso, invade a rhoujiana, embrla- 
ga o< mora Inres, ofT^ece-lhes as mercailoriaí que leva por 
preços fabutoios, inventa uuiaí celebres tadainhiu, que não 
são mais do que Menas de orgia, com o fim de attrahir a 
concurrencla, e especalando com a boa fú e com a rellgilo 
dessa pobre gente e no meio d« aguardente que prodigaliza, 
rouba desapieda lamente o resuludo do trabalho de um anno 



— 140 — 

inteiro do pobre chefe de familrX roubaiido*lhe íg^ualmente a 
honra da esposa e das filhas. (53) 

E nodia >egaiDte,semque lhe dòa a consciência, sem sen- 
tir o [)unRir do remorso, embarca o rega tão, deixando após 
si a miséria e a deshonra. 

Oatra vez aporta em um siiio, onde se ostenta um bello e 
estenso cacral. 

A troco de alguns copos de péssima aguardente e de um 
ou outro objecto de ínfimo preço, o retaião allicia e seduz 
os escravos e os famulo$ e volia com a canoa pejada de cacáo 
que mandara roubar. 

Bem que o regalão seja urra verdadeira ralamidade no 
Aniazonas, vampiro que suga o cangue, semrando por onde 
passa a desolação e a morte, nâo insistirei entreianto pela sua 
abolição. Não seria possível fazei -o á vísia das livres insti- 
tuições que nos regem. Direi ii ais. a i anôa do rcj^^atão nnt 
parece uma necessidade indispensável na luelles destírtosím- 
mensos, rajueiías remoti^simas par.^gens. 

« Pretender, diz o Sr. Dr. Tavares Bastos (54), que rada pro- 
ducior vent a aos povoados na sua ranôa trazer a sua bor- 
racha ou os seus géneros^ e comprar os arlifOá de que careça; 
pretender que «aia indio ou cada família faça isso periodi- 
camente, aii avessando enormes distancias, çasiando muitos 
dias, interrompendo o seu tratalbo; preferir isto ao n^oví- 
mento natural das tramacções, segundo o qual, peia lei da 
divisão do trabalho^ o regatâo é o intermediário que ecoDO- 
mií^a tempo e despeza de producção, fazendo o transporte em 

Sroveito de lodos; pretender que em uma região, cujas in- 
ustrias extractivas determinam e provocam a disseminação 
dos habitantes, a população se concentre á ro ia dos seus ra- 
ros povoados, não me parece sensato, nem medida economira. 
O tt^mpo, o abandono das actiiaes industrias, os processos 
a?rico'a«, a moralidade que se dílTundirá como o progresso da 
civíllsação, é que hão de alterar as praticas do pe(|ueno com- 
mercío, c supprimir os usos que boje excitam jusia in- 
dignação. > 

Entretanto, em bem da moralidade, em bem do socege 
publico e da tranquillidade das famílias, e[ ara evi ar, senão 
de todo, mas peio menos diminuir essas scenas de volenciu 
e de sangue, essas represálias de que lançam mão os índios, 
▼endo*se feridos no que têm de mais raro, roubados na 
honra e na fazenda, maltratados e ludibrindos |:or esses ho- 
mens sem fó e sem consciência ;— é necessário armar a auto- 
ridade de poderes discricionários, e fazer pesar sobre esses 




(53) E'raro, muito raro, dizia-me um dos caracteres mais 
sisudos e inteilígentes do Amazonas, que não terminem essa^ 
ladainhas por um ou mais assassinatos. 

(54) Yid. a importantissima obra O Valle do Amazonaíi, 
|tg. S86. 



— 141 — 

indíviiaos lo lo o ripor, toda a severidade da lei. Yigie-osa 
jastiça e faça -lhes senlir toio o seu peso, o sm máximo 
rii^or na repressão das menores de suas falta>. Não haja tele- 
rancia para com elles e puna-os a lei com severa ínflexibili- 
daie na perpetração do> abusos e violências. (55) 

Sem essas medidas coercitivas, que sem duvida serão mui* 
tas vezes illudídas, sem grandes exemplos de que a lei e a? 
autoridades nao transigem com os re:;atões^ quaesquer que 
sejam, e por maior e$ e mais altas posições offíciaes que occupem, 
a catechese continuará a ser uma utopia, porque não quere- 
rão os Índios entrar para o grémio de uma civilização e de 
uma socieda le de onde sahem os seus mais cruéis e perigosos 
inimigos. 

c A consequência desse estado de cousas, dizia o Sr. Dr. 
Adolpho de Barros, é que longe de progredir, a conquista 
pacifica dos indígenas se difficulta de dia para dia ; e não só 
se difficnlia, coaio até se perae a olhos vistos. 

« Um numero crescido de tribus, que já haviam descídc 
das cabeceiras de alguns rios e outros lugares igualmente 
remotos, esiabelecendo-se aldeados nas vizinhanças de cer- 
tos povoados, tem gradualmente desapparccido, regressando 
íiS soas solidões, e ais habilos da vida primitiva, que iam tro- 
rando pouco e pouco por costumes mais brandos e civili- 
zados. 

« Entre tantos outros exemplos, cilarei o dos Catuqueiras, 
estabelecidos em differentes malocas nas vizinhanças da foz 
do Jutahy, próximo ao Solímoes. 

c Dispersara m-se todos, não ha muito tempo, e volta- 
ram de novo ás cabeceiras daquelle rio, perto do Mutum- 
paraná. 

c De mais de trezentos que eram, restam apenas seis em 
uma das malocas mais distantes ! 

e Este facto, que se reproduz em muitos outros pontos da 
província, merece ser tomado em grande consideração. 

c O receio das populações indiifenas, não diante dos pas- 
sos da civilização^ mas diante da cobiça torpe dos aventu- 
reiros e do despotismo criminoso de certas autoridades (56), 



(35) Quem compulsar os annaes judiciários do Pará e Ama- 
zonas, verá que a maior parte dos crimes ahi commettidos, 
tem j)or protogonisla um rega tão ou pelo menos é elle a causa 
próxima ou remota. Na casa do Sr. tenente coronel J. J. da 
Silva Meirelles, onde me a;ho hospedado, ha uma viuva e 
um orphão, que ahi foram pedir abrigo, e cujo marido e pai 
cahiu victima do punhnl do assassino cm uma dessas celebres 
ladainhas, organizadas pelos regatões. 

(56) Referindo-se aos directores de indios, escrevia ao Sr. 
ministro do império, em Dezembro de 1865, o Sr. Dr. An- 
tónio de Macedo Costa, bispo do Pará : 



— 142 — 

transpõe o limite das nossas fronteiras. Foi assim que uma 
parle notável das iribns Pacé, Hyw*y e Hamanaem vista da 
perseguição desenvolvida contra os Miranhas, que tinham 
avançado mais para as margens do Japurá^ couceotrou-se 
temerosa além do nosso território, nos desertos aiada nâo 
trilhados nem pelos regatões» nem pelos directores. 

Como estes, temos perdido e iremos perdendo outros habl» 
tantes, que educados convenientemente, seriam de grandís- 
simo préstimo na nossa externa linha de fronteira. 

Cumpre e urge prover de remédio a males de tamanha gra- 
vidade. Cumpre ret*3r esta população que se afaiUa, assim 
como aproveitar a que se concentra no< desertos, perdida para 
a religião, inútil )aia a sociedade. Cumpre ir ao encontro 
desses restos dispersos de tribus, que mutuamente se comba- 
tem e destroem em uma luta selvagem, reunil-os em missões, 
que tenham por base o ensino e o trabalho, que sejam colo- 



c Os melhores directores parciaes (rarissinos se contam 
destes) são os que negligenciam as obrigações do seu cargo e 
não se importam absolutamente com os indíos. Os demais 
não se hão de chamar directores, Sr. ministro, senão senhores 
de Índios, e que senhores f Não quero contristar o animo de 
Y. Ex. com relatar-lbe as atrocidades, os despotismos, as 
injustiças clamorosas praticadas por esses funccíonarios em 
nome e sob a égide do governo Anda o triste índio afu- 
gentado, opprimido, despojado, escravisado, como nos tem- 
pos da conquista, e até em certos lugares vendido meio ás 
escondidas, como mercadoria de contrabando. Tenho tes- 
temunhado eu mesmo estes factos e, ainda mal, que se expli- 
cam mui naturalmente ! Não offerecem em geral os pretensos 
directores garantias sufficicntcs para cargo de tal porte. As 
simples honras de tenente coronel com que os galardoa o go- 
verno, não são sufiQcientes para decidir homens sisudos, in- 
telligentes, de abonada reputação e probidade a renunciarem 
aoscommodosda civilização para irem por aquelles immensos 
desertos viver com índios boçaes.» 

O finado Sr. conselheiro Furtado escrevia estas palavras^ 
não menos enérgicas e eloquentes : 

c Assim os encarregados de taes funcções (os directores de 
índios) com rarí:;simas excepções, ou não se importam com os 
índios e são os melhores, ou buscam o emprego para se lo* 
cupletarem com os serviços desses desgraçados, dando*]hes 
cm paga estratos, que deshumanos senhores applícam a es- 
cravos desobedientes e remisfos. 

c Força é confessar uma triste e pungente verdade. A 
historia dos indíos é o opprobríoda nossa civilização. Apezar 
de tantas leis proclamando a sua liberdade e proscrevendo a 
escravidão delh s^ ella subsiste quasi de facto ! Opiniões er- 



— 143 — 

nia^-mis^Ò^s, se me posso exprimir assim; compre final- 
mente, cuídaadoda i>orte de tantos infelizes, estal)elocer nest i 
):arte remota do laiz ]onos avaQç.)dos do progresí^o e da 
segurança do nosso território. 

Não vai ntsso somente os interesses da humanidaie e da 
moralidade publica, porém 0$ mais positivos e immediatos do 
paiz. 

Os únicos braços con que conta a província do Pará e 
sobretudo a do Amazonas, são esses selvagens acoimados de 
preguiçosos e incapazes ou seus próximos descendentes. 

Em 1864 existiam na provinda do Amazonas 39 directo- 
rias de Índios. 

O algarismo dos indígenas sujeitos a todas ellas era de 
17.^80: sendo 8.102 liomense 9.072 uiullieres, liabitaado 755 
fogos e possuindo 21 capellas. 



roneas, int3res8?s illegitímos sustentados por abusos inve- 
terados, frustram a sabedoria dessas leis. Os selvagens eram 
c são havidos em conta de brutos e estranhos ao grémio da 
humanidade, e foram. sempre victimas.da avidez e maldade 
de seculares e ecclesiasticos. . . . 

t E porque ao erro e ao crime não faltam advogado^', a 
imroolação e o extermínio das tribus selvagens, são apadri- 
nhados com os mais estranhos systemas. Ora se inventa uma 
pretendida lei fatal da civilização, que oscondemnaá in- 
evitável destruição^ como se a ci viii/a;ão, que é o livre desen- 
Tolvimento de todas as faculdades physiras c morais do ho- 
mem, sem outros limites, que os do direito e da iustiça, que 
proclama a inviolabilidade da vida humana, pudesse airei lar 
como lei.sua a ncgai^ão da penonalidado, a destruição do 
homem em proveito de ignohil cobiça. Ora que o selvagem é 
incapaz de trabalho e de civilização senão por meio da escra- 
vidão, como se a mais superficial observação e os factos mais 
incontestáveis não demonstrassem a aptidão do selvagem ; 
como finalmente si a Providencia pudesse condemnar uma 
raça inteira á destruição ou á escravidão * em beneficio da 
outra. 

c Felizmente talentos vigorosos têm profligado tão mons- 
truosos paradoxos e seja dito em honra do governo do Impé- 
rio, este nunca aceitou tão odiosos alvitres. 

< A civilizado dos indígenas nada tem de impossível para 
todos os que examinarem 08 factos com animo limpo depre- 
ven^^es e dos prejuízos creados pela ignorância e i aixões in- 
Dresseíras. » 

(Relatório apresentado á assembUa provincial do Amazonas,) 



— 144 — 

Eis o quadro das diír^rentes directorias c das tribus, que 
as coinpuQlKim : 



CO 

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M 

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•O 
es 




CA 



Directorias. 

Manacapurú, 

Acará. 

Manacá c Juçurá. 

Ajbú. 

Amaiarv. 

rçá. 

Jundialuba. 

Galuú. 

Japurá. 

Teffé. 

Juruhá . 

Toiíanlins. 

Jutahy. 

Tabalin^a. 

Fonlo-Boa. 

Auamá. 

S. raulo. 

Caldeirão. 

Maniquiry. 

Man i core, 

Auia-assú. 

Abacaxis. 

MurunHiruluba. 

Cantiniã. 

Maués. 

Andirá. 

Sapucaia-oroca. 

Crato. 

S. Paio. 

Mamurú . 

Acará. 
Marança. 
Uapés elçana. 



Porio Alegre. 



Alto Punis. 

Iluxy. 

Papaan. 

Arunrã. 

Ayapuá. 



Nações, 

Mura . 

Idem. 

idem. 

Idem. 

Idem. 

Pacé, Ilyuri. 

Mura, Tucuma. 

Pacé, Ilyuri. 

Idem. 

Idem. 

Maraná, Araus. 

Cayaxana. 

Mangerona. 

Tucuna. 

Mura. 

Idem. 

Idem. 

Cucama. 

Idem. 

Mura. 

Idem. 

Mundurucú. 

Idem. 

Idem. 

Mundurucú, Macú. 

Mura, Maué. 

Idem. 

Mura, Tara. 

Mura. 

Maué. 

Xirlana, Bapianá. 
Jabaua, Mauacaná. 
Diversas. 



Sapará, Macuxi e outras < 



Diversas. 

Idem. 

Idem. 

Idem. 

Mura. 



Actualmente soem dous pontos da proviaciado Amazonas 
é que existem missionários incumbidos dessa grande obra da 
civilização e da humanidade : um é.no Caldeirão, pouco 
abaí\o do Tabatinga, na margem esquerda do Solimoes; e 
outro no rio Madeira^ abaixo da cacho3ira de Santo An- 
tónio. 



- lio — 

Ambas estas missões foram fandadas por frei Samuel Man • 
ciniem 1871. 

CoQSta-me que altos esforços, mas sem resultado^ tem feito 
o Sr. tenente coronel Labre para conseguir missionários que 
se incumbam da catechese no Purús. 

Também me parece que se trata de mudar a missão da ca- 
choeira de Santo António, no rio Madeira^ para a secção en- 
cachoeirada deste rio, procurando -se assim localizada omais 
próximo possivei da foz do Beni, já pela conveniência de 
tornar habitável aquella região, ainda hoje occupada por 
Índios selvagens, e já pela vantagem politica, que resulta de 
;ittestar a nossa occupação permanente nessa zona, por meio 
da fundação de uma povoação brazileira.— Cónego Francisco 
Bernardino de Souza . 



i9 



(lOMMlSSÃII 110 MADEIRA. 



PARÁ E AMAZONAS 



PELO 



ENCARREGADO DOS TRABALHOS ETHNOGRAPHICOS 



C/Oueoo ÍTuxucíAco voe^ua-uiiuo de dousea. 



2.» PARTE. 



RIO DE JANEIRO 



TYPOGRAPIXIA. NAlOIOMAIj 



761-*. 



1875. 

f 

K 



• ^^*^^»^»^h^fc^>^ ^i0'^^^^i0^m^^0^a^^mm 



COMMISSiO DO MADEIRA. 



Pará e i^mazonas* 



I 



PMV 



Anlcs de proseguir na desc.ripçâo do grande rio e de sens 
numerosos affluentes^ procurarei patentear aos leitores al- 
(Tumas das maravilhosas riquezas que encerra o ma^^esloso 
Valle do Amazonas. Em parte alguma a natureza é tão farta 
em suas variadas producções como ahí. O homem desta re- 
gião, diz o Sr. conselheiro Brusque, a cada instante encontra 
os dispersos elementos de uma riqueza natural, que elle 
aproveita somente, quando se lhe não offerece maior traba- 
lho do que seja o necessário para colher-lhe os fructos que 
os encerram, e quanto basta a satisfação das necessidades do 
presente, como se as gerações que virão depois delle não lhe 
pedirão contas do muito que perderam e do pouco que re- 
servaram para ellas. 

Seja, porém, como fôr^ ha nestas risonhas paragens pro- 
duetos naturaes, que n'um futuro mais ou menos próximo 
deverão figurar como importantes objectos de permuta nas 
relações do commercío exterior. 

Ahi vai sem ordem esem apparato scientiflco uma resu- 
mida noticia db al^^umas producções, que se ostentam no 
magestoso valle — como verdadeiros presentes doados pela 
mão benéfica e poderosa da Providencia. 

Macugu mirim. — E' uma arvore que vegeta no valle do 
Amazonas. Com a infusão da entrecasca desta arvore, éque 
dão uma espécie de mordente nas cuias^ sobre o qual assen- 
taxn depois as tintas. Usam deite inordeute aa (alu 1^ oviUo, 



— 6 — 

do lompo e da agua. E' dura e rija, Gna e de fácil braní« 
dará. 

A commissão da exposição indusirial do Pará, de que fa- 
zia pnrteo iilusirado Sr. Dr. P. da Silva Castro, disseque 
entrava nm duvida sk era a maçaranduba o galactodendron 
utile de Humboldt e Bompland, o qual abunda na cordilheira 
du8 Andes, especialmente na Columbia,eque estes dous na- 
turalistas classiflcaram na família das artocarpeas. 

Os habitantes da cordilheira lhe chamam paio de vacca^ 
(arvore de vaca). 

As partes empregadas da maçaranduba são— d leite ca 
[(omma— resina liquida, que se obtém, fazendo-se na casca 
uma incisão transversal, que chegue á madeira. 

Toma-stí internamente, combinado com algum cosimento 
emolliente ou peitoral, em partes iguaes, e externamente em 
emplastro estendido sobre a pelle e coberto com algodão. 
E' empregado com vantagem nas moléstias do peito. 

No Pará e no Amazouas usam delle como alimento e to- 
mam-nn misturado com café ou chá, tornando assim mais 
saborosas e nutritivas estas bebidas. 

O mesmo praticam os habitantes da cordilheira dos Andes 
com o leite que tiram da sua galactondrendon utile e por 
igual processo. 

O leite da maçaranduba, combinado com a borracha ou 
ainda com a gutta-percha, presta-se ao fabrico de mil arte- 
factos, como cadeias de relógio, anneis, castiçaes, bandejas, 
pulseirasetc. Um vasode procellana ou de barro, diz oSr. 
F. Penna, uma cadeira ou qualquer outra peça de c«>pa ou 
de mobília, qu»í se quebre, recebendo no lugar fracturado 
uma camada deste leit^, torna -se tão perfeitamente soldada, 
(|ue toma, por assim dizer, maior consistência e solidez do 
que antes possuía. 

CAUixi.— E' o sedimentt) que no Rio Negro e em outros, mas 
somente nos de agua preta, se agglomera nas raízes das ar- 
vores das margens destes rios. O cauixi apresenta a forma 
da esponja e tem propriedades cáusticas. 

Os naturnes utiiisam-se da cinza do cauixi para fabricarem 
louça, misturando. a com argilla. 

AssACu' ou uAssAGu'. — {Hura brasiliensis,) E' uma arvore 
colossal, que cresce espontaneamente em todo o valle do 
Amazonas. Pertence á familia das euphorbiaceas , 

D.3Sta arvore extrahe-se por incisão um .«ucco gommoso ou 
leite branco pardacento e um pouco avermelhado, que se 
condensa e solidifica com difflculdade e vagar; quando con- 
densado, é escuro pardacento, com o aspecto mais de gomma 
qup de resina e mui solúvel em agua. 

E* muito irritante o leite ou veneno vegetal do assucú, nro- 
iuzindo até ulcerações na pelle quando sobre ella cabe. Mata 
immcdiatamente quando tomado internamente em dose ele- 
vada- Em pequenas doses porém (ás gotas) é vomitivo, pur- 
gativo e também antlielmintico. E' pouco usado. 

Os p»^8^*adore8 cosiumam empregar a casca da arvore eás 
vezes o me<mu leite paru embriagar us peix.*js, pOíto qu^' 



— 1- 

Minelhanle pratica seja forma Imanle prdlubída poios rr;;!!' 
Iimeotos manicípaes. 

Por algDm tempo acreditou-se no Pará queo tcilo dom- 
xacii era um anlfdoto contra a elepliaollasls; ma; depois 
de diversas experiências, sem resultado que sniísâzesse, des* 
Tanecen-se esse raio de esperança, o!:sa scenielha íIr .'.alTRÇSo 
para tantos infeiiies, queahi gomem sob a pressin crael de 
tSo terrível enfermidade, coudemnados á leuta dilaceração 
das carnes ei uma morte afQictiva... 

Om facto mal averiguado, não quanto ao curativo de um 
enrermo supposto elephantiaco, mas quanto ao verdadeiro 
conhecimento da moléstia curada, deu lu^ar a r?ssa tão ani- 
madora esperança. Atiríbuindn-sc ao índio António Vieira 
^ssos o ouraiivo, na cidade de Santarém, de um Tugo Gomes, 
qae se diiia elephsniiaco, foi mandado o dito indlo para o 
nospiíal dos Laiaros. a flm de incumbir-se du iratamenio dns 
doentes com o leite de assacii, com que pretendia ler curado 
Gomes. 

Has ainda desta vez falhou infeliimente O ensaio e foi 
completo o desengano. 

Caburd'. Uma das maravilhas do Rio Negro ; é uma espé- 
cie de eanirú, que cresce nas pedrai das cachoeiras deste rio. 
Comem-no os natoraes cosido com peixe ao qual forneceu 
salcommum. 

Deste caruru sabem os Índios extrahir o sal rom processos 
mats grosseiros sem duvida, mas na essência os mesmos que 
outros mais civilizados poderiam empregar. Colhem a planta 
seccam-na ao sol, carboniaam-na depois de bem secca, dis- 
solvem a cima em agua, filiram em folbas secces, evaporam 
ao fogo e assim obtém o sal, quenSoé muito puro, porque o 
filtro que empregam, de folhas seccas, n9o pôde relerem si 
todas as impuretas. 

Outra utilidade desta planta menos apreciada, porém nSo 
menos real, consiste em que crescendo ella nas cachoeiras e 
justamente nos lugares jior onde é preciso arrastar as ca- 
noas, qne procuram as margens, na subida do rio, serve 
esta herva de leito ou almofeda, sobre a qual ellas resvalam 
mais facilmente e sem olTensa do casco. 

OiMATT.— E' uma tinta arroxada escora, preparada com a 
casca da arvore do mesmo nome e que se torna preta pela 
acçSo do ammoniaco cm evaporação. 
Serve para pintar cuias e outros objectos de uso commum . 
Paliando das cuias do Pará, dizia o seguinte o Sr. Gon- 
çalves Dias : * As indias do Pará piniam-nas de ururu, ca- 
rajurú, cary, tauà, tabatinga ; servindo-lbes de óleo a in- 
fasSo da casca da arvore cumaty, a qual também serve de 
mordente, porque antes de cintadas as cuias, as mettem na 
dita infusão, e sem isto, dizem ellas que lhes não pegam 
bem as tintas e nSo ficam bem lustrosas. 

O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, escreveu a 
«ste respeito: • As que se distinguem neste género de tra- 
balho, são as indias da villa de Monte Alegre e as das bar- 
reiras circnmvitinhas, chamadas de nírupú-Hiba ^noVwi^ 



— 8 — 

e no Rio Negro as do lugar do Carvoeiro. Os curandeiros 
applicam o dito fructo (cumaty) para hérnias, assando-o e 
dividindo-o em duas metades e meltendo entre ellas os tes- 
tículos, o que os faz desinchar promptamente. • 

PÁo DB RAINHA.— E' uma das melhores e das mais lindas 
madeiras do paiz. E' originaria das florestas do Rio Branco. 
Apparece em ambas as margens do rio, acima da cachoeira 
do S. Felippe, na terra firme o de preferencia nos lugares 
montanhosos. 

Ha algumas variedades, segundo a côr, porque além da 
encarnada, que é de todas a mais apreciada, ha também a 
amarella e a preta. 

A madeira presta -se tanto para a marcenaria, como para 
a construcçao naval e civil. Houve tempo em que se ex- 
portou grande quantidade para os Estafios-Unídos. 

Se é verdade, como ouvi dizer, diz o Sr. G. Wallis, que a 
còr desta madeira desapparece no fim de algum tempo, 
talvez provenha isso de não haver cuidado no corte, fazen> 
do-o em épocas impróprias, e quando é maior a força da ve- 
getaçlo, não se achando assimilada a seiva circulante e nem 
consolidada a fibra. Pôde ser também que concorra para 
este n:áo resultado o cortar a arvore ainda não completa- 
mente desenvolvida, pois sabe-se que muitas madeiras só 
com avançada idade adquirem as boas propriedades de que 
gozam. 

A bella e immensa folhagem do páo de rainha, faz com 
que esta arvore scbresaia entre as outras que a cercam. 

A fruta é singular : é um caroço dentro ae um casulo, 
que é guarnecido por uma grande cauda em forma de aza e 
toda coberta de espinhos de uma pollegada de comprimento. 

Carajorij— E' o nome de uma tinta vermelha, extrahida 
das féculas de um cipó que cresce no Rio Negro e da família 
das bignoniaceas , E' empregada nas artes. 

Ypadó ou Padú ou Coca (Erythroxilon coca).— E' um ar? 
basto originário^ do Peru e cultivado no Alto Amazonas e 
ultimamente em alguns lugares da província do Pará. 

As folhas deste arbusto são oblongas, um pouco obtusas, 
nembranosas e trilineadas na face inferior ; as flores são 
pequenas, numerosas e sustentadas por um pedúnculo curto. 
As folhas actuam sobre o systema nervoso e são usadas pelos 
viajantes, correios c outros, que as mastigam em pequena 
porção, sustendando-lhes as forças e permittindo-lhes sup- 
portar por um ou dons dias a fome e a sede. 

Os Índios preparam as folhas áoypadú, torrando-as, redu- 
tttdo-as a pó em um pil^ío próprio c juntando-Ihes um 
yooco de tapioca ou cinza das folhas da ambaúba Fazem 
Mnde uso desta preparação, conservando, como os masca- 
^j[iiies de fumo, um pouco delia no canto da boca. 

iíDr. Martins reputa o ypadú como digno de fazer parte 
L^materia medica, em vista do seu admirável efi^eito sobre 
Qh:«stema nervoso e principalmente sobre o cérebro. ODr. 
4Mer, em um notável artigo publicado no Journal de Phar- 
imme et Chimie, compara sua acção á do cânhamo, por causa 



— 9 — 

da dilatação da papílla, qae a produz, e á do ópio pelos seus 
effiitos narcóticos. Refere mai« qae o viajante Tschadí re* 
commenda o uso das folhas do ypadú aos marítimos, como 
meio refrigerante e de combater os máos efíaítos dos ali- 
mentos saldados; que tem sido observado que os índios 
dados ao seu uso, são isentos completamente de afficç^es 
escrophulosas e cutâneas; e que conservam perfeitamente 
os dentes. 

O Sr. Gustavo Wallís, em umartii^o publicado no JornaMo 
Amazonas, e no qual contesta a existência da herva-mate 
nessa provincia> propõe o ypadú para substituir a esta como 
bebida quotidiana; attribue-lhe virtudes semelhantes ás da 
herva-mate, e julga-as preferíveis ao café, que contém 
partes oleosas e irritantes, o que o torna prejudicial, prin* 
palmente nos paizf^s quentes, e funda se, para assim pensar, 
em numerosas experiências, que diz ter feito. 

PuxiRT ou PDXURY,— f'iVfc/a»dra puchury major et minor). 
E' uma arvore que produz uma grande noz, que encerra 
duas amêndoas, a que dão o nome da mesma arvore. Per- 
tence á familia das laurinóas. 

Ha duas espécies de puxiry, o grosso e o miúdo. Este ó 
o mais delicado, assim no gosto como no aroma. 

A arvore rio puxiry é peculiar do Rio Neprro e seus affliien- 
tcji. O seu fructo foi colhido pela primeira vez, segundo 
Baena, em i776. 

Emprega-S8 o fructo, ou antes a semente^ a que dão o nome 
de fava. Toma-se internamente em pó, na dose de um escro* 
pulo a uma oitiva, e empregasse com resultado nas diar- 
rhéas, desynterías, leucorrhéa, cólica e choldra. 

Guaraná'. ^(PauUnea sorbiles, da familia das pindaceas.) 
E' uma planta vivaz, trepadeira em forma de cipó; con- 
tém grande quantidade de cafeína, gomma, tanino, etc. Emr 
prega-se o fructo reduzido á massa sob diversas formas. E' 
refrigerante, calmante, subtonico e adstringente. Também 
é reputado anti- febril. Toma-se internamente, reduzido a 
pó ténue efino^ por meio de uma grosa, na dose de duas a 
quatro oitavas para uma libra d'agua fria ou ligeiramente 
tépida, adoçada com assucar . 

E' empregado com grande proveito nas diarrhéas agudas 
ou chronicas, nas moléstias das vias ourinarias, provenientes 
de relaxamento dos órgãos e nas excitações nervosas. O seu 
uso continuado, porém, produz insomnias. Da raiz, que é 
amargozissima, usamos indios, em infusão, como preserva- 
tivo das febres intermittentes. 

Também é hoje empregado por medievos notáveis, contra 
asenxaquôoas, o cholera e até contra a tysica. O Dr. Ste- 
nhouse, na analyse que fez do proaucto desta planta, achou- 
Ihe uma quantidade considerável de theina, que é a matéria 
que dá ao chá o seu valor pecnliar. 

O fructo dá um cacho á semelhança dos da uva, e, quando 

está maduro, é de uma bella cor vermelha rutilante. 

Plantasse o Çjuaraná com o cacáo* a germinação das sementes 

porém é mais morosa, porque só dousou trea mez^^s depois 

2 



— io- 
de plantadas é que começam a grelar. A planta só no 3.® ou 
4/anno é que principia a dar fructos, e desde então é pre- 
ciso preparar- lhe uma latada ou caramanchão, a que se possa 
encostar e snbir. 

E' cultivado o guaraná em (grande quantidade nos muni- 
cípios de Maués e Villa Bella da Imperatriz. Em Maués so- 
bretudo constitue elle quasi que a uníca industria e que 
tanto tem concorrido para a sua prosperidade. Também se 
encontra nas marp^ens do Tapajoz, acima de Aveiro. 

A planta guaraná, diz o íncançavel Sr. Ferreira Penna, 
parece será companheira fiel das tribus indigenas Mondu- 
rucús, Maués, Araras, Muras e Apiacás. 

A sua pátria, pois que é onde mais commummente se en* 
contra cm estado silvestre, é esta magnifica região, ainda 
pela maior parte habitada poraquellas tribus e que o autor 
da Corographia Brazilica denominou mvndurucania, com- 
prehendida entre o Tapajoz e o Madeira,— região maravi- 
lhosa pela variedade e abundância de seus ricos productos 
vegetaes. 

Os habitantes da província de Mato Grosso e os da Bolivia, 
desde as margens do Alto Paraguay e do Madeira até as 
montanhas orientaes dos Andes, fazem avultado consumo do 
guaraná, que tem entre elles o emprego que em quasi todas 
as nossas províncias s^ dá ao café e no Rio Grande ao mate. 
Tomam-no fri) todos os dias, principaimenttí pela manhS 
muito cedo, em um copo ou cuia. Para se reduzir á pó a 
massa do guaraná emprega-se geralmente a língua o^^sea 
do pirarucu, a qual substituo optimamente uma lima. 

No Pará, onde ha 20 annos era uma bebida de uso geral e 
contínuo^ tem sido substituído pelo assahy, que, com o ser 
muito mais agradável, não tem todavia as qualidades bené- 
ficas do guaraná ; tendo já havido quem opinasse que uma 
das causas da multiplicidade de moléstias, que hoje reinam 
no Paráe que outrora eram ahi desconhecidas, está prova- 
velmente na quasi extincção do uso do guaraná. 

Os índios Maués, muitos Mundurucús, os Muras e os 
Araras tomam-no a qualquer hora do dia ou da noite, come' 
çaodo das3as 5horasda manhã. 

Cada anno descem pelo Madeira mercadores da Bolívia e 
Mato Grosso, dirigindo-se a Serpa e Vilia Bella da Impe- 
ratriz , para onde trazem seus géneros de exportação e 
donde recebem os de importação. Dahí, antes de regres- 
sarem, vão a Maués, donde levam mil arrobas deguaranp, 
regressando então com suas ubás carregadas daquelles e 
deste ultimo género, que vão vender nos departamentos de 
Beni, Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba, ua Bolívia, e 
nas povoações do Guaporé e .seus affluentes. 

O preço de cada arroba de guaraná, comprado nos muni- 
cípios em que elle se fabrica, é de 40)SIOOO a 50^SI000. 

Em Mato Grosso chega muitas vezes a ser vendido por 
preços verdadeiramente fabulosos. 

Para a capital da província de Mato Grosso os productores 
só do Tapajós exportam annualmente de 1.500 a 2.000 arrobas 



- il — 

o gaaraná é pois incontestavelmente uma planta das mais 
úteis e tudo indica que o futuro da sua exportação será 
muito lísongeiro para os productores. O que convém porém 
é introduzir na cultura eno fabrico os melhoramentos que 
a experiência fôr indicando. 

No TapajoZy diz ainda o Sr. F. Penna, a sua cultura tem-sa 

Sropagado rapidamente, graças ao génio industrioso dM 
[undnrucús, de sorte que Itaituba começa a competir com 
Manes no supprimento ao mercado, não só de Cuyabá e 
Diamantino^ mas também do Pará, donde é exportado para 
as províncias do Sul e, em pequenas porções, porá a Eu- 
ropa. 

As terras altas do Tocantins^ Pacajás, Xin^rú, Tamatahv, 
Trombetas e as do Lago Grande são tão adaptadas á cul- 
tura do guaraná como as do Tapajóz; e eu creio que esta 
planta, cedo ou tarde, será encontrada no Xingu, em es- 
tado silvestre e talvez em abundância. 

Fora da província ella pôde, segundo penso, ser culti- 
vada com vantagem nas terras quentes dos baixos valles 
dos rios S. Francisco, Parabyba, Rio Doce, Jequitinhonha e 
em vários pontos da província do Maranhão. (1) 

Eis como o preparam : 

Torram em fogo brando e lento, a amêndoa, que é de 
côr escura e qnasi do tamanho de uma avelã, trituram- na 
l)em em um pilão, deitando-lhe um pouco d'agua, até flcar 
bem compacta, e dão -lhe então a forma de rolos cylindricos 
ou outra qualquer, como bengalas, castiçáes, animaes e di- 
versas, e por flm levam ao forno para endurecer. A este 
ultimo processo dão o nome de defumação. Na torrefacção 
deve haver o maior cuidado, porque o calor um pouco mais 
forte do que aquelle que convém, queima a semente e o 
producto tornasse péssimo. 

Em geral consideram de superior qualidade o guaraná, 
que apresenta uma côr parda clara no interior; posto que 
não seja isto signal decisivo de sua perfeição. 

MuNPiQuÉRÂ ou Amaro da Silva.— -E' assim que chamam 
uma arvore da qual extrahem leite come o da serin- 
gueira, e apresentando as mesmas propriedades chimicas. 

Paragutaga.— E' uma arvore do Alto Amazonas. Da ma- 
deira fazem os Índios remos e pequenas canoas, que 
duram porém pouco tempo. 

Nasce pelas margens dos rios. com as raízes debaixo d'agua 

Marupa'-miri.— A raiz, em infusão, deste arbusto, é tida 
como poderoso remédio contra as diarrhéas. 

YiGTORiA REGIA. Esta gígautesca nymphacea, verdadeira 
maravilha do reino vegetal, habita mansa e tranquillamente 
nas pacificas aguas dos lagos pouco profundos do Amazonas 
e de seus numerosos afluentes. 



(I) A Região Occidental da provincia do Pará por D. S. F . 
Penna. ^ 



— 12 — 

O onkbrt UiUDíco Kaenke a Fr. Lacuéva, missionário bes- 
^éntfj^f ntr^atntío peh» rio Mamoré, foram os primeiros ea* 
r9|>^oiqae tíTertm a fortnna de ver a maior e a mais bella 
dai Djmphareis. O sábio naturalista cahiu de joelhos, e em 
a^çio d« graças ao Ente Supremo, que creoo tio portentosa 
ma rsTílba, entoou o Te-Deum ante seu eompanbeiro admi- 
ndo. 

Em 18i5 um viajante ínfirlez, o Sr. Bridares, navegando 
pelas margens do rio locouma, um di>s tributários do Ma- 
more, deu com um lago, no qual viu com sorpresa uma 
quasl colónia dessa planti maeniflca. Em sua admirado 
eem seu amor britânico deu-lhe o nome de sua soberana» 
apellidando-a de Victoria Regia. 

Os índios dSo a essa flor o nome de Uapé Jopaná (forno dos 
jaçanãs) porque eftas aves vivem pousadas sobre ellas, de 
cujas sementes jte alimentam. A Victoria fíeaiaoxx melhor, 
Uãfé Jnçaná,é uma planta aquática da familia das nympha* 
ceas. Suas folhas tem de 15 a 18 pés de circomferencia ; a 
parte superior é de um verde escuro e Insidio, a inferior é de 
nm vermelho carmezím ; apresenta varias veias cellolares 
bf m iialientes, cheias de ar, e o talo ó coberto de espinlios 
moiks e eíasticos. 

As flores elevam-se acima das aguas quasi seis pollegadas, 
e quando estSo abertas tem de 3 a 4 pés de circumferencia. 
K* quasl á noitinha que costuma abrir as pétalas. A principio 
oftentam na cAr a mais deslumbrante alvura, mas depois, 
dentro de 14 horas, mudam successivamente desde a côr de 
rosa até o vermelho mais brilhante. Logo ao desabrochar 
exhalam delicioso perfume; no fim de três dias desmaiam, 
pendem da haste e mergulham n'aguatarn ahi amadurece* 
rem a<i sementes. Destas, quando maduras e por cansa da 
fécula de que são ricas, fazem os indíos (irande colheita : 
torram- nas e comem-nas com prazer, por serem mui sabo- 
rosas. 

Urucu' (Díxa orellana), E' um arbusto de 12 a 15 pés de 
altura ; o fructo é uma capsula eriçada de espinhos, con- 
tendo muitas sementes vermelhas. Postas de InfusSo n'agua 
deixam uma tinta enramada muito linda, com que os indí- 
genas pintam suas manufacturas e em algumas tribus a si 
próprios. 

Também empregam o vrucú (ara misteres culinários. 
Igualmente usam da semente para curar o defluxo. Prepa- 
ram*na de infusio em agua fervendo. 

O principal emprego do urucú é para a tinturaria. Paia 
este flm, ais o Dr. Chcrnoviz, separa-se e rejeita-se o pri- 
meiro envoltório do fructo. Pis8m*se as sementes em celhas 
de lào e dilu(m*se em agua quente ; deita-se tudo sobre um 
peneiro. A agua pasfa^ arrastando comsigo a mateiria co« 
rante e alguns destroços. Deixa-ae fermentar sobre o resíduo; 
còa*se e faz-se seccar a matéria á scmbra. Depois de redu- 
zida áconsihtencia de massa solida, faz-se com ella (iesde 
S a 4 libras, que se envolvem em folhas de bananeira ou de 
alguma autra planta. De ve*se escolher o uructi de um bello 



— 13 - 

▼ermelbo. Cede á agua fria um priocipio corante amarello; 
e ao espirito de vinho, assim como aos líquidos alcalinos, um 
principio corante vermelho de natureza resinosa ; este toma 
a còrazul de anil pelo addo sulfúrico concentrado. Empre- 
ga se sobretudo o ururú para tin^j^ira seda de amarello ala- 
ranjado ; dá cores bel las, mas pouco fixas. 

Usia-ae também para dar côr aos vernizes, azeites, gordu- 
ras, manteiga, etc. 

Assupa'.— Dão os Índios do rio Purús este nome a um 
pequeno arbusto, que parece terá propriedade febril como a 
quina ; produz a febre pela sensação do olphato dentro de 
meia bora. Temem-noos indios extraordinariamente; pre- 
sentem-no de longe e fogem dello. Não ha interesse que os 
faça apanhal-oou pegar nelle, e acreditam que possuo pro- 
priedades venenosas. 

E' possível que tenha esse arbusto a propriedade anti-fe- 
bril, como a quina, e bom serviço prestaria á medicina e á 
humanidade quem se propuzesse a estudai o. 

Arârâ-sipó.— E' uma planta trepadeira, flexível e forte: 
nasce no cimo da castanheira e forma como um tronco le- 
nhoso em redor da mesma arvore. 

Córta-se um gomo do sipó e apara-se o liquido, que corro 
copiosamente: é limpído e crystailino, e extinguindo a s6de, 
promove também a secreção e sabida das ourinas. 

Babimbé.^E' o nomo que dão algumas tribus do Pará a 
um arbusto que cresce de 6 decimetrosa um metro. 

Tem propriedades muito excitantes e por isso é mui usado 
entre os indígenas, que preparam uma bebida com o sueco 
das raízes e folhas. Dizem que produz uma grande agitação 
nervosa, dando movimento o actividade aos membros e vi- 
veza aoespirito, affugentando a preguiça ea inércia. Pro- 
voca vómitos, quando a bebem. 

PauTA-PÃo.— A' margem do Amazonas crescem arvores 
de fruta- pão, um pouco differentes no tamanho (são me- 
nores) e no fructoque produzem, das que são cultivadas nas 
províncias do sul. No interior do fructo encontra-se diver- 
sas castanhas em nada inferiores ás castanhas de Portugal. 

Como leite queextrahem da arvore, misturam um pouco 
de gengibre (aqui chamam mangarataia) o formam um em- 
plasto, que dizem ser de prompto effeito nas dores de cabeça, 
por mais agudas e violentas. 

Araba-ubá da varzba.^E' uma arvore muito commum á 
margem do Amazonas. 

Da casca extrahe-se uma delicada côr de carmim, addicio- 
nando-se um pouco de pedra hnme á agua em que ó fer- 
vida 

CARk9kVk'VBÂ,^Arvore do Carapanã. -Cresce no valle do 
Amazonas e abunda sobre tudo nas margens do Trombetas. 

£* a celebre e tão decantada Anacauita. 

Jatuatuba.— E' uma arvoro que produz fructos em ca- 
chos, que muito se assemelham aos da videira. 

Diiem quea raiz em infusão é um remédio cathartico. 

Da tonada arvore preparam um purgante, qae, afflrmam 



— Ifi — 

barro (1), iicende-se fogo com cô^o (i), por baixo da uma 
chaminé de barro queimado, a que dão o nome de botão, 
e quando o fumo começa a cvaporar-se pela válvula supe* 
rior em quantidade, pe^a-se em uma prancha de madeira, 
da feiçSo de um remo (3), e molha-se no leite por meio de 
uma pequtna cuia, p^ssa-seno fumo, que evapora-se pelo 
boião (4) e rapidamente coagula -se o laite na grossura de 
uma folha de papel; molha-se de novo a forma no leite 
e faz-se o mesmo serviç) alternaio e successivamente 
até esgotar o leite, cujo processo em duas horas, pouco mais 
ou menos, está acabado, segundo a maior ou menor quanti- 
dade de leite. Fica a seringa até o dia seguinte na forma, e 
talhada em uma das extremidades é tirada da forma para 
seccar e curtir ao soL 

Quando vai bem defumada toma uma cor amarella es- 
cura ; e quando vai mal defumada, toma a cor esbranqui* 



(I) O vaso de depositar o leite para a defumação, ( uma bacia 
de zinco, que deve ter capacidade para ^ a 30 litros de leite. 
Antigamente estes vaso«» eram de barro queimado ou o casco de 
tartaruga, do qual ainda hoje se servem os indios. 

(S) O c6co para defumar a seringa ó de todas as espécies e deve 
estar despido da casca c massa, que cobre a matéria rija, mesmo 
velho e quasi podre serve para a defumação. 

Sâo empregados o coco de urucury, inaja\ yacy, e o de palmeira 
ou coco propriamente dito {wawassú, em língua geral— quer 
dizer coco grande). O coco é colhido durante o inverno, por ser 
tempo de leval-o ao seringai, que durante esta estaçfto está de- 
baixo d*agua, facilitando por isso a sua conducção embarcada aó 
centro do trabalho. Cada trabalhador pód.e consumir um hecto- 
litro por safra, pouco mais ou menos. 

(3) As formas são de madeira leve, tendo, porém, consistência 
para supçortar o peso da seringa no processo da defumação ; ollas 
têm a feição de um remo com sua manivella feita de uma só 

Seca de madeira: umas são perfeitamente circulares, com um 
iametro de 25 a 30 centímetros, pouco mais ou menos. Esta 
forma facilita mais o trabalho. Outras são quadrilongas, tendo 
30 centímetros de longo e 90 de largo, pouco mais ou menos. 

(4) Boiâo ou chaminé de barro queimado. E* bojudo, da feição 
ou figura de um pote, aberto, porém, em duas extremidades: tem 
boca onde acende-se o fogo e válvula respiradora do fumo^ por 
meio do qual se prepara a seringa : tem de altura ou profundidade 
50 centímetros, l",SíOcs. de circumferencia no seu bojo; 10 es. 
no diâmetro da válvula, 30 es. no da boca, que tem uma pequena 
abertura de 6 centímetros para rommunicar-se a ventilação, afim 
de facilitar a actividade do fogo nas matérias inflammaveis^ 
dando sabida ao fumo pela válvula. 

Este boião é posto em cima de um pouco de lenha sect a, e, depois 
de bem inflammada, deita-se o coco sebre ella pela válvula, e im* 
mediatamente, ao começar a sabida do fumo do coco, segue-se o 
processo da defumação, e á proporção que o fumo vai diminuindo 
também de novo vai-se deitando coco. Para evitar a queda do 
boião, que pôde quebrar-se, como sempre succede, é ronvonientc* 
usar de uma grade dp ferro, qno supporte ostp vaso. 



— 17 — 

cada: com a acção porém do tempo todn ella toma a cor 
nesrra . 

Demorada ou proloniçada a dt^fumação, por falta de pres- 
teza e actividade no trabalhador, o leite começa a saturar-se 
e coafrala-se antes de findar a defumação. 

D'i8to provém as differentes qualidades de seringa ; fina 
entreflna e sernamby. 

A fina é defumada até o fim nem que o leite seja saturado ; 
a êfUrefina é defumada quando o leite já está saturado e em 
começo de coagulação; a sernamby édo leite coagulado na- 
turalmente ou por precipitação de qualquer corpo ou ma- 
téria estranha, lançados no leite, como agua, caxaça, pe- 
daços de seringa, falta de asseio nos vasos do serventuário, 
etc. Todo o leite, que se derrama dos vasos ou do corte das 
arvores, coagulado, ésernamlty, e tem dous terços do valor 
da fina. E' um trabalho valioso, porque o que se julga per- 
dido ainda dá dous terços do seu valor real 

Ha outra arvore leitosa, que produz a seringa Os traba- 
lhadores, que a conhecem, mettem-nas nas estradas e intí^el- 
lam-nas colhendo o leite com o da verdadeira seringueira. 
Chama-se tapurú esta arvore. Entretanto a seringa tira- 
da delia não tem o elástico tão dístemivo e resistente como 
o da seringueira ; comtudo líga-se perfeitamente com o leite 
desta. 

No começo da extracção da seringa empregava -se o sys- 
tema denominado do— arrdc^, que consistia em comprimir 
o tronco da arvore, obliquamente, com um cipó mui grosso, 
fazendo-se na parU) superior algumas incisões, por onde 
corria o leite, que era recebido em um vaso, depositado na 
parte inferior aa ligadura. 

Este processo porém matava as arvores em pouco tempo, 
e apezar de ser formalmente prohibido^ ainda muitos o em* 
pregam, porque infelizmente a rotina cega quasi que a tudo 
preside aqui no Amazonas. 

O processo demasiadamente lento e enfadonho da prepa- 
ração da borracha por meio da defumação, e os inconve- 
nienies não pequenos que lhe são annexos, tem chamado a 
attençãode alguns homens intelligentes e industriosos, que' 
têm pretendido símplifical-o e melhoral-o por meio de ou- 
tros processos mais rápidos e mais aperfeiçoados. 

Em 1860 o Sr. Henrique António Strauss, que já havia 
obtido do governo imperial, por decreto de 28 de Setembro 
de 1858, um privilegio para efupregar o processo por elle 
descoberto para a prepararão da borracha, offereceu-se a di- 
vulgar o segredo pela quantia de 25:000/f000, e a assembléa 
provincial do Pará^ pela lei de 3 de Novembro de 1860, au- 
torizou a presidência da provinda a despender a quantia 
necessária para a divulgação do processo, uma vez que se 
reconhecesse a sua superioridade sobre e que actualmente 
está em pratica. O inventor apontava grande numero de 
vantagens do seu processo e a presidência nomeou uma com- 
missão, encarrega ndo-a de estudal-as. 

Os resultados do exame a que foi submettído o processo 
3 



— 18 - 

Stranss pareceram salisfactorios á commissao> qoe reco* 
nheí*eii a superiori(Jade do novo sobre o velho processo. 

N'este processo, que éde fácil comprehensSo para qaapg- 
quer intellijiencias, a solidiflcação do leite da serin^faeira 
opera-se rapidamente, e os ingredientes, que nelle entram, 
são por domais baratos, porque consistem em uma solução 
de pedra-hume em a«rua a fervor, nassesruintes proporções: 
10 libras do pedra-hume para 32 frascos d'agua 

Esta solução, base primordial de todo o processo, mistu- 
ra-secom o leite da seringueira, na razão dei para 20, isto 
é, um frasco de soloção é sufflcíente para solídifírar 20 
frascos do leite. A borracha preparada deste modo fica 
muito pura, com a elasticidade natural e com uma bella cor 
de âmbar. 

Entretanto o commeroío prefere a borracha solidificada 
pola fumoíraçâo com o coco do uricury, talvez por conter 
maior porção de oxygeneoe lornar-se de mais elasticidade 3 
de mais facil emprego nos misteres para que é destinada. 
Eis as instrucçoes dadas peio Sr. II. Strauss para o fabrico 
da borracha, segundo o seu systema : 

€ Cnáà uma feitoria, segundo suas proporções, deve estar 
provida dos seguintes utensílios: 
c Uma ou mais tinas ou alguidares, 
c Um jogo completo de medidas, de i frasco aiémeií> 
quariilho. 
«Uma espátula de madeira, do comprimento de 3 palmos. 
< Um pequeno regador, com capacidade para conter um 
frasco de liquido 

« Formas de madeira, zinco ou folha, quantas forem neces- 
sárias, proporcionalmente á força ou numero dos trabalha* 
dores, com as dimonsões abaixo indicadas: 
€ Comprimento, 24 poilecrodas (3 palmos.) 
f Largura, 12 ditas (1 1/2 dito.) 
c Altura, 1 dita. 

Estas formas devem sít collocadas umas próximas ás ou- 
tras, em um íjiráo de convonionte altura, bem niveladas, 
para as peiles da borracha ficarem iguaes em toda a sua es- 
pessura, sendo coberto por cima, para evitar que alguma 
chuva repentina venha transtornar o sueco elástico, recen- 
temente preparado. 

c Para impedir a adherencia da borracha ás formas, la- 
vam-se estas pelo lado de dentro, antos de deitar-se-lhe o 
leite, com agua em que se lenha desfeito algum barro, pon- 
do-as depois a escorrer, conforme se pratica com as formas 
pelo antigo systema. 

t Disposto tudo nesta ordem, se procede á preparação do 
leite pela forma seguinte: 

« Mede-se este e se lança depois dentro de uma tina ou al- 
guidar, eácada 20 medidas, quer seja de frasco ou outra 
qualquer, se deitará uma do mixto, adiante indicado, 3or 
meio do rogador, mexendo-se con^tantemente o leite du- 
rante o processo da mistura. Isto feito, iança-se sem de- 
mora nas formas, na quantidade de meio frasco, para cada 



— 19 — 

uma, desmanchando-se levemeote com uma pcana as bolhas 
qae em cima affluirem, para qutí as pelles flquem lisas. 

< Assim concluído se deixam em repouso uté o dia imme- 
diato. 

c Sendo o processo regulado conforme as instrucçõis, es- 
tará no dia seguinte a borracha nos termos de ser tirada fora 
das formas, e. para esse fim, passa -se uma faca |>elos lados 
delia para a aeslígar de qualquer embaraço; e virando de- 
pois a forma em cima de uma laboa, se deixa apelle cabir 
direita, lavando esta do lado quu tiver estado em contacto 
com o barro, sem que seja necessário m(>v**l-a do lu^ar . 

< Passam depois estas a serem depositadas em uma prensa, 
separadas uma das outras por Jieio de taboas delgadas e bem 
ajustadas, devendo ser a ultima mais grossa para poder re- 
sistir ao pesu que em cima s*^ lhe deverá pôr por espaço de 
24 horas, cujo peso póJe ser de ferro, pedras ou qualquer 
outro objecto. 

<Â prensa pode ser feita por qualquer curioso em razão 
da sua simplicidade ; ella consiste em uma caixa do mesmo 
tamanho das formas, com a única dííTorença de ter 2 a 4 
palmos de altura, furada por todos os lados amíudadamente, 
cujos furos devem regular de 2 a 3 linhas i'e diâmetro, pouco 
mais ou menos. Estes furos são para darem sahiJa á parte 
aquosa contida na borracha e no mixto envolvido, a qual 
é expellida por meíj da força da pressão exercida pelo peso, 
torn.indo*se por isso a borracha densamente coinpacta. 

«Também se podem conseguir os mesmos eITeitos da prensa 
por outra maneira: 

<Purani-se as formas em 6 ou 8 lugares nos lados próximo 
ao fundo, osquaes se tapam com tornos ou burro, quando se 
lauça o sueco dentro; e a taboa destinada para separaras 
pelles umas das outras na prensa, conforme acima se disse, 
servirá neste caso para entrar dentro da forma, pondo sobre 
ella o peso necessário, abrindo-se nessa occasião os mencio- 
nados buracos. 

< No dia subsequente tiram-se as pelles da prensa e se ex- 
põem ao sol, víraudo-sede tempos a tempos pelo espaço de 
dias que fôr preciso para ficarem seccas. 

< Se a fabrica fôr em grande escala, póJe-se fazer o caixão 
da prensa mais alia, ou terem duas, piíra que a operação 
seja feita no dia em que as pelles sâo tiradas das formas, 
isto é, quando seja dirigido o serviço comas prensas. 

cTodo este processo é mui simples e está ao alcance de 
todos. 

< A quantidade acima indicada de meio frasco de sueco 
elástico em cada forma, deve produzir uma polle de duas 
linhas de espessura com 20 pollegadas de comprimento o 10 
de largo, pouco mais ou menos, com o peso de sete e meia 
onças. 

€ Quando se queira formara borracha logo no mesmo mo- 
mento, não sendo para pelles, vai -se-lhe botando o mixto 
até tomar a consistência de massa; depois concerta-se 
dentro da vasilha que lhe serviu de forma, e no dia se* 



— 20 — 

guiote, ou DO mesmo, passadas 2 ou 3 lioras, comprime-se 
cora algum peso para fazer expulsar a agua e tomal-a 
compacta. 

« Por este processo se poderão fazer as obras que se qui- 
zerem, seja qual fôr o seu tamanho o formatura. Quando, 
para fazer-se uma grainie peça, não chegar o leite, pôde 
juntar-se-1he no dia immediato o resto, comtanto que seja 
sujeitada á pnssão depois de se lhe unir o resto. 

c Mede-se a quantidade de agua correspondente á porção 
que se pretende fazer de míxto; aquecesse esta em qualquer 
vasilha até o ponto de ebullição (effervescencia) ; reiira-se 
depois do fogo, e nesse estado de quentura se lhe ajunta 
snlphato de alumína e potassa (pedra -hu me) em pedaços nas 
proporções abaixo indicadas. 

Para 32 frascos de agua 10 libras de pedra-hume. 



> 16 






5 


• 8 






21/2. 


> 4 






ll/4> 


> 2 






10 onças 


* 1 






5 . 



» 
> 



«São por consequência esias proporções reguladas a 16 par- 
tes de agua, uma de pedra-humc ; por exemplo, ^>ara 16 onças 
de agua, uma de pedra-hume, que corresponde a um quar- 
tilho^ medida do commerciu ; a 16 libras de agua ou 16 
quartilhos, uma libra de pedra-hume, e assim se farão as 
porções que se quizer em maior ou menor quantidade, 
guardando-sea devida conformidade. 

«Deve haver todo o cuidado em não afastar e seguir exac- 
tamente as referidas proporções na cr»mposição do mixto, 
porque se fôr de mais a asrua ou de menos a pedra hume« 
não produzirá o desajado eíTeito na coagulação do sueco, e se 
fôr em menor porção a agua, e em maior a pedra-hume, nada 
aproveitará com isso, porque, depois de saturada a agua, 
todo o supérfluo se depositará no fundo sem se diluir. Mas 
«m todo o caso antes seja assim, porque esse sobejo poderá 
ainda servir para nova preparação, sem comtudo transtor- 
tornar o processo da coagulação; o contrario, porém, sue- 
cederá na falta da conveniente proporção. 

« A primeira quantidade acima indicada do mixto, isto é, 
a de 32 frascos, para a qual são precisas 10 libras de pedra- 
hume, è sufflciente para manufacturar 40 arrobas de bor- 
racha, que pelo preço actual do mercado impurtam em 1^0 
réis, corsespondente a 39 réis por arroba, aliás preço exor- 
bitante, porquanto regularmente seu custo nos mercados 
da Europa, não passa de 900 réis fortes cada uma arroba, 
por consequência ficará mui reduzido para o fabricante que 
directamente o mandar vir. 

< Esta preparação não se altera e por isso pôde reservar-se 
de uns annos para outros. 

c A borracha preparada por este systema, não admitte 
fraude; qualquer que seja a mistura que se lhe faça, será 



— 21 — 

▼isivelmeDki ruconheckla na pelle, por se não ligar com o 
sacco elástico. 

<0 trabalhador qae tentar augment^r com a^ua o producto 
f|ue tiver exirahido do leite, com o fim de illudir o patrão 
com mais quantidade de liquido, quando ajustado a pagar- 
se«lh« o trabalho pela por^o, que extrahe, nade conseguirá, 
porquanto o leite, que fòr adulterado, jamais coafrulará por 
mais mixto que se lhe deite. Henrique António Strauss.» 

Com satisfactorio resultado também o Sr. Etchei^oyen des- 
robriu nm novo processo para preparara borracha. 

Empregou arbitrariamente uma pequena quantidade de 
cachaça sobre cerca de 25 f^rammas de leite de seringueira 
e a coagulação operou-se rapidamente 

Pensa o mesmo Sr. Etchegoyen que um litro de aguar- 
dente será suficiente para coagular 16 kilogrammas de leite. 

A borracha assim preparada, além de coagular-se de 
prompto, fica completamente secca e pura de outra qual- 
quer matéria; o que não acontece com outros processos, que, 
além, de Serem dispendiosos, tem o inconveniente de dei- 
xarem o producto sujeito á quebra do peso pela quanti- 
dade d'agua que absorve o leite no acto de coagular, e que 
só mui lentamente se evapora pela arção do calor. 

Sabe-se pelas experiências do Sr. Goodyear, dos Estados 
Unidos, que a borracha misturada com ift de enxofre, ad- 
quire uma consistência dura e rija, pelo que se presta a ser 
polida, esculpida e cortada de todos os modos, servindo assim 
para uma infinidade de objectos. 

Na exposição nacional de iS6i, na Corte, foi vista e apre- 
ciada a gomma elástica do Pará em estado bruto e preparada 
em alguns objectos, entre os quaes sobresahiam uma folha 
imitada de arvore, um cacho imitando uvas e um transpa- 
rente com relevos. 

Havia mais uma caixa contendo tiras de borracha e um 
livro coro amostras de dlfferentescores, fabricadas pelo pro-^ 
cesso do Sr. Henrique Sirauss. 

O leite da arvore da mangaba, coagulado com solução de 
pedra-hume e passado na prença, dá borracha excellente, 
tendo sobre a da seringueira a vantagem de já ser branca, 
dispensando portanto a clarificação que ordinariamente faz- 
86 com arsénico. 

A mangabeira é muito abundante na ilha de Marajó e al- 
guns outros pontos. 

A gomma elástica ou borracha, que tão grande influen- 
cia tem tido nos destinos das duas províncias do Pará e 
Amazonas, e que representa tão importante papel nos domí- 
nios da inaustria, merece ser estudada desde a sua origem. 

Eis em resumo a historia das diversas vicissitudes e peri- 
pécias porque tem passado, segundo o bem elaborado estudo 
que a respeito escreveu o erudito Sr. Ferreira Penna e que 
taoto me tem auxiliado neste modesto estudo. 

A gomma elástica ou borracha não era ainda conhecida 
dos povos civilizados na época em que o famigerado Orel- 
lana desceu de Quito pelo Na po e .\inaznnas até o Oceano, 



— 22 — 

nem mesmo quando o capitão Pedro Teixeira sabia do oceano 
|jelo Âmazoaas e Napo até Qaito. 

Os missionários portuguezes, que viviam entre os Índios 
do SolímÕcs, parece que foram os primeiros europeus que 
delia tiveram conhecimento. 

Com eíTeito, parece que a primeira noticia da sua exis- 
tência e da SUB utilidade foi dada por um missionário car- 
melita chamado Pr. Manoel da Esperança, o qual nos nlií* 
mos annos do século XYII foi estabelecer missões entre os 
índios Oma^uas ou Cambebas, conforme se deprehende da 
cópia imperfeita de uma carta de outro religioso carmelita, 
que em 1733 missionava entre aquelles iodios. 

Os Cambebas ou Omaguas destas missões, tantas vezes 
perturbadas desde 1690 pela ambição dos jesuítas hespanhói38, 
fabricavam botijas, baldes e outros vasos em que conduziam 
ou conservavam suas bebidas e fruclos. 

Conta-seque o seu primeiro cuidado, quando recebiam 
hospedes ou visitas dos missionários, era ofTr^recer-lhes um 
desses utensis de nova espécie, cheios de bebidas espirituo- 
sas ou frutas de suas terras. 

Pouco habituados ao uso dessas bebidas, davam -lhes os 
europeus muito menor apreço do que aos vasos, que as con- 
tinham, uosquaes eia fácil a perspicatna do missionário en- 
x»*rgar um artefacto digno da maior attençãi). 

Gomeffeito, como naquelles lugares as terras são em geral 
encharcadas, mormente na estação invernosa, e a humidade 
paraoeuiopeu era origem de moléstias perigosas, recebeu 
logo a borracha uma applitação mais útil, sendo empregada 
para calçado, como um preservativo da humidade, e dabí 
proveio u fabrico de botas e sapatos dessa matéria. 

Conhecido no Pará o uso deste calçado, lornou-se geral e 
não tardou a passar a Poriugdl, onde em Í7Ô5 já estava tâo 
generalizado que o rei D.José também qi.iz ter botas co- 
bertas de comina elástica e para esse íim remetteu o governo 
uns poucos de pares para a cidade do Pará, a fim de serem 
convenientemente preparados. 

A sua appliraçàu estendeu-se ás mochilas dos soldados, 
sendo em 1797 rernettidas no bergantim Gavião 2.250, que 
por ordem do governo tinham sido cobertas. 

Na França as suas applicj.ções industriaes foram logo ani- 
madas pelus esforçiis da sciencia ; assim em 1768 o cirurgião 
Macquer apresentou á academia das sciencias de Pariz uma 
memoria justificando as vantagens da substituição do metal 
pela gomma elástica no fabrico das algalias, o que foi logo 
adoptado, percebendo os fabricantes grandes lucros pelo no- 
tável uomniercio destes io^trumentos. 

Só muito mais tarde «^ no ultimo anno do século passado, 
foi que o ministério portuguez, aceitando o oflferecimento 
do cirurgião dn exercito Dr. Francisco Xavier de Oliveira, 
autorizou-oa fixar a sua rcs^idencia no Pará, a fim de fa- 
bricar iguaes instrumentos e fazer desenvolver essa indus- 
tria monopolisada pelos fiancezes, que aproveitavam a nossa 
matéria jirimu. 



■^IW* 



— 23 -- 

O flsco principiava já a entrever na gomma elactíca am 
ramo de rendas inealcalaveis, guando os saccessos extraor* 
dinarios da França, acritando o mundo inteiro, lhe pertur- 
baram os cálculos. Então a exportação desappareceu to- 
talmente, como era natural, em presença das batalhas, 
que ensan(;uentavam a Europa e da paralysação geral da 
industria. 

Depois do restabelecimento da pazj^eral, a ^omma elástica 
reappareceu tímida e vacillante ; mas acoroçoada pela cres- 
cente demanda em varias fabricas, começou a ganhar ter- 
reno nocommercío. 

Assim, a sua producçlio já importante quando o Brazíl se 
declarou independente, constituiu um dos nossos ramos de 
exportado, embora ainda de valor insignificante. (1) 

A fzromma elástica, como género de exportação, foi pela 
primeira vez incluidn nas pautas em 1825, em virtude do 
decreto de 31 de Maio do mesmo anno ; mas somente em 
i827 é que se encontra declaradamente que houve exportação 
delia, não existindo documentos dos dous annos antece- 
dentes. 

No relatório da commissão da exposição industrial do 
Pará, em 1861, lê-se o seguinte a respeito da gomma elás- 
tica 

c Até 1840 era este artigo exportado pela maior parte em 
sapatos e em outras formas, apenas em quantidades dimi- 
nutas, valendo então a de melhor (|ualidade de 6^ a 7fi por 
arroba. 

c Em 1850 já a exportação em sapatos tinha diminuído con- 
sideravelmente, e nesse anno exportava-se apenos 138.873 
pares, augmeniando então a quantidade exportada em bruto 
para uso das fabricas a 92.026 arrobas, valendo de l^^^la 15^ 
por arroba. 

t De 1854 a 1855 cessou completamente a exportação em sa< 
patos e naquelle ultimo anno subiu a exportação em bruto 
a 178.840 arrobas, tendo chegado a valer o exorbitante preço 
de 36^ por arroba 

c Em 1856 a 1857 sofTreu este género uma reacção, tendo 
diminuído censideravelmente de valor e voltou ao preço de 
11^ a 12Ã por arroba. » 

No periodo de 1858 até melados de 1861 teve nova alta. O 
preço da '^omma elasttca, subindo até 25^ por arroba; desceu 
porém, logo consideravelmente até IS^S, era razão dos acon- 
tecimentos políticos que se davam nos Estados Unidos, o que 
bem graves prejuizos causou á praça do Pará <^ aos empre- 
hendedoresdaquella industria. Com a terminação da guerra 
reappareceu a confiança e o preço da borracha teve prompta 
alta. 



(1)0 Tocantins eoÁiiapu, Relatório apresentado ápresldenca 
do Pará pelo Sr. D. S. Ferreira Penna. 



<■>♦ 



ri 



nem mesmo quando o capilã 
pelo Amazonas e Napo alé <J 
Os mi^isiiinariís portujcin^/. 
do Solimõijs. parei;e que fui. 
delia tiveram couhecímentn 
Com pílVilo, parece qup 
ti^ncJa c da sua utilidade f< i 
nií^jila chamado Fr. Mann- 
inosannos dosorulo XVI! 
Índios OmaíTuas ou Catnl 
cópia imperfeita do uniM 
que om i73S missionavíi 

Os Cambehas ou Om 
perturbadas desde i6^M) 
fabricavam botijas, bal< 
ou conservavam suji* 

Conta -se que o seu 
hospeilos ou vi-íitas li 
(lesses u tens IS de nov 
sus ou frutas desua> 

Pouco habituado.- 
europeus muito mei 
tinham, nos quaes • 
x^^T-rar uoi artefai ' 

Com effeito, voi • 
encharcadas, mm 
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lo^^) a borracha ■ 
para calçado, cc 
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Conhecido n 
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generalizado • 
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- il.» exportação 
u «le 1836 a i85á, 

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I 1873, a oxportiçSo 



■ mI7 

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niV.235 

153.785 

11)8 03V 

á3í.í87 

381.82:i 

:í3ft 389 

321.366 

;í37.38I 

317.306 

33â.S50 
4.798.9SÍ kílos. 
il.9U.i39 kflo . 
4.147.492 kilos. 



Valores. 

1.430: 773 A:nR 
3.577:235;54n 
á.7l3.98iM90 
2.261:4105197 
1.395:451^904 
1.224:290^^011 

1 880:921,5288 
3 4<í2: 330.5253 
2.863:9i6AB76 

2 405:476.^57 

3 232:875r>098 
3.265:373âíí37 
3.6i9:978r>085 
4.6i8:562â28;) 
5.844:005^703 
7.598:506^^21 
7 836:0465825 
9.728:442^349 
7.509:491^000 

10.043: 165jm)0 
7.378:7405000 



conveniente' 
A sua ap 

sendo em 1' 

por ordem 
x\a Frant 

madas pel- 

Macquer 

memoria 

pélago III 

adoptadi 

lavei GO 
Sóm- 

f oi q uc 

do cif 

autor 

brica* 

tria • 

rnalr- 



•< consIdemçSea acerca dessa indus- 

incniado a.n rendas da provincia do 

.ii;;ttraro mais prospero e brilhante 



H SBfinffa óapraíi:a do Amazonas •. 
i vista um contrasenso ; mas é a opi- 
'n4aiD seriamente, de todos que madu- 
las cousas e que se não deixam iliudir 
^ apparenclas. 

çaoda borracha no valle do Amazonas 

iríhtes, tem misérias bem pungentes, 

<n zonas retroj^rada a olhos vistos, despo- 

adese víllase o desanimo se vai apode* 

iitam e estudam osfactos, apezar desse 

a<9 6 dessa apparente prosperidade. cXin* 

. o profífessu espantoso que apresenta o 

IS innos oDr. J. M. da Silva Coutinho, 

leio, nio tem ba.^es; acaba cedo se ogo- 

rovidencias. No fim do 60 annosos serin- 

• .<alsa dovo ter de.sappan^cído, assim eomo 



— 25 - 

ascapahybeirasy dos lugares mais favoráveis e onde o traha- 
lho é vantajoso. E' preciso depois ir buscar essas drogas no 
alto Japurá e nas cabeceiras de outros rios, ainda hoje desco- 
nhecidos. A grande questão do Amazonas é, portanto, regu- 
larizar o trabalho da extracção das drogas, ou melhor^ 
fixar a população— para que a lavoura dos géneros alimen- 
tícios se desenvolva, para que o progresso das duas pro- 
víncias seja real. > 

O que tem feito a extracção da borracha em favor daquelles 
Gue lhe sacrificam a saúde e todos os commodos da vida ? 
Oae riquezas têm elles accumutado, que futuro tôm prepa- 
rado para si e para os filhos ? Ao vôr essas caravanas nume- 
rosas, que todos os annos partem para essas paragens tão re- 
motas e de onde poucos voltam ao vôr essa espantosa emi- 
gração de famílias inteiras, de povoações inteiras, devoradas 
pela vertigem de fabulosos lucros, que abandonam o lar, a 
pequena lavoura que cultivavam, o socego e a segurança ; 
que não recuam ante a taquara certeira dos Araras e dos 
Parintintins; que vão devassar as brenhas do Madeira, do 
Purúii, do Juruáe do Javarjr, onde o mísero selvagem tinha 
procurado para si uma guarida ; ao vôr esse movimento pe- 
riódico, essa emigração em massa, dir-ne-hia que esses rios 
tão ricos de productos e de terras ubérrimas, apresentam 
boje o espectáculo admirável de lindas povoações com todos 
os commodos da vida, com todas as vantagens da cívílisação. 

E' bem cruel a decepção. Os desertos continuam desertos, 
onde de longe em longe se avista uma pobre barraca de se- 
ringueiro, toscamente feita de páose coberta com grelos de 
palmeira. Alli, completamente fora da acção da autoridade, 
sem religião e sem lei, vivem os f^mprezarios dessa industria 
rodeados da sua gente ou pessoal, A honra da virgem, os 
serviços do operário, a sua liberdade, o seu trabalho duran- 
te o dia, o seu descanço durante a noit^, tudo pertence a 
esse regulo caricato, que se cham» patrãy e {^uja vontade 
naquellas alturas é superiora lei ! 

c A industria extractiva da borracha, diz o Sr. Ferreira 
Peuna, com aquelle bom senso que lhe reconhecem todos, 
não ó fatal somente ao seringueiro ; seuseffeitos perniciosos 
no estado actual fecahem sobre outros ramos de industria 
e sobre a riqueza e cívílisação no interior da província. 

< Falla-se dos progressos da capital do Pará ; assim é, sem 
duvida; e es^^e progresso ó tão notável, como rápido. O 
commercio e a navegação aqui florescem de dia para dia ; 
as rendas crescem de anno para anno; a cidade acompanha 
esse movimento de civilisação ascendente ; orna-se de novos 
edificios, povoa seus subburbios, rasgam-se novas ruas e 
praças ; o porto enche-se de navios, as docas do canoas, as 
ruas de gente, o caos de occiosos ; a illuminação se faz por 
canalísação ; as letras mesmo tomam certo desenvolvimento . 
Tudo, emâm, denuncia progresso e prosperidade. 

c Mas o interior? Todo o mundo sabe quão notável é a 
decadência de suas povoações. Eu dei também uma idéa 
geral do seu estado pouco satisfactori > ; estudei-o com algum 
4 



- 26 — 

cuidado e indagando a origem desssa decadência, acbel-a 
qiiasi exclusivamente na extracção da gotnma elástica, In* 
dustría rnnldita para o interior e para os que delia se 
occu-^am ; industria que rouba quasi todos ns braços, quasi 
toda a força vital da ai^ricultura, desprestigia e desacoroçtVa 
todas as einprezas úteis, despovoa as villas, dispensa o coin- 
mercío e reduz urna parte dos habitantes a nómades, sem 
residência certa ou antes com residência em muitos lugares 
ao mesmo tempo, fazendo que fujam dos thesouros da agri- 
cultura, por que o espectro do trabalho normal os assusta e 
que procurem a fortuna onde os aguarda a desgraça, a mi- 
séria ou a morte I > 

Um outro homem pratico e que tinha maduramente me- 
ditado sobre este assumpto, assim se exprimia ante os repre- 
sentantes da província do Fará: 

c Não sei S3 o exercício desta industria nioé antes fatal 
aos interesses desta provinda. 

c Por amor de seus avantajados lucros, que só aproveitam 
áquelles que recebem os productos já preparados, e ao the- 
souro, que sobre elle levanta grossas sommas pelo imposto 
que cobra, soíTre a população, e as outras industrias da pro- 
víncia sentem a falta destes braços 

c Compare-se a estatística de alguns ramos de prod acção da 
província em temoos que floresciam, com a época do desen- 
volvimento da inaustria da gomma elástica, e reconhecer- 
se-ha quo as lavouras do algodão, do arroz, do café e da 
canna foram supplantadas pelos fabulosos lucros que esta 
outra ofTerecia ; e ainda mesmo agora outras não se desen- 
volvem por falta destes braços, que outro emprego não 
procuram. 

« Não esqueçamos ainda que os seringaes vão sendo des- 
truídos e que o producto que delles resulta, deve diminuir 
para o futuro, que registrará então nos annaes de sua his- 
toria o tempo que perderam os emprehendedores desta in- 
dustria, e os males que sofifreu a população que a ella se 
dedica. 

t Nuo a condemno, senão porque, considerando esta indus- 
tria conforme se passam as scenas de sua existência nesta 
província, os homens que a exercem são representados como 
quantidades inertes ou cifras existentes no fim de uma co- 
lumna de sominar, como se a humanidade seja uma socie- 
dade em commandita, onde o trabalhador faz o simples pa- 
pel do uma machina, onde tudo se representa por lucros e 
perdas, som lembrarmo-nos que estas quantitades são in- 
tpllitrencías, que essas cifras arithmeticas são a vida, a mo- 
ralidade de muitos sores, que são votados por Deus ao mesmo 
destino que aspiramos. > 

Os seringaes tôm dado milhares de contos de réis, os cofres 
provincíaes se tòm enchido com o imposto sobre a borracha; 
mas qual o boneticio real que disso tem resultado ao valle 
do Amazonas? Só a miséria. O estrangeiro leva a borracha 
como matéria prima e dá-nos em pagamento a mesma bor- 
racha manufacturada e as suas mercadorias que sãoannaal- 



— 27 — 

mente destruídas para serem annualmente renovadas ; de 
sorte qne, no dia fatal em que se extinguir essa fonte de 
receita, no dia em que as seringueiras negarem o seu leite 
ou forem descobertas e exploradas em outros paizes e já a 
Africa a colhe e exporta, assim como a ilha de Java e al- 
f^nns lagares da índia o que teremos nós, o que terão nor 
legado esses imprevidentes filhos do valle do Amazonas ? 

Nlngnem ignora qne os seringaes do baixo- Amazonas pelo 
modo inconveniente por que foram trabalhados, acbam-se 
presentemente qnasi todos estragados ou muito enfraque- 
cidos, não compensando o trabalho da exploração, ao menos 
da maneira por que se obtém o producioem outros lugares. 
Orio Jary, que foi em algum tempo o centro da producção 
da seringa, e onde se reuoiu ião f?rande numero de traba- 
lhadores, acha-se hoje deserto. A população emigrou para 
o Madeira, o Javary, o Jurná e o Purús onde ainda a se- 
ringa se encontra em abundância, para abandonal-os mais 
tarde e ir mais longe e com mais difficuldades procural-a 
nas cabeceiras de outros rios ainda desconhecidos. 

E depois ? 

Pergunto ainda qne beneficio verdadeiro, real tom trazido 
80 valle do Amazonas a extracção da borracha ? 

Para responder a esta questão^ cita o Sr. F. Penna muito 
a propósito o seguinte facto: 

c Ha seis mezes, conta elle, percorrendo uma parte do 
vasto Estnario, formado entre as aguas do Pará e as do Ama- 
zonas, tive por companheiro de viagem um homem sexage- 
nario, em cuja physionomia scintillavam alguns raios de in- 
telligencia adqnirida pela longa experiência dos annos. 

c Eu disse-lbe que as ilhas por onde passávamos eram ri- 
cas; masadmirando-se desta qualificação, expliquei-lhe que 
me referia á grande quantidaae de gomma elástica que elias 
forneciam. 

« — Sim, ó certo, respondeu-me; estas ilhas são ricas de 
serinsra e tem dado muito dinheiro ; mas a quem o tem 
dado? Tem-no dado aos inglezes e americanos; somente 
aos estrangeiros, d|^ quem somos caixeiros e serventes I 

'« Gontou-me então que ha mais de 40 ânuos que passava 
poraquellas ilhas e que ha 30 annos ajuntava-se nellas um 
mando de seringueiros, tendo sido elle também desse nu- 
mero ; mas tendo alli perdido dous filhos, sem jamais con- 
seguir fazer fortuna, voliuu á lavoura, ^. pôde pagar, pouco 
a pouco, o que ficara devendo, c E hoje. disse-me, graças a 
Deus a lavoura me dá com que passar sem vexame o resto 
dos meus dias. • 

< Dizia-me também que ha 40 annos as ilhas estavam no 
mesmo estado de hoje^ sem cultura e sem uma habitação re- 

gnlar ou permanente, com a diíTerença porém de que então 
avia por alli muita madeira, muitas frutas^ muito cacáo 
selvagem e hoje nada mais ha disso ! » 

Este facto notável, que facilmente se pôde verificar e é 
commnm a todos os seringaes, revela por si só a infecundi- 
dade da industria da borracha para a prosperidade da pro- 



— 28 - 

vincia. Ellese refere a uma ref^íão qae, como se sabe, é das 
menos insalabres, das mais férteis e das mais apropriadas 
para a cultura, porém que todavia, em referencia ao inte- 
rior, se pôde ao mesmo tempo denominar o — Eldorado dos 
seringueiros e o cemitério da civilisação t 

Comprehendo o respeito que se deve á liberdade da 
industria e nem sou daqueiles que odêam a industria da bor^ 
racha, por não enxergarem nella senSo uma immensidade 
de maif^s e nem um só beneficio. Os que rejeitam-na de um 
modo absoluto como um grande mal social, nâo estudaram 
sua origem, nem sua marcha, nem o seu estado actual. 

A industria da seringa é uma industria viciosa e eis abi 
toda a origem dos males que produz. Destruir os vicios e 
impurezas que a nodôam e corrompem, para que seus effei- 
to8 e fructos sejam os mais salutares e proveitosos, eis o que 
cumpre fazer. Ninguém ha que não reconheça que o poder 
social não deve intervir de um modo directo nos objectos, 
que tocam á industria ou, que não deve monopolizar a in- 
dustria e o commercío. Entretanto concordam todos, mais 
ou menos, que ha grande perigo que o governo abandone e 
retire a sua iDfluencía tnteliar nestas matérias, porque, 
comedisse alguém, a liberdade não éo fim da sociedade e 
sim a prosperidade publica. 

Ha igualmente em todo o valle do Amazonas uma Quan- 
tidade extraordinária de vegetaes fibrosos, que se forem 
convenientemente explorados ofTerecerão com abundân- 
cia a matéria prima ao fabrico de variados tecidos. 

Entre elles muitos se encontram que dando já excellentes 
fios para certos usos vulgares, prestam-se igualmente ao 
fabrico de cordas, que poderiam servir com vantagem ao 
serviço dos navios. 

Outros existem que contém em si magnifica rstôpa já 
experimentada no calafeto dos navios, e que serviria também 
para guarnecer moveis e se empregaria igualmente com 
proveito no fabrico do papel de todas as qualidades. Alguns 
se encontram que pela natureza de suas folhas, de seus ra- 
mos e raizes brandas , flexíveis e resistentes, podem bem ser 
aproveitados na confecção de chapéos trançados, cestos e 
outros objectos da industria do cesteiro. 

Para as noticias que ahi vou exarar aproveito-me, como 
fonte principal, dos relatórios do Sr. conselheiro Brusque, 
apresentados á assembléa provincial do Pará. 

Palmáceas. — A rica família das palmeiras, tão variada em 
espécies, interessante e uiil, sob diversos aspectos, derra- 
raando-se profusamente por todo o valle do Amazonas e seus 
tributários, com notável disiincção, por sua quantidade, 
sobre todas as outras, é bastante por si só para preencheras 
differentes applicações de que acima íallei. 

Com eíTeito, diz o Sr. conselheiro Brusque, as denomi- 
nadas astrocarium, a cuja classe pertencem o jauary e o 
tucum ; as acrocomia, com a tnacacaúba e muitas outras, e 
bem assim diversas bactris, contêm nos longos foliolos de 
suas immensas folhas fibras tio delicadas, finas e fortes» qae 



-so- 
bem serviriam ao fabrico de tecidos regulares, assas consís- 
tentes. 

As chamadas tnauritia, em cujo grémio está o caraná, o 
muruty ou burity, fornecem aos haíiitantes do vaie do Ama- 
zonas as excellentes cordas que empreíifam em usos domés- 
ticos. ApiMsaba presta-se ao fabrico de cabos, que servem 
na marinha, de todas as dimensões e de longa duração. 

Emflm, as folhas novas do tucum, do tucuman e do inajá, 
pertencente áquella mesma família, podem, conveniente- 
mente preparadas, prestar-se, como já se vão prestando, á 
confecçSo de chapéos, de lindas esteiras, e de cestas deli- 
cadas. 

De quasi todas estas arvores extrahe-se uma certa espécie 
de estopa mais ou menos fina, mais ou menos clara, que, 
quando a industria tomar maior desenvolvimento entre nós, 
poderá ser com muita vantagem empregada no calafeto de 
navios e até mesmo no fabrico de papel. 

Brombliacbàs.— A familia das bromeliaceas não deixa de 
ser também interessante considerada debaixo do ponto de 
vista de possuir substancias filamentosas, que se encontram 
em bastante quantidade nas folhas do maior numero das 
espécies que a compõem. 

Diversas espécies não cultivadas do género bromelia ana- 
nds, assim como muitas outras do género bilbergia, confun- 
didas debaixo dos nomes carauá, crauá, crauatá, e gravata, 
dão fibras extraorJinariamente finas, fortes e seguramente 
próprias para muitos tecidos; as menos boas ou inferiores 
se empregara no fabiieo de cordas, que possuem grande so- 
lidez e resistência. 

A cillandsia e em particular a cillandsia usnevides, que é 
a mesma samambaia, depois de despida da sua parenchima 
por meio da maceração dentro d'agua, fornece uma substan- 
cia fibrosa, de côr negra reluzente, que se assemelha muito 
á crina, em cuja substituição poderia ser empregada com 
vantagem, para servir de enchimento dos moveis estufados 
e para colchões, e ainda mesmo no fabrico de cordas^ posto 
que não sejam de grande duração e resistência. 

Duas plantas de uma outra família próxima as a^at;^ ame- 
ricana e agavevivipara, confundidas com os nomes de gra^ 
vatá'assú de pita e outros, guardam também em suas longas; 
folhas fibras brilhantes e fortes, próprias para diversos usos. 

A primeira destas plantas sendo transplantada e cultivada 
no sul da Europa, assim como no norte d'Africa, abriu bem 
depressa novas fontes a um importante commercio de cordas 
e tecidos diiferentes. 

Urticeas, A familia das urticeas, geralmente rica de fibras 
textls, occupa também distincto lugar no vale banhado pelo 
Amazonas e por todos os seus afiluentes. 

A umbaúba- ou ambaúba, uma das espécies do género ce- 
cropia encerra na casca de seus ramos e na epiderme do longo 
peciolo de suas folhas as fibras bastantemente finas e também 
lortes, que podem prestar'se á fiação e ao fabrico de tecidos e 
de cordas. 



— 30 — 

Mas, sendo exlraord inaríameate a profasão destas arvores, 
seria talvez mais vantajoso aproveital-as para o fabrico de 
excellcnte papel, reservando-se as abras escolhidas para os 
tecidos, a que se podem prestar. 

Neste caso, o Amazonas só, poderia fornecer papel ao 
mando inteiro, porque não existem nelle outras arvores, 
que mais do que estas, cresçam naturalmente em tãograude 
quantidade. 

MALVACEAS.— A familía das tnalvaneas pôde também for- 
necer um bom contingrente de substancias fibrosas nos gé- 
neros Urena Myrodia Hibiseuse outros conhecidos vulgar- 
mente pelos nomes de malvaisco e malva branna, que offe- 
recem matéria própria para tecidos, cordas e papel. 

Uma familia próxima das Bombaceas está representada no 
Amazonas por vegetaes gij?antescos, pertencentes aos ge« 
neros Bombax, Chorisia, Eriodendron e Carolinea, conhe- 
cidos pelos nomes de Mungubeira, Sumaumeira, Mamaurana 
e Embira»a8Sú. 

Estas interessantes arvores, que bordam as margens do 
Amazonas e seus affluentes, conservam pela maior parte em 
seus fructos uma espécie de algodão de fibra mais ou menos 
longa, de côr branca ou pardo claro, que geralmente se em- 
prega no enchimento de colchões, almofadas e outros objec- 
tos semelhantes. 

Da casca destas arvores também se pôde extrahir estopa, 
própria, e que se emprega no fabrico ae cordas destinadas a 
navegação interior, oem como no calafeto dos navios. 

Lbcythideas.— Na família das leqjthideas existe também 
a estopa, que se destina aos mesmos usos e applicações e es- 
pecialmente na bertholetia excelsa ou castanheira, nas diver- 
sas espécies do género lecythis ou sapucaia bem como na 
embiriba amarella e outras espécies. 

Trepadeiras. —Entre os variados vegoiaes desta ordem, 
que por toda a parte se encontram nas maias das duas pro- 
víncias do Pará e Amazonas, e que são conhecidos pelos 
nomes de cipós, e que pertencem a muitas famílias, aqui 
apontaremos somente os que são conhecidos como mais im- 
portantes. 

Na família das Leguminosas ha o Mucuna»urens, que dá 
boas cordas, que servem para o serviço da marinha, na 
das Apocynéas, os Echites,q\i9, também fornecem cordas um 
pouco fracas; e na das bignoniaceas diversas bignonias, co- 
nhecidas vulgarmente com o nome de cipó verdadeiro, que 
servem ao mesmo fim. 

Da casca, e do mesmo talo deste cipó se obtém e se fa- 
bricam cestos de toda a espécie e outros muitos objectos. 

Aroideas.—Jidí família das aroideas, muitas espécies do 
arum arborescentes, como seja o aningá, contém em seu 
tronco substancias fibrosas, que embora grosseiras e ásperas, 
podem ser aproveitadas. 

Outras espécies, as epiphites, conhecidas vulgarmente com 
os nomes de imbé, tOijá, lançam do alto das mais elevadas 



^ 31 - 

arvores suas lonsras e flnas raizes aéreas, de um diâmetro 
igual e (|ue pendem até o solo. 

Umas s§o próprias para liame ou cordas {rrosseiras; outras 
porém, conveu^ente nentH preparadas e divididas regular- 
mente, servem para fazer-se com ellas chapóos, cestos e 
outros muitos ohj<^ctos s^-melhantes. 

Amomeas, — Â família das amom^^as ou. caneas apresenta- 
nos diversas espécies de Maranthcas, conhecidas pelos nomes 
uaruma-meri, uaruma-assú, uaruma-membeca. 

Da sua haste convenientemente dividida, fabrícam-se ba- 
laios, curiosas esteiras, gelosias, peneiras e típitis (i). 

Ha também uma grande variedade nas espécies da embira^ 
diÍTerentes conforme as localidades e que empregam os indí- 
genas em diíTerentPS uzos. 

AIsrumas delias são ricas de fibras assaz fortes e de resis- 
tência extraordinária . 

Agora> ainda auxiliado peio relatório do Sr. conselheiro 
Brusque, passarei a tratar das plantas fibrosas, conhecidas 
nas mattas de valle do Amazonas, indicando igualmente a 
parte da planta^ que é empregada no fabrico dos diversos 
objectos eo uso que delles fazem. 

Algodoiu (Cossipium), — A parte da planta que se apro- 
veita, é uma espécie de algodão, que envolve as sementes. 

Emprega-se no fabrico de rodes e é próprio para tecidos 
grosseiros. 

Cresce espontaneamente e em abundância. 

Ambaúba ou UMBAÚBA. (Cecropiu palmata e cecropia úm- 
baiaba, 

E' uma arvore de ramos distanciados e pouco espessos ; a 
madeira é esbranquiçada, secca e leve, contendo tanto no 
interior dos ramos como no tronco uma massa molle, côr de 
chocolate. Esta massa, estendida em panno, applica-se com 
vantagem sobre as feridas cancerosas. Com as folhas da am- 
baúba prepara-se um xarope, que se emprega contra a 
tosse. 

Ha duas espécies de ambaúba— a roxa e a branca. Esta 
dá fructos em cachos semelhantes aos da videira, mas os ba- 
gos são do tamanho e cor de um figo preto. Contém cada ca- 
cho »té cíQcoenta bagos. Para se comerem tira*se a tona, que 
é áspera. 

A preguiça vive nesta arvore, de cujos fructos se alimenta. 

São as fitiras da^ cascas dos ram(;s mais novos e os peccio- 
los das velhas folhas a parte empregada no fabrico de cordas. 
Podem também servir para tecidos e papel. 

A am&aú6a abunda extraordinaiiaineeute nas ilhas e mar- 
gens do Amazonas, Madeira e outros. Em geral no cimo desta 
arvore encontra-se uma pequena abelha, que alii faz o seu 
cortiço, produzindo cada um até 8 libra decora. 



(1) TipitU: são uma espécie de sacco comi)rido, susceptível 
de destender pela tracção e destinado a exprimir o sueco da 

niAffiHIni*^ 



mandioca. 



— 32 — 

A difllouliladc de transporte do liltoral do Peru para o 
interior, além dos Andes, obrigou os habitantes dessa parte 
do palz a lançarem mão da cora da ambaúba, que foi extra - 
hida cm grande escala até estabelecer-se a navegação a 
vanor do Amazonas. 

Hoje preferem a cora preparada na Europa, que lhes chega 
por Híenor preço. 

Araticu'-c«irtiç.v. — (Anfina palcustris.) 

O fructo desta arvore é uma espécie de piaba molie^ cheia 
de massa de côr amarellenia e venenosa, com caroços da 
mesma côr da massa : tem a casca fina, verde, com alguns 
picos brandos e curtos. 

Ha outro araticú branco e doce. 

Servem as fibras da casca dos ramos no fabrico de cordas 
de pouca resistência^ e poderão ser empregadas no fabrico 
do papel. 

Bananeira.— (lftt«apara<ítwtaf:a.)— Ha em srrande quan- 
tidade em todo o valle do Amazonas. No município de Yilia 
Bella, vi eu bananas ou pacovas, como aqui as chamam, de 
um tamanho descommunal. 

Ha muitas variedades. Conheço as seguintes : 

Pacova grande, — Cujo comprimento varia de um a dous 
palmos, e de diâmetro três pollegadas . Ha variedades nesta 
espécie. 

Pacovi; semelhante a pacova grande, porém, de menor 
diâmetro. Hi três qualidades, sendo a mais notável a acanj- 

Pacova roxa, por ter a casca dessa côr. 

Pacova maçã 

Pacova prata . 

Pacova Cayenna. (1) 

Paçoca Japurá, ou cambotas ou anã, por ser mui pequena 
a .irvore. 

Pacova mundurucú, por ser pintada. 

Pacova de S. Thomé, 

Pacova inaja ; pequena e extraordinariamente doce. 

São as fibras do tronco e dos pecciolos das folhas a sub- 
stancia, que se aproveita no fabrico de cordas grosseiras, e 
servo lambem para o papel. 

Barriguda, (Chorisia ventricosa.) — A substancia felptida, 
que envolve as sememes, serve para o enchimento de col- 
chões e outros objectos semelhantod. 

Poderá talvez Uar-se. 

E' pouco abundante no valle do Amazonas. 

GARANÁ. —(AfaurtYta aculeata,) Empregam-seas fibras das 
folhas novas no fabrico de redes e cordas. 

Estas arvores são bellas palmeiras, delgadas, de mediana 
grandeza, com espinhos venenosos e que crescem nos lugares 



(i) Foi transplantada de Cayenna para o Pará pelo i.^ tenente 
da marinha João Gonçalves Corrêa. 



— 33 — 

do litoral do Amazonas sujeitos á ínundnçSo, como também 
em terrenos pantanosos do interior das matas. Dá fructo em 
cachos frrandes. A folha é semelhante á da palmeira assahy. 

Ha diíTerentes espécies e de todas eilas se extrahem (ibras 
em geral perduráveis e fortes. 

Crescem em abundância nas duas provindas do Pará e 
Amazonas. 

CASTANHEIRO. — (Bertkoletia excelsa,) Da casca do tronco 
destas arvores, e quando não tem ainda chegado nu seu des- 
envolvimento ordinário, se extrahe a estopa, que serve para 
o calafeto de navios e poderá provavelmente aproveitar no 
fabrico do papel. 

Tenho para mim, como deplorável, diz o Sr. conselheiro 
Brusque, a devastação a que estão sujeitas Cbtas arvores pela 
extracção da estopa, que contém ; como se não fora melhor 
reserval-as para a colheita de seus fructos abundantes e 
úteis sob diversas relações ; mormente quando é indubitável 
que 86 encontram no Amazonas, e a cada passo^ os vege- 
taes de diversas espécies, próprios a fornecer também a es- 
topa para o calafeto de navios. 

CIPÓ VERDADKiRO.— (Bií;»oníac^a.) Do talo por inteiro ou 
dividido se fazem laços e tjdos os objectos da ludustria dos 
cesteiros. 

COQUEIRO. — {Cocosbutyracea,) Aproveitam -se as fibras do 
epicarpo e cora estas se fabricam cordas grosseiras, servindo 
tami)em a estopa para o calafeto dos navios. 

cuRAuÁ.—( iJromWia e Bilbergia,) Estando as folhas com- 
pletamente desenvolvidas, dão (ibras excellentes. 

Delias se fazem cordas bastante fortes e rodes muito apre- 
ciadas, e serviriam bem para tecidos de bella opparencia 
pelo brilho do fio. 

BMBiRA-Assu'.— (Bomftox.) São aproveitáveis as fibras la- 
nuginosas, que envolvem a semente, e as que se extrahem 
da casca do próprio tronco. 

As primeiras servem para travesseiros, almofadas e outros 
objectos semelhantes. As outras formam boa estopa^ que se 
presta ao fabrico de cordas grosseiras, bem como para ca- 
lafetos. 

SUBIRA .—(JCi/opta sericea,) Das fibras da casca se fazem 
cordas muito fortes e resistentes. 

EMBiRA Ku\KELLK.^(Lecithid(Ba.) De sua casca se ex- 
trahem fibras, como as precedentes^ com a diiTerença de 
serem menos fortes. 

Os usos a que se applicam são também os mesmos. 

QHkYkTÁ.'^ (Bromeleaceas,) Em seu estado de perfeito 
desenvolvimento as folhas offerecem fibras fortes, com que 
se fazem cordas mais ou menos resistentes, conforme as suas 
espécies. 

ORkYkrk-Kssv^^^iAgave americanae agavevivipara.) Das 
fibras das folhas já desenvolvidas se fazem excellentes rodes, 
« boas cordas, próprias para o serviço dos navios. 

Delias também se fazem elegantes tecidos. 

Imbé {Araidm Epiphites,) — E' um cipó ou planta trepa- 
5 



— 36 — 

Palmeibâ real.— Das fíbras dos foliolos, que são extraor- 
dinariamente finas, brandas, flexíveis e fortes^ podeni-se 
fazer flos, cordas e tecidos. 

Patauá— (CE/iocarpu5 bacaua.) Dá fibras grossas e rijas, 
que nascem na base do peciolo ; fibras de côr escura c ca- 
piilares, que ligam as primeiras^ e fibras que unem os fo* 
Jiolos antes de sua separação. 

As primeiras servem para cestas e outros objectos seme- 
lhantes ; as segundas para estopa e as ultimas para cordas. 

PiAssABA. — (Attalea funifera,) Possue grossas e fortes 
fibras, que nascem na base dos peciolos^ e que os cobrem 
antes do seu maior desenvolvimento. 

Servem no fabrico de uma multidão de objectos de uso 
commum, como vassouras e outros. O que dá Ibe maior 
apreço é prestar-se também á confecção de cabos de todas as 
di^UMl^ões. o que duram por muito tempo. 

Samambaia. —(Cilladsía Usnerids,) As fibras de toda esta 
planta podem ser aproveitadas no enchimento de colchões, de 
oslòfo, de moveis e no fubrico de cordas, que não são muito 
duráveis. 

Sapucaia.— {Lecyí4í« Ollaria e Lecythis sapucaia .) As fi- 
bras qu9 se encontram na casca do tronco dáo t)òa estopa 
para calafetar, o servem também para o fabiico dn cordas. 

Lamaumbira. — (Eriondendron sumaúma.) As fibras fel- 
pudas do fructo se podem fiar. São, porém^ apenas empre- 
gadas no enchimento de almofadas. 

Samaumeira de iikCACO.—i Eriondendron anfractuosum .) 
E' uma arvore alta, de que nascem umas cabacinhas e den- 
tro destas ha uma felpa semelhante ao algoJoim. Dá-se o 
nome de samaumeira de macaco, porque mui guloso do fructo 
óaquelle animal 

As fíbras felpudas do fructo têm a mesma applicação que a 
espécie precedente. 

Samaumeira. de terra firme.— (Eríon(/^ndranf) As fibras 
que envolvem as sementes^ servem aos mesmos usos a que 
se applicam as duas espécies procedentes. 

Suppõe o Sr. conselheiro Brusque que poderiam ser em- 
pregadas com vantagem as fibras de todas as espécies deste 
género no fabrico de bom papel e nas preparações de feltro. 

Tkik.—iAroidew Epiphites.) As suas longas, finas e fortes 
raízes aéreas, são próprias para o fabrico de cestas e outros 
objectos semelhantes. 

Ha diversas espécies. 

Tauary.— Ltfcj/í/<í5 Binkonia. Arvore notável, diz Baena, 
por suas grandes sapopemas ou largas pranchas que as raí- 
zes formam alteandose sobre o lenho em feição tringular 
com a base do lado das mesmas raízes. 

£' aproveitável o alburno ou segunda casca. Faz as vezes 
de papiel no uso do cigarro o também se poderá prestar ao 
fabrico de cordas. 

Tvcúu.^{As$rocarium vulgare.) E' uma palmeira de 
tronco cheio de espinhos e sem ramo algum, diz Buena. 

Do cimo desta palmeira partem cinco a sete folhas recor* 



- 37 — 

tadas, das quaes se extrahem fliamentos muito semelhantes 
ao linho e que se prestam á mais delicada fiação, embora um 
pouco mais escuros. 

O tucúm, manipulado em delicados cordões, serve para o 
fabrico de lindas maqueiras para rêdes, linhas de pescaria e 
differentesusos domésticos. Em cordoalhas, torna estas mui 
superiores ás que são fabricadas com o linho e cânhamo eu- 
ropôo, tanto pela sua flexibilidade natural e resistência^ 
como pela sua longa duração, embora sempre expostas a 
acção do tempo. 

Também é aqui muito vulgar o caruá ou caram planta 
bastante fibrosa, de onde se extrahe uma espécie de linho 
muito alvo, porém mais áspero que o tucúm. Quando prepa- 
rado em cordoalhas, torna estas bastante resistentes. Sbo 
porém sujeitas a pouca durnção, quando expostas á humi- 
dade. Jal^a-seque manipulado com alcatrão, poderá servir 
uo apparelho de navios. 

« A palmeira do género astrocarium, conhecida vulgar- 
mente por tucúm, aíz o Sr. Dr. J. Saldanha da Gama, é 
assas importante dehaixo deste ponto de vista. A fibra é 
macia, semelhante á lã e de uma resistência admirável, 
quando empre<!ada em cordas. Infelizmente esta immensa 
ríqneza do nosso solo é aproveitada somente para redes, 
tarrafas, linhas de anzol e pequenas cordas; o seu emprego 
seria muito mais lato, se as nossas fibras textis houvessem 
sido estudadas convenientemente. > 

Eem outro lugar: 

< Os cabos de tucúm rivalizam em resistência com os me- 
lhores da industria europea e deviam ser preferidos aos de 
outras quaesquer fibras. Mas para que i.sso tenha lugar é 
necessário verificar a abundância desta planta nos terrenos 
doBrazil ; calcular o peso de fibras que cada individuo po- 
derá produzir annualmente; e por fim crear-se a industria 
no valle do Amazonas ou em lugar em que os indivíduos 
forem mais frequentes. > 

TUCUMAN. — (Asírocíiríwm tucuman,) E' uma palmeira 
que produz cachos decôcus araarellos e vermelhos. 

São as fibras extrahidas dos foliolos e estes mesmos, ainda 
não desenvolvidos completamente, as substancias que se em- 
pregam em diversos usos. 

As fibras são inferiores ás que produz o tucúm e servem 
para o fabrico de cordas. Os foliolos são aproveitados na fac- 
tura de esteiras, chapéos e outros objectos. 

A mais notável das palmeiras da familía Astrocarium tu* 
cuman, a mais elevada e magestosa, é o tucuman- assú. 

Nasce solitária e solitária eleva a copa espinhosa muitas 
vezes acima do arvoredo, que a circunda. Algumas ha de 
mais de 30 metros de altura. E' de admirar que tão beila pal- 
meira não tenha ainda sido descripta e nem especialmente 
classificada. 

As demais espécies de tucuman nascem em toucas e cres- 
cem á pouca altura, comparadas com a tucuman-assá. As 
palmas deste são mais extensas c grossas e os esiunhos ai- 



— 38 — 

tingem até 3 decimelros. O tronco, na juventude, é reves- 
tido desses espinhos em camadas circulares, que pouco a 
pouco se vão despegando e cahindo, á proporção que a ar- 
vore cresce' em ídade^de modo que em um tronco velho so- 
mente de certa altura para cima é que se encontram es- 
pinhos. 

Os cocos, que produz, dififerem dos das outras espécies no 
tamanho, na còr, no cheiro e no gosto. Sâo de um sabor 
agradável e servem de alimentação aos naturaes do paiz, 
que lhes dão grande apreço. 

£xtrahe-se do tucuman-assú um óleo excellente e os ín- 
dios attribuem á agua do interior do caroço, ainda verde, 
a virtude de restituirá saúde aos olhos. 

TURUBY.— (Lecytid.) E' uma arvore magestosa, diz Baena, 
cuja tona é forte, alva e distensivel. 

Extrabem-se das diversas espécies desta arvore uma certa 
qualidadede fibras, que formam um quasi panno natural. 

Algumas tribus as empregam em seus vestidos, que são 
de uma só peça e sem costura ; quando muito lhes adaptam 
nrangas. 

Serve ainda entre ellas esto tecido natural para fazer co- 
bertores, mosquitt^iros e esteiras 

Presiam-se também como estopa aos calafêtose poderiam 
também servir para a fabrica de cordas. 

UAissiMA.— ( Urena lobata. ) As fibras da casca deste ve- 
getal, que cresce em grande quantidade uas immediações dos 
lagos o nos terrenos paludosos, são aproveitadas na factura 
de cordas, que lômem verdade um bello aspecto. Poieriaín 
também servir na confecção de tecidos, que se destinguiriam 
pela alvura e brilho dos tios. 

UABUMÍ.— (MararUa pitiolata, ) À caule, partida em pe- 
daços, é a substancia que se aproveita destes vegetaes úteis 
a muitos usos vulgares e domésticos. 

E' empregada na confecção de cestos e rotulas ou gelnstas 
para janellas, como usam no interior das províncias do Pará 
6 Amazonas, e a que dão o nome áe japas. 

Ha diversas espécies. 

URUCu'.— (Bíxa orellana.) Das fibras da casca do tronco 
6 dos ramos, se fazem telas e diversas cordas. 

Sem duvida nenhuma é o valle do Amazonas uma das lo- 
calidades mais favorecidas pela natureza. E' incalculável a 
riqueza que alli se acha depositada, como em reserva, espe- 
rando que um dia a mão do homem civilisado e industrioso 
se estenda para apanbal-a. E' para ahi que deviam convergir 
as vistas e os esforços do governo, e quaesquer que fossem 
os sacrificios, de sobejo compensal-os-hiam os resultados. 
E' uma mina a explorar e sel-o-ba tarde ou cedo. « E' alli, 
disse Humboldt, que mais cedo ou mais tarde se ha de con- 
centrar um dia a civilisação do globo. » E porque não di« 
riamos: E' alli que está a verda Jeira riqueza do Brazil ? 

Além dessa variedade de productos, que ficam meneio, 
nados e que encerram as margens ubérrimas do Amazonas 
e os terrenos banhados pelos grandes e pequenus rios que 



— so- 
lhe sSo tríbatarío<9 muitas outras riquezas existem, que 
podem e já o vão sendo com vaatagem exploradas. 

Entre essas riquezas, entre esses productos, não passarei 
em silencio as differentes qualidades de óleos, que fornecem 
diversas substancias vegetaes^ muitos dos quaes são precio- 
síssimos, já pelas virtudes therapeuticas^ que contém e já 
pelo suavíssimo perfume que exhalam. 

Para esta resumida noticia, e bem resumida será ella, 
além de outras fontes offlciaes e particulares, continuarei a 
soccorrer-me dos importantes relatórios apresentados em 
1863 á assembiéa provincial do Pará pelo Sr. conselheiro 
Brnsque e do não menos importante trabalho do Sr Fer- 
reira Penna,e que tem por titulo: A região occidental da 
provinda do Pará. 

Óleo de castanha — E' extrahido por meio da expressão 
do frocto conhecido por castanha do Maranhão ou castanha 
da terra, ou castanha do Brazil e ultimamente por castanha 
do Pará* 

Os índios meio civilisados dão-Ihe simplesmente o nome 
de castanha e os selvagens, segundo o dialecto que faliam» 
chamam-no nha.nhiaorxniâjuvia, tocari^ etc. 

Hnmboldt e Bompland, que foram segundo me parece, os 
primeiros botânicos que descreveram a arvore da castanha, 
deram-lhe o nome scientificode bertholetia excelsa, natural- 
mente porque domina as demais arvores, que a circundam, 
por sua altura colossal e notável robustez. Pertence á fa- 
mília das Lecylhidiaceas. 

As castanheiras não tôm sido até hoje descobertas senão 
nas duas províncias do Pará e Amazonas e nas florestas do 
Alto Orenoco, mormente a E. da montanha do Duida. 

Na província do Pará e em parte da do Amazonas, ellas, 
por uma singular disposição geographica, determinam ge- 
ralmente os limites da extensão livremente navegável dos 
rios. 

Ao norte e ao sul das planícies do Amazonas, diz o Sr. 
Ferreira Penna,ellas occupam uma larga facha, passando de 
nm lado pelas cachoeiras do Tocantins, Pacajó, Anapú, 
Xingu, Tapajós e Madeira, e do outro lado pelas do Jary, 
Paru, Maycurú, Curuá e Trombetas, indo reapparecer nas 
terras altas e pequenas montanhas de Jamundá e Uatu- 
man. 

Assim, para este precioso vegetal, continua o Sr. Ferreira 
Penna, em vez de um centro de criação, propriamente dito, 
ha duas vastas zonas, que acompanham de longe o curso do 
Amazonas. 

No Tocantins chegam a formar grupos^ mesmo em algumas 
ilhas das cachoeiras, e não começam a apparecer na parte 
inferior senão onde esse rio torna-se innavegavel pela mul- 
tidão de rochas que lhe obstruem o leito. 

No Paca já succede o mesmo, apparecendo em numero con- 
siderável junto ás cachoeiras do Uruá e Grande e á de Pe- 
pendá no afflnente Cururuhy ; abaixo destes obstáculos do 
rio, raras vpzea vè-se uma ou outra arvore, e essa mesma 



— 40 - 

nHo {\ HonSo o resultado da dispersão do algamas sementes 
tMiiipfrad')» da sua zona de criação. 

A custanhoira vegeta unicamente em terrenos altos o 
rort<(H| ao passo que a sapucaia vegeta indifferentemente 
noMrtOH torrouos ou em várzeas^ mesmo quando alagadas 
duninto o por iodo das grandes aguas. 

Viajando pelo rio Pacajá, conta o Sr. Ferreira Penna, 
avisto! acima de uma floresta alagada a beila cúpula de 
utnn rastunheira, e bem que se me assegurasse que tudo 
iilli ora um extenso igapó (mato alagado), pude penetrar 
por o.Hd ató ao pé da arvore e veriúquei que dia se fir- 
mava em uma espécie de ilha sobre um terreno solido e 
olovado cerca de dous metros acima do nivel do igapó, 
tondo a ilha talvez iOO a 120 metros de circumferencia. 
Factos idênticos se reproduzem e podem induzir a erros, 
mesmo a espíritos os mais intellígentes, como já succedeu a 
um illustro viajante nosso compatriota, que por um facto 
idontico, mas de certo não bem obeservado, disse em uma 
memoria muito estimada, que a castanheira era uma planta 
eõfnospolita. 

A castanheira eleva-se a 24 e 30 metros de altura, domi- 
nando as florestas vizinhas. Esta arvore gigantesca offerece 
o mais notável exemplo do poder das forças orgânicas na 
MHtructura dos seus fructos, espécie de cocos arredondados e 
revestidos de espesso lenho, os quaes contêm sementes trian- 
gulares, encerradas também n'um tegumento lenhoso. Estas 
sementes ou amêndoas creadas dentro de um ouriço são em 
numero de i2 a 16. 

A immenSH altura a que attínge a castanheira não per- 
niitte facilmente chegar-se a seus galhos para apnnhar-lhe 
os fructos; e quando o permittis^e, seria este trabalho per- 
dido em grande parte, pois que tem provação a experiência, 
que não sendo colhidas em completa madureza, deterio- 
ra m-se as castanhas em pouco tempo. £' necessário, pois, 
esperar a queda espontânea dos ouriços. 

A colheita dos fructos que se faz precisamente na época em 
que começam a desprender-se dos galhos, de Gns de Dezembro 
a Uns de Fevereiro, é um trabalho simples, porém que exige 
a maior precaução contra os perigos que o acompanham. 

Volumosos, revestidos de uma couraça de consistência 
córnea^ e formando, com as amêndoas que encerram, uma 
massa de duas a quatro libras de peso^ os ouriços da casta- 
nheira, escapando dos altos galhos, onde amadureceram, 
oahem com tanta força, que enterram-so no chão, abrindo 
uma cova, mais ou menos profunda, segundo a natureza 
do solo. 

Bsta simples enunciação exprime o perigo da colheita, 
perigo, acrescenta o Sr. Ferreira Penna, de onde extrahi 
eata noticia, que roais de uma vez tem roubado a vida a 
oolhedores inexperientes. 

Para evitar semelhante perigo, costumam armar debaixo 
da floresta ama ligeira barraca, de coberta, fortemente in- 
oliaada para o chão, e alli dentro esperam a hora em que. 






— 41 - 

depois de agitados pelo vento, os galhos têm desprendido 
de si todos os ouriço? madnros, e conserva m-sf» em quie- 
ta0o completa. O colhedor pradente sahe então do abrigo 
que o defendera e enche o paneíro com os fructos qae vai 
encontrando espalhados pelo chão. Terminada esta operoçSo, 
recolbe-se de novo á barraca, e ap:aarda outra opportuni- 
dade para continuar a colheita. Emquanto está refugiado 
occupa-se em quebrar os ouriços. 

As amêndoas da castanheira ou as castanhas, como geral- 
mente se diz, não entraram na ordem dos artigos de com- 
mercio senão nos primeiros annos do nosso século. 

No anno de 1755 eram tão pouco apreciadas quo apenas se 
empregavam para sustento dos animaes domésticos. Esto 
facto está comprovado com uma participação do missionário 
do Rio Negro Fr. José de Santa Magdalena, declarando que o 
ajudante da guarnição de Barcellos mandara, na forma do 
costume, uma canoa ás castanhas para se colher com que 
sustentar as criações. 

Talvez também não tenha outra origem o nome do Sapu» 
caya dada ás amêndoas da Lecythis Ollaria. Em língua geral 
corresponde a gailinha a palavra Sapucaya; o que parece 
indicar que as castanhas desta espécie eram o alimento com 
que se nutriam essas aves domesticas. 

Constituem hoje as castanhas um importante género de 
exportação do Pará, multo estimado na Europa e nos Estados 
Unidos, sendo esse paiz, a Inglaterra, a Allemanha ^ a Rússia 
os seus principaes consumidores. 

A castanha da sapucaya é a mais estimada, dando um 
preço regularmente triplo do da outra ; porque além de ser 
muito mais agradável ao paladar, ofTerece a sua colheita 
muito maior difflculdade; as suas amêndoas não são, como as 
áh Bertholeiia excelsa, encerv^áss dentro de um pericarpo 
indehis(;ente, córneo e cncouraçado, que exige o emprego de 
um machado ou de um pesado martello para ser quebrado, 
de modo a poderem ellas ser extrahidas; pelo contrario des- 
prendem-se do fructo no mesmo momento em que este deixa 
cahir o opercdlo ou tampa, que as detinha, dispersam-se 
pelos igapós e pelas margens-das correntes, onde se perdem, 
oncahindo em terrenos seccos, são logo devorados por uma 
infinidade de animaes silvestres, que de ordinário esperam 
com auciedade a sua queda. 

A sapncaja occupa na geographia botânica um lugar 
muito mais importante do que o da castanha do Pará ; ella 
se encontra nas provindas de Minas Geraes, Rio de Janeiro, 
Espirito Santo, Bahia, Pará, Amazonas e em algumas outras 
em maior ou menor quantidade. 

O preço da castanha do Pará regulava ha 60 annos ou 
pouco mais, a 80 réis o alqueire e por muito tempo conser- 
vou-se a 100, 160 e a 200 réis. Mais tarde eievou-se a 500 
réis, preço então animador. 

O preço normal regula quasi sempre actualmente de 5^000 
a 6^u00por alqueire ; entretanto tem muitas vezes chegado 
a 7^!I000 e a 8^. 



— 42 — 



O preço da sapucaya regala mais oa menos o triplo, con« 
forme • quantidade eiUtente no mercado. 

Neiles últimos S5 annos (1847^1872) regulou do modo se-'' 
irulnto o seu preço, termo médio: 

No l.*uuiiiquennioa I^IOO 

No !.• » 2Í400 

No 3.* » 3Í400 

No 4.* » 4Í»«)0 

No 5.* » . 5,í500 

A oxportaçlo e colheita da castanha, segando consta das 
ontatisticas offlclaes, tem ido sempre em augmento. O termo 
inudlu das quantidades e valores daexportHçSo deste pro- 
ducto nos annos que decorreram de 183o a 1852, segundo oa 
dados ofllciaes, que foram presentes em 1862 ao Exm. Sr. 
coHHolheiro Brusque é o seguinte: 

IVrmo médio 31.102 alqueires, no valer de 34:2694760. 

Nos annos que decorreram de 1852 a 1862, regulou a ex- 
portação do modo seguinte: 



IH5I-ÍH53 
tN53-185i 
tHft\-i855 
|Hmi-lH50. 
1856-1857. 
1857-1858. 
1858-1859. 
1859—1860. 
1860—1861, 
1861-1861. 



Alqueires. 

79.628 
55.181 
67.155 
55.251 1/2 
41.781 1/2 
88.844 1/2 
83.184 
43.988 
57.530 
45 161 



Valores. 

110:380^100 
100:5S8,»400 
216:121^ 
15l:875,$175 
175:645^100 
290:638^600 
169:838^(945 
220:463 j080 
238:728^720 
164:996i$750 



617.7341/2 1.839:276^170 



Turmo médio do decennio àt 
lB52al862 

Comparado com o periodo de 
lH56al852 

DliTt^ronça para mais 



61.773 

31.102 
30.671 



183:927^17 

34:269|760 
49:657i$857 



Segundo o relatório do Exm. Sr. conselheiro J(mío Al- 
fredo: 



1863-1864 

1864-1865 

1865-1866 

1866-1867 

1867-1868 



Alqueires, 

52.641 
68.301 
55.796 
89.385 
89.420 



Valores. 



187 
269 



391 
316 



706J254 
O6I4ÍOO 




355.543 1 393:9Mfl62 



Nestoa dados eautistieos ooinmlieiídtt^ae umbem • casta- 
nlia aapacNiji. Aié • ihm da IMO t sat oolMu aio piasifi 
d» 300 a 400 alqueires aanoalmeals. Teido porte obUio m 



— 43 - 

mercado o subido preço de 12^» ik4 ^ ^H* ^^^ havido maior 
coneorrencia de então em diante, sendo exportada para os 
Estados. Unidos e Inglaterra , donde tambum vai para a 
Rnssia . 

O oleo extrahído da castanha do Pará é fixo, amarello 
e claro; conserva mais ou menos o ^osto do fructo que o 
contém. Quando fresco e novo, é empregado nos usos culi* 
narios. E' próprio para o fabrico do sábio branco e sus- 
ceptivel de ser aromatisado. 

Também sorve para luz e pôde ser obtido em grande 
quantidade. 

Ulbo di andiríba.— E' conhecido vulgarmente por azeite 
deandiroba. E' extrahido de amêndoas triangulares encer- 
radas dentro de um oariço, produzido pela arvore yandiroba 
(Carapa guyanensis^ d'AQblet), que se encontra em grande 
abundanHtt nas ilhas e várzeas das duas províncias do Ama- 
zonas e Pará e principalmente nas do baixo Tocantins e nas 
do grande estuário entre os rios Amazonas e Pará. 

O oleo de andiroba é fixo, extremamente amargo e de côr 
amarella, quando é bem purificado. E' empregada pela me- 
dicina, dá excellente luz, no que não será talvez excedido 
por nenhum outro, e por isso é o azeite de que mais uso se 
faz nas duas mencionadas províncias. 

E* fabricado pela expressão ou pelo calor a que submet- 
tem o fructo, depois de fazerem-no soffrer a maceração. 
Este ultimo processo é o de que mais geralmente fazem uso. 
Entretanto muito deixa elle a desejar para chegarão estado 
de perfeição : é ainda o mesmo empregado ha dous sé- 
culos. 

Delle resulta a perda de grande quantidade de oleo o a im- 
perfeição do producto, a qual lhe não permitte obter preço 
mais vantajoso no mercado. Gomtudo, nem por isso deixa 
de ser o fabrico do azeite deandiroba uma industria impor- 
tante, que occupa grande numero de pessoas e tem sido até 
agora o seu producto um bom ramo de negocio. Ha dez an- 
no8 só o Tocantins exportou para Belém 9.805 potes de azeite 
no valor de 49:325^000. 

A andiroba abunda tanto no valle do Amazonas, que seria 
incalculável a porção de oleo, que se poderia obter; uma vez 
que fossem empregados processos aperfeiçoados. 

Na exposição de Paris de 1867, diz o Sr. Dr. J. Saldanha 
da Gama, foi a andiroba citada como unia das arvores qu» 
fornecem boa madeira para vergas e pequenos mastros. As 
cavernas feitas desta madeira não sao tão estimadas. Na 
mastreação parece resumír-se o seu maior emprego — 

O tecido lenhoso contém um principio amargo que o pre- 
serva contra a acção maléfica dos insectos. 

A andiroba racha facilmente e por isso procuram-a para 
ripas, regoa8,etc. 

Olbo db assaht.— E' obtido por meio da decocção do fructo 
daquelle nome, producto da palmeira Euterpe oliracia, que 
é muito abundante em quasi todo o valle do Amazonas. 

E' ligeiramente amargo, fixo e de côr verde escura. 



— 44 — 

Ainda nãosao bem conhecidos os sens usos. 

Óleo db bacaba.— E' também eitrabiJo por decocçSo do 
frucioqae tem aquelle nomo, produzido pela palmeira JEnO' 
carpus bacaba, que abunda em grande parte no valle do 
Amazonas. 

E' fixo, de côr veráe clara e do gosto agradável. E' em- 
pregado para luz e também serve para os usos culinários 
onando é bem fabricado e puro, podando substituir o azeite 
d^ oliveira. 

Óleo de baunilha.— E' extrahido da fava ou semente do 
fructo da trepadeira vanilla aromática, que cresce esponta- 
neamente em quasi todas as lo^^alidades do Amazonas, Soli- 
n)r>6« c Rio Negro, sendo sobretudo muito abundante no 
Japurá* 

O fructo ou capsula da baunilha é de i4 a 25 centímetros 
de comprimento e de 6 a i2 de espessura ; tem a côr verde a 
princípio, que se muúa depois em um rôxo*avermelhado. 
Abre-se longitudinalmente por três válvulas. As sementes 
8io pequenas, luzidias, de côr negra e cercadas de um sueco 
esspesso, arroxeado e muito aromático. 

A liaunílba mais estimada deve ser de um roxo escuro, 
porém oâo tanto que pareça negro e nem tio pouco aver- 
melhado. Não deve ser nem muito pegajosa ao tacto, nem 
muito secca. O aroma deve ser penetrante e agradável. Uma 
bage, em perfeito acondicionamento e fresca, deve conter 
um liquido preto, oleoso e balsâmico. 

Colhem-se as bagas antes de estarem completamente ma- 
duras, mergulham-se por poucos instantes em agua a ferver 
e vão a sccfar durante 15 dias, a fim de perderem a humi- 
dade supérflua. ( epois, para qu» se não evapore o aroma 
untam-se com óleo de mamona ou de castanha de caju e fe- 
cliam-se ern caixinhas de folha. 

A baunilha é uma substancia aromática, cordial e tónica. 
O oloo é empregado não só para perfumaria, como para aro« 
matizar doces de diíTerentes qualidades, sorvetes, cremes e 
sobretudo o chocolate, ao qual dá um gosto particular e 
torna-o de mais fácil digestão e próprio para restabelecer as 
força? das oessôas convalescentes. 

E' de côr vermelho-escura e de cheiro activo e agra- 
dável. 

Ha duas outras variedades de baunilha, mas inferiores em 
qualidade. 

OLBO DB cuHABú.— E' oxtrahído da pequena fava, que se 
contém no fructo da arvore Dipterix odorata, da familia das 
leguminosas. 

A arvore do cumaru é colossal, de folhas pennadas e fo- 
liolos alternos ; mede de 20 a 27 metros de altura e 1 metro 
de diâmetro. As flores são papilionaceas termínaes, dis- 
postas em racimos; o frusto é legume ovóide, formado úe 
um tpcido esponjoso, 4;ontondo uma única semente branca 
\yoT dentro e coberta por uma pellica escura. Esia semente 
e de sabor amargo e de cheiro aromático particular. Serve 
priacípalmente para aromatizar o rapé» quer roisturando-a 



- 45 — 

«m pó com elle, qaér mettendo-a ÍDteira ns calsa qae o 
coDléin. 
Os Datames gaardtm-a eotre a roapa para presorral-a 

doK insectos. 

E' tainbeiD empregada contra a ootena e alc«raç5es na 
boca. 

Apciar de haver frn i;rande quantidade e valer em braio 
de 330 8 WO réisa libra, 6 insigoiflcante a sua exportação, 
como o demonstram os seguintes dados: 

U terniii mi?>ii'> das quantidades e valores da expnriacSo 
deslt? [irmiui-io nos annns que decorreram de 1836 a 1853, 
WKnTido o.< dados offli'laes,éoseguiQie: 

Termo médio : 18 (^ no raJar de OOíiOOO 

Nns aiiDUí<<liie decorreram de I86i a.t862, a ezportacio 
regalou do modosegnlote, na prata do l*ará: 

Annos. Arrobas. Vatores'. 

I8K2— 1853 H.978 11:097^680 

1883-1854 1 447 1:463^800 

1854-185a í 

I85B— 1856 14.IKÍ 7:40l50flO 

18S6— 1857 9.5^0 6:734^400 

1W7— 1888 51 .410 20:^165360 

18ÍW-18ÍW 5 496 1:467,5800 

1859—1860 30. 186 12 iSiOj-iOOO 

1860-ihei 2.193 70lglíO 

1861—1862 2.354 7333180 

"íaoTísS 63:335^340 

Termo módiodcdecennio de 
1852a 18G2 13.970 6:333,5534 

Comparada com o período de 

1836 a 1852 18 100^350 

Dífferençn para mais 13 950 6:233^184 

O Sr. Gustavo Walljs diz qoe hn uma outra espécie de 
cumaru, mui abundante nas matas do Dio Branco, e a que 
denominam cumaru do campo. 

Esta arvore. rllE elle, dá favas de um cheiro mui agra- 
darei, provnienio ile um bal.samo depositado em não pe- 
(|neaa quantidade nas colyiedones. 

AsseiTiHÍtiii-fi! o seu cheiro ao do cumarus d'alii o nome. 
Por experiências continuadas, dii ainda elle, e.=te vegetal 
sem duvida lornar-se-ha um dia valioso, mesmo na medi- 
cina, pois já nn estado bruto coia de grande reputação em 
virtude de suas qualidades. Úm simples extracto da resina 
bastaria para f^arantir a este interessante producio a mais 
séria attençSo da parte dos (acuitatlvos, para cujo Hm já de- 
sempifoliei o necessário cuidado, aflm de serem as favas 
cbimicamenie estudadas. (1] 



(1) Tainbcin nas matas do 111o Itram-o i?n<-ontruu o Sr. G. 



— 48 — 

« 

carregada de óleo, que por si mesma o expelle, aromati- 
zando o ar na sua circumvizínhança. 

Óleo de amendoim. — B* eitrahido do fructo deste nome. 
E' fixo, de côr loura e de cheiro especifico. 

E' usado como meio culioario e é também empregado 
como meio mediciaal coQtra as affecçòes rheumatícas. 

Óleo de jacare-cupahyba.—E* oriuudo do Alto Amazonas 
e extrahido da arvore calaphilum braziliense, da família 
das clusiaceass 

E' fixo, de côr verde escura ou quasí preta e tem um 
cheiro forte e desagradável. E' empregado no calafeto das 
embarcações com melhores resultados do que o breu e alca- 
trão, segundo afflrmam as pessoas praticas nestes tra- 
balhos. 

Oleodejupati.-^E^ extrohido por decocção ou pela ex- 
pressão da polpa do fructo daquelle nome, produzido pela 
palmeira Sagus imdigera, da família á^%palmaceas, 

E' fixo, de côr vermelha e muito amargo. Seus usos não 
são ainda conhecidos, mas sendo muito semelhante ao óleo 
de denàê, também servirá provavelmente para o fabrico do 
sabão. 

Óleo demucajá.-^E* extrahido do fructo da palmeira desto 
nome, que abunda no valle do Amazonas. 

E' concreto e de côr amarella. Asuaapplicaçãonãoé ain- 
da conhecida. 

Óleo de paíaud.—E' extrahido por decocção do fructo da 
palmeira osnocarpus distichus,áB família das palnaceas, 

O fructo é um coquinho do tamanho de um cajá; maduro 
óde côr rôxo-escura, ou quasi preta, dispolpado dá um leite 
agradável ao paladar, quando misturado com assucar, e é 
mui nutriente. 

Da polpa ó que se extrahe o oleo, que é fixo, amarello 
claro e transparente, quando bem purificado e quasi ino- 
doro. 

E' empregado na arte culinária, onde substituo perfeita- 
mente o oleo da oliveira em todos os seus usos. No mercado 
do Pará é muitas vezes vendido em lugar do outro. 

Oleo de cacáo.— E' extrahido das sementes do fructo assim 
denominado. 

E' concreto e de côr branca. A medicina emprega-o com 
vantagem. 

Nos districtos de Gametá fabrica -se o sabão conhecido pelo 
nome de sabão de cacáo, por ser preparado com as cinzas 
enérgicas das cascas deste fructo. Esta industria pôde dar 
grande interesse aos productores; ella faz esperar que me- 
diante processos mais perfeitos e attenta a boa qualidade do 
material, venha-se a obter facilmente o sabão de um modo 
que rivalíse com o melhor que apparece no mercado. 

Em i863 a exportação deste género para o mercado do 
Pará foi de 2.384 arrobas, que, segundo os preços médios, 
produziram o valor de 9:536^00. 

Oleo de CopafUba. E' extrahido, por meio de incisões, da 
arvore Cvpaifira officinales. 



— 49 — 

E' flxo, de eòr branca amereilada^ transparente^ de um 
cheiro forte e sabor acre. 

E' empregado nas artes e na medicina, onde seus effeitos 
são bastantemente conhecidos. 

Este producto natural constitue um interessante artigo 
de commercío e sua colheita tem ido sempre em augmento 
desde 1836 

Já nio abundam estas arvores nas proximidades das mar- 
gens dos rios navegáveis e conhecidos ; é mister ir a longas 
distancias para encontral-as em estado de serem aprovei- 
tadas. Não é porque tenham de todo desapparecido destas 
paragens sob o peso da mão destruidora do homem, que lhes 
arranca até a ultima gotla a seiva da vida ; mas porque 
acredita-se que a arvore que uma vez contribuiu com u 
contingente do óleo, que lhe extrahiram, não torna mais a 
prodnziUo. Entretanto, parece mais natural suppôr, que, 
completamente esgotada, a arvore tem necessidade de longos 
annos para recuperar a seiva perdida e por isso se mostra 
avara da pouca, que possue, áquelle que já uma vez feriu-a 
mortalmente. 

Seja como fôr, a colheita deste producto deve decrescer 
em um futuro, que não está remoto. Entregue aos índios 
semi -sei vagens, que são os que principalmente delia se oc- 
cupam, continuará á mercê de sua imprevidência e igno- 
rância e a natureza succumbirá por certo aos duros golpes da 
rude destruição. 

Eis o que consta da estatística da exportarão deste ar- 
tigo. 

O termo médio das quantidades e valores da exportação 
deste producto nos annos, que decorreram de 1836 a 1852, 
segundo dados officiaes, é o seguinte: 

Termo médio 3.660 canadas, na importância de 26:891^970. 

Nos annos, que decorreram de 1853 a 1862, regulou a ex« 
portaçãodo modo seguinte: 



Annos. 

1852-1853 

1853—1854 ,.. 

1854—1855 

1855—1856 

1856-1857 

1857-1858 

1858—1859 

1859—1860 

1860—1861 

1861—1862 

Termo médio do decennío de 

i852a 1862 

Comparada com o periodo de 

1836 a 1852 

Dífferença uara mais 

7 



Canadas 

8.215 
23.984 
8.142 
6.030 
3.438 
3.385 
4.064 
4.893 
3.394 
2.868 

22.571 

3 660 
18.911 



Valores. 

53:597^725 
174:0555000 
53:60241000 
34:262^713 
33:525^000 
45:547^500 
67:726^00 
86:4533500 
98:990^070 
76:997^452 

72:455^746 

26:891^970 
45:563,5f776 



— 80 — 

No periodo decorrido de i862 a i868 

Anoos. Libras. Valores. 

1862—1863 15f .241 66:416^690 

1863—1864 151.384 63:027^60 

1864-1865 153.451 65:451^230 

1865—1866 187.880 90:893^000 

1866—1867 151.353 74:122^174 

1867-1868 173.934 101:364^606 

Oleode piquiá.^E' exivíihiáoipoT decocção ou expressão 
da polpa do fractoda arvore daquelle nome. 

E^ concreto, de côr branca e tem o gosto do fructo de qae 
éextrahído. Ainda nio se conhece bem o seu uso e appli- 
cação. 

Talvez sejam os mesmos que tem o óleo da castanha, com 
o qual tem muita semelhança. 

Óleo de sassafraz.^E^ extrahído da casca e lenho da ar- 
vore Nectandra cymbarum, da família das laurinéas. 

Tem esta arvore mais de 30 metros de altura ; as folhas 
sao oblongas, lanceoladas e o fructo é uma baga pouco car- 
nosa e meio envolvida em uma capsula. 

A casca da arvore é de sabor amargo e cheiro aromático; 
u$a*seem infusão contra a debilidade dos órgãos digestivos. 
O lenho é duro e de cheiro agradável ; emprega-se no fa- 
brico de canoas. 

O oleo de sassafraz é volátil, de um smarello brilhante e 
tem um cheiro activo e agradável. 

E' empregado na medicina, e nas artes substítue a there- 
bentina. 

oLEo DA SERINGA.— E' obtido do fructo da celebre arvore 
denominada seringueira^ cujo leite ou sueco coagulado cons- 
titue a borracha ou gomma elástica. 

O fructo da seringueira é uma grande capsula composta 
de três cellulas lenhusas, arredondadas. A amêndoa é branca, 
oleoginosa^ de gosto agradável e pôde comer-se sem incon- 
veniente. E' delia que se extrahe o leite denominado da 
seringa. E* flxoe de côr rôxo*clara, assemelhando-se ácôr 
do vinho velho do Porto. 

O processo da extracção ó o mesmo que o da mamona. 

Pôde ser vantajosamente empregado no fabrico de sabão 
duro e de tinta typographica. Não tem dissecative como a 
linhaça, nias^ sendo misturado com a gomma copal e there- 
bentina, dá um verniz análogo áquelle que se prepara nas 
mesmas condições com o oleo de linhaça e pôde ser empre- 
gado nas mesmas circumstancias. Pôde substituir também o 
oleo de linhaça nas preparações que empregam os vidra* 
ceiros. 

OLEO DE TAMAQUARÉ.— Extrahe-se golpeando a arvore do 
mesmo nome e collocando nos golpes algodão, o qual se ím- 
bebe do liquido. Espreme-se depois o algodão e passa-ae o li- 
quido para uma vasilha. 

E' um anti*dartrozo muito enérgico. Delle fazem aqui 



— ol — 



grande aso, untando a parte aíTectada. Também serve para 
fricções nos casos de rheumatismo. 

OLEO DB UGuuBA.— E' oxtfahiMo da massa interior do 
frneto da m(//*(>(/(:a o/^a 'a//5. E* concreto, dtícôr braih-a • 
bastante ínflammnvel. 

E' emprejíado contra as aíTrcçu 'S rheamaiismaes, aslhnias 
o tremores «las arliculaçòos. Taiubníncoia cllo s^ prep;iram 
Telas como a da carnaúba e talvez superiores, quando bem 
fabricadas. 

OLBo DB MBRiTT.— E' obtído do fructo da palmeira deste 
nome, que existe em grande quantidade no vaiie amazo- 
nense. 

Também das palmeiras denominadas Tucwnã e Inajá 
extrahem-se excelienies oloos. 

Antes de serem purificados tôm muita semelhança com o 
óleo de palma, tào precioso para o fabrico do sabão. U de 
Tucumâ sobretudo parece poder perfeitamí^nte servir para 
este fim. 

Olbo de macucu. — Estrahe-se do fructo do mesmo nome. 
Serve para pintura de casas, etc. 

Muitas outras substancias abundam no riquíssimo valle 
do Amazonas, ede que se pôde extrahir excellente óleo. 



^^jici>mmissilo estava repreientada pela fórma 

^l'^2^fJli)PeTÚ.-'0 Sr. commUsario capilãu de mar e 

- ^JlTVriMJi D. Froni^isco Carrasco- 
-l"*"*^rii>inierinoD. MaDuelRoaaad y Pai S^tldan.ci- 

•*^'r^noWie»eD. Roberio Suarei, lambem cidadão da 
**íi.íSnio membro auxiliir eentiarregado dos tralja- 



••**'( w^o"'"''"'"^ Sr. commissariocapilâo-loncnte 
.^jj^ ,mi)i>rialJ<>3â da Cosia Aievi'áo, condecorado tom 



ordens de 
rmada JoSoSoa- 



*»"Ti>^íVdemda Rosae 

**" ; BTiloile A\\t 
,>tiii'''-^jiy;,jpjtiio.ienÊnte d; 

'*'*''hnB «uiiliíres os 1.°' tencnies da armaJii impe- 

* í'*'ijà Ciinii'''* Manias, Auguslo José iIh Souza Soares 
*■*?". ^ . D mnciKe de cngêulieiroi José ADtonio Ro- 

**J|*jj„s referidos Srs. commissariosflxar os limites 
"Imi """"'""'' ""^ dous Estados era lianiionia cnm os 
[^flíeaiBes i-elebrados pelos respeL-tíros Koverms em 
"J^ Outubro de mil oitocentos liinronnta o um, o 
^7l) íí iS'"' '"^ '^° anno do mil oiioi-enios eiDi:oenlii 
. átooii de haverem conferenuiad» proviamenic os 
**' íõmmlssariosem presença dos estudos feiíns pra- 

' por elles e em harmonia uum o disposto nus trn- 

^riiSridos, concordaram f|iie o dito igarapé ile Sanm 
*^deve serú prinuipio da liiiba divisória, «egulndo o 
clle para o iiorie verdadeiro até eocoiiirar o riu Jn- 
■la direcção á bonca do Apaporis ; re-iolução que sa- 
M cn rap ri mento dos tratados menciouados, tratados 
f \èm o dever de cumprir e cieL^utar. Em ul virtude 
jS; qae aceitani o que liça expressado cm nome dos 
ffõs ifOverDOs, cujos direitos refiresenlam o em vir- 
mos poderes comque se uucoDirara lef^almenle invés* 
^ CoDcordaram lífuatmenle os mesmos Srs. commissa- 
■ nae deverio crigir-se duas columnas fronteiras na 

• da presente quebrada, sendo a construcçSo delias por 
B doa dons governos o nos lermos em que se resolver a» 

^StT os irahalluisda demsreacla. 
Bqgttas columnas sorão dd rórnia quadran^^ular com 10 
S do etevacSo, afdra as bases, que terão a mesma fi- 
■ Bt dimen^es convenienie; . 

■ oolamnn que assignala o território do Peru, se gra- 
is seguintes inscripcões: 



FACB DO NOBTB. 



MM do P. 



— »8 — 

FAGB 00 SUL. 

« As armas nacionaes. 

PACB DE OBSTE. 

. Latitude 4% 13', 21" sal, longitude 69*65'00" ao occl- 
dente de Greenwich. 
« Vem da bocca do Javary, 

FACE Dl LESTE. 

« Segue o igarapé de Santo António. 

< Na columna que corresponde ao território do Brazil 
gravar-se-lião as seguintes ínscripQões: 

FACE DO SUL. 

« Limite do Brazil anno de 1866^ governo de Sua Mages- 
tadeo Sr. D. Pedro II Imperador constitucional e defensor 
perpetuo do Brazil. 

FACE DO NOBTE. 

c As armas ímperiaes. 

FACE DO OESTE. 

t Latitude k\ 13', 21", 2 sul. longitude m"" 55' 00'' ao 
occidentede Greenwich, 
t Vem da bocca do Javary. 

FACE DE LESTE. 

c Segue o iparapé de Santo António. 

« Ficou também resolvido que na vertente do igarapé de 
Santo António se collocará outra columna de cinco metros de 
altura, conimumás duas nações, tendo as seguintes inscrip- 
ções: 

FACB DO NOBTE. 

« Limite do Peru. 

FACB DO SUL. 

< Limite do Brazil. 

FACE DE OESTE. 

« Latitude 4% 12', 59'% 36 sul. Longitude 69°, 54', 24"86 
ao occidente de Greenwich. 
• Vem da bocca. 

FACB DB LBSTB. 

t Segue a fronteira para o norte até o Japurá na linha que 
yai encontrar a bocca do Apaporis. 



— 36 — 

t E estipulou-s6 finalmente, como foi executado, que se 
fixassem dous marcos de madeira, para que sirvam de as- 
signalamento provisório nos mesmos sitíos, em que deverSo 
erigír-se as coiumnas, e nellas tremularam as bandeiras do 
Peru e do Brazil durante o tempo da ceremonía. 

c Da presente acta de inauguração dos limites entre a Re- 
publica do Peru e o Império do Brazil se farão quatro do 
meymo teor, duas em castelhano e duas em portuguez» 
as quaes serão assignadas por todos os membros da com- 
missão mixta e pelos particulares presentes, e para que ella 
tenha toda a validez que merece, serão enterradas as mesmas 
actas separadas e alternativamente, junto com varias moedas 
da Republica o do Império, em caixões expressamente cons- 
truídos para esse fim^ nos lugares em que ficam estabelecidos 
08 marcos para distinguir o assígnalamento dos limites por 
esta parte. 

< E oxalá que este acontecimento sirva para perpetuar a 
amizade de dous povos americanos, o interesse com que de- 
sejam assegurar tão precioso vinculo e os esforços com que 
procuram seu verdadeiro progresso. 

c Outra acta original ficará nos livros das respectivas 
commissòes, outra na secretaria da prefeitura do departa- 
mento de Loreto, e ainda outra no archivo da província do 
Amazonas, fim fé de quanto fica expressado foi subscrípta a 
presente acta no mesmo dia e lugar que nella se declara — 
Francisco Carrasco -—Manoel Rouand y Paz Soldan.-^Ro* 
berto Suarez ^—José da Costa Azevedo —João Soares Pinto. — 
Geraldo Cândido Martins. --Augusto José de Souza Soares de 
Andréa.^-^José António Rodriuues.-^João Wilkens de Mattos. 
^'Dr.João Carlos da Rosa.— Clemente de Alcântara Toscano. 
^António Luiz de Freitas Velioso .—Avtonio José Ribeiro. ^ 

Picando assim assignalados os limites occídentaes da re- 
publica do Peru com o Império do Brazil, partiram por parte 
do commíssario brazileiro, o capitão tenente João Soares 
Pinto e mais dous auxiliare.^, e pela do commíssario peruano, 
o Sr. D. Manuel Rouaud y Paz Soldan. para o rioJavary, 
com instrucções que de seus chefes receberam. 

Nos primeiros trinta e cinco dins de exploração, para o le* 
vantamento da planta do rio Javary, os trabalhos prosegui- 
ram naturalmente, e sem contraridade, jia vendo a com mis- 
nh) explorado mais de 2.000 Icílometros, e feito as observa- 
ções necelsarias ao perfeito reconhecimento do verdadeiro 
curso do rio. D'ahiem diante, porém, começaram a apparecer 
nn diíllculdades. As aguas do rio diminuíam em quantidade 
e augmentavam em correnteza. 

Navftgar próximo á margem não convinha, porque os esca- 
lerei encalhavam a cada momento; aproximar-se do canai, 
ora retardar- lhes consideravelmente a marcha. E não era só 
Ifto ; embaraços maiores iam frequentemente augmentando. 
Hobuiton o possantes troncos de arvores obstruiam o ca- 
minho, o para cortal-os consumia-se grande somma do tempo, 
cio fadiga e de trabalho. Os viveres também iam escassean- 
lio. Era forçoso abandonar as embarcações mais pesadas, e 



- 57 - 

a commissão sabia que estava percorrendo regiões habitadas 
por tribus seivajçens, o quiçá ferozes. 

Ainda se não tinham ellas mostrado, mas indicies eviden- 
tes tiravam tod? e qualquer duvida sobre a sua existência. 
A cada passo eneontravam-se canoas feitas do tronco da 
paxinba, grosseiramente escavadas, remos toscamente pre- 
parados a fo^o, c o matapy, armado nus margens, para a 
pesca. Estas testemunhas mudas da existência dos selvagens 
naquellas paragens, cresciam em numero á medida que iam 
subindo o rio. Por vezes, em algumas praias, encontravam- 
se pegadas de homem recentemente impressas. 

Nada se sabia ainda acerca do caracter desses selvagens ; 
entretanto, a sua placidez até então, inspirava tal ou qual 
confiança sobre os ."^eus hábitos i>acificos. Em consequência, 
pois, e augmentando-se a escassez dos viveres, foi resolvida 
a 2âde Setembro a divisão d.i expedição, e no dia 23 conti- 
nuavam a exploração, em unin liireir.i í^raritóe duas peque- 
nas montarias, os Srs. Soares Pinto, José António Rodri- 
gues, Paz Soldan e 14 homens de guarnição. 

Infelizmente, embora já bastante reduzida em :>ea pessoal 
e recursos, ainda assim uão podia a expedição caminhar li- 
vremente. O numero dos obstáculos cn-soia cada vez mais ; 
a cifra dos páos diariamente cortados era superior a i2, as 
embarcações tinham de ser puchndas a braços, e esse rude 
trabalho empeiorava o estado sanitário da guarnição. 

A 6 de Outubro foi despedida a igarilé, por não poder con- 
tinuar a seguir, e para conduzir os doentes. Um novo obstá- 
culo viera juutar-se aos que já existiam. Eram as [)ontes 
atravessadas pelos selvagens sobre o leito do rio, para dar- 
Ihes possagem de uma para outra margem. Para proseguir, 
a expedição tinha de cortai -as, e essa operação foi eífec- 
tuada. 

O selvagem, até então paciflco, resolveu vingar-se. 

A 10 de Outubro, três flexas despedidas occultamente por 
entre o mato, deram, como que o primeiro signal do ata- 
qup, que em breve lornou-se a peito descoberto. 

Numeroso bando de selvagens da trlbu mayorunas (i). 



(1) Mayorunas.— Tribu que habita entre Maranõn, Javary e 
Ucayali. Os indivíduos deila sáo alvacentos; os homens, barba- 
dos. Suppõe-se que descendem cllesdos soldados do Ursua. 

Vaguôam pelas matas; arrancam as barbas com duas con- 
chas, que lhes servem de pinijas. 

Suas armas de guerra sáo : lanças, clavas, flechas, arcos o 
zarai)atanas. 

São mui guerreiros, vivem em constante lula com as outras 
tribus. 

As mulheres têm as mãos e os pés mui bem formados, o nariz 
pequeno e os lábios ílnos. 

Usam os cabeiios cortados na frente e longos nas costas. São 
aceiados. 

E* esta tribu pouco conhecida» 
8 



- 38 - 

íèrff'UU',f;^m nnvcm *]t flfíchas hervados sobre o> exp=difioDn- 
n*ff<rt /ffjí» filiavam díísarmados, víslo romo ns contíDQas 
%Ujni'/K'%%hntv\'i^ p';l;js montarias havia humedecido e ioa- 
tilh^do a<(f^poif;taM. 

S% mulh^rf^H tomaram parte no ataque, combatendo iso- 
ladas, na mar^^em opp^^sta áquella de onde os homens ata- 
iraram. 

fíoiivena Inta a doneffperação do homem desarmado que 
ff%\n{<i contra homens armados. 

Loj(o no comffço do ataque o capitS» tenente Soares Pinto 
foi f/TÍdo mortalmente e falleceu ires horas depois. O Sr. Pax 
H4;ídan o mniH quatro homens da trípolação foram também 
it».fU\i)%. S\)6% lo minutos de resistência, reconhecendo-se a 
Ímpofi<i|hliidadedo afugentar os soldados em numero muitis- 
MlfíiONUp^rior, tratou -se da retirada. 

O ra pttfio tf' nen lo Soares Pinto, já moio desfallecido, foi 
carn'Kndo n braços p?ira a montaria mais pequena, que es- 
tava nialM afastada do perií^o. A outra, onde achavam-sc os 
In^itrnnieMtoH astronómicos, foi tomada pelos selvagens. 

Kiribarcaram na pequena montaria, que malaccommodaria 
foÍN homf^nM, nove pessoas coniusas ou feridas e um mori- 
bundo. Na madrugada sef^uinto foi o capitão tenente Soares 
Pinto entorradoem uma praia da margem díreíia. 

Após cinco dias de iirimcnsas privações, em que nem faltoa 
a fome, conseguiram os salvados reuntr-se ao resto da ex- 
pediçAo, quu mais abaixo os espirrava. 

NcHse mesmo dia, 14 de Outubro, a expedição poz se em 
marcha, descendo o Javary,e a íf6 do mesmo mez, apresen- 
toii-s« a bordo da canhoneira Ibicuhy, que se achava em Ta- 
ba tirita. 

l)cpols desMfis lamentáveis acontecimentos, por algum 
tetnpd III aram paralysados os trabaltiosda commissãodede- 
m/ircieãn «las noss.is froiiiclr.is com o Peru, até que de novo 
buam (Mniiíimailnssol) :\ direcção, por parto do Brazil doseu 
coiiiífilHsano o capitão di^ f^il•,^'\ta António Luiz Hoonholtz, 
boje bnnlo de TíllTé, c por parle do lV»rú do seu commissarlo 
I). M.iMticl Uoti.itid y rnz Soldai). 

Iiílcrrninpidos ainda (»s trabalhos pela morte do commis- 
snrio pcru.nin, ';(';(iiin iiliiioainenUí a cornmissâo para o rio 
J.ivary, depois <la clie/íada do novocommissario da republica 
piTuainio Sr. eapliàodti iVíiLrata I). Guilherme Black, e éde 
crerqiio mw iirove lerniin.' a llxaçào dos limites do Brazil 
com o n^publica do Pení, apezar dasi dífliculdados com que 



<K MiiffnnnuiH, ((ue haiiitaiii em (locluquinas, sAo dóceis e dados 

ao traliallio 

Nesne rW» (.lavary) e i\ mariícm esquerda, os extractores da 

fi»Iulua elástica esiao conslanlemente rect^osos dos assaltos dos 
fl.Vo^u»líl.^as^ll^ corno n(» licayalis. Ostranseuntes evitam sempre 
acampar na margem direita ct»m o mesmo receio. 

(/itcnoH/irio /()/ioflra«/iíco do dei>artamfnto de Loreto pelo Sr. J. 
Wilkcnsdo Mattos.) 



-- 59 — 

está latando e dos perigos quo vai arrostando. Os jornaes da 
província do Amazonas deram ha dias noticia de um peqaeno 
combate travado entre a expedição e os selvap:ens do Javary^ 
que foram repellidos, proseg^uíndo a commissão em seus tra- 
balhos de exploração. 

Oxalá possa termina l-os brevemente. 

Ainda um outro facto: 

Também no dia 5 de Julho de 178i erp:ueu-se um padrão 
na margem austral do Amazonas denominada Solimões na 
distancia de 1875 braças a léste da foz do Javary^ por não 
haver terreno próprio mais perto em que elie pudesse ser 
collocado. O seu verdadt^íro lu^ar devera ser no aiveo da 
foz doJavary, situada a 4% 17' 30" meridionae«e308** 6'30" 
a leste da ilha de Ferro ; mas a undação irregular desse rio 
não permittiu que ell6 fosse alli erigido. 

Este padrão, obra do major de engenheiros Euzebío An- 
tónio de Ribeiros, era de madeira, de forma pyramidal^ com 
48 palmos de altura, incluindo o engradamento e tendo as 
seguintes inscripções na base. 

Para futura memoria. 

Na fronteira do estado do Gr an* Pará e Maranhão, e da 
real audi&ncia de Quito no vice reinado de Santa Fé: 

Nos gloriosos reinados 

Da muito alta poderosa, e augusta rainha fiielissima 

De Portugal e Algarve 

A senhora D. Maria 1 e do senhor D. Pedro 111 

E do muito alto, poderoso e augusto rei catholico 

Das Hespanhas e das Índias 

O senhor D. Carlos 111. 

Diz Baena^ que havia outro de mármore, que não foi al- 
çado por causa da difflculdade do transporte nos igarapés e 
por terra. Também era pyramidal: linha sobroi a cimalha 
uma cruz^ na frente da pyramide logo abaixo da cimalha as 
armas portuguezas e por baixo destas ainscripção seguinte: 

Sub 

Joanne V 

Lusitanorum. 

Rege 
Fidelissimo. 



E na base : 



Sub 

Ferdinando VI 

Hispânia . 

Bege. 
Catholico. 



— 60 — 

Nu porfll lateral da pirâmide: 

Ex Pactis 

Pinium Regundorum 

Conventis 

Madriti 

Idib. Januar. 

M. D. CC. L. 

E na base 

JusHHa, 
Et Pax 
Osctdatcs 
Sunt, 

As aguas do Rio Negro continuain por algumas milhas a 
QOdoar as aguas do Amazonas e durante a época da yasante. 
ainda perto de Serpa (i)^ isto é, na distancia de mais de 80 
milhas, descobrem-se grandes manchas escuras na margem 
esquerda do grande rio, e que geralmente são attribuidas ás 
aguas do Rio Negro. 

Deixando o Amazonas á esquerda os desaguadeiros do 
lago Amatary (\1), e á direita os do Rei e dos Âuia* 



(1) Nessa época (da vasante), da confluência do Rio Negro até 
quasi á villa de Serpa, distmgue-se, cada vez mais pronun- 
ciadas, duas gradações na còr das aguas do Amazonas: uma 
mais amarellenta lunto á margem direita, outra mais escura 
do lado opposto. Fiçuram dous rios correndo unidos no mesmo 
leito, mas confundidos inteiramente. Esse combate gigantesco 
prolonga-se por 30 léguas. Na enchente não succede o mesmo : 
nAo se YÔ no Amazonas o menor vestigio das aguas do Rio 
Negro. Somente mui perto da foz deste, ohservam-se a espaços 
algumas largas mancnas escuras, que sobrenadam nas aguas 
barrentas do grande rio. (Relatório do Dr* Adolpho de Barros 
em 1865.) 

(S) Lago da Guiana, na margem esquerda do Amazonas, entre 
Araúató e Puraquécuara, Perto d*ahi na margem septentrional 
do Amazonas, entre os desaguadeiros do lago de que toma o 
nome, 63 léguas acima da fóz do Jamundá e 14 acima da vfila 
de Serpa, fica a aldôa ou povoação de S. José de Matary ou 
Amatary. 

Foi uma das missões em que o benemérito Fr. José das Cha- 
gas, o apostolo da roundurucania, mostrou o seu nunca des- 
mentido zelo pela catechese das índios. A elle deve-se a cons- 
trucção da capella, que hoje está arruinadissima. 

Manoel João, indio da tribu Juma, sendo apprehendido ainda 
de tenra idade, no rio Matura, pelos muras, que o criaram, veia 
depois a ser, em consequência da sua pouco vulgar intelligencia 
o vivacidade, o principal ou tuchauaáa, tribu, fundando a maloca, 
que depois, no melado do século passado, foi a missão de Ma- 
tary» nome que tomou do rio em cuja proximidade se acha^ O 



— 6i — 

zes (1), recebe o ímportantissimo rio Madeira^ o maior dos 
seas afflaentes da margem direita. 

Perto da foz do Madeira ficam as «pedras morona^» que 
têm esta denominação, porque foi ahi que a 28 de Outubro 
de 1862 encalhou o vapor de p:uerra peruano Morona, 

Contra os regulamentos e disposições então vigentes^ e a 
despeito da recusa formal e peremptória do governo provin- 
cial do Pará, havia aquelle vapor deixado o porto de Belém> 
demandando o Peru pelo Amazonas. Em Gurupá tentaram fa- 
zel-o retroceder; mas resistiu á intimação. A fortaleza de 
Óbidos quiz impedir-lhea passagem, e de parte a parte tro- 
caram-se alguns tiros, logrando entretanto o Morona sahir 
da estreita garganta, que ahi faz o rio e continuar sua via- 
gem, seguindo rio acima, indo porém desastradamente en- 
calhar nas pedras do Puraquêcuara, hoje denominadas pe- 
dras morona. 

Informado de taes acontecimentos, visto como a presiden- 
ela do Pará, expedindo immediatamente o vapor tíelém, da 
companhia do Amazonas, se apressa rar em communical-os 
ao presidente do Amazonas, deu este logo as providencias 

3 lie estavam ao seu alcanço pnrn salvaguardar e defender os 
ireitos e interesses braziJeiros, pondo á disposição do ca - 
pitão-tenente José da Gosta Azevedo o vapor Inca, que para 
esse fim fora fretado. 

Partindo de Manáos no dia 28 de Outubro, voltou logo no 
dia seguinte o capitão-tenentc Gosta Azevedo com a noticia 
de que o vapor ATorona, depois de se encontrar com o Inca, 
havia encalhado nas pedras do Puraquêcuara. 

O comrnandante do Morona por diversas vezes solicitou 
offlcialmente soccorrosá presidência do Amazonas, que lh'os 
prestou, mandando-o rebocar pela canhoneira Ibicuhy^ que 
o conduziu a Manáos, onde ficou detido, aguardando a de- 
cisão do governo imperial. 

« Neste procedimento, disse o presidente do Amazonas á 
assembléa provincial, n'este procedimento guardei as re- 
gras de direito e houve-me com moderação. Não autorisei 



assento da primeira maloca, que depois passou para o local em 
que se acha Matary, foi um pouco abaixo. 

Ha ainda um outro lago Matary, na margem direita do Ma- 
deira, acima da freguezia de Borba, na Mundurucanía. 

(I) Lagos do Solimões, que desaguam neile, no Amazonas e no 
Madeira. Ainda se não acham de todo explorados e presume-se 
que occupam quasi todo o território comprchendído entre os 
rios Punis e Madeira. 

Em 1838, diz o capitão-tenentc Amazonas, Ambrósio Ayres Ba- 
raroá levou a esses lagos toda a gente de Manáos capaz de pegar 
em armas e alli deixando-a e voltando sohre a villa, apenas com 
a sente da sua parcialidade e com intenções que ainda hoje se 
interpretam horrorosamente, foi em um dos ditos lagos sorpren* 
dido pelos ca&ano<,qu6 o assassinaram com a mais revoltante l)ar- 
baridade. 



— 62 — 

ex/^Mos e Tíoleneias desnecessários. No meu entender, elles 
K-ríaro um desar para a autoridade brazileíra. > 

A 21 de Dezembro checou a Manáos o chefe de esquadra 
Guilherme Parkc^r com instrueçòes do governo imperial e 
ttm virtude d'elld8, conduziu a reboque para o Pará o vapor 
Sdorana^ qao se achava detido em Manáos. (1) 

Comriiun Içando á^assembléa provincial do Pará o desen- 
ldC4f d('Mta questão provocada pelo Alorona, assim como da 
que provocara o Pastaza, outro vapor de guerra peruano, 
n%iim referia os ncouterimcntos o Sr. conselheiro Brusque: 

• Cíiegando á corte a 2j de Dezembro do auno próximo 
|/a«sado (1862) o representante da republica do Peru, de 
volt^ do Kío da Prata, mostrou desde logo desejos de enten- 
der'«e rom o governo imperial sobre a questão pendente 
entre om dous paízes. 

c Como preliminares da negociação sollicilou o ministro re- 
hid^'ntn do peru na côrle e convciu o governo imperial, por 
nolaM trocadas em 8 e 10 de Janeiro do corrente anno, que 
Mi faciliids>em os meios necessários para que o vapor PaS' 
taza, que so adiava em Cayenna e o HHorona, que se con- 
Hervavn em Manáos, pudessem regressar livremente ao porto 
dehta cíiinde, onde deveriam aguardar a solução final, que, 
por lOíiiiiium accordo, se houvesse de dar ao conflicto. 

• A negociação envolvia duas questões, — uma de direito, 
outra d<; facto. 

« Quanto á primeira, era forçoso reconhecer que não es- 
tavam ainda organizados os regulamentos especiaes, de que 
tratam os artigos 2, 4e 5 da coiivcnção de 1858, para que se 
pudessn considerar desde logo em plena execução as suas es- 
tipulaçQcs e nem destas se podia deduzir, que franqueada a 
navegação do Amazonas aos navios mercantes, ficara ella 
oxtefísiva a(»s navios dí^ guerra. 

c Para remover estas difiiculdades, entendeu-se que o meio 
mais ronvenieiiiocra providenciar provisoriamente sobre a 
appllraçào iminediata do princípio de navegação garantida 
por direlio convencional entre o Império e o Peru. 

« Neste, intento Uh eniabolada a negociação sobre as se- 
guintes bases: 

fl 1.* (Juo se franqueasse desde já a navegação aos navios 
mercant(*s, uma vez (|ue se sujeitem aos regulamentos fiscaes 
ede policia, (jue em seu território prescrever cada um dos 
dous governos, moditlcando-se depois esses regulamentos 

J)or mutuo aecordo, se não estiverem nos termos dos arts. 
C e tJ.** da convenção. 



(i) A 30 do Deiembro chegou ao porto de Belém o vapor Mo* 
rona, deitois do sua Infelicissima excursão ao Amazonas. Era 
acompaniiado nelas corvetas Pamahyba e Biberíbe. 

« Kra bello ae vor-se. dix um jornal paraense daquella época, a 
arrogância de hontem transformada hoje em humildade..,. Oa 
nossos brios estavam desafrontados ; aonde se recebeu a injuria» 
ahi se tirou a desforra . . . . » 



-63- 

1 2.' Que se consentisse no:^ navios de gaerra peruanos na« 
Yegar o Amazonas brazíloin^ ein reciprocidade de igual con- 
cessSo por parto da republica do I^erú aos naving do guerra 
brazileiros, (]ue houverem de navegar pelo Amazonas pe« 
ruano, flcando reservado a cada um dos dous Estados o di- 
reito aelímitar o numero desses navios, aos quaes se con« 
cedesse aqnella permissão ; de conforniidade com os prin* 
cipios de direito internacional, admittidos e reconhecidos 
pelas naçòcs cultas 

« 3.' Que se reconheça em principio, que o navio de guerra^ 
que recebe mercadorias a seu bordo constitue-se mercante 
e como tal sujeito ás couvíições respectivas. 

< Mas o governo imperial considerou sempre qualquer 
ajuste a este respeito, dependente de uma satisfação precisa 
pela offensa feita á soberania territorial e nelas faltas em 
que incorrera o commandanle do vapor il/orowa. 

« E esta satisfação /Icvii consistir: em rpconhecer-se por 
parte da republica n irregularida<ie do procedimento da- 
quelle comniandantn, na imposição da mulla estabelecida 
pelo regularnent • da alfíuidc^a, por não lerem sido preen- 
chidas as formalidades fisraos ; e em uma salva á fortaleza de 
Obi.los, uor haver o referido com mandante desatt(*ndido ás 
intimações qu(^ lhe foram feiías mstu cidade, em Gurupá o 
por ultimo em Óbidos, ondfí resistia a fortaleza com tiros de 
bala, dentro dos limites da soberania territorial. 

« A questão de facto foi discnii-la no^ í>r<'toiollos das con- 
ferencias celebradas com o representante do l*erú na corte 
em 15 e 21 de Janeiro í'o corrente anno. 

• £ em vista das explicações e dos documentos apresentados 
pelo governo imperial, conveiu o ministro da republica do 
Peru em que effectivamenie linha havido imprudência da 
parte do commandante Ferreiros em deixar o porto, a des- 
peito das intimações que lhe fizera esta presidência; mas 
que assim procedera stMO o propósito do violar 09. regula- 
mentos do porto e de faltar ao res|»oito devido á jurisdicçao 
do paiz. 

« Parecia-lhe enirelanto «jueo vapor Morona, como navio 
de guerra, não carecia de uma permissão rspecial para subir 
o Amazonas, e que por ronseguinte ent Mídio ser exorbitante 
a salva á fortaleza de Óbidos, como condição para regula - 
risar-se desde lo.i:o [iralicamento a navegação fluvial entre 
os dous paizes. 

«Este ponto foi afinal assim ?»justailo. Concordou-se em 
qae o vapor Moroua, a*» sut)ir o Amazonas para o Peru, di'sse 
uma salva á fortaleza de Óbidos o esta lhe corresp(iud<'Sse, 
como ama manifestação commum de haver cessado o con- 
flictoe acha r-s,; restabelecida a boa intelligcncia entre os 
dous paizes. 

«Acertados assim o^ leríiio^ em que furam reguladas, nos 
prolocoilos d.is confíTeníias, «s íjU'\<tõe'? que se suscitaram 
coma p.irtida dos vaport*s Moronac, Pantaza [>diV^ o Ama- 
zooasi^foi este accordo a p provado pelo governo Imperial, 
por nota do 24 de Janeiro, que ronlóm liiteralmente as csti- 



— 6i — 

pulíiçiVji fiviprooas e coQtirma«lo pelo ministro peraano sob 
sua rospons3lirí*iaJe. 

i K por»iue linhair. sKlo tnmlvm aoeilos, sobre a base da 
nv^»nviil.iiK\ os prinripi.\< avMma «'siabelecidos para re^ru- 
Ijins^r ilosJo Ioít > a n:uo::acã> fluvial entre os dous paizes, 
4|Uor i»<Wví< iK»vi >> viv* iTii.Traquér pelos mercantes, até qae 
siopiu OvMÍevVuMiiídos o< rvirulameniosde que trata a con- 
vonvíiiuio Iv^víiS» o iroveruMmj^^rial na convicção de que o 
aiV\»rvlo ot^U brudo com o ministro peruano leria a approvação 
dv» sou íTvV. riu\ expediu sem demora as convenientes ordens 
IKira i|uo o mesmo aivordo tivesse inteira execução por nossa 
p^irie» ordenando porem que se não cobrasse a multa em 
quo bouvOs«iSt> incorrido o vaj>or J/oroiia. 

t iUiidei immediatamente em fazer as necessárias commu- 
wUmv^'^'^. Pí^ra que fosse o aeeordo cumprido na parle que 
dependesse das autoridades brazileiras, logo que fosse pelo 
eommandante do vapor Morona também executado. 

« Voi entretanto depois de expedidas aquellas ordens pelo 
fjoverno inn>erial, que chegou á côrle a communícaçao do 
reboque da;ii> ao vapor Morona^ de Manáos até esta cidade, 
pela esqu.iiliilha ao mando do ebeft* de esquadra Parker^ se- 
irunilo «s ordens desta presidência e de accordo com as ins- 
trueçiVvs do «overno imperial. 

i Knluo o ministro do IVrú, considerando este facto como 
nlfi^iisivo ao pavilhão da republica, exigiu satisfações ; mas 
neellandc» depois as explicações do governo imperial sobre 
os motivos que aconselharam aquella providencia, concordou 
ft(|iiolh» ministro na ennvenieníi.i de dar-se immediala exe- 
iMiçào ao referido accordo de i\ de Janeiro, trocando-se as 
notas revorsaes de i3do Abril do corrente anno» pelas quaes 
fíirnm considerados como terminados e esquecidos os con- 
illctos, que tiveram lugar nesta pr(»vinein. 

« Km consc(|uencia, partiu n vapor 3/orana, do porto desta 
rhl.ido para o Pcrú, no dia lá d;» Julho ultimo, e ao chegar 
II Ohlilos d(*ii u salva esiipuiada, a qual foi correspondida 
pnla fortah*za. 

Pouco (leiuiis seguiu também o vapor Pastaza, com o 
menino destino. > 

Pouco niiies <Ia foz do Madeira, em frente á boca do P«- 
rtíf/uêrnara (1) vô-so o lugar onde em 1870 deu-se a ler- 
rlvdl cntaslr«iphe do naufrágio do vapor Puras. 



(I) Corrente no Amazonas, abaixo da confluência do Rio 
NeKfo, entr(3 Muarami e a boca inferior do canal Uaraquiri. 

líiii llnf(na f^eral i*uraquécuara quiz dizer— caminho de pu- 
ruqu^, parece quo a denorninaçào que tem esse lugar, lhe pro- 
vriti da abundância que ha alli desse teinivel peixe. 

O Puraqué é o yymnotus eléctricas de Linnôo, do género ma^ 
liwo^pterygiano apodo, o mais vigoroso e notável dos da sua 
liUMuiifí, o poriHHo mais conhecido c estudado, pelos naturalistas. 

k«(o p«fixo. diz o multo illustrado Sr. Dr. Francisco da Silva 
CMUtrOi hubita os lagoft, igarapés e rios da America meridional. 



— 65 — 

Este acontecimento ó um dos mais trísics o horríveis epi- 
sódios, senão o mais triste o horrível de quantos têm prosen- 
ceado as aguas do grande rio. 

Eis pouco mais ou menos como tevo lugar o acontecimento: 

Do porto do Manáos, com destino ao Madeira, sahiu ás 
onze horas da noite de 7 de Julho o vapor Purús. 

Kram duas horas da manhã do dia 8. 

O vapor Aran/, que havia sahido de Belém, com destino 
a Manáos, navegava então ao longo da costa do lago do Rei, 
mui próximo á boca do Paraná, em frente ao Paraqudcuara, 
e na distancia de oito a dez braças de terra. 

Nesse lugar forma o Amazonas uma espécie de cotovello 
ca de ponta . 

Ambos os vapores navegavam com marcha regular e di- 
rigiam-se um para o outro. 

O grande cotovello ou curva formada pelo rio impedíamos 
de se poderem avistar de longe. 

A noite estava escura, posto que luzissem algumas cstrellas 
no céo, e descuidados dormiam os passageiros do Purús e do 
Arary^ sem se lembrarem da morte que para clles rápida se 
ia aproximando. 

Pouco depois das 2 horas da manhã, oofflcial de quarto do 
^rarj^^ que passeiava no passadiço, distinguindo as luzes de 
um vapor que caminhava aguas abaixo, mandou despertar 
ocommandante, o qual Incontinenti dirigíu-se ao passadiço 
da caixa das rodas, ordenando em voz alta ao machinista de 



preferindo os primeiros e os igaropés, por terem aguas menos 
movediças : è encontrado porém mais particularmente nas pro* 
vincias do Pará e Amazonas, onde se lhe dá o nome de pti* 
raqué, e os ha ahi em grande quantidade e de todos os ta- 
manhos, chegando al^ns a terem cinco e seis pés de com- 
primento e quasi meio pé de diâmetro na sua maior grossura. 
A còr da pelle é preta, excepto na parte inferior da mandíbula 
e por baixo do pescoço, que é de um bello vermelho. A sua 
configuração em geral é como a das enguias, pelo que os 
írancezes lhe tem chamado enguia eléctrica. 

Tem a propriedade fulminante «m alto gráo, dando choques 
ou commoçOes eléctricas vigorosas nos seus inimigos e em tudo 
quanto o toca, por forma que abate e fere de torpor inevitável 
e temporário, não só os peixes, como também os homens e os 
mais animaes. Quando a descarga eléctrica é muito forte e o 
torpor profundo, sendo ao mesmo tempo dirigida sobre algum 
ou alguns dos órgãos importantes e essenciaes á vida, acontece 
algumas vezes seguir-se a morto, a qual sobrevêm então por 
asphixia. O apparelho ou pilhas, onae por uma singular fa- 
culdade este animal seggrega a electricidade, occupa os lados 
da cauda e toma o volume de nove décimos do corpo e talvez 
metade de sua espessura. 

A sua composição orgânica é admirável e recebe na estructura 
extraordinarissimo numero de nervos e finas cartilhagens. 
A sua carne é pouco ou nada utilisada nos usos culinários, 
não só por ser mal saborosa, como porque é de consistência 
muciia^nosa e de cheiro de alguma sorte desagradável. 
9 



. -66- 

qaarto, que dimínaisse á meia força daquella com qao 
sepruía. 

Caminhava o vapor Purús aguas abaixo, na dislaocia 
pouco mais oa menos de 2 milhas, demorando quarta e meia 
de rumo por EB da proa do Arary, 

O commandante Pereira Leal, a hordo do Arary^ fez tudo 
quanto a sciencia ensina, tudo quanto humanamente delle 
podia depender para evitar o pavoroso sinistro. Era tarde. 
As duat massas se iam cada vez mais aproximando, impei- 
lidas uma pela força da corrente e do vapor e a uuira pela do 
vapor somente» 

Era já tarde, muito tardo; a mão mysteriosa e sinistra da 
fatalidade impellia-as uma contra a outra ; nada podia mais 
evitar a catastrophe. 

A'8 2 horas o 15 minutos teve lugar o abalroamento. 

Foi horrível o choque e mais horrível ainda ascena de 
confusão, que teve então lugar. 

O i4rat|f galgou por sobr» o Parus^ entrando-lhe por ura 
dos lados e fazcndo-o afundar-so equasi unira popa coma 
proa. 

Lançados violentamente fora das rodes e dos boliches, cor- 
riam atordoados os passageiros du Arary^ augmentitndo a 
ooDfusio ea desordem. Os gritos e o soluçar das mulheres 
e das crianças, as imprecações dos homens, a voz vibrante e 
enérgica do commandante que mandava a manobra e dava 
providencias para salvares náufragos do Purús e impedir 
que lambem por elle fosse arrastado o Arary na voragem das 
aguas ; o ranger das taboas que se desconjuntavam, que se 
partiam ; a escuridão sinistra da noite, o ruido das aguas; 
tudo dava a essa seena um caracter horrível como um arre- 
medo do inferno. 

t E' eouf^l terrivel \\m naufregio, diyso já um prande 
pdeta;aind)i mafs,óo ideal da fmpotencin humana. Luiar, 
lutar furiosamente, desesperadamente com as ondas e nSo 
poder domal-as; estar perto da terra e nSo poder chegar a 
ella : ver a algumas braças a salvação e a vida e sentir a mão 
gelada e húmida da morte aperl9r-aosa garganta; fluctuar 
e nio podar vogar, ter os pesem uma cousa que parece so- 
llâi e f!ue é frigfl e móbil ; estar ao mesmo lempo cheio de 
tida t t^neio de morte; seatir*>se prisioneiro, manietado nessa 
ittimeusa masmorra das ondas ; ser agarrado, paraiysado, 
tomar ta brtneoe ludibrio das aguas,— é horrível como o 
ioferno, é uma acabrunhaçSo que paralyaa e embrutece. 
Ô que noa tem empolgado» o que nos mata, é o mesmo que 
éà novímfeiiU) is aves e liberdade aos peixes. E^ com o infi- 
nllamente pequeno» diz um philosopho e poeta» que o iniiiií* 
temente n^rande nos esmaga ; é com goias que o oceano noa 
tritura. > 

As scenas que se davam a hordo do Pnrús eram ainda mais 
ímiielitaveis. Os gritoa de terror dos que, se nchavam no 
ArdTfi €oiifuiidiam>se com a gemer dos moribuudoc, com o 
estertor doa tfue ae deiíttiaot csmaj;t<.'ido8«c<im of ^riu*^ mu* 
g^eflíe* (J^.soccorro que soltavam os do Purús. 



-«7- 

E o Yâpor se ia poaco e pouco af andando. . . De repente 
ouviu-se um estampido horrível e as aguas fervendo e es* 
padaDando espuma, ergueram-se furiosas, ameaçadoras, 
como uma ímmensa moatanha e depois cahiram com me* 
donho fragor, abrindo enorme voragem em que submer- 
giu-se o navio. 

A caldeira do Purús havia arrebentado. 

O commandante Leal deu ordens promptas e tomou as 
medidas necessárias não só para salvar os náufragos do 
Purús, como para restabelecer a ordem e a calma a bordo 
do Arary, no que foi energicamente auxiliado pelo intelli- 
gente tenente coronel Michiles. Os escaleres foram lançados 
ao rio e a tripolaçãoeos passageiros começaram a recolher 
das aguas os miseros que alli se debatiam. Levaram o resto 
da noite nesta piedosa occupação, porém de mais de 200 pas- 
sageiros que levava o Purtés, apenas conseguiram salvar 73. 

A'8 12 horas e meia do dia 8 chegou o Árary a Manáos, 
levando a noticia da horrível catastrophe. 

« Alli, dizia-me ainda ha diaí^ o velho Paixão, pratico do 
Arary, e o decaoo dos práticos do Amazonas, alli na bocca 
do Puraquôcuara dormem no fundo do rio, que os devorou, 
os infelizes passageiros do Purús. Quanta desgraça em uma 
só noite t Quanta gente morreu t Pobre immedlato do Purús t 
Era tão moço ; parece que o coração lhe adivinhava. . . re« 
casou partir, queria despedir-se do serviço do vapor e só* 
mente embarcou para satisfazer a vontade e a imposição do 
pai. Morreu fechado no beliche ; passou do somnoã eterni- 
dade. 

< Quem sabe onde repousam os ossos daquella respeitável 
senhora, D. Victoria, a abastada fazendeira do Madeira. 

< Hermengiido Braga, estava salvo; havia conseguido 
saltar para o Arary ; ma<; de repente lembrou-se dos filhi- 
nhos que dormiam no Pnrús e que iam ser arrebatados pela 
morte. 

« E quiz salvai os. Quem se atreveria a embargar o passo 
a um pai, que corria a salvar os filhos? 

c Em um momento achou-se a bordo do Purús, que se 
affundava, mas immediatamente depois a explosão da cal- 
deira indicou que o mísero havia morrido, por não querer 
que lhe morressem os filhos. 

< Vd aquelia arvore que alli está pendida para o rio, cujas 
aguas lhe lambem o tronco, continuou o velho pratico. Pois 
bem ; um dos náufragos nadou, nadou e conseguia chegar 
atéella. Agarrando-se aos ramos, subiu e sentou->e em um 
galho, esperando alli que amanhecesse o dia. Os que an- 
davam procurando náufragos não o viram, nem o ouviram, 
posto que bem alto os chamasse. E' tão largo este Amazonas I 
Pela manhã seguiu o Arary aguas acima e afastou-se do 
lugar do sinistro. E o pobre homem allr ficau com o olhar 
perdido no espaço e vendo afastar-se a esperança e a vida. 
O que poderia fazer allí perdido em meio dasagaasl De um 
lado o rio o do outro o terreno alagado e movei e qaa^í tão 
perigoso como elje. . . Quiz descer ; a posição em que estava 



-68- 

torlurava-o; talvez caminhando ou agarrando-se ao tronco 
das arvores, encontrasse um terreno menos alagado, onde 
pudesse desça nçar um pouco. 

c fi preparava-se para descer, quando, lançando os^ olhos 
para baixo, viu, cercando-lhe a arvore e promptos a devo- 
rado, um bando de jacarés, monstruosos, famintos, que alli 
estavam immovcis, com as fauces escancaradas e us olhos 

filos na presa (|ueconsideravafn seífura Pobre homem f 

continuou o velho Paixão; Deus, porém, compadeceu-se 
delle; havia-o salvado das aguas^ salvou -o também dos ja- 
carés. Pouco depois passou por alli uma canoa e os que a 
tripolavam accudíram aos gritos de soccorro que o infeliz 
soltava. Os jacarés fugiram, abandonando a presa e o pobre 
naufrago desceu então, escapando milagrosamente daquelle 
f^rande perigo. Quantas desgraças, murmurou ainda o velho 
Paixão, auantas desgraças naquella noite fatal t » (i) 

Quasi defronte da foz do Madeira acha-se situada a villa 
de Serpa, em uma pequena collina, á margem esquerda do 
Amazonas o a 270 léguas acima de sua foz. 

O seu nome primitivo era Itacoatiara (pedra pintada, em 
língua geral) ; por causa de umas pedras que em seu porto 
são visíveis na vasante o nas quaes se acham traçados diver- 
sos hierogliphos. Também teve já o nome de Abacaxis. 

Serpa ou Itacoatiara ou Abacaxis, tem sido por vezes 
transferida para differentes sitios. Foi primitivamente fun- 
dada pelos jesuítas no rio ATa/aurá, confluente do Madeira ; 
passou depois para orioCanumã, em seguida para o rio 
Abacaxis, amais tarde para a margem direita do Madeira e 
finalmente para o sitio onde hoje se acha . 

Em 1759 o governador da capitania do Rio Negro Joaquim 
de Mello Povoas deu- lhe o predicamento de villa, com a de- 
nominação que hoje tem. 

Passando em 1833 a ser simplesmente freguezía, foi de 
novo elevada á categoria de villa, por lei provincial de iO de 
Dezembro de 1857. 

Actualmente é a villa de Serpa um importante porto da 
província do Amazonas, por servir de entreposto ao avul- 
tado commercio do rio Madeira. 

Por decreto de 25 de Janeiro do 1872, foi creada alli uma 
alfandega de quinta ordem, com as attribuições conferidas 
ás demais alfandegas do Império, guardadas as disposições 
do regulamento annexo ao decreto de 31 de Julho de 
1837. 

Permítliu-so i^^ual mente que as embarcações com destino 
á fronteira do Peru e da B)livia, quando não po.ssnm por seu 
grande caladn subir além de Serpa, ahi, com assistência das 



[ 1 lEste episodio dos jacarés é verdadeiro, e passou-se tal qual 
se acha ahi narrado. Como elle, também são verdadeiros todos os 
episódios do naufrágio. Baseei-me entre outras pecas, na com- 
municação official feita ao gerente da companhia ao Amazonas 
pelo commandantc do Arary, 



- tíl) - 

autoridades fiscacs da alfandega, baldeem os géneros para 
embarcações menores. 

Os bolivianos, descendo pelo Madeira, coslumam deixar 
em Serpa as saas canoas oa ubás e descem nos vapores até o 
Pará, onde vendem as suas mercadorias e se fornecem dos 
objectos de que carecem . 

Ao norte de Serpa vêm-se as minas da colónia Itacêotiara 
pertencente á companhia de navegaçio e commercio do Ama- 
sonaseque tantos prejuízos lhe causou. 

Na mesma margem em que está Serpa situada, mais um 
pouco acima, vêm-se ainda os vestígios de um vasto cemi- 
tério Índio. 

Aqui e allí, a terra diluída pelas enxurradas, cahe e deixa 
yer ao navegante, que transita por aquellas paragens ál* 
YersBS igaçabas ou urnas funerárias em que guardavam os 
indígenas os restos dos seus maiores. 

Muitas dessas urnas têm sido recolhidas pelos transeuntes, 
como objestos de curiosidade, mas provavelmente sem lhes 
darem a importância devida; e desfartevão as relíquias ve- 
nerandas de uma geração inteira tendo um fim para que 
nunca as destinaram. 

Depois de ter recebido o caudaloso e importantíssimo 
rio Madeira, de que me occuparei adiante, recebe o Ama- 
zonas as aguas do Arauató, que lhe trazem as aguas do 
rio Urubu. 

E'o Arauató o desaguadelro mais occidental dos lagos de 
Saracá. 

O Urubu recebe em seu curso as aguas do lago de Ca- 
numS, em cujas margens existiu a freguezia de Nossa 
Senhora da Conceição, e banha as taperas das antigas fre- 
guezias de S. Raymundo e S. Pedro Noiasco. 

Acima das cacnoeiras encontram-se-lhe nas margens ex- 
tensas campinas apropriadas para a criação de gado, as 
quaes se sstendem até as fraldas das serras da Guyana hol- 
fandeza. 

Este rio, onde em outro tempo floresceram as missões dos 
mercenários, acha -se hoje de todo deserto, e as taperas das 
abandonadas freguezias servem de mocambo a escravos fu- 
gidos. Os indígenas davam lhe o nome de Burururú, de 
uma de suas tribus, mas substltuiram-no os portuguezes 
pelo de Urubu, porque é hoje geralmente conhf^cido. 

Habitavam-no, entre outras, as nações Burururú, Gua* 
nayena e Cabouquena, contra as quaes em 1664 commetteu 
Pedro da Costa Favella, em represália, horrível carnificina 
em que pereceram 700 indígenas, foram prisioneiros 400 e 
incendiaram -se 300 malocas. 

Bis o facto que deu lugar a tão lamentável aconteci* 
mento : 

Em conseguencia das ordens do governador Ruy Vaz de 
Siqueira, diversas missões, escoltadas por mosqueteiros, 
internaram -se pelos sertões do Amazonas e de alguns rios 
qne nelle a£3uem. 

Uma destas escoltas, commandada pelo sargento-mór An- 



— 70 — 

tonio ArnaudVillela, entrou com o missionário frei Ray- 
mvndOy da ordem das Mercds, do rio Urubu, e tefe a iafe- 
lícidade de perder parte dos seus companheiros, cora o 
sen oommamdante e o alferes Francisco de Miranda^ nas 
mios dos caboaqaenas e guanavenas que com mostras de 
pax eoosd^uiram illudíl-a. Apenas paderam escapar o 
missionário e o seu companheiro mal ferido e alguns 
mosQuelelfos e indios amigos*, que se apressaram em rcontar 
as canoas. 

Senhores do camoo, embarcam-se os selvagens em 40 ca* 
BÒas ^ra a aMa aeSaracá, ande sabiam que se achava o 
alfarea Joio Rodrigues Palheta, roaa ponco antes de ebe- 
garem á aldda encontram-se com elle, que os esperava á 
freate de iâaoldados eiOO índios em 5 canoas, e os p9e em 
eompAela debandada. 

Informado o governador de semelhantes acontecimentos 
resolveu tomar prompta desforra e infligir nos indios do 
Urittú exemplar castigo. 

A 6 da Setembro do mesmo anuo sahiu de Belém a expe- 
dição contra os indtos do Urubu, commandada pelo capitSo 
Pedro da Coala Favella. Gompunha-se esta expedição de 34 
cantes com ttOO indios sob as ordens de seus superiores e de 
%natro companhias de tropas regulares sob o mando de 
quatro capitães de infantaria e de outros offlciaes subal- 
ternoa. 

A 28 de Setembro chegou a expedição á aldôa de Tapaiós, 
lioje cidade de Santarém, e depois de chamar a si muitos in- 
digenas das aldêas domesticadas daquelles contornos, e de 
refrescar a sua gente, partiu no dia 25 o capitão Favella para 
o seu destine . 

A 4 de Novembro partiu da cidade de Belém o governador 
com o desígnio de sabsídíar de mais perto o expedição, le- 
vando comsigo o maior numero de gente que pô<Je pôr em 
pé de guerra. Não foi porém além do porto de Mós (1 ), 
visto como interesses momentosos de política o chamaram 
com urgência á cidade. Em seu lagar partiu o sargento-mór 
António da Costa, em demanda da expedição. 

No dia 25 de Novembro desembarcou o capitão Favella no 
primeiro porto dos índios inimigos no rio Urubu, e depois 
de fortiâcar-se na margem do rio e de deixar alli tropa 
auíBciente para defender as canoas e as fortificações, penetra 
com a força no interior das matas. 

A 7 de Janeiro encontra os cabouquenas já unidos aos 
ffuanavenas e outros das serranias do Farú, que marchavam 
tamnltnariamente contra a expedição em bandos nume- 
rosos. Travou"se então encarniçaia peleja, e depois de tenaz 
e feroz resistência, conseguiu Favella pôl-os cm debandada. 

A per<^()guição foi violenta. Os indios accossados por Fa- 



(1) Ghamava-se então aldôa do Xingu e primeiramente aldêa 
Madetorú. 



- 7i — 

yella e pelo sargento mór António da Gosta, que chefifou 
nessa occasíão, reúnem -se de novo e de novo ecoro mais fur|« 
continua o combate. 

Foi horrível: morreram 700 selvagens, cahiram orisío- 
neiros UO e as chammas produzidas pelo incêndio de ãOO ál* 
dêas illumiaram sinistramente essa scena de luto e de 
sangue. 

Aasím terminou essa celebre expedíçSo do rio Urubu, o 
qual d'então em diante pareceu ter ficado fechado aos ex^ 
pioradores. 

Consta que o actual presidente do Amazonas o Sr. Dr. 
DomioíTos Monteiro Peixoto pretende mandar exploral-Q. 
Deus queira que possa levar avante o seu intento. Vem ap« 
pelio transcrever aqui as seguintes linhas de um artigo pu- 
blicado pelo Baixo Amazonas, 

• Os nos Uruhú e Jatapú explorados podem nos offerecer 
um coniuiercio franco com as Guyanas, como ofFerece o Ta« 
pajós com as províncias de Mato Grosso e Goyaz. Poderá ex- 
portar valores que augmnntarao as rendas provínclaes, cha- 
mará para ahi uma populaçio que pelos vapores com facl- 
lidado remetterá seus productos para o mercado e será uma 
commtinicação directa para os productos das Guyannas, que 
aerio trocados pelos nossos. As vantagens que resultam só 
o tempo poderá apresentat-as, porque para os diversos mis- 
teres do homem não ha limites. Franqueando a navegação^ 
qnebrado o encanto que tem fechado as suas portas aos 
homens desde 1864, para ahi afSuirão a tirarem proveito 
do que nelies houver. E' mais um campo que se offerece á 
sciencia para as suas indagaçOes , é mais um terreno que se 
entrega á lavourará industria e ao commercio. 

Pela posiçSo geographica que occupa este rio, a sua flora ó 
muito promettedora, atravessando regiOes alpestres, as 
snas riquezas naturaes devem participar dessa causa, e assim 
eomo a vegetação resente-sn do solo, assim também devem 
08 mineraes provara variedade do terreno. 

Pobre em mineraes a parte já conhecida do Amazonas, é 
muito de esperar que nos rios de que tratamos, appareça 
maior riqueza. Geologicamente faltando, o terreno alli fa- 
vorece a mineralogia. Quem tomar sobre os seus hombros 
esta empreza, tendo de lutar com os gentios e os habitantes 
dos mocambos, arriscando assim a vida, prestará serviços 
reaes, serviços cujas vantagens são incontestáveis e que 
tende ao engrandecimento da província. 

Pela margem esquerda recebe ainda o Amazonas os desa- 
guadeiros dos lagos de Saracd, que lhe trazem as aguas do 
rio Anibá e ainda o rio Atumã, engrossado com as aguas dos 
rios Jatapú, Acapucapú, Paraná-petinga, Uruducú, Abacate, 
Maripáy Taboary, Atapany e Sanabany . 

Os lagos de Saracá são: o Canaçary e o Mamará, 

EMncrivel a quantidade de ciganas, que enchem as arvo- 
res, que margeamos lagos, apezar de serem constantemente 
perseguidas por seu implacável inimigo, o /^pacamtii. 

W ojapacamin uma das aves de rapina mais vigorosas e 



«jai» ..- 'u:-:- io .Vmazonas. Varia a sua altura de 33 a 

-i..::ir'.r»^-. T- "j?ii comprimento até 55 cêntimo tros. 

11 is tíZà^ ' ) bieo lie um amarello vivo e brilhante o 

-^js.í"u :e im pedrez semelhante ao de fral linha d*An- 

A. r^c^a-^ 1 grande distancia da terra nas horas caJ- 

3^ . ..j :> I iespreude o seu canto, que semelha o 

« «ij itf ::L*a rv*iaÍQi3. O seu cantar nas alturas serve 

. tue.r- .'.> udios, que quando o ouvem, costumam 
.r« • . ii-u? -Í.-IÍ2 "empo ». 

:•; 1 i»^r- {ue *scape d sua voracidade c fereza. No 
... • -lí :-:r->u> virrens, nas campinas e nas margens dos 
n «><í iiLvu.ndo sempre fazendo presas como um audaz 

i|j -%ict^ ftts escrevia-me o Sr. Dr. Romualdo de S. 

ia «r^úe, i nem devo esta e muitas outras noticias, 

», »-*:^ rí?>.i'ji'>o visto apresentar^se repentinamente 

:<v- .? liu .Vin'i<> ie cijanas, a tu rias, em lingua geral 

.,«^.j. .it« piiai-js todas entre as algas do rio, para 

..u í-iúuK luia I uma, a fim de comer-lhes somente os 

...j^. j^at ii- juvr ograsnido lamentoso que soltam as 

^. r*iUu4* >ciu »a'j*í:jito procurarem na fuga meios de 



Í--W .uc súr Ji i lorçi magnética áojapacamin, assim 
^* ivj»> tae i Ja onça. 

" \dt. i.*«: ifSía J ve de rapina, vem appello mencionar 
«I. * r.t. HítóVtfi ^o^retuJo pela aversão que tem ás 

. ^«M.^ u ii4i*.'»*w. Canta, parecendo que repete o 

•.«í ^.. .aa» :vttliecida e 1*10 em tom alto e prolongado, 

■^ . /,tv* ;'^y J^ ^ oiuxenta, a barriga, o peito e o pes- 

-L sielawj^^i* .'• sus jardas, as azas e a cauda pretas, 

.iii.ad^ tf T^aw. lV suprestíciosos julgam-na agoureira 

""'*«»wsí^ •tAi''> * :j:3ri«iJaJtS. 0$ iudigenas, quando es- 

"^ 'iui '^^txie, attvtam conhecer pelo canto desla 

.^tv .u WC j.í.:e:iíJeve chegar. 

* r%uuiga 2j# ccbra*: quando succede ver al- 

J ^ .^^> lat.» ^?ru x-aàa, guo, usando delia, appa- 

^r^-.jju M"^J í.-Jta-«: repentinamente investem 

"V^*^ : ^P ,rj: r ;uc x*jj cíta. por diversos lados. 

.-^. - •••^^ liu j:j> íms: em quanto a cobra está 

^^^•**%^-cv ... ; - ; •: fríuic.a outra fere-a pelo lado 



.•• - 



t -t- •. »^v^-nJCi:*3*»am-na paracomerem-na. 
* âv-& ^ > IHjs ;U:' a -•-««« sustenta os filhos 

"*' ^ ^ " como trophéos, na 

>s ovos da acauán, 
poderoso contra o 



.^:^ xíauri i> ?e :^> iç5ia,s con 




fí^ie ^x «Jr i5:i i margem dos lagos de Saraca, 

-j.il/* Mir.»* taívxs um pequeno pato de 

itt ^^»«í^awas«> sobre um de largura, a 

''**^' ^Í!rúrv4» teiitteiia da ordem dos palmi- 
2 iíííSlí»' **^ * arredondado na extreml- 



- 73 - 

dade, como o do pato, a plamagem é também pardacenta, as 
pernas vermelhas e a cabeça circulada de uma facha 
branca . 

Habita as margens dos rios e lagos de agua preta e leva 
constantemente a nadar. Vive só ou quando muito em casal. 
As fêmeas põe duus ovos, que produzem sempre um novo 
casal. Logo que os filhos sáhem da casca ferram o bico no 
dorso da mãi, junto ao tronco das azase ahi vivem alé po- 
derem procurar por si o sustento, t Isto assevero, escre- 
via-meaindao Sr. Dr. Paes de Andrade, porque tenho por 
muitas vezes observado. Talvez de um facto semelhante nas- 
cesse o que se diz do pelicano, isto é, que se sustentam os fi- 
lhos do próprio sangue da mãi. » 

Em uma ilha do lago de que teve o nome ou antes na mais 
formosa ilha do lago, na raiz de uma serra c olhando para 
o oriente, existe a fregiiezin de Saracá, hoje villa de Silves^ 
cujo aspecto c por demais niugosloso para quem de longe a 
contempla. 

Aldôa, com o nome de Saracá, sob a direcção dos religiosos 
mercenários, foi em 1759 elevada á categoria de villa, 
com a denominação que hoje tem, pelo governador Joaquim 
de Mello Povoas. 

£isacópia do respectivo auto^ mandado lavrar pelo dito 
governador: 

f Anno do nascimento do Nosso Senhor Jesus Chrislo de 
mil setecentnse cincoenta e nove, aos sele dias do mez de 
Março do ditoanno, nesta aNòa de Saracá e praça publica, 
aonde veiu o Sr. governador desta capitania Joaquim de 
Mello Povoas, e estando ahi na mesma praça publica da re- 
ferida aldêa junto o povo delia e mais oíficiaes de milícias, 
que se achavam presentes, pelo referido Sr. governador foi 
dito que elie, em observância das or jens que sua magestade 
lhe mandava, ori^^ia esta aldôj em villa, com o nome de 
Silves, e que elle assim a dava por creada. 

• Logo no mesmo luuar foi levantado o pelourinho, e por 
todo o povo dito por três vezes t viva el- rei.» Do que tudo 
mandou fazer o dito Sr. governador a mim escrivão este 
auto, em que assignaram as testemunhas que presentes es- 
tavam. » (Seguem- se as asfiignaluras.) 

Passando a ser simplesmente freguezia, foi de novo elevada 
á categoria de víIIm, por lei provincial de 21 de Outubro 
de 1852. 

Segundo o ultimo recenseamento, a população da villa e 
seu termo é de 3.157 almas. 

Além da igreja matriz, que ó uma das maiores da provín- 
cia, tem a freguezia trescapellas filiaes: a de Nossa Sen l: ora 
do Rosa rio de Jatapú, edificada por Manoel António, tuchaua 
ou principal dos Paiiquis ; a de SanfAnna do Atuma, edifi- 
cada em 1845 pelo tuchaua dos Aruaquis, Ccetano epelo te- 
nente Vicente Ferreira de Macedo ; e finalmente a capella de 
SaufAnna do Paraná-miry, que ó propriedade dos herdeiros 
de Crispim Lobo de Macedo, por quem foi edificada. 

Por acto do governo provincial de 16 de Janeiro de 1874 
10 



— 7* — 

foi o municipio de SíItas elevado a termo, com foro civil e 
jury. 

os ír«»noro> que pxporla são: cacáo, pirarucu, borracha, 
castanha^ bteu, osíò^a, cravo, óleo de copahyba e algum 
tabaro. 

A farinha, o milho d o café mal checam para o seu con- 
sumo. O arroz e o feijão vão-Ihe do Porá, e por causa da 
exira.*çâ-^ da borracha vai definhando a sua lavoura. 

U.u dos sroneros de exportação em que mais prima esse 
municipio é o da manteiga de ovos de tartaruga. 

Não vem fora de propósito mencionar aqui o processo por 
que a fabri.^am cas d uai províncias do vaíle do Ama- 
lonis. 

Cav;Mn na praia os oves que as tartaru^.is alli depositAm 
durante a vasant* dos rios. Enchem c<»m elles uma monta- 
ria ou -^anvíj \^^ ju- :ía, esmaga nilo-os com os pés, como fazem 
iS aiiiíssad.^res -ir* l.arro. »\ d'MlanJ'>-lhi's uni pouco «Pagua, 
,*.. i\..n a nalore:a o irahalíw de separar dcis outras matérias, 
g,i: oaSra,a na romposiçào do ovo a parto gordurosa, a qual 
rt,*a na suivrQoie, de ouao ê lirada para se depurar eni taxos 
ao íoco. 

(Vr^^'*^ íue chem potes com ella, se o lugar em que foi 
fj larica ia nào fica l0J»ge de algum i>ovna(1oou porto de em- 
j,,rqíie. ou levam-na em grandes r«»xi's para esses portos, e 
^jj»n ^»ji>s.tm*na para potes, como appareccui no mercado. 

i\i oovcs são lôriKs de muilos palmos de grandes cedros 

^ji lontras quaesquer arvores gto^sas o pouca rijas, nas 

òu 5'> abrem um grande bojo, em <|ue depositam a manteiga, 

||..j\\iuJ,»»os depois com uoki lain|>n, lanibem de madeira, 

IVui elle:* a vantagem, sobre quaI(|uor vasilha, de virem 
Ma'id«». amarrados a uma fspia ou corda e puxados por uma 
lUoiiU*»'*'*» '^* »** vlaiiem ó em agua morta ou em rio abaixo. 

\,iV'mt»o iMii qo » o cdí^hr»» naturalista Alexandre Kodri- 
• u. * Kenvira xisiiim o Pará, era a njauteiga dos ovos de 
larl^iro ;a um \ das indu>trias ahi mais usadas ; e o processo 
•»i{i.'utao p>»u»'o niai-í loi menoso queaiuila hoje se emprega. 

Kts coí'»»' **^''* " dfSin»vt' . 
« juiH.»nisi» aos montes n.»s praias os ovos que se desco- 

hnMH n»*!''*''^ '"^ * ^'* 'l'^'*"' 'H^'' f^^^^ií* '"^^ís a manteiga, deixa-se 
fkíiuouii»''. *'•* ^ •' o «lias, mas ontao ella sahe rançosa ecom 
iiiàooh«dro. S» iw nvos se pn^param frescos, são logo met- 
«Ui^out *»"*•* caiMM, (|uo de prO|»osito está reservada para 
!♦ tt*^*» *' ''*''* í'**"^ ^'^ ^^^^ pisando, como em Portugal se faz 

^ ^^^lèl^ ^^^ "^'*^^ pisados lançnm agua, a qual depois de me- 
^y. rf iMicorioraia cohí <íIIi'S, deixa sobrenadar o oloo; cor 
^TTcImi^ "í>" ' '"'' ilis8i|v'í» larle da ciara : as cuias e coi 



im 

com 

sífo as colheres 

':»^ani^ macu iummmki o ;r.;ua u «»h.mi (|u ? sobrenada e o lan» 



^Ljj^iwiitdti as Viilvulas das conchas itans 

^ Taút^ Hiam de cima d'a;ua o nieo qu í sc 

^]f!r J^^ntiu do-» lachiK. S.gue se irem ao fo-.ro, esfriar depois 

í\!!;iiilelria em ^^anell^^< à parle o tielles mudar-se para os 

IiS!« ^"^^^ manteiga Si*rvop.)ra temperar o comer, frigir o 



- 75 — 

peixe, entreter as Iqzos doraesticas e se encorporar com o 
breu, quaado o fazem para calafetarem- canoas. 

« Também se fa^ mantoif^a dus banhas da tartaruga, acres- 
centa clle. Consiste o melhoJo de as fazer, em frigir sím- 
glesmenle as banhas. S3 as fremem frescas, a manteií,^a sahe 
oa para com ella se temperar o comer, nem se lhe presente 
cheiro, nem sabor máo. Nào usam delia para luzes, porque 
nem ella é tanta como a dos ovos, nem se conserva fluida 
como a delles. > 

A*cerca do desavamento das tartarugas prefiro a fazer 
descripção própria^ transcrever aqui a minuciosa noticia 
que fiá o padre António Vieira. 

« Nos mezes de Novembro e Dezembro, escreveu aquelle 
homem, tão conhecedor das cousas do Pará, sabem do rio 
grande quantidade de tartaru^^as, que vêm criar nos areaes 
de algumas ilhas, que pelo meio deste Tocantins estão lan- 
çadas. O moflo da criaíSo é eni»»rrarem os ovos que cada 
uma põe em numero de 80 até 100, e cobertos com a mesma 
arêa os deixam ao sol e á nature/.a, a qual sem outra assis- 
tência ou beneficio da mui, os cria em espaço pouco mais ou 
m-^nos de um mez. Destas covas salL^m para as ondas do 
mar por ínstincto da mesma natureza, a quni lambem os 
ensina a sahir de noite e uao de dia, pela guerra que lhes fa- 
zem as aves de rapina, porque toda a «lue antes di^ ama- 
nhecer não alcançou o rio, a levaram nas unhas. Sabem 
estas tartaruguinhas tamanhas como um carani^u^^j > pe- 
queno, mas nem esta innocíincia lhe perdoaram os nossos 
Índios, comendo e faZ(>iido niatalota^^em porque são delicia 
e havia infinidade delljs. Os poriuíçuíízt^s as mandam buscar 
aqui e as lôm por comer re-jalado, e a mesma informação 
nos deu lambem o padre Manoel de Souzi, o qual está já 
tão grande pratico, que sendo todos os ouiros, que a(|ui 
viemos, mazombos, eíle c o quo íueaos estranha esta diítj- 
rcnç.i de manjar. 

c A estas mesmas praias vem no seu tempo quasi todo o 
Pará a fazer a pesca das tartarug is, que cada uma pesa ordi- 
nariamente mais de uma arroba; e assim as tem em curraes 
ou viveiros, onde enira r. maró e as sustentam , sem lhes 
darem de comer, salvo algumas folhas de aniuíra, arbusio 
que nasce pela bordados rios, suslentando-se delias quatro 
e seis mezes. 

« A carne c como a le carneiro c se fazem delia os mes- 
mos guizados, quo mais parecem de carne, que pescado. 
Os ovos são como os de u^allinha, na côr, e quasi no sabor, a 
casca mais branca e do figura diffjrente, portjue são re- 
dondos, e delle? bem machucados se fazem , em tachos as 
beilas manteigas do L^irâ ; e o m^do com <|ue se faz esta 
pesca requer mais noiicii que industria, pela muila cautela 
e pouco resistência «las iartaru'j:a>í. Qiando vôm a desem- 
barcar nestas praias, trazem diante de si duas, cOinoseuli- 
nellas, que vôm a espiar com mui ia pausa ; loiío depois des- 
tas, com bom espaço, vôm oito ou dez, como descobridores do 
campo, e depois delias, em muior distancia, vem todo o exer- 



-76 - 

cilo i!íi< iAr(.MUíí*s ^we ooníla de muitos milhares- Se as 
nrimoiras Ott ^l^ í'*'^^^*^*^** íoniom algum rumor, voltam para 
trai «^ oom «'Hfts as A^wf^i» e todas se somem em um mo- 
mento • por i''*?^ , <>J^ ^^^^ ^^"* ^ P^^^ ^® escondem todos 
por doiVíJs ào^ matt>5 <^ wporam de emboscada com grande 

« Sahem poi^ ^^ dUAH primeiras espias, passeiam de alto a 
b^[\(s toda a pruO^ ^ «'**two estas acham o campo livre, sahem 
também a<^ da v^^iíuarda o fazem muito de vagar a mesma 
viifia ^ < <^(>^'^ ^^^^ ^ oampanha por segura entram á agua e 
VxMttim o dts^^l^ dolUiH sano toda a multidão do exercito com 
*M^ ^^»ttiíA^ *^ ^^^t*J» t> começam a cobrir as praias e a correr 
«'m icrí^ni^t^ \\v^\^'i para a mais alta delias. Applica-se cada 
nm.^H .-^ i>^^ >^^^ ^'^^^ ^ quando já não sahem mais e estão 
«'mmv\i^Íav umuH uo trabalho, outras já na dôr daquella oc- 
iHi^Av^A'^ (vU^uiam outão os pescadores da embuscada, to- 
%\\^\\\ 4 r;«vi\>da praia o remettendo ás tartarugas, não fazem 
«mM> \\\\^^ it' virando e deixando ; porque estando viradas de 
M^u>, uiii» '•o podom mais bolír, e por isso estas praias e 
«wiu^ l4i(uniKa!i MO chamam de viração > 

Nt\iiU i livumsiauciada e muito exacta noticia apenas 
AixivniH^utaroi alKumas palavras. 

^IlAfeAiitoa do desovamento, costumam as tartarugas ir es- 
^^«'i^^t^ar iio:i Ikiíxíos fronteiros á praia eahi como sentinellas 
\ (ii<l4\uW4, lovam a boiar de instante a instante, comoesprei- 
lAi\\tt«n i^iila. No dia anterior ao desovamento,$ahemá praia^ 
\\s\\ 4iim Moiio, tí mui cautelosamente, duas tartarugas, sendo 
\\\\\A Uu liiMudtM dimen^iÕes e que faz como de ordenança ou 
^\uida oi^lHM, e outra pequeno, de casco branco, a que de- 
i^«MUhi«(m «niAi das tartarugas > Percorrem ambas a arôa 
s\\M> i»AlÍ<«iit(« da praia e se a julgam no caso de servir, tra- 
{>A\\\ aIIi »* hnhns divisórias do /aòo/é»iro, isto é, do perimetro 
»^m »|^*«* di^Vfwn dosovar. e cuja demarcação, salvo caso de 
M^*^ Mi*«li>r. «^ rospoitada pelo exercito das tartarugas. Em- 
\\y\\A \^it\o\ik «liuuarrado já o taboleiro, nunca sahem á praia 
pf\|.MÍi^MtVAr i^fM tempo chuvoso e somente quando o céo está 
\\\\s\\^\ I» Mipm vento do leste ou geral. 

1S»nMliMdo «í desovamenio, voltam ao rio, e nlli esiacio- 
^i^wSy littiaiido incessantemente e espreitando o taboIeíro« 
^MiM« |Mr<i ehoe.-irein os ovos á imítnçào dos jacarés, até 
tj^o dit-' f'i*va!i possam snhir as lartaruguinhas. 

\\ \ l«t Al^mã ou Vatumã lança-se no Amazonas entre 
y\ IdH'* •^'«H»***'* e o ribeiro Cararaurú, cinco léguas acima de 
n^M (♦** icei^lie pela margem esquerda o rio Jaíapú e 33 acima 
,\o>M »» no PnrrtfiápitiH(ía pein mari:em direita. (lorre de 
y\\\%\ paia «III, geralmente em leito desigual e pedregoso. 
\^\\ flllT»»f«'ntt^s cachoeiras que mais ou menos lhe emba* 
A\^\\\ M nave^açlo. São apt^nas conhecidas as seguintes: 
'>^\|iMiailM. 1^ a maior das que são conhecidas, Oparú, 
ll^^ft^^ll, Mnruty, Ralbina, ((vquenas), Tucumari (grande), 
i|>MM);tlttjÍ<^ (Kquona o além da foz do Paraoápitinga)» íauá- 

^^iTiibiH^aAUraiidca). 



i 



— 77 — 

Desta ultima cachoeira para cima é ainda desconhecido o 
curso do rio. 

As agaas do Atumã são escaras e piscosas e nas suas mar- 
gens abundam o breu, o cravo e a copahyba. Nas matas en- 
contram-se diíferentes madeiras, sendo mais notáveis as se- 
guintes: anf^elim, a^apurana, carapanáuba, capitari, casta- 
nheiro, itailba, itaúba-jutairana, íiaúba preta, iiaúba-rana, 
jacarandá, jutaby-assú. jutahy-raíri, louro preto, louro 
amarello, iouro-branco, maçaranduba, murajaba, mapara- 
juba, macacaúba, páode rosa, páo amarello, páo pintado, ta- 
tajuba, uacapúrana. 

nega este rio e seus confluentes um extenso território 
ainda pouco conhecido, no qual se presume terem*sc refu- 
giado muitas nações indígenas, para se subtrabirem á per- 
seguição dos exploradores. Dallas apenas posso mencionara 
tribu dos Bonaris, que viviam nas altas florestas do rio 
Atumã. 

Eram os Donaris índios de pliísíonomía alegre e expansiva, 
do muito boa Índole, dóceis, asseiadose amigos do trabalho. 
LevaJos para Sant'Auna do Atumã, por diligencias do padre 
Nuno Alves do Couto, foram infelizmente ceifados em pouco 
tempo pela enfermidade, de modo que delles apenas existe 
uma mulher, que reside em Silvos. 

Ao illustrado viírario de Silves devo o prazer do trans- 
crever aqui as seguintes palavras do dialecto Bonaris: 

Deus Tupan. 

Céo Mnica-paá. 

Terra Nono. 

Ar Cabti. 

Fogo Uatu, 

Agua Tuna. 

Luz Ataquicê . 

Sol Uein. 

Lua Qiiecê. 

Trovão Durará. 

Chuva Cunobá, 

Vento Iriané. 

Frio Teoominhoá. 

Calor Atupeuá. 

Rio Tuna. 

Hom íín Uqueré. 

Mulher Uauri . 

Cabeça Iriopó. 

Vista Nurubá. 

Ouvido Pianaré. 

Filho J/ecd. 

Irmio Mimien. 

Marido Unho. 

Esposa Upuiten. 

Peixe Uutn. 

Um Abane. 

Dous Pademacá. 

Ires Uruá. 



- 78 - 

Cinco Abacai. 

Olhos Nnrubá. 

Velho Tapoucu, 

Velha Nafoucu, 

Branco Tiadá, 

Prelo Tapaiuna. 

Casa Ab^ó. 

Arco Urapá. 

Frecha Purêná. 

Corda Ubwiiana. 

Criança Pitianhen. 

Dente Jor^. 

Muça Meacabá. 

Avô Tamunha, 

Avó LVmi. 

Almoço 011 jantar M/i/rrtWrt-aíce/i. 

Dança Timiará. 

SojíQnda feira Mocoln. 

Terça feira LVííw. 

euaria feira Cutatié. 
uinta feira //^//ta nhunian. 
Sexta feira lanano. 
Sahhado Abacaêna, 
Eu Nuané. 
Tu Jarnnuané. 
EIIl' ou ella ^iT^aiirzK 

Nós yl??Í'/2. 

Ellos ou olh;s Itinbà. 

Existem no rio -l/?/mí7 duas povoações : a do Uatumã, fun- 
dada em 1814 i>or Chrispini Lí»ho do Macedo a formada de 
índios Aninquis, o a povoação de JatajnL fundada em 1819 
pelí tnrhmta dí'S Pa/?(/«/.s' M.Jiioel Anloni:j da Silva ; sendo 
esln loí^^oiícima da foz do rio, que lhe deu o nomee aquella 
cinco lo^Miasniais distante. 

Immediatameute abaixo da sua entrada no Amazonas, 
onde toma o nome de Paraná' éiiiri da Capella, ^v\xíc\[i\'á^ 
corrente do Cararaucà, E' ião violenta ahi a correnteza do 
rio, que obriga o viajante a procurar a mar^rem opposta. 
Na extrema norte ha um calleirâo, cujo estampido se faz 
ouvir a algumas milhas de distancia. 

No rio Jatapú ha as seguintes cachoeiras conhecidas: 

— Cururú ou Cachoe ir a- gr ande : é a maior do todas. 

— Uanamã: é pequena. 

— Picapau: é grande. 

— Passarinho: é pequena. 

— Paraná: 6 pequena. 

— Caxiri: 6 grande. 

— Carajurú: é pequena. 

— Sapucaia-roca: e grande. 

Desta ultima cachoeira para cima ó desconhecido o curso 
do rio. 



— 79 — 

Pela marírem direita entra no Amazonas o rio Urariá (1) 
on Tupinambarana ou aluda Ramos, nume porque é geral- 
mente conhecido. 

Eslo rio auírnienta o volume (Ii.^ suas i'í?uap, recí-hendoas 
dos rios Caninnã — Abacaxis — Ayinqxnrilô — Apoquitiha ou 
Apycutaun — Mané-assú— Maué-miri. -Macauary — Andirá (2) 
— Mamurim Uaicurapá (3) ♦' também dos hiíros Afaximo, José* 
fnirieJoséassn'. 



(1) Disseram-me pessoas da localidadp, que linha este rio o 
nome de Uraria* porque eni suai margens abundava o cipòtiirarf/. 
com que preparam os índios o celelire veneno do mesmo nome. 

Paliando deste cipó que em (?rande quantidade cresce nas mar- 
gens do Rio Branco, diz o Sr. (lustavo Wallis : 

« Com esta planta a natureza luívainonle deu íi prova do que o 
aspecto exterior das plantas venenosas, mesmo para os olhos do 
leigo, nSo deixa desmentir o sou caractor duvianso e maligno. 

« Contemplando-se as folhas veem-se cobertas, nâo soem cima 
como om baixo, de cahellos vermelhos. A nervura do mesmo 
modo tem o seu qu? de oxtraord nario, partindo do fundo da fo- 
lha em forma tríplice, o mais adiante vai partindo do n»rvo prin- 
cipal um par de nervos íiliaos, correndo assim cinco nervos longi- 
tudinalmente jiela laiiiina da folha á ponta. Náo só a folha, mas 
também os pedúnculos e até os ramos, sAo cobertos df cabellos. 
Só os ramos mais desenvolvidos apresenlam-se descobertos, tendo 
porém uma casca grossa e rupfo^^a, sendo esta a parte daplanta, 
que serve para o fabriro do veneno. » 

(SI Nas barreiras da foz do rio Andirá encontra-se em grande 
quantidade exceliente tabatioga vermelha c tabatinga branca 
ou çiz. 

Disse-me o Rvd. Sr. vigário Manoel Justiniano de Seixas, sobri- 
nho do fallecido senhor arcebispo maiquez de Santa Cruz, que foi 
com esse giz, diluído em agua e leite de sorva, que caiou as pa- 
redes da velha matriz do Andir«1, que nào só ficaram alvíssimas, 
como nâo deixam vestígios nas roupas dos que nellasse encos- 
tam. Dísse-me também que havia com abundância tabatinga 
amarella da melhor qualidade no rio Ami/ní, cabeceira do ^/i- 
diráe que nas matas que margéam este rio ha arvores de páo- 
brasil. 

(3) Ha no rio Unicurapdú, uma légua de distancia da fóz, uma 
ilha denominada áoCavaUo Marinlio, 

Forma ella uma bella collina; que domina aquellas círcum- 
visinhanças 

E* crença geral entre os índios e que se foi também trans- 
mittiudo a gente civilisada, que por allí habita, que no cimo 
da coIHna existe um lago, que ó habitado por um grande peixe, 

ãue tem as formas de um cavallo. D*alii pois o nome de ilha 
o CavcUlo Marinho. 

Sendo ella toda de terra firme, isto é, n3o sujeita ás inun- 
dações, de bel Io aspecto e de terreno próprio para a lavoura, é 
entretanto tal o terror que incute o phantastico monstro, que 
ninguém ainda ousou explorar a ilha, achando-se elU comple- 
tamente deserta. No verão e quando as praias niostram-se des- 
cobertas^ encontram-se em differentes pontos uns como resí- 
duos, nos (|ttaes notam-se ossos, e&camas. pennas, etc. Dizem 
os Índios «nid sSo as fezes lançadas pelo peixe mysferioso. 



— 80 — 

O Uravid ou Tttpinambarana ou Ramos não é mais do que 
um liruçoquo o Madeira deita para £., 12 léguas acima de 
NUn f(k, oiitrando no Amazonas 50 leRuas abaixo delia (1). 

K* aiuilu oonhtíoido polo nome de Furo de Canumã. 

Foriu» (ísttt furo a ilha de Tupinambarana, mais conhe- 
cida pulo nomo do ilha do Maracá, e que ó talvez a maior das 
ilhax do Amazonas, douois da de Marajó. 

Doniora a ilhu úoAlaracáà margem direita do Amazonas» 
formando na parto superior a foz do Ramos e na inferior a 
do Paraná-mlrl do Limão, que a separa de Villa Bella. 

Na Mua louk'a o\teni:So^ que ó calculada em 50 léguas. 
Abrando olla a margem esquerda do mesmo Ramos até adí- 
vInAo da Ilha om quo está situada Villa Bella e contém em 
nI dilfon^ntos lagoa, do que são mais notáveis os seguintes : 
llruiuriluha. Sumaúma, Paulo, Boto, Saracura e Muratinga, 
noM quaita proparam-so milhares de arrobas de pirarucu; e 
jiuuliiioiito o liahiam, onde se trabalha em borracha. 

(JunNl lodoM ossos lagos sao habitados e em um dclles, o 
Sumaúma, a rriação do gado tem apresentado resultados 
«atUfai-lorioy., bom como na margem do Limão. 

No lado da Ilha banhado pelo Ramos, também lisongeíro 
én oNlado da agricultura. 

Houiindo n opinião mais geral, díriva-se o nome da ilba 
dn iribu ^araní, quo habitando á beira mar, e envolvida 
no oKtoriiiInli) ()Uo soíTreram os Tupinambás dos quaes era 
Allittdn, toYo (lo fugir, achando nesta ilha seguro asylo. 

|)U no4 n historia quo exterminados os Tupinambás, no 
loiíipo do ^ovttruo do l)r. António Salema, para o norte re- 
tirou -mo o roNto da grande nação, e que detida pelo Ama- 
loiíMM, oMtnbolorou-so á margem meridional do grande rio. 
TaitilHiiii dl/.-nos quM com os Tupinambás foram levas de 
»mli'«« nacft«»s, como os Maracás,Tupiaes,eic. Dessa reunião 
do goiílo \Uy dlvorsas naçO>\Si'6"^ duvida de costumes e usos 
dlIbiroitloN, i)arnro quo nasceu a inserteza cm que se acha- 
ram OH IniíigouaM do Amazonas de reconhecerem nesses 
rttNloMi qiio NO Hubtrahiram á perseguição dos conquistadores, 
o« vordadolroa Tupinambás e d'ahi certamente procede a 
doiiolulMAcAo do Tupinambarana (Tupinambá não verda- 
dolro) (I), quo uAo 8ó deram á ilha, como também a seus 



Íil A' iiiartfoiíi dlnUla do Ramos, no espaço que fica entre a 
do Paraná do Mtiíiéi o a do lago das Garças, observa-se no 
vtirao Uiim oiipiw.ln do pororoca, da qual até hoje se ignora a 
(OlMOiii. liiMiuiicla-MOo plicnomcno por um entumescimentu ra- 
\\{t\\\ MH HiiporlIclM das aguas o somente naqueile espaço e mar- 
loiu ti qual orraslofia uma ondulação mais ou menos forte, se- 
Sum^oA MUa maior ou mnnor intensidade e desapparece coma 
Imlm rniddoAi deixando nas areias molhadas da praia o ves- 
Nua pattAagnm. 

INI», duo Hr. (}. Ulas, exprime degeneração, illegitimi- 
lluldadtt do objecto a que se applica. HajubdHrana^^MTo 
iirtifkl^oana bravia— J^niparoita—jenipapo do mato— 
ht«iMii Aíbo iUegltlmOy que oSo e verdadeiro. 




— 81 — 

habitantes 6 a outros da mesma oríírcm c procedência, que 
fizeram assento em torras do rio Uaycurapá o qac annos 
depois retirararam-se para o rio Tapajóz^ onde fundaram a 
aldêa de S. Ignacio, missionada pelos jesuítas c actualmente: 
conhecida pelo nome de Boitn, 

Quando o padre Christovão da Cunha, em sua via^^em do 
Quito em companhia de Pedro Teixeira, desceu o Amazonas^ 
foi na ilha Maracá, que ouviu a narração das façanhas bei- 
licosas das amazonas que Orellana disse ter encontrado na 
foz do Nhamnndá. 

£' admirável a uberdade do solo da ilha de Maracá, e 
aquelles que a procuram para alli se estabelecerem, vêm 
sempre compensado o trabalho que empregam. 

Infelizmente, porém, muito pequena tem sido até a^ora a 
corrente 'la população, e á excepção da marinem do Ramos, 
onde ha aí^uos titios bem plantados, ainda a ilha se acha 
muito deserta. 

E por fallar na ilha do Maracá, não será fora de propósito 
dizer aqui algumas palavras acerca desse celebre instru- 
mento a que dão os Índios o nome de maracá. 

E' o maracá dos Índios um instrumento de coco grande ou 
sapucaia, preso a uma pequena vara, e dentro do qual met- 
tem seixos ou caroços d^ varias frutas, duros e accommo- 
dados a fazer muito ruído servindo*sc dos menores nas suas 
festas e dos maiores nas guerras. 

O marorá, d íz o capilão-tenentc Amazonas, instrumento 
sagrado dos payés, é uma fruta silvestre, de casca duríssima» 
configuração oblonga, e oito poliegadas de extensão, a qual 
secca torna -se òcca e seus caroços soltos, e como que petri- 
ficados, prestam-se ao effeito do som, que se lhe tira por 
meio de oscillações. 

iVarííMí negou o uso místico deste instrumento; entretanto 
que OdolandDesnos, em sua mythologia, eleva o maracá a 
uma divindade do paganismo brazilciro, a qual era invo- 
cada nas grandes occurrencias da nação. 

• Estes maratús, escreve o pidre Vieira, eram propri- 
amente os seus cymbalos ou sinos, tanto assim que depois 
que viram os sinos de que nós usamos, lhes chamam itama^ 
racás, que quer dizer maracás ou sinos de metal. • 

Davam o nome de maracatim ou maracatisás canoas que 
preparavam para o serviço da cruerra e differençavam-se das 
outras por levarem hasteado á proa um maracá, 2om o fim, 
suppõe alguns de entíbiarem, pelo som lesto inslruinento. 
o ardor dos contrários. 

Ainda hoje dão o nome de marucatis aos nossos navios de 
guerra e o de maracatiára aos comiiiandantes. 

O Sr. G. Dias dá o nome de ifiaratins ás canoas em que 
iam os chefes e que se diíferençavam das outras em terem 
um maracá na proa. 

t As maiores embarcações dos índios, diz ainda o padre 

António Vieira, chairam-se maracatim, derivado o nome da 

palavra maracá, que, como dissemos, >ignifica entre elles 

sino, e a razão de darem este nome ás suas maiores enibar- 

11 



- 82- 

th^iits, ero porque quando iam ás batalhas navaes^ gnaes 
ésréin ordinariamente as suas, punham na proa um destes 
mararás muito ^^randes, atados aosgurupézss, ou páos com- 
pridos, e bolíndo de industria com elles, além do movimento 
natural das canoas e dos remeiros, faziam um estrondo bar- 
baramenle bellico e horrível. 

c K [»orqu() a proa da canoa se chama Um (tirada a meta- 
phora do nariz dos homens ou do bico das aves, que tem o 
rnesmo nomo), o juntando a palavra tim cum a pahvra ma' 
racú, chamavam aqueilas canoas ou embarcações maiores 
tnaracatim; ecste nome usam ainda hoje e com ellenomeam 
os nossos navios. > 

No Paraná -mirí do Limão, (\\\(^ divide a ilha de Maracá da 
ilha em que está assentada Villa Bella,está o lago Meruxinga, 
qU(;éo nomeqiiodSoa uma pequena mosca, que alli abunda. 
Dizem que tal é a quantidade, quo ha occasiÓes etn que nem 
se pól'! fallar. Observam os que por alli passam, que ellas 
í^uríí^in do fundo do la^joe voam logo que chegam ásupcr- 
ficie. 

A ilha v.rci que so acha siluaiia Villa Bella, cabeça da co- 
marca de [\irintins, é conturneada íkj norte pelo Amazonas, 
ao sul polo Ramos, a o^^ste pelo P>traná-miri do Limão e a 
iiiudoeste pelo Paraná mirí do Limãozinho. Está situada a 
▼illa sobn,' a barranca do Amazonas, em uma planiric mag- 
nifica, que vai terminar nas margens dosla»rosíIa Francesa, 
Macurani, Aninga, o Redondo, m do rio Paraná-nema. Nu 
4!entro dossa planicie ha umu campina espíiçosa, a quo de- 
nominam. Campo iirandf*. 

O lujíar qiiíí h;)jr a vill:i occnpa,e!a oooupado por uma fa- 
zenda, de propriedade do capiíâo José Pedro Cordovil, quo 
alli foi cstabelecer-Sf com o fim de appllcar seus escravos e 
^K^íroíiados ;i po.sca <io uirarucú nos la«ros existentes na ilha. 
Obtendo, no rt-iuadode 1). Maria I, por sesmaria, todo o ter- 
reno comprebiMidiflo da foz do logo Mirity á iU) laxo José-assú, 
onde aitilu hoje se vê.n alguns cacoaes por elle plantados, 
mudou a sua residência para o lugar que lhe fora concedido 
e offerecou á rainha o sitio que tinha na ilha e que foi apro- 
veitado, mandando a soberana fundar alli uma missão com 
o nomo de Villa Nova da Rainha. 

Seu primeiro missionário foi o carmellíta Fr. José das 
Chagas, que lhe prestou immensos o importantíssimos ser- 
viços. Um delles foi a viagem que fez ao rio Guarajatuba, 
de onde conduzia varias famílias da tribu Maués. Estabe- 
lecidas estas na nascente povoação, applicaram-se ao tra- 
balho de roçase cafezaes nas marj^ens pittorescas do rio Pa* 
raná-nema a do lago Macurani, próximos ao povoado. 

Por alguns annos estiveram alliaquelles índios, mas des- 
gostosos com a retirada do missionário, abandoniram muitos 
as casas que tinham na povoação e espalhara m-se peb)s ri<»s 
Mamurú, Uaicurapá e Andirá. Foram também a isso obri- 
dfados, por haverem sido, quasi ao mesmo tempo, romettidos 
para a mf^o, nor ordem do governador^ como exillados, 
algnas Índios de uma tribu do Rio Negro, us quaes viviam 



— sa- 



em constamos doprodações, causando graves prejuízos á co- 
lónia portuçaeza da(|u<;llc rio. Não querendo os Maués 
unir-5<^ a csics, i.roferirnfn n»lirar-so. 

A mudanra de Fr. José d»^ Chaír.is foi devida a de.sinlelli- 
gencías coiií «ic-pitao José PímIfo Cwrdovil. Retirando-so da 
mi>são d> Vd a Xora da Haiuha, foi fundar urna outra com 
Mundurvcns, i)U<' ô ;i acliial fr- ::u'/.i.i d»' dauuinã. 

Fr. José (la^ (iIiíí;,'..s cia o vcrdi.ddiro typo do missionário, 
oaiiii;/o dcdiradií d. s Índios, qur. laiobeui llio votavam essa 
a ff»dçSo sincera e profun ia d»"^ filho: ,ios s<dvas. 

Tratava os>í'U8 cathrcuíiKiuos 'nm u maior doçura ; ver- 
dadeiro apostolo d.i cariduít;. r»'parlia com elksdo iiucpos- 
guia, consolava -o> «tn íiia.> C(uiiraiie:l;idi's, tralava-cs com 
desvelo em suis :!frr;nií]a'l;'s, íorneiteiulo-llios nãosóos 
medicafuriiios iiei-< ss.iriíK, r.it,.A> ;i dii-ía. 

E não ciij sóoiiT.ií' atis n.di.s (|'iO (v>ifudia a sua íronero- 
sidade. Pos-ninii»» .il^Mun:^. fofíuna, «^-lla dispunha etn bene- 
flcio public» <' iiriricipiílmrnt' ii.i sustfril.içào c brilhan- 
tismo íio culii». Em i(?sicíuunlio disia í,ss(írção, ainda estão 
em Viila-B.dla ns rico.^ laraioííuios, <jiie servem nas grandes 
80lemi:idadrs, n frontal, o r.iissal e outros objectos, que por 
elle foram cotnpnidus e doados cá matriz. 

Tam!)em foi por oile doado ao sou convento em Belém, no 
tempt» em (jue alii serviu de prio:', o órgãos M'^'- »i'^da hojo 
lá funcciona. 

Depois de uroa vida niT.mosn, toda deilicada as serviço do 
próximo e ú 'atecliose dos Índios, já adiantado em ânuos e 
em esl.jdo de caducidaiJc, filleireu na Vi Ha de Borba, dei- 
xando nesi^a partia do Amazonas um nome que por largos 
annos alii será repetido oui a mais profunda veneração o 
re^ípeiíu. 

Falia va Fr. José das Chafras cmw muita jrraça e proprie- 
dade a lípuua LToral c)u tiipíca e no púlpito somente delia 
fazia uso(|Ut<n(io se diri^da aos indiiís. 

Foi o verdadeiro Las-í^9sas e Am-liit;tt;í da Muudurucania. 
VUl'1 tíella fia Imperatriz talvez só a elle deva a sua »'Xis- 
lencia e a sua tal ou (jual prcsperiílade; Cannman mere- 
ceu-lhe particular solicitude; a aldôa df» .S\ José d^ Matary 
foi, por assim dizer, crcada por elle ; Borba sentiu os effeitos 
de sua mão beneficente; om uma palavra, toda "i região da 
Mundurucania coOvserva ainda bem irivaa lembrança do seu 
nomo. das suas virtudes edusseus bencGcíos. 

Elevada a missão de Villa Novada Rahiha á frcL^uezia, foi 
per deliberação do con^-elho creral da província do Amazonas, 
denominada Tupinamharana ; e elevada á villa, por lei pro^ 
vincial de 15 de Outubro de 1853, passou a denominar-so 
Villa Bella da Imperatriz, 

Seria hoje o município de Villa Bella da Imperatriz o mais 
importante da província do Amazonas, se a emigração para 
os serin^aes não houvesso tolhido o seu engrandecimento. 
A plantação de cacáo desenvolveu-se por al^um tompo em 
larga escala, mas o desejo de amontoar riquezas empoticos 
anno5, como costumam apregoar os interessados na extracção 



— 84 — 

da borracha^ veia paralysar do algama sorte essa verda- 
deira fonte de riqueza. Entretanto ainda o municipio de 
Villn Beila é o qae, na província do Amazonas^ exporta 
maior quantidade desse género. 

Também é feita, em n§o pequena escala a salira do pira- 
rucu, que é exportado para os mercados do Pará (1). 



(1) A salgado pirarucu é uma das cousas mais curiosas do Ama- 
zonas. 

E* feita annualmente nos lagos e dura pouco mais ou menos 
ires mezes. 

Começa quasi sempre em Setembro, quando já tem baixado os 
lagos deixando a descoberto as praias. 

Principia então a emigração. Os filhos do Amazonas, que ha- 
bitam o povoado, retiram-se para os sítios em que é costume 
fazer-se a salga e levam comsígo não só os petreclios da pesca, 
como tudo quanto em casa possuem. 

As montarias cortam as aguas dos rios; é uma verdadeira emi- 
gração de famílias inteiras, que deixam a casa completamente 
abandonada. Depois de haverem escolhido um sitio asado, le- 
vantam uma pequena barraca de palha e alli passam os três 
mezes de salga, que chamam de fartura, pescando piracurú, sal- 
gando-o e seccando-o ao sol em giráos, para venderem-no aos 
negociantes, que la mesmo o vão buscar. 

E* assim pois que despovoam-se por esse tempo as villas e sítios 
á margem do Amazonas, ficando semeados de barracas, a que dão 
o nome de feitorias, os laços de salga, como o Parti e o Lago 
Grande no dístricto de Óbidos e o íãuriacú e Mucuricanan no dis- 
trlctodeFaro. 

Alli, fumando o seu cigarro de Tauary, que dura o dia inteiro 
e ás vezes mais de um dia. vê-se o pescador correndo o lago, 
sentado á proa de uma canoa, que leva na popa um remo amar- 
rado para aguental-a, e remando de quando em vez, mas muito 
de manso, à espera que o peixe bóie. Fal-o este ás vezes com tal 
rapidez, mie só a vista fina do pescador adestrado é capaz de co- 
nhecer a direcção que tomou, pela impressão da cauda do peixe, 
que fica á superflcie das aguas. Então rápido atira a hastea, feito 
o necessário desconto e vaipegal-ono fundo, onde mais seguro 
parecia estar. 

Outras vezes reunem-se muitos pescadores, postos em linha, 
percorrem o lago em uma mesma direcção e todos n'uma mesma 
posição obrigada á proa das canoas, com as hasteas mettidas 
n'açua, mas de modo que a fisga não toque no fundo, o que 
evitam, tomando primeiro a altura das aguas. 

Assim fazem seguir as canoas, á espera que a fisga esbarre no 
peixe, e logo que o sentem, recuam a hastea e impellem-na com 
lorça na direcção que suspeitam ter seguido o peixe. Chamam a 
isto pescar de fisga, o que não só é mais difficíl, por não se poder 
conhecer facilmente o movimento do peixe pelo simples esbarrar 
na fisga, como também muito mais perigoso, por isso que, sendo o 
peixe encontrado muito próximo e sendo para diante o impulso 
dado a hastea, acontece muitas vezes que na occasíão em que a 
fisga entra no peixe, recua de salto a hastea e pôde nesse movi- 
mento encontrar o pescador e atravessal-o. 

Com os nomes de pindá-siririca e pindá-wiuáca designam os ín- 
dios duas maneiras de pescar o tucunaré que é um dos peixes aqui 
mais estimados. 



- 8S - 

Os dados estatistícos da exportação dos géneros de Vílla 
Bella, fornecidos pela repartição fiscal não apresentam a 
realidade delia cm vista do grande contrabando que alli se 
faz, podendo-se sem rccci'^ de errar, acrescentar áquelles 
dados mais uma terça parte. O contrabando é feito em pe- 
quenas canoas para o porto de Óbidos e delias baldeado para 
os vapores que navegam das daas províncias. A diminuição 
na exportação de Villa Bclla faz augmcntar a de Óbidos, de 
modo que o municipio desta ultima cidade exporta até gé- 
neros que não possuc. Não ha alli, por exemplo, um só 



Consiste a primeira em ligar pequeninas pennas encarnadas 
ou outra qualquer matéria de igual còr, como pedaços de baeta 
chila, etc, ao estorvo de um anzol (pindá) cm linguagem indí- 
gena, de modo que este fique occulto. Isto feito o pescador se- 
gurando a vara do anzol, vai com eile frisando de leve e ligei- 
ramente a face d*agua ; então o tucunaré, que so alimenta de 
peixinhos, muitos dos qiiacs tem as barbatanas encarnadas, 
vendo esta côr passar a Dor d*agua e siippondo ser algum dos 
que ordinariamente faz o seu pasto, arremessa-sc contra o anzol 
com a voracidade de que é dotado, ficando assim fisgado. 

A segunda differeda primeira em que, em vez de ser atada a 
uma vara a Unha do anzol, atam-na á popa de uma montaria, 
que o pescador fazendo correr velozmente á força do remos, faz 
que o anzol vá também correndo à flí^r d*agua, e dô em resultado 
o mesmo eífeito que a primeira. Nesta segunda maneira, é ne- 
cessário quea linna seja muito comprida, para evitar que o ruido 
dos remos affugente o peixe. 

A maneira mais curiosa e quiçá a mais difficil de pescar, é 
com a frecha. E* sobremodo admirável a destreza e habilidade 
com que os indios frecham as tartarugas. Lançam para o ar a 
frecha, que, subindo, descreve uma parábola, e vai certeira cra- 
var-se no animal, que subiu á tona d'gua para por momentos 
respirar. 

Gomo harpão, além do pirarucu, prêam peixes de maior cor- 
pulência, como peixe-boi e outros. 

Com as r^des, nas praias e enseadas, a pescaria ó assaz produc- 
tiva, mormente na passagem das piracemas (cardumes) de jara 
quis, uaracúSj sardinhas, etc. Também servem-so da rêdo para 
apanhar opeixe-boi. Com ella tapam a boca dos lagos em que 
elle abunda e harpoam-no na occasiAo om que, querendo sahir, 
esbarra com o embaraço quo lhe puzeram. 

Taml)em do mesmo modo apanham o irarucú com o cacury 
ou tapagem feita de páos fortes . 

A pelor maneira de pescar ó com o timbó, que envenena a agua 
para envenenar o peixe. 

A' noite, com fachos, fazem também uma poscaria a que dão o 
nome áepira-kera. Vão duas montarias ({uasi unidas, levando na 
proa archotes feitos com talas da palmeira uar^^ma. Remam com 
ioda a força e o peixe sobresaltado pelo ruido e deslumbrado pelo 
clarfto, começa a pular nas canoas. 

Com a gaponga também pescam. Amarram um osso dt? uma pol- 
legada de comprimento e de igual grossura a uma linha de uma 
braça de comprimento presa a um caniço e fazem-no cahir n*agua. 
O peixe, acudindo ao ruido, engol3 o traiçoeiro anzol, que o 
mata. 



- 86 — 

fifuaranaceiro, e entretanto exporta centenas de arrobas de 
gnaraná f 

Tem a ilha em que so acha Yilla Bella, em seu âmbito, 22 
lagos, que se dominam Macurani, Frauceza, Laguinho, Câ- 
taça, Boia-assú, Muratuba, Comprido, Uariboía, S. Braz, 
Acará-miri, Acará-assú, Lago srande, Rodris^o, Piranhas, 
Colhereira, Paciência, Isidro, Tracajá,Taiassú, Meruxini^^a, 
Redondo e Aninga. 

Os dezenove primeiros dão agua para o rio Paranánema. 

Ultimamente se tem alli desenvolvido o gosto pela criação 
de gado e dentro da ilha se acham principiadas 25 fazendas 
que já contam 850 cabeças. 

Quasi no mesmo tempo em que se fundava a missão de 
Villa Nova da Rainha, hoje Yilla Bella da Imperatriz, co- 
meçava tamt)em a povoação de Laséa^ depois Maués e actual- 
mente Villú da Conceição. 

Está situada á margem direita do rio Maués (Gu^raua- 
tuba ), que á pequena distancia lança suas aguas no Ramos, 

Foi fundada em 1798 por Luiz Pereira da Cruz e José 
Rodrigues Preto (e nho Porto^ como se acha no diccionario 
do ca()itão tenente Amazonas e na corographia do coronel 
Ignario Accioli). 

Dos noraesde seus fundadores, isto é, da primeira syllaba 
do primeiro e da ultima do segundo, formaram a palavra 
Luséa, nome que teve emquanto foi missão. 

Elevada á villa, por deliberação do conselho geral, fol-lhe 
mudada a denominação de Luséa pela de Maués, que em 
1865 foi ainda substituída, poracti) da assembléa provincial 
do Amazonas, pela dt* Villa da Coriceição, que ora tem. 

Em 1832 foi esta villa iheatro de baroaridales praticadas 
pelos Índios Maww, Que em seu furor a85assin.iram diver- 
sos indivíduos. Era chefíídessi horda o tuchaua }ilanoe\ 
Marques, que depois do lermiiiida a carnificina, f«ii levar o 
facto ao conheci in^ínto do ouvidor, na anu;í.i villa da Barra, 
hoje cidade de Manáos. O inissiuiiario car;iio!iia Frei Joa- 
quim de Santa Luzia, é ainda hoje accus.ido, provavelmente 
sem fundamento, de ler insinuado aos índios essa matança. 

E'de grande imporlaíioia o comiiiercio qu«í faz essa villa. 
com os indivíduos que deCuyaba Ihf? vãoct>mprar guaraná, 
A despeza, o trabalho e os ri>cos são grandes para esses 
homens que entrotanio JuliX.nn-se compensados pelo alto 
preço, por que vendem aquelie goner*) em (^uyabá. Depois 
de unia pení:sissima viagnm, (l(\^cml)arca o nejinciante cuya- 
bano em Uaituba, pori«>do Tapajóz, seguindo dalli por terra 
até o rio Mnués. 

Segue (''a III embarcado até o porto da Conceição, onde, 
depois de effectuada a compra do guaraná, emburca-o om 
canoa e segue pelo Amazoaas, até o porto de Santarém. Deste 
porto segue o género embarcado no vapor da companhia de 
navegação (limitada) do Amazonas, que mensalmente faz 
o serviço da linha enire Belém o os portos do Tapajóz até 
Itaftuba, onde é recebido nas canoas, que o lera de conduiir 
a Cuyabá. 



- 87 — 

Para a compra do frnaraná do Andirá, fazem o mesmo liff-* 
jecto, com a díffereoça de se^^uirem de Ilaituba até aqueVa 
fre^aezia, sempre por terra. 

O melbor guaraná conhecido é o que se fabrica no rio 
ifamiirií, districto de Villa Bella. 

V fre^^aezia de Nossa Senhora do Bom Soccorro do Andiíâ 
( i ) está situada em uma pequena emint>ncia, á margem 
direita do rio Andirá, a de onde se descortina um magnifico 
panorama. 

Foi Manoel da Silva Lisboa, o primeiro que alli estabel8«> 
ceu-se com uma pequena fazenda de gado e depois deSe 
alguns índios da tribu Mauét, 

Dividido em quarteirões o districto da VíIIa Xova da 
Rninha, a que pertencia o Andirá, foi desisrnado ests ríò 
fvri.iu quarteirão e nomeado inspector um indio chamado 
Cliri<pim d«? Lcã). No exercício do caríjo praticou este 
hoineíDyde índole perversa, netos de tanta liarbnridado, que 
foi iii?i:essarío destituíl-o. Não des^tnimou porém Chrispim^ 
com t ■^la resolução e seguindo furtiva meut-^ para a capital^ 
por tal forma illudiu o governo, que obteve deste, não só* 
hriud^^s para uma povoação de índios, que elle phantasiou,^ 
como rccommeudação ás autoridades de Vília Nova da. 
Hainiia para o protegerem e lhe darem consideração. 

Contando com elementos tao favoráveis, não parou Cliris- 
pim de Lião no caminho dos dosatinos; até (jue envolven- 
do-se na revolução de 1835, conhecida pelo nome deC^^m- 
«agf^m, pagou com a vida Ob malt-s que haviu causado. Av 
ultima façanha desse máo jiomem, foi o incêndio lançado por* 
sua própria ntão á nascf^nte povoação do Andirá. Antes; 
porém que a immensa fogueira ateada por elle houvesse 
desapparecido, morria (^hrispim de Leão, atravessado por 
ama bala, lançando um ultimo e satânico olhar para a sua 
obra de destruição. 

Ainda hoje no Andirá faliam desse homem com horror e 
repugnância. 

Ao mando de Chríspim de Leão, sah iram do rio Atidirá os 
mais sanhudos cabanos, que atacaram Villa Nova da Rainha, 
obrigando os habitantes a procurarem refugio em Óbidos. 
Fui ainda esse bando que forneceu muitos auxiliares para o 
famoso ponto do Curumucunj, no districto de Óbidos . 

Terminada a revolução, foi nomeado inspector un i outro 
indio, também Chri<pim do nomo, com quanto do melhor 
Índole; o qual entretanto não deixou de praticar e3 cessos, 
sendo o ultimo o facto de haver pai matoríado uma intl ia, pelo 
que foi condemnado pelo jury de Manáos, não ctii*gando 
porém a cumprir a sentença . 



( I ) A paUvra Andirá ou Xíidérá, em língua geraJ^ <([téi dizer 
morcego, Proveia-lhe esta denominação em consequen^:^ ia da 
grande quantidade de morcegos, que aill havia. Hoíé ien% fdimi- 
nnido consideralvelmente essa verdadeira praga. 




- 88 — 

Por lei provincial de 13 de Maio de i873, foi transferida a 
géde da freguezia do Andirá para a margem díreiía do rio 
Ramos. Parece de summa yantagem essa medida, porque 
assim evitará em grande parte os prejoizos quesofiTre a pro- 
vincia do Amazonas com o contrabando, que se fazia pelas 
aguas do Ramos, sem poder ser impedido, quer pela col- 
lectoría de Yilia Bella e quer pelas autoridades do Andirá. 

Na margem direita do rio Abacaxis está situada a aldêa 
deste nome. 

Foi seu fundador o tuchaua Abacaxis, de quem lhe veíu^ 
d ao rio que a banha a denominação que hoje tem. 

Em vida desse tuchaua, alli chegou o Dr. José Eugénio, 
f ue fugia ás perseguições que em nome do governador e 
capitão general D. Francisco de Souza Coutinho lhe faziam 
em Belém, e vivendo cerca de quatro annos entre os Mun- 
úurucús, promoveu-lheso augmento da aldôa, então ainda 
muito resumida. Livre depois o Dr. José Eugénio das per- 
eeguições que o fizeram viver no Abacaxis, retirou-se para 
Delem. Des^i^ostoso o tuchaua Abacaxis com este aconteci- 
•rnento, abandonou a aldêa, entào já muito populosa, perma- 
necendo alli apenas dous Índios de nomes Manoel Vicente o 
Alberto Magno. Este apossou-se da casa erà que habitara o 
i)r. José Eugénio. 

Depois de alguns annos, um José Machado foi unir-se ao.«$ 
(Tous moradores da aldêa abandonada, e ahi vivêramos três 
atéo anno delSSIS, em que, em consequência da rebellião 
que assolou a província do Pará, retiraram-s3 Vicente e 
Machado para Maués, hoje villa da Conceição, onde se en- 
volveram entre os rebeldes Alberto Magno, porém^ conti- 
nuo>u a viverem Abacaxis. 

A-mbrosio Ayres Bararoá (i), que, nestes tempos de lutuo- 
sas recordações, dictava a lei no Amazonas^ mandou fundar 
um posto militarem Abacaxis. No anno de 1840 o cónego 
António Manoel Sanches de Brito convocou o tuchaua Joa- 
quim José Pereira, e o animou a levantar uma capella, visto 
como nenhuma alli havia. Auxiliado o dito tuchaua pelo 
negociamte António Gonçalves Marques, deu começo á cons- 
trucção da primeira capella, sob a invocação de Nossa Se- 
nhora d a Conceição da Rocha, cuja imagem,que ainda existe 



(1) Al nbrosio Ayres Bararoá é o nome do famoso caudilho que 
prestou relevantes serviços á causa da legalidade por occasião da 
revoluç âo de 1835. Habitando a freguezia de Thomar, então co- 
nhecida; pelo nome de Bararoá^ tomou elle este appeliido. 

Conseguindo reunir grande numero de companheiros, com 
cllos D) 'atiçou actos de subido valor , infelizmente porém alguns 
mescííidos de notável selvageria. 

Conimandando uma força no la^o Autaz, em 1838, cahiu pri- 
sione'iro. soffrendo morte barbara d:a parte dos Cabanos j que, antes 
de lhe fazerem exhalar o ultimo suspiro, suppliciaram-no do 
mod,o mais inhumano e cruel 



— 89 — 

eó muito perfeita^ mandou-a o dito Marques vir á sua custa 
de Lisboa. 

O tuchaua Joííqmm José Pereira eseus parentes prestaram 
ya liosissí mos serviços á causa di legalidade contra a revo* 
Jnçao da ctibanagem, 

O districtoda aldôa de Abacaxis é vastiisimo, comprehen- 
dendo os rios Abacaxis e Pracony e os lagos Curupira, Ju* 
rupary e outros de menor importância. 

A' margem direita do Ramos^ a seis milhas da foz do 
Paraná-miri de Aíoii^^, está situada a pequena povoação deno* 
minada Maçauary, pertencente ao districto da villa da Con- 
ceição. 

Tem uUâacapella, cujo orago e SanfAnna, edificada pelo 
vigário geral padre João Pedro Pacheco (i) e reedificada 
pelo cónego António Manoel Sanches de Brito. 

A denominação de Maçauary provém de ser conhecido 
por este nome um velho tuchaua (2) da tribu Maués, que foi 
u primeiro a habitar aquellas paragens. 

Os limites actuaes deste povoado são formados, na parte 
superior, prla foz do lago das Garças, e na inferior, pelo 
lugar denominado Tabacal, tendo communicação com a fre- 
guezia do Andirá^ pelo furo a que dão o nome de estreito de 
Maçauary 

Na extensão que estes limites abrangem, estão compre* 
bendidos 58sitios e cerca de 300 vizinhos. 

As terras ubérrimas, que se estendem do Tabacal ao lago 
das Garças e as de igual natureza no lago Maçauai^, tem 
concorrido para a ellas atSluir alguma população, com cujo 
trabalho tem se desenvolvido a agricultura, avultando já a 
exportação, que alli se faz, de tabaco, café, farinha, gua- 
raná, etc., sendo a margem opposta occupada por cacoaes. 

£sforçam-se os habitantes de Maçauary para que seja alli 
creada uma freguezia, medida geralmente reconhecida como 
necessária, não só ans interesses públicos como aos particu- 
lares, sendo a distancia em que se acham da villa da Con» 
ceição, para cujo porto sãu precisos quasi dous dias de pe- 



(1) O vigário gerai padre João Pedr > Pacheco falleccu em Villa 
Hova da Rainha, hoje Villa Bella da Imperatriz, a 28 de Setembro 
de 1837. 

Mysterio é ainda liojo a causa de sua morte. Havendo soíTrido 
em dous dias consecutivos violentas dores de cabeça, sem ter to- 
mado alimentação alpnma, á excepção de algumas chicaras de 
café, chamou no dia 27 daquelie iiiez a Roque Newton Pacheco 
Arupady, que havia sido seu escravo, e pediu-lhe que o san- 
grasse nos pés e nos braços. Abertas as veias c perdido todo o 
sangue, expirava elle oito horas depois. 

(2) O nome por que as diversas trinus designam o seu chefe ou 
maioral, varia conforme as na<;6ps. Dao-lhes umas a denomi- 
nação d«^ Udchaua, outras a de murucham. e no Kio Negro e pro- 
ximidad(*s do Or^^noro a tW enrique. 



— 90 — 

nosa TíaRem, o motivo qae mais alua para procurarciii 
ver realizado aquallo desejo. 

Sem receio do errar, posso assegarar que o paraná*icírí 
do fíamos em toda sua longa extensão, é a parte da pro* 
vincia do Amazonas onde mais floresce a agricultura e as 
plantações de cacáo, mandioca, tabaco, café, milho, etc, que 
em ambas as margens se prova que o lavrador allí cura 
com interesse do serviço docampo^tornando-se assim mais 
«olicito pelo seu bem eslar. 

Achando-se^ porém, todo esse território dividido por di- 
versas freguezlas, faz esta circumstancia, como é reconh*'- 
cido, tolher de alííuma sorte o seu progresso, convindo, por- 
tanto, a creaçSo de uma só freguezia, na parte niédia do rio, 
visto que para « inferior acaba, com muito acerto, de ser 
transferida pela lei de i3 de Maio de 1873, a sede da freguezia 
do Andirá ; e tendo o povoado de Maçauary em seu favor 
razOes de preferencia par» sede da nova freguezia, concor- 
reria indubitavelmente este resultado para exilo favorável 
aocommercio e á agricultura. 

O rio Uaycurapá, que se lança no Ramos, é muito abun- 
dante em madeiras reaes. 

Na sua foz eem uma bella praia está o lugar denominado 
Tauaquéra, onde os jesuítas começaram a edifícação de um 
eonven-to, cujas paredes ainda alli existem, admiráveis so- 
bretudo pela solidei da construcçâo. 

Constando que no circuito, que abrani^e aqunllas paredes 
havia muitas riquezas enterradas , mais de umi individuo 
tem alli ido fazer excavações, que nenhum resultado tem 
dado. 

No ri3 Maué^assú lançam-se diversos pequenos rios, que 
lhe engrossam as aguas, sendo os mais notáveis o rio Limào^ 
na margem esquerda, o Faquinha, na direita, e o Guaraná» 
tuba a poucas milhas da vill» da Conceição. Este ultimo, tão 
espaçoso como o Mavé^asssú^ é formado á pouca distancia 
pela reunião dos dous rios Mirety e Curanabi, ambos insig- 
niflcantes. 

Qiiasi a vinte léguas de distancia ao sul da villa da Con- 
ceição, o rio Paranary, recebendo o Amanã, toma o nome de 
Maué-assú. 

Ha no rio Paranary, algumas milhas abaixo das cachoeiras 
que nelle existem, uma grande pedra, a que denominam 
Pedra do barco, a qual forma uma gruta de duas braças de 
fundo horisonial o oito ou dez de comprimento sobre a 
agua. Vista de longe, semelha um b<«rco atracado nn pndra 
e dahi o nome que tem. A pedra é calcarea, c requissima 
de conchas fosseis, que muitas vezes, batidas constantemente 
pelas aguas do no, desprendem-se pouco a pouco da pedra 
e ficam, como flores, pendentes do tecto da gruta. 

Das cabeceiras do Limão passa-se, em três ou quatro horas, 
para as do igarapé da Terra Preta, affluente do rio Apoqui' 
tiba, igualmente das cabeceiras do Perquenha chega-se á 
do Penà-paraná, braço do iíati^-fntrt^ que demora áquem 
úo Maué-assú, do lado oriental. 



- 91 - 

O terreao margeado por esses rios é geralmente fértil e 
prestasse á cultura do café, fumo, algodão, maadioca, gua- 
raná e outras plantas. 

A única tribu oriunda da, hoje, comarca de Parintína, 
que tem vilia B»ílla por cabeça^ é a tribu Maués^ que vivo em 
malocas situadas nas terras firmes dos rios Mamurú, Andirá 
e Mtiué'as8ú, e al}fumas nas proximidades do rio Tapajós, 

Ei também no rio Ramos, á margem direita, uma pequena 
aldôa de índios Muras, que allí se reuniram a convite de 
alguns moradores, a fim de se applicarem ao serviço da 
pesca, no que são muito babeis; mas insconstantes, comoge- 
rainunie sao aquelles índios, e dados além disto ao latro- 
cínio, n)da se tem conseguido dellcs. 

Foi na freguezia do Andirá, (|ue tive occasiiode assistir á 
celebre festa dos índios denominada áoSahiré. 

O Sahiré, diz o capiíão-lenente Amazonas, é um semicír- 
culo com seu diâmetro, raios^ cordas, etc, tudu forrado de 
algodão ou arminho enfeita<to con< fitas e coroado de uma 
cruz da mesma forma forrada e enfeitada. Três mulberes 
indígenas o carregam, e é muito raro que uma delias não 
seja coxa . 

Nenhuma das que vi no Andirá era coxa. 

Levam o Sahiré, dansando e cantando um hymno, ordi- 
nariamente em honra da Santa Cruz, da Virgem Santíssima 
e de S. João Baptista^ o santo mais popular dos Índios os 
Amazonas. 

Eis a leira do hymno, que cantam em língua geral: 

— ttá Camuti pupé neiásxúcaua pilangui purangu ité, 
E o estribilho em pnrtu«uez: 

— E Jesus e Santa Maria f 

Santa Maria cuian puranoa ; imemboiraiauêráiuatépupé, 
oicou curussá uassúpupé; ianga luramarerassú, 
E o estribilho. 

— E Jesus e Santa Maria. 

A tradução do primeiro hymno éesia: 

« Em uma pia de pedra foi baptisado o Menino Deus.»- 

E a do segundo: 

< Santa Maria é uma mulher bonita: seu filho é como ella: 
no alto céo está n'uma cruz grande para guardar a nossa 
alma.» 

Levam o Sahiré, diz ainda o cnpitão-tenente Amazonas, 
ás mais das vezes quando acompanham alguma imagem í 
igreja para ser festejada ou quando desembarcam a coroa 
do Éspíriío Santo, na véspera da Assenção. Nas festas de 
S. João e de S. Thomé, que são feitas pelos indígenas, ao 
dito Sahiré acompanha de perto um tambor, tocado por um 
sujeito^ que ao mesmo tempo toca uma gnita. O serio e 
satisfação com que elle desempenha esta original duplicata, 
importa uma bem a^rradavel curio>idade. 

A festa do Sahiré, cuja instituição é aitribuida aos jesuítas, 
vai hoje ca hindu em desuso. 

Na comarca do Parintins e sobretudo no município de 
VilIa Bella c na freguezia do Andirá, é onde tenho ouvida 



— 92 — 

fallar mais ve2(S e quiçá com mais graça a harmoniosa linj^ua 
geral ou tupica. Conheço muitas senhoras e de famílias bem 
distinctas, que a faliam com muita ^raça e desembaraço. Sei 
que no Alto Amazonas, Solimões, Rio Negro, etc, é por 
assim dizer, a língua mais conhecida e mais vulgar. O Sr, 
padre Manoel Justiniano de Seixas, vigário do Andirá, não 
só falia -a correntemente com os índios da sua freguezia, 
como, além de um pequeno diccionario que escreveu e corre 
impresso, está actualmente escrevendo, nessa mesma língua, 
um compendíD de doutrina christã. 

Não me levará a mal o publico n transcrever aqui o capi- 
tulo preliminar do mesmo livrinho. 

c Auátaayanêtnunham. • 

— Quem nos creou f 
c 'hipana. 

— Deus. 

< Maaratna cuitéyane munham TupanaJ 

— Para que nos creou Deus ? 

c Yacuáo arama aê, satcu arama, puranquê arama ichupê, 
çtia-a rupi yaique arama euaca opé. . 

— Para o conhecer, amar e servir e por este meio alcan- 
çaremos a vida eterna . 

c Tupana yane munhan será catuçaua rama f 

— Deus nus creou para nos fazer eternamente felizes? 
t Em em ; Tupana yanê mufdían catuçaua rama, 

— Sim ; Deus nos creou para nos fazer felizes, 
c Ma-á cuite ya munhan catuçaua rama ya icó ? 

— E o que devemos fazer para sermos eternamente fe- 
lizes ? 

« Ya yumué rame yumuéçaua Christan. 

-^ Seguir a doutrina christã. 

c Ma-á cuite yumuéçaua ckristan f 

— Qual é a doutrina christã ? 

c Yumué çaua christan aê yane mui ua-á yané yara Tu* 
pana Yezu Christo apostol» Há muçá pucai tia-á; Tupaoca 
cuêre yane mué. 

•— A doutrina christã é a doutrina de Jesus Christo, que 
os apóstolos pregaram e a igreja nos ensina. 

« Ma-á cuite oioa yanê yara Yezu Christo moecauoopéf 

— O que contém a doutrina de Jesus Christo 7 

Yanê yara Yesu Christo moé çaua rico — i.^ Supiçara itaya 
yuiare arama cê -cê ;-<-2.° Satamè caçara yanungatu arama; 
-^.^ Quaá rupi Tupana putare yanê reco catu rama. 

-^ A doutrina de Jesus Christo contém: l.* as verdades 
que devemos crer:— 2.® a lei que devemos guardar ; 3.° os 
meiosque Deus estabeleceu para nos santificar. 

« Ma me ouiie yauacema supiçaua itá ya ruiarearama 
cê-cê^i 

— - Onde se acham as verdades que devemos crer? 

« Supiçaua itá ya uacema opain catu ruiar arama cS»ca 
symboío apostolo itá pupé. 

-^ As verdades que devemos crer se acham em resumo no 
symbolo dos apostoloa. 



— 93 — 

Mame cuite yuptaçuca yuvmeçaua yununycUu arama ? 

— Oaae está contida a lei qae devemos gaardar ? 

c Satamecaçaua tfunun gaturama yupetaçuca Tupanae Tu* 
paoca Mondoçara itá pope. 

— A lei que devemos guardar está contida nos manda- 
mentos de Deus e da igreja . 

« Ma-á cuitepêtêra itá Tupana inumyane catuçaua rama? 

— Qnaes são os meios que Deus estnt)eieceu para nossan- 
tiflcar? 

c Pilêra itá Tupana inum yane vatuçaua rama ai rapa-á 
yumueçaua. Sacramento itá irnmo. 

— Os meios que Deus estabeleceu para nos santiGcar são: 
a oração e os Sacramentos. 

O Sr. Dr. António José Pinheiro Tupinambá, residente na 
capital da província do Pará, escreveu e pretende publicar 
um volumoso e importante trabalho, denominado: «anjiltsb 

PHILOLOGICA DAS VOSBS RADICAES DA LÍNGUA ABIO-TUPI OU IDIO- 
MA TUPINAMDÁi. 

A Obra tem a forma de dicionário. 

Transcrevo aqui, para de alguma sorte dar idéa do livro, 
o seguinte trecho do prologo: 

c Para patentear aos philologos as excellencias da lingua 
aborigent; da minha pátria, língua inconvenientemente clas- 
i^ificaia pelos sábios entre as barbaras, porém que eu pro- 
varei pertencer á família aryana e ser afflm do sanskrito, 
zend e gr^go^ e como um protesto vivo contra a opinião dos 
aue lamentam que o portuguez se vá degenerando e trans- 
formando entre nós, publico o presente trabalho^ excerpto de 
meus inéditos sobre a ethnographia brasílica, estudos em 
que de ha muito me occupo, e que publicarei successiva- 
mente, quando as circumsLincias me o permittirem.» 

c A lingua tupy, chamada vulgarmente geral, diz o Sr. 
Gonçalves Dias, tinha uma grammatica que, pelo bem orde- 
nado década uma de suas partes mereceu de ser comparada 
á grega eá latina: demonstra mais habito de reflexão do que 
o que encontramos no povo que a fallava ; abunda, como bem 
nota Martins, em expressões, que indicam certa familiaridade 
com as considerações metaphísicas, concepções abstractas, a 
ponto de bastar para exprimir e explicar as verdades e os 
mysterios da mais espiritual de todas as religiões, do chris- 
tianismo; e, reina em toda ella tal ordem, tal methodo^ que 
alguém disse já que os Tupy.s não estavam em estado de a 
ter formado. Se não o estavam, e já o tinham feito, a conse- 
quência é, que depois disso haviam decahido. > 

Sobre a mesa em que traço estas linhas tenho a cópia de 
nnia interessante carta, escripta em lingua geral pelo tuchaua 
Vicente, e dirigida a um individuo a quem lhe morrera a 
filha. Com que delicadeza lhe dá elle os pezamos e procura 
consola 1-0 1 

Eis a cópia da carta : 

c Aiana re iasaiú, cariuá, ne ra era umanú^ iché chaquá^ 
chasse ne peá, tenupâ moiramé. Tupana u^senú iné aé perê, 
ne raiera miri, ussuanti iné : ariana re iâssiu ! » 



— 94 — 

A traduci^o ó : 

c Basta de chorar, branco; tua filha, morreu ; eu sei que 
muito (levo doer-te a coração. Deixa, porém, quando tam- 
bém Deoschamar-te a si, lua filhinha correrá a encontrar-se 
com ligo. Basta de chorar f » 

Não soi que autor, fallanda dos inrlios, dizia : tEm reli/iao 
e costumas são os Índios por extremo barburos, porque não 
tem fé^ nem lei, nem r^t, motivo porque é sabido lhes fal- 
tam em sua língua esta^tre$ letras-F. L. R. » 

E' bem singular e extravagante querer que os vocábulos 
dos dous idiomas — tupy e porluguez — correspondentes 
áquellasidéas devessem de necessidade começar pelas mes- 
mos inicines f 

Logo após os desaguadeíros ; que com mais ou menos mi- 
nuclosidado mencionei, entra m margem esquerda do Ama- 
sooai o a 170 léguas da sua foz o celebre rio Nhamundá ou 
Jamttndá, 

Supi>õo-8e geralmente que nasce nas montanhasGuy da an* 
na, rorrendo na direcção de N. a S , banhando as abas da 
serra Ilacamiaba, e atravessando os lagos de Faro, onde 
banha a outr'ora aldôa de Jamundá, hoje a decadente villa de 
Faro, indo lançar-se no Am^izonas por difiTrentes braços ou 
bocfiH, das quaes a mais occidental ó o limite da província 
do 1^1 ré com a do Amazonas. 

O Sr, Ferreira Peiína. porém, suppõo que este rio deve vir 
da roí/lfio central, compre.iendída no espaço que fica entre o 
alto Trombetas ao norte e o Uatumânos\i\ 

Denrendo d'ahi o J.imundá, diz elle, ao princípio corre 
provavelmente a E S E, por entre montes ; recebe pequenos 
aniUiMiti'8, dirige sedeiiois» SE^ atravessando pequenas ca- 
clioetriiH o entra n'uma planície ou valle espaçoso, densa- 
nienlo arvorejado, mas ás vezes alagadiço. 

Acompanhando essa planicle, emitie de sua margem es' 
querdn um braço, qun, com seu nome, a atravessa para lan- 
ç<ir«Mo no TromlMia^, exactamente no pontoem que este rio, 
Naltatidoii ultima cachoeira, entra lambem na planície. 

Ãnquanlo atravessa nsta região plana, contiuúa o Sr. Per- 
rnlra IViina, o Jamundá é quasi obstruído por uma infini 1a- 
de do llhaM, que o acomi^anham em suas sinuosidades até 
pi«rin dii rotinuencia do Pratucú, não excedendo a sua lar- 
gura de ttH) metros, que, no verão, reduzem-se ainda a 150, 
n mevnio n iOO, conforme a maior ou menor duração da es- 
ta çà o pi«'crH. 

Anlei de encontrar o Pratucú, deixa a planície e então as 
iiua*( mMruiMiH lornam-se altas e ás vezes montuosas. 

(1 /^7i^i(*ú, que é um ramo menor, corre mais ou menos 
pNialallo, por algum tempo, ao Jataptí (tributário do Uatumã) 
mgue a IC.e reune-se ao Jamundá, cerca de 36 milhas 
Ml Ima de Faro. Seu curso é bastante sinuoso e por entre 
MioMb^M 0(1 Norras pouco altas, como quasi todas as desta 
riiglAoiii em Nua barra no Jamundá divide-se em três braços 

flitalMiin^»! P^^i* ^^^ A^^ ^^ peraaeio duas iihas. 
No pnnlo da Jnncçio dos dona rios, as aguas se dilatam 



— 95 — 

coosideraTelmente, formando uma vasta bahia, qiiasi toda 
rodeada de terras altps e montes: um pouco abaixo está a 
extensa ilha Capixauramonha, tnda composta de terrenos 
pe(lrt*gosos, mas cobertos de arvores. 

Dous sarros se erguem na margem direita defronte das 
dnas pontas dessa ilha: o do Dedal, fronteiro á prmta su- 
periora o do Copo, em fronte da ponta inferior: este ultimo 

é um alto rochedo, que f!(*n qua>i a pique S(»bre o rio 

Desde a confluência do Praítirt*. o Ja- 

mnndá é um rio vasto e maj^ninro, de um azul profundo, 
eorrendoquasí sempre por entre montes revestidos de uma 
vegetação vigorosa, rerortadi/ de ponuis e enseadas e bordado 
de praía< de areia alvissiron, accidentes ronstantes que o 
acompanham até o laffo de Firo. 

Aqui terminam as serras ou collinns que o acompanham ; 
aqui desapparecem as praias de areia e a vegetação bri- 
lhante; aqui acabam os terrenos arridcntados e eoineça a 
planicie quasi nivellada do Amazonas; aqui está em fim a 
verdadeira foz do JamunJá. 

Com effríito, apenas se fecha o l.ifro ao lado oriental e o 
Jamundá recolhe-sea um leito pouco largo, entra ahi lopro 
na margem direita o Cabury, o primeiro braço ou Paraná- 
miri que o Amazonas lhe en v ia . 

O rio perdeu enião o seu aspecto soberbo ; seu leito é aca- 
nhado, sua marcha torna-se vacillante, sua còr mesmo dos- 
botou-se um pouco com o peijuono continironie d'a?uas 
esbranquiçidas do Cnbuty; a voijolíiçrio perdeu lodo o es- 
plendor e apenas as margens são orliolas por uma estreita 
zona de arvores mediocrcs aliernantio com as gramíneas c 
cyperaceas e outras plantas berbaceMs, (|ue cobrem a v«sta 
superflcie do littoral. O rio toma, não n rumo de N. a S., 
como se tem pretendido, mas o rumo í:eral de E. N. E. até 
o Paraná-miri do Ca/rfí-irao. Nesta secção é aconipanhado, 
proximamente á margem, de uma serie <le laír<K, ou consi- 
deráveis, como oCarauary, Mjodoal e Arãkiçauà, ou me- 
di«)cres, como o Maracana, Ubim, Abaucú, eic, em cujas 
praias apparecem numerosos sítios cutn pequenas pia ntaçòes, 
como nas várzeas muitas ehoupanas de vaqueiros e capa- 
tazes das fazendHS de gado. 

A partir do lago Arakiçann, que é o ultimo desta secção, 
o rio alarga se até 300 melros, voliase pura o N., pas- 
.•^ndo pelo lugar denominado Rppartimento, ondo recebe na 
margem direita, que agora é oriental, o Paraná-miií do Ca^ 
deiráo, que vem de Amnzonas. 

PiacídOy larj^o e ainda cryslallino, o Jamundá, recebendo 
este contingente do Amazonas, muda completamente de phy- 
síonomia ; seu leito estreíta-St3 e profunda-se muito; a 
marcha é arrebatada, suas aguas totnam uma còr amarello- 
otívHtica, perdendo logo toda a sua irnnsparencia. 

D'aqui em diante o seu rumo geral, até perder-se no Trom- 
betas, é N. E., fazendo porém numerosos flexões, ora para 
N., ora para E., e raras vozes para N. N. O. 

As margens continuam bordadas de uma estreita franja de 



— 96 — 

arvores» atrás da qual se vêm somente plantas herbáceas e 
vários lagos. Nesse trajecto deixa á esquerda o furo da Pa- 
ciência, que dá entrada para o la(?o Piraruacá, oáeCaraná, 
Maryapixy e Sapucuá,q\ie vem dos lagos de iguaes nomes. 
Na margem direita ou oriental vôm-se também alguns /uro« 
insignificantes, que vem dos pequenos pântanos, que a acom- 
panham. 

Segundo o Sr. Ferreira Peuna, entra o Ja munda no Trom- 
betas, defronte da ponta uruá tapera, com 100 metros de lar- 
gura, ficando ao norte de sua foz a ilha Jacitara. 

E pois, acredita eite, que, ao contrario do que se tem pre- 
tendido, é o Jamundá tributário do Trombetas e nao do Ama- 
zonas. 

c Este facto, acrescenta o Sr. Ferreira Penna, não é um 
simples assumpto de {interesse geographico; olle aíTecta 
também aos interesses das duas provincias^ Pará e Ama^ 
Eonas, de que esse rio é limite oíflcial. > 

E' o Jamundá ou Nbamundá o celebre rio em cuja foz 
pretendeu Orellana haver combatido com mulheres guer- 
reiras a que denominou Amazonas, 

Os indígenas davam -lhes o nome de icamiabas. 

c Também se diz, escreveu em suas Memorias do Ma* 
ranhão, o padre José de Moraes, que nas cabeceiras deste 
rio ha um lago (i) de onde se tiram umas pedras iterdes 
com muitos e vários feitios, de que se infere, com grande 
evidencia, ser algum barro, que dentro n'agua (como 
coral) se conserva moUe, e em quanto assim f^stá se formam 
delle as figuras que querem, mas depois de tirado d'agua se 
faz tão duro como um diamante c não cede ao ferro e aço 
mais duro e de tempera mais forte, que pôde haver. 



(1) Eis uma das lendas mais conliecidas acerca da celebre 
pedra. 

Referem os índios que perto das cabeceiras do famoso Nha- 
mundâ existe um formozissimo lago a que dão o nome de 
Yaci-uaruá , que quer dizer— espelho da lua— e a quem era 
consagrado. 

Dizem que em certa quadra do anno e em determinada lu- 
nação, faziam as icamiabas (mulheres sem marido) ú, margem 
desse lago, uma grande festa dedicada á lua o ii infti da mue- 
raquitan que alli morava. 

Depois de assim se purificarem por alguns dias, porque a 
festa era expiatória, mergulhavam no lago, cm horas adian- 
tadas 8 quando nas aguas límpidas e tranquillas do yaci-ua' 
rúa reflectia-se a luz pallida ao astro da noite. 

Da mãi da mueraquitan recebiam entUo a pedra com as con- 
figurações que desejavam, porque era certo que trazida á luz 
do sol, tomava a consistência, que se lhe observa, sendo im- 
possível dar-lhe qualquer outra forma. 

Aos homens da tribu favorecida distribuíam as icamiabas 
as ditas pedras quando por elles eram vizitadas em certas 
épocas do anno. 



— 97 — 

€ Mosirnn(]o«s(í nma dosias pedras a um lapidario dft Lis- 
!x)n, disse que ))elo t')(]Uí^ mosiravam ser pedras finas. Dizem 
que estas pedras sAo as verdadeiras pedras neofril iças, e que 
ti3m a mesma virtude. E' certo que Mr. de la Condamino 
faz nm grande apreço delias e pôde ser que os lapídarios 
de França lhes descubram algumas virtudes. 

c Cliamam-se estas pedras, pela lingua dos índios, puú- 
raqvitan, e dizem alguns (relata refero) não acredito, que 
as mulheres amazonas as dÍo aos homeus, que uma vez no 
anno v§o rommunicar com ellas. O certo é que h^ estas 
pedras entre os índios, e eu tive uma grande, e ainda nã» 
se sahe o lugar onde se acham e de onde se tir:nr.. Destas 
tive algumas, c nina de maior grandeza, que representava 
o pescoço e a cabfÇd do um cavallo, o quo foi para Bolonha, 
para o celebre museu do Summo Pontífice Ben>5dicto XIV. > 
A parte superior do rin Janmndá é habitada por índios 
de diversas tribus, e a inferior por população civilisada. 
O terreno regado por este rio produz oní abundância 
cacáo, breu, castanhas, cravo, cumaru, estopa, jutahy-cica, 
óleo de copahyba, fumo e borracha. 

A viila de S. João Baptista de Faro, que leve sua origem 
em uma aldôa dos índios uahoys, estabelecida abaixo da con- 
fluência do histórico Nhaniundá ou Jainundá com o i^racutú, 
acha-se situada na extremidade Occidental de um bello lago, 
de três milhas de comprimento e duas de largura, e na 
margem esquerda do mesrno Jamnndá, para onde foi trans- 
ferida pelos padres capuchos da l'iedade, (juea missionaram. 
Ainda hoje mostram os tira ticos do lu^^ar o sitio em que 
existiu a antiga aldô i dos uahof/s (»u jamundás, nome com quo 
geralmente costumam designar os Índios «{ue habitavam 
naquella região. 

As duas linhas de montes que acompanham o rio, diz 
o infatigável Sr. F. Penna, e que defronte e ao sul do lago 
.«e abaixam até confundirem-se com a planície, o extenso 
lago com suas agua^^ aniladas ; o contraste da planície que 
alli perto começa, com a serra fronieir.i á vilIa »• a entrada 
larsra e magestosa do Jamundá, dão á localidade um as- 
pecto naturalmente aprazivel e de algum modo grandioso. 
Em 1768 o governador e capitão general Francisco Xa- 
vier de Mendonça Furtado, elevou a aldôi dos iudiosuaboys 
á categoria de villa, dando-lhc o nome de Fan». 

Esta solemnidade fez-se no dia 21 de D^zemin-o d'» 1768. 
Estando presentes o ouvidor Feijó, o parocho e diversas 
outras nessoas qualificadas, proccdeu-se a pílonros para a 
eleição dos juizes e procuradores da camará, i]ue deviam 
servir no primeiro triennio de 1769 a 1771 . No dia 27, depois 
de levantado na praça o pelourintio, abriram-so va pilou- 
ros, e os que sahiram eleitos, tomaram logo posse dos seus 
respectivos lugares. 

Nas posturas que foram promulgadas nesse mesmo dia 
acham-se as seguintes disposições, que revelam o empenho 
com que se promoviam os interesses da localidade : 
« Ninguém, diziam as posturas, fará casas senão segundo 
13 



- 98 — 

o risco deixado pelo intendente geral Luiz Gomes de Faria e 
Soaza, lendo cada casa fundos para quintaes, em que são 
obrigados a plantar pacoveiras, mamoeiros, larangeiras, 
limoeiros e mais frutas para abundância dos moradores. 

c As casas serão cobertas de telhas feitas na olaria da villa.» 

Depois, reflecte o Sr. F. Penna, a relaxação metteu-sede 
permeio e com ella veiu a perda da villa, que hoje é quasi 
uma tapera. 

Já alli, por contn do Estado, houve uma olaria, cujos res- 
tos ainda são visíveis, assim como uma fabrica de nação e 
tecidos de algodão. 

Possue actualmente o seu districto algumas fazendas de 
criação de gado e suas matas também abundam em salsa, 
óleo, cravo, castanha, etc. Também exporta em grande 
quantidade falcas de itaúba para o porto de Belém. 

Entretanto, e a despeito de tania riqueza, contrista ver o 
estado de decadência a que tem chegado esta villa, digna 
sem duvida de melhor sorte. 

O contracto celebrado pelo governo da província do Pará 
com a companhia de navegação e commercio do Ama- 
zonas, estabelecendo uma linha regular de vapores para 
Faro, alimentou a esperança de ver aquella localidade sahír 
do torpor em que se acha. 

Infelizmente p^rém foi esse contracto pouco depois substi- 
tiudo por outro, que tirando ao município de Faro aquelle 
elemento de prosperidade e de pro<]:resso, fez desapparecer a 
promessa de tornar uteií suas vastas campinas e de levar a 
esse isolado extremo occidental da provinda o commercio e 
com (lie o desenvolvimento da industria e da civilisação. 

Em consequência da progressiva decadência da villa, soli- 
citaram akuns dos principaes fazendeiros de Faro e obtive- 
ram em 1859 da assembléa provincial a transferencia da sede 
da mesma villa para a margem sepientrional do lago Al- 
godoal. 

c Esta localidade, diz ainda o Sr. Ferreira Penna, tema 
vantagem de achar-se quasi no centro do município e nas 
proximidades das principaes fazendas de criação esitios de 
cultura ; se todavia a ttender-se a que o lago, talvez por causa 
da sua considerável expansão, nãoé accessivel durante o in- 
verno, mesmo a embarcações, que navegam no Jamundá, e, 
durante o verão, ás pequenas canoas, porque nesta ultima 
estação fica reduzido quasi a pequenos poços; reconhecer- 
se-ha que a localidade para onde a lei mandou transferira 
villa, não melhora as condições desta, nem o commercio do 
municipto. > 

O que é certo, é que, com grande satisfação dos habitantes 
da villa, nunca mais se tratou de realisar a mudança. 

A população do município de Faro é calculada em pouco 
mais de 4.000 almas. 

Na margem austral do Amazonas, defronte da boca roais 
occidental do Jamundá, denominada Boca dos CaldeirÕeSpe 
que serve de limite, da banda sepientrional, ás duas provín- 
cias do Pará e Amazonas, está a entrada superior do Paraná- 



— 99 — 

mírí do Juruty, qae depois de um curso de quasi tres millias, 
lançasse de novo DO grande rio, fronteiro á costa do Co- 
roçará. 

No meio desse Paraná-míri, onde ell^ faz uma grande 
curva, está a boca do lago Juruty, Nada ^[iresenia ahi de 
notável, por sua muita estreitesa, em consequência da divi- 
são que soffrem as apuas com a outra embocadura do lago, 
3ue tem a denominação de Balaio e que vem sahir na altura 
a ilha de Maracal^-assú, depois de ter corrido de oeste para 
leste cerca de dez milhas. 

Do repartimento desses dous canaes segue-se pelo t^arap^ 
grande do lago—- de norte para sul, isto é, do Amazonas para 
o centro das terras. A' proporção que se adianta a viagem, 
▼ai-ae alargando o canal até tomar a extensão de 150 metroF, 
que conserva até a sua sabida no lago, depois de um curso 
talvez de 15 milhas. 

A margem esquerda desse canal é baixa e alaga todos os 
annos, ao passo que a margem direita, em quasi todo o seu 
prolonganoento, é a encosta de uma formosa serra, de cujas 
vertentes despenham magniflcos regatos de aguas crystal- 
Jinas. 

O declive dessa montanha não é íngreme e os habitantes 
aproveitam, com suas pequenas plantações, as terras vizi- 
nhas, que são de uma uberdade incomparável. Na planura 
do eume, escrevia-me o illustrado Sr. Dr. Paes de Andrade, 
acha-se a mais abundante camada de húmus, que tenho visto. 

Allicresce detal modoacanna de assucar, que é preciso 
muitas vezes dividil-a em tres ou quatro pedaços para poder 
ser conduzida, o cacáo vem tão soberbo como na mais fresca 
várzea ; a mandioca, o algodão, o tabaco, o guaraná , todas as 
plantas intertropicaes emflm satisfazem a ambição do la- 
vrador mais exigente. 

Sobre a serra encontram-se todas as madeiras de cons- 
truccão civil e naval e de marceneria^ peculiares das terras 
do Amazonas. 

Por esse canal sahe-seno extremo occidental do grande 
lago. Apresenta este uma bacia de ahgumas milhas de hr- 
gura, que se estende de oeste para leste por entre margens 
de terra firme, terminadas em praias de arôa até a ponta de- 
nominada do Jacaré-pompom, onde toma o rumo de sudeste 
e continua na mesma direcção até terminar, sempre por 
entre margens muito amenas. 

E' grande o comprimento deste formoso lago e acredita o 
Sr. Dr. Paes de Andrade que as suas cabeceiras estão na al- 
tura da ponta do maracá-assú. As terras das margens tem 
muitas ondulações e são todas cobertas do florestas, apenas 
tocadas pela mão do homem. 

Não longe da margem meridional, já quasi nas cabeceiras 
existe uma alta montanha, na qual cresce espontaneamente 
o guaraná, que é aproveitado pelos indíos. 

E' abundante de madeiras de differentes qualidades, de óleo 
de copahylKi e de outros productos. As terras ahi são fertl- 
llsslmas» As aguas procedem de uma infinidade de peque- 



— 100 -- 

nos reícaios, que correm em leitos de arôa, e por isso sâo 
puríssimas et de uma transparência tal, que, na profundi- 
dade dtí 4 metros, podem-se contar os peixinhos, que saltam 
na arôa. 

O principal manancial, porém, deriva-se da vertente da 
serra e forma pequenas cachoeiras ou cascatas, antes de ir 
sumir-se no lago. 

O lago de Juruty foi povoado outr'ora pelos índios das 
tribus Maués e Mundurucús, e chegou a possuir uma popu- 
lação superior a 1.200 ulmas. Para missionar os índios alli 
estabelecidos, foi mandado o padre António Manoel Sanches 
de Brito, o qual fe£ de tal sorte prosperar a missão, que em 
1820 foi elevada a freguezia. 

Houve alli um bom estabelecimento de moer canna, per- 
tencente a João Pedro da Silva, uma importante fazenda, 
de propriedade do capitão Homualdo de Souza Paes, e mais 
uma engenhoca e olaria pertencentes ao padre Sanches de 
Brito. A mão da revolução, porém, passou por alli, tudo isto 
desappareceu com a cabanagem, e hoje rnal se podeu) distin- 
guir os vestígios de taes estabelecimentos, que foram com- 
pletamente abandonados. 

Existe ainda a antiga freguezia, que demora na banda me- 
ridional do lago, sobre uma ponta, a quatro milhas de sua 
entrada. Tem uma soíTrivel igreja, coberta de telha e ulti- 
mamente reparada pelo concurso do povo, que não quer 
abandonal-a, apezar de alli já não residir o parocho. 

Por uma lei provincial de 3 de Dezembro de 1859, foi 
transferida a sede desta freguezia para a margem direita do 
Amazonas, onde começou a cstabelecer-se cm 1863, na terra 
(irme, que decorro da bocca tío igarapé Balaio até a ponta do 
Maracá-assú, que limita com Óbidos, da qual está distante 15 
léguas. 

Esta medida, na opinião de gente mais sensata, foi bem 
aconselhada, pois que consultou devidamente ao mesmo 
tempo os interesses da população c os do commercio. O lugar 
escolhido reúne as vantapfens e condições seguintes: E' bas- 
tante elevada e fica ao abrigo das maiores enchentes do Ama- 
zonas, fica mais próximo possível da borda do rio ; é de uma 
salubridade incontestável, e tem excellente agua potável no 
lago Jará, que lhe fica próximo. O orago da freguezia é Nossa 
Senhora da Saúde. Ha alli um bom templo. 

Limita a freguezia do Juruty pelo oeste com o município 
de Villa Bella da Imperatriz pela serra de Parinlins, e a leste 
com Óbidos pela ponta do Maracá-assii, tendo umas 35 milhas 
de costa no Amazonas. 

Na margem direita do Amazonas e em frente á foz do Nha- 
mundá, corre a serra de Pariíilias, que ó a divisa official 
das duas províncias do Pará e Amazonas, na ponta mais sa- 
liente da terra eque caminha para o rio. ( 1 } 



(1 ) Os limites das duas províncias são os seguintes: a pro- 
víncia do Pará confina ao norte com a Guyana Franceza pelo rio 
Oyapok ; ao sul com a republica do Peru e as províncias de Goyaz 



— lOi — 

Em uma curva quo csia serra descroVo^^já.doiilro da pro- 
víncia do Amazonas e próxima á parle inít»ri'Q7, do Paraná» 
miri deParintins^ vê-se ainda o aterro e pai íx^a^a mandada 
fazer pelo anliíro governo da barra do Rio Ne^ro, wfm o fim 
de servir de regisiro ás embarcações, que entras.^m na an- 
tiga capitania. - -"'•-*•* 

Pretendeu o presidenlc J. B. de Fij^uelredo t^ftifj) 
Aranha servir-se dessa mesma obra e para o mesmo IlííV«e 
alli collocou um de.^tacamenlo sobas ordens de umsar<.'eíijLi).'J' 
de nome Yasconcellos. A experiência porém incumbiu-sé-\-". 
de demonstrar que nenhuma utilídad() havia em seme-'-v-'.' 
Ihante medida e pouco t^^mpo depois foi dissolvido o destaca- " :« 
mento, deixando-se alli abandonadas diversas madeiras, 
que haviam sido compradas para edificação de uma casa ou 
quartel. 

Desde muito tempo que se olhn para a serra de Parintins 
como um ponto magnifico a fim de alli estaheler-se uma re- 
partição fiscal, incumbida de impedir a entrada e sabida de 
embarcares que se <|ueiram furtar ao pa<ramento dos res- 
pectivos impostos. A experiência porém tem mostrado que 
nenhuma vantagem oíTerece aquella localidade para uma 
repartição de semelhante ordem. Forte como é a corrente do 
rio junto a aba da serra, desde a ponta mais saliente até a 
foz inferior do Paraná-miri, e havendo em toda essa exten- 
são grande quantidade de pedras, é claro que nenhuma em- 
barcação por alli navega, procurando todas elias a margem 
opposia e por alli seguindo desembaraçadamente. 

Em grande, em muito grando escala faz«se o contrabando 
na província do Amazonas. E* un> verdadeiro escândalo, 
que tende a tomar as mais gigantescas proporções, e são os 
districtos de Villa Bella, Conceição c Silves os que mais ge* 
neros exportam livres de impostos, llemettcm-nos em pe- 



eMato Grosso; a leste com a província do Maranhão pelo rio 
Gurupy ; e a oeste com a província do Amazonas pelo rio Ja- 
mnndá e serra de Parintins e com a republica de Nova Gra- 
nada. 

Occupa uma superflcie de 40.000 léguas quadradas. 

A província do Amazonas confina ao norte com as Guyanas 
Hollandeza e Ingleza ecom a republica de Venezuclla, ao sul 
com a republica do Peru e com a província de Mato Grosso, a 
leste com a província do Paráe a oeste com as republicas de Ve- 
nezuella, Nova-Granada e Equador. 

Occupa uma superflcie de 60.000 léguas quadradas. 

Gomprehende a província do Amazonas as três seguintes re- 
giões: Guyana, Mundurucania e Solimões. 

Facilmente percebem-se, á vista de um mappa, estas três gran- 
des e distlnctas divisões naturaes, eíTeítoda disposição particular 
do território, a saber: Amazonas, Solimões e Rio Neçro. Gom- 

Erehende a primeira— a parte da Guyana e Munduracania, 
anhada pelo Amazonas, desde a foz do no Jamundâaté a con- 
fluência do Rio Negro, a segunda todo o paíz banhado pelo Soli- 
mões, • a terceira todo o Rio Negro. 



••• • • 



• 



I 






• •l 



quenas embar^l^as* para o porto da cidade de Óbidos, no 
Pará, e ahi Ca;éfa*DOs embarcar nos vapores q':e escalam por 
aquelleporto^.".* 

Se po>ém cSilocassem uma repartição flscal no lagar deno* 
minado frajá, á margem direita do Amazonas^ e um pouco 
abiií^4a*foz inferior do Ramos^ tendo á sua disposição uma 
JiTDCiJã^a vapor para cruzar da fozdoParaná-mIri do £5pt- 
titir. Santo até peno do de Parintins, sem duvida que o 
\*iM}tltrabando não poderia mais ser feito como até agora. 
J\ Supponho que esta medida foi lembrada por uma com- 
** missão que o actuai presidente do Amazonas mandou a Vilia 
Bella com o Am de enudar a questão e escolher uma locali- 
dade apropriada para estabelecer uma repartição auxiliar da 
collectoria de Yilla Bella. 

Não é porém só pelo Amazonas que o contrabando pôde 
ser f^^ito. Pouco acima de Vilia Bella, á margem esquerda 
do Amazonas, proiimo á foz inferior do Paraná-miri do 
Paço vai ou do Cararaucú, está a foz do lago Cabury, que 
muitos acreditam ser a foz superior do Nhamundá, pela qual 
pôde o contrabando ser feito sem nenhum risco, sendo con- 
duzido para a vilia de Paro e seus disirictos nos mezes de 
Fevereiro a Julhd. Para o contrabandista é este caminho 
muito mais seguro que o do Amazonas. 

Sô no mez de Julho de 1873 embarcaram no vapor Belém, 
da companhia de navegação a vapor (limitada) do Amazo- 
nas, os seguintes géneros do distrícto da Conceição (Maués), 
subtrahidos aos direitos: 

Óleo de copahyba 268 canadas 

Peixe 418 @ 

Estopa 46 @ 

Cacau 90 @ 

Cumaru 42 Ib. 

Couros de veado 30 

E a embarcação que trouxe estes géneros voltou carre- 
gada com vinte e tantos contos de réis de mercadorias. 

O Sr. conselheiro João Pedro Dias Vieira, quando admi- 
nistrou a provinda do Amazonas, lembrou-se de mandar 
iimpar o furoúo Cabury, com o que despenderam os cofres 
provinciaes a quantia de 500ji000« que se tornou infructi- 
fera, e continuará a sel-o, emquanto se não puder evitar a 
invasão dos madeiros. A corrente, que alli é impetuosa, faz 
com que todos os cedros e outras arvores, que por alli des- 
cem^ tenham obstruído a sua entrada em espaço mui con- 
siderável. Não sei que razões teve o Sr. conselheiro Dias 
Vieira, para mandar limpar o dito furo, mas parece que de 
muito mais vantagem aos interesses flscaes da província» 
teria sido a lembrança de mandar fechal-o. 

Se com a desobstrucção daquelle furo tem a província do 
Amazonas a vantagem da facii communieação com as fazen* 
das de criação de gado do municipio de Faro, ficando-ihe a 
conducção menos dispendiosa, tem entretanto a desvanta- 



— 103 — 

7(*m de offerecer aos contrabandistas um caminho seguro, 
para se furiarcm ao passamento dos impostos. 

Mas deixemos este assumpto. 

Olham os indiíi^enas para a serra de Parintins, com certo 
temor supersticioso^ e não ó sem acatamento, que por ella 
passam. Dizem que alli ouvem tocar sinos á noite, o que, diz 
o capitão tenente Amazonas, se attribue á tradição de aliçum 
estabelecimento jesuitico, que abandonado, tinlia sido inva- 
dido peio m«to, e em sua espessura perdido os sinos, (i) 

Em 1837 rolou do cimo da serra uma pedra de um metro 
de comprimento, pouco mais ou menos, na qual mui dis- 
tínctamente se vêm esculpidas as letras AF P. Quem teria 
ido alli ahril-as? Ainda nas fraldas da serra se acha a pe- 
dra, como a esperar que lhe vão decifrar a significação da- 
qu^Hes mysteriosos caracteres. 

« A montanha dos Pariotins, diz Baena, assumiu este nome 
dos sylvtcolas assim denominados, que a habitaram. 

c Altos arvoredos a enramam até a sua lomba, que éuma 
planura onde dizem ter existido uma aldêa dos ditos Parin- 
tins, fundada pelos jesuítas: e que os mesmos aldeanos se 
revoltaram contra os que lhes ministravam a doutrina, quei* 
maram as casas, esboroaram a igreja, enterraram os sinos e 
iransfugiram para as brenhas. Ainda dura na circumvizi- 
nhança a tradicção oral de que em todas as noites de natal se 
ouvem os sinos soterrados. > 

£' mui rica a serra de Pirintins em madeiras da melhor 
qualidade, sobresahindo entre todas a bella muirapinima. (t) 



(I) Os sinos da serra de Parintins me fazem recordar o pbeno- 
meno, ou como melhor nome tenha, da collina c^ue se encontra 
á margem direita do rio Portel, abaixo da primeira cachoeira. 

Eis o que acerca delia contou a um viajante francez, o Sr. 
Chaton, um tuchaua daquellas paragens. 

(t Ha nesta collina, disse com ar mysterioso, uma cousa ex- 
traordinária, que eu e todos quantos passam durante a noite, 
temos visto algumas vezes. Sahe da collina um grande clarão, 
que illumina até o rio, e entretanto não se vê chamma alffuma. 

« O Sr. Ghaton acredita, que aquella luz phosphorescente, de- 
nuncia que alli existe uma mina de carvão de pedra. 

«O Sr. Manoel Luiz, seu companheiro de viagem, confirmou- 
lhe o que referia o tuchaiM, acrescentando ~ que é tal o terror, 
que aquelle facto incute, que não ha quem até agora tenha ten- 
tÍEtdo subir a montanha, para prescrutar a causa do phenomeno. 
Continuando o Sr. Chaton a opinar pela existência de uma mina 
de carvão, insistia o tuchaua em negal-a, dándo-lhe a seguinte 
poética versão, que era a que corria no lugar, e queelle piamente 
acreditava. 

« Aquella montanha, dissp, é o palácio da mdi d*agua, que aqui 
habita, e o clarão que se vê durante a noite, é produzido pela 
illuroinação daquella habitação t » 

(S) «A muirapinima, diz Baena, é uma arvore cuja madeira é 
betaída de feição, que se equivoca com o variegado casco da tar- 
taruga, emquanto se lhe não confundem as ondas com que realça 
multo a sua qualidade. » 

B* talvez a mais linda madeira do valle do Amazonas. 



— 104 — 

Dizem qae ha alli lambem o pao-hrazil, posloque -nenhum 
dado seguro haja para asseverar a sua exísteacia. 

Disseram-me que ó prodi^nosa a quantidade de ninhos d^ 
japim, une enchem as malas da serra de Parinlins. 

Ojapim encontra-se em }?raiide (luanlidade cm todo o 
valledo Amazonas. E' talvez o pássaro que .Dais ahí ahuudti 
e não é o menos nolnvel d) todos. 

Ainda uma vez anroveito-me do trabalho do intellí^ente 
e infalij^avel Sr. Dr. Fr.«ncisco da Silva (lastro, a quem 
peço lii*' nça, para aqui transcrever uma memoria sua acer- 
ca desse curioso pássaro, dirigida á academia real das scíen- 
cias de Slockolm. 

» O Japiim ca japim, como se diz em alsfumas províncias do 
norte doBrazil, cheochéo em outras do sul do mesmo Impé- 
rio, e também Japurie Guacho em algumas das ct*niraes, é o 
pássaro da America Meridional, que em francez se chama 
cul jaune, em inglez black and yelloto doto of Brasil, em 
italiano gazza ou zalla dl Terra' Niiova. Em Ca yen na da- 
se-lhe o nome de Casiqiie. 

Este pássaro pertence na sciencia ornithologica á família 
ou espécie cassicus ou á oriohis (Gmel ) 

Ha-os de duas variedades, uns qu» ostentam as core» 
preta e amarella (cassicus icteronotus), e são os Icííiiimos 
japiins i) mais geralmente conhecidos; outros qne trajam 
as cores preta e encarnada (cassims hatmoiThous), menos 
vulírares e pouco conhecidos : são o^japiins da mata. 

Na familiacaí«íru5 ha, alem desln jxenero, um (nitro mais 
elegante e formoso, o qual não pódc por forma alguma con- 
fundir-se com qualquer dos indivíduos duquellas duas va- 
riedades acima mencionadas, com quanto pertença â mesma 
família : é o cassicus cristatus ou cacique huppé, vulgar- 
mente chamado Japu ou em tini/ua tupy lapú. 

E' a este género que Jorge Maregravius denominou Jn- 
púba e não aquelle outro, como erradamente acreditou 
BuíTon. 

Segundo a opinião deste mesmo autor, possue a scií^ncla 
mais dous outros géneros^ o cacique, rcrde de Caijena e o ca- 
cique da Luisiaaia; delles porém não tenho conhecimento, 
nem me consta que alguém os tenba vi<ito no Brazii. 

O Japiim ou Cassicus icteronotus (ffc^rece á vista uma 
forma elegante e esbelta. A cõr dommante da sua pluma- 
gem éa preta, isto é, o preto assetinado (noir-noir satimdos 
francezes) ; o awar^//o}'a/</tf apenas é visível na parle mé- 
dia e central das azas em disposição oblonga e lambem no 
dorso^ desde o meio da espinha vertebral até junto da cauda 
e na parte opposta e correspondente do laixo ventre, porém 
aqui em espaço muito menor. 

Exala de si, tanto das carnes, como da plumagem, uoi 
cheiro fétido e nauseabundo, semelhante ao mixto de ba- 
ratas 6 castoróo a que o vulgo chann calimja de japiim, c 
qual não póle confandír*se com outro qualquer. 

Este cheiro não só domina durante a vida, como ainda 
persiste depois da morte por muitos annos. A carue deste 



— 105 — 

animal nSo presta para os usos culinários, por se adiar 
impre^çnada do dito cheiro por demais activo, devido se^u* 
ramente á alimentação quasi privativa de formi^j^as, insectos 
e pi^quenas cobras, de que faz predilecta procura. 
O tamanho ordinário do seu corpo é quasi igual ao da 

f^êga, porém sempre para menos, o por isso alc^uns autores 
he tem chamado picu«9?H7ior. Temo bico comprido, pon- 
teagudo e de côr alaranjada ; os olhos são de um bello azul 
celeste e a íris preta ; as unhas fracas o delgadas ; o seu 
maior comprimento regula entre i2 e i4 pollegadas. 

O Japiim habita por todo o Brazil eGuyanas. Vive em 
sociedade e aos bandos, OL'cupando a mesma arvore com os 
seus numerosos e sin^MiIares ninhos. Raro ó o sitio ou fa- 
zenda rural, aonde haja alguma arvore, quer no porto do 
desembarque, quer na campina do terreiro, que deixe de 
apresentar á contemplação dos admiradores da natureza o 
aprnsivd espetaculo dessa graciosa família alada^ cantando 
seus acordes e halouçando-se em maravilhosos ninhos. 

Já tive occasião de contar em uma só arvore 53 desses ni- 
nhos e sefi:undo me informam, vêse ainda maior numero 
dellesem algumas arvoros do interior do serião. Os ninhos 
pendentes dos galhos nem sempre são todos habitados ou 
occupados, porque conío estes pássaros emigram no começo 
do inverno para o centro das mata^, nessa occasião os aban- 
donam e na sua volta ou regresso, que costuma succeder no 
principio do verão, fabricam outros novos o não se servem 
mais dos antigos^ osquaes muitas vozes ainda existem pen- 
durados no mesmo lugar e só com maior demora apodrecem 
e cabem no chão. 

Póde-se assegurar que estes animaes residem seis mezes 
(o verão) prcximo dos lugares povoados e outros seis mezes 
(o inverno) no centro das florestas ou das capoeira?, onde 
vivem vida errante de arvore em arvore, mas sempre em 
bandos ou associados, cuidando da creação dos filhos. 

Os ninho.-: representam uma espécie de sacola comprida, 
arredondada, sob a forma de uma .ibobra (cucurbiiacea) de 
douse meio a ires palmos de cumprimento, sendo a cavidade 
interior de meio pé ou (Ouco mais de diunielro e mais fol:;ada 
no seu fundo do que na ontraiia^ o que lhes dá uma figura 
ventricnlosa na purle inferior. 

A entrada é pr.iticadn na parte superior e lateral, um 
pouco ohii(|uariiente para baixo, em uma espécie de cúpula 
romo de :lainbique, a (}ual cobre o alto daquelle artefacto. 
Os ninln»s são de côr cs::ura tir-la banda de fora e feitos de 
filameritMS e cí{ós finos, tirados com arte, por meio d(» bico, 
das filhas das palmeiras merituseiro (mauritia vinifera), aS" 
sahyseiro (eulerpe oleracea), bac^toVrt (cenucarpus bacaba), 
tucwnaseiro (asiroirariam tucuiná), e ouirns e de varias til- 
landsias, mormente da especií conlieci.Ja pelo nome do barba 
de velho (tillandsia usneoides), ele. 0> cipós finos e fila- 
mentos são compridos o imitam á primeira vista piaçaba. 
Tecem os ditos ninhos com os bicos e as unhas, com grande 
habilidade e ligeireza, e acabam a sua obra dentro de três a 
14 



- 106- 

cinco dias^ conforme as distancias onde vão procurar as 
inaterias. No fabrico desta obra os operários nâo observam 
o grande preceito architechtoDico geral, de lançarem pri- 
meiramente os alicerces, para depois seguirem por diante 
com o resto do edifício. Como excepção de rep:ra^ começam a 
trabalhar decima para baixo, fazendo primeiramente o te- 
lhado e perto delle abrindo a porta de entrada, para conti- 
nuarem depois até a baseou fundamentos. Desde que o bu- 
raco da entrada fica tecido e patente, por lá entram e sabem 
os operários, embora o fundo não esteja arrematado e por- 
tanto susceptível de ser franqueado. 

Vai nisto o instincto I 

Em cada ninho encontram-se dous e ás vezes três ovos. 
Ha uma única postura de ovos por anno e essa só tem lugar 
no principio do verão, em fins de Maio a Junho. A incubação 
dura um mez. Durante o período da deiovação e incubação, 
os machos não só não entram dentro dos niaho.s como nem 
mesmo dormem nos galhos da arvore, onde estão penden- 
tes aquelles. Ao approxlmar da noite retiram-se os machos 
para alguma capoeira cerrada mais próxima e ahi dormem, 
até que ao amanhecer regressam para a arvore onde deixa- 
ram as fêmeas. 

Na convivência e intimidade destes pássaros^ vô-se cons- 
tantemente dm outro pássaro, de còr preto-azul lustroso 
chamaiotado, de vulto pouco maior do que ojapim, chamado 
uiráuna, que em lingua geral dos indiosou tupy, quer dizer 
pássaro preto, o qual, quanto a mim, não ó senão a pega do 
Brazil. 

Este género de volátil, não cuidando nunca de fazer ninho 
para si, onde possa pôr os seus ovos, aproveiía-s^^dos mo- 
mentos de ausência de algum japiins, introduz-se nos 
ninhos destes e lá os deposita de mistura com os dciles, que 
em tudo são semelhantes. O Japiim não descobrindo ao prin- 
cipio o logro, que lhe foi pregado, choca os seus e os alheios 
ovos e começa depois a crear os passarinhos ; logo porém que 
chega a conhecer o erro e que pôde distinguir os- estranhos 
dos legítimos filhos, expulsa os enjeitados e lança-os fora do 
ninho. Muitos destes morrem ao abandono por entre o capim 
ou mato rasteiro, por estarem ainda maJ emplumados. 

Como já disse procuram as arvores altas e do diílicil ac- 
cesso para assentarem os s<'us ninhos; e mais ainda lenho 
observado que S(>mpre os collocam nas extremidades dos 
galhos e por via de regra a arvore tem no meio do seu tronco 
uma ou mais casas de formigas de fogo ou de cnpim ou de 
cabas (insectos e animaes colonpieres, que (ião ferroadas), 
os quaes os ajudam a defenderemso da invasão dos ini- 
migos. Nestas aggressues reiínem-se todos, mostram valor 
e actividade e quasi sempre sabem victoriosos da luta, de- 
vido certamente este bom successo á sua muita actividade e 
discrição. 

O japiim é omnívoro e pouco delicado na escolha da sua 
alimentação ; tudo lhe agrada e o contenta ; susienta-se de 
insectos, de pequenas cobras, de grãos, bagas e fructos. 



— 107 — 

As laurinetis, as myrthaceas, as passifloras, as musaceas, as 
phytolaccaSj as aurantiaceas e ou tros iudíviduos do reino vo- 
getal, contribuem largamente para o regalo do sou paladar. 

Tem o grito sonoro e forte, mas breve ; ouve «se a sua voz 
ou canto em distancia^ sem que &e tenha descoberto ainda o 
lugar onde esteja pousado. Como vive em bandos, está cons- 
tantemente n chilrar, desde que amanhece a té que anoitece 
ea repetir o mesmo canto ou estribilho, que é chéo chéo, chéo 
chéo, chéo chéo 

Nu entanto parece que cm suas variações de gorgeios ar< 
remeda os outros pássaros, excepto no tamurú^pará, cujo 
canto é forte, prolongado e semelhante ao rufo de um 
tambor. 

A respeito deste pássaro contam os indíos umapologo en- 
graçado e moral. 

Dizem que no tempo em que os pássaros fallavam, os ta- 
murú-parás irritados por serem arremedados em seus gor- 
jeios \ye\os japiins, os desafiaram para um combate em quo 
estes Acaram derrotados ; o tao sanguinolenta foi a carniíi- 
cin;), que os tamurn-parás Acaram com í-s bicos vermelhos 
do muito sangue dorniinado o assim o^ conservam ale hoje. 
Mudaram logo depois da batalha o seu gorgeio para outro 
mais diAlcil, que e o de (lue aííorii tem asado, cuja deci- 
fração ou trailncçao cm vulgar signiAca á maneira de 
amença ws jnpiins o seguinte: 

f Ollinm lá se nos arrcnn^dam , lombrem-so de que o 
santjuedíí vossos avós an-Lun nos nossos bicos! » 

Cumpre obsorvar que o tamurúparaé um pass;>ro preto, 
de bico encimado, joupo maior do qw. o japiiiii ; do ta- 
manho da uiranna; ai!Oinpíinha-o para líula a parle: faz o 
seu ninho no ch5(» em buracos [>or onlre as raizes das ar- 
vores e canta quasi a todíis as horas á nuneira de rufo de 
tambor, forte e iirolongado. 

FinHlrnente ojnpiim quando canta, tonia uma posição no- 
tável e forçando em cima do galho onde pousa , inclina-se 
hastnnlo para diante, abre as [)í'nnas da cauda, saccode a ca- 
beça varias vezos e solta o seu gor;^'iíio, que ó muito va- 
riado e por iíso diz-si que Oile arremeda os outros pás- 
saros 

Esle animal domestica-se com facilidado no nosso lar, 
canta quando lhe parece ; conie de tudo ; porém dura pouco 
tempo vivo. Parece quo so Ana de tristozn, por sentir-se 
privado da liberdade e dos companheiros docampo. 

A' vista desla dcscripçào feita (rapj^ès nature, r.om minu- 
cioso estudo e diligente observação, pórle-s(í comprehender 
bem em quantos erros eahirani Maregravins, Adrovan'»ns, 
Edwardg, Belon, Brissoii, Descourtile è outros naturalistas, 
sem duvida arrastados pelas informações inexatns e por 
observaçõ:\s incompletas e mal apreciadas. 

Tudo quanto Aca narrado acerca do casxicus icteronotus 
tem inteira applicuçio ao rassicns hcemonhoiis, cujos hábitos, 
costumes, Índole e intelligencia são completamente seme- 
lhantes. Sómcnto ha diíTerença em ter este vulto mais pc« 



— 108 — 

queno do que o oulro^ e em vez de amarella, ser encarnada 
a plumafi;em do dorso, desde o meio da columoa vertebral 
ale junto da cauda. 

Nos encontros das azas e no baixo-vcntre não tem pennan 
encarnadas ; tudo é preto. Além disto ojapum damata dis- 
tin^ue-se ainda, porque evita quanto pôde, o contacto com a 
sociedade humana e por isso procura as florestas, em quanto 
que o outro lhe dá a preferencia, a ponto de vir immedia- 
tamcntB assentar moradia ao pé de qualquer sitio ou roçado, 
que de novo se abre no meio dos nossos sertões^ e abi fixa 
a sua habitação amena e encantadora. > 

Além da serra de Parintins, as mais notáveis dn provin- 
Ria do Amazonas são as que constituem a cordilheira da 
Guyana e limitam o Brazil com as possessões hoilanaeza c 
ingleza e com a republica de Venezuela. 

Eis, entre outras, as seguintes: 

llacamiaba: nas vertentes do rioJamundá ou Nhamundá. 
Em 3onsequencia da sua elevação e das rijas ventanias, que 
alli reinam, não tem vegetnção a'guma, pelo quedão-lhe 
também o nome de Serra Peitada. 

Pararaina: tem uma extensão de mais de oitenta Ic^uas. 

Cristaes: de grande vegetação e em cujo cimo ha um 
grande e profundo lago, sombreado por espesso bosque. 
Tem légua e meia de circumferencía. 

Rahinn: também de grande vegetação; é entretanto muito 
Íngreme c de subida extremameiíti! difflcii. 

Cunauará e Carauati: estas ficam junto ás vertentes do rio 
Madeira. 

Andauari c Chauiia: próximas á cachoeira de S. Fi- 
lippe. (1) 



(i) Dos APONTAMENTOS SODBE O HIO BBANGO^ pubUcadOS pelO Sr. 

José Paulino von Hoonhotz, extrahio as seguintes informações 
sobre esta importante cachoeira: 

ff A primeira cachoeira que se encontra no alveo do rio, é a de 
S. Felippe^ que se devide em três secções distinctas: 

A primeiraj conhecida, pelo nome de Rabo da cachoeira, é uma 
immensa bacia, chamada vulgarmente peràOy formada pela queda 
e rápido movimento de aguas, que transportam grande quanti- 
dade de arêas, as quaes accumulando-se, formam um banco pe- 
rigosíssimo. 

A secunda secção, chamada Pancada grande , é produzida por um 
arrecife, que corta transversalmente o. leito do rio, com inter- 
rupções em diversos lugares, onde existem cana es. mais ou menos 
profundos. 

Na occasíão da cheia é difiicil vencer-se a impetuosidade das 
correntes, que ahi se geram; e só com o decrescimento das aguas 
é gue se consegue varar a cachoeira, e ainda assim com riscos im- 
m mentes. 

A ultima secção, conhecida por Pancada pequena, é obstáculo 
de pequeno peso. 

Entre a Pancada grande e a pequena, deriva-se pela margem es- 
querda um canftl sinuoso, por onde parte das aguas do rio Branco 
vão iançar-se abaixo do Rabo da cachoeira. 



— 109 — 

(arauamá, Vacaria Sapard o Pecané: luais ou menos dib- 
taii'.(8 das riiarprens do no Bninco. 

Slo lambtMn notáveis ns serras: 

Ciicuhi: ô a nossa trontrira com V*?neziiel:i; na marircFii 
esquíínla do rio Branco, acima «lo Marabilanas. (1) Sobre 
ella passsa a iinha divisória, a qual partindo do extremo oc- 
ci(]'^nial da serra Pacaraina o j assando por esla, se diri^j^o 
para as cachoeiras do Cunhar i. 

'/anui: na margem direi ia do rio Nej^ro, entre os rios 
Içíuia o flié. (2) 

..'ncnmim: na margem direita do rio Xegro, abaixo da ca- 
ch< eira MaraçabL 

li' rsta caclmeira a divisa nu rai;» entre o alto (i o baixo 
rio Negro e dividia antigamente os respeciives governos. 

Principia dahi a diífíeuitarse a navej^açao. 



E* o furo denominado Cujiihim, por onde se pratica a navegação 
cm batelões e peíiiienas embarcarêesno tempo da enchente. 

As aguas por aiii se despejam com grande velocidade e formam 
uma forte corredeira, que actualmente se vence á força de espií»; 
poréní, mesmo assim, o canal só se presla á navegaçAo em muito 
pequena parte do anno, por falta de agua e pela grande quanti- 
aade de pedras ({ue o obstruem. 

Dep()is da caciíoeira de S. Filippe, só na vasanle extrema ha sé- 
rios riscos para a navegação. O quechamauí Caclioeirinha ò um 
baixio de peira, que os práticos sabem evitar. >» 

(i) Existiu ahi om Marabitanas, a antiga fortaleza du seu nome, 
mandada levantar [)elo governador Manuel Bernardo de Mello e 
(lastro, em 1763, para deíeza da fronteira. Era um quadrado, cujo 
lado para o rio tinha dous baluartes. Parte desta fortaleza im- 
mergia peia enchente. A pesar de haver sido reparada em 18i3, 
boje delia apenas existem as rninas. 

(2)0 JranaoM //yu/anlança-se na margem direita do rio ^e- 
gro, cerca de 400 braças abaixo da povoação de XossaSenliora da 
Guia. Suas vertentes* são na nossa linha de limites com Vene- 
zuela. 

O curjfo do Içana 6 obstruído por cachooiías enlre as qnaesse 
distinguem asile nome Aranj^ Caruru e Tenui ou Tunui, junto a 
serra do mesmo nome. 

Nas suas margens acham-.^e aldeados indios das tribus >l/*t'í/ií/- 
waí, Siuri-tapuia^ Jaunritc-tapuin^ QuntUíapuia e líarrs, qne fabri- 
cam farinha, ralos e balaios, objectos de permuta enire elleseos 
commerciantes. 

O Tio Hiê Gu Guassiife lança-se na maríiem direila do rio Ne- 
gro, a 45 milhas do Cucuhy/ .\a sua fóz e margem direita assenta 
a povoação deS. Marcellino. 

Também pelas suas vertentes passa a vossa linha delimites 
com Venezuela. 

E' diítlcil a sua navegação, por ter o curso obstruído por sele 
cachoeiras euma carredeira. 

Dessas qu6dasd'agua asqueapreienlam maior obstáculo são as 
ác nome Cumati e Quati, e todas ellas, na 6poca da enchente, 11- 
cam mais ou menos submergidas, còm excepcílo da primeira, 
que sempre conserva grande dllTerença de niveí. 

Por este rio, commuiiiciim-.se os halíitantes dessas paragens com 
povoações de Venezuela, mediante um pequeno tranzito de terra. 



— no — 

Ha ainda as serras dos rios Maraviá e Cananari, as quaes 
formam as cachoeiras do Apaporis, Japurá e Madeira (1). 

Também ainda so encontram na região do Solimões, a 
serra Canária, que margôa o rio do mesmo nome, e o monte 
Tabaiinga, entre as fronteiras deLoreto e a povoação dela- 
batinga (2). 

£' nesta zona que habita a tribu dos Ticunas, dequepas* 
éarpi a dar uma breve noticia. 

Eis o que relativamente a essa tribu escrevf>u no f^aix Diário 
daviaç/eni ao Rio Negro o ouvidor Ribeiro Sampaio : 

» São os ticunas de um natural prej^uiçosissimo. Na sua 
philosophia professam o miserável doíi^ma da melem psycose 
ou doutrina pitha^roriía da transmigração das almas para 
outros corpos, ainda dos irracionacs. Adoptam o rito ju- 
daico da circumcisão em um c outro sexo, sendo pela maior 
p.^rte as mais as ministras da operação (|ue celebram com 
grandes festejos, impondo os nomes aos circumcidados. 

São tão apegados á idolatria, «jue aos mesmos já doutri- 
nados nas nossas povoações não é possível poder persuadir 
que deixem o sou idolo, pois coiistaiUcmfíntfj se lhe está 
achando em suas casas. 



(1) As cachoeiras do Apaporís, sâo as seguintes: Hià^ Miri, Ch^ 
pau e Furna. Esta é a mais notável. 

Com 30 dias de viagem om i^ari té ou canoa, da foz áo Japurá, 
chega-se á barreira do Innmbuy onde se acha collocado o marco 
que symbolisa os limites entre o Brazil e o território granadino. 
Aqui demora a primeira cachoeira do Japurá, a qual os índios 
áenomhmm Inambà-cachoeira, A' um dia de viagem chega-se ã 
segunda, chamada Cac/toeira-asfú ou dos Coretús ; a terceira óclia- 
mada Uaimi-cachoeira efica próxima ao igarapé Pi7»'ma : a quarta 
tem o nome i\e Arara-cuara, e a quinta o de Maracaná, 

Daqui por diante nada mais se sabe. 

Da cachoeira dos Coretús. com 6 dias de viagem, enc^mtra-se o 
Cauinari, affluente do Japurá, onde demora a cachoeira Tapiira- 
caiuera (Ossos de velhas). Seguindo o Cauinari. ao sétimo dia de 
viagem, encontra-se oPamá, aíTlnento do Cauinari. Porto da con- 
fluência do íiMiíí/zrí, fica a cachoeira denominada Uviá, Esla ca- 
choeira é antes um canal de duas léguas de extensão e 20 braças 
de largura. As margens são penedias alcantiladas de 40 braças 
de altura; por esse canal passa o rio, como que rescntído não só 
de semelhante angustura, como da inclinação do leito, do que 
resultam um movimento e fragor assombrosos. 

(2) A povoação de Tabatinga acha-se situada na margem sep- 
tentrional doSolimões, perto da confluência do rio Javary. K' 
defendida pela fortaleza do mesmo nome, levantada em 1776, de 
ordem do governador Athayde Teivc, pelo major Domingos 
Franco. 

Pela facilidade de navegação a que allí os rios se prestam; pela 
frequência com quevém a esse lado da fronteira os nossos vizi. 
nhos a trazerem géneros de commercio, éesse ponto militar de 
muita importância e a chave de nossa fronteira pelo lado do Ferú. 

Pelo recenseamento de 1872 veriflcou-se que Tabatinga possuía 
201 fogos c 786 habitantes, sendo 781 livres e 3 escravos. Do sexo 
masculino eram KOI e 28o do sexo feminino, sendo 741 nacíonaes 
e 45 estrangeiros. 



— 111 — 

E^este ídolo uma medonha fíp^nra feita de diversos caltaços 
e coberta por cima da casca de uma arvore, chamada aichama 
(jue parece estopa^ da qual írzem tambcm ai^^uns toscos te- 
cidos para as suas cobertas. Ao idolo chamam ho ho, nome 
que dao ao diabo 

O disiinclivo desta nação consiste em um risco necrro e 
estreito das orelhas até o nariz. As mulheres não usam de 
cobertura nenhuma ; os homens porém se cobrem pela cin • 
tura com a casca acima referida. 

Tem porém os Tecunas a singular arte do prepararem as 
aves o passarinhos, que matam com esgaravatana, de tal 
sorte que finam intiíiroscom iodas as suas parles, enchendo- 
íhes a pelle com alji^odao ou sumaúma, com o que contribuem 
para se mandarem para a Europa em beneficio da historia 
natural. 

O Sr. Wilk»*ns de Mallo^, no seu importante divcianario 
topographico do departamento de Loreto^ák minunciosas no- 
ticias a rf:speiío dos Ticunas. 

Andam nús, trazo.ni os cabellos compridos e soltos sobre 
así»spaduas e aparados á meia lesta. 

Usam collar de dentes de lif^res e macacos e ornam os 
braços com uma banda de algodão, porelies tecida e enfei- 
tada com pennas. encarnadas e amarcllas de tucano. 

Crôm no «spirilo bom e iiiáo, tornem a este e acreditam íjue 
nquelle, depois de morrerem, apj)arecrí-llies jara coiiuir 
írnclas co::i us mortos, levando a usti-s para a sua tialdlação. 

Sepultam os cadavertíS em vasíis d(í barro, collocando-os 
assenlaaos e com as mãos e pés ataílo-; juntos, e a face vol- 
tada para <» nascente. Acomi»anlK^m o cadáver as armas do 
finado as quaes são prcviafoenie (juebradas m provem-o das 
melhores frutas, que podem <>bt2r na uccasião. Ttírininada 
a cerimonia do eniíMTamenlo, lia uma {grande festa, que 
consisto de bebidas fermonladai feita do aipim e outras 
raizes. (1) 



(1) Para estas festas ou antes, para todas as suas festas, usam 
sobretudo os Índios das bebidas fermentadas, a que d;ío o nome 
de Caissuma, v .*ajauarú ou Caixiri. 

A Catssuma é preparada com popunha socada e humedecida 
com agua. Também preparam-na com pacova e macachera ou 
aipim. Dizem ser bebida muito agradável. 

Qnanto ao f^ajauarú ou Cai.ciri, preparam-no do modo seguinte: 
ralam a mandiò(;a. espremem-na no tipiti, desprezam o caldo e da 
massa fazem grandes beijús, que torram no forno de fazer farinha 
de mandioca. 

Quando cosido, preparam sobre taboas ou tabocas uma cama 
de folhas de bananeiras, da espessura de o ma pol legada, sobre a 
qual collocam em ordem os beijús. Borrifaui-nos com a^^ua e 
espalham sobre elles folhas picadas de mandiora, a que cliamam 
manisoba e cobrem-nos com outra ramada de follias de bana- 
neiras, da mesma grossura que a inferior. Collocam por cima e 
dos lados taboas de peso sumciente, de modo a nao desmoronar- 
se a pilha. 



— H2 - 

As mullr^ros Ui^o quoclifiíram a pubt^rdod»», sHo encerradas 
em nm liiizar wdado á visia ^os estranhos á familia ; ahi 
permanecem lodo o tcnioo preciso á promptiflcaçâo dus man- 
jares o hel)id;is para a festividade om honra á virgem. No 
d'a apresado, a joven recebe urn hnnho íreral de tintura 
forie de genípapo, e depois de ornada de seus enfeites de 
l^nnas, ê apresentada aos convidados, entre os quaes é de 
rjíípr achar-se um Page (1) e o futuro esposo que os pães da 
joven lhe destinam. 



\ 



Passados três ou quatro dias, descobrem-nos e depositam os 
beijús, que já cobertos de mofo, em grandes panellões . que 
tapam hermeticamente com folhas sobrepostas umas as outras e 
amarradas coni si pó. 

Dousdias depois descobrem-os e encontram o^ beijiis húmidos 
'tendo deixado correr um liquido de cõramarellada e crystallino 
e com o sabor de vinho branco. Cada panellAo dá do tal liquido 
um copo de meio quartilho. 

Estes beijús. dissolvidos n*agrua, tornam-se, segundo a quali- 
dade da mandioca, da còr de gemma de ovo ou pardacenta e for- 
mam um caldo da espessura do creme de leite, desal)or agradável 
muito refrigerante e diurectico. 

A esta l)el)idad!lo também os indioso nome de Caixiri, 

Dous ou três dias depois, quando já a fermentação se tem ef- 
fectundo, torna-se entáo a bebida inebriante, de gosto desagra- 
dável e só accommodada ao paladar, já muito habituado, dos 
Índios. 

Destiilada, dá excellente aguardente chamada de beijú. 

(i) Pagês sAo os sacerdotes e ao mesmo tempo os médicos dos 
indígenas. 

€ IUngé, pinche, piaye ou piaga, diz o Sr. Gonçalves Dias, era ao 
mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e o cantor dos in- 
dígenas <lo Brazil e de outras partes da America.» 

Hans Stadeu escreve v<iggi\o padre Vasconcellos payé\ e Da- 
miío de Góes pngé. 

Fugindo dessa tal íjual sociedade que tinham, diz ainda o 
Sr. Gonçalves Dias, retiravam-sc as cabanas afastadas e obscuras 
ao r CO das arvores, á lapa dos rochedos ou ás cavernas tenebro- 
sas, onde nenhum guerreiro entrava e de cuja visita se absti- 
nbam: alli impondo-sc privações; padecendo tormentos da ne- 
cessidade, em um viver austero e mysterioso. e durante longas 
noites passadas no silencio apenas interrompido pelo borborinho 
confuso das matas, dados á mace raçílo. ao jejum, tornavam-se os 
paah excessivamente nervosos ede uma sensibilidade extruisila. 

O respeito que inspiravam aos demais fazia com (lue ainda mais 
se respeitassem e a consideração em que eram tidos, redobrava 
aquella em que si tinham a si próprios. 

Os segredos que i)ossuiam obtidos pela observação e experiência 
ou herdados de seus antecessores, eram como o sei lo da sua auto- 
ridade e o característico do seu valimento para com Deus. Es- 
tranliava-se a sua vida. o seu isolamento, a austeridade de seus 
costumes, e quanto empregavam para grangear prestigio. Sup- 
punha-sc delles como na idade média dos que se clausuravam, 
que um guerreiro n«lo deixava as suas tabas o seu modo de vida, 
as suas festas, os seus jogos, as suas guerras, senáo por uma vo- 
cação forte, por um chamado providencial. 



— 113 - 

Collocado DO centro do salão, o Page tomando a mSo direita 
da joveOy pred íz a sorte que lhe aguarda, depois do que, can- 
tarolando em torno delia, vai arrancando-lheos cabellos que 
estão soltos sobre as espáduas. A esta ceremonia acodem 
todos os convivas, que a essa hora já se acham bastante em- 
briagados e cada um por sua vez dansando e cantando em 
roda da joven, lhe vai também arrancando os cabellos. Ao 
cabo de meia hora está a moça pellada e soífrendo horrivel- 
mente. 



Eram portanto reputados entes superiores, e cm falta de amor^ 
inspiravam um respeito cego e um temor incrível. Conhecendo 

Sarticularmente a toxicologia americana, a menos incompleto 
os seus conhecimentos e a virtude de certas folhas, plantas e 
raízes, facii lhes era produzir a morte, a loucura ou provocar uma 
enfermidade artificiai. 

Com a reputação que tinham não lhes era também muito difí- 
cil attribuirem-se todos os acontecimentos favoráveis ou desfa- 
voráveis, sobrevindo a um guerreiro ou a uma tribu, conforme 
lhes fosse amiga ou inimiga. Tai era o seu prestigio, que julga- 
va-se serem elles os que inspiravam aos guerreiros o espirito de 
força e que delles dependia o bom êxito das emprezas ; pelo q[ue 
eram seguidos os seus conselhos, resp^eitadasas suas ordens e m- 
falliveis os seus anathemas. Se vaticinavam a morte a alguém, 
nenhuma salvação havia para este, que, levado pela imaginação 
e prejuízos, se dfeixava vencer do desanimo, de modo que o ter- 
ror e a convicção da fatalidade imininente, paralysava-lhe o gyro 
do sangue e o curso da vida. Pelo contrario também, conhecendo 
elles quão grande era a influencia do morai sobre o physico, bas- 
tava que ''om algumas ceremonias grotescas assegurassem a vida 
a qualquer enfermo, para que estes em certos casos se restabe- 
lecessem . 

Também em diflerentes lugares do interior das duas províncias 
do valle do Amazonas, encontram os viajantes certos sítios a 
que dão o nome de Pagés, por haverem sido a residência desses 
médicos, sacerdotes e prophetas dos Índios. 

Nunca por abi passam esses fillios das selvas sem depositarem, 
com religioso respeito, alguma offerenda para o espirito domys- 
terioso personagem que ai li vivera, e acreditam que sem essa 
oblação não chegariam sem perigo ao fim da jornada, porque le- 
variam comsigo a maldição do espirito invisível, que paira na- 
quelles sítios. 

Eis o que a respeito destes costumes refere um viajante: 

« Tínhamos já perdido de vista as ilhas de Souzel e navegamos 
aguas acima com toda a força. Pela volta das 11 horas passamos 
a ultima habitação christã. Com eíTeilo, duas horas depois ou- 
víamos á proa o grito de Page l o page l e decorridos alguns mi- 
nutos passávamos junto a um rochecío, na margem esquerda, no 
qualjasíam depositadas no chão algumas flechas 

• Este rochedo, chamado pelos gentios Page, é por elles vene- 
rado e as flechas que allí tínhamos visto, significavam uma 
ameaça a todos os que ousassem invadir seu território; entre- 
tanto, a despeito da ameaça, augmentamos de força para vencer 
a correnteza, que naquelle lugar era por demais violenta. 

« Ao passarmos pelo Page tivemos o cuidado de parar por um 
momento, para apanharmos as flexas com que o tinham presen- 
teado os gentios.» 
IS 



— 114 — 

Então as aias^ que são três das mais idosas dentre as con- 
vidadas, arreipessam a joven para o lado do noivo, que a 
attrahe a si, terminando assim a solemnidade nupcial. 
• São os Ticunas pacificos, dóceis, francos e honestos; im- 
berbes, rosto redondo e o nariz delgado. Praticam a poli- 
gamia. 

A um respeitável sacerdote da província do Amazonas e 
que por muitos annos viveu no Solimões, devo a descripção 
de um baptismo conferido a um menino ticuna. O digno 
sacerdote, que m'a referiu, foi testemunha oocular dessa 
scena grotesca, ou, servindo-me de suas palavras, desse es- 
pectáculo doloroso entremeiado de damas ao som de gaitas 
toscamente fabricadas de não sei que madeira e taboco. 

Mascarados uns com tinta vermelha e preta, referiu- me 
elle e outros com rodilhas de pannoe folhas na cabeça, inva- 
diram diversos índios o lugar em que se achavam runidos 
os pães da criança e os maiores da tribu, e logo após os pri- 
meiros mascarados entrou um outro grupo formado por in- 
divíduos cobertos com pelles de diíferentes animaes, arreme- 
dando cada individuo o animal de que trazia a pelle ou ave 
com cujas pennas se enfeitava. 

Depois a criança, pintada de carajurú, foi collocada no 
hombro de uma mulher e mettlda no centro de um grande 
circulo, formado por homens e mulheres, o qual de quando 
em vez se abria, separando os sexos. 

Era uma espécie de dansa frenética, furiosa, em que os 
sons dos instrumentos desafinados se misturavam e confun- 
diam com o som rouco das vozes, que repetiam constante- 
mente a palavra kea t 

Então, á um signal do chefe, abriu-se o circulo e cada 
qual começou a dansar, por sua vez, com a mulher que lhe 
ficava em frente, uma espécie de dansa ligeira, cheia de mo- 
vimentos lascivos e trejeitos, voltando em seguida para o 
seu lugar. Depois, agitando o maioral uma espécie ae tri- 
dente que empunhava, abriu-se o círculo e a apresenia- 
deira da criança, quo se havia retirado a um banco, em meio 
do silencio geral approximou-se, cantando, do maioral, que, 
entre gestos e palavras mal dístinctas, beliscou com o dôdo 

fioilegar e o índex tão fortemente a cabeça da criança, que 
he veio immedíatamente osangue. 

Esta terrível ceremonia foi repetida por mais duas vezes 
em forma de cruz. 

Terminada ella, começaram de novo a tocar os roucos 
instrumentos, até que a um signal do chefe dirigíram-se 
todos ao panellaoem quo se achava o rajaparú em fermen- 
tação. Após copiosa libação, encamínharam-separa a mesa, 
formada de folhas de pacoveíra, estendidas no chão, e onde 
assados e cosidos achavam«se pedaços de macacos, catitús, 
araras, etc. 

Terminou o festim entre momices e gritos que soltavam, 
quando em cuias bebiam opajauarú, 

O nome que poaeram á criança foi de Urutac. 

Yisinha aos ficwuu ó a triba dos Cambebas oaOmagnai» 



-Utf- 

que 96 dix orlnnda da Colnmbia. de onde emigrada^ entrou 
no SollmSeSy acima do rio Japurá . 

Os primitivos Cambebas davam ás snas cabeças a forma 
das cabeças de tartaruga, para se nio confundirem com as 
naç9es antropophagas ; o que conseguiam, comprimindo a 
cabeça dos recem-nascidos até obterem aquella forma. 

São guerreiros e costumam cortar a cabeça ao inimigo 

Sara ievantarem-na como trophéoem suas malocas, fazendo 
os dentes collares com que se adornam. 
Sua arma é a frecha, diz o capitão-tenente Amazonas, que 
arremessam com a estolica, em vez do arco. £'ella uma 
palheta de cerca de dous pés de comprimento, em uma de 
cnjas extremidades tem cravado um dente de fera, curvo 
voltado para a outra extremidade. Encurvada a palheta 
com a frecha applicada á convexidade do dente, sen elaste- 
terio ou extensão decide do alcance, como a mira do em- 
prego. 

Termino esta pequena noticia sobre os ticunase cambebas, 
escrevendo algumas linhas mais acerca das armas de que te 
serviam e ainaa se servem as diversas tribus indígenas. 

Além do arco e frechas communs, de que todas ellas mais 
ou menos se servem, são mais notáveis a zagaia, o curabi, 
o tacape, o tangapema, o tamarana, o cuidatú, o murucu, e a 
zarabatana ou esgaravatana. 

Os arcos são armas curvas, ordinariamente feitas da ma- 
deira páo d^arco, ou também da palmeira paxiubm ou ainda 
de qualquer outra madeira suscoptivel de curvar- se cm arco 
de circulo, por eífeito de uma corda preparada com flos do 
carauá e encerada com umn preparação chamada breu do 
frecha, presa a cada extremidade do lado convexo. 

Umas vezes os arcos sHo completamente envolvidos por 
flos extrahidos das pnlmeiras tucúm ou tucuman ; outras 
vezes, não. São instrumentos d»^ que se servem os índios 
para arremessarem ao longe as frechas. 

As frechas são instrumentos oíTensivos de que mais ge- 
ralmente se servem os indios. ou para a caça e a peFca ou 
para a guerra. São espécies de setlas, compostas de duas 
partes distim^tas, a haste e a ponta. A haste é ordinaria- 
mente feita da própria taboca, sendo del^Mda e direita, e a 
ponta ou suumbá é feita ou de madeira rija airuçada como 
paracaúba, maçaranduba, ou de palmeira paxiuba ou de 
outra qualquer madeira menos rija, porém armada a sua ex- 
tremidade inferior de pedaços aguçados de ossos lon«?os de 
animaes ou ainda dos próprios ferrões da arraia e das es- 
pinhas de peixes. 

Eslas frechas são aladas umas e outras não. As aladas ^ão 
38 que tem pennas de vários pássaros colloeadas uma polle- 
gada abaixo da extremidade superior e no sentido longitu- 
dinal. Estas são as de que se servem para maiores distancias, 
ou arremessadas directamente ou descrevendo uma pará- 
bola. As outras são exclusivamente empregadas para peque- 
nas distancias. 
Ha três espécies de frechas usadas na guerra, diz o Sr. 



— 116 — 

Gonçalves Dias, uaaike comm, a harpoada ; uagike méran ; e 
a outra para caça de animaes menores, uagike^bacamnurnok . 
A primeira tem a ponta alongada ou elíptica, feita de ta- 
quara ; tostam-na para ficar mais dura e a raspam e aparam 
para que fique cortante como faca, e a ponta fina como 
agulha. O animal, ferido delia, sangra muito, porque um 
dos lados é concavo. A ponta da frecha harpada^ que tem 
pollegada oú pollegada e meia de comprimento, é feita de 
páo d'arco ou de airi, E' fina e muito aguda. Tem oito ou 
dez harpéos, e se emprega na caça de animaes grandes e pe- 
quenos e também na guerra. A sua ferida é perigosa, por 
ser de difflcil extracção. 

As frechas da terceira espécie são obtusas e matam por 
contusão : tomam para isso uma vara que tenha três ou 
mais nós, formando como um botão de que fazem a extre- 
midade da frecha. 

Para dar mais força ás primeiras, untam-nas com cera, 
passam-nas ao fogo, para que penetre melhor e assim fazem 
também com os arcos. 

A zagaia é uma frecha alada, contendo na ponta três farpas 
hervadas, duas dasquaessão postas obliquamente. 

O curabi é uma frecha pequena e curta, quasi sempre her- 
vada. O iniio bravio tral-a ordinariamente em punho. 

O tacape é um instrumento feito de madeira preta ou ver- 
melha, de cinco ou seis pés de comprimento, com uma ron- 
delia ou moca na extremidade, da grossura de uma polle- 
gada no meio, aguçada na ponta e cortante como um ma- 
chado. 

A tangapema é uma espécie de espada ou alfange de que se 
serviam nos sacrifícios. 

A tamarana é um páo faceado, de quatro lados oppostose 
iguaes, porém mais grossos em uma das extremidades a que 
punham franjas de algodão e outros ornatos. 

Baena descreveu-a do modo seguinte: c A tamarana, assim 
como o aiidarú, é uma espécie de clava de cinco palmos de 
comprimento, chata, esquinada, de duas pollegadas de lar- 
gura e mais grossa para uma das exlremiaades. 

O cuidarú, é uma arma curta, a modo de clava, chata, es- 
quinada, de quatro palmos de comprimenio e três a quatro 
pollegadasde largura: E' mais grossa para uma das extre- 
midades, e feiía de madeira rija, quasi sempre de páo ver- 
melho. 

Omurucú éa mesma arma, feita de igual madeira, porém, 
em ponto maior, para ser brandida com ambas as mãos. 
Costumam golpeal-a, de modo que ao entranhar-se se quebra 
na ferida. 

A zarabatana ou esgaravatana é uma dos armas nidis ter- 
ríveis e certeiras de que se servem os Índios. Di»ntro do tubo 
mterior introduzem uma pequena .setia hervada de paxiuba 
{huamiri) ena extremidade superior da setta enrolam um 
pouco de sumaúma ou algodão, de modo que feche hermeti- 
camente o orifício do cylíndro e offereça tal ou qual resis- 
tência ao ar, para ser expellidacom mais violência. 



— Ii7 — 

Voltemos agora ao rio Madeira» talTez o maior dos 
afliaentes do rio-mar e sem davida nenhuma om dos mais 
importantes pelos yaliosissimos prodnctos, que encerram 
anãs mar<;ens, admiravelmente ubérrimas, e também por 
ser a poderosa artéria, o caminho mais fácil não só para ds 

SroTincías de Mato Grosso e Goyaz, como para a fronteira 
a Bolivia. 

Segundo a opinião mais geral é formado o caudaloso rio 
Madeira, da juncção, em defferentes pontos, de três grandes 
rios : o Guaporé ou Itenez, o Mamo^é e o Beni ; estes dous 
Tindos da Bolívia e aquelle da provinda de Mato Grosso. 

O ponto da jnncção destes três grandes rios, segundo o 
sargento-mór de engenheiros, R. Francisco de Almeida 
Serra, é a 11* 55' e 46'' de latitude sul, c a SB* 34' e 14" de 
longitude a oeste do meridiano do Rio de Janeiro. 

O Madeira corre no rumo de N N O da sua nascente á 
foz do rio Beni, e dahi no rumo de N até a do Abuná^ e 
finalmente no de N E deste pontoa ré a su3 embocadura^ 
no Amazonas. 

Lança-se na margem direita do grande rio, na latitude 
3* 23' e 43" S e longittude 358* e 52' E da ilha de Ferro, 
segundo aindn as observações do sargento-mór de enge- 
nheiros, Almeida Serra. 

Pelas voltas do Amnzonas acha -se a foz do Madeira dis- 
tante de B«3lém 275 léguas, cinco ncfnía da villa de Serpa (1) 
e 25 abaixo do Soiimões e da confluência do Rio Negro. 

Em Baetas, 95 léguas acima da sua foz, é a sua largura de 
400 melros, pouco mais ou menos, e em Santo António, a 
90 léguas acima do Baetas, esta largura não excede de 
200 metros. 

A sua profundidade até Santo António regulado iOa 
i2 metros. 

A velocidade de suas aguas, na foz, é de 0™36 por se- 
gundo; em Borba, a 25 léguas acima de 0"61, e Gnalmente 
em Baetas, a 70 léguas acima de Borba, de 1°'8. 

O seu declive é avaliado em 0,44 por légua. 

O volume d'agua que fornece por hora ao Amazonas é re- 
presentado pelo enorme algarism(» de 6.870 metros cubicos(2) 

(1) Depois de escriptas ns Unhas acima, chegou-mc a noticia 
de que a assembiéa provincial do Amazonas, acaba de elevar a 
viila de Serpa á categoria de cidade, coni o nome de Hacoatiara, 

(2) Em Biíetas a corrente é de 3 1/2 milhas; de 1 em Borba e 
de 600 braças na foz. Em uma hora o Amazonas recebe do Ma- 
deira 2.250.000.000 de palmos cubicosde agua. A profundidade 
não varia da foz á villa de Borba 25 léguas acima: achei quasi 
sempre 6 braças no canal, cdahl á aldèa dos Muras 5. Informa- 
ram-me os práticos que até a cachoeira de Santo António o rio é 
tão fundo ou talvez mais do que nos lugares por onde passámos. 
O facto da subida do vapor Guajará em 1854 até a povoação de 
Crato, no mez de Setembro, quando o rio está mais secco, prova 
que ha fundo sumciente para navios que demandem de 6 a 8 pal- 
mos d*aguaem todo tempo. Durante os seis mezesde inverno, de 
Dezembro a Maio, grandes barcos podem chegar ás cachoeiras. 
{BeUUorio do Dr , J . M. da Silva Coutinho, de 1861.) 



-118- 

A áreacoroprehenâida pelo seu vale é oalcaladaem ifkOOO 
léguas quadradas. 

Os indígenas davam-lhe o nome deCat'an,que Francieao 
de Mello Palheta substituiu pelo de Madeira (i), em conse- 
quência da grande quantidade de troaoos ou madeiros que 
Incessantemente são arrastados pela correnteza. 

O rio Guaporé ou Ytenez nasce na província de Mato 
Grosso, corre na direcção de E S E e une*Ee ao Mamaré, de- 
pois de ter banhado o forte do Príncipe da Beira. Em seu 
trajecto recebe os seguintes a£B[uentes, que Ibe engrossam as 
aguas: S. Nicoláo, S. Simão» S. Martinho, Rio Negro, Rio 
Branco, MagdaJena.Ypurupuro ou Machupo. 

O rio Mamoréé formado da reunião do rio Sara com o rio 
Ckapare, e tem por afGiuentes os rios Secure, Tijamuchi, 
Apere, Rapulo, Yacuhuma, Yvare, Matucare e outros de 
menor importância. 

O B^i corre das montanhas do departamento de La Paz, 
na Bolívia, e banha em seu trajecto campinas de luxuriante 
vegetação. 



(1) Também constantemente pelo Amazonas encontram-se 
grandes toros de cedro e de outras madeiras arrastadas pela cor- 
renteza ; porém o que mais recrêa os olhos do viajante, fatigado 
da monotonia do rio, é a quantidade de ilhas, verdadeiras ilhas, 
de canarana, que o enchem. Deixo á penna nabildo Sr. 6. de 
Amorim a descripção desse singular espectáculo: 

<( Pelo rio Amazonas e por alguns aos seus tributários des- 
eem grandes massas de capim agigantado, a que no paiz dão 
o nome de canarana, as quaes formam verdadeiras e vistosas 
ilhas, que vão fluctuando até encontrar um baixo, uma ponta de 
terra ou alguma grande arvore que as faça parar. Acontece mui- 
tas vezes trazerem no meio cedros seccos e outros madeiros enor- 
mes^ cabidos das margens do rio e que formam, com seus grossos 
troncos, o núcleo da ilha. Outras vezes vém-se nellas arbustos 
tom dous, três e mais metros de altura, arrancados pelas massas 
do canarana com os pedaços do terreno, e que vão navegando 
mui direitos eem toaa a pompa e esplendor de sua rica vegeta- 
ção tropical, levando pendentes dos ramos ninhos de formosos 
rkssarinhos, que lhes esvoaçam em torno, alegres e indifferentes 
mudança ou talvez mesmo contentes com a viagem ! 

« Confesso que nunca vi espectáculo tão original e táo gracioso 
como esses comboios pittorescos das ilhas de canarana. A massa 
de seus ramos encruzados em todas as direcçOes é tão compacta 
que, ainda mesmo quando não leva arvores seccas enlaçadas, 
póde-se andar de pé sobre ellas * e muitas vezes as grandes cangas 
varam-lhe em cima, para dar aescanco aos remeiros sem ínter^ 
romper a viagem e sem necessidade de governo. 

Não são só as avesinhas^ que alli têm seus ninhos, os únicos 
habitantes : também lá se encontram jacarés, cobras de varias 
qualidades e grandezas, garças e outras grandes aves aquáticas, 
que parecem achar prazer naquellas aventurosas peregrinações. 
Alffuinas destas ilhas fluctuantes percorrem centenares de léguas 
e é vulgar, logo que se chega próximo ás costas do Pará, encon* 
tral-as ainda antes de se avistar a terra: porém ahi já em muito 
diminutas proporgees» porque as ondas do oceano as tem desfeito 
eu dividido. » 



Era ji maisoa menos conhecido o Madeira no tampo da 
Tiagem do capitio Pedro Teixeira a Quito. 

Em i7i6ocapitão-mór do Pará João de Barros Guerra^ de 
ordem do governador Christovão da Costa Freire, á frente 
de uma expedição sabia o Madeira alé o rio Maissy, a fim de 
castigar os indios Toras, por descerem o Amazonas para 
atacarem as canoas dos regatões, como por varias irrapc^es 
qae fizeram ás aldêas de Canumã e Abacaxis 

Segando Baena, não passou o capiíão-mór Barros Guerra 
das barreiras do Manícoré, 75 léguas acima da foz do Ma* 
deira. 

Sendo obrigado a abandonar a expedição por grave incom- 
modo de saude^ teve a infelicidade de naufragar e morrer, 
por lhe haver cahiJo sobre a canoa, que o conduzia, uma 
grande arvore quu se desprendera da ribanceira, ailuida 
pelas aguas do rio. Na sua ausência continuaram as hosti* 
[idades contra os indios, dirigidas peio capitão de infantaria 
Diogo Pinto da Gaia e pelo sargento-mor das ordenanças 
Francisco Fernandes. 

Reduzidos os indios aos últimos apuros, foram obrigados a 
depor as armas e asoUicitara paz, que lhes foi concedida, 
mediante a condição de se aggregarem á aldôa do Abacaxis, 
hoje Serpa . 

Èm 1723, segundo Baenu, ou em 1725 segundo o capitão 
tenente Amazonas, foi o rio Madeira conhecido, pela pri- 
meira vez, até a parte superior das cachoeiras. Era então 
governador do Pará o general João da Maia da Gama . A no- 
ticia que por alguns indiviJluos incumbidos do descimento 
de indios (1) do Madeira lhe foi dada, de que acima das ca* 
choeiras havia habitações de gente branca, que não sabiam 
se eram portu^^uezes ou hespanhótís, motivou a expedição 
que mandou o dito general ás ordens do Francisco de Mello 
Palheta. 

Subia Palheta as cachoeiras e encontou perto da foz do 
Mamor^uma canoa de indios castelhanos, dirigida por um 
mestiço, que o levou ás missões hespanholas, na aldôa da 
Exalta^ de Santa Cruz dosCujubas situada na margem Oc- 
cidental do Mainoré, entre os rios Iruiname e Maniqui, 



Í(i) Descei' indios ou descimento de indios era a expressão que 
nlgaram mais própria para amenisar a crueldade e a violência 
(essas celebres expedições, que tinham por flm escravisal-os. 

Entravam as bandeiras, (expedições) em seus rios, assaltavam 
suas malocas, intimavam-lhes a rendição, percorriam as matas, 
como se fizessem uma caçada de homens, atiravam sobre os que 
recusavam submetter*se e captivavam os outros, a pretexto de 
civlllsal-os. 

Curral— caífára, em língua Indígena— era o nome aíTrontoso 
que davam ao lugar em que eram depositados como mercadoria, 
oomo animaes, os infelizes filhos das selvas para serem depois 
vendidos como escravos. Ainda hoje conserva, como vivo tes- 
temonho desse trafico vergonhoso, o nome de Caiçara uma po- 
voação do SollmOes, porque para alli eram levados os Índios es- 
eravlsados no rio Jumá. 



— 120 — 

De volta da sua expedição nada disse Palheta acerca do 
Beny, que havia de encontrar entre as cachoeiras, nem do 
Guapori, que tanto na entrada como na sabida do Mamoré 
nio podia deixar de ver. 

Posto que esta viagem não fosse propriamente de explora- 
ção, ficou entretanto dahi em diante conhecida uma parte 
muito importante do paiz e de seus limites prováveis. 

Em 1737, estabeleceram os padres jesuitas uma missão nas 
immediaçQes da primeira cachoeira, a qne, do nome da 
missão chamou-se de Santo António, e subindo o rio até a 
confluência do Mamoré, e nelle entrando, passaram a praticar 
com outros missionários no território do Peru. 

Em 1741, um indivirluo de nome Manoel de Lima, descea 
do Mato Grosso pelo Guaporé e Madeira até o Amazonas, 
entregue somente á discrição da corrente e sem saber atô 
onde Irio narar. 

Em Í7tf0 o capitão (general (gfovernador de Mato Grosso) 
que já em 1752 visitara o Baixo-Guaporé, foi fundar no 
IU((nrondo pouco antes existia a missão bespanhola de Santa 
llOMB, uma fortaleza denominada de Nossa Senhora* da Con- 
ceição, que em 1776 foi substituída, por achar-se inteira- 
mente arruinada, pelo forte do Príncipe da Beira (1). 



Tal foi o meio de que se serviram esses primeiros explora- 
donm (Uh matas do Amazonas, para attrahirem os índios aos 
boHfficioB (la civilisaçáo t 

Kolizriiento a carta de lei, datada de 6 de Junho de 1755 aboliu 
noinelliaiito connnercio, até então considerado muito legal e de- 
clarou OH Índios do Pará e do Maranhão isentos de toda a escra- 
vidão. 

ICmho reconhecimento dos direitos sagrados de tantos milhares 
do lioruenH, esmi loi santa e humanitária, que vinha pòr cobro 
a tantan Mcenas de atrocidade e violência, é representada pelo 
lírandn ministro de D. José, por esse homem extraordinário, que 
M) rliarnou Sebastião José de Carvalho e Mello, depois marquez 
dn Pombal. 

(I) tinia lotfua e um terço depois da barra do Itonamas. na 
iniir((nm direita do Guaporé, 190 léguas além da cidade de Mato 
(IfoM^io. . . . existe o forte do Príncipe da Beira, começado em 1776, 
fi (Ini de protot(era navegação de Mato Grosso para o Pará pelo 
Madolra. <) Hul)Htituir o Presidio da Conceição, que bouve em 
outro tiMupo, um {)Ouco abaixo, sobre a mencionada margem; está 
luiidado iMii torreno espaçoso, que declina suavemente para todos 
OM ladoN. o livro da inundação, que neste lugar chega a 45 palmos 
(in altura : lia unia lagoa próxima ao rio, que principia 27 braças 
iJUtanln do fini da esplanada, na direcção da capital do baluarte, 
(MIM olha para oSSO. 

{) fortn do Priricipe é fortificação regular, a melhor que temos 
i<ni Ioda a fronteira : consta de um quadrado de 60 braças do 
lado nxtorlor, fortificado segundo o systema de Vauban; tem 
foMM). oMtrada coberta, quatro praças d'armas e esplanada; cntra-se 
no forii) por dous portões, um que está em frente ao rio e outro 
14 lunioda cortina, que olha para o N N O 

• .•••f OOuaporè lorma em frente ao forte uma enseada não 
IHiquena. (Mm d^Árlineourt.) 



ú ■ • 



— 121 — 

Emquaatoalli estava chegou uinn expediçlo vinda do Pará 
com petrechos do guerra. 

Desde então foi tomando incremento a navegação do Ma- 
di;ira e Guaporé. 

Foi por et In que o districlo de Maio Grosso se aprovisicnoa 
não só da artilharia, petrechos e munições de guerra, mas 
também de outros artigos do seu mercado, como sal, ferro, 
aço, cubre, louça, líquidos e ainda fazendas seccas. 

Foi por ella que se retirou o governador D. António Rolim, 
e que transitaram na ida e volta seus successores imme- 
diatos, bem como diversos magistrados e offlciaes militares e 
finalmente foi por ella que por muito tempo se transmittiua 
correspondência com a corte de Lisboa, funda ndo-se entre- 
tanto nas margens dos rios alguns povoados de ephemera du- 
ração. (1) 

De 1780 a 1790 foi o Madeira explorado scientíficamente 
pela commissão de engenheiros, que levantou a carta da pro- 
víncia, para servir de base ao tratado definitivo de limites 
entre o^rasile as possessões hespanholas. 

A ultima viagem da commissão ao Madeira foi dirigida 
pelo sargento-mór de engenheiros Ricardo Franco de Almeida 
berra, que verificou as observações feitas anteriormente, 
acrescentando algumas noticias importantes sobre lugares e 
rios não mencionados no primeiro diário. O seu trabalho por 
isso é o mais perfeito sobre este rio. 

Na secretaria da provinda do Amazonas existe a carta da 
província, que levantou essa commissão, desenhada peloDr. 
em mathematicas José Joaquim Víctorio da Costa. (2) 

A' margem direita do Madeira e 25 léguas acima da sua 
foz, acha-se assentada a villa de Borba, hoje muito deca- 
dente. 

Esta villa, antiga aldeã de Trocano (3) e depois freguezia 
de Araretama, foi fundada em 1728 pelo padre João de Sam- 

6 aio, religioso jesuita, junto ás primeiras cachoeiras do rio 
ladeira. 

Desse sitio, que foi o seu primitivo assento, trasladou-se 
para a foz do rio Jamary, afiluente do Madeira e por isso teve 
a donominaçao de aldêa das cachoeiras ou mais geralmente 
de Jamary. 



(i) Tratado de geographiapelo Sr. senador Pompêo, 
(2) Relatório do Dr. J. M. daSUrn Cotdinho i861. 
(9) Trocano era o instrumento de guerra de quasi todos os gen- 
tios do Pará, diz o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira,— 
como o havia na aldêa antigamente chamada do Trocano, hoje 
villa de Borba. Serve ao gentio de caixa de guerra para as suas 
chamadas, e também para os avisds, que de parte a parte fazem 
umas a outras aldêas, quando ha novidade que participar aos 
ai liados, que estão mais distantes. De sorte que a primeira aldôa 

aue houve o signal do Trocano, o participa á outra sua imme* 
iata, fazendo o mesmo signal, e assim em breve tempo se avi- 
sam ainda as que estão mais remotas. Também serve para cha- 
mada de baile e se distingue pelo differente toqu6« 
16 



— 122 — 

Hofttilisada constaDtemente a nova povoação pelos índios 
Muras, madou-se para Camuan, na foz do rio Gi-paraná, 
hoje rio Machado, e em segaida para a foz do rio Baeta, 
outro afflaente do Madeira onde tomou a denominação de 
Araretama, D'ahi finalmente trasladou-se para o lugar em 
que actualmente se acha. 

Em i756, quando elevada á categoria de villa, substituiu 
o nome de Trocano pelo de Borba . 

A villa de Borba ji floresceu, já teve seus tempos de gloria 
e ogue é para admirar, quando as circumstancias não eram 
tão favoráveis como hoje ; quando no Amazonas não havia 
navegação a vapor. 

Não sei que máo fado persegue este immenso valle do 
Amazonas aqui parece que o mundo não caminha, retro« 
grada ; aqui as povoações em vez de augmentarem e cres- 
cerem» diminuem e desapparecem. Revendo-se os mappase 
ascorographias da província, reconhece-se que a tendência 
á ruina e a destruição é endémica neste valle, como as febres 
que nas cabeceiras dos rios dizimam a população. 

O Rio Negro, por exemplo, outr'ora tão povoado e flores- 
cente, ó hoje quasí um deserto e povoações que ainda em 
1833 existiam, como Lamalonga, S. Bernardo, Camanáos, S. 
Miguel de Iparama, Nossa Senhora de Nazareth de Curiana, 
Loreto, S. João do Mabé, Garvoeiro-novo e Carmo» nem 
delias hoje existem as ruinas. 

Esse desmoronamento, essa destruído vai atacando tam- 
bém as povoações que ainda restam. 

c Barcollos, outr'ora capital do Rio Negro, ainda mostra os 
alicerces do palácio dos governadores de que era residência, 
e sóa tradição revela que ahi tivessem existido um quartel, 
um armazém real o um hospicio carmelítano. 

t La jasem os mármores que os portuguezes conduziram 
oom destino á fronteira do Cucnhy para assignalar os nossos 
limites com Venezuela e que só tem servido de marcos da 
nossa incúria o imprevidência. (1) * 



n Faiom-o do algum tronco de arvore, cuja madeira seja dura e 
«HUUMota» que nAo sulToquc o som que procede das pancadas das 
vaqueta.^. A cnpi^ihua ó uma das mais empregadas. Escavam o 
tnmoo ao ioffo e dfto polimento á obra com os dentes de cutia, 
ealMtu e cirncha uraá, com que lhe abrem seus lavores. 

% Nam todi>stem o mesmo numero de aberturas, mas duas, três 
A niâU. A forma tâmbom varia, pois o que descreve Gumílla, no 
»\\ OHnoeo tíluHrwh. tem a figura de um rebecão. 

« As raquetas são duas maças, á maneira de êmbolos de se- 
Hntfa»com estopadas feitas de nervo de borracha, ou comos en- 
■aciWdo caclio aa palmeira tMifoiM. Hra o tocar, suspendem-no 
diiVliAo fom o c1p6 limbá^tííka, sobre duas forquilhas.» 

(I) JNHoriWSWíot 4o AmoMumas pelo Dr. João Ribeiro da Silva 

A mòii« pramatart do autor impediu que elle terminasse 
lM|H^taiito trabaUHo. 



— 123 — 

Os jesuítas tiveram cm Borba uma bem montada olaria. 
No lugar em que esteve esse cstobolecimcnto, diz u Dr. Silva 
Coutinho, ainda vi escavações, de onde se tirava o barro e 
achei alguns pedaços de tljolios fabricados, ha mais de um 
século, em bom estado. Vi também os fçrossos alicerces de 
uma igreja que elles comoçaram, mas que não foi concluida. 
Existem ainda os restos do dous canos de esgoto subterrâ- 
neos, que, partindo do lugar do auiigo hospício, vão ter ao 
rio. 

O tabaco preparado em Borba passava, até muito pouco 
tempo, por ser o melhor dt^ todo o Brazil. 

Eis o processo empregado na sua manipulação: 

Depois de ter chegado a planta ao seu completo desenvol- 
vimento, istoé, quando as extremidades das folhas começam 
a murchar, são estas colhidas c postas a seccar á sombra. 
No fim de quinze a vinte dias tira-so o tallo das folhas, 
a nervura principal, e formam-se molhos fortemente aper- 
tados com embira, que é substiluida no fim do processo pela 
jacitara. 

Os molhos de duas libras tem um o meia pollegada de diâ- 
metro e seis e meio palmos de con?primento. 

O fumo, que era género que em grande abundância, em 
época não mui remota exportava a provincia do Amazonas, 
é hoje objecto de importação t 

Tal é a cegueira pelos lucros phanlasticos que a borracha 
offerece, que essa importanio lavoura foi quasi que de todo 
abandonada^ com excepção do município do Maués, onde 
ainda se cultiva. 

£ não ha reflexões por mais sensatas c não ha conselhos 
ou ameaça de um futuro assustador, que façam retirar o 
povo da seducção que, mais tarde ou mais cedo, ha de leval-o 
ao abysmo. 

O Madeira, o Purús, o Rio Branco ahi eslão offorecendo 
suas terras prodigiosamente ubérrimas ao lavrador ; elle as 
vô, mas cega- o, fase na o a sorlnguira, e eil-a após essa mi- 
ragem, que, illudindo-o, acarrcia-lhe a miséria, as enfer- 
midades e a morte. 

O clima de Borba c aprazível o saudável, em razão da po- 
sição em que se acha col locada, c seu terreno ferlillissimo 
presta-se admiravelmente a cultura da mandioca, do milho, 
do arroz e do cacáo. 

E' Borba, apezar de muito decahída, a povoação mais im- 
portante do rio Madeira. 

A' margem esquerda do mesmo rio e acima do Borba, foi 
fundada em 1802 uma povoação com o nome de S, João do 
Crato. O fim que para isto teve em vista o governador D. 
Francisco de Souza Coutinho, foi ode facilitar as communi- 
caçoes commerciaes entre o Pará o as capitanias de Goyaz e 
Mato Grosso. 

Nada entretanto foi possivel conseguir, em consequência 
da insalubridade do clima . 

Por algum tempo serviu esse lugar de. presidio, até que, 
commandando o sargento Manoel Baptista de Carvalho o des- 



— 124 — 

lK««ii»ftl9 e^loctdo Biqaelle ponto e procurando a maneira 
«ftir iTTtiar 4 Morle, qae alli o esperava e da qual já começava 
t ^maiúr « primeiros assaltos, mandou incendiar as poucas 
cii$«< (|tt# Mlio liaria^ e attríbuindo este acontecimento ao 
•ciH^ ateB^owm o lugar, retirando-se com o destaca- 

A pi>T««fio de S. Joio do Grato passou para o Inçar de 
■»Mkí « por lei provincial de 1868 foi transferida a sede da 
frW iMaia para a povoado de Manicaré. 

Miilo pooco importantes sio as demais povoações, como 
:$UMii^iMi««roea (I) e sítios ^e Mandihy e Boa-Vista. 

f^ Di^uri^ Ásinmomco, que escreveram os offlciaes enge- 
«l#in»» mandados em 1781, na commissSo de demarcação de 
Imili^s» «extraio, pela sua importância e raridade, o seguinte 
r^l^iro da viagem pelo rio Madeira até a foz do Goaporé: 



(O A respeito desta pequena povoação, contam os índios do 
IMmrt a seguinte lenda: 

Fottci^ abaixo do lugar em que se acha assentada Sopucaía- 
««vir\i« r^ferf m os índios que existiu outr*ora uma outra povoação 
wttllo maior do que esta e que um dia desappareceu da superflcíe 
4a t^rra. sepultando-se nas profundidades do rio. 

IS* que os ãhirú*, que entSo a habitavam, levavam vida de- 
;M>rú«nada e má, e nas festas, que em honra de Tupana celebra- 
vam, entregavam^se a dansas tão lascivas e cantavam cantigas 
lAo Impuras, que fasiam chorar de dor aos anga^turámas, que 
«rain os espíritos protectores, que por elles velavam. 

IVr veie;» os velDos e inspirados pagés, sabedores dos segredos 
40 linHiMa, haviam-nos advertido de que tremendo castigo os 
ameaçava, se nfto rompessem de uma vez para sempre com a 
pratica de tao criminosas abominações. 
Ma» ceROS e surdos, os Muras nao os viam e nem os ouviam. 
K pois um dia, em meio das festas e das dansas e quando mais 
quente fervia a orgia, tremeu de súbito a terra e na voragem das 
aguas uue se erguiam, desappareceu a povoação. 

A» alias barrancas, que ainda hoje alli se vêm, attestam a pro- 
tuiuUdade do abysmo em que foram arrojados a povoação e os 
réprobos.... 

l>e|H>is. muitos annos depois, foi que começou a surgir a actual 
itovimçao, que ainda não pôde attingir aográo de importância da 
úxíifi fora submerffida. 

foram do novo nabital-a os Muras; mas em breve, por entre a 
escuridão da noite, começaram a ouvir, tranzidos de medo, 
%»\\\o o cantar sonoro de gallos, que incessante se erguia do 
fundo das aguas. 

(Umsultados os pages venerandos, que perscrutávamos segre* 
dos do destino, declararam estes queaquelle cantar de gallos, ou- 
vido cm horas mortas da noite, provinha daquelles mesmos ango- 
Im^imaSt que deploraram outr*ora a misérrima sorte da povoa- 
ção submergida e que sempre protectores dos filhos da triou dos 
Mums, serviam^se do canto despertador dos gallos da Sapucaia^ 
unN'<i (galUnheiro, em língua indígena) submergida, para recor- 
dan^ui o trentondo castigo por que passaram seus maiores e des* 
viarcm a nova geração do perigo de sorte igual. 

K* esta a lenda que deu origem ao nome da pequena povoa- 
ção— jMptKVto-oroM* 



- 125 — 

< Entrando pelo rio Madeira se deixará por estibordo o 
Amazonas, e com proa ao S O se naverara pela margem 
oriental acima, encontrando nella, em distancia de li lé- 
guas e meia a boca doríoTapinambarana 

< Navegando mais li léguas se chegará á vílla de Borba, e 
largando deste porto acima, que pela distancia de quasi 2 lé- 
guas vai na direcção de Entornando depois ao seu rumo ge- 
ral de S O, se deixará por estibordo a boca do furo Uáutás, que 
dista quatro léguas e meia da vílla de Borba. Deste furo para 
cima corre o rio no rumo do S, na distancia de quasi sete 
léguas, em que se encontram notáveis praias e ilhas, sendo 
a primeira a da Mandiúba, logo adiante duas parallelas, cha- 
madas de Garapanatuba; e quasi onde o rio torna ao seu 
rumo geral está a ilha do Jacaré, e duas léguas superior se 
acham as ilhas de José João; deixando mais por estibordo a 
bocado rio Aripuaná, que fica 17 léguas acima do Uautás. 

«Da referida boca do Aripuaná, se segue a viagem no rumo 
geral, encontrando logo as ilhas das Araras, que tem quatro 
léguas de comprido, e a costa da margem oriental, por onde 
se navega, de altas barreiras de ocres de differentes cores, 
desembocando nella, defronte-la ultima ponta das sobreditas 
ilhas, o rio do mesmo nome. 

< Proseguindo a viagem se encontrará duas léguas adiante 
a ilha Uruá, que tem outras duas léguas de comprido, e 
mais duas superior em a mesma margem oriental a boca do 
rio Matanrá, que fica distante do rio Aripuaná dez léguas 
6 meia. O rio Mataurá, communica-se com o Tupinambarana 
pelo rio Camuam 

< Da boca do Mataurá para cima leva o Madeira a direcção 
de O por quasi três léguas, e delias para diante busca outra 
vez o seu ramo gorni até a boca do rio Anhangatinjr, que 
dista do Mataurá cinco léguas e meia. No meio deste inter- 
vallo se acha n ilha do Genipapo, que tem duas léguas de 
extensão, com grandes praias, e trabalhosas correntezas. 

t Da foz do Anhangatiny, segue o rio a direcção de O por 
quasi duas léguas, voltando depois ao seu rumo geral até a 
boca do rio Manicoré, que desagua no Madeira em a mar- 
gem oriental, sete léguas distante do Anhangatiny. Entre a 
distancia em que ficam estes dous rios, se encontram as duas 
grandes ilhas e praias chamadas do Matupiri e Mouraça- 
toba. 

«Continuando a viagem pelo Madeira acima, rumo de O 
até o rio Capaná, que fica também sete léguas e meia dis- 
tante do Manicoré, se encontram varias praias, e se fazem 
diversas voltas, sendo uma tão opposta, que logo de S se 
vira ao N, onde se acham as ilhas conhecidiís pelo nom^ de 
Jatuaranas, que são três, e comprehendem três léguas na 
curva, que alli descreve o rio. 

< Proseguindo da boca do rio Capaná para cima, se nave- 
gará no rumo de E a distancia de duas léguas, fazendo de- 

Sois delias proa de S por ser esta a direcção, que o rio Ma- 
eira aqui leva com algumas pequenas voltas. Três léguas 
superior á dita boca, se encontrarão as ilhas de Urupé, que 



— 126 — 

oin daas le^^ua.sde comprido, c cinco acima está a ponta da 
ilhado Marmcllo, que tem tres léguas de extensão, ficando 
pouco anios do seu extremo superior, na marejem oriental, 
a hora do rio do Marmello ; o duas léguas acima^ as duas 
ilhas iUi Aruapiara, que tem duas léguas de comprido, e for- 
mam tambeu) u hoca do no do mesmo nome, qne se deixará 
por bombordo no moio das referidas illias, distante do Ca- 
paiiá onze loi/uns e meia. 

« Do extremo superior da ultima ilha Aruapiara se navega 
com proa de O na distancia de seis léguas, e continuando 
duas mais com rumo geral de S O se encontrará na mar- 
gem Occidental á bo?a do pequeno rio Baôtas^ ficando meia 
légua antes a boca do igarapé Jarauary. Pouco acima da 
Loca do dilo rio fíaôiasse encontra uma ilha do mesmo nome, 
n proseguindo avante com proa deS a ilha dos Muras^ que 
fica i^eía léguas do rio Baôtas e quatorze distante do Arua- 
piara. 

« Seguindo viagem se costeará a ilha dos Muras pela parle 
oriental, aonde se encontram muitas praias e grandes cor- 
rentezas, ainda que menores (jue as do outro lado. Esta ilha 
notável tem a sua direcção de N a S, com quasi.tres léguas 
de compriílo e uma de largo. Do extremo delia se navegará 
com proa de O, por sor o rumo, que alli leva o rio; uma 
legua acima quasi á torra de bombordo, se encontiarão a$ 
tres ilhas chamadas de Sinto António; e tendo navegado 
naquelle rumo a distancia de quatro léguas, corre o rio ao 
S, com cuja proa se avistará logo a ilha dos Pagãos ou Sa- 
raima, e uma legua superior a ilha dos Piriquitos, que tem 
uma legua de comprido. Duas acima está o igarapé Pirayuara 
com uma ilha immediata, que tem o mesmo nomee uma le- 
gua do extensão. 

« Da bocca deste igarapé se dirige o rio outra vez para O, 
em (|uese demora a distancia de duas léguas para torner ao 
S. Tres léguas acima daquella ultima ilha se encontram a das 
Piraybas, que tem duas léguas de comprimento, formando 
todas ellas grandes e vistosas praias. Outras tres léguas 
acima das Piraybas principiam as ires ilhas das Arraias, que 
se acham ao longo do rio com duas léguas de extensão. Su- 
perior a ellas, na distancia de uma legua, se chegará á boca 
do pequeno rio das Arraias, que fica na margem occidenlal o 
disianle da ilha dos Muras vinte duas léguas. 

t Proseguindo viagem mais duas léguas com proa do S, 
volla o rio pela extensão de uma legua com a direcção de S E, 
aonde se acha a ilha chamada do Batuque, em que o rio torna 
ao S. Acabada a dita ilha, que tem uma legua de comprido, se 
segue logo a das Flechas coin duas léguas. Ambas estas ilhas 
se acham encostadas á margem oriental do rio. A quatro 
léguas e meia acima das Flechas está a bocca do rio ou iga- 
rapé Maissy ; e legua e meia superior se acha a do rio Ma- 
chado, ambos na margem oriental e este distante do rio das 
Arraias onze léguas e meia. 

« Desta situação para cima leva o rio Madeira o rumo do 
S S O, e a uma legua de distancia se acha a bocca do igarapé 



— 127 - 

do Jacaré. Tem defronte uma ilha do mesmo nome, bem 
como o Machado outro também do seu nome. Segue 
a ilha dos Papagaios, e depois desta a das Abelhas. As 
referidas ilhas ficam diminuídas na passagem do verSo 
porque seccam os igarapés ou canaes, que as separam da 
terra firme. Acima da bocca do Jacaré duas léguas se 
encontra uma grande praia, cuja latitude austral é de â°9\ 
Do fim da referida praia se navega com proa de S O até o iga- 
rapé Ifaiacypé» que fica por bombordo na distancia de três lé- 
guas, e voltando aqui o rio a O so encontra légua e meia su- 
perior na margem austral a bocca do pequeno rio Pauanéma 
e á uma legua mais em a mesma margem o igarapé Pun- 
cam, da bocoa do qual volta o rio ao S, ficando pouco mais 
acima duas ilhas do mesmo nome. Vogando mais quatro lé- 
guas e meia se deixará por bombordo a bocca do lago ou 
igarapé Puinaré, defronte do uma ilha do mesmo nome, 
desaguando duas léguas superior em a margem oriental do 
Madeira o rio Jamary, que dista do Machado quatorze léguas 
e meia. 

« Partindo deste lugar, rio acima;; com proa de S, se encon- 
trará a uma legua do distancia a ilha de Mariuhy, que tem 
meia legua de comprido, e a pouco mais de uma fica a ilha 
das Guaribas^ sendo a costa de E destas ilhas do grandes e 
altas barreiras, com saas pontas do pedras, que formam tra- 
balhosas correntezas. 

«Da ilha das Guaribas corro o rio para O c nesta volta se 
deixa por bombordo a tapera do Trocano, lugar cm que re- 
sidiram ultimamente os mor • dores da viila do Borba. 

< Navegando mais uma legua se encontram as ilhas do 
Mandiby, que comprehcndem quasi duas léguas na sua ex- 
tensão. Delias volta o rio para o seu rumo geral de S O, e su- 
bindo por este rumo pouco mais de duas léguas se encontrará 
a famosa praia do Tamanduá, aonde se fazem as mais vanta- 
josas pescarias de tartarugas, por irem a ellas muitas de- 
50Tar desta praia até pouco mais de uma legua so dirige o 
rio para o O, e vencida cila prosegue por mais de três léguas 
a direcção de S, ficando cm ambas as margens as boccas de 
muitos lagos até a primeira cachoeira, chamada de Santo 
António »|ue dista do Jamary 12 léguas e meia. 

c Acabada de conseguir a pas<;agem da dita cachoeira^ so 
proseguirá avante quasi uma legua pelo rumo do S. e vol- 
tando a distancia de outra com o rumo de S O, se encontrarão 
muitos o allos penedos, que atravessam o rio, e formam 
nelie uma grande correnteza o sirga, a que chamam do Ma- 
caco, a qual se passa com bastante trabalho, ficando pouco 
mais acima uma praia, aonde §e costuma descançar, já dis- 
tante da dita cachoeira de Santo António duas léguas emeia. 

• Proseguindo o rio e correntezas acima, se chegará á se- 
gunda cachoeira, chamada do Salto, aonde é indispensável 
descarregar as canoas e estivar o varadouro, que tem mais 
de 250 braças de extensão pela falda de um monte ou morro 
delagedo eterra^ que ha de ter mais de 60 palmos de alto, 
com áspero declive. 



tH^^U cachoeira se nave^r^ com proa de S, encontrando-se 
uma le^a acima iofioltos penedos dispersos por toda a lar- 

fora do rio» o qa*" produz trabalhosas correntezas c enfa- 
vkQhas Tolla$« atese nave^rem três leji^uas e meia de ca- 
Riiiiho« aonde se encontra a terceira cachoeira, chamada dos 
Mvtrrinhoc>« quo se costuma yadear pelo canal do meio e 
^uasi sempre em meia carga. 

«Vencida pois a passagem desta cachoeira seprosegue uma 
klirua de Tia^m com pH^ de O, e mais três e meia a de S O, 
en<vQiranio*$e nesta distancia uma grande ilha, em que ha 
forlf$ correntezas, e na margem oriental do Madeira a boca 
do rio Jaciparâ ; delia para diante torna aquelle rio á di- 
T^*dio de O ; navegando pouco mais se encontram três ilhas 
cvnbecidas pelo dito nome e bastantes correntezas. Tresln- 
iraas acima $e aeha uma ilha chamada de SanfAnna, aonde 
Tolla o rio ao SO; encontrando-se duas léguas superior, na 
mar^ra vxvidentaK a boca do rio Maparaná, e uma acima 
t quarta cachoeira^ conhecida pelo nome de Caldeirio do 
Infernas <^tto dista da cachoeira dos Morrinhos dez léguas. 
«l>a $ahida do dito Galdeirio corre o rio no rumo de S 0^ e 
havendo tn^r elle navegado uma légua se encontra a quinta 
each\vira chamada do Giráu 

«Ua dita caoho.»ira se pnvseguírá com o mesmo rumo a dis- 
tancia de duas legu)s^ vencendo-se nellas trabalhosas cor* 
Tenteia» ; e mudando depois o rio para o S até a distancia de 
cimv le^ua^emeia» $e encontrará a sexta cachoeira, cha- 
luavla di>s Ires Irrolos, que dista do Girau sete léguas e 
meia, 

«Ven%'ida e^ta cachoeira» se navegará com proa de O a dis- 
tancia de quatro léguas pelo Madeira, que nesta paragem é 
wuiiv^ estreito e guarnecido pela costa austral de collinas, 
que terminam na margem do rio e peln septentrional de 
lerra.'^ elevadas, havendo no alveo do rio differentes penedos 
K^ra d'agua« uue produzem incommodas correntezas até a 
9i^tlma cachoeira, chamada do Paredio^ a qual dista da sexta 
emvHUegua$emeia. 

« Com a pr(U a O se continua a viagem, vencendo repe- 
tMa^i eorreutea^s »tê a oitava cachoeira, conhecida pelo nome 
da IVderneira, distanie da do Parodio três léguas. 

«Acabada eaia trabalhosa passagem se prosegue avante com 
\^ rumo de 8 $0» deixando em a margem occidental, dis* 
til^te quatro leguas^a bocadorío Abuná. 

« IVvile íucar volta o Madeira no rumo deS E, e vencidas 
e%'m vata puV^ quatio lesmas o meia, so muda para a do S 
|H^r mala duas léguas a meia, com que se chega á nona ca- 
eh\^)r«. chamada das Araras, que fica li léguas da Peder- 

«I^^Yguíudo viagem e rumo do S com a opposição de con- 
tinuada» «H^rrenteaas, se ohega á decima cachoeira, intitulada 
^o Hibi^irl^ que H\i situada três léguas acima da das 
a isAi A^ 

•Yeiiei4i»^<^i>gf*ld«'« difllcaldades daqueiia horrorosa 



— 129 — 

cachoeira, que tem duas lepruas de com|)rído, secontinuará 
a viagem por entro penedos e corrcntt^zas até a distancia de 
meia légua, aonde se encontra a undécima cachoeira, cha- 
mada da Misericórdia. 

«Da dita cachoeira se diriíre o rio polo rumo do S até a de- 
cima segunda cachoeira, conhecida pelo nome do Madeira, 
que dista da Misericórdia duas léguas. 

cVadcada que seja aquolla cachoeira, so navega com proa 
de S até a boca do rio Mamoré, que fícu duas léguas distante 
da cachoeira do Madeira, e deixando por estibordo na di- 
rec(^o de S O o rio Madeira, se prosegue avante a distancia 
de uma iegua, com o mesmo rumo do S, flcando por bom- 
bordo um pequeno rio d'agua negra e meia Iegua superior 
a decima terceira cachoeira chamada das Lages. 

«Proseguindo viagem, se chegará com Iegua e meia de ca- 
minho á decima quarta cachoeira, denominada do Pau- 
Grande. 

cLargando a dita cachoeira agua acima e rumo do S se en- 
contrará na flistancia de duas léguas a decima quinta ca- 
choeira, conhecida pelo nome das Bananeiras. Nesta ca- 
choeira se varam quasi sempre as canoas por terra, tendo o 
rio mais ou menos agua, o qual neste lugar é larguissimo 
e cheio de innumeraveis ilhas, pedras, correntezas e saltos, 
sendo esta cachoeira e a do Rihairào as duas mais escabrosas 
e extensas, pois em qualquer das g? andes sirgas ou saltos, 
de que se compõe, arrebentando o cabo por <|ue se puxa cada 
uma das canoas, não só se farão em pedaços, mas difflcul- 
tosamente se salvará a gente que nellas fôr. 

«Vencida a dita cachoeira e algumas correntezas que se 
lhes seguem, se navegará com proa de E a di«tanciu'de uma 
légua ; e com proa de S Iegua e meia para chegar á decima 
sexta cachoeira, chamada do 6uajará*assú. 

« Conseguida esta cachoeira e as seguintes correntezas, que 
enchem quasi todo o quarto de Iegua de distancia, se acha n 
decima sétima cachoeira, intitulada Guajará -mirim, qu(*. 
sem notável trabalho se vence, proseguindo avante até uma 
ilha, que o rio alli forma, e em que termina uma légua de 
distancia. 

< A respeito de cachoeiras não se pôde dizer positivamente 
nem o seu estado, nem o tempo, que se gastará em passar 
cada uma delias Dous palmos d'agua mais ou menos lhes 
fazem uma considerável diíTerença, pois esta pequena quan- 
tidade basta para diminuir em umas as sirgas e saltos, faci- 
)itando-lhes breves canaes, e em outras fazer succeder tudo 
pelo contrario, augmentando a ruina das canoas e a demora 
dos seus concertos; não fallando ainda nas moléstias, que 
provém aos Índios, quando andam dias continuados tra- 
balhando dentro d'av:ua, mormente se o rio traz repi* 
qoete. 

« Deixando pois a dita ultima cachoeira, se navega com o 

romo de S E até deixar por bombordo a boca do rio Paca- 

noya, e levando deste lugar a direcção doS, e interpolada 

de muitas o diffnrentes voltas, se chegará a duaa pequenas 

17 



— i30 — 

iUii$« c<Mibecld«$ pelo nome das Capiuaras, qae ficam nove 
kiraas i^ ires quartos distantes doGuajará-mirim. 

« l>as ditas Ilhas para cima augmenta o rio tantas e tão 
sUiVt\<;$iTas voltas, que seria confusa a sua narração, sendo 
c''ltrl^ ellas as de maior extensão as S e S E até chegar á foz 
do rio Mamoré^ que fica 16 léguas e meia das Capinaras. » 
Huitos e importantes tributários levam suas aguas a cn- 
i:r\>$»r o volume das do 4Madeira. 

Os mais notáveis d'entre ellessão: o Aripuaná. Mariaípauá» 
llataurá, Anbangatini ou Uatinínga, Manícoré, Rio dos Mar- 
iiioIK^s ou Araxiâ, Uruapíara, Machado ouGIparaná, Jamary 
o Oapanan. 

O rio Aripuaná lança -se na margem direita do Madeira. 
St'gue no rumo de S terá de largura na foz oitenta braças 
pouco mais ou menos ; estreita um pouco acima e vai com 
DIO a 60 braças ato as suas cachoeiras, que são cinco e distam 
da fÔ£ 40 léguas proximamente. Este rio cursa muito longe 
o póilosor navegado, durante o inverno, em barcos que de- 
mandem de 8 a 10 palmos d'ngua. 

Mais clara e do melhor gosto que a do Madeira (1) ê a agua 
deste rio. Dizem oi naiuraes que ha extensas campinas nas 
cabeceiras. As copahybeiras abundam nas margens deste rio, 
de seis léguas da foz em diante. 

Na parte superior tem os índios Araras algumas aldôas 
assim como três tríbus denominadas Hiauareti-tapué, Anera* 
tapui o Matanaús, que alguns práticos suppõe serem rami- 
ttcacÕes da primeira. 

Os i4ffl/aí são intelligentes e dedicam -se á agricultura, 
plantando o necessário á sua alimentação. Durante algum 
&wpo, diz o Sr. Dr. Silva Coutinho, estiveram aldeados 
H^n^a do 200 nas proximidades da villa de Borba e com suas 
Í;jírouras abasteciam o povoado. 

i)mMariaipaua lança-se na margem direita do Madeira, 
^«do30 braças de largura na foz. A sua extensão é calcu- 
Maom mais do 30 léguas. Em suas margens abundam as 
i^/tf^biboiras e castanheiras. 

\)^Xi^ àlataura, que também se lança na margem direita 
t|u Madeira, segue no rumo de S S O. t Tem 40 braças de 
lUlH^r*» dii o Dr. Silva Coutinho, e fundo durante o in- 
v^'M4^ i>ara canoas de 6 a 8 palmos de calado. O major Serra, 
ctfUtiUua o mesmo Sr. Dr. Coutinho, diz em seu diário que 
o^t# noi^ommunica-se com oCanuman. Os práticos dolugar^ 
a ({Uviíi consultei, nada sabiam a tal respeito. Esta commu- 
uicAv^u parece-me impossível por causa do Aripuaná; rio 
(luo oiiiiMi muito longe. Era preciso que o Canum&n pas« 
^^^^ jtWiu das cabeceiras do Aripuaná para communicar-se 
rukM o Midoira por meio do Mataurá, circumstancia que não 
õiMUílv provável. • 



lO A» affttas do Madeira, na parte superior, s&o barrentas, t 
HiMMlnor»Aquam daa cacboeiras, são de um verde claro. 



-131 - 

Na pano superior do Maiaurá ha algumas malocas de 
Muras. 

A tribu dos Muras é a que mais espalhada se acha nas mar- 
gens do Madeira e de seus afflucntes. Pretendem-se oriun- 
dos do Peril. São de estatura regular c em geral barbados. 
Gozam de má reputação. 

c O Mura^ diz o Sr. Dr. Coutinho, não tem dignidade; é 
ladrão, velhaco, bêbado e vadio. > 

O rio Anhangatini ou Uatininga é de pequeno curso. E' 
preta a côr de sua agua^ assim como a do Manicoré, 

O rio dos Marmelles ou Araxiá entra na margem direita 
do Madeira com 80 braças de largura. A 30 legues da foz 
encontram-sc 7 cachoeiras , uma das quaes tem 50 palmos 
de queda no tempo da maior vasanto. Pelas outras passam 
canoas de mediana grandeza, sem muito incommodo. Acima 
das cachoeiras, não mui distante das margens, ha serras que 
não são altas. O rio entra depois em um grande campo, que 
se prolonga á direita e á esquerda , o qual é de arôa e tem 
uma rara vegetação de capim, que secca logo no começo do 
verão. Em compensação abundam algumas arvores fructí- 
feras, comu cajueiros, axiuás, muruxis, sorvas pequenas, etc. 

Da margem «^squerda do Tapajoz prolongam-se grandes 
campos da mesma natureza que estes e a noticia das cam< 
pinas do Aripuaná, do Abacaxis, do Canuman e outros 
rios, levam a crer que os campos occupam todo o inte- 
rior (1). 

O no dos Marmellos é também rico de copahvbeiras na 
parle superior e de seringueiras nas proximidades da foz. 

Nelle vivem os indios Turás, Muras, Araras, Matanauis o 
outras tribus desconhecidas. 

As aguas das cabeceiras deste rio^ diz o Dr. Silva Coutinho, 
são da côr de café. 

O rio Machado ou Gi-paraná (machado do rio) é maior que 
o dos Marmellos. De seis léguas da foz em diante a largura 
torna-se três a quatro vezes maior. Encontiam-se algumas 
ilhas de grandeza mediana, ricas de seringueiras e casta* 
nheiras. Contínua o rio por uma campina, que dizem os 
naturaes ser o prolongamento da dos Marmellos. 

Antes de ahi chegar o ainda na região das florestas, ha 
sete cachoeiras, das quaes só uma tem ires palmos de queda 
no verão; as outras passam-se bem. 

Muitas aidôas de Turds^ Araras, Matanauis e Urupás estão 
estabelecidas nas margens deste rio, que possue em abun- 
dância as melhores drogas do paiz. 

Paliando deste rio, diz, em sua Navegação ao Rio Madeira, 
o Sr. J. Gonçalves da Fonceca (2) : 

« Entrega este rio as suas aguas ao Madeira por entre uma 
ribanceira alta : divide-se em dous braços, por lhe dar esta 



Íi) Relatório do Dr. S. Coutinho sobre o Madeira, 1861. 
S) Este livro foi mandado publicar pola Academia Real das 
encias de Lisboa, em 1820. 



— 132 — 

fif^Qra uma ilha de poaca largara, porém de dilatado com< 
primento, que correndo com o ramo do mesmo Gi-paraná, 
dizem ser necessário dous dias de viagem para a vencer. 
O canal da parle de lesu^ tem de largura na boca, entre a 
terra e a pontn da ilha, 257 varas portu$?aezas, e o da parte 
de oeste tem 177, que todas fazem 43i, boca total do mesmo 
rio, o qual naveí»ando.se por espaço de duas horas mostrou 
ser o sou rumo sueste eá leste é a sua entrada. Obaervou-se 
a altura e se achou estar a sua desembocadura em nove 
gráos de latitude austral. > 

O nome de Gi-paraná ou machado do rio, lhe puzeram os 
indígenas, por ncharem nelle uns mariscos semelhantes ás 
ostras e bastante fortes, cuja* conchas lhes serviam para 
cortar páos miúdos. 

O rio Uruapiara é de agua preta e cursa longe. Propria- 
mente nao é ellc, e sim o lago do mesmo nome, que se lança 
no Madeira. Nos terrenos banhados por este rio abundam 
as seringueiras. Em suas margens vaga uma parte da tribu 
dos parinUntins, 

Em extremo, selvagens e indomáveis, os parintinlins 
têm-se mostrado até hoje avessos e hostis a todo e qualquer 
contacto civilisador. 

São antropophagos e vivem em guerras continuadas com 
as trihus vizinhas. Os mundurucús são os seus mais en- 
carniçados inimigos e os vão de dia em dia dizimando. Diz 
o capitão-tenente Amazonas, que a nação dos parintintins, 
que passa por muito bem conformada e clara, tem a extra- 
vagância de se deformar, estendendo artificial e excessiva- 
mente os beiços e a^ orelhas. 

Pela ferocidade earitropo|jhaKÍa, dizoDr. Silva Coutinho, 
a tribu dos parintintins dislingue-se entre as outras. Esl»'s 
Índios parece que declararam guerra á humanidade. A sua 
flexa vôa ao indíg^^na, assim como ao branco e ao preto ; 
todos são inimigos. Elles não querem relações com os civi- 
lisados, fogem de encontral-os, talvez com razão. Pessoas 
antigas e praticas informaram-me que entre os parintintins 
ha desertores, aos quaes attríbuem em parte o procedimento 
dos Índios. Também dizem que esta tribu habitara outr'ora 
nas proximidades do mar, porque nas aldôas abandonadas 
tem visto algumas pinturas de peixe do mar e de quadrú- 
pedes, que não viv<*m nas matas. 

No centro da aldôa ha uma casa reservada, no topo áa 
algumas estacas fincadas no interior é que se acham pin- 
tadas as figuras dos anlmaes, que são necessariamente os 
Ídolos do culto. Se assim é, os parintintins immigraram do 
littoral, depois de muito maltratados, e agora no Madeira 
exercem a vingnnç.i contra qualquer pessoa, suppondo per- 
tencer á raça dos seus perseguidores. 

O parintintím é laborioso, inteilígente e muito dado á 
agricultura; planta mandioca^ milho, arroz, batatas, etc. 

Dizem todos que é a melhor gente para o trabalho. 
E' pena que se mostrem tão hostis ao contacto da cívili" 
saçáo. 



/ 
— 133 — 

O rio Jamary, que se lança no Madeira com 240 va* 
ras de largura, é maior que o rio dos Marmellos. Tem 
fundo de 35 a 40 palmos pelo inverno, e em suas margens 
abundam as drogas mais valiosas do paiz. Os parintintins 
têm muitas aldèas na parte superior eos Turás na parte in- 
ferior. (!) Com 12 dias de viagem da foz, encontram-se gran- 
des campinas. Os práticos, diz o Dr. S. Coutinho, dão no- 
ticia de uma tribuque vaga nas cabeceiras do JAmar]r, que 
tem a cútis clara e os cabellos avermelhados. Estes indios 
são mui bravios ; não procuram relaç5es, nem ainda com os 
outros indios. Só por duas vezes têm sido vistos. 

O rio Capanan é de agua preta, tem 50 braças de larffura^ 
proximamente, e fundo para canoas, que demandem de 8a 
10 palmos. Lança-se na margem esquerda do Madeira. O 
major Serra diz que este riosecommunica com o Purús no 
fim de 12 dias de viagem. Está porém quasi averiguado que 
semelhante communicação não pôde existir. < A pequer.a 
differença de nivel que apresenta o terreno entre os dons 
rios, diz o Dr. Silva Coutinho, a grande <'levação das aguas 
pelo inverno, pudem occiísionar a abertura de ranaes, que 
partem do que tem o leito mais alto. E' o que se vô entre o 
Japurá eo Solimões, na parte superior e Inferior, entre o 
próprio Madeira e o Amazonas As mesmas razões concor- 
rem para a reunião das aguas das chuva<( no interior, for* 
mando lagos, que durante n inverno vão desaguar nos rios 
directamente ou em canaes, que os conimunicam. Para 
exemplos temos os lagos de Anamá e Pinrara, no rio Soli- 
mões ; o de Silves, no Amazonas e outros muitos entre o rio 
Branco e Padauary, entre o rio Negro c Japurá. A commu- 
nicação que dizetn haver entro o Purús e o Madeira, abaixo 
das cachoeiras daquelle e arima das deste, sem o menor em- 
baraço, parece impossível. O terreno eleva-se da margem 
do Amazonas para o interior ; a difTerenç» de nivel pôde não 
ser distribuída uniformemenie, mas não deixa de existir; 
o hraço que parle do alto Madeira a confluir no Purús, sendo 
franca a navegação deste aié a foz, ha de correr necessaria- 
mente scbre um plano inclinado, tanto quanto ô o do Ma- 
aeira na extensão das cachoeiras, com pouca differença. A 
queda tornar-se-liia insensível, se por ventura o raminho 
percorrido fosse muito grande e neste caso nadn se ganhava 



(1) Os Turás ou Toras, entre outros costumes singulares, têm 
o ae enterrar a creança de peito, cuja mal morre amamentanao-a. 
Se morre também o pai, com elle enterram o filho, principal- 
mente se está doente. Com marido e mulher fazem a mesma 
cousa. Ha annos um indio já meio civllisado, voltou paraa tribu 
6 alli casou-se ; mas acontecendo enfermar gravemente a mu- 
lher e vendo-se em perigo de ser enterrado com ella, teve de 
fugir, levando-a comsigo, efoi procurar abrigo na fregnezia de 
Borba. 



— 13i — 

eom a turegadio pelo Parus. A distancia, pelo cootrario, 
entre elle e o Madeira é pequena, serrando aljsrons práticos, 
e pelo qne se pôde conclolr da disposi^o hydro^aphic^ 
desta parte do Talle do Amazonas; por conseqaeocia para 
chegar-se ao ponto superior das cachoeiras do Madeira t^m- 
se de Teneer as mesmas dífflcaldade?^ qnér por um, qnêr por 
ontro lado. (i) 

O rio Madeira tem mais de 50 ilhas até a cachoeira de Santo 
António. Mnítas sio grandes, tendo 9, 3 e até 4 leçnas de 
comprimento. AdasAroreué amais importante peia irra n- 
deza e abnndancía de seríngaes, como porque tem mniias 
ferras altas, onde não chegam as enchentes ordinárias, razão 
por qne é poroada . 

Eis a relaçio das ilhas^ segando ainda o Dr. S. Coatinho: 



deaomínada— Capitar? 

— Uracurítaba 

— Sebastíio 

—Rosário 

—Valentim 

— Maracá 

— Aximin 

— Mangíric2o 

— Guaiaba 

— Trucaná 

—Borba 

— Guajará 

— Mandihy 

— Carapanãtaba 

—Sapucaia ou Jacaré. 

— José Joào 

— Arípuaná 

-Araras 

-Uruá 

— Miriíi 

— Genipapo 

— Matopiri 

— Murassutuba 

— Jacuarana 

—Onças 

—Jurará 

— Marmellos 

— Uruapiara 

—Baetas 

—Muras 



com braças. 

too 

i.500 

600 

100 

i.200 

i.OOO 

50 

iOO 

200 

450 

70 

3.000 

200 

300 

80 

70 

12.000 

4:500 

i.500 

3.000 

i.500 
1.500 

200 

100 
4.000 
2.500 
9.000 
i.500 



(l) BtkUorio tolfre o rio Madeira, pdo Dr. S. QoiUinho, 1861. 



— i;{:; — 



3 
i 
i 
i 
i 
3 
i 
i 
1 
3 

i 



» 



•Santo António «. '^ 



■Parré 

-Piriqailos 

-Piranyuara 

-Pirahybas 

-Arraias - 

•Flechas 

-Sem denominação (1) 

•Puncan I ^ 

•Mariay lo 

•Guaribas jS 

-Mandihy ; 



•y. 

CS 



CO 
O 

s 

o 

MS 



3 

to 

CO 



Ha no rio Madeira 15 cachoeiras e 3 correntezas. Conta- 
vam 21 cachoeiras os primeiros exploradores e 19 os mo- 
dernas por considerarem daas — oGuajará^assú eoGuajará» 
mirim, (|uo constituem uma só cachoeira. 

A rocha quecoastitue as cachoeiras até a dos Três Irmãos^ 
é de granito de difTerentes espécies, apparecendo d'ahi por 
diante o micaschisto com veeirosde sílex, alguns de grande 
força, como na cachoeira da Pederneira, onde perfeitamente 
se distingue o contacto e o metamorphismo. (t) 

A pri.neira cachoeira ó a de Santo António, £' formada de 
pequenas ilhas ou antes de penedos, que se acham próximos 
á margem oriental do rio. 

A segunda cachoeira, e que é a maior e a mais bella do 
todas, é a do Salto do Theotonio. Tem alli o rio 250 braças de 
largura e o salto ó de 50 palmos aproximadamente. £f' for- 
mada por uma corda de penedos, que atravessam o rio de 
uma a outra margem, por entre os quacs se despenha a agua 
em quatro volumosos canaes, com altura de 50 palmos, 
pouco mais ou meno:*; e, como do nascente corre uma com- 
prida restinga de pefdras, paralleia á dita corda de penedos, 
Suo prende e encontra as aguas de três canaes, formam outro 
e pouca largura, que os corta. E' tão forte ahi a ^uéda das 
aguas, diz o Dr. S. Coutinho, que na parte superior parece 
que o rio está em vibração. 

A terceira cachoeira é denominada dos Morrinhos. £' for- 
mada por muitas e pequenas ilhas, acompanhadas de varias 
pedras, que estão dispersas por toda a largura do rio. Tem 
trcs*; canaes^ passando-se quasi sempre pelo canal do meio« 

A cachoeira denominada Caldeirão do Inferno, é formada 
por muitas ilhas. Tem uma infinidade de rochedos, todos 
com rumos diversos e oppostos. Tem três difTerentes sirgas 
e uma legua de extensão. 



(1) Creio aue estas 3 ilhas sâo: a do Jacaré, a dos Papagaios 
A fl das ÁòeOicLS 

(2) RekUorio doSr. Dr. A. de Barros Cavalcante de Lacerda, 
em 1865. 



— 136 - 

A cachoeira Caldeirão do Inferno, diz o Dr. S. Coutinho, 
nio desmente o seu nome, pois é um verdadeiro inferno toda 
ossa regiio, onde o viajante tem sempre a morte diante — 
oQ entre as pedras e correntezas, ou na ponta da setta do 
malvado Cartpuna, 

Estes índios acham -se nas cachoeiras mais perigosas e cos- 
tumam assaltares viajantes para roubarem, principalmente 
se a tripola^M é diminuta. 

Na opinlio dos que mais de perto os conhecem, os Cari' 
punas, além de indolentes, são depravados e de máos instin- 
ctos. Muitos viajantes têm sido victimas de sua indole per- 
versa. Âpresentam-se humildes, se a comitiva é grande, e 
prostam«se a auxiliar a varar as canoas nos grandes saltos ; 
pon^m» ostentam.se arrogantes e ferozes quando vêm pouca 
f^n\(^* Costumam pôr na frente as mulheres para mais a 
ireito poderem furtar, e adestram as criança^ desde os mais 
tenros annos nesse vergonhoso exercício. Pedem importu- 
namente quanto vôm, e até o que nSo Ihescahe debaixo dos 
olhos» e enfadam-se quando nSo satisfeitos. 

Astim, pois. em vez de auxilio, constituem um obstáculo 
1^ um perigo á navegação daquellas ainda desertas e remo- 
tas paragens. 

Andam os caripunas completamente nús, sendo pequeno o 
numero dos que vestem a cascara, que ó uma espécie de 
eamisola feita da casca d'arvore de que usam os índios da 
llollvla. 

|Mr toda a compostura trazem as mulheres uma folha 
verde com que occultam o distinctivo do sexo. Os homens 
a|uinham o cabello sobre a nuca, atam-no com uma tira de 
imnno ou de envíra e prendem na extremidade algumas 
i>f)iuiis de arara ou papagaio. Solta ao vento deixam as mu* 
lh««re« A madeixa, e uns e outros cortam na frente o ca- 
Imllo. ^^ 

Di^neendo ao ultimo gráo de abjecção, os caripunas ven- 
\\^\\\ temporariamente mulheres e filhas, violentando-as ao 
irulteo nefando, quando por ventura a elle se recusam. 

KiiM degradação, que raro se encontra nos povos sel- 
vaiien)i| tom suas raízes mais remotas nas relações dos an- 
\\^\\t viajantes de Mato Grosso. Os caripunas constituem a 
i^\i^ reupeito umu excepção infeliz entre as tribus do Ama- 

•^ma». 
O n^ritmna é dado com excesso á embriaguez, de que faz 

»m motivo de festa, para a qual se atavia com os seus me- 
u^r^H «nfelles. 

KxUnhem do milho e da mandioca o licor predilecto, mas 
^M^MI laml)em de outros fructos. Não fabricam a farinha, 
l^n foluam quando lh'a dão os viajantes. Extremamente 
uÀniuniTos, comem os bichos e insectos mais repugnantes, 
j^ Ím^IS remadores e fazem r!e casca de páo as canoas de quo 

fwWa ti Ágeis, correm longas horas atrás da caça sem ex- 
lÉÍfiMilitAr oanuço e só empregam a flecha, quando o ani- 
1^ WhlIgldOí Já quasi nio foge. Tem para si que o 



— 137 — 

homem civilisado não supportn, como exiles, o exercício^ em 
consequência do uso do sal. {{) 

c A nação caripuna, diz o autbor do Rateiro do Madeira, 
é inteiramente SMlvaijetn; tem o rosto mascarado de ver- 
melho, as orelhas furadas e nell&s trazem ossos; a cartilagem 
do nariz também furada^ atravessando por este furo um 
tnbo de gomma alambreada, muito dura, que terá três pol- 
legadns de comprido c quatro linhas de j2:rosso. Alguns têm 
amas curtas barbas ou bigodes, e do meio delles lhes pendem 
ans semelhantes tubos^ porém mais «grossos e compridos; 
ornam a cabeça com um circulo guarnecido de curras pennas, 
sendo as da parte posterior de araras, as quaes lhes cabem 
sobre as costas. São mui lo d^^sconflados, ladrões, robustos e 
fernies. • 

Uma légua acima do Caldeirão do Inferno encontra -se a 
cachoeira dennminadii do Girdu. Um quarto de le^ua antes 
de chefiar at^lla, encontra-se uma furando correnteza, estrei- 
tando-se mnis adiante tanto o rio, que precipitadamente 
lança as suas aguas por um salto de bastante altura e por 
diíTerentes canaes, havtfndo dahi para cima uma infinidade 
de penedos e de ilhas, que formam grandes correntezas muito 
trabalhosas. Tem um varadouro de 350 braças de extensão a 
fora o declive da subida e descida. 

Nesta cachoeira (Girau), diz o Dr. A. de Barros, a im- 
mensa massa de agua do Madeira escôa-se por um apertado 
canal de 20 braças de largura. Todo o perigo provém disso 
e não da differença do nivel, que nesse lugar não é grande. 

Na distancia desate l^ufuas e meín da cachoeira doGirau, 
encontra se a dos Três Irmãos. E' formada de uma grande 
quantidade de pontas de pedras unidas, encostadas á mar- 
gem austral do rio. 

O lugar mais bello do Madeira diz o Dr. S. Coutinho, é a 
reíTÍão dos Três Irmãos, Ahi levanta-se uma bella cordi- 
lheira de 800 palmos de aliara bordando o rio pela margem 
esquerda. 

A cachorira do Paredão, que dista cinco léguas e meia da 
dos Três Irmãos, é formada por duas pontas de pedra, uma 
encostada ao Jado direito e outra ao esquerdo, no extremo 
de duas ilhas, o que faz dous volumosos canaes. Termina 
esta cachoeira, pela porte esquerda, por onde se vadeia, com 
vários penedos em linha recta, que lhe são parallelos, eque 
lerão ii braças de comprimento e 3 varas de grossura, se- 
melhando ás ruinas de uma muralha arliGcial, o que deu 
origem á denominação de Paredão, Junto a elle passa um 
canal de pouco mais de 3 varas de largura. 

Continuando rio acima, encontra-se três léguas distante a 
cachoeira denominada Pederneira, que é formada de uma 
infinidade de pedras, as mais delias cobertas de agua, que 
formam precipitadas e espumosas correntezas. 



(i) Relatório doSr.Dr.Á.de Barros, de 186S. 
18 



Em si- 
cachooír 
pedras, • 
tosas. 

Apus > 
Uma IiL 
a annu;. 
encoiiir 
seguiul 

vale n ! 

SeffUi-i:. 

aoHili. 
O /,'. 
ríosii ; 
d'agu.'< 
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^. -jir:? devida á acção 
,.f.r LDíÍTmemente de 
.:;jr í» grande corrente 
" . :r. miin'"tí"í>* ílíertura 
:;/*. dPíTrande rio. Uma 
^ ..TifDie sentir, e produz 
^ ^-íiPfrslurií ii'ài\i e o solo 
,i roDíianeia desia vira- 
• 't* Am^í^na-" a^^radavel, e 
Jl',-^ ft' manhã, a inmpera- 
•;^ jt-raeiodia, é que oiralor 
|l..-jf.. ení razão da acção di- 
"" /.■„* d3« *^ ''oras da larde. 




^. Éí^nm* <*■•"* « prostração que 
).f ..II inteiro i\o calor exces- 

^«./^irsís. A opinião fi^oral com 

• ',j;,TBifêduá mais insalubres. 

^\i{*descreyti d.» um modo as- 

'- "\^ diíei» todos. E' certo quíí lia 

■ ** 'gitsíiin dizer, eslacicuarias »ni 

jpllij parece dtíver ser antes 




""Vi.*/!»!**!»''* serena e pniir,, (uiida, 
' •■'r,;i ilrantT dos Jja bitu nl.'s. E pois, 

" '' , jde J"-'Í'<"S *'^'"''* P'"a l)^'b^^r; é 
*-'^'' .,. servem emflm p.ira mil ili- 




-.--■»* V 5JJI ODi lento, mas infallivel ve- 
• *'"^" *'ildiante demora um i.ííara|)é lie auMias 
'^'^* ii leinpí^ríiiura não excede úo. 2P e 
-fií». «"'vr.- ..«i^ c3 t» ;iL'ratIn\-i'l • luirúf.i 



- -^ LíSda mais íS o .«^Tailavel ; i.orém. . . . 

.^ • ''lirinuue,»)Jar m:.isa^uns passos, lor 

•^^«irdfímawlo proveim-nie d(» habito. 

^ '" '^JrLtier c»i» a ^^'ua a febre do (jue é 

""wtt^^i nftstt ter" conserva um tal e(|uilibrío 
^^ Zi^SSio^mn lio agradável temperatura, que 



«■••»>» 






'.- 



— 141 — 

os reinos propagam e crescem com ama potencia admira^ 
vel. > 

O que é verdade também, o qae parece qaerer destraír de 
algama sorte a amenidade do clima^*-é qae nas cabeceiras 
da maior parte dos rios e em alguns lugares em que predo- 
minam condições anormaes, — as febres e as infecções pala- 
dosas ameaçam de morte os que mais ousados delle se aproxi- 
mam. 

Quaesquer porém que sejam as caasas que para isso 
concorram, é certo que poderio ser combatidas e des- 
truídas pelos esforços do homem. A' proporção que os rios 
se forem povoando, <]ue a lavoura se fôr desenvolvendo, que 
os pântanos forem desap[>arecendo, que u trabalho íatelli- 
geot(* do homem fôr conquistando as malas ; quando os va- 
pores cruzarem os rios e o sibilo da locomotiva levar a vida 
e o movimento a es>as solidões ímmensas, sem duvida de* 
sappurecerão essas causas da actual insalubridade, e o M a.- 
deira, assim como os demais rios, offerecerSo seus tbesouros, 
sem es$H apparato assustador de que ainda se revestem. 

Termino esta breve uotíría sobre tão importante rio, ci- 
tando as palavras que em 1867 dizia á presidência do Ama* 
Zonas o Dr. Silva Cnutinho. 

< O Madeira á o caminho natural da província de Mato 
Grosso e devia ser preferido ao Paraguay pela razão alta- 
mente politica de pertencer-nos exclusivamente 

A' grande vantagem politica deste caminho liga-se o 

interesse commercial e o desenvolvimento da industria e da 
civilísaçào, que é patente. Uma grande região, hoje deserta^ 
rica cm productos naturaes, seria animada pelos transportes 
e daria importância au paiz. A Bolivia só pôde desenvol- 
ver-sc com a navei^açào do Madeira. O Brazil. conceden- 
do-lhe este grande favor em tri»ca de outros, ainda lucra 
muít ). p »rque o rommercio df3sia republica virá a ser nosso, 
o território, que liojeconsiitue a província do Amazonas, foi 
por carta regia de 3 de Março de 1755 e que abaixo vai trans- 
cripta, — diri^Mtla ao governauor e capitão-geiíerul do Gr.^m 
Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furiado, pelos funda- 
mentos nella declarados, de ^e poder administrar justiça com 
maior brevidade e para evitar tielongas aos moradores do 
Rio Negro, elevado á categoria de capitania, subalterna da 
do Pará, com a denominação de capitania de S. José do Bio 
Negro. 

Eis a íntegra da dita carta regia : 

« Franci-co Xavier de Mendonça Furtado, governador e 
capitão general do Gram-Pará e Maranhão, amigo— £^m El- 
Rei vos envio muito saudar. 

c Tendo consideração ao muito que convém ao serviço de 
Dense meu, e do bem commum dos meus vassallos moradores 
nesse Estado, que nelle se augmente enumero dos lieis alu- 
miados das leis doEvanírelho, pelo próprio meio da multi- 
plicação das povoares civis e decorosas; para que attra- 
hindo a si os racionaes, que vivem nos vastos sertões do 
mesmo Estado, separados da no^sa santa fécatholic^ e até 



— lia- 
dos dictames da mesma natureza, e achando alguns delles 
na (Méftliiaeia das lefB divinas e humanas soccorroedeft- 
caufo leMporal e eterno» sirvam de estimulo aos mais que 
fiear^tii nos matos ^ b^^ra que, imitando tfo saudáveis 
eitemjblo6> busquem os mesmos beneficies e attendendo a que 
aquefli nécesisaria observincfa de lei, si nSo conseguirá para 
produzir tSo uteís effeitos, si a vastidão do mesmo Estado, 
que t6nto difiBcultè os recursos ás duas capitães do 6ram- 
Pári e de S. Luiz do MaranhSo se nSo se subdividisse em roais 
a!|fUUB governos a que as partes possam requerer para con- 
seguirem qtié se lhes adminiistré justiça com maior brevi- 
dade e Sem a vexação de serem obrigados a fazer tão longas 
e penosas viagens, como agora fazetn. 

« Tenho resoluto estabelecer um terceiro f^overno noa 
cOt^flVi^ òécidentaes desse Estado, cujo chefe será denomi- 
nado governador da Capitania de 6. José do Rio Neero. 
O tèrtritorfo do sobredito gevemi^ se estenderá pelas duas 
partes dò norte e dó ocêídente até ás duas raias septen- 
trional e oecidental dos dominios de HespaAha; e pelas 
outras dbaa partleD) do oriente é do meio dia lhe determi- 
namos os limites que vos parecerem justos e competentes 
para os fins acima declarados. 

1[ Para á i^denefa dt> meismo governador sou servido 
mandar erigir logo em vilia a atdêa que mandei novamente 
eÁstabelècfe^ entre a boca oriental do rio Javàrv e a aldôa de 
S. Pedro, uue administram òs religiosos de Nossa Senhora 
do Monte do Carmo. 

% fi \ptifr favorecer aòs metis vaesailòs que habitarem na 
referida villa, hei por bem conceder-lhes todos os privile- 
giei, prerogatlvas, isenções e liberdades seguintes : 

c Os oAcíaes da camará que forem eleitos na forma da or- 
denação deste reino, e servirem na referida villa : hei por 
bem que tenham e cozem de todos os privilégios e pre- 
roffativas que têm e ue que gozam os offleiaes da camará da 
cidade do Gram-Pará, capital desse Estado, pat'a o que se 
lhes passará carta em Tórma. 

1 Os oflleios de justiça da mesma villa não serão dados de 
propriedade, nem de serventia a quem não fòr morador 
nèllia. Entre os seus habitantes, os que forem casados pre^ 
ferirão aos solteiros para as propriedades e serventias dos 
ditos offlcios. Porém os mesmos moradores solteiros serão 
preferidos a quaesquer outras pessoas de qualquer prero- 
gativa e condição que sejam, ou destes reinos ou do Brazil 
ou de qualquer outra parte, de sorte que só aos moradores 
da dita villa se dôra esses offlcios. 

t E por mais favorecer aos outros moradores: hei por 
bem que não paffuem maiores emolumentos aos offleiaes de 
justiça ou fazenda do que aquelles que pagam e pagarem os 
moradores da cidade do Pará, assim pelo que tocaá escríçta 
aos escrivães, como pelo que pertence ás mais diligencias 
que os ditos offleiaes fizerem. 

c Por favorecer afndà mais aos ^bfedltós moradores da 
referida villa e seu destricto: hei por bem de os isentar a 



LUítótir :r."fc "***■ "^ .■^-^-t.mi-^-i* ir 



- 143 - 

todos de pagarem fintas, talhas, pedido; e quesquer oatros 
tributos; e isto por tempo de doze annos^ que terão princi- 
pio do dia da fundação da dita vílla, em que se fizer a pri- 
meira eleição das justiças que hão de servir nella: excep- 
tuando somente os dízimos devidos a Deus dos fructos aa 
terrados quaes deverão pagar sempre como os mais mora* 
dores do Estado. 

c E pelo que desejo beneficiar esse novo estabelecimento: 
sou servido que as pessoas que morarem na sobredita villa 
não possam ser executadas pelas dividas que tiverem con- 
trabido fora delia e do seu districto. O que porém se en- 
tenderá somente nos primeiros três annos contados do dia 
em que os taes moraaores forem estabeiecer-se na mesma 
villa, ou seja na sua fundação ou no tempo futuro. 

c Bem visto que deste privilegio não goze»! os que se le- 
vantarem com fazenda alhôa, a qual seus legitimos donos 
poderão haver sempre poios meios de direito, por serem in- 
dignos dessa graça os «[ue tiverem tão escandaloso e prejudi- 
cial procedimento. 

c E para que a referida villa se estabeleça com maior 
facilidade, e essas mercês passam surtir o seu devido effeito: 
sou servido ordenar-vos, que aproveitando a occasião de 
vos achardes nessas partes passando á referíJa aldêa, depois 
de haverdes publicado por editaes o conteúdo nesta e de ha- 
verdes feito relação dos moradores que se ofTe recém para a 
povoar, convoqueis todos para determinado dia, no qual 
sendo presente o povo, determineis o lugar mais próprio para 
servir de praça, fazendo levantar no meio delia o pelourinho: 
assígnando área para se edificar uma igreja capaz de rece- 
ber um competente numero de freguezes, quando a povoa- 
ção seaugmentar, como também ns outras áre<')s competentes 
para as casas das vereações e aujiencias, cadôas e mais offl- 
cínas publicas, fazendo delinear as casas dos moradoios por 
linha recta, de sorte quo fi(|uem larjras o direitas as ruas. 

« Aos ofllciaes da camará quo sahircni eleitos, e aos que 
lhes succederem ficará pertencendo darem gratuitamente o 
terreno que se lhes pedirem para casas e quintacs nos lu- 
gares que para isso sií houver delineado, só com a obrigação 
de que as diías casas í^ejam scmpro fabricadas na mesma 
figura uniforme pela parto exterior, ainda que na outra 
parte interior as faça cada um cnfíirnie lhe parecer, para 
que dessa sorte se cons -rve sempre a mosma formosura na 
villa e nas ruas delia a uicsma largura, que so lhe assi^^nam 
na íuniiação. 

« Junto da mesma villa ficará sciiiprc r.m districio. (|ue 
seja compf^tenle, não só para noll»^ so poderem edificar novas 
casas na sobredita forma, mas lambem para lo^rra-Jouros pú- 
blicos. Esse districto s;»- não podtMá cm tempo algum dar de 
sesmaria, nem de aforamento, em lo Io ou em parte, sem es- 
pecial ordem minha. íjue doro;'ue esta; porque sou servido, 
que sempre fique livre para us referidos eff'eilos. 

c Para termo da referida villa assígnarcis na sua funda- 
ção aquello território que parecer competente, e nelle po- 



« 144 — 

derão os governadores dar de sesmaria toda a mais terra que 
ficar fora do sobredito destricto; dando-a porém com as clau- 
sulas e condições que tenho ordenado; excepto no que per- 
tence á extensão da terra^ que tenho permíitido dar a cada 
morador, porque nos contornos da dita vília e na distancia de 
seis léguas ac redor della^ não poderão dar de sesmaria a 
cada morador mais do que meia légua em quadro^ para que 
augmentando-se a mesma vilJa, possam terás suas datas de 
terra todos os moradores futuros. 

c Permítto comtudo que dentro da sobredita distancia de 
seis léguas se conceda uma data de quatro léguas de terra 
em quadro para a administrarem osofficiaesda camará e para 
do seu rendimento fazerem as despezas e obras do conselho, 
aforando aquellas parles da mesma terra, que llies pa reitor 
conveniente, comtanto qun observem o que a ordenação do 
reino dispõe a respeito destes aforamentos. 

t Fora das ditas seis léguas, d.»rã<) os governadores as ses- 
marias na formas das ordens que tenho estabelecido para o 
Estado doBrazil. 

t Depois de haverdes determinado os limites do novo go- 
verno, que mando estabelecer, encarregareis delle interina- 
mente, até eu nomear governador, a pessoa que vos parecer 
2ue com mais autoridade, desinteresse e zelo do serviço de 
evs e mtíu e do bem commum daquelles povos, pôde exer- 
citar um lugar de tantas consequências e promover um novo 
estabelecimento, que é t§o importante. 

c Semelhantemente, depois de haverdes determinado a 
fundação da villa na referida forma, impondo-lhe o nomo 
de Villa Nova de S. José, elegereis as pessoas que hão de 
servir os cargos delia, como se acha determinado pela or- 
denação. 

c E hei por bem que na mesma vilia haja (por ora) dous 
juizes ordinários, dous vereadores, um procurador do con- 
selho, que sirva de thesoureiro^ um escrivão da camará, 
que sirva também da altnotaceria ; e um escrivão dn pu- 
blico judicial e notas, que servirá também das execuções . 

c O que se entende, emquanto a povoação não crescer, de 
sorte que sejam necessários nella mais offlciaes de justiça, 
porque sendo-me presente a necessidade que nellas houver, 
proverei os que forem precisos. 

« E chegando os moradores do numero declarado na lei 
da creação dos juizes de orphãos, se procederá na eleição 
delle conforme dispõe a mesma lei. Os offlciaes da camará 
farão eleição dos almotaceis e se constituirá alcaí le na forma 
da ordenação, tendo seu escrivão da vara. 

t As serventias dos offlcios do provimento dos governa- 
dores provereis nas pessoas mais capazes, sem do lativo pelo 
tempo que podeis, emquantoeu nao dispuzer o contrario. 

« E para conhecer dos aggravos e appellações tenho no- 
meado ouvidor de nova capitania, com correição e alçada 
em todo o sen território. 

c O que tudo me pareceu participar* vos para que assim o 
exejcuteis, não ohstaote (juaesquer ordens q\\ disposições con- 



/ 



— 145 — 

trarias, promovendo a fundação do dito governo e villa ca- 
pital delle, cóm o cuidado que espero do zelo com que vos 
empreitais no meu reaJ serviço. 

t Escrípta em Lísbod a três de Março de míi setecentos e 
cincoenta e cinco.— flfi.— Para Francisco Xavier de Men- 
donça Furtado, governador e capitão general do Gram-Fará 
e Maranhão, ou quem seu cargo servir.» 

Em 1758 tomou posse da nova capitania o primeiro gover- 
nador o coronel Joaquim de Mello Povoas, sendo a capital (» 
lugar da antiga aldêi de Mariuá, que passou a ser villa com 
a denominação deBarcelIos. 

Foi tarcbem de 1755creada a vijjararia geral do Rio Negro 
pelo bispo do Pará D Fr. Miguel de Bulhões e provida no 
Dr. José Monteiro de Noronh;>, tão ronfie<ido pelo seu im- 
portante ^Roteiro da viagem da cidade do Pará, até as ultimas 
colónias do sertão da provfncia,^ escriplo na villa de Bar- 
cellos, ne anno de 1768. 

Por carta regia de 18 de Junho de 1760 foi confirmada a 
vigararia geral do Rio Negro. 

Possnia então a nova e sem duvida florescente capitania do 
S. José do Rio Negro uma fiopulação não inferior a 100.000 
almas com cerca de 30.000 fogos, distribuídos nas aldôas se- 
guintes: 

Saracá, Itacoatíara, S. Raymnndo, Conceição, S. Pedro No- 
lasco, Matary, Trocano,Coary, Teffé, Para uari, Caiçara, Fon- 
te*Boa, Eviratena, S. Paulo, Javary, Maripi, Barra, Jahú, 
Pedreiras^ Âracari, Cumaru, Mariua, Caboquena, Bararoá, 
Dari, Santa Izabel, Camanáo, Camará, Castanheiro, Coané, 
Curiana, Guia,Iparaná, Loreto Mabé, Maraçabi, SanfAnna, 
Santa Birbara, S. Filippe, S. Marcellino. S. Pedro, Carmo, 
Santa Maria, S. Martinho e Conceição. 

Rm 1759, foram elevadas pelo governador, coronel Joa- 
quim de Mello Povoas á categoria de víllas as aldêâsde//a- 
cooptara com o nome de Serpa; de Saracá com o nome d< 
Silres; áeS. Paulo dos Cambibas com o nome de Olivença o 
Teffé com o nome de Ega: e á categoria de lugares as al- 
deãs de Aracari com o nome de Carvoeiro ; Caboquena com o 
de Moreira ; Caiçara com o de Alvarães ; Coari com o de Al- 
vellos ; Cumaru com o de Poiares ; Dari com o de Lama-Lon- 
ga; Eviratena com o áe Castro de Avelams ; Jahú com ode 
Airào ; Parauari com o de Nogueira e Taracotena com o de 
Fonte- Bôa. 

O furor de alusitan:ir opaíz, diz o capitão teninte Amazo- 
nas^ parou ao aspecto da primeira cachoeira do Rio Negro 
acima das quaes conservaram as povoações seus primitivos 
nomes brazileiros. 

Para regularidade da administração creou o decreto de 30 
deJunhode 1759 uma provedoria de fazenda e uma ouvi- 
doria, para as quaes foi nomeado o Dr. Lourenço Pereira da 
Costa . 

Em consequência da declaração de guerra por parte da 
Hespanhacolligada com a França contra a Inglaterra e Por- 
tugal (1762), mandou o goyernador do estado, Manoel Ber- 
19 



- 146 - 

ptrdo deMi>IIn e Castro, cm 1763, fundar as fortalezas de 
5. Gabriel e Marabitanas no Rio Negro e expellir das malo- 
caf dosmarabiianas os licspanhrtes 'que se achavam nella es- 
tabelecidos : oxpedindo para isto uma considerável força ás 
ordens do governador interino o coronel Gabriel de Souza 

Filcueíras. 
Parasupprira insuíQcicnciada villa de S, José do Javanj 

para o rojisiro da fronteira do Solimões, que [iertoncia ao 

ilostacamt^nto alli e\ísient(>, mandou o j^overnador estabeie- 

4vr um piqui^to no lu^Mr denominado ÍTa^r/fim/a. onde pouco 

di»p'»i» fundou o sar;ronlo-mor Dominuos Franco um.i pi- 

vvwçlo a que deu o nome de 5. Francisco Xavier da Taba- 

K(ul7()^ o governador do ostndo Fernando da Cosia de 
Atabyde IVIve mandou fundar no rio Içá a povoação de 
>\ Fernando, como um posto avançado contra os hespa* 

Km 1771 foicreado um tribunal de fazenda, composta do 
Ouvidor como provedor, de um escrivão como contador, o 
J^ mais um cscriplur.irio, um ajudante c um almoxarife. 

Km I77ã Utmou posse do ^'ovcrnu da cnpítanía o seu ae* 
íjundo ííovernadíir o coroniíl Joaquim Tinoco Valente, ha- 
voHdoKOVornaiio intorinamente depois da morte do jrover- 
nador Povoa*, liabriel de Souza Filffueiras.Nuno da Cunha 
do AtabVtle VoroiiQ c Valcrio Corroa Botelho. 

K.u 17^^ tonu)U posso d ) ^^overno da capitania Manoel da 
«ix^ma Í«oho d*Aimada, para que fora nomeado depois da 
^wa ,>\pb'ríicA<» **"•'* coufluenii»s do Rio Ni^gro c do Rio 

kia I7^«M ininsfcríu o governador a capital da capitania 
^t,i Ibrcoilos para a villa da Barra, hoje cidade de M.iuáos. 
iH^r Ib'' paren^r do muito mais vnntagem este ultimo ponti», 
lijí ooiilluoncia do ircii grandes rios, e centro das ires divi- 
>;V^ ualuriicH da capitania, do onde mais prompta eeíllcaz- 
mout** podi{MHlendcr-se a acção administraliva. 

IV «luicui dia diz ocapitao-tenente Amazonas, novos cs- 
i«tv«ltvÍmontoH rovolavam a dedicação, o esmero e a s;ibedo- 

Uji da«|Ucllo governador Distava todavia muito o paiz 

loon»;i'*iiidcclmeiitu di^ que era susceptível: mas esse de - 
tt|owjiU'»ndn a presença <lo uma iranscoudente capacidade, 
\\\\ do •obem pnni sn^iriíar zelos ao ^'overnadordo estado D. 
i^iMUt^^cii «lo Souxu (loutinho, o qual despertando-se da pro. 
MtMh 'ado de vir a torpor successor no governo do Estudo 
\o V^^'^ '^ Manoel da Gama, empenhou seu valimento na 
^Mh» bU» iilrlvíisaniente, (ju;» re<'ebeii o dito Gama em Í7Í)S 
' ^^ i4\l*»t dolbi (i), reconnnendandolhe denãocompromotter 
TtAiVlidi 001 (^spoculaçoes, nem abusar do seu emprego paru 
(;ii«^V a «na fiiriuna: ao que eilc respondeu com a remessa do 



\\\ HAiMm da u ohIo aviso a data de i7 de Julho de 1797. 



- 147 - 

inventario a que fei proceder do sen mesqninho haver de 
militar (i). 



(i) Ao favor do um amigo devo a segninte cópia do inven- 
tario remettido para Li^oa pelo calnmnfado coronel Manoel da 
Gama. fi* nm documento importantíssimo. 

c Por esta da minha própria letra escripta, eu abaixo assignado 
certifico debaixo do juramento dos Santos Evangelhos: por tudo 
qjie ha de mais sagrado na religião catholica romana que professo, 
pela bostia consagrada que reverente adoro e temo com o mais 
profundo respeito: que eu não possuo pedras preciosas algumas; 
nem possuo de ouro ou prata senão o seguinte. 

« Dous pares de fivelas de ouro de sapatos com o peso, ambos os 
pares, de 131 oitavas e 2i grãos. 

« Um par de fivelas de ouro de calção com o peso de 17 oitavas 
e 4 grãos. 

« Uma fivela de ouro de pescocinho com o peso de 9 1/2 oitavas 
e 10 grãos. 

« Um par de botões de ouro de punhos de camisa com o peso 
de 8 oitavas e 8 grãos. 

« tJma cadôa de ouro de relógio e sua chave com o peso de 7 
oitavas. 

o Um cordão de ouro servindo de cadêa de relógio com o peso 
de 7 oitavas e 5 grãos. 

« Um castão de ouro de que não sei o peso em uma bengala de 
cana da índia. 

« Um annel, da invenção de Bartholomeu da Costa encastoado 
em ouro. 

« Os galões de onro de mas fardas e um chapéo. 

« Um espadim de prata dourada com sen gancho lambem de 
prata. 

ff DouB retogios def)rata. 

« íím par de esporas de prata eom as ^nas fivelas Um^em 4e 
prata. 

< Um faqueiro oom doze talheres e nelle doM coiheriotiay para 
chá, espumadeira e tenaz, tudo de prata. 

« Dons talheres mais de prata. 

ff Uma colher de prata ée tirar sopa. 

a Uma colher de prata ée tirar arroc. 

ff Uma salva de prata com o peso de id6 oitavas. 

ff Seis castiçaes cobertos com casquinha de prata>Bm um delles 
uma bandeira com um varão de prata. 

ic Um espivitador com seu pratlnho de prata, com o peso de 38 
eitavus. 

« Uma barra de ouro com o valor de 23^)000, segundo a sna 
competente guia. 

«Uma bana de ouro com o valor de 15 |0#OOO, conform^ i^ 



ff mnlieiro.— fim trinta mieias dobras i8íj|000. Em moeda pro* 
vlnôial SM076O. 

ff N. a. Todo o sctoedito (em que bem se vê qne entram bfip« 
de meu uso) não chega a quatro mil cruxados. 

ff Italio por cobrar da fazenda real a importância de 2:e84y(4St 
doa meuscsoláos veiicidos até o dia de boje. liquido dos SQCoorKos 
ooim4ae Imho siio asaiitido e da quanUa com que pela i*eal 
peramio de fina Kagestade aoccorro em Lisboa as mintoas ir- 
mfta; eaja ábbradMa importância se aoha destinada para acabar 
de pagar a quantia que devo á administração dos fundos da 



— 148 — 

Kai 1798 maadou o governador do estado retirar a sede 
J« oapiial da capitania do lugar da Barra para a villa de 
H»nvni>$. conforme o aviso que impetrara, de 3 de Agosto 
k\^ 17^» para dest*drle dar golpe de morte á prosperidade da 
i'ii|Ml;iiua. (1) 

Av» 4olpo terrivel da mudança da capital havia pre.">edído 
\^i)a ««xtinrçâo do directório peia carta regia de 12 de Maio 
do 17lK^, também impetrada pelo mesmo governador do 
fx^íiado, pelo facto de que era este o elo que conservavam os in- 
Ulv*<'nas unidos á sociedade. 

Kra o directório um regulamento dado psio governador 
ilo testado do 6ram-l'ará, Francisco Xavier de Mendonça 
Furtatto, om 3 de Maio de 1757, para regular a administração 
du^i imiios. 

Todos quiiiitus lh:Ui*m applioiído a cdiica. diz o ca,>iiào- 
IdAi^ntt^ Amazonas, concorditndo em ^ua ineiequibiiidado, 
t^plioiím-na pola deficiência de homens habili:ados para o 
HQii desempenho fin qualidade de directores. 

O marqucz de Queluz, que mais attentamento parece ter 
entudadoo directório pronunciando-sea respeito, diz: «Em- 
Hm» o directório, dado uelo alvará de 15 de Agosto de 1758, 
UU8 parece quasi todo bem ptinsado, mas faltaram-lhe exe- 
ouiores. • 



oxtincta companhia do commercio do Pará, a qual, ainda co- 
liraado adita importância, lhe resto alguma cousa. 

«( Enfto possuo mais dinheiro algum, que pare em meu poder, 
nem uuo eu tenha dado ou remettido para enthesourar na mão 
do outrem, nem em moeda, nem em cousa que o valha, nem di- 
vida alguma activa para cobrar, senão o meu soldo vencido, 
que dci.xo dito. 

« Rk) Negro em 2S de Janeiro de i79%,-^Manoel da Gama Lobo 
(Id Almada, » 

(1) A boa escolha que o governador do Rio Negro tinha feito 
do lugar da Barra para assento do governo, unida a sua energia: 
excitada pela ambição de gloria, que é talvez o mais poderoso 
luovcl das acções humanas nas emprezas árduas, produziu uma 
dlHtincta prosperidade de commercio e cultura. Este homem ver- 
dadeiramente amigo do bem publico não cessava de promover 
(H)m pasmosa actividade tudo quanto conspirar pudesse para a fe- 
licidade dos habitadores. De anno em anno surdiam estabeleci- 
mentos novos e todos proficuos. Alli se padejou pão de arroz 
moldo em atafona movina por bestas. £stabeleceu-se uma fabrica 
dopannos de algodão de rolo, na qual haviam desoito teares e dez 
rodas de íiar com vinte e quatro fusos cada uma. Fez-se uma fa- 
brica de calabres e cordas de piassaba para as canoas. Construiu- 
so uma nora para ministrar agua á excellente fabrica da fécula do 
anil e a uma horta cujas plantas, regadas ao teor da Europa, rece- 
biam facilmente das aguas o effeito da sua benéfica influencia na 
(ertilísação do solo disposto em alforbes. Estabeleceu-se uma ola- 
ria, cujio arranjamento de amassaria, estendedouro e fomos cal- 
cinatonos e de torreftçflo da telha e ladrilho, era por extremo 
bom concebido. Aericnltou-se arroz no Rio Branco, do qual se 
eolhiam mais de mil e duxentos alqueires aonuaes. Greou-seama 



n ■im - wiiiA«» «f , i . . 1^* ^taã, -■ ^.^^ 



MUi .^«^. 



— 149 — 

A injuria feita á probidade do coronel Manoel da Gama 
pelo p:overnador do estado D. Francisco de Sousa Coutinho, 
eu empenho que mostrava em retardar-lhe o progresso da 
capitania do Rio Negro, haviam-no mortalmente affectado, 
de modo que a 27 de Outubro de 179^ acabrunhado de des- 
gostos^ repousava aquelle benemérito varão nos brnços da 
morte das injustiças» da calumnia e da inveja dos bomens. 

Manoel da Gama Lobo d'Almada chegou ao Pará cm 1770 
no posto de major, em companhia dos colonos masnganistas. 
Em 177i commandou a fortaleza de Macapá, e em 1788 tomou 
posse do governo da capitania do Rio Negro. Morreu em 
Barcellos, deixando um nome, diz o capitão tonente Ama- 
zonas, que ainda hoje se não pronuncia sem respeito e sau- 
dade. 

O conde dos Arcos tomou a si rehabilitar a memoria 
daquelle benemérito varão. Em um officio dirigido em 1804 
ao governo da metrópole demonstra a conveniência de trans- 
ferir-se a sede do governo da capitania do Rio Negro para 
o lugar da Barra, como o tinha sido .'ité 3 de Agosto de 
1798, e como o mais efflcaz instrumento da sua prosperidade, 
propõe para governador da mesma capitania o coronel do 
engenheiros José Simões de Carvalho. 

Não chegou porém o coronel Carvalho a tomar posse do 
governo do Rio Negro, porque morreu em Villa Nova da 



officina de velas de cera para provimento das igrejas das villas, 
julgados e povoações, cuja cera vinha em pão do Soiímões. La- 
vrou-se a (erra com arado para a sementeira e cultivo do anil. 
Estabeleceu-se um açougue regular em que se talhava e vendia 
carne de vacca vinda do Rio Branco, em cujas campinas immen- 
sas e pingues o mesmo governador, a despezas suas, havia posto 
gado vaecum de excellente qualidade, cavallar e muar, impor- 
tado das terras dos bespanhóes, na certeza de quea visivel bon- 
dade daquelles campos assalitrados faria crescer rapidamente a 
producção destes animaes a ponto de que não só chegaria para 
alimentar os moradores do Rio Negro mais ainda para estes ex- 
portarem para o Pará. Estabeleceram-se dous pesqueiros no Rio 
Branco, um na margem esquerda 22 léguas acima da sua embo- 
cadura, e o outro na margem direita defronte da boca do rio Ua- 
numan... 

« Eis o espectáculo, q^ue ateou no governador do Estado do 
Pará uma inveja perfeitíssima, que por extremo o indispoz con- 
tra um homem verdadeiramente zeloso do serviço do príncipe e 
amante da publica utilidade ; de cujo génio creador receiava que 
a noticia chegasse a concitar na corte a lembrança de o fazer seu 
successor no governo do Estado ; e para baldar esta possibilidade 
tratava de cortar pelo credito e merecimento daquelle homem, 
denegrindo e offuscando a sua pessoal reputação perante o throno 
soberano, na certeza de ser acreditado por um irmão, que nesse 
momento occupava um dos lugares do gabinete (D. Rodrigo de 
Souza Coutinho), e de não ser desconcertada a sua calumnia e 
acirrada intriga pelas cartas officiaes do Gama, buscando como 
buscava interceptal-as para mais empecilhar a verdade.» (Com* 
pendio das eras da província do Para por BABifÀ.) 



— 4W)- 

Ralnha, hoje Vílla Bõlla da Imperatriz, onde se acha sepul- 
tado, de uma indigestão de ovos de gaivota. 

Em consequência disso foi em 1805 nomeado e tomou posse 
em 1806 de governador da capitania o intendente da ma- 
rinha e dos armazéns reaes no Pará o capitão de mar e 
guerra José Joaquim Victorio da Costa. (1 ) 

Teve a capitania do Rio Negro sete governadores de no- 
meação regia, além de quatro governadores e um governo 
interinos, até que a nova ordem constitucional estabelicída, 
em Portugal, fez baixar o decreto de 29 de Setembro de i82i, 

!ielo qual se installou alH^ como nas outras provindas uma 
unta provisória, eleita em 3 de Junho de i822 e composta 
dos cidadãos António da Silva Craveiro. Bonifácio João de 
Azevedo, Manoel Joaquim da Silva Pinheiro e João Lucas da 
Cruz, a qual entrou no governo em lugar do governador no- 
meado o coronel António Luiz Pires Borralho, que ainda não 
havia tomado posse do cargo. 

Enviou o Rio Negro dous deputados ás cortes constituintes 
de Portugal, que foram João Lopes da Cunha e José Caval- 
canti de Albuquerque. 

Proclamada a independência do Brazil, o decreto de 20 de 
Outubro de 1823 aboliu as Juntas provisórias, nomeando 

Sara as províncias presidentes com conselhos electivos, 
festas nomeações não se contemplou o Rio Negro, que conti- 
nuou a ser administrado até 1825 pela sua junta provisória . 

Nessa época, sendo presidente do Pará José Pelix Pereira 
de Burgos, depois barão de Itapicurú-mírim, e constando- 
lhe a as^itação eoi que se achava o Rio Negro, pelos conflíctos 
suscitados entre o ouvidor e a junta provisória, tomou a de- 
liberação demandar dissolver a mesma junta e de nomear 
paraalli commandar as armas o capitão Hilário Pedro Õur- 
jão ; do que tudo deu parte ao governo geral, que approvou 
todas estas medidas, por aviso de 8 de Outubro de 1825. 

As instrucç5es que haviam baixado do governo geral a %6 
de Março de 182i, designando nominalmente todas as provin*» 
cias e enumero de deputados, que ellfts deveriam dar á as- 
sembléa geral, qenhuma menção fizeram do Rio Negro. So- 
mente eúk 8 de Novembro de 1825, por occasiãp út^ extineç^o 
da junta provisória, oMciando o governo á presidência do 
Pará, pediu informações sobre o estado e causas da decadên- 
cia ádi provinda do Rio Negro. 

Portanto, depois da proclamação da independência, o 
governo do Brazil não contemplou o Rio Negro como pro- 
víncia, não obstante o art. 2.*" da constituição, que deter- 
minou que o império ficasse dividido nas províncias que 
então existiam. 

Depois dessa época, occorreu no mez áe Junho de 1832 
uma sublevação do povo e tropa, que proelamaram o Rio 



(i ) Piz o capitão tenente Amazonas que iomoU-se o gover* 
nado/ Viciorio da Costa, tao conhecedor dá liBgvui timy oq 
getál, que até corrigia o$ i^roprios iDdÍ|epãs. 



- 15i - 

Negro província, nomearam presidente por acclamacSo o 
ouvidor da comarca Manoel Bernardino de Souza Figuei- 
redo, o qual» bem que protestasse, percorreu entretanto as 
ruas mais publicas da vflla da Barra debaixo do pallio. 

Foiifcualmente acclamado commandante das armas o te- 
nente Boaventura Bentes. 

Em seguida lavraram os insurgentes uma acta de des- 
membração do Pdrá, deputando ao governo imperial o re- 
ligioso carmelita Fr. José dos Innocentes, o qual procurando 
dirigir-se ao Rio de Janeiro pelo Madeira, foi impedido pelo 
presidente de Mato Grosso e obrigado a retroceder. 

O presidente do Pará José Joaquim Machado de Oliveira 
apenas teve conhecimento de semelhantes acontecimentos, 
fez marchar uma força commandada pelo tenente coronel 
Domingos Simões da Cunha para reprimir os insurgentes. 
Propararam-se estes para a defesa^ fortificando com trinchei- 
ras os pontos das Lages e do Bomfim, pouco abaixo da villa da 
Barra, e nelles assentaram 30 peças de artilharia e acampa- 
ram para cima de 1.000 homens. 

Foram porém batidos os sublevados e no dia 10 de Agosto 
foi dissolvida a província, que, voltando a ser comarca, foi 
administrada pelo ccmmandante da força expedicionária. 
Por varias vezes pretendeu-se restabelecer a comarca do 
Rio Negro na sua antiga categoria de província. A distancia 
em que se achava a capital da província do Pará da cabeça 
daquclla comarca, cujas fronteiras limitam não menos de seis 
Estados; o risco que havia do apparecimento de eenflictos 
terrítoriaes, que as autoridades de jurisdicção limitada não 
poderiam prevenir, não lhes restando outra alternativa a não 
ser a de testemunharem impassíveis a offensa dos direitos na- 
cionaes, a espera de ordens e instrucções tardias, ou antes 
a de aggravarem as questOes por excesso de zelo ou por falta 
de conhecimento preciso da matéria, eram razões bem po- 
derosas para o restabelecimento da província. 

Além disso, muito ma) se fazia sentir a acção da autori- 
dade presidencial naquellas paragens tão remotas, distantes 
da capital do Pará 300, 400 e 500 léguas ; muito pouca ou 
qnasi nenhuma fiscalização podia ella exercer sobre as auto- 
ridades subalternas, de modo que era uma necessidade im- 
prescindível o restabelecimento da província. 

c Emquanto a comarca do Rio Negro, dizia no senado o 
então visconde de Abrantes, foi administrada por governa, 
dores, no tempo da monarchia absoluta, prosperou ; a secre- 
taria e a thesouraria do Pará podem onerecer documentos 
valiosos ao estado de progresso em que ia o Rio Negro du- 
rante a administração particular dos governadores ; a renda 
publica tinha augmentado, a colonização tinha prosperado, 
a população tinha-se avantajado, havia um tal ou qual 
Commercio regular com a capital e com os estados vizinhos, 
ba viam estabelecimentos indnstriaes, que se achavam em via 
de progresso desde qne esse passado foi posto á mar- 

Sem, a comarca do Alto Amazonas deflnhou-see como que 
esappareceu I > 



— mi — 

A (íomaivado Alio Amazonas ou do Rio Ne.TO compii- 
nliH-Ho HM Ião: 

Nu p/irtn iu!i'|i*gia8tííM: do f viís^arsría íreral, 23parochias, 
bt<ii<lo tf ili>8|M)Voada8 ou dcradtíntcs, 1 seniinariu, creado e'>i 
<H4H, n niinl n») do Pará, íí 3 missões estabelecidas em Porio 
AU'^i'i\, noitío Hrunco, no /apur^^lçá oTonaDtins, e fjDaí- 
roMiiitmo Andíni, (juo ora a única (jue fa apresentando al- 
guns rrsuliadoH. 

Na parto eitril (t Judiciaria: 1 comarca com um juiz de 
dlrmlo ; i Julgados uu termos munícípaes com juizes letra- 
doti ; ^ munlelpíos. compostos de i cidado e 3 villas, e de 15 
df^JM^Aclas ou KUlxíeíe^iaclas. 

Na paritt esiaiisiica: Si, 982 haldtantos livres e 710 escra- 
vos, ao lodo M.OUI almas («egundo o incompleto recensea- 
fiMMilo do 1801); nfiosoMjmprehendendo naquella cifra uma 
inuUMAonumHiOifa do indi^enas pacíficos ou irregularmente 
Mld<«adoa ou das três misí^Ões. 

Na parlo da navPí(aç3o commcrcial: faziam a navegação 
i^MMo a comarca do Alto Amazonas e a província, propria- 
mnuUi dlla do Pará, 40 a 50 harcos e canoas, de porte de 15 a 
10 toíjtilladaM, e mai^ do !í.000 canoas de dííTerentes lotações 
<impr<4(/avam-fo em muitos e variados ramos de negocio para 
M0tO'Gro^o (I) o até ás fronteiras dos estados estrangeiros 



(i) u Káwa navtígfaçfto, porém, em gyro continuo, escrevia ao 
mlfiUl«rlo do Império o Sr. J. B. de F. Tenreiro Aranlia, por 
lantoM tí tao rauiincados rios e pelos tão vastos lagos dosta pro- 
víncjtti á penivel quando se sól)e através das fortes correntezas das 
ai(Masqufí correm sempre com impectuosidade para baixo, mor- 
manta nos mís mezes de Janeiro a Julho, que são os da enchente, 
quA vem desses depósitos immensosdo inferior.» 

O vapor, porém, veio acabar com esses embaraços c abrir 
nova era á navegação do Amazonas e seus affluentes. 

Por vezes appareceram tentativas 'para a navoffaç;ko a vapor 
no Amazonas. Em 1^6 um barco dos EsUdos<|inidosMiruiu na 
(!apltal do Pará, com importante carregamoulo. iio Iiumuo de 
subir pelo Amazonas para o Peru. Foi, porém, ombarnv^do o lovo 
de voltar, visto como era privativa dos nacionacs a nuv^itavAo do 
inti*rlor. 

Km 1H28 uma sociedade com o titulo de— promotora d.t n^ri" 
cultura, industria e navegação,— pretendeu estab(*loror«s(> no 
Pará. O preiídente da provinda nomeou uma commissAo para 
dar parecer sobre a utilidade da empreza. 

Foi promptamente satisfeito, e esses trabalhos fórum publi- 
cados no Pará, e transcriptos com honrosa mençào na Ingla- 
terra, no Apêndice do padre Amaro. 

Não foi, porém, avante. 

Em 1837, sob a direcção do presidente da provinda, se quiz 
organisar outra sociedade para fazer-se a navegação a vapor 
pelo Amazonase aguas do Pará. Nomeou-se uma commissão 
tara apresentar o projecto, que foi approvado e publicado no 
, ornai Treze de Mato, E tendo-se já inscripto um numero con- 
hlderavel de acções, ficou tudo sem andamento, em consequên- 
cia da retirada do mesmo presidente. 

Em 1838, apresentou o Sr. J. Bde F. Tenreiro Aranha um pro- 



e. ifi ,'*. ' — - -.--J , » «,■!■>«■ i-w— , . ..,..,*« , 



— 153 — 

tizinbose de uns para outros lugares do interior, em todos 
os sentidos, eievando-se o numero das pessoas, que as tripo- 
lavam, inclusive mulheres, a mais de 6.000. 

Na parte política: 4 collefi^íos eleitoraes, li6 eleitores de 
parocnia e i.965 votantes qualificados. 

Na parte militar: 1 eommando geral militar, creado por 
portaria de 5 de Julho de 1837, e que comprehendía todo o 
seu território; 5 pontos militares na fronteira ; 168 praças 
de linha, 65 da guarda policial destacada, 1.339 praças de 
um batalhão da guarda policial, 1.90:2 do corpo de traba- 



gramma para, com auxílios do corpo legislativo e do governo, 
emprehender-se a dita navegação, ueclarou-se-lhe, porém, que 
era isso da competência da assembléa provincial, em vista do 
art. 10 do acto addicional. 

Nesse mesmo anno de 4838 e no de 1839, por duas resoluções 
da assembléa provincial do Pará, foram concedidos privilégios a 
quem emprehendesse e úzesse adita navegação nas aguas do Pará 
epara a ilha de Marajó. Nenhum resultado tiveram. 

Em 1840 passou na assembléa provincial uma lei concedendo 
privilegio por lOannose uma prestação de 40:0000 á companhia 
ou emprezario que estabelecesse a aita navegação a vapor pelo 
Amazonas e aguas do Pará. 

Em 18il, na camará dos deputados, por outra resolução se con- 
cedeu privilegio por 40 annos á companhia de Joaquim António 
Pinheiro e outros, para fazer a mesma navegação pelo Amazonas. 
Ficou sem andamento no senado. 

Em 184). o negociante e proprietário Joaquim Francisco Danin, 
estabeieciao no Pará, trazendo dos Estados-Unidos uma barca a 
vapor, pretendeu formar uma companhia para a navegação com 
o privilegio e o auxilio concedido pela lei provincial ae 1840. 
Achando-se tudo na melhor disposição para dar-se principio á 
navegação, não quiz o presidente da província prestar o auxilio 
pecuniário concedido pela lei, de modo que viu-se obrigado o em- 
prezario a fazer voltar a barca para os Estados-Unidos, ficando o 
Amazonas ainda por essa vez privado de ser navegado por va- 
pores. 

Em fins do mesmo anno de 18&2 subiu pela primeira vezo Ama- 
zonas o vapor de guerra Guapiassú^ commandado pelo 1.^ te- 
nente José Maria Nogueira, qne publicou o roteiro de sua viagem 
feita em 10 dias, não incluindo os dias em que esteve fundeado, 
desde o porto de Belém até o de Manáos, sendo pela metade do 
tempo a viagem de volta á capital do Pará. 

Conduzia este vapor uma commissão enviada pelo governo 
imperial para explorar o Rio Branco, composta do coronel 
Frederico Carneiro de Campos, do capitão de engenheiros In- 
nnceucio Velloso Pederneiras e do engenheiro Toulois. 

Foi ainda o mesmo vapor que sulcou pela segunda vez as 
aguas do ffrande rio. Sahiu em Novembro de 1847 do porio de 
Belém, soo o eommando dol.® tenente Lassance, conduzindo 
o conselheiro Joaquim Manoel de Oliveira Figueiredo, então 
capitfto de fragata, incumbido de fazer recrutamento de ma- 
rinheiros pelos lugares do Amazonas. 

Foi igualmente o mesmo vapor que subiu pela terceira vez 
o Amazonas; em Dezembro de 1831. conduzindo o presidente da 
uova província, J. B. de F. Tt^nreiro Aranha e as autoridades 
qne o acompanhavam. Gastou nessa viagem 17 1/2 dias, sa- 

ao 



— 154 — 

dores, instituído pela lei de 25 de Abril de 1838, e qae tSo 
boDS serviços prestou á província (1). 

A instrucção publica era dada em um seminário, onde 
se ensinavam as línguas latina e franceza, e em 8 escolas de 
instrucção primaria. 



hindo de Belém no dia iO de Dezembro e chegando a Manáos 
a 27 do mesmo mez, cm consequência da demora havida nos 
portos intermédios. 

Em 1847, na lei do orçamento, passou da camâra dos depu- 
tados para o senado uma autorisação para empregar o governo 
100:000)11000 na compra de um vapor para a navegação ao Ama- 
zonas. Ficou, porém, sem effeito. 

Em 1818, quando se discutia a lei do orçamento na camará 
dos deputados, propôz um deputado que se incluísse nella a 
mesma disposição para a compra do vapor, que Já havia pas- 
sado na lei do anno anterior, havendo mais uma emenda para 
que o governo fosse autorisado a estabelecer a navegação a 
vapor pelo Amazonas e nas aguas do Pará com vapores de 
guerra ou com prestações a alguma companhia. 

Nenlmma dessas propostas foi, porém, apnrovada. 

Em 18Ò0 decretou a assembléa geral, e foi sancciooada, a se- 
guinte lei: 

tf O governo é autorisado a estabelecer desde já no Amazonas 
e aguas do Pará a navegação por vapor, que sirva para correios, 
transportes, rebocagem até as províncias vizinhas e territórios 
estrangeiros confinantes, consignando prestações a quem se 
propuzer a manier a dita navegação, ou empregando embar- 
cações do Eslado. » 

Finalmente foi organisada a companhia de navegação e com- 
mercio do Amazonas, de que mais deiidamente e em lugar op- 
portuno me occuparei, eo dia l.^ de Janeiro de 1853. em que 
começou as suas viagens, abriu uma nova era ás duas pro- 
vindas do Amazonas e Pará. 

(1) « Francisco José de Souza Soares de Andréa, o/flcial da impo- 
rta/ ordem do Cruzeiro, marechal de campo graatMdo do exercUo 
do BrazU, presidente e commandante das armas, da provmda do 
Pará, etc. 

« Faço saber a todos os seus habitantes, que a assembléa le- 
gislativa provincial decretou e eu sanccionei a lei seguinte : 

An. 1.0 O governo fica autorisado a estabelecer era todas as 
villas e lugares da província corpos de trabalhadores destinados 
ao serviço da lavoura, do commercio e das obras publicas. 

« Art. 2.® Estes corpos serão compostos de índios, mestiços e 
pretos, que não forem escravos e não tiverem propriedades ou 
estabelecimentos á que se appliquem constantemente. 

« Art. 3.<^ A organisaçao, divisão, regimen e economia dos 
mesmos corpos será da competência do coverno, que lhes dará 
commandantes e offíciaes tirados das classes dos offlciaes dos 
antigos corpos ligeiros, ou d'entre os cidadãos mais idóneos, re-> 
sidentes nos respectivos disiriclos. 

« Art. 4.^ O serviço a que estes corpos ficam destinados será 
contraciado por quem delles precisar, perante o juiz de pai do 
distrieto, precedendo licença dos commandantes respectivos, 
que serão responsáveis ao governo pela igualdade e segurança de 
taes contractos. 



— 155 — 

Na parte financeira havia: i recebedoria de rendas geraes, 
creada em 1837, e em 18 collectorias, produzindo aqaella ape- 
apenas o rendimento annuai de 2:000j$000, e estas o do 
4:778^!B0O (1). 

Em 1843 foi discutido, e passou na camará dos deputados» 
um projecto para se elevar a província a comarca do Rio 
Negro, com a denominação de provincia do Amazonas, com 
uma assembléa provincial de 20 membros, e dando um de- 
putado e um senador á assembléa geral. 

Este projecto, porém, ficou embaraçado no senado. 

Uma das difflculdades para a adopção da medida que con- 
feria o predicamento de provinda ao território do Rio Negro 
era o não ter elle todos os requisitos precisos de renda e suf- 
ficiente pessoal habilitado para a gestão separada de uma 
administração provincial. 

O benemérito Sr. conselheiro Jeronymo Francisco Coelho 
julgou, porém, conjurar este iDCcnveníentecom o seguinte 
projecto de sua lavra, offerecido .á assembléa geral em 

i.® A comarca do Rio Negro ou Alto Amazonas fica res- 
tabelecida na categoria de provincia com a denominação de 
S. José do Rio Negro. O seu governo, porém, será filial e su- 



« Art. 5.® Os indivíduos que formarem estes corpos nâo pode- 
rão sahir da villa ou lugar, a que pertençam, sem guia dos seus 
commandantes, que declare o lugar e o íim a que se dirigem. 
Compete aos juizes de paz fazer prender e remetter aos respecti- 
vos commandantes aquelles que vagarem por seus distrlctos e 
não apresentarem a guia aqui exigida. 

« Art. 6.° Logo depois da publicação da presente lei, o governo 
fará proceder ao necesrario alistamento de todos os indivíduos 
comprehendidosnoart. 2.^ 

« Art. 7.» Ficam revogadas todas as disposições em contrario. 

«Mando, portanto, eic— Francisco José de Souza Soares de 
Andréa. » 

(1) As rendas com que se mantinha florescente a capitania, 
foram indo em decadência, a ponto de que não chegavam para a 
decima parte das despezas. 

Pela repartição geral a somma total da arrecadação era de 2 a 
3:0000 por anno. e assim devia de ser, porque lugares havia em 
que as collectorias, ou não arrecadavam, nem lançavam nos livros 
cousa alguma, ou nada rcmettiam para a repartição central. 

Depois da installação desta província, já somente pela recebe- 
doria desta capital tem entrado para a thcsouraria, pois ainda 
Dão chegaram as remessas das outras collectorias, nos mezes 
de Janeiro e Fevereiro, a quantia de 911^488, sendo bem de 
presumir, por esses outros dados, que as rendas, pela repartição 
geral, em um anno poderão chegar pelo menos a i2:000$000, 
e que logo que o commercio e a navegação por meio de vapores, 
fòr em maior escala para o Peru e para os outros Estados vizi- 
nhos desta provincia mediante certos direitos, será o computo 
das rendas, aproximado senão equivalente, ao das despezas que 
bajamde fazer-se. 

Ainda mais reduzidas, senão extraviadas, as rendas provin- 
ciaes, comquanto sejam em grande quantidade os géneros es- 



— i56 — 

tultt^rno ao da proviacia de Santa Maria de Beléui do Grão- 

1/ A soa capital será na eidade da barra do Rio Nes:ro, 
f mquanlo de ontro modo não fòr designado peia assembléa 
iiroYinoial. 

3.* O:) límiles de separa^^o territorial com a nova pro- 
Tincialilial deS. José do Rio Negro» ficam provisoriamenie 
maroftdos no rio Amaionas, a saber : pela margem esquerda, 
a luH^a superior do rio Nhamundá ou Jamundá, seguindo em 
lodo o seu desenvolvimento o leito do dito Ndamundá, rio 
acima para o norte; epela margem direita do Amazonas a 
montanha denominada— Paríntins-^omo era a antiga di- 
vida, ficando dependentes os limites interiores e tudo quanto 
f6r ri^lativo á extrema e território da nova província, da 
ttxaciu definitiva, que deverá ser feita por decreto do go* 
vorno» o depois de havidos todos os esclarecimentos e infor- 
niaçlioH precisas sobre as localidades. 

4.* Haverá em exercício e com o ordenado de 3:000^^)0 
um vico*presidente nomeado pelo governo geral, bem como 
hnvorá dous substitutos designados para servirem em sua 



r 



HM*lao« V d(!(ilt(> apreço dcstu província, c as iiiT|)osívdes sobre 
\Uvn UM inosinus que agora sao, apenas chegavam a 3:000|9000 
por unno ; o era tal a confusão ou desordem em qne aarreca- 
dacA<» >t^ ucliava, que, nos próprios balanços do tficsouro pro- 
yfiirlAl dados á presidência uo Pará, não se mostrava ao menos 
qUtinlo se arrecadava em cada am dos annos peias coliecto- 
|iaM, por isso que, com esses dados, omissos e heterogéneos de 
innon diversos não se podia saber ao certo qual era a arreca- 
dação (li^ toda a província em cada exercício : o que mui pa- 
|<»nto OMtava e se sentia era que esses resultados não correspon- 
Òlani ao valor dos productos esnectaes desta tão abundante e 
vaittlHHíina provincb, porque nelia não se arrecadava ainda nem 
o mt^lo dizimo. 

hadAM AS primeiras ordens e in^truccõcs, logo que entrei na 
aihnlnistraçAo aqui, começaram algumas collectorias a apresentar 
rttNUÍtados, que certamente ofTerecen^ provas satisfactorias e evi-^ 
dontt^x do grande augmentodas rendas provinciaes no presente 
(t lio porvir, porquanto a coílectoría dfesta capital, que tinha 
arrecadado em todo o anno de 1851 a som ma de i:SSO02i4, só- 
monto nos dons primeiros mezes de Janeiroe Fevereiro deste 
antto. JA tem arrecadado S:143{f360, e acollectoria de Villa Nova, 
qut) (Un todo o predito anno de 1851 arrecadou 1OO06ÍO, já no mes 
(10 Janeiro tem arrecadado 3240640, cujos dados são sufficientes 
jtara conhecor-se que as rendas peculiares desta província, que 
uAo chegavam a 3:0009000 por anno, neste virão a ser de 
lUiOUOJlOOO o nos seguintes ainda de muito mais, se porventura 
o (Hunmercio, agricultura, a pesca e todos os ramos de indus- 
tria, (lucso trata de activar e desenvolver, chegarem a faxer 
ftiproduzir o melhorar tudo quanto aqui a natureza tãolil>eraÍ 
t^HlA oíTerecendo. » 

{HfUUovio apresentado etndOda Abril de 18à2 ao ministério do 
^miwio peio primeiro presidente da província do AnufLzonas João 
$^pliita de FiffHeiredo Tenreiro Aranha, 



— 157 — 

fttlta oa impedimento. O vice-presidente terá am oíDcialás 
origens. 

ft.* Também haverá am commandante geral militar, com 
om secretario, para os objectos relativos á força militar, 
serviço da gnarnição e fronteiras. O dito commandante mi- 
litar, além das vantagens de ezercicío, terá duas cavalga- 
duras e MO^yOOO de gratificação annnal. 

6.* Haverá mais para o serviço da guarnição e fronteiras 
um corpo fixo de linha, composto de quatro companhias e da 
forçii de 400 praças. 

7.® A província constituirá uma só comarca, e o respectivo 
juiz de direito terá o ordenado de 2:400^0, e se lhe con- 
tará o tempo de serviço de mais metade do que eíTectiva- 
menie servir: além das honras de desembargador, que lhe 
ficarão competindo depois de um quatriennio de exerci mo 
daquelle cargo de magistratura na dita provinda. 

8.* A comarca terá três termos ou julgados municípaes, a 
saber: o da Barra, comprehendendo a villa de Barcellos, o 
de Ega e de Mauós, todos três com juizes municipaes letrados, 
vencendo o ordenado de OOO^jíOOO, contando-se-lhes também 
mais metade do tempo de serviço; e tendo a villa de Bar- 
cellos foro civil e conselho de jurados, e os juízes substitutos 
de que trata o art. 19 da lei de 3 de Dezembro de 1841. Os 
juizes municipaes letrados, alternarão com o juiz de direito 
na abertura das sessões dos jurados e correições. 

9.* Haverá am só commando superior de guardas nacio- 
naes, e o commandante geral militar poderá accumular este 
emprego. 

10. A província do Gram-Pará continuará a dar três de* 
putadose um senador á assemblèa geral, e a do Rio Negro 
dará dous e um senador. 

11. O vice-presidente, commandante geral militar s 
magistrados, que servirem no Rio Negro, não poderão ahi 
ser eleitos nem senador nem deputados geraes ou provin- 
ciaps. 

12. O numero de mrmhros da assemblèa legislativa pro* 
vincial do Gram-Pará fica elevado a 36, sendo oito eleitos 
pela província do Rio iVegro. 

13. Haverá um delegado geral de policia, que será bacha- 
rel formado, com o ordenado annual de 800^000, e se lhe 
contará este serviço como de magistratura e com direito a 
accesso de juiz de direito. A este delegado competem as 
mesmas fuucções na província do Rio Negro, que ao chefe de 
policia do Pará. 

14. Para arrecadação dos impostos geraes e pagamentos 
das despezas e serviços geraes haverá uma recebedoria de 
rendas, composta de um administrador com i:200^00Ojde 
ordenado annual. um escrivão e um thesoureíro, cada um 
deIlescom800/K)00^ um amanuense com 400^000 e um con- 
tinuo, que servira de porteiro com 360^000. 

Haverá mais um ajudante do procurador fiscal da thesou- 
raria com OOO^SÍOOO. 

15. Pela thesouraria du Paiá se auxiliará o cofre da rece- 



— 158 — 

bedoría das rendas do Rio Negro» com a quantia que fôr 
necessária para sapprimento de deficit que houver, e con« 
forme as ordens do governo geral. 

16. O vice-presidente da província do Rio Negro, annual* 
mente enviará á assembléa legislativa provincial, no tempo 
de suas sessões e por intermédio do presidente do Pará, um 
relatório do estado dos negócios públicos daquella província 
que sejam relativos a objectos provinciaes e municipaes, in- 
dicando as necessidades, a que a sobredita assembléa aeva 
prover de remédio, e indicando as medidas, que para esse 
flm lhe parecerem mais apropriadas. As camarás municipaes 
na mesma occasião, e pelo intermédio do referido vice-pre- 
sidente, remetterão os seus relatórios, balanços e orça- 
mentos, para ser tudo presente a assembléa provincial. 

17. O vice-presidenle do Rio Negro, terá todas as attri- 
buições que as leis em vigor conferem aos presidentes de 
provinda, especialmente a de 3 de Outubro ae 1843, com a 
aeclaração, porém, de que todos os actos por elle ordenados, 
tendo 4ogo de ser executados, como o exige o bem do serviç') 
publico, ficam sujeitos a ulterior e definitiva resolução do 
presidente do Pará, a quem se dirii;:irá sobre todos os objec- 
tos e em todos os casos em que os presilentes de provincia 
se dirigem ao governo geral. 

18. A nova provincia continua na parte eccleslastica a 
fazer parte da diocese da provincia do GrSo-Pará. 

Semelhante projecto, sobremodo defi**'iente para asneces*^ 
sidades que reclamavam prompto remetlio, continuando a 
collocar a nova provincia na dependência da provincia do 
Pará, e sem a automica necessária, não conseguiu ser adop- 
tado, e a comarca do Rio Neçro ou do Alto Amazonas con- 
tinuou a fazer parte da província do Pará, até que pela lei 
n.°582, de 5 de Setembro de 1850, foi de novo elevada á ca- 
tegoria de provincia, com a denominação de^Provincia 
do Amazonas. — 

Eis a intregada lei: 

Art. i."" A comarca do Alto Amazonas, na provincia 
do Grão Pará, fica elevada á cate^oiia de província, com 
adenominaçã) de provincia do Amazonas. A sua extensão 
e limites serão os mesmos da antiga comarca do Rio Negro. 

Art. 2.° A nova provincia terá por capital a villa da Barra 
do Rio Negro, em quanto a assembléa respectiva não de- 
cretar a sua mudança. 

Art. 3.^ A provincia do Amazonas dará um senador e 
um deputado áassembléi geral: Sua assembléa provincial 
constará de 20 membros. 

Art. 4.** O governo fiea autorisado para crear na mesma 
provincia as estações fiscaes indispensáveis para arrecada- 
ção e administração das rendas geraes, submettendo-as de- 
pois ao conhecimento da assembléa geral para a sua defini- 
tiva approvação. 

Ari. 5.° Ficam revogadas as leis em contrario. 

A installação da nova província do Amaaonas, teve lagar 
DO 1.® de Janeiro de 1852. 



— 189 - 

Dosarcliivos da camará mnnicípal de Manáos, antiga villa 
da Bana do Rio Negro, exirahe o seguinte e importante 
documento da solcmne inauguração da nova provincia do 
Amazonas, que ahi vai fielmente transcripto. 



GAMARA MUNICIPAL. 



SBSSÃO BZTBAC1RDINARI.V DO DIA i.^ DE JANEIRO DE 1852. 



Presidência interina do Sr, Rodrigues do Carmo, 



c A'^ nove horas menos dez minutos da manhã, fnita a 
chamada, se acharam presentes os Srs. vereadores Barroso, 
Páo-Brasil, Roberto, Brandão, Paula Azevedo, Manoel José 
de Macedo, Fleury e Pedro Mendes Gonçalves Pinheiro: vc 
Tificado peio Sr. presidente existir numero legal para formar 
casa, declarou aberta a sessão e em seguida passou a nomear 
uma commissão para receber o Exm. Sr« João Baptista de 
Figueiredo Ferreira Aranha, presidente nomeado para esta 
provincia do Amazonas, que se deve achar na casa ás nove 
noras para prestar juramento e tomar posse da mesma, cumo 
tudo se acha concluido na acta da sessão de 29 de Dezembro 
ultimo, cuja nomeação recahiu nos Srs. vereadores Brandão, 
Fleury, Pinheiro, Paula Azevedo e Páo-Brasíl. 

A' hora Indicada compareceu o mesmo Exm. Sr., que 
foi recebido e introduzioo pela commissão da sala das ses- 
sQes, tomou assento ao lado esquerdo do Sr. presidente da 
camará, depois do que mandou este proceder á leitnra da 
carta imperial, por onde Sua Magestade o Imperador houve 
por bem nomear o mesmo Exm. Sr. para presidente desta 
província, e finda a leitura da dita carta imperial, deferiu 
a este o juramento dos Santos Evangelhos em um livro 
delles, nos termos ^e^uintes : < Juro aos Santos Evange- 
lhos díefender o Império, manter as liberdades constitucio- 
naes, executar as leis, promover, quanto em mim couber, 
08 melhoramentos moraes e materiaes desta provincia do 
Amazonas; assim Deus me ajude. % 

Findo este acto, levantou-se o Sr. presidente e convidou 
o mesmo Exm. Sr. a tomar assento á sua direita, o que 
assim foi effectuado, declarando aquelle, em voz alta e in- 
tellfgivel, que em virtude da sobredita carta imperial, e do 
aviso expedido pelo ministério do império de 7 de Junho do 
dito anno, dava a camará municipal posse da {província ao 
Exm. Sr. Joio Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, 

S residente para ella nomeado. E passou logo o Sr. presidente 
a camará a convidar o 1.® vice-presidente nomeado Dr. 
Manoel Gomes Corroa de Miranda para prestar o devido ju- 
ramento deste cargo, cujo juramento lhe foi eifectivamente 



/. 



(litfitrllo ((• tAum monrioDAda, e. iteetindoo 2.* více-pre- 
hliloiili^ o (M)ii««i|rt> Jonquitn Gonoalj^eçl^jide Azevedo; o 3.* o 
iMironi»! João »íonrlque de UàÍioifitfí.jÈi\^o cidadSo Manoel 
Viioium IMiUo timilni o Juro» OBK Dfesfdente da camará, 
•mulo o vloo* prealdenle nom|aidá.^^ paasoa a pre- 

nM^^uoU dttnUaoSr. veivaateMlDwmci em votos, o que 
fullo dofitrlu oaVA í iqu<dle*i^ttir«ioeaA>i|b& mesmos termos 
Moliun luoiuMunaduii e rèl^uviiu novamente a presiden- 

ilKiMi. Hr. prenidonteda província, pedindo permissão á 
(«NiiiHrii,d(^nrlu Igualmente o Juramento dos Santés^Evange- 
IImimj ooiii MS formalidades que constam do termo rçtro, a JoSo 
WIlNt^Ms <^t* Mattos, que por cacu imperial de 18 de Agosto 
(10 «iiuio iiroximo passado, foi nomeado para secretario do 
UHViirno (lOMta província. 

(luiioluído que foi o que acima fica declarado, sahiu a ca- 
mará DIU companhia do Exm. presidente da província e mais 
nuliirldadM e cidadãos outros, que se acbavam presentes e 
«0 dirigiram á capella do seminário episcopal, onde foi ce- 
loiírado o religioso acto de acção de graças, dirigíndo-se 
ddpolM ao palácio do governo, onde foram pelo Exm. presi- 
(iiMiln da provinda empossados dos seus cargos os empre- 
IfadoM nomeados pelo governo de Sua Magestade o Imperador 
para oliefea de alversas repartições. Logo se recolheu ao 

Íiaço d<itlA, acompanhando o Exm. Sr. presidente, e ahi na 
ata d(i suas sessões, tomando novamente assento o mesmo 
Kim. Hr.. ao lado direito do Sr. presidente da camará, de- 
(itarou em vos alta, que em virtude da lei de 5 de Setembro 
dit IHtM) initallava a província do Amazonas para a qual fora 
noimtado presidente por carta imperial de 7 de Junho do 
aiino próximo passado do que lavrou o secretario da pre- 
aldMiflla o competente auto, que foi asslgnado por elle presi- 
d^ntft. peloa vereadores da camará, pelas autoridades e mais 
oldadioa, que presentes estavam. 

finalmente, depois de ter a camará deliberado que se ft- 
Ki«aii(i mihlico por editaes todas as occurrencias nesta men« 
olonauas o que se communicasse a todas as camarás da pro- 
vlfirla, convidou o Sr. presidente da mesma ao Exm. Sr. 

Rre^aldento da proviÃMa para que se dirigisse á iffreja de 
íoaita Senhora dos Romedios, matriz provisória desta ci- 
dade, a flm de ahi assistirem ao solemne Te-Deum laudamus 
oin acçlio degradas povHio satisfactorios acontecimentos e 
kivantou a sossio> mandando lavrar esta acta que com os 
di«mals membros assignou. E eu Clementino José Pereira 
tíu Ima rios, secretario, que a escrevi. {Seguem-se as assigna' 
turns . ) 

Do 1851 a 1874 tem sfdo a provinda do Amazonas admi- 
nistrada por i4 presidentes. 

A população dessa immensa província, iffual em superfide 
á quarta parte do império, e talhada pela natureza para 
conter em si três estados grandes e poderosos, é por demais 
reduiida, sendo apenas avaliada em pouco roais de 60.000 
almart. 



'' • •*■ ^ 



- 169 — 

mamelaca, chamada Maria Barbara^ por um individuo, que 
tentou víolental-a (1). 

Também a ode, que escreveu em honra de Manoel da Gama 
Lobo de Almada, antigo governador do Rio Negro, é uma 
bella prodncção^ capaz por siso de fazer a reputação de um 
bom poeta. 

Como prosador, foi também Tenreiro Aranha escríptor do 
graúdo merecimento. 

E' pena que somente escapasse á voracidade do tempo e ao 
facho incendiário da revoiuçSoo pequeno volume que tenho 
á vista, publicado em 1850 por seu filho João Baptista de Fi- 
gueiredo Tenreiro Aranha^ o primeiro presidente da provín- 
cia do Amazonas. 

Bentode Figueiredo Tenreiro Aranha falleceu a 25 de No- 
vembro de 1811, e não a 11 do mesmo mez, como consta de 
um artigo biographico, publicado na revista do instituto 
histórico. 

A cidade de Manáos (antiga vilia da Bnrra) óa capital do 
Amazonas. Provem-Iheo nome de uma das mais importan- 
tes tribus, que dominaram o Bio Negro e alguns dos seus 
affluentes. 

Está situada em uma pequena eminência, á margem es- 
querda do Rio Negro, 10 milhas acima de sua foz e a 930 
milhas da capital do Pará^ o é cortada de igarapés^ que se 
transpõe por meio de três boas pontes de madeira. 

c Pequena embora, diz o Sr. Tavares Bastos, Manáos 
o cupa uma situação extremamente pittoresca o um ponto 
geographico da maior importância. Como S. Luiz, no Mis- 
sissipi, ella domina o largo espaço da navegação interior pelo 
Solimões e pelo Rio Negro ; vô o Madeira internajr-se pelo 
coração da Bolívia, o Purús cortar o l^erii, e tom a quatro 
dias de distancia o porto do Pará . Oeando a capital de uma 
província, lançava-se talvez a primeira pedra da capital 
de um grande império, em que não sonha o presente, mas 
que por ventura (^stá cscripia no< destinos du futuro. » 

Possuo a cidade de Manáos alguns cdiík*ios públicos o 
particulares que aitrahem a aitençào, snbresahindo entní 
ellesa igreja matriz, que esiá a tcrniinar-se, c quo será o 
primeiro e o mais iiní)ononto e magesloso lom[)lo do Ama- 
zonas. Possue ainda a igreja do Nossa SiMihora dos Remédios 
ea do Hospício de S. Sebastião, administrado i»elos leligiusos 
capuchinhos. 

Além destes três templos, convém igualiiienlc mencionar 
a capella do seminário ciiiscopal, notável pela sua elegância 
e singeleza. 



(i) O assassinato dessa mulher, perpetrado no caminho da fonte 
do Marco, nas irii mediações da cidade de Delóm, foi attribuido 
a um soldado, que por isso foi condemnado á morte e soifreu 
a pena, proteslando por sua innocencia. 

Ânnos depois, ralado de remorsos, fazia o verdadeiro assas- 
sino, á hora da morte, publica confissão do seu crime. 
22 



\ 



— 170 — 

O somiaario episcopal de Manáos foi creado em 1848 pelo 
bispo D. José AíTonso de Moraes Torres. O abandono em qae 
o zeloso prelado achou a maior parte das freguezias do Ama- 
zonas, a falia quasi absoluta de sacerdotes de que puaesse 
fançar mâo para provocas convenientemente^ a grande re- 
pugnância que encontrava da parte dos poucos que havia em 
sahirem da capitai do Pará, onde mais ou menos viviam 
cercados dos commodos da vida, para se empregarem nas 
remotíssimas parochias do Amazonas, taes foram as razões 
que levaram o prelado a crear este seminário, que tem sido 
mais ou menos auxiliado pela assembléa provincial do Ama- 
zonas. 

O ediíicio em que funcciona é sobremodo acanhado; é 
porém de crer que, augmentando-se os recursos da pro- 
víncia, não duvide ella concorrer para que tomo mais largas 
proporções aquelle útil estabelecimento. 

O palácio do governo é actualmente uma casa particular, 
meio arruinada e de acanhadíssimas proporções. No pavi- 
menio térreo funcciona a secretariada província. 

A assembléa provincial, o ly^eu, a bibliotheca publica ea 
repartição das obras publicas funccionam em um elegante 
palacete, ultimamente concluído, a esfurços do actual pre- 
sidente, o Sr. Dr. Domingos Monteiro Peixoto. Este palacete, 
depois de ter consumido quantia superior a 70:000^, acha* 
va-se abandona lo e exposto á acção destruidora do tempo. 
Coro a sua conclusão muito lucrou a província, porque, 
além da decência das accommodaçõos que encontraram as 
repartições que alli fnnccionam, fizeram os cofres provín- 
ciaes uma oc.onomia mensal de Í50,$000, e eximiram -se de 
fazer concertos em prédios particulares, que, a despeite de 
grandes despezas, nunca poderiam ser collocados nns con- 
dições de se prestarem aos misteres a que eram destinados. 

A camará municipal, que também funccionava em um 
prédio particular, terá brevemente um ediâcio próprio para 
as suas sessões. 

Foi collocada a primeira pedra para elle no dia 1.^ de Ja- 
neiro do corrente anno, na praça denominada— Pedro II. 

Também, a esforços do actual presidente, o Sr. Dr. Do- 
mingos Monteiro Peixoto, foi lançada, no 1.° de Janeiro de 
1783, a primeira pedra de um vasto edificio, destinado para 
hospital da santa casa da misericórdia, na quadra de terra, 
que demora entre as ruas do Progresso e José Clemente, con- 
cedida pelo governo imperial. 

Tem a cidade de Manáos, dividida em 3 bairros, 499 casas, 
das quaes 255 são cobertas de telha e 244 de palha. Entre as 
primeiras ha i8 sobrados ou casas assobradadas. Tem mais 
20 ruas, ii travessas, 7 praças e 3 estradas. Ha alli 52 casas 
commerciaes. 

Além de um bem montado estabelecimento de educandos 
artífices, ínaugrado a 25 de Março de 1858, possuo também 
uma companhia de aprendizes marinheiros, creada por de- 
creto de 17 de Janeiro de 1871 e inaugurada a 21 de Agosto 
de 1872. 






— 171 — 

Tem os seguintes limíies a freguezia qao compreliende a 
cidade de Manáos. Confína pela parte de leste com a f regue- 
lia de Serpa, na foz do lago Arumá inclusive, á esquorda do 
Amazonas, de onde corre a linh:) a margem opposla, entrando 
pelo rio Uautdssíié a boca do rio Japéim, inclusive o paraná- 
mirido Pantaleão até a foz do rio Mamory. Desta linha para 
o sul limita com a freguezia de Borba (i). 

A 8 ou 9 milhas abaixo de Manáos vê-se o lu?ar denomi- 
nado La^f^y onde em 1832 levantaram os revoltados do Rio 
Negro uma espécie de fortiflcaçSo, que foi confiada á direcção 
do carmelita Pr. Joaquim de Santa Luzia. Quando por 
aqnelle simulacro de fortificação cassou a barca de guerra 
Independência, (\WQ ^Q Belém conduzia força ao mando do 
tenente coronel Domingos Simões da Cunha para suíTocar a 
revolução, foi saudada com alguns tiros, cujas pontarias 

eram dirigidas pelo dito carmelita A barca Independen» 

cia, entretanto, passou incólume. 

A população da cidade de Manáos é calculada em 5.000 
almas. 

A villa de Cudajaz fica á margem do Solimõos. Foi o lugar 
em que, em 1864, apporiaram pela primeira vez os irmãos 
Rocha Tury, quando se proi>uzeram a explorar o lago Cuda- 
jaz e o rioPurús. 

Em 1871 foi elevada á categoria de freguezia, e por lei 
provincial do 1.^ de Maio do 1874. á categoria de villa. 

A lavoura continua ainda a ser alli completamente nulla. 
Não ha campinas próprias para a creação de gado, mas os 
Srs. Rocha Tury acabam de abrir um campo artificial, apro- 
veitando a margem de um Ingo próximo á villa, e alli mon- 
taram uma fazenda, que conta já um crescido numero da 
cabeças de gado vacum e ca vai lar. 

O principal ramo de commercio, que alli se faz em grande 
escala, é o da extracção da borracha, que é preparada no 
lago Cudajaz. A pesca do pirarucu é i;rualmente feita em 
larga escala. Também exporta salsaparrilha. 

A sua população, calculada, segundo o recenseamento de 
1873, em 2.175 almas, é quasi toda emigrada do Pará e Baixo 
Amazonas. Possuo a villa seis casas de commercio e um ar- 
mazém de grosso tracto. 

A villa de Alvellos (antiga freguezia doCoary) fica á 
margem oriental da bahia do Coary, quatro léguas acima 
da sua foz. 

Foi sua primeira situação no rio Paratary, oito léguas 
acima da fóz, donde trasladou-so para o dasaguadouro do 
lago Anamá, e dahi para a ilha Guajaratiba, donde depois 
passou-se para a actuai situação. Em 1758 foi elevada á ca- 
tegoria de lugar com o denominação de Alvellos-, em 1833 



(i) Depois de escriptas estas linhas, tive noticia de que a assem- 
blèa provincial havia, na sessfto do corrente anno, aiierado estes 
llmibs. 



— 172 — 

foi qualifloada simples frcguczia, com a primitiva denomí- 
naçHodeCosry, o imr loi provincial doi.*" de Maio de 1874 
acaba do ser clovaua á categoria de villa, com o Dome de 
Alvollos. 

Segundo o ultimo recenseamento, é de 2.078 almas a popu- 
lação do sm termo. 

O rio Coartf, que f(^rma a bahia em que está assentada a 
villa, {\ um aflluentc do Solimões, no qual se lança, á margem 
direita, por duas bocas, entre os rios Purús eTefté, ou mais 
npproximadamonto, entre o rio Mamíá e o ribeiro Uariaú. 

As demais povoações carecem de importância, e a sua des- 
cripçao tornar-so-bia fastidiosa, por monótona. Todas ellas 
mais ou menos so parecem. Um amontoado de casas de palha, 
com algumas bem raras de telha, e em geral uma igreja meio 
arruinada, eis o espectáculo que todas ellas mais ou menos 
apresentam. Ávida dos seringaes vai matando ávida dos 
povoados. 

A insirucçâo publica, de alguns annos a esta parte, vai 
tomando no Amazonas notável desenvolvimento. 

Além de um lyreu bem montado e regularmente frequen- 
tado, tem a província mais 36 escolas publicas da ensino 
primário, sendo 28 para o sexo masculino e 8 para o femi- 
nino. 

O iyccu possuo lodos os preparatórios exigidos para as aca- 
demias do I.iiperio- As matriculas são gratuitas e os com- 
pêndios saoos adoptados no imperial collegio de Pedro II o 
no Iyccu paraense. 

Sa.j regulares os vencimentos dos professores do lyceu, 
bem como os dos professores primários. Vencem estes an- 
nualnionio 1:200,>000. O director geral da instrucção publica 
tem 3:000;>000 de veneiínontos. 

A camará municipal da capital creou cm Agosto de 1872 
duas escolas nocturnas, que já a) acham funccionando, para 
os adultos, e os que, por qualquer circumslancia, não pude- 
rem frequentar as e.>colas que funecionam durante o dia. 

Com a instrucção publica despende a província do Ama- 
zonas annualmcnto a quantia de 70:000.^000, pouco mais ou 
menos. 

Publicavam-sc em Manáos os seguintes jornaes : 

— A Estrvlla do Amazonas^ 

— O Jornal (lo Amazonas , 

— Jornal do Rio Ncyro. 

— Catechísta. 

— Amazonas. 

— O Correio de Manáos. 

— O Monarchista. 

— Chico de Setembro. ( 1 ) 



( i ) Este foi o primeiro jornal publicado depois de ser elevada 
a comarca do Rio Negro à categoria deprovmcia. 



— 173 — 

— Jornal do Norte. 

— Chrysalida, 

— Reforma LiberaL 

— Commercio do Amazonas. 

— O Rio Negro. 

— Diário do Amazonas . 

— Boletim Official. 

Os cinco oaseis últimos nameros coatiauam a ser pabli- 
cados. 

Em Itacoatiara (antiga villa de Serpa) pablica-se um pe- 
riódico intitulado Itacoatiara. 

As rendas da província do Amazonas vão progressiva* 
mente augmentando. Os dados seguintes faliam bem alto. 



Foram as rendas em : 

i852 de 18:767^89 

i853 de 29:566^02 

1854 de 33:165^103 

1855 de 46:246^173 

1856 de 54:8485^296 

1857 de 61:972^193 

1858 de 65:568^711 

1859 de 83:748,5327 

1860 de 101:929,^616 

1861 de 90:220^85 

1862 de 93:347,5803 

1863 - (semestre isolado) 57 : 289^271 

1863—1864 122:346;5400 

1864-1865 130:350^1753 

1865-1866 178:038^781 

1866-1867 226:097,5554 

1869—1 870 420 : 338,5744 

1870—1871 365: 468,5691 

1871-1872 499:685/5653 

1872— (semestre) 242:990,5771 

1873—1874 515:374í5000 

No exercicio de 1866—1867 tinha a província do Amazonas: 
4 açougues^ 3 boticas, 1 bilhar, 1 fabrica de sabão, 121 casas 
de seccos e molhados, 2 lojas de alfaiate, 2 ditas de funileiro, 
1 de drogas, 1 de ourives, 2 officínas de ferreiro, 3 de mar- 
cenaria, 1 de pentieiro, 2 de sapateiro, 4 olarias, 3 padarias. 

Destes estabelecimentos, 76 eram brazileiros, 68 por*u- 
guozes, 6 ínglczes e 4 de diversas nacionalidades. 



— 174 — 

Estiveram empregados nelles il8 caixeiros» sendo 87 bn- 
zileiros, 28portuguezes, 4ÍQglezes e i de outra nacionali- 
dade. 

Pagaram estes estabeci mentos para os cofres proTincfaes a 
som ma de 2:810^000 do impostos. 

No commercio iluvial denominado de regatões. foram em- 
pregadas 113einbarcavõcs de vela, com 44S toneladas^ e tri- 
poladns por i59 marinticiros: pagaram de impostos a quantia 
de 9:3865046. 

No commercio do cabotagem, isto é, entre a proYincía do 
Amazonas e a do Pará, empregaram-se 2-1 embarcaç9es« 
sendo 4 a vapor, todas com 1.645 toneladas, e trípoladas por 
315 inarínlieiros. 
Pagaram de impostos a somma de 668/1940. 
A exportação provincial noexercicio de 1871~*i87St mon- 
tou á rifra de 3.375:088^005. 

O género do mais exportação foi a borracha, que ele- 
vou-se á somma db 1,588,132,616 kilos. 

Sogue-se o pirarucu socco, que apenas se exporta para o 
Pará, e que no citado exercicio subia á somma de kilos 
1,245,513,481. 

Couros d(i l)oi e veado, estopa, guaraná, manteiga de tar- 
taruga, ol<»o do copal)yba, piassava e salsa, também foram 
gent^rosdo grande expoit»c^<)- 

Em Abril do corninte anno^ sabia do porto de Manáos 
paia IIaml)urgo o brigue dinamarquez Fami/t^«ffaa5, pri- 
m<''ira tentativa de navegação directa do Amazonas para 
a Europa, levando a seu bordo os géneros seguintes: 

Castanha 128.200 kilos 

Borracha 6.110 

Salsa 250 

Oloo de copahyba 340 

Piassava em rama 2.600 

Cacáo 300 

Couros diversos 43 

Madeira e n toros, mot 142 

O carregamento que levou para Manáos foi avaliado em 

186:000^00. 

Semelhante tentativa e outras, que sem duvida se Inese- 
iruiram muito concorrerão para o desenvolvimento do com- 
mercio 'e o aagmento das rendas da previno a. 

U u outro facto, que augura importantes vantagens para o 
«ommercio do Amazonas, 6 o contracto de navegação directa 
?a Europa para Manáos, celebrado a 19 de Março de 1873 
«nira ffoverno da província o o commendador Alexandre 
Panlo de Brito Amorim. Em virtude desse contracto obri- 
l! M o amoFeiarto a estabelecer uma linba de navegado dl- 
82 avW^^^ Mattáos e differenles praças 



— 176 — 

estrangeiras, fazendo seu ponto de partida da cidade de Li- 
verpool, com escala pelo Havre, Vigo e Lisboa, e dentro do 
Império pelas cidades do Pará, Santarém e Óbidos, e dentro 
da província do Amazonas na villa de Serpa, podendo tam- 
bém tocar em S. Luiz do Maranhão, quando convier aos 
interesses da navegação e do commercío. Obriga-se também 
o emprezarío a estabelecer em Manáos uma casa de grosso 
tracto com mercadorias importadas da Europa. 

Obriga-se a provincia a conceder ao emprezario a subven- 
ção de 90:000^00 por cada anno do primeiro quinquennio, 
e a de 100:000<$000 annualmente nos quinquennios seguintes 
até a terminação do contracto. 

Em Abril do corrente anno, chegou a Manáos o vapor 
Mallard, primeiro ensaio da nova emproza. 

Eis o quadro demonstrativo da quantidade, unidade, qua- 
lidade e valores dos géneros exportados da provincia do 
Amazonas no exercício de 1871—1872. 



— 176 — 



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COMMISSÃO DO MADEIRA. 



% 



PARÁ E AMAZONAS 



PELO 



ENCARREGADO DOS TRARALHOS ETUNOGRAPHICOS 



Coueao cTtaiiciòco Duetnatiiiio <)e õouxa. 



3/ PARTE. 



RIO DE JANEIRO. 

TYPOQRAPHIA NACIONAL. 






811-96 



V 



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V 



GOHHISSiO DO MADEIRA 



Pará e ilLinazoiías* 



I. 



A serra de Paríntinseo rio NhamandáoaJamundá» sio, 
como disse, a divisa offlcial das duas provindas do Amazonas 
e Pará. 

Continuando a descer o Amazonas, e na distancia de 85 
milbas ponco roais oa menos da serra de Parintins, encon- 
tra -se a foz do rio Trombetas, denominado primitivamente 
Oriximina pelos indigenas. 

E' o Trombetas um dos importantes a£flnentes do Amazo- 
nas, e notável por sua extensSo e falta de sinuosídade na 
parte inferior do seu curso. Parece descer das cordilheiras 
da Gnyana elança-se no Amazonas a 4 milhas a ONO da 
cidade de Óbidos. Tem um curso de mais de 240 milbas na- 
vegáveis, durante a cheia, para qualquer canoa, e ainda va- 
pores, que não demandem grande calado. 

Segundo conjectura o Sr. Ferreira Penna, deve o Trom- 
betas ter as suas fontes nas immediações das do Annuaú, af- 
fluente do Rio Branco e do Rupunury, que vai ao Essequebo. 
Desce no rumo ESE , recebendo na margem esquerda» 
antes de chegjr ás suas grandes cachoeiras, um affluente 
notável, que vem dos campos do norte, por onde os índios 
6 os negros do mocambo se communicam com as malocas de 
negros, que povoam as cabeceiras do Saramacá e do Sari- 
nam, na colónia hollandexa. 



— 4 — 

Aí". i':rfíi'. íl<í ijíií^ ínarífí-ns sã-'» baixas r^- i5 Tvt»?? i-ArsJas 
;it'- ;» h.jfííi íl*» i:inn'ná, «> ii |irincipí:l ;ínjrn:". Djti -er*» 
íli;irjl': dfii'r;nii ;iH r;i'-l|i»íiras, <jrj»? vfi . 5uMqJ'« ít^Ij*!- 
ífMíiti: íil') /i . i<-rr;»^ ;ilt.'fs o MionUinli- Si-^ do Ri Br-a-"^. 
O-' iipíiífi ;i'. '-.'i':!! í'iríi', tjm'j í.xl'rn?5o d»* 14 i !ò l-í-rui?, pe- 
f.ilííi' ntí- r'»íiírii.i ílí' :.'ran<]í;s riiaia«, iiero-rrenJ:- •:■ ri> o^n 
v<:í'I.i'I'if«» i;il»yriiillio <!•• ilhas píjíJrí^írOiias '!•? diT^r-ss? di- 
iíi':íi .'V ., ■. ;jf i;íii'lf» s»Tiipríí díí rumo n »> i^an i»*> '* alâr-::»n- 
íjo-j! íoii idi r;ivi-.lifi»rití*. T^tíi uuin niill;a d»? largura at^ á 
ÍU7. f\h <jiii)ln;í, qu'; í'0111 f\Ui curr?:: quasi lurâlltrbmente, 
ror l;in'i(» i.fUi\tTi'. '*)<> nortf^. 

I'ir ;;ií|;i ;i ntiiiii:i r;ií:!io<'irn, diz O Sr. Ferreira Penna.o 
'I roífih<l;in «-riU;! lo/o ii.'j plníiirif? do Amaz"na>. Ivrna >-^ 
í/f;i'Iii;ilíii<íiU! Uíi íjuillo, prolurido, eslifito e >inu>'.5ri aié 
o l;i(/o (lo Mura. Oiriliiiúa (fntii para haixo cum flexõ- s 
l'/\iitt'. , ifiipn; no rumo ;r<!ral dȒ DSK, londo aos ladus na- 
iriífi ;r, horas d<; la;ojs, í^rafnlíf nuiiirro d file? aceos?ivoi> a 
v/i|>oM', t: i;n(Miiiira o f.uniiná, qufj conflae á esquerda, 
vi fido t\i'. K. 

O íjjinini «': alnla d»"-/;orih'^cido, fn^smo dos intrépidos re- 
(/ato<-. nija-, fxnir^Tjt-s acaharn ondo romeça o deserlo, e o 
ifiv-crlo a.pil roíiirra na.s cactrjcirns do rin. 

AhaÍKo (!<• .las rarjioiíiras, coDtinúi o Sr. Ferreira Penna, 
o íjjfiiin/i, íjim pariTM vir do N, reunc-se com ou iro af- 
fliií-.iilíí, qiiíí Ví-ni do K.NK. Aiiííiiicnlado assim o seu volume 
f. cri liado iia plariirl(>,dlri;.Mí.si* a Ojiercorrendo uma ri*giSo 
haixa (■ dcpriíiii la, onde as siiasa;ruas, romo queoslagnadaSy 
iifij .ioiiioH<'aiii-v(;,n!partindn-si! c;in d< fluentes, ora esireiíos, 
loiíií; o Janaiiará c 'IVjTa l*r''la, ora loinando proporão *s do 
ta{/0' '•xt(rir.os,(-oMio o Ara[)i(Mirú e o Saldado, onde os ventos 
n^iiarii ii hoa hu \u'.Tt\r.U\ levantando j^^randes onda:!. 

Olliirniiiá iwmiiic lo los estos i>rago< em um só, exactamente 
ao laiiíMi-^i! no Troinhctas. 

KHi'f toma finiào ahi o rumo SIO, seiruindo em uma linha 
rcria d<! rcrra de 20 milhas Por rniis da metade deste es- 
ihiio i'hir)ndi'm-M* duas ilhas estreitas e Ion<{as, chamadas 
(íaypniú <• Jaciíara, (içando drfronle da [irimeira, ua mar- 
gem es(|nerda, a hoern do rio que tem o seu nome. 

UufiKÍ uo S da ponta infiTínr da ilha Jacitara» está na 
miir^em díreiíu a (úz do rio Jamundú, quo, com sua< aguas 
toldadas por drniient«?sdo Amazonas, chega ahi com o hu- 
milde noMKMie igarapé deSapuenú. 

Dessa conílucneia para hnixo volta do nov9 ao rumo geral 
KSK, n>cehe á direita o Paraná-Mirim '«achuíry, depois o 
Iffarapó Arapicú o outros menores á esquerda, passa pela 
booen di) diversos la;;os, lança á direita doas i^araná-Mirins, 
(|U8 mais adiante se confundem cm um só, descreve nma 
liffcira ourvi para SE, depois para E.e com este ramo per- 
de-BO no Amazonas, cerca de uma milha a OSO da exiincta 
coloniu militar doOhldos. 

O Paranú-Mírim monor.seguo á esquerda por um capinzal 
para B, reuno«so ao igarapó Curumú, procedente do lago e 
serra deste nome» e iucorpora-se com o segundo, que parle 




— 5 — 

do mesmo lado e serae qaasi o mesmo rumo. Este» que ó 
denominado Paraná-Mírim de Maria Thereza, log:o que re- 
cebe o antecedente» inclina-se a ESE» e entra no Amazonas, 
qnasi junto á foz do Trombetas, de que se destacara. 

Até aqui o Sr. Ferreira Penna. 

As margens deste rio» notável pela sua extensão, pelo vo- 
lume de suas aguas límpidas, pela fertilidade de suas terras 
e por sua importância geographica, contém grande abun- 
dância de pedra calcarea e sulfureto de ferro. cEste rio» es- 
crevia em i853 um engenheiro da província do Pará, é ni- 
miamente rico, tanto em producções de suas vastas florestas» 
como em productos mineraes e metallurgicos» que só esperam 
pela visita do geólogo» que os vá reconhecer. > 

D'8bi, segundo me asseveram» se tem tirado amostras de 
ouro, e consta-me até» bem que tenha alguns fundamentos 
para descrer da noticia, que entretanto consigno aqui» que 
em uma praia do Trombetas já se achou um diamante» pelo 
que ainda é hoje conhecida pelo nome de praia do diamante. 

• As bellas pedras de amolar, escrevia ainda o mesmo en- 
genheiro acima citado» de que abunda este rio» e o carvão 
que dizem haver no Ugo Aripecú, a 50 léguas da foz» a 
abundância de um mineral» que pelo aspecto parece ser sul- 
fureto de antimonio» e outras muitas pedras de differentos 
cores» talvez mármores» que me informam haver pelo leito 
do rio em grande quantidade» convidam e excitam a uma 
exploração em regra.» 

Forma no centro duas grandes bacias» que são um verda- 
deiro labyrintho de ilhas. Acham-se nas suas praias diversas 
crystallisações e muito cascalho. Todo esse terreno tem certo 
aspecto mineralógico muito pronunciado» sobretudo nas ca- 
choeiras» onde se tem encontrado grandes massas de ferroe 
de onde já se tiraram amostras de p^edra hume» crystal de 
rocha» estanho, antimonio, plumbagina e mica. 

São apenas cinco as cachoeiras conhecidas do Trombetas. 

A primeira é a da Conceição de Nossa Senhora, assim deno- 
minada em i868 pelo Sr. Manoel Valente do Couto» quando 
visitou o mocambo. Era anteriormente» e quiçá ainda hoje» 
conhecida pelo nome de Por^^tra ou Encontro, naturalmente 
polo encontro do rio» que vem do Nhamundá trazer o tri- 
buto de suas aguas ao Trombetas. 

A segunda cachoeira», denominada Vira Mundo, é simples- 
mente a reunião de muitas corredeiras, que» precipitando-se 
umas sobre outras» formam um torvelinho admirável. 

A terceira» denominada Inferno, é o ponto de passagem 
mais perij?osa ao ingresso dos mocambos» de que miis 
adiante fallarei. 

A quarta tem o nome de Maravilha. E' bella e quasi inof- 
fenaiva. 

A quinta e ultima chama-se Cachoeirinha. Deveria antes 
cbamar«se Por^^ira ou Entrada porque, com pouco navegar, 
esbarra-ss com o Mocambo. 

O leito do Trombetas é arenoso» a agua é muito clara e 
formado porelle ba um lago» cujas aguas são tão salitrosas» 



— 6 — 

qae se nSo podem beber e tem por isto a denominação de— 
lago salgado. 

Tributários deste rio são muitos igarapés e lagos i^os 
quaes abunda o peixe. Em suas matas é prodigiosa a quan- 
tidade de caça ; a sua flora é superabundante. Entre os seus 
productos distinguem-se o cacáo, a castanha, a salsa, o cravo» 
o óleo decopabyba e o cumaru. Tem exceilentes madeiras de 
construcção naval e civil, sobresahíndo entre elias a bella 
muerapinima edíparacuúbapinima. Encontram-se também 
alli taquaras, que medem quasi palmo e meio de diâmetro. 
No género de madeiras, diz o Sr. Ferreira Penna que o 
Trombetas por si só pôde fornecer toda quanta precise o Es- 
tado para as suas construcções durante longos annos . 

E' o Trombetas um rio magestoso, diz o capitSo-tenante 
Parahybana, que o explorou até o lago do Mura, não só pela 
cópia de suas aguas, porém ainda pelo duplo scenario de 
suas margens. 

Este duplo scenario^ acrescenta o Sr. Ferreira Penna, dd 
que vi exemplos na secção inferior^ abaixo da fóz do Ja- 
munda; é representado por duas zonas de terrenos, que con- 
stituem a margem esquerda do rio. Quasi ao nivel d'agua 
está a primeira zona, revestida de uma vegetação pouco des- 
envolvida, quasi toda igualem altura: ó o terreno recen- 
temente formado^ que no paiz se conhece peio nome de 
igapó, mato alagadiço, por baixo do qual uma pequena ca- 
noa pôde navegar. Este primeiro degráo deT terreno é inter- 
rompido a cada momento por um igarapé, que vem de algum 
lago próximo. 

A segunda zona, paralella á antecedente, é composta de 
terrenos que, por sua altura, escapando completamente és 
inundações, constituem a verdadeira margem do rio. Uma 
vegetação possante e variada reveste toda a sua super- 
fície. 

Atrás deste segundo degráo do terreno, avista-se de es- 
paço a espaço, áquem da conQuencia doCuminá, uma serra 
de chapada como o Uaraqf 'tapera, ou composta de grupos, 
terminando em cimos arredondados pela vegetação^ que a 
coroa, como as bellas montanhas de Curumú. 

E' nesta segunda zona, formada pelas terras altas, que 
em geral apparecem as castanheiras, que fornecem as amên- 
doas tão apreciadas no commercio; as copahybeiras, que 
produzem o óleo tão útil á industria e á medicina, e emfim 
uma infinidade de madeiras estimadas para toda a sorte de 
obras de construcção, de marcenaria e das mais delicadas 
peças de moveis. 

A salsa, o cacáo, a canna, a laranja, o café,mandioca, milho, 
tabaco, algodão, etc, produzem com facilidade nessas terras. 

A companhia de navegação a vapor (limitada) do Ama- 
zonas possuo no rio Trombetas quatro léguas quadradas de 
terreno. Começa na fóz do lago Iripixy até a do Caipurú, 
cortando a linha no rumo magnético de 62® NE. 

Este terreno é bastante rico em madeiras de construcção, e 
já em eras passadas houve nelle, pòr conta do Estado» ama 




— 7 — 






grande fabrica, que maitas remessas fez para o arsenal de 
marinha do Pará, e orna outra, onde, por conta de parti- 
culares, construjram-se muitas embarcações. 

£' também próprio para a cultura do café e da canna. 

A parte inferior du rio é pouco tiabitada^ havendo todavia 
alguns estabelecimentos de civilizados. Um pouco acima 
enconiram-se os celebres mocambos ou aldôas de escravos 
fugidos. 

Em meu livro sobre o Valle ão Amazonas escrevi as se- 
guintes linhas sobre os quilombos ou mocambos : 

• Constam, segundo os melhores cálculos, de mais de 2.000 
escravos fugidos os mocambos do Trombetas, em Óbidos, e de 
Curuá, em Alemquer.» 

Os negros, industriados talvez pelos outros companheiros 
de desterro, diz o Sr. Dr. Tavares Bastos, vivem alll de- 
baixo de um governo despótico electivo; com eifeito^ elles 
nomeam o seu governador, e d iz-se que os delegados e sub- 
delegados sio também electivos. Imitam nas designações de 
suas autoridades os nomes que conheceram nas nossas po- 
voações. Os mocambos attrahem os escravos ; nomearam-me 
uma senhora que viu em pouco fugirem para allí 100 dos que 
possuia ; outros proprietários ha que contam 20 e 30 perdidos 
desse modo. Os negros cultivam a mandioca e o tabaco ( o que 
elles vendem passa pelo melhor ) ; colhem a castanha, a sal- 
saparrilha, etc. A's vezes descem em canoas e vôm ao próprio 
porto de Óbidos, á noite, commerciar ás escondidas , com os 
regatões, que sobem o Trombetas; elles o fazem habitual- 
mente. 

E, pois, acrescentei eu, além da grande falta de braços 
com que lutam os agricultores do Amazonas, em conse- 
quência da avultada emigração que afiQue para os seringaes, 
têm ainda de lutar com a prega dos mocambos, que são como 
uma viva e permanente ameaça ! > 

Ao que então escrevi, faço hoje algumas alterações, em 
consequência das informações que me acabam de ser mi- 
nistradas pelo intelligente o honesto Sr. Manoel Valente do 
Couto, que em 1868, commissionado pela camará municipal 
de Óbidos, em companhia de Fr. Carmello Mazarin, visitou 
o mocambo do Trombetas. 

Compõe-se o mocambo de 300 individues, pouco mais ou 
menos, entre homens, mulheres e crianças, incluindo os 
inválidos e alguns indivíduos livres, filhos de pretos com 
tapuias. Formam como três grupos di^tinctos : os pretos de 
Óbidos, os de Alemquer e os de Santarém, constituindo os 
de Óbidos a maioria. Acham-se disseminados pelas muitas 
ilhas, que ficam além das cachoeiras. Não tôm governo al- 
gum permanente, .e só nas occasiões de perig^ 
suas repetidas lutas intestinas» é que se sujeitai 
No tempo em que o Sr. Manoel Valente do 
mocambo, era chefe o filho do fundador do 
por ser filho de tapuia, era livre, e foi 
rr. Carmello. 

Entre os negros do mocambo, assei 




— 8 — 

que não existiam criminosos, nem desertores, qne os não 
consentiam lá, o que é certo é que ninguém se queixa de 
roubos e de violências da parte delles. 

Occupam-se no trabalho da lavoura e possuem algumas 
roças bem plantadas. 

U mocambo do Trombetas já foi mais populoso do que o ó 
actualmente. As lutas intestinas, as moléstias, e entre ellas 
as sazOes, o têm ido pouco a pouco dizimando. 

Os Índios, que babitam o rio Trombetas, moram além da 
ultima cachoeira, e são descendentes dos Índios Paecis, que 
viviam na aldôa deste nome, convertida depois em Pauxis, 
e finalmente em Óbidos, Elles lôm relações commercíaes 
com a Guyana Hollandeza, d'0Qde reeebem machados, armas 
e outros instrumentos. Faliam um dialecto especial^ que 
não se assemelha ao das outras tribus. 

Segundo as noticias que obteve o Sr. Ferreira Penna, os 
Índios que habitam a bacia suporior do Trombetas devem 
ser os restos ou descendentes da heróica nação dos Caraíbas, 
que os velhos conquistadores hespanhoés exterminaram e 
perseguiram a ferro e fogo, aviltando-os com o appellido de 
canibaes. 

Esses restos, sem duvida degenerados^ acrescenta elle, 
podiam ser ainda úteis ao paiz, chamando-os á industria. 
Em seu estado de miséria actual, e longe do contacto da ci- 
vilização, grande numero desses infelizes são hoje escravos 
dos escravos refugiados nos mocambos I 

No relatório do Sr. conselheiro Brusque, apresentado em 
1863 á assembléa provincial do Pará, lêm-se as seguintes in- 
teressantes noticias : 

• Asseguram-me algumas informações recebidas que 
existe no rio Trombetas grande numero de indios selvagens, 
que vagueiam nas matas acima das cachoeiras daquelle rio. 

c Segundo o testemunho de um explorador de nome Thomaz 
António de Aquino, que, na supposiçãode encontrar rique- 
zas naquelle rio, subiu pelo seu principal rumo, denominado 
Cuminá, até encontrar as cachoeiras, e dpste pontoem diante 
seguiu caminho por terra por espaço de i3 dias consecuti- 
Tos, encontrou nesta paragem uma grande tribu selvagem, 
de côr quasi branca e semelhante ao typo que nesta provín- 
cia se chama mameluco. 

c liefere este indivíduo que os homens desta tribu usavam 
apenas um cinto de embíra trançada, e compridos os cabellos 
do meio da cabeça para trás, tendo por adorno uma delicada 
trança de palha^ nos delgados das pernas e dos braços. 

c As mulheres estavam semi-núas, tendo apenas uma grossa 
faxa pendente da rintura,adornada de missangas e pequenos 
guisos, enfeites estes que denotain ter tido seguramente esta 
tribu alguma communicaçãojcom homens civillsados, que 
lhes forneceram estes adornos, e são por certo os bollandezes. 

« Affirma ainda aquelle explorador ter conseguido saber 
destes indígenas que naquelles desertos outras tribus existem 
para nós desconhecidas. 

c Tenho por verdadeiras estas noticias, conclue o Sr. con- 



^k*. 



— 9 — 

mlbeiroBrnsqae, conflrmadss também por algans oscravos, 
qoe» tendo faffidoda companhia de seus senhores, foram ex* 
palfiOft daquelTa longinqaa localidade, onde foram occuitar- 
86, peita hordas selvagens, que alli appareceram, referindo 
em sea regresso a Óbidos estes mesmos factos. • 

Pouco abaixo da foz do Trombetas, a menos de meia milha 
de distancia, vé-se o sítio em cjue existiu a antiga colónia 
militar de Óbidos. Achava-se situada á margem esquerda 
do Amazonas, sendo de cerca de duas léguas de frente a ex- 
tensiodo seu território. Era limitada ao sul pela margem 
eiqnerda do Amazonas, a lóste pela linha que passa pelo 
igarapé Sucurijú; ao poente pelo igarapé e lago Kiri-Kiri, e 
ao norte era cortado pelo rio Curussambá. 

As terras 8io boas para a cultura e contém excellcntes 
pastagens ; bá^Hnnbem alli madeiras mais valiosas e esti- 
madas para quaesquer espécies de obras. 

A colónia militar deObidos, diz o Sr. Ferreira Penna que 
parece ter sido creada sem os conselhos da experiência, 
mal organizada e mal administrada, teve ainda, para apres- 
sar a sua ruina, de experimentar desde logo a violação do 
anico artigo do seu regulamento^ que podia amparar sua 
existência, aquelle que garantia ao soldado a propriedade 
do terreno por elle cultivado e dos fructos que tirasse desse 
trabalho. 

Em Óbidos, alguns soldados, logo que chegaram á coló- 
nia, cuidaram de cultivar seu lote de terras: mas, quando 
dons delles estavam em véspera de colher os fructos do que 
plantaram, uma simples ordem os rendeu, chamando-os á 
capital. 

Nio foi preciso mais outro exemplo, para que os soldados, 
vendo destruída a esperança de se fazerem proprietario.% 
se guardassem de formar novas plantações. O desanimo foi 
geral; e, desde que este golpe foi desfechado, a colónia não 
tinha outro elemento de existência e permanência^ senSo 
aacriflcando o governo avultadas semmas com o seu pessoal 
ecom os viveres, porque eiin os nâo produzia. 

Effectivamente foi o que aconteceu. A colónia viveu em- 
quanto o governo a snstenlon, dando-lhe tudo quanto era 
preciso á vida, posto que ella nenhum serviço prestasse. As 
casas começaram a cahir em ruínas. De 255 colonos, man- 
dados vir pela companhia do Amazonas, e que para alli 
foram mandados cm 1854, não restava um ao menos em 1863. 

Em 1864 o presidente do Pará dou-a por extíncta, porque 
para Isso também só faltava a declaração ofliclal. 

Hoje funcciona alli uma olaria, pertencente a um parti- 
cular. 

A cidade do Óbidos, situada em uma pequena collína, á 
margem esquerda do Amazonas, pouco abaixo da foz do 
Trombetas, é a antiga Pauxis, aldèazinha de Curuá. 

Quando, depois de deíxar-se Santarém e as barreiras de 

Paricatnba, diz o Sr. Ferreira Penna, navega-se para o 

poente até além da ponta sul da pequena ilha do Amador, 

qaasi encostada á ilha grande dos Printes, a que Tardy de 

2 




» 



— 10 — 

Montravel deu em i84i o nome de Boulonnaise^ e a com* 
missão de limites, em 186i, o de Mamaurú, avista-se uma 
linha decollínas de pouca altura^ em cuja extremidade me- 
ridional começa a apparecer grande numero de casas que 
branquejam ao longe por entre as ramagens de mangueiras, 
Itrangeir^ e outras arvores fructiferas, que na provincia 
formam o mais bello ornamento das povoações. 

Essas casas são as da cidade de Óbidos, que se estende desde 
a margem do Amazonas, por um terreno bastante inclinado, 
até quasi ao alto de um pequeno monte, que a domina. 

O primeiro edificio que se distingue de longe, é a fortaleza, 
construida em i854 por um dí<%tincto engenheiro paraense, 
o major Marcos Pereira deSalles, sobre uma espécie de pro- 
montoro, qae, avançando em semicírculo para dentro do 
rio, dá lugar, do lado oriental, a uma pequena enseada ou 
remanso. 

Acha-se situado o forte de Óbidos cerca de 5 milhas abaixo 
da foz do rio Trombetas, a 1% 55' e23'' de latitude sul, e 
aos il^, ±V e 24" de longitude occidenial do meridiano do 
Rio de Janeiro. 

O forte é um reducto semicircular, guarnecido por iO 
peças. 

Foi reparado ha pouco tempo, acrescentando-se*lhe uma 
plataforma corrida, de cantaria de Lisboa. 

E' actualmente commandado por um tenente coronel. 

No seu estado actual, diz o Sr. Ferreira Penna, só pôde 
servir para defesa do lado do E. e do Sul, ou do lado inferior 
do rio, porque do O. ou do lado de cima do rio, ha um monte 
de terra, que oocculta e embaraça os seus fogos nessa direc- 
ção. Sem remover-se esse monte inútil de terra, coberto do 
mato, a fortificação será sempre incompleta . 

O Sr. engenheiro Aguiar Lima construio ao lume d'agua, 
junto á fralda da collina sobre que está assentado o forte, 
um reducto pentagonal, que lhe serve de complemento. 

Paliando do forte de Óbidos, assim exprimio-se um illus- 
trado representante do Amazonas: 

t Óbidos é a posição do Amazonas mais própria para obras 
de fortificação. 

t Levantou -se alli um forte sobre a barra nca;mas esse forte, 
por concluir, como está, sem as obras complementares, não 
pôde prestar o serviço para que foi construido. O engenheiro 
que planejou essas obras foi o major Salles, infelizmente, 
morto ha muitos annos. O seu plano era complexo. 

• Além do forte sobre a barranca, deveria ter uma bateria 
ao lume d'agua, e do outro lado do rio uma outra bateria 
para cruzarem os respectivos fogos: o forte, como está, não 
pôde evitar a subida de vapores. O exemplo do Morona em 
1862 está ainda muito fresco. 

c Outras embarcações forçam a sua passagem, encostadas á 
margem opposta, na distancia de 900 metros, e em pouco 
tempo se põem fora do alcance da artilharia do forte, ou na- 
vegam junto á barranca ; e neste caso, a artilharia do forte, 
com quanto de grosso calibre, não poderá evitar a passagem 



l! 



— 1! — 

delias, esó reapparetvriam ij fori-», 'imní-j ^tUr^^m fôr» 
do alcance d« 3 aa arcilhans. ú vi^r-r ii:'-;nj.^ yiHnij forçou 
a passagem de ObiJos, aprcai rr*:<tri Lj -.^a '-..tX^íj ucna 
bala, que Dãol^e fez ijamn • i .':;':. . 

« E' preciso, porlanS'», -jj^ > ;r:fi--i cí^= ^:*i'il-:frj wj^- 
Ihor o sjí lern a iJ e f ■> r i i â .a ';í ^ , : - : . i v * íi a Oo . í o ■. . '/. fíi o 
está, nao pre?t.i o d-^vfjã-lv .i-:rvi;-i. 

€ CoQstruio-Sií ha pou:o irai;- •-*:.. í.r:;::i r.a rí z dí -f-rra ; 
esse fortim parece mai* uru ririnii-l ,■ -i^ rrnr»';! ^l ^ '^rjí^ ur/i 
complemento de fúriií]?a«;âo. M.ria ir-:* pr:?4% v^rn U:r o 
necessário espaço para r«-i/ hi ;,r7a5, ri:.:* pira ':;ni;r m 
respectivas gaaralc&rs. • 

A cidade de ObiJo?, íiiiiila 1 .':.'3r:'-=:rn ^- jjt Jíi 'J j Ama- 
zonas e no ponto em -lu-: r:;3]: --ir-í: » o yr^ri^J-r rio, l':Ví; 
uma origem puramr^nt: rn :ia:, . : v-ri > ^l.z o Sr. Fr rr eira 
Peana, deve a saa e\i-t^n r.j a : Íj •". / !■: ;/j-'ar o Aííiiihíih^ 
todo al!i por um ^str>'it'j oan}-. 

Quando em 1697ocapi'.d> /•?'.•>:;*. AM.r::o J*: Alh'j'j'j';r'ju« 
Coelho de (orvalho, ãubi ■ iir . i:i , S-/i .-, '4 U- . i- .íj .;**;':- 
cionar e regular a a irni-ii-itra';^ . ri. - :ri1 'lí "-^r.Vju.i», .i'# 
passar pelo ponto frrn «íu^ e-:á h ,j-: ív:rj'.<i J-j ^ 'iU\'. fín 
Ob idos, CO n h^cen do • i u - a po - . j -» ^ '" » fíi J l ■ v a :; t : j ; :í p:i r » 
uma fortificação, oril^noa a* ':í,.í\h'j M^r.v: ')a M.:u «: ^Si- 
queira, eniao supt^rini-rri le.:: Ji- fo-t;:i :í'/' -, 'I j': «í/a v^u 
do forl»? que devia condir air Hj Í:A , í,-.-.: i':v:jínai.'j fi;i- 
quelle ponto. 

ObedecenJo á ord^m d.» cipi:! » •^^f:ri':TH\,'-UH'íiri .Si'|ijííira 
os i nd ios, q ue a 1 1 i m vS rn > o i r;: i ■:.;,; r '. m «J v Ui ',ris v ;j /n , ;j íi f n 
de o auxiliarem n-'j eríj[<r>:2a. 

Eram estjs indios o? P i'riii /i »,- r i loríf-- 'Jo lír/o, pon/iKi 
parece que morjvani j líiu i íj:.í ii/ •, 'iH': rjlh <-\ii'". (1) 

Ao lado do T^rte, e \»'jr rj-:-i ItíÍt, í .f.timi-í»-: ijíh-j ;ji'l<*;a, 
missionada por p:i'ln.-lj P.t J.í J»í, a íj'jíi! f'ii po^i^ro <: \n,\nut 
crescendo com a a-Miol > d*; rrjv.j-i f;j:íi!Íi;i- iri'Ji:/.;fj;jw^ qu,. 
para alli eram njan-l^; ia^^. 

O antigo forte suf.si-li-. por ni jit o :jririo-, írntp.-t.-jrito já m* 
achava de lodo d^ánuriiaj J t, 'iir.ilj cui l*í.'jl r-jn-.iruio-síj 
o actual. 

Em i738 foi a aMíi ^If; PaHri< ol-va Ja á '-.ití*;"/!!?! <Jíí vII1;i, 
com o nome áaOhidoi, pí;lo «^apil.j ; ;5»;ri-;r;il Fr.:ní-rs-: > X:jví.fr 
de Mendonça Furtado, i)u<,' a^^i-tíu p--<:oiliii<rfit<';í in.iri/ura- 

Êlo. Era então corre^íedor I.j cjmarra l';í>í:hoal di- Alír-uiclius 
adeira Femande?, qu*? alli mandou íixjfr o jj»:!oiirifili«j. 
Pouco tempo depojs sahi?iid'> o íjíipitiíu ;''íu;r;il ')ijí' ;i víII;í 
não apresentava indícios de i)ro^'r''sv> por f.i!i;i «l»* poiíuLn-ri'), 
mandou transportar |);ira allí to'Jo<> r,> jn>lp^> Ifaié^, 'iii>': si) 
achavam aldeados c estabclecidiis juulo á bu<T.i (Jo finruú do 



(1) O nome de PauxU, dlso 
índios, parece uma cormpgjto 
vn epaua significando laiQ£ 



A CSSÍÍ.S 




— 12 - 

norte, onde línham formado, sob a dírecçio dos mus dons 
missionários capachos, uma povoação que o mcamo gover» 
nador havia condecorado com o titulo de lugar sob a deno- 
minação de Arcozello. 

Em 1854, por lei provincial de 2 de Outubro, foi elevada 
á categoria de cidaae. 

Em 186? foi creada a comarca de que é cabeça a cidade de 
Óbidos. 

Na collina em que está assentada a cidade, e onde foi le- 
vantada a primeira fortaleza, ainda se notam os restos de 
uma capellinha dedicada ao Senhor Bom Jesus. 

Fica-se triste ao contemplar aquellas ruinas, que o mato 
espesso e cerrado tem já invadido e que attestam a f é e a 
piedade dessa geração que já se foi. 

Ao lado da capellinha havia um cemitério, onde iam des* 
eançar aquelles que cabiam vencidos nesse longo combate 
travado com o mundo. Hoje não existe mais o cemitério. O 
rio, alluindo pouco a pouco a terra, ia desmoronando a col- 
lina, e os ossos daquelles que alli dormiam, julgando-se a co- 
berto dos contra -tempos e vaivéns do mundo, eram arrre- 
batados pelas aguas e sepultados na voragem do rio. 

Ainda dormem alli alguns craneos, ainda existem alli al- 
guns ossos, que serão arrebatados com os outros no torve- 
linho das aguas, se dela não forem arrancados pela piedade 
àos vivos. 

Eis o que acerca da antiga capella do Senhor Bom Jesus, 
referio-me uma velha e respeitável senhora^ que é uma das 
mais vivas tradições de Óbidos. 

t— Fazem mais de sessenta annos, me disse, muito mais; 
eu, era ainda muito criança ; nem se fallava na cabanagem, 
que é quasi negocio dehontem. 

t Que cousa terrível que era a cabanagemt 

t Quanto soffremos lodos nós, por causa desses homens» 
que queriam o que ninguém sabia, e nem elles sabiam f 

c A cabanagem foi o flagelio lançado por Deus para punir- 
nos; foi, como a peste que assollou esta terra onde nasci : 
tudo soifria ; parecia que o próprio tempo andava triste. . . . 

« Fico triste sempre que falia na cabanagem.,.. Fazem 
mais de sessenta annos; eu era ainda muito criança. Era 
vigário de Óbidos o Rov, padre Raymundo António Martins^ 
a quem Deus lhe falic n'alma. 

t Se era bom ou máo, não sei, que me não compete a mim 
tomar-lhe contas, que só a Deus devia prestar; mas o que 
é certo, é que linha inimigos. 

t Ura dia, lerabro*me como se fora hon tem, estava eu no 
sitio com meu pai. Foi ver-nos meu tio. Estava triste» 
como se grande magoa lhe pesasse no coração. Perguntou- 
lhe meu pai o que havia, e referio-nos eWêf aue na noite 
anterior diversos individues haviam commettidoem Óbidos 
um crime horrível. 

t Haviam ido á igreja,á horas mortas e roubado a ambala 
e as sagradas partículas que alli se achavam. 

c Na manhã seguinte dera osacristio pelo sacrílego roulK). 



— 13 — 

A notícia espalhoa-se pela rilla^ o povo alvoroçou-se, e sobre 
a collina que fica á margem de Amazonas foram eacon- 
tradas intactas as partículas sagradas. 

cEntSo, abí nesse mesmo lagar em qae os sacrílegos as dei- 
xaram cabír, levantOQ*se a capellinha sob a invocação do 
Senbor Bom Jesus. O povo prestoa-se de bom grado, e cm 

fiouco tempo offerecia-se o sacrificio santo da missa no mesmo 
Qgar em que fora ultrajado o corpo do Cordeiro Divino. 

tfi 08 sacrílegos foram punidos pela justiça do céo. . O povo 
apontava-os e Deus quiz dal-os perfeitamente a conbecer. 

tNenbum dellea morreu em sua 2ama, morte tranquilla em 
meio das lagrimas e das bênçãos da família reunida ; ne- 
nhum dellea teve mão amiga que lhes cerrasse os olhos... 
nenhum I 

•Um morreu coberto de lepra ; todo o corpo lhe era como 
uma chaga viva ; o outro morreu soltando uivos e gritos 
terríveis; não eram de gente aquelles gritos; e o terceiro 
acabou afogado no Amazonas, de modo que o seu corpo não 
repousa em lugar santo á sombra da cruz ! . . . • 

Hoje da capellinha apenas restam os alicerces, que, mais 
dia menos dia, a terra, alluída pelo rio, arremeçará no tor- 
velinho das aguas (1). 

A situação da cidade de Óbidos sobre a face oriental da 
collina e os ventos, quasi constantes vindos do léste, não só 
lhe modificam a temperatura elevada, como concorrem po- 
derosamente para a sua salubridade. 



(1) Esse alluimento das terras que margeam o Amazonas é 
cousa muito commum ahl.Ha lugares que o povo denomina— 
terras-cahidas — por haver alli contínuo desbarrancaraento delias 
durante o inverno, e ainda no verão. 

Em Outubro de 1867, das 6 para as 7 horas da manhã, cahio na 
costa fronteira á cidade de Óbidos uma considerável porção de 
terra da margem do Amazonas. Furiosas ergueram-se as ondas e 
foram despedaçar-se do outro lado da praia, ameaçando sossobrar 
as canoas que se achavam no porto da cidade. O ruído daquella 
gigantesca massa de terra assemeihou-se ao estampido prolon- 
gado do trovão. 

Felizmente as pessoas que se estavam banhando na praia, cor- 
reram a tempo, para não serem envolvidas naquella immensa 
onda, que caminhava rugindo e espadanando espuma e que se 
foi despedaçar na praia, com medonho fragor. 

Três dias antes desse esboroamento, havia-se levantado no 
igarapé Mwatuba um marulho muito forte, semelhante ao dos 
grandes rebojos ou caldeirões, o qual sahio do dito igarapé, se- 
guindo ao longo da costa, até defronte da cidade, onde acabou. 

Em SOde Julho de 1866, escrevia o Sr. Wilkens de Mattos, o 
desbarrancamento da margem esquerda do Amazonas foi ex- 
traordinário ; em a noite do dia indicado abateram-se mais de 
SO lecruas de barranca. 

Estas ouedas de terra, diz o Sr. F. Penna, são geraes em todo 
o curso 00 Amazonas, que não cessa de aperfeiçoar o seu /ff*lo, 
segundo a expressão ^de Hnmboldt. 



— 14 — 

A' excepçSo das febres intermíttentes, o ás vezes dlar- 
rhóas, poucas são as moléstias qae aflligein a cidade. 

No pequeno valle, formado pelo morro do Escama e ((ela 
terra alta^ em queeslá assentada a cidade de Óbidos, existe 
um pequeno la^^o, que yai desaguar no Amazonas, quasi 
ímmediatamcnte, pois que muito próximo á margem do rio 
é que elle, estreitando, forma um pequeno igarapé. Esta 
garganta, que oliga au Amazonas, acha-se obstruida já por 
plantas, já por cascos de canoas velhas, troncos de arvores, 
etc, que allisoachama apodrecer, e que são obstáculos 
que têm facilitado a accumulação de arôas, que impedem os 
escoamentos do mesmo lago, logo que o Amazonas desce 
abaixo de certo nivol, o que acontece annualmente, tornan* 
do-se as aguas do lago estagnadas. 

A isso pois (3 que geralmente são attribuidas as febres in- 
termittentos, que aliás não uão muito frequentes. 

Quanto ás diarrhéas, altríbuem-n'as ás aguas do Trom- 
betas, quando no tempo da enchente, e junto á cidade de 
Óbidos, inv^idem as do Amazonas. 

A população da cidade de Óbidos, ó calculada em 1.000 a 
l.iOO habitantes, e a de toda a comurca entre 8.000 e 10.000. 

O recenseamento de 1873 dá á comarca de Óbidos apenas 
5.113 habitantes, calculo incontestavelmente incompleto e 
deficiente. 

A população do município, diz o Sr. Ferreira Penna, não 
é bem conhecida; vive dispersa por tão grande extensão do 
território, como acontece em todas as domais comarcas da 
província, que ó quasi impossível poder ser enumerada com 
acerto. Creio que não ficarei muito longe da exactidão, 
dando a todo o município 10.000 almas. 

Possue a cidade de Óbidos de 150 a 160 prédios, dispostos 
em duas praças e oiio ruas, que se cortam quasi todas em 
angulo recto. Raríssimas são as casas cobertas de palha. 

Tem duas igrejas: a matriz e a capella do Senhor Bom 
Jesus. 

A igreja matriz, inaugurada a 8 de Dezembro de 1826, e 
tendo por oragoSanfAnna, passa por ser uma das maiores e 
das melhores do interior da província do Pará. 

Foi levantada a expensas do povo, e a esforços do vigário, 
Ravmundo Sanches de Brito. 

O coro, espaçoso c bem construído, é sustentado por co- 
lumnas, em meio das quaes ha duas pias de mármore branco. 
O baptistério, á esquerda da entrada, também é de már- 
more. Possue cinco altares. A capella-mór é bastante espa- 
çosa. No cimo do arco cruzeiro vôm-sc as armas imperiaes, 
abertas em cedro por um curioso obídense. (1) 



(1) Ghamava-se António de Souza Magalhães, o era ourives de 
proíjssão. 
Morreu doudo, na cidade de Belém, em 1809. 



— 15 — 

Tem três sacristias. Em uma delias, e expostos á acç3o 
destraidora do tempo e da humidade e no meio de diversos 
objectos Telhos, qaealli se guardam, vi com summo desgosto 
sete magniflcos painéis, representando os passos do Salvador. 
Tudo nelles revela que deviam ter sabido do pincel de um 
grande mestre. 

Chamo para elles a attençSo do governo geral ou provin- 
cial, e em nome da arte^ peço uma providencia urgente, 
Sara que não desappareçam sob a acção do tempo e doaban- 
ono aquelles verdadoiros primores de um amestrado 
pincel. 

Indagando qual a sua origem e como tinham ido parar 
alli^ apenas me souberam informar que^ depois da lutada 
cabanagem, haviam sido encontrados em uma casa particular 
e d'alli removidos para a igreja matriz. 

A capella do Bom Jesus, no alto da praça do mesmo nome, 
foi levantada, á custa de uma subscripçâo dos moradores, em 
i865, em virtude de uma promessa que fizera o povo, 20 
annos antes, por occasjão da guerra dos cabanos. Esteve 
abandonada por algum tempo, mas ultimamente acha-se res- 
taurada ao culto. 

Celebram-se ahi todos os annos, com maísou menos pompa, 
duas festas : a do Bom Jesus e a da Senhora do Carmo. 

— A casa da camará e a cadôa não merecem particular 
menção. 

O intelllgente Sr. Dr. Casimiro Borges Godinho de Assis, 
juiz municipal de Óbidos e festejado autor de notáveis com- 
posições dramáticas, satisfazendo a uma das mais palpitantes 
necessidades das cidades civilizadas, e vencendo as maiores 
dífflculdades, conseguiu levantar alli, auxiliado pela popu- 
lação illustrada da cidade, um exceliente tbeatro. 

Começando a edificação em Fevereiro de i873, pôde o 
tbeatro principiar a fanccionar a 21 de Junho do mesmo 
anuo : e no prazo de um mez foram alli representadas nove 
comedias, e deram-se treze espectáculos. A maior parte da- 
quellas composições foram da penna do mesmo Sr. Dr. 
Assis. 

Mede o tbeatro, denominado— Bom Jesus^, 90 palmos de 
comprimento sobre 4i de largura, tendo as paredes lateraes 
23 palmos de altura do solo ás vigas, que sustentam o te- 
lhado. Deve ter uma ordem de i6 camarotes sobre uma ga- 
leria, que poderá comportar, talvez 100 pessoas. 

A platéa mede 50 palmos de comprimento sobre 35 de lar- 
gura, e pôde accommodar 150 espectadores. 

A posição em que se acha o tbeatro é magnifica. 

Possue a cidade de Óbidos duas escolas de instrucção pri- 
maria, uma do sexo masculino, frequentada por 63 alumnos, 
6 outra do sexo feminino, onde se acham matriculadas 42 
meninas. Ha mais uma escola nocturna, frequentada por i8 
alumnos. 

Houve em Óbidos uma espécie de seminário, denominado 



— 16 - 

^CoIlefTío de S. Luiz Gonzaga—, ínsUtuido pelo finado bispo^ 
o Sr. D. José AiTonso de Moraes Torres (i). 

Prestou esse estabeleci men lo de educação muito bons ser- 
viços á intelligente mocidade de Óbidos; mas, infelizmente, e 
por motivos que não consegui averiguar, pouco tempo teve 
de duração. 

Em 1B57 publicava-se na cidade de Óbidos um periódico 
semanal, iatítulado— 5^nltnW/a Obidense. Durou pouco mais 
de um anno. Em 1867 appareceu um outro, também sema- 
nal, de pequeno formato, denominado^il Industria. Tam- 
bém durou pouco tempo. 

A cultura do cacáo é auasi a industria exclusiva de Óbidos. 
Os agricultores, diz o Sr. Ferreira Penna, reputam) como 
uma fortuna o facto de se não haver até boje descoberto bons 
seríngaes no município, porque, dizem elles, com razão, 
uma tal descoberta importaria o mesmo que um çolpe mortal 
dado á industria agrícola, a qual ficaria desde Togo privada 
dos poucos braços, que ainda lhe restam. 

As margens do Amazonas e dos paraná-mirins na comarca 
de Óbidos, são, com pequenos intervallos, extensas linhas de 
cacoaes. 

Eis a cifra da exportação de cacáo, feita pelo município de 
Óbidos, nestes últimos annos, somente nos vapores da com- 
panhia de navegação do Amazonas:— não entra nestes dados 
a exportação feita em outros vapores. 

Arrobas. Libras. 

Em 1867 46 419 21 

Em 1868 10.129 

Em 1869 20 632 19 

Era 1870 15.323 2 

Em 1871 31.395 27 

Em 1872 25.291 22 



(1) A 28 do Junho de 1844 chegou á cidade de Belém, capital 
da província de Pará, o Exm. Sr. D. José AfTonso de Moraes 
Torres, 9.° làspo da diocese, fazendo a sua entrada solemne no 
dia 7 de Julho doniesmo anno. 

Foi eleito bispo no dia 13 de Maio de 1843, sagrando-se no dia 21 
de Abril de 18^i4. Tomou posse da diocese, por seu procurador o 
arcipreste Manoel Theodoro Teixeira, cm 15 de Maio de 1844. 

O Sr. D. José AÍTonso de Moraes Torres visitou por diíTerentes 
vezes o interior da sua diocese, publicando apenas o itinerário 
da sua primeira viagem. 

Fundou dous estabelecimentos de educação e instrucçâo reli- 

§iosa— o collegio de S. Luiz Gonzaga, em Óbidos, e o seminário 
e S. José, em Manáos. 

Representou a provinda do Amazonas na camará dos depu- 
tados. 

Em 1887, por motivos de consciência, resignou o bispado, e re- 
tirou-se para o Rio de Janeiro a 19 de Julho do mesmo anno. 
Fallcccu a 25 de Setembro de 1865, na cidade das Caldas, na pro- 
víncia de Minas Geraes. 



- 17 - 

A exportação total nos dífTerentes vapores e barcos, que 
navegam o Amazonas, foi em 

Arrobas. Libras. 



1862 82.128 

i868 66.405 



29 



Foi o anno de 1867 o de mais fertilidade, eaté hoje ainda 
não houve colheita de caráo igual á daquelle anno. 

O café não é exportado, e mal chega a sua producçâo para 
o consumo. 

O tabaco é cultivado ainda em menor escala que o café. 
A maior quantidade e a melhor qualidade que alli apparece 
no mercado, é proveniente dos mocambos do rio Trom- 
betas. 

O algodão produz alli perfeitamente bem, o, como o café, 
ha, em qiiasi todos os siiios, pequenas plantações, que não 
dão productos em quantidade sufficíente ás necessidades dos 
moradores. 

Milho, feijão e arroz acham poucos cultivadores, e estes 
mesmos só plantam em quantidade insigniOcant.e. 

A castanha abunda em vários hiírares de terra. E' o Trom- 
betas que fornece a maior quantidade da que Óbidos exporta. 

A exportação, feita ?ó pelos vapores da companhia do na- 
vegação limitada do Amazonas, foi: 

Em 1867 1 .337 alqueires. 

Em 1868 398 

Em 1869 332 

Em 1870 ^ 883 

Em 1871 1.658 

Em 1872 835 

Depois da industria do cacáo, que consiitu?, por assim 
dizer, a riqueza de Óbidos, ca criação de íjido vaccum a 
industria mais gera! do município. Conlam-se alli perto de. 
40 fazendas com 40 a 50.000 cabeças de gado. 

Afflrma o Sr. F. Penna que nenhum dos principacs fa- 
zendeiros conta mais do 1.500 cabeças de grdo,e avalia em 
10.600 o numero total das que formam as fazendas. Suppo- 
nho, porém, que não foi bem informado, porque, entre 
outros fazendeiros que possuem 2.000 e mais cabeças de gado, 
conheço um, o Sr. João António Nunes, que possue pertt>, si- 
não mais, de 5.000 cabeças. 

Os campos ao SO do lago Sfipucu;^, os de Marí-apixy e os 
do Lago Grande, são os que contêm maior quantidade de 
gado, por serem também os melhores pastos do municiplo. 

A espécie, diz o Sr. Ferreira Penna, se não é Je raça 
snperior á da ilha de Marajó^ tem -se, pelo menos, conser- 
vado sem degenerar-se, e, em geral, é igual' ao melhor 
Rado que fazendeiros zelosos e intelligentes criam naquella 
ilha. 

3 



- 18 — 

Este ramo da índastría rarâl, continua o m<'sníio Sr. F. 
Penna, é, sem davida, muito vantajoso; mas nos dís- 
trictos de Obí los, como nos de Faro Alemqner, Santarém, 
Vilia Franca e Monte Aie^re^ tem sido muito contrariado no 
seu progresso, por numerosas causas, entre as quaes se devd 
contor em primeiro lagar as grandes cheias do Amazonas, 
que dão pm resultado a inundação total dos pastos^ mor- 
rendo afogados centenares de anímaes, que se não teve o cui- 
dado ou tempo 1e retirar para as terras Ormes. 

A grande cheia de i859 produziu tão grandes rstraiços no 
gado, que fazendeiros que então possuíam 5.000 a 6.000 rezes, 
não contaram depois delia senão iOO a 300. Foi, dizem os 
habitantes, um verdadeiro diIavio,quecaliío sobre os campos 
de criação. Muitos criadores abandonaram a Industria^ per* 
sistiiido nella o maior numero, mas sempre com o temor da 
reprodueção daquella calamidade. 

E por fallar em enchente do Amazonas, além do que já 
disse a respeito na primeira parte deste trabalho, acresceu- 
iarei aqui mais as seguintes e interessantes observações, que 
me foram oíforecidss pelo íntelligente Sr. Dr. Romualdode 
Souza Paes de Andrade: 

c —O dilatado curso do rio -mar influe para que as marés 
sejam Inteiramente desconhecidas, de Óbidos para cima. 

tEí^se ímmmso volume d'agua, que se observa, e que sem 
embargo de correr perennementc para lançar-se no Atlântico, 
se eleva á altura descommunal de 35 palmos, submergindo 
terras, que parece incrível passarem por essa transformação 
annual, ó lodo originado peias chuvas e pelo degelo das cor- 
dilheiras, que atravessam este continente de sul a norte. 

• O degelo começa a operar-se no equinócio de Setembro 
pela passagem do sol para ohemíspherío do sul. As aguas 
dessa proveniência chegam ao leito dosuzeranodos rios em 
Novembro, e fazem apparecer o que se chama repiquete, 

« Na verdade, são um verdadeiro alarma, cm toda a exten- 
são do grande rio, as primeiras pollegadas d'agua que sobem 
acima do nivel da ultima vasante t 

c E' assumpto de todas as conversações. Cada um faz as 
suas conjecturas, e perguntam*se mutuamente: Será grande 
a enchente que começa ? 

< A resposta geral é conhecida : Quem sabe ? Todos estreme- 
cem com as apprehensões de futuros doastres. 

c Entretanto, esta primeira impressão se desvanece e pou- 
cos são os que cuidam em acautclar-se t 

c O Amazonas, cumprindo as leis do Eterno, vai^ em sua 
marcha imperceptível, subindo as altas ribanceiras e es- 
praiando-se pelos prados, d'onde arrebata animaes, des- 
truindo a^ plantações. Isto se repete muitas vezes, sem que 
se coí;ite em estabelecer meios de salvação. 

« No Bgypto, para obviar os estragos das enchentes do Nilo, 
fizeram um padrão, no qual estiva marcado por dias o pro- 
gresso ordinário das aguas, e bem assim o extraordinário de 
certo tempo em diante; entre nós, que vivemos em tempO:} 
de progresso, ainda ninguém se lembrou de estudar um 



- 19 — 

meio pelo qual se possam determinar os phenomcnos que pre- 
cedem as grandes enchentes, para assim evitar-se enormís- 
simos prejuízos. 

c Quanto a mim, julgo isto muito possível. 

« Estou na convicção do que se pôde com precisão predizer 
se uma enchente tem de ser ordinária ou extraordinária 
pela observação das causas que a determinam. 

t E' sabido que três são as causas de diminuição das aguas 
vindas das cachoeiras e fornecidas pelas chuvas : 1.* o es- 
goto feito pela corrente que as derrama no oceano; 1/ a 
evaporação produzida pelo calórico atmospherico; e 3.^ a 
absorpção feita por ui^a vasta área de terras dealiuvíão. 
Ora, a primeira destas causas não pôde falhar, nem modíQ- 
car-se, porque, no mesmo plano inclinado, acorrente estará 
sempre m razão directa do volume d^igua, e o esgoto na ra- 
zão da corrente;— a segunda causa pôde modiQcar-ae pela 
variação do tempo e omittir-se a abundância de evaporação 
por falta de arç^o dos raios solares ; e a terceira póiiu to- 
talmente faltar, achando-se ensopados ou cheios os igapós 
(banhados). 

" c Fica evidente que, havendo falta de evaporação regular 
ou de absorpção, as aguas, que deviam desapparecer portsse 
modo, superabundam e avolumam nos leitos, causando as 
inundações. 

« Os habitantes do valledo Amazonas são unanimes em af- 
flrmar que^, cabindo tarde a Paschoa da Ressurreição, ha 
grande cheia; mas ignoram a razão dessa verdade. A Pas- 
choa cabe sempre na primeira dominga depois da lua cheia 
do equinócio de Março ; ora, se succede dar-se o equinócio 
conjunctamente com a lua nova, como em 1859, ou ao me- 
nos com o quarto crescente, é costume apparecerem grandes 
chuvas em todo o mez de Abril que imbebem os poros da 
torra ; a passagem do sol para o hemispherio do norte produz 
o derretimento do gelo na cordilheira, e a agua dessa origem 
chega ao leito do rio em princípios de Maio, encoatrando 
já os igapôs completamente ensopados ou cheios, e supera- 
bundam, produzindo a inundação. 

t As festas moveis, porém, não podem servir de regulador; 
porque, se a cheia de 1859 foi grandíssima, cabindo a Paschoa 
a 24 de Abril, a de 1866 foi também muito grande, cabindo 
a Paschoa no i.^ de Abril. De sorte, que bem se pôde ' ízer 
aos lavradores do Amazonas : acautelai-vos todas as vezes 
que o repiquete de Novembro sorprender os igapós ainda 
ensopados ou cheios, e que se sigam grandes e continuadas 
chuvas, » 

O porto de Óbidos é, sem duvida, o mais importante do 
commorcio do Amazonas; frequentam-no constantemente 
grandes barcos de vela e innumeras canoas, assim como os 
vapores de particulares; é escala dos vapores da primeira 
linha da companhia do navegação do Amazonas, que nella 
tocam seis vezes por mez nas suas viagens reiondas; e é 
ponto terminal de uma linha mensal de navegação da mes^ma 
companhia. 



— 20 - 



Mais de 40 canoas de regatoes,e muitas outras menores, 
espalham-se pelos rios e lagos, levando géneros de toda es- 
pécie ao grande numero de moradores internados pelos dif- 
fcrentes paraná-mirins, que cortam a comarca. 

Em 1867 cstabeleceu-se em Óbidos uma agencia da compa- 
nhia de navegação do Amazonas, a qual tem poderosamente 
concorrido para o desenvolvimento do commercio e pros- 
peridade do município. 

Eis a cifra dos géneros exportados nos vapores da com- 
panhia, de Maio (data do estabelecimento da agencia) a 
Dezembro de 1867: 

Arrobas. Libras. 



Cacáo .-i 45.419 

Carne 3.340 

Sebo 

Salsa 

Tauary 

Cumaru 

Borracha 

Peixe 

Couros verdes 

Ditos secos 

Ditos de veado 

Diios de onça 

Ditos depeixe-boi 

Feijão 

Oleo 

Estopa , 

Guaraná 

Grude de peixe 

Mixira 



22 
8 
4 
i6 
i6 
14 
24 



272 
3 

2 

23 

10 

9.967 

246 

759 

200 

2 

17 

131/2 alqueires. 

47 canadas. 

24 arrobas. 

26 dilas. 

16 libras. 

3 potes. 



Castanha 1.357 alqueires. 



Milho 

Banha de gado.. 

Vinagre 

Tabaco 

Garrafões vasios 

Cavallos 

Bois 

Carneiros 

Onças vivas 

Tariarugas , 



• • » 



8 



Gallinhas, 
Dinheiro particular 

— Géneros importados em embarcações de vela nos ditos 
mezes : 



4 ditos. 
2 potes. 

1 barril. 

2 molhos. 
12 

19 

4 

1 

2 
45 
62 
1 : 763^000 



Cflcáo 

Castanha 

Sebo 

Couros seccos 

Ditos de veado.... 
Oleo 



20.983 arrobas, 27 libras. 
355 alqueires. 
10 arrobas. 
18 
23 
19 canadas. 



— 21 — 

Concluirei esta resumida notícia de Óbidos com o seguinte 
trecbo do Sr. Ferreira Penna acerca do caracter dos obi- 
denses : 

t Os obidensessão a "tivos e em geral laboriosos ; não des- 
prezam, antes aproveitam todos os prodactos nataraes que 
encontram, mas applicam-se principalmente á cultura do 
cacáo e á criação de gado. Habituados a trabalhos desta 
ordem, elles distinguem-se por sua aíTeíção muito pronun- 
ciada ao solo natal. » 

£ eu acrescentarei : Sãoamencs no trato, amigos da ordem 
e eminentemente hospitaleiros. 

A' margem direita do Amazonas, algumas milhas abaixo 
da cidade de Óbidos, na costa opposta, appontra-se o Caçoai 
imperial . 

Esta propriedade, constante de um extenso terreno com 
grandes plantações de cacáo e com uma pequena casa co- 
berta de palha, tem passado por diíTerentes phases e vicis- 
situdes. 

Tendo primeiramente pertencido a um particular, passou 
depois a fazer parte dos bens de uma aldôa de indios, admi- 
nistrada pelos jesuítas, que, com o auxilio dos braços 
indígenas, auferiam importantes lucros em avultadas co- 
lheitas. 

Depois do alvará de 7 de Junho do 1755, que tirou aos 
padres jesuítas a administração temporal dos índios das al- 
deãs ré^^ias e do alvará de 17 de Agosto de 1758, que creou 
o directório para as mesmas aldêas, passou o caçoai a fazer 
parto dos bens do commum, e como tal administrado pelo 
respectivo directório. 

Tendo, porém, a carta régia de 12 de Maio de 1798 abo- 
lido os directores das aldêas^ foi o caçoai incorporado aos 
bens da fazenda real. 

Dessa época até o anno de 1830 deu-se ao caçoai um admi- 
nistrador pago pelo ihesouro nacional, devendo o dito ad- 
ministrador residir em Villa Franca, para melhor poder 
inspeccionar o estabelecimento, cujo producto era vendido 
em hasta publiia. 

Em i831, exiinguiu-se o lugar do administrador e desde 
o anno seguinte começou-se a pôr em pratica o systema de 
arrematação dos productos do caçoai. 

Depois de tantas vicissitudes porque tem passado aquelle 
património da fazenda nacional, diz o Sr. Ferreira Penna^ 
que julga mais acertado vender o Estado aquella sua pro- 
priedade: ^ 

« O caçoai, que dura ha mais de um século^ nunca foi 
replantado nem melhorado ; pelo contrario tem perdido dez 
vezes o que era; chegou a ter mais de 40.000 pés de caçoei- 
ros e hoje não excede talvez de 4.000. 

Passa por ser o caçoai imperial uma residência por demais 
incommoda, em consequência da immensa quantidade de 
carapanàs (mosquitos grandes) e dos da peior espécie, que 
abi aílligem os moradores. Em geral encontram-se em mais 
ou menos abundância nas margens do Amazonas, nos iga- 



rapés e lagos formados por ele, nos lga|)ós e sobretudo nos 
cacoaes. A colhtiia do racáo é uma verdadeira iortara. 

O cara pana é uma das prasras mais iuiolernvcia, mal» i«« 
commodas com que Deus a£Qígiu aquellas paragens, mor- 
mente nos mcKes de Julho e Agosto, que sio os da vasante 
do rio. Entre as ínnumeras misérias e torturas que intie- 
rentes s9oá vida dos que, como eu, percorrem estas p-tgas, 
nenhuma é mais insnpportavei, direi mesmo, roais humi- 
lhante do que a dessa praga alada. Embalde furocura a gente 
defender-so contra esses bebedores de sangue; embalde 
mnta dozen^ts o centenas delles, ontros centenares substí* 
tuom aquellos, e quiçi mais furiosos, como para lhes vinga- 
rem a morte. Os moradores dos sítios, á margem do Ama- 
Eunas, são obrigados a fechar as portas e janellas ie suas 
casas logo ao pòr do sol, para assim evitarem a temível 
invasão do hospedes tio incommodos. 

Além da praga do carapanà ha também a do ptúm, que 
t^ um mosquito menor. Encontra-se principalmente no 
Madeira o em alguns outros rios, morde somente du- 
rante o dia, ao passo que o carapanã morde durante a 
noite. Oiz-se que o piúm alimentase do leite do assacú, 
)ielo que é venenosa a sua picada, produzindo chaga. 

Também é o mucuim uma das pragas do Amazonas. E* 
um bichinho extremamente pequeno, de rôr vermelha, que 
se agarra ao corpo, provocando insupporlavel comichão. 

Entre o sitio denominado Paricatuba e a cidade de Óbi- 
dos, que fica acima daquelle na distancia de iO léguas, na 
margem austral, acha -se a boca de um grande lago, víi»' 
maúo Lago das Campinas ou também lago grande de ViUa 
Franca, nu distancia de légua e meia do sobredito sitio de 
Paricatuba, e pelo qual podiam antigamente navegar canoas 
grandes e sahir muito acima do forte de Óbidos, pelo rio 
Curumucury. 

Hoje, porém^ pela imprudência das autoridades edos ha- 
bitantes^ não ha mais caminho para grandes canoas senão 
no máximo das enchentes^ não só pelos rios Muraíuba 
grande e pequeno como pelo CurumHcui^. 

Para tentar semelhante viagem, ó mister entretanto levar 
um bom pratico, e ainda assim não é sem perigo a pas- 
sagem. 

Abaixo da foz do lago grande de Vílla Franca ou dms Cam- 
pinas, e quasi defronte da ilha Marimarituba, á margem 
direita do Amazonas, vô-se o lugar denominado Ueuypi^ 
ranga, situado em uma bella eminência, conhecida também 
pela denominação de barreiras do Ucuypiranga. (i) 

Estas barreiras não são mais do que o prolongamento da 
linha de eminências, que acompanham o lago grande de 
Vílla Franca ou das Campinas, desde o serro Aracury, beiio 



(i) Alguns escrevem Ecuypirangtt, 



— 23 — 

inonle^ diz o Sr. Porreira Penna, que se ergae ao sul do 
igarapé do seu nomei, como uma pyramíde cooica, coberta 
de abundante Tegeiaçâo. 

Pui abí, no lugar denominado Ucuypiranga, qne na omí* 
nosa revolução de 1835^ estabeleceram os cabanos um for- 
midável ponto, commandado pelo famigerado caudilho 
Miguel A|Olinario Mipar^jiiba, e de tal modo foriiflcado, 
que por muito tempo foi o terror da comarca do Baixo 
Amatonas. (I) 



(I) Miguel Apolinário Mapnrajuba oceupou importante lugar 
nas Aleiras dos rebeldes de 1835. conhecidos peio nome de ca- 
Jbanoi. Dotado de natural vivacidade e de tal ou qual coragem, 
loube com estes dous predicados alcançar o lugar de chefe e 
A^ta qualidade percorreu diversos pontos do Baixo Amazonas, 
Jfils quaes praticou diversas proezas, principalmente nos afa- 
mados pontos do Ucuypiranga e do Curumucury. 

Kntre alguns documentos mais ou menos importantes que 
Aàa minhas excursões pelo Amazonas tenlio encontrado e que 
n^é servirão talvez um dia para emprchcnder a historia dessa 
eóilmre revolução que enlutou a hcila província do Pará, fí- 
gtkfá O bando ou proclamação do famigerado chefe cabano, e 
que Mtki transcrevo pela sua originalidade : 

t Miguel Apolinário Maparajuba e Firmeza, com mandante 
geral das forças do Baixo e Alto Amazonas. 

« Drazileiros. Prevendo com incançavel vigilância o vosso 
socego^ a vossa tranquillidadc e a vossa prosperidade, não me 
tenho ttoupado a fadigas; vejo porém, que noticias sinistras se 
espalháM), a fim de vos desunir, talvez para vos aniquilar ; con- 
vém portanto aue nâo deis credito a quaesquer noticias que 
surjam, na confiança de que o vosso cominandante uma vez que 
as haja VBridicas, as fará publicas. 

« Brazirsirost Para nossa mutua tranquillidade, convém que 
todos sejamos cada vez mais unidos e firmes para o bom êxito de 
nossas fadigis ; e que qualquer alterarão nos pôde sor prejudicial; 
convém igualmente para nossa commum felicidade, que sejais 
obedientes e subordinados, leni brando- vos que por falia de obe- 
diência cahiu Lúcifer no inforno; por falta oe obediência entrou, 
em o nosso pni Addo^ o peccado no mundo e foi lançado do pa- 
raizo; por falta de obediência foi morto Ahsaifto; ao mesmo tempo 
que por ser obediente Isaac foi livre do sacriflcio e ficou glorioso ; 
por ser obediente entrou Noé na arca e ficou salvo; e pt»r serem 
obedientes os exércitos a Bonaparte, é que elle alcançou tantos 
trophéos; e para vos não cançar, cm duas palavras vede' o que 
diz a augusta rainha dos anjos, a Virgem Nossa Senhora, no cân- 
tico da magnifica: «exaltados serão os humildes. » Eoqucqucr 
dizer H humildade senão a obediência ! 

■ Tomai o pretexto da mãi de Deus, que assim vos ordena 
para a vossa mesma felicidade. Portanto de ora em dianlc des- 
lerrai dicterios e noticias falsas, que só servem de vos inquietar ; 
confiai em vosso com mandante e fic^i socegados. 

« Outrosim, todo aqnelle que de ora em diante pegar em 
armas^ seja dentro nesta villa (o quenAoo creio) ou por fora, 
em qualquer ponto, sem ord^m do vosso commandante, será re- 
putado e tratado como inimigo do vosso socego, pessoas e fa- 
niiiia, e cfimo tal castigado com as penas que a lei niarc^. 



— 24 — 

Nao obstante porém o apparato bellico de qne se cer- 
rava aquolle redacio, rendeu-se por fim, devendo-se esie 
importaniissímo serviço á energia poaco vulgar do padre 
António Manoel Sanches de Brito, que entSo exercia o lagar 
de juiz de paz em Óbidos. 

Do Ucuypiranga póde-se ir por terra até ás margens do 
Tapajoz. 

t Descendo-se do Paraná-Mirím de Alcmqaer, deixam-se 
as boceas dos dous lagos Curamú e Uruxy á esqaerda, á di- 
reita o furo Sumaúma, que segue ao Sul e vai sahir defronte 
da ilha Jurupirypucú; d esquerda a bocca do lago Capim- 
tut>a, que serve de limite entre os municípios de Alemquer 
e Santarém ; e, 6 a 8 milhas abaixo e com rumo SE., entra- 
se em pleno Amazonas defronte da ponta oriental da Ilha 
das Barreiras, fl(!ando na costa á esquerda a bocca do lago 
Pa raça ry. 

c Passada aquella ilha e acompanhando-se a grande de 
Aritapera á direita, deixam-se successivamente as do Ta- 
pará e Palhão á esciuerda. 

t O ri ) toma nesta secção o nome de Urubu- cuacá, segue 
em íjrande estirão no rumo SSO , com largura de 2.500 
metros, descreve emfnn uma vasta curva para E. com lar- 
l^ura de 2 a 3.000 metros e tom lugnr então a sua soberba 
junoção com o seu ramo meridional, que passando pelas bar- 
reiras do Ucuypiraníía e Paricaluba, chega agora ahi já 
reunido com as a^jfuas do Tapajoz, cuja barra está acima 5 
milhas. (1) > 

O rio Tapajoz, também chamado Rio Preto, desce com o 
Arinos e o Juruena, que o cunsiiiuem (2) ; das cordilheiras 



« Braziloiros, o vosso com mandante marcha .1 par da lei e nao 
(losnicntirA da eloiçào que vós fizestes. Coníiai nelle, descan- 
çaiido na sua vigilância, que elle descança om vós, na vossa su- 
bordinaçAo e obediência. 

« Viva o nosso jovem Senhor D. Pedro II c a regência em seu 
nomo ! 

t Viva a santa religião apostólica romana ! 

« Vivam os braziloiros defensores da pátria ! 

• Tapajós, 23 de Abril do 1836.— MiGUia Apolinário Mapa- 
RAJUBA K Firmeza, conimandantc gorai das forças do Baixo e Alto 
Amazonas. > 

(1) Toda esta noticia fi exlraliida do importante trabalho do Sr. 
F. Penna — a reoiÁo occi dental da província do para—. 

(2) « O Arinos (Tapajoz) que apresenta a via de communicaçilo 
inaLs importante da província, desde que Cuyahil veio a sor sua 
capital, lom suas fontes nos vastos campos e longas cadèas dos 
int)ntes Parecis: cilas enlaçam com seus braços um espaço de 100 
léguas de H. a ()., cruzando-se com as aguas que correm parao 
Paraguay ou para seus allluenies Guyabít, Sopoiuba e Jaurn; mas 
a fonte principal se acha a umas 15 léguas a E. da villa do Dia- 
mantino.» {Comie àe Castelau.) 

« As cabeceiras do rio Juruóna ficam a 20 léguas da cidade do 
Mato (Irosso, pelo seu ramo principal ; e a 30 léguas do Diaman- 
tino pelo ramo menor, que é o segundo. » (F, Pemm.) 



-41- 



dos Parpcis, no rumo de SO. a NE., quasi parallelamenté 
ao rio XíDgú, atravessando terras mouianbosas, formando 
grandes cachoeiras e terminando seu cur:^o com uma lar- 
gura considerável. 

Era lingua frerai ou tupira clKima-6p o rio Tapajoz, Tu- 
payúparnná (rio jos Tapajós) ou Paranú-pixuna (Rio Prelo). 

E' habitado na purte superior, petos índios Apiacás (i), 
que são um poderoso auxiliar aos Cuyabanos, que descem 
annoalmente á compra do guaraná; na média, pela guer- 
reira e industriosa tribu dos Mondurucús; e pelos Ifaués, 
tia margem esquerda, em uma extensão de quasi 50 léguas. 

Eram em grande numero as tribus indígenas, que ha um 
século habitavam o Tapajoz. Contavam-se entre outras as 
dos Uarupás — Apauuuariá — Vlarixilás^ Amanajús — Apícu- 
ricús — Morivás— Moqueriás — Jacaré-uarás — Anijuariás — 
Periquitos-^Necuriás— Surinanas— Moiuaris, etc 

No Baixo Tapajoz existem as povoações ou malocas de Uxi* 
tuba, Gury, Santa Cruz, etc, provenientes em grande parte 
dos mondurucús. 

Entre as cachoeiras encontram-se as malucas mundurucús 
denominadas: 

Boburés— Montanha— Maloquinha—Ponta-Grossa — Ha to — 
Curuçá— Baciíbal— Bon-Vista— Jacaricanga — Iry, etc. 

Em I86iexísuam 13aldôasde mundurucús com uma po- 
pulação de 9. 917 almas e 4al(iôasde Mauéscom 3.6S7almas. 

Estavam diviJilas as aldôas do seguinte modo: 

Tribu mundurucú. 

Aldôa Santa-Cruz 

• ('ury 

» Uixituba 

Piudubai 

Janaxim 

Saula Auna 






351 almas. 

ibi) 

35á 

80 
140 

70 



9 



Julahy 230 

Punia Grande 

(iUia-Pompé ..... 

Raio 

Jacaréoíinga 

Xacu ríí ) 

Boa- Vista 



271 
200 
300 
92 
120 
lí<5 
> Campinas (.OQlcndu 19 malocas). ... 7.3iti 



(i) « Os Apiacás formam uma pequena tribu, que é a primeira 
que se encontra, entendendo a lingua geral. Refere-se que o 
maior numero delles, não desejando entreter relações com os 
brancos, separaram -se, indo estabele^er-se no rioS. Manoel. 

« Os Apiacás possuem umas seis aldêas, todas á beira d'agua ... 
Em torno das casas ha plantações de urucú, algodão, canna de as* 
sucar, mandioca, bananas, milho, balatas doces, etc. A salsa- 
parrilha é o único obiecto de commercio, que elles têm para 
vender, e parece que já aprenderam o valor delia. » {Chandless,} 

4 



— 26 - 

Tribu maaés. 

Aldêa Roburó 80 almas. 

» Tiicunaré-quara.' 61 • 

* Montanhas » 7ã » 

» Uiubulú 6i » 

Terras (cunlendo 28 malocas) 3.379 » 

A mais ímporiaote de todas as aldôas muaduruiús 6 a 
tal*a das campinas. 

Gompoe-se a taba, secundo o relatório de uma commissSo 
expturudora, de inuitiis malocas pequenoa, collocadas á poiíra 
distancia unias das outras ecomniunicando todas entre si (i). 

Está situada á mariL^em esquerda do Tapajoz, um pouco 
distante do rio, na linha que separa as f;ran>les florestas 
amazonicas dos campos ^^eraes que vão a Mato Grosso. 

Todos os annos no verão, seuundo ainda a commissio ex- 
pioi adora, os guerreiros mundurucús armam-se e vSo bater 
outras tríbuscom quem não tô:u relações de paz e amizade. 

Anliízo costumo indi^^ena consagra maior consideração ao 
guerreiro que mais valente se mostra nos combates. Além 
disto, porém, outras consider: ç5es excitam os mundurucús 
a essas correrias — a conveniência do possuírem uma certa 
extensão de território, em (|ue pos.^^am caçar livremente sem 
encontrar inimigi»s nem concurrentes ; e o interesse de apri- 
sionar os filhos e mulheres d IS tnbus inimif;as, os quaes 
flcam sendo tratados e rcnsidcrados, como Tazendo parte da 
própria tríbú muudurucú^ que a.^sim vai augmeniando de 
annocm anno. 

A habitação dos guerreiros nas campinas é sepaiada da 
das mulheres. Para aiiueliesedíticam unia tspeciedenuartel, 
extensa casa, coLeria de paliia, (tnde estendem as ledes, ás 
vezes em nuim-ro de 8 a 10, e á noite acccndem uma fogueira 
em cada intervaJlo de duasiôdts. 

Ii)m freme dus quartéis ievaniam os mundurucús outro 
casarão destinado ás mulhens e ás filhas dos i^uerreiros, ás 
crianças de tenra idade e aos anciãos decrépitos. 



(1) « Moravam os indios, diz Cardim, em aldêas, cm umas 
ocas oy\ casas muito compridas, do 200, 300 ou 40) palmos c 50 
em largo, pouco mais ou menos, fundadas sobre grandes esteios 
de madeira, com as paredes de palha ou de taipa de mão, cobertas 
de pindoba.... e duram Ires ou quatro annos; cada casa destas 
tem dons ou três buracos, sem portas nem fecho. 

Dentro nelias vivem logo iOO ou 200 pessoas cada qual em seu 
rancho, sem rcpartimenlo nenhum, e moram de uma parte e 
outra, ílcando grande largura pelo meio, e todos ílcam como em 
communidade, e entrando na casa se vé quanto nella está, porque 
estio todos á vista uns dos outros, sem re[)arlimenlo nem divi- 
são. ... porém, 6 tanta a conformidade entre cllcs que em todo o 
anno não ha uma peleja ; e por não terem nada fechado não ha 
furtos; se f<^ra outra qualquer nação, não poderiam viver da 
maneira que vivem, sem muitos queixumes, desgostos e ainda 
mortes, o que se não acha entre elles.» 



— 27 — 

Logo qne o menino pôde manejar o arco, é transferido da 
casa das mulheres para o quaripl dos puerr^iros. 

Qaando o mundarucú mata o inimi^ii em combate, corta- 
Ihe a catKça, que leva para a maliva, com«i um irophéo ; ex- 
trahe-ltie depois 05 miiilos e es olhos, e aexfiòe cuidadosa- 
mente ao fumpíro por dias successivos. Esta operação é feita 
com tal habilidade, qii»^a cabeça se conserva com toda a ca- 
k>elleira equasi com a lòr natural. No lucrar dns otht s col- 
locam breu e atra?essdm di<us dentes de cutia, de modo 
que a cabeça conserTa certo Ar an lii a Jo. 

O vencedor leva e^ttf trophéo de maloca em maloca, e em 
toda a sua marcha triurrphal ê rec^hido com a maior dis- 
tincçào e pr';clamad'i vair^tit- entre «s guerreiros. Só a 
muito custo de>razem-s-? d*='Stes trnpi éos, que ás vezes^ e por 
bem alto preço, vendem aus rei;aiík'S c aos raros viajantes que 
ousam alli penetrar. 

Se o mundurucúé morto em combatp, seus o.-sos são pie- 
dosamente recolhidos, e em certo e determinado dia reu- 
nem-se os companheiros de guerra e os parentes para pran- 
tearem-noe CiMnniemoraremseus feitos e suas virtudes. 

Paliando acerca dns mundurucús e dos maués, assim se 
exprimia o Sr. conselheiro Brusque: 

«... São excessivamente desconfiados, mas simples e sin- 
ceros no seu trato com as tribus vizinha^, e principalmente 
para com os homens civilizados que os procuram. Quando 
recebem destes ou daquelles uma qualquer ofTensa, eiles de 
ordinário os abanionam e os desprezam ; mas se a oífensa 
é relativa á honra do suas mulheres ou contra seus filhos, 
que estremecídamente amam (i), commettem então as 
maiores violencicis ou atrocidades.» 

A caça e a pesca são sua industria favoritas ; são^ porém, 
aptos para qualquer outro trabalho industrial e sabem van- 
tajosamente imitar alguns urtef.ictos que lhes chegam ás 
mãos. Cultivam algum guaraná, tabaco e mandioca, de que 
fazem alguma farinha; mas essa cultura é tão imperfeita, 
como em todas as demais tribus, que mal merece este nome. 
Elles afariam talvez melhor, se lhes en.<inassem o seu fa- 
brico e fos^^em acoroçoados pelo incentivo da educação e dos 
gozos, que a acompanham ; se bem que, no seu estado actual. 



(I) tOs pais, diz Cardim, fatiando dos Índios, não tôm cousa 
que mais amem, que os íllhos, e quem a seus filhos faz algum 
bem tem dos pais quanto quer. 

Nenhum género de castigo tôm para os filhos, nem ha pai nem 
mãi que em toda a vida castigue nem toqne em filho, tanto os 
trazem nos olhos: em pequenos sào obedientíssimos a seus pais e 
mais e todos muito amáveis e aprazíveis.» 

« O índio, diz o Sr. Gonçalves Dias, amava os filhos, dava-lhes 
toda a liberdade, nao os castigava, não os ameaçava nem os in- 
timidava nunca : pelo contrario os planos mais bem combi- 
nados eram deixados, as mais commodas habitações abandonadas 
pelos caprichos de um menino.» 



— 28 — 

isentos de toda n nmhivao, torne-sc rxtremarnente dífflcil 
chamal-o< a outro caminho ; por qualquer outro rapi<s que 
não seJH a sdtísfaçSo material dos mesmos gozos, a que eiles 
aspiram. 

Os mundurucús são inclinados no commercío, nao dispen? 
sam a lavoura, nem ahorr^^cem o trabalho. 

Os maués, pelo contrario, nao apreciam uma nem outra 
destas cousas, embora as não encare com repugnância. 

Os mundurucús e maués estão relacionados com as tribus 
vizinhas e com os homens civilizados, que os procuram, a 
quem dão em troca das mercadorias, de que carecem, os pro- 
ductos que colhem ou preparam, como são: a borracha, « 
salsa, óleo de copahyha^ guaraná, cravo, tabaco, breu, es- 
topa, castanha, algodão e cumaru. 

No lugar denominado Boburé, á margem esquerda do rio, 
ha um aldeamento de mt/n(furMcúj já civilizados, que habi- 
taram a margem opposta e foram obrigados a retírar*se dallí 
por cau<:a dos índios parintiiitins, que constantemente os 
perseguiam. 

\s aguas do rio Tapajoz são de rôr escura, mas em fundo 
de duas braças doscohrem-se as arêas e os seixos da margem. 

No porto de Santarém, isto ó, na fóz do Tapajoz, a diífe- 
rença do nivel das aguas entre a baixa*mar ea prea-mar, é, 
termo médio, de 5",á8. Na cheia extraordinária de 1859 foi 
a dífferença de C™,30. (i) 

A denominação do rio Tapnjoz lhe provém dos índios assim 
denominados, que desceram (>utr'ora das possessões caste- 
lhanas no Alto l^erú, e foram estabelecer-se na parte proxi- 
mamente superior ao sitio, que hoje occupa a vílta de Alter 
do Chão. 

€ Não entro aqui na questão sobre a origem dos Tapajoz, 
diz o Sr. Ferríira Penna, contenio-me em dizer com Ber- 
redo, que erarn oriundos das índias Castelhanas de que se 
haviam separado, rotirando-se até á margem daquelle rio, 
onde viviam iranquillamente, negociando com ouiros povos 
que os iam procurar, t 

« Estes sylvicolas, diz Baena, eram menos broncos e 
menos bravos infosiadores que os outros indígenas, entre os 
quaes muito se abalisavam os mvturucús (2) na valentia. 



(1) Estas medidas tinham sido.tomadasem tempo conveniente 
pelos Srs. AíTonso Maugin Desincourt, engenheiro írancez , e ner 
goci antes Souza & Si! va . 

Os engenheiros brazileiros Julião Honorato Corrêa de Miranda 
e António Manoel Gonçalves Tocantins veriflcaram que a refe- 
rida cheia elevára-se de i^jOK acima da prea-mar de 1870. 

(2) Em 1773 os mundurucús (muturucús) assolaram todo oTar 
pajoz, con) força armada, pondo em consternação seus pacificos 
habitantes. 

Esta valente naçfto, que durante três annos anteriores andava 
de victoria em victoria, sobre os índios que encontrava em 



— 29 — 

As ultimas hostilidades qne elles praticaram nos povos do 
Tapajoz, ajudados de suas mulheres, foram em 1773 ; em rujo 
tempo tamhem combateram o commandante da fortaleza 
da foz i}o T\Oj sem pavor do fogo que clle lhes fez por um 
lartro espaço de tempo. > 

Em I6i2 entrou o capitão Pedro Teixeira neste rio a fazer 
resgates de escravos indígenas bravos, em companhia de um 
religioso capucho e á teaia de 26 soldados e avultado numero 
de índios, (i) 

Começaram em 1668 os padres da companhia a plantar 
aldôas neste rio e che/raram a administrar cinco. 

Foram ellas: Tapajoz ( hoje Santarém), Arapiuns (hoje 
Villa-Franca), Borary (hoje Alter do Chào), Santo Ignacio 
(hoje Boim), 5. /í>5^(hoje Pinhel). 

Em 1747 João de Souza de Azevedo desceu das terras se- 
ptentríonaesde Mato Grosso pelo Sumidouro ao Arinos, no 
qual havia embuçado com Paschoai Arruda em procurado 
ouro e voltando esie seu companheiro para a capital da sua 
capitania, intentou ver se deparava com o mesmo metal em 



seu caminho desde as margens do Madeira, expelliu ou reduziu 
os Tapajós, que em vâo pediam soccorro contra os seus formi- 
dáveis conquistadores. 

Os mundurucús, acompanhados de suas mulheres, que lhes pre- 
paravam as armas e provavelmente excitavam seus brios durante 
os combates, depois de se apossarem de numerosas aldêas, foram 
também raedir-se com a guarnição de Santarém, atacando-a com 
denodo e resistindo por muito tempo ao vivo fogo, que contra 
elles se fazia. 

Desenganados, e vendo que lhes era impossível obter a victo- 
ria, resolveram retirar-se. 

Alçura tempo depois destes acontocimentos, tratou-se e con-p 
seguiu-se fazer a paz com esta beiilcosa nação, que tão valente 
e corajosa se mostrou na guerra, quanto desde entào se tem mos- 
trado sincera e leal á paz e flel na amizade aos povos civilizados. 

(REIWÃO OCCIDENTAL DA PROVÍNCIA DO PARÁ, pClO Sr. F. PCUna») 

(1) «Encarrega o (governador e capitão general) ao capitão Pedro 
Teixeira resgates de escravos indígenas bravios para o trabalho 
material da capitania. Parte este capitão da cidade com um re? 
lij^ioso capucho, vinte e seis soldados e avultado numero de ín- 
dios. Chega á aldeã dos Tapuyusús : sabe que estes tém trato com 
os Índios Tapajós no rio, que delles extratie o nome: endereça-se 
para lá; entra nelle obra de doze léguas, descobre em um 
sitio alcatifado de viçosa relva, arnenisado por uma nascente 
de agua a mais cryslallina e cercado de frondosas arvores, os Ta- 
pajós já noticiados desta visita peJos seus amigos Tapuyusús, a 
quem elle generosamente subornara. Acha benévolo acolhi- 
mento e um trato menos bronco, o qual,segundoas suas pesqiizas, 
lhe pareceu verosímil terem-no adi]Uirido nas possessões caste- 
lhanas^ onde haviam estado. Detem-se alli pouco tempo ; aquista 
algumas esteiras de palhinha e pacarás 'pequenos bahús de ma- 
deira por dentro e palha por fora) de gentil matiz e poucos escra- 
vos, porque os Tapaiós raras vezes toleram o uso de se commutar 
homens por mercadorias. » (Bo^na— Compendio das Eras.) 



— 30 — 

outra parafinem, o, com este intento se^ruia a andado do Ari- 
nos e entrou no Tapajoz, do qual se dirigiu á cidade do Pará 
em 1749, com o tiuro achado. 

Oapparerímento deste homem provocou a curiosidade do 
governador do Pará, Francisco Pedro de AlenrarGurjão^para 
exif^ir dolle noticias tnpu<,Tapl)icas de M.ito Grosso : e a esse 
íim foi chamado ao colleí^io ji^suitico, onde disse tudo quanto 
sabia da maioria e referiu que a descwberia das minas de 
Mato Grosso fora praticada pelo ^argenio-mór António Fer- 
nandes de Abreu, no que se nao mostrou cabalmente noti- 
ciado, porque o verda<lL'iro descobridor de Ma'o Grosso foi 
em i734 o sorocaliano Fernando Paes de Barros com seu ir- 
mão Arthur Paes; e o dito sar!;ento*mór só viu o desco- 
berto paiz em companhia do mencionado Fernando Paes, em 
consequência de ser mandado |)eIo brigadeiro António de 
Almeida Lara, rep:entede Cuyabá, a examinar o novo paiz. 

Este mesmo Azevedo escreveu a 16 de Janeiro de i7W 
uma momoria i>obre o tratado de limites de i750 entre as 
duas coroas do ultimo occidento da Europa, e deu-a ao go- 
vernador do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado» 
o qual a enviou para a corte. 

No seu imporianiissimo trabalho sobre o Valle do Ama- 
zonas, aíílrma o Sr. Dr. Tavares Bustos que o Tapajoz éper* 
feitamente naveíjavel desde Santarém na foz até á cachoeira 
denominada liaituba, quo fica cerca de 50 ou 60 léguas 
acima. 

Não creio que seja absolutamente assim, nem em todo o 
tempo, nem para navios que demandem grande calado. Ci- 
tarei em prova do que digo alguns factos ainda bem re- 
centes. 

Sabc-se que o pequeno vapor Pará, nos mezes de vazante, 
soíTreu muito em sua navegação, chegando até a amolgar o 
casco. 

Tamliom é nolorio, que em 1837, no tempo da Cabanagem 
a barca Independência commBnáadíi polocapitao tenente José 
Thoiiiaz Sabino, o enviada pelo coinmandante da expedição 
ao Amazonas em serviço ao rio Tapajoz, t^^vc de voltar de 
um lugar próximo á Villa Franca por falta d'agua (no mez 
de Setembro) E' testemunha deste facto, além de outros, o 
Sr. chefe de divisão Viclorio José Barbosa da Lomba, que, 
como immedíato daquella barca, teve de sondar o rio, 
a llm de ver se descobria maior fundo, o que não conse- 
guiu. Achava-se a bordo um pratico, recebido em Santa- 
rém^ o qual declarou ao commandante que o lugar em que 
se achava a barca era o do tnaíor fundo, e entretanto não 
era possível a navegação. 

Igualmente ó sabido que ainda no tempo da cabanngem 
tend^) a escuna Rio da Praia, durante a enchente, chegado 
até Itaituba, não pôde descer depois, conservando*se por al- 
guns mezes em um poção. 

Estes factos bastam para provar, que nem em todo o tempo 
e nem para todos os navios é o Tapajoz perfeitamente na- 
vegável. 



T 



— 31 — 

As cachoeiras mais conhecidas do rio Tapa joz são: Boburó 
— Apuy— Oroá— Tamanduá — Coalá— Furnas— Maranhão 
Grande — Maranhão: inhn. 

A cachoeira do Boburó é antes um baixio com muitas pe- 
dras soltas, e que estorva a passa<?em para canoas grandes. 

A cachoeira do Apuy consta de três bocas^ por onde se 
atira o rio; uma na. direcção da corrente, que é a maior e 
duas ao lado esquerdo, todas separadas por ilhas de pedra, (i) 

O aspecto desta cachoeira e da do Coatá, segundo o Sr. 
Maugín Desincourt, é realmente admirável e encantador, 
mormente pela tarde, em que os raios do sol produzem ef* 
feitos magniQco<; sobre aquelles lugares ; alli as aguas des- 
cendo em tumulto peias cataratas, repousam logo em uma 
ampla bacia, represadas pelos rochedos do Goatá, que as cir* 
cumdam. 

A cachoeira do Coatá, segundo sinda o Sr. Maugin Desin- 
court, é uma das mais fortes e das mais difflceisde romper, 
pela viol.-ncia das aguas, que despi-nham-se de três ordens 
de rochedos. 

A cachoeira denominada Maranhão Grande ó u-nadas maio- 
res, ofFerecendo a cada momento imminente perigo. O rio 
rompp, rolando suas aguas tumultuosas com grande ímpeto 
através dos rochedos. Asc.môas pequen'ís, porém, evitam a 
cachoeira, passando por um canal estreito, á direita, escon- 
dido debaixo do mato, e (jue se chama por isso, Saival: em 
rio cheio formam se desse lado outros canaes^ que também 
dão passagem. 

A cachoeira Maranhãozinho está abaixo da antecedente e 
delia reparada por um grande estirão. Tem canal ao lado 
direito ; é pouco alta e não consiste senão em lages á flor da 
agua, represjndo o rio, e fazendo-o bramir com estrondo 
contra algumas ilhas de rocha. 

Da porte superior da cachoeira do Ap» y, começam as I ar- 
racas dos seringueiros. Desde a cachoeira do Maranhãozi- 
nho aié a do Boburé, achase o rio todo obstruído por gran- 
des ilhas^ que só deixam entre si pequenos intcrvullos, for* 
mandoassím um verdadeiro labyrintho. 

Na parte encachoeirada, diz a commissão exploradora, o 
rio alarga-se ronsiJeravelmente: grande numero de ilhas, 
semeadas aqui e alli, parecem fechar-lhe completamente o 
curso. Ahi encontrámos paredões de porphyro, á semelhança 
de muros e como se fossem feitos pela mão do homem. Blocs 
immensos de pedra, com arestas mais ou menos vivas, e entre 
estes nm qu^ mais chamou a nossa ailenção pela forma re- 
gular que aíTe tava, de uma pyramide quadrangular. In- 
formaram-nos que no leito de um correio, nas pioxími- 
dades da cachoeira do Coatá, algumas pessoas haviam tirado 
ouro... Asseveraram -nos que no rio S. Manoel^ um dos 
maiores aíHuentes da margem direita do Tapajoz, alguns 



(I) Ferreira Penna. 



— 32 — 

cuyahinos lAiu tirado oaro, e o Sr. Lever^er fez-nos o 
ÍNVor lio mostrar unia pequena porção, que havia comprado, 
Urnd» dosso rio. 

O llatxo Tupajoz, secundo ainda commissão que o explo- 
rou oin 1871, anrosouta aspectos variados e horizontes extre* 
niamoiUoa»rrndavois O volume de suas ag:uas ó immenso e 
•ua« marrons sdo orladas de praias extensas. As serras e 
oollinas, quo so avistam de uma e outra margem, dão ao rio 
oouuho do não vulgar belleza. 

A prlnrípio não so encontram muitas ilhas, mas de Bra- 
iiha^Lfgal i^m dianto, tornam-se mais numerosas, succe- 
dondoso som intorrupção e estendendo-se em todas as di- 
rtioc^^os . 

Do ponto lioburé a 8 milhas está o rio Jauan^Xim^ acima 
do qital avistasse um grande estirão com ricos s^^ringaes em 
uma o outra margom. Este ultimo rio, que tem também 
uma grande extonsãoencachocirada e muitos seringaes, está 
Hondo ultimamente explorado por trabalhadores, que alli vão 
oaiabolocor-so. 

Dizom os Índios que polo Jauan^Xim póde-se ir a um outro 
rio mui larg«», (|ue provavolmenie é o Xiuííú, e que em seu 
curso auporjor atravessa cam[iÍDas, onde so encontra muito 
gado. 

Orca do %fi milhas aliaixoda viila de Itaituba, encontram- 
KO, á mar^Muii dlroíla do Tapajoz, as ilhas do Guaranazal 
Junto ao morro Ipapixuna, que é lodo formado de pedras cal- 
oaroas, raliindo sobro a praia o esboroado pela acçào con- 
stante das ajjfuas. 

Ksia> |MMlra«< ostào sondo ultímamonto exploradas (or um 
ncilvo(i iiilH|li;,'»«nttí noirocianio, (jue as manda buscar para 
calcinar em fornos con^iruidos perto de Santarém, produ- 
cindo cal de (jua)irludo superior. 

Aoíma do Itaitnb.i oncoutra-soa ponta conhecida [)ela de- 
nominação (lo — Paredão, 

('orlado a prumo pela corrente do ri>), á o Paredão uma 
oxtonsa barreira toda de p«*dra calcarca, formando uma sira- 
tillcaçílo mais ou menos re^^ular, disiiníxuindo-so perfeita- 
mente a se|)araçno de cada camada pela diversidade de cores, 
(luo apresenta. Tem a altura de 5'^ coberto de uma camada 
de terra vo^^eial pouco profunda. O calcareo cahe também 
sotiro a praia em bhrs enormes, incrustados de crystaes de 
ara^onita, que a acçào dissolvente das aguas deixa por flm a 
desrolhTla. 

O rio Tiipajoz, diz um distincto explorador, e ainda á 
franja d'a^'ua, contém, além de fiedras do amolar, uma rica 
pedreira de lagedosdo cantaria (calitareo silicose compacto), 
em tudo semelhante ao lag' do de i^rlugal. 

ENísto rio um dos mais ricos quanto ao^ proluctos natu* 
raes, abundando extraordinariamente em suas margens a 
borracha, guaraná, castanhas, breu, estopa, cumaru e 
muitos outros productos. Existe taml)om a salsa em grande 
nbunMancia, mas são poucos os que se dão á sua extracção. 
Bm suas matas enconiram-se ricas madeiras de construeção. 



T 



— 33 - 

comoenire outras, o páo d'arcoea mnerapínima. A^^severam 
os quo conl eceni aquellas paragens, que alli se encontram 
extensas minas de calcarão, que abrangem uma área de 
multas milhas quairadas ; i» um negociante em Santarém, 
pessoa de muito critério, aflirmou á commissão que em 1871 
explorou oTapajoz, que na pedreira do Ipá pixunn lem-se 
encontrado mármore 

O rio Tapajoz desagua no Amazonas por duas bocas, for- 
mando um grupo de varias ilhns. 

Suas margens são povoadas por gente civilizada, encon* 
trando-se Ufllas as seiruinles povoaçõos : Villa de Ilaítuha, 
Aveiros, Boim, Alter do ('hão, Villa Franca, e a cidade de 
Santarém. í|ue esiá assentada na foz. 

A cidade de Santarém é uma das maiores povoaçõea da 
provinria do Pará,e pela magnífii^a posiçlo em que se acha 
collocada, á margem direita doTapajoz, a 5k:lomotros da 
juncçãodpste rio com o Amazonas, e em um terreno qu^ 
desce com ligeiro doclivfí d«» snia nortp, [larece destinada a 
ser um dia oem[)nrio d<» um j^rande comiiiercio, (pie dará 
impulsoá civilização no Tapaj«»z, riode imm«^nsas riquezas 
e de grande popuhição. 

Foi primitivamente uma alilêa^oc<*upada pelos índios Ta- 
pajós. (1) 

Em 1694, em coíispquen-tía do receius de inva^Ões estran- 
geiras, esp<»cialiiicnt«» de francezes, que ameaçavam de 
Cayena entrar pm ponqnisia, mandou o governo portuguez 
estender foriificaçíies por todos os pontos do Amazonas, onde 
pudesse havol-as. Mano<'l da Motta e Siqueira ofTercceu-se 
para, á sua custa, Ipvjmiar as forliíicaçòí's noccssarias, com a 
condição porém, de Gear á sua dispo.-^lçâo o commando 
delias. 

Foi pelo governo acoito o ofr«?rocimonto, e Manoel da Mo tf a 
e Siqueira, nomeado superintendente (la> fortificações, man- 
dou logo levantar as (juo lhe foram indicadas pelo gover- 
nador, entre asquaes a do Tapajoz, que em 1697 ficou con- 
cluída, sendo feita, diz o Sr. Ferreira Penna, de laipa de 
pilão, em forma quadrada, ro-n 2á braças de cada lado, 
tendo cada angulo um hainarle. 

Com ofsiabplecimenln da fortaleza cresceu o projrrpdiu a 
aldôa de Tapajoz, ao passo (fue outras ficavam esiacionarias 
oudecahiam. Achando-se os porluíuczos fortificados na 
aldôa do Tapajoz, comíçaram a invadir os sorioes, capturan- 
do os índios dastrihus mais fracas c reduzindo. os á escra- 
vidão. Uma destas expedições, como já vimos, subiu em 
1773 todo o Baixo Tapajoz, penetrou pelas cachoeiras e 



(1) Junto á cidade de Santarém, c apenas separada por uma 
pequena campina, ha uma povoação, que nao é mais do que um 
arrabalde da cidade, e que é talvez a única relíquia que ficou 
dessa importante tnbu. Em i762 o blsix) D. frei João José de 
Queiroz, na visita pastoral que fez íl diocese, chegou até o rio 
Tapajoz e falia dessa tribu, como já lendo existido. 

5 



- 34 — 

cbegOQ a um rio desronhocido^ que .desde então se ficOQ 
chamando rio das Tropas. 

Ahi travaram luta com os mundurucús, e depois de doas 
ou três dias de combate, fugiram para a fortaleza, perse- 
guidos pelos inimigos. Sabemos já que estes aceitaram a 
paz e voltaram para as suas tabas. 

Em 1756 o capitão general Mendtmça Furtado elevou a 
aldèa de Tapajoz á entegoria de vilia, com a denominação 
de Santarém, em virtude da carta régia de 6 de Junho de 
1755. qup mandava elevar á categoria de villas ou lugares 
segundo a sua importância, torlas ás aldêas missionadas |>elos 
jesuítas, (içando sujeitas á jurlsdicçao do ordinário. 

Em 1848 fui -lhe conferido o tiluío de cidade. 

Paliando de Santarém, dizia em 1788 o bispo D. fr. Cae- 
tano Brandão, de saudosíssima memoria (1). 

< Esta viila é uma das melhores do Estado; comp5e- 
se de moradores brancos o Índios, 1.300 almas. As casas 
dos Índios estão arruadas com muito boa ordem e as- 
seio. K' terra abastada de peixe; serve de escala ás em- 
barcaçí)í*s que descem do Rio Negro e Madeira. Tem al- 
guns moiailores atjonado^^, cuja riqueza consiste prín* 
cipahnente em cacáo, queéo mais bem preparado de toda a 
capitanío, juntamente com o das duas povoações vizinhas» 
Óbidos e Alemquer. 

O município de Santarém limita-se ao norte com Alem- 
quer e com o de Monto Ale^rre, a leste também com Monte 
Alegre ; a oeste com Vitln Franca, e ao sul com Itaituba e 
coma província de Mato Grosso. 



(1) Eis em muito resumidos traços a biographia desse illustre 
prelado da igreja paraense: 

O Sr. I). fr. Caetano Brandáo, reli^^ioso da ordem terceira de 
S. Francisco, dedicava-se ao púlpito c ao conlissionario, profes- 
sando em uma das cadeiras do seminário da cidade de Évora, 
quando foi sorprendido a 2 de Agosto de 1782 com o aviso de 
sua nomearão para bispo da diocese do Grâo-ParA. 

Tornou posse da sua i^^reja a 29 de Outubro de 1783 (tendo alli 
chegado a 20 do mesmo mí»z) por seu procurador o arcipreste 
Dr. José Monteiro de Noronba, fazendo a sua entrada solemne no 
1.** de Novembro. 

Em 1785 visitou, apezar de innumeras dilTiculdades, as igrejas e 
habitantes das villas do Beja, Conde. Macapá, MazagSo, Arraiol- 
los, Esposende, Almeirim, Monle-Alegre, Porto de Moz, Gurupá, 
Melgaço; e dos lugares de Barcarena, Abaete, Cajari, Outeiro 
Villannho do Monte e Carrazedo. 

Fez uma segunda visita aos lugares abaixo da capital, e a ter- 
ceira peio Amazonas até Aveiro. 

A 25 de Julho de 1787, pouco mais de três annos depois de con- 
cebida a empreza, abriu-se o hospital da caridade da cidade de 
Belém, por elie mandado levantar, á custa de esmolas, « no lado 
Occidental do lugar daSé,á beira-mar ; com a denominaç&o de — 
hospital do Bom Jesus dos Pobres. 

Eis o que acerca, e cheio de jubilo, escrevia a um amigo o il« 
lustre e caridoso prelado: 



T 



— 35 — 

O sea território, diz o Sr. F. Ponna, na parte conhecida 
é pouco extenso, e offerece toda a variedade de accidentes 
physicos. Planicíes, várzeas e câoipos nas ilhas e margens 
do Amazonas, muito apropriadas, nSo só para a producção 
do cacáo e outros vegetaes úteis, mas igualmente para a 
criação do Rado vaccum e cavallar. 

Terras altas, collioas, mesmo montanhas, ainda que pouco 
notáveis. 

As cullinas começam junto á cidade e prolongam-se para 
E. formando uma linha extensa e pouco curva, que vai 
terminar na ponta do Pacoval, á margem esquerda do rio 
Guruá, cujo nome tomou. Elias apparecem também a O. S. O. 
próximo a um outro ponto da margem direita do Tapajós, 
mas como montei isolados; taes são os do Tapaciá, do Curu- 
rú e da Piroca. 

Ao sul, e próximo da cidade as serras Panema e do Irurá, 
que dirigem-se para o sul com'alguma inclinação a S. O. 
como que indicando de longe o valle do Tapajóz. 

Nas serras goza-se de uma temperatura agradável e as 
terras ahie nos vallessão de notável fecundidade. Não suc- 
eede, porém^ assim na zona comprehendida entre os valles e 
as margens do Tapajós, desde a sua foz até Aveiro, por ser 
muito arenosa : ella não offerece grande vantagem á cultura, 
como o indica a vegetação acanhada e ás vezes racbitica, 
que mal cobre a sua superflcie. (1) 

Como Óbidos, não são tão satisfactorias as condições hy 



« Estão os meus DObresinhos já na sua casa ; e então que casa t 
Um palácio magnifico: tudo se acha aturdido de ver, que no Pará, 
terra pobre, o onde as obras encontram mil d iUicu Idades, esta 
no espaço de três annos clic;,'assc a uma tal perfeição. 

Bem uito Deus! Que eile sò fez tudo: que enfermarias lâo es- 
paçosas e alegres, lavadas do vento, asseiadas, olhando de uma 
parte para uma grande praça, para onde também cahe a casa da 
minha residência, da ouira para o mar, sobre o qual tem duas va- 
randas mui desabafadas c vistosas; as latrinas lavadas duas ve- 
zes no dia pela mar(^: a capei linha é a cousa mais delicada e per- 
feita, que ha em todo o Estado do Pará: importou tudo para cima 
de trinta mil cruzados, sem doitar conta a muitas esmolas; e 
ainda estáo em ser os cinco, com que se deu principio áobra... 
Agora todos os meus passeios c divertimentos sâo naquella casa; 
evos confesso que nílo tive ainda Fiiaior satisfação depois que 
estou no Pará, do que presentemente, quando vííJo os meus po- 
bresinhos tão consolados e livros da misiTia em (fuc gemiam: jà 
me lembrou, se estiver doente, ir curar-me juntamente com elles, 
e lá morrer. » 

A Providencia, poróm, reservava-lhe outro destino, e a i7 de 
Agosto de i789 teve de retirar-se para Portugal, por haver sido 
eleito a 28 de Abril do mesmo anno arcebispo de Braga. 

O Sr. D. fr. Caetano Brandão,6.<* bispo da diocese do Grão-Pará, 
nasceu a H de Setembro de 1740, na frcguezia de Loureiro, bis-. 
pado do Porto. 

(1) Vid. a Regido Occidental da provinda do Pará pelo Sr, F. 
Penna. 



— .ifi — 

-^ : :•• .... Entrfianio vãn de iin cm ilía meíliif- 

. jí'.*!!!») t<»rii:ir->e exiv erjl»»* cuni o al»as- 

..:.! |M'i^vi'l iiiiii> pura. E' J.. rJu Tapajoz a 

» ■ c.n.slanio na cidaJi*. >'.> mi,,..i da vasanle 

Vílalliiia ; Ic;?!) |iuiVMi »|u«' u • n-ijr iiJi- roíiiov», 

ai-j L* iiuiíivi^nada de sub>l;iu. ia- » r^i<nieas i-iu 

:. • « liJ.nlt», vò->o iliiraiílí.' a i^inhcnu» o rio co- 

jríuiJjN de ludo i»u limo di* n>r ainarfl|..j-vt*rde, 

.: >j mais do </iHi prinrijiio di*k'U'rKi>, .^ubsiaii- 

. " i .íí ••") dlM•urllpn^i(•àll. 

, . 1 l':nV's de Saíilaiém, >r},'iiiido o relaíorio do 

:- |fi ro'|{rii>!|n«», lu^'»res ha unde a- iiiliMinitli-iiies 

. ! ir"n'>'»."< eslrajros. ^lairti, frnufnufaha, Uiaman- 

l:'r". Tiniu u r Mui iimmvtuhi >tin as lir3lídnd«;s 

:i l,.s, "íjdi.' a iiif-rlr parece i\\w a>H'Uliui sru .iirau-le 

••(•110. 

: s . «i > pon["S ri.'Lini'Hi ei»iidi';«*»-'s as iiiais dfsfavo- 
, 111.- d'.' S'ii> liaí«!í;in(.'>. jsi»' d«'M'iiidi'>«i.s de si, 
[!:.:í»-"ii p"r>'*us l.ai-i' - p.HM líiainr iiil»'nsidade 
, ; . H il.i:i liam. A II, :i' {.'iiipi da eiu-lirnít^ do 
-. ,u i^-nviiliiiii ;i> i. S.--Í4 ,i iinmunda^í palhoças 
. . .N.i '■j»'ca da v.i>ai.ii- (i«Miri as a.iruaseslat^iia- 
•::i >ii' >tariri.i< vi- «.i-s e auiliiaes vin do 
.íjiil'i iiiilli.iri'- '.'«' lV)."i'S (h' iiihr^-ào. E 
* • ! ; •. -à" 'l:.'li^ ;Ml''n-'> ws ia í'S >■ l.irc.s e a 
•'. • .••-.lii.' .'■ i">r '-^ j.í'. s í' |j.iiii;iii K^ a 
-. - : !: • ri '-!:;•■:;!!'.<. !• a ijiir-cviralu-rii 

> • 

■ ■ I 'i' ;. ■■ ií'í; ••*•• l -rfiar >a- 

■ - ; y. ..:•.- •!■' •• .:í'«m'!.:, :;i;íiÍ'»í:i 

.: .1 .;.! ;ii- •. ^i.. ; J- 'iiiad.i a Vrllia 

> • •; I I', .'.s V!/;»'* .Miirnraiíl'', »jiie 

'. . . "i ■, , i-rijii ' iíiip"de II jivre 

..•■ {'T: ■ (• -a "J íi rhladi', síMIuô 

- A i-.!iii;fa i:iUMÍ'"i[)al,eMriciir- 

. •:.■.:'• : i ■ ih/ii ?.' i«!aiiii da casa 



■ ••.,:.- «.ii»^ Mniraiij íios 

.>• ;.• d.ifMICIiruti'. rri's- 

>. P-iii!» Ih«'s i/hpnrl.i 
. ; :: J I i> l.i^i^íu.is »• p.Wa 
\ ■• . íA.irif.uii lima es- 
' . e- .ihi vivem em- 
. : :"I'.i pe^Miii ei|iiaiidi) 
;• .. eiilr.im iia moiilaria, 
% :;, »i».»«i e ícnviios ala- 
s.- ..'Mi.' iif.iit?m. 
; '.'i/^i. t/ue. tMilrelanlo. 
1/ \.:r .ii|uella vida! 



'* I 



! 



— 37 — 

da camará e cadô^, reconheceu a conveniiiocia de mandar 
coostruír esse ediOcio a E. da collioa, fora da cidade. Foi 
um meio de aconselhar os habitantes a procurarem de 
preferencia esta parte para ahí formarem 8u»s habit:iç5(*s. 

A população da comarca de Santarém, se^unjo o recen- 
seamento de 1872, e antes do ser di^lla desmembrado o ter- 
ritório, que boje constituo a comarca de Monte Alegre /era 
de 25.409 almas: Cm iO.OOO habitantes é calculada a po- 
pulação do município e em 2.000 a da cidade. 

Segundo as resenhas que reputo muito deOcicntes e ín- 
completas, diz o Sr. Ferreira Penna, colhidas pelos ínsi^ec- 
tores de quarteirão, o numero total dos habitantes do mu- 
nicípio era em Í8Ô9 de 4.847 individuos. 

Tem o Sr. F. Penna razão em achar muito deficientes e 
incompletas aquella^ resenhas. Em 1830, época em que a 
população era incontestavelmente menor, a estatística acha- 
va para o município 5.255 moradores, e no relatório que em 
1862 apresentou o Sr. conselheiro Bruique, consta que 
a população do municipio de Santarém, era : 

Em 1848 6.662 almas. 

1849 6.883 » 

1850 7.301 » 

1854 7.894 » 

1862 7.568 . 

Funccionam actualmente na cidade de Santarém cinco es- 
colas de instrucção primaria, além de um colle^MO parti- 
cular, de instruí-ção primaria e secundaria. Das escolas, 4 
são do sexo masculino e i do sexo feminino. Estão matri* 
culados naguellas i79u]umnose nesta 72alumnas, fazeudo 
o total de 251. 

Entre as escolas do sexo masculino, 2 são pa?a<^ pela pro- 
víncia, uma é nocturna, paga pela municipalidade, e a ter- 
ceira é particular. Nas duas escolas publicas estão matri- 
culados 66aiumnos repartidamente ; na particular 37 c na 
nocturna 72. 

O collegio particular, soba denominação de — Collegio de 
Nossa Senhora da Conceição — o habilmente dirigido pelo 
Sr. Fernando Félix Gomes, contava em Abril do anuo pró- 
ximo passado, quando pela primeira vez visitei-o, 28 
alumnos internos, 5 moio pensionistas e 20 externos. 

Funccionam alli as aulas do ínstrurcão primaria, gram- 
matica nacional, grammatica latina e frauceza, historia o 
geographia, arithmetica, álgebra, geometria e instrucção 
religiosa. 

Santarém possuo um periódico, denominado — Baixo Ama- 
zonas, 

E' também Santarém a cabeça da vigararia geral do Baixo 
Amazonas. Foi creada pelo bispo do Pará, D. Romualdo de 
Souza Coelho, por provisão de 17 de Agosto de i82i. 

Comprebendia nessa época 18 parochias^ todas com o titulo 
de yillas» três missões e sele lugares. 



~ 38 — 

Ai*iiiiiliiii'iiiM II ooinarca ecclesíastíca do Baixo Anazoitti 
f'oiii|iriiliiMi<li« IKíro^Hczías. 

A iKinJii intitríK, tiMido por orago Nosai Senhor^ da Gon* 
ri^i^hn, 1^ um unindo lemplo. Em um dof altares yê-se oma 
rira liiinKiMii tio Snnhor Crucificado^ de ferro raDdfdo e doa» 
iiidii, ('(Mp oiio piiimoH d» comprimento. Km ama lamina da 
fiMiii, i|un arnm)iuiihava a dita in.agem» lia-se aata inseri* 

f n niHilkfiro Carlos Fred. PhiL de |íar(tM, membro áa 
ff iuiitlfinên rml tias sciencias de Munickt fazendo de 1817 ã 

• IN10, tiv ofilfin de Maximiliano José, rei da Boõiera^ uma 
ff vimii^in nvi^hUfíva pelo lirazil, e tendo sido aos IS dê <#• 
f êmh o dti \H\\) snlvt, por Misericórdia Divina, io fnror éoi 
■ niiuas tio Amazonas^ junto á villa de Santarém, mandom, 

• t oiHu inonumfitiu tiv sua pia gratidão ao Todo Po4^oso, ori* 

\iii i"iir iittvtfíxtt ttfsta igreja de Nossa Senhora da Con^ 

• iviíuin, lio ooiio ih IHiO. > 

llii Hl liitiinifiitn i«iii Santaróm uma espécie de colónia de 
iHiii^iiiiiiion iiidiiHtrliisn.M, (|uo KC lôm estabelecido nas mon- 
iiiiiliiih (|iiii rirciimdnm n ridndo e que muito têm concor- 
ihlii |i(iiti (1 doMii|ivolvimrnlo da agricultura. 

I';iii ifi rui hAn iiiti'ilÍKi^ntos, laboriosos e morigerados. 

n* iiiilHillinH feitos nos ostabelecimentos dos Srs. Pitt 
Mliiuiiii (« Ittiili hAo dignos de ser Tistos. Se continuarem 
ii I •iiiiiiritT (iiiil^riíiiirs nns condíçOcs dos que actualmente 
nki^hoo i«iii SnntiinWn. do (vrto que muito terio a ganhar a 
iiHiiiiilloia 1* II iiiiluNtrln alll. 

A 1 iiI.hIm ilo Siiniiir(\m piir^To Ir raminhando em via do 
pMi.-^pni id.tilo ■ (irnriis ii soa vantajosa policio junto á con- 
íliiciirin (liin (liiiii ^raiidrs rios, díz o Sr. F. Penna, onde se 

1 loi.^iihhMíi. pnra.Hsiiii dir.or, um rontro de união mercantil 
i-iinn iiM rii|ii(iH*.i du.i tros KTandrs provinciasdo NO. acidado 
ih: .Siiiiifiii^iii («iitrptiWii um rom mo rrio activo com o porto de 
Itr.it.iii, |Mii iiiinriiKMllo dos vnporos dn companhia do Ama- 
/.iiiiu:i, nini i»M (liMtriclos vizinhos qtie trazem a «eu porto em 
pi'i|ih ihM niiiAas uma oxirnordlnaria variedade de géneros, 
r. Kiiii Ciiyiihã, pnr iiirío do ranòns osporjaes, denominadas 
iiinnh'!i o ulmn, ipio aunualmrnto dosocm das ímmediaçòes 
ilu hiiMiiaiiiiiKi, iraxiMulit rourns, poiíuo.nos diamantes o ouro 
rm liiiitii. i|un (roraiii por sal, forro, aço, p()lvor«i,i*humbo, 
l«»in;ii, vliilnii i« ^íiiarai^rt, com (juo oljfs rojíressam para os 
puniu.') iIm >) 11 ii pruroilcncía . • 

A vilia (li^ li.iiltijia rstá situada n margem os<]uerda do 
lapajn/, w o raliov<i do municipio do mosmo nome. 

ildiita u villa para mais ilo 1)0 rasas, sondo a maior parle 
drIlaM riihoriiiH do irllia o luMu construídas. A igreja matriz 
arliuvttHo PUI iN7i muito velha o arruinada, mas havia 
uma outra em eonsirur^no. Tem uma escola publica de me- 
ninoM, i|uo é pouro frequentada, e conta 8 casas de com- 
iiirrrjo, Hfiiilti 4 nacionaes e 4 estran^reiras. 

O rendimento da colloetoria, de Janeiro do 1870 a Junho de 
1H71» foi de (l:(iaOiM)00. 

As moreadorias sio alli vendidas por preços eiiraordi- 



— 39 - 

(larios, mórmeúte nas cachoeiras, oDde os géneros de pri- 
meira necessidade sSo comprados por preços exorbitantes, a 
Capricho do Tendedor. Assim, o preço da farinha regula de 
l|000 a 1I^$000 o paneiro, e o pirarucu s6cco de 10|SI a i8^$000, 
é ás veies a 20^1000 a arroba. 

Nas pratas de Itaituba,além de grande variedade de seixos 
folados de gnarts, encontram-se, diz a commissao explo- 
rldora do Tapaiok em 1871, muitos fosseis pertencentes ao 
terreno carboniief o. Em uma barranca á margem esquerda» 
3 filhas acima do Painim, encontrou a mesma commiasão 
peànenas pedras mui brilhantes de sulfureto de ferro, en- 
terradas em uma camada de schisto bastante molle, que 
foriliava a barranca, abrangendo uma pequena extensão. 
Uma milha abaixo do Painim existe uma ilha. que apre- 
senlh o aspecto de uma fortaleza, formada quasi toda de um 
tó biDC dè por ph iro. 

« Rio ha no Pará, diz o Sr. Ferreira Penna, uma regíSo 
tio rita de productos nativos como o município de Itaituba. 
Em ntneraes é fama, e consta authenticamente, que no rio de 
S. Manoel, que, por equivoco, se tem denominado — Rio das 
Três Banas— encontrou o celebro João de Souza Azevedo 

uma toa porção de ouro que elle trouxe ao Pará Nos 

producto» vegetaes é que consiste principalmente a riqueza 
do muAlcípio de Itaituba: basta mencionar os seguintes: 

Castanhas da terra em grande quantidade — castanhas de 
sapucaia» cujos fructos apresentam muitas vezes dimensões 
colossaes—i* cumaru — puchury-mirim — borracha em abun- 
dância—salsaparrilha, que é a de melhor qualidade que 

apparece no mercado do Pará O guaraná ó o género 

que tem alimentado o commercio da villa com Mato Grosso.» 

Já em 186S era muito importante o município de Itaituba, 
o que se deprehende pelos seguintes dados, apresentados á 
assembléa provincial do Pará pelo Sr. conselheiro Brusque: 

c Existem (no município de Itaitub») 4 engenhos que pro- 
duziram 200 Irasqueiras de aguardente, movidos por ani- 
mães e com 32 braços empregados no serviço. 

Os principaes artigos de prodncçao agrícola o industrial 
exportados do municipio foram os seguintes: 

Breu, 114 arrobas 114^000 

Café, 410 ditas 2.000^5000 

Cacáo, 600 ditas 2:400,5000 

Castanha. i20 alqueires 240^000 

Cravo, 87 arrobas 582$000 

Estopa, 65 ditas 655000 

Farinha, 350 alqueires 1:0^4^(000 

Gomma elástica, 5.220 arrobas. . . . 8:6i0^000 

Guaraná, 510 libras 2:400|000 

Óleo de copahyba 240S000 

Salsa, 450 arrobas 1 :800í000 

Existiam também 2 fazendas de criação de gado vaccum e 
cavallar e 298 de cultura de diversos productos. 
Cerca de tresentas e tantas milhas distante da cidade de 



•* 



. ^ 






:r; r.r .nír' .\\z.i:::ày .vrras. .ju»» 5e aohâni au longo e 



• •• 



— 41 — 



próximas á parte superior do Las^o Grande edoSalé, taes 
como as do Gurumucury, Igarapeuassú, Piraquara ouS. Se- 
basiião e Âracury, e a do Axicará a 0.^ próxima á margem 
esquerda do rioArapiúm. 

Dizem que acima das cachoeiras do Arapiúm ha algumas 
serras muito nolaveis. 

O rio Arapjiim, í^onfluonte do Tapajoz e quasi tão largo 
como elle , é ainda desconhecido na maior parte do seu 
curso. 

No Lago Grande, e perlo de Villa -Franca, houve outr'ora 
um importante pesqueiro, creado pelo «íovernador e capit^o- 
generai do Grão-i*ará e Rio Negro, Maninho de Souza e Al- 
buquerque, em virtude da provisão régia de 28 de Julho de 
1783. 

Foi em seu começo entregue a direcção de particulares, 
mediante certa renda, passando mais tarde a ser adminis- 
trado por conta da fnzenJa nacional. 

Hoje desse importante estabelecimento só resta o terreno. 



-40- 

Sant.nrém e conlo e lintns da tIIU ác. U. 
iiiartipm direito do Tapajox o nl' 
(ini|i< j» sA actiim reuniili'1 cerca de 
diífnnii da tríbu mandarneil. 

F'>[o aldramento do Bacalml f' 
Pr. IVlino do Casirn Valva pFr. ' 
tio iiiiiiin.i sofTrlmeaios e |iprk' ' 

A p«viiac3o de Ateiroi i ' 
Tan.j;,!. 

Datri ilcITsl, masachn-' 
hahitantes, por causa das i 

Pomo acima de Avfir-' 
conjzndn o famonj, di? - 
ra^ de prodigiosa hr'. 
rai>ade imporlaDCia, 



ia (luyaaa. O 

•úsii e\íe de am 

-yiuDa e do lago 

- .■õrrertes, que se 

■.,0 rccfhendo áes- 

;iiti deGurupainh.'! 

,-■', com 300 a 51)0 

■íí de largura e fundo 

aliTunssílios c fazendas 



cslcarena, ele. 

A freirneiia dt* ' 
por origem, com 
de indian, missh 
rada á caie^^nr 
Em 1833 |.rj ' 
fraguei In. 

Hoipi- ■ 

AUn- 



^ -MS que lhe ficam á mar- 

:: i'i>ptiyba e estopa. 
, -s margrns excelleote pedra 
. i.- aiiiolar e qae serve para 

'.::t:iiiiiii> uma povoafSo á pane, 
^ -> ineiioii de meia milha. Para 
rrav^ísar um Inrgi. areal esu- 
I I- arecnta, .lem uma só casa, 
, <iU(> vai qaasi em linha rccis 



,..,. _. eslj i-ll:i situada, 
.' ;i ladeira, i! ú beira do raminho, cn- 
lingiii . . ■■ :, .ii j.^ exeellenle agua, e au aiirosimar 

Vil' „ ^ ' ,;ji::;iiiliDearvnres rnpada.í, nun crés- 

mt'i' . .. • ■' ■.. jj,-, alentam, eom asuasoiitlira, o tran- 

e' ' ^"■•'' .,,j-. a>m|'<>i'-se de uma linh:i de rasas, 

"■""' , - •'■^' , y, j.t |ir»io para cimo até o começo da la- 
^ .■■ ■' ^^ ".à":) J'- casasj quo olliam para o rio e um 

• ' ■"*".*.vH J'' lar^O''"'*'!'' S'^'"''' IQfi ''s'á assentada 

Vf 'í*'i -..•iivralura é alii hníiijnie elevada, aiMíiar 

^f.\>-'' ' ■ ;. ,-.iuíl.'"i lenir n lo íojira das 10 horas lia ma- 

A ■ '^Tli -Jt-Ií- a* priíiit^íras horas da noite sSo [Kir 

*•'■' " -H >.Í'* 1 rnando-se ainda mais seosivel a eleva- 

,(.;-j> ■* .,.,-úr*, i""" serem os moradores obríírndosou a 

*' '" ■' ■I^Jí" s* '"''•*■"'■ '"f-'" **" esenrerer, para se livra- 

;,-.jt ■■■ .1V..U.V Je rarapanSs (mosquitos) que invadem a 

-tdi ''••'"''■-'jfiynderem diante (las porias fogueiras, para 

,,.,.■*,■*■■•; „, , fumaça a maldita praga. 

^^(.^■aiJ^' i^m^igo frescas e muito sgradíveis. 

■^•- " .'^.T°^ ^ats da poTuaça o correm perenncmente 

rnn da eollina, que 



^■iBUa, uvoi 


como 


■k[ 


na da 
édes- 


H 


|hex*^^^M 



— \'} 



liauslas pelo chIdf, rjue o areal roll»M.*ti', os inuradorosda po- 
V unção. 

• iliamam a osso <ilir — Jaonara. 

Tin pouco ali-ni, c laiiihem om iiiii sitio oxlroniaincnle 
liiii(in\«»i!o, soiiibn^yilo p(»r (!(.'iisoo ropado arvoredo, cxislem 
•lii.is i'\iH*llf'nic< Iniiics dtí agua fcrnra, c que fornecem 
inaLMiiliccs l».'m!n)s. 

\U'ii\ iJo iiKídioinodo qui» soíTrem os nioradores do porto 
«'••III a ckíV;íí;ào da t(»ni[.eralura, oecasiniiatla piílo areal, lu- 
i.nn r"?ii outro ainda maior e, mais ."=-crio o jierigDso e.m 
cuas consequências. 

Muitas Ví!Z(S, durante o inverno, no tempo das chuvas 
copiosas H prolcimadas, e (|uando dtscansaiu das fadi^'as do 
dia, >ão acnrdadus cm sit|iri»<allo pelo ruidn jissusiadur das 
a;;uas, (;ue, furmauílit caudalosas rics, e arrastando comsij^o 
enoríiiiMjuanlidado de» arêi, descem <la villa, amençadoras, 
rugin'ln, invadindf) asíiasase pondo cm immincnl'.) risco a 
eslas e a«'s moradores. 

Desse diluvio úo. nova espiicie me fali.iram todos com ver- 
dadeiro tiífror. 

« Kslas encliurr:-'das monstruosos, diz o Sr. Ferreira 
IVnna, descem cm nnssa, arra^^tamlo tí-rras e artías pela 
ladeira alvii.\o,e vô.n dcjMjsital-as á heira do Gurupatuba, 
onde está o porto di vi lia. 

« Já es.>as aiô^js tèrn n terrado uma boa parle do pântano e 
é sobre esse aterro que csláo as casa-. 

« Mas, corno as arôas (jue airora cln*i:;im do alto vèin direito 
'Obre os fundos das ca-^as, e os mor.idores nào querem ver 
derribadas ou «'ii tu 1 liadas as suas prtqiricdades, estudaram os 
meios i\f' «'vilar i-sse [mtí^^o e di' atí^rrar novos pântanos, onde 
possam edilicar, e acharam l; «^o esse meio, duplamenle útil, 
n qual cíinsistc cm fazer na imca da estrada, (|ue vem da villa, 
uma excaviíefio d(» la.io ori 'Utal, dando |>or ahi piiSsa^^eni ás 
enchurradas, íjue bco cahirão no iirapó desse lado. > 

Essa obra fez-se;a c:imara municipal mamlou abrir uma 
excavaçào, ou anli*s uma valia profunda, a liu) de encami- 
n!iari>oralIi as cnchurradas, »ju<» arue; cavam a píjvoaào do 
porto. Kncarre;;aram-s»', pons-n, ellas ile inuiilisar a (d.»ra, 
acarretando para alli monlòtís de arèi, que distruiram o 
tral;alho feito. 

E as a?:uas continuam de novo peh^ caminho, que pri- 
meiramente seíTuiam. 

Ao í^overno provincial cumpre tomar serias medidas, do 
modo a conjurar quah|uer calasirophe ICm um bello dia, as 
enchurradas, lançandose com violência, levarão liordianlo 
as pobres casas, já meio arruinadas e mal sep:uras. 

jVa povoação jío porto de Monte-Ale^rre houve já uma fa- 
brica de serrar madeira para o arsenal de marinha do Pará, 
15 cujos vestígios ainda eram vistos até Intu pouco tempo. 

A villa de Monte-Aleíjre fica no alto «le uma chapada, 
cerca de 200 melros acima do nivel com m um das a^uas. 

Forma uma espécie de praça, em cujos lados se acham as 
casas c no centro o bello c mogestosocdilicio da matriz, con- 



-44^1 


■^ 


Orlo Garupstiiba (larore vir SÔ^^ 




Sr. Ferreira 1*6003, norHm,siipii8e 
dcsaRUBdoaro dos rios Mayfiuni. E 






doMoDle-Alpgre, diíonds satie pc " "M 


roíinum. uhih só aun o nomo clr V.y- 




HOerda o if[iira{iÉ-A[mra, lom;i mi 




n vai (lalil paru u iioric, muuí- 
metros. 


Ko porlo (ia vlila tem elle 260 
snfllnifioU «ora quolijuer caTio^^ ^H 

(Chattitflilo. na partu íoforior^B ^1 
de calmrn 3 ')ii criac^lo. .Ib^H 

Aa produccilHa oníuraps daf U^^H 


|H ^ -»« >nr--.£i ^H 


^fcl-r^^ 


geui íSo; castanha, caeÍK, oleo^^H 




Tamhcmenconlra-sa nas bd^B^H 


coo)iei:i<Ja polu nome (l«j)/-<íra»^H 


^^^fit^^^ ^^ "^^1 


OPúiio du Miinie-Ali-srí cO^^^H 




(lr:iiiiln dislant'.' da villa pooi^^^^H 




i:h'-ií:ir e^lii 1^ iiHi^cssaria Bl^^^^H 




bir iiiiKi riinjiiimi^dl ^^^^^M 




complttlamcnii' defca mtiad», ,^^^^^| 




Bldoallodi! umaoliapada, Oj^^^^H 




Fullímciiti!, om melo d« M^^^^H 




eonirauj-sc dn.is TodIm daMÍM^^H 




da Tillfl, oíireilB -se luitniiftVr ^M 


p^^^By - ^?^^H 


eem le am o fiaimind' :ii< 




seunte falicadr). 




A povoação do pori'> < ' 


*^^^l 


nue corro de S. a N.. il ■ , 

diiiru.B de ouira liuli. .: 




- ^1 


puiiou nTnKtndns da Tinr 




Em oonsdi IIP nela ii-i ' 


■ 


B pOFoacio, a ienip''iiii 




da virsção, qae copvi . 




nliii «s {( da isrde. A 




dentais '!alm(is'ns, inni.) 




C^oda lempernturs, |'"> 


_ ^^^^^H 


(eiem fL-nliada." ax cas.^., 




rem das nuvaoa de iiarir 




povoBçSo, ou a asuendert» 


-«>- ^fl 


arugonlarern wm t fuo" 




As manhas, porém, Bíl' 




A nlíuiMBfi braç.is ■' 


-^^^^^H 


dniis jiirro.ç d'n)ru8 iT' 




Uca |irn\im;i, e quo sm 




polin- t'.'ni". Umu d*= 


^^1 


A 1.'í(Í|:,t';',Ui'iVi|V-i 


^^1 


iRonfirrii uma.fl l*.. 




Alil Ó fjuB vSo ími 


^J 



i>l — 



raiule ahorluro, que úizem as anluos halii- 

il(j-Alei:ní l^r .siiJo o i:«irn*i|nr MiSiiTrane!», 

4Íírani om 18:J5. nu rr*v<}lia ila (^ilaíiíJ^NTu, us 

encapar â sanliu ilos insisruiMos. Ali.'inis niric)- 

plt> í'S.s*i alitTlurí», >ff" ohrijaílHS a n niar im- 

lO, p''r«|ii'* ♦» Vi\ a <s'urhlãn «jiii* a Yi>i:i na'ia 

• Hfio apaLTa-.^^f a luz |«« la rar. ficçãi) ilijarc pilas 

<).*s fji; in »n*«';í'».'i, íjih' alii <.'>voa(;im. DiitfUi «ju»' 

•r cjava >alii«la pir ui;i .ilrmàí) iiralifafio na rui-íi.i 

sraiihMíl-» il«*S"«)fili"ci'J.i. Ifi niici aiinsís ni^rivu 

• i'flci vlim, íMiiiiiMiip iraiK'0 •• l'>t!'i:iiinl a de^Ncs 
M?«>iJi"citiU!nlo.s, o í|ual rutilavi »?s<'*s proini-inir^s 
•»rn'dor subliTran»*»), íicrr>rpniau«lo <juf, m; iiào 
i»go, aiu ia a.*»Tfaria cnin o aIí;apão. 

a rorjia (jii»' faz fr-Mito para a »-sira la í"*lá o^^rul- 
.i^'e»i du <'»| V. tiu iHilra h da iiia. 

•iiiilir-íiile a vi^ta «lu- oIT.T'.'im a s;^rra di) EnTi"' 
ma rid.id'M'aPt:íS.i«'a <':n riiiíii-. 11 ■ li-'l')>. <!ti:.iN. 
•un».*a(;ain a- nuv-ns, Sí-rn-lliHni '-aNii-ii..^ díTPM-a-lu.s 
tua (:onvui>5'> dn ^^^l<). A» v.-i-aN a>^iii!, '|ua>i qui! 
'iaqu'í ai|Ui'ila.s n):-lias iwin ííii-Iju i ia* vão d«'sp(í- 
s«»íír»í o viajauiíí «lUr a^ conlMiipla t* i.'<iiiajal-«j (mu 
io>idade. 

4an( ia d»' iH ;iiiiii:is pouc^u tiiai- 11:1 in<Ml 'S ai).ii\o de 

\lov:n', fuva a Iriu^:.»;zia da Prnii.hn. 

rreiíuezia, <»ul! '.na d.TiDíiii lada 0/'/'''/o e ptifuiliva- 
aloôi de l.ralá ruuni, \n\ iiils'si«Miada p!'l«j« padrei 
:«.» Auloniõ, da ,»r»viiiri.i <ia Kvtreuiadurd. 

i-se situada á nnru^mi <'<|uerla do Auiazonas frou- 
.'j TUi l'i'H'irii, ;:.:rM ''n-l-! foi irm^L-rida ••lii IHIJO. 

.) Untara, i|u«* d •>!•• ímmIí» vai >iir.;ií' na-^ hirri^iras 

.Miadas iIm dioi' u í»-»!* íl(*fr«>uti; de M jnle.-AI«'i'iv, /í lodo 

lo layos e iu;iiai«-*.s mui f.-ri»'!^, rusn i-rrra- \i'i\< parj 

ura, mui riea^ <1 * i-ara «' d«- líida a »'>p«M:ie di; iiiad»*]- 

••••m [jfrauies i!asiaiií..i!'> ■• pr'j.luz'?ni la!(ii»''m idla^ i-s- 

Iirea, cravo, mI.'u d'í «• -paiivlia •* s.ilNaparrilli:!. T.niil.»efii 

- VÔni cníu a !!HÍor •*>■» oii iii»*ida le o cif»', (:i»cá<», UiI>a('o, 

Ião, inandlõiM, :iiii.i>, í> ij.lu, «-l*. 

frí*gQeZia da Pini.ffm v.ii «iii en-^i"* riJí d»M'adeii.*ia, e 
rista aalmado viaj=»iii'í oe-íi<;iMa'-ulMi|!i •.••píe^:Miia i>v.i 
iUtiga povoa(;ã'), di/uu -mu duvida d<: iii-ili .r .-orl.-. 

■ .•«casassem sua qua.^i totalidade, apr-'^:'Ulu;ii ii:;i a>pi-it > 

1:1090 oa de iuimiut^ut*; d'"*iuiri)!iaiii':it >, eulr*! «ii:>) q!i<'. 

•iial'" ""oximae por as'í::n dizer iiiv.i.liiid) a pHV'jií;;ln •• a-, 

• cobriu Jo o teelo da*í im>.'j-, •ieriuuiiam ao \ia- 
ado a incúria <.' o dricíxo •] •> liabitanic^. 

'•'mordialde !oiosessí\s -uaN* , de>'a d»M-a ii.ueia 
aiitesde>-.« morto a qiHí i«ir«'-e •• fi-iemoatla 
•dí», ê soru duvida a pen';:riíiaí;à" 'iu*: a maior 
içâufaz tolos usanno. par-. ^ *u :.aii''-3 • 



— 32 — 

moriiferos seríapraes dos rios Jary e Tamatahy (i), onde vai 
á extracção da borracha, seduzida por fabalogos eima^^ina- 
rios lucros, voltando mezes depois pobre, carregada de di- 
vidas e cheia deenfoimídades adquiridas nesses lugares pa- 



(1) O Jary nasce na Giiyana Brazílcira c corre do N. a S. a lan- 
çar-se no Amazonas. E' navepvol duraute mais de 30teguas, 
seguindo-se depuis as cachoeiras. As margens sâo baixas e ala- 
gadiças em geral na parle navegável, e moniauhosas na parte 
média e snporior. 

Nestas ha as iribiis seguintes: Cuceaxim, Uacupi, Oyapi (com 
a quiál foi fundada em 1839 a povoavAo, hoje em ruinas, deno- 
minada Tujupi-inaU{)y Japnruhy, Aiamancum e Arenaibú. 

Estas duas utiuias irihns vivem (!onceulrad:is uas maias. 

Os proilurlos naluracs das margens e malas deste rio são: 
borracha, saisuparrilUa em abuntiaucla, cacáo, castanha, cu- 
maru, cravo, breu e baunilha. 

« O rio Jarv, diz o Sr. Ferreira Pcnna, é talvez o maior tribu- 
tário da mar;:em esquerda do Amazonas, desde o Trombetas 
até o Oceano. Suas várzeas (rncenam enorme quantidade de 
seringueiras, e as (ol tinas e terras altas estão couerlas de cas- 
tanheiras. 

« São os producir^s destes dons ve$re(acs, que couslituem a ri- 
queza do no Jarv, aitiahimlo em euda verão annualmenle para 
suas margens cerca de einco núl pessoas. 

« Não tenho inrormavõessuílieienies sobre o curso médio e su- 
perior desti' rio, < onlihúa ainda o Sr. Ferreira Penna, sabendo 
apenas qm* acima das cJChoiMras ha ri(|níssiinos cas^tánhaes. > 

Os rUi< Cajá ry i'. A naucnipurú cor iam parallelos ao rio Jary. 

O curso do Cajary é poneo exleiíso, ma^ coulém em suas mar- 
gens piodnelo< igiiaes a<»s do Jary. 

O Anaiwrapnnú dosrc das montanhas da Guvana para o Ama- 
zonas. O sen eiiíso éinais liniilado (]uo od(»Íary. 

K' navegável em pe-|ncna exhvisâo. 

Torn<Mi-<e mai< lonheeidu pelo nome de rio Villa-IVova, desde 
(jue, pouco aeima da barra, íoí em ineiados do século passado 
fundada em suas mar^^ens a villa Vislosa, dequenãoreslam ves- 
ligios, como tauias outras. 

E' habita'do, acima d:is cachoeiras, pelos Índios Parixys c por 
outras irlbus desconhecidas. 

As suas prodoccòos naturacs constam de salsaparrilha cm 
abundância, mnila borraeha, óleo de copahyba, cravo, breu, 
estopa o caslanlia, bem como excellenles madeiras de cons- 
trucvão. 

O rio Tamatahy, na Uri, é ício e muito estreito. 

Para che;:ar acoiiílu<:ncia do Tamatahy é necessário nave}:ar 
pelo rioUruarã, talvez por espado de ires milhas, desde asna 
foz . 

Durante o tempo da cheia, liça o Tamatahy atulhado de bar- 
rancos, que tornam a via^^^em trat)alhosa ; uavegando-se porém 
uni pou<;o acima, enconlra-.se um lago ou antes uma grande ba- 
cia, que llie dá exactamenie a figura de um funil. Deste lago 
loiíia o rio uma direcção opposta à que traz da foz; forma uma 
grande curva, que tem o inconveniente de demorar a viagem, 
inconveniente que os moradores do Taraatahv destruíram, com 
a abertura de um canal, terminado em prlDc'ipios de Dezembro 
de 18Ô7. 



- 53 — 



ludusos, incpliiticos e iii$alub/cs... e entretanto não des- 
illudídct f 

£ tHnio é Diais censuravHl e reprchensivel essa annual 
peregrinação dos habitantes d» Pr:ijiiha paru os serinjiaeí, 
quanto é certo que as ft^rteis campinas que. a eircunidauí, 
muito apropriadas píira a criação, cxisttim cobertas de 
grandes rehanhosde. pdo vaccum^cujo numero se eleva de 
14a 16.000 caí^eças. 

Eoireianio, apezar dos recursos que alli ha para a cria- 
ção do ^ado edo subido lucro, que esta industria deixa aos 
criadores, ainda assi n a serin^^a lhe c preferida. 

A lavoura parece ser alli completaiiicnle abandonada o 
desconhecida, posto que o terreno seja em extremo fértil. 

Entre a Prainha e Monte-Ale^rre exlstio outr'ora uma es- 
trada, que hoje se acha no mais completo abandono e de todo 
intranMtavel. 

Na distancia de 15 léguas pouco mais ou menos abaixo 
da Prainha e5 a 6 acima de Almeirim, ergue-se na margem 
esquerda do Amazonas a collina gerulmcnle coniiecida pela 
denominação de Velha-Pobre. 

Pos^ue esta c(íllina magniíicos campos para a criação de 
lodd a espécie de gado e- matas abundantes de caça e de ma- 
deiras. Os campos são regados pelo rio Jacundá, braç) do 
Paru, ou rm de Almeiri[i.,a que tambiMu chamam Uacarapi 
e tem excellentss pastos com que alimentar grande porção 
de gado. 

Pouco abaixo da Prainha, lança -síí no Amazonas o rio 
Paru, um dos mais notáveis da Guyana Brazilcira. 

E' nave^'avel por espaço de 30 léguas, além das quaes en- 
conlram-se numerosas cachoeiras. Pouco acima da primeira 
alarga mnito, enchcndo-se de numerosas ilhas, quasi todas 
de t<*r. a lirme. 

As cachoeiras do Paru, escrevia uma testemunha occular, 
são as mais beila<, (jue tenho visto em loinha vida. 

^'ão são muito altas, mas o volume da primeira queda é de 
mais de um kilomeiro, sendo sua altura de iiO pés. 

Própria nienie fa liando, a cachoeira é formada de três 
grandes pancadas sobre a mesma ilha transversal, >eparadas 
por duas ilhas de pedra, cobertas de alguma vegetação. 

O fspecto geral da cachoeira é encantador. De u n e de 
outro lado serras bastante elevadas, cobertas de viçosa ve- 
getação. O rio com formidável estrondo precipita-se em ex- 
tensos ecrystallinos jorros, até que, ferin;Jo o leito inferior, 
engendra desenradeados lurbili.Õe^de espuma, dos quaes se 
eleva uma constante nuvem de — [ló d'auua — , verdadeiro 
véo, por entre cujas dobras o arco-iris brinca. 

As aguas do Parií são claras, de um verde escuro. O le 
do rio é todo de arôa, e sua larguia varia de um a doa».' 
lometros. 

Os productosdas margens e matas na secção inferfo] 
rio, não são notáveis ; mas nas do curso médio abam' 
salsa, o cacáo selvagem, as castanhas e outros fractos ; 
induz a crer» acrescenta o Sr. Ferreira Penna, lani 




— M — 

confiffuraçâo e aspecto do terreno, como por noliciris, ainda 
que vagas, dadas pelos índios^ que devem haver, na serção 
média e na superior^ riquezas mineraes, que um dia cha- 
marão pnraalli uma.-iorrente de mineiros, muito maior que 
a dosseriní^aes para o Madeira e Purús. 

O facto de descobertas de importantes lavras de ouro no 
alto Oyapock, cujas cat)eceiras se apnroximam ás do Paru, 
vem ainda em apoio dessas informações. 

Habitam na parte superior diversas tribusde indio«, cujas 
princi|<aes são, a trihu Aparahy^ que habit:< no lugar deno- 
minado Arimatapurú e a Untcuiaaa, que habita na parte 
superiur. (1) 

Na barra deste rio está situada a povoação de ^/m^rím, 
defronte do canal Aquiqui, 

A posição em que se acha a povoação de Almeirim é pes* 
sima. Esiá a*^sentada sobre terra alta e limpa, tendo em 
frente a cordilheira do Paru. Esta denominação de Paru 
toma também toda aquella costa até perder-se na de Ma- 
capá. 

Aquellas altas montanhas parecem querer aspbixiar a pe- 
quena povoação de Almeirim, cuja falta de ar a torna insa- 
lubre e um verdadeiro deserto. 

Eis o que a rf^speito delia diz o Sr. Ferreira Penna, que a 
visitou em 1873: 

< Almeirim tem algumas boas casas na parte baixa ou na 
praia e as mais geralmente peifuenas, e a í^Teja matriz, na 
parte alia da povoação, sobre terreno montanhoso. 

< Entrámos em Almeirim, percorremos toda a povoação, 
semenci)ntrarmos viva alma. 

c Estava totalmente deserta desde Setembro. 

« Não ha ahi ruas, senão uma praça, c esta invadida pelas 
hervase arbustos, principalmente pelo carrapicho; a maior 
parte das casas estão abandonailas e algumas em toial 
ruína. Os moradores estavam todos ausentes, tendo se re- 
tirado uns p^ra os seringaes, outros para os casianhaes. 

« Desça nça vamos um pouco, recostados á porta principal da 
matriz, que eslava fechada, quando ella cedeu e abrio-se 
sem outro esforço. Entrando, ;iouco ou nada havia que vôr, 
senão que eslava povoada de ninhos de cabas (maribondos) 
6 de uma enorme quantidade de morcegos. 

t [Jm pouco abaixo da praça^ ou largo da igreja, e sobre a 
eminência rochosa, que alli domina o Paraná-mirim do 
Amazonas, estão os destroços do velho forte do l*arú, que os 
francezes em 1690 tomaram desorpreza á guarniçUo portu- 
gu<'za, abandonando-o logo, depois de terem suqueado a 
povoação e a igreja . • 



^i) Em Outubro de 1857 esti\oram cm Belém dous tuchaiiasda 
tríbu Aparahy e um gentio da iribu Urucuiana, aos quaes u pre- 
sidência da província mandou fornecer de vários objectos, como 
peças de chita, de algodão americano, armas de fogo, tesouras, 
espelhos, machados, foices, terçados, enxadas, eic. 



- rw — 



Esle fbrie, de pfdra e barro. ninQ<1iMi-o levnnlar a ot- 
rieDS<is siias o sroTernador da fortaleza de Tapnjoz, Manoel da 
Motla e Squ«^ira. As ruínas deste f. rle, diz B;íí»na, que se 
acham deiaixo do arvon-las emmoranh.-ídas, que a própria 
tTra hmtou de si, nínda mostram a sitançào dolie e indii am 
ler sido desenhado e p«-nsiruido por pissoa, que «'a arie de 
fortificar tinha alírumn luz pur uso. 

Aír«trj a Inumas breves eonsidrraçues : 

Dóe fundo n'alma dei|uem navei:a o Amazonas o attontar 
no i-siadri de profunda ilft-adi-nein i'm que se a'*hain tanit'; 
povoaçíies, oulr'i«ra tão fli)resr*enli's, e ião eheins de aniniação 
e de viiia. A" exrepçâú «!•* uma lU outra — e hru) raras são 
— as demai- pareci-m esiar agíHiisnnd»». 

Sempre o m»\<mo asptHlo— cõsns «irsmiirMnadas ou prestes 
a desmnr<»nnnMn-se, •• njalo invadim^o a povoação, a ausên- 
cia da população, n silen«io do deserto. 

E o qu4' é in.tis depicravei ainda, a civilização repudiada 
e a iírnorancia absolu?a a dominar por li'dn a parte. O es- 
pirito rp|i;rioso. que eleva os povos, que os enfrrandree, <|Uo 
os mnralisa, que afuírenla a barbaria e dtslrúe os pre- 
conceitos, acha-se quasi extincio nessas para>:i»ns. onde ape- 
nas cm uma vrllia casa, meio desmoronada, que se «leno- 
niina matriz, ergue-se por felicidade o estandarte da re- 
de mpçã o. 

Mas em cambio do espirito religioso, que bem pouc») existe, 
dominam a su|icrstíçãoe as mais uTos^^oíras crenças. 

E' conirisfa-lor semelhante espectavulo í 

Em muitas p(«vi)aç5e< não se enront'a uma igreja e a 
maior parte das que lôrn iirrcjas, não lAin parochos f 

As frcíiuezias p"r exempln, (!<• Villarinluí do Mí)nte, Veiros, 
Pombal, Almeirim, Ariay(»l(íS, nãn tAm paroclios. As duas 
ultimas, seíiundoafllrma o Sr. Ferreira l^rnn.i, eslavanuMU 
princípios de 187á encommendailas an vijíario da Prainha, 
que fallcceu no íim desse ann<», estando va^^a a fr(*ííUi*zia 
aití hoje ; mas ainda quando o parodio esiivesso vivo, c-ra- 
Ihe impossível funccionar mais de uma vez em cada anno 
nessas fre«íuezias, princifíalmenl»' em Anayobjs, onde \m\ 
podia cheirar senã!)em 15 ou :íO dias. ^'astandona volta pelo 
menos um mez e isso durante o verão, lerniMi cm que raras 
são as pessoas, que iiernunnecem na povonçãn. 

As fn^^aezia.s do Xm^u, as do Tapajoz, pela maior parte 
não têm parochos;na província do Amazonas poucas $ião 
as que os possuem, de modo que a fiopulação abi vive s*'m 
o conforto do pasto espiritual, sem os benelb'ios da palavra 

evangélica. 

E assim vai-se perdendo o <»spirito reliçríoso; o culto 
acha-se abamlonridíj, os aliares soliiari( s i» a popul.-ição d»«ssps 
luíraies voltando insensivelmiMitr ao estado de rudeza, de, 
i;<norancia e barbaria, de owU' la saliíndo 

A falta de parochos nas fregue/ias do interior, disse um 
dos homens mais conliecedorcs das cousas do Amazonas, 
tem sobremodo concorrido para arrefecer-se o espirito reli* 
gioso do povo, sendo esti taml.em, segundo parere, 8 cansa 




— r56 — 

de qne elle se nfaste cada vez mais da inflaencía benéfica 
da civilização, habimandn-se pouco a pouco ao isolamento 
ecahindo a final no indifferenlismo, nSo só para a reilgiio, 
senSo também para os interesses vitaes do Esiado. 

K' de summa necessidade que a autoridade ecciesiastica 
tome medidas urtirontes e eneriricas para acabar ou pelo 
menos para minorar esse tão lamentável estado de cousas. 
A reli^Mão para os povos é tio necessária como o sol, como 
o ar, como a vida ; sem ella ahí vôm os máos instinctos, ahi 
vêm as paixões ferozes, ahi vôm a barbaria. 

— Foi-me sobremodo doloroso, dizi^-meum homem res- 
peitável de uma des<«as pobres povoações oo Amazonas, ver 
morrer minha mulher, que pedia com as lagrimas nos olhos 
os sacramentos da igreja e a presença de um padre para 
ajudal-a nesse transito supremo t E não me foi possível sa- 
tisfazer* lhe esse ultimo desejo. O nosso vi;jfario havia-se re- 
tirado, por ler sido suspenso. 

Parece que tudo vai morrendo no Amazonas. Povoações 
que contavam ha 50 ou 60 annns i.OOO, 3.000 e mais almas, 
eslão hoje reduzidas a altí:uinas dezenas de pessoas e outras 
acham-se completamente desertas. Ao vêl-as assim abando- 
nadas s solitárias, mais parecendo habitações de morins que 
de vivos,dir-se-hia queoír^nio da destruirão passou por ahi, 
deixando a desolação, o silencio e a morto. 

Eis o que a res()eito me escrevia um dns homens mais il- 
lustradose pensadores do Amazonas. Transcrevo aqui in- 
teprralmente as pa(?ínas qiifí me dirigio e nas quaes com o 
mais alioeriterin »nprecia as causas da deradi^ncia destas pa- 
ragens Ião ricas, ião ferieis e dignas sem duvida de melhor 
sorte: 

c — Qr.ovn navopa o Amazonas nan póle «loixar do fioar 
cncantadi) ao vdr a na!ur«za maravilhosa, qii»» (M-ircuíiiiia. 

€ Margens, quií f»ar('C(Mn inlerminuveis, roluíftas de uma 
verdura eterna ; |)laniiras, de (|nes(í nãi» «Dnhece o fim, po- 
voadas p-»r densas n-frrsi.is, ciija< fianças parereni tosailas 
pela mão do homem ; de quando ern quando uma montanha 
queseelova, ufn ouleiro que se desiara, uma barranca que 
se aproxima, e lia qual já ridaram grandes cedros, que alli 
nasceram; mais além um tributário irígante, que deixou após 
si lindas praias e o Sí-lvagem degradado e indiff'erenie; um 
lago, em cujas maríjens se descortinam milhares de aves de 
cores variegadas, desde a colhereira côr de rosa até a nivea 
garça; aqui uma extensa praia, onde a tiaivota e a corta- 
a^tia, contadas por milheiros, soltando ao mebmo tempo o 
griti» esiridenie, levanlam um alarido infernal e investem 
contra aquelle que procura roubar-Ihes os ovos; alli o es- 
trondo monótono da corcente cahíndo sobre as pedras ; um 
clima saudável, nm céo formoso, os bafejos de brisas ame- 
nas; ludo emfim quanto pôde inspirar o poeta ou despertar 
a meditação do saíno t 

« Porém em face de tantas grandezas, cujo esboço aqui fi- 
zemos, eque o Greador exparírio com mão pródiga, que pa- 
liei rrpres*mla o homem, o rei da creação, aquelle para quem 



— f;7 — 

foram feitas todas essas cousas ? Amcsquinha«toe pequenino 
arrasta uma existência precária e vive a vida miserável do 
pobre, que pisa sobre montes de riquezas ! 

■ Esperando peiu ferro do cultivador, ahí estão essas terras 
ubérrimas e todo esse novo eJen até hoje ve'dado ao tral)a1ho 
pelo denumio do desanimo, essas margens virentes onde, 
por amargo sarcasmo, vô-se de f|uando em vez uma mise- 
rável habitação de índios, cuja forma nunca muda, como se 
clles, em voz de obedecerem â lei do proí?resso, tivessem so- 
mente o instincto das aves na invariável fabricação dos seus 
ninhos, c aquiealli a pfuiucna cultura, que mal cbega para 
o consumo do lavrador f 

t OhomtMn civilizado Sfímpre produz na razão de cada in- 
dividuo^ além do necessário á própria existência. Nada pois 
pôde servir tanto de padrão para medir o estado deatrazo 
dos filhos do Amazonas, como a falta dos gozos mais indis* 
pensáveis á vida a que está coudemnada a quasi totalidade 
dessa mingoada população. 

< Espalhada e privada pelas distancias da conimunhão diá- 
ria das relações de vizinhança, a população do Valle Amazo- 
nico, vedeta estacionaria. 

c E não ha mal tamanho para qualquer paíz, como não ter 
augnieatocm sua população e conservar parte da que possue 
meio barbarizada pelo isolamento. 

< Qual a causa por que não cresce a população do Amazo- 
nas na razão dos nascimentos queahise dão ? 

c O auí^mento da população está na razão directa dos meios 
rertos de subsistência. A generalidade dos habitantes do 
Amazonas não tem amor ao solo, não o cultiva, nem apro- 
veita as vantagens que com liberalidade oíTerece a terra. 
Em vez de regar os sulcos com o suor do rosto, procura no 
fundo dos rios e dos lagos o peixe, (pie ahi abunda, ou então 
no centro das matas os productos espontâneos da natureza. 

c Este género de vida tem lançado a população no estado 
nomad.), isto é, tem-na feito retrogradar aos tempos escuros 
do começo das sociedades humanas. 

c As crianças, mal alimentadas, mal vestidas, são decima- 
das até os sete annos pelo abandono nas enfermidades ; e dahi 
em diante são devoradas n<»s seringaes pelas febres intermii- 
tentes, pelas opilaçõcs e todos »»s outros males que produ- 
zem os terrenos pantanosos e cobertos de matas, cuja natu- 
reza toxica c desconhecida. 

« Uma população sem estabilidade e amor ao solo, não 
contando com meios certos de subsistência^ e além disto 
decimada por enfermidades, não pôde progredir e chegar a 
um estado de prosperidade e de augmento. 

c Aos estadistas a quem o destino in.^nmbio da direcção 
dos negócios do paíz e que tôin o dever de promover o bem 
moral e material de todos osbrazíleiros, cabe a obrigação de 
applícar os meios mais convenientes, a fím de removeras 
causas, que entorpecem o progresso dessa terra, tão rica- 
mente dotada pela Providencia, e destruir o terrível mal que 
fiagellaessa infeliz população. > 
8 



— 04 — 

uso das armas de foj^o, as procaram obter com todo o em- 
penho. Os Urapayas, ao contrario, não obstante já as ce- 
nhecerem em poder dos Tucunaponas, conservam ainda tal 
terror, que se não aproximam do homem armado. 

I>os avós aos netos vai passando a tradição do encontro 
que tiveram em remotas eras com homens,que lhes atiraram, 
causando entre elles (çrande mortandade, e d'abi vôm ainda 
o horror, que conservam ás armas de fogfo. 

Habitam as ultimas ilhas, de que ha nrUicia, no Xingu. 
Cultivam a mandioca, o alfrodão e o ururú. 

São elegantes, de bellas formas o bonita côr^destros o la- 
boriosos. 

A tribu dos Curiuaias habita o centro das matas c a não 
pequena distancia das margens do rio Xinpú. 

São bravos os individues desta tribu, destemidos e ini- 
migos de todas as outras, á excepção da tribu dos Turuna- 
peuas, que cultivam as suas relações com muita reserva. 

Tôm cabanas em que moram permanentemente, plantam 
mandioca, algodão e fazem redes. 

Evitam cuidadosamente appioximar-se do rio e quando 
uma ou outra vez o fazem, mostram-se como que aterrados 
e confusos. 

Os Peopaias habitam o lado occideutal do rio Xingu, em 
cujas margens de vez em quando apparecem. 

^ão de horrendo aspecto, diz o Sr. conselheiro Brusque, 
baixos, feições irregulares e tez da cor do cobre. 

Não entrctôm relações com alíiruma das tribos paciQcase 
com ellas se não encontram a não ser para o combate. São 
antropophagos, segundo referem os outros indígenas da- 
quellas paraí^cns. 

A tribu Tauá'tapuêrá habita as terras centraes do lado 
Occidental do no Xin^^ú. Deriva-se o seu nome da còr dos 
individues, que a compõem, semelhante ao tauá^ amarello 
escuro. 

A acreditar-se no que referem os outros indígenas, parece 
que também são antropophagos. 

A tribu denominada Tapuia-erelê habita a parlo oriental 
do rio Xingu. Os indíviduos que a compõem são altos, mus- 
culosos e de còr trigueira, o trazem o rosto pintado de preto 
até meio. 

Também parece que são antropophagos. 

Em vez de lôdfs ou de pelles de animaes, que servem de 
leito á maior parte das tribus indígenas conhecidai^, repou- 
sam estes dentro de uma espécie de balaio comprido. 

O armamento de que usam é em geral o mesmo de que st 
servem as outras tribus selvagens, havendo apenas a diífe- 
rença de ser mais grosseiro, p*>sado e forte. 

Os indivíduos da tribu Carajá^mirim, diz o Sr. conselheiro 
Brusqae, symboJísam perfeitamente o homem no derradeiro 
gráo da degenerai^o da eipecie humana. 

Habitamos mesmos terrenos em que 84 acham os tapuias* 
eriti; oae Bio minÊÊÊÊÊèMfi» com qualquer das outras 
tribos. 







r- ()0 — 

^i} kU lKii\a oslalura, exin^niainealo grossos, grande ca- 
licça e tôm a lesla achaiada, como 86 o craneo fosse^ como 
Aoiitumam algumas outras hordas, comprimido nos primeiros 
tempos de oxístcncía^ para tomar esta forma irrej^ular. 

Alimentam-se somente de fructos silvestres, da caça e de 
certo barro, do que fazem grande provisão. Nao fazem plan- 
tações, não tôm a mais rude industria o o seu deleixo chega 
ao ponto de não terem o menor commodo para o sen re- 
pouso. 

Dormem sobre folhas que colhem o amontoam a esmo, no 
lugar que escolhem para pernoitarem. 

Os Carajás-pucús são de todos os Índios do Xingu os mais 
temidos, iiabitam do lado oriental do mesmo riu. São de 
estatura muilo alta^ delgados e de côr quasi negra como a 
do carafuz. Tôm a cabeça e o nariz extraordinariamente 
chatos. 

Furam as orelhas o nellas trazem atravessadas, como um 
ornamento, grandes pennas. 

Não usam do arco nem (!as flechas; consiste o seu arma- 
mento em uma pesada maça, que tem cinco palmos e meio 
de comprimento. São tão destros no manejo desta horrível 
arma, diz o Sr. conselheiro Brusque, que se defendem ma- 
ravilhosamente, por um jogo especial, dos tiros successivos 
úe muitas flechas. 

Ardilosos, continua o mesmo Sr. conselheiro, conservam- 
se em defesa e atacam, quando percebem que o inimigo tem 
já gasto a maior parte de suas flechas. São temidos por todas 
as hordas que habitam no valle da(]uclle magestoso rio. 

O grosso da tribu Gnrajú-piirú está aldeado nas margens 
do Araguaia, e dahi é que de tempos a tempos destacam par- 
tidas, que vào habitar as terras oríentaes do rio Xingii e 
fazer guerra de morte ás outras tribus. 

O Carajá, diz a commissão exploradora do rio Xingu, 
arma emboscadas a seu inimigo, e se o sorprende, perse- 
gue-o correndo, e raras vezes deixa de alcançal-o. Fere com 
a pesada maça o inimigo, que mal se defende e uma vez 
morto, quebra*lhe o cadáver, fracturando os ossos; depois 
estende-o por terra, colloca sobre elle a arma com que o 
matara e assim o deixa. Quem encontra nas matas do 
Xingu um esqueleto humano com uma maça atravessada 
por cima^ fica sabendo que é um guerreiro morto por um 
Carajá. 

Os Araras do Xingu são bastante numerosos. 

Segundo as tradições conhecidas appareceram allí pela pri- 
meira vez em 1851 ou 185:2. Desde então, diz o Sr. conse- 
lheiro Brusque, tôm sido encontrados naquclles lugares, 
dando-se a singular circumstancia de serem inimigos de 
todas as outras hordas, que allí existem, á excepção dos 
Tucunapeuas, com os quaes cultivam estreitas relações. 

Os indivíduos que constituem a tribu dos Araras, são de 
aspecto nobre e altivo, de côr quasi branca e tôm cabellos 
quasi castanhos. As mulheres fazem doca beUo longas tran- 
ças, que alcançam a curva dos joelhos, e os homens o trazem 
9 



- 66 — 

curtadoe assaz carto, asando muitos delles espessos e finos 
bigodes. Andam combíetamente nús, tendo em si, iM)r único 
adorno, am« grinaloa feita de pennas de variadas cores e 
braceletes de dentea deanimaes. (i) 

Referem os Jurunoê que os Araras sSo antropopbagos, mas 
08 Tuamapeuas o negòm. 

Os Xipêooê e 08 Tapaiunas poucas vezes se mostram ás ou- 
tras tribvs, que ignoram ao certo o ponto em que permane- 
cem, crendo antes que sejam nómadas. 

Entretanto visitam de quando em quando as margens do 
Xingu. 

O importante rio Xingu, diz o Sr. conselheiro Brusque 
no notável relatório que em 1863 apresentou á assem biéa 



(1) Em 1801 e 1802 alarffaram os Araras as suas excursOes, des- 
ceuao até á grande praia denominada Crauarv , que demora 
abaixo da foz do igarapé Paraná-roucú, que desagua no rio 
Xingu abaixo das cachoeiras e em distancia de três léguas de 
uma pequena povoação a que dão o nome de Tinga-apusia. e nas 
imroediacOcs das tendas de alguns indivíduos empregados na 
colheita da gomma elástica. 

DVntre estes, os mais intrépidos, procuraram entender-se cora 
alguns daquelles indios, dando-lhes farinha, sal, louça c ferra- 
mentas, e delles receberam algumas oífertas. Cm 1851 demora - 
ram-se no mencionado lugar apenas 10 dias ; em 1862, porém, alli 
estiveram por mais de 20 dias. 

Nesta occasiSo foram visitados por algumas pessoas ouc perto 
se achavam em|)regadas no fabrico da borracha, que Ibes fize- 
ram diversos brindes 

... Até então neuhu ma demonstração tinham dado de feroci- 
dade de seus máos instinctos, contra quem quer que fosse, que 
os ia visiur. >'o dia 19 de Dezembro de 1862 por alli passaram 
duas pequenas embarcaçòesi e atripolação curiosa por vèl-os 
atracou á terra. 

De Improviso fbramacommettidos por ellcs e uma uuvem de 
flechas os envolveu ! 

Deste assalto resultou imroediatamente a morte de dons ho- 
UMCB, tripolantes destas embarcaçô4», que pertenciam á tribn 
dos Junmas^ e á cuja presença aitríb«e-se o motivo de ião ines- 
perada aggrtssio, visto como são os Jnninas sens inimigos ca- 
piiaes% 

Além destas victimas ficaram outros gravemente feridos, con- 
seguindo afinal escapar, resguardando-se com os cascos das 
embarcações, que a nado foram levando para o meio do rio. onde 
não chegavam os amiudados tiros de flechas. 

RereiYaHne pessoas dignas de fé, que. sendo reonidas as fle- 
chas» qve se eDrontnram dentro das duas emlMircaçdes, su- 
binuB a 491 arremessadas todas em un espaço de tenapo. que 
não exceiou án mela kora» o que f)tf crer que a phalange que 
alli se acàav^ ara wirito superior ao numero conhecido pelos vi- 
sitames^ . ^. 

Depils iene fteto alBia alli se conservaram por mmtos du^ : 

que fesse conhecida a din^cção 



— 67 — 

ÍirovíQcíal do Pará e do qual tanto me tenho aproveitado^ 
oí sempre habitado do muitos selvagens desde remotas eras, 
e do seio deites sahiram muitos índios com que se funda- 
ram as aldêasy que foram o berço de povoações que ainda 
existem. 

Continua entretanto a apresentar o quadro de uma po- 
pulação selvicola, que não exageramos, se a orçarmos em 
doze mil almas. 

A existência destas hordas no Xingu, continua o Sr. con- 
selheiro Brusque, com tio notáveis differenças na côr da 
pelie e dos cabellos, oíTerece mais um conlraste digno de 
sérhi meditação. 

Gabe aqui talvez attentar as diíliculda.les que este pbe- 
nomeno apresenta na appJicação da theoria das cores, do 
calórico e de outras leis pbysi(^as. Parece que não podemos 
contentarmo-noscom as opiniões semelhantes á do Sr. Aimé 
Martin, quando nos diz: 

< Partout le blanc esl opposé aux frimas: le brun^ le rauge 
c et le noir à la chaleur, Cette loi (jéJi^rale se perpetue dans 
c la couleur de la roce humaine, mire sous les rayon$ du $o» 
c leil, et blancke dam les régions temperées. > 

Lá no Xingu, em um mesmo valle« debaixo do mesmo sol, 
sujeitas ao mesmo clima, alimentando-se dos mesmos pro- 
ductos naturaes, divergindo umas das outras em certos há- 
bitos e costumes, tribus existem com profundas differenças 
em sua apparencia physionomica. 

Os Tucunapeuas com os seus ca bel los castanhos, olhos azu- 
lados, côr quasi branca, são conhecidos como filhos e ha-* 
bitantcs de uma mesma região onde nasceram e habitam os 
Carajas-pvcús, de côr negra, de ca bel los e olhos pretos ; onde 
vivem os Juninas com sua côr amarcllo-clara e cabellos 
negros, t^ndo por vizinhos os Tapuia-erelê de côr de cobre, 
quê não íicani muito dístautcs dos Urupai/as,q{xe aliás tôm 
clesanto prosençji c são de côr moreno-rubra. 

Essas mesmas diíTerenças, (|ue eucontro nos indíos do 
Xingu, couiínúa ainda o Sr. conselhoiro Brusque, lém sido 
observadas em ditreronies lufares, cm diversos climas por 
notáveis oscriptoros. E' assim que Winlerbotan e outros 
referem que na ilha do Hainan, na costa da China, entre os 
Malaios de Timor, na ilha de Nícobar^ na Asía, na de Tuker, 
uma das Carolinns, na Nova Hollanda, os aborígenes uns 
ião negros, outro- rôr de cobre. 



• • 



£' porém incontestável, que não obstante estas differen- 
ças que se enconiram nos indio.-^ desta província, e que se 
não podem explicar pela diversidade dos climas, a analogia 
entre a maior parte das raças e a mongolíca é evidente em 
geral na corda pelle e dos cnbcllos, na pouco ou nenhuma 
barba, na direcção dos olhos e na grande saliência que 
apresenta a ossa jugal. 

Como, porém, esta grande differença que se encontra na 
apparencia dos índios, i;om|iarados especialmente com os 
brancos, tem sido attribuida |K>r alguns naturalistas « uma 



— #« — 

liSer^Dçi (ftteolofiej. <«na para J^sr-j^r -la^ ; a•i•f^^•r!!7'''« 
•^^tQfJir iodes CS typoç dire r»><, qcr azndi fiirerrini »« 
aMà* das proTiiir!ats do Pari e Aniaz*r'B»5, ood* abanlam 
1ÍM ^xiea<^a< e ra nadas lríbD«. \í) 

Esiadando ainda •> indio peio hdo mirai, y^im f^ ex- 
prime o Sr. C'>B»?lbeiro Brosine : 

« O cara^i€'r do iuáio é o mefono em l>'ia5 as tritaç. ^.«ra 
ks raras eiref^ôrs qvL* a ciTilíisçáo irm já eslalh^'*rM'i. 

« Inafires^iv^H a todo sraiim«ato eeQer«?s^-, iodiff^rent^ i 
todos c-s moiíTos de fíloria. de bonn ^ de reiC>>Dhe«:imeDio. 

« Viof «iíto, pcrqoe a idêa de («írdâo não ta^ie t:m $aa 
laleili^enria de índio. 

« Para cile o saof ae pede «anzoe, naér »eja em aruerrid-:* 
-ombate, qaêr por efleilo da mais execranda iraiçã-.-. 

« Famiaio e iasaeiarel «inando encontra al^anJ'»neii de 
meio> 'ie lenir a lei da fome ; s>>bri.> e ««firredr^r em exlre- 
ni-\ 'laanio Ifce fenecem •:•? reear*-:-*. 

clndc*lenie, inimigo do trabalho, sem inqaiotsçi:* pel-j fn- 
'.nro. inea(<az de preTídencia e reflexão. 

« Eatrecani^ ê :-m çerti doril 90 a-en"» i-'^ boní-^m eirili- 
z>do, a cajo irat> se sa)fit9, até q!3e a imp3>>il4ÍJade dt* 
rea caraíter s^ esfole, sempre i^-rqi^ ? lratilh.*> \h: re- 
rtma. > 

O Sr. Gonça!Te!?DÍ2S,a{:reirianJo o índ»> f«!o mrsmo l>do 

!iMiral, de«rere-o eom as eòres qne Ibe emprestara a soa 

•; alenta imaclaaçã-:* de p:«eu. Em rerdaje na* aebím<>> de 

''i->do alfirnn parecido o retrato qae estora c<>m o Jo iiidio. 

; je temos estndad** no Amazcnas. 

Eb como se exprime aqaelle notável p^^^etj : 

« Generosos r bpnefi-^ntfi^ entre si, a p^jntv de fizer ín- 
refa âqaelles qne »* afanam de se^rair a r-rlicião da cj ri- 
da de, (or inssincto de coração, qaê ni> |.or derer, o sei- 
raz*r*'i :íferece quanto tem ao «ea companbeir > nroessíudo ; 
nio esL^-:la, reparte, e ba nistfj tanta «ic feridade, «lae.c-r-m - 
iirazenJíJ^-fr' ^Ile* de obsequiar a 1/>1>. ::mam i-:r inju- 
ria a r^-iriçã-* da -^erta. Vem d*aqai harer-se-lte* neçado 
:oJa a i-^èâ de propr^ade, e também p>rqae o far!^», c>ai-> 
oa:r>« crimes e <^>mo maiias enfermidades. era-lís-?s desiro- 
Qbe«ido aiê d> nose, intes da chenda dos earof^ns. 

«lafaifpreís no pr^c^e^aimento'^ e execaci^* d> projecl.' 
;4ra c* qdai o« a:trauis<e oa a vaidade c>:>mpr:>mettida c«a 
-:* prpriíis i;abii>s, ?er:i:am â i-sVi de snimíes •:'3 de ini- 
mi?cs dias e n>iles eom aJmirar-c ps-rirs.-i^ e a.s :; :.:ai> 
admirável astacia. A f^me, a ««ie. •> cjssa>\ nr;;bJ9a 
impressão pareciam piv-dazir $>?br-' eiirS.e í«ci39-r:os;<>. - mo 
eram eias«b da fama, rbeioç de or^albo, ne*n a :n<i>ne -s ia- 
timidava.Dem os wrmemu» os aliatiaa. Qffer^iam -^ pfii*> 
íesfobeno á »iu berrada, e qisaado prisi-:»neip.>>. se«!íe- 
.baaics ao aeiicaao deitado na rrelha e coasami-^*:- a í-y^r 







- (W - 

lento, com ínallornvel con«lancia luvavam ao cumulo o 
asifoiíibro de seus oppressores. • 

«Apreciando-o ainda sobre uma outra face, assim se ex- 
prime, e quiçá com mais exactidão: 

« Seiído muito vigorosa a sua compleição, resistem os 
índios tanto aos mais duros trabalhos, que Ulloa os chama in- 
sensitfis, pela coragem com que supp'»rtam os solfri- 
mentos;e em outra parte os denomina animaes, porquo 
são robustos o não os incommodam muito as fadi^^as e as 
intempéries. SolTrem por muito tempo, sem o demonstra- 
rem, a sôde e a fome e raras vezes adoecem ; bem que afron- 
tem a humanidade, o calor e o frio, sem tomarem precau- 
ções contra as moléstias. A prova mais concludente da sua 
óptima constituição c o costume que tôm as mulheres in- 
dígenas, de paridas lavarem-se lofjoem agua corrente, con- 
tinuando no mesmo dia o seu trabalho, como se nada lhes 
houvesse acontecido. 

« Os velhos ignoram os males da decrepitude, possuem o 
Kozo dos sentidos, como na mocidade, conservam os dentes 
intactos o os cahellos que não cahem nem alvejam nunca, 
tôm a vista, o ouvido, o olfato flnis^imos, os movimentos 
desembaraçados e o rosto pouco enrugado. 

« Quanto á longevidade, d'Orbigny conhecendo a diffl- 
culdado de a determinar, dá-lhes o máximo de lOOannos, 
observando porém que poucos passam além de 80.» 

Dizem Lcry e outros, que chegam aos 120 e mais annos.B 

E em outra parte : 

• Educados nas florestas, com um tacto de observação 
extrcmannnte delicado, adquiriam invejável perfeição de 
sentidos. No borborinho confuso das florestas, distinguem 
sonsquasi imperceptíveis, que lhes revelam a passagem de 
um animal, quebrando os ramos ou a marcha cautelosa do 
guerreiro, que os evita. Pelas pegadas que viam impressas 
no chão distinguiam a tríbu que alli passara e pelo olfato 
a direcção que levava. Olhos de lynce, descobriam nas som- 
bras das florestas o inimigo ou a presa e com o arco despe- 
diam por entre as folhas a morte rápida e silenciosamente. > 

Os productos do rio Xingu, cujas margens são talvez as 
mais férteis e ricas da provincia do Pará, sao numerosos, 
distinguindo-se como principaes a borracha, o cacáo, a 
castanha, a estopa, o cravo e o breu. 

A parle inferior do rio é habitada por gcnie civilizad.i, 
encontrando-se nella as povoações de Souz(d, Pombal, Ma- 
ruá (que substituio a antiga povoação do Veiros), P rto do 
Moz, Villarinho do Monte, Tapará, Carrazedo e Boa-Vista. 

Todos estes povoados, que vão em crescenttí decadência, 
devem sua origem a difTcrentes tribus, ontr'ora mis- 
sionadas pelos jesuítas c pelos padres capuchos da IMcdade. 

Porto de Moz, a antiga aldêa de Maturú. fundada pelo 
padre João Maria do Gorçoni c elevada á categoria de villa 
em Í7S8, ca povoHção principal dorioXingii o a única que 
não tem retrogradado. CiOllorada no fundo de uma extensa 
•^nseada. mi tcrri-O" pliiu!» »■ ''nxul«», nolav»'! ainda pela 



— 70 — 



sua salubridade, a felÍE situação desta villa, quasi defronte 
dos furos do Urucury^caia e do Aquiqui^ a tem constituído 
ponto obrigado de escala Uos vapores, que navegam o Ama- 
zonas. 

Consta a villa de duas ruas com 126 casas, das quaes 
apenas 27 são cobertas de telba ; tem cinco casas de negocio. 
A igreja é nova^ mas já ameaça ruina. 

A população da villa é, durante o inverno, de 600 almas 
pouco mais ou menos, mas durante o verão fica quasi de- 
serta em consequência da emigração para osseringaes. Eu 
1873, diz o Sr. Ferreira Penna, que apenas encontrou 27 
pessoas, que habitavam quatro casas. 

Carrazedo, a antiga aldèa do Arapijó, onáQ os padres ca- 
puchos tiveram outr'ora um hospicio, cujas ruínas, segundo 
attesta Baena, se chegaram a ver até o anno de 1786, acha-se 
situado sobre um alto lombo de terra, á margem direita do 
Xingu. 

Vai em decadência. 

Tapará é uma pequena povoação, composta de uma rua 
com 44 casas pequenas, cobertas de palha. 

A população é de 300 almas, poaco mais ou menos. 

Fica situada ao pé de uma praia e sobre terreno secco, 
que se vai gradualmente elevando até pequena altura. 

Tem um bom cemitério, maa não possue uma igreja ou 
capella. 

Apovoadèlo de Boa-Yista está situada á margem direita do 
Xingu, defronte do furo Urucury-caia.em terreno elevado. 

Já chegou a ter uma população do '.iOÒ almas ; actualmente 
porém está muito decadente. 

A povoação de Veiros ou Maruá, na íoz do riacho Maruá, 
era a antiga aldèa de Itacuruçá, fundada em 163/ pelo padre 
Luiz de Figueira. 

Eslá em completa decadência. Tem umas 20 casas de jtu- 
Iha, das quaes apenas duas em bom estado. « A única cn^u- 
tura humana que allí encontrámos, diz o Sr. Ferreira Penna 
que a visitou em 1873, foi uma mulher de raça tapuia, que 
mora em um sitio, d'onde tinha vindo para lavar sua roupa 
nas aguns crystallinas do rio. 

< A matriz, que era coberta de palha Já desabou quasi toda; 
ao pé doallar-mór esboroado estavam em montes pelo chão 
os destroços das pequenas coluninas do altar, t-oni seus or- 
natos em espiral, suas volutasinhas e capiteis, tudo em pe- 
daços. São ainda os restos da velha capella construída po"- 




qup delias faziam questão impertinente. » 

Pénnbal, a antiga aldôa de Pirauiri, administrada pelos 
jesuít&s, acha-se bem situada na foz do Tocano-cuara, 

Como as demais povoações, também vai em decadência. Já 
possuio 600 almas; boje porém não tem mais de 300. 

Em Pombal, diz o Sr. Ferreira Penna, não ha industria, 
nem comnierciode importância, nem escola, nem missa. 



- 71 — 

A ]Hivoaçao Jtí Souzel iiuo ó mais a antiga ald&i, missio- 
nada pelos jesQltas, com a denominação do Aricary. Esta 
aciiaya*se situada na margem esquerda do Xingu, de onde 
foi transferida para o lugar que hoje occupa, na margem 
opposta, entre os riachos Maxuacá e Coroatá, abaixo da 
ponta áoJutahy, A antiga Aricary rchava-so em uma 
abertura ou valle estreito, entre altas barreiras, lugar 
em que hoje ha uma palhoça, diz o Sr. Ferreira Penna 
e é conhecido pelo nome de Cumbé. ' 

Souzel. diz ainda o Sr. Ferreira Penna, á, relativamente, 
a povoaçSo mais florescente da comarca de Gurupá, posto quê 
muito menos extensa do que a villa deste nomo e a do i^orto 
de Moz. (^nsta de duas ruas, algumas pequenas travessas o 
uma praça, compostas de 18 casas e 10 palhoças com 306 
pessoas, que formam 22 famílias. 

Em toda a freguezia ha pouco mais de 200 fogos, habitados 
por 1.025 pessoas, sendo 560 do sexo feminino! 

Durante o verão (de Setembro a Janeiro) a população do 
districto multiplica -se, subindo a 4 e 5.000 pessoas, por causa 
da população adventícia, que se accumula nos seringaosdas 
ilhas da fres:uezia. 

A povoação tem um ccmílorio e uma igreja matriz, que 6 
moderna e se acha cm estado decente, faltando-lhe porem 
alfaias e paramentos sufficientes. Debaixo do altar, continua 
o Sr. Ferreira Penna, vi uma bclla imagem do Senhor morto, 
de tamanho natural ; ó, em escuiptura deste género, a obra 
mais perfeita que tenho visto no Pará. 

Depois de ter recebido o caudaloso rio Xingu, inclina-seo 
Amazonas para o NE., perto da villa de Gurupá. 

Tendo até então um leito de 6 milhas pouco mais ou 
menos, principia dahi em diante a alargar até 18 ou 20 
milhas em Macapá, que na margem esquerda atalaia o 
oceano, na phrase do (capitão tenente Amazonas. 

A antiga villa di; nurupd, creada em 1630 o situada na 
margem austral do Amazonas, chama va-sc [)rinntivaniente 
aldôa de Mariocay, « A villa de Santo António de Gurupá, 
diz Baena, acha-se assentada na margem austral do Ama- 
zonas, com o rosto quasi para ooccidente, sobre um terreno 
plano e elevado três braças acima da jirôamar, o qual na 
quadra das chuvas toma a forma de península, porque o iga- 
rapé Guajará, vulgarmente denominado da Fortaleza, por 
definir junto a elle, e os igarapés lUumanj e Jarnpif, da parte 
de cima da villa, inundam a parte baixa da sua espalda, cha« 
mada Piryâo Jacupy, deixando uma lingueta de terra de três 
braças de largura c pouco mais de comprimento, a qual não 
fica mergulhada e da qual começa a alçar-se o solo para o 
interior. > 

A divisão jurissdiccional, que em 1842 tocava a esta villa 
e que não me consta tenha sido alterada, começava, segando 
Baena, pela margem meridional do Amazonas do furo Ta- 
jipurúe acabava do rio Mayary, entre o qual e a villa estão 
as frrguezías de VUlarinho do Monte e Carrazedo, e pela 
margem septentrional começava do rio (^ajarye acabava no 



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'J o rkU^l tlt» I ,'/ti»>ltÚ Ml f.iji',,í'i ' :.H , ... ■,;,..,. .:.: M:.- 

SO riiil»i;i«» auWM *f n 'If4«' ííilio' nHiifi útm M^cucoh. # orimiuíiM ariflo 
corri o rio «fim Mi#*¥#i« |i"lor.«ir«||i.Jiif0 Ofi cari;»! do AUiriá. íni«- 
Vf-ro Mir^lr f(tfii«i no rffi-4rrio f#^*«>4Íil|»iirllf;^o it^-U; rio. 




■IT' 



— yj) — 

pouco ao norlo <lo lugar cm quo existira a fmt:ilpza íIu 
8«'inio António. (1) 

Está asMriitada em terreno dosltiual e elevado de i5 n 20 
\iés subre a superlicie dasaj^njns na haixa-mar. O d^spinhar- 
^íador OQviíor Joào da Cruz Diniz Pinheiro foi o encarregado 
do travado de snas ruas^^ da dt^njarcacão de sua área. 

A 4 de Fevereiro d»; 1758 foi elevada á categroria de villa. 
« Nesse dia o de<emI»arj:ador ouvidor íjeral o curreíredt.r 
pascoal de Ahranrhes MadiMra Fernandes annunciou lírerio 
om villa o hvjfir de S. Ji»sé de Maea|á, e alçou logo o pelou- 



[D Km lOSt» o cnpilão-preneral António de All)iiqnor<(ne Cocnio 
deCarvalIu» resoIvíMi fortlliear amararem septentrional do Ama- 
zonas para ptH" termo ás incur^^ões dosíraneezes. Para estr fim 
alli se apresentou rom ojosuita Alvisio Corrado, Italiano, dis- 
tinclo mathemalieo; e depois de examinar as posivões dos an- 
tigos fortes Toncgn^ Camnú e Mnrirary, lomados aos inj^leze'^ e 
ímllandezcs , funda em Abril do lOSH, sobre as ruinas do se< 
gundo, a fortaleza de Santo António de Macapá, poueo acima da 
actual. 

Esta provideucia mais slí^nilicaiiva exasperou o írciverno de. 
Cayena, que contava com o nosso descuido naquella fronteira; 
e um dos ehelVs mais audaeif)«os, o Marquez de Ferolles, dirigia 
cm 1691 um oflicio ao un^smo eapil;\o-gem>ral, para quoevacuass*' 
os territórios da mar^^om septentrional do Amazonas, porque 
era esse o limite da Ouvana Fninceza. 

Repellida como njereceu ser tão impertinente rerlamação, em 
31 de Maio de UVXl foi a forlale/a de Santo António de Macapá 
sorprendiíla e tomada pelo mrsiiio niarquez de Ferolles, fun- 
darido-s(; para este commettimento no alludido pretexto. 

O eommandanií> da fortaleza, Manoel Pestana de Vasconeellos, 
rt>iideu-se com toda a sua guarnição sem dar um tiro t 

Kste desastri; aceendiíu (»s brios úo capitão-general, e passados 
40 (lias Francisco de Sou/a Fundfio, auxiliado de JoãoMuniz de 
Mendonra, tomaram de assalto a fortaleza, depois de um re- 
nhido combate. 

Em 4 de Marro de i700 celebrou a Fran(;a com Portugal um 
tratado pruvisional ; pelo qual obrigava-se a primeira a ndo in- 
vadir o nosso território até final solução da questão, d«Mnolindo 
os portuguczes!as fortilicacOes que tinham na foz do Amazonas. 

A este f ratado seguio-se'o <le Utrecbt em 1713, que fixou deíini- 
tivamenieos nossos limites cnin a Guyana íranceza. Esse celebre 
tratado foi j)Osteriormente reforçado pelo de Vienna em 1815 e 
convenrão de Pariz de 1817, cujas disposições consignámos no 
artigo relativo ao mappa n.'' II. 

Aquíílles tratados não fizeram mais do que renovar a dou- 
ri na consagrada pelos ajustes dos reis de Hcspanba e de Portugal, 
em exe.Mirão da bulia do papa Alexandre VI. fixando no rioOya- 
pock 
no 
do 
de 

pelo eapil 

Mello Palheta, autori/ado pelo capitão general do estado do Ma- 
ranhão João da Maia da Gama. E outro fanto fez em 10 de Junho 
de 1B28 o canitão Diogo Pinto da Gaia, em obediein:ia ao governa- 
dor Alexandre de Souza Freire. 




— 7G — 

riuho, ostando preseute o capitão general Francisco Xavier 
de Mendonça Furiado. » (1) 

Nu dfa 6 do mesmo mez u anno o governador e capitão ge- 
niíHil Mendonça Furtado, em carta dirigida á camará mu> 
nicipal, declarou que o termo da víila «começava da parte 
do norte até ouje chegam os domínios de Sua Magestade 
Fidelíssima ; e pela parte do nascente até a liahia chamada 
do Vieira, eorrendo píir ella acima contra o sul até o furo, 
ijue tica deírDulfi do igarapé ndmeado do Curussá, cuja mar- 
gem oriental ficava pertencendo ao território da villa. > 

Em 1753 manduu o t;overnador eí«nsiruir alli quartéis 
para a tropa o ahi ir umas valias, nao só para servirem de 
abrigo ás canoas, que ficavam muito expostas na praia, como 
também de despojo ou escoadouro aos pântanos que licavam 
próximos. 

Actualment'^ ncham-se obstruídas essas valias pelas gran- 
des accurnulaçues de tijuco, troncos de arvores, ramagens, 
ele, cujas emanações pútridas tanto concorrem para a in- 
salubridade daquelle lugnr. 

Diz Baena, que tanto se enamorou o governador da loca- 
lidade de Macapá, que chegou a expressar em um d«is seus 
oíIieioK para a corte— que aqueila terra era um arremedo 
das villas de Cintra e Ctdlares, no termo de Lisboa. 

< O dístricto da villa de Macapá, diz o Sr. conselheiro J. 
M. de Oliveira Figueircdoem um miuucioso relatório apre- 
sentado em lcS54ao governo imperial, o disiricto da villa do 
Macapá ou mais propriamente o de sua municipalidade, oc- 
cupa um terreno íirme, intermediado de r^ampos, que pelo 
norte se (ístendem alço rio Araguary. ou antes até os limites 
com a Guyana frauceza e até o rio Matapy para o lado do 
sul. 

t Ao norte lhe correm os rios Araguary, Guarijuba, Ma- 
caruary, Araperú ou Pedreira, ele, e ao sul o Matapy, 
Anauarapucii ou Villa Nova, etc. 



'»■ 



f 



Depois do tratado de Ilirecht, cuja execução, quanto á demar- 
cação, não se levou a eíTeito. por interesse da França, qne nenhum 
desejo tinha de realizal-a ; pronuzeram os francezes em 1720 ao 
governador Bernardo Pereira de Berredo a abertura de commu- 
nicações e cominercio reriprocos, e venda de índios para os seus 
estabelecimentos de Cayena. 

Esta proposta, não podendo ser acolhida, excitou os francezes 
a renovarem suas incursC^es no nosso território , o que se houvera 
impedido com estabelecimentos nossos na margem direita do 
Oyapok, que o governo crcado em Macapá vigiaria melhor do que 
©"do Belém- 

O tratado de 13 de Fevereiro de 1761, annullandoo de 13 de 
Janeiro de 1760. o as suspeitas que já existiam de uma luta com 
a França e Hespanha, cm consequência do Pacta de Familia, ar- 
rancou de sua somnolencia a corte de Lisboa, até então muito 
atarefada em descobrir c exterminar jesuítas. 

Nesse momento lembrou-se o Marquez de Pombal de fortificar 
a foi do Amasonas. (nrvsoNiA, pelo senador Cândido Mendes de 

(1) fiaena. 




- 77 — 

■ Todo este terreno é fertilissimoe próprio para a lavoura, 
e seus campes execllentes para a criação do ^ado em ^^rande 
escala; tendo sobre os d(t Marajó a vantap:em de se nao alaira- 
rem ou ir ao fundo, na phrase alli usada, na estação chuvosa. 

« Produzo distriolo, no seu muito oxtenso torrliorio, ca- 
cáo« cravo, cumaru, oIih) de copaliyha, hn^u, c:;stanha doce, 
salsa, estopa, ai^^tdão, h:iuuiit|a, olr., e. diversas e superiores 
madeiras de ronstrucrão e de mMrceneria. 

« As ilhas adjacentes, purteucentes ao município de Ma* 
capa, lôm por linha dívisori.i a h:ihia do ViiMra. 

tKllassão, posto que várzeas, propri.is para a cultura de 
mandíoiM, arroz, f<>ij9[o, nl;;o(lào, iinlho v canna. 

« Tamhem encerram em si boas madeiras o sobretudo ahi 
abundam as arvon\s das (luaf^ssn extrahe a lucrativa j^omma 
elástica, arvores estas i\w^ tamhem ha (mu ^^raude cópia na 
terra íirme ou roniinenial de Maciípá. 

« E' riíjuissinioodisiricto em caça tanto volátil como ras- 
teira e os rios proJuzem muitf) i; s:ih'>rMso p<;ixo. Ha tam- 
liem tartarugas em abundância e se fabrica a manlnij^a 
delias. 

« Nosla^nsdo braíM do rio Ara.L^uary, rhamado Aporema; 
no Guruiuba i; emVilía Nova ou rio An.iuarapucii, ha 
muito |dr:irurú, p<>ixc esto (pie sal^i^ado stMioilha ao bacaiháo 
e serve de snstimio quotidiano i\ classií menos abastada e á 
escravatura, nào sedfísprezando os di; mais elevada posição 
em lhe dar as honras da mesa, por isso (pie não c desgos- 
toso 

« De al!:un>; documentos truncados (|u>> eniMtntní noar- 
chivo da Fortaleza or<:anizei o (piadro di>iiioi;strativoda ex- 
portação de Macapá de.<de o a uno de 1807 alternadamente 
alél816. 

t Hoje a exportação faz muito maior vulto. 

« Nào tive dadds (dliciaes para a reconhccfír exactamente, 
por issf (|U" alli >ó se manifestam os freueros (|ue se «(astam 
por consumo, eosib^mais vào para a cidade sem ^uia e são 
nas repartições íiscaes despachados, sem dfclaraçào da i»ro- 
cedeucia ; todavia por minuciosas :nda;;i:açij>.'S (|ue íiz, posso 
dizer, sem (pie me afa^tí* muito da v-rda(ie, que a exporta- 
ção íle Macapá em i85:{ andou por 400:000.s000, talvez para 
mais, sendo representada pelos s^'guinles artigi»s commer- 
ciaes: 

< — Seríuíra ou íromma elastíea 6.000 arrobas ; castanha 
4.00ÍJ alqueires; couros de ^^adi» 1.000; azeite de andiroha 
150 potps; bois em fié :2o0 ; rolos de paiino 200; cacáo iOO 
arrobas ; tab(»as de cedro 50 dúzias. 

« O laboido de cedro ó tirado aos Rrossos madeiros desta 
espécie, que descem pelo Amazonas e (pie em grande quan- 
tidade se vão perder no oceano, por nã<i haverem montadas 
serrarias em gramie pé; ifue até mui facilmente poderiam 
ne.r movidas por auua e servirem para um ramo de industria 
lucrativa e aiè para abastecerem o ar>eoal de marinha do 
Para, que uuirVra fez nãos e frairalas i 



— 78 — 

Passa ^eralmcnlfí a cidade de Maenpá por um lu^^ar insa- 
lubre e doentio, e hem que contra essu crençn protestiMu os 
habitantes, o que é certo, porque os fados o comprovam, ó 
que reinam ahi periodicamente febres interruíitentes e al- 
gumas ve/ns dif máo caracter. 

Exaj^eram os que dizem que o clima de Mactipâ é deletério, 
envenenado e iuhospito, um \^(\^úií\ro matadouro, v.iii fim; 
assim Como oxncforam os habitantes que eonsíderam-uo so- 
bremodo saudável e beni^rno, um sitio sadio e o mais sudíu 
de toda a província do i^ará. 

F)m uma representação) que em 1870 dirigiram á camará dos 
Srs. deputados os habilaiilfS da comarca de Macapá, pe- 
dindo a creaçào de uma pruvincia no território compre- 
bendido na mar;rem esquerda do Amazonas entre o rio Nlia- 
inundá e os limites septentrionaes do Imporio, tendo por 
capital acidado de Mai!ap«n, exprimiam-sc elles do seguinte 
modo: 

c Macapá foi e ha de s'*r sempre um sitio sadio, e ousamos 
aseiíunr que é o mais sailio de toda a província do Pará, 
t.uilo c isso v«'rdade, que tm Macapá a única moléstia até 
hoje conhecida são sczò»^s em certas quadras do anno, o em 
tempos idos nos foi importada a hi^xíga que fez e^tra<;os na 
população, única epidemia mortífera de (jue temos sciencia.t 

Contestando a existência dos pântanos que circumdam a 
cidade eque síioa causa primordial das febres que alli reinam 
cm certas quadras do auno h que sem elíes não teriam ex- 
plicação plausivel, cimtiiiuam os assiíínalarios da represen- 
tação : 

« Essas historias dw assacuseiros, de pântanos e de aguas 
envenenadas, são fal>as e somente exi^ttMn na imaginação 
daquelles que olham para Macafiá atravósde um prisma dí> 
versíí do que olle é em si iii smo. Os abaixo assignados com- 
pen^-trados do maior sentimento de verdade pas>arã<» a ex- 
jícnder o que sejam esses sonhados pa/Uauos^ assacusriros c 
afluns envenenadas ; e finalm.'nle m(»slrarãoa causa primor- 
dial d s sezões í]up em uma ou outra vez, no curso dos ân- 
uos, nos accommiíttem com os mesmos symptomas de frio, 
calor ou febre ••suor em sua declinação, como sóe acontecer 
em !0'io o Brazíl. 

c Não temos pantnuiis propriamente ditos. K' geralmente 
sabido que em Macapá existem dous igarapés: um corre 
ao sul da (.-'dade, próximo á Fortaleza peio norte delia; o 
outro corre ao norto da cidade, cimhecido com o nume de 
igarapé dn Companhia ou das Mulheres. 

tO primeiro igarapé, enirandu um iiouco para o interior 
em distancia de 400 braças, teriíiina por encontrar terra 
muito alta. de onde priíici; iam os fuagnificos campos de 
criação. 

c As duas margens deste igara pó são bordadas de um ter- 
reno que SBciiama várzea, todo composto de barro maçapú 
e lerá a extensão de 60 braças em sua Jargura até a beira da 
ttrranlta« onde está collocada a citlade. Nos lugares mais 
baiiosdesit bOQtta várzea uude o inverno fazia ront ral- 




- 79 - 

puma aguo, ai»riram-s(vsarfi:etns que (liaram psgoio íís ag:un>^ 
reprezadas ; no verão porém toda n varzonsécca e n maré, 
guando cheia, enlra |iclas saríT^tas, cdescorn as a^^uas ua 
vasHUte, tlcandú tudo limpo. Eis o que chamam pântanos, 

■ O si>^undn iunrnpé chamado (\aiCompanhiti, a que tam- 
bém chamam das Mulheres, cnrra também eutre úweí^ vár- 
zeas, (|iití bordam suas miir'jiMiS, imii tudo í;<uaes á quetica 
descripla. Esias várzeas cm toda a sua extensão iiuo têm um 
>à pê díi assaeusoirn, i«mJ;is eliaseslà:) cohi^rtas ilo t-apiín, pe- 
quenos nrbustus e muito tnlxicala que ahí na província do 
lUo de Janeírnithauiijm bambu > 

Deseulpem-nos ptiróm os jissi-rn.ilnrios da represenlação, 
se coniiiiuiimos a ucri^diíar (|ue ns pnntanus que rodeam a ci- 
dade são a causa primordial das febres quo alli reinam. Pes- 
soas impnn-iai^s e (TÍl»M'íos;ts Mitstama sii.i existência. Em 
1849 paia o jornal Tr^cc //^'il/(;/o escrevia de Macapá um in- 
suspeito correspondente: 

« A única eau<<a e origem a que atlribúo as mol(*slías epi- 
demicas, que ceifam desafiiedadamiMite esta população, sao 
os Ínimen>os Iranianos, que circumdam esla viila. São esses 
pântanos a única orií^em e causa dessas (q)idemias. Se este 
lu^ar está condemnado a supportar tantos sotírimentos^ é 
porque ilie rouhe por surte uma situação ;::eographica má, 
V para isto crer-st^ lirm«*níenle, ('• bastante saber-seque, não 
obstante estar fundada esta vilIa em iui;ar elevado, está 
dominada quasi em circuiiiferencia de pântanos e valles; e 
sendo a viziniiança desses pântanos e valles, insalubre, é 
claro que <> pi'ri>;oau^Mnenia pelo calor du clima e sobretudo 
pela situarão destt; luuar, cujo venln dominante passa, an- 
tes de lhe chejrar, pi»r lujíares loiiusos; e para também crer- 
se que é má a posição j^eo^Tapbica d( ste lii^íar, é bastante 
examinar todos osseus habiianles para logo ver-se, que 
além de uma côr lívida, apresentam desde os primeiros 
annos os signaes da velhn:ee do soíTrimenlo. . .. » 

Ha < íFectivamente pântanos que viciam oar c concorrem 
para o desenvolvimento das febres. O que eunvem éexlin- 
>,'Uil-os e isio i'óde-se fazer cofii algum trabalho o boa von- 
tade. Em 17o3, como já ficou dito, mandou o governador 
abrir valias para servirem de escoadouro aos pântanos. Em 
Í828 o major Ignacio Pereira, governador da Fortaleza, man- 
dou igualmente alli abrir valias pelos presos yentenciados a 
degredo , e o que é cerio, ê que de 1828 a 18il logrou saúde 
aqueila localidade, desapparecendo as febres. 

Referindo-se a Macapá, assim .se exprimia em 18G3 o Sr. 
cíMiselheiro Hrusqiie: 

« Pelas mesmas causas («»s pântanos) sofTre Macapá o fla- 
gello das intermiiie.itcs paludosas, (lue, variando mais ou 
menos de symptomas, não respeitam idade, constiluirio e 
temperamento. 

c Alli, a ahertura das valias, cuja limpeza fosse regular- 
mente mantida, dariam o necessário escoamento das agua.*' 



— 80 — 

estagnadas dos immensos charcos, que coníiiiain com os limi- 
tes urbanos. 

c A distribuição dos assacuseiros , que alli vegetam em 
grande quantidade no seio desses terrenos alagados, é de 
indeclinável necessidade, para evitar o maior desprendi- 
mento de miasmas, que exhalam as folbas cabidas ecm pu- 
trefacçâo/» 

Os assignatarios da representação, posto que reconheçam e 
declarem que ha febres intermittentes em Macapá, conside- 
ram como causa primordial delias, a grande humidade das 
casas, as quaes sendo quasi todas de taipa, destituídas de 
condições hygienicas, collocadas em terreno que muito se 
humedece pelo inverno, motivando evaporações húmidas, 
não podem deixar de influir de modo muito pernicioso na 
saúde de seus habitantes, principalmente sabendo-se, como 
é certo, que em Macapá todos dormem em rddes, nellas 
adoecem e nellas morrem. 

A estas razões contrapomos o juizo de um illustrado pro- 
fissional, o Sr. Dr. Francisco da Silva Castro. Eis, quasi em 
sua integra, o offlcio dirigido poraquelle illustre medico ao 
presidente da provinda, em Maio de 1851, cm resposta ao 
que com data de 16 de Maio do mesmo anuo lhe fora en- 
dereçado. (1) 

« A febre endémica de Macapá não é outra cousa mais do 
que uma febre intermítteute ordinariamente quotidiana^ 
em alguns casos terçã e raras vezes quarta, irradiada de 
phlo^ósesdo baço, fígado, estômago ou pâncreas separada- 
mente, ou de dous destes órgãos coujunciameute ou de to- 
dos 90 mesmo tempo. Algumas vezes n febre lomn o caract<)r 
remittente, o que é devido ao abandono em que os doentes 
têm jazido ou á exacerbação da moléstia pelos máos trata- 
mentos empregados. Uma ou outra vez consta -me que se 
tem manifestado sob o aspecto pernicioso. Os symptomas 
daquella febre são lodos os da febre intermitteiiie e o seu 
typo physionomico encontra -se por via de regra nos indi- 
víduos habitunlniénte sujeitos á arção das causas qa^ a de- 
terminam, e não em todos os habitantes daquella villa, por- 
quanto é necessário fazer uma distincção muito importante 
entre aquelles e os que accidentalmente se expSem á acção 
das ditas causas. 



^ (1) Illija. Sr.— Tendo-se, haannos, manifestado periodicamente 
na villa de Macapá uma epidemia de febres, cujos estragos tém 
sensivelmente diminuído a população e sido causa da decadência 
da mesma villa, e cumprindo que se empreguem os meios ne- 
cessários para se extinguir, ou ao menos minorar a intensidade 
desse flagello, peço a V. S. sirva-sededar-nie o seu parecer: 

i.** Sobre a natureza ou physionomia de tal epidemia. 

S.® Sobre as causas a que a attribue. 

3.® Sobre os meios que julga mais convenientes para as re- 
mover. 

Deus guarde a Y. S.— Palácio do governo da provinda do Pará. 
M deMaio de im — FautU> Augusto de Aguiar.— Sr. Dr. Fran- 
elMo da Silva Castro. 



m^"- 



— SI — 

c Asacccssiva rcpeíição dos ataques febris, que apezar dos 
mais bem t'omtiin«idos tratamentos therapeuticos voltam de 
tempos a tempos, mormente quando os sujeitos continuam a 
cxpor-scós mesmas causas, u indieencia, oempyrismo c nâo 
poucas vezes a negligencia e indifferença dãooccasião a al« 
terar-se profundamente a constituição physica dos infelizes 
doentes, a pomo de se tornarem dignos de compaixão. E' no 
seguinte estado, que passo a desenhar, que ordinariamente 
elles seofferesem ás vistas do observador. 

c Além de serem em geral dotados de temperamento lym- 
phatico em aitográo, taes indivíduos têm a côr haca, pnl- 
(idac deumnmarolio desvanecido, o olhar nbnlido o lan- 
guido, os olhos de um branco sujo, as paipebnis entume- 
cidas, os lábios lívidos, os dentes máos e da còr do marllm, 
a voz rouca e fraca, a pellc ora secca, ora inundada de um 
suor viscoso e debilitante, parece transparente; nas palmas 
das mãos e pia n tos dos pés é a pelle alvacenta còr Jc palha ; 
sio niugros^ macilentos e de um aspecto como balofo, os seus 
movimentos sào lentos, penosos e sem energia ; vivem cons- 
tantemente tristes e indiíTerenles aos males próprios e 
alheios ; têm as carnes molles e as vísceras abdominaes vo- 
lumosas e hypertrophiadas; a circulação venosa muito ap- 
párente e predominante, o sangue mui depauperado, o á 
medida que são mais piofundamente atacados apparecem 
alterações orgânicas no baço e Qgado ; íicam decrépitos antes 
do tempo e morrem cacheticos, marasmados, anasarchicus, 
hydropicos ou obstruídos das vísceras abdominaes. 

c Tal é o deplorável quadra do viver, ou antes do padecer 
daquelies habitantes, subordinado a uma escala infinita de 
gradações. 

€ A causa ou causas geradoras desias febres provém da no» 
cuidade dos pântanos, paúes ou ygapós, por cujo nomo são 
mais conhecidas nesta província as accumnlações d'aguas 
sem vasão ou meteóricas ou de outra origem, que cercam 
aquella villa em diversas distancias. A configuração do solo 
de Macapá é plana, quasí ao nivel do Amazonas, na embo- 
cadura aa margem esquerda deste rio, na região outr'ora 
conhecida pelos geographos por Guyana çortugueza. Esta 
denominação dá exuberante idéa da vastidão dos terrenos 
alagadiços daquella paragem. Entre a villa e a fortaleza 
corre um pequeno igarapé ou regato, que a custo dá sabida 
ás aguas pluviaes de um terreno baixo e argiloso, que cir- 
cumda toda a villa em deredor, logo ha poucos passos, por 
detraz das ultimas casas. Este tremedal, de algumas braças 
de extensão, quasi raso, muito ímmundo, touo coberto do 
grandes arvores de assacú (ura brasiliensis), tanto pelas 
margens, como pelo seu meio, não só recebe as aguas das 
chuvas, que escoam do terreno contíguo, um pouco mais ele- 
vado, em que estão assentadas a villa e a fortaleza, como tam- 
bém participa das aguas do rio nas marés grandes, e em 
quantidade tal, que a^iuellas transbordam consideravel- 
mente fora do leito do la^o, como lhe chamam os habitantes. 
E* exte o foco mais próximo das causas da febre endémica, é 
11 



alll oade se operam de coatinao as evoluçCes dos miasmas 
palndosos, proTenientes dos detritos animaes c rcgeues, os 
quaes lio gravesdauiQos causam a saúde dos seus habitantes, 
particularmenlo daqaelles que por sua precisão ou pobreza 
nSo duvidam arriscar-se para slll Irem procurar alguii» 
peixes, chamados do maio, para a sua subsisieucia. 

1 Além deste pântano muilos outros existem nas cerca- 
nias, cm dlsiaucia de daas, três e quairo horas de marcba 
e alguns bastante extensos, procedentes da accumnlsçio das 
agnas das chuvas-em vastas depressões do solo destituída de 
sufQciente inclinacio para a vasSo delias. E' nestes luga> 
res onde acoite a pobreza por motivo da pesca dos ditos pej- 
xeSj onde também encontra c gérmen destruidor da saúde 
e da vida. 

« Além desta origem da moléstia, não pouco concorrem os 
máos alimenlos, de qae asam aquelles povos e ainda muito 
mais a péssima agua que bebem, a qual é oa das cacimlus 
cavadas u a praia onde poços abertos nas margens do dito 
tremedal. 

> Estas febres slo endémicas daqoeila povoa<^o talvez 
desde o momento da sua rundacio ; pelo menos corre tradi- 
cionalmente desde longa data, «lue alli foi sempre a morada 
das Tebres inlermittentes,ag onaes por vetes ifim assolado 
mais ou menos ^os seus habitantes, particularmente noa 
meies de Agosio, Setembro, Outubro e novembro, o que pa- 
rece ter sido devido sempre em todos os tempos, ao maior 
ou menor abandono em que têm ficado aquelles pântanos, 
tocos do envenenamento miasmallco, factor inquestionável 
daa mencionadas febres. 

■ Os meios que considero indispensáveis empregar para em 
uns lugares destruir e em outros corrigir aquellas fontes 
de enfermidade, sio os que ensina a archileciura hidráu- 
lica, isto é, dar outra direccBo á corrente ou correntes 
d'agnas, que alimentam os pântanos, dar escoante e yatSo ás 
aguas que existem estagnadas, afim de se obter a sna dei- 
seccçio, plantar arvoredos nos limites de todas as correntes 
d*agaa e nas immediaç&es dos pântanos, sujeitando estas 
plantações is regras da arte. > 

A propósito desta niiima medida lembrada pelo lllasirado 
Sr. Dr. Francisco da Silva Castro, recordo-me de que, com o 
fim de saulBcar a localidade de Cametá, também constante- 
mente atormentada por febres de máo caracter e com o fim 
de offerecer um melo promplo de medicaçio aos que delia 
tivessem necessidade, tem por veies oSr. Dr. Phflo-Creao 
lembrado a conveniência e aconselhado o plantio da quina 
naquelle Ingar. 

Igual cousa poderia faíer-se para Macapá. 

Seria altamente conveniente que o governo atlendesse a 
esta humanilaria indicarão, nlo deixando a sua acciíaçio 
uniccmenie aoarbitrioe escolha do povo. 

Háo é indifferente o cultivo das chinchonas e sendo sabido 
qae a mais rica é a espécie denominada calyíaia, seriada 



- 83 — 

moxima importância fazer-sea saa acquisição e distribuil-a 
pelos lavradores. 

Eis os meios nua aconselham os que estudaram as condi* 
Ç5es de salubridade de Macapá, para a destruição daqueiles 
focos permanentes de infecção: 

— Gommunicar os três igarapés que existem na cidade 
com os lagos, a flm de lhes ser a agua renovada, evitando 
assim sua prejudicial estagnação. 

— Destruir todo o arvoredo venenoso que circula a ci- 
dade e que em seu recinto existe. 

— Seccar o pequeno pântano existente ao sul da cidade ou 
conservar limpas as valias e abrir outras. 

— Ter o maior cuidado na limpe2a dos poços que minis- 
tram agua potável e não consentir que qualquer os abra 
aonde lhe parecer ; mas sendo isso coui^a em que intervenha 
a autoridade, mediante os exames precisos. 

— Conservar as praças e ruas, sempre limpas e descapi- 
nadas, a flm de na occasião das chuvas não ílcarem enchar- 
cadas. 

— Terá maior inspecção possível para que os quintacs 
das casas parlitMiinrcs se conservem limpos e desenvolver o 
gosto de assoalharas casas do madeira para as tornar menos 
huir.ídas, c de as cobrirem de telha para as fazer mais are* 
jadas. 

Removidos estes elementos de insalubridade, diz oSr. con- 
selheiro Oliveira Figueiredo, ficará porcerio a villa de Ma- 
capá (cidade) restituída ao estado de excellentes ares e 
iguaes aguas, que lhe dá Biena no seu Ensaio corographico, 
o delia se poderá dizer com o illuslrado autor da Corogra" 
phia Brazilica, que éa villa formosa e das mais considerá- 
veis da província do Grão-Pará. 

A' uequena distaucia da cidade o á margem do rio, está 
situada a celebre fortaleza de S. José de Macapá. 

O governador Fernando da Gosta de Athayde Teíve, diri- 
gindo-sea 2b de Janeiro de 176i á villa de Macapá paraob* 
servar a localidade, mandou dar principio ás obras de uma 
grande fortaleza, cujh administração confiou ao sargento* 
mór de engenheiros Henrique António Galuzzi. 

Esta grande praça, talvez a maior de todo o Império, serve 
hoje apenas de presídio aos sentenciados do Pará edo Ama- 
zonas, sendo entretanto ainda commandada por offlcial de 
patente superior. 

Foi seu primeiro commandante o sargento-niór Manoel da 
Gama Lobo de Almeida, varão preclaro, que morreu como 
governador da capitania de S. José do Hio Negro. 

Deixemos fallar oilIustreSr. conselheiro Oliveira Figuei- 
redo acerca desse monumento da cidade de Macapá: 

t Ao rumo de 31"* sudoeste da villa— hoje cidade—, em 
distancia contada da itrr^^ja de 268 braças, existe a praça de 
guerra, que tomando da villa o nome, se chama de S. José 
de Macapá. 

Esta praça é um quadrado de fortificação rasante edificada 
^ob^e terreno elevado de 20 pés acima dodesuivclameuto 



- 84 - 

úa^ (ifíaas e composto de terra vértiiellia e argila branca^ 
mistura a que os naturaes chamam Cni^, sendo sua proprie- 
dade o amollecer dentro d^agua e enrijar ao calor do sol. 

c Nos ângulos do quadrado estio quatro baluartes de fi- 
gura penfagonal, em cada um dos quaes se acham praticadas 
14 canhoneiras lançantes. 

c A artilharia, que as guarnece, nada deve aos melhora* 
mentos que tem soffrido a conslrucção desta arma. 

« Está ella toda montada em reparos mais ou menos per- 
feitos a Onofre, mas notei que são estes tão altos, que para 
dirigir as pontarias, se precisariam de artilheiros de mais 
que regular estatura. 

« Os renaros trabalham sobre o terrapleno, por isso que ne- 
nhum delles tem plataformas. 

« As grossas muralhas da praça sio de cantaria escura, ha- 
bilmente trabalhada e eitrahida das rochas que existem 
duas marés acima da embocadura do rio Pedreira, que de« 
sagua 20 1/2 milhas ao noroeste da villa de Macapá e aonde 
me informaram que ainda existem algumas pedras já la- 
vradas, que se destinavam para as obras exteriores da praça. 

< No centro de cada uma das cortinas do norte, leste e sul, 
ha uma porterna solidamente trabalhada e ajudada por um 
xadrsz interno; e no centro da cortina do oeste está o grande 
portão solidamente construído e ornado. 

t O recinto da praça é um quadnido perfeito,onde se acham 
oito edificios apropriados para os differentes misteres de 
uma praça de guerra^ como sejam, paiol de pólvora, hos- 
pital, capella, praça de armas, armazéns, etc, sendo de cons- 
trucção á prova de bomba* 

« No centro da praça ha uma cisterna abobadada para es- 
goto das aguas e encostada á rampa transversal, que dá 
serventia para o baluarte da Conceição. £xístia a que sup- 
pria n praça d^agua potável, mas que actualmente está en* 
tupida; pena a que a condemnou um dos commandantesda 
mesma praça^ por ter descuidosa mente alli cabido um sol- 
dado, que esteve em risco de vida. Salutar providencia t. . . 

« Por baixo do terrapleno ílcam as casernas com soIíiIíim 
aboba Jas para aquartelamento da tropa, cozinha^ prisoes^eic 

« A praça é circumdada de um fosso pelo lado do sul v 
oeste ; e das obras externas apenas tem o rcvelim da pane de 
oeste, circumdado também de um fosso. 

« Este revelim está arruinado, abandonado e cheio de 
crescido mato. 

€ Não existe a ponte levadiça, que devia servir de com- 
muDicar o revelim com a porta principal da praça, nem a 
que o revelim servia de communicação com a esplanada. 

« Em seu lugar ha uma pequena ponte descansada sobre 
columnas de tijolos, que dá apoio a uma escada, que do fosso 
dá serveutia para a fortaleza. 

€ Segundo a opinião dos entendedores, no plano desta edi- 
ílcuçao SC patentcam todos os preceitos da sciencía. 

« Quem desse tal plano não pude reconhecer nos documen* 
tostiue exibtem nuarchivoda praça,cujo exame me fran- 



— 8:í — 

(|iicuu () bcii cuiuniandiíiile inlerino, poJendu.se apenas juníier 
(jU('. .veu primeira onfrenlieiro foi o sargeiUo>tnór Henrique 
António Galuzzi n que deu principio á ediflcaçào em 17GI, 
quando alil foi o capitUío general do Pará, Fernando da Cosia 
de Ailiaydo Teive, c approvou os uilímos planos da rorialeza. 

« Os velhos moradores do Macapá der.lararam-me que 
sempre ouYíram dizer que fora o próprio Guluzzi o autor do 
plano. 

« Fosse, porém^ quem fosse, o que c^ certo é que a pr^^ça de 
S. Jo5Ó de Macapá é mui solidamente edi^cada, e é para las- 
timar que se lhe não tenham ainda acabado as suas ohras 
exteriores, e que tivesse estado por tantas vezes completa • 
mente abandonada, a ponto de que até uma delias sérvio do 
curral ao ^^ado dos mercadores da villa. » 

liouve já até quem lembrasse a eonveaíoncia da demoli- 
ção daquelle impoitantissimo monumento, que nos le^ou 
a previdência de beneméritos estadistas, para com elle ater- 
rar os pantauos nue circumdam a cidade I 

« A' existência inglória daquelle colosso de pedra, escreveu 
um jornalista, sem tradições históricas que o façam apreciar, 
preferimos a prosperidade da cidade e a boa sande de seus 
habitantes. Se para extinguir os pântanos mephyticos, que 
circumdam aquella cidade, fòr preciso o entulho das ruinas 
da colossal fortaleza, não hesite o governo, arrase-se a for- 
taleza e salve-se a cidade I * 

Como se não houvessem pedras e terra em quantidade suf- 
flciente para entulhar dez vezes mais pantanoí do que os que 
uinigem aquella localidade ! 

O porto da cidade de Macapá é pouco abrigado. No verão, 
com a enchente da tarde, tornam-se fortes os ventos de NE 
e ENE, e o mar flca por tal forma agitado, que faz um pouco 
arriscada a communícação com a terra. Além disso, o an- 
coradouro é semeado de pedregulho molle, com alguma lama 
e areia, nas proximidades do rochedo, situado bem no meio, 
denominado Guindaste (i), o'i>rigando as embarcações a bus- 
car um fundo de 12,8 metros, cerca de meia milha, aos 



(1) A pedra que exisle em IVeutc da vilia, di/ o Sr. conse- 
Iticiro OIiv(;ira Figueiredo, qtiasl na pancada da baixa-inar e 
que chama iii y}undastet lue (lísserani algumas pessoas, (fue. era 
oiiir'ora unida ao terreno utmde se acha edificada a fortaleza. 
Hu, porém, nào posso admittir semelhante cousa ; porque, s«'ndo 
ella da mesma ílexibilídadc que o dilt» terreno, nào concebo 
i-orno as aguas a respeitassem, ao passo qm; derrubaram toda a 
extensão existente entre elld e a mesma fortaleza. A opinião 
niuis ( ordaia (|ue ha a semelhante respeito, é que seja ella resto 
de unia ilhota, que existia em frente da villa c que o mar tem 
deslrnido circularmente, devendo ella mesma desapparecer por 
sen tnrno. 

Alli existia o LMiindaste, que lhe deu o nome. e no qual foi 
guindada a artilharia da praça c depois conduzida para ella por 
sobre nm caminho que se fez da cantaria, que serviu nu edlli-, 



ía<;ao. 



— 86 — 

74* 30* SE do balaarte da Conceição (1). As aj^aas correm 
no canal, diz o Sr. i." tenente Raflno Luiz Tavares (2) ao 
ramo NE— SO, na enchente, com a velocidade de i,8 milhas 
por hora, na vasarite com a de 1.6 no mei^mo tempo. A dif- 
ferença de nivol é no ancoradouro de 2,97 metros, na linha 
que marca a máxima vasante de 2^95. Oestabelecimento^no 
primeiro lugar 4h 35m 44s, no secundo 3h 48m 449. 

Sej^undo o recenseamento de 1871, a população da comarca 
de Macapá ó «le 6.270 almas, cifra que, apezar da diminui0ío 
que tem soíTrido a populaçãío da comarca, e sobretudo a da 
cidade, pelas causas que Ocam enumeradas, me parece entre- 
tanto aquém da realidade. Segundo o Sr. senador Cândido 
Mendes, a população da comarca era em 1870 de quasi 12.000 
almas. Creio, pois, com alguma segurança, fixar a sua po- 
pulação actual em 8 a 9.000 almas. 

A população do município, segundo cálculos mais ou 
menos approximados, era de: 

Km Í8í8 4.100 almas 

Km 1833 2.K58 » 

Km 1848 4.866 » 

Km 1862 3.794 » 

Em 1870 7.500 

Em 1872 4.137 • 

Me parece exagerado o calculo da população em 1870« 
confrontando-o com o do recenseamento offlcial em 1872. 
A população da cidade era de: 

Em 1790 1.973 almas 

Km 1822 2.5Í8 » 

Km 1831 2.558 » 

Km 1839 2.558 ^{Baena) 

Km 1842 3.555 • 

Km 1848 3.867 » 

Em 185] 2.867 • 

Não me merece confiança, diz o Sr. conselheiro Figuei- 
redo, o algarismo do nilimo anno (1853); ponfut* não posso 
encontrar a justificação dessa diminuição de i.OOO pessous 



(1) O melhor fundeadouro e dcrronie da fortaleza, projectando 
as duas guaritas dos baluartes Conceição e S. Pedro, aonde, na 
disiancia de itfO a 160 braças de terra se encontra fuudo do 3, 
4 e 5 braças. A corveta a vapor Paraense esteve fundeada eiu 
9 braças. Por fora do lugar aonde ella esteve, o fuudo dimi- 
nuc até 6 braças, mas logo augraenta até 18. 

A qualidade do fuudo varia entre areia fina, grossa, lama, ta^ 
batinga, etc. A velocidade da correnteza neste ancoradouro e 
de 2 a 3 milhas por hora em occasião de aguas vivas ordinárias, 
e as aguas nessa mesma occasião se elevam de 10 a 11 pés (con- 
selheiro O. FIffneiredo}. 

(2) Inetrucfíôu pai^a navegar sobre o canal da ilha das Flexas, 
desde o cabo iíaguanj aié o porto de Macapá, pelo l.<» tenente Bufino 
Luiz Tavares, 



— 87 - 

em 5 annos, em que o Pará tem gozado de traDquíllidade e 
em que o commercio por aquclio disiricto tem augmentado 
:uuilo com a exiraeção da gomma elástica, e tanto mais per- 
sisto na minha idéa quanto observo que em 1848 havia 
259 casas habitadas, e agora, apezar da diminuição das i.OOO 
pessoas, ha 322. 

Em i8tii, segundo o relatório apresentado ú assem biéa pro- 
vimialdo Pará pelo Sr. conselheiro Brusque, existiam no 
innnicipio de Macapá 471 estabelecimentos industriaes, com 
Í.4CÍ9 braços, empregados no serviço, a saber: 

Engenhos de fazer assucar movidos por animaes 8 

Sítios de fazer farinha 400 

Olaria de fazer tijolos e telhas 1 

Cortumes 2 

Fabricas do fazer sabão 60 

Estes estabelecimentos produziram : 

Potes de mel 8.000 

Farinha 20.000 alqueires. 

Couros curtidos 150 

Sabão 2i0 arrobas. 

Os principaes artigos de producção agricola e industrial 
exportados do município, foram : 

Azeite 100 potes. 700^000 

Bannilha 20 libras 80^0 

Cacéo 400 arrobas 2:000^^000 

i:astanha 2.300 alqueires 7:600^5000 

Cumaru 3 a rrobas 19^00 

Farinha 1.000 alqueires 

Feijão 20 ditos 

Gomma elastici lO.ODO arrobas 160:000^0 

Madeira 1.000 dúzias 14:000,^000 

Urucú 50 arrobas 150^ 

Também existiam no município 62 fazendas de criação de 
gado vaccum ecavallar e 40 de cultura de cacáo, feijão, mi- 
lho^ arroz, café, algodão^ fumo e urucú> nas quaes se empre- 
gavam 13^ braços livres e 141 escravos, contendo aquellas 
22.000 cabeças de gado vaccum o cavallar. 

Os géneros exportados do município de Macapá em 1867, 
pelos vapores da companhia do Amazonas, subiram á cifra 
de 637: 756^800, sobresahindo o artigo borracha que se ele- 
vou á somma de 613:760^SX)00. 

Transcrevo aqui a seguinte e curiosa noticia, que dá 
fiaena, das riquezas naturacs do districto de Macapá. (1) 



(1) Relatório apresentado ao dêsenihargador Rodrigo de Souza 
da Silva Pontes pelo (enente-coroneí António Ladislào Monteiro 
Baena '(1842). 



~ 88 — 

Dos lugares em que se acham pdos reaes. 

Nas cabeceiras do rio do termo da villa: mtierapinima, 
muerapinga, piio^roxo e castanheiros. 

Em todas as ilhas e matas g:eraes: páo^preto.páo^macaro^ 
este páo, sendo das matas, é mais encarnado qae o das ilhas ; 
maúba, andiroba e cedro, todos três em abundância. 

No rio Anauarapucú: páo-macaco, de veias roxas o bran- 
cas, e por isso, chamam-Ihe Quatiara, tem de grossura so- 
mente dous palmos. 

No mesmo rio Anauarapucú: acapú, acariúba, massaran- 
duba, angelim, piquiá, vao d^arco, cumaru, pão amarello, 
louro preto, louro amarello- cheiroso. 

No rio Arapucú ha igualmente parte das precedentes ma- 
deiras e nas ilhas acham -se também aoariúòa^, que são de 
melhor duração, as palmeiras mucujazeiro, tucumanzeirô, 
bacabeira, pataud, assahyzeiío, caranazeiro e murutij- 
zeiro. (1) 

Dos lugares em que se acham os melhores géneros do mato. 

Nas cabeceiras do Camaipy, braço do rio Anauarapucú, 
da part') direita: arvores áepuxinj. 

No rio Arauary, no seu braço Arapary e no rio Anauara- 
pucú: óleo de cupaúba, salsa -parr ilha, cravo, abuta, mu- 
rurê e murapuama. 

Nos campos e^nas ilhns a cila adjacentes: Marapaúba, jti- 
íahy, barbatimâo, sticuha, ananim, parira ^ que ó hoa arvore 
para carvão de forjn c a casca para cortume, piquiarana, 
mapa, cujO leite applicim ao curativo do lòbQS^umiry, par- 
reira, hervade chumbo, sorveira, mangaheira c puruhij, ar- 
vore parecida á goiabeira c a fruta á goiaba, no feitio: é 
agri-doce. 

Ha lambom nos campos uma planta semelhante aoananaz, 
que deita um cacho de frutas redondas e amarellas, iguaes 
na grandura a um lucuman, as quacs tôm um miolo no 
caroço, que éda^^e, eum excellente remédio parajlombrígas: 
disso lhe proveio ser conhecida pelo nome de fruta lom- 
liriguoira. 

Das arvores e plantas menores domesticas, 

Larangeira da china, dita da terra, cidreira, limeira^ li- 
moeiro, jaqueira, ateira, biribazeiro, araticú amarello,dito 
branco, bananeira de varias qualidades, tamarinzeiro , 
mangueira roxa, dita amarella, abieiro, maracujá de varias 
qualidades, bacateiro, cutitiribazeiro, ananaz de três qua- 
lidades, cafezetro, cacoeíro, genípapeiro, figueira, jambo, 
saputilha, goiabeira, cajueiro, gingeira, coqueiro, popu- 
nheira. 



(i) Munitvzeiro é a palmeira que om outros pontos do Bra- 
i1 chama-se Burityzeiro e MirityzeirOm 



— 8» — • 

De todas as arvores e plantas menores que ficam mencio- 
nadas não ha fartura alguma: esia só se observa nas bana* 
neiras, porque o seu fructo é usado com excesso em mingáos 
e outros comeres. 

Dos pássaros. 

Tujnjú, cananá Jaburu, mauary, colhereira, guará, mer- 

f;ulbao, çarará, carão, arapapá, garça, soc<S de varias qua- 
idades, pato, roarrecio, marreca, massarico real, mutúm, 
Jacamira (i), cajuby, jacu de varias qualidades, saracura, 
inauibú, curicaca, corvo chamado tinga, onito geres por ter 
a cabeça encarnada e outro prelo, gaviio de muitas quali* 
dades, papagaio moleiro, dito enrica, arara de peito encar* 
nado, outra de peito amarello, maracaná, periquito. 

Dos referidos pássaros uns são das iagôas, outros dos cam- 
pos e outros das matas. 

Dos aaimaes silvestres. 

Anta, porco, tatilú (2), veado, cotia, cuaadú ou porco es- 
pinho, capivara, onça de muitas qualidades, tamanduá t>an- 
deira, raposa, hyrara, cão do mato, guariba de duas quali- 
dades, preta e amarella (3), macaco de diversas qualidades 
(4)Jabutim, tatú-assii, tatú-tinga, talú*péoa. 

Todos estes ^io com m uns a outras partes da provinda. 



(1) O Jacamim é uma ave gallinacea. Suas penas são pretas e 
verae-negras no dorso oucòr de cinza. As doSoIlmÕes lém o 
peito eoDico verdes. E'osyrobolo da mansidão. Oomestlca- 
se facilmente e então demonstra genlo mesureiro, como diz 
Baena. Chega-se a qualquer pessoa, abre as azas e agacha-se 
alé coser o peito com o chão. E* ainda notável pelo seu canto 
nocturno. Também gosta de tomar os pintos das galliuhaa para 
os criar. 

(2) Talitú ou taitltú, como o chamam no Pará, ou eatitú, como 
o chamamos no sul, é um porco do mato. O denomlnAdo quei- 
xada é o maior e muito bravo, mormente quando sente cães e 
sobretudo se no bando ha filhos pequenos. 

O tiririca é o menor e o mais bravo de todos. Respeitam-no 
tanto as onças, que quando querem matar algum, trepam a uma 
arvore, por cujo sítio sabem que elles hão de passar e atiram-se 
então soore o ultimo, depois de haver passado o bando. 

(3) Guariba é uma espécie de macaco de pelle preta ou de 
peile lonra. Reunidas em bandos e trepadas nas arvores, costu- 
mam soltar, mormente na estação das chuvas, gritos agudos ou 
roucos, que se ouvem em grandes distancias. 

Dizem que a cordura deste animal tem a propriedade de curar 
tumores syphilitlcos. (Aqui em Óbidos as8everou-m*o pessoa 
de muito critério.) 

Estes animaes irazem os filhos ás costas e assim os criam até 
poderem andar sós. 

(4) Entre as diversas espécies de macacos de que abunda o valie 
do Amazonas, merecem especial menção os denominados aoi- 

12 



- 90 — 
Dos peixes e dos mariscos. 

Nos rios^ nos lagos eno mar: peixe-boí, pirarocú» pira- 
híba, saruby, doarada, piraperoa, jandy-assú.tarahira-assú 
tambaquy-assú, tambaquy pequeno, espadarte, cação, ba- 
liVG, pirarára , savelha , pirapetinga , pacú-tinga, pescada 
branca 6 preta, tainha, mapará, piramataba e mandubé. . 

Nos lagos e igara()és : araaaná, tacunaré, acará-assú, aca- 
rá.punga,tarihira, jnja de daas qnalidades,piranha, tamuatá 
de duas qualidades, jacundá, aracú, jandiá proto e amarello, 
carangueijo, lagostim, camarão, caramujo. 

Dos mineraes. 

Nas cabeceiras do rio Camaipy, braço do rio Anauara- 
pucu, ha malacacheta. 

Os rios mais notáveis do município de Macapá são, além 
do Amazonas o do Oyapock, que é a divisa entre o Brazíl e 
a Guyana Franceza, — o Arauanapucú c o Araguary, 

O Arauaúapucú, de curso um pouco limitado, desce dos 



tipurúecuatá. O acutipurú é um macaco pequenino, de pellc 
felpuda, de cor do ébano lustroso, as palas velludosas c longa 
cauda, que traz sempre voltada para a freme á maneira do pen- 
nacho. O opulento somno deste animal, diz Uaena, é objecto da 
cantiga, com que as indianas cosluinam adormecer os seus fi- 
lhinhos. Eis a lettra da canlípa no.rom:mce destas mulheres: 
Acutipurú ipurú nerupecê cimitanga-miri uquêrc uarama; cuja 
versão é: Acutipurú, empresta-me o teu somno para minha 
criança também dormir. 

Ocuatáéxkm macaco de pelle preta, muito luzida, de movi- 
mentos demorados e que para caminhar vai lançando a cauda 
â maneira de arpéo. 

Sobre a origem desta palavra, escreveu o celebre naturalista 
Alexandre Uodripucs Ferreira o seguinte: < Nâo deixarei de es- 
crever o que os judios fabulísam a respeito deste macaco. Dizem 
cUes que, tendo um desafio com o gavião real, este lhe disse: 
Com que me pretendes matar ? Porventura parece-te que com 
o teu rabo me vencerás ? Então o cuatá, mostrando-lhe as mãos, 
lhe disse: Qiui tahá t e que, vendo o gavião o seu desembaraço, 
lhe protestou, que dahi cm diante seriam muito amigos. » 

Tendo por vezes tido occastão de mencionar no correr deste 
trabalho o nome do Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, per- 
mitta o leitor que aproveite esta occasiao, posto que mal ca- 
bida, para aqui apresentar uma rápida noticia dos trabalhos 
desse incansável explorador e sábio naturalista portuguez, a 
quem tanto devemos. Para isso aprovei tar-me-hei das notas que 
«'ncontrei em um curioso livrinho acerca do museu de Lisboa, 
c que devo á obsequiosidade de um amigo. 

O Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira sahio de Lisboa em Se- 
tembro de 1783 e somente regressou ao reino no anno de 1793. 
Duron nove annos a sua viagem de exploração, durante a qual 
percorreu os sertões do Pará c Rio Negro, orlo Branco, o Ma- 
deira, o Guaporé, a serra de Cuanurú e as provindas de Mato 
Grosso c Goyaz. Os seus numerosos c importantes escripios^ 



— 91 — 

montes da Gayana a lancar-se no Amazonas. E' navegável 
em pequena extensão. 

O rio Araguary descf das montanhas da Gayana Brasi- 
leira, no rumo de N a S, através de matas e campinas até 
a sua cachoeira inferior, seguindo depois para E alé o 
oceano. 

Suas margens são altas e aprazíveis acima das cachoeiras» 
mas dahi para baixo são alagadiças em fferal, tomando 
porém o rio nesta secção uma largura considerável e com 
fundo sufflciente para ser navegado por grandes vapores. 

Na parte superior existem Índios bravios, denominados 
Cuçarys e Tarimpins, que passam por antropophagos. 

A' margem esquerda do rio Araguury está assentada a 
colónia militar de Pedro 11, creada em 1840. 

Eis o que a seu respeito lô-se no relatório do ministério 
da guerra de 1870: 

« Em 5 de Maio de 1840, com grande empenho do governo, 
foi creada a primeira colónia militar, sob a denominação 
de D, Pedro 11, na margem direita do rio Araguary (1), 



que comprehcndcm— relações das viagens que emprehendeu , 
memorias anthropologícas acerca das tribos selvagens que visl- 
tou,mailos estudos zoológicos, botânicos, geológicos e agrícolas, 
ensaios do topographia medica, etc, foram entregues logo depois 
de sua morte pela sua viuva e mandados arciíivar pelo Vis- 
conde de Santarém na bibliotheca do museu. Abi Jazeram até 
1842, época cm que uma portaria do ministério do reino orde- 
nou que se eutregassem ao ministro do Brazil em Lisboa, Dru* 
mond, a fim de serem enviados para o Brazil c impressos por 
conta do governo brazilciro, depois do que deveriam ser resti- 
tuídos ao museu. O ministro Druraond passou recibo de 258 
roanuscripios. 

Desde que voltou ao reino, ou pouco tempo depois , o Dr. 
Alexandre foi acommcitido de uma fatal melancolia, que Inu- 
tilizou o seu vasto saber e o lançou na sepultura em 1818, 
após longos annos de uma lenta agonia. O seu biographo 
Costa e Sá, tratando deste tristíssimo periodo da sua vida, indi- 
ca-lUe vagamente por causas <(desgo;>tos provenientes de illusões 
desvanecidas acerca dos homens c cousas da corte» : —a tra- 
dição porém refere que o Dr. Alexandre encontrara, ao regres- 
sar ao reino, os exemplares quecolligiraá custa de tantas fa- 
digas c remetièra com maior desvelo para o gabinete da Ajuda, 
deteriorado^ na maior parte e confundidos todos, perdidos ou 
trocados os números c etiquetas que traziam. Acrescenta aiu.^ 
a tradição que não fora isto effeito do acaso ou do deiçixo,' t^aS 
obra premeditada da mais ruim maldade, planeada c levada á 
execução por um empregado do gabinete da AJudá, á "qUém o 
ciúme fios talentos do grande naturalista e 'por v^nttrr» -zí 'es- 
perança de o desgostar promptamentc de uina posk^io uòt mtlseo, 
que ambicionava para si, inspirara essa torpíssima acçãf^ in. -: 

Console-nos ao menos, diz o Sr. J.. V, Barbosia{da.JB^Cii 
autor do opúsculo de onde extrahi est^ aotlcj^^^sás^iffg^ 





não mente, a certeza de que o autor dè tamamia J 
era portuguez. ' " ^= V 

(1) lia engano, a colónia está na nfai^efnt^h^iièldl.^ '*"'^'^ 



-92- 

050 braças acima desna foz. B' fácil de com prehender qual 
Ara o empenho do governo com essa creaçSo, e sobff^ esta 
fuQdaç^So psrmiiiiréis que chame a vossa atien^o para o 
que está escripto á pairina 11 da Memoria annexa ao rela- 
tório do meu antecessor, apresentado na i.* sessão da 13.* 
Jegislatura. 

c Esia colónia foi decahíndo da sua importância, mas em 
1849 ascircnnistancías, que antes tinham determinado a sua 
fundação, obrigaram a publi^ar-se o decreto n/622, de fi 
de Dezembro, que approvou o re^fulamento da mesma data 
para a fundação de colónias militares na província do Pará 
nos pontos das fronteiras^ e nos do interior que mais apro- 
priados pirecossem para os estabetecimentos de posses e 
eommunicações de uns para outros lugares da mesma provin» 
da; e ainda depois, taes erão as circumistancias, que o go- 
verno julgou conveniente publicar o decreto do 1.** de 
Junho de 1850 e o aviso de 12 de Agosto do mesmo anno. 
mandando repovoar a colónia de D. Pedro 11^ que havia 
sido estabelecida nas immediações do Araguary. » 

Excerpios da Memoria a que se refere o relatório da 
guerra de 1870 : 

D. Pedro IL — Em virtude de recommendações do go- 
verno imperial, soba regência do cidadão Pedro de Araújo 
Lima, hoje Marquez de Olinda, o presidente da província 
do Pará, João António de Miranda, fundou a primeira co- 
lónia militar, que denominou Pedro II, a qual foi inaugu- 
rada em 6 de Maio de 1840, sobre a margem direita do 
Araguary ou Aranari, a uma legna de distancia do sitio 
do cidadão João Manoel Ferreira, e 36 léguas e 550 braças 
acima da foz do mesmo rio, em terreno enxuto e fértil, 
próprio para a lavoura. 

o seu primeiro director foi o alferes de commissão Joa- 
quim Manoel Bahia de Menezes, que a foi fundar com 27 
praças casadas, formando ao todo, inclusive o director, sua 
mulher e um filho, 76 pessoas. 

U local foi escolhido pelo commandante da ilha de Bailí- 

aue, o capitão de engenheiros Parreira, e o cidadão João 
lanoel Ferreira. 

O presidente da província deu instrucçSes á colónia, em 
data do l.*de Março de 1840^ o alferes director, emquanto 
o governo não a provia com o necessário, offereceu ferra- 
mentas e instrumentos precisos nara a cultura e serraria, 
e o commandante das armas offertou 25 novilhas com os 
seus competentes garrotes para animar o estabelecimento. 

fk)ro a caravana «companhou nma pequena botica. 

Louvores pois ao director e ao commandante das armas. 

O director com todo o pessoal, trem e bagagem, embarcou 
no Pará a 19 de Março de 1840 e a 5 de Maio Inaugurou a 
colónia. 

Os fins enunciados pala presidência em sen offlclo de 27 
de Março de 1840 para inaugoratílo da colónia, foram povoar 
nê pontos da provinda que mais recursos pudessem ofe- 
recer á especulação e i industria ; mas pela localidade de- 



— M — 

ii^^Dada se conhece que a iatençio reservada foi defender 
e garantir a fronteira, o aue se prova com o olficío n.* 14; 
de i2 de Novembro de 1859, sendo presidente o cidadão 
António Coelho de Sá e Albuquerque» assim seexprtmio: 

i A' importância daquella missão (referíndo-se A colónia 
militar D. Pedro II), em relação á sua situação confinante 
com territórios, que são disputados pela França ao Império 
e aos indivíduos Sflnagens $ civilizados^ que os Francezes têm 
sempre se empenhado em attiahir aos seus interesses contra 
os nossos, parece-me que não poderá ser apreciada por 
aquelle sacerdote, que, segundo me consta, além de ser ex- 
tremamente acanhado de intelligencia^ não ó dos mais ze* 
losos pelo serviço publico. > 

Quando a colónia se inaujrurava em 5 de Maio, o governo 
por avísod de 4 e de *4 de Maio a mandava fundar. 

Na mesma occasíão se projectou a colónia Araújo Lima^ 
que não inaugurou-se. 

Depois, querendo ampliar aqnella disposIcSo e dar-lha 
estabilidade, tendo ouvido a respectiva secção do consellio 
de estado, publicou o decreto n.** 662 de 22 de Dezembro de 
1849, queapprovou o re&rulamento da mesma data pára a 
fundação de colónias militares na província áo Pará, orde- 
nando ao presidente que as e<itabelecesse para o estabelem' 
ment í de posses, e communicações de uns para outros lugares 
da mesma ou diversa provinda. 

O art. t.^ desse regulamento impftz ao presidente que 
preferisse para o estabelecimento daa rolonias militares os 
lugares, para os quaes houvesse mais fácil e prompta com- 
munícaçâo, em que abundassem os productos que fizessem 
o objfcto do commercio da província e em terras férteis, 
abundantes dos principaes proJuctos do dito commercio e 
que oflrerec«'Ssem pastas^ens para cria(^o de gados e outros 
animaes que prestam valiosos serviços ao bomem. 

A este decreto seguío-se o do 1/ de Junho de 1850 e o 
aviso de 12 de Agosto do mesmo anno, mandanio repovoar 
a colónia de D, Pedro II, que havia sido estabelecida nas Im- 
mediavões do rio Aragnaryt 

Em 27 de Março de 1840 o presidente da província offi- 
ciava ao governo, sendo ministro o Conde de Lages, que, 
em virtude de ordens e recommendaçSea do mesmo go- 
verno m^indára fundar a r4)lonta de D, Pedro 11; em 4 e 
14 de Maio o governo ordenava a crea^o dessa colónia ; em 
27 do mesmo mez a presidência remettia o termo da inau- 
guração , em 10 de Junho communicava que a colónia pros- 
perava e recommendava á consideração do respectivo mi- 
nistro os serviços do cidadão João Manoel Ferreira. 

Bem se vê que em 1850 o estado da colónia, se não estava 
aniquiladi», não er^ prospero ; pois que, apezar das novas 
ordens, em 1850 dizia então o director : 

« O destacamento comti5e-8e de 20 praças e 11 familías.— 
Ha o commandante director, um capellãoe um almoxarife. 
Não ha enfermaria nem laboratórios (botica). > 

Em 1859 dizia o presidente da provinda : c-Q sacerdote 



— ar- 
esta abaixo, da 'Sua esphera ; alóm de sor extromameata 
acanhado de intellí^encia^ não é dos mais zelosos pelo ser* 
viço publico. » 

Em 1860 dizia o director : 

t Que tinha reedificado a casa do capellão^ feito alguns 
melhoramentos na do director» dado começo a uma canoa 
para servir de correio, não havei^do feito outras obras, como 
fosse o quartel para o destacamento, pelo seu diminuto nu- 
mero de praças^ e por não ter pedreiros nem carpinteiros. i 

A causa principal do declínio das colónias militares no 
Pará , provém do abuso de serem removidos dalli para 
quaesquer outros pontos os soldados que já haviam começado 
suas plantações e cultivado suas roças. A descrença começou 
a lavrar entre elles pelo receio de verem a cada momento 
perdido o seu trabalho. 

Assim também morreu a de Óbidos. 

A' comarca de Macapá pertence a villa de Mazagão, cabeça 
do município do mesmo nome. 

Foi funaada em i770 e acha -se situada na margem sop- 
tentrional das cabeceiras do rio Mfituacá, a nove léguas de 
Macapá. 

Os seus princípaes habitantes foram ii4 familías das que 
evacuaram a praça de Mazagão, na costa Occidental da 
Africa^ ao sul do estreito de Gibraltar e foram transferidas 
para o Pará, onde deviam formar uma villa com o nome da 
dita praça . 

Esta resolução proveio do conselho proferido em reunião 
de ministros, por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, 
que então se achava encarregado da secretaria dê estado dos 
negócios da marinha e dominios ultramarinos. 

O assento desta villa, diz Baena, éalto duas braças, pe- 
dregoso algum tanto e dividido da banda do rio em um 
pequeno valle que corre até a beira do mesmo rio em cujo 
espaço tudo é atoleiro. 

A producção agrícola e industrial do município de Ma- 
zagão é calculada annualmente da seguinte forma: 

Borracha 6.000 arrobas. 

Castanha 4.000 alqueires. 

Cacáo 500 arrobas. 

Café 200 » 

Farinha de mandioca 1.000 alqueires. 

Milho 3.000 mãos. 

Azeite de andiroba 300 potes. 

Mel 600 » 

Rodes..... 1.300 

Destes géneros, somente exporta: borracha, castanha e 
cacáo, consumindo os demais dentro do município. 

Em 1861 existiam alli 5 engenhos de fazer mel, que prò« 
duztram 400 potes. 



- 88 - 

Do<% princlpaes artigos de producção agrícola do munlci- 
pio, foi exportado o seguinte. 

Cacáo 400 arrobas 3:000^00 

Castanha 4.000 alqueires 10:000*000 

Gomraa elástica... 4.500 arrobas 54:000^0 

Existiam no município, 9 pequenas fazendas de gado 
vaccuiii com 13 braços livres e quatro ditos escravos em- 
pro^ados no serviço c 993 cabeças de gado, sendo 940 vaccam 
e 53 cavallnr. 

A população do município de Mazagno é calculada, se- 
gundo o recenseamento do 1872, em 2.133 almas, cifra que 
parece pouco aproximar-bo da exuciidao, visto como em 1868 
contava este município 4.238 habitantes, dos quaes 3.945 
eram livros. 

A villa contém mais de 700 fogos. 

Em 1853 fui olTerecio á consideração da camará dosSrs. 
deputados um projecto, creando uma nova província do 
territórios desmembrados da do Pará, tendo por capital a 
cidade de Macapá. 

Eis o projecto: 

< A asscmblca geral legislativa resolve: 

« Art. 1.° Fica elevada á categoria de província, com a 
denominação de Oyapockia, o território comprehondido entro 
os rios Nhamundá, Amazonas, Oceano Atlântico o os limi- 
tes septentrionacsdo Império. O governo designará no acto 
da creação quaes as ilhas adjacentes dos rios Amazonas e 
Nhamundá que flcarão pertencendo á nova província. 

« Art. 2.° A capital da nova província será a villa de Ma- 
capá, cmquanto a assembléa provincial respectiva não re- 
solver a mudança. 

« Art. 3.° A província de Oyapockia dará um senador e 
dous deputados á assembléa geral legislativa. A assembléa 
provincial constará de 20 membros. 

« Art. 4.° O governo fica autorizado para crear na mesma 
província as estações fiscaes indispensáveis para a arreca- 
dação e administração das rendas geraes, submettendo-as 
depois ao conhecimento da assembléa geral, para sua de- 
finitiva approvação. 

« l^nço da camará dos deputados, 1 .* de Julho de 1853.» 

Neste projecto a que fez acompanhar da respectiva carta, 
deu o Sr. Cândido Mendes de Almeida, que delle foi o autor, 
o nome de Oyapockia ^o território que devia constituirá nova 
província. 

Esse nome, porém, pareceu inconveniente a algumas pes- 
soas, em vista das pretençõesda França ao domínio completo 
do rio Oyapock, não obstante o nosso direito á sua margem 
direita. 

Achando razoável a objecção, diz o Sr. Cândido Mendes 
em um notável trabalho que acaba de publicar, tanto roais 
quanto a denominação desta província devora ser a de Ama- 



— 9« — 

aonaSf Domeque .«eni^ran(ie faadameulo foi diidoá antiga 
Capitania do Rio Ne^ro^ entendemos que devfsriamos pro- 
curar uma denominação qus satisfizesse ao território^ que 
não Doaé disputado. 

c E' por isso que hoje desí^rnamios esse território pelo ti- 
tttlode Pinsonia;B fim iie se honrara memoria do seu desco- 
bridor, o celebrado navegante hespanhol Vicente lanez Pin- 
8on« um dos mais intrépidos companheiros de Colombo, 
commandante da veleira caravt^lla Nina, 

c Preferiamoaeasa denominação a de Cabo do Norte, da an- 
tiga capitania de Bento Maciel Parente, ou de Gvyana Por* 
tugueza ou Brazileira, como pretendiam Ayres do Casal e 
outros. • 

£m i870^ diversos habitantes da comarca de Macapá diri- 
giram acamara dos Srs. deputados, uma extensa represen- 
tação, solicitando a creação da província. 

Entretanto nenhuma decisão julgou ainda a camará tomar 
neste sentido. 



III. 



[Aiiora ubrirei um pareDlhesis para tratar, posto qae maito 
perronciorismeale, das que^^lScs havidas acerca ioí limiies 
do Brazil, pelo lado do norte com a Fraoça pela Gujanna. 
Questão é esla bem séria, qae tem dado lugar ji aotaveis 
conipltcatíies, porém, que inrellzmente aioda se nao acha de* 
fiDÍtíTaiuenie resolvida pelos í^ovcraos iateressadns. 
Esia questão de limites Toi sempre ohjeclo de graves dis- 
CQSbSes cuireaFraaca, Portugale Hespunha, entretanto pa- 
receram ficar resolvidas em 1713 pelo celebre tratado de 
Virecht. 
Pelo art. 8." deste tiatado assentaram os commissarios 
qae a Friofa cederia a Tavcr de Ponagal de todos os di- 
reitos e pretencBesque pudesse ter sobre as terras do Cabo 
do Norte e as situadas entre o rio Ovapoek ;— terras estas a 
que se julgavam com direita os francezes, como faieado 
parte da GuyaDoa. 
O art. 9." permiltia ao governo portugnei reediScar 
■ Tortaleza de Macapá e o Torte Araguary, que baviam sido 
ãemolidni em virtude do tratado provitlonal de 1700 ce- 
lebrado entre a França e Portugal. 
Peio art. IO cedia a França as duas margeos do Ama* 
zona-i. i;omo propriedade do lerritorio brazileiro. Pelo 
Brt. 11 renauciava a navegação e uso do mesmo rio, e fl- 
nalmenie pelo art. 11 era prohibido aos babltanies de 
Cayenna exercerem commercio no Haranliio e na tót do 
Amazonas, bem como passarem o rio de Vicente Plnson a 
iraBcar f comprar escravos. 



— 98 — 

- V Ãv« ;e limites pareceu aioda ficar compleianienle 

^ ■ ii\htt a ci>nqQista da Guyanna (i) pelas armas por- 

. , .,v oití 4á ^c Janeiro de i809, e depois pelo artigo 107 

^ ./ .;v^ xVUirresso de Vienna de 9 de Junho de 1815, 

• .,\*.*xjv'->^' o governo de Portugal a restituil-a ao rei da 

vv * »»togra do artigo: 

^ >;í.» Alioia Roal o príncipe regente de Portugal e do 
xuò >. t^r«i manifestar de