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PROPERTY OF THE
ARTES SCIENTIA VERITAS
Portuenses illustres
TOMO i
DO MESMO AUCTOR
(PELOS MESMOS EDITORES)
A Geração nova — Os novki.mstas. i volume. iss«>
Portuense» i Ilustres— Tomo u 'M» trelo .
BRUiNO
Portuenses
illustres
PORTO
. MACALHÃKS S MOS1Z,
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1\>kt«» Tyj*. Pkoouksso de Domingos Augusto da Silva X: C
Largo de S. Domingos, 15
<S5:;'/^ l'/&
Anteloquio, rápido, se necessita que
da conclusão succinto aviso exare:
Pelo pae e sogro leonez Affonso vi
a sua filha D. Thereza — ou Tareja — e
a seu genro o conde D. Henrique na
dadiva de Portucale feita, o remate
d'esta obra insistirá em que por Por-
tucale se não deve ler, traduzindo, « Por-
tugal antes que, traduzindo, ler se deva
O Porto. > Traduzir cabe O Porto, não
Portugal » ; dizer não o condado de
Portugal, mas sim o condado do I y orto.
Isto tem ao deante muitíssimo mais
importância do que parece agora, que
parece que nenhuma tem. Assim, quando
Camões disse que n'esta cidade tivera
origem o nome eterno de Portugal, o
que elle devera dizer era que o nome
d'esta cidade é que fora o nome Por-
tugal. De modo que o que vem a ser
« Portugal » resolve-se em ser « O Porto >
prolongado d'aquem e para além.
«
«
1
I
Esta confusão de Portucale, entendido
(quando e onde excede) por Portugal,
e não strictamente por O Porto, como
aliás ahi entendido deva ser, dá logar
a mysteriosas confusões e gera dificul-
dades inextricáveis a dentro da primi-
tiva historia do paiz, independente já
ou inda não.
Mais. O remate d 'esta obra de-
monstrará que o Porto nunca foi do
Bispo do Porto e apurará não só o
que do Bispo do Porto fora mas como
foi que a Sê Portuense o perdeu. O
engano passa por certeza assente, tri-
vial, expressa no uso da locução vul-
gar. A moeda falsa corre por ouro de
lei. Em geito que, ao contrario, figure
de temerário paradoxo e resulte inve-
rosímil verdade o que aliás ser devera
simples logar cornmum. Este erro pro-
digioso — de que a cidade do Porto
foi do Bispo do Porto — é prodigioso
que Alexandre Herculano, primacial,
não só o não descobrisse como ainda
n elle se fundasse e tanto contribuísse,
pois, por sua justa auctoridade emi-
nente, para o firmar e espalhar. (Ao
Porto, p. ex., Canaes, em seu Índice
designando-a, lhe chama «Cidade Epis-
copal.» Jamais! Nunca o foi. A cidade
do Porto nunca foi cidade episcopal,
nunca pertenceu a seu Bispo). A histo-
ria do modo como a Sé Portuense
soffreu a perda que soffreu está, na
seriação de seu processo consecutivo,
por contar ainda; esta obra, em seu
remate, a contará.
Mas, antes d'esse remate e conclu-
são, esta obra exporá perante seus lei-
tores um complemento aos vários capí-
tulos de que seus tomos constam; e
n'esse complemento se hão-de ajuntar
desenvolvimentos necessários e acclara-
ções explicativas se incluirão.
Por agora, prestes, do cumprimento
de uma grata obriga me quero desone-
rar, qual a de inscrever aqui o teste-
munho de reconhecimento que, para o
effeito da realisação d' esta obra, devo
a vários cavalheiros portuenses, amigos
meus, um, por lamentada e lamentosa
desgraça, precocemente fallecido, o meu
collega emérito Oliveira Alvarenga, os
dois outros (ademais do meu distincto
editor, snr. Nogueira de Magalhães): o
meu illustrado correligionário Gomes
de Macedo e, especificadamente, o meu
talentoso confrade Eduardo Sequeira.
A estes o publico protesto de minha
perdurável gratidão.
Porto, 19 de Março de 1907.
yosé Pereira de Sampaio.
A,
.gostinho Rebello da Costa foi um pres-
bytero secular, cavalleiro professo na ordem de
Christo, doutor em Theologia pela Universidade de
Coimbra, que nasceu na cidade de Braga e fora
filho de Manuel Rebello da Costa e de D. Maria
Vieira de Azevedo. Elle falleceu aqui no Porto a 9
de janeiro de 1791, e foi sepultado na egreja do
extincto convento dos Carmelitas, segundo a sua
disposição testamentária. O maligno Innocencio
consigna que consta que deixou alguns filhos na-
turaes. E registrara que, de sua lavra, sahiram
impressas, em Lisboa em 1785, as orações pane-
gyricas que havia recitado na festividade da Ma-
triarcha Santa Thereza de Jesus nos dias 15 e 17
de outubro do anterior anno de 1784.
VOL. I.
PORTUENSES ILLUSTRES
Porém, do padre Agostinho Rebello da Costa o
producto litterario que ainda hoje nos importa é o
livro que elle dedicou á descripção topographica e
histórica da cidade do Porto, a qual continua seu
titulo dizendo que contém a origem d'esta, sua
situação e antiguidades; a magnificência de seus
templos, mosteiros, hospitaes, ruas, praças, edifícios
e fontes; o numero dos seus habitadores, o seu
caracter, génio, costumes e religião que professam;
os appellidos das familias illustres que n'ella resi-
dem; o catalogo chronologico dos seus bispos; os
governos ecclesiastico, civil, militar e politico; o
nascimento do grande rio Douro, que a banha e
forma a sua barra; as producções da natureza e
industria que augmentam os ramos do seu com-
mercio e promovem as fabricas que tem estabele-
cidas; os privilégios, isenções e regalias que a
engrandecem. Isto e o restante compilado em obra
que, enriquecida, consoante se annuncia, com es-
tampas e mappas curiosos que a ornam, é, a
parecer critico raramente fácil no encómio, «esti-
mável no seu género, até pela circumstancia de
ser única.» Ella remata com a noticia dos homens
e das mulheres, illustres em virtudes, lettras e armas,
que da cidade do Porto são naturaes.
Está esta noticia disposta por ordem mlphabe-
PORTUENSES ILLUSTRES 3
tica; seus respectivos capítulos se repartem, para
os homens, pelos que se distinguiram pelas lettras
e pelos que se distinguiram pelas armas; para
as mulheres, pelas donas illustres em virtudes e
lettras; pelas distinctas ou em nobreza ou em mui-
tas prendas ; por aquellas, emfim, que assignalaram
acontecimentos raros.
O juiz a que acima me reportei archiva que,
não obstante seus merecimentos, no padre Agos-
tinho Rebello da Costa os escrupulosos lhe notam
a critica de pouco segura. Mas o que ellé é, em
compensação, a lanços, é abundante, de noticioso.
Pois que, se acompanharmos a seriação que
adoptou, tomando-lhe, na primeira de suas secções,
um numero, em cada zona da resenha, para amos-
tra, toparemos a cada passo com nomes suggesti-
vos, quaes logo o do sobranceiro António de Souza
de Macedo e o do humilde Balthazar Guedes,
aquelle operoso, este benemérito. Na copiosa e
deficiente lista, immediatamente se nos deparam
Christovão da Resurreição, cujas obras de linguista
e philologo quedaram manuscriptas; e Domingos
Freire, latinista; e Francisco de Sá de Menezes,
vate, auctor da Malaca conquistada^ poema heróico
acerca do qual José Maria da Costa e Silva affirma
que «pelo bem architectado de sua fabula, varie-
PORTUENSES ILLUSTRES
dade e bem sustentado dos caracteres, movimento
dramático, rica invenção dos seus episódios, formo-
sura de suas descripções e poesia verdadeiramente
épica, lhe cabe, de justiça, o primeiro logar entre os
nossos épicos, depois de Camões. »
De Gonçalo de Val-Bom, conta-nos o padre
Agostinho Rebeilo da Costa que, ministro geral de
toda a Ordem franciscana, eleito no Capitulo gerai
de Paris, onde morrera em 13 de abril de 13 13, elle
fora que facultara a João Duns Scoto licença de
receber as insignias doutoraes na Universidade
d'aquella cidade; e do infante Dom Henrique, o
seu enthusiasmo condecora-o «digno de senho-
rear o Universo.» Relembra a Jeronymo de Men-
donça como famoso soldado na infausta batalha de
Alcaçar, da qual escapara com vida e que escrevera
a historia d'aquella infeliz expedição. E ingénuo no
dizer o gabo com que exalça a memoria de D. Luiz
de Souza, que «foi o único ecclesiastico que até o
seu tempo ajuntou uma livraria escolhida. » Erran-
do-lhe o titulo da obra, diz do judeu Manoel
Aboab; e, Analisando com fallar do judeu Uriel da
Costa, discorre phantasiosamente que fora con-
strangido a escapar-se da sua pátria para fugir
«aos rigorosos castigos que os seus erros mere-
ciam » ; asseverando que « para maior disfarce »
PORTUENSES ILLUSTRES
mudara n'aquelle extranho seu primeiro lusitanado
nome de Gabriel da Costa, prodigalisa-lhe intole-
rantes injurias. Precedera-o na enumeração Vasco
de Lobeira, que fora «o primeiro auctor que escre-
veu historias fabulosas chamadas cavallarias an-
dantes, de que teve tantos imitadores.»
Esquecido é hoje do grande publico o bispo do
Porto, do Porto natural, D. Nicolau Monteiro, que
morreu nonagenario e que tanta parte teve nos
esforços feitos perante a Cúria Romana, no fito
de promover o reconhecimento de Dom João iv,
mediante as supplicas pelas egrejas de Portugal
alevantadas ao Summo Pontífice; e os mesmos
litteratos quiçá hoje que grandemente não prezem
as poesias de Pedro d' Andrade Caminha, no Porto
nascido, emulo hostil de Camões e auctor de per
si inédito por mais de duzentos annos.
Do jesuíta Simão de Vasconcellos, chronista da
sua Companhia no estado do Brazil; o historiador
brazileiro Varnhagen não duvida acoimal-o de cré-
dula c supersticioso; e, quanto ao franciscano
Raphael da Purificação, da província de Santo
António do Brazil, cuja regra professou no con-
vento de Paraguaçu, seu bizarro livro publicado
continua a passar entre nós como quasi desconhe-
cido, sem embargo do caracter encyclopedico a seu
PORTUENSES ILLUSTRES
labor conferido pelo nosso bom Agostinho Rebello
da Costa, que, chegando á vez do secular Thomaz
Pinto Brandão, o commemora, em melancholico
chiste, d'est'arte: «Poeta cómico, que viveu de
alegrar a gente e morreu de fome, assim ordenou
que se escrevesse na orla do seu retrato. »
Omissa já a descripção do Porto, cuja impressão,
no Porto, em a officina de António Alvares Ribeiro,
tem as datas de 1788-89, á enumeração agora resu-
mida cumpriria additar-lhe ainda os nomes que se
destacaram ulteriormente e até quasi nossos dias,
quaes os, p. ex., de Ahtonio Ribeiro dos Santos,
nascido em Massarellos ; de João Pedro Ribeiro, que,
natural da cidade do Porto, aqui morreu em 4 de
janeiro de 1839, contando mais de oitenta annos de
edade; do visconde d' Almeida Garrett. Para que não
indigitemos senão primaciaes. E Soares de Passos ?
E Júlio Diniz? Os promotores, os epígonos. . .
Mesmo na restricta zona moderna e modernís-
sima, feraz, se amontoa a colheita n"este solo,
todavia cioso de seus fruetos, que, em regra, cedo
reabsorve. Não quero fallar já de eruditos, como
um Diogo Kopke, um Eduardo Allen, um José
Gomes Monteiro; seus estudos e investigações nos
hão-de oceupar na sequencia d'este trabalho; não
alludo a artistas insignes, como qualquer um dos
PORTUENSES ILLUSTRKS 7
• dois Corrèas, um Silva Porto; ao seu homonymo,
o sertanejo benemérito, não me proponho óra refe-
rir-me; não menciono aqui já os músicos, quaes
um Miguel Angelo, um Cyriaco de Cardoso; limi-
to-me a lembrar-me da plêiade brilhante de novel-
listas e poetas, desde os dois Bragas, Alexandre,
causidico e tribuno, e Guilherme, jornalista e ora-
dor, Faustino de Novaes, Dias de Oliveira, Eduardo
Salgado, os dois Luso, Augusto e Henrique, até
os actuaes Kduardo Coimbra e António Nobre.
A geração litteraria do Porto, a partir de Garrett
chegante aos nossos dias, marca accentuadamente
em nossa mentalidade, consoante o registrou, no
pittoresco anedoctico, Alexandre da Conceição, em
as notas biographicas e criticas que, com motivo de
Custodio Duarte, expendeu n'um dos números da
Renascença, revista acuradamente no Porto publi-
cada.
Assim, a quem d'abundancia de coração reme-
more, a difficuldade deriva do excedente e o emba-
raço da escolha é o impedimento, de que uma
concatenada rasão d'ordem, não meticulosamente
chronologica mas insinuantemente entretecida, pôde
só lograr cabal triumpho.
Não me jacto sequer de me haver approximado
sensivelmente da meta da victoria. Para contenta-
8 PORTUENSES ILLUSTRES
mento subjectivo, basta-me, porém, a consciência
do tom lidimo do intuito. Os promotores, os epí-
gonos. . .
Visto como d'entre uns e outros, d'entre an-
tigos e modernos, d'entre gloriosos e obscuros,
lembrados e esquecidos, me proponho, na suc-
cessão de adequados capítulos, se succinta, indi-
viduadamente, discorrer. Imaginei-o.
E, quando o imaginei, pois que a precedência
legitimamente ás damas se deva, por uma antiga
illustre dama portuense nossas lembranças enceta-
ríamos.
Porém óra me suspendo. Temo-me de que
algum, mal-a visado ou inadvertido, taxa nos ponha
á nossa galanteria de canhestra e contrafeita. Por-
que rudes e toscos sejamos, como tripeiros que
somos.
E aqui já me detenho.
Tripeiros]
I
António Coelho Louzada
Affonso Bannes Pateiro — João Ramalho
p
orque será que, de mofa, os de fóra-Porto,
mormente do sul do paiz, e com especialidade de
Lisboa, chamam aos portuenses tripeÍ7'os? D'onde
lhes virá, a estes, o apodo?
Foi o que se propoz contar, com os alindados
e improvisos da ficção novellesca, o portuense An-
tónio Coelho Louzada no seu excellente livro Os
tripeiros, « romance-chronica do século xiv», o
qual, começado no Nacional, foi trasladado para
livro, « que se annunciou posthumo e completo,
como especulação" de livreiro, que desluz a reputa-
ção do auctor», o qual aliás em muito ganharia,
caso lhe houvesse sido d^do ultimar essa obra,
porquanto, sendo Louzada «um bo"m romancista»,
este de Os tripeiros « seria o romance que mais viria
a graduar-lhe o quilate do. seu muito engenho.»
IO PORTUENSES ILLUSTRES
As passagens que deixo entre as varias comas
pertencem a Camillo Castello-Branco ; de António
Coelho Louzada, o crítico da Revista Peninsular
escrevera que elle era «romancista, mas um ro-
mancista que estuda os costumes das epochas, que
observa a sociedade, nas suas crenças, na sua vida
intima, nas suas superstições e vicios. » Ajuntara:
«Estudando as tradições e lendas da antiguidade,
forma d'ellas o núcleo do romance, que mobila e
adereça depois, conforme os usos da epocha que
representa.» Concluirá: «Formado o seu estylo,
aperfeiçoado, sobretudo, o descriptivo, creio que
ha-de vir a ser um dos nossos mais portuguezes
romancistas. »
Morreu, porém, prematuramente. No anno de
1857, foi, pela empreza da Concórdia, impresso,
na typographia de António José da Silva Teixeira,
largo do Laranjal, n.° 4, o romance por seu auetor
António Coelho Louzada intitulado Na consciência,
titulo que responde á pergunta da novella famosa
de Camillo Castello-Branco Onde esta a felicidade?
E na capa doesse livro ahi se davam como no prelo
aquelle romance-chronica do século xiv Os tripei-
ros, bem assim uma collecção de contos: Como nos
divertimos? Annunciava-se que brevemente seriam
publicados um volume com a tradição Uma rainha
de Maldiva; outro, chuço; dois de Tradições, ro-
mances e narrativas, contendo : ultimo dos Baiões,
Affonso Valença, Historia de um convento, Uma
vingança, As jóias da coroa, etc; um tomo de
I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO II
versos, Contos, Reflexos c PJiafltasias; finalmente,
uns Contos do Minho.
Ambiciosas illusões ! Melancholisantes desen-
ganos !
De todo este prospecto chimerico estava publi-
cada já a tradição portuense A Rua Escura, im-
pressa, em 2. a edição, em a Typographia da Revista,
na rua das Hortas, n.° 71; e datado, de 1859, da
Typographia de R. J. O. Guimarães, rua de S. Do-
mingos, n.° 8, é o inacabado romance-chronica do
século xiv, Os tripeiros, cuja folha de rosto inscreve
a Typographia de J. J. Gonçalves Basto, largo do
Corpo da Guarda, n.° 106, e traz a data anterior
de 1857.
Devia, na verdade, resultar surtida bem, se
concluida fosse, esta linda novella de Os tripeiros,
que se vê baseada no capitulo 121 e seus convi-
sinhos iii, 112, da primeira parte da Chronica
de D. Jodo I, de Fernão Lopes, o nosso historia-
dor-poeta, consoante lhe chamou apropositadamente
outro grande nosso portuguez, que soube ser tam-
bém historiador e foi outrosim poeta, Alexandre
Herculano. O hábil comediographo lisbonense Au-
gusto Garraio, assim como para o theatro organisou
sargento-mór de Villar, «drama extrahido do
romance de egual titulo de Arnaldo Gama», assim
para leitura arranjou Os tripeiros, « drama histórico
de grande espectáculo, baseado no romance do
mesmo titulo do fallecido escriptor A. C. Louzada.»
Todavia, bastante longe chegara a impressão
12 PORTUENSES ILLUSTRES
do livro de António Coelho Louzada para o leitor
attingir o ponto do porque aos portuenses se lhes
ficou chamando os tripeiros y conforme consta do
capitulo x do lindo inacabado romance, o qual capi-
tulo se intitula Uma idéa; e idéa fora essa, graças
á qual Louzada, na completação licita á novellesca
phantasia, conta como d'essa iniciativa «os por-
tuenses davam o primeiro passo para obterem em
chrisma uma alcunha que tinha de durar séculos.»
Honrosissima chrisma aliás, em nobre timbre de
seus patrióticos e generosos sentimentos; e até, dos
alcandorados fastígios moraes descendo á olorosa
planura da esthetica culinária, não depreciativa dos
portuenses paladares, se por conclamada bitola,
qual a de Paris, sua preferencia a rasoirarmos, é
certo que nossa embofia perdendo, senão já a ini-
ciativa do prato, pelo menos o seu exclusivo.
Em 1867 achava-se em Paris o portuense Ra-
malho Ortigão; e em 1868 no Porto nos impren-
sava o relato do que lá o impressionara e lhe dera
para volume bastante, por o titulo mesmo Em Pa-
r
tis. E mais uma illusão perdida. Senão, releiam:
No fim de contas, a cozinha portugueza, tão decantada
por bons engenhos, que eu muito venero, é como a dança por-
tugueza e a musica portugueza; três coisas que estão por
crear.
As comidas usadas hoje em Portugal e não usadas em
França são as que lá se comiam ha duzentos annos e que
depois foram desterradas pela delicadeza do gosto ou pelos
preceitos da hygiene.
I — LOUZADA — EANNBS PATEIRO — JOÃO RAMALHO 13
Fallam-nos da orelheira com feijão branco! Mas, senho-
res, nada mais vulgar do que isso nos pequenos gargots de
Paris. A cabeça de porco come-se aqui por toda a parte, e é
velha e revelha n'estas paragens a combinação dos feijões
brancos, conhecidos pelo nome de jlageolets, em resultado
d'uma figura que Francisco Manuel do Nascimento teria muito
gosto em explicar em uma das suas notas mais dcsabugacha-
das e que Agostinho de Macedo chuchurrubiaria com agrado
em uma das suas menos indecentes barafustas litterarias.
As próprias tripas portuenses, em cuja nacionalidade mais
alguma fé eu tinha por se achar filiada a historia cTellas á his-
toria d'uma das expedições portuguezas para as conquistas do
ultramar *; as tripas portuenses, das quaes o meu antigo
amigo Vieira de Castro, jantando uma vez com migo em uma
casa do Porto, me dizia, discriminando, com uma colher de
servir a sopa, o conteúdo d'uma terrina posta entre os nossos
talheres: — « Isto é um jantar inteiro n'um tomo só: aqui temos
sopa, vacca, arroz, ba atas, chouriços, gallinha, ccnoiras, mão
de boi e pé de porco....; no fundo da terrina vem, natu-
ralmente, o entremet e a sobremeza, um naco de podim de
pão com passas, uma talhada de melancia e um marmelo
de calda para cada um » ; — as tripas, digo eu, aqui se fazem
* N'este lanço Ramalho Ortigão nêo é exacto ; a expedição por-
tugueza a que allude não foi para as conquistas do ultramar ; foi a
da frota que o Mestre-de-Aviz mandou buscar em ajuda aos do Porto,
para ir acudir aos de Lisboa, cercados pelo rei de Castella, e que os
do Porto enviaram, com effeito, aos de Lisboa, em auxilio, de toda a
casta, dinheiro, gente e com gado e provisões de bôcca ; ó magnifico
o capitulo onde Fernão Lopes, depois de ter contado como a frota do
Porto chegou a Cascaes, relata como foi sabido pela Cidade que a frota
vinha e do que as gentes por isso faziam ; está na pag. 235 da primeira
edição, apezar, o velho eloquente chronista o confessa, da difticuldade
litteraria em idoneamente o fazer ; pois, quando soou, foi sabido por toda
a cidade, de quanto cuidado e esperança foram cheios os corações dos mora"
dores d'ella não é leve de duer.
14 PORTUENSES ILLUSTRES
tão realmente como na minha terra. E d'isto dou parte
áquelles dos meus patrícios que desmedram em Paris, es-
tranhando os comeres. Xa rua Mazagran, á esquina da rua
de V Èchiqtiicr, ha uma taverna; á porta da taverna uma loisa;
escripta na loisa, com tinta branca, a designação dos pratos
do dia e o seu respectivo preço. Ora bem : quando na dita loisa
encontrarem, entre um eivei e uma maieiioie, estas palavras: —
tripé à la lyannaise, preparem o appetite e entrem á hora do
jantar. Lambert Thiboust, o celebre auetor da Corde setisible
e das Filies de marbre, um dos mais engraçados escriptores e
um dos rapazes mais sinceramente bons que eu tenho conhe-
cido, morava defronte de mim em Paris e raramente deixava
de ir comer á esquina da rua quando as tripas figuravam na
lista dos manjares exposta na loisa a que me referi.
Não obstante, o petisco portuense, para os por-
tuenses redundou em desprestigio. « Tripeiros » se
lhes ficou chamando em desfavor; syntheticamente,
á cidade do Porto, nas horas rancorosas, lhe cha-
maram A Tripa.
Aquelle Agostinho de Macedo a que se referiu
Ramalho Ortigão denominou A Tripa virada uma
das suas mais indecentes barafustas litterarias,
simultaneamente uma de muitas torpes palinodias
politicas. Depois da sua iniciativa revolucionaria
tripeira de 1820, o béjense José Agostinho de Ma-
cedo, na reacção absolutista de 23, rejubila, mo-
fando, em mente da defecção militar deduzindo
sonhada retractação civil collectiva, e dá-se á publi-
cação historial do periódico hebdoma^ario de A
Tripa virada, de que sahiram só os três primeiros
números; mas no mesmo 1823, e na mesma zom-
f
I — LOUZADA — EANNRS PATEIRO — JOÃO RAMALHO 15
beteadora officina (da «Horrorosa Conspiração»)
imprimiu, designado por Innocencio como opúsculo:
Tripa por uma vez: livro primeiro e ultimo (n. os 4
e 5). No n.° 1, pag. 9, marcava seu intuito já
no discurso de irrisão, em o Oriente maçónico
fazendo, de chacota, alludir o orador ás «manobras
feitas na Cidade das Tripas», a qual, incongruente,
acompanhando os cabos de guerra virados, viraria,
quedaria Tripa virada, ella, a «cidade regenera-
dora. »
Era um desequilibrado este energúmeno, de
quem se deve ter compaixão, como de todos os
que soffrem; no physico e no moral, elle padeceu
atrozmente. No n.° 16 do seu periódico, politico e
moral (sic), de Desengano, encontra-se o trecho
seguinte, que, consoante o frisou Innocencio, con-
tracta singularmente com as idéas e doutrinas san-
guinárias espalhadas por todo elle: «Eu sou for-
mado pela natureza de um modo tal que em dia de
execução de pena ultima, seja o réu qual fòr,
porque o delicto não lhe fez perder a qualidade de
homem, o coração me bate de outra sorte e uma
horrível contorsão me sacode os membros todos;
nem o necessário alimento posso tomar ! . . . » Mas
com que ódio este padre folliculario fallou dos tri-
peiros, enforcáveis e enforcandos, enforcados e para
enforcar !
Recapitulando ab ovo, algo aos tripeiros do
Porto se lhes devia. Em seu capitulo vi (Causa
publica e cousas particulares), ao synedrio medie-
l6 PORTUENSES ILLUSTRES
vico dos bons homens do Porto António Coelho
Louzada lhe applica a interessante theoria dos
grandes effeitos oriundos de pequenas causas:
Um dos patriotas segredava três palavras ou quatro ao
ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras
tantas, os homens negros traçavam algumas lettras e alga-
rismos, que liam em voz alta, e de tudo isto sahia, pódc-se
dizer, a Milheiro,, a EstreUa e a Sangrenta, o levantamento
do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e — quem
sabe? — a salvação e civilisação da Europa. Se julgam para-
doxal a ultima parte, provem como sem os donativos d'aquelles
bons-homens se acudiria ao Mestre, se este não se veria
obrigado a tornar real o fingido embarque para Inglaterra,
se, simples João Pires, casaria com a exemplar filha de João
de Ghaunt, se haveria quem formasse um viveiro de nave-
gantes tão destemidos, arrojados, para devassar a costa de
Africa e penetrar na Ásia pelo Oceano, como o infante D.
Henrique; como, sem o corte dado n'aquellas paragens ao
poder ottomano, se lhe sustaria a carreira victoriosa dos seus
estandartes, que chegaram a tremular junto dos muros de
Vienna, na costa da Itália, na Hungria e na Bohemia, que
pendiam, bafejados pelas tépidas aragens de Aljidireh, na
Arábia, e açoutavam os ares, impellidos pelos ventos gelados,
na Polónia, se espalhavam nas aguas do Mediterrâneo, no Mar-
Negro, no golfo Pérsico e no Oceano, e acobertavam os recebe-
dores de páreas até ao Dekan.
Assim dos Tripeiros na era remota.
Mas, modernamente, de tudo olvidado, aos tri-
peiros ó padre José Agostinho de Macedo não lhes
perdoava.
E, todavia, elles não eram (mesmo d'esscs réus
do crime de lesa-magestade da primeira cabeça, por
I — LOUZADA — EANNKS PATEIRO — JOÃO RAMALHO 17
quererem a egualdade civil e a liberdade politica)
elles não eram, de todo em todo, maus, não. Nem
sequer tão maus como o seu predilecto acepipe das
tripas, que é indigerivel. Não ganha com que o snr.
Lambert Thiboust em Paris em 1867 o apreciasse
sob a designação de tripé à la lyonnaise, n'uma
taberna da rua Mazagran,. á esquina da rua de
VEchiquier. Em 1891, em Paris, no canto de uma
estalagem da rua de Trévise, quasi á esquina da
rua Richer, no meu primeiro almoço luteciano de
foragido, esse indigerivel petisco m'o serviram de
entrada. Somente chamava-se-lhe tripé à la mode
de Caen. Mas sem os condimentos encomiados por
Vieira de Castro. Nada de chouriço, nada de galli-
nha, mão de vacca ou pé de porco. Nada. Nem
batata nem cenoiras. A tripa, n'um molho amarello
pegajoso, tout court, só e simplesmente. Ã la mode
de Caen.
As pacificantes comparações! As inesperadas
attenuaçòes! Na saudade da pátria prohibida, subi-
tamente a pátria me apparecia, sob a forma de
meia-dobrada, ainda uma vez indigesta. . .
Mas, se o presente nos desanima, que o passado
nos reconforte. E persuasormente beilo, com effeito,
é esse momento de idealidade e confiança da alma
VOL. I. i
l8 PORTUENSES ILLUSTRES
portugueza. Á iniciativa de Lisboa efficazmente lhe
assistiu a collaboração do Porto. Eis aqui, dos do
Porto, um humilde-illustre, cujo nome e feitos a
António Coelho Louzada bem na admirativa mente
lhe andavam. De João Ramalho quero fallar.
Que, como fora lançada voz pelo Mestre de
Aviz na cidade do Porto, Fernão Lopes o diga no
cap. 48 da primeira parte da chronica respectiva; e
assim foi, consoante o diz:
Deveis de saber que, tanto que o Mestre tomou
cargo de Regedor e Defensor dos reinos, e soube
que el-rei de Castella vinha com seu poder para
entrar n'elles, logo escreveu suas cartas a algumas
villas e cidades, bem assim a certas pessoas, notiíi-
cando-lhes n'ellas como bem sabiam do modo e
maneira em que estes reinos estavam, em ponto
de se perder, e como el-rei de Castella vinha para
os tomar, e metter os povos d'elles em sua sujeição,
contra ordenança dos tractados que promettidos
tinha. Coisa esta era que se devia ter por tam
grave e tam estranha que antes todos se deviam
aventurar a morrer sobre tal demanda do que
cahir em servidão tam odiosa. E que elle, por
honra e defensão do reino e dos naturaes d'elle, se
dispuzera a tomar carrego de o reger e defender, o
que, com a graça de Deus, entendia levar adeante,
com a sua bôa ajuda d*elles. Portanto, lhes rogava
que todos, de bom coração, como verdadeiros por-
tuguezes, tivessem voz por Portugal e não atten-
dessem a quaesquer cartas que porventura a
I — LOUZADA — EANNBS PATEIRO — JOÃO RAMALHO I9
rainha e el-rei de Castella, d'lsto em contrario,
mandassem.
Entre os logares a que seu recado chegou, foi
a cidade do Porto, «onde suas cartas não foram
ouvidas em vão.»
Antes, apenas vistas foram, concordaram muito
prestes e logo se ajuntaram todos, especialmente o
povo meudo; mas alguns outros d'essa natural
gente, duvidando, receavam muito de pôr em tal
feito mão.
Então aquelles que chamavam arraia meuda
disseram a um, por nome chamado Álvaro da
Veiga, que levasse a bandeira pela villa e voz
lançasse em nome do Mestre de Aviz.
Elle, porém, recusou leval-a, mostrando que o
não devia fazer; logo foi chamado traidor e que
era do partido da rainha, e tantas cutiladas lhe
deram e com tanta vontade «que era sobeja cousa
de vêr estar morto. »
Não se fez mais n'aquelle dia; mas juntaram-se
todos no outro seguinte, com sua bandeira esten-
dida na praça, tendo ordenado que a levantasse um
bom homem do logar, a quem chamavam Affonso
Eannes Pateiro. E, se a levar não quizesse, que o
matassem logo, como o outro.
Affonso Eannes, como dMsto teve noticia por
alguns d'elles que eram seus amigos, logo bem
cedo, pela manhã, primeiro que o convidassem
para tal obra, foi-se á praça da cidade, onde já
estavam todos juntos, para a trazer para o logar.
20 PORTUENSES HXUSTRES
E, antes que nenhum lhe dissesse que a levantasse,
deitou elle mão da bandeira, clamando em altas
vozes, que o ouviram todos: Portugal, Portugal,
pelo Mestre de Aviz.
Então cavalgou Affonso Eannes em riba de um
grande e formoso cavallo, que para isto já alli
estava a ponto, trazendo-a mui honradamente por
toda a cidade e acompanhado de muita gente, tanto
clérigos como leigos, bradando, todos, a uma voz:
Real, Real, pelo Mestre d' Aviz, Regedor e Defensor
dos Reinos de Portugal,
E, andando assim pela cidade, fòram-se onde
grandes tempos havia que, estando posto inter-
dicto, não enterravam nenhum; e começaram de
tocar os sinos e fazer dizer missas e desenterrar os
mortos onde jaziam enterrados e trazel-os para
dentro da egreja; e pessoa alguma ousava con-
trarial-o.
Pregou então um frade, muito a propósito, de
sua intenção, concluindo que todos deviam ser
unidos em uma só vontade e desejo e não andar
entre elles discórdia nenhuma, mas sim servir o
Mestre lealmente e de bom coração, como verda-
deiros portuguezes, pois que se punham a defender
o reino para o livrar da sujeição d'el-rei de Castella.
Muito ficaram todos contentes das rasões que o
frade pregou; e d'ahi em deante nenhum desaccordo
houve entre elles, mas todos, de um talante, se dis-
puzeram a ter e seguir a tençam do Mestre. Assim
com Lisboa plenamente se conjugou o Porto, em
I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO 21
harmonia perfeita; e a Schaefer, historiador allemão
das coisas de Portugal, por sua importância irrefra-
gavel, não se lhe escapa o frisar, de passagem, que
o Porto prestes desfraldou estandarte em prol do
Messias de Lisboa.
Com a cidade de Lisboa a cidade do Porto tinha
mystica correspondência, viria a dizer em 1742
António Cerqueira Pinto, que era da freguezia de
S. Miguel de Godim, concelho de Basto, próximo
da villa de Amarante, não do Porto, como alguns
julgaram e rectifica Innocencio.
O mérito do Porto, então, como o de Lisboa,
estava no sacrifício perante o perigo, o qual não
era tam pequeno.
Porque, emfim, pelo rei de Castella, que prose-
guig. sua empreza com fraca resistência, tractando
de pôr cerco a Lisboa, estavam á sua devoção,
pela conta do que o e a conta, na Extremadura:
Santarém, Torres-Novas, Ourem, Leiria, Montemor,
Vimieiro, Feira, Penella, Óbidos, Torres-Vedras,
Alemquer e Cintra; em Entre-os-Rios Tejo e Gua-
diana : Arronches, Alegrete, Castello de Vide, Crato,
Amieira, Monforte, Moura, Nondal, Mertola e Al-
meida; em Entre-os-Rios Douro e Minho: Braga,
Guimarães, Neiva e Lanhoso; em Traz-os-Montes:
Bragança, Vinhaes, Canas, Monforte, Montalegre,
Mogadouro, Mirandella, Alfandega, Lamas e Villa-
Real; na Beira: Castello-Rodrigo, Almeida, Sabugal,
Monsanto, Penamacor, Guarda, Covilhã, Celorico e
Linhares. E, ao fim e ao cabo, a maior parte da
22 PORTUENSES ILLUSTRES
reino, seguindo «o melhor direito», que tal era el
de Castilla, em hespanhol escreve o portuguez Ma-
nuel de Faria e Sousa (Epitome de las historias
portuguesas, terceira parte, cap. xi).
Lisboa-Porto !
« Uvo admirables y varias hazanas. Armo el
Maestre galeras en Lisboa, passaron d Porto para
juntarse con los navios que alli se avian aprestado.
El enemigo cerco la ciudad por mar y por tierra;
entretanto, los portugueses salieron para pelear con-
tra los gallegos, capitaneados por don Juan Manri-
que, arcebispo de Santiago, que se retiro, descon-
tento, dei sitio, con que pensava oprimirlos. »
Hora de sobresalto e de confiança, de ardor e
enthusiasmo.
E de contar.
No cap. 180 da impressão de 1644 da primeira
parte da Ckronica d?el-rei D. Joào I, Fernão Lopes
relata-nos, resumidamente, Como os do Porto toma-
ram o castello de Gaya e o derribaram.
Foi o caso que da mão do conde dom Gonçalo
tinha Ayres Gonçalves de Figueiredo o castello de
Gaya, e n'elle estava sua mulher, com alguns escu-
deiros e homens de pé por guarda. Estes, taes e
I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO 23
tantos, pelas aldeias de a redor faziam tam má
visinhança, de roubar e tomar á força as cousas de
que vontade tinham, que todos eram d^lles muito
aggravados.
Nutriam os do Porto d'isto grande resentimento
e desejo de o vingar, como o pudessem fazer bem.
Assim os factos e d'esta còr os ânimos, um dia
veio que a mulher de Ayres Gonçalves mandou
pedir certas cousas a uma aldeia, que lhe man-
dassem para ella e para aquelles que comsigo esta-
vam. Os moradores do logar, porém, contradisseram
de o fazer, dizendo que, ainda que aquelle castello
tivesse voz por Castella, d'elle peor visinhança não
haveriam recebido do que aquella que téli recebido
tinham; e não lhes quizeram consentir que levassem
aquillo que elles levar queriam.
A mulher de Ayres Gonçalves, quando lhe com
este recado chegaram, «com pouco siso e grão
queixume» foi -se áquella aldeia e levou com ella
quantos com ella tinha, por tomar vingança d' elles
e trazer tudo o que lhe viesse á vontade.
Mas os da cidade, logo que isto souberam, jun-
taram-se logo todos, e foram lá, e tomaram o cas-
tello, e roubaram-o de quanto n'elle tinham, derri-
bando o muro e torres, e de tudo ou o deitavam
fora ou o levavam.
Para os portuenses, rude mas jubilosa quadra
de combatividade essa!
Pois quando elles estiveram cercados dos galle-
gos. . .
24 PORTUENSES ILLUSTRES
Foi que, tendo sitiada el-rei de Castella Lisboa
e estando por elle bastos logares de Entre-Douro-e-
Minho, ajuntou-se dom João . Manrique, arcebispo
de Santiago, com muita gente de castelhanos, para
correr e destruir toda aquella comarca que voz
tivesse pelo Mestre. Traziam todos os capitães in-
vestidores até setecentas lanças e dous mil homens
de pé, todos gente escolhida e bem postos para
pelejar.
Estando o arcebispo em Braga com suas gentes,
deitando-se pela terra a roubar e a fazer todo o mal
que podiam, houveram conselho em que maneira
fariam guerra, o mais a seu salvo que podessem e
com maior ganho e vangloria, de cujas resultas
procedeu o começarem de andar seu caminho pela
estrada de Guimarães e chegarem, ao meio dia, á
beira do Porto ; pousaram seu arraial onde chamam
S. Romão, « que é meia légua do logar e alli come-
ram e folgaram.»
Quando os da cidade souberam como os caste-
lhanos estavam n'aquelle sitio e a vontade com
que vinham, já marcada na cúria feita em Braga,
onde logo alguns propuzeram que se viessem ao
Porto, a cercal-o por uma parte, e seu arraial fosse
posto á Porta do Olival, deixando conselho, traba-
lharam, havido de todos seu accordo, logo de se
armar todos á maior pressa que puderam. E, sendo
elles todos prestes com grande esforço e vontade,
sahiram todos fora e fòram-se aposentar ao chafariz
de Mija- Velhas, «que é pequeno espaço da cidade,
I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JO A O RAMALHO 2 5
que, porque não eram encavalgados e era já sobre
a tarde, não ousaram de ir mais longe.» Alli os
aguardaram e, quando viram que não appareciam,
tornaram-se para a cidade e não se fez mais por
então.
No outro dia, de madrugada, armaram-se todos
e sahiram pela Porta do Olival, porque ouviram
dizer que d'aquella parte queriam vir aquellas gen-
tes, e foram-os aguardar por grande espaço e longe
da cidade. N'isto, estando elles alli, chegam as galés
de Lisboa, «todas apavezadas e bem corregidas,
com grande alegria, dando ás trombetas, dizendo
suas saudações, como é costume de mareantes.»
E os das galés, mal chegaram e lhes disseram
como os da cidade sahiram para pelejar com
aquellas gentes, sem outra tardança nem mais
espaço puzeram logo as pranchas fora e saltaram
todos em terra.
Quando os gallegos ouviram dizer que as galés
de Portugal haviam chegado, e como as gentes
delias estavam juntas com as da cidade, muito
lhes pezou de taes novas; porém, porque eram
certos de que os do logar não eram encavalgados,
deixaram-se estar de socego.
Decidiram então os portuguezes ir ter com elles
e moveram-se todos no caminho de Paparanhas
com suas bandeiras deante; e, indo assim regidos
em batalha, com grande vontade de pelejar, viram
quatro ginetes da parte dos gallegos. Como os
viram ir d'aquella guisa, deram logo volta e disse-
26 ' PORTUENSES ILLUSTRES
ram, ao arcebispo e aos outros, que já surgiam no
viso de Paparanhas. Então cavalgaram todos aço-
dadamente e passaram a agua de Leça e puze-
ram-se acima da ponte do rio em um alto logar,
forte de geito que nenhum lhe podia fazer damno
nem passar por aquella ponte sem muito a seu
detrimento. Chegara a noite, nada se adeantando e
nada adeantaram mensagens.
Mas depressa a noite se foi gastando, porque
era o mez de Maio. Na alva da manhã, tanto que
alvoreceu, eis os gallegos que estavam já todos
prestes, assim os de cavallo como os de pé.
Os portuguezes, quando isto viram, buscaram
logar por onde passassem e, não o achando, hou-
veram de se metter por uma brenha muito espessa;
porém deitaram n'ella muitos paus e muitos ramos
d'arvores, e começaram por alli de passar o melhor
que puderam, até trezentos, entre besteiros e de pé
e alguns de cavallo, e com elles um cidadão do
Porto, que os acaudilhava, que chamavam João
Ramalho.
Os gallegos, quando viram que elles passavam
por logar tam mau, maravilharam-se e cuidaram
em dar n'elles rijamente de volta e assim os desba-
ratarem.
Mas os portuguezes entenderam-lhes a idéa
e foram-se mais a fundo buscar outro melhor ponto
por onde fossem todos juntos. Antes, porém, que
passassem, os gallegos, de cavallo e de pé, todos
em tropel, vieram dar mui rijamente n'aquelles pou-
I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO 27
cos que já .eram da parte cTalém. Sem embargo, os
portuguezes não dispersaram, antes tiveram-se
todos juntos, e começaram de se ferir de vontade;
mas os besteiros magoavam mui mal os gallegos,
de guisa que á força se viram coagidos a affasta-
rem-se afora.
Fallou então o arcebispo aos seus e disse-lhes:
« Amigos, parae mentes como estas gentes vêem a
nós assim como homens que não temem a morte;
e certamente grave cousa seria e não me parece
rasão havermo-nos de embaralhar com elles. »
Então concordaram todos n'aquillo que o arce-
bispo dizia.
Moveram e fòram-se logo, «indo alguns por-
tuguezes a geito d'elles, ladrando-os » , escreve
Fernão Lopes, que é uma mina inexgotavel de
expressões magnificas, o prosador poeta em annos
de poesia.
Deu parte dos gallegos volta; foi morto um
portuguez. Então, aguardaram aquelle dia e a noite
seguinte, pensando que seus inimigos faziam aquillo
com arte e que, porventura, tornariam a elles.
«E elles, depois que souberam que eram muito
alongados, tornaram-se para a cidade, com muito
prazer. »
28 " PORTUENSES ILLUSTRES
E não se amortiguaram os brios guerreiros da
terra tam prestes; para romanescas aventuras até,
cidade tam positiva e, de sempre, pratica no negocio
serviu de ponto de partida e apparelhou seus filhos,
qual esse famoso par, da proeza fabulosa dos Doze
de Inglaterra, por uma alcunha té hoje famosissimo.
,11
O «Magriço»
A
seus compatrícios, do portuguez em dema-
sia despolpando o vocábulo, que traduz para « O
Descarnado», (Lc DécJtamé), Ferdinand Denis, ao
valente portuense o faz nascido na villa de Pene-
dono, em a província da Beira, districto de Pinhel,
dando-o, exactamente, por filho d'aquelle que o lei-
tor conhece, Gonsalo Vás ou Vasques Coutinho, sé-
timo senhor de Leomil e de numerosos territórios
que devera á munificência de Dom João i, com o
titulo de marechal ,do reino. Talentoso e escrupu-
loso, ralho de que Ferdinand Denis, sem embargo,
se descuide de óra em vez (indignor quando que
bónus dormitat Homerus). Consoante, p. ex., aqui
•■ — Nouvelle biographie gênêrale — quando, além
d'outra obra nossa lusitana, como fonte de infor-
mação cita a Europa Portugueza, que attribue a
3© PORTUENSES ILLUSTRES
Manuel Severim de Faria, o douto auctor dos Dis-
cursos vários políticos, apezar de que sahiu, com
effeito, da penna incansável de Manuel de Faria e
Sousa, não tão só da Europa como da Ásia e da
Africa Portuguezas indiscreto compilador.
Rememora Ferdinand Denis que é vulgarisada
pretensão a de que Álvaro Gonçalves Coutinho, o
Magriço, fora um dos doze chamados de Inglaterra,
que todos, no fito do desaggravo das britanfiicas
damas offendidas, se embarcaram n'esta cidade do
Porto, com excepção d'elle Coutinho, o qual prefe-
riu pôr-se a caminho por terra, promettendo estar
em Londres ao mesmo tempo que seus companhei-
ros d'armas. Ferdinand Denis opina que é nos
Lusiadas que cumpre lêr a historia do Magriço e
de seus ousados consócios; e addita que a lenda
affirma que, após o combate, e como quer que
as damas tam afortunadamente vingadas apresen-
tassem aos cavalleiros jarra e bacia a se lavarem,
Coutinho recusara honra tal, fazendo observar que
suas mãos eram em excesso cabelludas .para que
elle permittisse a delicados dedinhos o derramar
sobre ellas uma agua perfumosa; mas que a bella
lady, allegando o seu vivo reconhecimento, não
consentira em recusa tal. Deitou-lhe, pois, agua ás
mãos, « nas quaes (esmiuça Védouro) elle tinha tam
compridos os cabellos que lhe cobriam os dedos.»
Commenta Ferdinand Denis que aquellas minú-
cias, perfeitamente dignas do Amadis ou do Pal-
meirim d' Inglaterra, não impediram, todavia, um
II — O «MAGRIÇO» 31
historiador sério, o conde da Ericeira, de considerar
como infinitamente provável o combate dos doze;
Faria ia mais longe e affirmava haver tido em seu
poder documentos antigos que não deixavam duvida
acerca da alevantada proeza.
Que tem, na verdade? Á primeira vista parece,
pois praxe era dos tempos. Esquece acaso o exem-
plo dos sete cavaUeiros francezes que combateram
a todo o transe cerce de Bordéus contra sete ca-
valleiros inglezes, a 19 de maio de 1402, em prol
da honra da sua nação? Pois um d'esses cavaUei-
ros francezes (Pedro de Brabante, por alcunha O
Pisca, almirante de França) veio a pelejar, em abril
de 141 5, com o cavalleiro portuguez Álvaro Cou-
tinho, por alcunha Magriço, filho do marechal
de Portugal.
Modernamente, porém, distincto escriptor lusi-
tano, Pinheiro Chagas, no artigo respectivo do
Diccionario Popular sob sua direcção, não enten-
deu mal que se exarasse que Álvaro Gonçalves
Coutinho heroe portuguez era cuja physionomia é
meio legendaria, podendo apenas deduzir-se do que
d'elle contam as historias que foi um dos mais
aventurosos entre os cavaUeiros do tempo de D.
João 1, que encheram a Europa com a gloria das
suas façanhas. «A historia séria, que não pôde
acceitar senão como uma lenda cavalheiresca o
celebre caso dos doze de Inglaterra em que repre-
senta o Magriço um papel principal, tem de collocar
n'um plano muito secundário este cavalleiro aven-
3.2 PORTUENSES ILLUSTRES
tureiro, que (por similhantes palavras remata o
artigo do Diccionario Popular) não teve a boa for-
tuna de conquistar, como Soeiro da Costa ou
Álvaro Vaz de Almada, titulos mais sérios á consi-
deração da posteridade.»
Não obstante, é de saber que, discorrendo, no
livro decimo quinto de seus Ana/es de F landes
(tomo ii, Anvers, 1624), Manuel Sueyro — referen-
temente aos annos de Christo de 141 1 — dos bene-
fícios que á província dava o commercio dos por-
tuguezes, relata como assim entendera o duque,
pelas relações de Godofredo Wilde, recebedor geral
d'aquelle Estado e de Artois e Malines (confirman-
do-o depois nas suas o successor João Vytenhohe),
que quem lograva com isso o maior aproveito era
a cidade de Bruges, pois alli residia essa nação.
Com funccionario hábil, qual Pedro Boudins, seu
conselheiro, se informara o príncipe, como com
pessoa intelligente e pratica ; e, com o parecer d'este
e dos quatro membros, e particularmente pela inter-
cessão (que assim o declara) do cavalleiro Álvaro
Gonçalves Coutinho, gentil-homem de sua cantara,
que tam agradáveis, bons e notáveis serviços lhe
liavia feito, com o sete grande valor, nas jornadas
de Paris e Saint Cloud, contra o que se intitulava
Duque de Orléans c outros seus alliados e adher en-
tes, rebeldes e inimigos do rei, concedeu aos homens
de negocio, mestres de navios, marinheiros e súbdi-
tos do reino de Portugal os privilégios, tomando-os,
e a todas as suas fazendas, em sua protecção. As
II — O «MAGRIÇO» 33
duas columnas da pag. 98 do tomo citado são
cheias da especificação d'aquelles privilégios. O di-
ploma se passou em Gand, a vinte e seis de dezem-
bro, confirmando-o, por ordem do pai, o conde de
Charolais, e o conselho, em que assistiam os senho-
res de Mompreux, Coolscamp, o cavalleiro Gui-
lherme de Halewin, o senhor de Chantenelle, os
conselheiros Simão de Fourmellis, Daniel Alberto,
Jacques de La Tannerie, António de Wissoc, Theo-
dorico Le Roy, Dino de Rapundis, Roberto de Ca-
ples, João de Ogierland e outros ; « ay tambien otros
puntos favorablcs á los Portugueses, cn que me alar-
garia muchOy si todos se huviessen de escrivir. » Por
este teor impetra vénia do resumo o diffuso Sueyro.
EUe de valentias de Álvaro Coutinho blasona,
consoante mesmo no caso de quando o conde de
Dorset nos torneios e festas propuzera o desafio de
três fidalgos portuguezes, que eram Pedro e João
Gonçalves, conjunctamente com nosso excedente
Álvaro Coutinho, a quem Monstrelet, em sua his-
toria, estraga a graça, chamando-lhe o senhor
Alenron, corrompendo por tal geito o nome que
topara no manuscripto de João, senhor de Saint-
Rémi, primeiro rei d'armas da Ordem do Tosão; a
Manuel Sueyro a communicara Philippe de TEspi-
nay, visconde de Touraine e arbalisado ministro da
cidade de Gand.
Ora, insaciável, apezar de todos três haverem
mostrado em Inglaterra o seu valor, servindo
áquelles reis, que honravam a nação confederada e
VOL. I. >>
34 PORTUENSES ILLUSTRES
amiga, Álvaro Coutinho havia tido, poucos dias
antes, outro desafio na cidade de Bar, segundo
nol-o aponta Sueyro, discreteando concernente-
mente ao anno de 1 5 1 5 ; fora com Clignet de Bra-
bante, assim chamado, almirante de França, cujo
apodo Sueyro transcreve, sem cuidar, n'uma mera
graphia imitativa: Cligneto de Breban. Do combate
Coutinho sahira com muita honra. O adversário foi
Pedro de Brabante, por alcunha Clignet, como quem
dissesse Pisca, almirante de França, senhor de
Landreville. Occupando-se d'elle, A. de Sauzay, que
em 1866 era conservador adjunto ao museu dos
Soberanos, no Louvre, appoiava-se na Historia
genealógica da casa de Faudoas e na Historia ge-
nealógica e chronologica dos grandes officiaes da
coroa, de Anselme. E acabava a sua noticia pondo
entre comas uma transcripção que diz que Pedro
de Brabante, denominado Clignet, almirante de
França, «no mez de Abril de 141 5, teve um com-
bate singular contra um cavalleiro de Portugal na
cidade de Bar-le-Duc. » Este precioso achado au-
thentica a fé na seriedade da informação de Sueyro.
Hoje pouco nos importa a honra do triumpho, que
a transcripção reclama para o almirante de França.
Mas que seja para o Magriço.
Outrosim muita honra a ganharam os lusitanos
Ruy Mendes, cavalleiro de grande animo e forças,
em o prélio que teve, no palácio de Saint-Pol, com
Guilherme de Bars, gentil-homem bourbonez, e
Diogo d'Oliveira na pugna que sustentou com
II — O «MAGRIÇO» 35
outro fidalgo de Bretanha, que chamavam Gui-
lherme de la Haye. Refere a ambos estes desafios,
como testemunha de vista, o senhor de Saint-Rémi,
cuja auctoridade é bastante, pela que se deve dar
em similhantes casos (assim pondera Sueyro) aos
reis-de-armas, e de mais a mais a este "que foi o
principal. Pode-se crer (Sueyro averigua) que o Ruy
Mendes foi aquelle que chamaram de Cerveira, « um
dos doze que defenderam em Londres as damas
inglezas. » O arcebispo de Reims, na historia do rei
Carlos Sexto, fallara dMsto; e o senhor de Audi-
guier, no livro que imprimiu, em o anno de 1617,
do antigo uso do duello, dedicado ao rei de França,
tractava largamente do desafio dos três e do de
Guilherme de La Haye, se bem que não soube o
nome de Diogo de Oliveira.
Assim, pois, pela reputação que tinham os por-
tuguezes, escolheram os francezes, entre todos, a
Francisco de Grinaulx, Marignon de Soignac e Ar-
chibaldo de La Roque. Marcou-lhes campo o rei,
junto a seu palácio de Saint-Audon. Fazia-se o
combate a pé com hacha, espada e adaga, quando
João Gonçalves (se já não foi Ruy Mendes o ter-
ceiro, como diz o senhor de Saint-Rémi, porque
Monstrelet põe ao Gonçalves), apertando a La
Roque, que lhe furtou o corpo, cahiu de joelhos,
com que lhe foi força render-se ao dito, que acudiu
a Marignon de Soignac, que pelejava com Pedro
Gonçalves, a quem renderam os dois, que deram
sobre Álvaro Coutinho, assistindo a Francisco
36 PORTUENSES ILLUSTRES
Grinaulx; defendeu-se dos três um grande espaço,
até que, agarrando-lhe do braço Marignon, e carre-
gando os companheiros, o derribaram. Porém, per-
guntado depois : a qual dos francezes se liavia ren-
dido} respondeu que a todos três. E, verdadeira-
mente (conclue, consolando-se, Sueyro), alcançou
n'aquelle dia, não obstante sua desgraça, grandís-
sima honra, pois muitos o julgaram pelo mais valo-
roso d' entre os seis, que assim mesmo com idênti-
cas palavras o escrevera o senhor de Saint-Rémi.
Pois, sim, sim, amigo Álvaro Coutinho! Com
que então foram-te á pavana, hein? Ora mofei para
a tua valentia. . .
E em tal e tanta maneira que já não quero
apurar (como aliás era minha mente quando dei
principio a estas inquirições) se d'este Porto serias,
na verdade, contra o que de tua procedência Fer-
dinand Denis informara.
Nem me seduz a sollicitação com que me em-
barga Ignacio Rodrigues Védouro (de cuja obra ha,
segundo informe do fallecido dr. Pereira Caldas, de
Braga, uma reimpressão moderna, 1843, no Rio de
Janeiro) quando, no seu relato desconhecido do
Desafio dos doze de Inglaterra, que na corte de
Londres se combateram em desaggravo das damas
inglezas (Lisboa occidental, na Officina Ferreiriana,
1732), nos encarreira noticiando que, d'esses doze
de Inglaterra, «todos mui esforçados, valentes e
animosos», os mais d'elies eram naturaes da Pro-
víncia da Beira, e alguns de Entre-Douro-e-Minho*
n — o «magriço»- 37
Do conde da Ericeira, D. Fernando de Menezes e
dos commentadores a Camões, Manuel de Faria e
Sousa e o licenciado Manuel Correia, em seu folheto
Védouro se soccorrera.
Recentemente, é muito interessante o artigo
biographico pelo dr. Eduardo de Freitas escripto
acerca do Magriço, que nascera, segundo umas me-
morias, em Trancoso e, segundo outras, no Porto.
Dar-nos-hemos á mandria? Pelo contrario, tra-
ctaremos de averiguar?
Mas, não. Não quero saber;
Mormente desde que, por Camillo Castello-
Branco, acabo de saber o que sei. E é que, tendo
Gaya privilegio de não convisinharem d'ella fidal-
gos, como quer que a quinta de Vai d' Amores
houvesse sido dada a Álvaro Gonçalves, requereu
a cidade contra as violências do fidalgo, e D. João i
tirou-lhe a quinta. «Este Álvaro Gonçalves (em
adequada nota explica Camillo Castello-Branco) era
o chamado Magriço, um dos doze de Inglaterra,
heroicamente cantados por Luiz de Camões. Parece
que o valentão não tractava mais humanamente os
visinhos do que os inglezes. »
Na verdade, Álvaro Gonçalves, senhor de Gaya,
levava duas canadas de vinho em cada pipa de
Cima-Douro. Resistiram-lhe com o foral de Affonso m,
e não lhe pagaram.
De facto, se era coisa que se fizesse: duas
canadas em pipa. . . Porisso, afinal, nunca suas
francezas mãos doessem ao senhor de Marignon*
38 PORTUENSES ILLUSTRES
que, agarrando-lhe do braço, fez com que elle
tivesse o dito de espirito por cuja mercê esperta-
mente se vingou, á pergunta de: a qual dos f rance-
zes se havia rendido ? respondendo que a todos três.
Bem se sahiu do passo estreito, convenhamos.
Portanto, reconsiderando, com sua memoria nos
reconciliemos, abatendo ao Magriço, que Védouro
não sabe que a Portugal tornasse, as duas canadas
de Gaya na conta dos privilégios que para os por-
tuguezes de trabalho e negocio alcançou no grande
Império, onde foi parar, de Frandes.
Que, sem embargo, o que do Magriço interessa
e move é a sua coparticipação, accidentada e desta-
cante, no caso dos doze de Inglaterra.
E, por fallar, o que seria, de verdade, o caso
dos doze de Inglaterra?
Aqui está o que foi, na realidade, o caso dos
Doze de Inglaterra:
Havendo o rei inglez Ricardo n ouvido fallar de
todas as magnificências da corte de França, e sobre-
tudo do esplendido regosijo havido por occasião da
entrada da rainha Isabel de Baviera, cujo casamento
com o rei Carlos vi de F rança foi celebrado a 18
de julho de 1385, festa bellissima que tam grande
arruido promovera, quiz elle também distinguir-se
por meio de um grande divertimento publico.
II — O «MAGRIÇO» 39
Consequentemente, correndo o anno de 1390, fez
annunciar uma justa e enviou arautos a publical-a
em França, na Allemanha, na Flandres, na Escócia.
Quando a noticia chegou ao Hainaut, Guilherme,
conde d'Ostrevant, genro do duque de Borgonha,
«que era moço, liberal e prompto em suas resolu-
ções», conforme o conceitua o sr. de Barante, no
tomo 11 de sua apreciada Historia dos duques de
Borgonha da casa de Valois (1364-1477), formou o
desígnio de ir mostrar-se n'essa festa e vèr a Ingla-
terra.
Partiu primeiro «du Quesnoy en Hainaut et
clievaucha txnt par ses journées que il vint á la
Haie, une bonne ville de Hollande» narra Froissart,
a fim de fallar previamente com seu pae. «Meu
caro rilho, disse-lhe o conde Alberto, vós não ten-
des que fazer na Inglaterra. Casastes com a filha
do duque de Borgonha e vossa irmã desposou seu
filho. Nós estamos unidos e alliados á casa real de
França'; não carecemos de ir na cata d'outras ami-
zades e d'outras allianças.»
O joven conde insistiu : « Vós sois senhor
vosso, redarguiu seu pae, fazei o que bem quizer-
des ; mas mais valeria, a bem da paz, não ir lá. »
O conde d'Ostrevant partiu, todavia, compare-
ceu com grande brilho no torneio, e alcançou o
premio, que foi conferido pelas «damas gentis da
corte ingleza. »
As quaes, no domingo d'esse anno, mais che-
gado antes do dia de San-Miguel, ao dar das três
40 PORTUENSES IL LUSTRES
horas, sahiram, montadas em palafrens, cada uma
d'ellas conduzindo um cavalleiro, jungido por um
cadeado de prata. Eram ellas, pela conta de Frois-
sart, em numero de sessenta.
Mas o douto publicador das preciosas chronicas,
novamente revistas e augmentadas á face dos ma-
nuscriptos, com notas, esclarecimentos, taboas e
glossário, J. A. C. Buchon, t. 111, pag. 96, annota
que Hollinshed diz, tão só. vinte e quatro.
Este traço do grilhão amoroso é typico. Elle
impressionou Smollett, o qual, em sua Historia
d' Inglaterra desde o desembarque de Júlio César até
ao tractado d ' Aix-la-Chapellc em 1748, no cap. 1 de
seu livro iv, attinente ao reinado de Ricardo 11 e
respeitante aos annos de 1 300-1 391, alarga e pro-
longa o caso, observando, sob a illusão do desloca-
mento d'um critério moderno transportado á medie-
vidade poética, que, se bem que a maneira de viver
de Ricardo 11 podesse continuar a ser taxada d'extra-
vagancia, lhe carreara, sem embargo, o favor pu-
blico :
Elle instituiu jogos solemnes e torneios, e fez reviver o
espirito cavalheiresco que reinava em tempo de seu avô. Não
se ouvia senão musica e instrumentos, festas e regosijos. O rei
em pessoa e todos os seus cortezâos tomavam parte n'esses
folguedos guerreiros, e a rainha com suas damas honrávamos
com a sua presença. Não se via senão espectáculos pomposos
e procissões de cavalleiros armados que suas amantes guiavam
com cadeados de prata até ás barreiras, onde elles disputavam
em feitos d'armas em meio d'uma multidão innumeravel de
povo.
II — O «MAGRIÇO* 41
T. Smolett exaggera. O festejo, de dias, foi um
só e único, não obstante; as barreiras foram «uma
grande e bella praça» a que chamam Semetefill,
chama-lhe Froissart (Smitkfield), aonde cavalleiros^
e damas chegaram, havendo partido, no domingo
próximo depois (aqui diz depois) do dia de S. Mi-
guel, no anno de 1390, atravez da cidade e por em
meio da rua que dizem de Cep (Ckeapside).
No ponto reunidos, n'esse domingo doze caval-
leiros inglezes esperariam outros tantos cavalleiros
extrangeiros que a justar com elles quizessem vir,
« et appeleroit-on ces joutes du dijnanche la fête du
Calenge. »
E na segunda-feira estariam na mesma praça os
sessenta cavalleiros, armados e adereçados para
justar, e aguardariam todos os cavalleiros que a tal
viessem. E o que melhor se houvesse dos de fora
teria por premio uma coroa d'ouro, riquíssima; e
dos de dentro, a conspecto das damas, seu alamar
também d'ouro e também riquíssimo.
Na terça-feira seguinte, na mesma praça, esta-
riam sessenta escudeiros, bem montados e armados
para a justa, e esperariam todos os escudeiros ex-
trangeiros e do reino d'Inglaterra que vir e justar
quizessem; e o de fora que melhor se houvesse
teria um corcel sellado e apparelhado; e o de den-
tro um falcão bellissimo.
Ora, de justas taes, as que on dit du Calenge
foram rijas e bellas e bem justadas e continuadas
até o cahir da tarde, ponto a que senhores e damas
42 PORTUENSES IL LUSTRES
retiraram aonde lhes cumpria, ficando a rainha alo-
jada na praça de San-Paulo, no paço do bispo de
Londres, e lá se fez a ceia.
N'essa noite chegou o conde d'Ostrevant. Si fut
du roi et des scignenrs joyjusement et bien grande-
ment recueilli.
Este seria o heroe da festa, e d'ella o grande
dia foi o dia de segunda-feira.
Tenhamos em portuguez para Froissart a regra
que para outros extractos d'elle em francez teve
madame de Witt, actualisando-lhe a prosa ; e ouça-
mol-o no momento capital do capitulo xvi de seu
livro iv, addicto a dizer-nos «De tine noblc fête et
joutes qui fut faite en la ville de I*ondres, et comment
elle fut publiêe par tous pays. » Diz-nos:
Quando chegou esse dia seguinte de segunda-feira, vós
verieis em muitos logares e praças d'entre a cidade de Londres
escudeiros e varletes, cuidosos de engendrar a pôr em termos
os arnezes de seus senhores e amos. Após noas chegou o rei
de Inglaterra á praça, armado e bem acompanhado de duques,
de condes e de senhores, pois era elle dos de dentro. A rainha
de Inglaterra, bem • acompanhada de damas e de donzellas,
veio ter á praça onde as justas se faziam ; e subiram para
camarotes e palanques que ordenados e adereçados para ellas
estavam. Depois chegaram o conde de Saint-Pol e os cavalleiros
de França que justar queriam. Entào começaram as justas rijas
e bellas; e cada qual fez quanto pôde para se sahir bem; e
houve muitos derribados dos cavai los e deselmados; e duraram
e continuaram estas justas rijas e tezas até á noitinha, em que
se retirou para as aposentadorias cada qual dos senhores para
onde estava alojado, e as damas outrosim e quando foi hora
II — O «MAGRIÇO» 43
de acudir aonde a ceia estava disposta, tudo lá concorreu. A
ceia foi grande, bella e bem ordenada. E n'esse dia teve o pre-
mio das justas dos que melhor se houveram dos de fora o
conde de Ostrevant, e bem o mereceu, pois ultrapassara toda a
craveira e muitíssimo bem justara, a juizo das damas, dos
senhores e dos arautos appostos para o julgar e conceder.
Na terça-feira foram as justas dos escudeiros; e
na quarta, depois do jantar, justaram ainda, todos
juntos, cavalleiros e escudeiros que o quizeram e
poderam; e foi a ceia das damas onde antes fora,
isto é no paço do bispo de Londres, onde o rei, a
rainha e as damas estavam. Estas ceias eram,
sempre, conforme o conta Froissart, bellas e gran-
des e bem dansadas, toda a noite, até ao dia.
Na quinta-feira deu o jantar a todos' os caval-
leiros extrangeiros o rei n'aquelle mesmo paço, e a
rainha ás damas e ás donzellas.
Na sexta-feira quem deu o jantar (et fut le diner
grand et âel, especifica Froissart), a todos os caval-
leiros extrangeiros e escudeiros, foi o duque de
Lancastrô.
Cumpre n'este ponto lembrar que, em sua His-
toria da casa de Plantagenct, no throno d 'Inglaterra^
desde a invasão de Júlio César até ao advento de
Henrique viu David Hume frisara como, n'essa
epocha, a auctoridade do duque de Lancastre servira
para contrabalançar a do duque de Glocester e
assegurara o poder de Ricardo n, o qual evitava
attentamente melindrar o mais idoso de seus tios,
44 PORTUENSES ILLUSTRES
de quem jamais recebera offensa e em quem depa-
rava um caracter mais moderado do que no mais
novo, cedendo-lhe, assim, por toda a vida o ducado
de Guienne. E em Rymer que para o caso se funda
Hume, o qual, chegando ao anno de 1389, registra
que, a cabo da pacificação das rixas domesticas
referidas e do restabelecimento do governo em seu
pé natural, se passaram oito annos de pousio,
« que não forneceram acontecimento algum de
importância. »
O duque de Lancastre regressara de Hespanha
após haver cedido ao seu concorrente as suas pre-
tensões á coroa de Castella por uma somma que,
appoiando-se em Knyghton e Walsingham, avalia
Hume como considerabilissitna; e «casara a sua
filha Philippa com o rei de Portugal.»
De Portugal fora mesmo .que o duque de Lan-
castre a Inglaterra regressara, não da Hespanha ;
pois os mensageiros do rei de Castella, tendo vindo
fallar ao duque de Lancastre, em certas avenças
concordaram, o anno de quatro centos e vinte e
cinco. Fernão Lopes, no capitulo 1 1 5 da Parte n dá
Chronica d'el-rei D. João /, para o nosso ponto as
resume no remate, dizendo que convencionado ficou
«que o duque se partisse de Portugal e se fosse
para Bayonna, que é no reino de Inglaterra e cerca
da comarca de Castella.» Em consequência, veio o
duque a Coimbra.
Para este effeito, tinha já o rei portuguez man-
dado armar seis galés na cidade de Lisboa, «as
II — O «MAGRIÇO» 45
quaes eram partidas para o Porto, por se juntarem
com outras que ahi estavam, de guisa que eram,
por todas, quatorze, de que Affonso Furtado levava
governança, que era capitão do mar», refere Fernão
Lopes no seu próximo capitulo 118. E logo no 119
conclue contando que, depois que o duque folgou
alguns dias com el-rei de Portugal (que bufava de
corage e escupia pezadumbres, insolentemente mo-
teja Lozano) e com sua filha, no Porto, embarcara
por fazer viagem, elle e os seus, que eram muito
poucos, que todos iam em seis galés muito folgada-
mente, e.os outros por honra em sua companhia, e
era isto no fim de Setembro. Sahidas as galés de
foz em fora e postas no mar, déra-lhes Deus tam
boa viagem que em breves três dias chegaram «a
Gasconha, a uma cidade que chamavam Bayonna,
do senhorio de Inglaterra. » De facto estavam então
usufruindo os inglezes da posse de boa parte da
França.
No capitulo 122, < depois que já tornamos de
Bayonna de Inglaterra», para que «contemos outra
coisa», dá Fernão Lopes por «acabados os feitos
do duque.»
Mas nós, agora, pela mão de Froissart, seguil-o-
hemos inda.
De seu livro 111, seu capitulo lxxxix (Comment
le duc de Lanças tre, êtant parti de Saint-Jacques et
de Conimbres en Portingal, arrivapar mer à Bayonne)
exara como o duque de Lancastre partiu da Galliza,
com sua mulher, sua filha e toda a sua gente, « car
46 PORTUENSES ILLUSTRES
le roi de Portingal JTenvoya querre par sou connc-
tablc le comte de Novaire et par messire Jean Fer-
rand Percek, atout cinqcens lances. En celle route
etoient, dn royaume de Portingal, tout premièrement
le Pouvasse de Congne, et son frere Vas Martin de
Congne y Egeas Co Me, Vas Martin de Merlo, Gons-
salvas de Merlo, Galop Ferrand Percek, messire
Alves Perrière, Jean Rodrigues Perrière, Jean Go-
tnes de Silve, Jean Rodrigues de Sar, et tous barons. »
O editor Buchon restitue para graphia intelligivel
estas audições barbaras.
Chegado a Portugal, «le duc de Lancastre se
tint bien deux móis au Port, et entones ordonna-t-il
toutes ses besognes ; et eut gallées du roi, lesquelles il
fit appariller, et le maitre patron de Portingal, qui
s^appeloit Davi Alphonse Vretat. » Ou seja Dom
AfTonso Furtado. A narrativa do embarque no Porto
em as galés do maitre patron Alphonse Vretrat se
torna a exhibir no capitulo civ do mesmo livro,
attinente em concordância na edição ao anno de
1387, advertindo-se que a divergência nas datas se
reporte da diversificação das eras no computo chro-
nologico. N 'estes auetores, tempos e coisas, de
resto, ha sempre que desprezar desconcordancias,
como para a conta das galés de retorno, etc.
No anno seguinte de 1388, já em Bordéus,
houve um feito dermas, perante o duque dé Lan-
castre, de cinco francezes, na praça em frente de
Saint-Andrieu, presentes o dito duque de Lancas-
tre, a duqueza e sua filha, e as damas e as don-
II — O « MAGRIÇO "> 47
zellas da comarca, dont il y en avoit grancFfoison,
jubila Froissart, que assistiu em pessoa elle-tambem.
Ora, se ás cinco galés que, tornando-se logo de
Bayonna, á vinda damno vieram fazendo pela costa
de Galliza, a regia nova ordenança sobre prezas por
egual se applicou nas cinco « com que Affonso Fur-
tado — a escape no cap. cxxvn da sua Parte n, Fer-
não Lopes aponta — se partiu d'aquelle logar para
Inglaterra, por servir a el-rei, andando por lá espaço
de quinze mezes. » O chronista inglez Walsingham
{Historia òrevis, pag. 318) redondamente escreve,
porém : Rex Portugaliac misit regi Angliac sex
GaleyaSy ut adjuvarcnt eum, et cssent i/li solatio
contra hostes stws.»
São mui valiosas as considerações á roda
doestes factos expendidas pelo conde de Villa
Franca no seu excellente volume, de investigações
historico-sociaes, D. João 1 e a alliança inglesa,
pag. 230.
Interessante e importante é a quadra, não só
para a chronica conjuncta da França, da Inglaterra,
da Hespanha, de Portugal mas ainda, por seus
corollarios, próximos e remotos, para a historia
geral da civilisação da humanidade inteira; e diffi-
cilmente se poderá deparar epocha mais abundante
de physionomias impressivas, consoante a d'esse
mesmo Ricardo 11, que no theatro introduziu Shaks-
peare e que modernamente tomou Wallon para de
figura servir nodular a característico episodio da
rivalidade entre a França e a Inglaterra.
48 PORTUENSES ILLUSTRES
O conde de Villa Franca põe a nú uma grave
arteirice sonegadora de Fernão Lopes e remata di-
zendo que o «serviço d'el-rei» a que o mesmo
chronista allude era «serviço directo e exclusivo de
homens, armas e navios portuguezes á Inglaterra
durante o espaço de quinze mezes, a expensas de
Portuga!, e sem que na minima compensação nos
retribuíssem. »
De modo que exacto resulte o dizer-se que,
recambiando-lhe o tio preferido, ao rei de Inglaterra
Ricardo n nas mesmas galés lhe enviara o rei de
Portugal D. João i um presente por egual assas ou
inda mais grato, porquanto, em boa verdade, «no
liavia sido menor el soccorro — na segunda parte
dos seus Anales de Flandres Emanuel Sueyro o
aquilata — que recibió el rcy inglês de las galeras
que le embió el de Portugal, con su general Alfonso
Furtado de Mendoça, á quien, pues y segun la gran-
deza de su animo, dava desinteressadamente esta
assistência d la nacion amiga, mando prover por
letra en Inglaterra nuevecientos y cinquenta francos
de la cantidad que ordeno se diesse en aquel reyno ai
infante Don Dionysio, hijo del-rey Don Pedro y
de Dona Ignez de Castro. »
Está Sueyro relatando o que occorrera no anno
de 1390 e é de entender que não hajam nossos
escriptores memorado com attento reparo esta expe-
dição naval portugueza a Inglaterra: até acontece
modernamente que nem n'elia falle o vice-almirante
da Armada Real, e conselheiro do Real Conselho de
II — O «MAGRIÇO» 49
Marinha, Ignacio da Costa Quintella onde devera,
isto é no tomo i de seus Annaes da Marmita Por-
tugucza, publicados em 1839, de ordem da Acade-
mia Real das Sciencias, de que o auctor era sócio
honorário.
N'esta sua notável obra, com respeito ao rei-
nado de D. João 1, para factos navaes Quintella
marca ahi o anno de 1384, em que a expedição da
esquadra de Lisboa ao Porto está miudamente des-
cripta e judiciosamente criticada e, não tendo du-
rante o resto do tempo que durou o memorável
cerco de Lisboa, achado « outra alguma acção naval
que mereça lembrar-se», elle passa logo ao anno de
1405, em que, havendo-se desposado em Lisboa
D. Brites, filha natural do rei D. João 1, com Tho-
maz Fitz Allan, conde de Arundel, a conduziu a
Inglaterra seu irmão D. Affonso, com João Gomes
da Silva, alferes-mór, e outras muitas pessoas de
distincção, em uma esquadra de três galés e vinte
e oito navios redondos, entre grandes e pequenos.
Muitas pessoas portuguezas de distincção haviam
ido nas galés que á Inglaterra mandara D. João 1
sob o commando de Affonso Furtado de Mendonça,
«nobilíssimo cavallero, autor de los Mcndoças de
Portugal y descendientc de la misma casa cuyo senor,
como chefe, es en Castilla cl duque dei Infantado:
fue capitan mayor de la mar y general dj los bailes-
teroSy officio que despues se extinguia en Portugal»,
Sueyro vai desenrolando com pompa.
E, por sua valentia e denodo, ficara o duque
VOL. I. 4
50 PORITLNSK.S I .'.LUSTRES
de Lancastre a prezar e considerar os portuguezes ;
e elle-mesmo era grande admirador e provocador
de façanhas; assim, mais uma vez o attesta o Livro
das proezas do marechal Boucicaut, interessante
chronica que foi publicada da primeira feita por
Théodore Godefroy em 1620 e que em 1840, colla-
cionando-a com um manuscripto da Bibliotheca de
Paris, Buchon reimprimiu a seguir á sua segunda
edição de Froissart, com que enriqueceu a opulenta
collecção do Pantheon Littéraire.
O capitulo xvi da primeira parte d'essa chronica
informa-nos : « De Veviprise qu: messire Bouciquaut
fist luy troiseme, de tenir c/iamps frente jonrs à la
jouste à tons venans, entre Boulogne et Calais, au
lieu que bn dict Sainct-Engkelbert.. » Com vénia do
rei, mandou clamar a façanha « em muitos reinos e
paizes christãos, é de saber em Inglaterra, em Hes-
panha, no Aragão, na Allemanha, na Itália e alhu-
res. » Acudiram ao repto « viessire Jean de Hollande,
frère du roi Richart d'Angleterre et puis le comte
Darby, que ores se dict le roi d ' Angleterre> le quel
jousta avec dix coups de fer de glaive, car quand
il eut jouste les cittq coups selon le cry, le duc de
Lancastre son père luy escripvit que il luy envoyoit
son jils pour apprendre de luy. » Compareceram e
pelejaram tantos cavalleiros e escudeiros do dito
rei de Inglaterra que chegaram até ao numero de
cento e vinte (2x60, o dos cavalleiros das justas de
Londres: estes números, como o dos 12, são sym-
bolicos). Não só de Inglaterra vieram ao chamo do
II — O «MAGRIÇO* 51
forçudo Boucicaut, mas de paizes vários, como
allemães, hespanhoes e outros, mais de quarenta
(outro numero symbolico).
Tamberçi, afora os «Hainuiers», francezes e
allemães se encontraram nas grandes festas de
Londres, para onde o conde d'Ostrevant partira do
Hainaut en grand'étoffe e bem acompanhado de
cavalleiros e escudeiros; e passou através o Artois,
e veio a Saint-Omer e depois a Calais; e ahi se
encontrou com o conde de Saint-Pol.
O conde Waleram de Saint-Pol, que por então
tinha por mulher e por esposa a irmã do rei Ri-
cardo dlnglaterra, preparou-se e adereçou-se gran-
demente, e accommodou com elle bastos cavalleiros
e escudeiros, tudo para ir a Inglaterra a essa festa,
e partiu para Calais, onde estavam aguardando as
naus mensageiras de Douvres que esperavam os
senhores.
Quando bateu hora, e ellas tiveram vento pro-
picio para passarem á vontade, e que os navios
receberam a esperada carga, os senhores passaram
e seguiram em direitura prestes á baliza.
Mas « a mim me foi dito, e eu bem o creio, que
o conde de Saint-Pol — d'est'arte o narrra Froissart
— passou e chegou á Inglaterra primeiro três dias
do que o conde d'Ostrevant. Ora passou o conde
d'Ostrevant por uma quinta-feira, e chegou a Can-
torbie (Canterbury) na sexta, e foi vêr q relicário de
Sam-Thomaz em jejum natural, e alli fez sua offe-
renda, bella e rica; e ahi se demorou todo o dia
52 PORTUENSES ILLUSTRES
seguinte, e ao dia immediato chegou a Rochestre
(Rockester); foi no sabbado. E para isto levava elle
grande-estadão de cavaileiros e d 'escudeiros; e, para
arranjo d'elles, caminhava por jornadas pequenas e
com folga dos cavallos; e no domingo, depois da
missa, partiu de Rochestre e veiu jantar a Darde-
forte (Dartfort), e logo depois do jantar montou e
caminhou, para estar, n'aquelle domingo em que a
festa começava, em Londres. »
Chega tarde, como já vimos; mas, no remate,
« quand on eut dansé, joué et carolê assez au chastel
de Windesore», e havendo o rei d'Inglaterra brin-
dado bellas dadivas aos cavaileiros e escudeiros
d'honra do reino de França, et par especial au jetme
comte d'Ostrevant 9 não podia vacillar-se no juizo de
que o heroe do festejo esse fora, o conde d'Ostre-
vant.
De quem fallando, é curioso como falle o quasi
nosso Emannuel Sueyro.
Começa dizendo que por estes dias do inicio do
anno de 1390 morrera Arnaldo de Hornes, bispo de
Liège, a quem deram por successor João de Baviera,
filho de Alberto, conde de Hollanda, que, acompa-
nhado do pai e de Guilherme, conde de Ostrevant,
fez, pelo mez de Maio, com notável ostentação a
sua entrada na cidade. «Passo de alli à poço à
Inglaterra el conde de Ostrevant — prosegue Sueyro
— en compartia dei de San Pol, cunado dei Rey Ri-
cardo, à hallarse en las justas que se liavian publi-
cado, porque la nobleza> enemiga dei ócio, se cansava
II — O «MAGRIÇO» 53
de la trégua, bien que para exercitar se se juntavan
junto à Cales.*
Allude á trégua de três annos, aprazada, entre
Boulogne e Calais, entre a Inglaterra e a França,
respiro n'essa desastrosa guerra dos cem annos;
allude ás justas que, para não desfazer a mão,
inglezes e francezes iam terçando rião só em Calais
como aqui e alli; mas não o inquieta a sombra
d'uma duvida.
Porquanto accrescenta immediatamente a seguir:
« Celebròse entre estas naciones belicosas desafio de
doze cavalleros portuguezes, porque, haviendo algu-
nos de Inglaterra burladose de ciertas damas de pa-
lácio, etc. » Conta, em tom de historia, a lenda
lusitana. Celebra as façanhas do Magriço.
Não repara que a batalha campal dos « Doze de
i
Inglaterra » — treze em Jorge Ferreira de Vascon-
cellos, no Memorial das proezas da segunda Tavola
redonda, cuja primeira edição é de 1567; a primeira
dos Lusíadas é de 1572, cinco annos depois — não
repara que a batalha campal dos «Doze de Ingla-
terra» é uma simples adaptação portugueza imagi-
naria da realidade histórica das justas de Ricardo 11
de Inglaterra, de parceria effectuadas com seu tio,
o duque de Lancastre.
Não repara que o Magriço é. . . o conde
d'Ostrevant !
Lastima grande! No fumo d'uma apropriação
plagiaria d'alheia effectividade histórica a façanha
54 PORTUENSES ILLUSTRES
typica se nos vae d'um filhote illustre portuense
e elle próprio na mesma névoa se dissipa e
some.
Consolemo-nos, que da quadra heróica figuras
proeminentes permanecem firmes na luz real. Assim
esse, da «Ínclita geração de altos infantes», que no
Porto nado foi.
III
Prancisco de Sá de Menezes
— Dom Henrique
i
dka audaz, essa que attingiu seu acume no
imperialismo do heroe de Francisco de Sá de Mene-
zes, natural d'esta cidade do Porto, filho de João
Rodrigues de Sá e de D. Maria da Silva, auctor da
Malaca conquistada^ poema heróico em honra de
Affonso de Albuquerque.
Na censura que, por ordem regia, fez a este
livro Diogo de Paiva d' Andrade, sobrinho do douto
theologo, do mesmo nome, que foi ao Concilio Tri-
dentino, disse elle, entre outros louvores, as ma-
readas palavras seguintes:
Faz o auctor ser de maiores quilates a perfeição d'esta
sua obra com os da pureza do seu sangue e das virtudes
naturaes de que é dotado; com que também não só imita, se
não eguala ou ainda excede, a prudência, valor e merecimento
de seus i Ilustres antepassados, auctorisando com a excellencia
de seus versos a pátria que elles honraram com o esforço de
seus braços.
56 PORTUENSES ILLUSTRES
• i
E, modernamente, José Maria da Costa e Silva:
A Malaca conquistada, considerando-a debaixo do ponto
de vista da composição e das regras da arte, é o melhor poema
do género clássico que possuímos. A acção é justa em seus
motivos; importante em seus resultados; verdadeiramente
heróica; de justa grandeza, conforme o preceito de Aristóteles,
que exige que uma epopéa não seja tam longa que se confunda
a memoria nem tam breve que não tenha o necessário desenvol-
vimento. A acção da Ma f aca é única, interessante, gloriosa
para a nação portugueza. Os episódios, conforme os preceitos
da arte, nascem todos do assumpto e cooperam para o afor-
mosear sem offuscal-o, defeito que mesmo os grandes épicos
não têm sempre sabido evitar. O caracter do heroe tem toda a
belleza histórica e poética de que era susceptível.
Não assim para Camillo Castello Branco:
O assumpto da Malaca é a tomada da metrópole indiana,
e o heroe é Afifonso de Albuquerque, o valoroso capitão que
ainda convencionalmente se sustenta invulnerado e respeitado
nas hercúleas proezas do Oriente. Como poema histórico, é
aproveitável a quem hoje se recrear na leitura das chronicas
rimadas.
Quanto ao poeta, senhor de uma casa opulenta,
cercado da estima dos concidadãos e com especia-
lidade dos litteratos, empregando o tempo que lhe
restava do desempenho dos seus deveres como
homem publico no tracto das musas, passava
Francisco de Sá de Menezes tranquilamente seus
dias quando a morte lhe arrebatou dos braços a
esposa, que lhe servira sempre de consolação nos
III — Si DE MENEZES — DOM HENRIQUE 57
dissabores da vida. Esta perda rememora Costa e
Silva que lhe abateu o espirito de maneira que,
tomando, de dia para dia, maior aborrecimento ao
mundo, resolveu, por fim, abandonal-o, sem que as
rogativas e instancias dos filhos, dos parente e dos
amigos fossem poderosas para o fazerem mudar de
resolução.
Depois de algum tempo de hesitação sobre a
escolha do seu ultimo domicilio, resolveu, em fim,
retirar-se para o mosteiro de Bemfica, da Ordem
dos Pregadores, nos subúrbios de Lisboa, onde
tomou o habito e professou no dia 14 de dezembro
de 164 1, adoptando alli o nome de frei Francisco
de Jesus, «antepondo (escreve Diogo Barbosa Ma-
chado), com judiciosa eleição, este santíssimo nome
aos nobres appellidos de Sá, e Menezes, de que
totalmente se queria esquecer, por serem mudos
despertadores da vaidade mundana.»
Entregou-se desde então, com todo o ardor, á
observância dos preceitos da regra e ás praticas de
devoção mais austeras, tornando-se, por este modo,
objecto de veneração e respeito para todos os
religiosos que com elle habitavam aquella casa. O
abbade de Sever traça-nos o quadro doeste sacrifício
mystico: «As principaes virtudes que constituem um
religioso perfeito praticava com tanta exacção que
servia aos moços de estimulo e aos velhos de con-
fusão. Era na obediência prompto, na oração con-
tinuo, na mortificação severo, na caridade ardente. »
Camillo Castello-Branco chama-nos á exacta reali-
c8 • PORTUENSES I..MJSTRES
dade, pela destrinça psychologica doestas crises mo-
raes, vistas á luz dj critério coevo do épico: «No
vigor da idade viuvou, e seguiu a vereda que
levava á paz do claustro as grandes dores da vida.
Alli, no mosteiro de Bemfica, nove annos antes,
acabara • o cavalleiro Manuel de Souza Coutirçho
amortalhado no habito de Frei Luiz de Souza. »
De Francisco de Sá de Menezes consta que
casara mui moço com D. Antónia de Andrade, que
era sua prima, e filha de Balthazar Leitão de An-
drade, thesoureiro da Casa da Índia; e sabe-se que
a innato grande talento para a poesia elle juntava
uma erudição não vulgar, tanto das litteraturas
clássicas como da moderna italiana, cujos mestres
seguiu com desvelo, nomeadamente a Torquato
Tasso, por quem annota Costa e Silva que é evi-
dente haver-se regulado na composição da sua
Malaca conquistada, Sá de Menezes mostrou-se,
porém, muito superior ás preoccupações do seu
século, dando d'avesso á mythologia, que os seus
contemporâneos julgavam admissível em toda a
sorte de poemas, «a ponto que Sannazaro não
escrupulisou de fazer uso d'ella no poema De pariu
Virginis.» Camillo Castello-Branco é sóbrio no
encómio: «Os afeites mythologicos são expungidos
da urdidura e substituídos por um artificio mais a
sabor christão. »
Mas não encobre, de malícia, os méritos effecti-
vos. Assim: «São raras na poesia do tempo as
descripções dos costumes orientaes; todavia, Sá de
Ill SV DE MENRZF.S DJ.4 HKNIf.QUE 59
Menezes enxertou agradáveis trechos onde lhe
vinham de molde ; e revelou vasta erudição geogra-
phica, nomeando as terras e logo as usanças que
as caracterisam, á imitação de Homero.»
N'esta altura, destaca flagrante o contraste entre
as apreciações de Costa e Silva, por um lado, e de
Camillo Castello-Branco, por outro, com respeito a
Francisco de Sá de Menezes na Malaca conquis-
tada.
<- A parte erótica não é menos bella n'este
poema (escreve Costa e Silva), e depois de Camões
talvez nenhum épico de Portugal seja tam singello,
tam terno e verdadeiro nos affectos! Francisco de
Sá de Menezes estava mui longe das affec tacões
rhetoricas e dos conceitos rebuscados de Vasco
Mousinho de Quevedo; é certo que as damas do
Affonso Africano têm mais espirito que as da Ma-
laca; mas que importa, se esse espirito é do auctor
e não d'ellas?» — «Nas pinturas eróticas (Camillo
Castello-Branco escreve) é mais recatado que Luiz
de Camões, talvez porque a pedestre e fria inspira-
ção o não impulsava a raptos descomedidos. Fal-
ta-lhe invenção e génio onde sobeja a honestidade.
Descreve com onomatopaicos estridores batalhas e
naufrágios. Nos quadros maviosos esmorece em
prosa estirada e descolorida. »
Em a resignada abdicação da intelligencia que
implica o modulo da vida por Francisco de Sá de
Menezes preferido após a morte de uma esposa
adorada, elle foi tenaz e fixo. Persistiu, com firme
ÓO PORTUENSES ILLUSTRES
constância e placidez de espirito, n'aquelle despren-
dido desapego do mundo, sem jamais se desmentir,
até ao dia 21 de Maio de 1661, em que falleceu.
Esta é a data que vem no texto de Costa e
Silva ; Barbosa Machado põe, porém, o faliecimento
do illustre poeta portuense em 27 do mesmo mez
do anno posterior de 1664.
Como quer que seja, essa idéa que attingiu o
seu acume no imperialismo do heroe do portuense
Francisco de Sá de Menezes tivera seus definidos
primórdios na cerebração d'outro portuense, ilius-
trissimo, se mal que escassamente sympathico.
E infernai a luz a que sua figura perpassa
adefronte dos olhos do nosso espirito, na scena
lúgubre que arrancou brados de commiseração ao
chronista Gomes Eannes de Azurara.
Como um quadro capital do século xv a tras-
ladou para francez, desde 1839, Ferdinand Denis e
lhe deu o titulo tremendo : « O primeiro dia do tra-
fico em Lagos, reino dos Algarves. » Depois, em
1841, publicado por J. P. Ailiaud, appareceu o
texto integral lusitano, sahindo pela primeira vez a
lume por diligencia do Visconde da Carreira, prece-
dido de uma introducção e illustrado com algumas
notas pelo visconde de Santarém e seguido d'um
III — SÁ. DE MENEZES — DOM HENRIQUE 6l
glossário das palavras e phrases antiquadas e
obsoletas.
O capitulo xxv nos mostra «como o auctor
aqui rasôa um pouco sobre a piedade que ha
d T aquellas gentes e como foi feita a partilha. » Éa
própria divindade que elle invoca:
Oh tu, celestial pae, que, com tua poderosa mão, sem
movimento de tua divinal essência, governas toda a infinda
companhia da tua santa cidade, e que trazes apertados todos
os eixos das ordens superiores, distinguidas em nove espheras,
movendo os tempos das idades, breves e longas, como te
apraz? Eu te rogo que as minhas lagrimas não sejam damno
da minha consciência, que nem por sua lei d'estes; mas a sua
humanidade constrange a minha que chore piedosamente o seu
padecimento. E, se as brutas alimárias, com seu bestial sentir,
por um natural instincto conhecem os damnos de suas simi-
lhantes, que queres que faça esta minha humanai natureza,
vendo assim ante os meus olhos esta miserável companha,
lembrando-me que são da geração dos filhos d'Adão?!
Logo relata, em continuação do que já referira:
No outro dia, que eram 8 dias do mez d*agosto (de 1444),
muito cedo pela manhã, por rasão da calma, começaram os
mareantes de correger seus bateis e tirar aquelles captivos para
os levarem, segundo lhes fora mandado; os quaes, postos jun-
tamente n'aquelle campo, era uma maravilhosa cousa de vêr,
que entre elles havia alguns de arrazoada brancura, formosos e
airosos; outros, menos brancos, que queriam similhar pardos;
outros tam negros como ethiopios, tam desformes, assim nas
caras como nos corpos, que quasi parecia aos homens que os
olhavam que viam as imagens do hemispherio mais baixo.
Mas qual seria o coração, por duro que ser podesse, que
62 PORTUENSES ILLUáTRES
não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquella
companha; que uns tinham as caras baixas e os rostos lavados
com lagrimas, olhando uns para os outros; outros estavam
gemendo muito dolorosamente, olhando a altura dos céus, fir-
mando os olhos em elles, bradando altamente, como se pedissem
soccorro ao pae da natureza; outros feriam seu rosto com suas
mãos, lançando-se estendidos em meio do chão; outros faziam
suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de
sua terra, nas quaes, posto que as palavras da linguagem, dos
nossos não podesse ser entendida, bem correspondia ao grau
de sua tristeza?!
Mas, para seu dó ser mais acerescentado, sobrevieram
aquelles que tinham carrego da partilha, e começaram de os
apartarem uns dos outros, afim de porem seus quinhões em
igualeza; onde convinha, de necessidade, de se apartarem os
filhos dos pães e as mulheres dos maridos e a uns irmãos dos
outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma
lei; somente cada um cahia onde a sorte o levava!
Oh poderosa fortuna, que andas e desandas com tuas
rodas, compassando as cousas do mundo como te apraz! E,
sequer, põe ante os olhos d'esta gente miserável algum conhe-
cimento das cousas derradeiras, porque possam receber alguma
consolação em meio de sua grande tristeza!
E vós-outros, que vos afadigaes n'esta partilha, olhae
com piedade sobre tanta miséria e vede como se apertam uns
com os outros, que apenas os podeis desligar! Quem poderia
acabar aquella divisão sem mui grande trabalho?
Que, tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos,
que viam os pães na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se
para elles; as mães apertavam os outros filhos nos braços e
lançavam -se, com elles, de bruços, recebendo feridas, com
pouca piedade de suas carnes, por lhes não serem tirados!
E assim trabalhosamente os acabaram de repartir, porque,
além do trabalho que tinham com os captivos, o campo era
todo cheio de gente, assim do logar como das aldeias e comar-
cas de a redor, os quaes deixavam em aquelle dia folgar suas
III — S V DK AltíX ri '.li > — 1) JM HliXJtl^U:-: 6 j
mãos, em que estava a força de seu ganho, somente por vêr
aquella novidade.
E com estas cousas que viam, uns chorando, outros alter-
cando, faziam tammanho alvoroço que punham em torvação os
mandadores d'aquella partilha.
O Infante estava alf/, em cima de um p tderoso cavaffo,
acompanha 'o de suas gentes. . .
Este instruetivo fragmento Ferdinand Denis o
qualifica de cheio de eloquência, e remata escre-
vendo que a grande scena que Azurara relata está
contada com uma commiseração generosa, que não
prejudica, por um só momento, a fidelidade da
narrativa.
Addita que Azurara prosegue referindo que o
choro d'aquelles captivos fora «mui grande, espe-
cialmente depois que a partilha foi acabada, que
levava cada um a sua parte, e alguns d'aquelles
vendiam os seus, os quaes levavam para outras
terras, e adregava que o pae ficava em Lagos e á
mãe a traziam para Lisboa e os filhos para outra
parte, na qual divisão sua dòr dobrava o primeiro
damno, o qual era menos em alguns que adrega-
vam de ficar em companhia. »
O capitulo xi (0 trafico de escravos) da Vida do
Infante D. Henrique de Portugal, appellidado o
Navegador, pelo inglez Richard Henry Major, abre
com este impressionante painel, que é precedido
das linhas que tomo da traducção portugueza
do snr. José António Parreira Brandão e são as
seguintes:
64 PORTUENSES ILLUSTRE3
O antigo chronista Azurara exprime, em um capitulo
cheio de pathetica eloquência, os seus sentimentos de commi-
seração para com os pobres captivos na occasião de serem
distribuídos pelos diversos possuidores ou compradores cTelles,
separados assim d'aquelles a quem mais estreitamente se acha-
vam ligados pelos laços da natureza.
Em 1846 volta Ferdinand Denis a encarecer, a
propósito da descripção d'essa venda d'escravos
em Lagos, a penita eloquente de Gomes Eannes de
Azurara; mostra-nos o velho escriptor a flagellar
já em seu remoto tempo esse commercio odioso,
«tomado d'uma indignação santa.» Ainda em 1858,
novamente lamentaria Ferdinand Denis que, se a
cidade de Lagos secundava á data o infante mais
que cidade alguma outra do reino, fosse, todavia,
por provirem os recursos da deplorável origem do
commercio dos escravos, em detrimento da huma-
nidade.
Em proveito da humanidade, porém, redundava
a iniciativa egoísta do infante Dom Henrique, como
no proveito da civilisação geral as romanescas
especulações de Colombo redundaram.
E aqui me estimula suggestão surgente, qual a
de, approximando estes dois grandes nomes, do
infante Dom Henrique e de Christovão Colombo,
lhes inquirir da originalidade de suas idéas.
Vejamos :
III — SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 65
No tomo 11 <je sua Histoire des ducs de Bonr-
gogne de la rnaison de Valois (1364- 1477), seu
auctor, o snr. de Barante, membro da Academia
Franceza e das Academias de São-Petersburgo e
de Turin, na sequencia do livro segundo, conta-nos
como o rei de França (Carlos vi), no regresso da
sua viagem do Languedoc, recebeu dos genovezes
uma embaixada para implorar o seu soccorro e dos
cavalleiros francezes contra os sarracenos da costa
d' Africa, cujos navios incessantemente vinham per-
turbar o commercio nas costas d'Italia. Elles faziam,
mesmo até, frequentemente incursões nas terras e
devastavam-as. As ilhas da Córsega, da Sardenha,
de Maiorca, d'Elba, de Monte-Christo, de Pianosa
eram sempre preza de suas rapinas, e todo o nego-
cio dos christãos no mar Mediterrâneo já não se
podia levar com segurança. Os genovezes, vendo
que a França e a Inglaterra estavam em paz por
trez annos, pensaram que era uma empreza digna
dos cavalleiros das duas nações o vir punir a inso-
lência d'esses infiéis. Offereciam-se a emprestar seus
navios para a passagem e a fornecer os viveres e
provisões de todo o género. Esta proposta foi aco-
lhida com grande enthusiasmo pelos cavalleiros e
escudeiros que buscavam occasião de brilhar. O
duque de Touraine quizera ser chefe d'esta cru-
zada: nada havia, com effeito, exara-o o snr. de
Barante, de tam cavalleiresco e de tam aventuroso
como esse moço príncipe; elle era o protector e
como que o chefe de todos os jovens fidalgos ; não
VOL. I. 5
66 PORTUENSES ILLUSTRES
pensava senão em deparar occasião cfadquirir fama
e de ao longe levar a honra da França.
Mas os tios do rei e o seu conselho em tal não
quizerem consentir, não achando que essa viagem
'conviesse ao primeiro príncipe da regia familia. Foi
o duque de Bourbon quem escolheram: elle obteve
do monarcha a graça de marchar assim nas piza-
das do bom rei São Luiz. Os mais nobres cavallei-
ros do reino disputaram a honra de o acompanhar:
o de Bourbon teve mesmo sob suas ordens o conde
d'Erby, filho do duque de Lancastre e que depois
se fez rei de Inglaterra.
O senhor de Coucy, o almirante de Vienne, o
senhor Guy da la Tremoille, monsenhor Philippe de
Bar, o senhor de Harcourt, o conde d'Eu apressa-
ram-se, como bons e verdadeiros christãos, em ir
combater os sarracenos. O snr. de Barante, fundan-
do-se em Juvenal (des Ursins), accrescenta que
elles procuravam d'est'arte arredar-se também da
corte, onde viam nascer tantas divisões e praticar
tantos actos pouco honrosos que gran lastima era
para leaes servidores do rei.
Todavia, a cruzada não durou coisa que mere-
cesse a pena; depois de se haver sitiado Tunis, o
snr. de Barante escreve, entrara-se em negociações
com os sarracenos: elles haviam pago uma somma
considerável e promessa fizeram de não mais d'alli
em deante perturbar o commercio dos christãos.
Como quer que as enfermidades e o calor fizessem
morrer, cada dia que ia passando, muitos dentre
III — SA DE MENEZES — DOM HENRIQUE 67
os homens (Tararias, força fora o acontentarem-se
com essa pequena vantagem.
No livro decimo-nono de sua celebre Historia
das Cruzadas, sobre o anno de 1389, Michaud
escrevera que ao ardor das cruzadas succedera no
espirito dos guerreiros uma paixão de se distinguir
e de se enriquecer por intermédio de emprezas
cavalheirescas e de expedições aventurosas, ás
quaes se mesclavam sempre algumas remembran-
ças das guerras santas. Conta como foi que os
genovezes mandaram pedir um chefe e tropas ao
rei de França Carlos vi e como, ao boato só d'essa
empreza longínqua, se viu acudir de todas as pro-
vindas do reino, e mesmo d'Inglaterra, uma tur-
ba-multa de guerreiros, ávidos de assignalar sua
bravura; emfim, mil e quatrocentos cavalleiros e
senhores, ás ordens do duque de Bourbon, tio do
rei, foram ter a Génova e embarcaram na frota da
republica. A expedição passara por deante das
ilhas d'Elba, da Córsega, da Sardenha; e, depois
de haver soffrido uma borrasca no golfo de Lyon,
chegara á vista da cidade & Afrique.
Esta cidade d ) Afrique^ de que o historiador
Froissart nos dá uma descripção e que, por sua
situação e seu porto, se assemelhava á cidade de
Calais em França, passava, ao tempo, por ser a
chave das províncias e Estados da Barberia, e
longe não ficava d'essa riba de Carthago, onde,
cento e dez annos antes, Luiz ix encontrara o
martyrio sob o estandarte da cruz. Os cavalleiros
-68 PORTUENSES ILLUSTRES
francezes e os genovezes detiveram-se durante
alguns dias em uma ilha próxima, e resolveram
sitiar a cidade que sobre a costa viam.
Annota Michaud que Froissart falia longuissi-
mamente d'esta expedição; e declara que elle fora
a quem tomara para guia no seu relato, servin-
do-se até algumas vezes de suas expressões. To-
davia, não fora o único que fallado haja d'essa
espécie de cruzada: Paulo Emilio, Bizaro, Folieta
d'ella fallaram outrosim; mas o que havia de sin-
gular, segundo Michaud, era que Bizaro e Folieta,
historiadores de Génova, pretendem que os geno-
vezes e os francezes sitiaram então a cidade de
Tunis. (Vimos que é também como modernamente
conta o caso de Barante). Michaud prefere repor-
tar-se de Froissart, que era contemporâneo e que
haurira essa narrativa na palestra dos cavalleiros
, que acampado haviam dois mezes sob os muros
da cidade $ Afrique. Paulo Emilio e Christina de
Pisan nomeiam, egualmente, esta cidade; um, na
sua historia ; a outra, nas suas memorias.
Ora, essa cidade $ Afrique a mesma 'era que a
cidade d'A/'MaAadia f contra a qual os de Pisa e os
genovezes feito haviam uma expedição algum
tempo antes da primeira cruzada, consoante Mi-
chaud o inscrevera no primeiro livro da sua his-
toria.
A cruzada d'agora, segundo Paulo Emilio,
Folieta e Bizaro, acabara por um tractado, nego-
ciando-se, conforme o moderno relato do snr. de
III— SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 69
Barante, a paz, conclusa sob condição de que os
habitantes $ Afrique não inquietassem mais d'alli
avante as costas marítimas da França e de Génova,
que se reteriam em seus limites e que immediata-
mente pagariam dez mil peças d'ouro. Assim,
segundo esses historiadores, a expedição haveria
sido gloriosa, emquanto que inútil e sem honra
ella foi, segundo Froissart, que diz que opinião era
de muitos que o que tinha feito abortar a empreza
fora a ignorância, a inacção e a sobranceria do
duque de Bourbon.
Quanto áquella primeira expedição, que, sendo
uma verdadeira cruzada, Michaud frisa que parece
haver sido esquecida por todos os historiadores das
guerras' santas, derivava do facto, permanente, de
que os sarracenos que habitavam a Africa pertur-
bavam a navegação do Mediterrâneo e ameaçavam
as costas de Itália. O papa Victor in convite ende-
reçou aos christãos para que pegassem em armas,
e prometteu-lhes a remissão de todos os seus
peccados, se fossem combater os infiéis.
Os habitantes de Pisa, de Génova e de muitas
outras cidades, impellidos pelo zelo da religião e
pelo desejo de defender seu commercio, equiparam
frotas, levantaram tropas e operaram um desem-
barque nas costas d' Africa, onde, a dar-se credito
ás chronicas do tempo, fizeram em pedaços um
exercito de cem mil sarracenos. Após haverem en-
tregue ás chammas duas cidades, Al-Mahadia e
Sibila, edificadas no antigo território de Carthago,
70 PORTUENSES ILLUSTRES
e forçado um rei da Mauritânia a pagar certo tri-
buto á Santa-Sé, os de Pisa e os genovezes regres-
saram á Itália, onde os despojos dos vencidos
foram empregados na ornamentação das egrejas.
Explica Michaud que a principal das cidades
conquistadas pelos çhristàos, Al-Mahadia, segundo
os geographos orientaes, havia sido fundada no
anno 303 da hégira, por Obcidallah ou Abdallah;
ella era ainda mui considerável no século xv.
Shavv, que a visitara em 1730, chama-lhe El-
Medea; está a trinta léguas marítimas ao sul de
Tunis. Sibila, que é a outra cidade conquistada
n'aquella expedição, e que Shaw toma pela antiga
Turris Annibalis> fica a duas léguas mais ao sul
na mesma costa do Mediterrâneo.
Tudo isto adquire um alto interesse para nós
outros, portuguezes, desde que nos não hajamos
esquecido da ida das galés portuguezas, sob o
commando do capitão do mar Affonso Furtado de
Mendonça a Inglaterra e da sua procrastinada
demora em empregal-as, e se com estes dois ele-
mentos conjugarmos ainda èst'outro da participa-
ção do mesmo Affonso Furtado de Mendonça na
iniciativa da tomadia de Ceuta.
Na parte m da Chronica de D, João /, Gomes
Eannes de Azurara é conhecido que nos refere
como o rei tinha vontade de organisar grandes
festas em Lisboa, para fazer seus filhos cavalleiros,
e como os infantes discorreram acerca d'isto entre
si, convindo e concordando em que similhante ma-
III — SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 71
neira de cavallaria não era honrosa para elles
(cap. vn); e que seguidamente João Affonso, vedor
da fazenda, lembrara aos infantes a cidade de
Ceuta e de como ós infantes fallaram a el-rei seu
pae (cap. vm). Ordenando o rei que se chamassem
os lettrados (como mestre frei João Xira e o doutor
frei Vasco Pdreira, que eram os seus confessores)
e o infante D. Duarte, para saber se era serviço
de Deus fazer-se tal coisa, e sendo a resposta
alRrmativa; propostas e resolvidas outras duvidas,
mandando o rei chamar o infante D. Henrique e
determinando ir tomar a cidade de Ceuta, ao rei
pareceu que, antes de mais nada, cumpria enviar,
em previa espionagem, a devisar a cidade o prior
do Hospital e a devisar o mar, com todas as outras
cousas que a elle pertencem, o capitão Affonso
Furtado (cap. xiv).
Para o poderem fazer a seguro, o rei declarou
que tinha « vontade de fingir uma formosa dissimu-
lação», qual seria a de que os dois fossem sob
capa de ir a pedir a mão da rainha de Sicília, que
queria casar com o infante D. Duarte, para o
infante D. Pedro, ao que ella não acqniesceria.
De Lisboa partiram o prior e o capitão em sua
falsa embaixada; e com aquella voz e fama chega-
ram sobre a cidade de Ceuta, onde effectuaram,
meudamente seu reconhecimento; d'ahi foram ao
reino da Sicília; e, no regresso d'este a Portugal,
não lhes esqueceu de tornar outra vez a cerca da
cidade de Ceuta, fazendo mais repouso que da ida,
72 PORTUENSES ILLUSTRKS
para acabarem, de todo, o que lhes falhara da
primeira vista; e tal maneira tiveram em tudo que
lhes não ficou nenhuma cousa por tentar « d'aquellas
que a el-rei prazia saber», remata Azurara.
Ora, de Lisboa indo a ter com o rei a Cintra e,
pelo rei perguntado o capitão em primeiro log&r,
ao rei respondeu (cap. xvi) com uma historia ma-
ravilhosa que lhe succedera na sua meninice. E
fora que, tendo o rei D. Pedro, pae do rtionarcha
actual, mandado o pae do capitão fora d'este reino,
com uma sua embaixada, e como quer que elle
fosse moço de pouca edade, levara-o seu pae com
elle, para vêr terras e aprender. Seguindo n'este
teor sua viagem, chegaram a um porto cerca de
um logar de Africa, que chamam Ceuta, onde se
elle trabalhara de vêr algumas d'aquellas cousas
que lhe pareciam mais especiaes. Andando via,
chegara-se a uma fonte que alli estava, com um
nobre chafariz, onde se» encostara um pedaço,
tomando desenfadamento em vêr a formosura dos
cavallos que alli traziam a beber, os quaes eram
muitos e bons.
E estando assim, sobrechegou alli um homem
de comprida edade, cujas vestes e barba eram
manifesto signal de sua velhice; e, abeirando-se
d'elle, começara de o olhar, perguntando-lhe d'onde
era. Replicando-lhe que era hespanhol, o velho lhe
redarguira que lhe não perguntava senão de que
logar de Hespanha era. Respondera-lhe que de
Lisboa era. «Essa cidade, disse o velho, em que
IH — SA DE MENEZES — DOM HENRIQUE 73
•
reino é?» Elle lhe volvera que no reino de Portu-
gal. «E qual é o rei que agora reina n'esse vosso
reino?», disse o velho. — «E' um mui bom rei,
retorquiu, que se chama D. Pedro, filho que foi do
mui nobre rei D. Affonso, que esteve na batalha
do Salado, o qual D. Pedro é um rei mui justiçoso
e amador de seu povo.» — «Que hajaes prazer,
tornou o ancião, dizei-me quantos filhos varões
tem este vosso rei?» «Eu lhe disse como tinha
três; s., o primeiro havia nome D. Fernando; o
segundo, D. João; o terceiro, D. Diniz.» — «E não
tem mais ? », disse o mouro. — <■ Certamente não,
disse eu, de que eu saiba parte.»
O mouro principiara então a rogar a Affonso
Furtado que considerasse bem se o rei D. Pedro
teria ou não outro algum filho; mas, pela pequena
edade d'este, á memoria d'aquelle não veio seu
nascimento ; porém, como quer que o ancião se
obstinasse e insistisse pertinazmente, emfim Affonso
Furtado se recordou; e então lhe disse:
« Amigo, é mui grande verdade que el-rei tem ainda um
filho pequeno, que se chama D. João, mas eu não me lembrava
d'elle, porque entre nós os bastardos não são havidos em
tammanha honra como os legítimos. * — « Por isso vos pergun-
tava», disse elle; e, em dizendo esta palavra, deu um mui
grande suspiro e abaixou o rosto, chorando. Da qual cousa eu
fui muito espantado, e, por elle assim continuar em seu choro
e tristeza, roguei-lhe muito que me dissesse a causa que assim
o movera a chorar.
Como quer que m'o por muitas vezes negasse, a con-
clusão, africado com meus requerimentos, me disse: — «Amigo,
74 PORTUENSES ILLUSTRES
o meu choro não é tanto como eu tenho rasào, nem entendaes
que c|[ioro cousa nenhuma que seja presente; mas, pelo conhe-
cimento que tenho da perda que ha de vir a meus naturaes e
amigos, e porque a tua ventura te trouxe aqui, nota bem o
que te agora disser: Sabei que esse rei D. Pedro que vós
agora tendes por vosso rei em esse reino não ha de viver
muito, por cuja morte reinará em seu logar o infante D. Fer-
nando, seu primeiro filho, o qual será casado com uma mulher
por cujo aso o reino, depois da morte de seu marido, ficará
em grande revolta; e os outros dous filhos, por engano de sua
cunhada, serão lançados em Castella, onde farão fim de seus
dias. Finalmente, esse filho pequeno, que tu vês desprezado
em comparação a seus irmãos, será ainda n'esse reino como
uma pequena faisca, de que se levanta mui grande fogueira.
Que dias virão em que elle, primeiramente, vingará a deshonra
de seu irmão e depois, por escolhimento do povo, será ale-
vantado por rei. O qual haverá grandes demandas com o reino
de Castella, de que sempre ficará vencedor; e elle será o pri-
meiro rei de Hespanha que terá posse em Africa e seçá o
primeiro começo da destruição dos mouros, e ainda elle ou os
de sua geração virão a este chafariz dar de beber a seus
cavallos.» Ora, vede, senhor: — quem estas cousas assim ouviu
e as viu passar por aquella própria ordenança se crerá que a
cidade de Ceuta é já posta em vosso poder.
Sobre a ancoragem em Ceuta, cTeste bizarro
modo informou Affonso Furtado a D. João i. E
acerca do assentamento da cidade, chegada sua
vez: « — Senhor, disse o prior, de cousa que visse
nem achasse, não vos hei de dar resposta, até que
façais trazer quatro cousas, s.: duas cargas de
areia, e um novello de fita, e meio alqueire de
favas, e uma escudella. »
Pelo que tudo, já tomando algum queixume,
III— SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 75
pensando que os embaixadores não haviam rema-
tado sua incumbência consoante o geito que elles
lhes prescrevera, o rei, voltando-se para seus filhos:
«Vede, disse elle, que bem concertadas duas res-
postas para homens de tal auctoridade. Estou-lhes
perguntando pelas cousas que lhes mandei, e um
me falia em astrolomia, outro me falia em simi-
lhança de feitiços! Quem havia de cuidar que
dous homens taes houvessem de trazer similhante
recado?»
Porém tudo prestes se aclarou ; e seus successi-
vos tramites o emprehendimento proseguiu. Dos
quaes lanços e consecutivos mui capital foi o mo-
mento (cap. xxvn) de quando o rei teve seu Con-
selho sobre o encobrimento do propósito do ataque
de. Ceuta, ficando determinado que mandasse desa-
fiar (a fingir) o duque de Hollanda, o que (infor-
mando-o e prevenindo-o em secreto com antece-
dência) effectuou em publico depois Fernão Fogaça,
vedor do infante D. Duarte e que serviu de por-
tador d*aquelle suppositicio desafio.
Tornado Fernão Fogaça com a resposta (plena-
mente satisfactoria) da sua embaixada, nem por isso
as atoardas espalhadas encontraram geral credito,
consoante de Gomes Eannes de Azurara larga-
mente consta. Mas ao nosso caso restricto importa
agora só recordar (cap. xxx) como em Castella
souberam estas cousas e do Conselho que acerca
d'isto tiveram, na errónea persuasão attinente a
Sevilha, de Sevilha a Valência chegando o timorato
76 PORTUENSES ILLUSTRES
recado, expressando-se em primeiro logar o bispo
de Ávila, a quem similhante recado de Sevilha
especialmente fora encommendado, porquanto elle
era natural d'aquella cidade.
Em sua pratica, o bispo de Ávila exclamou:
«E bem para crerem aquelles que não têm sizo
que el-rei (de Portugal) haja de fazer uma armada
em que ha quatro annos que entende e despende
dinheiro, e não tam somente abala para ella as
cousas de seus reinos mas ainda manda por todas
as partes da christandade buscar navios e armas,
para ir sobre o ducado de Hollanda!»
Não era crivei ; « mas por certo que o feito que
assim anda callado alguma grande cousa ha de
parir, e os genovezes estantes em Lisboa, que
similhante escreveram, alguma cousa conhecem e
sabem, porque deram tal aviso a seus amigos. »
Dos genovezes estantes em Lisboa, tal aviso
não daria o genovez Lançarote Peçanha.
No seu capitulo xlvi, « porque alguns quererão
saber quaes eram os principaes que iam com
el-rei». alli os escreveu Azurara, sem, comtudo,
lhes guardar nenhuma ordem no referir, visto
como achou que por nenhum modo o poderia
fazer. Mas, lançados relativamente a esmo, aqui
apontaremos, para nosso fito, o prior do Hos-
pital, Álvaro Gonçalves Camello, o capitão Affonso
Furtado de Mendonça, o almirante Mice Lan-
çarote. . .
E da razão d'ordem por que procede terem os
III — SA DB MENEZES — DOM HENRIQUE ^^
italianos e, principalmente, os genovezes uma
parte tam activa nas nossas primeiras navegações
o lembraria opportunamente o futuro ex-socio e
secretario perpetuo da Academia Real das Sciencias
de Lisboa da qual se demittiu em 1857, futuro
ex-guarda-mór da Torre do Tombo, também sócio
correspondente da Academia Real das Sciencias de
Madrid e de mais de quarenta Academias e Socie-
dades scientificas e litterarias da Europa e da Ame-
rica, cuja extensa enumeração Innocencio manda
vêr na pag. 274 do Almanach de Portugal para
1855, de Valdez. Filho do professor régio Agos-
tinho José da Costa Macedo, de quem Innocencio
fizera menção já em seu logar, a referencia vae a
Joaquim José da Costa de Macedo.
No tomo xi (parte 11) das «Memorias da Aca-
demia Real das Sciencias», impresso em 1835,
vêem publicados uns additamentos á memoria
Sobre as verdadeiras epochas em que principiaram
as nossas navegações e descobrimentos no Oceano
Atlântico, lidos na assembléa ordinária de 8 de
abril d'aquelle anno, pelo referido Joaquim José da
Costa de Macedo, auctor da alludida e importante
memoria; d'estes additamentos não fazem menção
nem o Diccionario Bibliographico nem o seu Sup*
plemento; elles são, porém, mui valiosos.
Na primeira parte d'aquella sua memoria sobre
as verdadeiras epochas em que principiaram as
nossas navegações e descobrimentos no Oceano
Atlântico, impressa em o tomo vi das «Memorias
78 PORTUENSES ILLUSTRES
da Academia Real das Sciencias de Lisboa», Joa-
quim José da Costa de Macedo, fundando-se na
resposta dada em Fevereiro de 1345 por D.
Affonso iv ao papa Clemente vi, que lhe pedia
soccorros para D. Luiz de la Cerda levar a effeito
a conquista das Canárias, que em seu prol tinha
erigido em reino, mostrara que as navegações
portuguezas além do cabo de Não, em logar de
principiarem no tempo do Infante D. Henrique,
como geralmente se acreditava (e ficou geralmente
acreditando, apegar e após as locubrações impor-
tantíssimas do mesmo Joaquim José da Costa de
Macedo, consoante é aliás quasi que a conforme
regra em Portugal para todo aquelle que tem mé-
rito, hoje inteira e completamente esquecido), come-
çaram antes de 1336.
Um documento mais antigo, descoberto poste-
riormente, concorde com o que se diz n'aquella
resposta, e escripto por extrangeiros, acabaria de
desvanecer qualquer incerteza que o scepticismo
mais obstinado porfiasse em conservar e confirma-
ria a verdade dos factos n'ella expendidos.
O professor Sebastião Ciampi publicara, em
Florença, no anno de 1827, alguns monumentos
extrahidos de apontamentos autographos de Bocca-
cio, que achara na Bibliotheca Magliabechiana da
mesma cidade, e entre elles a noticia d'uma nave-
gação ás Canárias, que Costa de Macedo traduz
para portuguez e cuja parte histórica, confrontan-
do-a com a resposta já mencionada de Affonso iv
III — SA DE MENEZES — DOM HENRIQUE 79
ao papa Clemente vi, se ajusta com ella e attesta a
sua veracidade.
Tendo produzido mais uma prova das viagens
dos portuguezes no século xiv além do cabo de
Não, anterior á que já publicara e que lhe servia,
para assim dizer, de explicação, a Costa de Macedo
figura-se-lhe ainda que lhe restava agora demon-
strar a prioridade da nosssa navegação ás Canárias,
contestada por alguns escriptores e attribuida aos
genovezes.
N'este fito, para as confutar em seguida, Costa
de Macedo põe deante dos olhos do seu leitor as
palavras de Sebastião Ciampi, nas suas annotações
aos monumentos que publicou, bem como transcreve
o passo de Tiraboschi, a que elle se refere, «para
d'uma vez combater a opinião de ambos. » O passo
de Tiraboschi, na parte que basta para o nosso
propósito aqui, é o em que Tiraboschi conta de
«uma atrevida, posto que infeliz, tentativa feita
n'este mesmo século pelos genovezes para achar o
caminho marítiida a Ceuta e a esta nossa
cidade vindo a aprestar a contribuição d'ella para
o emprehendimento, em seu cap. xxxv Gomes
Eannes de Azurara nos conta como o rei escreveu
ao infante D. Henrique que partisse com sua frota, e
como o infante partiu, e da ordenança que levava.
Pois dia a dia tinha D. João i noticias do
aprestamento da frota que estava iVesta cidade do
Porto, assim pelas cartas que o infante lhe escre-
via, como por outras muitas que cada dia iam de
uma cidade para a outra. Que, segundo os tempos,
congemina Azurara que não podiam os caminhos
estar mui livres, porquanto aquelles fidalgos espe-
ravam de ir á cidade de Lisboa. E, portanto, man-
davam seus homens e cousas adeante, cada um
conforme lhe cumpria.
Escreveu o rei ao infante que, tanto que aquelles
principaes fossem prestes, que partisse logo o mais
trigosamente que podessem. Porque, tanto que elle
viesse com sua frota, entendia logo aviar a outra
de Lisboa, de guisa que, ao tempo que tinha orde-
nado, partissem.
Logo que o infante esteve prompt \ mandou
apparelhar uma frota, na qual enviou um seu escu-
deiro que chamavam Affonso Annes, que depois
88 PORTUENSES ILLUSTRES
foi contador d'esta cidade, o qual levava recado ao
rei de como o infante, seu tilho, partia já da cidade
do Porto, com sua frota. E logo o infante ordenou
que se recolhessem todos, para seguir sua viagem.
E era formosa cousa de vêr o corregimento cfaquella
frota, porque todalas naus, galés e outros navios eram nobre-
mente embandeirados com balsões e pendões pequenos, das
cores, motes e devisa do infante. E, porque eram todos novos
e bem acompanhados* de ouro, davam muito grande vista; e
as galés eram toldadas de finos pannos d'aquelles motes e
devisa; e os capitães das galés eram estes que se referem, a
saber : o senhor infante ; o conde seu irmão ; e Dom Fernando
de Bragança, filho do infante D. João; e Gonçalo Vasques
Coutinho, marechal ; e João Gomes da Silva, alferes-mór
d'el-rei; e Vasco Fernandes d'Athaide, governador da casa do
infante; e Gomes Martins de Lemos, aio que fora do Conde de
Barcellos; e assim eram sete galés e sete capitães.
E, porque fallara nos capitães das galés, Azurara
exclama para os que o ouçam : « E bem que saibais
de alguns dos principaes que iam da outra frota.»
E por isso a certos enumera, como^dom Pedro de
Castro, filho de dom Álvaro Pires de Castro; Gil
Vaz da Cunha; Pêro Lourenço de Távora; Diogo
Gomes da Silva; João Rodrigues de Sá; João Al-
vares Pereira; Gonçalo Annes de Souza; Martim
Affonso de Souza; Martim Lopes d' Azevedo; Ayres
Gonçalves de Figueiredo; Luiz Alvares Cabral;
Fernão d' Alvares, seu filho; Estevam Soares de
Mello; Mem Rodrigues de Refoyos; Garcia Moniz;
Payo Rodrigues de Araújo; Vasco Martins de Al-
III — Si DE MENEZES — DOM HENRIQUE 8:)
bergaria; Álvaro da Cunha; Fernão Lopes de
Azevedo; Álvaro Fernandes Mascarenhas.
ê
Ora, quando foi o dia d^quella partida, ia, entre
todos os da frota, mui grande contento, porque
todos os navios eram acompanhados de trombetas
e outros instrumentos, «cujo som espertava seus
corações para serem alegres.» E ainda tinham outro
motivo para estarem muito mais viçosos, visto
como, explica Azurara, n^quelle dia foram todos
vestidos de novo. Commenta que similhante cousa,
por sua novidade, « sempre traz algum accrescenta-
mento de folgança em o coração c 4 e qualquer, e
muito mais no dos homens mancebos, cuja clara ex-
periência não ha mister outra prova», elle philosopha.
Grande prolixidade ao chronista moralista se lhe
figura o escrever a de visa de cada um. Assim,
abastasse somente «que a do infante eram umas
capellas de carrasco, bem acompanhadas de cha-
paria, e por meio uns motes, que diziam: Von-
tade de bsm faz:r\ e as suas cores eram branco e
preto e vis.»
Todos os homens bons da cidade que alli que-
davam se despediram n'aquelle dia do infante, offe-
recendo-lhe seus serviços ; porque, além de em
elle haver uma graça singular para todos aquelles
que com elle tractavam, visto como «era natural
d'aquella cidade, tinha especial cuidado dos mora-
dores d'ella para requerimento de seus feitos, por
cuja razão era mais amado d'elles todos e o
tinham quasi por seu cidadão. »
9") PORTUENSES ILLUSTRE3
A Lisboa chegados, o infante D. Henrique
trazia tal disposição em sua frota que primeiro
surgissem por a foz os navios pequenos e depois
as naus grandes e após ellas as galés, das quaes
a mais derradeira era a d^lle infante.
Tanto que as novas haviam chegado a Lisboa
da vinda do infante D. Henrique, logo o rei man-
dara ao infante D. Pedro que fosse receber seu
irmão. Para esta ida logo foram prestes as outras
oito galés que alli estavam e btím assim todos os
bateis e navios pequenos que havia na frota.
. Nas galés iam : primeiramente, o infante D. Pe-
dro; na segunda, o mestre de Christo; na terceira,
D. Affonso; na quarta, o prior do Hospital; na
quinta, o Almirante; na sexta, seu filho, Mice
Carlos; na sétima, o capitão; e na oitava, João
Vaz d' Almada.
O condestabre, mais todos os outros senhores,
que estavam ordenados para ir com o infante
D. Pedro, foram nos bateis de suas naus e na
mesma em alguns navios pequenos. «E, se a frota
do Porto vinha bem embandeirada e toldada, esta
que partiu de Lisboa não ia menos, empero tudo
era dos motes e devisas d'el-rei; e assim come-
çaram de fazer sua viagem, caminho da foz, contra
onde os outros vinham. »
Ora, surgindo pela foz, da maneira dita, pri-
meiro os navios pequenos, e depois as naus
grandes, e após ellas as galés, das quaes a mais
derradeira era, consoante se contou, a do infante,
III — S.V DE MENEZES — DOM HENRIQUE 9I
deshi todos os navios começaram de andar barla-
venteando ao través d'aquelle mar, fazendo sempre
divisa sobre a galé do infante; e, pelo espalha-
mento que assim faziam, era aquella esquadra de
todos estimada em muito maior numero.
Assim andaram um pedaço, até que se ajuntou
uma frota com a outra, « d'onde aquelles irmãos
houveram entre si grande prazer, como aquelles
cuja amisade, entre os vivos, não foi outra simi-
ihante. »
D 1 est'arte foram similhantes senhores, junta-
mente acompanhados de suas frotas, até que che-
garam ao logar tal onde o infante D. Henrique
depois mandou fazer uma igreja, « a qual se agora
chama Santa Maria de Belém. »
E, no lanço, consideremos em que, se a um
portuense, o infante Dom Henrique, foi dado abrir
o período das grandes navegações, a outro por-
tuense, Fernão de Magalhães, dado seria encerral-a.
N'elle attentemos.
IV
Fernão de Magalhães — João Bermudes
— Belchior Nunes Barreto — Simão de
Vasconcellos — Raphael da Purificação
— João de Queiroz da Silveira.
D,
e nossos conterrâneos illustres, Fernão de
Magalhães seria o supremo, o primeiro de todos, se
modernamente se não tivesse assentado que, na
duvida, do Porto, em definitivo, não era. Isto está
estabelecido de certa data em deante e corre como
caso julgado, para todos os effeitos. Ainda em 1890
no volume especialíssimo {The life of Ferdinand
Magellan,) the first circumnavigation of the globe —
1480-1521) da collecção especial (The Word's great
explorers and explorations), editada simultaneamente
em Londres e em Liverpool, por seus publicadores
snrs. J. Scott Kettie, H. J. Mackinder e E. G. Ra-
venstein, seu auctor o snr. F. H. H. Guiilemard,
artium tnagister, medicinae doctor, ex-lente de geo-
94 PORTUENSES ILLUSTRES
graphia na Universidade de Cambridge, diz positiva-
mente: «Fernão de Magalhães nasceu cerce do
anno de 1480 — não se sabe a data precisa — em
Sabrosa, cerca de Chaves, na província de Traz-os-
Montes, uma das regiões mais agrestes de Portu-
gal» (pag. 18). E logo na pag. 25 addita que «elle
fora das agruras de Traz-os-Montes cedo transplan-
tado para a capital.» Pressurosa marcha é esta, de
si, a do snr. Guillemard.
O qual, em seu preambulo, a laudas de aber-
tura vii, começara ponderando que: «Caso curioso
seja que, de par e passo que o mundo é presen-
teado, cada anno que decorre, com biographias de
pessoas que não podem aventar pretenções a um
titulo de renome tam justamente concedido a Maga-
lhães, ainda uma vida do grande circumnavegador
não haja sido escripta em inglez ou, de facto —
salvo uma excepção — , em qualquer outro idioma.
A excepção é a Vida y Viajes de Hernando de Ma-
galianes, do snr. Diego de Barros Arana, a qual em
1881 foi traduzida para portuguez pelo snr. F. de
Magalhães Villas Boas, com a addenda de um
appendice original.»
Na verdade, com respeito ao logar do nasci-
mento de Fernão de Magalhães, Diego de Barros
Arana recapitula que os historiadores ora lhe dão
por pátria a cidade do Porto (Argensola, «Historia
de las Molucas», liv. 1, pag. 6, e nos seus «Anales
de Aragon», liv. 1, cap. xm, pag. 133), ora a capi-.
tal do reino de Portugal, Lisboa (San Roman, His-
IV — MAGALH À ES — BERMUDES BARRETO, &C. 95
toria general de la índia Oriental, Hw n, cap. xxv,
pag. 34 1). Posteriormente, descobrira- se na Biblio-
theca do Porto um curioso manuscripto que tem
este titulo : Nobiliário da Casa do Casal do Pego,
offerecido a Gaspar de Barbosa Malheiro por seu
tio fr. João da Madre de Deus. Este manuscripto,
que contém a genealogia da família de Magalhães,
faz nascer a Fernão na villa de Figueiró, província
da Extremadura, em Portugal.
Era difficil, pois, resolver coisa alguma em pre-
sença d'estas três oppostas auctoridades. Feliz-
mente, achava-se em Lisboa um testamento feito
pelo próprio Magalhães no bairro d i Belém, em
data de 19 de dezembro de 1504, três mezes antes
de embarcar para a índia, «no qual declara ser
natural da villa de Sabrosa, comarca de Villa Real,
província de Traz-os-Montes. »
Mais devagar. Não declara tal.
«Este testamento, que conheci em Paris, graças
á benevolência de Mr. Ferdinand Denis, o erudito
historiador de Portugal e do Brazil, me pareceu
decisivo ; e segui-o no texto d'esta historia. » Assim
leio na traducção que do livro do snr. Diego de
Barros Arana imprimiu em Lisboa, na typographia
da Academia Real das Sciencias, o snr. Fernando
de Magalhães Villas Boas em 1881.
Na «advertência preliminar do auctor», entre
os ensaios biographicos de Fernão de Magalhães
que declara conhecer, cita o snr. Diego de Barros
Arana o que foi publicado por Mr. Ferdinand Denis
96 PORTUENSES ILLUSTRES
no tomo xxxn da Nouv:lh biographle générale.
Mas, no ponto, não o leu com a escrupulosa,
miúda attenção que lhe é devida — pela propositada
morte-còr com que o trecho foi debuxado.
«Suppõe-se geralmente, escreve Ferdinand De-
nis, que Fernão de Magalhães nasceu no Porto;
mas documentos inéditos, que a nossas mãos
fizeram chegar de Portugal, dão-lhe por logar do
nascimento Villa de Sabrosa, na comarca de Villa
Real, província de Traz-os-Montes. »
E em nota especifica: «Esta indicação estriba-se,
dizem, sobre um documento notariado em data de
29 de dezembro de 1504. N'esse tempo da sua
primeira mocidade, Magalhães residia em Lisboa,
e ahi fez um testamento que existe ainda. . . Mas,
força é bem dizel-o, outros documentos provenien-
tes d'uma fonte não menos respeitável estão em
contradicção com estes; fazem nascer o illustre
navegador em Villa de Figueiró, na província da
Extremadura portugueza, affastada vinte léguas de
Lisboa. » Reporta-se em seguida áquelle manuscripto
da Bibliotheca do Porto.
E no texto addita que, no dobar do tempo,
Fernão de Magalhães residiu no Porto, tomando
officialmente o titulo d'habitante (vezino) d'aquella
cidade, á qual o sábio Munoz provara, por diplomas
authenticos, a particular affeição que elle lhe dedi-
cava. Em nova nota accrescenta Ferdinand Denis
que em 24 d'agosto de 15 19 Magalhães fizera
outro testamento differente do que fora indicado
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 97
«pelos nossos documentos portuguezes; n'elle to-
mara o titulo de Vezino do Porto.»
Note-se a cautella da marcha de Ferdinand
Denis e a discripção de sua linguagem. Não foi
notada.
Em 1868, no volume respeitante aos da Renas-
cença da sua collecção de Vidas dos sadios illustres y
no capitulo attinente a Magalhães, Louis Figuier
proclama que Denis se decidira por Villa-de-Sabroza,
no remate de suas inquirições, havendo-se elle
n'aquelles últimos tempos dirigido aos descendentes
do illustre portuguez, para alcançar informações au-
thenticas sobre a sua cidade natal, obtendo do snr.
Joaquim Pinto de Magalhães, e do snr. conde Aze-
vedo (sic), documentos inéditos, os quaes é certo
que Figuier commenta maliciosamente que, «por
desgraça, em vez de esclarecer a questão, não fize-
ram senão embrulhal-a mais. Procurava-se um logar
de nascimento authentico, e encontraram-se dois!»
Ao seu appendice a Arana, o seu traductor, snr.
Fernando de Magalhães Villas-Boas, abre-o dizendo
que ao actual — 1881 — representante legitimo da
casa e famiiia de Fernão de Magalhães, o snr. dr.
Alexandre Manuel Alvares Pereira de Aragão, resi-
dente em Viiia Fiòr, devera a mercê de lhe facultar
o exame dos documentos que possuía, a respeito
da naturalidade e genealogia do famigerado desco-
bridor.
O primeiro era o testamento de Fernão de Ma-
galhães, feito em Belém, nas notas do tabellião
VOL. I. 7
98 PORTUENSES ILLUSTRES
Domingos Martins, a 17 de dezembro de 1504, três
mezes antes do seu embarque para a índia com o
vice-rei D. Francisco de Almeida.
Mas no appendice 11 da obra de Guillemard, que
consta dos testamentos de Magalhães, vem outro-
sim o ultimo, como o primeiro para inglez traduzido.
E ahi se inscreve a parte legada to the monastery
of S. Domingo de las Duenas, in the city of Oporto,
in Portugal.
A's Donas de Corpus Christi no bairro novo do
Porto, ou Villa Nova de Gaya, é que cabia o legado.
Agostinho Rebello da Costa, em sua Descripçâo
topographica e histórica da cidade do Porto, cap. m,
num. xx (Conventos de religiosos)^ abre por esta
verba sua enumeração:
Convento de Corpus Christi de Religiosas Dominicas,
fundado em 1345. A sua situação é nas margens do rio Douro,
com multiplicados mirantes, sobranceiros uns aos outros, que
formam uma espécie de amphiteatro, agradável aos olhos. A
grande inundação do Douro acontecida no anno de 1625 foi o
que obrigou as religiosas á fabrica d'esta obra, que as isenta
d'outros assaltos similhantes. O numero das professas é de
setenta, além das seculares e serventes, que todas são sujeitas
ao ordinário. Este convento apresenta a Egreja Valladares,
curato.
Os argumentos contra a naturalidade de Fernão
de Magalhães attribuida ao Porto são dois.
Primeiro : que o dizer-se elle vecino do Porto não
quer dizer que seja «natural» do Porto, e só sim
«cidadão » no Porto. Não haverá que replicar a isto?
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 99
Segundo: que no seu primeiro testamento elle
institue um legado de doze missas todos os annos
no meu altar (diz) do Senhor Jesus da egreja do
Santo Salvador de Sabrosa. Provará isto que elle
natural seja de Sabrosa?
De modo algum. Mas, para portuenses, extre-
mados por motivos ao ultramar concernentes, gra-
ças a certo insistente mau-fado, duvidas e equivocos
se comprazem de surdir. Eis aqui que, a propósito,
dos bicos da penna o nome de João Bermudes me
caia. •
*
Patriarcha de Alexandria e da Ethiopia, por
nomeação de David, imperador da Abyssinia, no
anno de 1535, quando esteve n^quella corte sendo
ainda secular, e conhecido pelo nome de Mestre João,
em companhia do embaixador de Portugal D. Ro-
drigo de Lima. Foi confirmado tal pelo papa
Paulo iii, e sagrado em Roma em 1538.
Voltando depois para a Ethiopia, ahi entrou em
1541, acompanhado da força de 450 soldados, com-
mandados por D. Christovam da Gama, que o vice-
rei da índia mandara em soccorro do imperador,
por este sendo- lhe pedido para auxilial-o na defeza
contra os ataques dos musulmanos, que o inquie-
tavam.
• Ahi se demorou mais de doze annos, soffrendo
IOO PORTUENSES ILLUSTRBS
varias contrariedades e desgostos e sendo, afinal,
encerrado em prisão, da qual conseguiu evadir-se,
dirigindo-se a Goa, onde aportou em 1556. De lá
veio para Portugal e passou em Lisboa o resto dos
seus dias. Morreu em 1570, de edade mui provecta,
e jaz na egreja parochial de S. Sebastião da Pe-
dreira, junto do arco da capella-mór, em sepultura
raza.
Para mais miúda noticia da sua vida, manda
Innocencio vôr os estudos biographicos de Canaes,
onde se diz que elle fora natural da Galliza ; e- esta
ha sido a opinião mais seguida; tanto assim que
Barbosa, tendo-o por extrangeiro, não lhe concedera
logar na Bibliotheca Lusitana. Comtudo, Manuel de
Faria e Souza, na Europa Portugueza, dá-o como
portuguez e nascido na cidade do Porto. Agostinho
Rebello da Costa, na Descripção do Porto, também
o mencionara entre os escriptores naturaes d'aquella
cidade. E, ultimamente (Innocencio estava escre-
vendo em 1859), Rodrigo Felner, que tinha feito
sobre a obra de Bermudes estudo particular, des-
cobrira no contexto d'ella não menos de três loga-
res que, a seu vêr, são outros tantos testemunhos
decisivos que tiram toda a duvida acerca da natu-
ralidade do patriarcha e provam que elle fora nas-
cido portuguez. Provável era que o dito escriptor
tractasse de aclarar este ponto na reimpressão que,
sob proposta sua e por deliberação da Academia,
se havia de fazer com brevidade da referida obra.
A brevidade foi a nossa bem conhecida brevi-
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. IOI
dade, portugueza, peculiar de gente saudosa ainda
da liteira e carroção.
Exhibe Innocencio, quanto á obra que a João
Bermudes concerne, « a descripção do livro por elle
composto, e que é sem duvida um dos mais raros
e menos conhecidos da nossa litteratura. »
O primeiro biographo que entre nós apresentara
do referido livro uma descripção exacta e minuciosa
havia sido seguramente Figanière, a qual se pôde
vêr em sua Bibliographia histórica. Fora feita em
presença de um exemplar que tivera a possibilidade
de examinar no Archivo Nacional, d'onde posterior-
mente desapparecera, segundo as informações que
Innocencio obtivera. O collector do chamado Cata-
logo da Academia de certo não vira nem conhecera
esta obra; e era de crer que o mesmo aconteceria
a Antonjo Ribeiro dos Santos, pois que, do contra-
rio, tel-a-ia mencionado nas suas Memorias para a
historia da typographia portugueza. Ternaux-Com-
pans, que faz d'ella resumida memoria na sua
Bibliothèque Asiatique, impressa em 1841, era pos-
sível que visse, ou lhe fosse communicado em França
algum exemplar: em Portugal são raríssimos, e
apenas Innocencio encontrara noticia do referido
que esteve no Archivo e de outro que possuía o
visconde de Juromenha, e que tem a singularidade
de haver pertencido n'outro tempo ao celebre geo-
grapho Abrahão Ortelio, como se vê por uma cota
n'elle lançada por lettra contemporânea. Este exem-
plar, confiado pelo dito titular á Academia, era o
102 PORTUENSES ILLUSTRES
que havia de servir de texto para a intentada reim-
pressão.
Esse exemplar que tinha o visconde de Jurome-
nha fora pessoalmente entregue a Felner (já em
1883, quando o Supplemento reata a narrativa, falle-
cido), para a reimpressão, que havia de sahir da
imprensa da Academia Real das Sciencias ; mas essa
nova edição só viera a ficar terminada em 1875,
isto é quinze annos depois da proposta apresentada
n'aquelia douta corporação pelo dito académico, e
sem o prologo que promettera, pois que infelizmente
aggravaram-se-lhe os padecimentos e não pôde
concluir os annunciados e começados estudos.
Aos exemplares conhecidos da Relação accrescia
um terceiro, que existe na livraria do Museu Bri-
tannico, segundo o testemunho do conselheiro Figa-
nière.
Na reimpressão, em logar das linhas de Felner,
a obra traz uma breve introducção pelo académico
António da Silva Tullio; essa reimpressão, forma o
num. 4 da Collecção de opúsculos reimpressos relati-
vos a historia das navegações, viagens e conquistas
dos portugueses, pela Academia Real das Sciencias de
Lisboa. O num. 2 d'esta Collecção é, reimpressa pela
Academia em 1855, a Relação das cousas que o mui
esforçado capitão D. Ckristovão da Gama fez nos
reinos do Preste João, por Miguel de Castanhoso,
companheiro e depois inimigo capital do patriarcha
Bermudes na Abyssinia. O num. 4 consta da
Breve relação da embaixada que o patriarcha D.
IV MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I03
João Bermudes trouxe do imperador da Ethiopia,
chamado vulgarmente Preste João, dirigida a el-rei
D. Sebastião, com algumas notas illustrativas na
parte inferior das paginas, e uma gravura das armas
e epitaphio que se acham na lapida sepulchral de
Bermudes, na egreja de S. Sebastião da Pedreira.
Em sua prefação, Silva Tullio começa por dizer
que concordam todos os bibliographos em que essa
obra é uma das mais raras da imprensa portugueza
no século xvi, e tanto que já no segundo quartel
do decimo oitavo século Veyssière la Croze, para a
sua Histoire du Christianisme d'Etkiopie, houve de
recorrer á infiel traducção ingleza de Samuel Purchas,
por não ter podido alcançar exemplar algum de Ber-
mudes, nem tam pouco a Historia de Miguel de
Castanhoso, comquanto o douto bibliothecario do
rei da Prússia tivesse encommendado estes livros
para Portugal, como elle-proprio affirma. Ao ponto,
Silva Tullio manda vêr no Diccionario bibliographico
as conjecturas que fizera seu consócio Innocencio
Francisco da Silva sobre o desapparecimento quasi
total dos exemplares d'essa Relação.
Escrevera Innocencio que seria curioso (como,
de facto, é) averiguar quaes as causas prováveis do
desapparecimento quasi total d'este livro ; e abalan-
ça-se de si próprio a conjecturas. « Por ventura o
que n'elle se diz do caracter de Miguel de Casta-
nhoso e das loucuras de D. Christovão da Gama
(Innocencio põe a questão) seria parte para que os
parentes ou apaixonados de qualquer doestes tra-
104 PORTUENSES ILLU3TRE3
ctassem de retiral-o dos olhos do publico, com-
prando e talvez destruindo todos os exemplares de
que pudessem lançar mão?» Fosse esta ou outra a
explicação, o facto era que o livro desapparecera e
que esse mesmo exemplar que á data se conhecia
estava fora do reino desde tempos immediatos ao
da sua publicação e só voltara para Portugal não
se sabia quando nem como.
Innocencio remata occupando-se do estylo de
Bermudes, o qual, segundo affirmavam os que exa-
minaram a sua obra, é conciso e não destituído de
elegância. Silva Tullio archiva que são muitos os
auctores extrangeiros que tractam da utilidade
d'este opúsculo ; e por todos cita « um bom julga-
dor da litteratura portugueza», Ferdinand Denis,
que escrevera estas linhas, por todos os motivos
dignas de menção: «O que torna o livro do pa-
triarcha infinitamente precioso é que elie abraça o
período durante o qual esse terrível chefe musul-
mano, a quem se designa sob o nome de Gragne
ou o Canhoto, esteve a ponto de substituir em toda
a Abyssinia o islamismo á religião christã. Pôde
dizer-se que os portuguezes salvaram então a
Abyssinia da mais deplorável invasão. »
Quando Silva Tullio redigiu seu proemio, ainda
terminou dizendo que dos pontos controversos
saberia dar razão Felner, «na memoria académica
que esperamos da sua erudição histórica.» Porém,
seus padecimentos não lhe perdoaram, até próxima
morte.
IV — MAGALHÃES — BER. MUDES — BARRETO, &C. 105
E, pois que esternos, estejamos. De ponto
vamos a ponto. De nome a nome. E de portuense
a portuense.
E que, como o registrara o padre Franco, na
Imagem da virtude em o noviciado de Coimbra, no
collegio dos jesuítas de Évora se conservava o
original da Vida compendiosa do illustrissimo pa-
triarcka da Ethiopia D, Joào Nunes Barreto que
redigira seu irmão Belchior Nunes Barreto.
Desejando este attrahir aquelle ao instituto da
Companhia de Jesus que professava, lhe persuadiu
com efficacia preferisse a vida religiosa á ecclesias-
tica, «seguindo antes (assim se expressa Diogo
Barbosa Machado) o socego da Magdalena que a
diligencia de Martha.» João Nunes Barreto, formado
em Cânones pela universidade de Salamanca, fora
nomeado por seu irmão Gaspar Nunes Barreto em
a abbadia de Freiris, da qual era padroeiro, e ahi o
conheciam pela antonomásia de Abbade Santo.
Certo é que deixou o século e vestiu a roupeta
de jesuita em o collegio de Coimbra, a u de no-
vembro de 1544. Ainda não contava quatro de
religioso quando alcançou de seus superiores o
confiarem-lhe a missão de confortar os christãos
presos nas masmorras de Tetuão e Berbéria, mi-
nistério que exercitou pelo espaço de seis annos,
I OÓ PORTUENSES . ILLUSTRES
em que, por sua industria, resgatou duzentos
captivos.
Chegando a Lisboa, foi nomeado por D. João m
patriarcha da Ethiopia, partindo novamente da capi-
tal a 28 de março de 1556, embarcado em a nau
Garça, de que era capitão D. João de Menezes de
Sequeira; e, logo que se topou em Goa, applicando
todo o desvelo para entrar no seu Patriarchado,
propoz-se, com a intolerante intransigência do seu
proselytismo mystico, atalhar a vigência das diffe-
renças religionarias, ou seja, na linguagem do
abbade de Sever, «salvar aquellas ovelhas que
vagavam naufrantes em um pélago de erros scis-
maticos. *> Porém, como se lhe difncultasse a execu-
ção de seus fervorosos desejos, dedicou-se em Goa
a doutrinar «a mais infima plebe.» Assim o pinta
a Bibliotheca Lusitana «resignado na vontade di-
vina. » Mas a vontade divina distinguirá, para a
doutrinação, entre o que o nãp seja e «a mais
infima plebe?»
Falleceu a 22 de dezembro de 1562, quando
contava 45 annos de edade e 18 de Companhia,
pouco lhe sobrevivendo seu irmão Belchior Nunes
Barreto, que morreu em 10 de agosto de 1571, com
51 annos de edade e 28 de Religião.
Este, á data em que tinha consummado o tempo
que as leis académicas prescrevem para receber o
grau de doutor na faculdade de Cânones, «ante-
pondo (escreve o douto Machado, ainda embuido
dos resíduos do fanatismo tradicional) a humildade
IV — MAGALHÃES — BER MUDES BARRETO, &C. 107
religiosa ao applauso litterario», pediu a roupeta da
Companhia de Jesus ao tremendo padre Simão
Rodrigues, o qual lhe insinuou que, antes de
conseguir a sua pretensão, recebesse as insígnias
doutoraes. Obedeceu com a humildade da sua
superstição, ufanamente graduando-se com grande
soiemnidade. No fim do que, foi admittido á Com-
panhia de Jesus, em n de março de 1543, no flo-
rente viço dos 23 annos de sua edade.
Logo que n'ella se viu alistado, « parecendo-lhe
pequena esphera para o seu agigantado espirito o
reino de Portugal», diz, dizendo-o, Barbosa que
supplicara com repetidas instancias dos superiores
a que o mandassem á índia, para onde partiu no
anno de 1551, embarcado em a nau Esperança, de
que era capitão Diogo Lopes de Sousa Tavares.
Com singulares demonstrações de affecto foi
recebido em Goa por S. Francisco Xavier, que o
nomeou, em fevereiro de 1552, Superior da resi-
dência, de Baçaim, onde converteu gentios, reformou
christãos e, (addita, no mesmo espirito, Barbosa),
«expulsou herejes que, com praça de artilheiros,
passavam das partes septentrionaes áquellas regiões
para semear o pestífero veneno dos seus erros. »
Por morte do padre Gaspar Barzeo, foi eleito
provincial da índia, em o anno de 1553, cargo que
o obrigou a voltar a Gôa, d'onde passou ao Japão,
levando em sua companhia o celebre viajeiro Fernão
Mendes Pinto.
Toleradas constantemente varias tempestades,
I08 PORTUENSES ILLUSTRES
aportou a Malaca a 5 de junho de 1554, após o
que entrou em Cantão, metrópole de uma das pro-
vindas da China, sendo o primeiro que promulgou
christianismo em tam dilatado império.
Visitou as egrejas das costas de Travancor,
Pescaria e Coromandel ; e, assistido de quarenta por-
tuguezes, preciosamente vestidos, deu uma solemne
embaixada ao rei de Bungo, que já tinha recebido
outra similhante de S. Francisco Xavier, para que
professasse publicamente a lei christã. Posto que foi
tractado benevolamente por aquelle príncipe, não se
resolveu este a acceitar a proposta do evangélico
embaixador, explica Barbosa que «receoso dos
ânimos de seus vassallos. » Barbosa accrescenta que
Belchior Nunes Barreto convencera em publica dis-
puta a Marcos José, bispo nestoriano, que pelas
serras do Malabar andava «semeando a perniciosa
e falsa doutrina dos seus scismaticos dogmas»; obri-
gara-o a abjurar solemnemente, por escripto, na sé
de Cochim os erros que professava.
Notanda o que é, porém, para que se analyse,
é a lista de auctores, em encómio do portuense
Belchior Nunes Barreto allegada pela Bibliotheca
Lusitana, a qual também fornece uma copiosa refe-
rencia, a seu irmão João Nunes Barreto attinente.
D'um e outro faz a devida menção de suas originaes
producções (cartas de missão) das quaes certas
andam traduzidas outrosim em hespanhol, italiano
e no idioma latino.
Todos os capítulos, concernentes a essa tenta-
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. IOÇ
tiva frustrada da conversão do rei de Bungo pelo
nosso portuense Belchior Nunes Barreto, nas Pere-
grinações de Fernão Mendes Pinto (do cap. 219 —
Como o Padre Mestre Belchior partiu da índia para
o Japão e a causa porque não passou de Malaca, e do
que n f ella succedeu n'este tempo — ao 225, Como o
Padre Mestre Belchior se viu com el-rei do Bungo e
do que passou com elle c da resposta que el-rei me
deu da embaixada que lhe levei) são interessantíssi-
mos, consoante aliás tudo n'esse livro espantoso
d'esse prodigioso homem.
Mas Fernão Mendes Pinto não creu na efficacia
dos esforços do jesuita, o qual se desilludira, pare-
cendo-lhe bem tornar-se para a Índia, rasões de
desanimo a que se juntou outrosim vir-lhe uma
carta, que um Guilherme Pereira lhe trouxe de Ma-
laca, pela qual teve novas de que viera um seu irmão
do reino, por nome João Nunes, por patriarcha do
Preste João, « o que também (relata Fernão Mendes
Pinto) fez n'elle um grande abalo, por lhe parecer
que, indo com elle, faria lá na Ethiopia muito mais
frueto que alli, onde estava já desenganado que por
então perdia o tempo e o trabalho; porém este seu
bom intento também não teve effeito. » Diz as razões
por quê. Baldadamente «se passaram cinco annos
nas governanças de Francisco Barreto e de D.
Constantino em que nenhuma doestas cousas houve
effeito e os padres irmãos morreram ambos, um em
Gôa e outro em Cochim. »
Ferdinand Denis, chamando-lhe Melchior, allude
IIO PORTUENSES ILLUSTRES
discretamente á asseverada conversão do bispo nes-
toriano Marcos José e convém em que a Nunes
Barreto se devem cartas importantes sobre a Ásia.
Extrema, d'entre ellas, uma, que é procurada, de
preferencia ás demais, e que, escripta em 1554, não
foi impressa senão em 1570, em Louvain.
Esta minha lembrança do nosso portuense
padre Belchior e seu infructuoso tentamen per-
mitte-nos, pois que a coevo talho, que noticia
dêmos de uma amável troça ha trezentos e cin-
coenta annos feita pelos japonezes aos portuguezes.
Curiosíssimo !
Em seu cap. ccxxm, Fernão Mendes Pinto
conta como chegaram ao reino do Bungo e do
que lá passaram com seu rei. E ultra-interessante.
Senão, vejam:
Chegada a monção em que podiam fazer sua
viagem, se partiram da ilha Lampacau aos 7 de
maio do anno de 1556, embarcados em uma nau
de que era capitão e senhorio D. Francisco Mas-
carenhas, de alcunha Palha, que aqueile anno
alli residira por capitão-mór.
Ora, continuando sua derrota por tempo de
quatorze dias, houveram vista das primeiras ilhas
que estão em altura de 35 graus, que, por gradua-
ção, demoram a Loesnoroeste da de Tanixumâ.
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. III
piloto, conhecendo então a má navegação que
levava, se fez na volta do Sudoeste a demandar a
ponta da serra de Minató. Aferrada a costa de
Tanorá, velejaram sempre ao longo d'ella até
o porto de Fiungá. E, porque as agulhas aqui
n'este clima nordestearam, e as aguas corriam a
Norte, perdeu o piloto toda a estimativa da nave-
gação, de maneira que já, quando conheceu seu
erro, «inda que, por natureza marínhatica, o não
queria confessar», tinham escorrido o porto para
onde iam sessenta léguas abaixo. Pelo que, com
assas de trabalho, por lhes ficarem os ventos pon-
teiros, o tornaram a tomar d'alli a quinze dias, e
com bem de enfadamento e risco de suas fazendas
e vidas, porque toda aquella costa estava levantada
contra o rei do Bungo nosso amigo e contra os
habitadores d'ella, por serem muito amigos da Lei
do Senhor que os nossos padres lá denunciavam.
Surtos, pela misericórdia de Deus, na bahia da
cidade Fucheo de que já atraz fizera elle Fernão
Mendes Pinto menção muitas vezes, que era a me-
trópole do reino do Bungo e onde então florescia a
principal christandade de todo o Japão, se assentou,
por parecer dos mais, que fosse elle, Fernão Men-
des, .á fortaleza de Osquy, onde tiveram a nova que
o rei á data estava. Ainda que Fernão Mendes
algum tanto se receasse d'esta ida, porque, como
dissera, a terra a este tempo estava alevantada,
todavia lhe fora forçado acceital-a, por lh'o pedirem
todos geralmente com muita efficacia.
112 PORTUENSES ILLUSTRES
Fazendo-se, pois, logo prestes, com mais qua-
tro companheiros que levou comsigo (depois que
recebera um presente que D. Francisco, capitão da
nau, mandava ao rei e que valeria quinhentos cru-
zados), se partiu; e, desembarcando no cães da
cidade, se foi a casa do Quansio Andono, almi-
rante do mar e capitão de Canafuma, o qual o
recebeu com mostras de milito gasalhado, que
algum tanto o alliviou do receio que levava. E r
dando-lhe elle conta do a que ia, lhe pediu que o
mandasse prover de cavallos e gente que o levasse
onde o rei estava, o que elle logo fez, muito mais
largamente do que se lhe pedira.
Partido Fernão Mendes da cidade, chegou no
outro dia, ás nove horas, a um logar chamado
Fingau, que seria um quarto de légua da fortaleza
de Osquy, onde, por um dos japões que levava
comsigo, mandou dizer ao Osquim Dono, capitão
d'ella, como elle era alli chegado, e que trazia uma
embaixada do vice-rei da índia para Sua Alteza,
pelo que lhe pedia lhe mandasse dizer quando
queria que lhe fallasse. A isto, por um seu filho,
logo lhe respondeu : — A tua vinda, com a de todos
os teus companheiros, seja muito bòa; já tinha eu
mandado recado a El-Rei á ilha do Xeque, para
onde foi ante-manhã, com muita gente, a matar
um grande peixe, de que se não sabe o nome, que
do centro do mar ali veio a ter, com outra gra.nde
somma de peixes pequenos. Pelo ter cercado já
n'um esteyro, a mim parece que não poderá vir
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 113
senão dé noite. Porém do que Sua Alteza me res-
ponder, te mandarei logo recado. No entretanto,
descança tu em outras casas melhores onde te vou
mandar aposentar e onde provido serás de tudo ó
necessário, porque toda esta terra tanto é do rei de
Portugal como Malaca, Cochim e Goa.
E um homem seu, que já vinha para isso, os
agasalhara logo em um pagode, que se dizia Ami-
damxó, onde dos bonzos d'elle foram banqueteados
esplendidamente.
O rei, assim que teve aviso de Fernão Mendes
haver chegado, despediu logo, d'aquella ilha onde
estava no cerco d ? aquelle grande peixe, três funés
de remo e n'ellas um seu camareiro, muito seu pri-
vado, que se chamava Oretandono, o qual, já sobre
a tarde, chegou ao logar onde Fernão estava. Indo
logo ter com elle, depois que por palavra lhe disse
o a que o rei o mandara, tirou do seio uma carta
d'este e, « beijando-a com as ceremonias e cortezias
que entre elles se costumam», Ih 'a deu. Dizia essa
carta .assim : — Estando eu agora occupado n'um
trabalho de muito meu gosto, soube da tua bòa che-
gada a esse logar onde estás, com os mais compa-
nheiros que vêm comtigo, do que tive tammanho
contentamento que te certifico que, se não tivera
jurado de me não ir d'aqui até matar um grande
peixe que tenho cercado, muito depressa, por minha
pessoa, te fora logo buscar. Pelo que te rogo, como
bom amigo, que, já que por esta causa não posso
ir, venhas tu logo n'essa embarcação que lá te
voi». I. 8
114 PORTUENSES ILLU3TRE3
mando, porque com tu vires e eu matar este peixe
será meu gosto perfeito.
Vendo Fernão Mendes esta carta, se embarcou
logo, com todos os seus companheiros, na funé em
que vinha o Oretandono, e os moços, com o pre-
sente, nas outras duas. E, por serem ligeiras e bem
esquipadas, em pouco mais de uma hora se encon-
traram na ilha, que distava d'alli duas legoas e meia.
A ella chegaram a tempo que o rei, com mais
de 200 homens, com suas fisgas, andavam em bateis
atraz d'uma grande baleia, que, na volta de um
grandíssimo cardume de peixe, alli viera ter, « o qual
nômé de baleia e o mesmo peixe em si foi então
entre elles muito novo e muito estranho, porque
nunca tinham visto outra tal n'aquella terra. »
Depois que a mataram e a trouxeram fora á
praia, foi o prazer do rei tammanho que a todos os
pescadores que alli se acharam libertou de um certo
tributo que antes pagavam e lhes deu nomes novos
de homens nobres; a alguns fidalgos que alli esta-
vam, a elle acceitos, accrescentou os ordenados que
tinham; e aos guesos, que são como moços da
camará, mandou dar mil taeis de prata. «E ami
me recebeu com a bocca muito cheia de riso, e me
perguntou miudamente por muitas particularidades,
a que eu respondi accrescentando em muitas cousas
que me perguntava, por me parecer que era assi
necessário á reputação da nação portugueza e á
conta em que até então n'aquella terra nos tinham,
porque todos então tinham para si que só a o rei
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 115
-de Portugal era o que com verdade se podia chamar
Monarcha do Mundo, assi em terras como em poder
e thesouro, e por esta causa se faz n'aquella terra
tanto caso da nossa amizade. »
Acabado isto, se partiu logo o rei d'esta ilha do
Xeque para Osquy e chegou a sua casa com uma
hora da noite, sendo recebido de todos os seus com
muita festa e regosijo ao seu modo, e lhe deram os
parabéns de tam honroso feito, como fora o d'aquella
baleia, attribuindo a elle só o que os outros fizeram,
.« que este prejudicial vicio da adulação é tam natural
das cortes e das casas dos príncipes que até entre o
barbarismo da gentilidade lhe não faltou seu iogar. »
Despedindo então o rei toda a gente que o
acompanhara, ceou recolhido com sua mulher e
seus filhos e não quiz que homem nenhum por
então o servisse, porque o banquete era á conta da
rainha. « Porém alli nos mandou chamar a todos
cinco a casa de um seu thesoureiro onde já está-
vamos aposentados, e nos rogou que, por amor
d'elle, quizessemos perante elle comer com a mão,
assim como faziamos em nossa terra, porque folga-
ria a rainha de nos vêr. »
Logo lhes mandou preparar a meza, muito
abastada de iguarias, assas limpas e bem guiza-
das. «E, servida por mulheres muito formosas, nos
entregamos todos no que nos punham deante, bem
á nossa vontade ; porém os ditos e galanterias que
as damas nos diziam e as zombarias que faziam de
nós quando nos viram comer com a mão foram de
IIÓ PORTUENSES ILLUSTRES
muito mór gosto para El-Rei e para a Rainha que
quantos autos lhes poderam representar, porque,
como toda esta gente costuma a comer com dous
paus, como já por vezes tenho dito, tem por muito
grande sujidade fazel-o com a mão, como nós cos-
tumamos. »
Então uma filha do rei, moça já de quatorze
até quinze annos e muito formosa, pediu licença a
sua mãe para uma certa farça que seis ou sete
queriam fazer sobre a matéria de que se tractava;
e a rainha, com consentimento do rei, lh'a concedeu.
Entrando então ellas para dentro d'outra salla,
se detiveram um pequeno espaço, e as que ficaram
fora se desenfadaram entretanto bem á custa dos
nossos portuguezes, com muitas graças e zomba-
rias, de que todos estavam bem corridos, ao menos
os quatro, por serem mais novéis e não entenderem
a lingua, porque elle Fernão já em Tanixumá tinha
visto outra farça que se teve com portuguezes,
similhante a esta, e por algumas vezes as havia
visto também n'outras partes.
«Estando nós no meio d'esta affronta, porém
soffrendo já melhor a zombaria pelo gosto que
viamos que El-Rei e a Rainha tinham d'ella, sahiu
de dentro a princeza, muito formosa, em trajo de
mercador, com um traçado de chaparia de ouro na
cinta e tudo o mais muito apropriado ao que repre-
sentava; e, pondo-se de joelhos deante d'El-Rei seu
pae, com o acatamento devido, lhe disse : — Pode-
roso rei e senhor, ainda que este meu atrevimento
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. II 7
seja digno de grande castigo, pela desegualdade que
Deus quiz que houvesse entre vossa Alteza e minha
Baixeza, a necessidade em que me vejo me faz não
pôr deante este inconveniente, de que me pudera
temer, porque, como eu sou já velho e tenho mui-
tos filhos, de quatro mulheres com que fui casado,
e em minha quantidade muito pobre, desejando,
como pae que sou, o deixal-os amparados, pedi
por meus amigos que me ajudassem com seus
empréstimos, que alguns me concederam; e, fazendo
eu emprego n'uma certa fazenda que, por meus
peccados, não pude vender em todo o Japão, deter-
minei de a trocar por qualquer cousa que me dessem
por ella. E, queixando-me eu dMsto a alguns meus
amigos no Miacó, d'onde venho, me certificaram
que só Vossa Alteza me podia agora n'isto ser bpm.
Pelo que, Senhor, lhe peço que, havendo respeito a
estas cãs e a esta velhice, e a ter eu muitos filhos
e muita pobreza, me queira valer em meu desam-
paro, porque n'isto que lhe peço, a mi fará grande
esmola, e aos chenchicos que agora vieram n'esta
nau grande mercê, porque esta minha mercadoria
lhes arma a elles, mais que a outrem ninguém, pela
grande aleijão em que se vêem continuamente.»
Emquanto durou esta pratica, o rei e a rainha
não se podiam ter com riso, vendo que aquelle
mercador, tam velho, com tantas cãs, tantos filhos
e tanta necessidade, era a princeza sua filha, muito
moça e muito formosa. O rei, comtudo, detendo o
riso por um pouco, lhe respondeu, com muita gra-
Il8 PORTUENSES ILLUSTRES
vidade, que mandasse trazer a amostra da fazenda
que trazia, e que y se fosse cousa que os armasse ', elk
lhes rogaria que Vha comprassem. Ao que, ella,
fazendo uma grande mesura, se tornou a recolher
para dentro.
Até então estavam os lusos tam embaraçados
com o que viam que não sabiam determinar o que
seria. As mulheres que estavam na salla (que seriam
mais de sessenta), sem haver alli outro homem mais
do que eiles os cinco companheiros somente, come-
çaram a confranger todas e a acotoveiar-se umas
com as outras, e a fazer entre si algum rumor com
um riso baixo e cailado. Porém, quietando-se logo
este, o mercador tornou a sahir de dentro com as
amostras da fazenda, as quaes as traziam seis mo-
ças, muito formosas e muito ricamente vestidas em
trajos de homens mercadores, com seus traçados e
adagas de ouro na cinta, e de aspectos graves e
auctorisados, porque todas eram filhas dos princi-
paes senhores do reino, que a princeza escolhera
para a ajudarem n'esta farça, que quiz representar
ao rei e á rainha. Estas seis traziam aos hombros
cada uma seu envoltório de tafetá verde e, fingindo
todas seis serem filhos d'aquelle mercador, vinham
passando uma dança, ao seu modo, muito bem
concertada, ao som de duas harpas e uma viola de
arco. E, de quando em quando, diziam, em trovas,
com falias muito suaves e muito para folgar de
ouvir : — Alto e rico Senhor de riqueza, por quem
és, te lembra da nossa pobreza. Somos miseráveis,
IV — MAGALHÃES — BER MUDES — BARRETO, &C. IIÇ
em terra extrangeira, desprezados da gente, por
nossa orphandade, com desprezos e grandes affron-
tas. Pelo que, Senhor, te pedimos que, por quem
és, te lembres da nossa pobreza.
E, assim, a este modo, «que na sua lingua
eram todas muito bem feitas», disseram mais outras
duas ou três, repetindo sempre, no fim de cada
uma d'ellas: — Por quem és, te lembra da nossa
pobreza.
Acabada a dança e a musica, se puzeram todos
de joelhos deante do rei; e, depois que o mercador,
com outra pratica muito bem concertada, lhe deu
as graças da mercê, que lhe queria fazer, de lhe
fazer vender aquella fazenda, os seis desembrulha-
ram os envoltórios que traziam e deixaram cahir
na salla uma grande somma de braços de pau,
«como os que cá. se offerecem a Santo Amaro»,
dizendo o mercador* « com muita graça e com pala-
vras muito discretas :>: — Pote a natureza, por
vossos peccados, vos sujeitou a vós-outros a mi-
séria tam suja que necessariamente as vossas mãos
hão-de andar sempre fedendo ao peixe ou á carne
ou ao mais que comeis com ellas, muito vos arma
esta mercadoria, porque, emquanto vos servirem
umas mãos, se lavarão as outras.
A qual cousa o rei e a rainha festejaram com
muito riso, e elles todos cinco estavam tam corri-
dos que, entendendo-o o rei, lhes pediu muitos per-
dões, dizendo: — Porque a princeza minha filha
visse quam grande bem eu quero aos portuguezes,
120 PORTUENSES ILLUSTRES
lhe dei este pequeno passatempo, de que vós,
tam somente, como irmãos meus, fostes partici-
pantes.
«Ao que nós respondemos que Deus nosso
Senhor pagasse por nós a Sua Alteza aquella honra
e mercê que nos fazia, que nós confessávamos por
muito grande e assi o publicaríamos por todo o
mundo emquanto vivêssemos.»
. O que elle e a rainha e a princeza, vestida
ainda em trajos de mercador, lhes agradeceram,
com muitas palavras ao seu modo. E a princeza
lhes disse : — Pois, se o vosso Deus me quizesse
tomar por sua criada, ainda lhe eu faria outras
farças muito melhores e de mais seu gosto do que
esta; mas eu confio que Elle se não esqueça de
mim.
«Ao que nós todos, postos de joelhos e beijan-
do-lhe o queimão que tinha vestido, respondemos
que assi o esperávamos n'Elle, e que, fazendo-se
ella christã, a haviamos de vêr rainha de Por-
tugal, do que a rainha sua mãe e ella se riram
muito. »
Este caso de graciosa reprehensão dá-nos hoje
conta dos hábitos familiares de nossos antigos e
quiçá sirva a explicar-nos a origem da locução
trivial injuriosa que a certa parte manda o injuriado
comer ou beber «com dois paus», cuja o, motivo
na memoria collectiva se obliterou.
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 121
Mas, revertendo, se a Nunes Barreto, portuense,
se devam cartas importantes sobre a Ásia, impor-
tantes informes sobre o Brazil ao portuense Simão
de Vasconcellos seguro é que se devem.
Este jbsuita, cuja roupeta vestiu na cidade da
Bahia em 1616, que foi lente de theologia, procura-
dor geral da Companhia em Roma e depois provin-
cial no Brazil, nasceu n'esta cidade do Porto em
1597 e morreu na do Rio-de- Janeiro a 29 de setem-
bro de 1671, sendo auctor áa.*Chronica da Compa-
nhia de Jesus do estado do Brazil, e do que obraram
seus filhos n'esta parte do mundo, a qual, impressa
em Lisboa no anno de 1663, é uma das melhores
edições d'aquelle século, tanto no que diz respeito
á grandeza e consistência do papel como (assim
esmiuça Innocencio) no tocante á belleza dos cara-
cteres da impressão. Em o catalogo da livraria de
lord Stuart vem descripto um exemplar d'esta obra
com a nota de muito raro; mas em 1865 fez-se
outra edição em dois volumes de 4. na cidade de
Lisboa.
Consoante já, começando, apontado ficou, o emi-
nente litterato Francisco Adolpho de Varnhagen,
visconde de Porto-Seguro, em sua Historia geral
do Brazil, fallando do padre Vasconcellos, não
122 PORTUENSES ILLUSTRES
duvida acoimal-o de crédulo e supersticioso; e diz
que os seus escriptos acerca do Brazil mais se
recommendam hoje pela antiguidade que pela im-
portância dos factos que narra o auctor, sempre
disposto a exaggerar as obras dos jesuítas.
Divididas em dois livros, no principio d'esta
Chronica da Companhia, sahiram depois á parte,
em obra própria de per si, no anno de 1668 as
Noticias curiosas e necessárias das cousas do Brazil,
ás quaes José Carlos Pinto de Sousa, na sua BibL
hist. de Portugal, as qualifica de «admirável his-
toria. »
N'esta «admirável historia», pejorativo é o
conceito pelo jesuíta portuense formado dos brasi-
lianos selvagens nativos, pois, tractando largamente
dos costumes dos indios do Brazil, logo marca que,
em sua. gentilidade, não têm fe. nem lei nem rei,
« e, em signal d'esta singularidade, lhes negou tam-
bém o auctor da natureza as lettras F, L, R.»
Successivamente, os apoda de andarem nus;
de não terem policia nem arte ; de furarem as faces,
orelhas e beiços; de não gosarem morada certa;
de serem preguiçosos, mentirosos, comilões e dados
a vinhos; nota-os de paupérrimos; emfim, incre-
pa-os de vingativos e cruéis.
Mas então destaca mui interessante a narrativa
de suas praxes de anthropophagia.
Simão de Vasconcellos passa-o d'esfarte a
contar :
IV — MAGALHÃES — BERMUDBS — BARRETO, &C. 123
Dos que tomam na guerra, os velhos comem logo (carne
do maior sabor para elles); os mancebos levam captivos,
amarrados em cordas, com grandes algazarras, á maneira de
triumpho. O modo com que depois os matam e comem, é força
que ponhamos aqui, porque é uma mais refinada de suas bar-
barias. Logo que o contrario é tomado vivo em guerra, e
aquelle que o captivou tem intento de mostrar n'elle a illustre
façanha de guerreiro valente, remette-o á povoação do maior
Principal e aqui, em logar de grilhões, se faz entrega d'elle,
solemne, a uma carcereira fiel, que o ceve e engorde por tempo;
para isto, lhe dão caçadores, pescadores e todo o mais necessá-
rio para que seja bem apascentado, e com advertência que se
lhe não dê pena em nada, antes allivio e descanço em tudo,
porque assim se vá engordando, qual bruto animal, para os
intentos da gula e do ódio que logo ouviremos. Quando já, a
parecer da carcereira, está grosso em carnes, despedem mensa-
geiros por todas as povoações circumvisinhas, fazendo a saber
o dia da festa, para que todos sejam presentes a solemnidade
tão festival, sob pena de incorrerem em nota de avaros os que
não convidarem e de mal-creados os que não acudirem.
Congregada, na forma referida, esta barbara gente, vae
sahindo aquelle valente soldado que ha-de matar o contrario a
um terreiro, como a um palanque, pizando grave, cercado de
parentes e amigos, como se fora a armar-se cavalleiro ou a
passar triumpho no mesmo Capitólio de Roma. Vem vestido a
mil maravilhas, de pennas, assentadas em bálsamo, todo em
contorno, desde a cabeça até os pés. Tem a cabeça coroada
com um diadema vermelho acceso, côr de guerra. Do pescoço
pendem dois collares da mesma c3r, a tiracollo encontrados,
que vêm a morrer na cintura. Os braços, pelos hombros, coto-
vellos e pulsos, vão enfeitados com suas plumagens, á feição
de enrocados grandes. Pela cintura, apertam uma larga zona;
d'esta pende, até os joelhos, um largo fraldão, a modo trágico,
e de tam grande roda como é a de um ordinário chapeu-de-sol.
E, finalmente, n'esta conformidade nos joelhos, pernas, pés vae
continuando a libré, toda da mesma peça, de pennas de aves,
124 PORTUENSES ILLUSTRES
as mais formosas e lustrosas em cores que para este effeito
guardam de seus antepassados.
Assim se veste e arreia o feroz combatente sahindo a
terreiro. Leva nas mãos uma maça, á maneira d'aquellas com
que se combatiam os cavalleiros da antiga edade; a qual, desde
a empunhadura até áquella parte mais grossa com que fere,
vae toda guarnecida das mais luzidas pennas; e é esta feita de
pau mui pezado, e forte como o mesmo ferro. Assim se apre-
senta o combatente no terreiro, soberbo, jactancioso e bizarro.
Entretanto vem sahindo o triste preso que ha-de ser sacri-
ficado, atado com duas cordas pela cintura, e por estas tiram
dous mancebos robustos, por que não possa divertir-se para
uma ou outra parte, os braços soltos, para com elles tomar os
golpes que lhe começa a tirar o contrario, o qual se vae de-
tendo n'estes de propósito, para mór festa dos circumstantes,
até que com a ultima pancada lhe faz em pedaços a cabeça e
o derriba morto, com taes applausos, gritos, assobios, bater de
arcos e de pés dos que estão á vista que atroam os ares.
Mas, voltando atraz, é muito de advertir outra notável
ceremonia: porque, logo que o triste preso vae sahindo do
cárcere para. a morte, é costume irem recebel-o á porta seis ou
sete velhas, mais feras que tigres e mais immundas que har-
pias, de ordinário tão envelhecidas no officio como na edade,
passante de cem annos, que assim as escolhem. Vão cobertas
com as primeiras roupas de nossos pães primeiros, mas pinta-
das todas de um verniz vermelho e amarello, com que se dão
por muito engraçadas; vão cingidas, pelo pescoço e cintura,
com muitos e compridos collares de dentes enfiados que teem
tirado das caveiras dos mortos que em similhantes solemnida-
des teem ajudado a comer; e, para mór recreação, vão ellas
cantando e dansando, ao som de certos alguidares que levam
em as mãos, para effeito de receber o sangue e juntamente as
entranhas do padecente. Recebidas estas e o sangue, entra o
Principal, feito almotacel, a repartir a carne do defunto.
A esta manda dividir em tão miúdas partes que possam
todos alcançar uma pequena fevera, sequer. E é tanto assim que
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 125
affirmam Índios antiquíssimos que, como commummente é im-
possível chegarem a provar tantas mil almas da carne de um
só corpo, se coze muitas vezes um só dedo da mão ou do pé
em um grande azado, até ser bem delido, e depois se reparte o
caldo, em tam pequena quantidade a cada um que possa dizer-se
com verdade que bebeu, pelo menos, do caldo onde fora cozida
aquella parte do seu contrario. E, quando algum dos Princi-
paes, ou por enfermo ou por muito distante, não pôde achar-se
presente, lá se lhe manda seu quinhão, que, de ordinário, é
umá mão ou, pelo menos, um dedo do defunto. E este se tem
pelo mór brazão e mór nobreza de toda a gerarão: o haver
morto, comido ou bebido de alguma parte cozida de seu con-
trario, morto em terreiro.
O segundo livro da obra dita do padre Simão
de Vasconcellos tracta da bondado da terra do
Brazil, a qual deffende das calumnias que os antigos
lhe impunham de zona tórrida e inhabitavel e, por
fim, mostra a excellencia do clima, como fecho pre-
paratório de trabalho em que compendiou «as qua-
lidades da terra, o temperamento do clima, a frescura
dos arvoredos, a variedade de plantas e abun-
dância de fructos, as hervas medicinaes, a diver-
sidade de viventes, assim nas aguas como na
terra, e aves tam peregrinas e mais prodígios da
natureza, com que o Auctor d'ella enriqueceu este
novo-mundo. »
E\ na verdade, uma leitura instructiva e agra-^
davel a de volume tal, que tem 291 paginas e não
191, como vem em Innocencio, o qual aos outros
não perdoa aliás os simples descuidos de revisão
typographica.
126 PORTUENSES ILLUSTRES
Das bandas do Porto, outrem reflexivamente
também pelo Brasil discorreu e de si deixou motivo
de memoria, que se postergou aliás; e esse foi
Raphael da Purificação.
Ou no século Manuel da Cunha, nasceu em
Mattosinhos, Porto, «fecundo berço de insignes
varões em diversas faculdades», da nossa terra diz
Barbosa Machado. Foram seus pães Simão dos
Reis Rupes, capitão de vários navios mercantis, e
Maria da Cunha Freire. Partindo para o Brazil,
abraçou o instituto Seraphico, no convento de Pa-
raguaçu, junto da cidade da Bahia, em 13 de junho
de 1707; elle nascera em 13 de junho de 1691.
Dignificou-se como lente de Artes no convento
de Olinda, e a Theologia a leu no do Recife. Não
occupou Prelatura alguma, e só a de Commissario
Provincial em Pernambuco por anno e meio, e Vi-
sitador das aldeias do Sertão e Rio de S. Fran-
cisco, com o motivo de vér se com a mudança
d'aquelles ares melhorava de incommodos. Mas
houve de se recolher com o desengano de tal
melhora a não achar para os que padecia, trazendo
ainda um de mais, porque, de certa queda perigosa
que deu por aquelles ásperos caminhos, e como
não houvesse por aili quem o soubesse bem curar,
IV — MAGALHVE3 — BERMUDE5 — BARRETO, &C. 127
ficou com um braço deslocado, de que lhe resultava
moléstia continua.
« Foi sujeito universal em toda a matéria scien-
tifica, entendimento claro, e de tam fácil compre-
hensão e feliz retentiva que (aquilata-o d'est'arte
fr. António de Santa Maria Jaboatam), o que uma
vez encommendava á memoria ou guardava n'ella
ficava depositado como em archivo perdurável,
para usar d'elle a qualquer tempo e occcasião con-
veniente.» E Barbosa Machado especificara que
«nas disciplinas mathematicas foi profundamente
versado, principalmente na álgebra e arithmetica,
em que era consultado em contas gravíssimas pelos
homens de negocio. Da geographia tinha tanta ins-
trucção que fazia as arrumações e observações dos
meridianos sem beneficio do compasso. » Para que
vejamos. Também tivera pefeita intelligencia das
línguas latina, grega, hebraica, franceza, italiana e
ingieza. *
No êxito de aferirmos da plausibilidade de tantos
encómios, resta-nos uma obra, a qual passa entre
nós como quasi desconhecida, não se recordando
Innocencio de haver jamais encontrado até á data
em que o escrevia (1862) exemplar algum á venda
publica.
Chama-se esse trabalho incógnito : Lettras sym-
bolicas e sybillinas e apresenta-se como obra de
recreação e utilidade, cheia de erudição sagrada e
profana, de noticias antigas e modernas ; com docu-
mentos históricos, políticos, moraes e ascéticos,
128 PORTUENSES ILLUSTRES
para os estudiosos e amigos tanto de tettras Divi-
nas como de lettras humanas. Escriptas se exhibem
pelo M. R. Padre-Mestre, fr. Raphael da Purificação,
leitor de theologia e padre da Província de Santo
António do Brazil.
Explana assim fr. António de Nazareth:
E a Província de Santo António no Estado Brasílico a
mais rica e a mais pobre: a mais pobre, pelos preceitos que
observa; a mais rica, pelas lettras e talentos com que se illus-
tra; e, quando não fossem tantos, o auctor d'este livro valeria
por todos; pois, se é inope pela regra que professa, é o mais
opulento pela litteratura que ostenta em um livro que é como
todos e como nenhum: como todos, porque de todos escolheu
o melhor para fazer um, e como nenhum, porque o precioso
que pelos mais se acha disperso recopilou em este livro como
um thesouro.
E fr. Marcos de Santo António soccorre-se da
mesma fauna braziliense para se alambicar em con-
ceitos laudativos:
Já ouvi dizer que na terra dos engenhos são raras as
subtilezas dos discursos, e também que a preguiça reina;
porque n'aquelle paiz se acha somente a Preguiça do Brazil, e
eu tudo acho junto n'este auctor, pela obra que compoz: acho
engenho raro, porque de umas lettras mostra as muitas que
sabe, assim das línguas como das Escripturas e de umas e
outras Historias, não só cansando-se em ajuntar o disperso,
mas também em compor com tanta erudição e clareza que só
este livro basta, a meu vêr, para fazer sábio a todo o homem
que d'elle fizer estudo; acho também a Preguiça do Brazil, não
pelo que inculca o nome, mas sim pelos vagarosos passos com
que este vivente se move; e estes é que lhe deram o nome de
IV-— MAGALHÃES — BBRMUDES — BARRETO, &C. 120,
Preguiça; e este auctor, para que não tropeçasse, em matérias
tão altas sobre que escreve, foi com muito vagar compondo,
como mostra a firmeza das opiniões que tracta e os ditames
infalliveis que segue, assim nas Escripturas como em tudo mais
moral com que esta obra se illustra, sem se oppôr em nada aos
dogmas da nossa santa fé ou bons costumes.
Esta conformidade determina o horisonte da
inquirição; todavia, resulta certo que se não des-
manda Innocencio quando escreve que o volume
das Lettras symbolicas e sybillinas é «livro, em
verdade, engenhoso e de muita curiosidade.» Uma
immensa leitura n'elle se patenteia, com effeito, e
aili se apuram, da erudição que já hoje se não faz,
informes que não deixam de ser úteis e prestadios
ainda agora.
O primeiro capitulo tracta do alphabeto ou
A B C; o segundo das lettras do A B C; o ter-
ceiro da origem e antiguidade das notas; o quarto
da invenção' e origem das lettras; o quinto da
existência, nomes, pátrias e numero das sybillas;
o sexto das prophecias mais particulares das
sybillas; o sétimo de algumas lettras symbolicas
das sybillas; o oitavo de algumas lettras sym-
bolycas da Escriptura* o nono de algumas lettras
symbolicas que se acham tanto em historias
ecclesiasticas como .profanas; emfim, o decimo
continua a matéria dos capitulos precedentes e dá
conclusão ao livro.
A copiosa erudição não conseguiu obscurecer
de todo este espirito; pelo contrario, a compostura
VOL,. I. O
J30 PORTUENSES ILLUSTRES
do rosto se esclarece temperadamente, se bem que
com prolixidão enumerativa. Por exemplo, quçr elle
exemplificar da hypocrisia em seus múltiplos modos
e escreve incessantemente:
A mentira, com o sobscripto e titulo de destreza se dis-
farça; a vingança se cobre com a capa e titulo de honra; a
teima e contumácia se pallia com o disfarce e titulo de con-
stância; a avareza se desculpa com o pretexto e titulo de fru-
galidade e temperança; o ódio se dissimula com o rebuço e
titulo de cautela: a ambição se escusa com a frente e titulo do
bem publico ; o interesse e cubica se disfarça com a côr e titulo
de previdência ; a ociosidade se acolhe á sombra e titulo do
recolhimento; a soberba blasona com. o exterior e titulo de
urbanid^de; a preguiça se livra com a desculpa e titulo do
licito repouso; a usura tem seu refugio no titulo do lucro
cessante e damno emergente; a simonia escapa com a superfície
e titulo de agradecimento; o suborno, seu parente em primeiro
grau, com a apparencia e titulo de attenção precisa; a murmu-
ração deffende-se com o escudo e titulo de correcção fraterna; os
roubos e latrocínios com visos e títulos de restituição e depo-
sito; a grosseria com a espécie e titulo de gravidade; o desa-
linho com a religião e titulo de desprezo do mundo; a ignorân-
cia com a affectaçâo e titulo de modéstia e silencio; a cruel-
dade com o lustroso esmalte e titulo de justiça.
Fr. Raphael da Purificação viu mundo, dis-
correndo por toda a Itália quando foi votar no
Capitulo Gerai celebrado em Milão a 4 de julho de
1729; de sua lavra, quedaram manuscriptos quatro
tomos das viagens que fez a diversas partes. Inclu-
sive a Londres, aonde infructiferamente se encami-
nhou no fito de experimentar remédio para seu
IV— MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I3I
penoso achaque, a cujos effeitos succumbiu. Figu-
ra-se que deveria ser a tuberculose.
Ora, das mesmas procedências, no Brazil a
dignidade episcopal occupou-a João de Queiroz da
Silveira.
No século, porque em religião fr. João de S.
Joseph, que foi bispo do Grão-Pará, nado em Mat-
tosinhos a 12 de agosto de 171 1, filho de Fran-
cisco Gonçalves Dias e sua mulher D. Joanna
Dias de Queiroz, e creado de logo para frade bento,
para geral da Ordem, para bispo. Aos dezoito
annos, com effeito, recebeu o habito de noviço em
Tibães, professando nas mãos do dom abbade fr.
José de Santa Maria, e foi estudar philosophia no
mosteiro de S. Miguel de Refojos de Basto.
Consummado theologo e philosopho, passou a
ser conventual de Santo Thirso, de onde transferido
se topa no convento de Lisboa, não se sabe nem
faz ao ponto, entende Camillo, saber em qual anno.
Era certo que lá residia em 1744, conforme o tes-
temunho de uma carta autographa, que possuía, de
Diogo Barbosa Machado, escripta n'aquelle anno a
fr. Marcellino da Ascensão, chronista-mór da con-
gregação benedictina. Da carta, que Camillo publi-
cou, infere-se que João de Queiroz da Silveira, ou
monasticamente fr. João de S. Joseph, privava com
132 PORTUENSES ILLUSTRES
o erudito abbade de Sever, ao tempo de se estar
estampando a valiosa Bibliotheca Lusitana.
Lettras e sangue lhe facilitavam ao benedictino,
escreve-o Camillo, alliança de amisade com os
doutos Barbosas, com fr. Manoel do Cenáculo,
com D. António Rollim de Moura, com Francisco
Xavier de Oliveira e seu irmão fr. Thomaz de
Aquino, com Sebastião José de Carvalho e seu
irmão Paulo de Carvalho e Mendonça, com o conde
de S. Lourenço e os duques de Aveiro, com o
conde da Ponte e, para em summa o dizer, remata
Camillo sua enumeração, com as rainhas D. Maria
d' Áustria e D. Marianna Victoria.
O convivio das damas da corte amaciar-lhe-ia a
theologia e suavisar-lhe-ia a philosophia. Porquanto,
austero, conservou-se jovialissimo. Mas, jovialis-
simo, conservou-se austero.
« Agora, uma pergunta alegre a v. ex. a , leitora,
se livro d'esta natureza, (as Memorias de fr. João
de S s Joseph Queiroz, bispo do Grdo-Pard, publi-
cadas no Porto em 1868, com uma extensa intro-
ducção e muitas notas illustrativas, por Camillo
Castello-Branco) pôde gabar-se de a ter:
— Quando v. ex. a cobre os seus hombros com
um lencinho branco, no louvável intento de corrigir
as demasias do seu vestido muito despeitorado,
acaso pensou no inventor ou inventora de tal
moda, a moda do lencinho no pescoço?
«Foi um frade, minha senhora, foi um frade
bento, foi D. fr* João de S. Joseph. . .
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I33
« Foi o meu frade que inventou lencinhos bran-
cos no pescoço das damas da rainha D. Marianna
Victoria, esposa de el-rei D. José. Aqui tem v. ex. a
quando e como. E elle o modesto épico da sua
invenção, n'uma carta a fr. Manoel da Penha:
« . . . Devo dizer a vossa paternidade que, havendo
de sahir com as suas damas, pela primeira vez, a
rainha >fidelissima, pude eu persuadil-a a que
sahissem com lenços brancos em os hombros, de
sorte que se recatasse quanto descobrem os deco-
tados. Quiz Deus que pegasse a moda ; e d'aqui pôde
vossa paternidade inferir o meu modo de pensar á
vista das sensíveis provas de oitenta prisões que
mandei fazer por escandalosa desnudez. . . »
Foi no Pará. Justificando-se de acousações que
lhe fizeram, D. João, respondendo a um prelado de
mosteiro de sua Ordem, escrevia-lhe: «Ahi vae das
muitas. Multei oitenta pessoas, por andarem nuas
da cintura para cima e a nadarem á hora do meio
dia debaixo das minhas janellas, homens e mulhe-
res, abraçando-se publicamente, collarejas e solda-
dos. Esta multa é do meirinho e carcereiro. Do
bispo, nada.»
As censuras da virtude própria aos desmandos
alheios, ainda que expressas no tom faceto do seu
génio galhofeiro e recolhidas em recônditas miscella-
neas não destinadas á publicidade, comprehendiam
presentes e ausentes, próximos e remotos, parentes
e adherentes, extranhos e patrícios.
Assim, de D. Luiz de Souza :
134 PORTUENSES ILLUSTRES
Arcebispo de Lisboa, da casa de Arronches. Teve suas
verduras em rapaz. Feito prelado, deu -lhe na veneta para
visitar Lisboa. Fallava n'isto com um irmão cónego, a tempo
que um antigo creado, d'aquelles que tudo ouvem nas ante-
câmaras, quando rezam por suas contas, — olhando para elle
o prelado, disse-lhe: «Tu és quem nos has-de informar de
quem e quem não anda amancebado. » Escusou-se o creado.
>
Teimaram. Até que o soccarrão, fingindo-se simples, lhes arru-
mou com esta : « Eu nada sei, porque nada creio do que me
dizem. Se me disserem que o snr. arcebispo tem a amiga
na Mouraria, eu hei de crer isso? E, se me disserem que
o snr. cónego a tem em casa, com dois filhos e uma menina,
ou coisa similhante, hei-de eu crêl-o? Ora, deixem-me, meus
senhores.
Note-se que Camillo Castello Branco não se
atreveu a publicar na integra a obra em seu poder.
«Algumas paginas do volume manuscripto não se
estampam. Cancellei-as em favor á memoria do
bispo, em consideração aos netos dos contemporâ-
neos do frade e em respeito á honestidade de quem
lê ; bem que tal respeito custa ao leitor privar-se de
rir á desgarrada das facécias rabelaicas do monge
no mais florente da vida. »
O que Camillo Castello-Branco entendeu publi-
cavel, publicou-o em folhetins no Jornal do Com-
mercioy de Lisboa, dos mezes de janeiro e seguintes
de 1867. Recolhidos em volume, appareceram as
Memorias de fr. João de S. Joseph Queiroz, bispo
do Grão- Pará, em 1868, no Porto, como se disse
já, e impressas na typographia da Livraria Nacio-
nal, rua do Laranjal, 2 a 22.
IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I35
Archivado o facto em o «Supplemento», no
artigo Camillo Castello-Branco por Innocencio,
que ás memorias de fr. João de S. Joseph
Queiroz volta a referir-se no artigo David Netto,
2l continuação do dito «Supplemento» descui-
dou-se de dispor verba para o bispo do Grão-
Pará, que na altura devida d'esse «Supplemento»
não apparece, todavia.
« Não sei que livros portuguezes (escreveu jus-
ticeiramente Camillo Castello-Branco) disputem a
primazia e originalidade d'estas Memorias, »
Fr. João denominara aos seus escriptos Mis-
cellaneas; mas, na verdade, melhor lhes quadra o
titulo que adoptou Camillo.
Para a urdidura da biographia ante-posta á sua
edição, além das espécies auferidas da correspon-
dência, Camillo consultou o conselheiro José Sil-
vestre Ribeiro, « um dos prestantes e mais doutos
litteratos d'este paiz. » Este lhe acudira onde mais
carecido se viu do seu auxilio, apontando-lhe o
local, anno e dia dg, morte do bispo desterrado.
Que o alegre frade teve como desfecho da vida
mundana o desterro, e que desterro! No convento
de S. João de Pendurada, ou Alpendurada, como
hoje dizem, Entre-Douro-e-Minho.
«Que desterro!
«Alli entrou o bispo, precedido da noticia de
sua infâmia e desgraça!
«Era em fins de janeiro de 1763.
« Que lúgubre lhe choraria tudo em volta d'elle !
I36 PORTUENSES ILLUSTRES
Uns frades suspeitosos, cuidando que o consolarem
o desterrado lhes acarretaria lenha e betume para
os supplicios eternos. Uma casa escura, silenciosa,
cheia das toadas gementes do vento a sibilar nos
velhos vigamentos!
«E alli, elle, o frade fidalgo da corte de D.
Maria Anna d' Áustria e de D. José 1! O com-
mensal dos duques, dos condes luxuosos, feitos
na corte do Luiz xiv portuguez! Elle, o amigo,
o convivente dos Cenáculos e Barbosas, alli, em
meio de sandeus e fanáticos, que o fugiam como
de leproso, a quem o governo, sequer, não conce-
dia defender-se. . .
«Que fazia? agonisava.
«Mas, ainda assim, com a morte sobre o seio,
seio robusto de cincoenta e três annos, que longos
paroxysmos!
«Viveu oito mezes. Morreu em 15 d'agosto de
1764.»
N'estas tintas eloquentes, senão strictamente
equitativas, deplora Camillo Castello-Branco um
descalabro lastimoso.
Mas o que opportunamente melancholisa é a
coincidência que se depara em uma das «miude-
zas» apontadas á roda de 1761, a qual reza por
este teor:
Conheci na Ordem de n. p. S. Bento um padre antigo, fr.
Roque, o qual contava que, sendo collegial e indo a ferias, se
embarcara varias vezes com um barqueiro que exercitara cinco
annos este officio, sendo monge benedictino. Apostatou, porque
MAGALHÃES --BERMUDES — BARRETO, &C. 137
o fizeram recolher e viver no mosteiro. Por fim, procurou a
Ordem e se recolheu ao convento de Pendurada, o mais triste
e amoldado á penitencia, onde a fez de seus peccados e morreu
santamente.
«Se o bispo se lembraria de ir, desterrado,
morrer ao convento triste e amoldado á peniten-
cial . . . » — annota Camillo Castello-Branco.
V
Francisco Bernardo de Lima
— Arnaldo Gama
B,
Brilhante na sociabilidade foi essa epocha do
Marquez de Pombal para o Porto; estamos no
cyclo Almada, que comprehende até, quem o sup-
poria?, a iniciativa da critica musical.
Mas de facto.
O snr. J. M. P. Pinto, que juntou e coordenou
uns Apontamentos para a historia da cidade do
Porto, impressos na Typographia Commercial, Bello-
monte, 19, e á venda na livraria do hespanhol
Ignacio Corrêa, Praça da Batalha, n. os 25 a
28, escrevia, a pag. 1 20-1 21 de sua obra, o
seguinte :
O primeiro theatro que se abriu no Porto foi no Corpo da
Guarda, do lado esquerdo, antes de se descer a calçada. Foi
mandada organisar uma companhia de curiosos para represen-
tar n'elle por occasiao das festas do casamento do príncipe D.
HO PORTUENSES ILLUSTRES
João (depois sexto do nome) com D. Carlota Joaquina de
Bourbon, infanta de Hespanha. Esta companhia deu espectáculo
gratuito na noite de 22, 23 e 24, convidando-se as auctorida-
des, nobres e militares de graduação, e no dia 27 foi o theatro
patenteado ao povo. Houveram (sic) corridas de touros na
Torrinha e no Campo de Santo Ovidio, bailes de mssearas
públicos e diversos outros divertimentos, assim como teve aqui
logar a primeira ascensão de um areostato em que ia um
homem. O largo do Corpo da Guarda tira o seu nome por ter
alli havido uma estação da guarda maior ou principal, aonde
havia calabouço para presos e gonilha, em que se prendiam e
expunham os ladroes até serem mudados para a cadeia, em
antes (sic) que a guarda fosse rendida. A casa em que estava
a estação da guarda está presentemente (1869) oceupada pelos
rapazes da calcetaria.
No volume 1 da Encyclopedia Portugueza y sob
direcção do talentoso e muito illustrado professor
Maximiano de Lemos, um de Os do lyceu, serie
começada, interrompida e que, querendo Deus,
espero completar em volume especial, memora-se
este theatro do Corpo da Guarda, do Porto:
«inaugurado em 1762 com a opera 77 Transcurato*
de Pergholese, cantando a primadona Giuntini. Foi
o primeiro theatro do Porto onde se cantou opera
italiana. >
Pinho Leah em seu Portugal antigo e motUrno*
faz especificada menção doesse theatro do Corpo da
Guarda e, registrando os nomes beneméritos dos
principaes cooperadores para sua feitura, presta
homenagem pela iniciativa da recordação a Camillo
Castello-Branco. Ella era a de desencantar a noticia
V — BERNARDO DE LIMA ^-ARNALDO GAMA I4I
curiosa das laudas olvidadas da folha de Francisco
Bernardo de Lima.
Este Francisco Bernardo de Lima, cónego secu-
lar de S. João Evangelista, nasceu na cidade do
Porto em 1727 e morreu em 1764, conforme a
Bibliotheca Cirúrgica de Manuel de Sá Mattos, na
qual nota Innocencio que se encontram espécies
aproveitáveis para a sua biographia, ou em 1770,
segundo a Descripçdo do Porto, de Agostinho Re-
bello da Costa, que, a propósito do padre Francisco
Bernardo de Lima, loyo, diz seccamente (veremos
unrfhora porquê) que elle fora irmão de Bartholomeu
Soares de Lima, de quem já fallara n'esse seu cata-
logo dos homens illustres em lettras e armas que
tinha até então produzido esta cidade, e do qual,
em contraposição, fizera o mais pomposo elogio,
chamando-lhe « um dos ecclesiasticos d'este século
o mais erudito, e versado na historia sagrada, pro-
fana, poesia e bellas-lettras. »
Porém para a historia da sociabilidade portuense
e da civilisação geral portugueza, outra é a impor-
tância de seu irmão Francisco Bernardo de Lima,
meu illustre collega em jornalismo, por sua Gazeta
litteraria y ou noticia exacta dos principaes escriptos
modernos. . . Obra periódica. O tomo 1 imprimiu-se
no Porto por Francisco Mendes de Lima em 1761,
sahindo a parte 11 no mesmo anno em Lisboa, sem
nome do impressor. O tomo 11 foi estampado tam-
bém em Lisboa em 1762 por Miguel Rodrigues.
Principiou a publicação d'estas Gazetas em janeiro
142 PORTUENSES ILLUSTRES
de 1761, e findaram em junho de 1762. No primeiro
anno foram semanaes, porém no segundo passaram
a ser mensaes.
«A maneira por que são redigidas dá claro tes-
temunho (proclama Innocencio) da universalidade
de conhecimentos e erudição do auctor. Contém,
afora outros artigos, muitos juizos críticos e bem
ajustados de varias obras portuguezas sahidas por
aquelle tempo. »
Ora, é ahi que se encontra a noticia desenvol-
vida e commentada da opera cantada no theatro e
cujo libretto se imprimira para guia do espectador;
na Historia do theatro portuguez do dr. Teophilo
Braga, onde se lembra o insuccesso do primeiro
conhecimento da opera na capital, se estuda o ten-
tamen portuense; ahi se analysa o trabalho critico
do padre Francisco Bernardo de Lima. Este eluci-
dativo exame encontra-se no volume 111.
Em sua Historia do theatro em Portugal, o snr.
João Salgado diz que «no Porto também existia
um theatro lyrico. » «Ahi foram até 1762 successi-
vamente representadas, pela ordem que enumera-
mos, as operas — Armida, Theseo de Lulli (assim
typographicamente), Alcioe (de Marais), e a celebre
opera-comica de Pergolèse, // Transcurato, desem-
penhadas todas pela companhia da Giuntini.»
Todavia, no «Diccionario das operas», de
Félix Clément e Pierre Larousse, não dei com
menção d'este Transcurato. Riemann, no «Diccio-
nario da Musica», tractando de Pergolèse falia do
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I43
drama bíblico da Conversionc di San Guglielmo di
Açuitania, de suas primeiras operas: La Sallustia,
Amor fa /'uomo cieco, Rienvero; da sua obra prima
— de musica de theatro, pois que a sua verdadeira
obra prima é de musica de egreja, o Stabat mater,
reputadissimo — Iji serva padrona; das composi-
ções que elaborara para Nápoles (II maestro di
musica, Lo frato'7mamorato, em dialecto napolitano,
Adriano in Siria, com o « intermezzo » Livieta e
Tracolo — (La contadina astuta), Flaminio etc.) ;
emfim, do único trabalho que effectuou para Roma
(Olimpíade, 1735), infelizmente sem successo; mas
designadamente // Transcurato não apparece em
Riemann, que deu «por completo o catalogo das
operas conhecidas de Pergolèse. » Designadamente
não se topa outrosim na «Biographia geral dos
músicos», de Fétis, que assignala a confusão das
especificações das obras scenicas de Pergolèse, isto
é, Giovanni-Baptista Pergolèsi, um dos mais notá-
veis compositores da eschola napolitana, morto
prematuramente na edade fecunda de vinte-e-seis
annos.
Cumpre notar, o que se não tem feito, que,
quando discorre de // Transcurato, ó padre Fran-
cisco Bernardo de Lima não escreve que a opera
seja do napolitano ; elle queixa-se de que a Giuntini
alinde com floreios de sua casa as árias de Pergo-
lèse; n'esse exemplo fundamentando theoria. En-
gano congénere para com as operas de Lulli e
demais apontadas pelo snr. Salgado, advirta-se.
144 PORTUENSES ILLUSTRES
O theatro do Porto não primava pela elegância
nem pelo conforto nem sequer pelas condições
acústicas. O inglez Ricardo Twiss, de quem ha
(apezar de o nome d'este escriptor viajante faltar,
segundo a observação de Manuel Bernardes Branco,
tanto na Biographie Universelle de Firmin Didot
como no Dictionnaire universel d'histoire et gêogra-
phie, por Bduillet), traduzida do inglez, uma relação
em francez, publicada em Berne em 1776, da
digressão que elle fez em Portugal e na Hespanha
em 1772 e 1773, escreve sem feição e á má cara:
«O theatro do Porto é um dos peores do reino, é
velho e muito sujo. Vi alli representar Demofonte
d'uma maneira muito proporcionada á belleza da
salla. »
Oue diabo do exótico descontentamento, difficil
de contentar! O allemão Link, que ficara surpre-
hendido á vista da nossa cidade, observada do alto
de Villa Nova de Gaya («Lisboa annuncia-se ao
longe, com toda sua grandeza e magnificência;
Coimbra jaz em planície deliciosa, banhada pelo
Mondego ; mas o Porto surprehende pela altura da
sua situação»), exara, nas notas de sua viagem,
emprehendida por suggestão e de companhia com
o conde de Hoffmanseg desde 1797 até 1799, que
tam desastradamente seu architecto se desempe-
nhara da incumbência da feitura do theatro do Porto
que nada se ouvia nos camarotes.
(« Depois de termos atravessado F rança e Hes-
panha (em seu prefacio, Link conta), chegamos a
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I45
Portugal. Desejando percorrer com fructo este paiz,
alli passamos a maior parte de 1798. »)
Em 1798, a 13 de maio, dia dos annos de D.
João, teve a sua primeira abertura o novo theatro
do príncipe D. João (hoje de S. João), d'esta arte a
refere o snr. J. M. P. Pinto, que relata que a com-
petente planta, mandada tirar, fora submettida ao
príncipe regente D. João, que a approvara por aviso
de 19 de outubro de 1794, principiando as obras a
19 de abril de 1796. Depois o snr. J. M. P. Pinto
entrega-se a divagações, historico-financeiras, de
uma má-lingua assas azeda. Mas nós prestes regres-
saremos á quietude erudita e critica do meu bom
collega em lettras jornalísticas, o nosso padre Fran-
cisco Bernardo de Lima.
Não tam isento e indemne que não sentisse,
rudes e cortantes, os ossos-do-officio, por suas apre-
ciações concitando a sanha de desabridas polemi-
cas, de entre cujo fragor resalta o vitupério dos
plagiários apodos, destacantes na flagrância do
cotejo de lanços, a par postos em lauda, a meio
dividida adrede pela malignidade de tarja, a um
tempo discriminante e approximante. Texto accusa-
torio : Journal des Savants.
E' bem certo. Não ha nada novo n'este mundo
e a cada instante se pôde retomar o thema, de
Dutens, da origem antiga das modernas descobertas.
Que lastima! A múmia que dialogou com Edgar
Poe, em prol das revindictas da originalidade actual,
só nos concedeu a cirj-à-moustache; mas então,
VOU I. H»
I46 PORTUENSES ILLU5TRES
sim, enfiou. A Antiguidade não conheceria o em-
prego da brilhantina nos bigodes? Porém de nossas
restantes sabenças, artes e manhas — tudo o mais,
para ella, era coisa velha e relha.
Como para os tripeiros de 1762 — ha redondos
cento e cincoenta annos — usança era já ir até ao
tyrico. Ora esta! Que petulância de jarretas!
E na Gazeta litteraria, « obra periódica», do loyo
Lima, praxe seria que os menos tardos do toutiço
se illustrassem com as argutas apreciações do
drama jocoso elaboradas pelo doutissimo cónego
secular de S. João Evangelista.
Quiçá exhumações destas deprimam a basofia
do hodierno dilettantismo; mas, vistas as coisas
por outro prisma, não deixa de ser agradável
saber-se que não procedemos de beócios, de todo
em todo, adustos.
Ao contrario. Bem longe d'isso.
Mas no cyclo que aspecto de confortabilidade,
em ostensivo relance, o Porto offereceria?
Em 1772 esteve no Porto o snr. Ricardo Twiss,
gentil-homem inglez, membro da Sociedade Real,
que, « não encontrando estalagem alguma soffrivel,
foi alojar-se para a casa d'um inglez no cães.» Foi
vêr a egreja de S. Francisco, que se encontra, diz,
decorada de esculpturas de madeira dourada, que
fazem, aprecia, um effeito péssimo. «Observei nas
paredes abundância de cartas, presas a barbantes e
endereçadas ao bemaventurado S. Francisco. Como
V — BERNARDO DK LIMA — ARNALDO GAMA , I47
estavam abertas, tomei a liberdade de lêr algumas
d'ellas e não deparei mais do que com cumprimen-
tos de agradecimento por curas obtidas, ao que
diziam as pessoas que as tinham escripto, pela
intercessão do Santo.»
Entrando em Portugal pela Galliza, em 1774,
outro inglez, o major W. Dalrymple queixa-se
amargamente da estallagem de Valença e capitula-a
da mais miserável estallagem do mundo; em nota
explica que estallagem é uma hospedaria e que
corresponde á posada dos hespanhoes. Chegado ao
Porto, a hospedaria em que se alojou foi uma casa
ingleza, « que me pareceu bem consolante, se posso
servir-me d'este termo. » Estava-se então a 20 de
setembro. E de Lisboa, a 13 de dezembro, Dalrym-
ple conta que no Porto fizera conhecimento com
um acepipe do paiz, «que é seguramente a mais
deliciosa coisa do mundo: chamam-lhe uma Olla
Gaspachio; é arroz cosido com fatias de vacca e
enxúndia de' peru.» Logo adeante escreve estas
linhas que vos surprehendem, decerto, a vós-
outros : « É espantoso que uma nação, tal como é
a dos inglezes, os quaes levam o requinte ao
ultimo ponto, possa persistir por tam longo tempo
no uso d'uma beberagem tam detestável como seja
o vinho do Porto. No seu estado natural, é agra-
dável ; mas, para abalar as fibras dos nossos pala-
dares septentrionaes, misturam-lhe uma tal quanti-
dade d'agua-ardente que se torna um veneno
mortal para quem d'elle usa. »
I48 PORTUENSES ILLUSTRES
Este major era observador, e irónico, sans en
avoir rair. « Observei, diz elle, que muitas pessoas,
e sobretudo os rapazes novos, andam d'oculos nas
ruas. Este costume é satyrisado no theatro em
Hespanha, mas aqui não acontece a mesma coisa;
é uma affectação mui extravagante, porque, com
toda a certeza, o estudo não fará perder a vista a
pessoa alguma d'este reino ; a litteratura é aqui não
se poderia imaginar menos cultivada. »
Tem a data de 1777 a viagem do pseudo-ex-
duque du Chatelet em Portugal, que no anno vi da
Republica appareceu em Paris, annunciada, revista,
corrigida sobre o manuscripto e augmentada de
notas por J. Fr. Borgooing. Do Porto o auctor
(seja Comartin) diz que esta cidade é, depois de
Lisboa, a primeira de Portugal e que até ella
«haveria infallivelmente apagado Lisboa», se não
fossem os perigos que apresenta a entrada do seu
porto, mercê dos rochedos que obstruem a barra e
determinam a agglomeração das áreas. « A compa-
nhia do commercio inglez propuzera destruir esses
rochedos, limpar a passagem e tornal-a emfim
praticável; mas os portuguezes responderam que
jamais concordariam em destruir a melhor defeza
que possuíam contra os insultos dos mouros.»
Todas as objecções as mais plausiveis foram impo-
tentes perante sua pertinácia; não obstante, vivia-se
no Porto muito mais barato do que em Lisboa e
com muitas mais commodidades.
A 18 de janeiro de 1789, á noite, ao Porto che-
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I49
s
garam, que se saiba pela inconfidência da lettra-
redonda, passageiros interessantes, consistindo em
dois estudantes destinados á universidade de Sala-
manca e no architecto inglez James Murphy, que
foram conduzidos a uma estalagem ingleza, onde
estabeleceram sua residência. «A primeira coisa
que se apresenta á observação d'um extrangeiro, á
sua chegada ao Porto, é o exterior devoto dos habi-
tantes. A religião parece ser — pondera o artista —
a sua única occupação. De dia, a attenção é attra-
hida pelo som dos sinos, pelo movimento das
procissões e pelas rezas dos frades; de noite, o
somno é interrompido pelo cântico dos hymnos. »
Logo desponta o architecto: «O Porto, como a
mór parte das cidades antigas, tem o defeito de ser
apertado, e ao mesmo tempo tam irregular que mal
se topará com uma casa de ângulos rectos: o que
conduz naturalmente o viajante a suspeitar que no
Porto jamais se conheceu a proposição quarenta-e-
sete do primeiro livro d'Euclides. Por as casas que
formam os cunhaes das ruas estarem dispostas
obliquamente, dão a mesma apparencia ás adjacen-
tes, seguindo cada qual a curva descripta pela sua
visinha. Assim, como se vê, tudo são rhomboides e
trapézios, defeito que se teria podido evitar no
principio perdendo uma nesga de terreno; mas
não existem muitas cidades em Portugal que o
sacrifício quizessem fazer de alguns pés de sua
propriedade ao objecto ao qual Pythagoras sacrifi-
cou outr'óra cem bois. »
I50 PORTUENSES ILLUSTRES
Da maioria das ruas do Porto, Miirphy diz que
são tam escarpadas que os transeuntes dão mais o
aspecto de trepar do que de caminhar. As egrejas
são vastas e pezadas massas, destituidas inteira-
mente de tudo o que constitue a beila architectura.
«Os portuguezes, todavia, têm artistas de mé-
rito; mas, por desgraça, não são animados pelo
governo. Eu conheci no Porto um pintor chamado
Glama, que daria honra ás melhores escholas da
Europa, por pouco que se houvesse secundado a
natureza no desenvolvimento do seu génio recôn-
dito. Natural de Portugal, tinha passado muitos
annos na Itália, onde chegou a adquirir uma
correcção de desenho e uma pureza de colorido
que indicavam talentos pouco communs. Não
obstante, assegurou-me elle que se encontrava na
situação de quasi reduzido a morrer de fome, posto
que pintasse tudo o que se lhe apresentava, desde as
taboletas das tabernas até ás cabeças dos santos.»
Não que a gente do Porto seja fanática, se bem
que mui supersticiosa, aos olhos de Link, que no
Porto esteve, viajando em Portugal desde 1797 até
1799) de parceria com o promotor da digressão, o
conde de Hoffmansegg. «Assistimos aqui á festa
do Corpo-de-Deus e vimos a procissão. Que diffe-
rença entre os portuguezes levianos e os nossos
camponezes catholicos, cheios de devoção e de
carolice! O portuguez tagarella, ri, graceja, ajoe-
lha-se gracejando ; e, mal apenas a dois passos está
da procissão, que logo põe o chapéu na cabeça. O
V — BERNARDO DE LIMA ARNALDO GAMA 151
povo, de resto, é cTum caracter benovolente, e o
Porto, n'esse tempo, era, cfalgum modo, o opposto
de Lisboa. Gozava-se n'esta cidade da maior segu-
rança; os roubos e os assassinatos eram raríssi-
mos. Todavia, fallava-se, ás vezes, em punhaladas,
dadas por ciúme. A cortezia e a amabilidade do
povo é extrema; a própria lingua parece prestar-se
ao effeito, pois que entremeada seja de phrases
alegres e chocarreiras. »
A parte alta do Porto pareceu a Link excellente.
«Julga-se haver-se deixado Portugal; imagina-se
estar-se n'uma cidade dlnglaterra, por causa da
claridade e da limpeza que hi reinam. O Porto é,
em geral, a cidade mais elegante do paiz. . . »
Ai de nós! Isto escrevia-se em 1798.
Anteriormente, á quadra de Francisco Bernardo
de Lima» ao Porto o vemos, como o vimos, em
mundana festa.
E, todavia, esta epocha amável d'um Porto
elegante quadra foi de atrocíssimos horrores, indi-
zíveis.
Digamol-os, para de memoria.
Recapitula Simão José da Luz Soriano que,
segundo o que, em sua compilada historia do
reinado de el-rei D. José e da administração do
marquez de Pombal, precedida de uma noticia, que
o auctor diz reputar breve, dos antecedentes reina-
dos a começar no de el-rei D. João iv em 1640, já se
vira, o tractado de Methwen, negociado e em 1703,
não só tinha arruinado a industria manufactureira
152 PORTUENSES ILLUSTRES
mas também a agricultura portugueza, levando to-
dos os lavradores a entregarem-se unicamente ao
amanho e fabrico dos vinhos com total desprezo
de todas as outras culturas, porque, emfim, havendo
o vinho do Douro depois do primeiro anno de
duração d'aquelle convénio attingido o preço de
6o$ooo reis por pipa, o resultado conclue Soriano
que forçosamente redundaria aquelle.
Ao estado de procura e preço tentador do vinho,
seguira-se o da abundância, e promiscuamente com
esta o da sua grande-' adulteração, excitada pela sof-
freguidão do ganho, não só entre os próprios ingle-
zes, compradores e negociantes d'este género, mas
egualmente entre os mesmos lavradores, já ado-
ptando errados systemas no tempero dos seus vi-
nhos, e já falsificando-os de má fé, nas vistas de
augmentarem a sua quantidade, recorrendo, depois
da expressão da uva nos lagares, a cores artificiaes
por meio de drogas, extranhas á sua natureza. O
resultado d'isto fora o total descrédito em que de
prompto cahiram todos os nossos vinhos, incluindo
até os do Douro, que, de 1750 a 1755, os me-
lhores e mais finos não passavam de io$ooo reis
por pipa, e os immediatos de 6$ooo a 8$ooo reis;
e, ainda assim, não alcançavam compradores, quando
taes preços não chegavam aliás para as despezas do
amanho. Conseguintemente, concilie ainda Soriano,
a penúria e a miséria dos proprietários dos districtos
vinhateiros do Douro tinha chegado ao seu auge.
N'este deplorável estado se encontrava a cul-
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I53
tura dos vinhos cfaquelles districtos quando (So-
riano prosegue) um hespanhol biscainho, negociante
d'este género e residente no Porto, chamado D.
Bartholomeu Pancorvo, se lembrou da instituição
de uma companhia, cujo plano traçara, de accordo
e intelligencia não só com fr. José Mansilha, reli-
gioso da Ordem dominicana e conventual n'esta
nossa mesma cidade do Porto, mas egualmente de
accordo e intelligencia com alguns lavradores do
Douro e homens bons da nossa sobredita cidade.
Foi o frade portuense José Mansilha o que de
propósito se marchou a Lisboa, a apresentar o pro-
jecto a Sebastião José de Carvalho e Mello e a com
este ministro debater maduramente a grande utili-
dade que ao paiz resultaria da sua immediata ado-
pção. O conde de Oeiras andara com toda a pru-
dência na resolução de tam importante negocio.
Para este fim exigira elle um mappa da colheita
dos vinhos nos últimos dez annos ; calculara o preço
por que tinham sido vendidos aos extrangeiros, re-
lativamente á colheita de cada um d'esses annos e,
pela media resultante, estabelecera o preço por que
a projectada companhia devia comprar os vinhos
aos productores. Sobre esta base elaborara, pois, a
proposta que apresentou a el-rei na data de 31 de
agosto de 1756, a que depois se seguiu, no dia 10
do immediato mez de setembro, a promulgação do
alvará por que definitivamente se approvou a crea-
Ção da Companhia geral das vinhas do Alto Douro.
A qual nasceu com a exorbitância de três previ-
154 PORTUENSES ILLUSTRES
legios exclusivos, favores excedentes dos quaes o
primeiro consistia em vender por miúdo no Porto e
em quatro léguas da sua circumferencia, ainda mesmo
dentro do terreno demarcado para o vinho de
embarque, todo o vinho chamado do ramo, ou
aquelle fornecido ao povo nas tabernas, e que a
dita Companhia comprava dentro dos sitios que
produziam o mais ordinário, mirando-se com isso
a evitar a mistura dos vinhos maus com a dos vi-
nhos finos, pratica que Soriano proclama aliás per-
niciosa e que, a seu aviso, por si só bastava para
arruinar o commercio de tal género. Todo o manejo
da Companhia se fazia por um corpo politico, a que
chamavam Junta da administração da Companhia
geral da agricultura das vinlias do Alto Douro, a
qual se compunha de um provedor, sete deputados
e um secretario. A sua duração era biennal e consti-
tuída por eleição dos accionistas da mesma Compa-
nhia, com approvação e confirmação do governo,
que, abusando d'esta prerogativa, algumas vezes
chegou a nomear certos membros da referida Junta.
Ora, o caso é que — e aqui começa o drama — ,
vendo-se alguns taberneiros privados dos grandes
lucros que auferiam por meio das suas respectivas
tabernas (assim o interpreta Soriano), romperam no
desatino de se agregarem a algumas meretrizes,
rapazes, escravos e outra gente infame, para exe-
cutarem todos juntos um motim que parecesse justa
consequência dos males que comsigo trazia simi-
lhante Companhia.
V— BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I55
Com estes elementos, Soriano, que não era aliás
nenhum fidalgo, relata que «toda a plebe a mais
infima do povo do Porto » se amotinou, na manhã
de 23 de fevereiro de 1757, que cahiu a uma
quarta-feira de Cinza; e, juntando-se no largo da
Cordoaria, d'aquelie sitio partiu, pelas nove horas,
em differentes bandos. Defronte do chafariz de S.
Domingos se ajuntaram novamente, onde todos
clamaram, a uma voz : Viva o povo, morra a Com-
panhia. Era n'aquelle sitio que morava o juiz-do-
povo; e,- invadindo-lhe a casa e achando-o doente
(ou real ou fingidamentej, obrigaram-o a entrar
n'uma cadeirinha e por esta forma o levaram a
casa do Chanceller, que egualmente servia de rege-
dor-das-justiças.
Entretanto, subiram alguns rapazes ás torres
das egrejas da Misericórdia e da Sé ; e, tocando os
sinos a rebate, attrahiram grande parte da plebe, de
sorte que, indo o juiz-do-povo dentro da cadeirinha
e tendo passado toda a rua das Flores, o largo da
Feira, a rua do Loureiro e a rua Chã, quando che-
gou á porta do dito Chanceller, já a turba que o
acompanhava excedia o numero de quinhentas
pessoas. No meio d'esta agitação e tumulto, não
cessavam os gritos de: Viva el-rei, viva o povo,
morra a Companhia.
Ouvindo o Chanceller-governador similhante
confusão de gente, e instado pelo juiz-do-povo,
que lhe pedia a extincção da Companhia, teve de
expedir ordem para que cada um podesse comprar
I56 PORTUENSES ILLUSTRBS
e vender vinhos livremente. Então, o povo, satis-
feito com isto e transportado de alegria, acenando
com os lenços e com os chapéus, bradava em altas
vozes: Viva, viva, temos liberdade.
Emquanto isto assim passava, um rancho dos
amotinados accometteu a casa de Luiz Belleza, que
era o provedor da mencionada Companhia e mora-
dor na mesma rua Chã. Não passaria a maior
excesso este accomettimento, se um homem furioso,
que estava casualmente em casa do provedor, e um
seu criado não disparassem contra o povo dois tiros
de bacamarte, com que apenas feriram alguns rapa-
zes. Isto fizera subir ao maior auge posssivel o furor
dos conjurados, que, «como leões raivosos», se
lançaram aos espelhos, cadeiras, mezas e outros
moveis de preço que adornavam a salla e que todos
ficaram em pedaços. Depois subiram aos segundos
e terceiros andares, procurando, diligentes, os que
dispararam os tiros ; mas /ião os encontraram, por-
que, antevendo a sua ruina, tinham-se ido refugiar
no corpo da guarda. Desenganados de não poderem
vingar-se por este lado, voltaram a quebrar o resto
dos moveis e a dilacerar os papeis pertencentes á
Companhia, que rasgaram e calcaram a seus pés.
Fora no meio d'estas circumstancias que acudira
a tropa, com o seu tenente-coronel, Vicente da Silva,
o qual servia de governador-das-armas, com subor-
dinação ao governador-das-justiças, no que respei-
tava aos negócios e regulamentos da Companhia
das vinhas do Alto Douro; mas, recebendo doeste
» V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 157
ordem expressa para que não coarctasse o povo,
veio a ser testemunha indifferente de similhante
desordem, aliás de ephemera e curta duração, pois
pelas três horas da tarde achava-se a cidade em
pleno e completo socego. De modo que, sahindo
por aquella hora a procissão da Cinza, feita pelos
Terceiros de S. Francisco, nem já signaes havia do
que poucas horas antes se passara.
Este tumulto, engrandecido na imaginação do
ministro do reino, Sebastião José de Carvalho, o
foi a um ponto tal que logo na data de 28 do
mesmo fevereiro de 1757 uma carta regia se expe-
diu ao desembargador da meza do paço, João Pa-
checo Pereira de Vasconceilos, nomeando-o juiz de
uma Alçada, para vir ao Porto inquirir e castigar
severamente um motim, que se tinha na conta de
uma rebeliião formal. Para escrivão d' essa Alçada
deu-se-lhe o seu próprio filho, o desembargador
José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de
Mello. Munidos estes dois desembargadores de
ordens secretas e poderes discricionários, tanto no
civil como no militar, partiram occultamente de
Lisboa para o Porto, em desempenho da sua com-
missão, dando-se-lhes para seu auxilio o regimento
de dragões de Aveiro, de que era coronel D. Antó-
nio Manuel de Vilhena, dois ditos de infanteria, um
do Minho, de que era coronel Luiz de Mendonça
Furtado, e outro de Traz-os-Montes, do qual fora
nomeado coronel Vicente da Silva; levaram mais
um esquadrão de cavallaria ligeira da praça de Cha-
I58 PORTUENSES ILLUSTRES
ves, commandado pelo tenente coronel João Pinto
Rubim; além d* estes corpos, outro tinham também
ás suas ordens, na força de mil e duzentos homens
de infanteria, que era o da guarnição do próprio
infeliz Porto.
Sem que ninguém o esperasse, amanheceu um
dia cercada esta cidade, dando-se ordem á tropa de
não deixar entrar nem sahir d'ella pessoa alguma.
Realisado que foi o cerco, entraram para dentro do
Porto os officiaes da Alçada, depois dos quaes se
seguiu a tropa, que foi aboletada pelas casas dos
seus moradores, sem se admittir excepção de pes-
soa, por qualidade, foro ou sexo, impondo-se aos
donos d'essas habitações a obrigação de sustenta-
rem os aboletados que lhes tirtham sido distribuídos.
Tudo isto foi feito em conformidade da carta
regia, expedida á camará do Porto na data de 10
de abril, em a qual se lhe ordenava que a tropa
mandada em auxilio da Alçada fosse aboletada mais
particularmente por aquelles bairros d'onde tinham
sahido os amotinadores, devendo os aboletados
n'esses mesmos bairros ser em numero duplo do
dos outros, intimando-se aos respectivos patrões a
obrigação de os sustentar, porque, quanto aos
soldos e munições de guerra, a sua importância
devia ser paga por meio de uma contribuição geral
que, para esse fim, se lançou egualmente á cidade.
O restante que seguiu foi uma perversa abomi-
nação, que rematou por uma hecatombe trágica.
Começou-se por uma d'essas farças repellentes
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 159
em que, de todo o tempo até nossos mesmos dias
com a ceremonia das exauctoraçôes militares, se
compraz a fera philaucia do prestigio da auctoridade.
Chamou-se primeiramente o juiz-do-povo, que a
esse chamamento compareceu o mesquinho com os
adornos próprios do seu cargo: sendo conduzido á
praça, no meio d'ella lhe tiraram a vara da mão,
para lh'a fazerem em pedaços, e logo após isto lhe
arrancaram a cabelleira, para lhe darem com ella na
cara. Ligadas, por fim, as mãos atraz das costas,
foi com a maior ignominia conduzido da cidade para
o castello de S. João da Foz. Todos os da casa-dos-
vinte-e-quatro foram egualmente presos, bem como
muitos homens, mulheres e rapazes, de que se en-
cheram as cadeias, os cárceres e o mesmo castello
da Foz.
As irregularidades do processo notabilisaram-se
por escandalosissimas, visto ser o juiz e o escrivão
da devassa um só e único individuo ; elle era o pró-
prio que exarava os ditos das testemunhas e os de-
poimentos das partes, o mesmo que procedia aos
interrogatórios e atormentava os réus a seu arbítrio
e, finalmente, o que somente escrevia aquillo que
lhe fazia conta. Muitos dos desgraçados réus, obri-
gados pelas violências das torturas, confessaram
culpas que não tinham, havendo outros que, pelo
mesmo motivo, concordaram em convir n'aquillo
que se lhes ensinava, ou pelo medo dos tratos com
que os ameaçavam ou também pelas seducções com
que os attrahiam, dizendo-lhes ser todo o processo
IÓO PORTUENSES IL LUSTRES
encaminhado a um geral perdão. Por esta forma,
assignaram aquelles miserandos tudo o que d'elles
se quiz que assignassem ou para tal fim se lhes
propunha, sem attenção á verdade, fechando-se,
por fim, a devassa como o escrivão a quiz fa-
bricar.
Por outra parte, não houve immunidade que este
monstro de crueldade não violasse, honra ou fama
de mulher que este homem deshonesto e torpe não
denegrisse e, finalmente, espécie alguma de aleivosia
que não commettesse, porque — assim nol-o dar a
lêr Soriano — , penetrando em mosteiros, devassando
conventos, recolhendo e ouvindo mulheres casadas
e filhas honestas que lhe vinham pedir pelos maridos
e pães que tinham presos, nas casas que destinava
para fallar, a pretexto de averiguações secretas, ás
que melhor lhe pareciam, n'elias as entretinha e con-
versava por todo o tempo que queria, para satisfa-
ção dos seus libidinosos e brutaes appetites, conse-
guindo pelo temor do castigo e pela promessa do
perdão o que por nenhum outro modo ou empenho
d'ellas alcançaria. E, por fim, não só enforcou ma-
ridos e pães mas até mesmo algumas d'essas que
por este modo corrompeu, consoante o escreve So-
riano, reportando-se do manuscripto da Vida do
marque z de Pombal para que appella.
Este malvado encheu de afflição e de medo todos
os moradores do Porto; constantemente andava
pelas ruas da cidade com uma guarda de cavallaria
após si, e na devassa que abriu mostrou todo o
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA IÓI
empenho de envolver pessoas de certa elevação
social, para fazer persuadir ao patrono — Soriano o
julga — que, pela sua muita diligencia e zelo, tinha
conseguido atalhar uma rebellião formal.
Apezar, comtudo, de a meditada e composta
prova da culpa ser escripta na devassa pelo modo
que fica dito, os desembargadores da Relação e os
juizes d'ella dissentiram do parecer do relator e
presidente da Alçada, por assentarem que o crime
não passava além de uma simples assuada; e, n'esta
conformidade, votaram que só lhe competia uma
pena arbitraria, e não a capital. Mas o presidente,
sem embargo da sua reputação de bondade, não
consentiu que assim se lançasse a sentença ; e d'esta
opinião dos vogaes deu conta ao secretario de Es-
tado, Sebastião José de Carvalho. Este mandou
asperamente reprehender os juizes da Relação, pelo
errado juizo que formavam do procedimento havido,
declarando-lhes que o crime era de lesa magestade de
segunda cabeça, e, como tal, se lhe devia applicar
a pena da lei, ficando por esta advertência enten-
dido o que em casos similhantes se devia praticar
no futuro. Acceitaram os juizes a reprimenda do
ministro com notável submissão; e, na conformi-
dade do que se lhes ordenara, proferiram no dia n
de outubro de 1757 a respectiva sentença, que logo
no dia 12 se executou nos réus condemnados á
morte.
Agora, do capitulo xxn de Um motim ha cem
annos:
VOJ... I. J I
IÓ2 PORTUENSES ILLUSTRES
Amanheeeu o medonho 14 de outubro de 1757.
Dia de maior horror jamais raiara no Porto. Silencio pro-
fundíssimo reinava em toda a cidade. Parecia que o anjo da
morte a tinha fulminado com o extremo rigor da justiça de
Deus, transformando a ruidosa e activa capital do norte do
reino em enorme cemitério, onde as casas se erguiam como
cenotaphios de grande população extincta.
Desde a meia noite até o romper d'alva differentes bandos
de serventuários da Misericórdia tinham percorrido, segundo o
estylo, as ruas, pedindo orações pelas almas dos condemnados.
De quando em quando, á esquina ou no meio de uma rua,
soava o tinido funerário de uma campainha, e uma voz bra-
dava em tom lamentoso : « Resae um Padre Nosso e uma Ave-
Maria pela alma dos nossos irmãos que hão-de padecer
amanhã. » Mal raiou o sol, grande numero de irmãos da Santa
Casa espalharam -se por toda a cidade, pedindo esmola para
suffragios pelas almas dos padecentes. Os sinos da Misericór-
dia começaram então de dobrar a finados; e, minutos depois,
todos os campanários do grande numero de egrejas do Porto
dobravam no mesmo som. Ao mesmo tempo uma grande mul-
tidão de aldeãos e de gente da ralé caminhava apressada para
a alameda da Cordoaria, a vêr quem primeiro se apossava dos
logares d'onde melhor se podia presencear a carnificina e
saciar d'esta forma o instincto selvagem que arrasta o popu-
lacho para as scenas de sangue.
Jamais condemnado havia sahido para o logar do suppli-
cio antes das onze horas da manhã. Mas d'esta vez o grande
numero que havia d'elles e o extenso giro que a ferocidade de
Mascarenhas tinha ordenado que dessem pelas ruas da cidade,
em conformidade com o determinado pela sentença que elle-pro-
prio lavrara, obrigou a an 4 ecipar a hora da sahida da fúnebre
procissão.
A's oito horas menos um quarto, um grande numero de pes-
soas estava agglomcrado na então denominada praça das Hortas,
defronte da porta nobre do hoje palácio municipal, onde então
a Relação funccionava provisoriamente n'aquella epocha.
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 163
A Alçada estava reunida para decidir os embargos inter-
postos, em nome dos condemnados, pelo licenceado Luiz Gomes
da Costa, que era então advogado da Misericórdia. Ninguém
acreditava na efficacia d'este ultimo recurso; mas era o ultimo
c por isso todos estavam suspensos d'esta derradeira esperança.
Por fim, ás oito horas, José Mascarenhas sahiu, acompanhado
pelos officiaes da Alçada, e tomou o caminho da Relação.
Minutos depois soube-se que os embargos tinham sido despre-
zados e que apenas se tinha suspendido, por quatro mezes, a
execução da Estreitada^ em razão de allegar e de se ter verifi-
cado, por exame, que andava gravida de sete mezes.
Os padecentes na forca estavam, pois, reduzidos a treze
homens e quatro mulheres.
Os homens eram: o juiz do povo José Fernandes da Silva,
o Lisboa; Caetano Moreira da Silva; José António de Beça;
Domingos Nunes Botelho; Filippe Lopes de Araújo; Thomaz
Pinto; Balthazar Nogueira; Marcos Varella; José Rodrigues, o
Grande; João Francisco, o Mourào; Manuel da Costa, sar-
gento do regimento de infanteria da guarnição do Porto; e
José Pinto de Azevedo, e António de Souza, o Negres> ambos
soldados do mesmo regimento.
As mulheres eram : Michaela Quitéria, mulher de Caetano
Moreira da Silva; Maria Pinta, mulher do soldado António de
Souza, o Negres ; Anna Joaquina, mulher de José de Sá; Pas-
choa Angélica, solteira e filha de Thomaz Pinto.
Mal a noticia do não-recebimento dos embargos se espa-
lhou pelo povo, dispersou este, e foi reunir-se á grande multi-
dão que já estava aguardando no campo da Cordoaria.
Apenas José Mascarenhas chegou á Relação, deu imme-
diatamente ordem para sahir o préstito; e, logo que os offi-
ciaes e mais pessoas que tinham de caminhar na frente acaba-
ram de ordenar-se, principiaram a sahir dos oratórios os pade-
centes, e cada um foi collocado segundo a ordem em que tinha
de caminhar. Foi uma scena horrorosa aquella. As mulheres,
que tinham passado aquellas quarenta e oito horas em grita e
em desmaios, mal podiam ter-se de pé. Dos homens, apenas
164 PORTUENSES ILLUSTRES
Manuel da Costa, Caetano Moreira, Domingos Neves e Thomaz
Pinto estavam serenos e inteiros, como se nada fora com elles»
Os outros tinham todos succumbido. O velho Lisboa mal dava
signaes de vida. Estava de tal forma que, para conduzirem
aquelle quasi cadáver, foi preciso amarral-o a uma cadeira de
pinho, que dois ga 11 egos apenados levaram a pau e corda. A
scena redobrou de horror quando os condemnados se encontra-
ram, ao tempo de entrar no préstito. Até os mais corajosos
estremeceram, ao baterem com os olhos de chapa uns nos
outros e ao verem aquella multidão, que alvejava com o
ultimo traje dos suppliciados. As mulheres levantaram um
brado pavoroso.
Collocados os condemnados, ataram -lhes, segundo o cos-
tume, os punhos um ao outro. Depois prenderam-lhes aos pes-
coços enormes gargalheiras, d'onde pendiam pezadas cadeias,
que iam arrastando após elles. Esta innovação era digna da fero-
cidade do escrivão da Alçada. Era, segundo elle dizia, preciso
dar severo exemplo ao espirito revolucionário da gente do
Porto; e, para que o exemplo surtisse o effeito desejado, nada
o malvado poupou do que lhe suggeriu a natural ferocidade do
caracter. Pendurar grossas correntes de ferro ao pescoço de
homens que caminhavam para a forca, accrescentar á agoniado
espirito a agonia do corpo : é facto tam horroroso que ninguém
o poderia acreditar acontecido e tolerado no meio de uma so-
ciedade civilisada, se o não attestassem os contemporâneos
(Ratton, Recordações, pag. 320) e se a tradição, nol-o não trans-
mittisse, acompanhado do opprobr/o e da reprovação que me-
rece. Tal facto presenceou-se, pois, no Porto no dia 14 de ou-
tubro de 1757.
Quando os officiaes de justiça se approximaram com as
gargalheiras, ninguém fez resistência, porque quasi todos esta-
vam em estado de a não poder fazer.
préstito poz-se então em movimento; desceu as escadas
e d'ahi a pouco estava na rua. A's nove e meia, já elle cami-
nhava, de todo organisado, pela rua de Traz dos Muros, d'onde,
pelos Caldeireiros, tinha de descer á das Flores, e d'ahi seguir
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 165
pela rua Chã, Bainharia, largo de S. Domingos, Bellomonte,
Taypas e, finalmente, á alameda da Cordoaria, que era o local
onde se tinha de terminar aqúella tragedia sanguinária e me-
donha.
Rompia a marcha um forte pelotão, de trezentas praças do
regimento do commando de Vicente da Silva, e o resto do corpo
caminhava em alas aos lados, até o couce da procissão, que
era fechado pelo regimento de dragões da Beira. Logo em se-
guida ao pelotão caminhava a bandeira da Misericórdia, arvo-
rada nas mãos de um irmão e precedida por um serventuário
que nas paragens tangia funebremente uma campainha. A ir-
mandade ia em alas aos lados. No centro caminhavam os con-
demnados. O primeiro era o juiz-do-povo, conduzido ás costas
dos gallegos, sem accordo e já meio cadáver, e em tal estado
que o crucifixo que levava nas mãos ia-lhe cahido sobre os
joelhos e as consolações dos dois jesuítas que o ladeavam eram
inteiramente perdidas. A grossa cadeia que lhe pendia do
pescoço foi de rastos ainda até o meio da rua de Traz dos Mu-
ros ; mas alli um dos padres, vendo-o com a cabeça toda pen-
dida áquelle grande pezo, levantou-a nos hombros e carregou-se,
por caridade, com ella.
Seguiam-se as mulheres.
Após ellas seguiam-se os homens, e o primeiro que rompia
a marcha era Manuel.
Após Manuel, seguiam-se, uns atraz dos outros, os demais
padecentes. Vinham depois os condemnados a açoites e a pre-
senciar as execuções. Atraz d'elles os três carrascos, vestidos
de vermelho e com gorros da mesma côr na cabeça. Seguia-se
o escrivão da Alçada, com o rosto a irradiar-lhe de ferocidade,
de soberba e de satisfação satânica. Acompanhavam-o grande
numero de officiaes de justiça, o ultimo dos quaes era um que,
se tornava distincto pela vara que trazia na mão e por vir
rodeado por uns poucos de serventuários da cadeia, rotos e
porcos, e que traziam grandes baldes pendentes de panno, que,
dois a dois, sustentavam pelas extremidades. Era o meirinho
das cabeças. Seguia-se uma longa fileira de salafrários da Mise-
166 PORTUENSES ILLUSTRES
ricordia, conduzindo as tumbas. Após elles vinha o regimento
de dragões, com as espadas empunhadas.
Por fim, a procissão chegou á Cordoaria. Os regimentos
que tinham occupado militarmente o Porto formavam em qua-
drado na praça, deixando rio meio de si vaslissima clareira*
Pelo lado de fora d'esta muralha humana tumultuava a multi-
dão do populacho. Ao chegar o préstito, a tropa abriu aos
lados e deixou-lhe larga entreaberta, por onde entrou para
dentro. . .
Depois começou a carnificina. Era uma hora da tarde.
Quanto á Estrellada, escapou d'aquella feita
pelo motivo da gravidez; mas foi effectivamente
enforcada quatro mezes depois; e foi-o, «não
porque o ministro já não tivesse a consciência da
injustiça d^quelle julgamento, mas paia salvar a
infallibilidade da justiça de el-rei, principio a que o
severo Sebastião de Carvalho sacrificava todas as
considerações e todos os sentimentos ! »
E' um beilo livro, com effeito, essa «chronica
portuense do século xvin», escripta pelo portuense
Arnaldo Gama, o grande erudito regional, como lhe
chamou, e bem, o portuense Ramalho Ortigão.
A surpreza consternada da gente do Porto
perante a ferocidade d'aquelles castigos foi tanto
mais profunda quanto no Porto ainda vivia suave-
mente a lembrança de benignidade transacta em
pretérito motim.
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 167
No relato, a mazorrice da prosa habitual de
Agostinho Rebello da Costa aligeira-se; toma
andança; adquire pittoresco; mas a graça borbulha
do feitio do próprio caso narrado.
Reinando Philippe, em Castella como iv, em
Portugal como m do nome, veio no anno de 1628
a esta cidade, mandado por ordem do Real Con-
selho d'Estado, Francisco de Lucena, residente que
era em Madrid e secretario do mesmo Real Con-
selho, para impor n'ella o extravagante tributo das
maçarocas.
«Com effeito, apenas elle apresentou ao Senado
Portuense a sua commissão, logo este a approvou
como ordem do seu rei.
Porém as regateiras e outras mulheres similhan-
tes, vendo que esta imposição se dirigia com espe-
cialidade a defraudar o limitado lucro que tiravam
das suas rocas, dominam-se repentinamente d'um
cego e rápido furor. Sahem de suas casas, dis-
correm por umas e outras ruas da cidade, chegam
ao terreiro de S. Domingos; e a desgraça lhes
mostra n'este sitio a Francisco de Lucena.
Como desesperadas fúrias, descarregam sobre
elle uma espessa nuvem de pedras; alli mesmo o
suffocariam, se elle, valendo-se da agilidade dos
seus pés, se não mettesse, de um salto, dentro do
convento que está n'este sitio, habitado pelos Reli-
giosos Dominicos.
Augmentava-se o numero das regateiras com
outro egual de marujos, e á proporção crescia a
IÓ8 PORTUENSES ILLUSTRES
bateria das pedradas, de sorte que o furor princi-
piava a voltar-se contra o convento, se uma voz
não bradasse altamente que o Lucena, saltando os
muros da cerca e passando ao convento de S.
Francisco, tinha sahido pelo postigo chamado do
Pereira e d^lli, atravessando o Douro, se refugiara
no convento da Serra.
Com a força d'esta voz socegaram os ânimos
dos revoltados, parou a sua fúria e se desvaneceu
o motim.
O bispo, que então era D. João de Valladares,
em companhia do Senado, foi protestar ao Lucena
o quanto a nobreza, e ainda o povo, sentira
aquelle insulto; que lhe pediam efficazmente qui-
zesse voltar á cidade, porque as Ordenanças e Jus-
tiças estavam sobre as armas, para rebaterem os
amotinados.
Não foram bastantes estes rogos a conservai -o,
porque, assustado e timido, de nenhum modo quiz
expòr-se a segunda bateria. Partiu logo para Ma-
drid, aonde deu conta de tudo o que lhe tinha
acontecido.
Seriam funestas as consequências, se o dito
bispo, D. João de Valladares, não empenhasse seu
irmão Mendes da Motta de Valladares e o presi-
dente do Conselho d'Estado, D. Carlos de Aragão,
para moverem el-rei a perdoar aos aggressores. O
governador das Justiças, Diogo Lopes de Souza,
segundo conde de Miranda, empenhou-se egual-
mente para este fim, expondo que o tumulto fora
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 169
suscitado pelas mulheres da ínfima plebe, o qual
teria elle evitado, se rfaquelle dia não estivesse
ausente da cidade.
Tudo ficou em paz, como se nada houvera
acontecido. »
Este motim, provocado pela estultícia d'uma
extorsão fiscal mesquinhamente odiosa deu motivo
á novella A rua Escura, tradição portuense, do
portuense António Coelho Louzada.
Mandados os portuguezes pelos restaurados reis
portuguezes, dado que reis tenham nacionalidade,
novamente os portuenses tumultuaram, em ira
accendidos por próximo tentamen expoliador. Esse
era o do papel sellado, que foi avante.
O motim aconteceu na manhã de 4 de maio de
1 661, -sendo rei doeste reino D. Affonso vi, in nomine.
«Uma ordem que se expediu para que os mi-
nistros de justiça não despachassem ou usassem
de papel algum que não fosse sellado atemorisou
de tal sorte o povo que, receoso de maiores tribu-
tos, requereu ao Senado da Camará, pelos seus
procuradores, para que supplicasse ao rei o liber-
tasse d'esta imposição.
Não somente o Senado desattendeu este reque-
rimento mas também prendeu os procuradores e os
obrigou a assignar aquella ordem. Este golpe foi
um signal de guerra declarada.
Amotina-se a plebe, accomette as portas do Se-
nado e clama furiosamente : Viva el-rei e morram
os traidores. Juntos os rapazes ao som d'este cia-
I70 PORTUENSES ILLUSTRES
mor, e crescendo com elles o numero dos amotina-
dos, foram todos de tropel a casa do thesoureiro
da cidade, que morava aos Arcos de S. Domingos.
Apedreja!m-lhe as portas e janellas, obrigam-o a
lançar na rua todo o papel sellado e immediata-
mente lhe deitam fogo.
Não satisfeitos com estes desatinos, accomettem
a casa do juiz da alfandega, que diziam ser o
auctor d'aquelle tributo. No mesmo tempo appare-
ceu á sua porta um montão de mariolas e d'outros
homens revoltosos; entram no interior da casa,
despedaçam-lhe os moveis e os reduzem a cinzas.
Os rapazes, vendo em uma adega algumas pipas
de vinho, voltam-lhes as torneiras e, enchendo as
copas dos chapéus, o lançam sobre o povo.
D'aqui passam alguns ranchos á casa do corre-
gedor da comarca, obrigam-o a que lhes mostre a
provisão, por força da qual o rei tinha imposto
similhante tributo; timido e assustado, o corregedor
desce ao portal da casa e, protestando que também
era povo, liberalmente lhes dá a provisão.
Entretanto, o provisor e cónegos da cathe-
dral resolveram-se a sahir com o Santíssimo Sacra-
mento em procissão, para rebaterem com este acto
tam piedoso a fúria dos amotinados; porém estes,
encaminhando-se ás cadeias publicas e arromban-
do-as, desenganaram-se de não estarem n'eilas pre-
sos os procuradores da cidade.
Vendo os desembargadores este furioso insulto,
fugiram em desordem, a refugiar-se no mosteiro de
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 171
S. Bento da Victoria. O chanceller subiu a uma das
janellas das casas destroçadas do juiz da alfandega
e d'alli dizia ao povo que elle se obrigava a dar-lhe
conta dos seus procuradores. Na sua companhia, e
debruçado de outra janella d'estas casas, esforçava-se
o P. Fr. Manuel Carvalho, Religioso Deminico, em
apaziguar os ânimos dos revoltados, recitando-lhes
uma oração pathetica. Porém as suas vozes faziam
tanta impressão n'este confuso e immenso barulho
quanta puderam fazer nas furiosas ondas do mar
da Grécia as do eloquente Demosthenes.
Appareceram emfim os procuradores do povo
soltos e livres. Com a sua presença tudo se apa-
ziguou.
Apenas a noticia doesta revolução chegou aos
ouvidos d'el-rei quando logo mandou aos condes do
Prado e de S. João (governadores n'aquelle tempo
da província do Minho) que viessem sobre esta
cidade e n'ella castigassem os rebellados. Fizeram os
condes a sua entrada a 17 de outubro de 1661,
escoltados por quatro mil soldados de infanteria e
quinhentos de cavallaria. Apearam-se defronte da
porta do Olival e d'alli deram á infanteria as ordens
necessárias.
Logo no dia 19 do referido mez ajuntou-se o
Senado e, o povo sem mais repugnância, assignou
o tributo do papel sellado.
Procedeu-se a uma rigorosa devassa, que admi-
rou os condes, vendo que nenhuma pessoa nobre,
ou ainda do estado médio, íòra n'ella culpada.
172 PORTUENSES ILLUSTRES
Assim o mostraram a el-rei, não resultando de
todo este successo mais que condemnarem a açou-
tes um mulato da Ribeira, e um marujo em cinco
annos de degredo para o Brazil. »
Pelo que toca ao papel representado pelo bispo
e pelo conde no distúrbio das maçarocas, António
Coelho Louzada aprecia-o assim: «Quanto a D.
Diogo Lopes de Sousa, conde de Miranda, sua
senhoria era bastante portuguez para se oppôr aos
que gritavam contra o governo de Castella, bas-
tante castelhano para se pôr de mal com o governo
de Madrid e perder a pingue regedoria das justiças
e Relação do Porto, e bastante ladino para se haver
em casos complicados. D. Diogo sabia do animo
em que estavam as povoações e, presentindo que a
cobrança do novo tributo podia chegar o lume á
mina de ha tanto preparada, foi, a titulo de animar
a fidalguia d'Entre-Douro-e-Minho a abrir a bolsa
para o donativo, ainda bem minguado, dar um
passeio pelas serras da sua jurisdicção, levando
comsigo uma parte das auctoridades. Se a revolu-
ção estalasse e formasse vulto, o conde de Miranda
saberia ser um segundo Fábio, e com negaças e
passeios aguardar que o fiel da balança pendesse
para um lado; se se tornasse um simples motim,
elle lhe daria o colorido que mais conviesse. Quando
lhe chegou aos ouvidos o resultado que sabemos
das iras dos portuenses, o nobre conde mostrou-se
agastado, tractou de montar a cavallo, fazendo-se
seguir por um pequeno troço de cavallaria, e veio
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 1 73
sobre a cidade com uma catadura capaz de intimi-
dar os mais animosos. Aqueila cólera não devia,
porém, passar de prospecto, por calculo já e graças
á brandura do génio do bispo D. João, que fez a
sua obrigação de pae do povo. No relatório enviado
a Madrid foram empregadas as tintas mais suaves,
e o apparato da devassa e prisão de uns dous po-
bres mesteiraes apenas serviu para conter escondi-
dos nas próprias habitações os que rríais salientes
se tinham tornado na revolta. »
Estas lembranças da epocha do domínio philip-
pino aqui nos suscitam, porém, a curiosidade para
o conspecto superficial de todo o período, ao menos
nos seus episódios característicos, qual, por exem-
plo, o da entrada dos hespanhoes no Porto.
E' acirrante a leitura do livro Histoire sécrète
de Dom Antoine roy de Portugal, publicado em
Paris, com privilegio do rei, em 1696, au Palais,
chez Jean Guignard y à lenir ée de la Grand^Salle, à
Vimage S. Jean, e que seu auctor, a senhora Gillot
de Sainctonge exata «tirada das memorias de Dom
Gomes Vasconcellos de Figueiredo» na lauda do
rosto do volume. « Eu tirei (ella explica na Adver-
tência preambular) a mór parte doestas memorias
d'um manuscripto com que se topou no gabinete
de meu avô após sua morte; era elle portuguez e
irmão de Scipião de Vasconcellos.» Pinheiro Chagas,
174 PORTUENSES ILLUSTRES
no Diccionario Popular sob sua direcção, depois de
o biographar, adverte-nos de que «Cypriano de
Figueiredo e Vasconcellos era tio-avô da celebre
Madame de Sainctonge, que escreveu a Historia se-
creta de D. António. » Onde (pag. 98) ella relata o
estratagema da grande quantidade dos bois, man-
dados vir das montanhas e a cujas gaitas se haviam
atado archotes accesos, ardil de guerra que, Pinheiro
Chagas assegura ficou celebre, esse de arrojar contra
o inimigo manadas de vaccas bravas, que lançaram
a perturbação em suas fileiras.
Mas Camillo Castello-Branco terminantemente
proclama que o Gomes de Vasconcellos, que Madame
de Sainctonge diz ser seu avô, nem sequer se topa
mencionado nos genealógicos mais prolixos em miu-
dezas.
Assim, pois, não se tomará á conta de fervor
pelo brio pátrio o repudio que leitor portuense faça
quiçá da pag. 72 da Historia secreta, onde sua
auctora assegura que o cerco do Porto, ao abrigo
de cujas muralhas se acolhera o prior do Crato, se
poderia, apezar de tudo, aguentar por bem mais
tempo, « se Dom António não houvesse sido trahido
pelos habitantes; estes poltrões, porém, que seu
infortúnio não previam, fizeram entrar os inimigos,
emquanto que aquelle príncipe occupado se encon-
trava em, por um lado outro, repellir os hespanhoes,
que queriam passar o rio Douro.»
Não fora sem perigo que o combatente príncipe
lograra salvar a vida; mas seccamente que D.
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 175
António, influenciado pelo terror da sua estrella
funesta, fugira quando o general hespanhol vadeava
o Douro em Avintes é como o rememora Camillo
Castello-Branco, que, á conta da Historia Secreta,
áspero se pronuncia por teor assim: «Este livro,
tam a miude citado pelos historiadores como aucto-
ridade não passa de um romance.»
Ainda que este asserto não haja de levar-se á
risca, ponto é que a não-'prolongação do sitio não
tem de incriminar-se á frouxidão covarde da defeza;
e parecer, duas vezes maior de toda a excepção,
por de militar e de hespanhol, pezaria mais em ba-
lança de precisão aferidora no sentido de inclinar a
concha onde deitado fosse o contrario voto.
E não se opponha a contradicta de que o
heroísmo não quadra com a circumspecção, notório
sendo o tino prudencial dos portuenses. Já desde
então.
Com effeito, o famoso « gentil-homem genovez»
Jeronymo de Franchi Conestaggio, em Génova, em
1589, deletreando dos portuenses, d'elles dissera:
«G/i huomini di essa (cidade do Porto), cke fra Por-
toghesi si stintano i piu sauij. . . »
O doutor Luys de Bauia, capellão do rei de
todas as Hespanhas, incluso então Portugal, em sua
real capella de Granada, na versão que da obra fez,
da lingua italiana para «a nossa vulgar caste-
lhana», no anno de 1610, traduz assim: «Los hom^
ores de ella (a cidade do Porto) que entre los portu-
gtiezes son tenidos por mas sábios. . . »
176 PORTUENSES ILLUSTRES
O auctor da Histoire de la reiinion du royaume
de Portugal à la couronne de Castille, para francez
traduzida do italiano, e impressa em Paris, chez
Clavdc Barbin, ate Paliais, sur le second Perron de
la Sainte Chapelle, em 1680, traduz assim: a Les
habitans de Porto sont en reputa tion d'estre les plus
sages d 'entre les Portugais.»
Seria por que já então «tivessem que perder? »
« A cidade burgueza já era então — relembra-o
Camillo Castello-Branco — um valha couto de capi-
tães amuados nos cofres dos mercadores.»
Mas á perspicácia technica do cabo de guerra
investidor do Porto, don Sancho de Ávila, é que
attribue, em sua Guerra de anexión en Portugal
durante el reinado de don Felipe 11 (Madrid, 1898),
o general don Julián Suárez Inclán, a pag. 105 de
seu tom. 11, a derrota, um tanto iòrpa, de los poço
previsores lusitanos. Porém no género do descuido
haveria o prior do Crato de vir a ter suecessor
ainda, e por certo que bem melhor estratégico e
táctico do que elie prior D. António e até talvez do
que elie general don Julián : nada menos do que o
marechal Soult, grande honra logrando a memoria
obliterada do hespanhol Sancho d'Avila de que, até
ao plagiato, lhe siga, no êxito, as pizadas o inglez,
outrosim quasi por egual já esquecido, Arthur
Welesley.
«O seu piano — em 1862 escreveu Rebello da
Silva — , executado com a decisão que o caracter
risava, foi elogiado pelos capitães entendidos na
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA l^^
arte militar cfaquelle século. Emquanto os canhões,
plantados o mais perto possível, cruzando o Douro,
batiam a cidade, elle, a coberto das trevas da noite,
deixando o seu acampamente em Pedras Salgadas,
embarcava em Avintes e assenhoreava-se da mar-
gem opposta, sem opposição. A victoria coroou este
movimento, reaiisado com summa felicidade. Ao
passo que D. Rodrigo Çapata, com o resto da
infanteria já nos barcos e os cavallos á mão para
atravessarem a nado, só aguardava o signal, San-
cho de Ávila, investindo de súbito os portuguezes
pelas costas e descarregando sobre elies toda a
arcabuzaria á queima-roupa, levava-os depois nas
pontas das lanças e nos fios das espadas, com tal
impeto que nem espaço lhes deu quasi para verem
quem os desbaratava. Uma derrota prompta e com-
pleta despejou em momentos todo o terreno. Trin-
cheiras, reparos e baterias: tudo cahiu em seu
poder, quasi sem a perda de um soldado. A passa-
gem do grosso das tropas por Pedras Salgadas
verificou-se logo depois sem o mais leve embaraço
e, unido todo o exercito em um só corpo, caminhou,
rápido e soberbo, sobre o Porto, aonde, mesmo
antes de o avistarem, já a noticia do seu triumpho
lhe rendia, de medo, o coração dos adversários.»
«As mesmas circumstancias — em 1871 escre-
veu Luz Soriano — que se deram no Porto em
outubro de 1580, entre as forças portuguezas do
partido de D. António, prior do Crato, e as hespa-
nholas que o perseguiam, novamente se repetiram
VOL. I. va
I78 PORTUENSES ILLUSTRES
rfaquella cidade, entre as francezas que a occupa-
vam e as luso-britannicas que d'ella as buscavam
expellir. E possível que sir Wellesley ignorasse o
plano da tomada do Porto, effeituada no dito
anno de 1580 pelo mestre de campo general do
exercito hespanhol Sancho de Ávila, mandado de
Lisboa pelo duque de Alba em seguimento do prior
do Crato, o qual, depois da sua derrota na ribeira
de Alcântara, junto da capitai, se havia retirado
para o norte do reino, indo refugiar-se no Porto. . .
E possível, repetimos por mais outra vez, que
sir Wellesley ignorasse o arrojado feito de Sancho
de Ávila; mas, ou o ignorasse ou não, é um facto
que a passagem do Douro, por elle effeituada em
1809, foi uma repetição fiel do que já tinha entre
nós succedido em 1580.»
Não foi a conquista do Porto, sem embargo da
facilitante *poltroneria que aos portuenses graciosa-
mente attribue Mad. de Sainctonge, façanha que
menosprezasse o intrépido general hespanhol, cele-
bre por sua bravura : « Yo no me he hallado en cosa
que — Sancho de Ávila assim se expressa em carta
ao secretario Juan Delgado, datada de 22 de outu-
bro, Doe. inéd.y tom. xxxi, pag. 222 — tanto cuidado
me haya dado, ni con tanta dificultad como ha
habido. »
O hespanhol militar Inclán frisa com mofa que
as prevenções do inexperto prior do Crato se limi-
tassem quasi a fazer retirar da margem esquerda
do rio, frente á cidade, os barcos de passagem.
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I79
Coincidência curiosíssima! O francez paisana
Lanfrey (Histoirc de Napolcon, tom. v) adverte,
com assombro, que a fazer retirar da margem
esquerda do rio, frente á cidade, os barcos de
passagem se limitassem quasi as prevenções do
experimentadissimo marechal Soult!
E' de recordar que, ciosos os portuenses de
suas franquias e privilégios, o hespanhol, astuciosa-
mente politico, lhfos não quebrantou, antes confir-
mou.
Com effeito. Na verdade. Eis:
D. João 11, a todos os corregedores, ouvidores,
juizes, justiças e outros quaesquer officiaes e pes-
soaes de seus reinos, a que o conhecimento d'isto,
por qualquer guiza que fosse, pertencesse, e a es-
pecial carta sua, ou o traslado d'ella em publica
forma, por auctoridade de justiça, fosse mostrada,
mandou, de Évora, em i de Junho de 1490, que,
considerando os muitos e extremados serviços que
sempre os reis passados haviam recebido e elle re-
cebido tinha da sua muito nobre e leal cidade do
Porto e cidadãos d'ella, com muita lealdade e fide-
lidade, e conhecendo d'elles o amor com que o de-
sejavam servir e espera que sempre servissem, e
não menos do que sempre fizeram, por isso e por
o que a elle rei convinha, fazia aos taes vassallos
e por enobrecimento da dita cidade; e, querendo-lhes
fazer graça e mercê, tinha por bem e privilegiava
todos os cidadãos que óra eram em a dita cidade
l8o PORTUENSES ILLUSTRES
e ao deante fossem. E queria e lhe prazia que cTalli
em deante para sempre fossem privilegiados e que
elles não fossem mettidos a tormentos por nenhuns
malefícios que tivessem feito, commettido e commet-
tessem e fizessem d'alli por deante, salvo nos feitos
e d'aquellas qualidades e nos modos em que o de-
viam ser e eram os fidalgos de seus reinos e se-
nhorios. E que assim também não podessem ser
presos por nenhuns crimes, somente sobre suas
homenagens e assim como o eram e deviam ser os
sobreditos fidalgos.
Outrosim o rei queria e lhe prazia que podessem
trazei e trouxessem por todos os seus reinos e se-
nhorios quaes e quantas armas lhes aprouvesse, de
noite e dia, assim offensivas como defensivas, pos-
toque em algumas cidades e villas especialmente
tivesse defezo ou defendesse que as não trouxesssem.
Outrosim queria e lhe prazia que houvessem e
gozassem de todas as graças, liberdades, privilégios,
que eram e havia dado á sua cidade de Lisboa, re-
servando que não podessem andar em bestas
muares, porque não havia por seu serviço nem do
reino andarem n'ellas.
Outrosim queria que todos os seus caseiros,
amos, mordomos, lavradores encabeçados, que esti-
vessem e lavrassem suas próprias herdades e casaes
encabeçados, e todos os outros que com elles con-
tinuamente vivessem, não fossem constrangidos
para haverem de servir em guerras nem outras idas,
por mar nem por terra, onde gente mandasse, só-
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA l8l
mente com elles ditos cidadãos, quando suas pes-
soas o fossem servir.
Outrosim queria que não pousassem com elles,
nem lhes tomassem suas casas de moradas, adegas
nem cavallariças, nem suas bestas de sella nem de
albarda, nem outra nenhuma cousa do seu, contra
suas vontades; e lhes acatassem e guardassem
muito inteiramente suas casas; e houvessem, n'ellas
e fora d'ellas, todas as liberdades que antigamente
haviam os infanções e ricos-homens.
Portanto, mandava a todos os corregedores, ou-
vidores, juizes e justiças, alcaides e meirinhos, e a
quaesquer outros seus officiaes e pessoas a quem
essa sua carta fosse mostrada e o conhecimento
pertencesse, que lhes cumprissem e guardassem, e
fizessem mui inteiramente cumprir e guardar, assim
e tam cum de Évora, aos 1 1 de Abril de
1475, a qual se encontra no livro antigo das provi-
sões, fl. 90.
Da sentença na querella de Ruy Pereira se vê o
grande commercio que elle fazia no Porto. Na sua
querella contra os habitantes do Porto, pedia Ruy
Pereira que, além de outras penas, lhes fosse imposta
a indemnisação de vinte mil dobras; mas afinal foi
elle obrigado a segurar os portuenses e a respeitar
os seus foros e privilégios, como se vê da sentença,
que se depara no archivo da camará, liv. B, fl.
131 a 141.
Foi aquella sentença dada por el-rei D. Affonso v,
e é um documento importantíssimo para a historia
do privilegio que o Porto gozou até aos princípios
do século xvi de não ter fidalgos dentro dos seus
muros nem nos seus arrabaldes.
Assim ao seu relato do grande motim na fre-
guezia de S. Nicolau em 1474 o remata Pinho Leal;
elle o considera, tam só, uma resumida noticia.
«Quem quizer saber mais por miúdo como as coisas
IÇO" PORTUENSES ILLUSTRES
se passaram — elle escreve em nota — leia o interes-
sante romance histórico d' Arnaldo Gama: A ultima
dona de S. Nicolau,»
Assustada fidalgophobia a dos portuenses!
Abro certa das copias do manuscripto: Descri-
pçáo de antre douro e minho e trallos montes, pelo
doutor João de Barros, 1548; na pag. 15 e seu
v.°, tractando-se das prerogativas do Porto, leio,
corrediamente óra:
Outro privilegio tem esta cidade, muito grande, o qual é
que nenhum senhor grande possa em ella viver nem menos
pousar senão três dias, do qual privilegio muito peza aos
senhores que n'aquella terra têm suas terras, que desejam
muito viver ahi; em tanto que alguns clérigos fidalgos
procuram haver beneficio na Sé, para com isso poderem hi
viver; os quaes os cidadãos consentem emquanto bem vivem
e não alvoroçam a terra; e foi esta bôa consideração dos
antigos, conforme ao que diz Aristóteles na Politica.
Sem embargo da sua fidalgophobia, no próprio
Porto se haveria de vir a considerar copiosa resenha
de fidalgarias; e, das numerosas obras que seu
auctor escreveu, e deixou manuscriptas, as qiíaes
Barbosa descreve no tom. 1 da BibL Lus. t mencio-
nando, também no tom. 1 do Dicc. BibL, sua Genea-
logia das Famílias de Portugal, em oito grossos
volumes de folio, (e original, lhe parecia), a qual
apparecera em Lisboa á venda haveria anno e meio
da data (1858), lastima Innocencio que, por incúria
ou capricho do ex-bibliothecario Canaes, não exista
V -BERNARDO DE LIMA — ARNALDO CAMA I9I
agora — 1859 — na Bib. Nacional, scndo-lhe offere-
cida a compra d^lla. Da obra o auctor fora Chris-
tovam Alão de Moraes, formado em direito civil pela
Universidade de Coimbra, que servira diversos car-
gos da magistratura, sendo ultimamente Desembar-
gador da Relação do Porto e Corregedor do Civel
da mesma cidade, sócio da Academia dos Gene-
rosos e no Porto fallccido a 19 de maio de 1693.
Manda Innocencio ver a sua biographia ampla-
mente tractada no Panorama, n.° 123 de 1844;
e o portuense, hoje também fallecido, Eduardo
Augusto Allen additou, em 1888, que aquelle
interessante citado artigo é devido ao fallecido
Henrique Duarte e Souza Reys, em tempo funccio-
nario na Bibliotheca Publica do Porto. Onde de
Alão de Moraes existem, de genealogia, os códices
Theatro da Nobreza da Europa, Porto, 1690, 1 vol.
foi. ; Sedatura (sic) ou Cedatura (sic) Lusitana-
Hispânica, em que se contêm varias famílias nobres:
etc, 9 vol. foi. ; e Pedatura Lusitana em que se con-
tém varias familias nobres e illustres, 1660 a 1678,
5 vol. foi., ou seja o n.° 320 da collecção de Mss.
da bibliotheca portuense. Os cinco volumes de que
se compõe este n.° 320 contém a obra a que o
auctor poz o titulo de Pedatura, derivado do grego
pais, genitivo paidòs, que significa menino, rapaz,
filho, «designando, pois (accrescenta Allen), aquelle
titulo muito adequada e elegantemente o mesmo
que Filiações, Genealogias ou Gerações de Familias.»
Innocencio informa, outrosim, que no n.° 127
I92 PORTUENSES ILLUSTRES
do Panorama sahira o fac-simile da assignatura de
Christovam Alão de Moraes; e Allen, tractando do
exemplar da Pedatura Lusitana que existe na
bibliotheca portuense (fase. 3. do índice prepara-
tório do catalogo dos manuscriptos, pag. 105,) asse-
vera que esse exemplar da Pedatura, alli guardado,
é autographo, e por isso muito importante. «Dize-
mos que é autographo porque o nome do A. no
frontispício é exactissimamente o do nosso Códice
autographo, n.° velho 816, d'onde provavelmente o
snr. Souza Reis extrahiu o fac-simile que vem no
Panorama e que abaixo citamos. Além d'isso, o
resto da escripta d'este exemplar concorda com a
lettra dos outros Códices autographos do A.»
Estes códices, que ficavam reservados para des-
crever no fascículo de «Litteratura», quando che-
gasse a sua vez, o dr. Allen desde logo os deixou
summariamente indicados, em os seus antigos n. os ,
isto é: 816, Grinalda d'Apollo (122 sonetos) por
Chr. Alão de Moraes, autographo e cuja assigna-
tura provavelmente servira para o fac-simile no
Panorama; 679, Obras poéticas, de D. António
Barbosa Bacellar, compiladas e escriptas por mão
do dito Alão; 755, Idem, do dr. João Sucarello
Claramonte, idem; e 734, Idem, do dr. Simão
Torrezão Coelho, idem.
Quanto á obra do dr. João de Barros, ha na
Bibliotheca do Porto o próprio original, em caderno
composto da primitiva em 1789, o qual abre, posto
corrente, com este preambulo:
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I93
E* digno e muito digno de estimação e apreço este Ms.
em 4. , lettra ruiva mas que não deixa de ser legível e que
tem por titulo Breve summa de Geographia da comarca
d ' Entre-Douro-e-MinliQ e Traz-os- Montes, em o qual se
contém outras cousas antigas e notave/s. Tem dedicatória aos
discretos e benévolos leitores; tem Introducçào da Obra,
antes do dito titulo; e depois d'elle prosegue o A. a sua Geo-
graphia até o fim, sem divisão de capítulos nem §§, acabando
o livro com as palavras seguintes: «. . . E dahi vai a
ponte de Canes, e dahi pelo Rio Tâmega ter entrambos
os Rios, e para diante chamão Tralosmontes. » Decide-se
que este é o próprio original da obra do dr. João de
Barros (sem ser o nosso afamado chronista da índia, mas sim
outro, não menor, bem conhecido, por ser do Dezembargo
d'El-Rei e seu Escrivão da Camará, como se lê logo no frontes-
picio da Geographia) pela declaração que ainda se acha na
ultima lauda d'este raro Ms., feita pelo Prior António dos Reis,
da Congregação do Oratório de S. Filippe Xery, de Lisboa,
assas recommendavel por suas incansáveis fadigas litterarias*
No fim d'este exemplar se lêem, pela própria lettra d'aquelle
illustre congregado, académico da « Academia Real da Historia
Portugueza», fundada pelo grande rei o senhor D. João o v <
palavras que denotam ser este o próprio original. Por outra
declaração que se lhe segue, de Amador António de Souza
Bermúdes e Torres (e de seu próprio punho), deputado da
Meza da Consciência e Ordens, se confirma que se conservou
annos em poder do referido académico e que d'clle passou (e o
modo como) para o dito deputado. E* digno de lembrar aqui
que mestre António de Guimarães (de quem não se lembrou o
auetor da Bibliotheca Lusitana) fez um tractado com este
titulo: «... das cousas dantre Douro, e Minho », que confere
com o da Geographia do dr. João de Barros. D'aquelle A. faz
memoria Ruy Fernandes, cidadão de Lamego, no livro ms., em
4. , que tem por titulo: Antiguidades de Lamego, 1532.» Con-
servou este ms. entre os escolhidos livros que passaram do
visconde de Balsemão, ministro e secretario de Estado dos
VOL. 1. \*i
IÇ4 PORTUENSES ILLUSTRES
negócios do reino, seu filho, o visconde moço que óra (em
1804) vive n'esta cidade do Porto. Sabemos que no mosteiro
de Tibães, cabeça de toda a congregação benedictina de Portu-
gal, se conserva uma copia d'esta obra, tirada de outra que se
acha entre os livros da casa dos Biscainhos de Braga, desgra-
çadamente mal tractada. Tal é a condição d'estes morgados
litterarios quando passam para mãos que os não conhecem
nem estimam. Sylvio Mondanh.
Nota o dr. Allen (fase. 2. do citado índice pre-
paratório) que Innocencio ignorava este pseudo-
nymo (ou Silvio Mondanio, ou Silvio Mondano) do
investigador Manuel Francisco da Silva e Veiga Ma-
gro de Moura, de quem fizera memoria em seu
tom. v. Ahi, a pag. 439, se escreve, antes da
enumeração de seus escriptos publicados, um
d'elles posthumámente em 1821, que, sócio da
Academia Real das Sciencias de Lisboa, formado
em direito pela Universidade de Coimbra, desem-
bargador da Relação do Porto, onde exercia afinal
o logar de Chanceller, morrera desgraçadamente
assassinado em um tumulto popular, por occasião
da invasão do exercito de Soult n'esta cidade em
1809, aceusado de fautor e partidário dos francezes.
Parallela com a fidalgophobia portuense corre o
prezado afan das classes laboriosas, buscando na
organisação a força e o destaque; o papel do infeliz
Juiz do Povo no motim da Companhia dos Vinhos
V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I95
nos faz volver os olhos por um momento para
pouco attendido ponto da historia nossa econo-
mico-social.
A' epocha da organisação da casa dos vinte e
quatro, a constituição das corporações das artes e
officios na idade media vinha de longa data em
Itália, França e outras partes, filiando-se nas tra-
dições romanas; mas-:— pergunta o snr. Henrique da
Gama Barros, tom. i, pag. 517 da sua sabia obra,
Historia da administração publica em Portugal nos
séculos xn a xrv — existiria ella em Portugal já
antes do século xvi?
Responde que os monumentos legislativos e os
Costumes não ministram prova para asseverar a
affirmativa; comtudo, que em Portugal também os
homens de ofíicio tivessem entre si uma certa
organisação, estava isso na indole dos costumes da
edade media, em que predominava a distincção das
classes, e vê-se em mais de uma passagem das
cortes do século xv.
A' industria e principalmente ao commercio devia o con-
celho do Porto o logar eminente que já desde o século xm
occupava entre os municípios do reino. Os serviços, entre gente
e dinheiro, que elle presta á causa de D. João 1 contra as pre-
tensões de Castella mostram que no ultimo quartel do século xiv
esse antigo burgo era então um dos concelhos mais importan-
tes de Portugal.
Mas não é somente nos dois primeiros municí-
pios do reino que (observa o snr. Gama Barros)
I96 PORTUENSES ILLUSTRES
podemos suppôr ligados entre si, por disposições e
costumes particulares, os homens dos mesteres.
Fundamenta-se, para Santarém, nos capítulos espe-
ciaes que esse concelho offereceu nas cortes de
Évora de 1436.
E, finalmente, para conjecturar que as corpora-
ções das artes e ofíicios existiriam, por toda esta
epocha, onde quer que fosse maior o desenvolvi-
mento das industrias, acha o snr. Gama Barros
ainda outro indicio em documento que não per-
tence já ao século xv mas que se refere a usos e
costumes de Coimbra, que, sendo o documento de
15 17, se podem muito rasoavelmente suspeitar tam-
bém existentes em parte, pelo menos, do século
anterior; ahi se enumeram as diversas profissões
agrupadas em classes ou officios distinctos, fallan-
do-se, mais de unia vez, no juiz do officio. Allude
ao Regimento da festa do Corpo de Deos, e de como
ham de ir os officios cada hum em seu logar. Publi-
cara-o o portuense illustre João Pedro Ribeiro no
tom. iv, parte 2. a , pag. 226 ess. de suas Disser-
tacões Chronologicas.
A pag. 36 ess. de seus Apontamentos para a
historia da cidade do Porto, o modesto portuense
J. M. P. Pinto traz o decreto ou carta de lei para a
procissão de Corpus Christi} no Porto, de 30 de
maio de 1560, da rainha D. Catharina, regente do
reino na menoridade de seu filho D. Sebastião; o
decreto ou carta de lei de 13 de maio de 1561, da
mesma; o decreto ou carta de lei de 15 de maio de
BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I97
1601, escripto em Aranjuez, do rei Philippe; o
decreto ou carta de lei de 1 8 de maio de ióc8,
escripto em Lisboa, do mesmo rei Philippe; final-
mente, o accordam e regimento que fizeram os
officiaes da camará da cidade do Porto em 1621,
para a procissão de Corpus Christi, com o parecer
do doutor António Cabral, chanceller da Relação do
Porto, e do bispo da dita cidade, conforme as pro-
visões de Sua Magestade; bem assim o regula-
mento para a procissão de Corpus Christi, em
vereação de 12 de junho de 1773, subsequente á
vereação de 14 de abril de 1730 e decisão acerca
da procissão de Corpus Christi.
A parte principal da festa competia aos diversos
officios, cujo espirito associativo persistiu, concate-
nando-se.
Assim, em 18 14, no tom. 1 de suas Variedades
sobre objectos relativos ás artes, commercio e manu-
facturas, consideradas segundo os princípios da
economia politica, José Accurcio das Neves, na
respectiva memoria sobre as corporações de offi-
cios, artes e commercio, havendo-as estudado na
antiguidade, na media edade e tempos modernos,
em França, Inglaterra e outras nações da Europa,
vindo ao seu e nosso paiz, constatando que «tam-
bém existem corporações gremiaes em Portugal»,
se nota que «em menor numero relativamente a
outros paizes», frisa que «menos gravosas pela
sua natureza», havendo, por exemplo, «poucos
paizes onde as aprendizagens tenham sido menos
I98 PORTUENSES ILLUSTRES
onerosas, ou se considerem pela sua duração ou
pela severidade d*essas condições», apparecendo na
própria capital compromissos em que nem sequer
é questão do tempo, e não se achando estabeleci-
das nenhumas habitações preliminares e nenhuma
exacção pecuniária para o ingresso na aprendiza-
gem, «Mas tem um vicio capital e, no meu con-
ceito, dos mais damnados, que consiste em limitar
aos mestres o numero de aprendizes que podem
tomar. » José Accurcio das Neves exemplifica com
o capitulo ii do Regulamento dos officiaes de car-
pinteiro e de pedreiro, de 13 de novembro de 1709,
confirmado pelo alvará de 5 de março de 17 10, que
é uma copia do cap. vn, § 2. do regimento antigo
de 1684.
Mas ao Juiz do Povo, na atrocidade pombalina,
lhe partiram a vara; e as coisas horrendas que se
seguiram não são para se dizerem duas vezes.
/*>
VI
José Mayne — João Baptista Gomes
D
esviemos, pois, de vez, os olhos cfessas
scenas de abominação e de relance passemos, em
contraste, a vista por quadros mais prazenteiros
que, a dentro do cyclo Almada, a nossa cidade do
Porto. fácil e ingenuamente nos offereça. Na alegria
dos públicos festejos nos refugiremos da tristeza
dos públicos horrores que ao Porto, á epocha, de
Lisboa vieram. E ha logar.
Pois nas demonstrações de jubilo costuma
aquella cidade distinguir-se, em Lisboa, por um
folheto sahido em 1793 da ofíicina de Simão
Thaddeo Ferreira, com motivo das festividades
com que «se tem celebrado o feliz successo da
nossa princeza», se memorou do Porto, que
« aquella cidade » era.
No dia 2 de maio recebera o desembargador,
corregedor e provedor da comarca do Porto, Fran-
200 PORTUENSES ILLUSTRES
cisco de Almada e Mendonça, a carta regia de par-
ticipação do feliz parto de D. Carlota Joaquina,
Princeza do Brazil, e logo a fez presente ao Senado
da Camará; no dia 3 se annunciou publicamente o
successo por um bando, a toque de caixas e clarins,
em que, além do porteiro, ia o alcaide da cidade,
com outros offlciaes, vestidos de gala, todos mon-
tados em soberbos e bem ajaezados cavallos, pre-
cedidos de outros muitos ofíiciaes de pé, ricamente
vestidos. No dia 9 o marechal de campo Sebastião
Correia de Sá, governador das armas do partido
da cidade, em acção de graças, mandou entoar o
Te Deum, na egreja de N. S. da Graça, achando-se
postados fora das portas da egreja os dous regi-
mentos da guarnição da cidade e três companhias
de artilheria. No dia 12, no fim do Te Dettm, de
tarde, orou o P. M. doutor fr. Bartholomeu Bran-
dão, seguindo-se depois a procissão, acompanhada
dos dous regimentos. No dia 13 fez a Relação da
cidade entoar o Tc Deum no Real Mosteiro Bene-
dictino, a dous coros, com toda a pompa; e no
mesmo dia 13, em applauso dos annos de S. Alteza
Real o Príncipe, Francisco de Almada e Mendonça
fez executar uma serenata, a dous coros, pelos mais
destros professores de musica da cidade, na Real
Casa Pia de Educação e Quartel das Partidas
Avulsas, convidando toda a nobreza, tanto secular
como ecclesiastica, e corpo de negociantes, assim
nacionaes como extrangeiros, cuja numerosa assem-
bléa passava de 700 pessoas, « que foram servidas
VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 201
com um copiosíssimo refresco e doces de todas as
qualidades que se puderam excogitar.» As sallas
do edifício, todas estavam magnificamente adereça-
das e illuminadas. Na grande salla da orchestra se
viam as pinturas mais bellas, e no fundo da mesma
estavam dous grandes coros, onde, ao som de har-
moniosos instrumentos, se cantavam letras feitas
de propósito e todas dirigidas ao assumpto; nos
intervallos, se recitaram varias obras poéticas.
No dia 14, tornou a sahir o bando, para annun-
ciar o Te Deurn, que o desembargador, corregedor
e provedor da comarca, junto com o Senado da
Camará, fazia celebrar no dia 16; n'este, pela
manhã, no fim da missa orou o R. P. M. fr. José
da Transfiguração; de tarde, entoou-se o Te Deum,
a dous coros, de numerosos e escolhidos músicos,
no fim do qual sahiu a procissão; ao recolher
d'ella, deram três descargas os dous regimentos de
infan teria, que também acompanharam, terminando
d'esta forma as funcções devotas.
«Ainda não satisfeita a cidade», o desembarga-
dor Francisco de Almada e Mendonça e o doutor
juiz-de-fóra Vicente José Ferreira Cardoso da Costa
e vereadores Carlos Vieira de Mello, José Cirne
Sousa, António Joaquim de Mesquita, Francisco
Homem Pereira de Vasconcellos, procurador da
cidade Bento Gomes Delgado e o escrivão da
camará, o doutor João Caetano de Tello e Sousa,
mandaram fazer uma praça, « a mais bella e magni-
fica que n'este reino se tem visto», para se corre-
202 PORTUENSES ILLUSTRES
rem touros e se fazerem cavalhadas e outros espe-
ctáculos por tempo de oito dias, e seis noites para
a illuminação.
A descripção da praça, que era formada em um
octogno regular, faz-nos, de verdade, presumir
maravilhas, apezar do caracter geométrico do gosto
artístico do tempo.
No dia 2 de junho, pelas três horas da tarde,
via-se aquella praça povoada de riquíssimas mas-
caras e de exquisito gosto; os camarotes, guarne-
cidos de cortinas de preciosas rendas de varias
cores; todas as trincheiras cheias de innumeraveis
pessoas, sem ficar logar devoluto, apezar da sua
vasta extensão, que, pelo calculo mais exacto,
passavam de accomodar 18:000 espectadores.
Feito o signal para principiar, logo entrou, para
limpar a praça, uma completa guarda de archeiros.
Seguiu-a a figura da Fama, precedida de dous
volantes e muitos creados. Logo depois sahiu o
primeiro carro, de aguar a praça, que mostrava um
grande chafariz, guarnecido com os Cinco Sentidos,
«lançando agua pelas suas respectivas partes»; e
nos ângulos da balustrada que lhe servia como de
base, para melhor adorno do mesmo carro, se divi-
savam «quatro figurões de meio caracter.»
Seguia-se o segundo que figurava o Amor Portuense, em
forma de uma concha, que servia de sustentáculo á deusa
Vénus, que no espaço acariciava o vendado Cupido. Na frente
da concha estavam duas pombas, como symbolos do Amor.
VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 203
Houve ainda terceiro, quarto e quinto carro; e
este (o carro de Marte) offerecia a particularidade
de haver sido construído á custa das corporações
dos Vinte-e-Quatro, « que instantemente pediram ao
desembargador corregedor e provedor da camará
lhes admittisse esta sincera demonstração do gosto
que os dominava por tão fausto motivo. »
Recolhidos os carros, retirava-se a guarda dos
archeiros e entrava o neto, acompanhado de dous
volantes e dous pretos de partazanas ; e, feitas as
continências, sahiu o contendor João Pedro Sala-
bert, precedido de 8 capinhas e 10 homens de for-
cado; e, concluídas as cortezias do costume, tinha
cada tarde 15 bravos touros para combater. Nos
intervallos houve talhas de pássaros, raposas, pom-
bos, coelhos, odres « e outras muitas esquipaçôes. »
Este espectáculo foi repetido por oito tardes, em
que foram apparecendo nos intervallos, além dos
mencionados objectos de espectação, outros muitos,
de differente gosto, merecendo maior attenção dous
bailes, um de gosto russiano e outro turco, em que
entravam os negociantes principaes d'esta praça.
O folheto entende dever descrevel-os, «pela sua
riqueza e aceio. »
Foi illuminada a praça seis noites, brilhantissima-
mente; e em a ultima noite n'ella entrou uma
cavalhada burlesca, composta de 60 cavalleiros,
« célebremente vestidos»; em três das ditas noites
houve um copiosíssimo fogo, tanto do ar como
preso, de novo gosto e differentes vistas,
204 PORTUENSES ILLUSTRES
em cada noite terminando o resto das mesmas com um
judicioso outeiro, onde concorreram todos os poetas da cidade,
que, além dos harmoniosos poemas que recitaram, dedicados
ao assumpto de todo o festejo, responderam em obras, heróicas
e lyricas, aos versos que do camarote do Senado lhes foram
distribuídos, em cujo desempenho. . . mostraram a sua vasta
erudição. . .
Finalmente, abriu-se o theatro, por seis noites, ao
publico, francamente, assim como* tinham sido os
divertimentos da praça. Em três das noites da thea-
trada, três burletas italianas se desempenharam ; e
nas outras três, outras tantas comedias, « do melhor
gosto. »
Nas noites de illuminação geral, a Feitoria
Ingleza « fez uma bem exquisita e delicada illumi-
nação. »
Egualmente, o desembargador corregedor e pro-
vedor da camarca, junto com o Senado, mandou
dar aos presos das cadeias da cidade um grande
jantar, e nos dous domingos successivos, depois de
concluídas as Festas Reaes, se fizeram dous bene-
fícios, na praça dos touros, a favor dos presos das
sobreditas cadeias.
Amena decorria a vida, ao parecer, por então;
as artes esmeradamente se cultivavam; nas lettras
portuguezas, portuguezes se distinguiam. A mesma
philosophia não intimidava o espirito affouto d'um
que outro nosso conterrâneo, como José Mayne,
por exemplo.
Em o tom. xm (vi do «Supplemento»), infor-
VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 205
ma-nos o snr. Brito Aranha, continuador de Inno-
cencio Francisco da Silva, de que na Academia
Real das Sciencias se conserva o retrato de José
Maine, ou Mayne, de corpo inteiro, com os de D.
fr. Manuel do Cenáculo, D. fr. Caetano Brandão.
D. fr. Alexandre de Gusmão, D. Marcellino José da
Silva, fr. Francisco de Jesus Maria Sarmento, fr.
Vicente Salgado, fr. Manuel dos Anjos, fr. Thomaz
da Veiga, P. Manuel de Oliveira Ferreira, e vários
outros escriptores, bispos e religiosos notáveis da
Ordem. Estes quadros pertenceram ao extincto
convento de Jesus, em cujo edifício foi depois
estabelecida a dita Academia. As pinturas assevera
o snr. Brito Aranha que não se recommendam pelo
seu valor artístico, mas pelos homens eminentes
que representam e cujos serviços ás lettras são, de
alguns, muito dignos de apreço.
Deverá entrar n'esta conta o nosso conterrâneo
fr. José Mayne, franciscano da Congregação da
terceira Ordem, cujo instituto professou em 1742,
sendo o seu verdadeiro nome na clausura o de fr.
José de Jesus Maria Mayne?
Elle foi capellão-mór das armadas, confessor do
rei D. Pedro m e primeiro Geral da sua Congrega-
ção depois da nova reforma, deputado da Real
Mesa Censória, etc. « Theologo eximio e Orador
elegantíssimo» lhe chama o nosso padre Agostinho
Rebello da Costa, conspícuo auctor da Descripção
topographica e histórica da cidade do Porto; e na
cidade do Porto José Mayne nasceu a 7 de junho
20Ó PORTUENSES ILLUSTRES
de 1723, na de Lisboa fallecendo a 23 de dezembro
de 1793.
Porém, em honra de José Mayne, melhor titulo
representa hoje para nós o facto de -haver elle fun-
dado no convento de Lisboa um Museu de historia
natural, cuja administração está desde muitos annos,
informa Innocencio em 1860, commettida á Acade-
mia Real das Sciencias, deixando o nosso emérito
portuense rendimentos estabelecidos para a sua
conservação.
Em Lisboa, no anno de 1778, publicou elle na
Regia Offlcina Typographica um livro em que se
propoz combater (Innocencio o rememora) «as
doutrinas e erros dos materialistas antigos e mo-
dernos, servindo-se das provas da razão e expe-
riência e também das doutrinas das Santas Escri-
pturas. » Esta obra apresenta-se como sendo uma
Dissertação sobre a alma racional, onde se mostram
os sólidos fundamentos da sua immortalidade e se
refutam os erros dos materialistas antigos e moder-
nos. E' dedicada a el-rei D. Pedro 111, nosso senhor.
E declara-se escripta pelo padre fr. José Mayne,
religioso da Terceira Ordem da Penitencia, confessor
de Sua Magestade Fidelíssima. Abre com uma
dedicatória ao reinante, por «o seu mais fiel
vassallo e obediente servo», que «beija humilde-
mente os pés do throno». Segue-se um «discurso
preliminar», em que se lamenta que n'aquelles
últimos tempos se hajam «renovado e reformado
mais as doutrinas de Epicuro e Lucrécio com os
VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 207
impios escriptos de Bento Spinosa e do apóstata
irlandez, João Toland, seu discípulo ; com os mons-
truosos princípios de Thomaz Hobbes; com os de
Coward, medico de Londres, e do irlandez Henri-
que Dodwel. » Como se tudo isto não bastasse já,
«para incorpar mais o echo de Epicuro e de Lu-
crécio a favor do materialismo, não têm contribuído
menos (á data o attesta o nosso Mayne) os grossei-
ros paralogismos de António Collins e as duvidas
sobre a matéria poder pensar, que é um dos erros
que João Locke inventou e nãò quiz abjurar com
ingenuidade philosophica. »
Contra taes e tantas abominações, tantos e
diversificados desvarios se conjura o douto por-
tuense, que bota mão da penna e explica seu pen-
sar por intermédio de cinco extensos capítulos,
arreados da opulência de notas copiosas e eruditas.
O primeiro d'estes capítulos tracta da existência da
alma racional, que alli se mostra com rasões philo-
sophicas, propondo-se os argumentos que contra-
riam esta verdade, mas refutando-se os erros dos-
materialistas com os seus mesmos argumentos e
doutrina. O segundo capitulo é ethereamente sub-
stancioso, pois, occupando-se da essência da alma
racional, refere as diversas idéas que formaram os
antigos sobre a entidade da alma racional; diz que
idéa fazem d'ella os naturalistas modernos; expende
como deve ser justamente definida a nossa alma e
confuta os erros e absurdos em que cahiram os
materialistas a respeito da essência d'esta mesma
208 PORTUENSES ILLUSTRKS
entidade. O cap. m toma por thema nada menos
que a origem da alma racional ; relata as diversas
opiniões que acerca da nossa alma sustentaram os
philosophos, antigos e modernos; mostra qual seja
a verdadeira causa efficiente do nosso espirito e
repulsa os erros sobre este ponto. No cap. iv # che-
gamos determinadamente á questão da espirituali-
dade da alma racional; primeiramente, mostra o
auctor que a nossa alma é racional e livre; em
segundo logar, rechaça os viciosos argumentos dos
materialistas e, emfim, expõe philosophicamente as
enormes consequências de sua falsa e abominável
doutrina. O cap. v tem por objecto o ponto máximo
da immortalidade da alma racional; ahi, em primeiro
logar o auctor demonstra que a nossa alma intrin-
secamente é immortal; em segundo, que, ainda que
Deus a possa destruir, ha de ter eterna duração;
em terceiro, propõe e refuta os argumentos mais
fortes com que os materialistas impugnam esta
verdade.
D'esta summula apurou já o leitor que o philo-
sopho portuense deposita confiança plena em sua
philosophia. Não obstante, elle não deixa de appel-
lar para o poder temporal, que sempre valeu nas
anciedades do poder espiritual com perseguições
aos dissidentes, censuras aos pensamentos autó-
nomos, queima de livros e queima de auctores.
«Se as acções edificantes dos príncipes (exclama
José Mayne para a parda magestade de D. Pedro
ih) formam a causa immediata da boa educação
VI — JOSÉ MAYNK — JOÃO BAPTISTA GOMES 209
dos vassallos; se os vassallos bem educados com-
batem unidamente com seus príncipes, pela verdade
da religião que professam, não será justo, Senhor,
que, atacando o materialismo a Portugal, reconheça
o mundo nos monarchas que o governam outros
tantos Mathathias, que, animados de illustre zelo,
defendem a casa do Altissimo?» Isto, despida a
farrapada rhetorica que veste o conceito e o dis-
farça, quer dizer, chã, singela e cruelmente :
Accenda Vossa Magestade as fogueiras dos autos-
de-fé que outr'ora torraram judaisantes, e a tor-
resmos se reduzam todos quantos se nutrem dos
cartapacios de Diderot, Helbecio (assim Mayne
escreve) e de Voltaire, ou Volter, consoante o
pseudonymo Ih' o vulgarisa o nosso conterrâneo.
Eis o lado antipathico do seu livro, que é aliás
documento de leitura e a fornece mesmo aprazível,
tanto quanto licito seja em matérias taes empregar
o adjectivo, a modo de convite, seguramente des-
denhado.
. Chega quasi que a ter chiste no relanço em
que allude á phantasia do jesuíta Guilherme Bou-
geant, que systematicamente quizera estabelecer
que os demónios animavam os corpos dos irracio-
naes. E, com acertado senso do perigo, elle se
esquiva da máxima difticuldade, por cujas cortantes
arestas roça de passagem, quando, alludindo aos
«cartesianos, com a celebre águia que edificou
João Regiomontano, com a cabeça que proferia
algumas palavras fabricada por Alberto Magno, e
VOL. I. \\
2 IO PORTUENSES ILLUSTRES
còm outros admiráveis portentos da arte mecha-
nica», registra que elles negam «que os brutos
sintam, cogitem ou tenham alma distincta da parte
machinal. »
Quadrando com noticia sobre triste aberração
critica, em 1857 o lusophilo Ferdinand Denis bio-
graphava a António Gomez Pereira, dando-o como
philosopho, portuguez ou hespanhol, que vivia no
século xvi. Additava que, combatendo Galeno, elle
emittira diversos princípios nos quaes se suppõe que
Descartes haveria haurido as suas primeiras idéas
sobre a alma dos animaes. O seu livro é intitulado
(accrescenta) Margarita Antoniana, Medina dei
Campo, 1554; fora reimpresso em 1587, e em 1610
em Francfort. N'elle tracta, prosegue, da Anima
Brutorum, e é n'esta porção de sua obra que colhe
buscar os factos (deve ser erro typographico por
traços) que caracteristicamente sobre elle demoraram
a attenção de alguns sábios: assim remata.
Isto são contos largos, que nem cabem nem
sahiriam a preceito. Restrictamente, nos resta do
portuense philosopho José Mayne a citar de passa-
gem um opúsculo de circumstancia, em Lisboa
impresso em 1757.
Portuense philosopho José Mayne, de todo des-
conhecido, desconhecida não é já a obra capital de
portuense poeta dramático.
s VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 211
Na verdade, os que fomos meninos e moços ha
trinta annos recordamo-nos ainda, quando a sau-
dade da adolescência malbaratada nos punge, recor-
damo-nos ainda do gostoso anceio com que aguar-
dávamos a hora, morosa em chegar, de partirmos
com a família a ouvir, pela quarta ou quinta vez,
do caso lacrimoso de D. Ignez de Castro. Posto
isto foi em scena na tragedia de João Baptista Go-
mes, a qual acabo de reler em sua quinta edição,
por Innocencio já não discriminadamente deduzida,
no Porto em 1837 estampada na imprensa de M.
J. A. Franco, do Largo de Santa Clara, e offerecida
á venda na loja de livros de Novaes, ás Hortas,
n.° 125.
Do Porto era também natural o auctor, esse
João Baptista Gomes Júnior, que aqui seguiu a
profissão do commercio e fora (segundo crê Inno-
cencio) guarda-livros n'uma casa de negocio,
morrendo em edade ainda verde, a 20 de dezembro
de 1803, e sepultaram-o no conventQ de S. Fran-
cisco. A sua viuva, D. Anna Benedicta Gomes,
que, ao tempo do fallecimento do marido, ficara de
24 annos, veio a finar-se em 4 de janeiro de 1844,
deixando do seu consorcio uma filha, casada com
o dr. José Machado de Abreu, lente cathedratico e
depois reitor da Universidade de Coimbra, primeiro
barão de S. Thiago de Lordello, tio de Adriano de
Abreu Cardoso Machado, filho de Rodrigo de Abreu
Cardoso Machado e que conhecemos lente proprie-
tário de economia politica na Academia Poly-
212 PORTUENSES ILLUSTRES
technica, reitor do Lyceu e deputado a cortes, em
successivas legislaturas, por esta cidade.
Da Nova Castro de João Baptista Gomes, escre-
veu Garrett que seu auctor mostrou n'ella « muito
talento poético e dramático.» E, consignando-o,
Innocencio avulta este parecer em prol de seu
patricio d'elle, por isso que Garrett « não será tido
n'este caso por suspeito. » Depois de ter censurado
aquelles que se exaggeraram em elogios a João
Baptista Gomes, Innocencio, em tom mais áspero,
reprehende que ultimamente (1859) haja sido moda
desdenhar da Castro e do seu auctor, «cahindo os
que assim ajuizam no extremo opposto e mos-
trando-se invejosos depredadores do mérito verda-
deiro, contra o qual não prevalecem de certo os
seus epigrammas. »
E, comtudo, inconsequentemente não attende
Innocencio ao facto singular de que seja elle-proprio,
Innocencio dito, quem mais empenhado afan de-
monstrou em menosprezar a memoria de João
Baptista Gomes, revindicando com ufania, para sua
perspicácia esthetica e para sua litteraria reminis-
cência, a iniciativa de haver feito a descoberta de
que a Castro de Gomes não passava d'um mero
plagiato da Castro de Quita. «E para admirar que
ninguém que me conste (Innocencio desfarte pon-
dera) fixou até agora esse reparo, pois as imitações
na substancia e na forma são tam características e
pronunciadas que para logo saltam aos olhos.»
Ora, em matérias de probidade artística ha que
VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 21^
reflectir antes de decidir, e as coisas não vão assim
com essa pressa; muito cumpre esmiuçar no lance
do cotejo da peça de Gomes com a de Quita,, de
cujas tragedias na composição parecera já antece-
dentemente a Innocencio que Pedegache tivera boa
parte, « pertencendo-lhe talvez a urdidura e o
enredo das fabulas.»
Mais avisadamente anda Camillo Castello-Branco
limitando-se a chamar da de Quita imitação á tra-
gedia de João Baptista Gomes; Innocencio, porém,
gostoso, precipita-se nos reparos. Ao menos, a
invez do geito lusitano, não tem devoção a extran-
geiros; antes, os não poupa. Eis na baila, ainda
por causa de João Baptista Gomes (em sua tra-
ducção da tragedia de Lamotte, Os Machabeos)
Balbi. « E para notar (admoesta Innocencio) o modo
como Balbi, ao dar noticia dos trabalhos dramáticos
d'este poeta no Essai Statistique, tom. n, pag. 164,
estropeou o titulo d'esta peça, chamando-a Os
Mancebos!»
Ora, quem parece haver sido o « estropeador »
foi o typographo-paginador, em obra inçada de
erros de composição e até de enganos de numera-
ção, consoante amostra opípara e, sem embargo,
insufficiente se depara nas laudas ccclxvij
e immediata, repletas de emendas e addições,
aliás.
Com effeito, o texto chasqueado por Innocencio
não se restringe ao erro de Mancebos por Macha-
beos, certamente escripto em portuguez pelo auctor,
214 PORTUENSES ILLUSTRES
que, conforme era e continua a ser a regra lá-fóra,
uma vez entregue o manuscripto aos livreiros, não
vê as provas da própria obra. As suas quatro
linhas estão todas transformadas, por uma transpo-
sição, evidente, da composição.
Encontra-se o texto n'este teor: «João Baptista
Gomes, Vauteur de la Nova Castro, passe aussipour
un bon traducteur. On a de lui la Gabrielle de Vergy
de La Motte, qu'il a intitulée le Fayel d'Arnaud, et
os Mancebos. » Disparate. Quando o que devia estar
era isto: «João Baptista Gomes, Fauteur de la Nova
Castro, passe aussi pour un bon traducteur. On a
de lui la Gabrielle de Vergy d'Arnaud qu'il a inti-
tulée Fayel, et Os Machabeos, de la Motte. » Agora
bate certo. Ou, antes, faz sentido. Porque certo
ainda não bate.
E não bate, porquanto Balbi, citando de memo-
ria, confundiu, pela identidade do assumpto, os
titulos diversos de duas tragedias differentes, de
vario auctor: uma, essa Gabriella de Vergy, com
effeito, mas de Belloy; a outra, d'Arnaud, na ver-
dade, mas Fayel.
Foi esta a que em verso portuguez traduziu
João Baptista Gomes e cuja segunda edição, im-
pressa em 1803, na offlcina de António Alvarez
Ribeiro, se vendia na mesma officina na rua de S.
Miguel, e na rua das Flores, na loja de livros á
esquina da travessa do Ferraz. « Fica-se imprimindo
(annuncia a advertência da lauda derradeira) a
Tragedia intitulada Os Machabeos, composição de
VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 21 5
Mr. de la Motte, traduzida em verso portuguez pelo
mesmo traductor.*>
Da Gabriella de Vergy, de Belloy, diz Carlos
Nodier que é uma d'essas peças que entristecem
muito mais do que interessam; do Fayel, d'Arnaud,
critico francez observa que seu plano é mais enge-
nhosamente traçado e que a catastrophe final é,
outrosim, mais temperada e mais habilmente apre-
sentada do que na tragedia de Belloy, cujo quinto
acto Carlos Nodier averbara de revoltante.
Os leitores de Camillo Castello-Branco conhecem
a lenda medieval que deu origem ás duas composi-
ções theatraes emulas, porque se recordam do capi-
tulo Dous corações guisados, com que abre o volume
das Cousas leves e pezadas, da «Bibliotheca do
carroçâo. »
Um dos dois corações guisados é o do amador
de Gabriella de Vergy, que, vendo inaccessivel sua
bem-amada, deliberou ir finar-se á Terra Santa,
onde morreu, com effeito. Pouco antes de expirar,
ditou ao seu escudeiro uma carta para Gabriella,
pedindo-lhe que recebesse da mão d'aquelle o seu
coração embalsamado e recluso em cofre de ouro.
Fez-se o escudeiro caminho de França e avisi-
nhou-se do castello de Fayel. O castellão encontra
o desconhecido pagem ; arranca da espada, ameaça-o
de morte e senhorea-se do cofre. Mandou lêr a carta
por um clérigo do castello e volta escumando fúrias
contra a mulher. Pede ao inferno uma vingança
digna. O inferno inspirou-lh'a.
2l6 PORTUENSES ILLUSTRES
Truculentamente, narrando prosegue Camillo
Castello-Branco :
Entra na cosinha; ordena ao cozinheiro que lhe guise o
coração, assiste, á lareira, ao processo do guisado, e cheira
com delicias de cannibal as vaporações da caçoula.
Está posta a meza da ceia. Vem o prato. Gabriella come
alguns bocados, ao compasso que o marido Ih 'os está encare-
cendo como manjar de anjos e inveja de sybaritas.
— Que tal? é bom? — pergunta elle.
— E. Comi com vontade e prazer.
— Mandei fazer este guisado — tornou o marido — por ser
de uma carne muito de teu gosto.
Ficou ella a scismar.
Elle, como Gabriella não perguntasse que espécie de carne
aquella fosse, proseguiu :
— Então não sabes que é?
— Não.
— E o coração de Raul.
Gabriella saltou da cadeira, quedou-se petrificada por
instantes, mas duvidou.
N'isto, o marido abre o cofre, tira uma carta e mostra-lhe
a assignatura, que ella reconhece.
Gabriella debulha-se em lagrimas, e diz:
— Morreu o mais leal cavalleiro!
Sahiu a recolher-se no seu quarto. Ninguém lhe ouviu
clamor nem gemido. Alta noite: . . levou a porta dentro de
impuxão, pois que a esposa não lh'a vinha abrir. Encontrou-a
morta, com o rosto alumiado dos revérberos da luz eterna das
almas em gloria.
&■
Não obstante a carência de informações positi-
vas da authenticidade d'aquella lenda que Camillo
Castello-Branco lograra apurar para o primeiro dos
dois corações guisados, era notório, ainda assim,
VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 217
que os parentes de Gabriella de Vergy fizeram
montaria rija ao lobo cerval, até lhe alastrarem o
castello entre as lavaredas dos bosques circumpos-
tos. «Como quer que fosse (Camilio Castello-
Branco remata), a moralidade das duas historias não
funde no acabamento desastrado dos maridos: o
que faz a moral e o exemplo é t o infortúnio dos
poetas. »
Porém, modernissimamente sobre poetas e sobre
maridos o riso cahe por egual: não poupa sequer,
no mimo de sua castidade, a castellã, cujo delicto
consistiu tam só na dadiva, a seu trovador apaixo-
nado, de um cordão de cabello, enfiado em pérolas,
« imagem de suas lagrimas. »
O espirito zombeteiro engendra, por lettra de
Blondeau e Monréal, uma opereta buffa, musica de
Demarquette.
Gabriella de Vergy é representada com o suc-
cesso do estylo, n'uma apotheose de galhofa, sobre
o palco das Folies-Marigny, em Paris, a n de
novembro de 1871. Assim passa a poesia das
edades; o drama transmuda-se em farça; e ao
terror trágico de hontem a musa oftènbachiana
dá-ihe hoje um acompanhamento de ferrinhos e
zabumba.
VII
Vieira Portuense — Silva Porto — João
Corrêa — Guilherme Corrêa — Ricardo
Raymundo Nogueira.
D
e pintor por vocábulos para pintor por
tintas a transição não detona forçada e no cyclo
entram; assim, occasião idónea é, que do Vieira
Portuense por um momento cuidemos.
Tanto mais opportuna e discriminadamente
quando com o outro Vieira quiçá hajam confun-
dido, pois que transtornos e equivocações têm di-
manado aliás de homens tam eruditos e escrupulosos
como o visconde de Juromenha, que attribuiu com
inexactidão flagrante ao nossso conterrâneo a auto-
biographia que aquelle elaborara e imprimira em 1780
com o titulo de insigne pintor e leal esposo Vieira
Lusitano, historia verdadeira, que elle escreve em
cantos lyricos. Todavia, «Vieira Portuense é pouco
comparável a Vieira Lusitano (assim traslada lnno-
cencio do conde de Raczynski). Predominavam nos
220 PORTUENSES ILLUSTRES
dois artistas naturezas mui diversas. O Lusitano
seguia uma direcção mais determinada e mais
clássica, sem comtudo attingir os sublimes modelos
da epocha dos Medicis. O Portuense, em cuja natu-
reza artística havia menos energia, e cujas disposi-
ções eram mais modestas, se por uma parte bus-
cava approximar-se de tam excelientes prototypos,
sentia em si, por outra, a influencia da arte moderna;
ensaiava-se em géneros diversos, e imprimia em
todas as suas obras a expressão da doçura, da
amabilidade e da suave melancholia que parece
haverem sido os sentimentos característicos da sua
indole. »
D'este peculiarismo de sua objectiva feição
antolha-se que testemunho seja a própria morte do
pintor portuense.
Occupava-se elie da composição de um quadro
em que representava Duarte Pacheco, o Achilles Lu-
sitano, defendendo contra o Çamorim o passo de
Cambaldo, destinado para ornar a casa das Desco-
bertas, no palácio de Mafra, quando veio accom-
mettel-o uma grave enfermidade, que devia ser para
eile mortal.
No fito de a debellar, esgotados em vão os
recursos da sciencia, os médicos aconselharam-lhe
o clima da Madeira, como único em que poderia
achar remédio ao seu padecimento. Resolveu-se a
emprehender a viagem. Partiu, mas não tornaria a
vêr a pátria, pois que, tendo aportado á ilha dese-
jada, em vez dos allivios que esperava, o seu estado
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 221
peorou repentinamente. O dia 2 de maio do anno
de 1805 fora o ultimo da sua vida, finando-se,
assim, aos quarenta annos incompletos de edade
uma existência que, a ser mais duradoira, legaria
de certo á posteridade novas e porventura mais
rasgadas manifestações do seu admirável talento.
Innocencio, qi^p o diz, diz também que ha n'esta
morte prematura o que quer que seja de mysterioso
e enigmático, que os biographos contemporâneos
de Vieira se contentaram de deixar-nos entrever,
sem ousarem decifral-o. Expende que Cyrillo, deplo-
rando-a, guarda comtudo um reservado silencio, e
como que a attribue exclusivamente á gravidade da
moléstia. Porém que Taborda, um tanto mais expli-
cito, dissera, palavras formaes : « Que a inveja, sem-
pre declarada inimiga do merecimento, seria talvez
quem lhe abreviasse os dias; e que os findara na
convalescença da perigosa enfermidade que o oppri-
mia, aggravada por muitos incidentes, a que as mais
das vezes nem mesmo as almas grandes sabem resis-
tir. » Balbi affirmara em resumo que « desgostos que
soffreu lhe encurtaram os dias. » Ultimamente,
Raczynski parecia levantar uma ponta do véu que
encobre o mysterio quando (nas suas Lettres)
escrevera: Sequeira, ao que me disseram, nutria
contra Vieira um rancor grandíssimo, e empenhava-se
em lhe fazer mal. Encheu-lhe a vida (T amargura. ■■>
A tradição geral dos contemporâneos aucto-
risa-nos, segundo Innocencio, a crer que reinara
entre os dois insignes artistas o sentimento da
222 PORTUENSES ILLUSTRES
emulação ou rivalidade, o qual predominava em
Sequeira a ponto de o tornar invejoso do mérito
alheio, quem, como elle, havia de sobra aliás com
que contentar-se do próprio. « E para lastimar que,
por imperfeição inherente á natureza humana, o
caso seja tam vulgar entre aquelles a quem, filhos
da mesma arte, e sacerdotes do mesmo culto, cou-
bera melhor (exprobra n'este tom Innocencio) o
dever de amarem-se como irmãos!»
Mas, se em 1865 um tanto romanescamente
assim Innocencio relatava, elle em 1859 se reduzira
a consignar que na ilha da Madeira, para onde
partira, por conselho dos médicos, afim de buscar
n'aquelle clima o remédio á phthisica que padecia,
fallecera Francisco Vieira Júnior, mais conhecido
pelo nome de Vieira Portuense, pintor histórico e
de paisagens, lente de desenho na Academia do
Porto, sua pátria.
Onde nasceu em 13 de maio de 1765, sendo
seu pae Domingos Francisco Vieira, que, segundo
os biographos, reunia á profissão da arte de pintura
(em que dizem não era dos de menos conta) a de
commerciante ou vendedor de drogarias. Assim,
demorado Francisco Vieira Júnior em Lisboa pela
necessidade de attender a vários importantes tra-
balhos, tornando-se-lhe, pois, impossivel exercer
simultaneamente o magistério no Porto, durante
sua justificada ausência fora confiada a regência da
sua cadeira a seu pae, Domingos Vieira, nomeado
substituto, o qual, segundo os apontamentos que
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 223
Innocencio em 1865 teve presentes, desempenhou
as funcções como tal desde 1 de novembro de 1802
até 30 de junho de 1803.
N'esse anno de 1865, Innocencio registrava
n'esta cidade do Porto, das de que noticia tinha,
como producções aqui existentes do pincel do
Vieira Portuense, quatro quadros de altar, colloca-
dos na capella da Ordem Terceira de S. Francisco,
representando respectivamente Santa Margarida,
confessando-se, em artigo de morte, a um frade
franciscano; Nossa Senhora da Conceição; Santa
Isabel, distribuindo esmola aos pobres; S. Luiz, rei
de França, em oração.
No sentir de Raczynski o primeiro é, d'elles, o
melhor, e o ultimo o mais fraco. Revela-se, porém,
em todos o caracter de sensibilidade e os sentimen-
tos piedosos do artista ; o colorido, com quanto seja
débil, é, todavia, harmonioso; finalmente, julga-os
dignos de toda a consideração.
Innocencio refere-se no museu portuense a um
quadro de Ckristo crucificado, outro de 5\ Joào, e
á Adoração do Santíssimo. (D'este se acha menção
na Miscellanea Litteraria, jornal aqui do Porto,
publicado em 1860). Afora esses, a duas bellas
paisagens, das quaes uma representa uma mulher
com um menino, que parece defender contra o
ataque de alguns malfeitores.
De Vieira Portuense existe o retrato, desenhado,
segundo Innocencio julga, por elle próprio, e gra-
vado em Londres por Bartholozzi; e lord Howard
2 24 PORTUENSES ILLUSTRES
de Walden, embaixador que foi de Inglaterra na
corte de Lisboa, possuia á sua parte, e com muito
apreço, vários desenhos de Vieira, nos quaes,
segundo a affirmativa de Raczynski, se divisa um
sentimento artístico mais puro e mais elevado que
o de Sequeira. Innocencio com acerto commenta
que «tam avantajado conceito é sobremaneira hon-
roso para o insigne portuense. »
D^ste se occupou com extensão Innocencio,
servindo-se para seu trabalho, (além do que já exis-
tia impresso a respeito do pintor portuense) de vá-
rios documentos inéditos que do Porto lhe foram
fornecidos pelo lente da Academia Polytechnica,
Joaquim Torquato Alvares Ribeiro. Mas reorgani-
sado ulteriormente o ensino no Porto, do Discurso
feito, na Academia de desenho e pintura da cidade
do Porto, impresso em Lisboa em {893, porém pro-
nunciado no Porto na abertura da Academia pelo
Vieira Portuense, segundo a Innocencio commu-
nicara em tempo o sobredito Alvares Ribeiro, não
restava no Porto «conhecimento ou memoria de
alguma. »
Modernamente, a Academia de Bellas Artes do
Porto, distincta no ensino por professores abalisados
e artistas famosos, como o pintor Rezende e o
quasi-portuense, pois que de Gaya, eminente esta-
tuário Soares dos Reis, d'entre vocações, cerce
cortadas pela morte, como a de Henrique PousãQ,
viu vingarem, discípulos laureados seus, que che-
VII — VIEIRA PORTUENSE SILVA PORTO — &C. 225
garam a conquistar glorias primaciaes, como o
portuense Silva Porto, o insigne paisagista, hon-
rando assim aulas cfonde haviam sahido para o
publico favor outros portuenses de mérito, como o
pintor Jo/io Corrêa e seu irmão, Guilherme Corrêa,
desenhista primoroso.
Mas de distinctas pessoas da epocha do Vieira
Portuense a memoria se obliterou, consoante acon-
teceu para com o distincto portuense Ricardo Ray-
mundo Nogueira.
*
Até 15 de setembro de 1829 desempenhou o
cargo de membro da Regência do reino, para que
fora nomeado, na ausência do rei D. João vi, este
Ricardo Raymundo Nogueira, portuense como José
Ferreira Borges, aqui nascido a 31 de agosto de
1746, e em Lisboa morto a 7 de maio de 1827; e,
como José Ferreira Borges, poeta foi também esse
cónego doutorai na Sé d'Elvas e doutor e lente da
faculdade de Leis na Universidade de Coimbra, onde
as prelecções, que fez de Direito Pátrio no anno lectivo
de 1795 a 1796 sahiram, posthumas, em o vol. vn do
conhecido jornal scientifico e litterario O Instituto.
Se José Ferreira Borges, pondo-lhe só suas ini-
ciaes, traduziu em linguagem as Cartas a Emitia
sobre a Mythologia, por Dumoustier, cuja primeira
VLO. I. \*>
226 PORTUENSES ILLUSTRES
parte, a única que sahiu á luz, imprimiu em 1819
em Paris A. Bobée, Ricardo Ray mundo Nogueira,
não lhe pondo o nome, em portuguez verteu as
Pastoracs, de Gessner, que no Porto em 1778 se
estamparam na officina que foi de António Alvares
Ribeiro. E, ainda que, por egual anonymo, seu
consta ser o traslado da Poética de Aristóteles, que,
transferida do grego a lusitano, fez em Lisboa ge-
mer, em 1779, os prelos da Regia Officina Typo-
graphica. A introducção que a procede a outro
portuense se attribue, António Ribeiro dos Santos,
collega na Universidade e seu amigo intimo.
Da própria ideação, varias poesias ha, que fo-
ram insertas (anonymas), na Collecçâo de Poesias
inéditas dos melhores auctores portuguezes, apontan-
do-se como taes o Sonho, o Episodio e uma Can-
ção, o que tudo se encontra a varia lauda do res-
pectivo tom. 11. Uma das pessoas que mui positiva-
mente a Innocencio afflrmaram serem de Ricardo
Raymundo Nogueira estas peças foi o dr. Vicente
Pedro Nolasco (da Cunha), parente, pelo lado pa-
terno, em grau próximo do celebre e infeliz José
Anastácio da Cunha e homem bem apessoado, de
aspecto agradável e de estatura agigantada, que
com isso provocara os sarcasmos de José Agosti-
nho de Macedo, o qual em algumas de suas saty-
ras manuscriptas o apodava com a alcunha de gi-
gante de breu. Outrosim da penna de Ricardo Ray-
mundo Nogueira sahiu o opúsculo A serra de Cin-
tra, que se estampou em Lisboa, na Imprensa Re-
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 227
gia, em 1 8 14, também sem o seu nome, e de que,
comquanto não apresente a indicação de segunda
edição, ha effectivamente outra mais antiga, sem
declaração da data nem da typographia onde fora
impressa. E* uma descripção poética d^quella fa-
mosa serra, em setenta estancias, ou sextinas de
versos rithmados.
Em honra da memoria de Ricardo Raymundo
Nogueira escreveu José Agostinho de Macedo, seu
admirador e amigo particular, um Elogio histórico,
que é tido, consoante o fixa Innocencio, na opinião
de alguns como uma peça de verdadeira e solida
eloquência. E, dando-o como residindo á data no
Porto o extrangeiro Balbi, de Ricardo Raymundo
dissera: «Este profundo jurisconsulto e litterato
distincto possue um conhecimento perfeito das lín-
guas antigas e de algumas das modernas mais es-
palhadas, taes como os idiomas inglez, francez,
allernão, italiano e hespanhol.»
Mas de penna extrangeira, com respeito ao
nosso portuense, bem mais interessante é o que
nos deixou escripto, em sua Histoire de la guerre
d'Espagne et du Portugal, o illustre general Foy.
Ahi diz este que fora Simão de Cordes Brandão
e Athayde, fidalgo da Casa Real, collegial do Real
Collegio das Ordens Militares, cónego doutural da
Sé do Porto, doutor e lente da faculdade de Câno-
nes na Universidade de Coimbra, que, reunido ao
desembargador Francisco Duarte Coelho e a Ricardo
Raymundo Nogueira, então reitor do Collegio dos
228 PORTUENSES ILLUSTRES
Nobres, e depois membro da regência do reino,,
redigira e preparara com elles o projecto de Consti-
tuição, que se tractava de pedir a Napoleão i, e que
vem transcripto nas provas justificativas da obra.
referida. José Accursio das Neves, na sua Historia
da invasão dos francezes em Portugal, traz egual-
mente aquelle documento, porém não diz por des-
coberto a quem deva attribuir-se.
Quanto a Francisco Duarte Coelho, bacharel
formado em Cânones pela Universidade de Coim-
bra, desembargador da Casa da Supplicação, que
Innocencio crê que nasceu em Lisboa, e era sobri-
nho de fr. Mathias da Conceição, frade arrabido e
confessor do rei D. João vi, quando príncipe, antes*
da retirada da família real para o Brazil, senda
kccusado de jacobinismo em 1808, foi pela regência
do reino mandado sahir de Lisboa, como depor-
tado, para uma quinta que possuia a distancia da
capital: e ignorava Innocencio se até começara a
formar-se-lhe algum processo. Em 18 10 foi elle um
dos comprehendidos na chamada Setembrisada, indo
deportado para a ilha Terceira, onde se conservou
até 181 5, segundo cria Innocencio.
Entretanto, o auctor da Historia d'el-rei D.
João vi, cuja traducção se imprimiu em Lisboa em
1838, declara, mui expressamente, que a celebre
mensagem a Napoleão fora redigida pelo medico
Gregório José de Seixas de accordo com muitas
pessoas distinctas por suas luzes e representação ; e
que o general Foy, na obra citada, attribuira erra*
VII — VIEIRA PORTUENSE SILVA PORTO — &C. 22 9
damente a redacção da mensagem a três pessoas,
que não foram os seus auctores.
E de lembrar, conforme o faz o bibliographo,
que José Agostinho de Macedo affirma, em mais
•de um logar, que Simão de Cordes fora um dos
que nos fins do século xvm e principio do xix
•deram maior incremento á propagação da maçona-
ria em Portugal, e principalmente em Coimbra,
onde chegara a organisar algumas lojas. Entende
que não lhe cumpre decidir se taes asserções podem
qualificar-se de falsas; mas o certo era que ellas
contradiziam manifestamente o que do procedi-
mento e doutrinas de Simão de Cordes nos conta
o bispo de Vizeu D. Francisco Alexandre Lobo no
Elogio histórico que d'aquelle elaborou e vem no
primeiro tomo das Obras do mesmo bispo.
Em 1862, perplexo, abstivera-se Innocencio,
escrevendo: «A vista d'estes testemunhos encon-
trados, os leitores julgarão o que lhes parecer.»
Em 1870 poderia syncretamente lêr no tom. i da
segunda epocha (« Guerra da Península ») da His-
toria da Guerra civil e do estabelecimento do governo
parlamentar em Portugal que, comprehendendo a
historia diplomática, militar e politica doeste reino
desde 1777 até 1834, redigiu Simão José da Luz
Soriano as palavras que seguem:
Apesar da junta dos três estados não ter representação
alguma nacional, como já dissemos, nem cousa que se pare-
cesse com ella, todavia trabalhou-se muito, por parte dos par-
tidistas de Junot, para a fazer acreditar como tal, tanto em
23O PORTUENSES ILLUSTRES
Lisboa como nas províncias; e, emquanto, por um lado, para
estas se expediam emissários com cartas para lá apressarem a
formação de outras representações análogas ás que se fizeram
na capital, o conde da Ega e os que com elle estavam associa-
dos buscavam com todo o empenho fazer com os da junta para
que Junot fosse o individuo que a Napoleão se pedisse para rei
de Portugal.
Desde muito tempo que este projecto se achava premedi-
tado, mas desde logo teve uma forte opposição contra si na
pessoa de Mr. Carrion de Negas, official de cavallaria do exer-
cito francez e de grande reputação de litterato, e na de Mr.
Lecusson Verdier, negociante da mesma nação em Lisboa, os
quaes, unidos ao desembargador Francisco Duarte Coelho,
antigo secretario da legação portugueza em Paris no tempo em
que D. Lourenço .de Lima alli foi embaixador, e a Ricardo
Raymundo Nogueira, reitor do Collegio dos Nobres, e ao
cónego Simão de Cordes Brandão, lente de direito na Universi-
dade dé Coimbra, resolveram formular uma outra supplica ou
representação, em que se contivessem os princípios fundamen-
taes das liberdades publicas do paiz, que os nossos maiores
não tinham podido fazer vingar, diziam elles, na feliz acclama-
ção de D. João iv. A supplica que n'este sentido se formulou
foi redigida pelo dr. G. J. de Seixas, de accordo com os indi-
víduos acima mencionados e alguns outros, notáveis por suas
luzes e representação social, e apresentada ás auctoridades
francezas, pelo juiz do povo, em nome da extincta casa dos
vinte-e-quatro a que presidia.
Já em 1838 José Maria de Souza Monteiro
narrara pittorescamente :
O pobre juiz do povo foi ameaçado com cartas anonymas;
soffreu uma severa reprehensão de Junot, e chamado á presença
de Lagarde, que o interrogou sobre quem lhe tinha dado
aquelle papel; soube-se depois que havia sido um tal Verdier,
de combinação com o snr. Carrion, official de cavallaria no
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 23 I
exercito francez, e Francisco Duarte Coelho, desembargador e
antigo secretario de D. Lourenço de Lima, que todos se com-
binaram para estorvar a realisação dos ambiciosos planos de
Junot.
De Francisco Duarte Coelho, conservava em
seu poder Innocencio uma extensa Memoria justifi-
cativa, em defeza do seu comportamento e para des-
truir as arguições que se lhe faziam. Essa Memoria
inédita, suppunha Innocencio ser original, e talvez
autographa; não o affirmava de certo, por não
haver tido ainda, até á data, opportunidade de
confrontar a lettra em que estava escripta com
outra reconhecidamente própria do punho de seu
auetor.
Mas a obra de José Maria de Souza Monteiro
põe a questão moral nos seus termos legítimos e
racionaes, quiçá verosímeis e sempre fundados.
A roda fina portuense do tempo de Ricardo
Raymundo Nogueira reunia-se, em intellectual con-
vívio, na casa hospitaleira do famoso Francisco
d' Almada. E agora momento é que se apure este
inesperado litigioso ponto histórico de saber quem
foi o verdadeiro «grande Almada.»
Teixeira de Vasconcellos escreveu algures : «A
estatua d'Almada devia ha muito abrilhantar uma
das melhores praças do Porto, como testemunho de
reconhecimento e mais ainda como expiação de
232 PORTUENSES ILLUSTRES
haver coberto com uma simples pedra, fechada por
uma grade, os despojos mortaes do homem que
dedicou toda a sua vida ao engrandecimento do
Porto. »
Na qualidade de portuense, Teixeira de Vascon-
cellos commenta o snr. Alberto Pimentel que dese-
java que a sua terra natal pagasse, com o cava-
lheirismo proverbial dos velhos fidalgos pundono-
rosos, as suas dividas de honra. «Mas o que ha
mais interessante em tudo isto é — continua o sr.
Alberto Pimentel — que essa mesma sepultura mo-
desta em que jaz Francisco d' Almada não se lh'a
deu por o honrar a elle, o grande corregedor, senão
que por servir fins extranhos á espontânea gratidão
d'uma terra qualquer por quem tanto como D. Fran-
cisco d'Almada, ou ainda menos do que elle, a hou-
vesse beneficiado. »
O sr. Alberto Pimentel historia o facto, que não
deixa, na verdade, de ser curioso e digno de chro-
nica.
Estava concluído o cemitério do Prado do Re-
pouso, mas o preconceito popular obstava a que
muitas familias mandassem sepultar alli os seus
mortos. Então a camará municipal de 1839, porque
no primeiro dia de dezembro d'esse anno é que o
cenriterio foi aberto e benzido, lembrou-se de recor-
rer a um expediente, que o próprio presidente da
vereação, o advogado Miguel Joaquim Gomes Car-
doso, explicou no seu relatório, lido nos paços do
concelho em 1 de Janeiro de 1840:
VII — VIEIRA. PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 233
Entendemos que uma trasladação dos restos mortaes de
qualquer homem celebre, exhumados, com licença do Ordiná-
rio, de dentro de qualquer egreja, procissional e reverentemente
alli conduzidos, chamaria a devoção dos fieis e afTastaria pre-
juízos populares. . . N'esta mesma sessão entedemos, e enten-
demos muito bem, que o jazigo dos mortos deve ser extranho
a partidos. . . Revolvendo a historia das antiguidades do Porto,
não achamos homem que melhor merecesse a honra da trasla-
dação que Francisco d* Almada e Mendonça. . . A elle se devem
os aformoscamentos e obras de transcendência que ella (a nossa
cidade, apresenta : se isto não fôr bastante, ahi anda impressa
a sua Biographia, e Oração Fúnebre, ambas pelo snr. João No-
gueira Gandra. . . Se a memoria de Almada é ou não grata aos
portuenses, diga-o essa cidade inteira, que no dia i.° de dezem-
bro se despovoou para o acompanhar na sua trasladação. . .
« Ora, aqui está — escreve o snr. Alberto Pimen-
tel, cap. vi de Porto por fora e por dentro — porque
se deu a Francisco de Almada aquella sepultura
que o snr. Teixeira de Vasconcellos desdenha, que
todo o bom portuense deve achar pequena para
tamanho homem como foi o celebre corregedor. »
Os Apontamentos biographicos do dr. Francisco
d* Almada e Mendonça têm a data de 18 de agosto
de 1839 e, sem nome de auctor, são, com effeito,
impressos na Typ. de Gandra & Filhos, em o
mesmo anno.
EUes enumeram e rememoram as obras novas
que a Francisco d' Almada devem o Porto e toda a
sua comarca.
Da lista de construcções e serviços de Francisco
d' Almada, para o Porto, estrictamente, destaca-
remos :
234 PORTUENSES ILLUSTRES
O novo e magestoso quartel no campo de Santo Ovídio,
hoje da Regeneração, para o 2. regimento do Porto, hoje in-
fanteria n.° 18; as cavallariças para as escoltas e destacamen-
tos de cavallaria; a Real Casa Pia de correção e educação e de
alojamento das partidas volantes das tropas das províncias do-
Xoríe e dos presos da Calceta ; o passeio das Fontainhas so-
bre a margem direita do rio Douro, com o chafariz, tanques
e lavadouros públicos; a nova Arca d'Agua, no mesmo sitio;
o Matadouro; a regularidade de calçar as ruas; o magnifico
theatro de S. João; fronteiro ao theatro, um dos maiores e mais
bem acabados chafarizes da cidade, com grande deposito
d'agua em seu recinto; o paredão da praça das Virtudes; o
chafariz, com seu magnifico tanque, edificado na Praça Nova,
hoje de D. Pedro; as duas sahidas, uma pela estrada de
Braga, principiando na Real Egreja da Lapa e formando a rua
da Rainha, a outra pela estrada de Guimarães, começando na
egreja de Santa Catharina e formando a rua da Princeza; o
melhoramento nas estradas para a Foz por Lordello, assim
como para Mattosinhos e Leja da Palmeira, especialmente na
sitio da Villarinha, quasi intransitável, por sua antiquíssima
conservação pantanosa ; a demoliação da muralha e torres da
velha cidade e a edificação de nova capella, em logar mais
acommodado, para a antiga ermida de N. Senhora da Batalha,
que estava junto á Porta de Cima de Villa.
A ponte-de-barcas sobre o rio Douro havia sido
projectada por elle, Francisco de Almada, mas não
chegou a realisal-a, porque n'esse tempo tractava
anciosamente de obter do governo a licença e
meios de construir uma ponte-de-pedra, desde a
Porta do Sol até ao terreiro da Serra do Pilar. O
desenho d'esta magestosissima obra elle o encarre-
gara ao engenheiro Carlos Diniz Ferreira da Cruz
Amarante, o qual o formou e apresentou, para se
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. * 235
depositar na Casa Pia, onde existiu muito tempo.
«E, se não fora tam prematura a sua morte, gosa-
ria hoje a cidade de um monumento que, só elle,
seria capaz de eternisar o seu nome». Decerto.
«A casa de Francisco d' Almada — exara-o, no
estylo rebuscado e ingénuo da moda coeva, João
Nogueira Gandra — era o centro da reunião dos
génios que as sciencias e as bellas-lettras e artes
faziam distinctos n'esta cidade: alli se encontrava
o sábio de credito estabelecido com o joven de
fundadas esperanças. Quem se lembra de sua meza
e de seus saraus se recordará de alguns dos saudo-
sos nomes» que João Nogueira Gandra passa a
desfiar.
E' uma lista copiosa e brilhante : — António
Ribeiro dos Santos, Ricardo Raymundo Nogueira,
João Pedro Ribeiro, Joaquim Navarro d'Andrade,
fr. Bartholomeu Brandão, Rodrigo de Souza da
Silva Alcoforado (depois barão de Villa Pouca),
José Pedro da Camará, Vicente José Ferreira Car-
doso, fr. Vicente da Soledade, padre André António
Correia, Theodoro de Souza Maldonado, fr. José
Pedro da Transfiguração, padre Júlio de Saldanha,
Manoel Garcia, padre Agostinho Rebello da Costa,
António Soares d' Azevedo, João Baptista Gomes
Júnior, padre José Durão, João Evangelista de
Moraes Sarmento, José Lourenço Pinto, padre
Francisco de Paula Figueiredo, José Caetano da
Cunha, Luiz Paulino Pinto da França, José Fran-
cisco Gonçalves, José Bento Lopes, António da
236 PORTUENSES ILLUSTRES
Silva Ferreira, José Ferreira Pinto, João Francisco
de Guimarães, arcediago de Barroso, Manoel Mar-
tins do Couto, José Francisco Massa, padre João
António Valença, José Vicente da Fonseca, padre
António Raymundo Cornelli, fr. Manuel Teixeira,
António da Silva Leite, fr. José de Lima, José Tei-
xeira Barreto, fr. Francisco d'Avè-Maria (hoje —
1839 — abbade de Santo Ildefonso), João Glama
Straberle, Sebastião d'Andrade Corvo, António
Vieira, Custodio José Ferreira d'Almeida, arcipreste
Pedro António Vergolino, mestre-eschola José de
Carvalho, padre António Guadagnini, fr. Ignacio de
S. Carlos, abbade Caetano José da Cunha Cândido,
fr. Bernardo Mimoso, Joaquim Maria d* Andrade,
fr. João Pedro d' Andrade Crespo, Custodio Gon-
çalves Ledo, José Joaquim Egico, fr. Thomé de
S. Joaquim, Domingos Martins Gonçalves, padre
José de Oliveira, fr. António de Santa Barbara,
António Pedro Gonçalves, António José Simões,
Manoel Félix de Negreiros, fr. Athanazio da Cunha,
Alexandre José Pires, fr. João de Santa Thereza
Reguinho, João Edolo e seus dous filhos, João José
de Paiva. «E muitos outros, que somente a falta
de memoria nos força a esquecer, quando desejá-
vamos commemorar — Gandra o registra — que o
magistrado incansável era amigo dos homens notá-
veis da sua epocha. »
Notabilissimo, elle-mesmo.
E, comtudo, o grande Almada não é este.
Para a singularidade ser completa, ha nova
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 237
incongruência, mais interessante ainda, a additar á
já interessante artimanha com que a municipalidade
portuense de 1839 avocou, do esquecimento pro-
fundo em que sua memoria prestes cahira, o nome
de Francisco d' Almada, explorando v para fim deter-
minado de occasião, ainda que civilisatorio, uma
apparentemente, e só apparentemente, desinteres-
sada homenagem.
E* que o grande Almada (cuja lembrança esba-
tida andava vagamente na tradição, que os verea-
dores de 1839 aproveitaram) não era este. Não era
o filho; era o pae.
Não era Francisco de Almada.
Era João de Almada.
Este, então, graças a tal troca de homenagens,
é que ao depois restou, de vez, completa e absolu-
tamente olvidado. E, todavia, elle, e não o filho, é
que era o grande Almada.
A obra, hoje rara, e sempre apreciada, de Os
extrangeiros no Lima está organisada em forma
de diálogos, conversações eruditas sobre vários
pontos de historia ecclesiastica, civil, litteraria,
natural, genealógica, antiguidades, geographia, agri-
cultura, commercio, artes e sciencias, em que são
interlocutores: o francez Raulin, philosopho; o
inglez Ciarei, commerciante ; o italiano Júlio, «via-
geiro»; o castelhano D. Hugo, genealógico; e o
medico, portuguez, LamL Lami é o anagramma
de Lima, um dos appellidos do auetor da obra»
238 PORTUENSES ILLUSTRES
o medico portuguez Manuel Gomes de Lima
Bezerra.
Em uma d'estas palestras, á nobiliarchia por-
tugueza attinente, como quer que de «Almada» se
tracte, o inglez Clarck enfada-se da prolixidade.
«Basta, meus senhores (elle exclama), de nobreza
derivada. Os dotes pessoaes são para mim de maior
valor, e por isso estimarei que me declarem os
serviços por que João de Almada tem merecido o
agrado dos povos e a confiança dos reis.»
Satisfaz-lhe largamente a vontade Latni; mas
nós deixaremos o que concerne aos serviços com
que João de Almada bem merecera a confiança dos
reis e respigaremos, tam só, pelo que respeito diga
ao agrado dos povos, que, concorrentemente, elle
conciliara. Mesmo, n'esta espécie, nos restringiremos
ao Porto: «Emquanto durar a cidade do Porto
(Lami remata, exaltando-se) serão conhecidos e
admirados pelos seus moradores o zelo e amor
patriótico d'este fidalgo nas mas do Almada, S.
João e outras muitas, que fez abrir de novo; nas
praças da Ribeira, de S. Roque, da Victoria e varias
outras; na formosura e utilidade do Campo da
Alameda; nas magnificas portas de Almada, da
Ribeira e do Sol, que ennobreceu; nos aqueductos
públicos e nas fontes que a sua vigilância e des-
velo promoveu, com tanta utilidade como applauso
de todos os ditos moradores.»
Emquanto durar a cidade do Porto, o nome de
João de Almada será lembrado e respeitado; isto
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 239
professava, em Coimbra, onde o tom. n de seu
livro era impresso em 1791, Manuel Gomes de
Lima Bezerra.
E já a 10 de março de 1789, um forasteiro no
Porto, onde havia mais de dezesseis annos era
morador, Thomaz de Modessan (em carta por elle
endereçada ao editor do Jornal Encyclopcdico> de
Lisboa, e hoje recolhida no volume de Antiguidades
curiosas, colligidas por António Luiz Monteiro e
publicadas por seu filho Abilio A. Monteiro) pro-
testara contra a conspiração de silencio que em
torno do nome de João de Almada, seus collabora-
dores e continuadores, começava a urdir-se, occul-
tando-se, em noticia ardilosa, obras da maior im-
portância, assim dentro da cidade como nos seus
muros e fora d'elles.
De «as oceultadas obras», Thomaz de Modes-
san declara que, tam só, apontará algumas poucas :
Uma rua nova do Almada, com sua porta no muro do
mesmo nome, que, pelo rompimento que se lhe fez com a das
Hortas, forma um comprimento recto de casas regulares, em
distancia de quasi mil passos ordinários, até entrar no novo e
espaçoso campo de Santo Ovidio, campo este guarnecido de
piões lavrados e onde se poderão exercitar em um mesmo
tempo varias tropas e de cujo ingresso carecia a cidade.
Tma rua de Santo António do Penedo, aonde, trabalhando a
arte contra a natureza, foi feita para dar de frente sahida do
coração da cidade para um dos melhores bairros dos seus
subúrbios, a qual se acha — 1789 — também enobrecida com a
outra nova e elevada porta chamada do Sol. A rua nova de S.
João, que, sendo o seu rompimento em sitio de insuperáveis
240 * PORTUENSES ILLUSTRES
despezas, não só fez por sua vontade dar um novo lustre á
cidade, na soberba ordem de seus edifícios, mas destruiu as
diíficuldades que todos os dias havia nas passagens continuas
e tráficos, tanto da ribeira geral como da alfandega, com notá-
vel prejuízo e incommodo dos povos; devendo-se ajuntar a esta
magnifica obra não só a nova praça e porta que lhe corres-
ponde ao dividimento do rio mas a espaçosa praça em que vem
a sahir a S. Domingos, para cujo effeito foram consideráveis as
despezas na demolição de antigos edifícios e sem a qual ficaria
incompleto o fim d'aquella utilíssima rua. Similhantes despezas
fizeram as mesmas obras, com egual beneficência publica, na
formação da nova praça de Santo Eloy e reaes casas das guar-
das militares que guarnecem as principaes portas» da cidade.
O rompimento da rua nova de Santo Ildefonso, a unir com a
largo da Porta de Carros e calçada dos Clérigos, é outra das
magestosas obras que, em outro tempo, apenas se poderia con-
ceber e effectuar no decurso de um século; e nós a vemos já
hoje — 1789 — servir, transitando-se de uma para outra parte,
com a admirável commodidade de toda a população, urbica e
campestre, que habita ao nascente. A bellissima e amena sahida
da Porta do Olival para o Carmo e Largo dos Ferradores, e a
extensa sahida do Cedofeita têm sido outros tantos objectos de
beneficência publica a quem via quasi invadiaveis estes sítios
em certos tempos de inverno, chegando os carros carregados a
procurarem uma volta de quasi três mil passos para se virem
metter na cidade. O rompimento da rua nova de Santa Catha-
rina, e outras innumeraveis que de sitios intransitáveis e em
parte ascorosos se têm tornado habitáveis, são outros tantos
monumentos que honrarão eternamente a seus promotores, os
quaes, no meio de tam trabalhosos, posto que necessários, ser-
viços, não se têm esquecido do útil e do agradável, já terraple-
nando varias ruas que a brevidade ou grosseria dos tempos
tinha deixado imperfeitas, como a das Carmelitas e a do Pos-
tigo das Virtudes á Alameda, etc, já mettendo-lhes novas e
perennes fontes de agua, assim como na de Almada, aonde se
acham duas, e já guarnecendo todas as mesmas ruas, assim
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 24 1
antigas como modernas, de passadiços lateraes de pedra liza, á
proporção da largura que estas permittem, com piões de pedra
escolhida para os dividirem da calçada e do mesmo modo da
gente de pé : isto tudo, quanto pode ser, á imitação da nova
reedifícaçâo de Lisboa.
« Taes são, em summa geral (proclama, justa-
mente indignado, Thomaz de Modessan), as obras
publicas que o auctor (direi opportunamente quem
era este auctor e o motivo provável por que o fez)
encobriu na sua noticia, talvez por se não atrever
a confesssar que ellas constituem, na verdade, um
seculo-de-ouro portuense. »
« Não parou aqui só — caracteristicamente assi-
gnala logo a perfídia Thomaz de Modessan — o
apaixonado desatino do mesmo auctor, pois que,
para não fazer justiça egualmente ao incansável
zelo e demais virtudes com que o immortal João
.de Almada e Mello governou por muitos annos
esta cidade e effectuando-se no seu tempo muitas
d'aquellas ditas obras, e dando principio a outras,
nem sequer quiz transcrever os disticos com que
ella perpetuou o seu agradecimento nas Portas do
Almada e do Sol e na fonte primeira da rua d'aquelle
nome, fazendo-se, n'este ponto, tanto maior a admi-
ração, até do mais ignorante vulgo, quanto se vê
que o extravagante auctor andou, aliás, pesquisando
para o seu livro insignificantes disticos que se acham
nos arrebaldes da cidade, como o da ordinária ca-
pella do Pinheiro, a fl. 199, e outros! Sim. Elle,
para em tudo ser como os que apregoam vinho e
VOL. I 10
342 PORTUENSES ILLUSTRES
vendem vinagre, deu-nos a nota dos versos ordiná-
rios do frontispício de uma capella de um homem
de fortuna da cidade, para fazer insólita os da mais
elegante latinidade que ornam as portas da melhor
architectura e que alludem, por uma parte, á bene-
ficência d'aquelle ex. mo governador e, por outra, á
gratidão dos governados ! »
Se a gratidão* dos portuenses de então se afere
pela lembrança que á seus pósteros elles legaram
do nome de João de Almada, contra o bracharense
auctor increpado em pura perda foi a indignação
do britannico Thomaz de Modessan.
E, comtudo, ao bibliophilo, na epocha do zenith
social do Ínclito, se áspero, varão, impressos affluem
os testemunhos da meritória consideração coeva,
por ex. o do padre Manuel Alvares.
Do padre Manuel Alvares de Queiroz, presby-
tero da Congregação do Oratório do Porto, diz
Innocencio que parece que d'ella sahira ao fim de
alguns annos, assim o indicando o facto de haver
juntado ao seu nome o segundo appellido «Quei-
roz», de que, como congregado, não podia fazer
uso, em vista dos estatutos respectivos.
Em todas as obras que publicou, não apparece
nunca, porém, o appellido de «Queiroz» onde se
designa como auctor, e apparece sempre a quali-
dade de membro da sacra corporação a que se
ligara. Em 1760, na Instrucçào sobre a lógica ou
diálogos da philosophia racional, «escriptos por
Manuel Alvares, da Congregação do Oratório do
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 243
Porto»; em 1762, na Historia da creaçâo do mundo
conforme as idéas de Moysês e dos philosdphos, illus-
trada com um novo systema e com varias notas e
dissertações ', «pelo padre Manuel Alvares da Con-
gregação do Oratório de S. Fillippe Neri»; em
1765, no tom. 1 (Elementa logices continens) de
obra que, por em latim, Innocencio não enumera:
Elementa philosophice conscripta ad usum studiosce
juventutis y «ab Emmanuele Álvaro, Congregationis
Oratorii Portucalensis D. Philippi N. presbytero,
Pôrtucali, ex typ. Francisci Mendes Lima» (da
officina de quem haviam sahido egualmente os
outros dois volumes).
«Ignoro ainda a sua naturalidade, nascimento,
óbito, etc», accrescenta, attinentemente ao padre
Manuel Alvares, ou Manuel Alvares de Queiroz,
Innocencio em 1860; na altura respectiva do Sup-
plemento (que aliás o snr. Brito Aranha tem au-
gmentado e illustrado) não voltou a tractar-se de
Manuel Alvares, ou Manuel Alvares de Queiroz, de
quem, na Descripçâo Topographica de Villa Nova
de Gaya, por João António Monteiro d*Azevedo,
cidadão da cidade do Porto, accrescentada por
Manuel Rodrigues dos Santos, natural da mesma
villa, fem a primeira nota ao cap. x, se diz que
entre os sábios villanovenses omittidos no texto é,
com outro norfieado, digno de toda a excepção o
padre Manuel Alvares de Queiroz, da Congregação
do Oratório do Porto.
244 PORTUENSES ILLUSTRBS
Distinguia-se por sua grande esphera de conhecimentos,
sendo ao mesmo tempo poeta, orador, theologo, philosopho e
mathematico. Em todas estas faculdades, e principalmente nas
duas ultimas, de que foi professor régio, compoz diversas obras,
de que algumas correm impressas, e entre ellas uma Lógica em
língua vulgar, que escreveu aos 18 annos de idade, e outra no
idioma latino, composta aos 22. Que prematuro engenho!
«As primícias dos meus estudos», em 1762,
quando á sua Historia da creação do mundo a
offerece «ao sereníssimo senhor D. Gaspar, arce-
bispo primaz das Hespanhas, senhor de Braga, pio,
sábio, augusto», chama o padre Manuel Alvares á
sua Instrucçáo sobre a lógica que em 1760 dedicara
ao mesmo «sereníssimo senhor D. Gaspar, arce-
bispo primaz das Hespanhas, senhor de Braga, etc,
etc., etc», ao qual em 1762 elle se reputa incapaz
de louvar dignamente, pois, «se, para louvar digna-
mente Augusto, foi precisa a energia de Virgílio; a
eloquência de Plinio, para elogiar a Trajano » : elle
que nem tem «a eloquência de um nem a energia
do outro », como havia de elle fazer o panegyrico de S.
A., « em tudo mais que Augusto, mais que Trajano? »
E os elogiados não corriam elogiadores destes!
O de D. Gaspar possuía merecimento verdadeiro,
todavia; e suas offerendas não eram de menos porte,
com effeito.
A primeira, os «diálogos sobre a philosophia
racional», foi julgada em o respectivo artigo critico,
inserto no caderno de março de 1762 da Gazeta
litteraria, de Francisco Bernardo de Lima.
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. Í45
O juiz escreve:
São infinitas as Lógicas que, nos tempos antigos e mo-
dernos, se tem escripto ; mas, apesar cfesta abundância, não ha
na lingua portugueza uma que, expondo o commum e o preciso
d'ella, instrua a mocidade sem demasiado desperdício de tempo.
A que compoz o douto Azevedo Fortes é magistral, mas só
serve para os leitores já instruídos, que amam vêr as matérias
tractadas fora do commum. Porém esta falta é bem supprida
com a lógica de que damos agora noticia. «Ella é a mesma
(diz o auctor no prologo) com que fizeram agigantar os pro-
gressos Francisco Bacon, Renato Descartes, Pedro Gassendo,
João Locke, o auctor da Arte de fensar, Mariotte, António
Genuense e outros infinitos que desterraram das escholas as
monstruosas chimeras dos antigos e admittiram, em logar
d'ellas, um novo corpo de doutrina próprio para guiar o nosso
entendimento pelo caminho da verdade. » Estas expressões
inculcam bem o valor do livro; mas era justo que entre aquelles
auctores se nomeasse o nosso Luiz António Verney, auctor de
uma excellente Lógica, que na obra se cita varias vezes.
O reparo é procedente; mas o traslado do texto
de Manuel Alvares, por Francisco Bernardo de Lima
feito, é que não sahiu rigorosa, rigorosamente exacto,
sem detrimento da idéa, aliás. A Manuel Alvares,
Francisco Bernardo de Lima nota «alguma impro-
priedade de linguagem que se pôde encontrar nos
cumprimentos dos interlocutores»; logo attenua que
esta falta « é bem compensada pela utilidade que se
tira da obra em geral.» E, «se julgamos esta como
ensaio de um auctor novo, que cousas maiores não
devemos esperar d'elle adulto?»
Adulto estaria em 1762, quando deu ao prelo a
sua Historia da creação do mundo?
246 PORTUENSES ILLUSTRES
No caderno de junho da mesma « noticia exacta
dos principaes escriptos modernos», a propósito do
novo livro de Manuel Alvares, Francisco Bernardo
de Lima, cónego secular da Congregação do Evan-
gelista, começa por escrever:
Aquella predilecção que tínhamos ao doutíssimo auctor
d'esta obra muito antes de possuirmos a sua amisade não era
motivada unicamente pela paixão, mais que com m um, que
temos a toda a Congregação do Oratório, menos pelas infinitas
attenções com que nos tem tractado esta illustre sociedade que
por florescerem n'ella homens eminentes em todas as sciencias
e bellas-artes; procedia, sim, de conhecermos perfeitamente as
qualidades do juízo e engenho d'este auctor, que hoje se mani-
festam nas suas obras, principalmente n'esta.
E rematava dizendo:
Para dizer tudo em uma palavra, esta obra é uma das
boas da Europa e do numero d'aquellas que dão honra á nação
portugueza, como advertiu o doutíssimo benedictino fr. Fran-
cisco de S. Bento na judiciosa approvação que lhe fez e se
acha no principio d'esta obra.
«Esta obra — informa Innocencio — devia pro-
seguir; porém não consta que se publicasse mais
que o primeiro volume.» As palavras do Dicciona-
rio bibliographico não são severamente precisas,
porquanto a Historia da creaçdo do inundo foi dada
, como um conjuncto completo; nem o publicado é
primeiro volume^ mas a obra n'um volume só e
único se comprehendia toda. Vê-se que Innocencio
redigiu de reminiscência; d'ahi a confusão, fácil de
surgir, na verdade. E que « na prefação d'este livro
VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 247
* (a Historia da creaçâo do mundo) promette o seu
litteratissimo auctor mostrar ao publico outro mais
volumoso e mais dilatado», assim o memora (escu-
sando-o, por desnecessário á gloria do escriptor) fr.
Simão do Loreto ; mas por que o padre Manuel Alva-
res no Porto prosiga em Lisboa faz votos Ignacio
Barbosa Machado: «Permitta Deus que, levado do
zelo de servir a pátria, não largue a penna n'este
género de estudo, para continuar em outros livros
similhantes com que se honra a nação portugueza. »
Da nação portugueza, a uso da juventude que
habita esta cidade do Porto, Manuel Alvares no
Porto publicou em» latim aquelles elementos de
lógica, que em 1765 dedicou Viro claríssimo et
altíssimo Joanni de Almada et Mello > ad exercitus
regi fidelissimi legato, aput Portucalenses supremo
militum magistrOy rerumque capitalium et servilium
prcetori máximo.
Mas resta-me ^ainda dizer qual a causa d'esta
conspiração do silencio que submergiu o nome de
João de Almada, dispondo, pois, as coisas para
tornar possível na memoria publica a substituição
da personalidade do filho, Francisco de Almada, á
do pae, esse obliterado João de Almada, que é aliás
quem é o verdadeiro e legitimo grande Almada.
Porém, no comenos, por um pouco olhemos
(depois de outras e antes de uma) successivamente
para duas grandes figuras portuenses das compre-
hendidas na enumeração de Gandra.
VIII
Luiz de Sousa — Thomaz Pinto Brandão
— João Sucarello Claramonte — António
Ribeiro dos Santos.
c
'olleccionador de livros grandíssimo, esse
illustrado portuense, D. Luiz de Sousa, de quem
preliminarmente corra que menção façamos.
A parte segunda da obra Primícias Evangélicas
é offerecida a uma dotitissima y poderosíssima e vir-
tuosíssima princeza.
Havendo dedicado á sereníssima alteza de Cosmo
Terceiro \ gran-duque de Toscana, a parte primeira,
a parte segunda a uma doutíssima^ poderosíssima e
virtuosíssima princeza a offerta seu auctor, D. Ra-
phael Bluteau.
Quem foi esta D. Raphael Bluteau?
Foi um clérigo regular theatino que nasceu em
Londres a 4 de dezembro de 1638, morrendo em
Lisboa a 14 de fevereiro de 1734, contando, pois,
25O PORTUENSES ILLUSTRES
mais de 95 de edade, dos quaes viveu seis em In-
glaterra, cinco em Itália, em França vinte, e oito e
cincoenta e seis em Portugal.
Pela sua qualidade de exttangeiro, Diogo Bar-
bosa Machado o excluiu da Bibliotheca Lusitana.
Absurda lógica da regra!
Porquê ?
Porque « os portuguezes lhe devem eterna gra-
tidão, por lhes dar um Diccionario que não tinham,
e de que tanto necessitavam ; abalançando-se e con-
seguindo elle só, com o próprio esforço e estudo, o
que as Academias não puderam vencer antes nem
depois ! » (Innocencio Francisco da Silva, tomo sé-
timo, 1862).
Eis o titulo pretencioso d'esta obra preciosa:
Vocabulário Portuguez e Latino \ Aulico e Ana-
tómico > Architectonico, Bellico, Botânico, Brazilico^
Cómico, Critico, Dogmático, Dialéctico, Deudrologico,
Ecclesiastico, Etymologico, Económico, Florifero,
Forense, Fructifero, Geographico, Geométrico, Gno-
monico, Hydrographico, Homonymo, Hierologico,
Icthyologico, Indico, Isagogico, Litúrgico, Lithologico,
Medico, Musico, Metereologico, Náutico, Numérico,
Neoterico, Orthographico, Óptico, Ornithologico,
Poético, Philologico, Pharmaceutico^ Quiddidativo,
Qualitativo, Quantitavo, Rhetorico, Rústico, Ro-
mano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico,
Therapeutico, Technologico, Uranologico, Xeno-
phonico, Zoológico.
Declara-se « auctorisado com exemplos dos me-
VIII — SOUSA — BRANDA O — CL ARAMONTE — SANTOS 2 5 1
lhores escriptores portuguezes e latinos » e é offere-
eido a el-rci de Portugal D. Joáo v.
Mas seu auetor, D. Raphael Bluteau, da outra
obra sua das Primícias Evangélicas a segunda
parte a consagrara a uma doutíssima, poderosíssima
e virtuosíssima princeza.
Quem é esta doutíssima, poderosíssima e virtuo-
síssima princeza }
« Esta doutíssima, poderosíssima e virtuosíssima
princeza é, nem mais nem menos, a livraria de D.
Luiz de Sousa, arcebispo de Lisboa, á qual o auetor
endereça uma eruditíssima e cstiradissima oração
dedicatória, que comprehende a bagatella de qua-
renta e seis paginas em typo assas miúdo!» Inno-
cencio Francisco da Silva, a pag. 43 do tomo ci-
tado.
Quem foi este D. Luiz de Sousa, arcebispo de
Lisboa?
«Foi filho segundo de Diogo Lopes de Sousa,
segundo conde de Miranda, e da condessa, D. Leo-
nor de Mendonça, filha do conde de Penaguião João,
Rodrigues de Sá. Recebeu em Roma o grau de dou-
tor em Cânones, e logo passou a deão da Sé do
Porto e a governador do bispado e da Relação Civel
da mesma cidade. Foi capellão mór de el-rei D.
Pedro 11, presidente da Junta das Missões, conse-
lheiro-de-Estado, bispo de Bona e de Martyria, arce-
bispo de Lisboa e, finalmente, cardeal. Em todos
estes altos empregos exercitou sempre as virtudes
mais edificantes e austeras, oceupando o fervor do
252 PORTUENSES ILLUSTRES
seu espirito em estabelecer na corte de Lisboa o
jubileu do Lausperenne, que presentemente — 1789
— goza, devendo aquella corte a um filho do Porto
graça tam especial.» (Agostinho Rebello da Costa).
Que seria a bibliotheca de D. Luiz de Sousa?
«Aquel te sor o de toda la divina y humana eru-
dicion, que en más de treinta mil volumenes construis
la maquina preciosa de su gran Biblioteca en que
sin comparacion se vèe excedido el numero de la cua-
lidad, pucSy a demas de que son, todos, los más sele-
ctos de todas las artes, sciencias, professiones y facul-
tadesy se le ahade el exterior asseo, en que facilmente
excede a quantas hà celebrado la fama en todos los
siglos.» (Manuel de Sousa Moreira).
Que diz, emfim, d'ella D. Raphael Bluteau?
Muitos annos antes que fosse inventado o papel se fize-
ram muitas livrarias, de que ainda hoje faz menção t a historia.
O primeiro rei que teve esta utilíssima curiosidade foi Osy-
manduas, rei do Egypto. Na Pérsia foi celebre a livraria Sy-
riana ; não foi menos memorável a livraria Attalica na Ásia Me-
nor, a Alexandrina no Egypto e a de Pisistrato na cidade de
Athenas.
No principio do seu império, prevaleceu nos romanos a
profissão das armas á licção dos livros; não attenderam a en-
sinar mas a subjugar o mundo, preferindo sua bellicosa ambi-
ção a estrondosa conquista dos reinos á pacifica milícia dos
entendimentos; mas, conhecendo, no progresso dos annos,
a utilidade das lettras, converteram as praças de Roma em pu-
blicas livrarias, em que todas as nações, e principelmente os
gregos, vinham a refazer-se dos tributos que pagavam com as
noticias que adquiriam, e com engenhosas competências enga-
navam a dôr da perdida liberdade.
VIH — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTK — SANTOS 253
Estas antigas livrarias foram como os chefes da geração e
os troncos da descendência de todas as livrarias que hoje ve-
mos na Europa, tam crescidas no numero e tam pomposas na
magnificência que n'ellas não têm os olhos menos que vêr que
os engenhos. Entre todas as d'este reino, as vossas preeminên-
cias vos dão a coroa, e a minha admiração vos tributa os en-
cómios com que tenho celebrado o lustre e a antiguidade da
vossa nobreza, e agora começo a formar o panegyrico da dou-
trina, poder e virtude que em vós reconheço, para que conste
que a verdade e não a lisonja vos deu, nas minhas primeiras
palavras, o titulo de Doutíssima, Poderosíssima e Virtuosíssima
Princeza.
Explana porque doutíssima, porque poderosís-
sima e porque virtuosíssima.
Brada, para terminar:
Não fallo nos regalos da vossa corte, Sereníssima Prin-
ceza ; todos são tam puros que só o entendimento os gosta.
Com estas innocentes delicias, captivastes os affectos do auetor
da vossa grandeza. Lá disse Ovidio que o sol olhava só para
a nympha a que amava, sem attender pelo restante do mundo.
O mesmo podemos dizer do sol de que as vossas prendas me-
receram os agrados. Não tem o mundo objectos dignos da sua
âttenção; só vós sois o emprego de seus doutos disvellos; 6
todo vosso, com tam primorosa singularidade que as suas mãos
são o berço em que nasceste e muitas vezes são o throno que
vos sustenta; a sua memoria é o vosso retrato; a sua compre-
hensão o vosso archivo; e essas obras em que se encerram la-
boriosos engenhos são todo o seu allivio. Que exemplar e que
digna de meditação é a vida de um príncipe ecclesiastico di-
vertida com tam louváveis entretenimentos? Aos sacerdotes e
aos bispos prohibem os concilos todos os profanos passatem-
pos do mundo, e só lhes concedem uma honesta e santa recrea-
ção na licção dos livros; não podia este exemplarissimo pre-
lado guardar este preceito mais ao pé da Iettra, porque sempre
está contemplando as vossas lettras.
254 PORTUENSES ILLUSTRES
Ao tempo, similhantes trocadilhos eram o supra-
summo da elegância no estylo. Chamava-se a isto
escrever culto. Das hodiernas mirabolancias e das
extravagâncias hodiernas, que conceito se fará d' aqui
a duzentos annos? D. Luiz de Sousa falleceu em
1702.
Quarenta e um annos depois, mas na penúria,
fallecia outro portuense notável, Thomaz Pinto
Brandão, poeta.
Poeta, qur vivendo de alegrar a gente, morreu
de fome, vimos já que de si-proprio dissera esse
Thomaz Pinto Brandão, natural d'esta cidade do
Porto, onde viu a primeira luz a 5 de março de 1664
e foi baptisado a 12 do mesmo mez e anno. Falle-
ceu em 31 dé outubro de 1743.
O tomo mais considerável que d'elle pos resta
é o livro intitulado Pinto renascido, empennado e
desempcnnado, impresso em Lisboa no anno de 1732.
Compõe-o uma collecção de sonetos, oitavas, roman-
ces, decimas, silvas, etc, tudo escripto no estylo
joco-serio, que era o próprio do auetor. Ha doeste
livro segunda edição, que sahiu posthuma em 1753,
acerescentada com a vida do poeta e ornada com
o seu retrato.
Os sonetos de Thomaz Pinto Brandão gosaram
de grande estimação no seu tempo; e ainda muitos
VIII — SOUSA — BRANDA O — CLARAMONTE — SANTOS 255
annos depois observa Innocencio que José Agosti-
nho de Macedo chegava a affirmar, mui seriamente,
que em todo o exercido sonetario (isto é, entre a
multidão immensa de sonetos produzidos pelos poe-
tas italianos, hespanhoes e portuguezes) elle não
conhecia senão um, completamente acabado segundo
as suas infinitas e impertinentissimas regras; e era
o de Thomaz Pinto Brandão, primeiro n'este vo-
lume do Pinto renascido. Fosse embora exaggerado
este conceito, a Innocencio parecia, comtudo, que o
voto de censor tal não deixara de ter seu pezo.
De Thomaz Pinto Brandão foram pães Gonçalo
Pinto Coelho e Isabel Brandão, sendo aquelle advo-
gado da Relação do Porto. Chegado aos dezesete
annos de sua edade, tomou a resolução de passar
a Lisboa, onde, não o favorecendo a fortuna, empre-
hendeu ir viver no novo mundo. Na corte travara
conhecimento, nos relatam, com o bacharel Gregório
de Mattos Guerra, natural da Bahia, que, vindo
estudar a Faculdade da jurisprudência na Universi-
dade de Coimbra, se achava oppositor a alguma
judicatura na sua pátria. « A similhança dos génios,
ambos joviaes e picantes, apertou tanto os vínculos
da sua amisade que, despachado n'este tempo o
Gregório, levou comsigo o Thomaz para a Bahia.»
Por algumas travessuras, mui naturaes em uma
edade que costuma fazer timbre dos excessos, o
mandou prender, seguem referindo, no anno de
1693, o almotacel mór António Luiz Gonçalves da
Camará Coutinho, que n'essc tempo era governa-
256 PORTUENSES ILLUSTRES
dor e capitão-general da capitania da Bahia de
Todos-os-Santos. Após um anno de prisão, o go-
vernador o fez sentenciar a degredo para Angola;
mas, acabando o seu governo antes da execução
da sentença, a moderou o seu successor, D. João
de Alencastre, commutando o degredo de Angola
para o Rio de Janeiro, para onde foi, com effeito,
conduzido, residindo ahi, como governador da pro-
víncia, o alferes-mór do reino Luiz César de Me-
nezes.
Novo desastre, pois que seu génio, sempre
propenso a travessuras e satyras picantes, com
certa que escreveu contra um favorecido do gover-
nador deu occasião a que experimentasse segunda
vez as mortificações da perda da liberdade.
Da cadeia sahiu para Angola, por degredo; teve
uma viagem dilatada e penosa. Chegado, emfim, á
cidade de S. Paulo de Loanda, o governador, pela
recommendação de Luiz César, o mandou metter
logo na cadeia e carregar de ferros; e, depois de
três mezes de prisão tam áspera, o fez conduzir a
Benguella, para que n'aquelle presidio servisse. Por
aquellas terras assistiu Thomaz Pinto Brandão
alguns annos; alli exercitou o posto de capitão de
infanteria e alli se viu senhor de setenta escravos,
uns grangeados por negocio, outros captivados na
guerra. Alli teve uma amizade bem estreita, mas
não legitima, com Nuna Ambundo, sobrinha da
rainha Ginga e neta do famoso Caconda, rei de um
dos paizes circumvisinhos ; d'esta houve um filho,
i
VIII — SOUSA — BRANDA O — CLARAMONTE — SANTOS 257
de quem, com o deslavado cynismo d'aquella epocha
de inconsciência moral, elle mesmo disse:
Certo que foi bem nascido
E, postoque um tanto fusco,
Tinha a côr baça na pelle
Mas sangue real no bucho.
Continuou o serviço militar n^quella fronteira
alguns annos, até que chegou a Angola, com o
emprego de governador e capitão-general, o mesmo
Luiz César de Menezes, que, vendo já satisfeita a
sua vingança, lhe deu licença para recolher ao
reino. Embarcou-se, pois, para o Rio-de- Janeiro,
onde aportou com toda sua negraria. Fez pre-
sente de alguns escravos a pessoas de que depen-
dia ; converteu outros em ouro ; e conservou os
mais em seu serviço, entrando n'estes um cha-
mado Damião, que o serviu fielmente até á morte,
em que lhe concedeu toda a liberdade, « que já go-
sava de meias pelo amor com que o tractava.»
No Rio-de-Janeiro casou e, pretendendo despa-
char-se com o habito de Christo pelos serviços que
havia feito na Bahia, no Rio e em Benguella, se
embarcou para o reino, chegando a Lisboa pelos
annos de 1703, trazendo comsigo sua mulher e sua
sogra.
Mas aqui é que começaram, verdadeiramente,
os seus grandes e insoffriveis trabalhos. Como a
sogra « tinha a condição áspera e elle o génio mui
livre, começaram a ser reciprocas as queixas e
voi,. 1. 17
258 PORTUENSES ILLUSTRES "
commum de dois o descontentamento ; separou-se
Thomaz e começaram, com as demandas, a des-
compor-se ambas as partes. » « A sogra, que era
já viuva de três maridos, empregava-se em destruir
éfete genro, depois de haver já afugentado outro. O
outro, sem reflexão no descrédito que para si pró-
prio fabricava, ao mesmo tempo fazia públicos
nos seus versos os defeitos mais Íntimos da
sogra. »
Augmentava-se, de momento a momento, reci-
procamente o ódio, e foram os seus effeitos pren-
der Thomaz Pinto Brandão a sua sogra e conse-
guir esta prendel-o a elle, mas, como o crime por
que a sogra o accusava lhe fora falsamente arguido,
os seus patronos, que eram os gran-senhores da
corte, o duque do Cadaval, D. Jayme, o conde de
Unhão, D. Rodrigo Telles de Menezes, o marquez
mordomo-mór, D. Martinho Mascarenhas e D.
Rodrigo de Lencastre, commendador de Coruche,
o fizeram logo mudar da cadeia fechada para a
casa do carcereiro e ultimamente o restituíram á
sua liberdade.
Este precursor do Bocage tradicional da vida-
airada não poupava os seus gracejos, sempre api-
mentados, nem mesmo á pessoa do rei; e debalde
procurou restaurar o agrado, que perdera, de D.
João v, por uma graça que introduzira em uma
poesia, pois que elle « não sabia perder a pronun-
ciação de nenhuma que o pensamento lhe sugge-
risse. »
Vni — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 2$<}
Não era escrupuloso na escolha dos themas
para suas moralistas risotas, como o indica a elei-
ção dos interlocutores para o romance, dedicado á
pratica de três cabeças em três discursos, as quaes
três cabeças eram as de três ladrões em Lisboa
justiçados; mas, na loucura da sua procrastinada
bohemia, encarreiravam-o lampejos de bom senso,
como quando, em 1730, vibra a sua satyra contra
os sebastianistas (Aos declarados Encobertos).
No extremo fim de sua vida e sua penúria,
valeu-lhe a caridade do conde de Sabugosa, Vasco
Fernandes César de Menezes, que lhe deu casas,
no sitio da Junqueira, junto ao seu palácio, assis-
tindo-lhe, egualmente, com o preciso para a sua
subsistência e do seu escravo Damião, «que em
todos os seus trabalhos foi sempre o seu Fidus
Achates». Foi sepultado no adro da egreja do
Calvário.
Mais escandalosamente faceto do que Thomaz
Pinto Brandão ainda, portuense poeta houve n'essas
epochas que suppòmos reverenciosas. Mas, por bem
do decoro, quedou manuscripto.
Das poesias de João Sucarello Claramonte,
natural do Porto, cavalleiro professo da Ordem de
Christo, medico insigne, diz Diogo Barbosa Ma-
chado que se podiam formar diversos volumes e
2ÓO PORTUENSES ILLUSTRES
somente se haviam feito publicas algumas nas
Metn. Funeb. da Senhora D. Maria de Atayde
(Lisboa, na Offlc. Craesbeeckiana, 1651, 4. ). E não
era de génio melancholico a musa do medico do
Porto, a quem, discriminadas e na expressão um
tanto contraditoriamente, a Bibliotheca Lusitana
averba, tam só, um soneto, uma decima e o entre-
mez, ms., do Estudante phantastico.
Mas no anno de 1667 as «Obras poéticas do
doutor João Sucarello Claramonte, cavalleiro do
habito de Christo e medico portuense » as « ajuntou
com grande trabalho Christovão Alão de Moraes,
seu grande amigo. »
Tinha-os Sucarello, que, pouco assucarado,
com elles motejava á bòa-parte, deixando-nos,
assim, desconhecidos traços physionomicos, como
os que caracterisavam o intróito da sylva a Duarte
Ribeiro de Macedo, um dos mais favorecidos, por
mais queridos:
Meu Duarte Ribeiro,
Meu bacharel barbinhas de sedei ro,
D'onde assedam as bel las raparigas
As faces e as guedelhas como estrigas etc.
Mas para outros não continha a veia satyrica
em comedimentos, consoante passou para Domin-
gos Antunes Portugal, sendo dezembargador do
Porto. Casou com uma viuva, chamada dona Ma-
ria dos Reis e, indo para a receber, foi acompa-
nhado por três filhos que tinha, já homens. « Com
VIH — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 20 1
os quaes se sobresaltou a dita viuva, ao que fez
o Auctor esta
REDONDILHA
Vendo aquelles três alarves,
A viuva estremeceu;
E Portugal respondeu:
Estes são os meus Algarves. »
Por estas e outras — muitíssimo mais desboca-
das — chalaças, a João Sucarello Claramonte cha-
mou Diogo Barbosa Machado «excellente poeta,
principalmente no estylo joco-serio, em que le-
vou a palma a todos os mais celebres professores
doesta divina arte. »
Escandaloso lhe reputariam então, como inde-
cente hoje lh'o qualificariam, ainda que por acabar,
aquelle soneto que elle principiou, governando o
Porto D. Álvaro de Abranches, por estas descara-
díssimas quadras, endereçadas á sua terra natal,
aliás :
Oh mui nobre e sempre leal cidade,
Meirinhos e escrivães de serventia,
Escudeiros de Sua Senhoria,
Que sois ladrões, por carta de ametade;
Tanto mouro e judeu, clérigo e padre
(Impnblicavel)
E o Gallego, fazendo-as cada dia,
Com Martinho, escrivão da puridade.
Se o auctor não acabou, rematou elle, ou o
seu coliector, em prosa, explicando que este Gal-
2Ó2 PORTUENSES ILLUSTRES
lego era o vigário geral do Porto, João Rodrigues
de Araújo, que depois foi abbade de Lordello, e o
Martinho Martinho de Mattos, escrivão da Camará
Ecclesiastica, «ave bem conhecida pela penna e
pela unha. » O soneto á morte de Lourenço
Baptista, sachristão das freiras de S. Bento do
Porto, é também inverosímil de desfaçatez; e má
idéa dos costumes da terra e da epocha se inferirá
das composições attinentes ás freiras de Monchique,
aos dezembargadores da Relação e a negociantes,
fidalgos e mesteiraes.
Parece, mesmo, que, de conjuncto, pouca con-
sideração e pouquíssima affeição nutria João Suca-
rello Claramonte pelo seu natal Porto, cujos « dis-
parates » com allusões hoje quasi de todo indecifrá-
veis enumerou em um soneto, « definindo »-os:
As valentias de Gaspar cTAnhaya,
O mero-mixto império do Sarinho,
A calva de João Nunes, frita em vinho,
As folhas do Picão de Miragaya ;
Mercancia de esterco, âmbar da Maia,
Bem comprado por lenha ou por toucinho,
Geral remédio d'Entre-Douro-e-Minho,
Achado antes nas casas que na praia ;
Baeta calva, immensa gravidade
Dos Infanções, mantidos com farello ;
Da manta-rôta a celebre irmandade :
Este é o Porto. Acabo de dizel-o.
Oh muito nobre e leal cidade,
Quem me te vira posta de bacello I
VIII — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTK — SANTOS 2ÒX
ò
Ninguém diria que versejador tam desabrido se
apurasse na compostura que exige a situação
deplorativa perante o féretro de D. Maria de
Athayde; alii não quedara elle, se permanecendo
«medico famoso», «o maior poeta cómico do seu
tempo. »
Nas exéquias de Maria de Athayde, no convento
de S. Francisco de Enxobregas, a oração fúnebre
dissera-a o padre António Vieira, da Companhia de
Jesus; e a esta oração fúnebre fizera uma decima
em castelhano o conde de Castelmelhor. No volume
especial, hoje raro, offerecido a dona Luiza Maria
de Faro, condessa de Penaguião, se archivam, na
morte de D. Maria de Athayde, as « memorias fúne-
bres, sentidas pelos engenhos portuguezes», que
íòram António de Mello de Castro, Francisco Luiz
Vasconcellos, Bartholomeu de Vasconcellos, soror
Violante do Ceo, o doutor António Barbosa Ba-
cellar, Duarte Ribeiro de Macedo, Vicente de Gus-
mão Soares, Lourenço Saraiva de Carvalho (pro-
vedor da comarca de Beja), António de Miranda
Henriques, João Gomes de Serpa, o doutor Pedro
Garcia de Faria (mestre-escóla de Faro), André de
Castillo Lobo, o doutor Manuel da Nóbrega, o
padre fr. Gil de S. Bento, fr. Hieronymo de Moura,
o padre Dom Prospero, Simeão de Azevedo e Farias,
o desafortunado Manuel Fernandes Villareal, dom
Francisco Manuel de Mello, o mestre-de-campo
Diogo Gomes de Figueiredo, o doutor Luiz Pereira
de Castro (do conselho-de-Estado de S. Magestade,
264 PORTUENSES ILLUSTRES
embaixador eleito á corte de França), o doutor
Hieronymo da Silva de Azevedo (dezembargador
da casa da Supplicação), Francisco de Faria, o
conde da Ericeira, D. António da Cunha (governa-
dor e capitão-mór da comarca e cidade de Évora),
Francisco Martins de Sequeira, o dezembargador
António Raposo, o doutor António de Sousa de
Macedo (dezembargador dos Algarves, embaixador
aos Estados da Hollanda), Henrique do Quintal
Vieyra, D. Fradique da Camará, o dezembargador
Francisco Cabral, António Corvinel, Francisco Ca-
bral d' Almada, o doutor Diogo Lopes de Leão;
afora vários mais em differentes composições de
diversos em latim.
Ao portuense doutor João Sucarello pertencem
um soneto e o epitaphio, em que se recorreu, con-
soante elle-mesmo marginou, de Francisco de Sá
de Miranda, na carta a seu irmão. E a decima
que lhe ajuntadamente registra Diogo Barbosa
Machado.
Mas o que assignalou no conceito dos nossos
maiores ao portuense João Sucarello Claramonte
foi a facécia. Os nossos ditos maiores não distin-
guiam o claro-escuro : ou a altisonancia empolada
ou a chocarrice obscena. A obscenidade era, de
resto, no despotismo avergadòr das consciências, o
único respiraculo da liberdade. A independência do
juizo, foragida, escapava-se, fétida, por um cano de
latrina.
O género por Thomaz Pinto Brandão e João
Vin — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 265
Sucarello Claramonte cultivado não condiz, porém,
com nossa moral modalidade e o nosso povo,
como nossa fidalguia, em bem mais' intima affeição
e conta tçve a musa sentimental sempre, de todo
o tempo.
Assim, mui celebrado por suas coplas eróticas
diz José Maria da Costa e Silva que fora Egas
Moniz, primo de outro do mesmo nome, que foi
aio de D. Affonso Henriques e a quem a tradição
popular attribue a celebre fiança feita ao rei de
Leão, de que D. Affonso se apresentaria em suas
cortes, se elle rei de Leão levantasse o sitio de
Guimarães, onde o tinha cercado, e a façanha de,
por o rei de Portugal se recusar ao cumprimento
d'este ajuste, apresentar-se ao leonez, descalço, e
com a corda ao pescoço, com sua mulher e filhos,
para que n'elles vingasse o quebramento de sua
palavra. A esta situação pathetica, com escassa
nobreza de sentir, Costa e Silva capitula-a de en-
tremezada ; e prestes deixa o incidente, para voltar
«ao primo do chamado Regulo portuguez. »
D'elle conta que fora, segundo se affirma, extre-
mado cavalleiro, distinguindo-se em muitas acções
contra os mouros, mui bem cabido com as damas
e mui dado aos amores.
266 PORTUENSES ILLUSTRES
Uma dama da rainha D. Mafalda, <-a quem a
historia designa simplesfnente pelo nome de Vio-
lante, sem nos dizer nada da sua linhagem», foi
por muito tempo a senhora dos seus pensamentos,
o objecto das suas adorações e o assumpto mi-
moso das suas poesias.
Esta donzella era mui formosa, segundo se co-
lhe dos versos do seu amante, « testemunho que
não deve ter-se por muito insuspeito » ; mas o
que não tem duvida é que Egas Moniz a amou
como os poetas costumam amar, perfeitamente,
« quero dizer, como doudo, porque n'estes casos a
doudice é a perfeição e o sublime. »
Porém, entre tantas perfeições de que a bella
Violante era dotada não tinha logar a constância,
e por isso, quando menos Egas Moniz o esperava,
esquecendo-se de suas finezas, e desmentindo to-
dos os seus juramentos, casou com um hespanhol
e partiu com elle para Castella.
O perjúrio de Violante, este desfecho inespe-
rado de tantos extremos, parece, a Costa e Silva
a quem vou seguindo, que o coração do poeta
o advinhava, quando, devendo ausentar-se para
Coimbra, dirigia á sua amada as coplas que, no
lance, Costa e Silva transcreve.
Voltou Egas Moniz de Coimbra e, achando a
noticia da falsidade de Violante e de sua partida
para Castella com seu marido, ficou como doudo
e escreveu novas coplas que lhe enviou e são as
que Costa e Silva outrosim transcreve.
VHI — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 267
Mas debalde procurava o pobre Egas desafogar
as suas penas nas lamentações e nos versos. « A
ferida havia penetrado mui profundamente n'aquelle
coração amante e enthusiasta; o toxico do ciúme
estava derramado em seu coração e lhe corrompia
o sangue ; sua imaginação ardente lhe representava
a cada momento a ventura e os prazeres por tanto
tempo gosados e tam de repente perdidos. Pezada
melancholia lhe foi, pouco a pouco, seccando as
fontes da existência ; nem os festejos da corte nem
os louros da guerra, tinham poder, se não de con-
solal-o, ao menos de distrahil-o. O amor de Vio-
lante era a sua vida, e a sua perfídia o despenhou
em breve na sepultura. »
Affirma a tradição que a formosa e inconstante
Violante, sabendo da sua morte e enternecida com
os seus versos, e talvez conhecendo que o marido
que preferira não valia o antigo amante, tomara tal
paixão que puzera termo aos seus dias com veneno.
Chegado a este ponto, com baça gentileza para
com o sexo bello, José Maria da Costa e Silva mo-
ralisa motejos duvidosos: «Em puridade confesso
(elle assim adverte) que esta tradição me parece
uma fabula; as mulheres nunca se matam pelos
amantes a quem atraiçoam, mas sim por aquelles
que as abandonam ou desprezam.»
Reverte Jogo á sua funcção de critico litterario;
e, convindo em que as coplas de Egas Moniz que
deixou citadas são, na verdade, elegantes e harmo-
niosas, pergunta se serão ellas authenticas?
268 PORTUENSES ILLUSTRES
Da Revista Universal Lisbonense reproduz o dr.
Theophilo Braga a traducção que das duas canções
de Egas Moniz publicou Garrett, «servindo-se das
interpretações do sábio Ribeiro dos Santos. » O qual,
attinentemente ao século xvm, Innocencio aquilata
como «um dos mais respeitáveis, eruditos e fecun-
dos escriptores que Portugal produziu. » Elle nasceu,
este portuense illustre, em Massarellos, a 30 de
março de 1745.
O seu retrato appareceu publicado pela primeira
vez no Arckivo Pittoresco, sendo acompanhado
d'uma breve noticia biographica, da qual seu auctor
foi o do Diccionario Bibliographico. «Uma biogra-
phia, aliás bem desenvolvida», diz Innocencio, es-
cripta por M. J. M. Torres, fora inserta no Panorama,
e a Innocencio constaria que um bosquejo biogra-
phico do insigne portuense, elaborado por D. Miguel
Souto-Maior, sahira no Civilisador, semanário de
instrucção e recreio começado a publicar no Porto
em 1860.
Poeta, e emérito, foi também aquelle eminente
erudito. De suas poesias dissera Garrett : « António
Ribeiro dos Santos foi imitador e emulo de Ferreira ;
poucos engenhos, poucos caracteres, poucos estylos
ha tam parecidos; senão que o auctor dos coros da
Castro era muito maior poeta, e o cantor do infante
D. Henrique muito melhor metrificador. Esta ode
ao infante sábio, algumas outras a vários heroes
portuguezes, algumas das epistolas, e especialmente
os versos que lhe ditava a amisade para o seu
VHI — SOUSA — BRANDA O — CLARAMONTE — SANTOS 269
Almeno, são de uma elegância e pureza de lingua-
gem raríssima em os nossos dias. »
Mas, victima d'uma insaciável curiosidade men-
tal, a sua actividade litteraria dispersou-se, aliás
em attestações poderosas do seu intellecto e do
seu saber.
Para se fazer idéa, um indicio bastará. Na
Bibliotheca Nacional de Lisboa existem as obras
inéditas de Ribeiro dos Santos, doadas áquelle esta-
belecimento, que tanto lhe deve. E uma collecção,
por todos os títulos notável, consoante se appre-
henderá da simples indicação do titulo, que inclue
a divisão das espécies contidas no respectivo cata-
logo.
A primeira divisão, ou classe primeira, compre-
hende a Historia; a segunda divisão, ou classe
segunda, pertence á Philologia ou Linguas. A
terceira divisão, ou classe terceira, corresponde ás
Sciencias Jurídicas. A quarta divisão, ou classe
quarta, inclue as Sciencias Ecclesiasticas. A quinta
divisão, ou classe quinta, contém a Polygraphia,
isto é : Miscellanea polygraphica ; Cartas litterarias
sobre a historia ; Ditas sobre philologia ou linguas ;
Ditas sobre poética e poesias; Ditas sobre econo-
mia civil e politica; Ditas sobre theologia ; Ditas
sobre as bellas artes; Ditas varias; finalmente, Me-
morias do dr. António Ribeiro dos Santos, ou papeis
e documentos que dizem respeito á sua biographia,
empregos, serviços, etc.^
Das obras de sua lavra no lusitano idioma, e
270 PORTUENSES ILLUSTRES
impressas, tanto em prosa como em verso, fez a
enumeração Innocencio. Uma das verbas marca o
trabalho Das origens e progressos da Poesia portu-
gitcza. Foi estampado no tom. viu das Mem. da
Academia Real das Sciencias de Lisboa o discurso
preliminar que dá entrada a trabalho de maior vulto,
e que ainda existe inédito, á excepção do cap. m,
que se intitula: Dos mais antigos monumentos da
Poesia portugueza nos séculos xn e xnr, o qual
sahiu no Jornal da Sociedade dos Amigos das
Letlras t 1836, ficando interrompido, afinal, pela sus-
pensão d'esse periódico. Na parte publicada vêem
eruditamente commentadas, informa Innocencio,
além da canção attribuida a Gonçalo Hermigues,
as cartas que se dizem d'Egas Moniz etc.
IX
João Pedro Ribeiro — Bernarda Ferreira
de Lacerda — Almeida Garrett — Eva-
risto Basto — António Augusto Teixeira
de Vasconcellos — Thomaz de Carvalho
— Gonçalves Basto — Ricardo Guima-
rães — Passos Manuel.
A
s duas cartas por Egas Moniz a sua dama
endereçadas, as dá como apocryphas outro por- v
tuense illustre, «o erudito J. Pedro Ribeiro», reme*-
mora o dr. Theophilo Braga. E a verba m de taes
composições refugadas de carência de authenti-
cidade.
Foi esse João Pedro Ribeiro natural d'esta cidade
do Porto, e aqui morreu a 4 de janeiro de 1839,
contando mais de 80 annos de edade. Deixou, por
sua morte, á Bibliotheca da Universidade os seus
livros e manuscriptos, com reserva de uma porção,
de que concedeu o usufructo a seu sobrinho Pedro
272 PORTUENSES ILLUSTRES
do Rosário Ribeiro, e, por morte cfeste, em 1852,
foi também incorporada na referida Bibliotheca,
onde passou a existir tudo desde então. A esta
doação ajuntou a do seu pequeno monetário, ou
museu de medalhas e moedas antigas, em numero
de 884.
«Os trabalhos que publicou pela imprensa
durante a sua longa vida, fructos de ímprobo
estudo, de não interrompidas indagações e de uma
applicação indefessa, valeram-lhe as honras de pri-
meiro fundador e patriarcha entre nós da sciencia
diplomática, cujo edifício assentou sobre bases soli-
das. São elles de sobejo conhecidos, e apreciados,
para que nos detenhamos com a repetição dos
elogios, consagrados ao nome do seu auctor pela
critica sizuda e imparcial dos contemporâneos, ç
que lhe asseguram a veneração e estima da poste-
ridade. »
N'estas palavras graves resume Innocencio o
alto conceito em que deve ser tido João Pedro
Ribeiro, tam escrupuloso e arguto como rigoroso e
severo.
E ao ponto, em contraste, nos dá sueto a remi-
niscência d'esse devaneio triste dos amores mallo-
grados de Egas Moniz, fiel, com sua versátil Vio-
lante. E' que da pulverulencia de cartapacio, florido
nos rebuscamentos de estylo precioso, me acode
destacar, para a evidencia de particularisado extra-
cto, a curiosidade de um caso referido.
Alludo á parte sétima da Monarchia Lusitana,
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 273
que contém a vida de el-rei D. Affonso o Quarto,
por excetlencia o Bravo, composta pelo chronista-
mór fr. Raphael de Jesus, natural da real villa de
Guimarães, religioso e pregador geral da ordem do
príncipe dos patriarchas S. Bento n'este reino de
Portugal.
Ora, em o livro vm, cap. n, pelos annos de
1335» deixara o chronista estampadas as heróicas
proezas que três cavalleiros portuguezes, appellida-
dos n'aquelle tempo os três da fama, praticaram
nas cortes extrangeiras e particularmente na de Cas-
tella, sendo o principal Gonçalo Rodrigues, o se-
gundo Vasco Annes (que diziam o collaço, porque
o fora da rainha de Castella Dona Maria) e o ter-
ceiro Fernão Martins Santarém. Era este ultimo o
de menor idade, e depois de suas peregrinaçctes
assistiu sempre na corte de Lisboa. Por suas pren-
das, o favoreceu o príncipe D. Pedro com particular
inclinação.
Como fosse mancebo e soldado, gastava no
passeio todo o tempo que lhe sobejava do serviço.
Deu-se que vivesss por aquella idade em Lisboa um
auctorisado velho que havia servido a el-rei D.
Affonso de inteiro ministro nos tribunaes da jus-
tiça, por nome Lourenço Martins Moreno, a quem
os muitos dias tinham aposentado, com uma filha,
único arrimo de sua velhice. De dote tinha esta mais
que medianos bens da fortuna, concorrendo os da
natureza a fazer appetecido o casamento de Vio-
lante Martins (este era o nome da donzella) do mais
VOL. I V*»
274 PORTUENSES ILLUSTRBS
estirado da corte «sabendo ella subir de preço o
muito que herdava com o honesto e virtuoso recato
com que vivia e se negava á vista de todos. » Cos-
tumava assistir á tarefa de suas creadas, cultivando
a virtude com a occupação e desmentindo a publi-.
cidade de uma janella com gelozias tam reformadas
que, se por ellas podia entrar a luz, não podia entrar
a vista. «Quem imaginara (pergunta, compungido,
frei Raphael, de Guimarães) que uma leviana curio-
sidade havia de destruir os artefactos de tanta sizu-
desa e tanta industria?»
E que não bastam todos os ardis da cautella
para assegurar a bondade de uma singeleza. Com
a de sua desattenção, reparou Violante Martins no
continuado passeio com que Fernão Martins San-
tarém cursava a rua ; com alguma malicia passou a
entender que algum empenho o obrigava e d'aqui
se seguiu o desejar saber qual ou antes quem o
objecto seria de tanta passeata. Communicou ás
suas creadas o que presumia; offereceu-se uma
para o investigar; perfrrittiu-lhe a diligencia e, «por
não faltar a condição de creada, sem inquirir foi
revelar a Fernão Martins o curioso desejo de sua
senhora. »
A creada disse o cavalleiro que o afan de vér
uma formosura que tanto encarecia a fama era a
causa de seus cuidados; que não desprezasse ella
pensamentos, tam bem nascidos, por honestos e
verdadeiros.
Deu Violante Martins ouvidos á creada; admittiu
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT BASTO, &C. 275
persuasões; não desdenhou recados; recebeu escri-
ptos; facilitou respostas, fiada no segredo entre-
gando-se a correspondências. O frade é, no lance,
diserto e conceituoso. Recommendavel parece sua
historia ás meninas namoradeiras que demasiado
em suas serviçaes se confiem.
No maior fervor de seus amores andava por
esse tempo o príncipe D. Pedro com a sua Dona
Ignez de Castro. « Na inquietação do cuidado con-
sistia seu allivio. » Eis, para amostra, um dos con-
ceitos bellos do diffuso chronista. Um dia avisou o
príncipe a seus creados que no dia seguinte, de
manhã, se havia.de deitar a caminho para Coimbra,
e em especial a Fernão Martins Santarém advertiu
que se aprestasse para o acompanhar. Quedou-se
Fernão Martins confuso e duvidoso se desobede-
ceria, por se não arredar de sua Violante. Mas,
bem inspirado, buscou e achou na consciência o
mais seguro remédio. Avisou a dama da sua
inexcusavel partida, pedindo-lhe o favorecesse com
sua vista em parte que d'ella se despedisse, sem
offensa de sua honestidade, não querendo mais
d'ella que sua firmeza e seu agrado para tolerar o
martyrio da futura ausência. Por escripto, concor-
daram na hora e modo.
Chegou o tempo e por a janella de uma sobre-
loja, a furto da familia e da visinhança, se fallaram
e despediram: o amante, encarecendo saudades; a
dama, chorando ausências e promettendo firmezas.
Emfim ambos se despediram enxugando as lagri-
276 PORTUENSES ILLUSTRES
mas, que substituiu a Aurora que os apartou. Esta
sobre-loja doura-se da poesia matinal do balcão
shakespereano ; mas Violante não tem a constância
de Julietta. Por isso, o vimaranense regouga:
«Logo veremos como nas mulheres não é menos
frágil o fio das promessas que o das lagrimas. »
Surge o rival fortunoso. Crise.
Servia na casa da rainha Dona Brites, com o
ordenado de escudeiro, um castelhano, «que, para
ser ditoso, bastava ser extrangeiro. » Tinha noticia
da fazenda e da formosura de Violante Martins;
achou o campo franco, seguiu o atalho; entrou
pela port^ do matrimonio ; pediu-a a seu pae para
casamento. Encareceram os medianeiros ao velho,
«com a ordinária fallacia de casamenteiros», o
muito que adquiria de fazenda e honra com o novo
genro; encheram-lhe os olhos de cubica com as
esperanças de um titulo, e ficou ajustado o con-
certo. Deu conta á filha, que o mesmo foi conside-
rar-se noiva que responder grata. « Fatuidade ordi-
nária da inclinação feminina : resolver sem exame o
que não ha-de revogar sem crime», admoesta,
supercilioso, fr. Raphael de Jesus.
Celebraram-se as bodas e, entre os parabéns
d'ellas, chegou Fernão Martins Santarém a receber
os pezames com a publicidade da nova. Amargoso
foi o trago ; um mortal accidente o levou á cama.
Assistido de médicos se viu o enfermo ; mas que
importava, «se nas boticas não havia cordeaes
contra similhante veneno?»
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 277
Viu que uma ingratidão o matava sem cura,
fiou a um amigo a causa, ordenando-lhe que
escrevesse e fechasse uma carta e que, cerrados
seus olhos á luz da vida, a puzesse nas mãos de
quem lhe dera a morte, declarando-lhe como havia
de conseguir o intento. Tudo succedeu, porque,
morto Fernão Martins, se entregou a carta, e com
ella a nova de sua morte, a Violante, « que, assal-
tada de uma mortal tristeza, assim a congelou o
pasmo que, suffocados os espíritos vitaes, cahiu
morta de um repentino accidente. »
A queda e grita, acudiram o pae, o esposo e a
família; assombrados os deixou o caso, e muito mais
a causa, quando a leram na carta que a defunta
tinha na mão.
Divulgou-se pela corte o successo e n'elle teve
assumpto a pratica de todos, por muitos dias, « con-
siderando vencido nos amores quem sempre vencera
nas armas.»
. O que tudo consta do extractado cap. vm do
livro x da parte vn da « Monarchia Lusitana » : Nar-
ração de um peregrino caso succedido na cidade de
Lisboa entre dous amantes.
*
Nas bandas do Porto peregrino successo de amor
aquelle foi que cantou a poetisa portuense, por
278 PORTUEN3ES ILLUSTRES
quem me propuz encetar tarefa, D. Bernarda Fer-
reira de Lacerda.
Convém o lisbonense José Maria da Costa e
Silva em que, de todas as cidades de Portugal, se
exceptuarmos Lisboa, nenhuma pôde competir com
o Porto no numero de litteratos, e especialmente de
poetas, que tem produzido; e assevera que entre
estes occupa um logar muito distincto D. Bernarda
Ferreira de Lacerda. «Esta senhora (elle escreve)
foi filha de Ignacio Ferreira Leitão, dezembargador
do Paço e chanceller-mór do reino, e de sua mulher,
D. Paula de Sá Pereira, e nasceu na segunda capital
do reino em 1595.»
De feito, D. Bernarda Ferreira de Lacerda foi
celebrada pelos melhores poetas do seu tempo, tanto
portuguezes como castelhanos, distinguindo-se entre
elles o famoso Lope de Vega, que lhe dedicou a sua
écloga Phyllisy impressa em 1635.
Todavia, no concernente á sua Espana Uber-
tada, o mesmo Costa e Silva registra que tal obra
não pôde, na opinião dos críticos, considerar-se um
poema heróico, mas sim uma chronica, ou, melhor,
uma reunião de chronicas postas em verso, ligadas
umas a outras, sem fabula, sem contextura dramá-
tica e sem maravilhoso. Accrescenta que o seu
principal mérito consiste em alguns episódios, «como
a vingança de D. Ramiro contra o rei mouro, que
lhe seduzira e roubara sua mulher.»
A lenda portuense que serviu de assumpto a
D. Bernarda Ferreira de Lacerda para o principal
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 279
trecho do canto vi da primeira parte da sua Es-
pana libertada, impressa em 1618, o deu egual-
mente para a breve recopilação e tractado que,
tirado das antiguidades de Hespanha, compòz em
verso oitava rima João Vaz, natural da cidade de
Évora.
Pelo argumento e declaração da historia se ins-
true o afadigado e impaciente leitor actual; com o
sabor ingénuo da prosa passa ia, elle apura assim
que no tempo em que reinava em Galliza e em
Leão o animoso rei Ramiro, que casado foi com
uma nobre dama chamada Gaya, entre outros reis
mouros que o ocupavam o restante se contava o
esforçado Almançor, ou Alboazar, segando diversa
versão.
Havendo estes dous reis entre si batalhas, em
uma captivou Ramiro uma irmã d^sse Almançor,
« a qual tinha por amiga, do que enojada, Gaya
tractou com Almançor a quizesse furtar, que ella
daria ordem como se fosse com elle, como deu, e a
cobrou e levou para Portugal, que estava de mou-
ros. » Assim fazendo, elle a foi pôr junto doesta
nossa cidade do Porto, cerce do rio Douro, sobre
o logar a que continuamos chamando agora Gaya,
onde Almançor tinha seus paços.
Vendo o que, Ramiro ordenou três galés de ar-
mada, e com ellas veio aportar a S. João da Foz,
e de noite se entrou com ellas pelo rio Douro,
sem que fossem sentidos dos mouros, e cobertas
de ramos, por não serem vistos. Tanto que ama-
28o PORTUENSES ILLUSTRKS
nheceu, Ramiro se poz em trajos de romeiro e
sahiu em terra, deixando dito aos seus que, se ou-
vissem tanger uma buzina que comsigo levava, lhe
acudissem, e depois se foi guiando para os paços
d'aquelle mouro.
Assim andando, chegou a uma fonte, aonde
com elle veio ter uma moura, que vinha buscar
um púcaro d'agua, para sua senhora Gaya. Ora,
« fallando-lhe em arábio, lhe pediu o púcaro para
beber por elle, e ella lh'o deu. » Elle, porém, depois
de beber, tirou um annel do dedo e o deitou den-
tro do púcaro, sem que a moura o visse; mas, be-
bendo, por sua vez, Gaya, conheceu que o annel
era de seu esposo Ramiro e o mandou chamar,
por quanto Almançor era ido á caça.
Vendo-se os dois, se abraçaram e, falsa, com
Ramiro conveio Gaya em se matar o mouro e
irem-se ambos, encerrando-o, fingidamente, para
isso, em uma camará, para que, quando Almançor
dormisse a sesta, ella a elle Ramiro lhe desse re-
bate. NMsto, veio Almançor da caça; e, sentado á
meza para comer, logo Gaya lhe deu conta de Ra-
miro e como para o matar a elle Almançor é que
aquell'outro vinha,
Iroso, o mouro o mandou buscar ; e, « passa-
das entre ambos algumas razões», por fim Alman-
çor lhe perguntou : — « Se eu, Ramiro, fosse a tua
casa para te matar, que me fizeras?» Ramiro lhe
respondeu: — «Mandava-te levar a um alto, e com
esta buzina te . fizera tanger até que rebentaras. »
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 28 1
Ordenou então Almançor que aquillo mesmo a elle
Ih' o fizesâem.
Mas, levado ao alto e começando Ramiro sua
buzina a tanger, prestes sua gente lhe acudiu e,
tomando os mouros descuidados, degolaram a Al-
mançor e a seus parciaes, e foi saqueada a terra.
Aqui remata o commentario candoroso de João
Vaz que : « D'esta Gaya ficou o nome do logar de
Gaya, da cidade do Porto. »
Mas não rematara a historia, que prosegue con-
tando como Rei Ramiro matou outrosim sua trai-
dora mulher Gaya, cioso das saudades d'esta pelo
degolado mouro, tam querido.
Em seu diccionârio, Pinho Leal, no artigo que
dedica a Ancora, rio, Minho, comarca de Vianna,
concelho de Caminha, informa-nos que « os celtas*
e depois d'elles os romanos, davam a este rio o
nome de Spaco y e os segundos á foz d'elle — Vico-
Spaco-rum. » Mas tudo havia de mudar nome com
o caso d'esse fatal rei Ramiro, que, indo, com sua
comitiva, « caminhando para o N., a 6 kilometros
distante de Mohte-Dôr, chegaram ao rio Spaco, e
aqui, mandando prender a rainha a uma ancora
(pelo pescoço), elle e seus filhos (!!!) a deitaram ao
riOj onde se afogou. » Attingido este ponto, Pinho
Leal, sceptico sem embargo, explica provisoria-
mente : « Desde então se ficou chamando ao
Spaco Rio da Ancora, ou Rio Ancora. »
Entendendo Pinho Leal que o romance de D.
Bernarda Ferreira de Lacerda e os de seus emulos
282 PORTUENSES ILLUáTRES
«não passam de. . . romances», consigna que,
mesmo assim, elle deu motivo ás antigas armas
de Vizeu e rememora que «o chorado Garrett, no
seu bellissimo poemeto intitulado Miragaya, conta
o caso de modo bastante diverso. »
Foi das primeiras coisas de tal género em que
Garrett trabalhou; era a mais antiga reminiscência
de poesia popular que lhe ficara da infância, porque
abrira os olhos á primeira luz da rasão nos próprios
pontos em que passam as principaes scenas d'esse
romance; com os olhos tapados, elle iria achar ainda
todos esses si tios marcados pela tradição. «Muita
vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é
deliciosa, com effeito; e tenho' idéa de me ter cus-
tado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da
feira de S. Miguel, os toques de buzina de S. M.
Leoneza, empoleirando-me, como elle, n'um resto de
muralha velha do castello d'el-rei Alboazar: o que
meu pae desapprovou com tam significante energia
que ainda hoje me lembra também.»
Na variante garrettiana o nome do rei mouro é
o mesmo que adoptara em seu poema D. Bernarda
Ferreira de Lacerda para aquelle ludibriado-ludi-
briador a quem Ramiro, ludibriador-ludibriado,
Garrett nos refere que partira a cabeça até aos pei-
tos. Após o que, tudo morto ou captivo e o castello
a arder, embarcar se foram logo ás galés com seu
despojo, pressurosos vogando, remando, na anciã
de passar além Douro, que de christãos terra era.
A popa da galé real ia Ramiro, que á sua direita
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 283
levava a rainha; ella, porém, muda, de olhos baixos
na agua. Já estavam a meia corrente, sem palavra
de um para o outro, ainda ardendo, fumegando
ainda o alcaçar do moiro. Gaya levantou então os
olhos e, triste, se poz a mirar, ao longo das faces
desfiando-lhe as lagrimas uma depois d'outra. Mas
Ramiro a interpella porque é que chora e lhe per-
gunta o que é que mira. Acre, ella lhe redargue que
chora não ter já o mouro em seus braços; amarga,
lhe contesta que mira as torres do bem-amado alca-
çar que fumegando estão sempre.
— Pois mira, Gaya ! E, dizendo,
Da espada foi arrancar;
A/ira, Gaya, que esses olhos
Nào terão mais que mirar.
De um talho lhe rolou a cabeça; e, para que o
Douro ao mar os leve, com o pé, pela borda fora
empuxa o corpo. . . Mas do estranho caso inda
agora a memoria está perdurando. Por isso que,
sendo Gaya o nome do castello que por mòr de
Gaya se queimou, d'alem Douro aquella riba onde
estava a aproar o barco, quando o rei, que logo a
degolaria, bramiu: « — Mira, Gaya! >, ainda hoje, na
popular tradição está dizendo
Que o nome tem — Miragnya
D'aquelle fatal mirar.
284 PORTUENSES ILLUSTRES
/
*
* *
Se Almeida Garrett nos interessa e gloria, mais
nos interessa e honra o n.° 72.
Em data apropositada o disse.
Porquanto, a simples exposição dos insignes mé-
ritos litterarios que distinguiram a culminante per-
sonalidade de Almeida Garrett ; a apreciação e exame
das obras typicas da sua variada phantasia: tarefa
seria esta que, sem desdizer, pouco condiria, ainda
assim, com a indole especial da folha, politica, de
propaganda e combate, onde o disse então.
Mas, como Almeida Garrett consagrou uma
grandíssima parte da sua actividade mental á pro-
paganda dos princípios de liberdade e de justiça, e
como por elles brigou um rude combate, assistia-nos
o jus de cooperar também na commemoração que,
por honra do seu nome glorioso, se effectuava
então, em essa data, do centenário do seu nasci-
mento.
Ás publicações especiaes, ás revistas de pura
litteratura e arte extreme é que quadrava no mo-
mento assignalar os dotes de imaginação inventiva
e de plasticidade realisadora que avultam em obras
tam primorosas, como sejam o drama Frei Luiz de
Sousa, as Viagens na minha terra, ou essa admi-
rável collecção de versos lyricos que, na velhice do
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 285
auctor, realtsaram o fascinante encanta de um lím-
pido rejuvenescimento.
A uma folha politica pertencia, porém, recor-
dar o effeito social do escriptor a cujo esforço
particularmente se deva a renovação do critério
litterario, comprimido em Portugal a dentro . dos
moldes estreitos d*um pseudo-classicismo, inerte
e rigido.
Todos os dias correndo risco de prisão, graças
á vingança que sobre o exercício d'um direito
natural promovera a freima de mesquinhos tyranne-
tes, era-nos grato saudar então em Almeida Garrett
o cantor da liberdade de imprensa, que elle accla-
mou em uma das mais bellas odes da sua Lyrica
de Joào Mínimo.
E não unicamente a liberdade de imprensa foi
thema dos cânticos de Garrett, pois que todas as
expressões da liberdade jurídica lograram mover
sempre seu nobre coração.
Amando fervorosamente a pátria, elle não a
julgava digna, apezar de tudo, d'esse seu amor
senão depois que ella se libertara das tradicionaes
oppressões.
D'est'arte foi que desde 1819 os seus versos se
inspiravam já das revindictas da consciência ultra-
jada. Nos pezadellos das noites mal dormidas, elle,
mesmo já então, confessa :
Maldisse os ferros que me pezam irtda
E aos tyrannos jurei ódio implacável.
286 PORTUENSES ILLUSTRES
A guarnição militar do Porto, em 24 de agosto
de 1820, porém, poz termo á abominável situação,
revoltando-se e dos seus quartéis sahindo, de mor-
rões accesos e clarins em fúria.
Logo, a musa de Garrett se touca das flores
ingénuas da esperança ; de jubilo riem seus negros
olhos; e é com um impeto santo que ella acclama
a Liberdade:
Oh Suspirada ha tanto,
Tu nos franqueias da existência o goso ;
E as ferrolhadas portas,
Que o sacrário das leis da natureza
Árduas téqui fechavam,
Tu nos abres em par — homens já somos!
Como portuense, Garrett envaidece-se de que a
iniciativa da regeneração nacional parta da sua
gente do Porto:
O pátrio Douro altivo
Espedaçando os ferros ;
e comprehende-se agora que, na também iniciativa
republicana do 31 de janeiro de 91, nós, do Porto,
terminalmente, demos a dextra a esse representante
da ancestral independência da região.
Mais tarde, após o fragor duma lueta civil
immensa, Garrett assignou-se como um «fraco
mas fiel soldado da pátria. »
Bem mais fracos do que elle, mas tam fieis como
elle, nós o somos outrosim; e as nossas sympa-
thias vão, de direito, sinceras e espontâneas, buscar
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 287
a memoria cTaquelles que, consoante amargamente
Garrett o registrava, «libertaram esta nossa terra
de Portugal, para viverem escravos n'ella. »
Escravos mais abatidos do que as victimas
outrora gemendo, joguete do ludibrio constitu-
cional, resultávamos então nós, pois que ao esti-
mulo da propaganda dos que se não resignam,
desfallecidamente, correspondesse a concordância
d'uma massa, no geral, então indifferente e atona.
A turba congénere do tempo de Garrett indignava
e irritava o poeta.
Na sua cólera, elle repudiava essss compatrio-
tas, como portuguezes não sendo :
. . . Essa infame, sórdida caterva,
Esse rebanho vil de vis escravos
Que ao sceptro da ignorância acurvam, timidos,
Do nome portuguez vergonha e opprobrio,
Portuguezes náo sâo, jamais o foram.
Era que Almeida Garrett não deixava illudir o
seu claro espirito pelos sophismas d'aquelles que
escondem a perversidade dos seus intuitos egoístas
na apparencia de formulas vãs. Nem o enganavam
as cobardes evasivas dos que se protegem acoco-
rando-se sob o manto da irresponsabilidade do
chefe-do-Estado, proclamada aliás como um dogma
absoluto. Elle não respeitava aquella estúpida (e,
consequentemente, tam vulgar) desculpa que o
funccionario que perpetra odiosos attentados con-
tra os direitos naturaes do cidadão costuma alie-
288 PORTUENSES ILLUSTRES
gar, em sua defeza, cynicamente declarando que
foi mandado.
Pois mesmo, quanto ao próprio chefe-do-Estado,
elle tinha o parecer de que a sua auctoridade só
era admissível e digna de acato quando não offen-
dia o implicito compromisso, tomado com os cida-
dãos, de lhes respeitar e garantir suas prerogativas
e franquias.
Para os portuguezes, Garrett apostola esta
doutrina :
Se um rei, ou por si ou por seus indignos ministros,
infringir, esquecer, abusar ou preterir alguns dos artigos das
leis fundamentaes, quer tácitas quer expressas, este rei será um
tyranno, e seus ministros — sacrílegos réus do maior dos atten-
tados, dum crime de leza-nação; seus ministros, seus satellites,
seus magistrados, seus conselheiros, seus validos serão traido-
res, infames, indignos do nome, do caracter, dos foros de cida-
dão e até de homem.
Ao deante Garrett não refuta esta lidima philo-
sophia ; antes a corrobora com a licção mesma de
Portugal. Revolta-se contra a phrase servil que
attribue a um príncipe a outhorga da constituição,
aliás comprada a preço do sangue entornado na
balança de cem refregas. Elle exclama:
D. Pedro iv não podia dar, como falsamente se diz, mas
propor a sua Carta á acceitação nacional. Essa proposição real
teria sido nulla sem o acceite da Nação.
Comprehende-se, depois d'isto, como fosse que
Almeida Garrett, no seu volume de publicista, se
IX RIBEIRO — LACERDA -"- GARRETT BASTO, &C. 289
emancipasse dos preconceitos consuetudinários. Mas.
libertou^se, e até ao ponto de descortinar no futuro
a fraternisação de todos os . povos civilisados, a
extincção dos ódios de raça e nacionalidade. Para
Portugal, logicamente, congeminou a possibilidade,
então, da sua comparticipe entrada em uma fede-
ração dos vários Estados peninsulares, conjectura
theorica que, adrede mal interpretada, levou o sys-
tematico Don Sinibaldo de Más a encorporar o
vate ha phalange astuta dos partidários da sua
chimera ibérica.
Era uma falsidade e uma injustiça; mas o que
então e hoje era verdadeiro e justo é o seu enten-
dimento, perfeito e integral, da liberdade dos povos.
Assim, elle bem viu ò caracter superior, transcen-
dente e supremo, da democracia republicana ; e, pois,
a definiu com inabalável exacção. Explicou :
Sc uma nação conserva em si toda a amplidão da mages-
tade (embora tenha executores subalternos), esta forma de
governo se chama — Democracia, e um tal povo — Repu-
blica.
Consequentemente, todas as formas politicas que
precedam essa — não passam de phases transitórias
d'um desenvolvimento continuo, que pôde, de resto,
ser moroso, contradictorio mesmo, mas que, em sua
essência, é ininterrupto.
Esse movimento de progressiva acquisição de
liberdade civica demanda, infelizmente, mercê d'uma
fatalidade incomprehensivel, a propulsora interven-
VOL. I. \<)
29° PORTUENSES ILLU3TKES
Ção, d'onde a onde, de processos violentos. Isto é :
instantes surgem, na historia das nações, em que
ellas sentem a necessidade imprescriptivel da revo-
lução. Garrett não o duvida um único momento;
e só pergunta «por quem é que, no estado actual
de Portugal, deve começar o grito da Liberdade?»
fHscute então cuidadosamente o problema; exa-
mina as probabilidades diversas que militam a favor
do clero, da nobreza, do povo. Finalmente, decide-se
pela força armada. Elle escreve que ao exercito é
que cabe o direito e incumbe o dever de fazer a
revolução. Affirma até que é o exercito a classe mais
interessada em a fazer. Por isso seja que, a seu
juizo, foi «justamente e com toda a legitimidade»
que o exercito «fez e protegeu» a «feliz» revolução
de 1820.
Se esta é, no assumpto, a doutrina substancial
de Garrett, não quer isto dizer que elle exclua, por
completo, da participação na revolução as outras
classes sociaes. Bem ao contrario.
Assim, entende que a Academia, na hora do
perigo, deve abandonar os livros e correr ás armas,
de maneira que a audácia d'um valoroso commetti-
mento corporativo expie a protervia de vastos perío-
dos anteriores de pusillanimidade social.
Na salla dos actos grandes da Universidade de
Coimbra, Garrett, dominado pelo dictamen d'esta
idéa fundamental, grita aos estudantes seus condis-
cípulos :
IX — RIBEIRO — LACERDA — GAKRfitT — BASTO, &C. 2$t
*
Annos de escravidão vingue um só dia,
Séculos ganhem fugitivas horas,
Em livres brados á virtude, á gloria,
O franco peito aos cidadãos movamos.
Pode mais do que a espada a voz e penna;
Mas, se a espada cumprir, cinja-se a espada %
E veja o mundo, com terror e espanto,
Em cada filho de Minerva um Marte.
Tremam á nossa voz, caiam pof terra,
Áos nossos golpes, quantos se atreverem
A usurpar os direitos d 'esse povo,
Que em nós, sua escolhida juventude,
A melhor esperança tem da pátria.
Oh ! Xao lhes mallogremos esta esp'ranca,
Sejamos, como sempre, Portuguezcs,
Vivamos livres. . . ou morramos homens.
Garrett não desmentiu com o exemplo da sua
conducta a licção das suas palavras. Elle correu o
exilio, elle esteve nas prisões, pelejou nas trinchei-
ras. Nunca esqueceu seus companheiros de ca-
serna.
Foi o n.° 72 do corpo académico durante o
cerco do Porto. Ao seu coronel Luna, recorda,
n'uma das mais sinceras paginas que sahiram da
sua penna fácil, os tempos saudosos da camarada-
gem no perigo.
Adoptada a iniciativa da commemoração d'então
por uma juventude académica, que não era, por
certo, nem menos intelligente nem menos briosa do
que a da epocha de Garrett, occorreu-me chamar a
memoria d' elle pelo numero que elle teve na fileira.
Seria como que uma religiosa invocação, estimulante
e exemplificante, n'esse momento augustioso em
que, para os destinos próximos da pátria que
2Ç2 PORTUENSES ILLUSTRES
Almeida-Garrett tanto amou, legitimamente se não
podiam presumir senão desventuras e vergonhas.
Sim, senão desventuras e vergonhas, repeti,
convicto, se os contemporâneos da apotheose de
Garrett não fossem capazes de na data ou ulte-
riormente imitar, em isenção, lealdade e altivo de-
nodo, os coevos da sua vida trabalhosa e dedicada.
Que outros lembrassem com meiguice o pintor
da Joanninha dos verdes olhos, o poeta Garrett.
Eu, então, só me queria recordar — porque o não
dizer?, com ostensiva inveja; mas porque o não
dizer também?, com secreta esperança! — só me
queria recordar, então do n.° 72, o soldado Garrett
Este, a meu alvitre, então e hoje, actualmente e
sempre, o fecundo modelo. Para as novas gerações,
eis ahi, era então, e eis aqui, é ainda hoje, o neo-
garrettismo que cumpre.
Do poeta e do artista que devaneou sobre a
catastrophe amorosa de Ramiro, em hora de reman-
so sempre haverá que admirar, para comparar e
seguir.
Sua iniciativa no aproveitamento poético . das
tradições populares e eruditas também em sua terra
do Porto a acolheram e imitaram, como o fez quasi
que logo á epocha seu conterrâneo Evaristo Basto,
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 293
que, porém, a lyra extranha (de Bermudez de Cas-
tro) recorreu em adequada nacionalisação formal;
mas, creador do folhetim no Porto, sua composição
poética que mais clamorosa retumbou foi o romance
(em verso), no Porto em 1845 publicado, n*um
opúsculo, constante de 414 versos sete-syllabos, e
tendo o titulo acirrante de Uma visita da rainha
de Portugal ao castello de Thomar, opúsculo de
muito effeitó no tempo da sua publicação, ç que era
«procurado com anciã pelos opposicionistas», reme-
mora Innocencio. Por isso, os exemplares desappa-
receram, a ponto de serem hoje — 1870 — raríssimos
de encontrar.
Evaristo Basto recebeiu o grau de bacharel em
direito no anno de 1846; sobrevindo n'esse tempo
a lucta civil, entrou no serviço da Junta do Porto,
e foi-lhe dado o logar de official maior e chefe da
quarta repartição do governo civil, que desempenhou
até á convenção de Gramido.
A qual foi redigida por outro portuense, António
Augusto Teixeira de Vasconcellos. Em o seu Livro
de critica, por baixo de seu retrato, o auctor assi-
gnou « Luciano Cordeiro, Transmontano. » Na capa
e pagina de rosto de seus livros António Augusto
Teixeira de Vasconcellos punha sempre, após seu
2^4 PORTUENSES ILLU5TRES
nome, a rubrica ufana «Natural do Porto.» Dizia
elle, nas familiares palestras, que, se, ao vir ao
mundo uma fada bemfazeja 111*0 perguntasse, elle
responderia que, portuguez, seu desejo era nascer
no Porto, viver em Lisboa, morrer em Paris. Assim
lhe occorreu. Nasceu no Porto, viveu (como o me-
dico Thomaz de Carvalho, portuense) em Lisboa e
morreu em Paris. Viajara ; e ás Viagens na minha
terra do portuense Garrett ha a contrapor, na dis-
tancia infinita do mérito, as Viagens na terra alluia,
do portuense Teixeira de Vasconcellos.
* •
Após a convenção de Gramido, tomou Evaristo
Basto conta da redacção do Nacional, associado
com José Joaquim Gonçalves Basto, portuense
também, emigrado em 1828 e que em Paris casara
com a irmã do litterato germano-francez Loéve-
Weimar, dama decantada na mocidade e formo-
sura por Júlio Janin (A formosa das violetas) e
chorada na velhice e demência do infortúnio por
Camillo Castello-Branco.
Também em 1846, frequentando o curso de
direito na Universidade de Coimbra, se alistou no
batalhão académico e para o Porto partiu o por-
tuense Ricardo Guimarães (ao depois visconde de
Benalcanfor), dispondo-se a seguir a causa da
IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 295
liberdade, embarcando na esquadra da Janta com a
divisão do conde das Antas. Folhetinista colorista,
veio Ricardo Guimarães a viajar largamente e as
suas impressões de viagens as consignou em nume-
rosos volumes.
Em 1864 publicara o seu primeiro livro Narra-
tivas e episódios da vida politica e parlamentar, ceie-
brisando-se, d'entre suas laudas, as paginas, por
exemplo, dedicadas a Manuel da Silva Passos.
Porém d'este, que poderemos considerar, por
varias e procedentes rasões, portuense (bem como
de seu irmão José da Silva Passos, no segundo
tomo d'esta obra de relance também percebido) não
fallarei aqui, pois que largamente me proponha
tractar d'elle em minha continuação da minha
edição da Historia de Portugal, de Schaefer.
1
■
K
i
•1
X
Thomaz António Gonzaga — Diogo Bran-
dão — Jeronymo de Mendonça — Luiz
Pereira Brandão.
M
as n'essa mesma Miragaya, honrada pela
musa de Garrett e cujo nome poeticamente se deri-
varia d'um amor fatal, viu esta luz terrena poeta
d'amor cujo enlevo lugubremente o tinha de resol-
ver uma fatalidade trágica. Na rua dos Cobertos
nasceu em 1774 Thomaz António Gonzaga, filho
do licenceado João Bernardo Gonzaga e de sua
esposa D. Thomazia Isabel Gonzaga, ambos brazi-
leiros, escreve o dr. Valentim de Magalhães na bio-
graphia recentemente publicada. Não bem assim.
João Bernardo Gonzaga era, com effeito, natural
do Rio-de- Janeiro, filho de Thomé do Souto Gon-
zaga e de sua mulher, D. Thereza Jação, natural
do mesmo Rio. Mas D. Thomazia Isabel Gonzaga,
mãe do poeta, era natural da cidade do Porto,
2Ç)S PORTUEXSE? H.LUÍTRSS
freguezia de Miragaya, filha de Maríanna Clark,
também da dita cidade do Porto, e de seu marido
João Clark, de nação ingieza, natural da cidade de
Londres.
Qual fora a verdadeira naturalidade de Gonzaga,
ponto é que foi longamente controvertido, como
outros com respeito a um poeta de que, consoante
o registra Innocencio, se ufanam egualmente portu-
gueses e brazileiros, sendo mui para notar o tropel
de erros e incongruências a que a vida e a obra do
artista insigne forneceram margem. Mas ainda até
nossos tempos não se havia apurado ao certo o dia de
seu nascimento, o qual Innocencio exara que occor-
rera no mez de agosto do referido anno de 1744,
em dia que se ignora. Já se não ignora. Foi o dia 11.
A honra doesta descoberta pertence ao snr. An-
tónio Borges do Canto Moniz, distincto e modesto
litterato de origem açoriana, auctor de trabalhos
apreciáveis, entre os quaes uma interessante mono-
graphia acerca da ilha Graciosa, credora da attenção
de Pinheiro Chagas. No num. 141 (3. anno) de A
Folha, periódico de Ponta Delgada, cuja redacção
dirige D. Alice Moderno, escriptora de mérito, fez
inserir o snr. Canto Moniz, em 18 de junho, um
valioso artigo, intitulado Marília de Dirceu por Gon-
zaga, no qual publicou a certidão de baptismo do
poeta, em documento passado, a 2 de maio do anno
de 1905, pelo padre Júlio Albino Ferreira, digno
escrivão da camará ecclesiastica d'esta cidade do
Porto.
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 299
/
Cursando os estudos de direito na Universidade
de Coimbra, fez Thomaz António Gonzaga a suà
formatura em 1763, quando contava, pois, de edade
19 annos; admittido aos logares de lettras, serviu
primeiramente como juiz-de-fóra na cidade de Beja
e em outras de Portugal, até ser, no anno de 1782,
nomeado ouvidor da comarca de Villa-Ricca, na
r
província de Minas-Geraes, do então Estado do
Brazil. Para ahi partiu em algum dos annos seguin-
tes; e estava no de 1789 despachado dezembargador
da Relação da Bahia, e contractado a desposar-sé
em Minas com D. Maria Joaquina Dorothea de
Seixas Brandão, sobrinha e tutelada do tenente-
coronel ajudante d'ordens João Carlos Xavier da
Silva Ferrão, aquella Marília que immortalisou em
lyras suavíssimas e para quem elle-mesmo bordava
o vestido de noiva, havendo, no sequestro de seus
bens feito por occasião da sua prisão, entrado o
dedal de oiro com que fazia esse trabalho.
Pois que, na manhã de 23 de maio d'aquelle
anno fatal, íoi preso em sua casa, e conduzido ao
Rio-de- Janeiro, para ser ahi encerrado na fortaleza
da ilha das Cobras, e mettido em processo, como.
um dos auctores do projecto de levantamento em
Minas-Geraes. Seguindo-se os termos do dito pro-
cesso, no qual foi não menos de quatro vezes
interrogado pelos juizes da Alçada, veiu afinal em
18 de abril de 1792 a sentença que, apezar da sua
constante negativa e enérgica defeza, o condemnou
a degredo perpetuo em um dos presídios de Angola
3<X> PORTUENSES ILLU3TRES
e na confiscação de seus bens: sentença que, por
virtude de um decreto de D. Maria i passado muito
antes, em 15 de outubro de 1790, lhe foi depois
commutada em dez annos de degredo para Moçam-
bique, com pena de morte, se voltasse á America.
No dia 23 de maio de 1792, depois de três
annos completos de prisão, embarcou para o exílio,
com outros camaradas de sua desgraça. Mas não o
acompanhou a sua Marília, se bem que quem
affirme haja que Gonzaga, da prisão, propuzera á
sua amada o casamento, que eila não acceitara.
Aqui explue com eloquência o Ímpeto da juvenili-
dade de Lopes de Mendonça, em recriminação
acerba, que elle próprio confessa depois escripta
para produzir effeito:
Quereis ser Marília, quereis desposar um homem elevado
pelo talento, e de um caracter nobre e generoso : não vos levo
isso a mal. Nada ha mais sublime do que adormecer com uma
caricia a cabeça que penosamente medita; é uma digna ambição
sentir palpitar junto ao peito um coração esforçado, que sabe
amar e padecer. Mas, quando esse poeta, que existe n'uma po-
sição eminente; quando esse homem lança fora dos hombros a
toga do magistrado, para vestir a opa do tribuno; quando
troca a cadeira do juiz pela masmorra do condemnado; quando,
inspirado por uma devoção sublime, quer vêr a. . . terra solta
das tyrannias. . . e pensa no exemplo. . ., para lhe dar as li-
berdades da republica; quando está pobre e desterrado n'um
clima devorador: entio é partir, é abandonar as ricas planices
do Novo-Mundo pelos estéreis sertões da Africa, é premiar
rTelle o poeta que canta o seu amor, o republicano que expia o
seu grandioso delicto !
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 3OI .
Desembarcado Gonzaga em Moçambique, foi,
pouco tempo depois, assaltado de uma febre ardente
e mortal, a cuja violência teria sem duvida sucum-
bido, se lhe não valessem, segundo se assevera, os.
efricazes cuidados de D. Julianna de Souza Masca-
renhas, filha de Alexandre Roberto Mascarenhas
(que em sua casa benignamente o hospedara), com
a qual veio a casar no anno seguinte de 1793.
Biographos ha outrosim, como Veggezzi Ruscaila,
•
elegante traductor italiano das lyras de Gonzaga,
que aventaram o asserto de que, por sua banda, a
decantada, « cedendo a instancias de família, viera a
casar-se com um official do exercito portuguez. »
O que é tristemente certo é que em Moçambique
passou o poeta os últimos quinze annos de uma
vida amargurada, óra, narra Innocencio, «entre
accessos de louca e tenebrosa melancholia, promo-
vidos peia lembrança de suas desditas, e aggravados
pelo génio leviano e perdulário da esposa, que não
tardou em dissipar os bens provenientes do dote e
da legitima paterna \ óra aproveitando no exercicio
da advocacia os instantes que lhe deixavam livres
suas enfermidades.»
O excellente artigo do snr. Canto Moniz foi es-
cripto n'esta cidade em 18 de maio do anno de 1905.
Elle termina assim: «Gonzaga deixou de existir em
1807, tendo 62 annos de edade, e jaz sepultado na
sé de Moçambique: o seu centenário, salvo erro,
passa, portanto, d'aqui por dois annos. Não virá
talvez longe o dia em que o Porto, com o altruísmo
3<>2 PORTUENSES ILLU3TRES
que o distingue sempre nos grandes enthusiasmos
e nas acções de generoso civismo, faça transportar
os pobres restos mortaes do insigne poeta portuense,
para lhe dar sepultura condigna em qualquer dos
sumptuosos cemitérios que possue, e então ahi
fazer-lhe erigir um singelo monumento, no qual a
posteridade leia, ao menos, possuída de justificado
orgulho, que o imrhortal auctor da Marília de Dirceu
é filho d'esta cidade. >
Se d^amores disse o portuense Thomaz António
Gonzaga, d'armas e amores dissera o portuense
Diogo Brandão.
Archiva o nome e consigna o facto Diogo Bar-
bosa Machado, com referir que na egreja de S. Fran-
cisco, do Porto, na tampa de um tumulo estira-se
um cavalleiro de pedra ao de sobre a ossada do
morto.
Esse foi em vida um dos que precederam o
advento do poema nacional, n'essa passagem gra-
duada que se opera das formas da chronica rimada
para a epopea histórica.
Estudando successivamente e de conjuncto as
primeiras tentativas de uma epopea nacional, o dr.
Theophilo Braga mostra como o poema de Affonso
Giraides á batalha de Salado é uma imitação das
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 303
formas métricas usadas na corte de Aftonso xi;
diz que as coplas de Diogo Velho á descoberta da
índia nos dão o fio da tradição prophetica do Ledo
dormente, symbolisando o rei de Portugal ; assegura
que João de Barros é o primeiro que, presentindo
a unidade nacional, reconhece a necessidade de
uma epopea que seja a expressão d'essa consciên-
cia; declara como Luiz Anriques conhece já o
symbolo da unidade politica de Portugal represen-
tado pela identificação imaginaria dos Lusitanos
com os Portuguezes.
Porém de nenhum d'estes seja óra nossa cura.
E do eiencho do sábio professor partamos na cata
da zona referente á Lamentação á morte de D.
Jodo r/y pois que de engenho portuense emergisse,
o d'esse que na portuense egreja de S. Francisco,
Barbosa Machado informa que repousa sob o sello
da própria figura em pedra, resguardadôra e inti-
mativa.
r
E tal poeta um dos principaes vultos do Can-
cioneiro de Rezende; irmão mais velho da decantada
Maria da sentidíssima écloga Crisfal; imitador da
eschola hespanhola do século xv: nol-o recorda
Theophilo Braga,, que, notando que elle ignora as
formas da epopea moderna impostas pela Itália, nos
observa que presente o valor dos poemas históricos
deante dos immensos successos da corte de D.
João 11 e nos lecciona que, em uma longa elegia á
morte do príncipe, adopta a antiga outava dos
trovadores, como Affonso Sábio ou Francisco Im-
304 PORTUENSES ILLUSTRES
penal, com o tom narrativo de uma chronica. Elle
expõe rapidamente a successão dos reis de Portu-
gal desde D. João i até D. João n, tendendo sem-
pre para os vagos aphorismos moraes do desprezo
do mundo. «Quando Camões (Theophilo Braga
escreveu) traçou episodicamento o quadro da histo-
ria de Portugal, não foi legado como Diogo Bran-
dão unicamente pela synthese moral para que são
trazidas todas estas outavas — as que citara prece-
dentemente — ; tinha em vista fazer sobresahir pela
poesia os lances mais vivos da historia de cada rei-
nado. A intenção moral não basta para a obra de
arte; Diogo Brandão, não só pela ignorância da
eschola italiana como pela estreiteza do seu ideal,
não podia encetar a grande epopea portugueza que.
a nossa vida histórica exigia.»
A Diogo Brandão, a tradição clássica o não
preoccupava :
Dizer dos antigos, que sam consumidos,
não quero em Gregos lallar nem Romàos,
mas nos que cahem aqui d'antre as mãos,
^ vistos de nós e de nós conhecidos.
Dos que d'elle mais proximamente conhecidos
eram e para elles (elles e ellas) é que Diogo Bran-
dão queria e sabia fallar, desempoeiradamente,
mesmo á guisa affectuosa, sem empachos sempre.
D'óra em vez, com affectação e rebuscamento,
o que era e seria prezado como timbre de agudeza
de engenhos ; e por isso encómios lhe deu Uorenzo
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 305
Gracian. Mas Lorenzo Gracian nada mais é litera-
riamente do que o simples nome de um seu irmão,
de que, inhibido de galantear, se valeu para dar
pae a artísticos, irrequietos filhos d'um engenho
gongorico aquelle jesuíta Baltazar Gracian cuja lei-
tura ainda agora estimava o excêntrico Schope-
nhauer.
Não é fácil ao leitor apurar juizo da graciosi-
dade, digna de que seja posta em destaque, por
Diogo Brandão patenteada em algumas de suas
composições archivadas no precioso repositório ;
porquanto na colheita effectuada pelos irmãos Cas-
tilhos em sua Livraria clássica elle está escas-
samente representado e a própria reedição de
Stuttgard do Cancioneiro de Garcia de Rezende é,
ella- mesma, rara e cara.
Na Anthologia Portngucza, collecção de trechos
selectos, coordenados pelo dr. Theophilo Braga, sob
a classificação dos géneros litterarios e precedidos
de uma poética histórica portugueza, que é a parte
complementar do Manual de Litteratura, encontra-
mo-nos com a «Lamentação á morte del-rey Dom
João o Segundo que he em santa groria » ; e das
esparsas que ahi topamos, sendo uma de Duarte
da Gama, a outra é do nosso Diogo Brandão, re-
quebrando-se a uma dama, esquiva, que admoesta,
resignado :
1
VOL. I -S.v*
306 PORTUENSES ILLUSTRES
Xam vos enganes, senhora,
nos desguanos que daes,
porque com elles causaes
que vos queyra muyfo mays
o triste que vos adora.
Deves buscar outro modo,
para vos mais descansar;
este nam podes achar, v
sem me matardes de todo.
Do nosso Diogo Brandão é ahi também o acrós-
tico, em qu'está o nome por quem se fez y pelas pri-
meiras lettras cfelle:
O o grande mal que causaram
O s olhos, quando vos viram,
^ 'estes dias o pagaram,
> fora quando partiram.
-<ida, qu'assi atormenta
»-< á melhor se perderia,
O penar que s'acrescenta
f edo morrer me faria.
> s lagrimas, que se dobraram,
^ o coração se sentiram ;
H odas meus olhos choraram
W m vendo que não vos viram.
Na Encyclopedia Portugueza, em via de publi-
cação, achamos o nosso conterrâneo Diogo Brandão
apontado nas linhas seguintes: «Natural do Porto,
morto em 1530. Senhor da quinta de Coroxa e
Feruzello, exerceu o cargo de contador da real
fazenda na comarca do Porto ; foi um consummado
latinista e poeta apreciável, achando-se muitas das
suas composições no Cancioneiro de Garcia de Re-
zende. » A Innocencio pareceu acertado transcrever
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 307
para a lauda 17 do seu tom. 11 o Índice alphabetico
dos nomes dos auctores comprehendidos no Can-
cioneiro Geral de Garcia de Rezende, com a indica-
ção das folhas onde no Cancioneiro se encontram
as obras de cada um, «o que em muitos casos será
de conhecida vantagem para os investigadores
curiosos, que acharão por este modo supprida a
falta que ha no livro, quanto a esta parte. » Na
moderna reimpressão de Stuttgart houve o cuidado
de apontar-se á margem das paginas a numeração
original correspondente na edição portugueza, o que
Innocencio nota que muito facilita quaesquer con-
frontações que se pretendam fazer.
O tom. 1 (1846) da reedição de Stuttgart, depois
da dedicatória ao rei D. Fernando de Portugal, abre
por um prologo, ou introducção adequada, critico-*
biographica, philologica, na lingua allemã. Foi tra-
duzida pelo snr. J. de Vasconcellos, em obsequio
ao seu amigo Tito de Noronha, que concluiu com
ella o primeiro opúsculo de suas Curiosidades
bibliograpkicas, publicado no Porto em 1871.
O auctor do prologo allemão, d'entre as poesias
sérias do género secular, contidas no Cancioneiro
Geral, distingue a descripção de Rezende sobre a
morte de D. Ignez de Castro, mas, diz, as «duas
canções fúnebres á morte de D. João 11, de Diogo
Brandão e Luiz Henriques, em arte maior, são-lhe
muito inferiores.»
308 PORTUENSES ILLUSTRES
Outro Brandão, outrosim poeta, e portuense
outrosim, Luiz Pereira Brandão, ao nacional desas-
tre, em verso, o deploraria, como em prosa o con-
tou ainda um portuense, Jeronymo de Mendonça.
Natural da cidade do Porto, conforme consta do
-frontispício de sua obra, Jeronymo de Mendonça
foi um dos que acompanharam á Africa el-rei D.
Sebastião, ficando captivo na batalha de Alcacer-
quibir. Depois de resgatado, voltou para Portugal,
onde redigiu, como testemunha ocular d'aquelles
successos, • uma obra que dedicou a D. Francisco
de Sá e Menezes, senhor de Penaguião, em 20 de
janeiro de 1607, tendo o auctor principalmente em
vista, consoante o inscreve no dito frontispício e
mais extensamente no prologo, confutar o que
apparecera impresso no livro Deirunione dei regno
di Portogallo alia corona di Castiglia, de Jerónimo
Franchi de Conestaggio. E não só com Franchi se
toma, mas ainda com outros extrangeiros, qual fr.
António de S. Romão, que ás faltas e misérias
(como se não bastaram as que na verdade aconte-
ceram) accrescentaram outras muito maiores, e
qual António Ciccarelli, que inventou successos
que nunca aconteceram, « por obra nem por imagi-
nação. »
Com taes e tantas replicas, no livro de Jeronymo
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 309
de Mendonça se tracta do successo da batalha,
captiveiro e dos que n'elle padeceram, por não
serem mouros, com outras cousas dignas de notar;
e obra é ella que gosa de estimação, especifica
Innocencio, pela sua linguagem e estylo, parecendo,
elle adjunge, escripta em geral com sinceridade e
bom conhecimento da matéria.
E não só entre nós-outros como lá-fóra este
mesmo juizo corre acerca do volume do portuense;
e, assim, não lhe regateando encarecimentos, para
a sua compilação das chronicas cavalheirescas de
Hespanhae Portugal, Ferdinand Denis de Jeronymo
de Mendonça extracta dois episódios. Um é a his-
toria dos infortúnios de Virgínia, representada no
transe da execução por meio da estampa que acom-
panha a altura das laudas respectivas na moderna
reimpressão do Porto, em 1878, editada por F.
Maria Rodrigues. O outro é o exemplo, dado por
licção, dos falsos mouros e verdadeiros christãos.
Do caso se tracta do alcaide Raposo, tam no-
meado em toda a Berbéria. Era este homem portu-
guez de nação, muito esforçado e de boas condições.
Sendo, por sua desventura, captivo, veio ter a Fez,
a casa de um judeu que o comprou, o qual tinha
uma filha muito formosa, «com quem elle parece
que se embaraçou por amores. » Tão asizadamente
pareceria que veio a moça, por decurso de tempo,
a ficar gravida. Começou a pobre a manifestar então
seu perigo e desventura, dizendo ao captivo como
por seu respeito havia de ser apedrejada publica-
3 IO PORTUENSES ILLUSTRES
mente, « que não se castiga com menos, coisa entre
os judeus tam extranha. » Mas tudo era nada, com-
parado com a immensa dòr que sentia, vendo que
a elle o haviam de apedrejar vivo primeiro deante
de seus olhos. Isto dizia ella, chorando, muitas
vezes, tanto que o captivo, não sentindo algum
remédio na vida, veio a determinar-se na morte,
propondo-lhe, como desfecho d'uma situação into-
lerável, que ambos se suicidassem conjunctamente.
Ao que ella respondeu que acquiesceria, se não
levasse após da sua essa vida de quem só vivia,
perecendo conjunctamente o innocente fructo de
seus mal logrados amores. Pelo que, já que o
tempo costuma dar remédio a tudo, também n'elle
podiam esperar.
Vendo, pois, o captivo «a mal deliberada moça
tam cheia do temor e espanto da morte», lhe per-
guntou com grande sentimento que determinação
era a sua em tam evidente perigo? «Eu não vejo
modo, lhe respondeu ella, mais que um só, cujo
remédio vos será ainda mais penoso que o próprio
damno, pois nos será forçado tomar fingidamente a
lei dos mouros, até escapar d'esta fúria, debaixo da
qual podemos viver christãmente, até de todo nos
pormos em terra de christãos, porque, posto que
estes caminhos sejam torpes e infames, todavia o
fim d^lles é honrado e glorioso.»
Com estas argucias, argumentos e apparencias,
pondo aquelle mancebo os olhos na esperança dos
tempos, se deixou levar d'essas afíligidas razões e
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÍO — MENDONÇA, &C. 3II
assim escaparam ambos, tomando a lei dos mouros,
com a promessa entre si de viverem christãos.
Tinha aquella gente, ao tempo de Jeronymo de
Mendonça que o conta, três filhos, e o mais velho
"seria já de quinze annos, os quaes eram baptisados,
e em sua casa se chamavam pelos nomes de chris-
tãos, e fora de mouros, excepto quando algum
captivo fallava com elles, porque o não consentiam
de nenhum modo.
Era esse alcaide mui grande amigo de todos os
christãos e particularmente de um fr. Vicente da
Fonseca, ao qual, como quer que sua mulher
parisse por esse tempo, chamou, para baptisar um
filho, e em s.ua companhia algumas pessoas, que
ajudaram a festejar o baptismo, onde acaso Jero-
nymo de Mendonça relata que se encontrara.
Logo, o alcaide, querendo festejar a fr. Vicente,
lhe disse, mostrando-lhe a mulher: — «Eis ahi,
senhor, a causa de todos os meus cuidados; veja
agora Vossa Paternidade se foram acertados meus
erros.» Ao que fr. Vicente respondeu, obedecendo
ás leis da cortezia, que a senhora Zaida certo lhe
parecia bem digna de se acharem por ella desculpas
onde não as havia. Ella, porém, quando se ouviu
chamar Zaida, dissera graciosamente : — « Não me
tracte Vossa Paternidade mal, que o meu nome
dentro do meu coração é Maria. » E jurou que elles
todos se declarariam publicamente christãos logo
que fazer o pudessem.
N'aquelle passo « se arrazaram os olhos de agua
312 PORTUENSES ILLUSTRES
a fr. Vicente e a todos os mais, assim de piedade
no sentimento d'esta magoada gente como de pra-
zer, vendo toda uma casa com tam bons desejos
nas entranhas da Barbaria. » Logo fr. Vicente, com
as portas cerradas, baptisou o menino, de quem foi
padrinho um mercador christão, que se chamava
Inygo de Melohi ; e, « dando todos muitas graças a
Deus pelo presente acto, se despediram do alcaide
e da moura, que foi judia e confessava ser christã. »
Da curta permanência que teve em Fez, trouxe
Jeronymo de Mendonça as melhores memorias das
judias, «por serem naturalmente muito castas e
honestas, além de terem muito bom entendimento,
tanto que, entre duas ou três mil mulheres que
haverá na judearia, não ha uma só d'aqueJlas que
chamamos solteiras, nem a consentiriam de nenhum
modo; também se lhes não pôde negar que teem
muita brandura e piedade, como eu vi muitas vezes
usar com captivos, assim em os soccorrerem em
suas necessidades como nas doenças, pelo que,
realmente, temos obrigação de nos magoar muito
de sua miséria. »
Se tivessem essa liberdade, julga Jeronymo de
Mendonça que seria muito mais fácil a conversão
nas judias, se bem que muitos judeus, pelos ser-
mões de fr. Vicente, se converteram e vieram a
fazer-se christãos, « dos quaes eu conheço alguns
n'esta cidade de Lisboa.»
Não periclitaria nenhum em sua recente fé ? Com
nenhum implicariam as suspeitas inquisitoriaes ?
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 313
Ser-lhes-ia grata a sua posição especial, mas nada
favoneante, de christãos-novos ? Não lhes viriam, á
hora menos pensada, rebates saudosos de sua
crença antiga?
Jeronymo de Mendonça era um inculto ingénuo ;
na sua ingenuidade lhe ganha a obra, pelo que perca
felizmente de amaneirados preciosismos. Assim,
manteve-se no favor popular. E característico que
ainda em 1878 elia fosse novamente impressa como
o foi, segundo o disse já. Jeronymo de Mendonça
conhecia sua insufficiencia, mas sabia também que
« a verdade não ha mister ornamento. » Por isso,
afoito, escreveu.
Porém, d'entre os portuenses em letras afama-
dos, não foi só o a olhos exigentes humilde Jero-
nymo de Mendonça (para Barbosa «illustre por
geração e insigne por talento») quem acompanhou
á Africa, em sua infausta temeridade, o impulsivo
Dom Sebastião; e a Costa e Silva corrige Innocen-
cio quando a respeito d'ess'outro menos pensada-
mente este dissera « que era de família ignorada. »
Ao contrario, temos, por declaração positiva de
Barbosa, que elle, cavalleiro da Ordem de Christo,
natural da cidade do Porto, e nascido, ao que pôde
julgar-se, pelos annos de 1540, provinha de linha-
gem illustre, sendo filho de António Pereira Bran-
314 PORTUE>íSES ILLU3TRES
dão, capitão de Moluco, que morrera na conquista
de Monomotapa com o governador Francisco Bar-
reto, de quem ia nomeado successor em segunda
via. A mãe chamava-se D. Francisca de Novaes.
« Fica, pois, evidente a leveza (remata, triumphante,
Innocencio) com que em tal afflrmativa procedeu o
biographo moderno.»
Escreveu Luiz Pereira Brandão a Elegiada,
poema épico, composto de dezoito cantos em oitava
rima, dirigido, em sua primeira edição de 1588
(sendo reimpresso por diligencia de Bento José de
Sousa Farinha em 1785), ao sereníssimo senhor
Cardeal Alberto, archiduque d' Áustria e governa-
dor dos reinos de Portugal. Do auctor e da obra
rememora Innocencio que o calebre critico Fran-
cisco Dias Gomes apresentara iim juizo pessimista,
« em que ha talvez exaggeração. » Não deixa Inno-
cencio escapar a inadvertência de FVancisco Dias
Gomes, que trocou o nome do poeta no de Luiz
Pereira de Castro; e, posto que pouco benevolente
seja também seu parecer, comtudo Innocencio con-
signa que ha na Elogiada « alguns trechos de notá-
vel valia. » Cita dois d'entre elles, mas refere-se
ainda a « vários outros quadros descriptivos, que
se distinguem pela exactidão dos traços e viveza
do colorido. »
Camillo Castello-Branco corrige com rispidez os
pedantismos do critico famoso, em contra do vate
olvidado. « O impertinente (exccllcnte lhe chamara
Innocencio) Francisco Dias Gomes accusa-o de
X — r.ONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 315
inventar palavras desnecessárias. As que elle reno-
vou ou inventou correm hoje bem aforadas vernacu-
lamente, e não seriam de mais na prosódia pouco
rica do critico irreconciliável com os neologis-
mos. »
E, em nota appensa, restabelece, defrontada
com a humildade supposta por Costa e Silva, a
prosápia faustuosa de Luiz Pereira Brandão, o qual,
sendo originariamente pobre, como filho de filho
segundo, e eduoando-se para frade, consoante o
costume, casou a furto e ricamente em Lisboa com
D. Lourença de Almeida, filha e herdeira de Ruy
Gil Magro de Almeida, capitão de Tanger, e de sua
mulher D. Isabel Garcez.
«Viveu opulentamente, em boa camaradagem
com os homens de lettras do seu tempo, Cortes
Reaes, Andrades, Caminhas e Bernardes. Na com-
panhia do ultimo, acompanhou D. Sebastião, e lá
ficou captivo dos alarves, confundindo-se com a
gentalha ordinária e fingindo-se plebeu, afim de
baratear o seu resgate. Hieronymo de Mendonça,
na Jornada de Africa, insere ve-o no rol dos fidalgos
que por se disfarçarem nào foram captivos de el-rei,
e nomeia-o Luiz Pereira do Porto. Com quanto
fosse rico, demorou-se em Marrocos, e lá recolheu
em dura experiência as achegas para o seu edifício
poético. Não valia a pena. »
Não valeria, de todo em todo?
Costa e Silva, outrosim, insiste no gabo de
«alguns quadros descriptivos, que não são desti-
3l6 PORTUENSES IL LUSTRES
tuidos de viveza e de colorido. » E, com respeito á
narração, que se lê no segundo canto, do cerco de
Mazagão pelos mouros, declara-a escripta com
vigor e em versos cadentes, allegando como abono
do que diz algumas de suas estancias.
No canto i encontra D. Sebastião na serra de
Cintra um velho eremita, que lhe narra a historia
do reino até ao seu tempo; e n'essa narrativa
topa-se inclusa a lenda do rei Ramiro e do mouro
Alboazar que na serie doestes apontamentos já
soubemos versificada pela portuense poetisa D..
Bernarda Ferreira de Lacerda e pelo poeta por-
tuense Almeida Garrett.
N'este episodio temos (observa Costa e Silva)
«poeticamente explicada a origem dos nomes
d' Ancora, Leixois, Gaya, Portugal, o que é uma
intenção verdadeiramente épica, que Luiz Pereira
havia aprendido dos antigos. »
As estancias a que Costa e Silva se reporta vou
offerecel-as ao leitor, que sabe já que o poeta aca-
bara de pintar a rainha, a pique de afundir-se
n'agua, com a corda que no niveo collo lhe atam
os soldados:
Fazendo-lhe anojado com que desse
O nome ao pego d'Ancora profundo,
Que assim se chama agora, onde puzesse
Com a lembrança d'elle exemplo ao mundo.
Alguns dizem que o nome aqui tivesse
De Leixois o começo e que, segundo
Deixado foi alli, bem lh'o puzeram,
Se os tempos outro algum nao corromperam,
X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 317
Onde Gaya de então dizem que teve
Este nome, porque a fonte fria
Em que Ramiro assentado esteve
Sacaia em moura língua se dizia;
• D'onde o nome corrupto tomar deve,
Inda que a fama n'isto peccaria:
Tudo faz esquecer tempo comprido,
Mas mourisco parece este appellido.
Outros dizem que um capitão romano,
Chamado Gaio Sérvio, aqui chegou,
Que, vencido do braço lusitano,
Em um castello alli se restaurou ;
Ficando a tal logar, se não me engano,
Gaya por nome, como se chamou
E inda agora se chama este alto monte,
O qual do Porto esta quasi defronte.
Pois do Porto e de Gaya o nome veiu
A Portugal, segundo se publica;
Ou do Porto dos Gallos, como creio,
Que Porto dos Francezes significa;
Que, como sempre estava de naus cheio,
Segundo se inda agora verifica,
Dos Albernéos Gallos este rio,
Não é pôr-lhe este nome desvario.
No tom. xvi do Diccionario Bibliographico (ix do
Supplemento a Innocencio pelo snr. Brito Aranha),
apresentando-se um valioso esclarecimento do dis-
tincto bibliophilo portuense, snr. dr. Pedro Augusto
Dias, e emendando-se alguns enganos do primitivo
artigo do tom. v, manda-se accrescentar o «de
outro critico, de certo não menos auctorisado, o
visconde Almeida Garrett», isto « para contrabalan-
çar o juizo, tão desfavorável á Elegiada, de Fran-
cisco Dias Gonçalves. » Aliás Francisco Dias Gomes.
Almeida Garrett, no Parnaso Lusitano, dissera a
tal respeito: «Ha excellentes oitavas derramadas
3l8 PORTUENSES ILLUSTRES
por esse poema; algumas descripções felizes; gran-
díssima riqueza de linguagem; mas pouco mais.»
Notando em Luiz Pereira Brandão a demasiada
extensão das suas narrações e o prosaismo da
metrificação, convém Innocencio em que perpassam
no seu estylo uns assomos de tristeza ou melan-
cholia, que não deixam de condizer com o assumpto
e que commovem o animo do leitor.
Voltando para a pátria resgatado, é voz cons-
tante que o poeta se vestira de lucto, o qual não
mais largou durante o resto da vida.
XI
João Peixoto de Miranda — António de
Sousa de Macedo — Martinho Lopes de
Moraes Alão — Frederico Augusto de
Vasconcellos Pereira Cabral — Pedro
d 9 Andrade Caminha — João de Barros —
Vasco de Lobeira.
M
as, ex-professo, da fundação do Porto, em
verso discorreria portuense, se não anonymo, obscu-
ríssimo, João Peixoto de Miranda.
Em sua Anacr. hist., cap. íx, exam. i, com res-
peito á origem e antiguidade d'esta cidade do Porto,
o portuense Manuel Pereira de Novaes defende a
opinião de que seu fundador fora Calais, filho de
Boreas, rei da Thracia, argonauta celebradíssimo na
historia antiga. Diz elle, segundo Costa, que este
príncipe fundara muitas cidades em diversos logares
do mundo, depois do decantado vellocino d'ouro da
ilha de Colchos: que, pela similhança do seu nome
320 PORTUENSES ILLUSTRES
Calais com o de Cale, era muito provável que
desse principio a esta cidade. E, assim como a
Jasson, continua esse padre, se attribue a fundação
do promontório Easso, corrupto do de Jasso, con-
soante estranhavelmente o resume Costa; a Castor
e Pollux a de Castropol nas Astúrias etc. : assim
também é crivei que a Calais se deva a fundação
de Porto de Cale. A auetoridade de Raphael Vola-
terrano, que, na volta de Calais á sua pátria, o
nomeia fundador de Cale, é para elle uma prova
incontrastavel e na qual funda a sua opinião.
Que é a sétima das desfiadas, no thema, pelo
bracharense Agostinho Rebello da Costa, quem,
antes da conjectura do padre Novaes, benedictino,
em os seus manuscriptos, expuzera a terceira a
propósito.
Esta terceira opinião, muito seguida e abonada
pelo auetor da Monarchia Lusitana, consiste em
que Diomedes, rei de Etolia, um dos principçs e
capitães do cerco de Troya, imitando a Ulysses,
navegara pelo Mediterrâneo, até sahir, pelas co-
lumnas de Hercules, ao Oceano occidental; e,
tomando porto na foz do rio Douro, desembarcara
da parte septentrional onde se demorara largo
tempo, attrahido da amenidade e frescura do paiz;
que lançara alli os fundamentos de uma povoação,
que, pelo decurso do tempo, se chamou Graya, e
os seus habitadores Grayos, tanto porque elles eram
descendentes dos gregos que fundaram esta cidade
como também porque dos seus ritos e costumes
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 32 1
chamavam, conforme o alludido Brito, na citada
Monarchia Lusitana, p. i, liv. i, cap. xxn, por anto-
nomásia, grecanicos; e d'esses taes Siiio Itálico
fallara nos versos seguintes :
Et quos tuitc Gr avios, violato nomine Grajnm.
Oenue mUerere domus, A et o laque Tyde.
Ora, esta terceira opinião em verso portuguez
viria também a ser cantada, em poema obscuro de
portuense obscuríssimo, — o que, castigada com
pena tal a injustiça do mundo, e attendendo á força
de razões ponderosas que a mais, outrosim, com-
prehendem, não tolhe que entre os illustres, que na
nomeada, mais ou menos, o deveram ser, merece-
doramente o cataloguemos, sua epopèa modesta
relembrando : Cale ou a fundação da cidade do Porto,
poema de João Peixoto de Miranda, 1850, 8.°
Quem seria João Peixoto de Miranda?
Só no supplemento ao Diccionario bibliographico
de Innocencio é que nos apparece succinta menção
d'elle, «cujas circumstancias pessoaes ignoro»,
confessa o bibliographo, que esclarece que o
poema de Cale ou a fundxçào da cidade do Porto,
impresso no Porto em 1850, o fora na typ. de
António Moldes. Nos « additamentos e correcções a
alguns artigos do presente volume» (o x da obra
e 111 do supplemento), em a verba João Peixoto de
Miranda — « cujas circumstancias pessoaes ignoro »,
o auctor continua dizendo — leem-se (n.° 6.786) as
VOL. I. "^
322 PORTUENSES ILM75TRKS
linhas que seguem : « Cale ou a fundação da cidade
do Porto. Poema. Porto, na typ. de D. António
Moldes, 1850. 8.° ou 16. de 432 pag., com 2
innumeradas de erratas. — Este poema é em dez
cantos. Na advertência diz o auetor que fora come-
çado em 1826 e concluído em 1838 e que o elo-
giara António Leite Cardoso Pereira de Mello, em
uma nota a um soneto incluído nas suas obras
poéticas, impressas no Porto em 1858. Vi (em
setembro de 1883) um exemplar d'esta obra em
Lisboa nas mãos do livreiro Lino Cardoso, que o
comprou n'um dia e o vendeu no dia seguinte a
um colleccionador de poemas portuguezes. Confesso
que nunca vi as poesias de António Leite Car-
doso. »
Nem eu; nem d'elle noticia nos dá quer o
Diccionario bibliographico quer seu « Supplemento »
Vi, porém, e folheei o poema de João Peixoto
de Miranda, Cale ou a fundação da cidade do Porto,
visto lêr de seguida um épico nosso lusitano pelo
decurso de 432 pag. commettimento é hoje que
excede a humana paciência. E mesmo de crer seja
que ainda, na quadra, mais pachorrenta todavia,
doesse 1850 da data da publicação escasso o nu-
mero seria dos portuenses que se afoutassem com
narrativa tam vasta, inda que nas provinciaes horas
•longas qualquer chispa de interesse aos portuenses
espertasse por a illumi nação phantastica dos pri-
mórdios em trevas de sua remota Cale. Assim se
explica como, em regra, até de arrojados lidos, o
XI — MIRANDA — MACEDO — AL Â O — CABRAL, &C. 323
poema de João Peixoto de Miranda é quasi que
completamente desconhecido.
Dado que sua obra poema seja, visto seu auctor,
na advertência do volume, d'elle fatiando, assim se
expressar: «Este poema, se acaso o é (pois, acre-
ditando nós o padre Bossu — - Trat. do Poema
Épico — , se a Lusíada, a Jerusalém libertada e o
Paraíso perdido não podem ser considerados ver-
dadeiros poemas épicos, muito menos o deverá ser
este meu), . . »
Ahi o declara concluso no anno de 1838, como
testemunhara ao publico aquelle seu particular
amigo António Leite Cardoso Pereira de Mello, em
uma nota a um soneto seu, filho mais — modesta-
mente confessa — da amisade d'elle do que do seu
merecimento. Esse soneto lh'o dirigira, collocando-o
nas suas obras poéticas, impressas n'esta cidade
do Porto, em a Typographia Commercial, no anno
de 1838.
Esta advertência é ella mesma precedida de um
Preliminar, que demonstra em João ' Peixoto de
Miranda copiosa e meditada leitura. Elogia-se a si
próprio, porque escrevera de modo que todos o
podessem entender, «sem ser preciso recorrer ao
Diccionario de Bluteau ou ao Elucidário de fr. Joa-
quim de Santa Rosa de Viterbo», desdenhando do
afan de desenterrar, « por singularidade systematica,
vocábulos sepultados com o século xv, só para
affectar uma linguagem velha e sediça que o desuso
anniquilou e o uso não auctorisa. »
324 PORTUENSES ILLUSTRES
A obra vae a publico tal qual lhe sahiu da forja.
«Mal polida e limada», reputa-se «indigna de
apparecer ao lado das sublimes producções do
insigne auctor das Cartas d'Ecco a Narciso, das
do sábio e erudito snr. Garrett e das de outros
mais que servem de brilhantismo, ornamento e
decoro ao Parnaso e litteratura portugueza do sé-
culo XIX.»
«Assim mesmo, poderá emparelhar com outras
taes e quejandas que a imprensa faz sahir á luz. »
Porque, modesto, João Peixoto de Miranda não era
humilde.
Elle terminou seu Preliminar com os seguintes
versos do poeta inglez Owen:
Qui legis is ta, tuam reprehendo, si nua landas
Omnia, stultitiam ; si nihil, invidiam.
Para suas calamidades características, outrosim
entre seus filhos o Porto encontrou quem soluçasse
os threnos poéticos, porque se não a terremotos,
como Lisboa, o Porto a innundações sujeito seja.
No segundo tomo de sua Historia da adminis-
tração publica eyn Portugal nos séculos xn a at, o
snr. Henrique da Gama Barros diz que no século xv
por varias vezes se sentiram em Portugal convul-
sões do solo mais ou menos fortes. Das escassas
XI — MIRANDA — MACEDO—- ALÃO — CABRAL, &C. 325
noticias que nos ficaram cTesses successos, não se
deduzia, porém, que a perda de vidas e as outras
consequências fossem n'algum caso em tal escala
que affectassem consideravelmente as forças econo-'
micas do reino.
Em nota registrava, segundo varias fontes de
informação, de abalos de terra os do anno de 1033,
de 1309 (ou 1279, segundo a edição da Esp. Sagr.,
xxiii, pag. 340), de 13 18 (na Esp. Sagr. y log. cit.,
propõe-se a era de 1357 e não a de 1356), de 1321,
<te I337> d e 1347) em Coimbra e em Coimbra o de
1355, e os de 1356, 1366, 1395 e 1404, sendo este,
do século xv, o único de que tinha noticia. Não
ficou remembrança tradicional de nenhum d'eiles
para o Porto.
No Porto, mesmo escassa noticia litteraria que-
dou ainda para os terremotos em Portugal havidos
gravíssimos, como esse de 1531 que a Mendonça
lhe «parece que foi maior que o de 1755», o
mesmo sentindo o erudito Pedro Norberto de
Aucourt e Padilha, cujo parecer Mendonça quiz alli
provar mais amplamente, « para tirar o séquito da
contraria opinião, que tem sido a mais seguida»,
mas á qual eile sempre se oppoz, com os vários
Hindamentos que aliega e outros que deixa á
reflexão dos doutos, á lembrança dos quaes traz
que Jeronymo Cardoso fizera um poema latino em
que. relata os estragos d'este terremoto, como refe-
rira Diogo Barbosa Machado, no tom. 11 de sua
Bibliotheca Lusitana^ no titulo d'este escriptor.
326 PORTUENSES ILLUSTRES
Prosegue na enumeração, mas sua noticia não>
acorda echos portuenses, até que se chega á data
fatal.
Do tremendo terremoto de 1755, no respeitante
a seus effeitos pelo que toca ao norte de Portugal,
em sua Historia universal dos terremotos, o mesmo
Joachim Joseph Moreira de Mendonça escreve:
< As províncias do Minho e Traz-os-Montes não
padeceram mais effeitos do terremoto que o horror.
Em toda a extensão de Portugal foram sentidos os
abalos da terra e a sua duração; mas n'aquellas
províncias foram muito menos violentos.» (num.
377).
Mas, havendo dito que o flagello da peste que
no anno de 1420 tinha acomettido o bairro de Villa
Nova de Gaya tornara em 1581 a açoutar Portugal
com tal excesso que esta fora chamada a Peste
grande, matando na cidade de Lisboa mais de qua-
renta mil pessoas, na de Évora vinte e cinco mil e
assim á proporção em todas as outras cidades e po-
voações do reino, accrescentara nosso Agostinho
Rebello da Costa que n'esta occasião fora que os
portuenses erigiram a S. Roque uma capella defronte
da porta travessa e alpendre da cathedral, em cujo
frontispício se lia a epigraphe seguinte :
Stet hccc Domus, doncc formica totum imbibat
j\lare, et donec t estudo totum circumambulct orbem.
Mas não se completara este desejo, porque o
fatal terremoto do i.° de Novembro de 1755 a ar *
XI — MIRANDA — MACEDJ — ALVO CABRAL, &C. 327
minara de sorte que necessário fora erigir-se nova
capella, feita á moderna, no largo chamado do
Souto, de que elle já fallara.
Porém, se indemne de terremotos, relativamente,
havia sido, não do achaque de innundações deixara
o Porto de sofTrer.
Assim, o caudaloso rio Douro no dia 28 de
Dezembro de 1727 formara uma enchente tam
grossa, repentina e precipitada que absorvera na
sua corrente mais de cem pessoas, muitos edifícios,
navios d'alto bordo, innumeraveis embarcações pe-
quenas, muitas e viçosas vinhas, lagares, azenhas e
outras fabricas, cujas perdas se contavam por mi-
lhares de cruzados. Quasi todo o convento das re-
Jigiosas de Corpus Christi fora coberto da sua
innundação ; esta chegara, de parte da cidade, a tal
altura que de cima da muralha se tocava com as
mãos na agua.
Outras iguaes innundações havia acontecido
nos annos de 1729, 1739, 1774 e 1779; a de 1779
fora em tudo similhante á primeira, de 1727, cujos
estragos ainda hoje — 1789 — lamentam algumas
famílias, reduzidas (depois de opulentas e acredita-
das) a uma lastimosa indigência.
Tinha-se observado que nas maiores cheias su-
bia a agua até á altura de 22 pés geométricos, me-
dindo-se desde o ultimo ponto da baixa-mar.
A uma altura quasi egual chegara a ultima, até
ao tempo do escriptor, e formidável, acontecida no
mez de Fevereiro d^quelle anno em que escrevia,
328 PORTUENSES ILLUSTRES
de 1/88, e precedida que fora de um terrível furacão
cio Oeste, que durara, sem affrouxar, três dias suc-
cessivos, atroando com horrorosos tufões a cidade
e seus arredores, onde arrancou grossas arvores e
arrebatou pelos ares muitos telhados e clara-boyas,
tendo principio esta grande cheia no dia 22 do dito
mez e o seu maior augmento sendo nos dias 24 e
25, em que as aguas do Douro subiram, acima do
seu nivel, 31 palmos.
A cheia de 1739 foi memorada em verso:
Successo lamentável da destruição do Porto e
seus subúrbios, acontecido no fatal mez de Dezem-
bro, etc.
*
Este poema é oferecido á venerável, prodigiosa e
sacrosanta imagem do Senhor d* Alem, venerada na.
Santa Igreja Cathedral da mesma cidade, pelo poeta
que se rebuça na piedosa designação de «um cor-
dialíssimo devoto d'este Senhor. » A obra, com todas
as licenças necessárias, está impressa no «Porto,
anno 1740.»
Do gosto do artista dará medida a oi-
tava xxi, posta para nos pintar a impetuosidade
da corrente :
Corria o Douro tam arrebatado,
Tam rápido, cruel e tam valente
Que parecia vinha declarado
Inimigo de todo o sêr vivente;
Tudo deixava o Douro destroçado,
Tudo despedaçava a sua enchente ;
E então na fortaleza e valentia,
Mais que D'ouro, de bronze parecia.
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 329
Já, então, as margens do Douro presenceavam
o mesmo Douro furiosamente a batalhar com em-
polaçlas ondas, ellas, essas suaves
Margens do Douro, celebradas
Que são em todo o tempo e em toda a era,
Sempre de esmeralda alcatifadas.
Perpetua estaçãe da Primavera.
Com olhos mais sizudos do que em 1740
os do portuense poeta, cónego, Martinho Lopes
de Moraçs Alão, ás margens do Douro as viu
em 1868 (maio) o portuense sábio, engenheiro,
Frederico Augusto de Vasconcellos de Almeida
Pereira Cabral, que, contra o que diz Innocencio,
que o dá nascido em Lisboa, nasceu no Porto em
25 de Abril de 1820, consoante a informação fide-
digna do seu duplamente collega, como engenheiro
e geólogo, J. ,F. Nery Delgado, no tom. 1 das Com-
municações da commissào dos trabalhos geológicos
de Portugal.
Ora, no tom. i da Revista de Obras Publicas e
Minas, que appareceu em 1870, inseriu Frederico
de Vasconcellos Cabral uma primeira noticia sobre
as rochas estriadas da bacia do Douro, assumpto
que, tractado com mais desenvolvimento, serviu de
base para uma memoria publicada em 1881, Estudo
330 PORTUENSES ILT.USTRE3
dz • depósitos siiperficiacs da bacia do Douro, de que
apresentara um resumo ao Congresso anthropolo-
gico que tivera em Lisboa, em 1880, a sua 9. a
sessão, por iniciativa do antigo director dos traba-
lhos geológicos, Carlos Ribeiro.
Em dezembro de 1869, em Lisboa, escrevia Fre-
derico A. de Vasconcellos :
Quem viaja pelo Douro não pôde subtrahir-se á contem-
plação das rochas que encaixam e opprimem o seu leito desde
a foz, quando mesmo outras razfies não tivesse o viajante
para prestar attençào á constituição do solo. Como é sabido,
o Porto está edificado sobre um massiço granítico, ao qual se
encosta para leste uma serie de schistos crystallinos, que se
suppòcm o resultado do metamorphismo de terrenos paleo-
zóicos, representados ainda para leste por uma zona schistosa,.
que corre na direcção próxima de XNO. SSE. E' limitada esta
zona, pelo lado do NE., por outro grande massiço de granito
porphyroide, que se julga de idade mais moderna que o do
Porto, e que atravessa o Douro seis léguas acima da cidade,
sendo as Pedras de Linhares, fronteiras ao concelho de Paiva,
a primeira manifestação d'esta rocha no leito do rio, c também
o primeiro ponto perigoso para a navegação.
Quem, pois, sobe o lio, partindo do Porto,
vê primeiro o granito por espaço de meia légua,
depois o gneiss e o resto da serie de schistos crys-
tallinos, que passam gradualmente ao terreno schis-
toso paleozóico, limitado para NE. pelo granito
porphyroide.
Nada, a Frederico A. de Vasconcellos, lhe fizera
suspeitar, á sahida do Porto, que as rochas grani-
XI — MIRANDA — MACEDO — ALA O CABRAL, &C. 33 I
ticâs que bordam o rio de um e outro lado acima
da ex-ponte pênsil apresentassem superfícies gastas
e estriadas mechanicamente. Só quando chegou á
zona de gneiss, lhe pareceu vêr. Viu, saltando em
terra, observando o phenomeno com todas as cir-
cumstancias que o acompanham em outros paizes
onde tem sido estudado. Fixou-se, Duas léguas
acima do Porto, em quasi todos os pontos onde se
manifestavam rochas duras via elle já distincta-
mente as superfícies estriadas, e as distinguia,
mesmo a distancia. As suas observações limita-
ram-se, porém, a uma extensão não superior a
cinco legoas e ao que podia vêr sem se affastar da
margem do rio, essa alcatifa de esmeralda do
poeta Alão.
Na sua volta ao Porto, Frederico de Vascon-
cellos, olhando, com melhor attenção e já com olhos
mais habituados, para os granitos das proximidades
da cidade, pode reconhecer ainda o estriamento
das rochas uns quinhentos metros a montante da
referida ex-ponte pênsil, e também lhe pareceu vêr
ahi, mas a distancia e do lado da Serra do Pilar,
uma superfície estriada muito inclinada para o rio,
senão quasi vertical. De resto, os vestígios de
estriamento que pudera observar estavam entre i,
e 3 ou 4 metros acima da estiagem do rio, e
figurava-se-lhe possível, e mesmo provável, que se
encontrem a muito maior altura.
Reivindica a originalidade que lhe cabe na no-
ticia do phenomeno ; lealmente menciona a parte
33 2 PORTUENSES ILLUSTRES
que na discussão cPelle e seu corollario theorico
cumpre, mercê de uma nota sobre o terreno qua-
ternário de Portugal publicada em 1867 no Boletim
da sociedade geológica de França, referir, na gene-
ralidade critica, ampla e discriminante, a Carlos
Ribeiro.
Foi sobre as observações de Carlos Ribeiro e
Daniel Sharpe no que concerne a Portugal que os
snrs. E. de Verneuil e E. Collomb levantaram a
carta geológica de Hespanha e de Portugal, em
Paris publicada em Junho de 1864.
Levantada em parte sobre as folhas da carta
chorographica do reino e em parte coordenada
sobre a carta geológica publicada em 1876 por
Carlos Ribej/o e J. F. Nery Delgado, foi em 1899
publicada pela Direcção dos trabalhos geológicos a
carta geológica de Portugal, por J. F. Nery Delgado
e Paul Choffat.
Quanto aos terremotos de Lisboa, o Porto os
deploraria, como de Lisboa aos primórdios vate
portuense os celebraria.
*
*
Para o cântico da fundação de Lisboa, com
effeito, destino era do Porto dar-lhe, em António de
Souza de Macedo, um dos seus filhos mais illustres
e dos mais notáveis homens de todo Portugal.
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 333
Oriundo da nobre villa de Amarante, mas nas-
cido n'esta cidade do Porto, e baptisado na fregue-
zia de Nossa Senhora da Victoria a 1 5 de dezembro
de 1606, diz Diogo Barbosa Machado que bastava
«este único filho para lhe adquirir immortal gloria
ao seu nome.» Elle remata asseverando que seria
quasi impossível trasladar os elogios que a este
grande varão dedicaram muitos escriptores. Cita,
sem embargo, abundante copia de auctores, tanto
nacionaes como extrangeiros, em abono de sua affir-
mativa.
Tronco da casa dos condes de Mesquitella,
quando, collocado no throno o duque de Bragança,
D. João iv resolveu enviar por embaixador á corte
de Londres a D. Antão de Almada, sendo necessário
que o acompanhasse, na qualidade de secretario,
um homem que tivesse o saber e capacidade neces-
sária para missão de tammanha consequência, em
circumstancias tam melindrosas e difficeis, depois
de maduras reflexões, recahiu a escolha em António
de Souza de Macedo, em quem se julgavam as
partes e requisitos que convinha para auxiliar com
seus conselhos o embaixador. Em Londres deu elle
tam boa conta dos negócios de que ia incumbido
que, retirando-se o embaixador d'aquella corte, o
rei portuguez determinou que o secretario alli
ficasse permanecendo, com o caracter de enviado,
ou encarregado de negócios, como hoje dizemos.
Correndo o anno de 165 1, foi António de Souza
de Macedo nomeado embaixador de Portugal junto
334 PORTUENSES ILLUSTRES
aos Estados Geraes da Hollanda, onde teve logar
de exhibir novas provas do seu zelo e habilidade
como negociador e homem de Estado.
«D'esta maneira (pondera José Maria da Costa
Silva), António de Souza de Macedo, sempre favo-
recido pela fortuna e pelo merecimento, cheio de
honras e de favores da coroa, chegou a ponto de
não ter já a que aspirar senão ao Ministério. Essa
mesma ambição, se acaso a teve, lhe foi emfirn
satisfeita por El-Rei D. Affonso vi, que sempre
fizera d'elle grande apreço, pois em 1663 houve por
bem nomeal-o seu ministro e secretario de Estado,
cargo que honrosamente exerceu até ao anno de
1668, em que foi demittido pela revolução, de fabrica
jesuítica, que deu em resultado a deposição de D.
Affonso vi e a regência do infante D. Pedro, que
depois subiu ao throno. » Em perigosas conjunctu-
ras se viu António de Souza de Macedo durante
esse tormentoso periodo.
Dramática scena, p. ex., a jogada entre a infida
rainha e o fiel secretario do infeliz monarcha, duas
vezes coroado. Kis a narração mais fidedigna:
Matara um arrieiro a um francez em uma estrada
perto de Coimbra, e houve quem dissesse que o
matou como a ladrão, em sua própria defeza. Foi
o arneiro preso em uma egreja d'aquella cidade e
remettido á cadeia de Lisboa. Ora, por que lhe
valesse a immumidade da Igreja se mostrou a
rainha, que franceza era, aggravada, dizendo que o
delinquente não fora castigado, só por lhe darem
XI — MIRANDA — MACEDO — AL.ÀO — CABRAL, &C. 335
desgosto a ella, sendo o morto francez e creado seu.
O facto era que o morto não era tal creado seu, e
só sim parente de um seu lacaio francez, e elle sol-
dado de cavallo.
Por esta intimidade e por outra ainda mais
assim, mandou a rainha chamar á sua presença o
illustre secretario d'Estado António de Souza de
Macedo e o mcrepou asperamente. Desculpou-se o
honrado homem para com aquella mulher desho-
nesta, allegando rasoes que tanto mais offensivas
eram quanto mais convincentes. Rematou asseve-
rando que quem o contrario dissesse do que elle
dizendo estava era traidor e, como tal, devia ser
castigado; que Sua Magestade, por sem duvida,
contava perversos a seu lado, pois lhe affirmavam
tinha razão de queixar-se dos portuguezes, quando
-ninguém lhe havia faltado ao devido respeito.
Replicou a Rainha que bem sabia que, na opinião
d'aquelles que não queriam, que ninguém lhe fallasse,
grande crime era o tractal-a como quem era.
Quiz o secretario satisfazel-a, porém aquella mu-
lher má e má mulher o mandou caliar; e, redar-
guindo este que queria que Sua Magestade o ou-
visse, segunda vez o mandou caliar.
Poz-se. então o secretario de joelhos, suppondo
que com isto a obrigaria a que o attendesse ; porém
ella lhe voltou as costas.
Quiz o secretario detel-a; e ella lhe regougou:
« — Como, villão, és tam atrevido?!» E lhe deu
com uma luva pela cara.
336 PORTUENSES ILLUSTRBS
« Vendo-se o pobre velho tam enojado, calou-se ;
e, voltando-se para as damas e cavalheiros que
estavam presentes, disse (n'estes termos o refere o
auctor da Anti-catastropkc), com grande cólera:
« — Que descomedimento tam indigno, que nenhum
rei jamais o praticou com algum vassallo ! »
Tudo não obstante, não frisaria as vicissitudes
politicas d'este homem eminente. Nem mesmo, jor-
nalista, me ufanaria com sua honrosa camaradagem,
por isso que foi aliás dos primeiros intencionados
illustres jornalistas portuguezes, redigindo os Mer-
curios, lusitanos em que seu adverso, o padre An-
tónio Vieira, jesuíta combatente, forçado se vira a
confessar a eloquência.
Limitar-me-hei a suscitar adrede a apagada
lembrança do poema heróico Ulyssipo, de qúe nova
edição se fez ainda em Lisboa, em 1848, por indus-
tria do famigerado livreiro Rolland e dirigida, crê
Innocencio, pelo, a seu tempo, já finado Rego
Abranches; o insigne bibliographo condensa a
opinião de Costa e Silva, que expende: «N'este
poema, de treze cantos, em oitava rima, cujo argu-
mento é a fundação de Lisboa por Ulysses, não ha,
por certo, o estylo brilhante da Ulyssca, nem a sua
versificação é tam cadente T porém, Macedo tem um
gosto mais puro, modelando-se pelos italianos, a
cuja eschola pertencia. Não pecca tanto na inchação,
nas expressões hyperbolicas, nem nos contrapostos
e jogos de palavras. Os seus versos são fáceis,
ainda que um tanto monótonos; as rimas, mais
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 337
i
ricas e menos triviaes; as suas comparações são
próprias, e raras vezes imitadas de outros poetas,
E, sobretudo, muito superior a Gabriel Pereira de
Castro na originalidade da fabula e episódios. O seu
t culteranismo é de Marini e não de Gongora; e
n'isso é que elle se differença dos poetas seus con-
temporâneos. »
O lisbonense Costa e Silva espanta-se de que,
na poesia portugueza, os louvores de Lisboa não
fossem cantados por nenhum lisboeta; e só sim por
Gabriel Pereira de Castro, que era de Braga, e por
António de Souza de Macedo, que do Porto era.
Não foi, entre os portuenses, tam só este o no-
tando dos épicos menores; outro houve, sabemol-o,
como elle digno da bòa nota no conciliábulo dos
mais superciliosos críticos.
Tal é a contradicção das cousas! Taes os sar-
casmos dos destinos !
Que o Porto, terra do terra-á-terra, de todo o
tempo, alfobre haja sido de poetas!
Como, digamos, esse Pedro d'Andrade Ca-
minha. . .
Para o livro (Elegiada) do portuense Luiz Pe-
reira (Brandão), de quem se fallou já em pretérita
lauda d'este tomo, escreveu outro portuense (segun-
do a variante impressa em 1898) os versos se-
guintes :
VOL. I •*.'*•
338 PORTUENSES ILLUSTRES
Quem canta Sebastião? Canta Pereira.
Que canta do seu Rei? A vida e morte.
Da vida que? Sua honra verdadeira.
Da morte? Qjue a soffreu com animo forte.
Na terra, que ganhou ? Memoria inteira.
E que no ceu ? Gloriosa e alta sorte.
E de Pereira quem ? Quantos o lerem.
Quantos o lerem? Quantos o entenderem.
Essoutro portuense é Pedro (ou Pêro) de An-
drade Caminha, como Luiz de Camões -provindo de
família gallega, e nascido n'esta cidade do Porto,
segundo todas as probabilidades, não se sabendo
em que anno, mas sendo, todavia, acceitavel uma
conjectura de Theophilo Braga, -que fixa a data em
1520 (ou antes), segundo o parecer do dr. J.
Priebsch. Este, dando o logar e data -do falleçimento,
em Villa Viçosa a 9 de setembro de 1589, apre-
senta um documento descoberto pelo distincto por-
tuense Souza Viterbo, «pelo qual consta o anno
da morte de Caminha. » Constava aliás do Diccio-
nario Bibliographico de Innocencio, que expressa-
mente diz: «Nasceu Pedro de Andrade na cidade
do Porto, em anno que se ignora; e morreu em
Villa Viçosa a 9 de setembro de 1589.» E' certo
que na lista das fontes biographicas do poeta alle-
gada pelo dr. J. Priebsch não se inclue a obra de
Innocencio.
O qual nos conta como á sombra de D. Duarte,
duque de Guimarães, de quem fora camareiro, con-
ferindo-lhe este príncipe, em remuneração de servi-
ços, a alcaidaria mór de Celorico de Basto, com
uma tença de duzentos mil reis, Pedro dVXndrade
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÀO — CABRAL, &C. 339
Caminha cultivara as lettras, unido em correspon-
dência e amisade com os maiores engenhos que en-
tão poetavam em Portugal, menos com Luiz de
Camões, de quem nem elle nem os outros fazem
menção: «o que nos mostra (diz com sizuda refle-
xão um dos seus biographos — o sábio abbade José
Correia da Serra — ) que os séculos* litterarios das
varias nações são mui parecidos uns com os ou-
tros, e que em todo o tempo a superioridade é
odiosa aos contemporâneos.» Mas addita que po-
deria accrescentar que, da parte de Caminha, para
com Camões havia uma decidida emulação e rivali-
dade, manifestada, como, segundo seu alvitre, tudo
induz a crer nos seus repetidos epigrammas contra
um que elle chama mau poeta. V. g. no cxlv, em
que, alludindo talvez ao verso i da est. 5. a do canto
i.° dós Luzia das: «Dae-me uma furta grande e so-
norosa, etc. >, lhe diz mui despejadamente :
Dizes que o bom poeta ha de ter fúria;
Se nào ha de ter mais, és bom poeta ;
Mas, se o poeta ha de ter mais do que fúria,
Tu não tens mais que fúria de poeta !
Verdadeiramente poeta seria Pedro d' Andrade
Caminha ?
Innocencio escreve que elle pôde considerar-se
como um dos mais aproveitados discípulos de Fer-
reira, a quem muito se approxima pela correcção,
elegância, nobreza de pensamentos e philosophia que
reina em suas composições; e prosegue dizendo
que José Maria da Costa e Silva não hesitara em
34<> PORTUENSES ILLUSTRES
dar-lhe a preferencia sobre o seu contemporâneo e
amigo Diogo Bernardes. Remata, não obstante, com
o juizo de um critico extrangeiro acerca d'aqueiie
nosso poeta, «para que se veja como em matérias
de gosto são sempre discordes e variáveis as opi-
niões dos que se presumem auctorisados para ex-
primir voto fundamentado.» Aponta a origem d'esse
juizo, o Diction. génér. de Biogr^ por Dezobry e
Bachelet. O parecer acerca de Caminha é de que
«elle deixou eglogas d'uma frieza extrema, elegias
cheias de affectação sentimental, epistolas calorosas
e enérgicas, epitaphios e epigrammas de bom gosto
plenos.»
Pelo que toca aos avaliadores lusitanos, aponta,
que menos favorável do que o de José Maria da
Costa e Silva é a Pedro d' Andrade Caminha, talvez*
o conceito do illustrado («impertinente», tivemos já
ensejo de vêr lhe chamara Camillo) critico Fran-
cisco Dias Gomes, a quem o dr. J. Priebsch inverte
os appellidos, designando-o por F. Gomes Dias. Reco-
nhece-se que cita de memoria, porquanto no tom. iv
das Memorias da Academia que indica o traba-
lho do critico, illustrado, segundo Innocencio, im-
pertinente, segundo Camillo, não se dá como elabo-
rado mais do que por Francisco Dias. «Sem mais
nada.»
Quem lhe reler a passagem, por certo que repu-
tará em demasia dubitativo aquelle adverbio talvez*
apposto por Innocencio ao conceito (menos favorá-
vel acerca dos méritos poéticos de Pedro d' Andrade
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 34 1
Caminha) formulado por Francisco Dias Gomes, o
qual debuta logo asseverando que, do artista por-
tuense, «a sua imitação, em geral, pouco tem de
sublime, o seu pensar é frouxo, e o mesmo cara-
cter tem a sua expressão, que, cheia de licenças e
defeitos, é confusa e obscura, lodosa e baixa.» Con-
comitantemente, não perde por desinteressante o co-
tejo que porventura se faça de suas qualificações
com as que Innocencio nos forneceu do critico ex-
trangeiro, cujo juizo em suas laudas próprias repro-
duziu. Porquanto, das éclogas de Pedro d' Andrade
Caminha afflrma que ellas têm merecimento, tantp
no donceito como no estylo, que é todo frio e débil.
Das epistolas, comtudo, asserta que não só não des-
lustram o idioma mas o honram por muitos lances
de moral, bem tractada e descripta. Quanto ás ele-
gias amatorias, ellas não se devem considerar mais
do que umas lamentações seccas, sem pensamen-
tos, sem pathetico nem expressão. Mas os epita-
phios são concisos e bellos ; o poeta Caminha, ape-
zar dos pezares, tem poucos epigrammas que não
sejam bons, e n'este género Francisco Dias Gomes
conclue que elle é digno de todo o apreço e bene-
mérito da nossa poesia, que augmentou.
Em Paris, no anno de 1854 e no artigo respe-
ctivo do vasto repositório dirigido pelo dr. Hoefer e
publicado pelos irmãos Didot, de Pedro de Andrade
Caminha Ferdinand Denis opina que elle é um poeta
correcto, que se distingue, sobretudo, por sua ele-
gância; ajunta que elle foi, mesmo, catalogado en-
342 PORTUENSES ILLUSTRES
tre os clássicos mas que carece, em regra, de mo-
vimentação. Em Halle, em 1898, no elegante vo-
lume de venda da livraria editora de Max Niemeyer,
o dr. J. Priebsch marca caracteristicamente a si-
tuação social e mental do poeta portuense na sua
epocha e em seu ambiente : «gozando da plena con-
fiança do seu augusto amo, com entrada franca nos
serões da corte, Caminha (por este modo o dr. J.
Priebsch escreve) travou relações com a melhor fi-
dalguia do reino, ganhando, graças ao seu culto es-
pirito, o apreço de todos quantos tinham vocação,
ou pelo menos alguma aptidão poética. A elle, como
a um Mentor e juiz, remettiam os cortezãos nova-
tos os seus primeiros ensaios, pedindo conselho e a
sua opinião, promptos a acudirem, quando o mes-
tre accommettia qualquer empreza. Mas Caminha
não era um laureado guia e mestre das musas ape-
nas aos olhos da mocidade palaciana e dos verseja-
dores medianos. Os maiores engenhos contemporâ-
neos respeitavam-o e respeitavam, cheios de admi-
ração, os sons evocados da sua grave e doce lyra.
Bastará lembrar os encómios que lhe teceu seu ve-
nerando predecessor e amigo Francisco de Sá e Mi-
randa, os versos que trocou com Diogo Bernardes
e os louvores de António Ferreira, muito embora
este sincero patriota não deixasse de censurar ener-
gicamente, em uma Epistola, a então notável pre-
dilecção de Caminha pela lingua castelhana.» Em
nota, o dr. J. Priebsch exemplifica que o numero das
cantigas hespanholas d'essa sua edição de Poesias
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 343
inéditas de P. de Andrads Caminha se eleva á
somma de cento e trinta e oito. Os inéditos publi-
cados pelo dr. J. Priebsch declara elle que «encer-
ram abundantes matérias para a historia da litte*-
ratura portugueza no século xvi e espalham luz
sobre as aptidões, tantas vezes contestadas, mas de
oravante incontestáveis, do rival de Camões, assim
como sobre a sua posição e influencia na corte.»
Está tudo bem, menos a phrase rival de Ca-
ntões, que desastrada se figura.
A distancia a medir de Caminha a Camões é a
lonjura incommensuravel que vae do simples talento
ao génio; e bem mal a Caminha foi que esse per-
meio voraginoso instinctivamente o não sentisse elle,
reconhecendo que, por infortúnio, não sahira do seio
fecundo da terra madre com a fúria do N outro.
A «fúria» ! O quid divinum ! O Espirito !
Mas quê? Que valem freimas?
Fiat ubi vult.
Bem differente, por vezes opposto á simples ra-
são, discursiva e circumstancia, como a que distin-
guia o anti-romanesco portuense João de Barros.
Por isso mesmo se vê que o do Imperador Cla-
rimundo não seja.
Não é o das Décadas, não, porém sim o do Es-
pelho de casados.
Doutorado em Salamanca, uns o fazem de Braga,
344 PORTUENSES ILLUSTRES
outros, porém, do Porto, onde exerceu officio em
1549.
De sua raríssima obra se effectuou no Porto em
1874, conforme a de 1540, segunda edição, publica-
da pelo fallecido Tito de Noronha e pelo illustrado
negociante portuense snr. António Moreira Cabral,
a quem, com rasão e justiça, o snr. Brito Aranha
chama «um bibliophilo estimável» ; esta reimpressão
realisou-se pelo exemplar que pertencera ao então
já fallecido Joaquim Pereira da Costa e fora adqui-
rido pelo visconde de Azevedo, já agora fallecido
também.
No preambulo da moderna reimpressão os edi-
tores declaram inclinar-se a que o dr. João de Bar-
ros fosse natural de Braga; mas no Supplemento
do snr. Brito Aranha categoricamente se assenta a
decisão de que, morador em Villa Real, elle foi na-
tural do Porto.
Frisa Camillo Castello-Branco que o «casa-
mento » motivara alguns tractados de moral, por
onde observa que se collige a seriedade com que a
philosophia attentou n^quelle passo da vida tam
grave de responsabilidades. O exemplo dera-o o dr.
João de Barros no Espelho de casados, impresso em
1540; elle é o tronco genealógico da philosophia
matrimonial de Diogo de Paiva de Andrade no Ca-
samento perfeito e de D. FYancisco Manuel de Mello
na Carta de guia de casados.
Expende, em linguagem que Camillo qualifica
de « tosca, escabrosa e ás vezes deshonesta » , doze
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 345
rasões contra o casamento, e dá o mctivo: «foi o
caso que um meu singular amigo e companheiro de
Salamanca me escreveu uma carta porque eu lhe
commetti certo casamento, na qual elle se escusava
largamente»; e expoz outras doze rasões a favor
do casamento, «pprque, como diz o Philosopho,
as cousas contrarias, postas a par, melhor appa-
recem.»
Move-o outro empenho, de utilidade immediata:
evitar que se leiam fabulas ; e, assim, offerece á mo-
cidade o seu livro de historias e passagens verda-
deiras. «Quando os mancebos começam a ter en-
tendimento das cousas do mundo (admoesta o dr.
João de Barros), gastam o tempo em livros mui
desnecessários e pouco proveitosos para si nem
para outrem, assim como na fabulosa historia de
Amadis, nas patranhas do Santo Graal, nas sem-
saborias de Palmeirim e Primalião e Florisendo, e
outros assim, que haviam mister totalmente exter-
minados, que já de nenhuma cousa servem, onde
ha tantos outros de que se pôde tirar proveito. »
« Seria este (commenta Camillo Castello-Branco) um
dos raros quinhentistas que em 1529 escarneciam
as patranhas dos romances medievos do rei Arthur
e as sernsaborias do Palmeirim, ao passo que outro
João de Barros, seu parente, publicava nove annos
antes a Chronica do imperador Ciar imundo, que re-
quinta na insulsez e na inutilidade.»
Em a primeira parte do seu tractado, o dr. João
de Barros põe as taes doze rasões que desfavore-
n
46 PORTUENSES- ILLUSTRES
cem o casamento, sendo a primeira por causa das
cargas do matrimonio e a segunda por causa dos
filhos e de sua morte. A rasão terceira contra o
casamento é por ser espécie de servidão, e no ca-
pitulo se contém algumas cousas a que o marido é
obrigado. Quarta rasão contra o matrimonio, por à
simpleza das mulheres. Quinta, por motivo -da inr
constância das mesmas. Sexta, que se proclama fun-
damental mas que está maculada peia pecha, tam-
bém fundamental, por Camillo Castello-Branco posta
á linguagem do dr. Barros. A sétima rasão contra
o casamento diz respeito á discórdia, que factor é,
de per si, da rasão oitava. A nona rasão contra o
matrimonio é pelas tachas e manhas das mulheres;
esta secção cita auctores com fartura e tem muito
que se lhe diga. Todavia, ainda «/fica muito que di-
zer acerca do vicio das mulheres, e eu serei mais
cortez que não direi tudo o que se escreve. » Faço
como Camillo Castello-Branco; reformo a orthogra-
phia para se haver percepção das idéas do auctor.
A rasão decima é pela pobreza, doença e velhice.
A undécima contra o matrimonio, por causa da mu-
lher pobre ou rica. Na secção duodécima e final
contra o matrimonio, « outras muitas rasões pudera
dar para fundar esta minha tenção, mas não quero
ser mais largo ; estas abastem. » Por isso se deu fim
á primeira parte do livro.
Segue-se a segunda secção do tractado. « Em a
qual o auctor prova, por doze rasões evidentes, e
muitos fundamentos, quam excellente e proveitoso
XI — MIRANDA — MACEDO— - ALA O — CABRAL, &C. 347
e necessário seja o casamento ; e é resposta da carta
atraz. » Primeira rasão, para perpetuar o homem;
rasão segunda por parte do casamento, por causa
de quem o ordenou; rasão terceira, por causa da
gloria e alegria do casamento; quarta rasão pelo
casamento, que é por seguir os nossos antepassa-
dos; quinta rasão e fundamento, por acompanhar
os modernos ; sexta rasão por parte do matrimonio,
por causa da geração ; rasão sétima pelo casamento,
por motivo da honra; a rasão oitava por parte do
casamento diz respeito á amisade, da qual se tracta
singularmente; nona rasão, por ser o casamento
em favor da republica ; decima rasão pelo matrimo-
nio, por causa da ajuda da mulher ao marido; a
undécima rasão por parte do casamento concerne á
policia, visto como «assim digo que a ordem do
casado é vida politica e santa, em que muitos san-
tamente viveram e santamente morreram. » A rasão
duodécima e final peto casamento, é por este evitar
o peccado.
Entramos na zona terceira em a qual o auctor
particularmente responde aos doze fundamentos
allegados contra o matrimonio: e reprova e destroe
todos os ditos fundamentos e rasões dadas contra
elle e contra as mulheres, e mostra de quanta per-
feição e excellencia sejam ; e « tr^ctam-se mais mui-
tas cousas mui proveitosas aos casados. » Vem logo
a resposta e reprovação contra o primeiro funda-
mento das cargas do matrimonio; depois a réplica
ao segundo fundamento, da morte dos filhos, ver-
34& PORTUENSES ILLUSTRES
sando-se ahi da paciência e de que maneira deve-
mos sentir sua morte; immediatamente apparece a
resposta e reprovação do terceiro fundamento, da
servidão, discorrendo-se dos ciúmes e como sempre
o casamento é franco e de toda a liberdade. Re-
torque-se ao quarto fundamento, da simpleza: pro-
va-se que as mulheres são tam hábeis e tam sa-
bedoras como os homens, e assim se offerecem
alguns exemplos. Contestação é dada ao quinto
fundamento, da inconstância, e aqui se mostra
como são mui firmes na virtude e no bem as mu-
lheres.
Na reprovação e resposta contra o sexto funda-
mento se convence o leitor como por culpa dos
homens se causa a das mulheres; integram-se
n'este thema as reprovações especiaes do sétimo
fundamento e do fundamento oitavo. Surge a
reprovação do nono fundamento que foi contra
as mulheres, em que se demonstra serem mais e
maiores as tachas dos homens e se confundem
todos os fundamentos contrários. Ao ensino da
reprovação e resposta contra o fundamento final,
precedem-o as reprovações do undécimo funda-
mento e do fundamento decimo, da pobreza e
doença e velhice. N'esta conformidade, acaba a ter-
ceira parte: «Portanto, conclusivamente, havemos
de ter o casamento ser cousa excellentissima.»
Quarta parte e final d'este tractado: «Em a
qual se põem doze declarações e requisitos que se
requerem para que os casamentos se façam bem e
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 349
a serviço de Deus e para descanço e proveito dos
casantes. »
Opina, de remate, Camillo Casteilo Branco :
As conclusões com que o desembargador remata, pelo que
respeita aos requisitos que se requerem no casamento, provam
o seu bom-senso: idade conveniente, homem rico e sadio, que
não tenha filhos de outra. Vota por noiva virgem, rica, egual
na estirpe, honestamente formosa, e sã; e de bons costumes,
visinha conhecida e não parenta. Seus ou alheios, os argumen-
tos com que João de Barros justifica as suas theses contém
embryonarias as doutrinas physiologicas que modernamente
explanaram Legouvé e Balzac.
Está tudo muito * bem ; mas, como nem o dr.
João de Barros nem os não-menos doutores Le-
gouvé e Balzac, nenhum d'elles se lembrou de que
a maioria da gente é composta de homens pobres
e de pobres mulheres, resulta de todas estas dou-
trinas physiologicas que a maioria da gente, por
não estar nas condições, ficará por casar. O que
talvez não de todo haja téqui tolhido a effectivi-
dade d'aquella rasão primeira da parte segunda em
prol do matrimonio: por se perpetuar o homem.
Mas, se a physiologia não perdeu, a moral não
ganhou.
E, no que toca a outro dos méritos do por-
tuense João de Barros, condemnando as novellas
de cavalleria, outro portuense, Vasco de Lobeira,
parece algo poder oppòr-lhe.
3$0 PORTUENSES ILLUSTRES
A' corroboração de texto definido, addul-a o dr.
Theophilo Braga, reportando-se a Miguel Leite
Ferreira, o qual, faltando de uns sonetos em lin-
guagem antiga (Ed. dos Poemas Luzitanos, de
1598) — escriptos por seu pae o dr. António Fer-
reira — , dissera: «na linguagem que se costumava
n'este reino em tempo d'el-rei Dom Diniz, que é
a mesma em que foi composta a historia de Ama-
dis de Gaula por Vasco de Lobeira, natural da ci-
dade do Porto.» E Innocencio enumerara, entre os
testemunhos de maior pezo, o do nosso já conhe-
cido Gomes Eannes de Azurara, mas em outra obra
onde se referira a «o livro d' Amadis, como quer
que somente este fosse feito a prazer de um ho-
mem, que se chamava Vasco Lobeira em tempo
del-rei Dom Fernando. »
Na discussão da origem do Amadis vê-se em
texto do dr. Theophilo Braga que o sábio Victor
Le Clerc assentara o problema definitivamente, es-
crevendo : « a primeira redacção do famoso Amadis
de Gaula, que, todavia, não é, como se vê pelo
texto mais antigo hoje conhecido, o hespanhol, se-
não uma' imitação prolixa dos poemas da Tavola
Redonda e dos Romances de Aventuras, taes como
o romance de Amadas. » E na mesma obra Theo-
philo Braga apresenta uma explicação do facto, ao
XI — MIRANDA — MACEDO ALÃO — CABRAL, &C. 35 I
parecer contradictorio, de que seja precisamente na
òôrte de Dom João i que se encontra o mais exal-
tado prurido pela leitura e imitação das novellas
da Tavola Redonda e dos seus heroes, chegando os
seus nomes a serem reproduzidos nas famílias aris-
tocráticas. «Convinha mais á corte portugueza —
pondera Theophito Braga — a leitura das novellas
com aventuras e situações fictícias ; o cyclo do Santo
Graal, em que se preconisa a fidelidade á Egreja,.
harmonisava-se peto seu maravilhoso com o nosso
génio céltico. E essas aventuras, como a da Des-
cida aos infernos, a da descoberta do Preste João
(o christianismo entre os Bretãos foi propagado por
discípulos de Sam João) e Viagens de Sam Bran-
dam, influíram no génio aventureiro que levou os
portuguezes ás descobertas marítimas. »
Para frisar como se imitava o viver idealisado
nas novellas de cavalteria, Theophilo Braga cita a
Chronica de D. João /, na passagem que conta
Fernão Lopes.
Ella é, na verdade, mui característica; consti-
tue a essência do capitulo 75 da 2. a parte, que, de-
pois de o anterior haver relatado como el-rei che-
gou a Coria e poz seu cerco sobre ella, refere
como el-rei combateu a dita cidade de Coria e nos
falia das razões que disse Ruy Mendes.
Traslade-se por este teor, de Fernão Lopes, na
edição de 1644, á custa de António Alvares, im-
pressor d'et-rei:
352 PORTUENSES ILLUSTRES
A cidade era bem forte de muro e torres e de boa gente;
e o combate que lhe então dessem não prestava nenhuma
cousa; e affastaram-se a fora, tornando para seu arraial, sendo
alguns d'elles feridos de virotôes e pedradas: vindo, a altas
vozes, bradando Antão Vasques: Capadócia, Capa Jocia, faça-
mos el-rei Imperador!
El -rei na tenda, segundo parece, não foi bem contente
d'alguns, que se não chegaram como elle quizera; d'ahi, fal-
lando nas cousas que no combate succederam, veio a dizer,
como em sabor: Gra?i mingoa nos fizeram hojâiji este Mia aqui
os bons cavalle-ros da Tavola Redonda; que, certamente, se
elles aqui foram, nós tomáramos este togar.
Estas palavras não pôde ouvir com paciência Mem Rodri-
gues de Vasconcellos, que hi era com outros fidalgos, que logo
não respondesse ; e disse : Senlior, não fizeram aqui mingoa os
c avaliei r os da Tavola- Redonda, que aqui está Martim Vas-
quês da Cunha, que é tam bom como Dom Galaaz, e Gonçalo
Vasques Coutinho, que é tam bom com) Dom Tristão, e eis
aqui João Fernan ies Pacheco, que é tam bom como Lança-
rote. E assim d'outros, que viu estar arredor. E eis-me eu aqui,
que valho tanto conto Dom Quêa. Assim, não fizeram aqui min-
goa esses cavai lei ros que vos d.zeis. Alas fez-nos a nos aqui
grau mingoa o honi Rei Arlhur, flor de liz, senfior d' elles, que
conhec a os bons servidores, fazendo-lhes muitas mercês, pelo
que haviam desejo de o bem servir.
El-rei, vendo que o haviam por injuria, respondeu então
e disse: Nem eu esse não tirava de fora, que assim era cavai-
leiro da Tavola-Redonda como cada um dos outros.
Então, lançando o facto a riso, d'isto e d'outras cousas
deixaram razoado tal; e fallaram nas destemperadas calmas
que n'aquelle logar faziam.
»
Theophilo Braga, após um resumo que fez da
situação, informa que esta anedocta já andava repe-
tida desde o século xiu, em nome do rei Philippe,
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 353
que se lamentava de não haver já cavalleiros tam
bons como Roland e Olivier. « O Condestavel
Nun'Alvares (escreve) queria imitar a virginidade
de Galaaz y para manter a pureza da Cavalleria; e
faziam-se votos denodados, como os Cavalleiros
da Madre Silva, Ala dos Namorados e Doze de In-
glaterra. Até nas instituições sociaes penetrava a
imitação artificial das ceremonias e symbolismos ca-
valheirescos ; basta abrir o Regimento de Guerra
portuguez, codificado pelo Infante Dom Pedro, o
que correu as Sete Partidas do mundo, para vêr
como debaixo da esquadria lógica e unitária da
codificação romana, estabelecida pelos jurisconsul-
tos burguezes, irrompe o cerimonial novellesco
com que um escudeiro devia de ser armado caval-
leiro. E sobe de interresse esse confronto com o
ceremonial do poema Ordre de Chevalerie, de Hu-
gues de Tabarie. As explicações synibolicas do tro-
veiro francez coincidem com os paragraphos da
Ordenação Affonsina. E' com razão que se consi-
dera o Regimento de Guerra como o necrológio da
cavalleria portugueza; este ultimo lampejo de vida
foi-lhe communicado pela leitura dos poemas an-
glo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam
nas livrarias re rias. »
Kj
A influencia do AmaMs resultou, consoante o
aponta o dr. Theophio Braga, immensa na Eu-
ropa; mas especificadamente o erudito professor
indica o relevo peculiar aqui a attender. «O que in-
teressa (elie explica) na novella do Amadis de
VOL. I.
- -s
354 PORTUENSES IU.USTRES
Gaula é a forma em prosa, e essa é um producto
que mais caracterisa a litteratura medieval portu-
gueza.»
Quanto a Vasco Lobeira ou de Lobeira, de na-
ção portugueza, segundo se affirma, no seu tom
dubitativo discorre Innocencio, natural da cidade
do Porto, o douto bibliographo lembra-nos que al-
guns escriptores nacionaes, e com elles Barbosa,
fundados na auctoridade de Duarte Nunes de Leão,
sustentam que elle fora com outros armado caval-
leiro no dia da famosa batalha de Aljubarrota (14
de agosto de 1385); mas parece que restava pro-
var que na identidade dos nomes se envolvia tam-
bém a das pessoas, do que, a Innocencio se figura,
ninguém curava até á data. Outros o creram mais
antigo, dizendo que vivera no reinado d'el-rei Dom
Affonso iv, e no lance aponta para Faria e Sousa,
em sua Europa Portugueza. Um critico extran-
geiro, Sismonde de Sismondi, o fizera contempo-
râneo de Dom Diniz, suppondo que florescera entre
os annos de 1290 e 1325. Mas Innocencio já se
dá por satisfeito ao consignar, consoante o exara,
que, aparte estas incertezas sobre p epocha precisa
da sua vida, concordam uns e outros em conside-
ral-o como verdadeiro auctor do celeberrimo ro-
mance Amadis de Gaula, isto é dos primeiros quatro
livros, que, trasladados depois do portuguez (dizem)
para castelhano por Garcia Ordonez de Montatvo,
se imprimiram pela primeira vez em Salamanca, no
anno de 15 10. Não com tanta pressa acaso cumpre
XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 355
marchar-se, todavia. Ou, antes, discriminar e, em-
fim, apurar.
Como quer que tenha de ser, já em 1860 des-
tacava o portuguez Innocencio para eventual cotejo
o livro do francez Eugénio Baret, estampado
em Paris no anno de 1853 e versando minucioso
estudo acerca do Amadis de Gaula, da sua influen-
cia sobre os costumes e litteratura nos séculos xvi
e xvii. E depois o italiano Angelo de Gubernatis,
aferindo da disputa procrastinada ainda entre por-
tuguezes e hespanhoes attinentemente á prioridade
da composição do Amadis, com allegar a justeza
da these sustentada por Baret sobre a preexistência
d'uma outra licção mais antiga do que a de Vasco
de Lobeira, de par e passo asseverou, comtudo
{Storia universal delia letteratura, vol. ix), que por
ora não queda resolvido o problema se a licção
mais antiga que serviu de base ao livro de Lobeira
foi quiçá franceza, porventura hespanhola ou ainda
portugueza. Porém isso publicou-se no século
passado. Em 1883.
V' f
XII
João dos Prazeres — Luiz dos Anjos — Fer-
nando da Soledade — Manuel Aboab —
Uriel da Costa.
R
adigoso, quasi que não dando margem ao
remanso das saborosas, ponderosas leituras, em sé-
culo próximo pretérito. Mesmo no Porto quam
longe já da disposição com que os pezados tomos
infindáveis se gozavam, á laia dos do portuense
João dos Prazeres, que os de leitura soporifera
brindava a seus amados conterrâneos, circumspe-
ctos e mentalmente tardigrados.
O eremita augustiniano fr. António da Purifica-
ção, mestre de theologia e philosophia na sua
Ordem, e chronista da sua província, ultimamente
nomeado parocho da freguezia de S. João da Foz,
a qual era da administração da mesma provincia,
nasceu aqui no Porto em iôci e publicou em Lis-
boa, em 1642 e em 1656, respectivamente a parte
358 PORTUENSES ILLUSTRES
primeira e a parte segunda da sua Chronica da an-
tiquíssima provinda de Portual da Ordem dos Ere-
mitas de S. Agostinho, bispo de Hippona e principal
Doutor da Egreja.
A nimia credulidade, espirito de partido e um
falso e irreflectido zelo pelo credito e interesse da
sua corporação cegaram este chronista ao ponto»
exara Innocencio, de o levarem a produzir factos
conhecidamente fingidos. — Fabricador de documen-
tos, Innocencio prosegue, da eschola do hespanhol
Higuera e dos portuguezes Brito e Lousada, os que
apresenta na sua chronica não merecem fé alguma,
se não teem mais seguros abonadores. Innocencio
manda vêr a este respeito o que escreveu o acadé-
mico Leitão Ferreira nas Noticias da Universidade
de Coimbra e também João Pedro Ribeiro nas Obser-
vações diplomáticas. O mesmo Barbosa Machado, tam
indulgente e sempre propenso a desculpar e até a
elogiar escriptores que ás vezes, o áspero Inno-
cencio o adverte, bem pouco o merecem, chegando
a tractar da obra de fr. António da Purificação,
não pudera deixar de lançar-lhe um stigma, tam
severo quanto n'elle pouco usado, chamando á
chronica celebre archivo de fabulas monásticas em
que era fecundíssima a idéa do chronista.
Este puzera em a parte segunda da sua obra uma
addiçâo no cabo, na qual se responde aos principaes
togares da Benedictina Lusitana. E esta, dedicada
ao grande patriarcha S. Bento, publicando-se em
Coimbra em dous tomos, respectivamente de 1644
PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 359
e de 165 1, foi escripta pelo monge benedictino fr.
Leão de Santo Thomaz. De quem observa Innocen-
cio ter sido destituido dos bons princípios da cri-
tica, se não fora que rasões mais censuráveis o in-
duziram a deixar-se levar por errados guias,
apoiando as suas narrativas nas falsas chronicas de
Pires, Dextro, etc, que inculca adoptar por textos
legítimos e genuínos e tomando por verdadeiras as
asserções de Brito, Bivãr, Higuera, etc. — Deixara
também provas, quando menos, de imperícia, no
modo como examinara alguns documentos que pro-
duz na sua obra e de nimia credulidade nas infor-
mações que lhe davam outros seus confrades. Inno-
cencio mandava vêr o que dizem a este respeito
dois portuenses, João Pedro Ribeiro, nas Observa-
ções diplomáticas e nas Dissertações Chrónologicas,
e Diogo Kopke nos Apontamentos archeologicos.
Quanto á obra do portuense fr. António da Pu-
rificação, directamente a impugnara o vouzellense
fr. Gil de S. Bento, monge benedictino, cuja cogula
vestiu a 20 de janeiro de 1615. Foi chronista da
sua Ordem e percorreu os archivos e cartórios dos
conventos e cathedraes mais antigos d'este reino,
em busca de documentos, e para investigação de
suas antiguidades. Ao augustiniano replicou com
trabalho impresso em Lisboa em 1657, a Satisfa-
ça.) apologética e quinta essência de verdades, averi-
guxdas e apuradas em cinco respostas pacificas, com
que o auctor satisfaz em tudo ás cinco extraordiná-
rias opiniões que de novo deu á imprensa, em sua
360 PORTUENSES ILLUSTRES
Chronica, contra a religião benedictina, o padre fr.
António da Purificação, etc. A's instancias do au-
ctor, redarguiu o impugnado padre Purificação com
o tomo impresso em Coimbra em 1660, do Antí-
doto Augustiniano, em o qual se convencem e desfa-
zem as f aliadas e enganos da Apologia intitulada
« Quinta Essência de Verdades escriptas pelo P. Fr.
Gil de S. Bento.»
A controvérsia memora Inriocencio que versava
sobre a prioridade da fundação das Ordens benedi-
ctina e augustiniana e da sua respectiva entrada
em Portugal : « a cujo respeito os contendores des-
pregaram torrentes de erudição, que talvez pode-
riam empregar mais utilmente.» Em quê? Frades
empenhados na quietação doutrinaria, em que em-
pregariam a indispensabilidade do trabalho cerebral
senão em inquirições d'este alcance e em conten-
das egoístas e corporativas ? Captivos, poderiam
vêr livremente? Interessados na rotina, desaffectos,
por conveniência, a innovações, acaso licito lhes
seria suspeitar sequer para mais alto e para mais
longe ?
Assim, consumiam-sc n'estas fainas estéreis,
accumulando costaneiras de sarrabiscos, passados
depois á impressão dos prelos ; hoje dormem nas
bibliothecas publicas ou são folheados pelos curio-
sos, na cata de espécies subsidiarias. Os alfarrabis-
tas pedem um dinheirão por esses cartapacios,
ainda rotos e esfrangalhados — preciosos, pois que
sejam o deposito das locubrações pretéritas. Elles
PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 36 1
nos revelam o condicionalismo económico da socie-
dade através das preoccupações' subjectivas dos in-
divíduos, e não é essa a menor de suas valias.
Assim, servem para éstúdo os aspectos vários des-
tas rixas infecundas em que se gastaram os intelle-
ctuaes do tempo da oppressão espiritual. Innocen-
cio, a propósito, refere-se a outra idêntica, ulterior,
rija, polemica.
Na epocha em que por agora estamos, cumpre
vir á participação que em estudos e debates taes
teve fr. João dos Prazeres com a sua obra, que
ficou incompleta, havendo compostos, alem do
único impresso, em Lisboa, dois tomos, respecti-
vamente em 1685 e em 1696, mais dois tomos,
que dizem se perderam por morte do seu auctor, a
qual sucedeu no convento de Cucujães a 4 de
março de 1709, «sendo esse monge benedictino, chro-
nista geral da sua Congregação, nascido no Porto
em 31 de agosto de 1648.
A obra tem por seu titulo O príncipe dos pa-
triarchas S. Bento e foi suscitada pelo appareci-
mento do Crysol purificativo, de fr. Manuel Leal de
Barros, a quem fr. João se propoz, recapitula o snr.
Brito Aranha no «Supplemento», responder, refu-
tando os seus argumentos e procurando restabele-
cer a primazia na antiguidade da ordem benedictina,
contra os chronistas de Santo Agostinho, que pre-
tendiam fazer os eremitas d'esta mais antigos que
todos os outros regulares, etc.
Este fr. Manuel Leal de Barros, eremita augus-
362 PORTUENSES ILLUSTRES
tiniano, era, segundo se lê na Bibliotlieca Lusitana,
doutor em theologia pela Universidade de Bordeaux,
e nascera em Arrifana do Souza, hoje cidade de
Penafiel, no anno de 1Ó22. A sua obra, em qne se
apura o monacJiato do grande pa y riarcha e doutor
principal da egreja Santo Agostinho e a successáo
continuada da Ordem eremita, que instituiu em
Africa e seus discípulos introduziram ri esta provín-
cia lusitana, foi impressa em Lisboa em 1674.
Quanto á critica, diz Innocencio que o auctor
estava bem longe de ser superior ás preoccupações
do seu tempo e que, seguindo o exemplo do seu
confrade fr. António da Purificação, só tivera em
vista sustentar a primazia e antiguidade da sua
Ordem com razões mais apparentes que solidas.
Quanto á linguagem, o padre Francisco José
Freire, nas suas Reflexões sobre a língua portu-
guesa, a seu livro lhe chamara «abundante semen-
teira de joio de vozes latinas, sem necessidade
aportuguezadas». Por isso, Innocencio conclue que
goza como tal de fraca auetoridade em pontos de
linguagem.
Mas já as obras de fr. João dos Prazeres, e no-
tavelmente entre ellas o seu Abecedario real, são
reputadas entre os críticos como correctas em lin-
guagem, e fazem auetoridade. O padre Francisco
José Freire, por mais de uma vez, o cita n'este
sentido.
Assim Innocencio em seu tomo quarto.
PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 63
Esse fr. António da Purificação, chronista de
sua provinda de Portugal, em seus manuscriptos
deixou constante que manuscripto se guardava, na
livraria do convento de Nossa Senhora da Penha
de França de eremitas de Santo Agostinho, situado
no subúrbio de Lisboa, o segundo tomo d'aquèlla
Historia Gsral da Ordem de Santo Agostinho, que
comprehende o primeiro século, sahida com algumas
addições de fr. Pedro dei Campo, chronista geral,
em castelhano, e publicada em seu nome, em Bar-
celona, em 1640; bem como o original da outra
obra do mesmo portuense fr. Luiz dos Anjos, Notas
sobre as Censórias de fr. Jeronymo Roman, o con-
servava elle próprio o portuense fr. António da Pu-
rificação, consoante o exara na primeira parte e na
segunda da Chronica dx Provinda Augustiniana
em Portugal.
Em latim, n'um mesmo intuito fervoroso escre-
vera De vita et laudibus S. Patris Aurelii Augus-
tini Hipponensis episcopi et Ecclesuv Dòctoris eximi
libri sex em Coimbra no 1612, em Paris no 161 4;
e em portuguez estampara seu Sermão em louvor
de N. Padre Santo Agostinho, bispo de Hipponia e
principal doutor da Igreja, em Coimbra no 17 18
(aliás 16 18, como a Barbosa e a Farinha corrige
Innocencio).
364 PORTUENSES ILLUSTRES
Com diversos elogios celebraram sua memoria
auctores que Diogo Barbosa Machado enumera: fr.
Francisco Macedo, Herrera, Rodrigo da Cunha,
Abreu, João Soares de Brito, Nicolau António,
Franckendre. O arcebispo de Braga, D. fr. Aleixo
de Menezes, «grande erudito da família Augusti-
niana», o elegeu por seu confessor.
Elle fora, na verdade, um fanático dos seus,
porquanto, em prol da sua Religião, fr. Luiz dos
Anjos se applicou a examinar a antiguidade da sua
origem, os privilégios e indultos que lhe concederam
os Summos Pontífices e os varões, illustres, em vir-
tude e sciencia, que n'ella floresceram; e, como
para conseguir tam árdua em preza lhe fosse pre-
ciso discorrer por Hespanha, França e Itália, revol-
vendo os archivos de todos os conventos augusti-
nianos, o nomeou chronista, a 28 de Dezembro de
1608, fr. João Baptista de Aste, geral da Ordem,
eleição que desempenhou «como da sua grande
capacidade e indefesso estudo se esperava», a pa-
recer do auctor da Bibliotheca Lusitana, em 1752.
Mas o auctor do Diccionario Bibliographico, em
1860, ao contexto de outro trabalho do mesmo fr.
Luiz dos Anjos pondera que n'elle «os escrupulosos
quereriam achar mais critica e exactidão.» «Com-
tudo (accrescenta), não deixa de ser obra de mérito
na sua especialidade e traz noticias curiosas e inte-
ressantes, em linguagem pura e quasi sempre
correcta. »
Porém, por óbito do auctor ficando essa obra
PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 365
com as licenças para se imprimir, mas só vindo a
sahir á luz posthuma, por diligencia d'aquelle fr,
António da Purificação, conforme este o declara na
própria dedicatória do livro á condessa do Sabugal,
ahi mesmo confessa ingenuamente, descarte chás*
quea Innocencio, não ser o estylo do auctor o mais
delicado
Do auctor escreveu Diogo Barbosa Machado
que «a morte, invejosa do applauso que seu inde-
fesso estudo havia conciliar ao seu nome, o privou
intempestivamente da vida em Coimbra, a 8 de
Janeiro de 1625. » Da obra especificadamente visada
pelos reparos de Innocencio diz o « Supplemento »
que no catalogo dos livros raros de Gubian vem
d'esta descripta uma edição, que parece ter sido
feita em vida do auctor, e não foi mencionada no
Diccionario; tem differença no titulo e, em Lisboa,
a data é de 1625. — Será esta a primeira edição?,
alli se pergunta.
Da obra em mira, na edição que Innocencio
registrou, sem os encurtamentos doeste mas a rigor,
sua folha de rosto consta n'este modo: Jardim de
Portugal, em que se dá noticia de algumas santas e
outras mulheres illustres em virtude, as quaes nas-
ceram ou viveram ou estão sepultadas n'este reino e
suas conquistas. Recopilado novamente de vários e
graves auctores pelo Padre Doutor fr. Luiz dos
Anjos, religioso e chronista da Ordem de nosso
Padre Santo Agostinho, natural da cidade do Porto u
Contém boa licçào para mulheres, exemplos para pré-
366 PORTUENSES ILLUSTRBS
gadcres, motivos para devotos e y para os amigos de
historias, muitas, antigas e modernas. Anno 1626.
Impresso em Coimbra, com todas as licenças necessá-
rias. Em casa de Nicolau Carvalho, impressor
d'el-rei.
As approvações são respectivamente de fr. Ro-
drigo da Conceição, de D. fr. Gaspar dos Reis, de
Diogo de Paiva de Andrade e de D. fr. Martinho de
Aragão. E, na dedicatória á senhora Dona Luiza
Coutinho, condessa do Sabugal, alcaidessa mór de
Santarém etc, expressamente fr. António da Purifi-
cação escreve : «Posthumo é este livro, que sahe á
luz depois da morte de seu auctor o D. fr. Luiz dos
Anjos.» Relata que o seu visitador geral o R. P. M.
fr. Manuel de Lacerda, «para supprir a falta da
presença do auctor», lhe encommendara «a conti-
nuação doesta impressão, a que, poucos dias depois
de começada, faltou o seu auctor.»
Como entender então isto?
A approvação de D. fr. Gaspar dos Reis merece
nota. Diz elle que entende que o Jardim de Portu-
gal é « obra de grande proveito e fructo para as
almas, de grande alegria e consolação para as donas
e mais pessoas devotas d'estes reinos, de grande
estimulo para a virtude e santidade, assim d'elles
como dos extranhos. Mostra o auctor n^lla grande
zelo de eternizar, e com isso augmentar as virtudes
e excellencias de seus naturaes, muita erudição e
diligencia em a licção das historias, antigas e mo-
dernas. »
PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 367
O Jardim de Portugal começa por Claudia Loba,
do Porto, e acaba por Anna da Conceição, de Lisboa.
Com varias donas e santas, ademais de Lisboa e
Porto, são contempladas no transcurso de suas
laudas, das terras de Portugal, algumas além de
uma vez, as seguintes: Bragança, Águeda, Lamego,
Braga, Alemquer, Villa-Viçosa, Setúbal, Coimbra,
Almoster, Villa do Conde, Évora, Aveiro, Campo-
Maior, Villalonga, Ilha Terceira, Elvas, Coz, Santa-
rém, Thomar, Sines, Tourega, Lamas, Guimarães,
Arouca, Alcacer-do-Sal, Batalha, Lorvão, Torres-
Novas, Estremoz, Beja, Goa, Ilha de S. Mi-
guel, Almada, Cabo de Gué, Linhares, Guarda,
Feira, Castanheira, Vizeu, Vianna, Trancoso, Ama-
rante, Basto, Ourem, Arrayolos, Pinhel, Monte-
mór-o-Velho. Designa Entre Douro-e-Minho ; mette
Merida, porque «Merida foi cabeça da nossa antiga
Lusitânia», e inclue Tanger, porque fosse ainda do
Portugal nosso moderno.
No Catalogo dos livros faros, manuscriptos e
impressos, que compunliam a bibliotheca de sir £***
e que hão-de ser vendidos em leilão no domingo 10
de novembro de 1867, e 10 dias seguintes, das 12 ás
4 horas da tarde, rua da Conceição \ jy (d praça das
Flores), em a pag. 4, sob o n.° 31, marca-se, com
effeito, uma edição do Jardim de Portugal, com
variantes no titulo, de Lisboa em 1625, como rara.
Singularissimo devia ser o exemplar, decerto. Único.
Porque, decerto, a explicação do enigma topa-se
logo na noticia que diz: «Tem 3 folhas remendadas
368 PORTUENSES ILLUSTKES
na margem, sem offensa do texto. » No immediato
n.° 32 vem a edição conhecida, -de Coimbra, em
1626. A do n.° 31 deveria ter a folha do rosto feita
á mão e ser, afinal, a mesma do n.° 32.
Mas, se a leitura d'estes nossos portuenses idos
não a soffreriam, com excepçá) do Jardim dj Por-
tugal, de fr. Luiz dos Anjos, os portuenses actuaes,
perdoariam elles seu enfado ao seu ido conterrâneo
fr. Fernando da Soledade?
Confessando que grande parte dos minuciosos e
importantíssimos esclarecimentos do seu artigo a
que me reporto lhe foram generosamente dados pelo
snr. dr. Pedro Augusto Ferreira, digníssimo e illus-
trado abbade que era então de Miragaya, e pelo
hoje fallecido Tito Augusto Duarte de Noronha,
esclarecido director que então o era das obras da
nova alfandega do Porto, Pinho Leal refere que o
nosso infatigável archeologo Joaquim Possidonio
Narciso da Silva achara em 1863 no convento de
Monchique, d'aquella freguezia de Miragaya, uma
grande lapide de granito, com uma inscripção
hebraica, perfeitamente conservada. Estava incor-
porada no revestimento de cantaria, em conveniente
altura para ser lida, do lado esquerdo de .quem entra
no pateo, e próximo da hombreira da portão da
horta.
XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 369
O archeologo Silva desejara logo obtel-a para o
seu querido museu archeologico do Carmo; passa-
dos annos, fora o mosteiro vendido e o seu com-
prador generosamente dera a pedra ao que tanto a
desejava, fazendo ella, pois, entrada, a 3 de feve-
reiro de 1875, no Carmo, onde poderia vèr-se a
inscripção, que não está completa, faltando-lhe a
parte superior e a inferior.
«E provável — Pinho Leal escreveu — que esta
pedra viesse para aqui, da esnoga (synagoga) que
se suppõe, com bons fundamentos, ter existido pró-
ximo e a E. do mosteiro, onde ainda se chama
Monte dos Judeus, depois de expulsos os israelitas,
do seu bairro, á Victoria, como fica dito no logar
competente. »
Ao archeologo Silva o hebraisante Joshua E.
Levy dera, da inscripção hebraica, a traducção se-
guinte:
I .° — vSV perguntar, como não foi occultado, edi-
fício de nomeada dentro de muralhas.
2. — Elle fazia saber, dizendo, tenho um prote-
ctor, conhecido entre altos dignitários.
3. — Para mim um guarda, elle decerto diria,
eu sou a tua verdadeira e melhor muralha.
4. — Grande entre os hebreus, entre os prínci-
pes da tua nação, o mais poderoso elle é.
5. — Benéfico protector do seu povo, servindo a
Deus com perfeita fé, edificou um templo ao seu nome,
de talhado pedernaL
6.° — Ministro de el-rei, na grandeza o pri-
VOL I. -i\
370 PORTUENSES ILLCSTRES
meiro c conceituado, c nas audiências reaes seu
posto tem.
/.° — Elle é grão rabbino Dotn Jehudá, protector
e luz da tribu de Jehtidá, a elle compete a suprema
auctor idade.
8.° — Por mandado do grão rabbitto, que vira,
Dom Jehosef Ben Argê (José de Leão), conimissio-
nado e director da obra.
Esta é a traducção que a seus assignantes for-
necia Pinho Leal em 1875.
Mas em 1709 o portuense fr. Fernando da So-
ledade, eleito chronista, substituindo em tam labo-
riosa incumbência ao padre fr. Manuel da Espe-
.rança, seu patrício, «assim na investigação das
memorias como na elegância do estylo, em que
competiu e excedeu (entende-o, não mal, Diogo
Barbosa Machado, que o diz) a muitos escriptores»,
dera já a interpretação e traducção d'aquelle lettreiro,
o qual deixara em apposto logar do seu labor,
«mais por obsequio á curiosidade (elle explica) qucí
por desempenho da nossa obrigação.»
Ora, a traducção de 1709 era a seguinte:
«Esta pedra da lingua santa Hebraica escreveu
o Levi Rabbino A ardo dos Anjos de Deus, coroa da
Lei do Deus de Israel dos Hebreus: Palavras de
Deus, e de todos os Talmudistas em a casa da Syna-
goga. Quanto ha, tudo dá graças a Deus: Que Deus
sabe todos' os corações dos homens; e o principio da
sabedoria é o temor de Deus, porque Deus está no
ceu c na terra. Faze todo o bem e nada faças mal:
XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 7 1
que Deus sabe o caminho dos bens e dos males, c no
ctitro Mundo se acham os bens e os males.'»
Quem foi que fez esta traducção?
Foi um hebreu, convertido á fé christã, chamado
João Baptista. E relata o nosso portuense fr. Fer-
nando da Soledade que os curiosos que alcançaram
essa traducção d'aquelle hebreu, querendo fazer ex-
periência da sua verdade, fingiram que tinham per-
dido o traslado e, obrigando-o a copiar outro na sua
presença, o tirou conforme o primeiro e explicou em
o nosso idioma da maneira que transcripta queda.
A secção da Historia Scraphica a que me estou
reportando occupa-se da origem, augmentos e me-
morias illustres do mosteiro da Madre de Deus de
Monchique na cidade do Porto; o cap. xiv tracta
do sitio e fundadores d'esta casa; e o immediato xv
«da disposição e planta d'este mosteiro, e noticia
de um lettreiro hebraico que n'elle existe.»
Eis seu paragrapho 562, no intróito:
Depois que sahimos da egreja e caminhamos pelo pateo,
nos apparece, á mão direita d'elle, gravado na parede do dor-
mitório antigo, um epitaphio de caracteres hebraicos, abertos
cm uma pedra, que fora da synagoga, e n'este logar o mandou
pôr Gil Vaz da Cunha, fundador das casas, servindo junta-
mente de padieira a uma porta. E posto que esta se tapou,
quando aquellas se transformaram em mosteiro, reservaram,
comtudo, sempre esta memoria. Pelos annos adeante, um pre-
lado, com zelo impertinente, mandou que a cobrissem de cal,
por tirar a occasiâo a muitos curiosos que vinham examinar
a sua intelligencia; mas o tempo, ajudado da industria, a poz
■outra vez patente aos olhos de todos.
3/2 PORTUENSES ULLUSTRES
Como esclarecer o caso?
Krei Fernando da Soledade declara: «Xão es-
crevemos as lettras hebraicas, por faltarem as for-
mas d'ellas para a imprensa; mas basta a sua inter-
pretação, e é a seguinte:» . . .
Um momento.
Para communicar ao leitor noticia valiosa, e vem
a ser que, sob o embaraço da trapalhada que lhe é
habitual, o nosso christão-velho, antigo miguelista
militante, emenda vários, e graves, erros do hebrai-
sante Joshua E. Levy, o qual dissera que a edifi-
cação do templo judaico em mira se effectuou no
tempo do dominio dos Philippes em Portugal, pare-
cendo ignorar que os judeus foram expulsos d'este
paiz por D. Manuel em 1497. «A dominação phi-
lippina (observa-lhe Pinho Leal) principiou no ultimo
quartel do século xvi e terminou no segundo do
século xvii — 1 580-1640 — e não nos séculos xiv e
xv, como diz o snr Levy. »
Corrigindo-o em suas faltas, ao hebraisante do
museu do Carmo o auctor do Portugal antigo e
moderno, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de
Pinho Leal, resume-o.
« Segundo suppõe — elle informa — o snr. Levy
(o traductor), foi edificado o templo judaico (syna-
goga) a que a inscripção se refere, no fim do
século xv ou principio do xvi, por ordem do rab-
bino Dom Jehudá, que occupava uma posição muito
elevada na côrte y a que a inscripção dá o nome de
Mishné Lamelejy que, na lingua hebraica, significa:
XII PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 73
— vice-rei, director de finanças ou intendente geral
do reino,»
Não sei se Pinho Leal era forte no hebraico,
mas o que sei é que elle volve a rabujar em nota.
Porém deixemol-o.
Os curiosos estão fervendo. Faça-se-lhes a
vontade. Não mais delongas.
Siga o lettreiro, consoante o apresenta o por-
tuense fr. Fernando da Soledade:
« Axer aghever assemir loh animim chesur Thora
a Judea adonai melech jehudim bethinnim beninada-
mim et amed gadol jikudim gado/ ha hamos ghevir
lamelech Israel Bar a Elorin dibar sehuda ghedolim
berossohhuchem hechol mispar huekanim bexorim Ke-
xirmod mehumim behudomim kahem lamedeinoh
vehenem bessurim Jiattem Eloim brahomim mispar
Kados kassem belim Kaelim sehem Kexorin vaa mal*
gaim lesum acodes bacleem amayo.»
Vá de decifrar.
Contra as aborrecidas noites de inverno, eis ahi
um entretenimento agradável, para as passar diver-
tidamente, leve o tempo, com satisfação e gosto.
Charadas e logogriphos? Qual quê! Vá de decifrar.
Pois que não perdure entre os portuguezes de
hoje o ódio ao judeu do portuguez de hontem.
Assim, o portuense aryá christão- velho curiosidade
haja do semita Manuel Aboab e do christão-novo
Uriel da Costa, ambos seus conterrâneos.
374 PORTUENSES IL LUSTRES
Está sempre Innocencio a testilhar, até por
futilidades e involuntariedades, como erros typo-
graphicos extremes, com o douto Barbosa; e, de
indole suspicaz, proclama, peremptório, que, «como
não declara o formato, nem quem fosse o impres-
sor» da obra que registra, «c evidente que o mesmo
Barbosa não a viu», a essa Monologia, ou discursos
legaes, impressa em Amsterdam e escripta pelo
judeu portuguez Manuel Aboab <que dizem ter
sido natural da cidade do Porto. »
Quem o diz é, de facto, Barbosa, ensinando
determinativamente em sua Bibliotheca Lusitana
que «Manoel Aboab nasceu na rua de S. Miguel
da cidade do Porto. » Ora, esta miudeza mostra
que elle não escrevera tal « somente fundado em
informações que alguém lhe subministrara», antes
tal qual noticia da obra em referencia possuía. Muito
mais para estranhar resulta em Innocencio que elle
se abastasse com <o extremo laconismo» da indi-
cação do abbade de Sever, que para o seu Dicio-
nário Bibliogi aphico transcreve « tal qual a traz
Barbosa na BibL » , não deixando « logar para se
conhecer se ella foi, ou não, escripta na lingua
portugueza. » Quando no tom. m das Memorias de
litteratura portugueza, publicadas pela Academia Real
das Sciencias, de Lisboa, a Innocencio se depararia
XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — A BOAB — COSTA 375
completador informe, que alli, a pag. 332-333, se
encontra pelo portuense António Ribeiro dos San-
tos consignado desde 1792, data da publicação do
referido tomo. E logo corrigiria o erro contido no ti-
tulo, pois «na Bibliotheca Lusitana de Barbosa, por
equivocação dos copistas, se escreveu Monologia
em logar de Nomologia. »
No Supplemento, continuação do encetado já
por Innocencio, o snr. Brito Aranha assignala a
existência na bibliotheca nacional de Évora de um
exemplar da segunda edição da obra, em iingua
castelhana, escripta pelo portuense Manuel Aboab.
Portuense, com effeito; e, na verdade, na rua
de S. Miguel d' esta cidade do Porto nascido, não
tem duvida de maior, ao que parece, claramente.
O cap. xxvu da Segunda parte da Nomologia
começa tractando (pag. 321 e seg. da ?. a edição),
de «alguns excellentes sábios, discípulos do Rabi
Ishac Aboab» e abre assim:
Foi venturoso o bemaventurado e mui excellente senhor
Rabi Ishac Aboab em passar a melhor vida antes de vêr em
Portugal as desventuras e lastimosos successos que acima
contamos («o desterro dos judeus dos reinos de Castella no
anno de cinco mil e duzentos e cincoenta e dois e o de Portu-
gal, que succedeu de alli a seis annos, etc. »; cap. xxvi.).
E deve saber o curioso leitor que em Castella foi muito
estimado este senhor dos reis Fernando e Isabel ; e, logo que
no fim de março do anno de mil quatrocentos e noventa e dois
fizeram em Granada a pragmática alludida contra os judeus,
se foi o venerável sábio, com outras trinta casas de nobres
israelitas, a Portugal, a concertar com o rei, que era então Joào,
376 PORTUENSES ITXUSTRES
segundo cTaquelle nome. a quem succedeu Manuel. Foram bem
recebidos do rei, e accordaram que pudessem entrar no reino
seiscentas casas de judeus, com pagar-lhe oito escudos de
ouro cada um (como escreve Osório, ainda que Usque diga
tam só dois escudos), e que* ao cabo de seis annos mandaria
dar navios accommodados e por preços moderados, para pode-
rem sahir de seus reinos, para as partes de Africa ou Levante,
como melhor quizessem. A estas trinta famílias mandou o rei
accommodar na cidade de o Porto; e fez que a cidade desse a
cada uma d'ellas uma casa, como deram, mui commodas, na
rua que chamam de S. Miguel; e no meio de todas ellas estava
a Synagoga, que eu me recordo haver visto ainda em minha
meninice sem estar desmoronada. Tinham as ditas trinta casas
por suas armas um P, que mostrava o nome da cidade. Paga-
vam de pensão cincoenta reis ou maravedis cada uma á cidade,
e ella fazia-lhes empedrar a rua: uma d' estas trinta casas
era a de meu avô o senhor Abraham Aboab que o Se?i1ior
perdoe.
Refere-se seguidamente Manuel Aboab ao tre-
mendo caso do envio, por Dom João n ordenado,
dos moços que foram judeus para a ilha de S.
Thomé, coisa lúgubre que destaca no summario do
Dialogo m do livro de Samuel Usque, mercê das
simples linhas inquietadoramente trágicas: Quando
mandaram os meninos dos judeus á ilha dos Lagar-
tos em Portugal.
Prosegue narrando Manuel Aboab:
Succedeu então aquella crueldade enormíssima de mandar
o rei Dom João levar muitos dos meninos dos hebreus ás ilhas
que chamam dos Lagartos, e isso por causa de haver passado
a Portugal mais numero de gente das seiscentas casas capi-
tuladas. A todos quantos foram a mais, condemnou o rei e os
XII PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 377
tomou por seus escravos, e aos filhos innocentes os mandou
levar para as ditas Ilhas dos Lagartos. Antes de vêr este las-
timoso espectáculo e os outros que lhe sucederam nos annos
seguintes, passou a gosar a vida eterna o bemdito Rab; c
entendo que está sepultado na cida ic de o Porto.
Manuel Aboab encerra este seu cap. xvu com
as deducções moraes, severas e consoladoras, que
promanam do teor dos factos. Assim remata:
Não somente mostra o Senhor Bemdito a sua infinita mi-
sericórdia com nós-outros, em compadecer-se de nós e ampa-
rar-nos e pôr no coração dos príncipes da terra que nos reco-
lham e favoreçam, como havemos dito; mas também mostra
patentemente a conta em que a nós-outros (ainda que indi-
gnos) nos tem, com castigar severamente aos que sem razão
nos perseguem. E muitas vezes ouvi dizer a meu senhor Ishac
Aboab que esteja em gloria: Olhai, filhos, as provas tam evi-
dentes da divina providencia: que o rei Dom João n, que tam
sem razão apartou os innocentes filhos do amoroso conspecto
de seus paes e os mandou levar para as Ilhas dos Lagartos,
permittiu o Senhor que seu único filho Dom Affonso, correndo
um cavallo em Santarém, Osse d'elle arrastado e morresse
desastradamente, ficando o pae sem filho; c depois morreu
elle no melhor de seus dias, e não sem suspeita de veneno,
ficando o reino a Dom Manuel, seu cunhado, a quem não
pouco aborrecia ; e dizem que, quando morreu, gritava n'aquelle
ultimo transe, dizendo: Tirem-me d' aqui estas crea?iças. A
Dom Manuel, c seu filho Dom João m, que nos perseguiram
consoante acima* dissemos, permittiu o Senhor que, á quarta
geração, viesse quasi toda a nobreza de Portugal e o seu rei
Dom Sebastião a Africa, para serem destruídos e captivados
no mesmo logar onde seus avós, indigna e cruelmente, manda-
ram desembarcar os affligidos israelitas. Alli acabou a flor de
Portugal, e os que restaram foram levados a Fez, onde os ven-
3 "8 PORTUENSE* ILLUáTRKS
Jeram, a pregão de leiloeiro, nas praças onde habitavam os
judeus successores dos innocentes perseguidos; que quiz o Se-
nhor mostrar-lhes essa vingança. E me contava o sábio David
Pa vou, domiciliário de Alcaçarquivir, e discípulo do Rab Ge-
ri udá Aboab, acima nomeado, que não tinham maior conso-
lado aquelles miseráveis do que serem vendidos por escravos
aos judeus, conhecendo sua natural piedade. Seja para sempre
louvado o Senhor Deus de Israel, que nunca desamparou nem
desamparará ao seu povo.
X'estes novos desterros da sua proscripta gente,
peregrinou Manuel Aboab; no cap. xvm da segunda
p.irte da sua Xomologia annuncia para o capitulo
sjguinte, em forma de dialogo, um arrazoamento
que teve em Ferrara com um clérigo mui visto e
douto, deão d'aquella cidade; e no cap. y traz o
pequeno discurso com que respondera a uma carta
que lhe enviara Horácio do Monte, sobrinho do du-
que de Urbino e de João Baptista do Monte, que
foi general da gente de guerra da Republica Vene-
ziana, quando, em companhia do general Pascua-
ligo, veio á cidade de Corfu.
Sua actividade mental foi, porém, incessante. Na
Xomologia aponta vários planos de litteraria compo-
sição em idéa, e este trabalho effectuado compre-
hende varia e ampla licção. A Manuel Aboab, seu
auetor, «este livro lhe grangeou distincto nome e
estimação entre judeus e christãos, que o houveram
por uma obra muito erudita, a qual citam a cada
passo os que n'estes últimos tempos (os de António
Ribeiro dos Santos, que em termos assim o vae
XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE - - ABOAB — COSTA 3 79
exarando) teem escripto das tradições da egreja ju-
daica. » «Taes são, entre outros, R. ísaac Cardoso,
nas Excellencias dos judeus] Wolfio, na Bibliotheca
Hebraica, que confessa haver-se servido muito
d'elle; e Rossi, na Và expectação dos judeus > e em
outras obras. » A de Aboab era já rara. Castro vira
dous exemplares : um na Real Bibliotheca de Madrid ;
outro na dos B. P. Mercenários d'aquella corte.
Em Portugal, da segunda edição, sabe-se da
existência em Évora de um exemplar, conforme do
Supplemento citado do primitivo texto de Innocencio.
Eis agora um portuense que, ajuízo do bracha-
rense padre Agostinho Rebello da Costa, a nós-
outros, portuenses, nos não honra. « IVelle faliam
(escreve, horrorisado) muitos auetores dos diccio-
narios geographicos, apontando esta cidade do
Porto por sua pátria, mas sem advertirem que ella
expulsou de si este monstro, do qual se confessa
madrasta e não mãe. Parecia justo (commenta,
circumspecto) que entre as brilhantes luzes de tan-
tos astros de sabedoria quantos ella produziu, e
produzirá, passasse correndo esta escura nuvem e
lhes realçasse d 'esta sorte os seus vivos resplendo-
res. » Porque tudo isto ?
E mais comedido no expressar e no sentir o
380 PORTUENSES ILLUSTRES
doutíssimo abbade de Sever, no bispado do Porto;
sem embargo da epocha crepuscular, sua noticia,
apezar de tudo, se denuncia tocada de certa piedosa
tristeza, perante uma catastrophe moral, pungente
como raras.
Elle nos informa de que Gabriel da Costa foi
natural da cidade do Porto e filho de pães nobres
e catholicos, posto que descendentes da nação
judaica: Jorge Gomes e Ignez Alvares se chama-
vam elles, que o educaram com aquelles docu-
mentos e artes dignas de um mancebo bem nas-
cido, sendo muito dextro no manejo dos cavallos,
em que imitou a seu pae, que n'este exercício foi
perfeitíssimo.
Para cultivar o engenho, que era muito perspi-
caz, elegeu, entre todas as Faculdades, a jurispru-
dência cesárea, em que fez grandes progressos,
pelos quaes mereceu, quando contava vinte e cinco
annos de edade, obter a dignidade ecclesiastica de
thesoureiro mór em uma collegiada d'este reino.
« Temeroso da condemnação eterna e soilicito
da salvação, revolvia com incansável disvelo vários
livros ascéticos e outros de theologia morai; e, da
sua licção, começou a duvidar como poderiam ser
perdoados os peccados na confissão sacramental,
do que concebeu tal afflicção e perplexidade no
animo que, fluctuando entre a eleição da Lei que
havia de seguir, apostatou da cathoiica em que fora
educado e abraçou a Moysaica. »
N'esta crise subjectiva, sem participar a pessoa
XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABO.VD — COSTA 38 1
alguma o seu intento, renunciado o beneficio e dei-
xadas as casas nobres que seu pae edificara no
Porto, fugiu clandestinamente, com sua mãe c
irmãos, para Amsterdam, onde se circumcidou,
mudando o nome de Gabriel em Uriel.
« Depois de examinar, com grande reflexão, que
a Lei que os judeus observavam n'aquella cidade
era muito differente da que promulgara Moysés,
julgando por horrendo absurdo esta transgressão,
escreveu um livro em que mostrava claramente,
pelos fundamentos da mesma Lei, como lhe eram
totalmente oppostas e repugnantes as tradições dos
phariseus. »
DMsto se originou um tam furioso ódio dos
judeus contra sua pessoa, principalmente por negar
a immortalidade da alma, que lhe chamavam publi-
camente hereje e era apedrejado nas ruas, todas as
vezes que apparecia! Não foram bastantes tam
grandes opprobrios para que, resolutamente, sahisse
com um tractado em que sustentava a sua opinião
de não ser a alma immortal, motivo por que foi
delatado pelos judeus aos magistrados de Amster-
dam, accusando-o de offender egualmente a lei de
Moysés como de arruinar os fundamentos da reli-
gião christã, do que lhe resultou, depois de estar
preso dezoito dias, ser condemnado em trezentos
florins, com perda de todos os livros.
A marcha mental de Uriel da Costa seguia, no
entretanto, oriunda d\im vicio .lógico, aliás seus de-
ductivos tramites; e elle «começou a affirmar que
382 PORTCEXSES ILLUSTRES
a Lei de Moysés não fora dada por Deus, mas era
um invento humano, por conter muitos preceitos
repugnantes á lei da natureza, e não podia Deus,
como auctor da mesma natureza, ser contrario a si
mesmo, e certamente o seria, se propuzesse aos
homens preceitos que se não podiam observar. »
Sendo accusado, por um seu sobrinho^ de ser
infiel aos rabbinos, concitou contra si a cólera dos
sequazes da synagoga, com tal excesso que, tumul-
tuariamente, o levaram á presença dos juizes; e,
sendo examinado escrupulosamente das suas pro-
posições, o condemnaram a que, despido até á cin-
tura e descalço, dentro da synagoga, fosse açou-
tado, recebendo trinta e nove açoutes, não chegando
ao numero de quarenta, por ser prohibido pela Lei.
Estimulado d'esta publica injuria, resolveu vin-
gar-se de quem fora o seu principal auctor, dispa-
rando contra o tal um bacamarte; como quer que
errasse o tiro e fosse conhecido, com a mesma
arma se privou da vida, no mez de abril de 1640,
conforme escreve um, ou no anno de 1647, con-
soante querem outros.
D'entre suas composições, obra é consideranda
aquella que foi achada entre os manuscriptos de
Simão Episcopio e que publicou o celebre Philippe
Limborch. N'ella expende alguns argumentos dis-
postos em ordem a impugnar toda a revelação di-
vina e toda a religião revelada, como fabricada pela
malícia humana, explanando muitas proposições
contra o christianismo de que apostatara. N'essas
XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 83
laudas ásperas, por isso que são um transumpto
psychologico, elle narra os trágicos successos da
sua vida e faz uma acérrima invectiva contra os ju-
deus, de quem se queixa fora tyrannamente offen-
dido.
Ainda mais modernisado, o portuense António
Ribeiro dos Santos, doutor de Direito Canónico pela
Universidade de Coimbra, em um dos tomos das me-
morias de litteratura portugueza publicadas pela
Academia Real das Sciencias de Lisboa, explica-nos
que a obra de Uriel da Costa (Exame das tradições
pliarisaicas conferidas como a Lei Escripta) «seria
racional, se não passasse ao desbarato de se decla-
rar seguidor das doutrinas dos Sadduceos, negando
a immortalidade da alma e a existência da outra
vida, fundando-se para isto, principalmente, no si-
lencio de Moysés, que nenhuma menção fizera
d'este dogma nem propuzera outras recompensas
da virtude nem outras penas do vicio que as tem-
poraes. » Se bem que Wolfio, em sua Bibiiotkeca
Hebr., a Uriel da Costa o mettesse entre os atheus,
Ribeiro dos Santos restabelece a posição philoso-
phica, definindo-a pela situação moral. De Uriel da
Costa escreve que, «ferido dos graves males com
que havia sido maltractado dos judeus, e arrebatado
de uma falsa philosophia e de um espirito de incons-
tância que lhe era próprio, se foi deslizando em per-
niciosas opiniões e doutrinas, cahindo, de sophisma
em sophisma e de erro em erro, até chegar a preci-
pitar-se no deismo. »
384 PORTUENSES ILLUSTRES
Pobre Uriel da Costa! Alma independente, ator-
mentada e affligida, como poderiam sequer vislum-
brar entendel-a espíritos hirtos, adstrictos a uma
disciplina inhibitoria ? ! Como lograriam esses tantos
e taes discriminar-lhe a religiosidade profunda?!
Como o alcançariam ainda aquelles mesmos que
aliás o confessaram <: temeroso d^. condemnação
eterna e sollicito da saivação » ? !
Mas é terrível esta ^historia de consciência»,
desde a fuga do meditativo, com sua mãe e seus
irmãos, até á accusaçào que d'elie faz seu próprio
sobrinho. . .
Oh, nos tempos fanáticos, a sinceridade da fero-
cidade! Oh o inquietador pezadume discriminando
de que houvesse havido d'estes destinos. . .
XIII
Nicolau Monteiro— Balthazar Guedes
P,
or esse tempo, recuperava Portugal a per-
dida autonomia e, como esse notável Manuel
Fernandes Villa-Real, tam hediondamente aqui re-
compensado, não prestaram, cá-dentro e lá-fóra,
escassos serviços á nova dynastia os christãos-
novos, na corte nacional e nas extranhas cortes.
A sua outrosim, um notável portuense, christão-
velho, Nicolau Monteiro, outrosim concorreu, mas
com nenhum êxito.
Bispo do Porto, tomando posse em abril de
167 1, natural d'esta cidade, onde viu a luz em
1581, doutor em cânones pela Universidade de
Coimbra, n'ella cónego, provisor e vigário geral,
mestre-eschola da collegiada de Barcellos, dom prior
de Cedofeita, embaixador de D. João iy ao summo
pontífice Urbano vm, aio do principe D. Theodosio
e dos infantes seus irmãos, D. Affonso e D. Pedro,
\OL. I. -i^
386 PORTUENSES ILLUSTRES
que foram reis de Portugal, conselheiro de Estado,
confessor da rainha D. Luiza de Gusmão, bispo
eleito de Portalegre, da Guarda e do Porto, «cuja
egreja (escreve penhoradamente o bracharense des-
criptor da nossa terra) quiz felicitar com a sua
assistência, rejeitando por esta causa o arcebispado
de Braga e preferindo d'este modo o bem das ove-
lhas entre as quaes nasceu do que as extranhas,
cujas inclinações ignorava.»
O mesmo presbytero, doutor em theologia e
cavalleiro professo na Ordem de Christo, nos conta
como D. Nicolau Monteiro fallou muitas vezes ao
papa e affirma que o movera com as suas efficacis-
simas rasões e muito mais. com o mavioso livro que
compoz, intitulado Vox turturis, a convencer-se da
justiça de Portugal contra Castella. Tanto que o
embaixador d^quelle reino, enfurecido d'esta prefe-
rencia, mandara disparar-lhe dous tiros de baca-
marte, mas a Providencia o preservou e só cahiu
morto o cocheiro; d'onde se infere que cocheiros é
ralé que não conta para a Providencia, a alvitre
inconsciente do bom Agostinho Rebello da Costa.
E, todavia, este cocheiro é merecedor não só do
humano respeito, a todos devido, como ainda da
deferente admiração a que teem jus os humanos
valorosos e dedicados. Na verdade. Foi assim:
Os negócios de Roma caminhavam infelizmente,
a juizo do conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes;
com effeito, quanto mais corria o tempo a favor
dos castelhanos, tanto mais caducavam as resolu-
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 387
ções que podiam ser úteis a Portugal. O embaixa-
dor de Castella que assistia iVaquella corte não se
satisfazia só com esta vantagem, entendendo (en-
tende D. Luiz de Menezes) que as espadas caste-
lhanas poderiam — cortando os peitos portuguezes
— conseguir em Roma, por mais livres, o que não
alcançavam na fronteira de Portugal, por menos
activas.
Sem mais causa, julga-o, que esta paixão des-
ordenada, sahindo da egreja de Nossa Senhora do
Populo o prior de Cedofeita Nicolau Monteiro, que
assistia em Roma aos negócios de Portugal, e ha-
vendo entrado em um coche, domingo da Paixão,
o investiu uma turba de castelhanos e napolitanos
e, como quer que dessem uma descarga de pisto-
las, lhe mataram um dos cavallos da carruagem.
Lançou-se d'eila fora o prior, e com elle um
pagem seu, já tam mal ferido que cahiu morto.
Ora, viu o cocheiro o perigo do prior e que fez?
Relata-o d'est'arte D. Luiz de Menezes:
Não só o defendeu com a espada na mão, senão que, co-
nhecendo que não bastava para o livrar da morte, deliberou
fazer-lhe escudo da própria pessoa; e, recebendo n'ella todos
os golpes que os contrários tiravam, á custa de muitas feridas
deu tempo ao prior a se recolher em uma casa, livre do perigo,
em que perecera, a não ser resguardado de auxilio superior.
Para o conde da Ericeira, claro estava que o do
cocheiro era inferior.
Ponto é que acudiram então alguns portuguezes
388 PORTUENSES ILLUSTRES
e italianos á casa em que Nicolau Monteiro se havia
recolhido; levaram-o ao seu aposento, e alguns lhe
aconselharam a que se sahisse de Roma, o que elle,
porém, não quiz fazer, dizendo que a justiça do
summo pontífice era tam egual que o segurava de
segundo encontro.
De facto, providencias se tomaram, mandando
o papa que em termo de três horas sahisse dê
Roma o conde de Sirvela, embaixador do rei catho-
lico, e ordenando juntamente o príncipe Ludovisio
que se puzessem editaes em que dava por bandidos
todos os aggressores e promettia grandes prémios
aos que apresentassem as suas cabeças.
Logo o conde da Ericeira remedeia:
Porém este favor (sic) do Summo Pontífice não se estendia
a mais que a pretender que conservasse o seu respeito ; porque,
tractando-se no mesmo tempo em Consistório da nomeação dos
prelados das egrejas de Portugal, que tanto necessitavam de
pastores, resolveu que a nomeação fosse de motu próprio; e só
dispensaria em eleger os sujeitos que el-rei apontasse, e da
mesma sorte as pensões que se puzessem nas egrejas se da-
riam ás pessoas que el-rei quizesse, mas sem se expressar que
se concediam a sua instancia.
Não entendeu Nicolau Monteiro ter logar de
admittir esta proposta; antes, vendo o mau suc-
cesso d'aquelles negócios, sahiu de Roma, no
intento de se encontrar com o duque de Parma;
porém, chegando a Modena, soube que aquelle era
partido a Veneza, para onde lhe mandou aviso;
mas o duque escusou-se da visita.
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 389
Voltou, pois, Nicolau Monteiro a Roma; e,
logo que chegou, soube que os castelhanos haviam
mandado vir de Nápoles um faccinoroso, chamado
Júlio Pazalla, com gente, para o prenderem e leva-
rem a Nápoles.
Commenta D. Luiz de Menezes :
Tal era o poder dos castelhanos em Roma que emenda-
vam um excesso com outro excesso.
Certo é que communicou esta matéria o prior
de Cedofeita ao senhor de Gramonville, embaixador
de França, o qual, com grande attenção, lhe pro-
curou promptamente todos os meios de segurança e
defensa. Conseguiu a audiência do summo pontífice ;
mas, depois de uma conferencia muito larga, não
alcançou outra resolução mais que dizer-lhe o papa
que, quando as duas coroas se ajustassem, toma-
riam forma as duvidas que se offereciam dos negó-
cios de Portugal. Longínquo demora este lanço do
das efficacissimas rasões, aqui e alli expendidas,
com que Nicolau Monteiro, segundo o texto caute-
loso do cândido padre humilde, convencera o poli-
tico sacerdote magno.
Quer dizer que não foi Nicolau Monteiro mais
feliz do que o fora, representando D. João iv em
Roma, o bispo de Lamego, D. Miguel de Portugal,
enviado á corte pontifícia, de companhia levando,
com o caracter de agente dos negócios de Portugal
junto da cúria, a Pantaleão Rodrigues Pacha<^<à&-
390 PORTUENSES ILLUSTRES
rigo secular, doutor em cânones, cónego doutoral
da Sé de Coimbra e depois da de Lisboa, ultima-
mente bispo eleito de Elvas, para do summo pontí-
fice sollicitarem o reconhecimento do novo moriar-
cha, bem como a confirmação dos bispos por,elle
nomeados. Escrevera Pantaleão Rodrigues Pacheco
um Manifesto do reino de Portugal, apresentado á
Santidade de Urbano vm, sobre o direito com que
D. João iv possue seus reinos e senhorios de Portu-
gal, opúsculo que sahiu na lingua italiana, e tam-
bém vertido na portugueza, ao que parece, por
diversa penna, em Lisboa, em 1643.
A Bibliotheca Lusitana colloca sob o nome do
nosso insigne compatrício outro opúsculo que
também em Lisboa mas em 1645 appareceu com o
titulo de Relação das verdadeiras rasões do estado
ecclesiastico d' este reino de Portugal, feita em Roma
no principio do anno corrente pelo dr. Nicolau Mon-
teiro, superabundante ás que alli Jiaviam feito pelo
mesmo reino no anno de 1642 os bispos de Lamego e
eleito de Elvas; copiada e traduzida do italiano etc.
Parece a Innocencio, porém, que o original italiano,
que não consta se imprimisse, fora, com effeito,
composto por D. Nicolau Monteiro, enviado por
esse tempo á cúria romana, para alli promover o
reconhecimento de D. João iv e da independência
de Portugal contra as pretenções de Castella; mas
a traducção em portuguez, addita Innocencio que
é de Gaspar Clemente Botelho, e como tal assim
mencionada fora em seu Diccionario. Não ha du-
XIII — NICOLAU MONTEIRO BALTHAZAR GUEDES 3Ç)I
vida; mas com tal qual discrepância no menciona-
mento.
Uma traducção outrosim a redigiu, por sua
parte, D. Nicolau Monteiro; e foi a que os nossos
bibliographos lhe attribuem do livro que, sahindo
primeiro em latim, com o titulo Balatus ovium
(depois em portuguez com o de Balidos das igrejas
de Portugal ao supremo pastor Summo Pontífice
Romano, etc.) y é anonymo, tanto na traducção como
no original, e acerca do qual ha discordância, sup-
pondo uns que seja d'aquelle Pantaleão Rodrigues
Pacheco e outros que pertença á lavra de D. Sebas-
tião César de Menezes.
, Esses tomos são d'uma extrema raridade; e da
sua importância se afere desde que se saiba do
grande louvor que o famoso Grégoire (no Essai
historique sur les libertes de VEglise Gallicane et
d:s autres liglises de la Catholicité) tributou a esta
obra à jamais célebre.
Offertada a Innocencio x, n'ella ao pastor as
ovelhas clamam com intimativa convicção : « A
força d'estas nossas rasões não foi, por certo, des-
conhecida de Sua Santidade, antes tam alcançada
(assim lh'o rememoram) que, n'aquella primeira
junta que, sobre a accei tacão de nossos embaixa-
dores, mandou celebrar o summo pontífice Ur-
bano viu, de boa memoria, em que Sua Santidade
teve o grande logar que sua dignidade, virtude e
letras mereciam, foi de parecer o Eminentissimo
Pamphilio (agora Innocencio x) que, passados qua-
3Ç2 PORTUENSES ILLUSTkES
tro annos de posse, se admittissem os legados de
Sua Magestade. » (A pag. 62).
Nicolau Monteiro, varão de exemplar caridade,
*
para mendigos, fiospitaes e presos, morreu na pro-
vecta edade de 91 annos; praxe rica: o seu retrato
expòl-o ao publico todos os annos no dia 2 de
julho, pelos irmãos da Misericórdia; á qual benifi-
ciou com valiosa dadiva para a convalescença dos
doentes.
Ora, como quer que o portuense Balthazar Gue-
des, fundador do Collegio dos Orphãos d'esta ci-
dade, tivesse, consoante nol-o transmitte o chronista
da Ordem de S. Francisco na Província de Portu-
gal, bòa noticia da arte de architectura e por isso
o consultassem para obras, especialmente de tem-
plos, por sua conta correu a administração da
egreja de S. Nicolau, quando outro portuense a
erigiu, o bispo D. Nicolau Monteiro. Também o
Senado da cidade buscava o seu voto para as
obras publicas, de modo que á sua traça e cuidado
deve ella a formosa e magnifica (assim lhe chama,
não se diga descabidamente) fonte da Arca, e os
conductos de outras, que encaminhou depois de
estarem perdidos.
Assim, não admirará a iniciativa na feitura da
habitação para os orphãos seus protegidos, apezar
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 393
de que lhe lançaram por terra a primeira casa que
levantou, chamando-lhe nomes affrontosos, atiran-
do-lhe pedras; mas, firme, sem dizer palavra, elle
proseguiu no seu intento.
Note-se que inimiga do padre Balthazar Guedes
não era, tam só,' agente vil; não era esta, tam só,
a que « o demónio tomava para impedir uma obra
de tanta utilidade. » Porquanto, vendo Satanaz « que
por este caminho não conseguia o seu propósito,
suggeriu a algumas pessoas ecclesiasticas, as quaes,
julgando mal d'esta fundação, lhe davam diversos
títulos, tendo-o por hypocrita, ambicioso e mos-
trando que para conveniências próprias havia exco-
gitado similhante industria.» Taes entristecidas pa-
lavras escreve fr. Fernando da Soledade, o qual
addita que «cresceu muito esta tormenta pela
auctoridade dos sujeitos que a levantaram. » No
fim, a gente vil do povo portuense fez bem melhor
justiça ás intenções do sacerdote benemérito, como
testemunharia o lucto espontâneo que suscitou seu
imprevisto óbito. Para obter os recursos de que
carecia em seu compadecido afan, discorreu Baltha-
zar Guedes, a pé, acompanhado de dous meninos
orphãos, os arcebispados de Lisboa, Braga e Kvora
e os bispados de Coimbra, Leiria, Vizeu, Lamego
e Guarda, larga peregrinação de que colheu muitas
esmolas, sendo a mais copiosa a que lhe adquiriu
seu irmão, Pantaleâo da Cruz, que, vivendo retirado
do humano convívio, passou ao Brasil. Alli (d'esta
maneira o conta Diogo Barbosa Machado),
391- PORTUENSES ILLU3TRES
fazendo-sc perceptível pelas acções, já que não podia com
as palavras, por ser mudo de nascimento, alcançou da gene-
rosa piedade de seus habitadores quatorze mil cruzados, que
remetteu para a fabrica que havia ser o asylo da orphandade.
Exame da paciência de Balthazaf Guedes foi a
companhia d'este seu irmão mudo, « cuja condição
(refere-nol-o fr. Fernando da Soledade) era tam
áspera como a do servo do Senhor compassiva,
branda e quieta. » Salvo para com os desattentos
dentre os numerosos ouvintes que concorriam aliás
sempre ás suas exhortações, todavia tam frequentes.
Por estes cáusticos dizeres, fr. Fernando da So-
ledade o rememora:
Se notava em alguns pouca attenção aos desenganos, ou
divisava alguma conversação, na egreja, eram montantes de
fogo as suas advertências e feria de modo que ninguém se
atrevia a fallar no templo, por n3o ser reprehendido no pu-
blico.
Talvez que nossas avós tagarelleiras o alvo pre-
ferido fosse das acres admoestações do padre Bal-
thazar, « o qual, mostrando tam estreita amizade
com os homens de bòa opinião, fugia notavelmente
de conversações com mulheres, ainda que fossem
de conhecida virtude. » O mesmo fr. Fernando da
Soledade nol-o dá a saber.
E, todavia, não consta que de mulher soffresse
o padre Balthazar logro perigoso, consoante o de
que, por part3 de um homem, foi victima.
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDK3 395
Continuemos ouvindo fr. Fernando da Soledade,
agora mais de espaço:
Chegou á sua presença este perverso, mostrando grandes
signaes de arrependimento das culpas; e, pedindo-lhe que o
ouvisse de confissão, com muita promptidão e gosto lhe quiz
administrar o remédio; mas o sacrílego, dizendo-lhe que era
muito publico o logar e que com mais desafogo se confessaria
no seu cubículo, facilmente o levou a elle, aonde o ladrão, pon-
do-lhe uma faca no peito, com resolução de o matar lhe pediu
cincoenta mil reis. Deu-lh'os sem repugnância o servo de Deus,
e o deixou retirar, sem estrondos nem queixas, porque em to-
das as suas moléstias nunca soube usar de vozes para o
desafogo.
Este seu voluntário silencio perante a affronta
lhe deu ensejo a sustental-o o caso em cujos tra-
mites encontrou a morte. Porquanto, sahindo a
tractar do remédio de um pobre e pedindo-o a uma
pessoa que governava a cidade, n'essa pessoa achou
tam mau agasalho que, além de não conseguir o
intento, ouviu liberdades bastantes. «Assim costu-
mam haver-se (moralisa fr. Fernando da Soledade)
alguns poderosos, soberbos por sua grande igno-
rância e nem um conhecimento da própria villeza. »
Descomposto, Balthazar Guedes com muita humil-
dade se retirou pelo caminho aonde a morte o es-
perava e lhe deu o golpe com tanta vehemencia
que, na opinião de todos, logo ficou defuncto. Ná
opinião de todos, é phrase intencional; pois que fr.
Fernando da Soledade vae rematar o seu capitulo
com um vistoso milagre, d'esses em que é fértil a
39 6 PORTUENSES ILLU3TRE5
prosa de nossos antigos (ou crédulos ou engenho-
sos) auctores.
O leitor moderno, porém, melhormente dará seu
voto áquelPoutra passagem em que o chronista nos
demonstra como ao padre Balthazar Guedes nin-
guém o buscava que não o achasse prompto para
o remédio. Andando sempre agenciando o necessá-
rio para as obras da casa dos orphãos e sustento
dos moradores d'ella, nem por isso deixava de
soccorrer aos desgraçados que, de dia e de noite,
recorriam á sua compaixão. Aos do hospital do
Amparo ia pessoalmente servir e tractar da sua
limpeza; e todos os primeiro e terceiro domingos
do mez lhes dava uma honesta refeição.
No lanço, por um infinitesimo dos hospitaes,
antigamente, no Porto digamos.
Que, sem embargo dos embargos, consoante
seus matinaes nevoeiros, e apezar dos pezares, con-
forme suas prolongadas chuvas, não será, todavia,
excesso de favor o conceder ao Porto, em regra, o
caracter de salubre; mas, á laia de qualquer outra
terra, esta no perigo incorre de receber o mal alheio
por apcgamento, como com respeito á peste a causa
para Portugal attribuia o portuguez philosopho rei
D. Duarte, no capitulo especial (54) que, no seu
livro do Leal Conselheiro, á peste consagrou.
E d'esta maldita a primeira que Portugal assolou
foi a terrível de 1354, «nozv commonly knoivn as
The Black Death », cujos effeitos mortíferos discri-
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 397
minadamente enumerou, no trabalho especial que
lhe dedicou, Francis Aidan Gasquet e cuja impressão
terrorifica nos communica, em moços, a leitura dos
trechos da Morte-Negra> entre os do pezadello de
Edgar Poe dos mais acabrunhantes.
Em nota appensa discute o dr. António da
Cunha Vieira de Meirelles (Memorias de epidemiolo-
gia portugueza, Coimbra, 1866) a própria affirma-
tiva ; e dos Apontamentos sobre Historia de Coimbra>
de Francisco de Carvalho, manuscripto dos fins do
século xvni, que Vieiía de Meirelles qualifica de
«copioso de noticias e não falho de critica*, é de
inferir o natural corollario de que o Porto poupado
não seria, na invasão geral de cuja mercê funesta
resultara ficarem «na província do Minho muitos
conventos de frades sem ninguém. »
Eram já fins de 1569 e princípios de 1570
quando se communicou a além Douro o flagello
d'aquelia peste desoladora que viu Portugal e' a que
grande chamavam, pelas innumeraveis victimas que
ceifou e logares affastados a que estendeu seu
açoite.
1
*
Só Lisboa perdeu para mais de sessenta mil habitantes,
e todas as povoações do reino em que ella estalou lamentaram
a morte de muitos dos seus.
Mui copiosa e terrivelmente abundante na des-
trinça das successivas epidemias contaminadoras do
nosso Portugal é outrosim a deduzida e relatada
lista que, no segundo tomo de sua Historia da
398 PORTUENSES ILLUSTRES
administração publica cm Portugal nos séculos xn
a x\\ nos fornece o snr. Henrique da Gama Barros.
Pelo meado de 1481, p. ex., durava ainda o
contagio em Lisboa e Évora, mas não se estendia
a todo o Alemtejo, porque Beja e Extremoz não
estavam então empestados, segundo se deduz da
narrativa de Ruy de Pina; mas o temível contagio
havia-o também no Porto, de cujos magistrados
municipaes se fazia por esse motivo a eleição (Addit.
á Synopse Chron., pag. 151) no logar de Azurara,
a 5 de Julho. Mas, definidamente differenciada de
«peste», discute em analyse medico-historica Vieira
de Meirelles, em nota appensa a pag. 46, sendo seu
remate, pag. 234: «Que não fosse aquelle mal
indica-o a longa duração da epidemia e o não se
mencionar por então noticia positiva d^lla na Eu-
ropa. »
Da peste de 1569 passa Vieira de Meirelles á
peste de 1579, flagello que parece que só açoitou o
Porto por 1581, asserto que Vieira de Meirelles
baseia no nosso bracharense, do Porto descriptor,
Agostinho Rebello da Costa.
A de 1598 declarou-se em Lisboa no cofneço
de Outubro; desolou Sacavém, estendeu-se a Tor-
res- Vedras, manifestou-se em Cascaes, Leiria, San-
tarém e Thomar e chegou a Coimbra em Janeiro de
1570, mettendo-a na cidade os criados d'um desem-
bargador, por appellido Barriga, que, passando
n'este tempo de Lisboa para o Porto, se não quiz
dar por impedido, segundo dom Nicolau de S. Ma-
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 399
ria; mas o P. António Franco chama-lhe provedor.
Também o flagello tocou em Aveiro, assolou Villa
Nova de Gaya e castigou o Porto, apezar de o nosso
conhecido Agostinho Rebello da Costa affirmar o
contrario, mui improvave Intente, commenta Vieira
de Meirelles.
O snr. Henrique da Gama Barros rememora-o :
Outra doença terrível, a lepra, que não matava em pouco
tempo, como a peste, mas inutilisava irremediavelmente para
sempre o,, individuo a quem feria, assolava a população na
edade-média em todos os paizes, sobretudo depois das Cruzadas.
E pasmoso, exclama fr. Joaquim de Santa Rosa
de Viterbo, o numero das Gafarias que antiga-
mente havia n'este reino. Chamavam-se também
Conventos ou Ordens de S. Lazaro, que d'ellas era
o tutellar, ou patrono, pois egualmente tinha sido
leproso :
Foram os nossos maiores grandemente perseguidos d'esta
ascorosa enfermidade, e por isso multiplicaram tanto estes do-
micílios da piedade fora das povoações, onde ainda hoje —
1798 — vemos alguns, ou quasi demolidos ou applicados a
outros usos. O perigo de infeccionar os sãos os fazia alongar
dos povos. Cessou quasi de todo esta horrível enfermidade
depois que o panno de linho e o assucar refrescaram a cútis e
adoçaram o sangue, e se abandonaram os vestidos de lã ou de
pelles ao carão da carne.
E do vocábulo Gafo, os addita:
Não só se tomava esta palavra pelos que estavam actual-
mente infeccionados de lepra mas também disseram Gafas os
400 PORTUENSES ILLUSTRES
mesmos Leprosorios, Lazaretos e Hospitaes em que os lepro-
sos se curavam ou residiam.
Quanto á lepra em si, ella é um mal contagioso,
originado de uma depravada sanguificação, que
corrompe o estado natural do corpo, rebelde á cura
e que, em grão genérico, convém com o gallico.
Das casas de caritativa cura a enfermos dis-
pensada dizia o irremediavelmente tantas vezes
citado Agostinho Rebello da Costa:
Os hospitaes estabelecidos para abrigo dos pobres e remé-
dio dos enfermos são — 1789 — os seguintes: o Hospital Real,
na rua das Flores; o dos Expostos, na rua dos Caldeireiros; o
dos Entrevados, em Cima-de-Villa; o das Entrevadas t a Santo
Ildefonso; o dos Lázaros, no Campo de S. Lazaro; o das La-
zaras, que lhe está immediato; o das Velhas, na rua dos Mer-
cadores.
Todos estes, como elle já dissera, pertenciam á
administração da Santa Casa de Misericórdia.
Seguem-se, eliminando o dos inglezes, em sua
enumeração: o de S. Chrispim, na rua do mesmo
nome; o das Mulheres pobres, na rua da Biquinha;
o da Senhora da Silva, na Ferraria-de-Cima ; o dos
Terceiros de S. Francisco, na Ferraria-de-Baixo ; o
da Senhora da Caridade, para os Irmãos da sua
Ordem; o dos Clérigos, nas casas da sua Irman-
dade. « A Ordem Terceira de Nossa Senhora do
Carmo pretende egualmente fundar um para os
seus Irmãos pobres e já tem empregado no Campo
dos Ferradores o preciso terreno. »
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 4OI
" Propinquamente, especifica com maior meudeza
o Hospital Real que « entre todos estes tem o pri-
meiro Jogar»; ainda assim, para evitar mais longa
descripção, incompatível com os escassos limites
que diz se propoz, declara não fallar mais que do
Hospital novo, digno de que elle dê ao publico
« uma clara noticia da sua grandeza. »
E, a nosso padre Balthazar Guedes revertendo,
prosigamos dizendo que, se aos enfermos acudia,
aos presos assistia com abrazado affecto, não
só tractando do seu livramento por casas dos mi-
nistros das justiças mas dando-lhes dinheiro para os
seus papeis e' mandando fazer camisas para os que
estavam despidos. E, não satisfeito com a própria
commiseração, sollicitava a de muitas pessoas, para
que soccorressem a estes e a outros muitos indiví-
duos que elle julgava necessitados. Para viuvas, e
outras mulheres recolhidas e pobres, sem embargo
do fanatismo da sua pudica misogynia, era admirá-
vel o zelo com que tractava de as levantar de sua
penúria. A' sua diligencia deveu a cidade do Porto
a roda, que se fez para os engeitados, beneficio não
sem a irrogada pecha de oppostos inconvenientes;
e os pobres do hospital da Misericórdia lhe merece-
ram as ampliações dos seus edifícios.
E' certo que, antes que se fizesse a alludida
roda, suecediam por aqui casos lastimosos, dan-
do-se o escândalo de se acharem mortas, pelas ruas,
muitas creanças; e acontecia outrosim levarem al-
VOI, I.. ifc
402 PORTUENSES IL LUSTRES
gumas á porta d'aquelle seu Collegio dos Orphãos,
das quaes Balthazar Guedes tractava, buscando-lhes
amas que as criassem com muito cuidado.
Frei Fernando da Soledade refere:
Em certa ocasião não achou quem lhe tractassc de uma;
e elle mesmo a alimentava, com sustento que suppria a falta de
leite. Em a própria cella a tinha; c, emquanto trabalhava com.
as mãos, lhe movia o berço com o pé, afagando-a com hymnos
e orações devotas que lhe cantava.
Estas candorosas ingenuidades, nos dias scepti-
cos e trocistas de hoje são capazes de abrir desça-
roaveis sorrisos.
Mas o que não é para sorrisos, antes para o
respeito consciente avulta, é a instituição mesma
que á iniciativa e pertinácia do padre Balthazar
Guedes deve os sólidos fundamentos em que
assenta. Do Collegio dos Orphãos do Porto teem
sahido, a não se fallar senão nos seus educandos
modernamente, homens prestimosos e distinctos
para as lettras e para as artes, para o commercio e
para a industria, para o sacerdócio e para as varias
carreiras liberaes. E 1 um recolhimento eminente-
mente sympathico e, com integra justiça, constitue
honroso timbre nas benemerencias verdadeiras d'esta
terra.
A seu amado Collegio, o padre Balthazar Gue-
des o plantou em sitio «que, de si, é muito alegre,,
e muito mais (encarece o auctor da Historia Sera-
phicd) com a visinhança de uma alameda de fron-
%
XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 403
dosos alamos», pois, para a banda do norte, existia
fora dos muros da cidade, em sitio plano e agra-
dável, uma pequena ermida, com o titulo de Nossa
Senhora da Graça. Tanto lhe quiz que, havendo a
rainha da Grã-Bretanha, nossa infanta D. Catha-
rina, casada com Carlos n, insinuado ao sacerdote
portuense a acompanhasse a Inglaterra, elle modes-
tamente se escusou, como também de ser reitor do
Collegio dos Orphãos de Lisboa.
Seu jubilo e vangloria, o punha Balthazar Gue-
des no tracto e communicação com varões abalisa-
dos, taes como o padre Bartholomeu do Quental,
fundador da congregação do Oratório n'este reino.
Este padre Bartholomeu do Quental, que nasceu
no logar dos Fenaes, pouco distante da cidade de
Ponta Delgada, capital da ilha de S. Miguel, diz
Barbosa Machado que em 22 de agosto de 1626,
foi uma personagem notável.
Para a sua biographia, a seu leitor manda Inno-
cencio que veja a Vida que traduziu o padre Fran-
cisco José Freire, e Canaes nos Estudos biograpki-
cos y a pag. 227. Na Bibliotheca Nacional de Lisboa
existe um retrato seu de meio corpo; e ha-o tam-
bém de gravura, além de outras, em formato pe-
queno, que dizem ter sido aberto em Roma por
diligencia do padre Diogo Curado e do qual tinha
Innocencio um exemplar.
O padre Quental é tido, na opinião de bons crí-
ticos — Innocencio o assignala — como escriptor de
linguagem mui pura e correcta, porque evitou
404 PORTUENSES ILLUSRTES
constantemente nos seus escriptos servir-se de
vozes ou locuções de alheios idiomas. Estes dotes
brilham sobretudo nos seus sermões, em que tam-
bém se lhe admira a elegância e gravidade do
estylo, mormente nos que recitou como pregador
da capella real perante os reis e as primeiras per-
sonagens da corte. Estes Sermões (estampados pri-
mitivamente por Miguel Deslandes, 1692 e 1694,
em duas partes, ambas ellas reimpressas na Regia
Offic. Silviana, 1741, e por Miguel Manescal da
Costa, em 1763) são algum tanto raros, especial-
mente os da primeira edição, que é a preferida,
como publicada pelo próprio auctor. Em rasão da
variedade que ha de edições, vulgares no mercado
são do auctor suas Meditações, as das Domingas do
anno, as da infância de Christo Senhor nosso, da
encarnação até os trinta annos de sua edadc, as da
sacratíssima paixão de Christo Senhor nosso e as
da gloriosa resurreiçâo de Christo.
D'esse presbytero secular e fundador da congre-
gação do Oratório em Portugal, a obra que publicou
o padre Francisco José Freire, mais conhecido pelo
nome poético de Cândido Lusitano, que adoptou
na Arcádia, da qual foi um dos primeiros e mais
conspicuos membros, é a Vida do venerável P.
Bartholomeu do Quental, escripta na lingua latina
pelo P. José Catalano, e exposta no idioma por tu-
guez, que sahiu dos prelos da Offic. de António
Isidoro da Fonseca, em Lisboa, no anno de 1742.
No Porto, em o anno de 1896, o portuense snr.
XIII NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 405
Joaquim de Vasconcellos inseriu no livro In Me-
moriam um estudo, escripto no ultimo mez do ante-
rior e referente a um retrato notável do padre Bar-
tholomeu do Quental, que descobrira no paço
episcopal de Fontello, perto de Vizeu, n'uma das
arrecadações da capella.
Bartholomeu do Quental conta-se no conjuncto
dos ascendentes de Anthero de Quental.
FIM DO TOMO I
A
ÍNDICE
Pai;.
Anteloquio V
[Kxposiçâo] i
i António Coelho Louzada — AfTonso Eannes Pateiro
m
— João Ramalho 9
II O * Magriço^ 29
III Francisco de Sá de Menezes — Dom Henrique . . 55
IV Fernão de Magalhães — João Bermudes — Belchior
Nunes Barreto — Simão de Vasconcellos — Ra-
phael da Purificação — João de Queiroz da
Silveira 93
V Francisco Bernardo de Lima — Arnaldo Gama . . 139
VI José Mayne — João Baptista Gomes 199
VII Vieira Portuense — Silva Porto — João Corrêa —
Guilherme Corrêa — Ricardo Raymundo No-
gueira 219
VIII Luiz de Souza — Thomaz Pinto Brandão — João
Sucarello Claramonte — António Ribeiro dos
Santos 249
índice 408
Pag.
IX João Pedro Ribeiro —Bernarda Ferreira de Lacerda
— Almeida Garrett — Evaristo Basto — António
Augusto Teixeira de Vasconcellos — Thomaz de
Carvalho — Gonçalves Basto — Ricardo Guima-
rães — Passos Manuel 271
X Thomaz António Gonzaga — Diogo Brandão — Je-
ronymo de Mendonça — Luiz Pereira Brandão . 297
XI João Peixoto de Miranda — António de Sousa de
Macedo — Martinho Lopes de Moraes Alão —
Frederico Augusto de Vasconcellos Pereira Ca-
bral — Pedro d' Andrade Caminha — João de Bar-
ros — Vasco de Lobeira 319
XII João dos Prazeres — Luiz dos Anjos — Fernando
da Soledade — Manuel Aboab — Uriel da Costa . 357
XIII Nicolau Monteiro — Balthazar Guedes 385
ÍNDICE DO i.° volume
Anteloquio.
[Exposição].
I António Coelho Louzada — Affbnso Eannes Pateiro —
João Ramalho.
II O «Magriço».
III Francisco de Sá de Menezes — D. Henrique.
IV Fernão de Magalhães — João Bermudes — Belchior Nunes
Barreto — Simão de Vasconcellos — Raphael da Puri-
ficação - - João de Queiroz da Silveira.
V Francisco Bernardo de Lima — Arnaldo Gama.
VI José Mayne — João Baptista Gomes.
VII Vieira Portuense — Silva Porto — João Corrêa — Gui-
lherme Corrêa — Ricardo Raymundo Nogueira.
VIII Luiz de Souza — Thomaz Pinto Brandão -João Suca-
rello Claramonte — António Ribeiro dos Santos.
IX João Pedro Ribeiro — Bernarda Ferreira de Lacerda —
— Almeida Garrett — Evaristo Basto — António Au-
gusto Teixeira de Vasconcellos — Thomaz de Carva-
lho -Gonçalves Basto — Ricardo Guimarães — Passos
Manoel.
X Thomaz António Gonzaga — Diogo Brandão — Jeronymo
de Mendonça — Luiz Pereira Brandão.
XI João Peixoto de Miranda — António de Sousa de Macedo
— Martinho Lopes de Moraes Alão — Frederico Au-
gusto de Vasconcellos Pereira Cabral — Pedro d\An-
drade Caminha --João de Barros — Vasco de Lobeira.
XII João dos Prazeres — Luiz dos Anjos -- Fernando da
Soledade — Manuel Aboab — Uriel da Costa.
XIII Nicolau Monteiro — Balthazar Guedes.
ÍNDICE DO 2? VOLUMIi
I Manuel Pereira de Novaes — Manuel de Oliveira Ferreira.
II Agostinho Albano da Silveira Pinto — José Joaquim Ro-
drigues de Freitas — Agostinho Albano — Urbano Lou-
reiro — Guilherme Braga — Alexandre Braga.
III Eduardo Augusto Salgado — Diogo Kopke — José Gomes
Monteiro.
IV João de Deus — Eduardo Augusto Allen.
V António da Costa Porto — Vimarano — Hermenegildo
Gutterrez — Sesnando Viegas.
VI Soror Dolores — D. Maria Adelaide Fernandes Prata —
D. Maria Peregrina de Souza.
VII « Feudo-tirou » — Argiovito-Constancio.
VIII José Maria de Sousa Monteiro — António Joaquim de
Mesquita e Mello — Duarte Lessa— Joaquim José da
Silva Maia.
IX Fernando de Novaes — João Teixeira da Silva.
X Henrique Ayres Victoria — António Correia.
XI Pedro Ivo — Júlio Diniz.
XII José Ferreira Borges — Ignacio José de Macedo — José-
da Silva Passos — Augusto Luso — Joaquim Pint»
Ribeiro — Ernesto Pinto de Almeida — António Nobio
— Soares de Passos.
XIII Faustino Xavier de Novaes — José Dias de Oliveira
António Francisco Ferreira da Silva Porto — Fran-
cisco de Assis Sousa Vaz— Joaquim Albino Cardozo
Casado Giraldes.
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