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Full text of "Portuenses illustres"

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PROPERTY OF THE 




ARTES SCIENTIA VERITAS 



Portuenses illustres 



TOMO i 



DO MESMO AUCTOR 

(PELOS MESMOS EDITORES) 

A Geração nova — Os novki.mstas. i volume. iss«> 
Portuense» i Ilustres— Tomo u 'M» trelo . 



BRUiNO 



Portuenses 

illustres 



PORTO 

. MACALHÃKS S MOS1Z, 



vr 
szz 

x< J 



1\>kt«» Tyj*. Pkoouksso de Domingos Augusto da Silva X: C 

Largo de S. Domingos, 15 



<S5:;'/^ l'/& 



Anteloquio, rápido, se necessita que 
da conclusão succinto aviso exare: 

Pelo pae e sogro leonez Affonso vi 
a sua filha D. Thereza — ou Tareja — e 
a seu genro o conde D. Henrique na 
dadiva de Portucale feita, o remate 
d'esta obra insistirá em que por Por- 
tucale se não deve ler, traduzindo, « Por- 
tugal antes que, traduzindo, ler se deva 
O Porto. > Traduzir cabe O Porto, não 
Portugal » ; dizer não o condado de 
Portugal, mas sim o condado do I y orto. 
Isto tem ao deante muitíssimo mais 
importância do que parece agora, que 
parece que nenhuma tem. Assim, quando 
Camões disse que n'esta cidade tivera 
origem o nome eterno de Portugal, o 
que elle devera dizer era que o nome 
d'esta cidade é que fora o nome Por- 
tugal. De modo que o que vem a ser 
« Portugal » resolve-se em ser « O Porto > 
prolongado d'aquem e para além. 



« 
« 



1 



I 

Esta confusão de Portucale, entendido 
(quando e onde excede) por Portugal, 
e não strictamente por O Porto, como 
aliás ahi entendido deva ser, dá logar 
a mysteriosas confusões e gera dificul- 
dades inextricáveis a dentro da primi- 
tiva historia do paiz, independente já 
ou inda não. 

Mais. O remate d 'esta obra de- 
monstrará que o Porto nunca foi do 
Bispo do Porto e apurará não só o 
que do Bispo do Porto fora mas como 
foi que a Sê Portuense o perdeu. O 
engano passa por certeza assente, tri- 
vial, expressa no uso da locução vul- 
gar. A moeda falsa corre por ouro de 
lei. Em geito que, ao contrario, figure 
de temerário paradoxo e resulte inve- 
rosímil verdade o que aliás ser devera 
simples logar cornmum. Este erro pro- 
digioso — de que a cidade do Porto 
foi do Bispo do Porto — é prodigioso 
que Alexandre Herculano, primacial, 



não só o não descobrisse como ainda 
n elle se fundasse e tanto contribuísse, 
pois, por sua justa auctoridade emi- 
nente, para o firmar e espalhar. (Ao 
Porto, p. ex., Canaes, em seu Índice 
designando-a, lhe chama «Cidade Epis- 
copal.» Jamais! Nunca o foi. A cidade 
do Porto nunca foi cidade episcopal, 
nunca pertenceu a seu Bispo). A histo- 
ria do modo como a Sé Portuense 
soffreu a perda que soffreu está, na 
seriação de seu processo consecutivo, 
por contar ainda; esta obra, em seu 
remate, a contará. 

Mas, antes d'esse remate e conclu- 
são, esta obra exporá perante seus lei- 
tores um complemento aos vários capí- 
tulos de que seus tomos constam; e 
n'esse complemento se hão-de ajuntar 
desenvolvimentos necessários e acclara- 
ções explicativas se incluirão. 

Por agora, prestes, do cumprimento 



de uma grata obriga me quero desone- 
rar, qual a de inscrever aqui o teste- 
munho de reconhecimento que, para o 
effeito da realisação d' esta obra, devo 
a vários cavalheiros portuenses, amigos 
meus, um, por lamentada e lamentosa 
desgraça, precocemente fallecido, o meu 
collega emérito Oliveira Alvarenga, os 
dois outros (ademais do meu distincto 
editor, snr. Nogueira de Magalhães): o 
meu illustrado correligionário Gomes 
de Macedo e, especificadamente, o meu 
talentoso confrade Eduardo Sequeira. 
A estes o publico protesto de minha 
perdurável gratidão. 

Porto, 19 de Março de 1907. 



yosé Pereira de Sampaio. 



A, 



.gostinho Rebello da Costa foi um pres- 
bytero secular, cavalleiro professo na ordem de 
Christo, doutor em Theologia pela Universidade de 
Coimbra, que nasceu na cidade de Braga e fora 
filho de Manuel Rebello da Costa e de D. Maria 
Vieira de Azevedo. Elle falleceu aqui no Porto a 9 
de janeiro de 1791, e foi sepultado na egreja do 
extincto convento dos Carmelitas, segundo a sua 
disposição testamentária. O maligno Innocencio 
consigna que consta que deixou alguns filhos na- 
turaes. E registrara que, de sua lavra, sahiram 
impressas, em Lisboa em 1785, as orações pane- 
gyricas que havia recitado na festividade da Ma- 
triarcha Santa Thereza de Jesus nos dias 15 e 17 
de outubro do anterior anno de 1784. 



VOL. I. 



PORTUENSES ILLUSTRES 



Porém, do padre Agostinho Rebello da Costa o 
producto litterario que ainda hoje nos importa é o 
livro que elle dedicou á descripção topographica e 
histórica da cidade do Porto, a qual continua seu 
titulo dizendo que contém a origem d'esta, sua 
situação e antiguidades; a magnificência de seus 
templos, mosteiros, hospitaes, ruas, praças, edifícios 
e fontes; o numero dos seus habitadores, o seu 
caracter, génio, costumes e religião que professam; 
os appellidos das familias illustres que n'ella resi- 
dem; o catalogo chronologico dos seus bispos; os 
governos ecclesiastico, civil, militar e politico; o 
nascimento do grande rio Douro, que a banha e 
forma a sua barra; as producções da natureza e 
industria que augmentam os ramos do seu com- 
mercio e promovem as fabricas que tem estabele- 
cidas; os privilégios, isenções e regalias que a 
engrandecem. Isto e o restante compilado em obra 
que, enriquecida, consoante se annuncia, com es- 
tampas e mappas curiosos que a ornam, é, a 
parecer critico raramente fácil no encómio, «esti- 
mável no seu género, até pela circumstancia de 
ser única.» Ella remata com a noticia dos homens 
e das mulheres, illustres em virtudes, lettras e armas, 
que da cidade do Porto são naturaes. 

Está esta noticia disposta por ordem mlphabe- 



PORTUENSES ILLUSTRES 3 

tica; seus respectivos capítulos se repartem, para 
os homens, pelos que se distinguiram pelas lettras 
e pelos que se distinguiram pelas armas; para 
as mulheres, pelas donas illustres em virtudes e 
lettras; pelas distinctas ou em nobreza ou em mui- 
tas prendas ; por aquellas, emfim, que assignalaram 
acontecimentos raros. 

O juiz a que acima me reportei archiva que, 
não obstante seus merecimentos, no padre Agos- 
tinho Rebello da Costa os escrupulosos lhe notam 
a critica de pouco segura. Mas o que ellé é, em 
compensação, a lanços, é abundante, de noticioso. 

Pois que, se acompanharmos a seriação que 
adoptou, tomando-lhe, na primeira de suas secções, 
um numero, em cada zona da resenha, para amos- 
tra, toparemos a cada passo com nomes suggesti- 
vos, quaes logo o do sobranceiro António de Souza 
de Macedo e o do humilde Balthazar Guedes, 
aquelle operoso, este benemérito. Na copiosa e 
deficiente lista, immediatamente se nos deparam 
Christovão da Resurreição, cujas obras de linguista 
e philologo quedaram manuscriptas; e Domingos 
Freire, latinista; e Francisco de Sá de Menezes, 
vate, auctor da Malaca conquistada^ poema heróico 
acerca do qual José Maria da Costa e Silva affirma 
que «pelo bem architectado de sua fabula, varie- 



PORTUENSES ILLUSTRES 



dade e bem sustentado dos caracteres, movimento 
dramático, rica invenção dos seus episódios, formo- 
sura de suas descripções e poesia verdadeiramente 
épica, lhe cabe, de justiça, o primeiro logar entre os 
nossos épicos, depois de Camões. » 

De Gonçalo de Val-Bom, conta-nos o padre 
Agostinho Rebeilo da Costa que, ministro geral de 
toda a Ordem franciscana, eleito no Capitulo gerai 
de Paris, onde morrera em 13 de abril de 13 13, elle 
fora que facultara a João Duns Scoto licença de 
receber as insignias doutoraes na Universidade 
d'aquella cidade; e do infante Dom Henrique, o 
seu enthusiasmo condecora-o «digno de senho- 
rear o Universo.» Relembra a Jeronymo de Men- 
donça como famoso soldado na infausta batalha de 
Alcaçar, da qual escapara com vida e que escrevera 
a historia d'aquella infeliz expedição. E ingénuo no 
dizer o gabo com que exalça a memoria de D. Luiz 
de Souza, que «foi o único ecclesiastico que até o 
seu tempo ajuntou uma livraria escolhida. » Erran- 
do-lhe o titulo da obra, diz do judeu Manoel 
Aboab; e, Analisando com fallar do judeu Uriel da 
Costa, discorre phantasiosamente que fora con- 
strangido a escapar-se da sua pátria para fugir 
«aos rigorosos castigos que os seus erros mere- 
ciam » ; asseverando que « para maior disfarce » 



PORTUENSES ILLUSTRES 



mudara n'aquelle extranho seu primeiro lusitanado 
nome de Gabriel da Costa, prodigalisa-lhe intole- 
rantes injurias. Precedera-o na enumeração Vasco 
de Lobeira, que fora «o primeiro auctor que escre- 
veu historias fabulosas chamadas cavallarias an- 
dantes, de que teve tantos imitadores.» 

Esquecido é hoje do grande publico o bispo do 
Porto, do Porto natural, D. Nicolau Monteiro, que 
morreu nonagenario e que tanta parte teve nos 
esforços feitos perante a Cúria Romana, no fito 
de promover o reconhecimento de Dom João iv, 
mediante as supplicas pelas egrejas de Portugal 
alevantadas ao Summo Pontífice; e os mesmos 
litteratos quiçá hoje que grandemente não prezem 
as poesias de Pedro d' Andrade Caminha, no Porto 
nascido, emulo hostil de Camões e auctor de per 
si inédito por mais de duzentos annos. 

Do jesuíta Simão de Vasconcellos, chronista da 
sua Companhia no estado do Brazil; o historiador 
brazileiro Varnhagen não duvida acoimal-o de cré- 
dula c supersticioso; e, quanto ao franciscano 
Raphael da Purificação, da província de Santo 
António do Brazil, cuja regra professou no con- 
vento de Paraguaçu, seu bizarro livro publicado 
continua a passar entre nós como quasi desconhe- 
cido, sem embargo do caracter encyclopedico a seu 



PORTUENSES ILLUSTRES 



labor conferido pelo nosso bom Agostinho Rebello 
da Costa, que, chegando á vez do secular Thomaz 
Pinto Brandão, o commemora, em melancholico 
chiste, d'est'arte: «Poeta cómico, que viveu de 
alegrar a gente e morreu de fome, assim ordenou 
que se escrevesse na orla do seu retrato. » 

Omissa já a descripção do Porto, cuja impressão, 
no Porto, em a officina de António Alvares Ribeiro, 
tem as datas de 1788-89, á enumeração agora resu- 
mida cumpriria additar-lhe ainda os nomes que se 
destacaram ulteriormente e até quasi nossos dias, 
quaes os, p. ex., de Ahtonio Ribeiro dos Santos, 
nascido em Massarellos ; de João Pedro Ribeiro, que, 
natural da cidade do Porto, aqui morreu em 4 de 
janeiro de 1839, contando mais de oitenta annos de 
edade; do visconde d' Almeida Garrett. Para que não 
indigitemos senão primaciaes. E Soares de Passos ? 
E Júlio Diniz? Os promotores, os epígonos. . . 

Mesmo na restricta zona moderna e modernís- 
sima, feraz, se amontoa a colheita n"este solo, 
todavia cioso de seus fruetos, que, em regra, cedo 
reabsorve. Não quero fallar já de eruditos, como 
um Diogo Kopke, um Eduardo Allen, um José 
Gomes Monteiro; seus estudos e investigações nos 
hão-de oceupar na sequencia d'este trabalho; não 
alludo a artistas insignes, como qualquer um dos 



PORTUENSES ILLUSTRKS 7 

• dois Corrèas, um Silva Porto; ao seu homonymo, 
o sertanejo benemérito, não me proponho óra refe- 
rir-me; não menciono aqui já os músicos, quaes 
um Miguel Angelo, um Cyriaco de Cardoso; limi- 
to-me a lembrar-me da plêiade brilhante de novel- 
listas e poetas, desde os dois Bragas, Alexandre, 
causidico e tribuno, e Guilherme, jornalista e ora- 
dor, Faustino de Novaes, Dias de Oliveira, Eduardo 
Salgado, os dois Luso, Augusto e Henrique, até 
os actuaes Kduardo Coimbra e António Nobre. 

A geração litteraria do Porto, a partir de Garrett 
chegante aos nossos dias, marca accentuadamente 
em nossa mentalidade, consoante o registrou, no 
pittoresco anedoctico, Alexandre da Conceição, em 
as notas biographicas e criticas que, com motivo de 
Custodio Duarte, expendeu n'um dos números da 
Renascença, revista acuradamente no Porto publi- 
cada. 

Assim, a quem d'abundancia de coração reme- 
more, a difficuldade deriva do excedente e o emba- 
raço da escolha é o impedimento, de que uma 
concatenada rasão d'ordem, não meticulosamente 
chronologica mas insinuantemente entretecida, pôde 
só lograr cabal triumpho. 

Não me jacto sequer de me haver approximado 
sensivelmente da meta da victoria. Para contenta- 



8 PORTUENSES ILLUSTRES 

mento subjectivo, basta-me, porém, a consciência 
do tom lidimo do intuito. Os promotores, os epí- 
gonos. . . 

Visto como d'entre uns e outros, d'entre an- 
tigos e modernos, d'entre gloriosos e obscuros, 
lembrados e esquecidos, me proponho, na suc- 
cessão de adequados capítulos, se succinta, indi- 
viduadamente, discorrer. Imaginei-o. 

E, quando o imaginei, pois que a precedência 
legitimamente ás damas se deva, por uma antiga 
illustre dama portuense nossas lembranças enceta- 
ríamos. 

Porém óra me suspendo. Temo-me de que 
algum, mal-a visado ou inadvertido, taxa nos ponha 
á nossa galanteria de canhestra e contrafeita. Por- 
que rudes e toscos sejamos, como tripeiros que 
somos. 

E aqui já me detenho. 

Tripeiros] 



I 



António Coelho Louzada 
Affonso Bannes Pateiro — João Ramalho 



p 



orque será que, de mofa, os de fóra-Porto, 
mormente do sul do paiz, e com especialidade de 
Lisboa, chamam aos portuenses tripeÍ7'os? D'onde 
lhes virá, a estes, o apodo? 

Foi o que se propoz contar, com os alindados 
e improvisos da ficção novellesca, o portuense An- 
tónio Coelho Louzada no seu excellente livro Os 
tripeiros, « romance-chronica do século xiv», o 
qual, começado no Nacional, foi trasladado para 
livro, « que se annunciou posthumo e completo, 
como especulação" de livreiro, que desluz a reputa- 
ção do auctor», o qual aliás em muito ganharia, 
caso lhe houvesse sido d^do ultimar essa obra, 
porquanto, sendo Louzada «um bo"m romancista», 
este de Os tripeiros « seria o romance que mais viria 
a graduar-lhe o quilate do. seu muito engenho.» 



IO PORTUENSES ILLUSTRES 

As passagens que deixo entre as varias comas 
pertencem a Camillo Castello-Branco ; de António 
Coelho Louzada, o crítico da Revista Peninsular 
escrevera que elle era «romancista, mas um ro- 
mancista que estuda os costumes das epochas, que 
observa a sociedade, nas suas crenças, na sua vida 
intima, nas suas superstições e vicios. » Ajuntara: 
«Estudando as tradições e lendas da antiguidade, 
forma d'ellas o núcleo do romance, que mobila e 
adereça depois, conforme os usos da epocha que 
representa.» Concluirá: «Formado o seu estylo, 
aperfeiçoado, sobretudo, o descriptivo, creio que 
ha-de vir a ser um dos nossos mais portuguezes 
romancistas. » 

Morreu, porém, prematuramente. No anno de 
1857, foi, pela empreza da Concórdia, impresso, 
na typographia de António José da Silva Teixeira, 
largo do Laranjal, n.° 4, o romance por seu auetor 
António Coelho Louzada intitulado Na consciência, 
titulo que responde á pergunta da novella famosa 
de Camillo Castello-Branco Onde esta a felicidade? 
E na capa doesse livro ahi se davam como no prelo 
aquelle romance-chronica do século xiv Os tripei- 
ros, bem assim uma collecção de contos: Como nos 
divertimos? Annunciava-se que brevemente seriam 
publicados um volume com a tradição Uma rainha 
de Maldiva; outro, chuço; dois de Tradições, ro- 
mances e narrativas, contendo : ultimo dos Baiões, 
Affonso Valença, Historia de um convento, Uma 
vingança, As jóias da coroa, etc; um tomo de 



I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO II 

versos, Contos, Reflexos c PJiafltasias; finalmente, 
uns Contos do Minho. 

Ambiciosas illusões ! Melancholisantes desen- 
ganos ! 

De todo este prospecto chimerico estava publi- 
cada já a tradição portuense A Rua Escura, im- 
pressa, em 2. a edição, em a Typographia da Revista, 
na rua das Hortas, n.° 71; e datado, de 1859, da 
Typographia de R. J. O. Guimarães, rua de S. Do- 
mingos, n.° 8, é o inacabado romance-chronica do 
século xiv, Os tripeiros, cuja folha de rosto inscreve 
a Typographia de J. J. Gonçalves Basto, largo do 
Corpo da Guarda, n.° 106, e traz a data anterior 
de 1857. 

Devia, na verdade, resultar surtida bem, se 
concluida fosse, esta linda novella de Os tripeiros, 
que se vê baseada no capitulo 121 e seus convi- 
sinhos iii, 112, da primeira parte da Chronica 
de D. Jodo I, de Fernão Lopes, o nosso historia- 
dor-poeta, consoante lhe chamou apropositadamente 
outro grande nosso portuguez, que soube ser tam- 
bém historiador e foi outrosim poeta, Alexandre 
Herculano. O hábil comediographo lisbonense Au- 
gusto Garraio, assim como para o theatro organisou 
sargento-mór de Villar, «drama extrahido do 
romance de egual titulo de Arnaldo Gama», assim 
para leitura arranjou Os tripeiros, « drama histórico 
de grande espectáculo, baseado no romance do 
mesmo titulo do fallecido escriptor A. C. Louzada.» 

Todavia, bastante longe chegara a impressão 



12 PORTUENSES ILLUSTRES 

do livro de António Coelho Louzada para o leitor 
attingir o ponto do porque aos portuenses se lhes 
ficou chamando os tripeiros y conforme consta do 
capitulo x do lindo inacabado romance, o qual capi- 
tulo se intitula Uma idéa; e idéa fora essa, graças 
á qual Louzada, na completação licita á novellesca 
phantasia, conta como d'essa iniciativa «os por- 
tuenses davam o primeiro passo para obterem em 
chrisma uma alcunha que tinha de durar séculos.» 

Honrosissima chrisma aliás, em nobre timbre de 
seus patrióticos e generosos sentimentos; e até, dos 
alcandorados fastígios moraes descendo á olorosa 
planura da esthetica culinária, não depreciativa dos 
portuenses paladares, se por conclamada bitola, 
qual a de Paris, sua preferencia a rasoirarmos, é 
certo que nossa embofia perdendo, senão já a ini- 
ciativa do prato, pelo menos o seu exclusivo. 

Em 1867 achava-se em Paris o portuense Ra- 
malho Ortigão; e em 1868 no Porto nos impren- 
sava o relato do que lá o impressionara e lhe dera 
para volume bastante, por o titulo mesmo Em Pa- 

r 

tis. E mais uma illusão perdida. Senão, releiam: 

No fim de contas, a cozinha portugueza, tão decantada 
por bons engenhos, que eu muito venero, é como a dança por- 
tugueza e a musica portugueza; três coisas que estão por 
crear. 

As comidas usadas hoje em Portugal e não usadas em 
França são as que lá se comiam ha duzentos annos e que 
depois foram desterradas pela delicadeza do gosto ou pelos 
preceitos da hygiene. 



I — LOUZADA — EANNBS PATEIRO — JOÃO RAMALHO 13 

Fallam-nos da orelheira com feijão branco! Mas, senho- 
res, nada mais vulgar do que isso nos pequenos gargots de 
Paris. A cabeça de porco come-se aqui por toda a parte, e é 
velha e revelha n'estas paragens a combinação dos feijões 
brancos, conhecidos pelo nome de jlageolets, em resultado 
d'uma figura que Francisco Manuel do Nascimento teria muito 
gosto em explicar em uma das suas notas mais dcsabugacha- 
das e que Agostinho de Macedo chuchurrubiaria com agrado 
em uma das suas menos indecentes barafustas litterarias. 

As próprias tripas portuenses, em cuja nacionalidade mais 
alguma fé eu tinha por se achar filiada a historia cTellas á his- 
toria d'uma das expedições portuguezas para as conquistas do 
ultramar *; as tripas portuenses, das quaes o meu antigo 
amigo Vieira de Castro, jantando uma vez com migo em uma 
casa do Porto, me dizia, discriminando, com uma colher de 
servir a sopa, o conteúdo d'uma terrina posta entre os nossos 
talheres: — « Isto é um jantar inteiro n'um tomo só: aqui temos 
sopa, vacca, arroz, ba atas, chouriços, gallinha, ccnoiras, mão 
de boi e pé de porco....; no fundo da terrina vem, natu- 
ralmente, o entremet e a sobremeza, um naco de podim de 
pão com passas, uma talhada de melancia e um marmelo 
de calda para cada um » ; — as tripas, digo eu, aqui se fazem 



* N'este lanço Ramalho Ortigão nêo é exacto ; a expedição por- 
tugueza a que allude não foi para as conquistas do ultramar ; foi a 
da frota que o Mestre-de-Aviz mandou buscar em ajuda aos do Porto, 
para ir acudir aos de Lisboa, cercados pelo rei de Castella, e que os 
do Porto enviaram, com effeito, aos de Lisboa, em auxilio, de toda a 
casta, dinheiro, gente e com gado e provisões de bôcca ; ó magnifico 
o capitulo onde Fernão Lopes, depois de ter contado como a frota do 
Porto chegou a Cascaes, relata como foi sabido pela Cidade que a frota 
vinha e do que as gentes por isso faziam ; está na pag. 235 da primeira 
edição, apezar, o velho eloquente chronista o confessa, da difticuldade 
litteraria em idoneamente o fazer ; pois, quando soou, foi sabido por toda 
a cidade, de quanto cuidado e esperança foram cheios os corações dos mora" 
dores d'ella não é leve de duer. 



14 PORTUENSES ILLUSTRES 

tão realmente como na minha terra. E d'isto dou parte 
áquelles dos meus patrícios que desmedram em Paris, es- 
tranhando os comeres. Xa rua Mazagran, á esquina da rua 
de V Èchiqtiicr, ha uma taverna; á porta da taverna uma loisa; 
escripta na loisa, com tinta branca, a designação dos pratos 
do dia e o seu respectivo preço. Ora bem : quando na dita loisa 
encontrarem, entre um eivei e uma maieiioie, estas palavras: — 
tripé à la lyannaise, preparem o appetite e entrem á hora do 
jantar. Lambert Thiboust, o celebre auetor da Corde setisible 
e das Filies de marbre, um dos mais engraçados escriptores e 
um dos rapazes mais sinceramente bons que eu tenho conhe- 
cido, morava defronte de mim em Paris e raramente deixava 
de ir comer á esquina da rua quando as tripas figuravam na 
lista dos manjares exposta na loisa a que me referi. 

Não obstante, o petisco portuense, para os por- 
tuenses redundou em desprestigio. « Tripeiros » se 
lhes ficou chamando em desfavor; syntheticamente, 
á cidade do Porto, nas horas rancorosas, lhe cha- 
maram A Tripa. 

Aquelle Agostinho de Macedo a que se referiu 
Ramalho Ortigão denominou A Tripa virada uma 
das suas mais indecentes barafustas litterarias, 
simultaneamente uma de muitas torpes palinodias 
politicas. Depois da sua iniciativa revolucionaria 
tripeira de 1820, o béjense José Agostinho de Ma- 
cedo, na reacção absolutista de 23, rejubila, mo- 
fando, em mente da defecção militar deduzindo 
sonhada retractação civil collectiva, e dá-se á publi- 
cação historial do periódico hebdoma^ario de A 
Tripa virada, de que sahiram só os três primeiros 
números; mas no mesmo 1823, e na mesma zom- 



f 

I — LOUZADA — EANNRS PATEIRO — JOÃO RAMALHO 15 

beteadora officina (da «Horrorosa Conspiração») 
imprimiu, designado por Innocencio como opúsculo: 
Tripa por uma vez: livro primeiro e ultimo (n. os 4 
e 5). No n.° 1, pag. 9, marcava seu intuito já 
no discurso de irrisão, em o Oriente maçónico 
fazendo, de chacota, alludir o orador ás «manobras 
feitas na Cidade das Tripas», a qual, incongruente, 
acompanhando os cabos de guerra virados, viraria, 
quedaria Tripa virada, ella, a «cidade regenera- 
dora. » 

Era um desequilibrado este energúmeno, de 
quem se deve ter compaixão, como de todos os 
que soffrem; no physico e no moral, elle padeceu 
atrozmente. No n.° 16 do seu periódico, politico e 
moral (sic), de Desengano, encontra-se o trecho 
seguinte, que, consoante o frisou Innocencio, con- 
tracta singularmente com as idéas e doutrinas san- 
guinárias espalhadas por todo elle: «Eu sou for- 
mado pela natureza de um modo tal que em dia de 
execução de pena ultima, seja o réu qual fòr, 
porque o delicto não lhe fez perder a qualidade de 
homem, o coração me bate de outra sorte e uma 
horrível contorsão me sacode os membros todos; 
nem o necessário alimento posso tomar ! . . . » Mas 
com que ódio este padre folliculario fallou dos tri- 
peiros, enforcáveis e enforcandos, enforcados e para 
enforcar ! 

Recapitulando ab ovo, algo aos tripeiros do 
Porto se lhes devia. Em seu capitulo vi (Causa 
publica e cousas particulares), ao synedrio medie- 



l6 PORTUENSES ILLUSTRES 

vico dos bons homens do Porto António Coelho 
Louzada lhe applica a interessante theoria dos 
grandes effeitos oriundos de pequenas causas: 

Um dos patriotas segredava três palavras ou quatro ao 
ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras 
tantas, os homens negros traçavam algumas lettras e alga- 
rismos, que liam em voz alta, e de tudo isto sahia, pódc-se 
dizer, a Milheiro,, a EstreUa e a Sangrenta, o levantamento 
do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e — quem 
sabe? — a salvação e civilisação da Europa. Se julgam para- 
doxal a ultima parte, provem como sem os donativos d'aquelles 
bons-homens se acudiria ao Mestre, se este não se veria 
obrigado a tornar real o fingido embarque para Inglaterra, 
se, simples João Pires, casaria com a exemplar filha de João 
de Ghaunt, se haveria quem formasse um viveiro de nave- 
gantes tão destemidos, arrojados, para devassar a costa de 
Africa e penetrar na Ásia pelo Oceano, como o infante D. 
Henrique; como, sem o corte dado n'aquellas paragens ao 
poder ottomano, se lhe sustaria a carreira victoriosa dos seus 
estandartes, que chegaram a tremular junto dos muros de 
Vienna, na costa da Itália, na Hungria e na Bohemia, que 
pendiam, bafejados pelas tépidas aragens de Aljidireh, na 
Arábia, e açoutavam os ares, impellidos pelos ventos gelados, 
na Polónia, se espalhavam nas aguas do Mediterrâneo, no Mar- 
Negro, no golfo Pérsico e no Oceano, e acobertavam os recebe- 
dores de páreas até ao Dekan. 

Assim dos Tripeiros na era remota. 

Mas, modernamente, de tudo olvidado, aos tri- 
peiros ó padre José Agostinho de Macedo não lhes 
perdoava. 

E, todavia, elles não eram (mesmo d'esscs réus 
do crime de lesa-magestade da primeira cabeça, por 



I — LOUZADA — EANNKS PATEIRO — JOÃO RAMALHO 17 

quererem a egualdade civil e a liberdade politica) 
elles não eram, de todo em todo, maus, não. Nem 
sequer tão maus como o seu predilecto acepipe das 
tripas, que é indigerivel. Não ganha com que o snr. 
Lambert Thiboust em Paris em 1867 o apreciasse 
sob a designação de tripé à la lyonnaise, n'uma 
taberna da rua Mazagran,. á esquina da rua de 
VEchiquier. Em 1891, em Paris, no canto de uma 
estalagem da rua de Trévise, quasi á esquina da 
rua Richer, no meu primeiro almoço luteciano de 
foragido, esse indigerivel petisco m'o serviram de 
entrada. Somente chamava-se-lhe tripé à la mode 
de Caen. Mas sem os condimentos encomiados por 
Vieira de Castro. Nada de chouriço, nada de galli- 
nha, mão de vacca ou pé de porco. Nada. Nem 
batata nem cenoiras. A tripa, n'um molho amarello 
pegajoso, tout court, só e simplesmente. Ã la mode 
de Caen. 

As pacificantes comparações! As inesperadas 
attenuaçòes! Na saudade da pátria prohibida, subi- 
tamente a pátria me apparecia, sob a forma de 
meia-dobrada, ainda uma vez indigesta. . . 



Mas, se o presente nos desanima, que o passado 
nos reconforte. E persuasormente beilo, com effeito, 
é esse momento de idealidade e confiança da alma 

VOL. I. i 



l8 PORTUENSES ILLUSTRES 

portugueza. Á iniciativa de Lisboa efficazmente lhe 
assistiu a collaboração do Porto. Eis aqui, dos do 
Porto, um humilde-illustre, cujo nome e feitos a 
António Coelho Louzada bem na admirativa mente 
lhe andavam. De João Ramalho quero fallar. 

Que, como fora lançada voz pelo Mestre de 
Aviz na cidade do Porto, Fernão Lopes o diga no 
cap. 48 da primeira parte da chronica respectiva; e 
assim foi, consoante o diz: 

Deveis de saber que, tanto que o Mestre tomou 
cargo de Regedor e Defensor dos reinos, e soube 
que el-rei de Castella vinha com seu poder para 
entrar n'elles, logo escreveu suas cartas a algumas 
villas e cidades, bem assim a certas pessoas, notiíi- 
cando-lhes n'ellas como bem sabiam do modo e 
maneira em que estes reinos estavam, em ponto 
de se perder, e como el-rei de Castella vinha para 
os tomar, e metter os povos d'elles em sua sujeição, 
contra ordenança dos tractados que promettidos 
tinha. Coisa esta era que se devia ter por tam 
grave e tam estranha que antes todos se deviam 
aventurar a morrer sobre tal demanda do que 
cahir em servidão tam odiosa. E que elle, por 
honra e defensão do reino e dos naturaes d'elle, se 
dispuzera a tomar carrego de o reger e defender, o 
que, com a graça de Deus, entendia levar adeante, 
com a sua bôa ajuda d*elles. Portanto, lhes rogava 
que todos, de bom coração, como verdadeiros por- 
tuguezes, tivessem voz por Portugal e não atten- 
dessem a quaesquer cartas que porventura a 



I — LOUZADA — EANNBS PATEIRO — JOÃO RAMALHO I9 

rainha e el-rei de Castella, d'lsto em contrario, 
mandassem. 

Entre os logares a que seu recado chegou, foi 
a cidade do Porto, «onde suas cartas não foram 
ouvidas em vão.» 

Antes, apenas vistas foram, concordaram muito 
prestes e logo se ajuntaram todos, especialmente o 
povo meudo; mas alguns outros d'essa natural 
gente, duvidando, receavam muito de pôr em tal 
feito mão. 

Então aquelles que chamavam arraia meuda 
disseram a um, por nome chamado Álvaro da 
Veiga, que levasse a bandeira pela villa e voz 
lançasse em nome do Mestre de Aviz. 

Elle, porém, recusou leval-a, mostrando que o 
não devia fazer; logo foi chamado traidor e que 
era do partido da rainha, e tantas cutiladas lhe 
deram e com tanta vontade «que era sobeja cousa 
de vêr estar morto. » 

Não se fez mais n'aquelle dia; mas juntaram-se 
todos no outro seguinte, com sua bandeira esten- 
dida na praça, tendo ordenado que a levantasse um 
bom homem do logar, a quem chamavam Affonso 
Eannes Pateiro. E, se a levar não quizesse, que o 
matassem logo, como o outro. 

Affonso Eannes, como dMsto teve noticia por 
alguns d'elles que eram seus amigos, logo bem 
cedo, pela manhã, primeiro que o convidassem 
para tal obra, foi-se á praça da cidade, onde já 
estavam todos juntos, para a trazer para o logar. 



20 PORTUENSES HXUSTRES 

E, antes que nenhum lhe dissesse que a levantasse, 
deitou elle mão da bandeira, clamando em altas 
vozes, que o ouviram todos: Portugal, Portugal, 
pelo Mestre de Aviz. 

Então cavalgou Affonso Eannes em riba de um 
grande e formoso cavallo, que para isto já alli 
estava a ponto, trazendo-a mui honradamente por 
toda a cidade e acompanhado de muita gente, tanto 
clérigos como leigos, bradando, todos, a uma voz: 
Real, Real, pelo Mestre d' Aviz, Regedor e Defensor 
dos Reinos de Portugal, 

E, andando assim pela cidade, fòram-se onde 
grandes tempos havia que, estando posto inter- 
dicto, não enterravam nenhum; e começaram de 
tocar os sinos e fazer dizer missas e desenterrar os 
mortos onde jaziam enterrados e trazel-os para 
dentro da egreja; e pessoa alguma ousava con- 
trarial-o. 

Pregou então um frade, muito a propósito, de 
sua intenção, concluindo que todos deviam ser 
unidos em uma só vontade e desejo e não andar 
entre elles discórdia nenhuma, mas sim servir o 
Mestre lealmente e de bom coração, como verda- 
deiros portuguezes, pois que se punham a defender 
o reino para o livrar da sujeição d'el-rei de Castella. 

Muito ficaram todos contentes das rasões que o 
frade pregou; e d'ahi em deante nenhum desaccordo 
houve entre elles, mas todos, de um talante, se dis- 
puzeram a ter e seguir a tençam do Mestre. Assim 
com Lisboa plenamente se conjugou o Porto, em 



I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO 21 

harmonia perfeita; e a Schaefer, historiador allemão 
das coisas de Portugal, por sua importância irrefra- 
gavel, não se lhe escapa o frisar, de passagem, que 
o Porto prestes desfraldou estandarte em prol do 
Messias de Lisboa. 

Com a cidade de Lisboa a cidade do Porto tinha 
mystica correspondência, viria a dizer em 1742 
António Cerqueira Pinto, que era da freguezia de 
S. Miguel de Godim, concelho de Basto, próximo 
da villa de Amarante, não do Porto, como alguns 
julgaram e rectifica Innocencio. 

O mérito do Porto, então, como o de Lisboa, 
estava no sacrifício perante o perigo, o qual não 
era tam pequeno. 

Porque, emfim, pelo rei de Castella, que prose- 
guig. sua empreza com fraca resistência, tractando 
de pôr cerco a Lisboa, estavam á sua devoção, 
pela conta do que o e a conta, na Extremadura: 
Santarém, Torres-Novas, Ourem, Leiria, Montemor, 
Vimieiro, Feira, Penella, Óbidos, Torres-Vedras, 
Alemquer e Cintra; em Entre-os-Rios Tejo e Gua- 
diana : Arronches, Alegrete, Castello de Vide, Crato, 
Amieira, Monforte, Moura, Nondal, Mertola e Al- 
meida; em Entre-os-Rios Douro e Minho: Braga, 
Guimarães, Neiva e Lanhoso; em Traz-os-Montes: 
Bragança, Vinhaes, Canas, Monforte, Montalegre, 
Mogadouro, Mirandella, Alfandega, Lamas e Villa- 
Real; na Beira: Castello-Rodrigo, Almeida, Sabugal, 
Monsanto, Penamacor, Guarda, Covilhã, Celorico e 
Linhares. E, ao fim e ao cabo, a maior parte da 



22 PORTUENSES ILLUSTRES 

reino, seguindo «o melhor direito», que tal era el 
de Castilla, em hespanhol escreve o portuguez Ma- 
nuel de Faria e Sousa (Epitome de las historias 
portuguesas, terceira parte, cap. xi). 

Lisboa-Porto ! 

« Uvo admirables y varias hazanas. Armo el 
Maestre galeras en Lisboa, passaron d Porto para 
juntarse con los navios que alli se avian aprestado. 
El enemigo cerco la ciudad por mar y por tierra; 
entretanto, los portugueses salieron para pelear con- 
tra los gallegos, capitaneados por don Juan Manri- 
que, arcebispo de Santiago, que se retiro, descon- 
tento, dei sitio, con que pensava oprimirlos. » 

Hora de sobresalto e de confiança, de ardor e 
enthusiasmo. 

E de contar. 



No cap. 180 da impressão de 1644 da primeira 
parte da Ckronica d?el-rei D. Joào I, Fernão Lopes 
relata-nos, resumidamente, Como os do Porto toma- 
ram o castello de Gaya e o derribaram. 

Foi o caso que da mão do conde dom Gonçalo 
tinha Ayres Gonçalves de Figueiredo o castello de 
Gaya, e n'elle estava sua mulher, com alguns escu- 
deiros e homens de pé por guarda. Estes, taes e 



I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO 23 

tantos, pelas aldeias de a redor faziam tam má 
visinhança, de roubar e tomar á força as cousas de 
que vontade tinham, que todos eram d^lles muito 
aggravados. 

Nutriam os do Porto d'isto grande resentimento 
e desejo de o vingar, como o pudessem fazer bem. 

Assim os factos e d'esta còr os ânimos, um dia 
veio que a mulher de Ayres Gonçalves mandou 
pedir certas cousas a uma aldeia, que lhe man- 
dassem para ella e para aquelles que comsigo esta- 
vam. Os moradores do logar, porém, contradisseram 
de o fazer, dizendo que, ainda que aquelle castello 
tivesse voz por Castella, d'elle peor visinhança não 
haveriam recebido do que aquella que téli recebido 
tinham; e não lhes quizeram consentir que levassem 
aquillo que elles levar queriam. 

A mulher de Ayres Gonçalves, quando lhe com 
este recado chegaram, «com pouco siso e grão 
queixume» foi -se áquella aldeia e levou com ella 
quantos com ella tinha, por tomar vingança d' elles 
e trazer tudo o que lhe viesse á vontade. 

Mas os da cidade, logo que isto souberam, jun- 
taram-se logo todos, e foram lá, e tomaram o cas- 
tello, e roubaram-o de quanto n'elle tinham, derri- 
bando o muro e torres, e de tudo ou o deitavam 
fora ou o levavam. 

Para os portuenses, rude mas jubilosa quadra 
de combatividade essa! 

Pois quando elles estiveram cercados dos galle- 
gos. . . 



24 PORTUENSES ILLUSTRES 

Foi que, tendo sitiada el-rei de Castella Lisboa 
e estando por elle bastos logares de Entre-Douro-e- 
Minho, ajuntou-se dom João . Manrique, arcebispo 
de Santiago, com muita gente de castelhanos, para 
correr e destruir toda aquella comarca que voz 
tivesse pelo Mestre. Traziam todos os capitães in- 
vestidores até setecentas lanças e dous mil homens 
de pé, todos gente escolhida e bem postos para 
pelejar. 

Estando o arcebispo em Braga com suas gentes, 
deitando-se pela terra a roubar e a fazer todo o mal 
que podiam, houveram conselho em que maneira 
fariam guerra, o mais a seu salvo que podessem e 
com maior ganho e vangloria, de cujas resultas 
procedeu o começarem de andar seu caminho pela 
estrada de Guimarães e chegarem, ao meio dia, á 
beira do Porto ; pousaram seu arraial onde chamam 
S. Romão, « que é meia légua do logar e alli come- 
ram e folgaram.» 

Quando os da cidade souberam como os caste- 
lhanos estavam n'aquelle sitio e a vontade com 
que vinham, já marcada na cúria feita em Braga, 
onde logo alguns propuzeram que se viessem ao 
Porto, a cercal-o por uma parte, e seu arraial fosse 
posto á Porta do Olival, deixando conselho, traba- 
lharam, havido de todos seu accordo, logo de se 
armar todos á maior pressa que puderam. E, sendo 
elles todos prestes com grande esforço e vontade, 
sahiram todos fora e fòram-se aposentar ao chafariz 
de Mija- Velhas, «que é pequeno espaço da cidade, 



I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JO A O RAMALHO 2 5 

que, porque não eram encavalgados e era já sobre 
a tarde, não ousaram de ir mais longe.» Alli os 
aguardaram e, quando viram que não appareciam, 
tornaram-se para a cidade e não se fez mais por 
então. 

No outro dia, de madrugada, armaram-se todos 
e sahiram pela Porta do Olival, porque ouviram 
dizer que d'aquella parte queriam vir aquellas gen- 
tes, e foram-os aguardar por grande espaço e longe 
da cidade. N'isto, estando elles alli, chegam as galés 
de Lisboa, «todas apavezadas e bem corregidas, 
com grande alegria, dando ás trombetas, dizendo 
suas saudações, como é costume de mareantes.» 

E os das galés, mal chegaram e lhes disseram 
como os da cidade sahiram para pelejar com 
aquellas gentes, sem outra tardança nem mais 
espaço puzeram logo as pranchas fora e saltaram 
todos em terra. 

Quando os gallegos ouviram dizer que as galés 
de Portugal haviam chegado, e como as gentes 
delias estavam juntas com as da cidade, muito 
lhes pezou de taes novas; porém, porque eram 
certos de que os do logar não eram encavalgados, 
deixaram-se estar de socego. 

Decidiram então os portuguezes ir ter com elles 
e moveram-se todos no caminho de Paparanhas 
com suas bandeiras deante; e, indo assim regidos 
em batalha, com grande vontade de pelejar, viram 
quatro ginetes da parte dos gallegos. Como os 
viram ir d'aquella guisa, deram logo volta e disse- 



26 ' PORTUENSES ILLUSTRES 

ram, ao arcebispo e aos outros, que já surgiam no 
viso de Paparanhas. Então cavalgaram todos aço- 
dadamente e passaram a agua de Leça e puze- 
ram-se acima da ponte do rio em um alto logar, 
forte de geito que nenhum lhe podia fazer damno 
nem passar por aquella ponte sem muito a seu 
detrimento. Chegara a noite, nada se adeantando e 
nada adeantaram mensagens. 

Mas depressa a noite se foi gastando, porque 
era o mez de Maio. Na alva da manhã, tanto que 
alvoreceu, eis os gallegos que estavam já todos 
prestes, assim os de cavallo como os de pé. 

Os portuguezes, quando isto viram, buscaram 
logar por onde passassem e, não o achando, hou- 
veram de se metter por uma brenha muito espessa; 
porém deitaram n'ella muitos paus e muitos ramos 
d'arvores, e começaram por alli de passar o melhor 
que puderam, até trezentos, entre besteiros e de pé 
e alguns de cavallo, e com elles um cidadão do 
Porto, que os acaudilhava, que chamavam João 
Ramalho. 

Os gallegos, quando viram que elles passavam 
por logar tam mau, maravilharam-se e cuidaram 
em dar n'elles rijamente de volta e assim os desba- 
ratarem. 

Mas os portuguezes entenderam-lhes a idéa 
e foram-se mais a fundo buscar outro melhor ponto 
por onde fossem todos juntos. Antes, porém, que 
passassem, os gallegos, de cavallo e de pé, todos 
em tropel, vieram dar mui rijamente n'aquelles pou- 



I — LOUZADA — EANNES PATEIRO — JOÃO RAMALHO 27 

cos que já .eram da parte cTalém. Sem embargo, os 
portuguezes não dispersaram, antes tiveram-se 
todos juntos, e começaram de se ferir de vontade; 
mas os besteiros magoavam mui mal os gallegos, 
de guisa que á força se viram coagidos a affasta- 
rem-se afora. 

Fallou então o arcebispo aos seus e disse-lhes: 
« Amigos, parae mentes como estas gentes vêem a 
nós assim como homens que não temem a morte; 
e certamente grave cousa seria e não me parece 
rasão havermo-nos de embaralhar com elles. » 

Então concordaram todos n'aquillo que o arce- 
bispo dizia. 

Moveram e fòram-se logo, «indo alguns por- 
tuguezes a geito d'elles, ladrando-os » , escreve 
Fernão Lopes, que é uma mina inexgotavel de 
expressões magnificas, o prosador poeta em annos 
de poesia. 

Deu parte dos gallegos volta; foi morto um 
portuguez. Então, aguardaram aquelle dia e a noite 
seguinte, pensando que seus inimigos faziam aquillo 
com arte e que, porventura, tornariam a elles. 
«E elles, depois que souberam que eram muito 
alongados, tornaram-se para a cidade, com muito 
prazer. » 



28 " PORTUENSES ILLUSTRES 



E não se amortiguaram os brios guerreiros da 
terra tam prestes; para romanescas aventuras até, 
cidade tam positiva e, de sempre, pratica no negocio 
serviu de ponto de partida e apparelhou seus filhos, 
qual esse famoso par, da proeza fabulosa dos Doze 
de Inglaterra, por uma alcunha té hoje famosissimo. 



,11 



O «Magriço» 



A 



seus compatrícios, do portuguez em dema- 
sia despolpando o vocábulo, que traduz para « O 
Descarnado», (Lc DécJtamé), Ferdinand Denis, ao 
valente portuense o faz nascido na villa de Pene- 
dono, em a província da Beira, districto de Pinhel, 
dando-o, exactamente, por filho d'aquelle que o lei- 
tor conhece, Gonsalo Vás ou Vasques Coutinho, sé- 
timo senhor de Leomil e de numerosos territórios 
que devera á munificência de Dom João i, com o 
titulo de marechal ,do reino. Talentoso e escrupu- 
loso, ralho de que Ferdinand Denis, sem embargo, 
se descuide de óra em vez (indignor quando que 
bónus dormitat Homerus). Consoante, p. ex., aqui 
•■ — Nouvelle biographie gênêrale — quando, além 
d'outra obra nossa lusitana, como fonte de infor- 
mação cita a Europa Portugueza, que attribue a 



3© PORTUENSES ILLUSTRES 

Manuel Severim de Faria, o douto auctor dos Dis- 
cursos vários políticos, apezar de que sahiu, com 
effeito, da penna incansável de Manuel de Faria e 
Sousa, não tão só da Europa como da Ásia e da 
Africa Portuguezas indiscreto compilador. 

Rememora Ferdinand Denis que é vulgarisada 
pretensão a de que Álvaro Gonçalves Coutinho, o 
Magriço, fora um dos doze chamados de Inglaterra, 
que todos, no fito do desaggravo das britanfiicas 
damas offendidas, se embarcaram n'esta cidade do 
Porto, com excepção d'elle Coutinho, o qual prefe- 
riu pôr-se a caminho por terra, promettendo estar 
em Londres ao mesmo tempo que seus companhei- 
ros d'armas. Ferdinand Denis opina que é nos 
Lusiadas que cumpre lêr a historia do Magriço e 
de seus ousados consócios; e addita que a lenda 
affirma que, após o combate, e como quer que 
as damas tam afortunadamente vingadas apresen- 
tassem aos cavalleiros jarra e bacia a se lavarem, 
Coutinho recusara honra tal, fazendo observar que 
suas mãos eram em excesso cabelludas .para que 
elle permittisse a delicados dedinhos o derramar 
sobre ellas uma agua perfumosa; mas que a bella 
lady, allegando o seu vivo reconhecimento, não 
consentira em recusa tal. Deitou-lhe, pois, agua ás 
mãos, « nas quaes (esmiuça Védouro) elle tinha tam 
compridos os cabellos que lhe cobriam os dedos.» 

Commenta Ferdinand Denis que aquellas minú- 
cias, perfeitamente dignas do Amadis ou do Pal- 
meirim d' Inglaterra, não impediram, todavia, um 



II — O «MAGRIÇO» 31 

historiador sério, o conde da Ericeira, de considerar 
como infinitamente provável o combate dos doze; 
Faria ia mais longe e affirmava haver tido em seu 
poder documentos antigos que não deixavam duvida 
acerca da alevantada proeza. 

Que tem, na verdade? Á primeira vista parece, 
pois praxe era dos tempos. Esquece acaso o exem- 
plo dos sete cavaUeiros francezes que combateram 
a todo o transe cerce de Bordéus contra sete ca- 
valleiros inglezes, a 19 de maio de 1402, em prol 
da honra da sua nação? Pois um d'esses cavaUei- 
ros francezes (Pedro de Brabante, por alcunha O 
Pisca, almirante de França) veio a pelejar, em abril 
de 141 5, com o cavalleiro portuguez Álvaro Cou- 
tinho, por alcunha Magriço, filho do marechal 
de Portugal. 

Modernamente, porém, distincto escriptor lusi- 
tano, Pinheiro Chagas, no artigo respectivo do 
Diccionario Popular sob sua direcção, não enten- 
deu mal que se exarasse que Álvaro Gonçalves 
Coutinho heroe portuguez era cuja physionomia é 
meio legendaria, podendo apenas deduzir-se do que 
d'elle contam as historias que foi um dos mais 
aventurosos entre os cavaUeiros do tempo de D. 
João 1, que encheram a Europa com a gloria das 
suas façanhas. «A historia séria, que não pôde 
acceitar senão como uma lenda cavalheiresca o 
celebre caso dos doze de Inglaterra em que repre- 
senta o Magriço um papel principal, tem de collocar 
n'um plano muito secundário este cavalleiro aven- 



3.2 PORTUENSES ILLUSTRES 

tureiro, que (por similhantes palavras remata o 
artigo do Diccionario Popular) não teve a boa for- 
tuna de conquistar, como Soeiro da Costa ou 
Álvaro Vaz de Almada, titulos mais sérios á consi- 
deração da posteridade.» 

Não obstante, é de saber que, discorrendo, no 
livro decimo quinto de seus Ana/es de F landes 
(tomo ii, Anvers, 1624), Manuel Sueyro — referen- 
temente aos annos de Christo de 141 1 — dos bene- 
fícios que á província dava o commercio dos por- 
tuguezes, relata como assim entendera o duque, 
pelas relações de Godofredo Wilde, recebedor geral 
d'aquelle Estado e de Artois e Malines (confirman- 
do-o depois nas suas o successor João Vytenhohe), 
que quem lograva com isso o maior aproveito era 
a cidade de Bruges, pois alli residia essa nação. 
Com funccionario hábil, qual Pedro Boudins, seu 
conselheiro, se informara o príncipe, como com 
pessoa intelligente e pratica ; e, com o parecer d'este 
e dos quatro membros, e particularmente pela inter- 
cessão (que assim o declara) do cavalleiro Álvaro 
Gonçalves Coutinho, gentil-homem de sua cantara, 
que tam agradáveis, bons e notáveis serviços lhe 
liavia feito, com o sete grande valor, nas jornadas 
de Paris e Saint Cloud, contra o que se intitulava 
Duque de Orléans c outros seus alliados e adher en- 
tes, rebeldes e inimigos do rei, concedeu aos homens 
de negocio, mestres de navios, marinheiros e súbdi- 
tos do reino de Portugal os privilégios, tomando-os, 
e a todas as suas fazendas, em sua protecção. As 



II — O «MAGRIÇO» 33 

duas columnas da pag. 98 do tomo citado são 
cheias da especificação d'aquelles privilégios. O di- 
ploma se passou em Gand, a vinte e seis de dezem- 
bro, confirmando-o, por ordem do pai, o conde de 
Charolais, e o conselho, em que assistiam os senho- 
res de Mompreux, Coolscamp, o cavalleiro Gui- 
lherme de Halewin, o senhor de Chantenelle, os 
conselheiros Simão de Fourmellis, Daniel Alberto, 
Jacques de La Tannerie, António de Wissoc, Theo- 
dorico Le Roy, Dino de Rapundis, Roberto de Ca- 
ples, João de Ogierland e outros ; « ay tambien otros 
puntos favorablcs á los Portugueses, cn que me alar- 
garia muchOy si todos se huviessen de escrivir. » Por 
este teor impetra vénia do resumo o diffuso Sueyro. 

EUe de valentias de Álvaro Coutinho blasona, 
consoante mesmo no caso de quando o conde de 
Dorset nos torneios e festas propuzera o desafio de 
três fidalgos portuguezes, que eram Pedro e João 
Gonçalves, conjunctamente com nosso excedente 
Álvaro Coutinho, a quem Monstrelet, em sua his- 
toria, estraga a graça, chamando-lhe o senhor 
Alenron, corrompendo por tal geito o nome que 
topara no manuscripto de João, senhor de Saint- 
Rémi, primeiro rei d'armas da Ordem do Tosão; a 
Manuel Sueyro a communicara Philippe de TEspi- 
nay, visconde de Touraine e arbalisado ministro da 
cidade de Gand. 

Ora, insaciável, apezar de todos três haverem 
mostrado em Inglaterra o seu valor, servindo 
áquelles reis, que honravam a nação confederada e 

VOL. I. >> 



34 PORTUENSES ILLUSTRES 

amiga, Álvaro Coutinho havia tido, poucos dias 
antes, outro desafio na cidade de Bar, segundo 
nol-o aponta Sueyro, discreteando concernente- 
mente ao anno de 1 5 1 5 ; fora com Clignet de Bra- 
bante, assim chamado, almirante de França, cujo 
apodo Sueyro transcreve, sem cuidar, n'uma mera 
graphia imitativa: Cligneto de Breban. Do combate 
Coutinho sahira com muita honra. O adversário foi 
Pedro de Brabante, por alcunha Clignet, como quem 
dissesse Pisca, almirante de França, senhor de 
Landreville. Occupando-se d'elle, A. de Sauzay, que 
em 1866 era conservador adjunto ao museu dos 
Soberanos, no Louvre, appoiava-se na Historia 
genealógica da casa de Faudoas e na Historia ge- 
nealógica e chronologica dos grandes officiaes da 
coroa, de Anselme. E acabava a sua noticia pondo 
entre comas uma transcripção que diz que Pedro 
de Brabante, denominado Clignet, almirante de 
França, «no mez de Abril de 141 5, teve um com- 
bate singular contra um cavalleiro de Portugal na 
cidade de Bar-le-Duc. » Este precioso achado au- 
thentica a fé na seriedade da informação de Sueyro. 
Hoje pouco nos importa a honra do triumpho, que 
a transcripção reclama para o almirante de França. 
Mas que seja para o Magriço. 

Outrosim muita honra a ganharam os lusitanos 
Ruy Mendes, cavalleiro de grande animo e forças, 
em o prélio que teve, no palácio de Saint-Pol, com 
Guilherme de Bars, gentil-homem bourbonez, e 
Diogo d'Oliveira na pugna que sustentou com 



II — O «MAGRIÇO» 35 

outro fidalgo de Bretanha, que chamavam Gui- 
lherme de la Haye. Refere a ambos estes desafios, 
como testemunha de vista, o senhor de Saint-Rémi, 
cuja auctoridade é bastante, pela que se deve dar 
em similhantes casos (assim pondera Sueyro) aos 
reis-de-armas, e de mais a mais a este "que foi o 
principal. Pode-se crer (Sueyro averigua) que o Ruy 
Mendes foi aquelle que chamaram de Cerveira, « um 
dos doze que defenderam em Londres as damas 
inglezas. » O arcebispo de Reims, na historia do rei 
Carlos Sexto, fallara dMsto; e o senhor de Audi- 
guier, no livro que imprimiu, em o anno de 1617, 
do antigo uso do duello, dedicado ao rei de França, 
tractava largamente do desafio dos três e do de 
Guilherme de La Haye, se bem que não soube o 
nome de Diogo de Oliveira. 

Assim, pois, pela reputação que tinham os por- 
tuguezes, escolheram os francezes, entre todos, a 
Francisco de Grinaulx, Marignon de Soignac e Ar- 
chibaldo de La Roque. Marcou-lhes campo o rei, 
junto a seu palácio de Saint-Audon. Fazia-se o 
combate a pé com hacha, espada e adaga, quando 
João Gonçalves (se já não foi Ruy Mendes o ter- 
ceiro, como diz o senhor de Saint-Rémi, porque 
Monstrelet põe ao Gonçalves), apertando a La 
Roque, que lhe furtou o corpo, cahiu de joelhos, 
com que lhe foi força render-se ao dito, que acudiu 
a Marignon de Soignac, que pelejava com Pedro 
Gonçalves, a quem renderam os dois, que deram 
sobre Álvaro Coutinho, assistindo a Francisco 



36 PORTUENSES ILLUSTRES 

Grinaulx; defendeu-se dos três um grande espaço, 
até que, agarrando-lhe do braço Marignon, e carre- 
gando os companheiros, o derribaram. Porém, per- 
guntado depois : a qual dos francezes se liavia ren- 
dido} respondeu que a todos três. E, verdadeira- 
mente (conclue, consolando-se, Sueyro), alcançou 
n'aquelle dia, não obstante sua desgraça, grandís- 
sima honra, pois muitos o julgaram pelo mais valo- 
roso d' entre os seis, que assim mesmo com idênti- 
cas palavras o escrevera o senhor de Saint-Rémi. 

Pois, sim, sim, amigo Álvaro Coutinho! Com 
que então foram-te á pavana, hein? Ora mofei para 
a tua valentia. . . 

E em tal e tanta maneira que já não quero 
apurar (como aliás era minha mente quando dei 
principio a estas inquirições) se d'este Porto serias, 
na verdade, contra o que de tua procedência Fer- 
dinand Denis informara. 

Nem me seduz a sollicitação com que me em- 
barga Ignacio Rodrigues Védouro (de cuja obra ha, 
segundo informe do fallecido dr. Pereira Caldas, de 
Braga, uma reimpressão moderna, 1843, no Rio de 
Janeiro) quando, no seu relato desconhecido do 
Desafio dos doze de Inglaterra, que na corte de 
Londres se combateram em desaggravo das damas 
inglezas (Lisboa occidental, na Officina Ferreiriana, 
1732), nos encarreira noticiando que, d'esses doze 
de Inglaterra, «todos mui esforçados, valentes e 
animosos», os mais d'elies eram naturaes da Pro- 
víncia da Beira, e alguns de Entre-Douro-e-Minho* 



n — o «magriço»- 37 

Do conde da Ericeira, D. Fernando de Menezes e 
dos commentadores a Camões, Manuel de Faria e 
Sousa e o licenciado Manuel Correia, em seu folheto 
Védouro se soccorrera. 

Recentemente, é muito interessante o artigo 
biographico pelo dr. Eduardo de Freitas escripto 
acerca do Magriço, que nascera, segundo umas me- 
morias, em Trancoso e, segundo outras, no Porto. 

Dar-nos-hemos á mandria? Pelo contrario, tra- 
ctaremos de averiguar? 

Mas, não. Não quero saber; 

Mormente desde que, por Camillo Castello- 
Branco, acabo de saber o que sei. E é que, tendo 
Gaya privilegio de não convisinharem d'ella fidal- 
gos, como quer que a quinta de Vai d' Amores 
houvesse sido dada a Álvaro Gonçalves, requereu 
a cidade contra as violências do fidalgo, e D. João i 
tirou-lhe a quinta. «Este Álvaro Gonçalves (em 
adequada nota explica Camillo Castello-Branco) era 
o chamado Magriço, um dos doze de Inglaterra, 
heroicamente cantados por Luiz de Camões. Parece 
que o valentão não tractava mais humanamente os 
visinhos do que os inglezes. » 

Na verdade, Álvaro Gonçalves, senhor de Gaya, 
levava duas canadas de vinho em cada pipa de 
Cima-Douro. Resistiram-lhe com o foral de Affonso m, 
e não lhe pagaram. 

De facto, se era coisa que se fizesse: duas 
canadas em pipa. . . Porisso, afinal, nunca suas 
francezas mãos doessem ao senhor de Marignon* 



38 PORTUENSES ILLUSTRES 

que, agarrando-lhe do braço, fez com que elle 
tivesse o dito de espirito por cuja mercê esperta- 
mente se vingou, á pergunta de: a qual dos f rance- 
zes se havia rendido ? respondendo que a todos três. 

Bem se sahiu do passo estreito, convenhamos. 
Portanto, reconsiderando, com sua memoria nos 
reconciliemos, abatendo ao Magriço, que Védouro 
não sabe que a Portugal tornasse, as duas canadas 
de Gaya na conta dos privilégios que para os por- 
tuguezes de trabalho e negocio alcançou no grande 
Império, onde foi parar, de Frandes. 

Que, sem embargo, o que do Magriço interessa 
e move é a sua coparticipação, accidentada e desta- 
cante, no caso dos doze de Inglaterra. 

E, por fallar, o que seria, de verdade, o caso 
dos doze de Inglaterra? 



Aqui está o que foi, na realidade, o caso dos 
Doze de Inglaterra: 

Havendo o rei inglez Ricardo n ouvido fallar de 
todas as magnificências da corte de França, e sobre- 
tudo do esplendido regosijo havido por occasião da 
entrada da rainha Isabel de Baviera, cujo casamento 
com o rei Carlos vi de F rança foi celebrado a 18 
de julho de 1385, festa bellissima que tam grande 
arruido promovera, quiz elle também distinguir-se 
por meio de um grande divertimento publico. 



II — O «MAGRIÇO» 39 

Consequentemente, correndo o anno de 1390, fez 
annunciar uma justa e enviou arautos a publical-a 
em França, na Allemanha, na Flandres, na Escócia. 

Quando a noticia chegou ao Hainaut, Guilherme, 
conde d'Ostrevant, genro do duque de Borgonha, 
«que era moço, liberal e prompto em suas resolu- 
ções», conforme o conceitua o sr. de Barante, no 
tomo 11 de sua apreciada Historia dos duques de 
Borgonha da casa de Valois (1364-1477), formou o 
desígnio de ir mostrar-se n'essa festa e vèr a Ingla- 
terra. 

Partiu primeiro «du Quesnoy en Hainaut et 
clievaucha txnt par ses journées que il vint á la 
Haie, une bonne ville de Hollande» narra Froissart, 
a fim de fallar previamente com seu pae. «Meu 
caro rilho, disse-lhe o conde Alberto, vós não ten- 
des que fazer na Inglaterra. Casastes com a filha 
do duque de Borgonha e vossa irmã desposou seu 
filho. Nós estamos unidos e alliados á casa real de 
França'; não carecemos de ir na cata d'outras ami- 
zades e d'outras allianças.» 

O joven conde insistiu : « Vós sois senhor 
vosso, redarguiu seu pae, fazei o que bem quizer- 
des ; mas mais valeria, a bem da paz, não ir lá. » 

O conde d'Ostrevant partiu, todavia, compare- 
ceu com grande brilho no torneio, e alcançou o 
premio, que foi conferido pelas «damas gentis da 
corte ingleza. » 

As quaes, no domingo d'esse anno, mais che- 
gado antes do dia de San-Miguel, ao dar das três 



40 PORTUENSES IL LUSTRES 

horas, sahiram, montadas em palafrens, cada uma 
d'ellas conduzindo um cavalleiro, jungido por um 
cadeado de prata. Eram ellas, pela conta de Frois- 
sart, em numero de sessenta. 

Mas o douto publicador das preciosas chronicas, 
novamente revistas e augmentadas á face dos ma- 
nuscriptos, com notas, esclarecimentos, taboas e 
glossário, J. A. C. Buchon, t. 111, pag. 96, annota 
que Hollinshed diz, tão só. vinte e quatro. 

Este traço do grilhão amoroso é typico. Elle 
impressionou Smollett, o qual, em sua Historia 
d' Inglaterra desde o desembarque de Júlio César até 
ao tractado d ' Aix-la-Chapellc em 1748, no cap. 1 de 
seu livro iv, attinente ao reinado de Ricardo 11 e 
respeitante aos annos de 1 300-1 391, alarga e pro- 
longa o caso, observando, sob a illusão do desloca- 
mento d'um critério moderno transportado á medie- 
vidade poética, que, se bem que a maneira de viver 
de Ricardo 11 podesse continuar a ser taxada d'extra- 
vagancia, lhe carreara, sem embargo, o favor pu- 
blico : 

Elle instituiu jogos solemnes e torneios, e fez reviver o 
espirito cavalheiresco que reinava em tempo de seu avô. Não 
se ouvia senão musica e instrumentos, festas e regosijos. O rei 
em pessoa e todos os seus cortezâos tomavam parte n'esses 
folguedos guerreiros, e a rainha com suas damas honrávamos 
com a sua presença. Não se via senão espectáculos pomposos 
e procissões de cavalleiros armados que suas amantes guiavam 
com cadeados de prata até ás barreiras, onde elles disputavam 
em feitos d'armas em meio d'uma multidão innumeravel de 
povo. 



II — O «MAGRIÇO* 41 

T. Smolett exaggera. O festejo, de dias, foi um 
só e único, não obstante; as barreiras foram «uma 
grande e bella praça» a que chamam Semetefill, 
chama-lhe Froissart (Smitkfield), aonde cavalleiros^ 
e damas chegaram, havendo partido, no domingo 
próximo depois (aqui diz depois) do dia de S. Mi- 
guel, no anno de 1390, atravez da cidade e por em 
meio da rua que dizem de Cep (Ckeapside). 

No ponto reunidos, n'esse domingo doze caval- 
leiros inglezes esperariam outros tantos cavalleiros 
extrangeiros que a justar com elles quizessem vir, 
« et appeleroit-on ces joutes du dijnanche la fête du 
Calenge. » 

E na segunda-feira estariam na mesma praça os 
sessenta cavalleiros, armados e adereçados para 
justar, e aguardariam todos os cavalleiros que a tal 
viessem. E o que melhor se houvesse dos de fora 
teria por premio uma coroa d'ouro, riquíssima; e 
dos de dentro, a conspecto das damas, seu alamar 
também d'ouro e também riquíssimo. 

Na terça-feira seguinte, na mesma praça, esta- 
riam sessenta escudeiros, bem montados e armados 
para a justa, e esperariam todos os escudeiros ex- 
trangeiros e do reino d'Inglaterra que vir e justar 
quizessem; e o de fora que melhor se houvesse 
teria um corcel sellado e apparelhado; e o de den- 
tro um falcão bellissimo. 

Ora, de justas taes, as que on dit du Calenge 
foram rijas e bellas e bem justadas e continuadas 
até o cahir da tarde, ponto a que senhores e damas 



42 PORTUENSES IL LUSTRES 

retiraram aonde lhes cumpria, ficando a rainha alo- 
jada na praça de San-Paulo, no paço do bispo de 
Londres, e lá se fez a ceia. 

N'essa noite chegou o conde d'Ostrevant. Si fut 
du roi et des scignenrs joyjusement et bien grande- 
ment recueilli. 

Este seria o heroe da festa, e d'ella o grande 
dia foi o dia de segunda-feira. 

Tenhamos em portuguez para Froissart a regra 
que para outros extractos d'elle em francez teve 
madame de Witt, actualisando-lhe a prosa ; e ouça- 
mol-o no momento capital do capitulo xvi de seu 
livro iv, addicto a dizer-nos «De tine noblc fête et 
joutes qui fut faite en la ville de I*ondres, et comment 
elle fut publiêe par tous pays. » Diz-nos: 



Quando chegou esse dia seguinte de segunda-feira, vós 
verieis em muitos logares e praças d'entre a cidade de Londres 
escudeiros e varletes, cuidosos de engendrar a pôr em termos 
os arnezes de seus senhores e amos. Após noas chegou o rei 
de Inglaterra á praça, armado e bem acompanhado de duques, 
de condes e de senhores, pois era elle dos de dentro. A rainha 
de Inglaterra, bem • acompanhada de damas e de donzellas, 
veio ter á praça onde as justas se faziam ; e subiram para 
camarotes e palanques que ordenados e adereçados para ellas 
estavam. Depois chegaram o conde de Saint-Pol e os cavalleiros 
de França que justar queriam. Entào começaram as justas rijas 
e bellas; e cada qual fez quanto pôde para se sahir bem; e 
houve muitos derribados dos cavai los e deselmados; e duraram 
e continuaram estas justas rijas e tezas até á noitinha, em que 
se retirou para as aposentadorias cada qual dos senhores para 
onde estava alojado, e as damas outrosim e quando foi hora 



II — O «MAGRIÇO» 43 

de acudir aonde a ceia estava disposta, tudo lá concorreu. A 
ceia foi grande, bella e bem ordenada. E n'esse dia teve o pre- 
mio das justas dos que melhor se houveram dos de fora o 
conde de Ostrevant, e bem o mereceu, pois ultrapassara toda a 
craveira e muitíssimo bem justara, a juizo das damas, dos 
senhores e dos arautos appostos para o julgar e conceder. 



Na terça-feira foram as justas dos escudeiros; e 
na quarta, depois do jantar, justaram ainda, todos 
juntos, cavalleiros e escudeiros que o quizeram e 
poderam; e foi a ceia das damas onde antes fora, 
isto é no paço do bispo de Londres, onde o rei, a 
rainha e as damas estavam. Estas ceias eram, 
sempre, conforme o conta Froissart, bellas e gran- 
des e bem dansadas, toda a noite, até ao dia. 

Na quinta-feira deu o jantar a todos' os caval- 
leiros extrangeiros o rei n'aquelle mesmo paço, e a 
rainha ás damas e ás donzellas. 

Na sexta-feira quem deu o jantar (et fut le diner 
grand et âel, especifica Froissart), a todos os caval- 
leiros extrangeiros e escudeiros, foi o duque de 
Lancastrô. 

Cumpre n'este ponto lembrar que, em sua His- 
toria da casa de Plantagenct, no throno d 'Inglaterra^ 
desde a invasão de Júlio César até ao advento de 
Henrique viu David Hume frisara como, n'essa 
epocha, a auctoridade do duque de Lancastre servira 
para contrabalançar a do duque de Glocester e 
assegurara o poder de Ricardo n, o qual evitava 
attentamente melindrar o mais idoso de seus tios, 



44 PORTUENSES ILLUSTRES 

de quem jamais recebera offensa e em quem depa- 
rava um caracter mais moderado do que no mais 
novo, cedendo-lhe, assim, por toda a vida o ducado 
de Guienne. E em Rymer que para o caso se funda 
Hume, o qual, chegando ao anno de 1389, registra 
que, a cabo da pacificação das rixas domesticas 
referidas e do restabelecimento do governo em seu 
pé natural, se passaram oito annos de pousio, 
« que não forneceram acontecimento algum de 
importância. » 

O duque de Lancastre regressara de Hespanha 
após haver cedido ao seu concorrente as suas pre- 
tensões á coroa de Castella por uma somma que, 
appoiando-se em Knyghton e Walsingham, avalia 
Hume como considerabilissitna; e «casara a sua 
filha Philippa com o rei de Portugal.» 

De Portugal fora mesmo .que o duque de Lan- 
castre a Inglaterra regressara, não da Hespanha ; 
pois os mensageiros do rei de Castella, tendo vindo 
fallar ao duque de Lancastre, em certas avenças 
concordaram, o anno de quatro centos e vinte e 
cinco. Fernão Lopes, no capitulo 1 1 5 da Parte n dá 
Chronica d'el-rei D. João /, para o nosso ponto as 
resume no remate, dizendo que convencionado ficou 
«que o duque se partisse de Portugal e se fosse 
para Bayonna, que é no reino de Inglaterra e cerca 
da comarca de Castella.» Em consequência, veio o 
duque a Coimbra. 

Para este effeito, tinha já o rei portuguez man- 
dado armar seis galés na cidade de Lisboa, «as 



II — O «MAGRIÇO» 45 

quaes eram partidas para o Porto, por se juntarem 
com outras que ahi estavam, de guisa que eram, 
por todas, quatorze, de que Affonso Furtado levava 
governança, que era capitão do mar», refere Fernão 
Lopes no seu próximo capitulo 118. E logo no 119 
conclue contando que, depois que o duque folgou 
alguns dias com el-rei de Portugal (que bufava de 
corage e escupia pezadumbres, insolentemente mo- 
teja Lozano) e com sua filha, no Porto, embarcara 
por fazer viagem, elle e os seus, que eram muito 
poucos, que todos iam em seis galés muito folgada- 
mente, e.os outros por honra em sua companhia, e 
era isto no fim de Setembro. Sahidas as galés de 
foz em fora e postas no mar, déra-lhes Deus tam 
boa viagem que em breves três dias chegaram «a 
Gasconha, a uma cidade que chamavam Bayonna, 
do senhorio de Inglaterra. » De facto estavam então 
usufruindo os inglezes da posse de boa parte da 
França. 

No capitulo 122, < depois que já tornamos de 
Bayonna de Inglaterra», para que «contemos outra 
coisa», dá Fernão Lopes por «acabados os feitos 
do duque.» 

Mas nós, agora, pela mão de Froissart, seguil-o- 
hemos inda. 

De seu livro 111, seu capitulo lxxxix (Comment 
le duc de Lanças tre, êtant parti de Saint-Jacques et 
de Conimbres en Portingal, arrivapar mer à Bayonne) 
exara como o duque de Lancastre partiu da Galliza, 
com sua mulher, sua filha e toda a sua gente, « car 



46 PORTUENSES ILLUSTRES 

le roi de Portingal JTenvoya querre par sou connc- 
tablc le comte de Novaire et par messire Jean Fer- 
rand Percek, atout cinqcens lances. En celle route 
etoient, dn royaume de Portingal, tout premièrement 
le Pouvasse de Congne, et son frere Vas Martin de 
Congne y Egeas Co Me, Vas Martin de Merlo, Gons- 
salvas de Merlo, Galop Ferrand Percek, messire 
Alves Perrière, Jean Rodrigues Perrière, Jean Go- 
tnes de Silve, Jean Rodrigues de Sar, et tous barons. » 
O editor Buchon restitue para graphia intelligivel 
estas audições barbaras. 

Chegado a Portugal, «le duc de Lancastre se 
tint bien deux móis au Port, et entones ordonna-t-il 
toutes ses besognes ; et eut gallées du roi, lesquelles il 
fit appariller, et le maitre patron de Portingal, qui 
s^appeloit Davi Alphonse Vretat. » Ou seja Dom 
AfTonso Furtado. A narrativa do embarque no Porto 
em as galés do maitre patron Alphonse Vretrat se 
torna a exhibir no capitulo civ do mesmo livro, 
attinente em concordância na edição ao anno de 
1387, advertindo-se que a divergência nas datas se 
reporte da diversificação das eras no computo chro- 
nologico. N 'estes auetores, tempos e coisas, de 
resto, ha sempre que desprezar desconcordancias, 
como para a conta das galés de retorno, etc. 

No anno seguinte de 1388, já em Bordéus, 
houve um feito dermas, perante o duque dé Lan- 
castre, de cinco francezes, na praça em frente de 
Saint-Andrieu, presentes o dito duque de Lancas- 
tre, a duqueza e sua filha, e as damas e as don- 



II — O « MAGRIÇO "> 47 

zellas da comarca, dont il y en avoit grancFfoison, 
jubila Froissart, que assistiu em pessoa elle-tambem. 

Ora, se ás cinco galés que, tornando-se logo de 
Bayonna, á vinda damno vieram fazendo pela costa 
de Galliza, a regia nova ordenança sobre prezas por 
egual se applicou nas cinco « com que Affonso Fur- 
tado — a escape no cap. cxxvn da sua Parte n, Fer- 
não Lopes aponta — se partiu d'aquelle logar para 
Inglaterra, por servir a el-rei, andando por lá espaço 
de quinze mezes. » O chronista inglez Walsingham 
{Historia òrevis, pag. 318) redondamente escreve, 
porém : Rex Portugaliac misit regi Angliac sex 
GaleyaSy ut adjuvarcnt eum, et cssent i/li solatio 
contra hostes stws.» 

São mui valiosas as considerações á roda 
doestes factos expendidas pelo conde de Villa 
Franca no seu excellente volume, de investigações 
historico-sociaes, D. João 1 e a alliança inglesa, 
pag. 230. 

Interessante e importante é a quadra, não só 
para a chronica conjuncta da França, da Inglaterra, 
da Hespanha, de Portugal mas ainda, por seus 
corollarios, próximos e remotos, para a historia 
geral da civilisação da humanidade inteira; e diffi- 
cilmente se poderá deparar epocha mais abundante 
de physionomias impressivas, consoante a d'esse 
mesmo Ricardo 11, que no theatro introduziu Shaks- 
peare e que modernamente tomou Wallon para de 
figura servir nodular a característico episodio da 
rivalidade entre a França e a Inglaterra. 



48 PORTUENSES ILLUSTRES 

O conde de Villa Franca põe a nú uma grave 
arteirice sonegadora de Fernão Lopes e remata di- 
zendo que o «serviço d'el-rei» a que o mesmo 
chronista allude era «serviço directo e exclusivo de 
homens, armas e navios portuguezes á Inglaterra 
durante o espaço de quinze mezes, a expensas de 
Portuga!, e sem que na minima compensação nos 
retribuíssem. » 

De modo que exacto resulte o dizer-se que, 
recambiando-lhe o tio preferido, ao rei de Inglaterra 
Ricardo n nas mesmas galés lhe enviara o rei de 
Portugal D. João i um presente por egual assas ou 
inda mais grato, porquanto, em boa verdade, «no 
liavia sido menor el soccorro — na segunda parte 
dos seus Anales de Flandres Emanuel Sueyro o 
aquilata — que recibió el rcy inglês de las galeras 
que le embió el de Portugal, con su general Alfonso 
Furtado de Mendoça, á quien, pues y segun la gran- 
deza de su animo, dava desinteressadamente esta 
assistência d la nacion amiga, mando prover por 
letra en Inglaterra nuevecientos y cinquenta francos 
de la cantidad que ordeno se diesse en aquel reyno ai 
infante Don Dionysio, hijo del-rey Don Pedro y 
de Dona Ignez de Castro. » 

Está Sueyro relatando o que occorrera no anno 
de 1390 e é de entender que não hajam nossos 
escriptores memorado com attento reparo esta expe- 
dição naval portugueza a Inglaterra: até acontece 
modernamente que nem n'elia falle o vice-almirante 
da Armada Real, e conselheiro do Real Conselho de 



II — O «MAGRIÇO» 49 

Marinha, Ignacio da Costa Quintella onde devera, 
isto é no tomo i de seus Annaes da Marmita Por- 
tugucza, publicados em 1839, de ordem da Acade- 
mia Real das Sciencias, de que o auctor era sócio 
honorário. 

N'esta sua notável obra, com respeito ao rei- 
nado de D. João 1, para factos navaes Quintella 
marca ahi o anno de 1384, em que a expedição da 
esquadra de Lisboa ao Porto está miudamente des- 
cripta e judiciosamente criticada e, não tendo du- 
rante o resto do tempo que durou o memorável 
cerco de Lisboa, achado « outra alguma acção naval 
que mereça lembrar-se», elle passa logo ao anno de 
1405, em que, havendo-se desposado em Lisboa 
D. Brites, filha natural do rei D. João 1, com Tho- 
maz Fitz Allan, conde de Arundel, a conduziu a 
Inglaterra seu irmão D. Affonso, com João Gomes 
da Silva, alferes-mór, e outras muitas pessoas de 
distincção, em uma esquadra de três galés e vinte 
e oito navios redondos, entre grandes e pequenos. 

Muitas pessoas portuguezas de distincção haviam 
ido nas galés que á Inglaterra mandara D. João 1 
sob o commando de Affonso Furtado de Mendonça, 
«nobilíssimo cavallero, autor de los Mcndoças de 
Portugal y descendientc de la misma casa cuyo senor, 
como chefe, es en Castilla cl duque dei Infantado: 
fue capitan mayor de la mar y general dj los bailes- 
teroSy officio que despues se extinguia en Portugal», 
Sueyro vai desenrolando com pompa. 

E, por sua valentia e denodo, ficara o duque 

VOL. I. 4 



50 PORITLNSK.S I .'.LUSTRES 

de Lancastre a prezar e considerar os portuguezes ; 
e elle-mesmo era grande admirador e provocador 
de façanhas; assim, mais uma vez o attesta o Livro 
das proezas do marechal Boucicaut, interessante 
chronica que foi publicada da primeira feita por 
Théodore Godefroy em 1620 e que em 1840, colla- 
cionando-a com um manuscripto da Bibliotheca de 
Paris, Buchon reimprimiu a seguir á sua segunda 
edição de Froissart, com que enriqueceu a opulenta 
collecção do Pantheon Littéraire. 

O capitulo xvi da primeira parte d'essa chronica 
informa-nos : « De Veviprise qu: messire Bouciquaut 
fist luy troiseme, de tenir c/iamps frente jonrs à la 
jouste à tons venans, entre Boulogne et Calais, au 
lieu que bn dict Sainct-Engkelbert.. » Com vénia do 
rei, mandou clamar a façanha « em muitos reinos e 
paizes christãos, é de saber em Inglaterra, em Hes- 
panha, no Aragão, na Allemanha, na Itália e alhu- 
res. » Acudiram ao repto « viessire Jean de Hollande, 
frère du roi Richart d'Angleterre et puis le comte 
Darby, que ores se dict le roi d ' Angleterre> le quel 
jousta avec dix coups de fer de glaive, car quand 
il eut jouste les cittq coups selon le cry, le duc de 
Lancastre son père luy escripvit que il luy envoyoit 
son jils pour apprendre de luy. » Compareceram e 
pelejaram tantos cavalleiros e escudeiros do dito 
rei de Inglaterra que chegaram até ao numero de 
cento e vinte (2x60, o dos cavalleiros das justas de 
Londres: estes números, como o dos 12, são sym- 
bolicos). Não só de Inglaterra vieram ao chamo do 



II — O «MAGRIÇO* 51 

forçudo Boucicaut, mas de paizes vários, como 
allemães, hespanhoes e outros, mais de quarenta 
(outro numero symbolico). 

Tamberçi, afora os «Hainuiers», francezes e 
allemães se encontraram nas grandes festas de 
Londres, para onde o conde d'Ostrevant partira do 
Hainaut en grand'étoffe e bem acompanhado de 
cavalleiros e escudeiros; e passou através o Artois, 
e veio a Saint-Omer e depois a Calais; e ahi se 
encontrou com o conde de Saint-Pol. 

O conde Waleram de Saint-Pol, que por então 
tinha por mulher e por esposa a irmã do rei Ri- 
cardo dlnglaterra, preparou-se e adereçou-se gran- 
demente, e accommodou com elle bastos cavalleiros 
e escudeiros, tudo para ir a Inglaterra a essa festa, 
e partiu para Calais, onde estavam aguardando as 
naus mensageiras de Douvres que esperavam os 
senhores. 

Quando bateu hora, e ellas tiveram vento pro- 
picio para passarem á vontade, e que os navios 
receberam a esperada carga, os senhores passaram 
e seguiram em direitura prestes á baliza. 

Mas « a mim me foi dito, e eu bem o creio, que 
o conde de Saint-Pol — d'est'arte o narrra Froissart 
— passou e chegou á Inglaterra primeiro três dias 
do que o conde d'Ostrevant. Ora passou o conde 
d'Ostrevant por uma quinta-feira, e chegou a Can- 
torbie (Canterbury) na sexta, e foi vêr q relicário de 
Sam-Thomaz em jejum natural, e alli fez sua offe- 
renda, bella e rica; e ahi se demorou todo o dia 



52 PORTUENSES ILLUSTRES 

seguinte, e ao dia immediato chegou a Rochestre 
(Rockester); foi no sabbado. E para isto levava elle 
grande-estadão de cavaileiros e d 'escudeiros; e, para 
arranjo d'elles, caminhava por jornadas pequenas e 
com folga dos cavallos; e no domingo, depois da 
missa, partiu de Rochestre e veiu jantar a Darde- 
forte (Dartfort), e logo depois do jantar montou e 
caminhou, para estar, n'aquelle domingo em que a 
festa começava, em Londres. » 

Chega tarde, como já vimos; mas, no remate, 
« quand on eut dansé, joué et carolê assez au chastel 
de Windesore», e havendo o rei d'Inglaterra brin- 
dado bellas dadivas aos cavaileiros e escudeiros 
d'honra do reino de França, et par especial au jetme 
comte d'Ostrevant 9 não podia vacillar-se no juizo de 
que o heroe do festejo esse fora, o conde d'Ostre- 
vant. 

De quem fallando, é curioso como falle o quasi 
nosso Emannuel Sueyro. 

Começa dizendo que por estes dias do inicio do 
anno de 1390 morrera Arnaldo de Hornes, bispo de 
Liège, a quem deram por successor João de Baviera, 
filho de Alberto, conde de Hollanda, que, acompa- 
nhado do pai e de Guilherme, conde de Ostrevant, 
fez, pelo mez de Maio, com notável ostentação a 
sua entrada na cidade. «Passo de alli à poço à 
Inglaterra el conde de Ostrevant — prosegue Sueyro 
— en compartia dei de San Pol, cunado dei Rey Ri- 
cardo, à hallarse en las justas que se liavian publi- 
cado, porque la nobleza> enemiga dei ócio, se cansava 



II — O «MAGRIÇO» 53 

de la trégua, bien que para exercitar se se juntavan 
junto à Cales.* 

Allude á trégua de três annos, aprazada, entre 
Boulogne e Calais, entre a Inglaterra e a França, 
respiro n'essa desastrosa guerra dos cem annos; 
allude ás justas que, para não desfazer a mão, 
inglezes e francezes iam terçando rião só em Calais 
como aqui e alli; mas não o inquieta a sombra 
d'uma duvida. 

Porquanto accrescenta immediatamente a seguir: 
« Celebròse entre estas naciones belicosas desafio de 
doze cavalleros portuguezes, porque, haviendo algu- 
nos de Inglaterra burladose de ciertas damas de pa- 
lácio, etc. » Conta, em tom de historia, a lenda 
lusitana. Celebra as façanhas do Magriço. 

Não repara que a batalha campal dos « Doze de 

i 

Inglaterra » — treze em Jorge Ferreira de Vascon- 
cellos, no Memorial das proezas da segunda Tavola 
redonda, cuja primeira edição é de 1567; a primeira 
dos Lusíadas é de 1572, cinco annos depois — não 
repara que a batalha campal dos «Doze de Ingla- 
terra» é uma simples adaptação portugueza imagi- 
naria da realidade histórica das justas de Ricardo 11 
de Inglaterra, de parceria effectuadas com seu tio, 
o duque de Lancastre. 

Não repara que o Magriço é. . . o conde 
d'Ostrevant ! 

Lastima grande! No fumo d'uma apropriação 
plagiaria d'alheia effectividade histórica a façanha 



54 PORTUENSES ILLUSTRES 

typica se nos vae d'um filhote illustre portuense 
e elle próprio na mesma névoa se dissipa e 
some. 

Consolemo-nos, que da quadra heróica figuras 
proeminentes permanecem firmes na luz real. Assim 
esse, da «Ínclita geração de altos infantes», que no 
Porto nado foi. 



III 



Prancisco de Sá de Menezes 
— Dom Henrique 



i 



dka audaz, essa que attingiu seu acume no 
imperialismo do heroe de Francisco de Sá de Mene- 
zes, natural d'esta cidade do Porto, filho de João 
Rodrigues de Sá e de D. Maria da Silva, auctor da 
Malaca conquistada^ poema heróico em honra de 
Affonso de Albuquerque. 

Na censura que, por ordem regia, fez a este 
livro Diogo de Paiva d' Andrade, sobrinho do douto 
theologo, do mesmo nome, que foi ao Concilio Tri- 
dentino, disse elle, entre outros louvores, as ma- 
readas palavras seguintes: 

Faz o auctor ser de maiores quilates a perfeição d'esta 
sua obra com os da pureza do seu sangue e das virtudes 
naturaes de que é dotado; com que também não só imita, se 
não eguala ou ainda excede, a prudência, valor e merecimento 
de seus i Ilustres antepassados, auctorisando com a excellencia 
de seus versos a pátria que elles honraram com o esforço de 
seus braços. 



56 PORTUENSES ILLUSTRES 

• i 

E, modernamente, José Maria da Costa e Silva: 

A Malaca conquistada, considerando-a debaixo do ponto 
de vista da composição e das regras da arte, é o melhor poema 
do género clássico que possuímos. A acção é justa em seus 
motivos; importante em seus resultados; verdadeiramente 
heróica; de justa grandeza, conforme o preceito de Aristóteles, 
que exige que uma epopéa não seja tam longa que se confunda 
a memoria nem tam breve que não tenha o necessário desenvol- 
vimento. A acção da Ma f aca é única, interessante, gloriosa 
para a nação portugueza. Os episódios, conforme os preceitos 
da arte, nascem todos do assumpto e cooperam para o afor- 
mosear sem offuscal-o, defeito que mesmo os grandes épicos 
não têm sempre sabido evitar. O caracter do heroe tem toda a 
belleza histórica e poética de que era susceptível. 

Não assim para Camillo Castello Branco: 

O assumpto da Malaca é a tomada da metrópole indiana, 
e o heroe é Afifonso de Albuquerque, o valoroso capitão que 
ainda convencionalmente se sustenta invulnerado e respeitado 
nas hercúleas proezas do Oriente. Como poema histórico, é 
aproveitável a quem hoje se recrear na leitura das chronicas 
rimadas. 

Quanto ao poeta, senhor de uma casa opulenta, 
cercado da estima dos concidadãos e com especia- 
lidade dos litteratos, empregando o tempo que lhe 
restava do desempenho dos seus deveres como 
homem publico no tracto das musas, passava 
Francisco de Sá de Menezes tranquilamente seus 
dias quando a morte lhe arrebatou dos braços a 
esposa, que lhe servira sempre de consolação nos 



III — Si DE MENEZES — DOM HENRIQUE 57 

dissabores da vida. Esta perda rememora Costa e 
Silva que lhe abateu o espirito de maneira que, 
tomando, de dia para dia, maior aborrecimento ao 
mundo, resolveu, por fim, abandonal-o, sem que as 
rogativas e instancias dos filhos, dos parente e dos 
amigos fossem poderosas para o fazerem mudar de 
resolução. 

Depois de algum tempo de hesitação sobre a 
escolha do seu ultimo domicilio, resolveu, em fim, 
retirar-se para o mosteiro de Bemfica, da Ordem 
dos Pregadores, nos subúrbios de Lisboa, onde 
tomou o habito e professou no dia 14 de dezembro 
de 164 1, adoptando alli o nome de frei Francisco 
de Jesus, «antepondo (escreve Diogo Barbosa Ma- 
chado), com judiciosa eleição, este santíssimo nome 
aos nobres appellidos de Sá, e Menezes, de que 
totalmente se queria esquecer, por serem mudos 
despertadores da vaidade mundana.» 

Entregou-se desde então, com todo o ardor, á 
observância dos preceitos da regra e ás praticas de 
devoção mais austeras, tornando-se, por este modo, 
objecto de veneração e respeito para todos os 
religiosos que com elle habitavam aquella casa. O 
abbade de Sever traça-nos o quadro doeste sacrifício 
mystico: «As principaes virtudes que constituem um 
religioso perfeito praticava com tanta exacção que 
servia aos moços de estimulo e aos velhos de con- 
fusão. Era na obediência prompto, na oração con- 
tinuo, na mortificação severo, na caridade ardente. » 
Camillo Castello-Branco chama-nos á exacta reali- 



c8 • PORTUENSES I..MJSTRES 

dade, pela destrinça psychologica doestas crises mo- 
raes, vistas á luz dj critério coevo do épico: «No 
vigor da idade viuvou, e seguiu a vereda que 
levava á paz do claustro as grandes dores da vida. 
Alli, no mosteiro de Bemfica, nove annos antes, 
acabara • o cavalleiro Manuel de Souza Coutirçho 
amortalhado no habito de Frei Luiz de Souza. » 

De Francisco de Sá de Menezes consta que 
casara mui moço com D. Antónia de Andrade, que 
era sua prima, e filha de Balthazar Leitão de An- 
drade, thesoureiro da Casa da Índia; e sabe-se que 
a innato grande talento para a poesia elle juntava 
uma erudição não vulgar, tanto das litteraturas 
clássicas como da moderna italiana, cujos mestres 
seguiu com desvelo, nomeadamente a Torquato 
Tasso, por quem annota Costa e Silva que é evi- 
dente haver-se regulado na composição da sua 
Malaca conquistada, Sá de Menezes mostrou-se, 
porém, muito superior ás preoccupações do seu 
século, dando d'avesso á mythologia, que os seus 
contemporâneos julgavam admissível em toda a 
sorte de poemas, «a ponto que Sannazaro não 
escrupulisou de fazer uso d'ella no poema De pariu 
Virginis.» Camillo Castello-Branco é sóbrio no 
encómio: «Os afeites mythologicos são expungidos 
da urdidura e substituídos por um artificio mais a 
sabor christão. » 

Mas não encobre, de malícia, os méritos effecti- 
vos. Assim: «São raras na poesia do tempo as 
descripções dos costumes orientaes; todavia, Sá de 



Ill SV DE MENRZF.S DJ.4 HKNIf.QUE 59 

Menezes enxertou agradáveis trechos onde lhe 
vinham de molde ; e revelou vasta erudição geogra- 
phica, nomeando as terras e logo as usanças que 
as caracterisam, á imitação de Homero.» 

N'esta altura, destaca flagrante o contraste entre 
as apreciações de Costa e Silva, por um lado, e de 
Camillo Castello-Branco, por outro, com respeito a 
Francisco de Sá de Menezes na Malaca conquis- 
tada. 

<- A parte erótica não é menos bella n'este 
poema (escreve Costa e Silva), e depois de Camões 
talvez nenhum épico de Portugal seja tam singello, 
tam terno e verdadeiro nos affectos! Francisco de 
Sá de Menezes estava mui longe das affec tacões 
rhetoricas e dos conceitos rebuscados de Vasco 
Mousinho de Quevedo; é certo que as damas do 
Affonso Africano têm mais espirito que as da Ma- 
laca; mas que importa, se esse espirito é do auctor 
e não d'ellas?» — «Nas pinturas eróticas (Camillo 
Castello-Branco escreve) é mais recatado que Luiz 
de Camões, talvez porque a pedestre e fria inspira- 
ção o não impulsava a raptos descomedidos. Fal- 
ta-lhe invenção e génio onde sobeja a honestidade. 
Descreve com onomatopaicos estridores batalhas e 
naufrágios. Nos quadros maviosos esmorece em 
prosa estirada e descolorida. » 

Em a resignada abdicação da intelligencia que 
implica o modulo da vida por Francisco de Sá de 
Menezes preferido após a morte de uma esposa 
adorada, elle foi tenaz e fixo. Persistiu, com firme 



ÓO PORTUENSES ILLUSTRES 

constância e placidez de espirito, n'aquelle despren- 
dido desapego do mundo, sem jamais se desmentir, 
até ao dia 21 de Maio de 1661, em que falleceu. 

Esta é a data que vem no texto de Costa e 
Silva ; Barbosa Machado põe, porém, o faliecimento 
do illustre poeta portuense em 27 do mesmo mez 
do anno posterior de 1664. 






Como quer que seja, essa idéa que attingiu o 
seu acume no imperialismo do heroe do portuense 
Francisco de Sá de Menezes tivera seus definidos 
primórdios na cerebração d'outro portuense, ilius- 
trissimo, se mal que escassamente sympathico. 

E infernai a luz a que sua figura perpassa 
adefronte dos olhos do nosso espirito, na scena 
lúgubre que arrancou brados de commiseração ao 
chronista Gomes Eannes de Azurara. 

Como um quadro capital do século xv a tras- 
ladou para francez, desde 1839, Ferdinand Denis e 
lhe deu o titulo tremendo : « O primeiro dia do tra- 
fico em Lagos, reino dos Algarves. » Depois, em 
1841, publicado por J. P. Ailiaud, appareceu o 
texto integral lusitano, sahindo pela primeira vez a 
lume por diligencia do Visconde da Carreira, prece- 
dido de uma introducção e illustrado com algumas 
notas pelo visconde de Santarém e seguido d'um 



III — SÁ. DE MENEZES — DOM HENRIQUE 6l 

glossário das palavras e phrases antiquadas e 
obsoletas. 

O capitulo xxv nos mostra «como o auctor 
aqui rasôa um pouco sobre a piedade que ha 
d T aquellas gentes e como foi feita a partilha. » Éa 
própria divindade que elle invoca: 

Oh tu, celestial pae, que, com tua poderosa mão, sem 
movimento de tua divinal essência, governas toda a infinda 
companhia da tua santa cidade, e que trazes apertados todos 
os eixos das ordens superiores, distinguidas em nove espheras, 
movendo os tempos das idades, breves e longas, como te 
apraz? Eu te rogo que as minhas lagrimas não sejam damno 
da minha consciência, que nem por sua lei d'estes; mas a sua 
humanidade constrange a minha que chore piedosamente o seu 
padecimento. E, se as brutas alimárias, com seu bestial sentir, 
por um natural instincto conhecem os damnos de suas simi- 
lhantes, que queres que faça esta minha humanai natureza, 
vendo assim ante os meus olhos esta miserável companha, 
lembrando-me que são da geração dos filhos d'Adão?! 

Logo relata, em continuação do que já referira: 

No outro dia, que eram 8 dias do mez d*agosto (de 1444), 
muito cedo pela manhã, por rasão da calma, começaram os 
mareantes de correger seus bateis e tirar aquelles captivos para 
os levarem, segundo lhes fora mandado; os quaes, postos jun- 
tamente n'aquelle campo, era uma maravilhosa cousa de vêr, 
que entre elles havia alguns de arrazoada brancura, formosos e 
airosos; outros, menos brancos, que queriam similhar pardos; 
outros tam negros como ethiopios, tam desformes, assim nas 
caras como nos corpos, que quasi parecia aos homens que os 
olhavam que viam as imagens do hemispherio mais baixo. 

Mas qual seria o coração, por duro que ser podesse, que 



62 PORTUENSES ILLUáTRES 

não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquella 
companha; que uns tinham as caras baixas e os rostos lavados 
com lagrimas, olhando uns para os outros; outros estavam 
gemendo muito dolorosamente, olhando a altura dos céus, fir- 
mando os olhos em elles, bradando altamente, como se pedissem 
soccorro ao pae da natureza; outros feriam seu rosto com suas 
mãos, lançando-se estendidos em meio do chão; outros faziam 
suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de 
sua terra, nas quaes, posto que as palavras da linguagem, dos 
nossos não podesse ser entendida, bem correspondia ao grau 
de sua tristeza?! 

Mas, para seu dó ser mais acerescentado, sobrevieram 
aquelles que tinham carrego da partilha, e começaram de os 
apartarem uns dos outros, afim de porem seus quinhões em 
igualeza; onde convinha, de necessidade, de se apartarem os 
filhos dos pães e as mulheres dos maridos e a uns irmãos dos 
outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma 
lei; somente cada um cahia onde a sorte o levava! 

Oh poderosa fortuna, que andas e desandas com tuas 
rodas, compassando as cousas do mundo como te apraz! E, 
sequer, põe ante os olhos d'esta gente miserável algum conhe- 
cimento das cousas derradeiras, porque possam receber alguma 
consolação em meio de sua grande tristeza! 

E vós-outros, que vos afadigaes n'esta partilha, olhae 
com piedade sobre tanta miséria e vede como se apertam uns 
com os outros, que apenas os podeis desligar! Quem poderia 
acabar aquella divisão sem mui grande trabalho? 

Que, tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos, 
que viam os pães na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se 
para elles; as mães apertavam os outros filhos nos braços e 
lançavam -se, com elles, de bruços, recebendo feridas, com 
pouca piedade de suas carnes, por lhes não serem tirados! 

E assim trabalhosamente os acabaram de repartir, porque, 
além do trabalho que tinham com os captivos, o campo era 
todo cheio de gente, assim do logar como das aldeias e comar- 
cas de a redor, os quaes deixavam em aquelle dia folgar suas 



III — S V DK AltíX ri '.li > — 1) JM HliXJtl^U:-: 6 j 

mãos, em que estava a força de seu ganho, somente por vêr 
aquella novidade. 

E com estas cousas que viam, uns chorando, outros alter- 
cando, faziam tammanho alvoroço que punham em torvação os 
mandadores d'aquella partilha. 

O Infante estava alf/, em cima de um p tderoso cavaffo, 
acompanha 'o de suas gentes. . . 

Este instruetivo fragmento Ferdinand Denis o 
qualifica de cheio de eloquência, e remata escre- 
vendo que a grande scena que Azurara relata está 
contada com uma commiseração generosa, que não 
prejudica, por um só momento, a fidelidade da 
narrativa. 

Addita que Azurara prosegue referindo que o 
choro d'aquelles captivos fora «mui grande, espe- 
cialmente depois que a partilha foi acabada, que 
levava cada um a sua parte, e alguns d'aquelles 
vendiam os seus, os quaes levavam para outras 
terras, e adregava que o pae ficava em Lagos e á 
mãe a traziam para Lisboa e os filhos para outra 
parte, na qual divisão sua dòr dobrava o primeiro 
damno, o qual era menos em alguns que adrega- 
vam de ficar em companhia. » 

O capitulo xi (0 trafico de escravos) da Vida do 
Infante D. Henrique de Portugal, appellidado o 
Navegador, pelo inglez Richard Henry Major, abre 
com este impressionante painel, que é precedido 
das linhas que tomo da traducção portugueza 
do snr. José António Parreira Brandão e são as 
seguintes: 



64 PORTUENSES ILLUSTRE3 

O antigo chronista Azurara exprime, em um capitulo 
cheio de pathetica eloquência, os seus sentimentos de commi- 
seração para com os pobres captivos na occasião de serem 
distribuídos pelos diversos possuidores ou compradores cTelles, 
separados assim d'aquelles a quem mais estreitamente se acha- 
vam ligados pelos laços da natureza. 

Em 1846 volta Ferdinand Denis a encarecer, a 
propósito da descripção d'essa venda d'escravos 
em Lagos, a penita eloquente de Gomes Eannes de 
Azurara; mostra-nos o velho escriptor a flagellar 
já em seu remoto tempo esse commercio odioso, 
«tomado d'uma indignação santa.» Ainda em 1858, 
novamente lamentaria Ferdinand Denis que, se a 
cidade de Lagos secundava á data o infante mais 
que cidade alguma outra do reino, fosse, todavia, 
por provirem os recursos da deplorável origem do 
commercio dos escravos, em detrimento da huma- 
nidade. 

Em proveito da humanidade, porém, redundava 
a iniciativa egoísta do infante Dom Henrique, como 
no proveito da civilisação geral as romanescas 
especulações de Colombo redundaram. 



E aqui me estimula suggestão surgente, qual a 
de, approximando estes dois grandes nomes, do 
infante Dom Henrique e de Christovão Colombo, 
lhes inquirir da originalidade de suas idéas. 

Vejamos : 



III — SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 65 

No tomo 11 <je sua Histoire des ducs de Bonr- 
gogne de la rnaison de Valois (1364- 1477), seu 
auctor, o snr. de Barante, membro da Academia 
Franceza e das Academias de São-Petersburgo e 
de Turin, na sequencia do livro segundo, conta-nos 
como o rei de França (Carlos vi), no regresso da 
sua viagem do Languedoc, recebeu dos genovezes 
uma embaixada para implorar o seu soccorro e dos 
cavalleiros francezes contra os sarracenos da costa 
d' Africa, cujos navios incessantemente vinham per- 
turbar o commercio nas costas d'Italia. Elles faziam, 
mesmo até, frequentemente incursões nas terras e 
devastavam-as. As ilhas da Córsega, da Sardenha, 
de Maiorca, d'Elba, de Monte-Christo, de Pianosa 
eram sempre preza de suas rapinas, e todo o nego- 
cio dos christãos no mar Mediterrâneo já não se 
podia levar com segurança. Os genovezes, vendo 
que a França e a Inglaterra estavam em paz por 
trez annos, pensaram que era uma empreza digna 
dos cavalleiros das duas nações o vir punir a inso- 
lência d'esses infiéis. Offereciam-se a emprestar seus 
navios para a passagem e a fornecer os viveres e 
provisões de todo o género. Esta proposta foi aco- 
lhida com grande enthusiasmo pelos cavalleiros e 
escudeiros que buscavam occasião de brilhar. O 
duque de Touraine quizera ser chefe d'esta cru- 
zada: nada havia, com effeito, exara-o o snr. de 
Barante, de tam cavalleiresco e de tam aventuroso 
como esse moço príncipe; elle era o protector e 
como que o chefe de todos os jovens fidalgos ; não 

VOL. I. 5 



66 PORTUENSES ILLUSTRES 

pensava senão em deparar occasião cfadquirir fama 
e de ao longe levar a honra da França. 

Mas os tios do rei e o seu conselho em tal não 
quizerem consentir, não achando que essa viagem 
'conviesse ao primeiro príncipe da regia familia. Foi 
o duque de Bourbon quem escolheram: elle obteve 
do monarcha a graça de marchar assim nas piza- 
das do bom rei São Luiz. Os mais nobres cavallei- 
ros do reino disputaram a honra de o acompanhar: 
o de Bourbon teve mesmo sob suas ordens o conde 
d'Erby, filho do duque de Lancastre e que depois 
se fez rei de Inglaterra. 

O senhor de Coucy, o almirante de Vienne, o 
senhor Guy da la Tremoille, monsenhor Philippe de 
Bar, o senhor de Harcourt, o conde d'Eu apressa- 
ram-se, como bons e verdadeiros christãos, em ir 
combater os sarracenos. O snr. de Barante, fundan- 
do-se em Juvenal (des Ursins), accrescenta que 
elles procuravam d'est'arte arredar-se também da 
corte, onde viam nascer tantas divisões e praticar 
tantos actos pouco honrosos que gran lastima era 
para leaes servidores do rei. 

Todavia, a cruzada não durou coisa que mere- 
cesse a pena; depois de se haver sitiado Tunis, o 
snr. de Barante escreve, entrara-se em negociações 
com os sarracenos: elles haviam pago uma somma 
considerável e promessa fizeram de não mais d'alli 
em deante perturbar o commercio dos christãos. 
Como quer que as enfermidades e o calor fizessem 
morrer, cada dia que ia passando, muitos dentre 



III — SA DE MENEZES — DOM HENRIQUE 67 

os homens (Tararias, força fora o acontentarem-se 
com essa pequena vantagem. 

No livro decimo-nono de sua celebre Historia 
das Cruzadas, sobre o anno de 1389, Michaud 
escrevera que ao ardor das cruzadas succedera no 
espirito dos guerreiros uma paixão de se distinguir 
e de se enriquecer por intermédio de emprezas 
cavalheirescas e de expedições aventurosas, ás 
quaes se mesclavam sempre algumas remembran- 
ças das guerras santas. Conta como foi que os 
genovezes mandaram pedir um chefe e tropas ao 
rei de França Carlos vi e como, ao boato só d'essa 
empreza longínqua, se viu acudir de todas as pro- 
vindas do reino, e mesmo d'Inglaterra, uma tur- 
ba-multa de guerreiros, ávidos de assignalar sua 
bravura; emfim, mil e quatrocentos cavalleiros e 
senhores, ás ordens do duque de Bourbon, tio do 
rei, foram ter a Génova e embarcaram na frota da 
republica. A expedição passara por deante das 
ilhas d'Elba, da Córsega, da Sardenha; e, depois 
de haver soffrido uma borrasca no golfo de Lyon, 
chegara á vista da cidade & Afrique. 

Esta cidade d ) Afrique^ de que o historiador 
Froissart nos dá uma descripção e que, por sua 
situação e seu porto, se assemelhava á cidade de 
Calais em França, passava, ao tempo, por ser a 
chave das províncias e Estados da Barberia, e 
longe não ficava d'essa riba de Carthago, onde, 
cento e dez annos antes, Luiz ix encontrara o 
martyrio sob o estandarte da cruz. Os cavalleiros 



-68 PORTUENSES ILLUSTRES 

francezes e os genovezes detiveram-se durante 
alguns dias em uma ilha próxima, e resolveram 
sitiar a cidade que sobre a costa viam. 

Annota Michaud que Froissart falia longuissi- 
mamente d'esta expedição; e declara que elle fora 
a quem tomara para guia no seu relato, servin- 
do-se até algumas vezes de suas expressões. To- 
davia, não fora o único que fallado haja d'essa 
espécie de cruzada: Paulo Emilio, Bizaro, Folieta 
d'ella fallaram outrosim; mas o que havia de sin- 
gular, segundo Michaud, era que Bizaro e Folieta, 
historiadores de Génova, pretendem que os geno- 
vezes e os francezes sitiaram então a cidade de 
Tunis. (Vimos que é também como modernamente 
conta o caso de Barante). Michaud prefere repor- 
tar-se de Froissart, que era contemporâneo e que 
haurira essa narrativa na palestra dos cavalleiros 
, que acampado haviam dois mezes sob os muros 
da cidade $ Afrique. Paulo Emilio e Christina de 
Pisan nomeiam, egualmente, esta cidade; um, na 
sua historia ; a outra, nas suas memorias. 

Ora, essa cidade $ Afrique a mesma 'era que a 
cidade d'A/'MaAadia f contra a qual os de Pisa e os 
genovezes feito haviam uma expedição algum 
tempo antes da primeira cruzada, consoante Mi- 
chaud o inscrevera no primeiro livro da sua his- 
toria. 

A cruzada d'agora, segundo Paulo Emilio, 
Folieta e Bizaro, acabara por um tractado, nego- 
ciando-se, conforme o moderno relato do snr. de 



III— SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 69 

Barante, a paz, conclusa sob condição de que os 
habitantes $ Afrique não inquietassem mais d'alli 
avante as costas marítimas da França e de Génova, 
que se reteriam em seus limites e que immediata- 
mente pagariam dez mil peças d'ouro. Assim, 
segundo esses historiadores, a expedição haveria 
sido gloriosa, emquanto que inútil e sem honra 
ella foi, segundo Froissart, que diz que opinião era 
de muitos que o que tinha feito abortar a empreza 
fora a ignorância, a inacção e a sobranceria do 
duque de Bourbon. 

Quanto áquella primeira expedição, que, sendo 
uma verdadeira cruzada, Michaud frisa que parece 
haver sido esquecida por todos os historiadores das 
guerras' santas, derivava do facto, permanente, de 
que os sarracenos que habitavam a Africa pertur- 
bavam a navegação do Mediterrâneo e ameaçavam 
as costas de Itália. O papa Victor in convite ende- 
reçou aos christãos para que pegassem em armas, 
e prometteu-lhes a remissão de todos os seus 
peccados, se fossem combater os infiéis. 

Os habitantes de Pisa, de Génova e de muitas 
outras cidades, impellidos pelo zelo da religião e 
pelo desejo de defender seu commercio, equiparam 
frotas, levantaram tropas e operaram um desem- 
barque nas costas d' Africa, onde, a dar-se credito 
ás chronicas do tempo, fizeram em pedaços um 
exercito de cem mil sarracenos. Após haverem en- 
tregue ás chammas duas cidades, Al-Mahadia e 
Sibila, edificadas no antigo território de Carthago, 



70 PORTUENSES ILLUSTRES 

e forçado um rei da Mauritânia a pagar certo tri- 
buto á Santa-Sé, os de Pisa e os genovezes regres- 
saram á Itália, onde os despojos dos vencidos 
foram empregados na ornamentação das egrejas. 

Explica Michaud que a principal das cidades 
conquistadas pelos çhristàos, Al-Mahadia, segundo 
os geographos orientaes, havia sido fundada no 
anno 303 da hégira, por Obcidallah ou Abdallah; 
ella era ainda mui considerável no século xv. 
Shavv, que a visitara em 1730, chama-lhe El- 
Medea; está a trinta léguas marítimas ao sul de 
Tunis. Sibila, que é a outra cidade conquistada 
n'aquella expedição, e que Shaw toma pela antiga 
Turris Annibalis> fica a duas léguas mais ao sul 
na mesma costa do Mediterrâneo. 

Tudo isto adquire um alto interesse para nós 
outros, portuguezes, desde que nos não hajamos 
esquecido da ida das galés portuguezas, sob o 
commando do capitão do mar Affonso Furtado de 
Mendonça a Inglaterra e da sua procrastinada 
demora em empregal-as, e se com estes dois ele- 
mentos conjugarmos ainda èst'outro da participa- 
ção do mesmo Affonso Furtado de Mendonça na 
iniciativa da tomadia de Ceuta. 

Na parte m da Chronica de D, João /, Gomes 
Eannes de Azurara é conhecido que nos refere 
como o rei tinha vontade de organisar grandes 
festas em Lisboa, para fazer seus filhos cavalleiros, 
e como os infantes discorreram acerca d'isto entre 
si, convindo e concordando em que similhante ma- 



III — SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 71 

neira de cavallaria não era honrosa para elles 
(cap. vn); e que seguidamente João Affonso, vedor 
da fazenda, lembrara aos infantes a cidade de 
Ceuta e de como ós infantes fallaram a el-rei seu 
pae (cap. vm). Ordenando o rei que se chamassem 
os lettrados (como mestre frei João Xira e o doutor 
frei Vasco Pdreira, que eram os seus confessores) 
e o infante D. Duarte, para saber se era serviço 
de Deus fazer-se tal coisa, e sendo a resposta 
alRrmativa; propostas e resolvidas outras duvidas, 
mandando o rei chamar o infante D. Henrique e 
determinando ir tomar a cidade de Ceuta, ao rei 
pareceu que, antes de mais nada, cumpria enviar, 
em previa espionagem, a devisar a cidade o prior 
do Hospital e a devisar o mar, com todas as outras 
cousas que a elle pertencem, o capitão Affonso 
Furtado (cap. xiv). 

Para o poderem fazer a seguro, o rei declarou 
que tinha « vontade de fingir uma formosa dissimu- 
lação», qual seria a de que os dois fossem sob 
capa de ir a pedir a mão da rainha de Sicília, que 
queria casar com o infante D. Duarte, para o 
infante D. Pedro, ao que ella não acqniesceria. 

De Lisboa partiram o prior e o capitão em sua 
falsa embaixada; e com aquella voz e fama chega- 
ram sobre a cidade de Ceuta, onde effectuaram, 
meudamente seu reconhecimento; d'ahi foram ao 
reino da Sicília; e, no regresso d'este a Portugal, 
não lhes esqueceu de tornar outra vez a cerca da 
cidade de Ceuta, fazendo mais repouso que da ida, 



72 PORTUENSES ILLUSTRKS 

para acabarem, de todo, o que lhes falhara da 
primeira vista; e tal maneira tiveram em tudo que 
lhes não ficou nenhuma cousa por tentar « d'aquellas 
que a el-rei prazia saber», remata Azurara. 

Ora, de Lisboa indo a ter com o rei a Cintra e, 
pelo rei perguntado o capitão em primeiro log&r, 
ao rei respondeu (cap. xvi) com uma historia ma- 
ravilhosa que lhe succedera na sua meninice. E 
fora que, tendo o rei D. Pedro, pae do rtionarcha 
actual, mandado o pae do capitão fora d'este reino, 
com uma sua embaixada, e como quer que elle 
fosse moço de pouca edade, levara-o seu pae com 
elle, para vêr terras e aprender. Seguindo n'este 
teor sua viagem, chegaram a um porto cerca de 
um logar de Africa, que chamam Ceuta, onde se 
elle trabalhara de vêr algumas d'aquellas cousas 
que lhe pareciam mais especiaes. Andando via, 
chegara-se a uma fonte que alli estava, com um 
nobre chafariz, onde se» encostara um pedaço, 
tomando desenfadamento em vêr a formosura dos 
cavallos que alli traziam a beber, os quaes eram 
muitos e bons. 

E estando assim, sobrechegou alli um homem 
de comprida edade, cujas vestes e barba eram 
manifesto signal de sua velhice; e, abeirando-se 
d'elle, começara de o olhar, perguntando-lhe d'onde 
era. Replicando-lhe que era hespanhol, o velho lhe 
redarguira que lhe não perguntava senão de que 
logar de Hespanha era. Respondera-lhe que de 
Lisboa era. «Essa cidade, disse o velho, em que 



IH — SA DE MENEZES — DOM HENRIQUE 73 

• 

reino é?» Elle lhe volvera que no reino de Portu- 
gal. «E qual é o rei que agora reina n'esse vosso 
reino?», disse o velho. — «E' um mui bom rei, 
retorquiu, que se chama D. Pedro, filho que foi do 
mui nobre rei D. Affonso, que esteve na batalha 
do Salado, o qual D. Pedro é um rei mui justiçoso 
e amador de seu povo.» — «Que hajaes prazer, 
tornou o ancião, dizei-me quantos filhos varões 
tem este vosso rei?» «Eu lhe disse como tinha 
três; s., o primeiro havia nome D. Fernando; o 
segundo, D. João; o terceiro, D. Diniz.» — «E não 
tem mais ? », disse o mouro. — <■ Certamente não, 
disse eu, de que eu saiba parte.» 

O mouro principiara então a rogar a Affonso 
Furtado que considerasse bem se o rei D. Pedro 
teria ou não outro algum filho; mas, pela pequena 
edade d'este, á memoria d'aquelle não veio seu 
nascimento ; porém, como quer que o ancião se 
obstinasse e insistisse pertinazmente, emfim Affonso 
Furtado se recordou; e então lhe disse: 

« Amigo, é mui grande verdade que el-rei tem ainda um 
filho pequeno, que se chama D. João, mas eu não me lembrava 
d'elle, porque entre nós os bastardos não são havidos em 
tammanha honra como os legítimos. * — « Por isso vos pergun- 
tava», disse elle; e, em dizendo esta palavra, deu um mui 
grande suspiro e abaixou o rosto, chorando. Da qual cousa eu 
fui muito espantado, e, por elle assim continuar em seu choro 
e tristeza, roguei-lhe muito que me dissesse a causa que assim 
o movera a chorar. 

Como quer que m'o por muitas vezes negasse, a con- 
clusão, africado com meus requerimentos, me disse: — «Amigo, 



74 PORTUENSES ILLUSTRES 

o meu choro não é tanto como eu tenho rasào, nem entendaes 
que c|[ioro cousa nenhuma que seja presente; mas, pelo conhe- 
cimento que tenho da perda que ha de vir a meus naturaes e 
amigos, e porque a tua ventura te trouxe aqui, nota bem o 
que te agora disser: Sabei que esse rei D. Pedro que vós 
agora tendes por vosso rei em esse reino não ha de viver 
muito, por cuja morte reinará em seu logar o infante D. Fer- 
nando, seu primeiro filho, o qual será casado com uma mulher 
por cujo aso o reino, depois da morte de seu marido, ficará 
em grande revolta; e os outros dous filhos, por engano de sua 
cunhada, serão lançados em Castella, onde farão fim de seus 
dias. Finalmente, esse filho pequeno, que tu vês desprezado 
em comparação a seus irmãos, será ainda n'esse reino como 
uma pequena faisca, de que se levanta mui grande fogueira. 
Que dias virão em que elle, primeiramente, vingará a deshonra 
de seu irmão e depois, por escolhimento do povo, será ale- 
vantado por rei. O qual haverá grandes demandas com o reino 
de Castella, de que sempre ficará vencedor; e elle será o pri- 
meiro rei de Hespanha que terá posse em Africa e seçá o 
primeiro começo da destruição dos mouros, e ainda elle ou os 
de sua geração virão a este chafariz dar de beber a seus 
cavallos.» Ora, vede, senhor: — quem estas cousas assim ouviu 
e as viu passar por aquella própria ordenança se crerá que a 
cidade de Ceuta é já posta em vosso poder. 

Sobre a ancoragem em Ceuta, cTeste bizarro 
modo informou Affonso Furtado a D. João i. E 
acerca do assentamento da cidade, chegada sua 
vez: « — Senhor, disse o prior, de cousa que visse 
nem achasse, não vos hei de dar resposta, até que 
façais trazer quatro cousas, s.: duas cargas de 
areia, e um novello de fita, e meio alqueire de 
favas, e uma escudella. » 

Pelo que tudo, já tomando algum queixume, 



III— SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 75 

pensando que os embaixadores não haviam rema- 
tado sua incumbência consoante o geito que elles 
lhes prescrevera, o rei, voltando-se para seus filhos: 
«Vede, disse elle, que bem concertadas duas res- 
postas para homens de tal auctoridade. Estou-lhes 
perguntando pelas cousas que lhes mandei, e um 
me falia em astrolomia, outro me falia em simi- 
lhança de feitiços! Quem havia de cuidar que 
dous homens taes houvessem de trazer similhante 
recado?» 

Porém tudo prestes se aclarou ; e seus successi- 
vos tramites o emprehendimento proseguiu. Dos 
quaes lanços e consecutivos mui capital foi o mo- 
mento (cap. xxvn) de quando o rei teve seu Con- 
selho sobre o encobrimento do propósito do ataque 
de. Ceuta, ficando determinado que mandasse desa- 
fiar (a fingir) o duque de Hollanda, o que (infor- 
mando-o e prevenindo-o em secreto com antece- 
dência) effectuou em publico depois Fernão Fogaça, 
vedor do infante D. Duarte e que serviu de por- 
tador d*aquelle suppositicio desafio. 

Tornado Fernão Fogaça com a resposta (plena- 
mente satisfactoria) da sua embaixada, nem por isso 
as atoardas espalhadas encontraram geral credito, 
consoante de Gomes Eannes de Azurara larga- 
mente consta. Mas ao nosso caso restricto importa 
agora só recordar (cap. xxx) como em Castella 
souberam estas cousas e do Conselho que acerca 
d'isto tiveram, na errónea persuasão attinente a 
Sevilha, de Sevilha a Valência chegando o timorato 



76 PORTUENSES ILLUSTRES 

recado, expressando-se em primeiro logar o bispo 
de Ávila, a quem similhante recado de Sevilha 
especialmente fora encommendado, porquanto elle 
era natural d'aquella cidade. 

Em sua pratica, o bispo de Ávila exclamou: 
«E bem para crerem aquelles que não têm sizo 
que el-rei (de Portugal) haja de fazer uma armada 
em que ha quatro annos que entende e despende 
dinheiro, e não tam somente abala para ella as 
cousas de seus reinos mas ainda manda por todas 
as partes da christandade buscar navios e armas, 
para ir sobre o ducado de Hollanda!» 

Não era crivei ; « mas por certo que o feito que 
assim anda callado alguma grande cousa ha de 
parir, e os genovezes estantes em Lisboa, que 
similhante escreveram, alguma cousa conhecem e 
sabem, porque deram tal aviso a seus amigos. » 

Dos genovezes estantes em Lisboa, tal aviso 
não daria o genovez Lançarote Peçanha. 

No seu capitulo xlvi, « porque alguns quererão 
saber quaes eram os principaes que iam com 
el-rei». alli os escreveu Azurara, sem, comtudo, 
lhes guardar nenhuma ordem no referir, visto 
como achou que por nenhum modo o poderia 
fazer. Mas, lançados relativamente a esmo, aqui 
apontaremos, para nosso fito, o prior do Hos- 
pital, Álvaro Gonçalves Camello, o capitão Affonso 
Furtado de Mendonça, o almirante Mice Lan- 
çarote. . . 

E da razão d'ordem por que procede terem os 



III — SA DB MENEZES — DOM HENRIQUE ^^ 

italianos e, principalmente, os genovezes uma 
parte tam activa nas nossas primeiras navegações 
o lembraria opportunamente o futuro ex-socio e 
secretario perpetuo da Academia Real das Sciencias 
de Lisboa da qual se demittiu em 1857, futuro 
ex-guarda-mór da Torre do Tombo, também sócio 
correspondente da Academia Real das Sciencias de 
Madrid e de mais de quarenta Academias e Socie- 
dades scientificas e litterarias da Europa e da Ame- 
rica, cuja extensa enumeração Innocencio manda 
vêr na pag. 274 do Almanach de Portugal para 
1855, de Valdez. Filho do professor régio Agos- 
tinho José da Costa Macedo, de quem Innocencio 
fizera menção já em seu logar, a referencia vae a 
Joaquim José da Costa de Macedo. 

No tomo xi (parte 11) das «Memorias da Aca- 
demia Real das Sciencias», impresso em 1835, 
vêem publicados uns additamentos á memoria 
Sobre as verdadeiras epochas em que principiaram 
as nossas navegações e descobrimentos no Oceano 
Atlântico, lidos na assembléa ordinária de 8 de 
abril d'aquelle anno, pelo referido Joaquim José da 
Costa de Macedo, auctor da alludida e importante 
memoria; d'estes additamentos não fazem menção 
nem o Diccionario Bibliographico nem o seu Sup* 
plemento; elles são, porém, mui valiosos. 

Na primeira parte d'aquella sua memoria sobre 
as verdadeiras epochas em que principiaram as 
nossas navegações e descobrimentos no Oceano 
Atlântico, impressa em o tomo vi das «Memorias 



78 PORTUENSES ILLUSTRES 

da Academia Real das Sciencias de Lisboa», Joa- 
quim José da Costa de Macedo, fundando-se na 
resposta dada em Fevereiro de 1345 por D. 
Affonso iv ao papa Clemente vi, que lhe pedia 
soccorros para D. Luiz de la Cerda levar a effeito 
a conquista das Canárias, que em seu prol tinha 
erigido em reino, mostrara que as navegações 
portuguezas além do cabo de Não, em logar de 
principiarem no tempo do Infante D. Henrique, 
como geralmente se acreditava (e ficou geralmente 
acreditando, apegar e após as locubrações impor- 
tantíssimas do mesmo Joaquim José da Costa de 
Macedo, consoante é aliás quasi que a conforme 
regra em Portugal para todo aquelle que tem mé- 
rito, hoje inteira e completamente esquecido), come- 
çaram antes de 1336. 

Um documento mais antigo, descoberto poste- 
riormente, concorde com o que se diz n'aquella 
resposta, e escripto por extrangeiros, acabaria de 
desvanecer qualquer incerteza que o scepticismo 
mais obstinado porfiasse em conservar e confirma- 
ria a verdade dos factos n'ella expendidos. 

O professor Sebastião Ciampi publicara, em 
Florença, no anno de 1827, alguns monumentos 
extrahidos de apontamentos autographos de Bocca- 
cio, que achara na Bibliotheca Magliabechiana da 
mesma cidade, e entre elles a noticia d'uma nave- 
gação ás Canárias, que Costa de Macedo traduz 
para portuguez e cuja parte histórica, confrontan- 
do-a com a resposta já mencionada de Affonso iv 



III — SA DE MENEZES — DOM HENRIQUE 79 

ao papa Clemente vi, se ajusta com ella e attesta a 
sua veracidade. 

Tendo produzido mais uma prova das viagens 
dos portuguezes no século xiv além do cabo de 
Não, anterior á que já publicara e que lhe servia, 
para assim dizer, de explicação, a Costa de Macedo 
figura-se-lhe ainda que lhe restava agora demon- 
strar a prioridade da nosssa navegação ás Canárias, 
contestada por alguns escriptores e attribuida aos 
genovezes. 

N'este fito, para as confutar em seguida, Costa 
de Macedo põe deante dos olhos do seu leitor as 
palavras de Sebastião Ciampi, nas suas annotações 
aos monumentos que publicou, bem como transcreve 
o passo de Tiraboschi, a que elle se refere, «para 
d'uma vez combater a opinião de ambos. » O passo 
de Tiraboschi, na parte que basta para o nosso 
propósito aqui, é o em que Tiraboschi conta de 
«uma atrevida, posto que infeliz, tentativa feita 
n'este mesmo século pelos genovezes para achar o 
caminho marítimo para as índias Orientaes, desco- 
berto dois séculos depois pelos portuguezes. » 

E logo Tiraboschi correntiamente prosegue : 
«D'este memorável feito não tracta, que eu saiba, 
nenhum dos modernos escriptores de viagens e 
navegações; porém achamos d'elle memoria nas 
«Historias Genovezas» de Foglietta, que o narra 
no anno de 1292 (deve ser 1291) e nomeia os dois 
magnânimos capitães que o emprehenderam, que 
foram Thedisio Dória e Ugolino Vivaldi : « Thedisio 



8o PORTUENSES ILLUSTRES 

Dória e Ugolino Vivaldi, apparelhando á sua custa 
duas galés, intentaram descobrir o caminho marí- 
timo da índia, até áquelle dia desconhecido; e, 
sahindo do Estreito de Gibraltar, tomaram para o 
Occidente; porém até agora não nos chegou á 
noticia o que aconteceu a estes homens. (Hist. de 
Gen.; 1. v)» Vêr uma tam atrevida empreza narrada 
só por Foglietta e callada pelas chronicas geno- 
vezas ter-me-hia tornado um pouco duvidoso e 
suspenso; mas, felizmente, consegui achar memoria 
d'ella n'um escriptor contemporâneo, e devo este 
descobrimento á paciência que tive de correr toda 
a obra de Pedro de Abano, intitulada O Conci- 
liador, para tirar d'ella as noticias históricas que 
alli podesse encontrar. Fallando d'aquelles paizes, 
diz elle que, perto de 30 annos antes (escrevia no 
principio do século seguinte), os genovezes, appa- 
relhadas e bem providas duas galés, ousaram sahir 
com ellas pelo Estreito de Gibraltar e engolfar-se 
no vasto Oceano, porém que nunca mais houve 
d'elles noticia alguma: e depois aponta a estrada 
terrestre que então se seguia para ir á índia, isto 
é entrar na Tartaria, andando para o Norte, e 
voltar depois para levante e Meio-dia. Eis aqui 
as palavras d'este escriptor: «Pouco antes d'este 
tempo, os genovezes prepararam duas galés, pro- 
vidas de tudo o necessário, e sahiram pelo Estreito 
de Hercules, situado no fim da Hespanha. Porém 
são passados quasi 30 annos e ignora-se o que 
lhes aconteceu. Comtudo, é agora sabido o caminho 



III — SV DE MENEZES — DOM HENRIQUE 8l 

pela grande Tartaria, indo para o Norte e voltando 
depois para o Oriente e o Meio-dia. » (Conciliator., 
Diss. 67).» 

Commentando, corrige Costa de Macedo a 
Ciampi, recordando que Pedro d'Abano é anterior 
268 annos a Foglietta, porque Pedro d' Abano nasceu 
em 1200 e Uberto Foglietta nasceu em 15 18. 

Quanto Costa de Macedo tinha podido alcançar, 
o primeiro que fallara em geral da expedição dos 
genovezes fora Pedro d'Abano; mas observa que 
nem Tiraboschi nem Ciampi haviam notado um 
anachronismo no logar que citaram d'aquelle auctor. 

A expedição dos genovezes foi em 1291, e Pedro 
d\Abano morreu em 1315 ou, quando muito, em 
1316, e por isso não podia viver 30 annos depois 
da expedição. Suspeita Cost.i de Macedo, portanto, 
vicio n'esse logar e que, em vez de fere trigésimo 
anuo, deva lêr-se fere tridecimo anui, o que con- 
cordava perfeitamente com os factos, porque, escre- 
vendo Pedro d'Abano seu Conciliador pelos annos 
de 1303, medeam exactamente entre este anno 
e o de 1291 quasi 13 annos. Era verdade que 
tridecimo não é palavra latina, mas também galea 
o não é, ou talvez desse logar ao engano uma 
abreviatura, mal entendida, do original, que abunda 
n'ellas e que se conservaram ainda nas im- 
pressões. 

O segundo que fallara mais especificadamente na 
expedição, declarando o nome dos capitães e outras 
algumas circumstancias d'ella, fora Cecco d'Ascoli^ 

VOli. I. *> 



82 PORTUENSES ILIATSTRES 

justiçado em 1327 e, por consequência, coevo. 
Versa este assumpto no Commentario ao «Tratado 
da Esphera» de Sacrobosco, referido por Gius- 
tiniani. Não fora, porém, possível a Costa de 
Macedo vêr nenhuma das edições d'estas obras, 
citadas por Mazzachelli, que julgava raras, porque 
Tiraboschi também não a viu. Lera, comtudo, na 
Spheravmndi impressa em Veneza em 15 18, um 
Commentario de Cicho Eschulano á Esphera de 
Sacrobosco; porém não encontrara n^lle vestígio 
da expedição dos genovezes. 

A Cecco d'Ascoii segui ra-se Agostinho Giusti- 
niano, escriptor do século xv, porque nasceu em 
1470, cuja historia de Génova até ao anno de 1528 
foi impressa em 1537, um anno depois da sua 
morte: e de Giustiniano copiara Foglietta, que 
principiou a escrever a sua «Historia de Génova» 
depois de 1574; porém omittira a circumstancia de 
ir também o irmão de Ugoiino de Vivaldo e de 
serem acompanhados por dous frades de S. Fran- 
cisco. 

Eis aqui o que, concernentemente, Agostinho 
Giustiniano nos diz: «E n'este anno de 1291 
Teodisio d'Orla e Ugoiino de Vivaldo, com um 
seu irmão e alguns outros, tentaram fazer uma 
viagem nova e desusada, isto é: quizeram ir á 
índia pelo Ponente; e armaram duas galés, muito 
bem apparelhadas, e levaram comsigo dous frades 
de S. Francisco; e, sahindo íóra do Estreito de 
Gibraltar, navegaram para a índia; e nunca mais 



III — SX DE MENEZES — DOM HENRIQUE 83 

se soube (Telles. E d'esta navegação faz menção 
Cecco cfAscoli no commento da esphera. » 

Protestando, declara Costa de Macedo que é 
singular que, dizendo positivamente as cartas extra- 
ctadas por Boccacio que a expedição ás Canárias 
de que tractam foi preparada pelo rei de Portugal, 
Ciampi a julgue genoveza, a que se aggregaram 
hespanhoes, que se uniram aos genovezes, como 
pretendentes á possessão d'aquelles descobrimentos 
etc. «Cuidava eu que uma expedição pertencia a 
quem a preparava e que, quaesquer que fossem os 
homens que n'ella se empregassem, esses homens 
eram o instrumento de que se servia quem aprom- 
ptava a expedição e que, por consequência, a expe- 
dição ás- Canárias, feita por el-rei de Portugal, era 
portugueza. » Mas, além d'isto, elle explicaria a 
Ciampi o motivo por que D. Affonso iv empregou 
n'eUa genovezes. Fora por isto : 

D. Diniz, pae de D. Affonso ív, tomara ao seu 
serviço, em 1317, na qualidade de almirante, Manuel 
Peçanha, genovez; e uma das condições do con- 
tracto que com elle fez foi: «Deuemos sempre teer 
vynte homêes de Gennua sabedores do mar taaes, 
que seiam convenhaviis pêra alcaydes de Galees e 
pêra arrayzes (Capitães e Mestres) e que uos 
sabham bem seruir per mar nas uossas galees cada 
ues que uos quiserdes, etc. » 

Ora, como estes homens estavam á conta do 
almirante, era natural que elle tomasse a seu soldo 
não só genovezes mas outros quaesquer italianos 



84 PORTUENSES ILLUSTRE3 

que lhe conviesse; e por isso foi por commandante 
da expedição um florentino e por capitão de um dos 
navios um genovez, e a expedição levou marinhei- 
ros dos que então havia no porto de Lisboa, como 
succede nas expedições de agora. 

« Eis aqui porque, desde D. Diniz — remata Costa 
de Macedo — houve por muito tempo em Portugal 
genovezes no serviço da marinha, conservandorse 
o cargo de almirante na família dos Peçanhas, até 
ao reinado de D. Affonso v, que, por Carta, dada 
em Lisboa a n de novembro de 1448, confirmou 
a Lançarote Peçanha, bisneto de Manuel Peçanha, 
o contracto que com este fizera D. Diniz; e, extin- 
guindo-se então a varonia dos Peçanhas, passou o 
cargo de almirante para outra família; e d' aqui pro- 
cede terem os italianos, e principalmente os geno- 
vezes, uma parte tam activa nas nossas primeiras 
navegações. » 

No tomo vi das Memorias da Academia haviam 
começado a sahir, em 18 19, as Memorias para a 
historia das navegações e descobrimentos, das quaes 
a primeira, Sobre as verdadeiras epochas em que 
principiaram as nossas navegações e descobrimentos 
no Oceano Atlântico, fora lida na sessão publica de 
24 de junho de 1816. 

Ahi seu auctor, Joaquim José da Costa de 
Macedo, propoz-se demonstrar que cumpria convir 
em que com certeza se podia dar testemunhos das 
nossas expedições marítimas á costa d' Africa, além 
do cabo de Não, já no reinado de D. Affonso iv. 



* 



III — SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 85 

Certo era que a gloria de nossas primeiras na- 
vegações e descobrimentos no Oceano Atlântico 
está vinculada no infante D. Henrique por títulos 
julgados até então tam legítimos que pareceria 
estranha temeridade pretender esbulhal-o da sua 
posse. «Mas, se a verdade tem direitos imprescri- 
ptiveis, que devem ser reconhecidos e guardados 
em qualquer tempo em que se manifestem, e se a 
authenticidade de documentos coevos, em que não 
cabe suspeita de vicio, tem fé mais irrefragavel e 
faz prova mais plena do que o concurso unanime 
dos escriptores, então — exclama Costa de Macedo 
— será forçoso entregar n'outras mãos a palma que 
' sustentavam as do senhor infante D. Henrique. » 

Palmam qui meruit fcrat: — com este dístico, 
se não de sua lavra, adoptando-o, consoante o pu- 
déramos vêr outrosim no velho opúsculo de Sá da 
Bandeira em contra Palmerston, collaborou Oliveira 
Martins, ao tempo de seu centenário, em uma das 
publicações commemorativas da gloria de Camões. 

Mas ao genovez Christovão Colombo nenhuma 
palma cabia, porque de nenhuma gloria era mere- 
cedor, alguém o proclamou implicitamente (o êxito 
derivando da mera fortuitidade e não sendo o pre- 
mio confirmativo d'uma idéa exacta, pois que a 
concepção inicial era errónea). Este ousado foi D. 
António da Visitação Freire de Carvalho, em sua 
característica Memoria sobre a justiça dos motivos 
que teve o senhor rei D. João n para rcgcitar os 
projectos de navegação de Christovão Colombo^ a 



86 PORTUENSES ILLUSTRES 

qual sahiu posthuma, publicada, por seu irmão 
José Liberato, no Investigador Portuguez em Ingla- 
terra, num. xxx, de pag. 197 a 212, anno de 

1813. 

No anno de 1876, porém, a Colombo conside- 
rando-o explicitamente como credor de gloria, em 
tal qual maneira Luciano Cordeiro, no seu notável 
opúsculo De la part prise par les portugais dans la 
découverte de VAmérique, das mãos de Colombo 
buscou transferir, ainda que não de todo, a palma. 
Ficou-se n'uma meia-luz. 

Mas as relembranças de Costa de Macedo a 
jorros illuminam subitamente tudo : — a idéa da 
descoberta da índia caminhando fitamente para o 
Poente era uma tradição genoveza, porque uma 
tentativa genoveza fora. 

Assim, nem Colombo roubou a idéa d'entre a pa- 
pelada de obscuro piloto portuguez fallecido, nem o 
infante D. Henrique foi o inciador das navegações, 
á descoberta, dos portuguezes. E, finalmente, a 
prophecia de Affonso Furtado de Mendonça, com 
respeito á posse de Ceuta, na licção das cruzadas 
e expedições passadas, pelos genovezes promovidas 
contra os sarracenos, cumpre aferil-a, completando 
o que fez Costa de Macedo pelo que elle deixou 
por fazer. Isto é porque foi que D. Diniz dos geno- 
vezes extranhos se lembrou, para virem mandar na 
armada dos portuguezes seus nacionaes. 



III — SÁ DE MENEZES — DOM HENRIQUE 87 



Intercalarmente, o que aqui óra cabe, porém, é 
inquirir, na proeza, da «tripeira» participação. 

Ora, determinada a ida a Ceuta e a esta nossa 
cidade vindo a aprestar a contribuição d'ella para 
o emprehendimento, em seu cap. xxxv Gomes 
Eannes de Azurara nos conta como o rei escreveu 
ao infante D. Henrique que partisse com sua frota, e 
como o infante partiu, e da ordenança que levava. 

Pois dia a dia tinha D. João i noticias do 
aprestamento da frota que estava iVesta cidade do 
Porto, assim pelas cartas que o infante lhe escre- 
via, como por outras muitas que cada dia iam de 
uma cidade para a outra. Que, segundo os tempos, 
congemina Azurara que não podiam os caminhos 
estar mui livres, porquanto aquelles fidalgos espe- 
ravam de ir á cidade de Lisboa. E, portanto, man- 
davam seus homens e cousas adeante, cada um 
conforme lhe cumpria. 

Escreveu o rei ao infante que, tanto que aquelles 
principaes fossem prestes, que partisse logo o mais 
trigosamente que podessem. Porque, tanto que elle 
viesse com sua frota, entendia logo aviar a outra 
de Lisboa, de guisa que, ao tempo que tinha orde- 
nado, partissem. 

Logo que o infante esteve prompt \ mandou 
apparelhar uma frota, na qual enviou um seu escu- 
deiro que chamavam Affonso Annes, que depois 



88 PORTUENSES ILLUSTRES 

foi contador d'esta cidade, o qual levava recado ao 
rei de como o infante, seu tilho, partia já da cidade 
do Porto, com sua frota. E logo o infante ordenou 
que se recolhessem todos, para seguir sua viagem. 

E era formosa cousa de vêr o corregimento cfaquella 
frota, porque todalas naus, galés e outros navios eram nobre- 
mente embandeirados com balsões e pendões pequenos, das 
cores, motes e devisa do infante. E, porque eram todos novos 
e bem acompanhados* de ouro, davam muito grande vista; e 
as galés eram toldadas de finos pannos d'aquelles motes e 
devisa; e os capitães das galés eram estes que se referem, a 
saber : o senhor infante ; o conde seu irmão ; e Dom Fernando 
de Bragança, filho do infante D. João; e Gonçalo Vasques 
Coutinho, marechal ; e João Gomes da Silva, alferes-mór 
d'el-rei; e Vasco Fernandes d'Athaide, governador da casa do 
infante; e Gomes Martins de Lemos, aio que fora do Conde de 
Barcellos; e assim eram sete galés e sete capitães. 

E, porque fallara nos capitães das galés, Azurara 
exclama para os que o ouçam : « E bem que saibais 
de alguns dos principaes que iam da outra frota.» 
E por isso a certos enumera, como^dom Pedro de 
Castro, filho de dom Álvaro Pires de Castro; Gil 
Vaz da Cunha; Pêro Lourenço de Távora; Diogo 
Gomes da Silva; João Rodrigues de Sá; João Al- 
vares Pereira; Gonçalo Annes de Souza; Martim 
Affonso de Souza; Martim Lopes d' Azevedo; Ayres 
Gonçalves de Figueiredo; Luiz Alvares Cabral; 
Fernão d' Alvares, seu filho; Estevam Soares de 
Mello; Mem Rodrigues de Refoyos; Garcia Moniz; 
Payo Rodrigues de Araújo; Vasco Martins de Al- 



III — Si DE MENEZES — DOM HENRIQUE 8:) 

bergaria; Álvaro da Cunha; Fernão Lopes de 
Azevedo; Álvaro Fernandes Mascarenhas. 

ê 

Ora, quando foi o dia d^quella partida, ia, entre 
todos os da frota, mui grande contento, porque 
todos os navios eram acompanhados de trombetas 
e outros instrumentos, «cujo som espertava seus 
corações para serem alegres.» E ainda tinham outro 
motivo para estarem muito mais viçosos, visto 
como, explica Azurara, n^quelle dia foram todos 
vestidos de novo. Commenta que similhante cousa, 
por sua novidade, « sempre traz algum accrescenta- 
mento de folgança em o coração c 4 e qualquer, e 
muito mais no dos homens mancebos, cuja clara ex- 
periência não ha mister outra prova», elle philosopha. 

Grande prolixidade ao chronista moralista se lhe 
figura o escrever a de visa de cada um. Assim, 
abastasse somente «que a do infante eram umas 
capellas de carrasco, bem acompanhadas de cha- 
paria, e por meio uns motes, que diziam: Von- 
tade de bsm faz:r\ e as suas cores eram branco e 
preto e vis.» 

Todos os homens bons da cidade que alli que- 
davam se despediram n'aquelle dia do infante, offe- 
recendo-lhe seus serviços ; porque, além de em 
elle haver uma graça singular para todos aquelles 
que com elle tractavam, visto como «era natural 
d'aquella cidade, tinha especial cuidado dos mora- 
dores d'ella para requerimento de seus feitos, por 
cuja razão era mais amado d'elles todos e o 
tinham quasi por seu cidadão. » 



9") PORTUENSES ILLUSTRE3 

A Lisboa chegados, o infante D. Henrique 
trazia tal disposição em sua frota que primeiro 
surgissem por a foz os navios pequenos e depois 
as naus grandes e após ellas as galés, das quaes 
a mais derradeira era a d^lle infante. 

Tanto que as novas haviam chegado a Lisboa 
da vinda do infante D. Henrique, logo o rei man- 
dara ao infante D. Pedro que fosse receber seu 
irmão. Para esta ida logo foram prestes as outras 
oito galés que alli estavam e btím assim todos os 
bateis e navios pequenos que havia na frota. 

. Nas galés iam : primeiramente, o infante D. Pe- 
dro; na segunda, o mestre de Christo; na terceira, 
D. Affonso; na quarta, o prior do Hospital; na 
quinta, o Almirante; na sexta, seu filho, Mice 
Carlos; na sétima, o capitão; e na oitava, João 
Vaz d' Almada. 

O condestabre, mais todos os outros senhores, 
que estavam ordenados para ir com o infante 
D. Pedro, foram nos bateis de suas naus e na 
mesma em alguns navios pequenos. «E, se a frota 
do Porto vinha bem embandeirada e toldada, esta 
que partiu de Lisboa não ia menos, empero tudo 
era dos motes e devisas d'el-rei; e assim come- 
çaram de fazer sua viagem, caminho da foz, contra 
onde os outros vinham. » 

Ora, surgindo pela foz, da maneira dita, pri- 
meiro os navios pequenos, e depois as naus 
grandes, e após ellas as galés, das quaes a mais 
derradeira era, consoante se contou, a do infante, 



III — S.V DE MENEZES — DOM HENRIQUE 9I 

deshi todos os navios começaram de andar barla- 
venteando ao través d'aquelle mar, fazendo sempre 
divisa sobre a galé do infante; e, pelo espalha- 
mento que assim faziam, era aquella esquadra de 
todos estimada em muito maior numero. 

Assim andaram um pedaço, até que se ajuntou 
uma frota com a outra, « d'onde aquelles irmãos 
houveram entre si grande prazer, como aquelles 
cuja amisade, entre os vivos, não foi outra simi- 
ihante. » 

D 1 est'arte foram similhantes senhores, junta- 
mente acompanhados de suas frotas, até que che- 
garam ao logar tal onde o infante D. Henrique 
depois mandou fazer uma igreja, « a qual se agora 
chama Santa Maria de Belém. » 

E, no lanço, consideremos em que, se a um 
portuense, o infante Dom Henrique, foi dado abrir 
o período das grandes navegações, a outro por- 
tuense, Fernão de Magalhães, dado seria encerral-a. 

N'elle attentemos. 



IV 



Fernão de Magalhães — João Bermudes 

— Belchior Nunes Barreto — Simão de 
Vasconcellos — Raphael da Purificação 

— João de Queiroz da Silveira. 



D, 



e nossos conterrâneos illustres, Fernão de 
Magalhães seria o supremo, o primeiro de todos, se 
modernamente se não tivesse assentado que, na 
duvida, do Porto, em definitivo, não era. Isto está 
estabelecido de certa data em deante e corre como 
caso julgado, para todos os effeitos. Ainda em 1890 
no volume especialíssimo {The life of Ferdinand 
Magellan,) the first circumnavigation of the globe — 
1480-1521) da collecção especial (The Word's great 
explorers and explorations), editada simultaneamente 
em Londres e em Liverpool, por seus publicadores 
snrs. J. Scott Kettie, H. J. Mackinder e E. G. Ra- 
venstein, seu auctor o snr. F. H. H. Guiilemard, 
artium tnagister, medicinae doctor, ex-lente de geo- 



94 PORTUENSES ILLUSTRES 

graphia na Universidade de Cambridge, diz positiva- 
mente: «Fernão de Magalhães nasceu cerce do 
anno de 1480 — não se sabe a data precisa — em 
Sabrosa, cerca de Chaves, na província de Traz-os- 
Montes, uma das regiões mais agrestes de Portu- 
gal» (pag. 18). E logo na pag. 25 addita que «elle 
fora das agruras de Traz-os-Montes cedo transplan- 
tado para a capital.» Pressurosa marcha é esta, de 
si, a do snr. Guillemard. 

O qual, em seu preambulo, a laudas de aber- 
tura vii, começara ponderando que: «Caso curioso 
seja que, de par e passo que o mundo é presen- 
teado, cada anno que decorre, com biographias de 
pessoas que não podem aventar pretenções a um 
titulo de renome tam justamente concedido a Maga- 
lhães, ainda uma vida do grande circumnavegador 
não haja sido escripta em inglez ou, de facto — 
salvo uma excepção — , em qualquer outro idioma. 
A excepção é a Vida y Viajes de Hernando de Ma- 
galianes, do snr. Diego de Barros Arana, a qual em 
1881 foi traduzida para portuguez pelo snr. F. de 
Magalhães Villas Boas, com a addenda de um 
appendice original.» 

Na verdade, com respeito ao logar do nasci- 
mento de Fernão de Magalhães, Diego de Barros 
Arana recapitula que os historiadores ora lhe dão 
por pátria a cidade do Porto (Argensola, «Historia 
de las Molucas», liv. 1, pag. 6, e nos seus «Anales 
de Aragon», liv. 1, cap. xm, pag. 133), ora a capi-. 
tal do reino de Portugal, Lisboa (San Roman, His- 



IV — MAGALH À ES — BERMUDES BARRETO, &C. 95 

toria general de la índia Oriental, Hw n, cap. xxv, 
pag. 34 1). Posteriormente, descobrira- se na Biblio- 
theca do Porto um curioso manuscripto que tem 
este titulo : Nobiliário da Casa do Casal do Pego, 
offerecido a Gaspar de Barbosa Malheiro por seu 
tio fr. João da Madre de Deus. Este manuscripto, 
que contém a genealogia da família de Magalhães, 
faz nascer a Fernão na villa de Figueiró, província 
da Extremadura, em Portugal. 

Era difficil, pois, resolver coisa alguma em pre- 
sença d'estas três oppostas auctoridades. Feliz- 
mente, achava-se em Lisboa um testamento feito 
pelo próprio Magalhães no bairro d i Belém, em 
data de 19 de dezembro de 1504, três mezes antes 
de embarcar para a índia, «no qual declara ser 
natural da villa de Sabrosa, comarca de Villa Real, 
província de Traz-os-Montes. » 

Mais devagar. Não declara tal. 

«Este testamento, que conheci em Paris, graças 
á benevolência de Mr. Ferdinand Denis, o erudito 
historiador de Portugal e do Brazil, me pareceu 
decisivo ; e segui-o no texto d'esta historia. » Assim 
leio na traducção que do livro do snr. Diego de 
Barros Arana imprimiu em Lisboa, na typographia 
da Academia Real das Sciencias, o snr. Fernando 
de Magalhães Villas Boas em 1881. 

Na «advertência preliminar do auctor», entre 
os ensaios biographicos de Fernão de Magalhães 
que declara conhecer, cita o snr. Diego de Barros 
Arana o que foi publicado por Mr. Ferdinand Denis 



96 PORTUENSES ILLUSTRES 

no tomo xxxn da Nouv:lh biographle générale. 
Mas, no ponto, não o leu com a escrupulosa, 
miúda attenção que lhe é devida — pela propositada 
morte-còr com que o trecho foi debuxado. 

«Suppõe-se geralmente, escreve Ferdinand De- 
nis, que Fernão de Magalhães nasceu no Porto; 
mas documentos inéditos, que a nossas mãos 
fizeram chegar de Portugal, dão-lhe por logar do 
nascimento Villa de Sabrosa, na comarca de Villa 
Real, província de Traz-os-Montes. » 

E em nota especifica: «Esta indicação estriba-se, 
dizem, sobre um documento notariado em data de 
29 de dezembro de 1504. N'esse tempo da sua 
primeira mocidade, Magalhães residia em Lisboa, 
e ahi fez um testamento que existe ainda. . . Mas, 
força é bem dizel-o, outros documentos provenien- 
tes d'uma fonte não menos respeitável estão em 
contradicção com estes; fazem nascer o illustre 
navegador em Villa de Figueiró, na província da 
Extremadura portugueza, affastada vinte léguas de 
Lisboa. » Reporta-se em seguida áquelle manuscripto 
da Bibliotheca do Porto. 

E no texto addita que, no dobar do tempo, 
Fernão de Magalhães residiu no Porto, tomando 
officialmente o titulo d'habitante (vezino) d'aquella 
cidade, á qual o sábio Munoz provara, por diplomas 
authenticos, a particular affeição que elle lhe dedi- 
cava. Em nova nota accrescenta Ferdinand Denis 
que em 24 d'agosto de 15 19 Magalhães fizera 
outro testamento differente do que fora indicado 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 97 

«pelos nossos documentos portuguezes; n'elle to- 
mara o titulo de Vezino do Porto.» 

Note-se a cautella da marcha de Ferdinand 
Denis e a discripção de sua linguagem. Não foi 
notada. 

Em 1868, no volume respeitante aos da Renas- 
cença da sua collecção de Vidas dos sadios illustres y 
no capitulo attinente a Magalhães, Louis Figuier 
proclama que Denis se decidira por Villa-de-Sabroza, 
no remate de suas inquirições, havendo-se elle 
n'aquelles últimos tempos dirigido aos descendentes 
do illustre portuguez, para alcançar informações au- 
thenticas sobre a sua cidade natal, obtendo do snr. 
Joaquim Pinto de Magalhães, e do snr. conde Aze- 
vedo (sic), documentos inéditos, os quaes é certo 
que Figuier commenta maliciosamente que, «por 
desgraça, em vez de esclarecer a questão, não fize- 
ram senão embrulhal-a mais. Procurava-se um logar 
de nascimento authentico, e encontraram-se dois!» 

Ao seu appendice a Arana, o seu traductor, snr. 
Fernando de Magalhães Villas-Boas, abre-o dizendo 
que ao actual — 1881 — representante legitimo da 
casa e famiiia de Fernão de Magalhães, o snr. dr. 
Alexandre Manuel Alvares Pereira de Aragão, resi- 
dente em Viiia Fiòr, devera a mercê de lhe facultar 
o exame dos documentos que possuía, a respeito 
da naturalidade e genealogia do famigerado desco- 
bridor. 

O primeiro era o testamento de Fernão de Ma- 
galhães, feito em Belém, nas notas do tabellião 

VOL. I. 7 



98 PORTUENSES ILLUSTRES 

Domingos Martins, a 17 de dezembro de 1504, três 
mezes antes do seu embarque para a índia com o 
vice-rei D. Francisco de Almeida. 

Mas no appendice 11 da obra de Guillemard, que 
consta dos testamentos de Magalhães, vem outro- 
sim o ultimo, como o primeiro para inglez traduzido. 
E ahi se inscreve a parte legada to the monastery 
of S. Domingo de las Duenas, in the city of Oporto, 
in Portugal. 

A's Donas de Corpus Christi no bairro novo do 
Porto, ou Villa Nova de Gaya, é que cabia o legado. 

Agostinho Rebello da Costa, em sua Descripçâo 
topographica e histórica da cidade do Porto, cap. m, 
num. xx (Conventos de religiosos)^ abre por esta 
verba sua enumeração: 

Convento de Corpus Christi de Religiosas Dominicas, 
fundado em 1345. A sua situação é nas margens do rio Douro, 
com multiplicados mirantes, sobranceiros uns aos outros, que 
formam uma espécie de amphiteatro, agradável aos olhos. A 
grande inundação do Douro acontecida no anno de 1625 foi o 
que obrigou as religiosas á fabrica d'esta obra, que as isenta 
d'outros assaltos similhantes. O numero das professas é de 
setenta, além das seculares e serventes, que todas são sujeitas 
ao ordinário. Este convento apresenta a Egreja Valladares, 
curato. 

Os argumentos contra a naturalidade de Fernão 
de Magalhães attribuida ao Porto são dois. 

Primeiro : que o dizer-se elle vecino do Porto não 
quer dizer que seja «natural» do Porto, e só sim 
«cidadão » no Porto. Não haverá que replicar a isto? 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 99 

Segundo: que no seu primeiro testamento elle 
institue um legado de doze missas todos os annos 
no meu altar (diz) do Senhor Jesus da egreja do 
Santo Salvador de Sabrosa. Provará isto que elle 
natural seja de Sabrosa? 

De modo algum. Mas, para portuenses, extre- 
mados por motivos ao ultramar concernentes, gra- 
ças a certo insistente mau-fado, duvidas e equivocos 
se comprazem de surdir. Eis aqui que, a propósito, 
dos bicos da penna o nome de João Bermudes me 
caia. • 

* 

Patriarcha de Alexandria e da Ethiopia, por 
nomeação de David, imperador da Abyssinia, no 
anno de 1535, quando esteve n^quella corte sendo 
ainda secular, e conhecido pelo nome de Mestre João, 
em companhia do embaixador de Portugal D. Ro- 
drigo de Lima. Foi confirmado tal pelo papa 
Paulo iii, e sagrado em Roma em 1538. 

Voltando depois para a Ethiopia, ahi entrou em 
1541, acompanhado da força de 450 soldados, com- 
mandados por D. Christovam da Gama, que o vice- 
rei da índia mandara em soccorro do imperador, 
por este sendo- lhe pedido para auxilial-o na defeza 
contra os ataques dos musulmanos, que o inquie- 
tavam. 
• Ahi se demorou mais de doze annos, soffrendo 



IOO PORTUENSES ILLUSTRBS 

varias contrariedades e desgostos e sendo, afinal, 
encerrado em prisão, da qual conseguiu evadir-se, 
dirigindo-se a Goa, onde aportou em 1556. De lá 
veio para Portugal e passou em Lisboa o resto dos 
seus dias. Morreu em 1570, de edade mui provecta, 
e jaz na egreja parochial de S. Sebastião da Pe- 
dreira, junto do arco da capella-mór, em sepultura 
raza. 

Para mais miúda noticia da sua vida, manda 
Innocencio vôr os estudos biographicos de Canaes, 
onde se diz que elle fora natural da Galliza ; e- esta 
ha sido a opinião mais seguida; tanto assim que 
Barbosa, tendo-o por extrangeiro, não lhe concedera 
logar na Bibliotheca Lusitana. Comtudo, Manuel de 
Faria e Souza, na Europa Portugueza, dá-o como 
portuguez e nascido na cidade do Porto. Agostinho 
Rebello da Costa, na Descripção do Porto, também 
o mencionara entre os escriptores naturaes d'aquella 
cidade. E, ultimamente (Innocencio estava escre- 
vendo em 1859), Rodrigo Felner, que tinha feito 
sobre a obra de Bermudes estudo particular, des- 
cobrira no contexto d'ella não menos de três loga- 
res que, a seu vêr, são outros tantos testemunhos 
decisivos que tiram toda a duvida acerca da natu- 
ralidade do patriarcha e provam que elle fora nas- 
cido portuguez. Provável era que o dito escriptor 
tractasse de aclarar este ponto na reimpressão que, 
sob proposta sua e por deliberação da Academia, 
se havia de fazer com brevidade da referida obra. 

A brevidade foi a nossa bem conhecida brevi- 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. IOI 

dade, portugueza, peculiar de gente saudosa ainda 
da liteira e carroção. 

Exhibe Innocencio, quanto á obra que a João 
Bermudes concerne, « a descripção do livro por elle 
composto, e que é sem duvida um dos mais raros 
e menos conhecidos da nossa litteratura. » 

O primeiro biographo que entre nós apresentara 
do referido livro uma descripção exacta e minuciosa 
havia sido seguramente Figanière, a qual se pôde 
vêr em sua Bibliographia histórica. Fora feita em 
presença de um exemplar que tivera a possibilidade 
de examinar no Archivo Nacional, d'onde posterior- 
mente desapparecera, segundo as informações que 
Innocencio obtivera. O collector do chamado Cata- 
logo da Academia de certo não vira nem conhecera 
esta obra; e era de crer que o mesmo aconteceria 
a Antonjo Ribeiro dos Santos, pois que, do contra- 
rio, tel-a-ia mencionado nas suas Memorias para a 
historia da typographia portugueza. Ternaux-Com- 
pans, que faz d'ella resumida memoria na sua 
Bibliothèque Asiatique, impressa em 1841, era pos- 
sível que visse, ou lhe fosse communicado em França 
algum exemplar: em Portugal são raríssimos, e 
apenas Innocencio encontrara noticia do referido 
que esteve no Archivo e de outro que possuía o 
visconde de Juromenha, e que tem a singularidade 
de haver pertencido n'outro tempo ao celebre geo- 
grapho Abrahão Ortelio, como se vê por uma cota 
n'elle lançada por lettra contemporânea. Este exem- 
plar, confiado pelo dito titular á Academia, era o 



102 PORTUENSES ILLUSTRES 

que havia de servir de texto para a intentada reim- 
pressão. 

Esse exemplar que tinha o visconde de Jurome- 
nha fora pessoalmente entregue a Felner (já em 
1883, quando o Supplemento reata a narrativa, falle- 
cido), para a reimpressão, que havia de sahir da 
imprensa da Academia Real das Sciencias ; mas essa 
nova edição só viera a ficar terminada em 1875, 
isto é quinze annos depois da proposta apresentada 
n'aquelia douta corporação pelo dito académico, e 
sem o prologo que promettera, pois que infelizmente 
aggravaram-se-lhe os padecimentos e não pôde 
concluir os annunciados e começados estudos. 
Aos exemplares conhecidos da Relação accrescia 
um terceiro, que existe na livraria do Museu Bri- 
tannico, segundo o testemunho do conselheiro Figa- 
nière. 

Na reimpressão, em logar das linhas de Felner, 
a obra traz uma breve introducção pelo académico 
António da Silva Tullio; essa reimpressão, forma o 
num. 4 da Collecção de opúsculos reimpressos relati- 
vos a historia das navegações, viagens e conquistas 
dos portugueses, pela Academia Real das Sciencias de 
Lisboa. O num. 2 d'esta Collecção é, reimpressa pela 
Academia em 1855, a Relação das cousas que o mui 
esforçado capitão D. Ckristovão da Gama fez nos 
reinos do Preste João, por Miguel de Castanhoso, 
companheiro e depois inimigo capital do patriarcha 
Bermudes na Abyssinia. O num. 4 consta da 
Breve relação da embaixada que o patriarcha D. 



IV MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I03 

João Bermudes trouxe do imperador da Ethiopia, 
chamado vulgarmente Preste João, dirigida a el-rei 
D. Sebastião, com algumas notas illustrativas na 
parte inferior das paginas, e uma gravura das armas 
e epitaphio que se acham na lapida sepulchral de 
Bermudes, na egreja de S. Sebastião da Pedreira. 

Em sua prefação, Silva Tullio começa por dizer 
que concordam todos os bibliographos em que essa 
obra é uma das mais raras da imprensa portugueza 
no século xvi, e tanto que já no segundo quartel 
do decimo oitavo século Veyssière la Croze, para a 
sua Histoire du Christianisme d'Etkiopie, houve de 
recorrer á infiel traducção ingleza de Samuel Purchas, 
por não ter podido alcançar exemplar algum de Ber- 
mudes, nem tam pouco a Historia de Miguel de 
Castanhoso, comquanto o douto bibliothecario do 
rei da Prússia tivesse encommendado estes livros 
para Portugal, como elle-proprio affirma. Ao ponto, 
Silva Tullio manda vêr no Diccionario bibliographico 
as conjecturas que fizera seu consócio Innocencio 
Francisco da Silva sobre o desapparecimento quasi 
total dos exemplares d'essa Relação. 

Escrevera Innocencio que seria curioso (como, 
de facto, é) averiguar quaes as causas prováveis do 
desapparecimento quasi total d'este livro ; e abalan- 
ça-se de si próprio a conjecturas. « Por ventura o 
que n'elle se diz do caracter de Miguel de Casta- 
nhoso e das loucuras de D. Christovão da Gama 
(Innocencio põe a questão) seria parte para que os 
parentes ou apaixonados de qualquer doestes tra- 



104 PORTUENSES ILLU3TRE3 

ctassem de retiral-o dos olhos do publico, com- 
prando e talvez destruindo todos os exemplares de 
que pudessem lançar mão?» Fosse esta ou outra a 
explicação, o facto era que o livro desapparecera e 
que esse mesmo exemplar que á data se conhecia 
estava fora do reino desde tempos immediatos ao 
da sua publicação e só voltara para Portugal não 
se sabia quando nem como. 

Innocencio remata occupando-se do estylo de 
Bermudes, o qual, segundo affirmavam os que exa- 
minaram a sua obra, é conciso e não destituído de 
elegância. Silva Tullio archiva que são muitos os 
auctores extrangeiros que tractam da utilidade 
d'este opúsculo ; e por todos cita « um bom julga- 
dor da litteratura portugueza», Ferdinand Denis, 
que escrevera estas linhas, por todos os motivos 
dignas de menção: «O que torna o livro do pa- 
triarcha infinitamente precioso é que elie abraça o 
período durante o qual esse terrível chefe musul- 
mano, a quem se designa sob o nome de Gragne 
ou o Canhoto, esteve a ponto de substituir em toda 
a Abyssinia o islamismo á religião christã. Pôde 
dizer-se que os portuguezes salvaram então a 
Abyssinia da mais deplorável invasão. » 

Quando Silva Tullio redigiu seu proemio, ainda 
terminou dizendo que dos pontos controversos 
saberia dar razão Felner, «na memoria académica 
que esperamos da sua erudição histórica.» Porém, 
seus padecimentos não lhe perdoaram, até próxima 
morte. 



IV — MAGALHÃES — BER. MUDES — BARRETO, &C. 105 

E, pois que esternos, estejamos. De ponto 
vamos a ponto. De nome a nome. E de portuense 
a portuense. 

E que, como o registrara o padre Franco, na 
Imagem da virtude em o noviciado de Coimbra, no 
collegio dos jesuítas de Évora se conservava o 
original da Vida compendiosa do illustrissimo pa- 
triarcka da Ethiopia D, Joào Nunes Barreto que 
redigira seu irmão Belchior Nunes Barreto. 

Desejando este attrahir aquelle ao instituto da 
Companhia de Jesus que professava, lhe persuadiu 
com efficacia preferisse a vida religiosa á ecclesias- 
tica, «seguindo antes (assim se expressa Diogo 
Barbosa Machado) o socego da Magdalena que a 
diligencia de Martha.» João Nunes Barreto, formado 
em Cânones pela universidade de Salamanca, fora 
nomeado por seu irmão Gaspar Nunes Barreto em 
a abbadia de Freiris, da qual era padroeiro, e ahi o 
conheciam pela antonomásia de Abbade Santo. 

Certo é que deixou o século e vestiu a roupeta 
de jesuita em o collegio de Coimbra, a u de no- 
vembro de 1544. Ainda não contava quatro de 
religioso quando alcançou de seus superiores o 
confiarem-lhe a missão de confortar os christãos 
presos nas masmorras de Tetuão e Berbéria, mi- 
nistério que exercitou pelo espaço de seis annos, 



I OÓ PORTUENSES . ILLUSTRES 

em que, por sua industria, resgatou duzentos 
captivos. 

Chegando a Lisboa, foi nomeado por D. João m 
patriarcha da Ethiopia, partindo novamente da capi- 
tal a 28 de março de 1556, embarcado em a nau 
Garça, de que era capitão D. João de Menezes de 
Sequeira; e, logo que se topou em Goa, applicando 
todo o desvelo para entrar no seu Patriarchado, 
propoz-se, com a intolerante intransigência do seu 
proselytismo mystico, atalhar a vigência das diffe- 
renças religionarias, ou seja, na linguagem do 
abbade de Sever, «salvar aquellas ovelhas que 
vagavam naufrantes em um pélago de erros scis- 
maticos. *> Porém, como se lhe difncultasse a execu- 
ção de seus fervorosos desejos, dedicou-se em Goa 
a doutrinar «a mais infima plebe.» Assim o pinta 
a Bibliotheca Lusitana «resignado na vontade di- 
vina. » Mas a vontade divina distinguirá, para a 
doutrinação, entre o que o nãp seja e «a mais 
infima plebe?» 

Falleceu a 22 de dezembro de 1562, quando 
contava 45 annos de edade e 18 de Companhia, 
pouco lhe sobrevivendo seu irmão Belchior Nunes 
Barreto, que morreu em 10 de agosto de 1571, com 
51 annos de edade e 28 de Religião. 

Este, á data em que tinha consummado o tempo 
que as leis académicas prescrevem para receber o 
grau de doutor na faculdade de Cânones, «ante- 
pondo (escreve o douto Machado, ainda embuido 
dos resíduos do fanatismo tradicional) a humildade 



IV — MAGALHÃES — BER MUDES BARRETO, &C. 107 

religiosa ao applauso litterario», pediu a roupeta da 
Companhia de Jesus ao tremendo padre Simão 
Rodrigues, o qual lhe insinuou que, antes de 
conseguir a sua pretensão, recebesse as insígnias 
doutoraes. Obedeceu com a humildade da sua 
superstição, ufanamente graduando-se com grande 
soiemnidade. No fim do que, foi admittido á Com- 
panhia de Jesus, em n de março de 1543, no flo- 
rente viço dos 23 annos de sua edade. 

Logo que n'ella se viu alistado, « parecendo-lhe 
pequena esphera para o seu agigantado espirito o 
reino de Portugal», diz, dizendo-o, Barbosa que 
supplicara com repetidas instancias dos superiores 
a que o mandassem á índia, para onde partiu no 
anno de 1551, embarcado em a nau Esperança, de 
que era capitão Diogo Lopes de Sousa Tavares. 

Com singulares demonstrações de affecto foi 
recebido em Goa por S. Francisco Xavier, que o 
nomeou, em fevereiro de 1552, Superior da resi- 
dência, de Baçaim, onde converteu gentios, reformou 
christãos e, (addita, no mesmo espirito, Barbosa), 
«expulsou herejes que, com praça de artilheiros, 
passavam das partes septentrionaes áquellas regiões 
para semear o pestífero veneno dos seus erros. » 

Por morte do padre Gaspar Barzeo, foi eleito 
provincial da índia, em o anno de 1553, cargo que 
o obrigou a voltar a Gôa, d'onde passou ao Japão, 
levando em sua companhia o celebre viajeiro Fernão 
Mendes Pinto. 

Toleradas constantemente varias tempestades, 



I08 PORTUENSES ILLUSTRES 

aportou a Malaca a 5 de junho de 1554, após o 
que entrou em Cantão, metrópole de uma das pro- 
vindas da China, sendo o primeiro que promulgou 
christianismo em tam dilatado império. 

Visitou as egrejas das costas de Travancor, 
Pescaria e Coromandel ; e, assistido de quarenta por- 
tuguezes, preciosamente vestidos, deu uma solemne 
embaixada ao rei de Bungo, que já tinha recebido 
outra similhante de S. Francisco Xavier, para que 
professasse publicamente a lei christã. Posto que foi 
tractado benevolamente por aquelle príncipe, não se 
resolveu este a acceitar a proposta do evangélico 
embaixador, explica Barbosa que «receoso dos 
ânimos de seus vassallos. » Barbosa accrescenta que 
Belchior Nunes Barreto convencera em publica dis- 
puta a Marcos José, bispo nestoriano, que pelas 
serras do Malabar andava «semeando a perniciosa 
e falsa doutrina dos seus scismaticos dogmas»; obri- 
gara-o a abjurar solemnemente, por escripto, na sé 
de Cochim os erros que professava. 

Notanda o que é, porém, para que se analyse, 
é a lista de auctores, em encómio do portuense 
Belchior Nunes Barreto allegada pela Bibliotheca 
Lusitana, a qual também fornece uma copiosa refe- 
rencia, a seu irmão João Nunes Barreto attinente. 
D'um e outro faz a devida menção de suas originaes 
producções (cartas de missão) das quaes certas 
andam traduzidas outrosim em hespanhol, italiano 
e no idioma latino. 

Todos os capítulos, concernentes a essa tenta- 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. IOÇ 

tiva frustrada da conversão do rei de Bungo pelo 
nosso portuense Belchior Nunes Barreto, nas Pere- 
grinações de Fernão Mendes Pinto (do cap. 219 — 
Como o Padre Mestre Belchior partiu da índia para 
o Japão e a causa porque não passou de Malaca, e do 
que n f ella succedeu n'este tempo — ao 225, Como o 
Padre Mestre Belchior se viu com el-rei do Bungo e 
do que passou com elle c da resposta que el-rei me 
deu da embaixada que lhe levei) são interessantíssi- 
mos, consoante aliás tudo n'esse livro espantoso 
d'esse prodigioso homem. 

Mas Fernão Mendes Pinto não creu na efficacia 
dos esforços do jesuita, o qual se desilludira, pare- 
cendo-lhe bem tornar-se para a Índia, rasões de 
desanimo a que se juntou outrosim vir-lhe uma 
carta, que um Guilherme Pereira lhe trouxe de Ma- 
laca, pela qual teve novas de que viera um seu irmão 
do reino, por nome João Nunes, por patriarcha do 
Preste João, « o que também (relata Fernão Mendes 
Pinto) fez n'elle um grande abalo, por lhe parecer 
que, indo com elle, faria lá na Ethiopia muito mais 
frueto que alli, onde estava já desenganado que por 
então perdia o tempo e o trabalho; porém este seu 
bom intento também não teve effeito. » Diz as razões 
por quê. Baldadamente «se passaram cinco annos 
nas governanças de Francisco Barreto e de D. 
Constantino em que nenhuma doestas cousas houve 
effeito e os padres irmãos morreram ambos, um em 
Gôa e outro em Cochim. » 

Ferdinand Denis, chamando-lhe Melchior, allude 



IIO PORTUENSES ILLUSTRES 

discretamente á asseverada conversão do bispo nes- 
toriano Marcos José e convém em que a Nunes 
Barreto se devem cartas importantes sobre a Ásia. 
Extrema, d'entre ellas, uma, que é procurada, de 
preferencia ás demais, e que, escripta em 1554, não 
foi impressa senão em 1570, em Louvain. 



Esta minha lembrança do nosso portuense 
padre Belchior e seu infructuoso tentamen per- 
mitte-nos, pois que a coevo talho, que noticia 
dêmos de uma amável troça ha trezentos e cin- 
coenta annos feita pelos japonezes aos portuguezes. 
Curiosíssimo ! 

Em seu cap. ccxxm, Fernão Mendes Pinto 
conta como chegaram ao reino do Bungo e do 
que lá passaram com seu rei. E ultra-interessante. 
Senão, vejam: 

Chegada a monção em que podiam fazer sua 
viagem, se partiram da ilha Lampacau aos 7 de 
maio do anno de 1556, embarcados em uma nau 
de que era capitão e senhorio D. Francisco Mas- 
carenhas, de alcunha Palha, que aqueile anno 
alli residira por capitão-mór. 

Ora, continuando sua derrota por tempo de 
quatorze dias, houveram vista das primeiras ilhas 
que estão em altura de 35 graus, que, por gradua- 
ção, demoram a Loesnoroeste da de Tanixumâ. 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. III 

piloto, conhecendo então a má navegação que 
levava, se fez na volta do Sudoeste a demandar a 
ponta da serra de Minató. Aferrada a costa de 
Tanorá, velejaram sempre ao longo d'ella até 
o porto de Fiungá. E, porque as agulhas aqui 
n'este clima nordestearam, e as aguas corriam a 
Norte, perdeu o piloto toda a estimativa da nave- 
gação, de maneira que já, quando conheceu seu 
erro, «inda que, por natureza marínhatica, o não 
queria confessar», tinham escorrido o porto para 
onde iam sessenta léguas abaixo. Pelo que, com 
assas de trabalho, por lhes ficarem os ventos pon- 
teiros, o tornaram a tomar d'alli a quinze dias, e 
com bem de enfadamento e risco de suas fazendas 
e vidas, porque toda aquella costa estava levantada 
contra o rei do Bungo nosso amigo e contra os 
habitadores d'ella, por serem muito amigos da Lei 
do Senhor que os nossos padres lá denunciavam. 
Surtos, pela misericórdia de Deus, na bahia da 
cidade Fucheo de que já atraz fizera elle Fernão 
Mendes Pinto menção muitas vezes, que era a me- 
trópole do reino do Bungo e onde então florescia a 
principal christandade de todo o Japão, se assentou, 
por parecer dos mais, que fosse elle, Fernão Men- 
des, .á fortaleza de Osquy, onde tiveram a nova que 
o rei á data estava. Ainda que Fernão Mendes 
algum tanto se receasse d'esta ida, porque, como 
dissera, a terra a este tempo estava alevantada, 
todavia lhe fora forçado acceital-a, por lh'o pedirem 
todos geralmente com muita efficacia. 



112 PORTUENSES ILLUSTRES 



Fazendo-se, pois, logo prestes, com mais qua- 
tro companheiros que levou comsigo (depois que 
recebera um presente que D. Francisco, capitão da 
nau, mandava ao rei e que valeria quinhentos cru- 
zados), se partiu; e, desembarcando no cães da 
cidade, se foi a casa do Quansio Andono, almi- 
rante do mar e capitão de Canafuma, o qual o 
recebeu com mostras de milito gasalhado, que 
algum tanto o alliviou do receio que levava. E r 
dando-lhe elle conta do a que ia, lhe pediu que o 
mandasse prover de cavallos e gente que o levasse 
onde o rei estava, o que elle logo fez, muito mais 
largamente do que se lhe pedira. 

Partido Fernão Mendes da cidade, chegou no 
outro dia, ás nove horas, a um logar chamado 
Fingau, que seria um quarto de légua da fortaleza 
de Osquy, onde, por um dos japões que levava 
comsigo, mandou dizer ao Osquim Dono, capitão 
d'ella, como elle era alli chegado, e que trazia uma 
embaixada do vice-rei da índia para Sua Alteza, 
pelo que lhe pedia lhe mandasse dizer quando 
queria que lhe fallasse. A isto, por um seu filho, 
logo lhe respondeu : — A tua vinda, com a de todos 
os teus companheiros, seja muito bòa; já tinha eu 
mandado recado a El-Rei á ilha do Xeque, para 
onde foi ante-manhã, com muita gente, a matar 
um grande peixe, de que se não sabe o nome, que 
do centro do mar ali veio a ter, com outra gra.nde 
somma de peixes pequenos. Pelo ter cercado já 
n'um esteyro, a mim parece que não poderá vir 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 113 

senão dé noite. Porém do que Sua Alteza me res- 
ponder, te mandarei logo recado. No entretanto, 
descança tu em outras casas melhores onde te vou 
mandar aposentar e onde provido serás de tudo ó 
necessário, porque toda esta terra tanto é do rei de 
Portugal como Malaca, Cochim e Goa. 

E um homem seu, que já vinha para isso, os 
agasalhara logo em um pagode, que se dizia Ami- 
damxó, onde dos bonzos d'elle foram banqueteados 
esplendidamente. 

O rei, assim que teve aviso de Fernão Mendes 
haver chegado, despediu logo, d'aquella ilha onde 
estava no cerco d ? aquelle grande peixe, três funés 
de remo e n'ellas um seu camareiro, muito seu pri- 
vado, que se chamava Oretandono, o qual, já sobre 
a tarde, chegou ao logar onde Fernão estava. Indo 
logo ter com elle, depois que por palavra lhe disse 
o a que o rei o mandara, tirou do seio uma carta 
d'este e, « beijando-a com as ceremonias e cortezias 
que entre elles se costumam», Ih 'a deu. Dizia essa 
carta .assim : — Estando eu agora occupado n'um 
trabalho de muito meu gosto, soube da tua bòa che- 
gada a esse logar onde estás, com os mais compa- 
nheiros que vêm comtigo, do que tive tammanho 
contentamento que te certifico que, se não tivera 
jurado de me não ir d'aqui até matar um grande 
peixe que tenho cercado, muito depressa, por minha 
pessoa, te fora logo buscar. Pelo que te rogo, como 
bom amigo, que, já que por esta causa não posso 
ir, venhas tu logo n'essa embarcação que lá te 

voi». I. 8 



114 PORTUENSES ILLU3TRE3 

mando, porque com tu vires e eu matar este peixe 
será meu gosto perfeito. 

Vendo Fernão Mendes esta carta, se embarcou 
logo, com todos os seus companheiros, na funé em 
que vinha o Oretandono, e os moços, com o pre- 
sente, nas outras duas. E, por serem ligeiras e bem 
esquipadas, em pouco mais de uma hora se encon- 
traram na ilha, que distava d'alli duas legoas e meia. 

A ella chegaram a tempo que o rei, com mais 
de 200 homens, com suas fisgas, andavam em bateis 
atraz d'uma grande baleia, que, na volta de um 
grandíssimo cardume de peixe, alli viera ter, « o qual 
nômé de baleia e o mesmo peixe em si foi então 
entre elles muito novo e muito estranho, porque 
nunca tinham visto outra tal n'aquella terra. » 

Depois que a mataram e a trouxeram fora á 
praia, foi o prazer do rei tammanho que a todos os 
pescadores que alli se acharam libertou de um certo 
tributo que antes pagavam e lhes deu nomes novos 
de homens nobres; a alguns fidalgos que alli esta- 
vam, a elle acceitos, accrescentou os ordenados que 
tinham; e aos guesos, que são como moços da 
camará, mandou dar mil taeis de prata. «E ami 
me recebeu com a bocca muito cheia de riso, e me 
perguntou miudamente por muitas particularidades, 
a que eu respondi accrescentando em muitas cousas 
que me perguntava, por me parecer que era assi 
necessário á reputação da nação portugueza e á 
conta em que até então n'aquella terra nos tinham, 
porque todos então tinham para si que só a o rei 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 115 

-de Portugal era o que com verdade se podia chamar 
Monarcha do Mundo, assi em terras como em poder 
e thesouro, e por esta causa se faz n'aquella terra 
tanto caso da nossa amizade. » 

Acabado isto, se partiu logo o rei d'esta ilha do 
Xeque para Osquy e chegou a sua casa com uma 
hora da noite, sendo recebido de todos os seus com 
muita festa e regosijo ao seu modo, e lhe deram os 
parabéns de tam honroso feito, como fora o d'aquella 
baleia, attribuindo a elle só o que os outros fizeram, 
.« que este prejudicial vicio da adulação é tam natural 
das cortes e das casas dos príncipes que até entre o 
barbarismo da gentilidade lhe não faltou seu iogar. » 

Despedindo então o rei toda a gente que o 
acompanhara, ceou recolhido com sua mulher e 
seus filhos e não quiz que homem nenhum por 
então o servisse, porque o banquete era á conta da 
rainha. « Porém alli nos mandou chamar a todos 
cinco a casa de um seu thesoureiro onde já está- 
vamos aposentados, e nos rogou que, por amor 
d'elle, quizessemos perante elle comer com a mão, 
assim como faziamos em nossa terra, porque folga- 
ria a rainha de nos vêr. » 

Logo lhes mandou preparar a meza, muito 
abastada de iguarias, assas limpas e bem guiza- 
das. «E, servida por mulheres muito formosas, nos 
entregamos todos no que nos punham deante, bem 
á nossa vontade ; porém os ditos e galanterias que 
as damas nos diziam e as zombarias que faziam de 
nós quando nos viram comer com a mão foram de 



IIÓ PORTUENSES ILLUSTRES 

muito mór gosto para El-Rei e para a Rainha que 
quantos autos lhes poderam representar, porque, 
como toda esta gente costuma a comer com dous 
paus, como já por vezes tenho dito, tem por muito 
grande sujidade fazel-o com a mão, como nós cos- 
tumamos. » 

Então uma filha do rei, moça já de quatorze 
até quinze annos e muito formosa, pediu licença a 
sua mãe para uma certa farça que seis ou sete 
queriam fazer sobre a matéria de que se tractava; 
e a rainha, com consentimento do rei, lh'a concedeu. 

Entrando então ellas para dentro d'outra salla, 
se detiveram um pequeno espaço, e as que ficaram 
fora se desenfadaram entretanto bem á custa dos 
nossos portuguezes, com muitas graças e zomba- 
rias, de que todos estavam bem corridos, ao menos 
os quatro, por serem mais novéis e não entenderem 
a lingua, porque elle Fernão já em Tanixumá tinha 
visto outra farça que se teve com portuguezes, 
similhante a esta, e por algumas vezes as havia 
visto também n'outras partes. 

«Estando nós no meio d'esta affronta, porém 
soffrendo já melhor a zombaria pelo gosto que 
viamos que El-Rei e a Rainha tinham d'ella, sahiu 
de dentro a princeza, muito formosa, em trajo de 
mercador, com um traçado de chaparia de ouro na 
cinta e tudo o mais muito apropriado ao que repre- 
sentava; e, pondo-se de joelhos deante d'El-Rei seu 
pae, com o acatamento devido, lhe disse : — Pode- 
roso rei e senhor, ainda que este meu atrevimento 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. II 7 

seja digno de grande castigo, pela desegualdade que 
Deus quiz que houvesse entre vossa Alteza e minha 
Baixeza, a necessidade em que me vejo me faz não 
pôr deante este inconveniente, de que me pudera 
temer, porque, como eu sou já velho e tenho mui- 
tos filhos, de quatro mulheres com que fui casado, 
e em minha quantidade muito pobre, desejando, 
como pae que sou, o deixal-os amparados, pedi 
por meus amigos que me ajudassem com seus 
empréstimos, que alguns me concederam; e, fazendo 
eu emprego n'uma certa fazenda que, por meus 
peccados, não pude vender em todo o Japão, deter- 
minei de a trocar por qualquer cousa que me dessem 
por ella. E, queixando-me eu dMsto a alguns meus 
amigos no Miacó, d'onde venho, me certificaram 
que só Vossa Alteza me podia agora n'isto ser bpm. 
Pelo que, Senhor, lhe peço que, havendo respeito a 
estas cãs e a esta velhice, e a ter eu muitos filhos 
e muita pobreza, me queira valer em meu desam- 
paro, porque n'isto que lhe peço, a mi fará grande 
esmola, e aos chenchicos que agora vieram n'esta 
nau grande mercê, porque esta minha mercadoria 
lhes arma a elles, mais que a outrem ninguém, pela 
grande aleijão em que se vêem continuamente.» 

Emquanto durou esta pratica, o rei e a rainha 
não se podiam ter com riso, vendo que aquelle 
mercador, tam velho, com tantas cãs, tantos filhos 
e tanta necessidade, era a princeza sua filha, muito 
moça e muito formosa. O rei, comtudo, detendo o 
riso por um pouco, lhe respondeu, com muita gra- 



Il8 PORTUENSES ILLUSTRES 

vidade, que mandasse trazer a amostra da fazenda 
que trazia, e que y se fosse cousa que os armasse ', elk 
lhes rogaria que Vha comprassem. Ao que, ella, 
fazendo uma grande mesura, se tornou a recolher 
para dentro. 

Até então estavam os lusos tam embaraçados 
com o que viam que não sabiam determinar o que 
seria. As mulheres que estavam na salla (que seriam 
mais de sessenta), sem haver alli outro homem mais 
do que eiles os cinco companheiros somente, come- 
çaram a confranger todas e a acotoveiar-se umas 
com as outras, e a fazer entre si algum rumor com 
um riso baixo e cailado. Porém, quietando-se logo 
este, o mercador tornou a sahir de dentro com as 
amostras da fazenda, as quaes as traziam seis mo- 
ças, muito formosas e muito ricamente vestidas em 
trajos de homens mercadores, com seus traçados e 
adagas de ouro na cinta, e de aspectos graves e 
auctorisados, porque todas eram filhas dos princi- 
paes senhores do reino, que a princeza escolhera 
para a ajudarem n'esta farça, que quiz representar 
ao rei e á rainha. Estas seis traziam aos hombros 
cada uma seu envoltório de tafetá verde e, fingindo 
todas seis serem filhos d'aquelle mercador, vinham 
passando uma dança, ao seu modo, muito bem 
concertada, ao som de duas harpas e uma viola de 
arco. E, de quando em quando, diziam, em trovas, 
com falias muito suaves e muito para folgar de 
ouvir : — Alto e rico Senhor de riqueza, por quem 
és, te lembra da nossa pobreza. Somos miseráveis, 



IV — MAGALHÃES — BER MUDES — BARRETO, &C. IIÇ 

em terra extrangeira, desprezados da gente, por 
nossa orphandade, com desprezos e grandes affron- 
tas. Pelo que, Senhor, te pedimos que, por quem 
és, te lembres da nossa pobreza. 

E, assim, a este modo, «que na sua lingua 
eram todas muito bem feitas», disseram mais outras 
duas ou três, repetindo sempre, no fim de cada 
uma d'ellas: — Por quem és, te lembra da nossa 
pobreza. 

Acabada a dança e a musica, se puzeram todos 
de joelhos deante do rei; e, depois que o mercador, 
com outra pratica muito bem concertada, lhe deu 
as graças da mercê, que lhe queria fazer, de lhe 
fazer vender aquella fazenda, os seis desembrulha- 
ram os envoltórios que traziam e deixaram cahir 
na salla uma grande somma de braços de pau, 
«como os que cá. se offerecem a Santo Amaro», 
dizendo o mercador* « com muita graça e com pala- 
vras muito discretas :>: — Pote a natureza, por 
vossos peccados, vos sujeitou a vós-outros a mi- 
séria tam suja que necessariamente as vossas mãos 
hão-de andar sempre fedendo ao peixe ou á carne 
ou ao mais que comeis com ellas, muito vos arma 
esta mercadoria, porque, emquanto vos servirem 
umas mãos, se lavarão as outras. 

A qual cousa o rei e a rainha festejaram com 
muito riso, e elles todos cinco estavam tam corri- 
dos que, entendendo-o o rei, lhes pediu muitos per- 
dões, dizendo: — Porque a princeza minha filha 
visse quam grande bem eu quero aos portuguezes, 



120 PORTUENSES ILLUSTRES 

lhe dei este pequeno passatempo, de que vós, 
tam somente, como irmãos meus, fostes partici- 
pantes. 

«Ao que nós respondemos que Deus nosso 
Senhor pagasse por nós a Sua Alteza aquella honra 
e mercê que nos fazia, que nós confessávamos por 
muito grande e assi o publicaríamos por todo o 
mundo emquanto vivêssemos.» 
. O que elle e a rainha e a princeza, vestida 
ainda em trajos de mercador, lhes agradeceram, 
com muitas palavras ao seu modo. E a princeza 
lhes disse : — Pois, se o vosso Deus me quizesse 
tomar por sua criada, ainda lhe eu faria outras 
farças muito melhores e de mais seu gosto do que 
esta; mas eu confio que Elle se não esqueça de 
mim. 

«Ao que nós todos, postos de joelhos e beijan- 
do-lhe o queimão que tinha vestido, respondemos 
que assi o esperávamos n'Elle, e que, fazendo-se 
ella christã, a haviamos de vêr rainha de Por- 
tugal, do que a rainha sua mãe e ella se riram 
muito. » 

Este caso de graciosa reprehensão dá-nos hoje 
conta dos hábitos familiares de nossos antigos e 
quiçá sirva a explicar-nos a origem da locução 
trivial injuriosa que a certa parte manda o injuriado 
comer ou beber «com dois paus», cuja o, motivo 
na memoria collectiva se obliterou. 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 121 

Mas, revertendo, se a Nunes Barreto, portuense, 
se devam cartas importantes sobre a Ásia, impor- 
tantes informes sobre o Brazil ao portuense Simão 
de Vasconcellos seguro é que se devem. 



Este jbsuita, cuja roupeta vestiu na cidade da 
Bahia em 1616, que foi lente de theologia, procura- 
dor geral da Companhia em Roma e depois provin- 
cial no Brazil, nasceu n'esta cidade do Porto em 
1597 e morreu na do Rio-de- Janeiro a 29 de setem- 
bro de 1671, sendo auctor áa.*Chronica da Compa- 
nhia de Jesus do estado do Brazil, e do que obraram 
seus filhos n'esta parte do mundo, a qual, impressa 
em Lisboa no anno de 1663, é uma das melhores 
edições d'aquelle século, tanto no que diz respeito 
á grandeza e consistência do papel como (assim 
esmiuça Innocencio) no tocante á belleza dos cara- 
cteres da impressão. Em o catalogo da livraria de 
lord Stuart vem descripto um exemplar d'esta obra 
com a nota de muito raro; mas em 1865 fez-se 
outra edição em dois volumes de 4. na cidade de 
Lisboa. 

Consoante já, começando, apontado ficou, o emi- 
nente litterato Francisco Adolpho de Varnhagen, 
visconde de Porto-Seguro, em sua Historia geral 
do Brazil, fallando do padre Vasconcellos, não 



122 PORTUENSES ILLUSTRES 

duvida acoimal-o de crédulo e supersticioso; e diz 
que os seus escriptos acerca do Brazil mais se 
recommendam hoje pela antiguidade que pela im- 
portância dos factos que narra o auctor, sempre 
disposto a exaggerar as obras dos jesuítas. 

Divididas em dois livros, no principio d'esta 
Chronica da Companhia, sahiram depois á parte, 
em obra própria de per si, no anno de 1668 as 
Noticias curiosas e necessárias das cousas do Brazil, 
ás quaes José Carlos Pinto de Sousa, na sua BibL 
hist. de Portugal, as qualifica de «admirável his- 
toria. » 

N'esta «admirável historia», pejorativo é o 
conceito pelo jesuíta portuense formado dos brasi- 
lianos selvagens nativos, pois, tractando largamente 
dos costumes dos indios do Brazil, logo marca que, 
em sua. gentilidade, não têm fe. nem lei nem rei, 
« e, em signal d'esta singularidade, lhes negou tam- 
bém o auctor da natureza as lettras F, L, R.» 

Successivamente, os apoda de andarem nus; 
de não terem policia nem arte ; de furarem as faces, 
orelhas e beiços; de não gosarem morada certa; 
de serem preguiçosos, mentirosos, comilões e dados 
a vinhos; nota-os de paupérrimos; emfim, incre- 
pa-os de vingativos e cruéis. 

Mas então destaca mui interessante a narrativa 
de suas praxes de anthropophagia. 

Simão de Vasconcellos passa-o d'esfarte a 
contar : 



IV — MAGALHÃES — BERMUDBS — BARRETO, &C. 123 

Dos que tomam na guerra, os velhos comem logo (carne 
do maior sabor para elles); os mancebos levam captivos, 
amarrados em cordas, com grandes algazarras, á maneira de 
triumpho. O modo com que depois os matam e comem, é força 
que ponhamos aqui, porque é uma mais refinada de suas bar- 
barias. Logo que o contrario é tomado vivo em guerra, e 
aquelle que o captivou tem intento de mostrar n'elle a illustre 
façanha de guerreiro valente, remette-o á povoação do maior 
Principal e aqui, em logar de grilhões, se faz entrega d'elle, 
solemne, a uma carcereira fiel, que o ceve e engorde por tempo; 
para isto, lhe dão caçadores, pescadores e todo o mais necessá- 
rio para que seja bem apascentado, e com advertência que se 
lhe não dê pena em nada, antes allivio e descanço em tudo, 
porque assim se vá engordando, qual bruto animal, para os 
intentos da gula e do ódio que logo ouviremos. Quando já, a 
parecer da carcereira, está grosso em carnes, despedem mensa- 
geiros por todas as povoações circumvisinhas, fazendo a saber 
o dia da festa, para que todos sejam presentes a solemnidade 
tão festival, sob pena de incorrerem em nota de avaros os que 
não convidarem e de mal-creados os que não acudirem. 

Congregada, na forma referida, esta barbara gente, vae 
sahindo aquelle valente soldado que ha-de matar o contrario a 
um terreiro, como a um palanque, pizando grave, cercado de 
parentes e amigos, como se fora a armar-se cavalleiro ou a 
passar triumpho no mesmo Capitólio de Roma. Vem vestido a 
mil maravilhas, de pennas, assentadas em bálsamo, todo em 
contorno, desde a cabeça até os pés. Tem a cabeça coroada 
com um diadema vermelho acceso, côr de guerra. Do pescoço 
pendem dois collares da mesma c3r, a tiracollo encontrados, 
que vêm a morrer na cintura. Os braços, pelos hombros, coto- 
vellos e pulsos, vão enfeitados com suas plumagens, á feição 
de enrocados grandes. Pela cintura, apertam uma larga zona; 
d'esta pende, até os joelhos, um largo fraldão, a modo trágico, 
e de tam grande roda como é a de um ordinário chapeu-de-sol. 
E, finalmente, n'esta conformidade nos joelhos, pernas, pés vae 
continuando a libré, toda da mesma peça, de pennas de aves, 



124 PORTUENSES ILLUSTRES 

as mais formosas e lustrosas em cores que para este effeito 
guardam de seus antepassados. 

Assim se veste e arreia o feroz combatente sahindo a 
terreiro. Leva nas mãos uma maça, á maneira d'aquellas com 
que se combatiam os cavalleiros da antiga edade; a qual, desde 
a empunhadura até áquella parte mais grossa com que fere, 
vae toda guarnecida das mais luzidas pennas; e é esta feita de 
pau mui pezado, e forte como o mesmo ferro. Assim se apre- 
senta o combatente no terreiro, soberbo, jactancioso e bizarro. 

Entretanto vem sahindo o triste preso que ha-de ser sacri- 
ficado, atado com duas cordas pela cintura, e por estas tiram 
dous mancebos robustos, por que não possa divertir-se para 
uma ou outra parte, os braços soltos, para com elles tomar os 
golpes que lhe começa a tirar o contrario, o qual se vae de- 
tendo n'estes de propósito, para mór festa dos circumstantes, 
até que com a ultima pancada lhe faz em pedaços a cabeça e 
o derriba morto, com taes applausos, gritos, assobios, bater de 
arcos e de pés dos que estão á vista que atroam os ares. 

Mas, voltando atraz, é muito de advertir outra notável 
ceremonia: porque, logo que o triste preso vae sahindo do 
cárcere para. a morte, é costume irem recebel-o á porta seis ou 
sete velhas, mais feras que tigres e mais immundas que har- 
pias, de ordinário tão envelhecidas no officio como na edade, 
passante de cem annos, que assim as escolhem. Vão cobertas 
com as primeiras roupas de nossos pães primeiros, mas pinta- 
das todas de um verniz vermelho e amarello, com que se dão 
por muito engraçadas; vão cingidas, pelo pescoço e cintura, 
com muitos e compridos collares de dentes enfiados que teem 
tirado das caveiras dos mortos que em similhantes solemnida- 
des teem ajudado a comer; e, para mór recreação, vão ellas 
cantando e dansando, ao som de certos alguidares que levam 
em as mãos, para effeito de receber o sangue e juntamente as 
entranhas do padecente. Recebidas estas e o sangue, entra o 
Principal, feito almotacel, a repartir a carne do defunto. 

A esta manda dividir em tão miúdas partes que possam 
todos alcançar uma pequena fevera, sequer. E é tanto assim que 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. 125 

affirmam Índios antiquíssimos que, como commummente é im- 
possível chegarem a provar tantas mil almas da carne de um 
só corpo, se coze muitas vezes um só dedo da mão ou do pé 
em um grande azado, até ser bem delido, e depois se reparte o 
caldo, em tam pequena quantidade a cada um que possa dizer-se 
com verdade que bebeu, pelo menos, do caldo onde fora cozida 
aquella parte do seu contrario. E, quando algum dos Princi- 
paes, ou por enfermo ou por muito distante, não pôde achar-se 
presente, lá se lhe manda seu quinhão, que, de ordinário, é 
umá mão ou, pelo menos, um dedo do defunto. E este se tem 
pelo mór brazão e mór nobreza de toda a gerarão: o haver 
morto, comido ou bebido de alguma parte cozida de seu con- 
trario, morto em terreiro. 

O segundo livro da obra dita do padre Simão 
de Vasconcellos tracta da bondado da terra do 
Brazil, a qual deffende das calumnias que os antigos 
lhe impunham de zona tórrida e inhabitavel e, por 
fim, mostra a excellencia do clima, como fecho pre- 
paratório de trabalho em que compendiou «as qua- 
lidades da terra, o temperamento do clima, a frescura 
dos arvoredos, a variedade de plantas e abun- 
dância de fructos, as hervas medicinaes, a diver- 
sidade de viventes, assim nas aguas como na 
terra, e aves tam peregrinas e mais prodígios da 
natureza, com que o Auctor d'ella enriqueceu este 
novo-mundo. » 

E\ na verdade, uma leitura instructiva e agra-^ 
davel a de volume tal, que tem 291 paginas e não 
191, como vem em Innocencio, o qual aos outros 
não perdoa aliás os simples descuidos de revisão 
typographica. 



126 PORTUENSES ILLUSTRES 

Das bandas do Porto, outrem reflexivamente 
também pelo Brasil discorreu e de si deixou motivo 
de memoria, que se postergou aliás; e esse foi 
Raphael da Purificação. 



Ou no século Manuel da Cunha, nasceu em 
Mattosinhos, Porto, «fecundo berço de insignes 
varões em diversas faculdades», da nossa terra diz 
Barbosa Machado. Foram seus pães Simão dos 
Reis Rupes, capitão de vários navios mercantis, e 
Maria da Cunha Freire. Partindo para o Brazil, 
abraçou o instituto Seraphico, no convento de Pa- 
raguaçu, junto da cidade da Bahia, em 13 de junho 
de 1707; elle nascera em 13 de junho de 1691. 

Dignificou-se como lente de Artes no convento 
de Olinda, e a Theologia a leu no do Recife. Não 
occupou Prelatura alguma, e só a de Commissario 
Provincial em Pernambuco por anno e meio, e Vi- 
sitador das aldeias do Sertão e Rio de S. Fran- 
cisco, com o motivo de vér se com a mudança 
d'aquelles ares melhorava de incommodos. Mas 
houve de se recolher com o desengano de tal 
melhora a não achar para os que padecia, trazendo 
ainda um de mais, porque, de certa queda perigosa 
que deu por aquelles ásperos caminhos, e como 
não houvesse por aili quem o soubesse bem curar, 



IV — MAGALHVE3 — BERMUDE5 — BARRETO, &C. 127 

ficou com um braço deslocado, de que lhe resultava 
moléstia continua. 

« Foi sujeito universal em toda a matéria scien- 
tifica, entendimento claro, e de tam fácil compre- 
hensão e feliz retentiva que (aquilata-o d'est'arte 
fr. António de Santa Maria Jaboatam), o que uma 
vez encommendava á memoria ou guardava n'ella 
ficava depositado como em archivo perdurável, 
para usar d'elle a qualquer tempo e occcasião con- 
veniente.» E Barbosa Machado especificara que 
«nas disciplinas mathematicas foi profundamente 
versado, principalmente na álgebra e arithmetica, 
em que era consultado em contas gravíssimas pelos 
homens de negocio. Da geographia tinha tanta ins- 
trucção que fazia as arrumações e observações dos 
meridianos sem beneficio do compasso. » Para que 
vejamos. Também tivera pefeita intelligencia das 
línguas latina, grega, hebraica, franceza, italiana e 
ingieza. * 

No êxito de aferirmos da plausibilidade de tantos 
encómios, resta-nos uma obra, a qual passa entre 
nós como quasi desconhecida, não se recordando 
Innocencio de haver jamais encontrado até á data 
em que o escrevia (1862) exemplar algum á venda 
publica. 

Chama-se esse trabalho incógnito : Lettras sym- 
bolicas e sybillinas e apresenta-se como obra de 
recreação e utilidade, cheia de erudição sagrada e 
profana, de noticias antigas e modernas ; com docu- 
mentos históricos, políticos, moraes e ascéticos, 



128 PORTUENSES ILLUSTRES 

para os estudiosos e amigos tanto de tettras Divi- 
nas como de lettras humanas. Escriptas se exhibem 
pelo M. R. Padre-Mestre, fr. Raphael da Purificação, 
leitor de theologia e padre da Província de Santo 
António do Brazil. 

Explana assim fr. António de Nazareth: 

E a Província de Santo António no Estado Brasílico a 
mais rica e a mais pobre: a mais pobre, pelos preceitos que 
observa; a mais rica, pelas lettras e talentos com que se illus- 
tra; e, quando não fossem tantos, o auctor d'este livro valeria 
por todos; pois, se é inope pela regra que professa, é o mais 
opulento pela litteratura que ostenta em um livro que é como 
todos e como nenhum: como todos, porque de todos escolheu 
o melhor para fazer um, e como nenhum, porque o precioso 
que pelos mais se acha disperso recopilou em este livro como 
um thesouro. 

E fr. Marcos de Santo António soccorre-se da 
mesma fauna braziliense para se alambicar em con- 
ceitos laudativos: 

Já ouvi dizer que na terra dos engenhos são raras as 
subtilezas dos discursos, e também que a preguiça reina; 
porque n'aquelle paiz se acha somente a Preguiça do Brazil, e 
eu tudo acho junto n'este auctor, pela obra que compoz: acho 
engenho raro, porque de umas lettras mostra as muitas que 
sabe, assim das línguas como das Escripturas e de umas e 
outras Historias, não só cansando-se em ajuntar o disperso, 
mas também em compor com tanta erudição e clareza que só 
este livro basta, a meu vêr, para fazer sábio a todo o homem 
que d'elle fizer estudo; acho também a Preguiça do Brazil, não 
pelo que inculca o nome, mas sim pelos vagarosos passos com 
que este vivente se move; e estes é que lhe deram o nome de 



IV-— MAGALHÃES — BBRMUDES — BARRETO, &C. 120, 

Preguiça; e este auctor, para que não tropeçasse, em matérias 
tão altas sobre que escreve, foi com muito vagar compondo, 
como mostra a firmeza das opiniões que tracta e os ditames 
infalliveis que segue, assim nas Escripturas como em tudo mais 
moral com que esta obra se illustra, sem se oppôr em nada aos 
dogmas da nossa santa fé ou bons costumes. 

Esta conformidade determina o horisonte da 
inquirição; todavia, resulta certo que se não des- 
manda Innocencio quando escreve que o volume 
das Lettras symbolicas e sybillinas é «livro, em 
verdade, engenhoso e de muita curiosidade.» Uma 
immensa leitura n'elle se patenteia, com effeito, e 
aili se apuram, da erudição que já hoje se não faz, 
informes que não deixam de ser úteis e prestadios 
ainda agora. 

O primeiro capitulo tracta do alphabeto ou 
A B C; o segundo das lettras do A B C; o ter- 
ceiro da origem e antiguidade das notas; o quarto 
da invenção' e origem das lettras; o quinto da 
existência, nomes, pátrias e numero das sybillas; 
o sexto das prophecias mais particulares das 
sybillas; o sétimo de algumas lettras symbolicas 
das sybillas; o oitavo de algumas lettras sym- 
bolycas da Escriptura* o nono de algumas lettras 
symbolicas que se acham tanto em historias 
ecclesiasticas como .profanas; emfim, o decimo 
continua a matéria dos capitulos precedentes e dá 
conclusão ao livro. 

A copiosa erudição não conseguiu obscurecer 
de todo este espirito; pelo contrario, a compostura 

VOL,. I. O 



J30 PORTUENSES ILLUSTRES 

do rosto se esclarece temperadamente, se bem que 
com prolixidão enumerativa. Por exemplo, quçr elle 
exemplificar da hypocrisia em seus múltiplos modos 
e escreve incessantemente: 

A mentira, com o sobscripto e titulo de destreza se dis- 
farça; a vingança se cobre com a capa e titulo de honra; a 
teima e contumácia se pallia com o disfarce e titulo de con- 
stância; a avareza se desculpa com o pretexto e titulo de fru- 
galidade e temperança; o ódio se dissimula com o rebuço e 
titulo de cautela: a ambição se escusa com a frente e titulo do 
bem publico ; o interesse e cubica se disfarça com a côr e titulo 
de previdência ; a ociosidade se acolhe á sombra e titulo do 
recolhimento; a soberba blasona com. o exterior e titulo de 
urbanid^de; a preguiça se livra com a desculpa e titulo do 
licito repouso; a usura tem seu refugio no titulo do lucro 
cessante e damno emergente; a simonia escapa com a superfície 
e titulo de agradecimento; o suborno, seu parente em primeiro 
grau, com a apparencia e titulo de attenção precisa; a murmu- 
ração deffende-se com o escudo e titulo de correcção fraterna; os 
roubos e latrocínios com visos e títulos de restituição e depo- 
sito; a grosseria com a espécie e titulo de gravidade; o desa- 
linho com a religião e titulo de desprezo do mundo; a ignorân- 
cia com a affectaçâo e titulo de modéstia e silencio; a cruel- 
dade com o lustroso esmalte e titulo de justiça. 

Fr. Raphael da Purificação viu mundo, dis- 
correndo por toda a Itália quando foi votar no 
Capitulo Gerai celebrado em Milão a 4 de julho de 
1729; de sua lavra, quedaram manuscriptos quatro 
tomos das viagens que fez a diversas partes. Inclu- 
sive a Londres, aonde infructiferamente se encami- 
nhou no fito de experimentar remédio para seu 



IV— MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I3I 

penoso achaque, a cujos effeitos succumbiu. Figu- 
ra-se que deveria ser a tuberculose. 

Ora, das mesmas procedências, no Brazil a 
dignidade episcopal occupou-a João de Queiroz da 
Silveira. 



No século, porque em religião fr. João de S. 
Joseph, que foi bispo do Grão-Pará, nado em Mat- 
tosinhos a 12 de agosto de 171 1, filho de Fran- 
cisco Gonçalves Dias e sua mulher D. Joanna 
Dias de Queiroz, e creado de logo para frade bento, 
para geral da Ordem, para bispo. Aos dezoito 
annos, com effeito, recebeu o habito de noviço em 
Tibães, professando nas mãos do dom abbade fr. 
José de Santa Maria, e foi estudar philosophia no 
mosteiro de S. Miguel de Refojos de Basto. 

Consummado theologo e philosopho, passou a 
ser conventual de Santo Thirso, de onde transferido 
se topa no convento de Lisboa, não se sabe nem 
faz ao ponto, entende Camillo, saber em qual anno. 
Era certo que lá residia em 1744, conforme o tes- 
temunho de uma carta autographa, que possuía, de 
Diogo Barbosa Machado, escripta n'aquelle anno a 
fr. Marcellino da Ascensão, chronista-mór da con- 
gregação benedictina. Da carta, que Camillo publi- 
cou, infere-se que João de Queiroz da Silveira, ou 
monasticamente fr. João de S. Joseph, privava com 



132 PORTUENSES ILLUSTRES 

o erudito abbade de Sever, ao tempo de se estar 
estampando a valiosa Bibliotheca Lusitana. 

Lettras e sangue lhe facilitavam ao benedictino, 
escreve-o Camillo, alliança de amisade com os 
doutos Barbosas, com fr. Manoel do Cenáculo, 
com D. António Rollim de Moura, com Francisco 
Xavier de Oliveira e seu irmão fr. Thomaz de 
Aquino, com Sebastião José de Carvalho e seu 
irmão Paulo de Carvalho e Mendonça, com o conde 
de S. Lourenço e os duques de Aveiro, com o 
conde da Ponte e, para em summa o dizer, remata 
Camillo sua enumeração, com as rainhas D. Maria 
d' Áustria e D. Marianna Victoria. 

O convivio das damas da corte amaciar-lhe-ia a 
theologia e suavisar-lhe-ia a philosophia. Porquanto, 
austero, conservou-se jovialissimo. Mas, jovialis- 
simo, conservou-se austero. 

« Agora, uma pergunta alegre a v. ex. a , leitora, 
se livro d'esta natureza, (as Memorias de fr. João 
de S s Joseph Queiroz, bispo do Grdo-Pard, publi- 
cadas no Porto em 1868, com uma extensa intro- 
ducção e muitas notas illustrativas, por Camillo 
Castello-Branco) pôde gabar-se de a ter: 

— Quando v. ex. a cobre os seus hombros com 
um lencinho branco, no louvável intento de corrigir 
as demasias do seu vestido muito despeitorado, 
acaso pensou no inventor ou inventora de tal 
moda, a moda do lencinho no pescoço? 

«Foi um frade, minha senhora, foi um frade 
bento, foi D. fr* João de S. Joseph. . . 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I33 

« Foi o meu frade que inventou lencinhos bran- 
cos no pescoço das damas da rainha D. Marianna 
Victoria, esposa de el-rei D. José. Aqui tem v. ex. a 
quando e como. E elle o modesto épico da sua 
invenção, n'uma carta a fr. Manoel da Penha: 
« . . . Devo dizer a vossa paternidade que, havendo 
de sahir com as suas damas, pela primeira vez, a 
rainha >fidelissima, pude eu persuadil-a a que 
sahissem com lenços brancos em os hombros, de 
sorte que se recatasse quanto descobrem os deco- 
tados. Quiz Deus que pegasse a moda ; e d'aqui pôde 
vossa paternidade inferir o meu modo de pensar á 
vista das sensíveis provas de oitenta prisões que 
mandei fazer por escandalosa desnudez. . . » 

Foi no Pará. Justificando-se de acousações que 
lhe fizeram, D. João, respondendo a um prelado de 
mosteiro de sua Ordem, escrevia-lhe: «Ahi vae das 
muitas. Multei oitenta pessoas, por andarem nuas 
da cintura para cima e a nadarem á hora do meio 
dia debaixo das minhas janellas, homens e mulhe- 
res, abraçando-se publicamente, collarejas e solda- 
dos. Esta multa é do meirinho e carcereiro. Do 
bispo, nada.» 

As censuras da virtude própria aos desmandos 
alheios, ainda que expressas no tom faceto do seu 
génio galhofeiro e recolhidas em recônditas miscella- 
neas não destinadas á publicidade, comprehendiam 
presentes e ausentes, próximos e remotos, parentes 
e adherentes, extranhos e patrícios. 

Assim, de D. Luiz de Souza : 



134 PORTUENSES ILLUSTRES 

Arcebispo de Lisboa, da casa de Arronches. Teve suas 
verduras em rapaz. Feito prelado, deu -lhe na veneta para 
visitar Lisboa. Fallava n'isto com um irmão cónego, a tempo 
que um antigo creado, d'aquelles que tudo ouvem nas ante- 
câmaras, quando rezam por suas contas, — olhando para elle 
o prelado, disse-lhe: «Tu és quem nos has-de informar de 
quem e quem não anda amancebado. » Escusou-se o creado. 

> 

Teimaram. Até que o soccarrão, fingindo-se simples, lhes arru- 
mou com esta : « Eu nada sei, porque nada creio do que me 
dizem. Se me disserem que o snr. arcebispo tem a amiga 
na Mouraria, eu hei de crer isso? E, se me disserem que 
o snr. cónego a tem em casa, com dois filhos e uma menina, 
ou coisa similhante, hei-de eu crêl-o? Ora, deixem-me, meus 
senhores. 



Note-se que Camillo Castello Branco não se 
atreveu a publicar na integra a obra em seu poder. 
«Algumas paginas do volume manuscripto não se 
estampam. Cancellei-as em favor á memoria do 
bispo, em consideração aos netos dos contemporâ- 
neos do frade e em respeito á honestidade de quem 
lê ; bem que tal respeito custa ao leitor privar-se de 
rir á desgarrada das facécias rabelaicas do monge 
no mais florente da vida. » 

O que Camillo Castello-Branco entendeu publi- 
cavel, publicou-o em folhetins no Jornal do Com- 
mercioy de Lisboa, dos mezes de janeiro e seguintes 
de 1867. Recolhidos em volume, appareceram as 
Memorias de fr. João de S. Joseph Queiroz, bispo 
do Grão- Pará, em 1868, no Porto, como se disse 
já, e impressas na typographia da Livraria Nacio- 
nal, rua do Laranjal, 2 a 22. 



IV — MAGALHÃES — BERMUDES — BARRETO, &C. I35 

Archivado o facto em o «Supplemento», no 
artigo Camillo Castello-Branco por Innocencio, 
que ás memorias de fr. João de S. Joseph 
Queiroz volta a referir-se no artigo David Netto, 
2l continuação do dito «Supplemento» descui- 
dou-se de dispor verba para o bispo do Grão- 
Pará, que na altura devida d'esse «Supplemento» 
não apparece, todavia. 

« Não sei que livros portuguezes (escreveu jus- 
ticeiramente Camillo Castello-Branco) disputem a 
primazia e originalidade d'estas Memorias, » 

Fr. João denominara aos seus escriptos Mis- 
cellaneas; mas, na verdade, melhor lhes quadra o 
titulo que adoptou Camillo. 

Para a urdidura da biographia ante-posta á sua 
edição, além das espécies auferidas da correspon- 
dência, Camillo consultou o conselheiro José Sil- 
vestre Ribeiro, « um dos prestantes e mais doutos 
litteratos d'este paiz. » Este lhe acudira onde mais 
carecido se viu do seu auxilio, apontando-lhe o 
local, anno e dia dg, morte do bispo desterrado. 
Que o alegre frade teve como desfecho da vida 
mundana o desterro, e que desterro! No convento 
de S. João de Pendurada, ou Alpendurada, como 
hoje dizem, Entre-Douro-e-Minho. 

«Que desterro! 

«Alli entrou o bispo, precedido da noticia de 
sua infâmia e desgraça! 

«Era em fins de janeiro de 1763. 

« Que lúgubre lhe choraria tudo em volta d'elle ! 



I36 PORTUENSES ILLUSTRES 

Uns frades suspeitosos, cuidando que o consolarem 
o desterrado lhes acarretaria lenha e betume para 
os supplicios eternos. Uma casa escura, silenciosa, 
cheia das toadas gementes do vento a sibilar nos 
velhos vigamentos! 

«E alli, elle, o frade fidalgo da corte de D. 
Maria Anna d' Áustria e de D. José 1! O com- 
mensal dos duques, dos condes luxuosos, feitos 
na corte do Luiz xiv portuguez! Elle, o amigo, 
o convivente dos Cenáculos e Barbosas, alli, em 
meio de sandeus e fanáticos, que o fugiam como 
de leproso, a quem o governo, sequer, não conce- 
dia defender-se. . . 

«Que fazia? agonisava. 

«Mas, ainda assim, com a morte sobre o seio, 
seio robusto de cincoenta e três annos, que longos 
paroxysmos! 

«Viveu oito mezes. Morreu em 15 d'agosto de 
1764.» 

N'estas tintas eloquentes, senão strictamente 
equitativas, deplora Camillo Castello-Branco um 
descalabro lastimoso. 

Mas o que opportunamente melancholisa é a 
coincidência que se depara em uma das «miude- 
zas» apontadas á roda de 1761, a qual reza por 
este teor: 

Conheci na Ordem de n. p. S. Bento um padre antigo, fr. 
Roque, o qual contava que, sendo collegial e indo a ferias, se 
embarcara varias vezes com um barqueiro que exercitara cinco 
annos este officio, sendo monge benedictino. Apostatou, porque 



MAGALHÃES --BERMUDES — BARRETO, &C. 137 

o fizeram recolher e viver no mosteiro. Por fim, procurou a 
Ordem e se recolheu ao convento de Pendurada, o mais triste 
e amoldado á penitencia, onde a fez de seus peccados e morreu 
santamente. 

«Se o bispo se lembraria de ir, desterrado, 
morrer ao convento triste e amoldado á peniten- 
cial . . . » — annota Camillo Castello-Branco. 



V 



Francisco Bernardo de Lima 
— Arnaldo Gama 



B, 



Brilhante na sociabilidade foi essa epocha do 
Marquez de Pombal para o Porto; estamos no 
cyclo Almada, que comprehende até, quem o sup- 
poria?, a iniciativa da critica musical. 

Mas de facto. 

O snr. J. M. P. Pinto, que juntou e coordenou 
uns Apontamentos para a historia da cidade do 
Porto, impressos na Typographia Commercial, Bello- 
monte, 19, e á venda na livraria do hespanhol 
Ignacio Corrêa, Praça da Batalha, n. os 25 a 
28, escrevia, a pag. 1 20-1 21 de sua obra, o 
seguinte : 

O primeiro theatro que se abriu no Porto foi no Corpo da 
Guarda, do lado esquerdo, antes de se descer a calçada. Foi 
mandada organisar uma companhia de curiosos para represen- 
tar n'elle por occasiao das festas do casamento do príncipe D. 



HO PORTUENSES ILLUSTRES 

João (depois sexto do nome) com D. Carlota Joaquina de 
Bourbon, infanta de Hespanha. Esta companhia deu espectáculo 
gratuito na noite de 22, 23 e 24, convidando-se as auctorida- 
des, nobres e militares de graduação, e no dia 27 foi o theatro 
patenteado ao povo. Houveram (sic) corridas de touros na 
Torrinha e no Campo de Santo Ovidio, bailes de mssearas 
públicos e diversos outros divertimentos, assim como teve aqui 
logar a primeira ascensão de um areostato em que ia um 
homem. O largo do Corpo da Guarda tira o seu nome por ter 
alli havido uma estação da guarda maior ou principal, aonde 
havia calabouço para presos e gonilha, em que se prendiam e 
expunham os ladroes até serem mudados para a cadeia, em 
antes (sic) que a guarda fosse rendida. A casa em que estava 
a estação da guarda está presentemente (1869) oceupada pelos 
rapazes da calcetaria. 



No volume 1 da Encyclopedia Portugueza y sob 
direcção do talentoso e muito illustrado professor 
Maximiano de Lemos, um de Os do lyceu, serie 
começada, interrompida e que, querendo Deus, 
espero completar em volume especial, memora-se 
este theatro do Corpo da Guarda, do Porto: 
«inaugurado em 1762 com a opera 77 Transcurato* 
de Pergholese, cantando a primadona Giuntini. Foi 
o primeiro theatro do Porto onde se cantou opera 
italiana. > 

Pinho Leah em seu Portugal antigo e motUrno* 
faz especificada menção doesse theatro do Corpo da 
Guarda e, registrando os nomes beneméritos dos 
principaes cooperadores para sua feitura, presta 
homenagem pela iniciativa da recordação a Camillo 
Castello-Branco. Ella era a de desencantar a noticia 



V — BERNARDO DE LIMA ^-ARNALDO GAMA I4I 

curiosa das laudas olvidadas da folha de Francisco 
Bernardo de Lima. 

Este Francisco Bernardo de Lima, cónego secu- 
lar de S. João Evangelista, nasceu na cidade do 
Porto em 1727 e morreu em 1764, conforme a 
Bibliotheca Cirúrgica de Manuel de Sá Mattos, na 
qual nota Innocencio que se encontram espécies 
aproveitáveis para a sua biographia, ou em 1770, 
segundo a Descripçdo do Porto, de Agostinho Re- 
bello da Costa, que, a propósito do padre Francisco 
Bernardo de Lima, loyo, diz seccamente (veremos 
unrfhora porquê) que elle fora irmão de Bartholomeu 
Soares de Lima, de quem já fallara n'esse seu cata- 
logo dos homens illustres em lettras e armas que 
tinha até então produzido esta cidade, e do qual, 
em contraposição, fizera o mais pomposo elogio, 
chamando-lhe « um dos ecclesiasticos d'este século 
o mais erudito, e versado na historia sagrada, pro- 
fana, poesia e bellas-lettras. » 

Porém para a historia da sociabilidade portuense 
e da civilisação geral portugueza, outra é a impor- 
tância de seu irmão Francisco Bernardo de Lima, 
meu illustre collega em jornalismo, por sua Gazeta 
litteraria y ou noticia exacta dos principaes escriptos 
modernos. . . Obra periódica. O tomo 1 imprimiu-se 
no Porto por Francisco Mendes de Lima em 1761, 
sahindo a parte 11 no mesmo anno em Lisboa, sem 
nome do impressor. O tomo 11 foi estampado tam- 
bém em Lisboa em 1762 por Miguel Rodrigues. 
Principiou a publicação d'estas Gazetas em janeiro 



142 PORTUENSES ILLUSTRES 

de 1761, e findaram em junho de 1762. No primeiro 
anno foram semanaes, porém no segundo passaram 
a ser mensaes. 

«A maneira por que são redigidas dá claro tes- 
temunho (proclama Innocencio) da universalidade 
de conhecimentos e erudição do auctor. Contém, 
afora outros artigos, muitos juizos críticos e bem 
ajustados de varias obras portuguezas sahidas por 
aquelle tempo. » 

Ora, é ahi que se encontra a noticia desenvol- 
vida e commentada da opera cantada no theatro e 
cujo libretto se imprimira para guia do espectador; 
na Historia do theatro portuguez do dr. Teophilo 
Braga, onde se lembra o insuccesso do primeiro 
conhecimento da opera na capital, se estuda o ten- 
tamen portuense; ahi se analysa o trabalho critico 
do padre Francisco Bernardo de Lima. Este eluci- 
dativo exame encontra-se no volume 111. 

Em sua Historia do theatro em Portugal, o snr. 
João Salgado diz que «no Porto também existia 
um theatro lyrico. » «Ahi foram até 1762 successi- 
vamente representadas, pela ordem que enumera- 
mos, as operas — Armida, Theseo de Lulli (assim 
typographicamente), Alcioe (de Marais), e a celebre 
opera-comica de Pergolèse, // Transcurato, desem- 
penhadas todas pela companhia da Giuntini.» 

Todavia, no «Diccionario das operas», de 
Félix Clément e Pierre Larousse, não dei com 
menção d'este Transcurato. Riemann, no «Diccio- 
nario da Musica», tractando de Pergolèse falia do 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I43 

drama bíblico da Conversionc di San Guglielmo di 
Açuitania, de suas primeiras operas: La Sallustia, 
Amor fa /'uomo cieco, Rienvero; da sua obra prima 
— de musica de theatro, pois que a sua verdadeira 
obra prima é de musica de egreja, o Stabat mater, 
reputadissimo — Iji serva padrona; das composi- 
ções que elaborara para Nápoles (II maestro di 
musica, Lo frato'7mamorato, em dialecto napolitano, 
Adriano in Siria, com o « intermezzo » Livieta e 
Tracolo — (La contadina astuta), Flaminio etc.) ; 
emfim, do único trabalho que effectuou para Roma 
(Olimpíade, 1735), infelizmente sem successo; mas 
designadamente // Transcurato não apparece em 
Riemann, que deu «por completo o catalogo das 
operas conhecidas de Pergolèse. » Designadamente 
não se topa outrosim na «Biographia geral dos 
músicos», de Fétis, que assignala a confusão das 
especificações das obras scenicas de Pergolèse, isto 
é, Giovanni-Baptista Pergolèsi, um dos mais notá- 
veis compositores da eschola napolitana, morto 
prematuramente na edade fecunda de vinte-e-seis 
annos. 

Cumpre notar, o que se não tem feito, que, 
quando discorre de // Transcurato, ó padre Fran- 
cisco Bernardo de Lima não escreve que a opera 
seja do napolitano ; elle queixa-se de que a Giuntini 
alinde com floreios de sua casa as árias de Pergo- 
lèse; n'esse exemplo fundamentando theoria. En- 
gano congénere para com as operas de Lulli e 
demais apontadas pelo snr. Salgado, advirta-se. 



144 PORTUENSES ILLUSTRES 

O theatro do Porto não primava pela elegância 
nem pelo conforto nem sequer pelas condições 
acústicas. O inglez Ricardo Twiss, de quem ha 
(apezar de o nome d'este escriptor viajante faltar, 
segundo a observação de Manuel Bernardes Branco, 
tanto na Biographie Universelle de Firmin Didot 
como no Dictionnaire universel d'histoire et gêogra- 
phie, por Bduillet), traduzida do inglez, uma relação 
em francez, publicada em Berne em 1776, da 
digressão que elle fez em Portugal e na Hespanha 
em 1772 e 1773, escreve sem feição e á má cara: 
«O theatro do Porto é um dos peores do reino, é 
velho e muito sujo. Vi alli representar Demofonte 
d'uma maneira muito proporcionada á belleza da 
salla. » 

Oue diabo do exótico descontentamento, difficil 
de contentar! O allemão Link, que ficara surpre- 
hendido á vista da nossa cidade, observada do alto 
de Villa Nova de Gaya («Lisboa annuncia-se ao 
longe, com toda sua grandeza e magnificência; 
Coimbra jaz em planície deliciosa, banhada pelo 
Mondego ; mas o Porto surprehende pela altura da 
sua situação»), exara, nas notas de sua viagem, 
emprehendida por suggestão e de companhia com 
o conde de Hoffmanseg desde 1797 até 1799, que 
tam desastradamente seu architecto se desempe- 
nhara da incumbência da feitura do theatro do Porto 
que nada se ouvia nos camarotes. 

(« Depois de termos atravessado F rança e Hes- 
panha (em seu prefacio, Link conta), chegamos a 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I45 

Portugal. Desejando percorrer com fructo este paiz, 
alli passamos a maior parte de 1798. ») 

Em 1798, a 13 de maio, dia dos annos de D. 
João, teve a sua primeira abertura o novo theatro 
do príncipe D. João (hoje de S. João), d'esta arte a 
refere o snr. J. M. P. Pinto, que relata que a com- 
petente planta, mandada tirar, fora submettida ao 
príncipe regente D. João, que a approvara por aviso 
de 19 de outubro de 1794, principiando as obras a 
19 de abril de 1796. Depois o snr. J. M. P. Pinto 
entrega-se a divagações, historico-financeiras, de 
uma má-lingua assas azeda. Mas nós prestes regres- 
saremos á quietude erudita e critica do meu bom 
collega em lettras jornalísticas, o nosso padre Fran- 
cisco Bernardo de Lima. 

Não tam isento e indemne que não sentisse, 
rudes e cortantes, os ossos-do-officio, por suas apre- 
ciações concitando a sanha de desabridas polemi- 
cas, de entre cujo fragor resalta o vitupério dos 
plagiários apodos, destacantes na flagrância do 
cotejo de lanços, a par postos em lauda, a meio 
dividida adrede pela malignidade de tarja, a um 
tempo discriminante e approximante. Texto accusa- 
torio : Journal des Savants. 

E' bem certo. Não ha nada novo n'este mundo 
e a cada instante se pôde retomar o thema, de 
Dutens, da origem antiga das modernas descobertas. 
Que lastima! A múmia que dialogou com Edgar 
Poe, em prol das revindictas da originalidade actual, 
só nos concedeu a cirj-à-moustache; mas então, 

VOU I. H» 



I46 PORTUENSES ILLU5TRES 

sim, enfiou. A Antiguidade não conheceria o em- 
prego da brilhantina nos bigodes? Porém de nossas 
restantes sabenças, artes e manhas — tudo o mais, 
para ella, era coisa velha e relha. 

Como para os tripeiros de 1762 — ha redondos 
cento e cincoenta annos — usança era já ir até ao 
tyrico. Ora esta! Que petulância de jarretas! 

E na Gazeta litteraria, « obra periódica», do loyo 
Lima, praxe seria que os menos tardos do toutiço 
se illustrassem com as argutas apreciações do 
drama jocoso elaboradas pelo doutissimo cónego 
secular de S. João Evangelista. 

Quiçá exhumações destas deprimam a basofia 
do hodierno dilettantismo; mas, vistas as coisas 
por outro prisma, não deixa de ser agradável 
saber-se que não procedemos de beócios, de todo 
em todo, adustos. 

Ao contrario. Bem longe d'isso. 

Mas no cyclo que aspecto de confortabilidade, 
em ostensivo relance, o Porto offereceria? 

Em 1772 esteve no Porto o snr. Ricardo Twiss, 
gentil-homem inglez, membro da Sociedade Real, 
que, « não encontrando estalagem alguma soffrivel, 
foi alojar-se para a casa d'um inglez no cães.» Foi 
vêr a egreja de S. Francisco, que se encontra, diz, 
decorada de esculpturas de madeira dourada, que 
fazem, aprecia, um effeito péssimo. «Observei nas 
paredes abundância de cartas, presas a barbantes e 
endereçadas ao bemaventurado S. Francisco. Como 



V — BERNARDO DK LIMA — ARNALDO GAMA , I47 

estavam abertas, tomei a liberdade de lêr algumas 
d'ellas e não deparei mais do que com cumprimen- 
tos de agradecimento por curas obtidas, ao que 
diziam as pessoas que as tinham escripto, pela 
intercessão do Santo.» 

Entrando em Portugal pela Galliza, em 1774, 
outro inglez, o major W. Dalrymple queixa-se 
amargamente da estallagem de Valença e capitula-a 
da mais miserável estallagem do mundo; em nota 
explica que estallagem é uma hospedaria e que 
corresponde á posada dos hespanhoes. Chegado ao 
Porto, a hospedaria em que se alojou foi uma casa 
ingleza, « que me pareceu bem consolante, se posso 
servir-me d'este termo. » Estava-se então a 20 de 
setembro. E de Lisboa, a 13 de dezembro, Dalrym- 
ple conta que no Porto fizera conhecimento com 
um acepipe do paiz, «que é seguramente a mais 
deliciosa coisa do mundo: chamam-lhe uma Olla 
Gaspachio; é arroz cosido com fatias de vacca e 
enxúndia de' peru.» Logo adeante escreve estas 
linhas que vos surprehendem, decerto, a vós- 
outros : « É espantoso que uma nação, tal como é 
a dos inglezes, os quaes levam o requinte ao 
ultimo ponto, possa persistir por tam longo tempo 
no uso d'uma beberagem tam detestável como seja 
o vinho do Porto. No seu estado natural, é agra- 
dável ; mas, para abalar as fibras dos nossos pala- 
dares septentrionaes, misturam-lhe uma tal quanti- 
dade d'agua-ardente que se torna um veneno 
mortal para quem d'elle usa. » 



I48 PORTUENSES ILLUSTRES 

Este major era observador, e irónico, sans en 
avoir rair. « Observei, diz elle, que muitas pessoas, 
e sobretudo os rapazes novos, andam d'oculos nas 
ruas. Este costume é satyrisado no theatro em 
Hespanha, mas aqui não acontece a mesma coisa; 
é uma affectação mui extravagante, porque, com 
toda a certeza, o estudo não fará perder a vista a 
pessoa alguma d'este reino ; a litteratura é aqui não 
se poderia imaginar menos cultivada. » 

Tem a data de 1777 a viagem do pseudo-ex- 
duque du Chatelet em Portugal, que no anno vi da 
Republica appareceu em Paris, annunciada, revista, 
corrigida sobre o manuscripto e augmentada de 
notas por J. Fr. Borgooing. Do Porto o auctor 
(seja Comartin) diz que esta cidade é, depois de 
Lisboa, a primeira de Portugal e que até ella 
«haveria infallivelmente apagado Lisboa», se não 
fossem os perigos que apresenta a entrada do seu 
porto, mercê dos rochedos que obstruem a barra e 
determinam a agglomeração das áreas. « A compa- 
nhia do commercio inglez propuzera destruir esses 
rochedos, limpar a passagem e tornal-a emfim 
praticável; mas os portuguezes responderam que 
jamais concordariam em destruir a melhor defeza 
que possuíam contra os insultos dos mouros.» 
Todas as objecções as mais plausiveis foram impo- 
tentes perante sua pertinácia; não obstante, vivia-se 
no Porto muito mais barato do que em Lisboa e 
com muitas mais commodidades. 

A 18 de janeiro de 1789, á noite, ao Porto che- 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I49 



s 



garam, que se saiba pela inconfidência da lettra- 
redonda, passageiros interessantes, consistindo em 
dois estudantes destinados á universidade de Sala- 
manca e no architecto inglez James Murphy, que 
foram conduzidos a uma estalagem ingleza, onde 
estabeleceram sua residência. «A primeira coisa 
que se apresenta á observação d'um extrangeiro, á 
sua chegada ao Porto, é o exterior devoto dos habi- 
tantes. A religião parece ser — pondera o artista — 
a sua única occupação. De dia, a attenção é attra- 
hida pelo som dos sinos, pelo movimento das 
procissões e pelas rezas dos frades; de noite, o 
somno é interrompido pelo cântico dos hymnos. » 
Logo desponta o architecto: «O Porto, como a 
mór parte das cidades antigas, tem o defeito de ser 
apertado, e ao mesmo tempo tam irregular que mal 
se topará com uma casa de ângulos rectos: o que 
conduz naturalmente o viajante a suspeitar que no 
Porto jamais se conheceu a proposição quarenta-e- 
sete do primeiro livro d'Euclides. Por as casas que 
formam os cunhaes das ruas estarem dispostas 
obliquamente, dão a mesma apparencia ás adjacen- 
tes, seguindo cada qual a curva descripta pela sua 
visinha. Assim, como se vê, tudo são rhomboides e 
trapézios, defeito que se teria podido evitar no 
principio perdendo uma nesga de terreno; mas 
não existem muitas cidades em Portugal que o 
sacrifício quizessem fazer de alguns pés de sua 
propriedade ao objecto ao qual Pythagoras sacrifi- 
cou outr'óra cem bois. » 



I50 PORTUENSES ILLUSTRES 

Da maioria das ruas do Porto, Miirphy diz que 
são tam escarpadas que os transeuntes dão mais o 
aspecto de trepar do que de caminhar. As egrejas 
são vastas e pezadas massas, destituidas inteira- 
mente de tudo o que constitue a beila architectura. 

«Os portuguezes, todavia, têm artistas de mé- 
rito; mas, por desgraça, não são animados pelo 
governo. Eu conheci no Porto um pintor chamado 
Glama, que daria honra ás melhores escholas da 
Europa, por pouco que se houvesse secundado a 
natureza no desenvolvimento do seu génio recôn- 
dito. Natural de Portugal, tinha passado muitos 
annos na Itália, onde chegou a adquirir uma 
correcção de desenho e uma pureza de colorido 
que indicavam talentos pouco communs. Não 
obstante, assegurou-me elle que se encontrava na 
situação de quasi reduzido a morrer de fome, posto 
que pintasse tudo o que se lhe apresentava, desde as 
taboletas das tabernas até ás cabeças dos santos.» 

Não que a gente do Porto seja fanática, se bem 
que mui supersticiosa, aos olhos de Link, que no 
Porto esteve, viajando em Portugal desde 1797 até 
1799) de parceria com o promotor da digressão, o 
conde de Hoffmansegg. «Assistimos aqui á festa 
do Corpo-de-Deus e vimos a procissão. Que diffe- 
rença entre os portuguezes levianos e os nossos 
camponezes catholicos, cheios de devoção e de 
carolice! O portuguez tagarella, ri, graceja, ajoe- 
lha-se gracejando ; e, mal apenas a dois passos está 
da procissão, que logo põe o chapéu na cabeça. O 



V — BERNARDO DE LIMA ARNALDO GAMA 151 

povo, de resto, é cTum caracter benovolente, e o 
Porto, n'esse tempo, era, cfalgum modo, o opposto 
de Lisboa. Gozava-se n'esta cidade da maior segu- 
rança; os roubos e os assassinatos eram raríssi- 
mos. Todavia, fallava-se, ás vezes, em punhaladas, 
dadas por ciúme. A cortezia e a amabilidade do 
povo é extrema; a própria lingua parece prestar-se 
ao effeito, pois que entremeada seja de phrases 
alegres e chocarreiras. » 

A parte alta do Porto pareceu a Link excellente. 
«Julga-se haver-se deixado Portugal; imagina-se 
estar-se n'uma cidade dlnglaterra, por causa da 
claridade e da limpeza que hi reinam. O Porto é, 
em geral, a cidade mais elegante do paiz. . . » 

Ai de nós! Isto escrevia-se em 1798. 

Anteriormente, á quadra de Francisco Bernardo 
de Lima» ao Porto o vemos, como o vimos, em 
mundana festa. 

E, todavia, esta epocha amável d'um Porto 
elegante quadra foi de atrocíssimos horrores, indi- 
zíveis. 

Digamol-os, para de memoria. 

Recapitula Simão José da Luz Soriano que, 
segundo o que, em sua compilada historia do 
reinado de el-rei D. José e da administração do 
marquez de Pombal, precedida de uma noticia, que 
o auctor diz reputar breve, dos antecedentes reina- 
dos a começar no de el-rei D. João iv em 1640, já se 
vira, o tractado de Methwen, negociado e em 1703, 
não só tinha arruinado a industria manufactureira 



152 PORTUENSES ILLUSTRES 

mas também a agricultura portugueza, levando to- 
dos os lavradores a entregarem-se unicamente ao 
amanho e fabrico dos vinhos com total desprezo 
de todas as outras culturas, porque, emfim, havendo 
o vinho do Douro depois do primeiro anno de 
duração d'aquelle convénio attingido o preço de 
6o$ooo reis por pipa, o resultado conclue Soriano 
que forçosamente redundaria aquelle. 

Ao estado de procura e preço tentador do vinho, 
seguira-se o da abundância, e promiscuamente com 
esta o da sua grande-' adulteração, excitada pela sof- 
freguidão do ganho, não só entre os próprios ingle- 
zes, compradores e negociantes d'este género, mas 
egualmente entre os mesmos lavradores, já ado- 
ptando errados systemas no tempero dos seus vi- 
nhos, e já falsificando-os de má fé, nas vistas de 
augmentarem a sua quantidade, recorrendo, depois 
da expressão da uva nos lagares, a cores artificiaes 
por meio de drogas, extranhas á sua natureza. O 
resultado d'isto fora o total descrédito em que de 
prompto cahiram todos os nossos vinhos, incluindo 
até os do Douro, que, de 1750 a 1755, os me- 
lhores e mais finos não passavam de io$ooo reis 
por pipa, e os immediatos de 6$ooo a 8$ooo reis; 
e, ainda assim, não alcançavam compradores, quando 
taes preços não chegavam aliás para as despezas do 
amanho. Conseguintemente, concilie ainda Soriano, 
a penúria e a miséria dos proprietários dos districtos 
vinhateiros do Douro tinha chegado ao seu auge. 

N'este deplorável estado se encontrava a cul- 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I53 

tura dos vinhos cfaquelles districtos quando (So- 
riano prosegue) um hespanhol biscainho, negociante 
d'este género e residente no Porto, chamado D. 
Bartholomeu Pancorvo, se lembrou da instituição 
de uma companhia, cujo plano traçara, de accordo 
e intelligencia não só com fr. José Mansilha, reli- 
gioso da Ordem dominicana e conventual n'esta 
nossa mesma cidade do Porto, mas egualmente de 
accordo e intelligencia com alguns lavradores do 
Douro e homens bons da nossa sobredita cidade. 

Foi o frade portuense José Mansilha o que de 
propósito se marchou a Lisboa, a apresentar o pro- 
jecto a Sebastião José de Carvalho e Mello e a com 
este ministro debater maduramente a grande utili- 
dade que ao paiz resultaria da sua immediata ado- 
pção. O conde de Oeiras andara com toda a pru- 
dência na resolução de tam importante negocio. 
Para este fim exigira elle um mappa da colheita 
dos vinhos nos últimos dez annos ; calculara o preço 
por que tinham sido vendidos aos extrangeiros, re- 
lativamente á colheita de cada um d'esses annos e, 
pela media resultante, estabelecera o preço por que 
a projectada companhia devia comprar os vinhos 
aos productores. Sobre esta base elaborara, pois, a 
proposta que apresentou a el-rei na data de 31 de 
agosto de 1756, a que depois se seguiu, no dia 10 
do immediato mez de setembro, a promulgação do 
alvará por que definitivamente se approvou a crea- 
Ção da Companhia geral das vinhas do Alto Douro. 

A qual nasceu com a exorbitância de três previ- 



154 PORTUENSES ILLUSTRES 

legios exclusivos, favores excedentes dos quaes o 
primeiro consistia em vender por miúdo no Porto e 
em quatro léguas da sua circumferencia, ainda mesmo 
dentro do terreno demarcado para o vinho de 
embarque, todo o vinho chamado do ramo, ou 
aquelle fornecido ao povo nas tabernas, e que a 
dita Companhia comprava dentro dos sitios que 
produziam o mais ordinário, mirando-se com isso 
a evitar a mistura dos vinhos maus com a dos vi- 
nhos finos, pratica que Soriano proclama aliás per- 
niciosa e que, a seu aviso, por si só bastava para 
arruinar o commercio de tal género. Todo o manejo 
da Companhia se fazia por um corpo politico, a que 
chamavam Junta da administração da Companhia 
geral da agricultura das vinlias do Alto Douro, a 
qual se compunha de um provedor, sete deputados 
e um secretario. A sua duração era biennal e consti- 
tuída por eleição dos accionistas da mesma Compa- 
nhia, com approvação e confirmação do governo, 
que, abusando d'esta prerogativa, algumas vezes 
chegou a nomear certos membros da referida Junta. 
Ora, o caso é que — e aqui começa o drama — , 
vendo-se alguns taberneiros privados dos grandes 
lucros que auferiam por meio das suas respectivas 
tabernas (assim o interpreta Soriano), romperam no 
desatino de se agregarem a algumas meretrizes, 
rapazes, escravos e outra gente infame, para exe- 
cutarem todos juntos um motim que parecesse justa 
consequência dos males que comsigo trazia simi- 
lhante Companhia. 



V— BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I55 

Com estes elementos, Soriano, que não era aliás 
nenhum fidalgo, relata que «toda a plebe a mais 
infima do povo do Porto » se amotinou, na manhã 
de 23 de fevereiro de 1757, que cahiu a uma 
quarta-feira de Cinza; e, juntando-se no largo da 
Cordoaria, d'aquelie sitio partiu, pelas nove horas, 
em differentes bandos. Defronte do chafariz de S. 
Domingos se ajuntaram novamente, onde todos 
clamaram, a uma voz : Viva o povo, morra a Com- 
panhia. Era n'aquelle sitio que morava o juiz-do- 
povo; e,- invadindo-lhe a casa e achando-o doente 
(ou real ou fingidamentej, obrigaram-o a entrar 
n'uma cadeirinha e por esta forma o levaram a 
casa do Chanceller, que egualmente servia de rege- 
dor-das-justiças. 

Entretanto, subiram alguns rapazes ás torres 
das egrejas da Misericórdia e da Sé ; e, tocando os 
sinos a rebate, attrahiram grande parte da plebe, de 
sorte que, indo o juiz-do-povo dentro da cadeirinha 
e tendo passado toda a rua das Flores, o largo da 
Feira, a rua do Loureiro e a rua Chã, quando che- 
gou á porta do dito Chanceller, já a turba que o 
acompanhava excedia o numero de quinhentas 
pessoas. No meio d'esta agitação e tumulto, não 
cessavam os gritos de: Viva el-rei, viva o povo, 
morra a Companhia. 

Ouvindo o Chanceller-governador similhante 
confusão de gente, e instado pelo juiz-do-povo, 
que lhe pedia a extincção da Companhia, teve de 
expedir ordem para que cada um podesse comprar 



I56 PORTUENSES ILLUSTRBS 

e vender vinhos livremente. Então, o povo, satis- 
feito com isto e transportado de alegria, acenando 
com os lenços e com os chapéus, bradava em altas 
vozes: Viva, viva, temos liberdade. 

Emquanto isto assim passava, um rancho dos 
amotinados accometteu a casa de Luiz Belleza, que 
era o provedor da mencionada Companhia e mora- 
dor na mesma rua Chã. Não passaria a maior 
excesso este accomettimento, se um homem furioso, 
que estava casualmente em casa do provedor, e um 
seu criado não disparassem contra o povo dois tiros 
de bacamarte, com que apenas feriram alguns rapa- 
zes. Isto fizera subir ao maior auge posssivel o furor 
dos conjurados, que, «como leões raivosos», se 
lançaram aos espelhos, cadeiras, mezas e outros 
moveis de preço que adornavam a salla e que todos 
ficaram em pedaços. Depois subiram aos segundos 
e terceiros andares, procurando, diligentes, os que 
dispararam os tiros ; mas /ião os encontraram, por- 
que, antevendo a sua ruina, tinham-se ido refugiar 
no corpo da guarda. Desenganados de não poderem 
vingar-se por este lado, voltaram a quebrar o resto 
dos moveis e a dilacerar os papeis pertencentes á 
Companhia, que rasgaram e calcaram a seus pés. 

Fora no meio d'estas circumstancias que acudira 
a tropa, com o seu tenente-coronel, Vicente da Silva, 
o qual servia de governador-das-armas, com subor- 
dinação ao governador-das-justiças, no que respei- 
tava aos negócios e regulamentos da Companhia 
das vinhas do Alto Douro; mas, recebendo doeste 



» V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 157 

ordem expressa para que não coarctasse o povo, 
veio a ser testemunha indifferente de similhante 
desordem, aliás de ephemera e curta duração, pois 
pelas três horas da tarde achava-se a cidade em 
pleno e completo socego. De modo que, sahindo 
por aquella hora a procissão da Cinza, feita pelos 
Terceiros de S. Francisco, nem já signaes havia do 
que poucas horas antes se passara. 

Este tumulto, engrandecido na imaginação do 
ministro do reino, Sebastião José de Carvalho, o 
foi a um ponto tal que logo na data de 28 do 
mesmo fevereiro de 1757 uma carta regia se expe- 
diu ao desembargador da meza do paço, João Pa- 
checo Pereira de Vasconceilos, nomeando-o juiz de 
uma Alçada, para vir ao Porto inquirir e castigar 
severamente um motim, que se tinha na conta de 
uma rebeliião formal. Para escrivão d' essa Alçada 
deu-se-lhe o seu próprio filho, o desembargador 
José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de 
Mello. Munidos estes dois desembargadores de 
ordens secretas e poderes discricionários, tanto no 
civil como no militar, partiram occultamente de 
Lisboa para o Porto, em desempenho da sua com- 
missão, dando-se-lhes para seu auxilio o regimento 
de dragões de Aveiro, de que era coronel D. Antó- 
nio Manuel de Vilhena, dois ditos de infanteria, um 
do Minho, de que era coronel Luiz de Mendonça 
Furtado, e outro de Traz-os-Montes, do qual fora 
nomeado coronel Vicente da Silva; levaram mais 
um esquadrão de cavallaria ligeira da praça de Cha- 



I58 PORTUENSES ILLUSTRES 

ves, commandado pelo tenente coronel João Pinto 
Rubim; além d* estes corpos, outro tinham também 
ás suas ordens, na força de mil e duzentos homens 
de infanteria, que era o da guarnição do próprio 
infeliz Porto. 

Sem que ninguém o esperasse, amanheceu um 
dia cercada esta cidade, dando-se ordem á tropa de 
não deixar entrar nem sahir d'ella pessoa alguma. 
Realisado que foi o cerco, entraram para dentro do 
Porto os officiaes da Alçada, depois dos quaes se 
seguiu a tropa, que foi aboletada pelas casas dos 
seus moradores, sem se admittir excepção de pes- 
soa, por qualidade, foro ou sexo, impondo-se aos 
donos d'essas habitações a obrigação de sustenta- 
rem os aboletados que lhes tirtham sido distribuídos. 

Tudo isto foi feito em conformidade da carta 
regia, expedida á camará do Porto na data de 10 
de abril, em a qual se lhe ordenava que a tropa 
mandada em auxilio da Alçada fosse aboletada mais 
particularmente por aquelles bairros d'onde tinham 
sahido os amotinadores, devendo os aboletados 
n'esses mesmos bairros ser em numero duplo do 
dos outros, intimando-se aos respectivos patrões a 
obrigação de os sustentar, porque, quanto aos 
soldos e munições de guerra, a sua importância 
devia ser paga por meio de uma contribuição geral 
que, para esse fim, se lançou egualmente á cidade. 

O restante que seguiu foi uma perversa abomi- 
nação, que rematou por uma hecatombe trágica. 

Começou-se por uma d'essas farças repellentes 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 159 

em que, de todo o tempo até nossos mesmos dias 
com a ceremonia das exauctoraçôes militares, se 
compraz a fera philaucia do prestigio da auctoridade. 
Chamou-se primeiramente o juiz-do-povo, que a 
esse chamamento compareceu o mesquinho com os 
adornos próprios do seu cargo: sendo conduzido á 
praça, no meio d'ella lhe tiraram a vara da mão, 
para lh'a fazerem em pedaços, e logo após isto lhe 
arrancaram a cabelleira, para lhe darem com ella na 
cara. Ligadas, por fim, as mãos atraz das costas, 
foi com a maior ignominia conduzido da cidade para 
o castello de S. João da Foz. Todos os da casa-dos- 
vinte-e-quatro foram egualmente presos, bem como 
muitos homens, mulheres e rapazes, de que se en- 
cheram as cadeias, os cárceres e o mesmo castello 
da Foz. 

As irregularidades do processo notabilisaram-se 
por escandalosissimas, visto ser o juiz e o escrivão 
da devassa um só e único individuo ; elle era o pró- 
prio que exarava os ditos das testemunhas e os de- 
poimentos das partes, o mesmo que procedia aos 
interrogatórios e atormentava os réus a seu arbítrio 
e, finalmente, o que somente escrevia aquillo que 
lhe fazia conta. Muitos dos desgraçados réus, obri- 
gados pelas violências das torturas, confessaram 
culpas que não tinham, havendo outros que, pelo 
mesmo motivo, concordaram em convir n'aquillo 
que se lhes ensinava, ou pelo medo dos tratos com 
que os ameaçavam ou também pelas seducções com 
que os attrahiam, dizendo-lhes ser todo o processo 



IÓO PORTUENSES IL LUSTRES 

encaminhado a um geral perdão. Por esta forma, 
assignaram aquelles miserandos tudo o que d'elles 
se quiz que assignassem ou para tal fim se lhes 
propunha, sem attenção á verdade, fechando-se, 
por fim, a devassa como o escrivão a quiz fa- 
bricar. 

Por outra parte, não houve immunidade que este 
monstro de crueldade não violasse, honra ou fama 
de mulher que este homem deshonesto e torpe não 
denegrisse e, finalmente, espécie alguma de aleivosia 
que não commettesse, porque — assim nol-o dar a 
lêr Soriano — , penetrando em mosteiros, devassando 
conventos, recolhendo e ouvindo mulheres casadas 
e filhas honestas que lhe vinham pedir pelos maridos 
e pães que tinham presos, nas casas que destinava 
para fallar, a pretexto de averiguações secretas, ás 
que melhor lhe pareciam, n'elias as entretinha e con- 
versava por todo o tempo que queria, para satisfa- 
ção dos seus libidinosos e brutaes appetites, conse- 
guindo pelo temor do castigo e pela promessa do 
perdão o que por nenhum outro modo ou empenho 
d'ellas alcançaria. E, por fim, não só enforcou ma- 
ridos e pães mas até mesmo algumas d'essas que 
por este modo corrompeu, consoante o escreve So- 
riano, reportando-se do manuscripto da Vida do 
marque z de Pombal para que appella. 

Este malvado encheu de afflição e de medo todos 
os moradores do Porto; constantemente andava 
pelas ruas da cidade com uma guarda de cavallaria 
após si, e na devassa que abriu mostrou todo o 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA IÓI 

empenho de envolver pessoas de certa elevação 
social, para fazer persuadir ao patrono — Soriano o 
julga — que, pela sua muita diligencia e zelo, tinha 
conseguido atalhar uma rebellião formal. 

Apezar, comtudo, de a meditada e composta 
prova da culpa ser escripta na devassa pelo modo 
que fica dito, os desembargadores da Relação e os 
juizes d'ella dissentiram do parecer do relator e 
presidente da Alçada, por assentarem que o crime 
não passava além de uma simples assuada; e, n'esta 
conformidade, votaram que só lhe competia uma 
pena arbitraria, e não a capital. Mas o presidente, 
sem embargo da sua reputação de bondade, não 
consentiu que assim se lançasse a sentença ; e d'esta 
opinião dos vogaes deu conta ao secretario de Es- 
tado, Sebastião José de Carvalho. Este mandou 
asperamente reprehender os juizes da Relação, pelo 
errado juizo que formavam do procedimento havido, 
declarando-lhes que o crime era de lesa magestade de 
segunda cabeça, e, como tal, se lhe devia applicar 
a pena da lei, ficando por esta advertência enten- 
dido o que em casos similhantes se devia praticar 
no futuro. Acceitaram os juizes a reprimenda do 
ministro com notável submissão; e, na conformi- 
dade do que se lhes ordenara, proferiram no dia n 
de outubro de 1757 a respectiva sentença, que logo 
no dia 12 se executou nos réus condemnados á 
morte. 

Agora, do capitulo xxn de Um motim ha cem 
annos: 

VOJ... I. J I 



IÓ2 PORTUENSES ILLUSTRES 

Amanheeeu o medonho 14 de outubro de 1757. 

Dia de maior horror jamais raiara no Porto. Silencio pro- 
fundíssimo reinava em toda a cidade. Parecia que o anjo da 
morte a tinha fulminado com o extremo rigor da justiça de 
Deus, transformando a ruidosa e activa capital do norte do 
reino em enorme cemitério, onde as casas se erguiam como 
cenotaphios de grande população extincta. 

Desde a meia noite até o romper d'alva differentes bandos 
de serventuários da Misericórdia tinham percorrido, segundo o 
estylo, as ruas, pedindo orações pelas almas dos condemnados. 
De quando em quando, á esquina ou no meio de uma rua, 
soava o tinido funerário de uma campainha, e uma voz bra- 
dava em tom lamentoso : « Resae um Padre Nosso e uma Ave- 
Maria pela alma dos nossos irmãos que hão-de padecer 
amanhã. » Mal raiou o sol, grande numero de irmãos da Santa 
Casa espalharam -se por toda a cidade, pedindo esmola para 
suffragios pelas almas dos padecentes. Os sinos da Misericór- 
dia começaram então de dobrar a finados; e, minutos depois, 
todos os campanários do grande numero de egrejas do Porto 
dobravam no mesmo som. Ao mesmo tempo uma grande mul- 
tidão de aldeãos e de gente da ralé caminhava apressada para 
a alameda da Cordoaria, a vêr quem primeiro se apossava dos 
logares d'onde melhor se podia presencear a carnificina e 
saciar d'esta forma o instincto selvagem que arrasta o popu- 
lacho para as scenas de sangue. 

Jamais condemnado havia sahido para o logar do suppli- 
cio antes das onze horas da manhã. Mas d'esta vez o grande 
numero que havia d'elles e o extenso giro que a ferocidade de 
Mascarenhas tinha ordenado que dessem pelas ruas da cidade, 
em conformidade com o determinado pela sentença que elle-pro- 
prio lavrara, obrigou a an 4 ecipar a hora da sahida da fúnebre 
procissão. 

A's oito horas menos um quarto, um grande numero de pes- 
soas estava agglomcrado na então denominada praça das Hortas, 
defronte da porta nobre do hoje palácio municipal, onde então 
a Relação funccionava provisoriamente n'aquella epocha. 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 163 

A Alçada estava reunida para decidir os embargos inter- 
postos, em nome dos condemnados, pelo licenceado Luiz Gomes 
da Costa, que era então advogado da Misericórdia. Ninguém 
acreditava na efficacia d'este ultimo recurso; mas era o ultimo 
c por isso todos estavam suspensos d'esta derradeira esperança. 
Por fim, ás oito horas, José Mascarenhas sahiu, acompanhado 
pelos officiaes da Alçada, e tomou o caminho da Relação. 
Minutos depois soube-se que os embargos tinham sido despre- 
zados e que apenas se tinha suspendido, por quatro mezes, a 
execução da Estreitada^ em razão de allegar e de se ter verifi- 
cado, por exame, que andava gravida de sete mezes. 

Os padecentes na forca estavam, pois, reduzidos a treze 
homens e quatro mulheres. 

Os homens eram: o juiz do povo José Fernandes da Silva, 
o Lisboa; Caetano Moreira da Silva; José António de Beça; 
Domingos Nunes Botelho; Filippe Lopes de Araújo; Thomaz 
Pinto; Balthazar Nogueira; Marcos Varella; José Rodrigues, o 
Grande; João Francisco, o Mourào; Manuel da Costa, sar- 
gento do regimento de infanteria da guarnição do Porto; e 
José Pinto de Azevedo, e António de Souza, o Negres> ambos 
soldados do mesmo regimento. 

As mulheres eram : Michaela Quitéria, mulher de Caetano 
Moreira da Silva; Maria Pinta, mulher do soldado António de 
Souza, o Negres ; Anna Joaquina, mulher de José de Sá; Pas- 
choa Angélica, solteira e filha de Thomaz Pinto. 

Mal a noticia do não-recebimento dos embargos se espa- 
lhou pelo povo, dispersou este, e foi reunir-se á grande multi- 
dão que já estava aguardando no campo da Cordoaria. 

Apenas José Mascarenhas chegou á Relação, deu imme- 
diatamente ordem para sahir o préstito; e, logo que os offi- 
ciaes e mais pessoas que tinham de caminhar na frente acaba- 
ram de ordenar-se, principiaram a sahir dos oratórios os pade- 
centes, e cada um foi collocado segundo a ordem em que tinha 
de caminhar. Foi uma scena horrorosa aquella. As mulheres, 
que tinham passado aquellas quarenta e oito horas em grita e 
em desmaios, mal podiam ter-se de pé. Dos homens, apenas 



164 PORTUENSES ILLUSTRES 

Manuel da Costa, Caetano Moreira, Domingos Neves e Thomaz 
Pinto estavam serenos e inteiros, como se nada fora com elles» 
Os outros tinham todos succumbido. O velho Lisboa mal dava 
signaes de vida. Estava de tal forma que, para conduzirem 
aquelle quasi cadáver, foi preciso amarral-o a uma cadeira de 
pinho, que dois ga 11 egos apenados levaram a pau e corda. A 
scena redobrou de horror quando os condemnados se encontra- 
ram, ao tempo de entrar no préstito. Até os mais corajosos 
estremeceram, ao baterem com os olhos de chapa uns nos 
outros e ao verem aquella multidão, que alvejava com o 
ultimo traje dos suppliciados. As mulheres levantaram um 
brado pavoroso. 

Collocados os condemnados, ataram -lhes, segundo o cos- 
tume, os punhos um ao outro. Depois prenderam-lhes aos pes- 
coços enormes gargalheiras, d'onde pendiam pezadas cadeias, 
que iam arrastando após elles. Esta innovação era digna da fero- 
cidade do escrivão da Alçada. Era, segundo elle dizia, preciso 
dar severo exemplo ao espirito revolucionário da gente do 
Porto; e, para que o exemplo surtisse o effeito desejado, nada 
o malvado poupou do que lhe suggeriu a natural ferocidade do 
caracter. Pendurar grossas correntes de ferro ao pescoço de 
homens que caminhavam para a forca, accrescentar á agoniado 
espirito a agonia do corpo : é facto tam horroroso que ninguém 
o poderia acreditar acontecido e tolerado no meio de uma so- 
ciedade civilisada, se o não attestassem os contemporâneos 
(Ratton, Recordações, pag. 320) e se a tradição, nol-o não trans- 
mittisse, acompanhado do opprobr/o e da reprovação que me- 
rece. Tal facto presenceou-se, pois, no Porto no dia 14 de ou- 
tubro de 1757. 

Quando os officiaes de justiça se approximaram com as 
gargalheiras, ninguém fez resistência, porque quasi todos esta- 
vam em estado de a não poder fazer. 

préstito poz-se então em movimento; desceu as escadas 
e d'ahi a pouco estava na rua. A's nove e meia, já elle cami- 
nhava, de todo organisado, pela rua de Traz dos Muros, d'onde, 
pelos Caldeireiros, tinha de descer á das Flores, e d'ahi seguir 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 165 

pela rua Chã, Bainharia, largo de S. Domingos, Bellomonte, 
Taypas e, finalmente, á alameda da Cordoaria, que era o local 
onde se tinha de terminar aqúella tragedia sanguinária e me- 
donha. 

Rompia a marcha um forte pelotão, de trezentas praças do 
regimento do commando de Vicente da Silva, e o resto do corpo 
caminhava em alas aos lados, até o couce da procissão, que 
era fechado pelo regimento de dragões da Beira. Logo em se- 
guida ao pelotão caminhava a bandeira da Misericórdia, arvo- 
rada nas mãos de um irmão e precedida por um serventuário 
que nas paragens tangia funebremente uma campainha. A ir- 
mandade ia em alas aos lados. No centro caminhavam os con- 
demnados. O primeiro era o juiz-do-povo, conduzido ás costas 
dos gallegos, sem accordo e já meio cadáver, e em tal estado 
que o crucifixo que levava nas mãos ia-lhe cahido sobre os 
joelhos e as consolações dos dois jesuítas que o ladeavam eram 
inteiramente perdidas. A grossa cadeia que lhe pendia do 
pescoço foi de rastos ainda até o meio da rua de Traz dos Mu- 
ros ; mas alli um dos padres, vendo-o com a cabeça toda pen- 
dida áquelle grande pezo, levantou-a nos hombros e carregou-se, 
por caridade, com ella. 

Seguiam-se as mulheres. 

Após ellas seguiam-se os homens, e o primeiro que rompia 
a marcha era Manuel. 

Após Manuel, seguiam-se, uns atraz dos outros, os demais 
padecentes. Vinham depois os condemnados a açoites e a pre- 
senciar as execuções. Atraz d'elles os três carrascos, vestidos 
de vermelho e com gorros da mesma côr na cabeça. Seguia-se 
o escrivão da Alçada, com o rosto a irradiar-lhe de ferocidade, 
de soberba e de satisfação satânica. Acompanhavam-o grande 
numero de officiaes de justiça, o ultimo dos quaes era um que, 
se tornava distincto pela vara que trazia na mão e por vir 
rodeado por uns poucos de serventuários da cadeia, rotos e 
porcos, e que traziam grandes baldes pendentes de panno, que, 
dois a dois, sustentavam pelas extremidades. Era o meirinho 
das cabeças. Seguia-se uma longa fileira de salafrários da Mise- 



166 PORTUENSES ILLUSTRES 

ricordia, conduzindo as tumbas. Após elles vinha o regimento 
de dragões, com as espadas empunhadas. 



Por fim, a procissão chegou á Cordoaria. Os regimentos 
que tinham occupado militarmente o Porto formavam em qua- 
drado na praça, deixando rio meio de si vaslissima clareira* 
Pelo lado de fora d'esta muralha humana tumultuava a multi- 
dão do populacho. Ao chegar o préstito, a tropa abriu aos 
lados e deixou-lhe larga entreaberta, por onde entrou para 
dentro. . . 

Depois começou a carnificina. Era uma hora da tarde. 

Quanto á Estrellada, escapou d'aquella feita 
pelo motivo da gravidez; mas foi effectivamente 
enforcada quatro mezes depois; e foi-o, «não 
porque o ministro já não tivesse a consciência da 
injustiça d^quelle julgamento, mas paia salvar a 
infallibilidade da justiça de el-rei, principio a que o 
severo Sebastião de Carvalho sacrificava todas as 
considerações e todos os sentimentos ! » 

E' um beilo livro, com effeito, essa «chronica 
portuense do século xvin», escripta pelo portuense 
Arnaldo Gama, o grande erudito regional, como lhe 
chamou, e bem, o portuense Ramalho Ortigão. 

A surpreza consternada da gente do Porto 
perante a ferocidade d'aquelles castigos foi tanto 
mais profunda quanto no Porto ainda vivia suave- 
mente a lembrança de benignidade transacta em 
pretérito motim. 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 167 

No relato, a mazorrice da prosa habitual de 
Agostinho Rebello da Costa aligeira-se; toma 
andança; adquire pittoresco; mas a graça borbulha 
do feitio do próprio caso narrado. 

Reinando Philippe, em Castella como iv, em 
Portugal como m do nome, veio no anno de 1628 
a esta cidade, mandado por ordem do Real Con- 
selho d'Estado, Francisco de Lucena, residente que 
era em Madrid e secretario do mesmo Real Con- 
selho, para impor n'ella o extravagante tributo das 
maçarocas. 

«Com effeito, apenas elle apresentou ao Senado 
Portuense a sua commissão, logo este a approvou 
como ordem do seu rei. 

Porém as regateiras e outras mulheres similhan- 
tes, vendo que esta imposição se dirigia com espe- 
cialidade a defraudar o limitado lucro que tiravam 
das suas rocas, dominam-se repentinamente d'um 
cego e rápido furor. Sahem de suas casas, dis- 
correm por umas e outras ruas da cidade, chegam 
ao terreiro de S. Domingos; e a desgraça lhes 
mostra n'este sitio a Francisco de Lucena. 

Como desesperadas fúrias, descarregam sobre 
elle uma espessa nuvem de pedras; alli mesmo o 
suffocariam, se elle, valendo-se da agilidade dos 
seus pés, se não mettesse, de um salto, dentro do 
convento que está n'este sitio, habitado pelos Reli- 
giosos Dominicos. 

Augmentava-se o numero das regateiras com 
outro egual de marujos, e á proporção crescia a 



IÓ8 PORTUENSES ILLUSTRES 

bateria das pedradas, de sorte que o furor princi- 
piava a voltar-se contra o convento, se uma voz 
não bradasse altamente que o Lucena, saltando os 
muros da cerca e passando ao convento de S. 
Francisco, tinha sahido pelo postigo chamado do 
Pereira e d^lli, atravessando o Douro, se refugiara 
no convento da Serra. 

Com a força d'esta voz socegaram os ânimos 
dos revoltados, parou a sua fúria e se desvaneceu 
o motim. 

O bispo, que então era D. João de Valladares, 
em companhia do Senado, foi protestar ao Lucena 
o quanto a nobreza, e ainda o povo, sentira 
aquelle insulto; que lhe pediam efficazmente qui- 
zesse voltar á cidade, porque as Ordenanças e Jus- 
tiças estavam sobre as armas, para rebaterem os 
amotinados. 

Não foram bastantes estes rogos a conservai -o, 
porque, assustado e timido, de nenhum modo quiz 
expòr-se a segunda bateria. Partiu logo para Ma- 
drid, aonde deu conta de tudo o que lhe tinha 
acontecido. 

Seriam funestas as consequências, se o dito 
bispo, D. João de Valladares, não empenhasse seu 
irmão Mendes da Motta de Valladares e o presi- 
dente do Conselho d'Estado, D. Carlos de Aragão, 
para moverem el-rei a perdoar aos aggressores. O 
governador das Justiças, Diogo Lopes de Souza, 
segundo conde de Miranda, empenhou-se egual- 
mente para este fim, expondo que o tumulto fora 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 169 

suscitado pelas mulheres da ínfima plebe, o qual 
teria elle evitado, se rfaquelle dia não estivesse 
ausente da cidade. 

Tudo ficou em paz, como se nada houvera 
acontecido. » 

Este motim, provocado pela estultícia d'uma 
extorsão fiscal mesquinhamente odiosa deu motivo 
á novella A rua Escura, tradição portuense, do 
portuense António Coelho Louzada. 

Mandados os portuguezes pelos restaurados reis 
portuguezes, dado que reis tenham nacionalidade, 
novamente os portuenses tumultuaram, em ira 
accendidos por próximo tentamen expoliador. Esse 
era o do papel sellado, que foi avante. 

O motim aconteceu na manhã de 4 de maio de 
1 661, -sendo rei doeste reino D. Affonso vi, in nomine. 

«Uma ordem que se expediu para que os mi- 
nistros de justiça não despachassem ou usassem 
de papel algum que não fosse sellado atemorisou 
de tal sorte o povo que, receoso de maiores tribu- 
tos, requereu ao Senado da Camará, pelos seus 
procuradores, para que supplicasse ao rei o liber- 
tasse d'esta imposição. 

Não somente o Senado desattendeu este reque- 
rimento mas também prendeu os procuradores e os 
obrigou a assignar aquella ordem. Este golpe foi 
um signal de guerra declarada. 

Amotina-se a plebe, accomette as portas do Se- 
nado e clama furiosamente : Viva el-rei e morram 
os traidores. Juntos os rapazes ao som d'este cia- 



I70 PORTUENSES ILLUSTRES 

mor, e crescendo com elles o numero dos amotina- 
dos, foram todos de tropel a casa do thesoureiro 
da cidade, que morava aos Arcos de S. Domingos. 
Apedreja!m-lhe as portas e janellas, obrigam-o a 
lançar na rua todo o papel sellado e immediata- 
mente lhe deitam fogo. 

Não satisfeitos com estes desatinos, accomettem 
a casa do juiz da alfandega, que diziam ser o 
auctor d'aquelle tributo. No mesmo tempo appare- 
ceu á sua porta um montão de mariolas e d'outros 
homens revoltosos; entram no interior da casa, 
despedaçam-lhe os moveis e os reduzem a cinzas. 
Os rapazes, vendo em uma adega algumas pipas 
de vinho, voltam-lhes as torneiras e, enchendo as 
copas dos chapéus, o lançam sobre o povo. 

D'aqui passam alguns ranchos á casa do corre- 
gedor da comarca, obrigam-o a que lhes mostre a 
provisão, por força da qual o rei tinha imposto 
similhante tributo; timido e assustado, o corregedor 
desce ao portal da casa e, protestando que também 
era povo, liberalmente lhes dá a provisão. 

Entretanto, o provisor e cónegos da cathe- 
dral resolveram-se a sahir com o Santíssimo Sacra- 
mento em procissão, para rebaterem com este acto 
tam piedoso a fúria dos amotinados; porém estes, 
encaminhando-se ás cadeias publicas e arromban- 
do-as, desenganaram-se de não estarem n'eilas pre- 
sos os procuradores da cidade. 

Vendo os desembargadores este furioso insulto, 
fugiram em desordem, a refugiar-se no mosteiro de 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 171 

S. Bento da Victoria. O chanceller subiu a uma das 
janellas das casas destroçadas do juiz da alfandega 
e d'alli dizia ao povo que elle se obrigava a dar-lhe 
conta dos seus procuradores. Na sua companhia, e 
debruçado de outra janella d'estas casas, esforçava-se 
o P. Fr. Manuel Carvalho, Religioso Deminico, em 
apaziguar os ânimos dos revoltados, recitando-lhes 
uma oração pathetica. Porém as suas vozes faziam 
tanta impressão n'este confuso e immenso barulho 
quanta puderam fazer nas furiosas ondas do mar 
da Grécia as do eloquente Demosthenes. 

Appareceram emfim os procuradores do povo 
soltos e livres. Com a sua presença tudo se apa- 
ziguou. 

Apenas a noticia doesta revolução chegou aos 
ouvidos d'el-rei quando logo mandou aos condes do 
Prado e de S. João (governadores n'aquelle tempo 
da província do Minho) que viessem sobre esta 
cidade e n'ella castigassem os rebellados. Fizeram os 
condes a sua entrada a 17 de outubro de 1661, 
escoltados por quatro mil soldados de infanteria e 
quinhentos de cavallaria. Apearam-se defronte da 
porta do Olival e d'alli deram á infanteria as ordens 
necessárias. 

Logo no dia 19 do referido mez ajuntou-se o 
Senado e, o povo sem mais repugnância, assignou 
o tributo do papel sellado. 

Procedeu-se a uma rigorosa devassa, que admi- 
rou os condes, vendo que nenhuma pessoa nobre, 
ou ainda do estado médio, íòra n'ella culpada. 



172 PORTUENSES ILLUSTRES 

Assim o mostraram a el-rei, não resultando de 
todo este successo mais que condemnarem a açou- 
tes um mulato da Ribeira, e um marujo em cinco 
annos de degredo para o Brazil. » 

Pelo que toca ao papel representado pelo bispo 
e pelo conde no distúrbio das maçarocas, António 
Coelho Louzada aprecia-o assim: «Quanto a D. 
Diogo Lopes de Sousa, conde de Miranda, sua 
senhoria era bastante portuguez para se oppôr aos 
que gritavam contra o governo de Castella, bas- 
tante castelhano para se pôr de mal com o governo 
de Madrid e perder a pingue regedoria das justiças 
e Relação do Porto, e bastante ladino para se haver 
em casos complicados. D. Diogo sabia do animo 
em que estavam as povoações e, presentindo que a 
cobrança do novo tributo podia chegar o lume á 
mina de ha tanto preparada, foi, a titulo de animar 
a fidalguia d'Entre-Douro-e-Minho a abrir a bolsa 
para o donativo, ainda bem minguado, dar um 
passeio pelas serras da sua jurisdicção, levando 
comsigo uma parte das auctoridades. Se a revolu- 
ção estalasse e formasse vulto, o conde de Miranda 
saberia ser um segundo Fábio, e com negaças e 
passeios aguardar que o fiel da balança pendesse 
para um lado; se se tornasse um simples motim, 
elle lhe daria o colorido que mais conviesse. Quando 
lhe chegou aos ouvidos o resultado que sabemos 
das iras dos portuenses, o nobre conde mostrou-se 
agastado, tractou de montar a cavallo, fazendo-se 
seguir por um pequeno troço de cavallaria, e veio 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 1 73 

sobre a cidade com uma catadura capaz de intimi- 
dar os mais animosos. Aqueila cólera não devia, 
porém, passar de prospecto, por calculo já e graças 
á brandura do génio do bispo D. João, que fez a 
sua obrigação de pae do povo. No relatório enviado 
a Madrid foram empregadas as tintas mais suaves, 
e o apparato da devassa e prisão de uns dous po- 
bres mesteiraes apenas serviu para conter escondi- 
dos nas próprias habitações os que rríais salientes 
se tinham tornado na revolta. » 



Estas lembranças da epocha do domínio philip- 
pino aqui nos suscitam, porém, a curiosidade para 
o conspecto superficial de todo o período, ao menos 
nos seus episódios característicos, qual, por exem- 
plo, o da entrada dos hespanhoes no Porto. 

E' acirrante a leitura do livro Histoire sécrète 
de Dom Antoine roy de Portugal, publicado em 
Paris, com privilegio do rei, em 1696, au Palais, 
chez Jean Guignard y à lenir ée de la Grand^Salle, à 
Vimage S. Jean, e que seu auctor, a senhora Gillot 
de Sainctonge exata «tirada das memorias de Dom 
Gomes Vasconcellos de Figueiredo» na lauda do 
rosto do volume. « Eu tirei (ella explica na Adver- 
tência preambular) a mór parte doestas memorias 
d'um manuscripto com que se topou no gabinete 
de meu avô após sua morte; era elle portuguez e 
irmão de Scipião de Vasconcellos.» Pinheiro Chagas, 



174 PORTUENSES ILLUSTRES 

no Diccionario Popular sob sua direcção, depois de 
o biographar, adverte-nos de que «Cypriano de 
Figueiredo e Vasconcellos era tio-avô da celebre 
Madame de Sainctonge, que escreveu a Historia se- 
creta de D. António. » Onde (pag. 98) ella relata o 
estratagema da grande quantidade dos bois, man- 
dados vir das montanhas e a cujas gaitas se haviam 
atado archotes accesos, ardil de guerra que, Pinheiro 
Chagas assegura ficou celebre, esse de arrojar contra 
o inimigo manadas de vaccas bravas, que lançaram 
a perturbação em suas fileiras. 

Mas Camillo Castello-Branco terminantemente 
proclama que o Gomes de Vasconcellos, que Madame 
de Sainctonge diz ser seu avô, nem sequer se topa 
mencionado nos genealógicos mais prolixos em miu- 
dezas. 

Assim, pois, não se tomará á conta de fervor 
pelo brio pátrio o repudio que leitor portuense faça 
quiçá da pag. 72 da Historia secreta, onde sua 
auctora assegura que o cerco do Porto, ao abrigo 
de cujas muralhas se acolhera o prior do Crato, se 
poderia, apezar de tudo, aguentar por bem mais 
tempo, « se Dom António não houvesse sido trahido 
pelos habitantes; estes poltrões, porém, que seu 
infortúnio não previam, fizeram entrar os inimigos, 
emquanto que aquelle príncipe occupado se encon- 
trava em, por um lado outro, repellir os hespanhoes, 
que queriam passar o rio Douro.» 

Não fora sem perigo que o combatente príncipe 
lograra salvar a vida; mas seccamente que D. 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 175 

António, influenciado pelo terror da sua estrella 
funesta, fugira quando o general hespanhol vadeava 
o Douro em Avintes é como o rememora Camillo 
Castello-Branco, que, á conta da Historia Secreta, 
áspero se pronuncia por teor assim: «Este livro, 
tam a miude citado pelos historiadores como aucto- 
ridade não passa de um romance.» 

Ainda que este asserto não haja de levar-se á 
risca, ponto é que a não-'prolongação do sitio não 
tem de incriminar-se á frouxidão covarde da defeza; 
e parecer, duas vezes maior de toda a excepção, 
por de militar e de hespanhol, pezaria mais em ba- 
lança de precisão aferidora no sentido de inclinar a 
concha onde deitado fosse o contrario voto. 

E não se opponha a contradicta de que o 
heroísmo não quadra com a circumspecção, notório 
sendo o tino prudencial dos portuenses. Já desde 
então. 

Com effeito, o famoso « gentil-homem genovez» 
Jeronymo de Franchi Conestaggio, em Génova, em 
1589, deletreando dos portuenses, d'elles dissera: 
«G/i huomini di essa (cidade do Porto), cke fra Por- 
toghesi si stintano i piu sauij. . . » 

O doutor Luys de Bauia, capellão do rei de 
todas as Hespanhas, incluso então Portugal, em sua 
real capella de Granada, na versão que da obra fez, 
da lingua italiana para «a nossa vulgar caste- 
lhana», no anno de 1610, traduz assim: «Los hom^ 
ores de ella (a cidade do Porto) que entre los portu- 
gtiezes son tenidos por mas sábios. . . » 



176 PORTUENSES ILLUSTRES 

O auctor da Histoire de la reiinion du royaume 
de Portugal à la couronne de Castille, para francez 
traduzida do italiano, e impressa em Paris, chez 
Clavdc Barbin, ate Paliais, sur le second Perron de 
la Sainte Chapelle, em 1680, traduz assim: a Les 
habitans de Porto sont en reputa tion d'estre les plus 
sages d 'entre les Portugais.» 

Seria por que já então «tivessem que perder? » 
« A cidade burgueza já era então — relembra-o 
Camillo Castello-Branco — um valha couto de capi- 
tães amuados nos cofres dos mercadores.» 

Mas á perspicácia technica do cabo de guerra 
investidor do Porto, don Sancho de Ávila, é que 
attribue, em sua Guerra de anexión en Portugal 
durante el reinado de don Felipe 11 (Madrid, 1898), 
o general don Julián Suárez Inclán, a pag. 105 de 
seu tom. 11, a derrota, um tanto iòrpa, de los poço 
previsores lusitanos. Porém no género do descuido 
haveria o prior do Crato de vir a ter suecessor 
ainda, e por certo que bem melhor estratégico e 
táctico do que elie prior D. António e até talvez do 
que elie general don Julián : nada menos do que o 
marechal Soult, grande honra logrando a memoria 
obliterada do hespanhol Sancho d'Avila de que, até 
ao plagiato, lhe siga, no êxito, as pizadas o inglez, 
outrosim quasi por egual já esquecido, Arthur 
Welesley. 

«O seu piano — em 1862 escreveu Rebello da 
Silva — , executado com a decisão que o caracter 
risava, foi elogiado pelos capitães entendidos na 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA l^^ 

arte militar cfaquelle século. Emquanto os canhões, 
plantados o mais perto possível, cruzando o Douro, 
batiam a cidade, elle, a coberto das trevas da noite, 
deixando o seu acampamente em Pedras Salgadas, 
embarcava em Avintes e assenhoreava-se da mar- 
gem opposta, sem opposição. A victoria coroou este 
movimento, reaiisado com summa felicidade. Ao 
passo que D. Rodrigo Çapata, com o resto da 
infanteria já nos barcos e os cavallos á mão para 
atravessarem a nado, só aguardava o signal, San- 
cho de Ávila, investindo de súbito os portuguezes 
pelas costas e descarregando sobre elies toda a 
arcabuzaria á queima-roupa, levava-os depois nas 
pontas das lanças e nos fios das espadas, com tal 
impeto que nem espaço lhes deu quasi para verem 
quem os desbaratava. Uma derrota prompta e com- 
pleta despejou em momentos todo o terreno. Trin- 
cheiras, reparos e baterias: tudo cahiu em seu 
poder, quasi sem a perda de um soldado. A passa- 
gem do grosso das tropas por Pedras Salgadas 
verificou-se logo depois sem o mais leve embaraço 
e, unido todo o exercito em um só corpo, caminhou, 
rápido e soberbo, sobre o Porto, aonde, mesmo 
antes de o avistarem, já a noticia do seu triumpho 
lhe rendia, de medo, o coração dos adversários.» 
«As mesmas circumstancias — em 1871 escre- 
veu Luz Soriano — que se deram no Porto em 
outubro de 1580, entre as forças portuguezas do 
partido de D. António, prior do Crato, e as hespa- 
nholas que o perseguiam, novamente se repetiram 

VOL. I. va 



I78 PORTUENSES ILLUSTRES 

rfaquella cidade, entre as francezas que a occupa- 
vam e as luso-britannicas que d'ella as buscavam 
expellir. E possível que sir Wellesley ignorasse o 
plano da tomada do Porto, effeituada no dito 
anno de 1580 pelo mestre de campo general do 
exercito hespanhol Sancho de Ávila, mandado de 
Lisboa pelo duque de Alba em seguimento do prior 
do Crato, o qual, depois da sua derrota na ribeira 
de Alcântara, junto da capitai, se havia retirado 
para o norte do reino, indo refugiar-se no Porto. . . 
E possível, repetimos por mais outra vez, que 
sir Wellesley ignorasse o arrojado feito de Sancho 
de Ávila; mas, ou o ignorasse ou não, é um facto 
que a passagem do Douro, por elle effeituada em 
1809, foi uma repetição fiel do que já tinha entre 
nós succedido em 1580.» 

Não foi a conquista do Porto, sem embargo da 
facilitante *poltroneria que aos portuenses graciosa- 
mente attribue Mad. de Sainctonge, façanha que 
menosprezasse o intrépido general hespanhol, cele- 
bre por sua bravura : « Yo no me he hallado en cosa 
que — Sancho de Ávila assim se expressa em carta 
ao secretario Juan Delgado, datada de 22 de outu- 
bro, Doe. inéd.y tom. xxxi, pag. 222 — tanto cuidado 
me haya dado, ni con tanta dificultad como ha 
habido. » 

O hespanhol militar Inclán frisa com mofa que 
as prevenções do inexperto prior do Crato se limi- 
tassem quasi a fazer retirar da margem esquerda 
do rio, frente á cidade, os barcos de passagem. 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I79 

Coincidência curiosíssima! O francez paisana 
Lanfrey (Histoirc de Napolcon, tom. v) adverte, 
com assombro, que a fazer retirar da margem 
esquerda do rio, frente á cidade, os barcos de 
passagem se limitassem quasi as prevenções do 
experimentadissimo marechal Soult! 

E' de recordar que, ciosos os portuenses de 
suas franquias e privilégios, o hespanhol, astuciosa- 
mente politico, lhfos não quebrantou, antes confir- 
mou. 

Com effeito. Na verdade. Eis: 

D. João 11, a todos os corregedores, ouvidores, 
juizes, justiças e outros quaesquer officiaes e pes- 
soaes de seus reinos, a que o conhecimento d'isto, 
por qualquer guiza que fosse, pertencesse, e a es- 
pecial carta sua, ou o traslado d'ella em publica 
forma, por auctoridade de justiça, fosse mostrada, 
mandou, de Évora, em i de Junho de 1490, que, 
considerando os muitos e extremados serviços que 
sempre os reis passados haviam recebido e elle re- 
cebido tinha da sua muito nobre e leal cidade do 
Porto e cidadãos d'ella, com muita lealdade e fide- 
lidade, e conhecendo d'elles o amor com que o de- 
sejavam servir e espera que sempre servissem, e 
não menos do que sempre fizeram, por isso e por 
o que a elle rei convinha, fazia aos taes vassallos 
e por enobrecimento da dita cidade; e, querendo-lhes 
fazer graça e mercê, tinha por bem e privilegiava 
todos os cidadãos que óra eram em a dita cidade 



l8o PORTUENSES ILLUSTRES 

e ao deante fossem. E queria e lhe prazia que cTalli 
em deante para sempre fossem privilegiados e que 
elles não fossem mettidos a tormentos por nenhuns 
malefícios que tivessem feito, commettido e commet- 
tessem e fizessem d'alli por deante, salvo nos feitos 
e d'aquellas qualidades e nos modos em que o de- 
viam ser e eram os fidalgos de seus reinos e se- 
nhorios. E que assim também não podessem ser 
presos por nenhuns crimes, somente sobre suas 
homenagens e assim como o eram e deviam ser os 
sobreditos fidalgos. 

Outrosim o rei queria e lhe prazia que podessem 
trazei e trouxessem por todos os seus reinos e se- 
nhorios quaes e quantas armas lhes aprouvesse, de 
noite e dia, assim offensivas como defensivas, pos- 
toque em algumas cidades e villas especialmente 
tivesse defezo ou defendesse que as não trouxesssem. 

Outrosim queria e lhe prazia que houvessem e 
gozassem de todas as graças, liberdades, privilégios, 
que eram e havia dado á sua cidade de Lisboa, re- 
servando que não podessem andar em bestas 
muares, porque não havia por seu serviço nem do 
reino andarem n'ellas. 

Outrosim queria que todos os seus caseiros, 
amos, mordomos, lavradores encabeçados, que esti- 
vessem e lavrassem suas próprias herdades e casaes 
encabeçados, e todos os outros que com elles con- 
tinuamente vivessem, não fossem constrangidos 
para haverem de servir em guerras nem outras idas, 
por mar nem por terra, onde gente mandasse, só- 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA l8l 

mente com elles ditos cidadãos, quando suas pes- 
soas o fossem servir. 

Outrosim queria que não pousassem com elles, 
nem lhes tomassem suas casas de moradas, adegas 
nem cavallariças, nem suas bestas de sella nem de 
albarda, nem outra nenhuma cousa do seu, contra 
suas vontades; e lhes acatassem e guardassem 
muito inteiramente suas casas; e houvessem, n'ellas 
e fora d'ellas, todas as liberdades que antigamente 
haviam os infanções e ricos-homens. 

Portanto, mandava a todos os corregedores, ou- 
vidores, juizes e justiças, alcaides e meirinhos, e a 
quaesquer outros seus officiaes e pessoas a quem 
essa sua carta fosse mostrada e o conhecimento 
pertencesse, que lhes cumprissem e guardassem, e 
fizessem mui inteiramente cumprir e guardar, assim 
e tam cumpridamente como n'elia era conteúdo, 
porque sua mercê era que lhes fosse guardada, sob 
pena de seis mil soldos para lhe, qualquer que lhes 
contra ella fosse, em parte ou em todo, os pagar, os 
quaes mandava, ao seu almoxarife ou recebedor de 
cada um logar d'essa correição, que os arrecadasse 
e recebesse para elle de qualquer pessoa ou pessoas 
que lhes contra essa sua carta fossem, e mandava 
ao escrivão do almoxarife que os puzesse sobre elle 
em receita, para elle haver d*elles boa arrecadação, 
sob pena de os pagarem ambos, em dobro, de suas 
casas. 

Ora, pedindo-lhe os juizes, vereadores e pro- 
curador da cidade do Porto, e procuradores dos mes- 



l82 PORTUENSES ILLUSTRES 

• 

teres d'ella, que lhes confirmasse esta carta, e, visto 
seu requerimento, querendo-lhes fazer graça e mercê. 
Philippe n, em Lisboa, a 4 de Novembro de 1596, 
tinha por bem e ih'a confirmava e havia por confir- 
mada, e mandava que se cumprisse e guardasse 
inteiramente, assim e da maneira que se n'ella con- 
tinha, e por firmeza de tudo lhes mandara dar 
aquella sua carta, por elle assignada e sellada do 
seu sello de chumbo pendente. 

Mas, como quer que o juiz, vereadores, procu- 
radores e mais officiaes da Camará, e os cidadãos 
e moradores da cidade do Porto, lhe enviassem di- 
zer que, por quanto que a pragmática que em Évora 
fizera sobre os trajos encontrava em algumas cousas 
os privilégios de infanções de que elles usavam e 
que lhes foram concedidos pelos reis passados does- 
tes reinos, por respeito de serem cidadãos moradores 
da dita cidade, e terem havido sentenças para lhes 
serem guardados, lhes pediam lh'os mandasse intei- 
ramente cumprir, sem embargo da pragmática pro- 
hibir alguma cousa das que, por elles, podiam usar, 
e visto seu requerimento e as informações que man- 
dara tornar, e os papeis e sentenças que haviam 
sido vistos na meza do despacho dos seus desem- 
bargadores do paço, havia elle, Philippe 11, em Lis- 
boa, a 28 de Janeiro de 161 1, por bem e lhe prazia 
que, sem embargo de, peia dita pragmática, se de- 
fenderem algumas cousas, contra os privilégios de 
infanções que os moradores e cidadãos da dita ci- 
dade do Porto tinham para poderem usar delias, 



V — BERNARDO DE LIMA — ARiNALDO GAMA I 83 

se cumprisse inteiramente o que pelos ditos privi- 
légios era ordenado e mandado, sem lhes n'isso ser 
feita duvida nem embaraço algum, porque assim era 
sua mercê, e mandava, a todos os desembargadores, 
corregedores, ouvidores, juizes, justiças, officiaes e 
pessoas a que esse alvará, ou traslado d'elle em 
publica forma, fosse mostrado, que o cumprissem, 
guardassem, fizessem inteiramente cumprir e guar- 
dar como se n'elle continha, o qual se registraria no 
livro da Camará da dita cidade, e o próprio se teria 
no cartório d'ella em boa guarda; e esse lhe prazia 
que valesse e tivesse força e vigor como se fosse 
carta feita em seu nome, por elle assinada e pas- 
sada pela chancellaria, sem embargo da Ordenação 
em contrario. 

O que tudo consta do opúsculo, no Porto im- 
presso, em casa do Fructuoso Lourenço de Basto, 
anno de 1611, Privilégios dos cidadãos da cidade 
do Porto, concedidos e confirmados pelos reis d'estes 
reinos e agora novamente por el-rei dom Philippe ir, 
nosso senhor, sendo juiz-de-fóra o licenceado Ro- 
drigo de Camará, vereadores Manuel Tavares Pe- 
reira, Diogo Leite de Azevedo, Affonso Correia de 
Azevedo, Álvaro Ferreira Pereira, procurador da 
cidade Baptista da Costa de Sá, Este opúsculo foi 
reimpresso, no Porto, pela «Empreza das obras 
Clássicas e Illustradas», 1878, Typographia Occi- 
dental, Picaria. Em um preambulo datado de Janeiro 
d'esse anno de 1878, o editor, o fallecido portuense 
José António Castanheira, escreve assim: «Este li- 



184 PORTUENSES ILLUSTRES 

vro é raro. Innocencio diz acerca cfelle : « Existe 
um exemplar na- livraria do extincto convento de 
Jesus, e teve outro o doutor Rego Abranches. » Co- 
nhecidos hoje existem trez: um na magnifica livraria 
do snr. Francisco António Fernandes, outro na do 
snr. Joaquim Teixeira de Macedo e o terceiro em 
poder do editor.» 



E de priscas eras as offensas a seus foros e 
isenções os tripeiros jamais as toleraram, antes 
com brio as repelliram. 

Por exemplo : 

Em 1474 recorda Pinho Leal que era Ruy 
Pereira (senhor das Terras de Santa Maria (Feira), 
fidalgo distincto, neto d'outro Ruy Pereira, tio do 
condestavel D. Nuno Alvares Pereira) um dos 
homens mais opulentos da provinda, dono de 
muitos navios e commerciante rico, pelo que 
vinha muitas vezes ao Porto tractar dos seus 
negócios e assistir ao despacho e dizimaria das 
suas fazendas, visto como em frente do grâo-senhor 
cuida Pinho Leal que os empregados da alfandega 
mal attentavam nas tabeliãs e regulamentos. Costu- 
mava, pois, vir ao Porto Ruy Pereira muitas vezes, 
sempre bem escoltado por gente sua, altaneira e 
turbulenta, demorando-se o tempo que lhe aprazia, 
sem se importar com os foraes da cidade, que não 
permittiam a fidalgo, nem poderoso, nem abbade 
bento, o poisar n'ella mais que três dias. 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 185 

Estava, assim, a cidade já indisposta contra Ruy 
Pereira, quando n'ella entrou com uma porção de 
peões e cavalleiros armados, no dia 26 de maio de 
1474, sexta-feira, dois dias antes do domingo de 
Pentecostes, e foi pousar na rua Nova (depois rua 
Formosa, seguidamente rua dos Inglezes, hoje rua 
do Infante D. Henrique), nas casas de Leonor Vaz, 
dona viuva, sua collaça, mulher que fora de um 
almoxarife da sua casa da Feira. Despediu parte 
dos seus acontiados, e ficou para assistir ao des- 
pacho e dizimação das fazendas, mas sem pressa 
alguma, nem attenções para com a camará e juizes 
da cidade nem para com os seus foraes. Vendo 
os portuenses Ruy Pereira tam descançado, princi- 
piaram a amotinar-se contra o desprezador dos seus 
foros, e a irritação já subia de ponto quando a 
camará, no dia 4 de junho, a requerimento do 
procurador da cidade, se reuniu no convento de S. 
Domingos, segundo o costume d'aquella epocha, 
para accordarem no que deveria fazer-se, afim de 
terminar o escândalo que estava dando Ruy Pereira, 
por se conservar na cidade desde 26 de maio, 
quando não podia demorar-se mais de três dias. 

Eram juizes Vasco Leite e Álvaro Leite, irmãos; 
vereadores Fernão Alvares Baldaia, Vasco Gil, 
Luiz Alvares da Madureira e Diogo Martins; e 
procurador da cidade Gomes Fernandes. 

Todos estes se encontravam reunidos em sessão 
com vários homens bons e os procuradores privati- 
vos dos mesteres, quando Gomes Fernandes, como 



lS6 PORTUENSES ILLUSTRES 

procurador da cidade, levanta a questão, concluindo 
por propor ou requerer que fosse intimado Ruy 
Pereira para sahir da cidade immediatamente, e 
accordaram todos que assim se fizesse. Logo o juiz 
Vasco Leite, com dois tabelliães e o procurador da 
cidade, se dirigiu para a alfandega, onde no mo- 
mento se achava Ruy Pereira, e, pouco depois de 
defrontarem com elle, Vasco Leite lhe fez sua com- 
minativa pratica. 

O rico-homem das Terras de Santa Maria ouviu 
a mensagem muito contrariado e, depois de soltar 
algumas phrases inconvenientes, concluiu, com 
soberano aprumo, que estava ainda na cidade 
porque as festas e oitavas do Pentecostes haviam 
interrompido o serviço da alfandega e que não se 
ausentava sem despachar as suas mercadorias. 

Retirou-se Vasco Leite, depois de ordenar aos 
tabelliães que de tudo tomassem nota e, voltando 
ao refeitório de S. Domingos, participou á camará 
o que passara com Ruy Pereira. Levantaram-se logo 
brados de indignação e não faltou quem appeilasse 
para a ultima razão dos povos; mas resolveu a 
camará mandar, por quatro officiaes seus, nova 
mensagem a Ruy Pereira, que com maior arrogân- 
cia os recebeu e despediu, repetindo-lhes o que 
havia dito a Vasco Leite. Regressando os quatro 
officiaes com tal recado, subiu de ponto a irritação 
da camará e do povo, e alguns mais insoffridos 
sahiram logo, bradando e incitando a populaça. 

Accordou ainda a camará que fossem dois 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 187 

vereadores, com quatro tabelliães, convidar, pela 
terceira vez, . Ruy Pereira a deixar immediatamente 
a cidade ou a ir vêr os privilégios quando sobre 
elles tivesse duvida. 

Partiram, effectivamente, com esta missão Diogo 
Martins, Fernão Alvares Baldaia e os quatro tabel- 
liães; mas Ruy Pereira, que já se encontrava em 
casa da sua collaça D. Leonor, de todo dementado, 
com mais aspereza os recebeu e despediu, amea- 
çando-os, e repetindo que não sahiria da cidade 
emquanto não dizimasse as suas fazendas. 

Quando os camaristas e tabelliães se retiravam, 
pela rua das Congostas, para o convento de S # 

■ 

Domingos, já o povo crescia em massa, armado 
com toda a qualidade de armas, sobre a casa de D. 
Leonor; e apenas chegaram a S. Domingos e deram 
conta da sua missão, levantou-se um borborinho 
medonho na grande assembléa, clamando todos: 
Morra o mescão (lascivo, deshonesto etc.)/ Morra o 
falso l Morra o tredol 

Houve, ainda assim, quem propuzesse que 
seguissem a camará e o povo para a casa de Ruy 
Pereira, com os pergaminhos, para que elle os visse, 
mas que fossem todos armados e que, se elle não 
quizesse deixar a cidade por bem, fosse constran- 
gido, a ferro e fogo. E accordaram todos a hua 
vós que assy fosse — tornou Lopo de Rezende a 
escrever na emenda da acta d'aquella tumultuosa 
vereação. 

Os sinos tocaram a rebate, um alarido infernal 



188 PORTUENSES ILLUSTRES 

se ouvia por todas as ruas e viellas; e homens e 
mulheres, novos e velhos, todos armados de mil 
formas, se reuniram no Largo de S. Domingos e 
seguiram com os vereadores para a casa de Ruy 
Pereira; mas, ao chegarem á Rua Nova, surgiu de 
frente o bispo D. João de Azevedo, que, tendo noti- 
cia do conflicto, correra, a vêr se evitava maiores 
desgraças. 

O préstito logo parou e todos se curvaram, reve- 
rentes. Pediu então o bispo á camará que lhe con- 
fiasse os pergaminhos e aguardasse um pouco, que 
elle esperava convencer o renitente Ruy Pereira da 
sua sem-razão. 

A camará, de bom grado, annuiu; e D. João de 
Azevedo se encaminhou para a casa do teimoso 
fidalgo, crescendo a anciedade de momento para 
momento, até que assomou á porta de Ruy Pereira 
o bispo D. João, dizendo que infelizmente nada con- 
seguira. E logo das janellas de Ruy Pereira se dis- 
parou um tiro de espingarda sobre a turba apinhada 
na rua, e o povo logo investiu com a casa, dispa- 
rando sobre ella um chuveiro de balas e projectis 
de toda a ordem. Mas Ruy Pereira já se havia pre- 
venido para a resistência, e elle e os seus criados 
se defendiam como loucos. 

Appareceram logo homens com machados e 
tractaram de despedaçar as portas; mas como estas 
não quizessem ceder, deitaram-se a amontoar contra 
ellas grande quantidade de lenha e lançaram-lhe o 
fogo. Passados alguns minutos, a casa foi devorada 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA 189 

pelas chammas, salvando-se a custo Ruy Pereira, 
com os seus creados, precipitando-se das janellas e 
expondo-se a ser trucidados pelo povo. Mas 
valeram-lhes os juizes e vereadores que se toparam 
presentes, acompanhando-os até á beira c}o Douro 
e d'ahi em barcos até á margem opposta, onde os 
deixaram. 

Tudo isto consta dos archivos da camará do 
Porto, na querella de Ruy Pereira, e da carta d'el-rei 
D. Affonso v, datada de Évora, aos 1 1 de Abril de 
1475, a qual se encontra no livro antigo das provi- 
sões, fl. 90. 

Da sentença na querella de Ruy Pereira se vê o 
grande commercio que elle fazia no Porto. Na sua 
querella contra os habitantes do Porto, pedia Ruy 
Pereira que, além de outras penas, lhes fosse imposta 
a indemnisação de vinte mil dobras; mas afinal foi 
elle obrigado a segurar os portuenses e a respeitar 
os seus foros e privilégios, como se vê da sentença, 
que se depara no archivo da camará, liv. B, fl. 

131 a 141. 

Foi aquella sentença dada por el-rei D. Affonso v, 
e é um documento importantíssimo para a historia 
do privilegio que o Porto gozou até aos princípios 
do século xvi de não ter fidalgos dentro dos seus 
muros nem nos seus arrabaldes. 

Assim ao seu relato do grande motim na fre- 
guezia de S. Nicolau em 1474 o remata Pinho Leal; 
elle o considera, tam só, uma resumida noticia. 
«Quem quizer saber mais por miúdo como as coisas 



IÇO" PORTUENSES ILLUSTRES 

se passaram — elle escreve em nota — leia o interes- 
sante romance histórico d' Arnaldo Gama: A ultima 
dona de S. Nicolau,» 

Assustada fidalgophobia a dos portuenses! 

Abro certa das copias do manuscripto: Descri- 
pçáo de antre douro e minho e trallos montes, pelo 
doutor João de Barros, 1548; na pag. 15 e seu 
v.°, tractando-se das prerogativas do Porto, leio, 
corrediamente óra: 

Outro privilegio tem esta cidade, muito grande, o qual é 
que nenhum senhor grande possa em ella viver nem menos 
pousar senão três dias, do qual privilegio muito peza aos 
senhores que n'aquella terra têm suas terras, que desejam 
muito viver ahi; em tanto que alguns clérigos fidalgos 
procuram haver beneficio na Sé, para com isso poderem hi 
viver; os quaes os cidadãos consentem emquanto bem vivem 
e não alvoroçam a terra; e foi esta bôa consideração dos 
antigos, conforme ao que diz Aristóteles na Politica. 

Sem embargo da sua fidalgophobia, no próprio 
Porto se haveria de vir a considerar copiosa resenha 
de fidalgarias; e, das numerosas obras que seu 
auctor escreveu, e deixou manuscriptas, as qiíaes 
Barbosa descreve no tom. 1 da BibL Lus. t mencio- 
nando, também no tom. 1 do Dicc. BibL, sua Genea- 
logia das Famílias de Portugal, em oito grossos 
volumes de folio, (e original, lhe parecia), a qual 
apparecera em Lisboa á venda haveria anno e meio 
da data (1858), lastima Innocencio que, por incúria 
ou capricho do ex-bibliothecario Canaes, não exista 



V -BERNARDO DE LIMA — ARNALDO CAMA I9I 

agora — 1859 — na Bib. Nacional, scndo-lhe offere- 
cida a compra d^lla. Da obra o auctor fora Chris- 
tovam Alão de Moraes, formado em direito civil pela 
Universidade de Coimbra, que servira diversos car- 
gos da magistratura, sendo ultimamente Desembar- 
gador da Relação do Porto e Corregedor do Civel 
da mesma cidade, sócio da Academia dos Gene- 
rosos e no Porto fallccido a 19 de maio de 1693. 

Manda Innocencio ver a sua biographia ampla- 
mente tractada no Panorama, n.° 123 de 1844; 
e o portuense, hoje também fallecido, Eduardo 
Augusto Allen additou, em 1888, que aquelle 
interessante citado artigo é devido ao fallecido 
Henrique Duarte e Souza Reys, em tempo funccio- 
nario na Bibliotheca Publica do Porto. Onde de 
Alão de Moraes existem, de genealogia, os códices 
Theatro da Nobreza da Europa, Porto, 1690, 1 vol. 
foi. ; Sedatura (sic) ou Cedatura (sic) Lusitana- 
Hispânica, em que se contêm varias famílias nobres: 
etc, 9 vol. foi. ; e Pedatura Lusitana em que se con- 
tém varias familias nobres e illustres, 1660 a 1678, 
5 vol. foi., ou seja o n.° 320 da collecção de Mss. 
da bibliotheca portuense. Os cinco volumes de que 
se compõe este n.° 320 contém a obra a que o 
auctor poz o titulo de Pedatura, derivado do grego 
pais, genitivo paidòs, que significa menino, rapaz, 
filho, «designando, pois (accrescenta Allen), aquelle 
titulo muito adequada e elegantemente o mesmo 
que Filiações, Genealogias ou Gerações de Familias.» 

Innocencio informa, outrosim, que no n.° 127 



I92 PORTUENSES ILLUSTRES 

do Panorama sahira o fac-simile da assignatura de 
Christovam Alão de Moraes; e Allen, tractando do 
exemplar da Pedatura Lusitana que existe na 
bibliotheca portuense (fase. 3. do índice prepara- 
tório do catalogo dos manuscriptos, pag. 105,) asse- 
vera que esse exemplar da Pedatura, alli guardado, 
é autographo, e por isso muito importante. «Dize- 
mos que é autographo porque o nome do A. no 
frontispício é exactissimamente o do nosso Códice 
autographo, n.° velho 816, d'onde provavelmente o 
snr. Souza Reis extrahiu o fac-simile que vem no 
Panorama e que abaixo citamos. Além d'isso, o 
resto da escripta d'este exemplar concorda com a 
lettra dos outros Códices autographos do A.» 
Estes códices, que ficavam reservados para des- 
crever no fascículo de «Litteratura», quando che- 
gasse a sua vez, o dr. Allen desde logo os deixou 
summariamente indicados, em os seus antigos n. os , 
isto é: 816, Grinalda d'Apollo (122 sonetos) por 
Chr. Alão de Moraes, autographo e cuja assigna- 
tura provavelmente servira para o fac-simile no 
Panorama; 679, Obras poéticas, de D. António 
Barbosa Bacellar, compiladas e escriptas por mão 
do dito Alão; 755, Idem, do dr. João Sucarello 
Claramonte, idem; e 734, Idem, do dr. Simão 
Torrezão Coelho, idem. 

Quanto á obra do dr. João de Barros, ha na 
Bibliotheca do Porto o próprio original, em caderno 
composto da primitiva em 1789, o qual abre, posto 
corrente, com este preambulo: 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I93 

E* digno e muito digno de estimação e apreço este Ms. 
em 4. , lettra ruiva mas que não deixa de ser legível e que 
tem por titulo Breve summa de Geographia da comarca 
d ' Entre-Douro-e-MinliQ e Traz-os- Montes, em o qual se 
contém outras cousas antigas e notave/s. Tem dedicatória aos 
discretos e benévolos leitores; tem Introducçào da Obra, 
antes do dito titulo; e depois d'elle prosegue o A. a sua Geo- 
graphia até o fim, sem divisão de capítulos nem §§, acabando 
o livro com as palavras seguintes: «. . . E dahi vai a 
ponte de Canes, e dahi pelo Rio Tâmega ter entrambos 
os Rios, e para diante chamão Tralosmontes. » Decide-se 
que este é o próprio original da obra do dr. João de 
Barros (sem ser o nosso afamado chronista da índia, mas sim 
outro, não menor, bem conhecido, por ser do Dezembargo 
d'El-Rei e seu Escrivão da Camará, como se lê logo no frontes- 
picio da Geographia) pela declaração que ainda se acha na 
ultima lauda d'este raro Ms., feita pelo Prior António dos Reis, 
da Congregação do Oratório de S. Filippe Xery, de Lisboa, 
assas recommendavel por suas incansáveis fadigas litterarias* 
No fim d'este exemplar se lêem, pela própria lettra d'aquelle 
illustre congregado, académico da « Academia Real da Historia 
Portugueza», fundada pelo grande rei o senhor D. João o v < 
palavras que denotam ser este o próprio original. Por outra 
declaração que se lhe segue, de Amador António de Souza 
Bermúdes e Torres (e de seu próprio punho), deputado da 
Meza da Consciência e Ordens, se confirma que se conservou 
annos em poder do referido académico e que d'clle passou (e o 
modo como) para o dito deputado. E* digno de lembrar aqui 
que mestre António de Guimarães (de quem não se lembrou o 
auetor da Bibliotheca Lusitana) fez um tractado com este 
titulo: «... das cousas dantre Douro, e Minho », que confere 
com o da Geographia do dr. João de Barros. D'aquelle A. faz 
memoria Ruy Fernandes, cidadão de Lamego, no livro ms., em 
4. , que tem por titulo: Antiguidades de Lamego, 1532.» Con- 
servou este ms. entre os escolhidos livros que passaram do 
visconde de Balsemão, ministro e secretario de Estado dos 

VOL. 1. \*i 



IÇ4 PORTUENSES ILLUSTRES 

negócios do reino, seu filho, o visconde moço que óra (em 
1804) vive n'esta cidade do Porto. Sabemos que no mosteiro 
de Tibães, cabeça de toda a congregação benedictina de Portu- 
gal, se conserva uma copia d'esta obra, tirada de outra que se 
acha entre os livros da casa dos Biscainhos de Braga, desgra- 
çadamente mal tractada. Tal é a condição d'estes morgados 
litterarios quando passam para mãos que os não conhecem 
nem estimam. Sylvio Mondanh. 

Nota o dr. Allen (fase. 2. do citado índice pre- 
paratório) que Innocencio ignorava este pseudo- 
nymo (ou Silvio Mondanio, ou Silvio Mondano) do 
investigador Manuel Francisco da Silva e Veiga Ma- 
gro de Moura, de quem fizera memoria em seu 
tom. v. Ahi, a pag. 439, se escreve, antes da 
enumeração de seus escriptos publicados, um 
d'elles posthumámente em 1821, que, sócio da 
Academia Real das Sciencias de Lisboa, formado 
em direito pela Universidade de Coimbra, desem- 
bargador da Relação do Porto, onde exercia afinal 
o logar de Chanceller, morrera desgraçadamente 
assassinado em um tumulto popular, por occasião 
da invasão do exercito de Soult n'esta cidade em 
1809, aceusado de fautor e partidário dos francezes. 



Parallela com a fidalgophobia portuense corre o 
prezado afan das classes laboriosas, buscando na 
organisação a força e o destaque; o papel do infeliz 
Juiz do Povo no motim da Companhia dos Vinhos 



V — BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I95 

nos faz volver os olhos por um momento para 
pouco attendido ponto da historia nossa econo- 
mico-social. 

A' epocha da organisação da casa dos vinte e 
quatro, a constituição das corporações das artes e 
officios na idade media vinha de longa data em 
Itália, França e outras partes, filiando-se nas tra- 
dições romanas; mas-:— pergunta o snr. Henrique da 
Gama Barros, tom. i, pag. 517 da sua sabia obra, 
Historia da administração publica em Portugal nos 
séculos xn a xrv — existiria ella em Portugal já 
antes do século xvi? 

Responde que os monumentos legislativos e os 
Costumes não ministram prova para asseverar a 
affirmativa; comtudo, que em Portugal também os 
homens de ofíicio tivessem entre si uma certa 
organisação, estava isso na indole dos costumes da 
edade media, em que predominava a distincção das 
classes, e vê-se em mais de uma passagem das 
cortes do século xv. 

A' industria e principalmente ao commercio devia o con- 
celho do Porto o logar eminente que já desde o século xm 
occupava entre os municípios do reino. Os serviços, entre gente 
e dinheiro, que elle presta á causa de D. João 1 contra as pre- 
tensões de Castella mostram que no ultimo quartel do século xiv 
esse antigo burgo era então um dos concelhos mais importan- 
tes de Portugal. 

Mas não é somente nos dois primeiros municí- 
pios do reino que (observa o snr. Gama Barros) 



I96 PORTUENSES ILLUSTRES 

podemos suppôr ligados entre si, por disposições e 
costumes particulares, os homens dos mesteres. 
Fundamenta-se, para Santarém, nos capítulos espe- 
ciaes que esse concelho offereceu nas cortes de 
Évora de 1436. 

E, finalmente, para conjecturar que as corpora- 
ções das artes e ofíicios existiriam, por toda esta 
epocha, onde quer que fosse maior o desenvolvi- 
mento das industrias, acha o snr. Gama Barros 
ainda outro indicio em documento que não per- 
tence já ao século xv mas que se refere a usos e 
costumes de Coimbra, que, sendo o documento de 
15 17, se podem muito rasoavelmente suspeitar tam- 
bém existentes em parte, pelo menos, do século 
anterior; ahi se enumeram as diversas profissões 
agrupadas em classes ou officios distinctos, fallan- 
do-se, mais de unia vez, no juiz do officio. Allude 
ao Regimento da festa do Corpo de Deos, e de como 
ham de ir os officios cada hum em seu logar. Publi- 
cara-o o portuense illustre João Pedro Ribeiro no 
tom. iv, parte 2. a , pag. 226 ess. de suas Disser- 
tacões Chronologicas. 

A pag. 36 ess. de seus Apontamentos para a 
historia da cidade do Porto, o modesto portuense 
J. M. P. Pinto traz o decreto ou carta de lei para a 
procissão de Corpus Christi} no Porto, de 30 de 
maio de 1560, da rainha D. Catharina, regente do 
reino na menoridade de seu filho D. Sebastião; o 
decreto ou carta de lei de 13 de maio de 1561, da 
mesma; o decreto ou carta de lei de 15 de maio de 



BERNARDO DE LIMA — ARNALDO GAMA I97 



1601, escripto em Aranjuez, do rei Philippe; o 
decreto ou carta de lei de 1 8 de maio de ióc8, 
escripto em Lisboa, do mesmo rei Philippe; final- 
mente, o accordam e regimento que fizeram os 
officiaes da camará da cidade do Porto em 1621, 
para a procissão de Corpus Christi, com o parecer 
do doutor António Cabral, chanceller da Relação do 
Porto, e do bispo da dita cidade, conforme as pro- 
visões de Sua Magestade; bem assim o regula- 
mento para a procissão de Corpus Christi, em 
vereação de 12 de junho de 1773, subsequente á 
vereação de 14 de abril de 1730 e decisão acerca 
da procissão de Corpus Christi. 

A parte principal da festa competia aos diversos 
officios, cujo espirito associativo persistiu, concate- 
nando-se. 

Assim, em 18 14, no tom. 1 de suas Variedades 
sobre objectos relativos ás artes, commercio e manu- 
facturas, consideradas segundo os princípios da 
economia politica, José Accurcio das Neves, na 
respectiva memoria sobre as corporações de offi- 
cios, artes e commercio, havendo-as estudado na 
antiguidade, na media edade e tempos modernos, 
em França, Inglaterra e outras nações da Europa, 
vindo ao seu e nosso paiz, constatando que «tam- 
bém existem corporações gremiaes em Portugal», 
se nota que «em menor numero relativamente a 
outros paizes», frisa que «menos gravosas pela 
sua natureza», havendo, por exemplo, «poucos 
paizes onde as aprendizagens tenham sido menos 



I98 PORTUENSES ILLUSTRES 

onerosas, ou se considerem pela sua duração ou 
pela severidade d*essas condições», apparecendo na 
própria capital compromissos em que nem sequer 
é questão do tempo, e não se achando estabeleci- 
das nenhumas habitações preliminares e nenhuma 
exacção pecuniária para o ingresso na aprendiza- 
gem, «Mas tem um vicio capital e, no meu con- 
ceito, dos mais damnados, que consiste em limitar 
aos mestres o numero de aprendizes que podem 
tomar. » José Accurcio das Neves exemplifica com 
o capitulo ii do Regulamento dos officiaes de car- 
pinteiro e de pedreiro, de 13 de novembro de 1709, 
confirmado pelo alvará de 5 de março de 17 10, que 
é uma copia do cap. vn, § 2. do regimento antigo 
de 1684. 

Mas ao Juiz do Povo, na atrocidade pombalina, 
lhe partiram a vara; e as coisas horrendas que se 
seguiram não são para se dizerem duas vezes. 



/*> 



VI 



José Mayne — João Baptista Gomes 



D 



esviemos, pois, de vez, os olhos cfessas 
scenas de abominação e de relance passemos, em 
contraste, a vista por quadros mais prazenteiros 
que, a dentro do cyclo Almada, a nossa cidade do 
Porto. fácil e ingenuamente nos offereça. Na alegria 
dos públicos festejos nos refugiremos da tristeza 
dos públicos horrores que ao Porto, á epocha, de 
Lisboa vieram. E ha logar. 

Pois nas demonstrações de jubilo costuma 
aquella cidade distinguir-se, em Lisboa, por um 
folheto sahido em 1793 da ofíicina de Simão 
Thaddeo Ferreira, com motivo das festividades 
com que «se tem celebrado o feliz successo da 
nossa princeza», se memorou do Porto, que 
« aquella cidade » era. 

No dia 2 de maio recebera o desembargador, 
corregedor e provedor da comarca do Porto, Fran- 



200 PORTUENSES ILLUSTRES 

cisco de Almada e Mendonça, a carta regia de par- 
ticipação do feliz parto de D. Carlota Joaquina, 
Princeza do Brazil, e logo a fez presente ao Senado 
da Camará; no dia 3 se annunciou publicamente o 
successo por um bando, a toque de caixas e clarins, 
em que, além do porteiro, ia o alcaide da cidade, 
com outros offlciaes, vestidos de gala, todos mon- 
tados em soberbos e bem ajaezados cavallos, pre- 
cedidos de outros muitos ofíiciaes de pé, ricamente 
vestidos. No dia 9 o marechal de campo Sebastião 
Correia de Sá, governador das armas do partido 
da cidade, em acção de graças, mandou entoar o 
Te Deum, na egreja de N. S. da Graça, achando-se 
postados fora das portas da egreja os dous regi- 
mentos da guarnição da cidade e três companhias 
de artilheria. No dia 12, no fim do Te Dettm, de 
tarde, orou o P. M. doutor fr. Bartholomeu Bran- 
dão, seguindo-se depois a procissão, acompanhada 
dos dous regimentos. No dia 13 fez a Relação da 
cidade entoar o Tc Deum no Real Mosteiro Bene- 
dictino, a dous coros, com toda a pompa; e no 
mesmo dia 13, em applauso dos annos de S. Alteza 
Real o Príncipe, Francisco de Almada e Mendonça 
fez executar uma serenata, a dous coros, pelos mais 
destros professores de musica da cidade, na Real 
Casa Pia de Educação e Quartel das Partidas 
Avulsas, convidando toda a nobreza, tanto secular 
como ecclesiastica, e corpo de negociantes, assim 
nacionaes como extrangeiros, cuja numerosa assem- 
bléa passava de 700 pessoas, « que foram servidas 



VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 201 

com um copiosíssimo refresco e doces de todas as 
qualidades que se puderam excogitar.» As sallas 
do edifício, todas estavam magnificamente adereça- 
das e illuminadas. Na grande salla da orchestra se 
viam as pinturas mais bellas, e no fundo da mesma 
estavam dous grandes coros, onde, ao som de har- 
moniosos instrumentos, se cantavam letras feitas 
de propósito e todas dirigidas ao assumpto; nos 
intervallos, se recitaram varias obras poéticas. 

No dia 14, tornou a sahir o bando, para annun- 
ciar o Te Deurn, que o desembargador, corregedor 
e provedor da comarca, junto com o Senado da 
Camará, fazia celebrar no dia 16; n'este, pela 
manhã, no fim da missa orou o R. P. M. fr. José 
da Transfiguração; de tarde, entoou-se o Te Deum, 
a dous coros, de numerosos e escolhidos músicos, 
no fim do qual sahiu a procissão; ao recolher 
d'ella, deram três descargas os dous regimentos de 
infan teria, que também acompanharam, terminando 
d'esta forma as funcções devotas. 

«Ainda não satisfeita a cidade», o desembarga- 
dor Francisco de Almada e Mendonça e o doutor 
juiz-de-fóra Vicente José Ferreira Cardoso da Costa 
e vereadores Carlos Vieira de Mello, José Cirne 
Sousa, António Joaquim de Mesquita, Francisco 
Homem Pereira de Vasconcellos, procurador da 
cidade Bento Gomes Delgado e o escrivão da 
camará, o doutor João Caetano de Tello e Sousa, 
mandaram fazer uma praça, « a mais bella e magni- 
fica que n'este reino se tem visto», para se corre- 



202 PORTUENSES ILLUSTRES 

rem touros e se fazerem cavalhadas e outros espe- 
ctáculos por tempo de oito dias, e seis noites para 
a illuminação. 

A descripção da praça, que era formada em um 
octogno regular, faz-nos, de verdade, presumir 
maravilhas, apezar do caracter geométrico do gosto 
artístico do tempo. 

No dia 2 de junho, pelas três horas da tarde, 
via-se aquella praça povoada de riquíssimas mas- 
caras e de exquisito gosto; os camarotes, guarne- 
cidos de cortinas de preciosas rendas de varias 
cores; todas as trincheiras cheias de innumeraveis 
pessoas, sem ficar logar devoluto, apezar da sua 
vasta extensão, que, pelo calculo mais exacto, 
passavam de accomodar 18:000 espectadores. 

Feito o signal para principiar, logo entrou, para 
limpar a praça, uma completa guarda de archeiros. 
Seguiu-a a figura da Fama, precedida de dous 
volantes e muitos creados. Logo depois sahiu o 
primeiro carro, de aguar a praça, que mostrava um 
grande chafariz, guarnecido com os Cinco Sentidos, 
«lançando agua pelas suas respectivas partes»; e 
nos ângulos da balustrada que lhe servia como de 
base, para melhor adorno do mesmo carro, se divi- 
savam «quatro figurões de meio caracter.» 

Seguia-se o segundo que figurava o Amor Portuense, em 
forma de uma concha, que servia de sustentáculo á deusa 
Vénus, que no espaço acariciava o vendado Cupido. Na frente 
da concha estavam duas pombas, como symbolos do Amor. 



VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 203 

Houve ainda terceiro, quarto e quinto carro; e 
este (o carro de Marte) offerecia a particularidade 
de haver sido construído á custa das corporações 
dos Vinte-e-Quatro, « que instantemente pediram ao 
desembargador corregedor e provedor da camará 
lhes admittisse esta sincera demonstração do gosto 
que os dominava por tão fausto motivo. » 

Recolhidos os carros, retirava-se a guarda dos 
archeiros e entrava o neto, acompanhado de dous 
volantes e dous pretos de partazanas ; e, feitas as 
continências, sahiu o contendor João Pedro Sala- 
bert, precedido de 8 capinhas e 10 homens de for- 
cado; e, concluídas as cortezias do costume, tinha 
cada tarde 15 bravos touros para combater. Nos 
intervallos houve talhas de pássaros, raposas, pom- 
bos, coelhos, odres « e outras muitas esquipaçôes. » 

Este espectáculo foi repetido por oito tardes, em 
que foram apparecendo nos intervallos, além dos 
mencionados objectos de espectação, outros muitos, 
de differente gosto, merecendo maior attenção dous 
bailes, um de gosto russiano e outro turco, em que 
entravam os negociantes principaes d'esta praça. 
O folheto entende dever descrevel-os, «pela sua 
riqueza e aceio. » 

Foi illuminada a praça seis noites, brilhantissima- 
mente; e em a ultima noite n'ella entrou uma 
cavalhada burlesca, composta de 60 cavalleiros, 
« célebremente vestidos»; em três das ditas noites 
houve um copiosíssimo fogo, tanto do ar como 
preso, de novo gosto e differentes vistas, 



204 PORTUENSES ILLUSTRES 

em cada noite terminando o resto das mesmas com um 
judicioso outeiro, onde concorreram todos os poetas da cidade, 
que, além dos harmoniosos poemas que recitaram, dedicados 
ao assumpto de todo o festejo, responderam em obras, heróicas 
e lyricas, aos versos que do camarote do Senado lhes foram 
distribuídos, em cujo desempenho. . . mostraram a sua vasta 
erudição. . . 

Finalmente, abriu-se o theatro, por seis noites, ao 
publico, francamente, assim como* tinham sido os 
divertimentos da praça. Em três das noites da thea- 
trada, três burletas italianas se desempenharam ; e 
nas outras três, outras tantas comedias, « do melhor 
gosto. » 

Nas noites de illuminação geral, a Feitoria 
Ingleza « fez uma bem exquisita e delicada illumi- 
nação. » 

Egualmente, o desembargador corregedor e pro- 
vedor da camarca, junto com o Senado, mandou 
dar aos presos das cadeias da cidade um grande 
jantar, e nos dous domingos successivos, depois de 
concluídas as Festas Reaes, se fizeram dous bene- 
fícios, na praça dos touros, a favor dos presos das 
sobreditas cadeias. 

Amena decorria a vida, ao parecer, por então; 
as artes esmeradamente se cultivavam; nas lettras 
portuguezas, portuguezes se distinguiam. A mesma 
philosophia não intimidava o espirito affouto d'um 
que outro nosso conterrâneo, como José Mayne, 
por exemplo. 

Em o tom. xm (vi do «Supplemento»), infor- 



VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 205 

ma-nos o snr. Brito Aranha, continuador de Inno- 
cencio Francisco da Silva, de que na Academia 
Real das Sciencias se conserva o retrato de José 
Maine, ou Mayne, de corpo inteiro, com os de D. 
fr. Manuel do Cenáculo, D. fr. Caetano Brandão. 
D. fr. Alexandre de Gusmão, D. Marcellino José da 
Silva, fr. Francisco de Jesus Maria Sarmento, fr. 
Vicente Salgado, fr. Manuel dos Anjos, fr. Thomaz 
da Veiga, P. Manuel de Oliveira Ferreira, e vários 
outros escriptores, bispos e religiosos notáveis da 
Ordem. Estes quadros pertenceram ao extincto 
convento de Jesus, em cujo edifício foi depois 
estabelecida a dita Academia. As pinturas assevera 
o snr. Brito Aranha que não se recommendam pelo 
seu valor artístico, mas pelos homens eminentes 
que representam e cujos serviços ás lettras são, de 
alguns, muito dignos de apreço. 

Deverá entrar n'esta conta o nosso conterrâneo 
fr. José Mayne, franciscano da Congregação da 
terceira Ordem, cujo instituto professou em 1742, 
sendo o seu verdadeiro nome na clausura o de fr. 
José de Jesus Maria Mayne? 

Elle foi capellão-mór das armadas, confessor do 
rei D. Pedro m e primeiro Geral da sua Congrega- 
ção depois da nova reforma, deputado da Real 
Mesa Censória, etc. « Theologo eximio e Orador 
elegantíssimo» lhe chama o nosso padre Agostinho 
Rebello da Costa, conspícuo auctor da Descripção 
topographica e histórica da cidade do Porto; e na 
cidade do Porto José Mayne nasceu a 7 de junho 



20Ó PORTUENSES ILLUSTRES 

de 1723, na de Lisboa fallecendo a 23 de dezembro 

de 1793. 

Porém, em honra de José Mayne, melhor titulo 
representa hoje para nós o facto de -haver elle fun- 
dado no convento de Lisboa um Museu de historia 
natural, cuja administração está desde muitos annos, 
informa Innocencio em 1860, commettida á Acade- 
mia Real das Sciencias, deixando o nosso emérito 
portuense rendimentos estabelecidos para a sua 
conservação. 

Em Lisboa, no anno de 1778, publicou elle na 
Regia Offlcina Typographica um livro em que se 
propoz combater (Innocencio o rememora) «as 
doutrinas e erros dos materialistas antigos e mo- 
dernos, servindo-se das provas da razão e expe- 
riência e também das doutrinas das Santas Escri- 
pturas. » Esta obra apresenta-se como sendo uma 
Dissertação sobre a alma racional, onde se mostram 
os sólidos fundamentos da sua immortalidade e se 
refutam os erros dos materialistas antigos e moder- 
nos. E' dedicada a el-rei D. Pedro 111, nosso senhor. 
E declara-se escripta pelo padre fr. José Mayne, 
religioso da Terceira Ordem da Penitencia, confessor 
de Sua Magestade Fidelíssima. Abre com uma 
dedicatória ao reinante, por «o seu mais fiel 
vassallo e obediente servo», que «beija humilde- 
mente os pés do throno». Segue-se um «discurso 
preliminar», em que se lamenta que n'aquelles 
últimos tempos se hajam «renovado e reformado 
mais as doutrinas de Epicuro e Lucrécio com os 



VI — JOSÉ MAYNE — BAPTISTA GOMES 207 

impios escriptos de Bento Spinosa e do apóstata 
irlandez, João Toland, seu discípulo ; com os mons- 
truosos princípios de Thomaz Hobbes; com os de 
Coward, medico de Londres, e do irlandez Henri- 
que Dodwel. » Como se tudo isto não bastasse já, 
«para incorpar mais o echo de Epicuro e de Lu- 
crécio a favor do materialismo, não têm contribuído 
menos (á data o attesta o nosso Mayne) os grossei- 
ros paralogismos de António Collins e as duvidas 
sobre a matéria poder pensar, que é um dos erros 
que João Locke inventou e nãò quiz abjurar com 
ingenuidade philosophica. » 

Contra taes e tantas abominações, tantos e 
diversificados desvarios se conjura o douto por- 
tuense, que bota mão da penna e explica seu pen- 
sar por intermédio de cinco extensos capítulos, 
arreados da opulência de notas copiosas e eruditas. 
O primeiro d'estes capítulos tracta da existência da 
alma racional, que alli se mostra com rasões philo- 
sophicas, propondo-se os argumentos que contra- 
riam esta verdade, mas refutando-se os erros dos- 
materialistas com os seus mesmos argumentos e 
doutrina. O segundo capitulo é ethereamente sub- 
stancioso, pois, occupando-se da essência da alma 
racional, refere as diversas idéas que formaram os 
antigos sobre a entidade da alma racional; diz que 
idéa fazem d'ella os naturalistas modernos; expende 
como deve ser justamente definida a nossa alma e 
confuta os erros e absurdos em que cahiram os 
materialistas a respeito da essência d'esta mesma 



208 PORTUENSES ILLUSTRKS 

entidade. O cap. m toma por thema nada menos 
que a origem da alma racional ; relata as diversas 
opiniões que acerca da nossa alma sustentaram os 
philosophos, antigos e modernos; mostra qual seja 
a verdadeira causa efficiente do nosso espirito e 
repulsa os erros sobre este ponto. No cap. iv # che- 
gamos determinadamente á questão da espirituali- 
dade da alma racional; primeiramente, mostra o 
auctor que a nossa alma é racional e livre; em 
segundo logar, rechaça os viciosos argumentos dos 
materialistas e, emfim, expõe philosophicamente as 
enormes consequências de sua falsa e abominável 
doutrina. O cap. v tem por objecto o ponto máximo 
da immortalidade da alma racional; ahi, em primeiro 
logar o auctor demonstra que a nossa alma intrin- 
secamente é immortal; em segundo, que, ainda que 
Deus a possa destruir, ha de ter eterna duração; 
em terceiro, propõe e refuta os argumentos mais 
fortes com que os materialistas impugnam esta 
verdade. 

D'esta summula apurou já o leitor que o philo- 
sopho portuense deposita confiança plena em sua 
philosophia. Não obstante, elle não deixa de appel- 
lar para o poder temporal, que sempre valeu nas 
anciedades do poder espiritual com perseguições 
aos dissidentes, censuras aos pensamentos autó- 
nomos, queima de livros e queima de auctores. 
«Se as acções edificantes dos príncipes (exclama 
José Mayne para a parda magestade de D. Pedro 
ih) formam a causa immediata da boa educação 



VI — JOSÉ MAYNK — JOÃO BAPTISTA GOMES 209 

dos vassallos; se os vassallos bem educados com- 
batem unidamente com seus príncipes, pela verdade 
da religião que professam, não será justo, Senhor, 
que, atacando o materialismo a Portugal, reconheça 
o mundo nos monarchas que o governam outros 
tantos Mathathias, que, animados de illustre zelo, 
defendem a casa do Altissimo?» Isto, despida a 
farrapada rhetorica que veste o conceito e o dis- 
farça, quer dizer, chã, singela e cruelmente : 
Accenda Vossa Magestade as fogueiras dos autos- 
de-fé que outr'ora torraram judaisantes, e a tor- 
resmos se reduzam todos quantos se nutrem dos 
cartapacios de Diderot, Helbecio (assim Mayne 
escreve) e de Voltaire, ou Volter, consoante o 
pseudonymo Ih' o vulgarisa o nosso conterrâneo. 

Eis o lado antipathico do seu livro, que é aliás 
documento de leitura e a fornece mesmo aprazível, 
tanto quanto licito seja em matérias taes empregar 
o adjectivo, a modo de convite, seguramente des- 
denhado. 

. Chega quasi que a ter chiste no relanço em 
que allude á phantasia do jesuíta Guilherme Bou- 
geant, que systematicamente quizera estabelecer 
que os demónios animavam os corpos dos irracio- 
naes. E, com acertado senso do perigo, elle se 
esquiva da máxima difticuldade, por cujas cortantes 
arestas roça de passagem, quando, alludindo aos 
«cartesianos, com a celebre águia que edificou 
João Regiomontano, com a cabeça que proferia 
algumas palavras fabricada por Alberto Magno, e 

VOL. I. \\ 



2 IO PORTUENSES ILLUSTRES 

còm outros admiráveis portentos da arte mecha- 
nica», registra que elles negam «que os brutos 
sintam, cogitem ou tenham alma distincta da parte 
machinal. » 

Quadrando com noticia sobre triste aberração 
critica, em 1857 o lusophilo Ferdinand Denis bio- 
graphava a António Gomez Pereira, dando-o como 
philosopho, portuguez ou hespanhol, que vivia no 
século xvi. Additava que, combatendo Galeno, elle 
emittira diversos princípios nos quaes se suppõe que 
Descartes haveria haurido as suas primeiras idéas 
sobre a alma dos animaes. O seu livro é intitulado 
(accrescenta) Margarita Antoniana, Medina dei 
Campo, 1554; fora reimpresso em 1587, e em 1610 
em Francfort. N'elle tracta, prosegue, da Anima 
Brutorum, e é n'esta porção de sua obra que colhe 
buscar os factos (deve ser erro typographico por 
traços) que caracteristicamente sobre elle demoraram 
a attenção de alguns sábios: assim remata. 

Isto são contos largos, que nem cabem nem 
sahiriam a preceito. Restrictamente, nos resta do 
portuense philosopho José Mayne a citar de passa- 
gem um opúsculo de circumstancia, em Lisboa 
impresso em 1757. 



Portuense philosopho José Mayne, de todo des- 
conhecido, desconhecida não é já a obra capital de 
portuense poeta dramático. 



s VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 211 

Na verdade, os que fomos meninos e moços ha 
trinta annos recordamo-nos ainda, quando a sau- 
dade da adolescência malbaratada nos punge, recor- 
damo-nos ainda do gostoso anceio com que aguar- 
dávamos a hora, morosa em chegar, de partirmos 
com a família a ouvir, pela quarta ou quinta vez, 
do caso lacrimoso de D. Ignez de Castro. Posto 
isto foi em scena na tragedia de João Baptista Go- 
mes, a qual acabo de reler em sua quinta edição, 
por Innocencio já não discriminadamente deduzida, 
no Porto em 1837 estampada na imprensa de M. 
J. A. Franco, do Largo de Santa Clara, e offerecida 
á venda na loja de livros de Novaes, ás Hortas, 
n.° 125. 

Do Porto era também natural o auctor, esse 
João Baptista Gomes Júnior, que aqui seguiu a 
profissão do commercio e fora (segundo crê Inno- 
cencio) guarda-livros n'uma casa de negocio, 
morrendo em edade ainda verde, a 20 de dezembro 
de 1803, e sepultaram-o no conventQ de S. Fran- 
cisco. A sua viuva, D. Anna Benedicta Gomes, 
que, ao tempo do fallecimento do marido, ficara de 
24 annos, veio a finar-se em 4 de janeiro de 1844, 
deixando do seu consorcio uma filha, casada com 
o dr. José Machado de Abreu, lente cathedratico e 
depois reitor da Universidade de Coimbra, primeiro 
barão de S. Thiago de Lordello, tio de Adriano de 
Abreu Cardoso Machado, filho de Rodrigo de Abreu 
Cardoso Machado e que conhecemos lente proprie- 
tário de economia politica na Academia Poly- 



212 PORTUENSES ILLUSTRES 

technica, reitor do Lyceu e deputado a cortes, em 
successivas legislaturas, por esta cidade. 

Da Nova Castro de João Baptista Gomes, escre- 
veu Garrett que seu auctor mostrou n'ella « muito 
talento poético e dramático.» E, consignando-o, 
Innocencio avulta este parecer em prol de seu 
patricio d'elle, por isso que Garrett « não será tido 
n'este caso por suspeito. » Depois de ter censurado 
aquelles que se exaggeraram em elogios a João 
Baptista Gomes, Innocencio, em tom mais áspero, 
reprehende que ultimamente (1859) haja sido moda 
desdenhar da Castro e do seu auctor, «cahindo os 
que assim ajuizam no extremo opposto e mos- 
trando-se invejosos depredadores do mérito verda- 
deiro, contra o qual não prevalecem de certo os 
seus epigrammas. » 

E, comtudo, inconsequentemente não attende 
Innocencio ao facto singular de que seja elle-proprio, 
Innocencio dito, quem mais empenhado afan de- 
monstrou em menosprezar a memoria de João 
Baptista Gomes, revindicando com ufania, para sua 
perspicácia esthetica e para sua litteraria reminis- 
cência, a iniciativa de haver feito a descoberta de 
que a Castro de Gomes não passava d'um mero 
plagiato da Castro de Quita. «E para admirar que 
ninguém que me conste (Innocencio desfarte pon- 
dera) fixou até agora esse reparo, pois as imitações 
na substancia e na forma são tam características e 
pronunciadas que para logo saltam aos olhos.» 

Ora, em matérias de probidade artística ha que 



VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 21^ 

reflectir antes de decidir, e as coisas não vão assim 
com essa pressa; muito cumpre esmiuçar no lance 
do cotejo da peça de Gomes com a de Quita,, de 
cujas tragedias na composição parecera já antece- 
dentemente a Innocencio que Pedegache tivera boa 
parte, « pertencendo-lhe talvez a urdidura e o 
enredo das fabulas.» 

Mais avisadamente anda Camillo Castello-Branco 
limitando-se a chamar da de Quita imitação á tra- 
gedia de João Baptista Gomes; Innocencio, porém, 
gostoso, precipita-se nos reparos. Ao menos, a 
invez do geito lusitano, não tem devoção a extran- 
geiros; antes, os não poupa. Eis na baila, ainda 
por causa de João Baptista Gomes (em sua tra- 
ducção da tragedia de Lamotte, Os Machabeos) 
Balbi. « E para notar (admoesta Innocencio) o modo 
como Balbi, ao dar noticia dos trabalhos dramáticos 
d'este poeta no Essai Statistique, tom. n, pag. 164, 
estropeou o titulo d'esta peça, chamando-a Os 
Mancebos!» 

Ora, quem parece haver sido o « estropeador » 
foi o typographo-paginador, em obra inçada de 
erros de composição e até de enganos de numera- 
ção, consoante amostra opípara e, sem embargo, 
insufficiente se depara nas laudas ccclxvij 
e immediata, repletas de emendas e addições, 
aliás. 

Com effeito, o texto chasqueado por Innocencio 
não se restringe ao erro de Mancebos por Macha- 
beos, certamente escripto em portuguez pelo auctor, 



214 PORTUENSES ILLUSTRES 

que, conforme era e continua a ser a regra lá-fóra, 
uma vez entregue o manuscripto aos livreiros, não 
vê as provas da própria obra. As suas quatro 
linhas estão todas transformadas, por uma transpo- 
sição, evidente, da composição. 

Encontra-se o texto n'este teor: «João Baptista 
Gomes, Vauteur de la Nova Castro, passe aussipour 
un bon traducteur. On a de lui la Gabrielle de Vergy 
de La Motte, qu'il a intitulée le Fayel d'Arnaud, et 
os Mancebos. » Disparate. Quando o que devia estar 
era isto: «João Baptista Gomes, Fauteur de la Nova 
Castro, passe aussi pour un bon traducteur. On a 
de lui la Gabrielle de Vergy d'Arnaud qu'il a inti- 
tulée Fayel, et Os Machabeos, de la Motte. » Agora 
bate certo. Ou, antes, faz sentido. Porque certo 
ainda não bate. 

E não bate, porquanto Balbi, citando de memo- 
ria, confundiu, pela identidade do assumpto, os 
titulos diversos de duas tragedias differentes, de 
vario auctor: uma, essa Gabriella de Vergy, com 
effeito, mas de Belloy; a outra, d'Arnaud, na ver- 
dade, mas Fayel. 

Foi esta a que em verso portuguez traduziu 
João Baptista Gomes e cuja segunda edição, im- 
pressa em 1803, na offlcina de António Alvarez 
Ribeiro, se vendia na mesma officina na rua de S. 
Miguel, e na rua das Flores, na loja de livros á 
esquina da travessa do Ferraz. « Fica-se imprimindo 
(annuncia a advertência da lauda derradeira) a 
Tragedia intitulada Os Machabeos, composição de 



VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 21 5 

Mr. de la Motte, traduzida em verso portuguez pelo 
mesmo traductor.*> 

Da Gabriella de Vergy, de Belloy, diz Carlos 
Nodier que é uma d'essas peças que entristecem 
muito mais do que interessam; do Fayel, d'Arnaud, 
critico francez observa que seu plano é mais enge- 
nhosamente traçado e que a catastrophe final é, 
outrosim, mais temperada e mais habilmente apre- 
sentada do que na tragedia de Belloy, cujo quinto 
acto Carlos Nodier averbara de revoltante. 

Os leitores de Camillo Castello-Branco conhecem 
a lenda medieval que deu origem ás duas composi- 
ções theatraes emulas, porque se recordam do capi- 
tulo Dous corações guisados, com que abre o volume 
das Cousas leves e pezadas, da «Bibliotheca do 
carroçâo. » 

Um dos dois corações guisados é o do amador 
de Gabriella de Vergy, que, vendo inaccessivel sua 
bem-amada, deliberou ir finar-se á Terra Santa, 
onde morreu, com effeito. Pouco antes de expirar, 
ditou ao seu escudeiro uma carta para Gabriella, 
pedindo-lhe que recebesse da mão d'aquelle o seu 
coração embalsamado e recluso em cofre de ouro. 

Fez-se o escudeiro caminho de França e avisi- 
nhou-se do castello de Fayel. O castellão encontra 
o desconhecido pagem ; arranca da espada, ameaça-o 
de morte e senhorea-se do cofre. Mandou lêr a carta 
por um clérigo do castello e volta escumando fúrias 
contra a mulher. Pede ao inferno uma vingança 
digna. O inferno inspirou-lh'a. 



2l6 PORTUENSES ILLUSTRES 

Truculentamente, narrando prosegue Camillo 
Castello-Branco : 

Entra na cosinha; ordena ao cozinheiro que lhe guise o 
coração, assiste, á lareira, ao processo do guisado, e cheira 
com delicias de cannibal as vaporações da caçoula. 

Está posta a meza da ceia. Vem o prato. Gabriella come 
alguns bocados, ao compasso que o marido Ih 'os está encare- 
cendo como manjar de anjos e inveja de sybaritas. 

— Que tal? é bom? — pergunta elle. 

— E. Comi com vontade e prazer. 

— Mandei fazer este guisado — tornou o marido — por ser 
de uma carne muito de teu gosto. 

Ficou ella a scismar. 

Elle, como Gabriella não perguntasse que espécie de carne 
aquella fosse, proseguiu : 

— Então não sabes que é? 

— Não. 

— E o coração de Raul. 

Gabriella saltou da cadeira, quedou-se petrificada por 
instantes, mas duvidou. 

N'isto, o marido abre o cofre, tira uma carta e mostra-lhe 
a assignatura, que ella reconhece. 

Gabriella debulha-se em lagrimas, e diz: 

— Morreu o mais leal cavalleiro! 

Sahiu a recolher-se no seu quarto. Ninguém lhe ouviu 
clamor nem gemido. Alta noite: . . levou a porta dentro de 
impuxão, pois que a esposa não lh'a vinha abrir. Encontrou-a 
morta, com o rosto alumiado dos revérberos da luz eterna das 
almas em gloria. 



&■ 



Não obstante a carência de informações positi- 
vas da authenticidade d'aquella lenda que Camillo 
Castello-Branco lograra apurar para o primeiro dos 
dois corações guisados, era notório, ainda assim, 



VI — JOSÉ MAYNE — JOÃO BAPTISTA GOMES 217 

que os parentes de Gabriella de Vergy fizeram 
montaria rija ao lobo cerval, até lhe alastrarem o 
castello entre as lavaredas dos bosques circumpos- 
tos. «Como quer que fosse (Camilio Castello- 
Branco remata), a moralidade das duas historias não 
funde no acabamento desastrado dos maridos: o 
que faz a moral e o exemplo é t o infortúnio dos 
poetas. » 

Porém, modernissimamente sobre poetas e sobre 
maridos o riso cahe por egual: não poupa sequer, 
no mimo de sua castidade, a castellã, cujo delicto 
consistiu tam só na dadiva, a seu trovador apaixo- 
nado, de um cordão de cabello, enfiado em pérolas, 
« imagem de suas lagrimas. » 

O espirito zombeteiro engendra, por lettra de 
Blondeau e Monréal, uma opereta buffa, musica de 
Demarquette. 

Gabriella de Vergy é representada com o suc- 
cesso do estylo, n'uma apotheose de galhofa, sobre 
o palco das Folies-Marigny, em Paris, a n de 
novembro de 1871. Assim passa a poesia das 
edades; o drama transmuda-se em farça; e ao 
terror trágico de hontem a musa oftènbachiana 
dá-ihe hoje um acompanhamento de ferrinhos e 
zabumba. 



VII 



Vieira Portuense — Silva Porto — João 
Corrêa — Guilherme Corrêa — Ricardo 
Raymundo Nogueira. 



D 



e pintor por vocábulos para pintor por 
tintas a transição não detona forçada e no cyclo 
entram; assim, occasião idónea é, que do Vieira 
Portuense por um momento cuidemos. 

Tanto mais opportuna e discriminadamente 
quando com o outro Vieira quiçá hajam confun- 
dido, pois que transtornos e equivocações têm di- 
manado aliás de homens tam eruditos e escrupulosos 
como o visconde de Juromenha, que attribuiu com 
inexactidão flagrante ao nossso conterrâneo a auto- 
biographia que aquelle elaborara e imprimira em 1780 
com o titulo de insigne pintor e leal esposo Vieira 
Lusitano, historia verdadeira, que elle escreve em 
cantos lyricos. Todavia, «Vieira Portuense é pouco 
comparável a Vieira Lusitano (assim traslada lnno- 
cencio do conde de Raczynski). Predominavam nos 



220 PORTUENSES ILLUSTRES 

dois artistas naturezas mui diversas. O Lusitano 
seguia uma direcção mais determinada e mais 
clássica, sem comtudo attingir os sublimes modelos 
da epocha dos Medicis. O Portuense, em cuja natu- 
reza artística havia menos energia, e cujas disposi- 
ções eram mais modestas, se por uma parte bus- 
cava approximar-se de tam excelientes prototypos, 
sentia em si, por outra, a influencia da arte moderna; 
ensaiava-se em géneros diversos, e imprimia em 
todas as suas obras a expressão da doçura, da 
amabilidade e da suave melancholia que parece 
haverem sido os sentimentos característicos da sua 
indole. » 

D'este peculiarismo de sua objectiva feição 
antolha-se que testemunho seja a própria morte do 
pintor portuense. 

Occupava-se elie da composição de um quadro 
em que representava Duarte Pacheco, o Achilles Lu- 
sitano, defendendo contra o Çamorim o passo de 
Cambaldo, destinado para ornar a casa das Desco- 
bertas, no palácio de Mafra, quando veio accom- 
mettel-o uma grave enfermidade, que devia ser para 
eile mortal. 

No fito de a debellar, esgotados em vão os 
recursos da sciencia, os médicos aconselharam-lhe 
o clima da Madeira, como único em que poderia 
achar remédio ao seu padecimento. Resolveu-se a 
emprehender a viagem. Partiu, mas não tornaria a 
vêr a pátria, pois que, tendo aportado á ilha dese- 
jada, em vez dos allivios que esperava, o seu estado 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 221 

peorou repentinamente. O dia 2 de maio do anno 
de 1805 fora o ultimo da sua vida, finando-se, 
assim, aos quarenta annos incompletos de edade 
uma existência que, a ser mais duradoira, legaria 
de certo á posteridade novas e porventura mais 
rasgadas manifestações do seu admirável talento. 

Innocencio, qi^p o diz, diz também que ha n'esta 
morte prematura o que quer que seja de mysterioso 
e enigmático, que os biographos contemporâneos 
de Vieira se contentaram de deixar-nos entrever, 
sem ousarem decifral-o. Expende que Cyrillo, deplo- 
rando-a, guarda comtudo um reservado silencio, e 
como que a attribue exclusivamente á gravidade da 
moléstia. Porém que Taborda, um tanto mais expli- 
cito, dissera, palavras formaes : « Que a inveja, sem- 
pre declarada inimiga do merecimento, seria talvez 
quem lhe abreviasse os dias; e que os findara na 
convalescença da perigosa enfermidade que o oppri- 
mia, aggravada por muitos incidentes, a que as mais 
das vezes nem mesmo as almas grandes sabem resis- 
tir. » Balbi affirmara em resumo que « desgostos que 
soffreu lhe encurtaram os dias. » Ultimamente, 
Raczynski parecia levantar uma ponta do véu que 
encobre o mysterio quando (nas suas Lettres) 
escrevera: Sequeira, ao que me disseram, nutria 
contra Vieira um rancor grandíssimo, e empenhava-se 
em lhe fazer mal. Encheu-lhe a vida (T amargura. ■■> 

A tradição geral dos contemporâneos aucto- 
risa-nos, segundo Innocencio, a crer que reinara 
entre os dois insignes artistas o sentimento da 



222 PORTUENSES ILLUSTRES 

emulação ou rivalidade, o qual predominava em 
Sequeira a ponto de o tornar invejoso do mérito 
alheio, quem, como elle, havia de sobra aliás com 
que contentar-se do próprio. « E para lastimar que, 
por imperfeição inherente á natureza humana, o 
caso seja tam vulgar entre aquelles a quem, filhos 
da mesma arte, e sacerdotes do mesmo culto, cou- 
bera melhor (exprobra n'este tom Innocencio) o 
dever de amarem-se como irmãos!» 

Mas, se em 1865 um tanto romanescamente 
assim Innocencio relatava, elle em 1859 se reduzira 
a consignar que na ilha da Madeira, para onde 
partira, por conselho dos médicos, afim de buscar 
n'aquelle clima o remédio á phthisica que padecia, 
fallecera Francisco Vieira Júnior, mais conhecido 
pelo nome de Vieira Portuense, pintor histórico e 
de paisagens, lente de desenho na Academia do 
Porto, sua pátria. 

Onde nasceu em 13 de maio de 1765, sendo 
seu pae Domingos Francisco Vieira, que, segundo 
os biographos, reunia á profissão da arte de pintura 
(em que dizem não era dos de menos conta) a de 
commerciante ou vendedor de drogarias. Assim, 
demorado Francisco Vieira Júnior em Lisboa pela 
necessidade de attender a vários importantes tra- 
balhos, tornando-se-lhe, pois, impossivel exercer 
simultaneamente o magistério no Porto, durante 
sua justificada ausência fora confiada a regência da 
sua cadeira a seu pae, Domingos Vieira, nomeado 
substituto, o qual, segundo os apontamentos que 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 223 



Innocencio em 1865 teve presentes, desempenhou 
as funcções como tal desde 1 de novembro de 1802 
até 30 de junho de 1803. 

N'esse anno de 1865, Innocencio registrava 
n'esta cidade do Porto, das de que noticia tinha, 
como producções aqui existentes do pincel do 
Vieira Portuense, quatro quadros de altar, colloca- 
dos na capella da Ordem Terceira de S. Francisco, 
representando respectivamente Santa Margarida, 
confessando-se, em artigo de morte, a um frade 
franciscano; Nossa Senhora da Conceição; Santa 
Isabel, distribuindo esmola aos pobres; S. Luiz, rei 
de França, em oração. 

No sentir de Raczynski o primeiro é, d'elles, o 
melhor, e o ultimo o mais fraco. Revela-se, porém, 
em todos o caracter de sensibilidade e os sentimen- 
tos piedosos do artista ; o colorido, com quanto seja 
débil, é, todavia, harmonioso; finalmente, julga-os 
dignos de toda a consideração. 

Innocencio refere-se no museu portuense a um 
quadro de Ckristo crucificado, outro de 5\ Joào, e 
á Adoração do Santíssimo. (D'este se acha menção 
na Miscellanea Litteraria, jornal aqui do Porto, 
publicado em 1860). Afora esses, a duas bellas 
paisagens, das quaes uma representa uma mulher 
com um menino, que parece defender contra o 
ataque de alguns malfeitores. 

De Vieira Portuense existe o retrato, desenhado, 
segundo Innocencio julga, por elle próprio, e gra- 
vado em Londres por Bartholozzi; e lord Howard 



2 24 PORTUENSES ILLUSTRES 

de Walden, embaixador que foi de Inglaterra na 
corte de Lisboa, possuia á sua parte, e com muito 
apreço, vários desenhos de Vieira, nos quaes, 
segundo a affirmativa de Raczynski, se divisa um 
sentimento artístico mais puro e mais elevado que 
o de Sequeira. Innocencio com acerto commenta 
que «tam avantajado conceito é sobremaneira hon- 
roso para o insigne portuense. » 

D^ste se occupou com extensão Innocencio, 
servindo-se para seu trabalho, (além do que já exis- 
tia impresso a respeito do pintor portuense) de vá- 
rios documentos inéditos que do Porto lhe foram 
fornecidos pelo lente da Academia Polytechnica, 
Joaquim Torquato Alvares Ribeiro. Mas reorgani- 
sado ulteriormente o ensino no Porto, do Discurso 
feito, na Academia de desenho e pintura da cidade 
do Porto, impresso em Lisboa em {893, porém pro- 
nunciado no Porto na abertura da Academia pelo 
Vieira Portuense, segundo a Innocencio commu- 
nicara em tempo o sobredito Alvares Ribeiro, não 
restava no Porto «conhecimento ou memoria de 
alguma. » 

Modernamente, a Academia de Bellas Artes do 
Porto, distincta no ensino por professores abalisados 
e artistas famosos, como o pintor Rezende e o 
quasi-portuense, pois que de Gaya, eminente esta- 
tuário Soares dos Reis, d'entre vocações, cerce 
cortadas pela morte, como a de Henrique PousãQ, 
viu vingarem, discípulos laureados seus, que che- 



VII — VIEIRA PORTUENSE SILVA PORTO — &C. 225 

garam a conquistar glorias primaciaes, como o 
portuense Silva Porto, o insigne paisagista, hon- 
rando assim aulas cfonde haviam sahido para o 
publico favor outros portuenses de mérito, como o 
pintor Jo/io Corrêa e seu irmão, Guilherme Corrêa, 
desenhista primoroso. 

Mas de distinctas pessoas da epocha do Vieira 
Portuense a memoria se obliterou, consoante acon- 
teceu para com o distincto portuense Ricardo Ray- 
mundo Nogueira. 



* 



Até 15 de setembro de 1829 desempenhou o 
cargo de membro da Regência do reino, para que 
fora nomeado, na ausência do rei D. João vi, este 
Ricardo Raymundo Nogueira, portuense como José 
Ferreira Borges, aqui nascido a 31 de agosto de 
1746, e em Lisboa morto a 7 de maio de 1827; e, 
como José Ferreira Borges, poeta foi também esse 
cónego doutorai na Sé d'Elvas e doutor e lente da 
faculdade de Leis na Universidade de Coimbra, onde 
as prelecções, que fez de Direito Pátrio no anno lectivo 
de 1795 a 1796 sahiram, posthumas, em o vol. vn do 
conhecido jornal scientifico e litterario O Instituto. 

Se José Ferreira Borges, pondo-lhe só suas ini- 
ciaes, traduziu em linguagem as Cartas a Emitia 
sobre a Mythologia, por Dumoustier, cuja primeira 

VLO. I. \*> 



226 PORTUENSES ILLUSTRES 

parte, a única que sahiu á luz, imprimiu em 1819 
em Paris A. Bobée, Ricardo Ray mundo Nogueira, 
não lhe pondo o nome, em portuguez verteu as 
Pastoracs, de Gessner, que no Porto em 1778 se 
estamparam na officina que foi de António Alvares 
Ribeiro. E, ainda que, por egual anonymo, seu 
consta ser o traslado da Poética de Aristóteles, que, 
transferida do grego a lusitano, fez em Lisboa ge- 
mer, em 1779, os prelos da Regia Officina Typo- 
graphica. A introducção que a procede a outro 
portuense se attribue, António Ribeiro dos Santos, 
collega na Universidade e seu amigo intimo. 

Da própria ideação, varias poesias ha, que fo- 
ram insertas (anonymas), na Collecçâo de Poesias 
inéditas dos melhores auctores portuguezes, apontan- 
do-se como taes o Sonho, o Episodio e uma Can- 
ção, o que tudo se encontra a varia lauda do res- 
pectivo tom. 11. Uma das pessoas que mui positiva- 
mente a Innocencio afflrmaram serem de Ricardo 
Raymundo Nogueira estas peças foi o dr. Vicente 
Pedro Nolasco (da Cunha), parente, pelo lado pa- 
terno, em grau próximo do celebre e infeliz José 
Anastácio da Cunha e homem bem apessoado, de 
aspecto agradável e de estatura agigantada, que 
com isso provocara os sarcasmos de José Agosti- 
nho de Macedo, o qual em algumas de suas saty- 
ras manuscriptas o apodava com a alcunha de gi- 
gante de breu. Outrosim da penna de Ricardo Ray- 
mundo Nogueira sahiu o opúsculo A serra de Cin- 
tra, que se estampou em Lisboa, na Imprensa Re- 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 227 

gia, em 1 8 14, também sem o seu nome, e de que, 
comquanto não apresente a indicação de segunda 
edição, ha effectivamente outra mais antiga, sem 
declaração da data nem da typographia onde fora 
impressa. E* uma descripção poética d^quella fa- 
mosa serra, em setenta estancias, ou sextinas de 
versos rithmados. 

Em honra da memoria de Ricardo Raymundo 
Nogueira escreveu José Agostinho de Macedo, seu 
admirador e amigo particular, um Elogio histórico, 
que é tido, consoante o fixa Innocencio, na opinião 
de alguns como uma peça de verdadeira e solida 
eloquência. E, dando-o como residindo á data no 
Porto o extrangeiro Balbi, de Ricardo Raymundo 
dissera: «Este profundo jurisconsulto e litterato 
distincto possue um conhecimento perfeito das lín- 
guas antigas e de algumas das modernas mais es- 
palhadas, taes como os idiomas inglez, francez, 
allernão, italiano e hespanhol.» 

Mas de penna extrangeira, com respeito ao 
nosso portuense, bem mais interessante é o que 
nos deixou escripto, em sua Histoire de la guerre 
d'Espagne et du Portugal, o illustre general Foy. 

Ahi diz este que fora Simão de Cordes Brandão 
e Athayde, fidalgo da Casa Real, collegial do Real 
Collegio das Ordens Militares, cónego doutural da 
Sé do Porto, doutor e lente da faculdade de Câno- 
nes na Universidade de Coimbra, que, reunido ao 
desembargador Francisco Duarte Coelho e a Ricardo 
Raymundo Nogueira, então reitor do Collegio dos 



228 PORTUENSES ILLUSTRES 

Nobres, e depois membro da regência do reino,, 
redigira e preparara com elles o projecto de Consti- 
tuição, que se tractava de pedir a Napoleão i, e que 
vem transcripto nas provas justificativas da obra. 
referida. José Accursio das Neves, na sua Historia 
da invasão dos francezes em Portugal, traz egual- 
mente aquelle documento, porém não diz por des- 
coberto a quem deva attribuir-se. 

Quanto a Francisco Duarte Coelho, bacharel 
formado em Cânones pela Universidade de Coim- 
bra, desembargador da Casa da Supplicação, que 
Innocencio crê que nasceu em Lisboa, e era sobri- 
nho de fr. Mathias da Conceição, frade arrabido e 
confessor do rei D. João vi, quando príncipe, antes* 
da retirada da família real para o Brazil, senda 
kccusado de jacobinismo em 1808, foi pela regência 
do reino mandado sahir de Lisboa, como depor- 
tado, para uma quinta que possuia a distancia da 
capital: e ignorava Innocencio se até começara a 
formar-se-lhe algum processo. Em 18 10 foi elle um 
dos comprehendidos na chamada Setembrisada, indo 
deportado para a ilha Terceira, onde se conservou 
até 181 5, segundo cria Innocencio. 

Entretanto, o auctor da Historia d'el-rei D. 
João vi, cuja traducção se imprimiu em Lisboa em 
1838, declara, mui expressamente, que a celebre 
mensagem a Napoleão fora redigida pelo medico 
Gregório José de Seixas de accordo com muitas 
pessoas distinctas por suas luzes e representação ; e 
que o general Foy, na obra citada, attribuira erra* 



VII — VIEIRA PORTUENSE SILVA PORTO — &C. 22 9 

damente a redacção da mensagem a três pessoas, 
que não foram os seus auctores. 

E de lembrar, conforme o faz o bibliographo, 
que José Agostinho de Macedo affirma, em mais 
•de um logar, que Simão de Cordes fora um dos 
que nos fins do século xvm e principio do xix 
•deram maior incremento á propagação da maçona- 
ria em Portugal, e principalmente em Coimbra, 
onde chegara a organisar algumas lojas. Entende 
que não lhe cumpre decidir se taes asserções podem 
qualificar-se de falsas; mas o certo era que ellas 
contradiziam manifestamente o que do procedi- 
mento e doutrinas de Simão de Cordes nos conta 
o bispo de Vizeu D. Francisco Alexandre Lobo no 
Elogio histórico que d'aquelle elaborou e vem no 
primeiro tomo das Obras do mesmo bispo. 

Em 1862, perplexo, abstivera-se Innocencio, 
escrevendo: «A vista d'estes testemunhos encon- 
trados, os leitores julgarão o que lhes parecer.» 
Em 1870 poderia syncretamente lêr no tom. i da 
segunda epocha (« Guerra da Península ») da His- 
toria da Guerra civil e do estabelecimento do governo 
parlamentar em Portugal que, comprehendendo a 
historia diplomática, militar e politica doeste reino 
desde 1777 até 1834, redigiu Simão José da Luz 
Soriano as palavras que seguem: 

Apesar da junta dos três estados não ter representação 
alguma nacional, como já dissemos, nem cousa que se pare- 
cesse com ella, todavia trabalhou-se muito, por parte dos par- 
tidistas de Junot, para a fazer acreditar como tal, tanto em 



23O PORTUENSES ILLUSTRES 

Lisboa como nas províncias; e, emquanto, por um lado, para 
estas se expediam emissários com cartas para lá apressarem a 
formação de outras representações análogas ás que se fizeram 
na capital, o conde da Ega e os que com elle estavam associa- 
dos buscavam com todo o empenho fazer com os da junta para 
que Junot fosse o individuo que a Napoleão se pedisse para rei 
de Portugal. 

Desde muito tempo que este projecto se achava premedi- 
tado, mas desde logo teve uma forte opposição contra si na 
pessoa de Mr. Carrion de Negas, official de cavallaria do exer- 
cito francez e de grande reputação de litterato, e na de Mr. 
Lecusson Verdier, negociante da mesma nação em Lisboa, os 
quaes, unidos ao desembargador Francisco Duarte Coelho, 
antigo secretario da legação portugueza em Paris no tempo em 
que D. Lourenço .de Lima alli foi embaixador, e a Ricardo 
Raymundo Nogueira, reitor do Collegio dos Nobres, e ao 
cónego Simão de Cordes Brandão, lente de direito na Universi- 
dade dé Coimbra, resolveram formular uma outra supplica ou 
representação, em que se contivessem os princípios fundamen- 
taes das liberdades publicas do paiz, que os nossos maiores 
não tinham podido fazer vingar, diziam elles, na feliz acclama- 
ção de D. João iv. A supplica que n'este sentido se formulou 
foi redigida pelo dr. G. J. de Seixas, de accordo com os indi- 
víduos acima mencionados e alguns outros, notáveis por suas 
luzes e representação social, e apresentada ás auctoridades 
francezas, pelo juiz do povo, em nome da extincta casa dos 
vinte-e-quatro a que presidia. 

Já em 1838 José Maria de Souza Monteiro 
narrara pittorescamente : 

O pobre juiz do povo foi ameaçado com cartas anonymas; 
soffreu uma severa reprehensão de Junot, e chamado á presença 
de Lagarde, que o interrogou sobre quem lhe tinha dado 
aquelle papel; soube-se depois que havia sido um tal Verdier, 
de combinação com o snr. Carrion, official de cavallaria no 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 23 I 

exercito francez, e Francisco Duarte Coelho, desembargador e 
antigo secretario de D. Lourenço de Lima, que todos se com- 
binaram para estorvar a realisação dos ambiciosos planos de 
Junot. 

De Francisco Duarte Coelho, conservava em 
seu poder Innocencio uma extensa Memoria justifi- 
cativa, em defeza do seu comportamento e para des- 
truir as arguições que se lhe faziam. Essa Memoria 
inédita, suppunha Innocencio ser original, e talvez 
autographa; não o affirmava de certo, por não 
haver tido ainda, até á data, opportunidade de 
confrontar a lettra em que estava escripta com 
outra reconhecidamente própria do punho de seu 
auetor. 

Mas a obra de José Maria de Souza Monteiro 
põe a questão moral nos seus termos legítimos e 
racionaes, quiçá verosímeis e sempre fundados. 

A roda fina portuense do tempo de Ricardo 
Raymundo Nogueira reunia-se, em intellectual con- 
vívio, na casa hospitaleira do famoso Francisco 
d' Almada. E agora momento é que se apure este 
inesperado litigioso ponto histórico de saber quem 
foi o verdadeiro «grande Almada.» 



Teixeira de Vasconcellos escreveu algures : «A 
estatua d'Almada devia ha muito abrilhantar uma 
das melhores praças do Porto, como testemunho de 
reconhecimento e mais ainda como expiação de 



232 PORTUENSES ILLUSTRES 

haver coberto com uma simples pedra, fechada por 
uma grade, os despojos mortaes do homem que 
dedicou toda a sua vida ao engrandecimento do 
Porto. » 

Na qualidade de portuense, Teixeira de Vascon- 
cellos commenta o snr. Alberto Pimentel que dese- 
java que a sua terra natal pagasse, com o cava- 
lheirismo proverbial dos velhos fidalgos pundono- 
rosos, as suas dividas de honra. «Mas o que ha 
mais interessante em tudo isto é — continua o sr. 
Alberto Pimentel — que essa mesma sepultura mo- 
desta em que jaz Francisco d' Almada não se lh'a 
deu por o honrar a elle, o grande corregedor, senão 
que por servir fins extranhos á espontânea gratidão 
d'uma terra qualquer por quem tanto como D. Fran- 
cisco d'Almada, ou ainda menos do que elle, a hou- 
vesse beneficiado. » 

O sr. Alberto Pimentel historia o facto, que não 
deixa, na verdade, de ser curioso e digno de chro- 
nica. 

Estava concluído o cemitério do Prado do Re- 
pouso, mas o preconceito popular obstava a que 
muitas familias mandassem sepultar alli os seus 
mortos. Então a camará municipal de 1839, porque 
no primeiro dia de dezembro d'esse anno é que o 
cenriterio foi aberto e benzido, lembrou-se de recor- 
rer a um expediente, que o próprio presidente da 
vereação, o advogado Miguel Joaquim Gomes Car- 
doso, explicou no seu relatório, lido nos paços do 
concelho em 1 de Janeiro de 1840: 



VII — VIEIRA. PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 233 

Entendemos que uma trasladação dos restos mortaes de 
qualquer homem celebre, exhumados, com licença do Ordiná- 
rio, de dentro de qualquer egreja, procissional e reverentemente 
alli conduzidos, chamaria a devoção dos fieis e afTastaria pre- 
juízos populares. . . N'esta mesma sessão entedemos, e enten- 
demos muito bem, que o jazigo dos mortos deve ser extranho 
a partidos. . . Revolvendo a historia das antiguidades do Porto, 
não achamos homem que melhor merecesse a honra da trasla- 
dação que Francisco d* Almada e Mendonça. . . A elle se devem 
os aformoscamentos e obras de transcendência que ella (a nossa 
cidade, apresenta : se isto não fôr bastante, ahi anda impressa 
a sua Biographia, e Oração Fúnebre, ambas pelo snr. João No- 
gueira Gandra. . . Se a memoria de Almada é ou não grata aos 
portuenses, diga-o essa cidade inteira, que no dia i.° de dezem- 
bro se despovoou para o acompanhar na sua trasladação. . . 

« Ora, aqui está — escreve o snr. Alberto Pimen- 
tel, cap. vi de Porto por fora e por dentro — porque 
se deu a Francisco de Almada aquella sepultura 
que o snr. Teixeira de Vasconcellos desdenha, que 
todo o bom portuense deve achar pequena para 
tamanho homem como foi o celebre corregedor. » 

Os Apontamentos biographicos do dr. Francisco 
d* Almada e Mendonça têm a data de 18 de agosto 
de 1839 e, sem nome de auctor, são, com effeito, 
impressos na Typ. de Gandra & Filhos, em o 
mesmo anno. 

EUes enumeram e rememoram as obras novas 
que a Francisco d' Almada devem o Porto e toda a 
sua comarca. 

Da lista de construcções e serviços de Francisco 
d' Almada, para o Porto, estrictamente, destaca- 
remos : 



234 PORTUENSES ILLUSTRES 

O novo e magestoso quartel no campo de Santo Ovídio, 
hoje da Regeneração, para o 2. regimento do Porto, hoje in- 
fanteria n.° 18; as cavallariças para as escoltas e destacamen- 
tos de cavallaria; a Real Casa Pia de correção e educação e de 
alojamento das partidas volantes das tropas das províncias do- 
Xoríe e dos presos da Calceta ; o passeio das Fontainhas so- 
bre a margem direita do rio Douro, com o chafariz, tanques 
e lavadouros públicos; a nova Arca d'Agua, no mesmo sitio; 
o Matadouro; a regularidade de calçar as ruas; o magnifico 
theatro de S. João; fronteiro ao theatro, um dos maiores e mais 
bem acabados chafarizes da cidade, com grande deposito 
d'agua em seu recinto; o paredão da praça das Virtudes; o 
chafariz, com seu magnifico tanque, edificado na Praça Nova, 
hoje de D. Pedro; as duas sahidas, uma pela estrada de 
Braga, principiando na Real Egreja da Lapa e formando a rua 
da Rainha, a outra pela estrada de Guimarães, começando na 
egreja de Santa Catharina e formando a rua da Princeza; o 
melhoramento nas estradas para a Foz por Lordello, assim 
como para Mattosinhos e Leja da Palmeira, especialmente na 
sitio da Villarinha, quasi intransitável, por sua antiquíssima 
conservação pantanosa ; a demoliação da muralha e torres da 
velha cidade e a edificação de nova capella, em logar mais 
acommodado, para a antiga ermida de N. Senhora da Batalha, 
que estava junto á Porta de Cima de Villa. 

A ponte-de-barcas sobre o rio Douro havia sido 
projectada por elle, Francisco de Almada, mas não 
chegou a realisal-a, porque n'esse tempo tractava 
anciosamente de obter do governo a licença e 
meios de construir uma ponte-de-pedra, desde a 
Porta do Sol até ao terreiro da Serra do Pilar. O 
desenho d'esta magestosissima obra elle o encarre- 
gara ao engenheiro Carlos Diniz Ferreira da Cruz 
Amarante, o qual o formou e apresentou, para se 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. * 235 

depositar na Casa Pia, onde existiu muito tempo. 
«E, se não fora tam prematura a sua morte, gosa- 
ria hoje a cidade de um monumento que, só elle, 
seria capaz de eternisar o seu nome». Decerto. 

«A casa de Francisco d' Almada — exara-o, no 
estylo rebuscado e ingénuo da moda coeva, João 
Nogueira Gandra — era o centro da reunião dos 
génios que as sciencias e as bellas-lettras e artes 
faziam distinctos n'esta cidade: alli se encontrava 
o sábio de credito estabelecido com o joven de 
fundadas esperanças. Quem se lembra de sua meza 
e de seus saraus se recordará de alguns dos saudo- 
sos nomes» que João Nogueira Gandra passa a 
desfiar. 

E' uma lista copiosa e brilhante : — António 
Ribeiro dos Santos, Ricardo Raymundo Nogueira, 
João Pedro Ribeiro, Joaquim Navarro d'Andrade, 
fr. Bartholomeu Brandão, Rodrigo de Souza da 
Silva Alcoforado (depois barão de Villa Pouca), 
José Pedro da Camará, Vicente José Ferreira Car- 
doso, fr. Vicente da Soledade, padre André António 
Correia, Theodoro de Souza Maldonado, fr. José 
Pedro da Transfiguração, padre Júlio de Saldanha, 
Manoel Garcia, padre Agostinho Rebello da Costa, 
António Soares d' Azevedo, João Baptista Gomes 
Júnior, padre José Durão, João Evangelista de 
Moraes Sarmento, José Lourenço Pinto, padre 
Francisco de Paula Figueiredo, José Caetano da 
Cunha, Luiz Paulino Pinto da França, José Fran- 
cisco Gonçalves, José Bento Lopes, António da 



236 PORTUENSES ILLUSTRES 

Silva Ferreira, José Ferreira Pinto, João Francisco 
de Guimarães, arcediago de Barroso, Manoel Mar- 
tins do Couto, José Francisco Massa, padre João 
António Valença, José Vicente da Fonseca, padre 
António Raymundo Cornelli, fr. Manuel Teixeira, 
António da Silva Leite, fr. José de Lima, José Tei- 
xeira Barreto, fr. Francisco d'Avè-Maria (hoje — 
1839 — abbade de Santo Ildefonso), João Glama 
Straberle, Sebastião d'Andrade Corvo, António 
Vieira, Custodio José Ferreira d'Almeida, arcipreste 
Pedro António Vergolino, mestre-eschola José de 
Carvalho, padre António Guadagnini, fr. Ignacio de 
S. Carlos, abbade Caetano José da Cunha Cândido, 
fr. Bernardo Mimoso, Joaquim Maria d* Andrade, 
fr. João Pedro d' Andrade Crespo, Custodio Gon- 
çalves Ledo, José Joaquim Egico, fr. Thomé de 
S. Joaquim, Domingos Martins Gonçalves, padre 
José de Oliveira, fr. António de Santa Barbara, 
António Pedro Gonçalves, António José Simões, 
Manoel Félix de Negreiros, fr. Athanazio da Cunha, 
Alexandre José Pires, fr. João de Santa Thereza 
Reguinho, João Edolo e seus dous filhos, João José 
de Paiva. «E muitos outros, que somente a falta 
de memoria nos força a esquecer, quando desejá- 
vamos commemorar — Gandra o registra — que o 
magistrado incansável era amigo dos homens notá- 
veis da sua epocha. » 

Notabilissimo, elle-mesmo. 

E, comtudo, o grande Almada não é este. 

Para a singularidade ser completa, ha nova 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 237 

incongruência, mais interessante ainda, a additar á 
já interessante artimanha com que a municipalidade 
portuense de 1839 avocou, do esquecimento pro- 
fundo em que sua memoria prestes cahira, o nome 
de Francisco d' Almada, explorando v para fim deter- 
minado de occasião, ainda que civilisatorio, uma 
apparentemente, e só apparentemente, desinteres- 
sada homenagem. 

E* que o grande Almada (cuja lembrança esba- 
tida andava vagamente na tradição, que os verea- 
dores de 1839 aproveitaram) não era este. Não era 
o filho; era o pae. 

Não era Francisco de Almada. 

Era João de Almada. 

Este, então, graças a tal troca de homenagens, 
é que ao depois restou, de vez, completa e absolu- 
tamente olvidado. E, todavia, elle, e não o filho, é 
que era o grande Almada. 

A obra, hoje rara, e sempre apreciada, de Os 
extrangeiros no Lima está organisada em forma 
de diálogos, conversações eruditas sobre vários 
pontos de historia ecclesiastica, civil, litteraria, 
natural, genealógica, antiguidades, geographia, agri- 
cultura, commercio, artes e sciencias, em que são 
interlocutores: o francez Raulin, philosopho; o 
inglez Ciarei, commerciante ; o italiano Júlio, «via- 
geiro»; o castelhano D. Hugo, genealógico; e o 
medico, portuguez, LamL Lami é o anagramma 
de Lima, um dos appellidos do auetor da obra» 



238 PORTUENSES ILLUSTRES 

o medico portuguez Manuel Gomes de Lima 
Bezerra. 

Em uma d'estas palestras, á nobiliarchia por- 
tugueza attinente, como quer que de «Almada» se 
tracte, o inglez Clarck enfada-se da prolixidade. 
«Basta, meus senhores (elle exclama), de nobreza 
derivada. Os dotes pessoaes são para mim de maior 
valor, e por isso estimarei que me declarem os 
serviços por que João de Almada tem merecido o 
agrado dos povos e a confiança dos reis.» 

Satisfaz-lhe largamente a vontade Latni; mas 
nós deixaremos o que concerne aos serviços com 
que João de Almada bem merecera a confiança dos 
reis e respigaremos, tam só, pelo que respeito diga 
ao agrado dos povos, que, concorrentemente, elle 
conciliara. Mesmo, n'esta espécie, nos restringiremos 
ao Porto: «Emquanto durar a cidade do Porto 
(Lami remata, exaltando-se) serão conhecidos e 
admirados pelos seus moradores o zelo e amor 
patriótico d'este fidalgo nas mas do Almada, S. 
João e outras muitas, que fez abrir de novo; nas 
praças da Ribeira, de S. Roque, da Victoria e varias 
outras; na formosura e utilidade do Campo da 
Alameda; nas magnificas portas de Almada, da 
Ribeira e do Sol, que ennobreceu; nos aqueductos 
públicos e nas fontes que a sua vigilância e des- 
velo promoveu, com tanta utilidade como applauso 
de todos os ditos moradores.» 

Emquanto durar a cidade do Porto, o nome de 
João de Almada será lembrado e respeitado; isto 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 239 

professava, em Coimbra, onde o tom. n de seu 
livro era impresso em 1791, Manuel Gomes de 
Lima Bezerra. 

E já a 10 de março de 1789, um forasteiro no 
Porto, onde havia mais de dezesseis annos era 
morador, Thomaz de Modessan (em carta por elle 
endereçada ao editor do Jornal Encyclopcdico> de 
Lisboa, e hoje recolhida no volume de Antiguidades 
curiosas, colligidas por António Luiz Monteiro e 
publicadas por seu filho Abilio A. Monteiro) pro- 
testara contra a conspiração de silencio que em 
torno do nome de João de Almada, seus collabora- 
dores e continuadores, começava a urdir-se, occul- 
tando-se, em noticia ardilosa, obras da maior im- 
portância, assim dentro da cidade como nos seus 
muros e fora d'elles. 

De «as oceultadas obras», Thomaz de Modes- 
san declara que, tam só, apontará algumas poucas : 

Uma rua nova do Almada, com sua porta no muro do 
mesmo nome, que, pelo rompimento que se lhe fez com a das 
Hortas, forma um comprimento recto de casas regulares, em 
distancia de quasi mil passos ordinários, até entrar no novo e 
espaçoso campo de Santo Ovidio, campo este guarnecido de 
piões lavrados e onde se poderão exercitar em um mesmo 
tempo varias tropas e de cujo ingresso carecia a cidade. 
Tma rua de Santo António do Penedo, aonde, trabalhando a 
arte contra a natureza, foi feita para dar de frente sahida do 
coração da cidade para um dos melhores bairros dos seus 
subúrbios, a qual se acha — 1789 — também enobrecida com a 
outra nova e elevada porta chamada do Sol. A rua nova de S. 
João, que, sendo o seu rompimento em sitio de insuperáveis 



240 * PORTUENSES ILLUSTRES 

despezas, não só fez por sua vontade dar um novo lustre á 
cidade, na soberba ordem de seus edifícios, mas destruiu as 
diíficuldades que todos os dias havia nas passagens continuas 
e tráficos, tanto da ribeira geral como da alfandega, com notá- 
vel prejuízo e incommodo dos povos; devendo-se ajuntar a esta 
magnifica obra não só a nova praça e porta que lhe corres- 
ponde ao dividimento do rio mas a espaçosa praça em que vem 
a sahir a S. Domingos, para cujo effeito foram consideráveis as 
despezas na demolição de antigos edifícios e sem a qual ficaria 
incompleto o fim d'aquella utilíssima rua. Similhantes despezas 
fizeram as mesmas obras, com egual beneficência publica, na 
formação da nova praça de Santo Eloy e reaes casas das guar- 
das militares que guarnecem as principaes portas» da cidade. 
O rompimento da rua nova de Santo Ildefonso, a unir com a 
largo da Porta de Carros e calçada dos Clérigos, é outra das 
magestosas obras que, em outro tempo, apenas se poderia con- 
ceber e effectuar no decurso de um século; e nós a vemos já 
hoje — 1789 — servir, transitando-se de uma para outra parte, 
com a admirável commodidade de toda a população, urbica e 
campestre, que habita ao nascente. A bellissima e amena sahida 
da Porta do Olival para o Carmo e Largo dos Ferradores, e a 
extensa sahida do Cedofeita têm sido outros tantos objectos de 
beneficência publica a quem via quasi invadiaveis estes sítios 
em certos tempos de inverno, chegando os carros carregados a 
procurarem uma volta de quasi três mil passos para se virem 
metter na cidade. O rompimento da rua nova de Santa Catha- 
rina, e outras innumeraveis que de sitios intransitáveis e em 
parte ascorosos se têm tornado habitáveis, são outros tantos 
monumentos que honrarão eternamente a seus promotores, os 
quaes, no meio de tam trabalhosos, posto que necessários, ser- 
viços, não se têm esquecido do útil e do agradável, já terraple- 
nando varias ruas que a brevidade ou grosseria dos tempos 
tinha deixado imperfeitas, como a das Carmelitas e a do Pos- 
tigo das Virtudes á Alameda, etc, já mettendo-lhes novas e 
perennes fontes de agua, assim como na de Almada, aonde se 
acham duas, e já guarnecendo todas as mesmas ruas, assim 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 24 1 

antigas como modernas, de passadiços lateraes de pedra liza, á 
proporção da largura que estas permittem, com piões de pedra 
escolhida para os dividirem da calçada e do mesmo modo da 
gente de pé : isto tudo, quanto pode ser, á imitação da nova 
reedifícaçâo de Lisboa. 

« Taes são, em summa geral (proclama, justa- 
mente indignado, Thomaz de Modessan), as obras 
publicas que o auctor (direi opportunamente quem 
era este auctor e o motivo provável por que o fez) 
encobriu na sua noticia, talvez por se não atrever 
a confesssar que ellas constituem, na verdade, um 
seculo-de-ouro portuense. » 

« Não parou aqui só — caracteristicamente assi- 
gnala logo a perfídia Thomaz de Modessan — o 
apaixonado desatino do mesmo auctor, pois que, 
para não fazer justiça egualmente ao incansável 
zelo e demais virtudes com que o immortal João 
.de Almada e Mello governou por muitos annos 
esta cidade e effectuando-se no seu tempo muitas 
d'aquellas ditas obras, e dando principio a outras, 
nem sequer quiz transcrever os disticos com que 
ella perpetuou o seu agradecimento nas Portas do 
Almada e do Sol e na fonte primeira da rua d'aquelle 
nome, fazendo-se, n'este ponto, tanto maior a admi- 
ração, até do mais ignorante vulgo, quanto se vê 
que o extravagante auctor andou, aliás, pesquisando 
para o seu livro insignificantes disticos que se acham 
nos arrebaldes da cidade, como o da ordinária ca- 
pella do Pinheiro, a fl. 199, e outros! Sim. Elle, 
para em tudo ser como os que apregoam vinho e 

VOL. I 10 



342 PORTUENSES ILLUSTRES 

vendem vinagre, deu-nos a nota dos versos ordiná- 
rios do frontispício de uma capella de um homem 
de fortuna da cidade, para fazer insólita os da mais 
elegante latinidade que ornam as portas da melhor 
architectura e que alludem, por uma parte, á bene- 
ficência d'aquelle ex. mo governador e, por outra, á 
gratidão dos governados ! » 

Se a gratidão* dos portuenses de então se afere 
pela lembrança que á seus pósteros elles legaram 
do nome de João de Almada, contra o bracharense 
auctor increpado em pura perda foi a indignação 
do britannico Thomaz de Modessan. 

E, comtudo, ao bibliophilo, na epocha do zenith 
social do Ínclito, se áspero, varão, impressos affluem 
os testemunhos da meritória consideração coeva, 
por ex. o do padre Manuel Alvares. 

Do padre Manuel Alvares de Queiroz, presby- 
tero da Congregação do Oratório do Porto, diz 
Innocencio que parece que d'ella sahira ao fim de 
alguns annos, assim o indicando o facto de haver 
juntado ao seu nome o segundo appellido «Quei- 
roz», de que, como congregado, não podia fazer 
uso, em vista dos estatutos respectivos. 

Em todas as obras que publicou, não apparece 
nunca, porém, o appellido de «Queiroz» onde se 
designa como auctor, e apparece sempre a quali- 
dade de membro da sacra corporação a que se 
ligara. Em 1760, na Instrucçào sobre a lógica ou 
diálogos da philosophia racional, «escriptos por 
Manuel Alvares, da Congregação do Oratório do 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 243 

Porto»; em 1762, na Historia da creaçâo do mundo 
conforme as idéas de Moysês e dos philosdphos, illus- 
trada com um novo systema e com varias notas e 
dissertações ', «pelo padre Manuel Alvares da Con- 
gregação do Oratório de S. Fillippe Neri»; em 
1765, no tom. 1 (Elementa logices continens) de 
obra que, por em latim, Innocencio não enumera: 
Elementa philosophice conscripta ad usum studiosce 
juventutis y «ab Emmanuele Álvaro, Congregationis 
Oratorii Portucalensis D. Philippi N. presbytero, 
Pôrtucali, ex typ. Francisci Mendes Lima» (da 
officina de quem haviam sahido egualmente os 
outros dois volumes). 

«Ignoro ainda a sua naturalidade, nascimento, 
óbito, etc», accrescenta, attinentemente ao padre 
Manuel Alvares, ou Manuel Alvares de Queiroz, 
Innocencio em 1860; na altura respectiva do Sup- 
plemento (que aliás o snr. Brito Aranha tem au- 
gmentado e illustrado) não voltou a tractar-se de 
Manuel Alvares, ou Manuel Alvares de Queiroz, de 
quem, na Descripçâo Topographica de Villa Nova 
de Gaya, por João António Monteiro d*Azevedo, 
cidadão da cidade do Porto, accrescentada por 
Manuel Rodrigues dos Santos, natural da mesma 
villa, fem a primeira nota ao cap. x, se diz que 
entre os sábios villanovenses omittidos no texto é, 
com outro norfieado, digno de toda a excepção o 
padre Manuel Alvares de Queiroz, da Congregação 
do Oratório do Porto. 



244 PORTUENSES ILLUSTRBS 

Distinguia-se por sua grande esphera de conhecimentos, 
sendo ao mesmo tempo poeta, orador, theologo, philosopho e 
mathematico. Em todas estas faculdades, e principalmente nas 
duas ultimas, de que foi professor régio, compoz diversas obras, 
de que algumas correm impressas, e entre ellas uma Lógica em 
língua vulgar, que escreveu aos 18 annos de idade, e outra no 
idioma latino, composta aos 22. Que prematuro engenho! 

«As primícias dos meus estudos», em 1762, 
quando á sua Historia da creação do mundo a 
offerece «ao sereníssimo senhor D. Gaspar, arce- 
bispo primaz das Hespanhas, senhor de Braga, pio, 
sábio, augusto», chama o padre Manuel Alvares á 
sua Instrucçáo sobre a lógica que em 1760 dedicara 
ao mesmo «sereníssimo senhor D. Gaspar, arce- 
bispo primaz das Hespanhas, senhor de Braga, etc, 
etc., etc», ao qual em 1762 elle se reputa incapaz 
de louvar dignamente, pois, «se, para louvar digna- 
mente Augusto, foi precisa a energia de Virgílio; a 
eloquência de Plinio, para elogiar a Trajano » : elle 
que nem tem «a eloquência de um nem a energia 
do outro », como havia de elle fazer o panegyrico de S. 
A., « em tudo mais que Augusto, mais que Trajano? » 
E os elogiados não corriam elogiadores destes! 

O de D. Gaspar possuía merecimento verdadeiro, 
todavia; e suas offerendas não eram de menos porte, 
com effeito. 

A primeira, os «diálogos sobre a philosophia 
racional», foi julgada em o respectivo artigo critico, 
inserto no caderno de março de 1762 da Gazeta 
litteraria, de Francisco Bernardo de Lima. 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. Í45 

O juiz escreve: 

São infinitas as Lógicas que, nos tempos antigos e mo- 
dernos, se tem escripto ; mas, apesar cfesta abundância, não ha 
na lingua portugueza uma que, expondo o commum e o preciso 
d'ella, instrua a mocidade sem demasiado desperdício de tempo. 
A que compoz o douto Azevedo Fortes é magistral, mas só 
serve para os leitores já instruídos, que amam vêr as matérias 
tractadas fora do commum. Porém esta falta é bem supprida 
com a lógica de que damos agora noticia. «Ella é a mesma 
(diz o auctor no prologo) com que fizeram agigantar os pro- 
gressos Francisco Bacon, Renato Descartes, Pedro Gassendo, 
João Locke, o auctor da Arte de fensar, Mariotte, António 
Genuense e outros infinitos que desterraram das escholas as 
monstruosas chimeras dos antigos e admittiram, em logar 
d'ellas, um novo corpo de doutrina próprio para guiar o nosso 
entendimento pelo caminho da verdade. » Estas expressões 
inculcam bem o valor do livro; mas era justo que entre aquelles 
auctores se nomeasse o nosso Luiz António Verney, auctor de 
uma excellente Lógica, que na obra se cita varias vezes. 

O reparo é procedente; mas o traslado do texto 
de Manuel Alvares, por Francisco Bernardo de Lima 
feito, é que não sahiu rigorosa, rigorosamente exacto, 
sem detrimento da idéa, aliás. A Manuel Alvares, 
Francisco Bernardo de Lima nota «alguma impro- 
priedade de linguagem que se pôde encontrar nos 
cumprimentos dos interlocutores»; logo attenua que 
esta falta « é bem compensada pela utilidade que se 
tira da obra em geral.» E, «se julgamos esta como 
ensaio de um auctor novo, que cousas maiores não 
devemos esperar d'elle adulto?» 

Adulto estaria em 1762, quando deu ao prelo a 
sua Historia da creação do mundo? 



246 PORTUENSES ILLUSTRES 

No caderno de junho da mesma « noticia exacta 
dos principaes escriptos modernos», a propósito do 
novo livro de Manuel Alvares, Francisco Bernardo 
de Lima, cónego secular da Congregação do Evan- 
gelista, começa por escrever: 

Aquella predilecção que tínhamos ao doutíssimo auctor 
d'esta obra muito antes de possuirmos a sua amisade não era 
motivada unicamente pela paixão, mais que com m um, que 
temos a toda a Congregação do Oratório, menos pelas infinitas 
attenções com que nos tem tractado esta illustre sociedade que 
por florescerem n'ella homens eminentes em todas as sciencias 
e bellas-artes; procedia, sim, de conhecermos perfeitamente as 
qualidades do juízo e engenho d'este auctor, que hoje se mani- 
festam nas suas obras, principalmente n'esta. 

E rematava dizendo: 

Para dizer tudo em uma palavra, esta obra é uma das 
boas da Europa e do numero d'aquellas que dão honra á nação 
portugueza, como advertiu o doutíssimo benedictino fr. Fran- 
cisco de S. Bento na judiciosa approvação que lhe fez e se 
acha no principio d'esta obra. 

«Esta obra — informa Innocencio — devia pro- 
seguir; porém não consta que se publicasse mais 
que o primeiro volume.» As palavras do Dicciona- 
rio bibliographico não são severamente precisas, 
porquanto a Historia da creaçdo do inundo foi dada 
, como um conjuncto completo; nem o publicado é 
primeiro volume^ mas a obra n'um volume só e 
único se comprehendia toda. Vê-se que Innocencio 
redigiu de reminiscência; d'ahi a confusão, fácil de 
surgir, na verdade. E que « na prefação d'este livro 



VII — VIEIRA PORTUENSE — SILVA PORTO — &C. 247 

* (a Historia da creaçâo do mundo) promette o seu 
litteratissimo auctor mostrar ao publico outro mais 
volumoso e mais dilatado», assim o memora (escu- 
sando-o, por desnecessário á gloria do escriptor) fr. 
Simão do Loreto ; mas por que o padre Manuel Alva- 
res no Porto prosiga em Lisboa faz votos Ignacio 
Barbosa Machado: «Permitta Deus que, levado do 
zelo de servir a pátria, não largue a penna n'este 
género de estudo, para continuar em outros livros 
similhantes com que se honra a nação portugueza. » 
Da nação portugueza, a uso da juventude que 
habita esta cidade do Porto, Manuel Alvares no 
Porto publicou em» latim aquelles elementos de 
lógica, que em 1765 dedicou Viro claríssimo et 
altíssimo Joanni de Almada et Mello > ad exercitus 
regi fidelissimi legato, aput Portucalenses supremo 
militum magistrOy rerumque capitalium et servilium 
prcetori máximo. 

Mas resta-me ^ainda dizer qual a causa d'esta 
conspiração do silencio que submergiu o nome de 
João de Almada, dispondo, pois, as coisas para 
tornar possível na memoria publica a substituição 
da personalidade do filho, Francisco de Almada, á 
do pae, esse obliterado João de Almada, que é aliás 
quem é o verdadeiro e legitimo grande Almada. 

Porém, no comenos, por um pouco olhemos 
(depois de outras e antes de uma) successivamente 
para duas grandes figuras portuenses das compre- 
hendidas na enumeração de Gandra. 



VIII 



Luiz de Sousa — Thomaz Pinto Brandão 
— João Sucarello Claramonte — António 
Ribeiro dos Santos. 



c 



'olleccionador de livros grandíssimo, esse 
illustrado portuense, D. Luiz de Sousa, de quem 
preliminarmente corra que menção façamos. 

A parte segunda da obra Primícias Evangélicas 
é offerecida a uma dotitissima y poderosíssima e vir- 
tuosíssima princeza. 

Havendo dedicado á sereníssima alteza de Cosmo 
Terceiro \ gran-duque de Toscana, a parte primeira, 
a parte segunda a uma doutíssima^ poderosíssima e 
virtuosíssima princeza a offerta seu auctor, D. Ra- 
phael Bluteau. 

Quem foi esta D. Raphael Bluteau? 

Foi um clérigo regular theatino que nasceu em 
Londres a 4 de dezembro de 1638, morrendo em 
Lisboa a 14 de fevereiro de 1734, contando, pois, 



25O PORTUENSES ILLUSTRES 

mais de 95 de edade, dos quaes viveu seis em In- 
glaterra, cinco em Itália, em França vinte, e oito e 
cincoenta e seis em Portugal. 

Pela sua qualidade de exttangeiro, Diogo Bar- 
bosa Machado o excluiu da Bibliotheca Lusitana. 

Absurda lógica da regra! 

Porquê ? 

Porque « os portuguezes lhe devem eterna gra- 
tidão, por lhes dar um Diccionario que não tinham, 
e de que tanto necessitavam ; abalançando-se e con- 
seguindo elle só, com o próprio esforço e estudo, o 
que as Academias não puderam vencer antes nem 
depois ! » (Innocencio Francisco da Silva, tomo sé- 
timo, 1862). 

Eis o titulo pretencioso d'esta obra preciosa: 

Vocabulário Portuguez e Latino \ Aulico e Ana- 
tómico > Architectonico, Bellico, Botânico, Brazilico^ 
Cómico, Critico, Dogmático, Dialéctico, Deudrologico, 
Ecclesiastico, Etymologico, Económico, Florifero, 
Forense, Fructifero, Geographico, Geométrico, Gno- 
monico, Hydrographico, Homonymo, Hierologico, 
Icthyologico, Indico, Isagogico, Litúrgico, Lithologico, 
Medico, Musico, Metereologico, Náutico, Numérico, 
Neoterico, Orthographico, Óptico, Ornithologico, 
Poético, Philologico, Pharmaceutico^ Quiddidativo, 
Qualitativo, Quantitavo, Rhetorico, Rústico, Ro- 
mano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, 
Therapeutico, Technologico, Uranologico, Xeno- 
phonico, Zoológico. 

Declara-se « auctorisado com exemplos dos me- 



VIII — SOUSA — BRANDA O — CL ARAMONTE — SANTOS 2 5 1 

lhores escriptores portuguezes e latinos » e é offere- 
eido a el-rci de Portugal D. Joáo v. 

Mas seu auetor, D. Raphael Bluteau, da outra 
obra sua das Primícias Evangélicas a segunda 
parte a consagrara a uma doutíssima, poderosíssima 
e virtuosíssima princeza. 

Quem é esta doutíssima, poderosíssima e virtuo- 
síssima princeza } 

« Esta doutíssima, poderosíssima e virtuosíssima 
princeza é, nem mais nem menos, a livraria de D. 
Luiz de Sousa, arcebispo de Lisboa, á qual o auetor 
endereça uma eruditíssima e cstiradissima oração 
dedicatória, que comprehende a bagatella de qua- 
renta e seis paginas em typo assas miúdo!» Inno- 
cencio Francisco da Silva, a pag. 43 do tomo ci- 
tado. 

Quem foi este D. Luiz de Sousa, arcebispo de 
Lisboa? 

«Foi filho segundo de Diogo Lopes de Sousa, 
segundo conde de Miranda, e da condessa, D. Leo- 
nor de Mendonça, filha do conde de Penaguião João, 
Rodrigues de Sá. Recebeu em Roma o grau de dou- 
tor em Cânones, e logo passou a deão da Sé do 
Porto e a governador do bispado e da Relação Civel 
da mesma cidade. Foi capellão mór de el-rei D. 
Pedro 11, presidente da Junta das Missões, conse- 
lheiro-de-Estado, bispo de Bona e de Martyria, arce- 
bispo de Lisboa e, finalmente, cardeal. Em todos 
estes altos empregos exercitou sempre as virtudes 
mais edificantes e austeras, oceupando o fervor do 



252 PORTUENSES ILLUSTRES 

seu espirito em estabelecer na corte de Lisboa o 
jubileu do Lausperenne, que presentemente — 1789 
— goza, devendo aquella corte a um filho do Porto 
graça tam especial.» (Agostinho Rebello da Costa). 

Que seria a bibliotheca de D. Luiz de Sousa? 

«Aquel te sor o de toda la divina y humana eru- 
dicion, que en más de treinta mil volumenes construis 
la maquina preciosa de su gran Biblioteca en que 
sin comparacion se vèe excedido el numero de la cua- 
lidad, pucSy a demas de que son, todos, los más sele- 
ctos de todas las artes, sciencias, professiones y facul- 
tadesy se le ahade el exterior asseo, en que facilmente 
excede a quantas hà celebrado la fama en todos los 
siglos.» (Manuel de Sousa Moreira). 

Que diz, emfim, d'ella D. Raphael Bluteau? 

Muitos annos antes que fosse inventado o papel se fize- 
ram muitas livrarias, de que ainda hoje faz menção t a historia. 
O primeiro rei que teve esta utilíssima curiosidade foi Osy- 
manduas, rei do Egypto. Na Pérsia foi celebre a livraria Sy- 
riana ; não foi menos memorável a livraria Attalica na Ásia Me- 
nor, a Alexandrina no Egypto e a de Pisistrato na cidade de 
Athenas. 

No principio do seu império, prevaleceu nos romanos a 
profissão das armas á licção dos livros; não attenderam a en- 
sinar mas a subjugar o mundo, preferindo sua bellicosa ambi- 
ção a estrondosa conquista dos reinos á pacifica milícia dos 
entendimentos; mas, conhecendo, no progresso dos annos, 
a utilidade das lettras, converteram as praças de Roma em pu- 
blicas livrarias, em que todas as nações, e principelmente os 
gregos, vinham a refazer-se dos tributos que pagavam com as 
noticias que adquiriam, e com engenhosas competências enga- 
navam a dôr da perdida liberdade. 



VIH — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTK — SANTOS 253 

Estas antigas livrarias foram como os chefes da geração e 
os troncos da descendência de todas as livrarias que hoje ve- 
mos na Europa, tam crescidas no numero e tam pomposas na 
magnificência que n'ellas não têm os olhos menos que vêr que 
os engenhos. Entre todas as d'este reino, as vossas preeminên- 
cias vos dão a coroa, e a minha admiração vos tributa os en- 
cómios com que tenho celebrado o lustre e a antiguidade da 
vossa nobreza, e agora começo a formar o panegyrico da dou- 
trina, poder e virtude que em vós reconheço, para que conste 
que a verdade e não a lisonja vos deu, nas minhas primeiras 
palavras, o titulo de Doutíssima, Poderosíssima e Virtuosíssima 
Princeza. 

Explana porque doutíssima, porque poderosís- 
sima e porque virtuosíssima. 
Brada, para terminar: 

Não fallo nos regalos da vossa corte, Sereníssima Prin- 
ceza ; todos são tam puros que só o entendimento os gosta. 
Com estas innocentes delicias, captivastes os affectos do auetor 
da vossa grandeza. Lá disse Ovidio que o sol olhava só para 
a nympha a que amava, sem attender pelo restante do mundo. 
O mesmo podemos dizer do sol de que as vossas prendas me- 
receram os agrados. Não tem o mundo objectos dignos da sua 
âttenção; só vós sois o emprego de seus doutos disvellos; 6 
todo vosso, com tam primorosa singularidade que as suas mãos 
são o berço em que nasceste e muitas vezes são o throno que 
vos sustenta; a sua memoria é o vosso retrato; a sua compre- 
hensão o vosso archivo; e essas obras em que se encerram la- 
boriosos engenhos são todo o seu allivio. Que exemplar e que 
digna de meditação é a vida de um príncipe ecclesiastico di- 
vertida com tam louváveis entretenimentos? Aos sacerdotes e 
aos bispos prohibem os concilos todos os profanos passatem- 
pos do mundo, e só lhes concedem uma honesta e santa recrea- 
ção na licção dos livros; não podia este exemplarissimo pre- 
lado guardar este preceito mais ao pé da Iettra, porque sempre 
está contemplando as vossas lettras. 



254 PORTUENSES ILLUSTRES 

Ao tempo, similhantes trocadilhos eram o supra- 
summo da elegância no estylo. Chamava-se a isto 
escrever culto. Das hodiernas mirabolancias e das 
extravagâncias hodiernas, que conceito se fará d' aqui 
a duzentos annos? D. Luiz de Sousa falleceu em 
1702. 

Quarenta e um annos depois, mas na penúria, 
fallecia outro portuense notável, Thomaz Pinto 
Brandão, poeta. 



Poeta, qur vivendo de alegrar a gente, morreu 
de fome, vimos já que de si-proprio dissera esse 
Thomaz Pinto Brandão, natural d'esta cidade do 
Porto, onde viu a primeira luz a 5 de março de 1664 
e foi baptisado a 12 do mesmo mez e anno. Falle- 
ceu em 31 dé outubro de 1743. 

O tomo mais considerável que d'elle pos resta 
é o livro intitulado Pinto renascido, empennado e 
desempcnnado, impresso em Lisboa no anno de 1732. 
Compõe-o uma collecção de sonetos, oitavas, roman- 
ces, decimas, silvas, etc, tudo escripto no estylo 
joco-serio, que era o próprio do auetor. Ha doeste 
livro segunda edição, que sahiu posthuma em 1753, 
acerescentada com a vida do poeta e ornada com 
o seu retrato. 

Os sonetos de Thomaz Pinto Brandão gosaram 
de grande estimação no seu tempo; e ainda muitos 



VIII — SOUSA — BRANDA O — CLARAMONTE — SANTOS 255 

annos depois observa Innocencio que José Agosti- 
nho de Macedo chegava a affirmar, mui seriamente, 
que em todo o exercido sonetario (isto é, entre a 
multidão immensa de sonetos produzidos pelos poe- 
tas italianos, hespanhoes e portuguezes) elle não 
conhecia senão um, completamente acabado segundo 
as suas infinitas e impertinentissimas regras; e era 
o de Thomaz Pinto Brandão, primeiro n'este vo- 
lume do Pinto renascido. Fosse embora exaggerado 
este conceito, a Innocencio parecia, comtudo, que o 
voto de censor tal não deixara de ter seu pezo. 

De Thomaz Pinto Brandão foram pães Gonçalo 
Pinto Coelho e Isabel Brandão, sendo aquelle advo- 
gado da Relação do Porto. Chegado aos dezesete 
annos de sua edade, tomou a resolução de passar 
a Lisboa, onde, não o favorecendo a fortuna, empre- 
hendeu ir viver no novo mundo. Na corte travara 
conhecimento, nos relatam, com o bacharel Gregório 
de Mattos Guerra, natural da Bahia, que, vindo 
estudar a Faculdade da jurisprudência na Universi- 
dade de Coimbra, se achava oppositor a alguma 
judicatura na sua pátria. « A similhança dos génios, 
ambos joviaes e picantes, apertou tanto os vínculos 
da sua amisade que, despachado n'este tempo o 
Gregório, levou comsigo o Thomaz para a Bahia.» 
Por algumas travessuras, mui naturaes em uma 
edade que costuma fazer timbre dos excessos, o 
mandou prender, seguem referindo, no anno de 
1693, o almotacel mór António Luiz Gonçalves da 
Camará Coutinho, que n'essc tempo era governa- 



256 PORTUENSES ILLUSTRES 

dor e capitão-general da capitania da Bahia de 
Todos-os-Santos. Após um anno de prisão, o go- 
vernador o fez sentenciar a degredo para Angola; 
mas, acabando o seu governo antes da execução 
da sentença, a moderou o seu successor, D. João 
de Alencastre, commutando o degredo de Angola 
para o Rio de Janeiro, para onde foi, com effeito, 
conduzido, residindo ahi, como governador da pro- 
víncia, o alferes-mór do reino Luiz César de Me- 
nezes. 

Novo desastre, pois que seu génio, sempre 
propenso a travessuras e satyras picantes, com 
certa que escreveu contra um favorecido do gover- 
nador deu occasião a que experimentasse segunda 
vez as mortificações da perda da liberdade. 

Da cadeia sahiu para Angola, por degredo; teve 
uma viagem dilatada e penosa. Chegado, emfim, á 
cidade de S. Paulo de Loanda, o governador, pela 
recommendação de Luiz César, o mandou metter 
logo na cadeia e carregar de ferros; e, depois de 
três mezes de prisão tam áspera, o fez conduzir a 
Benguella, para que n'aquelle presidio servisse. Por 
aquellas terras assistiu Thomaz Pinto Brandão 
alguns annos; alli exercitou o posto de capitão de 
infanteria e alli se viu senhor de setenta escravos, 
uns grangeados por negocio, outros captivados na 
guerra. Alli teve uma amizade bem estreita, mas 
não legitima, com Nuna Ambundo, sobrinha da 
rainha Ginga e neta do famoso Caconda, rei de um 
dos paizes circumvisinhos ; d'esta houve um filho, 



i 



VIII — SOUSA — BRANDA O — CLARAMONTE — SANTOS 257 

de quem, com o deslavado cynismo d'aquella epocha 
de inconsciência moral, elle mesmo disse: 



Certo que foi bem nascido 
E, postoque um tanto fusco, 
Tinha a côr baça na pelle 
Mas sangue real no bucho. 



Continuou o serviço militar n^quella fronteira 
alguns annos, até que chegou a Angola, com o 
emprego de governador e capitão-general, o mesmo 
Luiz César de Menezes, que, vendo já satisfeita a 
sua vingança, lhe deu licença para recolher ao 
reino. Embarcou-se, pois, para o Rio-de- Janeiro, 
onde aportou com toda sua negraria. Fez pre- 
sente de alguns escravos a pessoas de que depen- 
dia ; converteu outros em ouro ; e conservou os 
mais em seu serviço, entrando n'estes um cha- 
mado Damião, que o serviu fielmente até á morte, 
em que lhe concedeu toda a liberdade, « que já go- 
sava de meias pelo amor com que o tractava.» 

No Rio-de-Janeiro casou e, pretendendo despa- 
char-se com o habito de Christo pelos serviços que 
havia feito na Bahia, no Rio e em Benguella, se 
embarcou para o reino, chegando a Lisboa pelos 
annos de 1703, trazendo comsigo sua mulher e sua 
sogra. 

Mas aqui é que começaram, verdadeiramente, 
os seus grandes e insoffriveis trabalhos. Como a 
sogra « tinha a condição áspera e elle o génio mui 
livre, começaram a ser reciprocas as queixas e 

voi,. 1. 17 



258 PORTUENSES ILLUSTRES " 

commum de dois o descontentamento ; separou-se 
Thomaz e começaram, com as demandas, a des- 
compor-se ambas as partes. » « A sogra, que era 
já viuva de três maridos, empregava-se em destruir 
éfete genro, depois de haver já afugentado outro. O 
outro, sem reflexão no descrédito que para si pró- 
prio fabricava, ao mesmo tempo fazia públicos 
nos seus versos os defeitos mais Íntimos da 
sogra. » 

Augmentava-se, de momento a momento, reci- 
procamente o ódio, e foram os seus effeitos pren- 
der Thomaz Pinto Brandão a sua sogra e conse- 
guir esta prendel-o a elle, mas, como o crime por 
que a sogra o accusava lhe fora falsamente arguido, 
os seus patronos, que eram os gran-senhores da 
corte, o duque do Cadaval, D. Jayme, o conde de 
Unhão, D. Rodrigo Telles de Menezes, o marquez 
mordomo-mór, D. Martinho Mascarenhas e D. 
Rodrigo de Lencastre, commendador de Coruche, 
o fizeram logo mudar da cadeia fechada para a 
casa do carcereiro e ultimamente o restituíram á 
sua liberdade. 

Este precursor do Bocage tradicional da vida- 
airada não poupava os seus gracejos, sempre api- 
mentados, nem mesmo á pessoa do rei; e debalde 
procurou restaurar o agrado, que perdera, de D. 
João v, por uma graça que introduzira em uma 
poesia, pois que elle « não sabia perder a pronun- 
ciação de nenhuma que o pensamento lhe sugge- 
risse. » 



Vni — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 2$<} 

Não era escrupuloso na escolha dos themas 
para suas moralistas risotas, como o indica a elei- 
ção dos interlocutores para o romance, dedicado á 
pratica de três cabeças em três discursos, as quaes 
três cabeças eram as de três ladrões em Lisboa 
justiçados; mas, na loucura da sua procrastinada 
bohemia, encarreiravam-o lampejos de bom senso, 
como quando, em 1730, vibra a sua satyra contra 
os sebastianistas (Aos declarados Encobertos). 

No extremo fim de sua vida e sua penúria, 
valeu-lhe a caridade do conde de Sabugosa, Vasco 
Fernandes César de Menezes, que lhe deu casas, 
no sitio da Junqueira, junto ao seu palácio, assis- 
tindo-lhe, egualmente, com o preciso para a sua 
subsistência e do seu escravo Damião, «que em 
todos os seus trabalhos foi sempre o seu Fidus 
Achates». Foi sepultado no adro da egreja do 
Calvário. 



Mais escandalosamente faceto do que Thomaz 
Pinto Brandão ainda, portuense poeta houve n'essas 
epochas que suppòmos reverenciosas. Mas, por bem 
do decoro, quedou manuscripto. 

Das poesias de João Sucarello Claramonte, 
natural do Porto, cavalleiro professo da Ordem de 
Christo, medico insigne, diz Diogo Barbosa Ma- 
chado que se podiam formar diversos volumes e 



2ÓO PORTUENSES ILLUSTRES 

somente se haviam feito publicas algumas nas 
Metn. Funeb. da Senhora D. Maria de Atayde 
(Lisboa, na Offlc. Craesbeeckiana, 1651, 4. ). E não 
era de génio melancholico a musa do medico do 
Porto, a quem, discriminadas e na expressão um 
tanto contraditoriamente, a Bibliotheca Lusitana 
averba, tam só, um soneto, uma decima e o entre- 
mez, ms., do Estudante phantastico. 

Mas no anno de 1667 as «Obras poéticas do 
doutor João Sucarello Claramonte, cavalleiro do 
habito de Christo e medico portuense » as « ajuntou 
com grande trabalho Christovão Alão de Moraes, 
seu grande amigo. » 

Tinha-os Sucarello, que, pouco assucarado, 
com elles motejava á bòa-parte, deixando-nos, 
assim, desconhecidos traços physionomicos, como 
os que caracterisavam o intróito da sylva a Duarte 
Ribeiro de Macedo, um dos mais favorecidos, por 
mais queridos: 



Meu Duarte Ribeiro, 

Meu bacharel barbinhas de sedei ro, 

D'onde assedam as bel las raparigas 

As faces e as guedelhas como estrigas etc. 



Mas para outros não continha a veia satyrica 
em comedimentos, consoante passou para Domin- 
gos Antunes Portugal, sendo dezembargador do 
Porto. Casou com uma viuva, chamada dona Ma- 
ria dos Reis e, indo para a receber, foi acompa- 
nhado por três filhos que tinha, já homens. « Com 



VIH — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 20 1 

os quaes se sobresaltou a dita viuva, ao que fez 
o Auctor esta 

REDONDILHA 

Vendo aquelles três alarves, 
A viuva estremeceu; 
E Portugal respondeu: 
Estes são os meus Algarves. » 

Por estas e outras — muitíssimo mais desboca- 
das — chalaças, a João Sucarello Claramonte cha- 
mou Diogo Barbosa Machado «excellente poeta, 
principalmente no estylo joco-serio, em que le- 
vou a palma a todos os mais celebres professores 
doesta divina arte. » 

Escandaloso lhe reputariam então, como inde- 
cente hoje lh'o qualificariam, ainda que por acabar, 
aquelle soneto que elle principiou, governando o 
Porto D. Álvaro de Abranches, por estas descara- 
díssimas quadras, endereçadas á sua terra natal, 
aliás : 

Oh mui nobre e sempre leal cidade, 
Meirinhos e escrivães de serventia, 
Escudeiros de Sua Senhoria, 
Que sois ladrões, por carta de ametade; 

Tanto mouro e judeu, clérigo e padre 

(Impnblicavel) 
E o Gallego, fazendo-as cada dia, 
Com Martinho, escrivão da puridade. 

Se o auctor não acabou, rematou elle, ou o 
seu coliector, em prosa, explicando que este Gal- 



2Ó2 PORTUENSES ILLUSTRES 

lego era o vigário geral do Porto, João Rodrigues 
de Araújo, que depois foi abbade de Lordello, e o 
Martinho Martinho de Mattos, escrivão da Camará 
Ecclesiastica, «ave bem conhecida pela penna e 
pela unha. » O soneto á morte de Lourenço 
Baptista, sachristão das freiras de S. Bento do 
Porto, é também inverosímil de desfaçatez; e má 
idéa dos costumes da terra e da epocha se inferirá 
das composições attinentes ás freiras de Monchique, 
aos dezembargadores da Relação e a negociantes, 
fidalgos e mesteiraes. 

Parece, mesmo, que, de conjuncto, pouca con- 
sideração e pouquíssima affeição nutria João Suca- 
rello Claramonte pelo seu natal Porto, cujos « dis- 
parates » com allusões hoje quasi de todo indecifrá- 
veis enumerou em um soneto, « definindo »-os: 



As valentias de Gaspar cTAnhaya, 
O mero-mixto império do Sarinho, 
A calva de João Nunes, frita em vinho, 
As folhas do Picão de Miragaya ; 

Mercancia de esterco, âmbar da Maia, 
Bem comprado por lenha ou por toucinho, 
Geral remédio d'Entre-Douro-e-Minho, 
Achado antes nas casas que na praia ; 

Baeta calva, immensa gravidade 
Dos Infanções, mantidos com farello ; 
Da manta-rôta a celebre irmandade : 



Este é o Porto. Acabo de dizel-o. 
Oh muito nobre e leal cidade, 
Quem me te vira posta de bacello I 



VIII — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTK — SANTOS 2ÒX 



ò 



Ninguém diria que versejador tam desabrido se 
apurasse na compostura que exige a situação 
deplorativa perante o féretro de D. Maria de 
Athayde; alii não quedara elle, se permanecendo 
«medico famoso», «o maior poeta cómico do seu 
tempo. » 

Nas exéquias de Maria de Athayde, no convento 
de S. Francisco de Enxobregas, a oração fúnebre 
dissera-a o padre António Vieira, da Companhia de 
Jesus; e a esta oração fúnebre fizera uma decima 
em castelhano o conde de Castelmelhor. No volume 
especial, hoje raro, offerecido a dona Luiza Maria 
de Faro, condessa de Penaguião, se archivam, na 
morte de D. Maria de Athayde, as « memorias fúne- 
bres, sentidas pelos engenhos portuguezes», que 
íòram António de Mello de Castro, Francisco Luiz 
Vasconcellos, Bartholomeu de Vasconcellos, soror 
Violante do Ceo, o doutor António Barbosa Ba- 
cellar, Duarte Ribeiro de Macedo, Vicente de Gus- 
mão Soares, Lourenço Saraiva de Carvalho (pro- 
vedor da comarca de Beja), António de Miranda 
Henriques, João Gomes de Serpa, o doutor Pedro 
Garcia de Faria (mestre-escóla de Faro), André de 
Castillo Lobo, o doutor Manuel da Nóbrega, o 
padre fr. Gil de S. Bento, fr. Hieronymo de Moura, 
o padre Dom Prospero, Simeão de Azevedo e Farias, 
o desafortunado Manuel Fernandes Villareal, dom 
Francisco Manuel de Mello, o mestre-de-campo 
Diogo Gomes de Figueiredo, o doutor Luiz Pereira 
de Castro (do conselho-de-Estado de S. Magestade, 



264 PORTUENSES ILLUSTRES 

embaixador eleito á corte de França), o doutor 
Hieronymo da Silva de Azevedo (dezembargador 
da casa da Supplicação), Francisco de Faria, o 
conde da Ericeira, D. António da Cunha (governa- 
dor e capitão-mór da comarca e cidade de Évora), 
Francisco Martins de Sequeira, o dezembargador 
António Raposo, o doutor António de Sousa de 
Macedo (dezembargador dos Algarves, embaixador 
aos Estados da Hollanda), Henrique do Quintal 
Vieyra, D. Fradique da Camará, o dezembargador 
Francisco Cabral, António Corvinel, Francisco Ca- 
bral d' Almada, o doutor Diogo Lopes de Leão; 
afora vários mais em differentes composições de 
diversos em latim. 

Ao portuense doutor João Sucarello pertencem 
um soneto e o epitaphio, em que se recorreu, con- 
soante elle-mesmo marginou, de Francisco de Sá 
de Miranda, na carta a seu irmão. E a decima 
que lhe ajuntadamente registra Diogo Barbosa 
Machado. 

Mas o que assignalou no conceito dos nossos 
maiores ao portuense João Sucarello Claramonte 
foi a facécia. Os nossos ditos maiores não distin- 
guiam o claro-escuro : ou a altisonancia empolada 
ou a chocarrice obscena. A obscenidade era, de 
resto, no despotismo avergadòr das consciências, o 
único respiraculo da liberdade. A independência do 
juizo, foragida, escapava-se, fétida, por um cano de 
latrina. 

O género por Thomaz Pinto Brandão e João 



Vin — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 265 

Sucarello Claramonte cultivado não condiz, porém, 
com nossa moral modalidade e o nosso povo, 
como nossa fidalguia, em bem mais' intima affeição 
e conta tçve a musa sentimental sempre, de todo 
o tempo. 



Assim, mui celebrado por suas coplas eróticas 
diz José Maria da Costa e Silva que fora Egas 
Moniz, primo de outro do mesmo nome, que foi 
aio de D. Affonso Henriques e a quem a tradição 
popular attribue a celebre fiança feita ao rei de 
Leão, de que D. Affonso se apresentaria em suas 
cortes, se elle rei de Leão levantasse o sitio de 
Guimarães, onde o tinha cercado, e a façanha de, 
por o rei de Portugal se recusar ao cumprimento 
d'este ajuste, apresentar-se ao leonez, descalço, e 
com a corda ao pescoço, com sua mulher e filhos, 
para que n'elles vingasse o quebramento de sua 
palavra. A esta situação pathetica, com escassa 
nobreza de sentir, Costa e Silva capitula-a de en- 
tremezada ; e prestes deixa o incidente, para voltar 
«ao primo do chamado Regulo portuguez. » 

D'elle conta que fora, segundo se affirma, extre- 
mado cavalleiro, distinguindo-se em muitas acções 
contra os mouros, mui bem cabido com as damas 
e mui dado aos amores. 



266 PORTUENSES ILLUSTRES 

Uma dama da rainha D. Mafalda, <-a quem a 
historia designa simplesfnente pelo nome de Vio- 
lante, sem nos dizer nada da sua linhagem», foi 
por muito tempo a senhora dos seus pensamentos, 
o objecto das suas adorações e o assumpto mi- 
moso das suas poesias. 

Esta donzella era mui formosa, segundo se co- 
lhe dos versos do seu amante, « testemunho que 
não deve ter-se por muito insuspeito » ; mas o 
que não tem duvida é que Egas Moniz a amou 
como os poetas costumam amar, perfeitamente, 
« quero dizer, como doudo, porque n'estes casos a 
doudice é a perfeição e o sublime. » 

Porém, entre tantas perfeições de que a bella 
Violante era dotada não tinha logar a constância, 
e por isso, quando menos Egas Moniz o esperava, 
esquecendo-se de suas finezas, e desmentindo to- 
dos os seus juramentos, casou com um hespanhol 
e partiu com elle para Castella. 

O perjúrio de Violante, este desfecho inespe- 
rado de tantos extremos, parece, a Costa e Silva 
a quem vou seguindo, que o coração do poeta 
o advinhava, quando, devendo ausentar-se para 
Coimbra, dirigia á sua amada as coplas que, no 
lance, Costa e Silva transcreve. 

Voltou Egas Moniz de Coimbra e, achando a 
noticia da falsidade de Violante e de sua partida 
para Castella com seu marido, ficou como doudo 
e escreveu novas coplas que lhe enviou e são as 
que Costa e Silva outrosim transcreve. 



VHI — SOUSA — BRANDÃO — CLARAMONTE — SANTOS 267 

Mas debalde procurava o pobre Egas desafogar 
as suas penas nas lamentações e nos versos. « A 
ferida havia penetrado mui profundamente n'aquelle 
coração amante e enthusiasta; o toxico do ciúme 
estava derramado em seu coração e lhe corrompia 
o sangue ; sua imaginação ardente lhe representava 
a cada momento a ventura e os prazeres por tanto 
tempo gosados e tam de repente perdidos. Pezada 
melancholia lhe foi, pouco a pouco, seccando as 
fontes da existência ; nem os festejos da corte nem 
os louros da guerra, tinham poder, se não de con- 
solal-o, ao menos de distrahil-o. O amor de Vio- 
lante era a sua vida, e a sua perfídia o despenhou 
em breve na sepultura. » 

Affirma a tradição que a formosa e inconstante 
Violante, sabendo da sua morte e enternecida com 
os seus versos, e talvez conhecendo que o marido 
que preferira não valia o antigo amante, tomara tal 
paixão que puzera termo aos seus dias com veneno. 

Chegado a este ponto, com baça gentileza para 
com o sexo bello, José Maria da Costa e Silva mo- 
ralisa motejos duvidosos: «Em puridade confesso 
(elle assim adverte) que esta tradição me parece 
uma fabula; as mulheres nunca se matam pelos 
amantes a quem atraiçoam, mas sim por aquelles 
que as abandonam ou desprezam.» 

Reverte Jogo á sua funcção de critico litterario; 
e, convindo em que as coplas de Egas Moniz que 
deixou citadas são, na verdade, elegantes e harmo- 
niosas, pergunta se serão ellas authenticas? 



268 PORTUENSES ILLUSTRES 

Da Revista Universal Lisbonense reproduz o dr. 
Theophilo Braga a traducção que das duas canções 
de Egas Moniz publicou Garrett, «servindo-se das 
interpretações do sábio Ribeiro dos Santos. » O qual, 
attinentemente ao século xvm, Innocencio aquilata 
como «um dos mais respeitáveis, eruditos e fecun- 
dos escriptores que Portugal produziu. » Elle nasceu, 
este portuense illustre, em Massarellos, a 30 de 
março de 1745. 

O seu retrato appareceu publicado pela primeira 
vez no Arckivo Pittoresco, sendo acompanhado 
d'uma breve noticia biographica, da qual seu auctor 
foi o do Diccionario Bibliographico. «Uma biogra- 
phia, aliás bem desenvolvida», diz Innocencio, es- 
cripta por M. J. M. Torres, fora inserta no Panorama, 
e a Innocencio constaria que um bosquejo biogra- 
phico do insigne portuense, elaborado por D. Miguel 
Souto-Maior, sahira no Civilisador, semanário de 
instrucção e recreio começado a publicar no Porto 
em 1860. 

Poeta, e emérito, foi também aquelle eminente 
erudito. De suas poesias dissera Garrett : « António 
Ribeiro dos Santos foi imitador e emulo de Ferreira ; 
poucos engenhos, poucos caracteres, poucos estylos 
ha tam parecidos; senão que o auctor dos coros da 
Castro era muito maior poeta, e o cantor do infante 
D. Henrique muito melhor metrificador. Esta ode 
ao infante sábio, algumas outras a vários heroes 
portuguezes, algumas das epistolas, e especialmente 
os versos que lhe ditava a amisade para o seu 



VHI — SOUSA — BRANDA O — CLARAMONTE — SANTOS 269 

Almeno, são de uma elegância e pureza de lingua- 
gem raríssima em os nossos dias. » 

Mas, victima d'uma insaciável curiosidade men- 
tal, a sua actividade litteraria dispersou-se, aliás 
em attestações poderosas do seu intellecto e do 
seu saber. 

Para se fazer idéa, um indicio bastará. Na 
Bibliotheca Nacional de Lisboa existem as obras 
inéditas de Ribeiro dos Santos, doadas áquelle esta- 
belecimento, que tanto lhe deve. E uma collecção, 
por todos os títulos notável, consoante se appre- 
henderá da simples indicação do titulo, que inclue 
a divisão das espécies contidas no respectivo cata- 
logo. 

A primeira divisão, ou classe primeira, compre- 
hende a Historia; a segunda divisão, ou classe 
segunda, pertence á Philologia ou Linguas. A 
terceira divisão, ou classe terceira, corresponde ás 
Sciencias Jurídicas. A quarta divisão, ou classe 
quarta, inclue as Sciencias Ecclesiasticas. A quinta 
divisão, ou classe quinta, contém a Polygraphia, 
isto é : Miscellanea polygraphica ; Cartas litterarias 
sobre a historia ; Ditas sobre philologia ou linguas ; 
Ditas sobre poética e poesias; Ditas sobre econo- 
mia civil e politica; Ditas sobre theologia ; Ditas 
sobre as bellas artes; Ditas varias; finalmente, Me- 
morias do dr. António Ribeiro dos Santos, ou papeis 
e documentos que dizem respeito á sua biographia, 
empregos, serviços, etc.^ 

Das obras de sua lavra no lusitano idioma, e 



270 PORTUENSES ILLUSTRES 

impressas, tanto em prosa como em verso, fez a 
enumeração Innocencio. Uma das verbas marca o 
trabalho Das origens e progressos da Poesia portu- 
gitcza. Foi estampado no tom. viu das Mem. da 
Academia Real das Sciencias de Lisboa o discurso 
preliminar que dá entrada a trabalho de maior vulto, 
e que ainda existe inédito, á excepção do cap. m, 
que se intitula: Dos mais antigos monumentos da 
Poesia portugueza nos séculos xn e xnr, o qual 
sahiu no Jornal da Sociedade dos Amigos das 
Letlras t 1836, ficando interrompido, afinal, pela sus- 
pensão d'esse periódico. Na parte publicada vêem 
eruditamente commentadas, informa Innocencio, 
além da canção attribuida a Gonçalo Hermigues, 
as cartas que se dizem d'Egas Moniz etc. 



IX 



João Pedro Ribeiro — Bernarda Ferreira 
de Lacerda — Almeida Garrett — Eva- 
risto Basto — António Augusto Teixeira 
de Vasconcellos — Thomaz de Carvalho 
— Gonçalves Basto — Ricardo Guima- 
rães — Passos Manuel. 



A 



s duas cartas por Egas Moniz a sua dama 
endereçadas, as dá como apocryphas outro por- v 
tuense illustre, «o erudito J. Pedro Ribeiro», reme*- 
mora o dr. Theophilo Braga. E a verba m de taes 
composições refugadas de carência de authenti- 
cidade. 

Foi esse João Pedro Ribeiro natural d'esta cidade 
do Porto, e aqui morreu a 4 de janeiro de 1839, 
contando mais de 80 annos de edade. Deixou, por 
sua morte, á Bibliotheca da Universidade os seus 
livros e manuscriptos, com reserva de uma porção, 
de que concedeu o usufructo a seu sobrinho Pedro 



272 PORTUENSES ILLUSTRES 

do Rosário Ribeiro, e, por morte cfeste, em 1852, 
foi também incorporada na referida Bibliotheca, 
onde passou a existir tudo desde então. A esta 
doação ajuntou a do seu pequeno monetário, ou 
museu de medalhas e moedas antigas, em numero 
de 884. 

«Os trabalhos que publicou pela imprensa 
durante a sua longa vida, fructos de ímprobo 
estudo, de não interrompidas indagações e de uma 
applicação indefessa, valeram-lhe as honras de pri- 
meiro fundador e patriarcha entre nós da sciencia 
diplomática, cujo edifício assentou sobre bases soli- 
das. São elles de sobejo conhecidos, e apreciados, 
para que nos detenhamos com a repetição dos 
elogios, consagrados ao nome do seu auctor pela 
critica sizuda e imparcial dos contemporâneos, ç 
que lhe asseguram a veneração e estima da poste- 
ridade. » 

N'estas palavras graves resume Innocencio o 
alto conceito em que deve ser tido João Pedro 
Ribeiro, tam escrupuloso e arguto como rigoroso e 
severo. 

E ao ponto, em contraste, nos dá sueto a remi- 
niscência d'esse devaneio triste dos amores mallo- 
grados de Egas Moniz, fiel, com sua versátil Vio- 
lante. E' que da pulverulencia de cartapacio, florido 
nos rebuscamentos de estylo precioso, me acode 
destacar, para a evidencia de particularisado extra- 
cto, a curiosidade de um caso referido. 

Alludo á parte sétima da Monarchia Lusitana, 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 273 

que contém a vida de el-rei D. Affonso o Quarto, 
por excetlencia o Bravo, composta pelo chronista- 
mór fr. Raphael de Jesus, natural da real villa de 
Guimarães, religioso e pregador geral da ordem do 
príncipe dos patriarchas S. Bento n'este reino de 
Portugal. 

Ora, em o livro vm, cap. n, pelos annos de 
1335» deixara o chronista estampadas as heróicas 
proezas que três cavalleiros portuguezes, appellida- 
dos n'aquelle tempo os três da fama, praticaram 
nas cortes extrangeiras e particularmente na de Cas- 
tella, sendo o principal Gonçalo Rodrigues, o se- 
gundo Vasco Annes (que diziam o collaço, porque 
o fora da rainha de Castella Dona Maria) e o ter- 
ceiro Fernão Martins Santarém. Era este ultimo o 
de menor idade, e depois de suas peregrinaçctes 
assistiu sempre na corte de Lisboa. Por suas pren- 
das, o favoreceu o príncipe D. Pedro com particular 
inclinação. 

Como fosse mancebo e soldado, gastava no 
passeio todo o tempo que lhe sobejava do serviço. 
Deu-se que vivesss por aquella idade em Lisboa um 
auctorisado velho que havia servido a el-rei D. 
Affonso de inteiro ministro nos tribunaes da jus- 
tiça, por nome Lourenço Martins Moreno, a quem 
os muitos dias tinham aposentado, com uma filha, 
único arrimo de sua velhice. De dote tinha esta mais 
que medianos bens da fortuna, concorrendo os da 
natureza a fazer appetecido o casamento de Vio- 
lante Martins (este era o nome da donzella) do mais 

VOL. I V*» 



274 PORTUENSES ILLUSTRBS 

estirado da corte «sabendo ella subir de preço o 
muito que herdava com o honesto e virtuoso recato 
com que vivia e se negava á vista de todos. » Cos- 
tumava assistir á tarefa de suas creadas, cultivando 
a virtude com a occupação e desmentindo a publi-. 
cidade de uma janella com gelozias tam reformadas 
que, se por ellas podia entrar a luz, não podia entrar 
a vista. «Quem imaginara (pergunta, compungido, 
frei Raphael, de Guimarães) que uma leviana curio- 
sidade havia de destruir os artefactos de tanta sizu- 
desa e tanta industria?» 

E que não bastam todos os ardis da cautella 
para assegurar a bondade de uma singeleza. Com 
a de sua desattenção, reparou Violante Martins no 
continuado passeio com que Fernão Martins San- 
tarém cursava a rua ; com alguma malicia passou a 
entender que algum empenho o obrigava e d'aqui 
se seguiu o desejar saber qual ou antes quem o 
objecto seria de tanta passeata. Communicou ás 
suas creadas o que presumia; offereceu-se uma 
para o investigar; perfrrittiu-lhe a diligencia e, «por 
não faltar a condição de creada, sem inquirir foi 
revelar a Fernão Martins o curioso desejo de sua 
senhora. » 

A creada disse o cavalleiro que o afan de vér 
uma formosura que tanto encarecia a fama era a 
causa de seus cuidados; que não desprezasse ella 
pensamentos, tam bem nascidos, por honestos e 
verdadeiros. 

Deu Violante Martins ouvidos á creada; admittiu 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT BASTO, &C. 275 

persuasões; não desdenhou recados; recebeu escri- 
ptos; facilitou respostas, fiada no segredo entre- 
gando-se a correspondências. O frade é, no lance, 
diserto e conceituoso. Recommendavel parece sua 
historia ás meninas namoradeiras que demasiado 
em suas serviçaes se confiem. 

No maior fervor de seus amores andava por 
esse tempo o príncipe D. Pedro com a sua Dona 
Ignez de Castro. « Na inquietação do cuidado con- 
sistia seu allivio. » Eis, para amostra, um dos con- 
ceitos bellos do diffuso chronista. Um dia avisou o 
príncipe a seus creados que no dia seguinte, de 
manhã, se havia.de deitar a caminho para Coimbra, 
e em especial a Fernão Martins Santarém advertiu 
que se aprestasse para o acompanhar. Quedou-se 
Fernão Martins confuso e duvidoso se desobede- 
ceria, por se não arredar de sua Violante. Mas, 
bem inspirado, buscou e achou na consciência o 
mais seguro remédio. Avisou a dama da sua 
inexcusavel partida, pedindo-lhe o favorecesse com 
sua vista em parte que d'ella se despedisse, sem 
offensa de sua honestidade, não querendo mais 
d'ella que sua firmeza e seu agrado para tolerar o 
martyrio da futura ausência. Por escripto, concor- 
daram na hora e modo. 

Chegou o tempo e por a janella de uma sobre- 
loja, a furto da familia e da visinhança, se fallaram 
e despediram: o amante, encarecendo saudades; a 
dama, chorando ausências e promettendo firmezas. 
Emfim ambos se despediram enxugando as lagri- 



276 PORTUENSES ILLUSTRES 

mas, que substituiu a Aurora que os apartou. Esta 
sobre-loja doura-se da poesia matinal do balcão 
shakespereano ; mas Violante não tem a constância 
de Julietta. Por isso, o vimaranense regouga: 
«Logo veremos como nas mulheres não é menos 
frágil o fio das promessas que o das lagrimas. » 

Surge o rival fortunoso. Crise. 

Servia na casa da rainha Dona Brites, com o 
ordenado de escudeiro, um castelhano, «que, para 
ser ditoso, bastava ser extrangeiro. » Tinha noticia 
da fazenda e da formosura de Violante Martins; 
achou o campo franco, seguiu o atalho; entrou 
pela port^ do matrimonio ; pediu-a a seu pae para 
casamento. Encareceram os medianeiros ao velho, 
«com a ordinária fallacia de casamenteiros», o 
muito que adquiria de fazenda e honra com o novo 
genro; encheram-lhe os olhos de cubica com as 
esperanças de um titulo, e ficou ajustado o con- 
certo. Deu conta á filha, que o mesmo foi conside- 
rar-se noiva que responder grata. « Fatuidade ordi- 
nária da inclinação feminina : resolver sem exame o 
que não ha-de revogar sem crime», admoesta, 
supercilioso, fr. Raphael de Jesus. 

Celebraram-se as bodas e, entre os parabéns 
d'ellas, chegou Fernão Martins Santarém a receber 
os pezames com a publicidade da nova. Amargoso 
foi o trago ; um mortal accidente o levou á cama. 
Assistido de médicos se viu o enfermo ; mas que 
importava, «se nas boticas não havia cordeaes 
contra similhante veneno?» 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 277 

Viu que uma ingratidão o matava sem cura, 
fiou a um amigo a causa, ordenando-lhe que 
escrevesse e fechasse uma carta e que, cerrados 
seus olhos á luz da vida, a puzesse nas mãos de 
quem lhe dera a morte, declarando-lhe como havia 
de conseguir o intento. Tudo succedeu, porque, 
morto Fernão Martins, se entregou a carta, e com 
ella a nova de sua morte, a Violante, « que, assal- 
tada de uma mortal tristeza, assim a congelou o 
pasmo que, suffocados os espíritos vitaes, cahiu 
morta de um repentino accidente. » 

A queda e grita, acudiram o pae, o esposo e a 
família; assombrados os deixou o caso, e muito mais 
a causa, quando a leram na carta que a defunta 
tinha na mão. 

Divulgou-se pela corte o successo e n'elle teve 
assumpto a pratica de todos, por muitos dias, « con- 
siderando vencido nos amores quem sempre vencera 
nas armas.» 

. O que tudo consta do extractado cap. vm do 
livro x da parte vn da « Monarchia Lusitana » : Nar- 
ração de um peregrino caso succedido na cidade de 
Lisboa entre dous amantes. 



* 



Nas bandas do Porto peregrino successo de amor 
aquelle foi que cantou a poetisa portuense, por 



278 PORTUEN3ES ILLUSTRES 

quem me propuz encetar tarefa, D. Bernarda Fer- 
reira de Lacerda. 

Convém o lisbonense José Maria da Costa e 
Silva em que, de todas as cidades de Portugal, se 
exceptuarmos Lisboa, nenhuma pôde competir com 
o Porto no numero de litteratos, e especialmente de 
poetas, que tem produzido; e assevera que entre 
estes occupa um logar muito distincto D. Bernarda 
Ferreira de Lacerda. «Esta senhora (elle escreve) 
foi filha de Ignacio Ferreira Leitão, dezembargador 
do Paço e chanceller-mór do reino, e de sua mulher, 
D. Paula de Sá Pereira, e nasceu na segunda capital 
do reino em 1595.» 

De feito, D. Bernarda Ferreira de Lacerda foi 
celebrada pelos melhores poetas do seu tempo, tanto 
portuguezes como castelhanos, distinguindo-se entre 
elles o famoso Lope de Vega, que lhe dedicou a sua 
écloga Phyllisy impressa em 1635. 

Todavia, no concernente á sua Espana Uber- 
tada, o mesmo Costa e Silva registra que tal obra 
não pôde, na opinião dos críticos, considerar-se um 
poema heróico, mas sim uma chronica, ou, melhor, 
uma reunião de chronicas postas em verso, ligadas 
umas a outras, sem fabula, sem contextura dramá- 
tica e sem maravilhoso. Accrescenta que o seu 
principal mérito consiste em alguns episódios, «como 
a vingança de D. Ramiro contra o rei mouro, que 
lhe seduzira e roubara sua mulher.» 

A lenda portuense que serviu de assumpto a 
D. Bernarda Ferreira de Lacerda para o principal 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 279 

trecho do canto vi da primeira parte da sua Es- 
pana libertada, impressa em 1618, o deu egual- 
mente para a breve recopilação e tractado que, 
tirado das antiguidades de Hespanha, compòz em 
verso oitava rima João Vaz, natural da cidade de 
Évora. 

Pelo argumento e declaração da historia se ins- 
true o afadigado e impaciente leitor actual; com o 
sabor ingénuo da prosa passa ia, elle apura assim 
que no tempo em que reinava em Galliza e em 
Leão o animoso rei Ramiro, que casado foi com 
uma nobre dama chamada Gaya, entre outros reis 
mouros que o ocupavam o restante se contava o 
esforçado Almançor, ou Alboazar, segando diversa 
versão. 

Havendo estes dous reis entre si batalhas, em 
uma captivou Ramiro uma irmã d^sse Almançor, 
« a qual tinha por amiga, do que enojada, Gaya 
tractou com Almançor a quizesse furtar, que ella 
daria ordem como se fosse com elle, como deu, e a 
cobrou e levou para Portugal, que estava de mou- 
ros. » Assim fazendo, elle a foi pôr junto doesta 
nossa cidade do Porto, cerce do rio Douro, sobre 
o logar a que continuamos chamando agora Gaya, 
onde Almançor tinha seus paços. 

Vendo o que, Ramiro ordenou três galés de ar- 
mada, e com ellas veio aportar a S. João da Foz, 
e de noite se entrou com ellas pelo rio Douro, 
sem que fossem sentidos dos mouros, e cobertas 
de ramos, por não serem vistos. Tanto que ama- 



28o PORTUENSES ILLUSTRKS 

nheceu, Ramiro se poz em trajos de romeiro e 
sahiu em terra, deixando dito aos seus que, se ou- 
vissem tanger uma buzina que comsigo levava, lhe 
acudissem, e depois se foi guiando para os paços 
d'aquelle mouro. 

Assim andando, chegou a uma fonte, aonde 
com elle veio ter uma moura, que vinha buscar 
um púcaro d'agua, para sua senhora Gaya. Ora, 
« fallando-lhe em arábio, lhe pediu o púcaro para 
beber por elle, e ella lh'o deu. » Elle, porém, depois 
de beber, tirou um annel do dedo e o deitou den- 
tro do púcaro, sem que a moura o visse; mas, be- 
bendo, por sua vez, Gaya, conheceu que o annel 
era de seu esposo Ramiro e o mandou chamar, 
por quanto Almançor era ido á caça. 

Vendo-se os dois, se abraçaram e, falsa, com 
Ramiro conveio Gaya em se matar o mouro e 
irem-se ambos, encerrando-o, fingidamente, para 
isso, em uma camará, para que, quando Almançor 
dormisse a sesta, ella a elle Ramiro lhe desse re- 
bate. NMsto, veio Almançor da caça; e, sentado á 
meza para comer, logo Gaya lhe deu conta de Ra- 
miro e como para o matar a elle Almançor é que 
aquell'outro vinha, 

Iroso, o mouro o mandou buscar ; e, « passa- 
das entre ambos algumas razões», por fim Alman- 
çor lhe perguntou : — « Se eu, Ramiro, fosse a tua 
casa para te matar, que me fizeras?» Ramiro lhe 
respondeu: — «Mandava-te levar a um alto, e com 
esta buzina te . fizera tanger até que rebentaras. » 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 28 1 

Ordenou então Almançor que aquillo mesmo a elle 
Ih' o fizesâem. 

Mas, levado ao alto e começando Ramiro sua 
buzina a tanger, prestes sua gente lhe acudiu e, 
tomando os mouros descuidados, degolaram a Al- 
mançor e a seus parciaes, e foi saqueada a terra. 
Aqui remata o commentario candoroso de João 
Vaz que : « D'esta Gaya ficou o nome do logar de 
Gaya, da cidade do Porto. » 

Mas não rematara a historia, que prosegue con- 
tando como Rei Ramiro matou outrosim sua trai- 
dora mulher Gaya, cioso das saudades d'esta pelo 
degolado mouro, tam querido. 

Em seu diccionârio, Pinho Leal, no artigo que 
dedica a Ancora, rio, Minho, comarca de Vianna, 
concelho de Caminha, informa-nos que « os celtas* 
e depois d'elles os romanos, davam a este rio o 
nome de Spaco y e os segundos á foz d'elle — Vico- 
Spaco-rum. » Mas tudo havia de mudar nome com 
o caso d'esse fatal rei Ramiro, que, indo, com sua 
comitiva, « caminhando para o N., a 6 kilometros 
distante de Mohte-Dôr, chegaram ao rio Spaco, e 
aqui, mandando prender a rainha a uma ancora 
(pelo pescoço), elle e seus filhos (!!!) a deitaram ao 
riOj onde se afogou. » Attingido este ponto, Pinho 
Leal, sceptico sem embargo, explica provisoria- 
mente : « Desde então se ficou chamando ao 
Spaco Rio da Ancora, ou Rio Ancora. » 

Entendendo Pinho Leal que o romance de D. 
Bernarda Ferreira de Lacerda e os de seus emulos 



282 PORTUENSES ILLUáTRES 

«não passam de. . . romances», consigna que, 
mesmo assim, elle deu motivo ás antigas armas 
de Vizeu e rememora que «o chorado Garrett, no 
seu bellissimo poemeto intitulado Miragaya, conta 
o caso de modo bastante diverso. » 

Foi das primeiras coisas de tal género em que 
Garrett trabalhou; era a mais antiga reminiscência 
de poesia popular que lhe ficara da infância, porque 
abrira os olhos á primeira luz da rasão nos próprios 
pontos em que passam as principaes scenas d'esse 
romance; com os olhos tapados, elle iria achar ainda 
todos esses si tios marcados pela tradição. «Muita 
vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é 
deliciosa, com effeito; e tenho' idéa de me ter cus- 
tado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da 
feira de S. Miguel, os toques de buzina de S. M. 
Leoneza, empoleirando-me, como elle, n'um resto de 
muralha velha do castello d'el-rei Alboazar: o que 
meu pae desapprovou com tam significante energia 
que ainda hoje me lembra também.» 

Na variante garrettiana o nome do rei mouro é 
o mesmo que adoptara em seu poema D. Bernarda 
Ferreira de Lacerda para aquelle ludibriado-ludi- 
briador a quem Ramiro, ludibriador-ludibriado, 
Garrett nos refere que partira a cabeça até aos pei- 
tos. Após o que, tudo morto ou captivo e o castello 
a arder, embarcar se foram logo ás galés com seu 
despojo, pressurosos vogando, remando, na anciã 
de passar além Douro, que de christãos terra era. 
A popa da galé real ia Ramiro, que á sua direita 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 283 

levava a rainha; ella, porém, muda, de olhos baixos 
na agua. Já estavam a meia corrente, sem palavra 
de um para o outro, ainda ardendo, fumegando 
ainda o alcaçar do moiro. Gaya levantou então os 
olhos e, triste, se poz a mirar, ao longo das faces 
desfiando-lhe as lagrimas uma depois d'outra. Mas 
Ramiro a interpella porque é que chora e lhe per- 
gunta o que é que mira. Acre, ella lhe redargue que 
chora não ter já o mouro em seus braços; amarga, 
lhe contesta que mira as torres do bem-amado alca- 
çar que fumegando estão sempre. 



— Pois mira, Gaya ! E, dizendo, 
Da espada foi arrancar; 
A/ira, Gaya, que esses olhos 
Nào terão mais que mirar. 



De um talho lhe rolou a cabeça; e, para que o 
Douro ao mar os leve, com o pé, pela borda fora 
empuxa o corpo. . . Mas do estranho caso inda 
agora a memoria está perdurando. Por isso que, 
sendo Gaya o nome do castello que por mòr de 
Gaya se queimou, d'alem Douro aquella riba onde 
estava a aproar o barco, quando o rei, que logo a 
degolaria, bramiu: « — Mira, Gaya! >, ainda hoje, na 
popular tradição está dizendo 



Que o nome tem — Miragnya 
D'aquelle fatal mirar. 



284 PORTUENSES ILLUSTRES 

/ 

* 
* * 



Se Almeida Garrett nos interessa e gloria, mais 
nos interessa e honra o n.° 72. 

Em data apropositada o disse. 

Porquanto, a simples exposição dos insignes mé- 
ritos litterarios que distinguiram a culminante per- 
sonalidade de Almeida Garrett ; a apreciação e exame 
das obras typicas da sua variada phantasia: tarefa 
seria esta que, sem desdizer, pouco condiria, ainda 
assim, com a indole especial da folha, politica, de 
propaganda e combate, onde o disse então. 

Mas, como Almeida Garrett consagrou uma 
grandíssima parte da sua actividade mental á pro- 
paganda dos princípios de liberdade e de justiça, e 
como por elles brigou um rude combate, assistia-nos 
o jus de cooperar também na commemoração que, 
por honra do seu nome glorioso, se effectuava 
então, em essa data, do centenário do seu nasci- 
mento. 

Ás publicações especiaes, ás revistas de pura 
litteratura e arte extreme é que quadrava no mo- 
mento assignalar os dotes de imaginação inventiva 
e de plasticidade realisadora que avultam em obras 
tam primorosas, como sejam o drama Frei Luiz de 
Sousa, as Viagens na minha terra, ou essa admi- 
rável collecção de versos lyricos que, na velhice do 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 285 

auctor, realtsaram o fascinante encanta de um lím- 
pido rejuvenescimento. 

A uma folha politica pertencia, porém, recor- 
dar o effeito social do escriptor a cujo esforço 
particularmente se deva a renovação do critério 
litterario, comprimido em Portugal a dentro . dos 
moldes estreitos d*um pseudo-classicismo, inerte 
e rigido. 

Todos os dias correndo risco de prisão, graças 
á vingança que sobre o exercício d'um direito 
natural promovera a freima de mesquinhos tyranne- 
tes, era-nos grato saudar então em Almeida Garrett 
o cantor da liberdade de imprensa, que elle accla- 
mou em uma das mais bellas odes da sua Lyrica 
de Joào Mínimo. 

E não unicamente a liberdade de imprensa foi 
thema dos cânticos de Garrett, pois que todas as 
expressões da liberdade jurídica lograram mover 
sempre seu nobre coração. 

Amando fervorosamente a pátria, elle não a 
julgava digna, apezar de tudo, d'esse seu amor 
senão depois que ella se libertara das tradicionaes 
oppressões. 

D'est'arte foi que desde 1819 os seus versos se 
inspiravam já das revindictas da consciência ultra- 
jada. Nos pezadellos das noites mal dormidas, elle, 
mesmo já então, confessa : 



Maldisse os ferros que me pezam irtda 
E aos tyrannos jurei ódio implacável. 



286 PORTUENSES ILLUSTRES 

A guarnição militar do Porto, em 24 de agosto 
de 1820, porém, poz termo á abominável situação, 
revoltando-se e dos seus quartéis sahindo, de mor- 
rões accesos e clarins em fúria. 

Logo, a musa de Garrett se touca das flores 
ingénuas da esperança ; de jubilo riem seus negros 
olhos; e é com um impeto santo que ella acclama 
a Liberdade: 

Oh Suspirada ha tanto, 



Tu nos franqueias da existência o goso ; 

E as ferrolhadas portas, 
Que o sacrário das leis da natureza 

Árduas téqui fechavam, 
Tu nos abres em par — homens já somos! 

Como portuense, Garrett envaidece-se de que a 
iniciativa da regeneração nacional parta da sua 
gente do Porto: 

O pátrio Douro altivo 
Espedaçando os ferros ; 

e comprehende-se agora que, na também iniciativa 
republicana do 31 de janeiro de 91, nós, do Porto, 
terminalmente, demos a dextra a esse representante 
da ancestral independência da região. 

Mais tarde, após o fragor duma lueta civil 
immensa, Garrett assignou-se como um «fraco 
mas fiel soldado da pátria. » 

Bem mais fracos do que elle, mas tam fieis como 
elle, nós o somos outrosim; e as nossas sympa- 
thias vão, de direito, sinceras e espontâneas, buscar 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 287 

a memoria cTaquelles que, consoante amargamente 
Garrett o registrava, «libertaram esta nossa terra 
de Portugal, para viverem escravos n'ella. » 

Escravos mais abatidos do que as victimas 
outrora gemendo, joguete do ludibrio constitu- 
cional, resultávamos então nós, pois que ao esti- 
mulo da propaganda dos que se não resignam, 
desfallecidamente, correspondesse a concordância 
d'uma massa, no geral, então indifferente e atona. 
A turba congénere do tempo de Garrett indignava 
e irritava o poeta. 

Na sua cólera, elle repudiava essss compatrio- 
tas, como portuguezes não sendo : 



. . . Essa infame, sórdida caterva, 

Esse rebanho vil de vis escravos 

Que ao sceptro da ignorância acurvam, timidos, 

Do nome portuguez vergonha e opprobrio, 

Portuguezes náo sâo, jamais o foram. 



Era que Almeida Garrett não deixava illudir o 
seu claro espirito pelos sophismas d'aquelles que 
escondem a perversidade dos seus intuitos egoístas 
na apparencia de formulas vãs. Nem o enganavam 
as cobardes evasivas dos que se protegem acoco- 
rando-se sob o manto da irresponsabilidade do 
chefe-do-Estado, proclamada aliás como um dogma 
absoluto. Elle não respeitava aquella estúpida (e, 
consequentemente, tam vulgar) desculpa que o 
funccionario que perpetra odiosos attentados con- 
tra os direitos naturaes do cidadão costuma alie- 



288 PORTUENSES ILLUSTRES 

gar, em sua defeza, cynicamente declarando que 
foi mandado. 

Pois mesmo, quanto ao próprio chefe-do-Estado, 
elle tinha o parecer de que a sua auctoridade só 
era admissível e digna de acato quando não offen- 
dia o implicito compromisso, tomado com os cida- 
dãos, de lhes respeitar e garantir suas prerogativas 
e franquias. 

Para os portuguezes, Garrett apostola esta 
doutrina : 

Se um rei, ou por si ou por seus indignos ministros, 
infringir, esquecer, abusar ou preterir alguns dos artigos das 
leis fundamentaes, quer tácitas quer expressas, este rei será um 
tyranno, e seus ministros — sacrílegos réus do maior dos atten- 
tados, dum crime de leza-nação; seus ministros, seus satellites, 
seus magistrados, seus conselheiros, seus validos serão traido- 
res, infames, indignos do nome, do caracter, dos foros de cida- 
dão e até de homem. 

Ao deante Garrett não refuta esta lidima philo- 
sophia ; antes a corrobora com a licção mesma de 
Portugal. Revolta-se contra a phrase servil que 
attribue a um príncipe a outhorga da constituição, 
aliás comprada a preço do sangue entornado na 
balança de cem refregas. Elle exclama: 

D. Pedro iv não podia dar, como falsamente se diz, mas 
propor a sua Carta á acceitação nacional. Essa proposição real 
teria sido nulla sem o acceite da Nação. 

Comprehende-se, depois d'isto, como fosse que 
Almeida Garrett, no seu volume de publicista, se 



IX RIBEIRO — LACERDA -"- GARRETT BASTO, &C. 289 

emancipasse dos preconceitos consuetudinários. Mas. 
libertou^se, e até ao ponto de descortinar no futuro 
a fraternisação de todos os . povos civilisados, a 
extincção dos ódios de raça e nacionalidade. Para 
Portugal, logicamente, congeminou a possibilidade, 
então, da sua comparticipe entrada em uma fede- 
ração dos vários Estados peninsulares, conjectura 
theorica que, adrede mal interpretada, levou o sys- 
tematico Don Sinibaldo de Más a encorporar o 
vate ha phalange astuta dos partidários da sua 
chimera ibérica. 

Era uma falsidade e uma injustiça; mas o que 
então e hoje era verdadeiro e justo é o seu enten- 
dimento, perfeito e integral, da liberdade dos povos. 

Assim, elle bem viu ò caracter superior, transcen- 
dente e supremo, da democracia republicana ; e, pois, 
a definiu com inabalável exacção. Explicou : 

Sc uma nação conserva em si toda a amplidão da mages- 
tade (embora tenha executores subalternos), esta forma de 
governo se chama — Democracia, e um tal povo — Repu- 
blica. 

Consequentemente, todas as formas politicas que 
precedam essa — não passam de phases transitórias 
d'um desenvolvimento continuo, que pôde, de resto, 
ser moroso, contradictorio mesmo, mas que, em sua 
essência, é ininterrupto. 

Esse movimento de progressiva acquisição de 
liberdade civica demanda, infelizmente, mercê d'uma 
fatalidade incomprehensivel, a propulsora interven- 

VOL. I. \<) 



29° PORTUENSES ILLU3TKES 

Ção, d'onde a onde, de processos violentos. Isto é : 
instantes surgem, na historia das nações, em que 
ellas sentem a necessidade imprescriptivel da revo- 
lução. Garrett não o duvida um único momento; 
e só pergunta «por quem é que, no estado actual 
de Portugal, deve começar o grito da Liberdade?» 

fHscute então cuidadosamente o problema; exa- 
mina as probabilidades diversas que militam a favor 
do clero, da nobreza, do povo. Finalmente, decide-se 
pela força armada. Elle escreve que ao exercito é 
que cabe o direito e incumbe o dever de fazer a 
revolução. Affirma até que é o exercito a classe mais 
interessada em a fazer. Por isso seja que, a seu 
juizo, foi «justamente e com toda a legitimidade» 
que o exercito «fez e protegeu» a «feliz» revolução 
de 1820. 

Se esta é, no assumpto, a doutrina substancial 
de Garrett, não quer isto dizer que elle exclua, por 
completo, da participação na revolução as outras 
classes sociaes. Bem ao contrario. 

Assim, entende que a Academia, na hora do 
perigo, deve abandonar os livros e correr ás armas, 
de maneira que a audácia d'um valoroso commetti- 
mento corporativo expie a protervia de vastos perío- 
dos anteriores de pusillanimidade social. 

Na salla dos actos grandes da Universidade de 
Coimbra, Garrett, dominado pelo dictamen d'esta 
idéa fundamental, grita aos estudantes seus condis- 
cípulos : 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GAKRfitT — BASTO, &C. 2$t 

* 

Annos de escravidão vingue um só dia, 
Séculos ganhem fugitivas horas, 
Em livres brados á virtude, á gloria, 
O franco peito aos cidadãos movamos. 
Pode mais do que a espada a voz e penna; 
Mas, se a espada cumprir, cinja-se a espada % 
E veja o mundo, com terror e espanto, 
Em cada filho de Minerva um Marte. 
Tremam á nossa voz, caiam pof terra, 
Áos nossos golpes, quantos se atreverem 
A usurpar os direitos d 'esse povo, 
Que em nós, sua escolhida juventude, 
A melhor esperança tem da pátria. 
Oh ! Xao lhes mallogremos esta esp'ranca, 
Sejamos, como sempre, Portuguezcs, 
Vivamos livres. . . ou morramos homens. 



Garrett não desmentiu com o exemplo da sua 
conducta a licção das suas palavras. Elle correu o 
exilio, elle esteve nas prisões, pelejou nas trinchei- 
ras. Nunca esqueceu seus companheiros de ca- 
serna. 

Foi o n.° 72 do corpo académico durante o 
cerco do Porto. Ao seu coronel Luna, recorda, 
n'uma das mais sinceras paginas que sahiram da 
sua penna fácil, os tempos saudosos da camarada- 
gem no perigo. 

Adoptada a iniciativa da commemoração d'então 
por uma juventude académica, que não era, por 
certo, nem menos intelligente nem menos briosa do 
que a da epocha de Garrett, occorreu-me chamar a 
memoria d' elle pelo numero que elle teve na fileira. 
Seria como que uma religiosa invocação, estimulante 
e exemplificante, n'esse momento augustioso em 
que, para os destinos próximos da pátria que 



2Ç2 PORTUENSES ILLUSTRES 

Almeida-Garrett tanto amou, legitimamente se não 
podiam presumir senão desventuras e vergonhas. 

Sim, senão desventuras e vergonhas, repeti, 
convicto, se os contemporâneos da apotheose de 
Garrett não fossem capazes de na data ou ulte- 
riormente imitar, em isenção, lealdade e altivo de- 
nodo, os coevos da sua vida trabalhosa e dedicada. 

Que outros lembrassem com meiguice o pintor 
da Joanninha dos verdes olhos, o poeta Garrett. 
Eu, então, só me queria recordar — porque o não 
dizer?, com ostensiva inveja; mas porque o não 
dizer também?, com secreta esperança! — só me 
queria recordar, então do n.° 72, o soldado Garrett 

Este, a meu alvitre, então e hoje, actualmente e 
sempre, o fecundo modelo. Para as novas gerações, 
eis ahi, era então, e eis aqui, é ainda hoje, o neo- 
garrettismo que cumpre. 



Do poeta e do artista que devaneou sobre a 
catastrophe amorosa de Ramiro, em hora de reman- 
so sempre haverá que admirar, para comparar e 
seguir. 

Sua iniciativa no aproveitamento poético . das 
tradições populares e eruditas também em sua terra 
do Porto a acolheram e imitaram, como o fez quasi 
que logo á epocha seu conterrâneo Evaristo Basto, 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 293 

que, porém, a lyra extranha (de Bermudez de Cas- 
tro) recorreu em adequada nacionalisação formal; 
mas, creador do folhetim no Porto, sua composição 
poética que mais clamorosa retumbou foi o romance 
(em verso), no Porto em 1845 publicado, n*um 
opúsculo, constante de 414 versos sete-syllabos, e 
tendo o titulo acirrante de Uma visita da rainha 
de Portugal ao castello de Thomar, opúsculo de 
muito effeitó no tempo da sua publicação, ç que era 
«procurado com anciã pelos opposicionistas», reme- 
mora Innocencio. Por isso, os exemplares desappa- 
receram, a ponto de serem hoje — 1870 — raríssimos 
de encontrar. 

Evaristo Basto recebeiu o grau de bacharel em 
direito no anno de 1846; sobrevindo n'esse tempo 
a lucta civil, entrou no serviço da Junta do Porto, 
e foi-lhe dado o logar de official maior e chefe da 
quarta repartição do governo civil, que desempenhou 
até á convenção de Gramido. 



A qual foi redigida por outro portuense, António 
Augusto Teixeira de Vasconcellos. Em o seu Livro 
de critica, por baixo de seu retrato, o auctor assi- 
gnou « Luciano Cordeiro, Transmontano. » Na capa 
e pagina de rosto de seus livros António Augusto 
Teixeira de Vasconcellos punha sempre, após seu 



2^4 PORTUENSES ILLU5TRES 

nome, a rubrica ufana «Natural do Porto.» Dizia 
elle, nas familiares palestras, que, se, ao vir ao 
mundo uma fada bemfazeja 111*0 perguntasse, elle 
responderia que, portuguez, seu desejo era nascer 
no Porto, viver em Lisboa, morrer em Paris. Assim 
lhe occorreu. Nasceu no Porto, viveu (como o me- 
dico Thomaz de Carvalho, portuense) em Lisboa e 
morreu em Paris. Viajara ; e ás Viagens na minha 
terra do portuense Garrett ha a contrapor, na dis- 
tancia infinita do mérito, as Viagens na terra alluia, 
do portuense Teixeira de Vasconcellos. 



* • 



Após a convenção de Gramido, tomou Evaristo 
Basto conta da redacção do Nacional, associado 
com José Joaquim Gonçalves Basto, portuense 
também, emigrado em 1828 e que em Paris casara 
com a irmã do litterato germano-francez Loéve- 
Weimar, dama decantada na mocidade e formo- 
sura por Júlio Janin (A formosa das violetas) e 
chorada na velhice e demência do infortúnio por 
Camillo Castello-Branco. 

Também em 1846, frequentando o curso de 
direito na Universidade de Coimbra, se alistou no 
batalhão académico e para o Porto partiu o por- 
tuense Ricardo Guimarães (ao depois visconde de 
Benalcanfor), dispondo-se a seguir a causa da 



IX — RIBEIRO — LACERDA — GARRETT — BASTO, &C. 295 

liberdade, embarcando na esquadra da Janta com a 
divisão do conde das Antas. Folhetinista colorista, 
veio Ricardo Guimarães a viajar largamente e as 
suas impressões de viagens as consignou em nume- 
rosos volumes. 

Em 1864 publicara o seu primeiro livro Narra- 
tivas e episódios da vida politica e parlamentar, ceie- 
brisando-se, d'entre suas laudas, as paginas, por 
exemplo, dedicadas a Manuel da Silva Passos. 

Porém d'este, que poderemos considerar, por 
varias e procedentes rasões, portuense (bem como 
de seu irmão José da Silva Passos, no segundo 
tomo d'esta obra de relance também percebido) não 
fallarei aqui, pois que largamente me proponha 
tractar d'elle em minha continuação da minha 
edição da Historia de Portugal, de Schaefer. 



1 



■ 

K 
i 



•1 



X 



Thomaz António Gonzaga — Diogo Bran- 
dão — Jeronymo de Mendonça — Luiz 
Pereira Brandão. 



M 



as n'essa mesma Miragaya, honrada pela 
musa de Garrett e cujo nome poeticamente se deri- 
varia d'um amor fatal, viu esta luz terrena poeta 
d'amor cujo enlevo lugubremente o tinha de resol- 
ver uma fatalidade trágica. Na rua dos Cobertos 
nasceu em 1774 Thomaz António Gonzaga, filho 
do licenceado João Bernardo Gonzaga e de sua 
esposa D. Thomazia Isabel Gonzaga, ambos brazi- 
leiros, escreve o dr. Valentim de Magalhães na bio- 
graphia recentemente publicada. Não bem assim. 
João Bernardo Gonzaga era, com effeito, natural 
do Rio-de- Janeiro, filho de Thomé do Souto Gon- 
zaga e de sua mulher, D. Thereza Jação, natural 
do mesmo Rio. Mas D. Thomazia Isabel Gonzaga, 
mãe do poeta, era natural da cidade do Porto, 



2Ç)S PORTUEXSE? H.LUÍTRSS 

freguezia de Miragaya, filha de Maríanna Clark, 
também da dita cidade do Porto, e de seu marido 
João Clark, de nação ingieza, natural da cidade de 
Londres. 

Qual fora a verdadeira naturalidade de Gonzaga, 
ponto é que foi longamente controvertido, como 
outros com respeito a um poeta de que, consoante 
o registra Innocencio, se ufanam egualmente portu- 
gueses e brazileiros, sendo mui para notar o tropel 
de erros e incongruências a que a vida e a obra do 
artista insigne forneceram margem. Mas ainda até 
nossos tempos não se havia apurado ao certo o dia de 
seu nascimento, o qual Innocencio exara que occor- 
rera no mez de agosto do referido anno de 1744, 
em dia que se ignora. Já se não ignora. Foi o dia 11. 

A honra doesta descoberta pertence ao snr. An- 
tónio Borges do Canto Moniz, distincto e modesto 
litterato de origem açoriana, auctor de trabalhos 
apreciáveis, entre os quaes uma interessante mono- 
graphia acerca da ilha Graciosa, credora da attenção 
de Pinheiro Chagas. No num. 141 (3. anno) de A 
Folha, periódico de Ponta Delgada, cuja redacção 
dirige D. Alice Moderno, escriptora de mérito, fez 
inserir o snr. Canto Moniz, em 18 de junho, um 
valioso artigo, intitulado Marília de Dirceu por Gon- 
zaga, no qual publicou a certidão de baptismo do 
poeta, em documento passado, a 2 de maio do anno 
de 1905, pelo padre Júlio Albino Ferreira, digno 
escrivão da camará ecclesiastica d'esta cidade do 
Porto. 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 299 



/ 



Cursando os estudos de direito na Universidade 
de Coimbra, fez Thomaz António Gonzaga a suà 
formatura em 1763, quando contava, pois, de edade 
19 annos; admittido aos logares de lettras, serviu 
primeiramente como juiz-de-fóra na cidade de Beja 
e em outras de Portugal, até ser, no anno de 1782, 
nomeado ouvidor da comarca de Villa-Ricca, na 

r 

província de Minas-Geraes, do então Estado do 
Brazil. Para ahi partiu em algum dos annos seguin- 
tes; e estava no de 1789 despachado dezembargador 
da Relação da Bahia, e contractado a desposar-sé 
em Minas com D. Maria Joaquina Dorothea de 
Seixas Brandão, sobrinha e tutelada do tenente- 
coronel ajudante d'ordens João Carlos Xavier da 
Silva Ferrão, aquella Marília que immortalisou em 
lyras suavíssimas e para quem elle-mesmo bordava 
o vestido de noiva, havendo, no sequestro de seus 
bens feito por occasião da sua prisão, entrado o 
dedal de oiro com que fazia esse trabalho. 

Pois que, na manhã de 23 de maio d'aquelle 
anno fatal, íoi preso em sua casa, e conduzido ao 
Rio-de- Janeiro, para ser ahi encerrado na fortaleza 
da ilha das Cobras, e mettido em processo, como. 
um dos auctores do projecto de levantamento em 
Minas-Geraes. Seguindo-se os termos do dito pro- 
cesso, no qual foi não menos de quatro vezes 
interrogado pelos juizes da Alçada, veiu afinal em 
18 de abril de 1792 a sentença que, apezar da sua 
constante negativa e enérgica defeza, o condemnou 
a degredo perpetuo em um dos presídios de Angola 



3<X> PORTUENSES ILLU3TRES 

e na confiscação de seus bens: sentença que, por 
virtude de um decreto de D. Maria i passado muito 
antes, em 15 de outubro de 1790, lhe foi depois 
commutada em dez annos de degredo para Moçam- 
bique, com pena de morte, se voltasse á America. 
No dia 23 de maio de 1792, depois de três 
annos completos de prisão, embarcou para o exílio, 
com outros camaradas de sua desgraça. Mas não o 
acompanhou a sua Marília, se bem que quem 
affirme haja que Gonzaga, da prisão, propuzera á 
sua amada o casamento, que eila não acceitara. 
Aqui explue com eloquência o Ímpeto da juvenili- 
dade de Lopes de Mendonça, em recriminação 
acerba, que elle próprio confessa depois escripta 
para produzir effeito: 



Quereis ser Marília, quereis desposar um homem elevado 
pelo talento, e de um caracter nobre e generoso : não vos levo 
isso a mal. Nada ha mais sublime do que adormecer com uma 
caricia a cabeça que penosamente medita; é uma digna ambição 
sentir palpitar junto ao peito um coração esforçado, que sabe 
amar e padecer. Mas, quando esse poeta, que existe n'uma po- 
sição eminente; quando esse homem lança fora dos hombros a 
toga do magistrado, para vestir a opa do tribuno; quando 
troca a cadeira do juiz pela masmorra do condemnado; quando, 
inspirado por uma devoção sublime, quer vêr a. . . terra solta 
das tyrannias. . . e pensa no exemplo. . ., para lhe dar as li- 
berdades da republica; quando está pobre e desterrado n'um 
clima devorador: entio é partir, é abandonar as ricas planices 
do Novo-Mundo pelos estéreis sertões da Africa, é premiar 
rTelle o poeta que canta o seu amor, o republicano que expia o 
seu grandioso delicto ! 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 3OI . 

Desembarcado Gonzaga em Moçambique, foi, 
pouco tempo depois, assaltado de uma febre ardente 
e mortal, a cuja violência teria sem duvida sucum- 
bido, se lhe não valessem, segundo se assevera, os. 
efricazes cuidados de D. Julianna de Souza Masca- 
renhas, filha de Alexandre Roberto Mascarenhas 
(que em sua casa benignamente o hospedara), com 
a qual veio a casar no anno seguinte de 1793. 
Biographos ha outrosim, como Veggezzi Ruscaila, 

• 

elegante traductor italiano das lyras de Gonzaga, 
que aventaram o asserto de que, por sua banda, a 
decantada, « cedendo a instancias de família, viera a 
casar-se com um official do exercito portuguez. » 

O que é tristemente certo é que em Moçambique 
passou o poeta os últimos quinze annos de uma 
vida amargurada, óra, narra Innocencio, «entre 
accessos de louca e tenebrosa melancholia, promo- 
vidos peia lembrança de suas desditas, e aggravados 
pelo génio leviano e perdulário da esposa, que não 
tardou em dissipar os bens provenientes do dote e 
da legitima paterna \ óra aproveitando no exercicio 
da advocacia os instantes que lhe deixavam livres 
suas enfermidades.» 

O excellente artigo do snr. Canto Moniz foi es- 
cripto n'esta cidade em 18 de maio do anno de 1905. 
Elle termina assim: «Gonzaga deixou de existir em 
1807, tendo 62 annos de edade, e jaz sepultado na 
sé de Moçambique: o seu centenário, salvo erro, 
passa, portanto, d'aqui por dois annos. Não virá 
talvez longe o dia em que o Porto, com o altruísmo 



3<>2 PORTUENSES ILLU3TRES 

que o distingue sempre nos grandes enthusiasmos 
e nas acções de generoso civismo, faça transportar 
os pobres restos mortaes do insigne poeta portuense, 
para lhe dar sepultura condigna em qualquer dos 
sumptuosos cemitérios que possue, e então ahi 
fazer-lhe erigir um singelo monumento, no qual a 
posteridade leia, ao menos, possuída de justificado 
orgulho, que o imrhortal auctor da Marília de Dirceu 
é filho d'esta cidade. > 






Se d^amores disse o portuense Thomaz António 
Gonzaga, d'armas e amores dissera o portuense 
Diogo Brandão. 

Archiva o nome e consigna o facto Diogo Bar- 
bosa Machado, com referir que na egreja de S. Fran- 
cisco, do Porto, na tampa de um tumulo estira-se 
um cavalleiro de pedra ao de sobre a ossada do 
morto. 

Esse foi em vida um dos que precederam o 
advento do poema nacional, n'essa passagem gra- 
duada que se opera das formas da chronica rimada 
para a epopea histórica. 

Estudando successivamente e de conjuncto as 
primeiras tentativas de uma epopea nacional, o dr. 
Theophilo Braga mostra como o poema de Affonso 
Giraides á batalha de Salado é uma imitação das 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 303 

formas métricas usadas na corte de Aftonso xi; 
diz que as coplas de Diogo Velho á descoberta da 
índia nos dão o fio da tradição prophetica do Ledo 
dormente, symbolisando o rei de Portugal ; assegura 
que João de Barros é o primeiro que, presentindo 
a unidade nacional, reconhece a necessidade de 
uma epopea que seja a expressão d'essa consciên- 
cia; declara como Luiz Anriques conhece já o 
symbolo da unidade politica de Portugal represen- 
tado pela identificação imaginaria dos Lusitanos 
com os Portuguezes. 

Porém de nenhum d'estes seja óra nossa cura. 
E do eiencho do sábio professor partamos na cata 
da zona referente á Lamentação á morte de D. 
Jodo r/y pois que de engenho portuense emergisse, 
o d'esse que na portuense egreja de S. Francisco, 
Barbosa Machado informa que repousa sob o sello 
da própria figura em pedra, resguardadôra e inti- 
mativa. 

r 

E tal poeta um dos principaes vultos do Can- 
cioneiro de Rezende; irmão mais velho da decantada 
Maria da sentidíssima écloga Crisfal; imitador da 
eschola hespanhola do século xv: nol-o recorda 
Theophilo Braga,, que, notando que elle ignora as 
formas da epopea moderna impostas pela Itália, nos 
observa que presente o valor dos poemas históricos 
deante dos immensos successos da corte de D. 
João 11 e nos lecciona que, em uma longa elegia á 
morte do príncipe, adopta a antiga outava dos 
trovadores, como Affonso Sábio ou Francisco Im- 



304 PORTUENSES ILLUSTRES 

penal, com o tom narrativo de uma chronica. Elle 
expõe rapidamente a successão dos reis de Portu- 
gal desde D. João i até D. João n, tendendo sem- 
pre para os vagos aphorismos moraes do desprezo 
do mundo. «Quando Camões (Theophilo Braga 
escreveu) traçou episodicamento o quadro da histo- 
ria de Portugal, não foi legado como Diogo Bran- 
dão unicamente pela synthese moral para que são 
trazidas todas estas outavas — as que citara prece- 
dentemente — ; tinha em vista fazer sobresahir pela 
poesia os lances mais vivos da historia de cada rei- 
nado. A intenção moral não basta para a obra de 
arte; Diogo Brandão, não só pela ignorância da 
eschola italiana como pela estreiteza do seu ideal, 
não podia encetar a grande epopea portugueza que. 
a nossa vida histórica exigia.» 

A Diogo Brandão, a tradição clássica o não 
preoccupava : 



Dizer dos antigos, que sam consumidos, 
não quero em Gregos lallar nem Romàos, 
mas nos que cahem aqui d'antre as mãos, 
^ vistos de nós e de nós conhecidos. 



Dos que d'elle mais proximamente conhecidos 
eram e para elles (elles e ellas) é que Diogo Bran- 
dão queria e sabia fallar, desempoeiradamente, 
mesmo á guisa affectuosa, sem empachos sempre. 

D'óra em vez, com affectação e rebuscamento, 
o que era e seria prezado como timbre de agudeza 
de engenhos ; e por isso encómios lhe deu Uorenzo 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 305 

Gracian. Mas Lorenzo Gracian nada mais é litera- 
riamente do que o simples nome de um seu irmão, 
de que, inhibido de galantear, se valeu para dar 
pae a artísticos, irrequietos filhos d'um engenho 
gongorico aquelle jesuíta Baltazar Gracian cuja lei- 
tura ainda agora estimava o excêntrico Schope- 
nhauer. 

Não é fácil ao leitor apurar juizo da graciosi- 
dade, digna de que seja posta em destaque, por 
Diogo Brandão patenteada em algumas de suas 
composições archivadas no precioso repositório ; 
porquanto na colheita effectuada pelos irmãos Cas- 
tilhos em sua Livraria clássica elle está escas- 
samente representado e a própria reedição de 
Stuttgard do Cancioneiro de Garcia de Rezende é, 
ella- mesma, rara e cara. 

Na Anthologia Portngucza, collecção de trechos 
selectos, coordenados pelo dr. Theophilo Braga, sob 
a classificação dos géneros litterarios e precedidos 
de uma poética histórica portugueza, que é a parte 
complementar do Manual de Litteratura, encontra- 
mo-nos com a «Lamentação á morte del-rey Dom 
João o Segundo que he em santa groria » ; e das 
esparsas que ahi topamos, sendo uma de Duarte 
da Gama, a outra é do nosso Diogo Brandão, re- 
quebrando-se a uma dama, esquiva, que admoesta, 
resignado : 



1 



VOL. I -S.v* 



306 PORTUENSES ILLUSTRES 

Xam vos enganes, senhora, 

nos desguanos que daes, 

porque com elles causaes 

que vos queyra muyfo mays 

o triste que vos adora. 

Deves buscar outro modo, 

para vos mais descansar; 

este nam podes achar, v 

sem me matardes de todo. 

Do nosso Diogo Brandão é ahi também o acrós- 
tico, em qu'está o nome por quem se fez y pelas pri- 
meiras lettras cfelle: 

O o grande mal que causaram 
O s olhos, quando vos viram, 
^ 'estes dias o pagaram, 

> fora quando partiram. 

-<ida, qu'assi atormenta 
»-< á melhor se perderia, 
O penar que s'acrescenta 
f edo morrer me faria. 

> s lagrimas, que se dobraram, 
^ o coração se sentiram ; 

H odas meus olhos choraram 
W m vendo que não vos viram. 

Na Encyclopedia Portugueza, em via de publi- 
cação, achamos o nosso conterrâneo Diogo Brandão 
apontado nas linhas seguintes: «Natural do Porto, 
morto em 1530. Senhor da quinta de Coroxa e 
Feruzello, exerceu o cargo de contador da real 
fazenda na comarca do Porto ; foi um consummado 
latinista e poeta apreciável, achando-se muitas das 
suas composições no Cancioneiro de Garcia de Re- 
zende. » A Innocencio pareceu acertado transcrever 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 307 

para a lauda 17 do seu tom. 11 o Índice alphabetico 
dos nomes dos auctores comprehendidos no Can- 
cioneiro Geral de Garcia de Rezende, com a indica- 
ção das folhas onde no Cancioneiro se encontram 
as obras de cada um, «o que em muitos casos será 
de conhecida vantagem para os investigadores 
curiosos, que acharão por este modo supprida a 
falta que ha no livro, quanto a esta parte. » Na 
moderna reimpressão de Stuttgart houve o cuidado 
de apontar-se á margem das paginas a numeração 
original correspondente na edição portugueza, o que 
Innocencio nota que muito facilita quaesquer con- 
frontações que se pretendam fazer. 

O tom. 1 (1846) da reedição de Stuttgart, depois 
da dedicatória ao rei D. Fernando de Portugal, abre 
por um prologo, ou introducção adequada, critico-* 
biographica, philologica, na lingua allemã. Foi tra- 
duzida pelo snr. J. de Vasconcellos, em obsequio 
ao seu amigo Tito de Noronha, que concluiu com 
ella o primeiro opúsculo de suas Curiosidades 
bibliograpkicas, publicado no Porto em 1871. 

O auctor do prologo allemão, d'entre as poesias 
sérias do género secular, contidas no Cancioneiro 
Geral, distingue a descripção de Rezende sobre a 
morte de D. Ignez de Castro, mas, diz, as «duas 
canções fúnebres á morte de D. João 11, de Diogo 
Brandão e Luiz Henriques, em arte maior, são-lhe 
muito inferiores.» 



308 PORTUENSES ILLUSTRES 



Outro Brandão, outrosim poeta, e portuense 
outrosim, Luiz Pereira Brandão, ao nacional desas- 
tre, em verso, o deploraria, como em prosa o con- 
tou ainda um portuense, Jeronymo de Mendonça. 

Natural da cidade do Porto, conforme consta do 
-frontispício de sua obra, Jeronymo de Mendonça 
foi um dos que acompanharam á Africa el-rei D. 
Sebastião, ficando captivo na batalha de Alcacer- 
quibir. Depois de resgatado, voltou para Portugal, 
onde redigiu, como testemunha ocular d'aquelles 
successos, • uma obra que dedicou a D. Francisco 
de Sá e Menezes, senhor de Penaguião, em 20 de 
janeiro de 1607, tendo o auctor principalmente em 
vista, consoante o inscreve no dito frontispício e 
mais extensamente no prologo, confutar o que 
apparecera impresso no livro Deirunione dei regno 
di Portogallo alia corona di Castiglia, de Jerónimo 
Franchi de Conestaggio. E não só com Franchi se 
toma, mas ainda com outros extrangeiros, qual fr. 
António de S. Romão, que ás faltas e misérias 
(como se não bastaram as que na verdade aconte- 
ceram) accrescentaram outras muito maiores, e 
qual António Ciccarelli, que inventou successos 
que nunca aconteceram, « por obra nem por imagi- 
nação. » 

Com taes e tantas replicas, no livro de Jeronymo 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 309 

de Mendonça se tracta do successo da batalha, 
captiveiro e dos que n'elle padeceram, por não 
serem mouros, com outras cousas dignas de notar; 
e obra é ella que gosa de estimação, especifica 
Innocencio, pela sua linguagem e estylo, parecendo, 
elle adjunge, escripta em geral com sinceridade e 
bom conhecimento da matéria. 

E não só entre nós-outros como lá-fóra este 
mesmo juizo corre acerca do volume do portuense; 
e, assim, não lhe regateando encarecimentos, para 
a sua compilação das chronicas cavalheirescas de 
Hespanhae Portugal, Ferdinand Denis de Jeronymo 
de Mendonça extracta dois episódios. Um é a his- 
toria dos infortúnios de Virgínia, representada no 
transe da execução por meio da estampa que acom- 
panha a altura das laudas respectivas na moderna 
reimpressão do Porto, em 1878, editada por F. 
Maria Rodrigues. O outro é o exemplo, dado por 
licção, dos falsos mouros e verdadeiros christãos. 

Do caso se tracta do alcaide Raposo, tam no- 
meado em toda a Berbéria. Era este homem portu- 
guez de nação, muito esforçado e de boas condições. 
Sendo, por sua desventura, captivo, veio ter a Fez, 
a casa de um judeu que o comprou, o qual tinha 
uma filha muito formosa, «com quem elle parece 
que se embaraçou por amores. » Tão asizadamente 
pareceria que veio a moça, por decurso de tempo, 
a ficar gravida. Começou a pobre a manifestar então 
seu perigo e desventura, dizendo ao captivo como 
por seu respeito havia de ser apedrejada publica- 



3 IO PORTUENSES ILLUSTRES 

mente, « que não se castiga com menos, coisa entre 
os judeus tam extranha. » Mas tudo era nada, com- 
parado com a immensa dòr que sentia, vendo que 
a elle o haviam de apedrejar vivo primeiro deante 
de seus olhos. Isto dizia ella, chorando, muitas 
vezes, tanto que o captivo, não sentindo algum 
remédio na vida, veio a determinar-se na morte, 
propondo-lhe, como desfecho d'uma situação into- 
lerável, que ambos se suicidassem conjunctamente. 
Ao que ella respondeu que acquiesceria, se não 
levasse após da sua essa vida de quem só vivia, 
perecendo conjunctamente o innocente fructo de 
seus mal logrados amores. Pelo que, já que o 
tempo costuma dar remédio a tudo, também n'elle 
podiam esperar. 

Vendo, pois, o captivo «a mal deliberada moça 
tam cheia do temor e espanto da morte», lhe per- 
guntou com grande sentimento que determinação 
era a sua em tam evidente perigo? «Eu não vejo 
modo, lhe respondeu ella, mais que um só, cujo 
remédio vos será ainda mais penoso que o próprio 
damno, pois nos será forçado tomar fingidamente a 
lei dos mouros, até escapar d'esta fúria, debaixo da 
qual podemos viver christãmente, até de todo nos 
pormos em terra de christãos, porque, posto que 
estes caminhos sejam torpes e infames, todavia o 
fim d^lles é honrado e glorioso.» 

Com estas argucias, argumentos e apparencias, 
pondo aquelle mancebo os olhos na esperança dos 
tempos, se deixou levar d'essas afíligidas razões e 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÍO — MENDONÇA, &C. 3II 

assim escaparam ambos, tomando a lei dos mouros, 
com a promessa entre si de viverem christãos. 

Tinha aquella gente, ao tempo de Jeronymo de 
Mendonça que o conta, três filhos, e o mais velho 
"seria já de quinze annos, os quaes eram baptisados, 
e em sua casa se chamavam pelos nomes de chris- 
tãos, e fora de mouros, excepto quando algum 
captivo fallava com elles, porque o não consentiam 
de nenhum modo. 

Era esse alcaide mui grande amigo de todos os 
christãos e particularmente de um fr. Vicente da 
Fonseca, ao qual, como quer que sua mulher 
parisse por esse tempo, chamou, para baptisar um 
filho, e em s.ua companhia algumas pessoas, que 
ajudaram a festejar o baptismo, onde acaso Jero- 
nymo de Mendonça relata que se encontrara. 

Logo, o alcaide, querendo festejar a fr. Vicente, 
lhe disse, mostrando-lhe a mulher: — «Eis ahi, 
senhor, a causa de todos os meus cuidados; veja 
agora Vossa Paternidade se foram acertados meus 
erros.» Ao que fr. Vicente respondeu, obedecendo 
ás leis da cortezia, que a senhora Zaida certo lhe 
parecia bem digna de se acharem por ella desculpas 
onde não as havia. Ella, porém, quando se ouviu 
chamar Zaida, dissera graciosamente : — « Não me 
tracte Vossa Paternidade mal, que o meu nome 
dentro do meu coração é Maria. » E jurou que elles 
todos se declarariam publicamente christãos logo 
que fazer o pudessem. 

N'aquelle passo « se arrazaram os olhos de agua 



312 PORTUENSES ILLUSTRES 

a fr. Vicente e a todos os mais, assim de piedade 
no sentimento d'esta magoada gente como de pra- 
zer, vendo toda uma casa com tam bons desejos 
nas entranhas da Barbaria. » Logo fr. Vicente, com 
as portas cerradas, baptisou o menino, de quem foi 
padrinho um mercador christão, que se chamava 
Inygo de Melohi ; e, « dando todos muitas graças a 
Deus pelo presente acto, se despediram do alcaide 
e da moura, que foi judia e confessava ser christã. » 

Da curta permanência que teve em Fez, trouxe 
Jeronymo de Mendonça as melhores memorias das 
judias, «por serem naturalmente muito castas e 
honestas, além de terem muito bom entendimento, 
tanto que, entre duas ou três mil mulheres que 
haverá na judearia, não ha uma só d'aqueJlas que 
chamamos solteiras, nem a consentiriam de nenhum 
modo; também se lhes não pôde negar que teem 
muita brandura e piedade, como eu vi muitas vezes 
usar com captivos, assim em os soccorrerem em 
suas necessidades como nas doenças, pelo que, 
realmente, temos obrigação de nos magoar muito 
de sua miséria. » 

Se tivessem essa liberdade, julga Jeronymo de 
Mendonça que seria muito mais fácil a conversão 
nas judias, se bem que muitos judeus, pelos ser- 
mões de fr. Vicente, se converteram e vieram a 
fazer-se christãos, « dos quaes eu conheço alguns 
n'esta cidade de Lisboa.» 

Não periclitaria nenhum em sua recente fé ? Com 
nenhum implicariam as suspeitas inquisitoriaes ? 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 313 

Ser-lhes-ia grata a sua posição especial, mas nada 
favoneante, de christãos-novos ? Não lhes viriam, á 
hora menos pensada, rebates saudosos de sua 
crença antiga? 

Jeronymo de Mendonça era um inculto ingénuo ; 
na sua ingenuidade lhe ganha a obra, pelo que perca 
felizmente de amaneirados preciosismos. Assim, 
manteve-se no favor popular. E característico que 
ainda em 1878 elia fosse novamente impressa como 
o foi, segundo o disse já. Jeronymo de Mendonça 
conhecia sua insufficiencia, mas sabia também que 
« a verdade não ha mister ornamento. » Por isso, 
afoito, escreveu. 



Porém, d'entre os portuenses em letras afama- 
dos, não foi só o a olhos exigentes humilde Jero- 
nymo de Mendonça (para Barbosa «illustre por 
geração e insigne por talento») quem acompanhou 
á Africa, em sua infausta temeridade, o impulsivo 
Dom Sebastião; e a Costa e Silva corrige Innocen- 
cio quando a respeito d'ess'outro menos pensada- 
mente este dissera « que era de família ignorada. » 
Ao contrario, temos, por declaração positiva de 
Barbosa, que elle, cavalleiro da Ordem de Christo, 
natural da cidade do Porto, e nascido, ao que pôde 
julgar-se, pelos annos de 1540, provinha de linha- 
gem illustre, sendo filho de António Pereira Bran- 



314 PORTUE>íSES ILLU3TRES 

dão, capitão de Moluco, que morrera na conquista 
de Monomotapa com o governador Francisco Bar- 
reto, de quem ia nomeado successor em segunda 
via. A mãe chamava-se D. Francisca de Novaes. 
« Fica, pois, evidente a leveza (remata, triumphante, 
Innocencio) com que em tal afflrmativa procedeu o 
biographo moderno.» 

Escreveu Luiz Pereira Brandão a Elegiada, 
poema épico, composto de dezoito cantos em oitava 
rima, dirigido, em sua primeira edição de 1588 
(sendo reimpresso por diligencia de Bento José de 
Sousa Farinha em 1785), ao sereníssimo senhor 
Cardeal Alberto, archiduque d' Áustria e governa- 
dor dos reinos de Portugal. Do auctor e da obra 
rememora Innocencio que o calebre critico Fran- 
cisco Dias Gomes apresentara iim juizo pessimista, 
« em que ha talvez exaggeração. » Não deixa Inno- 
cencio escapar a inadvertência de FVancisco Dias 
Gomes, que trocou o nome do poeta no de Luiz 
Pereira de Castro; e, posto que pouco benevolente 
seja também seu parecer, comtudo Innocencio con- 
signa que ha na Elogiada « alguns trechos de notá- 
vel valia. » Cita dois d'entre elles, mas refere-se 
ainda a « vários outros quadros descriptivos, que 
se distinguem pela exactidão dos traços e viveza 
do colorido. » 

Camillo Castello-Branco corrige com rispidez os 
pedantismos do critico famoso, em contra do vate 
olvidado. « O impertinente (exccllcnte lhe chamara 
Innocencio) Francisco Dias Gomes accusa-o de 



X — r.ONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 315 

inventar palavras desnecessárias. As que elle reno- 
vou ou inventou correm hoje bem aforadas vernacu- 
lamente, e não seriam de mais na prosódia pouco 
rica do critico irreconciliável com os neologis- 
mos. » 

E, em nota appensa, restabelece, defrontada 
com a humildade supposta por Costa e Silva, a 
prosápia faustuosa de Luiz Pereira Brandão, o qual, 
sendo originariamente pobre, como filho de filho 
segundo, e eduoando-se para frade, consoante o 
costume, casou a furto e ricamente em Lisboa com 
D. Lourença de Almeida, filha e herdeira de Ruy 
Gil Magro de Almeida, capitão de Tanger, e de sua 
mulher D. Isabel Garcez. 

«Viveu opulentamente, em boa camaradagem 
com os homens de lettras do seu tempo, Cortes 
Reaes, Andrades, Caminhas e Bernardes. Na com- 
panhia do ultimo, acompanhou D. Sebastião, e lá 
ficou captivo dos alarves, confundindo-se com a 
gentalha ordinária e fingindo-se plebeu, afim de 
baratear o seu resgate. Hieronymo de Mendonça, 
na Jornada de Africa, insere ve-o no rol dos fidalgos 
que por se disfarçarem nào foram captivos de el-rei, 
e nomeia-o Luiz Pereira do Porto. Com quanto 
fosse rico, demorou-se em Marrocos, e lá recolheu 
em dura experiência as achegas para o seu edifício 
poético. Não valia a pena. » 

Não valeria, de todo em todo? 

Costa e Silva, outrosim, insiste no gabo de 
«alguns quadros descriptivos, que não são desti- 



3l6 PORTUENSES IL LUSTRES 

tuidos de viveza e de colorido. » E, com respeito á 
narração, que se lê no segundo canto, do cerco de 
Mazagão pelos mouros, declara-a escripta com 
vigor e em versos cadentes, allegando como abono 
do que diz algumas de suas estancias. 

No canto i encontra D. Sebastião na serra de 
Cintra um velho eremita, que lhe narra a historia 
do reino até ao seu tempo; e n'essa narrativa 
topa-se inclusa a lenda do rei Ramiro e do mouro 
Alboazar que na serie doestes apontamentos já 
soubemos versificada pela portuense poetisa D.. 
Bernarda Ferreira de Lacerda e pelo poeta por- 
tuense Almeida Garrett. 

N'este episodio temos (observa Costa e Silva) 
«poeticamente explicada a origem dos nomes 
d' Ancora, Leixois, Gaya, Portugal, o que é uma 
intenção verdadeiramente épica, que Luiz Pereira 
havia aprendido dos antigos. » 

As estancias a que Costa e Silva se reporta vou 
offerecel-as ao leitor, que sabe já que o poeta aca- 
bara de pintar a rainha, a pique de afundir-se 
n'agua, com a corda que no niveo collo lhe atam 
os soldados: 



Fazendo-lhe anojado com que desse 
O nome ao pego d'Ancora profundo, 
Que assim se chama agora, onde puzesse 
Com a lembrança d'elle exemplo ao mundo. 
Alguns dizem que o nome aqui tivesse 
De Leixois o começo e que, segundo 
Deixado foi alli, bem lh'o puzeram, 
Se os tempos outro algum nao corromperam, 



X — GONZAGA — DIOGO BRANDÃO — MENDONÇA, &C. 317 

Onde Gaya de então dizem que teve 
Este nome, porque a fonte fria 
Em que Ramiro assentado esteve 
Sacaia em moura língua se dizia; 
• D'onde o nome corrupto tomar deve, 
Inda que a fama n'isto peccaria: 
Tudo faz esquecer tempo comprido, 
Mas mourisco parece este appellido. 

Outros dizem que um capitão romano, 
Chamado Gaio Sérvio, aqui chegou, 
Que, vencido do braço lusitano, 
Em um castello alli se restaurou ; 
Ficando a tal logar, se não me engano, 
Gaya por nome, como se chamou 
E inda agora se chama este alto monte, 
O qual do Porto esta quasi defronte. 

Pois do Porto e de Gaya o nome veiu 
A Portugal, segundo se publica; 
Ou do Porto dos Gallos, como creio, 
Que Porto dos Francezes significa; 
Que, como sempre estava de naus cheio, 
Segundo se inda agora verifica, 
Dos Albernéos Gallos este rio, 
Não é pôr-lhe este nome desvario. 

No tom. xvi do Diccionario Bibliographico (ix do 
Supplemento a Innocencio pelo snr. Brito Aranha), 
apresentando-se um valioso esclarecimento do dis- 
tincto bibliophilo portuense, snr. dr. Pedro Augusto 
Dias, e emendando-se alguns enganos do primitivo 
artigo do tom. v, manda-se accrescentar o «de 
outro critico, de certo não menos auctorisado, o 
visconde Almeida Garrett», isto « para contrabalan- 
çar o juizo, tão desfavorável á Elegiada, de Fran- 
cisco Dias Gonçalves. » Aliás Francisco Dias Gomes. 
Almeida Garrett, no Parnaso Lusitano, dissera a 
tal respeito: «Ha excellentes oitavas derramadas 



3l8 PORTUENSES ILLUSTRES 

por esse poema; algumas descripções felizes; gran- 
díssima riqueza de linguagem; mas pouco mais.» 

Notando em Luiz Pereira Brandão a demasiada 
extensão das suas narrações e o prosaismo da 
metrificação, convém Innocencio em que perpassam 
no seu estylo uns assomos de tristeza ou melan- 
cholia, que não deixam de condizer com o assumpto 
e que commovem o animo do leitor. 

Voltando para a pátria resgatado, é voz cons- 
tante que o poeta se vestira de lucto, o qual não 
mais largou durante o resto da vida. 



XI 



João Peixoto de Miranda — António de 
Sousa de Macedo — Martinho Lopes de 
Moraes Alão — Frederico Augusto de 
Vasconcellos Pereira Cabral — Pedro 
d 9 Andrade Caminha — João de Barros — 
Vasco de Lobeira. 



M 



as, ex-professo, da fundação do Porto, em 
verso discorreria portuense, se não anonymo, obscu- 
ríssimo, João Peixoto de Miranda. 

Em sua Anacr. hist., cap. íx, exam. i, com res- 
peito á origem e antiguidade d'esta cidade do Porto, 
o portuense Manuel Pereira de Novaes defende a 
opinião de que seu fundador fora Calais, filho de 
Boreas, rei da Thracia, argonauta celebradíssimo na 
historia antiga. Diz elle, segundo Costa, que este 
príncipe fundara muitas cidades em diversos logares 
do mundo, depois do decantado vellocino d'ouro da 
ilha de Colchos: que, pela similhança do seu nome 



320 PORTUENSES ILLUSTRES 

Calais com o de Cale, era muito provável que 
desse principio a esta cidade. E, assim como a 
Jasson, continua esse padre, se attribue a fundação 
do promontório Easso, corrupto do de Jasso, con- 
soante estranhavelmente o resume Costa; a Castor 
e Pollux a de Castropol nas Astúrias etc. : assim 
também é crivei que a Calais se deva a fundação 
de Porto de Cale. A auetoridade de Raphael Vola- 
terrano, que, na volta de Calais á sua pátria, o 
nomeia fundador de Cale, é para elle uma prova 
incontrastavel e na qual funda a sua opinião. 

Que é a sétima das desfiadas, no thema, pelo 
bracharense Agostinho Rebello da Costa, quem, 
antes da conjectura do padre Novaes, benedictino, 
em os seus manuscriptos, expuzera a terceira a 
propósito. 

Esta terceira opinião, muito seguida e abonada 
pelo auetor da Monarchia Lusitana, consiste em 
que Diomedes, rei de Etolia, um dos principçs e 
capitães do cerco de Troya, imitando a Ulysses, 
navegara pelo Mediterrâneo, até sahir, pelas co- 
lumnas de Hercules, ao Oceano occidental; e, 
tomando porto na foz do rio Douro, desembarcara 
da parte septentrional onde se demorara largo 
tempo, attrahido da amenidade e frescura do paiz; 
que lançara alli os fundamentos de uma povoação, 
que, pelo decurso do tempo, se chamou Graya, e 
os seus habitadores Grayos, tanto porque elles eram 
descendentes dos gregos que fundaram esta cidade 
como também porque dos seus ritos e costumes 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 32 1 

chamavam, conforme o alludido Brito, na citada 
Monarchia Lusitana, p. i, liv. i, cap. xxn, por anto- 
nomásia, grecanicos; e d'esses taes Siiio Itálico 
fallara nos versos seguintes : 



Et quos tuitc Gr avios, violato nomine Grajnm. 
Oenue mUerere domus, A et o laque Tyde. 



Ora, esta terceira opinião em verso portuguez 
viria também a ser cantada, em poema obscuro de 
portuense obscuríssimo, — o que, castigada com 
pena tal a injustiça do mundo, e attendendo á força 
de razões ponderosas que a mais, outrosim, com- 
prehendem, não tolhe que entre os illustres, que na 
nomeada, mais ou menos, o deveram ser, merece- 
doramente o cataloguemos, sua epopèa modesta 
relembrando : Cale ou a fundação da cidade do Porto, 
poema de João Peixoto de Miranda, 1850, 8.° 

Quem seria João Peixoto de Miranda? 

Só no supplemento ao Diccionario bibliographico 
de Innocencio é que nos apparece succinta menção 
d'elle, «cujas circumstancias pessoaes ignoro», 
confessa o bibliographo, que esclarece que o 
poema de Cale ou a fundxçào da cidade do Porto, 
impresso no Porto em 1850, o fora na typ. de 
António Moldes. Nos « additamentos e correcções a 
alguns artigos do presente volume» (o x da obra 
e 111 do supplemento), em a verba João Peixoto de 
Miranda — « cujas circumstancias pessoaes ignoro », 
o auctor continua dizendo — leem-se (n.° 6.786) as 

VOL. I. "^ 



322 PORTUENSES ILM75TRKS 

linhas que seguem : « Cale ou a fundação da cidade 
do Porto. Poema. Porto, na typ. de D. António 
Moldes, 1850. 8.° ou 16. de 432 pag., com 2 
innumeradas de erratas. — Este poema é em dez 
cantos. Na advertência diz o auetor que fora come- 
çado em 1826 e concluído em 1838 e que o elo- 
giara António Leite Cardoso Pereira de Mello, em 
uma nota a um soneto incluído nas suas obras 
poéticas, impressas no Porto em 1858. Vi (em 
setembro de 1883) um exemplar d'esta obra em 
Lisboa nas mãos do livreiro Lino Cardoso, que o 
comprou n'um dia e o vendeu no dia seguinte a 
um colleccionador de poemas portuguezes. Confesso 
que nunca vi as poesias de António Leite Car- 
doso. » 

Nem eu; nem d'elle noticia nos dá quer o 
Diccionario bibliographico quer seu « Supplemento » 

Vi, porém, e folheei o poema de João Peixoto 
de Miranda, Cale ou a fundação da cidade do Porto, 
visto lêr de seguida um épico nosso lusitano pelo 
decurso de 432 pag. commettimento é hoje que 
excede a humana paciência. E mesmo de crer seja 
que ainda, na quadra, mais pachorrenta todavia, 
doesse 1850 da data da publicação escasso o nu- 
mero seria dos portuenses que se afoutassem com 
narrativa tam vasta, inda que nas provinciaes horas 
•longas qualquer chispa de interesse aos portuenses 
espertasse por a illumi nação phantastica dos pri- 
mórdios em trevas de sua remota Cale. Assim se 
explica como, em regra, até de arrojados lidos, o 



XI — MIRANDA — MACEDO — AL Â O — CABRAL, &C. 323 

poema de João Peixoto de Miranda é quasi que 
completamente desconhecido. 

Dado que sua obra poema seja, visto seu auctor, 
na advertência do volume, d'elle fatiando, assim se 
expressar: «Este poema, se acaso o é (pois, acre- 
ditando nós o padre Bossu — - Trat. do Poema 
Épico — , se a Lusíada, a Jerusalém libertada e o 
Paraíso perdido não podem ser considerados ver- 
dadeiros poemas épicos, muito menos o deverá ser 
este meu), . . » 

Ahi o declara concluso no anno de 1838, como 
testemunhara ao publico aquelle seu particular 
amigo António Leite Cardoso Pereira de Mello, em 
uma nota a um soneto seu, filho mais — modesta- 
mente confessa — da amisade d'elle do que do seu 
merecimento. Esse soneto lh'o dirigira, collocando-o 
nas suas obras poéticas, impressas n'esta cidade 
do Porto, em a Typographia Commercial, no anno 
de 1838. 

Esta advertência é ella mesma precedida de um 
Preliminar, que demonstra em João ' Peixoto de 
Miranda copiosa e meditada leitura. Elogia-se a si 
próprio, porque escrevera de modo que todos o 
podessem entender, «sem ser preciso recorrer ao 
Diccionario de Bluteau ou ao Elucidário de fr. Joa- 
quim de Santa Rosa de Viterbo», desdenhando do 
afan de desenterrar, « por singularidade systematica, 
vocábulos sepultados com o século xv, só para 
affectar uma linguagem velha e sediça que o desuso 
anniquilou e o uso não auctorisa. » 



324 PORTUENSES ILLUSTRES 

A obra vae a publico tal qual lhe sahiu da forja. 
«Mal polida e limada», reputa-se «indigna de 
apparecer ao lado das sublimes producções do 
insigne auctor das Cartas d'Ecco a Narciso, das 
do sábio e erudito snr. Garrett e das de outros 
mais que servem de brilhantismo, ornamento e 
decoro ao Parnaso e litteratura portugueza do sé- 
culo XIX.» 

«Assim mesmo, poderá emparelhar com outras 
taes e quejandas que a imprensa faz sahir á luz. » 
Porque, modesto, João Peixoto de Miranda não era 
humilde. 

Elle terminou seu Preliminar com os seguintes 
versos do poeta inglez Owen: 

Qui legis is ta, tuam reprehendo, si nua landas 
Omnia, stultitiam ; si nihil, invidiam. 



Para suas calamidades características, outrosim 
entre seus filhos o Porto encontrou quem soluçasse 
os threnos poéticos, porque se não a terremotos, 
como Lisboa, o Porto a innundações sujeito seja. 

No segundo tomo de sua Historia da adminis- 
tração publica eyn Portugal nos séculos xn a at, o 
snr. Henrique da Gama Barros diz que no século xv 
por varias vezes se sentiram em Portugal convul- 
sões do solo mais ou menos fortes. Das escassas 



XI — MIRANDA — MACEDO—- ALÃO — CABRAL, &C. 325 

noticias que nos ficaram cTesses successos, não se 
deduzia, porém, que a perda de vidas e as outras 
consequências fossem n'algum caso em tal escala 
que affectassem consideravelmente as forças econo-' 
micas do reino. 

Em nota registrava, segundo varias fontes de 
informação, de abalos de terra os do anno de 1033, 
de 1309 (ou 1279, segundo a edição da Esp. Sagr., 
xxiii, pag. 340), de 13 18 (na Esp. Sagr. y log. cit., 
propõe-se a era de 1357 e não a de 1356), de 1321, 
<te I337> d e 1347) em Coimbra e em Coimbra o de 
1355, e os de 1356, 1366, 1395 e 1404, sendo este, 
do século xv, o único de que tinha noticia. Não 
ficou remembrança tradicional de nenhum d'eiles 
para o Porto. 

No Porto, mesmo escassa noticia litteraria que- 
dou ainda para os terremotos em Portugal havidos 
gravíssimos, como esse de 1531 que a Mendonça 
lhe «parece que foi maior que o de 1755», o 
mesmo sentindo o erudito Pedro Norberto de 
Aucourt e Padilha, cujo parecer Mendonça quiz alli 
provar mais amplamente, « para tirar o séquito da 
contraria opinião, que tem sido a mais seguida», 
mas á qual eile sempre se oppoz, com os vários 
Hindamentos que aliega e outros que deixa á 
reflexão dos doutos, á lembrança dos quaes traz 
que Jeronymo Cardoso fizera um poema latino em 
que. relata os estragos d'este terremoto, como refe- 
rira Diogo Barbosa Machado, no tom. 11 de sua 
Bibliotheca Lusitana^ no titulo d'este escriptor. 



326 PORTUENSES ILLUSTRES 

Prosegue na enumeração, mas sua noticia não> 
acorda echos portuenses, até que se chega á data 
fatal. 

Do tremendo terremoto de 1755, no respeitante 
a seus effeitos pelo que toca ao norte de Portugal, 
em sua Historia universal dos terremotos, o mesmo 
Joachim Joseph Moreira de Mendonça escreve: 
< As províncias do Minho e Traz-os-Montes não 
padeceram mais effeitos do terremoto que o horror. 
Em toda a extensão de Portugal foram sentidos os 
abalos da terra e a sua duração; mas n'aquellas 
províncias foram muito menos violentos.» (num. 

377). 

Mas, havendo dito que o flagello da peste que 

no anno de 1420 tinha acomettido o bairro de Villa 
Nova de Gaya tornara em 1581 a açoutar Portugal 
com tal excesso que esta fora chamada a Peste 
grande, matando na cidade de Lisboa mais de qua- 
renta mil pessoas, na de Évora vinte e cinco mil e 
assim á proporção em todas as outras cidades e po- 
voações do reino, accrescentara nosso Agostinho 
Rebello da Costa que n'esta occasião fora que os 
portuenses erigiram a S. Roque uma capella defronte 
da porta travessa e alpendre da cathedral, em cujo 
frontispício se lia a epigraphe seguinte : 

Stet hccc Domus, doncc formica totum imbibat 
j\lare, et donec t estudo totum circumambulct orbem. 

Mas não se completara este desejo, porque o 
fatal terremoto do i.° de Novembro de 1755 a ar * 



XI — MIRANDA — MACEDJ — ALVO CABRAL, &C. 327 

minara de sorte que necessário fora erigir-se nova 
capella, feita á moderna, no largo chamado do 
Souto, de que elle já fallara. 

Porém, se indemne de terremotos, relativamente, 
havia sido, não do achaque de innundações deixara 
o Porto de sofTrer. 

Assim, o caudaloso rio Douro no dia 28 de 
Dezembro de 1727 formara uma enchente tam 
grossa, repentina e precipitada que absorvera na 
sua corrente mais de cem pessoas, muitos edifícios, 
navios d'alto bordo, innumeraveis embarcações pe- 
quenas, muitas e viçosas vinhas, lagares, azenhas e 
outras fabricas, cujas perdas se contavam por mi- 
lhares de cruzados. Quasi todo o convento das re- 
Jigiosas de Corpus Christi fora coberto da sua 
innundação ; esta chegara, de parte da cidade, a tal 
altura que de cima da muralha se tocava com as 
mãos na agua. 

Outras iguaes innundações havia acontecido 
nos annos de 1729, 1739, 1774 e 1779; a de 1779 
fora em tudo similhante á primeira, de 1727, cujos 
estragos ainda hoje — 1789 — lamentam algumas 
famílias, reduzidas (depois de opulentas e acredita- 
das) a uma lastimosa indigência. 

Tinha-se observado que nas maiores cheias su- 
bia a agua até á altura de 22 pés geométricos, me- 
dindo-se desde o ultimo ponto da baixa-mar. 

A uma altura quasi egual chegara a ultima, até 
ao tempo do escriptor, e formidável, acontecida no 
mez de Fevereiro d^quelle anno em que escrevia, 



328 PORTUENSES ILLUSTRES 

de 1/88, e precedida que fora de um terrível furacão 
cio Oeste, que durara, sem affrouxar, três dias suc- 
cessivos, atroando com horrorosos tufões a cidade 
e seus arredores, onde arrancou grossas arvores e 
arrebatou pelos ares muitos telhados e clara-boyas, 
tendo principio esta grande cheia no dia 22 do dito 
mez e o seu maior augmento sendo nos dias 24 e 
25, em que as aguas do Douro subiram, acima do 
seu nivel, 31 palmos. 

A cheia de 1739 foi memorada em verso: 
Successo lamentável da destruição do Porto e 
seus subúrbios, acontecido no fatal mez de Dezem- 
bro, etc. 

* 

Este poema é oferecido á venerável, prodigiosa e 
sacrosanta imagem do Senhor d* Alem, venerada na. 
Santa Igreja Cathedral da mesma cidade, pelo poeta 
que se rebuça na piedosa designação de «um cor- 
dialíssimo devoto d'este Senhor. » A obra, com todas 
as licenças necessárias, está impressa no «Porto, 
anno 1740.» 

Do gosto do artista dará medida a oi- 
tava xxi, posta para nos pintar a impetuosidade 
da corrente : 



Corria o Douro tam arrebatado, 
Tam rápido, cruel e tam valente 
Que parecia vinha declarado 
Inimigo de todo o sêr vivente; 
Tudo deixava o Douro destroçado, 
Tudo despedaçava a sua enchente ; 
E então na fortaleza e valentia, 
Mais que D'ouro, de bronze parecia. 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 329 

Já, então, as margens do Douro presenceavam 
o mesmo Douro furiosamente a batalhar com em- 
polaçlas ondas, ellas, essas suaves 



Margens do Douro, celebradas 

Que são em todo o tempo e em toda a era, 
Sempre de esmeralda alcatifadas. 
Perpetua estaçãe da Primavera. 



Com olhos mais sizudos do que em 1740 
os do portuense poeta, cónego, Martinho Lopes 
de Moraçs Alão, ás margens do Douro as viu 
em 1868 (maio) o portuense sábio, engenheiro, 
Frederico Augusto de Vasconcellos de Almeida 
Pereira Cabral, que, contra o que diz Innocencio, 
que o dá nascido em Lisboa, nasceu no Porto em 
25 de Abril de 1820, consoante a informação fide- 
digna do seu duplamente collega, como engenheiro 
e geólogo, J. ,F. Nery Delgado, no tom. 1 das Com- 
municações da commissào dos trabalhos geológicos 
de Portugal. 

Ora, no tom. i da Revista de Obras Publicas e 
Minas, que appareceu em 1870, inseriu Frederico 
de Vasconcellos Cabral uma primeira noticia sobre 
as rochas estriadas da bacia do Douro, assumpto 
que, tractado com mais desenvolvimento, serviu de 
base para uma memoria publicada em 1881, Estudo 



330 PORTUENSES ILT.USTRE3 

dz • depósitos siiperficiacs da bacia do Douro, de que 
apresentara um resumo ao Congresso anthropolo- 
gico que tivera em Lisboa, em 1880, a sua 9. a 
sessão, por iniciativa do antigo director dos traba- 
lhos geológicos, Carlos Ribeiro. 

Em dezembro de 1869, em Lisboa, escrevia Fre- 
derico A. de Vasconcellos : 

Quem viaja pelo Douro não pôde subtrahir-se á contem- 
plação das rochas que encaixam e opprimem o seu leito desde 
a foz, quando mesmo outras razfies não tivesse o viajante 
para prestar attençào á constituição do solo. Como é sabido, 
o Porto está edificado sobre um massiço granítico, ao qual se 
encosta para leste uma serie de schistos crystallinos, que se 
suppòcm o resultado do metamorphismo de terrenos paleo- 
zóicos, representados ainda para leste por uma zona schistosa,. 
que corre na direcção próxima de XNO. SSE. E' limitada esta 
zona, pelo lado do NE., por outro grande massiço de granito 
porphyroide, que se julga de idade mais moderna que o do 
Porto, e que atravessa o Douro seis léguas acima da cidade, 
sendo as Pedras de Linhares, fronteiras ao concelho de Paiva, 
a primeira manifestação d'esta rocha no leito do rio, c também 
o primeiro ponto perigoso para a navegação. 

Quem, pois, sobe o lio, partindo do Porto, 
vê primeiro o granito por espaço de meia légua, 
depois o gneiss e o resto da serie de schistos crys- 
tallinos, que passam gradualmente ao terreno schis- 
toso paleozóico, limitado para NE. pelo granito 
porphyroide. 

Nada, a Frederico A. de Vasconcellos, lhe fizera 
suspeitar, á sahida do Porto, que as rochas grani- 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALA O CABRAL, &C. 33 I 

ticâs que bordam o rio de um e outro lado acima 
da ex-ponte pênsil apresentassem superfícies gastas 
e estriadas mechanicamente. Só quando chegou á 
zona de gneiss, lhe pareceu vêr. Viu, saltando em 
terra, observando o phenomeno com todas as cir- 
cumstancias que o acompanham em outros paizes 
onde tem sido estudado. Fixou-se, Duas léguas 
acima do Porto, em quasi todos os pontos onde se 
manifestavam rochas duras via elle já distincta- 
mente as superfícies estriadas, e as distinguia, 
mesmo a distancia. As suas observações limita- 
ram-se, porém, a uma extensão não superior a 
cinco legoas e ao que podia vêr sem se affastar da 
margem do rio, essa alcatifa de esmeralda do 
poeta Alão. 

Na sua volta ao Porto, Frederico de Vascon- 
cellos, olhando, com melhor attenção e já com olhos 
mais habituados, para os granitos das proximidades 
da cidade, pode reconhecer ainda o estriamento 
das rochas uns quinhentos metros a montante da 
referida ex-ponte pênsil, e também lhe pareceu vêr 
ahi, mas a distancia e do lado da Serra do Pilar, 
uma superfície estriada muito inclinada para o rio, 
senão quasi vertical. De resto, os vestígios de 
estriamento que pudera observar estavam entre i, 
e 3 ou 4 metros acima da estiagem do rio, e 
figurava-se-lhe possível, e mesmo provável, que se 
encontrem a muito maior altura. 

Reivindica a originalidade que lhe cabe na no- 
ticia do phenomeno ; lealmente menciona a parte 



33 2 PORTUENSES ILLUSTRES 

que na discussão cPelle e seu corollario theorico 
cumpre, mercê de uma nota sobre o terreno qua- 
ternário de Portugal publicada em 1867 no Boletim 
da sociedade geológica de França, referir, na gene- 
ralidade critica, ampla e discriminante, a Carlos 
Ribeiro. 

Foi sobre as observações de Carlos Ribeiro e 
Daniel Sharpe no que concerne a Portugal que os 
snrs. E. de Verneuil e E. Collomb levantaram a 
carta geológica de Hespanha e de Portugal, em 
Paris publicada em Junho de 1864. 

Levantada em parte sobre as folhas da carta 
chorographica do reino e em parte coordenada 
sobre a carta geológica publicada em 1876 por 
Carlos Ribej/o e J. F. Nery Delgado, foi em 1899 
publicada pela Direcção dos trabalhos geológicos a 
carta geológica de Portugal, por J. F. Nery Delgado 
e Paul Choffat. 

Quanto aos terremotos de Lisboa, o Porto os 
deploraria, como de Lisboa aos primórdios vate 
portuense os celebraria. 



* 
* 



Para o cântico da fundação de Lisboa, com 
effeito, destino era do Porto dar-lhe, em António de 
Souza de Macedo, um dos seus filhos mais illustres 
e dos mais notáveis homens de todo Portugal. 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 333 

Oriundo da nobre villa de Amarante, mas nas- 
cido n'esta cidade do Porto, e baptisado na fregue- 
zia de Nossa Senhora da Victoria a 1 5 de dezembro 
de 1606, diz Diogo Barbosa Machado que bastava 
«este único filho para lhe adquirir immortal gloria 
ao seu nome.» Elle remata asseverando que seria 
quasi impossível trasladar os elogios que a este 
grande varão dedicaram muitos escriptores. Cita, 
sem embargo, abundante copia de auctores, tanto 
nacionaes como extrangeiros, em abono de sua affir- 
mativa. 

Tronco da casa dos condes de Mesquitella, 
quando, collocado no throno o duque de Bragança, 
D. João iv resolveu enviar por embaixador á corte 
de Londres a D. Antão de Almada, sendo necessário 
que o acompanhasse, na qualidade de secretario, 
um homem que tivesse o saber e capacidade neces- 
sária para missão de tammanha consequência, em 
circumstancias tam melindrosas e difficeis, depois 
de maduras reflexões, recahiu a escolha em António 
de Souza de Macedo, em quem se julgavam as 
partes e requisitos que convinha para auxiliar com 
seus conselhos o embaixador. Em Londres deu elle 
tam boa conta dos negócios de que ia incumbido 
que, retirando-se o embaixador d'aquella corte, o 
rei portuguez determinou que o secretario alli 
ficasse permanecendo, com o caracter de enviado, 
ou encarregado de negócios, como hoje dizemos. 

Correndo o anno de 165 1, foi António de Souza 
de Macedo nomeado embaixador de Portugal junto 



334 PORTUENSES ILLUSTRES 

aos Estados Geraes da Hollanda, onde teve logar 
de exhibir novas provas do seu zelo e habilidade 
como negociador e homem de Estado. 

«D'esta maneira (pondera José Maria da Costa 
Silva), António de Souza de Macedo, sempre favo- 
recido pela fortuna e pelo merecimento, cheio de 
honras e de favores da coroa, chegou a ponto de 
não ter já a que aspirar senão ao Ministério. Essa 
mesma ambição, se acaso a teve, lhe foi emfirn 
satisfeita por El-Rei D. Affonso vi, que sempre 
fizera d'elle grande apreço, pois em 1663 houve por 
bem nomeal-o seu ministro e secretario de Estado, 
cargo que honrosamente exerceu até ao anno de 
1668, em que foi demittido pela revolução, de fabrica 
jesuítica, que deu em resultado a deposição de D. 
Affonso vi e a regência do infante D. Pedro, que 
depois subiu ao throno. » Em perigosas conjunctu- 
ras se viu António de Souza de Macedo durante 
esse tormentoso periodo. 

Dramática scena, p. ex., a jogada entre a infida 
rainha e o fiel secretario do infeliz monarcha, duas 
vezes coroado. Kis a narração mais fidedigna: 

Matara um arrieiro a um francez em uma estrada 
perto de Coimbra, e houve quem dissesse que o 
matou como a ladrão, em sua própria defeza. Foi 
o arneiro preso em uma egreja d'aquella cidade e 
remettido á cadeia de Lisboa. Ora, por que lhe 
valesse a immumidade da Igreja se mostrou a 
rainha, que franceza era, aggravada, dizendo que o 
delinquente não fora castigado, só por lhe darem 



XI — MIRANDA — MACEDO — AL.ÀO — CABRAL, &C. 335 

desgosto a ella, sendo o morto francez e creado seu. 
O facto era que o morto não era tal creado seu, e 
só sim parente de um seu lacaio francez, e elle sol- 
dado de cavallo. 

Por esta intimidade e por outra ainda mais 
assim, mandou a rainha chamar á sua presença o 
illustre secretario d'Estado António de Souza de 
Macedo e o mcrepou asperamente. Desculpou-se o 
honrado homem para com aquella mulher desho- 
nesta, allegando rasoes que tanto mais offensivas 
eram quanto mais convincentes. Rematou asseve- 
rando que quem o contrario dissesse do que elle 
dizendo estava era traidor e, como tal, devia ser 
castigado; que Sua Magestade, por sem duvida, 
contava perversos a seu lado, pois lhe affirmavam 
tinha razão de queixar-se dos portuguezes, quando 
-ninguém lhe havia faltado ao devido respeito. 

Replicou a Rainha que bem sabia que, na opinião 
d'aquelles que não queriam, que ninguém lhe fallasse, 
grande crime era o tractal-a como quem era. 

Quiz o secretario satisfazel-a, porém aquella mu- 
lher má e má mulher o mandou caliar; e, redar- 
guindo este que queria que Sua Magestade o ou- 
visse, segunda vez o mandou caliar. 

Poz-se. então o secretario de joelhos, suppondo 
que com isto a obrigaria a que o attendesse ; porém 
ella lhe voltou as costas. 

Quiz o secretario detel-a; e ella lhe regougou: 
« — Como, villão, és tam atrevido?!» E lhe deu 
com uma luva pela cara. 



336 PORTUENSES ILLUSTRBS 

« Vendo-se o pobre velho tam enojado, calou-se ; 
e, voltando-se para as damas e cavalheiros que 
estavam presentes, disse (n'estes termos o refere o 
auctor da Anti-catastropkc), com grande cólera: 
« — Que descomedimento tam indigno, que nenhum 
rei jamais o praticou com algum vassallo ! » 

Tudo não obstante, não frisaria as vicissitudes 
politicas d'este homem eminente. Nem mesmo, jor- 
nalista, me ufanaria com sua honrosa camaradagem, 
por isso que foi aliás dos primeiros intencionados 
illustres jornalistas portuguezes, redigindo os Mer- 
curios, lusitanos em que seu adverso, o padre An- 
tónio Vieira, jesuíta combatente, forçado se vira a 
confessar a eloquência. 

Limitar-me-hei a suscitar adrede a apagada 
lembrança do poema heróico Ulyssipo, de qúe nova 
edição se fez ainda em Lisboa, em 1848, por indus- 
tria do famigerado livreiro Rolland e dirigida, crê 
Innocencio, pelo, a seu tempo, já finado Rego 
Abranches; o insigne bibliographo condensa a 
opinião de Costa e Silva, que expende: «N'este 
poema, de treze cantos, em oitava rima, cujo argu- 
mento é a fundação de Lisboa por Ulysses, não ha, 
por certo, o estylo brilhante da Ulyssca, nem a sua 
versificação é tam cadente T porém, Macedo tem um 
gosto mais puro, modelando-se pelos italianos, a 
cuja eschola pertencia. Não pecca tanto na inchação, 
nas expressões hyperbolicas, nem nos contrapostos 
e jogos de palavras. Os seus versos são fáceis, 
ainda que um tanto monótonos; as rimas, mais 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 337 

i 

ricas e menos triviaes; as suas comparações são 
próprias, e raras vezes imitadas de outros poetas, 
E, sobretudo, muito superior a Gabriel Pereira de 
Castro na originalidade da fabula e episódios. O seu 
t culteranismo é de Marini e não de Gongora; e 
n'isso é que elle se differença dos poetas seus con- 
temporâneos. » 

O lisbonense Costa e Silva espanta-se de que, 
na poesia portugueza, os louvores de Lisboa não 
fossem cantados por nenhum lisboeta; e só sim por 
Gabriel Pereira de Castro, que era de Braga, e por 
António de Souza de Macedo, que do Porto era. 

Não foi, entre os portuenses, tam só este o no- 
tando dos épicos menores; outro houve, sabemol-o, 
como elle digno da bòa nota no conciliábulo dos 
mais superciliosos críticos. 

Tal é a contradicção das cousas! Taes os sar- 
casmos dos destinos ! 

Que o Porto, terra do terra-á-terra, de todo o 
tempo, alfobre haja sido de poetas! 

Como, digamos, esse Pedro d'Andrade Ca- 
minha. . . 



Para o livro (Elegiada) do portuense Luiz Pe- 
reira (Brandão), de quem se fallou já em pretérita 
lauda d'este tomo, escreveu outro portuense (segun- 
do a variante impressa em 1898) os versos se- 
guintes : 

VOL. I •*.'*• 



338 PORTUENSES ILLUSTRES 

Quem canta Sebastião? Canta Pereira. 
Que canta do seu Rei? A vida e morte. 
Da vida que? Sua honra verdadeira. 
Da morte? Qjue a soffreu com animo forte. 
Na terra, que ganhou ? Memoria inteira. 
E que no ceu ? Gloriosa e alta sorte. 
E de Pereira quem ? Quantos o lerem. 
Quantos o lerem? Quantos o entenderem. 

Essoutro portuense é Pedro (ou Pêro) de An- 
drade Caminha, como Luiz de Camões -provindo de 
família gallega, e nascido n'esta cidade do Porto, 
segundo todas as probabilidades, não se sabendo 
em que anno, mas sendo, todavia, acceitavel uma 
conjectura de Theophilo Braga, -que fixa a data em 
1520 (ou antes), segundo o parecer do dr. J. 
Priebsch. Este, dando o logar e data -do falleçimento, 
em Villa Viçosa a 9 de setembro de 1589, apre- 
senta um documento descoberto pelo distincto por- 
tuense Souza Viterbo, «pelo qual consta o anno 
da morte de Caminha. » Constava aliás do Diccio- 
nario Bibliographico de Innocencio, que expressa- 
mente diz: «Nasceu Pedro de Andrade na cidade 
do Porto, em anno que se ignora; e morreu em 
Villa Viçosa a 9 de setembro de 1589.» E' certo 
que na lista das fontes biographicas do poeta alle- 
gada pelo dr. J. Priebsch não se inclue a obra de 
Innocencio. 

O qual nos conta como á sombra de D. Duarte, 
duque de Guimarães, de quem fora camareiro, con- 
ferindo-lhe este príncipe, em remuneração de servi- 
ços, a alcaidaria mór de Celorico de Basto, com 
uma tença de duzentos mil reis, Pedro dVXndrade 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÀO — CABRAL, &C. 339 

Caminha cultivara as lettras, unido em correspon- 
dência e amisade com os maiores engenhos que en- 
tão poetavam em Portugal, menos com Luiz de 
Camões, de quem nem elle nem os outros fazem 
menção: «o que nos mostra (diz com sizuda refle- 
xão um dos seus biographos — o sábio abbade José 
Correia da Serra — ) que os séculos* litterarios das 
varias nações são mui parecidos uns com os ou- 
tros, e que em todo o tempo a superioridade é 
odiosa aos contemporâneos.» Mas addita que po- 
deria accrescentar que, da parte de Caminha, para 
com Camões havia uma decidida emulação e rivali- 
dade, manifestada, como, segundo seu alvitre, tudo 
induz a crer nos seus repetidos epigrammas contra 
um que elle chama mau poeta. V. g. no cxlv, em 
que, alludindo talvez ao verso i da est. 5. a do canto 
i.° dós Luzia das: «Dae-me uma furta grande e so- 
norosa, etc. >, lhe diz mui despejadamente : 

Dizes que o bom poeta ha de ter fúria; 
Se nào ha de ter mais, és bom poeta ; 
Mas, se o poeta ha de ter mais do que fúria, 
Tu não tens mais que fúria de poeta ! 

Verdadeiramente poeta seria Pedro d' Andrade 
Caminha ? 

Innocencio escreve que elle pôde considerar-se 
como um dos mais aproveitados discípulos de Fer- 
reira, a quem muito se approxima pela correcção, 
elegância, nobreza de pensamentos e philosophia que 
reina em suas composições; e prosegue dizendo 
que José Maria da Costa e Silva não hesitara em 



34<> PORTUENSES ILLUSTRES 

dar-lhe a preferencia sobre o seu contemporâneo e 
amigo Diogo Bernardes. Remata, não obstante, com 
o juizo de um critico extrangeiro acerca d'aqueiie 
nosso poeta, «para que se veja como em matérias 
de gosto são sempre discordes e variáveis as opi- 
niões dos que se presumem auctorisados para ex- 
primir voto fundamentado.» Aponta a origem d'esse 
juizo, o Diction. génér. de Biogr^ por Dezobry e 
Bachelet. O parecer acerca de Caminha é de que 
«elle deixou eglogas d'uma frieza extrema, elegias 
cheias de affectação sentimental, epistolas calorosas 
e enérgicas, epitaphios e epigrammas de bom gosto 
plenos.» 

Pelo que toca aos avaliadores lusitanos, aponta, 
que menos favorável do que o de José Maria da 
Costa e Silva é a Pedro d' Andrade Caminha, talvez* 
o conceito do illustrado («impertinente», tivemos já 
ensejo de vêr lhe chamara Camillo) critico Fran- 
cisco Dias Gomes, a quem o dr. J. Priebsch inverte 
os appellidos, designando-o por F. Gomes Dias. Reco- 
nhece-se que cita de memoria, porquanto no tom. iv 
das Memorias da Academia que indica o traba- 
lho do critico, illustrado, segundo Innocencio, im- 
pertinente, segundo Camillo, não se dá como elabo- 
rado mais do que por Francisco Dias. «Sem mais 
nada.» 

Quem lhe reler a passagem, por certo que repu- 
tará em demasia dubitativo aquelle adverbio talvez* 
apposto por Innocencio ao conceito (menos favorá- 
vel acerca dos méritos poéticos de Pedro d' Andrade 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 34 1 

Caminha) formulado por Francisco Dias Gomes, o 
qual debuta logo asseverando que, do artista por- 
tuense, «a sua imitação, em geral, pouco tem de 
sublime, o seu pensar é frouxo, e o mesmo cara- 
cter tem a sua expressão, que, cheia de licenças e 
defeitos, é confusa e obscura, lodosa e baixa.» Con- 
comitantemente, não perde por desinteressante o co- 
tejo que porventura se faça de suas qualificações 
com as que Innocencio nos forneceu do critico ex- 
trangeiro, cujo juizo em suas laudas próprias repro- 
duziu. Porquanto, das éclogas de Pedro d' Andrade 
Caminha afflrma que ellas têm merecimento, tantp 
no donceito como no estylo, que é todo frio e débil. 
Das epistolas, comtudo, asserta que não só não des- 
lustram o idioma mas o honram por muitos lances 
de moral, bem tractada e descripta. Quanto ás ele- 
gias amatorias, ellas não se devem considerar mais 
do que umas lamentações seccas, sem pensamen- 
tos, sem pathetico nem expressão. Mas os epita- 
phios são concisos e bellos ; o poeta Caminha, ape- 
zar dos pezares, tem poucos epigrammas que não 
sejam bons, e n'este género Francisco Dias Gomes 
conclue que elle é digno de todo o apreço e bene- 
mérito da nossa poesia, que augmentou. 

Em Paris, no anno de 1854 e no artigo respe- 
ctivo do vasto repositório dirigido pelo dr. Hoefer e 
publicado pelos irmãos Didot, de Pedro de Andrade 
Caminha Ferdinand Denis opina que elle é um poeta 
correcto, que se distingue, sobretudo, por sua ele- 
gância; ajunta que elle foi, mesmo, catalogado en- 



342 PORTUENSES ILLUSTRES 

tre os clássicos mas que carece, em regra, de mo- 
vimentação. Em Halle, em 1898, no elegante vo- 
lume de venda da livraria editora de Max Niemeyer, 
o dr. J. Priebsch marca caracteristicamente a si- 
tuação social e mental do poeta portuense na sua 
epocha e em seu ambiente : «gozando da plena con- 
fiança do seu augusto amo, com entrada franca nos 
serões da corte, Caminha (por este modo o dr. J. 
Priebsch escreve) travou relações com a melhor fi- 
dalguia do reino, ganhando, graças ao seu culto es- 
pirito, o apreço de todos quantos tinham vocação, 
ou pelo menos alguma aptidão poética. A elle, como 
a um Mentor e juiz, remettiam os cortezãos nova- 
tos os seus primeiros ensaios, pedindo conselho e a 
sua opinião, promptos a acudirem, quando o mes- 
tre accommettia qualquer empreza. Mas Caminha 
não era um laureado guia e mestre das musas ape- 
nas aos olhos da mocidade palaciana e dos verseja- 
dores medianos. Os maiores engenhos contemporâ- 
neos respeitavam-o e respeitavam, cheios de admi- 
ração, os sons evocados da sua grave e doce lyra. 
Bastará lembrar os encómios que lhe teceu seu ve- 
nerando predecessor e amigo Francisco de Sá e Mi- 
randa, os versos que trocou com Diogo Bernardes 
e os louvores de António Ferreira, muito embora 
este sincero patriota não deixasse de censurar ener- 
gicamente, em uma Epistola, a então notável pre- 
dilecção de Caminha pela lingua castelhana.» Em 
nota, o dr. J. Priebsch exemplifica que o numero das 
cantigas hespanholas d'essa sua edição de Poesias 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 343 

inéditas de P. de Andrads Caminha se eleva á 
somma de cento e trinta e oito. Os inéditos publi- 
cados pelo dr. J. Priebsch declara elle que «encer- 
ram abundantes matérias para a historia da litte*- 
ratura portugueza no século xvi e espalham luz 
sobre as aptidões, tantas vezes contestadas, mas de 
oravante incontestáveis, do rival de Camões, assim 
como sobre a sua posição e influencia na corte.» 

Está tudo bem, menos a phrase rival de Ca- 
ntões, que desastrada se figura. 

A distancia a medir de Caminha a Camões é a 
lonjura incommensuravel que vae do simples talento 
ao génio; e bem mal a Caminha foi que esse per- 
meio voraginoso instinctivamente o não sentisse elle, 
reconhecendo que, por infortúnio, não sahira do seio 
fecundo da terra madre com a fúria do N outro. 

A «fúria» ! O quid divinum ! O Espirito ! 

Mas quê? Que valem freimas? 

Fiat ubi vult. 

Bem differente, por vezes opposto á simples ra- 
são, discursiva e circumstancia, como a que distin- 
guia o anti-romanesco portuense João de Barros. 

Por isso mesmo se vê que o do Imperador Cla- 
rimundo não seja. 



Não é o das Décadas, não, porém sim o do Es- 
pelho de casados. 

Doutorado em Salamanca, uns o fazem de Braga, 



344 PORTUENSES ILLUSTRES 

outros, porém, do Porto, onde exerceu officio em 

1549. 

De sua raríssima obra se effectuou no Porto em 

1874, conforme a de 1540, segunda edição, publica- 
da pelo fallecido Tito de Noronha e pelo illustrado 
negociante portuense snr. António Moreira Cabral, 
a quem, com rasão e justiça, o snr. Brito Aranha 
chama «um bibliophilo estimável» ; esta reimpressão 
realisou-se pelo exemplar que pertencera ao então 
já fallecido Joaquim Pereira da Costa e fora adqui- 
rido pelo visconde de Azevedo, já agora fallecido 
também. 

No preambulo da moderna reimpressão os edi- 
tores declaram inclinar-se a que o dr. João de Bar- 
ros fosse natural de Braga; mas no Supplemento 
do snr. Brito Aranha categoricamente se assenta a 
decisão de que, morador em Villa Real, elle foi na- 
tural do Porto. 

Frisa Camillo Castello-Branco que o «casa- 
mento » motivara alguns tractados de moral, por 
onde observa que se collige a seriedade com que a 
philosophia attentou n^quelle passo da vida tam 
grave de responsabilidades. O exemplo dera-o o dr. 
João de Barros no Espelho de casados, impresso em 
1540; elle é o tronco genealógico da philosophia 
matrimonial de Diogo de Paiva de Andrade no Ca- 
samento perfeito e de D. FYancisco Manuel de Mello 
na Carta de guia de casados. 

Expende, em linguagem que Camillo qualifica 
de « tosca, escabrosa e ás vezes deshonesta » , doze 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 345 

rasões contra o casamento, e dá o mctivo: «foi o 
caso que um meu singular amigo e companheiro de 
Salamanca me escreveu uma carta porque eu lhe 
commetti certo casamento, na qual elle se escusava 
largamente»; e expoz outras doze rasões a favor 
do casamento, «pprque, como diz o Philosopho, 
as cousas contrarias, postas a par, melhor appa- 
recem.» 

Move-o outro empenho, de utilidade immediata: 
evitar que se leiam fabulas ; e, assim, offerece á mo- 
cidade o seu livro de historias e passagens verda- 
deiras. «Quando os mancebos começam a ter en- 
tendimento das cousas do mundo (admoesta o dr. 
João de Barros), gastam o tempo em livros mui 
desnecessários e pouco proveitosos para si nem 
para outrem, assim como na fabulosa historia de 
Amadis, nas patranhas do Santo Graal, nas sem- 
saborias de Palmeirim e Primalião e Florisendo, e 
outros assim, que haviam mister totalmente exter- 
minados, que já de nenhuma cousa servem, onde 
ha tantos outros de que se pôde tirar proveito. » 
« Seria este (commenta Camillo Castello-Branco) um 
dos raros quinhentistas que em 1529 escarneciam 
as patranhas dos romances medievos do rei Arthur 
e as sernsaborias do Palmeirim, ao passo que outro 
João de Barros, seu parente, publicava nove annos 
antes a Chronica do imperador Ciar imundo, que re- 
quinta na insulsez e na inutilidade.» 

Em a primeira parte do seu tractado, o dr. João 
de Barros põe as taes doze rasões que desfavore- 



n 



46 PORTUENSES- ILLUSTRES 



cem o casamento, sendo a primeira por causa das 
cargas do matrimonio e a segunda por causa dos 
filhos e de sua morte. A rasão terceira contra o 
casamento é por ser espécie de servidão, e no ca- 
pitulo se contém algumas cousas a que o marido é 
obrigado. Quarta rasão contra o matrimonio, por à 
simpleza das mulheres. Quinta, por motivo -da inr 
constância das mesmas. Sexta, que se proclama fun- 
damental mas que está maculada peia pecha, tam- 
bém fundamental, por Camillo Castello-Branco posta 
á linguagem do dr. Barros. A sétima rasão contra 
o casamento diz respeito á discórdia, que factor é, 
de per si, da rasão oitava. A nona rasão contra o 
matrimonio é pelas tachas e manhas das mulheres; 
esta secção cita auctores com fartura e tem muito 
que se lhe diga. Todavia, ainda «/fica muito que di- 
zer acerca do vicio das mulheres, e eu serei mais 
cortez que não direi tudo o que se escreve. » Faço 
como Camillo Castello-Branco; reformo a orthogra- 
phia para se haver percepção das idéas do auctor. 
A rasão decima é pela pobreza, doença e velhice. 
A undécima contra o matrimonio, por causa da mu- 
lher pobre ou rica. Na secção duodécima e final 
contra o matrimonio, « outras muitas rasões pudera 
dar para fundar esta minha tenção, mas não quero 
ser mais largo ; estas abastem. » Por isso se deu fim 
á primeira parte do livro. 

Segue-se a segunda secção do tractado. « Em a 
qual o auctor prova, por doze rasões evidentes, e 
muitos fundamentos, quam excellente e proveitoso 



XI — MIRANDA — MACEDO— - ALA O — CABRAL, &C. 347 

e necessário seja o casamento ; e é resposta da carta 
atraz. » Primeira rasão, para perpetuar o homem; 
rasão segunda por parte do casamento, por causa 
de quem o ordenou; rasão terceira, por causa da 
gloria e alegria do casamento; quarta rasão pelo 
casamento, que é por seguir os nossos antepassa- 
dos; quinta rasão e fundamento, por acompanhar 
os modernos ; sexta rasão por parte do matrimonio, 
por causa da geração ; rasão sétima pelo casamento, 
por motivo da honra; a rasão oitava por parte do 
casamento diz respeito á amisade, da qual se tracta 
singularmente; nona rasão, por ser o casamento 
em favor da republica ; decima rasão pelo matrimo- 
nio, por causa da ajuda da mulher ao marido; a 
undécima rasão por parte do casamento concerne á 
policia, visto como «assim digo que a ordem do 
casado é vida politica e santa, em que muitos san- 
tamente viveram e santamente morreram. » A rasão 
duodécima e final peto casamento, é por este evitar 
o peccado. 

Entramos na zona terceira em a qual o auctor 
particularmente responde aos doze fundamentos 
allegados contra o matrimonio: e reprova e destroe 
todos os ditos fundamentos e rasões dadas contra 
elle e contra as mulheres, e mostra de quanta per- 
feição e excellencia sejam ; e « tr^ctam-se mais mui- 
tas cousas mui proveitosas aos casados. » Vem logo 
a resposta e reprovação contra o primeiro funda- 
mento das cargas do matrimonio; depois a réplica 
ao segundo fundamento, da morte dos filhos, ver- 



34& PORTUENSES ILLUSTRES 

sando-se ahi da paciência e de que maneira deve- 
mos sentir sua morte; immediatamente apparece a 
resposta e reprovação do terceiro fundamento, da 
servidão, discorrendo-se dos ciúmes e como sempre 
o casamento é franco e de toda a liberdade. Re- 
torque-se ao quarto fundamento, da simpleza: pro- 
va-se que as mulheres são tam hábeis e tam sa- 
bedoras como os homens, e assim se offerecem 
alguns exemplos. Contestação é dada ao quinto 
fundamento, da inconstância, e aqui se mostra 
como são mui firmes na virtude e no bem as mu- 
lheres. 

Na reprovação e resposta contra o sexto funda- 
mento se convence o leitor como por culpa dos 
homens se causa a das mulheres; integram-se 
n'este thema as reprovações especiaes do sétimo 
fundamento e do fundamento oitavo. Surge a 
reprovação do nono fundamento que foi contra 
as mulheres, em que se demonstra serem mais e 
maiores as tachas dos homens e se confundem 
todos os fundamentos contrários. Ao ensino da 
reprovação e resposta contra o fundamento final, 
precedem-o as reprovações do undécimo funda- 
mento e do fundamento decimo, da pobreza e 
doença e velhice. N'esta conformidade, acaba a ter- 
ceira parte: «Portanto, conclusivamente, havemos 
de ter o casamento ser cousa excellentissima.» 

Quarta parte e final d'este tractado: «Em a 
qual se põem doze declarações e requisitos que se 
requerem para que os casamentos se façam bem e 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 349 

a serviço de Deus e para descanço e proveito dos 
casantes. » 

Opina, de remate, Camillo Casteilo Branco : 

As conclusões com que o desembargador remata, pelo que 
respeita aos requisitos que se requerem no casamento, provam 
o seu bom-senso: idade conveniente, homem rico e sadio, que 
não tenha filhos de outra. Vota por noiva virgem, rica, egual 
na estirpe, honestamente formosa, e sã; e de bons costumes, 
visinha conhecida e não parenta. Seus ou alheios, os argumen- 
tos com que João de Barros justifica as suas theses contém 
embryonarias as doutrinas physiologicas que modernamente 
explanaram Legouvé e Balzac. 

Está tudo muito * bem ; mas, como nem o dr. 
João de Barros nem os não-menos doutores Le- 
gouvé e Balzac, nenhum d'elles se lembrou de que 
a maioria da gente é composta de homens pobres 
e de pobres mulheres, resulta de todas estas dou- 
trinas physiologicas que a maioria da gente, por 
não estar nas condições, ficará por casar. O que 
talvez não de todo haja téqui tolhido a effectivi- 
dade d'aquella rasão primeira da parte segunda em 
prol do matrimonio: por se perpetuar o homem. 
Mas, se a physiologia não perdeu, a moral não 
ganhou. 

E, no que toca a outro dos méritos do por- 
tuense João de Barros, condemnando as novellas 
de cavalleria, outro portuense, Vasco de Lobeira, 
parece algo poder oppòr-lhe. 



3$0 PORTUENSES ILLUSTRES 



A' corroboração de texto definido, addul-a o dr. 
Theophilo Braga, reportando-se a Miguel Leite 
Ferreira, o qual, faltando de uns sonetos em lin- 
guagem antiga (Ed. dos Poemas Luzitanos, de 
1598) — escriptos por seu pae o dr. António Fer- 
reira — , dissera: «na linguagem que se costumava 
n'este reino em tempo d'el-rei Dom Diniz, que é 
a mesma em que foi composta a historia de Ama- 
dis de Gaula por Vasco de Lobeira, natural da ci- 
dade do Porto.» E Innocencio enumerara, entre os 
testemunhos de maior pezo, o do nosso já conhe- 
cido Gomes Eannes de Azurara, mas em outra obra 
onde se referira a «o livro d' Amadis, como quer 
que somente este fosse feito a prazer de um ho- 
mem, que se chamava Vasco Lobeira em tempo 
del-rei Dom Fernando. » 

Na discussão da origem do Amadis vê-se em 
texto do dr. Theophilo Braga que o sábio Victor 
Le Clerc assentara o problema definitivamente, es- 
crevendo : « a primeira redacção do famoso Amadis 
de Gaula, que, todavia, não é, como se vê pelo 
texto mais antigo hoje conhecido, o hespanhol, se- 
não uma' imitação prolixa dos poemas da Tavola 
Redonda e dos Romances de Aventuras, taes como 
o romance de Amadas. » E na mesma obra Theo- 
philo Braga apresenta uma explicação do facto, ao 



XI — MIRANDA — MACEDO ALÃO — CABRAL, &C. 35 I 

parecer contradictorio, de que seja precisamente na 
òôrte de Dom João i que se encontra o mais exal- 
tado prurido pela leitura e imitação das novellas 
da Tavola Redonda e dos seus heroes, chegando os 
seus nomes a serem reproduzidos nas famílias aris- 
tocráticas. «Convinha mais á corte portugueza — 
pondera Theophito Braga — a leitura das novellas 
com aventuras e situações fictícias ; o cyclo do Santo 
Graal, em que se preconisa a fidelidade á Egreja,. 
harmonisava-se peto seu maravilhoso com o nosso 
génio céltico. E essas aventuras, como a da Des- 
cida aos infernos, a da descoberta do Preste João 
(o christianismo entre os Bretãos foi propagado por 
discípulos de Sam João) e Viagens de Sam Bran- 
dam, influíram no génio aventureiro que levou os 
portuguezes ás descobertas marítimas. » 

Para frisar como se imitava o viver idealisado 
nas novellas de cavalteria, Theophilo Braga cita a 
Chronica de D. João /, na passagem que conta 
Fernão Lopes. 

Ella é, na verdade, mui característica; consti- 
tue a essência do capitulo 75 da 2. a parte, que, de- 
pois de o anterior haver relatado como el-rei che- 
gou a Coria e poz seu cerco sobre ella, refere 
como el-rei combateu a dita cidade de Coria e nos 
falia das razões que disse Ruy Mendes. 

Traslade-se por este teor, de Fernão Lopes, na 
edição de 1644, á custa de António Alvares, im- 
pressor d'et-rei: 



352 PORTUENSES ILLUSTRES 

A cidade era bem forte de muro e torres e de boa gente; 
e o combate que lhe então dessem não prestava nenhuma 
cousa; e affastaram-se a fora, tornando para seu arraial, sendo 
alguns d'elles feridos de virotôes e pedradas: vindo, a altas 
vozes, bradando Antão Vasques: Capadócia, Capa Jocia, faça- 
mos el-rei Imperador! 

El -rei na tenda, segundo parece, não foi bem contente 
d'alguns, que se não chegaram como elle quizera; d'ahi, fal- 
lando nas cousas que no combate succederam, veio a dizer, 
como em sabor: Gra?i mingoa nos fizeram hojâiji este Mia aqui 
os bons cavalle-ros da Tavola Redonda; que, certamente, se 
elles aqui foram, nós tomáramos este togar. 

Estas palavras não pôde ouvir com paciência Mem Rodri- 
gues de Vasconcellos, que hi era com outros fidalgos, que logo 
não respondesse ; e disse : Senlior, não fizeram aqui mingoa os 
c avaliei r os da Tavola- Redonda, que aqui está Martim Vas- 
quês da Cunha, que é tam bom como Dom Galaaz, e Gonçalo 
Vasques Coutinho, que é tam bom com) Dom Tristão, e eis 
aqui João Fernan ies Pacheco, que é tam bom como Lança- 
rote. E assim d'outros, que viu estar arredor. E eis-me eu aqui, 
que valho tanto conto Dom Quêa. Assim, não fizeram aqui min- 
goa esses cavai lei ros que vos d.zeis. Alas fez-nos a nos aqui 
grau mingoa o honi Rei Arlhur, flor de liz, senfior d' elles, que 
conhec a os bons servidores, fazendo-lhes muitas mercês, pelo 
que haviam desejo de o bem servir. 

El-rei, vendo que o haviam por injuria, respondeu então 
e disse: Nem eu esse não tirava de fora, que assim era cavai- 
leiro da Tavola-Redonda como cada um dos outros. 

Então, lançando o facto a riso, d'isto e d'outras cousas 
deixaram razoado tal; e fallaram nas destemperadas calmas 
que n'aquelle logar faziam. 

» 

Theophilo Braga, após um resumo que fez da 
situação, informa que esta anedocta já andava repe- 
tida desde o século xiu, em nome do rei Philippe, 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 353 

que se lamentava de não haver já cavalleiros tam 
bons como Roland e Olivier. « O Condestavel 
Nun'Alvares (escreve) queria imitar a virginidade 
de Galaaz y para manter a pureza da Cavalleria; e 
faziam-se votos denodados, como os Cavalleiros 
da Madre Silva, Ala dos Namorados e Doze de In- 
glaterra. Até nas instituições sociaes penetrava a 
imitação artificial das ceremonias e symbolismos ca- 
valheirescos ; basta abrir o Regimento de Guerra 
portuguez, codificado pelo Infante Dom Pedro, o 
que correu as Sete Partidas do mundo, para vêr 
como debaixo da esquadria lógica e unitária da 
codificação romana, estabelecida pelos jurisconsul- 
tos burguezes, irrompe o cerimonial novellesco 
com que um escudeiro devia de ser armado caval- 
leiro. E sobe de interresse esse confronto com o 
ceremonial do poema Ordre de Chevalerie, de Hu- 
gues de Tabarie. As explicações synibolicas do tro- 
veiro francez coincidem com os paragraphos da 
Ordenação Affonsina. E' com razão que se consi- 
dera o Regimento de Guerra como o necrológio da 
cavalleria portugueza; este ultimo lampejo de vida 
foi-lhe communicado pela leitura dos poemas an- 
glo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam 
nas livrarias re rias. » 

Kj 

A influencia do AmaMs resultou, consoante o 
aponta o dr. Theophio Braga, immensa na Eu- 
ropa; mas especificadamente o erudito professor 
indica o relevo peculiar aqui a attender. «O que in- 
teressa (elie explica) na novella do Amadis de 



VOL. I. 



- -s 



354 PORTUENSES IU.USTRES 

Gaula é a forma em prosa, e essa é um producto 
que mais caracterisa a litteratura medieval portu- 
gueza.» 

Quanto a Vasco Lobeira ou de Lobeira, de na- 
ção portugueza, segundo se affirma, no seu tom 
dubitativo discorre Innocencio, natural da cidade 
do Porto, o douto bibliographo lembra-nos que al- 
guns escriptores nacionaes, e com elles Barbosa, 
fundados na auctoridade de Duarte Nunes de Leão, 
sustentam que elle fora com outros armado caval- 
leiro no dia da famosa batalha de Aljubarrota (14 
de agosto de 1385); mas parece que restava pro- 
var que na identidade dos nomes se envolvia tam- 
bém a das pessoas, do que, a Innocencio se figura, 
ninguém curava até á data. Outros o creram mais 
antigo, dizendo que vivera no reinado d'el-rei Dom 
Affonso iv, e no lance aponta para Faria e Sousa, 
em sua Europa Portugueza. Um critico extran- 
geiro, Sismonde de Sismondi, o fizera contempo- 
râneo de Dom Diniz, suppondo que florescera entre 
os annos de 1290 e 1325. Mas Innocencio já se 
dá por satisfeito ao consignar, consoante o exara, 
que, aparte estas incertezas sobre p epocha precisa 
da sua vida, concordam uns e outros em conside- 
ral-o como verdadeiro auctor do celeberrimo ro- 
mance Amadis de Gaula, isto é dos primeiros quatro 
livros, que, trasladados depois do portuguez (dizem) 
para castelhano por Garcia Ordonez de Montatvo, 
se imprimiram pela primeira vez em Salamanca, no 
anno de 15 10. Não com tanta pressa acaso cumpre 



XI — MIRANDA — MACEDO — ALÃO — CABRAL, &C. 355 

marchar-se, todavia. Ou, antes, discriminar e, em- 
fim, apurar. 

Como quer que tenha de ser, já em 1860 des- 
tacava o portuguez Innocencio para eventual cotejo 
o livro do francez Eugénio Baret, estampado 
em Paris no anno de 1853 e versando minucioso 
estudo acerca do Amadis de Gaula, da sua influen- 
cia sobre os costumes e litteratura nos séculos xvi 
e xvii. E depois o italiano Angelo de Gubernatis, 
aferindo da disputa procrastinada ainda entre por- 
tuguezes e hespanhoes attinentemente á prioridade 
da composição do Amadis, com allegar a justeza 
da these sustentada por Baret sobre a preexistência 
d'uma outra licção mais antiga do que a de Vasco 
de Lobeira, de par e passo asseverou, comtudo 
{Storia universal delia letteratura, vol. ix), que por 
ora não queda resolvido o problema se a licção 
mais antiga que serviu de base ao livro de Lobeira 
foi quiçá franceza, porventura hespanhola ou ainda 
portugueza. Porém isso publicou-se no século 
passado. Em 1883. 



V' f 



XII 



João dos Prazeres — Luiz dos Anjos — Fer- 
nando da Soledade — Manuel Aboab — 
Uriel da Costa. 



R 



adigoso, quasi que não dando margem ao 
remanso das saborosas, ponderosas leituras, em sé- 
culo próximo pretérito. Mesmo no Porto quam 
longe já da disposição com que os pezados tomos 
infindáveis se gozavam, á laia dos do portuense 
João dos Prazeres, que os de leitura soporifera 
brindava a seus amados conterrâneos, circumspe- 
ctos e mentalmente tardigrados. 

O eremita augustiniano fr. António da Purifica- 
ção, mestre de theologia e philosophia na sua 
Ordem, e chronista da sua província, ultimamente 
nomeado parocho da freguezia de S. João da Foz, 
a qual era da administração da mesma provincia, 
nasceu aqui no Porto em iôci e publicou em Lis- 
boa, em 1642 e em 1656, respectivamente a parte 



358 PORTUENSES ILLUSTRES 

primeira e a parte segunda da sua Chronica da an- 
tiquíssima provinda de Portual da Ordem dos Ere- 
mitas de S. Agostinho, bispo de Hippona e principal 
Doutor da Egreja. 

A nimia credulidade, espirito de partido e um 
falso e irreflectido zelo pelo credito e interesse da 
sua corporação cegaram este chronista ao ponto» 
exara Innocencio, de o levarem a produzir factos 
conhecidamente fingidos. — Fabricador de documen- 
tos, Innocencio prosegue, da eschola do hespanhol 
Higuera e dos portuguezes Brito e Lousada, os que 
apresenta na sua chronica não merecem fé alguma, 
se não teem mais seguros abonadores. Innocencio 
manda vêr a este respeito o que escreveu o acadé- 
mico Leitão Ferreira nas Noticias da Universidade 
de Coimbra e também João Pedro Ribeiro nas Obser- 
vações diplomáticas. O mesmo Barbosa Machado, tam 
indulgente e sempre propenso a desculpar e até a 
elogiar escriptores que ás vezes, o áspero Inno- 
cencio o adverte, bem pouco o merecem, chegando 
a tractar da obra de fr. António da Purificação, 
não pudera deixar de lançar-lhe um stigma, tam 
severo quanto n'elle pouco usado, chamando á 
chronica celebre archivo de fabulas monásticas em 
que era fecundíssima a idéa do chronista. 

Este puzera em a parte segunda da sua obra uma 
addiçâo no cabo, na qual se responde aos principaes 
togares da Benedictina Lusitana. E esta, dedicada 
ao grande patriarcha S. Bento, publicando-se em 
Coimbra em dous tomos, respectivamente de 1644 



PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 359 

e de 165 1, foi escripta pelo monge benedictino fr. 
Leão de Santo Thomaz. De quem observa Innocen- 
cio ter sido destituido dos bons princípios da cri- 
tica, se não fora que rasões mais censuráveis o in- 
duziram a deixar-se levar por errados guias, 
apoiando as suas narrativas nas falsas chronicas de 
Pires, Dextro, etc, que inculca adoptar por textos 
legítimos e genuínos e tomando por verdadeiras as 
asserções de Brito, Bivãr, Higuera, etc. — Deixara 
também provas, quando menos, de imperícia, no 
modo como examinara alguns documentos que pro- 
duz na sua obra e de nimia credulidade nas infor- 
mações que lhe davam outros seus confrades. Inno- 
cencio mandava vêr o que dizem a este respeito 
dois portuenses, João Pedro Ribeiro, nas Observa- 
ções diplomáticas e nas Dissertações Chrónologicas, 
e Diogo Kopke nos Apontamentos archeologicos. 

Quanto á obra do portuense fr. António da Pu- 
rificação, directamente a impugnara o vouzellense 
fr. Gil de S. Bento, monge benedictino, cuja cogula 
vestiu a 20 de janeiro de 1615. Foi chronista da 
sua Ordem e percorreu os archivos e cartórios dos 
conventos e cathedraes mais antigos d'este reino, 
em busca de documentos, e para investigação de 
suas antiguidades. Ao augustiniano replicou com 
trabalho impresso em Lisboa em 1657, a Satisfa- 
ça.) apologética e quinta essência de verdades, averi- 
guxdas e apuradas em cinco respostas pacificas, com 
que o auctor satisfaz em tudo ás cinco extraordiná- 
rias opiniões que de novo deu á imprensa, em sua 



360 PORTUENSES ILLUSTRES 

Chronica, contra a religião benedictina, o padre fr. 
António da Purificação, etc. A's instancias do au- 
ctor, redarguiu o impugnado padre Purificação com 
o tomo impresso em Coimbra em 1660, do Antí- 
doto Augustiniano, em o qual se convencem e desfa- 
zem as f aliadas e enganos da Apologia intitulada 
« Quinta Essência de Verdades escriptas pelo P. Fr. 
Gil de S. Bento.» 

A controvérsia memora Inriocencio que versava 
sobre a prioridade da fundação das Ordens benedi- 
ctina e augustiniana e da sua respectiva entrada 
em Portugal : « a cujo respeito os contendores des- 
pregaram torrentes de erudição, que talvez pode- 
riam empregar mais utilmente.» Em quê? Frades 
empenhados na quietação doutrinaria, em que em- 
pregariam a indispensabilidade do trabalho cerebral 
senão em inquirições d'este alcance e em conten- 
das egoístas e corporativas ? Captivos, poderiam 
vêr livremente? Interessados na rotina, desaffectos, 
por conveniência, a innovações, acaso licito lhes 
seria suspeitar sequer para mais alto e para mais 
longe ? 

Assim, consumiam-sc n'estas fainas estéreis, 
accumulando costaneiras de sarrabiscos, passados 
depois á impressão dos prelos ; hoje dormem nas 
bibliothecas publicas ou são folheados pelos curio- 
sos, na cata de espécies subsidiarias. Os alfarrabis- 
tas pedem um dinheirão por esses cartapacios, 
ainda rotos e esfrangalhados — preciosos, pois que 
sejam o deposito das locubrações pretéritas. Elles 



PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 36 1 

nos revelam o condicionalismo económico da socie- 
dade através das preoccupações' subjectivas dos in- 
divíduos, e não é essa a menor de suas valias. 
Assim, servem para éstúdo os aspectos vários des- 
tas rixas infecundas em que se gastaram os intelle- 
ctuaes do tempo da oppressão espiritual. Innocen- 
cio, a propósito, refere-se a outra idêntica, ulterior, 
rija, polemica. 

Na epocha em que por agora estamos, cumpre 
vir á participação que em estudos e debates taes 
teve fr. João dos Prazeres com a sua obra, que 
ficou incompleta, havendo compostos, alem do 
único impresso, em Lisboa, dois tomos, respecti- 
vamente em 1685 e em 1696, mais dois tomos, 
que dizem se perderam por morte do seu auctor, a 
qual sucedeu no convento de Cucujães a 4 de 
março de 1709, «sendo esse monge benedictino, chro- 
nista geral da sua Congregação, nascido no Porto 
em 31 de agosto de 1648. 

A obra tem por seu titulo O príncipe dos pa- 
triarchas S. Bento e foi suscitada pelo appareci- 
mento do Crysol purificativo, de fr. Manuel Leal de 
Barros, a quem fr. João se propoz, recapitula o snr. 
Brito Aranha no «Supplemento», responder, refu- 
tando os seus argumentos e procurando restabele- 
cer a primazia na antiguidade da ordem benedictina, 
contra os chronistas de Santo Agostinho, que pre- 
tendiam fazer os eremitas d'esta mais antigos que 
todos os outros regulares, etc. 

Este fr. Manuel Leal de Barros, eremita augus- 



362 PORTUENSES ILLUSTRES 

tiniano, era, segundo se lê na Bibliotlieca Lusitana, 
doutor em theologia pela Universidade de Bordeaux, 
e nascera em Arrifana do Souza, hoje cidade de 
Penafiel, no anno de 1Ó22. A sua obra, em qne se 
apura o monacJiato do grande pa y riarcha e doutor 
principal da egreja Santo Agostinho e a successáo 
continuada da Ordem eremita, que instituiu em 
Africa e seus discípulos introduziram ri esta provín- 
cia lusitana, foi impressa em Lisboa em 1674. 

Quanto á critica, diz Innocencio que o auctor 
estava bem longe de ser superior ás preoccupações 
do seu tempo e que, seguindo o exemplo do seu 
confrade fr. António da Purificação, só tivera em 
vista sustentar a primazia e antiguidade da sua 
Ordem com razões mais apparentes que solidas. 
Quanto á linguagem, o padre Francisco José 
Freire, nas suas Reflexões sobre a língua portu- 
guesa, a seu livro lhe chamara «abundante semen- 
teira de joio de vozes latinas, sem necessidade 
aportuguezadas». Por isso, Innocencio conclue que 
goza como tal de fraca auetoridade em pontos de 
linguagem. 

Mas já as obras de fr. João dos Prazeres, e no- 
tavelmente entre ellas o seu Abecedario real, são 
reputadas entre os críticos como correctas em lin- 
guagem, e fazem auetoridade. O padre Francisco 
José Freire, por mais de uma vez, o cita n'este 
sentido. 

Assim Innocencio em seu tomo quarto. 



PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 63 



Esse fr. António da Purificação, chronista de 
sua provinda de Portugal, em seus manuscriptos 
deixou constante que manuscripto se guardava, na 
livraria do convento de Nossa Senhora da Penha 
de França de eremitas de Santo Agostinho, situado 
no subúrbio de Lisboa, o segundo tomo d'aquèlla 
Historia Gsral da Ordem de Santo Agostinho, que 
comprehende o primeiro século, sahida com algumas 
addições de fr. Pedro dei Campo, chronista geral, 
em castelhano, e publicada em seu nome, em Bar- 
celona, em 1640; bem como o original da outra 
obra do mesmo portuense fr. Luiz dos Anjos, Notas 
sobre as Censórias de fr. Jeronymo Roman, o con- 
servava elle próprio o portuense fr. António da Pu- 
rificação, consoante o exara na primeira parte e na 
segunda da Chronica dx Provinda Augustiniana 
em Portugal. 

Em latim, n'um mesmo intuito fervoroso escre- 
vera De vita et laudibus S. Patris Aurelii Augus- 
tini Hipponensis episcopi et Ecclesuv Dòctoris eximi 
libri sex em Coimbra no 1612, em Paris no 161 4; 
e em portuguez estampara seu Sermão em louvor 
de N. Padre Santo Agostinho, bispo de Hipponia e 
principal doutor da Igreja, em Coimbra no 17 18 
(aliás 16 18, como a Barbosa e a Farinha corrige 
Innocencio). 



364 PORTUENSES ILLUSTRES 

Com diversos elogios celebraram sua memoria 
auctores que Diogo Barbosa Machado enumera: fr. 
Francisco Macedo, Herrera, Rodrigo da Cunha, 
Abreu, João Soares de Brito, Nicolau António, 
Franckendre. O arcebispo de Braga, D. fr. Aleixo 
de Menezes, «grande erudito da família Augusti- 
niana», o elegeu por seu confessor. 

Elle fora, na verdade, um fanático dos seus, 
porquanto, em prol da sua Religião, fr. Luiz dos 
Anjos se applicou a examinar a antiguidade da sua 
origem, os privilégios e indultos que lhe concederam 
os Summos Pontífices e os varões, illustres, em vir- 
tude e sciencia, que n'ella floresceram; e, como 
para conseguir tam árdua em preza lhe fosse pre- 
ciso discorrer por Hespanha, França e Itália, revol- 
vendo os archivos de todos os conventos augusti- 
nianos, o nomeou chronista, a 28 de Dezembro de 
1608, fr. João Baptista de Aste, geral da Ordem, 
eleição que desempenhou «como da sua grande 
capacidade e indefesso estudo se esperava», a pa- 
recer do auctor da Bibliotheca Lusitana, em 1752. 

Mas o auctor do Diccionario Bibliographico, em 
1860, ao contexto de outro trabalho do mesmo fr. 
Luiz dos Anjos pondera que n'elle «os escrupulosos 
quereriam achar mais critica e exactidão.» «Com- 
tudo (accrescenta), não deixa de ser obra de mérito 
na sua especialidade e traz noticias curiosas e inte- 
ressantes, em linguagem pura e quasi sempre 
correcta. » 

Porém, por óbito do auctor ficando essa obra 



PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 365 

com as licenças para se imprimir, mas só vindo a 
sahir á luz posthuma, por diligencia d'aquelle fr, 
António da Purificação, conforme este o declara na 
própria dedicatória do livro á condessa do Sabugal, 
ahi mesmo confessa ingenuamente, descarte chás* 
quea Innocencio, não ser o estylo do auctor o mais 
delicado 

Do auctor escreveu Diogo Barbosa Machado 
que «a morte, invejosa do applauso que seu inde- 
fesso estudo havia conciliar ao seu nome, o privou 
intempestivamente da vida em Coimbra, a 8 de 
Janeiro de 1625. » Da obra especificadamente visada 
pelos reparos de Innocencio diz o « Supplemento » 
que no catalogo dos livros raros de Gubian vem 
d'esta descripta uma edição, que parece ter sido 
feita em vida do auctor, e não foi mencionada no 
Diccionario; tem differença no titulo e, em Lisboa, 
a data é de 1625. — Será esta a primeira edição?, 
alli se pergunta. 

Da obra em mira, na edição que Innocencio 
registrou, sem os encurtamentos doeste mas a rigor, 
sua folha de rosto consta n'este modo: Jardim de 
Portugal, em que se dá noticia de algumas santas e 
outras mulheres illustres em virtude, as quaes nas- 
ceram ou viveram ou estão sepultadas n'este reino e 
suas conquistas. Recopilado novamente de vários e 
graves auctores pelo Padre Doutor fr. Luiz dos 
Anjos, religioso e chronista da Ordem de nosso 
Padre Santo Agostinho, natural da cidade do Porto u 
Contém boa licçào para mulheres, exemplos para pré- 



366 PORTUENSES ILLUSTRBS 

gadcres, motivos para devotos e y para os amigos de 
historias, muitas, antigas e modernas. Anno 1626. 
Impresso em Coimbra, com todas as licenças necessá- 
rias. Em casa de Nicolau Carvalho, impressor 
d'el-rei. 

As approvações são respectivamente de fr. Ro- 
drigo da Conceição, de D. fr. Gaspar dos Reis, de 
Diogo de Paiva de Andrade e de D. fr. Martinho de 
Aragão. E, na dedicatória á senhora Dona Luiza 
Coutinho, condessa do Sabugal, alcaidessa mór de 
Santarém etc, expressamente fr. António da Purifi- 
cação escreve : «Posthumo é este livro, que sahe á 
luz depois da morte de seu auctor o D. fr. Luiz dos 
Anjos.» Relata que o seu visitador geral o R. P. M. 
fr. Manuel de Lacerda, «para supprir a falta da 
presença do auctor», lhe encommendara «a conti- 
nuação doesta impressão, a que, poucos dias depois 
de começada, faltou o seu auctor.» 

Como entender então isto? 

A approvação de D. fr. Gaspar dos Reis merece 
nota. Diz elle que entende que o Jardim de Portu- 
gal é « obra de grande proveito e fructo para as 
almas, de grande alegria e consolação para as donas 
e mais pessoas devotas d'estes reinos, de grande 
estimulo para a virtude e santidade, assim d'elles 
como dos extranhos. Mostra o auctor n^lla grande 
zelo de eternizar, e com isso augmentar as virtudes 
e excellencias de seus naturaes, muita erudição e 
diligencia em a licção das historias, antigas e mo- 
dernas. » 



PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 367 

O Jardim de Portugal começa por Claudia Loba, 
do Porto, e acaba por Anna da Conceição, de Lisboa. 
Com varias donas e santas, ademais de Lisboa e 
Porto, são contempladas no transcurso de suas 
laudas, das terras de Portugal, algumas além de 
uma vez, as seguintes: Bragança, Águeda, Lamego, 
Braga, Alemquer, Villa-Viçosa, Setúbal, Coimbra, 
Almoster, Villa do Conde, Évora, Aveiro, Campo- 
Maior, Villalonga, Ilha Terceira, Elvas, Coz, Santa- 
rém, Thomar, Sines, Tourega, Lamas, Guimarães, 
Arouca, Alcacer-do-Sal, Batalha, Lorvão, Torres- 
Novas, Estremoz, Beja, Goa, Ilha de S. Mi- 
guel, Almada, Cabo de Gué, Linhares, Guarda, 
Feira, Castanheira, Vizeu, Vianna, Trancoso, Ama- 
rante, Basto, Ourem, Arrayolos, Pinhel, Monte- 
mór-o-Velho. Designa Entre Douro-e-Minho ; mette 
Merida, porque «Merida foi cabeça da nossa antiga 
Lusitânia», e inclue Tanger, porque fosse ainda do 
Portugal nosso moderno. 

No Catalogo dos livros faros, manuscriptos e 
impressos, que compunliam a bibliotheca de sir £*** 
e que hão-de ser vendidos em leilão no domingo 10 
de novembro de 1867, e 10 dias seguintes, das 12 ás 
4 horas da tarde, rua da Conceição \ jy (d praça das 
Flores), em a pag. 4, sob o n.° 31, marca-se, com 
effeito, uma edição do Jardim de Portugal, com 
variantes no titulo, de Lisboa em 1625, como rara. 
Singularissimo devia ser o exemplar, decerto. Único. 
Porque, decerto, a explicação do enigma topa-se 
logo na noticia que diz: «Tem 3 folhas remendadas 



368 PORTUENSES ILLUSTKES 

na margem, sem offensa do texto. » No immediato 
n.° 32 vem a edição conhecida, -de Coimbra, em 
1626. A do n.° 31 deveria ter a folha do rosto feita 
á mão e ser, afinal, a mesma do n.° 32. 

Mas, se a leitura d'estes nossos portuenses idos 
não a soffreriam, com excepçá) do Jardim dj Por- 
tugal, de fr. Luiz dos Anjos, os portuenses actuaes, 
perdoariam elles seu enfado ao seu ido conterrâneo 
fr. Fernando da Soledade? 



Confessando que grande parte dos minuciosos e 
importantíssimos esclarecimentos do seu artigo a 
que me reporto lhe foram generosamente dados pelo 
snr. dr. Pedro Augusto Ferreira, digníssimo e illus- 
trado abbade que era então de Miragaya, e pelo 
hoje fallecido Tito Augusto Duarte de Noronha, 
esclarecido director que então o era das obras da 
nova alfandega do Porto, Pinho Leal refere que o 
nosso infatigável archeologo Joaquim Possidonio 
Narciso da Silva achara em 1863 no convento de 
Monchique, d'aquella freguezia de Miragaya, uma 
grande lapide de granito, com uma inscripção 
hebraica, perfeitamente conservada. Estava incor- 
porada no revestimento de cantaria, em conveniente 
altura para ser lida, do lado esquerdo de .quem entra 
no pateo, e próximo da hombreira da portão da 
horta. 



XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 369 

O archeologo Silva desejara logo obtel-a para o 
seu querido museu archeologico do Carmo; passa- 
dos annos, fora o mosteiro vendido e o seu com- 
prador generosamente dera a pedra ao que tanto a 
desejava, fazendo ella, pois, entrada, a 3 de feve- 
reiro de 1875, no Carmo, onde poderia vèr-se a 
inscripção, que não está completa, faltando-lhe a 
parte superior e a inferior. 

«E provável — Pinho Leal escreveu — que esta 
pedra viesse para aqui, da esnoga (synagoga) que 
se suppõe, com bons fundamentos, ter existido pró- 
ximo e a E. do mosteiro, onde ainda se chama 
Monte dos Judeus, depois de expulsos os israelitas, 
do seu bairro, á Victoria, como fica dito no logar 
competente. » 

Ao archeologo Silva o hebraisante Joshua E. 
Levy dera, da inscripção hebraica, a traducção se- 
guinte: 

I .° — vSV perguntar, como não foi occultado, edi- 
fício de nomeada dentro de muralhas. 

2. — Elle fazia saber, dizendo, tenho um prote- 
ctor, conhecido entre altos dignitários. 

3. — Para mim um guarda, elle decerto diria, 
eu sou a tua verdadeira e melhor muralha. 

4. — Grande entre os hebreus, entre os prínci- 
pes da tua nação, o mais poderoso elle é. 

5. — Benéfico protector do seu povo, servindo a 
Deus com perfeita fé, edificou um templo ao seu nome, 
de talhado pedernaL 

6.° — Ministro de el-rei, na grandeza o pri- 

VOL I. -i\ 



370 PORTUENSES ILLCSTRES 

meiro c conceituado, c nas audiências reaes seu 
posto tem. 

/.° — Elle é grão rabbino Dotn Jehudá, protector 
e luz da tribu de Jehtidá, a elle compete a suprema 

auctor idade. 

8.° — Por mandado do grão rabbitto, que vira, 
Dom Jehosef Ben Argê (José de Leão), conimissio- 
nado e director da obra. 

Esta é a traducção que a seus assignantes for- 
necia Pinho Leal em 1875. 

Mas em 1709 o portuense fr. Fernando da So- 
ledade, eleito chronista, substituindo em tam labo- 
riosa incumbência ao padre fr. Manuel da Espe- 
.rança, seu patrício, «assim na investigação das 
memorias como na elegância do estylo, em que 
competiu e excedeu (entende-o, não mal, Diogo 
Barbosa Machado, que o diz) a muitos escriptores», 
dera já a interpretação e traducção d'aquelle lettreiro, 
o qual deixara em apposto logar do seu labor, 
«mais por obsequio á curiosidade (elle explica) qucí 
por desempenho da nossa obrigação.» 

Ora, a traducção de 1709 era a seguinte: 

«Esta pedra da lingua santa Hebraica escreveu 
o Levi Rabbino A ardo dos Anjos de Deus, coroa da 
Lei do Deus de Israel dos Hebreus: Palavras de 
Deus, e de todos os Talmudistas em a casa da Syna- 
goga. Quanto ha, tudo dá graças a Deus: Que Deus 
sabe todos' os corações dos homens; e o principio da 
sabedoria é o temor de Deus, porque Deus está no 
ceu c na terra. Faze todo o bem e nada faças mal: 



XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 7 1 

que Deus sabe o caminho dos bens e dos males, c no 
ctitro Mundo se acham os bens e os males.'» 

Quem foi que fez esta traducção? 

Foi um hebreu, convertido á fé christã, chamado 
João Baptista. E relata o nosso portuense fr. Fer- 
nando da Soledade que os curiosos que alcançaram 
essa traducção d'aquelle hebreu, querendo fazer ex- 
periência da sua verdade, fingiram que tinham per- 
dido o traslado e, obrigando-o a copiar outro na sua 
presença, o tirou conforme o primeiro e explicou em 
o nosso idioma da maneira que transcripta queda. 

A secção da Historia Scraphica a que me estou 
reportando occupa-se da origem, augmentos e me- 
morias illustres do mosteiro da Madre de Deus de 
Monchique na cidade do Porto; o cap. xiv tracta 
do sitio e fundadores d'esta casa; e o immediato xv 
«da disposição e planta d'este mosteiro, e noticia 
de um lettreiro hebraico que n'elle existe.» 

Eis seu paragrapho 562, no intróito: 

Depois que sahimos da egreja e caminhamos pelo pateo, 
nos apparece, á mão direita d'elle, gravado na parede do dor- 
mitório antigo, um epitaphio de caracteres hebraicos, abertos 
cm uma pedra, que fora da synagoga, e n'este logar o mandou 
pôr Gil Vaz da Cunha, fundador das casas, servindo junta- 
mente de padieira a uma porta. E posto que esta se tapou, 
quando aquellas se transformaram em mosteiro, reservaram, 
comtudo, sempre esta memoria. Pelos annos adeante, um pre- 
lado, com zelo impertinente, mandou que a cobrissem de cal, 
por tirar a occasiâo a muitos curiosos que vinham examinar 
a sua intelligencia; mas o tempo, ajudado da industria, a poz 
■outra vez patente aos olhos de todos. 



3/2 PORTUENSES ULLUSTRES 

Como esclarecer o caso? 

Krei Fernando da Soledade declara: «Xão es- 
crevemos as lettras hebraicas, por faltarem as for- 
mas d'ellas para a imprensa; mas basta a sua inter- 
pretação, e é a seguinte:» . . . 

Um momento. 

Para communicar ao leitor noticia valiosa, e vem 
a ser que, sob o embaraço da trapalhada que lhe é 
habitual, o nosso christão-velho, antigo miguelista 
militante, emenda vários, e graves, erros do hebrai- 
sante Joshua E. Levy, o qual dissera que a edifi- 
cação do templo judaico em mira se effectuou no 
tempo do dominio dos Philippes em Portugal, pare- 
cendo ignorar que os judeus foram expulsos d'este 
paiz por D. Manuel em 1497. «A dominação phi- 
lippina (observa-lhe Pinho Leal) principiou no ultimo 
quartel do século xvi e terminou no segundo do 
século xvii — 1 580-1640 — e não nos séculos xiv e 
xv, como diz o snr Levy. » 

Corrigindo-o em suas faltas, ao hebraisante do 
museu do Carmo o auctor do Portugal antigo e 
moderno, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de 
Pinho Leal, resume-o. 

« Segundo suppõe — elle informa — o snr. Levy 
(o traductor), foi edificado o templo judaico (syna- 
goga) a que a inscripção se refere, no fim do 
século xv ou principio do xvi, por ordem do rab- 
bino Dom Jehudá, que occupava uma posição muito 
elevada na côrte y a que a inscripção dá o nome de 
Mishné Lamelejy que, na lingua hebraica, significa: 



XII PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 73 

— vice-rei, director de finanças ou intendente geral 
do reino,» 

Não sei se Pinho Leal era forte no hebraico, 
mas o que sei é que elle volve a rabujar em nota. 
Porém deixemol-o. 

Os curiosos estão fervendo. Faça-se-lhes a 
vontade. Não mais delongas. 

Siga o lettreiro, consoante o apresenta o por- 
tuense fr. Fernando da Soledade: 

« Axer aghever assemir loh animim chesur Thora 
a Judea adonai melech jehudim bethinnim beninada- 
mim et amed gadol jikudim gado/ ha hamos ghevir 
lamelech Israel Bar a Elorin dibar sehuda ghedolim 
berossohhuchem hechol mispar huekanim bexorim Ke- 
xirmod mehumim behudomim kahem lamedeinoh 
vehenem bessurim Jiattem Eloim brahomim mispar 
Kados kassem belim Kaelim sehem Kexorin vaa mal* 
gaim lesum acodes bacleem amayo.» 

Vá de decifrar. 

Contra as aborrecidas noites de inverno, eis ahi 
um entretenimento agradável, para as passar diver- 
tidamente, leve o tempo, com satisfação e gosto. 
Charadas e logogriphos? Qual quê! Vá de decifrar. 

Pois que não perdure entre os portuguezes de 
hoje o ódio ao judeu do portuguez de hontem. 
Assim, o portuense aryá christão- velho curiosidade 
haja do semita Manuel Aboab e do christão-novo 
Uriel da Costa, ambos seus conterrâneos. 



374 PORTUENSES IL LUSTRES 



Está sempre Innocencio a testilhar, até por 
futilidades e involuntariedades, como erros typo- 
graphicos extremes, com o douto Barbosa; e, de 
indole suspicaz, proclama, peremptório, que, «como 
não declara o formato, nem quem fosse o impres- 
sor» da obra que registra, «c evidente que o mesmo 
Barbosa não a viu», a essa Monologia, ou discursos 
legaes, impressa em Amsterdam e escripta pelo 
judeu portuguez Manuel Aboab <que dizem ter 
sido natural da cidade do Porto. » 

Quem o diz é, de facto, Barbosa, ensinando 
determinativamente em sua Bibliotheca Lusitana 
que «Manoel Aboab nasceu na rua de S. Miguel 
da cidade do Porto. » Ora, esta miudeza mostra 
que elle não escrevera tal « somente fundado em 
informações que alguém lhe subministrara», antes 
tal qual noticia da obra em referencia possuía. Muito 
mais para estranhar resulta em Innocencio que elle 
se abastasse com <o extremo laconismo» da indi- 
cação do abbade de Sever, que para o seu Dicio- 
nário Bibliogi aphico transcreve « tal qual a traz 
Barbosa na BibL » , não deixando « logar para se 
conhecer se ella foi, ou não, escripta na lingua 
portugueza. » Quando no tom. m das Memorias de 
litteratura portugueza, publicadas pela Academia Real 
das Sciencias, de Lisboa, a Innocencio se depararia 



XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — A BOAB — COSTA 375 

completador informe, que alli, a pag. 332-333, se 
encontra pelo portuense António Ribeiro dos San- 
tos consignado desde 1792, data da publicação do 
referido tomo. E logo corrigiria o erro contido no ti- 
tulo, pois «na Bibliotheca Lusitana de Barbosa, por 
equivocação dos copistas, se escreveu Monologia 
em logar de Nomologia. » 

No Supplemento, continuação do encetado já 
por Innocencio, o snr. Brito Aranha assignala a 
existência na bibliotheca nacional de Évora de um 
exemplar da segunda edição da obra, em iingua 
castelhana, escripta pelo portuense Manuel Aboab. 

Portuense, com effeito; e, na verdade, na rua 
de S. Miguel d' esta cidade do Porto nascido, não 
tem duvida de maior, ao que parece, claramente. 

O cap. xxvu da Segunda parte da Nomologia 
começa tractando (pag. 321 e seg. da ?. a edição), 
de «alguns excellentes sábios, discípulos do Rabi 
Ishac Aboab» e abre assim: 

Foi venturoso o bemaventurado e mui excellente senhor 
Rabi Ishac Aboab em passar a melhor vida antes de vêr em 
Portugal as desventuras e lastimosos successos que acima 
contamos («o desterro dos judeus dos reinos de Castella no 
anno de cinco mil e duzentos e cincoenta e dois e o de Portu- 
gal, que succedeu de alli a seis annos, etc. »; cap. xxvi.). 
E deve saber o curioso leitor que em Castella foi muito 
estimado este senhor dos reis Fernando e Isabel ; e, logo que 
no fim de março do anno de mil quatrocentos e noventa e dois 
fizeram em Granada a pragmática alludida contra os judeus, 
se foi o venerável sábio, com outras trinta casas de nobres 
israelitas, a Portugal, a concertar com o rei, que era então Joào, 



376 PORTUENSES ITXUSTRES 

segundo cTaquelle nome. a quem succedeu Manuel. Foram bem 
recebidos do rei, e accordaram que pudessem entrar no reino 
seiscentas casas de judeus, com pagar-lhe oito escudos de 
ouro cada um (como escreve Osório, ainda que Usque diga 
tam só dois escudos), e que* ao cabo de seis annos mandaria 
dar navios accommodados e por preços moderados, para pode- 
rem sahir de seus reinos, para as partes de Africa ou Levante, 
como melhor quizessem. A estas trinta famílias mandou o rei 
accommodar na cidade de o Porto; e fez que a cidade desse a 
cada uma d'ellas uma casa, como deram, mui commodas, na 
rua que chamam de S. Miguel; e no meio de todas ellas estava 
a Synagoga, que eu me recordo haver visto ainda em minha 
meninice sem estar desmoronada. Tinham as ditas trinta casas 
por suas armas um P, que mostrava o nome da cidade. Paga- 
vam de pensão cincoenta reis ou maravedis cada uma á cidade, 
e ella fazia-lhes empedrar a rua: uma d' estas trinta casas 
era a de meu avô o senhor Abraham Aboab que o Se?i1ior 
perdoe. 

Refere-se seguidamente Manuel Aboab ao tre- 
mendo caso do envio, por Dom João n ordenado, 
dos moços que foram judeus para a ilha de S. 
Thomé, coisa lúgubre que destaca no summario do 
Dialogo m do livro de Samuel Usque, mercê das 
simples linhas inquietadoramente trágicas: Quando 
mandaram os meninos dos judeus á ilha dos Lagar- 
tos em Portugal. 

Prosegue narrando Manuel Aboab: 

Succedeu então aquella crueldade enormíssima de mandar 
o rei Dom João levar muitos dos meninos dos hebreus ás ilhas 
que chamam dos Lagartos, e isso por causa de haver passado 
a Portugal mais numero de gente das seiscentas casas capi- 
tuladas. A todos quantos foram a mais, condemnou o rei e os 



XII PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 377 

tomou por seus escravos, e aos filhos innocentes os mandou 
levar para as ditas Ilhas dos Lagartos. Antes de vêr este las- 
timoso espectáculo e os outros que lhe sucederam nos annos 
seguintes, passou a gosar a vida eterna o bemdito Rab; c 
entendo que está sepultado na cida ic de o Porto. 

Manuel Aboab encerra este seu cap. xvu com 
as deducções moraes, severas e consoladoras, que 
promanam do teor dos factos. Assim remata: 

Não somente mostra o Senhor Bemdito a sua infinita mi- 
sericórdia com nós-outros, em compadecer-se de nós e ampa- 
rar-nos e pôr no coração dos príncipes da terra que nos reco- 
lham e favoreçam, como havemos dito; mas também mostra 
patentemente a conta em que a nós-outros (ainda que indi- 
gnos) nos tem, com castigar severamente aos que sem razão 
nos perseguem. E muitas vezes ouvi dizer a meu senhor Ishac 
Aboab que esteja em gloria: Olhai, filhos, as provas tam evi- 
dentes da divina providencia: que o rei Dom João n, que tam 
sem razão apartou os innocentes filhos do amoroso conspecto 
de seus paes e os mandou levar para as Ilhas dos Lagartos, 
permittiu o Senhor que seu único filho Dom Affonso, correndo 
um cavallo em Santarém, Osse d'elle arrastado e morresse 
desastradamente, ficando o pae sem filho; c depois morreu 
elle no melhor de seus dias, e não sem suspeita de veneno, 
ficando o reino a Dom Manuel, seu cunhado, a quem não 
pouco aborrecia ; e dizem que, quando morreu, gritava n'aquelle 
ultimo transe, dizendo: Tirem-me d' aqui estas crea?iças. A 
Dom Manuel, c seu filho Dom João m, que nos perseguiram 
consoante acima* dissemos, permittiu o Senhor que, á quarta 
geração, viesse quasi toda a nobreza de Portugal e o seu rei 
Dom Sebastião a Africa, para serem destruídos e captivados 
no mesmo logar onde seus avós, indigna e cruelmente, manda- 
ram desembarcar os affligidos israelitas. Alli acabou a flor de 
Portugal, e os que restaram foram levados a Fez, onde os ven- 



3 "8 PORTUENSE* ILLUáTRKS 

Jeram, a pregão de leiloeiro, nas praças onde habitavam os 
judeus successores dos innocentes perseguidos; que quiz o Se- 
nhor mostrar-lhes essa vingança. E me contava o sábio David 
Pa vou, domiciliário de Alcaçarquivir, e discípulo do Rab Ge- 
ri udá Aboab, acima nomeado, que não tinham maior conso- 
lado aquelles miseráveis do que serem vendidos por escravos 
aos judeus, conhecendo sua natural piedade. Seja para sempre 
louvado o Senhor Deus de Israel, que nunca desamparou nem 
desamparará ao seu povo. 



X'estes novos desterros da sua proscripta gente, 
peregrinou Manuel Aboab; no cap. xvm da segunda 
p.irte da sua Xomologia annuncia para o capitulo 
sjguinte, em forma de dialogo, um arrazoamento 
que teve em Ferrara com um clérigo mui visto e 
douto, deão d'aquella cidade; e no cap. y traz o 
pequeno discurso com que respondera a uma carta 
que lhe enviara Horácio do Monte, sobrinho do du- 
que de Urbino e de João Baptista do Monte, que 
foi general da gente de guerra da Republica Vene- 
ziana, quando, em companhia do general Pascua- 
ligo, veio á cidade de Corfu. 

Sua actividade mental foi, porém, incessante. Na 
Xomologia aponta vários planos de litteraria compo- 
sição em idéa, e este trabalho effectuado compre- 
hende varia e ampla licção. A Manuel Aboab, seu 
auetor, «este livro lhe grangeou distincto nome e 
estimação entre judeus e christãos, que o houveram 
por uma obra muito erudita, a qual citam a cada 
passo os que n'estes últimos tempos (os de António 
Ribeiro dos Santos, que em termos assim o vae 



XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE - - ABOAB — COSTA 3 79 

exarando) teem escripto das tradições da egreja ju- 
daica. » «Taes são, entre outros, R. ísaac Cardoso, 
nas Excellencias dos judeus] Wolfio, na Bibliotheca 
Hebraica, que confessa haver-se servido muito 
d'elle; e Rossi, na Và expectação dos judeus > e em 
outras obras. » A de Aboab era já rara. Castro vira 
dous exemplares : um na Real Bibliotheca de Madrid ; 
outro na dos B. P. Mercenários d'aquella corte. 

Em Portugal, da segunda edição, sabe-se da 
existência em Évora de um exemplar, conforme do 
Supplemento citado do primitivo texto de Innocencio. 






Eis agora um portuense que, ajuízo do bracha- 
rense padre Agostinho Rebello da Costa, a nós- 
outros, portuenses, nos não honra. « IVelle faliam 
(escreve, horrorisado) muitos auetores dos diccio- 
narios geographicos, apontando esta cidade do 
Porto por sua pátria, mas sem advertirem que ella 
expulsou de si este monstro, do qual se confessa 
madrasta e não mãe. Parecia justo (commenta, 
circumspecto) que entre as brilhantes luzes de tan- 
tos astros de sabedoria quantos ella produziu, e 
produzirá, passasse correndo esta escura nuvem e 
lhes realçasse d 'esta sorte os seus vivos resplendo- 
res. » Porque tudo isto ? 

E mais comedido no expressar e no sentir o 



380 PORTUENSES ILLUSTRES 

doutíssimo abbade de Sever, no bispado do Porto; 
sem embargo da epocha crepuscular, sua noticia, 
apezar de tudo, se denuncia tocada de certa piedosa 
tristeza, perante uma catastrophe moral, pungente 
como raras. 

Elle nos informa de que Gabriel da Costa foi 
natural da cidade do Porto e filho de pães nobres 
e catholicos, posto que descendentes da nação 
judaica: Jorge Gomes e Ignez Alvares se chama- 
vam elles, que o educaram com aquelles docu- 
mentos e artes dignas de um mancebo bem nas- 
cido, sendo muito dextro no manejo dos cavallos, 
em que imitou a seu pae, que n'este exercício foi 
perfeitíssimo. 

Para cultivar o engenho, que era muito perspi- 
caz, elegeu, entre todas as Faculdades, a jurispru- 
dência cesárea, em que fez grandes progressos, 
pelos quaes mereceu, quando contava vinte e cinco 
annos de edade, obter a dignidade ecclesiastica de 
thesoureiro mór em uma collegiada d'este reino. 

« Temeroso da condemnação eterna e soilicito 
da salvação, revolvia com incansável disvelo vários 
livros ascéticos e outros de theologia morai; e, da 
sua licção, começou a duvidar como poderiam ser 
perdoados os peccados na confissão sacramental, 
do que concebeu tal afflicção e perplexidade no 
animo que, fluctuando entre a eleição da Lei que 
havia de seguir, apostatou da cathoiica em que fora 
educado e abraçou a Moysaica. » 

N'esta crise subjectiva, sem participar a pessoa 



XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABO.VD — COSTA 38 1 

alguma o seu intento, renunciado o beneficio e dei- 
xadas as casas nobres que seu pae edificara no 
Porto, fugiu clandestinamente, com sua mãe c 
irmãos, para Amsterdam, onde se circumcidou, 
mudando o nome de Gabriel em Uriel. 

« Depois de examinar, com grande reflexão, que 
a Lei que os judeus observavam n'aquella cidade 
era muito differente da que promulgara Moysés, 
julgando por horrendo absurdo esta transgressão, 
escreveu um livro em que mostrava claramente, 
pelos fundamentos da mesma Lei, como lhe eram 
totalmente oppostas e repugnantes as tradições dos 
phariseus. » 

DMsto se originou um tam furioso ódio dos 
judeus contra sua pessoa, principalmente por negar 
a immortalidade da alma, que lhe chamavam publi- 
camente hereje e era apedrejado nas ruas, todas as 
vezes que apparecia! Não foram bastantes tam 
grandes opprobrios para que, resolutamente, sahisse 
com um tractado em que sustentava a sua opinião 
de não ser a alma immortal, motivo por que foi 
delatado pelos judeus aos magistrados de Amster- 
dam, accusando-o de offender egualmente a lei de 
Moysés como de arruinar os fundamentos da reli- 
gião christã, do que lhe resultou, depois de estar 
preso dezoito dias, ser condemnado em trezentos 
florins, com perda de todos os livros. 

A marcha mental de Uriel da Costa seguia, no 
entretanto, oriunda d\im vicio .lógico, aliás seus de- 
ductivos tramites; e elle «começou a affirmar que 



382 PORTCEXSES ILLUSTRES 

a Lei de Moysés não fora dada por Deus, mas era 
um invento humano, por conter muitos preceitos 
repugnantes á lei da natureza, e não podia Deus, 
como auctor da mesma natureza, ser contrario a si 
mesmo, e certamente o seria, se propuzesse aos 
homens preceitos que se não podiam observar. » 

Sendo accusado, por um seu sobrinho^ de ser 
infiel aos rabbinos, concitou contra si a cólera dos 
sequazes da synagoga, com tal excesso que, tumul- 
tuariamente, o levaram á presença dos juizes; e, 
sendo examinado escrupulosamente das suas pro- 
posições, o condemnaram a que, despido até á cin- 
tura e descalço, dentro da synagoga, fosse açou- 
tado, recebendo trinta e nove açoutes, não chegando 
ao numero de quarenta, por ser prohibido pela Lei. 

Estimulado d'esta publica injuria, resolveu vin- 
gar-se de quem fora o seu principal auctor, dispa- 
rando contra o tal um bacamarte; como quer que 
errasse o tiro e fosse conhecido, com a mesma 
arma se privou da vida, no mez de abril de 1640, 
conforme escreve um, ou no anno de 1647, con- 
soante querem outros. 

D'entre suas composições, obra é consideranda 
aquella que foi achada entre os manuscriptos de 
Simão Episcopio e que publicou o celebre Philippe 
Limborch. N'ella expende alguns argumentos dis- 
postos em ordem a impugnar toda a revelação di- 
vina e toda a religião revelada, como fabricada pela 
malícia humana, explanando muitas proposições 
contra o christianismo de que apostatara. N'essas 



XII — PRAZERES — ANJOS — SOLEDADE — ABOAB — COSTA 3 83 

laudas ásperas, por isso que são um transumpto 
psychologico, elle narra os trágicos successos da 
sua vida e faz uma acérrima invectiva contra os ju- 
deus, de quem se queixa fora tyrannamente offen- 
dido. 

Ainda mais modernisado, o portuense António 
Ribeiro dos Santos, doutor de Direito Canónico pela 
Universidade de Coimbra, em um dos tomos das me- 
morias de litteratura portugueza publicadas pela 
Academia Real das Sciencias de Lisboa, explica-nos 
que a obra de Uriel da Costa (Exame das tradições 
pliarisaicas conferidas como a Lei Escripta) «seria 
racional, se não passasse ao desbarato de se decla- 
rar seguidor das doutrinas dos Sadduceos, negando 
a immortalidade da alma e a existência da outra 
vida, fundando-se para isto, principalmente, no si- 
lencio de Moysés, que nenhuma menção fizera 
d'este dogma nem propuzera outras recompensas 
da virtude nem outras penas do vicio que as tem- 
poraes. » Se bem que Wolfio, em sua Bibiiotkeca 
Hebr., a Uriel da Costa o mettesse entre os atheus, 
Ribeiro dos Santos restabelece a posição philoso- 
phica, definindo-a pela situação moral. De Uriel da 
Costa escreve que, «ferido dos graves males com 
que havia sido maltractado dos judeus, e arrebatado 
de uma falsa philosophia e de um espirito de incons- 
tância que lhe era próprio, se foi deslizando em per- 
niciosas opiniões e doutrinas, cahindo, de sophisma 
em sophisma e de erro em erro, até chegar a preci- 
pitar-se no deismo. » 



384 PORTUENSES ILLUSTRES 

Pobre Uriel da Costa! Alma independente, ator- 
mentada e affligida, como poderiam sequer vislum- 
brar entendel-a espíritos hirtos, adstrictos a uma 
disciplina inhibitoria ? ! Como lograriam esses tantos 
e taes discriminar-lhe a religiosidade profunda?! 
Como o alcançariam ainda aquelles mesmos que 
aliás o confessaram <: temeroso d^. condemnação 
eterna e sollicito da saivação » ? ! 

Mas é terrível esta ^historia de consciência», 
desde a fuga do meditativo, com sua mãe e seus 
irmãos, até á accusaçào que d'elie faz seu próprio 
sobrinho. . . 

Oh, nos tempos fanáticos, a sinceridade da fero- 
cidade! Oh o inquietador pezadume discriminando 
de que houvesse havido d'estes destinos. . . 



XIII 



Nicolau Monteiro— Balthazar Guedes 



P, 



or esse tempo, recuperava Portugal a per- 
dida autonomia e, como esse notável Manuel 
Fernandes Villa-Real, tam hediondamente aqui re- 
compensado, não prestaram, cá-dentro e lá-fóra, 
escassos serviços á nova dynastia os christãos- 
novos, na corte nacional e nas extranhas cortes. 

A sua outrosim, um notável portuense, christão- 
velho, Nicolau Monteiro, outrosim concorreu, mas 
com nenhum êxito. 

Bispo do Porto, tomando posse em abril de 
167 1, natural d'esta cidade, onde viu a luz em 
1581, doutor em cânones pela Universidade de 
Coimbra, n'ella cónego, provisor e vigário geral, 
mestre-eschola da collegiada de Barcellos, dom prior 
de Cedofeita, embaixador de D. João iy ao summo 
pontífice Urbano vm, aio do principe D. Theodosio 
e dos infantes seus irmãos, D. Affonso e D. Pedro, 

\OL. I. -i^ 



386 PORTUENSES ILLUSTRES 

que foram reis de Portugal, conselheiro de Estado, 
confessor da rainha D. Luiza de Gusmão, bispo 
eleito de Portalegre, da Guarda e do Porto, «cuja 
egreja (escreve penhoradamente o bracharense des- 
criptor da nossa terra) quiz felicitar com a sua 
assistência, rejeitando por esta causa o arcebispado 
de Braga e preferindo d'este modo o bem das ove- 
lhas entre as quaes nasceu do que as extranhas, 
cujas inclinações ignorava.» 

O mesmo presbytero, doutor em theologia e 
cavalleiro professo na Ordem de Christo, nos conta 
como D. Nicolau Monteiro fallou muitas vezes ao 
papa e affirma que o movera com as suas efficacis- 
simas rasões e muito mais. com o mavioso livro que 
compoz, intitulado Vox turturis, a convencer-se da 
justiça de Portugal contra Castella. Tanto que o 
embaixador d^quelle reino, enfurecido d'esta prefe- 
rencia, mandara disparar-lhe dous tiros de baca- 
marte, mas a Providencia o preservou e só cahiu 
morto o cocheiro; d'onde se infere que cocheiros é 
ralé que não conta para a Providencia, a alvitre 
inconsciente do bom Agostinho Rebello da Costa. 

E, todavia, este cocheiro é merecedor não só do 
humano respeito, a todos devido, como ainda da 
deferente admiração a que teem jus os humanos 
valorosos e dedicados. Na verdade. Foi assim: 

Os negócios de Roma caminhavam infelizmente, 
a juizo do conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes; 
com effeito, quanto mais corria o tempo a favor 
dos castelhanos, tanto mais caducavam as resolu- 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 387 

ções que podiam ser úteis a Portugal. O embaixa- 
dor de Castella que assistia iVaquella corte não se 
satisfazia só com esta vantagem, entendendo (en- 
tende D. Luiz de Menezes) que as espadas caste- 
lhanas poderiam — cortando os peitos portuguezes 
— conseguir em Roma, por mais livres, o que não 
alcançavam na fronteira de Portugal, por menos 
activas. 

Sem mais causa, julga-o, que esta paixão des- 
ordenada, sahindo da egreja de Nossa Senhora do 
Populo o prior de Cedofeita Nicolau Monteiro, que 
assistia em Roma aos negócios de Portugal, e ha- 
vendo entrado em um coche, domingo da Paixão, 
o investiu uma turba de castelhanos e napolitanos 
e, como quer que dessem uma descarga de pisto- 
las, lhe mataram um dos cavallos da carruagem. 

Lançou-se d'eila fora o prior, e com elle um 
pagem seu, já tam mal ferido que cahiu morto. 
Ora, viu o cocheiro o perigo do prior e que fez? 
Relata-o d'est'arte D. Luiz de Menezes: 

Não só o defendeu com a espada na mão, senão que, co- 
nhecendo que não bastava para o livrar da morte, deliberou 
fazer-lhe escudo da própria pessoa; e, recebendo n'ella todos 
os golpes que os contrários tiravam, á custa de muitas feridas 
deu tempo ao prior a se recolher em uma casa, livre do perigo, 
em que perecera, a não ser resguardado de auxilio superior. 

Para o conde da Ericeira, claro estava que o do 
cocheiro era inferior. 

Ponto é que acudiram então alguns portuguezes 



388 PORTUENSES ILLUSTRES 

e italianos á casa em que Nicolau Monteiro se havia 
recolhido; levaram-o ao seu aposento, e alguns lhe 
aconselharam a que se sahisse de Roma, o que elle, 
porém, não quiz fazer, dizendo que a justiça do 
summo pontífice era tam egual que o segurava de 
segundo encontro. 

De facto, providencias se tomaram, mandando 
o papa que em termo de três horas sahisse dê 
Roma o conde de Sirvela, embaixador do rei catho- 
lico, e ordenando juntamente o príncipe Ludovisio 
que se puzessem editaes em que dava por bandidos 
todos os aggressores e promettia grandes prémios 
aos que apresentassem as suas cabeças. 

Logo o conde da Ericeira remedeia: 

Porém este favor (sic) do Summo Pontífice não se estendia 
a mais que a pretender que conservasse o seu respeito ; porque, 
tractando-se no mesmo tempo em Consistório da nomeação dos 
prelados das egrejas de Portugal, que tanto necessitavam de 
pastores, resolveu que a nomeação fosse de motu próprio; e só 
dispensaria em eleger os sujeitos que el-rei apontasse, e da 
mesma sorte as pensões que se puzessem nas egrejas se da- 
riam ás pessoas que el-rei quizesse, mas sem se expressar que 
se concediam a sua instancia. 

Não entendeu Nicolau Monteiro ter logar de 
admittir esta proposta; antes, vendo o mau suc- 
cesso d'aquelles negócios, sahiu de Roma, no 
intento de se encontrar com o duque de Parma; 
porém, chegando a Modena, soube que aquelle era 
partido a Veneza, para onde lhe mandou aviso; 
mas o duque escusou-se da visita. 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 389 

Voltou, pois, Nicolau Monteiro a Roma; e, 
logo que chegou, soube que os castelhanos haviam 
mandado vir de Nápoles um faccinoroso, chamado 
Júlio Pazalla, com gente, para o prenderem e leva- 
rem a Nápoles. 

Commenta D. Luiz de Menezes : 

Tal era o poder dos castelhanos em Roma que emenda- 
vam um excesso com outro excesso. 

Certo é que communicou esta matéria o prior 
de Cedofeita ao senhor de Gramonville, embaixador 
de França, o qual, com grande attenção, lhe pro- 
curou promptamente todos os meios de segurança e 
defensa. Conseguiu a audiência do summo pontífice ; 
mas, depois de uma conferencia muito larga, não 
alcançou outra resolução mais que dizer-lhe o papa 
que, quando as duas coroas se ajustassem, toma- 
riam forma as duvidas que se offereciam dos negó- 
cios de Portugal. Longínquo demora este lanço do 
das efficacissimas rasões, aqui e alli expendidas, 
com que Nicolau Monteiro, segundo o texto caute- 
loso do cândido padre humilde, convencera o poli- 
tico sacerdote magno. 

Quer dizer que não foi Nicolau Monteiro mais 
feliz do que o fora, representando D. João iv em 
Roma, o bispo de Lamego, D. Miguel de Portugal, 
enviado á corte pontifícia, de companhia levando, 
com o caracter de agente dos negócios de Portugal 
junto da cúria, a Pantaleão Rodrigues Pacha<^<à&- 



390 PORTUENSES ILLUSTRES 

rigo secular, doutor em cânones, cónego doutoral 
da Sé de Coimbra e depois da de Lisboa, ultima- 
mente bispo eleito de Elvas, para do summo pontí- 
fice sollicitarem o reconhecimento do novo moriar- 
cha, bem como a confirmação dos bispos por,elle 
nomeados. Escrevera Pantaleão Rodrigues Pacheco 
um Manifesto do reino de Portugal, apresentado á 
Santidade de Urbano vm, sobre o direito com que 
D. João iv possue seus reinos e senhorios de Portu- 
gal, opúsculo que sahiu na lingua italiana, e tam- 
bém vertido na portugueza, ao que parece, por 
diversa penna, em Lisboa, em 1643. 

A Bibliotheca Lusitana colloca sob o nome do 
nosso insigne compatrício outro opúsculo que 
também em Lisboa mas em 1645 appareceu com o 
titulo de Relação das verdadeiras rasões do estado 
ecclesiastico d' este reino de Portugal, feita em Roma 
no principio do anno corrente pelo dr. Nicolau Mon- 
teiro, superabundante ás que alli Jiaviam feito pelo 
mesmo reino no anno de 1642 os bispos de Lamego e 
eleito de Elvas; copiada e traduzida do italiano etc. 
Parece a Innocencio, porém, que o original italiano, 
que não consta se imprimisse, fora, com effeito, 
composto por D. Nicolau Monteiro, enviado por 
esse tempo á cúria romana, para alli promover o 
reconhecimento de D. João iv e da independência 
de Portugal contra as pretenções de Castella; mas 
a traducção em portuguez, addita Innocencio que 
é de Gaspar Clemente Botelho, e como tal assim 
mencionada fora em seu Diccionario. Não ha du- 



XIII — NICOLAU MONTEIRO BALTHAZAR GUEDES 3Ç)I 

vida; mas com tal qual discrepância no menciona- 
mento. 

Uma traducção outrosim a redigiu, por sua 
parte, D. Nicolau Monteiro; e foi a que os nossos 
bibliographos lhe attribuem do livro que, sahindo 
primeiro em latim, com o titulo Balatus ovium 
(depois em portuguez com o de Balidos das igrejas 
de Portugal ao supremo pastor Summo Pontífice 
Romano, etc.) y é anonymo, tanto na traducção como 
no original, e acerca do qual ha discordância, sup- 
pondo uns que seja d'aquelle Pantaleão Rodrigues 
Pacheco e outros que pertença á lavra de D. Sebas- 
tião César de Menezes. 

, Esses tomos são d'uma extrema raridade; e da 
sua importância se afere desde que se saiba do 
grande louvor que o famoso Grégoire (no Essai 
historique sur les libertes de VEglise Gallicane et 
d:s autres liglises de la Catholicité) tributou a esta 
obra à jamais célebre. 

Offertada a Innocencio x, n'ella ao pastor as 
ovelhas clamam com intimativa convicção : « A 
força d'estas nossas rasões não foi, por certo, des- 
conhecida de Sua Santidade, antes tam alcançada 
(assim lh'o rememoram) que, n'aquella primeira 
junta que, sobre a accei tacão de nossos embaixa- 
dores, mandou celebrar o summo pontífice Ur- 
bano viu, de boa memoria, em que Sua Santidade 
teve o grande logar que sua dignidade, virtude e 
letras mereciam, foi de parecer o Eminentissimo 
Pamphilio (agora Innocencio x) que, passados qua- 



3Ç2 PORTUENSES ILLUSTkES 

tro annos de posse, se admittissem os legados de 
Sua Magestade. » (A pag. 62). 

Nicolau Monteiro, varão de exemplar caridade, 

* 

para mendigos, fiospitaes e presos, morreu na pro- 
vecta edade de 91 annos; praxe rica: o seu retrato 
expòl-o ao publico todos os annos no dia 2 de 
julho, pelos irmãos da Misericórdia; á qual benifi- 
ciou com valiosa dadiva para a convalescença dos 
doentes. 



Ora, como quer que o portuense Balthazar Gue- 
des, fundador do Collegio dos Orphãos d'esta ci- 
dade, tivesse, consoante nol-o transmitte o chronista 
da Ordem de S. Francisco na Província de Portu- 
gal, bòa noticia da arte de architectura e por isso 
o consultassem para obras, especialmente de tem- 
plos, por sua conta correu a administração da 
egreja de S. Nicolau, quando outro portuense a 
erigiu, o bispo D. Nicolau Monteiro. Também o 
Senado da cidade buscava o seu voto para as 
obras publicas, de modo que á sua traça e cuidado 
deve ella a formosa e magnifica (assim lhe chama, 
não se diga descabidamente) fonte da Arca, e os 
conductos de outras, que encaminhou depois de 
estarem perdidos. 

Assim, não admirará a iniciativa na feitura da 
habitação para os orphãos seus protegidos, apezar 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 393 

de que lhe lançaram por terra a primeira casa que 
levantou, chamando-lhe nomes affrontosos, atiran- 
do-lhe pedras; mas, firme, sem dizer palavra, elle 
proseguiu no seu intento. 

Note-se que inimiga do padre Balthazar Guedes 
não era, tam só,' agente vil; não era esta, tam só, 
a que « o demónio tomava para impedir uma obra 
de tanta utilidade. » Porquanto, vendo Satanaz « que 
por este caminho não conseguia o seu propósito, 
suggeriu a algumas pessoas ecclesiasticas, as quaes, 
julgando mal d'esta fundação, lhe davam diversos 
títulos, tendo-o por hypocrita, ambicioso e mos- 
trando que para conveniências próprias havia exco- 
gitado similhante industria.» Taes entristecidas pa- 
lavras escreve fr. Fernando da Soledade, o qual 
addita que «cresceu muito esta tormenta pela 
auctoridade dos sujeitos que a levantaram. » No 
fim, a gente vil do povo portuense fez bem melhor 
justiça ás intenções do sacerdote benemérito, como 
testemunharia o lucto espontâneo que suscitou seu 
imprevisto óbito. Para obter os recursos de que 
carecia em seu compadecido afan, discorreu Baltha- 
zar Guedes, a pé, acompanhado de dous meninos 
orphãos, os arcebispados de Lisboa, Braga e Kvora 
e os bispados de Coimbra, Leiria, Vizeu, Lamego 
e Guarda, larga peregrinação de que colheu muitas 
esmolas, sendo a mais copiosa a que lhe adquiriu 
seu irmão, Pantaleâo da Cruz, que, vivendo retirado 
do humano convívio, passou ao Brasil. Alli (d'esta 
maneira o conta Diogo Barbosa Machado), 



391- PORTUENSES ILLU3TRES 

fazendo-sc perceptível pelas acções, já que não podia com 
as palavras, por ser mudo de nascimento, alcançou da gene- 
rosa piedade de seus habitadores quatorze mil cruzados, que 
remetteu para a fabrica que havia ser o asylo da orphandade. 

Exame da paciência de Balthazaf Guedes foi a 
companhia d'este seu irmão mudo, « cuja condição 
(refere-nol-o fr. Fernando da Soledade) era tam 
áspera como a do servo do Senhor compassiva, 
branda e quieta. » Salvo para com os desattentos 
dentre os numerosos ouvintes que concorriam aliás 
sempre ás suas exhortações, todavia tam frequentes. 

Por estes cáusticos dizeres, fr. Fernando da So- 
ledade o rememora: 

Se notava em alguns pouca attenção aos desenganos, ou 
divisava alguma conversação, na egreja, eram montantes de 
fogo as suas advertências e feria de modo que ninguém se 
atrevia a fallar no templo, por n3o ser reprehendido no pu- 
blico. 

Talvez que nossas avós tagarelleiras o alvo pre- 
ferido fosse das acres admoestações do padre Bal- 
thazar, « o qual, mostrando tam estreita amizade 
com os homens de bòa opinião, fugia notavelmente 
de conversações com mulheres, ainda que fossem 
de conhecida virtude. » O mesmo fr. Fernando da 
Soledade nol-o dá a saber. 

E, todavia, não consta que de mulher soffresse 
o padre Balthazar logro perigoso, consoante o de 
que, por part3 de um homem, foi victima. 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDK3 395 

Continuemos ouvindo fr. Fernando da Soledade, 
agora mais de espaço: 

Chegou á sua presença este perverso, mostrando grandes 
signaes de arrependimento das culpas; e, pedindo-lhe que o 
ouvisse de confissão, com muita promptidão e gosto lhe quiz 
administrar o remédio; mas o sacrílego, dizendo-lhe que era 
muito publico o logar e que com mais desafogo se confessaria 
no seu cubículo, facilmente o levou a elle, aonde o ladrão, pon- 
do-lhe uma faca no peito, com resolução de o matar lhe pediu 
cincoenta mil reis. Deu-lh'os sem repugnância o servo de Deus, 
e o deixou retirar, sem estrondos nem queixas, porque em to- 
das as suas moléstias nunca soube usar de vozes para o 
desafogo. 

Este seu voluntário silencio perante a affronta 
lhe deu ensejo a sustental-o o caso em cujos tra- 
mites encontrou a morte. Porquanto, sahindo a 
tractar do remédio de um pobre e pedindo-o a uma 
pessoa que governava a cidade, n'essa pessoa achou 
tam mau agasalho que, além de não conseguir o 
intento, ouviu liberdades bastantes. «Assim costu- 
mam haver-se (moralisa fr. Fernando da Soledade) 
alguns poderosos, soberbos por sua grande igno- 
rância e nem um conhecimento da própria villeza. » 
Descomposto, Balthazar Guedes com muita humil- 
dade se retirou pelo caminho aonde a morte o es- 
perava e lhe deu o golpe com tanta vehemencia 
que, na opinião de todos, logo ficou defuncto. Ná 
opinião de todos, é phrase intencional; pois que fr. 
Fernando da Soledade vae rematar o seu capitulo 
com um vistoso milagre, d'esses em que é fértil a 



39 6 PORTUENSES ILLU3TRE5 

prosa de nossos antigos (ou crédulos ou engenho- 
sos) auctores. 

O leitor moderno, porém, melhormente dará seu 
voto áquelPoutra passagem em que o chronista nos 
demonstra como ao padre Balthazar Guedes nin- 
guém o buscava que não o achasse prompto para 
o remédio. Andando sempre agenciando o necessá- 
rio para as obras da casa dos orphãos e sustento 
dos moradores d'ella, nem por isso deixava de 
soccorrer aos desgraçados que, de dia e de noite, 
recorriam á sua compaixão. Aos do hospital do 
Amparo ia pessoalmente servir e tractar da sua 
limpeza; e todos os primeiro e terceiro domingos 
do mez lhes dava uma honesta refeição. 

No lanço, por um infinitesimo dos hospitaes, 
antigamente, no Porto digamos. 

Que, sem embargo dos embargos, consoante 
seus matinaes nevoeiros, e apezar dos pezares, con- 
forme suas prolongadas chuvas, não será, todavia, 
excesso de favor o conceder ao Porto, em regra, o 
caracter de salubre; mas, á laia de qualquer outra 
terra, esta no perigo incorre de receber o mal alheio 
por apcgamento, como com respeito á peste a causa 
para Portugal attribuia o portuguez philosopho rei 
D. Duarte, no capitulo especial (54) que, no seu 
livro do Leal Conselheiro, á peste consagrou. 

E d'esta maldita a primeira que Portugal assolou 
foi a terrível de 1354, «nozv commonly knoivn as 
The Black Death », cujos effeitos mortíferos discri- 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 397 

minadamente enumerou, no trabalho especial que 
lhe dedicou, Francis Aidan Gasquet e cuja impressão 
terrorifica nos communica, em moços, a leitura dos 
trechos da Morte-Negra> entre os do pezadello de 
Edgar Poe dos mais acabrunhantes. 

Em nota appensa discute o dr. António da 
Cunha Vieira de Meirelles (Memorias de epidemiolo- 
gia portugueza, Coimbra, 1866) a própria affirma- 
tiva ; e dos Apontamentos sobre Historia de Coimbra> 
de Francisco de Carvalho, manuscripto dos fins do 
século xvni, que Vieiía de Meirelles qualifica de 
«copioso de noticias e não falho de critica*, é de 
inferir o natural corollario de que o Porto poupado 
não seria, na invasão geral de cuja mercê funesta 
resultara ficarem «na província do Minho muitos 
conventos de frades sem ninguém. » 

Eram já fins de 1569 e princípios de 1570 
quando se communicou a além Douro o flagello 
d'aquelia peste desoladora que viu Portugal e' a que 
grande chamavam, pelas innumeraveis victimas que 
ceifou e logares affastados a que estendeu seu 
açoite. 

1 

* 

Só Lisboa perdeu para mais de sessenta mil habitantes, 
e todas as povoações do reino em que ella estalou lamentaram 
a morte de muitos dos seus. 

Mui copiosa e terrivelmente abundante na des- 
trinça das successivas epidemias contaminadoras do 
nosso Portugal é outrosim a deduzida e relatada 
lista que, no segundo tomo de sua Historia da 



398 PORTUENSES ILLUSTRES 

administração publica cm Portugal nos séculos xn 
a x\\ nos fornece o snr. Henrique da Gama Barros. 

Pelo meado de 1481, p. ex., durava ainda o 
contagio em Lisboa e Évora, mas não se estendia 
a todo o Alemtejo, porque Beja e Extremoz não 
estavam então empestados, segundo se deduz da 
narrativa de Ruy de Pina; mas o temível contagio 
havia-o também no Porto, de cujos magistrados 
municipaes se fazia por esse motivo a eleição (Addit. 
á Synopse Chron., pag. 151) no logar de Azurara, 
a 5 de Julho. Mas, definidamente differenciada de 
«peste», discute em analyse medico-historica Vieira 
de Meirelles, em nota appensa a pag. 46, sendo seu 
remate, pag. 234: «Que não fosse aquelle mal 
indica-o a longa duração da epidemia e o não se 
mencionar por então noticia positiva d^lla na Eu- 
ropa. » 

Da peste de 1569 passa Vieira de Meirelles á 
peste de 1579, flagello que parece que só açoitou o 
Porto por 1581, asserto que Vieira de Meirelles 
baseia no nosso bracharense, do Porto descriptor, 
Agostinho Rebello da Costa. 

A de 1598 declarou-se em Lisboa no cofneço 
de Outubro; desolou Sacavém, estendeu-se a Tor- 
res- Vedras, manifestou-se em Cascaes, Leiria, San- 
tarém e Thomar e chegou a Coimbra em Janeiro de 
1570, mettendo-a na cidade os criados d'um desem- 
bargador, por appellido Barriga, que, passando 
n'este tempo de Lisboa para o Porto, se não quiz 
dar por impedido, segundo dom Nicolau de S. Ma- 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 399 

ria; mas o P. António Franco chama-lhe provedor. 
Também o flagello tocou em Aveiro, assolou Villa 
Nova de Gaya e castigou o Porto, apezar de o nosso 
conhecido Agostinho Rebello da Costa affirmar o 
contrario, mui improvave Intente, commenta Vieira 
de Meirelles. 

O snr. Henrique da Gama Barros rememora-o : 

Outra doença terrível, a lepra, que não matava em pouco 
tempo, como a peste, mas inutilisava irremediavelmente para 
sempre o,, individuo a quem feria, assolava a população na 
edade-média em todos os paizes, sobretudo depois das Cruzadas. 

E pasmoso, exclama fr. Joaquim de Santa Rosa 
de Viterbo, o numero das Gafarias que antiga- 
mente havia n'este reino. Chamavam-se também 
Conventos ou Ordens de S. Lazaro, que d'ellas era 
o tutellar, ou patrono, pois egualmente tinha sido 
leproso : 

Foram os nossos maiores grandemente perseguidos d'esta 
ascorosa enfermidade, e por isso multiplicaram tanto estes do- 
micílios da piedade fora das povoações, onde ainda hoje — 
1798 — vemos alguns, ou quasi demolidos ou applicados a 
outros usos. O perigo de infeccionar os sãos os fazia alongar 
dos povos. Cessou quasi de todo esta horrível enfermidade 
depois que o panno de linho e o assucar refrescaram a cútis e 
adoçaram o sangue, e se abandonaram os vestidos de lã ou de 
pelles ao carão da carne. 

E do vocábulo Gafo, os addita: 

Não só se tomava esta palavra pelos que estavam actual- 
mente infeccionados de lepra mas também disseram Gafas os 



400 PORTUENSES ILLUSTRES 

mesmos Leprosorios, Lazaretos e Hospitaes em que os lepro- 
sos se curavam ou residiam. 

Quanto á lepra em si, ella é um mal contagioso, 
originado de uma depravada sanguificação, que 
corrompe o estado natural do corpo, rebelde á cura 
e que, em grão genérico, convém com o gallico. 

Das casas de caritativa cura a enfermos dis- 
pensada dizia o irremediavelmente tantas vezes 
citado Agostinho Rebello da Costa: 

Os hospitaes estabelecidos para abrigo dos pobres e remé- 
dio dos enfermos são — 1789 — os seguintes: o Hospital Real, 
na rua das Flores; o dos Expostos, na rua dos Caldeireiros; o 
dos Entrevados, em Cima-de-Villa; o das Entrevadas t a Santo 
Ildefonso; o dos Lázaros, no Campo de S. Lazaro; o das La- 
zaras, que lhe está immediato; o das Velhas, na rua dos Mer- 
cadores. 

Todos estes, como elle já dissera, pertenciam á 
administração da Santa Casa de Misericórdia. 

Seguem-se, eliminando o dos inglezes, em sua 
enumeração: o de S. Chrispim, na rua do mesmo 
nome; o das Mulheres pobres, na rua da Biquinha; 
o da Senhora da Silva, na Ferraria-de-Cima ; o dos 
Terceiros de S. Francisco, na Ferraria-de-Baixo ; o 
da Senhora da Caridade, para os Irmãos da sua 
Ordem; o dos Clérigos, nas casas da sua Irman- 
dade. « A Ordem Terceira de Nossa Senhora do 
Carmo pretende egualmente fundar um para os 
seus Irmãos pobres e já tem empregado no Campo 
dos Ferradores o preciso terreno. » 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 4OI 

" Propinquamente, especifica com maior meudeza 
o Hospital Real que « entre todos estes tem o pri- 
meiro Jogar»; ainda assim, para evitar mais longa 
descripção, incompatível com os escassos limites 
que diz se propoz, declara não fallar mais que do 
Hospital novo, digno de que elle dê ao publico 
« uma clara noticia da sua grandeza. » 

E, a nosso padre Balthazar Guedes revertendo, 
prosigamos dizendo que, se aos enfermos acudia, 
aos presos assistia com abrazado affecto, não 
só tractando do seu livramento por casas dos mi- 
nistros das justiças mas dando-lhes dinheiro para os 
seus papeis e' mandando fazer camisas para os que 
estavam despidos. E, não satisfeito com a própria 
commiseração, sollicitava a de muitas pessoas, para 
que soccorressem a estes e a outros muitos indiví- 
duos que elle julgava necessitados. Para viuvas, e 
outras mulheres recolhidas e pobres, sem embargo 
do fanatismo da sua pudica misogynia, era admirá- 
vel o zelo com que tractava de as levantar de sua 
penúria. A' sua diligencia deveu a cidade do Porto 
a roda, que se fez para os engeitados, beneficio não 
sem a irrogada pecha de oppostos inconvenientes; 
e os pobres do hospital da Misericórdia lhe merece- 
ram as ampliações dos seus edifícios. 

E' certo que, antes que se fizesse a alludida 
roda, suecediam por aqui casos lastimosos, dan- 
do-se o escândalo de se acharem mortas, pelas ruas, 
muitas creanças; e acontecia outrosim levarem al- 
VOI, I.. ifc 



402 PORTUENSES IL LUSTRES 

gumas á porta d'aquelle seu Collegio dos Orphãos, 
das quaes Balthazar Guedes tractava, buscando-lhes 
amas que as criassem com muito cuidado. 
Frei Fernando da Soledade refere: 

Em certa ocasião não achou quem lhe tractassc de uma; 
e elle mesmo a alimentava, com sustento que suppria a falta de 
leite. Em a própria cella a tinha; c, emquanto trabalhava com. 
as mãos, lhe movia o berço com o pé, afagando-a com hymnos 
e orações devotas que lhe cantava. 

Estas candorosas ingenuidades, nos dias scepti- 
cos e trocistas de hoje são capazes de abrir desça- 
roaveis sorrisos. 

Mas o que não é para sorrisos, antes para o 
respeito consciente avulta, é a instituição mesma 
que á iniciativa e pertinácia do padre Balthazar 
Guedes deve os sólidos fundamentos em que 
assenta. Do Collegio dos Orphãos do Porto teem 
sahido, a não se fallar senão nos seus educandos 
modernamente, homens prestimosos e distinctos 
para as lettras e para as artes, para o commercio e 
para a industria, para o sacerdócio e para as varias 
carreiras liberaes. E 1 um recolhimento eminente- 
mente sympathico e, com integra justiça, constitue 
honroso timbre nas benemerencias verdadeiras d'esta 
terra. 

A seu amado Collegio, o padre Balthazar Gue- 
des o plantou em sitio «que, de si, é muito alegre,, 
e muito mais (encarece o auctor da Historia Sera- 
phicd) com a visinhança de uma alameda de fron- 



% 



XIII — NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 403 

dosos alamos», pois, para a banda do norte, existia 
fora dos muros da cidade, em sitio plano e agra- 
dável, uma pequena ermida, com o titulo de Nossa 
Senhora da Graça. Tanto lhe quiz que, havendo a 
rainha da Grã-Bretanha, nossa infanta D. Catha- 
rina, casada com Carlos n, insinuado ao sacerdote 
portuense a acompanhasse a Inglaterra, elle modes- 
tamente se escusou, como também de ser reitor do 
Collegio dos Orphãos de Lisboa. 

Seu jubilo e vangloria, o punha Balthazar Gue- 
des no tracto e communicação com varões abalisa- 
dos, taes como o padre Bartholomeu do Quental, 
fundador da congregação do Oratório n'este reino. 
Este padre Bartholomeu do Quental, que nasceu 
no logar dos Fenaes, pouco distante da cidade de 
Ponta Delgada, capital da ilha de S. Miguel, diz 
Barbosa Machado que em 22 de agosto de 1626, 
foi uma personagem notável. 

Para a sua biographia, a seu leitor manda Inno- 
cencio que veja a Vida que traduziu o padre Fran- 
cisco José Freire, e Canaes nos Estudos biograpki- 
cos y a pag. 227. Na Bibliotheca Nacional de Lisboa 
existe um retrato seu de meio corpo; e ha-o tam- 
bém de gravura, além de outras, em formato pe- 
queno, que dizem ter sido aberto em Roma por 
diligencia do padre Diogo Curado e do qual tinha 
Innocencio um exemplar. 

O padre Quental é tido, na opinião de bons crí- 
ticos — Innocencio o assignala — como escriptor de 
linguagem mui pura e correcta, porque evitou 



404 PORTUENSES ILLUSRTES 

constantemente nos seus escriptos servir-se de 
vozes ou locuções de alheios idiomas. Estes dotes 
brilham sobretudo nos seus sermões, em que tam- 
bém se lhe admira a elegância e gravidade do 
estylo, mormente nos que recitou como pregador 
da capella real perante os reis e as primeiras per- 
sonagens da corte. Estes Sermões (estampados pri- 
mitivamente por Miguel Deslandes, 1692 e 1694, 
em duas partes, ambas ellas reimpressas na Regia 
Offic. Silviana, 1741, e por Miguel Manescal da 
Costa, em 1763) são algum tanto raros, especial- 
mente os da primeira edição, que é a preferida, 
como publicada pelo próprio auctor. Em rasão da 
variedade que ha de edições, vulgares no mercado 
são do auctor suas Meditações, as das Domingas do 
anno, as da infância de Christo Senhor nosso, da 
encarnação até os trinta annos de sua edadc, as da 
sacratíssima paixão de Christo Senhor nosso e as 
da gloriosa resurreiçâo de Christo. 

D'esse presbytero secular e fundador da congre- 
gação do Oratório em Portugal, a obra que publicou 
o padre Francisco José Freire, mais conhecido pelo 
nome poético de Cândido Lusitano, que adoptou 
na Arcádia, da qual foi um dos primeiros e mais 
conspicuos membros, é a Vida do venerável P. 
Bartholomeu do Quental, escripta na lingua latina 
pelo P. José Catalano, e exposta no idioma por tu- 
guez, que sahiu dos prelos da Offic. de António 
Isidoro da Fonseca, em Lisboa, no anno de 1742. 

No Porto, em o anno de 1896, o portuense snr. 



XIII NICOLAU MONTEIRO — BALTHAZAR GUEDES 405 

Joaquim de Vasconcellos inseriu no livro In Me- 
moriam um estudo, escripto no ultimo mez do ante- 
rior e referente a um retrato notável do padre Bar- 
tholomeu do Quental, que descobrira no paço 
episcopal de Fontello, perto de Vizeu, n'uma das 
arrecadações da capella. 

Bartholomeu do Quental conta-se no conjuncto 
dos ascendentes de Anthero de Quental. 



FIM DO TOMO I 



A 



ÍNDICE 



Pai;. 
Anteloquio V 

[Kxposiçâo] i 

i António Coelho Louzada — AfTonso Eannes Pateiro 

m 

— João Ramalho 9 

II O * Magriço^ 29 

III Francisco de Sá de Menezes — Dom Henrique . . 55 

IV Fernão de Magalhães — João Bermudes — Belchior 

Nunes Barreto — Simão de Vasconcellos — Ra- 
phael da Purificação — João de Queiroz da 

Silveira 93 

V Francisco Bernardo de Lima — Arnaldo Gama . . 139 

VI José Mayne — João Baptista Gomes 199 

VII Vieira Portuense — Silva Porto — João Corrêa — 
Guilherme Corrêa — Ricardo Raymundo No- 
gueira 219 

VIII Luiz de Souza — Thomaz Pinto Brandão — João 
Sucarello Claramonte — António Ribeiro dos 
Santos 249 



índice 408 

Pag. 
IX João Pedro Ribeiro —Bernarda Ferreira de Lacerda 

— Almeida Garrett — Evaristo Basto — António 
Augusto Teixeira de Vasconcellos — Thomaz de 
Carvalho — Gonçalves Basto — Ricardo Guima- 
rães — Passos Manuel 271 

X Thomaz António Gonzaga — Diogo Brandão — Je- 

ronymo de Mendonça — Luiz Pereira Brandão . 297 
XI João Peixoto de Miranda — António de Sousa de 
Macedo — Martinho Lopes de Moraes Alão — 
Frederico Augusto de Vasconcellos Pereira Ca- 
bral — Pedro d' Andrade Caminha — João de Bar- 
ros — Vasco de Lobeira 319 

XII João dos Prazeres — Luiz dos Anjos — Fernando 

da Soledade — Manuel Aboab — Uriel da Costa . 357 

XIII Nicolau Monteiro — Balthazar Guedes 385 



ÍNDICE DO i.° volume 



Anteloquio. 
[Exposição]. 

I António Coelho Louzada — Affbnso Eannes Pateiro — 

João Ramalho. 
II O «Magriço». 

III Francisco de Sá de Menezes — D. Henrique. 

IV Fernão de Magalhães — João Bermudes — Belchior Nunes 

Barreto — Simão de Vasconcellos — Raphael da Puri- 
ficação - - João de Queiroz da Silveira. 
V Francisco Bernardo de Lima — Arnaldo Gama. 
VI José Mayne — João Baptista Gomes. 
VII Vieira Portuense — Silva Porto — João Corrêa — Gui- 
lherme Corrêa — Ricardo Raymundo Nogueira. 
VIII Luiz de Souza — Thomaz Pinto Brandão -João Suca- 
rello Claramonte — António Ribeiro dos Santos. 
IX João Pedro Ribeiro — Bernarda Ferreira de Lacerda — 

— Almeida Garrett — Evaristo Basto — António Au- 
gusto Teixeira de Vasconcellos — Thomaz de Carva- 
lho -Gonçalves Basto — Ricardo Guimarães — Passos 
Manoel. 

X Thomaz António Gonzaga — Diogo Brandão — Jeronymo 

de Mendonça — Luiz Pereira Brandão. 
XI João Peixoto de Miranda — António de Sousa de Macedo 

— Martinho Lopes de Moraes Alão — Frederico Au- 
gusto de Vasconcellos Pereira Cabral — Pedro d\An- 
drade Caminha --João de Barros — Vasco de Lobeira. 

XII João dos Prazeres — Luiz dos Anjos -- Fernando da 

Soledade — Manuel Aboab — Uriel da Costa. 
XIII Nicolau Monteiro — Balthazar Guedes. 



ÍNDICE DO 2? VOLUMIi 



I Manuel Pereira de Novaes — Manuel de Oliveira Ferreira. 
II Agostinho Albano da Silveira Pinto — José Joaquim Ro- 
drigues de Freitas — Agostinho Albano — Urbano Lou- 
reiro — Guilherme Braga — Alexandre Braga. 

III Eduardo Augusto Salgado — Diogo Kopke — José Gomes 

Monteiro. 

IV João de Deus — Eduardo Augusto Allen. 

V António da Costa Porto — Vimarano — Hermenegildo 

Gutterrez — Sesnando Viegas. 
VI Soror Dolores — D. Maria Adelaide Fernandes Prata — 

D. Maria Peregrina de Souza. 
VII « Feudo-tirou » — Argiovito-Constancio. 
VIII José Maria de Sousa Monteiro — António Joaquim de 
Mesquita e Mello — Duarte Lessa— Joaquim José da 
Silva Maia. 

IX Fernando de Novaes — João Teixeira da Silva. 

X Henrique Ayres Victoria — António Correia. 
XI Pedro Ivo — Júlio Diniz. 

XII José Ferreira Borges — Ignacio José de Macedo — José- 
da Silva Passos — Augusto Luso — Joaquim Pint» 
Ribeiro — Ernesto Pinto de Almeida — António Nobio 
— Soares de Passos. 

XIII Faustino Xavier de Novaes — José Dias de Oliveira 

António Francisco Ferreira da Silva Porto — Fran- 
cisco de Assis Sousa Vaz— Joaquim Albino Cardozo 
Casado Giraldes. 



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