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Full text of "Portugal e os seus detractores; reflexões a proposito do livro do sr"

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B(,I VK A R IA 

■ ECLÉCTICA 
1 C. do Combro, 58 

■ tbI. S BOeS - IISBOA 





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■ PORTUGAI. 



E 



•■ OS SEUS DETRACTORES 




PORTUGAL 



E 



OS SEUS DETRACTORES 



BEFLFIÕES A PROPÓSITO DO LIVRO DO SR. FERIKANDEZ DE LOS RIOS, 

INTITULADO « Hl IISION » 



.0 

. : POR 



L>A. PALMEIRIM 



LISBOA 

TYP. DA BIBLIOTHECA UNIVERSAL 

DE LUCAS <Sc FILHO 
Rua d<w Calafatcf, 93. 



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P<7 



Ao 111.""' Ex.™» Sr. 



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EM TESTKMUNHO DE CONSIDiníAÇ^O 
PMLAS SUAS KLT3VADAS QUALIDADES DK ESTADISTA, 10 DK SYMrATHíA 

I 

PKLA IXTEIRESA PATRIÓTICA DO SKl' CARACTICR 



Offercce 



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Ao 111."=» Ex.™» Sr. A ■ Í)r- 






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ANTÓNIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO 



O auctor d'éste livro é bastante orgulhoso 
para pôr uma obra sua debaixo da protecção 
seja de quem fôr, mesmo de pessoa tão nobi- 
litada como V. Ex.* é, pelas suas qualidades 
publicas e particulares. 

O offerecimento que d'este livro faço a 
V. Ex.* significa alguma coisa mais nobre : a 
crença de que represento a opinião nacional, 
em um assumpto grave, eem que V.Ex.* zelou 
também a honra do nome portuguez. 

Vai felizmente passado o tempo em que as 
dedicatórias substituíam os memoriaes de es- 
criptores pedintes, pondo em relevo a conven- 
cional importância dos Mecenas^ e a pobreza 
intellectual dos requerentes. 

Hoje, o escriptor que não souber honrar 
a sua classe, antepondo a isempção individual 
a cortezaniás villãs, não é digno dfò XãSl \^s5«^fe.^ 
nem poderá bem merecer xio cox^^^^^»^ ^^'^ "^ís^íí^ 
coDfeinporaneos. 



vm 



A franquesa doesta declaração não attenua, 
antes engrandece a pequeníssima valia do ofFe- 
recimento que d'este livro faço a V. Ex.*, de 
quem sou, 



Kodpeitador c amigo sinccrj, 



L. A. Palmeirim. 



DUAS PALAVRAS 



«Sustituyamos sabiamente á la es- 
peranza de manâna el recuerdo de 
^y^r, y veamos si tenemos razon en 
decir á propósito de todo ; Cosas de 
este paiz.» 

MARIÂNNO LARRA. 



Disse-0 um hespanhol, critico espirituoso e 
profundo, condemnando o sestro dos seus com- 
patriotas de mal ajuisar do que é nacional, 
servindo-se invariavelmente da phrase banal: 
Cosas de este paiz ! 

A Portugal pôde também fazer-se o convite, 
e dar-se o conselho que o discreto auctor de 

«UN REO DE MUERTE» do «EL DIA DE DIFUN- 

Tos » e de «la nocThe buena » julgou opportuno 
dar aos hespanhoes de 1836^ os mesmos ho- 
mens que ainda até pouco teici^o ^xt\.^^52ssx ^^ 
destinos da pátria, e davarci^x^^fô^^ ^íy^^^^^^s^ 
soladora expressão : Cosas àe e%te. 'pax^\ 



X 



A banalidade é o património do vulgo, e o 
vulgo constitue a maioria das nações. E pue- 
ril descrer sem argumentar, mas é mais do que 
puerilidade, é crime, lavrar brincando o epita- 
phio da terra em que se nasCeu. 

« Coisas d' este paiz^ é também a phrase de- 
salmada e irreverente com que nós, os portu- 
guezes, fechámos habitualmente uma conversa- 
ção sem alcance, ou cerramos sem critério um 
artigo de jornal ; esquecidos de que a calumnia 
nos espreita, e de que a /jalumnia tem azas 
com que transpõe as fronteiras, e lingua que 
contamina o sangue das victimas que mor- 
de. 

Vamos responder a imi livro, quasi exclusi- 
vamente baseado na irreflexão e na facilidade 
stulta com que a propósito de tudo, e para nos 
forrarmos ao trabalho de meditar, nos agarrá- 
mos ao estribilho ignóbil que Larra fiilminou 
entre os seus, e nós vamos diligenciar reduzir 
em Portugal ás suas verdadeiras proporções. 

Se a imprensa (o vulgo, esse é irresponsável) 
não fizesse arma ordinária das suas polemicas 
de assumptos que lhe cumpria respeitar, e de 
coisas que por sagradas deviam estar fora da 
alçada das discussões partidárias, teriam fal- 
tado ao sr. Femandez de los Rios os elementos 
necessários para escrever o capitulo do seu li- 
^^o que intitulou n O JE/nfermo do Occideiilei 
^^ovocando-nos a replicar-lhe eom o Ôliò^^^^- 



XI 



sombro de quem, por immerecida repelle a in- 
juria, e chama o accusador perante o tribunal 
da opinião publica. 

Este nosso livro não tem pretenções ambi- 
ciosas. Inspirou-o o amor da pátria, e viza 
simplesmente a arredar as calumnias que so- 
bre ella pesam, contrapondo argumentos a so- 
phismas, desdéns a facécias, estudo a friolei- 
ras, urbanidade a descortesias. 

Indigesto como é o livro do sr. Femandez 
de los Rios, na forma, no methodo, na analy- 
se como na synthese das coisas, foi-nos dif- 
ficil dar a esta nossa replica uma divisão na- 
tural que, abrangendo as divagações do nosso 
' antagonista, lhe não deixasse escapar nenhuma 
pela malha, antes as puzesse bem em eviden- 
cia em phrase severa, e em estylo que não ex- 
cluísse as exigências litterarias. 

Este foi o nosso propósito. Ninguém nos es- 
timulou. Ninguém nos deu auxilio. Ninguém 
nos prestou conselho, 

A responsabilidade toda, inteira e completa 
deste livro, pertence-nos exclusivamente. Não 
procurámos documentos estranhos aos que o 
próprio sr. Femandez de los Rios nos forneceu 
para nos distanciarmos, até n'isso, do nosso de- 
tractor, e lhe deixarmos intacta a gloria da« 
inconfidências. 

Seguimol'0 nas suas pexY^ràia^ç^^^^s^'^^ 
historia portugueza, iiot«aÔLO ^^ ^x^ow^^íys?^'^ 



XII 

______ • 

do politico, e as mesquinhas aberrações do cri- 
tico; entrámos com o diplomático no âmago 
das suas desastradas missões; analysámos os 
tratados de que o negociador pretendia para 
si a gloria da iniciativa, e demonstrámos que 
tal honra pertencia de direito aos governos por- 
tuguezes. 

Estudámos pacientemente as convenções 
consulares, e d'ellas tirámos a conclusão de que 
Portugal era innocente no affastamento com- 
mercial que separa as duas nações peninsula- 
res. 

Não contentes com este escavar no chão 
escabroso e baldio que o sr. Fernandez de los 
Rios pretendia haver arroteado, estudámos 
com a consciência limpa de ódios, mas não com a 
paciência que o Evangelho recommendá, todos 
os papeis avulso com que o diplomático hes- 
panhol avoliunou o seu livro, e entrámos fi- 
nalmente com o auctor na charneca em que 
elle se deixou extraviar, insultando com decla- 
mações banaes um povo honrado, e uma nação 
briosa! 

N'esta nossa escripta abdicámos completa- 
mente das paixões partidárias. Todos os portu- 
guezes são irmãos perante a nossa critica, to- 
dos os hespanhoes são honrados na proporção 
dos seus merecimentos individuaes, excepto 
^uelles quq nos aggravaram coni çJcoo&ô.^^ o>3l 
4?oiz2 sarcasmos ousaram vilipendiar -ivo^. 



XIII 



Para concluir este trabalho aflErontámos se- 
rias difficuldades, encontrámos por vezes a 
querer tolher-nos o passo ridiculas e enfatuadas 
mediocridades, que não poderam demover-nos 
do propósito de repellir a calumnia, e de res- 
tituir á historia pátria os foros de que a ins- 
ciência ou maldade pensara esbulhal-a. 

A nossa profissão de fé ahi fica exposta 
com a máxima simplicidade. Não queremos que 
nos engrinaldem de loiros, mas temos direi- 
to a exigir que nos respeitem o sentimento 
que nos inspirou : 

Camões, já disse : 

Eu d'esta gloria só fico contente 

Que a minha terra amei, e a minha gente. 

Fazemos nossa a nobre isempção do poeta. 



L*Europe n'est point un assemblage for- 
tuit, une simple juxtaposition de peu- 
ples, c'e8t un grand instrument harmoni- 
que, une lyre, dont chaque nationalité est 
une cordé et represente un ton. II n'y á rien 
d'arbitraire : chacune est neccssaire en 
elle-même, necessaire par rapport aux au- 
tres. 

En ôter une seule, c'est altérer tout Ten- 
semble, rendre impossible, dissonante ou 
muette, cette gamme des nations. 

MicHELET. — Legendes du Nord, 



CAPITULO I 



O que se esperava do livro do senhor Femandez de los Rios, 
e o que elle é. Âs tradicções diplomáticas falseadas pelo 
representante de Hespanha em Fortugal. Ck>mo a auctori- 
saçâo do senhor Soler y Piá não livra o senhor Femandez 
de los Rios da accusaçao de inconfidente. Motivos particu^ 
lares que atuaram no seu espirito levando-o a escrever o 
livro. Profissão de fé acerca dos negócios peninsulares, 
posteriormente desmentida. Theoria das atupeitas sem evi- 
denmcL, A declaração de que todas as afirmativas do livro 
intitulado Mi MUion, são solidamente apoiadas em aucto- 
ridades portuguezas, responde o articulista do «Commercio 
Portuguezj». Má applicação da palavra miseráveis aos que 
desconfiavam da sinceridade do escriptor hespanhol. 



E o livro de que vamos tratar um dos documentos 
mais notáveis de prosápia individual de que temos 
noticia. Baseado na inconfidência, corre desnorteado 
atravez das suas setecentas e tantas paginas, sem que 
o leitor possa d'elle tirar uma conclusSo que apro- 
veite para ens6iianza de maiiana; nem sequer para de- 
InonstraçSo do tacto diplomático do auctor, digamol-o 
de passagem, um dos mais infeUzes propangandistas 
que tem vindo a Portugal, desde que o patriarcha do 
iberismo, o sonhador D. Senibaldo de Más, se arvo- 
rou em precursor do quinto império. 

De longa data annunciado por cartazes, e brilhan- 
do como um raio nas mãos de um Júpiter Tonante, o 
livro do sr. Fernandez de los Rios era esperado com 
a impaciência com que n^este no^^o Xãtk^q ^^ ^^'èSssw- 
8063 86 aguarda tudo o c\a^ ^gxcyoifòXXfò ^^\Afcx ^2^^ '^'^ 
vaa e desvendar myBterios. 
1 



Que pasmo não seria para os amadores de escân- 
dalos a publicação do bojudo cartapazio, onde o agente 
secreto de um governo interino, transformado depois 
em representante de uma monarchia electiva, e mais 
tarde de uma republica, (tudo convinha ao illustre Pro- 
theul) em vez de nos iniciar nos segredos de uma 
politica de grande alcance, adormece, e nos faz ador- 
mecer também, com a leitura de algumas notas e of- 
ficios de sua lavra, que demonstram o justificado des- 
dém de Voltaire para o seu cabelleireiro, quando este, 
largando as thesouras, se embrenhava pelas sendas 
tortuosas do Parnaso. 

Não queremos com esta approximação dizer que o 
sr. Fernandez de los Rios seja um homem desprovido- 
de talento, nem de umas taes ou quaes idéas geraes, 
que o jornalista de profissão affeiçoa ao paladar dos 
seus assignantes ; mas cremos não andar longe da ver- 
dade negando ao ex-representante de Hespanha em 
Portugal não só a sagacidade necessária para recons- 
truir nadonalidadss^ o feitio dos Cavour e dos Bis- 
mirk é outro muito diflferente; mas até a simples in- 
tuição das conveniências sociaes, de que um diplomá- 
tico não pôde nem deve prescindir sem falsear a sua 
missão. 

Com o titulo de A la Opinion Peninsula/Tf antecede 
o sr. Fernandez de los Rios o seu livro com uma es- 
pécie de prologo em que, fazendo um esforço sobre as 
suas tendências individualistas^ procura dar satisfação 
do acto pouco nobre que vae praticar entregando á pu- 
blicidade segredos que haviam sido confiados, quer ao 
cavalheiro, por algum tempo apenas emissário de um 
general illustre; como, mais tarde, ao representante de 
uma nação entre toda^ tida e havida por modelo de 
susceptível orgulho, e bem fundada pretenção a não 
representar um papel menos airoso i\a \i\«tQt\a. da.^ 
evoluções politicas contemporâneas. 



A publicação do livro do sr. Fernandez de los Rios 
é um facto quasi isolado nos annaes da diplomacia, e 
tanto mais digno de reparo, quanto é manifesta a sua 
inutilidade. 

Para se defender, e ir antecipadamente ao encontro 
de futuras arguiçSes, (a consciência ó a mais implacá- 
vel conselheira do homem que procede mal) inventa 
o sr. Fernandez de los Rios umas theorias para seu 
uso e abuso, e finge candidamente acreditar que os 
representantes de um paiz em outro paiz, só aos. res- 
pectivos povos teem que dar contas do seu procedi- 
mento, e que para isso apenas teem um meio : — o da 
publicidade ! 

Quem- se atreve a avançar tamanha heresia é um 
homem lido, e, embora desvairado pelo insuccesso das 
missões secretas e publicas de que o encarregaram, 
sabe que a diplomacia não teria razão de ser se o 
segredo, que é a alma do negocio, podesse e devesse 
ser divulgado com a semcerimonia com que o faz no seu 
inútil livro o ex-representante de Hespanha em Portu- 
gal. 

O sr. Fernandez de los Rios não ignora o religioso 

escrúpulo com que os diplomáticos, que sem contesta- 
ção mereceram em vida doesse nome, archivando e 
commentando as suas memorias, lhes assignalaram um 
praso arredado para a publicidade, receiando actuar, 
ainda que indirectamente, no espirito das gerações 
contemporâneas, ou temendo lançar desfavor sobre 
homens mal julgados ainda, apesar do tempo. 
. N'este ponto a tradicção tem sido geralmente segui- 
da como norma, salvo raras excepções, em cujo 
numero entra, com magua o dizemos, o insoflfrido au- 
ctor do acanhado e descosido livro que se intitula 
Mi mision en Portugal, que asçiica Su «i^x \\s^^ ^^ "^'^ 
vos e de reis, e não é maia do cçoi"^ ^ ^^is^^-osí^x^^^ 
oãbal da ausência dos dotea VnteWecitvxa.^^e» ^ Tsisst^^'^» ^^' 



queridos no homem que aspira a representar condi- 
gnamente uma nacionalidade. 

Os sr. Femandez de los Rios nSo ignora os usos e 
as práticas diplomáticas, devia portanto ser inútil re* 
cordar-Ihe a quasi superstição inteiresa com que desde 
Walpole até lord Palmerston se tem guardado na In* 
glaterra um tradíccional respeito pelos segredos inter- 
nacionaes, inteiresa imitada em França desde Talley- 
rand, o prototypo dos inecheriqueiros audaciosos^ até o 
sr. Guisot, o pautado regulador de pendências euro- ^ 
pêas. 

A morte privando a Itália de um eminente çstadista^ 
o conde de Cavour, permittiu aos seus herdeiros re- 
velar ao mundo, por meio de um interessante livro, as 
incessantes cogitações d'aquelle superior engenho, ta- 
lhado — elle só entre os sens inumeráveis competidores^ 
para levar a cabo a unidade, e com a unidade a pre- 
ponderância da terra que lhe fora berço. 

Vive ainda o príncipe de Bismark, e ninguém re- 
ceia d'elle as inconfidências que o chanceller do im- 
pério allemão soube castigar no conde Arnin, arremedo 
apenas do desplanto burguez com que o ex-represen- 
tante de Hespanha revela os segredos alheios, seguro 
de que os mortos não resuscitam , e que os cavalheiro- 
sos conde de Reui^ e duque de Saldanha não podem vir 
exprobar-lhe o intempestivo das suas confidencias. 

Tanto estas considerações, que nSo queremos alon- 
gar para lhes não dar as proporçSes de missal ro- 
mano que tem o livro do sr. Femandez de los Rios, 
calavam já no espirito inquieto d'este, que entendeu 
útil curar-se em saúde dizendo : que está longe de pre- 
tender que Í88o se erija em dever (o dar publicidade ao 
que é confidencial !) mas que o considera evidente tra- 
éanão-se das relações entre Hespanha e Portugal! i^ 
Para dar uma tal ou qual p\auBv\A\\âL«Açi «^^ ?íci%\«- 
^o de inventar para a peninsida i\>enca\!tieoY^«i» ôk^<^- 



maticas excepcionaes, sem mais alcance nem proveito 
do que pôr em evidencia a individualidade de um ne- 
gociador despeitado^ requereu o sr. Fernandez de los 
Rios, não sabemos se o verbo é peninsular, licença ao 
sr. Castellar para copiar e publicar todos os documen- 
tos que lhe approuvesse, incluindo os reservados^ licen- 
ça que lhe foi concedida pelo sr. Saler y Piá ! 

Poderá alguém querer concluir d'esta bonomia do 
sr. Fernandez de los Rios que a inconfidência deixou de 
o ser, pela auctorisação oíficial que recebeu o inconfi- 
dente para dar publicidade ás suas negociações ; mas 
pelo correr d'esta leitura se verá que houve indivi- 
dualidades envolvidas nas importunidades do diplo- 
mático hespanhol de quem elle não requereu egual li- 
cença, abusando assim da boa fé das pessoas que lhe 
alimentaram a monomania epistolar. 

Quiz a Providencia, n^este caso protectora das de- 
masias linguareiras , do sr. Fernandez de los Rios, que 
já nSo existissem, quando o seu livro se publicou, para 
contestarem o direito que o sr. Soler y Piá lhe reco- 
nheceu, nem o valente e cavalheiroso general Prim, 
nem o não menos valente e ingénuo marechal Salda- 
nha, nem o intelligente e aventuroso marquez de Niza, 
que, desassombrado de responsabilidades officiaes, não 
deixaria por certo de averiguar como era que, pelo 
facto de haver sido amigo particular de um general 
illustre, o seu nome figurava no livro negro das dela- 
ções ibéricas, sem previa licença sua. ^ 

As palavras do sr. conde de Casal Ribeiro, proferi- 
das no parlamento portuguez em 186&, e com que osr. 
Fernandez de los Rios pretende justificar as suas in- 
confidências, apezar da benção papal já recebida do 

1 O marquez de Niza dizia \i\timaxikfòTi\A ^ «^'kov q ^açvjsc^ 
ourir, que sentia nâo poder antea de mortex \fòx ^ws^ ^ ^'^^'^^^^ 
Fernandez de loa Eios algumas exo\i<iabeo^^ Qíí^fò V^^^^^ ^^' 
gentes. 



sr. Solar e Piá, não podem ser tomadas no sentido 
lato e absoluto que o diplomático hespanhol lhes quer 
dar ; e no nosso entender apenas significam a fran- 
quesa com que hoje convém tratar os negócios in- 
ternacionaes, sem prejuiso, como no caso presente, das 
boas relações entre dois povos irmãos e amigos. 

E pois para lastimar que uma deportação de que 
ignoramos as causaes, azedando o espirito já de si in- 
quieto do agente secreto do general Prim, o compelisse 
a vir á imprensa fazer revelações, que um medeano 
bom senso lhe devia aconselhar que guardasse para 
mais opportuna occasião, enriquecendo com ellas as 
suas Memorias d' alem da campa^ a exemplo do illustre 
auctor do Génio do Christianismo. 

Não o entendeu porém assim o philosopho das en- 
sena^zas de manãna^ e lastimado^ mas aun que de la 
medida de un desterro d un desterro^ de las formai que la 
acompanaron^ dolido de que, debiendo conocer lo que en 
mi puede la ixivocacion de la concórdia peninsular^ se 
prejiriera^ a pedir me conjidencielmente que hiciese el 
sacrijicio de ausentar -um l * 

Aqui fica pois explicada a rasão porque o sr. Fer- 
nandez de los Rios, ínteiTompendo os seus trabalhos 
litterarios, se atirou por mares nunca d^antes navega- 
dos, escrevendo um livro repassado de fel, abundante 
de erros históricos e chronologicos, incisivo na injuria 
e parco no elogio; tudo porque o ministério presidido 
pelo sr. Fontes não foi em romaria pedir-lhe que saisse 
de Portugal em nome da concórdia peninsulonr^ repre- 
sentada ao que parece na pessoa de um deportado, 
fundador de sete jornaes politicos y tendo dirigido nove, 
colaborado em vinte e cinco hespanhoes e sete estran- 

^ No Bm d*est'e livro se transcreveia os «jtW^os ç-wsi 0^0.^^ «^ 
joimal portugnez a Revolução de /Setembro, xes^poTi^ei ç.çíoçCtt!DLfòTL- 
^e d org-uJhosa prctençáo do sr. Fernaudez de \oa ^\q^. 



geiros de differervtes géneros ^ e tendo já dado á estampa 
uma dúzia de volumes. 

Por esta folha corrida de serviços litterarios e de 
actividade intellectual, parece querer o sr. Feman- 
dez de los Rios pôr fora da alçada da policia os ho- 
mens prestantes, reservando só para os idiotas a appli- 
cação dos compromissos internacionaes, esquecido de 
que quasi todos os homens illustres do seu paiz tem 
vindo a Portugal comer o pão amargo do exilio, e aqui 
acatado, as leis, sem mal cabidas fanfarronadas. 

Nâo quiz porém o sr. Femandez de los Rios dei- 
xar-nos sem um foguete de lagrimas,' e mandou para . 
alguns jomaes portuguezes a sua primeira carta aos 
Corynthios, ameaçando-nos com revelações fulminan- 
tes, que parte da imprensa tomou a serio, e a que a ou ' 
tra parte applicou mentalmente o chistoso fecho do 
soneto de Cervantes : 

Calo el chapeo, requirió la empada 
Miro el soslayo, fuese, y no hubo nada. 

Foi pois estimulado pelos julgamentos contradicto- 
rios da imprensa portugueza, que o sr. Fernandez de 
los Rios lera eín Paris, que se apressou como compria a 
quem andava ao serviço da idéa nova^ a vir ao en- 
contro dos que duvidavam do cumprimento das suas 
ameaças, deitando o seu livro a correr mundo pelo demo- 
crático preço de três mil réis, e a previa declaração 
de que reservava para si os direitos de reproducção e 
tradu^cçãoy elle, o estimulador platónico da fraternidade 
litteraria da península, expressada até por telegram- 
mas ao seu governo, quando alguma zarzuella tradu- 
zida do hespanhol lograva obter vvi^ V^^?».^ ^"í^^^^òa. ^^ 
publico portuguez l . , 

Ba aproximação d'eataa ^iceci^w^^'®» ^^^^^^^^ 
se deduz que o apoBtolo àa idéa if^yo^* ^^^^ ^"^ 



8 

«erá esta que não traz sobrescripto, nem licença do sr. 
Theophilo Braga para correr no mercado?) é também 
fiectario das leis de propriedade litteraria; e anda co- 
mo tal em antagonismo aberto com as theorias de 
Proudhon, um dos mais notáveis propagadores de ex- 
centricidades philosophicas. 

Para não andar sempre a fazer-nos zumbaias a reta- 
lho no corpo do seu Urro, que tem mai» grandiosas 
aspirações^ declara o sr. Femandez de los Rios dese- 
jar, Deus o oiça para tranquillidade de nós todos, que 
os dois povos : ^marchem em harmonia tios suas rda- 
çdes tanto politicas como commerciaes, conservando u/ma 
neutralidade commum nas questões externas^ e uma ac- 
ção combinada na defeza dos seus interesses materiaesp^ 
*aeclarando também algumas linhas antes que evitará 
fazer repetidos protestos de lealdade, demcmada sinc&- 
ridadsj para que deva prodigalisal-os. 

Dos curtos períodos que transcrevemos da profissão 
de fé do Pelletan hespanhol, períodos entalados en- 
tre outros menos positivos, a que serve de garantia 
única a correspondência diplomática do auctor que se 
conclue, ou antes se deve concluir: 

1.^ Que o iberísmo do sr. Femandez de los Rios tem 
o perfume e uncção evangélica das preces de um tra- 
pista. 

2.^ Que a lealdade, quando é sincera, não carece de 
ser prodigalisada. 

3.° Que o livro a que estas palavras servem de prolo- 
go é a demonstração tríumphante da desnecessidade de 
outros documentos, a não ser aquelles que já o en- 
gordam, e nós temos e consideramos com a negação 
da fatemidade peninsular, que o redactor dos vinte 
e cinco jomaes pretende inculcar como tendo sido a 
-zz/Th» dos seua esforçoa diplomaticoB \ 
Antea de entrarmos de vez no aasuxnçto cvbccíçx^- 
^^^ ^gistar, aproveitando-aB tam\>em ie«t%. itf»^ 



uso particular, as seguintes palavras com que o sr. 
Femandez de los Rios se precata coiitra as eventua- 
lidades da critica, dÍ2sendo qu^ ao narrador é licito 
stbspeitar sem evidencia, mas nunca affirmar sem pro- 
vas^ apesar da elasticidade que pôde ter a pri- 
meira parte do luminoso aphorismo trasido a terreno 
para salvaguarda das suspeitas que se não demons- 
trarem ! 

Publicando o seu livro, que tão fora de propósito 
veio, declara modestamente o sr. Femandez de los 
Kios obedecer a uma provocação peninsulaír^ e 
dá este nome altisonante ás explicações trocadas nos 
dois parlamentos, portuguez e hespanhol, acerca das 
razões que os dois governos tiveram para deportar 
o diplomático, que ameaçava abrir a boceta de Pandora, 
pondo em alvoroto a patrja do Cid, e accordando os 
eccos soturnos da cava de Viriato. 

Há no prologo do livro do sr. Femandez de los " 
Rios uma insinuação ao actual governo do seu paiz que 
não estamos habilitados para refutar, mas que nos pare- 
ce entrar no numero das suspeitai sem evidenday a que 
mais atraz nos referimos, e vem a ser a que se 
demonstra no procedimenio dei género de los que hoy 
tantean los humores que mandan en Espafia. 

Se a nossa argúcia não é completamente saloia, e 
não se contenta em ver as cousas pela rama, cuida- 
mos apalpar nas phrases mysteriosas do diplomático 
hespanhol uma allusão encapotada ao sr. Canovas 
dei Castillo, actual presidente do conselho de minis- 
tros do reino visinho ; uníca ainda assim que se encontra 
em todo o livro, aliás tão pródigo d'ellas contra o sr . Fon- 
tes, acceito sem contestação como o primeiro estadista 
portuguez ; bem como contra os srs. An.draí4fòG<íir^^ ^ 
Mendes Leal, geralmente respeitsAo^ ^^ «Q^^ â^^^^Si»* 
intelUgenda, aoa quaes coube na c^uíSÀâjaAfò ^'^'^'^^^^^^- 
dos negocioB estrangeiros, a maidma ^«^^ ^^ ^^^ 



10 

lho de soprar a espuma dos despachos diplomáticos do 
sr. Femandez de los Rios, sempre tão sollicito em 
alcunhar de bagatellas as formulas incertas das chan- 
cellarias intemacionaes. 

Sendo-nos impossivel apurar a verdade das suspei- 
tas ibéricas do sr. Femandez de los Rios acerca dos 
homens que actualmente dirigem os destinos da Hes- 
panha, e não querendo fazer obra por artigos de jornaes, • 
expediente de que o illustre diplomático tantas vezes 
se aproveita, apenas pozemos reparo nas palavras que 
s. ex.* intencionalmente sublinha, para estranhar a 
moderação d^ellas, e as contrapor ás linhas carregadas 
com que são esboçados os perfis de algims dos mais 
illustres portuguezes contemporâneos. 

Restam-nos ainda, e não é inútil fazel-o, levantar aqui 
commentando-a, a afirmativa de que tudo que encerra 
o livro de que nos vamos occupar, é solidamente ap- 
poiado em auctoridades portugtiezas, que o pensaram 
e sentiram^ antes ^ ou ao mesmo tempo que o auctor , le- 
vantando por esse modo o mais alto e mais eloquente 
testemunho do critério peninsular. 

A este período, que pôde enganar os nossos visinhos 
pouco ou nada conhecedores das coisas portuguezas, 
levando-08 a acceitar como artigo de fé a importância 
das auctoridades a que se allude ; contraporemos um 
outro período de um artigo ultimamente publicado no 
Commercio Portugu^z, jornal do Porto, onde foram re- 
duzidas á sua verdadeira altura os sábios cujo teste- 
munho é invocado pela fraternal innocencia do agente 
peninsular. 

Diz assim o citado artigo: 

«O sr. Fernandez de los Rios na sua deplorável 

preocupação de descobrir em Portugal um partido 

ibérico, faz o que já antes d^elle haviam, feito os o^e 

promoviam a propaganda íberiata, com arài!^^^ vstv- 

é^inalidade, apenaB, de que nunca ec \ctcioTacaxD. Aa o 



11 

fazer os que, como s. ex.*, protestam não terem ali- 
mentado aquella propaganda, d 

«Agrupa, oú mais propriamente amontoa uma in- 
finidade de fragmentos de artigos jornalísticos, de li- 
vros, de poesias, de discursos, firmados por muitos es- 
criptores portuguezes das mais variadas Índoles, opi- 
niões, merecimentos eppoccas. A maioria d'esses escri- 
ptores havia de sentir-se verdadeiramente surprehen- 
dida de se achar, sem o querer e sem o pensar, trans- 
formada em argumento ibérico com a maior simplici- 
dade, e, diremos com a maior sem-cerimonia.» 

Mais abaixo lê-se ainda : 

«E nós não censuramos que s. ex.^ misturasse no 
mais gracioso emhroglio^ homens illustres auctorisados 
e approvados, cujo voto teria uma certa importanpia 
embora não chegasse a supprir em tal assumpto a 
grande voz do sentimento publico, com modestos dit- 
Utanti das lettras, e do rez-de-chaussée dos jomaes.» * 

Se exceptuarmos meia dúzia de nomes, em cujo 
numero entra o do sr. Anthero do Quental, caracter 
austero, intelligencia cultivada e utopista consciencioso; 
causa lastima ver a que auctoridades recorreu o sr. 
Femandez de los Rios para provar que o critério pe- 
ninsular, como s. ex.* lhe chama, pende para o culto 
anti-nacional do iberismo. 

Mais tarde voltaremos a esmiuçar este assumpto, de 
que o sr. Femandez de los Rios faz o seu principal 
cavallo de batalha, mesmo a troco das inimisidades que 
nos possa acarretar a chamada nominal ao ver-do-peso 
intelectual, das auctoridades microscópicas, que a since- 
ridade diplomática faz avultar, olhando para ellas pela 
lente dos seus bons desejos. 

' Oa artigOB do Comrmrcio Portugue*^ «aô ^^^^^^^^^^'Ç?^'^^^^ 
buídos ao ar. Luciano Cordeiro, um ^o^xoaKs^ ^ex^^^^^^ 
críptorea da, moderna geraçSLo llttftxaTv^ ctí^o^^w^^- 



12 

Uma observagSo ainda, e será a ultima, ao appello 
feito pelo sr. Femandez de los Rios á opinião penin- 
âular, no prologo do seu extravagante iivro. 

Como é que s« ex/ pretende, (no ponto em qu^- 
tão chega a ser irascivel,) que do seu livro se não ti- 
rem illaçSes desfavoráveis para Portugal, se cada li- 
nha d'elle é um bacamarte assestado contra a nossa 
nacionalidade, cada julgamento um desfavor, cada 
apreciação histórica um beliscão no nosso orgulho, ca- 
da biographia uma caricatura, cada recordação um so- 
nho e cada modesta aspiração uma visualidade? 

Como ó que v. ex.* lavra antecipadamente pcden- 
te de miseráveis aos que não podem nem querem re- 
signar-se a deixar de apanhar a uva occulta por baixo 
da parra de machíavelicas e diffiísas considerações, va- 
sadas em estylo nem sempre preciso e claro? 

O sr. Femandez de los Rios que tanto blasona dos 
seus sentimentos democráticos, a ponto de chamar li- 
bré á farda que veste, não devia mostrar tão aris- 
tocrático desdém por aquelles que, ignorando o titulo 
da sua obra, ainda o mercantilismo a não havia an- 
nimciado com todos os seus miríficos intuitos, a pro- 
curavam para a compra chamando-lhe o livro contra 
Portugalj presciência popular dos factos, não raras 
vezes justificada pelo instincto das multidSes, formu- 
lado de longa data no conhecido vox populiy que o il- 
lustre diplomático não pôde deixar de acatar. 

Da analyse em que vamos entrar das locubraçoes 
históricas, litterarías e diplomáticas do livro do sr. Fer- 
nandez de los Rios, o leitor concluirá se deve guardar 
para si a polida designação de miserável^ ou se será 
mais justo recambial-a sem a discutir. 

Temos diante de nós uma multidão de livros e fo- 
Jheúos iespanhoes com referencia a Portugal^ entre el- 
^^ o celebre opuacvdo do sr. D. Pio yr\£lioia./\iQStoXaàa. 
^yii^on tòerica^ mas nem n'eaae mesmo^ ^«^ ^ ^^^ 



13 

auctor retirou em tempo da circulação^ envergonhado y 
diz um artigo do jornal A Epocha, se encontram «as- 
serçSes mais audazes do que na enfatuada escripta do 
sr. Femandez de los Rios. 
Vamos proval-o. 



CAPITULO II 



Revista histórica restrospectiva. Os exemplos dos livros sagra- 
dos aproveitados por um auctor profano. Nove séculos da 
historia portugueza deturpados pelo senhor Femandez de 
los Rios. O que resultaria do estudo da historia de Hespa- 
nha, feito pelos processos de que se serviu o auctor. Portugal 
eGalliza. Opinião de Viardot acerca das provinciasVàscon- 
gadas. Contradicçâo entre os julgamentos do passado, as 
apreciações do presente, e as aspirações do futuro, que se 
encontram no livro do diplomático hespanhol. O senhor Pi- 
nheiro Chagas pce a descoberto as fluctuações criticas do 
auctor. A diplomacia do senhor Femandez de los Rios en- 
tra mais pelos dominios da alta comedia, do que pelos do 
bom senso politico. A monarchia do direito divino invoca- 
da como razão para a união ibérica. Opinião de um 
escriptor brazileiro acerca do procedimento de Hespanha e 
de Portugal nas suas colónias. Erro bibliographico do senhor 
Femandez de los Rios a propósito de um auctor portuguez. 



Como todas as cousas teem principio, e seria des- 
airoso para um diplomata que andou, moderno 
Athelante, com o mundo ás costas durante quatro an- 
nos, entrar desde logo em scena com a sua indivi- 
dualidade, remonta o sr. Femandez de los Rios as suas 
preoccupaçoes ao anno de 1140, descendo de escan- 
tilhão até 1640, com a presteza cirúrgica que se re- 
quer nas autopsias, mas sem o critério necessário para 
não offender a susceptibilidade dos interessados com 
os resultados previstos de tão melindrosa operação. 

Crê o sagaz diplomático ser-lhe necessário volver 
atraz nove séculos, antes de entrarn.o «jei^\»ss^\R> ^s^^ '^ 
preoccupa, o que equivale na "picate«>e.^ ^^2>afò ^*^ ^"^^^ 
conde de Castilho ir a França çot Ta^râ^S «^^i «^'^'^' 



16 

veltando o significativo dizer castelhano 9.hahlar de 
todas las cosas y de muchas masi>, facúndia pouco in- 
vejável em quem corre o dever de ser essencialmente 
pratico. 

Como não ha estudo bíblico que não comece pela 
creação do mundo, entendeu o sr. Femandez de los 
Rios que era da sua dignidade não escrever a histo- 
ria dos seus desapontamentos diplomáticos sem re- 
trogradar novecentos annos atraz, procurando assim 
dar ás suas frioleiras de occasião a apparencia de ve- 
tustasy á imitação dos negociantes de bric-á-bracy que 
disfarçam com alchimias e trapaças os objectos do seu 
trafico, dando-lhes momentaneamente a postiça impor- 
tância de venerandas antigualhas. 

Ainda assim, tão trôpego se julgou o sr. Fernandez 
de los Rios para dar o seu passeio de recreio até aos 
fundamentos da monarchia lusitana, que nos aparece 
desde logo encostado ao hombro pouco válido do sr. 
Theophilo Braga, o mais resoluto e menos solido dos 
bota-abaixo em assumptos históricos, e como tal en- 
contrado de feição para ciceroni officioso de um col- 
lega da idéa nova, apesar da desigualdade de posi- 
ções sociaes, entre o modesto professor do curso su- 
perior de lettras, e o Colombo, encarregado de desco- 
brir um novo mundo por entre as ruinas do systema 
representativo, e o desabamento de duas dynastias. 

Nunca Volney teve mais largo assumpto para as 
suas melancholicas cogitações, de que o sr. Femandez 
de los Rios, pisando com pé seguro os escombros de 
nove séculos (menos trinta e um do que os apontados por 
Napoleão aos seus exércitos na batalha das Pyrami- 
des) e tendo em prospectiva o século XX para Repouso 
das suas fadigas no pantheon Ibérico ! 

Aqui temos nós, pois, o sr. Femandez de los Rios 
associado ao sr, Theophilo Braga, meaiQ^ ^çax«bX^<»siN&- 
íruír do que para desmoronax \ e e^cwAaaaàa-ftfò «aíwi% 



17 

com a notória proficiência do sr. Alexandre Hercula- 
no em assumptos históricos^ auctoridade n^este caso 
mal invocada, porque para nada nos presta indagar a 
genealogia d^um povo, quando esse povo, mais ou me- 
nos antigo, apenas pede que o deixem fruir em paz 
das conquistas da civilisaçâo, sem querer tirar vaida- 
de dos seus pergaminhos heráldicos. . 

Simplesmente o que admira é que um democrata, 
como o sr. Femandez de los Rios alardeia ser, ligue 
mais ou menos importância ás nacionalidades por da- 
tarem de époccas mais óu menos remotas, esquecido 
de que as republicas americanas são o resultado da 
senilidade europêa, e que o illustre fundador dos Es- 
tados Unidos é apenas um vulto contemporâneo, en- 
grandecido pela sua obra gigantesca, sem os auxilies 
das tradicçôes nem da genealogia. 

O testemunho do sr. Alexandre Herculano invoca- 
do para nos abocanhar é contraproducente. O respei- 
tável historiador que não aspira a desfazer nem a ar- 
çhitectar monarchias, francamente confessa que a nossa 
nacionalidade apenas data do século xu, mas declara 
logo em seguida que não carece para se exaltar de se 
propriar das glorias de Sertório, nem revestir de uma 
importância, em parte ficticia, as acç3es de Viriato. 

Os historiadores cordatos e conscienciosos procedem 
assim. Os manipuladores caricatos de fusões impossí- 
veis agarram-se ás obscuridades legendarias que apa- 
rentam desdenhar, para, de caso pensado, confundirem 
a historia ouriçada de fabulas monásticas, com a evi- 
dencia do direito moderno, baseado no viver e crer 
das nacionalidades constituidas, embora contra a von- 
tade dos reis, e a inveja de outras nacionalidades. 

A única originalidade do sr. Femandez de los Rios 
contestando-nos a nacionalidade, ãã oyv%<sg& ^^Nsw^í^^^ 
e ã demarcação das nossas frotóràsja», c^w^^^^fò ^a^^^^^^s^- 
zer sempre cavilosamente çor caii\.«í. «íeckfòV2v.i ^^ 
2 



18 

trario dos seus predecessores ibéricos, que procura- 
vam laboriosamente por si as provas do que avança- 
vam, sem disfarçar a intenção com que o faziam, 
nem amontoar sobre-posse retalhos de erudição mal 
,' cabida em um livro de índole essencialmente moderna. 

Bem exclusivamente theorico é o livro de D. Seni- 
baldo de Más, e, apesar de ir já na sua quinta ou 
sexta edição bem pouco conhecido é em Portugal, não 
obstante o calculado labyrintho de problemas que 
apresenta á solução dos curiosos, e á decifração dos 
famintos de curiosidades politicas e sociaes. 

Para repetir o que elle disse não valia a pena aza- 
famar-se tanto o sr. Fernadcz de los Rios, nem cha- 
mar de reforço a Murillo o sr. Soromenho, nem qual- 
quer outro académico, pouco previsto cm artimanhas 
íusionistas. 

O compilador escrupuloso, o esmerilhador infatigá- 
vel do provas tendentes a demonstrar a ausência de 
elementos constituitivos e orgânicos da nacionalidade 
portugueza, esqueceu-se no seu zelo em pretender es- 
magar-nos debaixo do peso das provas históricas, de 
que a unidade actual de Hespanha, também pouco fi- 
dalga em antiguidade, o ainda hoje uma ficção monar- 
chica que uma revolução radical pode desfazer com 
um sopro, frustrando as previsões que embalavam a 
imaginação ardente do sr. Femandez de los Rios 
quando, arvorado em arco-iris, fazia depender de uma 
(juostão dynastica a sorte futura da Peninsula. 

Nunca nenhum portuguez se lembrou ainda de ap- 
]^licar á Hespanha contemporânea os processos histó- 
ricos de que os nossos visinhos usam invariavelmente 
para comnosco, confrontando entre si as paginas iso- 
ladas da historia dos diversos reinos que um casa- 
moDto logrou fundir^ deixando ainda assim de pé atra- 
re^ dos séculos as rivalidades que anteceAesacccL s^ %\5a 
y^^^séTo^ não determina pela vontade çoç\]XaT «^e ^^ \siç>- 



19 

demos publicistas requerem como consagração indis- 
pensável de uma qualquer evolução politica. 

A Hespanha é, entre todas as nacionalidades con- 
stituídas e reconhecidas pelo consenso geral da Euro- 
pa, aquella a que faltam mais elementos para cons- 
tituir um todo harmónico, homogéneo, fixo, tradi- 
cional. Amalgama de pequenos reinos independentes, 
de legislações diversas, de tendências heterogéneas, 
foi só no fim do século xv, pela reunião das coroas do 
Aragão e de Castella, que a monarchia hespanhola se 
consolidou, engrandecendo-se depois pelas suas con- 
quistas de alem mar, para que nós lhe haviamos dado 
o exemplo, e apontado o caminho. 

No laconismo doestas poucas linhas vai envolvida a 
historia de um grande povo. Mas d'essa historia, em- 
bora gloriosa, podem tirar-se illaçoes pouco satisfató- 
rias para a unidade monarchica da Hespanha, assum- 
pto que mais a deveria convidar á meditação e ao re- 
colhimento^ do que o constante escavar pelas raizes de 
uma outra nacionalidade, que, modesta nas suas aspi- 
rações, deseja apenas conservar illesa a sua inde- 
pendência. 

Que o sr. Merguia, auctor de uma Historia de Ga- 
licia que temos presente, nos queira provar que o 
portuguez 6 derivado do gallego, e entre outras de- 
monstrações, mais ou menos graves da sua afirmativa, 
chame á autoria um desgarrado diphtongo ao encon- 
trado em uma lapide sepulchral do século xv em uma 
igreja da sua província natal; descoberta tão inojffcnsiva 
é esta para a nossa nacionalidade, que sentimos vel-a 
explorada pelo sr. Merguia nas paginas melancholicas 
da sua historia, onde demonstra também o pouco que 
á vontade se sente ainda hoje, vendo o velho laí^^- 
rioso reino que lhe foi berço, traxi^ioTTc^-aA*^ ^\sl xvsssa» 
desberdada e obscura província ôia x\vAç>^^ \sxcjç5íX' 
chia castelhana. 



20 

Ha citações contraproducentes, e n'este caso estão 
todas as que os propagandistas da unidade ibérica, 
cegos pelo seu ambicioso intuito nos apresentam, 
pretendendo confundir Portugal com a Galliza, assigna- 
lando-lhes as mesmas origens históricas, a mesma lingua, 
os mesmos costumes, e como que convidando indiscre- 
tamente os dois povos a fratemisarem, invocando a 
Galliza para o fazer o constante abandono em que o 
poder central a tem deixado. * 

Como o sr. Fernandez de los Rios nos falia, d'esta 
vez por sua conta e risco na unidade geographica da 
Peninsula, e discorrendo sobre ella chama também a ca- 
pitulo as provindas Vascongadas, como fazendo parte 
do grande todo, de que só Portugal no seu dizer se 
conserva de fora, contra as leis providenciaes da 
historia e contra as condições physicas do solo, 
e como o illustre diplomático se fáz o representante 
de ambas as opiniões ^ consinta-nos que façamos 
aqui algumas breves transcripçoes do que a tal res- 
peito escreveu Viardot, um dos mais sólidos sabedores 
da historia e da litteratura da Hespanha. 

Ouçamol-o : 

« A peninsula encerra, alem do reino de Portugal, 
que pede uma historia separada, trez pequenas pro- 
víncias, gue nunca foram parte integrante da monar- 



1 Conhecemos cm Lisboa, não nos recorda se emigrado, 
mas é natural que sim, o sr. Chau que fora ministro da re- 
publica. Era gallego, e a sua procedência serviu por vezes de 
brinquedo aos jornaes de Madrid ! 

2 Fues mas absurda aun que esas divisiones, que la natu- 

ralesa parece haberse complacido en hacer monstruosas en 

la Peninsula, como si la formara para que la locura humana 

demoBtrara basta que punto és capas en sus extravios de pre- 

tender com un pliégo de papel una iroiit^Ta. ^oxvôc^TLWiLXKsjafò 

rason de existir mas todavia es la de Espana 'y VqtXm^^"^ 

de loB Rios, — Mi Mision, pag. 14u í. nao fe \>q^xVí^\ 



21 

chia hespanhola, posto que se tornassem uma annexa 
d'ella. » 

E depois: 

« Até o século XIV as três províncias vascongadas, 
Alava, Guipuzcoa, e Biscaya, formadas da , antiga 
Cantal3ria, e tendo escapado á conquista dos godos e 
dos árabes, bem como á dos romanos, ficaram perfei- 
tamente independerdes de todo o poder estrangeiro. » 

E ainda mais : 

« Todavia os três pequenos povos vasconsos ainda 
mesmo subjeitando-se a um feuzerano e protector, não 
alienaram a sua independência (em 1332) e pelo con- 
trario fizeram a esse respeito as reservas as mais for- 
maes ^.» 

A unidade ibérica tao apregoada pelo sr. Fernan- 
dez de los Rios, em nome da geographia, tem ainda 
hoje os mesmos sólidos alicerces que sempre teve. 
Apezar do Aragão se haver mais facilmente resignado 
a entrar na engrenagem da unidade monarchica cas- 
telhana do que os seus emulos das Vascongadas, 
o sangue dos communeros attestava ainda em 1521, 
quão pouco consolidada corria sl fusão da Hespanha, 
mesmo debaixo do sceptro vigoroso de Carlos v. 

Sabemos que nos podem replicar que outros intui- 
tos, alheios aos da reconquista da independência, fo- 
ram os de Padilha e de seus generosos companheiros 
bem o sabemos. Constam elles da representação da 
Santa Junta ao soberbo e implacável allemão, mas é 
para notar haver sido o reino que consolidou a uni- 
dade da Hespanha^ o primeiro que soube protestar 
contra as demasias do absolutismo, exigindo uma lei 
perpetua e fundamentaly como garantia das suas liber- 



^ Viardot — Estudos sobre a Uatoxia. ^%.% m^^KX^^ví^^ ^"^ 
ntjcaa em Hespanha.. Traducçâo de Aiaxx^o ôl^ò ^^"síct^-^-^^ ' 



22 

dades, e das suas velhas franquias. Tâo de loDga data 
anda a liberdade falseada na Hespanha. 

O livro do sr. Femandez de los Rios tão jesuitica- 
mente encolhido emquanto se trata de desvendar fu- 
turos, 'toma quanto ao mais diversas formas, quer 
apresentando se arteiramente hostil a tudo quanto é 
portuguez, quer aceeitando o estylo deslavado de me- 
moríalj como quem diz aos governos do seu paiz : Cá 
está o Jeronymo Puturot do iherismOj o democrata que 
quer a uniao-peninsnlar, o traga-rels que depois de 
andar por esse mundo de Christo a oflferecer thronos, 
volta agora com a palavra atraz, esperando as legiti- 
mas consequências das suas correrias patrióticas. 

O sr. Fernandez de los Rios viveu bastante tempo 
entre nós para poder ignorar que muitas expansões da 
mocidade, em tempos diíBceis e escabrosos da nossa 
aprendizagem constitucional, foram depois corrigidas 
em eloquentes discursos parlamentares, apraz lhe po- 
rem abrir os olhos para fazer a denuncia escripta das 
primeiras, e cerrar os ouvidos aos applausos unanimes 
que cobriram os segundos. * 

Que um commis voyageur da politica, como o foi cm 
18G9 o sr. Fernandez de los Rios assim procedesse, 
nada vemos que nos deva admirar. Mas que o repre- 
sentante official de uma monarchia e de uma republica 
(a consciência dos diplomáticos 6 elástica !) se mas- 
carasse de Pyerrot para andar aos tombos diante da 
opinião pubhca de duas nacionaUdades, é só o que nós 
não podemos comprehender ! 

O sr. Pinheiro Chagas, auctor de uma bem acceita 
«Historia de Portugal» e critico auctorisado em as- 
sumpto desta natureza, analysando rapidamente o li- 

^ Refcrimo-nos ao discurso do st. cotvOlgCl^ O^a^i "RvVí^vto, 
pronunciado na. Camará dos Pares, em aeaa^o ^^ A.^ ^^ xaaK» 
de 1869. 



23 

vro do sr. Fernandez de los Rios, ^ pasma, não sem 
razão, dos processos históricos por elle empregados 
para demonstrar que é fictícia a nacionalidade portu- 
gueza, e castigando de passagem a ignorância pliilolo- 
gica do diplomático hespanhol, tira as seguintes se- 
veras conclusões dó amontuado de pérfidas insinuações 
que ^e lêem no chamado swnmario documental da nos- 
sa histórica pátria : 

«A verdade é que estas contradições manifestas, 
(são as que se referem á restauração de 1640) incríveis, 
se derivam em primeiro logar da situação falsa em que 
se collocou sempre o sr. Fernandez de los Rios, jfwra^iáo 
adorar a nacionalidade portugueza, mas trabalhando 
quanto podia para a destruir; em segundo logar da falta 
de pratica de estudos históricos. Diplomata e jornalista, 
costumado ás vistas estreitas da diplomacia rotineiray que 
nunca vê senão os limitados horisontes em que se agita 
a sua acção, ou ao discretear apaixonado da poHtica mi- 
litante, habilitando-se a ver as coisas pelo prisma das 
suas paixões, não podia levantar-se n'um momento á 
cemprehensão das grandes leis históricas, não sabia 
que a formação das nacionalidades obedece a leis tão 
inevitáveis, como a formação das plantas, e que só são 
artificiaes as que se baseiam nas violências da con- 
quista, ou nas convenções epheraeras dos tratados.» 

Realmente assim é. De que serve ou para que presta 
indagar, e menos ainda citar a procedência do conde D. 
Henrique; apontar e commentar as incer tesas e hesitações 
que precederam a nossa consolidação nacional, ou 
recorrer á frioleira de ornamentar um livro, que 
mira a tirar conclusões praticas, e a apontar cami- 
nhos novos, resuscitando as velhas armas de Porto de 



i Diário da Manhã, n.^« 5?)4, bUl, Ç^^^cíò e^^ç^^^x^^^^^^^ 
—Sob o titulo de = livro do sr. Eeruaude.% àe-Xos »a»ã- 



24 

Cale, querendo assim dar a entender que estas e nato 
outras nos pertencem ? ! 

Nâo admira pois que quem com tão ridiculas mi- 
núcias se entretém haja sido, e nos dê esperanças de 
continuar a ser no futuro, um diplomático próprio a 
ser reproduzido nas comedias de Scribe, mas incapaz 
de levar a cabo coisa em que se metta, como á saneie- 
dade o demonstra na sua estéril correspondência, e 
o provou nas suas romanescas excursões aos parques 
de Cintra. 

Quem tiver tido a pachorra de ler o encadeado de 
citações desconnexas que avultam no livro do sr. Fer- 
nandez de los Rios, e meditar na omissão calculada de 
outras que as destruiriam, como por exemplo as do 
notável escriptor e orador Rebello da Silva, e as do 
austero e erudito Frei Francisco de S. Luiz, ficará 
acreditando que o nosso passado histórico foi uma peta, 
e constantes as nossas aspirações para a união 
ibérica encarnada na personalidade mechediça de um 
furão histórico, que nunca chega a levantar caça que 
mereça a pólvora que se gasta com ella. 

Ha entre as aspirações politicas do sr. Fernandez 
de los Rios — a democracia e a idéa nova — e a sua 
apreciação dos factos históricos um tal abysmo, que 
nos cumpre indical-o n^este roteiro dos mares ibéricos 
para que não venham a ser infanáados pelos naufrá- 
gios dos crentes nas falsas primicias em que assen- 
tam os raciocinios que por ventura os possa se- 
duzir. 

Diz o auctor da Mi mision en Portugal, que convém 
indagar a exactidão d^essas monstruosas reptdsdes en- 
tre PortugaVe HespanKa^ modernamente fabricadas para 
servir irkeressttí que promette revelar , o que nunca 
chegsí a cumjorir; e intenta depois provar que as as- 
píraçõea á unidade peninsular s&o antVcçív^^vmaÃ^ í»«t- 
vmdo-ae para iaao de um caduco çr oceano, cç\Çk ^ ^xi^- 



25 

gaçâo da escola politica, litteraria e philosophica, a que 
diz pertencer. 

As provas do sr. Fernandez de los Rios são inques- 
tionavelmente rieiveis. Consistem ellas na prolixa e 
inútil ennumeraçâo dos matrimónios reaes na penin- 
sula, desde o casamento da princeza D. Mathilde, fi- 
lha de D. Sancho i, com Henrique i, de Castella; até 
o casamento de D. João i, também de Castella , com 
D. Beatriz, filha de D. Fernando e D. Leonor de Me- 
nezes ; concluindo d'este escrupuloso registo, que faria 
honra a um parocho colado de uma freguezia ccrta- 
neja, que os enlaces matrimoniaes citados provam ah 
origemy até o latim cheira a sachristia, que nunca hou- 
ve' antipathia entre os dois povos peninsulares, e que 
a ibéria está desde séculos latente debaixo das colxas 
e brocados dos thalamos reaes ! 

Admittindo, mas não concedendo, que os factos 
acima apontados, em que os dois povos peninsulares 
não tiveram ingerência directa ixem indirecta, possam 
ou devam tomar as proporções de argumentos histó- 
ricos, o que por s^r demasiado erótico não acredita- 
mos, onde fica a sinceridade do emissário secreto do 
general Prim^ quando fingia pretender que a questão 
dynastica na península, acceita que fosse a coroa de 
Hespanha pelo sr. D. Fernando, ficasse no futuro de- 
pendente da exclusiva annuencia dos dois povos ? 

Tomou porém gosto o sr. Fernandez de los Rios no 
iberismo casamenteiro, e faltando-lhe doesta vez a força 
para demonstrar as tendências ibéricas de D. AíFonso v 
e de D. João ii, sempre por meio de namoro e respectiva 
consagração matrimonial, recorre ás trovas de Garcia 
de Resende, em que se lastima a prematura morte do 
príncipe D. AíFonso, cuja caieça estava destinada cl 
reunir as cordas de todos os rexifios da pe-muÃiiXA., ^iNa»- ^ 
Tàaamatargo, subUnhando coiii X.tvaX.^'!*^ ^^'^^^ ^^"^"^ '^^^" 
pbetícoB veraoa: 



26 



Portuguezes e Castelhanos, 
Não os quer Deus juntos ver. 

Para apreciar assim a historia mais valera haver-se 
o sr. Fernandez de% los Rios limitado ás intrigas di- 
plomáticas, arvorando-se em Plutarcho de si mesmo, 
e deixando de ambicionar a gloria de fazedor de ra- 
malhetes de malmequeres históricos, dando logar a sus- 
peitar aos que não conhecem os livros D. Modesto La- 
fuente. Amador de los Rios e António Cavaniles que 
a hi&toria philosophica em idlespanha é por emquanto 
um fructo prohibido. 

A falta de consciência litteraria levou o auctor a ti- 
rar conclusões cí>mo esta : resulta pois que desde a in- 
dependência de PoHugal o afan constante de seus reísj 
assim como dos de Hespanha, tem sido a annexaqão. 
Ora este resuUa pois tem por fundamento as allianças 
matrimoniaes já citadas, e uns versos de Garcia de 
Rezende, sobre que seria ridiculo voltar a insistir, ape- 
sar da importância que o sr, Fernandez de los Rios, 
finge ligar- lhes. 

Mas se a união ibérica foi sempre desejada e fo- 
mentada pela realeza, e o sr. Fernandez de los Rios 
tem a bondade de lh'o não levar a mal, para que se 
arrependa tão depressa da sua longanimidade, escre- 
vendo as seguintes linhas que são a condemnação dos 
seus anteriores julgamentos : quando a sorte de uma na- 
ção se não funda na consagração dos seus direitos, 
mxis sim nas condições pessoaes de quem a governa, o 
seu futuro fica também dependente da sabedoria, da in- 
capacidade, da boa ou má fé dos príncipes que a ca- 
sualidade lhe depara. * 

Sendo, como são verdadeiras e incontestáveis estas 



Jfi mzszon, pag, 32. 



27 

affirraativas, harmónicas doestas vez com as tendências 
politicas e sociaes de quem as escreveu, e sendo muitas 
vezes as alllanças reaes a negação da consagração dos 
direitos de uma nação^ o sr. Fernandez de los Rios 
perdeu o tempo pelo menos nas sua excavaçoes his- 
tóricas, porque d^ellas não saccou á luz um único 
documento verdadeira e irrefragavehiente ibérico, ^prin- 
cipalmente depois das affirmativas democrarticas que 
acima transcrevemos. 

Passaríamos em claro as considerações sobre o rei- 
nado doa reis catholicos, Fernando e Isabel, todas em 
segunda mao, conforme o persistente plano do sr. Fer- 
nandez de los Rios de se pôr como Pilatos fora das 
questões espinhosas, se uma nova auctoridade, a do 
auctor do Portugal^ su m^igen^ constitucion é historia 
politica, * não entrasse opportunamente em scena para 
attribuir exclusivamente aos papas Martinho v e Ale- 
xandre VII o reconhecimento do nosso direito aos des- 
cobrimentos que haviamos feito na America, desço 
brimentjo que nenhum historiador brazileiro poz nunca 
em duvida, podendo desassombradamente fazel-o depois 
da emancipação do Brazil ! 

Thema vasto para larga polemica seria o da cha- 
mada linha divisória imaginaria de um polo a outro 
polo, a que o sr. Molina se refere no livro ha pouco 
citado, se o espaço nos não viesse a faltar para assumptos 
de importância mais immediata do que a discussão esté- 
ril da supremacia dos dois povos peninsulares na Ame- 
rica, depois de para ambos elles estar perdido o ascen- 
dente que por largo tempo exerceram n'aquellas afas- 
tadas regiões. 

Como porém não é inútil distanciar a índole moral 

1 Este livro é um manual da h\atOT\ív,^"to^\£i'ax£v^\s^«^^<5»^^^ 
msL8 ineidioso pela sua mesma majasv^^o. ^^\s>^^ ^^^-aíòcaaS^*^^ 
fãzer parte de uma Éncyclopedia Vfeçri.e.^^o^^^cS^^^'^^^'^ 
Ignorámos as razões. 



28 

dos dois povos descobridores e colonisadores, quasi si- 
maltaneamente, e a simiiídade nem em tudo convenha 
aos portuguezes, conceda-nos licença o sr. Fernandez 
de los Bios para lhe citarmos o testemunho insuspeito 
de um illustre escriptor brazileiro, que, referindo se ao 
procedimento dos dois povos para com os seus respe- 
ctivos colonos, se expressa da seguinte maneira : 

a E prima ainda uma distincçâo notável entre as 
duas nações conquistadoras: se apparece* entremos 
Portuguezes um Maciel Parente ou Pedro Coelho, que 
praticam arbitrariedade contra os Brazis do Norte, 
castiga-os a Coroa, e não passam elles de uma qaasi 
imperceptível excepção na ordem dos chefes portugue- 
zes ; emqaanto que inventam os Castelhanos os mais 
descommunaes supplicios para se alagarem no sangue 
dos Americanos, e extinguir -lhes a raça^ não lhes bas- 
tando as caçadas por meio de cães de fila, e o exter- 
íninio no meio e fora dos combates. Diversa é a his- 
toria da conquista do Brazil, das colónias sanguiná- 
rias do Peru, da Columbia, do México, do Chile, e 
de Guatemala, onde quasi nenhum effeito produziram 
as fulminações de Las Casas ^. » 

No progredir da narrativa histórica do sr. Fernan- 
dez de los Rios, de que nos affastamos um pouco para 
contrapor reminiscências de ordem moral ás asserções 
do sr. Molina, não falta mais nada para estranhar em 
tempos em que quasi todas as pendências entre as 
naçSes catholicas se desenlaçavam em Roma^ (n so- 
mos chegados ao momento mais critico da edade mo- 
derna para a península ibérica, isto é, a 1522, em 
que, com a denvta dos communeros, perdeu todas as 

1 Os Varões illustres do Brasil durante os tempos colo7iiaeSy 
por J. M. Pereira da Silva. Pariz — 1858. 
f Vide, Quadro ElementaLT das Relações Polítíeaa e Diçlo- 
ipatícaa de Portugal, pelo Visconde àe feautaiem, ei>s»\jL^ «ysx- 
tíouaçãopor Bebello da, Silva e Mendes L»ea\. 



29 

condições que havia reunido para desempenhar na Eu- 
ropa o papel que a ambição e a torpeza de Carlos Ve 
Filippe II adjudicaram á Inglaterra. » ' 

E n^esta occasião solemne que o sr. Fernandez de 
los Rios, referindo-se ao agasalho que a illustre viuva 
do heróico Padilla procurara, e obtivera em Portugal; e 
aos esforços que Carlos v inutilmente empregara para 
obter a sua extradição, não podendo conter por mais tem- 
po a sua natural modéstia, accrescenta comicamente : 
« Isto passava se entre Hespanha e Portugal ha 365 an- 
nos. Nos tempos actuaes as coisas entendem-se de outro 
modo, e o cesarillo Canova^ manda expulsar os depor- 
todos j e o seu magnifico logar-tenente Fontes obedece ! * 

Não queremos applicar aqui ao sr. Fernandez de 
los Rios o frisante epigramma de Bocage a um detra- 
ctor do seu engenho poético, mas não podemos deixar 
de notar a balofice com que um obscuro diplomático 
pretende medir-se pela craveira por onde se aflferem 
as notabilidades históricas. 

Deixaremos também de evidenciar o rancor pueril 
manifestado contra o sr. Fontes, que lhe contrami- 
nara todos os rastilhos de pólvora ibérica ; bem como 
de registar a ignorância indisculpavel com que um 
homem, que tem obrigação de conhecer os principios 
de direito internacional, volve três séculos e meio 
atraz, para dar expansão ás suas lamurias de depor- 
tado, invocando um antecedente histórico que em tudo 
e por tudo lhe era inapplicavel ! 

Aperta comnosco a necessidade de não perder o 
tempo, que nos pôde vir a faltar para outras conside- 
rações de mais tomo, mas tendo sido o livro de que 
vamos tratar publicado em 1877, causa- nos uma certa 

1 A pag. 47 do livro do st. Y^ttv^cà^t. ^^ X^^^SâiSjí^Nss^^ 
este aphoriBmOj que por apTopo«\\.«L^Q ^'^''^'^^^^^'^^^^'^'^ íVj^SS 
czèr^ senal es de torpe, ingenio el Tiablar Twa -^ a-fiavX'^^^ 
de êu contrario. 



30 

estranheza ver invocado como justificação para usur- 
pação do primeiro Filippe, um capitulo de um Trata- 
do de OHologíaj que se diz ineditOj escripto pôr um 
portuguez, de que Francisco Innocencio da Silva dá 
noticia no tomo primeiro do supplemento ao Dicciona- 
rio Bihliographico Portuguez como tendo sido impres- 
so em Évora, em 1865 ! 

Não nos fariamos cargo doeste erro palmar se o sr. 
Fernandez de los Rios, com o seu pouco invejável ses- 
tro de divulgar segredos, não publicasse também o 
trecho de uma carta particular do auctor dotal Tratado 
de OHologíay escripta em 1871, em que se procura 
tirar gloria do ríiartyrio soffrido em 1641 pela antiga 
familía do correspo^idente, nas pessoas do conde Ar- 
mamar e de seu tio D. Sebastião de Mattos e Novo- 
nha ! * 

íamos, sem dar por isso, tomando o gosto á bi- 
bliographia e á indagação de que pau são feitas as 
moletas a que se arrima a invalidez histórica do sr. 
Fernandez de los Rios, mas urge chegar ao termo da 
jornada,* e receiamos que nos anoiteça no caminho 
antes de entrarmos no âmago do assumpto, a missão 
do diplomático hespanhol, que, embora estéril como 
uma urze, alegra o espirito, e habilita o leitor a fazer 
justiça á vista dos autos do corpo de delicto. 

1 O livro dado por inédito pelo sr. Fernandez de los Rios, 
intitula-se : Quadro pedagógico dos elemeiítos de leitura^ ou 
tratado da Ortologia portugueza, por mn novo systeina. Évora, 
1865. E o seu auctor o sr. D. Alexandre José Botelho de Vas- 
concellòs de Mello e Mattos de Noronha. 



CAPITULO m 



A restauração de Portugal em 16á0 mal avaliada pelo senlior 
Fernandez de los Rios. Os seus julgamentos antecipada- 
mente fulminados na historia de Portugal nos séculos XVII 
. e XVin, de Rebello da Silva. O livro intitulado Mi Mision, 
é mais um pampheleto de que um estudo desapaixonado 
da historia. Falsa affirmativa de que todos os homens il- 
lustrados de Portugal sâo ibéricos. Um patriarcha de Lis- 
boa ijiventado pelo senhor Fernandez de los Rios. As an- 
tigas relações diplomáticas entre Portugal c Hespanha 
não foram mais ridículas e fúteis que as de outros paizes nas 
mesmas épocas. O balanço histórico, que resume as aprecia- 
ções do escriptor hespanhol, é notável pelo amalgama de 
contra-censos que n'elle avultam, e pelo espirito faccioso 
qu3 o inspirou. Contradições e erros históricos. 



Tem-se escripto tanto na península acerca do rei- 
nado de Filippes, e andam tão pejados os ar- 
chivos das chancellarias da Europa de documentos 
para se poder avaliar a rápida decadência dos herdei- 
ros de Carlos v, que seria supérfluo recordai a, se ella 
não fosse o estimulo directo da restauração de 1640, 
que o sr. Fernandez de los Rios pretende abocanhar 
com cerebrinas obácrvaçoes de sua lavra, e auctorida • 
des contemporâneas suspeitas, não pelo seu iberismo, 
fazemos-lhe essa justiça, mas pelo seu amor ao para- 
doxo, mira na excentricidade, e orgulho em preten- 
der aíFastar-se da opinião vulgar. 

Se ha epocca documentada da nossa historia nacio- 
nal, é aquella a que nossos av6^ ci^Tc^aj^^xoL <ò ^^>;^$^- 
veJro doa aesaenta annoa. 
Em um doa mais activos agetóe^ Ôl». x^^X.^^^^^"^ ^'^" 



32 

meça o primeiro elo das revelações históricas, que dois 
distinctos académicos contemporâneos, Rebello da Silva 
e Pinheiro Chagas depururam de exagerações patrió- 
ticas, o primeiro na Historia de Portugal nos séculos 
XVII e XVIII, o segundo, na Historia de Portugal 
desde os tempos mais remotos até á actualidade, livros 
sisudos e substanciaes, que o sr. Fernandez de los Rios se 
furtou ao trabalho de refutar, preferindo andar em 
companhia de anões, a medir-se de frente com ta- 
len::os de primeira plana, robustecidos pelo estudo 
assiduo da historia, e da litteratura pátria. 

A parte o chamado direito de successUo, que o sr. Fer- 
nandez de los Rios não pode deixar de condenmar, 
a não querer reconhecer o direito que Luiz XIV 
se arrogou sobre a Hespanha, e que nada teve de com- 
mum, aquelle nem este, com a vontade popular, base 
de toda a soberania ; outro argumento não vemos, 
alem do da força bruta, que justificasse a usurpação de 
Portugal. 

Se o sr. Fernandez de los Rios quizesse ler o livro 
intitulado « Usurpação, Retenção e Restauração de Por- 
tugália por João Pinto Ribeiro, a quem chiama desde- 
nhosamente creado do duque de Bragança, ahi veria 
tratada proficientemente a questão da successão, que 
parece preocupal-o. 

Antes porém de voltarmos a citar o nome de JoSo 
Pinto Ribeiro, tão mal soante para ouvidos Castelha- 
nos, vejamos como d'elle ajuiza um historiador a quem 
o próprio sr. Fernandez de los Rios chamou uma pen- 
na respeitável, em occasião que lhe pareceu propicia : 
€A esta conferencia (uma das que antecederam o dia 1.® 
de dezembro de 1640) assistia já o doutor João Pinto 
Ribeiro encarregado em Lisboa dos negócios da Casa 
de Bra^gança com o titulo modesto de agente, homem de 
grande vontade e maior coração ^ erudito itmiã lefcroA ^-uirl- 
dicas, e nas sciendoà politicoà e Kie*oricas> e ay^x^fíft d* 



33 

um discurso, publicado em 1532, sobre os fidalgos 
e soldados portuguezes nâo militarem nas conquÍ8<ias 
alheias doesta coroa aoòra mandada entranhar pelo go- 
verno de Madrid. » * 

O homem ahi fica pintado. Foi elle quem no eslylo 
desambicioso que convém ao jurisconsulto e ao politíico, 
nos disse : 

«jB para gue o direito da infanta D, Catharina fi- 
casse mais escuro f e o mundo com menos luz de sua 
injustiça^ effectuou-se mais levar para Castella o li- 
vro do Porco Espim, que se guardava iho cartório da 
Camará de Lisboa, em que estava o direito da successão 
doeste reino. is> 

Como o sr. Femandez de los Rios não quebra lan- 
ças por nenhum dos Filippes, inútil será accumular ci- 
tações para provar os direitos de successão a coroa de 
Portugal, que para nós, que também nos temos na 
conta de democratas não alterariam, contrariadas que 
fosaem, a essência da nossa independência, nem contri- 
buiriam para fortificar o direito não menos sagrado á li- 
berdade, incentivos e auxiliares de toda a nacionalidade. 

O que porém sempre faremos de boa vontade, e 
nSo cremos que seja um crime, é evidenciar por todos 
os modos o postiço da unidade monarchica hespanho- 
la, para moderar a so£freguidão dos que pretendem 
anne^ar ao frágil o que é robusto, esquecidos de que 
se arriscam a um desmembramento total, de que já a 
historia moderna lhes tem apresentado indicios, que 
não escapam á meditação dos previstos. 

Assim pois, quem affirma ao sr. Fernandez de los 
Bios que, a uma annexação violenta de Portugal, se 
não seguiria, em occasião opportuna, nova restaura- 
ção, também violenta, aproveitando a Catalunha o en- 
sejo para se emancipar, o q^ae uaQ Vfò^wx ^yík^isfâ^»;*^ 



^Eebello da Silva. Historia de Portugal, \oti. ^ n^^^ 
3 



TSS.. 



34 

no reinado de Filippo iv, e vindo a estreitar-se, pela 
identidade de aspiraçSeS; as relações entre os dois po- 
vos extremos da peninsula ibérica. 

Sobejam as provas escriptas de como foi urdido, se- 
guido e desenlaçado o movimento nacional que chamou 
ao throno D. João iv, para dar mais importância do 
que a devida á influencia francesa, e á sagacidade de 
Éichelieu, em tão importante e decisivo acontecimento. 

Procura o sr. Femandez de los Rios tnetter a ridí- 
culo a restauração de 1640, no summario quasi bur- 
lesco que d^ella faz no cabeçalho de um dos capitules 
do seu livro, que não transcrevemos na integra para 
não enjoar o leitor, mas de que vamos dar uma amostra 
para prova de quão ruim conselheira é a resolução anteci- 
pada de ver as coisas ao avesso do que ellas realmente fo- 
ram. Ahi vae, com todo o seu picante andaluz, a rese- 
nha dos factos feita pelo incisivo e luminoso historiador : 

a No fué el amor de la pátria y la Uberdad lo 
qae promoviô la conspiracion contra Espana, fué el in- 
feres personal. — Los hidalgos prefirieran conspirar á 
ir á la guerra. — Muchos de los conspiradores preférian 
la republica á levantar la ca^a de Braganza* — Publi- 
cidad de la conjuracion. — Oposicion que les hiso eL 
municipio de Lisboa, — La historia cumpleta y fHosó- 
fica de Portugal no se há escrito aun. Su NACIONA- 

LIDAD ES UNA PURA FICION ! . . . » 

A esta quichotesca resenha corresponde, como con- 
vinha ao auctor, um acervo de falsificações indescul- 
páveis em quem lamenta que ainda até agora se não 
haja escripto a historia philosophica de Portugal, re- 
tirando assim os louvores que prodigali^ra aos ex- 
cerptos do sr. Theophilo Braga, e esquecendo-se das 
vezes que se desbarretara, quatido lhe fazia contai 
diante da profunda intelligencia do sr. Alexandre 
Herculano, e dos brilhantes trábaftioa Yà^loti^o^íi^^Rfò- 
Ò0//O da Silva» 



35 

sr. Pinheiro Chagas, versado nos estudos em que 
o sr. Fernandez de los Rios é hospede — historia e 
hermenêutica — apanhou logo em um relance as mais 
salientes blasphemias que se aninhavam no summarío 
do seu livro, e escreveu, apenas o apanhou á mão, as 
as seguintes lógicas observações : 

«Este summario dá facilmente uma idea de quanto 
são cómicas as apreciações históricas do livro do sr. 
Fernandez de los Rios. Aquelles fidalgos, que, tendo 
medo de ir guerrear á Catalunha, preferem revoltar- 
se em Lisboa, são adoráveis. Que meio tão engenhoso ! 
Aquelles covardes, que tinham medo de se ir bater ' 
contra uma província hespanhola revoltada, resolve- 
ram, para fugir a esses terríveis perigos, bater-se 
contra a Hespanha toda ! Mas, ao passo que assim os 
accusa de uma covardia digna de Calino, o sr. Fer- 
nandez de los Rios dá-lhe as proporções de uns he- 
roes sobrehumanos, ou obriga-nos a fazer triste ídéa 
dos Hespanhoes do século xvn.» 

«Nós até aqui suppunhamos que o motivo porque a 
dominação hespanhola caia em Lisboa instantaneamen- 
te, e logo em seguida com uma rapidez assombrosa em 
todo o Portugal, que fora porque os quarenta fidalgos 
tinham atraz de si o povo inteiro. Vem o sr. Fer- 
nandez de los Rios e rectifica a nossa opinião. O povo 
de Lisboa conservou-se frio, e a Camará mostrou-se 
hostil. Portanto os terços Hespanhoes foram desarma- 
dos e aprisionados, e postos fora não por uma cidade 
inteira sublevada, mas por quarenta portuguezes des- 
ajudados. Co 'a breca ! se fossem quatrocentos iam 
até Madrid; D'este nunca se lembrou o mais façanhu- 
do patriota ! *» 

i 

1 Finheiro Chagas, — O \\vio âio «t.^ers^JwAjw. ^^Vs**"^*^^- 
— artigos publicados no Diário da Maulv^, íi.^ ^s5?vs. V. -^'«í^^^'^ 

principal. 



36 

Por estas e outras trepolias de lesa-bom-senso se 
julgou o sr. Pinheiro Chagas dispensado de respon- 
der ao que com rasão' chama pampheleto histórico, ex- 
tranhando ainda assim, não ha leitor portuguez a 
quem iiãó aconteça outro tanto, que o ex- diplomá- 
tico se cure em saúde da accusaçâo que se lhe possa 
fazer de inimigo da nossa nacionalidade, quando as 
provas sâo tantas no seu livro, quantas as affirmativas 
mesmo desapadrinhadas de auctoridades que as es- 
corem. 

As conclusões a que o sr. Fernandez de los Rios 
chbga, 8Ó porque quer chegar e nada mais, occultan- 
do as opiniões dos escriptores portuguezes que lhe po- 
diam desequilibrar a balança, e aproveitando para o 
seu livro as que lhe sabiam bem ao paladar, embora 
muitas d'ellas mutiladas, insonsas, sem té no tribunal 
da gente que se não deixa adormecer com palavrosos 
dithyrambos, são de que a união ibérica tem por única 
origem a ambição monarchica. Esta asserção que qua- 
dra ás suas mal definidas crenças republicanas, já 
teve o seu mais formal desmentido nas experiências de 
Alcpy e de Carthagena. 

A insistência do sr. Fernandez de los Rios em que 
todos os homens illustrados dos dois paizes são ibéri- 
cos, (não valia pois a pena amontoar tantas iras con- 
tra os srs. Fontes e Andrade Corvo) e se ao conven- 
cimento que expressa de ser absurda a nacionalidade 
portugueza, junta a crença de que o sentimento popu- 
lar em Portugal tende para o iberismo, então porque 
se offende de que o julguem capaz de fazer causa com- 
mum comnosco, pretendendo contribuir pela sua parte 
para união ibérica? 

Ahi tem a rasão, embora lhe dôa, porque o articu- 
}j3ta gue acima citamos concluo, doeste ser e não ser 
^Aackspiriano do novelleiro hespanhol, que elle é um pe-u- 
^ara^^^z^ ^^^ ^^^^ ^ ^^ j9ew5a, ou um escriptxyr quA 



37 

7ião sahe o que diz, hypotheses, qualquer d'ellas, pouco 
abonadoras da conscieccia do homem que se metteu 
em cavallarias altas^ acceitando; senão requerendo^ 
a posição que durante alguns annos o poz em eviden- 
cia, não diremos que sem proveito próprio, mas com 
toda a certeza sem nenhum proveito alheio. 

O sr. Fernandez de los Rios que vai cuidadoso á His- 
toria de Portugal de Rebello da Silva, tirar um ou outro 
exemplo comprovativo da doblez de caracter d'este ou 
d'aquelle portuguez que, em 1641, se sentia mal á von- 
tade na pátria redemida ; porque não p5e também em 
circulação a moeda de lei enthesourada no mesmo li- 
vro, mais qije denunciadora, segura garantia do cunho 
popular e nacional que teve a restauração de 1640, 
apezar de iniciada exclusivamente por uma classe, 
como affirma o nosso detractor ? 

Por ventura insistiria o sr. Fernandez de los Rios 
n'este ponto a não ser por má fé, não ignorando a 
organisação politica e social da península &^da em 
meados do século xvii? 

Que característicos mais populares do que os que 
teve a restauração de 1640 pôde o auctor pretender 
que tivesse uma revolução em época relativamente ar- 
redada, em que era desconhecido o direito que hoje 
invocam, cônscias de si, as sociedades modernas ? Foi 
por ventura a revolução dos communeros mais popular 
do que a nossa, tomando a palavra no sentido politico 
que modernamente se lhe attribue? Onde, e quando, 
houve revoluções verdadeiramente populares, anterio- 
res á de 1789 ? Dos aggravos do povo se fizeram sem- 
pre representantes individues de outras classes, mais 
ou menos priviligiadas, antes d'aquella data memorá- 
vel. Esta é a verdade que nenhuma* <!,Q\vaí^>ijst^'^'^^>^^- 
teresseiras podem desmentir , lierck %^o^^^ ^^^^^^^^^^^^^ 

O povo portuguez fez, em l^^^Çi , o o^x.^ ?v^^"^ ^^ 
dez de loa Rios teima em ç\yveYeit ojfx^ ^^"^ 



38 

fãzer, embora a nobreza, pelas razões já apontadas, 
dirigisse o movimento, que foi com certeza do agrado 
de Luiz XIII, e de seu ministro, mas para que nem 
um nem outro contribuiu directamente. 

Basta já de insistir em uma época julgada da his- 
toria pátria, que, mesmo falseada por suspeitas e con- 
jecturas, não altera os antecendentes da nossa nacio- 
nalidade, e, se não robustece, também não enfraque- 
ce a nossa autonomia. 

Se a politica da Europa ainda hoje é incerta e va- 
cillante, devemos lançar a culpa á mingua de refor- 
madores formados na escola do sr. Fernaudez de los 
Rios, que a não tem reposto nos seus ei^os, dando a 
' historia como não existente, e expropriando por utili- 
dade publica a chronologia, que assignala as datas dos 
factos memoráveis, e a critica que se apropria d^elles 
para confronto dos seus julgamentos. 

Antes de pormos ponto final no indigesto amalgama 
de citacSes truncadas, forçadas apreciações, e commen- 
tarios oeslocados do sr. Feernandez de los Rios, com 
referencia ao facto histórico que mais que qualquer 
outro traz atravessado na garganta, a reconquista da 
nossa independência, como acto de justiça, e exemplo 
a futuros escriptores do muito que pôde e vale a co7i- 
sciencia lideraria de certos homens, vamos transcre- 
ver um período, que deixará pelo dedo conhecer o gi- 
gante que o apontou á credulidade dos néscios. 

« Escolhemos esta narração d'aquelles successos, 
feita por penna tão respeitável, não só por dar deta- 
lhadamente a conhecer a questão, como também para 
que se veja, que nem Filippe II teve nunca os ana- 
themas universaes de Portugal que de tempos a esta 
parte se lhe attribuem. Existe em Thomar um monu- 
mento celebrando a entrada de Filiççe n (4fò c]^^iv<S^ 
^^o temos noticia) e ouvimos dizer cjvxe \ia uni wjíOco 
^Mj Lfciria levantado pelo clero, p<yr imciotiva de Frei 



39 

Barthólomeu dos MortyreSj patriarcha de Lisboa ! » 

Ora o sr. Fernandez de los Rios ignorava, e ignora' 
naturalmente ainda hoje, que Frei Barthólomeu dos 
Martyres, arcebispo de Braga, nunca foi patriarcha 
de Lisboa, entre outras solidas razões pelo simples 
facto de datar esta dignidade ecclesiastica do reinado 
de João V, e não estar na alçada dos Papas . o retro- 
gradar as distincções heráldicas do clero, especial- 
mente esta, que nos ia custando todo o oiro dos Bra- 
zis, só para obsequiar Filippe ii, e ser agradável ao 
auctor do ridiculo erro chronologico que fica apon- 
tado. 

Raras são as revoluções, ou as restaurações, que não 
deixam atraz de si descontentes, quer por que as pai- 
xões humanas não aquilatem sempre com egual critério 
os acontecimentos ; quer por que o interesse individual 
busque não poucas veze.s antepor-se ao interesse pu- 
blico. O que aconteceu em Inglaterra depois da res- 
tauração dos Stuarts, e em França depois da dos Bouij- 
bons, aconteceu também em Portugal depois de uma 
usurpação de sessenta annos, que corrompera algumas 
consciências tibias, e resfriara em outras o amor pela 
independência nacional. 

Doestes casos isolados, que as historias portuguesas 
registam, mas não encarecem, pretende o sr. Fernan- 
dez de los Rios tirar partido para os seus fins ibéricos, 
mas tâo desastradamente o faz, que apenas sai das 
suas mãos moído o duque de Olivarcs, mas illesa, no 
seu conjuncto, a restauração que intentara deprimir ! 

Novos cuidados preoccupam d^aqui por diante o 
inventor de patriarchas, áo approximar-se dos tempos 
modernos, e ao entrar na analyse das «correspondeDcias 
diplomáticas havidas entre os dois çaiTfò^^^^arsN»^^^ 
Hespanha; coi*respondencia8 tii\x\\.«c&NÇi'L^^'^^^^^^^'^^^"^ 
vis, mas affeíçoadas ás cortezamsj^ Ôlã ^'^^^^^'*^^^ 
taeB photogrsLfhiM da acanhada ot\í\X»» ^^«^ ^^ 



40 

v«m os interessoB peninsulares. Quem porém ler as 
Memorias do duque de Saint-Simoriy e a Chromca da re^ 
gencia e do reinado de Luiz XV y por Barbier, apalpará 
n^aquella^ e n^esta^ o gérmen da enfermidade que 
minava as sociedades do século xvii, provocadora da 
grande revolução que abalou pelos alicerces todas as 
velhas monarchias, e lavou com sangue, muitas vezes 
innocente, as aberrações dos aulicos, e a cegueira dos 
imperantes. 

A insistência do sr. Fernandez de los Rios em ac« 
centuar a frivolidade das relações peninsulares da- 
rante os reinados de Filippe v de Hespanha, e D. 
João V de Portugal, não conduzem no seu livro a coisa 
que preste, a não ser se quizermos dar foros de pen- 
dência internacional ao incidente occorrido em Ma- 
drid em 1735, em domingo de entrudo, entre a poli-* 
cia e os criados do embaixador portuguez, e as re- 
presálias tomadas depois em Lisboa contra os servi- 
dores do embaixador hespanhol. 

Esta pendência, de origem carnavalesca, ia atean-^ 
do a guerra entre os dois povos, chegando a haver 
preparativos bellicosos e a pronunciarem-se, em nosso 
favor a Inglaterra e a Hollanda, tomando a França 
partido pela Hespanha. 

D'este episodio, e de outros ainda de mais microscó- 
pica importância, que o sr. Fernandez de los Eios passa 
em revista com uma minúcia que chega a enfastiar, 
não valeria a pena dar conta ao leitor, se não fossem 
atalhos por onde o cauteloso diplomático procura en- 
trar na estrada real, afirmando, como epilogo de seu 
discurso, que era péssima a situação de Portugal des- 
de que, fascinado com a perspectiva da independência 
viera a per dei- a quasi totalmente! 

Esta exagerada, affirmativa é baseada eia -vmsí Uvyo 
Aaonjrmo, publicado na Haya, escTipto em feaxi^ei., ^ 
^^« /p<Jo0 OB c;»racteristicos de ser obra de eníicomin«ív. 



41 ^ 

da tanto que o próprio sr. Femandez de los Rios lhe 
achou durezas que prometteu amaciar com documen- 
tos mais recentes, e menos brutaes. 

O livro a que o sr. Fernandez de los Rios se refe- 
re * de inspiração visivelmente hespanhola, é possível 
ter sido a preoccupaçâo das horas de ócio de algum 
diplomático da escola unitária, e tende a provar que 
Portugal é uma simples colónia de Inglaterra, e para 
isso formula contra nós treze afirmativas a que cha- 
ma máximas, todas fulminantes, embora quasi todas 
desasisadas o rancorosas. 

A data da impressão da Relação histórica do tremor 
de terra de Lisboa é anterior ás profundas reformas le- 
vadas depois a cabo pelo marquez de Pombal, e devia 
precaver o sr. Femandez de los Rios, que tem ojuizo 
no seu logar sempre que não se refere a Portugal, 
contra as conclusões de um libello, hoje sem opportu- 
nidade. Não quiz porém perder a occasião, e deixou- 
se tentar pelas amabilidades de um anonymo tarefa 
mais facil^ do que estudar por si o assumpto, fazendo 
áquelle estadista portuguez a justiça que lhe era de- 
vida. 

No balanço que o sr. Fernandez de los Rios faz da 
nossa historia, e naA conta enojosa e tristíssima que 
d'ella nos dá, é que o ex-diplomatico assume uns ares 
de mata-moiros que nimca nenhum historiador se lem- 
brou de tomar, e que abertamente o denunciam como 
um pamphletario da mais ruim qualidade. 

Para edificação dos nossos leitores faremos aqui ca- 
thalogo das amabilidades com que nos mimosia o ho- 
mem que lavrou antecipada patente de miseráveis aos 

^ Belation hiatorique du tremblement de terre à lÂ^í^ww».^ 
précédée d''m discours politiqut àwnà Itx^^ X q:\uxmx ^-o^^f^i^Cè^ 
le moyen que VÁTigleierre avait mia jub%que%A.6. «a "^^^xs^^S^ 
ruiner le Portugal, La Haye C\iez Qí\à\mUQ^^^^ ^X'íw^ 

VDCCLYl, 



42 

que viessem a duvidar de seu amor a Portugal^ como 
â sua própria patHa I 

1.^— Chama sciencia histórica patrioteira á que ousa 
duvidar da sciencia que o autor cuida pos- 
suir, e de que é a negação cabal. 

2.^ — Alcunha de patriotismo de pandilha o que re- 
lucta em aceitar as conclusões ibéricas do seu 
livro, a Pandilha ! y> que andalusismo tão mal 
soante na boca de um diplomático ! 

3.** — a A nacionalidade portugueza é uma evidente 
e terminante rebellião contra as leis geogra- 
phicas e topographicas que a creação (qual 
creação?) impoz á península ibérica: formou 
se por circumstancias fortuitas, e artijicial- 
merde: tudo lhe faltava para isso, a raça, o 
território, a lingua e a historia! 

Em substituição de tudo, o que o sr. Fernandez de 
los Rios diz faltar-nos, está a vontade popular que o 
democrático copilador de injurias uma vez confessou 
ao ' escapar ser o supremo distinctivo de uma nacio- 
nalidade. Consulte-a, e ouvirá d'ella a resposta. Fal- 
ta-nos também o território e a lingua! Aquelle tanto 
nos não falta, que é limitado ao poente e ao sul pelo 
oceano Atlântico, e ao norte e nascente pelo reino de 
Hespanha. Nós cá nos vamos contentando com a nossa 
pequenez. Noventa e dois mil setecentos e setenta e 
dois mil kilometros quadrados na Europa, e ainda al- 
guns milhões d^elles, espalhados pelas cinco partes do 
mundo. A lingua também nos não falta como esta es- 
cripta lh'o está demonstrando. 

4.® — . . . (( Surgiu Portugal, nação inteiramente mo- 
derna, a ultima formada com a desmembração 
dos povos latinos, já no século xii, sem que 
até então existisse xienYvxmia. ôíny^^IuCí ^^M\q.^ 
anterior, nem de trodicç^cs separatistas*^ 



43 

Alguma vez havia de ser para nosso descanço. A 
ladainha de que faz parte a aaiLsenàia do voto pojmlariD 
não tem resposta. Se já no século xii existisse o suf- 
fragio universal, que de polemicas e revoluç5es se não 
teriam evitado! 

5.® — «O fundador da nacionalidade portugueza foi 
um aventureiro francez, casado com uma bas- 
tarda e rebellando-se por ambição contra a 
família de sua mulher.» 
Que o aventureiro fosse francez, leonez, castelhano 
ou aragonez, que faz isso ao caso ? A nossa democra- 
cia nacional, mais sincera que a pessoal do sr. Fer- 
nandez de los Rios, accommoda-se com quaeequer as- 
cendências. Emquanto ao casamento com uma bastarda 
o caso é tão vulgar, que seria excentricidade em quem 
com elle se escandalisasse. 

6.® — Commentarios ao registo de casamento do con- 
de D. Henrique. Vêem a tempo os embar- 
gos! «De tal homem tal familia ! » Accres- 
centa raivoso o moralista. « Morre a bastarda 
continua a guerra contra seu pae ; apenas seu 
filho AíFonso Henriques completa 16 annos, 
revolta-se contra sua mãe,e proclama-se/ra/i- 
camerite Í7idejpendentey> , 
Ora aqui está onde francamente também doe a fe- 
rida ao sr. Fernandez de los Rios. 

7.® — «Nada, absolutamente nada se descobre, que 
justifique a nacionalidade portugueza, mais 
que uma serie de caprichos monarchicos. » 
Provas: Se Affonso VI não casa com uma 
franceza, se Henrique de Borgonha não vein 
á peninsula; se não casa com imia bastarda, 
se não é nomeado governador de Portugal^. se 
não encontra aventurrâoaitauXiQÃTà^^e^^ajvfò^ík^í^- 
xilíem, se o rei de Caat^Wa. I^jl^^^^^^o^^^^^^^ 
uma maneira em vez àe wxa^ oxj^Xx^^bx^^^^^-» 



44 

nalmente se o caudilho deixa de fazer o que 

fez, Portugal, a estas horas, era uma província 

de Hespanha! 

Com uma argumentação idêntica poderíamos provar^ 

que se o sr. Fernandez de los Rios não fosse hespanhoI| 

se não, tivesse vindo a Portugal em missão secreta, e, 

se, por ultimo não houvesse sido deportado, não escre* 

veria o seu livro, com grave damno para os amadores 

de leituras amenas. 

8.® — Isto agora toca a ambos os povos. E um desen- 
. cadeado de injurias contra a consolidação do 
poder monarchico na peninsula. Ahí vae em re- 
sumo : «Farçantes de independência e liberda- 
de, que faziam da mulher um objecto sensual, 
egual ao dos haréns asiáticos ; do homem um 
vassallo similhante a um animal, dos povos tim 
rebanho ao serviço dos seus caprichos, e dos 
caprichos estr.anhos.» 
A esta prosa não se deve tirar o saber nativo. 
9.** — «D. Manuel (cujo pensamento fixo era a união 
ibérica ! ) expulsa os judeus, de Portugal, para 
ser agradável aos reis catholicos. » 
Se a isto se chama philosophía da historia, é preferí- 
vel então escrever historia sem philosophia. 

10.® — Em Alcácer ELibir ficou enterrada a naciona- 
lidade portugueza.» Então a ''nacionalidade 
nega-se aos vivos, e reeonhece-se aos mor- 
tos? 
11.* — «Não tomou parte o povo na sublevação de 
Lisboa (1640) os conjurados viram com es- 
panto que só a plebe os apoiava! Esta dis- 
tincção entre povo e plebe é bastante metha- 
phisica, especialmente com referencia á epocca. 
Ainda assim os Aomens de ojjicxo <3p.e toma- 
ram parte na revoluçluo u^o ôl^íx^tel TCkfô«c^^<Bc 
tamanho desdém a um aço\o^As>^«. ^ç^X.^^^^ 



45 

quantos apresentam folha corrida de não se- 
rem nobres. 
12.° — «Singular amor da independência, o d^esses 
ambiciosos que a invocam para se fazerem 
reis, e apenas o conseguem anceiam a união, 
ainda que seja pelos meios os mais reprova- 
dos.» Na actualidade não tem razão de quei- 
xa, senão reporte-se ao insuccesso^das suas 
missões diplomáticas. i 

13.® — «O papa sanccionou o incesto 3 os cortezãos 
dobraram o joelho ante o matrimonio, e Affon- 
80 IX deixou desgastados pelos seus passeios 
maquinaes os lagedos da jaula do palácio de 
Cintra.» 
Affonso IX ! Onde descobriria o sr. Fernandez de 
.08 Rios este rei, que não é o das navas de Tolosa, 
) que nunca pôz o pé em Portugal ; nem tão pcruco o 
rmão de D. Pedro ii, porque esse foi D. AflFonso vi, 
3asado com uma princeza de Sabóia. 
14.® — «D. João V, que fazia do mosteiro de Oeiras 
um serralho, comprou ao papa o titulo de Ma- 
gestade Fidelissima. O sr. Fernandez de los 
Rios queria dizer OdwellaSj mas enganou-se. 
15.® — «Napoleão, insulto vivo ao principio heredi- 
tário, que na impossibilidade de fazer-se im- 
perador sobre o pedestal dos séculos, ia a des- 
fazer todas as monarchias distribuindo as co- 
roas pela sua família e pelos seus soldados, 
etc.» D^aqui toma pretexto o sr. Fernandez 
de los Rios para julgar insustentável a nossa 
nacionalidade, sendo mais acertado applaudir 
um facto que temporariamente approximou os 
dois povos peninsulares. Vê-se que p sr. Fer- 
nandez de los Rios não nasceu, ^ax^ ííí^Vscja.- 
tico. O que sabe para dii^x c> o^^x*^ ^^ 
xião é conveniente nem px\xâLeTA.ei ^^x^^'»^ 



\iSi 



46 



trato da vida ordinária, é pelo menos levian- 
dade no escríptor, quando esse escriptor re- 
presentou um papel saliente na politica in- 
terna do seu paiz, e symbolisou em si as re- 
lações internacionaes entre dois povos, que a 
sua intemperança de linguagem afastou, em 
vez de approximar. 



CAPITULO IV ' 



Comparação entre Macaulay eí o autor do livro Mi Mision, 
Bapido parallelo entre Hespanha e Portugal nos princípios 
do século actual. Trecho de um discurso de Rodrigo da 
Fonseca Magalhães, proferido na camará dos pares em 
1848. Fernando vii e D. João vi. Uma opinião do viajante 
Link acerca da peninsula. Senibalde de Más e Xisto Ca- 
mará. Antagonismo de opiniões entre os dois escriptores 
hespanhoes. O sr. Canovas dei Castillo fazendo prophe- 
cias. O sr. D. Pedro v suspeitado de iberismo por nunca 
ter fallado de Ibéria! Entra na arena o sr. D. Pio Gullon, 
e desatina escrevendo contra Portugal um folheto impró- 
prio do seu talento. Pastor Dias na berlinda. Opinião d'este 
diplamatico. Iberismo disfarçado em manifestações jor- 
nalisticas, em 1865. Erro palmar do sr. Femandez de los 
Bios, com relação a dois portuguezes illustres. O auctor 
em contradição comsigo mesmo. Merecida applicação aos 
seus actos proloquio de portuguez popular. Bem o prega 
FreiThomaz !... 



Somos entrados na historia contemporânea, e com 
magua vemos o sr. Fernandez de los Rios, doniinado 
pela idéa fixa do iberismo, esquecer-se de que deve á 
sua dignidade e posição official, para distilar pelo 
alambique de um cérebro exaltado, todo o fel que tra- 
zia acGumulado no coração, só porque os acontecimen- 
tos, mais poderosos que a vontade dos homens, o dei- 
xaram pequeno em frente de um grande facto : — a in- 
dependência de um povo ! 

A severidade histórica não exclue a temperanqa d& 
frase, e o sr. Fernandez de loa ^vci^ ^Çk^\%. ^^sísíifvsssiaL 
ao limiar do nosso século sem a ^toôIv^^v^^^^ ^^«s^-^ 
tbetos carregados e retumbantes, Ôl^ ^^"^ ^g^je^^ ^"^ 



48 

colorido de estylo ; innacceitaveis como sentenças mo- 
tivadas, feição que pretende dar á sua escripta. 

Macaulay, o eruditissimo historiador e inimitável 
estylista, modelo do máximo desapego ás opiniSes re- 
cebidas, e ás tradiçSes vinculadas no espirito nacional, 
nunca fez do vocabulário aríete contra as demasias 
que denuncia e corrige em períodos amplos e substan- 
cias, e teve a modéstia de não condemnar monarchiag 
com duas simples palavras como estas : estúpida felo^ 
nia hespanhola e imbecil procedimento portuguez^ raja- 
das soldadescas impróprias de um escriptor sisudo, e 
mais ainda de um diplomático reflexivo. 

Foram rudes as povoações porque a peninsula ibérica 
passou no principio doeste século. Incauta, e desprovi- 
da de todos os meios de resistência, encontrou-se tem- 
porariamente á mercê das armas victoriosas de Napo- 
leâio. As humilhaçSes por que paasou Portugal, que fo- 
ram verdadeiras e o sr. Fernandez de los Rios escuda 
caridosamente com testemunhas nacionaes * nao pesa- 
ram com menor vilipendio sobre a Hespanha, jo- 
guete como. nós da politica rival da França e da In- 
glaterra. 

Se a príoridade da resistência peninsular ao domi- 
nio estrangeiro coube ao heroiemo de algumas pro- 
vincias hespanholas, heroismo que nao queremos 
obscurecer, Saragoça existe ainda para symbolo do 
que pode um povo opprimido; Portugal, pequeno e 
indefeso, soube também ser- lhe competidor em pa- 
triotismo, e dá como fiador á incredulidade no sr. 
Fernandez de los Rios as paginas sóbrias do gene- 
ral Foy, as remeniscencias de Napier, e a gratidSo 



1 S. J. da Luz, Historia da guerra civil, Cláudio de Chaby, 

Excerptoa Históricos. J. Martins de Carvalho, Apontamentos 

j^ra a à/síoria contemporânea^ e Banos e Ovmdí\íí^, Historia da 



49 

por vezes manifestada a nosso respeito no parlamento 
britannico. 

ErrO; e grave^ se nos affigara attribuir exclusi- 
vamente á forma dos governos o affastamento em 
que os dois paizes se teem conservado um do outro, 
económica, commercial e inteliectualmente a sua exis- 
tência autonómica essa é do interesse de ambos. 
O sr. Fernandez de los Rio^ melhor dò que ninguém, 
sabe pelas funcçSes publicas que exerceu em Portu- 
gal, que nem o estado provisório da politica hespa- 
nhola approximou os dois povos, nem as negaças da 
republica nos captou os ânimos, sempre seguros no 
propósito de não imitar a Hespanha nas suas eternas 
oscilações, nascidas em parte de uma ruinosa adminis- 
tração financeira. 

Diz-se que a palavra foi dada ao homem para occul- 
tar os seus pensamentos. Nós cremos ser mais ver- 
dadeiro o servir ella para demonstrar o pró e o contra, 
com egual apparencia de plausibilidade. O regicidio de 
Carlos I foi defendido por Milton com a Biblia na 
mSo, e ardentemente impugnado por Saumaise com ou- 
' tros textos, também da Biblia. Guardadas 98 devidas 
e respeitosas distancias entre Milton e o sr. Feman- 
dez de los Rios, bem como entre o realista Saumaise 
e o refutador do archi-íberista de que se trata, o leitor 
concluirá que são pelo menos improcedentes os seus 
calculados desvios pela historia, provocadores de re- 
presálias que nos não sentimos com gosto, nem vagar 
para exhumar dos fastos nem sempre sem mancha da 
historia hespanhola. 

Não obstante, se o insignificante Grodoy poude, no 
papel, adquirir a ridícula soberania das províncias do. 
Alemtejo e Algarve, e se um caricato rei da Etruria 
chegou a ser improvisado em FoTitamác\%.\x\ tjmína ^^^p»^- 
tivo de que todas estas pViantasnííL^OTv^^e» ^^^^ ^ x^s«^^»^ 
do rei José, acatado em Madriíi em\>ox^ ^^^ -ço^^ ^ 
4 



50 

pO; com total esquecimento das tradiçSes nacionaes^ e 
sem que a ossada de Pelayo estremecesse na campa. 

Falla-se a miúdo na alliança peninsular, e na in- 
fluencia que ella deve, e está no seu dii^eito em exer- 
cer nos negócios da Europa, mas como é que Portugal 
pode descançar na fé d^essa alliança, aliás útil e racio- 
nal, se ainda no principio d'este século a Hespanha se 
alliava á republica franceza contra nós ; e se recente- 
mente ainda, em 1847, acceitava o papel de invasora, 
e nos humilhava com a presença dos seus exércitos, 
esquecida da fraternidade que tantas vezes invoca? 

A astúcia da raposa do apologo é tão a miúdo des- 
mentida pelos nossos visinhos, e o sr. Femandez de los 
Rios nos está dando agora mesmo mais um exemplo 
d'isso, que não ha corvo por enfatuado e imbecil qme 
seja, que largue do bico o queijo que traz seguro, para 
ouvir os namorados requebros da embaidora. 

De fragmentos desconnexos de livros e folhetos, re- 
cheia o diplomático hespanhol o seu arsenal de inve- 
ctivas contra nós, occultando as sessões do parla- 
mento portuguez, em que incidentemente se tratou 
das nossas relações intemacionaes, em períodos re- 
centissmos. * 

Estas considerações não tendem a deprimir, nem 
sequer a attenuar as boas relações de amisade que 
devem existir entre Hespáhha e Portugal, e se d^eUas 
nos fizemos aqui interpretes, foi como expressão de 
sentimento nacional, que vamos fortalecer com as pa- 
lavras do eminente estadista Rodrigo da Fonseca Ma- 
galhães, proferidas na camará dos pares, em 1848, 
debaixo ainda da dolorosa impressão causada pela in- 
tervenção estrangeira do aimo anterior : 

^ No £m doeste volume encontrarei o \evtoT \xcL^Qit\A3DX5&^ 
doeuinentoB parlamentSLreB q\xe o Br. YeriiacaâLft^ ^^Ví^^Bà»^ 
omittio no seu livro. 



51 



(íOppuz-mç sempre a ella, (á intervençSo hespa- 
nhola), e a ella, mais do que a nenhuma outra; e não 
por ódio ou preconceito algum, que isso seria uma 
puerilidade ; mas eu não queria que o sapato de um 
soldado castelhano pisasse o nosso território para in- 
tervir em nossas dissençoes domesticas. N^esta parte 
tenho os principies de nossos antepassados (apoiados), 
cujos sentimentos de nacionalidade mantiveram até 
hoje a independência d'este pai^. É justo ^ é de im- 
mensa idilidade, que a nidlior inteUigencia reine entre 
as duas na^es ; sejam intensas as sua^, rèlaçdes com- 
nierciaes; sejam com/) e^itre províncias visinhas; demu- 
lam-se as alfandegas das fronteiras; levem ambos os 
jyovos um ao outro os seus productos com os Tmnores tro- 
peços que possível seja; mas não intervenham os nos- 
sos visinhos nas nossas coisas politicas.» 

«Estou certo que taes são os sentimentos de todos 
os portuguezes zelosos de sua independência, e que 
considerem que, se alguém tem que temer por eUa, 
é, pela situação geographica, ^somente do reino visi- 
nho, mais forte do que nós, e que já nos teve sessenta 
annos que não foram para nós de felicidade. 

Nós amamos a nossa pátria, a nossa dynastia, a^ 
nossa historia, que é das mais brilhantes dos tem- 
pos modernos ; a nossa lingua — a lingua do. Camões — 
os nossos monumentos, emfim tudo quanto constitue 
uma nação, um povo distincto, cuja bandeira nos fez 
conhecer em todas as plagas do universo — essa ban- 
deira que, por um decreto de Filippe ix, tinha de ceder 
ao pavilhão de Castella; — o que nossos pães tiveram 
' como o maior opprobrio.» . 

«E, repito^ nada d'isto significa aversão a nossos 
nobres e heróicos visinhos^ com os quaes desejo que tror- 
temos como irmãos. Não venham as suas baionetas in- 
* tervir em nossas questões, salvo se a.dynastóa.^^^'^'^^ 
atãcaãa por um poder eBtraoiko; ^iiís&i^^^xass>%<2»^asRs»r 



52 

mo. Estes são os meus sentimentos^ embora venham 
a ser sinistramente interpretados. NSo attribuí ao go- 
verno visinho ruins intenções na sua intervenção ; mas 
entendi que a não deviamos solicitar; e ainda assim 
o entendo, posto que é para desejar que cada vez mais 
se estreite a união e boa iitelligencia entre as duas na- 
çdeSj que a Providencia destinou para serem amigas. » 

«Não nos acostumemos a ver no nosso território es- 
sas intervençSes armadas em questões propriamente 
domesticas; esse espectáculo abate e deprime o espi- 
rito de independência que nos deve alentar. Em loganr 
de exércitos venham os seus mercadores, os seus via- 
jantes: muito desejarei que tiremos mutuo po^oveito de 
nosso trato e relações, e, que, como disse, commerciemos 
como povos de provindas limitrophes, como irmãos que 
somos. (Apoiados). Oxalá que da parte dos nossos vi- 
sinhos haja o mesmo pensamento a respeito doeste com- 
mercio e doestas estreitas relaçdes de amisade / * » 

Foi larga a transcripção, mas por autorisada a não 
quizemos mutilar, antes conservámos como espelho 
claro, onde se possa rever a consciência dos nossos 
compatriotas. Agora prosigamos. 

Que a casa de Bragança cessasse de reiíiar por um 
decreto de Napoleão, que o congresso de Vienna poste- 
riormente invalidou, castigando na França as ambi- 
ções do seu gigantesco representante ; para que presta 
recordar como ominoso um facto que foi pretexto pro- 
videncial da alliança peninsular que se lhe seguiu, e 
de que os dois paizes ainda hoje se ufanam? 

Sabemos quão pouco gloriosos foram os reinados de 
Fernando vii, em Hespanba, e de D. João vi, em Por- 
tugal, mas o que é diflBcil de averiguar é qual dos 
dois imperantes fez mais triste figura, e representou 

^ JDiscurBo de Rodrigo da Fonseca M^agaMoS^ea, ^xo^ctv^çi 
-oa e&mãra dos parea do reino, em fevereito àe \%^^. 



53 

mais vergonhoso papel; se o primeiro, andando aos bal- 
dões da sorte, vilipendiado e escarnecido de todos ; se 
o segoiido ausentando-se do reino, por conhecer que a 
Providencia o nâo vasára no molde dos heroes, e fiirtan- 
do assim a sua egoista individuaUdade ás cómicas pe- 
ripécias a que se ageitou na Europa o seu coUega de 
infortúnio. 

Conhecemos o livro do duque de Chatelet, mais hu- 
morístico do que sensato acerca das coisas portugue- 
sas, mas n?to é seguro nem digno fazer obra pelas im- 
pressões de viajantes estrangeiros, com especialidade 
francezes, que percorrem, ou percorreram a peninsula. 

O sr. Femandez de los Rios não o ignora, mas 
lança ás vezes descuídosamente mão das armas que 
o podem ferir. O naturalista Link, allemão de nasci- 
mento, e como tal menos propenso a ver as coisas 
pela rama de que o touriste irancez, na sua «Viagem 
a Portugal», atravez de Hespanha » se nem sempre 
acerta nos seus julgamentos, é pelo menos imparcial 
quando p5e em relevo o atraso dos dois paizes, e os 
funde na mesma commum sentença, assign alando po- 
rém as differenças de caracter entre as duas naciona- 
lidades, que as torna não antipathicas uma á outra, 
mas impossiveis de fusão, pelas disparidades que apre- 
sentam. 

Os acontecimentos de 1847, a que já atraz nos re- 
ferimos, exaltando momentaneamente o nosso amor 
próprio nacional, provou que o espirito publico não es- 
tava, como ainda vhojenio está entrenós tão amorte- 
cido como a má fé por vezes o tem querido julgar. Al- 
lucinaçoes de momento não podem ser levadas á conta 
de opiniões fixas e reflectidas *. 



1 O autor doestas linhas era ainda então muito rapaz, e parti- 
dário das idéas representadas pela junta do Porto, a cujo ser- 
viço andou. Tendo occasião de eticoiitt^íc-^^^isvxasivt&xaa&Rfc^sK^^ 



54 

Da exaltaçSo popular de 1847; e do rebate dado ás 
idéas mais avançadas no anno seguinte, pela procla- 
mação da republica franceza, infere o sr. Femandez de 
los Rios que a chimera da união ibérica mudara de 
rumo, passando decididamente da ambição dos reis a 
ser o pensamento fixo dos povos ! 

Para accentuar mais a sua opinião, e justífical-a 
com provas, cita o autor o juvenil enthusiasmo com 
que 03 estudantes hespanhoes e portuguezes residentes 
em Paris, em 1848, saudaram a nascente republica 
franceza, aclamando a imião ibérica ! Ignoramos como 
as coisas então se passaram, mas a acclamação da união 
ibérica feita por estudantes, e em paiz estrangeiro, 
tem taes laivos de ridiculo, ou pelo menos tal cunho 
de extravagância de mocidade que, reproduzida co- 
mo argumento, é sobre banal imprópria da gravidade 
de um historiador. 

Por este tempo andava já D. Senibaldo de Más 
sonhando a fraternidade^ egualdade e união entre por- 
tuguezes e hespanhoes, e havia reunido alguns ami- 
gos em Macau, (a que distancia seria da gruta de 
Camões?) a quem revelava as bases em que devia 
assentar o futuro alcorão ibérico monarchico, que de- 
pois viu a luz publica, em Lisboa em dezembro de 
1851, e veio a servir pelo correr dos tempos de fonte 
perenne e caudal de argumentação, a todos que se teem 
occupado até hoje da fusão das duas nacionalidades. 

Deve-se porém notar que o apostolo nenhum discí- 
pulo deixou que cresse ás cegas na palavra do mes- 
tre, apezar do empenho d'este em não deixar de es- 
quadrinhar como propagandista todas as frioleiras que 

litar, com alguns hespanhoes que faziam parte da divisão do 

general Concha, entre elles com o infeliz brigadeiro D . Jay- 

lue Ort^a, depois fuzilado, que aventurou a idéa da untão 

^àer/oa, /mmediatamonte repellida por um. do» dxe\3Jíi«\»ii\«a, 

«a? nome de todos oa outros. 



55 

lhe pareceram úteis para o seu intento ; desde as ni- 
gromancias chronologíeas^ coUegidas para uso dos ma- 
lutos de ambos os sexos^ a passar pela oaricata pro- 
moção de Santarém a capital da nação ibérica, e a 
terminar pelo mappa demonstrativo do numero dos 
ministros e generaes que cada uma das provincias 
tem fornecido á Hespanlia, como que garantindo, pelo 
exemplo, eguaes regalias a Portugal! 

Depois do propagandista mònarchico e unitário, por 
intermédio de enlaces matrimoniaes, (os retratos dos 
príncipes portuguezes e das princezas hespanholaa^ 
figuram como chamariz no ante-rosto de uma das edi* 
çSes do livro do sr. D. Senibaldo de Mas ! ) vem o fo- 
goso e ingénuo D. Xisto Camará * e deita a correr 
mundo a sua União Ibérica, verdadeiro ceei tuerâ cêlá 
do pensamento genial do phUo-ibericOy que o antece- 
dera. 

Ás citações fazem fé. 

«A união de Portugal e Hespanha, diz Xisto Ca- 
mará, não pôde, não deve ser ccobra de reis ; mas obra 
de ambos os povos, reunidos e abraçados nos altares 
da fraternidade». 

Demonstração. Subindo do menor para o maior, re- 
monta Xisto Camará da familia ao municipio, do mu- 
nicípio á província, da provincia ao poder supremo, 
a que evita dar o nome de poder central, e constitue 
com estes elementos a nação ibérica. 

Condensando em três proposiçcles g^aes a sua ar- 
gumentação, formula D. Xisto Camará o seu proble- 
ma, e tira depois a seguinte consequência: c Assim é 
4 que, desde o momento em que se trata de remir as 

1 Xiato Gamara foi homem de car^ex exaltado, más de 
convencimentos profundos, e cavalheirosa le^^íi^^^.^S.^^^ "ws^- 
gos sinceros em Portugal, que laaVim^x^Tcv ç^ ^^^^^Hs.-íA.^^^^ 
que encontrou na sua pátria ao deix&x 3i.TLO^«.^V^'«x'sOâ$5!S^?^*" 
JeirÃ, 



56 

«localidades, quebrando este rijo cabo, que as subjuga 
«ao poder central brota na mente, como uma rosa^ a 
«idéa da federarão ibérica \ » 

Ora aqui temos nós dois dos primeiros iniciadores 
do iberismo em guerra aberta um com o outro, preten- 
dendo o primeiro a união monarchica, e receiando 
a anarchia que deve porvir de qualquer outra forma - 
de governo ; e pertendendo o segundo fazer renascer as 
velhas nacionalidades, conglubadas hoje em um todo 
informe, (convém não esquecer nunca o viver excep- 
cional das provincias Yascongadas, nem a existência 
attribulada da Galisa) e prendel-as em harmonioso 
conjuncto pelos laços do federalismo. 

Doestes dois percursores da idéa ibérica se derivam 
todos os extravios que ella tem tido até á época actual, 
conforme as tendências dos diversos chefes de seita 

2ue se chamam Olozagas ou Canovas dei Castillo, Pio 
l^ullon ou Martos, Castelar ou Salmeron; uns enfeu-, 
dados á monarchia, e como taes querendo robustecer 
a phantasmagoria da unidade hespanhola; outros, 
mais homens do futuro, procurando na federação uma 
phase menos humilhante para Portugal, da união ibé- 
rica. 

Apesar dos , esforços doestas duas diversas escolas, 
forçoso tem sido á Hespanha reconhecer que lhe fal- 
tam os elementos de prosperidade moral e material, 
sem os quaes uma nação não pode apresentar-se fran- 
camente a convidar uma outra nação a correr com 
ella as aventuras e os asares que tomaram immortal 
o protogonista do inimitável romance de Cervantes. 

Em 1854, quando uma revolução militar punha mais 

uma vez em perigo o throno de Izabel n, refloria como 

uma rosay não a idéa do inventor de tão poética compa- 

raç%o, maa a ão seu antecessor D. Senibaldo^ de Más, 

e o ar. D. Pedro v principiava a ser mcoTooioô^ÔLO e^wa. 

^^ importunações dos ibéricos, aemipre VoSx^xfitòXfât^^^i 



57 

apezar das affirmativas em contrario, não baseadas 
em quaesquer documentos que mereçam ser tidos co- 
mo dignos de fé. 

. Por este tempo o sr. Qanovas dei Castillo, aliás ho- 
mem de notáveis faculdades intellectuaes; escrevia um 
papel inculcando o sr. D. Pedro v para rei da ibéria, e 
em vez de pôr ao serviço da sua causa razoes de al- 
cance social dignas do seu talento, o sr. Canovas acei- 
tava os processos da velha seita sebastianista, e fazia- 
se propheta na sua terra, pondo em relevo, o numero 
fatal de seis que nunca ultrapassara nenhuma das 
quatro dynastias que haviam reinado em Hespanha, 
e tirando doeste jogo de algarismo a conclusão do ter- 
mo final do reinado de D. Isabel u, e a proclamação 
do sr. D. Pedro v ! 

Os indicies de iberismo, n'esta época, citados pelo 
sr. Femandez de loa Rios são : um artigo do Diário 
Hespanholy um outro da Revolução de Setembro^ fir- 
mado pelo sr. António Bodrigues Sampaio, e ainda um 
terceiro do Leiriense^ escriptos os dois últimos na oc- 
casião em que alguns myopes impugnavam a cons- 
trucção do caminho de ferro de norte, em nome de 
imaginários perigos de invasão hespanhola, artigos 
improvisados no ardor da polemica, sem fito politico,, 
e agora ííívocados como tendências para o iberismo ! 

O facto do sr. D. Pedro v ter pronunciado oito dis- 
cwrsos de ahertwra dopa/rlamerdOy três de encerramento ^ 
treze respostas a commissdes da camará dos pares^ ou- 
tras tantas d dos deputados, e dezenove á camará mu- 
nicipal de Lisboa, sem em nenhum doestes CINCOEnta 
£ NOVE documentos se ler uma única vez as palavras 
«independência» ou aautonomia» é invocado pelo sr* 
Feraandez de los Rios, oom uma argúcia digna dos 
seus anteriores calculoB arit\m\e^Â!^^.^^ ^^^^^í^^ ^»f- 
tarem certas as sommaR acvma \TiôÍL<i»Aa»^ ^"^"^^^^^^ 
tender que o silencio ào c\ieifò ô^e^ ^^\.tA^ «^x^k^^ 



58 

propósitos íbericoS; qaando^ o muito negar o que he 
projecta fazer ^ é que as mais das vezes serve de capa 
em que os velhacos se envolvem. 

Este iberismo manso, platónico, que o sr. Feman- 
dez de los Rios quiz ver transpirar em tudo, e por 
toda a parte, não só não deu então nenhum resultado 
pratico, como também não fortaleceu as theorias que 
já andaram em circulação. O mais a que chegou foi a 
provocar os fogachos do sr. D. Pio GuUon, que, pon- 
do de parte rodeios, se atirou logo aos moiros de lan- 
ça em riste e viseira calada, publicando um folheto 
injurioso para Portugal, intitulado La fusion ibérica^ 
engenhoso á força de ser desbragado, e que termina 
invocando a assistência do apostolo Santiago para a 
obra meritória da nossa absorpção ! 

Um jornal hespanhol deu por esse tempo a entender 
que o folheto fora inspirado nos paços de Santo Ildefon- 
so, mas nós não cremos que uma senhora fosse musa 
d'aquelle acervo de premeditadas injurias contra uma 
nacionalidade ; e apenas sentimos que o sr. D. Pio 
Gullon preterindo as praches e as velhas usanças da 
cavallaria, nos não avisasse por cartello das intenções 
hostis de Santiago, para nós mandarmos previnir S. 
Jorge, em inactividade temporária ha tantos séculos, 
do repto que lhe era feita por um confrade seu do Fios 
Sanctorum. N^isto vieram a parar as illus5e& ibéricas, 
renascidas em 18õ4, apezar das propheoias do sr. Ca- 
noras dei Castillo! 

Do não iberismo do sr. D. Pedro v dão testemunho 
os despachos diplomáticos de Pastor Dias, ministro de 
Hespanha em Portugal, que tanto exaltaram a bílis do 
sr. Femandez de los Rios, a ponto de os alcunhar de 
pretendoaosy cUtisonantes e attribãiarios, só porque não 
foram escriptos com estjlo chocaçreiro, e se reconhecia 
n'eJJea as guaJidãdea pe380&Q& que àiatingvxitwccL "wbit^í. 
porta^aez, dado ao estudo^ e ao ôeuoffi.cíio âi^Tràiwc 



59 

Como Pastor Diâz é pouco conhecido em Portugal, 
como quasí todos os seus compatriotas, mesmo os mais 
illostres, convém dizer que o homem tão asperamente 
julgado pelo sr. Fernandez de los Rios foi deputado 
em treze legislaturas, membro do senado e presidente 
da Academia Central de Madrid, havendo a sua. morte* 
sido geralmente sentida em toda a Hespanha. ^ 

^insistência em commentar os despachos diplomá- 
ticos de Pastor Diaz com a mais ante-christã das vio- 
lências, e o mais completo esquecimento"" de que fôra 
seu antecessor em um cargo melindroso e elevado, al- 
guma razão forte havia de ter da parte do sr. Fer- 
nandez de los Rios, e com effeito viemos a encontral-a 
em um despacho de 30 de abril de 1861, de Pastor 
Diaz para o seu governo, que diz assim : mA união 
fíiberica chegou a ser uma espécie de papão , com que 
^aiguns sinceramente sonham e se espantam. Pa/ra o 
aresto é uma accusa^ão de partido que constantemente 
(Luns contra os outros fulminam. E' um thema que cada 
apartido varíay accanimodando-o á sua musica e á sua 
m clave. 1» 

Como a sinceridade d'esta verídica confidencia de 
Pastor Diaz invalida um dos principaes recursos do 
sr. Fernandez de los Rios, a sua appellação constante 
para o jornalismo portuguez, por isso vê com tão 
maus olhos os despachos do seu coUega, excepto quan- 
do este avulta as difficuldades da sua missão, porque 
essas applaude-as o crítico, como passaporte para a 
posterídade, e desculpa dos próprios insuccessos di- 
plomáticos. 

Os despachos do conde de Valeçciae, e do marques 
de la Ri vera, são também pouco affectuosamen te passa- 
dos em revista pelo sr. Fernandez de losRios^ (abran- 

1 Vide : António de Latonr, francez de nação, e secretario, 
cremos nós, do duque de Montpensier. 



60 

gem os annos de 1862-1865)^ mas lidos despreveni- 
damente, e sem paixão^ nSo provam que o exclusivo e 
afferrado amor d^aquelles diplomáticos á dynastia dos 
Bourbons èm cousa alguma influisse no giro da poli- 
tica interna portuguesa, nem tão. pouco na externa, 
apezar de alguns ásperos e inevitáveis incidentes da 
epocca dar logar a conjecturais^ mais ou menos capcio- 
sas, em razão do já então projectado consorcia do 
sr. D. Luiz I com uma princeza italiana. 

Para o nosso fim basta apenas deixar aqui anteci- 
padamente consignada a hostilidade do 8r,D. Fernai%do 
á idéa da união ibérica *, que devia trazer mais pre- 
cavido o sr. Femandez de los Rios, em 1869, para se 
não arriscar a tão repetidos desapontamentos como os 
que experimentou. 

Convem-nos também deixar registada a opinião de 
Coello y Quesada gue guébra a monotonia das adula' 
çdes que se registam nos copiadores da legação ^ q é de 
gue a estabilidade da administrarão e a tolerância que 
reina nas regiões ojfficiaes, como o socego filho do tempe- 
ram/ento do povo, são, alem d^isso, grandes elementos de 
ordem, de liberdade e de paz. Esta opinião, embora 
attenuada por outras considerações menos benévolas, 
segundo o uso bespanhol, fica-nos de arestos, para me- 
lhor occasião. 

Depois d'esta «alleluia» de publicidade, em seguida 
ás trevas e á paixão dos officios reservados e confi- 
derudoes, inicia-nos o sr. Femandez de los Rios nos 
segredos do jornalismo philo-iberico, explicando-nos 
como se urdem ovações no paiz visinho, e com o par- 
tido anti-dynastico, em Hespanba, preparou a de que 
foi alvo e rei portuguez, pela combinação dos jornaes 



^ Vespacho do jmarquez de la Bivera, de 30 de junho de 
■2864. 

^ Femandez àe loa Bíob, Mi misimi^ pg. ^'í^O. 



61 

La Soberania Nacional e a Democracia^ denunciados 
á censtp:^ por um collega menos benévolo, ou mais 
aferrado ás velhas crenças monarchicas. 

Estes manejos ibéricos, revelados pelo sr. Feman- 
dez de los Eios, que n'elles tomou parte, bastariam para 
nos precaver contra a sinceridade dos jornalistas e do 
jornalismo em geral, invocada no livro Mi mision co- 
mo prova, que para nós nada significa, das tenden- 
oias ibéricas dos dois povos. 

O jornal hespanhol LaEpoca^ que, em 1861, fusti- 
gava em um suelto o folheto do sr. D. Pio GuUon, 
amortecendo-lhe a importância com a procedência pa- 
laciana do auctor: em 1868, sete annos depois! pu- 
blicava um plano estratégico da invasão de Portu- 
Sal, com a circumstancia aggravante de ser redactor 
'aquella folha o mesmo sr. Coello y Quesada, que, 
quatro annos atraz representara o seu paiz em Portu- 
gal, com applauso excepcional do seu sucessor. 

Nós não somos aqui, nem fora d^aqui, defensores 
de dynastlas ; mas a culpa que a ellas ou aos seus 
agentes attribue o sr. Fernandez de los Eios para a mu- 
tua desconfiança que existe entre os dois povos penin- 
Bolares, se é possível dever-se em parte á ambição dos 
reisy deve- se também em não menor escala á levian- 
dade dos democratas.. 

Entre elles, porém, nenhum tem maior responsabi- 
lidade que o ex -representante de Hespanha emPortu- 
galy nSo só pelo que tramou emquanto foi jornalista, 
como pelo que poz por obra como agente secreto do 
general Prim, como também pela publicação do seu li- 
vro — imico no género — desde que na Europa se tra- 
vou a lucta entre o que existe, e o que pôde ou deva 
existir, segundo a escola politica dos contendores, e 
as aspirações de cada um d^elle^. 

Esta segunda divisão do \ivro ÔlO «»T.'^«wsa2càfòi-^^ 
los Rios, fecha, como a primeira, eom óasN^ ^^«s«x»^ 



62 

preceito imposto aos sonetos, e que não é paradespresar 
nos pamphletos politicos. Sob a rubrica de balanço his- 
tórico, resume o autor as suas opiniões a^nteriores', sem- 
pre ambiciosas, mas nem sempre convidativas da ana- 
lyse, correndo á desfilada atravez de dois séculos, não 
arbitro entre elles, como o Napoleão na óde de Mazo- 
ní, mas levado por elles no enchurro das vilesas já 
apontadas, e de paixões apenas mal extínctas. 

No resumo histórico que de 1640 desce até 1800, 
mas sóbrio ainda assim que' o do primeiro inventario 
da nossa nacionalidade, que abrangera a bagatella de 
seiscentos e sessenta annos : alegra-nos ver o sr. Fer- 
nandez de los Rios tomar o fôlego para recordar a he- 
róica i^esurreição da peninsúla em época de commum 
. provação (1808), entristecendo-se-nos logo o espirito 
ao considerar que sol de pouca duração foi o desassom- 
bro do seu espirito patriótico, e como depressa se dei- 
xou vencer pela. ascendente dos preconceitos contem- 
porâneos ! 

Um erro temos ainda a indicar na esciípta do sr. 
Fernandez de los Bios, e é a confusão que n^elle se 
faz de Mousinho da Silveira com Mousinho de Albu- 
querque, nomesegua Imente illustres, mas de indole e 
acção diversas no theatro das nossas luctas politicas ; 
dando ao segundo a designação de « grande reforma- 
dor» que compete exclusivamente ao primeiro; erro 
tão imperdoável como seria para um portuguez con- 
fundir Mendizabal com qualquer outro contemporâneo 
de significação politica menos evindenciada. 

Não querendo omittir nenhuma das peças d'este im- 
portante pleito, transcreveremos na integra o summa- 
rio que o sr. Fernandez de los Bios nos apresenta das 
tentativas ibéricas, ou como taes qualificadas, todas 
encetadas em tempos anormaes, e inspiradas por des- 
peitoa de occasião, nos três primeiroa c\vx'ax\.^\^ ôí^-eX.^ 
século. 



63 

«NSo era, porém, a ambição de reisj de príncipes 
npm de &yoritos a que, desde o principio d'este se- 
GulO; tirou a aspiração á unidade peninsular do cami- 
nho das guerras e dos casamentos, trazendo-a por 
senda diíFerente : nem a que em 1818 movia Campu- 
zano a tratar do assumpto em Londres com o embai- 
xador portuguez; nem que em 1823 se reflectia nos 
despachos do ministro Pando ; nem a que em 1826 le- 
vava Flores Calderon, Diaz Morales^ Rumi e Borrego 
a combinar com D. Pedro /Fuma revolução para uni- 
ficar a peninsula ; nem k que guiava Mendizabal em 
suas negociações com o marido de D. Maria ii ; nem a 
que discutiam o conde das Antas e o general Córdova 
Gm plena guerra civil; nem a que em 1847 aconselhava 
08 revolucioTiarios do Porto a fazer propostas ao general 
Concha ; nem a que em 1848 levava ao Hotel de Villej 
de Paris, quatrocentos hespanhoes e portuguezes (al- 
guns d'elles depois ministros) accrescenta a narrativa, 
fundidos em um pensamento e seguindo uma bandeira 
de concoidia ; nem a que em 1850 punha em oração o 
bispo Matta para pedir ao ceu que a familia portu- 
goeza volvesse a ser unida ; nem a que ditava a Frei 
Freixá; Caldeira e Senibaldo Más, a Memoria publi- 
cada em 1852, e quatro vezes reimpressa (e apezar • 
d'isso pouco ou nada conhecida em Portugal accrescen- 
taremos nós); nem a que pelo anno de 1854 inspirava 
08 mms distinctos escriptores e oradores portuguezes^ 
nem a que em 1865 nos levava, a Castelar e a nósj á 
estação do Norte a fazer uma ovação aos reis de Por- 
tugal ; nem a que resplandece, finalmente, no renasci- 
mento sdentiflco e litterario que actualmente se eMd ope^ 
rando no occidente da peninsula, como para encher o 
vácuo dos que por interesse de momento renegaram de 
8eu ideal, d 

DiBse-noa o ar* Femandez de\oa^\o^ cj^*^ ^\^^^'^^- 
ríca passará doa reis e dos çrinciç^Ã ^ ^^^ ^^x^Sis^aÀíz^ 



64 

pelos povos, e nós vemos D. Pedro iv e o marido da rai- 
nha D. Maria u figurarem no elenco dos personagens 
apontados como ibéricos, quando não directamente por 
si por intermédio dos seus representantes Campuzano 
e Borrego. Dá-nos ainda o sr. Femandez de los Rios 
como expontâneo e popular o progresso da idéa ibéri- 
ca, e n<^ encontrámos um bispo em extasi, fazendo 
oração mental, e pedindo ao céu pela fusão de uma fa- 
mília já congraçada pelas aspirações de dois povos. 

Cita finalmente, os anno8*de 1847 e 1848 como 
caracteristicos de evolução social que o preoccupa, 
quando essas datas, já o dissemos e repetimos, pres- 
tam e servem simplesmente para recordar a necessida- 
de de uma alliança offensiva e defensiva na pemnsuUiy 
mas sincera, leal, sem mescla de fusões nem de idea- 
lídades. 

Emquanto á precipitação que o sr. Femandez de 
los. Rios prudentemente condemnâ em assumpto de ta- 
manha magnitude^ assim próprio lavra a sentença 
quando ridicularisa os ibéricos 'de circumstanciay que 
em suas temporadas de febre querem forçar a acção dos 
tempos e fundar ihronos peninsulares á medida da am- 
bição dos que dispensam os proventos nos períodos em 
que a idéa não corresponde ao interesse dos povos. 

Foi isto exactamente o que fez o sr. Femandez de 
los Rios, em 1869, como vamos demonstrar com a 
própria confissão do réu. 

Bem o prega Frei Thomaz!... 



CAPITULO V 



Missão secreta do sr. Fernandcz de los Rios, cm Portugal. A 
Ibéria casamenteira. O duque de Montpensier. Entra em 
soena o marquez de Niza. Florilégio. Kctrato de cl-rei o 
er. D. Fernando, feito a capricho. De como o diplomático 
bespanbol justificou com a sua estreia o titulo de uma co- 
media de Tirso de Molina. O marquez de Niza promovido 
a Lavater. Explicação de uma cart« do fidalgo portuguezr 
Julgamento do emissário secreto feito pelo sr. Pinheiro 
Chagas. Bases de politica peninsular indicadas pelo sr. 
Silvela, e acccitas pelo marquez de Sá da Bandeira. Ma- 
chiavelismo do sr. Fernand.z de los Rios e sinceridade do 
ar. Lorenzana. Outra vez o duque de Montpensier. Refe- • 
rencia a uma carta de cl-rci o senhor D. Luiz ao duque de 
Loulé. Mexericos a propósito da nomeação do sr. Corvo 
para representante de Portugal em Madrid. Trecho de um 
despacho do sr. Mendes Leal. Explicações acerca de ques- 
tões de liberdade de imprensa. Uma opinião do sr. Thco- 
philo Braga que nada tem com o iissumpto. 



PasBou-fie o llubicon ! 

As asperezas retrospectivas de citações descosidas, 
e violentamente arrancadas da grande tela da histo- 
ria, vae seguir se, para nos refrescar o espirito, o idy- 
lio pastoril ; ou, com mais propriedade, a comedia 
abundante de peripécias cortczas, salpicada aqui ou 
ali de observações dicazes ; e dialogada, senão com 
presteza, pelo menos com atti cismo, como convinha a 
um diplomático, conhecedor das engenhosas ficções do 
seu compatriota Breton de los Herreros. 

Estamos em plena actualidade. A acção da come- 
ãia abrange oa annos do 1869-1814, ^ \.Çi\xv^^x ^-^v^^- 
phe commissão secreta^ podendo t«iTOjQettv ^^W\t-\w?i ^^^ 
5 



66 

titulo «jBZ vergonzoso en palácio » usurpado a Tirso de 
Molina, mas frisante, applicado ás primeiras scenas da 
peça de que vamos dar conta. 

Na noite de 13 de janeiro de 1869 (que algarismo 
para um supersticioso!) foi o sr. Fernandez de los 
Rios chamado pelo sr. Zorrilla que o convidou a acei- 
tar uma misaâo secreta em Portugal. Annuindo a ella, 
foi o futuro emisí-ario endossado ao general Prím, que 
o levou pela mão a um aposento r.etirado, expondo lhe 
a neccHsidade de arranjar um rei para a Hespanha^ 
cuja candidatura podesse, com vantagem, ser contra- 
posta á do duque de Montpeneier, que por aquelle 
tempo, como ainda depois, punha olhos avaros no 
thr,ono de que sua cunhada fora deposta, com pouco 
respeito pelos laços sagrados da família, e nenhuma 
consideração pelos direitos de seu sobrinho que todos, 
menos elle, podiam desacatar. 

A história dos chamados casamentos hespanhoes, 
que tanto alvoroçou a diplomacia continental, e accor- 
dou as susceptibilidades adormecidas da Inglaterra, 
durante o reinado de Luiz Filippe, seguidor das tra- 
dicçSes de .Luiz xiv com relação ás allianças de fami- 
lia, veiu a ter a sua explicação natural na pouco lou- 
vável ambição do duque de Montpensier, patriotica- 
mente contrariada, diga-se a verdade, pelo ministério 
presidido pelo general Prim. 

E^ta reluetancia dos hespanhoes em aceitar a can- 
didatura de um prini^ipe estrangeiro era mais do que 
justificada, principalmente proscripta como fora pela 
revolução de setembro a dynastia dos Bourbons, a 
que pertencia á esposa do duque, candidato a uma 
dupla usurpação. Cumpria porém tomal-a extensiva a 
todos os príncipes de origem não nacional, embora sem 
os compromissos de honra que deviam pesar na con- 
sciencia do tio de Affonso XII, reçrea^iitando ac\uelle 
o papel de lobo, e eate o do coràeiro do aç^oç^c^X 



67 

• 

Não o entendeu, porém, doesta forma o general 
Prim, nem os srs. Sagasta, Figuerola e Zbrrilla, como 
consta das ercdenciacs que assignaram ao sr. Fernan- 
dez de los Rios, encarregando o de encarnar em ai a 
figura de tentador das almas, que o poeta allemao po- 
tontamente symbolisou em Mef»histopheles, e engenhos 
mais acanhados, mas menos soturnos, em Dianas de 
Poitiers, ou em outras das gentis maldosas que influí- 
ram nos destinos dos impérios. 

Sem a velhacaria d'aquelle, nem as graças geniaes 
doestas, o sr. Fernando de los Rios cahiu de chofre 
nos domínios de Cervantes, desde que, abandonando a - 
empreza que traria aos hombros a de organísar quinze 
mil operários que então sobrecai^regavam o mfníicipio 
de MadHdj se aventurou a partir para Lisboa, trazendo 
na algibeira uma carta de recommendaçao para o mar- 
quez de Niza, que havia pol-o na pista do desoucan- 
tar um rei ! 

Alem doesta carta, trazia comsigo o emissário secreto 
uma outra para el-rei o sr. D. Fernando, assignada por 
qaatro ministros, e, sem n*ella se fazer referencia á 
vontade do regente : e mais um outro papel, o nome 
nada faz ao caso, encarregando o activo tirateimas de 
estudar na Extremadura quaes os terrenos próprios 
para o estabelecimento de colónias agrícolas, isto tudo 
muito em segredo e confidencialmente^ o que nSo im- 
pedia que o sr. D. Ildefonso Bermejo * publicasse 
quasi pelo mesmo tempo muitos doa documentos reser- 
vados, agora dados á estampa, pelo unieo interessado 
em ser juiz da opportunidade da sua publicação ! 

De historiador pouco escrupuloso passou o sr. Fer- 
nandez de los Rios a ser paisaísta esmerado, descre- 
vendo as avenidas do palácio das Necessidades, que 

i Historia de la íateriaidade y eu^Tt^b w'A ^^ ^i?i^^à:^^í>^^ 
desde 1868. 



68 

estudara de fora, como um general estuda o campo em 
que projecta dar batalha, isto emquanto não recebia 
resposta da carta que mandara entregar ao marquez 
de Niza* pedindo-lhe uma entrevista. 

O marquez, homem de subtil entendimento e im- 
mensa pratica do mundo, punha acima de todas as 
considerações o titulo de amigo do seu amigo, cortezia 
com que á priori se escudava contra os possiveis de- 
sastres do Icaso a que se ia associar, nâo querendo, 
já no declinar da edade, expôr-se a liaufragios que o 
seu antepassado, 

Vasco da Gama o forte capitão 

evitara com a prudência que lhe valera a descoberta 
da índia. 

Recebido entre flores no jardim do marquez de Niza, 
com elle partiu pouco depois para Cintra o sr. Fernan- 
dez de los Rios em demanda de um certo jardineiro que 
devia entregar uma outra carta a el rei osr. D. Fernan- 
do; passeiando o emissário por entre perfumados ver- 
géis emquanto se não descobria novo jardineiro que 
substituíra o que fora despedido do paço ; até que final- 
mente chegou ao seu destino a aventurosa epistola, e 
o sr. D. Fernando indicou para local da entrevista ?m 
magnifico ^hosqiie de incomparables caTnelias. 

Estamos nos jardins de Armida, Para lastimar é que 
quem a Portugal chegou em maré de rosas, tâo rapida- 
mente se diixHSse rasgar nos espinhos do tão traiçoei- 
ras flores. No Diário das suas aventuras narra candi- 
damente o sr. Fernandez de los Rios os seus desapon- 
tamentos, em estylo florido e desenxovalhado, em que 
o escriptor resumbra atravez do diplomático, e a fra- 
£^nidãàe Inumana abre clareira ás amarguras do en- 

^ Vide a nota no fim d'este livro. 



69 

earregado de reconstruir e fortalecer futuras naciona- 
lidades I 

Parte da imprensa portugaeza tem já julgado em 
globo o lado maia importante da missão secreta do 
ff. Femandez de los Rios, a que trazia por íit » a can- 
didatará' do sr. D. Fernando ao throno de Hespanha^ 
mas não nos parece fora de propósito dar aqui logar a 
esses julgamentos, depois de algumas previas conside- 
raçSes que ainda temos a fazer. 

O sr. Fernandez de los Rios, que tanto se incom- 
modára com as minúcias dos de^<pachos dos seus ante- 
cessores, chegando a despeitar-se com as apreciações 
Íue Pastor Diaz fizera do caracter e da pessoa do sr. 
>. Pedro V, empunha agora o pincel opulento de Mu- 
rillo, e com o escrúpulo de um alcaide dos bons tempos 
dos passaportes em regra, faz assim o retrato do sr. 
D« Fernando, que damos em hespanhol, para que não 
aconteça extraviar-se ao tirai o da moldura: 

«Al cabo de un rato apareció en lo alto de un sen- 
dero UQ hombre alto, de galharda figura, vestido con 
un jaqneton y una espécie de gregnescos de tercio 
pelo verde, butas altas de campana y sombrero negro 
ae abas muy anchas, enteramenre da silueta dei per- 
sonaje de un lienzo de Vandick ; blanco, rubio, el ros- 
tpo un poço enjuto, as facciones regulares y bien pro- 
porcionadas, la frente despejada, los ojos pardos, la 
mirada dulce, bigote y perilla largo, rubio si es que 
trás de lo rubio no hay algo de cano, el conjunto dei 
semblante no muy expressivo, el aire bencillo pêro di- 
gno, los movimentos agiles, la figura, en fin, de un 
hombre que en vez de 52 aíios representa 35 ó 40. » 

É possivel que este retrato viesse já encouimendado 
de Madrid pelo sr. Sagasta, o mais artista dos coUegas 
do general Prim no ministério, receioso de vir a encon- 
tnr-se de futuro a despacho com um t^\ ^^i\^"í>xcsfô^^ 
grotesco, destoando do donaire a1c^^a\\^2.^ xsi^ \sSs^^^ 



70 

para subir as escadarias do Escurial, e pouco feito 
para iniciador de uma nova dynastia. 

O diário do sr. Fern&ndez de los Rios chega a to- 
mar proporções cómicas, á força de pretender ser sa- 
gaz. 

« Durante a eptrevista (com o sr D. Fernando), 
aproveitando os degraus em que o caminho abunda, 
sempre se coUocava um mais abaixo de mim, para 
ficar á minha altura e olhar-me fixamente (de hito en 
hito) de vez cm quando desenhavíi.- se-lhe nos lábios um 
sorriso que eu nâo sabia corao interpretar, se como 
signal de satisfação ou de ironia. Consultei logo o mar- 
quez de Niza que me affirmou ser nervoso e hahitual 
em D. Fernando, quando qualquer negocio o preoc- 
cupava fortemente. 

Esta promoção a Lavater, feita ao almirante mór 
dos mares das índias, provocaria de certo o riso ao 
marquez de Niza, se a lesse ; e deixal-o certificado da 
propriedade do titulo dado ao protogonísta da come- 
dia de Cintra : — « JSZ vergonzoso en palácio. » 

O resumo das negociações, encetadas entre myrthos 
e rosaes, tao pouco satisfatório foi para o amor-proprio 
do emissário secreto do general Prim, que antes de 
volver a dar conta de si, a quem o mandara, julgou 
conveniente munir-se de um attestado de bons ser- 
viços, assignado pelo marquez de Niza. 

Vamos transcrevei o, para que se veja que, nao 
sendo o marquez diplomático, se não havia esquecido 
das tradições dos que na sua familia o haviam sido. 
Eil-o : 

« Meu querido amigo : A data doesta carta lhe pro- 
vará (a carta é de 19 de janeiro. Dois dias tinham 
sido perdidos em mendigar uma audiência ! ) as deli- 
gencias que noa temos visto obrigados a fazer. 
<r Impais de esforçoB sobrehumaiioa ipaxa CiCiTiaçs^Qcvx 
i7wa resposta, a que obtivemos íoi o maw^ cfie ^ci^\^- 



71 

mos alcançar. Nâo tendo dito não na minha opinião 
é sim, sem responsabilidade ulterior. 

« Fallando em consciência^ pensava que seu filho 
tinha veleidades para si mesmo, e a sua consciência 
de pae, e de cavalheiro, não lhe perraittiam entrar 
em concorrência com seu próprio filho. Não tendo dito 
não deixou aberta a possibilidade de acceitar um fa- 
cto consumado. 

c Esta é. pela minha honra, a minha opinião franca 
e sincera, que submettb á vossa approvação e dos 
vossos amigos, sem nenhuma responsabilidade moinai. 
A minha pessoa, a minha posição, a minha alma e o 
meu corpo são vossos. Niza. 

Este silencio, que por não ser 7ião, pode chegar a 
ser um sim^ mas um sim sem responsabilidade ulterior; 
só tem por equivalente em finura o representar uma 
opinião de que o seu auctor declara não quefi^er accei- 
tar a responsabilidade moral ! 

Evidenciados e^tes incidentes, que provam ter o sr. 
Fernandez do los Rios falseado na sua escripta mui- 
tos dos preceitos de Boileau, e approximadamente to- 
das as tradições da diplomacia, será o sr. Pinheiro 
Chagas quem lhe formule os quesitos do libello e lhe 
appHque a sentença : 

« A missão mais importante que o sr. Fernandez 
de los Rios teve de que tratar emquanto foi ministro 
em Lisboa, foi sem duvida alguma a candidatura do 
sr. D. Fernando ao throno de Hespanha. Era n'este 
ponto que se Cí^peravam as revelações surprehenden- 
tes^ foi n^esse ponto que ficaram mais completamente 
desapontados os curiosos. Em compensação o sr. Fer- 
nandez de los Rios conseguiu um resultado, quo natu- 
ralmente não esperava : foi pôr em plena luz aos olhos 
do paiz o papel brilhantissimo desempenhado ^oi: &u.a.. 
mãgeatade el-rei D. Fernando. t> 
Contínua depoiB o jornalista çoxl\xga<KZ. l^xKcàsi 



72 

exposição dos trabalhos preparatórios para a entre- 
vista de Cintra, que nós já narrámos, omittindo po* 
rém significativos episódios, como a declaração do 
sr. D. Fernando de que não gostava de mysterios — 
íiem o da cara medianamente animadora do marquez — 
nem o da relutância de el-rei a receber a carta dos mi' 
nistros hesjoanhoes — nem o do caso de consciência in- 
terpretado a capricho — vem ainda a duvida do sr, 
D, Fernando nas suas forçai para fa2er o bem estar 
da Hespanha — nem, finalmente, mil outras phrasés 
soltas, prenuncias de uma decisão fixa. 
' A verdadeira missão diplomática do sr. Femandez 
de los Kios, que principia em 15 de julho de 1869, e 
traz por sobrescripto bases de politica peninsular ^ não 
é, como veremos, mais fértil em resultados do que a 
missão secreta do que acabámos de relatar o insuc- 
cesso. 

O sr. Silvela, então ministro dos negócios estran* 
geiros em Hespanha, dá ao sr. Fernandez de los Rios 
as instrucções que julga úteis para o guiar á luz do 
sol, depois das trevas em que andara envolvido ; e re- 
commendo-lhe que faça tudo sem pryuizo da inde- 
pendência de qualquer dos dois povos, e aconselha-lhe 
accentuadamente : « uma politica que respeitando o sen-' 
timento sagrado da nacionalidade até nas susceptibili- 
dades , que ás vezes engendra o patriotismo dos povos 
generosos e amantes das ^as gloriosas tradicçòes, tor^ 
ne não obstante propicia a assimiliação das instituições 
sem detrimento da própria autonomia, e . o engrandeci-^ 
mento moral de ambas as naçdes, sem menoscabo da in- 
tegridade de nenhuma d^dlas. » 

Até quando deixará a diplomacia de ser uma burla? 
O período arrendado e rhetorico que serve de escora ás 
bases àa />oJiíica peninsular, e os prudentes conselhos 
çue as fortalecem sao assignados çe\o Ã\iSa-Ã^eT^\«ínft 
^'Estado D. Juajo. Valera, talentoso o emài\tó ^\íi\si-^^- 



73 

rico, para nos servirmos da phraseologia de todos os 
embaídores que vão ao grego buscar a raiz das pala- 
vras que devera asphixiar a idéa que não querem apre- 
sentar a descoberto. 

A estas nigromancias vulgares nas chancelarias de 
todos os paizes e de todos os tempos, correspondeu o 
marquez de Sá da Bandeira com outras instrucções 
para o conde d^Alte, nosso ministro em Madrid , fa- 
zendo ligeiras variações ao velho thema, que o sr. D. 
Juan Valera pozera em circulação por conta e risco 
do sr. Silvela. 

O primeiro expUcadorpratico doestas recíprocas mu- 
nificenciasinternacíonaes foi o sr. Fernandez de los Rios, 
que as louva por abstractas, condemnando por posi- 
tivas as idéas do sr. Lorenzana, de quem recorda os 
precedentes ibéricos, e accusa de haver apresentado ás 
cortes constituintes um projecto para a definitiva de- 
marcação das nossas fronteiras, única negociação que o 
ex-àiplooiatico hespanhol confessa ter eucontrado pen- 
dente á sua chegada a Lisboa, e haver sido a que me- 
nos cuidados lhe mereceu! 

Aqui começam as iras do sr. Fernfvndez de los Rios 
contra o duque de Montpensier, que não lhe levamos, 
a mal, mas em que vão envolvidos os jornaes hespa- 
nhoes que lhe defenderam a candidatura, e o bom nome 
do sr. Lorenzana ; vindo por ultimo a auto biographia 
do queixoso, qtw em vinte annos de vida publica havia 
conservado a virgindade da sua independência^ demons- 
tração cabal de que as ConfissdeSj desde as de Santo 
Agostinho até Rousseau, e desde as doeste cynico im- 
mortal até ás do sr. Fernandez de los Rios, se muito di- 
vertem, pouco con^rtem pela fraca lição que d^elles 
se tira, se são ingénuas ; e o nenhum fructo que d'ellas 
ae colhe se o orgulho as inspira, como no ca^^ci ^^^- 
aente. 

Embora as letras de cambio ôiCia \i^\iQjpÃvt^^ ^^ ^^- 



74 

que de Montpensier corressem com mais credito no 
mercado politico, do que as notas diplomáticas do sr. 
Fernandez de los Rios, a accusaçâo feita a este de ma- 
lhar em ferrqfmo no sentido ibérico^ (parece que a sua 
missão secreta tinhat já tido a máxima publicidade !) 
nâo era infundada, antes o próprio supposto offendido 
indirectamente o reconhece, quando contrapõe o seu 
procedimento ao do sr. Lorenzana, e se âpplaude de 
lhe haver contraminado o projecto da demarcação das 
fronteiras das duas nações peninsulares. 

Insistimos em pôr claros estes precedentes do sr. 
Fernandez de los Rios, antes de entrarmos na apre- 
ciação dos seus despachos, para que se não ignore a 
causal do seu futuro procedimento ; bem como para 
que se possa apreciar a instabilidade das suas opiniões 
com relação á imprensa portugueza; a sua má von- 
tade ao sr. Fontes que deixou no poder, em quanto 
a Hespanha experimentava sem êxito diversas formas 
de governo, e prostrava na arena os seus mais valen- 
tes atheletas ; finalmente as allusoes feitas ao sr. Cor- 
vo, estadista de uma circunspecção em contraste per- 
petuo com a mobilidade do antigo jornalista madrileno. 

Com a chegada do sr. Fernandez de los Rios. a 
Portugal coincidiram os boatos, a que a imprensa hes- 
panhola, e o próprio telegrapho nào foram extranhos, 
d'uma nova candidatura ao throno de Hespanha ; — 
doesta vez nada menos que a do próprio rei o sr. D. 
Luiz, ^ que abdicaria em seu filho mais velho a coroa 
portugueza, ficando o sr. D. Fernando regente do 
reino, até á maioridade do príncipe D. Carlos ! 

De todas as sonhadas combinações ibéricas, esta se- 
ria com toda a certesa a mais preiíhe de difficuldades, 
a mais dolorosa para o povo portuguez, a menos pre- 
parada de todas eJJas e a que em um futuro próximo 
sublevaria ínnameraa susceptibilidades, ae k c^^ ^ wva. 
^ Vjde a nota do Sm d 'este volume. 



75 

exíqnibilidade chegasse a ser demonstrada, apesar do 
propósito attribuído ao marechal Saldanha de manter 
o exercito submisso e obediente a este golpe de estado, 
uníco nos annaes das fusões e das annexaçòes. 

. O exemplo do império austro-hungaro invocado para 
a peninsula ibérica seria, o continuaria a ser sempre 
uma utopia^ nâo já de philosophos como os que visam 
ao federalismo, e o escudam com a velha divisa republi- 
cana ; mas uma phantasia de monarchicos, pouco lidos 
nas vicissitudes porque passou a Hungria antes do 
pacto que a traz hoje alliada da Áustria, pacto com- 
mentado nos parlamentos das duas nações com mais 
sobranceria da parte de uma d'ellas, e menos confor* 
midade da parte da outra, do que seria para esperar 
da acção do tempo, e das complicações* politicas do 
norte da Europa. 

Seria brigar com os moinhos, ou mais acertada- 
mente com o telegrapho, e com os dois folhetos avulsos 
que anteriormeute se publicaram em Paris * o discutir 
n'este logar os promenores da transplantação austro- 
hongara para o solo peninsular, onde só medram e âo- 
recém as arvores nativas que carecem de sol ardente, 
e se estiolam as que os Broteros da politica pretendem 
por enxerto accommodar ás fragas das nossas mon- 
tanhas, e ás quebradas dos nossos valles ^. 

Um ministério para cada nação — excepto os da 
guerra e da fazenda — (porque níto quaesqu^^r outros 
menos absorventes?) e por detraz d'este poço sem fundo 
uma autonomia irrisória, tâo differente da verdad^eira 
autonomia, como o são os brinquedos de feira dos 
objectos necessários aos usos práticos da vida! 

NSLo insistiremos cm demonstrar o que é evidente, 

^ «JDom Luiz JRei d^Espagne et de Portugalv^^ort^X-xv^^sT^^Kt- 
seen.Pãrís. ímprímerie typograp\i\ç^\x^âL^V3ç.^^j^^^^a»2^^^^^^^^ 
^ Vide a nota, do fim dó voluun; . 



76 

nem em refutar os orphaos, que appareceram apadri- 
nhados por estrangeiros benévolos, mas entromettidos 
em assumpto fora da sua competência. Como este in- 
cidente chegou no momento a tomar propor,ç5e8 de 
negocio internacional, pelo desmentido que El-Rei o 
sr. D. Luiz lhe deu em carta dirigida ao duque de 
Loulé, e publicada na folha official, e como além d'is80 
alimentou a veia diplomática do sr. Fernandez de los 
Bios, duas palavras não serão supérfluas para relem- 
brar o rápido episodio, que : 

Qual leve exhalação que apenas nasce, 
Nos abysmos do Ceo desapparece. 

O sr. Silvela era ainda então ministro dos negócios 
estrangeiros em Hespanha, e, mais infeliz do que os 
seus successores, foi elle quem recebeu maior copia de 
officios do sr. Fernandez de los Rios, que, na quanti- 
dade, mais que na qualidade das suas correspondên- 
cias pretendia fundar os seus créditos de vidente. 

Novato na profissão, o diffuso diplomático faz de um 
argueiro um cavalleiro, envia despachos sobro despa- 
chos a propósito de coisa nenhuma, louva a todos e a tu-, 
do, incluindo la esquisita befievolencia de este excellente 
paiZf que mais tarde porá pelas ruas da amargura ; 
escreve por amor da arte como poderia ter ficado ca- 
lado por exigência do bom senso ; e como a sombra 
do duque de Montpensier lhe desvaira o espirito, cor 
luo a de Banquo avassallava a de Machbetb, no mais 
insignificante boato descobre o dedo de candidato ao 
throno de Hespanha, cuja candidatura fora encarrega- 
do de anniquilar em nome do programma da Revo- 
lução de SeptembrOf e das ordens expressas do gover- 
I70 provisório. 
Como as relações internacionaes çodôm ^w \.\3Aa, 
^enoa doscorteseB, em Portugal respondia-aei ô^çi ^twa- 



77 

pto ás eternas perguntas do sr. Fernandez de los Bios, 
até que este dialogo, travado sem necessidade e con- 
tinuado sobre posse, veio a acabar friamente com um 
bilhete do sr. Valera em nome do respectivo ministro, 
agradecendo o febril patinar do Argus he^panhol nos 

Selos da justificada indifferença das chancellarias dos 
eis paizes ! 
Mal era finda esta questão, em que o sr. Fernan- 
dez de los Rios se envolveu, por não ter queda para es- 
tar ocioso, quando a nomeação do sr. Andrade Corvo 
para nosso ministro em Madrid, foi julgado assumpto 
apropriado para polemicas, e anteposto, ao que parece, 
á constituição definitiva de um povo que acabava de 
sair de uma revolução, deixando uma dynastia enter- 
rada nos campos de Alcolea, mas não sabendo quem, 
ou o que, deveria ou poderia substituir se lhe ! 

A questão Corvo, reduzida á sua maior simplicida- 
de, e posta nos termos vulgares correí»pondentes ao 
modo porque as coisas se passam cá n'este mundo 
Bublunar, difiF«'rente em tudo do reino das bagatellas 
descripto no Hyssope, reduz-se ao direito que um ami- 
go tem de poder encarregar dos seus n< gocios quem 
melhor lhe parecer junto de um outro amigo, sem pe- 
dir licença previa para tamanha ousadia. 

Foi isto o que praticou o governo portuguez, no- 
meando o sr. Corvo nosso ministro em Madrid. Foi 
isto o que offendeu o governo hespanhol aguilhoado 
pelos despeitos do sr. Fernandez de los. Rios, denun- 
ciados em uma nota do seu livro, e em algumas linhas 
de um dos seus despachos. Dir nos-hão que a comedia 
fora urdida em Madrid; foi, não ha duvida: mas por 
detraz da cortina estava o agente hespanhol de quem 
o sr. Corvo se nào despedira pessoalmente á partida j 
contentando- se em deixar-lhe (caso inaudito !) um sim- 
ples bilhete de visitai ^ 
^ A nota a que nos xeferimoa íi e^mo«.^-\A"aA'^\ssNa.-^'^ a\.€^ 



78 

Por um arrufo viu-se jáTroya, em tempos antigos, 
reduzida aos maiores apuros. Por outro arrufo iam 
indo por a^oa abaixo as bases ãa politica peninsular 
que o sr. Fernandez de los Rios trouxera de Madrid 
como o seu vade mecum, e começara a pôr em pratica, 
levantando questiúnculas vasadas nos velhos moldes 
da diplomacia, em que as precedências de logar e as 
pequices da etiqueta eram tidas como assumptos de 
alta monta, e pejavam os archivos das casas fidalgas, 
em competência com as demais basofias heráldicas. 

Este ruidoso conflicto diplomático da Tiao partici- 
pação previa da nomeação do sr. Andrade Corvo para 
nosso representante em Madrid, durou desde 14 de ou- 
tubro de 1869, até 23 de janeiro de 1870; prenden- 
do a attençâo de três ministros dos negócios estran- 
geiros em Hespanha, os srs. Silvella, Martos e Gas- 
set; e obrigando a egual desperdício de tempo os srs. 
duque de Loulé e Mendes Leal, devendo citai'-se aqui 
a conscienciosa hombridade com que este ultimo ca- 
valheiro, em despacho de 4 de novembro, acceitando as 
bases de politica peninsular^ que o seu antecessor 
marquez de Sá da Bandeira já reconhecera, volta a 
confirmal-as pelo próprio facto da nomeação do sr. 
Corvo. 

Estas foram as palavras textuaes do sr. Mendes 
Leal : 

(( Este incidente é tanto mais para lastimar, quanto 

que o sr. Corvo nâo quizesse empregar o seu talento privilegia- 
do e 08 seus vastos conhecimentos em ajustar uma única convenção 
internacional (que taes ellas seriam !) : chama-se-lhe adulador 
patriótico por haver escripto o folheto intitulado « Perigos » : 
e conclue o sr. Fernandez de los Rios (é pena que a ficção das 
lagrimas do crocodilo já nâo tenha curso fora dos domínios 
da poesia) por sentir que o sr. Corvo caminhe com uma pasta 
t/eàaía!o do òraço ás ordens de mediocridades tão orgulhosas como 
^^/ga» é/e /as/ema, o que tenta o critico arene9aT da admvra- 
faoj^e/o ía/ento que tão potico vale por si mesrao ! » 



79 

é certo que, o pensamento que presidiu á nomeação 
do ar. Andrade Corvo, procedeu exactamente do sin- 
cero intento de estreitar cada vez mais aquellas re- 
laç8es. Grandes e recíprocos interesses que entram . 
pela sua máxima parte na esphera económica, estão so- 
licitando a mais seria attençâo dos governos de ambos 
os paizes. O illustrado governo hespanhol se havia 
mostrado já particularmente desejoso da i-egularisaçao 
doasses interesses. O governo de sua magestade de- 
signando o sr, Andrade Corvo j)ara a legação de Ma- 
drid tinha o único e exclusivo propósito de manifestar 
pda sua parte quanto se interessava na solução d^aqiiel- 
las questões^ entregando-as a um homem de reconhecida 
capacidade e competência em taes assumptos, capaci- 
dade e competência que v. ex.^ terá ouvido certificar a 
todos n^este paiz. » 

sr. Femandez de los Rios so nao queria, pare- 
cia-o bem, que Portugal fosse representado em Hes- 
panha por, diplomáticos da capacidade e força dos que 
anteriormente davam noticia de como estava armado 
o presépio no palácio de S. Ildefonso na noite do Na- 
tal; e por isso lhe doía ver-se obrigado a luctar com 
o sr. Corvo, attribuindo-lhe antecedentes políticos, em. 
um determinado pemodo que podiam difficultar o deseiit- 
penho da alta, missão que lhe fora confiada * erro que 
o diplomático hespanhol podia logo de principio ter des- 
truido, recorrendo para refrescar a memoria aos archi- 
vos da legação que tinha a seu cargo. 

Estes foram os primeiros vagidos diplomáticos do 
sr, Femandez de los Rios, mesclados com alguns re- . 
moques á liberdade de imprensa dos dois paizes, em 
que mais tarde insistirá, apesar do amor filial que diz 

1 O sr. Silvela referia-se á expulsão doa em\^«jdft^ \jÃ.'5.T5fò.- 
nboea do território portuguez, em cw^o Tvvraveto ^"ví^x^x-íí. <í ^^^ - 

neral PríiD, isto antes do sr. Coxvo aex imT\\«\xo\ 



80 

consagrar-lhe ; e da galanteria caraderistica dosportw- 
guezeSf citada e exaltada^ quando os jomaes louvavam 
os actos do coripheu ibérico. 

Os manyos íZa imprewsa que irritaram os nervos de- 
mocráticos do diplomático, hespanhol foram da mesma 
ordem, e tiveram o mesmo alcance, que os emprega- 
dos pela Correspmidencia d' Espada de que o queixoso 
fora redactor principal, quando el-rei o sr.D. Luiz pas- 
sou por Madrid, e de que o jornalista de então ainda 
hoje se vangloria ! 

Em explicar certas phrases nada ambíguas, attri- 
buidas ao sr. Martos em sessão secreta do congresso, 
commentadas pelo jornal madrileno La Época; e em 
interpretar quasi em seguida as palavras do sr. Rive- 
ro, nas cortes constituintes ; se reduz, por algum tem- 
po a actividade do representante de Hespanha emLis— 
boa, actividade digna de melhor sorte porque se cifrou 
no primeiro caso na afirmativa do sr. Fernandez de 
los Rios de que as phrases a que se alludia haviam 
sido proferidos em sessão secreta e sem caracter al- 
gum official; affirmativa que o próprio sr. Martos con- 
firmou, dizendo que em nenhum dos seus discursos CO- 
MO MINISTRO houvera coisa que podesse feHr a sus- 
ceptibilidade da nação portugueza! 

Com relação ás palavras do sr. Ri vero, pronuncia- 
das na camará dos deputados, em seguida ao movi- 
meíito de 19 de mais de 1870 a diplomacia agitou se, 
fallou, escreveu muito, mas nada aclarou conforme é 
de uso; porque o vocabulário que emprega não é, fe- 
lizmente, mais elástico que o de que se servem os pro- 
fanos que não aspiram a enganar o próximo, nem a 
deturpar a verdade. * 

I O 19 de maio para em tudo nos ser funesto até rejuvenes- 
ceu o iberismo debaixo de uma das suas mais fataes aspira- 
çâes tt Com o titulo Sé non es v&ro é hen trmsatto, ^xifeW^ví^ |c» 
Jorna/ Za^aca uma caricatura reprcsentajido \rKv\a\iOt^\ftTvft 



81 

Citamos estes dois rápidos incidentes diplomáticos 
para provar com elles que as relações intemacionaes, en- 
tre Portugal e Hespanha, não eram mais amenas nem 
também mais alarmistas antes das hases de politica pe- 
ninsular do que depois de divulgadas e explicadas pe- 
las paraphrases do sr. Fernandez de los Rios. Antes, 
Sois, uma politica de occasiao inspirada pela bqa fé, 
e que uma propaganda de cartaz, a todo o momento 
apanhada em contradicção com os factos, e comsigo 
mesmo. 

O episodio do anniversario do 1.® de dezembro de 
1640, é também memorado no livro do sr. Fernandez 
de los Rios, e servindo de pretexto a uma inútil cor- 
respondência entre elle c o sr. Gasset, então minis- 
tro dos negócios estrangeiros, em Madrid. 

Sendo-nos forçoso fechar este capitulo, tão variado 
como demonstrativo da incíHcacia das instrucçSes dadas 
pelo sr. . Silvela ao seu alter ego em Lisboa, dçvemos 
mzel-o alegremente, por consideração como o leitor, de 
òerto cançado já de tanta diplomacia de encruzilhada, 
e por isso transcreveremos a razão que seria irrespon- 
divel se lhe podessemos apanhar a profundidade, por- 
que os anniversarios da nossa independência são sem- 
pre mortiça e frouxamente commemorados. 

A rasão é, falia agora de novo o sr. Theophilo Bra- 
ga^ chamado a dizer do caso como testemunha : Forque 
em Portugal todas as festas populares foram desnatiir 



chimico em que apareciam : o duque de Saldanha com uma 
redoma em que se lia Portugal^ e Fernandez de los Bios com 
outra em que ee lia, Hespanha^ enchendo com o liquido de ca- 
da uma d'ellas outra grande redoma, em cujo fundo se via sen- 
tado o general Prim com gorro phrygio ; lendo- se na redoma 
grande, « Republica ibérica, unitária e conservadora » : á es- 

rrda estava a monarchia reduzida a. TavrccÀ^ ^^'^^'^^'> ^ ^'^^ 
ita âzitravain alvoraçados Pi, OT\eiift^,^\^^'í^'e» ^ ^^^v?^- 
lar. 



82 

ralisados pelo obscurantismo ecclesisaticoy e chegaiTii à 
desapparecer porque os nossos monarchas nunca reco- 
nheceram a vida politica do poderoso elemento mosara- 
bel y> 

Transcrevemos^ mas nâo comment^mos. 



CAPITULO VI 



Novas lamurias do sr. Femandez de los Bios contra a im- 
prensa portugueza. Nota diplomática, e resposta a ella, do 
sr. marquez d'Avila e de Bolama. Outro trecho de um ar- 
tigo do sr. Pinheiro Chagas. Publicação do folheto do sr. 
Andrade Corvo, intitulado « Perigos. » Desfavor que o 
diplomático hespanhol pertendeu lançar sobre esta publica- 
ção patriótica. Pensa-se, como armadilha, na restituição de 
Olivença a Portugal. Os homens políticos hespanhoes di- 
vergem no modo de resolver a questão ibérica. A monar- 
chia como pretexto de futura absorpção. Um testamento 
indicado como garantia da independência nacional ! 
Um telegramma que se não explicou. Basoavel e tardia 
opinião do sr. Fernandez de los Rios acerca da impossibi- 
lidade de fundar a monarchia ibérica com reis portugue- 
ses. 



Vamos fazer o possível por condensar em um único 
capitulo o suco de toda a papelada que o sr. Fernan- 
dez de los Rios teve artes de escrever, e obrigar a es- 
crever os mais, emquanto foi ministro em Lisboa, 
auasi que pondo no escuro os colossaes archivos de 
Símancas, onde se bebe tanta sabença de pontos duvi- 
dosos da historia, como na variada escripta do nos- 
so íllustre contemporâneo. 

Um reparo temos a fazer, antes de entrarmos no 
assiimpto magno da segunda edição da candidatura 
do sr. D. Fernando, e vem a ser o tom sobranceiro 
da nota dirigida ao marechal Saldanha, em 27 de 
agosto de 1870, recheada de phrases aggresswa!& <lq<ci- 
tn a imprensa portugueza, que no anuo «xiW\ot %^ ^»a^- 
tara exageradamenie ; e um desçadoio wi\«nax k^^S^a» 



84 

nota com referencia a uma representação da Associação 
« Primeiro de Dezembro. » 

A pouca duração do ministério presidido pelo du- 
que de Saldanha, nâo deu occasião a este cavalheiro po- 
der replicar á nota citada, que coincide com dois des- 
pachos para o sr. Sagasta, onde se pinta com as mais 
negras cores o estado dos nossos negocies internos. 

Coube ao sr. marquez d^Avila e de Bolama a glo- 
ria de dar ao democrático hespanhol uma lição acerca 
das regalias da imprensa as nações livres ; bem mere- 
cida pela insistência que o sr. Fernandez de los Rios 
puzera em obter resposta ao seu estendal de recrimi- 
nações contra os jomaes portuguezes. 

Com uma innocencia patriarchal ousava o signatá- 
rio da famosa deprecada escrever o seguinte : 

« Forma, ex."^® sr., um contraste bem significativo 
o systema de aggressão constante a Hespanha que 
parece ter-se traçado certos circules e certos jpmaes 
de Lisboa, com a extrema consideração, a summa pru- 
dência, e o sensato silencio que a imprensa hespanbola 
está demonstrando ao receber o que aqui se diz de 
Hespanha, » 

O desmanchado do estylo doeste período, em que 
entra o qtie aqui se diz da Grrà Duqueza de Girohtêiny 
prova o mau humor com que andava pôr esse tempo o 
diplomático hespanhol, usualmente correcto na sua 
escripta, desorientado com a ordem que recebera de 
Madrid de voltar a conferenciar com o sr. D. Fernan- 
do, isto depois dos espinhos em que se rasgara em Cin- 
tra, um anno antes I 

A nota do sr. marquez de Avíla é longa, porque 
lhe convinha ser sem replica, e deixa a escorrer em 
sangue o Torquemada da imprensa, que intentara amor- 
ããça-]ã, para seguir sem importunas testemunhas o ca- 
laínbo que de outra vez evitara tomando ^ot «A.%ttifò%^ 
O ministro portugnez nSo contento 3l^ tívX.«t ^^^^^ 



85 

seus títulos os jornaes hespanhoes que menos urbana- 
mente se occupavam das coisas portuguezas^ accres- 
centava : 

f Vê se pois que o que acontece em Portugal, suc- 
cede também em Hespanha. Também lá ha intrigas 
politicas, interesses mesquinhos, notícias falsas e absur- 
das, indiscripç^s e inconveniências na imprensa pe- 
riódica, e especulação de noticiaristas. d 

E mais adiante : 

< As demasias da imprensa teem o seu primeiro 
correctivo no bom senso do leitor, e no desmentido 
que mais tarde lhes dá o aparamento da verdade. » 

Estas affirmativas elemcntaree, em assumptos de li- 
berdade de imprensa, ficaram sem contestação, nao por- 
que o sr.Fernandez de los Rios seja homem que se cale 
com boas razoes, mas porque nS.o podia cavar ao mes- 
mo tempo na vinha e no bacêllo, e a Hespanha esta- 
va ainda sem rei, á espera do savoir faire do seu re- 
presentante em Portugal. 

Esta idéa de procurar, até encontrar um rei portu- 
guez, era tfío popular entre os políticos hespanhoes de 
todos os partidos, que se attribuc a Cabrera a épica 
declaração de estar prompto a perder um braço por 
ella, e a batalhar com o outro que lhe ficasse pela 
Bua realisaçSio : o que cheira accentuadamente a ca- 
vallaria andante, c obscurece os effeitos do livro im- 
mortal de que a Hespanha se ensoberbece. Até o pró- 
prio D. Senibaldo de Mas chegara a desarasoar, apon- 
tando para o filho mais velho do sr. D. lliguel de Bra- 
gança como para a incógnita achada da solução ibé- 
rica ! 

Emquanto os diplomáticos de todas as procedências, 
o 08 políticos de todas as condições, gisavam na areia 
a carta geographiea da Península, xeíwTviÂTi'^»-^ ^^ ^'«vr 
bor doa interesses particnlarea, ovx ôia^à ^íkxíx^v^"?^^^''* 
poUticaa em qne a Hespanba axiôiívN». ^\3\i$C\Nf\?ÍN^^-i 



86 

sto pela razão pittores sãmente dada pelo sr. Fernan- 
dez de los Rios de que o esquecimento em realisar esta 
grande idéa seria a confissão da banca-rota revolucio- 
naria, todos então se mechiam, menos o sr. D. Fer- 
nando, que se conservava : 

N'aquelle engano d*alma ledo e cego 
Que a fortuna não deixa durar muito 

quando se viu obrigado a despertar pela segunda vez, 
ao alarido que lhe faziam á porta os que se acotoveU 
lavam para ir á posteridade, em nomo... da grande 
idéa ! 

Ninguém entra por prazer n'um labyrintho, nem 
segue por gosto as tortuosidades de um caminho es- 
cabroso. Nos negócios políticos o aborrecimento segue 
de perto a intriga, e as meias palavras, que são para 
a idéa como os esboços para o desenho, produzem nos 
ânimos rectos os mesmos phenomenos que uma atmos- 
phera carregada produz nos temperamentos nervosos. 

A synthese critica da nova phase por que vai pas- 
sar a historia da candidatura do sr. D. Fernando ao 
throno de Hespanha, fel-a com tamanha lucidez o sr. 
Pinheiro Chagas, que nos poupa o trabalho de novos 
estudos e de novas conclusões, porque tudo se acha 
já feito, e de accordo com o nosso sentir individual. 

Transcrevemos pois o que se acha eseripto no Diá- 
rio da Manhãy sem abdicarmos do direito de voltar a 
a rabiscar na vinha que já foi vindimada : 

« Entrou o anno de 1870 : Fernandez de los Rios 
estava ministro em Portugal, e a Hespanha não tinha 
rei. Porém não desistia da candidatura de D. Fernan- 
do ; era o seu sonho doirado, Fernandez de los Rios 
encetou de novo negociações, mas d'e^ta vez com re- 
dobrada energia,, Elle e Prira e o çroçrvo ^0NQTiiCii?c«svr 
^^^j e quantos pessoas rodeiavam I>. ¥ç>tT\axiÔLO^ '^^ 



87 

pediam que* acceitasse, mostravam-lhe a situação trís- 
tissima da Hespanha, os perigos da peninsula, a pos- 
sibilidade de nascer a republica n'es8e paiz, se D. Fer- 
nando se não quizesse prestar á única solução monar- 
chica possível e aceeitavel. Perseguido por estes qua- 
dros pavorosos que lhe desenrolavam diante dos olhos^ 
receiando que a historia' o alcunhasse de egoista, não 
querendo carregar com as terríveis responsabilidades 
que diziam estar lhe impendentes, D. Fernando re- 
Bignouse a renunciar ao seu viver tranquillo e feliz, 
e a acceitar a coroa das Hespanhas. Mas acceitou-a 
eatabelecendo desde logo seis condições : duas pes- 
soaes e quatro politicas. » 

«As pessoaes eram a certeza de que a sr.* con- 
dessa d'Edla teria na corte de Hespanha, em tudo 
menos nos actos officiaes, a alta posição que lhe com- 
petia como esposa do soberano ; e que, no caso de ter 
de resignar a coroa, a Hespanha lhe garantisse sim- 
plesmente uma dotação como a que tinha em Portu- 
gal, e que naturalmente a sua elevação ao throno 
hespanhol lhe fazia perder. » 

« Estas duas condições foram acceitas immediata- 
mente sem o mais leve debate,* pelo contrario dando o 
general Prim nas suas cartas e telegrammas provas 
constantes de respeito e consideração pela sr.* con- 
dessa d'Edla. O negocio da dotação também desde 
logo ficou assentado. As condições politicas eram as 
seguintes : Que votassem em sua niagestade pelo me- 
nos as três quartas partes das cortes hespanholas que 
estivessem de accordo n'esta escolha, e o manifestas- 
sem claramente as quatro nações occidentaes, França, 
Inglaterra, jtiespanha e Portugal, que o governo por- 
tuguez tomasse n^este negocio a responsabilidade que 
lhe competia^ e em fim que a levda. sv3LÇ.ç.^ià^^ç> ^v^ '^^i*- 
Do em Hespanha, fosse redigida âie iòvm^ c^^ ^<ífsv.- . 
gaaaae expreBaamente, que nuncia ^o\«>v«rv^^ \ÍN5SSia 



88 • 

cabeça só as coroas de Portugal e de Hespanha.» 

«Esta carta de el rei D.' Fernando tem a data de 
26 de julho de 1870. A data é eloquente. Sua ma- 
gestade dizia: Todos sabem quanto me custa deixar 
a tranquillidade da minha vida particular, ainda que 
seja para occupar o throno de uma grande e nobre 
nação. « Só um gravide interesse europeu e sobre tudo 
peninsular, me pôde determinar a resolução semelkante. » 

« Assim era, a candidatura Hohenzollem ateara na 
Europa a guerra terrível, que ia rebentar. Marcha- 
vam para a fronteira os exércitos francezes e alle- 
mães. A Hespanha, n^esta confusão de acontecimen- 
tos, perdera o seu ultimo candidato — o principe Leo- 
poldo Quem sabe se não poderia sanar as graves dif- 
ficuldades que se levantavam na Europa a acceitaçâo 
de el-rei D. Fernando? Sua magestade acceitou.» 

« Nas condições politicas também Prim se mostrou 
condescendente. Acceitou desde logo a intervenção do 
governo portuguez, prometteu e assegurou com pro- 
vas positivas o accordo das quatro potencias, mostrou 
a el-rei — que se convenceu logo e cedeu — a impos- 
sibilidade de reunir n'uma votação as três quartas 
partes do numero total dos deputados, em consequên- 
cia da quantidade de republicanos e carlistas ; mas 
na ultima condição é que se mostrou intransigente. » 

« AUegava que a successão estava regulada por 
uma lei constitucional, e que elle não podia infringil-a; 
respondia el rei que as cortes constituintes, assim co- 
mo podem fazer leis orgânicas, também podem revo- 
gal-as ou modifical-as : dizia Prim que se nàu podia 
agrilhoar a vontade futura dos dois povos, tornava 
el-rei que os povos de futuro podiam fazer o que muito 
bem quizcssera, e que nao havia leis nenhumas, con- 
stitucioíiaes ou. nao, que agrilhoassem os direitos ple- 
22Í88Ímos da soberania popular,' mas qvxô eW^ fe ojvvfò xi^<^ 
gueria para ai nem a mais remota TeaçomsJ{íX\ò.^^^ 



89 

de ter contribuído para a união' ibérica. E d^aqui nào 
saiu nunca». 

c Multiplicavam-se as cartas, os telegrammas de 
Prím^ as cartas e os pedidos de entrevista de Fer- 
nandez de los Rios, as propostas de formulas que tu- 
do conciliassem, para essa clausula em que D. Fer- 
nando era inabalável. Apparecia a intervenção de to- 
da a gente». 

c A perseguição era tal que el-rei D. Fernando di- 
zia : ff Não me persigam mais, disse a minha ultima 
palavra, estou doente, estou fatigado doesta intolerá- 
vel obstinação. » Que lhe importa ao sr. Fernandez 
de loB^Rios o incommodo physico e moral d'el-rei? A 
soa insistência continuava feroz, implacável, atormen- 
tadora, importuna. Finalmente Prim declarou que ac- 
ceitava a clausula de el rei D. Fernando, com a sua 
redacção completa, e só com uma leve addição : « A 
reunião das duas coroas n^uma só cabeça, não se rea- 
lisará se qualquer dos povos se oppozer. » 

« Houve satisfação geral com esta transigência. O 
governo cedera. Estava tudo conciliado. Só D. Fer- 
nando, exclusivamente elle, teve a perspicácia de per- 
ceber que essa pequena modificação destruia a sua ge- 
nerosa idéa. Desde o momento que a Hespanha ficava 
auctorísada a consultar a vontade do povo portuguez, 
para saber se elle consentia na união, havia fazer o 
que fez a França na Saboya, em Nice : enviar os seus 
artilheiros com os murrÔ«s accosos para illuminar as 
consciências dos votantes, guardar as unias com 
100:000 bayonetas para garantir a liberdade do voto, 
é claro, e para affugentar os mal intencionados. O si*. 
D. Fernando percebeu todas estas consequências, per- 
cebeu as quando ninguém em torno d'elíe as prcsen 
tia, e respondeu persistindo na sua clausula, s^m wv<i- 
diãcaçib nem additaraento. A carta ÔlCí ç\-\^\\i.^<«i- 
nando n 'essa occasião é um docv\mci\ito VvsXorò.^ ^^^- 



90 

cioso, cuja publicação Portugal deve agradecer ao sr. 
Fernandez de los Rios. Eil-a : 

« Lisboa, õ de agosto de 1870. 

«Sr. Fernandez de los Rios. — Meditei profunda- 
mente no negocio de que tratámos com a gravidade 
que o caso pede, e cada vez me convenço mais da 
conveniência do que propuz, e que no fundo eatá já 
acceito pelo general Prim. íío que eu divirjo é na 
fórraia, não porque queira demorar a conclusão d'este 
assumpto, mas porque a minha responsabilidade é 
grande. Se a constituição hespanhola tem de ser ac- 
crescentada com um artigo, não seria bem para todos, 
para mim que tenho de manter honrado o meu nome 
de príncipe ^ portuguez, e para o governo hespanhol, 
que provará assim a rectidão das suas intenções, que 
tudo se regule de modo que não suscite receios nem 
desconfianças ? 

« Seja-me portanto permittido insistir na seguinte 
redacção : 

« A successão do throno será fixada de modo que 
fique garantida a independência das duas nações pe- 
ninsulares, não podendo reunir se as duas coroas na 
mesma cabeça. 

«Não me preoccupo com o que os povos hajam de 
fazer no futuro ; isso não é da minha responsabilidade. 

« Agora o que me cumpre é buscar salvaguarda, 
quanto esteja no meu poder, para os direitos de um 
povo que amo, porque sou grato á adhesão que sem- 
pre me mostrou, e por que, tendo passado entre elle 
o melhor da minha vida, a(][ui conservo ainda tudo 
quanto me é caro na terra. 

tf Espero que o general Prim, a quem desejo ser 
agradável, reconhecerá a justiça das minhas observa- 
ções, =1?. Fernando, » 
*r JEm presença d festa honrosisaVma e ivátyXWvav^ 
carta, que desmascarando os planos ibéricos Ao* ^^'^<^- 



91 

gados da candidatura lhes tirava também toda a es- 
perança, é curiosa de ver a fúria dos hespanhoes. Fer- 
nandez de los Rios escreveu a el rei uma carta quasí 
insolente, carta que tem um período que diz assim : 

« A todo o tempo constará que procurando todos os 
meios de vencer quantas difficuldades se apresenta- 
vam, e acceitando se até essa condição tal qual vossa 
magestade se sérvio redigil-a, sem se lhe pedir outra 
coisa que jião fosse um additamento perfeitamente 
ajustado a todas as conveniências politicas, 'por mo- 
tivos poderosos que não podem comtudo adivinhar se, 
vossa magestade não acceitou, negando-se a reconhe- 
cer a soberania nacional de Portugal e de Hespanha. » 

f Ao mesmo tempo o general Prim escrevia tele- 
grammas irritados, e nada conseguia demover el«rei 
D- Fernando. Mas o que é mais curioso ainda é que 
ao lado de Fernandez de los Rios, trabalhava para 
convencer D. Fernando... quem? o presidente do con- 
selho de ministros, o duque de Saldanha, como prova 
a seguinte carta do duque a Fernandez de los Rios.» 

« 111."'° e ex.'"° e meu amigo. — Acabo de ver os 
senhores D. Luiz e D. Fernando, e com muito pezar 
tenho que dizer-lhe que nada me foi possivel obter. 
Leram a carta que D. Pedro me escreveu, e esperam 
que as grandes potencias estabeleçam a paz na Euro- 
pa. Oxalá que assim seja ! 

« Contristado, mas com a consciência tranquilla, es- 
pera 08 acontecimentos quem é, De V. Ex.* — Amigo 
verdadeiro. — Saldanha. — Cintra, 14 de agosto de 
1870. » 

« Assim também Saldanha se illudia, todos julga- 
vam garantido o futuro com a clausula illusoría que 
resultava do additamento de Prim, nem viam sequer 
que a insistência dos hespanhoes em introdazlc lusLa. 
diapoaiçâo, qixe, a ser leal, seria \i«\ ^Xç^xv^^^sv^^^^^^t; 
que em todas as Jeis se subentenâie o ô^r^vVo ^^'^^i^^ 



92 

mo que aos povos pertence de alterar ou revogar as 
suas leis constitucionaes, ou não, nem viam que essa 
insistência tão singular que os obrigava a romper ne- 
gociações que tanto os interessava, occultava forçosa- 
mente planos secretos e importantes.» 

« Só o sr. D. Fernando teve n^essa occasiao a lu- 
cidez de espirito, e a perspicácia, só elle soube zelar, 
com amor de filho, cujas vistas com esse mesmo amor 
se esclarecem, a independência e tranquillidade futura 
de Portugal. » 

« Eis ahi o motivo por que dissemos que fora o sr. 
D. Fernando quem representara n^este assumpo o pa- 
pel mais brilhante, como podemos dizer que todas as 
cartas de D. Fernando a D. Angel de los Rios, são 
os documentos mais honrosos para elle, porque attes- 
tam os seus nobres e altos dotes de espirito e de cora- 
ção. » 

Eis lógica e lucidamente exposta a candidatura do 
sr. D. Fernando, que lembra um pouco a idéa inicial 
do Médécin malgré lui, e recorda, apezar da gravidade 
do assumpto, o emmaralhado das comedias de Calde- 
ron, pela abundância do enredo ; e o sal attico das pe- 
ças de Scribe, pelo cómico de algumas das figuras 
a quem o acaso distribuiu papeis alheios ao seu gé- 
nero. 

No numero das pessoas que por então andavam ven- 
didas, e á mercê do fluxo e refluxo das marés politi- 
cas, entra em primeiro logar o sr. Mazo, ministro da 
Hesp^nha em Lisboa e todo o pessoal da sua legação, 
julg^ídos não sabemos se com justiça, mas de certo com 
pouca caridade christã, pelo marquez de Niza, em 
carta dirigida ao sr. Fernandcz de los Rio^. 

Não obstante o sr. Mazo accusado de terrorista, por 
Julgar difàcú a solução da questão hesçanhola, pen- 
sãva, como maia tarde pensaram tam\>e\\i Ytvoi^ ^^- 
gasía e Eivero, que era mais faci\ àeTt\xfe?v.t Ôl^\v^^>à^^ 



93 

do qae fundar nacionalidades, mesmo ao approximar-se 
nma guerra, motivada em parte pelas candidaturas ao 
throno de Hespanha. 

Foi n^esta conjunctura que o sr, Andrade Corvo 
publicou um folheto intitulado Peí^igos, um dos poucos 
escriptos que temos presejites que não é banal nem 
declamatório, e que acompanha nas suas oscillaçòes o 
movimento europeu. Da-se n^elle conta minuciosa da 
historia das candidaturas no throno de Hespanha, 
para entrar desaffogadamente depois no assumpto vi- 
tal que nos preoccupava ; ousadia que o sr. Fernandez 
de los Rios lhe não perdoa no seu livro, pretendendo 
lançar desfavor sobre as intenções e tendências do 
opúsculo patriótico, que desmascarava os manejos dos 
philo-ibericos^ pondo em evidencia oa perigos que ad- 
viriam para Portugal da reali sacão de qualquer dos 
alvitres, então em voga, para a solução do problema pe- 
ninsular. 

f Ouçamos as vozes que nos vem de Castella : e 
fortes no nosso direito, e seguros da proficuidade das 
nossas doutrinas, com espirito enérgico mas não vio- 
lento, estudemos os factos, as opiniões, as tendências ; 
busquemos conhecer os perigos para os combater ; 
tratemos de crear em torno de nós a benevolência, a 
«ympathia, e amizade das naçSes, para que nos dcem 
força. Projectemos a luz da verdade sobre os precon- 
ceitos e os erros que nos podem prejudicar ; /açawios, 
en\fim, dos princípios liberaes e democráticos da actual 
constituição de Hespanha, da emancipação politica 
d' essa nação amiga y os nossos melhores e mais segu- 
ros alliados, d 

Como já se tem escripto, e é fora de toda a contes- 
tação, Portugal deveu ao sr. D. Fernando o malogro 
da realisação do iberismo, encapotado em proposições 
Bpparentemente innocentes, e ço&lo ««i Ôl^^xÁsà». 
pela olãUBula terminante de qae a» òxxaA ^cstç>«>s» ^^^^- 



94 

ninsula nunca recairiam em uma só cabeça. Dois ho- 
mens representam no decurso d'estas largas negocia- 
ções papeia differentes, mas importantes, adquados á 
posição especial de cada um d^elles. O general Prim 
é o centro, a alma de todo o plano. Mais infeliz na 
sua campanha diplomática; de que o foi depois nas 
escaramuças parlamentares, respondendo ás intei-pel- 
lações dos srs. Castellar e Ri vero, o conde de Beus, 
cuja posição nas camarás era difficillima, teve sempre 
para com Portugal palavras commedidas, urbanas, de 
verdadeiro homem de Estado. 

O marquez de Niza suggerindo-lhe a idéa da resti- 
tuição de Olivença a Portugal, como pretexto para a 
Hespanha reclamar mais tarde a de Gibraltar, resga- 
tava a dureza de algumas phrases contra os seus com- 
patriotas, que o sr. Fernandez de los Rios, por deli- 
cadeza ao menos, devia eliminar das cartas do seu cor- 
respondente, que as escrevera confiado na inviolabi- 
lidade do sigillo que é de uso conservar em documen- 
tos doesta natureza. 

O fundo da correspondência que já deixámos ana- 
lysada pelo sr. Pinheiro Chagas, envolve queslSes de 
máximo interesse europeu, e sobretudo peninsular. Por 
detraz da acceitação ou recusa do sr. D. Fernando via- 
se ao longe a theoría das grandes nacionalidades, ex- 
empliiicando-se pelas aspirações á Ibéria. Mais áquem, 
o credo da democracia mostrava a sua momentânea im- 
potência pelo insuccesso de federalismo. Mais perto ain- 
da, e dando de barato a unidade absoluta, corna tam- 
bém em circulação, para os monarchicos mais condes- 
cendentes, o pensamento arteiro de uma politica absor- 
vente, moldada por exemplares, mais ou roais recentes, 
da juxtepositton de peuples^ como lhes chamou Miche- 
]et, exemplares vindes do norte da Europa e coroo 
^aes de procedência, suspeita 1 l£à tudo \«V.o «lO tcl^ò^xcl^ 
tempo, sem tréguas, sem deacanço, -çats^wiÍLO %X.xví^Tà 



95 

de um governo provisório nascido de uma revolu- 
ção^ alcimhada de dynastica ; entrando em uma infe- 
liz experiência republicana^ para decambar em uma 
monarchia electiva ; e d^ella passar á hereditária, ac- 
cordando as ambiçòes dos partidários do direito di- 
viao ! 

Este desencontro de paixões, de idéas, de formas 
de governo, tudo para se acalmar esteve pendente 
da vontade de um homem, que lhe antepôz, bisarra- 
mente a autonomia e a independência de um povo, 
pouco propenso a deixar-se tentar, quer pelo chamado 
equilíbrio que deve resultar das grandes nacionalida- 
des, constituídas segundo as raças ; quer pelo federa- 
lismo republicano, que tem contra si as mesmas razoes 
geographicas que os nossos visinhos tantas vezes in- 
vocam contra a nossa independência; quer^ finalmente, 
na alliança, ou como melhor nome haja, de duas na- 
çSes rendas pelas mesmas instituições politicas mas 
autonómicas na sua administração interna. 

Em 1870 escrevia o sr. Andrade Corvo o seguin- 
te: * 

cPara que tenha um valor real o principio das na- 
cionalidades, para que não seja um mero pretexto pa- 
ra refazer a carta da Europa, segundo os desejos e 
ambiçSeç dos grandes estados, é necessário saber o 

3ue constituo uma nação. Será por ventura a unidade 
a língua? Os factos respondem que não. Portugal e 
Brasil; Inglaterra e Estados Unidos, são nações dis- 
tinctas apezar das línguas. A Suissa, onde se falam 
línguas diversas, é uma verdadeira nação. » 

cSerá a communidade de raça? Rara é a nação em 
que se nSo encontram raças diístinctas, na accepção 
conmram doesta palavra. Os limites e os caracteres 
das raças são em si tão vagos e mal definidos que 

' No já citado opúsculo Perigos. 



96 

todo o accordo, mesmo theorico, sobre este assumpto 
seria impossível. — Em 1862, um diplomata russo 
publicou uma obra singular, intitulada: 0$ gabinetes 
e as allianças da Europa. Para este escriptor, que re- 
presenta até certo ponto as idéas de uma escola de 
publicistas do norte, o futuro pertence aos grandes 
complexos de Estados. Estes complexos de Estados 
resumem-sè em três raças — a latina, a germânica e 
a slava — ás quaes correspondem três centros de gra- 
vitação : a França, a Prússia e a Rússia. O parisla- 
vismOy o pangermanisTno, o pardatinismo são nomes 
que representam nas escolas da Allemanha as theo- 
rias do diplomata russo. Essas theorias não deixam 
de ter influencia nos destinos da* Europa, apez^r de 
absurdos de contrários á verdade anthropologica e á 
historia*. » 

Ao argumento da geographia, tantas vezes invoca* 
do como sem replica, como característico das tiaoiona- 
lidades, respondem as recentes ambições do império al- 
lemào, e ainda as mais recentes do império moscovita 
que o trazem em guerra accesa com a Turquia, guer- 
ra de que ninguém pôde prever o desfecho, nem cal- 
cular as immensas consequências* 

Mas voltemos ao assumpto principal de nossa es- 
cripta, de que momentaneamente nos arredamos em 
nome das graves cogitações que elle sugere. Duas 
circumstancias merecem ser notados na correaponden* 
cia havida entre o general Prim e o sr. Femandez 
de los Rios, sendo a primeira o alvitre extravagante 
lembrado por aquelle, de que o sr. D. Fernando im- 
pozesse por testamento aos seus herdeiros a clausula da 
não reunião das duas coroas na mesma cabeça, que 



^ No fím doeste volume encontrará o leitor a mesma idéa, 
mãjs desenvolvida, em 1859, pelo st. 'LoA.mo Oo^íVío^iwí ^xOiq- 
é^o do opúsculo A União Ibérica^ por Xisto CaniM^ii. 



97 

O pasmo do sr. Fernandez de Iob Rios á náo an* 
noncia do sr. D. Fernando a que el-reí o sr. J), Luiz 
fosse ouvido e consultado acerca da melindrosa quês- 
tSo da successão^ a ser verdadeiro^ nSo é plausivel. Como 
queria o negociador deslocar a questão do seu terreno 
natural^ para a sujeitar a uma arbitragem de caracter 
officialy que outra não podia ter a ingerência de reinante 
nos negócios particulares de seu pae ? O sr. D. Fer- 
nando negando-se a acceder a semilhante pedido andou 
leal e discretamente, mesmo não podendo ainda então 
suspeitar a indiscreta publicidade que o sr. Fernan- 
dez de los Bios tencionava dar ás suas cartas. 

No final do capitulo em que o sr. Fernandez de los 
Bios dá conta ao general Prim da sequencia das suas 
negociaçSes, encontra-se um telegramma inigmatico, de 
que não quizemos indagar os fundamentos, por nada 
com isso aproveitar uma questão já finda, em que se 
attribue ao honrado marquez de Sá da Bandeira uma 
opinião ao que parece favorável aos intentos do nego- 
ciador hespanhol, e compartilhada pelos srs. Joaquim 
António de Aguiar, Anselmo Braancamp, condes de 
Castro, da Carreira, e marquez d'Aviia, sendo este 
ultimo de parecer que o Conselho de Estado fosse con- 
vocado para resolver definitivamente o assumpto. 

Este telegramma é do dia 9 de agosto de 1870. No 
mesmo dia escrevia de Cintra o sr. D. Fernando o se- 
guinte lacónico bilhete : < Não tendo entrado nunca 
n^este negocio o rei nem a rainha, acho inconveniente 
falar-lhes de um assumpto em que eu não mudo de opi- 
nião. > De duas, uma : ou o sr. D. Fernando foi alheio 
á reunião dos estadistas a que no telegramma se allu- 
de ; ou apezar da harmonia de opiniSes que n^ella se 
consignou, o verdadeiro e único responsável pelo modo 
de solver a questão da successão aos dois thronos da 
pemnBiãã entendeu, e bem, dever ^iraimx ^ ^^^^a^-- 
êabilidãde inteira de uma negativa^ ib Vy^Xa^ ^ v^^^ 
7 



98 

de accordo na mais essencial das suas exigências. 

Um outro bilhete do duque de Saldanha fecha esta 
curiosa serie de documentos, e n*elle se lê que el-rei o 
sr.D. Luiz, bem como seu pae, esperavam que as gran- 
des potencias restabelecessem a paz na Europa, o pre- 
texto explorado com mais affinco para resolver o sr. 
D. Fernando a acceitar o throno de Hespanha. O ma- 
rechal acrescentava em tom de duvida : « Oxalá que 
assim seja! » 

Quasi sete annos são passados sobre as laboriosas 
tentativas de iberismo, desfarçadas com a aparente 
simplicidade de uma candidatura ao throno vago de 
Hespanha. N'este iotervallo de tempo, que a tantos 
devia ter servido de lição, nem as ambições serena- 
ram ; neai a republica logrou consolidar- se ; nem uma 
dynastia de empréstimo poude lançar raizes ; nem o 
actual estado de coisas no paiz visinho promette a es- 
tabilidade a que os homens do governo provisório as- 
piravam, e contavam chegar, encontrando um rei que 
consolidasse o principio monarchico, abalado por tan- 
tas e tão repetidas convulsões. 

Alguns dos homens que em 1870 inâuiam nos des- 
tinos da Hespanha andam hoje emigrados, eterno fa- 
dário de quem n^aquelle paiz se occupa das coisas 
publicas. Portugal tão injustamente julgado pelo sr. 
Fernandez de los Rios, mantém inalterável a sua 
paz inteiiia, progride rapidamente como em outro le- 
gar demonstraremos ^ e faz votos para que outro tanto 
aconteça a uma nação amiga, outr'ora rival das suas 
glorias, agora esquecendo-se ás vezes, não ella, 
mas os ambiciosos que a tem governado^ de que a fra- 
ternidade é um sentimento christão, e não pôde pres- 

^ Vlâè no £m doeste volume «Portugal em 1872» Vida con- 
Btitacional de um povo da raça Latina. Estado publicado no 
'^^^morúa IHplamcUiguej em janeiro de l'&1^. — 'llx^xMÈAa <íí 
publicado em folheto no mesmo anuo. 



99 

lar para especulação de políticos^ nem para cimento 
de abstracçSes de ideólogos^ nem de fantasias de poe- 
tas. 

< Com o desenlace da candidatara de D. Fernando, 
escreve o sr. Femandez de los Rios, ficaram para sem- 

Ere reduzidas a arbitrios momentâneos de corrilhos po- 
ticoSy symbolisados em x algébricos os projectos de 
monarchias procuradas cm Portugal. » 

< Oxalá que assim seja » dizemos nós também co- 
mo o duque de Saldanha ; esperando não sermos como 
elle illudidos na nossa patriótica confiança. 



CAPITULO VII 



Desafrontado das peias diplomáticas recresce o mau humor da 
Br. Femandez de los Bios. Um rei estrangeiro nunca pôde 
ser um rei popular. O sr. Zorrilla cúmplice involuntário 
da abdicação do rei Amadeu. Âccusaçào improvada do 
diplomático hespanhol aos que elle chama cortesãos por- 
tuguezes. Sâo chamados a depor, os srs. Mendes Leal e 
D. Juan Valera. A republica mais perigosa para Portugal 
do que a monarchia, debaixo do ponto de vista ibérico. Ce- 
gueira do sr. Fernandez de los Bios pelo presidente do con- 
selho de ministros de D. Amadeu. Insinuação, que se trans- 
forma em louvor, feita ao ministério presidido pelo sr. 
Fontes. A revolução de maio, em 1870, pouco illucidada 
por quem podia esclarecel-a muito. Desassombro cavalhei- 
roso de D. Amadeu ao resignar a coroa de Hespanha. Uma 
asserção patriótica do sr. Corvo. A Aeutralidade de Portu- 

gal posta em duvida, sem provas. Palavras do conde de 
lavour applicadas ás republicas. Considerações finaes. 



Preso á chronologia que o obrigava a dar contai des- 
pacho a despacho, das suas infelicidades diplomáticas, 
poaco tempo sobrava ao sr. Fernandez de los Rios 
para os sublinhados maldosos, para as insinuações pér- 
fidas, 6 para as apreciaçSes rancorosas dos homens e 
das coisas de Portugal. 

Novos horisontes se vâo agora rasgar para o homem 
que esteve amarrado ao cepo das correspondências offi- 
ciaes sem poder aproveitar- se, como é propensão da sua 
critica^ das conjecturas que a imaginação fornece aos 
que tem em pouca valia a gravidade da historia, ou 
Boa que ae deixam inspirar e &^dL\mx ^À^^s^ ^^^ficâ^"^^ 
qae ojormdismo politico p5e em çÀt^xiXw^Ci^^^íiws^'^'®^».^ 



102 

responsabilidade momentânea^ que está longe de ser 
a consciência da posteridade. 

Nada temos que. ver n'este logar com o reinado ephe- 
mero de D. Amadeu, um dos mil episódios da accí- 
dentada historia da Hespanha contemporânea ; e só no- 
taremos a indifferença com que foi recebido em Madrid 
o monarcha convidado pela representação nacional a 
acceitar uma coroa, de que essa mesma representação 
nacional approvava por unanimidade a renuncia pas- 
sada pouco tempo, para se lançar incerta e descuido- 
sa nos azares de uma republica, não mais duradoira 
do que a monarchia democrática do príncipe italiano. 

Fossem quaes fossem as qualidades pessoaes de D. 
Amadeu, fosse qual fosse o seu propósito de regene- 
rar as instituições viciadas de um paiz em anarchia 
latente, na sua procedência trazia envolvida a ineffica- 
cia de todos os seus bons desejos, a condemnaçSo previa 
dos seus ulteriores esforços para governar a contento de 
um povo orgulhoso, saido de uma interinidade que af- 
fagava todas as chimeras, e alimentava todas as uto- 
pias, mesmo as mais ao reverso do sentir geral da na- 
ção. 

Um rei é antes de tudo um symbolo. Mas para o ser 
sem desdoiro para uma nacionalidade precisa da con- 
sagração do berço, da tradicção e da historia. O resto 
pôde nascer das virtudes cívicas do imperante, mas 
carece de tempo para se evidenciar, e de occasiSes pro- 
picias para se fazer valer aos olhos das multidões. A 
épocca não é para experiências de reis estrangeiros, 
embora ficticiamente chamados a reinar em nome do 
povo. A vinda de D. Amadeu á Hespanha foi uma 11- 
lusão do general Prím, illusão generosa, que o valente 
caudilho pagou com a vida, enlutando as paginas de 
um reinado^ em que talvez baseara o plano de mais 
vststas deeigaíos, 
 parte a íDâaeúoia, que o sr. EeraanAô* âi^ V»'8s!ft% 



103 

attribue aos cortesãos dos Bourbons, e também aos da 
casa de Bragança, no que nos parece entrar a phantasia 
do choronista mais do que a verdade histórica ; á admi- 
nistração do sr. Zorrilla cumpre attribuir as primeiras 
osciliações do reinado de D. Amadeu, embora o seu 
panygirista pretenda demonstrar o contrario, apresen- 
tanao como prova a avidez com que era lida a Gazeta^ 
ao que .parece abundante de medidas salvadoras, que 
nenhum resultado pratico deram depois de si. Conce- 
dendo que o sr. Zorilla fosse o homem á altura das cir- 
cumstancias de então, capaz de regenerar economi- 
camente o paiz, e de o encaminhar pelo trilho de uma 
sincera e prudente democracia, vem-nos a desconfiança 
de que não empregara todo o seu zelo e capacidade 
em bem servir a Hespanha, ficando, como ficou, tão 
áquem das ousadias que são a justificação única dos 
que governam em tempos anormaes. 

£ notável a insistência do sr. Fernandez de los RÍQ3 
em fazer crer aos seus leitores que Portugal, e o seu 
governo, detestavam a monarchia de D. Amadeu, 
chegando a escrever estas significativas palavras des- 
tituídas de bom senso, mas postas em circulação para 
atear inimisades entre as duas casas reinantes de Itália 
e Portugal, e justificar a própria inhabilidade diplomá- 
tica : «Por absurdo qiie pareça é sem embm^go certo que 
em nenhum outro paiz encontravam os vermes roedores 
da monarchia de D, Amadeu auxiliares tão descarados 
como em BoHugal.n 

Esta audaciosa afirmativa, que devia ser compro- 
vada com documentos de caracter official, e que nin- 
guém melhor que o sr. Fernandez de los Rios nos 
poderia indicar, estriba- a elle apenas em trechos e 
artigos de um único jornal portuguez, a que finge 
prestar fé, depois de ser tão sollicito, em outras occa- 
siòea, em desmascarar boatos d^^icoçi^4.^x\â\%.\'^x^^J^- 
tíca, quando cfises boatos ttxe co\ilxw\V4Ws\^^^s:^'^'^^j*»-> 



104 

e lhe punham a descoberto o fio do trama ibérico em 
que punha exclusivamente todos os seus cuidados. 

É fácil de escrever, mas diíBcil de demonstrar, que 
D. Amadeu trabalhava pela união ibérica, e de accor- 
do com elle viera á peninsula o príncipe Humberto, 
para aplanar as dificuldades que naturalmente surgi- 
riam, ao pretender-se realisar tâo aventuroso plano. 

N^eate ponto insiste o sr. Femandez de los Rios, sem 
emittir julgamento próprio que valha a pena de ser re- 
futado, nem siquer citado, transcrevendo dos jornaes 
quantas insinuações lhe pareceram adquadas ao seu 
fim, c escondendo as replicas que evidenciariam a 
ausência de fundamento com que a imprensa se occu- 
pava de assumptos que, pela sua natureza, não podiam 
chegar limpos de sombras ao conhecimento do publico. 

Que diíferença entre a maneira leviana e futil^ quan- 
do não pamphletaria, com que o sr. Fernandez de los 
Bios escrevia a historia, c a conscienciosa sisudeza com 
que o sr. D. Juan Valera refutava em 1862 na Re- 
vista Ibérica a argumentação balofa do auctor de La 
Fusian ! 

Que difíerença, ainda, entre as puerilidades que for- 
mam o fundo dos processos históricos do façanhudo de- 
tractor da nação portugueza, que não vê senão pessoas 
quando lhe corria a obrigação de discutir factos averi- 
guados, deixandose ir atraz de miseráveis rancores: e 
a forma grave com que por esta mesma occasião o sr. 
Mendes Leal escrevia na America os eruditos artigos 
em que se punham em paralello as duas Peninsulas, 
a ibérica e a itálica, notando as dissonância» que en- 
tre ellas existem, e a errada argumentação dos que da 
obra patriótica de Cavour querem tirar pretexto para 
a unificação da peninsula ibérica! 

È porque oa ars, Mendes Leal e D. Juan Valera são 
do/s notáveis engenhos que, ao OBcrevwem fevA>Y^ ^"?*- 
sumptoa de politica internacional, se deaçTçstvÔL^m ^«^ 



lOõ 

causas miseráveis que actuam nos espíritos acanliados, 
e nos ânimos pr()pensos a vingarem-se pelo insulto da 
superioridade que a consciência lhes intima a reconhe- 
cer em homens de vasta intelligencia, de outra reâexâo, 
e de outro tino para dirigirem os destinos das nações ^. 

Assim pois, emquanto que o sr. Fernandez de los 
Rios escreve contra a dynastia de Bragança, e cuida 
rebaixar os ministros portuguezes com phrases folhe- 
tinisticasy quando nSo descem a expansões de casa de 
guarda, isto a propósito de planos ibéricos do rei Ama.- 
deu, e de uma supposta ingerência da Itália nos nos- 
sos negócios domésticos: o sr. Mendes Leal, compulsando 
08 historiadores italianos, e relendo os poetas que já lhe 
eram familiares, prova que a poesia e a historia^ cheias 
ambas de aUvÃdes — único desafogo onde outi^o não era 
era permittido — foram por muito tempo a arca santa 
recatada mas visivel do grande seiitimento nacional ita- 
liano. i> 

N^este laborioso estudo ^ o distincto académico por- 
tuguez percorre a historia da Itália sem nunca per- 
der o fio da sua nacionalidade, modernamente recon- 
stituida, demonstrando com factos a disparidade da 
nunca interrompida aspiração dos povos da peninsula 
itálica, com os característicos abertamente adversos á 
unificação que abundam na nossa historia pátria, e são 
eloquente testemunho do direito que temos, e do de- 
sejo que o fortifica, de mantermos a nossa autonomia 
e a nossa nacionalidade. 

Depois de profundas indagações sobre as origens e 
progressos da lingua portugueza, que completam <» 

1 E insólita a maneira por que o sr. Fernandez de los Kiott 
fala sempre dos srs. Fontes, Cor\'o, e Mendes Leal ! As iras 
contra o primeiro doestes estadistas chegam a ser caricatas á 
forpa de pretenderem ser insolentes. 

^ Aa thias Peninaúlaa^ artigos \m^iÇi«.^o«> w^ \<5rK!kS^.XN^!v555^^- 
rio A America^ 1871. 



106 

confronto entre as duas penínsulas, justificando a uni- 
dade de uma, e a persistência da outra em conservar 
a sua autonomia, concluo doeste modo o sr. Mendes Leal| 
os seus bem pensados e conceituosos estudos : aN'este 
período de anciã, de instabilidade, de ardente elabori^- 
çâo e febris tresvarios, cumpre afastar cuidadosamente 
tudo o que possa occasionar irritações escusadas, coa- 
ções perigosas, constrangimentos funestos, difficulda- 
des imprevistas. Porque o espirito das trevas provoca 
o ódio, mais deve o espirito da luz remover-lhe as cau- 
sas. Quem pode julgar o porvir? Quem vê para absol^ 
vel o ou condemnal-o ?» 

«Os certificados de uma individualidade desambicio- 
sa e honrada, que tanta vez a gloria ligitimamente co- 
roa, em nada prejudicam as alianças de affecto, de 
conveniência, de interesse, que são já conveniente in- 
dicação, que podem ser amanhã indiclinavel necessi- 
dade.» 

Já que nos encontramos de frente com uma nova 
phase do iberismo, e de um iberismo brutal que não 
era de esperar ver resuscitar em o livro de um ho- 
mem que se tem na conta de julgador supremo de 
uma nacionalidade, transcreveremos aqui as sensatas 
reflexões com ^ue o sr. D. Juan Valera (cremos que 
ninguém lhe negará a competência critica, nem o ta- 
lento tantas vezes provado) anniquilla as inexactas 
apreciações do sr. D. Pio GuUon em uns cordatos ar- 
tigos intitulados. Espana e Portugal insertos na i?^- 
vista Ibérica j em 1872. 

Depois de aconselhar as boas relações entre os dois 
povos, e provar que d*ellas e só d^ellas pôde advir o 
futuro bem estar da Peninsula, e a sua influencia nos 
negócios da Europa accrescenta o sr. Valera : 

«Doeste modo é que nós comprehendemos o ibéria- 
mo. Não é uma necessidade, maa píÀ^ a«t \uií«í. ^^tl- 
venwncia. » 



107 

€ A união não é indispensável para Tiver ; Portugal 
tem vivido bem, com riquezas e prosperiedades mate- 
ríaes, e pôde viver do mesmo modo sem nós ; Portu- 
gal sem o nosso auxilio, pôde chegar a ser uma na- 
çSo mais rica, mais commercial, mais abastada que a 
Bélgica; mas Portugal^ sem nós, não pôde voltar a ser 
uma grande nação, e Portugal espera sel-o. Portugal 
nSo pôde renegar o seu passado. A nossa argumenta- 
çSo é exactamente contraria á do sr. Gullon. EUe é 
ibérico, porque não tem na conta em que nós o temos 
o sublime e o extraordinário das historias portuguezas, 
nós também o somos, ainda que esperando d 'um fu- 
turo remoto, a realisação das nossas esperanças, por 
que nos admiramos d'essas historias^.» 

1 Por ser extremamente ridicula, convém dar publicidade, 
quanto maior melhor, á lista das chamadas convulsões politicas 
modernas portuguezas^ inventadas pelo sr. Fernandez de los 
Rios, para desvanecer o erro em que alguns estão, de que pelo 
lado da tranquilidade, se teem sempre differençado os deis povos 
da Península, Depois de enumerar ii\g\xm2c&,pou^issim<!Ls, con- 
vulsões politicas que merecem tal nome, como a lista ficasse 
acanhada para os bons desejos do sr. Fernandez de los Rios 
ampliou-a, comicamente, do seguinte modo: Tumultos em Suajo 
desordens no Barreiro, agitação em Yianna, Braga, Bragança, 
•ViUa-Iieal, Melgaço, Monção e Reina (?); 30 de novembro — 
tamalto de Freixada; 10 de dezembro — idem em Taveira^ 
Montemór-o Novo, e Tras-os -Montes, sublevação do regimento 
8 em Elvas; 22 de junho de 1873 — tumulto na Sé do Porto; 
agosto — tumultos em Torres Novas, Vinhaes e Reguengos; 
dezembro — tumultos em Faro, Tavira e Montemór-o Novo» 
O Diário da Manhã, dando também publicidade a estas her- 
nardos f ou antes bernardices, accrcdcenta: «Esta lista é comple- 
tissima c mostra a profunda ignorância que nós todos temos 
tido da nossa historia pátria, por que devemos confessar que 
de muitas d^essas revoluções não nos lembrávamos. N^esta lis- 
ta só faltou ao sr. Fernandez de los Rios noticiai*, talvez por 
não ter sabido a tempo, a revolução que houve ha dias em 
Lisboa por occasiâo da espera dos toltoa^ uSa i^«sA<^\^^^& 
diversas revoltas .quotidianas, queYia. no^ft^Krco fe^Xí^-»^^^®^ 
narradas Da Histoiia das rtvoluqòts portu<|ue,ias^ '^'uX'9^ 'Ô^'^^ 



108 

Julgamos necessárias estas rápidas digressSeS; para 
fortalecermos a paciência quasi esibausta, contra a 
corrente caudal de impropérios com que o sr. Feman- 
dez de los Rios nos allegai passando de incidente para 
incidente com a mais pasmosa volubilidade, crivando 
de felinas unhadas todos os funccionarios portuguezes 
que, no exercicio das suas funcçoes publicas, fizeram 
tropeçar o gigante, ou lhe empataram os projectos, sem- 
pre urdidos com a máxima imprudência, e sem recato 
divulgados pelos agentes do inquieto procurador do 
Duende. 

Era que se importou, ou deixou de importar Por- 
tugal, com a permanência ou não permanência do si*. 
Zorrilla no ministério do rei Amadeu, para o seu pro- 
tegido o apresentar constantemente como um phantas- 
ma que assombrava o sr. Fontes, e tirava o somno ao 
sr. Corvo, ministro dos estrangeiros, e ao sr. Mendes 
Leal, nosso representante em Madrid? 

Se Portugal tivesse de que receiar pela sua auto- 
nomia, com mais razão seria fundado esse receio quer 
antes, quer mesmo depois do reinado de D. Amadeu, 
do que quando o sr. Zorilla foi arbitro dos destinos da 
Hespanha, sonhando o império Ibérico, e parodiando 
o conde de Cavour. Nem elle, o adventício da semana 
anterior, posto de repente a nadar nos mares encapela- 
dos da politica, podia com outra gloria, mais do que 
a depois adquirida, na responsabilidade directa que 
teve na abdicação do rei a quem não soube, ou não 
quiz aconselhar. 

 teimado sr. Fernandez de los Rios em pretender á 
viva força agigantar a estatura politica do sr. Zorilla, 



de policia. Como esta ha dúzias de inexactidões no livro do 
ar, FerDãnàez de loa Rios, que provocam o riso, e custa a crer 
çae fossem escríptaa com sinceridade. ^ oioxMSi^«.\!gaQit%».- 
^-w do auctor é grunde com relação a coisa» poTta^xx^ií» \ 



109 

tem o que quer que seja de mysterioso que se não 
explica, embora o oíBcioso Plutarcho amontoe cita- 
çBes de jomaes sobre citaçSes de jomaes para provar 
que Portugal influirá desfavoravelmente na curta exis- 
tência do reinado do príncipe italiano. Se tal foi, 
o que a ausência total das provas nos convida a ne- 
gar, nunca o Enfermo do Occidente, assim alcunhado 
pelo curandeiro hespanhol, pesou tão pouco na balan- 
ça politica do reino visinho que não lograsse colher os 
resultados dos seus esforços. Bem diz o rifão portu- 
guez que mais depressa se apanha um mentiroso 
que um coxo! 

Para se esquivar a entrar com certo decoro na apre- 
ciação da tentativa de revolta que teve logar em 1872, 
de que com toda a plausibilidade se deve desconfiar 
ter sido o sr. Fernandez de los Rios um pouco mais 
sabedor do que aparenta nos seus annaes ; desculpa-se 
o ingénuo narrador dizendo que a subida ao poder do 
chefe de partido regenerador tolhera á diplomacia os 
meios usuaes de apurar a verdade dos factos, restan- 
do-lhe unicamente a imprensa, ç[ue se por um lado ap^ 
poiay por ovJtro descobre parte das iiúrigas^ que o orien- 
tam no giro dos negócios públicos ! 

Sentimos que o sr. Fernandez de los Rios se ser- 
visse d'esta argúcia para guardar um segredo, (notaVel 
por ser o primeiro que não divulga !) sobre assumpto 
em que a sua reconhecida sagacidade devia lançar 
muita luz, esclarecendo alguns pontos ainda hoje obs- 
curos da tentativa da revolta, redusida a proporções 
minimas na sua conscienciosa escripta, talvez para o 
não accusarem de engrandecer o mau, sendo tão 
pouco propenso a exaltar o que é bom. Uma coinci- 
dência, porém, deixa no nosso espirito a duvida. É neste 
logar que o sr. Fernandez de los Rios se arvora em 
commÍBBarío geral de policia ^ %eiii ^x^^ ^»ts^ ^"^^^ 
^ Par& bem noa avaliar ecouomvca ^ ^otMn^^twíasiRsfi^Ri 



110 

qualidade a de representante de Hespanha^ que 
invoca dirigindo-se ao governo portuguez, em nota 
de 28 de julho de 1872, para se queixar de um jor- 
nal que aceusára um castelhano revestido n^este paiz 
de funcçdes officiaes, de andar compromettido em 
manejos ibéricos. 

Esta correspondência é curiosa. Insiste o ministro 
hespanhol em affirmar a lealdade com que tem cum- 
prido as missões do seu governo, pedindo que o de 
Portugal atropelle em trôco a lei da liberdade de im- 
prensa em favor das suas susceptibilidades indivi« 
duaes ! Chama-se a isto curar se em saúde. A esta 
nota responde por carta o ministro Fontes, na ausên- 
cia do seu coUega o ministro dos estrangeiros, até 
que este chega a tempo de responder officialmente ás 
importunidades do diplomático, que, em um dos seus 
despachos para Madrid, louvava já a imprensa portu« 
gueza, por não haver reproduzido a noticia baptisada 
de calumniosa pelo interessado. 

Como o sr. Femandez de los Rios no seu livro nSo 
se dignou commentar as apreciações do jornalismo por* 
tuguez com relação ao projecto de revolta de 1872 ; 
nem, entrando em terreno mais seguro, analysou o 
processo judicial em que o seu nome andou envolvi- 
do, nós lastimando esta irrreparavel lacuna, cremos 
de nosso dever ficar n'este ponto fidstrictos ao que a 
diplomacia nos quiz revelar, por muito pouco que 
fosse, como realmente é. 

A nota do sr. Corvo, tão anciosamente requerida 

serve-se o sr. Valera dos dados estatisticos que Ibe forne- 
ceu o Compnedio geographicoeatatisticod e Portugal de D. José 
de Aldama, impresso em Madrid em 18Õ5. A nossa prosperi- 
àáiàe mãtanal d*eotâo para cá, vinte e dois annos, já a dei' 
xámo8 consignad& em outro logar doeste Wvto, tio çx\i«k.íi\o q^<^ 
&emo8 de um exatisaimo artigo transcripto do Memonrvxl dv 
J'^àmae$^, de Janeiro de 1872. 



111 

e esperada pelo sr. Fernandez de los Rios dizia o se- 
gointe^ como paraphrase aos protestos do diplomático 
hespanhol : 

<Nos três amios que tem passado entre nós como 
representante de Hespanha, terá V. £x.^ adquirido o 
convencimento que é universal na nação portugueza o 
verdadeiro patriotismo : um nobre orgulho pelas tradic- 
ç8es gloriosas da historia nacional, um inquebrantá- 
vel apego á independência, um entranhado respeito, 
uma completa adhesão ás instituições liberaes, são 
provas evidentes de quíto arreigado está no povo por- 
taguez o amor da pátria. Este sentimento tem os 
verdadeiros característicos da força, a confiança em 
8Í próprio, e a tranquilidade com que se manifesta.» 

Em consideração do mesmo género abunda este do< 
ounento, até chegar á conclusão de que : 

«Contra os abusos da imprensa ha um correctivo 
na leiy a acção dos tríbunaes. V. Ex.^ sem renunciar 
inteiramente na sua nota a este meio que a lei facul- 
ta para castigar os culpados de crimes de imprensa, 
mostra-se sem embargo, pouco disposto a recorrer a 
elle. Faço a devida justiça á benovolencià de V. Ex.^, » 

A nota do sr. Fernandez de los Bios, a que tão con-. 
dignamente replicou o sr. Andrade Corvo, foi o ultime 
canto do cysne do diplomático hespanhol ao perder o 
caracter de representante de uma monarchia, para con- 
tinuar em Lisboa como representante de uma repu- 
blica de improviso. 

O auxilio que a restauração monarchica cm Hespa- 
nha se diz ter recebido de Portugal, é simplesmente 
nma invenção do seu auctor para occultar ou attenuár 
a £alta de tacto politico do sr. Zorrílla e a sua in- 
temperança democrática, demonstrada contra vontade 
pelo próprio sr. Fernandez de los Ríos^ ao dat-\vo% <i<c^\s.- 
tã doa altimoB momentos da monaT^vd. ô^a ^xvcàx^^ 
italiano, e da nobre isempçHo cotdl ^sX^ ^qíís55ok^ '^'^ 



112 

protestos de sympathia e lealdade que, na hora extre- 
ma, lhe apresentava o seu presidente de conselho de 
ministros. 

Se o rei Amadeu estivesse bem compenetrado dos 
bons serviços prestados a si e á causa pública pelo sr. 
Zorrilla, nâo repelliria energicamente todos os seus pedi- 
dos, todas as suas combinações, todos os seus planos : 
como não lhe acceitaria depois com indifferença, enr 
colhendo os homiros, o offerecimento, na apparencia 
generoso que o sr. Zorrilla lhe fazia, e levou á pra- 
tica, de acompanhar até á fronteira de Portugal o mo- 
narcha que expontaneamente acabava de abdicar a co- 
roa de Hespanha! 

O simples bom senso, desajudado mesmo de provas, 
nos está revelando que, além de quaesquer manejos 
politicos, postos em evidencia no próprio dia da abdi- 
cação, a consciência do rei reluctava em acreditar na 
boa fé monarchica dos seus ministros, e na lealdade 
com que o aconselhavam. 

Diga o sr. Fernandez de los Rios o que quizer : a fa- 
mília real portugueza foi alheia á abdicação do rei Ama- 
deu, como estranho lhe foi egualmente o governo porta- 
guez que então estava á frente dos negócios públicos. São 
passados quatro annos depois da abdicação do rei Ama- 
deu, accrescenta o sr. Fernandez de los Rios, e ainda 
o sr. Zorrilla se queixa amargamente do procedimento 
do sr. Bivero (presidente da camará dos deputados) 
acreditando, na nobreza do seu pensar j que sem a aber- 
tura da sessão legislativa ainda seria possivel dar re- 
mediOf ao que já então era in*emediavel. » Esta crença 
demonstra quão falta de unidade de intuitos politicos 
corria por então a monarchia democrática, quando o 
presidente do congresso assim abertamente contraria- 
va os planos conciliadores do presidente do conselho 
de mimstrOB l 
A razUo ultima, e que por ser a fixia\ deVií». ^«t ^ \sitÀ& 



113 

solida, das apresentadas pelo sr. Femandez de los Rios 
para provar a ingerência do governo portuguez nos ne- 
gócios internos da Hespanha, é a de nao ter elle tido res- 
posta a um telegramma em que pedia dados para des- 
mentir a noticia da renuncia; havendo-osjá então com 
certeza um dos empregados de confiança do presiden- 
te do conselho de ministros portuguez ! 

propósito firme do autor do livro Mi mision era 
provar que Portugal não cumpria uma stricta neu- 
tralidade nos negócios do paiz visinho, servindo-lhe de 
aresto esta calumnia para represálias futuras, se os 
factos dSo faltassem por si mesmo em nosso abono, 
desmentindo as suspeitas dos que queriam lançar fora 
dos hombros dos seus amigos a responsabilidade que di- 
rectamente lhes tocava na não consolidação da mo- 
narchia do rei Amadeu. 

Da proclamação da republica, e não da significação 
monarchica doeste ou d^aquelle principe, é que podia 
nascer a inquietação dos espíritos, como o provou a al- 
lavião de folhetos publicados em 1871, em que a idéa 
do, iberismo renascia das cinzas da monarchia. Os 
amadores de aventuras politicas começavam a pôr em 
circulação theorias que, a não ser o seu insucesso em 
Hespanha, podiam momentaneamente alterar a ordem 
publica, apezar de não porem em perigo as actuaes 
instituições^ á sombra das quaes Portugal tem pros- 
perado, e continua a prosperar. 

Do que se escreveu por essa época com relação ao 
assumpto ^ se prova o alvoroço, ainda que mais não 
fosse, provocado pela novidade do facto, que a procla- 
mação da republica hespanhola causara em Portugal. 
NBo faltou, porém, quem sensatamente visse na nova 
ordem de coisas um convite á anarchia e pela im- 

1 No fim d*este livro vão indicadas nos Apontamentos Bi- 
hlioffrajphicos, tod&8 as publicações que &e tei^x^Tsi ^^ %s^'^>»sir 

pta, 

8 



114 

prensa divulgasse os seus receios. Ás seguintes pala- 
vras fazem fé do que dizemos. «Depois de dois séculos 
de despotismo feroz e aviltante^ ede meio século de 
luctas civis, sanguinolentas e intolerantes, a Hespa- 
nha precisa de liberdade e de paz. Será a forma re- 
publicana no estado actual a mais própria para lhe ga- 
rantir a conservação e defeza doestes bens? Não o 
acreditamos, ou as leis da historia são uma illusão e 
uma mentira. O que não conseguiram povos mais 
adiantados, mais civilisados, mais moralisados, mais 
homogéneos, mais Õeugmaticos, mais brandos de cos- 
tumes, mais acostumados á liberdade e á tolerância^ 
não pode conseguil-o ainda a heróica e brilhante, mas 
irrequieta e semi-barbara nação hespanhola.» 

Esta opinião é fundamentada com o testemunho in- 
suspeito de Proudhon, mais applicavel ainda á Hespa- 
nha, do que á França, que no seu livro, Do principio 
federativo escreveu : a Se me é permittido emittir uma 
opinião pessoal j direi francamente que a nação france* 
zaj constituida durante quatorze séculos em monarchia 
de direito divino j não podia de véspera para o dia se- 
guinte transformar-se n\ima republica.» 

E porém decisiva a opinião do conde de Cavour 
quando, depois de passar em revista as republicas da 
antiguidade, provando o seu constante egoismo, egual 
vicio aponta nas republicas italianas da edade media, 
até formular esta significativa pergunta: 

«Terão sido menos egoístas as republicas modernas? 
Não por certo. Os Estados unidos quando tinhram con- 
quistado a sua independência, quando se tinham tor- 
nado bastante fortes para luctar por mar c por terra 
com a Inglaterra, estenderam por ventura mão ami- 

1 Dos artigos não collegidos em folhetos é notável o que 
tem por título: Monarchia ou republica em Hespariha. Tfma 
í?pimão eio conde de Cavour^ assignado pelo at. kolotào ôlã ^t- 
p&, e publicado na -America.»» 



llõ 

ga aos americanos do sul na guerra da emancipação 
contra a Hespanha ? Nâo : guardaram a mais stricta 
neutralidade, e não foi por humanidade e horror ao 
BaDgue^ porque não duvidaram fazer guerra aos me- 
xicanos, para lhes tomar algumas provincias.» 

O julgamento do grande estadista italiano, abrange 
na mesma censura a republica franceza, cujo auxilio 
sente ter a Itália invocado. 

O commentador da opinião de Cavour accrescentou: 
«A sociedade é como a natureza, desenvoive-se gra- 
dualmente segundo as leis da continuidade e não por 
meio de saltos e transições incalculáveis. Quando o 
barómetro sobe e desce gradualmente, é porque gra- 
dualmente varia o tempo e essa variação é firme. 
Quando o ponteiro dá grandes saltos, a mudança não 
é segura e a tempestade é infaliivel.» Estas, e outras 
considerações, não precisavam, felizmente, ser formula- 
das para calarem instintivamente no animo da gran- 
de maioria do povo portuguez, que via com descon- 
fiança estabelecer-se a republica em Hespanha, e de- 
generar áesde logo nos excessos de Alcoy e de Car- 
tagena, em nome do principio federativo, ainda assim 
o único, no nosso entender, que pôde acommodar-se no 
paiz visinho á forma republicana. 

A mais cabal demonstração da estabilidade das ins- 
tituições constitucionaes em Portugal está na confiança 
com que assistio ao fazer e desfazer de monarchias no 
reino visinho : e, principalmente, na prudente reserva 
com que viu proclamar-se a republica, sem se resentir 
politica nem economicamente, de uma convulsão que 
podia influir nos seus destinos, se em nós não fosse 
principio de honra antepor a nacionalidade, que é per- 
manente, ás formas de governo que podem ser tran- 
sitórias, e envolvem perigos disfarçados debaixo de 
capcioBaa promesBas. 
twproductivaaj mais do q\xQ \in^TOÔL\i'5i>LYsr^^^ ^^^ 



116 

as missões politicas e diplomáticas do sr. Fernandez 
de los Bios em Portugal, durante a interinidade do 
governo provisório, e a monarchia democrática de D* 
Amadeu. A republica vae encontral-o, e conserval-o no 
mesmo posto, em que, por amor da pátria e da democrar 
cia, o interessado estava pela sua parte disposto a en- 
cartar-se vitalicia mente, em nome das suas tradiçSes 
de família, e das suas remeniscencias de adolescente* 

«Um mundo de recordações, de idéas, de duvidas, 
me atravessaram o pensamento nos vinte minutos em 
que me demorei a responder a Rivero, com o tele- 
gramma de adlaesão á republica, publicado nos pri* 
meiros números da Gazeta depois da republica já 
proclamada!» 

Este mimdo de recordações, a que o sr. Fernandes 
de los Rios se refere, largas e tumultuosas como a pa- 
lavra que as exprime, é toda a bistoria da Hespanha 
contemporânea, com as suas immensas vicissitudes; com 
08 seus episódios de sangue ; com as imigrações quaai 
constantes dos seus melhores filhos e dos seus mais 
robustos talentos ; com a doblez dos seus governantes^ 
e a insigne má fé da dynastia desthronada em 1868 : 
finalmente com todas as peripécias de um paiz em vò^ 
voluçâo permanente, aspirando ao bem pelo desejo, 
mas contradizendo nas praticas do governo constita- 
cional tudo quanto este systema tem de aproveitável, 
como meio termo que é entre as theorias extremas, qua 
dividem e tomam hostis as sociedades, que não chegi^-* 
ram ainda ao seu estado de maturação. 

Estas impressões retrospectivas, solidas para con*- 
vidar a meditação d'um pbílosopho, não deviam bastfur 
para lançar um homem politico de um campo parii 
outro campo sem transição, acabando de ser, comf^ 
fôra, o representante de uma monarchia, e o escolhida 
do governo provisório que a prepaxáxal 
Para estes saltos mortaes n&o Via eiiaxa^ â^^ q^^qs^- 



117 

(siencia possível, nem justificação que preste. O ódio 
AOS Bourbons, invocado como rasâo politica, parece-nos 
ainda mais íutil do que a já desmentida rasâo, a que 
o sr. Femandez de los Rios chama de reaccionários, 
a falta de preparação no paiz para receber a repu- 
blica, em cuja fé o ex-diplomatico declara por fim 
tencionar morrer. 

Ha ductilidades de consciência que ás vezes apro- 
veitam indirectamente aos que desejam apurar a ver- 
dade dos factos. Se o sr. Fernandez de los Rios hou- 
iresse dado por finda a sua missão diplomática depois 
da abdicação do rei Amadeu, não saberíamos ainda ho- 
je que o ex-rei de Hespanha o recebera com pronun- 
ciada sequidão, quando officialmente o fora esperar 
ao Entroncamento, em virtude das ordens que recebera 
de Madrid. Guindar este incidente ás alturas de ense- 
líanza de reys e de pueblos parece-nos demasiado 
ambicioso, a não ser que o telegramma do sr. Oloza- 
ga, sem resultado pratico que se visse, recommendando 
a demora de Z>, Amadeu em Lisboa, por que havia mo- 
tivos para esperar que elle não saisse da península, não 
envolvesse em si um mundo novo de aspirações, para 
oontrapôr ao mundo velho de recordações em que o sr. 
Femandez de los Rios se deixara embrenhar. 

O que se passou na camará dos deputados portu* 
guezes, em maio de 1870 ninguém o ignora. Eram 
geralmente conhecidos, desde o anno anterior, as opi- 
niSes do general Prim, de Rios Roias, de Salazar j 
Mazarredo, de Castellar, de Rivero, de Martos, e de 
outros vultos mais ou menos importantes da politica 
besponhola, com referencia á questão peninsular. 

Não podendo porem consolidar-se a monarchia an- 
ti dynastica que o sr. D. Fernando fora convidado a 
representar; nem a de D. Amadeu^ TSi\mâA» ^^^mí^ v>2^- 
tadãs democráticas do sr. ZomWsi, o ^<^ x^^eí^ví^ ^ 
Hespanha ? A republica. 



118 

Mas a republica era um perigo para a independên- 
cia de Portugal. Já então o sr. Castellar tinha pro- 
uuncíado do alto da tribuna, de que é ornamento^ as 
seguintes palavras : «Esta identidade do nosso ser, 
deve ensinar-nos que, nem os erros de uns nem as pai' 
xões de outros, poderão impedir que, respeitando nos- 
sa mutua independência, e a nossa respectiva sobe- 
rania j fundemos, por meio de federaqàõ, os Estado» 
Unidos da Ibéria livre, nf 

O sr. Corvo apurando e confrontando as opiniões dos 
estadistas e dos oradores hespanhoes, e não acceitan- 
do as theorias dos monarchicos, nem as dos republi- 
canos, conducentes em ambos os casos a perda da 
nossa independência^ escreveu : 

«Uma nação que entrega os seus próprios destinos 
á soberania popular, deve respeitar com meticuloso 
escrúpulo a soberania das outras nações. Quem eleva 
tão alto o respeito aos direitos individuaes, que até 
crê ser um ataque contra elles o querer definil-os 
em formulas legaes, não pôde deixar de condemnar 
toda a tyrannia, toda a oppressão, todo o constrangi- 
mento, toda a astúcia mesmo, que possa ter por fim 
impor a um povo livre, amigo ou inimigo, uma forma 
politica, um governo que elle não queira,» 

O sr. Fernandez de los Rios, o azougado, o impre- 
vidente, o mechediço, entalado entre tantas e tão di- 
versas opiniSes, e procurando dar-lhe unidade nos dois 
differentes actos da sua zarzuella diplomática 1 

A mythologia deu nome a este desesperado suppli- 
cio, symbolisando-o na figura de um incançavel obreiro 
que nunca logrou fazer coisa que ficasse estável. 

E tambein assim o desapontamento dos que, ao findar 
o Bonho de que accordaram pretendem apalpar 
s realidade do que só foi um embuste da imaginação. 
Mas ao menos respeitem as 8U8cept\\)\\\âLaiàfòÃ à^oa ^^ 
^ndam acordados. 



CAPITULO VIII 



Edipse do sr. Fernandez de los Rios. Durante a revolução e 
a republica. Nâo interferência de Portugal nos negócios 
. de Hespanha. Accordos peninsulares; jurisprudência inter- 
nacional, e relaçues materiaes. Prioridade portugueza em 
alguns doestes assumptos. Trecho de um despacho do sr. 
Mendes Leal. A Internacional e o sr. Andrade Corvo. Há- 
bil procedimento doeste ministro. A Galliza, e os 
gallegos. Algarismos que desmentem juizos precipitados. 
Tratado de extradição com Hespanha, e propaganda mansa 
de Portugal com reUiçào a este negocio. Estabelecimento 
de uma igreja evangélica em Lisboa. Considerações a este 
respeito. Relações commerciaes entre os dois povos da Pe- 
nínsula. Quem é o culpado da suaquasi nu Ua importância? 
As alfandegas da raia. Importância doeste assumpto. Um 
despacho importante do ministro hespanhol, economica- 
mente considerado. Alvitres. O sr. Fernandez de los Rios, 
e as divindades Indianas. Parallelo. Conclusão. 



Com o desaparecimento da republica em Hespanha 
que^ diga- se a verdade, foi dignamente comprehendi- 
da pelo poder central, e torpemente exagerada pelos 
díscolos que sempre vâo alem do que é justo e sen- 
sato, eclipsou-se o astro que no systema planetário da 
epocca brilhou com o nome de Fernandez de los Rios. 

O projecto de reforma da carta constitucional apre- 
sentada na camará dos deputados pelo sr. José Lu- 
ciano de Castro, em nome do partido histórico, e al- 
guns trechos de artigos de jornaes politicos, que o 
ministro hespanhol retalhava & th.Q€»owx%^ ^ ^\^^^^^ 
êsmente arciuVava para o que d.e^&^ ^ nV^^'^»^'!^»^^^^^ 
preaton agora de argumento cara ÔLômorasNx^x ^ \fts5^- 



120 

bilidade das nossas instituições, e o nosso pouco affer* 
ro á monarchia constitucional ! 

É curioso lêr no livro do sr. Fernandez de los Rios 
o capitulo que se intitula «durante a revdiução e a 
republica.)) As incertesas que assaltam o espirito do 
diplomático hespanhol são grandes, e, não as sabendo 
esconder, como seria dignb de si e do paiz que repre- 
sentava, desafoga em torrentes de injurias contra 
Portugal as iras que trazia accumuladas, desde que 
a incapacidade politica do sr. Zorrilla dera em terra 
com a democrática monarchia do rei Amadeu. 

Pretendera aquelle ministro imitar Lafayette, e os 
homens da revolução de 1830, mas não tendo a lar- 
guesa de vistas, nem o tacto politico de alguns dos 
conselheiros de Luiz Filippe, apenas logrou dar in- 
cremento á guerra civil, e rebaixar o credito já abala- 
do da nação hespanhola. 

Por detraz do desgoverno do sr. Zorrilla estava a 
republica espreitando a occasião de fazer a sua pri- 
meira experiência no paiz da Europa o menos prepa- 
rado para ella, onde é ainda preponderante o predo- 
minio clerical, e onde o militarismo se avesou a abrir 
á ponta de espada o caminho das honras, a troco da 
paz publica, o mais indispensável elemento de pro- 
gresso e de civilisação. 

O próprio sr. Fernandez de los Rios confessa no 
seu livro não ter levado comsigo para Madrid nenhum 
mas illusdes acerca da vitalidade da republica nascida 
em 11 de fevereiro j e acrescenta que com o seu des*- 
parecímento, serão anniquilada;s todas as aspira^ções 
da revolução de setembro, de 1868. 

Reflectindo a sangue frio n'esta opinião, comparti- 
lhada talvez pelo sr. Zorrilla, doe ver como uma po- 
derosa nação escolhia para pilotos, ^m occasião de 
temporal desfeito, homens que, mal aerròiâLO ^ xaa- 
Mããohia da sua escolha, se lançavam no^ \ycwp% 



121 

de uma republica, em cujos destinos não confia- 
vam ! 

O que não tem fundamento; nem siquer visos de 
plausibilidade, é a interferência que o sr. Fernandez 
de los Rios affima ter tido o governo portuguez nos 
negócios internos de Hespanha; auxiliando as tentativas 
de restauração monarchica, dando protecção aos car- 
listas emigrados em Portugal, e pensando no immenso 
absurdo de pôr a força armada á disposição do parti- 
do que projectava ánniquilar a republica ! 

Doestes, e de outros ridículos manejos que só exis- 
tiram na imaginação febril de quem os inventou, tor- 
na o sr. Fernandez de los Rios responsável o sr. Fon- 
tesy mas tendo tido depois occasião de averiguar a ve- 
racidade dos boatos a que se refere, nem uma única 
prova apresenta que 'mereça ser exhumado dos archi- 
VOB da sua chancelaria. 

De duas, uma. Ou a cumplicidade portugueza na 
restauração monarchicá hespanhola foi uma pura 
phantasia, ou o diplomático dos ensinamentos de ama- 
nhã andava tão cego, que, devendo acautelar-se con- 
tra 08 inimigos da republica, a cujo serviço se puzera, 
deixou passar por diante dos olhos as nuvens negras 
da reacção sem dar por ellas. 

Como esta -segunda parte do dilemna não pôde sem 
injustiça ser applicada á reconhecida sagacidade e 
prudência do diplomático hespanhol, a lógica manda- 
noB concluir que a influencia que se nos quiz attribuir 
na restauração bourbonica não passa de uma suspeita 
êem evidencia, lançada intencionalmente ao papel 
para ser explorada em occasião opportuna, invertendo 
a posição politica dos dois paizes peninsulares. Este 

Íiroced^enro pôde ser astuto, mas está com certeza 
ooQge de dever &er imitado. 

A tr^nacripç&o de alguns ax&go^ Ôl<ò *^*araaR»à ^^ 
tugaezes de boa nota, pela Teronk^ecÀôai ^^^sàssssó^^ 



122 

dos seus redactores ^ nada prova em abono dos factos 
que o sr. Fernandez de los Kios dá como averiguados. 
Na impossibilidade de confrontar entre si esses arti- 
gos, trabalho que deixamos á curiosidade de quem 
tiver tempo para espremer o limão com que o diplo- 
mático hespanbol refresca os seus ardores meridionaes; 
só diremos de passagem que de discursos exclusiva- 
mente theoricos; ou polémicos, tira a boa vontade do 
commeutador conclusões que, ou deixam em duvida 
a sua bôa fé, ou não abonam demasiadamente a- sua 
prespicacia. Escolha o sr. Fernandez de los Rios o que 
mais n'este caso se ajustar á sua consciência de ho- 
mem publico, mas não apelle do julgamento por que 
lhe confirmaremos a sentença. 

Antes de pedirmos contas ao sr. Fernandez de 
los Rios do mal que enpregou o seu tempo em Por- 
tugal, dando-se exclusivamente ás esterilidades da 
politica militante, em vez de empregar todos os seus 
esforços em estreitar as relações commerciaes intele- 
ctuaes e moraes entre os dois paizes, cumpre-nos re- 
gistar o insuspeito juizo que da elevada capacidade 
do sr. Andrade Corvo fazia, ao despedir-se de nós, 
o representante de Hespanha em Portugal : 

((£m meio de uma hostilidade mal encoberta a 
uma serie de governos fracos, cuja representação di- 
plomática não logrou ser reconhecida nos estados 
monarchicos, devia ao sr. Corvo at tenções que me 
compraso em consignar aqui ; por que nem esqueço 
nem deixo em silencio as dividas de gratidão, as de- 
ferências de que sou objecto, e por que é justo dar o 
que corresponde ao homem de maior alcance de vistas 
e mais hábil, ao de caracter mais aberto e mais si- 

^ Reíerímo-noB á Correspondência de Portiigal^ Jonwsl d«. 
^oi^ ZHarto Popular , Primeiro de Janeiro, e wx\.to^<>cvs.Ví ^ft»- 
temunbo o ar. Femaodez de los Rios ravoea. 



123 

gnificativo de um governo em que, com uma deplorável 
resignaçSo, desempenha um papel secundário, estan- 
do talhado para desempenhar um outro muito diíFe- 
rente, por caminho desobstruido.» 

Apezar do sr. Femandez de los Rios não ter que- 
rido perder a occasiâo de intrigar os homens públicos 
de Portugal uns com os outros, é verdadeira a aprecia- 
ção dos talentos e do préstimo do sr. Corvo, que aci- 
ma transcrevemos, nao por que o ministro portuguez 
careça de attestados cumprovativos da sua valia como 
estadista, mas para tirar ao ex-representante de Hes- 
panha qualquer pretexto com que possa desculpar-se 
da estirilidade da sua missão diplomática. 

Correndo com os olhos a parte do livro do sr. 
Femandez de los Rios que devera ser a mais fértil e 
productiva, e ó a que se subdivide nos capitules que 
teem por titulo aAccordos Peninsulares», «Jurispru- 
dência Internacional» «Relações Materiaes» e «Relações 
scieníificas, litterarias e artísticas» vemos com pezar 

Sue ao minguado espaço que ellas occupam correspon- 
e, infelizmente, pobresa quasi franciscana de factos 
que recommendem o negociador hespanhol, quer como 
economista seguro de si, quer como politico previsor 
dos resultados que as relações materiaes podiam tra- 
zer á peninsula, quando estudadas com desassombro e 
realisadas sem pensamento reservado. 

Quatro, apenas, foram os accordos entre os governos 
de Portugal, e de Hespanha com relação a assumptos 
de interesse geral Europeu, e sobre que não podia 
haver divergências, fosse qual fosse a forma politica 
por que qualquer das duas nações no momento se re- 
gesse. 

Diz respeito o primeiro dos citados accordos ás 

instrucções harmónicas dadas aos agentes di^l<^ma.t\r 

C08 dos doía paizea, em Roma^ ^lenw». ^ ^x\xi\^> ^^ 

latívamente á poJítica que devem Ãegvux , ^x^^^^^^ " 



%Si^ 



124 

eventualidades que podem surgir das decisões toma- 
das no concilio ecuménico, convocado em 1869, isto é, 
logo ao estreiar-se officialmente na carreira diplomá- 
tica o sr. Fernandez de los Rios. 

Para este accordo, reflexo de outros tomados pelas 
naçSes catholicas, nâo era necessário grosso pecúlio^ 
de conhecimentos de direito publico, nem mais farto 
cabedal de noções de historia ecclesiastica. Â tradiçlU)) 
e o pendor natural dos factos, resolviam por si este 
accordo peninsular, que apenas carecia da sancçSo 
governativa para o legitimar, e revistir das formas do 
estylo, exigidas nos documentos internacionaes. 

Ainda assim cumpre registar, para nsío sermos ta- 
xados de parcialidade, o bom senso com que' o repre- 
sentante de Hespanha em Portugal deu conta ao seu 
governo a de se haver aproveitado da primeira oportu- 
nidade gue se lhe deparava, em tão grave assumpto^ 
para assentar as hazes de uma politica própria e com* 
mum entre os doispaizesj emçLssumptos externos j alheias 
a qualquer outra influencia eostra peninsular. í> 

A estes bons desejos do sr. Fernandez de los Bios, 
e á consignação dos bons principies de politica pe- 
ninsular, correspondia o sr. Mendes Leal, então mi- 
nistro dos negócios estrangeiros, com uma nota onde 
se lê este significativo período, que tira ao represen- 
tante da Hespanha a gloria da prioridade na direcçSo 
dada a tão melindroso assumpto. 

« Pelo que toca á doutrina a que se refere a atten- 
ciosa communicação de V. E. apresso-me a dizer-lhe 
que as nobres aspirações do governo hespanhol, mui- 
to lisongeiras para o de S. M. ^d «e achavam^ napar^ 
te em que se referem a^ co7icilio ecuménico prevenidas 
pelo mesmo governo f como F. E. poderá verificar «ca- 
mzTtando as adjuntas tn^^ntcçSes qu« com. a <2ata ía 4 
do carrenie mez transmitti ao represento/nte de S» M» wa 



125 

O sr. Fernandez de los Rios que constantemente 
nos aceusa de indifferentismo, e de faltos de iniciativa 
em todos os negócios internacionaes^ tem na replica 
do 8r. Mendes Leal, ao despacho a que acima se allu- 
dOi a demonstração de que as suas affirmativas s^o nâo 
poucas vezes desmentidas pelos factos, como no caso 
presente. 

O segundo accordo peninsular a que se refere o ex- 
representante de Hespanha no seu livro, é o que diz 
respeito á complicada e laboriosa negociação para a 
diminuição dos direitos sobre os vinhos peninsulares 
em Inglaterra, negociação a principio encetada iso- 
ladamente por cada uma das duas nações, e por íim 
de commum accordo, mas sem o resultado que se de- 
veria esperar da habilidade dos negociadores, e da jus- 
tiça da causa que em Londres representavam. 

Os documentos que esclarecem esta importante ques- 
tSOy estão publicados no relatório acerca dos nossos 
negócios externos, apresentado ás cortes na sessão le- 

Sislativa de 1872, e são precedidos de lúcidas consi- 
eraçSes do sr. Andrade Corvo, então ministro dos 
negócios estrangeiros. 

JDatam de 1866 as diligencias empregadas para 
resolver satisfatoriamente este importante assumpto, 
o da escala alcoólica, três annns antes da vinda do 
sr. Fernandez de los Bios a Portugal, negocio segui- 
damente tratado pelos senhores condes de Castro, de 
Lavradio e do Casal Bibeiro, bem como pelos minis- 
tros de Inglaterra acreditados em Lisboa, e por al- 
guns dos agentes consulares portuguezes, cm Lon- 
dres. Outra demonstração de que a inércia portugueza 
não é tamanha como se afigura ao embisoirado diplomá- 
tico, que nos atassalha o credito sempre que para isso 
se lhe depara occasiao propicia. 

Continuou o marqjiez de Sá. da^eLivô^rà^^^a^w^^^^a»- 
çõea, que encontrou encetadas cjuatvÀo «>\3Íàv'^ ^^ Y^^^^> 



126 

e que os srs. Mendes Leal e Andrade Corvo não 
abandonaram depois, antes procuraram illucidar com 
maior copia de argumentos, e mais atilado estudo 
dos factos. * 

Para que os crédulos se não persuadam que o ac- 
cordo entre os governos portuguez e hespanhol, com 
relação ao emprego de esforços communs, tendentes a 
obter em Londres satisfatória solução de um negocio 
de tamanha valia, fosse obra exclusiva do sr. Feman- 
dez de los Rios, e idea inicial sua própria; vamos 
transcrever o que lemos no Documento A, annexo á 
correspondência official havida sobre o assumpto, do- 
cumento assignado pelo sr. Lorenzana, o mesmo sr. 
Lorenzana beliscado pelo sr. Fernandez de los Rios, 
por ter annuido á demarcação das fronteiras peninsula- 
res. 

Diz assim : 

A su tiempo recebi el despacho n.° 50 dei ministro 
plenipotenciário de Espaôa en essa corte, fecha de 
marzo ultimo, por el que me daba cuenta de los de 
seosj que le hahia manifestado ese sr, ministro de ne- 
gócios estranjeros en la recepcion semanal de aquel 
dia, de que el poder ejecutivo tomase en consideracion 
las indicaciones qiíe debia hacer el representante de su 
Majeitad Fidelisima en esta capital acerca de lo con- 
veniente qite seria QUE GESTIONASEN Á LA VEZ los go- 
òiemios de Espana y Portugal cerca dei de la Qhan- 
Bretana, para conseguir, mediante ciertas compensa- 
ciones, que suprima la diferencia de derechos de adua- 
na que impune a los vinos peninsulares, á causa de 
contener mas grades de álcool que los franceses y 
alemanes.D 

Este documento é assignado pelo sr. D. Juan Al- 

^ Vide: — Relatório e documentos açieaeiílíAo^ ^ <íqx\««^ 
aa seBsâo legialatira de 1872. 



127 

vares de Lorenzana, e duas coisas prova. Â primeira 
que o açcordo peninsular foi exclusivamente de inicia- 
tiva portugueza. A segunda que o sr. Femandez de los 
Rios não pode perfilhal-o sem emendar o calendário 

Sue lhe assignala a data da assignatura, em 4 de maio 
e 1869, dois mezes antes do ex -representante de 
Hespanha ter entrado no exercício do seu cargo. 

£lm quanto a^o terceiro accordo mencionado, em que 
86^ trata do reconhecimento da republica france- 
sa, em 1871; resultado não só da necessidade, 
como do respeito pelo principio da não interven- 
çSo nos negócios internos dos outros paizes, a pe- 
nínsula não pôde alardear sem uma sofrivel doze 
de mal cabido orgulho uma abstenção que a sua 

Kiflição especial lhe impunha como um dever, e 
e aconselhava como um acto de prudência. No mes- 
mo caso está a neutralidade peninsular durante a 
desastrada guerra entre a França e a Prússia, neu- 
tralidade declarada pro forma ^ e exemplificação do 
TÍfSo popular que o que se não pôde haver á rmoy se 
dê ao diabo pelo amor de Deus. 

O quarto e ultimo accordo peninsular, não contan- 
do com um outro para o estudo hidrológico do Gua- 
diana, teve uma importância real e uma significação 
verdadeira. 

Receiosos os dois governos, portuguez e hespanhol, 
das theorias dissolventes da Internacional, e dos ade- 

Stos que ella ia recrutando para a sua funesta obra 
e demoUção e de sangue, resolveram pôr-se de ac- 
cordo para obstar ao seu incremento, e frustar os 
seus malfasejos intuitos. 

Ainda n^este ponto nos não parecem exactas as 
apreciações históricas do sr. Femandez de los Rios. Af- 
firma o ex deplom atiço serem geralmente conhecidos 
OB esforços dos internacionalistas ^2X^ ^\ís^ ^\sl^^'«*- 
panba um& org'am'sação qualquer, e ac.Te^^^xv\sv. o^^ ^ 



128 

terreno estava para isso mais preparado em Portugal, 
pela pratica e o desenvolvimento sempre crescente d^ 
espirito de associação *. 

Para demonstrar esta asserção serve-se o critico 
dos algarismos^ que não temos dados para contrariaif,^ 
affirmando existirem em Lisboa 85 associações dfr 
fioccorros mútuos, com 30:000 sócios eflfectivos : e ni» 
continente portuguez 360, com 70:000 associados. Com 
estes factos, e a antiguidade e influencia da maço» 
naria portugueza, prende o sr. Fernandez de los Rio» 
outro facto importante, as greves que Lisboa e PortOi 
presencearam em seguida aos manejos dalnternacional^. 
e aos desastres de que a França foi victima. 

Assim será. Mas as greves em Portugal; tão prepj^. 
radas como se quer dizer pelo espirito de associacÍLoi) 
nunca deram de si os medonhos resultados de Álcoy 
e de Carthagena, e limitaram-se a pacificas demonSf* 
traçSes, dealgumas das quaes os proprietários dos ea* 
tabelecimentoB febris reconheceram a justiça, emboitt) 
condemnando os meios por que eram feitas. 

A este incidente diplomático, que fora provocadi^i 
por uma circular do governo hespanhol aos seus re- 
presentantes no estrangeiro, e que os curiosos podeis, 
ler, com os seus naturaes desenvolvimentos, no Relor 
tório e documentos apresentados ás cortes na sessão hi». 
gislativa de 1873 não deu o sr. Andrade Corvo segui- 
mento, embora cortezmente acceitasse em principio 09 
alvitres lembrados na circular do governo he8panhol«. 

Este procedimento sensato do ministro portuguea^ 
mereceu no livro do sr. Fernandez de los Rios mereoir 
dos encómios, e com rasão lh'os dispensou o ex-diplo^ 
matico, mesmo ignorando a nenhuma significação po- 
litica e social dos signatários do protesto da (lAssocíot 
ção internacional dos trabalhadores» que o sr. Corvo v 
conhecia, e pela conhecer deaçreaava. 
^ Fernandez de loa Elos — o Mi Mmon cu Portugal^ ^^.^V^. 



129 

Em todo o caso a justiça feita ao governo portu- 
gaezy representado pelo ministro dos negócios estran- 
geiros é completa^ e diz assim : 

cÂpezar doesto conjuncto de elementos (as associa- 
çSes publicas e secretas) fundamente arreigadas por 
uma tolerância pratica e já antiga, o sr. Corvo que 
nSo podia incorrer no absurdo de provocal-as á lucta, 
. Tnainif estou o desejo de caminhar em harmonia com o 
governo hespanhol por meio de um accordo, e para 
não tomar resoluções precipitadas e contradictorias deu 
wnaresposta fazexdo-se desentendido da doutrina 
BA CIBCULAB; sem queapezard^isso houvessem estreme- 
cido os fundamentos da sociedade portugueza, nem 
sequer o ministério que assim procedia. Lição provei- 
tosa para os que levantaram a questão ao passar pe- 
lo poder (em Hespanha) com a rapidez com que voa 
um pássaro.» 

cSob o titulo de ^Jurisprudência Intemacionalt 
vai-nos agora o sr. Femandez de los Rios dar conta 
de outros trabalhos seus, em cujo numero avultam os 

?ue directamente se referem á colónia gallega em 
^ortugal. Grande como é a nossa sympathia por esses 
desherdados filhos da monarchia castelhana, que se 
expatriam para ganhar laboriosamente o pão de todos 
OB dias, á semelhança, nem para uns nem para ou- 
tros aviltante, do que praticam os portuguezes que 
para o Brasil se desterram, temos por dever levantar 
algumas inexactidões que se encontram no livro que 
vamos analysando, e que são a expressão do sentir 
geral portuguez, com relação á Galliza. 

É a Galliza um paiz exclusivamente agrícola. O 
viver popular d'esta provincia, menos patriarchal que 
o das Vascongadas, é ainda assim de uma simplicida- 
de que a honra. Embalada pelos contos milagreiros 
àe seu grande -Apostolo, e tendo um «SL^Tt^ \.x^^^wi- 
mU aoB rudes írabalhos dos campo», «^ «m\^^^^ '^^ 
9 



132 

os ouvidos ao chamamento da pátria. Em 1801 a co- 
lónia gallega fixa "em Portugal era de 28:000 homens 
afora 12:000 que acendiam annualmente ao trato e 
cultivo das vinhas do Alto Douro. 

Esta interessante colónia que o sr. Fernandez de 
los Rios affirma ter substituído no trabalho os escravos 
negros da Guiné, vive entre nós tranquillamente, ape- 
zar de ter um pé em cada um dos dois paizes, eodran- 
geiros a ambos j e sem direitos reconhecidos em nenhum 
d^eUes; pintura inexacta e infiel de um povo que co- 
mo o allemâo, o hollandez, o italiano e o por- 
tuguez vai, parcialmente, onde o trabalho o convida, 
sempre com o coração preso ás recordações da infân- 
cia, e suspirando por um tumulo na terra de seus pais, 

O politico pôde ver estas coisas de diverso modo, 
mas o moralista que conta as . pulsaçSes do coraçSo 
humano, e as aífere pelo suave e afiectttoso viver da 
farailia, apalpa no apparente cosmopolitismo do colono 
gallego o indelével sentimento do amor da pátria. 

Depois d'esta digressão, deslocada talvez em um 
livro da Índole do nosso, sentimos a necessidade de 
retomar o fio do discurso, acompanhando o sr. 
Fernandez de los Rios no resto das suas negociaçSes, 
que poucas vão alem dos annos de 1869 e 1870, de- 
nuncia do amortecimento dos seus brios diplomáticos,* 
ou consciência de que fora errado o caminho que en- 
cetara quando, arredando-se da letra e do espirito das 
instrucçSes que recebera do sr. Silvela, se precipita- 
ra nos asares de uma propaganda, que não é dado a 
um único homem dirigir com acerto, nem levar a 
cabo sem desaire. 

A negociação e conclusão de um convénio de ex- 
traãicçUo, com a abolição da pena de morte, de que 
/bi agente o sr. Fernandez de Voa R\o^, ^m. resultado 
àãs jastrucções que recebera do aeu ^o^^ttvo, Vwvt^ 
^ffualmente as duas nações penmsuWea, ^ ^oti t^^"^^ 



133 

escrevia o representante de Hespanha as seguintes 
linhas ao sr. Sagasta, em despacho de 13 de março 
de 1870: 

«Poucas vezes pode a diplomacia offerecer oceasião 
de escrever um despacho sobre assumpto mais trans- 
cendental e mais satisfatório que o que hoje me leva 
a dirigi r-me a V. Ex.*» 

A este preambulo, correspondia innegavelmente um 
facto de grande alcance moral, não tanto para Portu- 
gal, que já anteriormente havia abolido a pena de 
morte, como para a Hespanha, que ainda a cnnserva- 
va consignada nos seus códigos, e que acceitava de 
boamente um artigo addicional ao tratado de extra - 
dicção de criminosos por delictos communs, em que 
ficava consignado o principio de. que o reu condemna- 
do no seu paiz a pena capital, a teria commutada na 
pena immediatamente inferior em resultado da extra- 
dicção. 

A mansidão dos nossos costumes, e a legislação vi- 
gente em Portugal aconselhavam esta exigência por- 
tugueza, de que o sr. Fernandez de los Rios justa- 
mente se applaude. A sancção official dos dois governos 
nSo tirou a este acto o caracter de propaganda, exer- 
cida por uma pequena nação sobre uma outra nação 
sua visinha. Foi assim que o Piemonte se tornou o 
* núcleo da unidade italiana, sem o auxilio de emissários 
secretos, trabalhando constantemente por se fazer di- 
gno de attrair a attenção das nações suas visinhas, e 
de lhes servir de modelo pela regularidade das suas fi- 
nanças, e pelo seu progressivo desenvolvimento mate- 
rial e moral. 

O sr. Fernandez de los Rios que ainda por esse 
tempo nos fazia uma ou outra vez justiça, escreveu 
. no seu livro : a Para Portugal a primeira naqão da 
Europa, onde M proclamada a a\io\\^ç> $i.'a. ^^-c^^ ^^ 
morto, é summaniente lisongeiro \yAxxvc w\sí ^^ ^^^a^'^'^^ 



134 

naçSes, afim de que o seu exemplo se vá imitando. » 

O evfermo do occidente^ como mais tarde virá a cha- 
mar-lhe o sr. Femandez de los Rios, ainda em 1870 
se esquecia caridosamente dos seus achaques para, er- 
guendo- se do leito da agonia, acudir em auxilio de 
um outro enfermo, apresentando-se-lhe como espelho 
de bem morrer, que tanto significa perdoar ao próxi- 
mo as suas fraquezas, poupando lhe a vida, q[ue é o 
primeiro dom que recebemos das mãos de Deus. 

A auctorisação pedida, e recebida pelo sr. Fernan- 
dez de los Rios, para o restabelecimento deumaegreja 
evangélica em Lisboa, sendo como somos partidarioa 
da mais ampla liberdade de consciência, pouco ou 
nada temos a objectar. Sentimos apenas que o tem- 
plo que deve ser o refugio das almas feridas, viesse a 
transformar- se .pelo estabelecimento da egreja evan- 
gélica em valhacouto de renegados da peior especiOi 
dos que sacrificam a religião e a pátria á sensualidade, 
porque ambas estas abjurações são impostas ao padre 
que pretende renunciar ás asperezas do celibato ca- 
tholico ! 

Á nobilíssima Hespanha não pôde de certo ufanar-se 
com estes seus novos cidadãos, que o chegaram a ser 
tentados pelo peccado mortal da luxuria, e nSo 
porque se lhes tivesse apagado de todo nas almas 
as saudades do berço, nem da terra em que o braço 
materno os embalou. 

Á parte menos palavrosa, e por isso mesmo a mais 
seriamente estudada do livro do sr. Fernandez de los 
Rios, é a que se refere ás infelizmente quasi nuUas 
relações commerciaes entre os dois povos da Penín- 
sula, sem os quaes nem os caminhos de ferro ^ nem os cor- 
reioSj nem nenhuma convenção internacional, já celebra' 
tífe, ou çue de futuro haja de o ser^ tem 'plausivel ra- 
são cie eanstencia. 
Tem raaUo o diplomático hesçaxiVioV. ^^^ ^^ ç^fxam 



135 

é a culpa d'este isolamento commercial, secular, e sys- 
tematico entre os dois povos? É exclusivamente de 
tuna das duas naçSeS; ou recae sobre ambas com egual 
responsabilidade? As idéas económicas modernas são 
differentes do que eram ha dois séculos atraz^ quan- 
do, o que hoje pôde ser preconceito, tinha então ex- 
plicação natural^ fundada em uma reciproca descon- 
fiança que factos posteriores fortaleceriam, em vez de 
amesquinhar. 

Dir-nos hão que de ordem exclusivamente politica 
eram esses factos, e que o tempo, que tudo esclarece, 
devera tel-os reduzido ás justas proporções de duen- 
desy inquietando o somno patriótico de nossos avós, 
noas não devendo servir agora de tropeço ao progres- 
sivo desenvolvimento de duas nacionalidades, cordas 
por emquanto desafinadas da grande lyra em que Mi- 
chelet symbolisa a harmonia europêa. 

«Em 120 annos, diz o sr. Femandez de los Rios, 
de Filippe v a D. Isabel de Bourbon, apenas se cele- 
bram entre Hespanha e Portugal 14 convenções, que 
descontando as que tinham por objecto guerras, pazes 
e allianças (incluindo a chamada santa) ficam redu- 
zidas a três de alguma importância internacional, a 
de extradicção, a de navegação do Douro, annuiada 
por um regulamento, e a de limites, que ha 120 annos 
está pendente de uma conclusão ! » 

« Nos 34 annos do reinado de D. Isabel (accrescenta 
o auctor) em que tantas e tão supérfluas convenções 
fizemos com todas as nações do mundo, apenas ajus- 
támos coro Portugal 12 tratados, incluindo n^elles a 
repetição dos eternos e nunca em execução, da nave- 
gação do Douro, e de limites, e os occasionados pela 
guerra civil. » 

Este resumo das relações à\ç\oixi«A\^«kà ^^\ÍN»»áSsst«ífc 
é realmente desanimsídor^ maiB eXgvmft ô^'^^ Y^^s^sspí» ^^- 
bre que ellaa versam são eaçiuho^o^^ çíiàx«càs> ^^^^^^ 



136 

numero os que o sr. Fernandeii! de los Rios com rasSo 
chama eternos. Um d'elles, o de limites, deve ter topa- 
do sempro com Olivença por obstáculo^ recordando aos 
negociadores portuguezes o verso do Dante^ que os 
convida a perder a esperança no bom resultado de 
negociações para demarcação de fronteiras, com quem 
começa por negar a existência d^essas mesmas frontei- 
ras ! 

A tabelh. do movimento dos navios mercantes hes- 
panhoes no porto de Lisboa em 5 annos, é innegavel- 
mente triste. Demonstra elle que termo médio, entra 
no nosso porto para carga e descarga um navio mer- 
cante por mez, que quando se destina para os por- 
tos hespanhoes, leva geralmente cortiça para a Cata- 
lunha. O movimento marítimo dos nossos visinhos, é 
pouco superior em valores ao da Rússia, nação colio- 
cada no extremo norte da Europa ! 

Entre as innumeras causas que tem contribuída para 
este lastimoso isolamento commercial, enumera o sr. 
Fernandez de los Rios as onorosas con dicções íiscaes 
que avexam o commercio estrangeiro, e accrescenta: 
a De modo que^ tal como as coisas existem, as ondas do 
Oceano são as únicas que, como apezar nosso, se en- 
caiTegam de duplicar o modesto numero de um navio 
hespanholf por mez, que entra em Lisboa. y> 

Mas, serão só as condições íiscaes as únicas respon- 
sáveis por este caricato movimento marítimo e com- 
mercial ? Não o cremos. 

Os productos naturaes da península são similares, 
e como taes procuram vasão fora do solos que os pro- 
duzem. Pôde a Hespanha competir em industria com a 
Inglaterra, a França e a Allemanba, que exclusiva- 
mente alimentam os mercados portuguezes? 

Não pôde. Embora as tarifas á que estão sujeitos 

os proâuctoa hespanhoes sejam mais pesadas do que 

^s sobrecarregam os productos itíiiYc^Tie^, ^«ov^ ^ «c* 



137 

Fernandez de los Rios prova com uma tabeliã compa- 
rativa entre os artigos das duas nações, e os seus res- 
pectivos direitos em Portugal, duas conclusões pode- 
mos tirar com segurança : uma que a competência será 
sempre um desfavor dos nossos visinhos, pela sua re- 
lativa inferioridade industrial, salvo com relação a al- 
guns, poucos productos de Catalunha: segundo, que 
os tratados de commercio são sempre baseados na re- 
ciprocidade, e que esta, pelas mesmas rasoes que o 
sr. Fernandez de los Rios mais de uma vez invoca em 
favor da unidade peninsular, não pode nunca dar-se, 
sendo, como é, a agricultura a primeira e quasi única 
fonte de riqueza das duas nações. 

São muitas e vastas as considerações económicas 
que esclarecem o despacho do sr. Fernandez de los 
Rios, de 27 de dezembro de 1869, algumas d'ellas 
extremamente sensatas, mas nem iodas de fácil e 
prompto remédio. São verdadeiras as theorias que se 
applicam ás alfandegas, e importante a questão do 
contrabando que com ellas directamente se prende, 
mas as theorias nem sempre vão de accordo com as 
necessidades praticas do viver material dos povos, ou, 
com mais rasão, nem sempre é opportuno pôr em ac- 
ção princípios que jogam com o machinismo geral 
de ^m systema, de que fazem parte. 

E de certo uma anomalia perder o Estado trinta e 
três contos de réis annuaes com as alfandegas da 
raia, que cobram trinta e nove contos de direitos de 
importação e três de exportação, e dispendem cento 
e vinte e seis mil na sua manutenção, mas não é de 
certo em nome dos bons princípios económicos que 
ellas até hoje se teem conservado... 

Apresentaremos, finalmente, sem os discutir, os 
dois alvitres em qúe o sr. Fernandez de los Rios re- 
sume todas as suas considerações com relação ao com- 
mercio peninsular : 



136 

numero os que o sr. Fernandeii! de los Rios com rasSo 
chama eternos. Um d'elles, o de limites, deve ter topa- 
do sempro com Olivença por obstáculo, recordando aos 
negociadores portuguezes o verso do Dante, que os 
convida a perder a esperança no bom resultado de 
negociações para demarcação de fronteiras, com quem 
começa por negar a existência d^essas mesmas frontei- 
ras ! 

A tabelh. do movimento dos navios mercantes hes- 
panhoes no porto de Lisboa em 5 annos, é innegavel- 
mente triste. Demonstra elle que termo médio, entra 
no nosso porto para carga e descarga um navio mer- 
cante por mez, que quando se destina para os por- 
tos hespanhoes, leva geralmente cortiça para a Cata- 
lunha. O movimento marítimo dos nossos visiahos, é 
pouco superior em valores ao da Rússia, nação collo- 
cada no extremo norte da Europa ! 

Entre as innumeras causas que tem contribuída para 
este lastimoso isolamento commercial, enumera o sr. 
Fernandez de los Rios as onerosas condicçoes fiscaes 
que avexam o commercio estrangeiro, e accrescenta: 
aDemodo que, tal como as coisas existemij as ondas do 
Oceano são as únicas que^ como apezar nosso, se en- 
carregam de duplicar o modesto numero de um navio 
hespankol, por mez, que enh^a em Lisboa, lo 

Mas, serão só as condições íiscaes as únicas respon- 
sáveis por este caricato movimento marítimo e com- 
mercial ? Não o cremos. 

Os productos naturaes da península são similares, 
e como taes procuram vasão fora do solos que os pro- 
duzem. Pôde a Hespanha competir em industria com a 
Inglaterra, a França e a Allemanba, que exclusiva- 
mente alimentam os mercados portuguezes? 
Nâo pôde. Embora as tarííaa â <\v3Lft ^^\Sa ^xs^eitoa 
os productOB jbespanhoes sejam maÀa i^^«uàa^ &s> o^^ 
-â^ sobrecarregam os productos íraaceiíÇi^, ^ws^s> ^ «c. 



137 

Femandez de los Rios prova com uma tabeliã compa- 
rativa entre os artigos das duas nações, e os seus res- 
pectivos direitos em Portugal, duas conclusões pode- 
mos tirar com segurança : uma que a competência será 
sempre um desfavor dos nossos visinhos, pela sua re- 
lativa inferioridade industrial, salvo com relação a al- 
guns, poucos productos de Catalunha : segundo, que 
os tratados de commercio são sempre baseados na re- 
ciprocidade, e que esta, pelas mesmas rasoes que o 
ar. Fernandez de los Rios mais de uma vez invoca em 
favor da unidade peninsular, não pode nunca dar-se, 
sendo, como é, a agricultura a primeira e quasi única 
fonte de riqueza das duas nações. 

São muitas e vastas as considerações económicas 
que esclarecem o despacho do sr. Fernandez de los 
Rios, de 27 de dezembro de 1869, algumas d^ellas 
extremamente sensatas, mas nem todas de fácil e 
prompto remédio. São verdadeiras as theorias que se 
applicam ás alfandegas, e importante a questão do 
contrabando que com ellas directamente se prende, 
mas as theorias nem sempre vão de accordo com as 
necessidades praticas do viver material dos povos, ou, 
com mais rasão, nem sempre é opportuno pôr em ac- 
ção princípios que jogam com o machinismo geral 
de fim systema, de que fazem parte. 

E de certo uma anomalia perder o Estado trinta e 
três contos de réis annuaes com as alfandegas da 
raia, que cobram trinta e nove contos de direitos de 
importação e três de exportação, e dispendem cento 
e vinte e seis mil na sua manutenção, mas não é de 
certo em nome dos bons principies económicos que 
ellas até hoje se teem conservado... 

Apresentaremos, finalmente, sem os discutir, os 
ãois alvitres em qúe o sr. FetiiamifòTi ôj^ V^^s. '^'c^'?^ ^^- 
same todas as suas considevaço^s» eQxxi \^"ívs^<í> ^^ ^'ísçssr 
mercio peninsular : 



138 

1.° «Reformar os meios de fiscalisaçllo até o pon- 
to de tornar realisaveis as preseripçoes da lei.» 

O bom senso manda acceital-o. 

2.° «Reformar a lei, aupprimindo as restricçoes fis- 
caes relativamente a Portugal, isto é, declarando com- 
pletamente livre o commercio cora este paiz.» 

Pede a prudência que se continue a meditar no as- 
sumpto. 

Em todo o caso, repetimos, ha no sr. Fernandez 
de los Rios diversas essências e attributos, como nas 
divindades Indianas. Como economista, a parte lúcida 
do seu engenho pode representar as qualidades bené- 
ficas de qualquer idolo, amigo da humanidade. Como 
politico o espirito descamba-lhe para as trevas, e o 
seu logar na mythologia local é menos convidativo da 
veneração dos mortaes. 



CAPITULO IX 



Argúcia de um conto árabe applicada ao sr. Fernandez de los 
jRios. Negociações diplomáticas e consulares. Negociações 
para um tratado de commercio com a Hcspanha. Negocia- 
ção, infructifera, de um tratado para a mutua circulação 
da moeda peninsular. Relações commerciaes entre Portu- 
gal e Barcelona. Contrariedades que lhe oppoz o Instituto 
Industrial da Catalunha. Outra vez a questão da colónia 
gallega. Negociação do regulamento para a execução do 
tratado de communicaçoes, pendente desde 1840. Uma opi- 
nião de Almeida Garrett sobre o assumpto. O sr. Ricardo 
Molína e o seu livro intitulado Portugal, su origen y con- 
stituicion. Negociações, telegraphica e postal. Os srs. D. 
José de Aldama, e Calvo Asensio, chamados a depor em 
abono da moralidade portugueza. Viagens de recreio. Ne- 
gócios financeiros. Crise monetária em 1876. 



Quem reparar na quantidade de papelada a que o 
sr. Fernandez de los Rios deu methodiea armazenagem 
no seu livro, por mediocremente maldoso que seja, fi- 
cará suspeitando que o ex-diplomatico ao retirar-se da 
vida publica quíz expurgar de vez a casa da sua ha- 
bitação de manuscriptos, testemunhas incommodas dos 
seus desastres. 

Como o marquez de la Seiglière, no romance de 
Jnlio Sandeau, que suppunha a França varrida do 
mappa das nações depois da revolução de 89, e dos 
tríumphos do primeiro império ; assim o sr. Fernandez 
de los Bios crê a península incaçaiiL ô^fò xçiÇ^^\N!st^^^ 
moral e politica desde que o \ieTOft ôiç^ 'ftwnx^^^ •» ^^^ 
n'e8te caso é o próprio sr. FenvanâiÇiT» Ôl^Ví^»^'^'^^'^^^ 



140 

retirou despeitado á sua tenda, abandonando o mundo 
á mercê dos seiis destinos. 

Em uma engenhosa coUecçâo de contos árabes, le- 
mos um, escripto ao que parece para demonstração da 
sagacidade oriental, em que, não nos recordamos se 
um derviche, ou um santão concluirá, sem ter sido tei^te- 
munha presencial do facto, que um camello cego de 
um dos olhos, e manco de uma das patas atravessara 
certo e determinado trilho do deserto. ^ 

O processo para este julgamento fora dos mais sim- 
ples. Conhecida a espécie do animal pela dimensão 
e configuração das pegadas que deixara impressas na 
areia , da cegueira ajuisára^ depois o astuto árabe pelo 
intacto que* ficara a verdura do lado do olho 
em que o camello não via ; e de que penia era coxO; 
acertara também em o diz^r, pelos vestígios mais in- 
certos que deixara na passagem. 

Mal comparado, como diz a gente do nosso povo, 
outro tanto acontece á escripta do sr. Fernandez de 
los Rios. O olho cego da sua critica é aquelle com que 
elleolha para as coisas portuguezas : e o manquejar do 
seu bom juiso são os arrevesados raciocinios com que 
chega a muitas das conclusões do seu livro. 

A parábola árabe trouxe-nos direitos a esta apre- 
ciação, que o sr. Fernandez de los Rios, mettendo a 
mão bem no fundo da sua consciência não deixará de 
applaudir como simile exacto, salvo em entrar pelos 
dominios da zoologia o protogonista do conto que nos 
forneceu este exemplo, de que pedimos perdão. 

Vimos no capitulo anterior o muito que labotou, e 
o pouco que conseguiu o ex-diplomatico hespanhol. 
Não o espera agora melhor sorte nas suas negociações, 
a não ser na do livre tranzito, approvada pela cama- 
ra doa deputados em 1871*, e na da suççressão do direi- 
to diâerencial de bandeira, decretaâia. t^LtcítvÇim ^^^a 
camarás no mesmo anno. As que âL\z\8».m t^í^^âX^ ^'^ 



141 

giro mutuo entre Portugal e a Hespanha, bem como 
á tentativa para a mutua circulação da moeda penin- 
sular nunca passaram do papel, como nem as próprias- 
convenç3es postal e telegraphica satisfizeram cabal- 
mente o hábil negociador. 

Vamos ver como as coisas se passaram, dando o seu 
a seu dono, e louvando sempre a actividade do homem, 
já que nem sempre poderemos felicitar o diplomático 
pelas suas boas fortunas. 

Se tudo quanto o sr. Fernandez de los Rios em- 
prehendeu tivesse saido apurado das secretarias de 
Estado, e obtido a respectiva sancçao parlamentar, 
pouco lhe restaria a fazer para nos pôr ao nivel das 
provincias Vascongadas, se é que depois continuasse dis- 
posto a respeitar os nossos fxieros, isemptando-nos do 
imposto de sangue, e deixando-nos a cathedral de La- 
mego para substituir o tradiccional carvalho de Guer- 
nica^: e o nos liberswnus das suas fabulosas cortes, para 
substituir a formula aragoneza do : Nós que valemos 
iavJto como vós, e podemos mais que vóSj vos fazemos 
nosso reij e senhor com a condicção que nos guardareis 
nossas liberdades; seiiào^ não.^ 

Como vamos em maré de comparações diremos ain- 
da que o sr. Fernandez de los Rios se nos affigm^a 
nas suas negociações um noivo insoffrido, que pede 
tudo o que o recato aconselha á noiva que não con- 
ceda antes de tempo. 

peor é arrufar-se por isso, em vez de reconhecer 

Sue quem falta ao que deve a si, com fundamento 
esce na opinião alheia. Á Biblia pôde ainda mais 

1 Na BÍBcaya os seus pequenos congressos nacionacs reu- 
mram-se por muitos séculos, e cremos que ainda hoje se reú- 
nem ao ar livre debaixo do carvalho de Griíemica, como nos 
tempos patriarchaes, Ahi se apteaeut^ív^m ^«^ ^«^xsAasíík^'^» ^^s^sí* 

diversas manícípalídades, levando em suaa \i^\A^vt^'a» <5k ^^-^así. 
de repuòltcaê. Esta esplicaçâo serve feo i^^t^i o\€\\wt v^^-^X^sg^wi'' 



144 

senta a memoria do ((Instituto Industrial» são exactas, 
é inútil trabalhar jpara qv>e nos equiparem com a Françay 
inútil a suppressão do direito diferencial de bandeiray 
inútil tudo o que não consista em aagmentar a frotec- 
coto interna para a nossa industria, e alcançar para 
ella um privilegio em Portugal, y> 

Que julgamento devemos nós fazer á vista do que fica 
transcripto ? 

SSo exactos os considerandos da consulta do «Ins- 
tituto Industrial da Catalunha ? Parece que o sâo, e 
é por isso que o sr. Iglesias acha inútil a aboliçSo 
dos direitos diferenciaes de bandeira, inútil um tratado 
de commercio com a Hespanha, mesmo nas condíç^Ses 
dos tratados subsistentes com a Inglaterra e a Fran- 
ça, e apenas vê salvação na protecção interna dada dê 
industrias da Catalunha^ e em um piHvilegio para ellas 
em Portugal! 

Mutilada como se encontra no livro do sr. Feman- 
dez de los Rios a correspondência havida entre este di- 
plomático e o governador de Barcelona, e não vindo 
também publicada a «Memoria» do «Instituto Indoe- 
trial da Catalunha» faltam-nos os elementos necessários 
para continuar a discursar sobre este importante as- 
sumpto. 

De tudo, porém, o que fica narrado, se conclue 
que Portugal foi innocente no insuccesso dos louva* 
veis esforços empregados pelo ministro de Hespanha 
para abrir novos mercados aos productos da mais 
industriosa das suas provindas. 

Estamos longe de pretender que as relações com- 
merciaes entre Portugal e Hespanha continuem no pé 
em que ainda hoje se encontram, e na ignorância quasi 
total dos elementos que devem servir de base ao 
seu futuro desenvolvimento. O sr. Femandez de los 
Hibs cita em um dos seus deapacYioô \xtiv «xsiaçlo fri- 
^^ante da confaaão que reina em um a^wimçX.^ ofs^fò. 



145 

pda sua importância, requer a maior circunspecção *, 
mas o que também nos é licito desejar é que o sr. Fer- 
nandez de los Rios não imite os caprichos da noiva 
do vaudeville francez, que, nfio tendo já mais que pedir, 
exigia que lhe dessem a lua como prenda de noivado. 

Da precipitação com que o sr. Femandez de los 
Rios enfeichou, e mandou para a imprensa todos os 
documentos propriamente diplomáticos que tinha á 
sua disposição, acrescentando-os com os de indole ex- 
clusivamente consular, resultam ás vezes disparidades 
de apreciações, que nos cumpre não deixar envolvidas 
no deluido do estylo asiático, para que pende natural- 
mente o auctor. 

Entre o politico e o economista medeia um abysmí>. 
Exemplo. 

sr Fernandez de los Rios, o diplomático, o poli- 
tico, o ibérico, escreve a paginas 513, e seguintes do 
seu livro, uma plangente elegia sobre a existência da 
colónia gallega em Portugal dizendo o que vai ler-se, 
depois de algumas outras considerações de ordem moral : 
«Este abandono tácito dos antigos privilégios (refere-se 
aos tratados em vigor até 1842) impoz, novas contri- 
buições aos hespanhoes, encargos que, addicionados 
aos 20 % máximo do typo estabelecido como decima 
industrial pelo tratado celebrado com a Gran -Breta- 
nha, tornou a condicção dos hespanhoes peor do que a 
dos próprios portuguezes.» 

1 Para demonstrar a ignorância a que alludimos, cita o sr. 
Femandez de los Bios o seguinte significativo facto : «De 
Portugal se exportam com frequência para Hespanba, pela al- 
fandega d^Elvas, diíFercntes classes de madeiras, principalmen- 
to tábuas de pinho ; por essa mesma alfandega importa também 
Portugal tábuas de pinho, crusando-se umase outras nos mesmos 
pontos, e pagando os respectivos direitos, para chegarem aos 
mercados que os r ecambiam para a& ^ontic^^ ^ q\A^ \f<L^^^^^- 
ram !« 

Fem&aãez de loa Rios — nMi Mistou» ^^^.^^^• 

10 



146 

Esta é a opinião do diplomático, quando trata de 
avaliar a situação precária em que, no seu dizer, os 
gallegos se encontram em Portugal. 

Vamos agora ver como pensa o mesmo sr. Fernan- 
dez de los Rios quando desce á pratica dos negócios^ 
e carece de fundamentar as proposiçSes que não teem 
caracter politico, como a do «giro mutuo» lembrada em 
24 de Setembro de 1869, e que não progredio, pelas 
cordatas objecções que o governo portuguez oppôz ao 
projecto de tratado, que obtivera a approvação previa do 
sr. Sagastâ. 

«Acham-se em Portugal domiciliados milhares de 
Hespanhoes, a maior parte consagrados a trabalhos 
rudes e pouco remunerados, Hespanhoes a quem o ex- 
cesso de população, e a falta de trabalho que ha em 
algumas das provineias gallegas, obrigam a emigrar 
para este paiz para ganharem a subsistência. Em- 
quanto não encontram occupação carecem de alguns 
soccorros das familias ; depoia de aqui viverem certo 
tempo, desejam pelo contrario ir mandando pouco a 
pouco para a terra em que nasceram as suas pequenas 
economias y já para auxiliar com ellas seus pais e pa- 
rentes, já para ir reunindo, á custa de privações al- 
gum dinheiro, que os /aça proprietários de terras e 
gados, em que assente a baze do seu modesto provir.» 

Portugal não é com certeza a Austrália nem a Ca- 
lifórnia, onde as fortunas se improvisavam como nos 
contos de fadas, mas dá ainda aos que trabalham com 
que se tornem proprietários ruraes, embora pequenos, 
condicção bem differentes da dos homens que o sr. 
Fernandez de los Rios nos pintou, como diplomático, 
devorados pela nostalgia, e substituindo os escravos ne- 
gros da Guiné ! * 

^ As objecções que o governo portuguez fez ao pcojecto do 
^^' Fernandez de loa Rica foram as aeguiutea *. \> ^ ôl^ ^vc 
^otecípadamente para todas as esta^joes que Yiox^e^^em ^e 



147 

A uma outra tentativa de negociação metteu hombros 
o ministro da Hespanha em Portugal, e foi para a mu- 
tua circulação da moeda peninsular. Ninguém ignora 
o quanto custou levar a cabo a unidade, aliás racional 
doa pesos e medidas, nem os estudos feitos depois para a 
tomar extensiva aos paizes que entre si manteem 
mais seguidas relações commerciaes. 

A irmocente phantasia do sr. Fernandez de los Rios 
morreu á nascença, impugnada desde logo por um 
despacho do sr. Blás, em que este ministro, depois de 
haver examinado o alvitre que lhe fora proposto, e 
de encarecer a necessidade de estreitar as relaçSes 
commerciaes entre os dois paizes^ accrescenta : que não 
existindo moeda portugueza que tenha valor nominal 
em relação exacta com as de Hespanha^ dando-se alem 
d^Í880 na circularão monetária de Portugal circunstan- 
cias especiaes que tomam muito dificil escolher uma 
base acertada para o dito convénio, por agora este se 
não realise, emquanto os progressos da reforma mone- 
tária não apresentarem melhor opportunidade,y> 

Nâo é ainda portanto culpado, n'este caso, o gover- 
no portuguez pelo cambio desfavorável que soffrem os 
amadores da loteria de Madrid, ao receberem o pre- 
nfio tentador dos bilhetes com que de Badajoz nos in- 
nundam; nem tão pouco de mais este previsto desaponta- 
mento do sr. Fernandez de los Rios que elle também 
deveria esperar, pela invocação intempestiva que fizera 
de antigos alvarás dos reis portuguezes em que não era 
despresado o valor nominal da moeda para a circulação, 

emittir « cédulas '« o cambio ao qual deveriam realisar-se as re - 
messas de dinheiro de um para outro paiz. 2." Que a fiscalisa- 
çSo das ncedulas» se tomaria muito díôicil, e a sua falsifícação 
muito fácil. 3.» Que o «giro mutuo interaacional occaslciwixv^ 
áem&Bi&ào trabalho às dependências do"E.Ã\.^Ciç>, ^w^^t\^^'iv.^^^ 

de emittir e fiscaliaar as «cédulas». O \)to^t\o ^x.^^^caaxv^'^'*' 

de Ice Bios não negou estas diffic\\\dadea. 



148 

o que o sr. Blás desde logo ponderou no seu despacho, 
como embaraço para o seguimento da negociação pix)- 
posta. 

A negociação do regulamento para a execução do 
tratado de communicações, encetada, em 1869, pelo 
sr. Fernandez de los Rios também não avançou. É 
longa a historia doesta negociação, que o diplomático 
hespanhol herdou dos seus antecessores, e para que 
não fez nenhumas despezas de imaginação, faculdade 
que pôde poupar, applicando-a para dar aos despa- 
chos concernentes ao assumpto uns ares lestos e fe- 
Ihitinisticos, que nos agradam, por significarem a melhor 
feição do talento do jornalista hespanhol, opprimido 
debaixo do peso das formulas massudas da diploma- 
cia, para que o jornalista não nasceu. 

Encontrou o sr. Fernandez de los Rios o regula- 
mento para a execução do tratado de communicaçSes 
já com cabellos brancos, e dormindo olomno da se- 
nectude (contava então 28 annos depois que fora as- 
signado) e pretendeu remoçal-o; mas ao tocar- lhe des- 
fez se, como os ressuscitados da lenda dos bailarinos, 
do padre Bernardes. Este regulamento, filho de uma 
negociação diplomática ultimada em 1835, e que de- 
via ser posto em pratica em 1840, ainda em 1866 
carecia de esclarecimentos, e era 1872 ficava pen- 
dente de uma solução definitiva ! 

Influiu para isso a politica, queremos dizer, os re« 
ceios estultos de um mais seguido contacto com os 
nossos visinhos hespanhoes? Não de certo. O visconde 
do Almeida Garrett, com certeza muito maior poeta do 
que sagaz homem de Estado, podia, como fez em 1840, 
architectar argumentos ibéricos para os desfazer em se- 
guida (a rhetorica aconselha estas precauçSes que nem 
sempre são necessárias) ^ defendendo na camará dos de- 
putadoa a livre navegação do Douto, infòiiO^«cxTtf«ftft 
dos Interesses económicos portuguezes, cçi^ ão ôiÇiWgit^'**^ 



149 

deslocado quo' manifestou pela timidez dos que receia- 
vam pela independência nacional, se é que este argu- 
mento pueril chegou a tomar corpo no parlamento, de 
qne o illustre auctor do Frei Luiz de Sotisa fazia 
parte. 

Mais de uma vez nos temos referido a um curioso 
livro do sr. D. Ricardo Molina, onde vem publicada 
ama não menos curiosa Memoria acerca do pensamento 
da Associação Peninsular , de que o auctor era secre- 
tariOy Memoria dividida em secções, algumas das quaes, 
qnasi todas, foram a bússola por que o sr. Fernandez de 
los Rios se guiou nas suas negociações, tirando lhes as- 
sim o cunho de originalidade que hoje pretendem ter. 
N^este caso estão as secções que se intitulam de Serviços 
administrativos, Industria ecomm^rcio. União aduanei- 
ra^ Agricultura e pecuária, e Communicaçoes especiaes *, 
nSo excluindo as ' Scientijicas e litterarias, de que mais 
tarde nos occuparemos, e a cujo espirito e indicações o 
ar. Fernandez de los Rios obedeceu em Portugal, a 
ponto de merecer do secretario da Associação Penin- 
miar o pomposo elogio que vamos transcrever, para 
desengano dos pyrronicos : 

tE finalmente (vem na cauda dos ibéricos profes- 
sos) o tão conceituado e infatigável D. Angel de los 
SioSy nosso actual representante em Lisboa, que sen- 
do, como é, o ministro diplomático hespanhol que 
maiores sympathias tem alcançado na nação visinha, 
e sendo ao mesmo tempo reconhecidamente iberista 
constitue uma prova visivel. que o iberismo nâoó, co- 

1 A esta Memoria^ que faz parte do livro Portugal, su ori- 
gtn,constituicion, y historia politica, segue se o Regulamento 
da Associação Peninsular, contendo XI capítulos, com 46 ar- 
tigos, e mais dois outros artigos transitórios. Á Memoria é 
assignada pelos srs. : Manuel Becerra, José Ramirez de Are 
laoo^ Benigno Joaqvdn Martinez. J. díi ^VçíWÔlQta, ^^^ssasL^'5» 
MolÍBã, No úm d* este volume se encowtríCKv \svíÀa ^^K."^?^^^**»» 
ejqpJieaçõea a este respeito. 



150 

mo se quer suppor, verdadeiramente antipathico em 
Portugal, o que o que existe ali é má intelligencia 
acerca dos propósitos dos hespanhoes que desejam es- 
sa solução, má intelligencia que se tem querido for- 
mar excitando torpemente o patriotismo do povo com 
patranhas, para que esta excitação contribua aos fins 
que em Hespanha se tem proposto para seu interesse 
individual differcntes ramos de uma familia ambiciosa 
e egoísta. * 

Esta rasgada apreciação do talento e dos bons ser- 
viços do sr. Fernandez de los Rios, feita em 1870, liâo 
pôde ser plenamente confirmada em 1877, depois da 
publicação do livro façanhudo pelo que destoa pela forma, 
da doutrina dos capitules xiii e xiv do livro do sr. Mo- 
lina, que o antecedera, e onde o diplomático hespa- 
nhoí se foi inspirar, com especialidade no que diz res- 
peito ao progresso e retrocesso da idéa ibérica. Con- 
tinuemos. 

Convém também dizer aqui que o plenipotenciário 
portuguez escolhido para depurar o regulamento relativo 
á navegação do Douro foi o sr. António dp Serpa, que dei- 
xou este serviço pela sua nomeação para ministro da fa- 
zenda, indo por então as negociações em bom cami- 
nho, como o próprio sr. Fernandez de los Rios con- 
fessa, laconicamente, em uma das notas do seu livro* 

Duas outras negociações, e conclusão d^ellas, em 
assumptos de importância relativamente secundaria — 
a telegraphica e a postal — poude o sr. Fernandez 
de los Rios assignar não como desejaria, cremos dós, 
mas em summa para lhe servir em mais tarde de pretexto 
para lastimar, como fez com relação ao regulamento 

* O livro do sr. Fernandez de los Rios deitou a perder to- 
ào8 o8 cãlcúíoa do sr. Molina. Não é injuriando uma nação que 
Be Ibe pôde captar a benevolência. O e\ogvo i^\\.o «a dv^loma- 
^'eo hespanholf acima tran«cripto, ei\cotitta.-«.«i tío Pwtoigal, 
"' oriyen t/ comHtudos^ por D. Ricardo MoNraa.,^^. "ifi^- 



^u 



lõl 

para a navegação do Douro — la estrecheza de miras 
de los plenipotenciários espanoles^ que o haviam ante- 
cedido em egual trabalho, exemplar modéstia, de que 
a diplomacia apresenta tSlo raros modelos ! 

Falta-nos o tempo para volver atraz, em procura dos 
elementos com que formular uma tabeliã dos trium- 
phos e desenganos diplomáticos do sr. Fernandez de 
los Rios, em todos os géneros, com à indispensável 
casa de observações, como é de uso nos nossos visi- 
nhos com relação aos negócios peninsulares, uso intro- 
duzido por D. Senibaldo de Más, e ás vezes presta- 
dío, para quem pensa de modo diverso, como na oc- 
casiâo presente. Em um relance o leitor assim guiado, 
desceria do Sinay, da montanha de luz, ás margens 
melancólicas é solitárias do Inar Morto, que taes são as 
paginas do livro do sr. Fernandez de los Rios, onde 
nâo desabrocha uma flor que perfume, nem verdeja 
uma ervinha que alegre os olhos, nem rebenta um 
riacho que nos mate a sede ! 

Tomos porém que cumprir o nosso fadário, e o nosso 
fadário tem sido, é continuará a ser, o de metter o 
arado á terra dura das insinuações, ao baldio que se 
resguarda (inútil precaução !) com a frágil palissada 
de documentos que assustam pelo volume, e entriste- 
cem pela ruim vontade que n'elles se denuncia. 

Qual é o portuguez, por analphabeto que seja, 
que não applauda a facilidade de communicações pe- 
ninsulares, e como resultado natural d'ellas, o maior 
numero de viajantes visitando reciprocamente os dois 
"paizes, estudando os seus monumentos, travando co- 
nhecimento com as suas instituições e costumes, pres- 
tando se ambos a fazer as honras da casa aos seus 
hospedes, isto tudo chílmente, fraternalmente, sem 
pensamento reservado, como convém %,v\râJafò^^^^<«ss. 
que impoi tunas recordações \í\sIqt\^íu'^ ^\^«CkRsçsssi. ^ 
convívio doa dois povos? 



1Õ2 

Nenhum. Mas para isto não se carece da ingerên- 
cia official seja de quem fôr^ e apenas se devQ dese- 
jar é que esses viajantes, quando gralhas^ se não em- 
plumem com as pennas do pavão, encommodando os 
prelos com livros como o que publicou, em 1870, um 
addido á embaixada hespanhola, fazendo as suas des« 
pezas litterarias por conta do prudente e talentoso sr. 
Bomero Ortiz, e desatinando por conta própria, em 
tudo o mais! ^ 

Que contraste entre o folheto do joven sr. Calvo 
Ásensío, filho do notável jornalista, a quem a morte não 
deu tempo para cumprir todos os deveres paternos, 
dirigindo a cultura intellectual do herdeiro de seu honra- 
do nome ; e as Impressões de Viagem dos portuguezes 
que foram em romaria a Santo Izidro, e de lá voltaram 
entoando harmoniosas loas á hospitalidade madrilena ! 

Para manter boas e cordeaes relações com os nos- 
sos visinhos, e elles comnosco, não vemos a necessi- 
dade dos editaes publicados em Elvas e em Badajoz, 
em 1871, por occasião da feira annual a que se refere 
o despacho do sr. Fernandez de los Eios para o sr. 
Malacampo. Para fiador d'este nosso convencimento 
damos o testemunho do sr. D. José d^Áldama, distin- 

1 O livro a que nos referimos, e de que mais adiante volta- 
remos a fallar, intitula-se Lisboa em 1870, a que o auctor 
addiciona como complemento Costumhre^, litteratnra y ar- 
tes dei vecino reino, por Calvo Asensio. É oflFerecido ao sr. 
Fernandez de los Rios^ então ministro de Hespanha em 
Portugal. Que tÍTio diplomático ; O livro é de tal ordem, e tio 
juvenilmente inspirado, que o próprio sr. Fernandez de los 
Rios, reluctou em o levar como padrinho á pia do baptismo, es- 
crevendo a este respeito o seguinte: A inexperiência e levian* 
dade de um addido á legação, filho de um meu muito particu- 
lar amigo, cujo nome é de gratíssima memoria para os libe- 
raeB hespânhoeB, produziu um injusto e absurdo folheto» inti- 
talado Lisboa em 1870 de que não t\v« coti\ift<àmctL\.<^ ^xl^sa dft 
yer publicado, e como favor na sua pnxnràa ^«iÇvaaK, ^ ^«dàfi»r 
^ríaque d'elle me era feita. Mi, Misiaaea Portugal Jí^^t«&, 



153 

«cto engenheiro hespauhol, que entre nós viveu o tem- 
po sufficiente para se julgar habilitado a escrever o 
«eguintd; coui referencia a Portugal: 

c mais esmerada cortezia se observa desde as cias- 
4se8 as mais elevadas até ás ínfimas camadas popula- 
res: teem uma prevenção favorável para com os es- 
trangeiros, que accolhem com a máxima bondade, e 
agasalho, circumstancia que distingue os portuguezes 
de alguns outros povos que passam por serem mais ci- 
vilisados.» ^ 

O próprio sr. Calvo Asensio, o belicoso amontoador 
de dislates, escreveu o seguinte como penitencia dos 
49eus peccados litterarios, que foram grandes : 

«Para se divertir sem transtornar a ordem, nem 
originar escândalos, poucos povos ha mais talhados do 
que o povo portuguez ; nunca a alegria das multidões 
tem que ser refreada pela lei ; nunca a nuvem da 
•desgraça (vai por conta do auctor) vélla as distracções 
populares ; nunca o bolicio da mocidade occasiona 
as lagrimas do arrependimento, nem provoca o castigo 
^os tribunaes. » ^ 

Mais ainda : o sr. Fernandez de los Rios, o instiga- 
dor das precauções policiaes, por meio de editaes, diz 
no despacho em que dá conta da victoria ao seu go- 
Temo: 

«Perdido já o costume de fazer da feira de Elvas 
•o pretexto de um escândalo internacional, parece-me 
iacil dar por terminado um dos elementos que ser- 
viam para caracterisar um bárbaro divorcio entre os 
4ois povos visinhos. » ^ 



1 D. José de Aldama. Compendio Geographico Estatístico de 
Fortttgal. Paginas 187. 

2 Calvo AaenBÍo, — Lisboa tn 1870. — "Ç 2i^\i'dA IV — ^^^^>Sk. 
Impreaso no meamo anno. 

^Fernandez de loa Rios.— Mi Mieion— ^«^^vasa.^ W\. 



154 

Como na leitura reflectida que. fizemos do livro do 
sr. Fernandez de los Rios^ a nâo ser a feira d^Elvas 
não encontramos nenhum outro elemento de discórdia 
peninsular, ficamos ignorando quaes são as desaven- 
ças a que se refere a sollicito juiz eleitO; que debellou 
aquelle sem pau nem pedra, aproveitando-se excluu- 
vamente do préstimo de algum amanuense da legação 
hespanhola, que redigio o edital. 

Cresceu durante a estada do sr. Fernandez de los 
Rios em Portugal, e continuou a augmentar progressi- 
vamente depois, o numero dos hespanhoes que da Estre- 
madura vem fazer uso das nossas aguas thermaes^ou 
povoar as praias de Cascaes, Ericeira, Pedrouços^ e 
outras, durante a temporada dos banhos de mar. 

A este facto, que deve a sua primeira explicação 
natural ao lento, mas progressivo desenvolvimento das 
nossas communicações, cresceu depois, vir a experien* 
cia justificar a salubridade das localidades de preferencia 
frequentadas pelos nossos visinhos, e a relativa bara* 
tesa dos nossos hotéis e casas de hospedagem, ^dan- 
do por ultimo animação ao augmento dos visitantes o 
estado de turbulência de Hespanha nos últimos anno8| 
e o pacifico contraste que Portugal com ella fazia. 

Por mais que o desejemos, como é possível attrí- 
buir á diplomacia, por escrupulosamente que houves- 
se executado as bases da politica peninsular recom- 
mendadas pelo sr. Selvela, um facto alheio á alçada 
do governo hespanhol, bem como ás previsões de seu 
representante em Portugal? 

Os governos portuguezes esses é que, sem excepção^ 
tem procurado manter as cordeaes relações entre os 
dois povos, auxiliados n'este intento pela imprensa pe- 
riódica de todos as cores e parcialidades. As notas 
trocadas em 1871 entre o sr. Marquez d'AvilaeFer- 
nandez de los JRíos comprovam o c\aft ôíl^tclo*». 
Ba poucos dias ainda a foYkiai oi&d«\ y°^^^*^^ ^ 



155 

seguinte documento comprovativo da boa vontade do 
governo portuguez cm facilitar a vinda a Portugal 
das familias hespanholas que teem por uso visitar -nos 
durante a estação dos banhos. Ei-lo : 

«Sua magestade el-rei ha por bem permittir que 
nas alfandegas do continente do reino se dê despacho 
sobre fiança idónea dos correspondentes direitos^ á 
mobilia de uso das familias hespanholaS; que durante 
a estação dos banhos vierem residir no paiz, uma vez 
que se obriguem a reexportar a mesma mobilia, den- 
tro de um praso rasoavel, que não poderá exceder a 
seis mezes, contados do dia do despacho da entrada. 
Paço em 4 de junho de 1877. — Carlos Bento da 
Silva. 

Esta disposição approveita mais a mil familias, que 
tantas foram as que no anno passado vieram a Por- 
tugal^ apezar do sr. Fernandez de los Rios nos haver 
deixado, e talvez de andar já projectando anniqui- 
lar-nos com as conclusões fulminantes do seu livro. 

A iniciativa particular pôde pouco, quando de lou' 
ga data a opinião publica não está preparada para a se- 
cundar. Os comboios de recreio e de grande velocida- 
de, com bilhetes de ida e volta, e praso fixo para a 
demora, nada influem no curso ordinário das relações 
intemacionaes, e são um mero pretexto de ostenta- 
ção. Ás experiências feitas em 1871, e que estamos 
longe de condemnar, não influiram directa nem indi- 
rectamente no movimento subsequente de passageiros 
entre os dois paizes, embora os emprezarios das viagens 
de recreio, quaesquer que elles fossem, quizessem ar- 
rogar-se a gloria de descobridores do motu-continuo. 

O jornalismo portuguez applaudindo a chegada dos 
nossos hospedes fez o seu dever. Commemorar em um 
livro a cortezia da imprensa, é quasi o^ue dar a eu- 
tender que 08 viajantes hespanViO^^ \iaN vasa. ^^^^^»^ 
ewprebender a excursão, temenâLO Çi\3L\.^wsía3Kt-^^ ^«èasa. 



156 

terras sertanejas do Preste João, e pernoitar mal á 
vontade em cubatas africanas. 

Uma grande chaga nos patenteia por ultimo o sr. 
Fernandez de los Rios no seu livro, -sob o titulo âe 
Credito publico de Hespanha em Portugal ! Quem se 
esqueceu já da crise financeira que teve logar nas 
praças de Lisboa e Porto, provocada pela confiança 
mal correspondida, que Portugal depositara nos i fun- 
dos hespanhoes, pelo acabamento p)'evisto da guerra 
eivil ? 

A ingenuidade portugueza era grande, e datava de 
longe. O sr. Fernandez de los Rios já em 1869 escrOf 
via para o seu governo dizendo : PoHugcd é, w- 
gundo parece j onde o nosso papel é mais procurcído e 
apreciado^ e aconselhava o seu governo a que pres- 
tasse attençSo aos possuidores de fundos hespanhoes^ 
que reclamavam a troca do coupon vencido, o que 
<3onvinha eíFectuar, aqui de preferencia aos outros pai*- 
zesj em raz^o do seu mais crescido numero. 

Não é aqui logar para tratar, nem nós somos para 
kso competentes, da questão financeira que tanto pre* 
occupa ainda os nossos visinhos, e por tabeliã tanto 
nos preoccupou a nós, quando os fundos hespanhoòs, 
descendo com uma rapidez assombrosa, denunciaram 
a proximidade de uma bancarota, e abalaram o cre- 
dito de algumas casas bancarias portuguezas. 

O que nos cumpre é fazer reparo no breve espaço 
que o sr. Fernandez de los Rios reservou no seu livro 
para assumpto de tamanha magnitude, sendo o pri 
meiro despacho que a elle se refere o de 21 de dezem- 
bro de 1869, que ficou sem resposta ao que parece^ 
porque só em 15 de setembro de 1870, (quasi um an- 
no depois !) é que o sr. de Blás accusou a recepção de 
um outro otãcio, de 21 de julho anterior, que não vem 
publicado Dã aerie dos documentos dadios i. ^stdxck^^Y^^ 
ouaistro beapauhol em làsboa. 



157 

Este facto faz nascer no nosso espirito a suspeita 
sem evidencia de que a correspondência entre o sr. 
Femandez de los Bios e o seu governO; acerca de ne- 
gócios financeiros intemacionaes, não foi tão parca 
como 08 crédulos podem julgar ; aproveitando nós esta 
occasifto para louvar a prudência com que o diplomá- 
tico hespanhol dando publicidade aos negócios reser- 
vados e conjidenciaeSj deixou de trazer á luz publica 
08 conjidencialissimoSj como por sua natureza sao 08 
que jogam com o credito, a não ser que doesta vez, 
por excepção, o critico cais se no erro que con- 
demnou nos seus antecessores quando escreveu, qtie a 
actividade hespanhola^ brilhava em PoHtigal pela sua 
ctusenda, 

A cegueira com que por algum tempo se jogou em 
Portugal nos fundos hespanhoes, cegueira que corria 
parelhas cora as tentações da loteria de Madrid, que, 
segundo affirma o sr. Fernandez de los Rios, collocava 
em Portugal a terça parte dos bilhetes de cada sorteio^ 
dava innegavel impulso o diplomático hespanhol, quan- 
do, em despacho de 5 de junho de 1873, aconselhava 
o seii governo a pagar o coupon vencido em dezem- 
bro lUtimo (seis mezes atraz !) e a não deixar de sa- 
tisfíazer os prémios da loteria nas administrações lo- 
cães, que sob as que fornecem Portugal^ onde a venda 
é hoje de 135 a 140:000 duros por mez ! 

Para attenuar o effeito doestas revelações, que pro- 
vam como á injustificada confiança dos possuidores 
portuguezes de fundos hespanhoes correspondia a ar- 
teirice e o engodo de uns pagamentos feitos fora de 
tempo, mas ainda com uns cert(js vislumbres de futura 
regularidade, transcreve o sr. Fernandez de los Rios 
trechos de um artigo do sr. Rodrigo de Freitas * que, 
pelas suas idéas politicas e pela sua constante oçi^odc^ci 
d administração doa srs. Fontes e Setç«u, ^^^n^\s^ ^'^- 
' Bodrigo de Freitas. — Crise monetatVx <i ^q^^Và^^^^^^^'^' 



158 

nas para desviar a attençâo do leitor da influencia 
que teve na, crise financeira de 1876 a fé nas bases 
de politica peninsular, serêa que ia fazendo naufra- 
gar o nosso credito. 

Apezar d'isto tudo, o sr. Fernandez de los Rios ousa 
escrever : » Está pois tranquilla a minha consciência; eu 
fiz a propaganda de títulos hespanhoes quando elles se 
cotísavàm a 30, quando se pagava pontualmente o cou- 
pon, quando se desenvolviam todas as fontes de pros- 
peridade, sem valerem dois caracoes * os oMipathias do 
ministério poiiuguez, » 

Pedimos ao leitor que não se esqueça de que o sr. 
Fernandez de los Rios ainda fazia propaganda finan- 
ceira em 1873, já com o pagamento do coupon abrasado 
um semestre, como prova o despacho de 5 de junho 
do mesmo anno, que acima citámos; e quando os fun- 
dos iiespanhoes tinham já descido a 13, ÕO ; edade de 
oiro relativa áquella que depois os vio chegar a 10,9õ ! 

Depois d'isto pode o sr. Fernandez de los Rio« at- 
tribuir ào sr. Fontes, por ódio á democracia, a baixa 
successiva dos fundos hespanhoes, e a crise monetá- 
ria por que passou Portugal em 1876, fazendo para 
contraste indirectos elogios á insurreição cantonal, que 
só conseguirá demonstrar como a paixão cega e des- 
vaira as melhores intelligencias» 

1 ti No valer un bledo» (íig-fam.) «Não valor um caracol» 
«Diccionario Espanei Portuguez» de Canto c Castro, na 
palavra «Bledo». 



CAPITULO X 



Opinião de H. Taine acerca do modo de escrever a histo- 
ria. O ar. Fernandez de los Elos e o programma da Asso- 
ciação Peninsular. Duas palavras benévolas ao sr. Kumero 
Ortiz, auctor de la Literatura portuguaza en el Siglo xix. 
Applica-se á Hespanha a accusâo de hyperbolica, que os 
escriptores hespanhoes fazem a Portugal. Exempliâcaçoes. 
Um trecho de um discurso de José Estevão. Verdadeira 
razão das quasi nullas relações litterarias entre os dois 
povos da península. O sr. Calvo Asensio julgado por si 
mesmo. O seu livro intitulado Lisboa em 1870. De que 
serve o estylo aos escriptores de uma certa escola litteraria. 
Absurdos históricos saccados das trevas e postos á luz do 
dia. Contradicçoes do sr. Calvo Asensio, a propósito de 
iberismo. Retrato do sr. Fernandez de los Rios, feito por 
um addido á legação hespanhola, em Lisboa. 



Aos exclusivamente tentados pela politica, a gran- 
de feiticeira do nosso século, ou aos absorvidos na 
meditação, também exclusiva, dos interesses mate- 
ríaes, parecerá absurdo o dedicar algumas linhas a as- 
sumptos litterarios em um livro onde tantas munda- 
nidades têem sido passadas em revista, com exclusão, 
até agora, d'essa luz serena que se chama arte, que 
allmnia os espirites, e os deixa antever os antros onde 
seaccolhem cegos os noítibós que esvoaçam nas tre- 
vas. 

A litteratura, as sciencias e as artes^ não foram nunca, 
e com mais razão não o são hoje, excrecencias que 
devam ser amputadas da bistona òia^ tvw:^^^. ^ ^^- 
L'tíco^ enfatuado e altivo, que o\\ia^«»^ ^otsv ^Owl^cw^^- 



160 

L 

ria para as manifestações do pensamento, lavraria a 
sua própria sentença, e condemnar se-ia antecipada- 
mente ao despreso da posteridade. 

A historia transformou-se na Állemanha ha um sé- 
culo, e em França haverá sessenta annos pelo estado 
reflectido das suas respectivas litteraturas, escreveu 
um critico auctorisado. * 

«Descobrio se que uma obra litteraria não era um 
simples jogo de imaginação o capricho isolado de uma 
cabeça ardente, mas uma copia dos costumes que a 
cercara, e o signal do estado de um espirito.» 

Esta verdade é hoje axiomática. A litteratura signi- 
fica mais alguma coisa do que a manifestação da va- 
lia intelectua de ura, ou outro dos seus cultores. O auctor 
da HistoHa da Litteratura Ingleza ampliou d'este modo 
a demonstração, embora escusada do seu aphorismo : 
«Quando ee volvem as grandes folhas. retesas de umin- 
folio, as paginas amarellecidas de um manuscripto^ di- 
gamos um poema, um códice, um symbolo de fé, qual é a 
primeira observação que nos accode? E que elle nSo 
se fez a si. Elle não é mais de que um molde, seme- 
lhante a uma concha fóssil, um vestígio, semelhante a 
uma d^essas formas depostas na pedra por um animal 
que viveu, e morreu. Dentro da concha existiu um. 
animal, por de traz do documento houve um homem* 
Para que se estuda o invólucro, senão para conhecer 
o animal? Do mesmo modo estuda-se o documento 
para conhecer o homem; a concha e o documento são 
ruínas mortas, e valem apenas como indicio do ser 
vivo e inteiro. Até a esse ser é que é preciso chegar; 
é elle que se necessita reconstruir. Engana-se quem 
estuda um documento como se elle fosse isolado. Trata 
assim as coisas o simples erudito, e caí n'uma illusSo 
de bibliothcca.» 
N'estã3 considerações vae envoVvVàa. a ia^^xA^^^ o^^ 
^ H. Taine, — «Histoire de la líf tfíralure Anglal8e,i» 



161 

pedimos ao Ipitor^ ao sairmos da aridez das negocia- 
çSes consulares, e do positivismo desconsolador dos 
algarismos, para as vkrseas perfumadas dos estudos 
litterarios, que refrescam o espirito, e o aliviam dos 
pesadellos das cogitações materíaes. 

Ainda assim, a lógica e n^o um capricho, é que 
nos força a nâo deixar sem replica algumas das apre- 
ciaçSes que os nossos visinhos fazem da litteratura 
portugueza contemporânea. Em um livro já por nós 
differentes vezes citado, e na secção denominada ãe 
sciencias, artes' e litteratura^ lê-se o seguinte, como 
prologo parcial do programma que antecede o regula- 
mento da Associação Peninsula/r. 

tEsta secção é a que ofFerece mais abundantes meios 
para chegar ao &n desejado, o do conhecimento mutuo, 
e do estabelecimento de relações cordeaes e sympathi- 
cas. A soiencia desconhece prevenções, todos os ho- 
mens que professam uma, se consideram irmãos por 
ella. A litteratura e as artes estendem a sua benéfica 
influencia aos costumes, excitando a curiosidade por 
intermédio da imaginação. Dois povos que conhecem 
bem as suas respectivas litteraturas e apreciam reci- 
procamente as suas artes, estimam-se, e chegam 
a amar* se em suas glorias, que consideram uma 
tmica.» ^ 

Como o sr. Femandez de los Bios seguiu á risca, 
artigo por artigo, todo o regulamento da Associaçch 
Peninsular j incluindo o que se refere ás relações scien- 
tificas e litterarias entre os dois povos ; e como o nome 
do auctor de La literatura portugueza en el siglo xix 
o sr. Homero Ortiz, figura na lista dos propangan- 
distas ibéricos, que o sr. Molina nos dá no seu livro, 
como demonstração de que a idéa ibérica não é, nem 

^ «PortiigaZ eu origen y corwtitiiciou ii> — Pw X>» "Rvi-at^ 
11 



162 

nunca foi em Hespanha, património de nenhum partido 
politico^ * vamos procurar apreciar benevolamente os 
excçrptos de um e de outro, sem nos dispensarmos de 
pôr também em evidencia, por meio de opportunas 
citações, as apreciações litterarias do sr. Calvo Asen- 
aio, ora lyricas, mas de um lyrismo sazonatico e intermi- 
tente; ora bebidas nas paginas mais arrevesadas de 
Gongora. D^esde já, porém, declaramos que não con- 
jFundiremos as malaguefías em prosa do juvenil addido 
de embaixada, com Oi nem sempre justos, mas sem- 
pre reflexivos trabalhos do sr. Romero Ortiz. 

As reciprocas traducçoes de obras litterarias na 
península são quasi nenhumas. Reconheceu-o o próprio 
sr. Fernandez de los Rios no seu despacho de 27 de 
janeiro de 1871 para o sr. Sagasta, declarando a inur 
tílidade de um tratado de propriedade litteraria, quan- 
do, o que estava em vigor havia dez annos, não dera 
em resultado a venda de nenhuma producção hespa- 
nhola em Portugal, nem portugueza emHespanha 1 Tão 
limitado era também o numero das traducçoes thea- 
traes, não auctorisadas por seus auctorcs, que nem 
sequer exigiram d^ellas nunca os respectivos direitoS| a 
ponto do diplomático confessar não ser de boa politica^ 
com relação a Portugal, equiparal-o, no assumpto em 
questão ás demais nações com que a Hespanha tinha 
tratados da mesma natureza ! 

Clomo não é difficil encontrar o sr. Fernandez de 
los Rios em contradição comsigo mesmo, v^mol-o egc*- 
por em um outro despacho, de 22 d'abril de 1871| 
principies e doutrinas com relação á propriedade litte- 
raria, conformes em tudo ás intenções de um propagan- 
dista, entre dles a proposta para eleminação do artigo 
terceiro do tratado, então vigente, yue reservava a>a8 

^No £m ,do volume vae publicada na m\fcgtíi^ a %^^ ^x- 
respoadente a eate assumpto. 



163 

atíctores os direitos de traducção. Por uma inexplicá- 
vel aberração, ou antes por causas fáceis de explicar, 
escuda hoje o sr. Femandez de los Rios a sua pro- 
priedade com a seguinte textual declaração, a que já 
alladimos, mas que se torna agora flagrante desmenti- 
do pratico das suas theorias : ^ 

auctor reserva para si os direitos de traducção e de 
reproducção. Fez se o deposito que a lei exige ! 

Corramos um veu sobre este antagonismo entre a 
consciência e o interesso, e prosigâmos nas nossas 
observações. 

Em 1869 deu o sr. Romero Ortiz á estampa um li- 
vro que, para ser acceito quasi sem restricçoes, carecia 
apenas de que o seu illustre auctor, muito mais sabedor 
da historia litteraria de Portugal do que o seu conter- 
râneo Fcrnandez de los Rios, tivesse feito um ligeiro es- 
forço sobre si mesmo para entrar no templo da arte á ma- 
neira dos Orientaes, descalçando as sandálias ibéricas, 
com que quebra, pela bulha que faz com ellas, o reco- 
lhimento das verdadeiras crentes. 

Apezar d'isto, e de nílo podermos ter o seu livro por 
uma historia acabada da litteraturaportugueza, (as la- 
cunas são graves, e as apreciações ás vezes erróneas) o 
trabalho do sr. Romero Ortiz c estimável, e aparece pur- 
gado dos absurdos com que em Hespanha se escreve a 
respeito de Portugal. A própria orthographia não soffre 
os tratos de polé que lhe dão os srs. Fernandez de los 
Rios e Calvo Asensio, inclusivamente quando se apro- 
priam das phrases do sr. Molina, também quasi sempre 

1 A theoría do negociador era esta : Agora quando se tra- 
balha sem descanço para remediar tao deplorável estado de 
coisas, é um ccrrUra senso que aos dois povos se impunha, só 

Sor copiar o tratado que conveio aos interesses particulares 
a Franpa, aprohibição de traduzir sem pagar d\TÇ.\lo% ^^ 'çrç»- 
príèdadef Fernsaiáez de los Rios. «DeapaiOMi ^^'^^ ^^ ^x^^^ 
1871 — Mi, Miston,>>—PsLQ. 627. 



164 

correcto, como tem obrigação de o ser quem se arvora 
em critico, e assume a responsabilidade de julgador. 

No prologo do seu livro, aliás escripto com grande 
copia de elementos, aflSrma o sr. Komero Ortiz, que 
Portugal se elevou a grande altura na historia, na poe- 
sia e na doguencia^ fnas que carece completamente de 
critica, doesse poderoso estimulo para todo o talento so- 
lido, doesse correctivo efficaz para todas as mediocrida- 
des presumpçosas. » 

Esta affirmativa, embora escudada pela auctorida- 
de dos senhores Costa e Silva, Camillo Castello Bran- 
co e Andrade Ferreira, não é completamente verdadei- 
ra, os próprios críticos citados dão fé do contrario. 
Dado porém que o fosse, o livro do critico hespanhol não 
preencheria este vácuo da nossa litteratura, não que 
para isso lhe falte cabedal de engenho e estudo, mas 
por que os Ticknors, os Taine, os Ferdinand Dinis , 
são excepções na ordem dos escriptores que julgam 
das litteraturas estrangeiras, com profundo conhecimen- 
to de causa. 

Nós não nos temos na conta de conhecer cabalmente a 
litteratura hespanhola, mas o pouco que d'ella sabe* 
mos é também sem o auxilio da critica local, por que 
a não ser um livro do sr. Amador de los Rios, não 
nos consta que haja em Hespanha quem tenha feito of- 
ficio de escrever critica litteraria. As mesmas revistas, 
e semanários alheios á politica, são mais de que sóbrios 
nos seus julgamentos artísticos. Emquanto á compila- 
ção de auctores de boa nota, não nos parece que as 
Poesias Selectas Castelhanas, reunidas em volume por 
Quintana, sigam melhor methodo do que o Parnaso 
LusitanOf de Garrett, ou que o Ensaio hiographico^ 
de Costa e Silva, mesmo sem metter em linha de conta ' 
o jDiccionario Bihliographico, de Innocencio, que tama- 
nha luz derrama, sobre algumas obscuiiâiai^^ Ôl^tí^^^^w 
jy^teratura. 



165 

Dissemos que o sr. Romero Ortiz mais desassom- 
bradamente haveria escripto o seu livro se o iberismo 
o nâo preoccupasse, e nos quizesse conceder, o que 
não seria favor mas justiça, uma litteratura propria- 
mente nacional, viril, accentuada por épocas, como as 
litteraturas das demais nações, e sem inveja, em quasi 
todas as suas ramificações, á litteratura hespanhola, 
excluindo o theatro, que esse teve a gloria de antece- 
der Shakespeare e.de inspirar Corneille. 

Nâo pôde, porém, ser um critico limpo de precon- 
ceitos, e liberto de pêas, o que escreve encarecendo a 
necessidade das relações internacionaes com Portugal : 
que em um futuro mais ou menos arredado y arredado 
sem duvida^ mas seguido, terá de subordinar-se sem 
abdicação da sua importância, sem sacrificio dos seits 
legítimos interesses, por sua própria e espontânea von- 
tadcj e por msios que a Providencia reserva (!) a essa 
tevdencia universal, poderosa, irresistível, que conduz 
08 povos á unidade, á semelhança d' essa outra força, 
também poderosa e irresistível, que leva as aguas dos 
rios a perderem- se na immensidade do mar.i> * 

Como o nosso intuito é, ajuisar da indole geral do 
livro do sr. Romero Ortiz, e nâo de cada uma das 
apreciações isoladas que faz dos prosadores e poe- 
tas que passa em revista, por isso nâo levanta- 
remos algumas pequenas inexactidões que se encon- 
tram nos seus estudos, aliás feitos com o visivel de- 
sejo de acertar, acerca do padre José Agostinho de 
Macedo que, apezar do seu immenso saber, nâo legou 
á posteridade um único livro, entre os muito que es- 
creveu, que namore o espirito do leitor contemporâ- 
neo, ou lhe falle ao coração, e lhe arrebate a vontade. 
Os juizos criticos- do sr. Romero Ortiz com referencia 



^ Romero Ortiz : «La Literatura portuguesa e-u el ^xglo^Si^- 



166 

aos auctores portuguezes do fim do século passado, e 
de principio do actual, como Francisco Manuel do Nasci- 
mento, Marqueza de Aloma e Bocage, exceptuando 
este ultimo, que teve as amplas azas com que as águias 
se elevam no espaço, são feitos com uma benevolência 
relativa, que vem depois a faltar ao julgador para ava- 
liar outros vultos litterarios contemporâneos que hão 
de deixar na historia mais assignalada a sua passa- 
gem do que o pouco inspirado auctor do Chnente, 

E aqui o logar apropriado para conversar com o es- 
tudioso e cortez auctor do livro La Literatura portu- 
guesa en el siglo XIX acerca de uma pecha que cada 
uma das duas nações peninsulares attribue á sua vi* 
sinha, como distinctivo do seu caracter nacional, enri- 
quecendo cada uma d'ellas as suas collecçoes de anedo- 
ctas com ditos e historietas, a que nós damos o nome de 
«hespanholadas» com pasmo do sr. Romero Ortiz, e os 
hespanhoes alcunham de «portuguezadas» com pas- 
mo não individual nosso, mas geral de todos os portu- 
guezes. 

Sabida é a tendência natural dos povos meridionaes 
para a exageração e para hyperbole, tendência que, 
applicada á poesia, pôde deixar de ser um vicio de 
caracter, para se tornar a simples ornamentação do pene- 
do poético, que lucra, conforme os géneros, com as am- 
pliações rethoricas que elevam e avigoram o estylo. 
O sr. Romero Ortiz, critico illustrado, sabia-o perfei- 
tamente, mas não poude resistir á tentação de confun- 
dir o proverbial orgulho do padre Macedo com o que 
se lhe affigurou defeito incurável do caracter portu- 
guez, e escreveu: 

«O género hyperbolico adapta-se de um tanto á idio» 
sincracia do caracter dos nossos visinhos. Esta aflir* 
mativã a ninguém surprehenderá em HeaçanKa, onde 
geralmente 6 tido, com alguma ÍTip»li<ja s^eia ÍmV\^^^ 
^ <^o portugaez por soberbo, ^wesumpçoso e xwiKa.d^ 



167 

«O que muitos não sabem, e é singular e curioso, é 
que em Portugal se chama ás exagerações hespanho- 
lados. A arrogância jactanciosa, ao elogio ridículo e 
excessivo da própria valia, á narrativa de um facto 
inverosímil, e incrível, ao empolado da frase, se dá 
em Portugal o nome especial de hespanholada.í> 

«Tâo certo é, que os povos, como os individues, ra- 
ras vezes se conhecem a si mesmos ! Os que doesta 
maneira nos julgam, não pensam que basta entrar em 
uma bibliotheca lusitana, e abrir ao acaso um volume 
qualquer, para encontrar exagerações taes, que não 
86 houvera atrevido a acceital-as por suas o famoso 
Manolito Gazquez.» 

Esta larga, e um pouco azeda divagação do sr. Ho- 
mero Ortiz, tratando de assumptos exclusivamente lit- 
terarios, prova que a consciência o levava para 
o lado da rasão, mas que o seu patriotismo offendido o 
impellio a descarregar dos hòmbrosdos seus compa- 
triotas a designação de hyperbolicos, que mais lhes deve 
pertencer do que a nós os portuguezes, como nos convi- 
da a acredital-o a própria arrogância da lingua caste- 
lhana, mais talhada do que a portugueza para as pom- 
pas da oratória, e menos ageitada do que ella para as 
doçuras do idylio, e para as melancolias da elegia. 
As afinidades do portuguez com o gallego (sintaxe 
e pronuncia) e o seu grande afastamento da lingua 
culta dos poetas castelhanos do século XV, devem 
convencer o sr. Romero Ortiz, levando-o n'este ponto 
a fazer justiça á sobriedade gallega, que, comparada 
com o entono da lingua castelhana, chega a ir ainda 
além de sobriedade. 

• Não podemos, como fez o illustre critico, andar a 
recrutar hyperboles para comprovar que as hespaiiho- 
ladas^ bUo aportuguezadas-s) maa aa^\ 4. \d3L<5í \j«siRk^^ 
tombem ao acaso , com que noa âLeSeíiÔL'et» 
Oiça-noa o ar. Eomero Ortiz-. 



168 

«Con hielo enciendes, con fuego hielas» * 

Gongora escreveu: 

Quien besos conto y quejas 

Las flores cuenta á mayo 

Yal cielo las estrellas rayo a rayo. ^ 

O celebre p. Francisco de Quevedo, em um soneto 
á morte do duque de Ossuna, disse : 

En sus exéquias encendió el Vesúvio 
Partenope, y Trinacria ai Mongivelo, 
El Uanto militar creció en diluvio. 

O mesmo poeta, em uma epistola ao duque de Cli- 
vares, escreveu : 

Seôor Excelentisimo mi llanto 

Ya no consiente margenes ni orillas, 

Inundacion será la de mi canto. 

Podíamos multiplicar as citações ao infinito, (vá lá 
hyperbole !) mas o mais prudente é parar por aqui, 
fazendo uma proposta ao sr. Romero Ortiz, que o seu 
espirito equitativo não poderá deixar de tomar na 
devida conta. Para evitar futuras recriminações doeste 
género, e, sendo como é impossivel apurar de que lado 
está a justiça, as exagerações a que os portuguezes cha- 
mam «hespanhoiadas» e os hespanhoes «portuguezados» 
ficarão de hoje em diante chamando-se aiberismos» epi- 
theto sem desaire para nenhuma das duas nacionali- 
àaães. 

i Fr&ncisco de la Torre. Tirsi. Écloga. 
^ Dom Luiz de Gongora. Canciou. 



169 

Fizemos estes reparos por incidente, sem animo nem 
tenção de levantar a propósito de assumptos litterarios 
pendências de nacionalidade. Se assim não fosse aEl 
romancero de la guerra d'Africa» servir-nos-hia para 
provar que a hyperbole não existe só na forma das 
obra^ litterarias, sendo muitas vezes mais hyperbolico 
ainda do que forma, o próprio fundo das composições 
poéticas. * 

As poucas vezes em que o sr. Romero Ortiz é in- 
justo com Portugal, são avidamente aproveitadas pe- 
los escriptores hespanhoes que vieram depois d'elle, 
uns citando-lhe ás vezes a auctoridade, como o sr. 
Femandez de los Kios; outros paraphraseando-lhe, 
desfigurando-lhe a escripta, como o sr. Calvo Asen- 
cio ^ e sem indicar as origens das suas deturpações. 



1 «El romancero de la guerra de Africa. Madrid 1864. 

Komaucero de la guerra de Africa. Por D. Eduardo Bus- 
tiUo Madrid. 1861. « 

^ Como prova d'esta affirmativa citaremos o seguinte facto. 
O sr. Kumero Ortiz a paginas 423 da Hisioria de la literatura 
portugueza en el siglo XIX transcreve duas estrophes de uma 
poesia do auctor d'este livro que principiam : 

Este reino que em praias distantes 
O estandarte da cruz arvorou; 

querendo provar que na actualidade era grande o desalento 
nacional, como depois o fez também o sr. Femandez de los Rios. 
Os versos eram com effeito do auctor a quem se attribuiam. O 
sr. Femandez de los Kios porém, com a pressa em deitar cáus- 
ticos no enfermo do occidente, copiou para a «Sua Missão» ou- 
tros versos que encontrou á mão de semear, e que são do sr. 
Luiz Ribeiro Sotomayor, e attribue-os sem cerimonia a Luiz 
.Augusto Palmeirim, isto sem dizer onde fora fornecer o seu 
arsenal. Já é consciência! 

Já que falíamos em tal, diremos ao sr. Romero Ortiz que a 
poesia a que allude no seu livro è com eS^SXíi \\a^"5a.^ \!Mòa^ *lsss. 
escripta, como outras de cgual ÍIV&p\Ta.^li.o^«al\^>^^^^í^^>=»Ska'^ 
diviffâo heapanholsL do general M.eIlde'LN\^'5>^»:^^^^sv.^^^^^^ 



170 

O leitor, que tiver seguido attentamente as paginas 
doeste livro, recordar-se-ha de certo da maneira inso- 
lente com que o sr. Femandez de los Rios nega a exis- 
tência em Portugal do amor á sua independência, cha- 
mando jpatrioteiras ás suas expansSes; e alcunhando de 
pandilha o seu afiferro á autonomia, e pretendendo 
provar que é de occasião, simplesmente de occasião e de 
moderna data, a deliberação sisuda do povo portuguez 
em não querer incorporar- se na monarchia castelhana. 

Quem o vai agora desmentir é o sr. Romero Ortiz, 
que apezar de hespanhol e de ibérico, conhece as ooi- 
zas, e não se perde como o sr. Calvo Asensio nos es- 
paços imaginários, a que tão a miúdo se remonta. 

Oiçamol-o que é insuspeito o testemunho. 

«Apezar de tudo, (o auctor refere-se ao aprisiona- 
mento da barca Carlos e Jorge) nem uica só voz se 
levantou então para advertir á formosa Lisboa^ á al- 
tiva rainha do Tejo, que taes aggravos seriam impos- 
siveis se a bandeira peninsular tremulasse sobre as 
desartilhadas baterias dos seus antigos baluartes. 
Aquelle povo, orgulhoso e susceptivel como é, prefere 
soffrer humiliações mais mortifícadoras ainda, e mais 
despresiveis, antes do que desfazer a obr^a de 1640, ii 

«Isso nunca ! Sobre a conservação da nacionalidade 
não ha alli divergências de opiniões. Aristrocracia^ 
classe media e povo, legitimistas e liberaes, velhos e 
creanças, homens e mulheres, todos querem, todos 
pensam, todos sentem de uma maneira uniforme. Ha 
na capital, no Porto e em Coimbra alguns admirado- 
res excêntricos, solitários e platónicos da republica, 
ibérica, organisada de forma que os seus frouxos la- 

* 

e as eBQfuadras in^leza e franceza fundeavam nas aguas do Dou- 
ro, prompta.3 a auxiliar na sua fatemal empxeasL. O lio^^o ^^^^- 
n/mo tinha então fbndada razão para se expasidix exo. ^«X.to^^ií 
^elancbolicasy como o illustre critico bem p6àe «ta»^«vx»£. 



171 

çoB federaes nao limitem nem tolham a acção Bobera- 
na de cada Estado ; mas a verdadeira annexação d 
HespanJia, que é a fusãoj essa não tem um único par- 
tidário, conhecido desde o Douro até ao Guadiana. 
NSo seria mais detestada aqui a união á França, não 
foi mais aborrecida em Veneza a sugeiçao em que es- 
teve da Áustria, não é mais odiada na Polónia a domi- 
nação moscovita.» 

E perfeitamente exacto tudo quanto affirma o sr. Ro- 
mero Ortiz, menos quando imagina que a bandeira penin- 
sular nos teria posto acoberto das exigências d a Fran- 
ça. Mas, diga-nos, é só Portugal que se tem curvado 
diante das exigências da força numérica? Não terá a Hes- 
panha nunca passado por eguaes amarguras? Agora 
mesmo, não deverá ella a posse contestada de Cuba á ge- 
nerosidade, talvez temporária, dos Estados Unidos ? A 

' própria Inglaterra, na questão do Alabama, não cedeu 
terreno diante de um inimigo mais preparado para a 
guerra do que ella o estava então? Constituída que ve- 
nham a ser as grandes nacionalidades, não ficará sem- 
pre alguma mais débil do que outra, e arriscada á pre- 
potência de uma sua visinha mais poderosa? 

Os povos pequenos vingam-se moralmente dos seus 
oppressores. O verbo sempre eloquente de José Este- 
vão, eloquentíssimo na triste conjunctura do aprisio- 
namento da barca Carlos e Jorgey elevou Portugal 
no conceito das nações desinteressadas neste pleito de 
honra. As imagens do grande tribuno correram pare- 
lhas no seu discurso com a ironia desdenhosa do pa- 
triota. 

c A águia imperial (dizia elle) enfadada da sua for- 

çadainnação, saudosa de aventuras, ávida de gloria, voou 

do seu ninho de pedra, d'esses penhascos artificiaes 

de Cherburgo até ás margens do Tejo, tó ^aaroaciv- 

daõ da sua natural belleza e de ve^ivet^iA^^ x^^^^sÃaw" 

ções; e veio aqui (grande e nobr^i i«ci;«tícka.N^ x^>^^ ^ 



172 

bandeira franceza em um navio, d'onde nós a havía- 
mos arrancado, pára que não continuasse a manchar-se 
cobrindo o trafico da escravatura.» 

a Esta visita á nossa terra foi mais feliz do que 
outras, porque nós já vimos essa mesma águia levantar- 
se das eminências que bordam este mesmo Tejo, e ar- 
rastar se em voos atordoados e incertos de serro em 
serro atravez das Hespanhas, até se recolher na gua- 
rida d^onde saíra, levando apenas nas garras já mal 
seguras o desengano de imaginados dominios e pode- 
rios! (Vozes: muito bem) *.» 

Para não amontoar citaçSes comprovativas da re- 
pulsão que em Portugal encontra a idéa ibérica, o que 
o sr. Romero Ortiz longe de esconder conscienciosa- 
mente poe em evidencia no seu livro, apenas como pe- 
dra de toqtle, tranacreveremos o que o auctor diz, 
apreciando os escriptos do sr. Mendes Leal : Na nação 
poHugueza onde ninguém é iherico, deve o poeta grande 
parte da sua popidaridade á sua intransigência anti' 
hespanhola ^. » 

Bem desejaríamos não ser prolixos, mas o assumpto 
é grave, e pede que se não passe de leve por eíle. 
Toda a diplomacia do sr. Fernandez de los Rios vai 
ser condemnada agora pela bom senso de um com- 
patriota seu, que, desprendido de compromissos, falia 
com o desassombro de um homem de bem: 

a Os estadistas ebsecacJos que julgam poder che- 
gar á unidade ibérica por uma combinação dynastica, 
ou pe!a força das annas, desconhecem tristemente o 
espirito anti hespanhôl que se respira na atmosphera 
do reino visinho. Essa sonhada combinação dynastica 
occasionaria a queda inevitável e immediata da casa 

^ José UstevãOj Esboço Histórico pot 3a.em\.o kx3Lç;a^\.^ ^^ 
Freitas e Oliveira. 
^ Homero Ortiz La Literatura Portuguesa eti^\ «^^o -sss- 



173 

de Bragança; e a invasão armada, quando a Europa 
n'ella consentisse, terminaria para o "exercito invasor^ 
como a do México para os francezes, pcyr uma vergo- 
nhosa retirada *.» 

Lastima o sr. Fernandez de los Rios a quasi com- 
pleta ausência de relações litterarias na península, e 
o sr. Homero Ortiz accentua ainda mais as suas quei- 
xas^ ao fallar das numerosas traducçoes da marqueza 
de Alorna, e das admiráveis versões de Filinto 
Elysio, Bocage e Castilho, feitas de quasi todas as 
línguas vivas da Europa, bem como do grego e do 
latim, e notam ambos que nada absolutamente se tra- 
dvaa do castelhano, nem sequer um único romance. 

a Quem é responsável doeste isolamente absoluto ? 
Elles, e nós : elles que vertendo para o idioma lusi- 
tano com afanosa presteza todas as producçoes sele- 
ctas da França, da Inglaterra e da Itália, repellem 
com puerirtenacidade, e como contrabando perigoso, 
tudo o que procede das imprensas hespanholas ; nós 
outros, que mesmo prescindindo das ras8es históricas^ 
geographicas, politicas e sociaes, que nos aconselham 
a mais stricta alliança com o reino visinho, devêramos 
estudal-o detida e conscienciosamente pela sua impor- 
tância intrínseca 2.» 

Se a respeitabilidade do caracter do sr. Homero 
Ortiz nos permittisse facécias, embora inofifensivaS; 
responder- lhe hiamos fazendo-lhe notar o pleonasmo, 
das reciprocas versões das obras litterarias^dos dois 
povos, sendo a lingua de ambos elles a mesma, como 
invariavelmente affirmam todos os escríptores hespa- 
nhoes, sem excepção. 

Não o faremos, porém, e de passagem diremos ao 

1 Rumero Ortiz «La liierature portugueza etc,n O auctor foi 
depois ministro^ cremos que da marinm, e go^^ ^\ql H&^^^^^ss&sa. 
de merecidoB créditos litterarios. 
^Idem. Idem. 



174 

sr. Eomero Ortiz que nSio temos a litteratura hespa- 
nhola c(ymo contrabando *. Os homens de letras portu- 
guezes conhecem-n^a e aprecíam-n'a ; mas a saa me- 
nor divulgação é devida ás poucas livrarias hespanho- 
Ias que ha em Portugal, c ao subido preço dos sõus 
livros, em desproporção notável com o preço das obras 
nacionaes, bem como com o das obras francezas. 

Quizeramos dizer alguma coisa acerca do plano 
que o sr. Romero Ortiz seguio no seu livro, mas fal- 
ta-nos o espaço, e receiamos também que o tempo^ 
para ir ao limiar da escada receber a visita do sr. 
Calvo Asensio para que o brincalhão diplomático 
se não offenda com a nossa involuntária desoorteziai 
e nos metta na lista dos portuguezes que só teem 
duas coisas que os façam salir de sus casUlas ; 8u au» 
tonomia y una andaluza! 



^ E inexacto não haver um único romance b espanhol tradu- 
zido em portuguez. Nos últimos mezes do anno findo foram 
vertidos para a nossa lingua alguns romances de Escrich, e 
teve grande voga a «Pepita Ximenes» de D. Juan Valera. A 
traducçâo do «D. Quixote» edição de luxo, que fora confiada 
ao visconde de Castilho, consta-nos que vae ser continuada 
pelo visconde de Benalcanfor; um dos mais notáveis estjlistas 
porfcuguezes. O sr. Pedro Corrêa, edictor da bibliotheca que 
tem o seu nome, encarregou o auctor doeste livro, de traduzir 
alguns dos mais notáveis romances de Fernan Cabailero e será 
proximamentepubli<íada«La Familia de Alvareda» e em seguida 
«La Gaviota.» O movimento do theatro hespanbol em Portu- 
gal, se nao é tamanbo como seria para desejar (oppòe-se prin- 
cipalmente a isso o ser em verso a maioria das peças bespa* 
nholas) é logo immediato ao írancez. Ultimamente represen- 
ta-se com geral applauso no tbeatro de D. Maria II, o magni- 
fico drama do sr. Ecbegaray, «Loucura ou Santidade» e oda 
Trindade continuou a dar -nos Zarzuellas, em substituição do 
reportório exbausto de Ofienbach, sem o publico as ter em 
menos conta. Estes factos, que não teem equivalentes em Hes- 
pajabã, provam que o isolamento littexado de <\iie se <\ueizaiii 
as II0B80B visinboB é mais culpa d^eUes, do c^yxe tíq^^^ ^oiXa.^ 
Ãss/aj, 



175 

Por eftte intróito, vê-se logo quem vae dizer a missa. 
Que serie de desconchavos ! de inepcias ! de frioleiras ! 
A noaaa dignidade pessoal não nos permitte respon- 
der-lhe, como manda a grammatica, pelo mesmo caso 
que se nos fez a pergunta, mas convém não deixar o 
infeliz areonauta perder-se nos espaços, sem o chamar 
momentaneamente ás realidades da vida. 

Deixal-o divagar á vontade na analyse do aspecto, 
da poptdaçãoy deixalo subir tranquillo até ao passeio 
da Estrellá, com tanques de agua corrupta e montanhas 
russas cobertas de ervas damninhas ; deixal-o ir á noite 
ao theatro de S. Carlos, que tem aparência de igreja ; 
deixal-o dizer tudo quanto elle quizer, mas cortemos- 
lhe as azas para que desça á terra, e possamos ouvil-o 
discursar acerca de Camões e de Cervantes ! Depois 
de muito, 

G^astar palavras em contar extremos 

o sr. Calvo Asensio que tom vista de lynce des- 
cobrío que os Lusíadas, era o poema do trabalho ; e se 
havia deixar-se ficar por ahi, descobriu também que 
Vasco da Gama contando ao rei de Melindo as glorias 
e OÃ faqankas dos portuguezes fora o svhlime narra- 
dor das faqanhas e glorias dos NOVOS SEEES SOCIAES 
aàmndos em época não i^emota a/) poder e á sobera- 
nia! ^ 

Leem-se ás vezes coisas em letra redonda que um 
simples mortal chega a desejar que Guttemberg não 
tivesse existido, para que alguns dos seres sócias que 
depois d'elle vieram ao mundo, não abusassem do seu 
invento, como abusou o sr. Calvo Asensio obrigando 
Vasco da Gama a tirar horóscopos como um fazedor 
de almanachs. 

^ Quem duvidar leia «Calvo A^aeivaio» \A^q^ ^\S3L'SKW^ ^ 
ãerá transportado em espirito a «Mattoco^ «i ^fò «ocaa ^^\SãV^-^ 



176 

Pára não fazer aqui colleçâo de descôcos, o que nin- 
guém com certeza nos agradeceria, ahi vai apenas um^ 
para amostra de muitos outros que deixamos inéditos* 
Não o traduzimos para lhe não fazer perder os chis- 
tes : 

eNo bien se habla de su Portugal, a un português, 
levanta la voz, la hueca, se pone en puntas, y con 
campanuda diccion (quem falia!) y gran dilocuente 
estylo, Montesclaros y Aljubarrota y 1640, salen de 
sus lábios como bombas, que atruenan y destruyetf, 
que entonteceu y aplastan. Pêro se con este motivo 
la calma proverbial dei lusitano se altera, es de ver 
como se alegran sus ojos, sonrien sus lábios, se colo- 
rau sus mejillas y respira diíficilmente, cuando con sa 
zezeo encantador una andalusa le dirige palabras me- 
losas, (para onde lhe havia de dar !) ó sin eso, cuan- 
do inprimd sobre la acera su ligera planta y conto- 
neando su flexible cuerpo, pasa a su lado derramando 
sal á torrentes y Uevando-se de calle a cuantos b 
míran. El que quiera hacer la union de Espafia y Por- 
tugal, á buen seguro que con un centenar de anda* 
luzas lo consigne!» 

Este erótico trecho tçm alguns outros que lhe sSo 
competidores em estylo, mas talvez nenhum que o 
exceda em pedantismo litterario : 

Está hecho un Gongera el cielo 
mas oscuro que su libro: 

agora, como mais tarde também, podemos applicar 
ao livro do sr. Calvo Âsensio os dois versos que foram 
primitivamente destinados a um compatriota seu, nBo 
mais emphatico e tenebroso do que o retratista de an- 
daluzas de tomaviagem. 
Em que porém Telemaco segue mvaT\Qíi've\T(i<òXi\j^ 4 
risca as lições de seu mentor é na gamdàft ô^sa ô.^- 



177 

cripçoes, e no pouco escrúpulo em apresentar a sua 
critica em hábitos menoi^es com um desenxovalho que 
ofiende, e fere a vista do leitor. 

Para exemplificação da primeira doestas afirmativas 
indicaremos ao leitor curioso a descripção do panorama 
da cidade de Lisboa, feita do alto da castello de S. 
Jorge, d'onde se ve : «O ceu estendendo o seu manto 
de azul orlado de oiro como uma benção sobre a ga- 
lharda ondina do Tejo, e o Oceano avançando mages- 
tosamentelá ao fundo como se quizesse unir com o annel 
nupcial de formosas algas o rio hespanhol com a 
gentil e poética amada de Luiz Canives» (!). Descri- 
ção esta que rivalisa em primor com as que o auctor 
nos deixou do Chiado, e dos bailes lisbonenses, para 
08 quaes, ao que parece, fora convidado ! * 

estylo é para certos escriptores como o cavallo 
selvagem de Mazeppa. Arrasta os, estorce-os, enton- 
tece-os, prostra-os, sem que elles saibam o que querem, 
liem para onde vão. Se os tenta uma phrase que lhes 
parece bonita, ella ahi vai, embora resulte depois um 
absurdo. Exemplo : 

a Os três palácios. Ajuda, Necessidades e Belém es- 
tão coUocados em frente ao rio, aspií^ando as puras bri- 
sas do Oceano, como se os seus edificadores tivessem 
querido que o sangue da monarchia se purificasse ás 
vezes com o livre amhiante que as h^isas do mar tra- 
zem nas suas azas das republicas amsricanas » .' 

Pois D. Manuel o edificador de Belém, que princi- 
piou o seu reinado em 1495, e morreu em 1557, pen- 
sou alguma vez nas republicas americanas, que esta- 
vam ainda na massa dos possíveis, para poder esperar 
que as brisas do mar purificassem o sangue da mo- 
narchia ? 

1 «Calvo Asensio» «Lisboa em 1870» Paç. 'Z9^bíL Çí^^^sã.- 
guintea. São descripçòea de vaelo-hajo^ ^kíssssò o ^^^ -goWrcv^^ ^^o^ 
gue o auctor nos falia a pag. 64 do ae\x\vno. 

12 



\ 



178 

Pois D. Maria I, a edificadora do palácio da Aju- 
da, a tímida e ascética D. Maria I, que nasceu em 
1734, começou a reinar em 1777, e morreu demente 
em 1816, na única nação da America que ainda hoje 
se conserva monarchica, é possivel que quizesse are- 
jar o palácio que mandara construir, virando-lhe as ja- 
nellas para o rio, no intento ridiculo que o sr. Calvo 
Asensio lhe attribue ? Palavras, e mais nada ! 

Ainda uma observação do mesmo género da an- 
terior, que o auctor de «Lisboa em 1870» pôde alcu- 
cunhar de «patrioteira» como usa, o que não nos im- 
pede de a apresentar. O sr. Carlos Asensio escreveu 
esta necedade (não se escandelise, que a palavra de 
lá veio) : 

«A raça brazileira contaminou com os seus perfis os 
antigos e esculpturaes traços physionomicos que tão 
celebradas fizeram as damas portuguezas» ! ^ 

Santo Deus que disparate ! Supponhamos que os per- 
fis de uma raça contaminem uma outra raça. O Brazil de- 
clarou-se independente em 1816. Apezar da temporária 
residência da corte no Rio de Janeiro, os europeus, e 
com especialidade os portuguezes, conservavam ainda 
um tão mal fundado orgulho da sua superioridade de 
casta, que as allianças eram rarissimas, quasi nenhumas, 
entre os descendentes do povo descobridor e as natu- 
raes da formosa terra de Santa Cruz. Depois da de- 
claração da independência, este estado de coisas não 
se tem sensivelmente alterado. 

Esses a quem o engenhoso escriptor chama brasi- 
leiros, Júpiteres Olympicos da praça do commercio e do 
creditOj novos Mercurios^ etc, e que por fim acusa de 
contaminarem a raça portugueza, são também portu- 
guezes, e, se o trabalho braçal que os enriqueceu 
Mes alquebrou o physico, sem lhes aguçar as intelli- 

^ ^ Calvo Aaenaio.» Livro jâ citado, pag. ^^. 



179 

gencias^ * são pelo menos innocentes na degeneração da 
espécie, embora dêem bailes onde todo o hixo é sevi 
gosto^ e toda a profusão sem aHe ! 

Talvez nos não devêssemos oceupar de um livro 
tão frivolo como o do sr. Calvo Asensio, mas o cara- 
cter official de que esteve revestido em Portugal, e o 
facto da offerta da sua obra ao sr. Femandez de los 
Bios, levaram -nos a esta, realmente imperdoável di- 
gressão. 

Nas raras occasi^es em que o auctor de Lisboa em 
1870 abandona o estylo chocarreiro e deixa de fazer a 
physiologia do brazileiro, para curar de coisas mais sé- 
rias, mesmo então é infeliz. Se no descriptivo lhe so- 
beja o estylo, na polemica politica escasseia-lhe a lo- 



1 O sr. Calvo Asensio escreveu acerca de Portugal sem co* 
nheeimento de causa, como os francezes usam escrever da Pe- 
nínsula. Temos aqui á mão um livro intitulado «De Montraar- 
tre a Séville» assignado por Charles Monselet, e publicado em 
1865. N'elle se Icem as seguintes parvoíces, com pretencões a 
chistosas. «Pour ce quí est des hommes fos de Sevilha) mon 
cher Villemessant, íl vous resscmblent presque tous. lis ont 
le regard droit, le menton orgueilleux, la poitríne bombée. Je 
vous savaísbien parla verve et Tactivité, rincarnation la plus 
complete de Fígaro, mais j 'ignorais que Passímíliatíon fut 
poussé jusqu'au phisíque.» 

A propósito da cosinha sevilhana escreveu o francez: «Ah! 
mísére et cordo! comme dit Thomas Virelo que, 1'épouvantable 
nourríture que cclle de Séville! les bísarres combínaisons! 
Cela doít venir des Bohemiens en ligne directe. Le mets na- 
tíonal, par exemple, dont je n'aí pas retenu, ou plutôt dont je 
n*ai pas voulu retenír le nom, s'apprête d'aprés la recette que 
voici: «De Peau, de rhuile, des vicilles crôutes de paín, de lá 
tomate, des morceaux de melon de Tail, du jambon, de Tognon: 
le tout exposé à Vair pendant trois nuits /*> 

E assim por diante. Gostará por accaso o auctor de «Lis- 
boa em 18709 d'esta enfiada de sensaborias, fi\xb%t\l\3Íwli^ ^ 
critério que faltou ou viajante francviz, -^^^tvít *^\3\ç,^x yv^v^ôx^s^s^- 
mente de Sevilha? Pois não será maVa eox^«A,Q ^^\^sÀ:5is^^^ '^'*»- 
crerer depois de estudar? 



' 180 

gica. N^aquelle espirito turbulento nao ha compensa- 
ções. Ahi vae a prova: 

«O que é o iberismo? Em Hespanha uma idéa ex- 
plorada em prejuiso das boas relações dos dois povos 
peninsulares, pelos governos reaccionários, etc.» 

« Em Portugal um brinquedo com que distraem o 
povo, para lograr realisar-em troca ambições desme- 
didas; uma arma de ataque e de defeza para derri- 
bar ou sustentar situações politicas determinadas, quan- 
do o não é de torpes manejos, de invejosas altercações . 
para acordar e sublevar as paixSes contra a gloriosa 
revolução de Setembro.» 

Em assumptos graves, como este, deve ter opiniões 
fixas, boas ou más, quem quizer que o seu nome seja 
invocado como auctoridade. Em politica, os cataven- 
tos nem para ornamentação prestam de pavilhões chi- 
nezes. Quem escreveu o que acima fica citado, a pa- 
ginas 93 de um livro, deu-lhe quasi em seguida o des- 
mentido, e formal, a paginas 96 do mesmo livro ! 

Veja se, e compare-se: 

« Em Portugal ha aspirações e tendências ibéricas, 
e ha as enérgicas e decididas, e muito arreigadas, mas 
como um dos themas patrióticos é a autonomia^ o que 
em coisa alguma ofifende aquellas, e como uma das 
causas de rancor, e de impopularidade é o que os 
ambici sos exploram com a designação do iberismo, 
concluo o sr. Calvo Asensio, que ^or isso os seus defen- 
sores, receiosos, indecisos, se lançam nos azares de 
qualquer novidade politica para com ella disfarçarem 
e desfigurarem as suas verdadeiras crenças. » 

Vamos a contas. Então o iberismo é arma de parti- 
do, ou não é arma de partido? Sao as ambiçdes, ou 
são as crenças individuaes que o determinam ? Os ibe- 
r/co8 (a havei os) são enérgicos^ decididos, e teem 
convencimentos arreigados : ou sao , iindecxsos, Tec«.lo%o%^ 
^ esconde9n cavilosamente as mas crcuí^tts ^qt ã^Xx^sl ^^ 



181 

outros pretextos políticos ? Ambas as opiniões ahi ficam 
textualmente exaradas, á espera de algum futuro com- 
mentador que as harmonise entre si, se o próprio que 
as pôz em circulação não quizer ter a condescendência 
de unir Babylonia com Sião, provando-noa que o ibe- 
rismo é pretexto e é facto ; e demonstrando com a 
mesma lógica, que os seus adeptos são enérgicos e in- 
decisos, tudo ao mesmo tempo, para lionra e gloria... 
do fabricante privilegiado de contrasensos politicos. 

Por infelicidade do sr. Fernandez de los Rios, de 
quem nos havemos esquecido, não por ingratidão, mas 
pela necessidade de acudir a outros chamamentos, é o 
«r. Calvo Asensio quem, depois de escrever o que ahi 
ficou para se ler, diz em tom semi-prophetico. 

« A todas estas necessidades (intellectuaes^ mate- 
riaes e moraes) tem tratado tie acudir o nosso insigne 
representante em Portugal, D. Angel Fernandez de 
los Rios, uma das mais legitimas glorias da Revolu- 
ção, e bem podemos affirmar sem receio de nos en- 
ganarmos, que se a ordem de coisas em Hespanha o , 
permittir, e em tão honroso posto continuar por mais 
algum tempo, que a sua estada em Lisboa ha de ser 
fecunda em grandes e trascendentaes consequências 
para a nova ordem de relações que hão de ficar esta- 
belecidas entre os dois reinos, e o seu nome ha de 
ser o lema e o symbolo de uma era de progresso e 
de regeneração na vida peninsular das duas nobres 
quanto desgraçadas nações. » 

Até que afinal acabou! A parcimonia da virgula- 
ção doeste periodo ia-nos desalentando a meio do ca- 
minho. Felizmente chegamos. A que? A promessa 
de um El Dourado com que havemos topar em jor- 
nada antiga, de caleça, e por estrada... que Deus li- 
vre os nossos inimigos de percorrer, como nós temoa 
feito por descargo de conscletvcva.^ e ^\íí ^^^-s^^^^fs^^ ^"^ 
nossos peccados. 



CONCLUSÃO 



Aârontará e vilipendiará a historia quem 
unicamente tratar de cerzir-lhe os retalhos 
á capa do publicano. Nâo é officio digno 
d'ella o fazer de estribilho banal em tres- 
loucadas saturnaes. Tem ahi a humanidade 
o seu deposito de experiência, que é patri- 
mónio venerando e logradoiro commum. 

Mendes Leau As Duas Penínsulas. 



La politique faisait autrefois partie de 
la philosophie; mais depuis quelques années 
il 7 a eu entre elles une separation qui 
n*est à Tavantage ni de Tune ni de Tautre. 
La philosophie s^est plongée de plus en plus 
dans les abstrations; et la politique^ au lieu 
de se rattacher à la mor ale, à vecu aujour 
le jour, gouvemée par les passions et les in- 
térêts. 

Jdles Sihon. La Liberte, 



Por que, e fundado em que auctoridades, a não ser 
a sua própria, mais de que suspeita depois dos docu- 
mentos a que deu publicidade no seu livro, ousou o 
sr. Femandez de los Rios applícar a Portugal o inju- 
rioso epitheto de Enfermo do Occideut^^í 
Enfermo desde quando? Q^via^^ «Ã.o ^^ ^^«^ofe*"^^^;? 
ad enfermidade ? Que medico & eouÀçsiw. ^^ ^'^^^^^ 



184 

da sua clinica? E aguda, ou chronica a sua doença? 
Para quando está reservada, na casa dos obituários das 
nações illustres, a morte de Portugal? 

Quaes são as nacionalidades que teem morrido? 

A Grécia? 

Essa já resurgiu pelos heróicos esforços de seus fi- 
lhos, representados pela voz de um grande poeta pe- 
rante os congressos europeus. 

A Hungria? A Polónia? Não haverá resurreição 
para as nações que andam asphixiadas pelos amplexos 
brutaes de outras nacionalidades? Não acorda de vez em 
quando a Europa ao ouvir um gemido ; e não será 
esse gemido um signal de vida, um chamamento aos 
que podem, contra a prepotência dos que abusam? 

Pois a Irlanda não suspira ainda pelas suas fran- 
quias nacionaes? Não foi 0'Connel o representante das 
♦ buas aspirações, e não será ainda hoje um outro 0'Con- 
nel o porta- voz das suas maguas ? Pois a Escossia da 
actualidade não será, agora mesmo, a Escossia de 
Maria Stuart, a que jura nas palavras de Walter 
Scott, a que se electrisa ao ouvir o som monótono das 
musicas nacionaes? 

Pois as Vascongadas não teem derramado o melhor 
do seu sangue para se esquivarem á honra de fazer 
parte integrante de uma monarchia que pretende des- 
alojal-as das suas seculares franquias ? 

Pois a Gallisa — a soffredora GaUisa — não é uma 
terra que chora, uma elegia que geme, uma Jerusalém 
que se dispersa? 

Para que trabalham os poli ticos, os da idéa nova e 
os da idéa velha são todos o mesmo, para ferir no 
coração os Achilles, que só teem, como o da mytho- 
logia, vulnerável o calcanhar? 
A vulnerabilidade existe, seja.ella em. <\iie pon- 
/» /or de uma nacionalidade, maa av[ià.a ívaÃwa, 
protesta contra, as absorpçSes •, e desaba, idãjcí \ic» xo»- 



185 

mento, mas pelo correr dos tempos, o Sagitário que a 
feriu, a que possa de vez dar-lhe a^uorte, que cuidou 
levar-lhe, quando, abusando da força ou da destreza, 
visou a prostral-a para nao mais se erguer. 

ENFERMO DO OCCIDENTE ! 

Voltemos a meditar na injuria, voltemos a pedir 
contas ao coveiro, exigindo-lhe que nos reserve espa- 
ço largo e honrado para sepultura da nossa naciona- 
lidade. O que se lê nos registos agoureiros do sr. Fer- 
nandez de los Rios, que nós n^o tenhamos já desfeito 
em pó, como o pó que e!le levantou ao varrer a tes- 
tada da nossa historia pátria? 

Somos enfermos de longa ou de moderna data? 
Qual é a nação que tem os seus annaes purgados de 
infâmias, a sua realeza limpa de chagas, o povo lavado 
de ruins' paixões ? 

A Inglaterra, açoita e enforca. A França, calumnia 
e guilhotina, A Itália, apavora-se e dcv^honra-se. A Al- 
lemanha acovarda se e enfeuda se. A Peninsula Ibérica 
allumia se com as fo,':çueiraá da Inquisição, deixa-se 
cegar com os descobrimentos de além-mar, joga como 
um lazaroni ao sol das suas glorias as riquezas do 
Oriente. Isto emquanto ao passado. 

É de hoje que Portugal anda enfermo? Mas desde 
1834 que elle entrou no giro das nações cultas. De 
ha muito que aboliu a pena de morte ; de ha mais 
tempo ainda que não manchava o branco da sua ban- 
deira com o sangue de um sentenciado. 

Anda atrazado, esquiva- se a acompanhar o século 
nas ousadias dos seus commettimentos ? ^ Onde estão 

1 Da rápida analyse que fizemos das convençces ultimadas 
çom aHespanha, e das quefícarumaiuda pendentes de solução, 
86 conclua que muitas d'ellas foram de iniciativa portugueza, 
renovada pelo sr. Fernandez de los Rios; e outras nao pode- 
ram ser aeceitas pela, iíioportumdade da. 0(ys.«*.«vSjc>^ ^\isv qjçsã. J^^- 

ram apresentadAS, Cos tuma-se' dizer amigos, amigos*, ue.^oç.\.o% í>* 



186 

as provas? Dos despachos diplomáticos do nosso ac- 
cusador conclue-se que o espirito nacional estava vivo 
e alerta, quaudo, em nome das complicaç8es eoropéas, 
o convidavam a deixar-se ei^ibair pelas perspectivas 
de um mais largo theatro em que podia desenvolver 
a sua acção. ^ 

Falta-lhe a instrucção popular? Progride de anno 
para anno. ^ 

Nao é invejável por em quanto o seu desenvolvimento, 
mas é aquelle a que pôde accudir o orçamento do Es- 
tado. 

Nào tem uma litteratura accentuada, caracteris* 
tica, expressão genuína do seu progredir intelle- 
ctual? Tem. Confessa-o o sr. Romero Ortiz, e o pró- 
prio sr. Fernandez de los Rios a vê despontar na ge- 
ração que se prepara para substituir a que existe. ^ 



1 Fernandez de los Rios Mi Misioti despachos relativo ás 
candidatura do sr. D. Fernando. 

2 A beneficência sustenta na cidade de Lisboa e seus arre- 
baldes 41 estabelecimentos escolares; asylos, recolhimentos e 
escolas. O numero total dos alumnos é de 3:072; sendo 1:516 
do sexo masculino, e 1:5Õ6 do feminino. Exceptuando os re- 
colhimentos e a Casa pia, todos estes asylos e escolas sâo de 
fundação posterior do anno de 1834, e a maior parte posterior 
a 1857. 

D. António da Costa. A Instrucção Nacional. Lisboa 1870. 

As escolas existentes no reino em 31 de dezembro de 1872, 
eram 1:944 do sexo masculino, e395 do feminino, áfóra as de 
ensino particular que tem tido um progressivo desenvolvimento. 

Annttario Estatistico do Reiíio de Fortmal, relativo a 1875. 

3 ('Para la nacion que en los albores dei siglo XIX produjo 
á Quintana, á mediados de él á Espronceda, y que hoye halla en- 
tregada á las corrientes de un lirismo banal, reducida a ma- 
drigales inspirados en los salones de un mundo gastado, viejo, 
absurdo, farsante y testurado, como los alquinistas do la edad 
media, habia de ser altamente sorprendente la noticia de la 

re^e^ieracwn litteraria nacida em Coimbra, ealeudida á O ^orío, 

a^ aUl á todo JPartugal^ e que algun à\at W^NOtk k1ÈA«^^;i.\^ 

tendência, nueva de Francia, y pncipaXmeut^ à^i àlLç^iwà^, ^ 



187 

Anda pervertido de costumes o Enfermo do OccU 
cíen^? 6astaram-lhea vida as orgias das revoluções, ou 
empobreceu lhe o sangue a vida sedentária que tem 
levado, como espectador, não desinteressado mas pru- 
dente, das luctas travadas na solução de problemas 
sociaes pendentes ainda de uma interrogação? 

Dos seus bons costumes dão fé os mesmos que to- 
maram o pulso ao doente, e lh'o encontraram batendo 
pausado, regular, sem as incertezas da infância, e 
sem as debilidades da velhice. ^ 



abandonar Ias queridas pêro ya secas fuentes de upa inspira- 
cion gastada, ete. 

Jtemandez de los Bios Mi Mision, Pag. 654. 

La Literature Portugueza en el siglo XIX. Não faz a synthese 
d^ella o sr. Homero Ortiz ; mas na analyse indivual dos poetas 
e prosadores contemporâneos pòe em relevo a sua valia e im- 
portância. 

^ Fallando na tranquillidade e socego com que em Portugal 
correm invariavelmente as diversões populares diz o sr. Calvo 
Asensio: 

«Quizá se diga que pueblo que a si obra no sabe divertir- 
se, es cierto: pêro yo aiiadiré, que sé es una verdad indudable 
que la libertad se gana a tiros y se pierde á gritos, poços 
pueblos conozco que por sus condiciones de carácter esten 
como el portuguez en aptitud para no perderia j amas. No sa- 
brá divertir- se, pêro si ser libre.» 

Apezar da ironia da phrase, registamos a verdade das con- 
clusões do auctõr, que mais adiante escreverá? 

En Portugal hay libertad; el pueblo la comprende, y á 
ella está habituado, ha ce de ella conveniente y legitimo uso, 
BÍniamás comprometeria com imprudências revolucionarias. • 
«Calvo Asensio» Lisboa em 1870. 

Mientras esos periódicos espailoles se complacieron en re- 
petiria profecia de que el pueblo portuguez faltaria por pri- 
mera vez á su cultura y cortesia^ cuando yo llegaba aqui in- 
vestido com la representacion de Espaiia, los periódicos por- 
tuguezes, sin exceptuar uno solo, me recibieron con el saludo 
mas lisonjeiro, y se complacieron en consignar la cordial aco- 
gida gue aqui é debido á todas las clOises de la Boc^-veÂ.aA.^i» 

Femandez de los Rios. Ml M.\«t<m. 
La interesB&nte nacion portugueza ae âÀa\!va^^ ^"^ 'vwíks^ 



188 

Teme o Enfermo do Occidente abandonar o regimen 
hygienico, a que anda afFeito, para se sentar á lauta 
mesa dos Luculos que com tanta insistência o convidam 
a tomar n^ella um logar? Nâo teme. Furta-se apenas 
a associar-se á intemperança dos amphitriôes que lhe 
andam a fazer negaças com a fartura e lusimento dos 
banquetes que a elles próprios tem quebrantado as 
forças, e arruinado a saúde. * » 

Viverão os operários nacionaes sequestrados ao co- 
nhecimente e á influencia das theorias que as classes 
labor*osas hoje acceitara como seu credo, e defendem, 
não como .carta de alforria, mas como direito do quai'- 
to estado f a invadir e a apropriar se das conquistas da 
burguesia? l^ão vivem. Em Portugal os que traba- 
lham conhecemos seus direitos, e os governos respei- 
tam-lhos, sem regatear a parte que lhes toca no di- 
videndo da prosperidade publica. ^ 



las demas, por la acogida que da á los estraujcros y muy espe- 
cialmente á los espaíjoles, á qiúenes trata como á hermanos; y 
entre los mas relevantes cualidades que adornan a sus natu- 
rales, sobresale la hospitalidad, y los obséquios desintressados 
que pródiga á sus huéspedes, no reservando- se las noticias 
ni-dato» de todo género que se soliciten, aun cuando no sean 
favorables á su bello paiz.» 

«Aldama. Compendio Geográfico.» 

1 Recordamos ao leitor o que fica escripto no capitulo IX 
d'este livro, com relação ao descrédito a que baixaram os fun- 
dos hespanhoes, e a influencia que essa baixa teve em Portu- 
gal, alterando momentaneamente o nosso viver económico, e 
ferindo os interesses de algumas casas bancarias. 

No momento em que escrevemos o estado financeiro da Hes- 
panlia nâo melhorou, depois do acabamento da guerra civil. 
Portugal, pelo contrario, venceu a crise, e, apezar das actuaes 
complicações da Europa, nao se recente da desconfiança dos 
mercados estrangeiros. 

2 Lisboa conta 85 associações de soccorros mútuos, com 
una 30:000 socioB efifectivos ; o contineiite ^oilxi^^i, 360 com 

70:000 sócios, e um movimento de 40:000 dvitoa. k à$>?i ^^ct^- 
r/os fundidores de metaes, excepto oa oçeT».t\oa ^o^ «c^^\iafò^^ 



189 . 

Tao deveras mal se sentmi o Enferno do Occidente 
que dispenda na pharmacia todos os recursos de que 
disp8e para accudir aos seus achaques, e os atenuar, 
fazendo contraste pelo desperdício, com os amigos in- 
teressados na herança, que lhe mandaram pôr á ca- 
beceira do leito da agonia, tao solicito enfermeiro e 
hábil medico? Tal se nào sente Portugal. Não poe de 
parte economias para os últimos dias de vida, mas 
olha sem inveja para os visinhos que lhe andam a 
namorar os haveres, para com elles pagarem os al- 
cances a que os levou uma louca prodigalidade. * 

do caminho de ferro, e da companhia do gaz, que nao tiveram 
que reclamar foi sustentada pela Associação Fraternidade ope- 
raria, a mais importante sociedade de resistência que existe 
em Portugal. Conta cerca de 7:000 operários, a entrada sema- 
nal dos sócios regula, termo médio, por 90, compondo-se a 
mesma associação de 43 classes, das quaes as mais importan- 
tes pelo numero sào as seguintes: operários das fabricas de ta- 
bacos, 960 homens, e 630 mulheres: Serradores 600 homens; Cala- 
fates,34:0. Carpinteiros navaes, 300. Tecelões 280, e 260 mulhe- 
res. Ferreiros, 1 60 homens. Fundidores, 120. Torneiros, 100. Tra- 
balhadores, 250. Sapateiros, 200, Typographos, 150. Carpin- 
teiros, 120. Marceneiros, 160. Encadernadores, 40. Marinhei- 
ros, 90. Serralheiros, 50. Pedreiros, 100. Canteiros, 180. Cal - 
deireiros, 90, Barbeiros, 80. Costureiras 40. Alfaiates, 60. 
Cada associado paga 130 réis por mez, mas nos casos graves 
duplicam, ou treplicam as quotas. A distribuição dos subsídios 
faz- se segundo a família dos sócios, ,e necessidades do operário 
e nunca pôde ser egual ao jornal. E sempre menos. 
«Costa Godolphin.» A Associação, Historia e desenvolvimento 
das Associações portmigezas. 

sr. Fernandez de los Rios, aprovei tou-se doestes algaris- 
mos para com elles demonstrar que a « Internacional »í tinha em 
Portugal mais auxiliares do que em Hespanha ! 

1 «Que ganharia Portugal com a perda da sua autonomia? 
Poder? Já ficou demonstrado no correr d'este opúsculo, que 
tem vastos elementos para se defender, e que, nâo aspirando 
a conquistas^ tem o poder sufficiente.» 

ff Melhores condições económicas? As de^^^^^sJcia^^ajci^è'^'^»- 
r€8 qae as nossas. As suas despezaa panca^ o ç,TL^x<£\èv<i ^^^^S^ 
excedem a 121.000:000íí000 réis. Comwma^ pQ^\s\a.^%íi^<ix^'^^^ 



. 190 

Tão alheio andará já o Enfermo do Occidente ás 
coisas doeste mundo, que oiça impassível discutírem-lhe 
o testamento, e veja os traficantes rasgarem-lhe a tú- 
nica a pedaços, para os porem em almoeda á mercê 
de quem mais der? Também assim não é. O Enfer- 
mo accpde ainda em vida pelo seu credito, mal bara- 
teado pelos vendilhoos, e protesta contra as partilhas que 
os judeus querem fazer do seu nobilissimo espolio. * 

Que Enfermo é este pois? Nós, que não andámos 
uns poucos de annos de gancho em punho, como um 

três vezes e meia maior do que a nossa, os seus impostos nâo 
deviam ir alem de 56.*000:000jÍí000 réis para nâo serem maia 
elevados que os que actualmente pesam sobre os nossos con- 
tribuintes, na importância de réis 16:000:000)^(000. Se a receita 
entre nós for elevada, como é preciso, a 21:000:000iíl000 réis, 
importância media das despezas votadas nos últimos annos, 
ainda a Hespanha para estar em proporção, não deveria con- 
tribuir senão com 74.000:000)^000 réis. O seu excesso de des- 
peza, e por consequência do vexame para o povo, é pois na 
primeira hypothese de 65.000:0005^000, e na segunda de 
47.000:000i^000 reis!» 

Mdlo e Faro. — Forças defensivas de Portugal. — 1868. 

Este estado financeiro peorou ainda posteriormente a esta 
época, emquanto que Portugal tem mantido invariavelmente 
o seu credito nas praças estrangeiras. 

1 De 1868 a 1872, período que envolve os dois annos mais 
diíHceis da representação de Hespanha em Portugal, publica- 
ram-se trinta e tantos folhetos e opúsculos com relação directa 
a negócios de interesse peninsular. 

Distinguem -se entre elles: Os Perigos «pelo sr. Andrade 
Corvo.» As forças defenMvas de Portugal <fpelo sr. Mello e 
Faro ; e» Portugal e a stm autonomia^ em reUição ao novoprifi' 
cipio das nacionalidades segundo as ra^as. 

Anonymo. 

A maioria dos auctores dos folhetos a que fizemos referen- 
cia é partidária das idéas politicas e sociaes as mais avan- 
çadas. Ainda assim, entre eljtei só houve dois que francamente 
se manifestaram a favor do iberismo, debaixo da forma fede- 
ra^iva, republicana. O que se passou, no pa.T\aviie,xi\.Q 'çc^xtvv^^^ 
vae mencionado em outro legar à^esteWvYO ^^\í^vlq ôi^TviStvsa. 
de ^£>oeumento8 Parlamentares.» 



191 

trapeiro^ apanhando da lama e accolhendo na alcofa 
quantas aberrações tribunicias, e quanto fel de ambi- 
ções despeitadas vomitam os prelos da imprensa jor- 
nalística^ também podiamos, se o julgassem digno de 
nós, mirar por todos os lados o Lazaro que nos in- 
sulta, e contar-lhe uma a uma as pústulas incuráveis 
que lhe corroem o corpo. 

O que foram os últimos annos do reinado de D. Isa- 
bel n, senão um grito de desalento de todos os pa- 
triotas hespanhoes, um brado unisono de descrença, 
de todas as classes, um inventario minucioso e des- 
camado das misérias da Hespanha? 

O que nao escreveram então de desconsolador e 
hictuoso, na imprensa periódica, os senhores Canovas dei 
Castillo, Carlos Rubio, Calvo Asensio, Castellar e o 
próprio sr, Fernandez de los Rios? Não foi também 
tantas vezes o parlamento hespanhol o ecco de senti- 
das queixas, o ouvinte de eloquentíssimas apostrophes 
contra as iniquidades dos governos, o denunciador aus- 
tero da decadência e da ruina da pátria? 

Que portuguez se lembrou nunca de encher as tá- 
buas chronologicas da vida constitucional da Hespa- 
nha com as suas revoluções periódicas, as sua liberda- 
des falseadas, e o seu predominio de caserna, atrophi- 
ando as aspirações generosas do povo, e recordando 
em pleno século XIX as tropelias sanguinárias do im- 
pério moscovita, durante, e depois do reinado dos 
successores de Pedro o Grande ? 

Logrou a revolução de 1868 por um prego na roda 
dos desatinos financeiros de Hespanha, dar um golpe 
de morte na reacção religiosa, aniquilar para sempre 
as esperanças dos absolutistas, pôr o cidadão a cober- 
to das demasias do soldado? • 

Não nos parece. Quatro governos se tem succedido em 
JSeBpaha, desde que nos camçoa âi^ J^^^^ò^ '^Ã.'?sa^'5í^ 
um tbrono, ao justificado grito àe ^aXiÍY&.o c>^ ^^n«.- 



192 

bons ! » Tentou então â mãe cobrir o filho com a égi- 
de da sua renuncia pessoal ao throno de que a esbu- 
lhavam, e essa mãe não foi ouvida. A republica, inter- 
pondo-se depois entre uma abdicação e o incógnito^ 
não poude consolidar -se, nem mesmo aos sons mágicos 
da lyra de um grande poeta. 

Castellar, como Lamartine em 1848, logrou reali- 
sar parte dos milagres attribuidos á lyra de Orpheu, 
mas só não poude congraçar entre si as facções, nem 
obstar a que a monarchia resurgisse, symbolisada no 
representante de uma familia proscripta. 

Quem deu, tornamos a perguntar, direito ao sr. Fer- 
nandez de los Bios para insultar uma nação, que os 
seus compatriotas estimam, e que, nos annos calami- 
tosos em que um grande cataclysmo parecia ameaçar 
a Europa, se conservou prudente espectadora das de- 
masias demagógicas, para que lhe estavam fazendo 
convite, e dando o exemplo, dois povos da raça latina ? 

Redarguir nos-há o sr. Fernandez de los Rios, di- 
zendo que só lhe pertence o rotulo, a taboleta, a synthe- 
se affrontoea com que nos aponta á compaixão da £i^ 
ropa, que tudo o mais é nacional, e por elle escrupulo- 
samente extraído dos archivos da polemica ^ria 
do jornalismo portuguez. 

Seja. O que pretende provar com isso o esquadrí- 
nhador de desalentos, o inventor não, o applicador des- 
astrado de uma brutalidade russa a uma nação vi- 
sinha, chamando-lhe o ENITERMO DO OCCIDENTE, maca- 
queando assim a designação dada á Turquia por um ou- 
tro diplomático da escola dos insultadores de profissão? 

A que propósito vem aquella comprida lista de no- 
mes, com que o sr. Fernandez de los Rios pretende 
authenticar a decadência de Portugal, nos últimos ca- 
pitúlos ào fieu livro ? * 

^ Estes capítulos tem por titulo : «Algo sobre ôbmwuo ^ra 
^ ç^i^ nopueden vivir sin hahlar de cl» e «Falso potrlotiwwi,» 



193 

No cabeçalho da lista do nosso diffamador appare- 
cem, para desde logo a tornar suspeita^ os nomes do 
duque de Palmella, de Alexandre Herculano, de José 
Estevão, de Almeida Garrett, e de Casal Ribeiro ! 
Todos elles, são, ou foram, políticos notáveis; e quasi to- 
dos elles foram, ou são, homens delettras de primeira pla- 
na^ e como taes acatados sem divergência, entre os 
seus conterrâneos. Como, a não ser por uma calcula* 
da má fé, e para lançar poeira aos olhos dos ignoran- 
tes^ só da feição politica, momentânea e transitória, 
d'aquelles vultos illustres, se aproveitou e serviu o be- 
duíno das nossas glorias, quando, nas paginas amplas, 
abertas e meditadas, dos livros de qualquer d^elles, 
eacontraria o sr. Femandez de los Rios a demonstra- 
ção do patriotismo de seus auctores, e adquiriria o 
convencimento, se é que o não tinha já (profundo e ar- 
rogado) de que o iberismo é a negação do sentimento 
nacional. 

Pois o sr. Fernandez de los Rios não encontraria a 
cada passo, querendo dar-se a esse trabalho, nos dis- 
cursos parlamentares do duque de Palmella, e nos seus 
despachos diplomáticos, um milhão de phrases a des- 
mentir a affirmativa de que, depois da separação do 
Brazíl, Portugal não tinha outro caminho a seguir mais 
do que o de unir-se á Hespanha? 

Pois o sr. Fernandez de los Rios pôde ignorar que 
Almeida Qarrett foi o patriótico auctor do Alf agente 
de Santarém^ o accentuado inimigo do iberismo nos diá- 
logos inimitáveis de seu immortal Fr,ei Luiz de Sousa f 

Pois o sr. Fernandez de los Rios pôde affirmar que 
Alexandre Herculano, o eminente historiador, o épico 
romancista, o poeta das grandes idéas vasadas em 
moldes viris, seja homem para renegar da pátria, ou 
para zombai:, irreverentemente d'ella, em face de ea- 
trãpgeiíva JOHlevolçs ? 
Foi8 um período destacado de \3ixas. ^\M^x\fò^^\^ 
18 



194 

um dos volumes da Hislm^ia de Portugal poude fa- 
zer crer ao critico, embora previnido, que o maior 
vulto litterario portuguez se pozera no que escrevera 
ao serviço das suas intrigas diplomáticas? 

Nunca, por acaso, leria o sr. Fernandez de los 
Rios estes versos de Alexandre Herculano? 

Se em breve 
qual jaz Sião, jazer deve Ulysséa : 
se o anjo do exterm;nio ha de riseal-a 
do meio das naçSes, que d'entre os vivos 
risque também meu nome, e não me deixe 
na terra vaguear orphão de pátria 

Poife o sr. Fernandez de los Rios, que tão jul)iIo80 
se mostrou ao recordar- nos o doloroso incidente da 
barca carias e Jorge j esqueceu- se já de que foi José 
Estevão, o eloquentissimo tribuno, quem vingou Por- 
tugal da aflfronta, sem lhe acudir, era impossível acu- 
dir-lhe ao pensamento, que uma nova pátria, cha- 
mada Ibéria^ podia pôr-nos a coberto dos ultrages da 
força bruta? 

Pois o sr. Fernandez de los Rios já varreu da me- 
moria as replicas patrióticas, dadas pelos srs. Andra- 
de Corvo e Mendes Leal,* a algumas das suas notas 
mais provocadoras da confirmação oflBcial de que so- 
mos portuguezes, e que outra coisa não queremos 
ser senão portuguezes? 

A litteratura foi sempre, e é ainda hoje a represen- 
tante quasi exclusiva das nacionalidades. Os editores 
dos discursos parlamentares do conde de Cavoui^ escre- 
veram, na advertência que os antecede, estas signifi- 
cativas palavras : « Esta idéa da nacionalidade italia- 
72a, de ^e a litteratura tinha guardado desde o 
J?ante a magnifica tradii^ào^ nao tinha avnda "podÀ^A 
f J^ersontficar se em um Jiomem do puXso e Ao» JcmsuWax- 



195 

des de um homem de Estado. Aljieri^ Foscolo, Man- 
zonij Bolho j Gioberti, o próprio d^Aseglio foram litte* 
raios j de preferencia a políticos . 

Procure o sr. Fernandez de los Rios, na litteratura 
portugueza, o qae andou a mendigar pelos noticiários 
dos jornaes politicos, e verá então que o sentimento da 
nacionalidade portugueza, como o da nacionalidade ita- ^ 
liana, se tem conservado incólume atravez dos sécu- 
los. 

Em considerar e acceitar as obras litterarias como 
a mais genuina expressão das nacionalidades não houve 
originalidade nos editores do conde de Cavour. Ma- 
caulay e Taine são de accordo com a mesma idéa, 
dando lhe o desenvolvimento que ella merece. 

Mictelet lastima no seu livro O Povo que os roman- 
cistas francezes, acanhando e ridicularisando as figuras 
nacionaes, elevem as inglezas no conceito dos seus lei- 
tores, distribuindo-lhes a parte nobre na urdidura e 
no desenlace da acção das obras litterarias. 

Já que falíamos de Michelet, e o capitulo do livro 
do sr. Fernandez de los Rios, que se suja com o titulo 
de O ENFERMO DO OCCIDENTE seja precedido de um 
outro capitulo, designado por, Falso Patriotismo y e a 
ambos elles sejam applicaveis as observações do insigne 
historiador francez, ahi as transcrevemos para que o 
philosopho das ensenanzas de mavUrna, aprenda, com os 
ensinamentos de hontem a respeitar as idéas de pátria 
e de nacionalidade. 

a A nacioíialidade, a pátria, será sempre a vida do 
«mundo. Morta ella, tudo morrerá. Perguntae-o ao po- 
«vq, elle conheceo, e elle vol-o dirá. Perguntae-o á 
«sciencía, á historia, á experiência do género huma- 
«no. Estas duas grandes vozes estão de accordo. Duas 
«vozes? não: duas realidades, o (\ue é^ ^ q q^<:í. ^<5fs.^ 
€contra uma, vã abstracção. f 
Em outro logar do mesmo \\vro^\^-^^^ 



196 

«Para acreditar que as nacionalidades vSo desap* 
«parecer em breve, conheço apenas dois meios: 1.^ 
«ignorar a historia, ou sabei a por formulas ôccas^ como 
«os philosophos; que a não estudam nunca ; ou entjto 
«por legares communs litterarios, para conversar^ 
«como as. mulheres a sabem. 2.^ E, não é só isto ; é 
•«preciso também desconhecer a natureza tanto como 
«a historia, esquecer que os caracteres nacionaes de 
«modo algum derivam dos nossos caprichos, mas sSo 
«profundamente fundados na influencia do climai da 
«alimentação, dos productos naturaes de um paiz, que 
«se modificam um pouco, mas nunca se apagam. 
«Áquelles que não são assim ligados pela physiologia 
«nem pela historia, áquelles que constituem a huma- 
«nidade, sem quererem saber do homem nem da na- 
«tureza, é lhes fácil apagar as fronteiras, obstruir od 
«rios, nivelar as montanhas. Comtudo, previno-os eu, 
cas nações continuarão a existir, se não entrar também 
«nos planos d'elles .aniquilar as cidades, os grandes 
«centros de civilisação, onde as nacionalidades concen- 
«tram a sua verdadeira caracterisação.» 

Ouviu, o sr. Femandez de los Rios? Ouviu esta 
voz, que se julgou aucterisada para se dizer a voz da 
historia, e da experiência do género humano? Se a 
ouviu, medite n'ella, e poupe Portugal ás arrogâncias 
da sua phrase empolada, ás inducçSes mela^cjaolica8 
dos seus horóscopos de alchimista. 

Mas, volvamos atraz, que ainda se não esgotou a 
lista dos que descrêem da pátria, e renegam da nacio- 
nalidade. 

Lede — a Casal Ribeiro, Li^tino Coelho, Lopes de 

Mendonça, Thomaz Ribeiro, Freitas e Oliveira, Theo- 

philo Braga. A imprensa toda, isto é : Luiz d'Almei- 

da e Alhuquerant^ Maríanno de Cai-valho, Custodio 

Joaé Vieira, Eduardo Coelbo, e kvitomoILTfli^^^^^j&sjs^ 

quantos pensam: e todos quantoa e^ç^^eiN^oA 



197 

Mentira . Duas^ e três vezes mentira . 

Casal Ribeiro não carece de que o juiz lhe nomeie 
advogado ex-officioj para sair absolvido da accu8aȍao. 
Foi elle quem a si próprio eloquentemente se deffen- 
deu na camará dos pares, em maio de 1869. 

Foi também na camará dos pares, que Latino Coe- 
lho assumiu a responsabilidade, theorica, dos prólogos 
que escrevera para duas obras de propaganda ibéri- 
ca, confessando -se alheio, mais do que alheio, adver- 
so, a qualquer tentativa pratica de iberismo. 

Desconfiar da inteireza patriótica de Lopes de Men- 
donça é profanar a sepultura de um martyr! O tra- 
balho matou aquelle obreiro consciencioso da civiHsaçâo 
e do progresso, a quem, mais do que a nenhum ou- 
tro escriptor contemporâneo, a sociedade f8ra madrasta 
nos primeiros annos da sua iniciação de pensador. Por 
amar a pátria é que elle se doía de a vêr aviltada: 
por a julgar abatida '(sobresalto de filho extremoso!) foi 
que elle uma vez, única na vida, e em horas de desanimo, 
pensou que a engrandecia pondo a debaixo da tutella de 
estranhos. 

Do auctor do D. Jayme falia por elle o seu poema; 
a sua procedência beirôa ; a sua palavra, sempre ao 
serviço da independência e da autonomia nacional. 

No próprio jornal de que Freitas de Oliveira foi 
coUaborador, se encontra em cadacolumnad'elle o des- 
mentido ás idéas que pretendem attribuir-lhe. 

Theophilo Braga é, por emquanto, um ambicioso de 
popularidade, um talento que quer fazer a synthese 
de todas as coisas, não lhe havendo ainda a edade 
permittido proceder á analyse reflectida de cada uma 
d^ellas. Rólla, como Sisypho, o penedo das suas abstrac* 
ç8es ao tdpo de todas as theorias escabrosas, para o 
vêr descer em um momento ao ^o\í\.<ò ^^ ^^^íwSjôvsv.* 

E a iThprenaa periódica nao iieTk\.«aía<e«i^ ^"ÃJcoasssssícs^ 
dà, no livro do sr. Fernandes Ôlç^Ví^^v^^-^^soí.^^^^ 



196 

«Para acreditar que as nacionalidades vão desap- 
«parecer em breve, conheço apenas dois meios: 1.® 
«ignorar a historia, ou sabei a por formulas ôccas^ como 
«os philosophos, que a não estudam nunca; ou entSo 
«por legares communs ■ litterarios, para conversar, 
«como as. mulheres a sabem. 2.^ E, não é só isto ; é 
•«preciso também desconhecer a natureza tanto como 
«a historia, esquecer que os caracteres nacionaes de 
«modo algum derivam dos nossos caprichos, mas são 
«profundamente fundados na influencia do clima^ da 
«alimentação, dos productos naturaes de um paiz, que 
«se modificam um pouco, mas nunca se apagam. 
«Áquelles que não são assim ligados pela physiologia 
«nem pela historia, aquelles que constituem a huma- 
«nidade, sem quererem saber do homem nem da na- 
«tureza, é lhes fácil apagar as fronteiras, obstruir ea 
«rios, nivelar as montanhas. Comtudo, previno-os eu, 
cas nações continuarão a existir, se não entrar também 
«nos planos d^elles .aniquilar as cidades, os grandes 
«centros de civilisação, onde as nacionalidades concen- 
«tram a sua verdadeira caracterisação.» 

Ouviu, o sr. Femandez de los Rios? Ouviu esta 
voz, que se julgou aucterisada para se dizer a voz d& 
historia, e da experiência do género humano? Se a 
ouviu, medite n*ella, e poupe Portugal ás arrogâncias 
da sua phrase empolada, ás inducçSes melancholicas 
dos seus horóscopos de alchimista. 

Mas, volvamos atraz, que ainda se não esgotou a 
lista dos que descrêem da pátria, e renegam da nacio- 
nalidade. 

Lede — a Casal Ribeiro, LMino Coelho, Lopes de 

Mendonça, Thomaz Ribeiro, Freitas e Oliveira, Theo- 

philo Braga. A imprensa toda, isto é : Luiz d'Almei- 

àa e ^Jbuçuerque, Marianno de Cai*valho, Custodio 

José Vieira, JBduardo Coelho, e Antomo^Tmfò^^Tois»^ 

quantos pensam: e todos quantoa eacxeveyisiX 



197 

Mentira . Duas, e três vezes mentira . 

Casal Ribeiro não carece de que o juiz lhe nomeie 
advogado exofficioy para sâir absolvido da accusa^ção. 
Foi elle quem a si próprio eloquentemente se deffen- 
deu na camará dos pares, em maio de 1869. 

Foi também na camará dos pares, que Latino Coe- 
lho assumiu a responsabilidade, theorica, dos prólogos 
que escrevera para duas obras de propaganda ibéri- 
ca, confessando -se alheio, mais do que alheio, adver- 
so, a qualquer tentativa pratica de iberismo. 

Desconfiar da inteireza patriótica de Lopes de Men- 
donça é profanar a sepultura de um martyr! O tra- 
balho matou aquelle obreiro consciencioso da civiKsação 
e do progresso, a quem, mais do que a nenhum ou- 
tro escriptor contemporâneo, a sociedade fora madrasta 
nos primeiros annos da sua iniciação de pensador. Por 
amar a pátria é que elle se doía de a vêr aviltada: 
por a julgar abatida '(sobresalto de filho extremoso!) foi 
que elle uma vez, única na vida, e em horas de desanimo, 
pensou que a engrandecia pondo a debaixo da tuteilade 
estranhos. 

Do auctor do D, Jayme falia por elle o seu poema; 
a sua procedência beirôa ; a sua palavra, sempre ao 
serviço da independência e da autonomia nacional. 

No próprio jornal de que Freitas de Oliveira foi 
coUaborador, se encontra em cadacolumnad'elle o des- 
mentido ás idéas que pretendem attribuir-lhe. 

Theophilo Braga é, por emquanto, um ambicioso de 
popularidade, um talento que quer fazer a synthese 
de todas as coisas, não lhe havendo ainda a edade 
permittido proceder á analyse reflectida de cada uma 
d'ellas. Rólla, como Sisypho, o penedo das suas abstrac- 
ções ao tdpo de todas as theorias escabrosas, para o 
vêr descer em um momento ao ponto da çartlda. 

E a ithprenaa periódica nao ftetk\.'8íaíçi««JL ^'^^cqsssknsví- 
dà, no livro do sr. Fernandes aLÇ^Xo^^vc^^^^^^^^"^^^ 



198 

nnsexcerptos pacientemente desentranhados de artigos 
apaixonados de polemica partidária? Pois dois pro- 
fessores da primeira escola superior de Portugal, Al- 
meida e Albuquerque e Marianno de Carvalho, podem 
porventura ser o que d^elles querem fazer, só porque, 
como os gladiadores dos circos romanos, se feriram com 
as mesmas armas que contra os adversários brandiam ? 

Por esta regra não serão os progressistas, e os de- 
mocratas hespanhoes do tempo de Isabel II, compli- 
ces no crime de lesa patriotismo, por haverem, inspi- 
rados pelo espirito de partido, posto a descoberto a de- 
cadência das instituições monarchicas e, com ellas a 
decadência da pátria? 

Pois Custodio José Vieira, e António Ennes, o pri- 
meiro, portuguez pela valentia do caracter e pela sua 
entranhada paixão pela liberdade ; o segundo, dilecto 
da arte, e partidário das idéas sociaes que são realisa- 
veis, e ambos elles jornalistas, não terão razão para se 
queixar do cossaco que lhes saiu ao encontro, no intento 
de os espoliar da parte moral mais sensível do homem 
publico, a integridade das suas convicções intimas ? 

Por ultimo, Eduardo Coelho, o cenobita que se af- 
fastou do bulicio do mundo, o asceta que se retirou, á 
Thebaida do jornalismo espectante, onde se não desen- 
bainha a espada, nem se ouve resoar o clarim, não terá 
direito a espantar-se de se ver evocado ao peior dos 
mundos, o das recriminações intemacionaes ? 

' Fechou-se a lista dos réprobos : seccou*se a fonte 
envenenada da calumnia. Perguntaremos ainda : que- 
rerá o sr. Femandez de los ifôos para si a gloria de 
dizer, comoo consciencioso republicano francez : ce livre 
ezt plus gu\n livre, c^est moi même ? Duvidâmrfs, En- 
tão, para que pôz em estendal a sua farrap^ia ao sol 
da publicidade? 
Então para que foi que^ o fingido T^«ç^\\.^d»t d»A re- 
presentaçõea uacionaes passou çe\o a\X.o «ã ^^-asy^ça ^»a 



199 

camarás legislativas portuguezas, e se agarrou como 
um naufrago ás tábuas descosidas do baixel que se 
chama jornal, que ora sobe no dorso da onda que se 
diz poder, ora desce com a vasa lodocenta do des- 
peito, para ir purificar- se longe, ao largo, no magestoso 
Oceano da opinião publica ? 

E assim que se escreve a historia? Foi assim que 
Tácito tornou immoredoiros os seus annaes ? Foi com 
tSo mesquinha inspiração que o auctor das «Décadas» 
logrou chegar á posteridade? 

Ao scepticísmo de Machiavel, e á perniciosa influen- 
cia dos seus livros, attribuem alguns críticos o desani- 
mo, a prostração, em que se deixou cair a Itália, e de 
que só brilhantemente acordou em nossos dias, depois 
de um somno secular de indifferença, e de captiveiro. 
Não juraremos que a influencia de um único homem, em- 
bora de superiores faculdades, chegasse para tanto: mas 
o que é certo, todos o affirmam, é que á unidade de 
inspiração dos seus poetas, e dos seus historiadores, 
deveu a Itália conservar os seus brios de nação no 
meio dos insultos e provações da adversidade. 

Foi menos negando o que existia, do que engran- 
decendo a idéa. a que esperava dar corpo — a unidade 
da peninsula — que a Itália logrou reconstituir-se. Os 
collaboradores involuntários do sr. Fernandez de los 
Rios nunca, em verso nem em prosa) denunciaram as 
suas tendências unitárias, como o fizeram Alfieri, 
Monti, Nicolini, Qiacometti, Leopardi, Manzoni, e tan- 
tos outros poetas italianos, de naturalisação diversa, 
de posição social differente, de berço humilde este, 
de privilegiado nascimento aquelle. 

Que poeta portuguez escreveu nunca da peninsula 
ibérica, como Manzoni da itálica : 

D 'una terra son tvitti; uíi \\Tv.%\3k»i^5^^ 
Parl&n tutti : frateWi \i âàe.^ 



200 

Lo straniero : il coramune lignaggio 
A ognum dessi dal volto traspar. 

Que portuguez esreveu, como se fosse própria, a 
historia geral da península ibérica, como da italiana 
escreveram tantos e tão illustres historiadores, narran- 
do nos mesmos fastos os revezes e as glorias com- 
muns á Itália inteira? 

Com a resposta leal dada a estas perguntas se de- 
finirá a enorme differença entre as nobres aspirações 
dos italianos, e a não menos nobre isenção dos por- 
tuguezes Aquelles queriam remida a pátria, livre-o 
seu mar — como nunca deixaram de chamar ao mar que 
banha as costas da peninsula, desde o golpho do Adriá- 
tico até o golpho ligurico *. 

Nós queremos ás nossas fronteiras taes quaes exis- 
tem, as nossas tradicçSes, a nossa historia;, os nossos cos- 
tumes, tudo emfim o que representa e constitue uma 
nacionalidade. São diversas pois as aspirações das duas 
peninsulas. 

Para ^fechannos esta já longa serie de paralellos, 
vamos terminar a nossa escripta com um que se nos 
affigura de importância histórica, que não deve ser 
desprezada. 

O sr. Mendes Leal, depois de haver narrado em 
phrase sóbria as vicissitudes da Itália e a sua patrió- 
tica resistência ao dominio estranho, diz com relação 
á peninsula ibérica : 

« O mesmo vigoroso patriotismo e ciúme de inde- 
pendência, que anima cada um dos dois povos, os ap- 
proxima sempre que ha suspeita de verdadeiro perigo 
para o território commum. Desde que os dois estão 
constituídos, nunca a invasão estrangeira transpoz as 
estreitas fronteiras doesta peninsula, com as arma^ ou 

^ Mendes Leal. As duas Pe?iin8ula«. 



201 

OS pretextos, que não us encontrasse na frente, unidos 
e resolutos na decisão e no accordo de repellir os in- 
vasores, nunca medrados nem arreigados nos nossos 
lares. N'este ponto, o instincto e a espontaneidade de 
uma e outra nação tem-se avantajado e imposto aos 
cálculos dos estadistas. » 

O mesmo escriptor corrobora a sua opinião, accres- 
centándo : 

< Desviados do immediato impulso das grandes con- 
tendas, os povios luso-bispanicos, padecendo as des- 
vantagens e gosando os bene6cios doesta espécie de re- 
tiro favorecido da Providencia e fortalecido pela na- 
tureza, tem podido conservar os seus respectivos foros 
naoionaes. A península itálica, alvo frequente, e ao 
mesmo tempo arena próxima e usual d^aquellas con- 
tendas, ainda se não desuniu que não visse a dupli- 
cada catadupa despenhar-se por entre as fendas nos 
seus valles, e afogar lhe n^elles a liberdade^ podendo 
repetir como Lucano : 

Moènia mundi discedunt. 

íamos a cerrar este nosso já longo e fastidioso tra- 
balho, crendo que a musa da insolência teria abando- 
nado de vez o sr. Fernandez de los Rios, depois de 
haver assistido caridosa aos últimos arrancos do ener- 
gúmeno, nas extorsSes catalépticas que baptisou com 
08 nomes de FaUo patriotismo e de El enfermo do 
occiãente, quando, o acaso, já não era a avidez de ler, 
nem de meditar na leitura, nos deparou com o seu 
derradeiro insulto, que se intitula Agonias de la farsa 
ibérica! 

Que esbravejar aquelle! Que noite tão cerrada 
n'aquelle espirito perturbado por visSes sinistras, ames- 
quinbado pela impotência de f azet o tcl-ôX^ xíví^'?^^ ^^- 
mo um precito, mas sempre imçeTi\\.ekW\.^\ 



202 

Ninguém lhe escapa á insamnia ! nem homens nem 
coisas ! Agora é o sr. Castellar que Pasquino pretende 
exauctorar, como se o passarinheiro que apanha pardaes 
a visco podesse acertar á bala na águia que rasga as 
nuvens ! Logo é o jornal a Época intimado a compa- 
recer em juizo pelo diplomático em inactividade, por 
ousar escrever, que hoje em Hesjpanha, não ha nenhum 
politico sério qice não respeite profundamente o nobre 
sentimento de independência, dominante em Portugal! 

Depois são as cortes hespanholas que o sr. Feman- * 
dez de los Bios ultraja, pelos deputados haverem ou- 
sado discutir com independência, cada qual conforme o 
entendeu, a instituição do jury, e a do casamento civil, 
e, distribuindo doesta vez a Portugal o papel de cen- 
sor, quer que elle exclame : « Duvidamos que houvesse 
na Turquia um visir qu£ faltasse com tamanha deaen- 
voUuray se na Turquia existisse um parlamento ! » Agra- 
decemos o tom emphatico do julgamento, mas decli- 
namos por incompetentes, a responsabilidade que nos 
querem impor no lavrar doesta descortez sentença. 

Infeliz, como sempre, é ainda o Hercules que dá es- 
peranças de duplicar e melhorar os trabalhos do seu ho- 
monymo, que nos ameaça com a perda daindependencia, 
porque leu em um artigo do Times que a Inglaterra jul- 
gava a península uma só nação ; e, tanto bastou, para 
se encher de brios, e dar por não escriptas as suas 
anteriores homilias de paz e de concórdia ! 

Quando foi que Alexandre, César ou Napoleão, pe- 
diram aos visinhosMe ao pé da porta auctorisação pre- 
via para encetar as suas campanhas, receiosos de não 
poderem só por si dar conta da empresa de subjugar 
povos, e refundir nações ? No seu despeito, não repa- 
rou o sr. Fernandez de los Rios que era ridiculo pe- 
dir licença^ ou acceital a sem a pedir, por interven- 
ção do TimeSy para ires praticaram a Vv^iTQVivdade de 
provocar um sót 



203 

I 

Mas, nâo param aqui as irreflexSes do sr. Feman- 
dez de los Rios. Como ao barbeiro d^aldeia, de quem 
nunca o freguez, ao fiar-lhe a barba, tem garantidos os 
queixos, assim a Hespanha, ao deixar-se representar 
pelo sr. Fernandez de los Rios, nâo cuidou que seria 
ella também a escanhoada pela navalha inexperiente 
do confidente do conde d'Almaviva. 

Vamos traduzir, para que o convencimento da in- 
capacidade diplomática do sr. Fernandez de los Rios 
cale bem fundo em todos os espirites, e a sua supposta 
infalibilidade fique em provérbio, para escarmento 
das ousadias de todas as individualidades presumpçosas 
que julgam remontar-se acima do nivel commum, só 
porque os prelos se prestam a tudo quanto d^elles se 
exige. 

Oiçamos : 

« A Europa considera Portugal enfermo : os portu- 
guezes confirmam como já vimos * a qualificaçSo, se 
bem que alguns se desculpem da gravidade da doença 
affirmando que a Hespanha se acha ainda muito mais 
doente: tomei bem o pulso ás duas nações, com o interes- 
se de quem as confunde no mesmo affecto, e não vacillo 
em dizer que até n^esta crise suprema de enfermidade se 
sustenta o paralellismo da sua sorte : ambas tem inocu- 
lados males hereditários semelhantes ; ambas soffirem 
os resultados de remédios empiricos; amhas estão en- 
tregues ao charlatanismo de curandeiros gémeos {\) os 
symptomas parciaes differem; a um lado da peninsula 
aff/ue o sangvs escandecido, o outro anda prostrado pelo 
excesso de limpha; em ambas está indicado apezar 
doesse desequilíbrio um perigo commum : a gangrena j 
que se tem ido lentamente desenvolvendo ^ e já se denun- 
cia em pontos negros significativamente acoentuados^para 
quem repa/rar com attenção nos organismos que repre- 

^ E nós já aegámos n^este capitxilo. 



204 

sentam o papel principal nos extremos occidentízes das 
íiôrtes de Madrid e de Lisboa! » 

Conclue-se d'este arrazoado, mais pedantesco do que 
verídico, que o sr. Femandez de los Rios, desempe- 
nhou pouco conscienciosamente o papel de represen- 
tante de um apopletico junto de um anemicoy aflferro- 
Ihando os seus honorários de medico, quando já des- 
cria da cura dos enfermos, e nâo só isso, enfeitando-^se 
com cinco gran-cruzes com que a munificência das g 
familias illudidas dos doentes lhe remuneraram a 
imperícia ! 

E ainda por cima se levanta o desgraçado clinico, 
com o santo e cem esmola, pretendendo, depois de ha- 
ver grasnado como um corvo, que lhe oiçam a sangue 
frio os trocadilhos zombeteiros de papagaio com que 
finge desdenhar dos oiropeis com que a prodigalida- 
de peninsular lhe melhorou a farda de ministro ple- 
nipotenciarío ! Leiam, e não se ríam, que as seguin- 
tes linhas foram escriptas para despertar o bom hu- 
mor dos que até agora teem andado melancólicos ao 
ouvir os pios funerários do taciturno diplomático : 

a Ao tratar d'estes insignificantes assumptos (os das 
mercês honoríficas) e ao terminar esta parte do meu 
livro, appeUo para a opinião peninsular (cada doido 
com a sua mania !) para que decida, em julgamento 
contraditorío, se o presente resumo da minha missSo 
não é uma demonstração especial, e surprendenie 
para os que não podem avaliar os sentimentos da 
minha alma para com Portugal^ do bem que me- 
reci outra cruz, não já grande, mas immensa, 
incommensui*avel, que caiu sobre mim, sem que nin- 
guém m'a desse, quasi desde que cheguei, a LisboSi 
A grancruz da Paciência !i> 

IfKo ejstranhamos que o sr. Femandez de los Bios 
^*^jijlgiie com direito a tJo niJVAW^ÀxasL otÔL^oi, xa» ^'ík 
cavallaria, mas pedestre, a doa s^t^o^ WTsíK\^^\m^% ^^ 



205 

Deus : porém, se não quer tudo pára si, diga-noâ 
francamente, com que veneras, hão-de ser galardoados 
os seus leitores, bem mais pacientes do que S. Ex/ 
e bem mais dignos de tão seraphica distincção^ por- 
qjoe esses, nem ao menos exercendo virtude tão chris- 
tS, tiveram para lhes fortalecer o animo o auxilio ma* 
teríal do thesouro de nenhuma das duas nações penin- 
sulares. 

Entremos outra vez na estrada real, e cheguemos 
ao fim, que já não é sem tempo. Quem escreve tem 
obrigação de tirar uma conclusão, qualquer que ella seja, 
da sua eacripta. 

Qual foi a que o sr. Femandez de los Rios tirou a 
limpo na sua encyclopedia ? Parece-nos ter sido a que 
ahi vamos transcrever. 

«Este livro é uma resenha documentada do passa- 
d0| e um ensinamento para o futuro {Aiiales de ayer 
para ensetianza de manana) é a profissão de fé em ma- 
téria peninsular de um servidor do progi*ea80 que, 
passo a passo, chegou a conclusões, concretas e termi- 
nantes.» 

NSo vimos nós isso no livro do sr. Fernandez de • 
loa Bios. O que vimos foi um antigo monarchico metha- 
morphosear-se em republicano, depois da abdicação do 
rcd; Amadeu, mas guardar sempre a maior reserva 
acerca da forma em que pretende vasar o seu repu- 
blicanismo. 

Sabemos, sobre este ponto não nos deixou a me- 
nor duvida o fogoso diplomático, que o seu desejo era, 
e é, ver Portugal reduzido a uma província de Hes- 
panba. Com a republica unitária ou com a federativa? No 
primeiro caso, de que alavanca pretende servir-se o 
Archimedes peninsular? No segundo, em que condições 
geographicas e ethenographicas cuida assentar a diffi- 
ciJ evolução que o preocupa? 

Ob programmaa do radicalismo \\^«ç^\à^s\ ^^ *^'»2s^* 



206 

tòsy e tão dififerentes uns dos ontros, que bom seria 
ter-nos dito o sr. Femanàez de los Rios qual d'elles 
punha debaixo da protecção da sua facúndia de publi- 
cista, ou acolhia á tutella dos seus planos de reforma- 
dor. E chefe de uma nova seita? Qual das duas 
bandeiras jura, a do sr. Castellar ou a do sr. Pi y 
Margall? 

Vôa-lhe o desejo par^ Carthagena, ou deixa estio- 
lar os seus arrebatamentos tribunicios na meditação 
philosophica e platónica dos versos do poeta : 

Les bornes des sprits son les seules frontières 
Le monde en s'eclairant, s^éleve á Tunité? 

Qual é o Messias de quem o sr. Fernandez de los 
Rios prega a palavra, e propaga o Evangelho ? 

Como finalmente pôde aflfirmarquem, pela sua escri- 
pta inigmatica, nos dá direito a furmular estas per- 
guntas, que chegou em assumptos peninsulares, a con- 
clusdes concretas e terminantes^ 

Entra a invasão aleivosa nos cálculos do apostolo? 

Se tal é, sentimos dizel-o, o livro do sr. Fernandez 
de los Rios, sem ter a impudiçicia dos livros de Ma- 
chiavel, tem, como os d 'aquelle insigne deturpadorda 
moral politica, o contra de ser uma espada de dois 
gumes, que fere ao mesmo tempo duas nacionalida- 
des, quando o intento do gigante que a maneava era 
apenas de decepar a cabeça da que o offendêra no 
^eu orgulho de diplomático, e não tivera longanimi- 
dade bastante para o deixar debater na sua impotên- 
cia de deportado sedicioso, e de hospede... ingrato. 



\ 



DOCUMENTOS PAIIUMEIITIIRES 



Extractos das sessões das Gamaras na dis- 
cussão da resposta ao discurso da coroa 
em 7 e 12 de Maio de 1869. — Extractos 
dos discursos do conde de Casal Ribeiro 
nas sessões de 17, 19 e 24 de Maio de 1869, 
e de Rebello da Silva nas sessões de 28 de 
Julho, e 6 de Agosto do mesmo anno na ca- 
mará hereditária. — Extracto da sessão da 
Gamara Electiva e discurso do deputado 
Santos Silva em 21 de Maio de 1870. 



14 



Os seguintes documentos parlamentares; trechos de 
difiicurdos de alguns dos mais notáveis oradores portu- 
guezes, referem-se aos annos 1869 e 1870, período 
fértil de episódios politicos, tanto em Portugal, como 
na Hespanha. 

Damos-lbe aqui cabimento para preencher uma sen- 
sível lacuna do livro do sr. Femandez de los Rios, 
tSo escrupuloso em se aproveitar dos menores inciden- 
tes do jornalismo politico, para provar a nossa deca- 
dência nacional, e tão indififerente ás domonstraçSes 
de vitalidade dadas nas duas casas do parlamento por- 
tuguez. 

Não fazemos uma provocação ridícula, registamos 
simplesmente factos postos em esquecimento no livro 
do nosso gratuito detractor. Á liberdade com que al- 
guns distínctós oradores hespanhoes fallaram de Por- 
tugal na tribuna do seu paiz, correspondeu entre nós 
egual desassombro, em 1869, na camará dos pares ; e 
em 1870, na dos deputados, na memorável sessão de 
21 de maio. 

Nas naçSes livreá não são para estranhar estas ex- 
pançSes patrióticas. Digno de reparo serla^ igeV^ ^^^x^^- 
trarío, ã mudez calculada doa e\e\\.çi^ ÔlQ Y^^^^ '^^^ 
mgaiúcAtivo silencio da camará dioa -ç^x^^» 



212 

Em uma e em outra casa do parlamento* português 
vozes eloquentes protestaram contra o índifferentísmo 
político que o sr. Femandez de los Bios nos attribue 
no seu livro. 

Bem hajam os que da pátria se nSo esquecem nas 
occasiSes solemnes em que se lhe discute a indepen* 
dencia. 



. .. » 



CMRA DOS PARES 

Sessfto do dia 9 de malO de 1969 

ORDEM DO DIA 

DiêctMsão do projecto de resposta ao discurso da coroa 



O sr. VISCONDE DE FONTE ABCADA enceta o debate. 
Discorre acerca de vários assumptos, alheios ao nosso 
propósito, e em seguida diz: 

«Sr. presidente, ha um facto que eu não vejo men« 
ccionado no discurso da coroa, e que pela sua impor- 
ctancia eu desejava que o fosse. Um partido impor- 
ctante e numeroso em Hespanha, entendeu, fazendo 
cjustiça ás virtudes de Sua Magestade o Senhor D. 
cFemando, que conviria eleval-o ao throno hespanhoL 
cEste partido attendendo ás virtudes de Sua Mages- 
«tade, e ás circumstancias politicas que depois se po- 
cdiam dar para a reunião de ambos os paizes, dese- 
cjava que Sua Magestade fosse elevado ao throno 
aMespanhol, Sua Magestade porém entendeu, e en- 
atendeu muito bem, que para evitar complicações que 
«talvez se dessem depois que fosse eleito, convinha. 
€ãecl&rar, posto que profundamente xeeQ^essAs^ "^^^â^ 
descolbã qae d'eUe queriam fazer ^ ç\v3Le tS.^ ^^^fôè^ascv^ 



214 

«aquella coroa. O sr. D. Fernando deu assim uma 
«grande prova de magnanimidade, e por esta dedara- 
<!cçâo adquiria muito maior direito ao amor e grati- 
«dão do povo portuguez, e toda a nação lhe deve fi- 
ncar muito agradecida por ter dado um testemunho 
cctào authentico de nSo querer perder 'a nacionalidade 
«doeste paiz. Eu pela minha parte acho que este acto 
«do Senhor D. Fernando é de tal natureza, e lhe faz . 
«tanta honra, que era conveniente que o discurso da 
«coroa mencionasse esta circumstancia^ que nada* mais 
«era do que reconhecer as virtudes de Sua Magestade, 
«e o amor que elle tem á nação portugueza. 

«Sr. presidente, n'esta solemne occasião não posso 
«deixar de me referir còm a maior satisfação ao sen- 
«timento que dictou a allocução dirigida a Sua Ma- 
«gestade Ei-Rei o Senhor D. Luiz I, por esta camará 
«no dia 29 de abril, pelo anniversario da outorga da 
«carta constitucional, a qual peço licença para ler: 

«Senhor. — A camará dos pares, reconhecendo em 
«Vossa Magestade não só o herdeiro do throno de sea 
«augusto avô, mas também o da sua sabedoria e vir* 
«tudes, está certa que Vossa Magestade, tomando 
«sempre por base a carta constitucional, lhe saberá 
«dar todo o desenvolvimento que o progresso e a ci« 
«vilisação fôr exigindo^ podendo Vossa Magestadei 
«para este grande fim, assim como para o da conaer^ 
avação da independência doesta moTiarchia de oito «e- 
diculos de existência, contar com a tão fiel como ener* 
«gica cooperação da camará dos pares, natural e se- 
«losa mantenedora da ordem, da liberdade e da com« 
«pleta independência necional.» 

«Sr. presidente, eu encho-me de satisfação e regosijo 
«por ver estas palavras na allocução dirigida por esta 
eícamara a Sua Magestade, e não menor satisfação me 
^causou a resposta de Sua Mage^tadi^*. 
^ — O desenvolvimento àos çtmciçivo^ ^^Vaía^^^Q^ 



215 

ena carta constitucional, regulado em justa correspon- 
«dencia com as necessidades progressivas da civilisa- 
cçftoy a igualdade nas leis e na execuçSo d'ellas^ e so- 
cbretudo o supremo interesse da conservação da com- 
cpleta independência doesta monarchia é, tem sido 
csemprO; o mais caro objecto dos meus cuidados de 
crei constitucional; e filho doesta nobre terra de Por- 
«tugal. Reconhece-o a camará, nas expressões que 
c acaba de me dirigir, e que tão gratamente soaram 
caos meus ouvidos.» 

«Eu nunca duvidei, sr. presidente, de que estes 
€ fossem os sentimentos de Sua Magestade, e que nunca 
cse esquecerá de que é portuguez e neto d'El-R^ 
«D. João IV ; entretanto exultei sobremodo de os ver 
«consagrados em um documento de tanta importan* 
ceia.» 

Refere-se depois ao sr. ministro da marinha, Latino 
Coelho, que não estava presente, accusando-o de haver 
escripto o prologo da cMemoria» de D. Senibaldo de 
Más, de que lê alguns trechos, e continua doeste modo: 

cSr. presidente, a nação portugueza na sua gene- 
cralidade, ou com mui to. pequenas excepções, conser- 
cva mn grande amor á sua nacionalidade; vimos isso pelo 
cque se tem publicado, pelas manifestações e discur- 
cBOS proferidos nas associações e até mesmo fora do 
cpaiz, como está succedendo no Brazil, aonde se tean 
«mostrado este sentimento nacional pelas subscripções 
«feitas para a compra •àe armamento para defeza do 
«paiz. Tudo isto claramente mostra que o sentimento 
«da independência nacional está gravado no coração 
cde todos os portuguezes, apezar de muitos residirem 
«ha bastantes annos longe da pátria. 

^Á viata d^isso- posso invocar o ^^hXaxsv^t^^ ^^^s^^^r 
^pendência nacional^ que longe íie e«Xasc \asst\si ««^x^ 



216 

(ínÓBf cada vez mais se arreiga no coraçSo de todos 
«os porfuguezes. 

«Tem-se dito^ sr. presidente que as expressSes pa- 
«tríoticas e o que se tem escripto a respeito da inde- 
«pendência do paiz, pode offender a susceptibilidade 
((da naçSo bespanhola; mas uma naçSo que tem os 
* <( campos de Bayien, que tem Castanhos, que tem S»- 
«ragoça e Palafbx, e muitos outros illustres defenso- 
«res da sua independência ; que tem o dia 2 de nudo 
cede 1808, cujo anniversario ainda boje é celebrado 
«com todo o enthusiasmo, dia em que milhares de oi- 
«dadSos de Madrid, commandados pelo veterano Val- 
<(]»redo ou Yillardi, morreram combatendo contra o 
«exercito francez, imitando assim os trezentos espar- 
«tanoB commandados por Leonidas; a naçSo hespa- 
«nhola, repito, não se pôde susceptibilisar pela mani- 
«festaçSo dos sentimentos patrióticos dos portugueseSi 
«que nada mais fazem do que seguir os exemplos dos 
«seus heróicos visinhos.» 

«Sr. presidente, se as expressões de patriotismo quo 
«soam agora n^esta camará, e espero que nSo será a 
«ultima vez que soem, e que outras vozes as soltarSo 
«nas occasiSes opportunas, podem susceptibilisar to- 
«dos os portuguezes que teem no coraçfto o amor da 
«pátria? (O sr. marquez de VaUada: — ApoiadO| 
apoiado.)» 

Responde o sr. ministro da fazenda, C(mie de 8ar 
modãeSf desculpando o seu coUega da marinha, e dando 
como rasSo principal da defeza ^ mocidade do author 
do prologo já citado, quando o escreveu, e conti- 
nuando, diz: 

<t8r. preaidente, o amor á independência nacional 
<rastá no coração de nós todos '^ e ae vsto ^ mxdAí cxÂaa. 
ramtural e muito sabida^ para cjue fe ^^m^t Xãtoly^ t 



217 

fidiar sobre aquillo em que não pôde caber duvida ? ! 
Pois que! Nós podemos admittir quo se duvide da 
existência de uma monarchia de sete séculos, e que 

centre nós, portuguezes, haja alguém que abrigue em 
seu peito outro sentimento que não esteja conforme 
com o da nossa nacionalidade? Não creio ; e por con- 
sequência digo apenas sobre o assumpto, que se por 
ventura no discurso da coroa se fallou no fortaleci- 
mento da independência nacional, é como querendo 
unicamente dizer que esta se fortalecerá por meio 
de medidas as mais adequadas para bem do paiz. 
Não é de certo porque se entenda que a independên- 
cia do nosso paiz esteja correndo o mais pequeno 
risoo. Se corresse algum risco, estou seguro que não 
liaveria senão um sentimento único, inteiramente 
uniforme entre todos os filhos doesta terra^ para nos 
abraçarmos em volta do estandarte portuguez^ da 
bandeira nacional, que todos procuraríamos e sabe- 
ríamos defender á custa das nossas fortunas e de 
nossas próprias vidas.» 

cSr. presidente, o digno par natou também não se 
ter fiJlado no discurso da coroa das propostas que 
se dizem feitas da parte da nação visinha com rela- 
^U) á candidatura de El-Bei o Senhor D. Fernando. 
Este negocio, sr. presidente, foi tratado perfeita- 
mente em particular; não é o que se chama um acto 
do governo. Houve uma participação extra-oí&cial, 
oreío eu, com relação aos desejos manifestados na na- 
ção visinha de que effectivamente fosse acceita por 
Sua Magestade o Senhor D. Fernando a proposta 
para a sua candidatura ao throno e coroa de Hespa- 
nha. Isto foi porém, para assim dizer, completamente 
estranho ao governo, á administração d'este paiz, 
pois que apezar da elevada posição que o Senhor 
Jl>. Fernando occupa, o que è vexÔLaàfò fe ^^^^aaT^^^- 

^geatade nSo faz hoje parte da g^ve^ra».^^ ^Niâ^'*^'^ 



218 

<e eis aqui a rasâo porque no discurso da coroa se nSo 
«encontra referencia alguma a esse acontecimento. > 

O sr* visconde de Fonte Arcada replica ao orador 
precedente^ não lhe acceitando as explicaçSes dadas & 
respeito do sr. ministro da marinha. 



Se00ão do dia 19 de maio de 1869 

Na sesâo de 12 de maio de 1869 o sr. Casal jBí- 
beiro (hoje conde de) manda para a mesa o seguinte 
requerimento : 

«Requeiro que^ pelo ministério dos negócios estran- 
«geiro8| sejam enviadas com urgência a esta camará^ 
«não havendo inconveniente; copias de toda a corres- 
«pendência, trocada entre o governo de Sua Magea- 
«tade e o governo provisório de Hespanha, directa- 
«mente ou por via dos seus respectivos representantes, 
«sobre a candidatura de Sua Magestade El-Reí o Se- 
«nbor D. Fernando ao throno de Hespanha. 

«Camará dos pares, 12 de maio de 1869. = O par 
do reino, José Maria do Causal Ribeiro. 

« (Continuando.) Peço a v. ex.^ que faça expedir 
«este requerimento com a urgência que o caso pede; 
«e devo declarar a v. ex.^ e á camará que, vindo oa. 
«documentos que peço, ou qualquer resposta do go- 
«vemo, proponho-me, usando das faculdadss que me 
«dá o regimento, a dirigir ao governo uma interpella* 
«çâo sobre este assumpto. 

aííUo me parece que, sendo este assumpto de ta* 
(finanha magnitude^ que tem oecuçado d^^ò ^xoa. h^at 
^neira tão conhecida a imprensa ôB\.TMi%«a«b^ ^^ot^^a. ^ 



219 

«parlamento portuguez ficar absolutamente silencioso 
«diante d'elle. 

«Eu podia ter levantado esta questão por occasiSo 
«da discussão da resposta ao discurse da coroa, mas 
«muito de propósito me abstive de o fazer, e até nSo 
«me achei presente na sessão em que ella se votou, 
«porque procurei affastar completamente a idéa de que 
«eu pretendia por qualquer forma embaraçar a direc- 
«{So que se lhe deu com tal assumpto. 

«Quaesquer que sejam as censuras que, com mais 
«ou menos justiça, se possam fazer ao governo pelo 
«modo como foi conduzido este negocio, creio que de- 
«vem ellas desapparecer perante o sentimento nacio- 
«nal, tão nobre e fielmente patenteado no sentimento 
«do príncipe que preferiu os interesses da sua pátria 
«adoptiva ás tentações da ambição e da vaidade. 
{Apoiados), 

«Limito-me a este ligeiríssimo esboço para que v. 
«ex*^ e a camará possam apreciar qual o sentido em 
«que eu peço a urgência do meu requerimento. 

«Repito, porém, que não me parece possivel nem 
«conveniente que este assumpto se passe em silencio, 
«porque poderia ser elle traduzido de outra maneira 
«menos favorável para os representantes do paiz ; que 
«podia ser traduzido, ou pelo receio de fallar sobre 
«um assumpto em que todos faliam, ou por alguma 
«outra causa mais deplorável, como por exemplo o in- 
«difierentismo e desleixo nas coisas que mais interes- 
«sam o paiz, isto é, n'aquilIo mesmo que interessa 
«mais do que a nossa própria prosperidade, como é a 
«nossa independência.» 



220 



Seflfl&o do dia 19 de maio de 19611 

N'esta sessão foi presente um officio do ministro dos 
n^ocios estrangeiros^ com a data de 12, accusando a 
recepção do ófficio da camará dos pares, e declarando 
que não havia documento algum official com referencia 
á candidatura do sr. D. Fernando ao throno de He8« 
panha. — O sr. Casal Ribeiro porém não desistio de 
fazer a sua annunciada interpellação ao' governo, que 
formulou d'este modo : 

«Requeiro que seja previnido s. ex.^ o sr. ministro 
«dos negócios estrangeiros de que o desejo ínterpellar 
«sobre a politica que o governo tem seguido e se pro- 
ap5e seguir para assegurar a independência nacional, 
a sobre os princípios em que assentam actualmente as 
c nossas relaçSes politicas com a Hespanha, e sobre os 
«factos concernentes á candidatura de Sua Magestade 
cEl-Rei o Senhor D. Fernando ao throno de Hespa- 
nha. = Casal Ribeiro. 

O sr. MINISTRO DÁ FAZENDA, condô de Samoãdes, de- 
clara-se incompetente para responder ao sr. Casal Rí' 
beiro, e promette notificar ao seu collega dos estran- 

!;eiros o theor das perguntas do digno par interpel- 
ante. Este fez ainda algumas observações acerca da 
solidariedade ministerial e concluio assim: 

aE preciso que o parlamento portuguez não se im- 
cponha um triste silencio em assumpto de tanto inte« 
cresse, que se agitou dentro e fora do paíz, de que se 
aoccupou a imprensa da Europa, e foi tratado n'um 
«parlamento estrangeiro. Este silencio havia de ser 
«tomado por um deplorável indifferentismo, e por este 
«motivo não abandono a questão no terreno em que 
4^s puz, N'outro terreno teria já um fácil triumpho. 
O ar. MARQUEZ DE NIZA apoia a xe^oVvx^^ ^<^ ^x« Co^ 
^oí ^tieiro em requerer quaosc^uex ÍLOC^x^ifòxto«l oji^ 



221 

existam, como devem existir, acerca da candidatura 
do sr. D. Fernando, e remata assim : 

«Uno pois 08 meus votos aos do digno par, o sr. 
c Ccisal Ribeiro y para pedir ao governo que, por sua 
cpropria dignidade e por dignidade d'esta nação, nSo 
tqueira eximir-se á responsabilidade que lhe possa ca- 
€Der por um documento, que realmente não se pôde 
«negar ter existência, devendo por isso ser apresen- 
«tado para satisfazer aç requerimento de um digno 
«par, que foi approvado por esta camará (apoiados). 



Se«flfto do dia 19 de maio de 19611 

Por uma notável coincidência a interpellação do sr. 
CasíU Ribeiro verificou-se no dia 19 de maio, um anno 
antes, contado dia a dia, da revolução militar de 1870. 

O discurso do illustre orador como que se previa as 
nefastas consequências da politica frouxa do ministé- 
rio de então, politica fulminada mais tarde, em junho 
de 1869, por um brilhantíssimo discurso de Rebdlo 
da 8ilvaj que contribuiu poderosamente para a queda 
do governo que não soubera representar condignamen- 
te a opinião do paiz. 

O sr. CASAL RIBEIRO dcpois de apreciar a indole e 
as tendências da revolução hespannola de setembro 
de 1868, resumio aquellas e estas, nas seguintes pa- 
lavras: 

«Os elementos revolucionários desaccordes sobre as 
«soluç(tos politicas da revolução, estavam todavia na 
«máxima parte de aecordo sobre um principio, que 
«importava para nós nada menos que a cessação da 
€no88ã existência nacional. A\i\ àaN«x^'%^ ^^ ts^ki^x'^- 
^pablicanoa e monarchista». PtoÓLwivw^-^^ ^^ ^^ksess^^ 



222 

«monarchico — monarcMa democrática como meio, tmião 
aiberica como fim. (O sr. marquez de Vállada: — Peço 
«a palavra.) 

. «Respondia-se no campo republicano, como fazia ha 
«poucos dias o sr. Orense: fdqmnoa os estados unidas 
<ída ibéria. 

a A recusa do Senhor D. Fernando não destruiu 
«este ponto de accordo dos revolucionários hespanhoes. 
«E isto não eram opiniões isoladas, não eram aspira- 
açSes cerebrinas; eram grupos poderosos, eramjomaes 
«importantes que defendiam a idéa da união, já no 
«campo monarchico, já no campo republicano; eram 
«homens de influencia, partidos poderosos, que pela 
«voz dos seus chefes e órgãos mais valiosos se mos- 
« travam dispostos mesmo a ceder grande parte das 
«suas pretensões politicas, comtanto que se realisasse 
«a união desejada, quer sob a forma monarchicai 
«quer sob a forma republicana. 

«Eis aqui a situação de hontem. Eis aqui ainda a 
«situação de hoje, porque a candidatura do Senhor 
«D. Fernando rejeitada não illudiu a questão. 

«Será por ventura, fallando diante de homens co- 
«nhecedores dos negócios públicos, que estão ao facto 
«d'eUes, pelo seu dever e pelo interesse que natural- 
mente inspiram, adduzir documentos para provar qm 
«o espirito predominante em grande parte dos elemen« 
«tos da revolução hespanhola, era o da imião ibérica? 

«Será preciso trazer aqui os artigos do jornal — A 
d. Ibéria, e de muitos outros jomaes, que proclamavam 
«a união como o mais brilhante, o único, o verdadei- 
«ro fim da revolução hespanhola ? 

«Será preciso muito para mostrar quanto se dese- 

«java no paiz visinho a abs(Hpção de Portugal, em- 

dhora ã guestão de forma fosse sacrificada á realisa- 

^fão dos votoa pela uni&o da peninsvA.di «cql um «& «là- 



223 

«Para resumir lerei apenas poucas palavras de um 
«folheto, no qual a candidatura do Senhor D. Fer- 
«nando foi preconisada nos primeiros tempos em^ que 
«d'eila começou a fallar-se com certa largueza. E es- 
«cripto por um illustre cavalheiro que esteve emigra- 
<do n'este paiz, que mereceu aqui, pelas suas pessoaes 
cqualidadesy muitas sympathias, e que tem uma posi- 
«^Ko importante no seu paiz, o sr. Salazar Mazaire- 
•do. Dizia elle : 

«O meu candidato ao throno ó um príncipe que se 
«aòha á altura de tão gran<íe missão, e comprehen- 
«derá sem duvida que a separação no futuro, á medida 
«que se compliquem os successos no velho mundo, 
«será a ruina total da peninsula iberíca. Â intermi- 
«navel decadência que pesa sobre ambos os povos não 
«se extinguirá nunca, permanecendo o seu isolamen- 
«to; e bom exemplo d^essa triste verdade foram os es- 
« tereis esforços, que, para recuperar o esplendor per- 
«dido, lizeram o marquez de Pombal e o rei Car- 
«los in. 

«Morto D. Fernando, quem lhe succederia? O filho 
«mais velho de D. Luiz I, e pela desapparição d'essa 
«linha a descendência masculina das duas infantas, 
«irmãs do actual rei de Portugal. Ambas teem filhos 
«vár8es, de cinco annos de edade, e o marido de D. 
«Antónia é um joven de apenas sete lustros, summa- 
«mente illustrado e militar valente, , que pertence ao 
«ramo catholico dos Hohenzollern. £ irmão da rainha 
«Estephania, que falleceu semsuceessão de D. Pe- 
«dro v, filho mais velho de D. Fernando e de D. Ma- 
«ria da Gloria. 

« Unida no futuro a península ibemcaj em fórraa si- 
€milhante á que adoptaram a Suécia com a Noruega, 
a a Áustria com a Hungria y qiie nax^ão tão qcaxidA e. 
«poderosa chegariamm a /ormar ! ...» 
^(O orador cordmuando) Ya% acyxv. o% >C\\.>aNs3Ri» ^^ ^'^- 



224 

«commeudaçâo que se apresentavam, eis-aqui o que 
«era, o que significava, o que importava a candidata- 
«ra do Senhor D. Fernando. 

«Era a velha questão ibérica debaixo da velha f&^ 
^ma dynastica. Era a velha idéa da união pessoal com 
«as velhas e sempre dee» mentidas promessas da auto- 
«nomia conservada^ Era a sorte da Hungria de bon- 
«tem, em quanto a Áustria enfraquecida não sentia a 
«necessidade absoluta de lhe restituir parte dos foros 
«perdidos; era a sorte da Polónia de hoje, inspirando 
«á diplomacia um amor platónico, e gemendo debaixo 
«da dominação do czar, era a sorte de Portugal ka 
«dois séculos despojado pelos Filippes das pi*ometti- 
«das regalias ! {Vozes : — Muito bem.) 

O orador continua passando uma revista as cansas 
e os effeitos da revolução de setembro, e diz : 

«Sr. presidente, a revolução de setembro de 1868 
«em Hespanha creou uma situação com relação a nós 
«que era preciso apreciar e conhecer; comtudo aqoi 
«no nosso paiz ; prorompeu o enthusiasmo da impren- 
«sa d*um certo partido, que pretende para si o moao- 
«polio da liberdade {apoiados). Foram vivas e estron- 
«dosas as manifestações, porém logo o enthusiasmo 
«degenerou em receios e terrores. Loucos e imprevi- 
«dentes enthusiasmos ! Pois tudo que tem acontecido^ 
«pois a manifestação das pretens5es ibéricas não eram 
«de prever quando se desencadeassem as paixões? 
{Apoiados), 

«Eu não me enthusiasmei com a revolução de Hea- 

«panha, posso dizel-o ; e talvez não fallasso tão claro 

«se estivesse n'aquelles logares {apontando pa^Hn as 

«cadeiras dos srs. ministros)^ ou se tencionasse lá vol- 

^^úar; mas como não estou, nao t^iicÀswio t^^oi q^^x^ 

** tornar lá, posso dizer que n^m^eiiVJftxx^x^^e^mçk^TifòTsv 



225 

me alegrei com esse facto. Não sou hespanhol; se o 
fosse nSo sei em qual dos campos estaria; como o 
não sou, não tinha de considerar a revolução debai- 
xo do ponto de vista dos interesses hespanhoes. 

«Considerei pois a revolução como portuguez, e por 
isso nSo me podia alegrar com ella, apezar de, entre 
nós, não poder tirar carta de liberal, segundo certa es- 
cola, quem não applaudisse os vencedores de Alcolêa. 

«lambem honro as convicções e a coragem, quando 
se dedicam ao serviço de uma causa, e creio que os 
vencedores de ÁlcoIêa tinham a convicção da justiça 
d'aquella que defendiam. Honro pois os vencedores, 
mas seja-me permittido também, por um sentimento 
puramente pessoal, honrar o vencido de Alcolêa, a 

Suem tive a honra de apertar a mão d'amigo. Fallo 
o general Pavia, que poucos dias antes da revolu- 
ção tinha- censurado a marcha politica do governo do 
seu paiz, que conhecia os erros que se praticavam, 
que desadorava esses erros, que fallava com natu- 
nJ isenção á sua rainha, mas que no momento de 
perigo foi offerecer-lhe a sua espada, e que cahiuno 
oampo peior ainda que morto, tendo o direito de re- 
petir as palavras que depois da batalha que tem o 
seu nome, proferia o rei Francisco I — tout est perd^ 

ifcTê d'hormeur. 
«Eâtes exemplos são raros, são nobres, são levan- 

«tados, e por isso mesmo são mais preciosos nos nos- 

«806 tempos. Convém commemoral-os. 

<A oada um a expressão das nossas sympathias, 

«honremos pois e podemos honrar conjunctamente os 

«vencedores e os vencidos. 
. «Porém, com relação a nós, que somos portugue- 

«zes, qual era a situação que nos creava esse aconte- 

«cimento? Quaes eram as obrigações que nos ica^vsc* 

•àhã? 



15 



226 



Setiti&o de 21 de maio de 19611 



«O sr. MARQUEZ DE VALLADA. — Sr. presidente, an- 
ates de começar a usar da palavra, desejo dirigir uma 
«pergunta aos srs. ministros que vejo presentes. Como 
«n^esta casa nâo vejo o illustre ministro dos negócios 
«estrangeiros, desejo que os seus coUegas, que pre- 
« sentes estão, me digam se porventura, na ausência 
«de s. ex.^, podem responder ás perguntas ^ue tenho 
«de dirigir ao sr. ministro dos negócios estrangeiros, 
«relativamente á interpellação do sr. Casal Bibeiro? 

«O sr. MINISTRO DO REINO bispode Vizeu: — Osmi- 
«nistros presentes tomam todas as responsabilidades 
«dos seus actos e sâo solidários nos actos propriamente 
«do governo, e por isso podemos responder pelos noB- 
«sos coUegas. Se comtudo o sr. marquez de VaUada 
«se refere especialmente a assumpto que diz respeito 
«somente ao sr. presidente do conselho, ha de concor- 
«dar que nós não nos podemos julgar habilitados a 
«responder ás. interpellaçSes especiaes que o digno 
«par quizer fazer ; mas como s. ex.* se refere única- 
«mente ao sr. marquez de Sá, elle acha-se na outra 
«camará, foi apresentar uns projectos, e logo que os 
«apresente dirigir-se-ha para aqui. A demora deve ser 
«muito pequena.» 

O sr. MARQUEZ DE VALLADA. — Profcre um longo dis- 
curso que não podemos transcrever aqui na sua inte- 
gra, no qual, entre outras sensatas reflexões fez as se- 
guintes : 

«É pois evidente que, s^undo auotores bem (n> 
«tbodoxos de eras remotas, foi estabelecido e bem de- 
irfenr/i/lo o principio da aoberamai Ti«ki<í\wi«!L.lL\«B5Q«ttL 
^evidente qae, pelo direito xiovOi o ct^ôio \ío«w^ ^«sa.- 



227 

«sagra em um dos princípaes artigos, como dogma da 
a escola moderna, que são os povos que fazem os reis; 
<e que, por essa razão, a soberania nacional é a pri- 
«meira das soberanias sobre a terra. Isto não é politi- 
«ca nova somente, é politica velha, é politica boa, é 
«pelica ordeira. Pois, sr. presidente, os liberaes mo- 
« demos quando tratam de unir Portugal á Hespanha, 
«confeccionam um novo acto addicional ao credo libe- 
«ral das nações. Restabelecem a antiga forma de sue- 
«cessão dos extinctos morgados, e fazem applicação 
«d'ella á pessoa d'El-Rei o Senhor D. Fernando, quando 
«apontam Sua Magestade como candidato á coroa de 
«Hespanha, reconhecendo, como consequência neces- 
«saria da sua acceitação, a transmissão d'essa coroa 
«a seu filho o Rei de Portugal, unindo-se as duas co- 
«rôas, como outr^ora se uniam dois morgados pelo ca- 
csamento de um senhor de casa vinculada, com uma 
«herdeira de outra casa egualmente vinculada, ou 
«pela herança de um ascendente qualquer, seguidas e 
«respeitadas as leis que regiam os antigos morgados. 
«E não reparam estes doutores da nova escola que os 
«vínculos se regiam pela lei civil, >e que as leis que 
«regulam as successões dos príncipes ás coroas dos 
«estados, são leis politicas!!! Este paiz, Portugal^ não 
«é morgado de quem quer que seja. Ninguém pôde 
«impedir um monarcha portuguez dê acceitar uma 
«coroa estranha. Um monarcha portuguez que accei- 
«tasse porém outra coroa, por esse facto, perdia o di- 
«reito de reger esta nação. Á coroa seria declarada 
«vaga, e o povo, chamado pelo direito velho e pelo 
«direito novo, se congregaria para eleger um novo rei. 
«Antigamente davam-se reinos em dotes; e em Por- 
«tugsl deu-se uma porção de território em dote a uma 
«princeza; mas hoje, depois daa Váa ^^çt^^^^^^^<^^- 
egresso, depois das conquistai âia ÔlÇíTclo^x^^\.^ 'ss^^^^^* 
ena, depois de 1789, vem oa VL\>etíL^ ^^\s:\ô'^ ^sss^^'' 



228 

ado tumulo; e da poeira onde jazem, do esquecimen- 

ato onde estavam essas antigas leis!? E é depois de 

4 se ter feito uma reforma, como nós aqui fizemos, aos 

amorgados, que se quer adoptar outra vez a lei anti- 

«ga, fazendo applicaçâo á successão da coroa e á uniSo 

«ibérica?! 

• ••• .•..•,••••.•...•••.••••,•••..,•.•, 

O orador segue applícando estas theorias á candi- 
datura do sr. D. Fernando e accrescenta: 

«Ora, sr. presidente, parece incrível. Pois esque- 
acease já que no momento em que a coroa se achasse 
«vaga, era o povo quem devia decidir a quem ella 
«pertenceria, como disse João das Regras nas cortes 
«de Coimbra, e como muito posteriormente o escre- 
«veu Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, 
«primeiro ministro do reino na época constitucional da 
«carta em 1826 (homem que pouco conheci^ e que não 
«pude apreciar emquanto elle vivo, mas que aprecio 
«agora pelos seus escriptos), e especialmente o chamo 
«agora á auctoria, em consequência de uma obra so- 
«bre as leis de successão, em que elle sustenta os 
«bons principies. O que diria hoje esse homem libo- 
cral, que também provou que conhecia os nossos fó- 
«ros e privilegros, se visse agora confundido e bara- 
«Ihado o direito antigo e moderno por os chamados 
«liberaes da nova era. 

«Nós não podemos embaraçar qualquer monarcba 
«de acceitar qualquer coroa que lhe offereçam ; mas o 
«que podemos é, logo que um monarcha português 
«que acceitasse, ou fosse forçado a acceitar qualquer 
«coroa, e saisse de Portugal, eleger outro. E era a 
«que faziam, os portuguezes antigos. Mas sujeitarmo- 
«nos a um monarcha, embora portuguez, reinando 
^em paiz estranho, pelo amor de Dew^l... Ifiso nun- 

«CA !» 



229 

O orador continua fazendo uma larga resenha dos 
principaes factos da historia portugueza, e dirigindo- 
se ao sr. ministro dos negócios estrangeiros (Marquez 
de Sá da Bandeira) lembra-lhe os meios práticos de 
preparar o paiz contra qualquer invasão estrangeira, 
e, passando depois a analysar o prologo do livro da 
«Ibéria» de D. Sinibaldo de Más, accrescenta : 

«Continuarei pois seguindo o fio das minhas idéas 
«sobre o ponto principal da candidatura do Senhor 
«D. Fernando. 

«Sr. presidente, eu nâo posso insistir em pedir ao 
«sr. marquez de Sá que me mostre os documentos que 
.«ha sobre a recusa de Sua Magestade o Senhor D. 
«Fernando, mesmo porque s. ex.* provavelmente não 
«m'o8 mostrava. 

«O sr. PRESIDENTE DO CONSELHO DE MINISTROS : 

cNSo mostro. 

«O ORADOR: Ora doesta franqueza é que eu gos- 
«to ; gosto muito da franqueza do sr. marquez de Sá, 
«porque s. ex.^ segue na pratica o que uma vez disse 
«o sr. Mendes Leal, fallando em publico: d Eu faço o 
«que digo, e digo o que faço»; mas eu o que sinto é 
«que o nobre ministro quizesse tomar sobre si toda a 
«responsabilidade d'éste acto, e que os seus coUegas 
«a não quizessem tomar também.» 

O orador concluo assim o seu discurso : 
«A independência nacional será o sonho dourado 
«dos meus dias, porque esta idéa generosa e grande 
«nunca morrerá no meu coração, porquanto os meus 
«votos de hoje espero não serão jamais desmentidos 
«por nenhum acto durante a vida, e acabarei os meus 
«dias com a consciência tranquilia por nunca ter 
^atraiçoado a minha pátria, ^exiâio-Tafò ^^x '\aasi ^^^ ^ 
tpoder soltar com o ultimo \)r«AQ ^ \&yk\»* ^-«jg^s^^ 



230 

«do meu patriotismo, e essa cxpresaSo se resumirá 
«nas seguintes palavras proferidas com fé e entlui* 
«siasmo. Triumphe a justiça, triuhiphe a liberdade^ 
ctriumphe a independência nacional (Apoiados). 

O sr. itfiNiSTBO DA MAKINHA {Latíno Coelho)y defen- 
dendo- se das accusaçòes que lhe fizera o antecedente 
orador, diz : 

a Tenho sido accusado muitas vezes por este pro- 
a logo, que ha largos annos escrevi; e que tem sido* 
«menos verdadeiramente interpretado na imprensa e 
«no parlamento. Este prologo é antes um escripto lit- 
«terario do que uma affirmaçâo politica. A memoria 
«a que serve de introducção, pela leitura se conhece 
«que é antes um tratado de philosophia sobre as van* 
«tagens da união pacifica dos dois povos, do que um 
«folheto destinado a fazer uma propaganda activai 
«enérgica e immediata. 

«Ora quem ler despreoccupadamente as poucas li- 
cnhas que servem de introducção á memoria de D. Si- 
«nibaldo de Más, hade ver desde o principio que o 
«prologo em vez de ser um escripto destinado a com< 
«bater por uma idéa immediatamente realisavel, n2o 
«é senão uma utopia philosophica, um doestes idjlios 
«politicos que passam pela cabeça de todos os homens 
«quando começam a sua carreira de escriptores, quan- 
«do se lhes afigura que a humanidade seria mais bem 
«regida, mais fructuosamente governada^ os seus in- 
«teresses mais bem tutelados, se destruidas as firon- 
cteiras históricas, todos se congregassem em ágapes 
«communs, e em convivio sincero e fraternal. Se com* 
«batidos e annullados todos os dissentimentos e anti* 
«patKias intemacionaes, se podesse realisar o so* 
étnbo querido de muitos utopistas, amigos sinceros da 
^Aamanidade; o ideal de uma reçu\Av^«ki ôi^ ^g«L c«t&- 
^títuida por toda a christandaàe... 



231 

O SR. MARQUEZ DE VALLADA : — Sem O papa por 
€ chefe. 

«O ORADOR : — Ou com o papa por chefe. Quem ler 
«pois aquelle escripto com o animo despreoccupado, e 
€sem intenção de fazer d'elle uma arma politica, ha 
cde immediatamente convencer-se de que a idéa que 
€0 dominou é esse mesmo principio que tem inspira- 
«do a muitos scismadores da paz e da fraternidade 
txmiyersal; é aquelle mesmo principio de que se ins- 
cpiraram homens eminentes, como Manuel Rant, João 
« Jacques Rousseau, o abbade de Saint Pierre, e aquel- 
«les que no recesso do seu gabinete, sem responsabi- 
«lidade politica, sem serem obrigados a contrariar o 
cseu pensamento pelas necessidades da vida pratica, 
«teem sonhado a união de todos os povos, pelo menos 
«das nações christãs, no mesmo grémio, sob a mesma 
«legislação politica, constituindo uma única familia^ 
«destruindo todas as animadversões hereditárias, to- 
«dos os conflictos ambiciosos, todas as contrariedades 
«intemacionaes que a historia tem registado e robns- 
«tecido, e que devemos esperar que a civilisação ha 
«de tender a destruir cada vez mais sem comtudo 
c chegar nimca a annullar completamente esta divisão 
«natural da humanidade em differentes familias na- 
«cionaes que teem todas uma rasão moral e histórica 
«de ser, e mais do que nenhuma aquella a que debai* 
«xo do nome de nação portugueza temos a honra e a 
«gloria de pertepcer. 

«Sr. presidente, eu devo dizer, antes de ir mais 
«longe, que esta introducção foi escripta parece-me 
«que no anno de 18Õ2. (O sr. marqoAZ de Vallada. E 
«verdade.) 

«Ora desde o anno de 1852 até hoje teem decori-i- 
«do, se não me engano, dezesete ânuos. Eu não sou 
ado3 maia provectoSy e fazendo xvhv. ç.^^xí\g ^ckíi^sí \^- 
€CjI não seria difficií concluir, comç^x^ixAjò ^^ ^^!>5^»»*> 



232 

^íque quando escrevi era mancebo de poucos annos, 
«ainda n^uma idade florente e juvenil. Tinha entfio 
«todas as idéas que os homens professam quasi sem- 
«pre no verdor da juventude. 

((Tinha então todas as idéas que teem os homens 
<í novos quando começam a escrever, e havia muito 
((pouco tempo que escrevia para a imprensa. 

«Devo dar esta exph'caçSo, a fim de que s ex.* 
(tnão imagine que iio decurso de dezesete annos n8o 
«se possam ter operado no meu modo de ver theorioo 
«todas as modificações que tornassem compatíveis as 
«minhas idéas de então com o logar que estou occu- 
« pando, sem compromettimento para a dignidade e 
«independência do paiz.» 

O ORADOR declara acceitar b,' responsabilidade HUe- 
varia que se lhe exige pot haver escripto o prologo do 
livro A Ibéria^ e continua : 

«O digno par, e eu appello para a sua consciência, 
(» creio que no intimo da sua alma está convencido de 
«que além do prologo escripto ha tantos annos, nunca 
«na minha vida fiz uma só diligencia directa ou indi- 
«recta para que o pensamento que se continha na me- 
«moria que estamos agora discutindo, podesse reali- 
«sai* se praticamente. Ha ainda mais. Sou accusado 
«de haver escripto ha dezesete annos o prologo da 
c( Ibéria. E porque não citaes vós q3 meus escriptos 
«de muitos annos, n'um jornal de que tenho sido moi- 
«tas vezes redactor? Porque vindes manifestar á las 
«do dia as antigas opiniões, e escondeis na sombra os 
«escriptos modernissimos, em que afiirmei energica- 
«mente a independência da naçSo ? 

trAqui ha alguns annos, nSo ha muitos, discutiu-se 
frua imprensA a alliança entre oa Ao\% ^^^^^^ ^Q^srà^ssokr 
alares, com referencia a documeti\» ôiçVsovtóvi» «oíãto 



233 

«muito celebrado. Por essa occasião escrevi contra 
atoda a idéa de fusão, ou ainda mesmo de alliança, que 
cpodesse transcender os limites da boa e cordial vi- 
«sinhança entre dois povos, que são irmãos pelo berço 
«e genealogia politica, que vivem, por assim dizer, 
ana mesma terra, que teem costumes semelhantes, e 
«tradições enlaçadas entre si, que se devem amar 
«como irmãos e alliados, conservando a sua indepen- 
«dencia, zelando a sua nacionalidade, honrando, como 
«património inestimável, as tradições de uma historia 
«igualmente gloriosa para uma e para outra nação. 

«Se pois o digno par me torna responsável pelos 
«escriptos de dezesete annos, eu peço a s. ex.*, invo- 
«cando a sua muita caridade evangélica, que se lem- 
«bre também dos escriptos eaa que tenho defendido 
«ardentemente a nacionalidade portugueza. 

«Não ha ainda muitas semanas, escrevendo eu a 
«um cavalheiro hespanhol, eminente por talentos, e 
«collocado n'uma elevada posição politica, e respon- 
«dendo-lhe francamente acerca dos negócios da penin- 
«sula, eu aproveitei a occasião para firmar de uma 
«maneira clara e inconcussa a minha opinião inaba- 
«lavei acerca das ligações politicas entre os dois povos 
«peninsulares. Dizia-lhe eu que os dois povos irmãos 
«sa haviam de acatar e favorecer; irmãos pela sua 
«nobilissima ascendência, irmãos pelas emprezas ca- 
«▼alheirosas em que lidaram, iniciando os descobri- 
«mentos da idade moderna ; irmãos pelo generoso afan 
«com quen^este século se tem empenhado por conquis- 
«tar e reivindicar as suas liberdades contra todas as 
«oppressões e tyrannias. Que nos cumpria viver em 
«paz sincera e fraternal, conservando todavia perfei- 
ctamente definidos os nossos limites e fronteiras imme- 
«moriaes. Assim nos ajudaremos na actualidade com 
€mãÍ8 fincto, e contribuiremos ^^ta^ ^ ^wcsfisssss.^'^'^- 
»perídãde e grandeza da çraMi^axi^a., ô^^ ^^ "^"^^ ^^^'^'^^^ 



234 

«união apparente e âcticia^ que, qualquer que seja a 
«sua forma, nas presentes condiçSes da península e 
«nas suas actuaes relações com o systema europeU| 
«trará sempre nas apparencias de um enthusiasmo 
«ephemero e de uma irreflectida communhâo, a se- 
« mente funesta dos ódios civis, e das guerras diutur- 
«nas e cruelissimas, que até hoje teem seguido de 
«perto todas as tentativas feitas pela diplomacia ou 
«pela espada, para eíFectuar a união entre os dois po- 
«vos peninsulares. 

O sr. PRESIDENTE DE CONSELHO (Marquéz de Sá da 
Bandeira) : — 

«Não tenho que fazer mais do que ratificar o que 
«hontem disse quando respondia ao digno par o sr» 
«Casal Ribeiro, sobre a responsabilidade que me per- 
«tence exclusivamente, com relação á questão do te- 
«legramma. Nada mais digo sobre isso, porque fui bem 
«explicito e sincero. (Apoiados), 

«Ha porém um ponto novo que foi hoje tocado pelo 
«digno par que tem occupado a sessão. Disse s. ex.* 
«que se admira de que eu não tenha até agora nami- 
«nha qualidade de ministro da guerra, apresentado 
«quaesquer trabalhos sobre plano de fortificações, Res- 
«pondoa s. ex.* que não tenho descurado este negocio, 
«e que logo que o estado da fazenda publica o permitta 
«serão apresentadas ás camarás as propostas necessa- 
crias para se estabelecerem os fundos indispensaveia 
«para conseguir tão justo fim. O que digo das fortí* 
«ficações, acontece igualmente com relação á força do 
«exercito. 

. « Tenho concluído, porque, emquanto ao mais, acho 
«escusado repetir o que disse quando respondi ao di- 
agno par o sr. Casal Ribeiro.» 

O Br. VISCOUÍDE DE FOííTE-AB.CAJ>k TíSuCi ^ ÔA. ^T 



235 

satisfeito com as explicações do sr.' Latino Coelho. 
O sr. VISCONDE DE CHANCELLEIROS entende que se 
deve terminar a discussão de um assumpto sobre que 
nSo pôde recair votação. 



liessão do dia !S4I de mato de 19119 



O sr. CASAL BIBEIRO depois de indicar qual a polí- 
tica que Portugal devia seguir com relação a Hespa- 
nha accrescenta : 

<Affrontou-se lá fora a egreja ministerial de que 
«fosse encetada aqui esta questâO; e continue. Lá fora 
«levantam-se, aventam-se receios de complicações ex- 
«temas, e por outro lado estremece-se ou parecem es- 
«tremecer certos aulicos demagogos de que não soffra 
«desdouro, em consequência doesta discussão, um nome 
«que todos respeitámos, o nome do augusto pae do 
«nosso monarcha, o nome do Senhor «D. Fernando. 
«Não tenham receio, acalmem-se os ânimos, desvano" 
«çam-se sustos pueris ! 

«É licito levantar esta questão na tribuna portugue- 
«za ; é mais que licito ! Era necessário, era opportuno, 
«era indispensável ! 

«Ignora-se por ventura o que se está passando n^es- 
te momento no paiz vizinho ? Ignora-sc por ventura o 
«caracter que tem tomado as discussões no parlamen- 
«te hespanhol ? 

«Ha quatro dias que a Hespanha se constituiu em 
«monarchia, ou para melhor me explicar, que votou 
«que a sua forma de governo fosse a monarchica, re- 
«Jeitaiido a forma republicana "por 214 e«ti\x^ ^\ ^<ík\«%.» 
<íSe não noa pertence a nóa apt^cvíiX «w*?^ x^^^'^ ^^ 



236 

a produziram está votaçSO; e se não nos pertence ap- 
aplaudir ou censurar o voto, não pôde comtudo deixar 
a de pertencer-nos levantar, para as combater de frente 
«as expressões proferidas, e os sentimentos manisfias- 
ctados por uns e outros, monarchistas e republicanoii 
«porque se referem nada menos do que a contrariar 
«a nossa autonomia, a conservação do nosso Porta- 
«gal no mappa das nações. 

«Quer a camará uma prova nova, recente, de qual 
«é n'este ponto, em Hespanha, o accordo dos partidos 
«revolucionários ? 

«Tem na na celebre discussão de 20 do corrente 
«maio, dia em que se votou a monarchia. 

cLevantou-se ali um tribuno eloquente defendendo 
«o principio republicano, o sr. EmiUo Castellar, e en- 
«tre as rasSes com que apoiou o que sentia e dizia, 
«insistiu em que a forma republicana era a que oon- 
«dúzia mais depressa á imião de Portugal com a Hea* 
«panha. 

«Dizia assim o eloquente orador democrata (lendo) : 

« — A idéa da imião de Hespanha e Poatugal pela 
«iniciativa da monarcijia portugueza era uma idéa 
«gloriosa, porque estamos em um período revoldcio- 
«nario muito especial... 

« — Se o rei de Portugal houvesse comprehendido 
«que, na situação em que nos achámos, era indispen* 
«sável collocarse á frente do movimento ibérico, tal- 
«vez teria perdido o seu throno, e talvez teria ganho 
CO throno da península... Mas o rei de Portugal não 
«queria a união com Hespanha, porque o povo por- 
«tuguez, qtie quer a união pela forma republicana^ 
«não quer a união pessoal, não quer a união monar- 
cchica...» 

«O OBADOB {ivterrompendo a leitura): Ousada e 
«falsa aílirmativa I Quem aft&ov^Tow «ix^ «t. Çj««l^Uas^ 
«em que provas assenta a ftua ^^Itwíciai y^^^í^^^ ^^ 



237 

€que o povo portuguez quer unir-se com a Hespanha 
csob a forma republicana ?••• 

€ {Lendo) —Diz-se ali (em Portugal) a Hespanha 
«adianta se mais que nós, progride mais ; reparae co 
«mo nos attrahe que grande exemplo nos dá ! Dizia- 
c8e por ventura o mesmo quando a Hespanha se 
«apresentava a seus olhos como monarchia, symboli- 
« Bando o sombrio exclusivismo catliolico?,..» 

O ORADOR : — Que significava isto ? Significava 
«claramente que a melhor forma de governo para 
«Hespanha seria a que mais depressa lhe levasse em 
«dote est«* reino de Portugal. Admittia-se para esse 
«fim a monarchía, adimittia-se a candidatura do Se* 
«nhor D. Fernando ; e para obter a absorpçâo doeste 
«paiz em um futuro mais próximo renunciava-se pro- 
«visoriamente ás delicias da republica. Desenganado 
«agora da inutilidade da tentativa, o sr. Castellar 
«concluo assim (leu): — «Se quereis Portugal.., 
« (vozes : — Ouçam, ouçam) — «Se quereis Portugal, 
«Portugal é vdsso...» — Que sem ceremonia ! 

9i {Contínua lendo) — «Estabelecei a republica, e 
«tereis a união com Portugal ; se estabeleceis a mo- 
«narchia, renunciae a Portugal por muito tempo...» 

«O ORADOR: — Eis-aquí como faliam os republica- 
«no8 de Henpanha ! Eis-aqui como para elles a mais 
«excellente entre as excellencias da republica se lhes 
«afigura »er a encorporação de Portugal ! 

«E não se peuse que isto é exageração tribunicia 
«de um espirito aliás illustre, e de uma voz aliás elo- 
«quentissima ! Respondia ao tribuno republicano um 
«grave homem doestado, mn homem de levantado es- 
«pirito, respeitável pelo seu caracter e precedentefii, 
«um homem moderado e monarchista, o sr. Rios Rosas. 

«Defendendo a monarchia, o sr. Rios Rozas soccor- 
érria-se, lovertendoo ao mesmo aTgxxxDL^WiXfò^^^^t*^"^»^- 
éítellãr. O ãm, a união peninaulaT^ etí^i ^^xdíç^^ ^\asíR»' 



238 

<mo ; variava o meio na opinião do orador monarchi- 
cco ; 6; segundo elle, chegar se-hia mais depressa á 
«união, não, pela licença, mas sim pela ordem. 

«Quer a camará saber como o sr. Rios Bozas res* 
«pondia ao sr. Castellar, defendendo o principio mo- 
«narchico? {Leu) — Fallou o sr. Castellar de Hes- 
«panha e Portugal, declarou que a federação não pó- 
«de realizar se senão debaixo da forma republicana. 
«Em apoio da sua opinião leunos vários periódicos 
«do reino vizinho, que, se não estou em erro^ nada 
«provam em favor da these de sua senhoria...» 

«O OEADOR: — Faz-se aqui referencia a periódicos 
«portuguezes. Não posso aíiirmar quaes sejam^ por- 
«que não consta do extracto do discurso do sr. Cas- 
«teilar. Entretanto pela doutrina é fácil desconfiar 
«quaes poderiam ser: (leu mais) 

« -^ Eu creio, senhores, que a federação virá me* 
«Ihor pela forma republicana : primeiro, porque não 
«creio na duração da republica nem em Hespanha 
«nem em Portugal; segundo, porque, alem de nSo 
«julgar possível a republica em Hespanha, creio que 
«Portugal está menos preparado para a republicai 
«que a Hespanha, onde ha mais elementos democra- 
« ticos que no reino vizinho. A federação fíir-se^ha 
€maÍ8 depressa do que alguns hespanhoes acreditam, 
«quando haja aqui um governo consolidado, quando 
«este governo seja respeitado por todos, quando ob par- 
«tidob se tenham accommodado á vida logal, quando 
«Hermos exemplos de legalidade e moderação. Então 
«seremos amados e respeitados pelos nossos vizinhos, 
9 que solicitarão a federação pelo seu próprio interesse, 
«e pelo nosso, conservando elles a sua autonomia e 
«nós a nossa.» 

fO OHADOR (continuando): — Não sei de que espo- 
ar cie cl) federaçio se trata aq\ú% "SatxxTsXmetA.^ «tscv^ «l< 
€iniJhãntH áqueJla que nos gataxiXiva Y'^vgçfò ^^"í 



239 

aepoca em que até as nossas antigas leis tomaram o 
«nome de ordenações Filippinas : na época em que as 
«opiniões de Portugal foram assoberbadas pelo leão 
«de Castella, na época em que se repetiram aggra- 
«vos, sobre aggravos afirontas sobre aíFrontas, na 
«época em que jazemos conquistados e humilhados, 
«até que em 1640 se levantaram os heroes, que se- 
«râo sempre admirados em quanto houver portugue- 
«zes, e repelliram para longe, em uma revolução, au- 
«daz e em uma guerra gloriosa, o odioso dominio dos 
«conquistadores ! 

a Sr. presidente, sem oflfender ninguém, sem oflfen- 
«der quaesquer opiniões, não será licito, mais do que 
«licito ainda, opportuno e indispensável, que se levan- 
«te uma voz no parlamento portuguez, chamando bem 
«alto que se enganam monarchistas e republicanos ? 
^(Apoiados.) Ha perigo ou pode haver receio ? Des- 
«douro seria o silencio. 

«Quando taes cousas se dizem lá fora, é necessário 
«que achem aqui uma resposta clara, um brado vigo- 
«roso, um não clamoroso, como nos primeiros dias 
«deste século repetia D. Lourenço de Lima diante do 
«grande Napoleão, quando o imperador lhe perguntava 
«se queríamos ser hespanboes. 

«Respondamos pois, que o exige o decoro da pa- 
«tria. Respondamos alto e claro. Não, mil vezes não ; 
«nem ibéria monarchica nem republicana ! (Apoiados) 
«Não nos seduz o papel brilhante do Piemonte, que 
«talvez tivesse rasôes para proceder como procedeu. 
«Porém não queremos nós ser os piemontezes de pe- 
«ninsula hispânica. 

«Digamos á Hespanha que não queremos de forma 
«nenhuma a ibería. Não a queremos pelas formas abso- 
«Intas dos tempos de Filippe ii, tempos que para a 
irpropria Hespanha foram a di&X»^ Òl^ xvs^sa^ ^%x^^ ^^- 
€ cadencia, que lhe coirvm\ia xãíí «ç^^^ò^^x. 



240 

.((Muitas vezes as ambições enganam as grandes na- 
«çoes, e quando julgam ir buscar a força no argumen- 
((to do território e da população conseguem só o amai- 
((gama informe de elementos heterogéneos, que em 
mvez de principio vital são mortal doença que lhes 
((mina a própria existência e as leva á dissolução. 

«E se não queremos a encorporação debaixo das 
«formas absolutas do' tempo de Filippe ii, igualmente 
«a desadorâmos na forma das utopias dos continuado- 
«res de Bernardin de Saint-Pierre (Apoiados), 

a Saibam o pois os nossos vizinhos. Nem ibéria uni- 
«taria, nem ibéria federal, nem ibéria monarchica, 
((nem ibéria republicana ! {Muitos apoiados, )i> 
• •••••••••-••••••••••••••••••••••••••••••••••■ 

Detendose depois em expor a questão da candidatara 
do sr. D. Fernando ao throno de Hespanha, o orador 
prosegue doeste modo o seu discurso: 

a Sr. presidente, eu não tenho horror a nenhuma 
((discussão de doutrinas. E assim que comprehendo a 
«liberdade e a tolerância. Âdmitto, e louvo mesmo a 
«sinceridade das opini8es dos republicanos e dos fede- 
«ralistas, mas tenho para mim que as federações na 
«Europa de hoje são um anachronismo. 

«Como se transformou a Allemanha depois de Sa- 
do wa!... Robusteceu o principio federal histórico que 
«existia ali?... Áo contrario; foi denominada, absor* 
«vida na hegenomia prussiana. Formára-se a chama- 
«da confederação do norte em condiçcles taes, que os 
«Estados Confederados ficaram sendo pouco mais que 
«prefeituras da Prússia ; e pouco depois firmava-se com 
«os estados do sul um tratado de alliança offensiva e 
«defensiva, pelo qual o soberano da Prússia, em caso 
«de guerra^ era chefe de todo o exercito. E como se 
*rrealÍ80u essa transformaçS.o ? ¥o\ i^ot N^tL\.\x£«ii ^^fiJa» 
^vontade espontanesL dos povoB? 



241 

«Não nos pertence a nós^ de certo^ contrariar os 
afmctos consummadoS; mas pertence-nos não cerrar os 
€oIhos á historia contemporânea. Que o digam Franc- 
«fiirt e o Hanover ! Eis aqui como se operam as fu- 
«sSes ! Operam-se no século xix, como se operavam 
«na edade media, com a differença de se enfeitarem ás 
«vezes com os falsos ouropéis do suffragio universal. 
•■ «Não foi só na Allemanha, na Itália também. 

«Quem ignora que o programma de Vi lia Franca 
«se cifrava em constituir os estados italianos em fe- 
«deração? E ninguém ignora também as razoes que 
«obstavam á realisação doesse intuito, ninguém ignora 
«que a revolução passou por cima do programma da 
«França e produziu a unidade. Os esforços de Buon 
«compagni em Florença, as tentativas de Garibaldi 
«em Nápoles, trouxeram a forma unitária e fizoram 
«que a federação annunciada nem ao menos chegasse 
«a ser ensaiada. 

«Se as federações não ganham hoje terreno na Eu- 
«ropa, como se vê pelo que tem acontecido e pelo que 
«temos presenciado, não admira que no reino vizinho 
«vejamos levar de vencida o brilhante talento de Cas- 
«tellar, pelo bom senso do republicano unitário Gar- 
«cia Rodrigues, e pelos oradores monarchicos. 

«Digamos mais alguma cousa ainda 

«Se as federações são impossíveis, as republicas 
«também o são na Europa actual. 

«Republicas permanentes, republicas com o cara- 
«cter de estabilidade, republicas n^esta nossa velha 
«Europa não se pódeni conservar. 

«Ha pouco mais de dois séculos caiu em Inglaterra 
«a oabeça de Carlos i, e sobre o cadafalso do infeliz 
«monarcha ergueu se a republica. Pouco depois já o 
«protector Cromwell sonhava ornar com o diadema 
«reaJ a própria cabeça, o pouco ôl«ço\^^wík.^ ^^ssNRst''^!}^ 
^repuhhc&noy restaurava o t\itOTVo "ç^íxí^ ^«:^<5k% ^^' 
16 



242 

aVoltou a velha dynastia, e nâo sabendo garantir 
ao facto com as ídéas novas^ continuou a lacta. 

«Seguiu-se outra revolução. Qual foi o resultado 
((d'ella? Foi a abolição da monarchia? Kào; foi uma 
«mudança dynastica. 

«Foram expulsos os Stuarts, mas vieram occupar 
«o throno Guilherme e Maria, e formaram o pacto de 
«conciliação entre a coroa e o povo, consolidando o 
«regimen constitucional e parlamentar. 

«Nos fins do século passado, na França, também 
«sobre o patibulo de um rei martyr, e sobre milhares 
«de outros patibulos, se elevou a republica. Mas doía 
«annos depois o que aconteceu? Tallien succedia^a 
«Robespierre, a corrupção succedia ao terror, e sobre 
«as ruinas do directório levantou-se um grande con- 
«quistador, um novo César, o mais admirável de to- 
«dos, porque foi César na época em que eram maia 
«iguaes as condições da civilisação, e levou victorio- 
«sas as águias francezas de&de Lisboa até Moscow, e 
«por fim, mal ferido na Hespanha, foi cair em Wa- 
«terloo, diante da indignação da Europa, justamente 
«irritada. Quasi sempre os Césares acabam assim. 

«E se doestes tempos passamos a outros maia 
«modernos, quando caiu a monarchia de Luiz Filíppe 
«e se proclamava a reput>lica, que vimos nós dez mo- 
«zes depois? O suffragio universal, elegendo um no- 
«me glorificado pelo fundador da dynastia napoleoni- 
«ca ; o suffragio universal restaurando a tradição im- 
«perial. Porque isto era sem duvida o que n'aquelle 
«momento significava a candidatura á presidência do 
«príncipe Luiz Bonaparte. As qualidades pessoaea do 
«futuro imperador mostraram-se de superior valia» 
«Mas n^aquelle momento a sua recommendaçâo era o 
«nome de Napoleão, e o aferro do sobrinho do primei* 
ero imperador á tradição da B\ia iam\\\«i.NQ\Ax\iM».W 
^presidência o príncipe Luiz Bonaçaxl^ ^t^i ^^\^, ^ ^» 



243 

«factos vieram confirmar, era votar a restauração do 
«império. 

«Que tem suecedido na própria America, povo no- 
«vo, para onde a forma republicana parece ter-se me- 
«Ihor aclimado ? Apezar dos costumes que lhe são pro- 
«prios e muito particulares, apezar do culto a idéas mui- 
«to diversas das que entre nós dominam, que se tem visto 
«depois da guerra? O principio federal cedendo passo 
«a passo diante do principio unitário. E triumphando 
«o principio unitário^ que será feito da republica n'a- 
«quella immensa nação ! 

«Ha uma razão philosophica que explica estas ver- 
«dades históricas. A meu ver é o velho principio do 
«velho Montesquieu. 

«É que a alma das republicas democráticas é a 
«virtude. Ora a virtude civica, a abnegação, a dedica- 
«ção ao bem da pátria não predomina n'estes nos- 
«808 tempos, lindamente eivados de individualismo e 
«de materialismo. 

«Quande Sylla, diz Montesquieu, queria restituir a 
«liberdade aos romanos, elles não a sabiam acceitar. 
«Caia César, caia Cláudio, Nero e Domiciano ; os tj- 
«rannos caem uns depois dos outros, porém ficava de 
«pé a tyrannia. Era republicana Athenas quando dis- 
«putava gloriosamente o famoso passo das Thermopi- 
«las ; porém quando Filippe lhe batia ás portas já re- 
«ceiava mais ; no dizer de Demosthenes, perder os 
«prazeres que perder a liberdade. 

< Acontece agora o mesmo na nossa velha Europa ; 
«acha-se em estado parecido. Pretendem alguns que 
«seja na nossa época objecção á republica a falta de 
«illustração geral. A ialta de illustração dá-se na in- 
«fancia dos povos, mas a falta de virtude civica é sym- 
«ptoma da idade senil. 

€ Respeito muito as opimôen gotíXt^ívô»^^ ^<5íAs«í. ^ 
€tbeoriaa doa republicanos n?Lo 8^i»X«wm o xí^^^ ^'«^^^^ 



246 

«fundar entre nós a sua politica c, a sua doutrina 
«theorica? Se os factos não podem supprimir-se^ é 
a evidente que as nossas relações com o. reino vizinho 
«hão de ter um caracter peculiar de especialidade, que 
«não pôde ser exactamente o mesmo das nossas rdla* 
«QÕes com as outras potencias. 

«Qual deve ser esse caracter? Isolamento? Impôs- 
«sivel; oppôe se a geographia; não nos podemos iso- 
«lar da Hespanha, sem nos isolarmos do mundo. Hos- 
atilidades ? Mas hostilidades de factos, ou simplesmen- 
«te de palavras e arremessos? Hostilidades de iaxitos 
«leva nos a conquistadores ou conquistados, o que a 
«final se traduz em uma e mesma cousa, perda da 
«nossa independência. Hostilidade apenas de palavras 
«e de sentimentos, pôde conduzir ao mesmo, e alem 
«de tudo é ridiculo e prova debilidade. 

«Quererão alliança de partidos? Essa é a politica 
«de uma certa escola; mas é a peior, e a mais de- 
«ploravel das politicas. ÁUianças de partidos oom o 
«reino vizinho, é politica de dependência levando di- 
«reito á fusão, sem espontaneidade e sem dignidade* 
. «Na alliança de partidos, quando a Hespanha é 
«maior que nós, o predomínio seguro é d^ella. A Hes- 
«panha maior que nós, não pôde aceitar a nossa vai- 
«dosa e insustentável pretensão, de querer guial-a pe- 
«las normas da nossa politica interna. Que se segai- 
«ria então da alliança de partidos ? Que quando lá 
«estiver no poder um governo liberal, aqui também 
«se levante um governo liberal ; quando lá houver um 
«governo retrogrado, ^também aqui ha de haver um 
«governo retrogrado. E essa a situação a que querem 
«reduzir-nos ?... E a livre ingerência do paiis no aeu 
«próprio governo que fica sendo ? Que fica sendo a 
tfii2de/>endencia ? Quem a sustenta, quem a defende 
<iei2tão ? 
«Ora 86 a politica de iaolameuto ^ VtsxçqwíwAi ^ ^ 



247 

€poIitica de hostilidade é perigosa, se a politica de 
«alliança de partidos é a antliquilaçâo da independen- 
«cia real, que resta? Á politica de alliança sincera, 
«leal, nobre de nação a nação ; a politica que recd- 
cnhece em cada um o pleno direito de se governar 
«como entende, procurando no estricto cumprimento 
«dos deveres mútuos, e no pleno respeito das duas 
«autonomias, a base de um accordo honroso e digno. 
«Era este o critério da politica que seguimos, e 
«com a qual ainda hoje nos honrámos.» (Referese ao 
ministério regenerador, de que o orador fizera parte.) 



•«Ofr- 



Sesftáo do dia 99 de Jullio de 1SII9 

O eloquentissimo orador bebello^ da silva que 
desde o principio da sessão legislativa accusára o go- 
verno, principalmente pelo mau rumo que iam toman- 
do os negócios da fazenda publica ; n'esta sessão usa 
largamente da palavra^ e depois de discursar sobre 
assumptos de politica interna, chega assim ás conclu- 
sões do seu notável discurso : 

«Cumpre me dar uma explicação á camará. Âlgu- 
«mas pessoas, que me ouviram, attribuiram a uma 
«phrase pronunciada por mim, sentido que^lhe não dei, 
«suppondo-me intenções de censura, que estão longe 
«da minha idéa. 

«Heferi-me á publicação de uma carta do eloquente 
«tribuno hespanhol, o sr. Emilio Castellar, e notei que 
«ella tivesse sido feita em diíFerentes jornaes, e em 
«alguns até que não são hostis ao gabinete ; e alguém 
«entendeu, que eu accusava esses jornaes pelo facto 
«de reproduzirem aquelle eamç\.Q.^V> ^ ^-xafávsi- ^ 
«meu ver a carta podia ser ^\3ÍcK\e.'eA^, ^ ^^ -kss.^^sv^ 



248 

(ca publicaria se fosse jornalista ; mas quem não posio 
(X deixar de censurar é o governo por deixar correr á 
«revelia a doutrina d^aqueiie documento» porque a 
«obrigação do governo é cobrir sempre a coroa eu 
«tudo e em toda a. parte. Admirei- me de que o gabi- 
«nete não achasse nada que responder ao sr. Castel- 
«lar. Não fica mal aos ministros escreve^m, e algum 
«dos actuaes é primoroso estyilista e polemico. N8o 
«houve tempo^ ou não mereceu uma replica a carta 
«do distincto orador? {Apoiados), 

«Porque? Paseam em julgado as suas asserções 
«audazes, quando nos convida a despedir o rei e a 
«fundar a republica ibérica. Se acaso se tratasse d'al- 
«guma vaidade ferida, de algum acto próprio estranha- 
«do não se demoraria a resposta. Porque reinou pro- 
«fundo silencio sobre um escripto importante? Não 
«censuro os jornaes. Fizeram o que eu faiia. Noto só 
«a indifferença do governo {apoiados). 

«Emquanto á crise, a camará fará o que entender^ 
«e os poderes públicos obrarão de modo que julgarca 
«mais conveniente. Do governo não espero nada, e da 
«sua reconstrucção muito menos. O gabinete pôde 
«prolongar a agonia, mas não prolonga a existência; 
«póde-se coUar ao poder, como o moUusco ao rochedo, 
«porém não resolve nenhuma difficuldade, não adian- 
«ta um passo, e espaça e adia com risco imminente a 
«solução dos problemas de fazenda e de administra* 
«ção. Á popularidade perdida não volta, e os meios 
«de governar faltam lhe. Hoje é preciso que os mi- 
«nisterios provem vontade, consciência, conhecimento 
«dos negócios, patriotismo, e que a opinião publica 
«08 fortaleça. Se não tiverem tudo isto, os naiufragíos 
«hão de ser successivos, e só peço á providencia que 
amos poupe o ultimo, que nos livre da suprema catas» 
tropbet 
«Quando £to os olhos do eaça\\o itfi ^w»».^^ ^ 



249 

«(procuro antever o futuro, extremeço vendo os graus 
«de analogia que existem entre os dias tristes que 
«atravessamos, e a dolorosa época de 1Õ80 {apoiados) 
«Foi n'essa época que se levantou o prior do Crato 
a inebriando as multidões com a palavra cheia de il- 
«lasoes de renovar os dias gloriosos do mestre de 
aÂviz ! Mas o braço do bastardo do infante D. Luiz 
«nao podia com a espada de D. JoSo i, e a grande 
<^(raça dos herocs desapparecêra nas sombras da de- 
«cadencia. Ministros sem capacidade, conselheiros sem 
« intelligencia, soldados sem chefes, e um rei cardeal 
«moribundo e dominado pelos claustros, como haviam 
«de oi^anisar a resistência nacional ? Tudo estava 
«alloido e tudo desabava. Nas cortes de Santarém e 
«Almeirim a discórdia, a inveja a pusillanimidade, e 
«o egoismo. Só uma voz nobre fallava a linguagem 
«heróica d^outras eras. O bispo de Leiria estendia em 
«uma das mãos aos deputados o documento que attes- 
«tava as indecisões da coroa, e escondia na outra a 
«ccdula das promessas de Christovâo de Moura. Tudo 
«agojaisava, rei, povo, liberdade, brios e independen- 
«cia. Todoa invocavam a pátria, e ningtiem se lem- 
«brava senão de si... L assim que morrem as nações. 
<i{Muito apoiados. — Vozes : — Muito bem.) 

cO veneno da corrupção minava a maior parte das 
«forças, o desalento e a descrença quebrava o resto. 
«Nos areaes de Alcácer, ou nos aljubes de Marrocos 
«e de Fez jazia morta, ou captiva a flor da nobreza. 
«A par do luto da derrota de D. Sebastião avivava 
«a dor dos que sentiam o luto próximo da perda da 
'(independência. A pobreza era geral. A fome batia 
«ás portas do maior numero. Os cofres públicos vasios 
«quasi que desarmavam antecipadamente a defeza. 
«A questão da fazenda apressava então a dissoluc^âo 
<íàoa eleiuentos, que ainda podàaxa ^iOTiçc^^wt ^«k ^"«r». 
«ãcadir ao perigo. Assim de txwiiíí. eTCk t^wí».'» ^^''«^" 



2Õ0 

amilliaçao cm humilhação, no meio da anarohia mansa 
«que precede de ordinário os granSes cataclysmos, 
achegou se ao ponto da ordem e da segurança serem 
«apenas um desejo sem realidade ; do maior numero 
«(cumulo de infelicidades!) nas trevas caliginosas do 
«desespero já não via luzir para si outra luz, nem ou- 
«tra esperança, senão o clarão sinistro despedido das 
«lanças e mosquetes dos veteranos do duque de Alva; 
^{Muitos apoiados). 

«A lucta com o estrangeiro foi curta. Em Cascaes, 
«na ponte de Alcântara, e nas margens do Douro o 
«partido sem cabeças e sem disciplina da independeu- 
«cia caiu derrotado para não tornar a levantar-se. 
«Depois... até os que tinhimi pelejado com elle foram 
«rojar sé aos pés do conquistador, e pedir-lbe o qae 
«não estava na sua mão conceder, que fizesse surgir 
«d^aquellas ruinas e d'aquella podridão o Portugal no- 
«bilissimo de seus avós 1 Mas o dominio estranho é 
«estéril e triste como o captiveiro, que representa, e 
«a sua voz mata, não vivifica. Filippe it não proveu 
«senão de patíbulos, de verdugos, e de delatores as 
«solidões moraes rasgadas em roda de um thronomi» 
«litar. Sessenta annos de oppressão, de desastres sue- 
«cessivos, e de aviltamento provaram aos portugueses 
«que o leão de Castella podia devorar membro por mem- 
«bro os estados que associava ao seu destino, mas nlo 
«sabia salvar-se a si, nem salval-os a elles. A Hespa- 
«nha embrutecida pelo despostismo, pela intolerancÍA 
«monacal declinava rapidamente, e cingindo nos bra- 
«çoB armados o pequeno reino, alvo constante de soa 
«ambição, queria arras tal-o comsigo ao abysmo. O mo- 
«ribundo já meio afundado nas aguas tempestuosas que- 
«ria levar-nos por força á mesma morte I... Bastou uma 
•hor», bastaram quurenta homens, quarenta fidalgoSi 
^auxiliados peio seatimento unaxivTnft d^^ràk^^^Ax^. ia^- 
«cudir um jugo longo e àeteatado* (^M.u\tos «pwjAcja^ 



251 

«Dentro de oito dias a casa de Áustria^ que ainda 
«fazia tremer a Itália, e os inimigos alliados para a 
«combater; nSU) contou em Portugal uma villa, ou uma 
«aldeia sua, nem um soldado, nem um canhão, e ficou 
«sabendo o que vale a vontade de um povo, quando 
«quer e sabe ser livre. {Repetidos apoiados), 

«O povo disse nãOf e com a ponta da espada gra- 
«vou nos campos de batalha com o sangue das veias 
«o glorioso protesto de Aljubarrota. Deus abençoou 
«suas bandeiras, e a historia da independência ornou- 
«se com mais uma formosa pagina. O povo disse não, 
«e manteve a palavra, mas é porque teve fé em si e 
«nos seus destinos, porque pelejou unido e resoluto, 
«porque tomou a nacionalidade por divisa e o throno 
cda sua escolha por base. (Apoiados). D. João iv foi 
«o rei do paiz, o rei do direito legitimo affirmado pela 
«soberania popular. A sua força invencível nasceu 
«doestas duas circumstancias. (Apoiados), Para as chan* 
«cellarias estrangeiras representava a legitimidade fe- 
«rida em 1Õ80 pela usurpação hespanhola, mas para 
«os súbditos era o rei levantado em seus braços, un- 
«gido pelo amor da liberdade, e saudado pelo enthu- 
«siasmo da emancipação, e pelo orgulho da alforria 
«viotoríosa. (Muitos apoiados), 

«O que perdeu o reino em 1580? A incapacidade 
«dos ministros, a pusillanimidade do rei e das cortes, 
<e o desalento geral. O que salvou a nação em 1640? 
«A união das forças e das vontades, a fé viva, o a 
«decisão heróica. D. João iv tomou ministros que sou- 
cberam segurar-lhe a coroa na cabeça, teve generaes, 
«como o que se acha n'este momento ao meu lado, 
«que souberam attrahir a victoria a seus estandartes, 
«retintos de sangue nos campos de batalha as folhas 
«das espadas como a doeste, e mutilados também al- 
«^tinfif glorioBamente como e\\e\ Gcen^ei^^^e» Q^^\Aa5vR»í" 
€rmm sobre a cúpula da monatcVia t^^\.«xx\^^"^ ^\3«s^- 



252 

«deira i*ota das balas, a bandeira que tantas yesei 
«guiara á victoria Sancho Manuel, o marques de Mi- 
(crialva, D. João da Costa, André de Albuquerque^ 
uMathias de Albuquerque, e outros que eram da &- 
((milia de Mem Rodrigues de Vasconcellos, e dos Cih 
«pitSes de D. João i. {Apoiados). 
« Quer a camará saber o que é, o qae vale, e o que 
«significa um paiz sem ministros? Quer ver qttaes slo 
aos resultados que pôde trazer um governo sem forja^ 
asem plano, sem energia, e sem prestigio? Contemple 
«a epocha de 1807. O exercito de Napole^ comm«^ 
«dado por Junot já atravessava as fronteiras de Por^ 
«tugal, e um gabinete ado)*mecido e inepto ainda igno» 
«rava o trabalho leonino, que desmembrava a pátria. 
«As águias napoleónicas adejavam já com as ganas 
«abertas para empolgar a capital, e Lisboa ignorava 
«tudo, quando já a sombra da invasão lhe eseureoia 
«o rosto. A ultima hora um grito de angustia disper- 
«tou a todos. Era tarde. Viu-se então um espectáculo 
«que resumiu as maiores lastimas humanas. A dynas- 
«tia fugitiva entregava o paiz aos invasores. Uma rai* 
«nha louca era levada entre gemidos e soluços para 
«bordo do navio, que havia de transportal-a longe da 
«teri*a, aonde repousavam os ossos de seus antecessor 
«res. O príncipe regente, quebrando a espada sem 
«combater, deixava as praias dá pátria aos inimig>i0^ 
«<e via abrir as velas das naus ao vento com a aaci0* 
«dade com que vería despregar as azas á esperança 
«na crise de uma batalha decisiva. Arrancando-sedoa 
abraços do seu povo, ia esconder alem do Atlântico^ 
«na terra de Santa Cruz, o sceptro o a coroa do 
«D. João I e de D. José, e lançar os alicerces da se* 
«paraçSo d*um grande império. Em roda d'elle, palliy 
ardoB, consternados, vergados pelo remorso, apinhi^ 
«vam-se os miiustros e ob cottez^oa, ^ «k\i«QÔLWt^\sn?> 
^t&mncA desíraldava-se aòbre a (ia\»aXwç>ftft owiaa 



I 



253 

cnhor de segurança para os prófugos. Esta foi a seena 
«dolorosa do ultimo somno da monarchia. Â do ultimo 
csomno da liberdade trahida narra-a o lutuoso período 
cde 1828. Se um Nuno Álvares, um João das Regras, 
ffou um marquez de Pombal aconselhassem a monar- 
«chia, Junot teria recuado, como annos depois recuou 
«iMassena. {Apoiados), 

c Ensoberbeci do pela invasão fácil, e considerando 
«BO seu orgulho os portuguezes como um rebanho de- 
«dil; o conquistador, recebendo a deputação do reino, 
ce dirigindo-se a um fidalgo portuguez, perguntoa- 
«Ihe: — -Quereis ser hespanhoes? — Não, não e não! 
« — redarguiu com os olhos accesos em ira, aquelle 
«representante honrado d^s tradições pátrias, levando 
«A mfto aos copos da espada! {Muitos apoiados), 

«O mesmo respondemos nós hoje ao tríbuno elo- 
cquente do reino visinho. 

«Hespanhoes? Nunca. Unidos a Castella, nunca. A 
«Ca&tella... jamais! {Sensação e repetidos apoiados. 
«•—Vozes: — Muito bem, muito bem). 

«Não queremos ! não despedimos o rei, que é neto 
«de D. Pedro, do fundador das instituições livres. Não 
«sonhámos engrandecimentos falsos, que encerram fu- 
«tnroB tenebrosos. Não aceitamos prome-^sas que a 
«OGKperiencia ha dois séculos desmentiu. Não quere- 
«mos de Castella senão amizade, respeito reciproco, 
«acçordo de interesses, e... menos zelo pelos nossos 
«destinos. {Muitos apoiados). Separados quasi no berço 
«vivemos com. gloria, unidos pela força agonisámos. 
«Somos irmãos — mas irmãos independentes, com 
«existência e individualidade própria. {Muitos apoia- 
^dos). Eis a nossa resposta. Mas para a affirmar ca- 
«rocemos de um governo que saiba e possa mantel-a; 
«de um governo que alce firme na mão robusta a ve- 
ajhã bandeira da nossa indeçeivàfòiLÇÀ«uV<vpolai3i^^\^^^- 
^que se não a alçarmos aâsvm, t&o ^«s. of^s^ •s»»^^ "^ 



2Õ4 

«sorte de Portugal. Deus vele por elle^ porque sem 
a leme na tormenta só Deus fará o milagre de o sal* 
« var ! (Apoiados — Commoção profunda), 

«Vou concluir. Siga o governo os seus instinctoe; 
«levante -se^ levante-se para vacillar, ou acabe de 
«cair; faça o meu nobre amigo, o sr. presidente do 
«conselhO; o que entender, e a consciência lhe díctsu*, 
« — permaneça mais uns dias, mais uns mezes, oure- 
«tire-se já — qualquer que seja a resolução tomada, 
«o meu coração fica hoje tranquillo. Cumpri um de* 
«ver sagrado como portuguez, como par do reinO| 
«como cidadão e como homem que presa os foros do 
«seu paiz. O resto... a immensa responsabilidade do 
«que se faz e do que se quer fazer... hade pezar ao- 
«bre os que n^este momento se lembram mais de si 
«do que da pátria. (Muitos apoiados), 

«O paiz que nos julgue e Deus que nos proteja 1 
(Muitos e prolongados apoiados). 

« Vozes : — Muito bem ! Admiravelmente. 

(O orador foi cumprimentado poi* muitos dignoe 
pofí^es e srs. deputados), 

« O &r. PRESIDENTA DO CONSELHO (Marquez de Sá 
(ida Bandeira) : — Eu estimei muito ouvir o digno par 
«que acaba de fallar referir-se á tendência que existe 
«no espirito publico para a sustentação da nossa in- 
« dependência. 

« Effectivamente, os homens que fazem parte da 
«actual situação partilham a opinião de s. ex.*, e es- 
«tão convencidos que ao menor indicio de invasão par 
«parte do inimigo, o paiz inteiro se levantaria como 
«um só homem para defender a sua autonomia. 

«Mas, sr. presidente, essas idéas que se teem apre- 
«aent&ào a respeito da união ibérica, são, por assim 
«dizer, envergonhadas, nXo ôôipa\.«ti\.^\«creiixwi^'KiaRía?» 
«te. Ha no reino visinlio muitas ^ess^^^ Qjf^fò ^^^w»" 



255 

«possível a realisação da união dos dois paizes ; mas 
«estão completamente enganados, porque isso em lo- 
«gar de nos servir de garantia, só nos traria os resul- 
«tados de 1580. 

« Agora, em relação também á phantasiada união 
«dos dois paizes por meio da republica federativa, 
«isso seria igualmente uma grande desgraça para a 
«península inteira. Havia de succeder o que tem sue- 
«cedido com as republicas hispano-americanas, onde 
«quizeram seguir o systema governativo dos Estados- 
«Unidos, não se achando preparados para isso, do que 
«resultou ter havido durante cincoenta annos, revolu- 
«çSes sobre revoluções, e as continuadas guerras civis 
«que teem destruido os recursos das republicas do 
«México, Bolivia, Venezuela e de outras. 
« Não é portanto a forma republicana ou monarchi- 
«ca que exclusivamente assegura a liberdade de uma 
«nação, porque além da republica dos Estados-Unidos 
«vemos na Europa que a Bélgica é um dos paizes 
«que tem mais liberdade, apezar do seu governo não 
«ser republicano, e nós mesmos ha muitos annos que go- 
«zâmos de iima liberdade que não teem outros paizes, 
«que dizem que são mais civilisados do que o nosso. 
«Nós com os melhoramentos de que ainda precisámos 
«e mais algumas reformas que cumpre fazer, não fallo 
«da reforma chamada descentralisação, que se por 
«ama parte tem vantagens, quando se contém em 
«certos limites, fora d'elles tem inconveniências, 
«porque, se se fizesse uma descentralisação completa, 
«poderia o governo ficar embaraçado de gerir conve- 
«nientemente os negócios geraes do estado. As vezes 
«repetem- se certas palavras que se tomam como fun- 
«damento de asserções absolutas, sem se attender que 
«se adoptassem se encontrariam graves diificuldades. 
aVeJa-se o que tem succedido na cJcvaovai^^ \^^\ii^^^ 
ado Pãraguay, que é governaria ^ç\o^ ô^rX^^^'^^'^ 



2ò6 

«mais despóticos que tem havido. Portanto procui*e- 
«mos melhorar as instituições do nosso paiz, sem 
«sobresalto, e tratemos de limitar as nossas despezas, 
aque são maiores do que aquellas que podemos fazen 

«Para administrar o estado, com este fim, ha ho- 
«mens capazes em todas as fracções politicas liboraet 
«as quaes tem entre si pouca differeuça de opini8e8 
«quanto aos principies geraes. Ha dez ou doze annos 
«as fracções politicas tinham mais significação do que 
«teem actualmente, hoje são mais ligações pessoaes 
«do que outra cousa, podemos todos concori*er, cada 
«um por seu turno, para melhorar o estado do paiz 
«sem que se pense em que ó possivel fazei -o de re- 
« pente, principalmente em relação ao estado da &- 
«zenda publica, porque quem tentasse tomar medidas 
«para reduzir immediatamente as despezas publicas 
«não o^ podia conseguir sem gravissimos inconvenien- 
«tes. E possivel diminuir o mal, mas para isso é ne- 
«cessario uma serie de annos em que concentremos a 
«nossa attenção para todos os melhoramentos de qae 
«o paiz tanto carece. 

«Em quanto ao mais que disso o digno par estou de 
«accordo com s. ex.^. Se fôr preciso defender a nossa in- 
«dependência contra qualquer aggressão externa ha- 
« vemos de fazer o mesmo que se fez em 1640, e co- 
«mo fizemos na guerra dos sete annos, de que resul* 
«tou expulsar os francezes de Portugal e de Hespanha 
«e levarmos a bandeira portugueza alem dos Pyrínéus 
«e do Garona.i' 



2Õ7 



Cessão do dia O de Amposto de 1SG9 

Depois de haverem fallado os srs. Vaz Preto, Bis- 
po de Vizeu (ministro do reino) j marqiiez de Sabugosa 
e ma/rquez de Sá da Bandeira {Presideivte do Conse- 
lho) usou de novo da palavra o sr. Bebello da Silva, 
intimando o governo a abandonar o poder, e disse : 

«O procedimento do governo foi censurado, e com 
«razão em grande parte^ porque o seu rigoroso dever 
«é apparecer com energia aonde pôde e deve appare- 
«cer, e não cruzar os braços ou encerrar-se no silen- 
«cio, especialmente quando n'aquellas cadeiras se as- 
«senta um homem, que é um talento notável, cuja 
«penna enriqueceu com um eloquente prologo a obra 
«de D. Sinibaldo de Mas ; prologo, a respeito do 
«qual já s. ex/ nos deu cathegoricas explicações, que 
«nos não deviam deixar em duvida sobre a sua actual 
«opinião, contraria á que tinha quando o escreveu. 
«Admiro pois que este cavalheiro distincto, que faz 
«parte do actual governo, não encontrasse na eloquen- 
«tíssima apostrophe de Emilio Castellar uma palavra 
«uma phrase que o estimulasse a pizar a liça em nome 
«da grande familia portugueza, porque a monarchia 
«de doze séculos que tem uma bandeira coroada de 
«victorias e regada com o sangue de portuguezes, a 
«monarchia que alçou seus estandartes nos campos de 
«Valverde, de Aljubarrota, e de Montes Claros, e que 
«em toda a parte saíram vencedores: esta monarchia 
«não ha de ser demolida porque a cobre a benção de 
«Deus e a vontade de um povo unanime (muitos e re- 
fLpetidos applausos. — Vozes: — Muito bem), Mas o 
«governo nada fez e nada diz. Esperei até á ultima 
«hora que o duello se travasse entre as duas robustas 
«e previlegriadas intelligenciaa, o tnWxifò \vfâ^'^«:^Ov «^ 
«o jornalista portuguez. Seria wm iQYTCtfi^ve»^^«^si ^s^- 
17 



258 

«contro o do noso dístincto escriptor e primoroso es- 
«tylista, e do oloquente orador do reino vizinho. Infe- 
alizmente até agora só elle fallou ! 

(cSinto, e sinto mais ainda que um achaque momen- 
ataneo privasse o sr. ministro da marinha de com- 
«parecer hoje n^esta camará, em cumprimento do seu 
a cargo, para responder á apostrophe de um digno par. 
ccA camará tem estado aberta e era da obrigação de 
«s. ex.^ explicar-sc em tão grave assumpto (apoia- 
dos). 

«Creio que a duvida do sr. marquez de Sabugosa 
anão é se o sr. Latino Coelho, ainda figura como re- 
(icdactor nas columnas de um jornal doesta cidade^ mas 
«sim pedir-lhe um testemunho publico de que nSo 
«abraça algumas doutrinas ali sustentadas. S. ex/ 
«notando que o jornal apoia o actual ministerÍ0| en- 
« tende essencial esta satisfação. 

«O jornal está no libérrimo direito de a^iar o go- 
«verno e de manifestar os seus principies, mas o paiz, 
«como s. ex.* observou, pôde tirar deducçòes desagra- 
«daveis para o governo. O sentimento nacional é em 
«extremo melindroso, e a apathia e o silencio do ga- 
«binete ferem-o, fazendo suppôr á Europa que em 
«Portugal todos estamos de accordo com as opiniSes 
«do sr. Castellar, ou que ha n^este paiz um grande 
«partido que apoia as ídéas republicanas, como ae 
«procura propalar em Hespanha, pois o que se pre- 
« tende em Hespanha fazer acreditar é que em Porta- 
«gal existe um grande partido republicano, e que 
«n^esse partido se encontra de braços abertos a maío- 
«ria dos portuguezes. Isto é falso, ó falsíssimo. (Jlfut- 
atas apoiados). Podem dirigir quantos telegrammas e 
«convites quizerem, podem forjar as promessas maia 
cliaoDgeiras, que nós não lhe acceitamos nada, nem 
érprecÍBãmoB nada. (Apoicidosyi^^^Ci VÀT^vvccL^^TfiAÂ&W 
€g08 contíns, quando descobrimoà — Ta»x^^xsjMiR».^«x^- 



259 

«tes navegados — na phrase do grande épico, ou 
cquando patenteámos á Europa maravilhada do 
«arrojo as portas do reino da aurora, e fimdámos um 
«grande império em remotas regiões do globo {Apoia- 
€do8)* Éramos uma nação pequena quando levámos o 
«nome de D. Manoel a quasi todas as terras do mun- 
«do, e ainda brilham engastadas na coroa portugueza 
«as pérolas de Ceylao e as pérolas de Golconda, sym- 
«bolo e rocordaçílo dos heróicos leitos de nossos maio- 
«rés {Muitos apoiados). Se os nossos monarclias não 
«usaram da purpura dos imperadores romanos, viram 
«desdobrar se, arados píT seus navios, os mares da 
«Africa e do Oriente como alcatifa de seu throno e 
«empunharam o sceptro mais glorioso que rei nenhum 
«possuiu, porque poderam alçar como sceptro o bas- 
«tão do primeiro almirante da índia — Vasco da Gama 
^{Apoiados). 

«Outro portuguez illustre Pedro Alvares Cabral re- 
« velou ao velho o novo mundo {Apoiados) . 

«Este berço é pequeno nas proporções, porém muito 
«grande pelas suat, tradições gloripsas. Nâo precisa- 
«mos das glorias ou das grandezas de outra nação 
^{Apoiados), Bastam -nos as memorias da nossa histo* 
«ria e a b^mção de Deus com que abrimos as portas 
«da aurora á Europa inteira {Apoiados repetidos). Bem 
«sei. Não temos que receiar emquanto nos conservar- 
«mos firmes, emquanto, como o centariâo romano, 
«dissermos — hic manebirmis optíme, 

«A nossa bandeira tremula immaculada sobre os tu- 
«mulos dos nossos reis, de nossos avós e de nossos 
«pães, e nem uns* nem os outros tornariam tSo gloríose 
«nossa bandeira se não tivessem invocado sempre c 
«santo nome de Deus nas suas emprezas {Apoiados] 
cMas o silencio não significa sempre força 6 a ai^alKí 
€0 a Degaç&o d'ella. Não cru^etfto^o«»\st^^Wk^ÍN» 
edaa tentativas contra a indeçeTidi^etiax^ ^ Xst^ 



260 

«bem alto que não queremos nada de Castella {Mtd- 
(ttos apoiados). 

«Não é só com espingardas, com lanças e canhões 
«que se defende a autonomia das nações. Defende-se 
«perante os conselhos da Europa pelo grau adiantado 
«de civilisação, pela aptidão pratica e pela dedicação 
«dos povos. Assim é que um pequeno reino, a Bélgica^ 
«cujos exemplos são invejáveis, viu passar o furacão 
«de 1848 que fez tremer todo o solo da Europa, des- 
« abando o throno constitucional de um rei illustre e 
«prudente, sem que nem as convulsões tão próximas^ 
«nem as chamas de tantos incêndios na França, na 
«Itália e na ÁUeroanha abalassem ou ameaçassem a 
«paz e a profunda tranquillidade da sua existência. 
«Leopoldo I ficou firme no sólio popular, porque a re- 
« publica não pôde realisar na Bélgica mais do que a 
«sabedoria do seu rei lhe afiançava. A republica pas» 
«sou diante da Bélgica e inclinou-se sem a transpor* 
«Quando a monarchia ó grande, nobre e elevada, 
«muitas vezes alcança suspender a hora assignada á 
«formula do futuro. 

«Responda o governo com energia; responda em 
«nome do paiz ; e lá está nos bancos dos ministros 
«da coroa quem o possa fazer brilhantemente, porque 
«tem assento n'elles um grande jornalista, que se 
«honra de certo com os titules de nobreza do engenho, 
«qu^ sabe por si que elles valem mais que outros 
«títulos, porque a pena de jojnalista, ennobrece a mão 
«que usa d'ella para illustrar, e não para destruir. O 
«que pôde envergonhar são as pequenas vaidades do 
«poder. Guizot não saiu maior do ministério, do que 
«da aula em que ensinava a auditórios ennobrecidos 
«a historia da civilisaçãò. 

<rJPai Jornalista e sel-o-hei de novo talvez mui cedo, 
fcomo o era o er. ministro da nvaixT^ia.* Ç> «t, xsÀ.\í\%- 
«trojá escreveu em vários jornaea, e tíq à^c> Cwww«t- 



261 

<ício escrevemos todos três ha cinco annos. Pois bem, 
«prezo mais esses títulos da tribuna politica e littera- 
«ria do que todas as nobliarchias — que são menos 
«obra do nosso valor, do que das circumstancias. Não 
«deixarei nunca sem pezar a minha modesta banca 
«de escriptor, nem deixarei de dizer aqui, ou na im- 
« prensa o que sinto em conscieiàeia. Amo o meu paiz ! 
«Quero o rei constitucional! Entendo que Portugal 
«está novo para a republica. Isto pôde dizer-se, e 
«deve dizer-se, a exemplo do que fez o sr. marquez 
«de Sá, quando em 1836 julgou inútil a revolução, e 
«depois a acceitou para a dirigir.» 

(i(Interrupção do sr. marquez de Sá, que se nào ouviu) 

«Ninguém accusa o sr. Xíatino Coelho. O que se 
«pede do governo, e de v. ex.^ mesmo, ó a mesma 
«energia em Favor da causa da independência, que 
«ostentou em 1836 para manter a bandeira de uma 
«revolução condemnada no seu espirito (apoiados). 

«O sr. bispo de Vizeu não acha que occorresse nada 
«de notável agora, e vê tudo como d 'antes. Pois ha 
«muito mais.)) 

«O sr. ministro do reino está acostumado áquella 
«piedosa confiança em Deus, própria do seu caracter 
«prelaticio. S. ex.^ confia mais nos auxilies divinos do 
«que nas forças terrestres. Não lh'o estranho, porque 
«é um prelado. Mas nós, tendo também confiança em 
«Deus, desejamos acompanhal-a dos meios mundanos, 
«e queremos e devemos exigir que o governo, que nos 
«representa, confie em Deus seguramente (antiga- 
cmente os grandes exércitos ajoelhavam invocando do 
«ceu com a espada nua e o pé no estribo) mas que 
«não largue de mão as armas da terra. No meio do 
«furacão enno velado dos esquadrões, soavam muitas 
«vezes os cânticos religiosos implorando o auxilio ce- 
ãleste; mas, nem por isso sô c\viôít^n^abl t^<íí Y^^âisia '5^ 
alãnçass 



262 

«Disse s. ex,' que — da divergência de opiniões 
a nascia a harmonia no mundo. — Foi a phrase de s. 
«ex.* Sinto não poder concordar. . Da variedade, sim, 
«deriva-se a harmonia, mas da ' divergência nao sei 
«que resulte senão a anarchia. Admiro que s. ex.* aSo 
«saiba o que passa diante de seus olhos. Não ha nadai? 
«Mas ha muito. Se % ex.'* tem motivos para o nSo 
«dizer, respeito, como devo, as suas reticencias; po- 
«rém se me diz sinceramente que ignora, convém que 
«o saiba. Quer saber? 

<i(0 sr. ministro do reino reino demonstra que auctO' 
(urisa o orador a explicar se), 

«N^esse caso devo dizer com toda a clareza que 
«existem clubs organisadbs, que existem imprensaSi 
«e que n\ima palavra existem relações intimas e na- 
«turaes entre as escolas republicanas da Europa. Em- 
«pregam-se todos os meios de progaganda para apres- 
«sar a victoria da nova formula, inculca-se a federa* 
«ção ibérica; e está tudo disposto para uma luta por 
«ora, e felizmente, só de discussão. 

«De Madrid correm communicaç5es telegraphicas 
«mais ou menos frequentes, e note s. ex.* que certas 
«aggressôes directas contra a coroa datam de uma 
«épocha que nao pode deixar de se inscrever ao lado 
«de manifestações, próximas na data, de acontecimen- 
«tos recentes do reino visinho. 

«Sinto que o sr. ministro do reino diga que nada 
«sabe! {Apoiados), Se o ministro do reino, que é o 
« chefe supremo da policia, não sabe nada, e ha tanto, 
«o que podemos esperar!? S. ex.^ sabe somente que 
«ha republicanos. Ê porque não havia de havel-os? 
«Não fica mal a ninguém ^ cada um segue a escola 
«que lhe apraz, mas o que o estado e os poderes pu- 
érblicos teem obrigação é de combater esses principies 
^poi' todos os meios legitimoe, a âÂ%ci>i«>%a.Q, ^ ^t^nsmôi, 
^e a imprensa, por todos os meios ie \TA\\exve\^TcvQt^, 



263 

«Não nos illudâmos. Á Hespanha de hoje nâo é a 
«Hespanha de hontem. Uma djnastia antiga, elevada 
«em nome do direito legitimo e dà soberania naciono.!; 
«caiu diante do povo. Um vendaval súbito derribou 
«es&e throno. Não nos pertence apreciar o facto, que 
«nos é estranho. Mas toca-nos prever e acautellar o 
«que elle pôde ser em relação a nós.. A nação visinha 
«tão nobre e tão digna de grandes destinos pende de 
«uma solução ainda incógnita. Atravessa uma transi- 
«ção. Qual será a sua ultima expressão? A monar- 
«chia vitalicia, ou hereditária? A republica? Por em- 
« quanto o vulcão ainda se não apagou e suas convul- 
«s5es sentem-se perto de nós, e não podem deixar de 
«nos merecer pelo menos atténção. 

«Renovo pois as minhas recommendaçoes ao governo 
«para que seja vigilante e não indifferente, julgando, 
«e dizendo que não ha nada! Ha muito; bastam os 
«factos que apontei. {Apoiados). 

«Vou resumir-me, porque estou fatigado e não quero 
«aborrecer mais a camará com as minhas divagações, 
a {Vozes: — Isso não). 



. «Estes debates foram encerrados pelo sr. visconde 
«de Fonte Arcada, que os encetara em maio anterior 
«por occasião da discussão da resposta ao discurso da 
«coroa. 



CAMÂRA DOS DEPITADOS 



íiessâo do dia !S1 de maio de 1^9 O 

Presidência do sr. João Clirysostomo d^ Abreu e Sousa 



O sr. Barros e Cunha, depois de discursar por al- 
gum tempo acerca da revolução de 19 de maio, manda 
para a mesa a seguinte proposta : 

Proposta. — A camará dos deputados protesta con- 
tra a violação da constituição do estado, e faz votos 
para que as liberdades publicas possam sair illesas 
da crise que o paiz atravessa. — Sala das sessões, 
21 de maio de 1 870. — O deputado por Villa Franca, 
João Gualberto de Barros e Cunha, 

O sr. Santos e Silva approva a moção acima trans- 
cripta. Em seguida faz a leitura diurna acta que é 
do theor seguinte: 

Pela uma hora da tarde do dia 19 de maio de 
1870 compareceram na sala das sessões da camará 
electiva os. deputados abaixo assignados, com o fim 
ãe tomarem uma resolução ix3k. ^^í^^à^xN.^^ ^^'^ ^^<5í^íí5^^- 
cimentoa poJi ticos que acabam. Ôl^ ôi^x-^^» 



f 



266 

Como não houvesse numero sufficiente para func- 
cionar, em virtude de ser prohibida a entrada dos 
deputados, depois de se acharem na sala os abaixo 
assignados, decidiram retirar-se o reunir-se no dia 
i^mmediato no mesmo logar, á hora do costume, para 
continuarem no exercicio legal das suas funcçSes. 
' Sala da camará dos deputados, em 19 de mais de 
1870. — Boaventura José Vieira — Barão de Passo 
Vieira — Manuel Joaquim Penha Fortuna-^ Alberto 
António da Rocha Pams — Diogo de Macedo — Fra- 
desso da Silveira — Manuel Espergueira — António 
de Paes Sande e Castro — Belchior José Garcez — 
Visco7ide de Valmór — Francisco Cot*reia de Men- 
donça — João António dos Santos e Silva, 

Depois accrescenta: 

c(Eu declaro e agradeço, mas não acceito (apoiei 
'(dos)j o cuidado que ao nobre marechal mereceu a 
«vida dos deputados da nação portugueza. (Muitos apoia^ 
'(dos). Agradeço, mas não acceito a sua solicitude 
<( pela nossa segurança pessoal (muitos apoiados), E digo, 
((agradeço, porque não quero ser descortez. (Apoiados)* 

«Os representantes da nação sabem cumprir o seu 
((dever. (apoiados), afirontar todos os insultos; e mor-* 
crer se for preciso, nas suas cadeiras, (muitos apoia* 
'idos). Podem planear quantos tumultos quizerem ; po- 
vídem apparecer quantas algazarras decretarem, quan- 
^(tas arruaças aos illustres triumphadores aprover, 
«porque se qualquer de nós não tivesse coragem, papa 
<'em horas de perigo occupar a sua cadeira, era in- 
« digno do seu mandado. (Muitos apoiados). Se eu nSo 
«tivera forçaa para vencer uma tal cobardia, tel-a- 
«hia ao menos para desapparecer da terra (apoiados). 

«Apezar das explicações particulares que o sr. du- 
'(qne de Saldanha deu ar sr. vice-presidente da cama- 
(^ra, eu, como deputado danaç^o, T\a.o çvócvq ^'a&w^^si* 
aplicações saíísfatorias ; por coiisec\vxeTva\^^ ^vsíwsaX». 



267 

«em meu nome^ e no dos meus collegas, que se qui- 
«zerem associar a mim {apoiados geraes) contra o at- 
« tentado inaudito, praticado na quinta feira, por uma 
«parte da força publica, que prohibiu a entrada nes- 
«ta casa aos Icgaes o legítimos representantes da na- 
«çsLO. {Muitos apoiados). 



Sessuo cio dia 2^ de maio de IS90 

Presidência do sr. Visconde dos Olivaes, 



«O sr. Pereira Dias, — Por toda a parte se pro- 
«pala a infausta noticia de que Portugal vae ser ris- 
«cado do mappa das nações livres ! {Muitos apoiados), 

«A imprensa hespanhola, sem distincçâo de cores 
«politicas, attribue, attribiu no mesmo dia da revolta, 
«planos ibéricos ao chefe doesta tremenda sedição mi- 
«litarl (Apoiados). 

«E como é que, no meio de tão melindrosas cir- 
«comstancias e tão graves apprehensoes, vae a cama- 
«ra dos senhores deputados ser addiada, e mais tar- 
«de, por ventura, dissolvida? Gravissima responsabi- 
«lidade é esta, e que um dia pesará sobre quem de- 
«veria ter a coragem civica de resistir a actos que sâo 
«de uma tumultuosa dictadura ! {Apoiados geraes), 

«Eis-me no meu posto de honra, para mais uma 
«vez protestar energicamente contra o prologo da rui- 
«na do meu paiz. {Apoiados,) 

(i(Um ápaiie que se não percebeu). 

«Sr. presidente^ cu estou resolvido a ser modera- 
«do e prudente, mas enérgico também. {Muitos apoia- 
ados). Estavamo-nos governando constitucionalmente^ 
ae, por um golpe d 'estado mqyxaVvívciaN^, xcoaSvss^i^-^'^ 
^completamente a situação politica, qj ^ciívfò-^^ ^^^ '^^ 



268 

«sejamos moderados e prudentes ! Não sei o que isto 
«quer dizer, a não ser que o paiz está morto. {Apoia- 
didos. Todos os dias a imprensa de Hespanha nos in- 
«sinua apprehensoes que devem sobresaltar o paiz. 
(í (Apoiados). 

«Peço e reclamo portanto, como. legitimo represen- 
«tante do paiz, como membro da assemblóa nacional, 
«que SC inclua na acta a ratificação de que a camará 
«pediu, e já tinha pedido, que a meza a informasse 
«se sim ou nao estava já organisado o ministério. 
«Nas circumstancias actuaes é gravissima a dictadu- 
«ra de um só homem (apoiados). 

«Heróes de 1640, levantae-vos da sepultura, e vin- 
«de dar animo e coragem aos vossos descendentes! 
(L(Apoiados geraes). Nada mais dii^ei. Sintome indi- 
«gnado. 

« Vozes : — Muito bem. » 

«O sr. Barros e Cunha: 

«Eu declaro solemnemente, que não acredito que o 
«marechal Saldanha possa ser cúmplice em nenhum 
«dos boatos, em nenhum dos tramas, em nenhuma 
«d'essas combinações. Não posso acreditar em simi- 
«Ihante accusação, nem em tal cumplicidade, porque, 
«se o acreditasse, de certo estava a cavallo; não es- 
«tava aqui. A esta hora achar-mo-hia já insurreccio- 
«nado, e em vez de estar aqui fallando, estaria por 
«esse reino em fora a proclamar, armar, levantar o 
«povo ])0rtugez, por todos os meios que tivesse á mi- 
«nha disposição, para que cada um se armasse para 
«deãender a casa e familia, afim de não acontecer o 
«que aconteceu em 1801, e sobretudo cm 1807, quan- 
«do no reino se veiu a saber que os francezes e hespa- 
«nhoes estavam senhores d'elle só no momento em que 
<í08 invasores entravam na caç\\.a\. (Ji/LiwAx>» a'poviidLo%\« 
((Repito, não o acredito, ipotc^xx^i «»^ o ^^^^^\»a»fò^ 



. . 269 

«eu não faltava por modo nenhum ao cumprimento 
«doeste dever ; e só se me algemassem e me mettes- 
ffsem a bordo para me deportarem para a Africa, só 
«assim me embaraçariam de ir morrer combatendo so- 
«bre a ultima pedra onde se defendesse a independen- 
ctcia da pátria, (muitos apoiados). 

« Vozes : — Muito bem. 

a Em seguida foi aprovada a acta da sessão antece^ 
a dente). 

«O sr. Presidente : — Este incidente nao pôde con- 
atinuar. Tem a palavra para um requerimento o sr. 
«Santos e Silva. 

«O sr. Santos e Silva: — O meu requerimento é 
«para que v. ex.* mantenha a palavra aos srs. depu- 
«tados que a pediram, e consinta que d'ella usem an- 
ates da leitura do expediente, porque pôde haver se- 
«gundo consta, algum documento official que obrigue 
«V. ex.* a interromper ou levantar a sessão. Se o não 
«ha, leia- se primeiro o expediente e fallemos depois. 

« Uma voz : — Não pôde ser ; depois do expediente 
«não nos deixam fallar. 

«O orador ; — E preciso que a ultima sessão par- 
«lamentar, que talvez tenhamos^ não seja guilhotinada 
«como ha três dias a esta parte teem sido as anterio- 
«res, e que os srs. deputados possam dar as explica- 
«ções que desejam oferecer ao que se tem passado. 
«Talvez quo algum sr. deputado deseje fallar sobre 
«assumptos alheios ao que a mesa suspeita. 

«Pela minha parte desde já digo o que tinha a di- 
«zer. 

(Pausa) 

«Na crise gravissima e cheia de perigos que actual- 
« mente atravessamos, estando por momentos talvez 
«um novo golpe d 'estado imminente sobre o çarla- 
ff mento, eu convido os deputados Ôiã. ivív-^cí ^^"t\^v^^'Lsw 
#e seus legitimoa representantes a yvç^ç-xcvoe» ^^^^ '^^^ 



270 

«lemnemente, perante Deus, perante o mundo e pe- 
«rante o paiz, que havemos de repellir com toda a 
«energia da nossa vontade, das nossas forças, das nossas 
«crenças, dos nossos sentimentos, das nossas con- 
«vicçòes e da nossa alma, qualquer emboscads ou in- 
ce fame attentado contra a independência nacional. 

(íA camará prorompeu em applausos frenéticos e 
prolongadíssimos / muitos srs. deputados levantam-se 
cheios de efnthusiasmo^ e estendem o braço direito em 
signal de juramento. As galerias dão signaes visíveis 
de approvação. Em seguida retiraram se da sala quasi 
todos os srs. deputados. 



tPONTUMENTOS BIBIMIIPIIICOS 



Aos curiosos de bibliographia vamos dar os apon- 
tamentos que, remota ou directamente se prendem 
com a questão ibérica. 

A Índole do nosso livro, e o tempo de que podemo» 
dispor, não nos permittem mais pix)fundas investiga- 
ções. Talvez que este trabalho não seja completo^ ma& 
ainda assim pôde orientar os interessados em conhe- 
cer o assumpto. 

A falta quasi absoluta que há em Lisboa de livros- 
hespanhoes, e a impossibilidade de os adquirir facil- 
mente, força-nos a indicar alguns nomes de auctores^ 
e títulos de obras hespanholas, sem as desejáveis in- 
dicações biographicas e bibliographicas. Outsps o fa- 
rão depois melhor do que nós. 

O JMccionamo Bihliographico, de Innocencio Fran- 
cisco da Silva prestou-nos os auxiliares de que em re- 
sumo nos servimos com relação a alguns dos escri- 
ptores portuguezes, anteriores a 1763. Tudo o mais 
é exclusivamente trabalho nosso. 

A falta de espaço também nos não consente en-' 
^ar em mais desenvolvidas apreciações. Ainda as- 
sim damos noticia de trinta e oito escriçtoi:^^^ ^^ 
primeira parte doestes estudos: e de^eivXft ^^\íafò^^ 
segunda : isto é, desde 1852 atè k aci\A\«X\ô.^^^\ 

• 18 



PARTE PRIMEIRA 



— '^^^fK/y/^r-^ 



— Decreto dos Goveimadores de Portugal 8oh*e a smc- 
cessào do Reino. Datado de Castro Marím, a 17 de 
juOio de 1590. li 

OSOBIO (D. Jeronymo) cognominado o Cícero por- 
tuguez. Mestre de D. António, prior do Crato, secre- 
tario particular do infante D. Luiz, e bispo de Silves. 
Escreveu: 

— Obras ineditOÃ de D, Hieronymo Osoino, bispo de 
Silves j no Algarve, precioso ornamento do seu século, 
Dedicadcts ao muito alto e poderoso senhor D. João \i, 
eitc.y por António Lourenço Caminha, í^ — Lisboa, na 
Imp. Regia 1818. 

— Cartas portuguezoà de D. Hieronymo Osório, bispo 
de Silves^ publicadas e ao ill,^^ e oc.™^ sr. conde de 
PalmeUa offerecida^, por Verissimo Alvares da Sil- 
va, com as rejleocões criticas e phHosophicas, que sobre 
eU€ís fez seu defunto pae José Verissimo Alvares da 
SUvaj etc.i> Paris, na Offic. de P, N. Rougeron, 1819. 

Este honrado e esclarecido prelado é citado como 
partidário da união de Portugal á Hespanha, e a sua 
auctoridade invocada por quasi todos os escriptores 
hespanhoes contemporâneos. Com effeito o bispo de 
Silves justificou com os seus escriptos as opiniões que 
se lhe attribuem. E talvez o único testemunho de peso 
apresentado pelos partidários da Ibéria. Nós cremos 
que o8 sentimentos religioBO^ íi^^l^ ^^ããs»^^^^^^^^ 
mai8 do que o convencimento âia^ íio\w^xívKos2vas» ^s^^- 



276 

ticas, o levaram a dar á realeza os conselhos ante-pa* 
trioticos de que hoje se aproveitam os iberistas. 

— Patente dos privilégios perpetiLos, graças e mercês^ 
de que el rei D. Filippe Ir fez mercê a estes seus reinos 
e senhorios de Portxigal nas cortes de Thxymar^ em abrU 
delõ81.r> 1582 (?) 

Silva (D. João da) 4/ conde de Portalegre, muito 
acceito a Filippe ii de Hespanha, cujo súbdito era por 
parte de seu pae D. Manriqueda Silva, commendador 
de Calatrava. Prestou importantes serviços áquelle 
monarcha, sendo um dos seus mais activos agentes na 
pretenção á coroa de Portugal, por morte do cardeal- 
rei D. Henrique. 

E tido geralmente como verdadeiro auctor da historia 
DelVunione dei regno de Portogallo alia corona di CaS" 
tigliaj publicado sob o nome de Conestaggio. 

Deixou numerosas Cartas, até hoje ainda não publi- 
cadas, e que se dizem de grande importância para a 
historia dos successos politicos de Portugal no pe* 
riodo de 1579 a 1601. 

Prior do crato (D. António) Excellent et libre áií- 
cours du droit de la succession du Roy Don Antoine. 
Avec plusieurs Lettres curieuses des Papes, Róis, Prin- 
ces et Monarques de la Christienté, sur la recognaiê* 
sance du dit Don Antoine Roy de Portugal. » A Paris^ 
chez Jean Micard. 1607. 



— Explanatio veri ac legitime júris quo serenissinma 
LusitoniíB rex AnJtonivÃ, yus nomines primus, nitiiur 
ad bellum Philppo regi CaMeUo& pro regni recuperO' 
tione inferendumy etc. Lug. Bat. 1585. Manifesto es* 
cripto por D. António, de que ha impressas traduc* 
fâes em inglez, francez e Ixollaiidez. — 
Baccia (Ltãz de) HisUma de la uuwx d^ t€Íwm> 



277 

de Portugal d là corona de CastíUe: de Jerónimo de 
Fbanchi Conestagio, caballero genovês. Traduzida 
de lengua italiana en nuestro vulgar castellana, per 
el Dotor Luis de Baccia, capçllan dei rey nuestro se- 
ík)r, en sua real capilla de Gfanada. Barcelona, 1610. 

— Privilegio dos cidadãos da cidade do Porto ^ con- 
cedidos e confirmados pelos Reis doestes reinos, e agora 
TMvamente por el-rei D. Filippe il nosso senhor, » — 
Porto, por Fructuoso Lourenço de Basto 1611. — A^ 
custa das rendas da cidade. 

Leitão (Ignacio Ferreira) Cavalleiro de S. Tiago, 
Doutor em Direito Civil, Dezembargador do Paço e 
Chanceller mór do reino. — Escreveu : 

— Pratica a el-rei Philippe ili nosso senhor, na en- 
trada que fez em Lisboa, dia de S. Pedro do anno 
1619, )) 

Lisboa, por Pedro Craesbecck 1619. 

Anda também no livro, que da mesma viagem es- 
creveu Juão Baptista Lavanha. 

Cabral (Nuno da Fonseca) Doutor e Lente de Di- 
reito civil na Universidade de Coimbra em 1600. Es- 
creveu : 

— Oração no auto do juramento que el-rei D, Filippe 
nosso senhor, segundo d' este nome, fez aos trez Estados 
do reino, e do que elles fizeram a Sua Magestade do 
reconhecimento e acceitação do principe D, Filippe, a 
14 de Junho de 1619. — Lisboa Offic. de Pedro Craes- 
becck. 1619. 

Pereira (D. Fr. Francisco) eremita Aagustiniano, 
Provincial na sua Ordem, Bispo de Miranda, e no- 
meado de Lamego. Escreveu : 

— Oração no auto do juramento que el-rei D. Filippe 
nosso senhor fez aos três estados do reino, e do que el- 
lés fizeram a Sua Magestade,.. em Lisboa a 14d<í.J\L-^ 
lho de 1619 )> 

— Oração do aivto do juramento de ExUi^-^e ^S5^ '^^'^ 



278 

Cortes celebradas em Lisboa a 18 de JuUiq de 1619. » 
Diz-se que foram ambas impressas, em Lisboa, par 
Paulo Craesbeeck, 1619. Saíram também na Viage 
, de la Católica Real Ma^estad d*elrei D, Filippe ill ai 
reyno de Poí^tugal.^ Madrid, por Tfaomás Junti, 1622. 
(Vide João Baptista Lavanha) 

— Relação da enfermidade e morte d^el-rei D. Filippe 
III, e o testamento que fez.., e o alevantamento de D* 
Filippe, IV, com, todas as novidades qiie succederam na 
corte até agora. ^ 

Lisboa, por Pedro Craesbeeck 1621. 

Lavanha (João Baptista) Cavalleiro da Ordem de 
Christo, Cosmographo-mór do reino e Chi*onista-mór 
de Portugal. — Escreveu : 

— Viagem da Caiholica Real Magestade d^el-rei D. 
Filippe II nosso senhor* ao reino de Portugal, e relação 
do solemiu recebimento que n'elle se lhe fez» Sua Mor 
gestade a mandmt escrever por João baptista Lava- 
nha^ seu chronista maioi\y> — Madrid, por Thomás Junti 
1682. 

E, no sentir de alguns críticos, livro digno de toda 
a estimação, assim pela curiosidade do assumpto^ como 
pelo estylo e linguagem. 

LuNA (Pedro Barbosa de) natural de Vianna. Es- 
creveu : 

— Memorial de la preferencia que haze el reyno de 
Portugal y su consejo ai de Áragon y de las dos /Síct- 
Ziíí^.» Libboa, por Giraldo da Vinha, 1627. 

Lima (Luiz de Torres de) Commendador de Chris- 
to. Escreveu: 

— Compendio das mais notáveis cousas que no i^ino 
de Portugal aconteceram, até ao anno de 1627, com ou^ 
trás cousas toca)ites ao bom governo e diversidade de 
estados, Lisboa^ por Paulo Craesbeeck, 1630. 

BocARRO (Fernando). Escrevei \ 
— JUeinorial de muita importância paraxev Suo. "Mio- 



279 

* 

gegtoide o sr. D. Filippe iil de Pwiugalj em cmuo se 
hão de remediar as necessidades de Porttigaly e como se 
fia de haver contra seus inimigos, qice molestam aquella 
corda, e os mais seus reinos ^ 16 ♦ ♦ (?). 

— Assento feito em Côiies pelos Três Estados do Rei- 
9io de Portugal, da acclamação, restituição, e juramen- 
to dos mesmos Reinos ao muito alto e muito poderoso 
Senhor Rei Z>. João iv doeste nome.^ Lisboa, por 
Paulo Craesbeeck, 1641. 

— Ftuyra vellaco. Titulo de um folheto de que nSo 
podemos apurar a origem primitiva. Consta nos estar 
impresso nas linguas portugueza (n'esta vimol-o ma- 
Duscripto) em castelhano^ italiano e francez. N'esta 
ultima lingua além do titulo mencionado acrescenta- 
se d C est à-dire la libeiié de Portugal. Auquel se num- 
tre ledn^oit chemin et varais moyens de resister à Véffort 
du CastiUan, etc. — IVad. de la langue CastUlane en 
/rançais. Sans lieu (ElzevirefJ, 1641. — No cathalogo 
da livraria do conde do Lavradio, traz a rubrica de 
— rare. 

MASCáBENHÂS (P. Ignacio) Jesuita, irmão de D. JoSo, 
conde de Santa Cruz. Escreveu : 

— Relação do successo que teve na jornada que fez a 
Catalunha por ordem de Sua Magestade el-rei D, Jó&o 
IV. — Lisboa, por Lourenço d'Anvers, 1641. 

Moraes (Padre Manuel de) Jesuita. Sendo expulso 
da Companhia por motivos ignorados passou para Hol- 
landa, e ahí abraçou o calvinismo, tomando-se mi- 
nistro protestante. Escreveu : 

— Prognostico y repuesta a mia pergunta de un ca- 
haUeromuy illustre sobre las cosas de Portugal. í> — Ley- 
den, 1641. — (Dedicado a Tristão de Mendonça Fur- 
tado, que era por esse tempo embaixador d*el-rei 
D. JoSo IV, junto aos Estados da HoUanda. 

Velloso (João Rebello). Eacrôvew, 
— Aviêo exhortatorio aos jideUmmos TTe.s'E^a^%^*^ ' 



280 

/ 

a^eino de Portugal. )> — Lisboa; por Lourenço d'Anver8| 
1642. — (Refere-se á pris&o do infante D. Duarte, ir- 
mSo d'el-rei D. João iv.) 

Parada (Padre António Carvalho de) Dr. em theolo- 
gia, guarda-mór do Archivo da Torre do Tombo. Ea- 
<ureveu : 

— Justificação dm Portuguezes sobre a acção de K- 
hefrtarem seu reino da obediência de Castella, — Lisboa, 
por Paulo Craesbeek, 1643, contendo quatro cartas 
do mesmo auctor para o Conde Duque de Olivares, 
ministro de Castella. 

Vasconcellos (Padre Jo2io de) Jesuíta. Escreveu: 

— Restauração de PoHugal prodigiosa, Offerecida 
ao senhor rei D. João IV. — Lisboa, por António Alva- 
pes> 1643. 

ViLLA BEAL (Manuel Fernandes) cônsul da naçSo 
portugueza em Paris. Escreveu: 

— El príncipe vendido , e venda dei innoc€7ite y libre 
principe Don Duarte, infante de PoHugal, celebrada 
en Vianna a 25 de jiinio de 1642 ; El Rei de Ungria 
vendedor, y El Rei de Castilla comprador. y> — Paris, 
por Juan Palé, 1643. 

Bandarra (Gonçalo Annes) — Sapateiro, natural da 
villa de Trancoso. Auctor das muito nomeadas ti^ovas 

* 

propheticas applicaveis aos tempos decorridos desde a 
perda de el-rei D. Sebastião em Africa, até á nossa 
edade. Houve quem attribuisse a composição doestas 
trovas populares aos jesuítas, e nomeadamente ao ce- 
lebre padre António Vieira, suppondo as forjadas para 
fins exclusivamente ijoliticos, em 1040, no intento de 
robustecer a fé do povo na conservação da casa de 
Brangança, por occasiDio da acclamação de D. João IV. 
Ha diversas edições das trovas do Bandarra, seiido a 
mais antiga a de 1603 ; e a mais accommodada ás in- 
tenções dos padres da Companiúa. da Jç^w^s a <\ae tem 
Jèor título : (i Trovas do Bandarra apiivadas a, Im-jwii^^QA 



281 

^w ordem de um grande Senhor de PoHugal Offereci- 
das aos verdadeiros portuguezes devotos do Encoberto 
em Nantes. — 1644» . 

Em 1809 fâzia-se uma nova edição das trovas em 
Barcelona. Citámos especialmente esta edição por coin- 
cidir com uma época difficil da nossa historia pátria, 
provar-nos a influencia do sobrenatural nas imagi- 
iiAçSes populares. Aos que se rirem dos prognósticos 
do sapateiro-propheta em época relativamente arre- 
dada, lembraremos a influencia exercida por egiiacs 
meios na Polónia contemporânea, que Michelet cita 
nSs suas a Legendas do Norte», 

Vide para mais esclarecimentos o «Diccionnrio Bi- 
blíograpbico deinnocencio Francisco da Silva». 

Azevedo (Luiz Marinho de) Capitão. — Commissa- 
rio mihtar e Secretario do Conde de S. Lourenço, 
quando este governava as armas na provinda do Alem- 
tejo nas campanhas subsequentes á aoclamaçâo (Joei- 
rei D. João IV. — Escreveu em 1641 diversos folhe- 
tos sobre factos occorridos em seguida á restauração 
de 1.® de Dezembro de 1640 ; e em 1644 escreveu 
uma obra sobre o titulo de « Commentario dos valo- 
rosos feitos que os portuguezes obraram em defensa do 
seu rei^ e da pátria na gueixa do Alenitejo.,» etc» 
-T-onde segundo a opinião do philologo Cândido Lu- 
sitano, o auctor foi mais observante da verdade da his- 
toriaj que da pureza õm linguagem. 

Araújo (João Salgado de) Joutor em Cânones. 
, — Escreveu. 

- Marte poHugues contra emnlaciones castellanase 
jtistijicaciones de las armas dei Rey de Portugal con- 
tra • CastiUa. — Lisboa por Paulo Craesbeeck — 
1642. 

— Sttccessos mMitares das armas portuguezas em suas 
fk^onteiras, depois da real accíamaçQLo cofaiva GoãX.'^^- 
^om a geographia das promncxo,^ e 'aobTe^a 31 ^<^ã • ^ 



282 

El- Rei nosso Senhor, 9 — Lisboa^ por Paulo Craas* 
beeck 1644. 

— Successos victoriosos dei exercito de Alemtgo, ete, 
Lisboa, por Lourenço d^Anvers, 1643. 

Diz o sr. Innocencio no seu Diccionario Bibliogra» 
phico acerca doeste escriptor o seguinte : 

d Basta para seu elogio a honrosa menção que d*dlê 
faz D.. Francisco Manuel de Melloj qualijica/ndo-o dê 
zelosíssimo portuquez, e douto eschiptob.» 

Carvalho, (António Moniz de) Fidalgo da Casa 
Boal, Doutor em Leis, Desembargador da Supplíca- 
çâo, Conselheiro da Fazenda e Secretario das Embai* 
xadas d*EI rei D. João iv ás Cortes de França, Ingla- 
terra, Dinamarca e Suécia, e depois Enviado ás mes- 
mas Cortes. — Escreveu : 

— Fr anciã interessada con PoHugal en la separadcu 
de Castilla; con noticias de los interesses communes de 
los Príncipes y Estados de la Europa, Paris^ por IC- 
guel Blagerat. 1644. — Barcelona, por Sebastian de 
Cormellas, 1644. 

GouvEA (Francisco Velasco de) Doutor e Lente da 
Faculdade de Cânones pela Universidade de Coimbra, 
Arcediago de Villa-nova de Cerveira, etc. (Foi preBO 
pela Inquisição no anno de 1636 e saiu reconciliado 
no auto de fé por culpas de judaismo, conforme 
cita D. Nicolau« Fernandes de Castro apag. 1074da 
« Portugal Conve^nzido. ») 

Escreveu : 

— Justa acclamação do sereníssimo rei de Pai^iagal 

D, João o IV / Tractado analytico dividido emtres púr* 

tes : orde)iado e divulgado em nome do mesmo reino^ em 

justificação de suas acções y>. — Lisboa, por Lourenço 

d 'An vera, 1644. 

Saiu também esta obra traduzida em latim pelo 
próprio auctor, e se impn\m\x\ L»\%\^o9^ ii& mesma 
O^c. 1646. — Do original çoxtwgweL «i^W* «e^uT^ÂA 



283 

edi^S/o correcta — Lisboa, Typ. Fénix, becco de Santa 
Martha, 123.— 1846. 

Por assento tomado a 30 d'Abril de 1767, e as- 
signado por varies ministros e lentes • da Univer- 
dade de Coimbra de ordem do Marquez de Pom- 
bal, e sob sua influencia, se julgou e decidiu contra 
o voto e opinião geral de mais de um século, que 
o livro Justa Acclamação nâo era do doutor Velasco, 
por não ser a sua doutrina conforme á solida sciencia 
que este jurisconsulto manifestara em outras obras 
por elle escriptas: e ahi vem publicado o mesmo 
livro de informe, absurdo e ignorante! Veja-se a 
este respeito a Deducção CJironologica e Analítica^ 
parte 1.*, divisão xii desde o § 657 em diante. Assim 
se pretenderam impugnar os principies consignados 
n^este livro (cuja fabricação se attribuiu então aos je- 
suítas) com respeito á soberania nacional, invocada 
pelas Cortes de 1641 para legalisar o justificar a es- * 
colha de D. João iv para rei, e a exempção do do- 
mínio de Castella. 

A primeira edição tornou-se mais rara depois do 
referido assento, porque o marquez mandou recolher 
e inutilisar todos os exemplares que pôde haver á 
mão. 

Compoz também em castelhano o seguinte, que pelo 
seu assumpto é tido em estimação. 

— Perfidia de Alaiiania y de Castilla en la pi^ision 
entrega, accusacion y processo dei sereníssimo infante 
de Portugal Don Duarte. Fidelidade de los poiiu- 
guezes en la acclamacion de su legitimo rey, d muy 
alto y mxii poderoso Don Juan, quaHo doeste nomhre... 
contra les pretensos dei^echos de la ctyrona castelhana, » 
Lisboa, na Offic. Craesveeckiana, 1652. 

N'este livro tratou o auctor de confutar o que so- 
bre a matéria escrevera D. ííicoVa^a ^«rsvsficAKi* ^^ 
Oaatro, no seu Portugal convenzido cou la Ta%w\. '^^%''o» 



284 

ser vemido con las armas, etc. Impresso om' MilSO| |v 
1648. h 

Joio Pinto Ribeiro. — A quem o sr. Fernandes 
de los Rios se compraz em chamar desdenliosamçate 
creado do duque de Bragança. Foi doutor em leis 
pela Universidade de Coimbra, depois de ter exer- 1' 
eido alguns cargos do magistratura foi elevado a 
Desembargador do Paço, Contador-mór da fazenda, e 
Guarda-mór da Torre do Tombo. O seu nome ficoí 
sobretudo memorável pela parte mui distincta que 
tomou na empresa da i estauração do reino em 1640, 
concorrendo nao pouco com as suas diligencias para 
vencer as indicisões do duque de Bragança D. JoSo 
a acceitar a coroa que os conjurados lhe offereciam. 

Foi auctor de variadas obras de solido merecimen- 
to, entre elhis a intitulada : — Usurjyação, rdetição é 
Restauração de Portugal, — Lisboa, por Lourenço 
d' Anvers ; e de outrcis trez que mais remotamente ae 
prendem com o nosiO assumpto, c silo : — InjiiMas 
successoas dos reis de Castella e de Leão, e iserapção' 
de Portuf/al. — Lisbua. Por Pcjdro Craesbeeck, 1642. 
— A acção de aclanuir el-rci D. João iv foi mais glo- 
riosa e digna de honra, fama e remuneração do que a 
dos que o seguiram acclamado. — Lisboa. Por Paulo 
Craesbeeck, 1644. Finalmente: —Desengano ao pare- 
cer que deu a el-rei de Cndidla Fili/ppe lY, certo mi' 
nistro contra Portugal, 1G45. 

A primeira das obras ciiiidas ó muito curiosa por 
n^elhi se descreverem minuciosainente os vexames de 
que Portugal foi viotinia diirantu a dominação dos R- 
lippes. 

— Capítulos geraes, apresentados a el rey D. JaãOj 

nosso senhor, IIII, doeste nome... Nas coiies celebradas 

em Lisboa com os Três Estados em 28 dejamiro de 1641. 

Co7n suas respostas de 12 de setembro do auno d.e. 1^4^. 

J\^o £.^do seu reiíuido e 38 de sua idade. Com oATe-pW- 



285 

caSy respostas, e declarações d*eUes em 1645. Lisboa, 
por Paulo Craesbeeck, 1645. 

Castro (Manuel d* Araújo de) natural de MonçSo. 
Escreveu: 

^La mayor haza^a de Portiigali» Lisboa, por Paulo 
Cfraesbeeky 1645. 

"SffiELLO (D. Francisco Manuel de) Cavalleiro da Or- 
dçm de Christo e Commendador de diversas commen- 
da«. Exerceu o posto de Mestre de Campo do exercito 
CSastelhanO; servindo nas guerras de Flandres e Ca- 
talunha; onde estava quando rebentou em Portugal a 
revolução do 1.® de dezembro de 1640. Foi distincto 
como historiador, poeta, orador e critico moralista. 
Entre outras obras escreveu: 

— Eco politico responde en Portuffala la voz de Cas- 
tUiay y satisfa^ze a un papel anonynio ofrecido ai rey 
D. FUippe IV sohre los interesses de la corona lusi- 
tana, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1645. 

— Manifesto de Portugal. Lisboa, Paiilo Craesbeeck, 
1647. — (É escripto em castelhano, e tinha por fim 
patentear ao mundo a detestável acção commettida 
pelo governo de Hespanha, quando para desfazer-se 
d'el-rei D. João iv, o mandara assassinar traiçoeira- 
mente no acto da procissão de Corpus Chrístiy em 
17 de Junho do referido anno. 

— Demonstração da perpetuidade do império portu- 
guez na magestade e gloriosa descendência do muito 
alÂo e muito poderoso rei D. João iv, etc. Lisboa, 1647. 

Carvalho (Manuel Coelho de) Escrivão da Con^ 
tadoifia geral da Q^erra e Reino, e criado do in- 
fante D. Duarte, irmão d*el-rei D. João rv, escre- 
veu: 

— Prisão injusta, morte fulminada, e testamento do 
sereniseimo infante D. Duarte. Lisboa, por Manuel da 
Sílvã, 1649. 

— Sentímiento general a la muerte dei %eTem6%\wvtó >x\.- 



286 

fmúa Don Duarte en el triste dia de sus funerales exâ- 
guias, — Lisboa, por Manuel da Silva^ 1649. 

Pinto (Manuel d^Âlmeída) natural de Villa Nov» 
de Gaia, escreveu : 

— Comedia famosa de la feliz restauracion de Portar 
galy e mueiie dei secretario Miguel de Vasconcellos. — 
Lisboa, por Paulo Craesbeeck, 1649. 

Leitão (Fr. Fulgencio) Ermita Augustiniano. 
Escreveu as seguintes obras, em que se mostra ae- 
loso patriota; e acérrimo defensor da independência 
proclamada no 1.^ de dezembro de 1640. 

-^Redíicion y restituycion dd reyno de Portugal a la 
serenissivia casa de Bragança, Discurso moral y pO" 
litico. — Turim, por Juanetino Penotto, 1648. — • Smu 
com o nome de João Baptista Morelli, 

— Epistola apologética a la magestad caíholica de .fiSí- 
lippe el grande contra el parecer de cierto ministro 80* 
bre la recuperacion de Portugal, » Colónia Âggripina, 
por Cornelio Egmond, 1650. Saiu com o nome de 
Hemando de Molina y Saavedra. 

HOM£M (Fr. Manuel) Dominicano, mestre de theo- 
logia, e confessor de D. Álvaro Pires de Castro, a 
quem acompanhou na embaixada que no anno de 1664 
levou á corte de Paris em nome de el-rei D. João IV. 
Escreveu : 

— Memoria da disposição das armas castelhanas^ que 
injustamente invadiram o reino de Portugal no anno de 
1580 ; despertadora ao valor portuguez para não tre^ 
mer ; desprudencia e conselho para ordenar o presente; 
de prevenção e cautela para dispor o futuro, » — 
Lisboa. Offic. Craesbeekiana, 1665 (?) 

ViEIUA (Padre António). Homem innegavelmente 
grande, e um dos maiores engenhos que Portugal 
tem produzido. Com esta opinião de Innocencio Fran- 
cisco da íííiva, são accoràea todo^ o^' e.t\>L\^ ^^ \fò- 
das R8 épocas. Attribue-se ao Yaàxçi koXw>ítf>N\€a». 



287 

o papel que tem por titulo : Esperanças de Portugal, 
qairão império do tmmdo ; aos verdadeiros portague- 
zes devotos do Encobeiix), em varias trovas escriptas 
por Gonçalo Annes Bandarra, etc. Dirigido ao bispo 
do Japão, André Fernandes, e datado do Rio das Ama- 
zonas a 29 de abril de 1659, » 

O Padre António Vieira foi também encarregado de 
importantes missões diplomáticas, algumas das quaes 
com relação á successão da coroa do. Portugal. (Vide : 
Quadro elementar das Relaçdes politieas e diplomáticas 
de Portugal, pelo visconde de Santarém,) 

— Sem razão de entrarem em Porttigal as tropas cas- 
telhanas como amigas, e razão de serem recebidas como 
inimigas. Manifesto reduzido ás memorias apresentadas 
de parte a parte, — Impressa em Madrid de oi^dem 
d*aqueUa corte, nas duas linguas portugueza e castelha- 
na, e reimpresso em Lisboa na lingua portugtieza, 
1763. (?) 



j^. B. ií^este Estudo Bibliographico, não se men- 
cionam os sermòes; embora de indole politica, nem os 
poemas com referencia á Restruração de 1640, nem 
tSo pouco as relações ou narrativas parcíaes de factos 
occorridos durante o reinado de D. João iv. 

Também se não enumeram as^obras theatraes es- 
criptas no intento de alimentar os sentimentos da in- 
dependência nacional. 



t 1 

1 



PARTE SEGUNDA 



— »./lV^JV/.rV>—- 



Latino Coelho (José Maria). — São doeste notabi- 
lissimo escriptor os prólogos ao livro de D. Senibaldo 
de Más, diplomático hespanhol, e ministro plenipoten- 
ciário que foi na China pelos annos de 1848-18Õ1, e 
do livro de Xisto Camará, a União Ibérica, O ibe- 
rismo do illustre académico portuguez é todo theorico 
e platónico. Elle próprio o confessa n^estas palavras: 
a Duas idéas dominam actualmente o mundo: — uma 
o principio da nacionalidade, que incita as nações a 
dilatarem as suas fronteiras e a alargaixm a sua in- 
fluencia nas relações intemacionaes ; — a outra é o prin- 
cipio da fraternidade universal, que se revela a cada 
jHissOf a despeito do cium>e e da intolerância da^ na- 
ções.i» 

E mais abaixo, como fecho do discurso: 

« A união é por ora uma idéa, e não uma politica. 
Os pensadores propagam e evangelisam o dogma que é 
perpetuo. Os politicos virão depois e fixarão a disci- 
plina que é tranzitoria; mas cumpre convidar pacificar- 
mente as duas naçSes a amar-se como irmãs e a aju- 
dar-se como visinhos,jf 

Por estes excerptos se conhece a mansidão do apos- 
tolo. 

O prologo da alberia^ levantou acalorada discussão 
na Camará dos Pares, em que tomaram ^att<^ <^ ^>\ssXKst.^ 
então ministro da marinha, conà,^ ô^e 'à^xc^^^^'^-» ^^"^^ 
conde de Fonte Arcada, marqvxez Ôl<ô ^«Sia^^^i ^^^"^ 
19 



290 

Ribeiro e Rebello da Silva. O presidente do conselho 
de ministros que então era o marquez de Sá da Ban- 
deira, também tomou parte nos debates. Todos falla- 
ram em sentido ante-iberico, incluindo o auctor do 
prologo a^A Ibéria)) que só perfilhou a parte theorica 
do seu escripto. 

Henriques Nogukira (José Félix). — Foi muito 
dado a estudos económicos e sociaes. Escreveu além 
de muitos opúsculos, e folhetos diversos, os a Estudos 
sobre a refói^na em Poiiugal,y> Dois tomos — Typ. So- 
cial — Lisboa — 1851, — nAhiianach Democrático para 
1862 y> onde se encontram, entre outros artigos, os que 
tem por titulo : — (iFuturo da Península» e a a Ibéria». 
Quando falleceu (1858) trabalhava assiduamente, 
diz Innocencío no seu diccionario : em reunir elementos 
para a Ibema Histórica y ou historia dos vestígios e 
memorias que nos restam em factos e escriptos acerca 
da idéa da união de Portugal com a Hespanha de- 
baixo de um ou outro principio politico ou económico.» 
Foi collaborador da Revista Peninsular. 

Más (D. Senibaldo de). — «-á Ibéria^ memoria es- 
cripta em lingua hespanhola por um philoportuguez e 
traduzida em portuguez por um philo-iberico» — Lis- 
boa. Typographia de Castro & Irmào. — 1852. 

Ha diversas ediçSes doeste livro, cremos que cinco, 
apezar da sua pequena divulgação em Portugal^ o que 
nos faz suppôr haver sido grande o seu consumo em 
Hespanha. 

Casal Ribeiro (conde de). — Escreveu uns notá- 
veis artigos na aEevue Lusitanienne» em 1853, con- 
trariando a memoria de D. Senibaldo de Más, e o 
prologo que a antecede. Dezeseis annos depois, em 
1869, e na Gamara dos Pares explicou nobre e elo- 
quentemente as suas antigas opiniões, lendo alguns 
trechos dos alludidos artigos, os mais incriminados 
pe/o sr. Latino CÍ9eJJio, concluindo doeste modo : 



291 

«Pelas leituras que úz, e de cuja demasiada lar- 
gueza peço desculpa á camará; resaltam claramente 
as opiniões que n'aquella época em. que tomava corpo 
a propaganda ibérica^ defendi contra as doutrinas da 
fusão dos dois estados, e pude n'aquella época acre- 
ditar em sonho quasi infantil que em um futuro re- 
moto, e sob a condição impreterível de ser dividida a 
Hespanha em vários estados, podiamos formar um dia 
um agrupamento federal. Admiro-me de ver hoje ho- 
mens graves sustentar ainda, e sobretudo depois de 
acontecimentos recentes y taes ^puerilidades,)) 

Apezar doesta fulminação de tão notável estadista, 
o auctor doestas linhas crê que a, puerilidade federal é 
ainda assim a única solução honrosa do futuro da pe- 
ninsula, se as sociedades se encaminharem para a 
forma republicana. 

QuESNAY (Crouel de). — (nA verdade acerca da Hes- 
panhaio versão portugueza por Francisco Pereira d 'Aze- 
vedo. — . 1853. 

Carreira de Mello (Joaquim Lopes). — Director 
do collegio de Nossa Senhora da Conceição. Perten- 
ceu, não sabemos se ainda pertence, ao chamado par- 
tido legitimista. Tem escripto diversos compêndios, 
resumos, epitomes de historia portugueza e de choro- 
nologia, pouco ou nada imparciaes, inspirados pelo 
sentimento partidário. 

Innocencio Francisco da Silva, no seu «Diccionario 
Bibliographico» consagra um extenso artigo a este 
auctor, citando-lhe diversos erros e lapsos históricos e 
chronologicos. 

O testemunho do sr. Carreira de Mello é diveráas 

• 

vezes invocado pelo sr. Fernandez de los Rios, exacta- 
mente por ver sempre com cores sombrias tudo quaúto 
é posterior aó estabelecimento do regimen constitucional 
em Portugal. O livro do sr. Carreira de Mello mais ci- 
tado como prova da decadência nacional, intitulase: 



J 



292 

Compendio da historia de Portugal ^ desde os primei- 
ros povoadores até os 'nossos dias.n — Lisboa. Typ. 
de Castro & Irmão, — 1853. 

Caldeiba (Carlos José). — Foi editor da terceira 
edição da memoria «-á Iberiaít por D. Senibaldo de 
MáS; e lhe addicionou varias notas no sentido da mes- 
ma memoria. Foi coUaborador da ^.Revista Peninstãarj^ 
e do a Progressos escrevendo vários artigos em harmo- 
nia com as idéas já manifestadas nas notas a que aci- 
ma nos referimos. 

Freitas (Bernardino José de Sena) . — Associado pro- 
vincial da Academia Real das Sciencias de Lisboa. 
Escreveu : 

«D. António^ prior do Crato : siva acdaniação como 
rei de Portugal nas ilhas dos Açores ; seus desembar- 
ques e successos nas ilhas de S. Miguel e Terceira : he* 
roica resistência dos habitantes doesta contra as forçai 
hespanhdas; tomada da ilha, violências e atrocidades 
practicadas pelos hespanhoes^ etc. RefvJtamse alguns 
historiadores inglezes e castelhanos y>, — 1854, 

Anonymo. — (k Federação Ibérica^ ou idéas gerass 
sobre o que convém ax) futuro da Península» por um 
PortugueZf Porto, livraria e typographia de F. G. da 
Fonseca. — 1854. 



No livro intitulado Portugal j su origen y constitu- 
cionr> lê-se a paginas 101: «Entre as pessoas que se 
manifestaram por então propicias a trabalhar em pró 
da união Ibérica, que tinham emprehendido já traba* 
lhos n^esse sentido, e que antes e depois a auxiliaram 
com as suas sympathias, conselhos escriptos e actos na 
sua propaganda, citarei entre os hespanhoes : D. Juan 
Alvarez Mendizabal, D. Leopoldo O Donnell, D. Luiz, 
Gonzales Brabo, D. Francisco Martinez de Ia Bosai 
2?, Facundo Inf&nte, D. Francisco Luxán, D. Serafim 



293 

Estébanez Calderon, D. Leopoldo Augusto Cueto, 
D. Juan Valera, D. Boenaventura Carlos Aribau, 
D. Martin de los Heros, D. António Romero Ortiz, 
D. José Maria Huet, El marquez de Pidal, D. Arturo 
MarcoartU; distinctissimo engenheiro bem conceituado 
em Inglaterra, onde reside presentemente, foi coUa- 
borador do jornal a^Las Novedades)) e outros. O seu 
nome é amiudadas vezes citado pelos seus compa- 
triotas, mas não se enconti^a em nenhum dos diccio- 
narios estrangeiros onde o procurámos. — 1854. 

Aldamâ âyala (Don José de). — Engenheiro chefe 
de segunda classe do corpo de engenheiros de minas. 
Escreveu o Compendio Geográfico Estadistico de Por- 
tugali> Madrid — 1855. 

Este escriptor, que falia com grande acerto das cou- 
sas portuguezas que estudou e viu de perto, longe de 
negar como outros muitos os auxilies litterarios que 
lhe prestaram, diz: 

«La interessante nacion portugueza se distingue de 
todas Ias demas, por la acogida que da á los estran- 
jeros y muy especicdmente á los espa^oles, a quienes 
trata como â hermanos: y entre las mas relevantes 
cualidades que adornam a sus naturales, sobresale la 
hospitalidad y los obséquios desinteresados que pró- 
diga á sus huespedes, no reservando-se las noticias ni 
dados de todo género que se soliciten aun cuando no 
sean favorables á su bello paiz.» 

«Revista Peninsular». Dois volumes. Semaná- 
rio fundado e dirigido por Carlos José Caldeira, na 
intensSo de approximar intellectualmente as duas na- 
çSes peninsulares. Além de vários escriptores portu- 
guezes coUaboraram na «Revista Peninsular» os hes- 

Eanhoes: Martinez de la Rosa, D. José de Aldama, 
). J. Ferrer do Couto, D. Senibaldo de Más, D. V. 
Barrantes, D. Carlos Rubio, D. A. Alcalá Galiano, 
D. S. M. y Macanaz, D. U. P. y Lastra, D. S. Con- 



294 

stanzo, D. Á. Santâyana, D. Â. K. Zarco dei Vallci 
etc. Lisboa. — 1855-1856. 

Cunha (António Pereira da). — Estimável poeta e 
elegante prosador. E membro de diversas corporaç3es 
litterarias. Escreveu um livro intitulado — viBrios he- 
róicos das Portuguezast> e publicou o folheto — <iiNaofí> 
Resposta nacional ás pretensões ibéricas. Lisboa, Typ. 
de A. H. Pontes. — 1856. 

Almeida (Padre Rodrigo António de). — Auctor de 
vários folhetos e opúsculos de occasiâo, entre outros 
do folheto intitulado : — «J. questão da Ibéria^ em duas 
partes.)) Lisboa. — 1856, 

Sousa Lobo (Augusto Maria da Costa) bacharel 
formado em direito e professor do curso superior de 
letras. — « Um voto contra a união ibérica» — Lisboa, 
Typ. da rua da Condeça. — 1857. 

ÍOKEES (José de). — OíBcial do ministério das Obras 
Publicas. Muito dado a estudos económicos e sociaes. 
Escreveu diversas obras litterarias e coUaborou em 
muitos jornaes políticos, entre ellès no a Futuro)) (de 
1858-lb59) ena a Revista Peninsular. y> Assignou alguns 
artigos com. referencia mais ou menos directa a as- 
sumptos ibéricos. 

Pereira (Feliciano António Marques). Capitão de 
fragata. — Escreveu : 

(íA Confederação ibérica. Bases para um projecto 
de tratado de alliança e liberdade de Commercio entre 
Portugal e Hespanka.)) — Lisboa, Typ. de J. G. de 
Sousa Neves. — 1859. 

« 

Camará (Xisto). — A União Ibérica, traduzida lit- 
teralmente por Rodrigo Paganino. — Lisboa. — 1859, 
Esta é a segunda edição. Ignorámos a data da pri- 
meira. 

RUBIO (Carlos). — Jornalista hespanhol. — « Teoria dei 
Progresso» contestacion a la (kFormida dei Progresso^» 
de D. Emílio Castellar. — 1859. 



295 

Idem. — <í Reverente Caiia a la Reina D, Isabel IL» — 
Madrid. — 1864. 

Idem. — a Progressistas y Democratas, í> — {Corno y 
para gue se han unido). Madrid. — 1865. 

Em todos estes escriptos o auctor se refere de pas- 
sagem a assumptos peninsulares. 

SÃ (Sebastião José Ribeiro de). — Economista la- 
borioso e escriptor bem conceituado. Publicou : — 
^ Brado aos PoHuguezesí> «Opúsculo patriótico con- 
tra as idéas da união ibérica de Portugal a Hespa- 
nba.» — Editor, Thomaz Quintino Antunes. Lisboa. 
— 1860. 

Este opúsculo é seguido da Usurpação, retensào e 
restauração de PoHugal^ por J. P. Ribeiro, já no seu 
logar citado. 

Vasconcellos (J. a. C. de). — «Os Pmiuguezes e 
a Ibéria. — Refutação dos argumentos do partido ibé- 
rico, com respeito á fusão das duas luiçoes peninsula- 
res, e exposição das desgraças e vexames que d'ella ha- 
viam ds pm^vir a Portugah — Elvas. Typ. Elvense. 

— 1861. 

AnOnymo. — «A politica de Napoleão III, a Ingla- 
terra, e a União Ibérica. y> — Lisboa, Ty]^. Universal. 

— 1861. 

Pio Gullon (D.) — (nLa Fusion Ibérica.)) — Madrid. 

— 1861. 

Este opúsculo é notável pelo seu desabrimento con- 
tra Portugal. Propõe desassombradamente a conquista, 
em estylo violento e phrase empolada. Os próprios 
jornaes da época lhe conde mnaram a doutrina, dando-a 
por inspirada no palácio de Santo Ildefonso, para con- 
trapor á voga que então tinha a sonhada candidatura 
de D. Pedro v ao throno da Ibéria ! 

O sr. D. Pio Gullon publicou depois, durante o go- 
verno provisório, alguns artigos nos jornaes, mais re- 
flectidos do que a fogosa e implacável Fusion Ibérica, 



296 

Anonymo. — (íLe mariage ou VAvenir du Portugal. » 
Paris. — 1862. 

Ribeiro (Thomaz). — tZ). Jayme ou a dominação de 
Castdlaio . Poemsk. Lisboa. — 1862. 

Doeste poema escreveu o visconde de Castilho: «O 
Z). Jayme tem mais legitimas ambições; (além das 
poéticas) nâo quer que a sua pátria ponha jugo a nin- 
guém, mas não soffre que lh'o ponham a ella.» 

O sr. Romero Ortiz fallando do poema do sr. Tho- 
maz Ribeiro, tem a lealdade de affirmar: <cque nâo 
ha nada tão impopular em Portugal como a idéa da 
união ibérica. » 

Valera (D. Juan). Erudito escriptor e notável es- 
tylista. Conhece a fundo a historia portugueza. Escre- 
veu na Revista Ibérica, de Madrid, uns artigos refu- 
tando as asserções ultra-bellicosas do sr. D. Pio Gul- 
lon. — 1862. 

Anonymo. — fulhms palavras sobre a União lbericar> 
Lisboa. Typ. Universal. — 1866. 

MíDOSi. (Luiz Francisco) Compendio de Histw^ia 
de Poiiugal, Approvado pelo conselho superior de ins- 
trucção publica. Vide a parte relativa á dominação 
dos Fillippes? 11.* Edição. Lisboa. — 1866. 

ViALE (António José). — Sócio effectivo da Aca- 
demia real das Sciencias. aBosqvsjo métrico histórico de 
Portugal» Opúsculo approvado pelo conselho superior 
de instrucção publica. 4.* Edição. Lisboa. — 1866. 

Anonymo. — a A Revolução de Hespanha e a Ibéria» 
por um Portugvsz, Lisboa. — 1866. 

Mello e Faro. (José Dionysio de) Antigo deputa- 
do da nação, a Forças defensivas de Portugal» Um 
opúsculo de 82 paginas. Teve três ediçSes no mesmo 
anno! — 1868. 

E?tc curioso opúsculo contem as seguintes divisSes 

Lúroducção. Origem da força, e sua necessidade. — 

j^ajbrça moral. — Da força material, — Do exercito. 



297 

— Dorecruiamento. — Da educação mUitar. — Do exer- 
cito effectivo. — Da resei^a, — Da resei^a transitória, 
—^Do armamefnto. — Das fortificardes, e das praças 
fortes. — Da marinha de guerra, — Das forças íateníes. 
Condusão.i» 

ÂNTHEBO DO QuENTAL. — Auctor de varios opús- 
culos, em prosa e em verso. E partidário das idéas 
republicanas, e geralmente tido por sincero nas suas 
opiniões, embora extremas. Escreveu um folheto sem 
resguardos nem ambiguidades tendo por titulo : 
^Portugal perante a revolução de Hespariha, Cort^de- 
raçSes sobre o futuro da politica portugueza, no povito 
de vista da democracia ibericay> Lisboa. Typ. Portu- 
gueza. — 1868. 

Este notável escriptor que sentimos ver andar tão 
arredado das idéas fundamentaes no nosso credo po- 
litico «pátria e independência» é não obstante justo em 
alguns dos seus julgamentos. Foi o sr. Anthero do 
Quental que referindo-se á superioridade incontestável 
de alguns homens públicos portuguezes, escreveu no 
seu folheto; aPoi^tugal perante a. revolução de Hespa- 
Tiha» as seguintes significativas palavras : 

«Doestes últimos, sem accumular longas citações 
]i'um opúsculo que sobejamente prova nâo ter sido es- 
cripto para elogiar preeminências, o auctor folgará de 
engrandecer a probidade politica do sr. Mendes Leal, 
as grandes e indisputáveis qualidades de estadista do 
sr. Fontes, a audácia brilhante do sr. Lobo d^Âvila, 
e as qualidades encyclopedicas do sr. A. R. Sampaio, 
que só este paiz veria diariamente lapidado pelo im- 
perdoável crime de ser elle ha vinte e quatro annos 
o atheleta indomável de todas as demandas popula- 
res.» 

T. VAN Veerssen. — ^Dom Luiz Roi d'Espagne et 
de Portagal.-b Paris. Imp. Tynographique. — 1868. 

Silva Lobo. — A Restaura fio de Portugal. Esboço 



298 

Histórico. Discurso pronunciado no dia 1.^ de Dezem- 
bro. — 1868. 

Bsaga (Gailherme). — Eccos de Aljubarrota. Poi-to^ 
Typ. Lusitana. — 1868. 

Ba&ros e Cunha (J. Gr.) Antigo deputado e actual 
ministro das Obras Publicas. Escreveu: aPo^itos negros^ 
Lisboa, Typ. Portugueza. — 1868. 

Barros e Cunha (J. Gr.) — iiHojeí> Lisboa — Typ. 
Portugueza — 1868. 

Gallardo (Federico Guarddon) « Cuestion de Actua- 
lidad. Breves consideraciones sobre elfoUeto Hoje {Hoy) 
offensivo á Espana, d Libreria Central. Lisboa. — 1868. 

Anonymo. — (íA Revolução em Hespanka, e a indi- 
gnação de Portugah Porto. Typ. Commercial. — 1868. 

Pinheiro de Mello ( J.) — Revolução de Hespanha 
' e a questão ibéricas- (Considerações a propósito da) 
Lisboa. — 1868. 

Castilho (Eugénio).— m Pátria contra a Ibérias 
Lisboa Typ. de Sousa Neves. — 1868. 

Gonçalves (A. Ribeiro). — a A Independência Nacio- 
nal e albei*ia.j^ Typ. da Rua da Vinha. Lisboa. — 1868. 

Coutinho (Albano). — a Iberismo, ou o Paiz e a 
situação, diante dos uUimos acontecimentos de Hespa- 
nhaD Opúsculo seguido de duas cartas, umja ao genS' 
ral hespanhol D. Juan Prim, outra ao distincto jorna- 
lista Pinheiro Chagas. — Lisboa. Typ. de J. G. de 
Sousa Neves. — 1868. 

Bonança (Padre João). « Quest^oes da actualidade. » 
Porto. — 1868. 

Coutinho de. Miranda. (F. L.) « Discurso pronun- 
ciado na noite do 1.^ de Dezembro de 1868. 

Vieira de Castro. — (íA republica» Porto. Typ. 
Lusitana. — 1868. 

RoMERO Ortiz (D. António) a La Literatura Por- 
tugueza en el siglo XIXi> (Estudo literário) Madrid» 



299 

Costa Goodolphim. — « Portugal e Hespanka. » 
Duas palavras enérgicas sobre Portugal, Estado finan- 
ceiro. A Imprensa e o Povo. Revolução de Hespanka.- 
Candidatos propostos. D. Miguel eD. Carlos de Bour- 
bon. Dxms palavras ibéricas. Lisboa. Typ. Rua do 
Poço dos Negros. — 1869. 

O MESMO « Uma visita a Madrid. » Lisboa. — 1870. 

DuBBAZ (J.) « A Republica e a Ibería)y (Palavras 
francas) Lisboa. Typ. de Sousa Neves. — 1869 

Orknse (José Maria). — « Vantajes de la republica 
federal. » Madrid. — 1869. 

CoMMissAo Primeiro de Dezembro (Protesto da). 
Assignado em 24 de fevereiro de 1869. A este pro- 
testo, e a um outro posterior, alludè o sr. Fernandez 
de los Rios em alguns dos despachos publicados no 
seu livro. 

Rebello^ da Silva. — Antigo ministro da marinha, 
par do reino, sócio effectivo da Academia Real das 
Sciencias de Lisboa, e de outras corporações litterarias 
estrangeiras. Foi um dos mais notáveis oradoces por- 
tuguezes, e sem questão um dos prozadores contempo- 
râneos mais brilhantes. Foi critico, romancista e histo- 
riador. Escreveu a « Historia de Portugal nos séculos 
xvn e xviii» onde se narra era estylo abundante e 
claro a restauração de Portugal em 1640. São notá- 
veis os discursos proferidos por Rebello da Silva nas 
sessões de 2 de Julho de 18G9 e 6 de Agosto do mes- 
mo anno na Camará dos Pares. 

Albano Coutinho, h Cinco dias em Madrid». Lis- 
boa. — 1870. 

Theophilo Ferreira. — professor da Escola Nor- 
mal de Lisboa «Recordações de uma viagem a Ma- 
drid.» Liaboa. — 1870. 

Pereira Rodrigues (José Maria). mUma visita a 
Madrid». Lisboa. Typ. Universal. — 1870. 

COMMISSAO 1/ DE Dezejíibro (Manifesto da). Que 



300 

recebeu a annuencia de quasi todos os municípios do 
paiz. Lisboa. — 1870. 

• Andrade Corvo (Joio de). — Antigo ministro dos 
estrangeiros; da marinha e das obras publicas. Sócio 
eflFectivo da Academia Real das Sciencias de Lisboa, e de 
muitas outras corporações litterarias estrangeiras, Par 
do reino. E auctor de diversas obras scientificas e litte- 
rarias que lhe grangearam merecida reputação. O 
próprio sr. Fernandez de los Rios faz em uma nota 
do seu livro merecida justiça aos talentos do sr. Corvo, 
embora (entrava isso no seu plano) buscasse attenuar- 
lh'os com mal cabidas considerações de ordem politica. 

O sr. Corvo escreveu um opúsculo de 162 paginas 
intitulado : — a Perigos» em que exp3e o estado da Eu- 
ropa durante a guerra franco-prussiana, debaixo do 
ponto de vista dos interesses peninsulares, especial- 
mente dos portuguezes. Lisboa. — Typ» Universal. 
— 1870. 

Anonymo. — Duas palavras sobre a candidatura de 
elrei D^ Fernando ao throno de Hespanha.i> — 1870. 

Foi attribuido este folheto a diversos auctores. O 
sr. Fernandez de los Rios queixa-se de o haverem tam- 
bém suspeitado de ser um d^elles. No momento a im- 
prensa periódica deu conta d'este folheto, analysando • 
lhe os seus intuitos. 

Mendes Leal (José da Silva). — Antigo ministro 
da marinha e dos estrangeiros. Bibliothecario-mór da 
Bibliotheca Nacional. Sócio effectivo da Academia Real 
das Sciencias de Lisboa, e de outras corporações litte- 
rarias e scientificas estrangeiras. Actual representante 
de Portugal em Paris. Poeta, romancista e drama- 
turgo distincto. Foi durante muitos annos jornalista 
politico, e collaborador de quasi todos os semanários 
litterarios do paiz. Escreveu na «J.wienca» com o ti- 
tulo de (íAs duas PeninmUisv uma serie de eruditos 
artigos^ provBxiào a disparidade que havia entre ellas e 



301 

rebatendo a argumentação dos que invocam a unificação 
da Itália como exemplo a seguir na Península Ibérica» 
Os artigos são sete e começam no n.^ 1 do 3 vol. da 
^Americai» (janeiro de 1871) e terminam no n.° 5, em 
nmio do mesmo anno. 

Oliveira Pires (Alfredo de). Artigos publicados 
no jornal « O Partido Constituinte. » — 1871. 

Vidar t (Luiz) official de artilheria do exercito hespa- 
nhol a Letras y Armas » 2.* edição. Como appendice 
contem algumas reflexõ(is acerca das relações penin- 
sulares ; e algumas traducçoes de poesias portuguezas 
de auctores de medíocre merecimento. Madrid. — 1871. 

Anonymo. — « Portugal e a sua autonomia^ em 
relação ao novo principio das nacionalidades segundo 
as raças. i> — Lisboa. Typ. Lallemant. — 1871. 

Este folheto, que apenas conta 23 paginas é muito 
curioso e substancial. Discute-se n'elle conforme o seu 
titulo o indica, o principio das nacionalidades segundo 
as raças, e defiende-se calorosamente a idéa da juncção 
da Gallisa a Portugal, e de uma parte do reino de 
Leão, por meio de pleibescito, e em resultado de uma 
propaganda verdadeiramente fraternal. 

K'este opúsculo lese a paginas 15 : 

«Há na Hespanha, digamol-o alto e sem receio que 
nos desmintam, em logar de uma unidade, ou de uma 
8Ó nacionalidade, três ou quatro : a vasca, a catalã ou 
provençal, e a portugueza-gallega : cada uma d'estas, 
tem como sua razão de ser, a razão de origem, a razão 
de raça, a razão de difierença de costumes, leis e ins- 
tituições, e até de linguagem ; e por isso não poderam 
nunca, nem jamais poderão fundir-se em uma só na- 
cionalidade.» 

Em outro ponto, diz-se: 

«Em logar de nos absorverdes, entregai-nos a 
Gallisa que é nossa, e uma parte do reino de Leão 



302 

que nos pei*tence: os gallegos são nossos irmãosi ha 
entre nós è elles a mesma identidade de origem; o 
nosso caracter é o mesmo: os nossos costumes sSo 
identicoS; sâo as mesmas as nossas tradicç5es; as nos- 
sas lendas, as nossas leis e a nossa linguagem, formá- 
mos uma só familia, uma só nacionalidade, a naciona- 
lidade Portugueza, ou Gallega.» 

Calvo Asensio. — Addido á legação hespanhola 
em Lisboa, sendo ministro o sr. Fernandez de los Rios, 
a quem o auetor offerece o seu livro. — Lisboa en 1870 
— Costumhres, literatura y artes dei vecino reino. — 
Madrid. — 181L 

O sr. Calvo Asensio faz os seguintes julgamentos 
de alguns homens pohticos portuguezes contemporâ- 
neos : 

Dugue de Saldanha. — Valeroso veterano, e não 
medíocre politico. 

Duque de Loulé. — Personagem mudo, de quem não 
é fácil apreciar o merecimento, por que nunca deu 
occasião, fallando ou escrevendo, a censura ou a lou- 
var. 

Rehello da Silva. — Emhientissimo escriptor, orador 
incomparável e eloquentíssimo, hábil opposiocionista, 
muito propenso, para obter triumphos, a estimular con- 
tra a Hespanha o espirito nacional. 

Mendes Leal. — Digno de figurar entre os bons es- 
tadistas, pelas condicçSes que tem como homem de 
governo. 

Latino Coelho. — Talvez que o primeiro escriptor 
portuguez, o seu nome é uma gloria das lettras ; como 
homem politico é considerado pelo seu grande talento, 
e seus vastos e universaes conhecimentos. Arrastado 
pela irreflexão e imptuosidade da juventude deixou-se 
um dia vencer pelo iberismo, chegando a cometter 
este crime de lesa nação, e soffrendo a cruel expiação 
de que por tal delicto se fez merecedor, sendo de pre- 



303 

ferencia o alvo escolhido das mais terríveis catelina- 
rias portuguezafi, contra as quaes não encontra hoje 
outra defesa mais do que proclsjúar- se federal ibemco^ 
levantando no Jornal do Commercio a bandeira imma- 
eulada de tão virginal doutrina.» 

(Que serie de absurdos !) 

Casal Ribeiro. — Absolutista de hontem (quando?) 
conservador hoje, em geral livre cambista (em geral!) 
não se distingue pela fixidade das suas idéas. Em 
troca, porém, pela sua eloquência e pelo seu talento 
merece um distincto logar na consideração dos homens 
imparciaes e respeitadores da sciencia e do engenho. 

Andrade Corvo. — Bom romancista, professor emi- 
nente, naturalista de immensos conhecimentos, reúne 
a todas estas quaHdades a de estadista profundo e ho- 
mem politico notável, sendo muito para notar a uni- 
versalidade das suas aptidões, tanto para as luctas 
apaixonadas da imprensa^ como para a meditação pro- 
funda, e estudo reflexivo que a sciencia exige dos seus 
verdadeiros cultores. • 

Carlos Bento. — Hábil na satyra parlamentar. 

Foiítes Pereira de Mello. — Bravo e eloquente de- 
fensor dos principies conservadores. 

Marquez d' Ávila e Bolama. — Personagem influente, 
e nada radical nas suas opiniões. 

Rodrigues Sampaio . — Grande e venerando mestre 
de constitucionalismo. Nos seus escriptos pode admi- 
rar se concisão e energia, argúcia engenhosa e flexi» 
bilidade, força de lógica, e ao mesmo tempo variedade 
e harmonia; condicções que, mesmo não reunidas, dão 
em resultado um eminentíssimo jurisconsulto. 

O tratamento de eminentissimo, que em Portugal per- 
tence aos cardeaes, é dado só duas vezes pelo sr. Cal- 
vo Asensio, uma a Eebello da Silva, e a outra ao sr. 
Sampaio. 

Ribeiro Guimarães (José). — Conservador da Bi- 



304 

bliotheca Nacional de Lisboa, e coUaborador do Jí/r- 
nal do Commercio. — Summario de varia historia, to- 
mo II j artigos intitulados : Uma viagem a Badajoz^ 
Lisboa. — 1872. 

Anonymo. — A Republica Portugueza, opxisado po- 
litico. — Summario : — Ecce lux, — Aspecto geral da 
Europa, — Portugal monarchico e Portugal republica- 
no. — Conclusão. Lisboa. Typ. do Trabalho, Tra- 
^ vessa do Fiúza, Alcântara. — 1872. 

Influencia do socialismo e da Internacional iia. ad- 
ministração e politica dos Estados, — Por uma com- 
missão de estudantes da Universidade de Coimòra, 
1871-1872, Imp. Litteraria. — 1872. 

Rodrigues de Mattos (Dr.) — Portugal e a Hes- 
panha, — Carta ao visconde de Sanches de Baena. — 
Rio de Janeiro. — 1873. 

Andrade e Almeida (A. A.) — Empregado no mi- 
nistério das Obras Publicas. Quadros da Independên- 
cia Nacional. Lisboa, Livraria de M. Moreira. — 1873» 

Sanches DE Baena«( Visconde de). — Relatório apre- 
sentado á commissão central 1,^ de Dezembro do 1640 y 
acerca das diligencias a que procedeu no Rio de Ja- 
neiro para ahi se levantar a subscripçâo applicada á 
erecção do monumento que se trata de elevar aos res- 
tauradores de 1640. Lisboa. — 1873. 

Anonymo. — Pmiugal em 1872, — Vida constitu- 
cional de um povo de raça latina. Estudo publicada 
em janeiro de 1873 no Memorial Diplomatique de Pa- 
ris. Foi traduzido e publicado lío Jornal do Commer- 
cio de Lisboa, e depois dado de novo á luz em um 
folheto. É o que temos presente, impresso na Typ. do 
Jornal do Commercio. Lisboa. — 1873. 

Resposta (da Commissão central 1.® de Dezembro) 
a alguns subscriptores do Império do Brazil para o 
monumento dos restauradores de 1640. Lisboa, Typ. 
Universal. — 1874. 



305 

Anonymo. — Reflexões á carta do sr. D. Angel 
de los Rios, Por * * * — Typ. Lallemant. 1876. 

Sousa Bbandao (Francisco Maria de). — Um dos 
fdndadores e redactores dos jomaes O Progresso e o 
Ecco dos Operários, 

Ha doeste escriptor artigos em ambas as folhas men- 
cionadas. Preoccupa-o o ^turo da democracia. 

Nenhum doestes jomaes teve continuador na im- 
prensa periódica. 

Teixeira de Vasconcellos (António Augusto). — 
Sócio effectivo da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa, e de outras corporações litterarias e scientifi- 
cas estrangeiras. E um dos mais distinctos jornalistas 
portuguezes. Tem sido fundador de differéntes jomaes 
políticos, e collaborador de outros litterarios. Tem tam- 
bém publicado diversos livros e opúsculos, entre es- 
tes : — A fundação da monarchia portugrieza, — Nar^ 
ração anti-iberica. E o n.* 2 da collecção que com o 
titulo de Livros para o povo teria de constituir uma 
bibliotheca popular. Bedige actualmente o Jornal da 
Noite, 

America (A). Encontram-se n'este curioso periódi- 
co redigido com grande egualdade e proficiência, 
alguns artigos com referencia ao assumpto que nos 
occupa, dos senhores Mendes Leal e António de Serpa. 

A America começou a publicar-se em Janeiro de 
1868, e terminou em Setembro de 1871. 

Theophilo Braga. — Professor no curso superior 
de letras. Escriptor infatigável e erudito, mas nem 
sempre fazendo a conveniente applicação do que sabe. 
É muitas vezes citado no livro do sr. Femandez de 
los Bios. As suas opiniões avançadas, mas ainda mal 
definidas, prestam-se a ser invocadas nas occasi^es de 
apuro pelos demolidores políticos e litterarios. 

Não assignalámos nenhuma data precisa a qualquer 
dos seus trabalhos litterarios porque de todos elles se 
20 



306 

utilisou indistinçta mente o sr. Feniandez de los 
Rios. 

sr. Romero Ortiz no seu livro <iLa Literatura 
Pwi^ugueza en el siglo xix diz : 

«Theophilo Braga é um escriptor de vasta e profun- 
da erudição, de excessiva erudição, por que há occa- 
siões em que agglomera de tal maneira as citações 
e remonta tão alto o estylo, que custa ao leitor a acom- 
panhal-o. Se moderar as suas altas e transcendentaes 
aspirações philosophicas, e se expressar em linguagem 
mais chã e intelligivel, virá a gosar maiores crédi- 
tos.» 

Fernandez de los Rios (D. Angel) Ministro de 
Hespanha em Portugal e antigo jomaiista «Mi Mision 
en Portugal» Diário de ayer para ensenanza de ma- 
nàna)u 

1 vol 726 paginas. Pariz, 1877. 

António Rodrigues Sampaio, Eduardo Coelho. 
Luciano Cordeiro. Pinheiro Chagas. 

a A União Ibérica, e a candidatura de el-rei D. 
Feimando.ít Com importantes documentos. 

Lisboa, 1877. 

N.B. São os artigos publicados na ((Revolução de 
Setembro» DiaHo de Noticias a Commercio Portugtiezi» 
e € Diário da Man1my> em seguida á publicação do 
livro do sr. Fernandez de los Rios. 

Os editores do livro «A Uuiào Ibérica e a candi- 
datura d'el-rei D. Fernando^ imprimio no fim do 
volume a seguinte explicação: 

«Por um lapso typographico não mencionamos a 
pag. 129, como muito importantes e expressivas, as 
notas do sr. Mendes Leal, quando ministro dos negó- 
cios Estrangeiros, e as cartas do sr. Fontes Pereira 
de Mello, presidente do^conselho de ministros. A sua 
Jeitua dá'lhes toda a importância, e o sr. Fontes tem 
J20 livro do sr. Fernandez de loa IRioa o xvi?x\^ vcieQU- 



307 

teatavel documento de notável homem de estado e do 
seu entranhado amor á pátria.» 

Já esta parte do nosso livro estava na imprensa 
qaando^ pela benévola intervenção do sr. marquez de 
Sousa Holstein, nos constou existirem mais os seguin- 
tes livros ou opúsculos, faltando-nos o tempo para 
apurar em uns as datas das impressões, em outros as 
qualidades dos auctores, finalmente em todos os no- 
mes das typographias onde foram impressos, e a loca- 
lisação d'ellas. 

Em todo o caso entendemos não dever privar os 
nossos leitores doeste, que hoje cremos ser comple- 
mento dos nossos «Apontamentos Bibliographicos.» 

Agradecemos ao sr. marquez de Sousa Holstein o 
seu espontâneo favor, e o interesse que demonstrou 
pela publicação do nosso livro, fornecendo-nos elemen- 
tos para o tornar quanto possível acabado na parte 
relativa aos subsidies bibliographicos. 

O Supplemento é este : 

Sotto Maior (Miguel). « As victorias dos portugue- 
zes em defesa da sua independência ^'h 

Pimentel (Alberto). — aLyra cívica. Escreveu mais : 
albeHsmOj ou o paiz e a situação.)) 

Sá Carneiro. (J. P. de) (l O patriotismo do povo. y) 

Luciano Cordeiro. — a. Sim. Resposta aos que per- 
guntam se queremos ser portuguezes. » 

Anonymo. « O general D. Juan Prim em Lishoa.y> 

Osório de Vasconcellos (Alberto). Official de en- 
genheiros, e antigo deputado da nação. aEstudos so- 
bre a defeza do paiz, » 

Coelho (Adriano). — « Surge Lusitani.y) (Prosa, ou 
verso ?) 

Fonte Arcada (Visconde de). Par do reino. Já foi 
mencionado nos «Documentos Parlamentares «Es- 
creveu: di Vozes leaes do povo poHuguez.^ 

Moraes Leal (Bernavàiuo kii\.o\i\Q $i.^. iv.^Pv^-^o,- 



308 

ganda patriotico-liberal contra a pretendida união ibe* 
rica, y> Escreveu mais : « Os contrabandistas officiaes. 
Edição pairiotico-liberaL 

Anontmo. — « Resumo histórico da domina,ção de 
Castella em Portugal, » 

RiCABDO GuimabIiss. (Hoje visconde de Benalcan- 
for). — Du^s palavras sobre a Hespanha. 

Anontmo. — Republicanos e Monarchistas. 

Anonymo. — Leopoldo j e Fernando de Hespanha e 
Portugal. (Foi originariamente escriptò em portuguez, 
ou é traducção?) 

Anonymo. — A questão ibérica e o Saldanha, 

La question espagnole (Le Portugal vis-à vis de). 
Ignoramos se é ou não é anonyma. 

Visconde de Trancoso. — Apwitamentos para a 
historia da dominação Castelhana em Portugal, 

Camaba Leme (D. Luiz da). Foi ministro da guerra. 
£ official superior do corpo do estado maior. Escre- 
veu : « — Considerações geraes acerca da reorganisa- 
ção militar em Portugal, Tem um prologo do sr. La- 
tino Coelho. 

Sptenville (Le baron de). Escreveu:* Le Por- 
tugal et Vunité Iberique.io 

Anontmo. — « Um voto contra a união iberica.ii> 

Senna Freitas (Júnior). — A Republica Ibérica. 
Carta protesto, 

Anonymo. — Brado aos portuguezes contra as idéas 
da união de Portugal com a Hespanha, 

Anontmo. — Portugal e a sua autonomia, Ecco glo- 
rioso^ e a voz da razão. Por um liberal, 

Anontmo. — Brado patriótico, O i.® de dezembro. 
Restauração de Portugal. 

Anontmo. — A civilisação do século xix. 

Anontmo. — Portugal e a sua autonomia, 
Freitas (Júnior). — A Ibéria, 
Anonymo. — Almanach jpatriotico e a-nfci-iiyeii^íco da 



309 

dominação de Castella em PoHttgaly e da famosa in- 
stmreição de 1640, 

Dizem-nos ser traducçâo do livro de Bessières, in- 
títalado Histoire des Revolutions Politiques, 



Excluímos doesta segunda parte dos Apontamentos 
BibliographicoSy como azemos com relaçSlo aos estudos 
anteriores a 1864, os sermões, as obras theatraes, e 
as poesias allusivas, ou commemorativas da restaura- 
ção de Portugal. 






Follietos liespanlioes que nfto podemos 

oliter 

BOBBEGO. — Historia d'una Idéa, 
Canovas DEL CASTILLO. — El vecuerdo. 
Bebmejo. — Historia de la revolucion de Espana, 
Salazar y mazarredo. — Um folheto — (Titulo ?) 



General durando. — Italiano ao serviço de Hes- 

Sanha durante a guerra civil chamada da «Legitimi- 
ade » e que representou um dístincto papel no seu 
paiz depois de unificado. Escreveu um folheto, de que 
ignoramos o titulo, defendendo as idéas da união ibé- 
rica. 



o i FHH DE m K E 1 IRO 



Da Revolução de Setembro^ um dos mais antigos 
jornaes portuguezes, pois conta trinta e sete annos 
de não interrompida publicação, transcrevemos os se- 
guintes artigos, geralmente attribuidos ao sr. António 
Rodrigues Sampaio, o decano dos nossos jornalistas, 
e o mais experiente d^elles nas luctas da imprensa pe- 
riódica. 

^ Referem-se á ordem que o sr. Fernandez de los 
Rios recebeu para sair de Portugal, e de que o ex-di- 
plomatico tanto se lastima. 

Ponha s. ex.* os olhos no procedhnento da França 
para com o sr. Zorrilla, e compare. 



O sr. Fernandez de los Rios e o sen livro 



Obedecendo contrafeito á ordem do governo portu- 
guez que fez sair do reino o sr. Fernandez de los 
Rios, espantou, ou quiz espantar o mundo, com a 
isimeaça d^umas historias, ou d^uns contos, que sabia^ 
6 que deviam fazer corar muitas faces e desacreditar 
muitos caracteres. O raio devia ferir de certo a gente 



314 

da governança, porque á opposição não desagradaria 
o desconceito dos adversários. Era natural. 

Na sua epistola de 17 de novembro á opinião pu- 
blica de Portugal diz o sr. Femandez o seguinte : 

a Na exposição que fiz ao governo portuguez ma- 
«nifestei, como resolução minha, se se insistisse n^uma 
(íeospulsão infundada, o quebrar o meu obstinado si- 
«lencio de oito annos :... a insistência na intimação 
a arbitraria diz-me que chegou o momento de fallar, e 
«fallarei... 

«Exhumarei segredos...» 

Quid me alta silentia cogis 

Ritmpere?.,. 

Dizia assim a furiosa Juno no concilio dos deuses 
quando Júpiter queria conciliar os rutulos e os troya- 
nos 5 e assim poe o sr. Femandez de los Rios a preço 
o seu silencio. A sua proposta é a de uma ameaça 
grosseira, e a de uma venda vergonhosa. «Calo-mese 
«me deixaes ficar ; fallarei se insistis na minha saída.» 
Não er^ o deportado que se queixava, era o regatão 
que queria negociar. 

Diz-se que Demosthenes perguntara ao actor Aris- 
todeme quanto ganhava representando. «Um talento» 
respondeu este. «Pois eu, disse Demosthenes, já rece- 
«bi mais por me calar.» O sr. Fernandez de los Rios 
ofiorecia o seu silencio em paga da sua residência. 

Se o governo accedesso a uma tal vergonha era in- 
digno do logar que occupava. Essa a ceei tacão seria a 
prova mais cabal do reconhecimento de acções ou fa- 
ctos vergonhosos que não podiam ser publicados sem 
detrimento da reputação de muitos dos nossos ho- 
mens públicos, e a critica seria justa se julgasse 
mal dos homens que fizessem aquella transacção ver- 
ffonhosa. 



315 

A ameaça do sr. Fernandez devia ser de certo uma 
razão demais para determinar a sua expulsão além de 
outras que sem ter razão de ser não são comtudo tão 
irrrítantes. 

Mas o sr. Fernandez não é de todo intransigente. 
Quem o levar por bons modos consegue d'elle tudo o 
que quizer. Diz elle no seu livro, n^este ariete com 
que vai destruir a monarchia para sobre as ruinas 
d^ella fundar o seu neorepublicanismo, «que se o go- 
«vemo, em nome da concórdia peninsular lhe pedisse 
mconjidencicdviente que fizesse o sacritício de ausentar- 
«se», tudo se acommodaria convenientemente; mas a 
insistência na expulsão pros^ocou o seu protesto e a 
falta de resposta a elle além da falta de delicadeza 
constituo uma offensa tamanha que só a publicação 
de um livro podia vingar. 

O sr. Fernandez não é mau, e apenas é algum tanto 
assomado. Se lhe pedissem, confidenciaLmevie já se 
sabe, ausentava-se. O caso era reconhecer o seu alto 
poderio, era confessar que Portugal pedia, porque 
s. ex.* accedia á supplica concluindo, e bem, que o pe- 
dido parte sempre do inferior para o superior. O des- 
terrado pelo governo de Canovas era seu logar- tenente 
em Portugal, e a guia da deportação mysteriosa, não 
era já um passaporte como o sr. Fernandez lhe cha- 
mava, mas o diploma authentico em virtude do qual 
reclamava os direitos da soberania. 

O sr. Fernandez protestou, e protesta ainda contra 
a íãlta de resposta ao seu protesto e á sua exposição. 
Nem protesto nem caldo de gallinha fazem mal a nin- 
guém. O amor próprio do sr. Fernandez poderia me- 
lindrar-se por isso, mas a nós parece-nos que o goveriio 
de Portugal fazia mal se entabolasse correspondên- 
cia com um deportado que nega o direito que esse go- 
verno tem de o expulsar allegando que permanecia 
aqui por uma ordem de Cánovas, e que esquecendo-se 



316 

logo da contradicção accusa o nosso governo por obe- 
decer ás mesmas ordens, querendo ao mesmo tempo 
nSo sair do reino por estar aqui por ordem do gover- 
nohespanhol, e por querer o governo visinho que elle saia. 

Qualquer ministro poderá, e deverá, responder de- 
licadamente ás duvidas e perguntas que lhe faça qual- 
quer particular. E um acto de cortezia e boa educa- 
ção, e parece-nos que as respostas que o ministro do 
reino deu a duas perguntas do sr. Femandez de los 
Rios não desdizem nem da gravidade do assumpto, 
nem da benevolência com que os homens de bem se 
devem tratar mutuamente ; e se o sr. Fernandez de 
los Rios no seu livro se esquece das regras da corte- 
zia, a sua causa não melhora com a sua animosidade, 
porque a desgraça que faz os homens infelizes também 
os faz muitas vezes injustos. 

Mas quando a um ministro se dirige contra um 
acto of&cial d^elle um protesto com ares de soberania, 
a discussão seria um erro, a submissão a esse alguém, 
ou a esse ninguém, que tivesse taes pretenções, seria 
um attentado contra a dignidade da nação, tendo para 
com um inimigo e impugnadar da nossa nacionalidade 
e independência, e alem d'isso deportado, attenções 
que não se costumam ter para com pessoas altamente 
collocadas. 

Mas a Revoltição provocou a publicação do livro, 
diz o sr. Fernandez. 

Provocou, e honra-se com isso. Confessamol-o. Foi 
um grande serviço ao paiz. £ o que já se tem 
visto, e ainda mais se verá. 



n 

« 

A ameaça do sr. Femandez de los Rios o governo 
de Portugal nS,o tremeu, não chamou ás armas as re- 



317 

servas, nem considerou que fosse necessário recorrer 
ao ultimo esforço da padeira de Aljubarrota. . 

Verdade é que houve quem acreditasse que de 
ameaça tão acentuada, do alto preço que se exigia 
pelo silencio, podia resultar algum cataclismo, e até 
na imprensa, que tem por timbre o ser ousada, houve 
alguém que temeu pela sorte da pátria e arguiu o 
ministério do reino por transgredir a ordem do sr. Ca- 
novas que designava este reino para residência do 
nobre proscripto ; mas nem ao signal doesta trombeta 
o Guadiana. 

Atraz tornou as ondas de íbedroso ; 

nem 

Correu ao mar o Tejo duvidoso ; 

nem 

As mães que o som terribil escuitaram 

Aos peitos os filhinhos apertaram. 

Oito annos de obstinado silencio deviam de ser um 
martyrio para o sr. Fernandez de los Rios, e o gover- 
no portuguez não Ih^o podia agradecer por que nem 
lh'o pedira nem receiava a publicidade. Desabafou o 
homem, e quando repetiu o seu firme propósito a Re- 
vóluqãú dizia: — «Realise a alneaça, publique o livro 
«dispare essa arpaa terrível», e o sr. Fernandez quei- 
xa-se agora de o havermos provocado ! ! ! 

Pois ameaça, e argue-nos de não o temer-mos? 
Queria por força que o aflfagassemos para continuar 
n'um silencio mysterioso. E depois de tantas maravi- 
lhas é capaz de nos vir pedir indemnisaçSes por ter 
estado embuxado oito annos! 

Pareceu ao sr. Fernandez absurdo obrigal-o a sair 
de Portugal porque era isso desterrar um desterrado. 
A admiração é apenas innocente. Os espirítos levan- 
tados occupam-se naturalmente com a demonstração 



318 

d 'estas extravagâncias. Segundo o ex-diplomata infe- 
liz, para com um emigrado que sae da sua terra para 
a alheia, ou porque vae buscar fortuna ahi, ou porque 
foge a uma perseguição politica, nao importa que não 
haja consideração ; mas para aquelle que traz já uma 
nota do seu paiz que o indica como perigoso ou sus- 
peito no seu paiz, para esse deve haver respeitoso 
acatamento, e pelo facto de não o consentirem na sua 
pátria o governo onde elle for residir deve confiar 
n'elle tanto quanto o seu governo desconfiou. Esta 
jurisprudência deve ter um grande alcance nos paizes 
dos Fernandez. 

O sr. Fernandez faz de si uma alta idéa, e essa 
presumpção não faz mal a ninguém, como já se dizia 
no Rouxinol das salas. Nós cremos que s. ex.* encari- 
pitado no cume dos Pyreneus se julga mais alto do que 
as famosas montanhas. O caso é de prespectiva. 

Julgou-se s. ex.^ tão cercado de policias disfarçados 
que não poude estar só nem um momento desde a in- 
timação do Porto até á saída de Lisboa. Seguiam-no 
no comboio do caminho de ferro, sentavam-se com 
elle á meza nas estações, viam-se colleirinhos de mu- 
nição por cima da gravata dos policias, e eram uns 
valdevinos tão ratões que usavam de meias por cima 
das botas, e de botas por cima das calças. As testi- 
munhas d'estes factos eram una garotos que aponta- 
vam ao sr. Fernandez aquelle caso novo e extrava- 
gante. Nunca a historia teve provas tão authenticas, 
nem o historiador esteve tanto em contacto nem tão 
conforme com os garotos seus cooperadores. 

A verdade é que o sr. Fernandez de los Rios não 

veiu acompanhado de ninguém, nem o disfarce era 

necessário. Se s. ex.* não quizesse partir seria a isso 

compellido : mas para o acompanhar bastaria um em- 

pregaào àe policiarem o seu uniforme bem patente. 

A imagiDãção de expulsão serviu-\\ie ç^wc^i ^ 4»x «jc^a 



319 

de valentão, sem saber ainda hoje se a expulsão era 
mysteriosa, ou se era alardeada como um grande ser- 
viço. O sr. Femandez não pode ainda bera conciliar 
o mysterio com o apparato. 

Mas chegado a Lisboa o sr. Fernandez perguntou 
para onde o mandavam. O ministro do reino com- 
metteli outro acto de violência dizendo-lhe que a esco- 
lha pertencia a s. ex.'*^, podendo se quizesse ir para 
qualquer das nossas ilhas. Esta liberdade e tolerância 
magoou o animo de s. ex.* que queria por força que o 
fizessem victima. Uma vez que lhe não quizeram 
comprar o silencio, convinha-lhe ter elementos para 
accusação. A deferência incommodava-o, e n'aquelle 
coração generoso não havia já logar senão para o ran- 
cor. 

Se o governo quizesse mandar o sr. Fernandez de 
los Rios para qualquer das ilhas quem Ih 'o impediria? 
Não podia estabelecer no roino qualquer ponto para 
sua residência? O arbitrio que lhe deixou o governo 
não era uma prova do desejo de condescender com a 
sua vontade, sem deixar de attender ao interesse que 
dictava o cuidado da segurança publica, de que o 
governo era juiz ? Como é que o sr. Fernandez des- 
creve no seu livro que o governo regenerador o que- 
ria mandar para a ilha a fim de o poder mandar de- 
portar para outro ponto? 

Uma calumniasita da invensão do sr. Fernandez ó 
a seguinte: 

«A única attenção que devo ao sr. Sampaio foi of- 
«ferecer-me passagem gratuita se eu trocasse a minha 
aposição de deportado pela de emigrado ; quando re- 
«cusei manifestamente a minha resolução de não em- 
cbarcar senão á viva força, no caso de que intentas- 
«sem disfarçar os caracteres da expulsão, a ultima 
«prova da delicadeza do ministério Fontes foi enviar- 



320 

«me o commissario de policia j que acompanhado cCum 
a soldado com uniforme â vista dos hospedes e dependen- 
ates do hotel, entrou no meu quarto para me notificar 
«o dia em que sairia o vapor, em que era preciso 
«que eu embarcasse.» 

Apf)rouve ao sr. Fernandez simular que se lhe offe- 
recêra uma passagem gratuita com a condicçao d'elle 
trocar a sua honrosa posição de depoti^ado pela igno- 
minosá de emigrado. Nem o sr. Sampaio nem o go- 
verno se metteu n^isso, nem se quereria metter ainda 
quando o desterrado o desejasse, porque se o sr. Fer- 
nandez tem despreso pelos emigrados, o governo não 
tem menos respeito pelo infortúnio d'elles, do que pelo 
dos deportados, não podendo admittir differença en- 
tre elles quanto ao direito de fixar a sua residência 
e de os fazer sair do seu território quando assim o 
julgar conveniente. 

Ha no orçamento geral do estado uma verba para 
subsidio a estrangeiros emigrados por opiniões poli- 
ticas, e residentes em Portugal. Quando por motivos 
de ordem publica o governo faz sair do reino algum 
d^esses emigrados manda-lhes sempre pagar as passa- 
gens, e os encarregados da execução das ordens ge- 
raes no seu expediente é regular que ajustem a es- 
cripturação aos artigos do orçamento. É possivel que 
fosse por isso que na estação policial se expedisse o 
passaporte como emigrado. 

Nem os brios de deportado se deviam oflfender por 
isso, porque alguns seus concidadãos victimas do mes- 
mo infortúnio, classificados do mesmo modo não se 
dignaram de receber a passagem para elles e suas 
familias, a alguns dos quaes se pagou três vezes por 
não poderem fazer viagem nas duas primeiras. Que- 
rerá o sr. Fernandez de los Rios fazer injuria aos 
seus próprios correligionarioB ? Quererá condemnar 



321 

a pobreza do sr. D. José Moralez e Gonzalez, ca- 
valheiro honradíssimo, que foi ministro da republica 
e que não se pejou de declarar que não podia saír 
do reino pela falta de meios, em quanto o seu col- 
lega no infortúnio alardeia os seus recursos ? A opi- 
nião publica, apezar dos desdéns do sr. Fernandez 
não será menos favorável no modesto Gonzalez do 
que ao altanado Fernandez. 

E uma vez que a proclamação de desterrado con- 
vém mais aos interesses do sr. Fernandez -do que a 
macula de emigi'ado, a Revolução , órgão na impren- 
sa do governo do sr. Fontes declara tirbi et orhi que 
o sr. Fernandez de los Kios é um deportado e não 
tim emigrado ; que estava em Portugal porque na sua 
pátria não consentiram a sua residência, e que está 
em Bordéus, porque fazendo-o sair d'e8te reino o go- 
verno portuguez, escolheu aquella terra para se lhe 
darem para alli os seus passaportes. 

A^ totit seigneur, tout honneiir. 

Não acabaram aqui as gentilezas do sr. Fernan- 
dez. 



III 



Chega a gente a duvidar se o sr. Fernandez de los 
Rios, diplomata nianqué, agente secreto infeliz, está 
ou não no uso pleno das suas faculdades intellectuaes. 
O mallogro das suas emprezas concorreu talvez para 
a enfermidade do seu espirito. O enfermo do occidente^ 
nSo é Portugal, é elle. 

O sr. Fernandez na sua carta de 17 de novembro 
ultimO; dirigida á opinião publica de Portugal^ que elle 
tanto affirontou; disse «que uma vez que não o deixa* 
21 



322 

<(vam residir n^este reino quebraria o seu obatinacb ai- 
iklencio de oito anima, y> Era nm largo período de incu- 
baçâO; e o seu espirito naturalmente expansivo e me- 
xilhão devia mortificar-se com aquelle sacrifício que 
ninguém lhe encommendára, e que parece ter tido elle 
de reserva para poder arranjar melhor negocio. 

Apparece o livro, abre-se a torneira ao desabafo, e 
Femandez desmente -se a si mesmo diminuindo o praso 
do seu sacrifício pela declaração «de que ha callado 
seis amiotiy não por acto espontâneo seu, apezar de se 
achar relevado do segredo ! Não se comprehende bem 
como não foi acto espontâneo d'elle o silencio depois 
de estar relevado do segredo. Quem o forçaria ao sa- 
crifício ? 

Mas fosse de seis ou de oito annos o período da ges- 
tação, a leviandade do sr. Fernandez é sempre a mes- 
ma. Vindo em 1869 a este paiz para fazer a nossa 
ventura, fugia dos legares públicos para não receber 
as ovações de um povo agradecido, e cremos até que 
se serviu d^aquelles trages de disfarce com que arran- 
jou depois aquelles policias que o acompanharam do 
Porto na sua expulsão, porque s. ex.* é tão amigo do 
mysterioso que foi procurar ás escondidas o sr. D. Fer- 
nando, e estranhou que um empregado da policia em 
Lisboa lhe fosse fazer uma intimação ou levar uma 
resposta ao seu quarto no hotel sem se esconder dos 
hospedes e serventes, e sem procurar qualquer vifii 
subterrânea para dar menos publicidade, e maior im- 
portância áquelle acto. 

O sr. Fernandez de los Rios amava Portugal arden- 
temente.' Tinha por nós, e tem ainda, aquelle enthu- 
siasmo que mostra qualquer casquilho pela namorada, 
cujo casamento promove não por causa da noiva mas 
por causa do seu dote. £ tanto assim é, que os constí- 
tuinteB do sr. Femandez cediam de tudo, e concediam 
^udo^ ás personagens requeatadas com tanto que nSo 



323 

se estipulasse a condição de que nunca haveria união- 
iberica. 

Convem-nos suppor que o sr. Fernandez de los Rios 
é um diplomata hábil mas infeliz; é tumba. Se nâo 
poude conseguir nada, se o disfarce nâo lhe aprovei- 
tou, se a entrevista quasi mysteriosa nos jardins da 
Pena, se a correspondência importuna com as Neces- 
sidades nâo tiveram êxito feliz, nâo se deve attribuir 
á falta de resistência e pertinácia d'elle, mas á boa 
estrella que influe nos destinos de Portugal, e (Jlie pro- 
tege a nossa independência ; deve-se ao alto descerni- 
mento de um príncipe que engeita todas as grandezas 
offerecidas para nâo pôr em rísco a pátria que tanto 
ama, e que tâo amado é por ella, e que com sobrada 
razão o merece ser. 

Este mallogro turbou a intelligencia do sr. Fer- 
nandez de los Rios se alguma vez a teve clara. No 
seu livro insulta elle e injuiia todos os caracteres que 
concorreram, ou suppoz que concorressem, para que 
falhasse o trama de que era agente secreto ; e o paiz 
sagra com as suas bênçãos as victimas d'aquelle ^ror 
desatinado, porque 

Nâo se agasta nem se indigna o seu sereno 
Contra um bicho da terra tâo pequeno. 

Em 1872 um jornal granjeia que se extasiara diante 
da elevação ao poder dos seus irmãos de Madrid que 
deram cabo do throno de Amadeu disse que as idéas 
democráticas nâo paravam na fronteira, querendo si- 
gnificar que deveria ser entregue n'este reino o go- 
verno a quem imitasse aquelle exemplo, que seria a 
expulsão da actual dynastia. Mostramos a ignorância 
ou a deslealdade de tal procedimento que sacrificava 
rei e pátria á sua ambição. Pois o sr. Fernandez es- 
creve no seu livro a pag. 683 aqu^ nós declarámos 



324 

<(qiie as idéas dos ibéricos não paravam nas fronteiras 
(ide Hespanha e que déramos por assentado muitas ou- 
(dras eodravagancias ante as quaes ha necessidade de 
i( concordar em tudo' o que certas naturezas são capazes 
((de fazer por um bocado de pão. f) 

JEste insulto grosseiro e malcreado é um titulo de 
honra para a Revolução, E houve quem receiasse da 
publicação do livro, e quem ficasse menos assustado 
desde que o órgão do governo n'esse assumpto des- 
presou â ameaça, e provocou a publicação. Quem ga- 
nhou? Quem perdeu? 

A petulância do sr. Fernandez chega a ponto de 
chorar o que dispendemos com a recepção que fizemos 
ao principe de Galles. Lê-se no famoso livro a pag. 
684 o seguinte: 

«Sinto que as provocações de Fontes e Sampaio me 
«obriguem a assignalar este contraste a respeito d'um 
«povo governado por porta- vozes autonómicos, criados 
«da Inglaterra, da França ou de CanovaSs que no 
((meio diurna crise financeira gastam o dinheiro emfes- 
atejosy tendo que dispender mais ainda, porque ao 
«despedir se o Raleig destroçou a Rainha de Portu- 
Dgal, fazendo exclamar o rei que ia a bordo : que ver- 
«gonha ! e que quando servem de agentes do policia 
«aos bourbons, recebem em paga de quando em quando 
«projectos e planos pata os fazer súbditos de impera- 
«dores da Ibéria.» 

O sr. Feniandez ainda não enumerou outras despe- 
zas feitas pelo governo, e pelos súbditos portuguezes. 
Não metteu no rol as consequências d 'uma tal Tutelar 
que o agente da missão secreta deve conhecer, nem 
quanto lhe custou a defeza da habitação de certo su- 
geito arriscada pela irritação de uns certos valdevinos 
6 garotos que um amigo da nossa independência se 
àiz que tinna assoldadados com o intuito de promover 
desordens, gaeixando-se ca aa&alariados de lhes ter 



32Ò 

sido comido o dinheiro que de Hespanha tinha vindo 
para elies, e queixando-se o engajador de que os seus 
valdevinos o tinham roubado não lhe fazendo o ser- 
viço ajustado, sendo certo que existia a excitação, fos- 
sem quaesquer que fossem os motivos da desavença; 
mas sendo Portugal quem pagava as custas, tendo 
dinheiro para isso, o para pagar religiosamente as 
suas dividas, quando por culpa dos Fernandez, os 
fundos hespanhoes estão na praça Tiondres a 10 ^/s, e 
os de Portugal a 53. Faltaria para ^k^es do agente 
o que se gastou com a recepção d'um príncipe? O 
nao republicano quer mostrar a sua lealdade ao rei de 
quem foi representante. 

Damos ainda graças a Deus pelo livro do sr. Fer- 
nandez, e os nossos leitores terão occasião de ler ainda, 
além do que já tem lido, o juizo critico d'elle feito por 
pessoas que escrevem longe de paixão politica. 

Se a nossa phrase é algumas vezes dura, é porque 
^ agressão fui petulante. 



IV 

Portugal deve agradecer ao sr. Feraandez de los 
JRios a generosa tutella que quer exercer sobre nós 
condemnando as despezas que fizemos por occasião da 
visita do príncipe de Galles. Os actos de delicada cor- 
tezia e deferência para com o herdeiro da coroa de 
uma nação nossa antiga alliada contrariaram as sym- 
pathias do forasteiro deportado. Julgava elle que o 
filho da rainha Victoria devia passar desapercebido 
como o missionário secreto que nunca pôde andar sem 
susto diante da gente. 

E demais a mais no meio d' uma crise, em que mui- 
tos cidadãos ficaram altamente prejudicados pela con- 
fiança que puzeram nos fundos hespanhoes reduzido 



326 

como está o seu valor pelas economias dos seus Fer- 
nandez. 

O sr. Femandez de los Rios fundou a historia po- 
litica do seu livro nas citações de fragmentos que, co- 
mo qualquer trapeiro, encontrou na rua destinados 
para outros usos. Forneceram-lhe subsidios todos os 
impressos burlescos, sem exceptuar o Primeiro de 
Janeiro, que de certo ficou maravilhado quando viu 
que das suas calunmias contra o governo portuguez 
se havia de concluir pelo iberismo ; e a força de ri- 
mar é tanta no sr. Femandez que dos escriptos mais 
anti-ibericos concluo pela Ibéria. Pois se elle declarou 
ibérico o conde D. Henrique como não havia de fazer 
o mesmo a toda a gente ! 

Mas deixemos esse ponto que está sendo e tem si- 
do primorosamente tratado por hábeis pennas. A nos- 
sa tarefa circiunscreve-se a castigar certas insolências 
pessoaes. 

O sr. Fernandez diz : — a que repugna a abjecção 
« de Sampaio convertido de revolucionário exaltado em 
«mais reaccionário que os tradicionalistas, blasonando 
«ha trinta annos de republicano para parar em ser- 
« vente de governos pessoaes... » 

Ora o sr. Fernandez de los Rios veio a Portugal 
com o fim de engajar reis para a sua pátria, e veio 
secretamente por ser grato á nação portugueza, e por 
não a querer deslumbrar com o fulgor da missão ma- 
nifesta. Infeliz no successo foi representante d'um rei. 
Engajador de reis, e representante de reis ninguém 
deixaria de o considerar monarchista. Pois vejam o 
que se lê no seu livro logo depois da queda de Ama- 
deu : 



327 



Telegramma de Fernandez de los Rios cu) presidente 
da assembUa nacional ás i2h. e 11 m. 

a Apresento a expressão da minha adliesâo á repu- 
ablica proclamada pela assembléa soberana^ e rogo ao 
«governo emanado d^ella, que me diga se sou mais 
«útil á nação no meu posto na assembléa, doquen'este 
«para me pôr immediatamente a caminho. » 

O sr. Fernandez faz depois uma confissão geral bur- 
lesca, diz qual fora o seu exame de consciência, as 
hesitações em que estivera, a falta de amigos com» 
quem se aconselhasse, as perguntas que fizera ao seu 
foro intimo, o que lhe ensinara a negociação da can- 
didatura de D. Fernando sobre o interior dos passos 
reaes (vão receber em casa um menino d 'estes) e achan- 
do um sophisma a distincção entre honra privada e 
honra publica, devendo haver concordância entre am- 
bas, recolheu-se dentro de si, reflexionou, e definiu o 
que era apostasia. 

Doeste laboratório de disparates saiu a seguinte con- 
clusão : 

« Ha na sociedade duas idéas — uma de progressão, 
«outra de decadência. A de passar de republicano para 
«monarchista é apostasia ; a de passar de monarchista 
«para republicano, não é ser apóstata ; é ser progres- 
«sista. D 

Isto é inimitável de inépcia e de ridiculo. Vejam 
o caracter do homem que vende o seu silencio pelo 
preço da sua residência em Portugal. :■ 

Ha porém um homem em Portugal contra o qual À 
o sr. Fernandez dirige todos os tiros da sua impoten- ^ 
cia. E o sr. Fontes. 



328 

Não era o sr. Fontes membro do governo, mas pela 
confissão do diplomata infeliz -o negociador republi- 
cano d'um rei para o seu paiz, não dava um passo em 
que não se lhe aíBgurasse ver a sombra do sr. Fon- 
tes. Nos bilhetes do sr. D. Fernandez via a redacção 
do sr. Fontes; nos bilhetes da sr.^ condessa d'Edla 
via o estylo do sr. Fontes, na sua própria ca^a via 
agentes do sr. Fontes, e a cabeça do sr. Fernandez, 
emquanto esteve n'este paiz, nunca andou cheia senão 
de agentes disfarçados, o que tudo prova que o sr. 
Fernandez de los Rios não pôde fazer nada, em quan- 
to que o sr. Fontes, sem elementos oífieiaes, visto que 
estava na opposição, não deixou pôr pé em ramo ver- 
de ao missionário habilissimo. 

Agora uma pergunta. Onde estii a ameaça que as- 
sustou tanta ^ente, e cuja realisação nós provocámos ? 

O resultado foi a exaltação doa nobres sentimentos 
do sr. Fontes, e se é verdade o que Fernandez diz, o 
attestado dos immensos serviços prestados pelo sr. 
Fontes á independência de Portugal. 

Diria tudo o sr.* Fernandez de los Rios ? Reserva- 
ria ainda para negociar algum novo mysterio ? Se disse 
tudo parece-nos que nem o governo de Hespanha te- 
ria muita razão de desten-ar o sr. Fernandez, nem o 
de Portugal teria necessidade de o fazer sair do rei 
no, porque homens d^aquella capacidade podem me- 
xericar como quizerem, mas são incapazes de qual- 
quer empreza perigosa.* 

D aqui por diante continuaremos a transcrever o 
juizo da opinião publica, para (|ue o ^^i•. Fernandez 
appellou. 



NOTAS 



IVota -A- 

A única originalidade do sr. Fernandez de los Rios 
contestando -nos a nacionalidade, as origens de lingua, 
etc. pag. 17. 

Uma das grandes insistências dos nossos visinhos fautores 
e defensores da união peninsular, é sobre a identidade da lin- 
gua fallada pelas duas nações. A falta de auetoridade própria 
para esclarecer o assumpto, transcreveremos o que escreveu o 
sábio allemâo Frédéric Diez na sua — «Introduction á la gram- 
maire des langties romanes», traduzida em francez por Gastão 
Paris, e impressa em 1863. Diz assim o erudito philologo : 

«Six langues romanes attirent notre attention, soit par leur 
originalité grammaticale, soit par leur importance littéraire : 
deux á 1'est, Titalien et le valaque ; deux au sud-ouest Tespa- 
gnol et le portugais ; deux au nord ouest, le provençal et le 
français» 

E a paginas 120 : 

«L*espagnol ne s*étend pas, comme langue populaire, dans 
tout le royaume : le nord -ouest appartient au rameau por- 
tugais, Test au rameau provençal, et on parle basque en Bis- 
caye, Guipuscoa, Alava et dans une partie de la Navarre. En 
revanche il a fait de grandes conqvêtes dans le Nouveau-Monde.» 

Emquanto á affirmativa de Frédéric Diez, aliás verdadeira, 
das conquistas feitas pela lingua castelhana no Novo Mundo, 
convém contrapor- lhe a propagação da portugueza nas cinco 
partes do mundo, e o que a este respeito escreveu o sr. Mendes 
Leal : 

«Se a lingua hespanhola se dilatou peio novo mundo, abrindo 
a espada da conquista o sulco immenso onde germinaram e 
cresceram novas nações, também o dominio da portugueza, 
como o qualifica uma grave auetoridade (o já referido Diez) 
nâo pára nas fronteiras de Portugal. E o portuguez lingua offi- 
cial e lingua geral em todo o archipelago de Cabo- Verde, no 
continente de Guiné até aos sertões de Gambia, na ilha de 
S. Thomé, na ilha do Príncipe, na costa de Leste, em Timor, 
nos estados de Goa, em Macau, na Afríca occidental desde 



332 

Cabo -Negro até ao Ambriz, e na Africa oriental desde Cabo- 
Delgado até á Bahia de Lourenço Marques. Mais ao portuguez 
do que ao hespanhol pertence o dialeto popular da Galliza. 
Em Ccylâo, em Madrasta, em Pondichery, por toda a orla do 
Ganges, em Ternate, em Sumatra, isto é, n'uma parte consi- 
derável da Ásia e da Oceania, os diversos senhorios hoje es; 
tabelecidos niio apagaram de todo os vestígios do portuguez, 
que em mais de um ponto se conserva ainda. Na America, em- 
nm, o portuguez é a lingua de um império vasto e novo, rico 
e florente, onde as letras e as musas teem um culto fervoroso 
e amplo estádio ; onde as honra com a estimação e o exemplo 
um soberano/Cm quem, a virtude e o talehto acham abrigo, e 
modelo ; onde as enriquecem tantos bons engenhos que pede 
maior quadro a' devida mençào d'estes5 onde, emfim, o ultimo 
suspiro da lyra de Gonçalves Dias encontrou já os cantos ma- 
tutinos do auctor das Phalenas, do auctor das Miniaturas, do 
auctor das Espumas Fluctuantes, — para só fallar dos mais re- 
centes ! 

«Dezoito a vinte milhões de homens, pelo minimo calculo, 
reconhecem o portuguez como sua lingua natural e lhe culti- 
vam e acrescentam o largo património ! » • 



Sobre este mesmo assumpto escreveu ainda o sr. MendeS 
Leal, no já citado artigo» As Duas Penínsulas, publicado no 
jornal «-á America: a 

nAs linguas portugueza e hespanhola teem seguramente 
idêntica origem. Ambas se formaram da latina pela diferen- 
ciação dilectal característica do grupo indogermanico como 
judiciosamente observa i:^m moço escriptor, que em valiosos 
trabalhos manifestou já a sua competência, cabendo-lhe o mé- 
rito e a gloria de haver entre nós vulgarisado os especiaes es- 
tudos da glottica, até aqui mal conhecidos. Uma e outra per- 
tencem kfamUia romana. Em egual caso porém estão a fran- 
ceza, a italiana, a moldo-valacha ou romaniota, sem que d'ahi 
se possa concluir, ou jamais se tenha concluído, serem estas 
linguas fíliaes da hespanhola, ou a hespanhola d^alguma does- 
tas. Do mesmo tronco brotaram todas; mas cada uma bracejou 
para seu lado ; immergiu cada uma em solo differente ; cada 
uma ahi se arreigou, cresceu, floriu e fructeou, constituindo 
novo património. E nem sequer a filiação significaria depen • 
dencia, logo que este património fosse reconhecido lavor e 
/iindaçâo própria. 



333 

«Com a similhança de alguns vocábulos UDicameiite argu- 
mentava a já desacreditada e insustentável opinião, que pre- 
tendia fazer do portuguez uma j)ertença ou dialecto do hespa- 
nhol. Frágil e bem frágil base essa, quando nâo sobre o voca- 
bulário, mas sobre a syntaxe comparada deve principalmente 
assentar a verdadeira relação das liuguas, cooio sensatamente 
nota João Pedro Ribeiro. Muito é seguramente a syntaxe, e 
ainda nao constitue tudo o que pode caracterisar uma lingua. 
Conhecido anda o processo de estudar a afíiuidade das línguas 
pela aproximação das palavras elementares, indispensáveis ao 
homem social. Deu a regra fundamental d'este processo o si- 
nologo Abel Rémusat n'uma obra que os orientalistas lamen- 
tam ver incompleta ; seguiu-a praticamente Balbi ; rememo- 
rou-a o sábio Cardeal Wiseman, por.do ao serviço dos estudos 
theologicos o saber profano. Mas a identidade das raízes des- 
ramadas de quaesquer affixas e prefixas, leva, não á classi- 
ficação das línguas actuaes, mas á verificação das línguas- 
mães. O estudo das analogias grammaiicaes e phónícas, ne- 
cessário complemento d*aquelle primeiro inquérito, serve para 
distinguir os grupos e famílias, mas não basta, para determi- 
nar o individuo. 

c«0 hespanhol não ó para o portuguez lingua mãe, j)ois jun- 
tamente com elle nasceu, e é irmã na subfiliação. 

(«Faz parte do mesmo grupo e da mesma família, mas isso 
nem as confunde, nem estabelece dependência. 

"Para fixar as afiinidades reaes das línguas é também in- 
dispensável at tender ao seu phonismo. 

«Quasi se não precisa mais do que ouvir estas duas para 
apreciar quanto mutuamente lhe differem as tendências, e re- 
conhecer a difficuldade de se agei tarem n'um só molde. 

«A melopéa hespanhola sôa absolutamente outra; outra é 
a: sua pronunciação ; outra a entoação.» 



334 



Nota B 

Era péssima a situação de Portugal desde que, fas- 
cinado com a perspectiva da independência viera a 
a perdel-a quasi totalmente pag. 40 

' Insiste o sr. Fernandez de los Rios em mais de um logar 
do seu livro em dizer que Portugal é uma colónia da Ingla- 
terra, e a servir-se d'esta falsa affirmativa como argumento 
da conveniência da união ibérica. £m um artigo publicado na 
America e assignado pelo sr. António de Serpa, esclarecido 
economista e hábil financeiro, refuta-se aqueila opinião, aliás 
caduca, mas invocada ainda a miúdo pelos que pretendem de- 
negrir a nossa nacionalidade. Sentimos não poder reproduzir 
aqui na sua integra o artigo a que nos referimos, mas pelos ex- 
tractos se ajuisará da ordem de idéas em que é baseado : 

«Diz-se que é proverbial a fé doble dos inglezes nos seus 
seus tratadt s, enos seus conflictos internacionaes . £ que no- 
me se ha de dar á fé de que usam as outras nações? Não falta- 
remos das abominações da diplomacia continental em épocas 
passadas. Consultem se os recentissimos documentos diplomá- 
ticos da Prússia e da Itália, e considere-se a attitude do go- 
verno ia França durante os dois annos que precederam a ba- 
talha de Sedowa. A difierença está em que as outras nações 
persistem nos erros da antiga politica embusteira e cavilosa 
para as relações internacionaes, ao passo que a Inglaterra, 
progressiva em tudo, ha tempos a esta parte condemna o seu 
antigo modo de proceder, e reconhece que as nações para se 
engrandecerem e prosperarem não precisam do abatimento das 
nações visinhas, antes pelo contrario interessam na sua pros- 
peridade, pela solidariedade que une cada vez mais fortemente 
interesses de todos.» 

«Apezar do que allegam os proteccionistas e da opinião vul- 
garmente seguida em uma época em que os princípios da eco- 
nomia politica eram desconhecidos ou mal avaliados, não está 
para nós demonstrado que a riqueza publica e o progresso eco- 
nómico fossem prejudicados com o tratado de Methwen, e com 
o de 1810.» 



335 

«Âs prevenções contra a Inglaterra que existiam em alguns 
ânimos, filhas dos factos que deixamos apontados, desappare< 
ceram. Ha muitos annos que tratamos, mal ou bem, das nossas 
cousas, sem a minima ingerência dos governos estrangeiros, 
apezar de que muita gente lá fora, da menos illustrada, fiada 
no que se lia nos livros e jornaes francezes do principio do sé- 
culo, ainda nos julga influenciados em tudo pela politica in- 
gleza.» 

«Mas se a Inglaterra, como dizem, está tâo despreoccupada 
da politica continental, que veria com indifferença desappare- 
cer a nossa nacionalidade, qualquer outra nação, mes- 
mo quando com ellanos tivéssemos aljiado n'um .caso de guer- 
ra, viria depois defender -nos por mera gratidão ou generosi- 
dade, se esta nacionalidade fosse mais tarde aggredida ? Não o 
acreditamos. A Áustria disse uma vez que havia de espantar o 
mundo com a sua ingratidão. As outras nações do continente 
não o dizem, mas praticam-n^o.» 



Nota C 

 insistência em commentâr os despachos diplomá- 
ticos de Pastor Diaz com a mais ante-christâ das vio- 
lências pag. 59- 

• 

Para contrapor as zombarias do sr. Fernandez de los Bios, 
acerca das notas diplomáticos de Pastor Diaz, eis o que se lê 
nos Études littéraires sur VEspagne contemporaine de A. de 
Laton, livro que tantas vezes vemos citado no paiz visinho, 
pela imparcialidade que se lhe attribue. 

. «Trois fois ministre à porte-feuille (Pastor Diaz) deux fois 
ministre pléi^iputenciaire, á Lisbonne e à Turin, tour à tour 
conseiller d*Etat, recteur á TUniversité Central, onze fois de- 
pute aux Cortês, et en demier lieu sénateur et décoré des prin- 
cipaux ordres de TEurope, Pastor Diaz a vécu pauvre et est 
mort pauvre, mais laissant àsa familie dont il ne s'est jamais 
separe Phéritage d'une rénommée sans tache.» 



336 



TSTota. I> 

Emquanto não recebia resposta da carta que man- 
dara entregar ao marquez de Niza, pedindo-lhe uma 
entrevista pag. 68. 

Do chistoso ]ivro de Júlio César Machado, ultimamente pu- 
blicado, e que se intitula Lisboa de Hontem ti'anscrevemo8 os 
seguintes traços do caracter do fallecido marquez de INiza. 
Por elles poderá o leitor conjecturar -se o sr. Fernandez de los 
Rios andou, ou nâo andou mettido nas mãos das brucha^Hj quando 
pela primeira vez chegou incógnito a Portugal : 

(( O marquez de Niza espalhava o terror em Lisboa como os 
demónios das magicas espalham fumos de si quando saltam 
do alçapão. Esse homem era para quem o visse e lhe fallasse 
o typo do gentil homem de raça e de espirito ; entrara na vi- 
da por uma porta doirada, conseguiu levar em Lisboa durante 
muitos annos uma existência phantastica e caprichosa, foi o 
ultimo elegante, o ultimo viveur à grandes bruíes e o ultimo 
gastador esplendidg e notável pelas extravagâncias, foi tam- 
bém notável pda sagacida(^is, pelo espirito, e pela institicção. A 
vastidão dos conhecimeij^ collocavao mais subidamente do 
que na simples estimação de cavalheiro instruído ; andava já 
perto do que se chama um sábio, se é certo o que d'elle jid- 
gavam os competentes que o conheciam bem e o trataram.» 

« No fim de uns poucos de annos de vida elegante, cortada 
nos últimos tempos, de luctas e difficuldades, o marquez de 
Niza ouviu uma noite por entre o tinir dos copos e do riso, 
estalar o lagedo com as passadas temiveis do commendador, 
comO na peça antiga... 

«Era a edade que lhe ia subindo a escada... Levava adiante 
de si o espectro da doença... 

« O marquez quer ainda desafíal-a. 

«Olá ! Aqui tem cadeir^ e talher ! 

«Toque n*este copo ! A saúde do commendador !... 

A ceia durou mn anno e tanto... Acabou em Cotterets onde 
o famoso fidalgo foi morrer. 

«íjS'e88a hora o Champagne em Portugal estremeceu nos oo- 
pos f J» 



337 

Este foi o mentor a quem o governo provisório de Hespa- 
nha confiou o seu joven Telemaco. 



IVotai S 

Insistimos em pôr claros estes precedentes do sr. 
Fernandez de los Rios, antes de entrarmos na apre- 
ciação dos seus despachos, para que se nâo ignore 
a causal de seu foturo procedimento pag. 74 

£ notável, e honrosa para o sr. Fontes, a insistência do sr. 
Fernandez de los Rios em lhe fazer referencias, quando o fu- 
turo presidente do conselho de ministros nenhuma ingerência 
official tivera n^este intrincada negocia Assim pois lhe attrihue 
uma vez a redacção de um bilhete da sr.* condessa d'£dla, ac- 
cusando de tnagnificencia o uso de um inoffensivo verbo. (Ai ! 
gata do apologo que deixas sempre a cauda de fora !) outra 
vez espiona os passos que o estadista portuguez dá de um pa- 
ra outro palácio real ; até que nâo podendo por mais tempo 
disfarçar a sua malquerença exdue o Br. Fontes da lista dos 
jurados, todos auctorisadissimos, que em carta de 2 d' Agosto 
de 1870, escripta ao sr. D. Fernando apresenta como árbitros 
competentes para julgar da questão pendente. A lista era 
composta dos seguintes nomes : duque de Loulé, marqucz de 
Sá da Bandeira, marquez d* Ávila e de Bolama, Joaquim Antó- 
nio d* Aguiar e Anselmo José B]:aamcamp. 

Ninguém pôde dizer que o nome do sr. Fontes destoasse 
entre os dos cavalheiros acima mencionados, mas o sr. Fernan- 
dez de loa Rios tinha-o na conta de seu desmancha-prazeres, e 
por isso, sempre que podia officialmente, e depois extra- offi- 
cialmente, desabafava a sua raiva, com insinuações primeiro ; 
depois com facécias de mau gosto, aproveitadas em segunda 
m^o dos jomaes opposicionistas ! 



338 



ISTota, F 

Que os Broteros da politica pretendem por enxerto 
accommodar ás fragas das nossas montanhas, e ás 
quebradas dos nossos valles pag. 75 

«As relações da Suécia e Noruega tiveram uma origem que 
as explica. As longas desventuras da Noruega não davam a 
este paiz a faculdade de ter nem independência politica nem 
vitalidade nacional, quando foi unida á Suécia pelo tratado de 
paz de 1814. Não havia ali duas nações independentes que se 
federavam: e apezar d*isso ainda não existe uma harmonia 
completa nos interessados dois povos scandinavos. Nem o exem- 
plo poderia servir, para justificar federações de povos com ver- 
dadeira e bem provada nacionalidade. Outro exemplo se deve- 
ria antes citar, porque é mais frisante e mais a propósito : o 
da projectada união da Dinamarca com a Suécia e Noruega, em 
nome do scandinavismo, em nome do interesse e em defesa 
commum. Ha muito tempo iniciada, essa idéa não pode reali- 
sar-se, porque se lhe oppôe o sentimento nacional mesmo no 
meio dos miiis dolorosos revezes. Este sentimento grande e 
respeitável, ninguém ousa atacal-o na Scandinavia, porque 
existe ali o respeito profundo dos grandes direitos dos povos, 
e o bom juizo de reconhecer que n'esses direitos está a melhor 
defeza da Scandinavia contra as aggressoes da Rússia e da 
Prússia. 

Acercíi da segunda parte da formula politica apresentada 
pelo sr. Salazar y Mazarredo como solução monarchica do pro- 
blema ibérico, escreveu o sr. Corvo as seguintes conceituosas 
e verídicas observações : 

í<Os factos soei aes e os factos políticos derivam os seus ca- 
racteres, a sua Índole, a sua importância e a sua significação, 
não só do que são em si mesmos senão dos successos que os 
precederam e lhes deram origem. O mesmo facto, exactamente 
o mesmo, dando-se em duas nações distinctas pelas suas cir- 
cumstancias e jDcla sua Índole, pode, para uma significar o 
accrescimo da liberdade, o augmento da independência, um 
verdadeiro progresso ; para a outra pôde ser o cerceamento da 
Jiberà&áe, a perda da independência, um grande retrocesso, 
em£tti, no andamento moral politico e social.» 

f<0 que c a união da Hungria e dçv A.\xçvtT\^? É a união de 



339 

dois grupos de povos de diversas ra^as sob um sceptro uuico, 
constituindo um império, cujo reííimen inferno nao é uniforme» 
havendo nos dois membros do duali-mo (a Áustria e a Hun- 
gria) condições, que conservam a Cíula um acção própria so- 
bre os seus particulares negócios e sobre a sua administração, 
e que dào á Hungria uma parte da influencia nos ne/2:ocios que 
se podem considerar coríimuns à todo o império, mas com evi- 
dente restricçiio e sacrifício de seus direitos como estado in- 
dependente. 

«Este novo estado de coisas, — resultado das transformações 
a que uma serie de desgraças, das quaes a ultima foi a derrota 
de Sedowa, que levou o império austríaco — constiíue um ver- 
dadeiro progresso iDolitico para a Hungria, augmentando a sua 
autonomia, e conferindo-lhe uma acçào manifesta nos negócios 
do império. Ao mesmo tempo a Hungria alcançou a liberdade, 
pela qual luctou heroicamente na guerra de 1848. Por esta 
constituição a Hungria ficou tendo : no vértice da hierarchia 
politica, um rei que presta juramem o solcmne de respeito aos 
seus vassallos ; um ministério encarregado de exercer o poder 
executivo ; iima dieta, expressão da vcmtade nacional votando 
o imposto e fiscalisando os actos do ministério ; uma organisa- 
çâo administrativa com caracteres de grande descentralisaçãò. 

«Perdeu a Hungria por ventura alguma das suas att: ibuiç es 
politicas, perdeu a sua independência, perdeu a sua soberania 
nacional, perdeu a sua liberdade, no facto que hoje a liga como 
parte integrante do império austriaco? iN-ão. A Hungria só ga- 
nhou. Antes já estava ligada á Áustria, desde o século xvii. 
Depois do século xvín a Hungria consegue os seus direitos de 
entidade politica distincta dentro do império. Em 1^548 luctou 
a Hungria pela sua liberdade, para sacudir o jugo d'es.^a uni- 
dade em que dominava uma dynastia armada. A repressão 
violenta impoz á Hungria o absolutismo, considerando o go- 
verno de Vienna ter sob esse povo subjugado um verdadeiro 
direito de conquista. Por uma constituição centralista buscou 
o governo imperial dar força ao império depois dos primeiros 
desastres, e as madgyares recusaram-na. Depois do idtimo e 
immenso desastre que soffreu a Áustria, concedeu emfim uma 
constituição lib»M"al á Hungria; formando o dualismo das duas 
fracções do império, e fez-se o facto que liga a Hungria auto- 
nómica, mas não independente na sua nacionalidade, á Áus- 
tria.» 

«Compare agora o leitor o passado e a presente de Portugal 
com o presente e o passado da Hungria, e decida em cons- 
ciência da sinceridade ou a propósito, com o que o sr. Salazar 
y Mazarredo se lembrara de reconstituir a çemassAiXa. \!w«ecv'5.'íw^ 



340 

tirando a Portugal tudo o que a Hungria ganhou, e dando de 
mâo beijada á Hespanha tudo o que a Áustria cedeu para con- 
solidar o império Austro-Hungaro.» 

Vivemos e temos vivido sempre tendo interesses políticos corií- 
pletamente separados dos da Hespanha» conclue o sr. Corvo 
para contrariar a analogia invocada contra nós, nâo receiando 
que os homens verdadeiramente superiores pela sua intelle- 
gencia, invoquem como desmentido os sessenta annos da do- 
minação dos Filippes, época de tamanha ignominia para am- 
bas as nações. 



Nota G 

Essas theorias não deixam de ter influencia nos des- 
tinos da Europa apezar de absurdas, de contrarias á 
verdade anthropologica e á historia Pag. 96 

«O futuro ha de repartir a Europa, calculando a divisão, 
para o equilíbrio e para a paz universal. As fronteiras ideaes, 
traçadas nos pactos de occasiâo, hão de succeder as raça^ na-* 
turaesy desenhadas no solo, pelas condicçòes geographicas e 
ethonographicas do mundo. O equilíbrio é instável na Europa, 
porque as forças do systema nâo estão racionalmente distri- 
buídas. Ao norte e ao oriente da Europa ha um grande impe« 
rio, que exerce a pressão da velha raça slava sobre a socie- 
dade do occidente e que significa a vanguarda permanente das 
irrupções contra as nações lati no -germânicas do centro e do 
meio-dia. Fora do continente uma nação poderosa cujas ilhas 
são como as baterias de brecha levantadas constantemente 
contra as muralhas da França. No centro a Áustria e a Prús- 
sia. Mais ao tneio-dia a França. Fora doeste systema a Penín- 
sula itálica destinada pára circo de todas as grandes lactas 
das nações, em o extremo occidente daPeninsvíalbericay cujas 

forçai poder osissimasy se aniquilam reciprocamente^ sem que em 
nada contribuam para o equilibrio universal, O que resta a fa- 
zer na carta da Europa, para que a paz resulte d*um equil- 
brio natural, e com ella fructiíique a civilisaçlo commum ? 
Crear nas Hespanhas uma enérgica força nacional ; na Penini 
sula italiana uma robusta nacionalidade,» 

uO auctor t>nha anteriormente escripto este aphorísmo : «A 

micionalidade é o egoísmo dos povos,» 

* L&tíno Coelho. Prologo á memoria intitulada : »A União 



341 



IVota H 



Como demonstração de que a idéa ibérica não é, 
nem nunca foi em tlespanha património de nenhum 
partido politico Pag. 96 



SECÇÃO DE SCIENGIAS, ABTB8 E LITTERATURA 

ê 

«Esta secção é » que offerece meios mais abundantes para 
chegar ao fim desejado, o conhecimento mutuo e o estabeleci- 
mento de relações cordeaes e sympatliicas entre os dois povos 
peninsulares. A sciencia não tem prevenções, todos os homens 
que se dedicam a uma mesma se consideram por ella como ir- 
mãos. A litteratura e as artes extendem a f ua benéfica influen- 
cia aos costumes, excitando por meio da imaginação a curio- 
sidade, e a sympathia pelos sentimentos.» 

«Dois povos que conheçam bem as suas respectivas litteratu- 
ras, e apreciem riciprocramente as suas artes, estimam-se 
e chegam a amar-se pelas suas glorias, que consideram uni- 
das.» 

«Indicaremos alguns dos meios que occorreram ^ commissão 
no curto espaço que para meditar teve, como mais apropriadas 
ao desenvolvimento da sympathia internacional, por meio das 
sciencias, das artes e da litteratura.» 

«Publicação de revistas scientificas, especiaes e geraes, redi- 
gidas em portuguez e hespanhol. (a)» 

«Formação de academias internacionaes de sciencia, e esti- 
mulo ás já existentes para que os sócios das que sejam seme- 
lhantes em uma das nações o seja também na outra.» 

«Associação escholar e universitária.» 

«Consideração egual no exercício dos cursos scientificos, que 
exigem titulo professional, aos portuguezes que vieram a Hes- 
panha. Admissão aos concursos de todos os portuguezes que 
tenham aptidão para elles, nos estabelecimentos nespanhoes 
de ensino. Reunião de congressos scientificos e internacionaes.» 

«Remessa ás principaes bibliothecas portuguezas, e desde já 

(a) Já as houve mas não prosperaram. 



342 

á Nacional de Lisbo.i. e á da Universidade de Coimbra, de 
quantas obras notáveis debaixo de qualquer ponto de vista 
que se publiquem em Hespanha. (6)» 

«Remessa d'estas mesmas obras aos jornaes portuguezes 
acompanhadas de artigos bibliographicos.» 

«Fundação ou subvenção de jornaes em Portugal, destinados 
a propagar o pensamento da «Associação Peninsular.» 

«Remessa de correspondência diária das principaes capitães 
da Hcspanha a todos os jornaes portuguezes.» 

« Estabelecimento de correspondentes portuguezes retrjbuidos 
em Lisboa para os jornaes hespanhocs.» 

«Traducçâo dos melhores romances portuguezes para os fo- 
lhetins dos jornaes hespanhocs. Traducçâo e apropriação ao 
theatro hespanhol das melhores obras deli tteratura dramática 
portugúeza. « 

«Companhias de bons artistas dramáticos portuguezes nos 
theatr(ís hesi^anhoes." 

«Admissão dos pintores portuguezes ás exposições bicnnaes 
de pintura, com opçào por parte d'elles dos prémios que nas 
expo.-içòes se concederem, (c)» 

«Excitares artistas hespanhocs a concorrer aos certamensar- 
tisticos de Portugal.») 

"Exposição retrospectiva das riquezas artísticas de ambos 
os paizes em Sevilha, em Lisboa e Madrid succesaivamente.» 

Convite aos poetas portuguezes para todos os jogos floreaes 
que se verificarem em Barcelona e em toda a Hespanha. 

Concursos litterarios, artísticos e scientificos, com prémios 

(6) Por intermédio do sr. Fernandez de los Rios, desde o l.** . 
de agosto de 18tíi) ató o 1.*» de abril de 1871 foram remettidos 
para Portugal, vindos de Hespanha 7:357 volumes ; e de Por- 
tugal para Hespanha 7;692, mais 235 do que os recebidos. 
Esta promotaçào nao teve seguimento. O auctor d'estas linhas 
procurou na Bibliotheca Nacional seis ou oito obras liespa- 
nholas diversas, c nao encontrou nenhuma ! 

(c).Este pensamento fni também levado á pratica pelo sr. 
Fernandez de los Rios. A exposição de bellas artes em Ma- 
drid concorreram em 1871,24 artistas- com 110 obras : 40 a 
óleo, 2 a fresco, 1 miniatura, 4 esculpturas, 8 projectos de 
architectura em 36 plantas, 10 gravuras em cobre, 4 cm ma- 
deira e G desenhos. 

O resultado d'essa tentativa foi pouco agradável para os 
artistas portuguezes, quer pela demora na recepção dos pré- 
mios, quer pela delonga menos justificada ainda da entrega 
dos respectivos originaes. 



343 

pagos pela «Associação Peninsular» aos aiictores da melhor 
memoria/ poesia ou obra d*arte, que a elles concorram, hespa- 
nbola ou portugueza. 

'fAcquisiçrto pela «Associação» e seus sócios de productos ar- 
tisticos portuiiuezes que seja possivel.» 

«Igualdade nas condicçòes da propriedade litteraria (d)» 

«Poderíamos citar como meios aproveitáveis para esta sec- 
ção outros muitos; mas queremos evitar a expressão de to- 
dos os que sensatamente possam affectar o governo de qual- 
quer dos dois paizos.» 

«Se citámos algum como o ultimo, que exige a intervenção 
governativa e por tanto a acção da Sociedade, junto dos po- 
deres públicos, foi quo o considerámos de imprescendivel ne- 
cessidade, para qu»* o movimento litterario e scieaíifico se com- 
munique cfficazmente e sem receios de collisòes de interesses 
particulares.» 

Antes da "Associação Peninsular» haver formulado o seu 
prograiiima já D. Senibaldo de Más o havia indicado na sua 
«Memoria», e Xisto Camará no seu folheto «A União Ibérica» 
Também já em 1859, se nos nao enganamos, o sr. Ortiz havia 
apresentado no parlamente hespanhol um projecto de lei, que 
foi tomado em consideração pela Camará, constando de quatro 
artigos equiparando aos hespanhoes os portuguezes que fre- 
quentassem cm Hesoanha os estabelecimentos de instrucçâo 
publica ; e concedendo aos médicos e engenheiros portuguezes 
as mesmas vantagens que aos nacionaes. Estas medidas foram 
extensivas ao magistério. 

Em 1870 o sr. Caldas Aulete, então deputado, propoz que 
se concedepse aos hespanhoes as vantagens no professorado 
que o sr. Zorrilla havia concedido aos portuguezes em 1869) 
ao que todas as corporações scientiâcas portuguezas oppozeram 
a maior resistência. 

Xisto Camará, que era poeta em prosa, escreveu assim em 
1859 : 

«Mas que dizemos?... Vús outros mesmo, que tanto vos 
rebelais contra ella (a união ibérica) ides-la respirando in- 
sensivelmente no ar, lia oi^inião, em toda a parte. Pórma como 
a atmosphera agradável da vossa existência. A litteratura e 
arte, debaixo de todas as suas formas, começam a apresen- 
tar-vos em taças de oiro o espirito da união ibérica. Bebeis-lo 
nas fontes dos nossos clássicos, nos Versos immortaes de Zor- 

(d) Veja-se o despacho do sr. Sagasta a este respeito e a res - 
posta a elle do ministro hespanhol em Lisboa «Fernandez de 
los Rios» «Mi Mision» Pag. 625. 



344 

rilla e de Esprouceda ; nos inspirados painéis de Esqjiivel e de 
Madrazzo : nas ricas notas com que nos regalam Barbieri e 
Gaztambide ^ em todos os objectos de arte, em todas as mo- 
das e costumes que vos vem de Madrid. 

E que nós nao sabemos quaes sejam. (Isto é nosso) Bebeis-lo 
também com maiores delicias nos olhares de fogo das nossas mu- 
lheres, as filhas do meio-dia, de olhos negros e tez morena, de 
lábios cor de rosa, talhe lascivo e inimitaveh. 

Ora para que será este convite, ja ridiculo á força de ser 
repetido, de um segundo rapto das Sabinas ? A historia não 
esconde os nomes das Sevilhanas que tiveram artes de virar 
o miolo a graves e prudentes senadores romanos ; mas entre 
as portuguezas, apesar de contaminadas pela dorminhoca raça 
brazileira, (segundo o opinião do sr. Calvo Asensio) uma hou- 
ve que logrou ser a muza dó mais inspirado poeta da Hespa- 
nha moderna. Thereza foi portugueza, foi a ella que Espron- 
ceda se dirigiu na invocação do segundo canto do poema ; 

<'E1 Diablo Mundo, dizendo : 

» 

j Quien pensara jamás, Teresa mia, 
Que fuera eterno mamantial de llanto, 
Tanto inocente amor, tanta alegria, 
Tantas delicias y delirio tanto ? 
;Quin pensara jamás llegasse um dia, 
En que perdido el celestial encanto, 
Y caida la venda de los ojos, 
Quanto diera placer causara enojos? 

Ter um lugar junto de Beatriz, de Laura e de Leonor, cha- 
mar- se Theresa, e recordarem todas ellas juntas os nomes de 
Dante, de Petrarcha, de Tasso e de Espronceda vale bem mais 
do que merecer os encómios do auctor do «Lisboa cm 1870.» 



Notai 

Mantém inalterável a sua paz interoa, progride 
rapidamente, como em outro logar demonstrare- 
mos Pag. 98. 

«Vejamos o que era Portugal em 1851 e o que é hoje. 
«Nem um kilometro de estrada viável a não ser a que con- 
daz de Lisboa á residência real de Cintra, essa poética Cin- 



345 

tra cantada por lord Byron, c uma outra começada para o 
Porto ; nem uma só via férrea ; nem uma carreira regular de 
vapores entre a metrópole e as suas ilhas e colónias ; os por- 
tos obstruídos ; ausência de pontes em seus numerosos rios e 
ribeiras, excepto as construidas em séculos remotos ; o com- 
mercio atrophiado, resultado da falta de communicaçòes ; dois 
únicos estabf^lecimentos de crédito, um em Lisboa, outro no 
Porto ; o correio saindo de Lisboa três ve^es por semana con- 
duzido por machos; e as viagens da capital aos confins do 
paiz mais demoradas e mais dispendiosas do que para atra- 
vessar a E ropa de Paris a S. Petersburgo : — eis como se 
apresentava Portugal aos olhos do viajante, em ISôl.» 

cfDeco ridos são vinte e dois ânuos depois d^essa época. 
Que transformações ! O alvião do trabalhador, o vapor, a ele- 
ctricidade, a escola e o banco mudaram o aspecto geral do 
paiz. 

«São de ponto eloquentes os números : 3:500 kilometros de 
estradas ordinárias, cuja construcção continua cm todos os 
pontos do paiz ; 715 kilometros de vias férreas em exploração, 
13L quasi completos, e duas novas linhas, cujos trabalhos fo- 
ram começados ; mais d^ 200 pontes sobre os rios e correntes 
do aguas secundarias ; mais de 3:000 kilometros de linhas te- 
legraphicas; caminhos americanos começando a serem estabe- 
lecidos nas via» publicas ; melhoramentos dos portos do mar ; 
creaçâo e subvenção de linhas regulares de navegação de va- 
por de Lisboa para o Algarve, Açores, Madeira e colónias de 
Africa Occidental ; construcção de alguns grandes edifícios 
para os serviços do estado ; creação de monumentos em honi*a 
dos grandes liomens e em commemoração dos factos notáveis 
da historia antiga e contemporânea do paiz ; eis os trabalhos 
materiaes mais importantes realisados nos últimos vinte an* 
nos.» 

«Não mudou menos a vida económica. Aos dois bancos de 
Lisboa e do Porto vieram ajuntar-se n*este período, outros es- 
tabelecimentos de credito : os bancos Mercantil, União, Lusi- 
tfiinOy Ultramarino, Companhia Utilidade Publica, Companhia 
Geral ^ Credito Predial, o banco do Minho em Draga, o banco 
Agricola em Viaeu, alem de duas succursaes de um banco in- 
glez em Lisboa e no Porto. N'uma revista financeira, publi- 
cada em 1870, e baseada em estatísticas ofilciaes e sobre ava- 
liações estimativas calculava- s^ que a riqueza mobiliaria de 
Portugal ^m fundos públicos nacionaes e estrangeiros, acçues 
e obrigaçSeifl de bancos e companhias, havia triplicado no es- 
paço de 15 annos ; era de 155 milhnes de francos no fim de 
18o4, 6 de 600 milhões no fim de 1869. E tem já augxnentado 



346 

consideravelmente, depois d'esta época, pela formação de al- 
gumas companhias, pela emissão de novos títulos e pela su- 
bida de todos os fundos mobiliários.» 

«As estatisticas aduaneiras demonstram que o valor do 
commercio externo, importações e, exportações, duplicou em 
15 annos. Em *^51 era de, 116 milhões e meio de francos, e 
em 1SB7 de 256 milhões. E conveniente notar que se as im- 
portações, depois d*este periodo tinham duplicado, as expor- 
tações quasi haviam triplicado O valor dos productos agríco- 
las exportados em 1851 era de 34 milhões ; em 1867 de 63 mi- 
lhões. A exportação de minérios que não existia ainda na pri- 
meira d'estas épocas, subio na segunda a 5 milhões e meio de 
franjcos, e aupnentou ainda nqs annos seguintes. A importa- 
ção das matérias primas para a industria elevou-se de 15 a 
36 milhões no mesmo intervallo. A dos géneros coloniaes, so- 
bretudo a do assucar, subio a mais do dobio. 

Os progressos de ordem moral e politica em Portugal são 
no mesmo folheto encarecidos com toda a justiça, (a) 



Nota «J 

N'este caso estão as secções que se intitulam de Ser- 
viços Administrativos, Industria e Commercio, União 
aduaneira, Agricultura e pecuária, e Communicaçôes 
especiaes Pag. 149. 

Do livro do sr. D. Ricardo Molina, a que nos temos referido 
no corpo d 'este livro, copiamos o seguinte para conhecimento 
dos leitores portu^i^iiezes, de certo que totalmente o ignoram : 

«Em virtude d'este accordo, e de haver-se já ultimado to- 
dos os trabalhos preparatórios, e de ter chegado o caso de 
constituir-se difinitivamente a Sociedado Peninsular, foram 
designados com a reforma feita no Rcírulamento, para consti- 
tuir a junta directora da AsF«^ciaçào os senhores : D. Simon 
Goris Benitez, advogado. D. Jnan Leon, cathedratico, inicia- 
dor do pensamento de constituir a associação. D. Lorenzo 
Milans dei Bosch, tenente general e deputado ás Cortes. 
D. Joaquim Benigno Martinez, bibliothecario do ministério da 
Justiça. D. Francisco Valdez, escrivão da Camará do Su- 

(a) ff Portugal em 1872.» — Vida Constitucional de um povo 
de raça latina, — Traducção — Lisboa. 1^1^. 



347 

premo Tribunal de Justiça. D. Santiago Franco Alonso, mi- 
nistro residente e deputado ás Cortes, e D. Francisco Javier 
Mendoza, escriptor publico.» 

A «Memoria» que antecede os estatutos da «Associação Pe- 
?iinsularf foi assignada em 20 de junho de 1869, pelos senhores : 
Manuel Becerra, José Ramiriz de Arelano, Benigno Joaquim 
Martinez, J. de Mendoza e Ricardo Molina. 

Os estatutos teem, como já dissemo? onze capitulos, conten- 
do quarenta e seis artigos, e inais dois outros transitórios. 



índice 



PAG. 

Duas palavras rx 

CAPITULO I 

O que se esperava do livro do senhor Fernandez de 
los Rios, e o que elle é. As tradicções diplomáticas fal- 
seadas pelo representante de Hespanha em Portugal. Co- 
mo a auctorisaçâo do senhor Soler y Piá nâo livra o se- 
nhor Fernandez de los Rios da aecusaçao de inconfidente. 
Motivos particulares que actuarWno seu espirito levan- 
do-o a escrever o livro. Profissão de fé acerca dos ne- 
gocies peninsulares, posteriormente desmentida. Theo- 
ria das suspeitas sem evidencia, A declaração de que to- 
das as affirmativas do livro intitulado Mi Mision, sao so- 
lidamente apoiadas em auctoridades portuguezas, respon- 
de o articulista do «Commercio Portuguez» Má appliea- 
çito da palavra miseráveis aos que desconfiavam da sin- 
ceridade do escriptor hcspanhoí. 1 

CAPITULO II 

Revista histórica retrospectiva. Os exemplos dos livros 
sagrados aproveitados por um auctor profano. Nove sé- 
culos da historia portugueza deturpados pelo senhor 
Fernandez de los Rios. O que resultaria do estudo da 
historia de Hespanha, feito pelos processos de que se 
serviu o auctor. Portugal e Gralliza. Opinião de Viardot 
acerca das províncias Vascongadas. Contradicçao entr(» 
os julgamentos do passado, as apreciações do presente, 
e as aspirações do futuro, que se encontram no livro do 
diplomático hespanhol. O senhor Pinheiro Chagas puo a 
descoberto as fluctuaçoes criticas do auctor. A diploraa- 

23 



350 . 

cia do senhor Fernandez de los Rios entra mais pelos 
domínios da alta comedia, do (jue pelos do bom senso 
politico. A monarchia do direito divino invocada como 
razão para a união ibérica. Opinião de um escriptor bra- 
zileiro acerca do procedimento de Hcfpanha e de Portu- 
gal nas suas colónias. Erro bibliographico do senhor Fer- 
nandez de los Rios a propósito de um auctor portu- 
guez 15 

CAPITULO III 

A restauração de Portugal em 1640 mal avaliada pelo 
senhor Fernandez do los JRios. Os seus julgamentos an- 
tecipadamente fulminado^ na historia de Portugal nos 
séculos XVII e xviu, de Éebello da Silva. O livro inti- 
tulado Mi Misicm, é mais um pampheleto de que um es- 
tudo desapaixonado da historia. Falsa affirmativa de que 
. todos os homens iliustrados de Portugal são ibéricos. Um 
patriarcha de Lisboa inventado pelo senhor Fernandez 
de los Rios. As antigas relações diplomáticas entre Por- 
tugal c Hespanha não foram mais ridículas e fúteis que 
as de outros paizes nas mesmas épocas. O balanço Mst-o- 
rico, que resume as apreciações do escriptor hespanhol, 
é notável pelo amalgama do contra-censos que n*elle avul- 
tam, e pelo espirito faccioso que o inspirou. Contradic- 
çoes e erros históricos íil 

CAPITULO IV 

• 

Comp^iração entre Macaulay e o auctor do livro Mi 
Mision. Rápido parallelo entre Hespanha e Portugal no» 
princípios da século actual. Trecho de um discurso de 
Rodrigo da Fonseca Magalhães, proferido na camará dos 
pares em 1848. Fernando vii e D. João vr. Uma í»piniao 
do viajante Link acerca da península. Senibaldo de Más 
o Xisto Camará. Antagonismo de opinlCí^s entre os áoU 
escriptores. O sr. Cánovas dei Castillo faizendo prophf- 
eias. O sr. D. Pedro v suspeitado de iberismo por nunCM 
ter fallado de Ibéria ! Entra na arena o sr. J). Fio Grul- 
lon, e dssatina escrevendo contra ^Portugal um folheto 
impróprio do seu talento. Pastor Dias na berlinda. Opi- 
nião d*este diplomático. Iberismo disfarçado em manifes- 
tações jornalísticas, em 1865. Erro paJmai* do sr. F(»vnaii- 

Jez de los Rios, com relação a dois portuguezes illustren. 

(J ãuctor em contradição comaigo mesmo. Merecida ap- 



351 

plicaçâo aos seus actoa proloquio de portuguez popular. 
Bem o prega Frei Thomaz ! 47 

CAPITULO V 

Missão secreta do sr. Fernandez de los Rios, em Por- 
tugal. A Ibéria casamenteira. O duque de Móntpensier. 
Entra em scena o marquez de Niza. Florilégio. Retrato 
de el-rei o sr. D. Fernando, feito a capricho. De como 
o diplomático hespanhol justificou com a sua estreia o 
titulo de uma comedia de Tirso de Molina. O marquez 
de Niza promovido a Lavater. Explicação de uma carta 
do fidalgo portuguez. Julgamento do emissário secreto 
feito peio sr. Pinheiro Chagas. Bases de politica penin- 
sular indicadas pelo sr. Silvela, e acceitas pelo marquez 
de Sá da Bandeira. Machiayelismo do sr. Fernandez de 
los Rios e sinceridade do sr. Lorenzana. Outra vez o 
duque de Montpensier. Referencia a uma carta de el-rei ^ 
o senhor D. Luiz ao duque de Loulé. Mexericos a pro 
posito da nomeação do sr. Corvo para representante de 
Portugal em Madrid. Trecho de um despacho do sr. 
Mendes Leal. Explicações acerca de questões de Uber- 
dade de imx)rensa. Uma opinião do sr. Theophilo Bra- 
^a que nada tem com o assumpto 65 

CAPITULO VI 

Novas lamurias do sr. Fernandez de los liot? coutni 
a imprensa portugueza. Nota diplomática, e resposta a 
ella, do sr. marquez d*Avila e de Bolama. Outro trecho 
de um artigo do sr. Pinheiro Chagas. Publicação do 
folheto do sr.' Andrado Corvo, intitulado «Perigos." 
Desfavor que o diplomático hespanhol perteudeu lan- 
çar sobre esta publicação patriótica. Pensa-se, como 
armadilha, na restituição de Olivença a Portugal. O? 
homens políticos hespanhocs divergem no moda de re 
solver a questão ibérica. A monarchia como pretext<» 
fie futura absorpção. Um testamento indicado como ga 
rantia da independência nacional ! Um telegramma quc^ 
Ge não explicou. Rasoavel e tardia opinião do sr. Fer 
nandez de los Rios acerca da impossibilidade de fun 
dar a monarchia ibesi^ja com reis portuguezes ^8 



352 



CAPITULO VII 

Desafrontado das peias diplomáticas recresse o mau 
humor do sr. Fernandez de los Rios. Um rei estrangei- 
ro nunca pôde ser um rei popular. O sr. Zorrilla cúm- 
plice involuntário da abdicação do rei Amadeu. Accu- 
saçao improvada do diplomático hespanhol aos que 
elle chama cortesãos portuguezes. Sâo chamados a depor, 
os srs. Mendes Leal e D. Juan Valera. A republica mais 
perigosa para Portugal do que a monarchia, debaixo do ^ 
ponto de vista ibérico. Cegueira do sr. Fernandez de los 
Rios pelo presidente do conselho de ministros de D. 
Amadeu. Insinuação, (jue se transforma em louvor, 
^ feita ao ministério presidido pelo sr. Fontes. A revo- 
'luçâo de maio, em 1870, pouco illucidada por quem po- 
dia esclarecel-a muito. Desassombro cavalheiroso de 
D. Amadeu ao resignar a coroa de Hespanha. Uma as- 
serção patriótica do sr. Corvo. A neutralidade de Por- 
tugal posta em duvida, sem provas. Palavras do conde 
de Cavour applicadas ás republicas. Considerações fi- 
naes 101 

CAPITULO VIII 

Eclipse do sr. Fernandez de los Bios. Durante a revo- 
lução c a republica. Não interferência de Portugal nos 
negócios de Hespanha. Accordos peninsulares ; jurispru- 
dência internacional, e relações materiaes. Prioridade 
portugueza em alguns doestes assumptos. Trecho de um 
despacho do sr. Mendes Leal. A Internacional e o sr. 
Andrade Corvo. Hábil procedimento d'este ministro. 
A Galliza, e os gallegos. Algarismos que desmentem 
juizos precipitados. Tratado de extradicção com Hes- 
panha, e propaganda mansa de Portugal com relação 
a este negocio. Estabelecimento de uma igreja evan- 
gélica em Lisboa. Considerações a este respeito. Rela- 
ções commerciaes entre os dois povos da Península. 
Quem é o culpado da sua quasi nuUa importância? 
As alfandegas da raia. Importância doeste assumpto. 
Um despacho importante do ministro hespanhol, eco- 
nomicamente considerado. Alvitres. O sr. Fernandez de 
ioa Ri OS; e as divindades Indianas. Parallelo. Conclu- 
gâo. 119 



353 



CAPITULO IX 

^Vrgucia lie um conto arabc applieada ao sr. Fenian- 
dez de los Rios. Negociações diplomáticas e consulares, 
ífegociaçoes para um tratado de commercio com a Hespa- 
nha. Negociação infructifera de um tratado para a mutua 
circulação da moeda peninsular. Relações commerciaes 
entre Portugal e Barcelona. Contrariedades que llie op- 
poz o Instituto Industrial da Catalunha. Outra vez a ques- 
tão da colónia gallega. Negociação do regulamento para 
a execução do tratado de communicaçòes, pendente des- 
de 1840. Uma opinião de Almeida Garrett sobre o as- 
sumpto. O sr. Ricardo Molina e o seu livro intitulado 
Portttgal, su origen y constituicion. Negociações, telegra- 
phica e postal. Os srs. D. José de Aldama, e Calvo 
Asensio, chamados a depor em abono da moralidade 
Portugueza. Viagens de recreio. Negócios financeiros., 
prise monetária em 1876 139 

CAPITULO X 

Opinião de H. Taine acerca do modo de escrever a 
historia. O sr. Fernaddez de los Rios e o programma da 
Associação Peninsular. Duas palavras benévolas ao sr. 
Romero Ortiz, auctor de la Literatura portugueza en el 
Siglo XIX. Applica-se á Hespanha a accusação de hyper- 
boíica, que os escriptores hespanhoes fazem a Portugal, 
íixemplificaçôes. Um trecho de um discurso de José Es- 
tevão. Verdadeira razão das quasi nullas relações litte- 
rarias entre os dois povos da península. O sr. Calvo Asen- 
sio julgado por por si mesmo. O seu livro intitulado Lis- 
boa em 1870, De (jue serve o estylo aos escriptores de 
uma certa escola htteraria. Absurdos históricos saccados 
das trevas e postos á luz do dia. Contradicçòes do sr. 
Calvo Asensio, a propósito de iberismo. Retrato do sr. 
Fernandez de los Rios, feito por um addido á legação 

hespanhola, em Lisboa 159 

Conclusão 183 

Documentos parlamentares 207 

Extractos das sessões das Camarás na discussão da 
resposta ao discurso da coroa cm 7 c 12 de maio de 
1869. — Extractos dos discursos do conde de Casal Ri- 
beiro nas sessões de 17, 19 e 24 de maio de 1869, e 
de Rebello da Silva nas sessões de 28 dfi v^IVn5;^> ^ ^ 



354 



de agosto do mesmo anno na camará hereditária. — Ex- 
tracto da sessão d^ camará electiva e discurso do de- 
putado Santos Silva em 21 de maio de 1870 

Camará dos Pares 



Sessão do d 

Sessão do d 

Sessão do d 

Sessão do d 

Sessão do d 

Sessão do d 

Sessão do d 

Sessão do d 



a 7 de maio de 1869 . , 

a 12 de maio de 1869 . . 

a 17 de maio de 1869.. 

a 19 de maio de 1869 . , 

a 21 de maio d© 1869. 

a 24 de maio de 1869. 

a 28 de julho de 1869.. 

a 6 de agosto de 1869 

Camará dos deputados 

Sessão do dia ^1 de maio de 1870 

Sessão do dia 26 de maio de 1870 

Apontamentos Bibliographicos , 

Parte primeira 

Parte segunda 

O sr. Fcrnandez c o seu livro 

>íotas 



209 
213 

» 

218 
220 
221 
226 
235 
247 
257 
265 

267 
271 
275 
289 
311 
329