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Full text of "Quadro elementar das relacʹoes politicas e diplomaticas de Portugal com as diversas potencias do mundo, desde o principio da monarchia portugueza ate aos nossos dias;"

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QUADRO ELEMKNTAH 

DiS 

RELAÇÕES 1»()LIT1CAS K DIPLOMÁTICAS 

DE PORTUGAL 

COM AS DIVERSAS POTBNGIAS DO MUNDO. 



* . ■ • 



PARIZ. —NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAW E THTÍNOT, 

Ul'A R^CINK, 28, JI!NTO AO OnFON. 



QVADRO ELEMENTAR 

RELAÇÕES POLITICAS 
E DIPLOMÁTICAS DE PORTUGAL 

COM AS DIVERSAS POTENCIAS I>0 MINDO, 



HONARCHIA PORTUGUEZA 

ITÊ AOS NOSSOS DIAS: 
ORDENADO, E COMPOSTO 

VISCONDE DE SANTARÉM, 

. Acatlriiiiit ItiMPS Aai Scitntiu de Lisboa, Modrid. Napolíi, Turim, 
r lio Inilllutodc França, nr, 

TOMO TEBCfiffiO. 




iMPitESHo ron onnEM i>o novcnxo port^giez^ 



PARIZ. 

EH CASA DE 1. P. AILLACD, 



• •■ : V .>■ 



■-!-■■• 



INTRODUCÇAO. 



Damos ao publico neste volume quantos 
documentos e arestos encontrámos e tivemos 
a felicidade de descobrir, concernentes ás nos- 
sas relações com a França desde o principio da 
monarchia até a época memorável da elevação 
ao trono da Augusta Casa de Bragança. 

Começámos pelo governo do Conde D. Hen- 
rique por ter sido este Principe, Francez de 
origem, e neto de Roberto cognominado o 
Forte, Rei de França, da dynastia Capetiana , 
e supposto houvessem existido relações entre 
Portugal e França muito aquém do século xn° 
assentámos deixál-as em silencio pelas razões 
que em outra parte expendemos (1 ). 

Confessaremos todavia que apezar de haver 
sido de origem franceza o Principe que pri- 
meiro imperou em Portugal como Estado inde- 
pendente ; apezar das frequentes relações que 



(1) T. 1, p. \i da luUuducrâo. 
lif. 



de necessidade devião de existir entre as duas 
nações, são escassissimos os documentos, e 
noções históricas d' estes remotos tempos tanto 
nos autores nacionáes como nos escriptores 
francezes contemporâneos. 

Com algumas razões deparámos, que justi- 
íicão em parte esta penúria de documentos de 
que nos queixámos. Seja a 1* o não haver em 
parte alguma d'Europa archi vos nacionáes per- 
manentes em o xn® século, e mesmo em grande 
parte do xni° ; a 2* o acharem-se os Francezes 
occupados principalmente com as expedições 
das cruzadas^ ao passo que no mesmo tempo 
osPortuguezes, durante as primeiras dynastias, 
de nada mais tratavão que de guerrear com os 
Mouros dentro do próprio território da Peniu- 
sula hispânica. Assim que a maior parte dos 
documentos que se encontrão desde aquelles 
remotos tempos até quasí aos fins do século xiv"" 
são puramente ecclesiasticoSi e de todo em todo 
estranhos á politica^ e á diplomacia (1). 



(1) Rft ^rMtiniina collec^ de Mss. de Golbert, qne começa 
em 1047^ e que toda efcrupulosamente examinámos, n&o en- 
contrámos um só docmnento, que nos dissesse respeito até o 
século xv<*. Quasi todos , com serem numerosíssimos , perten- 
cem á historia ecclesiastica. 



\II 



• ' ■ 



Jk A leitura e estudo que fizemos dos documen- 

tos , e memorias tanto francezas , como portu- 
guezas^ nos convencerão ainda mais da reali- 
dade d'esta penúria bem como das causas que 
a motivarão. 

Se recorremos aos Historiadores, em igual 
penúria de noções nos achámos, pois nenhu- 
mas temos, dadas por autor contemporâneo, 
a não serem as magras e insipidas do Chronic. 
Lusitan. eConimbric.,que nos deixou o P* Flo- 
res, as quacs nada encerrao que diga respeito 
ás nossas relações diplomáticas, ou commer- 
ciaes. Pelo que diz respeito aos escriptores 
francezes, os únicos subsídios que nos forne- 
cerão forão estes poucos, que produzimos. 
Yille-Hardouin que escreveo no reinado de Phi- 
lippe Augusto (1198); de nada mais tratou que 
da conquista de Constantinopla pelos Cruza- 
dos. Em Joinville, Chronista^ic S. Luiz, a única 
passagem que encontrámos relativa a Portugal 
foi a que diz respeito ao Conde de Bolonha, que 
depois subio ao trono com o nome d' Affonso III, 
relatando-nos que aquelle Príncipe se havia 
achado presente nas grandes festas da Corte de 
S. Luiz em Saumur. Em vão examinámos as 
vastíssimas collecções de Memorias para a 




Historia de França publicadas por MM. Gtiizot 
e Petitot; pouco foi o fructo que colhétnos de 
tão longa tarefa. Apontaremos como exemplo 
a historia de Carlos V o Sábio, escrita pela ce- 
lebre Christina de Pizano, de que só podemos 
extrahir uma passagem. Pias Memorias de Bou- 
cicaut, que alcanção até o anno de 1 408, não 
deparámos com uma só noção relativa a Por- 
tugal , a não ser o que diz respeito aos soccor- 
ros que dera EIRei de Franca a D. João II de 
Castella contra o Duque de Lancastre sob o 
commando do Duque de Bourbon, exercito era 
que também sérvio o referido Marechal de 
Boucicaut, que nos relata o como os Inglczes 
liverão de retirar-se para Portugal (t). 

Não fomos mais felizes no exame que fizemos 
das Memorias de Pedro Feniu, Escudeiro de 
Carlos VI , que cncerrão a historia d'este Prin- 
cipe desde 1407até 1 422 (2). O mesmo nos acon- 



^ 



(1) f^íde Hiatoiro de Messíre J. de Bouficaut publicado por 
P«ilol,T, TI, — Collectíon de M^moires pour rhistoire do 
France , e compare-ae com o que publicámos a png. 33 d'esle 
volume. 

(!) Heuwiresile Piorre leniu, e^cu^er de Charles VI, apud 
Petitot. 






— IX — 

tcceo com as Memorias de Jeanne d' Are (1) e 
com as de Guilherme Gruel^ autor das Memo- 
rias d'Ârthur III ^ Duque de Bretanha^ desde 
1413 até 1457, publicadas por Godefroy; com 
as de Siredllliers, Capitão de Carlos VII , com 
a historia de Bayard (2), com as Memorias es- 
critas por Roberto de La Marc , Marechal de 
França (3), com as de Guilherme de Villeneuve, 
que encerrão todo o acontecido desde 1494 até 
1 497, mas só no que respeita a guerra de Ná- 
poles^ e finalmente com as Memorias de 
La Tremoille, escritas por João Bouchet^ com 
ter este autor nascido em 1 476. 

Do que deixámos summariamente apontado 
se colhe quão grande seja a penúria de noções 
históricas^ concernentes a Portugal nos escrip- 
tores francezes dos séculos xii**, xni" e xiV, e 
ainda mesmo do xv*"; porem já nos d'este 
ultimo século alguns nos forão de grande pro- 
veito, começando pelo celebre Olivier de La 
Marche (4) , cujas preciosas Memorias abração 

(1) Anciens Méiuoires sor Jeanne d^Arc, T. 8. — CoUeclion 
Petitot. 

(2) Ihiã. 

(3} nde CoDection de Petitot. 

(4J ndê notau de pag. 70, 73, 76, 83 a 89 d'eiito Tonvi 



iim pcriodo dr 53 aunos, desde 1435 até 1488; 
e pelos de Jacques du Clerq que encerrão os 
aconteciíneiilos occorridos desde 1448 até 
1>í67 (1). Aproveitámo-nos igualmente das 
celebres Çhronicas de João de Troyes, que 
cojxiprehendem um período histórico desde 
4460 até 1483 (2), e sobretudo das mais im- 
portantes de todas quaes são as do celebre 
Phílippe de Comines. 

No xvf século as Memorias e historias de 
Franca não offerecêrão abundante colheita. 
Nada encontrámos na historia de Roberto de 
La Marck, Senhor de Flouguerges, que trata 
das cousas memoráveis succedidas nos reina- 
dos de Luiz Xn e Francisco I, e que alcanção 
até o anno de 1521 (3). Não colhemos tão 
pouco noção alguma da leitura do Diário de 
Luiza de Saboya (4); fomos porém mais felizes 
com as preciosas memorias de Martinho du 



(1) ride noU H6 de pag, 106 a 107. 

(2) ride nota 173, pag. 137 a 141. 

(3) llisloire des Choses Mémorables advenues da règne de 
Louis XII el François 1", depuis Tau 1 499 jusqu^à Tan 1591 . — 
( Collection de Petilot , T. XVi.) 

(4) Collection de Petitot. 



— xr — 

Bellay (1), c com os commentarios de filaise de 
Moiitiuc, cscriptos e compostos por este dis- 
tíncfo guerreiro, os qiiacs com prebendem o 
período do tempo que decorrco desde 1521 até 
1575(2), posto que bem poucas e escassas noções 
nos hajão ministrado para este nosso trabalbo. 
Examinámos com igual attençSo vinte e seis 
obras francezas, escritas por autores contem- 
porâneos, que todos tomarão parte nos negó- 
cios politicoSy depois da morte de Francisco P 
de 1547 até 1594, e pouco fructo colhemos 
deste insano trabalho (3). NSo encontrámos 



(1) ride notis 257, 296, 309. 331, 332, 344, 347. 

(2) Comnientaires de Messire Blaisc de Montiuc , Marechal 
de France. — (T. 20, o 21 da Collect. de Petitot.) 

(3) ApontareniiM aqui srímente as aegniiitca : 

1" Méinoiroii de Caspãr de Tavannes que encerrSo o período 
de 49 annoa, e Mbcr de 1524 a 1573. 

2* Mémoíres de Vicilleville desde 1527 até 1571. 

So Mémoiref de Yillers , Secretario do Earechal de Brissac 
que tratSo da gnerra do Piemonte. 

4* Méinoires de Rabutin* 

5" Mcmoircs de Salignac , Senhor de Fénclon. 

S* Mémoíres de Castelnan, ai qnaes abrarSo 11 annos de 
1S59 a 1570. 

7* Ncmoircs de La Noue, comprehendendo o esjiaro de 
8 annoa detdc 1562 até 1570. 

8* MAnoires du Chancelier de Chereaay deade 1562 a 1599. 

9> HáSMiNsde MarsnerítedeTaloUdeMie 1569 até 1582. 



para 



tão pouco nos ehroiiistas portuguezes mais 
auxilio que nos historiadores de França para 
esta parte da presente obra. 

Com eíTcito da reseiilia seguinte entenda 
oleitor quão poucos e insignificantes subsi«J 
dios nos subministrárão os nossos chronista*! 
para a composição deste volume. Fernão Lopes 
apenas nos forneceo 2 citações, Garcia de Re- 
sende 4, Riiy de Pina 19, Damião de Góes 10,-.^ 
o celebre Osório 1, Faria e Sousa 3, Azinhei- 
ro 1, a monarchia Lusitana 8, Duarte Nunes do 
Leão , que copiou Kuy de Pina , quasi que nos 
não dco noção alguma que se não encontrasse 
jà naquelle chronista, D. Autonio Caetano de 
Souza G, Soares da Silva 8, Faria e Castro U, 
mas o que é mais para admirar é que Francisco 
de Andrade, que eacreveo a chronica d'ura Rei, 
em cujo reinado tivemos tão frequentes e ião 
importantes relações com a França, só nos mi- 
nistrasse 8 indicações, que nem huma só vez 
apontasse um documento do archivo, e que 
sendo Guarda-Mór da Torre do Tombo, onde 
estavão depositados quasi lodos os documen- 
tos, de que damos os sumroarios, nenhum uso. 
fizesse d'elles na sua grande chronica, com se* 
rem tão numerosos, que se publicássemos ent 
strn iutpgra quantos dizem respoíto ás nossu 



relações cora a Franca no reinado de D. João 
111°, e que fomos obrigados a summariar, fa- 
ríamos um volume mais considerável que toda 
a chronica escrita por Andrade. 

Tal era o pouco apreço em que os nossos 
historiadores tinhào a parte mais essencial da 
Itistoria, c dos direitos de Portugal como na- 
ção civilizada. E na realidade para pasmar que 
homens tão hábeis, como Fernão Lopes, Góes, 
e Francisco de Andi-ade, todos três Guardas- 
Mores do real archivo, passassem em silencio 
03 factos mais curiosos e importantes, não se 
encontrando em suas chronicas nem os docu- 
mentos nera a parte que diz respeito ás nossas 
instituições internas e ás nossas relações ex- 
ternas, nem cousa alguma relativa ao estado 
litterario do paiz nas diversas épocas, em que 
escreverão. Se por ventura uma vez ou outra 
tocão nestas matérias, o que nos deixarão c tão 
conAiso, e incompleto, que ficámos na mesma 
ignorância em que nos adiávamos com pouca 
diffcrença, e por vezes ainda mais perplexos 
pela guerra aberta que declararão á chronolo- 
gia ; por que ou não indicSo as datas dos acon- 
^Ê tecimentos, ou se as indicão, achão-se estas 
^^L cheias de anaclirontsinos, c as mais das vezes 



£. 



— KIV ^— 

fm opposiçao com a dos documentos. Consistia 
o plano d'el]es em isolar Portugal das de- 
mais naoõeSy e em consideráUo como estranho 
a quanto se passava na Europa^ assim que 
não trata vao de dar á historia nacional aquelle 
nexo que a prendia com a dos outros povos 
da Europa nas épocas em que escreverão, e 
dahi vèm que nenhum d'elles se lembrou de 
nos fazer ver por meio de parallelos o estado 
comparativo de Portugal respectivamente ao s 
outros paizes da Europa, e especialmente ás 
monarchias mais civilizadas; nenhum nos 
deixou ao menos um quadro histórico, embora 
fosse traçado com imperfeição. Bem vemos 
que não era ainda vinda a época d'uma histp-* 
ria verdadeiramente filosófica, ainda se não 
dava grande valor, como nos dias d'hoje, á 
historia fundamentada em documentos^ única 
que pode actualmente interessar á razão e á 
politica. Com effeito a historia documental 
exclue todo espirito de systema, e destroe to- 
das as conjecturas ; nella não pode prevalecer 
o espirito dos diversos partidos politicos, por 
que tem o leitor diante de si as peças e docu- 
mentos genuinos para avaliar os factos 
conforme forão, e não os vé através do pris- 



— XV — 

ma das paixões e parcialidade do historiador. 4 

Além dos 46feitos que com grande magoa 
notamos em nossos historiadores, defeitos bem 
Cpnhecidos hoje por alguns de nossos compa- 
triotas dados ao estudo de nossas cousas (1)^ 
não podemos deixar de fazer outro reparo que 
nos parece de summa gravidade, e resulta do 
que acabámos de ponderar, e vem a ser que 
muitas vezes não podem os escriptos de nossos 



(1) Na IntroducçSo do T. I, p. xi e xii, mostrámos o quanto 
já Pernio Lopes se queixava da penúria dos chronistas que o 
Unhão precedido, agora traremos á lembrança do leitor as 
queixas que a este respeito faz o illustre D. João de Castro, ag 
quaes se podem ler na carta ao Infante D. Luiz , enviando lhe o 
Roteiro do Mar-Roxo , ajuntaremos aqui o testemunho de Fr. 
Kiguel Pacheco na rida da Infanta D. liaria : c Seja licito a 
1 esta penna, diz este, censurar aqui de passo a dos autores 
» Andrade -e Paramo, um pela grande omissão, outro pela fa- 
» bulosa invenção. primeiro , pois , sendo chronista doeste 
» Rei de quem tratámos agora, em cujo reinado se offerecérão 
t estes soccessoSf e as' embaixadas referidas tocantes á nossa 
» Infanta e outros muitos negócios de porte, iodos os sepultou 
» em silencio, culpa que o podia obrigar em consciência a 
» restituir os ordenados de seu officio e a perdêl-o por erros, 
» pois não o pôde haver mais grave em Historiador do que 
» calar ou não saber as principaes acçdes do Principe, sujeito 
» de sua historia, ou das cousas notáveis succedidas no reino 
« no tempo de seu goremo. » 



— XVI — 

historiadores autorisar vários factos importan- 
tíssimos, se porventura nos vemos na necessi- 
dade de nos valermos do que elles dizem para 
legitimar um direito nacional. Um exemplo 
recente nos veio provar que só com os nossos 
historiadores se não poderia resolver no con- 
ceito dos estrangeiros a prioridade de nossos 
descobrimentos, mas sim por meio de docu- 
mentos inéditos do direito publico convencio- 
nal, e pela autoridade da generalidade de to- 
dos os historiadores d'£uropa, e assim é que 
com effeito foi unanimemente admittida por 
toda a Europa, depois de o ter sido pelos mes- 
mos que no-la disputavao. 

Uma historia veridica, authentica, digna de 
fé, imparcial e filosófica só pôde ser a que for 
fundada em documentos authenticos; neste 
Quadro Elementar faasemos por lançar as ba- 
ses a tao importante obra. A publicação syste- 
matica por ordem chronologica e por reinados 
de nossas antigas instituições civis^ e munici- 
paes , comparadas com as das diversas monar- 
chias; a historia das sciencias e da litteratura, or- 
denada pelo mesmo methodo^ a dos nossos usos 
e costumes com suas origens são outros tantos 
trabalhos scientificos que iminortalizari&o os 



—• xvu -- 

que se atrevessem a emprehendèl-os, c tives- 
sem a gloria de rematál-os. Só depois d^elles 
ultimados poderia um dos nossos sábios^ es- 
crevendo uma historia geral do Reino^ legaF 
á nação um monumento de que ella carece, e 
qnenaoha naçSo da Europa, por mais civili- 
zada que seja, que se possa ufanar de possuir. 

Mas aea época da publicação d'uma historia 
com semelhantes requisitos não é ainda che- 
gada para o nosso Portugal, nem por isso de- 
vemos desanimar, pois não somos os únicos 
que nos achamos privados d'uraa obra de 
tanta importância e magnitude. A França 
ainda até hoje não possue uma obra de tal na- 
tureza, a pezar da riqueza immensa das suas 
memorias, de muitas outras obras primas 
deste género, fructo do infatigável trabalho de 
seus sábios escriptore8(1). 

Assaz nos desviamos já do principal objecto 
da presente introducçãq que consiste em apon- 
tar ao leitor na rica serie de noticias documen- 
táes, que damos á luz neste volume, as que nos 

(1) Sobre este particular veja-se a SessSo da Gamara dos 
Deputados de FijÉ|a d» 10 de Maio de 1834, e •■ cbnã de 
H. de Thierry, inOtuladaa : Lettres tur rhUloirt de Fnnu^ et 
J)ix ant d*étudct hiitorifKgi^ 



V 



•^ 



XVIII — 



^ 



parecerão mais preeiosas das quaes se eviden* 
cea que não só as nossas relações politicas com 
Franca começarão com a monarchia. mas até 
mesmo as commerciáes. Com effeito dias se es* 
tabelècerSo pelo focto mesmo da vinda a Portugal 
do Conde D. Henrique^ e pela dos cruzados (1)^ 
bem como pelo casamento da Infanta Mafalda 
filha d^EIRei D. AffonsoPcomPhiltppe^ Conde 
deFlandres(2), epela estada de muitos Francezes 
que assentarão morada em diversos lugares 
do reino , e a quem forao concedidas terras em 
H21 (3), H99 (4) e 4200 (5); pelas que se es- 
tabelecerão com a casa de Borgonha em 1 1 94 
(6) no tempo d'£lRei D. Âffonso II e de Philippe 
Augusto em 1246 (7), no d'£lRei D. Sancho II 
com Luiz IX (S. Luiz) (8), relações politicas 
que devião de necessidade estreitar-se durante 
a regência e reinado doSenhor D. Affonso 111(9). 

(1) ridep.2j 3. 

{2) ride p.^, A ^S. 

(3) ride p. 1. 

(4) nde p. 6 e 7. 

(5) Flde p. 8. 

(6) ride p. 7. 

(7) ride p. 9. « 

(8) ride p. 10. 

(9) ride p. 13. 



^ 



— XIX — 

Vemos igualmente provada a existência de 
nossas relações commerciáes desde HgO com 
Montpellier, e Marselha (1), e t5o importantes 
èrSo ellas em 1 252 com os portos de Norman- 
dia, Bretanha, Abbeville, Saint-Omer, Ruão, 
Chartres, La Rochelle, Arras, e Caen que os 
direitos das mercadorias forSo regulados por 
uma lei (2), ao passo que por outra parte nas 
Cortes de Leiria de 1254 se regularão algumas 
destas relações (3), que no reinado d'ElRei D. 
Diniz ElRei Philippe o Formoso concedeo im- 
portantes privilégios aos Portiiguezes^que re- 
sidiSo na pr<mncia da Normandia^ e tão con- 
sideradtis crSo nesse tempo pelo governo fran- 
cez as vantagens que resultavSo da residência 
é commercio de nossos mercadores, que pelo 
árt. X se mandou concertar o cáes de Harfleur 
para que elles ali podessem íkzer descarregar 
suas fazendas, do que se infiáre quão anteriores 
deviSo de ser as relações entre os dous paizes. 

Se por causas que nSo podemos descobrir 
nos documentos ElRei Philippe o Formoso se 



(1) ride p. 13. 

(2) ndep.í^. 

(3) ride p. 15 e 16. 






— XX — 

obrigou a fornecer a EIRei deCastelIa um sub- 
sidio de cinco mil homens contra EIRei de 
Portugal, observa-se que ao mesmo tempo 
deixara de cumprir com aquelle ajuste por jul- 
gál-o inopportuno (1 ), e com effeito se vê que a 
boa intelligencia se não alterou entre as duas 
coroas, pois nesse mesmo anno EIRei D. Diniz 
confirmou o acórdão que fízerão os mercado-» 
dores de Portugal sobre os navios que em nos- 
SOS portos carregassem para a Normandia, 
'^ Bretanha, La Rochelle e outros portos, (2) e 

tão intílDas erão então as relações entre Portu- 

gal e França que o mesmo Philimii Formoso 

em data do T de Julho de 1303 oir^o uma 

^ circular aos Prelados de Portugal, e aos Grandes 

^4 ; do reino, representando-lhes a incapacidade 

^ de que era na opinião dos Prelados e Grandes 

do seu reino o Papa Bonifácio VIU para conti- 
nuar a presidir á Santa Igreja, e convidando- 
os a juntarem-se a elle, assistindo ao concilio 
geral que intentava convocar (3), e em 10 do 

(t) ndep. 17. 

<2) ndep. 17el8. 

(3) Descobrimos estes documentos depois de já impresso este 
volume Daremos pois os summarios d^elles no fim do T. IV 
doesta obra. Achão-se os ditos na Biblioth. R. de Paríz , Cod. 166, 
p. 235» 



»Y 



>-* 



XXI — 

mesmo mez e anno escreveo também a ElRei 
D. Diniz^ ttazendo-lhe á lembrança que^ des- 
cendendo elle dos Reis de França^ cumpria-lhe 
concorrer para a defensão da fê e das liberda- 
des ecclesiasticas (1). As mesmas relações ami- 
Ip^veis continuarão a subsistir entre* os dous 
paizes no reinado de ElRei D. Affonso IV, 
mandando Philippe Formoso a Portugal di- 
versas embaixadas (2), e vendo^se que por in- 
fluencia da França, e por sua mediação se ne- 
gociou a armisticio de 4 338 entre Portugal (3) 
e Castella bem como as Tregoas de 1339, 
e que os privilégios commerciaes, concedidos 
aos mercadores portuguezes, forao ampliados 
por Philippe VI e por João II (4). 

As mesmas relações e boa intelligencia se 
observãOy reinando ElRei D. Pedro I em Por- 
tugal^ e ejn França João 11^ o qual confirmou 
os privilégios concedidos aos Portuguezes por 
seus predecessores (5)y e no reinado de Carlos V 



(1) F^ide Supplem. no fim do T. IV doeste Qaadro, e a 
secção XVm das Relações de Portugal com a Caria de Roma. 

(2) Fide p. 18 e 19. 

(3) ndep.íd, 

(4) ride p. IS a 2i. 

(5) ride p. 21. 

lU. ò 



XXII 



d ÍUítíió (iSèS] qtiè ampliou os íneníciolhádos 
prívllegfíos (<), sem embargo da tendência <]juê 
já desde entôoihanifesiava o Gabinete francez 
pàí^a li^r-se com a Hespanha e exercer a sua 
iiifltíèíicia hf |)o]itica d'aqfiella parte da Pe- 
nínsula, como o j[)oderá reconhecer o leitoip 
pclà níediaçao, âe Hiie acima tratamos, e ainda 
nitiito íiiais ]()aípávèTmènte ^'elos documentos, 
e noções histoíiéas dó anno de 1366, que pro- 
duziníios no texto, da parfe, que a França to- 
mou íia destronisacío (ÍElRei D. Pedro de Cas- 
fella, maíhdatídò á Hèspatíha o Êondestavel 
í^uguéscliri para sústèlífár á D. Henrique, ém 
cujas aííéraçôes, pòr uma ^óTitica habil deixoti 
o nosso Rei D. Pedro I de intervim para con- 
servai a* paz e amizade qóè entre elle e ElAei 
de trança reinavao. (2) Por esta occasiSo pro- 
duzimos úma relaç3o summatíient^ curio^aí 
áé qóarifo se passou etíí Portugal com o en- 
viado tvaiiàèz, íélàcSó na vefdádè interessante 
não só como documento politico como também 
por ser uma pintura fiel dos costumes e cere- 
monial de nossa Côrtè ha epbca de que tratà- 
mos (3). Extrahimos estas pariicularidades das 

(n ride p. 22. 

(2) ndc a pag. 2. 

(3) ride p. 26 a 29. 



— XXIII — 



jbemòfías do Concíêstavel IJiiguesciín^ por se 
TCnii a nosso vef^ as ditas noç^ taiito ínâis 
importantes quanto é deplorável o silencio que 
os nossos chronistaSy e aíhcía mesmo os nossos 
documentos guardSo sobre taes factos. 

Elilei D. Fernando cultivou com a Franca as 
mesmas relações de ámizacíè^ ê parece que teve 
em tanto o nSo se compromééter com' essa 



C<>rte que observamos mandáira em Maio de 
1369 por seus Embaixadores justíiicar-sc pe- 
rante Carlos y^ Rei de França, dos motivos que 
tivera para declarar a guerra a ÊIRei D. Hen- 
rique de Castella a quem a França assistia (1), 
politica esta que lhe conciliou a boa amizade 
da Fraa^jQom a qual estreitou ainda mais a 
aiiíiga alliança, como o demostrão as conferen- 
âas de Alcoutim (Í371) que tiverão em resul- 
tado o tratado dê Santarém de 19 de marco dé ' -> '^ 
1373 entre o dito Rei D. Fernando c í). Hen- 
rique de Castella, e seus successores (2), tra- 
ttlo ém que EIRei de França foi comprehen- 
íttio por si, e também por sèiis successores, e 
era a alliança de Portugal enl3o tida em tanta 
conta pela França em consequência do estado 

(1) riiiep.29. 

(2) f^uU p. 30. 



XXIV — 




de hostilidade em que com Inglaterra ie 
achava^ que pelo conselho que a Caxlos Y %É| 
de França deo o Imperador d'Allcmawia vemos 
quanto elle a julgava importante para nella 
estribar-se de accordo com outras potencias 
da. Europa^ e sustentar contra a Inglaterra os 
direitos que tinha o mencionado monarca 
francez ao Senhorio da Normandia e da Gasco- 
iiha(1).Com effeito de tanta vantagem era 
para os Soberanos de França a nossa alliança 
que vemos o Duque d'Ânjou solicitál-a por via 
d'uma solemne Embaixada (1 378, abril 1 6) (2). 
A serie de documentos que offerecemos ao 
publico neste vol., nos faz ver que até o prin- 
cipio do governo d'ElRei D. João 9 1, isto é, 
durante os séculos xii e xin e parte do xiv ne- 
nhum vestígio se observa de desavença e de 
hostilidade entre Portugal e França. A disputa 
da successKo occorrida depois da morte d'El- 
Hei D. Fernando deo occasião á Franca a mos- 
trar mais ostensivamente as suas tendendo 
politicas em favor de Castella, e suggerio ao 
gabinete portuguez para as contrabalançar a 
idea de propender para a alliança com Ingla- 

(1) ride p. 32. 

(2) Fide de p. 33 a 35. 



— XXV — 



terra, e de tratar de estreitál-a o mais que fosse 
pqttúvel. Taes sSo os factos que nos revelao os 
doHnnentos que d'esse tempo publicamos, e 
que as relações históricas tomSo demonstra- 
dos, vendo-sc um exercito francez combater 
contra nós na batalha d' Aljubarrota conjuncta- 
mente com os Castelhanos (1); nSó tardou po- 
rém muito tempo que mais bem advertida, co- 
nhecendo esta Potencia quanto Portugal unido ^ 
á Inglaterra, e aElRei de Navarra devia de me« ^Jpp' 
d rar em forças, maximamente depois da bata- 
lha d'ÂI jubarrota, e vendo-se opprimida pelos 
Inglezes, e obrigada a vir a termos de conci- 
liação se inclinou a entender e assignar o tra- 
tado de Tr^oas de 1 8 de junho de i 389 entre 
EIRei D. João I de Castella de uma parte, e 
Ricardo II d'outra, em que Portugal foi com- 
prehendido por parte de Inglaterra (2); sendo 
consequência d'este tratado o conservar-se in- 
tacta a paz e boa harmonia entre Portugal e a 
França, isentando Carlos VI os negociantes 
portuguezes por espaço de dés annos de certo 
imposto (3)em 1 398, e obrigtlljlb-se alem d'isto 

(1) ndt^, u. 



(?) ride p.:í7, 

[\) raif p. 38. 



— XXVI — 



a guarílar a neutralidade (1 399) no caso de 
guerra entre os Reis de Portuga) e Castella^ 
Navarra e Aragão (1). Sem embargo 4'^^ 
obrigação de neutralidade da parte de França 
as relações amigáveis d'esta Potencia parecem 
**ter-se estreitado cada vez mais com Castella, 
como se deprehende não só do tratado de Paz 
de Ayton de 31 d'outubro de 141 1 entre ElRei 
de Castella e ElI^ei D. João I de Portugal^ no 
qua| o monarca castelhano fez comprehender 
a França(2); mas também pela solemnidadecom 
que ElRei P. Henrique de Castella exigio que 
edito tratado fosse não só confirmado, e appro- 
vado por Carlos VI, mas ainda que fosse regis- 
tado no parlamentoepublicadòpor toda a Fran- 
ça, por isso que por intervenção d'esta poten- 
cia havia sido negociado e concluido. A pezar de 
se ter concluido com Castella a paz por virtude 

' ' ' ' ' i 

d'este tratado^não deixou D João I dePortugal ,se 
bemestudamososdocumentos.de ter presente 
á memoria que IÇlRei de Castella lhe havia dift- 
putado a corôa^ e que convinha á sua pplitícçiL 
de enfraqueces o poder de seu adversário por 
uma parte ao passo que por outra fosse aug* 

(1) ride^.%%. 

(2) Vide ibid. 



— Xipilf — 

ipep|:ap4o P 4e Portugal ppr via de aI)iaDças 
que contrabalançassem as de Gastella , parti- 
cula]:1ínen|:e a de França. Para conseguir o pri- 
iqeirp d'estes fins, vemos (jue no trqitado feito 
cppi o Pu(j^e de Lencastre (^)fez este celebjpe 
l^oqarça inserir a clausula do augmento t^r- 
riforiaí de seu reino á custa do de seu vizinho, 
epara alcançar o segundo, se ligou com os Cu- 
ques de J^orgonha, uma das cazas então ip^is 
poderosas da Europa, como bem o observ^ 
P|iilippe de Comines (2), por entender que por 
aqpelle modo neutralizava conjunctament^ 
com a alliança de^ Inglaterra as tendencja3 d^e 
f*rança em favor de Castell^. 

Estas vantagens politicas não forao as úni- 
cas que Portugal colheo das alliancas com a 
çaza 4e Borgon|)a, ganhou tamj^eoi ifoporfan- 
tes privilégios commerciaes, e outros como se 
vê da carta passada por Philippe o Bom em 26 

de dezembro de 1 41 1 , pela qual confirmou as 

1 i?." . * • * • . ^-» '■ ■» '1'- 

(1) fMftf f. I, p. 266 a 273, e T. n, bitroducçSo, p. x. 

(2) « Umf^ §ooéeB (diz Comines, eh. XUI, Uv. Hl] fleury 
9 cette majiigpi 4^ ^onrgogne , et depnis cent ans , ou envíron , 
? qa^CMil regné qiutre ducs de cette maison, avoit este autant 
f eitiinfa qne nnlle maison de la chretienté. Car les autres 
» plns frandes qu^elles avoient eu des afflictions et adversités , 
» et oette-^ coatinnelle felicite et prospérité. > 



•i- XTVIII — ^ 



qiio O Duque Jo3o^ seu pai, havia concedido aos 
Portugueses (1 ). 

Tal é o que se deprehende dos documentos^ 
e transacções diplomaticaç, que publicamos, se 
bem as combinamos com as do tomo 1 d'esta 
obra, e com as da Secção XIX de nossas rela- 
ções com Inglaterra. Todavia sem embargo 
d'esta politica de tao grande e illustrado mo- 
narca , viveo elle sempre em.paz e boa amizade 
com a França, se exceptuarmos algumas de«- 
predações feitas por mar pelos Portuguezes 
contra os Francezes, a que ElRei de Gastella 
tratou de pôr termo pelo tratado de Paz de 
Medina dei Campo de 30 d'outubro de 1431 



(1) Este docnmento tendo sido por nós descoberto depois de 
impresso o texto d'este volume será publicado nos supplemen- 
tos. Nelle faz o Duque de Borgonha menção dos grandes pro- 
veitos que seus Estados colhiSb, em especial os habitantes de 
Flandreti das fazendas que ali levavão os mercadores, e marí- 
timos portuguezes, mostrando-se pelo teor d^elle quanto a 
Flandres interessava em conservar as relações commerciaes 
que tinha com Portugal , e ao mesmo tempo quanto a nossa 
navegação para os portos d^aquelles Estados era antiga e come- 
çada muito antes do século xV^, pois que entre outras dispo- 
sições , se mandou observar, para a boa arrecadação das fa- 
zendas e navios portuguezes, fosse a descarga feita né^portat 
de Flandres , Dunkerqne , Nieuport, Ostende , Bllnkiiftrg,! o 
niesmo que se praticava nos tempos antigos. '^^^5^1 



% 



— XXIX — 

celebrado entre Portugal e Caatella (1). Du- 
rante o reinado pois d'ElRei O. JoSo I conti- 
nuarão a subsistir as mais intimas relações en- 
tre os dous Paizes, vindo vários cavalleiros 
francezes oíferecer-se a nos acompanharem na 
expedição de Ceuta (2); e o nosso monarca 
conservar Embaixador junto a ElRei de Fran- 
ça, Carlos VI (3), ao passo que este concedia 
novos privilégios aos Portuguezes (4). 

Subsistiao entretanto as relações com a Bor- 
gonha, de que* damos varias transacções so- 
bremaneira curiosas, sendo uma d'ellas a 
relação verídica da embaixada mandada por Pbi*. 
lippe o Bom (5), relaçSo (fae em nosso enten- 
der, é interessante nSo só como documento 
politico, mas também como histórico, com 
que os nossos historiadores e chronistas parece 
que nao depararão. 

Digno successor de seu illustre pai, o Senhor 
D. Duarte estreitou ainda mais as relações com 
França, e os documentos que de seu tempo 



(1) ride Docum., p. 72. 

(2) ride Docum., p. 41. 

(3) ndep.ií. 

(4) ride p. 42. 

(5) ^ide DocaiHo p. 43 a 71 . 



produ^iQM ^jpstrao quão considera4^ f^\ 
l^ortyga) fio jffina^q d'este monarca , e a }ia- 
|i)í)idade com qi|e se houve qas desavenças 
que ^obrevierão ep|:re EIRei ^e França» e o 
Ppque 4j? ^rgojf^a sendo tão ligado com am- 
bos pelps vínculos do sangue, bem como o 
modo com qiie se portou para com EIKèi Gar- 
jos YI)y mandando por seus Embaixadores no 
concilio 4e Ferrara (i 435) pfferecer a sua media- 
ção entre o paonarca mencionado e piRei Hen- 
jrígiie VI de (nglaterra (1 ), e conseguindo nesse 
piespio tempo que o nosso Portuga} fosse re- 
presentado, e assistisse no famoso congresso 
l^'.^Lrra7 (2), o mais importante da historia da 
aptiga diplomacia. Os mesmps documentos nos 
4e)atao que o Senhor Rei J). Quarte a pezar da 
estreita alliança que tinha com a Inglaterra 



(1) nde Doctim., p. 74 a 75. 

(2) Flde Docnm., p. 75. — Glande Fanchet, Origine det 
Dígniiét et Magistrais de France^ liv. I , cap. Hl , p. 28, refere 
que no celebre congresso d^Arraz se achavao os Reis d^Armas 
de todos os Soberanos qne por seus Embaixadores ali assistirão, 
sendo por parte do Duque de Borgonha o Rei d^Armas d^ElRei 
de Portugal. Revela-nos mais este A. uma particularidade 
digna d^attenção, e vem a ser que aquelles oíiiciaes, e seus 
passavantes assistiSo a todas as solemnidades, casamentos , 
festins , tratados e entrevistas dos Reis , e mesmo ás batalhas. 



— XXXI — 



e çpyij a Borgopba (empregava focja a sua^ "" 
^uencja pp|itica em favor 4a frança, confio 
(juem desejava manter a paz entre estas 4iyer- 
sas potencias, merecendo ser altamente consi- 
derado pe)os Soberanos estrangeiros 4o seu 
tempo, a ponto de ser convidado pe}o Papa 
para ser arbitro jias desavenças, que existião 
entre o Duque 4'^njou, e EIRei 4' Aragão (1). 

No seguinte reinado d'plllei D. Affor)sp V, 
as nossas relações 4|plomaticas, e politicas coin 
a França offerecem ainda maior ^nteressç g))^ 
nos precedentes. Òs documentos que 4'este {{^ 
riodo damos a ler, prov ao da maneipa a maijs 
concludente que nossas relações d'$imizade çofja 
a França forao sempre em progresso, conti- 
nuando-se inalteravelmente entrp os moiia|v 
cas portiiguez e francez. 

Assim vemos nessa época conQrmar EIRei 
Carlos Vn*todos os privilégios concedi4os pop 
seus antecessores aos Portuguezes (2), e Portu- 
gal ser comprehen4ido no tratado de 'pregoas 
de 27 de junbo de 1444. eqtre o dito fiei de 
França e Henrique yil. Rei 4'lngla terra (3). 



(t) F\de Docum., p. 78. 

(2) nde Docum., p. 79. 

(3) Fide ibid. 



— XXXII — 

HKo forao menos importantes as relações 
que tivemos no decurso d'este reinado com a 
caza de Borgonha , conservando-se o monarca 
portuguez em paz e amizade com o celebre 
Carlos o Temerário e ao mesmo tempo com seu 
implacável inimigo Luiz XI, Rei de França. 
Entre as noticias que damos de nossas relações 
com a Borgonha nessa época uma das mais 
curiosas e importantes é a da vinda a Portugal 
de Jacques de Lalin, particularidade de que 
não encontrámos vestigio algum nem em nos- 
sos historiadores , nem nos documentos do 
real archivo, sendo alias um facto tão interes- 
sante, por isso que nos revela entre outras 
muitas circunstancias singulares um dos usos 
diplomáticos e cavalleirosos da idade media(1 ). 

Para illustrar esta importante parte de nos- 
sas relações politicas com a Borgonha, e com a 
França, damos em substancia quanto podemos 
encontrar disperso nos diversos autores estra-* 
nhos, concernente á celebre Duqueza de Bor- 
gonha , filha do nosso D. João I, por ter tido 
esta Princeza grandissima influencia nos ne- 
gócios politicos do seu tempo (2) e aproveitá- 

(1) ridep.%QeSt. 
n) rúi^p. 76, nota 105. 



^ • 



— XXXIII — 

monos d'esta occasiSopara remir do esqueci- 
mento o nome de um dos nossos mais sábios 
compatriotas d'aquelle tempo que residia na 
Corte de Borgonha (1)^ mostrando em quanta 
consideração fora tido por um dos escriptores 
mais distinctos d'aquella época que o conhecera 
e tratara. Igual contemplação merecem as no- 
ticias que damos da grande impressão que 
causara na Europa a catastrophe da Alfarrou- 
beira, em que perdeo a vida um dos Principes 
portuguezes que mais illustrou a sua nação, 
e foi um dos grandes homens do século XV (2). 
Pelo mesmo theor referimos as particularida- 
des históricas que dizem respeito aos filhos 
d'este illustre Infante, os quaes sendo baniddp 
da pátria forão acolhidos em Borgonha d'um 
modo não menos honroso para aquella illustre 
fiimiIia,quegloriosoparaanaçãoportugueza(3). 
Em quanto o Senhor Rei D. Afibnso Y con* 
servava, como acabamos de ver, a mais es- 
treita alliança e amizade com a caza de Borgo- 
nha j não obstante a desapprova^o que dera 
aquella Potencia a quanto se havia passado re- 

(1) p\de p. 73, noU 103. 

(2) yidt p. 82 e 83 a 85. 

(3) ^iJtf de p. 83 a 36. ■ ^ 



è 

% 

* 



— xxaúv — 



lativamente ao Infante D. Pedro, ve-se que con- 
tinuava á viver ein paz e boa harmonia com o 
Buque de Bretanha renovando em 1452 as an* 
fígas allianças e relações commerciaès qiiè há- 
víao existido entre um e outro paiz(1) ; asquaes 
haviâo sido eventualmente interrompidas por 
algumas hostilidades commettidas no mar pe- 
los Portuguezes e Bretões, como nol-o mostrâo 
os importantes documentos meditos de que 
damos os summarios extrahidos dos MSS. da 
híbliotheca real de Pariz (2) do anno de 1458e 
de 11 de julho de 1459 (3), o tratado de com- 
mercio dè3 de novembro de 1460 (4), e as ins- 
trucções do 1 " e 28 de fevereiro do anho se- 
guinte de ^70 (5), e finalmente a embaixada 
inandada a Portugal pelo Duque de Bretanha 
em 1 476 (6), e o curioso documento do mesmo 
anno concernente ás íregòas entre os dous 
páizes e ás reclamações das tomadias (7). 
Ao pa^so que nos conservámos em paz com 



(1) ride Docum., p. 90^ 93. 

(2) ride p. 96. . 

(3) ride p. 97. 

Í4) ri<í«ibid.,p. 101el02, 

(5) ride p. iZO e IZU 

(6) ndeibiá^ 

(7) ridcibêdi 



— XXXV — 

a Borgonha è còm a Bretanha, tratava a caza 
real de França de estreitar com a de Portugal 
os vínculos de íkmilia, ^ue entre ellas 8ub«b- 
tião, tratando de negociar o casamento do 
Delphin com D. Leonor, irmã de D. Afibnso Y» 
a qual veio depoi» a cazar-se em 1456 com 
Frederico, Rei dos Romanos (1 )• O facto accon- 
tecido com Martim Mendes de Berredò, nosso 
E mbaixador (2), prova o pouco qoe se observa- 
vSo em Franca no século xvaslmínunidades, è 
privil^íos devidos ás pessoas revestidas d'este 
caracter, mas nSo attenua de modo algum a 
preponderância que nesse século e mesmo em 
grande parte do seguinte gozava o nosso Por- 
tugal ; pois é constante, como passamos apro- 
var com documentos, que em todo esse tempo 
nSo se celebrou tratado algum na Europa eoí 
que elle não íbsse comprehendidd : sirvSo de 
exemplo o da confederação de Valença de 
1459 (3) entre EIRei de França, e d' Aragão 
em que interveio o Senhor D. Afibnso Y; o de 
3 de março de 1462 entre Luiz XI e EIRei d'A- 
ragão (4) ; as ratificações das allianças entre os 

(1) rideip.HT. 

(2) ride p. 95. ^ 

(3) nde p. 96. 



mencioDados Soberanos de 3 de Maio do dito 
aiino (1); as tregoas entre o dito Luiz XI e El- 
Rei de Inglaterra de 28 de junfio do dito an- 
no(2); as do l°de novembro de 1471 cnlreos 
Duques de Borgonha e de Bretanha e ElRei de 
Sicília (3) ; as que se celebrarão entre ElRei de 
França e o Duque de Eorgonha em 1 472 (4) era 
queCastelIa foi coinprehcndida como alliada da 
Franca, e Portugal como alliado do Duque de 
Bretanha; o tratado de paz de 9 d'agosto de 
1473 entre o mesmo Duque e ElRei d' Ara- 
gão (5); o tratado de Tregoas mercantis de 13 
de septembro de 1475 entre ElRei de França 
LuizXIeoDuque de Borgonha (6), ea negocia- 
ção intentada por Maximiliano Duque de Áus- 
tria por via de seus Embaixadores, tendente á 
conclusão d'uma tregoa cpm Luiz XI, sendo 
um dos artigos das instrucções dadas aos 
ditos Embaixadores em 12d'agosto de 1480 
houvessem de fazer compreliendcr na dita 



(!) ride ibid. 
(3) fiãc p. 105 e 
(ÍJ rtJep. 110. 

(s) ndcp. 111. 
((i) yidcp.i2s. 



•— XXXVTI — 

tr^oa com sen. alliado ElRei de Portugal (1)« 
Se os documentos que acabamos de citar saò 
de máxima importância para nossa jbistoria po- 
litica e diplomática^ os que passamos a apontar 
da^ reinado do mesmo Senhor D. Aífonso V 
respeito ás negociações que teve com a França 
acerca das pretenções que tinha á coroa dos 
reinos de Cástella e Leão, e á sua vinda, estada 
em França e relações que tivera com Luiz XI , 
nao sao a nosso ver menos ponderáveis, nem 
menos dignas de interesse. 

Para pormos em toda luz este período his- 
tórico que os nossos chronistas e historiadores 
nos deixarão escuro , incompleto , sem nexo e 
na maior confusão, tratámos, conformando-nos 
com o plano de nossa obra, de ligar as rela-* 
coes históricas de Ruy de Pina com as de Phi-^ 
lippede Comines e de João de Troyes, autores 
.contemporâneos que presenciarão alguns doa 
factos, e particularidades que se relatão, e de 
prender estas com o que nos dizem os precio-« 
SOS documentos inéditos, tirados tanto do Real 
Archivo, como da vastíssima collecção de ma— 
nuscriptos da bibliotheca real de Pariz. 
Da união e harmonia d'estes diversos doca* 

(1) rtit p. 156. 

m. '*' » 



— XXXYIII — 

mentos se manifesta o quanto o Senhor Hei 
D. Affonso V desejava conservar-se em pac e 
boa intelljMncia com Luiz XI; a carta que d'BI^ 
vas lhe eséreveo em 23 d'abril de 1464(4) à-> 
cerca dos acontecimentos da Catalunha nos df« 
ferece uma prova concludente do que acaba-« 
mos de mencionar; nem deve merecer-nos 
menos interesse as representações do Marques 
de Vilhena a Luiz XI de 1471^ para persuadir- 
lhe a sustentar ElReide Portugal em suaspre^ 
tenções (2), documento que nos dá a conhecer 
por uma parte qual era o estado das forças mi- 
litares castelhanas de que EIRei D. Âífonso Y 
podia dispor, para sustentar seus direitos, as 
quaes unidas ás portuguezas faziao um total de 
trinta e dous mil homens, e por outra quaes 
erão os Grandes e Senhores principaes de Cas- 
tella que sustentavao a causa d'ElRei de Portu- 
gal, e como elles entendião que para o bom 
êxito d'aquella empresa era indispensável que 
ganhassem a boa vontade d'ETRei de França e 
o tivessem por si, como consta da declaração 
a^licita de Marquez « que tanto EIRei de Por^ 
tugal como os que ali iSo nomeados estariSo 



, f 1) Fide p. 99. 
(2) Fidc p. 107 e 108. 



éiâíipasiçao d^ElRei de França e seguiriaoseioís 
ttmidhos, » donde se infere que os partida- 

;ríos do Senhor D. Affonso V estavão bem in- 

* • 

lièiridas de que o maior obstáculo que encon- 
inriãk) para ganhar a amizade e auxilio da 

é 

frança^ e a objecçSaquepor parte d'esta se lhes 
'podia fazer era a alliança que subsistia eiitré 
-éS Réis, e reinos de Inglaterra e Portugal : ò 
tfkt tódáfiá na opinião do Marquez nSo devia 
ienrir dé estorvo : E com eífeito assim ao de- 
ffMria* manifestou o successo^ sendo esta uma das 
príneipnés razões que moverão Luiz XI a se- 
guir á politica que observou posteriormente, 
segundo fH>-^lo mostrao as instrucç5es que 
deo a^Olivier Le Roux em 1475 quando o 
mandoàiiíPertugal^de que em seu tempo tra* 
tarenMÈ 

Quanto mais vamos reflectindo na matéria 
dos sum m ÍM dos documentos que d'esse 
tempo desbóbrimos, tanto mais lios vamos 
convencendo do empenho què'ElRei D. Afibn- 
So'V punha em conservar-se em paz e boa in- 
tèlligeneia com a Finança para o bom successo 
4e âuás«j[)TCíenç5es á córôa de Castella. Aãsim 
no-lo patenteão as cartas d'este monarca para 
ElRei de França de 1 3 de janeiro de 1 475 e de 



— xt — 

30 do dito mez e anno (1). Observasse porém 
que na primeira d'estas cartas expressava ElRei 
em termos enérgicos e cheios de dignidade, 
a resoluç&o em que estava no concernente ás 
suas pretenções, mas que na segunda parece 
insistir mais nos direitos que assistiao á Prin* 
ceza D. Joanna, e como querendo conciliar-se 
a boa vontade de Luiz XI, pondera-Ihe que su«> 
bindo elle D. Afibnso ao trono ficava a França 
assegurada contra seus inimigos e contra as 
interprezas d'£lRei d'Aragão; accrescen- 
tándo que se o contrario acontecesse, e EURei 
d' Aragão viesse a entronizar-se em Gastella, 
terião ambos elles por vizinho um- inimigo for- 
midável ; por cujos motivos lhe rogava hou- 
vesse de proteger a causa da Rainha sua sobri- 
nha. Se nas circumstancias que relatQPfts era 
bem entendida a politica do nosso monarca 
nao é menos para admirar a habilidade, còm 
^êÊÚ ' ^^ s^ houve o 4e França em tao difficil nego- 
cio, de que temos sobejas provas nos summa- 
rios que fizemos de diversos documentos 
bibliotheca real de Fariz, e especialmen 
resposta que Luiz XI mandou dár por via 



./ * 




^ (1) fiWep. 112eI13. 



.«^ 



f -. 



— XLI — 



seu Embaixador ao nosso D. Affonso em Abril 
de 1475 (1) participando-lhe como havia en- 
commendado ao enviado que mandara a B-pma 
de ajudar ao de Portugal em todas as prèten? 
coes de que fosse encarregado; assim que^ nâo 
se pode duvidar que a intenção d'EIRei de 
França era de contemporizar com ElRei de 
Portugal^ sobretudo em quanto durava a 
guerra que éntao lavrava entre elle e o celebre 
Carlos o Temerário, Duque de Borgonha, e as 
desavenças, em que andava com ElRei d'Iugla«- 
terra, por isiso que entendia não tinha o par- 
tido da Princeza D. Joanna bastantes forcas 

9 

para definitivamente triumphardo poder de 
Fernando d' Aragão. As preciosas instrucçoes 
dadas por este, hábil monarca a 011 vier Le 
Roux em 4475(2) nos revelao qual foi a sua 
politica em tão delicada negociação, e nos for- 
necem ao mesmo tempo a série mai.'i completa 
de elementos para a composição d'esrte curiosis* 
simo período da nossa histafli poUtica. 

^tre varias particularidadea. de grandis-*- 
aimo interesse que as ditas inst joieçoes encer- 
rSo é de summa importância^^ por nos dar á 



(t) FidepAlS. 

(2) rtdê ^. as. 



— XLU — ' 

chave da politica de Luiz XI naquellás ocítír- 
rencias , a em que o dito moíiardei poil- 
dera que, obrígando-se ElRei D. Aflbnso nas 
Àrtas , de que já fizemos menção a assentar ai- 
liança com França, para que elle Luiz XI ti- 
vesse nisso confiança, deveria ElRei de Portu- 
gal reflectir que tendo alliança com os Ingle-' 
zes, antigos inimigos da França, sei^ia* mister 
que declarasse o como a entendia fazer cóm a^ 
França, eneommendando alem disto ao seu^ 
enviado dissesse a ElRei de Portugal que o ' 
que lhe parecia bem era o serem as alliaíiç^^ 
entre os reinos de Franca e de Gastella em tudo 
semelhantes ás que os Reis seus predécesso-* 
pes havião tido com Gastei la, a saber contra 
todo%em geral e sem excep<^o, sendo amigos 
e Inimigos de qoiiquer dás partes os qúe o 
fossem da outras 

No art. yi cks 'Sobreditas instruccões ainda 
se DMnifesta' maia: claramente a política da 
França, e ^eu ifilxMme em conservar toda a sua 
influencia na monarcfaia castelhana; nem 
LuizXI o dissimula, pek> contrario ordena aò" 
seu Embaixador declare a EIRm d^ Portugal' 
« que os reinos de granida eda Castolla ocnd o 
contíguos, tinha elle Rei de Françappors^e^por 



^ 



XiilII 



seus vassallos grandíssimo interesse que O' 
reino de Castella tivesse por Senhor um Prín- 
cipe que desejasse manter e conservar as antl^ 
gas confederações e allianças^ e que nSo seria* 
razoável que elle ajudasse a empossar-se do 
dito reino um Principe, que ficasse sendo seu 
inimigo^ antes pelo contrario o que fosse e qui- 
zesse ser seu amigo e alliado. Nos art: Vil c ' 
VIII vê-se que Luiz XI nãooccultáraaElRei dfe 
Portugal as proposições que lhe erão feitas por 
parte d'ElRei d' Aragão. O art. IX nos revela 
um facto importantíssimo^ e concebido nas so^ 
breditas instruccões nos termos da mais cor- 
dial amizade^ e vem a ser , que ElRei dé França 
em subindo ao trono havia convidado o Senhor 
D. AíFonso V a tratar com elle confederacSo e 
alliança^ recebendo-opor seuirmãú'emarmús}' 
como lhe tinha feito saber por VascO de Souza^ 
e para se achar mais livre pam contrahir a 
dita confraternidade em armas nSo* a fizera 
com o defijncto Rei de Castella; o ^e iflío ti- 
vera então lugar pelas difficuldadès que fizera 
ElRei de Portugal^ por ser alliado de ]ngla<# ^ ' 
terra. 

Sem embargo d'e8taa objecções e receios/ qué" 
não deixão de parecer justificados, vemo^cftie* ^ 



— XLIV — * 

Luiz XI tornem a propor a renovação das al- 
líanças de Castella, quaes havião sido no 
tempo de seus predecessores, isto é, contra to- 
dos em geral e sem excepção ; mandando El- 
Rei de Portugal uma pessoa com poderes suffi- 
cientes para ajustál-as na certeza de que elle 
Luiz XI folgaria de entender naquelle particu- 
lar de modo que ElRei de Portugal fosse con- 
tente. 

Das mesmas instrucções se colhe, que Luiz XI 
antevia a repugnância, que teria o nosso mo- 
narca a firmar uma allianca, concebida nos 
termos das antigas de Castella, que de necessi- 
dade o desligava da de Inglaterra, e presentia 
que tomaria o alvitre de propor-lhe que , to- 
cando o reino de Portugal a seu filho, ficava ao 
arbítrio d'e&te o conservar a allianca com In- 
glaterra, por isso ordena a seu Embaixador 
que, a ser-lhe feita semelhante proposta por 
parte d'ElRei de Portugal, lhe responda seria 
cousa estranha o terem o pai e o filho^llianças 
inteiramente contrarias porque em tal caso 
seria mister que fossem inimigos; por tanto 
quç era indispensável ficasse o reino de Portu^ 
gal comprehencUdo na allianca entre Gastella e 
França. 






r 



i* * 



— XLV — 

m 

ISâo deixou porem Luiz XI, sem embargo da 
eventualidade d'uma repulsa da parte de Por- 
tugal , de manifestar a resolução em que es- 
tava de coadjuvar a ElRei D. AfiFonso V, fun- 
damentando a sua promessa na conveniência 
que havia em todo o caso de manter entre os .■ 
reinos de Portugal, e França as antigas rela- 
ções d^amizade. 

Parece também que da sua parte o nosso 
monarca se .prestou d'um certo modo ás vis- 
tas politicas da França, pois em 3 de Junho do 
mesmo anno de 1475 mandou a Luiz XI D. Ál- 
varo de Ataide com o caracter de Embaixador, 
acompanhado de João d'Elvas para negocia- 
rem o seu reconhecimento como Rei de Cas- 
tella , 6 a renovação dos antigos tratados que 
existião entre as coroas de França e de Castel- 
]a(1), munindo os sobreditos Embaixadores 
de poderes amplissimos, como se mqstra por 
outro documento da mesma data (2). 

Forão bem succedidos, segundo parece, os 
negociadores, pois conseguirão que se ceie- ' 
brásse o tratado de lisa offensiva entre ElRei 
D. Affonso V, e Luiz XI Rei de Franca contra 

(2) ride p. 121. ^f 



.j\^ 



■* 



%2 






— »Ln — 

ElRei Sl^ Côroandb d^AnagSoao» 9 dfe'9ep- 
tembro^do dito anuo (1) peloquala França se 
obrigou a ajudar á ElRei de Portugal na con« 
qjiisla dos reinos de Gastella e de LeSo^ e que 
em 23 de Septembro-do mesmo anno de 1^75^ 
se effeituásse a conlirmacSo e renovação* dos« 
antigos tratados de pa^ e amii^de entre os 
reinos de Gastella e Leão e de França pot* 
Luiz XI d'uma paii^e^ e J)íílfíétkso\ de Portu- 
gal por outra na qualidade de Rei de Gastei^ 
la (2), e.que finalmente o monarca francês 
para cumprir eom o estipulado no tratado dé 
8 deSeptembnOy em 24 de 'Dezembro seguinte 
expedio uma Carta Patente concernente âos. 
soccòrros que da^ por mar e por terra a 
ElRei de Portugali 

A pezar do bom e^tito diBt n^ociaçSo de que 
acabamos^ de &llar a Senhor Rd D, Âfifon* 
sa V parece que desoonfiárit da França e re- 
ceava que o seu monartôi iiSo^levásse avantie o 
qi^ çonlpatára^. e pop eonsi^iiif o resultkdò 
effectivo das estipulaç&i^ dbs fretados dis 8 e 
23 deSeptemfarodel^TS^ véndò que se aug- 
mi^atavao^ prcAabilidades (ft^tl^ifimfó d'£lRei 

< 

i2\ ride p. Í2Q. 
(2) ride p. 127. 



•■■4> Ai- 



— xwu 

d'Âragão^ determinou de passar á Jk^etot^ e de 
tratar em pessoa com Luiz XI. 

A collecçao de documentos^ e noticias que 
damos concernentes á partida d'este monarca, 
e á sua estada em França no seguinte anno de 
1 476> das conferendas que com Luiz XI teve 
em Tours do recebimento que este lhe ftfz, tra-^ 
tando-o como Rm^^ dè Oasteila, e por tal re-^ 
conbecendo-O; derair entrada< publica em Fà- 
riz, das negociações que teve com o Duque de 
Borgonha» das eii!trevistasd'elle e de Luiz XI em 
Arra% e a final de seipregresso a Portugal, to« 
das estás diversas particularidades que apre- 
sentamos reunidas, como em um quadro, nesta 
parte da nossa obra é de grandíssima impor- 
tância para a historia politica e diplomática 
d'aque]]a época. 

Que a boa harmonia, que entre ElRei Luiz ]í^ 
e o Senhor D. Affonso V reinava, nunca' soP 
freo alteração, nem, na occasiSo dà sua partida 
de França, nem dqpois' da sua chegada a \à^ 
boa, provao-no da maneira a mais evidfente os 
documento» de que vamos íkzer mençSo. fr 
o primeiro^ a oarta, que este monarca eãct^evéo 
ao deFrança> deHonfléur (4).ao923 deSepiem^ 



■Ufi 



(1) Viáic p. 146. 



* 






— XLVIII *— 

bro do anno de 1 476 j o segundo as preciosas 
instrucções que deo ao Embaixador, que nos 
fins do anno seguinte mandou a França a 
Luiz XI (1 ). No contexto da sobredita carta^ 
como no das instrucções, nao se encontra um 
só termo, uma só phrase, que dè indicios de 
despeito ou de frialdade da parte do mesmo 
monarca para oom o de França, por isso que 
via malogrados os seus projectos ; pelo contra- 
rio a primeira respira uma doce resignação, e 
a segunda uma cordial amizade , o que des-* 
troe completamente as conjecturas de alguns 
historiadores que affirmárão voltara EIRei D. 
A0bnso y ao reino descontente de Luiz XI por- 
que o illudira com promessas. Em tão boa cor- 
respondência estava o mesmo monarca com o 
de França, que por via de seu embaixador nos 
termos mais amigáveis lhe manda communi- 
car as interessantes particularidades occorri* 
das, por occasião de sua vinda, entre elle e o 
Principe seu filho, bem como o estado, em 
qué achara qs cousas de Castella, expressando- 
se%os termos seguintes : « Que esperava em 
« breve ver-se naquelle reino, e com ajuda 
« d'ElRei de França, seualliado, expulsar d'elle 



(1) ride p. 154. 



w 



XLK — 



<i seu commum inimigo, » E accrescenta « que 
« continuaria a dar-Ihe parte do que foAse oc- 
« correndo , pedindo-Ihe que "o ajudasse^ se^ 
« gundo a palavra que lhe dera, nao entrando 
« por modo algum em concerto com EIRei de 
« Sicilia ; o que nas circumstancias era que es- 
« tavao seria dar-lhe manifestamente aj uda ; 
« que bem sabia qual fosse o modo de pensar 
« d'ÈlRei de França e a inimizade que tinha 
(c com EIRei de Sicilia (1). d 

Tinhao porém as circumstancias mudado 
d'uma maneira considerável^ e durante a au- 
sência d'£lRei D. Âffonso o partido d'ElRei 
d'AragSo havia medrado em forças^ ao passo 
que pelo contrario o do monarca portuguez 
já anteriormente enfraquecido com a perda da 
batalha de Touro (2), a que se seguio a capitu* 
laçao da villa de Castro (3) Nuno, se achava 
quasi de todo extincto, e Luiz XI antevendo, 
que EIRei D. Âffonso^ para se defender do po- .^ 

deroso inimigo que tinha por vizinho, devia de - V§ 

necessidade estribar-se na alliança de Ingla- 
terra, determinou de concluir em S. João da 



(1) P^ide Docnm. de p. 151 a 154. 

(3) nde T. I d'ette Quadro Elementar, leo^ XV, p. 378. 
(8) Jbid. 



^x. 



<liiiz ac6 9 de outubro de 1478 um tratado dfe 
.paz e«d'alliaiiça com D. Fernando e D. Izabel 
.na qualidade de Rei e Rainha de Castella^ em 
que foi declarado, que por quanto os Embaixa- 
dores d'£lRei de França havião em seu nome, 
e por seu mandado promettido , que ElRei seu 
amo revc^ria eannullaria quaesquer confeiie- 
rações e ligitô que houvesse feito « de qualquer 
« natureza que fossem, com ElRei D. AfFonsò 
i< que ha pouco se intitulava Rei de Castella, e 
a com seu primogénito, bem como com a Pi^in- 
ii ceza D. Joanna, assérta Rainha de Gastella^ 
« obrigando-se os ditos Rei e Rainha de Castella 
«em reciprocidade a cassar e annullar, e dar 
u por desfeitas as allianças que entre elles e o 
ir J)uque d'Austria subsistiao : » tratado que foi 
Mtifícado pelos mencionados soberanos em 1 
de janeiro de 1479, como se vê do documento 
que em seu lugar publicamos (1). 

Perdidas de todo as esperanças que ElRei 
D« Affonso tinha acerca de suas prctenções á 
Coroa de Castella, seguirão-se as transacções, 
que dêmos na Secção XV, Tom. 1 % d'esta obra, 
celebrando-^se a ISn^l o celebre Tratado d'Al- 
caçova, de Septembro do dito anno de 1 479 (2). 

(i) ndt p. 155. 

(2) ride T. I d'efte Quadro Elementar, de p. 379 a 384. 






« — 

Táes forSot» rekeSes pòlhiieas e dijiloiimti^ 
tas, que com a Franca ti vemos no reinado dt 
B. Afibttso y. No do Senhor D. JòSolI que se 
Jbe «eguio, dos documentos que passamos a 
apontar se mostra que a boa íntelligencia e 
amizade setconservou emailteye entre Portu- 
gal e a França^ de que s8o provas a negociaçSò 
em que entrarão EtRei D. JoSo II e EIRei de 
Navarrapara ocasamentoda Princeza D. Joan-^ 
na, irmã d'£lRei por interven^o de Luiz XI ^ 
rei de França (1), e a particularidade referida 
peloeelèbrePhilippe de Comines, a saber, que 
o«dito Rei Luiz XI nos últimos tempos de sua 
contava em o numera de seus alliados El- 

i D. JcAo II, de Portugal (2). 



Morto Luiz 1BI , Carlos YIII que lhe sucoe*» > ' / 
deo no trono e Coroa de Franca em 80 d'A- ^ 
gosto de t483, logo em 23 de Abril do annò se- 
guinte convocou o seu conselho para sé resol- 
verem nelle as providencias qpie se devião dar 
ás justas queixas do Embaixador de Portugal , 
das quaes era constante que muitos dos vassal- 
los de^Franea , feitos {Siratas, faziSo guerra a 
quantoimo- mar encontrando, e dli foi decidido 



(1) rW« p. 157. 

(2) Ibid. 



— Lll — 

que podendo-se de táes procedimentos seguir- 
se gravíssimos inconvenientes para a própria 
França como para os alliados d'ella, se deter-^ 
minava ElRei Carlos VIII : 1 "^ a passar Cartas 
Patentes a todos os Almirantes e outras Âuto« 
ridades e Justiças dos portos de mar^ orde- 
nando-lhes que d'ali em diante não consentis- 
sem que nenhum Mestre ou CapitSo de navio 
saísse dos ditos portos sem haver primeiro 
prestado fiança idónea, e obrigado-se a nSo fa- 
zer damno aos navios dos alliados de França ; 
2° que se enviaria um Rei d' Armas a ElRei de 
Portugal com cartas d'ElRei de França, dando- 
lhe parte das providencias que dera a fim que 
em Portugal se mandassem passar iguaes Car- 
tas Patentes para segurança dos vassalios da 
Coroa de França. 

Por este interessante documento se vê que o 
nosso Embaixador havia apresentado vários 
capitulos, queixando-se de algumas depreda-^ 
çdes e tomadias, e que o Governo francez de- 
sejoso por uma parte de se conservar em boa 
intelligencia com Portugal , e por outra de re- 
gular as relações commerciaes wtre ambos os 
paizes^ assentara naquell^i^esmo conselho^ 
seria franca e livre a communicaçSò e permu* 



— • LIII -^ 

taçSo dos géneros e fazendas entre os vassal- 
los das duas coroas , por isso que por^É||fuelle 
meio ver-se-hia Portugal empenhado "em não 
igudar os Inglezes contra os Francezes (1). 

Em consequência d'esta resolução mandou 
Carlos VIII em 6 de Septembro do mesmo 
anno passar uma Carta Patente^ renovando as 
allianças e amizades que entre as duas Coroas 
d'antigos tempos existião, e de que tanto pro- 
veito tinhão tirado os vassallos de ambas^ na 
qual se declarou que os súbditos Portuguezes e 
Francezes podessem livremente commerciar, e 
residir nos dominiosd'umaed'outracorôa(2), 
e na mesma data expedio outra Carta Patente 
ás Justiças e Officiaes de seu reino a fim de pôr 
termo á pirataria de que os Soberanos Estran- 
geiros com razão se queixavão, e em especial 
ElRei de Portugal (3). Tanto era o empenho 
que punha a França em cultivar a boa ami-* 
zade^ 6 correspondência com Portugal que nâo 



(1) Biblioth. Real de Pariz , casa dos M8s«, Cod. 296, com o 
titulo : RegUtrt du Conteil dÈiai du Roi Charles rJII, foi. SS 
a 85 (fonds de Brieime). 

Esto dociímeiíto tondo sido por nóê descoberto depois de 
impresso o texto d^e Tomo , dálíK>4Mmo6 no Sapplemento, 

(2) f^iVfe Sopplemento. 
(9) rid€ ftíiL 

lOi 4 



H 



— uv — 

contente com as providencias que acabamos 
de mencionar, ElRei Carlos VIU no mesmo 
dia de 6 de Septembro de 1484, ouvido o seu 
Conselho d'Estado , deo commissSo a quatro 
membros d'elle para fazerem comparecer* pe- 
rante elles Messieurs de Saint-Germain e du 
Ru para que houvessem de responder sobre as 
presas por elles feitas em navios e mercadorias 
portuguezas , de que o Embaixador d'ElRei 
D. João II havia pedido satisfação, e orde- 
nou também que o Rei d'Ârmas, appellidado 
Lionnez, iria a Portugal em companhia do nosso 
Embaixador com carta d'ElRei de França para 
ElRei de Portugal acerca da renovação dos 
Tratados e Amizades (1 ), tendo o dito Rei de 
França nesta mesma data por Cartas Patentes 
mostrado os termoB em que estava com ElRei 
D. Joaò II, e significado-lhes que em virtude 
dos ajustes que entre as duas coroas erão feitos, 
poderião os vassallos de ambas frequentar^ e 
commerciar livremente nos portos e domínios 
d'iim«, e d'outra. E no dia seguinte 7 de Se- 
tembro dõ referido ániio de 1 484 escrevendo o 
Monarca francez ao iiosso por via do Embaixa-- 
dor Fernão Alvares em resposta á que EIRfd^ -/"^ 






(1) r/ <f# eito Docomtnto no Supplem. 



t •« 



*^4 






— liV — 

D.^ JoSto II lhe havia endereçado peTo dito Em- 
baixador (1) sobre a negociação acima relata- 
da^ acGompanha a dita carta com as eopias das 
que havia mandado passar e de que já fizemos 
menção , sendo o resultado d'esta5 transacções 
o €oneluir-se o Tratado de Monte-Mór de 7 de 
Janeiro do anno seguinte de 1485 (2). 

' D'astas relações de amizade e boa correspoti. 
dencia $ que no reinado do Senhor D. João II 
subsistia entre os reinos dePortugal e deFrança^ 
dá--nos uma nova prova a particularidade sin- 
gular de ter o Imperador Maximiliano em 
4 480 solicitado d'£lRei D. João U a sua media- 
ção para que se concluisse a paz entre elle e 
ElRei de França (3). Este estado de paz e boa 
harmonia enfare os dous Estados continuou 
quasi sem alteração no restante d'este reinado^ 
como se manifesta pelas InstrucçSe^ que o Mcr* 
naon portuguesa deo a D» Pedro da Silva na 
CKWi^io em que o mandava a Roma com o cd- 
«icter de Embaixador para comprimentar o 
Papa Alexandre Y por sua elevação ao trono 
pontifieio, ordenando-lhe fosse visitar da sua 



■•^■ 



(i) Não podemos deparar com esta carta nem nos Archivos, 
fiem nos Manuscriptos de Pariz. 
(2} ride Docum., p. 158. 
(a) ride p. 160. 



— LVl — 

parte a ElRei Carlos VIII ^ e em seu nome Hie 
offerecesse todas as suas forças para o que lhe 
fosse mister^ por ventura com o presuppoHo 
que com semelhante oíferecimento daria qiie 
cuidar ao Gabinete Castelhano ^ fazendo-lhe 
crer era realmente sua intenção ajudar a ElRei 
de França nas guerras d'italia (1). ElRei de 
Prança também da sua parte nao perdia occa- 
sião de estreitar cada vez mais os vinculos d*al- 
liança que o ligavão com Portugal; de que so- 
bejas provas nos ofiFerece o Tratado de 3 de 
Novembro de 1491 (2), celebrado entre o^men- 
cionado Monarca e ElRei de Inglaterra, em o 
qual foi Portugal comprehendido como alliado 
da Franca. 

As negociações^ tratados^ e mais actos políti- 
cos e diplomáticos que se passarão no seguinte 
reinado d' El Rei D. Manoel não sao menos pon- 
deraveis, nem de menor interesse e impor- 
tância f pois por uma parte nos mostrão a pope- 
vidente politica do Gabinete .portuguez em 
continuar a manter a boa harihonia e paz com 
a França , e ao mesmo tempo com sua antiga 
rival a Inglaterra apezar das difficuldades que 



(1) ride p. 162 e 163. 
(?) f^íVitfp. 163. 






a isso se oppunhSo^ e por outra em nSo deixtf 
de intervir e ser representado , como nos pre-*- 
cedentes reinados^ em todas as grandes trai|9ac- 
coes naquelles tempos occorridas. 

Táessao os factos demostrados pelo teor dos 
plenos poderes do Senhor Rei D. Manoel de 10 
Maio de 1498 para a celebração do Tratado de 
Marcoussis (1)^ e pela participação que em 44 
de Janeiro de 1510 lhe mandou fazer D. Fer- 
nando o Gatholico de o ter feito comprehender 
na concórdia e Tratado de paz que havia con- 
cluido com o Imperador por- intervenção d'El- 
Rei de França (2). Em tao boa intelligencia 
estava ElRei D. Manoel com este Monarca > 
e tanto estudo punha em seguir invariavel- 
mente o systema d'uma politica pacifica que 
em o já citado anno de 1498 se recusou de 
annuir ás instancias, que lhe forSo feitas por 
parte d'EIRei Gatiiolico, para entrar com elle 
na ligia . contra Luiz XII ^ Rei de França (3), 
oouteotando-se com prometter-lhe de o ajudar 
se por ventura ElRei de França viesse fazer- 
Ihe guerra dentro dos reinos de Castella, sendo 



(í) ndep. 166. 



. ' l 



^ I* 



(I) ndêj^m. . í . -»- 



eita politica igualnenie firme e moderada 
d'e8l;e Mpnarea^ que f&z que no mesmo atino 
de 4é98 em õ d' Agosto ae eel^rÀsee o Tratado 
de Confederação e d'AUiança entre EIftei 
D. Fernando e Luiz XQ Rei de França^ Tratado 
em que ElRei D. Manoel foi comprehiendidb 
ooBJunctameote eom a Rainha , sua mulher, 
como herdeiros dos reinos de Gastella e d' Ara- 
gão (1). 

Durava a boa harmonia entre as Goréasde Por- 
tiigol e d^França^uandoalguai oorsariesd'eeCa 

ultima nação oomeeárao a atacar algunsdos nosh 
^s navios que voltavSo de nossas ecmqaistascar* 
rjegadoade riquezas, attrahidos pelos grandisaí- 
ma4 prm^eitos que d'aqucllas (omadías colhiSo. 
Asúfm que , vo-se no âano de i 506 um cele- 
bre CfOrsario frMieez roufomr nos mares doe 
A^w yin aavie da índia, mas ao mesmo 
feaoipo a^ nos moatafm quaoÉa eefi a prudência 
e firmew do Gabinete portuguez. Primeiro 
Pf^eorr^o i justiça que ás armae 9 mas quaiido 
vio aem efieito quantaa reelamacSes mamtoti 
Uaitfpjm Corte áa França, nlio duvidou tk^ar 
por ^as maQ$ satisfação do insulto^ ordenando 
ao famoso Duarte Pacheco Pèreir^ flo^f^ M^i^ 



(1) rid€^.Í72. . ,x :/:/ 




gar o corsário , o quQ Duarte Pacheco poe em 
eíTeito^ (razendoo prisooeiro a Lisiioa eoni 
Ires dos seus narim em o seguinte anno de 
1 509 (i ). Mandou EIRelD. Mttioel com género* 
zidade rara por cm liberdade oCommendant^ 
depois d'estie se ter obrigado a nSó peléfjar 
luais com os Portuguezes. 

Damião de Góes que nos conservou a me-^ 
nioria doeste facto, omittio entretanto quanto 
SC passara em França acerca d'ellè nesse mes* 
mo anno, Suppríremos o silencio e descuido 
doesse historiador, publicando um curioso do- 
cumento diplomático tirado da Torre do Tom-* 
boy e é este a carta do Agente portuguez em 
Fran^jt Pedro Collaco, escrita de Nantes aEl- 
Rei D. Manoel em 11 de Dezembro do dito aiino 
de 1500, na qual; entre outras particularidades 
curiosas que se observSo, é de grande impor* 
ttncia paiu a historia de nossas relae5és com a 
França, e mesmo com â Escpssia nessa ^poca, a 
que refere o dito Pedro Gollaço de ter assegu- 
rado aos Bretões em nome d'Elftel^.que pelo 
motivo da tomadia se ihes ntto féria md algum 
em Portugal e seus dominios^ e que pelo con* 
trario seriSo d'ali em diante bem recebidos (2). 



iV># 



(1) ridep. 172. 

(2) riiedep. 172tp. 175. 




Damos igualmente as importantes negociações 
de João da Silveira, Embaixador d'ElRei D.Ma- 
noel em França em 1510^ das quaes se vé que 
o Gabinete português desejava nesse tempo 
ligar-se com a França por uma nova alliança, 
a]|iança (1 ) em que esta potencia nao tinha me- 
nor interesse como se manifesta pelo que 
Luiz XII e a Rainha de Franca dissérão ão Em- 
baixador portuguez. Esta alliança parece toda- 
via nao ter sido levada a efiFeito, mui provável- 
mente porque a Corte de Portugal , desejando 
conservar a neutralidade^ como com efiFeito 
conservou, na guerra que se ateava então en- 
tre o Monarca francez e ElRei D. Fernando o 
GatholicOy difiTerio a conclusão da negociação ; 
porém sempre constante no systema de se con- 
servar em boa harmonia com a Franca vemos 
escusar^senovamente de aceitar o convite que 
lhe fizera ElRei Catholico em 21 deMaio<le 1 511 
de entrar na liga qiie com o Papa, o Imperador 
e os Suissos havia feito contra a França (2), e 
isto em virtude da alliança, que entre as duas 
coroas, havia, ao passo que pelo mesmo teor 



-(2) ride p. t77. 



— un — 

e nesse mesmo anno recusava annuir ao 
coDvite feito pelo Gabinete francez, respeito ao 
concilio que Luiz XII intentava convocar para 
depor o Papa JuIio II (1)^ adquirindo Portugal 
por tSo sabia politica tal autoridade nesse tem- 
po^ que o Papa Leão X em um Breve dirigido 
a EIRei D. Manoel em 16 de Dezembro 1513 
lhe dá os maiores elogios^ por isso que havia es- 
tranhado as discórdias e guerras em que an- 
da vSo os Principes da Europa^ e lhe pede haja 
de ajudál-o a restabelecer entre elles a paz^ 
mandando Embaixadores a ElKei de França 
para o mesmo effeito (2) ; e tao efficazes e tao 
bem conduzidas e tratadas forão por parte de 
Portugal as negociações para a pacificaçSo da 
Europa, que em 20 de abril de 1514 EIRei de 
Gastei la participa a EIRei D. Manoel que a final 
por sua intervenção acabava de concluir-se 
uma Tregoa entre elle Rei de Gastella^ o Impe- 
rador e EIRei de Inglaterra d'uma parte, e EI- 
Rei de França e de Escossia d'outra; tanto por 
terra, como por mar (3). A sabia politica do 
Gabinete portuguez para com a França no de- 



wrm 



(I) ruUp. I7S. 

(2) ride p, 1 79. 

(3) ruu íbid. 






* . 






curso ú'^ie i^eioisuiá ainda mais M SM p«íienté% 
depois <2iUB $ukÍQ AO Umm d'eila Ei&ei f ri»- 
ciscoL 

Com «ffeito vê- se que logo que aqneUe Bior . 
narca cQineç(Hi a reijpar fez iCÒBaprehender £L- ^ 
Rei D. Mauoel^ como s^ alliadoí no trata/ior 
de paze die mutua amizadie t[ue entre jelle e Hon? 
riqua VIII de Inglaterra ae celabrou aoa 5 de 
Abril de 1 $4 5 (1)^ e que tanto empeabo piiuka 

• 

£l&ei de Fraiiça ^m persuadir £lAei de Fortuur 
galã entrar na liga que com outt^os Frii^ipea 
havia fcito^que par» eaae Gm mandou a Popturr 
gal no ai^no seguinte de ^5i6 o Senhor die 
Langeac^ a ciyaiS pix>poata!S se negou ElRèí 
D. Manoel por ae nap desviar do syateiua in^ 
variaye} de. i^ieutralidade que conatan temente 
observá^^a^ d^^<aculpa<ido*8e com a neoeasidftdie 
qjbie tinha de emproar todas as suas forçaa 
coptra os ipimígos d» fé. (2); fazendo-se por 
aquelie meio a tol ponáo respeitar que ooaser 
guio que no troliado ite paz de Pioyon de 18 dt 
Seitembro do mesn»o âjino> oekhrado cstrt 
Frjin^iis^ 1 ^ IIqí d<a Fra»^ ^ Carloa l, A^ de 
Gastella^ ípsse çomprehendido no ají. JU , 



I - ' 

(i) ridcp. 181. 

(2) Fide^jp.m. > 



LXUI — 



♦?! 



como alliadp <e amigo de ambos os i^QÍxactaji« 
te$ (1). As correspondências oíBciáes que pu- 
blicamos pela primeira vez de Ruy Fernandes 
d'Almada.(2), de Pedro Corrêa d'Atouguia (3)^ 
dáS António de Azevedo Coutiaho^4)> e de João 
Brandão (5); Embaixadores d'£lRei D. Manoel^ ^ 
illustrao nao s6 o estado politico da Europa na*- 
qu^lk époça^ dando-nos o Qo das diversas ne* 
g^iaçoes então passadas, mas afaé servem para 
esclarecer muitos pontos históricos duvidosos 
e importantes, sobre os quaes nada dissérSo os 
ssos historiadores. Alem das correspondên- 
cias que acabamos de apontar damps as inte* 
ressantissimas insjtruiições d'ElRçi D. Manoel 
de 11 de Março de 161 7,. passadas a seu Elm- 
baixador Pedro Corrêa (6) acerca das negocia^ 
coes de Cambra;^^, pelas quaes se mostra que o 
nosso Gabinete estava perfeitamente informado 
nao só do estado das cousas politicas, ís dos in-*^ 
teresses das diversas potencias, mas atém^smo 
da politica particular de cada Gabinete, ella^ 











• 


••*'. 


(1) Tw/^p. 


184. 










(2) Kidt p. 


182. 






• • 


. 


<3) Kid^ f. 


Í8Sa 


ÍSS. 


. 


♦ • \ 


• 


l^indfp. 


m. 


• 


. 1 ■ ■ 






íy ride£, 


!9íft 


m,s 


m.. 


• 
4b . - ■ , 




(6) ride p. 


188. 






..■. . -•- (■>;• . 





— LXIV — 

nos põem em toda a sua luz a politica prudmite 
e bem entendida do nosso Gabinete a respeito 
da liga contra os Turcos, ligá concertada entre 
Francisco I, Rei de França, Henriqoft YHI^ 
Rei dlnglaterra, e o Papa LeSo X, e fioalmenfe* 
approvada e ratificada pelo Imperador Gáúr^^ 
los V,á queElRei D.Manoel áccedeo no art.X'^ 
do tratado de 27 d'Outubro de 1518, haYendo 
sido nelle Portugal còmprehendido por parte 
da Trança, e da Inglaterra como alliado de am- 
bas (1). 

O systema politico do nosso Gabinete obse 
vado no reinado d'ÉlRei D Manoel e conti- 
nuado no d'ElRei D. João IH deve ser conside- 
rado como uma obra prima de habilidade, 
por isso que soube manter-se em paz cora o 
Imperador Carlos Y e com Francisco l"* Rei de 
França > sem embargo das desavenças e atura- 
das guerras que entre si ti verão estes dous 
soberanos. Se bem considerarmos na posição 
de Portugal , por uma parte contiguo á Hes- 
panha, e por outra em razaõ de suas conquistas 
exposto sem cessar aos insultos dos coi^sarios e 
piratas francezes que infestavaõ suas costas , e 
interceptavao seu vasto commercio; se bem 




(í) ridep.m. 



^- ■ ■ • 



LXV 



reflectirmos em tao arriscada situação^ nao po- 
deremos deixar de confessar (pie é com summa 
justiça que caracterizamos a politica do nosso 
Gabinete por uma obra prima de habilidade^ 
e que nad é sem razaõ que estranhamos de 
ver nuè na^faum de nossos chronistas, e histo- 
riadores Ibe tenha dado o devido apreço> nem 
ponderado quão difficil ç melindrosa fosse a 
situação de Portugal em táes occurrencias , e 
que Damião de Góes que tinha ^peregri nado 
pela maior parte dos reinos daEuropa ^e havia 
ganhado as boas graças e amizade de Francisco I, 
que occupou empregos, politicos , e teve á sua 
disposição os documentos do Archivo , quç a 
final escreveo a chroixica do Grande Rei , (ie 
que Jtratamos , se nao lembrasse de fazer as 
reflexões que o estudo e leitura d'estes docu- 
mentos nos suggerirao. 

Ás difíiculdades , e exigências politicas , de 
que o Gabinete portuguez se vio ladeado^ em 
presença das contendas e guerras , ateadas 
entre aquelles dous poderosissimos riváes, nao 
podião ser maiores, pois vemos que o Impera- 
dor Carlos V na carta escrita a ElRei D. Manoel 
em data de 9 de Julho de 1521 (1)> dando-lhé 



'\.., . 



(1) f^(fep.l93«194, 



— »■ LXVl — 

parte da rmiíipf mento dftd áltisincM eom Ffitn- 
ca , e . da declaração de guerra por élFe feita 
áquella Potencia, exigia^ por via de seu Em- 
baixador na corte de Lisboa^ que Portugal 
houvesse de prestar aos seus Yixo^reia -em 
táes conjúncturas toda aquellâ asaiateneia qftfe 
era para esperar-se dos estreitos vínculos qtde 
entre elle Imperador e ElRei D^ Manoel existiSo, 
e que por outra parte^ o papa LeSo X também 
ao mesmo D. Manoel se queixava d'£IRei Fran- 
cisco I^-e exigia que á armada qve-PòrtUga) man- 
dara a Sabóia ^ por occasiSo do casaineinto <la 
Infanta com o Duque, se unisse á do Imperador 
Carlos V contra os Frãncezes. 

Não escapará ao leitor, que attentaménte ler 
este terceiro tomo da obra que eurprebende-* 
mos^ que as difficuldades politicas que se op- 
punbão á sabia politica do Gabinete português 
no reinado d'ElRei D. Manoel sobirSo sensi- 
velmente de ponto no d'ElRei D. João III que 
lhe succedeo. Os numerosos documentos e 
arestos que damos á luz pela mór parle ine» 
ditos, nos ofiTerecem frequentes e abundantes 
provas do que affirmamos, e dSo-nos a n»ais 
Sobeja demonstração da súmma habilidade de 



(1) ndef.m. 



— irxrn — 

nossos negociadores^ pm sotibériío alcanear 
nó meio de tantad e tão repetidas depredações 
maritimas feitas Já pelos vassállos de França 
contra os Portuguezes^ já por estes oontra 
aquelleSy que os dous reinos se conservassem 
por terra em paz e boa harmonia^ e que rece- 
bêssemos nao só Tárias indemniau^ções ^ roas 
até mesmo as satisfócdes mais explicitas^ dadas 
repetidas vezes por ElRei ^ Francisco I ^ en- 
Viando-se reciprocamente um e outro governo 
Embaixadores y residit^do estes em perma- 
nência nas respectivas Cortes § B estreitando 
além d'isto asr duas Casas reinantes os ai^igos 
vínculos de familia e parentesco que enti*e 

cilas existiaOi^ 

A serk de d(x:umentos que d'essa época col- 

l^mos f ftz-^nos ver que por causa da guerra 

que aturadamente se fazião ElRei Francisco I 

de França e Olmperador^ achava-seo már coa- 

lliada de corsários ; que os Francezes atacavão 

os navios hespanhoes ainda mesmo nas costas 

4e PcMTtugal (1) > mas também ella nos mostra 

ao mesmo tempo que neste reinado soube 

l^ortugal^ como.no precedente, fazer respeitar 

a sua neutralidade, mantendo constantemente 



mmmÊtÊiãÊmèmÊ^mÊtmm^tÊ 



(1) ride p. 195 e 196. 



— ixvm — 

umA Armada de guárda-costa / cujo commaii- 
dante^ quando a captura do navio castelhano 
parecia dtlvidosa^' por se não saber sê tinha sido 
feita no már territorial de Portugal ou fora 
d'elle9 a conduzia a Lisboa^ para os Tribunaes 
decidirem o que fosse de justi^^ e que ElRei 
de Portugal mandou sobreestar n^ partida para 
França de seu Embaixador João da Silveira 
por • haverem os Francezes ^ por occasiio d'um 
' facto da natureza dos que dissemos entravSo 
• ™.lç.d.doCpMoM4rdaara»d.,ueg»^./ 
dava as costas , mandado por èm sequestro as 
fazgadas portuguezas que se achavSo em Fran- ^i '*- 
ca. No meio d'çstas contendas , e represálias a 
Corte de Franca nao entendia , nem era sua . 
vontade romper com a de Portugal :^rasimtio-»v 
lo prova a vinda do Embaixador Honorato ds 
Gazes (1 ) em Janeiro de 1 522 , encarregado dte" 
ajustar o casamento da Princesa Carlota^ filtah^s- . 
de Francisco l com ElRei D. João III , e de oott> '-? 
firmar as pazes que entre as duas monarchias ,^ 
havia (2)^ as quaes forão com eflPeito immediiN 

' # tf 

(l)EncontrámoB*o nome doeste Embaixador escrito por 
differentes modos,' mas ein uof officio d'elle original que «e 
acha na Torre' do Tomix> remos ser a smnbtna a seguinte 
JVbfierflib Css«#. 
(2) rui* p. 198 « 202, 



— LXIX -r- 

tamente confirmadas^ renovadafs e juradas pe- 
^rante o dito Embaixador. 

Entretanto o graride apuro era que nesse 
tempo se achavaó em França as finanças por 
uma parte, e por outra os grandes proveitos, 
que ós almirantes doesse reino tiravão das pre- 
sas que se fazião no már, promoverão a con- 
tinuação d'esse estado anomal de depredaçdes, 
e guerra maritima em presença das maicTi^es 
protestações de amizade da parte da França , e 
das estipulações dos Tratados que estavão em 
vigor. 

A Corte de Portugal não se deixava todavia 
. iliudir com promessas, e os curiosos documen- 
tos, queácerca d'estc assumpto damos neste Vo- 
lume em o lugar que Hies compete, nos dão a 
conhecer <;om quanta firmeza e habilidade se 
houve o Gabinete d'EIRei D. João III em tão 
mehndrosas circunstancias. Sirvão de exemplo 
as Instruccões dadas a João da Silveira , man- 
dado a França com o caracter de Embaixador 
Doanno de 1522 para pedir a restituição das 
tomadias que os*Francezes nos tinhão feito , de 
accordo com Jacome Monteiro que já se achava 
naquelfe reino (1). Nêllas se lhe encommenda 

(1) nd9 Docum., p. W3 e 224, 



— LXX — 



que, caso o negocio das ditas tomadias estivesse 
em bom andamento , poderia elle apresentar- ^ 
se ante EIRei de França; mas que «e fosse 
certificado do máo êxito das reclamações do 
nossQ- Agente , diria a EIRei de França o quanto 
cumpria para a conservação da paz , que entre 
as duas coroas havia^ que se mandasse effectuar 
a restituição das ditas tomadias. 

Vê-se também num dos artigos d'e8ta8 Itis* 
trucções que^ alem das razões atraz ponderadas 
que motivavao as depredações que sem cessar 
reciprocamente se faziao os maritimos d'umá e 
d'outranaçâOy havia outra particular, e era a do 
aggravo. que Francisco I tinha d'ElRei D, 
Manoel por ter este assistido com dinheiro a 
Carlos V, pois no sobredito artigo se ordena ao 
já mencionado Embaixador, que se por ventura 
EIRei de França lhe objectasse o nSo ter sido o 
fallecido Rei de Portugal amigo da França pois 
havia assistido ao Imperador com dinheiro, 
elle Embaixador respondesse, queassim fasen* 
do, iiào punha EIRei de Portugnlo fito em «r 
contrario a EIRei de França ^ mas sim em fas^ 
o que cumpria á boa amizade que tinha com 
Casteíla. Insistia poisaCorte dePortugardoiiio- 
do mais explicito ; e em nome da conservação 



* 
1* 



— LXXI — ^ 

da amizade , que sempre entre as diias coroas 
houvera^ em que o Gabinete francez ordenasse 
que todos os Corsários que se armassem em 
seus portos fossem .obrigados ^ antes de sair 
d^eiles, a prestar fiança de que não fariao rou- 
bos, nem tomadias nos navios pertencentes 
aos súbditos portuguezes. 

Com tanta efficacia procedia a nossa Corte 
nesta negociação j que observamos nessa época 
o aresto diplomático de accreditar^e o mesmo 
ministro- para com as pessoas mais influentes' 
da Corte para onde era mandado : assim que, 
vemos o mesmo Embaixador levar Cartas de 
Crança para a Rainha de França e para o Bas« 
tardo de Sabóia (1 ) . 

Sem embargo das justas queixas, que a Corte 
de Fortii^^al tinha do procedimento de muitos 
dos súbditos francezes , guiada sempre peia 
invariável politica de manter a sua neutrali- 
dade, e conservar as antigas relaoões de ami- 
zade que a vinculavao com a Franca, negou-se 
ElReí D. J(^ III de entrar na Liga que contra 
aquella monarchia intentava fazer o Impera- 
dor (2), seguindo nisto o exemplo de seu Âu-*> 

(1) fTide igualmente a 2* instrucçào, p. 204. 

(2) riVep. 205. 



— - I.XXII — 

gustoPai, e com qimnto o Imperador para 
mover maisoaniruacl'EIRei D. JoSoIll tivesse 
mandado a PoMugal uma solenine Embaixada, 
de nada llie sérvio para seu intento, antes pelo 
contrariou Gabinete portuguez , fnzenllo á 
França e á_paz da Europa iim serviço assigna- 
lado, se lhe ofiercceo por medianeiro. 

Oii fosse por este serviço , ou lai vez por ter 
sido momentaneamente reconliceida a justiça 
de nossas reclamações, conseguio o Embaixa- 
dor pm'tuguez em Pariz em 23 (rAili-il d.'estc 
mesmo ailiio a restituição d'uma ikis presas , e 
o regular-se o negocio das demais , mostrando 
a Frnnea, jk» menos na ajipareucia, havião seus 
súbditos obrado contra as intenções do gover- 
na, mandando cnti'egar as fazendas tomadas, 
caso ae provasse pertencerem a súbditos Por- 
tuguezes (1). 

Entre tanlo não se descuidava o Gabinete 
portuguez-de espreitares passos e desígnios 
dos aventureiros que nesse tempo vinbão a 
França olferecer-se para fazerem descobri- 
mentos era o Novo Mundo (2), e coiiseguio^s 



(I) fi</ep, 205. , 

(3) riilt p. ;06 e 34!. 



mais da8 .vezes dè eóntramíoar-íhes os pro-í» 
jeclos. . . 

Não obstante as declarações da Franca, de 
nossas continuas reclamações , e da sabia poli- 
tica com que o Gabinete portuguez áe havia 
para cora aqúella Potencia, perseverarão o& - 
súbditos d'ella a itifestar os mares , estorvando* 
nos o commercio com freq.uentes tomadiás;, . 

- comp- dem.onstrão .os. clpcumentos de 23 de 
Abril (l).e 12- de Septembro de 1523 (2). Õ.qiie 
nos fez vepquão pouco nesse tempo ^ra res- 
peitado o direito marítimo. 

Reflectindo seriamente nos. interesses polí- 
ticos d'essa época , iião podemos deixar por • 
uma parte de nos admirar da invariabilidade 
do «ystema de nosso Gabinete nos . reinados. 
d'£IRei D. Manoel e D: Joaó III,^ durante as 

. . guerras renkidas de GaVlos V e Francisco* I , . e 
por outra que o Gabinete d'este Monarqa naek 
presentisse que sé Portugal com suaaf)odero- 
sas armadas se juntasse ao . Imperador, e 
^om elle se ligasse, uma tal liga seria para i| 
França, de bem funestas consecjuencias. Se pe» /. .^ 
xietràmoft bem no espirito da: poliJ;tca do nosso 



i^— ^iiW» 



(4)-JrSáep. 268. 
(2) ndcitíiá. 









* i 



— LXXIV — 

Gabinete naquellás occurrencias, a sua longa- 
nimidade em pugnar sempre pela paz, só se 
pode explicar peío interesse que entSoti domi— 
nava de proàeguir no augmento dè stias im*- 
mensas colónias , e conquistas , € no cora-- 
mérciò que com elías fazia ; o que de certo se 
nSt) <K)mpadecia com a diversão que era mister 
fizesssê de suas forças naváes, se por ventura 
intentasse sustentar uma guerra naval nosma-- 
Tes da Europa com manifesto i^isco de siias 
conquistas , e commercio d'alèra mar. 

Um dos documentos, que d'esse tempo dâmosj 
nos revela um dos motivos da politica sempre 
pacifica do' Gabinete portuguez i^elativamente á 

Franca. Consiste este n'uma relação de Marino 

« « 

Giustiniano Embaixador de Veneza em França 
ét sua Corte do anno de 1 535, na qual refere 
que o Embaixador de Portugal lhe havia de- 
clarado que Elitei, seu amo, .se arreceava do 
Imperador, e desejava por conseguinte o en^ 
grandecimento da França (1 )% 

Como quer que seja , de tanta importância 
era para a França a ali iariça de Portugal que um 
tios meios propostos para o restabelecimento 
da paz entre esta Potencia e o Imperador, é 

(1) nde Docum., de p. 251 a 253. 



♦^ 



— LXXV — 

para Francisco I ser posto em liberdade ^ foi o 

docasaiiientod'estesoberailocomiimaPriiiceza 
que havia sido Rainha de Portugal (1), e o do 
Delphim de França com a Infanta Dona Ma^ 
ria (2), proposições estas que servirão de base 
ao Tratado de 1 4 de Janeiro de 1 526 (3). 

Uma nova prova da invariável politica d'Él- 
Rei D. João III* em manter-se em paz e boa 
harmonia com a França é a que resulta da 
carta que lhe escreveo Francisco I de Madrid 
em 24 de Outubro de 1525 (4), da qual se vé 
que ElRei D. João III nao só o havia mandado 
comprimentar por seu Embaixador, quando 
o Monarca* francez se achava ainda prísoneiíx) 
do Imperador, mas que também lhe havib 
prestado importantes sei^iços, empenhando-se 
com o Imperador para que o houvesse de pór 
em liberdade. Em reconhecimento -d'estes ser- 
viços ElRei Francisco I na já citada carta se 
obriga a cumprir no futuro quanto fosse a 
bem de Portugal ^ e de seus vassallos^ aos 
quaes trataria como aos seus próprios. 

Perseverando ElRei D. Jo&o III na mesma 



(t) Fidè Docum., p. 209 a 217. 

(2) ^íW^rp. 2)0,211,213, e 220. 

(3) K^dc Docum., P..21 a 220. 

(4) f7áep.214. 



^^ 



politica para com a Franca , apenas Francisco I 
recobrou a liberdade, mandou-o o Monarca 
porlugucz coujpriniPiitar por U. Pc<.b'oMasca- 
reiibas que a esse fim enviou a França com o ca- 
racter de seu Embaixador extraordinário (1). 
Porem sem embargo da lealdade, com qiie a 
Corte de Portugal se tinha havido ]»ara com o 
Monarca francez, durante o seu cativeiro, e 
antes d'ellc; (ornando-se ao depois a atear a 
guerra entre Carlos V, e o mencionado sobe- 
rano,, e havendo o segundo celebrado contra 
o primeiro o tratado do confederarão, e al- 
liança, intitulado a santa liga cnlre clíc Rei de 
França, p Papa Clemente Vil, Veneza, o Duque 
de Milão, e a republica de Florença, com 
quanto uelle houvesse feito corapreliender El— 
Rei de Portugal como seu alliado (2), nãoces— 
eavãoos corsários francezes de atacar os na- 
vios portuguezes, e de roubál-os, sem que as 
reclamações de nossos agentes fossem attendi- 
das, fazendo-se-]ties ajustiça, que lhes liayia 
sido promettida , porque os proveitos que das 
presas resultavão servião para as dispezas de 
Francisco I, o qual pretextava ter necessidade 





•■ t 



•-- LXXVil — . . 

do producto das ditas presas para as guerras 
de Itália e de Inglaterra. O mesmo exemplo se- 
guião o almirante e mais oíliciáes do dito Mo- 
narca^ a quem não faltavão pretextos para 
não eífectuav a restituição ddÁ tomadias. scimIq 
o mais vulgar o allegarem que. as fazendas 
capturadas pcrtencião a Hespanhóes^Flamén- 
gos e Inglezes (1 ). Francisco I que de nada ; 
mais J;ratava quede se vingar de Carlos V, e de 
diminuir e enfraquecer os vassallos deseutpp- 
deroso rival, fechando os olhos sobre tantos 
injustiças, e correndo por seus proj.ec tos Avan- 
te, no anno de 1527 celebrou com. Henri- 
que YIII d'Ingla terra um tratado dJalliança 
enr o qual pelo artigo IX se .estipulou que os . ' 
navios portuguezes não poderião navegar para 
os portos dos dominiosjio Imperador, gastajv 
do-se em França e em Inglaterr.a as especia-, 
rias ; e <jue Portugal seria convidado a adherir . 
áquella estipulação e no caso contrario repu- . 
tado por inimigo, confiscando-se as fazendas 
dos súbditos^ naturáes d'elle (2). 

Era óAlvod'esta negociaçãQ, como já deixá- 
mos poRderadp, dimimiir as forças de Gar- 

■ ^ . ' ' ' ■ ' I I ■ I ■ - 

(t) ride Doeiim.9 p, 22a e 22t. 

(2) ride eecom.; p, j225. • - • . . 



— LXXVIII — 

los V^ e arruinar a nossa importantíssima feito- 
ria d'Anvers, para ohfrigar-nos a romper a 
neutralidade, ou por ventura para poderem 
com certa apparencia de justiça reter as presas 
que nos tinhão feito, e continuar no mesmo 
systema de pirataria em detrimento de nosso 
importantíssimo commercio. 

Esta politica de Francisco I era sem duvi<la 
filha das circunstancias , e procedia provavel- 
mente do apuro em que nesse tempo se aeha« 
v3o em França as finanças, como já tivemos 
occasiSo de ponderar, e como no-lo certíficSo 
ós documentos e a historia ; pois que em pre- 
sença de semelhantes actos de hostilidade, em 
presença d'uma guerra marítima por isso que 
surda tanto mais perigosa , o Monarca franceaé 
longe devir com Portugal a rompimento , tra- 
tava de estreitar ainda mais os vinculos de pa- 
rentesco que tinha com a Casa portugueza en- 
tão reinante; como nos consta pela embaixada 
que a Portugal mandou naquelle mesmo ánno 
de 1 528 para tratar do casamento d*uma Prince« 
za, filha sua com o Infante D. Lniz(1). Assim 
que, em quanto por uma parte celebrava um 
tratado manifestamente hoMil a Portuga^ e se 



(1) Kíde nòcom., p. 228 e 0egvÍBlei. 



' — utxix — : 

apossava do dinheiro e fazendas dós Portngoe* 
zes, mantinha por outra ostensivamente com 
nossa Corte as relações diplomáticas mais 
cordiaes^ pois. negociava por via de seu Em- 
baixador o casamento d'uma de suas iQlhas 
com um Príncipe d'aquella me2»ma naçSo a 
quem fazia tão grandes damiíosj e accrescen ta- 
remos que^ em quanto pendia esta negociação, 
expedia o seu almirante com 5 náos para ir 
invadir o Brasil contra os direitos da coroa 
portugueza. 
Os aggravos e justas queixas que de Francis* 

fkl tinha a Corte de Portugal não alterarão 
l^olitica invariável do nosso gabinete, sempre 
leal e systematicamente amigável para com a 
França, pois vemos que no anno seguinte de 
1 528 a 24 de Julho EIRei D. João III ordenou 
a seu Embaixador em Franca certificasse a 
EIRei Francisco I que elle jy. João nenhuma 
duvida tinha em ser medianeiro para que se 
concluísse a paz entre o dito Monarca francez 
e o Imperador Carlos V (1) , paz que se veio a 
efiectuiu* pelo tratado de Cambray de 5 d'Â- 
gosto de i 529 (2), e no anno seguinte pedindo 



(1) ride Docum.9 pi 329, ' 

(2) Plde Docom., p. 232 e 233. 



LXXX 



O mesmo Francisco I a ElRei D. JoSo Hl eiH- 
prestados quatrocentos mil cruzados para cum^* 
prir o ajuste qiie havia feita com p Imperad^^ 
para recobrar a liberdade dos filhos quc.ésta-^:" 
vão em reféns, promettendo^lhe fazer justièij: 
• no concernente aos roubos por seus vassallos 
feitos de vários navios portuguezes, ordenou <> 
\- Monarca porfuguez a João da Silveira então' 
seu Embaixador na Corte de Franca, em In&- 
trucção de 26 de Janeiro, de 1 530 qiíe promet^ 
lesse a Francisco I cem mil cruzados> e mais 
ti^ezentoa mil do que elle Embaixador podcsse 
-em justiça haver pela importância dos-rou 
que os corsarip§ francezçs havião feito aos P 
tuguezes, cuja importância subia a 500,000;? 
sendo^Oiíumero dos navios. capturados de 300/ ' 
e isto haven4o paz entre uma e outra Poten- " 
cia, 6 éncommendou-lhe dissesse ao dito M<^t 
narc^ que dle devia castigar aquelles que ti^ 
nhão ido aos portos do3rasil, è não queixai>se 
de que os Portuguezes encontratido-os ali oar- 
regando páo^ os. capturassem com siia caravéUa^ 
depois de.hãyer com elles petejadoj e tendo-^ 
les antéft roubado uma. çarayella' pòrtuguez^- 
$e Dão.pòdiãòcom razão queixar-se de terein 

4 ' . ' , ' . 

. sido tratadoà com crueldade*; pois havião sido-; 






w 



conduzidos a Lisboa^ ç niandára elle Rei de Por- 
tugal, sobreestar a 'execução da seiítença, e os 
mandara entregar a Honorato de Cazes então 
embaixador de França naquella Corte. Por este 
mesmo documento se vê q.ue EIRei der Portu- 
gal havia por diversas "waps sido requerido por 
seus vassallos que hòill^se de conceder-lhés 
cartas de represália contra os Francezes, e no 
cabo do despacho affirma EIRei que estava 
prompto a dar a Francisco I maiscemmil cru- 
zadps, £om tanto que este se obrigasse por-còn- 
ven^ão especial a que «eus Vassallos nao nave- 
garião mais d'ali em diante rios mái^es de Por - 
tugal> da Tiuiné, da Iqdia e do Brazil, nem to- 
marião navio algum portuguez debaixo * de 
qualquer pretexto que fosse (1 ). 

Nao obstante esta tendência, pacifica que* 

■ , . . — .' ■ « ■■■ * r 

(IJ Kide Docum. apud Navarrete, Gol. de los Viajes, T. Y, 
p. 23tí, extracto feito por Munoz da Gaveta-l 1, iQaç;© 8.d(f Real 
Archivo da Torre do Tomba. 

O Benemérito Autor d^uma obra publicada- em iHiriz em 
184^ com o titulo ácNotice historique sur la GuyaneJ'ran' 

çaife, citando este mesmo documento publicado por lOfavarrete 

* * , ' . • • . - . 

parece que se equivocou, ou que o nSo éntendee, pois aíBrmou 
que os 300 navios por tuguezes tomados pelos Francezes l^aviSo 
sido Capturados nós mares do Brazil , sendo <qae na- ^rdade o ti- 
nh&o sido peU maior parte nosiittEoropa. Para qiiése vejapalp^* 
Tdmente .a justiça doesta nomr refltxS^, tfanflcférfremoa aqui 



% % 



— LXXXII — 

observamos na politica do gabinete d'EIRei 
D. João IH ^ pelo que diz respeito á França , 
em muitos dos documentos que publicamos ae 
encontrão repetidas provas da enei^ia com que 
por vezes procedia. Táes sao os de 3 de Jtillio 
de 1529^ ede 27 de Julho de 1530 em conse- 
quência da captura feita pelos Portuguezes nos 
navios de João Ango. 

Novas hostilidades maritimas a cada passo 
motiva vao novas reclamações, e a nomeaoSo 
de agentes especiáes para nellas proseguirém ; 



ò documento publicado por Navarrele, e á margem o do AjitcMr 
d^ Noticia. 

Texto do A. da Noticia. Texto do Documento de Ifaearreie, 

« Dans une leltre » Se manda quejar ai Rey de Francia el d^ 

» écriíc par le roi de » Portugal por su carta escriia eií Lisboa a i& 

» Portugal à Juan da » Enero 1530 a Juan da Selveira suEnviad» cerca 

t» Silveira , son ambas- » delKei Christianissirao. Este habia escrito ai de 

» sadeur en France en » Portugal, pedindo lhe prestados 400,000 cnua- 

» date du 16 (alias 26) » dos para cumplir con la paga á que se oblígô 

» Janvier de la méme » con el Emperador para lograr la liberdad de 

jiànnée i530,il est dil » sua bijos que este conserbaba en reiíeBea. BI 

» que les corsaires fran- » de Portugal le promete 100,000 cruzados y a de 

« çàinquivonlauSri' » mais otros 300,000 do que en justicla hiffere 

»«%/, ont, malgré la » de cobrar de los corsários Trancezes que roba- 

» paii, enleve aux Por- »ron a sus vasallos, lo que dice ascendera 

» togais pias de 300 » 500,000. Que las naus portugoezas tomadas o 

» báliments, et leur ont »robadaspor Francezes inicuamente, bablesdo 

» fait un dommage de » páz entre amb|is Potencias , son mais de SOO. m 
• fflas do M0,o60 cra- 
m lades. » - 

Bem se t4 que este documento faz unicamente mençSo dò 
total daa preaas festas nos diversos mares, e nio són^ente aoe 
4o BrAitt^eonoo ▲• «fflnntTa* 



^ 
f 



— LXXXiff — 

ttímo no^lo provao oà documentos que produ- 
simos do anno de 1 530 e 1 531 (1), sendo Lou- 
renco Garcez enviado a Franca com o caracter 
de embaixador extraordinário para aquelle ef- 
feito ; conseguindo que no mesmo anno de 
4531 (2), se nomeasse a famosa commissao de 
Bayona e Fontarabia para tomar conhecimento 
do n^ocio das tomadias^ alcan<;ando o dito 
embaixador, ajudado de seu collega Gaspar 
Palha 'tao favorável despacho do gabinete fran- 
cez, em consequência da declaração formal ex- 
pressa na carta de crença que levara para 
Francisco I, na qual ElRei D. João III de- 
clarava que do resultado d'aquella missão de- 
pendia a conservação da amizade entre os 
dous paizes (3). 

A' vista d'està resoluçãoda nossa Corte tratou . 
o Gabinete francez de procurar os meios mais 
efficazes ao meíios na apparencia para pôr ' 
termo ás depredações ; determinação esta de 
que não podemos duvidar em presença do iín- 
portantissimo officio de D. António d'Ataide^ 



(1) ridep.7^7. 

(2) ride Docum. de 4 d'Agosto 1&31. 

(3) ArchiTo Real dA Torre do Tombo, Corp. Chron*) P. 1| 
ma$« 17, doe. 43. 






AJ* 



• •• 



embaixador de Portugal em Franca, de 48 
d' Agosto do mesmo aniio(l); assim que, obti-* 
verão os nossos agentes que se expedissem as 
mais terminantes ordens ao almirante de 
França contra João Angò que, dizião, estava 
armando alguns navios para irem á Guiné e 
voltarem pela costa da Malagueta. 

Por este importante documento se prova 
que é nessa época que os Dreppèzes fizerSo a 
primeira tentativa de armamento para irem ás 
nossas possessões d'Africa , tentativa que por 
então se não realizou. Do teor do citado áocu- 
mento se vé que a França claramente conhe- 
cia o direito de soberania da Coroa Portugiieza 
sobre aquellas conquistas, è que foi desde 
então que os Estrangeiros começarão a envejar- 
. nos os grandes proveitos, que d' ellas tiráva- 
mos, e a gloria que cabia a Portugal pelo des- 
cobrimento de tão remotas, e desconhecidas 
regiões, O reconhecimento d'estc nosso direito 
pór parte da sobredita Potencia ainda mais 
se evidencêa pela ordem assignada por Fran- 
cisco I, em 6 de Septembro do dito anno de 
1531, êm consequência das reclamações do 



(I) F^ide p, 239. 



y 



LXXXV 






Embaixador de Portugal (1 ), na qual o mesmo 
Monarca declara que a costa de Guiné per- 
tencia a ElRei de Portugal^ e que as fazendas^ 
que um navio francez havia forçosa e violen- 
tamente d'ali trazido, havião sido indevida- 
mente tomadas no már aos Portuguezes ; que 
nSo sendo sua vontade soífrer taes procedi- 
mentos, mandava sobre aquelie caso dar as 
providencias que convinhao , para a conser- 
vação da boa amizade com seu Âlliado EIRei 
de Portugal (2). 

Esta deliberação da parte da França, e a 
cessação dos actos de hostilidade maritima ! 
causou não pequena satisfação ao Imperador 
Carlos V, como no-lo está mostrando a carta 
que esse Monarca escreveo a EIRei D. João 
III em 15 de Outubro do dito anno (3). 

Apezar do manifesto reconhecimento , ex- 
pressamente feito por Franciscol Rei de França, 
do direito que tinha Portugal á posse e sobe- 
rania d'aquelles territórios, e ao commercio 

(1) Flde Ik>cnm., p. 241. 

(2) Gonfi^nte-se esta passagem do citado documento com as 
pioras que produzimos no S XIX da nossa obra intitulada : 
Recherches snr la Décourerte des pays situes sur la cote occi- 
dentale d^Afriqne. Paris, 1842. 

(8) Fidt p. 343. 

ni. / 



— LXXXVI — 

exclusivo d'elles; apezar das ordens terminaiH 
tes passadas pelo dito Monarca e por seos 
Almirantes ; ainda assim duvidavão nosaoi 
Embaixadores da boa execuc&o e sinceridade 
d'el]as. O importante officio de Gaspar Yaae de 
19 de Outubro do mesmo anno nos fas ver 
quão perto estavao da verdade esses faabcii 
diplomatas; pois que em presença das já cita* 
das ordens e prohibições , nesse mesmo tempo 
se estavSo clandestinamente armando navicM 
em diversos portos da França com destino para 
nossas conquistas (1 ) governados por pilotos 
portuguezes (2) , do que irritado o nosso £m- 
baixador aconselhava a EIRei desse ordem ás 
suas esquadras de atacarem e metterem no 
fundo quantos encontrassem , e ao mesmo 
tempo y como se mais seriamente reflectisse, 
accrescentava , que não via outro expediente 
para cortar d'uma vezo fio áquellas pendências, 
que o de repartir-se a nossa feitoria entN 
Flandres e Ruão, com o que sedariaopor eoi^ 
tentes os Francezes ; arbítrio este que se ajus* 



^M" 



(1) P^iãe Docum., p. J43 a 245. 

(2) Eis uma npva prora do que affirmamos no % JS^l 
nossas — Recherches , etc, sur la priorité de la déoo«Yirl8 
pays situes sur la cote occídentale d'Afrique. 



— LXXXVU — 

tava com o que havia sido estipulado entre a 
Inglaterra, ea França .no Tratado celebrado 
entre estas duas Potencias no annode 1527, de 
que já atraz falíamos*. 

Ainda d'esta vez fórão bem succedidos os 
nossos negociadores, pois chegarão. a conse- 
guir que as Autoridades e Justiças de Fraciça 
mandassem proceder a embargo em todos os 
navios que se provasse se aparelhavao com 
q destino para a Guiné e Brazil^ como com 
effeito se procedeo (1 ), ficando vedado aos na- 
vios francezes a navegação e commercio nos 
mares e terras. d'aquelles dominios da Coroa 
de Portugal. No anno seguinte de 1 532 as mes* 
mas probibições fprão reiteradas (2) ; mas a 
despeito d'eftta,& providencias e ordens na 
apparencia terminantes e rigorosas, continuar 
rão nesse mesmo anno os armamentos . clan** 
destinos em vários portos de França (3), po«* 
rèm o governo portuguez perfeitamente infor- 
mado de quanto $obre aquelle respeito se pas- 
sava, auxiliava as negociações com cruzeiro» 
nos differentes mares, não sendo entre os fac- 
tos notáveis d'aquella época de pouca pondera* 

(1) P^ide Docum., p. 245. 

(2) f^ide Docum., p. 246. 
[i) Fidc p.247. 



— LXXXVIII — 

ç8o o de ter Portugal no Mediterrâneo uma 
esquadra , que capturava os navios francezes, 
que regresàavao a Marselha das viagens clan- 
destinas, que havião feito ao Brazil (1), du- 
rando entretanto a CommissSo das pretas , e 
progredindo em seus trabalhos em Bayona (2), 
regulando-se aquellas por accordo reciproco 
de ambas as Coroas, como se mostra pelo im- 
portante documento de 22 de Março de 1535(3), 
em o qual se pode ler o histórico d'esta tran- 
sacçãOy bem como pelo de 2 de Junho de 
1 537 (4), e pelo de 15 de Julho do dito anno(5). 
Ao tempo que juntos cm Bayonna os CSom- 
mrssarios portuguezes e francezes sentenciavSo 
as causas, e negócios das presas, assignava £1- 
Rei de França em Lyao em 4 de Julho de 1536 
um Tratado de Amizade e Allianòa com ElRei 
D. João III de Portugal , pelo qual se regulou 
o commercio internacional dos respectivos rcN 
nos, e se estipulou que JElRei de Portugal 
■ poderia ter deputados nos portos de França 

para neUes proceder a sequestro nos nas^ios dás 

' ■ ^__ 

(1) ridep.2A7. 

(2) nde Docmn. de 9 de FeTereiro de 1535, p. 2i9^ 
(3^ nd€ p. 249. 

(4) ride p. 262. 

(5) rÀde p. 264. 



*- LXXXIX — 

pedsoas que houvessem quebrantado os tra-^ 
tos(1); ordenando ElRei de França por Carta 
Patente de 8 d'Agosto seguinte (2) a todas as 
suas Justiças observassem e fizessem observar 
as disposições d^aquelleTratado, como cumpria 
á continuação e consen^ação da boa atliança que 
entre ambos elles Reis sempre hquveraj e havia; 
cessando desde logo todas as hostilidades^ res- 
tituindo-se as presas , e mandando castigar os 
transgressores^ como se vê por outra Carta 
Patente do mesmo Monarca de 27 de 
Agosto (3). 

Apezar de táes mostras de boa harmonia e 
intellígencia, nem por isso deixavao os dous 
soberanos de desconfiar da sinceridade poli- 
tica dos respectivos Gabinetes. ElReiD. João III 
deo por wezes mostras de estar aggravado de 
Francisco I, como no-lo prova a carta que 
no anno de 1529 escreveo a seu Embaixador 
em Castella acerca do casamento de sua fflha^ 
ordenando-lhe houvesse de demorar a pre- 
tençao d'ElRei de França com quem nao queria 
alliança (4)^ è talvez promovesse o mesmo 

(1) Fide Docam., de p. 254 a 256. 

(2) Kiáe p. 257. 

(3) Fidê Focmn., de p. 258 a 260. 
(4}>Ífep.3ISâ234. 



-^ xc — 

Monarca 9 pela influencia que tinha em 
bóia a Duqueza D. Brístes, fllha d'ElRei D. 
Manoel , no anno seguinte de 1 534, a neg^tiirA 
que fez a Francisco I aquella Corte, qucmdki 
este lhe demandava licença para faser passar 
por aquelles estados o seu exercito, para tirar 
vingança do Duque de Milão (1). Também por 
outra parte Francisco I parece que nSo fksia 
o fundamento que se devia esperar na lealdade 
e amizade tantas vezes provada da Gòrlè de 
Portugal para com elle e seu reino, pois que 
logo depois do Tratado de Paz e Âlliança ceÍ0<^ 
brado em Ly&o, mandava a Póftugal certo in- 
dividuo como espia das cousas deCastelIa (2); 
ao mesmo passo que o Imperador Carlos V 
nSo perdia occasiSo de indispol-o contra nós^ e 
levál-o a pomper o Tratado acima meneio» 
nado^ esperando por aquelfe modo suscitar^lhe 
mais um inimigo e poderoso/como o era nessa 
época ElRei D. JoXo III. Tal é o facto que nos 
revela a declaração feita pelo Imperador a 
Francisco I no decurso d'este mesmo anno 
acerca do Ducado de MilSo^ dizendo que a ra*- 
zão por que se não determinava a conferir-Ihe 



■•••■-■•i***»» 



(1) ride Docum., p. 24f^ 

(2) ride p. 260. 



I 

à 



XOI — 



4 



a investidura do dito ducado^ provinha d'£l- ^ 

Rei de Portugal a ter pedido para seu próprio 
irmão (1). 

Sem respeito ás ordens severas expedidas a 
todos os portos da França pelo governo d'a-- 
qtiella nação, e ao teor do Tratado de que já 
fizemos menção, nao descontinuavao os arma- 
mentos clandestinos para as nossas possessões 
d' Africa, aponto que a requeri mento.dosAgen- 
tes portuguezes Francisco I, em 30 de Maio do 
anno seguinte de 1537, promulgou uma nova 
Carta Patente, em que novamente reconhece 
oa nossos direitos, e torna a ppohibir aos seus 
vassallos de navegarem para o Brazil e Guiné 
por serem aquelles paizes dos domínios d'ElHei 
de Portugal (2), prohibiçao esta que foi reite^ 
rada por Carta Patente do mesmo Monarea.de 
38 d'Agosto do mesmo anno (3). 

Continuava ainda a commissao das presaa 
em sua laboriosa tarefa , e por um concerto 
feito entre os dous soberanos em 1 637 forSo os 
membros d'ella revestidos de amplissimos po-> 



(1) rídg p. 260. — Da Bellay. attribue esta négatira a outros 
desígnios do Imperador. 

(2) ride p. 262. 
WriJ*p..268. 



r r 



— xcn — 

deres, como se mosti^a pela approvaçSo dada 
por EIReí D. JoSo III ao mencionado concerto 
ou convenção (1), e pelos plenos poderes en- 
yiados ao Bispo de Santiago e ao Licenciado Af- 
fonso Fernandes (2) . Progredio a dita commis- 
sSo em seus trabalhos no anno seguinte de 
1538, e a melhor intelligencia reinava ao me- 
nos na apparencia entre a Corte de Portugal^ 
e de França, como se infere d'um officio de Ruy 
Fernandes d' Almada nosso Embaixador em 
França, e isto a ponto tal , que o Imperador 
Carlos V mandou convidar por via de seii Em- 
baixador em Lisboa a ElRei D. João III e ao In- 
fante D. Luiz para serem medianeiros na paz 
que intentava fazer com aquelle Monarca (3), 
dando-ihes as razões. que militavao porque elr- 
les houvessem de annuir á sua proposta, oomo 
com effeito o fizerão, sendo a mediação deBohv 
tugal bem recebida da França, como se vô BO já 
citado ofBcio do Embaixador Ruy Fernandes^ 
d' Almada, de 1 6 de Março de 1 538, no q[ual 
participa a ElRei D. João UI que ElRei de 
França esperava com grande alvoroço a vinda 

(1) Kide Docum., p. 266. 
(7) ride p. 267. 

(3) Fidê IHHmoL , p. 269. 






ri 






— XCIII -^ 



do Iníknte D. Luiz para medianeiro da paz (1). 

È para pasmar que^apezar da boa intelli-' 
gencia em que estavão as Cortes de Portugal e 
de França, e das repetidas ordens expedidas 
por esta, defendendo aos seus armadores de 
navegarem para a Guiné e Malagueta, ainda no 
fim d'este mesmo anno de 1538, fosse o Em- 
baixador portuguez obrigado a renovar as 
mesmas reclamações. Em virtude d'ellas pro- 
mulgou El Rei Francisco I a 22 de Dezembro ou- 
tra Carta Patente prohibindo de novo as ditas 
navegações e tratos, sob pena de confisco dos 
navios e fazendas dos infractores (2). 

Parece porém que do seguinte anno de 1539 
em diante a boa intelligencia, que reinava entre 
as Coroas de Portugal e de França, sofíreo al-i 
guma alteração, provalmentepor se não ter con- 
cluído com a nossa Corte o negocio e ajuste de 
casamento doDuque d'Orleans com ainfantade 
Portugal, como se deprehende das Instrucções 
passadas por Francisco I ao seu Embaixador 
junto ao Imperador em 4 de Abril de 1540 (3), 
e pela resposta que estcfez em 1 6 do mesmo mez 



(1) nde p. 272. 

(2) f^ide p. 277. 

(3) nd€]^.27i. 



— XCIV — 

eaiiiio(l), ofiSereoendo a sua mediacllo jUnto * 
ElRei de Portugal a fim de se concertarem aaii- 
garelmente as differenças que entre esteie elhi 
Rei de França existiao. O que nSo obstante, nô 
anno seguinte de 1541 mandou o Monart» 
írancez uma Embaixada a Portugal, vindo cou 
caracter de Embaixador extraordinário o Bispo 
de Ade a tratar do casamento da Iníknta IK 
Maria , filha d'EIAei D. Manoel (2). 

Summaríámos todos os documentos qu0 
podemos encontrar, concernentes a esta deli-* 
cada negociação a fim de a pór em toda a lux ^ 
vendo-se 1*" que a Corte de Portugal se oppunbft 
secretamente ao casamento da infanta, para 
Dao ter de fazer um fSo grande desembolso, ew» 
tregando-lhe o dote ; 2"" queaquelle casamento 
6 pròposiç&o havia sido obra da Rainha Úê 
França D. Leonor | S"" que o Embaixador ordi^* 
nário de França que residiaêm Lisboa Honorato 
de Gazes estava industriado no objecto pritM^ 
pai da negociação, a que fora mandado o Biapo 
de Ade e que o devia de ajudar oom toda aqKelUi 
influencia que ém nossa Corte podia ter ; 4* qv* 
o Imperador, e seu Embaixador em Lisboa 



(1) ridcp.2S2. 

(2) ndc p. 283. 



— xcv — 

Luiz Sarmento estavao também informados 
d'aquelle negocio. 

Pela serie de suramarios que d'esta negocia- 
ção publicamos, vé-seque^ sem embargo das 
instancias do Embaixador de Franca, foi a nossa 
Corte dilatando pouco a pouco a resolução pelos 
meios que já em outro 1 ugar dissemos ( 1 ) , ao 
mesmopasso que pelo oífíciò do Embaixador se 
nos mostra que também aquelle soberano se 
interessava secretamente no resultado d'aquella 
negociação, se bem que com differentes yistas, 
encommendando ao seu Embaixador se hou- 
^ vcsse de modo que os de França não tivessem 
suspeitas das communicações que tinha com a 
Infanta sua sobrinha , com quem todavia 
estava de intelligencia (2), e finalmente na 
carta d'£lllei D. João III para ElRei de França 
de Maio de 1542 (3), e na resposta dada ao 
Bispo de Âde (4)^ deparamos com a n^ativa 
formal da entrega da Infanta , sua irmS, nega- 
tiva fundada em razões assaz especiosas. 

A' frieza e desabrimento que semelhante 
negativa devia de necessidade motivar no animo 

(1) f^idé noU 402 a p. 2%% e seguintes. 

(2) ride p. 299. 

(3) ride p. 300. 

(4) ride p. 303. 



— XCVl — 



do Monarca francez juntou-se ainda mais 
outro aggravo , e motivo de queixa, e foi este o 
não liie ter EIRei D. João notificado o casa- 
mento da InfantaD. Maria sua filha comoPrin- 
cipe D. Philippe deCastelIa, e ainda muito mais 
o haver dado sua filha por mulher ao maior 
inimigo da Coroa de França, desabrimento este 
que a habilidade, e cortezania de D- Francisco 
de Noronha, então Embaixador dePortugal em 
França, soube quasi trocar cm agrado. 

Entretanto não cessavão os Francezes de 
porfiar em devassarem nossas conquistas, c 
no decurso das negociações de que ha pouco 
tratámos, chegarão alguns a ir até ás costas 
d'Achem, affbutando-se, como é de crer, na ti- 
bieza qiie vião entre a sua Corte e a nossa (I), 
porém iiSo cessavão tão pouco nossas esqua- 
dras de capturar-Ihes os navios, como se mos- 
tra pelos documentos que publicamos do anno 
de 1 5-43 (2), nem a nossa Corte de reclamar da 
de Pariz contra tão repetidas violações dos tra- 
tados cm vigor entre as duas Coroas, e dos di- 
reitos, que nos pertencião, como se patentèa 



1 



k 



(I) fide p. 303. 
{!} Jbid. 




— XCVII r- 

pelo que D. João Hl escreveo em Abril e Julho 
do dito anno ao Bispo de Tanger^ seu Em- 
baixador em França (1)^ mandando também 
nesta occasiao a Paríz em 2 d' Agosto seguinte 
com instrucções particulares a Pedro Alvares 
Cabral (2) , nas quaes encommendava ao Em- 
baixador houvesse de declarar a ElRei de 
França, que .caso nSo mandasse revogar as 
cartas de marca qiie havia concedido a João 
Ango, ver-se-hia obrigado a retirar-se de sua 
Corte, e esperar, que lhe chegassem ordens 
d'£lRei de Portugal, seu amo, sobre o que de- 
veria ulteriormente obrar. Iguaes ordens re- 
cebeo Fernão Alvarez Cabral ; ordenava tam- 
bém ElRci ficasse em Pariz Domingos Leitão 
Tpara o informar de tudo, caso o Embaixador 
se ausentasse; encommendando ao dito Em- 
baixador que no caso d'ElRei de França dizer- 
lhe que não se fosse da Corte, lhe respondesse, 
que assim o faria por elle o desejar. Seguio o 

(1) Fide p. 304. 

(2) Este documento authentico responde Tictoríosamente 
ás conjecturas de certos escriptores franceses, qne, ignorando 
as transacções que se passarão entre as doas Cortes» alterárlo ca 
factos ao ponto de dizerem que a Corte de Portugal bana nego- 
ciado directamente com o dito Ango , e que lhe enTiára emii- 
sarios !!! 



I 



Monarm fraiicez, segundo parece, este arb 
trio, como quem ilesejava evitar um romp 
mento com a nossa Côi'te, pois vemos que i 
Tratado de Paz de Crespy, celebrado em 18 < 
Septembro seguinte entre elte e o Imperada 
Carlos V, foiEIRei dePortugal comprehendid' 
como alliado do Imperador e do sobredito R 
de França (1),e que nesse mesmo dia olmp 
rador, DO art. Vil de certa declaração, repi'ese! 
tava a ElRei de França as obrigações em qi 
estava para com ElRei de Portugal, c o direi 
que este Monarca tinha a gozar dos beneficl 
da paz, tendo sido comprchendido no ultin 
' tratado, e nos antecedentes ; nos quacs hav 
sido estipulado seriSo prohibídas e declarad 
de nenhum cffeito as represálias, e cartas < 
marca, o que não obstante, o contrario se pr 
licava contra os vaasallos d'E]Rei de Portugs 
D'estc documento- se vê que nesta occasií 
também o Imperador desejava da sua par 
concorrer para a cessação d'aqucnas hostilidi 
des, que quasi a fio se fazião reciprocamen 
por már os súbditos francezese portuguezes i 
meio da paz, e em presença das estipulações 
tratados de paz, e da residência de Etnbaix 

(1) ndt p. 305. 



m-\l 



— XQIX — 

dores nas Cortes respectivas p e que o mesmo 
Monarca tratara de fazer um ajuste cora a 
França sobre a repartição que havia sido feita 
entre Portugal e Castella dos mares e terras 
descobertas e por descobrir. Táes sao os factos 
que nos patentéa o importantíssimo docu*« 
mento das instrucções dadas em 6 de Dezem- 
bro de 1544 por Elftei D. João III a D. Fran- 
cisco de Lima mandando^ a Castella. 

Alem da importância de que naturalmente 
sio semelhantes instrucções, como peças diplo- 
máticas, as de que tratamos devem ser consi- 
deradas como um monumento histórico, que 
noB faz ver a que a repartição dos mares, e ter- 
tr ras descobertas pelos Portuguezes e Hespa- 
« nhoes não fora impugnada pelas demais na- 
cr ções da Europa, as quaes pelo contrario se 
« havião constantemente abstido desde o teinpo 
«f do descobrimento de navegar e frequentar 
¥ os mares, e terras dos dominios de Portugal 
«r a de Hespanha, e tanto á risca o tinhão ob- 
H servado que nunca wissallo algum de qual^ 
«r quer outro Rei ousara de ymtar aquellas pa^ 
« ragens^ salvo alguns annos atraz alguns pira- 
ff tas ft^ancezes , dizendo sempre ElRei de 
« França fôra contra suas ordens, e que os 



rr mandaria castigar, passando para isso as cr- 
w dens mais terminantes (1). n 

Voltando ás instrucções^ de que acabamos de 
tratar^ faremos sobre o conteúdo d'el1as algu- 
mas reflexões, e diremos que, se caímos bem na 
intelligencia do artigo VIII d'ellas, oppoz-se a 
Corte de Portugal a que o Imperador concluisse 
o já mencionado ajuste com ElRei de França, 
como quem desejava impedir que se concedesse 
aos Francezes a faculdade de commerciarem a 
seu querer nas terras ultramarinas do domi— 
nio de Portugal e d'Hespanha. 

Prompta a satisfazer-lhes em tudo o mais, 
vemos a cada passo que a nossa Corte não 
deixava escapar a menor occasião de prestar- 
Ihes algum serviço, e dar-lhes provas de ami- 
zade^ apezar das continuas depredações que 
d'elles soffrião os súbditos portuguezes. Reperfí 
das provas já temos dado nesta introducçao da 
invariável constância do Gabinete portuguez 
nesta politica obsequiosa para com a França, 
e poderíamos escusar de ajuntar outras , se as 
leis rigorosas que nos impõe o género de 

(1) F^ide a respeito doeste Docamento o que dissemos no . 
J XIX da nossa obra , intitulada ^Recherches sur la DécouTerte 
des pays situes sur la cote oocidentale d'Afrique, 



m 



— Cl — 

trabalho que emprehendemos.^ nos nSo obri- 
gasse a ligar com a chronologia o menor 
facto histórico de que temos de fazer mencao : 
apontaremos pois como uma nova prova d'esta 
tendência amigável da nossa Corte para com a 
de França, o que se passou em 1 545 por occa^ 
siâo da vinda a Lisboa da armada franceza que 
Francisco I mandava ao canal de Flandres (1), 
escrevendo ElRei ao almirante, mandando-o 
hospedar(2), efazendo-lhe um avultado emprés- 
timo de dinheiro (3); nem deixaremos em es- 
quecimento o modo com que o mesmo monarca 
portuguez se houve logo que lhe constou era 
fallecido o Duqupd'Orleans, mandando a Fran- 
cisco I uma Embaixada especial a dai^lhe os 
pezames. 

Os documentos e transacções entre Por- 
tugal e França dos últimos annos do reinado 
de Francisco I , que nesta secção damos ao 
publico, sao relativos á importação de trigo e 
outros cereáespela falta que d'elles havia em 
Portugal, sendo que nao podiao vir de Flan- 
dres nem d'Âllemanha, pelo receio que havia 
de serem os navios capturados no Canal pelas 



(1) nde^p. 399. 

(2) Jbid. 

(«) ride p, 810, 






— CIl — 



esquadras de França e de Inglaterra (1), qot 
se achavao então em guerra, havendo na- 
quelle mesmo anno em 6 de Julho o Almim^ 
rante Annebaut atacado a esquadra Ingleza 
ilas immediaç5es da Ilha de Wight. 

' Uma observação que não devemos deixar de 
trazer á memoria dos que nos lerem , e que 
seria da nossa parte uma injustiça se a poses- 
semos em esquecimento, vem a ser que ElRei 
Francisco I nunca deixou de se expressar 
cm termos amigáveis , se por ventura se tra- 
tava d'ElRei de Portugal, pelo mesmo teop 
que este, tornando obsequio por obsequio, nSo 
perdiA occasião de significar ao Embaixador 
de Fraiica os sentimentos de amizade que 
EIRei' Francisco I lhe inspirava. 

D'ésta ultima asserção entre outras muitas 
provas que átraz ficão allegadas mencionare- 
mos o Despacho do Embaixador de França em 
Lisboa Honorato de Gazes datado de Belém , 
de 13 d'agosto do anno de 1545, que se acha. 
no Archivo Real da Torre do Tombo, em que 
diz o dito Embaixador, que participara a EIRèi 
de Portugal a húik vontade que elle Fran- 
cisco I tinha relativamente ao negocio das re> 



(1) f7<{«p.311. 






cm — 



PPesalias, e o seu grande desejo de manter á 
boa intelligencia, e concluir tudo, por que 
ElRei de Porlugal ficasse contente, e que 
todas as vezes que elle Embaixador o ttnha 
visto, este soberano lhe encommendára que 
quahdè escrevesse a ElRei seu amo lhe agra- 
decesse , e que da sua parte ftuiartudo.^pttato 
podésse ; e accrescenta mais o Slnl)aixador as 
seguintes palavra(0Í||k Et puis bien assurer 
qtt'avez en luy ung vray frère et bon amy, 
car ainsi m'a toujourM*0montré en toutes les 
choses qui cQ||cerninVos affáires. >i 

Finalmente em o anno seguinte de A 546 , 
pnblicamos um documento pelo qual se vê que 
o Embaixador de Veneza emPariz, escrevendo 
ao sen governo, nSo dissimulava que a Gòrte 
de Portugal, na sua opinião, nSo devia de 
estar sinceramente em boa intelligencia com a '*^ 
"^eFfiRtiça, havendo entre as duas nações uma 
*guerra surda , em razão de pretenderem o| 
Francezes navegar nos mares de Guiné • 4/§ 
Brazil a despeito dos Portuguezes (4 ). '* 

Não deixaremos de (kzer aqui menção d*um 
facto assaz interessante, e vem a ser, que em ^ 
presença da iffita^o que semelhantes conten- 



(1) ride p. m, 



/^ 



* -• v. 



— cnr — 

ff 
das deviSo de necessidade produzir no animo 

dos Porluguezes, o governo d'ElRei D. João III, 
ú'uma das épocas mais brilhantes de nossa 
litteratura era tao illustrado^ que sem embargo 
d' essa irritação mandou vir da Universidade 
de Pariz muitos professores para regerem ca- 
deiras da nossa Universidade (1). 

Subindo Henrique 11, ao trono por morte 
de seu pai Francisco I em Março 1 547, tratou 
logo de mostrar o grande desejo que tinha de 
renovar a boa harmonia que de antigos 
tempos havia reinado entre a França, e Portu- 
gal. Para este effeito mandou M. de Biron a 
Portugal com o caracter de Embaixador ex- 
traordinário, sendo o objecto principal d'a-> 
quella Embaixada o cumprimentar ElRei de 
Portugal, e convidál-o para Padrinho do fílbo 
que lhe acabava de nascer (2) , convite que El- 



(1) f^ide p. 313. — Neste mesmo século vemos contuuurem- 
«e as relaçaes scientificas com a França. celebre André de 
Resende, depob de ter cursado na Universidade de Lovaina, resi- 
dio algum tempo em Marselha, Aix e Pariz, e doesta ultima 
Corte se passou á de Inglaterra, onde se ligou com a maior 
parte dos sábios, f^ide Dissertação intitulada : (Des Anciennes 
Relatíons de laBelgíque et du Portugal}, por nosso consócio 

na Academia Real das Sciencias de Bmxellaso Senhor BàrSo 
d« Reiffenberg, p. 44. 

(2) nde p. 814. 



14 



— cv — 

Rei D. JoSo 111(1) aceitou, nomeando immedia-» 
tamente por seu Embaixador extraordinário, 
a D. Constantino de Bragança , o qual ac- 
companhado d'uma luzida comitiva, composta 
de muitas pessoas illustres da nossa Corte, par- 
tío para França , onde chegou em Abril d'a- 
quelle mesmo anno. Do recebimento que lhe 
mandou fazer o Monarca francez , e das mais 
particularidades d'esta Embaixada , damos em 
seu lugar noticia (2). 

Supposto se anunciassem mais favoráveis 
par%a conservação da boa harmonia e paz entre 
as duas Coroas as intenções d'HenriqueII, pois 
logo que subio ao trono, fez com Portugal 
uma nova. convençSo (3) sobre o negocio das 
presas, como quem desejava concluil-o ; nem 
' por isso deixarão os Francezes de perseverar 
no antigo costume em que estavao postos de 
atacar os nossos navios , pois logo no anno se- 
guinte de 1548 o poserao em efieitQ, como no- 
lo dá a conhecer a carta de Manoel de Araújo 
de 8 de Maio (4) d'aquel!e anno, e a represen- 

(1) nde p. 314 e 315, e noU 499 e 450 de f. 314 a 317. 

(2) f7^p.318a319. 

(3) ride p. 316. 
ii)JUd. 



.# 



— CVI — 

taçSo de 12 do dito mez (1) acerca da neoessi- 
dade que havia de se porem em estado de 4efensa 
as capitanias do Brazil iSdBtra os insultos dos 
Francezes, e o ver-se a Corte de Portugal 
obrigada a expedir em 1 3 do Dezembro a Braz 
d'AIvide novas ordens acerca d'outra commig- 
sSo e Juízo, que de accordo com Henrlquf II se 
havia assentado de estabelecer em Paris e Lis- 
boa para nella requererem seus direitos (2), os 
súbditos d'uma e d'outra nação, mapdanda 
EIRei D. João III por seus £mbaixador«v% 
França a D. Francisco de Norcmlia 
de Tanger, afim de ali protegerem e 
os súbditos portuguezes em suas. reclamações 
e litígios (3), e ordenando a Braz de Alyide 
houvesse de prestar aos ditos £mbaixadore$ o 
auxilio que podesse , cooperando com elles (4) .* 
No anno seguinte celebrando Henrique II , 
um Tratado d'Âllianca e Confederação com os 
Suissos, Tratado feito em 9 de Julho, fez oom- 
prehender nelle £1R^. de Portugal como um 




de seus alliados. 



(1) ride p. Si 7. 

(2) rid€ p. 31 s. 

(3) Uid. 

mibid. 




— cvn — 

Erao as intenções d'este novo Monarca de 
restabelecer a boa harmonia com Portugal , e 
remover as causas que a tinhao tornado quasi 

^ 

impossível^ durante o reinado de Francisco I^ 
e para esse eífeito por uma sua Carta Patente 
de 12 de Dezembro do mesmo anno de 1549, 
mandou ficassem sem effeito as Cartas de mar- 
ca^ contramarca ; e represálias passadas a re- 
querimento de seus vassallos contra os d'£lllei 
de Portugal (1 ) , e isto por espaço de dés an- 
nos^ durante dujo prazo se trataria de parte a 
parte da reparação das perdas e daixinos. £m 
consequência d' esta determinação fizerao-se 
em Portugal varias disposições de que a seu 
.tempo faremos menção. 

Ajustadas por este modo tao difficeis n^o- 
ciacões. e achando-se ElRei D.JoaoIlIna me- 
Ihor intellígenciacom o successor de Francisco 
I, tratou no anno seguinte de 1560 de obrigar 
o Monarca francez a ajudál-o na negociação 
que encetava da elevação do .Cardeal Henrique 
ao Trono Pontifício. Para este effeito em Feve- 
reiro do dito anno mandou a seu Embaixador 
Braz de Âlvide uma Carta Credencial para 
ElRei de França concernente ao negocio do 

\ , .JL I ■> 

fl) riJe p. 322. ^ 

'- ' ■ . - . 




— cvm — 

Cardeal Infante (4), acompanhando-a d'uma 
Instrucção da mesma data (2), e pela mesma oc- 
casiao escreveo ao Condestaveldé França sobre 
aquelle particular , e no presupposto de que o 
Cardeal havia tido muitos votos no Conclave, 
estava persuadido que ElRei de França nSo 
deixaria de favorecer aquella eleição^ man- 
dando fallar aos Cardeaes; em quanto d'isto 
tratava, manda va-lhe Henrique II notificar a 
conclusão do Tratado de Paz que acabava de 
celebrar cóm Inglaterra (3). 

Neste mesmo anno de 1 550, e no de 1 558 da- 
mos em substancia as curiosas negociações que 
a Rainha D. Leonor tratou com a nossa Górte 
sobre o casamento de sua filha a Infanta D. 
Maria (4), e da habilidade com que se houve o 
Gabinete portuguez em tao intrincado negoeio, 
(5) poderosamente ajudado pelo Embaixador 
Lourenço Pirez de Távora, um dos nosaíte 
melhores diplomatas d'aquella época (6)» > \ 

(2) Ihid, Vejão-se as NegocíaçSes na Guria de Romadtiaí 
baizador Balthazar de Faria, secção XYII, e sec^ XXnT 
o Império. *^ 

(3) Fiàe p. 323. 

(4) r«(^ p. 324 e ieg. 
(5; Ihid. 

(6) Vidt IkMsiun., de p.I32 »328, e a nota 470. 



— CIX — 

Em guanto durou esta n^ociaçSo, tratou D» 
João ni de empregar quÉRa influencia podia 
ter sobre o animo do Monarca francez para 
persuadil-o de se congraçar com o Papa (1 ) > 
concertadas as desavenças que entre elles 
havia , e porventura na esperança de inspirar- 
Ihe mais confiança , mandou por em liberdade 
^ os Francezes que tinhao sido feitos prisioneiros 
pela esquadra do Almirante de Portugal (2). 

Por estes meios tratava também ElRei de se 
conciliar a amizade de Henrique II para outros, 
fins, pois vemos que nçsse mesmo anno 
entrámos em negociação com a França sobre 
algumas matérias que diziao respeito á segu- 
rança da nossa navegação^ e commercioj para 
cujo efieito expedio ElRei D. João III uma 
nova Credencial ao seu Embaixador Braz de 
Al vide (3), na qual dizia ao Monarca fran-^ 
cez < que aquella matéria era de tal natureza , 
» e tão necessária à conservação da amizade • e 
>% antiga aUiança que entre ambos havia, que 
esperava, etc., epela mesma occasiSo escreveo 
também ao Gondestavel de França sobre o 



(1) riVfcp. 329e3M. 

(2) Fidc p. 330. 

(3) Fide p. 330. 



— cx — 

mesmo objecto leDcommendando de novo ao 
sobredito Embaixador em Instrucçao de 22 de 
Septembro, o que deveria fazer com Henrique 
II, e o modo por que se devia de haver para 
alcançar a final a restituição dos navios captu- 
rados e das fazendas , que os Francezes havião 
tomado aos Portuguezes (1 )• 

O que em virtude d'esta Instrucçao pratio^Hk 
o Embaixador consta dos summarios, <ptt 
d'esta negociação publicamos (2). D'elle8 tam- 
bém se vê que nao descontinuarão os corsários 
francezes de commetter os mesmos roubos ^ e 
excessos, sendo , como parece provável ^ uma 
das causas que a isso os excitava o estado 4b- 
terior da França , e o ultimo apuro em que 
estavSo as suas finanças, sendo tal a po- 
breza do Erário, que Henrique II se vio obrigado 
a impor um tributo sobre as torres dos sinos, 
€ outro sobre a prata das Igrejas , e como igto 
nSo bastasse, teve de desannexargranda parte 
das terras da Coroa, que vendeo a particulares, 
e tudo isto para poder sustentar a guerra qiie 
trazia com o Imperador, e com os Piemon- 
tezes. 



(1) Fide p. 331. 

(2) ride DocHm., p. 331 6 332. 



— CXI — 

Neste estado de cousas não nos deve causar 
espanto^ que se tolerasse em França a pirataria ; 
e que os grandes I ucros, que os armadores fran- 
cezes tiravão da captura de nossos navios, os es- 
poreasse cada vez mais a acossál-os, buscando- 
os em todos os mares em despeito de todos os 
tratados. As perdas mesmo que não poucas ve- 
zesexperimentavao, caindo em poder de nossos 
craveiros, nos suscitavao novos inimigos, esti-^ 
mulando-os a viqi^r a morte e ruina dos com- 
panheiros. Muitos são os documentos que does- 
tes actos de pirataria produzimos neste volu- 
me, e observaremos que de ordinário os arma- 
mentos, que a elles conduzião , augmentavão 
visivelmente, quando 3e rompia a guerra entre 
o Imperador e os Reis de França , e quando 
ft^s dissensões civis rebentando nas <liversas 
províncias d'esta monarchia enfraqueciao o 
governo, principalmente nos portos do Ca^ 
nal, onde elle tinha pouca acção por causa da 
influencia dos Lutheranos. 

Não estava porém Fortugit) desapercebido, 
como já por diversas vezes temos ponderado, 
e como no-lo provãp os documentos do anno 
de 1 552, por que, como ao nosso governo cons- 
tasse que dos portos de França tinhao saido 



^•: 



— CXII — 

muitos navios armados, e que outros se dis- 
punhao a partir para andarem a corso contra 
quantos encontrassem, derao-se em todos os 
portos do reino bem entendidas providen- 
cias (1), e alem d'isto ElRei D. João III fez com 
o Imperador Carlos Y uma convenção especial, 
pela qual o Imperador se obrigou a mandar 

ff 

guardar o estreito de Gibraltar por meio d\ima 
esquadra hespanhola de conserva com a poirtu* 
gueza. Nem se descuidou tSo pouco o monar- 
ca portuguez de suas conquistas , antes pelo 
contrario, acodindo a toda parte, mandou guar- 
necer, como já apontámos na secção XY d'esta 
obra (2), e guardar a costa d' Africa desde Ar- 
guim até áGuiné, e o litoral do Brazil, ao mesmo 
tempo que nossas esquadras, nesse mesmo 
anno, davSocaça a quantos navios francezes eri^ 
contravão (3). C!ontinuavão entretanto nossos 
Embaixadores a protestar perante o governo 
francez contra tao flagrantes violações dos tnr 
tados^ e tSo manifesto desprezo das ordens 
tantas vezes dadas pelos soberanos francezes, e 
das promessas solemnes feitas a Portugal, e 



mim 



(1) Fide^. 338; 

(2) Tide p. 3&5. 

(3) Md. 



— CXIII — 

das convençSes e ajustes com elle celebrados. 
Como ElRei D. João III escrevesse neste mesmo 
anno sobre tao importante assumpto ao Con- 
destavel de Montmorenci (1), em Dezembro 
promulgou EIRei de França uma nova Carta 
Patente (2) em que determinava />ara a conser^ 
vaçâo e augmenta^ãa boa, inteira ^ e perfeita 
amizade que tinha com EIRei de Portugal^ e 
para por termo ás depredações e injurias que 
os vassallos d'uma e d'outra Coroa se haviao 
reciprocamente feito, mandava pôr em vigor 
as Cartas Patentes de 1547, 1549, e de 14 Sep- 
tembro 1552, prolongando de accordo com 
EIRei de Portugal por mais 5 annos a suspen- 
são das cartas de marca e todo qualquer acto de 
hostilidade, com condição que em reciproci- 
dade outro tanto faria EIRei de Portugal. 

Mas logo no anno seguipte sem embargo de 
tao solemnes promessas, o celebre Yillegagnon 
se affoutou a ir occupar oRio de Janeiro, tendo 
para isso alcançado licença por intervenção do 
almirante de CoHgny (3) , o qual não duvidou 
proteger esta usorpação d'uma parte dos do- 

(1) ride p. 335. 

(2) ndep. 338. 

(S) rufo de fr, 342 «344, 



1» 



— cxnt — 

minios da Coroa de Portugal, com quanto ti-i 

vessc estipulado no tratado deTregoas de Vau* 
celles de 5 de Fevereiro do mesmo anno^ em 
que forSo partes contractantes ellc, Henri- 
que II, Carlos V, e Philippe II, que PQ||tugal 
ficava comprehendido no dito tratacJH^^mo 
commum aliado (1), 

Neste mesmo anno assignalámos a missão 
de Gaspar Palha aPariz (2), e o que Diego Lopes 
de Souza, outro Agente nosso, passara com 
Henrique II rei de França (3), a respeito da paz 
com o Imperador. Também damos em sum* 
mario o curioso documento relativo á conces- 
são feita pelo mencionado rei de França aos 
mercadores portuguezes denominados chris- 
tãos novos, para poderem ir commerciar, e esta* 
belecer-se em França facultando-lhes nSo só 
os antigos privilégios , concedidos ha muito 
aos demais mercadores portuguezes , mas até 
os mesmos de que gozavão os próprios fran- 
cezes (4). 

TornSo a renovar-se as hostilidades en 1566, 
concedendo EIRei de Franga neste anno uma 



(1) Fideip,ZZ9. 






(2) Fidc p. 340. ^ 




' 


(3) Fide p. 341, " 




1 


(4) Fide^. 341. 


* i->..- 


• 



carta de marca a certo Scot e companheiros 
para fazer represálias èm quaesquer proprie- 
dades porfuguezes , no caso de se lhes nao sa- 
tisfazer no prazo de três mezes a importância 
de certo navio que lhe havia sido tomado (1). 

Neste mesmo anno e no seguinte continuá- 
rSo-se as negociações com a Corte de Portugal 
sobre o casamento, e entrega da Infanta D. Ma- 
ria, dilatando EIRei D. João III a entrega d'e]Ia 
e do dote (2) pelos meios que apontámos até 
que veio a fallecer em 1 1 de julho de 1557. 

No reinado seguinte d^EIRei D. Sebastião 
nossas relações com a FraMfea forão procedendo 
no mesmo pê que nos dous precedentes; rei- 
nava entre as duas Cortes a maior harmonia, 
ao passo que por már se commettião as maio- 
res hostilidades, sendo os portos de nossas co- 
lónias infestados neste mesmo anno de 1 557 
no corrente de Outubro, e logo em Janeiro do 
seguinte vemos prolongar-se por mais 5 annos 
a cessação de toda a hostilidade entre os vas- 
sallos de ambas as Coroas (3), mandando EIRei 
de Portugal varias ordens aos juizes para den- 



(1) Fid€ p. 344. 

fs) Fidc p. a^d. 






l 



»- CXVI — 

tro dodito prazo decidirem o negocio das pre- 
sas (1). A conclusão d'este novo concerto caA^ 
sou á Rainha D. Catherina nao nfenor satiafii- 
çao j que a noticia que lhe deo o C!ondestayel. 
de Montmorenci da nomeação d' um novo Em- 
baixador de França em lugar do cavalheiro de 
Seure, de quem a Corte de Portugal se havia 
queixado, pedindo á de França que o mandasse 
retirar, de tudo o que deo a sobredita Rainha 
parte ao Bispo de Portalegre com grandes mos- 
tras d'alegria (2). 

No anno seguinte de 1 558 indicamos com a 
autoridade de Barbosa a missão dada pela Rai- 
nha Regente em nome d'ElRei D. Sebastião a 
Braz d^AIvide para tratar em França da he- 
rança da Infanta D. Maria (3), missSo que é 
confirmada pelo officio do Embaixador em Pa- 
riz Gaspar Palha, o qual em 1 1 de septembro 
do dito anno (4) participa a EIRei fallecera em 
Pariz Braz de Al vide que ali estava tratando 



(1) ride p. 360. 

(2) f^Jtfp. 361. 

(3) Fidc p. 362. 

(4) Este officio que colocámos no anno de 1555 conforme o 
primeiro smnmario, que ha 15 annos fizemos no Real ArchiTo, 
sendo agora verificado, achon-se ser do anno de 1558, como M 
mostra pela copia authentica ^e do dito Arobiro tomoi* 



m 



1 .1» 



•# 




dos negócios da Infanta D. Mam. Damos tam-. 
bêm d'este mesmo anno o curioso documento 
áo-'jÊÍéenio das conferencias sobre a questão 
pendente entre a França e a Inglaterra acerca 
da posse de Galais^ onde se tratou de entregar 
aquella cidade e porto em mão d'um soberano 
neutro, e amigo de ambos os contendentes, efti 
quanto por juizo se decidia a qual d'elles por 
direito pertencia, nomeando-se El Rei de Por- 
tugal por um dos Juizes que devião decidir da 
contenda (1). 

Continuou igualmente Portugal a ter parte, 
como nos antigos tempos, em todas às grandes 
transacções diplomáticas que occorrerão, co 
se vê , sendo Portugal comprehendido 
tratado de Cambresis, celebrado aos 26 de Ou- 
tubro d'este anno de 1 558entreElRei de Franca 
e de Castella (2). 

No anno seguinte de 1559 continuava ainda 
em seus trabalhos a com missão das presas em 
Lisboa e Pariz em virtude do concerto feito 
entre as duas Cortes, que o havião prorogado 
por mais 5 annos (3), e nesse mesmo tempo 

■ ! "^^^ 

(1) Tiííedep. 365a367, 
(2j ri£/cp. 367. 
(3) Vide p, 369, 

111. ^ h 




*# 



• 



— CXVIII — 

conseguia Portugal regular os negócios da In- 
fanta D. Maria com o Gabinete de França^ mas 
a pezar do bom êxito d'estas negociaçõe%pHS|PAi^ 
delatavão a boa harmonia em que estávamos 
com a França^ subsistião as mesmas hostilida- 
des^ continuando os corsários d' esta nação a 
atacar os nossos navios, particularmente nos 
mares da Europa, posto que não deixassem de 
fazer, quando podião^ algumas viagens clandes- 
tinas á costa de Guiné. Pela carta que publica- 
mos do Capitão da Mina se vé, que ainda neste 
npiesmo anno de 4 559 titihão ali ido^ e perdido 
dous navios fortes e bem artilhados y porém que 
^Urante o governo do dito Capitão nenhum 
i^fimimercio havião feito nem na Guiné, nem na 
costa de Malagueta (1), posto que no anno an- 
tecedente tivessem levado fazendas de compa- 



(1) Vide pu 371. — No documento do Real Archivo de «fue 
temos copia tirada do Corp. Chronol. P. 1. moço 103, docum, 
57, encontrámos uma passagem curiosa para a Historia da Geo* 
graphia e da naregacSo d'aquelle tempo, e vem a ser, que tra- 
tando Manoelde Mesquita da yiagcm da Esquadra diz o se- 
fninte : c Esta armada foi abaixo três vezes 60 legoas da Ifiiia 
pêra julavento contra parecer dos pilotos que dixiâo que nSo 
podião tornar, ora tenho eu quebrado este prodígio , e acho 
que se pode por hai navegar como barcos de Lisboa para Saa- 
tarem. i 



# 



— G3UX — 

nhia cmn o^ Inglezes ^ do que se queixava 
amargamente o mencionado official. 

Esta violação de todos os tratados e conven- 
ções que a França havia feito com Portugal, e 
das repetidas promessas de Francisco I^ e Hen- 
rique II tinha posto em desconfiança o Gabinete 
portuguez, e os seus agentes nas difierentes 
Cortes, a tal |gqnto que vemos neste mesmo 
anno dei 559^||^o Embaixador em Castella 
avisar o governo da cautella em que devia de 
estar dos Francezes (1 ), e que em outro oíficio 
do Emb^a(i|ff B. Francisco Pereira de 2 de 
Junho doeste mesmo anno encontrarmos as mes- 
mas suspeitas, e outras muitas particularida- 
des relativas á Fraiíba e ao Império ; dando-nos 
este documento a saber que os nossos diplo- 
matas não se esquecião de informar o governo 
de quanto nas outras Cortes se passava (2)^ «o 
|Misso que os nossos soberanos estavao em cor- 
respondencia seguida de antigos tempos com 
os Principes e Princezas, e com os homens 
d'Estado da maior parte da Europa. No ofBcio 
de que tratamos vemos que o dito Embaixador 



*i-» 



(1)^1*11.571. 

(2) AvfiwvaReal. d« Torre do Tombo, Gorp. Chronol. P. 1 , 
mac, 108, Docuin. 79. 



— cxx — 

visitara a Duqueza de Lorrena^ filha d'E1Réi de 
Dinamarca, e lhe entregara a carta d'E1Rei 
D.Sebastião; que esta Princeza respondera ^ 
e se queixara dos escassos rendimentos que 
lhe vinhão do reino de Nápoles e de MilSo. 

Continuou a nossa Corte no mesmo sy stemá 
de politica amigável para com a França , assim 
que, apenas lhe constou da desastrosa morte 
dei Rei Henrique II, naoperdeo tempo era man- 
dar uma embaixada extraordinária ao seu sue- 
cessor Francisco 11^ nomeando para este efiPeito 
Dom Álvaro de Castro^ uma das pesMas mais 
distinctas do reino , o qual foi apresentado ao 
novo monarca pelo embaixador ordinário 
João Pereira d'Antas (1). 

Mandou também logo ElRei de França outro 
embaixador em lugar de Honorato de Gazes 
que havia muitos annos residia em Lisboa e 
de quem tratamos em outro lugar, e foi estelte 
cavalheiro Le Seure o qual foi em breve substi- 
tuído por João Nicot, cujo nome se tornou ao 
depois tão celebre por haver introduzido-em 
França o tabaco. Tivemos a ventura de des- 
èobrír nos manuscritos da Bibliotheca Real de 
Variz um officio original d'elle de que dafpos 



(O ride p, 372, 



— CXXl — 

um extenso summario (1 ). Entre as particu- 
laridades que d'elle colhemos apontaremos 
as seguintes : •.'t* que no fim do anno de 
1559 o commercio clandestino^ que contra os 
nossos direitos fazião os Francezes em Guiné ^ 
e na costa da Malagueta, era tão insignificante 
qvíe um dos objectos principáes da missão 
d'este Embaixador era alcançar do Governo 
portuguez a concessão de cem quintáes de 
pimenta para fornecimento da França ; 2"* que 
tão importante era esse assumpto, que o 
* Inesmo empregou toda a sua influencia^ e usou 
/4e'quantos meios de persuasão lhe viérão á me- 
moria para alcançar a sobredita concessão ; 
3** fjue o outro objecto de sua missão era o 
obter da nossa Corte o reconhecimento dos 
cinco juizes nomeados por elle Embaixador em 
virtude da convenção feita entre a França e 
Portugal da suspensão das cartas de marca ^ 
ao que a Rainha se recusou por não ter o dito 
Embaixador vindo jvwinido de poderes espe-* 
ciáes para aquelle Beócio; nem são menos 
curiosas as particularídllries que ali se encon- 
trão acerca da vinda a Lisboa dos Embaixa- 
dores de Castella* 

(1) FiVIf de p. 373 a 378. 



ff* 



•• 




— Gxxn — 

Em quanto duravSo estas diversas nego- 
ciações^ eontinuavao os Francezes a ir clan- 
destinamente ao Brasil (1 ) ^ como o fízerBQ 
anno seguinte de 1 560, donde forSo expi 

Já em outra parte dissemos que uma das 
causas, que promovia estes actos de pirataria, 
era o mào estado das finanças de França dvi^ 
rante as guerras do tempo de Francisco I, c 
de Henrique 11; o mesmo estado de cousas 
subsistia no tempo de Francisco II , pois ve- 
mos que quando o Cardeal de Lorrena entrou 
no ministério achou o estado com 43 InilhOtt 
de divida , quantia exorbitante para aqueflê 
tempo. NSo devemos aqui passar em silendd 
uma particularidade digna de ponderaçSo , « 
vem a ser, que durante a administração dò 
dito Cardeal o Embaixador de Portugal eiitSo 
cm França foi mui bem visto da Corte, c mui 
aceito do ministro, como se mostra pelo dea^ 
pacho d'este ao Bispo de Limoges , Embaixà« 
dor de França em Hespanha de 22 de Mêôò 
de i 560 (2). 

Fallecendo FrandsM II) « subindo ao trono 
darlos IX, vé-sequs a Corte de Portugal se n8o 



riM^i^M* 



(1) Fide p. 378 e seguintes. 

(2) Négociations sons François U, pUMicafliaè pòt M. L. ^kStis. 



*i 



— CXXIII — 

demorara em mandar á de França com o ca- 
racter de Embaixador extraordinário aD.lPho- 
mas de Noronha para dar os pezames aô liovo 
Soberano^ levando cartas para a Rainha Gà- 
therina deMédicis, e para Maria Stuart , o Car- 
deal de Lorrena, e o Arcebispo de Rheims Ç\). 

O primeiro documento do reinado d'este so- 
berano relativo a Portugal, que podemos des- 
cobrir, foi o da prohibiçao por elle feita ém lò 
de Fevereiro de 1 561 aos seus vassallos que iSò 
comraerciar em Portugal , sob pena de confisco, 
de levarem ou mandarem por terceiras pes- 
soas livros compostos pelos sectarios^^ia sup*- 
posta religião, ou suspeitos de heresia Çl). 

Posto que este novo Soberano no doeu- 
mento, que citamos, mostrasse o quanto á 
Franca interessava no commercio com OS Por- 
tuguezes. ném por isso deixàrSo de armarem- 
se neste mesmo anno nos portos dè França t 
navios para irem ao Brazil (3), e segundo à 
opinião do Embaixador do Império em Ingla- 



(.1) P^idc p. 379. 

(2) ride p. 380. — Os progressos que os Lntheranos íaaiSo 
em França dando grande cuidado á Corte de Madrid , manddii 
4taser «obre aqttelie «ssmnpto atgnmas representações, e ã 9# 
Portugal seguio proYaYelmente o seu exempitw 

(3) Fide p. 382. 



> 



terra com intento de saquearem os navios que 

voltavao do Peru; posto que o Embaixador de 

França em Londres declarasse que aquella 

/jI»; expedição que se aparelhava no Havre devia 

de ser posta debaixo do commando deVill^a- 
gnon a titulo de carta de marca contra os Por- 
tugezes pelo valor de 400,000 escudos, im- 
portância dos damnos que d'elles dizia tçr re- 
r cebido no forte que lhe havião demolido, e para 

fazer-lhes o mal que podesse em sufis possessões 
d' Africa. 

Também em Portugal se nao descuidava o 
governo de aprestar uma esquadra para ir 
guardar a Gosta da Mina , como se vé em um 
officio de João Pereira d' Antas, Embaixador 
de Portugal em França que indicámos (1). . 

Trabalhavão no entanto muitos aventureiros 
em se estabelecer em nossas conquistas apezar 
dos perigos a que se expunhao. Cabe que 
façamos menção d'um documento que, em 
nosso entender, é de summa importância e 
de que daremos um amplo summario na Secção 
de nossas relações com Africa ^ pois por elle se 
prova d'um modo incontestável, que em 29 






■^ 






V 



f 



.f 









— cxxv — 

de Marco de 1 561 os Francezes nao tinhao 
ainda nem sequer |tttado estábelecerem-se 
no Senegal. 

Ê o documento de que tratamos uma carta de 
Diogo Carreiro escrita a ElRei D. Sebastiio , e 
datada do Senegal do dia que acima apontámos. 
Refere-se o autor d'ella a outras que havia an- 
teriormente escrito ao mesmo Monarca sobre 
o que passara durante a viagem que 6zéra até 
o Senegal e sobre o que no caminho lhe occor- "Íh^ 

rera com os Francezes, com quem peleijára. 
Exalta em fim o grande acontecimento de ter 
conseguido entrar naquelle rio antes visitado 
por alguns de seus companheiros. Depois 
coiiflí como pacificara todos os Reis que habi- 
tavao nas terras ^jJj^íK^^^ d'aquelle rio, 
com os quaes em nonM^dRElRei fòra liberal 
em dadivas, accrescentando que tem aberta 
toda a communicaçào e navegação d'aquelle rio 
e caminho de Tumbuqutu, e que quando EIRei 
recebesse aquella carta, teria chegado áquella 
cidade , de modo que passados os Azenegues^ 
Tuquoroisj e Fulos chegaria aos Guinéos da 
cidade de Gana, populosissima cidade metro^ 
poli de Tumbuqutu. 

E ajunta que fará com que o dominio e 



■A *U 



— Gxxn — 

senhorio d'ElRei se extenda por todo o rio ! 

* 

adverte que seria mister edificar uma fortaleza 
na barra do mesmo rio , conforme o intento 
d'ElRei D. João II, quando mandara 70 navios 
àquetie rio. Diz que fundando-se ali a forta- 
leza, ElRei de Portugal ficaria superior, so- 
bre todos os Reis d'elle, obrigando-se elle 
Diogo Carreiro só com 40 homens na ilha (1) 
e peninsula (2) a edificàl-a (note-se bem este 
passo) contra a vontade do Rei de Jalofo a 
quem toca (3), e se obriga depois de feito o 
dito forte a guardar o rio com só 20 homens 
contra os Estrangeiros por már, e dos prín- 
cipes bárbaros por terra , e conclue f^^lnal * 
aquella interessante carta dando pane á 
ElRei de que ia continuar sua viagem d'ex*- 
ploração, e que daria parte do resultado 
expedindo uma embarcação para Portugal (4). 



^/amm 



(1) É A Uba hoje chamada pelos Francezes de S. Lnú 4o 
Senegal qne ainda em 1 561 não tinha tal nome. Este explorador 
descreve ao depois perfeitamente a ilha. 

{7) É a ponta chamada de Barbaria. 

(3) Repare-se que náo dix contra a vontade d'ElR«Í de 
França ou dos Francezes, mas sim do Rei do lalolò^ixova evi- 
dente de que os Francezes não tinhão ali estabelecimento al- 
gum. 

(4) ArduTo Keal da Torre do Tombo, Owp. Chronol. P. 1, 
Março 107, Docum. 58. 



— CXXVll — 

SSo igualmente de gràndissima importância 
as neçociações que se seguirão para se efifectuar 
o cazamento d'EIRei D. Sebastião com uma 
Princeza da Casa Real de França (1); das 
quaes damos curiosas noticias ^ tiradas da 
correspondência do Marquez de S. Sulpicio , 
Embaixador de França na Corte de Madrid , 
de M'. de Fourquevaux outro Embaixador na 
mesma Corte (2), do Bispo d'Angouleme, Em- 
Mixador de França eiÈ Roma (3), e de M. de La 
Molhe Fénélon. 

Continua Portugal a ser representado em 
todos os grandes actos diplomáticos, sendo 
comprehendido nos Tratados celebrados pela 
França com outras Potencias, pois no de 
Fribourgo de 7 de Dezembro de 1 564 , feito 
entre Carlos IX e a Suissa , interveio como 
alliado da França (4). 

« 

Apezar de ser Portugal comprehendido peltf 
Franca como seu alliado neste e era outros tra- 
tados, apezar de se tratar de se ligarem as 
duas familias reinantes pelo casamento do 

(1) Fi*ÍC888, »«4, 352. 

(2) Fide p. 396 a 399. 

(3) r^de p. 408. 

(4) ride p. 3Ô9. 



>*■ 



« '■ 



— CXXVIXI — 

Monarca Portuguez com a írma do mesmo 
Carlos IX , pois que a Corte de Roma pop 
via do Papa instava para que elle se efifec- 
tuásse (1), neste mesmo anno de 1564, forao 
os Francezes infestar de novo as costas do 
Brazil (2) ; o officio de João Pereira d' Antas 
dirigido a ElRei em data de 10 de Jtitteiro do 
anno antecedente no-lo patentéa^ e jb&inprova 
o que já por varias vezes dissemos éníÊtca. das 
causas principáes d' èstK anomalia de lioslail» 
dades por már e de boa harmonia por terra , 
pois vindo a fallar d'ElRei de França diz, que 
Carlos IX se achava desobedecido de tanta 
gente , e de tanta parte da gente do reino de 
todas as qualidades e estados, que o que fizesse 
valeria pouco ou nada, pela oppressSo que 
uns padecião « desobediência que ovÊtos 
usavão (3). 

% Vé-se que este Embaixador teve ordem de 
pedir satisfação do insulto feito á ilha da Ma- 
deira , e que o Gabinete francez, desejoso de 
conservar a amizade que havia entre amba* 
as coroas , e tirar todo o pretexto para novas 

(1) Fide p. 392. ' 

(2) Fidú docum. p. 393. 

(3) Doomn. cit.» 384. 






— cxxtx — 

discórdias^ propoz o casameuto da Princesa 
Margarida com ElRei^ sendo uma das condi- 
f coes do Tratado que por esta occasiao se 
devia celebrar, que nunca as armas de França 
infestariãOi. as terras da conquista de Portu- 
gal (\\ tÉMVando-se que táeserao com effeito 
os desejos da Corte de França , pelo teor da 
carta do Condestavel de Montmorenci, para o 
Cardeal Infante em data de 10 de Dezembro 
do dito anno (2), e pelo importantissimo offi- 
cíodeM. de Fourquevaux, de 19 do mesmo 
mez e anno (3) , e vendo-se por outra parte 
que o insulto feito à Ilha da Madeira por 
Mcmtluc irritara a tal ponto a nação portu- 
gueza , que o Embaixador de França , escre- 
vendo à sua Corte, se expressava da maneira 
a mais terminante, ao passo que a de Por- 
tugal nao cessou no anno seguinte de 1 567, de 
IpSEcr as devidas reclamações por via do Em- 
« baixador João Pereira d' Antas (4) , e que o go- 
AllBrno francez, nSo desejando romper com 
Portugal, mandou desculpar-se*d'aquelle acon- 



.-» 



(I) Fide p. 395. 
(I) Fide p. 396. 
^(3) Ibid. 
(4) Fide p. 400, 4«tÍNf . 



*• 






— . cxxx — 

tecimento (1), despachando para Lisboa neste 
niesnio anuo um Enviado com Cartas Patentes 
de Carlos IX, em data de G de Fevereiro, con- 
firmando as disposições de outras passadas 
por seus predecessores , prohij^ndo a seus 
vassallos de fretarem quaesquer embarcações 
estrangeiras para exportarem fazendas a ou- 
tros paizes y e isto em consequência do que a 
este respeito se praticava em Portugal e outros 
reinos (2). 

Em quanto isto se passava na Europa^ a 
Corte de Portugal fazia todos os preparativos 
necessários para expulsar os Francezes do Rio 
de Janeiro , o que conseguio pelas victorias 
que contra elles alcançou naquellas partes o 
valeroso Mendo de Sá em 1 567 (3), 

Não estava ociosa a Corte de Madrid ^ e a- 
proveitando-se da frieza que estes aconteci- 
mentos produzião entre a nossa e adeFranq% 
trabalhava por induzir ElRei D. Sebastião a 



(1) f^ide p. 400, 402 e seg. — Devemos adrertir que por 
nm erro de imprensa esta indicação se nílo acha em seu devido 
lugar que devia ser a pag. 399. 

(2) Fidc p. 400 a 402. . - 

(3) ride p, 399. 



— C30WI — 

casar-se com uma das filhas do Imperador (1 ). 

Sem embargo de tantos motivos de queixa 
que o nbtsso Gabinete tinha do procedimento 
dos súbditos francezes, vemos que em Janeiro 
do anno seguinte ElRei de Portugal, obser- 
vando em todo o seu rigor os ajustes feitos com 
Franca, ordenou que nenhuma pessoa de seus 
reinos favorecesse ou acoutasse traidores a El- 
Jlei de Franca, conforme a convenção que fora 
concertada entre as duas nações (2). 

Pela serie de documentos que publicamos 
principalmente do anno de 1 568 em diante, se 
mostra o quanto a Qàrte de Roma julgava ne- 
cessário para osocego da Europa o casamento 
d'ElRei D. Sebastião; que este estivera tantas 
vezes concertado, quantas desfeito; faz-nos ver 
emfím todas as alternativas d'esta importante 
negociação, e o quanto as Cortes Estrangeiras, 
e particularmente as de Roma e Pariz desejavão 
assegurar a successão da Casa Real Portugue- 
za (3),e o serio cuidado, que dava á nossa o pro- 
gresso que em França ião fazendo os Luthe- 

(1) Fide p. 402 a 404^ e a curiosa relaçào p. 405 tirada de 
um Msfl. da Bibliotheca Keal de Pariz. 

(2) Fide p. 404. 

(S) Fidc p. 409, 410, 412, 415 e 4iC. 



r 
I 



— cxxxn — * * 



ranos nSo só pelas consequências que podiSo 
ter no que dizia respeito á fé, mas também por 
outras considerações politicas; porque sendo 
estes sectários muitos^ e poderosos, vendo-se 
expulsos de França se afoutarião contra nossas 
conquistas. Este foi o motivo porque a der- 
rota do Príncipe de Conde na batalha de Jar- 
nac causou tanta alegria e alvoroço em nossa 
Corte, que ElRei D. Sebastião mandou a Parií 
com o caracter d^Embaixador extraordinário 
D. Jeão Mascarenhas, illustre defensor de 
Dio, para congratular a Carlos IX portal vic- 
toria (1). Não forão comtudo os resultados 
d'clla favoráveis aos negócios de Portugal, an- 
tes pelo contrario, porque os Protestantes ca- 
pitaneados pelo Almirante, tendo-se retirado 
para os portos do mar, tratarão de armar na- 
vios com destino para nossas conquistas (2), 
contra cuja expedição se tomarão em Portugal 
varias medidas, mandando-se aprestar uma 
armada de que foi commandante D. Jorge de 
Lima (3). 

Em Janeiro do seguinte anno de 1 570, man- 
dou Carlos IX , por Carta Patente d'esta data, 

(1) ride p. 412, 423. 

(2) ^i€Ííp. 412«428. 

(3) ridt ibid. 



— CXXXIII — 



restituir todas as presas que tinhão sido fei- 
tas aos Portuguezes pelos corsários francezes , 
revogando todas as cartas de marca e contra- 
marca por elle concedidas contra o nosso com- 
mercio (1), mas isto não obstou ao horrivel 
attentado que em 15 de Julho do mesmo anno 
commetteo Jacques Soria^ contra a náo portu- 
gueza Santiago (2), repetindo no anno se- 
guinte um segundo insulto (3). 

Exasperado EIRei D. Sebastião com seme- 
lhantes actos de pirataria, ordena a seu Em- 
baixador em França João Gomes da Silva, que 
faça perante EIRei de França as representa- 
ções mais fortes, encommendando-lhe fizesse 
aquella reclamação em quanto elle mandava 
uma armada em busca dos corsários, «úeem 
effeito para esse fim se aprestou em Lisboa 
no anno seguinte uma de 30 velas (4). Como 
porém neste mesmo anno succedesse a morte 
de Coligny, e o destroço dos Lutheranos, man- 
dou immediatamentc EIRei D. Sebastião por 
seu Embaixador extraordinário a França D. Af- 



(1) ride p. 424 a 426. 

(2) riW<fp..426. 

(3) ride p. 436. 

(4) ride p. 426. 



III. 



# 



— cxxxiv — 



fonso de Lencastre a fim de comprimentar 
Carlos IX por occasião d'aquelle aconteci- 
mento^ e de tratar também d'outros as- 
sumptos que se achão indicados nas instruo- 
coes que produzimos (1). 

De tudo quanto temos dito, e dos documen- 
tos que d'este reinado publicamos se mostra 
que Carlos IX conservou para com a Casa 
Real Portugueza a mesma politica de seus 
predecessores ^ sendo o ultimo acto de seu go- 
verno concernente a Portugal o da Embaixada, 
que mandou a ElRei D. Sebastião para dar^ 
lhe os pezames pelo fallecimento da Princeza 
D. Joanna (2). 

Fallecidoeste Monarca^ e subindo ao trono 
de França Henrique 11^ nao tardou ElRei D. Se* 
bastião em mandál-o comprimentar, depu- 
tando-lhe para este fim com o caracter de 
Embaixador a D. Nuno Manoel , o qual ia 
também encarregado de tratar da nunca coA- 
cluida negociação das presas (3). Levava tam- 
bém o sobredito Embaixador missão de res- 
ponder ao peditório segunda vez feito pela 

(1) Fidç p. 446. 

(2) ride p. 457. 

(3) ride p. 458. 



• 



— cxxxv — 

França de certa porção de pimenta. Damos^ 
em summarios os officios do dito nosso Em- 
baixador de Março e Outubro de 1 575, e uriía 
carta d'EIRei para elle, porque nestes docu- 
mentos se vê quáes fossem os principaes ob- 
jectos, de que fora encarregado. (1). 

No reinado que se seguio do Cardeal Rei 
começamos por dar a importantissima cor- 
i^spoudencia de Henrique III e M. Dabain 
seu Embaixador em Roma que tivemos a for- 
tuna de encontrar nos manuscriptos da Bi- 
bliotheca Real de Pariz , pela qual se mostra 
quanto aFrança trabalhou para qiwl^ilippe li 
de Gastella,se não apossasse de Portugal, ne- 
gociando com a Corte de Roma , e mandando 
a Lisboa um Embaixador ofiFerecer ao Car- 
deal Rei todos os auxilios de que podia neces- 
sitar ^A^ra se defender de Castella. Também 
da mesma correspondência se vé a negociação 
intentada por parte da Rainha de França por 
via do mesmo embaixador acerca dos direitos 
que pretendia ter á Coroa de Portugal, fi- 
cando o trono vago por morte do Cardeal 
Rei. 

Não sSo menos importantes as cartas e va- 

(1) f^ide p. 458 e 459 e feg. 



-iV 






I 






l 



CXXXVI — 

rios documentos inéditos, relativos 1^4^. An- 
tónio (t) que neste volume damos, pois por 
elles se vê que nessa época residia en França 
com o caracter de Embaixador Francisco Gi- 
raldes (2), o qual passou depois para a Corte 
de Londres, como veremos na SecçSo XDL 
de nossas relações com Inglaterra. Tendo 
D. António, Prior do Crato, sido reconhecido 
pela França como soberano legitimo de Por- 
tugal , porém nao tendo chegado a exercer 
plenamente as prerogativas de Rei no interior 
do Reino y assentámos que compria que clas- 
sificássemos os documentos relativos a este 
Príncipe conjunctamente com os que dizem 
respeito ás relações entre França et Portugal 
durante o periodo de tempo da occupaçSo dos 
Philippes deCastella . As peças que podemos des^ 
cobrir doesta época nao deixão de ser d^^an- 
dissimo interesse, pois nos revélao muitas par- 
ticularidades importantes nao só para a nossa 
historia politica, mas ainda para a própria 
historia do reino, por se nao encontrarem em 
nenhum de nossos historiadores que de certo 
ignora vao a sua existência. 



(1) ride Cartas de 25 de NoTombrode 1579, p. 473 c 474. 

(2) Vide p. 469 c 475. 



#•»• 



— * CXXXVIl — 

A primeira peça d'este género coi» que de- 
parámos posterior á morte do Cardeal Rei é 
o officio do Embaixador de Franca em Roma 
datado de 9 de Fevereiro de 1 580, e a segunda 
a participação do mesmo feita á sua Corte em 
data de 22 com a. carta de Henrique III do 
ultimo d'aquelle mez e anno, vendo-se por esta 
yHue o Gabinete francez desde esse tempo se in- 
teressava na causa da Senhora Dqqueza de 
Bragança (1), insisHndo todavia nos direitos 
de Catherina de Médicis á successao da Coroa 
de Portugal no caso que os pretendentes se 
sojeitassem ao arbitrio e decisão dos juizes. 
Os oíBcios do Embaixador de Franca em RcMna 
de 8 e 21 de Marco e de 2 de Maio d'este 
mesmo anno«de 1580 aclarSo-nos ainda mais 
o estado dos negócios , e o decurso dos acon- 
tecimentos (2), podendo-se desde então Julgar 
que aquella contenda já não podia ser decidida 
senão pela força. Os summarios que produ- 
zimos dos despachos de M. Dabain de 30 de 
Maio^e 16 de Junho são preciosissimos para 
a nossa historia diplomática , para beni nos 



(1) ride p. 479 e seguinteik 

(2) ^idc p. m. 



** 



' 



— CXXXVIII ' — 

penetrarinos do estado em que se achava o 
reino n^aquella grande crise j sobretudo se os 
combinarmos com os do Senhor de St. Goard, 
embaixador de França em Hespanha, de quem 
achámos também todas as negociações (1). 

No mesmo anno publicamos uma curiosa 
relação relativa ás pretenções do direito que 
a Rainha de França , Catherina de Medíeis^ 
dizia ter á successão do trono de Portugal (2). 
Nos seguintes annos de 1581, 82, 83, 84, 85 e 
89 damos igualmente muitos e importantes 
documentos inéditos, que lançao uma nova luz 
no histórico do acontecido a D. António, e da 
parte que a Inglaterra tomou nos negócios e 
pretenções d'este Principe (3), serie que se 
deve completar com os que havemos de pu- 

ê 

blicar na Seccao XIX de nossas relações com 
Inglaterra. Apontaremos lambem aqui por se- 
rem de summo interesse as instrucçoes de 
3 d^Abril de 1 589 (4) que se achão neste vo- 
lum#, passadas por Henrique III a M. de Fresne 



(1) Este Embaixador succedeo a M. de Fourquevaux na Em- 
baixada d^Hespanha em 1572. 

(2) Vide p. 48(r a 488. 

(3) Vide de p. 489 a 509 c 513. 



^\í^ 



— GXXXIX — * " 



Forget , seu Embaixador em Hespaaha , como 
também os officios do Embaixador d'£IRei Ca- 
tfaolico em Pariz de 25 de Maio e 27 d' Agosto 
concernentes a D. António. Damos igualmente 
o summario das curiosas instruccoes d'Hen- 
riquelV dadas a seu Embaixador em Constan- 
tinopla, pelas quaesse mostra que ainda então 
este soberano considerava a posse de Portu- 
gal por EIRei de Gastella , como uma usur- 
páção (1)^ juntámos a isto o da carta que este 
monarca escreveo a D. António em 27 de 
Abril de 1595 (2). 

Publicamos finalmente neste volume os 
summarios. mais ou menos amplos d'outros 
muitos documentos interessantes até ao anno 
de 1 638^ isto é, até dous annos antes da gloriosa 
e para sempre memorável elevação ao trono 
de Portugal, da Augusta Casa de Bragaii^. 
Devemos com tudo declarar que tivemos a 
ventura de encontrar, no periodo de tempo 
que decorre desde 1580 até 16^40. muitos des- 
pachos e negociações dos ministros francezes 
até aqui inéditos que verão a luz. publica em 
outra parte da presente obra, e o mesmo, fa- 

(1) Yide documento, p. 518. 

(2) ride ibid. 






5r 



— CXL — 



remos com as instriiccõcs dadas a M. de Saint- 
Goard, Embaixador de França em Hespanha, e 
com a d'outros agentes diplomáticos que en- 
cerrão particularidades importantes. Citare- 
mos de passagem o despacho de 2 de Moio de 
1 580 acerca dos soccorros pedidos pelo Duque 
de Bragança á França. Os documentos que en- 
contrámos e de que consta este III^ tomo da 
nossa obra, formão a collecçao mais completa 
de quanto se passou desde o principio da mo- 
narchia até á acclamação do Senhor Rei D. 
João IV concernente ás relações que nesse 
longo periodode tempo tivemos com a Franca. 
Contem este IIP Tomo perto de 750 summa- 
rios dos quaes 400 são inéditos^ e mais de 200 
se não achão na Torre do Tombo : ora sendo o 
numero que tirámos dos documentos do 
Archivo de 221 , já se vê que só com os subsi- 
dios que elles nos ministrarão ficava este tra- 
balho incompletíssimo, como ficará qualquer 
outro d'esta natureza que dentro de Portugal 
se emprehender só com os documentos que 
existem no reino. Segue-sc pois mathematica- 
mente, que se este volume tivera sido publicado 
só com os documentos da Torre do Tombo 
lhe fatiaria quasi metade dos inéditos que 



í' 



CXLl — 






encerra apezar do vastíssimo thesouro de mo- 
numentos que se^uardao no mesmo Archivo, 
e $€ ser este um dos mais rieos e preciosos da 



f -, 




Esta demonstração , resultado do estudo de 
mais de 30 annos^ e do conhecimento adqui- 
rido dos documentos do Real Archivo da Torre 
do Tombo, não de dias, mas sim de 15 annos 
em que o frequentámos, bem como o dos 
Archívos estrangeiros, será levada ainda a 
maior evidencia nos volumes subsequentes (I). 

Nao terminaremos esta introduccão sem 
indicar ao feitor, que já nos três volumes que 
temos publicado se achãoos summarios remis- 
sivos de 1 87 Tratados , dos quaes daremos no 
fim do A^ volume um indice parcial que con- 
terá mais 36 , sendo o total só com duas Po- 
tencias de 223. 



'O % 



(1) As correcções e addiçOes a este volume irão no fíiii do á^ 
tomo' que comprehende as nossas relações coui a França desdo « j* 

que a Auguslissíina Casa reinante subio ao trono até aos nossos 
dias. 



III. 



• 



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A 






V* QUADRO ELEMENTAR 



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K :. •• ■ »*» 



RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS 



DE PORTUGAL. 



*- 






SECÇÃO XVI. 

EelaçOes Politicas e Diplomáticas entre Portugal e a França. 

GOVERNO DO CONDE DOM HENRIQUE. 

Nesta data se encontra uma carta patente usd Era 
do Conde D. Henrique e de sua mulher a Rai- im ad. 
nha Dona Thereza, passada a favor dos Irmãos 
Alberto Gualter e Roberto Thibaut, naturáes 
de Franca, e de outros Francezes residentes *,i 

em Guimarães. 

Pela qual tendo cm contemplação os serviços 
que lhes haviao prestado na guerra os sobre- 
ditos Francezes, ihes faz doação a elles e seus ^H 
successores d'um campo^ que possuião na dila ^ 
yilla de Guimarães ; o qual em sito Junto aos 
nu _ r 



seus Paços Reáes, e confrontava com os ditoS 
Paços, c com os claustros e adro da Igt-cja de 
Santa Maria, e ia ter á rua dos Francea^.' 
onde fenecia, podendo os ditos FrancezeSy%p 
virtude da inesmn doação , gozar d'aquelle cam* 
po, elles e seus hei-deiros , mansa e pacifica- 
mente, e ncllc alcvantar casas para sua 
rada e capella para seu jazigo (1 ). 



REINADO DO RE^inOH KEI DON \ 



Nesta data ^í7ík//õ escreve a Milão, Bispo de 
. Tarhes, rclatando-lhe a viagem que fizera de 
Inglaterra a Ilespanha e Lusitânia, do cerco 
que os christãos havião posto a Lisboa, e da 
paz que ao depois haviào feito com os Sai 
cenos (2). 



■om- < 



I Rohert de Mont Saint-Michel refere o com- 
bate contra os Sarracenos de Lisboa (3). 



[]) ArcbWo Real da Torre do Tomba, Cav, 8, mac. 1, 
n. 4. 

A major parle doe AA. referem que o Conde D. Henrique 
era Qtbo d'Hcni'iquc, neto de Roberto 1 de Rorgonha , e bisneto 
de Roberto Rei de França, yide Sou^o , Hisl. Gcneal. da Cosa 
Real Portug., T. l,c. I. Pereira de Figueiredo, Mem. da Acad. 
Real dns Sciencias, Lisboa. 183S, T. TX, p. 270, e V^rl de 



térifitr les Dalri , ediçHO em 8,T. 7, p. I. 

(2) Bréqmpny, T, lU, p. 138 (sem doía). 

(3) í»(eGuiilaumedeNangÍ8, Co», de H. GnÍMt, 



^ 8 — 

Nedfo data ElRei D. Affonso Henriquez es- An. ii4t 
creve a S. Bernardo , dando-lhe parte da vic- 
toria que dos Mouros alcançara e do voto que 
fizera de edificar um mosteiro. (Sem data e 
tida por espúria.) (4). 

Uma frota de Cruzados Francezes e Flamen- An. uss 
gos cyudSo 08 Portuguezes na tomada d' Al* 
cacer (5), 

Mesta data o Conde Rodrigo escreve a An. uso 
Luiz VII, Rei de França, dando-Ibe conta do ''*'*^*^ 
que lhe acontecera, depois que d'elle se apar- 
tara sem ter alcançado nada, e do modo porque 
em Castella, e sobretuéo em Portugal, fora 
cumulado d'honras e riquezas por ElRei D. Af- 
fonso (6). 

- Durante a tregoa que se havia ajustado en- An. uh 
.^e a Frapça e a Flandres, Filippe d'Alsace 
mandou Embaixadores a ElRei de Portugal 
pedir por esposa a Infanta D. Mafalda. Este 
Casamento foi igualado segundo parece, por 
intervenção d'E1Rei d'Inglaterra Henrique II 



(4) Bréqnigny, Tom. m, p. 71. 
(5] Scherfer, Hist.dn Portugal . T. I, p. 35. 
Chron. Lusit. e Chronic. Conimbric. 
(6) Bréqnigny, Tom, III, p. 118, referindo^ie t Ihichesne, 
T. IV, p. 703. 



_ 4 — 

Flantagenete (7). Esta Princeza por morte do 
Coiule de Flandres casou segunda vez com 
Eudes III^ Duque de Borgonha^ e morreo em 
6 de Março de 1218 (8), velho estilo. 

An. 1184 Cclebra-se em Agosto o Casamento da In- 
fanta D. Thereza (outros dizem Beatriz e alguns 
Mafalda)^ filha d'ElRei D. AfTonso Henriques, 
com Filippe, Conde de Flandres, por cujo Ca- 
samento se renova a discórdia entre elle eElRei 
de França, por não ter o dito Conde restituído 
a ElRei as terras do FermandoiSj que por 
terem sido dadas em dote á Condessa Mathilde, 
primeira mulher do Conde já defunta , devião 
reverter á Coroa de França (9). 

RBIRAIK) DO SENHOR REI DOM SANCHO 1. 

An. 1188 OsFrancezes, AlIemaeseFlamengosajudáriío 
os Portuguezes na tomada de Silves (1 0). 



(7) Relaç. de Bobert du Mont-Saint-MicheL Cit. por M. 
de ReiflTenberg.— RelationsancieDiies de laBelgíque et du Por- 
tugal , p* 8. 

(8) Vid. PArt. de vérif. les Dates, edil. in-8. T. VII. 

(9) Bouquet, Tom. 17, p. 458-624-665. Citando Gervásio, 
monge de Cantorbery, na sua obra— Ve rebus JÍnglitB, 
Tom. 1 8, p. 337 . Citando os Annaes do Mosteiro d^Achim, diocese 
d^ Arras. 

(ÍO) Vid. AziniieirOy Ghron. Inéditas da Academia^ T. 5, 
p. 56 e 68. 



— 5 — 

Nesta época as relações commerciaes de Por- An ns» 
tugal com Montpelier, e Marselha erao já fre- 
quentes^ pois vemos em um documento con- 
temporâneo (11), que os Cruzados que tinhão 
partido de Portugal encontrarão, naquellas 
duas cidades, mercadores que elles tinhão visto 
nas cidades da Peninsula occupadas pelos 
Mouros (12). 

O Conde de Flandres Filippe d'Alsace, antes ^^ ^ 
de cmbarcar-se para a Terra Santa , confia a 
regência áPrinceza Mathilde de Portugal (13). 

Morre Filippe, Conde de Flandres, e por sua 
morte é o condado dividido entre ElRei de Agisio i 
França, a Condessa de Flandres, IrmSa d'El- 
Rei D. Sancho de Portugal , e um filho que o 
Conde tivera de sua primeira mulher, a Con^- 
dessa Mathilde, Irmaa d'EIRei de França (14). 
A Princeza portugueza mandou conduzir da 
Syria os restos mortaes do marido, e os fez se- 
pultar na Abbadia dfi Clairvaux em Borgonha. 
Esta Princeza tomava o titulo de Rainha por 
ser filha de um Rei cujo bisavó havia cingido a 



(11) Yid. Doe. publicado pelo Abbade Gaziera , pr«f. de Reif- 
fenberg. 

(12) Relations ancieitfies de la Belgiqae arec le Portugal » 
p. 13. 

(13) De Reiffenberg.— Anciemies Relat. de la Belgique et 
da Portugal, p. 14. i 

(14) Bouquet, Tom. 17, p. 542 , Gtando a B«iilo de Peter- 
burgo , Yida de Henrique U da .lu^twnra* 



— 6 — 

Coròa de França^ e disputava a sua cunhada Mar- 
garida d'Alsace, esposa de Balduino VIII, Conde 
de Hainaut ^ a porçSo que lhe cabia dos bens de 
seu marido , isto c o condado de Flandres. No 
mez d'Outubro d' este anno de 1191 , esta Prin* 
ceza consegue que por um tratado arbitral 
feito em Arras, pelos Bispos de Cambrai, e 
o Abbade de Cambez, cm favor de Luiz, filho 
d'ElRei de França, se lhe adjudicassem a ella, 
Lilla, Douai, Gisoing, Orchies, Eclusa, Cassei, 
Furnes,Bailleul,Boui*bourg,Berghes,Waterie, 
c o castello de Niep (15). Nao se contentando 
porem com a parte que lhe tocava em virtude 
d'esta sentença, reclamou toda a Flandres, e 
ElRei de França, Filippe Augusto, seduzido 
pelas promessas, c presentes d'esta Princeza , 
formou o desígnio de se apoderar do CSonde 
Balduino (16). 

An. iiM Carta d'EIRei D. Sancho I, pela qual faz 
saber que lendo vindo guerrear a seu serviço 
e povoar o Reino certo numero de Franceses, 
concedia as terras de Cezimbra a uns, e a outros 
as de Alesisase seus termos, e assim também o 
sitio de Montalvo entre o Tejo e o Caia (17). 



(15) Gisleberti Chronica HannoTriae. Bruxell. 1784ypb 
Mejreri Annales, foi. 58, ap. de Reiffenberg. — 
Relations, p. 15. - * 

(16) De Reiffenberg, loc. cit. 

(17) Monarchia Lasit^, Tom. 5, foi. 100, cap^ 41. 



— 7 — 

Nesta data ElRei D. Sancho I participa «Ét h^^ad. 
Alcaides Mores de Santarém , Lisboa^ cic.^ 
a chegada dos Francos para povoarem o Reino 
aos quaes fez doação de Gezimbra e outivas ter- 
ras (1 8). 

Filippe Augusto persuade o Papa Urbano III 
a cooridar ElRei D. Sancho I de Porlugal a 
entrar na terceira cruzada em Oriente. 

Os Monges de Cister vem de França para An. 1193 
Portugal (19). 

Nesta época a Princeza Mathilde de Portugal, An. 1191 
viuva doConde de Flandres,Eudes III, desposa- 
se com o Duque de Borgonha. Parece que esta 
Princeza, para alimentar o seu luxo, segundo 
uns, e enriquecer os estrangeiros, impozera a 
seus vassallos tributos mui pezados, e segundo 
outros que o descontentamento que d'isto resul- 
tara fora em consequência dos impostos para as 
despezas da quarta cruzada (20). Balduino IX 
tendo succedido a seu pai no condado de Flan - 
dres e de Hainaut, quiz desfazer o tratado 



'%fji) Fiá. Secc. IV, Tom. I,p. 58. 

^(f^ Fid. Bulia de Celestino Hl. Schaeter, p. 126. 

(!?0) Warakoenig, Híst. de la Flandre , Tom. 1,. p. :215. De 
Senet , Hist. de la Belgique, 5« édit., T. l,p. 173. Gitad. por 
de Reiffenberg , AncâeiiP. At!., p. 15. 






— 8 — 

celebrado por Balduino YIII com k Princeza 
portugueza , mas esta tendo appelado para o 
Papa, o Poiítifice cometteo no anno d^4201 
este negocio aos Abbades de Glairvaux , d*Au- 
terive, e de Mores, afim de obrigarem Balduino 
por vias de direito a manter as convenções ce- 
lebradas com a Princeza. 

Não obstante esta disputa , tendo tomado a 
cruz neste mesmo anno, confiou os cuidados 
de sua filha Joanna a sua tia, a Princeza por^ 
tugueza (21 )• 

1238 Era Ncsta data ElRei D. Sancho fez doação aos 
imS^jCd. Flamengos de Villafranca, em ciya doa^o se 
diz que ao lugar de vallada fora de novo edi- 
ficado pelos Francezes. 

Por esta carta faz pois ElRei D. Sancho I^ em 
nome de seu filho primogénito o Infante D. Af- 
fonso, e também em nome dos demais Infantes 
e Infantas, doação aRoalinoe outros Flamengos 
da villa de Villafranca, onde residiao, com todos 
os seus termos, para elles, seus filhos e succes- 
sores a desfructarem em paz e com isençSo de 
portagem e quaesquer outros direitos reaes^ 
com obrigação de o continuarem a servir e 
ajudar na guerra contra seus inimigos, cor- 
rendo o termo da dita villa por vallada feita 
de novo pelos Francezes até a estrada velha 



(21) Fid, de Reiffenberg, Ancienn. Relat.^p. 15. 



> 



— 9 — 

que vem de Santarém a Alemquer, pek) que 
respeita ao nascente^ e ao occidente pelo rio . 
ehatnado aberta d' Alemquer até a dita estrada 
velha, ficando-lhes assim pertencendo para 
sempre tudo quanto se acha comprehendido 
dentro dos ditos termos e o Tejo (22). 

AEINADO DO "^ SENHOR REI DOM AFFONSO U. 

ElRei de França Filippe Augusto, a instancias ad. 1212 
da Princeza Mathilde de Portugal, Duqueza de 
Flandres, contribue para o casamento do In- 
fante D. Fernando de Portugal, filho d'ElRei 
J). Sancho I, com a Condessa de Flandres, 
filha de Balduíno, Imperador de Gonstantino- 
pola (23). Por outra parte ElRei D. AíFonso II 
de Portugal negociou também com Filippe 
Augusto este casamento (24) ; e Gauthier d'A- 
vesnes, João de Nesle , e outros Barões concor- 
rerão também para esta alliança (25). 



(22) ArchivoReal da Torre do Tombo, Gav. 3a, Maç. II, 
n. 6. 

(23) Fid, de ReiíTenberg j Ancienn. Relat. de la Belgique et 
du Portugal, p. 18. 

(24) Meyer , foi. 64. /. Marchand , Flandria , p. 23 1 . 

(25) Fid. Philippe Mouskes e Guillaume de Nangis. Todas as 
particularidades históricas colhidas por M. de Reiffenberg 
0SO mui interessantes para a historia d'esta época. 

A Princeza filha herdeira do Imperador Balduíno estava de- 
baixo da tutella d^ElRei de França (tide D. Bouquet, Tom. 18, 
p. 563. Genealog. dos Condes da Flandres , p. 553. Giti^ndo a 
Chron. do Mosteiro de Achim , diocese d^Arras). 

L'Art de Térífíerles Dates , T. 13, p. 519. 






— 10 — 
i^; 1314 Batalha de Bovines em que forSo derrotados 

Jalho27 .^ 

por Filippe Augusto j Rei de França, o Impe- 
rador Othon IFy o Conde de Bolonha Renaud 
Damartiriy ligados com ElRei d*Inglaterra João^ 
cognominado sem terra ^ e com D. Fernando, 
Conde de Flandres, filho de Sancho I, Rei de 
Portugal, o qual tendo sido feito prisioneiro, 
foi conduzido a Pariz e retido em prisão por 
espaço de doze annos (26), d'onde foi solto 
pela Rainha Regente de França , Branca de 
Castella, mãe de S. Luiz, eoPrincipe portu- 
gucz em reconhecimento ficou por muito tempo 
fiel ú França. D. Fernando, tendo recobrado a 
liberdade, reclamou o Bispado de Liege em 
uma assemblea dos Principes do Império era 
Aix-Ia-Chapelle, e uma parte do Hainaut (27}. 

D'este Principe Portuguez existem diversas 
cartas datadas dos annos de 1220, 1228, 1232, 
1234, e 1235(28). 

O Bispo de Lisboa D. Ayres Vaz è mandado 
a França na qualidade d'£mbaixador por ElRei 
D. Sancho II. 



(26) Filleau de La Chaise, Histor. de S. Luiz, Tom. 1, cap. 2^ 
p. 16, 

(Í7) De Reifrenberg.— Anciennes Relations, p. 21. 
(28) Vide de Reiffenberg , Anciennes Relations, p. 2 í . 



— 11 — 



REINADO DO SENHOR D. SANCHO II. 



Morre em o mez de Julho d'este anno o An. 1333 
Principe D. Fernando, filho d'ElRci D. San- 
cho I de Portugal, e Conde de Flandres, 
deixando por única herdeira uma filha, que 
pouco tempo depois também falleceo (29). 

Assenta ElRei de França Luiz IX (S. Luiz), An. laas 
tregoas por seis annos com ElRei de Inglaterra ^'^^ 
Henrique III, e com a Condessa de La Marchey 
e trata do casamento do Infante D. Âífonso , 
irmão d'ElRei D. Sancho II de Portugal , so- 
brinho da Rainha D. Branca, que o havia tido 
sempre a seu lado, por cuja intervenção se 
cíFcituou o casamento com a Princeza Ma- 
thilde, que era a mais rica princeza do seu 
tempo (31). 

Tendo triumfado do Imperador d'Alle- ail 124» 
manha, resolve-se Innocencio IV a destronizar 



(29) De La Cbaise, Uist. de S. Luiz, Tom. 1, liv. 3, pag. 181. 
Bacheri Spicileg., Tom. 9, p. 670. 

(30) Souza p6c este Casamento no anno de 1725, dirêndo 
qne nesta época D. AÍTonso despozára Mathilde,íilha herdeira do 
Conde Reinaldo de Damartín c-da Condessa Ida de Bolonha. 
Este casamento foi negociado pela Rainha D. Branca de 
Castclla, mae de S. Luiz, Rei de França. 

(31) Filleau de U Chwm , EisMre de idint Lmit , T. 1, 
liv. 4, p. 243. 

Dacheri Spidleg., T« % p. 914* 



— 12 — 

EIRei D. Sancho de Portugal , escreve aos Por- 
luguezcs cm geral , e aos Prelados em particu- 
lar, e ordena-lhe, sob pena de gravíssimas 
censuras, de entregar as praças e o governo 
do reino ao Conde de Bolonha, irmão d'EIRei , 
e de obedecerem-lhe em tudo como a Regente 
do reino (32). 

Fide Relaç. entre Portugal e Roma. 

An. 1245 Juramento dado em Pariz pelo Infante 
bro6 D. AfFonso, irmão de D. Sancho II, de admi- 
nistrar e governar com justiça o reino, por 
qualquer modo que a testa d'elle se achasse. 
Esta cerimonia se celebra em casa do Chancel'- 
ler de França (33). 

REINADO DO SENHOR REI D. AFFONSO III. 

EIRei de França influe na causa do divorcio 
da Condessa de Bolonha , mandando a Portugal 
Embaixadores sobre este assumpto. 

1290 Era Ncsta data , EIRei D. AJOfonso III promulga 
Janeiros em Lísboa uma lei regulando os preços de vá- 
rios géneros e mercadorias , entre as quaes se 
encontrão algumas que se importavao dos por- 



(32) Filleau de La Ghaise, Hist. de S. Lniz, Tom. 2, Mr. 6, 
p. 409 e 410. 

(33) Moparch. Liuit., Tom. 4, cap. 27, foi. 158. * 



— 13 — 

tos de Franca e Bretanha: entre estes sao 
mencionados em geral a Normandia^ Abbe- 
villc, St. Omer, Roão^ Chartres, LaRochelle, 
Arraz e Caen (34). 

Nas Cortes de Leiria decidio-sc que a terça An. 1354 

. 1 • /» Março 

parte dos navios Irancezes que navegassem no 
Douro, e abordassem a estes portos, descarre- 
gasse em Gaia (35). 

Morre, no principio d'este anno, a Condessa An. 1259 
de Bolonha, que se intitulava Rainha de Por- 
tugal por ser casada com o infante D. Affonso, 
que por morte d'ElRei D. Sancho II havia su- 
bido ao throno (36). 



REINADO DO SENHOR REI D. DINIZ. 



Carta patente de Filippc Formoso , Rei de An. \%^ 
Franca, em favor dos mercadores portuguezes ^*°®"® 
residentes cm Harfleur. 

Nesta data concedeo Filippe Formoso, aos 
mercadores de Portugal que commerciassem 
em Harfleur, os seguintes privilégios. 



(34) Archiv. R. da Torre do Tombo, Maç. 1 de Leis n. 14, 
pubi irada pelo nosso Consocfo Senhor J. P. Ribeiro nas suas 
Disscit. Cbron.,T. 3. 

(35) Monaich. Lusit. 1. c. Vi^ Liv. de Leis antigoas. — f^td é 
Tom. 1 d'este Quadro Elementar, Secç. 2, p. 20. 

(36) Fillean de La Chaise, Histor. de S. Lniz, Tom. 2, liv. 6, 
p. 326, 



— u — % 

i"" Que seriSo isentos das multas que se pa« 
gavSo ao Preboste e de outros serviços e cos- 
tumes. Que havendo alguma rixa entre os 
mercadores portuguezes e os naturaes de Har- 
fleur, não se seguindo d'ella mutilação de 
membro , e não sendo caso de rapto ^ quebran- 
tamento de tregoas, roubos e outros crimes 
sujeitos á pena corporal, poderiSo uns ser 
caução de outros. 

2° Que os casos era que não houvesse feri- 
mento , nem derramamento de sangue, cujo 
conhecimento pertencia de direito ás justi^s 
da terra, poderiao ser decididos por arbitiXMe 
amigavelmente, osquacs scrião dous mercado- 
res da terra, e dous Portuguezes presididos 
pelo Preboste. 

3'* Que este procuraria aos ditos mercadores 
casas na dita cidade onde podassem alojar-se, 
e arrecadar suas fazendas. 

4" Que por cousas concernentes as ditas 
fazendas ou que dissessem respeito á fazenda 
real, não serião obrigados a responder ||pi. 
rante o bailio ou qualquer outra justiça dia 
terra. 

5"* Que devendo -se -lhes alguma quantia 
de dinheiro por occasião de seus negócios, 
trataria o bailio de fazer -lhes pagar com 
brevidade, como se fora divida da fazenda 
real. 

6® Que poderiao nomear corretores , e des- 
tituil-^s quando assim lhes conviesse ; jcépi . 

-'9 



*.-i 



tanto que nSo fossem taverneiros , estalajadei- 
ros, e mercadores. 

7** Que poderião servir-se dos pezos da ci- 
dade, e confíál-^os a um homem de probidade 
sujeito á approvaçao do Preboste. 

8° Que se as pessoas encarregadas do trans- 
porte de suas fazendas subtrahissem parte 
d'ellas, teriao elles o direito de as demandar 
perante qualquer das justiças de França, as 
quaes obrigariao os delinquentes a ressarcir o 
damno que aos sobreditos mercadores houves- 
9^ causado. 

i^fÍP Que as demandas que os ditos mercado- 
res, em razão de seus negócios, tivessem com 
algum cavalleiro, escudeiro e gentes d'elles, 
seriao julgadas pelo Preboste de Harfleur, 
Visconde de Montivilliers e bailio de Gaux. 

1 0** Que o cães da cidade seria concertado e 
empedrado de novo , para que os mercadores 
portuguezes podessem fazer descarregar ali 
suas fazendas sem serem obrigados a dar nada 
para o dito concerto. 

11® As fazendas que fossem entregues por 
conta aos arraes para as transportarem por 
agua a Harfleur, ser ião ali recebidas também 
por conta , e o Preboste teria o cuidado de as 
arrecadar á custa dos mercadores em armazéns 
seguros. 

12' Se algam criado ou caixeiro de merca- 
dor portuguez se casar em Harfleur, e escon- 
' 4gt em casa AuKnda» tubtraliidas frauduIoM« 






— 16 ~ 

mente ao amo, queixando-se este, o juiz o 
mandará prender c nao o soltará senoi elle ter 
dado conta da sobredita fazenda. 

13"" Que se algum mercador portuguez sair 
de casa á noite só ou com alguém e commetter 
qualquer crime, será elle só castigado con- 
forme as leís^ e se pelo dito crime houver 
penhora c confisco de fazendas, a penhora e 
confisco só terá efieito nas fazendas pertencen- 
tes ao delinquente^ e não nas que pertencerem 
a outrem. 

IV Que nenhum cavalleiro ou eseudeira^ 
ou outras pessoas tomarão aos ditos mere^ 
dores fazendas sem primeiro as ajustarem e 
pagarem. 

1 5^ Que os mercadores portuguezes ficSo 
debaixo da protecção d'ElRci de França^ e por 
conseguinte seguros e amparados contra qual- 
quer violência, elles, seos criados e caixeiros, e 
que em quanto ali residirem gozarão dos pri- 
vilégios constantes da presente carta (37). 

An. iW8 Nesta época ElRei D. Diniz manda uma Em- 
de Julho) baixada a ElUei de Aragão para tratar da liber- 
dade de D. Affbnso e D. Fernando, em nome 
da Rainha D. Branca , sua niãi , refugiada em 
Portugal, por se não confiar cm ElRei de 



(37) Recn^ d«« Ordonnuacw des Róis d« Frwac« , T. 2 , 



— 17 — ^ 

Aragão , nem no de Franca seu sobrinho (38). 

Accordo feito entre os Embaixadores d' El- ^n. lajíi- 

(segundo 

Rei Filippe Formoso de França, c os d'ElRei ^^J^ffj; 
D. Sancho de Castella, sobre a conclusão do /"X4 
casamento do Infante D. Fernando de Castella fiímVo 
com a Princeza de França D. Branca, e pro- casieiia) 
posição do de huiz Hutin y filho primogénito 
d'ElRei de Franca, com a Infanta de Castella 
Dona Beatriz. 

O art. IV d'este accordo diz relação a Portu- 
**. gal por se ter nelle estipulado que, por isso 
que o subsidio de cinco mil homens de cavallo, 
que ElRei de França se obrigara a fornecer a 
ÉIRei de Castella contra ElRei de Portugal 
seria sobremaneira dispendioso , alem de in- 
opportuno, deveria o dito subsidio converter- 
se no de mil homens contra os Mouros, que 
por diversas partes invadião o reino de Cas- 
tella, com notável detrimento das gentes d'elle, 
ficando por então adiado o promettido reforço 
contra Portugal, pela esperança que havia do 
próximo restabelecimento da paz (39). 

Lisboa. — Nesta data ElRei D. Diniz con- 1331 Era 

1293 AD 

firma o accordo que íizerão os mercadores de Maio o' 
Portugal sobre os navios que fossem do porte 



(38) Vide Tomo 1, secç. 15, p. 114. 

(39) Mas. da Bibtiotheca Real de Pariz, God. G4, foi, 66, 
IH. 2 



— 48 — 

de mais de 1 00 toneladas y e que carregMsedi 
nos portos de Portugal para a Normandia, 
Bretanha^ Rochella, etc.^ pagassem 20 soldos 

Estrelis , etc. (40). 

EEirVADO DO SENHOR REI D. ÁFFONSO IT. 

An. 1325 ElRei de Franca Carlos Formoso mandt 
uma embaixada a ElRei D. ÂíFonso lY ^ dar- 
lhe os ezames pela morte do Senhor Rei 
D. Diniz (41). 

jLn. i33tf Neste anno manda ElRei de França Em- 
baixadores a Hespanlia, convidar os Reis d'ella 
para se ligarem com elle, e com vários se- 
nhores ÂUemães^ para hirem a Terra Santa , 
fazer a guerra aos Infiéis. E entre estes con- 
vida igualmente a ElRei de Portugal (42). 



(40) ArchÍT. Real da Torre do Tombo , Liv. de Extru, foi. 
237. — Doe. publicado por J. P. Ribeiro nas Dissert. ChroD., 
T. 3, p. 170. 

Já mencionámos este documento no Tomo 2 doeste Quadro 
£lem.^ a pag. 335; tornamos (odavia a indical-o nesta Seoçio 
em razão não só de provar a existência das nossas relações 
commerciaes com a França nesta Época , mas também porque 
aproveitamos esta occasião para corrigir defínitiTamente o anuo, 
que é o de 1293 e não 1369, como se achava no Summario de 
que primeuramente nos servimos. 

(41) Monarq. Lusit., Tom. 6, p. 240. 

(42) Vide todos os detalhes curiosos a p. 168, Tom. 1, 8ecç« XY 
e nota 329, 



» 



% 



-. 49 — 

Nesta époòa EIRei de Françft Itiftndft uma An tm 
Embaixada sendo Embaixador o irm&o do 
Bispo de Reims , que veio ofFerecer a media- 
ção d'este Soberano a EIRei D. Aífonso IV para 
terminar a guerra entre Portugal e Gastella^ 
a <]ual se eoncluio pelo tratado assignado em 
Santarém em 1 de Julho de 1339(43). 

Nesta data por mediação do Embaixador de An. isss 
França consente EIRei de Castella na suspensão 
d^armas com Portugal (44). 

Vide Portugal e Hespanha^ T. 1 , pag« 177. 

Por mediação do Embaixador de França em An. 1339 
Castella^ se celebrao em Talaveira as tregoas ^'cíplor 
entre Portugal e Castella (45). 

Nesta data Filippe VI de Valois , Rei de An. 1340 
França , acrescenta privilégios concedidos aos 
mercadores portuguezes que eommerciavão 
com a cidade de Harfleur (46). 

Garta patente de Filippe de Valois confir- An. 1341 
mando a de Filippe Formoso^ de Janeiro 1 309^ ^^ 
favor dos mercadores portuguezes que 




(43) D. N. do LeSo. 

(44) Ifonarq. LiiMt.,p. 7, p. 427. 

(45) Vide Tom. I, p. 183, leccão XV. 

(46) Qrdomumcei des Roia de Franco ^ T. 3, p. 157, 






— 20 — 

comnierciaySo em Harfleur, c concedendo-Jhes 
novos privilégios. 

JNesta data concedeo EIRei Filippe de Valois 
aos mercadores porluguezes os seguintes pri- 
vilégios : 

1 ^ Que suas fazendas seriao isentas do direito 
chamado Prises. 

2^ Que todos os mercadores portugueses 
ficavão debaixo de sua real protecção e de seus 
OÍTlciaes. 

3^ Que não seriao obrigados a servir nos 
exércitos ^ nem sujeitos a pagar impostos. 

4° Que sobrevindo alguma desavença entre 
EIRei de França e EIRei de Portugal, nao seriao 
inquietados por isso em suas pessoas e bens 
salvo se fossem elles mesmos os causadores da 
dita desavença. 

5^ Que nem EIRei , nem seus OflSciaes se 
apossarião das fazendas d'elles sem lhas pa- 
garem, eas terem apreçado. 

G^^Que as altercações que sobreviesseni entre 
os mercadores portuguezes e os cidadãos de 
llaríleur seriao levadas ante dous mercadores 
da terra e outros tantos Portuguezes, e qoe^a 
que estes decidissem seria posto em ex:eciiâik ' 
pelo Preboste, o qual conheceria a final ^V^ 
di(o pleito ou litigio, caso os mercadores nài!\ 
podessem acabar com os contendentes a con^ 
certarem-se. 

V Que o porto de Harfleur seria posto em 
bom estftdo, sem que os mercadores portu*» 



— 21 — 

guezes contribuissem para a despeza, que com 
o concerto se fizesse. 

8o Que nao pagariao direitos por tudo 
quanto vendessem ou comprassem em Har- 
fleur. 

9® Que poderiSo prender e entregar ás jus- 
tiças os que pretendessem roubar-lhes as fa- 
zendas y e apo8sarem-se de seus haveres contra 
a vontade d^elles^ e que por essa prisSo nao 
poderião ser inquietados (47). 

Nesta data João II de Valois. cognominado An. isso 

. r . Oulubro 

O Bom , conGrma as Cartas de privilégios con- 
cedidas por Filippe, seu pai, aos mercadores 
portuguezes que comraerciavao com a cidade 
de Hai^eur de Maio e Setembro de 1341 (48). 

Privilégios concedidos aos Portuguezes pelo An. 1353 
Rei de França (49). 



REINADO DO SfiNBOR D. PEDRO I. 



iiSurta 




r ^ 



ando os privilégios concedidos aos ^ 

dores portuguezes que coromerciavSo 'ii 



(47) Recneil des OrdomumceidetRaisdeFranoei Tome 2, 
p. 158. 

(48) Vide Secç. 4, T. 1, p. 5*9. 

(49) Recaeil des Ordoonances da Loarre, T. 4^ p. 4?f « 



r 



— 22 — 

em Harflcur por Filippe de Yalois no anno de 
1341. 

Nesta clala confirma o dito Monarca as li- 
berdades e fran(|iiias concedidas aos ditos 
mercadores pelos Reis seus antecessores , ap- 
provando-as e rali(icando-as por graça espe- 
cial e certa scicncia, ordenando as autoridades 
e justiças da cidade d'IIarfleur^ e a todos os 
súbditos Francezes em geral , houvessem de 
observar c guardar os ditos privilégios, se- 
gundo SC continha na carta patente dada em 
favor dos mercadores portuguezes por Filippe 
de Valois (50). 

1M2AD. Portugal c parte contractante com o Rei de 
Navarra (51). 

An. 1364 Carta patente de Carlos V, Rei de França, 
J«nbo confirmando os privilégios concedidos pelos 
Reis, seus antecessores, aos mercadores por- 
tuguezes que commerciavão em a cidade de 
Harfleur. 

Nesta data confirma ElRei Carlos V os ditos 
privilégios com mais algumas modifieaçBes 
em favor dos commerciantes portugueses | 
ordenando : 1"* Que os ditos negociantes que 



(50) Recneil des Ordonnances des Róis de France, Tome S, 
p. 460. — Git. no Tom. 1 doeste Quadro, Sec. 4, p. 59. 
(50 Vide SecçSo XV, Tom. 1, p. 206. 



— 23 — 

residissem em Harfleur seriao isentos elles e 
suas fazendas de todos os impostos , muletas ; 
e costumes que até ai li cobrava o Preboste da 
sobredita cidade. 

2° Que se houvesse alguma rixa ou bulha 
entre os ditos mercadores, e os moradores.de 
Harfleur, nao havendo ferida considerável, 
poderiao os Portuguezes ser caução uns dos 
outros, sendo o pleito julgado pelo Preboste. 

3" Que havendo ferimento, porém de pouca 
gravidade, seria o negocio concertado por dous 
cidadãos de Harfleur, e dois commerciantes 
portuguezes debaixo da presidência do Pre- 
boste da cidade. 

4® Que o Bailio de Caux forneceria casas e 
armazéns aos commerciantes portuguezes que 
quizessem residir em Harfleur por preço mo- 
derado, o qual seria determinado por dous 
cidadãos escolhidos pelos Portuguezes e dous 
Portuguezes escolhidos pelos cidadãos, e que o 
preço sobredito não poderia ser augmentado, 
senão augmentando-se em geral os de todas tis 
casas da cidade. 

5° Que por tudo quanto dissesse respeito ás 
fazendas dos ditos mercadores, e por todos os 
seus negócios, excepto nos casos crimes, não 
serião obrigadas a responder senão perante o 
Preboste de Harfleur, e d'alli por appellação 
ao tribunal a que compjkj^fae. 

6^ O Bailio e mais jnstiças obrigs^rião aos 
que deverem aos qoerendoTes «fx>rtugueze8 a 



— 24 — 

embolsál-os no tempo devido , e na acção da 
cobrança se haveriao como nas dividas da fa- 
zenda real. 

7^ Poderão os mercadores portiiguezes no- 
mear corretores e dcstituil-os, quando assim 
lhes comprir. Os corretores não poderão ser 
estalajadeiros, tavcrneiros, nem mercadoreSi 
salvo se assim o quizcrem os Portuguezes. 

8** Poderão os ditos mercadores servirem-se 
dos pesos da cidade, e confiál-os a uma pessoa 
capaz que seja sujeita a approvação do Pre- 
boste. Os pesos se conservarão no mesmo es- 
tado em que se achão. 

9® Os carreiros , arraes e mais pessoas que 
tomarem a seu cargo o transporte das fazendas 
pertencentes aos sobreditos mercadores, sérSo 
severamente punidos por todas as justiças de 
França se commetterem qualquer infídelidadei 
e obrigados a ressarcir as perdas que houve- 
rem causado. 

10® As demandas que os ditos mercadores 
tiverem com os cavalleiros, escudeiros e gentes 
d'este3, serão levadas ao tribunal do Preboste 
d'Harfleur, do Visconde de JMontivilliers e do 
Bailio de Caux. 

1 1® Os cães e ruas da cidade serão postos em 
bom estado, sem que os Portuguezes sejSo 

obrigados a contribuir para o concerto. 

ê 

12** Ficão em vigor os demais artigos das 



\ . 



4 



.» 



^- ■ 



— 25 — 



^ ordenações dos Reis de França, concernentes .» 
aos ditos mercadores (52). . 

A França tendo tomado nesta época o partido An. i36i 
d'Henrique de Gastella contra ElRei D. Pedro 
o Cruel , marido de Branca de Bourbon , Car- 
los V, Rei de França, mondou o Condestavel 
Duguesclin^ com um exercito, sustentar as pre- 
tenções d'aquelle Principe. Depois de obtidas 
varias victorias,e de derrotadas as tropas d'El- 
Rei D. Pedro, este Soberano refugiou-se era 
Portugal (53), afim de pedir soccorros a ElRei 
D. Pedro I para recobrar a sua Coroa. ElRei 
de Portugal recusou-se a prestar-lhos , muito 
principalmente para nao entrar em guerra 
contra os Francezes (54) , antes o aconselhou 



(52) Recneil des Ordonnances des Róis de Francc, Tome 4, 
p. 460.— Trésor des Chartres, Registre 96, pièce 61. 

(53) nde Tomo 1 d'esta obra, secç. XV, p. 208. 

(54) Anciens Mémoires sor Duguesclin , na CollecçSo de Pe- 
titot, T. 4, p. 336 a 387, c. 19. A relação doestes acontecimentos 
que se encontra nestas antigas Memorias difere em algumas 
particularidades da que se \è em Fernão Lopez, e que mencio- 
námos no Tomo 1, secç. XY, p. 208. Julgamos opportuno para 
illustrar esta parte fSo curiosa das nossas relaçSes com a Franca 
e com a Castella, mencionar aqui algumas d^ellas. Fernão 
Lopez diz que ElRei D. Pedro não quizera receber ElRei de 
Castella , mas as antigas Memorias de duguesclin dizem o con- 
trario. Referem que ElRei de Castella viera até Lisboa (em 
quanto Fernão Lopez diz que nSo passara de Coruche) , e que 
exposera a ElRei de Poiiiigjd^*epao o Príncipe Henrique 
acabava de lhe usurpar a Cdw IQUÉllo pelo exercito de Ber- 

V. 



f- 



;*. 



— 26 — 

que se fosse valer do Príncipe de Galles (55). 
Dugucsclin temendo que ElRei de Portugal 
prestasse auxilio a ElRei D. Pedro de CastelJa, 
e querendo ter informações exactas do que a 
este resj)cito se passava na Corte de Lisboa, 
mandou partir para esta Matheus de Gournay, 
um dos seus mais distinctos generaes, que 
acccitou esta missão com muita satisfação pelo 
muito desejo que tinha de vêr a cidade de 
Lisboa, e a Corte de Portugal (56). Logo que 



trand Duguesclin , e lhe pedira que lhe desse soccorro pcrt 
recobrares seus Estados. Referem, que ElRei D. Pedro lhe 
respondera que lamentava a sua sorte , mas que não tinha 
forças suílicientes para entrar em campanha, e mníto menof 
desejava entrar abertamente em nm negocio que o poderia «t* 
volver em uma guerra com a Franca ; que todavia, que ae elle 
Rei de Castella queria ficar em Portugal , elle Rei de Portugal 
lhe daria o estado , e casa que se costumava dar aos Soberanos. 

(55) Este Principc achava-se então cm Guicnna. As Memorias 
referem que ElRcí de Portugal mostrara a D. Pedro de Castella 
as vantagens que poderia tirar doeste se seguir este conselho. 
No cap. 21 das mesmas Memorias, ao qual remettemos o leitor 
se encontrão as curiosas particularidades da recepção que o 
Príncipe de Galles fez ao dito Rei , etc. cap. tem o titulo 
seguinte : c Du secours que U Roy Pierre alia demander au 
Prince de Galles qu*il trouva dans Jngoulesme , ei du présent 
çu'il lujr Jit de sa iahle dor, pour tengager dans ses intéréts. > 
Outros historiadores referem estes factos por diíTerentes ma- 
neiras, como mostraremos na terceira parte doesta obra, a saber 
na historia politica. 

(56) As Memorias referem , que Henrique de Castella sabendo 
que D. Pedro se tinha embarcado em Portugal para Bordeaux 
reunira um Conselho ao qnal assistio Bertrand Dugnesclia o 
Marechal d'Andreghem| Hugo de Gam-elay, o Senhor dé B^. 






~ 27 — 

Matheiís de Gournay chegou a Lisboa, tratou 
de se informar onde EIRei se achava, e o que 
se dizia de D. Pedro de Gastei la. Soube imme- 
diatamente que EIRei dava naquelle dia um 
grande banquete a uma formoza Senhora que 
elle acabava de casar com um Principe do san- 
gue real, e que no dia seguinte haveria um 
magnifíco torneio, e que EIRei D. Pedro de 
Gastella se achava em Bordeaux, junto do 
Principe de Galles. 

Gournay dirige-se imraediatamente ao 
Paço, onde encontrou nas escadas um cavalheiro 
inglcz que elle conhecia havia muito tempo, 
e com quem se tinha achado na batalha de 
Poiticrs. Este ultimo se encarregou de ir par- 
ticipar a EIRei a chegada de Matheus de Gour- 
nay ; mas EIRei nomeou logo vários officiaes 
da sua Corte paruJlfccebercm este enviado 
d'IIenriquc de GastclTa. Gournay foi pois in- 
troduzido na camará d'EIRei, diante do qual 
elle fez signal de pôr o joelho em terra, mas o 
Principe o levantou, e lhe pedio noticias de 



J6u , c Matlieiis de Gournay, e os outros Generaes os mais áiaip^^ 
tínclos do exercito , e que neste Conselho se decidira que se 
impedisse que EIRei de Portugal secundasse os interesses do 
Principe destronado, adoptando Henrique de Castella o parecer 
de Dugucsclin. Km consequência de que foi escolhido para 
preencher esta missão o dito Matheus deX^OHmay : c On songea 
» donc à ckoiiir un hornme' de cceur et de talent pour hien s*aC' 
» quitttr de In commission dont on açoii envie de le charger ou- 
9 prhs dm ãújf de Portugal, > 



— 28 — 

D. Henrique, e de todos os bravos militares 
que tinhão auxiliado a sua expedição d'Hespa- 
nha,a qual, segundo o pensar d'ElRei de Por- 
tugal, fora mais gloriosa do que justa, pois que 
não fora justo invadir os Estados de um Sobe- 
rano legitimo. Gournay tratou de persuadir 
a ElRei, que D. Henrique tinha melhor direito 
á Coroa de Castella do que D. Pedro, e que o 
objecto da commissão de que fora encarregado, 
consistia em saber se era verdade o que se dizia 
que Portugal abraçaria os interesses de D* Pe- 
dro contra ElRei D. Henrique; que no caso de 
ser certa esta noticia, elle tinha ordem de se 
despedir, e de se retirar da Corte immcdíata- 
mente. ElRei de Portugal lhe confessou , que 
elle tinha declarado diante de toda a Corte, 
que era verdade que D. Pedro lhe tifiha pedido 
soccorro, mas que era também verdade que 
lho tinha negado, nao querendo perturbar o 
socego de seus povos, e acarretar sobre seus 
estados uma guerra estrangeira. 

ElRei convidou Gournay a toãos os ban- 
quetes, fesfas, e concertos que se derao nesta 
occasiao , e entre estas ao torneio que se cele- 
brou (57). Este emissário voltou a Castella, 



(57) Â8 Memórias antigas já citadas referem aqui mui cir- 
cumstanciadamente as proezas sem duvida exageradas qae 
Matheus de Gournay obrou neste torneio ( ndt p. 382 e 
385) , sendo por ultimo vencido por um cavalheiro português 
mas que depois se verificara ser Bretão chamado Za Barre. 



— 29 — 

afím de segurar a D. Henrique que nao devia 
ter o menor receio da parte de Portugal , por 
se ter declarado neutral na guerra que existia 
entre elle e D. Pedro (58). 

REINADO DO SBIIHOR REI D. FERNANDO. 

Manda EIRei D. Fernando em duas salés o An. tm 
Bispo d'Evora e o Almirante Lançarote Pessa- 
nha por Embaixadores a EIKei de França, para 
SC justificar da guerra que declarara ao Conde 
de Transtaraarra, asserto Rey de Castella (59). 

EIRei D. Fernando nnanda de Évora ondcAn. i3«9 
se achava, o Conde de Portugal em companhia h 
de um Bretão , mercador em Lisboa , para tra- 
tar pazes cora EIRei D. Henrique de Castella 
(60). 

Tratado de confirmação da concórdia entre An. isto 
os Reis d'Aragão e Mararfa , em que Portugal ^*^*'' 



(58) Sobre os motivos qae tere Carlos V, rei de França, para 
mandar Duguesclin a Hespanha , deve o leitor consultar a 
emdita dissertarão com o titolo : Observations relatives aux 
Mcmoires sur Duguesclin^ (om. 5, prem. série ^ da collecç. de 
Petitot, principalmente a p. 155 a 156 e seguintes. 

(59) Monarch. Lusit., parte 8, liv. 12, pag. 94, e secç. XV, 
tom. f, p. 215. 

(GO) ride secç. XV, tom. 1, p. 216. 

Monarch. Losit., Parte 8, 1ÍT. 22, c. 15, p. 101. Insera e m 
Cascales , Hist. de Mareia, 






w% 



— 30 — 
é comprehendido por ambas as partes (61). 

■ 

An. I87I Conferencias d'Alcoutiiti. — o Rei de Franca 
foi parte contractantc no tratado assignado 
ai li no dito anno (62). 

An. 1S73 Tratado de Santarém entre EIRei I>. Fer- 
*'* nando c D. Henrique, Rei de Castella, com- 
prehendendo-se o de França e seus succcssores 
(63), cora quem haverá paz, etc. 

iV. £. Vide Secç. de Portugal e Roma. 

Am. í%n No tratado de paz assignado em Santarém a 
^^ 19 de Março d'este anno por entremedio do 
Cardeal de Bolonha, l^uncio do Papa^ entre 
EIRei D. Fernando e EIRei de Castella, o Rei 
de França Carlos V (o Sábio) foi parte conti^ac- 
tante por si , e por seus succcssores (64). 

1373 AD. Forma da alliança entre EIRei D. Fernando 
"° "^ e Duarte UI, Rei d'Inglaterra, e o Principe át 
Aquitania(65). 

N. B. Vide Secç. XIX — Portugal com In- 
glaterra. 



.61) ride secç. XV, T. í, p. 219. 

(62) Archives de France, Trésor des Charles, 

(63) ride secç. XV, T. I, p. 232 e seg. 

(64) ride aecq. XV, T. 1, p. 232. 

(65) Bymer, T. 7,p. 19. 



— 31 — 

Instruccôes dadas pelo Duque d'Anjou a An. tm 
M. Morei de Vuissant seu camarista , Pierre 
Roger de Lissac e Thibaut Hocie, seus Em- 
baixadores ao pé do Rei de Gastella. 

No art. XX d'estas instruccôes encommenda 
o Duque aos ditos seus Embaixadores , digao 
a ElRei de Gastella^ que desejando muito o 
dito Duque ter allianca e confederação com 
todos quantos a tinhao com ElRei, e unica- 
mente por sua intervenção, elle lhe pede , e 
requer haja de fallar a ElRei de Portugal e 
de Navarra por via de seus Embaixadores , ou 
como melhor lhe parecer, afim de que o dito 
Duque possa contrahir com elles a desejada 
allianca (66). 

Resposta d'ElRei D. Henrique de Castella ás ad. ists 
proposições que lhe forao feitas pelos Embaixa- 
dores do Duque d'Anjou. 

Respondendo ao art. XX das ditas instruc- 
côes, ElRei de Castella, no art. XI, promette 
ao Duque d'Anjou de mandar em breve uma 
embaixada a ElRei de Portugal , e de escrever- 
Ihe com eíBcacia sobre as pretenções do Du- 
que, rogando-lhe houvesse de escrever a seu 
Embaixador, residente na Corte de França, 
para que contratasse allianca em seu nome 
com o dito Duque d^Anjou> e acconselha a 



(66) ll00. dà Bibliotheca Reil de Pwb, Cod. 8,448» foi. 13, 



— 32 — 
este de se ver eoni o dito Embaixador (67). 

An. 1378 Nesla época Carlos V, Rei de França^ reuoe 
^'" *** o scii Conselho^ a que esteve presente o Impe- 
rador d^Allemanha^ e tendo exposto os aggra- 
vos que tinha d'ElRei d'Inglaterra, relativa- 
mente á posse da Gasconha y e da Normandia 
e outros lugares que o dito Rei retinha contra 
os tratados ; e pedindo conselho ao Imperador 
sobre o que devia obrar, este declarou que 
« Considerado o bom direito d'elle Rei de 
* » Fiança, e a injustiça de seus inimigos, a van- 

n tagem , e boa fortuna que elle tinha contra 
» elles, e seus alliados, e amigos, como o Rei 
» de Castclla, de Portugal^ de Escócia, e ou- 
» tros, elle lhe não daria por conselho de nSo 
» conceder tanto a seus inimigos, que antes 
» lhes havia já concedido de mais (68). » 



An. 1378 O Duque d'Ânjou Luiz reclama d'EIRei'de 
Castella Henrique, a sua mediação para ce- 
lebrar uma alliança com ElRei de Portugal. 
ElRei de Castella se obriga a intervir para que 
o senhor Rei D. Fernando entre na liga contra 
ElRei d'Aragao. Para este effeito o Duque de 



(C7) Mss. da Bibliotheca Real de Pariz, Cod. 8,448, foi. 20. 

(08) Christine de Pisan : JAvre tlesfails et bonnes maurt du 
sage fíojr Charlei K, por Chrisline de Pisan , cap. 4 4 , p. 3 , qa 
Collection complete desMémoiresrelatifsà rHistoirede Fraace 
poç Pelitot, Toai. 6, prejn. wrie, p, 89. 



— 33 — 



*v 



Anjou mandou pôr Embaixadores a Hespanha 
Arnaut cCEspagne , Senhor de Montespan , 
Senescal de Carcassone^ e Raimundo Bernardo 
deFlambuc, e João Forest. Estes Embaixadores 
partirão de Gastei la para Portugal a 6 de Abril 
e chegarão a 1 5 a Santarém onde a corte se 
achava. Conseguirão dispor ElRei a unir-se 
ao Duque d' Anjou, como se vê em a noticia 
d'esta embaixada (69). 

(69) Vide « Reiaiion de Vambassade i£ Arnaut d*Espagne, sei^ 
» gneur de Montespan ^ seneschal de Carcassone^Raymond Bernard 
» de Flambuc^ eJehan Forest^ envoyis par Louis^ duc dC Anjou ^ à 
» Henri, fíoj* de Castille , et à Jehan fi^, Roj' de Portugal^ tou- 
'» chant les rojraumet de Maillorque et Minor^ue , au móis de 
i^Janvier 1377. » 

Bibliolh. R. de Paris , départ. des Mss. , Godic. 8,448, com o 
titulo : AmbassadeSy passim, tom. 1 des Notices et Exiraits des 
Mss. de la Bibliolh. ( Notice de Gaillard. ) 

N, B, Esta embaixada não podia ser dirigida a BlRei D. JoSo I, 
- como diz M. Gaillard, mas sim a ElRei D. Fettando I , que 
reinava no dito anno. É notável também, que estes Embaixa- 
dores chegassem a Santarém em 15 de Abril, quando em 25 de 
Março dp mesmo anno o dito Rei D. Fernando havia celebrado 
firmado a carta doesta data , obrigando-se a não fazer tratado 
algum com ElRei de Aragão, e ligando-se com o Duque de An- 
jou , como se vc no autographo que existe no Códice n. 9,675 D 
da mesma Bibliotheca R. de Pafiz, Tratado que Duarte Nunez 
de Leão cita na Chronica doeste Rei. 

Estas datas estão pois em grande confusão , porque Fernão 
Lopez, no cap. 98 da Ghronica d'este Rei, diz : « Em Abril 
» (e aqui coincide o mez) vierão a Portugal os Embaixadores do 
» Duque de Anjou^ Roberto de Noyers, e João de Gerral, que 
» alli concordarão estas cousas , e que outras ficarão por concor^ 
» dar; em consequência do que ElRei mandou por seus Em* 
> baixadores a França com os do Duque,o Ghanceller Mor Loa- 
t renço Annei Fogtç«'| e o Secretario JoSo GonçalTes* » 
lu, 8 



— 34 — 

In. 1378 Embaixada do Duque d'Âi\jou a EIRei D. 
Fernando dada cm Santarém, sendo os Ple^ 
nipotenciarios do dito Duque Ârnaut d'£spA- 
gne, Raimond Bernard Flamenchi, e Jean 
Foris. 

Nesta data forao os ditos EmbaixadiHm 
apresentados a EIRei a quem saudarão dt 
parte do Duque entregando-lhe as suas cartas; 
EIRei depois de as ler lhes respondeo que no 
dia 19^ que era Domingo de Paschoa, os ouviria 
sobre o objecto de sua missão (70). 

jJVilVp Embaixada do Duque d'Anjou. 

Dá EIRei D. Fernando audiência aos Embaixa- 
dores do Duque^ os quacs em nome de seu amo 
proposérão de fazer alliança com EIRei de Por- 
tugal contra ode Aragão^ e mostrarão os títulos 
que tinha o Duque aosdominios^ que injusta- 
mente retinha em seu poder o mencionado Rei 
de Aragão^ e porque tambcm ElRci D. Fernando 
tinha algumas queixas contra o dito Rei^emais 
outras pertenções, lhe pedirão houvesse de 
lhas mandar mostrar, para que podessem em 
conformidade com ellas assentar os tratos d*a«- 
quella liga e confederação. 

Foi-lhes respondido por parte d'ElRei , que 
S. A. estava prompto a ajudar o Duque quando 
lhe cumprisse fazer guerra a EIRei d' Aragão, 



(70) llM, da BiUwttioc« R. d« Piris , €k)d. 8,448 , foU 4fi Tt 



— ^5 — 

e que o faria segundo fosse estipulado no tra- 
tado a que haviSo dado principio ; que o Duque 
d'Anjou não podia deixar de ter razão para 
dcdarar a guerra a ElRei d' Aragão > e que lhe 
agradecia por ter querido submetter-lhe os 
títulos^ processos, e documentos em que fun- 
dava as suas pertenções^ e que pelo que diz 
respeito ásd'ElRei, elle encarregaria aos do seu 
conselhode as porem por escrito, e que as en- 
viaria ao depois ao Duque (71 ) . 

Tentúgal. — Por esta carta patente decli^ra An. 1377 
ElRei D. Fernando que tendo-lhe o Duque 
d^AnJou mandado por Embaixadores Roberto 
de Nojers , e Ivo Gerval , munidos de plenos 
poderes para tratar com elle alliança e liga 
contra ElRei d'Aragão, seus filhos, herdeiros, j^ 

successores , vassallos e adherentes , elle lhes ^JP 

promette e jura , debaixo de sua palavra real , 
e sobre os sanctos Evangelhos, que durante o 
espaço de quinze dias, termo prefixo para a 
conclusão do tratado entre elle e os Embaixa- 
dores do Duque pendente , não fará tratado 
algum, accordo, assento ou paz com o men- 
cionado Rei d' Aragão, nem com outrem em 
seu nome, sob pena de mil marcos d'ouro 
pagos ao dito Duque d'Anjou, não tendo este 
sido còmprehendido no dito tratado (72). 

(71) M88. da Bíbliotheca R. de Paric, God. 8,448, p. 47, e 
seguintes. 

(72) Mfli. da MbUoUiecà RmI de Parit , Cod. 9,G7S;i>oe, 70. 



'#> 



— 30 — 



REINADO DO SENUOR REI D. JOÃO !• 

An. 13S5 Na famosa batalha d'Âljubarota se achio 
^^^^^'^^ por parte de Portugal muitos nobres Francezes 
o (lascõcs (73). E EIRei deCastelIa tinha igual- 
mente no seu exercito quando deu neste dia a 
balalha^ 5,000 homens de tropas- francezas. 
Entre as personagens francezas que morrérSo 
no combate ; foi uma d'ellas M. de Riá^ Ca- 
mareiro Mór de Carlos YI, e seu Embaixadora 
'ElReideCastella(74). 

1385 AD. EIRei de Navarra manda um Mensageiro a 
EIRei D. João I, propor-lhe o formarem uma 
liga contra EIRei de Castella. EIRei o recebe 
mui bem; é enviado com resposta, e acompa- 
nhado com um Confessor d'ElRei. 
Nao teve éífeito (75). 

An. 1385 ElRci de Franca promette soccorrer o de 

(e depois ^ .. - i * w ***. 

d-Agosi.) Castella contra o Senhor D. João I (76). 



(73) P^ide 01 i vier de La Marche, Mémoires, cap. 4, p. 17J. 
Co]].- de Pctitot, T. 9, prem. serie. 

(74) Soar.da Silr., Memor. d'ElRei D. JoSo I, T, 3, p.I J3&, 
e 12G3. 

(75) P^ide secç. XV, tom. 1, p. 264. 
Fernão Lopez, Ghron. de D. Joilo I, G. 1 88 • 

/(76) Vide secç. XV, p. 265, 266. 

Fernão Lopez, Chron. de D. Joãol, P. 2,otp. 44, • tf. 



— 37 — 

Portugal é comprehendido como alliado da An. mi 
Inglaterra no tratado de tregoas de 18 de Ju- 
nho de 1387, para o qual neste dia EIRei 
D. João I de Castella deu pleno poder nesta 
data para este se celebrar com a França , c 
Inglaterra (77). 

Nesta data se celebra o tratado de tregoas ^" ,'"9 
entre Carlos VI, Rei de França, e EIRci 
D. JoSo I, Rei de Castella de uma parle* e 
Ricardo II, Rei de Inglaterra da outra, cm 
que Portugal é comprehendido por parte da 
Inglaterra (78). 

A França é comprehendida com os Reis de ''^^^'^^ 
Escossia nas tregoas assignadas entre EIRei 
D. João I de Portugal, e EIRei de Castella em 
Monção , e EIRei de França é comprehendido 
neste tratado por parte de Castella (79). 

Artigoá apresentados pelo Embaixador d'EI- *J'- ^fj* 



(77) Vide secç. XV, tom. 1 , p. 273. 

Bibliolb. R. de Fuiz, Cod. 8,357-9, inoert. na Batíf. de 
S de Julho de 1389. 

(78) Vide Tomo I , «ecç. XV, p. 373. 
Rjmer, Fceder., ele., T. 7 , p. 632. 

Dnmont, Corp* Kplomat. uuiv., T. II, P. I , p. !lí33r] 
blioU), H. de Paris, Cai. dM Hss. Cod. a. 8,357-^ ^ 
Iiuert. na RatiBo. de 5 de Julhu de- í 38<J. 

(79) Vide aeojio XT , I. 1 , p. 375 ^« k 
IqgUtem. 




— 38 — 

Rei D. João I a Henrique IV^ oonvidando-o a 
acceder a estes tratados, e tregoas oom t 
França , e Gastella (80). 

■ 

An. 1197 Salvo coiiducto concedido por EIRei At 
Franca Carlos VI aos mercadores dos reinos 
de Portugal c Gastella^ izentando-os por 10 
annos do imposto de 10 dinheiros (81). 

An. 1399 Instrumento pelo qual o Infante D. Hen- 
rique de Aragão certiBca que nas capitulações 
de paz que celebrarão os Reis de Portugal^ 
Gastella^ Navarra^ e Aragão, convidárSó qne, 
havendo guerra entre alguns d'elles , os 
- que ficassem de fóra guardarião a neutrali- 
dade (82) ; ficando neste caso a França neutral, 

An. 1403 Nesta data vários enviados hespanhoes apre- 
sentarão á Corte de França o tratado de paz, 
e amizade, celebrado entre EIRei de Portugal 
e de Gastella, afim de ser publicado em França, 
c reunidas as camarás do Parlamento lhes fi» 
pedido que publicassem este acto, apresen- 
tando igualmente os ditos enviados um roto- 



(80) Mf». da Bibliot. Gòtton., no Museo Brit. Catilog,^p, ]||. 
Nero-B.-l.-Doc. 27. 

(81) Archiv. de França , Trésor des Chartef^Beg. 15S. 

(82) Vide iecç. XV, T. 1 , p. 283. ArchiT. R. da Zlp 
Tombo, GaT. 15, maç. Í8, n. 14. 




lamento, ou formulário de justiça , s de fa- 
zenda, pedindo acerca d'eltes o conselho, e opi- 
niSo do mencionado tribunal (83). 



(83) Bernardo Cirardo, no Lir. Hl da obra que intitulou : 
Etladodoí Negociai de França, citado por Soar. da Silv, Memor. 
d'EIHei D. Joio 1 , T. 3, p. 956. Este ultimo A. obserra com 
ratio, que o autor Françez uSo indica bem m ob Eoússarios 
ctíiO Castelhanos ou Poítuguezes, e transcreve o texlo franceí 
que diz asaim : ■ L'an H03 , quelqnes Genlilshommes Espa- 

■ gnoU portèrent ■ ladite Coar, un tràitede paiz et auiitié fait 

■ eutre les deux Roya de Castillg et de Portugal , pour eitre 

* publié en ladite Cour à hujs ouverts , les Chambres assem* 

• biées, et fut fait , et demaudèreut acte de Ia publication , 
1^'ifÊí.tjflfíít porlèreut aussi un formulaire de justice , et de police, 
B|^i]|i..i|t dn règlement dea flnancea , pour aTotr mr ioeloy Tavii de 
^^»iji^ite Cour. ». 

' ^ Encontrámos alguma difflculdade para fazer concordar a 
data d*e9te acontecimento em 1403, com um Tratado cele- 
brado uaquella época que jveencba aqnellas condiçDes, a aaber 
de Tratado de Pnx « dt Àmítade; o acto d'e«te género que ae 
celebrou mais próximo foi o Tratado de Segóvia, de 38 Setem- 
bro de 1 400 [ Vide Tomo 1 , p. 383, secç. XT), mas eate foi de 
Tngoas por 10 annos, e ainda que ali se estipulon que depois 
de cumpridas as coodiçEMs para m conseguir a Pai se nomea- 
rilo dentro de seis mezes pessoas para tratar da dita Paz, 
comtudo n3o encontrámos Tratado algum que preencha as 
eoodiçúu de que trata o A . francez senio o tratado de paz , « 
óibade de Ajton, «tsignado em 31 d'Oiitiibro de 1411, istoá 
8 uuiot depois da data indicada , e por tonto nio se accorda 
eom a data asngnada áquelle acontecimento. Parece-nos pois 
k viita d*nslas dUHcnldades de concordância chronologica que o 
Inlor F iM Me » "ha— ^ ao trotado de TregOM de Sfgovia 
de MOO, Tratado de pai e amizade, eu elle errou o anuo con- 
fundiíiilo V anlepOQdo a que ae passiiu relativa mento ac tra- 
tado dVVylon , o qual cITec li vãmente ElRei de França Carlos TI 
mondon rcgútrar e publicar, como ao v£ pelo documento au- 
thcuticode l?delUiode H|2, queaiSantc vui citado. 



— 40 — 

An. Hii A França é comprehcndida no tratado de 

" paz> e alliaiiça celebrado em Ayton entre o 

Senhor Rei D. Jouo i e D. João II , Rei de Cas- 

tella. EIRci de França c comprehenJido nesta 

alliança por parte d'£IRei de CastcUa (84). 

Ab. im Confirmação do tratado de paz celebrada 
entre EIRei D. Henrique de Castella e EIRei D. 
João I de Portugal por Carlos VI , Rei de França. 
Nesta dala estando este ultimo Monarca em 
Melun cm conselho com os Duques de Guienua, 
Borgonha , Bar, e Lorrena , e com o Conde de 
Mortung, approvou e coufirmou o tratado de 
paz acima mencionado, mandando-o enrens- 
trar e publicar por toda a Fi-ança, para que 
ali notório fosse por ordenança da mesma 
data e do anuo xxxn" de seu reinado^ cm cujo 
preambulo depois de allcgar com os antigos 
filósofos, e com Santo Agostinho no livro da 
Cidade de Deus, para mostrar as excellencias 
e utilidades da paz, refere que EIRei de Cas- 
tella lhe havia por suas cartas e enviados si- 
gnificado, que havendo d'ha muito entre ellee 
seu predecessor, e EIRei de Portugal lavrado 
gravíssimas discórdias e guerras, elle e o dito 
Rei de Portugal havião a final feito pazes, e 
porque para a conclusão d'clla contribuíra C 



(84) Vide secç. XV, Tomo I , p. 28B, Dumont , T< 
p. 33i;. 



'jfl 



grande parte a intervenção d'elleRei de França, 
'lhe rogava houvesse por bem de revestir de 
sua approvação o tratado de que lhe enviava 
a integra. A qual com effeito vem textual- 
mente trasladada no documento que citamos 
(85). -^• 

■ ■ V 

Alguns AA. dizem que EIRei D. João I con- ah. iitT'^ m 
vidara neste anno vários cavalleiros francezes 
para um torneio (justas) em Lisboa (86). 

Alguns cavalleiros de Bayonna que 6e acha- ao. ms - 
vão no Porto se offerecera ao Infante D. Hen- 
rique para o acompanharem á expedição de 
Ceuta (87), e para o mesmo fim vierão alguns 
Senhores de outras partes da França (88). 

Por estes tempos mandou EIRei D. João I a ào-uuí 
França Gonçalo Nunes com o caracter de Em- 
baixador (89). 



(85) Vai. da Bibliotheca Real de Pariz, Cod. 64 , foi. 168, 
com o titulo : Recaeil dei Trailii, etc. 

(86) Vide de RcifTeiiberg, Ancien. Relat. de la Belg. etdn 
Portag., p. 35, e a Arte deverilicar as daUs, T. 7, p. J3, 

(87) Sosr. da SUr., Hemor. d'ElRei D. João 1, Tomo 3, 
p, 1<<6. 

(f!8)H/íÍ.,p. N57. 

[8U] rllndò nc»l« f|un!idoclp nu RpIbí Sodas despeitos que 
EIRei l>. JoSo I fei depois da tonindn de Ccufa , publicada por 
S(i(ir. dn Sil». , Mcm. ({'Etltei D. Joio \ , Tomo í , p, !!5. A 
dcapexB lançada mi «W4>a portenf^nnlp m eele F^mhnixadgr foi 
dt I33,WIÍ dobrai, «oratru immi^íian y~<!--> :\<\'w]\c k-mpo, c 



— 42 — 

■ Durante este tempo^ EIRei D. JoKo I teve 

quasi sempre empregados seus em França, aos 
quaes se abonarão grandes somnaas de di- 
nheiro, o que prova quanto erSo importante! 
as relações entre Portugal , e a França (90). 

in Neste anno ElRci de França Carlos YI concede 
privilégios aos negociantes portuguczes que 
commerciarem com a cidade de Harfleur (91). 

^'^ Embaixada mandada por EIRei D. JoSo 1 ao 
Buqtic de Borgonha, sendo Embaixador de 
Portugal Ruy Lourenço (92). 

!i Neste anno EIRei D. João I manda por Bm- 
baixadores a França D. Álvaro, Bispo do Al- 
garve, e o Doutor Fernando Affonso da Silveira, 
para tratar do Casamento da Infanta D. Izabel,- 



qne prova que a commisgSo de que fora encarregado era ly» - 
porUnte , mas sobre a qoal não encontramos era os imwoi 
historiadores nenhuma ilIustraçSo. 

(90) Vide Doe, 31, no Tomo 4 das Mcnior, " 
Jo3ol, por Soar. da Silv. , p. 2!5. Ha Lista das d 
reem as seguintes verbas ; 

( A AffonBo Vai, Reporteiro , em Franja ISO.OMd 
■ A Pedro Lopei do Quintão, em França G 

(91) Vide Tomo I, lecç, IV, p. 60. 

(92) Consta de uma verba de deipeza do T^ 
M lhe abonarão, como k vã no Doe. 31, publicado p 
da Silt-, Hemor. d'EIRei D. J<Ao I, T. IT, p. 23^ 




— 43 — 

sua filha, com o Duque de Borgonha FilippelII, 

j o Bom (93). 



Na relaçSo da embaixada dos Embaixadores An. mu 
de Filippe o ^o/n. Duque de Borgonha, man- 
dada a Portugal para o Casamento com a In- 
fanta D. Izabel, se diz o seguinte : 

No anno de mil e quatro centos e Tinte oito 
o mui nobre, c mui alto, e mui poderoso Prín- 
cipe Monsenhor Filippe, Duque de fioi^nha, 
que no tempo passado se havia casado succes- 
sivamente com duas muilo nobres damas e de 
mui alta linhagem; a primeira DonaMicháeIa ># 
foi filhado christianissimo, e mui exccllente, 
e mui poderoso Príncipe ElRei Carlos VI de 
França, e a segunda Bona d'Artois, as quaes 
damas crSo já 6nadas, e o dito Senhor não ^, 
tioha nenhuma gerado, foi movido de sancto 
e louvável propósito, e por valerosos e pru- 
dentes homens avisado, e acconselhado de se 
tornar a meter em a ordem do matrimonio, 
com intenção de mediante a graça de Deos 
haver geração que devesse succeder nos altos e 
grandes senhorios que elle havia, e tinha, e 
com i^lMe determinou e concluio o dito Mon-^ 

[{n) Soai-.diSiW.,ll«nar. <i'Elft«iD.JoloI,T. 3, p. 943, 
ande decl&n qm coiuU d'wU Emb«ÍudA de uni He, anlÍ(;A 
que possuiu o Mar'iuct ilo Vklcu^i , c uiiihIii ignnlnu-nti! d';^sln 
Embai\iidu {tia >t.'rlia de i)««]wu q 
l,!((;o Cobrai. (D 
pw 6o*r. d* SUf^ 



— 44 — 

senhor de Borgonha de fazer e tratar o cpsa- 
niento d'ellc, c da mui nobre e alta dama a 
Senhora D. Izabel Infanta do mui excellente, 
mui poderoso, e victorioso Principe ElRei 
D. João de Portugal e dos Algarves, Senhor de 
Ceuta f e para levar isto em direito , de enviar 
a Portugal uma notável legaeao e embaixada, 
da qual fez e ordenou eabeça principal um jca- 
valleiro, seu mui fiel e privado servidor, cha- 
mado Misser João, Senhor de Roubaix e 
d^Erzelles, seu conselheiíx) e primeiro cama- 
rista, e juntamente com elle seus fieis servi- 
dores Misser Baudouin de Lanoy, Senhor de 
Molembaij governador de Lille, André de 
Touloujon, escudeiro e Senhor de Mornay, 
conselheiros seus e também seus camaristas, 
e Mestre Gil de Tournay, Doutor em leis, e 
Preboste d' Aries , e também seu conselheiro e 
ouvidor de sua Corte e casa. Aos quaes seus 
Embaixadores deo suas instrucções, cartas, 
procuração, e poder necessários ao assumpto 
e juntamente com isto por Guido Guill^aut, 
seu conselheiro e governador geral de sua fa- 
zenda , lhes fez dar largamente dinheiros para 
fazerem grandes e honrosas dcspezas^ e para 
que melhor se fizesse tudo ordenou e mandou 
um genlilhomem chamado Baudouin Donies, 
escudeiro, por Mordomo dos gastos que se ha- 
viao de fazer, e um o0icial de sua fazenda para 
que os pagasse. 
]S sobreditos Embaixadores e os de sua domi«- 



— 45 — 

tiva em grande numero de gentilhomens c de 
outras pessoas bem adereçados^ e providos, de- 
pois que houverão licença do dito Monsenhor 
de Borgonha y se forao á villa de Eclusa em 
Flandres, e ali para seguirem sua derrota se 
embarcarão proporcionadamente em duas ga- 
leras de Veneza que se achavão naquclle porto, 
de donde partirão aos 19 de Outubro do dito 
anno de mil quatro centos e vinte e oito, 
e logo no outro dia que era vinte do mesmo 
mez arribarão ao porto de Sandwic em Ingla- 
terra, e no dito porto desembarcarão e esti- 
verão esperando por outras duas galeras de 
Veneza, que então estavão em Londres, de 
modo que tiverão de estar no dito lugar até o 
dia 13 de Novembro seguinte, em que par- 
tirão com as duas galeras, e por força de ventos 
entrarão depois em diversos portos de Ingla- 
terra, primeiramente no porto de /^ Thambre? 
cm segundo lugar em Plymouth, e em ter- 
ceiro em Falmouth, onde chiarão aos 25 do 
dito niez de Novembro, c d'ali partirão no se- 
gundo de Dezembro seguinte, e tanto navegarão 
pelo mar d'Hespanha que aos 1 1 do dito mez 
de Dezembro arribarão e desembarcarão em 
Bayona de Galiza, donde partirão em 13 do 
dito mez , e em 1 6 aportarão e tomarão terra 
em um lugar chamado Cascaes a seis l^oas de 
Lisboa em Portugal , aonde chiarão no d^ui 28 
do dito mez. 

Neste tempo estava ElRei dç.Pof^^faLnuma 



— 46 — 

sua villa chamada Estremoz a três ou quatro 
Jornadas de Lisboa ^ e com elle estavão oa Se- 
nhores Infantes^ c a Infanta^ e grande compa- 
nhia ^ e ajuntamento de Senhores, cavalleiros 
e Senhoras^ damas, c gentes de todos os esta- 
dos da terra y para uma festa que se esperava 
logo de fazer do recebimento da Senhora 
D. Leonor^ Infanta d'Âragão. esposa do Senhor 
Infante D. Duarte, primogénito d'ElRei de 
Portugal, e logo emcontinente os ditos Em- 
baixadores mandarão um rei d'armas chamado 
Flandres, aonde estava EIRci de Portugal^ e 
por suas cartas Ilic participarão sua vinda e a 
causa d'ella, c o dito rei d'armas se achou na 
dita festa, e informou aos ditos Embaixadores 
por escrito o que lhe acontecera. 

Tendo EIRei de Portugal recebido as cartas 
dos ditos Embaixadores, lhes escreveo e fez 
saber pelas suas que viessem para onde elle 
estava, e por isso logo que elles poderão pro- 
ver-se de cavallos, c outras cousas se pozerão 
em caminho para aonde estava EIRei, e quando 
elles forão a três ou quatro legoas do dito lu- 
gar, por que EIRei queria chamar c ter ajun- 
tamento com os Senhores Infantes que já erSo 
partidos, escreveo aos ditos Embaixadores que 
detivessem sua ida até que elle lhes fizesse 
saber, e elles ali esperarão em uma villa eha-> 
mada Reyoles (Ârrojolos)até o dia 20 de Janeiro 
que EIRei os mandou ir para onde estava, 

£ no dia 22 de Janeiro se partirSo oa 



— 47 — 

Embaixadores do lugar deReyoles^ e no mesmo 
dia chegarão a uma villa chamada Avis aonde 
ElRei estava^ o qual os mandou receber hon-* 
radamente por alguns de seu sangue e outros 
gentilhomens e pessoas notáveis em grande e 
em formosa companhia, e lhes fez fazer grande 
c alegre recebimento , e porque era já tarde 
não forSo clles aquelle dia ao palácio, antes 
por seu prazer esperarão até o outro dia pela 

inhãa . 
t^liEm a qual comparecerão então os ditos Em- 
baixadores diante do dito Rei , e clle estando 
na camará de seu conselho, onde estavão o 
Senhor D. Duarte, seu primogénito, e os In- 
fantes D. Pedro, D. Henrique, e D. Fernando, 
o Conde deBarcellos, e alguns outros naturaes, 
foi notavelmente aberta e proposta a causa 
porque o dito Monsenhor de Borgonha os tinha 
enviado a ElRei , o que foi dito em latim por 
boca do Mestre Gil de Tournay, o que ouvido 
lhes fez ElRci dizer em latim por um Doutor, 
seu conselheiro, que da vinda d'ellcs estava 
mui alegre, e que sobre o que da parte de 
Monsenhor de Borgonha lhe havia sido pro- 
posto elle teria seu conselho, e lhes daria a 
resposta , e com isto se tornarão os ditos Em- 
baixadores a suas pousadas. 

Etf^ mesmo. dia quasi a noite ElRei lhes 
mandou dizer que por quanto tinha muitas 
occupaçSes peba quaes de boa mente não po- 
dia entenda, pv llMMMaa na matéria^ que 






— 48 — 

ellc acommcttia para a tratar e levar adiante 
ao dito Senhor D. Duarte, e aos outros Se- 
nhores seus Infantes. 

Perante os quaes alguns d'elles no outro dia 
pela nianhaa^ alguns nos outros dias seguintes 
foi o negocio mais em particular, e por diversas 
vezes tratado e discutido, e em conclusão do 
tratado foi feita uma cédula por escrito, e com 
isto os ditos Embaixadores fizerao pintar mui 
ao natural a figura da dita dama Infanta 
D. Izabel por um homem chamado' Mestre 
João, moço da camará do dito Monsenhor de 
Borgonha, excel lente mestre n'arte da pintura 
(94). 

£ assim mesmo durante esse tempo, e antes 
e depois os ditos Embaixadores se informárilo 
mui diligentemente cm diversos lugares e por 
muitas pessoas da fama, costumes, c condições 
da dita dama, donde por alguns notáveis su- 
jeitos tanto do dito Monsenhor de Borgonha, 
como por outros particulares, e estrangeiros 
amigos, e inimigos do reino de Portugal em 
particular, e em geral, e por voz, e fama geral 
lhes foi dito tantos louvores, virtudes, e bem 
quanto se poderia dizer de uma dama. 

Isto feito, os ditos Embaixadores quasi aos 
12 de Fevereiro seguinte enviarão ao" dito 



(94) Era o celebre pintor Joio Y«n Eyck. 



- 49 — 

l^ònsenhor de Borgonha quatro mensageiros > 
dous por mar e dous por terra, convém a sa- 
ber : por mar Pedro Vaudrey, escudeiro e 
copeiro do dito Senhor, e um passavante cha- 
mado Renty, e por terra João de Vasi , escu- 
deiro, e outro passavante chamado Portejoie, 
pelos quaes mensageiros, e por cada um d'elles 
escreverão ao dito Monsenhor de Borgonha 
quanto havião achado, e, o que então havia 
sido feito tocante á matéria do casamento, e 
lambem lhe mandarão a figura dá dita dama 
em pintura, como dito é. 

E esperando novas e resposta do dito Mon- 
senhor de Borgonha, alguns dos ditos Em- 
baixadores, convém a saber : o Senhor de 
Roubaix, Messer Baudouin , Donguias Alber- 
guehet, bastardo de Baviera, Guinart de Lan- 
das, Eytor Sacqespe, e outros gentilhomens e 
familiares se forão a Santiago de Galiza, e d'ali 
forao a visitar o Duque Darjom, e a EIRei de 
Castella, e a EIRei de Granada, e a muitos 
outros Senhores, terras, e lugares. 

Nd fim de Maio seguinte tornarão os sobre- 
ditos da dita viagem ^ e chegarão a mui bom 
tempo a Lisboa, em tempo em que se fazia a 
primeira entrada, e alegre recebimento da Se- 
nhora D. Leonor, mulher do Infante D. Duarte, 
primogénito d'ElRei, a qual entrada e recebi- 
mento ellcs virão que foi grande e honrada, 
porque a dita Senhora ia assentada cm uma 
mula ricamente sellada e coberta de brocado , 



> .■ 



# 



— 50 — 

c o freio da dita mula IcvavSo a pé doua ik» 
irmãos do dito InlaiUe primogénito, um d'uma 
parte e outro da outra ^ e tinhão os estribos • 
outro irmàOy e um do seu sangue^ e por dm 
da Infanta havia um grande panno de brocado 
a maneira de céo sostido por mui altas varaSf 
as quaes levavão também a pé alguns do san- 
gue real ^ e outros cavalleiros e Senhores dos 
mais notáveis do reino de Portugal , e sairão 
a recebèl-a bem longe no eampo os ditos Se- 
nhores Infantes y os quaes logo que a virão se 
pozcrao a pc c forão ao diante d'ella, e lhe bei- 
jarão a maOy segundo o costume da terra, e 
pelo mesmo modo sairão a rccebêl-a a cavallo 
grande numero de cavalleiros c cscudeifos 
bem montados y e vestidos ^ e os cidadãos e 
mercadores notáveis da cidade de Lisboa^ e 
juntamente com elles os Índios e os Mouros da 
dita cidade y vestidos segundo seu costumCi 
cantando e dançando a seu modo, e assim foi 
a dita dama levada pela cidade ao palácio do 
Infante com grande alegria e solemnidade^ t 
havia grande quantidade de trombetas, e me- 
nestréis, tocadores d'orgãos e de harpas, e 
d'outros instrumentos, e estava também a 
cidade entapeçada em muitos lugares de pan- 
nos e tapeçarias, e de muitos ramos de MaiO| 
e no chão de herva verde. 

Aos quatro dias do mez de Junho seguintCi 
os ditos Embaixadores que novamente crão 

tornados da dita viagem forão á yilla de Cintra 



é' 



w 



— 51 -- 

qua é a cinco legoas de Lisboa , para ver e visi- 
tar a EIRei de Portugal, o qual estava naquella 
mlla em uma mui prazenteira casa, e ali os 
-juivia mandado chamar. Elles estando em sua 
pousada quasi a noite o sobredito Pedro de 
Vaudrcy, que por mar tornara para onde es- 
tava o dito Monsenhor de Borgonha, arribou 
em a dita Cintra , e veio ter com os Embaixa- 
dores para os quaes trazia cartas e novas do 
dito Monsenhor de Borgonha (95). E os ditos 
Ejnbaixadores forao logo fazél-o saber a EIRei 
e á Senhora Infanta sua filha , os quaes forao 
mui alegres, e foi grande festa no palácio da 
vinda do dito Pedro Vaudrey, e das alegres 
novas que elle trazia. 

Depois d'isto os ditos Embaixadores sabido 
'3obre isto a vontade do dito Senhor começarão 
a proceder e levar adiante o tratado do dito í*- 

easamento, e tanto trabalharão com o dito Rei 
e alguns dos Senhores Infantes que o dito tra- 
lldo foi accordado, e concluído no dito lugai' de 
Cintra aos onze do dito mez de Junho, e as 
cartas de contrato forao passadas e assentadas 
perante taballião em Lisboa aos vinte e trcs 
dias de Julho seguinte do mesmo anno de 1 420. 
£ logo no outro dia 24 do dito mez a instan- " 

cias e requerimento d'ElRei e dos Senhores 



(95) Vide a Citarão qnc fazemos adiante dos Plenos Poderei 
do Daque de jtogoulia, datadof át 7 áe Maio de 4 429. - « 



— 52 — 

Infantes o dito Senhor de Roubaix em noinei 
c como procurador de Monsenhor de Borgo- 
nha com sufliciente^ e especial poder e procu- 
rnçao do dito^ qiiasi ás sete horas da manhSano 
palácio d'EIRei em o dito lugar de Lisboa^ to- 
mou c reccbeo a dita Senhora Infanta D. Izabel, 
poi' palavras de presente por companheira e 
esposa do dito Monsenhor de Borgonha , pre- 
sentes a isto o dito Rei e os Senhores D. Duarte 
primogénito, D. Henrique, D. João e D. Fer- 
nando, a Infante, esposa do dito D. Duarte^ e 
a de D. João, e muitos prelados, cavalleiros, 
escudeiros, senhoras, damas, e gentes de fodo 
o estado em grande numero (96). 

Depois do qual tempo os ditos Embaixadores 
proseguirão a toda diligencia a partida da dita 
Senhora para a terra de Flandres, aonde ElRei, 
pelo dito tratado, a devia honrosamente fazer 
conduzir a sua custa, e a entregar ao dito Mon- 
senhor de Borgonha. A partida da qual Senhora 
devia ser, segundo a promessa d'£lRei è 4o 
Senhor Infante 

N. B. JVeste lugar faltâo muitas particu^ 
laridades no Mss. continuando-se todai^ia na 
forma seguinte. 

Houve um que veio elle e seu cavallo todo 
col)erto de espinhos, como de porco espini. 



} 



^96) Vide o Doe. citado adiante. 



— 53 — 

outro que veio àccompanhado de jsete planetas 
cada um graciosamente figurado segundo sua 
propriedade; outros muitos vierao graciosa- 
mente adereçados com suas devizas^ cada um 
segundo seu prazer. 
Nesta cea dèo o dito Senhor Infante primo- 
*genito grandes dadivas e larguezas aos frau- 
tistas e menestréis^ as quaes forao trazidas a 
cavallo^ e altamente publicadas por toda a sala^ 
e tocarão mui concertadamente as trombetas 
e outros instrumentos. 
L £ também nesta cea fez a dita Senhora In- 
liptft D. Izabel publicar justas a justar por 
companhia nos dous dias seguintes ^ e que 
áquelle que melhor o fizesse no segundo dia 
haveria um rico diamante. Isto feito, acabou* 
86 a cea : e porque era já mui tarde se partio 
ElRei , e os outros senhores e damas ^ e sem 
dapçar se retirarão a suas casas.. 

No'outro dia pela manhãa a 27 de Setembro^ 
depois de comer sairão os justadores ápua, 
onde estava prepi(pMla a tea coberta de pannos 
azues e de outras cores , e o chão bem coberto 
de areia ^ os quaes justadores vinhão bem 
apostos^ assim de cavallos, como de armas, e 
vestidos de brocado com bordaduras e forros 
de marta uns, outros de tela de prata, outros 
de seda de diversas maneiras, e justarão bem e 
largamente diante d'ElRei , e dos Senhores e 
damas que para os ver, es ta vão em muitas ja- 
nellas da rua^ e q mesmo Ék fez np dia segúifil^ 




— s/f — 

que forao 28 de Setembro, cm o qutã dia ju9^ 
tárao da mesma maneira. 

Aos 29 do dito mez que foi o dia em 
que ElRci havia determinado de embarcar a 
dita Senhora Infanta D. Izabel, sua filha, 00 
porto da dita Lisboa para d'ali á enviar a Flan- 
dres , eomo dito c, o dito Rei aquelíe dia pela 
manhaa a levou a eavallo de sua casa á igreja 
cathcdral de Lisboa, e indo pela rua a levou 
sempre de rédea por sua m3o, e a dita ItifatitA 
ia em uma faca mui bem adereçada^ e diante 
d'e]la ia o Infante D. Duarte levando o eavallo 
pela brida y e logo alraz d*EIRei e do IrrftnM 
iao as Senhoras Infantas, mulheres dos Infdtiteíl 
D. Pedro e D. João em facas, e ao freio e estrn 
bos da dita Infanta desposada iao a pé sétiê 
Irmãos e outros de sangue real , OB ditos Erti- 
baixadorcs c muitos senhores, 6 ÀViílleii^, 
senhoras c damas, e outras gentèirdb tõdtt tí 
estado em grande numero; accoI1lpánhá^3ò*na 
todos a pé até a dita igreja, a qual estàVá iiitfl 
bem paramentada, como convinha a tál lesía. 
E depois que foi dita a missa e feito o set*vicò 
divino grande e solemnemente, ElRei tornou 
a levar para sua casa a dita sua filha pelo 
mesmo modo que a havia accorapànhado á 
igreja, e havia determinado de a levar á náõ c 
ali fazer a comida, mas o tempo foi tio Ibrtè 
e o mar estava iao alto que se nSo pôde tkÊBt 
por aquelle dia. 

No outro dia pela manhSa, estando o téllàp^ 



— 55 — 

asserenado^ ElRei accompanhado dos Senhores 
Infantes^ e das Senhoras Infantas^ mulheres 
dos Infantes D. Pedro e D. João^ dos Embaixa- 
dores e de muitos senhores, cavai leirosedamas^ 
levou a dita Senhora Infanta, sua filha, a bordo 
da náo em que devia de ir, a qual estava mui 
bem adereçada , e na dita náo esteve oito dias 
sem partir, esperando se apromptassem as 
outras que havião de ir em sua companhia, e 
assim também da gente que havia de ir com 
ella, e durante esses oito dias foi muitas vezes 
visitada de seu pai c irmãos, e de todos os 
outros atraz ditos. 

Em Sábado que foi aos 8 de Outubro a dita 
Senhora Infanta, accompanhada do Infante 
D. Fernando seu Irmão, e do Conde de Ourem 
seu sobrinho, e de muitos cavalleiros, e escu- 
deiros, damas, demoisellas, e outros de sua 
companhia em numero de duas mil pessoas em 
quatorze náos grandes bem bastecidas, arma- 
das c avictualhadas, se partio do porto de Lis- 
boa, quasi a horas de vésperas, e se apartou um 
pouco do lugar, onde havia estado os oito dias 
passados ; no outro dia pela manhãa passarão 
ao lugar de Restello, até a quinta feira seguinte 
que forão 13 do dito mez, que ella e sua com- 
panhia quasi a horas de vésperas chegarão a 
Gascáes onde lançarão ancoras, e estiverão nm 
pouco. Mas logo naquelle mesmo dia as ale- 
vantárão e partirão para irem adiante com suii 
viagem^ e navegário beitt iá 



— 56 — 

até Sábado 1 5 do dito mez d'Outubro ^ c por 
vento contrario lhes conveio tornar outra vex, 
e vicrâo diante de Cascáes, onde deitarão ferro 
e estiverao ate segunda feira 1 7 do dito ma 
em que tornarão a partir e se poserao em mar , 
bem adiante^ mas por contrariedade de vcdíd 
conveio outra vez á dita Senhora de deixar 
seu caminho direito , e em Sábado 27 de Ou- 
tubro entrou no porto de Vigo em Gali»! 
com tão somente três velas das quatorze que 
ião em sua companhia^ porque das outras onxe 
não sabião nada então, nem depois de muitos 
dias; somente uma d'ellas aportou no dito 
porto de Vigo d'ahi a quatro ou cinco diai| 
sem saber dar razão das outras. E asaimji 
dita Senhora se partio no domingo 6 de Hor 
vembro, c aos 9 do dito mez por fortunftlbt 
conveio de entrar no porto de Ribadeo também 
em Galiza^ a donde acconteceo que o Senhor 
de Roubaix^ principal dos Embaixadores, o 
qual havia adoecido a alguns dias na náo da 
dita Senhora, se achou tão gravemente en- 
fermo e enfraquecido pelo mal , que lhe con- 
veio desembarcar ali , e com licença da dita 
Senhora se metteo em uma de duas galeras de' 
Florença que ião a Flandres ^ as quaes por 
ventura havião aportado naquelle porto, 
porque o dito Senhor de Roubaix não podia 
soffrer o trabalho da náo, sem notório perigo 
de sua vida, vista a debilidade e fraqueza de 
sua pessoa por causa da dita enfermidade .' em 



— 57 — 

25 de Novembro tomando comsigo Vandiíi 
Donguinas c alguns de seus homens^ ficando 
os outros Embaixadores, e a demais gente na 
náo da dita Senhora, se partirão as cinco náos 
que haviao ficado e as duas galeras junta- 
mente, e navegarão pelo mar d'Hespanha até 
os 28 do dito mez que bem adiante em a noite 
08*piIotos deixarão por erro o caminho, e vie- 
rao ao pé do Cabo de Alisar te na ponta de In- 
glaterra com grande perigo de naufrágio, e de 
perdercm-se, c a dita Senhora com as náos de 
sua companhia levarão seu caminho direito, e 
no outro dia a 29 do dito mez de Novembro 
arribarão ao porto dePlymouth em Inglaterra. 
£ as ditas galeras se partirão do lugar onde 
havião estado perto do dito cabo no primeiro 
de Dezembro, c aos G do dito mez chegarão ao 
porto de TEcluse em Flandres, onde o dito 
Senhor de Roubaix desembarcou , e logo em 
continente fez saber ao dito Monsenhor de 
Borgonha novas da dita Senhora, sua compa- 
nheira; porque fazendo seu caminho o dito 
Senhor Roubaix havia sido certificado que a 
dita Senhora estava cm o porto, de Plymouth 
a salvamento com todos os de sua companhia, 
e o dito Monsenhor de Borgonha foi mui alegre 
de saber taes novas , e assim o forão todos os 
seus Tassallos, servidores e súbditos^ que antes 
d'isso haviao estado em grande tristeza jny 
gumas palavras^ que se haviSo semei 
o muito quetardavão> eo fim 



— 58 — 

diversidades de tempos haviSo sido causa de 
infortúnio em sua viagem; além d*isto porque 
depois que o dito Senhor deRoubaix foi ch^do 
ella nao vinha logo, como era esperada e dese- 
jada y nao SC perdoo de todo esta voz, e alguns 
fazião duvida^ e portanto o dito Monsenhor de 
Borgonha por abreviar a vinda da dita Se- 
nhora, sua companheira, fez pelo dito Senhor 
de Koubaix fretar e aparelhar as ditas duas ga- 
leras de Florença, para que em ellas se tor- 
nasse a pór cm caminho o dito Senhor de 
Roubaix , para que achando a dita Senhora a 
embarcasse nellas com sua companhia ha-^ 
vendo vento conveniente. Mas antes que fiwsse 
tempo em que podessem partir as ditas galeras, 
a dita Senhora Duqueza chegou ao dito porto 
d'Eclusa, e por graça de Deos chegou de boa 
saúde com todos os de sua companhia no dia de 
Natal quasi ao meio dia, e no dia seguinte de 
Santo Estevão quasi ao meio dia desembarcou 
a dita Senhora de sua náo, c ao seu desem- 
barque acodírao muitas barcas e outros navios 
pequenos bem arreados de pannos, e tapcteSi 
em que ião muitos Senhores e cavaIleiroS| c 
pessoas notáveis de diversos estados por ver, 
accompanhar e servir a dita Senhora , e haria 
muitas trombetas , e menestréis , e tangedores 
diversos de musica, que todos se esforcavao de 
fazer o melhor que sabião para festejara vinda 
da dita Senhora tão desejada. Ao deMer em 
terra foi mui alegremente recebida, e accom- 



— 59 — 

panhada dos ditos Senhores, cavalleiros e es- 
cudeiros, pessoas ecclesiasticas, e notáveis ci- 
dadãos em tao grande multidão de povo que 
apenas havia lugar nem espaço, para poder ira 
seu palácio, aonde entrou mui honradamente 
passando sempre sobre pannos de laa desde o 
lugar donde desceo até o dito palácio. Por al- 
guns dias foi a dita Senhora no dito lugar 
d'Eclusa, aonde muitas vezes foi alegremente 
e amigavelmente visitada do dito Monsenhor 
de librgonha, seu Senhor e esposo. Também a 
vlerão visitaf muitos prelados c gente d'Igreja, 
cavalleiros e escudeiros, e notáveis cidadãos ^ 
enviados pelos três Estados da terra de Flan- 
dres, c do mesmo modo pelos deputados dos 
quatro membros da dita terra, os quacs todos 
lhe fizerao mui humilde reverencia, e lhe oflffe- 
recérão seus serviços. 

No segundo dia de Janeiro seguinte, Ma*^ 
dama dcBedfort, irmãa do dito Senhor Duque 
de Borgonha, esposa do Duque de Bedfort, 
Regente de França, veio da cidade de Bruges 
por agua ao dito lugar d'Eclusa, bem e gentil- 
mente accompanhada para ver e visitar a dita 
Senhora sua irmãa , e sahio a dita Senhora de 
Borgonha mui bem accompanhada a receber a 
dita Madama de fiedfort até a ribeira do dita 
lugar d'EcIusa, onde desceo a dita Duqueza dt 
Bedfort, cjuntamente vierão ao palácio da dita 
Senhora Duqueza de Borgonha , onde depois 
de haver grande festa e mui grande cea, pan 



— 60 — 

mostrar mais a grande amizade entre ellas, 
dormirão juntas em uma mesma cama em duas 
noites que a dita Madaraa de Bedfort esteTC 
no dito lugar d'Ec] usa, no qual tempo se tra- 
tarão com tanta alegria e prazer d'entre ambas 
qu efoi mui grão prazer de o ver. 

Aos sete dias do dito mez de Janeiro o dito 
Senhor Duque de Borgonha veio á casa onde a 
dita Senhora Duqueza estava aposentada em 
Eclusa 9 accompanhado do Senhor João de 
Luxemburgo , do Senhor de Beau Reboes ,'e do 
Senhor d'Autun^ seu chanceller ; do Senhor de 
Roubaix , Misser Guilberto de Lanoy , André 
Tolojon , o Preboste de Arlever , e d'a]gun8 
outros seus servidores para isto chamados em 
pequeno numero, e ali ás seis horas da ma-- 
nhaa , depois que o dito Senhor de Borgonha 
houve de sua parte ratificado os desposorios 
e recebimento por palavras de presente feitas 
pelo dito Senhor de Roubaix em seu nome , e 
como seu procurador em Portugal com a dita 
Senhora, e ratificados e acertados os ditos 
desposorios e o recebimento que d'el]a em sua 
pessoa e do dito Senhor por seu procurador 
haviâo sido feitos , forao por Mestre João de 
Thoisi , e o Bispo de Tournai feitos os despo' 
sorios do dito Senhor e Senhora Infanta em 
suas pessoas , dizendo o officio da Missa o dito 
Bispo revestido em pontifical , presentes alisto 
da parte da Senhora o Senhor Infante seu 
irmaQ, e o Senhor Conde de Ourem, o Bispo 



— 64 — 

d'Evora e outros em pequeno numero a isto 
chamados. 

Neste mesmo dia depois de comer a dita 
Senhora Duqueza veia por agua desde Eclusa 
á villa de Dan, onde desembarcou e passou a 
noite, e foi mui bem, e mui graciosamente re- 
cebida segundo o lugar. 

O outro dia de manhãa , que fpi domingo 
oito do mez de Janeiro, separtio a dita Senhora 
mui de manhãa de Dan , e por agua veio ao pé 
da cidade de Bruges , e desembarcou junto á 
porta que se chama Espet port , e achou ali 
uma liteira preciosa e ricamente coberta d'um 
rico pannod'otiro, a qual o dito Senhor Duque 
bavia nâtiicbdo aparelhar para a dita Senhora 
Duqueza^ a qual liteira conduziao dous mui 
grandes e formosos cavallos; e alem d'isto pdito 
Senhor tinha maadado apromptar muitos car- 
ros para as Damas , mui ricamente obrados, 
arreiados , e cobertos, os quaes erao também 
puxados por mui bons cavallos, e facas de 
grande preeo , para que nos ditos carros fossem 
as damas e outras mulheres da dita Senhora 
Duqueza. 

Em desembarcando foi a dita Senhora rece- 
bida com mui grande alegria do Senhor Conde 
de Conversan; do Senhor de Brienne, do 
Senhor d'Enghien com outros muitos senhores, 
cavalleiros, e escudeiros: também a vierSo 
receber muitos prelados, bispos, abbades, 
clérigos e pessoas eccle^iasAbas de ^xxiUs as 



religiões com suas cruzes e relíquias; vimo 
tanibcni os Regedores da cidade e os principaes 
cidadãos d'clla bem vestidos e em boa orde- 
nança com tanta multidSo de povo que en 
maravilha ver. 

E quando a dita Senhora Duqueza foi posU 
em sua liteira e as damas e mulheres desui 
companhia em seus carros ^ ella se poz em 
caminho para fazer sua entrada na dita cidade 
de Bruges em casa do dito Senhor DuquCiC 
diante d'ella junto com a liteira ia o diix>Senhor 
Infante seu irmão num cavallo mui formofiOi 
e ao redor da dita liteira a pé ião o dito Senhor 
Conde de Conversan e outros senhores , caval- 
]eiros^ egentilhomens, e assim acoompanhaida 
se veio pela dita villa. Não scrà necessário 
fazer menção das gentes de todos os estados 
tanto homens^ como mulheres^ queestavão es- 
perando a vinda da dita Senhora , assim hbs ! 
ruas, como nas janellas das ruas por onde pas- 
sou ; a multidão seria cousa maravilhosa de [ 
crer. Também não convém perguntar se havia 
Arautos, trombetas e menestréis, porque havia 
tantos que mui grande tempo antes não ae 
havião visto tantos juntos; porque de troDi'- 
betas de prata havia bem cento e veinte, ou 
mais, e de outras trombetas, menestréis, tau- 
gedores d'òrgãos e de harpas e d'outros instru- 
mentos erão sem numero, os quaes á força de 
tanger faziao tanto estrondo que parecia que 
toda a villa se fundia. 



-63 — 

£ 4'esta maneira veio a dita Senhora pelo 
meio da cidade até a casa do dito Senhor Duque 
mui d'espaçp , parandp-se muit^ ve^es , por- 
que em razão da multidão doppvo pão se podia 
ir doutra maneira. 

Quando ella foi chegada ao pateo da dita casa 
foi com muito acatamento descida de sua li- 
teira ^e sahiose a recebei -a antes a Senhora 
Duqueza de Bedfort, irmãa do dito senhor ^ 
inui ricamente vestida e accompanhada de 
muitos senhores, e cavai leiros, senhores e 
damas cm grande numero, os quaes íizerao 
reverencia e alegre recebimento á dita Senhora. 
Assim foi levada á sua camará a qual estava 
mui ricamente aparelhada para nella repou- 
sar, esperando a vipda do dito Senhor Duque, 
O qual então não estava na cidade , antes sim 
em uma casa sua de prazer a uma légua d'ali, 
aonde havia comido bem de manhãa. Porém 
agora convém fallar um pouco da ordem e dis- 
posição da casa, posto que não o saberei dizer 
tão bem o como ella estava. 

Na dita casa entre as salas, camarás e apo- 
sentos de antes edificados dos quaes havia 
muitos, foi feita toda de novo uma sala mui 
larga, espaçosa, e alta de madeira somente 
• para o tempo da festa do dito casamento , e 
em frente da dita sala eslava posta uma longa 
e alta mesa para a qual se sobia por muitos de- 
gráos de madeira e dous grandes e altos apara- 
dores ; e pelo nttnio modo nas outras salas da 



— 64 — 

casa grandes e pequenas, e em muifas camans 

estavao postas mesas e aparadores. 

As quaes salas e camarás estayão cobertas e 
armadas de ricos pannos de tapeçaria dos 
quacs a maior parte erao obrados de fío d'ouro 
c de seda, c alem d'isto havia nas caimaras Cft- 
mas bem adereçadas e ricamente aparelhadas, 
c quando foi tempo as ditas mesas e aparado- 
res forão cobertas como pertencião, e os ditos 
aparadores carregados de grande abundanda 
de baixcllas d'ouro e de prata de diversas for- 
mas e feitios. E nesta comida houve muitos en- 
tremezes feitos com grande arte e subtileza, cuja 
declaração seria mui longa, c diflícil de fazer. 

De flautas, trombetas e menestréis hoiiverSo 
muitos aos quaes o dito Duque mandou lazer 
largueza de quatro mil florins, taes como o 
dito Senhor fazia então cunhar. 

Também ali houve uma cousa mui graciosa 
cm que se mostrava a abundância, grandeza da 
festa, convém a saber, que junto a uma das 
portas da dita casa da parte de fora e na me- 
tade da rua estava em pé de fronte do mar 
postada a figura d'um Leão de Flandres, a 
qual tinha d'uma parte um e da outra um ro- 
chedo conforme a de visa do dito Senhor Duque 
de Borgonha, e o dito leão por condutos arti4|ir. 
ficialmente feitos deitou todo o dia continua- 
mente mui bom vinho de Baune do qual todos 
os que querião tomar levavão á sua vontade : 
juntamente com isto no pateo da dita casa ao 



— 65 — 

^ da nova sala havia um cervo que também 
lançava por condiietos hypocras dequcpodiao 
beber a sua vontade quantos ali vinhão. Âlem 
d'isto na dita nova sala diante da mesa princi- 
pal havia um grande unicórnio ^ que tinha na 
frente uma verdadeira ponta de unicórnio to- 
da inteira de seis pcs de largo, o qual era do 
dito Senhor Duque, c do unicórnio sahia agua 
de rosas mui fina, da qual podia também cada 
um tomar a que quizesse , como íica dito. 

Todos os cavalleiros, escudeiros c gentil- 
homens, gentes do conselho, officiaes e ser- 
vidores do dito Senhor Duque forão vestidos 
este dia de roupas de damasco , ou de sctim 
azul, qiio o dito Senhor lhes mandou dar; con- 
vém a saber : os principaes de roupas longas 
ate os pés, c os outros mais curta; a gente com- 
mum do dito Senhor de roupas de panno com 
uma de visa de bordadura na manga. 

Antes qne a comida fosse acabada fez-semui 
tarde, c d'ali forao ás vésperas, e porque era 
muito noite nao houve tempo para que hou- 
vesse cea , mas fez-se um banquete que nao 
foi nem menos abundante , nem menos com- 
prido do que havia sido o jantar , depois do 
qual dançarão largamente até mais de meia 
noite , que se forao a repousar. 

No outro dia pella manha, segunda feira 

nove do dito mez, depois de ouvida missai que 

se disse mui solemnemente , e depois de bavq« 

rem comido em grande abundaoeia, à 

iiii f 



• ^r 



— 66 — 

Senhora Duqucza, e Madama de Bedfort m 
irmSy c grão numero de senhoras e damai 
era liteiras, carros, e facas ^ accompanhaàf 
de muitos senhores, cavalleiros e escudeira» 
forSo mui honradamente levadas ao merodo 
de Bruges, para que das jancllas, que pm 
cilas estavao aparelhadas mui ricamente, po- 
dessem ver as justas que aquelle dia se fizerio. 

Nestas justas veio o dito Senhor Duque oúm 
vinte quatro cavalleiros e escudeiros armi- 
dos. e ricamente adereçados todos de iidi 
maneira para justar por mantenedores contn 
todos os que viessem aventureiros , dos qiiw 
houve muitos e mui bem adereçados que 
justarão mui bem, de maneira que ao juizodas 
damas que estavao ás janellas, foi a justa mui 
boa e lhes pareceo mui bem, e justáriò até 
que a escuridão da noite os apartou. Havit 
multidão de pessoas de todos os estados que 
estavao em cadafalsos e janellas a ver a diii 
festa. 

Depois d'isto fez-se a cea tão abundante que 
não podia ser mais, e acabada começárSpas 
danças , ás quacs veio o dito Senhor Duque 
com os vinte e quatro cavalleiros e escudeiFOi 
que com ellehavião justado, vestidos todos de 
uma maneira de roupas mui cheias de ebi* 
paria assentada e volante, os cavallciroa a 
trazião d'ouro e os escudeiros de prata, e d'e8ti 
maneira dançarão de dous era dous uma va, 
c depois em coramum com os outros caTil- 



— 67 ^ 

leiros e damas da festa; e quando hoilverSo 
dançado muito tempo^ tornarão a banquetear^ 
o qual banquete se lhes deo mui bem apa- 
relhado e de muita abundância, e d'a1i cada 
upi se foi a repousar porque a hora era mui 
tarde, e. todos estavão cançados do muito que 
havia durado a festa. 

Na terça feira, dés do dito mez, e na quarta 
e quinta se continuou a festa assim de justis, 
danças, c banquetes , como de tudo o mais ; c 
veio o dito Senhor Duque ás danças com os 
ditos vinte e quatro cavalleiros, c escudeiros, 
. vestidos sempre de novas roupas todas as qua- 
. tro noites, cada vez de uma maneira diíferente, 
e na quarta feira veio a Senhora Duqueza de 
eleves em nobre e grande companhia e sé- 
quito de senhores, cavalleiros, escudeiros e 
damas , o que foi causa que mais se accrescen- 
ta^se a festa pela vinda d'aquella Senhora. 
- Na dita quarta feira depois de cear fez o dito 
Senhor Duque publicar uma ordem a qual ellc 
mandou que se chamasse do Tosão d Ouro , a 
qual onlcin fundou então, c poz sobre si , como 
cabeça d'clla, e sobre outros vinte c quatro 
cavalleiros sem reproche, e nacidos cm leal 
matrimonio c cm sinal da dita ordem ello 
tomou para si, e deo aos outros vinte e quatro 
cavalleiros a cada um rico collar d'ouro com 
sua divisa de pedernaes e esmal- 
tados, e de ca<la um collar pendia um vclío 
d'ouro, c reservou para o primeiro ^ 



— 68 — 

mento publicar c declarar as ordenanças e d^ 
ver da dita ordem. 

Na sexta feira n3o houverSo justas , mas en 
txxlas as mais cousas se continuou e se Itis 
festa. O Sábado c o Domingo houverSojustÉf^ 
SC fez a festa mui grande em todas as oiitim 
cousas. 

Longa e mui enojosa cousa seria e mui diF- 
fícil de descrever a multidão, e diversidade de 
ricos vestidos de brocado de chaparia, e de 
]>ordadura mui ricamente obrados , e forrados, 
c as bandas, collareSi guarnecidos de pedras 
preciosas de mui grande valor que o dito 
Senhor e todos os outros trouxerão na dita 
Aista . e os preciosos e mui honrosos vestidó9 
das Senhoras , bem como os formosos cavallos 
grandes c pequenos de muito preço e os ricos 
adereços d'clles c os vestidos dos pagens, ea 
grande abundância de viandas^ vinhos e. outros 
mantimentos c as mais grandezas da dita festai 
a qual durou oito dias; convém a saber, 
desde domingo oito de Janeiro até b donrilbgo 
quinze do dito mez inclusive, e foi tSo inteira, 
c\ccl lente I abundante e sumptuosa que muito 
tempo antes nunca foi vista outra tal cm todas 
as Manchas de Franca. 

A segunda feira desascis do dito mezdepois 
de comer se partirão os ditos Senhores Duque 
c Duqneza da ciiladc de Bruges para ir para a 
lioa e poderosa cidade de Gand, ondcchegárSo 
no outro dia desasetc do dito mez, e foi a dila 



— 69 — 

t 

Senhora Duquesa mui altamente e mui al^re- 
mente recebida assim da gente da Igreja, como 
dos principaes cidadãos e outros de todos os 
estados em mui grande numero e mui boa or-* 
il^nança, que de sua vinda , como de cousa 
mvi desejada se alegravão^ e Icstejavão, e por 
ella fazião muita festa e solemnidade (97). 



(97) Biblioth. Real de Pariz, casa dos Ifss. Códice n. 10,245. 
Posto que M. Gachard, T. 2 , p. 63 a 91 de sua CoiUci. de 

Suments inédiu , desse este documento, e que M. de Baranto 
lie tratasse no T. 4 da nova edição da sua ffist. des Ducs d€ 
Bourgopte; cmfím que M. de Reiffenberg citasse algumas pas* 
sagens, julgámos conveniente produzil-o nesta nossa obra 
tirado de um manuscrito português contemporâneo , não só 
pela sua importância politica , e diplomática , e pela riqueza 
das noções historie^ me encerra , mas também porque não 
o podemos até \íf^ dhlicobrír nos Arcbivos de Portugal, 
nem nos nossos Wtloriptares; alem de que é este mesmo 
dociimenlo precioso para mostrar o estado do Portugal no 
século XV , e para íllustrar as nossas Cbronicas que Intão 
d^aquelle tempo , e particularmente as succintas noçOoi dadas 
a este respeito por José Soares da Silva no Tom. 1 das Mem. 
d'ElRei D. João 1, p. 51G. 

São tão interessantes as partieularídades relativas a esto 
acontecimento, que indicaremos ainda outras referidas por 
divenos escríptores. Duque de Borgonha folgou tanto 
com esta alliança que alguns antores dizem que por esta coca- 
síSo tomara a diviza de que depois usara : Jutrui m'nuraij 
allodindo a este casamento (Vide Xonstrelet , T. 2 , p. 55 , e de 
Barante , T. 6 , p. 236 e seg. ). O celebre Olivier de Lm Mtireht 
falia também neste casamento^ Gap. 3 , p. 158 (CoU. de PMkot, 
T. 9) l'* série). Segundo este A. contemporâneo, a Mncesa 
continuou a usar das Armas Reaes PortpyMwas ( Ond» p. 1 65 ),. 
e d^ellas usarão igualmente os Dmines de torgonha, eomo dís 
o mesmo A. : c £t ponr Tantre poinct, fentcoda moosCver 
> comuienl et par quelle caoii lesannet de Portagal (qni font 



■'*' 



aneiro 6 



- 70 — 

■ 

^n. .M?|> Nesta data o Duque de BorgÒBha Filippe o 
fínm , Conde de Flandres , se obriga por unnt 
carta palente cm favor da Princeza sua mulher 
a Senhora D. Izabcl de Portugal a que por 
morte de cada um d'elles, ella e seus herdeira 
liouvcsscm amctadc de seu dote, e nSo Ao 
dando houvesse em quanto n5o fosse pa- 



> iin de voB qnartiers) sont de tant de pièces , et comnunk 
9 cllessont augmcntées, et par plusienrs fois (Ibid, p. 10S).i 
K a p. 107 á 1 12, Olívier de La Marche descrere a historia dv 
Armas Reaes de Portugal, c a historia doeste reino « cott- 
cluindo pelas seguintes expressões qne mostrilo quanto Fortn- 
{;al era admirado nos paizes estrangeiras nestes antigoi 
tempos. 

< Ainsi donques (diz elle) co noble escn fut augmenf^ptr 
9 qnatre fois depnis radrciiement du premier Roy chreslien 
9 du rpyaumc de Porlujjal ; et porta 1*Empereur vostre gra&d 
9 père, les armes de TEmpirc, et Madame vostre çrand^mre 
9 porta Ics armes de Portugal comme cy dessus ellcs sont bU* 
9 sonnáes. » 

Este A. consagra alem d^slo o cap. 4 , a EIRei D. Jo3o I, eá 
llaiuha D. Fiiippa. « Du Roy Jchan de Portugal, et de li- 
D dainc Philípotc de Lanoastre, père et mère de Madame Tm 
9 beau de Portugal, mère de Charles de Bourgogne, grand-père 
» matemcl de PArchiduque Philippe d^Aulriche. > P«h» éo 
litulo do Capitulo em que 011 vier de La Marche trata d^EIBci 
í). Jo3o I, e relata os factos da nossa historia Decorridos do- 
rante o sen tempo, fallando já em as nossas primefras con- 
quistas, e descobrimentos a(c ao Reinado d^ElRei D. IHiirte* 
Tratando doestes, e dos soberanos em rujo tempo se passárSo, 
(Itz : « ... Et encores dure la lignce d es roys du pais, qm ceilBi 
9 oht este et sont vortueux , et ont falt de grandes conqneslil 
9 surles Sarrasins , dn costé de Barbárie et d^Affríqiie , et jsfl 
9 et conquesté plusienrs diverses isles; dont lo royanmede 
9 Portugal a et fiortc grand honneur et profít. » 

Este passo doeste autor contemporâneo vem augnientar o 



— 71 — 

ga 7,1 87 coroas pelas terras do seu Condado de 
Flandres (98). 

Nesta época o Duque de Borgonha dáProcu- An. i43i 
raçSo e poder aos seus Embaixadores o Senhor 
deRoubaix, e d'HerselIes, e de Lannoy, e a 
André de Tholonjon , ele. para receberem cm 
seu nome a Senhora Infanta de Portugal D. Iza- 
bel, filha d'ElRd D. João I (99). 

Nesta data se passou, e assignou em Lisboa >":"«• 
o contracto de casamento entre a Senhora In- 
fanta D. Izabcl com o Duque de Borgonha Fi- 
lippe o Bóm sendo presentes EIRei D. João I. 
O Senhor D. Duarte seu filho primogénito, 
e herdeiro, os Infantes D. Henrique, D. João, 
eD. Fernando, e o Bispo d'Evora tomou pela 
mao a dita Senhora Infanta por si , c João Se- 
nhor de Roubaix como Procurador do Duque 
de Borgonha, c se effectuárão os desposo- 
rios (100). ^1 



nnoierodas proTas que produzimos em a nossa obra intitulada : 
Beeherches lur la découperU dei pajrt situes sur la cote dCJfrique 
au dela du eap Bojador , mostrando a admiração que os nossos 
detcobriíiientos e conquistas causavão na Europa. 

(9S) Soares da Silva, Mem. d'ElRei D. JoSo I, T. 4, p. 177 , 
Doe. n. 7% tirado do Real ArchiTo da Torre do Tombo. 

(99) Soares da Silva , Mem. d'ElRei D. JoSo I, T. 4 , p. 181. 
Doe. tirado do Archivo R. da Torre do Tombo. 

(100) So«refda Silva, Mem. d^ElRd D. Jo8oI,T. 4, p. 187. 
Doe. tirado do Retl Arcbivo d* Torre do Tombo. 



— 72 — 
An. MK ]So Tratado de Paz celebrado neste anno cm 

Dulubro 

^ Medina tlel Campo entre Portugal e Castella, 
reinando Elllei D. João I se estipulou que por 
qiianlo os navios de guerra da Armada de Por- 
tugal e do Algarve, e os da mesma Nação que 
vinhao de outras partes demandar os portos de 
Caslella attacavao os navios franceses , que vi- 
nhao seguros, e que os de Gastella pi*aticavaoo 
mesmo nos mares de Poilugal , se dclcrmuiou 
que d'ali em diante se nao podessem molestar 
em nenhum dos portos das respectivas Nações 
estando nel les aneorados ^ e a uma Icgua de dis- 
tancia (101). 

íínhou ÍNesla data o Ducjue de Borgonha dá quita- 
rão aEIRei D. João I de 154 coroas de Ouro 
que lhe promeltéra em casamento com a Du- 
queza sua filha (102), 



KKINADO 1»0 SKMIOK Rbl D. DLAKTE. 



iSf^lV ^cste dia a Infanta D, Izahel de Portugal 
Duqueza de Borgonha dá á luz o famoso Carlos 



(101) Doe. n. 3f), tirado do Archivo Real da Torre do Tombo, 
public. por Soar. da Silv. nas Hem. d^ElRci D. Jo&o I, Tomo 4^ 
p. 301» c 302. Esle A. publicou integralmente este imporUnte 
tratado. 

YideTomo 1 doeste Quadro element., secç. XV, p. 51$^ e 
nota sno. 

(102) Soar. da Silva, Mem. d'£IRei D. JoSo i, Tomo 4, 
p. 190. 



— 73 — 

chamado depois o Temerário (103), cuja -íio- 
ticia fui com niun içada ]ogo á Corte de Por- 
tugal (103). 



(103) Este príncipe empregou alguns Poi tuj^^czcs que resi- 
dido na Corte de Borgonha , enti*e oulros o celebre Vasco de 
Lucena , a quem encarregou de traduzir cm francez a obra de 
Quinto Curcio^ e a Çyropctlia de Aenophonle, Bai*bosa , na sua 
Hibliothcca Lusitana, nao faz mcnrão nem d*esle autor, nem 
de suas ol>ras. Julgamos por isto opporluno supprir aqui este 
silencio dandoalgumas breves noticias acerca d^estenosso com 
pati-iola que tanta honra fez a Portugal nos paizes estrangeiros. 
A considerariio em que elle era tido no seu tempo como sábio 
transluz nas cxpreisões de que se serve Olívier de La Marche, 
que o conheceo, e avaliou. Este historiador tão erudito, diz no 
~8CU prefacio ás Memorias ãot Duques de Borgonha (p. 92, Ck>ll. 
de Petitot, T. 9, prem. série), o seguinte que transcrevemos 
líttcralmonte : c ...Je n^ay-, par don de gràce, la clergie, Ia 
» mémoire, ou rcntendement de ce verlueux escuyer Yas de 
» Lusena ( Lucena } , Porius:alois , à prcsent eschanson de Ma- 
» damu Margucrite d*AugIelerre (era a irmã de Duarte lY , c 
» terceira mulher de Carlos o Temerário) , duchcsse douai- 
9 rière de Hourgogne , lequel a faít tant d^ccuvrcs, translations, 
9 ctautrcs bíens dignes de mémoire. qu^il fait aujourdliui à 
» Oftimcr entre Ics sachans. (sábios), les ei^rimentés, et les 
9 recommaiidés de notre temps. » 

Na CoIIccrrio dos Mss. da Bibliothecá Real de Pariz existem 
dons magnifícos exemplares da traducção de Quinto Curcio, 
por este nosso compatriota, um cn 3 vol. dè folio máximo em 
pergaminho, escripto em duas columnas, ornado de miniaturas 
admiráveis (Mss. n. 6,727—0,728—6,729). No primeiro volume 
SC diz que fora composto no anno de 14G8 , par vênérable per^ 
sonne f^atque de Lucene^ Portugahis, O prologo é dirigido ao 
príncipe. Contem 232 capítulos. O tçxto é precedido de uma 
grande c bellissima miniatura, na qual se yé Vasco de Lucena 
de joelhosofferecendpo seu livro a Carlos Duqne de Borgonha. 
Neste precioso tfslh temos pois o retraio doeste. Portognex, 
retrato que desejar iamos quqalgiun noiio.j9!iMI|patriote Sscae 



— 74 — 

An. 1435 £ll\ci D. Duarte offerece por seus Embaizi- 
dores no Concilio de Ferrara, e ao Papa , a sut 
mediação entre ElRei de Franca Carlos VII c 



copiar, aflm de nor co) locado cm alguma dat galarias 
naes , ou que fotio reproduzido pela grarura , bem oono o 
fae^timile da atsignatura da celebre . Princesa r»i linai 
D. Izabel, de que acima fie trata , cuja asaignaCura ae eneott- 
tra em um documento do Códice da meima Bibliotheca Bid 
do Paris, n. 9,675-D. 

Apezar da modeslia que se nota em o noaao autor fallandoái 
sua traducoSo: c timperfectionet rudettede mon iamguaigtjhoh 
» çois, atUntIu quejesuit porlugalois de liffcion» ; apesar d'ali 
modcstia n9o só cllc foi considerado no sen tempo oomo m 
grande sábio , mas o nosso consócio M . Paris, em un arligs 
qno lho consagrou na sua importante obra inti talada : La 
Manuscrilt françoit de la BihUoihkque du Roi ^ Tom. I, p. 51| 
diz que fôra um dos escriptores franceses mais elegantes do 
XY século. Esta tradncçSlo tem alem dMsto o merecimenfo <fe 
8cr a mais antiga trndncoSo franccza de Quinto Gnreio. 

Na mesma repartição , existe outro exemplar d'e8(a menw 
obra, que pcrtencco á famosa bibliotheca do Dnqne de Li 
Yallière, executado com um luxo e magnificência admirarsíi, 
contendo 86 niinialuras. D'cste exemplar existe noia' longt • 
curiosa dcscrlprSo no exccllcnte catalogo da bibliotheea do 
Duque de La Yallière, tom. 3, p. 126 (Panz, 1783), e <"** 
analyse mui importante feita por M. Paris na obra já elCada, 
tom. 2, p. 380 a 381 , na qual este sábio Académico rep mdgg 
a dedicatória do autor portuguez ao Dnqne de Borgoiíha|M 
qual se mostra a Tasta erudição do nosso autor, e em ei^e 4o- 
dicatoría elle menciona como exemplo a citar a par d*AlexiB- 
dreMagno,o dos altos feitos d^KlRei D. Jo3o de Pdrtiigal,6 
refere a entrerista, e conversa tittcraria que tirera em ConSattii 
com o Duque Jofto de Calábria, em presença de Monseigmémtàí 
Crequy, no8 paços do Duque de Borgonha. 

Ifòs examinámos também estes dons Códices, e oompari(ai0l 
os dons retratos contemporâneos de Tasco' de Laeõw tfM 
nelles sé ach&o pintados. Pasiamos pois a dar wnt iUflrílKíi 



— 75 — 

EIRei de Inglaterra Henrique VI que bayiSo 
entre si cruas guerras; mandando cartas , e 
instrucçõcs aos ditos Embaixadores para de- 
clararem que nao só se offerecia como media- 
neiro por seus Embaixadores, mas ainda se 
necessário fosse , era pessoa promettia de o ir 
ser do Papa , e do Imperador Grego, c do Im- 
perador Sigismun do (104). 

Fld. Secç. XVII Portugal e a Cúria de Ro- 
ma , c Secç. XIX , e XXIV. 

Nesfa época os Embaixadores de Portugal ^n- **'* 
assistem ás Conferencias do celebre Congresso 
d' Arras, o mais importante na historia da an- 



noticia (lo resultado das observações que fízcmos á rista d^clles, 
reparando por este modo o silencio dos nossos escriptores, 
acerca de um compatriota tSo benemérito, pois nenhuma no- 
ticia temos encontrado cm os nossos escriptores acerca d*elle. 

Em o retrato que so acha no Msê, da Dibliolheca de LaValliòre, 
parece representar um homem de 40 annos. Comparando-os 
ambos os achámos em tudo quasi scmilhantes. A cara é de 
forma oval , olhos reflexivos e pretos, nariz comprido, sobran- 
celhas arqueadas, e espessas, barba cerrada, cabellos comprido* 
lisos e negros. Acha-se Vasco de Lucena restido com uma 
espécie de toga preta com as mangas abertas , e golpeadas de 
tufo branco, apparecendo o forro encarnado ; tem ao pescoço 
um colar de ouro. 

M. de Sainte-Croix, na sna importante obra fobre oi hkto" 
riadores d^Alexandre, díx que a tradacçâode Qninto Carão ftjir 
Vasco de Lucena se imprimira em 1 503. Fizemos dilígeneiá por 
descobríl-a , mas até agora tem sido baldadas as nossas mv«lrtl- 
gaçOcs a este respeito. 

(10^) f^ifie Ruy de Pina, Ghran. d*ElRei D. Duarte,. c f , 
p. 97. (Inéditos Coll. da Acadrat;} 



— 70 — 

liga diplomacia, ás quaes cstiverSo presentes 
os Embaixadores dos Reis de Castella , e Ara- 
gão, de Nápoles ^ c de Sicília y do Imperador 
Sigismuiido, dos Reis deChyprc, de Polónia, 
e de Dinamarca , os dos Duques de Bi^tanba; 
e de Milão, e ile França e de Inglaterra, grande 
numero de Cardeaes, e de Bispos , os Deputa- 
dos de Universidade de Pariz, e de muitas & 
dades de França , da Flandres , c da Hollanda 
afim de tratarem do restabelecimento da Pa% 
entre a França , e a Borgonha (105). 



(lOo) Sobre este celebre Congresso, e sobre o Tratado qai 
se lhe scguio, trata larga lucnle Olivier de La Marche, Gap. 3* 
Liv. 1 , das suhs Mcm. uas qiiaes incluio o dito tratado. 

A Infanta D. Izabel de Portugal, Duqueza de Borgonha, 
aprcscntou-se em grande pompa em 1439, quando se abríiriode 
novo as confcTcncias em Gravelines para se trator da Pai. 
1 111 1 440 , fui encontrar o Duque d^Orléans quando Toltara do 
cafiliveirocinquc tinha estado , e para cuja liberdade ella harâ 
tiubalhado com a maior cíTicacia. Em 144Í, esta Princeza tw- 
lou ElRei de França em Laon, e se queixou da incxecucSo de 
muitos artigos do tratado de Arras. IVoanno seguinte de 1442 
quando o Imperador Frederico atravessou o Franco-Condado 
a Princeza Portugueza se apresentou cm Bcsancon , e o Im- 
perador foi sahir-lheao encontro com todo o ceremonial. Eitai 
particularidades Siio tão interessantes que julgamos opportnno 
transcrever textualmente a relação que nos deixou Olivier da ia 
Marche, supprindo assim o silencio das nossas chronicas acerca 
de muitos factos importantes passados nos reinos estranhos e 
qne todavia se ligão á nossa historia. O historiador de Bomuiha 
refere pois aqucl las particularidades no Cap. 7, p. 314 e ses, 
CoUec. de Petitot , T. 9, prem. serie. 

« Environ six jours aprcs vint au licu de Desancou ma- 
» dame Ysabel de Portugal, d uchesse de Bourgongne «c- 
» coiupagnée dela comlesse d'Cstampes cl de plusieurs anCres 



A Franca é compreliendida coniunctamente An. i«s 



Selem- 



com Portugal no Tratado de Paz perpetud ce- bro 12 



> dames et damoiMUes; et se partircnt tous les princes et 

> seigneurs de Ia maison du Duc , pour aller aii devant d^elle» 
» et mesme le Roi des Romains, accompaigné de sa cheyalerie, 
» allaau devant de ladicte duchesse , bien iin quart de lieue 

> hors la ville. La duchesse entra en une lillière, converte de 

> drap d^or cramoisi , et après elle denx haqucnúes blanches 

> couvcrtes de mesme la littière , et les menoyent denx varieis 

> à pie. Après venoyent douze dames et damoiselles, á baque- 
» liées harnacbées de drap d^or ; et après quatre chariots pleins 

> de dames Ainsi entra la duchesse; èt tousjours Tacom- 

» paigna le roy des Romains, á dexyra Ia littière (comme s^il ne 
» fust qu^un simple comte), Pemmena en son logis, desccndit 

> á pie aveques ellc , Ia conduisit en sa chambre , et feit tant 

> d^honncur celle fois, et loujours, à Ia duchesse, et aux dames 
» damoiselles de sa compagnie , que grande loucngc luy cn fut 
» doniiée de chacun. > 

£m 1444 foi esta nossa Princeza escolhida para impedir a 
guerra entre a França e a Borgonha , dccidindo-se que ella 
abriase as confercnciie». pois o Duque , seu marido , lhe havia 
confiado as negociardes mais delicadas desde a paz d^Arras. A 
Prinoeza conseguio conservar a paz momentaneamente, e 
mimida de plenos poderes entregou generosamente ao Duque 
René de Lorrena a enorme somma que em Í436 o Duque, sen 
marido, havia exigido pelo resgate do dito Duque de Lorrena. 

Olivier de La Marche refere a visita que ella fez a EiRei de 
França, Carlos Vil nos termos seguintes : 

€ En cette saison (qui fut Tan 1444) Ia Duchesse de Bour- 

> gogne, moult ^randement acompaignce, et principalement 

> desjÉeux nevenx du Duc , le Baron de Bcaujcu, fíls du Duc 
» de Bourbon , et Adolphe , M. de Clèves ( Icsquels commen- 

> çoyentdesja à prendre cueur : et estoyent«bien dnits et bien 

> adrecés) le tira à Chalon en Champaigne, devers le Roy de 
9 France, qui recueillit la dite Duchesse moult honorablement: 
» et lai fit la Royne moult grahd honneur et privautc : car toutes 

> denx ettoyent desja PrincessesauD^, et hors de bruit...^. > 
Em 1447 assignou a meima IHí^wm nma tregoa com lu- 



-78- 

lebrado em Toledo nesta data entre os Reis de 
Castella, ÂragSo, e Navarra (1 06). 

^iirií" Nesta época o Papa procura que EIRci de 
Portugal e o Duque de Borgonha sqjao. tomados 
como árbitros y para pôr ternM ás differeoftf 
que existi&o entre o Duque de Ahjou,' e ElHe 
de Aragão (1 07). 

àn. 143$ EIRei D. Duarte escreve a ElRei de Fninçt 
pediudorlhe conselho e ajuda para libertar o 
Infante D. Fernando seu Irmão do captiveiro 
de Africa , em que se achava; recebe somente 
resposta de consolações , e nada mais (1 08). 



glaterra. Em 1456 quando o Delfim, depois Luiz XI, le jA- 
giou em Bmxellas, a Duqucza o recebeo com o maior ra^nW. 

Tanta foi a influencia que exerceo nos negócios do seu leaipo > 
esta illustre Princeza portugueza. 

A^cerca das particularidades que acabamos de relatar Teií- 
se também o interessante trabalho do nosso coUega no IniUtiA» 
Real de França o Senhor Barão de Reiflenberg , intilnlsdo: 
Jmeitnnet relationt de ia Be/gique et du Portuga/ ^ p, 33^34, 
passim TraitJ dÈléonore de Poiíiers ( D. Izabel de Sonia) tf 
Vètiquette de la Cour de Bourgogne^ et La Curne Sainl-Palm. 

M. Delepierre , na sua obra intitulada : Précis des JÊumalttét 
Bruges ^ impressa em Bruges em 1835, falia doesta Prinoeiii 
pag. 52, quando ella assistio, no anno de 1447, ás insbions 
se celebrarão naquella cidade. 

(106) ride Secç. XV, p. 322, tom. 1 doeste Quadro Elem, 

(107) ride Secc. XV, tom. 1, p. 323. 

(108) Ruy dePina, Chron. de D. Duarte, cap. 41, p, |S3 n» 
tom. 1 dos inéditos da Academia. — LeSo, Chroa^ tom'?! 
p. 70. - ndc Secç. XV, Com. 1 , p. 323 e 324. 



79 



KEINADO BO SENBOR REI D. APF0N80 Y. 



Neste anno Carlos VII , Rei de França , con- av». 1444 
firma todoa os privilégios que os Reis^ seus 
predecessores ^ tinhSo concedido aos Portu- . 
guezes (1 09). 

Tratado de tregoas entre Carlos Vil, Rei de ao. i444 
França^ e Hçnriquc VI, Rei' de Inglaterra, 
sendo plenipotenciários d'£IRei dlhglaterra, 
o Duque de Suffolk e outros, e d'ElRei de 
França, o Duqued'Orleans, Pierre de Bréié , 
^ Bertrand de Beauvau. 

No art. XI doeste tratado, que foi ratificado 
em 11 de Fevereiro do anno seguinte, se esti- 
pulou seriSo comprehcndidos nelle EIRci dos 
Romanos, os Eleitores do Império, ElRei de 
Dinamarca, de Suécia, Noruega, e Portugal 
(110). 

Nesta época q Duque de Borgonha procura ao i446 
pelo seu Embaixador cm AragSo, compor as «YiT 
dífierenças, que havia entre o Infante D. Pe- 
dro de Portugal, e o dito Rei de Aragão (111). 

O celebre Jacques de Lalai n obtém licença An. 1440? 



(J09) nde T. I, sccç. IV, p. 60. 
(110) Rymer. 

IhiiiKmt, Corp. Diplom., T. S, P. 1, p. Í47. . 
(IIJ) ndeJ. 1 d'€tl9aiiiidro,Kcç.X¥,p.347. 



♦ 



— 80 — 

<lo Dnqnc de Borgonha para visitar a Corte de 
rorliigal. ElRci D. Aíloiiso V, sabendo da sua 
viiuln, mandou ao seu encontro uiu cavalleiro 
de sua easa^ acompanhado de 30 individiKS 
da nobreza. Lalain estava então no Sabugal, e 
<resta villa veio a Evora^ onde então se achara a 
Corte. EIRei recebco oem companhia doDuque 
de Coimbra, e do Infante D. Fernando. Lalain 
tinha mandado adiante um Arauto com alguns 
rapituIosdearmas(112).0Monarcha portugua 
Ihç fez o melhor acolhimento; Lalain (113) 



(11?) Gcorpes Chastelain, Chroniqucs de Jan/ues Aalaim (GoU. 
lUirlion, p. 412). 

Ar rclncòrs que vimos nuo fixao bem a d.ila da vinda dVfCe 
ravallriro a Portugal. Parcec-uos todavia que Vòra no anqo 
({IH' lhe aitsi^iiumos, cm razTio de ter nos iuiiii>s aiiUrriorcs 
\iajado por outros paizes. Nao podendo ter sido no «nno de 
lU^ ou 49, pois neste ultimo pcreceo na bal:«l!ia da Alfarroa- 
beira o Infante D. Pedro, que se aehára presente na occuiio 
cm que o mesmo Lalain se apresentou a El Rei. 

(113) O discurso que Lalain fez a KlRei é tao curioso que 
julgámos opportuno Iranscrevel-o aqui, tanio mais que nte 
temos noticia que os nossos Chronistas fizessem menção d*efte 
interessante acontecimento. 

Eis-aqui pois o que elle disse a KlRei : 

« Très-hault et excellent et très-puissaiit Pi iaoc, jc croii 
» assez bien estrc en vostrc mcmoire que j^ii eu confio et licence 
» de mon très-redoubté et souverain seigneur uionscignear le 

> Duo de Bourgongne, vostre bcl-oncle, de porler tclle empríse 

> par Ia plus grande partie des royaumes chresiiens, laqnelle 
» cmprise a este présentée à Vostre Royale Majcst<$ - si snú 
» vcnu pour faire et accomplir, à Tayde de Dicu , lo coulcna 
» desdicts chapitrcs » 

Le Roi lui rép.):idit béni^nomou* ; (Acrescenta a relação 
contemporânea, diz nds) i!ii»^' : 



— . 81 — 

apresentou a ElRei as cartas que trazia de Fi- 
lippe o Bórrij Duque de Borgonha^ e ElRêi D. Af- 
fonso lhe de a ordem deo Christo pendente^ 
e um coUar de ouro guarnecido de diamantes^ 
rubis , e pérolas (1 1 4). 



< Messire Jtcques de Lalain, yoius soyez le bien venu en mon 
» royaume de Portugal , lequel est petit : mais pour Thonneur 
» et révérence de nostre très-chicr et bien aymé bel-oncle, et 
» belle-tante de Bourgongne,nous vous voudrions faire tous les 
» senrices et plaisirs que faire pourrions. Et quant au regard 
» de vostre requeste, vous sarez bien que Ia response en est 
» légére ; mais pour Pheure presente vous en irez reposer et 
» le prendrez en patíence. » 

Le lendemain, en présence du Roí, une despersonnes les 
pltiB notables de son Couseil dit à notre cheyalier : « Messire 

> Jacques de Lalain, vous soyez le très-bien venu; le Roi m'a 

> commande vous dire, qu^il est piéçà adverty de vostre venue 
» par Heraut , lequel luy a apporté et presente certains cha- 
» pitres dVmes, contenant comment, par le congA^Jicence 
» de monseigneur le Duc de Bourgongne, vous poofwporter 

> emprise d^armes par la plus grande partie des royaumes 
». çhrestiens. Toutesfois vous n^avez pas oublié le royaume de 

> Portugal : mais il est vray, comme vous sçavez, que le Roy de 
» Portuga] et le Duc de Bourgongne sont si bien et tant aggréa- 
» blemcnt ensemble alliés Pun à Taultre , qu^il n'est pas pos- 

> Âble que jamais Talliance et Pamour puisse deffaire. Pour 
» laquelle chose le Roy m*a commande vous dire quMl ne 
» Tooldroit souflrir que nul de sa maison ou royaume fist armes 

> contre ceulx de Ia maison de Bourgongne; et s^il estoitaucune 

> chose que le Roy, messeigneurs les Princes de son sang , che- 
n valiers et escuyers peussent faire quMI fút aggréable pour 

> icelle maison de Bourgongne , ils le vouldroient faire et ac- 
» oomplir. > 

(114) Uistoire du bon chevalier Messire Jacques de Lalain ; 
Bruxelles, 1634 , in-4<>, p. IOS-II89 <^pu<i de Reiffenberg; An* 
cieimes Relatioqs , n. 37 e 38. 

Af Memoriu i^httm qpie ElRei D, Affonso Y quis que o 



— 82 — 

u. 1449 ElRci D. AÍToiíso V e seus Conselheiros ^ ini- 
migos do illustre Infante D. Pedro^ receando 
a grande c desfavorável impressão que produ- 
ziria na Europa a catastropheda Alfarroubeirti 
onde o Infanlc perdera a vida^ prcparárik) 
um Manifesto, no qual EIRei se pretendia jus- 
tifícari inculpando o Infante de grandes crimes. 
Expede EIRei enviados não só ao Papa, como 
dito Manifesto , e justificação, mas também 
a outros Principcs (115), e ao Duque de Bop- 
gonlia (11G). Todos os Soberanos sem excep- 
ção exaltarão nas suas respostas "as virludes, 
e merecimentos do lufantc, e á cerca da sua 
morte muito estranharão a EIRei , atlribuindo 
aquelle fatal acontecimento ás paix'oes parti- 
culares, caos enganos dos Conselheiros, ex- 
cusando cm alguma maneira a sua pouca 
idade (117). 

Vêiêm-^ Nesta data, Filippe, Duque de Borgonha, c 

bro? 



cavalheiro dançasse com a Rainha , c a acompanhasse á 
Todas estas particularidades além do interesse politico qm 
oíTerecem por nos mostrarem quaes crão no século XV as nfliwf 
relações com outros paizes, nos apresentão uma pinlnra dot 
costumes da Idade Media. 

(115) Vide Ruy de Pina, Chron. d^ElRei D. AfiTonflC» Y, 
p. 438, Cap. 129, Tom. 1 dlneditos. 

(116) Códice inédito com o titulo : Pearias Matérias dot m- 
nadot de D, Affonso P^ e D, João //, p. 374 , onde se encontra 
o Maoifeito por extenso. 

(1 1 7) Ruy de Pina , Chron. do D. Affonso Y j p. 438, Gdlho, 
citada. 



~ 83 — 

aDuquczaD. Izabel, irmS do Infante D. Pedro, 
mandão unia Embaixada a ElRei D. Âffonso Y, 
sendo Embaixador o Deão de Vergy , afim de 
mostrar com muitas razões fundadas em 
direito a innocencia do Infante D. Pedro, e 
pedir para seu corpo a sepultura, que ElRei 
D. João I, seu Pai, lhe destinara no mosteiro 
da Batalha, e que se não negasse para sua 
mulher e filhos, e criados o amparo. Reclamou 
o mesmo Embaixador que fossem restituidas 
a todos suas honras, e fazendas. 

Depois de algum tempo ElRei deferio a estas 
reclamações quanto ao Infante D. Jaime, que 
mandou soltar, e partio para Borgonha (118)*^ 

Nesta época, sai de Portugal o Infante An. 1449 
D. Jaime, filho do Infante D. Pedro, Duque de 
Coimbra (119), morto na batalha d' Alfarrou- 




\S) Tide Biqr de Pioa , Chron. d'£lRci D. Afibnso V , 
29, p. 438 (Tom. 1 de Inéditos). — Leão , Chron. dos 
Tom. < , p. 210 , cdiç. de Lisboa de 1780. 
(1 19) Os filhos que houre o illustre Infante D. Pedro, Duque 
de CoVmbra, alem da Rainha Izabel, forão os seguintes :D. Pe- 
dro , filho primogénito, que morreo em Barcellona, intitulando- 
86 Rei de Aragão, D. Jaime que depois foi Arcebispo de Lisboa, 
D. IbSo que morreo coroado, intítulando-se Rei de Cbypre , e 
D. Beatriz, casada em Borgonlift pela Duqueza sua tia com o 
Duque de Cleves (f^í/e Ruy de Pina, Chron. de D. Aífonso V, 
p. 43ô,C..127 inéditos). 

OPnier de La Marche consagra o Cap. ?0« do Lir. I daa 
mas Memortai, ( chagada do lafcntc D. JaUne á Corte de Boi-« 



— 84 — 

hcira^ e chega ao porto da Eclusa , indo acom- 
panhado de vários fidalgos que se hanb 



gonha, e ás oonBas que a preparáriU), Refere mnitas partíodai' 
dades relativas aos acontecimentos qne produxirSo a cal» 
trophe de Alfarroubeira. A relaçfto d*este antor é mui pnÔHi 
visto qae elle foi não só contemporâneo doestes aconfeeeiMn* 
tos, mas que, como elle confessa, lhe fora Uulo contado por 
vários cavalheiros Portugueses que se tinhSo achado na k- 
talha. Por estes motivos, julgámos poderá a mesma 
servir para illustrar o que refere a este respeito Roy de 
tendo este escriptosido publicado em tempos posleriorei sofeíi 
toriador Borguinhão ; alem de que esta relação é bem i 
nesta nossa obra, pois ella mostra como se igaisava nos 
estrangeiros dos acontecimentos que se passavSo em 
Transcrevemos a dita relaçSo no original «porque lima U ' a i l «? i^ 
poderia alterar a originalidade das phrases, e das expreMOsié) 
A. Este intitula o Cap. pela forma seguinte : 

Comment dom Jacquet de Portugal^ neveu de in dmek^ttt de 
Bourgongne , vient à re/uge vert U bon dtte Philàme. 

• Celte saison, nrríva au port de rÉclnsc , Tenfant dom J•^ 
(jnes de Portup;al , fils du duc de Coiínbres, neveu de la di- 
rhessc de Bourgongne, et íils de son frère : et arriva grande- 
mcnt accompagné de chcvaliers, de nobles iwMM^if d 
Biltres , qui tons estoyent fugitifs , aveques liij ^ da fUjaii 
de Portugal ; et vint Tenfant dom Jacqnes, deT«f« |e M^jk 
Bruges; et le receut le duc moult honorablement , 4ÉÍÍ 
bailia estat et pension , pour luy et pour tous ses nKll 
peut-on croire que la bonne duchesse , sa tantc , le reoenti 
ensemble les Porlugalois , moult oordialement leur ft 
de grands biens , et y mit largement du sien : et paieOie- 
ment le bienviengna moult volontiers , le comte Gharalob 
R qui il fut consin germain : et en cette chose me será fiMM 
dVscrirc et de dcclairer qnelqnes aventures et cas aTenniaB 
royaumcdc Porlnpnl (que toiílefois je n'oy pas vens), pM 
donncr à ciitcajrc poiuquoy, et uquelle cause fureut ieeif 
Porlnpaloií, avcç Ipsçnfauts duduc df Çojnibre*, api^tt 



— 85 — 

com elte retirado de Portugal, e é recebido com 
muita honra pela Duqiieza de Borgonha, 



» mort declares fugitifs du royaume de Portugal , et prives de 
» lenrs seigncuries et biens; lesquels enfaiits furent deux 
» nobles princes fíls du duc de Coinibi*es , et une noble daine, 
» Mge et vertueuse , qui dépuis fut mariée à Âdulf , Monsienr 
» de eleves, frère du duc Jehan de Gleves, comme cy-aprés 
» 4pera devisé et escrit. 

' » Yéritc fut que le bon roy Jehan de Portugal , pére de la 
» dnchesse Ysabel de Bourgongne, laissa plusienrs cnfants 
» legitimes , dont raisné nommé Édonard fut roy de Portugal 
9 aprés luy . Le second fut duc de Goimbres. Le tiers fut comte 
» de Cepte, et Ia filie duchesse de Bourgongne. Le roy Jehan 
» mort, le roy de Portugal, son fils, se maria à Leonor, filie 
» du roy Femand d^Arragon ; et d^icelle eut rinfant dom Al- 
9 íbnse , k present roy de Portugal : et avint que celuy roy de 
» Portugal, fíls du roy Jean, moumt ; et laissa son fíls à present 
» roy de Portugal , qui n^avoit que dix ans d^aage : et fut regent 
9 et gouvemeur de lout le royaume, le duc de Goimbres, oncle 
» dujeuneRoy. Celui-ci Duc fut moult tage princa etgouverna 
9 U rojraume de Portugal moult notabUment t et sout sa main 
» avança , en hotfmeurt et richesses, plusieurt hommet nohles, en 
» lef préferant avant autres t qui toutefoís n*en furent pas bien 
» conténs : et leur sembloít qu*ils valoyent bien , de sens et de 
» lignage, les autres, qui, sous Ia main du Regent, avoyent 
» antorité et avancement au royaume : et de ce le ooospira et 
» engendra une três grande haine courerte à Fenoontre du 
» doe : et le duc se faisoit grand et riche, et maria sa filie aisnée 
» an Roy : dont les malTeillans commencérent a mnrmurer : 
9 et disoyent que le duc de Coimbres s^enrichissoit des biens 
» du Roy et du royaume, et qn^il estoit mieux seignenr que le 
» Roy, et que nol n^aToít crancement ou office, sMI n*estoit a 
» Iny, et d*autre part^ ípm avoit marié sa filie an Boy pour 
» ioy fortifier en affoiblismit le Roy et le royaume : car si le 
9 Roy se fust marié a la filie dW roy, ou d*un prinoe ▼oisin , 
9 c^estoit moyen d^enforcement d^avoir et d*aliance pour le 
9 Roy et pour le royaume , et qn*il estoit assez alí^ au Roy, 
t d^estre son oncle , et assez obligé pour servir le royaume , 



— 80 — 



D. Izabcl de Portugal , sua tia , que cutao se 
achava ciu Bruges. Esta Princcza lhe doo uma 
pensão ; c lhe poz casa e estado. 



d^avoir sa duche et ses seignenrios dedans le royanme, d 
ténues du Roy : et le Roy (qui croissoit cn scns et en jonn} 
entendoit ces choses , et «idhcroít aucunenicnt à tellei pi- 
rolles : pour ce qu*i1 desiroit d^cstre obei, et hora de fugel- 
tion : et loutefois il se taisa , en attcndant qu^^il fust hoflOÉe 
I)our eslre roy et regcnt , sans compagnon ou maistre : d 
avint quVn celuy temps 1c Roy manda le duc de Coimfamí 
venir devers luy : pour cc qu^il s^estoit un pcu de tempii^ 
tire en sa duche, estant averti que ses cneniis machinojcit 
contre luy, et que le Roy y livroit escout flea ccoutoit}ct 
mesmement avoit on fait une conspiration secrète, ooDlre 
le duc sur le faict du royaume. 

9 Si se douta le duc : et manda ses sujets, servi tcurs et ainiS) 
pour aler au mandemcnl du Roy, fort acompagné; et esti 
sravoir que cctte asscnililce ne se faisoit pas contre íe Roy, 
mais contre les mnlveillans du duc, qui cntroj-enten gou- 
vcrncmcnt et en aulhoriló, et, quand le Roy fut averli de 
Passembléc qui faisoit le duc sou oncle , il pril Ia chose con- 
tre luy eslre faile : et de sa part assembla grans gens : d 
chevaucha le Roy à grosso armee contre son onde : ctlednc, 
quand il sentit venir le Roy, se cloit, et fit un camp, clofde 
fosses et d^artiilerie ; et unit ses gens en bonnc ordonnance: 
et à ce que mont plusieurs nohles hommes poriugalois (qui 
furent presens) cerlifiê , le duc ne le faisoit cn autre inten- 
lion , sinon cuidant faire partir de son camp aucuns des pio 
notables , pour aler au Roy en grande Inimilité, pour «ly re- 
commandcr en sa bonnc grácc, eí sravoir les causes pouxqoof 
il estoit mcslc avoques sa royale majoslé , soy cxcuser p»r 
hnmbles voyes, et lui ramontevuir les serviccs , quMl enten- 
doit avoir faicU au Roy en ses jennes jours , et à rutilité do 
royaume, eA concluant qu'il luy oíTmil son serviço. Maisil 
avint que les arabalestriersdn Roy d»; Tortiigal approchèreDt 
du canjp en grand nombre ; et se commcnça une escarmon- 
che par méchans gens, d'un costé cl d'autrc, tclleinenlqB^ 



— 87 — 

Nesta época se trata de negociar o casamento An. usê 
do Delfim de França com a Infanta D. Leonor, 
irmâa d'ElRei D. Affonso V de Portugal, cuja 



» d*iin íraict d'arba1estc, Ic duc de Coinibres, au milieude ses 
» gens, fut atlcínt cii la poictrinc, dont il mourut en ceUc 
» mesme heurc : et n^ay point sccu quVa seul homme de nom 
> fut blessé ou attoint , de ccllc escarinouche y fors le duo seu- 
» lement. > 

É notável que os Portuguczcs que se acharão na batalha, c 
derSo estas inforniarOcs ao autor, callassem o nome do valen- 
timino Conde de Abranches, que nella morreo combatendo 
▼alerosanicntc. 

Entrefaoío csla relarao nos revela a viva impressão que esta 
catastrophe produzira nos rei dos estranhos, e quanto o go- 
verno do illustre Infante fura hcni avaliado no conceito dos 
homens inais eminentes do seu fcinpo. A seguinte, e eloquente 
eiclamarão do A. provar.-í ainda mais este facto: 

« Princcs liauts et nobles personnagcs (diz elle) mfrez 

* vous au cas du sage duc de Coimbres, fíls, frcre et oncle de 
r roy. iNo tcntez Dicn , ne son execnteresse fortune. Ne tous 

* fiez on force de chevalerie, de peuple, ou d^armures, qnand 
9 celle fortune a monstré la puissancc de sa permission , ponr 

-» avoir conduit rimpétuositc d^nne sagette (flecha) si juste et 
9 ti alignee,que d^avoir accidentalement occis nn si noble 
» prínce , au milieu de sa chevalerie et sur Iny seul, entre telle 
» compaignie , monstré sa fureur, et sa cruelle vengeance. 

» Ainsi fut le duc de Coimbres occis : et plusieurs se ren- 
» dirent à la mercy du Roy : et autres furent par force pris : 
» et autres s*enfuirent : et mit le Roy la duche de Coimbres en 

* sa main, ensemble tous les bicns du duc trepasse. II exila 

* tous les enfans du duc, íils, filies, hors du royaume, excepté 
9 la scule filie dont le mariagc estoit faict de Iny : et 1'espousa 
9 le Roy : et fút une moult belle, sage et vertuense royne : 
9 et , s^elle eust vescu, il estoit Icger à juger, par la cognois- 

* sanoe de ses vertns, qu^elle cust rcstorc la maison des 
» Coimbres , et faict rapeler à grand honneur, en Portugal , 
«et frêres et soeurs , et 1m s^igiimin et nobles hommes exile 



— 88 — 

Princeza casou neste anno com Frederico In 
dos Romanos (120). 

/7í/. Relao. de Portugal com o Império, 
Secc. XXIV. " 

1. 1451 Neste anno a Infanta D. Izabel , irmã do In- 
fante D. Jaime, filha do Infante D. Pedro Jkh 
que de Coimbra , e o Infante D. João ch^So t 
Corte de Borgonha , tendo sahido de Port^pl 
em virtude da negociação de que acin» ft 
trata (121). Sao recebidos com muita pooiq|l| 



à cetle cause : mais cllc monmt soiis trente ans, et 

frcrca et socurs en jeune aage : dont ce tat donunage : ov 

c^estoit un noble sang, et une géneration bien adreoMA 

Tertufl, et en chevalerie. Or ay-je devisé de la mortdBdK 

de Coimbres , et de son cas , par moy tontesfois noD nfc; 

mais à ccsle cause j*ay veu vcnir cn la maíson da 

g5ngne deux fils cl une fílle, exiles et dechacés da 

de Portugal : dont Ic prcmier , qui arrira , fut Pinfant 

Jacqnes (dont dessus cst faict nienlion) moult sagc 

et devot : et par Ic pourchas de la duchesse de BonrgonpW» 

sa tante , fut envoyé à Romme et fut homme d'Églíae : etfV 

Ic consentcment du Roy de Portugal fut archeveqne de Út 

bonne (qui cst le plus grand bcncfice du royaume) et fkitflnpt 

cardinal , et moult élevé, tant par sa noble naÍ88a]ioa,e0VÉ|l 

pour ses vertus : mais il mourut au lieu de Romme 9êêê^wÍ/^ 

après , et cn ses jeuncs jours, commc il est dict dettok.. • r 

Com cfícito, no anno do 1452, o Duque de Borgonha te 

nomear o Príncipe portuguez , Bispo d^Arraz , de cujo Biipail» 

foi transferido para o de Lisboa , recebendo depoia o cliapeodi 

Cardeal , com O titulo de Santo-Estaço. ( P^ide J. B, L. de Cll- 

tillon , Sacra Belgii Chronologia^ Bmzelles, 1719, m-S», p. 175.) 

(120) ride Secç. XV, T. 1, p. 351, noUGSO. 

(i21) Olivicr de La Marche , cap. 21 , p. 56 o 57, onde db: 



F ■ ■ - ^ 

'^110 encontrál-os o Conde de Cliaroloia , c as M 

^'pessoas pnticipaes da Corte de Boraonlia. 1 



'pessoas pnticipaes da Corte de Borgonha. 

Neste anno a Duqueza de Borgonha D.Izabcl i 
ttcasa sua sobrinha a Infanta D. Izabel , filha do 
Infante D.Pedro, com o Duque deCleves (122). 



t En celuy an , S I , vint par deça madame Ysabel de Coim- 
M brea,etlehan Monsienr sou frère ! qoi vint depuis en celle 
» niesine saÍBoa. Iteux, frère et stpar, furenl depnís nioiiil 
f» bien adrecés, de verliis, el de bonnes miEnrs : et furent en- 

• fans au duc deCoimbres, inurtet occigenPor[nga],<:t ncreu 

> et nièce ã la duchesse Ysabel de Bourgoagne , et rliaccs et 

■ exiles deleors seignearieselhcri[age(coinine il est ci-dessus 
'» cscril), et Ics receut le bon duc, et la duchesse, ensemble le 

> conite de Charolois, luur Gk, moult douocroenl, et en grande 

• piliú de Icur exil : et ttur aln le eomte au dtvant , et tous Ics 

■ prínccs et nobles hommea de la niaison... > 

O Infante D. Joio achoii-se no ceroo de Audenarde ( viite 
Nem. citadas, p. 75, T. Il) da Coll. de PetiloE). O mesmo 
Príncipe porlugucx foi armado cavalleiro pelas mãos do Diujue 
do Uorgonha no combate cuntra os Gantues {itid., p. 103, 
cap. 35]. 

Em 1453. no dia !3 de Julbo, o mesmo Príncipe se actia na 
batalha de Cavrc com os demais Príncipes da casa de Borgonha 
(iW-, p. 144). Vé-se o mesmo Princípe assistir ás festas que se 
I flicrSn emLilaem M de Fevereiro d'este anno {ibid., cap. ?9, 
p. IG5). OIÍTÍer de La Marche dizqnc estava o Principe acom- 
panhado * nvee grnnd nomire de chevalieri el nobUi hommct 

> loui velui de Idanc à la parure ilu ckevalUr .- el porloj-tnl lei 

■ tancei en heUe erdonnanee. > Na campanha de que acima 
fazemos menrSo o Principe achou*ge sempre ao lado do Duque 
de Uorgonba {ibid., p. 153). 

(137) Olivier de La Harchediz sobre este casamento o se- 
guinte, p. ã7, cnp. ?I : 

■ Autrc chose n'avint en l'an 51, qoi à ramenlcvoir face: 
» mais a»Cí losl aprea se Dt le muría^u de n 



% 



V 




An. 14S2 
Agosl.3i 



— 90 — 

El Rei de Aragão oppõe-se a este casameiriíD 
(123)- 

Coimbra. — Cartas de Alliança e salvo- coo- 
diicto (lado por ElRei D. AíFonso V ao Duqae 
de Brctaiilia , ea seus Vassallos por seis aniMMi 

Nesta Carta cm que o Senhor D. Aflbnso T 
alem do titulo de Rei de Portugal c do Algam 
toma o de Senhor de Ceuta, renova o ditDS^ 
nhor a alliança e concórdia que ha muito 
tempos atraz havia existido entre os Senluvcs 
Reis seus predecessores e os Duques de ft«- 
tanha ate os annos próximos passados, dos 
quaes por occasião de alguns damnos, que os 
Vassallos de Bretanha experimentárSoda park 
dos de Portugal, e viceversa, se originou un 
rompimento, commettendo-se de parte a pM* 
vários actos de hostilidade, com gravíssimo 
projuizo de ambos os governos; e comedi 
continuação d'esto estado de cousas poderiio 
dimanar muito maiores males, não selhetp- 
plicando a tempo um remédio eiTicas, deoê- 
jando o dito monarca evitar a eífusao de san- 



9 vastin, ncvcu do monsicur Ic diic Philippc, avoe 
» Ysabel de Coimbres, nicccà madame de nourgonffiM«Vti0 
* marièrent en la vile de Plsle : nu fureiít faictes Joulvit 
» touvnoycmens : et cortes ce fiirent deux gcns, qni ta^ 
» grand chère enacmblc, et mcsmes à tons ccux qul les tâut^ 
9 voir. » 

(123) Zurit. Ann. de Arag., T. 3, lir. 15, cap. Go,' fbl. Ú3. 
ride Secç. XV doeste Quadro, T. I . p. 351 e 352. 



— 91 — 

gue humano houve porbem^dcaccordo çom o 
Duque de Bretanha, de renovar as menciona- 
das allianças e concórdia que entre os dous 
paizes existiao, afím que os súbditos d'uin e 
d'outro presentes e futuros podessem commer- 
ciar uns com os outros com seguridade e con- 
fiança, como fazião nos tempos atraz antes das 
já mencionadas divisões e guerras , e celebra- 
rem entre si convenções, e terem aquellas re- 
lações que lhes forem necessárias; movido 
d'estas considerações , a começar da data da 
presente, concede e dá o dito Senhor D, AíFon- 
so y segura) salvo- conduc to e boa guarda por 
espaço de seis annos próximos futuros a todos 
os súbditos, vassallos, e habitantes das terras e 
Ducado de Bretanha em geral, c a cada um d'cl- 
les em particular, para que possão seguramente 
vir por terra , mar e rios, por objecto de com- 
mcrcio c outros aos Reinos de Portugal e Algar- 
ve, c ús (erras, portos, enseadas, praias, villas 
e cidades do sobredito Reino, e a outros quaes- 
qucr lugares sujeitos ao dominio portuguez a 
pé, ca cavallo, como por' mar em qualquer 
qualidade de navio que seja, carregado ou nao, 
armados e bastecidos de homens do mar c d'ar- 
mas conforme o pedir sua segurança, e neste 
modo entrar nos ditos portos e enseadas, vil- 
las, cidades, c lugares fortalecidos, havendo 
primeiíx) licença dos Capitães commandantes 
dos ditos lugares e fortalezas ou de seus lugar- 
tcnenles, podendo ali vender ou ITMU 



— 92 — 

fazendas I descarregai -as sendo preciso, edá- 
xál-as em deposito c transitar livremente pdi 
estrada real e outras, de dia, e de noite, levando 
comsigo dinheiro em ouro ou prata amoedaiio 
ou não, jóias , collares , lettras, obrigações, e 
cscripturas que nao sejão prejudiciacs, beo 
como outros quaesquer haveres , demorando- 
se nas ditas villas e cidades do domínio porto- 
guez, discorrer por ellas e tornarem-se coo 
segurança a suas terras em seus navios ooa 
suas fazendas , sem que por parle do dito Rd 
de Portugal ou de seus súbditos e vassalloue 
faça aos ditos Bretões vexame, damao, impedi- 
mento ou mal algum em suas pessoas ou beps 
de qualquer modo que seja, em razão dos dam- 
nos e tomadias por elles feitas durante a guerra, 
e discórdia nos annos antecedentes, ou a. ti- 
tulo de represália em razão das cartas de maro 
e contra-marcapelo mencionado monarca cod- 
cedidas contra os súbditos e vassallos de Bre- 
tanha a requerimento de partes ; pagando to- 
davia os sobreditos os direitos e tributos de 
costume. 

E se accontecer , o que não é para se desejar, 
que depois da publicação c promulgação does- 
tas allianças e seguro já de parte a parte esti- 
pulados e concedidos, um ou mais súbditos do 
Duque de Bretanha exerça qualquer violenda, 
acto de rapina, ou fizer algum damno e pre- 
juizo aos súbditos de Portugal, deverSo estes 
primeiro recorrer ao dito Duque de Bretanha, 



m 



— 93 — 

requerendo na forma da lei e costume para que 
se lhes faça plena justiça e reparação dos dam- 
DOS; as quaes sendo-lhes denegadas ou mal ad* 
ministradas poderão então recorrer a seu So- 
berano e aos Juizes^ e Presidentes dos tribunaes 
de Portugal para que se lhes conceda provisão 
c se providencêe, como for de direito, não se 
alterando todavia por isso as allianças e segu- 
ros já concedidos. Pelo mesmo teor se haverão 
os súbditos de Bretanha no caso de lhes terem 
os de Portugal feito algum damno, prejuizo ou 
violência, privando-os do que lhes pertencia, se 
EIRei de Portugal não deferir, como é de jus- 
tiça, a seus requerimentos, com tanto todavia 
que não hajão os ditos súbditos de Bretanha 
molestado nem causado prejuizo aos Reinos e 
Dominios por tuguezes ou aos vassallos doeste no 
decurso dos ditos seis annos. 

E se por ventura occorrer algum facto em 
contrario do presente seguro, e em seu detri- 
mento, quer, e é vontade do Soberano contrac- 
tante, e pelo mesmo teor o Duque de Bretanha, 
que essa infracção seja tão somente nociva ao 
infractor ou violador, infractores ou violado- 
res (124). 

A Corte de Borgonha determina a precedeu- ad. mss 
ciados Principes portuguezes que ali se acha- 



(124) Bibliolh. Real de Paris, ctf» doi Mm., Códice 8,367-9, 
«-Trftité dVliance^ eto., fol,| p, HS,«« Em latim. 



— 94 — 

y 3o nesta época, pela fórma seguinte. O In- 
fante D. João (125) , filho do Infante D. Pediv 
Duque de Coimbra, e sua írmS a lafaota 
D. Beatriz, toma vão logar immediatamenb 
depois de Madcmoiselle de Bourbon, e dcMaifa- 
moiselle d^Étampcs, que era igualmente so- 
brinlia da Duqueza de Borgonha (1 26). 

1. 1457 Nesta época, ElRei D. AíFonso V, certificado 
1458 dos roubos, e piratarias que no mar faziãoiS 
Francezes aos navios portuguezes, nSo obstante 
a paz em que estavao com Portugal , determi- 
nou punir estes attentados, e para esse efleíto 
fez aprestar uma armada de 20 náos grossase 
outros navios menores, dando o commando 
d'ella ao Almirante Ruy de Mello. 

Esta determinação porém não íbi levMh a 
effeito, porque ao momento em que esta ar- 
mada estava para se fazer à vela, recebeo 



ou 

I 



(125) Este Príncipe disputou os direitos á Gorda de AitgPB 
sustentado pelo Duque de Borgonha, derivando ca direilotdi 
sua mulher Carlota de Lusignan. O mesmo Príncipe tomOB o 
titulo de Regente de Chypre, e de Principe de Antíoqin* 
( p^ifU Maurice '• Les Chevnliers de la Toison d*Or^ cit. psiade 
Reiflenberg , Jncicnnes Relaí.y p. 32.) A Arle de pcrificãt ât 
ílaiat, T. 5, p. 136, diz que, no annode 1458, Carlota, filha de 
JoãoIU, Rei de Chypre, fura coroada Rainha de Chypre !« 
que era já então viuva de João de Portugal. 

(12G) Vide Cérémoniet de la Cour de Bourgogne nas MemOIJII 
de Dunod du Charnage. Besançon, 1740, ÍQ-4°, p. 744.— 

Hemor. pour servir & TMitoire de France et de Boargogne, 
T. U,p. 285. 



— 95 — 

cartas do Ck>ndc de Odemira ^ goveraador de 
Ceuta 9 em que lhe pedia soccorropara resistir 
ao cerco, que esperava do Rei de Fez (127). 

Saragoça. — Carta d'EIRei d'Aragao a Car- ^nj^^«» 
los VII, Rei de França, rogaiulo-lhe houvesse de *»^® *• 
fazerpór em liberdade o Embaixador Por tuguez 
que havia sido retido no Langucdoc pelas gentes 
do dito Rei de Franca. 

Nesta data, ])articipa ElRci d'Aragao a ElRei 
de França que o Embaixador d*£IRei D. Af- 
fonsode Portugal, Marti m Mendez de Bcrredo, 
passando por França, fora encontrado, a duas 
Icgoas de Montpellier, pelo capitão de Aguas 
MorLis, o qual, sem respeito aos privilégios 
e immunidades devidas aos Embaixadores, o 
retivera presioneiro, clle e os seus, de seu 
motu próprio e sem autoridade alguma, de- 
baixo do pretexto de que não vinha munido 
do sal vo-con dueto necessário, mas na verdade 
com o fito de roubar c appropriar-se de quanto 
comsigo ti^zia ; e porque isto havia sido feito 
sem duvida contra a vontade d'EIRei de França, . 
lhe pede em seu nome e no d'EIRei de Portu- 
ga], seu sobrinho, haja de dar as providencias 



(127) Roy de PUia, Chron. d'£lRei D. Aflbnso V, cap. I3S, 
p. 461 (Tomo 1 de Ined. de Hitlor. Portog. da Acad. Real dai 
Sciencias). 

Lefto, Chroo. dof Rei0| T. 4, p. 22$ , «diç. de Uebot df 
17S0. 



— 96 — 

necessárias para que o dito Embaixador pooi 
proscguir a sua jornada pelo reino de Frano, 
restituindo-se-lhe tudo quanto lhe tivesse àk 
tomado (128). 

ad. 14S9 No Tratado de confederaçSo de Valençii 
celebrado neste anno entre EIRei de Françif 
o de Aragão , EIRei D. Âffonso Y é compra 
hendido como AUiado de AragSo (129). 



An. 14S8 
1459 



Por estes tempos (1 30) occorrérSo entre B- 
Rei D. Affonso V e o Duque de Bretanb 
grandes diJBPerenças , e causas para rompimcB- 
tos de amizades 9 e guerras, por os Brdito 
fazerem por mar grandes roubos aos Porto* 
guezes que navegavão a França , a Flandres t 
a Inglaterra , e á mesma Bretanha , e outn& 
partes. ElRci de Portugal dá licença a seus 



(Í28) Mss. da Bibliotheca Real de Pariz, Cod. 1 0,004. -^ 
Baluze, foi. 107. (Original.) 

Sobre este Embaixador, e sobre a missão de qne ia 
regado, veja-se o Tom. 1 d*esta obra, secç. XV, p. 358, 
de 1457. Esta carta, de que acima damos o summario, 
para illnstrar a noticia que produzimos no lugar indioido. 

(129) ride Secç. XV, T. 1, p. 359. 

(130) Temos muita duvida na data do anno de 1460 i|* 
D. N. de Ltôo así-igna a estes acontecimentos , poii ido* 
Damião de Góes poe a embaixada do dito Duque de Bretanhi 
no anno de 1459, mas o que toma mais evidente o erro ài 
Duarte Nunes , é que em 1 1 de Julho do dito anno de 145St 
EIRei Df Affonfo Y concedeo tregoos ao dito Duque de Brrtir 

nba I como m yi pelos documentos que citámoi no toslOf 



— 97 ^ 

vassallos para fazerem todo o mal que podes- 
sem aos Bretões, e as represálias que os Por- 
tuguezes fizerão forão taes, que o Duque, vendo 
o grande dàmno, que seus vassallos recebiao, 
mandou pedir paz, e amizade a EIRei D. Af- 
fQnsoV(131). 

Neste anno manda o Duque de Bretanha An. 1459 
uma embaixada a EIRei D. Aífonso V pedir a 

paz. 

Resultado. — Goncedeo-lhe EIRei tregoapor 

dez annos (1 32). 
Nesta data concede EIRei D, Affonso V tre- ad. 1459 

Julho 11 

goas por dez annos ao Duque de Bretanha (1 33), 
por carta d'este anno, estipulando-se nas mes- 
mas que os Bretões poderião gozar de tod« a 
s^urança em Portugal, podendo vir a esl^ 
reinos tanto por mar, como por terra, e viver, 
e residir nelles pacificamente. Concordando-se 
que estas tregoas deviao principiar em 1 1 de 
Julho d'aquelle anno, e findar a 11 de Julho 
de1469(134> 



(131) Nunes de Leão, Chron. dos Reis, T. 2, p. 248. 

(132) Góes, Chron. do Príncipe D. João, cap. 1 7. 

(1 33) Duque deBretanha que então reinada era FranciscoO* 
Acerca doeste Duque e dos acontecimentos que occorrérão no 
tempo do seu goTemo , veja-se Filippe de Comines, e Moríce , 
Mcm. , T. 3. 

(134) Biblioth. Real de Paríz, casa dos Mss., Cod. n. 8,357-9, 
p. 256. Estas tregoas são citadas na carta de 3 de Novembro do 
1 469, como se verá adiante nõ texto. Góes taiph^pT i ^ cita na 
Ghrõnica do Príncipe P. Mto, cap. 17. 

lu, 7 



^ 98 . 
An. I <6i Nesta época se celebrou o tratado de alliuica 

JIaÍo 3 

entre Luiz XI, Rei de França ^ e João, Rei de 
Aragão. 

No art. III se estipulou que nSo enten- 
diao os Soberanos contractantes , que por esfc 
tratado ficassem desfeitos e sem vigor os qv 
subsistiao por parte d'ElRei de Franca , ente 
elle e os Reis de Leão, Castella, Escossia eS- 
cilia, e por parte d'ElRei d' Aragão, os que 
este Soberano tinha com EIRei D. AíTonso de 
Portugal, EIRei de Sicilia D. Fernando, e coB 
Francisco Sforcia, Duque de MilSo (135). 



An. im 

Maio 3 



Na entrevista cjue tiverao os Reis de França 
e de Aragão, jiinto a Salvaterra na Navarrif 
na qual ratificc'\rao as allianças , Portugal foi 
comprehendido nestas como parte cootrac- 
tante(136). 



An. 1462 Tratado de tregoas entre Luiz XI deFrancSf 
e Margarida d'An jou, Rainha d^Inglaterra cffl 
nome d'ElRei Henrique, seu marido. 

No art. VIII d'este tratado se estipulou que 
EIRei dos Romanos, d' Aragão, de Portugal t 
todos os demais Reis e Frineipes , amiiroa e 
alliados d'um e d'outro Soberano contractan^ 



(135) Proyas das Memorias de Filippe de Comines nm \m\ 
glet-Dufresnoy, T. 1 1 , p. 373 e 374. 

Biblioth. Real dePariz, Mss«, Cod. 64, foi. I9. 

(136) ride Secç. XV, T. 1 d'este Quadro, p. 362;" # 



* < 



— 99 — 

seriao comprehendidos nas ditas tregoas, se- 
gupdo a forma e teor d'ellas^ elles, e seus sub** 
ditos e vassallos (1 37). 

O Embaixador de Portugal em Castella^ An. ims 
João Fernandes da Silveira, esteve presente 
quando Henrique IV, Rei d'aquella Monarehia, 
se avistou com Luiz XI, Rei de França neste 
anno(138). 

Neste anno chega a Ceuta, então occupada An. i464 
pelos Portuguezes, a frota de Borgonha, com- 
raandada pelo Bastardo de Borgonha, afim de 
combater contra os Sarracenos. Compunha-se 
de 12 galés e 10,000 combatentes. A' chegada a 
estajcidadc o Principe visita os Portuguezes 
(139). 

Elvas. — Carta d'ElRei D. Affonso V a An. i4«4 

Abril 31 

Luiz XI , Rei de França , relativa a D. Pedro de 
Portugal, que se dizia ter ido a Barcelona, e 
tomado o titulo de Rei. 

Nesta carta diz EIRei D. Affonso que, enten- 
dendo desejava EIRei de França saber se fora 



■«■««p^ 



(ti7) froTM das Memoriai de Filippê dê Camiiui, por Len* 
glel-IhirreaBoy, !• 1 1» p. ^7 e aegniniea. 

(IS8) ride Secç. XV, T. 1, p. 362. 
BiblioUieca publica de Lisboa, casa doa Mfis.» Catai, doa Re- 
gedoteiy Eat. B-2-13. 

( 1 39) rid€ OUvier de U Marche, eap. 36, Uv. 1 , p. 243 e leg., 
W GoU. de PetiUH, T. 10, (iraiL i^rie. 






com seu real consentimento e approvaçãoqu 
D.PedrodePortugalseuPrimo, filhodoinfàiie 
D.Pedro, havia partido para Barcelona, oaí 
se intitulara Rei, e exercera vários actos de» 
bcrania, folgava muito de relatar-Ihe o qw 
este respeito era passado, e tomando as coii9i 
do principio diz-lhe como, achando-se em tó* 
com intento de levar a guerra aos i nfieis, apor 
tárãoali duas galeras de Barcelona, cuiocauB 
lhe pedira audiência, e lhe exposéra o a* 
sabendo da entrada que elle intentava &e 
nas terras dos Mouros, se lhe vinha offen* 
para o que cumprisse; tpie, acceitando fiB> 
aquelle oflcrecimento, o tomara a seu serrico; 
passados porém alguns dias, e como E/Hei* 
dispozesse a investir por terra e por mar 
praça d'Arzilla, veio ter com elle seu primot 
Condestavel, e lhe fízera salier em seerab 
como era chamado e sollicitado pelos Baroeh- 
nezcs para os governar, e que este era o W- 
gocioque ali trouxera o capitãodasduasgik- 
ras; ao queEIRci lhe tornara que nSoespenoe 
d'elle ajuda alguma contra seu i I lustre tiií|tt 
d'Aragao. O que não obstante, nessd^^E 
noite se embarcara o dito seu primo tti6líÍSÍf 
galeras ás occultas, e mandando soltar cisiriè' 
nos se fizera na volta de Barcelona , do que« 
no seguinte dia fora sabedor, o que maisM 
muito o affligira não só poi- contemobíSa 
para com ElRei d'Aragao seu tio , mas tamM I 
peio muito amor que tinha ooprimo or-*-^ 



— 101 — 

houvera desajuizadamente^ e obrara com prcci- 
pitaçaO; e sem attender a seus conselhos (1 40). 

ElRei D. Affonso faz doaçSo das ilhas dos Aa. tm 
Açores a sua tia Infanta D. Izabel , Duqueza de 
Borgonha (1 41 ). 

Lisboa. — Renovação das Tregoas, e Tratado ^i^\*f 
de commercio por dez annos entre ElRei 
D. AfiTonso V de Portugal , e o Duque de Bre* 
tanha. 

Faz ElRei saber nesta sua carta como tendo 
tido em consideração o proveito que poderia 
resultarão reino de Portugal^ bem como ás 
terras e dominios do ducado de Bretanha^ da 
observância de parte a parte da alliança e ami- 
gável correspondência entre os vassallos de 
ambas as coroas ^ e da pacifica communicaçao 
e curso de mercadorias de umas terras a outras, 
e outrossim que attendendo ao que lhe fora re- 
presentado pelos mais notáveis mercadores de 
Fertugal e de Bretanha, fora servido prolon- 
gar por dez annos, a começar do dia 11 de 
Julho do anno de 1459 até igual dia do dito 
piez do anno de 1 469^ o tratado de alliança e 
s^piro celebrado entre Portugal e Bretanha, 



. . (MO) Mm. da Biblioth. Real de Paris, Ood. 9,S75, doemn. 90; 

^ (141) nde a cnriosa Relaç. em de.Reiffenberg, Anc Rdib 
dft la Belg. et da Portng., p. 28. 



— 102 



afím de que os súbditos de uma e cfoutra co- 
roa , 110 decurso dos ditos annos , podesss 
conimcrciar , e transitar livremente com sot 
fazendas pelos reinos de Portugal e seus do* 
minios, sem que se lhes fosse posto o mcnf 
estorvo e impedimento, e outrotanto podeM 
fazer os súbditos de Portugal nos domiiiii)8«| 
terras do ducado de Bretanha. £ como ocfiti 
tempo e termo de dez annos estivesse acaM 
ou quasi para acabar, e fosse requerido da pukl 
dos mais notáveis mercadores de Portiigi! 
e de Bretanha houvesse de ordenar ibi» 
mantida e conservada a dita allianca comobi' 
via sido nos tempos atraz, por estas eontns 
razões prolongava e dava por prolongados 
dito tratado d'alliança e seguro por mais do 
annos, a começar de 11 de Julho passQjfopdi 
mesma forma , teor , e debaixo das mesmas 
clausulas que se havião observado nos dd 
annos precedentes (1 42). 



An. 1470 
Fever. i 



Ordenança do Duque de Bretanha^ mancha 
ao Almirante, vice Almirante, e outras auto* 
ridades para fazerem observar o Tratado * 
Paz entre o dito Duque e ElRei D. AfibnsoY' 

Nesta Ordenança , em consequência da pio- 
rogaçaõ das pazes assentadas com Portugdi 



{Í42) Biblioth. Real de Pariz, cMa dos Mm.» God. n. 8JKM 

— Traité d'alliaace, etc, p. 256. Em portogueis. 



— 103 — 

ordena o Duque de Bretanha ^ sob pena de 
confiscação de bens e de prisão, a todos os seus 
yassallosem geral^ e a cada um d^elles em par- 
ticular, sehajaõ de abster de qualquer acto de 
hostilidade contra os Portuguezes debaixo de 
qualquer pretexto que seja, encommendando- 
lhes pelo contrario de os receber, e tratar como 
amigos e alliados (143). 

Instrucções do Duque de Bretanha dadas a An. 1470 
Jehan Gourdel , seu secretario , e enviado por 
elle ao Senhor Rei D. Aífonso V, a respeito das 
tregoas, pelos artigos subsequentes. 

Em o Art. I , encommenda o Duque ao seu 
enviado lembre a ElRei de Portugal, que se- 
gundo se estipulara nas trcgoas, que entre 
elles forao concertadas , tinhão os vassallos 
d'uma e d'outra nação a liberdade de commer- 
cear livremente uns com os outros, sem receio 
de hostilidades. 

No Art. II lhe diga que, naõ obstante o es- 
tipulado, um navio de vassallos da Bretanha , 
que de Sao Maló havia feito vela para Portugal, 
na fé do dito tratado de tregoas, fora encon- 
trado , e tomado nas costas do dito reino por 
um navio armado em guerra, e commandado 
por Pedro d'Ataide, vassallo d'ElRei de Por^ 
tugal. 



(1 43) Mm. da Bibliotheca Real de Pttrix, God. 8;i67.9, p« V», 



Art. III. Que o dito Ataíde ^ e aá gjoábíit 
sua companha haviSo capturado o difo nm 
com toda a sua carga , posto lhes fosae íb 
era partido de Sao Maló^ e ser casco e cargapo^ 
tencentes a vassallos do Duque de Bretanha c 
nao contentes com isso tratárSo aos que Sb 
nclles , como a Mouros. 

Art. lY e Y . Que tendo os ditos súbditos Bb^ 
toes requerido perante ElReí de Portug»!, t 
seu conselho, contra o aggressor Pedro d' Atúd^ 
fora este condemnado a pagar aos lesados i 
quantia de dous milhões de reis, moeda de Por- 
tugal , quantia que nao correspondia ao yzioT 
do navio e fazendas capturadas. 

Art. YI e YII. Que nao obstante a dita sen- 
tença nao poderão os interessados haver coosa 
alguma, por mais requerimentos que houves- 
sem feito a ElRei de Portugal , e a seus misài^ 
tros. 

Art. YII e YIII. Que, baldadas todas as suas 
diligencias , tiverao de recolher-se á Bretanhai 
e de appellar para o Duque seu Soberano nar 
tural. E como seja lei em Portugal que o que 
arma em guerra um navio , e se põe a co8S0| 
presta antes de partir fiança idónea , que res* 
ponde dos damnos que pôde causar. 

Art. IX e X. E que EIRei de Portugal aofireo^ 
que o dito Ataíde armasse um navio^ e andaw 
a cosso, sem prestar caução , conforme a lei de 
seus reinos; EIRei de Portugal é responsavd 
dos males causados pelo dito Ataide^ e.devt 



— 105 — 

^ ressarcir aos interessados a perda que hao 
«offrido. 

« Art. XI. Que o dito Senhor Rei de Portugal 
éUA igualmente obrigado a fazer restituir ou- 
tro navio de São Maló igualmente capturado 
pelos Portuguezes ao pé do cabo de Sao Vi- 
eente. 

Art. XII. E outrossim outro que fora apre- 
• feado na costa de Lisboa. 

Art. XIII. Que nao obstante haverem os 
donos das presas acima mencionadas suppli- 
cado ao Duque, houvesse por bem de conce- 
der-lhes carta de marca contra os navios per- 
tencentes aos súbditos Portuguezes, elle se 
abstivcra de o fazer na esperança de que ElRei 
de Portugal faria restituir aos vassallos de Bre- 
tanha aquillo, de que haviao sido violenta- 
mente esbulhados. 

Art. XIV. Que assim se devia esperar d'El- 
Rei, a quem representaria o quanto seme- 
lhantes actos erão encontrados com o que se 
estipulara, c nocivos á conservação das tre- 
goas, cujos capítulos o Duque havia escrupulo- 
samente observado, e mandado observar (144). 

Nesta data ratificou o Duque de Borgonha An. nu 
o Tratado de 1 2 de Agosto d'este anno, entre 
o mesmo Duque, e os Reis de Sicilia. 



Nov. 1 



(144) MflB. da Bibliotheca Real de Pftrii, God. 8^^'-^ 
a 261. Em francei. 



No Art. I d'c8tc Tratado que vem incertoia 

Ratificação se ampliao e confirmão as allilB- 
ças e amizades concertadas, comprehendenib 
as altas partes contractautes também nelbii 
Sercnissinia Dona Izabel como se expnstt* 
mente houvera ali sido nomeada, declaiUH^ 
e promettendo guardar inviolavelmente M 
artigos d'ella^ tomando por amigos e pd^V* 
migos d'um os amigos e inimigos do outo) 
sem com tudo por isso serem obrigados a ift- 
tentar causa alguma contra o summo Pontifica 
nem a faltar ás confederações e allianças qiK 
tinhao com outros príncipes; a saber £Iftei 
d' Aragão com os de Castella , Inglaterra i Ib* 
polés, Portugal, e pelo mesmo theor o Doqtfc 
de Sorgonha^ nem a fechar seus portos M 
negociantes e mercadores das nações que éi 
então os frequcntavao (145). 

EIRei D. Âífonso Y manda nesta data M 
Corregedor de Lisboa , c Oíliciacs da cídacfei 
que observem o compromisso que fôra otdiy 
nado pela Duqueza de Borgonha, sua tia^ áoerci 
da capella que se havia de perpetuar pela allitt 
do Infante D. Fernando (14G). 



(145) Mss. da Bibliotheca Real de Pariz, God. S 9S7-S| 
p. 325. ' 

(14G; Soar. da Silva, Mem. d'£lRei D. i(Ao I, T. 4, p, Uf. 

Accrescentaremos ainda neste lugar algmaM 



r 



H* 



— 107 — 

Representações do Marquez de Vilhena a An. 1471 
Luiz XI, para persuadíl-o a sustentar ElRei de 

doesta illustre Princeza, ás que já deixámos mencionadas de 
pag. 43 a G9 doeste volume, e nas notas 97 e 105 6 119. 

"Jacques du Glerq, aulor contemporâneo doesta Princeza, re- 
fere no capitulo G das suas Memorias, p. 51 (Coll. de Petítot), 
que ella fundara, no anno de 1456, um Convento em Flandres, 
iltaiicreveremos as curiosas partíctdaridades que elle refere, 
tNMB se não encontrão em as noaias Chronicas com estes de« 
Calhes: 

< £n ce temps (Janeiro de 145G) dame Ysabeau, duchesse de 
» Bourgongnc, et filie du Roy de Portugal , íit une religion de 
. % grises «GBurs de Tordre de Saint-François, mendians, en Flan- 
B dres en ung líeu nommò la Motte-au-Bois , ès^bois de Nieppe , 
^ et illccq s^alla tenir menant une vie de dévotion , et disoit ou 
'» qu^elle estoit mal avcc le duc son mary, à cause du discord 
» qúy avoit csté entre le fíls et le pere , et cuidoit le duc que 
» ce eust este par elle, pourquoy il ne vouloit luy parler. » 

Esta Princeza niorrco em Dijon a 1 7 de Dezembro de 1472 
{yidc TArt de vérifíer les dates, T. 11 , p. 91 , ediç. de 8<> ). A casa 
de Borgonha teve, como já deixámos dito em outra parte, em 
grande monta esta allíança com a família real de Portugal. No 
tumulo de Carlos o Temerário que se acha em N. S. de Bruges, 
•e Tém os escudos das armas reaes de Portugal, lendo -se na 
ia ordem de BrazOes , os seguintes : 

I* Dionisius, Uoy de Portugal. -* Isabeau d^Aragon. 

4** O mesmo. 

Na 2" linha d'escudos : 

I» Alphonse, Roy do Portugal. — Béatrix, Roync d'Algarve. 

Na 3* linha : 

1« Don Pierrc de Portugal. 

2*» Jehan, Roy de Portugal. -— laabeau do Castille. 

3^ Ifabeau de Portugal, duchesse de BourgODgne* mére de 
M onsienr Charles , duc de Bonrgongne* 

Eite escudo é mutentado por doas flguraf de niDlhetf « 

Vide Noiiet sur les TombeauM dê CkmrUê k TéMiérmÍMi0ê dã 
Mafie de Bourgognc , pelo domo comqcíO o' 
yilleneave-traniy Nancjy IMO» pi Ht ' 



• •»' 



— 108 — 
Portugal nas prctençoes que tínha ao reino de 

Castella. 

O Marquez ile Vilhena^ filho do fallecido 
Mestre de Sao Tiago, encarregou o seu enfiado 
de dizer que sem embaixo de ter ElRei de Por- 
tugal, actualmente também de Castella , dfee 
seus predecessores , tido sempre boa amizadCi 
paz e alliança com os Reis e reinos de Ingb- 
terra, nuo deve EIRei de França considerar isto 
como um obstáculo. Que EIRei de Portugal, e 
os que vao abaixo nomeados têm as forças e 
tropas seguintes : o Marquez de Vilhena, trcs 
mil cavallos ; o Arcebispo de Toledo, dous mil ; 
o Mestre de Calatraya^ dous mil ; o Bispo deOe 
latrava, dous mil ; o Bispo de Burgos, trezentos; 
o Conde de Hôroianna, trezentos ; D. Afibnso. 
Senhor de Montalvão, duzentos ; D. Afibnso c 
D. João, filhos bastardos do Mestre de São Tiago^ 
quatrocentos; D. Pedro de Porto Carreiro, 
irmão do Marquez , quatrocentos ; a Condessa 
deMedelim, filha do fallecido Mestre deSSo 
Tiago, quatrocentos ; a Condessa , mãi da mu- 
lher do Marquez, trezentos; o Duque d'Arewalo, 
dous mil; o Marquez de Cadix, genro do dito 
Mestre de São Tiago, mil e quinhentos; o Duque 
de Sevilha, dous mil ; D. Aífonso d*Aguillar, 
seis centos; o Conde de Feria, quatrocentos; 
EIRei de Portugal, quatro mil de cavallo c 
doze mil de pé, fazendo um total de vinte mil 
homens d'armas e ginetes, e doze mil archei* 
ros. Muitos outros Senhores, Duques, Condes e 



— 109 ~ 

Cavalleiros, que até aqui se naohaviSo declara- 
do, o farião em breve cm sabendo da chegada e 
entrada d'ElRei de Portugal em Hespanha , e 
tanto ElRei de Portugal como òs que vão 
nomeados estarião ás ordens d'ElRei de França, 
e seguirião os seus avisos, e nao fariao a con- 
trario sob pena de perderem corpos e bens. 
Quando elle emissário partira de Madrid, 
Perpinhão ainda se não tinha rendido ás armas 
de França, e elle pedia em nome do Marquez, 
seu amo, que faça com ElRei que o cerco se não 
levante, e que continue a fazer guerra a ElRei 
d'Aragão na Catalunha, que o Marquez e os 
seus o porão em tal aperto que elle será obri- 
gado a desistir das suas pretenções ao reino de 
Castella (U7). , 

(Indirecto). — Pleno poder d'ElRei de Franca A"- *^'* 

_ * Jaoeíro 

para o Tratado com o Duque de Borgonha (1 48). '^ 

(Indirecto). — Pleno poder do Duque de Bre- An. im 
tanha para o Tratado entre EIRei de França e 29 
o Duque de Borgonha (149). 

(Indirecto). — Pleno poder do Duque de Bor- ^. an 

(147) PMuves des Mémoires de Comines, par Lenglet-Du- 
frcmoy, T. 3, p. 157. 

(148) Biblioth. Real de Pariz, casa dos Mss., Cod. 8,357-9, 
incluido no Tratado de 21 de Março de 1472. 

(149) Biblioth. Real de Pariz, casa dos Mss.y God. B,U7'9j 

incluido no TraUdo de 21 dç lUrço de 1472. 



gonha .para o Tratado cov SUUi de Vmçi 

050). 

£|^«3 Nesta data se celdirou o Tratado de Iregpif 
entre ElRei de França e o Duque de Boi-gooli^ 
assignado era Bruxellaa. 

No art. II d'est£ Tratado se estipulon nif 
seria feito damno algum nem hostilidade 4t 
qualquer natureza que fosse por parte d'EDIo 
de França, ás gentes do parhdi? e allianait^ 
Duque de Boi^onha, nem igualmente as trf* 
paB'd'estc! devastarião as terras e domioilMdíí 
alliadoa d'ElRei de Franqa. 

£ pelo art. VI que na mesma tregoa e su^ 
pensão de hostilidades seriSo coraprebendiJòs 
os alliados d'ambas as altas partes contrac^ 
tantes; a saber, por parte d'EIRei de Fnmçí 
o Hei dos Romanos, o de Castetia e I^ião, £^ 
cossia, Dinamarca, Jerusalém, Sicília, Anájfc 
e Hungria; o Duque de Milão, de GeDova^S 
Bispo deHetz, as Republicas de Ftorenn, «de 
Berne com seus alliados, os paizes da Alta Ak 
lemanha e de Liege, que declarassem qiierw*i( 
comprehendidos no mencionado trâtado di 
data d*elle até o 1' de Jnlbo s^qinte;' a por 
parte do Duque de Borgonha ficayao deads 
então comprehendidos ElRei de Inglaterra e o 



(l&O) Bil^|k.-«e«l de Par» , mm do* Um., Cq4, 8tSS74, 
inclnido o» nmdo d'wte di«. 






— 111 — 

Duque de Bretanha , por terem declarado que^ 
riao ser no dito tratado incluídos, e tarábem o 
MriSo, quando assim o declarassem , o Impe- 

I pador, ElRei d'£scossia, JElRei de Portugal ^ 

I ElRei de Sicilia, d'Aragao, e seu filho , ElAei 
de Dinamarca, ElRei de Hungria, e os Duques 

i de Calábria e de Lorrena, Madama de Sabóia , 

i e seu filho (1 51 ). 

i 

j Nesta data o Duque de Bretanha confere An tm 
I pleno poder ao Senhor de Chastelacher e a 
í Regnauld Godelni, Senhor de Gornus, para 
tratarem com João Rumigi de Lucena , Em- 
baixador d'ElRei d'Arag5o, e para com elle 
assentarem pazes em seu nome e no de seus 
suecessores, e ao mesmo tempo com seu filho 
D. Fernando, Rei de Sicilia, e D, Izabel, Prin- 
oeaa herdeira de Gastella , sua mulher, obri- 
gando-se a approvar e ratificar tudo quanto 
pelos seus mencionados plenipotenciários fosse 
ajustado com o Embaixador d'ElRei d'Àragão 
(162). 

Nesta data se celebra o tratado de paz e ai- An. tm 
liança entre o Duque de Bretanha d'uma parte. 



(151) Mfls. da Biblioth. Real de Pariz , Cod. 8,357-9 , p. 291. 

(152) Mss. da Biblioth. Real de Pariz, Cod. 8,357-9, p. 319. 

A^. B. EãUê negociftdoref »jiistár&o o Tri^do de 9 doeste 
^cz e anuo. 



4 
t 



— 412 — 

e (l*outra ElRei d'AragSo em que Portugal fi» 
coniprcheudido. 

Esti])ula-se iio art. I d'este tratado que hh 
vera paz perpetua e indissolúvel entre oi 
Soberanos contractantcs^ sendo amigos dos 
amigos^ e inimigos dos inimigos^ sem que por 
isso sejao obrigados a faltar aos tratados qoc 
anteriormente tiverem feito com outros FriíH 
eipes^ a saber : ElRei d' Aragão, seu filho 
D. Fernando y e a Infanta D. Isabel , sua mu- 
lher^ os que tiverem com ElRei de Castdliy 
ElRei de Inglaterra, de Nápoles, de Portuga^ 
bem como com o Duque de Borgonha ; e o 
Duque de Bretanha, os que tiver com ElRdde 
Castella, de Inglaterra e Duque de Borgonha.; 
continuando como d'antes a receber em seu 
portos e terras os mercadores de differentfi 
nações que nelles costumavao commerciír 
(1 53). 



An. 1475 

Janeiro 

13 



Esti^emoz. — Nesta data escreve ElRei D.Af' 
fonso V a Luiz XI Rei de França, sobre a suc- 
cessao do Reino de Castella. Nesta carta par- 
ticipa ElRei D. AíFonso V a Luiz XI Rei de 
França a resolução em que estava de receber 
por esposa a D. Joanna, filha primogénita de 
Henrique IV de Castella, reconhecida e jurada 



(153) Ms0. da Biblioth. Real do Pariz, Cod. 8,357-9 p, 32i. 
(Latim.) '' 



4 



— 113 — 

por herdeira e l^itima suceessora d^aquelle 
reino, e de entrar nelle com um grande exer- 
cito, ao que o estava convidando a maior parte 
da Grandeza Castelhana, o que lhe communi- 
I cava lembrado da antiga amizade que existia 
i entre os Reis de França, e os de Castella, ami- %^ 

í jude que se tornaria indissolúvel subindo elle * 

ao trono d'aquelle reino , desposando-se com 
a mencionada Princeza, cujos direitos erão 
incontestáveis não só por ja ter sido jurada 
^ por herdeira , e legitima successora d'aqueUa 
coroa, mas ainda porque por tal fora decla- 
rada em artigo de morte por steu Pai, ElRei 
D. Henrique, em presença dos Grandes e Pre- 
lados d'aquelle Reino, e por elle encommen- 
<lada á sua fidelidade, e honra (154). 

Nesta data escreve ElRei D. Affcmk V a An. tm 
Luiz XI Rei de França uma carta, na qual ^ 
lhe participa que nao obstante ter despachado 
ha dias com cartas para o dito Rei o seu Arauto 
pcH^ nome Lisboa, porque receia não lhe 
sobrevenha na jornada algum accidente ou 
enfermidade que o retarde, lhe escreve de 
novo para informál-o quanto antes d'um ne- 
gocio que não é menos importante para o bem 
de seus estados , que para o dos do próprio 



( 1 54) Mas. da Biblioth. Real de Paríx , God. 9«675 , docom. 94 
Goflunes, MeoL, T. 1^ p* 408. 



' — 1IA — 

0. Afibhio, e «ntrando em mnleria tni»4(i 
lembrança conin do lall<H:i(lo Henrique l\ li 
•de Castella havia licado unia lillia por 
JtMnna, nasciílu duiiiu irnitt d'elle D. AffiM 
a quem indubilavclniciite tocava a stteeai 
de todos os reinos e domínios de CaKtelb>l 
por ser fllfaa iiiiica c logilíma tl'IÍIRci 
e ter sido ainda mniitin reconhecida e ju 
Rainha de CasLclla , coiuo poi> ter o dÚl 
nos seus últimos momentos tleclarado-<|l 
tal f e nomeado-a por succpssora sua,e 
dos ditos seus reinos era presença das uM 
mais principacs da Nobreza, e diante ifel 
belliSes e notários públicos que d'aqiiclhl 
declaração fizerão aclo. Era virtude dort 
morto EIRei de Castella , a matof parleAit 
dalgosd'esse reino Iiavião escrito a cWtV-it 
foQSO pedinda-lhc iustanleraentc lioum*^ 
receber por esposa a Rainha D. Joaiiniji* 
elle tSo unida pelos vinculos do sangue ^ 
assim podêl-a proteger contra as intcrpR* 
de seus inimigos; o que como dctermíM* 
de fazer se lembrou de comniunicar-ihc _ 
dendo a amizade que enfre elle e EítÀi 
França existia, e o quanto cumpria aop* 
veito de ambos não fosse a dita Hainha e^ 
Ihada de seus legilimos e inauferíveis dirailff 
porque subindo elle D. Affbnso ao trono* 
Castella , nada terá EIRei de França que rW" 
de seus inimigos, nem das iuterpresasd'EÍÍlo 
d'Aragao : «endo que pelo contrario 



— 115 — 

raiido-se este d'aquelle reino^ de que já se ee- 
nicça intrusamente a inlitular-se Rei ^ ne- 
nhuma duvida pôde haver que^ medrando em 
pujança , virá a ser formidável e perigoso 
tanlo para £IRei de França como para EIRei 
de Portugal : motivo por que, lhe roga haja de 
favorecer a justa causada Rainha sua sobrinha 
e esposa contra os que pretendem esbulhál-a 
do trono que lhe pertence por legitima suc- 
cessSo; no qual para assegurai -a elle D. Af- 
fonso escreve ao summo Pontífice, pedindo- 
lhe haja de interpor neste negocio a sua au- 
toridade, e roga a Luiz XI lhe escreva no 
mesmo sentido (155). 

Pariz. — Nesta data accusa Luiz XI nesta ad. mti 
carta recepção da que em 8 de Janeiro lhe es- 
crevera D. AÍTonso V por seu Arauto Lisboa, 
c diz-lhe como tendo enviado Olivier LeRoux 
a Portugal, a quem encarregara de responder- 
Ihc sobre os artigos d'ella, estando este em 
caminho recebera a segunda de 30 do mesmo 
niez, e porque nella lhe rogava EIRei de Por- 
tugal houvesse de apoiál-o em suas pretenções 
perante o Papa , lhe afiança que sem demora o 
fizera, escrevendo-lhe com summa efficacia so- 
bre aquelle assumpto por via d'um seu enviado 



( 1 55) Hm. da BiUioth. RMdét Paríi , God. M7S, docnm. 10^ 



-r?' 



(Orifinal.) . ^f i 






« 



— 116 — 

que despachara para a Roma, a quem eocoD- 
mendára de ajudar ao de Portugal em tnb 
quanto cumprisse ao bom êxito d'aque11eM- 

gocio (1 56). 

An. 147S Instrucções dadas por Luiz XI Rei de Fnn? \ 
a Olivier Lc Roux^ quando o mandou a EDIfl 
D. Aflbnso V de Portugal* 

Primeiramente , depois da appreseDtaGÍodi| 
carta de crença^ e das saudações acostaBn- 
das^ Mestre Olivier Le Roux dirá a EIRei< 
Portugal^ que EIRei de França recebeoemtf 
devido tempo as cartas , que o dito Rei delii^ 
tugal lhe escrevera por via de seu Aruk 
Lisboa^ nas quaes fazia menção dos requcR- 
mentos , e oflerecimentos dos fidalgos , > 
pessoas principaes do Reino de Castdki 
relativamente ao seu desposorio com a filhai 
defunto Rei de Castella; obrigaudo-se eilis< 
ellcs a ajudál-o^ tomál-o, e reconhecèl-o ptf 
seu Rei e Senhor : no qual casamento odik 
Rei de Portugal se determinara a entah 
der, concluindo-o, em conformidade. do it- 
queriniento dos Grandes de Castellario^ 
assentou devia notificar a EIRei dè Fráncit 
para o fim de renovar as allianças, que «0 
todo o tempo existirão entre os Reis deFraaçi 
e deCastella^ promet tendo juntamente, ctí^ 



(15G) Mm. da Bibliolh. Real d« Paríz, Cod. 9,675.]> 
102. 



— 117 — 

o Reino de Castella lhe ficasse pertencendo, de 
empenhar sua fé e reai palavra de fazer com 
EIRei de França paz, e alliança indissolúvel. 

£ para que Mestre OU vier Le Roux ficasse 
bem sciente do conteúdo das ditas cartas, foi- 
lhe dada copia d'ellas em Liatim e Francez. 

Dirá a EIRei de Portugal que, com quanto o 
dito seu Arauto Lisboa nSo viesse nomeado 
nas ditas cartas , e somente no fim d^ellas se 
fizesse menção de ser elle o portador , sem to- 
davia ser nomeado ; EIRei de França nao obs- 
tante ouvira longamente tudo quanto por elle 
foi dito acerca do conteúdo das ditas cartas , e 
folgara muito de saber do bom estado , e dis- 
posição da saúde d'ElRei de Portugal , e do 
affecto que elle tem a EIRei de França , bem 
como do desejo, que lhe assiste de ter com 
elle união y confederação, e alliança. 

E porque pelas sobreditas cartas EIRei de 
Portugal se obriga a tratar alliança com EIRei 
de França, para que o dito Rei nisso faça 
fiança, deve EIRei de Portugal reflectir, que 
tendo alliança com os Inglezes, antigos inimi- 
gos de França , será mister que declare como, 
e em que forma entende fazer a sobredita pro- 
posta alliança com EIRei de França, em nome 
do qual poderá Mestre Le Roux ass^urar-lhe 
a boa vontade e affecto, e o docyo que tem de 
em tudo o contentar. 

Dirá mais o mesmo Olívier Le Roux , que 
a EIRei de França paraoe-Uia bem p que as 



— 118 



cilliancas entre os reinos de Franca e de Cu- 
tcUa iiao scjão de ouh*a maneira para com & 
Rei de França , do que forão para com os Rà 
seus predecessores ; do tempo dos quacsii 
ditas allianças entre França e Cástella forii 
contra todos cm geral e sem excepção de pes- 
soas , tornando-se as que erão amigas ou ini- 
migas d'umy amigas ou inimigas do outro. 

Dirá que ElRei de Portugal seu irmão bcB 
deve de entender, que os reinos de Françit 
de Gastella sendo contíguos^ ElBei de FnDO 
tem grandissimo interesse por si , e por un^ 
yassallos , que o reino de Castella tenha ptf 
senhor umprincipc, que deseje manter eeoB* 
servar as antigas amizades^ confederações, e 
allianças, que entre os dous reinos subsistSb 
e que não seria razoável ajudasse a erapo88l^ 
se dodilo Reino de Castella o principe, quefi* 
casse sendo seu inimigo, antes pelo contrflfii) 
áquelle que fosse e quizesse ser seu amigOi « 
alliado. 

Fará também o dito Olivier Le Roux st 
ber a ElRei de Portugal , como ElRei d'Ararii 
enviou por Embaixador a ElRei de Franca o 
Conde do Prado e outros em seu nome e e* 
nome de seu filho ElRci de Castella e de M 
mulher a Infanta D. Izabel, irmã do falledA 
Rei D. Henrique, propor-lhe paz definitin, 
confederação, e allianra indissolúvel, pordlcs, 
seus reinos, successores, evassal los contra to- 
dos em geral> renunciando a qualqueroutrtll- 



— 119 — 

liança que possao haver feito , e para tratar 
juntamente do casamento do Delphim filho e 
herdeiro d'ElRci de Franca com a filha do dito 
Rei d' Aragão e da dita Infanta D. Izabel sua 
mulher, e sobre isto fizerão apresentar a El- 
Rei de Franca vários artigos, dos quaes Oli- 
vier Le lloux leva copia, para mostrar a 
ElRci de Portugal , conforme julgar neces- 
sário. 

Dirá que, a respeito dos taes artigos , ElRei 
de França nao tomara conclusão, mas somente 
enviara seu Embaixador a ElRei d'Aragão, 
para inteirar-se mais explicitamente da subs- 
tancia d'cllcs, com poderes para tratar ; mas 
com instrucçao de níío concluir, sem primeiro 
dar parte a ElRei de Franca; e que depois, 
havendo recebido as cartas d'EIRei de Portu- 
gal , lhe ordenara expressamente de nada con- 
cluir sem o informar, para saber se tal era a 
sua real vondade, querendo ElRei de França 
ter a liberdatle de contrahir alliánça com o que 
melhor lhe convier. 

Dirá mais o dito Mestre Olivier Le Roux 
que, em consideração das nobres e cxcellentes 
virtudes, que concorrem na pessoa d'EIReí de 
Portugal, sempre ElRei de França lhe teve 
inais amizade, que a qualquer outro, aman- 
do-o singular , e cordialmente ; e ElRei de 
Portugal bem sabe como, des que subira ao 
trono, desejara ter alliança e fraternal confe- 
deração com elle , recebendo-o por seu irmão 



— 120 



cm armas , por cujo motivo como já lh'o fi- 
zera saber por Vasco de Souza , e para o fiffi 
de SC achar em liberdade de contrahir a diU 
confraternidade em armas, nao a fízcracomo 
defuncto Rei Henrique, e a deixara expressa- 
mente pela razão acima dita ^ como eDtk 
conimunicára a Messer Lopes d'Almada. Do 
que pôde EIRei de Portugal entender quanU 
amizade e amor EIRei de França lhe tem, 

E que todavia a dita alliança, confederação, 
e confraternidade não tiverão então lugar, ca 
razão das diffículdades, que fizera EIRei de 
Portugal por ser alliado d'Inglalerra; méáyo 
por que EIRei de França bastante razão tem, 
para querer saber que confederação o ditoRfl 
de Portugal entende fazer com elle , e se esli 
resoluto a contrahil-a, e fazèl-a contratados 
cm geral, e sem excepção de pessoa, tomando 
cada um d'elles por amigos , e por inimigos « 
amigos, e inimigos do outro. 

Isto observado. Mestre Olivier Le Ronx 
dirá que, sem embargo das demoras e difficul- 
dades , que a este respeito tem havido, o grande 
e verdadeiro amor, que EIRei de Franca tem 
a EIRei de Portugal se não tem esfriado, nem 
mudado; que pelo contrario sempre lhe guarda 
o mesmo affecto em razão das grandes e ex- 
cellcntes virtudes , que nelle se achSo • dese- 
jando sempre têl-o por alliado, quando^íbr de 
sua vontade concluir com elle as alliancaft de 
Castclla, taes c quaes hao sido; a saber - «Sidô 



- -^ 



— 121 — 

seu alliado contra todos em geral , e sem ex- 
cepção de pessoa alguma ^ tomando cada um 
por amigos, e por inimigos os amigos e ini- 
migos do outro, e mandando pessoa com po- 
deres sufficientes para tratar, EIRei de França 
de mui boa vontade entenderá nisso, por tal 
maneira, que EIRei de Portugal terá motivo 
para estar contente, c para conhecer o verda- 
deiro e perfeito amor, que EIRei de França lhe 
tem. 

E se o dito Rei de Portugal pretender, e disser 
que, em razão do reino de Castella está prompto 
a contrahir a sobredita alliança, c que o reino 
de Portugal tocando a seu filho, poderá este 
conservar do mesmo modo a alliança, que 
tem com Inglaterra ; responder-se-lhe ha, que 
seria cousa estranha terem o pai e o filho al- 
liánças inteiramente contrarias, porque nesse 
caso seria necessário que fossem inimigos; 
assim que, é indispensável que o reino de Por- 
tugal fique eomprehcndido na alliança entre 
Gastei la c França , e sobre este particular poderá 
Mestre Le Roux argumentar com o exemplo 
d'EIRei d'Aragao que quiz renunciar á alliança 
dlnglaterra para unir-se elle e seus reinos com 

Franca. 

E sé assim mesmo o dito Rei de Portugal nao 
quizer oondescender a por o reino de Portugal ^^ *" 

na alliança de França , Mestre Olivier Le ^ 

RlHix lhe dirá que EIRei de França nSo deixará 
por Í8iD detrftbalhar em seu favor^ mas qae a 




— 122 — 

Irntar com cllcallianoa, deverá esta ser cornou 
(lOvS teni|)()s passados ; a saber contra todos sem 
roslriccào, nem excepção de amigos, e inimi- 
iços, promellendo EIRei de Portugal de as ob- 
servar, e guardar sem a menor alteração* 

E se o dito Olivier Le Roux poder conse- 
guir que haja por muito tempo cessação de 
guerra entre os reinos de Portugal e de França, 
será sempre iilil manter entre os dpus reipn 
as relaeòes de paz, e de grande amor e amizadCi 
e sobre isto dirá a EIKei de Portugal o que lhe 
j)arccer que convém. 

E se o dito liei de Portugal perguntar por 
venlura, ponpie EIKei de França não envioa 
pessoas com poderes suílicientes para tratardiS 
ditas allianças; o dito Mestre Le Roux rei- 
pondera que, visto o estado das cousas, c p 
conteúdo das cartas d'ElRei de Portugal, nio 
era razoável mandasse EIRei de Franca e(p- 
baixada nem mais amplos poderes, do que os 
que enviara o tlito Rei de Portugal ; porqiie 
seria indecoroso para eilc o mandar fazer essa 
proposição, sendo que ])odia ser rcfusado, como 
em outro tempo o foi por EIRei de Portugal; 
assim que determinou de saber primeiro qual 
fosse a sua vontade, e como entendia contrahir 
a alliança projectada. 

E tratando d'csU)s cousas, o dito Mestre Oli- 
vier Le Roux fará por saber quem tem ma)3 
parcialidade e poder, se El Rei de Portugal em 
ra^o da fílh» d'£lAei de Castella, ou ^jjlq da 



— 123 — 

Castella em razão da irraa, e de tudo quanto 
soulier dará parte a El Rei (1 57). 

Nesta época ElRei D. Affonso V, achando-se j^^^^^^ 
em Placencia, manda a Luiz XI, Rei de França, 
D. Álvaro de Ataide, com o caracter de Em- 
baixador, e ao Licenciado João d'Elvas para 
negociarem seu reconhecimento como Rei de 
CÍastelIa, e para renovação dos antigos tratados 
que existião entre as duas Coroas de Castella e 
França (1 58). 



(157) Biblioth. R. de Pariz , casa .dos Mss., Códice n. 9,675-D. 

. (1 68) f^ide o que sobre esta negociação dizem Faria e Souza ^ 

•. Jburopa Portugueza » T. 1 1 , P. 3, cap. 3, p. 4 1 1 ;— Góes, Chron. 

?^ qo Príncipe D. Jouo, cap. 47, p. 116; — Leão, Chron. de D. 

'- illbnso V, cap. 50 ; — Ruy de Pina , Chron. de D. AÍIbnso V, 

, ' eap. 193. 

Alguns cscriptores francezes , e entre estes Filippe de Co- 
'mines, que é contemporâneo, e um dos majs estimados histo- 
riadores doesta narão , culpâo estes Embaixadores de não terem 
conhecido as astúcias de Liiiz XI , e de que este havia de faltar 
á fé, c promessas que íizera a El Rei D.AflTonso Y, seu amo; e 
lembrSo , quanto descerni mento deve ter o Rei na escolha dos 
seus Embaixadores. 
Comines diz pois o seguinte : 

€ . . ^ . . Unprincedoit bíenregarder qnelsambassadeurs 
p il envoye par paiis : car si ceux-cy, qui vindrent faire Tal- 
» lianc^ du dit Roy de Portugal de par deça, à laquelle me 
» trouçajr preteni , comme run des depntez pour le Roy, 
» enssent cslé bien sages , ils se fussent mieux informez des 
» choses de dera , avant que de confleiller k letn* maistre cette 
» Véniw,qiii Unt Jui porta de dommajfti a (Mem. de Co- 
mines , T. 11, prem. série , Coll. Petitot , p. 233.) 



n. 14T5 

luaho 3 



— 124 — 

Placcncla. — Pleno poder d'ElRci D. Af- 
foiíso V dado a D. Álvaro d^Ataidc, c ao Licen- 
ciado João d'Elvas, seus Embaixadores junto 
a Luiz XI, Rei de França. 

Pelo qual EIRei D. Afíbnso, intitulando-seRei 
de Caslella, Leão e Portugal^ confiando na pru- 
dência e fídel idade dos ditos seus Embaixa- 
dores, lhes concede todos os poderes, facul- 
dades, c autoridade, e lhes dá especial mandadfi 
])ara tratar, fazer, e assentar paz, amizade, e 
alliança em seu nome, e no de seus suceessores 
e herdeiros dos reinos de Gastella, Lieão, e 
Portugal, com o sobredito Rei de Franca c 
seus suceessores, ou para todo sempre ou por 
tempo determinado, segundo o teor das antigas 
confederações e pactos subsistentes entre os 
reinos de Gastella e Leão, e o de França, ou na 
forma que mais conveniente for, declarandoí 
interpretando, mudando, ajuntando, ou dimi- 
nuindo o que nos artigos das sobreditas antigas 
confederações parecer ambiguo, iraperfeitOi 
escuro, ou por qualquer outra razão suscep- 
tivel de ser mudado, podendo jurar pela sua 
alma e palavra real , obrigando-se o ditx> Sobe- 
rano a confirmar, ratificar, e observar fiel- 
mente quanto for acordado entre os ditos seus 
Embaixadores e EIRei de França , ou pessoas 
por elle para aquelle efieito nomeadas (1 59). 

(159) Dnmont, Gorps Diplom., T.S, P. 1, p. 516. 
Frédéric Léonard, Recneil , etc. , T. 1, p. 143 , inaerlo no 
Tratado. 



— 125 — 
Tratado de liça ofiFensiva entre ElRei D. Af- An. un 

^ Selem- 

fonso V, e Luiz XI , Rei de França^ contra El- *>w s 
Rei D. Fernando d'Aragao. 

No qual se estipulou que ElRei de França 
ajudaria ao dePortugal na conquista dos reinos 
de Gaslella e Leão^ com as condições seguintes : 
Que todas as cidades, villas, lugares, castellos 
e fortalezas que fossem tomadas ou conquista- 
das por terra e por mar pelas tropas d'EIRei 
de França, nos dominios do reino d'Aragão e 
de Valença, serião sem difficuldade entregues 
e restituídas a ElRei de Portugal , e ficariao . 
para sempre pertencendo a essa Coroa. E pelo 
mesmo theor que todas as cidades, villas, lu- 
gares, castellos e fortalezas do principado da 
Catalunha e condado de Russilhão e Sardenha , 
ilhas de May orca, Minorca e Iviça, as quaes 
caíssem em poder dos Portuguezes, serião en- 
tregues a ElRei de França , para ficarem para ^ "* 
sempre annexas a sua Coroa (1 60). ^■^. 

> f 
Soissons. — Tratado ou tregoas mercantis An. ut$- 

celebradas entre Luiz XI, Rei de França, e brois 
Carlos, ultimo DuqUe de Borgonha. 

No art. XII d'este tratado de tregoas se esti- 
pulou serião nelle comprehendidos os alliados 
de ambas as altas partes contractantes abaixo 



^te 



(160) Prenres des MémoireB de Cíominei, par Lenglet-Du- 
ttUDQjf T. 3, p. 406. 



— 426 — 

nomeados, que assim o houvessem por bem, 
a saber : por parle d'EIRei de Fiança, os Rós 
de Castella e Leíío, d'Escossia, de Dinamarci, 
de Jerusalém e Sicília^ de Hungria, e os Duques 
de Sabóia, Lorrena, o Bispo de Metz, as Repu- 
blicas de Florença e de Berne, e os aliiados 
doestas que haviào sido coniprchendidos no 
tratado de tregoas de 1472. E por parte do 
Duque de Bori;onlia, EIRei de Inglaterra, EIRci 
d^Escossia, EIRei de Portugal^ e os de Jctb- 
salcm e Sicilia, de Aragão, de Dinamarctf 
Hungria e Polónia, os Duques de BretanlMi 
de Milào e Génova, c outros muitos (161). 



I. 1475 
clem- 
iro23 



Confirmação c renovação dos antigos tr»- 
lados de ])az e amizade entre os reinos-de Cas- 
tella e Leão, e o de França, por Luiz XI co 
Senhor D, Aflbnso V, na qualidade de Rei de 
Castella. 

Por este tratado se confirmarão os de 1408, 
1435, 1455, celebrados entre os Reis de Franca 
e de Castella nos precedentes reinados, ficando 
confirmadas e renovadas, ipso facto , as anti- 
gas allianças, que havião subsistido entre as 
duas Coroas, sendo Plenipotenciários de Por- 



(161) Olivier de La Marche, Mem., cap. 7, T. lo, GoU, de 
Pelitot, p. 410. 

Dumont. Corps Diplom.., T. 3, P. 1, p. 505. 
Frédéríc Léonard, Recueil, etc, T. 1, p. iZA. 



— 12T — 

iUgal D. Álvaro de Âtaide^ e outros Émbaixa- \ 
dores (162). 

Nesta data Luiz XI. Rei de Franca, promulea An. 1475 

', ' ^ ^ - ° Dezem- 

unia carta patente sobre o soccorro, que dava br© 21 
a £lRei D. Affonso V de Portugal, e na qual 
reconhece o Monarca portuguez na qualiij|i|de 
de Rei de Castella. 

Neste documento diz ElRei de França que 
|>ara soccorrer, e ajudarão seu mui caix), e mui 
amado irmão, primo, e alliado ElRei de Por- 
tugal e Castella contra os seus inimigos, e ad- 
versários que lhe retém, e occupão o dito reino 
de Castella, ou parte d'elle, e outros paizcs e 
senhorios que lhe pertencem, tem determinado 
mandar uma boa, e grande armada tanto por 
mar como por terra áGuLpuscoa, e Biscava, ou 
aonde for necessário o dito auxilio ; nomea para 
commandante em chefe da dita expedição a seu 
primo o siic d'Albret (163). Para este effeito 
confere ao dito General amplíssimos poderes 
para subjugar e trazer á obediência d'ElRei de 
Portugal os ditos paizes, e para receber os ju- 
ramentos de fidelidade de todos os que vol- 



(162) iftimcmt, Corps Bíplom., T. 3, P. 1, p. 509. 
Frédéric Léonard, Reçueil , etc, T. I, p. 143. 

(163) Este sire d*Albret , era Alanò o Grande. yHe TArt de 
Téri6er les dates, T. 9, p. 273 e sèg., o qual nos seus títulos se 
dizia Conde de Preuz e de Penthieyre* Era pai de João, Rei de 
r¥ftT«rra. 



^u 



— 128 — 
tarem á obediência d'EIRei de Portugal (164). 

' '^inho* Nesta épocaElReiD.AfiFonsoV,hesitandoentre 

as coinmunicações que Luiz XI fizera por uma 
parte aos seus Embaixadores de que tratámos 
em outro lugar, e por outra desconfiado da rea- 
lidade das promessas do dito Rei de França, 
determinou voltar de Castella a Portugal, e d'ali 
passar logo a França , pensando que indo em 
pessoa mais facilmente poderia alcançar a ajuda 
que desejava , fazendo a Luiz XI o serviço de 
alcançar a paz com o Duque de Borgonha. 

Chegando ao Porto, expede d'ali para França 
como enviado Pedro de Souza, afim de parti- 
cipar a Luiz XI a sua ida (165). 

An. 1476 ElRei D. AfFonso.V parte para Fran<5á em 
Agosto r ^ , / 

uma armada de 16 navios que mandou juntar 
em Lisboa, acompanhado de 2,200 homens, e 



(164) Martene , P^eíerutn scriptorum T. í | p.. 1603 in Epis- 
tolis et Diplomatibus. Souza, Hist. Geneal. dá6»R. Pro^., T. )?, 
p. 6. 

(165) Ruy de Pina, Chron. de D. Affonso V, cap. 193, p. 567 
(T. 1 de Inedit. de Hist. Port. da Âcadem. R. das Scienc). 

Góes, Chron. do Príncipe D. João, cap. 88, p. 200. — Leão, 
Chron. dos Reis, T. 4 , cap. 60, p. 425, ediç. de Lisboa, 1780. 

Ruy de Pina diz que para maior brevidade da viagem, se 
determinara que ElRei fosse pelo mar do Ponente, e saisse em 
Bretanha , mas que se mudara de accordo para o mar do Le- 
vante ; porque pelo outro mar Oceano poderia ElRei D. Fer- 
nando receber maior contradiçSo, por razão da frota de Galliza} 
• Bifcaya , com que 9eria maia poderoao {ihid.). 






— 129 — 

tendo arribado a Lagos , ai i veio cumprimentar ^ 

ElRei o famoso corsário francez Oí^om cer- 
tificado já das allianças que havia entre Por- 
tugal e a França. ElRei o recebeo mui gracio- 
samente , em consequência do serviço que elle 
já tinha feito a Portugal , quando o ajudara a 
levantar o cerco de Ceuta , quando esta praça 
fora cercada pelos Castelhanos conj unctamente 
com os Mouros. Chega ElRei a Colliure*^ des- 
pede os navios em que fora de Portugal. Neste 
porto de França se achava já um capitão d'El- 
Rei de França , que recebeo o Monarca por- 
tuguezy e dispoz tudo para a sua jornada. 
ElRei é recebido em Perpinhao com grande 
pompa. Os governadores d'esta cidade mandão 
soltar todos os presos por acatamento á pessoa 
real; o que igualmente se praticou em todas 
as cidades de França por onde ElRei tran- 
sitou. 

D'esta villa expedio o Senhor D. AíTonso V, 
D. Francisco d'AImeida a Luiz XI, a notificar- 
Ihc a sua chegada; e poz-se depois a caminho 
e visitou Narbonna, Montpelier, Besiers, Nis- 
mcs y e d'esta cidade deixou a estrada que vai a 
Avinhao, e tomou o caminho de Lião, onde nao 
entrou por causa da epidemia que ali grassava. 
Neste ponto veio ao seu encontro o Duque de 
Bourbon cumprimentát-o , vindo acompa- 
nhado de um numeroso cortejo. Recebeo de- 
pois um recado de Luiz XI, manifestaudo-lhe 
^alegria quetinha oom a 8iiayinda«Gh^ depois 

iir. 9 



a BurgeSy onde descançou alguns dias^ durante 
os quaes vierão ali cumprimentál-o, e fazer- 
Ihe companhia duas personagens por mandado 
d'£lRei deFrança, para lhe mostrarem algu- 
mas cousas e as fortalezas. Em uma abbadia de 
Benedictinos mostrao a ElRei um mui rico e 
antigo livro da Historia de Lancelote. 

ElRei D. Âffonso Y é recebido e aposentado 
em Tours (166) com grande ceremonial. As 
chaves da cidade lhe forão apresentadas á en- 
trada. 

An. 14'. 8 Nesta época manda o Duque de Bretanha 
joDbo Embaixadores a ElRei D. Áífonso V pedindo- 
lhe de novo a ratificação das pazes que entre 
elles erão feitas^ com algumas addições^e assim 
se concordarão, e para a confirmação d'estes 
ajustes mandou ElRei a Bretanha um seu Rei 
d' Armas chamado Pelicano , a quem o Duque 
fez muitas mercês, pelo contentamento com 
que recebeo as pazes (167). 

(166) Ruy de Pina, Ghron. (TElRei D. Âfiònso Y, p. 567 a 
570, T. 1 <rinedito8. 

M. de Barante, na sua Ristoría dos Duques de Borgonha, 
T. 11, p. 136, diz que a armada em que ElRei viera para 
França era commandada pelo Yice-Âlmirante Coulon, mas 
Ruy de Pina nSo só nos indica que a armada fora preparada em 
Lisboa , mas que Coulon eraum ooraario, eque só veio a Lagos, 
onde ElRei arribara. Portanto nio fora o commandante da 
dita armada. 

(167) D. Ifunes de LeSo, Ghron. dos Reis, T. 2, p. 249, edic. 
de Lisboa de 1780. 

Bit<i««ior refere fiie ee Brelfei oonttniiátfto a imriwr^i 



li 



— 431 - 

Clarta PAtente do Duque de Bretanha €6n- An, nu 
ceraente á execuçSo dM tr^oas, e ás reclama- 
ções das toinadias feitas no decurso d^ellas 
pellos Tfissallos de Bretanha e de Portugal. 

Depois de haver ponderado no preambulo , 
quSo louvável cousa fosse e quão agradável a 
Deus a conservt^fo da Paz entre os Priíicipes 
ChmtaQSy e aeimirassallos; observa o Duque 
que tendo-se nos tempos atrás commettido nao 
poucos actos de hostilidades entre os vassallos 
de Bretanha e de Portugal , sem embargo das 
trègoas que subsistião entre as duas coroas , e 
havendo EIRei de Portugal por sua carta pa- 
tente que elle Duque recebera por via de Peli- 
cano offidal d'armas de Portugal ^ manteúdo em 
seu vigor as ditas tr^oas , abrogado e decla- 
rado de nenhum effeito qualquer reclamação 
feita da parte de seus vassallos por perdas 
e damnos em razSo das tomadias eífeituadas 



naTÍoe portugnezes depois das tregoas deqne já fizemos mençSo 
no texto , p. 10, e qae sabendo EIRei d^isto , armou-se contra 
•llet, 6 deo licença a seus Tassallos, que podeasem fazer repre- 
sálias em qnalqiier fazenda que encontrassem pertencente aos 
ditos Bretões, pelo que estes forão postos em estado , que não 
trataTSo^nem oosavio sair de sens portos. O que vendo o Duque 
de Bretanha , e a diminuiç&o , que havia em suas rendas , e as 
pardas , • eatra^M ám wmm ▼aasallos, mandara depois neste anno 
de 1476 Embaixadores a EIRei y como dizemos no texto (vide 
Nnn.de Leio,/AMÍ,,p,?4^,«gte a eMiie c im e«to ,eai transac- 
ções qoe «m eooM^MMÍa 4*«aaMpMMrlo , se oonfirmlo pelo 



— 132 — 

pelos vassallos de Bretanha, em reeiprocidade o 
Duque, ouvido primeiro o seu conselho, oi^dena 
pelo mesmo theor sejao também de nenhum 
cífeito as reclamações d'esta natureza feitas por 
seus vassallos contra os de Portugal , aos quaes, 
segundo o theor das ditas tregoas, concede novo 
seguro para que possão livremente transitar 
e commerciar nas terras do dominio do Du- 
cado de Bretanha, declarando nulla toda a re- 
clamação de perdas e damnos fundada sobre as 
' tomadias anteriormente feitas, e promettendo 
guardar e fazer guardar as sobreditas tregoas 
conforme o que nellas fora estipulado (1 68). 

àa. i47« Tours. — Sabendo ElRei D. AflFonso V que 
SId"" Luiz XI vinha vêl-o a Tours , discorre com os 
do seu Conselho qual seria o ceremonial com 
que receberia ElRei de França, e determina 
de sair a pé ao seu encontro , ou ao menos ir 
até ás escadas do Paço. Luiz XI tóndo porém 
sabido d'isto, para impedir este ceremonial, 
mandou adiante dous Principes da sua familia, 
os quaes quando ElRei se dispunha a sair , o 
impidírão mui cortezmente. Avistão-se os dous 
soberanos na salla (1tí9), e se abraçao incli- 



(168) Ard^ivo Real da Torre do Tombo, Gaveta 18, maço 3, 
n. 56. 

^^Çòii, Ghron. do Principé D. JoSo, T. 3, p. 229. 

(169) iUqr de Pina, Cbron. de D. Affonao V, p. 571. — £tt« 
aMr«j|M^dis <iQe I^ 



* ? 



r 



— 133 — 

nados os joelhos, tendo os barretes nas mãos. 
£ tendo ElReí de Franca assim abraçado o 
monarcha Portuguez^ com os olhos no ceo disse^ 
que dava muitas graças a N. S. e a S. Martinho, 
por lhe terem feito tanta mercê , que a seu 
Reino, e casa o viesse ver, e visitar um tama- 
nho Rei , que elle desejara tanto ver, e ter 
por irmão, e amigo, e que porém elle não 
cresse que era vindo em Reino estranho , mas 
no próprio seu; porque assim se faria nelle 
todo o seu prazer, e serviço , como nos de Por- 
tugal. E depois doestes cumprimentos se reco- 
lherão á camará , á entrada da qual houve 
grande debate entre os dous Monarchas, sobre 



c ElRei de França vinha com hum soo barrete na cabeça 
» tendo já delia tirado bum chapeo e duas grandes carapuças , 
» e trazia solto hum sayo curto de máo pano , e cinta uma 
9 espada d'armas muyto comprida , com a guarnição de ferro 
» limada, e humas botas calçadas, e nos pés as esporas do 
» mesmo jaez da espada , e ao pescoço hnma beca de chama- 
» lote amarelo, forrada de cordeiras brancas muyto gros* 
» seiras, e suas calças brancas antre talhadas de muytas 
» cores.» (Ibid,) 

Esta relação de Ruy de Pina , sobre o vistuario de Luiz XI, 
concorda com o que se lé em Comines , quando trata do modo 
por que ia vestido o dito Monarca no dia da sua entrevista com 
o Rei de Castella em 1468 r pois este historiador diz que nin* 
gnem le vastia pior no seu tempo do que Luiz XI (Mem. de 
Comin«t, 1ÍT. í, p. 478, T. 11, Coll. de Petitot). 

A relaçio da entlreristâ dos doas Soberanos franoei e hespa- 
nhol, á qual se âchoa presente o Imbaizador de Portugal , é 
mui curiosa pelas dxcmiistaiidas qne d'sUa refere o mesmo 
Filippe de GomiDes. 



— 134 — 
qual se cubriria, e entraria primeiro (470). 

« 

An. 1478 AbretD-se em Tours as Conferencias entre 
bnT' ElRei D. Afionso V e Luiz XI. Este ultimo so- 
berano depois de tratar mui circumstanciada- 
mente das cousas de guerra , concluio que o 
tratar-sed'estas era ui^gente , e para este effeito 
determinarão de assentar alguns pontos d'esta 
matéria com o Conde de Penamacor^ Camareiro 
Mór d'£lRei de Portugal. Nestas Conferencias 
se assentou V, que EIRei D. AfFonso V iria em 
pessoa ao Duque de Borgonha, pedir-Ihe gente 
e ajuda contra Caçtella, e que em caso quepeks 
contendas em que então andava com o Duque 
de Lorrena lh'a não podesse dar, ao menos to- 
maria d'e)le Duque de Borgonha tal seguran- 
ça para EIRei de França , sem receio da sua 
guerra mais livre e poderosamente o poder 
ajudar. 2"" E para o fazerem todos em sua ^juda 
com menos cargo , para seu effeito devião to- 
dos estes soberanos.ter um titulo justo, e le- 
gal , que consistia na dispensa Apostólica para 
EIRei D. Affonso poder casar com sua sobrinha 
D. Joanna , pois dos Reinos que a ella perten- 
ciao como seu marido se intitulava^ S"" Que 
logo ali se nomeassem quatro pessoas por 
cada uma das partes , afim de em breve 
se ajustarem sobre a gente , dinheiro ^ e cousas 
que cumpria para esta empreza, regulando 
tudo na melhor ordem. ^ 

,^ __^ . _ _ _ ■ _ * ^ 

(170) Ruy de Piaa, Ghron., cap. 195, p. &7t. 



— 135 — 

. Luiz XI accrescentou , que por quanto via 
por certo w que os Castelhanos ás vezes folga-- 
» vao vender fortalezas ^ que elle sempre ou- 
>x vera por melhor e mais barato compral-as 
» por dinheiro , que por guerra , e que o di- 
» nheiro e sua pessoa cora toda a gente de seu 
w reino, ellc lhe ofiFerecia para isso , c pêra 
» tudo mais que á sua honrra, e Estado com- 
» prisse. » E depois d'ElRei D. Affonso ter 
agradecido muito ao Monarcha francez estes 
oíferecimentos , se sairão já de noite, e do 
meio da salla, onde primeiro se avistarão, já 
com tochas se despedio d'elle ElRei de Franca 
(171). 

Tours. — EXRii D. Affonso V, em conse- a», un 
quencia do que havia concordado com Luiz XI kio "■ 
manda uma Embaixada a Roma nomeando 
seus Embaixadores o Conde de Penamacor ^ 



(171) Roy de Pina, Chron. d'£lRei D. Aflònso Y, cap. i9€, 
p. 572 y T. 1 de Inéditos da Academ. Real das Sciencias). Leão, 
Chron. doe Reis, T. 4 , cap. 61, p. 429, ediç. de Lisboa, 1780. 

R. de Pina accrescenta que ElRei de França mandara depois 
diíer a ElRei D. Affonso V, c que pêra elle convidar algwBM 
» gentil dama , como era busança e cortesia de seu reyno , lhe 
» pedia quizera delle tomar em tanto 50,000 escudos de ouro, » 
mas ElRei se excnsou polidamente. 

Por esta oceatttk» fet ElRei de França Conde d^Abranches 
( Abranches) D. Fernando d^Almada,* filho do illostre Gónd« 
de Álvaro Vaz d^Almada , qne morreo na batalha d^Alfajrron- 
beira com o Infknto D. l^Mlr*. (Uúl^) 

Vide Romado, Ifobilitr., T. 1 ÍTJlmmêÊf. 



— 13& — 

João Teixeira , que depois foi Chanceller Mór , 
e Diogo de Saldanha. ElRei de França nomea 
por sua parte , e para o mesmo effeito Mr. de 
Saint-Vailler , e o governador do Parlamento 
de Grenoble , sendo o objeto da sua negocia- 
ção requererem ao Santo Padre dispensa para 
ElRei AflFonso V poder casar com sua sobrinha 
a Princeza D. Joanna. 

Partem juntos os ditos Embaixadores e acom- 
panhados de gi^ande séquito , se fizerao no 
caminho de Roma por terra , e. chegando 
áquella Capital forão logo com muita honra 
recebidos comopessoas que representavão dous 
Réis laes, como era o de França, e o de Portugal 
e Gastella (172). * * 

An. 1476 ElRei.D. Afibnso Y faz a sua entrada publica 



NOT.38 



em Fariz neste dia. O Corpo municipal, o Par- 
lamento, o Chanceller de França, grande nu- 
mero de Prelados, e de pessoas da nobreza vão 
receber ElRei de Portugal fora das portas da 
cidade. Com este cortejo veio ElRei até á porta 
de S. Jacques, onde ò Prévót des Marchands e 
os demais officiaes o esperavão com o palio, 
debaixo do qual ElRei continuou a caminhar. 



.w 



(172) Ruy de Pina, Ghron. d'£lRei D. Affonso V, cap. 197, 
p. 573^ e sobre o resultado, pide cap. 199, p. 577, T. 1 dos Ined. 
da academia Real das Sciencias). 

LeSo, Ghron. dos R^is, T. 4 , cap. 61 e 62, p. 430 e 433, 
ediç. de Úsboa , 1780. 



— 137 — 

Logo que passou diante da igreja de Santo 
Estevão des Grez, achou o Reitor da Universi- 
dade de Pariz; acompanhado dos seus officiaes 
que o coiuprimentou pela sua chegada. Foi 
EIRei recebido do mesmo modo pelo Bispo de 
Pariz á entrada da cathedral. Depois de ter 
dito as suas orações , EIRei se dirigio ao Hotel 
de Lourenço Herbelot, rico negociante de Pa- 
riz, situado na rua des Prouvaires que lhe 
tinha sido destinado. Nos dias seguintes foi EI- 
Rei ver tudo quanto havia de curioso em Pariz, 
e nos arrebaldes. Em todas estas digressões ia 
EIRei acompanhado do Senhor de Gaucour, 
Tenente d'EIRei de França em Pariz , a quem 
o Monarcha portuguez fez a honra de aceitar 
um banquete magnifico, ao qual foi admittido 
um grande numerode Senhores de Pariz (1 73). 



(173) Filibien, Hist. de Pariz, continuada por D. Lobineau 
da Congregação de S. Mauro, T. 2, p. 870, n. 50. Os detalhes 
il^esta 'recepção em Pariz se encontrão no T. 2 do Cérémonial 
françaiSf^, 712. Comines, Mem. de LouísXI, liv. 5, c. 7. 

Esta data da Historia citada não está em harmonia com a do 
Chroniflta portuguez Ruy de Pina , cuja autoridade, histórica é 
tutnhfttn importante , pois além da sua grande instrucção das 
cousas do seu tempo, colheo as noticias para a sua Ghronica em 
documentos e testemunhos contemporâneos. 

lia relação francesa se diz do modo mais positivo que a en- 
trada d^ElRei em Pariz fôra aos 28 de Novembro de 1476, e 
Ruy de Pina diz, p. 576, cap. 198 : c Que depois da morte do 
t Duque de Borgonha (que foi em 5 de Janeiro do anuo se- 
» guinte de 1477), EIRei de França mandara logo recado a 
» EIRei D. AffsnsD ¥ pediiido*Uie wsa palavras de g^rande 
» efperaiiça,qiieeinliqMielMie€oiiiolo0oi(Mapoient«r-M 



— 138 — 

Lnia XI y em commemoraçSo da entrada d'£l«* 
Rei D. Áífonso Y^ coneedeo o perdão a muitos 
prisioneiros. 



> em Pariz , onde esteve até Maio (1477) que ElRei de França 
» andou sempre em sua guerra, fazendo, e acabando o que lhe 

> cumpria. > 

Esta recepçSo, e entrada publica d^ElEei em Pariz aoonteceo 
antes da sua viaita ao Duque de Borgonha. 

Filippe de Comines prova que ElRei D, Âffonso Y estivera 
duas vezes em Pariz , e que fora doesta capital que partira para 
a Lorrena, onde só se demorara dous diaa : t Jinsi njr arresta 
• que deux jours , qu^il ne prit oongé du dit dac de Bourgogne 
» son çousin, pour s*en retourner à Paris dont il esloit parti, • 
(Comines, p. !231, Coll. de Petitot, T. 12, prem. série.) 

Vemos pois que Ruy de Pina ignorara esta particularidade, 
ou antes confundira a partida de Tours para a lorrena quando 
esta fora para Pariz > e logo depois das conferencias, com 
Luiz XI. 

Outro historiador francez contemporâneo João de Troyes 
confirma isto mesmo, quando reconta a entrada d^ElRei de 
Portugal em Pariz pela forma seguinte : pondo todavia este 
acontecimento no dia 23 de Novembro , e não em 28 : c Aprés 
ces oboses, le roy de Portugal qui pretendoit (diz este A.) 
a luy appartenir les royaulmes de Léon et de Castille, ensemp 
ble toutes les Espaignes, a cause de sa femme, se partit d» 
son dit royaulme de Portugal et vint descendre és marobes 
de France , et puis vint à Lyon, et de \k k Tours par deveM 
)e Roy, poar lui reqnerir aide et secours de gens, ponr laijr 
aider á recouvrer les dits royaulmes. Et fut reçu du Roy 
moult benignement et bonorablement, et apres ce quMl eual 
este aiidit lieu de Tonrt par eertatn espace de tempt, oà il 
fút íbrt festoyé elentretenu de plunenrs seigneurs, et noblei 
hommes estant avee le Roy etiont aux couta et despens du 
Roy. Ledit roy de Portugal print «ongé du Roy et s^en vint à 
Orleâns, oà il luy ftit falfc hoaneate recueil , et après /em 
pmHii du dit Oriptm «1 mmi m Im è^nme níh Hcité de 1Wâ#, 
dtiiMilii^Mlhiíl filão» iMlvMyl^anriva li iMit^y nagW 




4 



EIRei D. Affbnso V depois das eonfierenôa» jf^^* 
de Tours com liuix Xi ^ e de despachados oa ^^ 
Embaixadores para Roma , parte de Pariai a 



troisiéme joar de Novembre d* mÊkt enTÚron Teure d^entre 
deuxet trois henres après mié^jfnpfe^tra par la porte Sainct 
iacqiiei. El potir aler au devaiirae lay et le recneílUr avs 
chamfMinflqQes an movlin á renl, y farenl tousles eaUtadd 
Parta, el jpar ordre, en honneatea et riehea Habita, tout ainat 
que ee emk etté ponr faire Pentree da Roy. Et premierement 
yteireiít bors Paria pour aler a hiy , lea preToala dea marcbanda 
et eaebetiiia de ladkto vUle, qnl ponr (adicte yennè fhrent 
reatiia de robea de damaa blano et rouge , fonrreea de mar"* 
três , leaqnels eatoient aecompai^ea dea bonrgeoia et officíera 
de la dicte TÍlle. Et aprea y fut antai maiaire Robert Peaton-* 
terille preToat de Paria» qni eatoit aceompagné de aes lien* 
teoana eiril et cnminel , et tona lea olBoiera da Roy et |Nra^ 
ticiena dn Ghaatolet, qni ae y tronTerent en graiid nombre el 
bonneatea babita. 

v En aprea y TÍnt mona^gnenr le cbancelier Doriolle , maa* 
aeignenra lea preaidena et oonaaillera de la Cour de parle^ 
ment, lea conaeillera et gena dea oomptea, lea generavz aor 
le fait dea aydea et monnoyea et da treior, areoquea grani 
quantité de prelata, eretqaea et arceTeMfnea , et aultrei bo« 
tablea boinmea,.en moalt grant bonnaalaACMnbrej et ainai 
accompaigné que dit est tal mené el eeiidnit joaquea à la 
porte Saint-Jaeqnea, ou illeo en «atrailt par ieaUe dedena 
ladicte Tílle troara da reebief lea dita prevoal dea narcbana 
et eacberina, qui hd p geaa n terent ung MMÉNhiatt poiala 
o« oiel i qni ealoit armoyé par lea coatéa an ofÉMa dn Rey^ 
y eatoient lea annea d^Eapaigne , «I pnia ae bonta 
ly poiale. Et luy eatant ainai daaaonba, yint et 
à Saint Eatiome dea €rda , ou il UrcNiTa 
, anppoata «I bedanlz da inJnirenité de Êkiã^ 
t denoAllny aa bienvei^. fil^fkita^ea tíoI 
regliae de Paria, oè ilJp^(fi»f«r le prelal 
^êfkmh monh lie^mUawMit BI 4ÊÊÊÊÊ^^^^^ A^^ 
4 itaB n9Mm^0K4i^ t iw ám MU%^miSSíitKUÊÊÊm k Vmiàfm 




\. 



— 140 — 

ayístar-se com o Duque de Borgonha que se 
achava sobre Nancy em guerra com o Duque 
de Lorrena y sendo o principal objecto osten-- 



du Marché-Palu cinquante torches allumees , qui le condui- 
BÍrent autour dudit p<M<9. 

» Et au bout dudit pena* de Notre-Bame á Pendroitde la 
maison d^iui costumier nommé Motin, y fut trouve iing grani 
echaifault, ou estoient divers personuaiges , qui estoient or- 
donués pour sa dite venuê. Et d^illec 8'en ala descendRb en 
son logis, qui luy fut ordouué en la rue des Prouvaires, en 
1'hôtel de maiatre Laurent Herbelot marchant et bourgeois 
de Ia dite ville, ou il fut bien recueilly . Et la luy fturent faits 
plusieurs beaulx presens^tant de la dicte Yille,que d^aillearSy 
•et y fut Yoir tous lea beaulx lieux et estats de Paris. Et pre- 
mierement fut mené en la Gour de parlement, qui fort 
triompha à ce jour de sa dite venuê : car toutes les chambres 
y furent tendues et parees , et en la grand chambre y trouva 
monseigneúr le chancelier Doriolle , messeigneurs les pre- 
sidéns , prelats, conseillers, et autres officiers, tous honnes- 
tement vestus. Et devant luy y fut plaidoyé et pnblié une 
matiere en regalle par maistre François Haslé archediacre de 
Pafis , et advocat du Roy en la dicte Gour, et contrelui estoit 
pour advocat maistre Pierre deBraban, advocat enladiteCour 
et cure deSaint-Eustace, lesqnels deux advocats il faisoitmoul t 
bel oyer. Et après Udicte plaidoirie luy furent monstrees les 
chambres et lieux de ladicte Cour. Et par aultres journees fut 
en la grand salle de Postei de Pevesque de Paris, pour illec 
reoir faire un docteur en la faculte de theologie,et apres ala 
Yoir le Gh^lltellet, les prisons, et chambres, qui toute» estoient 
tenduês, et tons les officiers chascun en son estat Testos de 
beaulx et honnestes habits. En apres le dimandM premier 
jour de Decembre audit an 1476, alerent passer é&fmkt mm. 
logis toute PUniT^mté de Paris/ et toutes les itcoltesf «t 
siAgets d^icelle^et paif s'en vindrent chanter une grani 
mes&e a Sainot-CaEpnAÍii^4iiiixeiTDb , et partout oú il akit par 
la dicte tilla ^itâi^netté et condiiit par monseigiiffir de 
Gauoourt, Ui^|p|i|j| da Roy^iudii liea de Paris, «{hí hqr 
domift en miÊmmimigmtmik hwi et ríche mipper o& y 



/T 



— 141 — 

sivo d'esta ida d'ElRei de Portugal, satisfazer as 
pretenções de Luiz XI , e por sua mediação 
congraçar o Monarcha francez com o dito Du- 
que, pois antes da sua partida de Tours, 
Luiz XI lhe declarou quepela pouca seguridade 
que tinha do Duque, por ser muito orgulhoso, 
duvidava que tomando a cidade de Nancy , e 
destruindo o Duque de Lorrena , quizesse en- 
trar em França , e que receoso d'isto tinha seu 
exercito na fronteira, e que por esta causa elle 
lhe não poderia dar tanta ajuda , como sem isso 
faria, porém que, se por mediação d'ElRei 
D. Affonso V, elles ambos se ligassem de ami- 
' zade , e por casamentos dos filhos , como o 
Duque por todas as razões devia querer, elle 
Luiz XI em sua ajuda poria a Coroa de França 
com todo o seu poder, e que ElRei D. Afibnso 
devia requerer o Duque, que fosse com elle em 
pessoa; porque era bom Capitão, e tinha grande 
exercito, e boa artèlharia, e que sendo o dito 
Rei D. Afibnso medianeiro, e garante d'estes 
concertos, e alliançascadaum d'elles teria re- 



» ftnmit grand nombre de gens notables d^icelle ville, tant 
» iKMBimes que femines , dames , damoiselles et autrea. » 

TramcreTenuM integralmente a relação doeste historiador em 
razSo de mencionar moitas partionlarídades curiosas que se 
nSo encontrfto nas outras de qae tratlmoa, ficando por esta 
forma este período da histork politica do reinado d*£lRei 
D. Afibnso V sobejamente ilfatttrado, a remediado o silencio 
dos noMoa bistoríadores áoegrtNi iê úgÊÊÊÊÊ dromnaUnciaa im- 
portantett .» «^ 



1 



— 1« — 

oeío de tt per si quebrar^ |iârâ o nfto t» por 
contrario, ecom asquaesem mui breve ficaria 
pacifico Rei de Casleiia (474). 

An. 14T6 Entrevista d'EIRei D. Affonso Vcom o Duque 
^^ de Borgonha junto a Nancy • O Duque disse logo 
a ElRei , « que tinha tratado com um homem 
em que nSo havia virtude nem verdade, allu^ 
dindo a Luiz XI^ e que para o crer nSo quinase 
i<^o outra prova , senSo que ao mesmo tempo 
que o tínha enviado a elle que ik> mundo era 
tal é tSo excel lente Rei, e com requerimento, 
e miostranças de paz, e ailiança , logo após elle 
mandara um exercito em ajuda do Duque de 
Lorrena seu inimigo, e contra elle. Porém que 
elle tinha ElRei de Franca em tão pouca esti^ 
ma , que com um só page ousaria dar-lhe bata* 
lha, e esperar victoria. Mas que visto^ ElRei 
D. Affonso querer a sua concórdia, que por lhe 



(174) Rny dePina, Chron. (TElReiD. Affonso Y, c«p. 198, 
p. 574. (T. 1 dos Inéditos da Academ. Real das Sciencias de 
Lisboa.) 

LeSo, Chron. dos Reis, T. 4 , cap. Gl , p. 431 , ediç. de 
LMboftt Í7M. «9h^ - 

Faiift • Sousa, Europ. Portng., T. 2, P. 3, cap. ^ P«4jU* 

Gompare-ae esta importante relação de Ruy de Piai eoil o 
^e diz Olivier de La Maroiít, da intcòducç&o das soas Memo- 
rias, p. 1S3 {CúlU P^ftet) : 

< Mais le aoy és niMMtff' tooijosrs aToit la dentanr le 
a doe de BaaiyB>gae) J>> J|pi úyoUj Êtm qa'il ne faiiok q^ 
a paw nn aiaií |> 41e4lj|Í(í í i il ifiii Mi i ul genhortott leaprimxM 
» Toi8in8,ifiierroy«rleiie4bBoiirgoiigne,etc.t 



'■ 



f- 



^ 



eòmpMJrir era d'elia contente^ e Ih^Mp*^ 
leal p e vmtladeiramente, nao só «"«i^ilJ^PB P» 
e amicade que entre ellí»^ ^ ajustasse , mas 
f^ify^^fiyi fitter cuiDpf'^!' a EIRei de França tudo 
oqueaseur^peitolhe tinha promettido^epro^ 

Depois d'isto acordado se parti rSc^Hpous 
Serranos para o lugar do arraial do Duque 
onde primeiramente tinhão estado^ para nesta 
conformidade concordarem , e assígnarem o 
Tratado. Poucos dias depois , em quanto os 
dous Soberanos isto ajustavao^o exercito fran- 
cezy efl^énDuque de Lorrena vierSo sobre elle. 
Dá-lhes o Duque de Borgonha batalha^ é nesta 
desbaratado , e morto a 5 de Janeiro de 1 477 
(176). 

Recebe EIRei D. AflPonso V em Pariz os Em-* ^dLif^ 
baixadores que tinha mandado a Roma para re- deiuio 
quererem aoPàpa a dispensa do seu casamento 
com a PrinceiaD. Joanna. Estes requererão em 
Roma com muita instancia ao Fápa Sixto lY a 
dispensa para o dito casamento, mas cncon- 



(175) Ruy de Pina, Chron. (TElRei D. Affonso V, cap. 198, 
p. 574-576. ^^ 

OliTíer de La Marche apenae dic o ^^^sdNkl^c^ cario* 
eainmaU doe dona Príneípei : ^W^ 

c . • . etdaranticelayaii^leTintTeoirlerefde^ortHfid 
» 8on oncle : teqnel il fertoya grandeiiieiit. • (Goll. PetíM^ 



/ 

— 144 — 

t^^^^^cgmmde opposiçao naquella Cifto, pro-' 
moyidiM^ib<>^o só pelas reclanciaçíteí d'Elllei 
D. Fernando de^lUpoIes^ por ser oaaÁdo-eom 
uma irmã d'£IRei D. JPt^vnando de CjUpsHipi', 
mas também pela de outros Principea e Se- 
nhoij^ que favoreciao a sua parciaH^dei^ 
FinaiPMnte porque o Papa, por ventura acoa-r Jt 
selhado nisso^ considerando que ElRei D. Fep- . 
nando^ e a Rainha D. Izabel sua mulher, erSo 
pacifíeos Reis de Castella , e ElRei D. A£PonaQ 
era nelles em forças , e poder mui desigual^ 
houve por grande mal e pr^uizo conceder a 
dita dispensa , a qval poderia causar grandes 
guerras, tendo-^e sempre demais em Roma 
por mui duvidosa a ajuda d'ElRei Luiz XI, 
Rei de França, promettida ao Monarcha portu-* 
guez. Em quanto porém este negocio d^Hfeba-^ 
tia, chegou a Roma a noticia da morte dofi^oíque 
de Borgonha, acontecimento que a tíiifiá de 
Roma considerou muito acertadamente deixava 
Luiz XI inteiramente livre, e com mais força, 
para poder auxiliar ElRei D. AíFonso V na sua 
empreza da successão aos reinos de Castella, se 
assim o quizesse o dito Monarcha francez pôr 
em obra. Com este fundamento tomou o Papa 
um arbitrio, que foi uma verdadeira denega- 
ção, a saber que em quanto pelas razões ai le- 
gadas, a £Ift|^ de Portugal por si, sem a França 
a dita desfwAsa se nao devia conceder, que no 
caso d'ElRei de França desse auxilio formal a 
ElRei de Portugal a dita despensa se conce- 



• f 



* 



— 145 — 



deria , e que portanto ílÒ mesmo Rei de França 
se daria ^ tomando-a elle a seu cargo (176). 

EIRei D^ Âffonso Y manda o Conde de Pena- An. im 
niacor, que acabava de chegar da embaixada de (projr«- 

,Roma, a Luiz XI que então se achava em Arras, 
afim de lhe dar conta do que havia passado 

-'naquella Corte, \olta este a Pariz com a reso- 
lução de Luiz XI convidando EIRei D. Af- 
Fonso \ a avislar-se com eHc em Arras, EIRei 
parte immediatamente para aquella cidade, e 
Luiz XI vem sair-^lhe ao encontro , e o coh- 
duzio a uma abbadia de Cónegos Regrantes em 
que EIRei e toda a sua gente se allojou. Alli se 
demorou o Monarcha portuguez alguns dias, 
esperando a resolução d'EIRei de França, a 
qual elle deo cm certos apontamentos, nos 
quaes EIRei D. Affonso V conheceo uma nega- 
tiva clara , c evidente do que se pedia, com o 
que EIRei D. Affonso se despedio para Portu- 
gal (Í77). 



(17G) Ruy de Pina, Chroii. (TElRei D. AÍTobso V, cap. 109, 
p. 578-581 (T. 1 de Inedilos de Hist. Port. da Àcadein. Kcal 
das Sciencias de Lisboa). 

LeSo/Chron. dos Reis, T. 2, cap. G2y p. 434, ediç. de Lisb., 
1780. 

Faria o Souza, Etirop. Port., T. 2, P. 3, cap. 3, p. 415. 
(177) Ray de Pina, Chron. dIJRei D. Affonso T, cap. 200, 
p. 578. ( Inedit. de Hist. Port. da Academ.) 
Este Cbronista faz as seguintes ponderações i 
• £ tam mal despachado com a desreatura do to^|^ orde* 
111. 10 



— I 'iG — 

Ao. I4TI ElRei D. AíFonsQ V vepdo frustradas ^s suas 
esperanças , apezar da tUligencia que linha 
posto em França, Roma, e Gastei la para con- 
seguir colocar-sc no trono d'este ultimo reino 
em virtude dos direitos da Princéza D. Joanna, 
despede- se de Luiz XI em Arras, e dirige-se a 
Ruão cora a sua comitiva, demoi^a-se alli algum 
tempo em quanto se faziao os preparativos 
para o seu embarque em Anaílor. Disgostoso 
de tantas contrariedades determina partir para 
Jerusalém, levando só comsigo Soeiro Vaz, e 
Pedro Pessoa. Parte incógnito com aqúeile 
destino, deixando uma carta para ElRei de 
França , na qual lhe dá parte do fundamento 
que tivera para a sua partida (178), 



An. 1477 Ilonfleur. — Nesta data escreve ElRei D. Af- 

Selem- 
bro33 



» 1101} ; por que assim como vi\cudo o Duque* de Borgòuha, 
j> ElKci de Franca por ganhar sua paz ajudara de neccssydadc 
» a ElRei D. Aflbnso, assy por sua morte achando muyta da sua 
» terra desocupada , pêra a poder cobrar nom curou disso, 
» nem foi muyto de culpar ElRey de França por maiores pro- 
» messas que fizera ; porque pêra dar jente e dinheiro a Rey 
9 estranho , com que pêra ysso ganhasse Reino de empresa 
» tam duvidosa, e lèixar perder e nom cobrar sua própria 

> terra, o direito e razam que o a isso obrigasse seria escuro, 

> c maáo d'achar. » (Ibid,^ cap. 200.) 

(178) Ruy de Pina, Chron. d'ElRei D. Affoaso V, cap. 202, 
p. 581. (Inedit. de Hist. Portug., T. 1 .) 

Resende, Cliron. d^ElRçi D. Jo3o II , cap. 1 7. 

Leão, Chron. dosReíg, T. 2^ cap. 62, p. 435. Este aulor 
tirou tc^ a sua relação histórica de Ruy de Pina. 



it 



— 147 — 

Ibnso V a EIRei de Franca Luiz XI expondo- 
Ihc os motivos que tiDhá para enti^ar era i^e- 
ligiSo. 

Pondera EIRet no começo d'csta carta o 
quanto cumpre que os homens encaminhem 
as suas obras aò serviço de Deus sem respeito 
ás humanas contemplações, mas porque Luiz XI 
não imputasse ao despeito de se ver d'elle desa- 
judado a resolução que tomava , deixando a 
França, d^e se ir metter em religião, narra-lhe 
p tomo assim o tinha prõmettido a Deus por 
occasiSo da morte de sua mulher, logo que o 
Príncipe seu filho se achasse em idade de reger 
o reino; como no entretanto EIRei D, Hen- 
rique de Gastella lhe havia commettido com o 
casamento de sua filha herdeira do dito reino, 
e havendo ao depois Tallecido, fora com grandes 
instancias rogado por grande parte da nobreza 
de Gastella a concluir o dito casamento, afim 
de atalhar os projectos d'ElRei e Rainha de 
Sccilia, que trabalhavSo por se apossar d'a- 
quella Coroa c esbulhar d'ella a dita Princeza , 
e como ella fosse sua sobrinha, c por outros 
muitos motivos se movera a concluir o dito 
casamento, havendo primeiro conselho com os 
grandes de seu reino, com o presupposto que 
tul cpa a vontade de Deus, e que era seu serviço 
o defender e sustentar t3o justa causa, e com 
este fundamento não obstante a promessa que 
havia feito de deixar o mundo, entrara com a 
uiais da gente, que havia podido ajuntar, nos 



*." 



~ 148 — 

mnos de CastcUa, onde se demoi^ára treze 
mezes , no cabo dos quaes tornara a Portugal 
sçm ter assegurado no trono a Rainha ^ pela 
mudança que (izerao muitos dos grandes de 
Castella^ que com ellc se haviao ao principio 
juntado^ e por outros motivos não menos po- 
derosos. O que não obstante entendendo que 
assim o cumpria ao serviço de Dcns , e que os 
Heis c Principes não devião por motivos de 
pouco fundamento desistir do que liavião com 
justiça entreprendido» desde então começara a: 
formar o projecto de vir ter com EIRei de 
França pela grande amizade que sempre lhe 
mostrara^ e pelas promessas que lhe havia feito 
de o ajudar naquella empresa ^ certo de que 
com um tal auxilio veria o fim ao que dese- 
java, porque os Hespanhoes^niais facilmente 
se juntarião com os Francczes estando ellc 
D. Affonso á testa d'elles. Que com este funda- 
mento se partira de Portugal para França^ 
onde fora recebido com grande honra, e onde 
se detivera um anno na es|)erança que os sue- 
cessos das guerras que ElRci de França trazia 
lhe permittirião a final de lhe dar o promettido 
soccorro, mas que como visse que. as ditas 
guerras longe de se serenarem se accendiSQ^ 
cada vez mais, e fizesse reflexão no quanto ha 
alguns tempos áquella ])ai (e as suas próprias 
causas hião decaindo, sendo que todas as que 
emprehendéra para o cumprimento de sua 
promessa lhe saião a seu sabor, persuadido 



»• 



r 



— 449 — 

que os Príncipes que vivem e morrem regendo 
seus estados com diífículdade se salv3o, se re* 
solvera a deixar o mundo^ e para esse effeito 
se partia de França ^ pesando-lhe tão somente • 
de o nao ter feito segundo sua promessa, qoândà . ' 
o seu próprio reino estava em paz, porqMi' -* 
desse de si melhor exem]p]o, e excusasse M 
censuras de muitos que nãoc^^ixárSo de dizer 
que por falta de vah)r,e outros motivos pouco 
honrosos, desistia da empresa começada, e 
deixava o estado em que Deus o fizera nascer* 
Porem que como entendesse- ser esta a sua 
vontade se determinava a deixar o mundo e 
suas pompas, recebendo em desconto de seus 
peccados as censuras que lhe forem por lAtO-^ 
feitas; e remata a carta pedindo a EIRei da - 
França escusas do incommodo que lhe cau- 
sara, e encommendando-Ihe o Conde de Faro 
e D. Álvaro seus sobrinhos, e outros parentes, 
criados e servidores seus que em França deixava 
ao desemparo (179). 

Os Portiiguezcs, e M. Lebret que acompa- a», htt 
nhava sempre a EIRoi D. AíTonso V, dao pela iro m 
falta <restc Soberano, e entrando em grandes 
cuidados, e inquietações tratao de o desco- 
brir (180\ Para este cífeito recorrem ao Chan- % 



■•-*• 



(179) Artrhiro Real da Torre do Tombo, Gar. 2, mm;. 1 1 
n. 24. ^ 

(f 80) Ruyde Piua, ChroD., p. 584. As re.nnles d'csU* Cliro 



■• r 



> 



*, 



■ V- 



••' * 



— ]■){) — 

coller (lo Franca, rjiio nininla \^úv toda ã parlo 
emissários em sua procUra, dêpbis de ter dadp 
d'idso parte a Luiz XI. Passados alguns dias, um 
Gentílhomem normando, pol^ nome Roberto 
LeBcBuf (181), descobre o Soberano portuguéz 
ciii úraa aldêa ao pé d'Honfleur. Este emissário 
de Luiz XI faz vigiar El Rei toda a noite na- 
quelle logar, e expede correios a Luiz XI , e 
aos Portuguezes, e a M. Lebret, participaiido- 
Ihes aquella nova, detendo todavia com grande 
acatamento a EIRei na casa cm que o achara, 
e fazendo-o muf bem servir (182). Vão logo os 
Condes de Penamacor, e Faro, e D. Álvaro seu 
famSo, e outros Senhores , buscar EIRei que 
'^fii-decidio a desistir d'esta empresa , principal- 
"Ijarente por ter recebido uma carta muito con- 
soladora d^EIRei de França (183). 



nista, e as de Duarte Nunes de Leão, diíTerem em algumas 
particularidades das que %e encontrão no T. 1 1, p. 372 da ffist. 
dêS Ducs de Bourgogne , por M. de Barantc^ 

Pelo que diz Ruy de Pina deve inferir-se que o Francez que 
acompanhava EIRei D. Affonso, estava encarregado por Luiz W 
de ò seguir para toda a parte durante a sua residência, pelo 
itienos em Normandia. 

(181) Ruy de Pina chama-lhe simplesmente : Gentílhomem 
francez j M. de Barante lhe dá o nome que indicamos no 
texto. 

(182) Ruy de Pina, cap. 202, p. 584. 

(183) Ihid. 

Não podemos descobrir este documento. 

Alguns AA. dizem que se pozera um imposto em toda a 
Normandia para acudir ás despezas da viagem d^ElRei para 
Portugal. 



— 451 — 

Ertlbatra ElRei etn uitta CãiTaca (i8A) que An. ut: 
mandara fretar. Juntao-sfe otrtril^ ttAos de 
Frailça (185), e chega a Cascdlsí èrti 16 de No- 
ycmbrD do mésillo atino (i 86) , fc túmú de ttoVo 
pOsse do governo. 



Nesta data EIRei D. Affonso V dá as seguintes An. an 
instruecoes ao Embaixador que mandou a ann© 
Franca a Luiz XI logo depois da sua chegada a 
Lisboa, participando-lhc o tratamento que lhe 
íizerão em Portuga] , e outras matérias. 

Encommenda EIRei D. Affonso V a seu en- 
viado diga a EIRei de França como era chegado 
a Lisboa nos navios que elle lhe rprneccra, 
abordo dos quaes fora servido e acatado por 
Messer Jorge capitão d^elles , como o próprio 
Rei de Franca^seria , e que lhe pede muito por 
mercê haja de tratar bem , e de fazer honra ao 



(184) Carraca, era uma das maiores embatcaçoeh d^aquelle 
tempo. (Vide jérchéologie NavaU, por M. Jal, T. 2, p. 211 , e 
215.) 

(185) Nas Mc 11. de Comines (Coll. de Itf . Buchon, p. 129) 
se diz que Luiz XI qnniido soube da deiíbèHiçlo que ÈlHei 
tinha tomado, tivera vergonha do modo com que para com elle 
se houvera , e que se dera pressa a mandar armar alguns na- 
vios para conduzíl-o a Portuga] , sendo o commandante d^clíes 
Misser Jorge le Grec. 

Este ultimo facto se confirma pelas instruccAes passadas por 
ElRci D. Aflbnso V ao enviado que mandou a França logo de- 
pois da sua chegada a Lisboa , e que damos no texto. .-A- ^ • '^ 

(18fi) Ruy de Pina , Chron. d^EIRei D. Aflbnso V, cap. 203, 
p. 584 eseg. ; Goet, Ferrertt,T. 7, foi. 510. 



; A 



— Iõ2 — 

ílilo capitSo na certeza de que lli'o agradeceria 
como se a elle mesmo a fizera. 

Que no fazer d'aquella se achava em Lisboa, 
onde estava dando ordem com o Príncipe seu 
filho y e com os grandes e povos do reino aos 
negócios d'elle. Que antes de ali chegar havia 
o Principc seu filho, por lh'o ter elle assim 
mandado, sob pena de sua benção; em carta que 
lhe escrevera de Hopfleur, intitulado-se Rei de 
Portugal, em virtude de seu mandado, e por 
conselho dos grandes do reino, mas que posto 
o houvesse assim feito por obediência, havia 
soleranemente declarado por juramento que 
caso seu pai tornasse ao reino lhe entregaria 
immediatamente o governo, e se demittiria do 
titulo de Rei, e se n&o alevantaría de diante 
d^elle senão depois de o dobrar jiÇlpíi rogos a 
consentir ficasse outra vez príncipe como 
d*antes , do que fez fazer escritura para que a 
todos fosse notório. Que assim o pozera em 
effeito á sua chegada, prostrado a seus pés, e 
nSo obstante a resistência, rogos, e proposi- 
ções que lhe fizera, se havia demittido de tudo, 
entregando-lhe o regimento e governo do 
reino, e ficando Principe como d'antes, dizendo 
que mais se honrava de ser seu filho que de ser 
Rei de todo o mundo : cousa que elle partici- 
pava a EIRei de França por ser de bom exem- 
plo, e digna de lhe ser communicada. 

Que em chegando a Lisboa achara mui boas 
novas da disposição en) que estavão os grandes 






«. 



t 



— <53 — 

e povo de seus reinos de Castella^ e muitos 
recados é mensageiros das pessoas principaes 
d'elieSy as quacs lhe supplicavão houvesse de 
concluir o seu casamento com a Princeza 
D. Joanna, e entrar immediatamente nos ditos 
rónos, promettendo-lhe servíl-o e acompa- 
nhál-oem tudo quanto comprisse. Que cl le lhes 
respondera estava resoluto a fazèl-o assim , e a 
expor sua pessoa e reino para levar aquella 
empresa ao cabo; que se elles quisessem desde 
logo' Juntar- se a elle^ passaria a concluir 
sem demora o mencionado casamento. A'cerca 
do qual ^ accrescenta EIRei^ tivera por bom 
conselho de responder-lhes por aquelie modo^ 
e de o uao concluir, senão depois d'elles res- 
ponderem e de ò8 ter atados e ligados a sua 
causa, porque entendia que por aquelie modo 
o8 traria mais seguramente ao seu partido; quo 
portanto não tardaria muito em concluir o dito 
casamento, e esperava em breve ver-se nos 
reinos de CastielJa, e com ajuda d'£IRci de 
França seu alliado^ expulsar d'elle seu com- 
mum inimigo*. Que continuará a dar-lhe parte 
de quanto for occorrendo, e lhe pede com 
efficacia que da sua parte o ajude como poder, 
segundo a palavra que lhe dera, não entrando 
por modo algum em concerto com ElRei de 
Sicilia, o que nas circunstancias em que esta- 
vão seria dar-lhe manifestamente ajuda; que 
ellc bem sabia qual fosse o modo de pensar 
d'ElRei de Franca, e a inimizade que tinha 



— \u — 

com El Rei cio Sicília , assim qiio nnnhum receio 
tiuha lhe fosse o ditoMoriarcIiQContrario> nem 
Ifizesse cousa de que lhe i*esultasse damilo> 
porém que entendia que se mostrasse por tem- 
porizar querer entrar em concerto com séU 
comraum inimigo ElRei de Sicilia > nos termos 
em que as cousas estavão , podia isto causar- 
Ihe grandíssimo prejuízo. Que lhe diga tam- 
bém hávia escrito de Ruão ao Duque d. . . . 
seu sobrinho^ que já havia escrito a iBlRei de 
Fratíieli acerca dos concertos e ajustes que o 
dito Duque^ por via de seu estribeiro, lhe fiziera 
saber, desejava fazer com o dito Rei^ que 
estando de partida pál^a òsseus reinos ^ è não 
podendo antes d'ellc effbituar a desejada con- 
cordia entre elle e ElRei de Frani^a > deixaria 
junto a elle uma pessoa quê em seu nome lhe 
lembraria os negócios do Duque, e lhe commu- 
nicaria as respostas d'EIRei de Fiança se o hou- 
vesse por bem. Que o dito Duque eilà mpòsta 
lhe mandara um apontamento de ^ue b seii 
enviado ia munidd pât^a poder reqtie^èt* pe- 
rante ElRei em nottie do dito Duqlie quanto 
fosse mister pa^a tt cbncUisHo de sell negocio 
(187). 



An. im Saò Jbão de Luz. — Tratado de paz e alliança 
» entre ElRei de Franca Luiz XI , e D. Fernando 



(187) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 2, mar. 11, 
\ n. 5, 



— 155 — 

c D. « iMhrl Rei e Rainíia de Cnstclla , cm que 
P<Jí^tugftl é cómprehendidoi, 
' No til ti mo artigo d'este tratado se estipulou 
que por quanto os Embaixadores d'ElRei de 
Franca havião em seu nome e por seu man- 
dado promettido , que ElRei de Franca revo- 
garia^ annullaria, e ^daria por annulladas 
quaesquer cbnfederacSes ^ ligas ^ fraternidades 
que houvesse feito ou começado a fktitt' de 
qualquer najturçza que ellas fossem com ElRei 
D. Affonso^ que ha pouco se intitulava Rei de 
Portugal^ e coiiri seu primogénito, bem côWo 
com D. Joarida asserta Rainha de Cástella; 
EIRèi D. Fernando e a Rainha D. Isabel se 
obvigavSo também a cassar, annullav, e dar 
por desfeitas as ali ranças, cotifederaçOes e ami- 
sàdes qiie entre elles e o Duque tf Áustria Búb- 
sisti5o(488). 

Santa Maria de Guadalupe. — RalificacSo An. 1479 
do Tratado de paz e alliança de 9 de Outubro "10*'* 
de 1478 entre ElRei e Rainha de Castelia, e 
Luiz XI, Rei de França. 

No art. X se (ionflrma , é l^tifíca expressa- 
mente que ficavao annulladas^ desfeitas, e sem 
.vigor quaesquer confederações, ligas, e ami- ^Mi 

zades feitas, e por fazer entre EIRci do Franca 



't (188) Diimont, Corps Diplom., T. 3, P. f , p. 47. 
'• Frédcríc Léonard , Recneil , eto., T. ^ p. ?30. 



- 45fi — 

c KiRci D. Affonso do Portugal, e seu primo-* 
geni to, assim como entre ElRci de França -e a 
Senhora 1). Joauua, asserto Rainha de Cas- 
tclla(<89). 

An. 1480 Instrueçao de Maximiliano, Duque de Áus- 
tria, dada a M. de Kopd^it, e a outros seus 
Embaixadores a Luis^^XI, Rei de França, para 
negociarem uma ti*egoa. 

No art. IV d'estas instrucçòcs recommenda 
o Imperador aos seus enviados de insistirem 
com E]Rei de França para que este aceite por 
conservadores das ditas -tregoas a EIRei dln- 
glaterra e ao Duque de Bretaq.ha, c nao ó po- 
dendo conseguir* que pelo menos o dito Rei e 
Duque sejâo expressamente comprehendidos 
nellas como alliados do dito Imperador, e pelo 
mesmo teor o Papa, os Eleitores do Império, 
os Reis de Castella, dé Nápoles, de Hungria, c 
de Portugal (1 90). 



* 



(189) Dumont, Corpg Diplom., T. 3,*p. 46 a 58. 
Frédéric L^cmard , Recueil , ele, T. 1 . " 

(190) PreuTCfi det Mémoires do ('omineg, par Lanplet-Du 
fresnoy, T. 3, fl.i»8d. 



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— -157 — 

EEINADO DO SENHOR REI D. JOÃO 11. 

Nesta data ordena EIRei D. João II qiie a An. i482 
Princeza D. Joanna, cognominada a Exccllentc 
Senhora, saísse do convento de Santarém, onde 
se achava reclusa, e apparecesse.na Corte, e . 
que se publicasse o como entrava em ajustes 
para se casar com Francisco Fcbo, Rei de 
Navarra, o qual casamento estava para con- 
cluir-se por intervenção de Luiz XJ, Rei de 
França, o qual muitp se interessava no bom 
êxito d'esta negociação (191). 

Luiz XI, Rei de França, conta, durante a j^„ ,4,3 
sua doença, e últimos tempos do seu remado, 
entre os seus alliados EIRei de Portugal, que 
então era ElRci D. João 11 (VJ2). 

Chegão a Portugal Embaixadores d'EIRei de xn. lui 
França Carlos VIU a proporá EIRei D. João II ^"íen* 
de formar com EIRei, seu amo, um tratado de 
amizade e aliiança, pela qual concordassem e 

'(lí)l) Lc Quiende LaNcufvilIe, Ilisl. de Poit., T. I, p. 501. 
— Telles , G Vosconccllus. Neufvillc citando Zurita , Anu. d*A- 
ragào , diz que \âúz XI , Rei de França , tio do de Navarra , 
eutrára neste negocio, e ({ii%fòra qaeiu maia para mo oontri- 
baíra. 

Faria e Castro, Hist. ger. de Port.^T^tlUv. 30, p. 4â. 
(193) f^ide Cominea, Memor., eap. f(^,' liv. 7, onde diz: 
• Les Ro/s d^Écosae et de Portugdífitoient ses alliés. » 



— 158 — 

consentissem ambos aquelles Soberanos que 
seus vassallos respectivos podessem livre- 
mente entrar, sair, estabelecer-se, e commçr- 
ciar em os portos dos dominiosd'úm e d^outro 

(193). ' 

An. 1465 Neste anno roubâo os Francezes no cabo de 
S. Vicente quatro galés de Veneza, ricamente 
carregadas, que navegavãô com destino de 
Flandres, *e os capitães são lançados pelos 
Francezes em Cascaes. Acolhe Eillei D. João II 
08 Venezianos espoliados, e os Francezes tendo 
em Cascaes as galeras apresadas , E^Rei offe* 
recco para o resgate d^ellas 40,000 cruzados de 
ouro. Os Francezes não quizerão concertar^se 
com os Venezianos, e recolherão a geqs navios 
as mercadorias das galés, e venderão, e derao 
os cascos d'cllas, que EIRci comprou, e recor 
Ihco e teve sempre em Riba-Tejo á disposição 
de Veneza, defendendo que nenhumas cousas 
da dita preza cm seus reinos se comprassein 
(1 94). 

An. 1485 Montemor. — Tratado d'alliança, celebrMO - 
*°*"^**^ entre Carlos VIII, Réi de Franca, e Elllei 



D. João II de Portugal. 



■ v^ 



(193) Faria e Castro ^ Bial. ger. de Port., T. 8, lir. 80, p. 115. 
LftOnieii de la I9«Bfnlle, Rii^ dn Pcxrtngal, T. 1, ItT. 4, 

diz que este Tratado se eíTectiiáni, • que o original se conserra 
lia Real Archiro d% Torre do rombo. 

(194) Ruy de Pina , Chrou. d^ARei D, Jo2o U , p. 67 a 69. 
Vide Rtluçòcs (U Potfffgal com Ualia. 



^ . 



— lõy — 

Pòiideva £lfVei D,. João no preambulo 4'este 
Tratado o quanto coinpria aos Soberanos no 
começo de seus reinados de renovarem as 
allianças por seus predecessores contrahidas, 
e porque entre seu augusto pai ElRei D. Af^ 

fonso V e ElRei Luiz XI de Franca havia exis- 

tf 

tido ainai$ estreita amizade e concórdia, com 
grande'Utilidade 4^ seus reinos, elle e o novo 
Rei de França haviao resoluto renovar aquellas 
allianças I como com.çficito as havião renovado 
por si e por seus vasss^Hos pai^ que estes po- 
dessein Hviíeiqeote transitar pelos dominios 
d'ujn e d'outro reino, e com merciarem com 
^ segurança em seu^pprtos, villas e cidades, 
CQnqo at^é entap b^viâp fisitp, conservadas as 
HUtigas confederaçqes , coostituições, orde- 
nações, e. obrigações de cada uip dQ$ respec- 
tivos reinos ; sendo obrigado ^quelle dos 
contractantes que quizesse desistir d'aquella 
iK>licordia a avisar ao outro dentro do prazo 
de quatro raezes , para este prover a sua se^ 
gurança e a de seus vassallos, que nSo deviâo 
ser sacriQcadps, quando se cuidavao ampa- 
rados e seguros debaixo da fc dos tratados 
(195). 



(lOiij Diimont, CorpsDiplom., T. 3, P. íl, p. 139. Frédéric 
l^nard ,.T. 1, p. 312. CG. Leibnílz, Códice DipTom., p. 452. 
Godcfroi , Obsçnalions sor rhistoire de Charles YIII , Roi de 
Fraucc, p. 501. 



^ 

p 



: 4^4. 



— 1G0 — 



» > 



An. im ÃMta cpoca Maximilíano^ Rei dos Romanos, 
participa a ElRci de Portugal por via de Diogo 
Fernandes, Feitor de Portugal em Flandres, 
os negócios relativos á guerra que havia entre 
lEitiei dcFrança e ElRei dos Romanos^ pedindo 
a EIRci de Portugal , allegando para isso mui- 
las razões, quizesse ser Medianeiro da paz 
entre cllcs (496). ElRei acceita a mediação, e 
para negociar adita paz, nomea por seus Em- 
l)aixadores junto d'ElRei de França o D'D. João 
Teixeira, ChancellerTMór, e com elle Fernão 
de Pina, os quaes não chegárSo a partir, 
l)or ter chegado a noticia , ao momento de se 
porem a caminho, que oRei dos Romanos tinlMP 
sido preso em Bruges, Determina ElRei mau- 
dar a França outra embaixada especial sobre 
este caso (197). 

Vide Secção de Portugal com o Império. 

An. 1488 N^Bta época manda ElRei' D. João II , por 
*'^^ Embaixador a EIRéi de Franca, Duarte Galvão 
do seu Conselho, por occasiao da prisão de 
Maximiliano, Rei dos Romanos, levando o 
dito Embaixador grandes créditos, e poderes 
l)ara romper a guerra com os inimigos do dito 



. (lOG) Ruy de Pina, Chron. d'£lRei D. João H, p. 82 (Ined. 
de Uist. Portug.)* 

Resende , Chron. d^ElRei D. João U , cap. 72 , foi. 32. 
(197) Ruy de Pina, Chron. d'£lRei D. Joào H, p. 83 (Ined, 
de Uist. Portug.). 



— 161 — 

Rei e despender até cem mil ducados d'ourô 
para alcanòar-lhe a liberdade (198). 

" ChegSo á Bélgica Embaixadores d'ElRei de An. iw 
Portugal 9 os quaes, alcançando uma tregoa de 
alguns dias entre os contendentes , de balde 
trabalharão para fazerem a paz (1 99). 

El Rei D. João n tendo mandado desterrar An. tw 
Fernando da Silveira , este veio para França , broa 
e foi morto em Avinhao pelo Conde de Palhães, 
Catalão, a quem EIRei de França mandou 



(198) Garcia de Resende, Chron. d'£lRei D. JoSo H , foi. 44 y% 
cap* 71. 

Ruy de Pina, Chron. do dito Rei, p. 83. 

Le Qnien de la Neufville, ffisl. du Portugal^ pQe este 
acontecimento no anno de 1486, mas este Príncipe tendo sido 
coroado Rei doa Romanos em Aix-la-Chapelle em 9 d^Abril de 
1487 {tJrtde féiifiât les Dates ^ T. 7 , p. 372), a data do 
eacriptor tencex nlo se conforma com os estilos diplomáticos. 
A que se Mfentra em Resende , e Ruy de Pina se conforma 
mais com a verdade. Observaremos todavia que a Arte de veri- 
ficar as datas, pelos Benedictinos de S. Mauro, apezar de ser 
uma das obras de maior autoridade , não diz uma só palavra , 
Bo artigo de Maxímiliano , acerca da prisão doeste Principe em 
Bruges, nem no anno de 1486, nein 1488. Persuadimo-nos 
emfím que a data de 1 488 que fíxámos no texto, seguindo os AA . 
portuguezes contemporâneos , é exacta , tanto mais que lemos 
nos Jnnaes de Bruges ^ publicados por M. Delcpierre ( Bruges, 
1835, p. 78 ) , seguindo a Ghronica de Molinet , que a prisão de 
Maxímiliano se effectuára aos 11 de Fevereiro de 1488. 

(199; Pontus Hunterus ( Rcruiii Austriacaruin , lib. 3, p. 93), 
«-(Reinado do Imperador Maximiliano, e Filippc\ — A paz 
pom a França concluiu se pelos Embaixadores de Carlo^ VUIi 
Franofortem 28 deiolhodo 1489, 

lUi ^ U* 



— 162 — 

prender, e nSo aquiesceo aos pedidos d'ElRd 
de Portugal para a sua soltura (200). 

An, i4do Tratado de ]ig;a entre Haximiliano I, Rei 

Setem- 

broii dos Romanos, e Henrique YII de Inglaterra 
contra Carlos VIII, Rei de Franca. 

]No art. XI d'este tratado se estipulou que 
nelle, bem como nas negociações, que d'elle 
se seguissem, serião comprehendidos. o Impe* 
rador d'Allemanha, ElRei e Rainha deCastelIa^ 
e de Leão com seu filho primogénito, ElRei dtf 
Dinamarca , de Noruega, de Portugal^ os Elei* 
tores e Pfincipes do Império, e a Duqueza de 
BretanmK> se assim o declarassem os sobreditos 
alliados(201). 

Aa. 1492 Havendo ElRei D. João II neste anno enviado 
o Commendador Mór d'Avíz D. Pedro da. Silva 
em embaixada a Roma por occasião da morte 
do Papa Innocencio VII a comprimenÉjHT} e dar 
em seu nome obediência a seu successor 
Alexandre VI, sabendo que Carlos VIII , Rei 
de França, marchava sobre a Itália, encom- 
menda particularmente ao sobredito seu Em- 



(200) Ruy de Pina , Chron., p. 61 . — Mas este Chronista não 
citando as fontes, não podemos deparar com os documentos 
e transacções que houverão a este respeito entre Portugal, • 
França. 

(201) Rymer, Fcedera, etc, T. 13, p. 397. Frédéric Léo* 
nard, Recueil, T. 1, p. 332. Dumont, Gorps Diplom. , T.3| 
P.2,p.254. 



^ 1Ç3 — 

baíxaidop de se oSo apresentar na Cúria ^ aem 
ter primtnro visitado da sua parte aquelle 
Monainduif fiivendo-lhe offerecímento de todas 
as suag fidp^ para o que fosse mister, com o 
presuposto de que com este offerecimento 
acreditarii^ o Gabinete hespanhol que era sua 
tenqao ajudar a £lllei de França : com esta 
meamil politica fez no decurso do mesmo anuo 
Ufvre^tar uma gr«uide armada, guarnecida de 
genbeeaçolbidai destinada para o MediterraneO| 
ciyo Gommando deo ao Almirante Álvaro da 
CRinha. Entre os vasos d'essa armada ia a náo 
de mi] toqnalladas que havia mandado con- 
struir, e que era a maior de quantas naquelle 
tempo çriizavãQ os mares conhecidos (202). 

Manda ElRei D. João II a Vasco da Gama An. 1492 
tomar dés náos de França, que se achavão em 
Lisboa carradas de fazendas, em represália 
d'uma earavella da Mina com muito ouro, que 
os Franceses, estando em paz, lhe haviao to-n 
mado(203). 

Tratado de paz entre ElRei de França e El- ad. i4m 
Rei d'Inglaterra, celebrado em Estaples, sendo ^^" '^ 
Plflttipotenciarios por parte d'ElRei de França 



(202) Faria e Castro, Hist. ger. de Portugal, T. 8, lir. 31, 
p. 195, 

(203) GcurcUt de Remade, foi. 86, cap. 155. 



— 164 — 

Philippe de CrevecoBur de Cordes^ Rodòlphode" 
Launay, Luiz de Crequi e João d'AuflFay, e por . 
parte d'£IRei d'Ing1aterra Ricardo Balthen e 
Villon, Egidio d'Aubney, ChristovSo Rosvil> 
e Henrique Armesweth. 

Noart. XIId'este tratado se estipulou seriSo 
igualmente comprehendidos osalliádosde am* 
bas as Altas Partes contratantes, que por ellas 
ali fossem expressamente nomeados; a saber^ 
por parte d'ElRei de França o Imperador d'Al- 
lemanha com os Eleitores^ EIRei de Gastclla. 
d'Aragao^ de Escossia, de Bohemia^ de Napole^ 
de Portugal e de Navarra j os Duques de Ba- 
viera^ de Sabóia, de Milão, Lotharingia e Guel- 
dres, e as Republicas de Veneza, Florença, 
Génova, e os mais que EIRei de França ei^pres- 
samente declarasse ; e por parte d'ElRei d'In- 
glaterra o Rei dos Romanos eseu filhoPhilippe, 
o Archiduque d' Áustria, EIRei d'Hespanha, EI- 
Rei de Portugal^ de Nápoles, os Duques de Ca- 
lábria, de Ferrara, a Ordem Theutonica, e os 
mais alHados que EIRei de Inglaterra no- 
measse (204). 



* • 

1193 



Nesta época vem a Portugal Reinaldo, BlHk^ 
^*^" de Longuy, de Chulan, do Conselho d' 

de França, oíFerecer-se a EIRei D. JoSo^.^j 




(204) Mss. da Bibiiotheca Real de Pi^riz , Ck>d. 8,d57-9, p. 408 

412. -^"í^^ '>»r 



a 412. 

• 4 



— 165 — 

para ir servir em Africa com 300 lanças , o que 
EIRei acceitou, e lhe agradece, nomeando-o 
Conde de Gasa em Africa^, com 2,000 dobras 
d'assentamento cada anno (205). 



c. 



Continua EIRei D. João II a conservarw-se ^- *<»* 
em boa intelligencia com Carlos YIII Rei de 
França, o qual tanto se lisongeáva com a amizade 
do monareha Portuguez, que altamente dizia, 
nada receava da liga que contra elle íaziao os 
outros Príncipes, se por si tivesse a EIRei D. 
João, Pretendem os Reis d'Hespanha,por emis- 
sários occultos , atrahir EIRei ao seu partido e 
liga, e nSo o conscguen^; porque D. JcAo^^-«^ 
mantendo sempre com EIRei de França jfjf, ^ ' 
mesmas relações, tomou o arbitrio de mandaÉ- 
á Hespanha Estevão Vaz com uma resposta 
vaga, e concebida em termos taes, que nem se 
empenhasse com EIRei d'Hespanha, nem de 
todo lhe fizesse perder as esperanças, com as 
quaes veio no anno seguinte a tratar do 
mesmo negocio o Embaixador Conde de CS- 
fuentes (206). 



(205) Resende, foi. 99, cap. 168. 
Rny de Pina, p. 180. 

Souza , ProT. da HUt. gen. da CaM R. de Portugal^ T. 1, 
p. 327. 
(306) Hist. ger. de Portugal por Faria e Castro, T. 8, liv. 21. 
Plde T. 1 d'ede Quadro Elementar, seoç. XV, p. 394, 
iobre a Emhaíiadâ d«D« AkNDio da Silra, e T. 2 « p* 2. 



— 166 — 

An. 1495 GáMa Patente d'EIRei D. João II passada em 
Évora em favor de seu primo, Philippe de 
Cleves y Sétihor de Revastin^ d'uma tenqa an-> 
nual de quatrocentos mil reaes brancoSi moeda 
d'aque]le tempo^ a qual tença lhe seria paga em 
dia d« S» João Baptista a contar do d'aquelle 
anilo èni diante pelos vedores de sua fazenda^ 
aos quaes manda heyão de assentar nos livros 
d^ella^ e pagál-^a ponctualmente na época deter- 
minada (207). 

RBIHADO 90 SEflHOR REI D. M AffOEL. 

4g>M9> Pl^nd poder d'ElRei D. Manoel , e da Rainha 
'%. Irabel para a celebração do Tratado de Mar^ 
toussis de 5 d'Agosto do mesmo anno. 

Depois do preambulo do estylo, se diz neste 
documento 9 que por quanto entre ElÊLei D. 
Fernando^ é a Rainha Gatholica Dona Izabel 
d'uma parte> e EIRei Luiu XII de França d'outra| 
tinhSo havido algumas práticas e conferencias 
pOt* via de âôus embaixadores ^ para virem á 
paz e amizade^ e os ditos Rei e Rainha de Ca^ 
tella tivessem enviado seus embaixadores ao 
mencionado Rei de França com poderes pàfà 
em seu nome^ e no de seus successores, faze- 
rem e assentarem paz final e perpetua amizade 
éotn ellé, e dévefidô EIRei D. Manoel é sua 



'•' ' ' - ~ • -"-' -'^-« - 



(207} Sditiã, f^fòtM dA ttírt. geiftaiòg., f. 1^ p; 44!; 



^ ^ 



— 167 — 

mulher a Rainha Dona Izabel^ como principed 
herdeiros dos reinos de Gastella, Leão, Aragão 
e Sicilia, firmar também o sobredito tratado de 
paz e d'amizade^ fazendo grande fundamento 
na prudência e fidelidade de D. Âfibnso da 
Silva, Claveiro da Ordem de Galatrava^ de 
Frey António da Penha, Fernan Duque d'Es- 
trada, e do Doutor Martim Fernandes, embaixa- 
dores d'ElRei e Rainha de Castella, junto a El- 
Rei de França, hao por bem outorgar-lhes 
todo o poder e faculdade plena e inteira, 
creando-os e instituindo-os seus legitimos e 
bastantes procuradores e embaixadores pela 
melhor forma que lhe é dado , e que para tal 
caso se requer, de modo que nem a genera- 
lidade derogue a cspeciaHdade , nem esta 
damne áquella , para que pòssão em nome 
d'elles Rei e Rainha de Portugal assentar^ 
fazer e firmar as ditas pazes, e confederação 
e amizade como o sobredito Rei de França, e 
quaesquer outras convenções e ajustes que 
ElRei e Rainha de Gastella houver por bem 
de fazer com o mencionado monarca, po- 
dendo os ditos embaixadores em virtude d'estes 
Poderes outorgar, fazer e assignar quaesquer 
capitulações que em razão das ditas pazes ne- 
cessárias sejão, jurar em sua alma e sobre os 
santos Evangelhos , na certeza de que o dito 
Rei e Rainha, Príncipes herdeiros dos reinos 
de Gastella e d' Aragão, as farão observar e guar- 
dar, e guardario e observarão quanto por 



- % 



^ 168 — 

ellas for estipulado, em razSo dos plenoâ |K>- 
deres que uaquella data lhes hão dado (208). 

An. 149 Estando neste anno era guerra com ElRei de 
Franca Luiz XII , D. Fernando o Catbolico 
manda a Portugal por Embaixador D. AíR>n80 
da Silva ^ sendo o principal objecto d'aquella 
embaixada o convidar ElRei D. Manoel a fazer 
com elle, contra o dito Rei de França, alliança 
de amigos e inimigos. Escusa-se ElRei D. Ma- 
, ^ noel com a boa harmonia^tm que estava com 
ElRci de França , prometteiido comtudo de 
ajudar a ElRei deCastella, se por ventura El- 
Rei de França lhe viesse faaer guerra dentro 
dos reinos de Castelía (209).* 

n. 1498 Tratado de Paz , de Confederação, e d'Al- 
*^' lianca entre Luiz XII Rei de Franca d'uma 
parte, e Fernando e Izabel Rei e Rainha dé 
Castelía e d' Aragão da outra. 

Pelo artigo 1 ° d'este tratado , e em virtude 
d'elle se obriga ElRei de França a auxiliar, se- 
gundo as suas posses, aEíReieaRainha deCas- 
tella em caso de guerra , e pelo líiesmo teor a 
ElRei e Rainha de Portugal, declarados e re- 



(208) Mss. da Biblioth. Real de Pariz, Cod. 64 , foi. 362. 

(209) Góes, Chron. d'ElRei D. Manoel, cap. 19, foi. 14, 
ediç. de 1566. 

f^ide a secç.-XV (Relações' entre Portugal e Hespanha), 
T. 2 , p. 1 . • 



t 






~ 169 — 

conhecidos herdeiros dos ditos soberanos^ e dps * 
reinos de Gastei la e d'Aragão, tendo por ini- 
migos seus os que o fossena d'ElRei e Rainha 
de Castella e de seus successores EIRei eRainha 
de Portugal, exceptuando somente o Sumrao 
Pontífice. E reciprocamente EIRei e Rainha de 
Castella sé compromettem a auxiliar pela me$- 
ma maneira a EIRei de Franca no caso de 
guerra, havendo os inimigos d'elle por seus, 
sem excepção de pessoa, tirando a do Summo 
Pontífice (21 0). 



(210) Frédéric Léonard, T. 1, p. 407. 
Dumont^ Corps Diplom., T. 3, P. 2, p. 397. 
Papeis d^Estado politic. e militar., Hss. da Coroa. 
P^iJe para illustração e intelligencia doeste documento as 
indicações, c documentos que citámos no T. 2 doeste Quadro, 
p. 4 e 5. 

Filippe de Comines, tratando dos infortúnios que aconte- 
cerão no seu tempo á Casa Real de Castella, consagra nas suas 
Memorias algumas paginas curiosas á historia de Portugal doesta 
época, julgámos opportuno transcrevei -as aqui para melhor 
intelligencia das transacrdes diplomáticas d^ella e para mos- 
trarmos como este homem d^Estado não estava bem informado 
do que se passava na Peninsula no seu tempo , offerecendo-nos 
alias mais uma prova das estreitas, e frequentes relações que 
então existião entre Portugal e a Franca : 

€ Encores ne furenl-ils ( os Reis de Castella) point quittes 
» d^avoir eu telles donleurs : car leur fílle aisnée (que plus ili 
» aimoient que tout le monde, après leur flls le prince de 
» Castilhe, qu^ils avoient perdu ) estoit contrainte à se departir 
» d^eux , ayant depuis peu de jours este insponsée avec le roy 
1 de Portugal, appellé Emmanuel, prince jeune, et de non- 
» vcau dcvenn rpy, et iuy estoit a^entie la Cooronne de Por- 
> togai , par le trepaa da Rofdemier mort : lequd craellt- 



•;*•• 






~ 170 — 

^*{J* (Indirecto), — LySo. —Tratado de paz entre 
Luiz XII Rei de França, e Fernando, e Izabel 
Reis de Hespanha, no qual se estipula pelo 
artigo XII, serião nelle comprehehdidos os 
Âlliados de ambas as partes contractantes , 
sendo estes obrigados a notificarem-no no 



ment fít couper la teste au père de sa feimne y et tua le fr&re 
d^elle , depois, fils du dessus dit, et frère ainé de celuy qui 
de present est Roy de Portugal , qu^il a fait vivre en grande 
peur et crainte, et tua son frère de sa main, en disnant avec 
luy, sa femme presente , par envie de faire roy un sien bas- 
tard ; et depuis ces deux cruautez , il vesquit eu grande pear 
et suspícion, et tout après ces deux ezploicts, il perdit son 
senl fils , qui se rompi t le col , en courant sur un genet et 
passant une carriere, comme j*ai dit : et ce fht celuy-Ià qui 
fut le premier mary de cette dame que je dis, qui mainte- 
nant a espousé le Roy de Portugal qui regne ; et ainsi est 
retourné deux fois en Portugal , sage dame et honneste (ce 
dit-on) entre les sages dames du monde. 

9 Ce roy et reyne de Castille , que si glorieusement 

et heureusement avoient vescu jusques environ en Tâge 
quHb sont de cinquante ans tous deux (combien que la 
Reyne avoit deux ans davantage) avoient donné leur filie a 
ce roy de Portugal , pour n^avoir aucun ennemy en Espagne 
quHls tiennent toute , excepté la Navarre, dont ils font ce qoi 
leur plait,et y tiennent quatre des principales places. Aussi 
PaYoient fait pour pacifier du doiiaire de cette dame, et de 
Targent baillé , et pour soubvenir á aucuns Seigneurs da 
Portugal ; car par ce mariage, ces Seigneurs et Chevalien 
qui furent bannis dn pays , quand le Roy mort fít moorir oef 
deux Seigneurs dont j*ai parle , et qui avoient confisque 
lenrs biens, et par ce moyen la confiscation tient de présent 
( conâ>ien que le cas dont ils estoient accusez , estoit de 
Tonloir íaire celuy, que de present regne, roy de Portugal) 
sont récompensèz en Castille , du roy de Castille , et leurs 
térrea lent demeorées à U reyne de Portugal dont je parle i 



.1 ,' 



tetnpo perfixo de três inezes a começai* da data 
do Tratado. 

^ Neste Tratado Portugal foi sem duvida com-- 
prehendido (21 1 ). 

Nesta data expede o Papa Júlio II uma bulia J^^^ 
em resposta ás cartas d'£lRei D. Manoel p tra- ^rS^io 
tátido nesta das discórdias que existiao entre 
O Imperador Maxim iliaqo e ElRei de França 



> mais non obstant telles còhsideratiotis j ces roys èt i*èyiie dtí 
« tastille avoimit grand doilleiír de ce mariage. » 

O Autor falia então do grande ódio qile os Castelha&os tinhSo 
•os Portugueses , e conclue da maneira seguinte : 
' « Toutesfois leurs douleurs passées , ils les ont 

> inenez par toufes les priucipales cites de leurs royantUes , 
t et fait receToir le roy de Portugal pour prince, et leur fílle 
» pour princesse, et pour leur estre roys, aprés leurdecès. 
» Et un peu de reconfort leur est venu : c^est que la diie dame, 
» princesse de Gastille, et reyne de Portugal, a este grosse 

• d*nn enfatit bougéant ; m^is il lenr adrint le double de leurs 
9 douleurs, tt croy qu^ils eussent Tonln que Dieu les eust ostez 

• do- monde : car cette dame, que tant ils aimoient et pri- 

• sòient, tnourut en accouchant de son entani , et croy qu'i] n'y 
% a pas un móis, et nous sommes en oetobre Pàn 1498 ; mais 

• le íils est demeuré vif , du travail duque! elle est morte , et 

• a ttm Gomme le pòre , Emmanuel > (alias Miguel). 
(Comines, Mem. , cap. 24 , liv. 7, p. 215 a 219.— Coll. de 

Wáioijt. 13» prem. série). 
(211) Dnmont, CorpsDiplom. Univ., T. 4, P. 1, p. 27. 
Frédéric L^nard, T. 2, p. 9. 

trio enacMiIrimot araitoalgvn q«a Imí indkaMe a nego- 
ciado, que a este respeito se deréría ter seguido entre Portugal 
ê $È dtiaá partia aontraefauitai , á aaraa idft 



*• -^ 



— 472 -. 

* 

Luiz XII ^ a cujo Soberano tínb a mandado 
gados (212)- 

Vide secç. XVII , Relações de Portugal com 
a Caria ^ e secç. XXIV com o Império. 

ab. i$m Tendo no anno precéllDte o corsário francez 
» Mondragon roubado no mar dos Açores a Job 
Qeimado , Gommandante de um navio porCu-- 
guez^ que vinha da índia , sobre a restituído 
d'aquella presa fez EIRei D. Manoel inúteis re- 
clamações á Corte de França ^ e saben'dj3-se que 
o mesiqo corsário neste an,no armava de novo 
4 navios para ir esperar as náos "da índia na 
sua volta para Portugal / mandou. EIRei em 
consequência sair de Lisboa a Duarte Pacheco 
Pereira com algumas embarcações para o in- 
terceptar na passagem para os Açores | ô que 
conseguio^ encontrando-o neáte dia no cabo de 
Finisterre, e depois de grande peleja o trouxe 
prisioneiro a Lisboa com 3 de seus navios , 
tendo metido outi*o a pique. Foi. posto em li- 
berdade depois de se obrigar a não peleijar 
mais contra os Portuguczes (21 3). 

^tab. isM Nantes. — Nesta data escreve Pedro Gollaeo 

Deieiíi- * 

"»•*• a EIRei D. Manoel , participando-lhe otfmo 



Çt\2) ArcliilroKtlil da Torre do Tombo, Maç. 36 de iBolL^ 
n. 62. . . í 
(213) Geea,€bioÉkâ'£lRei D. Manoel, P. 2, cap. 42 , p. 470. 



% 



— 173 — 

depois que lhe escrevera se passara por cousas 
de seu real serviço á Baixa Bretanha, e fora ter 
a certa abra do mar^ onde moravão os Bretões 
donos do navio , de cuja tomadia tanto se 
queixavão EIRei e Rainha de França, e conta 
como fora mui bem recebido tanto das gentes 
da terra ^ como dos donos do sobredito navio, 
os quaes hayiao com efieito recebido mil cento 
e cincoenta cruzados , porém depois que forão 
vindos os marinheiros os demandavão em Jus- 
tiça por oitocentos cruzados em razão das 
perdas^ que diziao tinhâo experimentado com 
aquella tomadia ; que elle Pedro Collaço lhes 
offcrecêr a oitenta, pagos em Bordeos a 20 de 
Fevereiro, poi* cuja quantia se comprometerão 
os ditos marinheiros de dar quitação aos Offí- 
ciaes portuguezes de todas as despezas, perdas, 
c damnos, que na sobredita tomadia experi- 
mentarão; que também em nome d'£IR6i 
D. Manoel lhes havia assegurado, que por 
aquellc motivo se lhes não faria mal nenhum 
em Portugal e seus dominios, c que antes se- 
rião d'ali em diante bem recebidos, de tudo o 
que havia elle Pedro Collaço tirado um ins- 
trumento para mostrar a EIRei e á Rainha de 
França f de cujo instrumento constava se tinha 
elle ali apresentado para responder a quantos 
tivesMiB motivoa de queixa contra ÇlRei de 
n>rtugal e seus adMttfts. Díz-lhe mais%ie pelo 
qoè dii rebito éft.ècMitas de Berfolomeu, o 
Chanodltf de Fraa^ Wvm decidido que devia 



I 



^ 174 - . . 

■ i 

primeiro pccorrer á^ Justii^aftde PortQgftI> d^ 
caso lhe não deferissem copio cumpria» eptao 
convinha appellar para as de França; assim 
que estando a causa pendente qos Tribunáes 
portugueses/ se abstivera de insistir naquellç 
particular y contentando-se com dizer que 
nao era razão se embargasse fazenda alguma 
portugueza, sem se ver se havia ou naojustiça. 
Ao que lhe foi respondido que a embargavão 
como pertencendo a um Florentino, e que elle 
lhes tornara que pertencia a um súbdito de 
PcH:»tugal e não de Florença ; entretanto que 
ficava esperando decisão de Portugal, estando 
bem convencido da injusta pretenção dosFran* 
cezes, os quaes tendo sido tomados n'uma 
ilha pertencente a Portugal, muita graça e 
mercê se lhes havia feito em se lhes nãp fazer mais 
mal , assim que sobre aquelle assumpto nao- 
haveria grande debate. Accrescenta o dito Pedro 
Gollaço, que achando-se em Nantes vierão ter 
com elle certos Escossezes que ali andayao 
demandando, por haverem sabido era elle 
Commissario e Procurador d'£lRei de Portu- 
gal , e dÍ8serão-lhe que ElRei d'Escossia havia, 
concedido cartas de marca contra os vassallos 
de Portugal, o que muito os descontentara, e 
rogárão-l^e houvesse de escrever a £lRei de 
Portugal pai'a que houvesse de dar a isto pro* 
videnfsuiri 6 disserão-lbe mais que o motiva 
porque SlRei d'£8co8sÍAa9 i^olvéra a dar um 
tál passd fôra por nSaitf ivcebido respc^l^^#. 



■ I 



.^ 



Jf 



certa reclamado qucf OMâdár» íkter a ElRél 
de Portugal em favor de alguns de seus Vas« 
sallos, e que sobre tudo isto esperaya as oom« 
petentes instrucções (214). 

Yalhadolid. — Nesta data EIRei D. Fernando An. isio 
o Catholico escreve a EIRei D. Manoel , parti* a 
cipando-lhe que havendo assentado e còncluido * 
com o Imperador, por intervenção d'EIRei de 
França , paz , concoixlía e amizade perpétua , 
para mais livremente se poderem um e outro 
empregar na guerra contra os infiéis, ficando 
pior aquella concórdia pacificadas e concluidas 
as differenças que entre elles havia e podia 
haver sobre o governo dos reinos de Gastei la 
e Aragão , como sobre tudo o mais , havia de- 
clarado ao Imperador, e feito comprehender 
na dita concórdia e tratado.de paz a EIRei 
D. Manoel, em razão do estreito parentesco que 
com elle o vinculava. Do que lhe parecia in- 
dispensável dar-lhe conhecimento (216). 

Nesta data escreve João da Silveira^ Em.» An. isio 
baixador de Portugal em França, a EIRei 



(314) AfcfaiTo Real da Torre do Tombo, Corp. €lm«i., P. 1, 
maç. 8 , doe. 59. 

(215) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. GbroD»! P. i| 
maç. 8 , doe. 66. 

Este doetimento Tem rapprir a falta que se p<$de notar A 
p. 18 do T. 3 4'efÉt QwAe^MMnlMr^ seejIoXV. 




: — 176 — 

D. Manoel y participando-lhe o que passárt 
com EIRei de França sobre a jornada de JoSo 
Bodim, relativamente aos negócios entre as 
duas nações. 

Participa o Embaixador a EIRei como no 
ultimo de Abril EIRei de Franca o tomara á 
parte e lhe dissera tivera recado de Honorato 
« acerca da alliança que EIRei de Portugal en- 
tendia assentar com elle Rei de França^ e que 
não tardaria que elle João da Silveira recebesse 
instrucções mais largas , as quaes EIRei de 
Portugal ficava para mandar por uni ci 
seu do appellido de Carvalho ; como logo no 
guintedía lhe mandara faltarem Passy, onde 
estava aposentado por um chamado Bodim, o 
qual lhe dera mais largas informações acerca 
d'aquelle negocio. Que passados alguns dias^ em 
10 d'aquelle mez de Maio lhe dissera EIRei de 
Franca escrevesse elle João da Silveira a EIRei 
de Portugal, o que já lhe havia dito acerca das 
allianças, e que estava esperando pela chegada 
do Carvalho que devia trazer as instiniccões, e 
fc^ f^ que em qUanto aos outros negócios, em que elle 

/ João da Silveira lhe fallára , não parecia razão 

que elle Rei de França não olhasse também 
por suas cousas, e de seu governo, e as soltasse 
por aquella maneira , mas se a projectada al- 
liança se viesse a effeituar, elle mostraria a EI- 
Rei de Portugal quão bom parente e amigo 
era, Accrescenta o Embaixador que o mesmo 

Ibe asseverara a Eainha wii » dixendo-lbe ^u« 



-m- ^ 

lago que Ote dkegasseiiLas instrueçSes tudo se 
acabaria^ e que tanto ella comoElReideFraíiça 
lhe faziao grandes honras^ sendo grandissimo 
o alvoroço que havia na Gdrte por occasião da ^ 
esperada alliança (216). 

Nesta época rompendo-se a euerra entre EU An. isu 

Maio 31 

Rei de Franca Luiz XII , e ElRei D. Fernando * 

o Catholico^ escreve este a ElRei D. Manoel, 

fazendo-lh'o saber, e convidando-o a entrar na 

liga que com o Papa, o Imperador, c os Suissos 

havia feito contra ElRci de França. Escusa-se 

ElRei D. Manoel com a alliança que subsistia 

entre as Coroas de Portugal e de França, e com 

a boa harmonia que entre elle e ElRei de 

França reinava (217). 

Veja-se a Secç. XV, das Relações entre Por^ 
tugal e Hespanha, T. 1 1 , p. 19. 

Apportao em Lisboa seis galés de França, An. isa 
capitaneadas por Pêro João , a quem ElRei de^ttaío 
D. Manoel fez muita honra, mandando-lhe ^ '\^.% 

dar os mantimentos de que necessitaria sem 
os quaes nao poderia seguir sua viagem por 



(216) ArchiTO Real da T<Mrre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
Maç. 9, Doe. 6. 

(217) Damião de Góes, Ghron. d'£lRei D. Manoel, P. 5, 
cap. 23, foi. 49, ediç. de 16$6. 



— 178 — 

viretn às ditas galeras desbaratadas do caml-* 
nho (218). 

An. isíi Intenta Luiz XII , Rei de França , convocar 
um Concilio para depor o Papa Júlio II 3^ e 
convida para isso a ElRei D. Manoel, o qual 
recusa de entrar n'ura projecto de que podia 
resultar um cisma (21 9). 

An.^i5i3 Blois. — Carta de Jacome Monteiro a EÍRei 
D. Manoel . 

Nesta data participa Jacome Monteiro a El- 
Rei D. Manoel^ como o D' Diogo de Gouvea 
partira para Ruão , munido das provisões ne- 
cessárias para tratar da cobrança do ouro que 
havia sido tomado pelos Francezes, o qual ^ 
segundo acabava de lhe escrever, havia já 
pela mór parte em seu poder, excepto oito 
onças que em breve esperava cobrar j que elle 
Jacome Monteiro o ajudaria em tudo quanto 
comprisse ao serviço d'ElRei, como o estava 
fazendo a António Nunes, criado d'ElRei, que 
se achava ali tratando alguns negócios (220), 

r 

▲a. isit O Papa LeSo X, em um Breve que dirigio 

* broiej 



1 ( (218) DamUk) âe Góes, Ghron. d'EIRei D. Manoel , K 3, 

cap. 23, foi. 48. 
; (J19) Ganiier, Hist. de France» T, 22, p. 805. 

(220) ArchÍTo Real, Corp. Chxtm., P, 1, maç. tS, doe. 84. 



— 479 — 

nesta data a ElRei D. Manoel ^ louva muito 
este Soberano por ter estranhado as discórdias 
e guerras que havia entre os Principes chris- 
taos^ e lhe pede que o ajude mandando Em- 
baixadores a ElRei de França paca o mesmo 
effeito(221). 

Vide Secç. XVI, Portugal e Roma. 

Nesta data participa ElRei de Castella a El- ^Vu «í 
Rei D. Manoel, como por sua intervenção, se 
havia concluido uma tregoa de um anno entre 
o Imperador, a Rainha de Castella, ElRei de 
Inglaterra e o Príncipe de Castella d'uma parte, 
e da outra ElRei de França e deEscossia, tanto 
por terra, como por mar, comprehendendo-se 
expressamente naquelle ajuste o Duque e du- 
cado de Milão ; promettendo o Imperador e os 
Venezianos de sujeitarem á decisão do Santo 
Padre as di£Perenças que entre elles havia , o 
qual a final concluíra entre elles paz, cujos 
artigos elle Rei de Castella fizera com que o 
Imperador e os Venezianos ratificassem; de 
maneira que por aquella concórdia ficava toda 
a Europa pacificada. 

Pela mesma occasiSo dá ElRei de Castella a 
ElRei D. Manoel os parabéns pelas insignes 
victorias que contra os infiéis havia alcançado 
nas partes do Mar Roxo, exaltando com muitos 



(221) AtcUtoRmI , mq. M ^ BoIIm , n. h 



louvore3 o -zelo em que se abrazava pela pro- 
pagação da fé (222). 

s Nesta época, Francisco I é coroado Rei de 
França e sagrado a 25 d'este mez (223). Todos 
os Embaixadores das diversas Potencias da 
Europa assistem a esta ceremonia (224), e entre 
estes o Embaixador d'EIUci D. Manoel ile Por- 
tugal (225). 

i Nesta época Dieppe fazia algum commcrcio 
com Portugal (220). 



(22!) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp, Chron,, P, I. 
mȍ. ih, doe. 17. 

nde secrao XV ( Rela^aes entre Portugal e Hespoitlia ) , 
T.2,p.!l. 

(333) Journal de Louise da SaTde . p. 396 , T. 16 da CoUecç. 
de Pelitot. Du BtlUy, nas Uemorios contcmporueu, diz que 
fura em 35 de Jaiicíi-o de 1514 [velhu estilo). 

(!3<) Robert ni de La Marck, Senhor de Fleuronge, na soa 
fíítteire dei Chotet Jtfímonibltf adveniiei du regne de LouU XII 
et Françoii I", dií (cap, -f 7, p. 37G, CoUecC- Petitot, T, IG) 
quando trato da coroação de Franciseo I, • el croÍ gue íoule la 
ckréluntijraeail ••mbnttadcurs. ■ Este outor nasceo em lOÍ , 
ou 1493. 

I23ã} O autor que cííiIitios cm a noia precedente , nSo dis o 
'Vome dos Embaixadores. Em nosso entender devia ser pravft- 
■velmenle Pedro Corrêa da Atouguia. 

(326) Let Faili de la Marine et Narigaigei, pnr Ic capitaine 
Anioino de ConOans ( Hss. da Bíblioth. R. de Paríz, Cod. / 1 68- 
■ 3.1-A, publicado pela primeira Tez por M. Jal em uma brochura 

intitulada : Documenli inédili tur íkitíoire de la Marine aa 
Xl^l'iiiclei Paria, 1842, p.3G]. 
, Este doeiímenlo augmenta o niunero das provas que produ- 



r» 



— 181 — 

Tratado de paz e de mutua amizade entre An. isií 
Francisco I, Rei de Fraura, d'unia parte, e 
Henrique YIH de Inglaterra d'outra. 

Pio art. XXIV do mencionado Tratado se 
declarou serião nelle comprcliendidos os ami- 
gos e alliados d'ambas as altas partes contrac- 
tantes que nelle fossem expressamente nomea- 
das, a saber por parte d'ElRei de França o Papa 
Leão X, o Imperador, os Reis Je Hungria, 



timos em a doma obn : Beeherchei lur la Dicouverte ãe paj-í 
liluii lur la cite oeeidrntaU d\4frique , pois vem cocHrmar os 
faclos csUbelenJoB no S XIX , pi inci palmei) le a p. 350, do que 
diria EIKci D. Joio tU nas instruccnt-s passadas a D. Francisco 
de Lima em (i deDeiembrodc 1 jU, a saber que havia nmi 
poucos annos que os Francczestiavjjo começado afazer viagem 
tlandesllnas dirígiodo-se ú Gaiaé. Conllaos aulor d'cste Quadro 
do estado da marinha no seu tempo , islo.é nos flns do reinado 
de Lui> XU, e primeiros «nnos do goveniu do Vt 
deacrevenilo meadaiiiente os paiies maritÍDioe, i 
qao fatião, fnllaudo de Dieppe e de outroa poitos de França, 
não diz uma sò palavrn de que os Ngrjnaiidoa navegassem então 
para as poMessnc* d^Africa posauidas pela Corda de rortu^al , 
isto c alem do Cabo Bojador; pelo contrario este oITicial Kini- 
mnmonleínslruiclodiíifallandodn marinha portu^ueza: • IJue 
rorlugnl lem grandes navios, como os de Normandia, ou de 
r.uyaniiB, que navegAo parn Calecut c Cuinc, c para as terras 
novas ( aax lerr<t ntufi/n) , e para outras ilhas descoberlu (M 
Antilhas) . c ipio tinha 1'ortugal um grande numero dq cara- 
velas que iSo is ilhas da Madeira, Canárias, Açores, c ás outras 
ilhas; «i ã leule U gnnde coilc d'.ífrigue [c a Ioda a grande 
costa d' Africa). liid.y p. 38. 

É pois evidente qne se no tempo d'este «ntor, um doi homens 
mais inslniidos|iiB«cauMS marilinias d'aqaella epoea, ocFran- 
ceies navegaasem para Cniné , cUe uio deixaria do meDciooar 
esta importante circiunslancia. ^ 



( 




— 182 — 

Escossia^ Portugal j Dinamarca e Navarra, os 
Duques de Saboya, de Gueldres, e mais alguns 
outros ; e por parte d'£lRei d'Inglaterra o 
Summo Pontífice, o Imperador, o Príncipe 
Carlos, a Archiduqueza d' Áustria, e outros (227). 

An. 1516 Nesta data Ruy Fernandez, Embaixador de 
Portugal em Bruxellas, escreve a ElReí D. Ma^ 
noel dando-lhe conta de diversos negócios que 
dizíâo relação a Castella; vindo a fallar dos 
de França, participa-lhe como Chievres e o 
Chanceller de Castella , eriío partidos para se 
juntarem nas raias do reino com o Chanceller 
de França e o Grão Mestre para fazerem os 
^iPÉpontamentos da paz , a qual era para esperar 
'^)ie verificasse , pela boa vontade que tinhão os 
negociadores, e também porque ElRei deFrança 
havia de consentir nella , afim de que se nSo 
desse passagem a EIRei de Inglaterra, que a re- 
queria com instancia , sobre tudo não tendo 
saído bem da gente que mandara sobre a Na- 
varra, nem da armada que aprestara para 
Nápoles, a qual lhe foi mister desfazer. Que o 
Imperador devia também de entrar na dita 
paz, sem o que EIRei de França a nSo assi- 
gnaria (228). 



(227) Rymer, Foedera, etc., T. 13, p. 476. 
Frédéríc Léonard, T. 2, p. 129. 
Bumont, Corps IHplom., T. 4, P. 1, p^ 204. 

(228) Ârchiyo Real da Torre do TombOi €orp. Ghron., P. 1 , 
maçfe 17, doe. 120. 



— 183 -- 

Manda neste auno Francisco I, Rei di|França> An. i5i« 
o Senhor de Langeac como Embaixadoiía Por- 
tugal aElRei D. Manoel, com mui prazenteiras 
cartas^ pelas quaes lhe pedia houvesse de entrar 
com elle e mais alguns príncipes na liga que 
para destruição de outros intentarão fazer. 
Responde-lhe ElRei D. Manoel^ que muito fol- 
gava com a boa vontade que lhe mostrava El- 
Rei de França, por quem , salvo a religião^ e o 
dever de Rei, o mais tudo sacrificaria; porem 
que aborrecia do coração o ver guerrear chris- 
taos contra christãos; que seu propósito era 
acabar com os Sarracenos , e que no entanto 
desejava gozassem os Príncipes christãos de 
paz da consciência^ união dos coraçõeS| e aug- 
mento em todos os seus bens (229). 

Lyao. — Instrucçoes de Francisco I, Rei de ^^^U^J 
França, para o Tratado de Noyon. 

No Artigo XLiy doestas Instrucçoes encom- 
menda o Monarca Francez a seus Embaixa- 
dores que, se por parte d'ElRei d'Hespanha lhes 
estranhassem as praticas que elle Rei de França 
havia tido em Roma , Veneza e Portugal para 
recobrar o Reino de Nápoles , respondessem 



(229) Osório. — I>e Rebiu gestis, etc., liv. 10, foi. 293; 
Golonha, 1681. 

Góes, Chron. (TElRei D. Manoel, P^ 4, Oâp. 4, p. 379. 

Qaa0i pelo me0iao tempo TierSo e PgrtPgel três Senhores 
Polacos mofidos do desejo de Ter um tfo grande Rei. Jbid. 



Agost.iS 



— 184 — 

que naquillo nSo fizera elle Rei de França cousa 
que nSò devesse fazer para a conservação de 
seus direitos, havendo prudentemente tratado 
de concluir aquelle negocio amigavelmente 
afira de evitar a effusão de sangue (230). 

An. 1S16 Tratado de paz entre Francisco I* Rei de 
França e Carlos Rei de Castella, e do casamento 
de Madama Luiza de França , filha do dito Rei 
de França, com o mencionado Rei de Gastella. 
No qual em o Art. III foi estipulado que 
nelle se deviSo coraprehender os araigos, al- 
liadoSy e confederados de cada uma das partes 
contratantes , sendo os que por parte d'ElRei 
Christianissimo então forao declarados o Sum- 
mo Pontífice, o Imperador e os Eleitores, El- 
Rei d'Escossia e de Hungria, os Duques de Sa- 
bóia, de Lorrena, de Gueldres, os 8 cantões 
ligados que se tinhao alliai^o com a França, a 
Liga chamada Grisa, a Senhoria de Veneza, 
Florença, Luca, o Marquez de Monserrate, 
de Saluces, o Rispo de Liege e o Senhor de Se- 
dan; e por parte d'ElRei Catholico o Papa, o 
Imperador, Eleitores e Principes do Santo Im- 
pério, ElRei de Hungria, de Bohemia, de Di- 
namarca, de Inglaterra e de Portugal^ os Du- 



(230) Mm. da Bibliottieca Real de Pariz, n. 8410.— Bonrdèl,. 
Histoire de Fhungoia I**, M. 36. 

FuU fleo(. Z¥, T. 2 d'eate Quadro Element. Snpplem., 
p. 405* ... 



— 185 — 

quês de Lorrena^ Saboya^ Saxe, Gleves, Juliers 
Brunswich ^ o Marqpiez de Bade , o Bispo de 
Cambraia e alguns outros que declararão que- 
riao ser contemplados em o mencionado tra- 
tado (231). 

Nesta data escreve Pedro Corrêa Embaixador An. isit 
de Portugal em Castella a ElRei D. Manoel, *ís'* 
participando-lhe como nao chegara aBruxellas 
senão pelo Natal, em razão da detença que não 
pudera deixar de fazer com ElRei de França , 
e como por lhe ter ficado a bagagem a bordo 
d'um navio que ainda não era chegado, levara 
alguns dias a refazer-se do necessário, de sorte 
que não entrara na corte senão em 8 do mez 
que corria ; que ali fora visitado de muitos fi- 
dalgos hespanhoes e flamengos; que não fat- 
iara ainda a ElRei de Castella, o qual lhe man- 
dava dizer todos os dias se n8o agastasse 
com isso porqueo Senhor Chievres e o Ghancel- 
ler esta vão indispostos de saúde, e que logo que 
podessem ir ao paço lh'o mandaria dizer : Que 
por algumas pessoas queo tinhão vindo visitar 
havia sabido que o casamento do Príncipe D. 
João com a Infanta D. Leonor era desejado de 
todos, que esta vão contentíssimos com a vinda 



(231) Frédéríc Léonard, T. 2, p. 138. 
Damont , Corps Diplom., T. 4, P. 1, p» 224. 
Biblíoth. Real de Paríi , e«M dot Ibi., Cod. 9,722, p. 107. 
Fide , para a Hiftoria', Heeno , p. 22 ^i?, 2^ égick. 



■Hk 



"v 



— 486 — 

<l'eMc Embaixador, e que outro tanto lhe aífip- 
niára CliristovSo de Barroso, com quem etit 
havia fallado do niodocom que ElRei lh'o eo- 
coiDiueiidára, assegurando todavia tanto o dito 
Christovão, como os mais , que se elle naquíllo 
iiào fallasse , que da parte d'EIRei de Casteila 
iiiiiguera lhe tocaria, por ser entre elles desai- 
roso o comnietlercm as mulheres os hoineusj 
o que não obstante, observa o dito Embaixador 
A ElRei, que não tome por cousa certa o que 
enlào lhe escrevia, e accresccnta que quantos 
com cllc fallavão tinhSo por cousa impossível 
o easoaiento cora França, e rião-se como de 
cousa que não era verdade; mas que ao certo 
elle eslava capitulado, e jurado com graves 
penas sobre aquelle que se i'etractasse; que 
toilaviaaquelle ajuste fóra feito tSo em s^redo 
que ninguém o sabia senão Chievres e o Chan- 
celler; que poiíjm o povo, a quem nada se 
occulta, dizia que ElRci de França dava era 
dote o ilireito que tinha ao reino de Nápoles, 
com condição que desde então até sua filha 
completar doze annos, EIRci de Casteila lhe 
.havia de pagar cada anuo mil dobras, e que 
deixará de o fazer em se fazendo o casameoto 
por palavras de presente, iicando porém res- 
guardado a ElRei de França que se o de Cas- 
teila n5o ouver filhas d'aquelle consorcio, re- 
verterá á coroa de França o direito ao Senhorio 
deNapoleHjquetambem se dizia que no mesmo 
aju»te||%^'£lfiei de Franca i^equerido que o 



— 187 — 

reino de Navarra tornasse ao- filho do defunto 
Rei d'ella^ que elle trazia em sua corte com es- 
tadoenome de príncipe^ e que o casassem com 
a Infanta que estava em Castella^ obrigando- 
se somente a propôl-o em seu conselho; que as 
cem mil dobras que EIReí de Castella havia de 
pagar a El Rei- de França em quanto o casa«- 
mento não fosse feito^ dizia-se que as havia de 
haver o Imperador por consentir no dito ca- 
samentOy e na paz que com elle se fizera ; que 
também lhe havião affirmado , que os gover- 
nadores de Castella se deixa vSo peitar, e que 
ElRei de França o fazia tao descubértamente 
que os dias passados, em som de lhes fazer mercê 
em razão da paz que havião assentado, lhes 
mandara baixellas de prata em que entravão 
peças douradas , e que aquella e outras peitas ^ 

andavão correntes entre aquella gente e de 
praça; tanto assim que uma pessoa de autori- 
dade, que se inculcava a elle Embaixador por 
mui zeloso do serviço d'EiRei, lhe havia dito, W 

que praticando com o Imperador sobre o casa- 
mento de suas netas com os filhos d'ElRei, lhe 
dissera aquelle que muito desejava se effiei- 
tuassem, e que seria bom que ElRei de Portu- 
gal desse trinta mil cruzados a Ckievres para 
consentir nisso. Que o Imperador estava para 
partir para Gambray para se ir ver com ElRei 
de França, e dar mais assento ás pazes em que 
também entrava ElBei de Inglaterra; como 
podia ElRei seu amo ver pela caiiinAldReà de 



— 188 — 

Castella que lhe enviava juntamente com a res- 
posta da visita que fizera a EIRei e Rainha de 
França, de quem recebera muita honra e aga- 
salho, em quanto ali estivera (232). 

An. 1517 NestadataescrevendoaElRei D. ManoelPedro 

Feyer. 5 

Corrêa, seu Embaixador em Castella, sobre as 
cousas d'aquelle reino, dá-lhe conta do anda- 
mento das negociações que ali se fazião acerca 
da paz com França, com as quaes andava tudo 
revolto e em que se di^ia havia já consentido o 
Imperador e EIRei de Inglaterra, achando-se 
já nas fronteiras os diversos negociadores, 
para a conclusão d'aquelle negocio (233). 

An. I5IT Nesta data escreve a EIRei D. Manoel o Em- 

Marçoii 

baixador Pedro Corrêa, respondendo aos des- 
pachos de 1 6 de Fevereiro , os iquaes vinhao 
acompanhados de Carta de crença, einstrucçae 
sobre o que elle devia dizer a EIRei de Castella 
concernente á communicação que por um Breve 
havia feito o Papa das victorias alcançadas pe- 
los Turcos, que por então nao podia pôr em 
pratica o que na dita Instrucçao lhe era orde- 
nado, porque EIRei de Castella e seu Secretario 
Pedro Ximenes se achavao em Cambray, onde 



(232) Archito Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 21, doe. 12. 

(233) ArchÍTO Real da Torre dó Tombo, €k)rp. Gh^n., P. í, 
maç. 21, doe. 24, 



^ 



— 189 — 

se d^atia o assento das pazes com França y no 
qual havião muitas duvidas; entre tanto ad- 
verte o dito Embaixador que a respeito da liga 
projectada contra o Turco seria acertado que se 
fatiasse com menos calor, do que ElRei D. Ma- 
noel ordenava, porque sobre a dita liga esta*- 
vão mui frios os Gabinetes de Bruxellas, Pariz, 
e Londres, e até mesmo o de Roma, bem. 
que algum tanto menos; que lhe constava 
havia o Papa pedido soccorro contra o Duque 
d'Urbino a ElRei de Castella, e o que mais é m 
ElRei de França , sem embargo das suspeitaé 
que tinha, de ser com o favor do dito Monardbâ 
que o Duque se alçara com as terras da Santa 
Sé ; que no estado em que se achavao as cousas, 
e vista a pouca ou nenhuqoia disposição em que 
se achava ElRei de Castella, e bem assim El- 
Rei de França e de Inglaterra a entrarem com 
calor na sobredita liga, se ElRei D. Manoel 
entrasse nella conforme era ordenado na Ins- 
trucçao, julgar-se-hia que o fazia por seu pro- 
veito particular, assim que, conformar-se hia 
com ella pelo que diz respeito a ElRei de Cas- 
tella , e esperaria novas ordens para fazer a 
mesma participação aos Reis de França e de 
Inglaterra, por não ser aquella formalidade 
de rigor em taes ligas, nas quaes cada um fazia 
o que lhe cumpria; sendo mais que sufficiente 
que ElRei HiAndasse tAtnente dizer que folgara 
muito de ver tinha o Papa nelle tanta con- 
fiança, que o metia em sua confederação, e 



— 190 — 

que outro tanto faria ellc D. Manoel se 
achasse no mesmo caso (234). 



An. 1517 Nesta data António d' Azevedo Coutinho, 
^^^^^ Embaixador de Portugal em Gastella^ parti- 
cipa ao Secretario d'Estado que á excepção dos 
negócios de França todos os mais estavão pa- 
rados j que aquelles pareciao concertados pelos 
Flamengos que formav3o o Conselho d'Estado 
em o qual não erSo admittidos Castelhanos, 
. tirando o Confessor e Dom João Manoel ; cjue 
haviSo chegado correios de França, e era voz 
estavão adiantadas as negociações, sem em^ 
bargo das quaes havião os Francezes tomado 
Génova , e pelo que diz respeito ao negocio, a 
que fora mandado, tudo estava no mesmo ser, 
por estarem quatro legoas distantes d'ElRei de 
Castella as pessoas com quem tinha de tratar 
(235). 

oSíuélí Tratado de liga contra o Turco entre Fràn- 
' cisco I, Rei de França, e Henrique VIII, Rei 
d'Inglaterra, por intervenção do Papa Leão X, 
tratado que foi ao depois approvado e ratifi- 
cado pelo Imperador Carlos V, que nelle en- 



(234) ArchiToRçAl da Torre do Tombo, Corp. Ghron., maç. 21 , 
doe. 56. 

(235) ArchiTo Real da Torre da Tombo, Corp. Ghron., P. 2, 
naç, M, doe. 11« 



troii em virtude d'uma dausiila nella inierta 
em 14 de Janeiro do anno seguinte. 

Em o art. X d'este Tratado se estipulou se« 
riao nellecomprehendidos os alliados e amigos 
de ambas as altas partes coiitractantes^ a saber 
por parte d'£lR^i d'lnglaterra, EIRei de Dina- 
marca, de Hungria, de Portugal^ a Àrchidu- 
queza d'Âustria , o Duque e Senhoria de Ve- 
neza , de Florença e outros , e por parte d'£lRei 
de França , também EIRei de Portugal , d'Es- 
cossia, Hungria, Navarra e outros, e na rati- 
ficação d'este Tratado pelo Imperador em Sa- 
ragoça (14de Janeiro 1519) se tornou a declarar 
ficavão nelle comprehendidos , como se forão 
partes contractantes os alliados e amigos de 
ambos os Soberanos, sendo-o de um e d'outro 
EIRei de Portugal (236). 

Anvers. — Carta de João "Brandão a EIRei D. An. isi9 
Manoel. 

Nesta data escreve João Brandão a EIRei D. 
Manoel , participando-lhe como depois que 
lhe escrevera, por algumas companhias de AI- 
lemaês, que erão tornadas a Flandres, sqpbera 



(236) Frédéric Léonard, T. 2, p. 169. 

Rymer, Foedera, ele., T. 18, p. 264. 

Dmnant, Corps Diplom., T. 4, P. 1 , p. 266. 

BiblioUi. Real de Paris , caaa dos lli»^ Cod. 9,690» foi. 36. 

Extract. e Godic. 9,730, p. 81. 

iV. B, NSo teve effèito este Tratado, em eotuefBencia da 
oerra qae M ailKoo entrt oa Príncipei ciuMIot. 



— 492 — 

que ElRei de França Francisco I eio Imperador 

Carlos V se havião congraçado, e estavao me- 
lhores amigos doqued'antes^ saneados os moti- 
vos de quebra, que entre elles havia; que tam- 
bém se dizia que os Venezianos não haviao 
toitiado villa alguma senão somente a de Pádua, 
onde havião morto um capitão com trezentos 
homens, que ali estavão por parte do Impera- 
dor, o qual em sabendo abalara d'uma viíla 
ao pé de Carmona sobre Pádua, e jurava de çe. 
não ir d'ali, sem a ter metido a ferro e fogo; 9 v 
que com efFeito corria voz que ja era rendida. 
Que também era voz que os Venezianos haviao 
mandado recado ao Papa, dizendo houvesse 
piedade d'elles , que estavão promptos a fazer 
quanto S. Santidade mandasse, ao que, se- 
gundo havião escrito de Roma aelle João Bran- 
dão, havia o Papa respondido, mandando fazer 
uma bandeira, em que estavão pintadas três 
vergas de ferro com este letreiro : « Com estas 
vos tenlio de castigar. » E que quando o Em- 
jiiaixador fora pela resposta, lhe perguntara se 
%abia ler, e como o Embaixador lhe tornasse 
qáeilm, mostrou-lhe o letreiro, dizendo-lhe 
era a resposta que lhe tinha que dar. 

E proseguindo em sua Carta o sobre dito 
João Brandão , diz que o navio escossez que 
roubara um tiavio portuguez se achava em 
Harfleur, de d^onde dizia não havia de partir 
sem ter tomado dúzia e meia d'ellcs, o que 
com effeito faria se lhe não fossem á mão, e 



— 493 — 

que era voz se faziSo em Èscossia grandes 
aprestos contra os Portuguezes. 

E concluindo dá conta a EIRei da venda da 
pimenta^ e manda-lhe os preços correntes dás 
diversas fazendas que se vendião naqucITè 
mercado (237). 

Nesta data escreve o Imperador Carlos V a An. mt 
EIRei D. Manoel, dandò-lhe parte do rompi- 
mento das amizades e allianças que fízera com 
EIRei de França que lhe movera guerra pelas 
partes de Navarra, e que achando-se elle Impe- 
rador ali cm pessoa lhe parecera acertado 
prover ao que era mister, e ir contra o dito 
Rei de França com um tal exercito que con- 
fiava em Deus que não só defenderia o que 
era seu, mas que ofiFenderia a seu inimigo, 
porque apertando-o por uma parte o obrigaria 
a affrouxar do que em outra fazia; o que espe- 
rava conseguir em breve, e tornai^se paM 
Hespanha; que no entretanto havia encom- ' 
mendado a seus Vispreis que juntassem quanta*:* 
gente podessem, e trabalhassem por recobrar o 
reino de Navarra, fazendo por mar e por terra 
a guerra a EIRei de França, pelas muitas 
razões que para isso lhe havia dado, e porque 
pelo Embaixador que na Corte de Lisboa re- 
sidia já a EIRei havia feito sciente de quanto 



(237) Arctivo Real, Corp, Cauron., P. 1, maç. 8, doe. 30. 
III. • 13 



— 194 — 

entre elle Imperador e ElReí de França era 
passado, lhe roga que cm tudo lhe de fé e cre- 
dito, e que sendo requerido por seus Visoreis 
haja de prestar- lhe aquella assistência que era 
• de esperar dos estreitos vinculos que entre 
elles havia (238). 



An. 1S3I O Papa Leão X queixa-se a ElRei D. Malioel 
AiMt.12 j^ Francisco I , Rei de França, e pede a EIRei 



■.*.> 



que a armada que mandara a Saboya por 
casião do casamento da Infanta com o Duque 
de Saboya se unisse á do Imperador Carlos Y 
contra a França (239). 

Vide Secção XVI — Portugal com a Cúria 
de Roma. 

An. 1521 Anfonio de Azevedo Coutinho, Embaixador 
bwH de Portugal em Castella, participa ao Secre- 
tario d'Estado terem os Francezes tomado Gé- 
nova (240). 



Vide Secção XV, T. 2, p. 28. 



(!^S8) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chr(»i.» P. 1, 
naç. 27, doe. 27. 

Fide seeç. XV (HdaçiM ealre Portugal e He^MOiba), 
T. ll,p.28. 
't (2^) AièhitaReal, maç. 30 de Bnll., n. 1 1. 
• '* ' (240) Archivo Real , Corp. Chron. , P. 2, maç, 98, doe. 11 . 






i 



495 -. 



mif^ADO iK> df^moK nei n. loâo ni 



Acoendendo-8e a fpierra aitre o Imperador am. n^ 
Carlos V, e ElRci de França Fraiici800 1, oftFnOH ^^^^ 
cczes que andavSo cruzafido nas costaa d^IIes^ 
panha havendo eneontrado uma náo castelhana 
já dentro dos hmites da costa de Portugal , oa 
porque lhes parecesse que se nSo saberia onde 
fòra encontrada , ou porque tivessem pouco 
respeito aos Portuguez.es e às costas de Por- 
tugal, investirio-na e tomárSo-na : porem en- 
conlrando-os Pcro Botelho, que andava de 
armada naquellas paragens, e informando-se 
do negocio; como lhe parecesse o caso duvi- 
doso, os conduzio ao porto de Lisboa para se 
«lelerminar por Justiça, onde tov^o os Fran- 
cezes condemnados c a presa sequestrada. A 
nova doeste successo tendo sido sabida em 
França , tomárílo as negociações, que ali con- 
duzia o Embaixador João da Silveira, diverso 
rumo, e tendo sido EIRci D. Jo3o injformâdo \ 
por Jacome Monteiro que, com provisões d'El- 
Hei de França solicitava a restituição das fa- 
zendas tomadas aos Portuguezes^ que ElRei 
de França passara novas provisões, mandando 
proceder a sequestro em todas as fazendas por- 
tuguezas, mandou sobreestar a partida de JoXo 
da Silveira , ordenaiMlo4h6 bou veaae de inibr- 
mar-se das particularidailes ^ • mottVM iTa)^ 
quella novidade. Assim que doa n^ociot qm 
levava a seu cafgololo da Sihnriri o rniiet^qm 



— 196 — 

concluio no decurso de nove annos que esteve 
em França foi o de João Verezano Florentino, 
cuja expedição embargou a de mais alguns 
corsários (241 ). 

An. 1522 França. — ^Em consequência da guerra que 
havia entre o Imperador e ElRei de França , os 
Francezes tomarão na costa de Portugal uma 
náo castelhana com oiro do Imperador, forão 
tomados ambos, e conduzidos a Lisboa por 
Pedro Botelho que com mandava a armada por- 
tugueza de guarda costa ^ e aqui a presa foi 
sequestrada, e elles presos, e o negocio rcmet- 
tido á casa da supplieação por mandado d'EI- 
Rei , em que se deu sentença no anno seguinte 
de 1523. 

Chegando estaDOticia a França transtornou 
muito os negócios de Portugal , e foi causa de 
novas aggressões dos Francezes (242). 

ia. 1522 Vem pela segunda vez a Lisboa Honorato de 
Japeiro q^-^j^ ^ gentilhomcm Saboyano, Embaixador 

d'ElRei de Franca. 

« 

Era o abjecto, de que vinha encarregado 

este Embaixador, o mesmo de que fora in- 

r cumbido em outra embaixada, quando ainda 

reinava EIRei D. Manoel j colivem a saber : 



(241) Andrade, Chron. d*ElRei D. JoSom, P. 1, eap; 14,, 
píg. 13e.l4. ' í A 

(242) Androde, Chron., P. í, cap. 14, * '' 



t SÍM 



— 197 ~ 

ajustar o casamento de Madama Carlota, filha 
d'ElRei de França^ Francisco I, com ElRei 
D. João III^ e ;a3emd'isto vinha imcumbido de 
confirmar as pazes^ que entre os dous Monar- 
chás havia ; o que teve logo eflèito, sendo im- 
mediatamente confirmadas , e juradas perante 
o dito Embaixador, o qual se obrigou a que 
EIRei seu amo o mesmo fizesse nas mãos de 
quem EIRei de Portugal determinasse, no 
prazo que assignalasse. Porém nao aconteceo 
o mesmo no que diz respeito ao casamento, 
escusando-se EIRei D. João com a promessa 
que fizera a seu pai de casar primeiro a In- 
fanta D. Izabel, sua irmã; nSo perdeo comtuij^ 
o Embaixador as esperanças e continuou a 
apertar com EIRei sobre o intentado casa- 
mento, do qual só desistio, quando recebeode 
França a participação do fallecimento de Ma- 
dama Carlota (243). 

Nesta data sendo EIRei avisado por alguns An.isn 
Portuguezes que negociavão em França que 
certo Florentino, por noinc João Verezano, se 
havia offerecido a Francisco I, Rei de França, 
para descobrir no Oriente novos reinos, e que 
para esse efiFeito, e para irem povoar o Brazil , 
se faziSo nos portos de Normandia prestes va- 
rias armadas com o favor dos Almirantes das 



é.*' 



(243) Mdrade^ Chrop. dVlRei D. loSo m, P. i , cap. H , 
p. 11. 



— 198 — 

costas de França , e dSssimulaqKo do ditoPran^ 
€isoo I, Juntando-^e a isto a* ifiieixas que em 
Portugal havia pdos damMia ^m se experi- 
mentavSo da parte dos oomrios d'aquella 
ua^o, se determinou a mandar por Embaixa^ 
dor a França a D. João da Silveira ^ sendo a 
substancia da embaixada representar a ElRei 
de França, que pois entre elles nSo havia 
guerra, mas sim paz e amizade, liouvesse de 
mandar dar ordem em seu reino para que ces- 
sassem tantos roubos e damnos , quantos os 
Portuguezes e os Francezes se fazião por mar 
uns aos outros, o que equivalia a uma guerra 
tacita e particular entre os mesmos que em 
publico, e em geral professavao amizade; que 
tudo quanto em os portos de França fosse 
achado tomado aos Portuguezes houvesse de 
mandar restituir-lhes, porque o mesmo elle 
faria a quanto nos porlos de Portugal se en- 
contrasse, tirado aos Francezes. Que pelo 
mesmo teor faria breve c inteira justiça áquel- 
les de seus vassallos que lh'a viessem requerer. 
Levava também cargo o Embaixador de insis- 
tir com ElRei de França que defendesse a seus 
vassallos de armarem contra os lugares da 
conquista de Portugal , nos quaes era defeso 
aos próprios Portuguezes de tratarem e com- 
merciarem. 

Foi o Embaixador bem recebido na Corte 
de Fran^ , mas acerca dos negócios de que ia 
encarregado só obteve d^ElRei respostas iode- 



V 



t* 



— 1*9 — 

terminadas^ líiaid apparented que áecUINras; 
as quaes tendiSo mais a dilatar as n^ociaçSes 
e a entreter tempo que a concluil-as. 

Todavia ao principio respondeo EIRei de 
França a EIRei de Portugal ^ por via de Luiz 
Homem^ que elle muito desejava la conservação 
e augmento das antigas amizades que entre 
elles havia ^ e poucos dias depois mandou so- 
breestar a partida dos navios que para a índia 
se armaySo nos portos de seu reino, dizendo 
que proveria naquclle particular de modo a 
contentar EIRei de Portugal , e nessa confor- 
midade mandou na mesma occasiao passar 
provisões para que se restituisse toda a fazenda 
que se provasse ter sido roubada a EIRei de 
Portugal e a seus súbditos , promettendo de 
dar providencias taes que atalhassem aquelles 
roubos, e os damnos que d*clles provinhao. 
Coni o que se determinou I). João III a mandar 
recolher a Portugal a D. João da Silveira, fi- 
cando em Pariz Pedro Gomes Teixeira para 
proseguir conjuntamente com Mestre Diogo de 
Gouvea no requerimento de alguuias cousas 
de sua fazenda, e assistir aos Portuguczes em 
suas reclamações (244). 

Instrucções -dadas a JoSo da Silveira, Em- An. i.s» 
baixador de Portugal em França, áoci*ca da 



(244) AndrâèD, Ghron. d^ElRei D. Mio m, P. 1 , cap. 13» 
pag. 12 , Tcn. • cap. H» pag* Ih 



— 200 — 

tomadíi ^e os Francezes haviao feito em al- 
guns navios portuguezes ^ e especialmente 
n'uma caravella da Mina. 

Encommenda-se-Ihe que va em direitura e 
com a maior brevidade a Pariz^ e se ali nao 
encontrar ElRei de França, que sé ponha a 
caminhp para onde quer que elle estiver* e lhe 
diga da parte d'ElRei de Portugal , que já seu 
augusto pai lhe havia mandado fallar aobre as 
tomadias feitas por alguns corsários ftincezes 
em navios portuguezes^ e em particular jai^uma 
caravella que voltava da Mina, requerendo- 
Ihe que por comprimento de justiça houvesse 
de mandar que fosse tudo restituido. Que no 
proscguimento d'esta reclamação elle João da 
Silveira se deveria conformar com as instruc- 
coes , que havia levado Jacome Monteiro, com 
quem se devia de entender antes de fallar a 
ElRei de França , e que nao se achando o dito 
Mon tei ro na Corte deveria escrever-lhe, e fazélo 
vir para se informar completamente do estado 
d'aquelle negocio, antes de nelle fallar a ElRei 
de Franca. 

Que se por elle fosse certificado que ElRei 
de França havia deferido, como se esperava, e 
que por virtude de mandados e provisões que 
lhe tivessem sido dadas , o negocio se achava 
em bom andamento, e como ao bem de Por- 
tugal convinha, que nesse caso poderia im- 
mediatamente apresentai^se ante ElRei de 
Franca. 



^ 



s 

£ dir-lhe-hia em nome d'£lRei de Portugal 
que já ElRei D. Manoel seu pai lhe havia en- 
viado Jacome Monteiro para requerer-lhe a 
restituição dos roubos e tomadias , que os cor- ^ ^ 

sarios dos reinos d'£IRei de Franca haviâo 
feito nas costas de Portugal , onde capturarão 
uma caravella da Mina com o valor de quinze 
mil cruzados^ e porque pelo dito Jaoome Mon- 
teiro havia sabido, dera ElRei de Franca as 
'providencias que convinhão por comprimento 
de justiça, e conservação da amizade que entre 
ambas as coroas existia , lhe vinha dar as de- 
vidas graças em nome d'ElRei de Portugal. 

Que pelo mesmo theor se haveria, se, achan- 
do-se ausente o sobredito Monteiro, e occqpado 
em outras cousas do serviço d'EIRei , fosse in- 
formado por outros Portuguezes, residentes 
na Corte, do bom êxito e successo das recla- 
mações por elle feitas. 

Que sendo caso fosse ali o dito Jacome Mon- 
teiro, ou outras pessoas as quaes lhe certifi- 
cassem o máo êxito das ditas reclamações, diria 
nessa hypothese a ElRei de França o quanto 
compria para a conservação da paz , e boa har- 
monia, que entre as duas Coroas subsistiao, 
que mandasse fossem restituidas todas as pre- 
sas feitas em navios portuguezes pelos cor- 
sários francezes, conforme ao que já lhe fora 
requerido por Jacome Monteiro, tanto as de 
que este fizera menção, como as que elle Jc^o 
da Silveira levava por enenta; 



— 202 — 

Que se ElRei de França lhe respondesse^ 
sentira muito que taes cousas tivessem sido 
feitas em navios portuguezes , e que logo que 
por Jacome Monteiro fora 'requerido , havia 
dado as providencias necessárias para se fazer 
justiça^ e restituirem-se as mencionadas to- 
madias; nesse caso^ lhe daria em nome d'El- 
Rei de ftortugal os agradecimentos, conti- 
nuando todavia a requerer quanto comprisse 
pára a total restituição das tomadias eflGec- 
tuadas, com aquella confiança que as provi- 
dencias dadas merecessem. 

Que por caso nenhum se devia ausentar da 
Corte, sendo ali indispensável sua estada para 
segundo as occurrencias requerer a ElReí de 
França quanto comprisse ao serviço de Por- 
tugal. 

Que indo-se as cousas prolongando^ não 
obstante as provisões e outras providencias 
dadas por ElRei de França, nãodeixasse todavia 
de requerer e insistir naquellc particular, em 
quanto nao entendesse que assim ofazem acin- 
temente. 

Que se na pratica que com ElRei de Franca 
tívi^se, aquelle Monardia lhe trouxesse á me- 
moria qúe o fallecido Rei de Portugal nSo era 
amigo de França, pois havia assistido ao Impe- 
rador com dinheiro, poderia clle João da Sil- 
veira replicar-lhe que assim fazendo, nao pu- 
nha ElRei de Portugal o fito em ser contrario 
a ElRei de Fran^/ mas sim eini iôBer o qw 



— afta — 

cumpria A boa amisade que tinha com CSas- 
iella. 

Que as cartas de crença que elle JoSo da 
Silveira levava para a mai d'ElRei de França 
e para o Bastardo de Sabóia as deveria entre- 
gar, dando-Uie conta do objecto porque ali se 
achava, e fazendo por atrahil-os á causa de 
Portugal por serem pessoas que tinhão nõs 
conselhos d'£lRei de França não pequena iii«* 
fluência. 

Que se no proseguimento da dita reclamação 
clle vir que ElRei faz naquelle particular tudo 
quanto pode , haja de lhe pedir que, para 
maior conservação da amizade que sempre 
houve entre os Reis de França e de Portugal , 
seja servido mandar que todos os corsários e 
armadas que se (i^^erem nos diversas portos de 
seus Reinos e Senhorios ^jão obrigados > antes 
de saírem d'clles, a prestar fiança de que nSo 
farão tomadias nem roubos em náos e navios 
pertencentes aos súbditos portuguezes sob pena 
corporal e pecuniária, além de embolsarem 
pela fiança c|ue hão prestado as perdas e dam- 
rios que houverem causado; e quando isso já 
tenha sido |>osto em pratica, ainda assimo de- 
verá requerer para que se cumpra em todo o 
seu rigor (245). 



(246) Archivo Real da Torre ido Tombo, Corp. Chron., P. I, 
maço 27, doe. 103. 

Na data de lá de Fe^erefaro d*M^ aniie éi MU «dfli w 



— 204 — 

An. isn Nesta data dá ElRei de Franca , Francisco I*. 
carta de crença ao Embaixador M. de Gaíx^ 
acreditando-o nesta qualidade junto d'EÍRei 
D. Joaõ m (246). 

An. 1522 Segunda Instruccão dada a João da Silveira, 
Embaixador de Portugal em França, para re- 
clamar iunto a ElRei de Franca a restituição 
das tomadias feitas pelos Francezes em navios 
e fazendas portuguezas. 

Encommenda-se-lhe que, caso por via de 
Jacome Monteiro fosse informado havia ElRei 
de França deferido, como se desejava, e lhe 
fosse pedido por parte do dito Rei de França 
copia, ou traslado da presente Instruccão; 
haja de tao somente communicar o capitulo ou 
artigo, que lhe prescreve o modo por que 
naquella supposição deveria faltar com o men- 
cionado Monarcha. 

Que tendo de fallar-lhe por outra maneira 

por não ter sido Jacome Monteiro despacKádo 

, á satisfação , deveria nesse caso apresentar o 

traslado dos capitulos em que se lhe prescreve 

o como em tal hypothese 'se havia de portar. 

Que caso lhe toquem no negocio das náos , 



Real Archiro da Torre do Tombo, um Rol do dinheiro que o 
Embaixador João. da IJílveira recebeo em França. (Corp. 
Chron., P. í, náaç. 27, doe. Í06.) 

(246) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., F^^l, 
maç. 27) doe. 104. . 



:S#< 






— 205 — 

que d^qj|<> se armavao para a índia, bem 
como para o Brazil^ e Ihç peçâo traslado das 
inistracçSes ^ de que vai munido^ não dê senão 
o do capitulo , que tratar do objecto em que 
lhe fallarem , porque os demais artigos concer- 
nentes ás tomadías sao meramente avisos^ ,e 
lembranças para o proseguimento das recla- 
mações de que ia encarregado (247). 

Nesta época ElRei D. João 111 é convidado ad. ts» 
pelo Imperador, para entrar na Liga contra a *'*** 
França. Carlos V manda para este efleito uma 
embaixada a Portugal. Decidio-se em conse- 
lho que EIRci se negaria a entrar na dita Liga 
contra a Franca em razão de não ter a Corte 
de Portugal motivo para romper com aquella 
Potencia. ElRei D. João III se ofFereceo antes 
para medianeiro entre o Imperador e ElRei de 
França (2A8). 

Vide Secção XXIV — Portugal com o Im^ 
peno. 

Carta de João da Silveira, Embaixador em An. isw 
França, a ElRei D. João III, dando-lhe conta 
do resultado das diligencias que fizera na 
Corte de Pariz para a restituição d'um galeão 



(247) ArchiyoReal da Torre 4o Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
maç. 27, doe. 109. 

(248) Andrade, Chron. de D. Joio m , P. 1 , cap. 15. 
Fide aecç. XV d'e9le Quadro Elem., T. 2, pag. 29. 



"I 



M ' « 



e um» caraTella que o« Francczcs baviao to* 
mado aos Porti^[iieze$. 

ForSo o dito galeSo e caravclla relaxados a 
requerimento do Embaixador acima dito com 
toda a artilharia que tnuôa e varias pecas de 
brocado, e de seda, com o que se tornara para 
Lisboa. Pfelo que diz respeito ás demais fazen- 
das, decidio-se seriao restituidas a seus donos^ 
logo que se provasse serem elles vassallos 
portuguezès , é como , passados alguns dias, se 
justificasse erao as ditas fazendas pertencentes 
a João Francisco, mandou-se por provisão que 
lhe fossem immediatamente entregues, visto 
residir elle nos dominios d'ElRei de Portugal , 
com quem EIRei de França desejava manter a 
antiga amizade que entre ambos os reinos d'ha 
muito existia ; e não obstante esta tão solemne 
declaração, baixou uma segunda provisão 
pela qual nada se entregou , e á feitura d'esta 
andava ainda o Embaixador requerendo. 

Avisa também nesta data o Embaixador que 
João Verezano , que ia descobrir o Catayo , 
nao era ainda partido, s^undo as noticias que 
havia, e tinha para si que nunca o faria, sobre 
o que esperava informações mais laicas do 
Doutor Diogo de Goaveâ que havia partido 
para Roão (249). 






(249) Ardiifo RetI da fone dó Tombo, Gorp. €hioii., P. 1 , 
mtç. 2% doo. 54. 



— 4ff7 -- 






Nesta data escreve o £inl>aixador de França^ An. un 
M. de Chaulx, a ElRci de Portugal, sobre a "" ®^ 
victoria que o Imperador alcançara contra os 
Francezes , etc. (250)» 

Nesta data escrev* ElRci D. JoSo III sobre o àm^tm 

Agost. 30 

que o seu Embaixador em França devia res- 
ponder acerca da fazenda de Rincão (251). 

Nesta data escfreve Adrião Borees a EIRei An. an 

Selem- 

D. João III , sobre chegar a esta Corte um Em- b^® » 
baixador do Imperador, pedindo ao mesmo 
Senhor, que se declarasse amigo do Rei de 
França , e lhe mandasse a Senhora D. Leonor, 
sua irmã, com suas Arrhas (252). 

•Vide Secção entre Portugal^ e o Império. 

Nesta época se vê que o Imperador Carlos Y An. is» 
até interceptava os correios portuguezes que >>'<> ^ 
iao expedidos a França, como se prova pela 
carta d'ElRei ao seu Embaixador em Castella , 
Luiz da Silveira , para alcançar do Imperador 



(3S0) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 28, doe. 17. 

Sobre estas guerras , TeiSo-se as Goriosas' Menuorías de 
Dtt Bellajr UA Gollecc. de Petitot, T. 1 7, prem. série. 

(2U) Arcbnro Real da Torre do Tombo, Gar. 2, maç. II, 
n. 10. 

(252) AtcIiíto Real da Torre do Tombo^ Corp. Chron., P. 1, 
maç. 28, doe. 72, 



— 208 — 

a soltura de um correio que o dito Soberano 
tinha mandado á França (253). 

N. B. Vide Secção XV, T. 2, p. 32 e 33. 

Anvisaa Nesta data escreve João da Silveira, £m- 
baixador em França , a EIRei, sobre a presa 
que fizerão os Francezes de um galeão, e galés^ 
e a suspensão da venda de suas mercadorias , 
em quanto se averigua vão se erão do dito Se- 
nhor, ou de seus vassallos (254). 

^'lem-' Instrumento justificativo do recebedor da 
bro 12 Alfandega da cidade de Azamor, sobre a preâa, 
que por mar lhe fizerão os Francezes em suas 
mercadorias (255). 

Anrjsas Nesta data escreve o Imperador Carlos V a 
EIRei D. João III, dando-lhe parte de ter ganho 
a batalha de Pavia , e de ter feito prisioneiro 
ElRel dè França Francisco I (256). 

Vide Relaç. com o Império , Secç. XXIV. 



(253). Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
maç. 28, doe. 107. 

(254) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 29, doe. 54. ^ 

(255j ArchiYO Real da Torre do Tombo, Cav. IS^O, maç. 5^ 
A. 16. . 

(256) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron*, P. 1, 
maç. 32, doe. 7. 



% -209- 

Proposições feitas de viva voz pelo Impe- ^a;"J* 
rador Carlos V á Duqueza d'Alençon , acerca **^ 
do restabelecimento da paz e livramento de 
Francisco I. 

Dizia entre outras cousas o Imperador que 
os offerecimentos e proposições d'£IRei de 
França y serião aceitas com algumas modifi- 
cações , e que dado caso que se effeitiíásse o 
seu casamento com a irmã do Imperador , 
viuva d'ElRei D. Manoel de Portugal,. EJRei 
de França declararia que conservava em seu 
poderio o Ducado de Borgonha em nome do 
Imperador, e que esse Ducado ficaria perten- 
cendo á Rainha sua mulher, irmã do Impe- 
rador, e aos filhos que d'ella e d'£lRei nas- 
cessem (257). 

Carta de Francisco I , Rei de França , raan* ia.v4iM^ 
dando ajuntar quatro Juizes em Bayona e*^^** 
Fontarabia , para sentenciarem as causas soore 
represálias feitas entre os seus vassallos , e os 
de Portugal (258). 



(257) Mas. da Biblioth. Real deParíz, Cod. 9^723, p. 40 t«. 

M artim Du Bellay, nas snaa Memorias , dii , tratando do« 
acontecimentos do anno de 1523 , o segninte : 

« Et par les traitez qnMl fit aTecqne ledit Empe- 

renr deroit eponser madame Alienor, sa soeor, vefre de Por- 
tugal , et depois royne de France. > Mem., Iít. m, pag. 409.«-> 
Collecç. de Petitot, T. 1 7. 

(258) Archi?o KM d« Tom do Tombo, GaT. 15, maç. 24, 
n. 3. 

m. 14 



• \ 



• Iiifttnieçoes do ImpenMlorGu^loftTaa Duque 
de BourboDDais e Vice-Rei de Nápoles , e ou- 
tros Deputados, paiia tratar da paz e livr^ 
meu to de Francisco I, Rei de França. 

No artigo V doestas iustrucções diz o Impe- 
rador que para se fazer uma paz duravd 
cumpria que quanto antes se tratasse do cu»» 
mento do Delphim com a luianta D. Maria de 
Portugal , e dod^ElRei de França com a Rainha 
D. Leonor, viuva d'£lRei D. Manoel de Paiv 
tugal, e irmã mais velha d'elle Imperador, com 
o dote que ella havia tido quando se esposara 
com o dito Rei de Portugal. Este artigo sérvio 
de base ao Tratado de Madrid, concluido entre 
os dous Soberanos a 14 de Janeiro de 1526 
(259). 

éMfjm Meios dados pelo Conselho do Imperador 
^"^ Carlos V á Duqueza d'Alençon para o restabe- 
lecimento da paz e livramento de Francisco I, 
Rei de França. 

No artigo III participao-lhe os conselheiros 
do Imperador que um dos melhores meios 
para accelerar a conclusão da paz, seria o en- 
tender quanto «ntça qq casamçuta dp Delphim 
de França eom D. Maria, iBÍjuita de Portugal 
(260). 



(dâS) mm. da Milioik. Real de Pâríi, God. 8,S77, Tnàtíê «i 
Inftnictions, ele, p. 40. 

«Tie T. 2 d^eit^ Quadia» Mf. n^ p. iS e 4S. 
(260) Mm. da Biblioth. Real de Paris, God. 9»723, p. 4X 



t 



— 2H — 

^ Plena poder da Regente de Franea D. Luiza An. nu 
de Sabóia durante o cativeiro de ErancisoQ I "" ^ * 
para o Arcebispo d'Embrun, o primeiro Pre- 
sidente de Pariz , e o Barão de Brion > seus Em- 
baixadores, para o casamento d'£IRci Chris- 
tianissimo çom a Senhora D. Leonor d'Austria, 
viuva d'E1Rei D. Manoel , e para o doDelphim 
de Yienna com a Infanta D. Maria , filha da 
dita D. Leonor e do fallecido Rei D. Manoel. 

Autorisando os ditos seus Embaixadores, e 
concedendo-lhes toda a faculdade necessária 
para ajustarem os ditos casamentos, a saber o 
d*EIRei,-seu filho, com a Rainha viuva de Por- 
tugal por palavras de presente, e o doDelphim, 
seu neto, com a Infanta D. Maria por palavras 
de futuro (261). 

Pleno poder da Duqueza d'Anguleme, An. ims 
Regente de Franqa , para o Arcebispo d'Em- 
brun , o primeiro Presidente de Pariz e o Se- 
nhor de Brion ^ seus Embaixadores^ junto ao 
Imperador Carlos V. 

Em o qual expendendo o quanto desejava 
remir do cativeiro a ElRei^ seu filho, e sendo 
o meio por que melhor se poderia conseguir 
tanto a liberdade d'EIRei como o restabeleci- 
mento da paz entre os doua Soberanos , e entre 



(261) Dumont, Corp* Diplom., T. 4, P. 1, p. 411. — Copie 
trè^Mnctonae lirie do ngtatrt d« la OMunlkre ám Qom^m de 



J anho 21 



^ 212 — 

ds reinos de Castella e de França, o unirem-^ 
^jn com outro com os vínculos d'aí&nidade, 
concede aos ditos seus Embaixadores a facul- 
dade necessária , e especial mandado para tra- 
tarem, ajustarem e concluírem o casamento 
d'E1Rei, seu filho, com a irmã do Imperador 
a Senhora D. Leonor, viuva d'£lRei D. Manoel 
de Portugal (262). 

An. 1S3S Lyão. — Instrucções dadas pela Rainha, Re- 
gente de França, ao Arcebispo d'Embrun e ao 
primeiro Presidente de Pariz, seus Embaixa- 
dores , junto ao Imperador Carlos V, acerca 
do livramento d'£lRei Francisco I em resposta 
ás proposições feitas pelo Imperador. 

No artigo XXXV das sobreditas instrucções 
encommenda a Rainha mãi aos sobre^&itos Em- 
baixadores hajSo de dizer ao Imperador que a 
effectuar-se o casamento d'ElRjei , seu filho , 
com a Rainha D. Leonor, mulher que fora 
d'ElRei D. Manoel de Portugal,, seria conve- 
niente tratar-se no mesmo tempo da conclusão 
dodoDelphim, seu neto, com a Infanta de Por- 
tugal, tanto por ser este o meio de estreitar 
mais a amizade entre as duas Coroas, como 
porque a dita Rainha D. Leonor folgaria muito 
de ter junto a si a Infanta, sua filha (263). 



t 



(262) Dumont, Corps Diplom. Univ., T. 4, P. í, p. 411. 
(263J Biblioth. R«ftl d« Paris, cm dos Mm., God, n. 8,577. 



4C^ ^ 




213 — 

Tratado dc^fpiií^ amizade e confederação, ab. tm 
entre Francisco I, Rei de França, e Hen- ** 
rique VIII de Inglaterra para o livramento do 
primeiro, e liberdade de commercio entre os 
vassallos de um e outro Soberano. 

No artigo XII doeste Tratado feito pela Re- 
gente de França D. Luiza de Sabóia, Duqueza 
d'Anguleme , em nome d'ElRei de França, foi 
ElRei de Portugal comprehendido em quinto < 
lugar como alliado por ambas as partes con- 
tractantes (264). 

Resposta d'£lRei de França aos artigos apre- ad. ms 
sentados a seus Embaixadores pelas gentes do bro 21 
Conselho do Imperador Carlos V. 

Respondendo Francisco I ao III« artigo que 
dizia respeito ao casamento de seu filho o Del- 
phim com a Infanta de Portugal, observa que 
seria melhor começar por tratar-se do d'elle 
com a Rainha D. Leonor, viuva d'ElRei D. Ma- 
noel de Portugal , por que a conclusão da paz 
soffreria grande demora se se aguardasse pela 
celebração do casamento do Dclphim (265). 

Carta de Francisco I, Rei de Franca , a ElRei An. tm 
D. JoSo III, escrita em Madrid no tempo de seu *~ «* 
cativeiro. 



(264) Frédéric Léonwrd, T. 2, p. 198.— Rymer, T. 14 , p. 48. 
. Dumont, Corps Diplom., T. 4, P. 1, p. 436. 

Rymer, Foeder. , ctc., T. 14, p. 48. 

(265) Um. da Biblíoth. RmI da Paríi, Cod. 9,723, p. 44 V*« 



•* 



'^ 



K 



r 



— 214 — 

Depois das saudações do costume acUÂa £l- 
Rei dè França recepção da carta, que em 10 
d'aquelle mez lhe havia EIRei D. João escrito 
por via de seu Embaixador, e pedindo-lhe 
houvesse de o ter por bom , leal , e verdadeiro 
irmão, agradece-lhe os bons officios que a seu 
favor perante o Imperador fizera , nos quaeS 
lhe roga queira proseguir em tudo quanto vir 
que é conducente á brevidade^ e promptidão 
de seu livramento, tanto porque tem em seu 
irmão D. João III a mais perfeita c inteira con- 
fiança, como porque por aquelle serviçp lhe 
ficaria elle Rei de França em mui grande e 
perpetua obrigação, pela qual o acharia EIRei 
de Portugal no futuro sempre prompto a cora- 
prir com quanto fosse a bem d*ElRei de Por- 
tugal e de seiís vassallos, aos quaes trataria 
como aos seus próprios, e porque mais exten- 
samente o informava de suas cousas pelo Em- 
baixador, conclue com os comprimentos do 
costume (266). 

An. is2$ Toledo. — Pleno poder do Imperador Car- 
bro uT los y a Carlos de Lannoy, Vice-Rei de Níí|h^, 
Hugo de Moncada, Capitão mór do M^ilfer^ 
raneo, e João Lallemand, Senhor deBoncIands^ 
Secretario d'£stado, Gommissarios do dito 
Monarca . 



(266) Archivo Real dá 1Ín4'4l;Íbodx», Gorp* Ghron. , 
nuiç. 39, doe. 13. , 



•• 



Kto qiiàl Iheft eotieècte fticuMàdft> fóá^ « 
mandado e^péeiàl para capitular^ tratar^ ajtlS* 
tár é concluir com Francisco I, Rei de França, 
ou com seus -Embaixadores y munidos dos ne^ 
cessarioB poderes , ou com os de sua mãi Ma- 
dama Lui2à áé Sabóia , Regente de França > 
durante o cativeiro do dito Monarca, para 
tratarem do livramento d'elle, e assentar uma 
paz sincera e durável , e também para maior 
firmeza da dita paz e alliança, tratarem , ajus- 
tarem e cònctuirem o casamento de D. Leonor, 
viuva d'ElRei D. Manoel de Portugal , e irmS 
mais velha do Imperador com o mencionado 
Rei de França, e bem assim o do Delphim, seu ' 
filho, com a Princeza D. Maria Infanta de Por- 
tugal, única filha da sobredita Rainha D. Leo- 
nor, e isto com os pactos, condições, e reser- 
vas que aos ditos Commissarios parecerem 
adequadas (26Í). 

Mosteiro de Guadalupe. — Pleno poder da An. 
Rainha viuva D. Leonor, irmã do Imperador i»rou 
Carlos V, a Carlos de Lannoy, Vice-Rei de Ná- 
poles, Hago de Moncada, Capitão mór do 
Mediterrâneo, e João Lallemand, Senhor de 
Bonclânds, Secretario d'Estado, para tratarem 



** 



(267) Copi« tsèMDKknte tMo du Registra áes Traitét d« 
Paix de 1« Chambre des Canijiln de Lille, cilée par Duinont, 
GMrp* Mplém., t. 4, fc <• p'. Ho. 



— 216 — 

de seu casamento com ElRei de França , e tam- 
bém do da Infanta D. Maria, sua filha, com o 
Delphira de Vienna , filho primogénito do so- 
bredito Monarca francez. 

Em o qual aLtendentlo o quanto cumpria 
para o livramento d'EIRei de França e o res- 
tabelecimento da paz entre este Soberano e 
seu irmão o Imperador o entender ella em seu 
casamento com o dito Rei de França, e ao 
mesmo passo no de sua filha a Infanti D.Maria 
com o Delphim de Vienna concede a dita Se- 
nhora Rainha aos mencionados enviados po- 
der, faculdade c especial commissão e man- 
dado para ajustar o projectado casamento, e 
dar em seu nome o necessário consentimento, 
concluindo-o com as condições, dote, duario, 
reservas, renuncias, obrigações, e ajustes, que 
julgarem necessários ; e outrossim para o tra- 
^tarem , e fazerem , e concluirem por palavras 
de presente, mediante a necessária dispensa 
do Summo Pontifice por causa do parentesco, 
assignando dia para celebração do dito casa- 
mento no lugar em que assentarem, onde os 
ditos Embaixadores a conduzirão e entregarão 
em poder do dito Rei de França, ou á pessoa 
que for por elle nomeada : aulorisando-os 
igualmente, edando-lhes os poderes necessários 
para pela mesma forma ajustarem e concer- 
tarem por palavras de futuro o desposorio de 
sua filha a Infanta D. Maria de Portugal com 
o filho primogénito do mencionado Rei de 



'W Ji • "■• 



— 217 — 

França^ com as condicSes e concertos que jul- 
garem acertados (268). 

Madrid. — ^Tratado de paz entre Francisco I, An. nu 
Rei de França, d'un)a parte, e o Imperador *u"* 
Carlos V d'oiltra. 

No qual se estipulou pelo art. XIX que para 
que o mencionado Tratado sortisse o desejado 
effeito, que era uma paz solida, e inalterável 
entre os Soberanos contratantes, cumpria 
que um com outro se ligassem por vinculos 
de consanguinidade, e parentesco, para cujo 
fim vinhSo os Embaixadores d'um e d'outro 
munidos de sufBcientes poderes, e de man- 
dado especial para entenderem, ajustarem, e 
concluirem o casamento d'ElRei de Franca com 
D. Leonor d' Áustria, viuva d'ElRei D. Manoel, 
e írmS mais velha do Imperador^ cujo casa- 
mento se devia celebrar por palavras de pre- 
sente, logo que houvessem os contrahentes 
obtido a necessária dispensa do Papa, do pa- 
rentesco que entre elles havia. Igualmente se 
declarou , que para a dita celebração se effei-* , ■ 
tuar, seria a Senhora Dona Leonor conduzida ^ 
ás expensas do Imperador, ao lugar que se 
assentasse, para ali ser entregue a seu marido • 



(268) Copfe JMMBdeime tiráe da Registre des Trait^ de 
Paix de U GiMvAn dm Gomptee de LUle; Dnmont, Oorpe 



»• 



— 318 — 

EiRei de França4 Que este seria obrigado à 
recebél-a^ e tratai -a com a maiOr honra, e 
como a Rainha de França, e de tao illustre 
ea8a e parentesco. Que a dita Senhora Rainha 
teria de dote duzentos mil escudos ditos do sol^ 
quantia que lhe tinha sido constituida em dote 
quando se havia desposado com ElRei D» Ma- 
noel de gloriosa memoria; que além d'isto 
desfrustaria do duario que por aquelle despo- 
sorio lhe coubera. Que o Imperador se com- 
prometteria a pagar metade dos duaentos mil 
escudos , desasseis mezes depois da consum- 
mação do projectado casamento, e a outra me>*- 
tade no decurso do anno seguinte* "^ 

Pelo art. XY declarou o Imperador que com 
o consentimento d'£lRei de França., e a re«- 
querimento d'elle, e também pelo cordial 
amor, que tinha á dita sua irmft a Rainha 
viuva, desde então lhe dava em acorescimo de 
dote os Condados do Maconnez e o de Ãuxerre , 
bem como o Senhorio de Bar sobre o Sena 
com suas dependências para que passassem 
.... aos filhos varões que d'el la nascessem, com 
.^ oondição, que daria a dita Rainha renuncia i 
pretenção, que podesse ter á herança, e suc^ 
cessão do Imperador seu avô , bem como á de 
seu pai e sua mãi ElRei D. Filippe e a Rainha 
D.^oanna, do que daria a competente qui- 
tação, logo no dia subsequente á consummação 
do projectado casamento ; conservando todavia 
o direito natural , que tinlm iã baran^s» %iit 



— 219 — 

por via collateral lhe podéidem péfteneef J 
morrendo sem áUccessSo elle Imperador, e O 
Arquiduque d' Áustria, seu irmão. 

Obrigou-se ElRei de Frantía pelo art, XVI a 
dar á Senhora D. Leonor > sua esposa , ém 
jóias a quantia de cincoetita mil escudos , ^ué 
lhe ficarião pertencendo para senkpre a ella e a 
8eus legítimos successores, e representantes j 
e foi igualmente assentado, e estipulado, que 
attendida a importância, necessidade, e grarl^ 
deza d' um tal casamento, se d'elle proviessem 
filho ou filhos varões, ao primogénito caberia 
em herança o Ducado paterno d'Alençon com 
todas as suas dependências, regalias e preeíni- ^ 

nenciás, para o desfrustar livre e pacificamente, 
havendo o dito Ducado com os Condados e Se- 
nhorios de Macon, Auxerre, e Bar sobre ó 
Sena. 

Declarou -se em o art. XVII que fallecendo *> 

primeiro ElRei ficaria a Rainha D* Leonor ^ 

com o duario e renda anniial de sessenta mil 
francos , a qual lhe seria assinada áobre a jD.u- 
cado da Touraine, e Condado de Pqiti^, e 
annexos,juntando-se-lhes os vizihhoèdottittíM 
por complemento, se por ventura OA qtie ficSo 
nomeados nao bastassem a perfazer a dita. 
renda annual de sessenta mil francos* 

Estipulou-se mais no art. XVIII qué, MbM« 
vivendo a dita Senhora Raltihâ a EIAéi áêu 
marido, ser-lhe-lua permittido au6ent|ur-«€ de 
França para ir viver noa cUíIqíbím táo Itope^ 



— 220 — 

rador em Flandres ou cm Borgonha, sem que se 
lhe posesse impedimento algum , podendo le- 
var comsigo quanto tivesse, bem como os seus 
criados e familiares. 

Estipulou-se emfim, pelo que diz respeito 
a Portugal, no art. XIX, que para corroborar 
ainda mais a projectada alliança se entenderia 
no casamento do Delphim de França com a 
Princeza D. Maria, filha d'ElRei D. Manoel e 
da Rainha D. Leonor, e qUe este casamento se 
celebraria por palavras de presentç, logo que 
í^w i .. oacontrahentes tivessem doze annos completos 
^ -* (289). 




(269) Recuèildes Traités de Paix, etc, entre les Couronnea 
d^Espagne et de France , imprime à Anvers , in-12 , p. 1 . 

Frédéric Léonard , T. 2 , p. 220. 

Sandoiral, Historía do Imperador Carlos V, P. l,lib. 14, 
S3,p.519. 

Dnmont , Corp^ Diplom., T. 4 , P. 1 , p. 399 a 400. 

Moetjens, Recuei! , etc., T. 2, p. 112. 

Biblioth. Real de Pariz, ca^a dos Mss., Códice 8,577^ 
e Godioe 9,690, p. 81 ▼«, e Códice 9,721, p. 1. 

Sobre este casamento, vide Fr. Manoel Pacheco'; vida da 
Infanta D. Maria «filha d^lRei D. Manoel ; Lisboa, 1675, cap. 5. 
Veja-seignalmente Du Bellay, Mémoirès, liv. 3, p. ]4,.X. 18, 
GolL de Petitot. 

Da Bellay refere que o Imperador viera a Madrid Tér ' 
Francisco I : c Pareillement (diz elle) lIEmpereur vint á Vftdl^ 

> yeolr la Hiogr, anqúel lien ils eurent long propôs ensémlfle ; 

> puis «Itarent en, une mesme littiere veoir la royne Aleonort- 
» ioenr de l^Eimpereiír, et vefvé du roy de Portugal , laquelle, 
» piff le dÚ traigtá, arant ^e de partir d^Espagne, le Roy 
» derait fiancer : oe qa'U fèit. » . 






- m — 

Neste data estava Lourenço Garcez, Em- Aii.tste 
baixador extraordinário em França (270). ^*^*^ 

Nesta data escreve o Embaixador António An. is» 
de Azevedo Coutinho a EIRei, sobre as con?- *'*^''* 
dições da paz , que o Imperador fez com ElRei 
de Franca, e o casamento da Rainha D. Leo- 
nor, etc. (271 )• 

' Vide Relaç. com o Império. 

Alvará para D. Pedro Mascaranhas poder a^. ^^^ 
passar livremente á França para ir visi- ™^* i» 
tar a ElRei Francisco I , em nome d'ElRei \ . . * 
D. João III (272). "^'^jÊHfí 

O Imperador Carlos V convida ElRei D. j^^ ^^^ 
João III para entrar em liga que tinha feito ^'^^ 
com Francisco I (273). 

N. B. Vide Secç. XV, T. 2, p. 53. 
Vide Relaç. com o Império. 



» 



(270) Consta do Alvará doesta data para se darem ao dito 
indeviduo 200 cruzados , para as despezas da jornada de Cas- 
tella. (ArchÍTO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
máç. 33, doe. 80.) 

, (371) Arcliiyo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 2, 
m«^1)l, doe. 83. 

Çtlt) ArchÍTO Real da Torre do Tombo , Corp. Chron. P, 2 , 
muç. 131 , doe. 227. 

(273) Archivo Real dA Torre cR> Tombo, Gorp. Chrosu, I^« 1| 
nuç,34,doc« 17, 



ab« iM Garta de Officio d^ Lourenço Garcezr, Em- 

JStii V 

baixador cm França, para ElRei, sobre se 
tomar assento a respeito das doações e privi- 
légios^ que se havião de conceder á Imperatriz 
na Corte d'Hespanha (274). 

Vide Relaç. com o Império. 

An. isM Tratado de confederação e allianca. appelli- 
dado O da Santa Liga entre Francisco I, Rei 
de Franca, o Papa Clemente VII, a Senhoria 
de Veneaa, o Duque de MilSo, e a Republica 
de Florença , contra o Imperador Carlos V. 

No penúltimo artigo d'este tratado se esti- 
pulou que antes da ratificação d'elle cada um 
dos soberanos confederados deveria nomear 
os alliados que por sua parte seriSocomprehen- 
didos na dita confederação , nomeando desde 
logo o Papa por seus, ElRei Henrique d'lngla«- 
terra e o Marquez de Mantua, e ElRei de 
França, tara bem o mesmo Rei dlnglaterra , 
e alemd'esteodeEscossia, Navarra, Portugal, 
Polónia e Hungria (275). 



(274) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Chroi^, P, 1» 
ma^ 34, d<»«. 28. 

(275) Frédéric Léonard, T. 2, p. 246. 

SaDdQHvnl „ Qistonit âQ Iwp^ir^r Cario» Y em hesp^nJbol , 
T. 1, 1ÍT. 15, p. 58, mas com faltas, e por extractos em Rdg* 
JB^UB ÇaoUvi, Aq»1^ Q9DMN mm.^ T« 20. vbl. 1&26. 

Domont, Ccnrpa Diplom., T. 4 , P, 1, p. 4^1. 



purtMr de Jaeome Montwro sobre aa reela^ m. im 
cações que se faziSo em França por occa&iao 
4e vários navios portuguezes que havião aido 
^pturadoa por corsários da sobredita nação. 

Âqusa Jacome Mopteiro nesta data a re*- 
fepçao d' uma oarta d'£lRei D. João III ^ escrita 
«m 25 de Fevereiro do mesmo anno, pela qual 
lhe ordenava que y vista a informação incluaa 
do Doutor Diogo de Gouvea , acerca das toma* 
dias effeituadas pelos Francezes^ houvesse de 
dar o seu parecer sobre o modo por que se po^ 
deria alcançar a restituição d'ellas^ por ter 
el}e tratado d'aquelle negocio em vida d'£lRei 
D. Manoel , e dando o seu parecer prova o 
pouco fundamento que se devia fazer no resuU 
tado das ditas reclamações , e cobrança daa 
fiuKQdas capturadas 9 por haverem estas sida 
ba ipuito repartidas por gentes pouco affeitaa 
a restituir o alheio^ muito mais tendo todas 
aquellas presas ido parar ás mãos d'ElRei de 
França^ e ás de seu Almirante e Officiaes^ os 
quaea aa tinhão mandado vender publica*' 
Mente , apropriando-^se o dito monarca do 
producto da venda com o pretexto de qu^ 
havia mister d'aquelle dinheiro para as guer- 
ras dltalia e d'Ing1aterra ^ e acrescenta que 
quando de novo se provasse a illegalidade das 
mencipnadas tomadias, nunca se nos resti<« 
tuiria o valor; porque seria mister ou que 
il^lRei dç França o pagasse^ ou que o fizesse 
pagar aos que astínliSo feito, o qiw em ajnjaiM 



Tl . M 



«u> 



-- os casos abriria a (lorta a demandas intermi- 
náveis, que nunca se decidirião a favor dos 
Portuguezes, sendo que os Ffancezes não 
deixarião de ai legar erão as fazendas tomadas 
pertencentes a Hespanhoes , Flamengos , ou 
Inglezes, com quem nesse tempo tinhao guerra; 
que tal havia sido o pretexto, com que em 
vida d^ElRei D. Manoel havião os seus cor- 
sários capturado os navios Portuguezes, ficando 
sem efifcito as reclamaçõcs^que por parte de 
Portugal se fizerão , por haverem os interes- 
sados apresentado instrumentos d'afireta- 
mento falsos , e obrigado a poder de tratos os 
Portuguezes a declarál-os verdadeiros, estando 
o Almirante de Franca mancomunado com Óà 
armadores e favorecendo aquellas falsidades : 
assim que era elle Jacoroe Monteiro de parecer 
serião sem fructo quantas diligencias para 
aquella cobrança se fizessem , e conclue des- 
culpando-se de nao ir pessoalmente aos pés 
d'ElRei por se achar retido em sua quinta dás 
Covas por motivos de doença , e por ter havido 
nas vizinhanças d'Ârganil rebates de peste 
(276). 

in. IS» Nesta data escreve a Rainha de Franca a 

Março is - * 

ElRei D. João UI, pedindo-lhe que lhe não 
impedisse a cobrança do primeiro quartel 



(276) Archiro Real da Torre doTom)x>, Corp. €hron., P. 1,. 
maç,36,^doc. 30, 



225 



d'aquelle anno , em quanto nSo tomava posse 
das terras que lhe pertenciao em Portugal 

(277). 

Nestja data escreve João da Silveira, Trin- An. un 
chante Mor, e Embaixador em Franca, a El-*" 
Rei, participando -lhe o haverem passidé 
4,000 Janisaros á índia, para expulsarem os ' 
Portuguezes (278). 

Vide Relaç. com a Ásia. 

Neste anno celebrou Francisco I^ Rei de m. mi 
França, ura tratado com Henrique VIII, Rei 
d^Inglaterra, em que Portugal foi comprehen- 
dido pelo artigo IX, onde se estipulou que « os 
)) navios Portuguezes nao navegarião para os 
» portos do dominio do Imperador, gastando- 
» se em França e Inglaterra as especiarias; e 
» que no caso que ElRei de Portugal nao con- 
» cordasse neste ponto, seria considerado ini- 
» migo, e as propriedades Portuguezas confis- 
» cadas » (279). 



(277) Archivo Real da Torre do Tombo, Ga^. 20, maç. 4, 
n. 28. 

(278) ArchÍYo Real da Torre do Tombo, Corp, Chron., P. 1, 
maç. 36, doe. 123. 

(279) Bíblioth! Real de Pariz, casa dos Mss., God. 9,690. 
Este Tratado foi celebrado para estabelecer o modo de 

fazer a guerra ao Ipiperidor Carlot V ; porém neite me«no 
iimonftoióElReiD, folopitrtioa «iiid%oomolmp«r«dor« 



— 226 — 

Ao. 182T Nesta data escreve Lourenço Garcez , Em- 
baixador de Portugal em França, a ElRei sobre 
as rendas que se davão á Imperatriz (280). 

VideSecç. de Portugal com o Império. 

A« .c«« Nesta data ElRei D. João III escreve a An- 

jaihoi9 tonio de Azevedo Coutinho , seu Embaixador 

junto do Imperador, acerca do modo por que 

este acceitára um Embaixador de França (281). 

VideSecç. de Portugal com, o Império. 

Att. isit Amiens. —Tratado de paz entre Francisco I, 
^'••*'' Rei de França, e Henrique VEI Rei de Ingla- 
terra, em que se declara que ambos estes 
Soberanos receberiao a pensão que tinhao 
sobre o Ducado de Milão , no caso de ser de 
novo nelle estabelecido o Duque Francisco 
Sforce. 
No art. U foi concertado entre os dous Mo- 



dinturna negociação das Holucas, mas também, por sna me- 
diação recebeo Sancho Bravo, que veio a Portugal tratar dos 
negócios d*ElRei d^Hungria, em virtude da carta credencial de 
6 de Março do dito anno de 1527 ; de modo que o art. IX doeste 
Tratado nSo alteron a negociação que pendia entre o mesmo 
Imperador, e ElRei D. João IH , que se concluio pela convenção 
de JO de Junho de 1530. {f^ide T. 2 d'este Quadro, p. 68.) 

(280) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. I, 
maç*86, doe. 1S1. 

(281) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp, Chron., P. 1^ 
mftç.87, doe. 21. 

néê Stoç. X? é^arte Qnadro, t, í , p. 55. 



— 227 — 

narcas que consentindo EIRei dlnglaterrá 
no casamento d'ElRei de Franca com Dona 

9 

Leonor d'Austria , viuva d'ElRei D. Manoel , 
EIRei de França da sua parte annuiria igual- 
mente ao dito casamento, se outro meio não 
houvesse para a conclusão e restabelecimento 
da paz (282). 

Offerecimentos feitos pelos Embaixadores An, is»? 
de Francisco I, Rei de França, ao Imperador broio, 
Carlos V, com as respostas d'este. •»» 

Disserão os ditos Embaixadores que a res- 
peito do art. VII e dos mais que dizião relação 
aocasamentod'£IReiGhristianis$imo com Dona 
Leonor viuva d'EIRei D. Manoel de Portugal, 
estava EIRei de Franca concorde com o Im- 
perador in omnibus, excepto nos três seguintes 
pontos : 1* No pagamento dos duzentos mil 
escudos que a dita Senhora trazia em dote. 
2"" A respeito dos Condados de Macon , 
d'Auxerre y e Bar sobre o Sena , com os quaes 
EIRei pretendia ficar. 3** Sobre a ratificação do 
mencionado art., podendo-se o dito casamento 
concluir com brevidade antes d'ella, e fóra 
de França. 

Em uma das ultimas conferencias disserão 
os mesmos Embaixadores de França, que El- 



(2S?) Frédérie Léonard , T. 3 , p. 2S2. 
Diunont, Corpe Diplom., T. 4 , P. 1 , p. 49), 



— 228 — 

Rei estava prompto a receber em casamento 
: '' a dita Senhora D. Leonor, viuva d'ElRei 
D, Manoel de Portugal, com o dote de duzentos 
mil escudos, e com o duario que se costumava 
dar ás Rainhas de França, segundo o teor do 
tratado de Madrid. 

Que erao tão razoáveis os artigos concer- 
nentes ao casamento d'£IRei de Franca com a 
sobredita Senhora, e o de seu filho o Delphim 
com a Infanta de Portugal , que nenhuma mo- 
dificação se lhes devia fazer ; porém , que pelo 
que dizia respeito ao dote deveria ajuntar-se 
que a entrega da Rainha teria lugar ao mesmo 
tempo que a dos príncipes filhos d'£lRei 
(283). 

An. 1S2T Nesta data João da Silveira, Embaixador de 
2ro2T Portugal em França, participa vir a Portugal 
com o caracter d'Embaixador M. Honorato de 
Caix, tratar do casamento da filha primo* 
genita d'ElRei de França com o Infante D. Luiz 
de Portugal (284). 

An. IS» Nesta data escreve JoSo da Silveira. Em-» 

DeMDi'- 

i»ro 23 baixador em França, para ElRei , dando-lhe 



(283) Frédéríc Léonard, T. 2, p. 297. 
Dumont, Gorps Diplom., P. 1, p. 496. 

(284) Arcbivo Real da Torre do Tombo , Corp. Chron.^ P. I, 
maç. 37, doe, 101. 



-229- % 

parte de mandar EIRei de França o seu Almi- 
rante com 5 náos ao rio que descobrira Chris- 
tovao Jacques na costa do Brasil (285). 

Nesta data escreve João da Silveira , Em- ao. is» 
htucador em França, a EIRei D. João III, "** 
expondo querer o de França , e a Rainha 
D, Leonor t que elle viesse a Portugal tratar 
de certos negócios (286) • 

Traslado das cartas e apontamentos dados An. ua» 
por parte do Imperador ao Embaixador de 
Portugal António d'Azevedo, em resposta á 
carta que escreveo EIRei D. João III ao dito 
Embaixador, do que lhe mandáj^a dizer EIRei 
de França a respeito do ajuste da paz com 
Portugal , e celebração do casamento (5187) . 

Nesta data escreve EIRei a João da Silveira , An. isst 

Jvlboai 

seu Embaixador em França , para certificar a 
Francisco I, que nSo tem duvida de ser media* 
neiro na paz entre EIRei de França e o Impe- 
rador (288). 

Vide Relaç* como Império. 



(285) Archivo Real da Torre do Tombo, Gorp« Chron., P. 1, 
maç. 38, doe. 57. 

(286) ArchiTO Real da Torre do Tombo, Corp. Gbron,, P. 1, 
maç. 39, doe. 81. ^ 

(287) ArchÍYO Real , GaT. 18, maç. 11, n, 6. ■:. ' 
f^ide iSecç. XV, T. 2, p. 58. 

(288) ArchiTO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron.) P. 1, 
maç. 40, doe. 91. 



i^ 



t. 



— 230 — 



An. 1528 Nesta data escreve Honorato de Caix , BnoN 
baixador de França , a EllVei ^ dando-lhe parte 
de haver entregado as cartas do dito senhor a 
Madame, c á Ramha de Navarra (289). 




An. t528 Carta do Imperador Carlos V, pela 

^bíST manda a Àngouleme, Rei d' Ar mas. tratar a 

causa da presa, que os vassallos oEIRei de 

*éf- Portugal fizerão no Rrasil aos Francezes (290). 

Vide SecçSo com o Império. 

An. 1S38 Nesta data promuka ElRei D. João III um 
bro3o Alvará autorizando o escambo que a Rainha 
D. Cátharina 'fazia á sua irmã a Rainha de 
França de varias terras que possuia em Por- 
tugal por dote, que erão Silves, Faro, Cintra , 
Alemquer^ Aldeagaiega da Merceana^ Aldea- 
gavinha, Óbidos e Caldas^ e vassallos ^ júri-- 
dicções e direitos d'ellas ; o Imperador havia 
consentido por sua parte, e confirmou eale 
escambo por Alvarás de 2 de Março, e 13 de 
Setembro d'es te anno. A Rainha D. Cátharina 
tinha dado poder a Pedro Corrêa d'Atouguia , 
e a Rainha de França deo o seu dito poder a 
D. António Ramires de Haro, e a Francisco 



^*i 



(289) ArchíToRotl da Torre do. Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 40, doe. 34. 

(290) Archiipp.il6al da Torre do Tombo, Corp. GhioB.i P. i » 
maç. 41, doe. 30. , 






<le Gusmão a 21 de Agosto do dito anoo (^ )•> 



r • » 



Nesta data escreve Honorato de Caix, Em*^ ao. oh 
baixador de França em Portugal ^ a ElRei D. °i» 
João III ^ sobre o que passara com o seu Sobe« 
rano a respeito da paz , etc. (292). 

Saragoça. — Pleno poder do Imperador An. 1139 
Carlos y para o Tratado de 5 de Agosto d 'este 
anno, entre elle, e Francisco I de França 

(293). 

Pleno poder de Francisco I de França para An. ists 
o Tratado de 5 de Agosto d'este.anno, entre 
elle, e o Imperador Carlos V (294). 

Traslados das patentes de Francisco I , Rei An. tm 
de França , para enviar a ElRei D. João III , por 
conta dos navios que mandou ao Brazil , em 
que lhe matarão muita gente, havendo paze^ 
entre as duas Coroas (295). 



(291) Andrade, Chron. d'ElRei D. João UI, cap. S8, foi. 54 
e seg. 

(292) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 5, 
maç. 10, doe. 29. 

(293) Dumoni^ Corpt Diplom. Univers., 7. 4, P. 2, p. 15, 
inclukL na Ratificação de IS de Outubro de 1529. 

(294) Ihimont, Corps Diplom. Unirers,, T. 4, P. 3, p. 16, 
inseri, na Ratifíci^çlo de IS de Outubro de 1529. 

(296) ^cbiTo RhI 4« Tmrf do Inaú»^ Gorp^ Ckvoo., P. I , 
maç. 43, doe. 25. , ; 



— 232 — 

àtu iM Cáiiibray. — Tratado de paz e amizade entre 
* o Imperador Carlos V, e Francisco I, Rei de 
Franca. 

Neste Tratado se confirmou com algumas 
modificações o Tratado de Madrid de 1 4 Ja- 
neiro 1526, estipulando -se no art. XXVIII 
que o casamento d'ElRei de França com 
D. Leonor, Rainha viuva de Portugal, concer- 
tado e ajustado no sobredito Tratado de Madrid, 
se poria em effeito, e que o dito Rei de França 
mandaria com toda a brevidade logo depois de 
sua acceitaçao seus Embaixadores coqi po- 
der especial para ratificarAn e approvarem 
quanto comprisse concernente ao dito casa- 
mento, para cuja consummação seria a dita 
Senhora conduzida á França, c postos ao mes- 
mo tempo em liberdade os filhos d'ElRei. 

Pelo art. XLIII se declarou seria ElRei de 
Portugal com vários outros Reis e Principes 
comprehendido naquelle Tratado, como parte 
contratante , mediante a sua adhesão e decla- 
ração feita dentro do prazo de seis mezes, 
conforme o aviso e notificação que lhe seria 
feita (296). 



(396) Recneil des Traités de Paix, ete., entre les Couronnes 
d^JSspagne et de France, imprime à Anyers , iii-12 , p. 83« 
Frédéríc hkmtá^ T. 2 , p. 346. 
Damont, Goi^llifplom., T. 4, P. jl, p. 7. 
BÍM4elà;ltod de Pariz, Casado» 11»^ <^^ 179; 



« N 






* 



^- 



••i 



* 



— 233 — 

Indirecto. — PregSo da paz lanado em in. tsM 
. Gambray por parte do Imperador, e ElRei de ** 
... França (297). 

Vide Relação do Império. 

Instrucções que Francisco I, Rei de França, aií.Ísm-' 
deo nesta data ao Bispo de Tarbes, para ne- 
gociar com o Imperador Carlos V. No § 2 
d' estas instrucções se trata dos casamentos 

(298). 

Vide Portugal com o Império. 

Neste;ilata Braz Neto participa a ElRei D. ao. 1529 
João IH ^"^ por carta datada de Barcelona, a no- 
ticia de ter o Imperador feito a paz com a 
França (299), 

Vide Secção de Portugal com o Império. 

Nesta data escreve ElRei D, João III a Álvaro An. ism 
Mendes, sobre o que este Ministro lhe com- 



• 

• *■- 



(297) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 20, 
n.2l. 

(298) Biblioth. Real de Pariz, Casa dos Mss., Cod. n. 8,577 : 
Trnítez et instruct^ éíe Françoit /**', p. 204. 

É o prímeiro documento que se encontra neste Códice 
sobre a negociaçSo que se concluio pelolMado de Soissons. 

(299) Archln» lleat da Torre do toliibo^ Gotp. CSiron., P. 1, 
maç. 43, doe. 7Í;.. . *. 

Fide Secç. X¥ d'eirte Qiuidi%lU3^1ik 






«^ • 









— 234 — 

municára de haver passado acerca da casa* 
mento da Iniânta sua filha ^ indicando-lhe o 
que die devia praticar^ afim de demorar a pre* 
tenção d^EIRei de França com quem não que* 
ria allíança (300). 

m 

M, fM Placencia. — Ratificação do Imperador Car- 
a los V ao Tratado de 5 de Agosto d'este anno, 
entre elle, e Francisco I de França (3(M ). 



Oalakr» 



Pariz.— Ratificação de Francisco I de Franca 
ao Tratado de 5 de Agosto d'este anno, entre 
clle, e o Imperador Carlos V (302). 

ti 

àm. tm Nesta data escreve Honorato de Caix. Em- 

n baixador de França em Portugal, a EIReí 

D. João III, pedindo-lhe desse livres 2 navios 

com gente , e fazenda , aprisionados ao Capitão 

de Brest, Vice-Almirante de Bretanha (303). 

An. iftf Nesta data escreve Honorato de Caix , Eda- 

n baixador de França em Portugal , ao Secretario 

d'£lRei D. João IQ, pedindo-lhe alcançasse do 



(300) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 15» i^aç. 1, 
9.45. 

(301) Damont» Gorpe Diplom. Unirers., T. 4 , P. 2» p. 7. 

. (302} Domont, Corpt IMplom. UiiÍFer8.,T. 4, P. 2, p. 19. 

(303) Ardiivo Real da Torre do Tombo, Ccurp, Ghron., P. 1» 
maol43, doe. 114. 

■ - a • 



— 2S5 — 

dito Senhor livres os dois navios de que aeima . á 
se faz menção (304). 

Nesta data escreve Honorato de Caix • Em^ An. um 
babcador de França em Portugal, a EIRei ^ 

D. João III , sobre a destruição do Turco em 
Vienna, donde se retirou cheio de injuria; e 
sobre o poder dos Venezianos , e outras po- 
tencias (305). 



Nesta data escreve EIRei ao Governador de An. 1139 
Bretanha, agradecendo-lhe a boa vontade, i>rot 
que tinha de o servir (306). 



Nesta data EIRei D. João III communica a An. ism 
João da Silveira, seu Embaixador em França,, «• 
o negocio do empréstimo de 400,000 cruzados 
que EIRei de França lhe mandara fazer por 
seu Embaixador, e na mesma carta este Sobe- 
rano o instrue nos negócios que lhe incumbiQ 
relativamente ás represálias , e outras cousas 
(307). 



(304) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. ,1, 
maç. 43, doe. 113. 

(305) ArchÍTo Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., p. 1, 
maç. 44 > doe. 13. 

(306) ArchíTo Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P, 1, 
maç. 45, doe. 16. 

(307) Archiro Real da Torre do Tom)», Gav. 11, maç. 8, 
n. 20. 



— 236 — 

án^issa Escriptura de dote outorgada pela Rainha 
D. Leonor de Portugal a favor de seu irmão o 
Imperador Carlos V ao tempo de casar-se com 
Francisco I (308). 

Vide Relação de Portugal com o Império. 

i^iMo Nesta época a Rainha de França D, Leonor, 
viuva d'ElRei D. Manoel, é coroada em S, Diniz, 
e faz depois a sua entrada publica em Pariz 
(309). 



(308) Biblioth. Real de Madrid, Est. G, n. 53, foi. 469. 
(Original.) 

(309) Martin Du Bella^, Mémoires, liv. 3, p. 97 (CoUecç. 
Fetitot, T. 18) , conta as seguintes particularidades , depois de 
ter relatado o modo porque esta Princeza conduzira os Prín- 
cipes francezes que esta vão em Hespanha em reféns : 

c Le Seigneur de Monlepesatfutdepcschéen poste, 

» pour en avertir le Roy, qui estoit à Bordeaux; vous pouvez 
» penser raise que reçut le pcre de veoir ses enfans en liberte. 

> Ces nouvelles entendues, le Roy parti t de Bordeaux, pour 

> aller au devant de la Royne Aleonor et de ses enfans ; aussi 

> fírent le semblable Messieurs et la Royne, pom* aller au devant 

> du Roy, et le vindrent rencontrer entre Rocquehort de Mar- 
» çan et Captieux, en une petite Abbaye, auqucl lieu, une 
» heure devant le jour, le Roy et la Royne furent cspouses. 
» Puis, ayant La dite Royne faictson entrée à Bordeaux, prindrent 
» le chemin par Congnac pour venir íi Amboise et a Bloys, puis 

> à Sainct Germain en Laye, auqucl licu fíi-cnt sejour, atten- 

> dant les preparatifs , tant du couroílnement de la Royne 

> á Sainct Denis, que de son entrée à Paris. Lequel couron- i 

> nement fút faict à Sainct Denis ; et Pentrée faicte, le toumoi 

> fut faict en la rue Sainct Antòine , en grande noagaMIcence 

> (ainsi qa^il est accoustumé faire aux aulres Roynes) au móis 
» de min 1680. » 



* 






— 237 — 

Carta d'ElRei D- João III a João da Sil- An. im 
veira, seu Embaixador em Franca, para re- 
querer a Francisco I a entrega de certa toma- 
dia feita no galeão do Estribeiro Mór, e o fazer 
sciente que enviava o Doutor Lourenço Garcez 
por Embaixador extraordinário para o dito 
caso (310). 

Carta d'EIRei D, João III para João da Sil- An. isso 
veira, seu Embaixador era França, participar 
a Francisco I, que lhe enviava Lourenço Garcez 
por seu Embaixador extraordinário, para tra- 
tar a causa daô presas (31 1 ). 

Nesta data ElRei de França Francisco I con- An. is«o 
cede carta de marca a João Ango, para este 
poder fazer aprehensão em quaesquer bens 
dos Portuguezes, não se lhe satisfazendo, den- 
tro de três mezes, a importância da presa que 
os ditos lhe íizerão, etc. (312). 



Carta de Francisco I, Rei de França, para se An. 1131 
tomar conhecimento das causas das presas 



(310) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
mar. 45, doe. 17. 

(311) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
moo. 15, doe. 17. 

(312) Arçhiro Real da Torre do Tombo, Gay. 3, maç. 1, n. 19, 
Vid^ igualmente G«t, S, maç, 3| n, 7« 



— 288 — 

entre os ^ens vassallos e os de Portugal , ^m 
Bayona e Fontarabia (313). 

semdiu Copia da carta por que ElRei de Castella 
mandou ao Capitão General de Fontarabia, 
que aposentasse em Irum os Juizes Coramis- 
sarios» deputados por ElRei de Portugal, e 
pelo de França, para a decisão dos roubos 
fbitos no mar entre os vassallos dos ditos 
reinos (314). 

An. 1531 Desde este dia esteve Ministro de Portugal 
em França , Gaspar Palha (31 5). 

it^fM Carta de Francisco I, Rei de França, para 
os Conselheiros parlamentarios , e outras au* 
toridades sentenciarem summariamente as 
causas de tomadia entre os seus vassallos, e os 
de Portugal (316). 



(31S) Arcbi^o Real dâ Torre do Tombo, Gorp. Chroo , P. 1 » 
mMÇ. 46, doe. 67. 

ride Secç. XV, T. 2, p. 69 d'este Quadro. 
(314) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 15, 
n. 24, 

ride Secç. XV, T. 2 , p. 67 d'este Quadro. 
j[3Í6) ArcbÍTO Real dtfTorre do Tombo, Corp. Chroli., P. 1, 
maç. 46, doe. 84 — maç. 47, doe. 62. 
Partio depois para Cambray. 
Corp. Chron., P. 1, maç. 47, doe. 77, 
(>16) ArdiiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. |, 
maç. 47, doo. 17. 



— 239 — 

Carta de D. António d'Ataide, Embai jcadò:^ ad. hu 
de Portugal a ElRei D. João III. 

Referindo-se a outra carta que ha pouco 
havia escrito a respeito da diligencia^ á que 
fora mandado João Vaz, irmão do Doutor 
Gaspar, dá o Embaixador nesta data conta a 
ElRei do effeito da sobredita diligencia , parti- 
cipandò-lhe, como o mencionado Jo5o Va2 
havia feito lançar os pregões na Picardia , e em 
alguns portos da Normandia , e que querendo 
fazer o mesmo em RuSo, fora ali recebido de 
modo que tivera de tornar a Pariz, para haver 
novas cartas e provisões do Almirante de 
França contra João Ango, o qual, diziao, 
estava armando quatro náos para ir á Guiné, 
e tornar-se pela costa da Malagueta. A cuja 
exploração já se havia opposto o Almirante de 
França, mandando expressamente, que não 
fossem lá, nem ao Brasil, ou a qualquer outra 
terra dos dominios de Portugal. Com o que 
esperava elle Embaixador se conformariao os 
armadores das sobreditas náos , sem comtudo 
podèlHD affiançar, em razão da inconstância e 
insubsistência natural dos Francezes ; e accres- 
centa, que o melhor remédio que via áquellas 
viagens clandestinas era o sentenciarem-sc 
por justiça os armadores nos portos, onde 
fossem feitos os armamentos ; e que pelo que 
diz respeito á ilha parece-lhe se não concederão 
cartas de marca , senão pelo modo que ElRei 
de França escrevera a ElRei D. Jo8o ; que as 



f. 



— 240 ~ 

novas que dos portos de Normandia trouxera 
João Vaz erao , que ali se estavão aprestando 
vinte cinco ou trinta náos para irem era favor 
de João Ango, além das suas próprias e das 
que se armavao em Bretanha. Passando a fallar 
de Inglaterra diz o sobredito Embaixador que 
as novas que d'ella tivera erao que se estava ali 
preparando uma grande armada^ e que , se o8 ;^ 
negócios não estiverão no estado em que esta- ^ 
vão, talvez travassem da de Portugal, e conclue 
dizendo era tão cobiçosa toda aquella gente de 
Inglaterra e de França, e tão invejosa dascousas 
de Portugal, que faria por se informar do mo- 
tivo d'aquelle armamento, e descobrindo al- 
guma cousa que interessasse o serviço d'£]Rei 
lhe daria parte com a promptidão que o 
caso pedisse, e ajunta que o Imperador estava 
de boa saúde, mas não assim a Rainha de 
França que se ia aos poucos gastando por ef- 
feíto da doença que padecia , e lamenta d'ante- 
mão a sua morte, porque com cila os inimigos 
de Portugal poderião livremente dar largas a 
seus projectos, porque pelo que diz respeito a 
ElRei de França, com quanto o contrario se 
afiGirmasse, dizendo-se que nem entende, nem 
quer entender em nada , não é menos verdade 
que outra cousa não faz senão conformar-se 
com o que elles lhe aconselhão (317). 



(317) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp, Ghron«| P, 1, 
!&»(. 47, doo. 87, n, laocoif • 6007* 



— 241 — 

Neste armo se escreverão quatro cartas a ^^ «3t 
Gaspar Vaz, Vigente portuguez em França, f^l^y\, 
sobre o aprezaraento de um navio portuguez ^•"^ 
pelos Francezes, sobre as cartas de marca , e 
represálias (318). 

Nesta data Francisco I, Rei de Franca, ex- An. issi 

" Setém- 

pede uma ordem por elle assignada, ao Senhor »>«>» 
deBrion, Almirante de França, na qual lhe diz 
que tendo-lhe representado o Embaixador de 
Portugal que, havia pouco tempo, tinha che- 
gado a Ruão um navio francez vindo da costa 
de Guiné, e terras d'EIRei de Portugal , carre- 
gado de malagueta, algodões, marfim, coi- 
ros, e outras mercadorias, as quaes pertencião 
ao dito Rei de Portugal , sendo taes objectos 
trazidos forçosa e violentamente das ditas par- 
tes, e que outras mercadorias forão indevi- 
damente tomadas no mar a seus vassallos; 
e não querendo elle Rei de França soffrer 
taes procedimentos, e querendo conservar a 
boa amizade com EIRei de Portugal seu alliado, 
manda que as ditas fazendas sejão postas em 
deposito, até se entregarem, etc. (319). 



(318) Archivo Real da Torre do Tombo , (iav. 20,*mav. 1 , 
n. 49 , e n. 13. — SSo simples minutas, sem indica^3o do 
mez. 

(319) Archivo Real da Torre do Tombo, documento tran- 
scripto na importante Memorih impressa no Porto neste anno 
de 1842, sobre os descobrimentos dos Portugueses na costa 
Occidental d'Africa , p. 5?. 

111. IG 



— 242 — 

An IS31 Carta de Anlonio de Âtaide, sobre a for- 
»»f«j* raalídade do processo, que devia seguir Gas- 
par Vaz , acerca do sequestro de um navio 
(320). 

An. 1531 Pariz. — Escritura de contracto entre Gaspar 
bro» Palha, em nome d'EIRei de Portugal , e o pi- 
loto Leão L^acaldo, para este nao navegar, nem 
fazer cartas de marear sem seu mandado, pela 
quantia de 1,600. . . . . que recebeo (321). 

Ao. 1531 Nesta data escreve Gaspar Palha a EIRei D. 
s João III , agradecendo-lhe a mercê de o man- 
dar recolher ao reino (322). 



An. 1531 Nesta data escreve o Imperador a EIRei D. 

Oaiobro . . 

IS João III, sobre o gosto que tmha por se have- 



(320) ArchÍTO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. I , 
maç. 47, doe. 50. 

A correspondência doeste negociador, acerca das nossas 
dependências em França , e Bretanha , sobre a negociação da 
Malaguetta , começa no 1 de setembro d'este anno, como se Té 
do Corp. Chron. na Torre do Tombo. 

(321; Archivo Real dà Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1 , 
maç. 47, doe. 62. 

Este ^documento acrescenta o numero das provas qae 
produzimos no $ XVI da nossa obra intitulada : Recherches sur 
In découvtrle des p<tjrs tiluét sur la còU occiJentaU dCJjrique. 
Paris, 1842. 

(322) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 47, doe. 06. 



— 243 — 

rem atalhado as represálias com a França 

(323). 

Vide Secç. de Portugal com o Império. 

Compiegne. — Carta do Doutor Gaspar Vaz, An. issi 
Embaixador de Portugal em França, a ElRei ^■J;'*'** 
D. João III. 

Refere o Embaixador, como, havida carta do 
Grão Mestre, vendo que ella era muito geral, 
por SC encommendar tão somente ao Governa- 
dor da Bretanha houvesse de fazer comprir com 
brevidade as provisões, que lhe fossem apre- 
sentadas acerca da carta de marca de João 
Ango, sem se insistir especialmente em que 
não consentisse que pessoa alguma fosse a 
Malagueta e Brasil, segundo se continha na 
carta do Almirante de França para o Vice Al- 
mirante, e na de ElRei de Navarra para o Vice 
Almirante de Guiena, e Governador de Bor- 
deos, c\ue se determinara clle Gaspar Vaz a 
dizer ao sobredito Grão Mestre, que esperava 
d'elle cartas mais favoráveis que as que alcan- 
çara d'EIRei de Navarra; e que nisto lhas 
mostrara; que tendo-as o Grão Mestre lido, 
mandara immediatamente passar outras cm 
conformidade das d'ElRei de Navarra, e que 



(323) ArchÍTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. I, 
mar. 47, doe. 56. 

f^ide Sfcr, XV doeste Quadro, T. 2 , p. 70. 



— 1244 — 

lhe fizera de viva voz grandes protestos de 
que não ficaria devendo nada a ninguém em 
tudo quanto fosse do serviço d'EIRei de Por- 
tugal , ajuntando, que quando Honorato fosse 
tornado á Lisboa saberia S. Alteza o quanto 
elle tinha feito e acabado com ElRei de França, 
o qual, affirmava elle, lhe dera a entender 
queria , e era contente que nenhum navio 
francez passasse das ilhas do Cabo Verde por 
diante. 

Proseguindo o mesmo Embaixador em sua 
narrativa, faz ver quão pouco fundamento se 
devia fazer naquellas promessas , pois sem 
embargo d*aquellas apparencias de amizade 
erão partidas de Harfleur as quatro náos de 
que já havia dado conta a ElRei, numa das 
quaes fora por piloto um Portuguez por nome 
João Affonso , e pondera o quão perjudicial 
seria ao commercio portuguez a tornada d'a- 
quellas náos a salvamento; ao que não via ou- 
tro remédio, senão o mandál-as ElRei mettcr- 
no fundo, com o que ficarião escarmentados os 
ç[ue pretendessem andar naquelles tratos. Pas- 
sa o Embaixador ao depois a dar conta da ven- 
da da Malagueta que viera a Ruão, e depois de 
varias considerações e avisos sobre o negocio 
das cartas de marca, e estipulações que sobre 
aquella matéria se intentava fazer, conclua 
propondo, como um expediente próprio para 
acabar com todas aqucllas pendências, o repar- 
tir-se a feitoria de Flandres entre Flandres e 



— 245 — 

Ruão^ com o que se darião os Franeczes pcTP 
contentes (324). 

Copia lega! da provisão passada pelo Al mi- An. issi^ 
rante de França, pela qual m^nda proceder a 
embargo nos navios, que se armavão para a 
Guiné e o Brasil , extrahida do registro do Al- 
mirantado de França por João Cropet, Notário 
apostólico. 

Na data acima dita o Almirante de França em 
um Oíficio enviado a M. de Mallieres, Vice 
Almirante, manda proceder a embargo em to- 
dos os navios francezes que se destinassem a 
fazer tratos em Guiné e no Brasil, e em vir- 
tude da sobredita ordem forão com effeito em- 
bargados os navios nomeados : Charles, de cento 
e sessenta toneis; Nicoláo, decentoccincoenta; 
Sebile, de cento e quarenta ; Deserção, de ses- 
senta ; os quaes se achavão ancorados em Hon* 
fleur, concertados, e avictualhados para nave- 
garem ás partes da Malagueta, Guiné e Brasil. 
O qual embargo foi feito em presença do Ad- 
vogado da Corte de França, fazendo as vezes de 
Procurador do Almirante e de Pedro JSoely 
Escrivão, fallando o oíTicial de justiça encar- 
regado d'esla diligencia em pessoa com os 
chamados Mi^nioty Simon, Fcssart e Le Mas- 
son j Mestres dos sobreditos navios, e inti- 



(324) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
inaç. 4 7, doe. 75, n. sacceat. 8045. 



— 246 — 

mando-lhes a ordem do Almirante, pela qual 
lhes é vedada a navegação nos mares e terras 
da Guiné e do Brasil (325), 

An. 1531 Nesta data participa o Embaixador de Por- 

NoY. 20 r r 

tugal em Gastella^ a ElRei D. João III, que o 
EstribeiroMór do reino de Hungria pedia certa 
quantia emprestada para resgate d'ElRei de 
França (326), 

Vide Secç. de Portugal com o Império. 

An. 1531 Nesta data ElRei D. João III escreve a ElRei 
de França agradecendo-lhe o grande amor, 
com que pretendia conservar a sua amizade 
(327). 

An. 1533 Traslado da ordem ^ que á reclamação de 
Belchior Raposo, gentilhomem do Embaixador 
de Portugal em França , deo o Almirante de 
França prohibindo irem navios a Guiné e 
Brasii (328). 



(325) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. !, 
maç. 49, doe. 33. 

(326) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1 , 
maç. 47, doe. 109. 

nde Secç. XV d'e«te Quadro, T. 2, p. 70. 

(327) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 20, maç. I, 
n. 48. É uma simples minuta da carta d'ElReí. 

(328) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 49, doe. 32. 






— 247 - 

Nesta data escreve o Doutor Gaspar Vaz para a» tm 
EIRei, avisando-o de se prepararem navios 
no porto de Anaflor para irem ao Brasil (329). 

Carta de Martim Afibnso de Souza a EIRei 4"- '^^ 

Selem- 

p. João III , párticipando-lhe ter sido apresado ^^ ^ 
pela esquadra portugueza, que guardava o es- 
treito, um navio francez, que no anno prece- 
dente tinha armado em Marselha, e se havia 
dirigido a Pernambuco, onde desfez uma fei- 
toria, que os Portuguezes alli tinhão, e depois 
de carregar de páo Brasil , e deixado 70 homens 
em (erra para se fortiflcarem, voltando para o 
Mediterrâneo, fora tomado pela esquadra por- 
tugueza (330). 

Nesta época o Duque Christovão de Wur - An. isss 
temberg expunha a Francisco I, Rei de Fran- ^'Agotio 
ca, que a única esperança que tinha em obter 
as suas prctenções para recobrar os seus Es* 
tados era fundada no recente casamento , que 
elle Rei de Franca tinha effcituado com a Rai* 
nha D. Leonor, irmã do Imperador, e do Rei 
dos Romanos (331 ) . 



(329) ArchÍTo Reftl da Torre do Tombo, Gorp. Chron., P. I, 
iiiaç. 49, doe. 61. 

(330; Souza, Prov. da HiaLGen. da C.R., T. 6, p. 318. 

(331) ^iV/<r Du Bellay, Mémoiret , liv. 3, p ?M, T. 18, CoU. 
de Petitol. 



• , 



_ 248 — 

An. 1534 Nesta época Francisco I, Rei de França, pede 
ao Duque de Saboya , por meio de seus Em- 
baixadores , a faculdade de fazer passar o seu 
exercito pelos seus Estados para se vingar da 
offensa que recebera do Duque de Milão. Nega^ 
se o Duque de Saboya a conceder tal licença 
pela influencia que sobre elle exercia a Du- 
queza , sua mulher, a Infanta D. Brites , filha 
d'ElRei D- Manoel de Portugal (332). 

An. 1585 Carta para o Capitão General deFontarabia, 
Sancho Mis de Leiva, assistir com todo o neces- 
sário aps Juizes , etc. (333). 

An. 1535 Carta de commissão e poder conferido por 
FtVer.9 E,j^gj jj j^g^ ju ^ D Gonçalo Pinheiro, Bispo 

de Çafim, para encher o lugar do fallecido 
D. Braz Neto, Bispo de Santiago, Commissario 
eleito nos ajustes , que se fazião entre Portugal 
e França, por occasião das presas effeituadas 
pelos vassallos respectivos de ambas as Coroas. 



(332) DuBellay, Mémoires, liv 3, p. 273 e 274, T. 18 da 
Collecç. de Petitot. 

Du Bellay diz : • Ce que le duc de Savoye lui refiTasa, à la 

> persuaslon, à cé que Pon dit, de la duchesse son épouse : 

> chose que le Roy troura fort étrange. > O erudito editor 
doestas HeiAorias diz em uma nota que a Princesa portugueza 
tomara tal império sobre seu marido que o separara inteira- 
mente do partido da França. 

(333) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, mac. 15, 
n» 34. 



• •. 



— 249 -^ 

Nella^ncommencla EIRei ao sobredito Bi^po, 
que de acordo com o Licenciado A£Fonso Fer- 
nandes haja de se entender com os Gommissa- 
rios nomeados por parte dTlRei de França na 
determinação das difiPerenças, e duvidas, que 
por occasião das mencionadas presas subsistião 
entre os súbditos de Portugal e de França, 
tomando juntamente com elles e com o quinto 
Commissario, que elegessem, conhecimento 
das ditas differenças, ejuJgando-as conforme 
a razão , para cujo fim lhe concede todos os 
competentes poderes, conforme havia confe- 
rido ao Bispo, seu antecessor (334). 

Cai^ patente de Francisco I , Rei de França, ad. isss 
dada por occasião das difFerenças, que exis- 
tião entre os Portuguezes, e Francczes, a que 
havião dado lugar as tomadias , que de parte a 
parte se havião feito. 

Nesta carta, diz EIRei de França, que tendo 
em consideração os graves inconvenientes, 
que devião de resultar das diíferenças, que 
por occasião das sobreditas tomadias , existião 
entre os seus vassallos e os de seu amado Irmão 
e primo EIRei de Portugal, com quem dese- 
java conservar as mesmas relações de amizade, 
que seus predecessores; depois de ter ouvido 
o seu Conselho, de acordo com EIRei de Por- 



(334 Archivo ftcai da Torre do Tombo, Gav. 15, iiiar. I , 
n. ? T«. 



— 250 — 

tugai , havia assentado fossem aquellas diflfe- 
renças julgadas por quatro CiOinmissarioS'^ 
dous de cada nação^ os quaes se ajuntariSo em 
Bayonna, c Fontarabia, e n'uma e. n'outra 
d'estas cidades tomarião conhecimento , a co- 
meçar do primeiro d'Âgosto próximo futuro, 
das ditas differenças e presas , tanto das que 
havião sido feitas anteriormente , como das 
que por ventura se fizessem durante aquella 
conferencia y e julgarião Iodas as causas ^ e 
reclamações nascidas das ditas presas e toma- 
dias, reciprocamente feitas, de qualquer con- 
dição que fossem y dado que houvessem srdo 
eífeituadas de boa fé, e por virtuctgr.:j ||^ artas 
de marca por elle, e por EiRei dMpytugaJ 
passadas, porque de tudo os fazia juizes com- 
petentes , para decidir todas aquellas questões 
conforme os dictames de sua consciência-^ 
tendo unicamente respeito á verdade, e ao que 
éprescripto pelo direito civil e canónico, sem 
embargo de quaesquer ordenações, çstylos- é 
costumes dos reinos de Portugal e de França ^ 
os quaes elle e EIRei de Portugal hão por de 
nenhum eífcito, para atalhar os debates, que 
d'dli se poderiao originar entre os Gommis-' 
sarios nomeados; devendo aquelles de seus 
vassallos, que tivessem qualquer reclamação 
que fazer, apreséntarem-se aos ditos Commis- 
sarios, munidos das peças e documentos com- 
petentes, e necessários para a verificação de 
seus direitos e pretenções, afim de se lhes de- 



— 251 — 

ferir como fosse de razão ede justiça. E dado 
caso , que os ditos Gominissarios nomeados se 
nao podessem concordar na decisão das diffe- 
renças em questão , El Rei de França de acordo 
com ElRei de Portugal ha por bem autorizar 
os ditos Juizes a fazerem escolha de mais um 
CommissariOy capaz de concilia 1-os e de desem- 
patar os votos : que se ainda assim , não aca- 
bassem de se concertar. ElRei de Franca se 
entenderia com ElRei de Portugal y e avisarião 
ao que em tal caso se deveria fazer; e por o ter 
assim ordenado y o faz saber a todos os seus 
vassalloSy e especialmente áqueiles a quem 
aquella sua determinação dizia respeito^ para 
que houvessem de com ella conformar-se (335). 

Relação de Marin Giustiniano, Embaixador An. isss 
de Veneza em França, sobre os negócios d'estas 
Potencias com as demais da Europa , e parti- 
cularmente com Portugal. 

Informa nesta data o Embaixador a sua 
Corte y que ElRei de França estava em boa 
harmonia com o de Portugal, o qual cultivava 
coma maior diligencia a amizade d'ElRei de 
França ; que lhe havia dito o Embaixador de 
Portugal, que ElRei, seu amo, se arreceava 
do Imperador, e desejava por conseguinte o 
engrandecimento da França : porque sendo 



(335) Original. Arcbivo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, 
maç. ?4 , n. ?. 



— 252 — 

aquelle Soberano coroo era notório Senhor das 
índias ex veteri occupatione , não somente nao 
queria ali ter rivaes, mas pretendia nao po- 
desse nação alguma la ir. Que com effeito os 
Normandos e Picardos que a isso se tinhão 
aventurado, havião sido por extremo mal- 
tratados j d'onde nascerão reclamações e 
queixas por parte de França , e dos Francezes, 
persistindo estes em ali irem, e os Portuguezes 
em não os consentir; que sobre aquelle objecto 
se havia aberto uma negociação entre o Em— 
baixador de Portugal e o Almirante de França, 
negociação que estava sempre no mesmo ser, 
e se ia de dia em dia prolongando, por causa 
dos ricos presentes , que o Embaixador fazia 
ao Almirante; que por cima (fisto havia em 
Portugal uma Princeza, filha da Rainha de 
França, que fora em primeiras núpcias casada 
com o antecessor do Rei reinante de Portugal, 
a qual era por extremo rica, porque com o 
dote que tinha de quatrocentos mil escudos 
havia ganhado nas índias trezentos mil, não 
fallando nos duzentos mil escudos do dote de 
sua mãi, hipothecados no Condado deLorrena, 
a fora Jóias e custosissimas roupas : e que essa 
Princeza offerecia EIRei de Portugal a EIRei 
de França para o Delphim seu filho; o que era 
muito do gosto da Rainha mãi , que punha 
todo o empenho em que se eífeituasse esse 
consorcio; tanto mais que não podia a Infanta 
portugueza catarse com o primogrnitod'EIRei 



4 *' 



— 253 — 

dos Romanos, a quem estava destinada a filha 
do Imperador, o qual não entendia saísse sua 
filha fora da casa d'Austria9 sendo seu filho 
de tão delicada índole ; assim que esperava 
EIRei de Portugal por meio da sobredita al- 
liança obter d'£IRei de França a promessa for- 
mal de nãosoff^rer que o inquietassem osFran- 
cezes em seus dominios do ultra mar (336). 

Nesta época Francisco I, depois de ter ouvido An. i»36. 
a relação que o Cardeal de Lorrena lhe fez dos 
planos do Imperador Carlos V, convocou o seu 
Conselho, e entre as cousas de que tratou na 
exposição que lhe fez, se queixa amargamente 
do Duque de Saboya de lhe recusar a livre 
passagem dos exércitos francezes pelo seu ter- 
ritório, attribuindo esta recusa á alliança que 
o Duque formara com Portugal , e com o Im- 
perador (337). 

Carta credencial de Francisco I, Rei de An. isse 
França, para M. RaymundoPelisson, seu Em- 
baixador em Portugal (338}. 



(33G) RelatioiíA des Ambassadeurs vénitiens sur les aíTaires 
de France au xvi^siècle , recueillies par Tominaseo, T. 1 , p. 87. 
Collection det picces ínédttes sur rhisloire de France, par 
Cbampollion Pigeae» 

(337) DuB«llay,lféiiioires,Iiv.5,p.420 (Collecç.dePetitot, 
T. 18). 

(338) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron ,-P. I , 
inar. 57, doe. 63. 






— 254 — 

An. isi« Lvão. — Tratado de amizade e alliança entre 
Francisco 1 , Rei de Franca , e EIRei D. JoSo III. 

Estipulou-se em o art. I que os portos e 
havres dos reinos de Portugal e de França 
ficarião desde então livres e communs aos 
vassalios de ambas as Coroas^ podendo ali le^ 
varem com segurança suas fazendas^ e pro- 
verem-se do necessário a justo preço. 

Art. II. Que para a conservação e liberdade 
do commercio entre os vassalios de ambas as 
Coroas os Embaixadores d'EIRei de Franca 
junto a EIRei de Portugal, depois de compe- 
tente informíicão deverão certificar em carta 
sellada e assignada por elles que os navios e 
fazendas declaradas no dito certificado per- 
tencem a vassalios e súbditos do Portugal, ou 
a outros que não sejão inimigos de França. 

Art. III. Qtre, para que taes certificados sejão 
mais válidos, EIRei de Portugal defenderá sob 
pena de prisão e de confisco a todas e quaes- 
quer pessoas de seus reinos de qualquer estado 
e condição que sejão, de carregar em navios 
portuguezes fazenda de Hespanhoés ou de ou- 
tros quaesquer súbditos do Imperador, nem 
fazendas portuguezas em navios hespanhoés, 
ou de quaesquer outros inimigos (1'EIRei de 
Franca. 

Art. IV. Que achando-se alguma mercadoria 
que pertença aos inimigos d'ElRei de França 
a bordo de navios portuguezes, seria a dita 
mercadoria, e o navio que a levasse reputados 



.ir 



— 255 — 

de .bóa presa ; que também seria de boa presa 
a mercadoria que dado que pertencesse a Por- 
tuguezes acertassedeachar-se carregada a bordo 
de navios hespanhoes, ou em outros perten- 
centes a inimigos d'ÉIRei d^radça. 

Art. V. Que os que se apoderassem e captu- 
rassem navios e fazendas pertencentes a Portu- 
guezes^ nSo obstante o certificado do Embaixa- 
dor d'EIRei de França, serião punidos e justi- 
çados em Portugal, como quebrantadores da 
paz, conforme o caso requeresse, se acertas- 
sem de ser tomados pelas gentes d'ElRei de 
Portugal, e não o sendo, que ElRei de França 
tomará a sua conta o castigál-os. 

Art. VI. Que o mesmo se praticaria com os 
Portuguezes que se achassem nos casos acima 
ditos. 

Art. VII. Que por tirar os enganos, que po- 
derião ser feitos por alguns piratas, não ob- 
stante os certificados do Embaixador de Franca, 
que ellespodião queimar ou esconder, ou deitar 
ao mar, ElRei de Portugal poderia ter depu- 
tados seus nos portos de França para nelles 
proceder a sequestro nos navios das pessoas 
que houvessem quebrantado os tratos, tudo 
por autoridade de justiça. 

Art. VIU. Que os certificados acima ditos 

■ 

serSo igualmente conferidos aos mercadores 

portuguezes que se acharem cm Inglaterra pelo 

Embaixador d'EIRei de França n'aquella Corte. 

Ari. IX. Que para facilitar o commercio en- 






^ % 



• •*" 

tre a Fradça e Portuglit BcariSo os porlos de 
Portugal' francos e livres de toJns as presas ' 
entre os Francezes e seus inimigos, não po- 
dendo effeituar-se presa alguma dentro doa 
sobredi tq%^orto3. 

Art. X'. -Que todavia serião exceptuadas as 
presas que os Francezes fizessem no mar atto, 
as quáes poderião ser levadas aos portos de 
Portugal. 

Art. XI. Que aquelle tratado de paz, c os 
artigos de que elle constava, seriSo pablica4os 
em todos os portos do domínio de Franca 9!4e 
Portugal, e que EIlíci Clnistianissimo BBSD- 
daria uma pessoa aFlandrcs para Tazer expedir 
aos Portiiguezes que ali commerciavSo os cei"- 
tificados de que se fez menção, eque o mesmo 
faria em Portugal e Inglaterra, ficando a cargo 
d'EIRei de Portugal o liaver o salvo conducto 
e seguro para a pessoa que houver de ir a . 
Flandi-cs. 

Art. XII. Quo entretanto os Commíssarioe 
já nomeados continuarão a Julgar das presas 
anteriormente feitas ronforme lhes fora en- 
comnieiidnilo (3;íí)). 

j Carta de Ruy de Mello a EIRei liando-lhr 
parte de ter ordem para u5o entrar era França, 
em quanto João dr Sepúlveda la estivesse, c 

Í339) Arehivo Rijal dn Tmia (it> Tombo, Corp. Chron.,-P. !. 
, moç. h7, (loc. (!S. 

«* * , .' 



ágOf lo 8 



porque se tinha retirado esperava ordens do 
ínesmo Senhor (340). 

Valença. — Nesta data Francisco 1 , Rei de An. iss« 
Fk^ança , expede uma carta patente a seus Lu- 
gartenentes, Governadores, Almirantes, Vice- 
Almirantes^ e mais Justiças de França, para 
fazerem guardar os capitulos da paz com Por- 
tugal. 

Fazendo-lhes saber que havendo elle assen- 
tado e tratado com seu Irmão , primo e antigo 
alliado ElRei de Portugal, que, para continua- 
ção e conservação da boa alliança e confedera- 
ção que entre ambos sempre houvera e havia, 
fosse livre e commum aos vassallos d'um 
e d'outro o commerciarem , irem e virem , e 
residirem nos portos, bahias e mais lugares 
dos dominios de Portugal e de França , sendo 
nelles reciprocamente recebidos e agasalhados 
como amigos, dando-se-lhes per justo preço os 
viveres de que necessitassem , cessadas de todo 
em todo as hostilidades, e restituidas de parte 
a parte as presas anteriormente feitas , ha por 
bem encommendar-lhes hajão de fazer ler e 
publicar aquella sua carta, com as declarações 
e disposições que nella se contém, em todos os 
portou, bahias e mais lugares do reino de 



(340) ArchWo Real d« Tom do Tombo» Corp. Chron,, P. 1| 
mtç. 57, doe, 7í. 

III. 17 



— 268 — 

França em que necessário fosse ^ a som de 
trombeta e pregão^ para que chegasse ao conhe- 
cimento de todos de modo que ninguém po- 
desse allegar causa de ignorância , fazendo-a 
registrar e observar e guardar quanto nelb 
se contém ^ castigando os transgressores como 
quebrantadores da paz ^ e porque^ aquella sua 
sobredita carta deveria ser publicada em di<- 
versos lugares^ havia por bem ordenar que aoa 
treslados que d'ella se tirassem , depois de sei- 
lados^ se desse a mesma fé^ que ao original (341 )• 

An. tiss Lyfto. -— Carta patente de Francisco I, Rei 
de França, aos Almirantes, Yice-Almirantes , 
Governadores , Prebostes , Bailios e mais Jus* 
tiças do Ducado de Normandia, para serem 
restituídas aos Portuguezes as tomadias, e cas-* 
ligados os culpados como quebrantadores da 
paz. 

Fazendo-lhes saber como continuando a boa 
amizade e alliança , que sempre existira entre 
elle e ElRei de Portugal seu irmão , primo e 
antigo alliado,elle e o dito Rei seu irmão havião 
ajustado e tratado que , não obstante a guerra 
aberta que existia entre elle Rei de França e o 
Imperador Carlos Y, podessem , tanto os seu» 
subditoBxomo osd'£lRei de Portugal, tratarem 



(S41) Affchivo Reii da Tom do TombOi Corp. Chion^i F. 1, 
ma(. 57, doe. 80, 



— 259 — 

e (Vequéntarem od portos, bahiad e maid luga« 
res dos respectivos reinos , sendo n'unse n'ou- 
tros reciprocamente recebidos como amigos e 
com seguridade e paz^ iíacultando-se-lhes por 
justo preço os viveres de que houvessem mis^ 
ter, como antecedentemente o faziao , sem se 
ofiehderem uns aos outros por terra ou por 
, mar ; e tendo sido informado pelo Embaixa- 
dor de Portugal que então em sua Corte re- 
sidia , que alguns francezes, vassallos e natu- 
raes de seus reinos havião de pouco capturado 
e roubado alguns navios Portugnezes , inju- 
riando e molestando os mercadores e mestres 
d'elles, e fazendo-lhes varias violências; o que 
era contrario á sua intenção, e ás determi- 
nações de sua carta patente; lhes encoramen- 
dava e ordenava pela presente a todos elles em 
geral , e a cada um em particular na parte que 
lhes tocava , que sendo chamado o seu procu- 
rador, e feita informação summaria do facto 
dos ditos roubos e presas , excessos , forças e 
'violências, procedessem e fizessem proceder 
contra os culpados , ou contra os que por taes 
. fossemreputadosporcitação em pessoa, prisão, 
e penhora dentro do prazo de três dias, fazen- 
do-lhes restituir o roubado ou seu valor, e cas- 
tigando-os como a quebrantadores da paz con* 
forme o caso pedisse, para que ficasse servindo 
de exemplo , o que cumpririão , não obstante 
quaesquer opposiçSes ou appellações, as quaes 
Bio estorvaríSo as disposiçQes d^aquella car(a# 



.^ 






— 260 — 

citação 9 prisSo^ penhora y conclusão dos feitos 
e sentença de pôl-os a tormento , dando cada 
um dos ditos governadores^ prebostes e mais 
justiças na parte que lhes pertencer^ conta a 
elle Rei de França dos processos que sobre táes 
casos fossem feitos no prazo de seis semanas, 
a contar do dia da apresentação da presente y 
ordenando -lhes por mandado especial que 
assim o houvessem de cumprir (342). 

An. isM O Embaixador de Portu&^al em Gastella. Al- 

•woe varo Mendes de Vasconcellos , avisa ElRei D. 

João ni de haver mandado ElRei de Franca a 

Portugal um individuo como espia das cousas 

de Gastella (343). 

An. isM Nesta época o Imperador Carlos V, a fim de 
se oppor por todos os modos aos designios de 
Francisco I^ Rei de França^ acerca do Ducado 
de Milão ^ e de outros pontos de Itália , lhe fez 
saber secretamente que a opposiçao, que « 
este respeito lhe fazia ^ provinha de que o dito 
Estadd de Milão lhe tinha sido pedido por El* 
Rei de Portugal para o dar a seu irmSo, offe- 



(342) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chnm., P.fp 
maçi 57, doe. 94. > 

(343) Ktde seeç. XV, T. 2, p. 7$. , ^ -^'^ 
ArchíTÒ Real , Gcnrp. t£ron. , f • 1 , maç. S^"^^ :# 

maç. 3Ò,.doc. !?1 e 69. 



'T 



— 261 — 

recendo por esta concessão boa somnia de 
dinheiro (344). 

OEmbaixador dePortugal em França acha-se ^^^^^ 
presente na grande assemblea que Francisco I "»• m 
juntou em Lyao^ para fazer lêr perante esta o 
processo feito a Montecuculi y àccusado de ter 
envenenado o Delphim (345). 

» 

Carta d'£lRei para Ruy Fernandes d' Almada^ ab. ísm 
seu Embaixador em França^ para representar 
áquelle Rei o mal informado que fora dos rou- 
bos^ e damnos commettidos pelos seus vas* 
sallos aos d'este reino (346). 

(344) Da Bellay, Mémoires, lir. 5, p. 317 (CoUeçç. de Pe- 
titot.T. 18): 

< Et pour mienx conlonrer 8on affaire et se convrir quMl 
» ne le fist pour le Boy, an cas qu^ancmiB d^icenx potentaHi 
» rerelaaient qn^il pratiquoit ceste oppoaition enrers euz, il 
» aroit faict aouba main tenir propôs que le Roy de Porlugal 
» lai fiit demander le dit Estat poar soa frere , en foaroissant 
» qaelque bonne somoie de deniers. » 

(345) DuBellay, Mémoires, p. 193, T. 19 da Gollecç. de 
Petítot. 

Aquelle autor contemporâneo diz : « Ce temps pendant 
» arríra le Roy à Lion , et là feit assembler tous les prínces de 
» son sang, cberaliers de son ordre, et autrés gros person- 
» nages de son royanme ; les legat et nance da Pape, les car- 
» dinaux qui lors se trourerent en sa Coar, aassi les ambas- 
» sadears d^Angleteire , Escosse, Porlugal, Yenise, etc. » 
£ oonclue : 
b ' ft toqueis asiembles , il feit eh la presence de eux lire, 
' if étpà» ou boat jusqaes à Pautre , le preces da malbeureoz ^ 

.» liitnilBé qoi aroit epupoisoimé M monsienr le Dauphin. > 
(S4<i) Asdihro Beal^iTonèdo ToBbo,itep. Ghron., P. 1, 



• • 



— 262 — 

. lai Nesta data EIRei de França promulga uma 
carta patente prohibindo aos seus vassallos 
navegarem para o.Brasil, e Guiné, por serem 
dos domínios d'EIRei de Portugal (347). 

i. líii Tournay. — Carta de commissSo e poder 
'^"^ dado por Francisco 1 , Rei de França , a JoSo 
Calenmont segundo Presidente , e Bertrão de 
Moncanp, conselheiro do Parlamento de Bor- 
deos, para conjunctamente com osDeputadM 
Fortuguezes conhecerem e julgarem todas ás 
questões relativas ás tomadias epresas anterior- 
mente feitas. 

Pela qual lhes faz EIRei saber que desejando 
conservar e manter a antiga amizade , alliança 
e confederação que entre elle e seu Irmão, pri- 
mo e antigo alliado EIRei de Portugal , sub- .. 
slstia, fora assentado entre os de seu conselho 
particular e o Embaixador do dito Rei de Por- 
tugal, que no dia 16 d'Agosto próximo Arturo 
se juntassem na cidade de Bayona dous Depu- 



(3J7J Cilada na confirmaçSo de 22 de Dezembro de 1538 
(Hsa. da CottOn.no MnseoBritan. Nero, B. 1, foi. 69). 

Os Iformaadoí ião roubavSo só os nossos hbtíos, mas 
muito príncipatibente os do Imperador como Rei de Bespanha. 
DuBellay conta nas suas Memorias (p. I9T, T. 19,Collecç. 
de Petitòt) o seguinte : 

> D'au[re costé TÍndrent nouveltes que les Normanda 
* s'estaient de riicher reacOntrei snr mer avec les Espagnola ' 

> T^nansduPtnni, eEavoientfáicl groí butiã snr enx, qa-*OB 

> Q'eitimoit moindre de ZOO miUe taón, • - . - 



— ft63 — 

tados Arancezes com outros tantos portugueses^ 
munidos uns e outros das competentes cartas 
de commissSo e poder^ para conhecerem e jul- 
garem das differenças e contestações ^ que em 
razão das tomadias anteriormente de parte a 
parte feitas existiSo entre os yassallos de Por- 
tugal e. de França^ e que por estar inteirado da 
experiência y saber^ lealdade e inteireza dos di- 
tos JoSo Calenmont e BertrSodeMoncanp^ lhes 
ordenava se achassem em Bayona no dia 1 6 
d' Agosto próximo futuro para ali conjuncta^ 
mente com os Deputados^ nomeados por ElRei 
de Portugal^ ouvirem as queixas e requerimen- 
tos das partes reclamantes^ e julgarem e sen- 
tenciarem summariamente^ e segundo a verda- 
de as mencionadas dififerenças^ autorisando-os 
':4Milroasim no caso de haver entre elles e os Se- 
' (Mladoa portuguezes alguma divergência e con- 
iiniriedade nas opiniões ^ a escolherem e no- 
mearem uma pessoa experimentada^ e nSo sus- 
peita nem favorável a nenhuma das partes^para 
aervir-lhes de arbitro ^ e decidir as ditas diffe- 
renças. £ tendo concluído e sentenciado todas 
as causas e reclamações que se appresentassem 
em Bayona^ se houvessem de passar para Fon- 
tarabia^ para ali procederem pelo mesmo teor^ 
a cujo fim lhes seria fornecido por ElUei 
de Portugal um bom e leal salvo conduto^ e 
seguro y assignado pelo Imperador. £ também 
porque o ja mencionado Embaixador de Por^ 
tugal se havia queixado de que íálguns dos sub- 



— 264 — 

ditos de França y sem respeito à amizade que 
existia entre elle Rei de França eEIRei de Por- 
tugal^continuavão a ííifestar os portos d'aquelle 
reino, e a pilhar e maltratar os súbditos por- 
tuguezes, pela mesma occasiãolheencoramen- 
dava houvessem de informar-se com toda a di- 
ligencia d'aquell es factos, e acbando-os certos, 
procedessem conforme o caso pedisse contra 
os que os tivessem praticado , em virtude dos 
poderes que lhes havia conferido; e que o 
mesmo fizessem no concernente á restituição 
das presas que os Portuguezes se queixavao 
haviao sido feitas contra o que fôi^a esti- 
pulado (348). 

kn. xm Évora. — Carta de commissSo , e poder con- 
ferido por ElRei D. João III ao Doutor Braz 
JNéto Bispo de Santiago , e ao Licenciado Affonso 
Fernandes , desembargador de sua casa, par^, 
na qualidade de Juizes Deputados, conhecerem 
e julgarem conjunct^mente com outros tantos 
Deputados nomeados por parte d'ElRei de 
França, todas as diíferenças, e reclamações 
provenientes das tomadiàs reciprocamente 
feitas pelos Francezes, e Portuguezes. 

Faz-lhes ElRei saber nesta data por aquella 
sua carta , que tendo sido assentado entre Elle 



(348) ÂrchiTo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. }, 
n. 2 3». 



'•*. 



— 2*5 — 

e ElRei de França^ que, para mAnter e eomeiw 
var a amizade, alliança e confederado qK 
entre elles e seus súbditos e vassallos existia, 
que aos dttaseis dias d'Âgosto d'aquelle anuo 
se achassem em Bayona duas pessoas por elle 
nomeadas , e outras tantas por parte d'£lRei 
de França, para conjunctamente tomarem 
conhecimentOi julgarem, decidirem, e deter- 
minarem as duvidas, differenças, e debates 
entre os seus súbditos e os d'EI Rei de França, 
sobre as presas, e tomadias, que de parte a 
parte ai legarão que se lhes haviao feito, como 
mais compridamente se con ti nha nas provisões, 
que sobre aquelle objecto mandara passar e 
publicar ^ todos os lugares do reino, para 
que fosscAqlípãStoa todos os seus súbditos; fizera 
eleição doiflWt reditos Bispo de Santiago e Li- 
cenciado Âífonso Fernandes, e lhes ordenava se 
achassem no dito dia de 1 6 d'Âgosto d'aquelle 
anno na cidade de Bayona , para junctamente 
com os commissarios deputados, que por parte 
d'EIRei de França houvessem sido nomeados, 
ouvirem, e tomarem conhecimento de todos os 
queixumes e agravos dos súbditos portuguezes 
e fràncezes por occasião das mencionadas to- 
madias e roubos, e para julgarem e senten- 
ciarem summariamente todas aquellas ques- 
tões, olhando somente á verdade do caso, 
para o que os havia desde então por autoriza- 
dos, e de facto os autorizava; e que sendo caso, 
não fossepi conformes nas tendes com os De- 



— 366 — 

putados d'ElRei de França, que de comipum 
acordo escolhessein um quinto Deputado , o 
qual decidiria e determinaria as ditas difib- 
renças e casos ; e outrossim lhes faz saber que 
logo que chegarem á cidade de Bayona, os 
Deputados francezes lhes havião de entregar 
bom e leal salvo-conducto d'ElRei de França, 
para poderem seguramente entrar naquelle 
reino, e tornarem*se d'elle livrementCé Que 
concluido tudo em Bayona, deveriSo passar a 
Fontarabia, onde com os Deputados de França 
JulgariSo das taes differenças pelo mesmo theor 
que era Bayona , e que por quanto havia sido 
igualmente assentado entre ElRei de França , 
que os Deputados portuguezes po^f^sem junto 
com os Francezes conhecer dai ^inÉDcías , que 
se faziSo aos súbditos de Pòfltlpn pelos de 
França, os quaes haviSo entrado, e entravSo 
nos portos e terras do dominio de sua coroa 
com navios armados em guerra , lhes commet- 
tia e ordenava houvessem d'informar-se d'a- 
quelles factos com toda a diligencia, proce- 
dendo contra os delinquentes conforme a 
gravidade do caso (349). 



An. 1SS7 Kesta data escreve ElRei D. João III, appro- 
vando a convenção que se fez com Francisco! , 



(049^ ArêUrô ll^sl, £«r. 15) mtç. i, n. 2 2*. 



^ 267 *— 

Rei de França^ sobre a decisSo dás causas das 

tomadias (350). 

« 

Procuração d'ElRei ao Bispo de Çafim , Gon- j^^^^^ 
calo Pinheiro^ para as causas das tomadias en- 
tre os Portugueses e Francezes (351). 

Nesta data senomeaoEscrivaes para as causas An. isst 
das tomadias entre os vassallos portuguezes^ e 
francezes (352). 

Nesta data se expedem plenos poderes ao ai. tm 
Bispo de Sant-Iago , e ao Licenciado Affonso 
Fernandes , para se acharem em Bayona a 1 6 
de Agosto do mesmo anno ; e ahi conferirem 
com os Commissarios d'ElRei de França, so- 
bre as presas feitas pelos vassallos d'aquella 
Coroa aos Portuguezes (353). 

Carta de Juiz Arbitro dada a Pedro de Souza, An., isst 
sobre as causas das tomadias feitas entre os 
vassallos portuguezes, e 09 de França (354). 



(350) Archívo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 59, doe. 5. 

(351) ArchiYo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1 , 
maç. 59, doe. 2. 

(353) Arcbiro Real da Torre do Tombo, Corp. Chfon., P. í, 
maç. 59, doe. 4. 

(353) Arcbiro Real da Torre do Tombo, Corp. Cfaron., P. 1, 
maç. 59, doe. 6; Gar. 15, maç. 1, n. 2; maç. 18, ti. 15. 

(354) ArcbÍTo Real da Torre do Tombo, Corp. Cfaron., P. 1, 
maç. 58, doe. 6. 



— 268 — 

Al. 1537 Carta de Deputado, e Comraissario ao Doutor 
Affonso Fernandes, nas causas de presas feitas 
entre os vassallos de Portugal , e os de França 
(355). 

An. 1SS7 Salvo conducto, que João Rebello remetteo 
'•*•- de Allemanha, por um correio do Imperador, 

acerca dos Commissarios portuguezes para os 

Juizes de França (356). 

ad. I5S7 Carta do Juiz Arbitro para Bertrand Mon- 
champ nas causas das presas entre os vassallos 
de França, e Portugal (357). 

Àot 1SS7 Carta de Ruy Fernandes d' Almada , Enoi- 

*** baixador em França , para ElRei , sobre dever 

enviar Juizes a Bayona, e Fontarabia^ por 

conta de seus requerimentos, e lhe nao darem 

recurso em França , etc. (358). 



An. 15S7 Nesta data ElRei de França confirma a outra 
carta de 30 de Maio^ na qual prohibe aos seus 



(355) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 2, 
maç. 212, doe. 34. 

(356) ArchiYO Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 12, 
n. 39. 

(357) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 2, 
maç. 213, doe. 5. 

(358) ArchiYO Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1 , 
maç. 59, doe. 41. 



— 269 — 
vassallos irem á Guiné, e ao Brasil (359). 

Carta de Francisco I, Rei de Franca, em que An. i$s7 
manda aos Commissarios delegados para deci- 
direm das presas feitas entre os vassallos do 
dito reino, eos de Portugal, recomraendando- 
Ihes que abreviassem as causas que pendião 
entre os vassallos das duas Coroas (360). 

Instrucções que levou D. Aleixo de Menezes, An. isst 
como Embaixador de Portugal, do que devia ^^iz 
dizer ao Imperador Carlos V, sobre a guerra 
com a França, e pedir soccorro contra o Turco 
(361). 

f^ide Relaç. de Portugal com o Império. 

Nesta data ElRei de Castella manda expor An. is» 
pelo seu Embaixador em Lisboa, a ElRei D. bross 
João III, e ao Infante D. Luiz, as razões que 
havia para serem Medianeiros na paz com 
ElRei de França (362). 

Fide Secç. das Relaç. com o Império. 



(359) Citada na carta de 22 de Dezembrade 1538. — (Mw. 
da Biblioth. Cotton. no Miueo Brítan. Nero, B. 1 , foi. 69). 

(360) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 17, maç. 7, 
n. 5. 

(361) Archiro Real da loire do Tombo, Gav. 15, maç. 19, 
n. 34. 

nde T. 2 doeste Quadro, aeeç. XV, p. 76. 

(362) ArcbÍTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chronr., P. I, 
maç. 59, doe. 79. 

ndt T. 2 d'ette Quadro, leoç. XY, pag. 77. 



*• 

\ 



— 270 — 

An: isit Salvo conducto do Imperador para em FoU'- 

kró2« tarabla poderem os Deputados, mandados pe- 
los Reis de Portugal e França , sentenciarem as 
causas das tomadias (363). 

Vide Relaç. de Portugal com o Império. 

An. I5S1 Carta d'EIRei para obrigar as partes inte- 

**^'** ressadas nas causas das tomadias feitas entre 

os vassallos portuguezes , e os de França, a 

demandarem seus interesses em Fontarabia 

(364). 

An. 1887 Nesta data escreve El Rei a Ruy Fernandes 
d'AImada, seu Embaixador em França, para 
representar á Francisco I, terem-lhe seus vas- 
sallos capturado 5 navios , contra o Tratado de 
paz, etc. (365). 

An. isst Carta de Francisco I, Rei de França, para 

22 os Commissários admittirem a Bertrand Dot- 

versas, Capitão das Galeras Reaes, a defender- 

se na causa de Maria Nunes , não obstante ter 

corrido á revelia (366). 



(^63) irchÍTo Red da Tovr^ do Tombo » Corp. Chron^, P. 1 , 
maç. 59, doe. 81. 

(364) ArchíTo Real da Torre do Tombo, Gorp% Chron., P. 
maç. 60, doe. 18. 

(365) Archiro Real da Tone do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
vaç. 60, doe. $0. 

(366) ArchÍYo Real da Torre do Tombo^ Gav, 15, maç. 1, 
n. 33. 




— 27< — 
Carta. ck) Conselho 9 e Deputados d'ElRei de An. im 

•« 1 !• ♦. Janeiro 

França na causa das tomadias entre os Portu- ^ 
guezes e Francezes, para Joãoj^lier porteiro 
d'£lRei fazer as citações , sem^dem do Juizo 
(367). 

Foi nomeado o Bispo de Çafím Gonçalo Pi- An. isss 
nheiro para succeder ao Bispo D. Braz Neto, 
já então íallecido, nas commissões , de que 
este se achava encarr^ado (368). 

Cartas de commissao d'£lRei D. João III e i^^ <'^ 
d'£lRei de França Francisco I, para que os 
Deputados, nellas mencionados, conhecessem, 
e determinassem as differenças, e contendas 
que havia entre os vassallos das duas Coroas, 
acerca dos roubos , e tomadias que por mar 
faziSo uns aos outros (369). 

Fóntainebleau. — Carta de Francisco I, Rei An. tm 
de França , expedida aos Membros do Parla- 
mento de Bordeos para decidirem com os 
Deputados d'ElRei de Portugal, seu irmão, e 
antigo alliado, as questões das presas, e roubos 
feitos pelos vassallos de ambas as Coroas; e 



(367) Archiio Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. ^, 
maç. 60, doe. 78. 

(M8) CoaaU dM dncnaw>Bloa do ArchiTaBAal da Torre do 
l^ombo. 

(^9) Arcàifo Beal da ferre do Tooib», Gar. U» maç. 15, 
n. 1. 



_ 272 — 

por qua^nto o Embaixador de Portugal lhe 
tinha representado que na convenção feita cm 
Cremieux. a 22g|le Março de 1 535 , se estabele- 
cera que os súbditos tanto de uma^ como de 
outra parte^ que fossem interessadoi|«aeste as- 
sumpto se nao comparecessem peraaotlè^s 4itos 
Commissarios em Bayona e Fontanliíá dentro 
do espaço de 20 annos , suas reclamações liSo 
seriao admittidas^ e que em consequeúcia do 
estado das guerras e outros justos impedi- 
mentos^ muitos interessados nao poderiao ap- 
•presentar no dito prazo as suas reclamações; 
por estes respeitos o mencionado Embaixador 
lhe tinha requerido houvesse de dar o conve- 
niente remédio, elle Rei de França em conside- 
ração ao desejo que tinha de augmentar as al- 
lianças, e confederações que tinha com El Rei 
de Portugal, proroga por seis mezes mais o dito 
prazo (370). 

An. 1538 Nesta data escreve Ruy Fernandes d' Almada 

^^ ** a ElRei , sobre o gosto , com que ElRei de 

França Francisco I esperava o Senhor Infante 

para Medianeiro da paz cdm o Imperador(371 )• 

Vide Secç. com o Império. 



(370) ArchiTO Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
iiiaç..47. 

(371) ArchiTO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç, 61, doo. 2. 



— 273 — 

Carta de commissSo para o Bispo de Çafim ab. uss- 
decidir as difiRerencas sobre os roubos, e to- 
madias feitas no mar entre os súbditos de Por- 
tugal^ e França, em lugar de D. Braz Neto, 
nomMjdo na outra carta para o dito effeito 
conjuntamente com o Licenciado Âffonso Fer- 
nanáes (372). 

Carta do Doutor Jorge Nunes a ElRei , sobre ai. isss 
se sentenciar na junta dos Deputados nas 
causas das tomadias, que os pleitos que se 
movessem contra esta Corte, e a de França^ 
se tratassem nas respectivas Cortes (373). 

Nesta data existe uma certidão dos roubos ^ ah. isas 
que os Francezes íizerão no Algarve (374). 

Procuração que fizerão JoSo Nunes , e outros ab. isss 
Mareantes de Faro, aos Desembargadores Diogo ^'*^* * 
Barradas , e Jorge Nunes, Procuradores da casa 
da Sttpplicação, residentes no Arrayal de Cas- 
tella, e França, para demandarem aos Fran- 
cezes os roubos que lhes íizerSo no mar (375). 



(372) Archiyo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 18, 
n. 14. 

(373) ArchÍTo Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
maç. 61, doc« 110. 

(374) Arcbivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 61, doe. 118. 

(375) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 15, 
n. 3. 

111. 18 



— 274 — 

Aa. im Nesta época se tirou na villa de Vianna do 
*' Minho uma inquirição dos roubos que fixerSo 
os Francezes (376). 

ad. 1S38 Ordem dos Commissarios frapce:¥e8 e porto*?* 
Agosto 9 g^^2es residentes em Bayona^ dirigida ^ jus^- 
tiças de França para citarem as pessoas^ qu^ 
lhes fossem appresentadas por parte de João 
Alves, a comparecerem por si ou seus procu- 
radores na dita cidade, enaquelle Juiso, acòro 
as presas, e roubos, que lhe fizerão no mar 
Qs ditos Francezes. E juntamente as certidãea 
das cartas, por que os ditosGaminissar4o& jforão 
nomeados para a decisão das ditas presas, e 
roubos (377). 

An. I5S8 Carta de Francisco I, Rei de França, por que 
'^^ mandou aos Commissarios residentes eu) 
Bayona para a decisão dos roubos feitos qq 
mar entre Portuguezes e Françe^s o senteur 
ciarem sqmmariamente, conforme o que j4 
tinha determinado (378). 

An. 15S8 Amboise. — Instruccões de Francisco L Rei 
de França, para o Bispo de Tarbe, seu 



.«.J;^ 



(576) Arcliiyo Real da Totm do TomiM, 6av. li, maf. S9^, 
n. 19. 

(377) ArckÍTO RÍeal da Torre do Vombo, 6aT. fS, wm^ IS, 
n. 14. 

fS78} Archiro Real da Torro do Tombo, €aT. 17, maç. 7, 
n. 5. 



— 275 — 

Embaixador, Junto ao Imperador Carlos V.. 
Havendo ElRei de Franca • no art. n doestas 
instrucções, encarregado o dito Embaixador 
de insinuar áo Imperador o quanto cumpria, 
para estreitar mais a amizade que entre elles 
reinava, o vincularem-se por via de casamentos; 
no ni enoommenda-lhe particularmente haja 
de propor o do Duque d'Orleans, tendo anti-, 
cipadamente sondado a mente do Imperador, 
è tratado de saber com qual das Frincezas prcr 
fereria elle eífeituál-o, se com sua filha, se com 
sua sobrinha a Infanta, de Portugal (379). 

Resposta do Imperador Carlos V ás proppsi- An. isss . 
coes de casamento que lhe forão feitas da parte bro i^ro- 
d'ElRei de França por via de seu Embaixador. 

No art. II responde o Imperador que a res- ^^ 

prito do casamento da Infanta sua filha com p 
Duque d'Or]eans , elle Imperador, por motivos 
que ElRei de França devia de saber, não podia 
por entSo dispor da ipao da dita Infanta, e que 
íiSo seria razoável que entendesse no casa- 
mento que se lhe propunha , pondo em esque* 
cimento o que havia sido ajustado entre o dito 
Duque d'0rleans, e afilha do Rei dos Ro- 
manoa* 

E no art. III ajunta, que quanto ao casa- 
mento do mencionado Duque com a Infanta de 
Portugal, sua sobrinha, pelas mesmas conai- 



(379) Mi», dá VtíioOk. Roal de Paris, Cod. 8,577, pag. »4. 



— 276 — 

íierações lhe não parecia acertado^ estando O 
Duque quasi íiançado com a filha do sobredito 
Rei dos Romanos. 

Art. IV. Que pelo que diz respeito á Infanta 
de Portugal, sua sobrinha, elle Imperador se 
obrigava a assistil-a e íavorecél-a em qualquer 
outro casamento, porque a considerava como 
filha sua (380). 

• 

An. 1S38 Instrucções d'ElRei para D. Manoel de Me- 
b!-o?5 nezes, mandado Ministro á França, sobre.o 
que devia obrar com duas cartas de crença , 
sendo a segunda para Ruy Fernandes d' Al- 
mada (384). 

An. i&ãft Alvará d'£IRci D. João III para se pagarem 
" 5 ^** a Gaspar Falha 68 cruzados de ordenado por 
ir ás fronteiras de Franca com os letrados 
mandados pelo mesmo Senhor (382). 

An. i-iss Concordata entre os Commissarios, que se 
ouiubro jiçj^g^yg^ em Fontarabia , sobre os roubos feitos 

enti^ os vassallos portuguezes , e os de França 

(383). 



(380) Mss. da Biblioth. Real de Pariz, God. 8,577, pag. 207. 
Este documento não tem data. 

(381) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 20, maç. 1, 
H. 2. 

P$2) ArchÍYO Real da Torre do Tombo, Corp, Chron., P. 1, 
ii|ÉÍ^èÍt, doe, 158. 
(SpJI) ArchJTO. Real da Torre do tombo, Gav. 15, maç. 1, 



— 277 — 

Ordem que os Gommissarios portuguezes , e An. m% 
francezes, residentes em Bayona, dirigirão ás 
justiças de Portugal para se citarem os inte- 
ressados nas presas^ e roubos feitos no mar 
entre as duas nações^ a comparecerem na dita 
cidade dentro de 50 dias j e junto as certidões 
das cartas ^ por que os Gommissarios forao 
mandados para a decisão das ditas presas (384). 

Carta patente de Francisco I, Rei de França^ ad. isss 
passada a requerimento do Embaixador d'ElRei brÔ^n 
de Portugal em Pariz. 

Nesta data EIRei de Franca faz saber aos 

« 

Conselheiros e Presidente do Parlamento de 
Ruão^ e bem assim ao Lugartenente do Almi- 
rante de França naqucllaprovincia^quc, tendo- 
lhe o Embaixador d'ElRei de Portugal^ seu 
irmão, alliado e confederado, repi^esentado , 
que apezar das cartas patentes pôr elle Rei de 
França expedidas em o penúltimo dia do mez 
de Maio de 1537, conGrmadas por outras de 
23 do mez d* Agosto seguinte, pelas quaes havia 
expressamente prohibido a todos os seus yas- 
sallos de navegarem e tratarem nas partes do 
Brasil e da Malagueta, sob pena de confisco 
dos navios c fazendas , como mais longa e ex- 
plicitamente se continha nas sobreditas cartas 



(384) ArchiTO RmI àk Tanr« do Tombo , Gat.MS» nuif, 13 « 
n. 1S« 



— 278 — 

. patentes , em desprezo do que nellas era orde- 
nado, alguns dos ditos seus vassallos tinhSo 
ido ás ditas partes , mieures e terras , tomando 
em consideração as representações do men- 
cionado Embaixador» e desejando conservar, 
guardar e augmentar, se possivel fosse, os laços 
de amizade que o vinculavão com ElRei de 
Portugal y lhes ordenava houvessem de fazer 
publicar ao som de pregão as ditas prohibiçSes 
e defezaSy para qjue chegassem ao conheci- 
mento de todos, e que se inforn^assem , devas- 
sassem e procedessem contra os infractores das 
ditas alliancas e confederações • condemnando- 
os com todo o rigor (385) • 

^ ^^ Carta de Francisco I, Rei de França, para 
^5jJ™- se executarem as citações feitas por ordem doa 
Juizes, e Commissaríos em Bayona, para a 
decisão das presas , não obstante os privilégios 
que tinhão os Francezes de não sahirem fora 
do seu paiz. E junto se acha a certidão da ci- 
tação que se fez a Gonçalo ámboy, e outros, 
para comparecerem diante dos ditos Juizes 
(386). 

^ ^^^ . All^a^s de Direito feitas pelos Advogados 

(proTt- _ 
▼•1) """""■^ --—---------_— —^_^-.^—_—_ 

(385) Um. da BiUioth. Cotton. no Miueo Britan. Nero B 1, 
foi. 102. 

(386) ArcbÍTO Beal da Torre do lòmbo^ Gar. 16, maÇé 20, 
A. 4. 



— 279 — 

p<Mtuguezes ^ para provar que os Gommissa- 
rk)^ deputados pelos Reis de Portugal e França, 
os quaes se havião de ajuntar em Bayona, 
só tinhao autoridade para julgar das presas 
feitas mutuamente pelos vassallos de um e 
outro reino, e nao para tratarem dos inte- 
resses, e causas próprias dos ditos Reis. — Sem 
data (387). 

Libellos que appresentou o Doutor Jorge in. isso 
Nunes aos Juizes Gommissarios delegados para ^^9^ 
a decisão das presas feitas no mar, entre os 
Portuguezes e Francezes, para provar por 
parte dos seus constituintes a identidade dos 
roubos (388). 

Ordem que os Gommissarios portuguezes An. iss9 
residentes em Bayona dirigirao ás justiças de 
Portugal , para averiguarem juridicamente 
tudo, quanto dissesse respeito a presas e rou- 
bos feitos no mar entre os Portuguezes e Fran- ^ ^ 
cezes (389). ;^: 

Ordem dos Gommissarios portuguezes e ao. isi9 

Junte ST 



(387) ArchÍTo Real da Torre do Tombo» Gar. 15,maç. 15, 
a. S2. 

(388) ArchÍTO Real da Torre do Tombo, ter. 15, maç. :?4 , 
a. 3. 

(389) ArchÍTO Real da Torre do Tombo, Gav. 15» maç. 18, 
n. 16. 



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— 280 — • 



u 



Francezes residentes em Bayoiia, dirigida és 
justiças de Portugal para produzirem as teste- 
munhas^que se lhes appresentassem por parte 
de Pedro Alves Gentil, e outros, sobre os rou- 
bos de que se queixavao terem-lhes feito no 
mar os Francezes (390). 



An. 1580 Nesta data escreve o Doutor Âffonso Fer- 
nandes a ElRei , sobre as causas das tomadias 
feitas entre os vasSallos d'estes reinos , e os de 
França (391). 



Ao. 15S9 D. Francisco Lobo escreve a ElRei D. João 111 
dando-lhe parte de uma audiência que o Im- 
perador dera ao Embaixador de França, etc. 
(392). 

Vide Relaç. de Portugal com o Império. 



Ao. 1539 O Imperador Carlos V escreve a ElRei D. 

Nav 11 

João 111 noticiando-lhe o dia da sua partida 
para França, e que Luiz Sarmiento lhe daria 



(390) Archiyo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 16, 
n. 22. 

(391) Jlrchivo Real da Torre do Tombo, Ck>rp. Ghron., P. 1, 
iDaç. 64 , doe. 180. 

(392) Archivo Real da Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 17, 
doe. n. 26. 

nde T. 2 doeste Quadro , Secç. XV, p. 79. 



. • ■ • W . ' *r 

y - ^ 384 — 

parte do estado em que fieavSo aquelles rei- 
nos , etc. (393). 

Vide Portugal com o Império. 

Instruccões de Francisco I. Rei de Franca. An. isi% 
ao fiispo de Lavaur, seu Embaixador junto ao 
Imperador Carlos V, em resposta aos artigos 
propostos pelo Embaixador do Imperador o 
Senhor de São Vicente. 

Pelo art. VIII encommenda EIRei de Franca 
a seu Embaixador, que pelo que diz respeito 
ao casamento de sua (ilha única com o filho 
d'ElRei dos Romanos , haja de dizer ao Impe- 
rador^ que por agora nao está resoluto a en- 
tendjR^jftielle , nao porque a proposição lhe não 
seja grata , mas em razão da pouca idade de sua 
filha y e também porque não desejava estorvar 
o da Infanta de Portugal, a quem como filha 
amava, com o já mencionado Principe, filho 
lierdeiro d'EIRei dos Romanos. 

E no art. XI lhe encarrega de dizer ao Im- 
perador que se alguma diíferença existe entre 
elle Rei de Franca e seu irmão EIRei de Portu- 
gal , não tinha este mais que dirigir-se directa- 
mente a elle , na certeza de que estava prompto 
a contentál-o em tudo o que não fosse encon- 
trado com os interesses de seus próprios sub- 



(393) ArchiTO Real da Tom do Tombo,. Gar. 15» maç. 16, 
n. 21. 

ride T. 2 doeste Quadro, Secc. XY, p. 79. 



ditos, os quaeshayiSo experittaentado bastaMMs 
prejuízos por eífeito dos direitos exclusivos qMs 
ElRei de Portugal preteudia ter sem titulo, 
nem razão (394). 

An: 1S40 Resposta do Imperador Carlos V aos artigos 



Abril 16 



que lhe forão dados em Flandres pelo Bispo da 
Lavaur, Embaixador d'EIIleí Francisco L 

No art. XI y o Imperador tendo-se explMarib 
acerca do casamento da Princeza Margaríiiá de 
França com o filho d'£IRei dos Romanos, e 
vindo a fallar no da Infanta de Portugal > dic 
que confiando nas virtudes da dita Infitntá, e 
nas de sua raãi a Rainha D. Leonoiv^^iuim 
d'£lRei D. Manoel de Portugal , ellé alIÉMgfei 
a fazél-as consentir em quanto a respeitoffrfifts 
ajustar cora ElRei de França. 

E no art. XHI offerece sua mediáeSo e tosa 
officios^ junto a ElRei de Portugal > B&m de ne 
concertarem amigavelitíente as differen^s qvfe 
entre elle e ElRei de França subsistiSo (896). 

Aii.jm^ Instrucçoes de Francisco I, Rei de Fràâ^, 
ã seu Embaijtaddr o BÍ8|m de Lavatti^ é 4ie 
Heslin^ junto ao Imperador Carlos V. 



Ibfftt24 



(394) Ifaf. da Biblioth. Real de Pariz, God. 8,577. 

Traités et Inatructíons, etc., p. 267. 
(895) lliB. da Bibliotíi; kéá\ de Paríz, Oxí. 8,577, p.Í%f. 
f^ide a nojBsa JNoticia dos Hss. portuguezes da BibUdâMèm 
Real de Pariz, ^.13. 



— 283 — 

Nesta data encommenda ElRei de Franiia a 
eeu Embaixador, que diga ao Imperador que 
no concernente aos casamentos por elle pro- 
postos y que erao os da Princeza Margarida d^ 
França 9 da Infanta D. Maria de Portugal , e da 
filha d'ElRei de Navarra , negocia era este, que 
Bt não podia concluir com promptidSo , e que 
dBo era justo que por elle se adiasse a conclusão 
da paz, muito mais quando a idade das Priíi- 
cezas admittia alguma dilação (396). 

Nesta data escreve Riiy Fernandes d' Almada, An. isio 
fjnbaixador em França a ElRei, sobre entre- 
gar os presentes que levava a ElRei de França, 
e toais Pessoas Reaes, Senhores, etc. (397)« 

Carta de D. Leonor, Rainha de França , para An. mi 
a Infanta, sua filha, industriando-a no modo bro(sM) 
com que devia de haver-se no concernente á 
embaixada , que ella e ElRei Francisco I man- 
davio a Portugal. 

Nesta data escrevendo a Rainha D. Leonor a 



(896) HflB. da Biblioth. fteal iiè IhÉiz, Cod. 8,577, p. 270. 
(OrishiAl.) :' 

(997) ArchiTO Real d«lo«r»d0MHle, Corp. ChroD., P. 1, 
maç. 68, doe. ^j^^ 

(S99) AiBÍgil|PPi a esta carta essa data visto ter chegado o 
fittador d>Ha a Lisboa no principéo do anno seguinte : 
mL, a 10 de Janeiro 1642. 



— 284 — 

sua filha sobre a missão de que ia encarregado 
o fiispo de Âde, participa-lhe, que pela mesma 
occasiao escrevia ao Imperador , seu irm80| 
rogando-lhe houvesse de haver-se de manein 
que os bens de sua s: brinha nao corressem 
perigo, communicando-lhe juntamente a ten- 
ção que tinha de ter a ella Infanta ao pé de si; 
e diz-lhe que para o bom successo d'aqaelle 
negocio, era mister que ella Infanta desse a eD* 
tender que estava resoluta a nao partir sem 
levar o que era seu : que se ElRei, seu irmão, 
lhe dissesse era contente que ella partisse com 
parte de seus bens, ou bem dando-lhe cada 
anno por via dos mercadores de Pariz tantos 
mil ducados d'ouro, quantos fossem necessários 
para prefazer em prazo determinado o que se 
lhe devia; que lhe respondesse que estava re- 
soluta a não partir senão com tudo, porque já 
era tempo que entrasse na fruição de todos os 
seus bens : que se ella Rainha de França fosse 
obrigada a escrever-lhe que partisse com parte 
do que lhe pertencia , que por nenhum modo 
o fizesse ; antes dissesse que escreveria a ella 
Rainha e a EIRei de França , e lhes rogaria que 
não a obrigassem a partir deixando em Por- 
tugal o que era seu, porque com isto obrigaria 
seu irmão a inteirál-a do todo : que se o dito 
seu irmão lhe dissesse que não convinha saísse 
ella de seu poder, sem ter tomado estado; lhe 
replicasse que isso tocava a sua mãi, Encom- 



— 285 — 

menda-lhe mais a Rainha que nSo mostrasse à 
ninguém aquella carta , salvo a Blasfed (399), 
e que a queimasse immediatamente , porque 
vir-lhe-hia a ella Rainha de França grande 
damno se soubessem tinha ella outra vontade 
que a que em publico mostrava; que era mis- 
ter a avisasse do que cm Lisboa alcançasse o 
Embaixador Bispo de Ade , e que de todo 
aquelle negocio nada devia saber Honorato 
de Caix , ou qualquer outra pessoa á excepção 
d'aquella que o Imperador, seu irmão, elegesse 
(AOO). 

Carta da mesma Rainha para o Imperador ^a. i^i 

DÕem- 
bra 



(399) Fr. Mignel Pacheco , Tida da Infanta D. Maria , cap. 8, 
foi. 23 ▼<». 

D. Joana Blasfet , mulher de Francisco de GusmSo, mor- 
domo da Infanta , e sua camareira que tinha vindo de GaslelU 
com a Rainha D. Leonor, e havia criado a Infanta, a qual era 
mui acceita ao Imperador. 

(400) Por esta carta e pelas seguintes se vé que a Rainha de 
França» principal interessada na entrega da Infanta, e em sua 
ida para a França, objecto único d*aquella embaixada, ad- 
Tertida por sen irmio o Imperador que seu marido, ElRei de 
França, insistindo naqnella entrega, punha o fito mais em fins 
politicos, que no próprio proveito da Infanta , mudou occulta- 
mente de parecer, como quem entendia quSo perigoso fosse 
o entender- se que havia mudado, e que era de opini2o coift- 
traria da d^ElRei, seu marido, com quem ao principio con- 
cordara. Assim que , posto que na apparencia conservasse o 
designio primeiro de tirar de Portugal a Infanta, estorvava por 
meios occnltos aquillo mesmo, de que em publico mostrava ter 
Tontade. 



i 



— 286 — 

Carlos \, seu iriDio^ que lhe enfiou oom n 
antecedente , para que a visse antes de « *•« 
metter á Infanta. 

Nesta data escrevendo a Rainba de Fruifi 
ao Imperador^ diz-lhe que não tendo pessoa dt 
quem se possa fiar para fazer sciénte a InfaBtf 
do que elle Imperador lhe havia mandado di« 
zer^ afim de que ella obrasse segundo sua voB--* 
tade^ manda-lhe a carta :que escreve áquellt^ 
aberta y para elle a ler, e certiflcar-se se vai pn 
nSo conforme com o que o Embaixador d'^la 
Imperador lhe havia de sua parte dito : it^ 
gando-lhe encarecidamente fizesse o possível 
para que se nao viesse a saber tinha ella outra 
vontade que aquella que era forçoso que mos- 
trasse , na Corte onde se achava ; porque teria 
muito que soífrer, nao sendo já pouco a que 
ouvia, depois que o Imperador por ali passara: 
além de que se os Francczes o soubessem, po- 
derião declarar a ÉlRei de Portugal sua tenç&Q,. 
de que resultaria para ella grandissimo damiM 
sem nenhum proveito d'ellc Imperador; e ex* 
plicando-Ihe a razão porque encommendavá 4 
Infanta dissesse que queria ir paraFrançt^ijl]»» 
lhe que assim o fazia porque havião dito a Í9«- 
Rei , seu marido , aquclles que estorvavSo nSo 
se conformasse ella com a vontade do Imper 
rador f que posto que ella obedecesse ao dito 
Rei de França em tudo quanto lhe ordenava ^ 
respeito à Infanta, sua filha, çrá ella mulher» 
para lhe escrever que dissesse que pao quem 



í 



1^ 



— 287 

yif) por diuo motivo cumpria que a Infairtá 
pMWiitifMW aemplre no proposita de partir^ 
tflndo pai certo que pediqdo ella tudo o que 
eym Mp^BIRei de Portuga}|lbu irmSo^ não lh'o 
ontoi^ria 9 e trataria antes de retél-a em seu 
ppdepi epor nenhum respeito consentiria que 
e|Ia aaifie de seu reino com fazendas^ e sem 
estado (401). 

Chega a Lishoa o Bispo de Ade, Emlmixadòr in. im 
extraordinário d'£lRei e Rainha de França^ *?o 
B€hv^ a entrega da Infanta D, Maria. 

£ra nesta data Embaixador ordinário de 
Trança junto a ElRei D. João III y Honorato 
de Caix, e residia no valle de Epxobregas ; ali 
se foi apear o Bispo Embaixador, e passados 
quatro dias, levou-o Honorato de Caix a Lisboa 
ás casas de sua residência , d'onde o mandou 
ElRei buscar pelo Bispo do Algarve, e mais 
alguns cavalleiros. Depois das ceremonias do 
eoatume entr^ou o Bispo a ElRei as cartas que 
para alie, e para a Rainha, trazia d'ElRei e 
liawtia de França. 

fipaa substancia d'estas cartas, e d'aquella 
eqiliaizada, que a Infanta D. Maria estava já 
eia iidade de se lhe dar estado, cuidado que 
UKHiPa a sua mãi, a Rainha D. Leonor, a quem 
nSo se podia denegar a filha sem faltar á clau- 



(401) Fr. Mignel Pacheco, Tíd» da Infanta D. Maria, cap. 8, 

M|l,S4,e34T«. 



sula do contracto de casamento celebrado enlt^ 
ella e EIRei D. Manoel , que expressameDte 
ordenava^ se nao posesse impedimento algum 
á saida da Infanta^b reino com os bens que 
lhe pertencessem , e que posto queElRei D. Joffo 
tivesse sido nomeado seu tutor, isso deTia eu- 
tender-se em quanto aftfanta era menor^' è 
nao depois do termo assinalado á tutoria, o qual 
ha muito era passado. 

Com isto se conformavão as instrucções ge- . 
raes do Embaixador, o qual devia insistir sobre 
a entrega da Infanta , e nao se recolher sem dia 
com toda a importância do dote , e juros qué 
fossem vencidos ; mas além doestas instruccSés- 
trazia ordem secreta , caso não podesse haver 
quanto se devia á Infanta, de contentar-se com 
o mais que podesse cobrar, respondendo pelb 
restante mercadores abastados, que tivessem 
relações com França, obrigando-se a pagál-o 
á Infanta a prazos certos. 

Em conformidade com a substancia doestas 
instrucções passou o Embaixador a tintar d W ' 
quelle negocio com calor, valendose da indttB* 
tria do Embaixador ordinário, que como UMUHI 
pratico nas matérias do Palácio, por ter fèBir- 
dido muito tempo em Lisboa , sabia melhor os 
caminhos, e conhecia as pessoas que inflUiSò 
nas determinações d'ElRei (402). 



(402) Fr. Miguel Pacheco, vida da Infanta D. Maria, cap. 7, 
fd. 19,20. * 

Não obstante as instancias do Bispo de Ade, íbt EIKd úíà^ 



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— 289 — 

Carta do Imperador Carlos V para a In-An.^t5« 
fanta D. Maria , a qual acompanhava a que lhe 
remetteo de sua mãi a Rainha D. Leonor. 

Depois de se desculpar de lhe não ter ha mais 
tempo escrito y encommenda o Imperador á In- 
fanta que haja de cumprir á risca quanto se 
contem na carta que de sua mãi lhe envia^ sem 
comtudo dar a entender que assim o faz \)ov 
lhe obedecer, ou por lhe ter ella sobre aqucllo 
particular escrito; que continue a haver-se do 
mesmo modo com que até ali se houvera, do que 
estava informado por Luiz Sarmento, com quem 
86 poderia abrir sobre quanto se oíferecesse sem 
escrúpulo, bem como com Francisco de Gus- 
mão, e com sua mulher, certa de que elle Im- 
perador, como seu tio, faria todas as diligencias 
^e o caso pedisse (403). 

Carta do Imperador Carlos V, para Luiz de ^- «j^jj 

tando a resolução da embaixada com o pretexto de que tinlia 
mandado aos Professores de direito que examinassem as du- 
vidas que se offereciâo acerca da quantia que se devia á Infanta , '^ 
enuTÍrtade do contracto feito por ElRei D. Manoel, seu pai, .^ 
quando pela terceira vez se casara ; o qual a seu entender ad- 
aniltui em alguns pontos varias interpretações , e elle desejava 
i^{iisCar«e sem prejuízo dos bens de sua Coroa. Com efreilo 
assim o baria posto em pratica , encommendando aquella ave- 
riguaçio a alguns ouvidores mais para ir dilatando a conclus;i[o 
do negocio, que por desejo de apurar a verdade e justiça da 
reclamação. 

(403) Fr. Miguel Pacbeco, vida da Infanta D. Maria , cap. 8 , 
p. 25. 

Dfcfs Secçlo XY (Relações entre Portugal e lfc.<:panha), 
T.2,P.|^ 

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— 290 — 

Mendonça Sarmento, seu Embaixador em Por- 
tugal, sobre o mesmo negocio. 

Referindo-se nesta data ao que havia escrito 
nos correios passados , diz o Imperador a Luiz 
de Mendonça que lhe pareceo muito bem a res- 
posta dada ao Bispo de Âde sobre o que elle 
pedia da parte da Rainha sua irmaa e d'£IRei 
de França ^ e bem assim o que elle sobre aquelle 
particular respondera ao que da parte d'EtRei 
de Portugal lhe fora communicado , e accrdl»^ 
centa que, tendo nelle Embaixador toda a con- 
fiança, lhe participa que a vontade da rainha, 
sua irmSy nSo é a saida da Infanta de Portugal , 
mas sim a cobrança e segurança de seu dote 
na conformidade das estipulações; para cujo 
efieito era mister que a Infanta persistisse em 
querer conformar-se com a vontade de sim 
mãi> dando a entender que se quer ir para 
Franca com toda sua fazenda, e se ElRei de 
Portugal, o que não é para se acreditar, disser 
que ha por bem o partir a dita Inikuta com 
parte do que é seu , obrigando-se a pagar o 
restante a prazos ou de qualquer outro modo, 
não o deve acceitar; pelo contrario deve insis- 
tir em partir com tudo, pois já é tempo de 
gozar do que é seu. E porque podia acontecer 
que a Rainha sua irmã , por não poder ai fazer, 
ordenasse á Infanta de se contentar com par- 
tir do modo que entendesse ElRei de França 
seu marido, não deve ella annuir a isto, mas 
pelo contrario dizer que ha de escreiítr a sua 



— 391 — 

mil e a BI Rei , seu padrasto > que nRo qtielrfto 
< de modo algum que parta ^em todos os seus 
haveres. E se lhe disserem que não saia de 
Portugal y senão depois de casada, que res- 
ponda que isso toca a sua mãi. Encommenda 
igualmente o mesmo monarca ao Embaixador 
que insista com ElRei D* João para que pague 
e assegure o dote da Infanta ^ dizendo-Ihe da 
sua parte que sendo elle seu tio^ e havendo ella 
|aota justiça naquella reclamação » elle Im- 
pierador não tinha podido deixar de fazer-lhe 
aquelle officio; porém que se a Rainha sua 
irmã apertasse muito com a Infanta para se ir, 
e esta quizesse obedecer-lhe^ nesse caso seria 
elle o primeiro a aconselhar-lhe que não a 
deixasse partir sem ser casada. Concluindo 
%íàs instrucções, que ordena ao Embaixador 
de communicar á Infanta^ encommenda-lhe 
mui particularmente lhe torne a mandar a 
carta que lhe havia escrito a Rainha sua irmã, 
cujo original acompanhava aquelles despachos, 
e que se entenda com Francisco de Gusmão , e 
em publico haja sempre de fallar conforme ao 
que lhe escrevia , dizendo que era razão que 
ElRei de Portugal assegurasse à Infanta o seu 
dote, e que quanto ao mais seria acertado que 
a não deixasse sair do reino senão depois de 
casada (404). 

(404) Fr. Miguel Pacheco, vida da InfanU D. Maria , cap. 8 , 
p. 25. 

f^iWtf Secção XT (RelaçOes entre Portugal e Heipanha), 
T. 2 , p. 82, 



A' 



- 292 — 

An. 1542 Carta do Imperador para D, Francisco de 
^*'*^" Gusmão, e D, Joanna Blasfeit, sua mulher. 
Encommenda-Ihes o Imperador hajãodedar 
credito a tudo quanto da sua parte lhes for ditç 
por seu Embaixador Luiz Sarmento 9 a quem 
naquclla occasiao escrevia no concernente ás 
cousas da Infanta (405). 

Aii.\542 Carta da Infanta Dona Maria para o Im- 
*'*** perador em resposta á antecedente. 

Respondendo á carta de seu tio o Imperador 
agradece-lhe a Infanta o cuidado que de suas 
cousas tomava , e o prazer que lhe causara com 
a carta que de sua mãi lhe communicára; pois 
d'ella não tinha outras novas depois das que 
lhe trouxera Miguel Selher, e assegura-Ihe que 
cumprirá á risca com o que elle esua mãi 
ordenavão o que d'antcmão já o tinha fei 
como elle Imperador o sabia ; que assim conti- 
nuaria a fazél-o fingindo uma cousa , e guar- 
dando-se d'outra , de sorte que da sua parte 
ninguém o podesse suspeitar, pois sabia o 
quanto nisso lhe ia, bem que bastava o acqn- 
selhál-o elle, a quem sempre folgara de obede- 
cer : que pelo Embaixador lhe respondia sobre 
o mais, e por elle teria o cuidado de avisar-lhe 
de quanto se passasse (406). 

(405) Fr. MíguelPacheco, vida da Infanta D. Maria, cao. 8 
p.26. ' ^ ' 

(406) Fr. Miguel Pacheco, vida da Infanta D, Maria, cap. 8 
p. 26VO. ' 

rií/eSecçloXV, T,?,p.8?, 



— 293 — 

Carta do Embaixador Luiz Sarmento de ad. is42 
Mendonça em resposta á antecedente, que o ^^^ 
Imperador lhe escrevera á cerca do negocio 
da Infanta. 

Participa nesta data ao Imperador o Em- 
baixador acima dito que entregara a sua carta 
a Francisco de GusmSo, porque a ambos elles 
parecera não era acertado fosse elle Embaixa- 
dor em pessoa entregál-a á Infanta, por residi- 
rem os Embaixadores de França defronte d'ella, 
de modo que seria impossivel fosse elle Em- 
baixador visitál-a publicamente sem que elles 
o sentissem, e também porque, havia dias, 
tinha ElRei D. João posto ao pé da Infanta uma 
mulher que lhe dava de continuo aviso de 
,§iianto em casa da princeza se passava ; assim 
Ifue, se naquella conjunctura elle Embaixa- 
dor se aventurasse a ir fallar-lhe , suspeitariao 
lúgo que era acerca dos seus negócios , motivo 
por que se determinara a mandar-lhe as cartas 
por Francisco de Gusmão, a quem fizera scienle 
do conteúclo das instrucções que recebera para 
elle as communicar á Infanta, mandando-lhe 
também a própria carta do Imperador para 
elle Embaixador. Que a Infanta lhe respondera 
pelo dito Francisco de Gusmão que beijava as 
mãos ao Imperador, e faria tudo quanto lhe 
ordenava , mas porque ElRei seu irmão ainda 
não dera resposta ao Bispo de Ade, lhe não res- 
pondia mais largamente ; mas que logo que 
o tiver feito lhe dará avisoi e porque para isso 






— 294 — 

ser-lhe hia mister uma pessoa fiel e nSo a tem, 
acceita a graça que o Imperador lhe faz. 

Accresefenta o Embaixador, que em confor- 
midade das ordens que recebera, mandara 
pedir á Infanta as cartas que lhe enviara , e (Jlie 
ella lhe respondera era escusado tornai -as pòr 
agora ; que logo que respondesse à Rainha siia 
mãi as queimaria, coliforme lh'o encoramen- 
dára : que o Bispo francez ainda ali estava , e 
que tanto elle como o outro Embaixador iao 
muitas vezesaElRei a sollicitar a resposta, a 
qual dizia-se que nSo tardaria muito ; que a 
Rainha lhe dissera no dia antecedente que sem 
duvida ElRei o despacharia naquella semana.' 
Que ElRei recebera cartas de Roma por um 
correio que havia passado por Pariz ; e se entSo 
respondesse seria para suspeitar que tinha tido 
alguma resposta de França sobre o negocio, po]> 
que a não ser assim jà tivera respondido mais 
ou knenos (407). 

An. 1542 Responde nesta data D. Francisco de Gus- 
mao á carta que o Imperador lhe havia es- 
crito em 1 1 do mesmo mez sobre o negocio 
da Infanta D. Maria, promettendo confor*- 
mttr*se á risca elle e sua mulher com as ins* 



(407) Fr. Bliguel Pacheco, ipkk da Infanta D. Maria, cap. 8, 
p^27 vo,e28. 

' ric/íT Secção XV (Relações entre Portugal e Hespanha), 
T. 2,p. 82. 



:%>• 



— 295 — 

trucções que sobre aquelle particular lhes havia 
dado o Embaixador de Castella Luiz Sarmento 
de Mendonça, accrescentando estava a Infanta 
resoluta a não fazer outra cousa , senão o que 
o Imperador lhe aconselhasse , e que elle Fran- 
cisco de Gusmão no entretanto instava com 
o Bispo de Ade y e o exhorta va a fazer toda a 
diligencia porque ElRei D. João lhe respon- > 

desse ^ e que se não contentasse com partido 'jí ' 'f 
nenhii que lhe proposessem, porque a Infanta 
não o havia de acceitar (408). 

Nesta data accusa o Embaixador de Cas- An. isa 
tella em Portugal Luiz Sarmento de Men- 
donça recepção dos Despachos de 1 4 de Mimtco 
que acompanha a carta y que D. Leonor , Rainha 
de França, havia escrito ao Imperador, a qual 
torna a mandar ao Imperador , e com ella co- \ 

pia de um artigo da carta do Embaixador de 
Castella em França, participando ao Imperador 
ficava a Infanta D. Maria sciente de tudo, e 
tinha para si podia fazer o que o Imperador 
lhe acooselhava sem que ElRei de França ti- 
vesse suspeitas da Rainha, sua mulher; visto 
ser aquillo conforme com as instrucçõés que 
trouxera o Bispo de Ade , as quaes lhe prés- 



UMAM^Mi^^nA* 



(40S) Fr. Miguel Pacheco, TÍdff da Infanta D. Maria, cap. 8, 
p. 28 T«. 

f^ide Secção XV (Relaçoei entre Portugal e Heapanha), 
T. 2^ p. 83. 



»-'■ 



— 296 — 

crcvião de pedir a ElRei D. João que lhe entre- 
gasse ella Infanta com tudo quanto lhe per- 
tencia ; que ella já lhe havia declarado que 
havia de fazer o que sua niãi lhe ordenavfi^, e 
que ainda que a quisessem levar para França 
som seu dote, que por nenhum modo o faria, 
porque também taes erão as instrucções que 
clle Bispo trazia. 

Âccresccnta o Embaixador que também lhe 
mandara a Infanta dizer que ElRei, seu irmão, 
tivera com ella uma longa pratica, em que lhe 
representara quão mal lhe estaria o ir-separa 
França , vistas as deshonestidades que ali se 
praticavão, e sobretudo não estando as cousas 
entre elle Imperador, e El Rei de França em ter- 
mos que fosse conveniente a cila Infanta de se 
partir ; que lhe não fal lasse mais em similhante 
projecto, e que entretanto que Deus enca- 
minhava as cousas para o seu casamento, elle 
lhe daria cada anno quatro contos para seu 
gasto, como havia tido a Imperatriz, o que 
ellanão acceitára; antes lhe pedira houvesse de 
responder ao Bispo, e que ella da sua parte 
não podia deixar de obedecer a sua mãi : assim 
que, continua o Embaixador, estava certo que 
a Infanta se não determinaria a partir para ? 
França, ainda que assim lh'o ordenasse aRainha 
sua mãi (409). 

(409) Fr. Miguel Pacheco, vida da Infanta D> Maria, cap. 8, 
p. 29. 

ride Secção XY (Bdaçoes entre Portugal e Hespanha), 
T.2, p. 83. 



'■ — 297 — 

Nesta data responde o Imperador á carta ah. ím 
antecedente e ao que ao commendador mor 
de Leão havia escrito o Embaixador Luiz 
Sarmento de Mendonça acerca dos negócios 
da Infanta^ e approvando quanto sobre 
aquelle assumpto havia feito o dito Embaixa- 
dor, encommenda-lbe diga à Infanta , que 
quando o caso se offereça nao ponha ella du- 
vida em fazer o que lhe escrevera; diz-ihe mais 
que já havia nomeado algumas pessoas do 
seu conselho para examinarem o artigo do 
contracto de casamento da Rainha sua irmã 
com ElRei D. Manoel, que dizia respeito á In- 
fanta, sua sobrinha (410). 

Nesta data participa ao Imperc^dor o Em- ad. is42 
baixador Luiz Sarmento que havia dito á 
Infanta o que lhe fora de sua parte en- 
coromendado , e que aqueila lhe assegurara 
levaria tudo o caminho que o Imperador de- 
sejava ; que supposto tivessem então vindo ao 
Bispo cartas d'EIRei e da Rainha de França, 
que não sabe nem elle a ella dissera se lhe ha- 
vião ordenado que pedisse outra cousa, diffe- 
rcnte.da instrucção, que trouxera, que tão 
.s somente instavão com elle porque se fizesse 
despachar com brevidade, mostrando-se El- 



^10) Fr. Migiial PAcbeoo, Tidâ da lafanU D. Maria, cap. 8, ^ **• 
p. 30. ' ^ ^ 

ride Secçlo XV (RalaçOaa «ii(|p« Portugal e Heipanha), 
T. 2 d'eaU Qnadro Elemenlar, p. StL 



— 298 — 

Rei de França re3sabiado e por copseguinte o 
. Bispo, o qual nao cessava de dizer a ElRei D. João 
que pois lhe nSo respondia, que se queria ir; 
de sorte que ElRei lhe promettêra de o despa- 
char dentro de oito dias. 

Que a Infanta estava mui contente por ter 
elle Imperador mandado examinar o contrato 
de casamento de seus pais, porque estava certa 
qu^ se apuraria a verdade ; que o Bispo de Ade 
trouxera uma copia do dito contracto; queella 
tivera meio de tirar um traslado que ia incluso 
naquella; que o dito Bispo de Ade lhe dissera 
se queria tornar; e porque a Rainha de França 
sua mãi o tinha encarregado de alguns negó- 
cios de sua casa , se fosse do agrado d'e]le Im- 
perador teria o Bispo po mercê se lhe conce- 
desse um salvo conducto para fazer cãininho 
por Hespanha (411). 

^.^542 Nesta dalà responde ô Irttperador á carta 
antecedente pela qual ficava inteirado de 
quanto o Embaixador Luiz Sarmento havia 
passado com a Infanta, o que tudo appro- 
vava , remettendo-se ao que sobre aquelle 
particular havia á ditaPrinceza escrito, accres- 
centando que por Francisco Pessoa havia sabido 



(41 í ) Fr. Miguel Paehèco, rida da Infanta D. Maria , cap. #, 
p. 30 e 31 T«. 

P^hiê Sècçfto XT (Aelii$Otti ^fibtre 1^>riiigal ^ Hespanha) , 

T. 2,p. 83. 



— 299 — 

que o Bispo de Ade se não partiria sem respos- 
ta, porque ElRei D. João estava resoluto a des- 
pachál-o. Que mandaria expedir-lhe o salvo 
conducto conforme a Infanta desejava; que se 
estava examinando o contracto de casamento 
de D. Leonor com D. Manoel , e que o que fosse 
de justiça , isso se faria (412). 

Carta d'ElRci D. João IH a Francisco I , m. 1442 
Rei de França , acerca da entrega da Infanta 
D. Maria. 

Instando o Embaixador francez Bispo de 
Ade, e apertando com ElRei porque o despa- 
chasse, e vendo este, que havendo de fazer 



(412) Fr. Miguel Pacheco, Tida da Infanta í). Maria, cap. 8, 
p. 31. 

yide SecçSlo XV ( Relações entre Portugal e Hespanha ) , 
T. 2,p. 83. 

Não escapará por certo á sagacidade de nossos leitores de 
quanta utilidade seja o systeina chronologico remissivo que 
adoptámos , vendo na presente secção desenvolvidas em mais 
amplos sammaríos as simplices indicfaçOes que demos a pag. 82 
e 83 do T. 2 da sec^*ão antecedente : assim que com a menor 
atlenoão , em lendo os summaríos que das diflerentes cartas 
produzimos, descobre-se facilmente o fio das negociações que se 
passarão por occaiiio da entrega d^essa Princeza, e as segundas 
tenções dos que as escreverão. Na Rainha D. Leonor desgostos 
domésticos e rffiinjg^ de Ifcr to pé de « a Infanta, sua filha ; em 

•D. JoSo UI repugnância em entregai -a por se ver obri- 
|>agar tamanlM divida ; em Francisco I anciã de possuíl-a 
I valer de seoi grandes cabedáes nas guerras que com 
)rador trazia ; e neste emfim o receio de dar a sen rival 
novos meios de o inquietor, • ^^jfèlÉ^ ^ praser secreto de con- 
traminar-lhe os projectos. " ' 



— 300 — 

entregada Infanta^ seria mister inteirál-a de 
tudo quanto se lhe devia, e que sobre as qua- 
trocentas dobras que lhe pertencião aceresciao 
os juros vencidos de perto de dezaseteannos, 
e o valor das fazendas , que tinha em Portugal, 
o que importava em mais de um milhão, não 
faltando nas jóias e recamera, determinou de 
satisfazer a ElRei e a Rainha de Franca com 
razoes , e despedio o Embaixador Bispo de Ade, 
negando-lhe a Infanta com pretextos honorí- 
ficos, e especiosos; fazendo-lhe prezente de 
algumas jóias, e de mil escudos d'ouro, e es- 
crevendo a ElRei de França, diz-lhe como re- 
cebera a sua carta, e ouvira quanto de sua 
parte lhe fora dito , que sempre folgara de )he 
fazer em todas as cousas a vontade, e muito 
desejo tivera naquella occasiao de condescen- 
der com ella, mas que o não fizera por diver- 
sas razões , e porque entendia não quereria 
ElRei seu irmão, senão o que fosse conforme 
a razão ; e que no mais se remettia á resposta 
que havia dado ao Bispo seu Embaixador. 
Pelo mesmo teor escreveo á Rainha de Franca. 
D. Leonor, referindo-se ao que pelo Bispo de 
Ade lhe mandava dizer por escrito (413). 

An. 1SI3 Resposta que o Bispo de Ade levou a ElRei 

^'Tfi?' ^ Rainha de França sobre o n^ocio da entrq^ 

da Infanta da parte d'£lRei D. JoKoIII, assi 




(413) Fr. Miguel Pacheco, rida da InfanU D. Maria, cap. 10, 
p. 35 V. 



— 301 — 

da peio Secretario d'£8tado António Carneiro. 

Mo concernente ao que ElRei e Rainha de 
Franca lhe haviao mandado dizer acerca da 
Infanta Dona Maria, pedindo que em confor- 
midade do contrato de casamento d'£lRei 
D. Manoel lhes fizesse entregar a Infanta sua 
filha cora toda a sua fazenda, responde ElRei 
D. João que ficando a Infanta , quando ElRei 
seu pai falecera, de idade de seis mezes, elle a 
criara , como sua própria filha e irmã , e 
deixando a Rainha sua mãi o reino de Portugal, 
não tendo a dita Infanta, senão dous annos , 
continuara a tratál-a com o mesmo desvelo, 
no que mostrara o grande amor que lhe tinha, 
e o quanto desejaria vél-a honradamente ca- 
sada. E como o pagamento de seu dote não 
servia senão para o effeito de seu casamento , 
não o tendo sido até então necessário para o 
trato, luzimento e gastos de sua casa , porque 
tudo havia sido feito e se fazia por conta d'elle 
Rei de Portugal até aquelle dia, bem fácil era 
de entender quão prompto estava, pois que 
assim o queria a Rainha sua mãi, a pagar o $o- 
bredito dote , o que comeffeito poria em obra. 

Quanto aõ que a Rainha de França lhe pedia 
que houvesse de mandar-lhe a Infanta sua 
filha, lembra-lhe ElRei quanto seria contra a 
razão e contra o próprio decoro d'elle Rei o 
sair cila de sua casa e do reino de Portugal 
sem primeiro estar honradamente casada; e 
que diria o mundo, vendo que elle seu irmão 



' — 802 ^ 

a deixava ir , Mtido quç cm nenhuma parte 
poderia estar melhor^ ainda quando naquella 
occasiâo se houvesse de escolher lugar para 
sua residência em quanto não tomava estado^ 
do que em sua casa^ mormente sendo nascida 
e criada nos costumes e trato d'ella? Que a 
Rainha sUa mãi devia agradecer-lhe o contep- 
tamentOy que sempre havia tido etinha, deter, 
a Infanta comsigo , e não pedir-lhe que a man- 
dasse á França , e que se o fazia com o des^o 
de a ver, nas pessoas de sua jerarquia não devia 
o appetite vencer a razão : que se a Infanta era 
filha da Rainha de Franca , também o era d'£l- 
Rei P. Manoel seu pai, e que ao reino tocava 
o cuidar dos filhos de seus Reis, pois erão na- 
turaes d'elle : que bem que ElRei estivesse cer- 
to havia a Infanta ser grandemente tratada 
por ElRei de França, não lhe parecia bera que 
se desse occasiâo de^ pensar, que a tiravao da 
casa d'ella para ser mais bera tratada na de 
outrera ; qu^ os casos raudavão a razão, e jus- 
tificavão as aicções, e porque lhe parecia escu- 
sado ajuntar outras , lhe pede afíectuosaraente 
xjueira haver por bem que a Infanta sua filha 
continue a residir na terra e casa onde naceo^ 
_ até que se case tão honradamente como elle 
lhe deseja (41 4). 



/ 



.(414) Fr. Miguel Pacheco, irida da Infanta D. Maria, cap. 10, 



I . 



^«■ 



— 803 — 

Nesta data escreve EstevBo Limpo á EÍReii j^^mi 
avisandcM) de andarem , na cof^ de Achem 
uns navios francezes fazendo o contracto da 
pimenta (41 5). 

Nesta época apresou a esquadra por tu- ^íjJ*^* 
gueza coramandada por D. JoSo de Castro, 
um navio francez, cuja acção EIRei D. JoSo III 
approvou pòr carta de 1 6 de Junho do mesmo 
anno(416). 

Nesta data escreve o Doutor Gaspar de ^íJM 
Carvalho a EIRei sobre a preza que fez um 
GaleSo da Armada Real, de uma náo fran- 
ceza (417). 

Nesta época estava Embaixador era Fran- An. is4s 
ça D. Francisco de Noronha , que depois foi *>'• 
Conde de Linhares. Este diplomata acalmou 
com muita habilidade a indisposição de Fran- 
cisco 1, por EIRei de Portugal lhe nSo ter 
dado parte do casamento da Infanta D. Ma- 
ria com o Príncipe D. Philippe, e ainda mais 
•por ajustar EIRei de Portugal o dito casa- 






(415) ArchiToReal da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. I, 
maç. 73, doe. 62. 

(416) Qaintella , Annaes da Mariaha portagoeia, T. 1 , 
p. 43t. 

(417) Archiro Real dà Torre do Tombo, Corp. Chron.i P. 1, 
flUiç. 73» doe. 125. 



— 304 — 

mento com um inimigo da Coroa de França ^^ 
participanjjjfi o dito Embaixador isto a ElRei 
D. João iff, este Soberano escreveo ao de 
França dando-lhe os motivos que produzira o 
Embaixador (41 8). 

-^^ÈiuíM Nesta data escreve EIRei D. João III ao 

AMê 

Bispo de Tangere , Embaixador de Portugal 
na Corte de França, sobre os Corsários 
(419). 

Ao. 1544 Nesta data escreve EIRei D. João III a 

JoIbO 38 

D. Gonçalo Pinheiro, Bispo de Tai])gérie^ , 
Embaixador na Corte de Pariz, instruíi»*.^ 
do-o no que havia de praticar, não condes.- % 
cendendo EIRei de França no que propuzesse 
Fernando Alvares Cabral (420). 

Ao. 1S44 EIRei D. João III escreve nesta data a 

Agof to 2 

D. Gonçalo Pinheiro, Bispo de Tangere , 
Embaixador em França, para se governar 
pelas instrucçoes que levava Fernando Al- 
vares Cabral a respeito da carta de marca 
de João Ango (421 ). 



(418) Andrade, Chron. d'EIRci D. João UI, P. 3, cap. 90. 

(419) ArchiTO Real da Torre do Tombo, Gar. 11, maç. 8, 
n. 24. 

(420) ArchiTO Eeal da Torre do Tombo, Gav. 13, maç. 9, 
n. 16. 

(421) Archiro Red da Torre do Tombo, Gar. 13, maç. 9, 
n. 17. 



«" 



-.305 — 

- I 

Plèno poder do Itaiperador Cárlod Y , dado a», tsu 
aos seus Plenipotenciários pfira o Tratado 
de Crespy, entre elle, e Francisco I, de Fran- 
ça (422). 

Pleno poder de Francisco I, Rei de França^ Aii.tM4 : •< 
dado aos seus Plenipotenciários para o Tratado iMrt it 
de Crespy entre elle, e o Imperador Carlos V 
(423). 

Crespy. — Tratado de paz celebrado entre ad. is44 
Francisco I , Rei de França , e o Imperador bro u 
Carlos y. 

\ No art. XXXVni d'este tratado se estipulou 
que o Delphim de França^ filho d'ElRei Fran- 
cisco I, confirmaria e approvaria em boa e au- 
thentica forma a assignação de dote e duario 
da Rainha Christianissima D. Leonor, viuva 
d'ElRei D. Manoel , e irmã mais velha do Im- 
perador Carlos \, promcttendo guardar e ob- 
servar quanto acerca do dito dote ibsse por 
ElRei seu pai estipulado. 

E pelo art. XLUI que seriao comprehendi- 
dos também naquelle tratado de paz de com- ^ «, 

mum accordo pelos alliados confederados^ e 
gozarião dos beneficios d'elle, o Summo Pontí- 
fice, ElRei de Polónia , de Portugal, de Dina« 



(422) Danumt, Gorpf IKploia. Univ., T. 4, P. 2, p. 287. 

(423) Daoxml, Gorpt P^plooi. Unhr., T. 4, p. 2, p. 287. 
ni. 90 

^4 



— 30e — 

marca, a Senhoria de Veneza, os TVeze Cantões 
Ligados , os Duques de Sabóia , Lcnrena , etc 

(424). 

ab. 1S44 Declaração do Imperador Carlos \ acerca 
w»it da alternativa capitulada no ultimo tratado 
de paz de Crequi sobre o casamento da Pk^in- 
ceza e Infanta d'Hespanha , sua filha como Du- 
que d'Orleans. 

Em cujo art. YII representa o Imperador a 
El Rei de França a obrigação em que estava 
para com EIRei de Portugal , e o direito que 
este tinha a gozar dos beneficios da paz, leiulo 
sido comprehendido no ultimo tratado e nos 
antecedentes y em os quaes fora estipalado se- 
rião prohibidasedeclaradas de nenhum eflèllo 
as represálias e cartas de marca ; o que nSo 
obstante , o contrario se praticava contra os 
vassallos d'ElRei de Portugal , ao que EIRei 
de França devia attender e remediar, mor- 
mente tendo feito outras muitas cousas nem 
tão favoráveis , nem tão Justificadas , por con- 
templação para com o dito Rei de Portugal 
(425). 

An. 1544 InstruccSo d^ElRei D. João III a D. Fltin- 

DrzeOH • 

broí _ 

(421) IHinflttt» Corps Diplom., T. 4 , P. 2 , p. 279. 

VWUhJMWoAocaReal deParíz, Recneil des traités» etc» 
God. 6S, M. Itt, e Cod. da mesma Biblioth. 9,731 , p. 47. 
(4») FMdMp Mooard , T. 2 , p. 456. 

Domoiit, Coffi IK^om., T. 4, P. 2, p. 388. 



— 307 — 

cisco de Lima enviando-o ao Príncipe de 
Castella na occasiao do ajuste^ que se inten- 
tava fazer entre o Imperador Carlos V e El- 
Rei de França Francisco I, sobre a repartição 
que havia sido feita entre Portugal é Castella 
dos mares e terras descobertas e por des- 
cobrir. 

Encommenda ElRei a D. Francisco de Lima 
nessa instrucção que nos limitámos a indicar 
succintamente na secção XV de nossas rela- 
ções com Hespanha (426)^ que diga ao Principe 
de Castella^ que sabendo elle D. João por Lopo 
Furtado havia o Imperador ordenado aos de seu 
Conselho que tratassem de ver o modo por que 
se faria entre elle Imperador e ElRei de França 
um ajuste e assento sobre a demarcação ; que 
entre Portugal e Castella se havia feito dos 
mares^ terras e ilhas descobertas^ e por desco- 
brir; e tendo-lhe mais dito o mesmo Lopo Fur- 
tado ordenara o Imperador que quanto em seu 
conselho se tratasse acerca d'aquelle assumpto^ 
fosse immediatamente communicado a elle Rei 
de Portugal , para também o mandar pôr em 
conselho , afim de que confrontados os pare- 
ceres se podesse fiiier o sobredito assento c 
fljuste com ElRei de França na melhor forma 
possivel ; elle Rei de Portugal agradece como 
deve ao Imperador a lembrança^ que de suas 



(436) r. T, 2, p. M. 



■■ 



— 308 — 

cousas teve, e por lhe ter parecido pedia aqtiillo 
uma prompta resposta, e não quizesse esperar 
para o fazer que lhe chegasse alguma com- 
mtinicação , determinara enviar-lhe a eite 
Francisco de Lima para tratar d'aquelle as- 
sumpto com as pessoas que o Imperador no- 
measse. 

E passando EIRei a tratar do objecto parti- 
cular d'aquelleajuste, encommendaao dito seu 
enviado pelo Art. IV que, com ser cousa mui 
sabida, não deixe de lembrar ao Imperador o 
como foi feita a repartição dos mares e terras 
novamente descobertas entre Hespanha c Por- 
tugal, repartição que não fora impugnada pe- 
las demais nações, as quaes pelo contrario se 
havião abstido constantemente desde então 
de navegar e frequentar os mares e terras dos 
domínios dJIespanha e de Portugal, e tanto 
á risca o tinhão observado que nunca vassallo 
afgum de qualquer outro Rei ousara de visitar 
aqueilas paragens, salvo alguns annos atraz 
alguns piratas francezes , dizendo sempre EI- 
Rei de França fora contra as suas ordens, e 
que os mandaria castigar, passando para isso 
as ordens mais terminantes. 

E no Art. VIII que faça o dito D. Francisco 
de Lima ver ao Imperador o grande inconve- 
niente que resultaria de se conceder aos Fran- 
cezes de poderem comraerciar nas terras 
d'alem mar do domínio d'Hespanhae de Portu- 
gal, € que não era só com este fim que elles 



— 309 ~ 

ião em náos armadas , mas sim para pode- 
rem roubar sobre seguro (427). 

Nesta data ElRei D. João III manda visitar An. ua 
o Capitão General da armada, que ElRei de 
Franca mandava ao canal de Flandres, c dis- 
suadíl-o de que a dita armada entrasse em 
Lisboa a tomar mantimentos, como requerera 
a S. A. o Embaixador de Franca Honorato de 
Caix (428). Ao mesmo tempo dirigio ElRei 
ordem á camará de Lisboa para apromptar os 
mantimentos, no caso de entrar no Tejo a dita 
armada, devendo estes ser pagos pelo AImi* 
rante da mesma (429). 

Nesta data ElRei D. João III, achando-se em aiu is« 
Évora, escreve ao Camareiro Mór, ordenando- 
Ihc que convide, e agazalhe o Capitão General 
da armada de França, de que acima tratámos; 
se este quizesse vêr a cidade, quando succe- 
desse que a dita armada surgisse em CaScáes, 
ou em Bclem (430). 

Nesta data dirige ElRei uma carta a Lucas in. na 



(427) ArchiTo Real, GoUecrSodot Mm. de SSo Vicente de 

Fora, 1ÍT. 4, foi. 79. ^ 

(428) Arehivo Real da Tom do Tombo, Mai. de S. Vicente 

de Fora, T. 3, foi. 55, e foi. 76. - Ti 

(429) Ardiivo Real da Torre do Tombo, Ihid.^ foi. 57, e 80. ^ 

(430) Archiro Real da Tom do Tombo , Mai. de S. Vicente 
deFora,T. 3, fol.59« 



^ 



— 310 — 

Giraldes para que elle emprestasse ao Em- 
baixador de Franca Honorato de Caix um conto 
de reis que elle pedia para a compra doa man- 
timentos de que necessitasse a armada fran- 
ceza (431). E logo na mesma data escrevea 
ElRei ao Regedor para que os Officiaes de jus- 
tiça estivessem promptos para impedir as bu- 
lhas ^ e motins entre a gente da terra , e a da 
armada quando esta chegasse (432). Do mesmo 
modo mandou ElRei ordens ao Governador 
de Lisboa (433)^ e escreveo uma carta ao Almi- 
rante Capitão General da dita armada francesa 
(434), 

An. 1545 Carta de Honorato de Caix^ Embaixador de 
^^ França em Lisboa , a ElRei ^ seu AmOj, dando- 
Ihe conta do estado em que chegarão alguus 
navios aos portos de Cascaes e Cadix (435). 

An. 1545 Ratificação do Tratado de Crespy, de 18 de 
bros" Setembro de 1544, pelo Imperador Carlos Y 
(436). 



(431) Archivo Real da Torre do Tombo, Mas. de S. Vicente 
de Fora, T. 8, foi. 63. 

(432) Ibid. 

(433) Jhid,, foi. es. 

(434) lbid.,ío\.n, e75. 

(435) ÂrchiTo Real da Toi^ do Tombo, CSorp. Ghron., P. 2, 
maç. 240, doe. 39. " ' ^ 

(436) Dumont, Ck)rpa Diplom., T. 4 , P. 7, p. 7^. 



— 3H — 

InstruccSo cTEIRei D. JtAo HL, para André *g;^ 
Soares I cscrivSo.da sua Fazenda ^^ que por sua .^^ 
ordem fôra nomeada para ir a França pedir a ^ "^ 
EIRei Christíanissimo lieença para tii^ar d'a- 
quelle reino 20,000 moios de trigo para Por- 
tugal , pela falta que neste reino havia doeste 
género (437). Por outra earta, EIRei informa 
ao mesmo emissário de que a principal causa 
por que nSo vinha o trigo de Flandres, e de 
outras partes de AHemanha , era pelo receio 
de que os navios fossem tomados no canal 
pelas armadas de França, e de Inglaterra, e 
assim pedisse salvo conducto a EIRei de França 
para poderem vir (438). 

Nesta data dá EIRei D. JóSo IH carta cre- An. is» 
dencial para EIRei de França a í&vor d' André >>ro 
Soares, para este obter os salvos conductos 
necessários para os navios que viessem de 
Flandres, e outros portos, nSo fossem tomados 
no canal pelas forças írancezas (439). EIRei 
previne igualmente por outra carta d'este 
tempo, o Bispo de Tangere, seH Embaixador 
em França, de ter mandado o dito André 
Soares , encarregado d'aquelle objecto (440). 



(437) Archiro Real da Torre do Tombo, Mmb, de S. Vicente 
dte Fora, T. S, foi. 517. 

(438) Ibid., foU 523. 

(439) Ibid., foi. 524. 

(440) Jbid., foi. sn. 



— 312 — 

,« Instrucção d'EIRei D. João III para Manoel 

' de Mendonça, eticarrpgaiido-o de passar a 

' Fiança , afim de vir dar os pezames a ElRei de 

França pela morte do Duque d'Orleans, seu 

filho, ordenando-llie que visitasse igualmente 

a Kainha sobre o mesmo objecto (4^^ 1). 

Por este Ministro escreveo igualmente a 
EIRei de França, signifícando-ibe que, sou- 
bera esta noticia pela communicação que lhe 
fizera o Bispo de Tangere, seu Embaixador 
na Corte de França (442). E na carta da mesma 
data previnio EIRei D. João III o dito Em- 
baixador da ida de Manoel de Mendonça com 
esta missão extraordinária (443). 

u Hctação de Marino Cavalti, Embaixador de 
Veneza em França, acerca das negociações 
d' essa Corte com as das outras Potencias d'Eu- 
ropa. 

Depois de haver informado a sua Corte das 
relações que existiao entre a França e as demais 
Potencias, passa o Embaixador a tratar da de 
Portugal, a qual, segundo elle, não podia 
estar em boa intelligencia com a de França, 
sendo que entre ellas havia uma guerra surda, 
pretendendo os Francezes navegar os mares 



(<i I) Archivo Real da Torre do Tombo, Hss. de S. Vicente 
deFors, T. 4, foi, 135. 
ÍU2) Ibid., foi. 138. 
(443) Ibid-t CoUecç, citada, T. 4, foi. Ul. 




^ 



— 313 

de Guiné e do Brasil a despeito dos Portu- 
guezes, os rjuaes, sendo naqucllas paragens 
mais fortes, nietião no fundo os navios fi-aii- 
cezes, o que havia sido occasièío para varias 
represálias da parte d'estes, Que tendo os Por- 
tuguezes nos tempos passados frequentes con- 
tendas com Castella , costumava a França 
ajudál-os, pelo mesmo theorqueaosEscossezes 
contra os Inglezes, o que então não podia ter 
lugar, assim que veudo-se EIRei de Portugal 
desassistido, se havia lançado nos hraços do 
Imperador, mostrando-se descontente d'EIRei 
de Franca, e ElReí de Franca descontente d'elle 
(444). 

Neste anno ehegão a Lisboa os Lentes fran- *i 
cezcs da Universidade de Pariz, que EIRei 
D. João III linha mandado vir para Coimbra 
(445). 

Nesta data escreve o Doutor Jnrgc Nunes a ai 
EIRei sobre o estado de algumas das causas 
das tomadias (446). 



(iH) Relationa dei AmbaMadetm Ténilicns sur le* ■fTaire^ 
dcFrance laxvriiècle, recucittiMptrTuminasca, T. I,p. 293. 
— Colleclion des picces íuédítM sur I''hÍBUiÍrc de Franee pir 
r.hampoUion Figeic. 

(4t^) Actas e Hist. da Academia Real d'lIistoríaporliiguexa, 
T. 13,p.*75,eí77,iI8I. 

[44G) ArchiTo Real d« lom do Tombo, Corp.Chion-, P. I, 
ma;. 66, doe. 101. 



I. IMT 



^B 



— 3*4 — 

An. 1148 Embaixada de Monsieur de Biron , Gentil- 
eíi*') bomem ordinário d*ElRei Henrique II de Fran- 
ça, mandada a Portugal. 

Nascendo a este Monarca mn íilho^ a boa 
harmonia^ em que estava com ElRei D. 
João ni , o moveo a coYividál-o para seu com- 
padre^ o que poz Togo em pratica mandando 
a Portugal com cartas suas ao dito Monsieur de 
Biron , seu Embaixador extraordinário. Foi o 
mensageiro conduzido á presença d^ElReí por 
D. Affonso de Lencastre, Commendador Mór 
da ordem de Christo : recebeo-o ElReí com 
summo agrado , e despedio-o contente, man- 
dando-] he dar uma cadca d'ouro de valor de 
mil cruzados, respondendo a ElRei de França 
que em breve mandaria com pleno poder e 
proclirãç8o pessoa que o substituísse (447). 

Ân. 1548 Parte para Franca, com o caracter de Em- 

Mamo si » ' 

baixador extraordinário, D. Constantino de 

.Bragança, acompanhado de D. Luiz delfofo- 

nha , Alcakie Mór de Monforte, FernSòPeretr», 

Alcaide Mór d'Arrayolos, Duarte de Souzft, 



(447) Souza, Hisf. Geneal., T, 3, liv. 6, p. 609. 
Andrade, na Chroníca d^IReí D. JoSo m , T. 4 , cap. 33 , 
foi. 39 , diz qne o Embaixador francez chegara a Almeirim a 
1 1 de Varço, estando ainda em Liaboa Honorato de Caix eomo 
Bmbailadorordfaiarlo. Accrescenta qne elle fÔra despedido a 
27 do dito mez, e mandado como End>aizador a França 
I>. Condtanâao dè Biragança, como dizemòa no fexto^e qne 
partio aegnndo este Gironisia a 31 de Março do dilo aiúiò. 



— 8t5 — 

CaTalleiroda ordem de S. Joa<^ de AffoosoYaz 
déCaminha^ Alcaide Mór de Villa Viçosa^ todos 
ricamente vestidos de velludo carmesim com 
rendas d'ouro, levando comsigo doze criados^ 
entre os quaes ia um por interprete, que já tinha 
estado em Franca , em cujo reino entrárik> por 
Bordeos. A cinco fegoas de Pariz veio recebêl-os 
o Grão Mestre das postas, acompanhado dos 
Pc^rtugueses que a esse tempo residião na dita 
cidade, e como se avizinhassem d'ella saio-lhes 
ao encontro um Gentilhomem d'EIRei de 
França, que vinha encarregado de acompa- 
nhar o Embaixador portuguez era sua entrada 
na capital , e que lhe participou o como ElReí , 
seu amo, estava incógnito n'uma das ruas por 
onde elle devia passar, afim de terá satisfaçio 
de o ver. Assim atravessou o Embaixador a 
cidade até chegar ao palácio que ElRei deFrança 
havia destinado para sua residência, cujos 
aposentos se achavão ricamente ornados, e 
providos de todo o necessário (448). 



(448) Souza» Hiitor. Geneal., T. 3, IW. 6, p. 610. 
Souza refere niendaoiente m circnmstancias doesta enir 
baixada , e diz qpe KlBei de Fran^ no dia depois da chegada 
do Embaixador portugnez o mandara risitar, e saber o como 
passara na jornada , signifietndo-Ihe jnntameaite a satisfação 
qae tinha á| aer elle o encarregado d'aquella commis^õ', e 
qne áe9cmfm0j porqne o baptismo haria de ter demora ; 
refere mais que passados três diai, tomara EiRei de França a 
nSandál-o risitar, e dfzer-llkeqaefe <|iierla entreter-se com Ter 
um exercício de justas, o co n f Mh yan tvrm 



— 316 — 

An. U48 Nesta data escreve Manoel de Araújo sobre 
as presas , que os corsários francezes fazião 
em navios portuguezcs (449). 



algumas lanças com alguns de seus cavalleiros, para o que se 
lhe preparava uma janella no paço ; que o Embaixador agra- 
decéra a ElRei o convite com que o honrava , e ficara mui 
satisfeito da bizarria e destreza eoúi que aquelle Monarca 
desempenhara as obrigaçSes d^um bom cavalleiro ; durante as 
justas foi o Embaixador assistido sempre de Monsieur de Biron. 
ElRei depois de haver quebrado algumas lanças , poz-se no 
meio da teia dando por acabado o jogo, e tirando o élmo, 
desoobriò o rosto, poz na cabeça uma gorra, e voltMido-Se 
para onde estava o Embaixador saúdou-o tirando a gorra, e 
débruçando-se sobre o pescoço do cavallo dissç-lhe que se não 
fosse, porque lhe queria fallar; porfim apeou-se, e entrando 
em uma camará do paço esteve bom espaço de tempo conver- 
sando com o Embaixador. 

No dia destinado para o baptismo foi o Embaixador ao paço 
ricamente vestido com uma luzida comitiva, e depois de en- 
tregar a carta dp crença, esteve conversando com ElRei, e 
passou a visitar a Rainha Gatherina de Medicis que se achava 
acompanhada da Princeza Margarida , irmã d^ElRei. Acabada 
a audiençja foi o Embaixador aposentado no mesmo palácio de 
S. Germain , e porque erão muitos os que seguiâo ElRei , e 
poucos os commodos , ficou D. Constantino com os Cardeaes. 

Concluídas as ceremonias do baptismo, voltou D. Constantino 
aí^ariz, onde ElRei o convidou para ver a sua entrada. Du- 
rárík) as festas trinta dias,élBa aiidieucia de despedida fez-lhe. 
ElRei presente d^uma baixdk áê prata dourada do valor de 
quatro mil cruzados , è miiMâoB dar mm fidalgos cadeas dVniro 
de cento e cinooenta cnuM|c||b AAMnpanhou««|{;na retirada 
M(nisieMr de Laussac. ' '' ii-^í-í^'i 

(449) Archivo Real da Torre do Tombo, rÍ(ÍpTMii , P. 1 , 
iniiç. 80, doe. 107. 'z^ 

Jf.B. Achao-ie no ^JMrchivo. RmI da Torre do Tomh», 






— 317 — 

Representação a EIRei da necessidade que 4n. ims 
havia de por em defeza as Capitanias do Brasil 
contra osFrancezes^ ele. (450). 

Nesta data forSo expedidas as cartas de EIRei ab. is48 
D. João in para Braz d'Alvide^ seu Embaixador ^^ <> 
em França^ acerca do Juizo e Commissão que 
entre elle Rei de Portugal , e o de França , se 
assentou estabelecer em Pariz,e em Lisboa, para 
nellas requererem os súbditos das duas nações 
sua justiça pelos roubos , é damnos que uns e 
outros tivessem feito ^ dando EIRei parte ao 
mesmo Embaixador de ter determinado^ que 
o Bispo de Tangére^ seu Embaixador em Fran- 
ça , voltasse pára Portugal (451 ). 

Nesta data expedio EIRei a carta credencial ab. isa 
para EIRei de França^ enviando-lhe por Em- krois' 
baíxadores aD. Francisco deNoronha, e ao Bispo 
deTangere, para protegerem, e ajudarem os 
vassairos portugueses na Commissão do Juizo 
das presas em Pariz (452). 

Nesta mesma data expedio EIRei D. João III ab. ims 

ftrais 



(450) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
maç. 80, doe. 110. 

(451) ArdÚTo Real da Torre do Tombo , Mm. de S. Yieente 
de Fora , T. 1 , foi. S33. 

(45?) Mm. oríg.de S.Vicente de Fora. T. 1, foi. 338, Arcbivo 
Real da Torre do Tombo. 






— 818 — 

. outra carta credencial pára o Licenciado 3raz 
d'Âlvide^ sobre ajudar os outros dous Em- 
baixadores portuguezes nos negócios da Com- 
missão das presas emPariz (453). 

àm. IMS Carta d'EÍRei para o Embaixador Bispo de 
bro IS Tangere^ eoviando-lhe o dito Braz d' Alvide, 
para tratar dos negócios na França , orde- 
iiando-lhe que instruindo-o nelles^ e depois de 
ter fallado a ElRei Gbristianissimo, volt^se 
para Portugal (454). 

An. IMS Nesta mesma data expedio ElRei D^ JcSò Hl 

^^ outra carta para o Embaixador D. FrancUco 

de Noronha^ sobre a Gommissao das presas 

em Pariz, e sobre Braz d'Alvide, ordenando- 

lhe que também voltasse para Portugal (455). 

An. 1548 Havendo ElRei D. João c ElRei de França 
por um tratado celebrado em 1 547, accordado 
que se estabelecessem de pai*tc a parte juizes 
que julgassem das difiPerenças^ que por oçca- 
siãodosdamnos^ que reciprocamente sehavião 
feito, entre ellês siibsistião, como no espaço cie. 
dous annos, termo destinado para o ajuste das 
ditas differençaSy não se podessem todas ajus- 



(4â3) Ibs. orig. de S. Vicente de Fora , T. 1, foi. 139. 
(454) M88. orig. de S. Vicente de Fora, T. 1, foi. 340. 
(455J Mm. orig. de S. Vicente de Fora, T. 1, foL 341, no 
ArchiYO Beal da Tonre do Tombo, 



— 319 — 

tar, e continuassem ainda os Portuguezes é os 
Franceses a se atacarem por mar, mandou £1- 
Rei por Braz d'Âlyide, que residia nesse tempo 
em Páriz, representar a ElRei Henrique as no- 
vas queixas que de seus vassallos tinha com os 
autos dos roubos que haviao sido feitos; e que , 
lhe dissesse quanta razão tinha para folgar 
de conservar a sua amizade, pois que com 
tantas oocasiões de quebra estava nella tão ; 
inteira que lhe fazia dissimular com tantos 
damnos de seus vassallos ^ que. tínha obriga- 
ção de acudir; quç assim lhe pedia muito desse 
ordem com que cessassem aquelles insultos^ e 
castigasse os culpados : também lhe encom- 
mendou exposesse a ElRei de França que hou- 
vesse por bem de prolongar por mais dous 
aunos a concórdia e ajuste de 4547, ao que 
annuio ElRei Henrique mandando dar a Braz 
d'Alvide carta patente de dilatação de mais 
dous annos, em conformidade da qual mandou 
ElRei D. João fazer outra que entregou ao 
Embaixador de França Honorato de Caix (456). 

Nesta dafa D. Constantino de Bragança, que An. is49 
estava aposentado no palácio de S. Germain 
havia dias, saio do dito palácio ricamente ves- 
tido levando o Príncipe francez nos braços, e 
precedido de toda a Corte se encaminhou para 
a pia baptismal , onde em virtude da carta de 

■ ' ' I II 1——— 

(466) Aadrade I ChroBka de D. loip m. 



— $20 — 

crença especial y de que vinda munido foi em 
nome d'£IRei D. João III padrinho dp iUto« 
Príncipe^ filho d'£lRci Henrique U de Frai^a 

. (457). 

An. 1S49 Confederação e allianca entre Henrique 11. 
Rei de Franca, e os 11 cantões suissos. 

Em o art. XYII d'este tratado d'alliauca se 
estipulou seriSo nellc comprehcndidos por 
parte d'ElRei de França , e expressamente re- 
servados, o Summo Pontífice, o Imperador, 
ElRei de Portugal ^ de Escossia, Dinamarca, 
Polónia , Suécia , e a Senhoria de Veneza , os 
Duques de Lorrena e de Ferrara (458). 

An. \M Carta patente d'ElRei Henrique E de Franca 
bro 12 relativa á execuç&o d'outra passada aos 28 de 
Fevereiro de 1 547, sobre as cartas de marca e 
contramarca dadas contra os vassallos respec- 
tivos de Portugal e França. 

Logo depois do preambulo reza a sobredita 
carta > que para o fim da continuação, e àug- 
mento da paz, e boa amizade, que devia de 



(457) Souza, Hist. Geneal., T. 3, liv. 6, p. 610. 
Gonfonnamo-iUM aqui quanto á data com a que se achm 

em Mezeray, Hiat. de França , T. 2, 1,063, que é a mesma que 
ae encontra em Andrade. 

(458) Frédéríc Uànard , T. 4. 

Dnmont, Gorpa Diplom., T. 4 , I^. 2 , p, 348. 

Lunig., p. 233. 

Biblioth. Real de Pariz, casa doa Más.^ Cod. 9,690. 



* I 



i 

— 324 — 

4 

i^inár entre EIRei de Portugal^ e EIRei de 
Ft^nça, e entre os vassallos d'uma ed'.outra 
Gofóa^ 'havendo EIRei de França por carta 
patente de 28 de Fevereiro 1547 ordenado, 
depois de ter ouvido o seu conselho, se sobre- 
estasse a todo acto de hostil idade , e ficassem 
sem efieito as cartas de marca, contramarca, e 
represálias passadas a requerimento de seus 
vassallos contra os d'ElRei de Portugal , com 
condição que o mesmo fosse praticado com as 
que os vassallos de Portugal houvessem alcan- 
çado contra os de Franca: de accordo com El- 
Rei de Portugal elle Rei de França se determi- 
nava a prolongar de dez annos , a começar da 
data da presente, a mencionada suspensão das 
cartas de marca , e quaesqiier outros actos de 
hostilidade, durante cujo prazo se trataria de 
parte a parte da reparação das perdas e dam- 
nos, que por effeito das precedentes hostili- 
dades houvessem experimentado os vassallos 
d'ambas as Coroas, para cujo fim seriao no- 
meados de parte a parte em Pariz e em Lisboa 
cinco Juizes Commissarios, á escolha dos Em- 
baixadores das respecti\"as nações , aos quaes 
ficaria pertencendo o conhecimento de toda a 
causa c reclamação proveniente dos sobreditos 
actos de hostilidade, e julgarião d'ellas sem 
appellação (459). 



(4óí», Mhs. da Bibliolh. Bcal de Piiiz, Cod. Jl ; Marlen., 
foi. IS.*), 

111. ?1 



— 322 — 

An. iKo Carta circular d'£lRei D. João III partici- 
pando aos Corregedores das comarcas a pro- 
rogação^ que se ajustara entre Portugal e 
França^ de mais dous annos da Commissão ju- 
ridiça estabelecida em Pariz^ e Lisboa para as 
reclamações das presas , ordena ndo-lhes que 
as fizessem publicar em todos os portos mari- 
timos de suas correições (460). 

An. 1550 Nesta data expede ElRei D. João III carta 

^*^^^'' credencial para Braz d'Alvide fallar a ElRei de 

França sobre algumas" cousas que tocavao ao 

cardeal , Irmão de S. A., e outra carta para o 

condestavel sobre o mesmo assumpto (461). 

An. i«o Nesta data expede ElRei D. João III, ordens 
fevcr. ^ Bpj^2 d'Alvide para fallar da sua parte a El- 
Rei de Franca sobre a Eleição do summo Pon- 
tifice, que pretendia S. A. que se fizesse da pes- 
soa do cardeal seu Irmão (462). 

An. ISSO Nesta d^èa expede ElRei D. João III carta 
credencial a Braz de Al vide para fallar a ElRei 



(460) M88. orig. 4e S. Yicente de Fora, T. 1, foi. 389, na 
Torre do Tombo. 

(461) Mss. orig. de S. Vicente de Fora, T. 1 , foi. 393, no 
Âxchivo Real da Torre do Tombo. 

(462) Mss. orig. ^e S. Vicente de Fora , T. 1 , foi. 395, e 397, 
no Ârcbivo Red da Torre do Tombo. 



— 323 — 

de França» sobre o que tocava ao Cardeal seu 
Irmão (463). 

Nesta data expede EIRei D. João III carta ao ah. isso 
coBdestavel de França, sobre o quê tocava ao 
Cardeal seu Irmão (464); na qual lhe par- ^ 

ticipa que escreve a Braz d'Alvide para da sua 
parte fallar a EIRei de França acerca do dito 
Cardeal , e que ordenava ao mesmo seu Em- 
baixador de lhe fallar sobre este negocio (465). 

Nesta data escreve EIRei D. João III a EIRei ah. isso 

- . , , Junho 18 

de trança, em resposta acarta que este sobe- 
rano lhe escrevera, c dirigira pelo seu Em- ^ 
baixador em Lisboa Honorato de Gazes, parti- ^ 
cipando-lhc ter feito um tratado de paz com 
EIRei de InglateiTa (466). 

m 

Nesta data, vendo-se EIRei D. João III aper- mlusú 
■ . ' JmyM27 

tado pela Rainha de França D. Leonor, que 
viuva d'EIRei Francisco I, tinha vindo residir 



(4f)3) Mfls. de S. Vicente de Fora, Correspondenc. , T. 1, 
foK 393) no Arcbivo Real da Torre do Tombo. 

(464) Mm. de S. ViceQtede Fora, CDrreopondeQC.,T. 1, fbl. , 
no Archivo Real da Torre dg Tombo. 

(465) Ibid.^ T. 1, foi. 393. 

(466) Mss. de'S. Vicente de Fora, no Archiro Reafda Torrt 
do Tombo. 

III. 2í* 



J». 



— 324 — 

em Flandres, sobre o casamento da Infanta 
sua filha com o Príncipe D. Philippe deCastella, 
então viuvo de sua primeira mulher a Prin- 
ceza D. Maria, filha do dito D. João III , escre- 
vendo a Lourenço Pires de Távora, seu Em- 
baixador em Çastella , depois de trazer-lhe a 
lembrança o que lhe havia antecedentemente 
escrito, e de informálo do que havia passado 
com a Infanta , e como esta lhe representara* 
em termos respeitosos sabia de boa parte qiie 
o negocio de seu casamento com o Príncipe de 
Çastella estava em bom andamento, por se 
acharem naquella corte tão bem dispostas as 
vontades, que bastava para effeituar-se o sa- 
ber-se que elle Rei o queria, antes de lhe 
ordenar o <:omo elle Embaixador devia de ha- 
ver-se naquella negociação; encarece-lhe o 
grande amor que tinha á Infanta, sua Irmã , e 
o quanto lhe pezava de ter de estorvar-lhe o 
intentado casamento; o que todavia estava re- 
soluto a fazer, porque as$im compria a bem 
de seus reinos nos termos em que estavãò as 
cousas d'elle, e de sua real fazenda; resolução 
que com muito custo lhe declarava a elle Lou- 
renço Pires de Távora sem embargo da grande 
confiança, que lhe merecia; que tal era porém 
a condição dos Reis, e a sujeição em que esta- 
vãò de acodir ao bem de seus reinos, e vassál- 
los, que muitas vezes se vião obrigados a obrar 
em contrario do (que entendião e até do que 






% • 



-# 



— 325 — 

desejavao; que por tanto lhe eneommendava 
levasse com o maior vagar possível o negocio 
do casamento da Infanta ^ de modo porem que 
nem em Portugal, nem em Castella se suspei- 
tasse era seu intento estorvál-o; que entendia 
era o meio mais obvio para dilatar aquelle ne- 
gocio o persuadir-se á Infanta, sua Irmã^ que 
competia á sua mai, a Rainha de França, e a 
mais ninguém o tratál-o; porque por aquelle 
modo conseguiria dous fins, o de ganhar tempo 
e entreter a Infanta, e o de impedir se nao 
ingerisse naquelle negocio outra pessoa, que 
tivesse na brevidade , e conclusão d'elle algum 
interesse particular (467). 

Carta patente de Henrique II , rei de Franca An. i:.5o 
(468)/ ' *'"'"" 

Nesta data avisa o Correíredor do Porto a An. isso 

^ Outubro 

ElRei da remessa que fazia de 14 Francezes, >« 
vindos de Vianna presos (469). 

Carta de Lourenço Pires de Távora a ElRei An. isso 
D. Jo3o III sobre a ida á Lisboa do Secretario da bro 
Rainha de Franca D. Leonor. 



s 

(467) Fr. Miguel Pacheco, rida da Infanta D. Maria, cap. 1 1 , 
foi. 40. 

(468) Cit. GnideDiplom., T. 1. 

(469) Archiro Real da Torre do Tombo^ Corp. Chron., P. I, 
maç. 85, doe. 90. 






— 326 -- 






Nesta data, avisando o mencionado Embaixa- % 
dor a ElRei da próxima partida do Secretario 
da Rainha de França , manda-lhe, que suposto 
que a missão , que o dito secretario levava , 
fosse geralmente ignorada ; do grande segredo, 
que naquillo se guardava, e de mais alguns 
indicios havia elle Embaixador inferido, ia 
aquelle enviado a apalpar o animo da Infanta 
D. Maria sobre o casamento d'ella com o filho 
d'ElRei dos Romanos , e talvez a abrir^se com 
ElRei D. João, e a fallar-lhe naquelle negócio 
da parte da Rainha de França , e que, porque 
lhe parecera de summa importância o as- 
sumpto , havia despachado um correio. 

Que indo o secretario, segundo a primeira 
conjectura para fallar a ElRei no projectado 
casamento , seria grandíssimo inconveniente o 
prestar-se ElRei a entender nelle , e que sendo 
que fosse,. segundo a segunda, com o designio 
de sondar a mente da Infanta, era mister n&o 
encontrasse nella cousa, que lhe alentasse as 
esperanças j que não convinha soubesse a In- 
fanta estava o Príncipe de Castella contractado 
com outra; pelo contrario devião persuadip-lbe 
que o Secretario assim lh'o dizia na esperança 
de que o despeito a levaria a consentir na nova 
alliança que lhe ia propor : que .ambos estes 
inconvenientes evitaria ElRei se se mostrasse 
em extremo desejoso de ver effeiluado o casa- 
mento de sua irmã a Infanta com o Príncipe 
de Gastellá , dando a entender que faria tudo 






K 



— 327 — 

por conseguil-o ainda que houvesse de despen- 
der muito de sua própria fazenda ; q)|(e ainda 
assim ) seria mister que se fizesse com á Infanta 
que fallasse no mesmo som , para o que nSo 
devia ElRei poupar promessas para entretél-a 
com esperanças; que pelo que dizia respeito ao 
Príncipe de Castella nada havia que recear; que 
elle Embaixador tinha por certo, hayia de fa- 
zer o possivel por nao casar com a filha d'EI- 
Rèi dos Romanos; assim que em quanto o dito 
Príncipe n3o fosse recebido , liSo cumpria que 
a Infanta entendesse n'outro casamento (470). 



(470) Fr. Miguel Pacheco, vida da Infanta D. ITaría, cap. 11, 
foi. 42 vo. 

o casamento doesta Senhora Infanta com o Príncipe de 
Caatella nSo veio a ter effeito, bem qne em 1553 fosse a final 
i^nstado, e qne para a celebração dos Desposorios riesse nesse 
«nno a Lisboa Ruy Gomes da Silva , Príncipe de Eboli , com 
luzido accompanhamento ; como porém nesse entretanto fale- 
cesse ElRei de Inglaterra , e lhe succedesse no trono a Princeza 
Haria, sua irmS , ordenou ElRei D. João IH a Lourenço Pires 
de Távora, seu Embaixador em Allemanha, que se achava 
entSo em Lisboa, passasse com o mesmo caracter á Inglaterra a 
comprímentar a nora Rainha , e ao mesmo passo Ihd tocasse no 
casamento d^ella com olnfante D. Luiz, com ordem que fazendo 
caminho por Flandres , onde estava o Imperador , lhe desse 
conta do objecto d^aquella embaixada, O Imperador que ti^|Ml 
outras vistas entreteve alguns dias o Embaixador. Acabava *4|| 
de deapachar um- correio para Hespanha , e recebendo aque)|a 
noticia pedio o maço das cartas, e escreveo por fora d^elle o 
seguinte : « Neste momento ohega-me aviso que é morto ElRei 
de Inglaterra : se o despoioiio com a Infanta D. Maria nfio está 
celebrado , suspenda-se por ora. » Assim o conta Fr. Miguei Pa- 
checoy estranhando o mkaatío ৠbomoi ehranitUi,e ftmdando- 



,^ 



— 328 — 

ab. ism Pela mesmo correio esci^ve uesta data o 
^^ referido Embaixador á Infanta Dona Maria, 
queixando-se de que os successos do tempo lhe 
estorvassem de a servir como desejava , pro- 
testa de o fazer como podia y e nesta conformi- 
dade, como se fora levado unicamente do inte- 
resse que nas cousas d'aquella Princeza tomava 

dá-lhe aviso do Secretario da Rainha de Franca 

• 

sua mãi, a qual aconselhada pela Rainha de 
Hungria e pelo Imperador seu Irmão lhe man- 
davaporelle fallar no casamento d'ella comFer- 
fÉmdo Archiduque d' Áustria , dando renuncia 
ao que estava projectado com o Principe D. Phi- 
lippedeCastella; e mostrando-lhe a pobreza dp 
noivo, e o differente modo de viver da terra , 
onde teria de residir, trata de a dissuadir d-a- 
quelle casamento, dando-lhe a entender que 
nao sendo o Principe de Gastella ainda rece- 
bido nao devia ella Infanta entender naquelle 
casamento (471). 



«86 no testemunho de Martin de Acpicnelta Navarro, contempo- 
râneo da Infanta e Lente de Prima na Universidade de Coimbra 
— ipsís rerbis. « Coniraciumque fuisset {scilicet matrimoniam)^ 
ti 24 horú tardius venittet è Flandria veredarius misttít a Cauare^ 
qui in dorso fateiculi litlerarum jam traditi veredario in Eispa-^ 
-fúam dettinaio hac tcripterai, Hoc temporis momento nuntiatum 
tÊ$ii Regentjánglia Eduardum , cui tuccettura ett soror ejus Ma^ 
Ha^ mortcm ohiUtc t quare si nondum est contractum matrimo^ 
nium cum Infante Dona Maria suspendatur, » 

(471) Fr. Miguel Pacheco, vida da InfanU D. Maria , cap. 1 i , 
foi. 43 V. 

Fide Relaç9ei de Por ugal com o loíperio. 



— 329 — 

Nesta data escreve ElKei D. João III ao Em- An. issi 
baixador Braz d'Alvide sobre o que passara 
com a Rainha de Escossia acerca da carta de 
marca que alguns naturaes d'aquelle reino 
hou verão em tempos passados contra os vas- 
sallos portuguezes, e sobre aprétenòão de carta 
João Prevost, negando EIRei a licença que o 
mesmo Braz d'Alvide pretendia para se voltar 
para Portugal , e o accrescentamento de seu 
ordenado, o qual lhe accrescentou, etc. (472). 

Nesta data escreve EIRei D. João III a Braz m. issi 
d'Alvide seu Embaixador em Franca, sobre 
as desavenças que havia entre Henrique II e 
o Papa , ordenando-lhe que exposesse da sua 
parte ao dito Rei as razões com que pretendia 
persuadil-o a um accommodamento para bem , 
e socego da christandade, ordenando-lhe que 
também da sua parte cpmmunicasse isto mesmo 
ao Condestavel de França (473). 

Vide Rdaç. de Portugal com a Corte de 
Roma. 

Carta d'EIRei D. João III, para Brazd'Alvide An. issi 
seu Embaixador em França pedir salvo con- ^••**** 
duto para Diogo da Silva, e para os Doutores 
Diego de Gouvea, e João Paes que ião por 



(472) Ufa. orig. de S. Vicente de Fora, T. 1, foi. 347, no 
ArchÍTo Real da Torre do Tombo. 

<473) Ufa. de S. Vicente de Fora, no Ârchiro Real da Torre 
do Tombo. 



— 330 — 

seus Embaixadores ao Concílio^ e para os Bispos 
do Algarve , Lamego^ e Funchal que também 
iao ao mesmo Concilio (474). 

Em outra carta ( sem data ) ElRei avisa ^ 
. Embaixador de ter recebido o salvo conducto 
para as pessoas mencionadas poderem entrar 
çm França, por onde se dirigião para q Conci- 
lio, participando*lhe que não viera em forma, 
e lhe ordena que peça a ElRei de França um 
mais amplo (475). 

An. 1S51 Alvará mandando soltar alguns Francezes 
^broT que forao tomados por Lisuarte Peres , capitão 
da Armada (476). 

An. 1551 Almeirim. — Carta credencial d'ElRei 
brow D. João III para Braz d'Alvide fallar a ElRei 
de França em vários pontos relativos á segu- 
rança da navegação, e commercio dos Portu- 
guezes(477). 

An. 1551 Na mesma data escreve ElRei D. João III ao 

Setem- 
bro 22 • 



(474) Archivo Real da Torre do Tombo, Mss. de S. Vicente 
de Fora, T. |, foi. 345. 

(475) Mss. de S. Vicente de Fora, no Archivo Real da Torre 
do Tombo, T. !>, foi. 401. 

(476) ArchiYO Real da Torre do Tombo, Gav. 20, maç. 7, 
n. 20 ; é a minuta do Alvará. 

(477) H88« de S. Vicente de Fora, .Correapond. orig., etc*, 
T. 1 , foi. 285 , no Archivo Real da Torre do Tçmbo. 



— 331 — 

condestavel de França, sobre vafioa^ pontos da 
segurança da navegação, e commercio dos 
Portuguezes (478). 

Nesta data EIRei D. João III dá insti^uceoês a i^n. 1552 

* Setem- 

Braz d'Alvide, seu Embaixador em França, «>fow 
sobre o que havia de tratar decisivamente com 
Henrique II para obter a restituição dos navios 
aprezados, e fazendas que os seus vassallos 
tinhão feito aos de S. A. como também as dos 
navios que trazião as especiarias pertencentes 
á^ fazenda real (479). 

Nesta data se expedio de Almeirim a carta An. issi 
credencial d'ElRei D. João III para o Embaixa- bro 29 
dor em França Braz d'Alvide poder propor em 
nome da Corte de Portugal o accommodamen to 
entre as Cortes de França e Roma (480). 

Vide Relaç. de Portugal com Roma. 

Nesta data escreve EjRei D. João III a Braz An. issi 
d'AI vide acerca dos o£Qcios que este lhe escre- «>ro » 
vera sobre o que passara corá os do conselho 



«•^ 



(47S) Mm. de S. Vicente de Fora, Correspond. oríg., etc., 
T» 1, foi. 387, no Archiro Real da Torre do Tombo. 

(479) Ifss. de S. Vicente de Fora, f. 1, foi. 361, até 366, 
no Archiyo Real da Torre do Tombo. 

(480) Mas. orig.* de 8. Vicente de Fora, T. 1, foi. 353, no 
ArchÍTO Real da Torre do Tombo. 



— 332 — 

d'ElRei de França a respeito da navegação das 
especiarias de Portugal , e commercio dos Por- 
tuguezes , e restituição do que se lhes hav|fi|^ 
tomado no canal ^ e sobre a resposta que paf 
escripto, e no Conselho lhe foi dada^ preten^' 
dendo ElRei de Portugal que o de França man- 
dasse emendar a dita resposta, e que o dita 
Embaixador communicasse isto mesmo ao con- 
deslavei de França (481). 

ad. 15S1 Nesta data escreve o secretario Pedro de Al- 
^ *^'* caçova a Braz d'Âlvide Embaixador de Portugal 
em França sobre o negocio da navegação e das 
prezas dos navios portuguezes pelos Fran- 
cezes (482), incluindo no dito despacho uma 
relação dos navios que, segundo se tinha podido 
saber, havião sido roubados (483). 

Ad. 1551 Nesta data ElRei D. João III expede instruc- 

Nav é I 

coes a Braz d'Alvide seu Embaixador em 
França sobre as prezas, e acerca da Gommis-» 
são estabelecida em Lisboa e Pariz para julgar 
as ditas prezas (484) ; achando-se Juntas varias 



(481) Mss. de S. Vicente de Fora, T, 1, foi. 355, no imhívo 
Real da Torre do Tombo. -^ 

(482) Mss. de S. Vicente de Fora, no Arcbivo Red» T. i, 
foi. 376. 

(483) Mss. de S. Vicente de Fora, no Archivo Real, T. 1, 
•foi. 378». ' 

<484) Mss. de S. Vicente de Fora, no Archiyo Real da Torrt 
do Tombo, T.l, foi, ^70. 



— 383 — 

peças .sobre este objecto (485). Nesta mesma 
data ElRei nega ao Embaixador a licença que 
lhe pedia para voltar ao Reino. 



Nesta data escreve Lourenço Pires de Távora An/isst 
á Rainha , avisando-^ de ter visitado da sua 
parte a Princeza (486). 



Carta de Lourenço Pires de Távora para a An. iwi 
Rainha, sobre a jornada da Princeza (487). ^^^ 

Tendo constado nesta época que dos portos de An. im 
Franca tinhao saido muitos navios armados. ' ' 
e que se armavao outros mais para virem a 
corso contra todos os qiie encontrassem , man- 
dou ElRei D. João III por cartas circulares aos 
Ministros territoriaes que fizessem avisos d'este 
acontecimento (488); e escreveo também ao 
Duque de Bragança mandando-lhe copia <los 
oíTicios do Embaixador em Franca, Braz d' Al- 
vide^ a este respeito , e copias da resposta dos 
do conselho d'EIRei de Franca sobre o mesmo 



• • 



« # 



(485) Km. de & Vicente de Fora<, no ArchiTO Real da Torre 
doToknbo, foi. 374. 

(486) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 87, doe. 17. 

(487) ArchiTO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron. 

(488) Hat. de S. 'Vicente de Fora'; T. S, p. 98 , no ArcbhrQ 
Real. 



t « 



— 334 — 
objâcto» pedindo ao Duque o aeu pareeer (49^. 

^jjtt Nesta data escreve EIRei D. JoSo III a Brax 
d^Alvide, seu Embaixador em França, orde- : 
nando-lhe que pedisse a EIRei Christianiasimo «^ ' 
salvo condueto para António de Saldanha qno.^ - 
ia com o caracter d'£mbaixador a AUemaolut *. 
(490). 

Vide Secc. de Portugal com o Impèrior ' . 



* «^ 



* ég^tf M Nesta data escreve a Rainha D. Catharina á 

^ ^^^ Rainha de França , encarregando António de 

** * * Saldanha ^ Embaixador de Portugal em Alle- 

roanha, de fazer entrega da dita carta, bem 

como das que levava para a Rainha de Hon- 

gria (491 ). 

ab. 1S52 Nesta época se celebra entre EIRei D. JoãòIII 
e o Imperador e Rei de Hesparíha uma con- 
venção, em virtude da qual este ultimo Sobe- 
rano se obrigou a ínandar guardar ò estreito 
de Gibraltar por uma esquadra combinada 



(489) M88. de S. Vicentç de For^, T. 3, p. 98, na Archivo Rsal^ 

• (400) Ifn. de S. Vicente de Fora , no Arcbivo Real da Tonrtt 
doTombo^fol. 196*. i^ 

^491)' llss. d^ S.ViceBld de Fora, T. 1, foi. 207, no ÈfÁi^Hu 
. JfttaldaToil^edoTombo. " 

f 






— 335 — 

com a portugueza contra os Francezes ^ e opn- 
tra os Turcos (492). 

Nesta data as embarcações de guerra portu- An. im ^ 
guezas dão caça a navios francezes na altura da 
Madeira (493) * 

Nesta data escreve ElRei D. João III ao Con- An. issa 
destavel de Franca, Anna de Montmorenci, bro 
sobre o negocio daS presas feitas pelos Fran- ^«0 
cezes dos navios portuguezes , e sobre a nave- 
gação, ecommercio d'estes (494). 

Informação do Duque d' Aveiro para EIRei An. isai 
D. João UI lhe fazer mercê de quatro cartas 
de favor para EIRei de França , para o Condes* 
tavel , para o Duque d'Etampes, e para o Em- 
baixador de Portugal , afim de se lhe restituir 
em França 1 ,500 cruzados que vinhão em um • 
navio, que tomarão os Francezes neste anno 
(495). 



(402) ride T. 2 d'cste Quadro Elementar, secç. XV, p. 415, 
art. 2. 

(493) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 88, doe. 12. 

Este facto nSo foi mencionado pelo. jautor dos Jnnaet da 
Marinha portugueza. No T. 1 doesta obra se não faz mençSo de 
esquadra alguma portuguesa nesta data, 

(494) Mas. de S. Vicente de Fora , T. 1, foi. 380, no àxáâfO 
Real da Torre do Tombo. *' * 

" (495) ArcbiTo Real da Torre do Tombo, Golleeç. de Mm« de 
S. Vicente de Fora , T. 9 , fol/S72. 



— 330 — 

^0. 1553 Nesta data ElRei D. João 111 escreve á Rainha 
****'** de Franca sobre o casamento da Infanta D. 
Maria, filha da dita Rainha e irmã de S. A. 
(496). 

f. An. 1S53 Carta de Diogo Cabral a ElRei sobre o temor, 

^af"* que causou na ilha da Madeira a chegada de 

7 náos francezas, e a necessidade que havia 

de se fazerem baluartes em Machico e. Santa 

Cruz, etc. (497). 

j^^ 1554 Nesta data expede ElRei D. João III uma 
carta credencial a Braz d^Âlvide, seu Em- 
baixador em França, dirigida a Henriquç II 
para lhe pedir da sua parte a soltura do Conde 
de Chalanty ; e outra para o mesmo Braz d'Al- 
vide tratar do mesmo negocio (498). 



(496) Mss. de S. Vicente de Fora, T. I, foi. 251, no Archiro 
Real da Torre do Tombo. 

(497) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 81, doe. 31. 

Na vastíssima collecçSo dos manuscriptos de Brienne, 
collecção que se compoe de 350 volumes, ese conserva 
na Bibliotheca Real de Pariz, nao encontrámos documento 
algum neste anno relativo a Portugal. Fizemos este exame 
no precioso trabalho de notas chronologico -remissivas que 
ultimamente se fizerão doesta colleccão sob a direcção de 
M. Ghampollion-Figeac, que teve a bondade de nos deixar 
examinar. 

(498) Mss. de S. Vicente de Fora, T. 1, iol. 309, e foi. 'ÒÍO^ 
no Archivo Heal da Torre do Tombo. 



— 337 — 

Nesta data se dá um combate entre asembar- An. issi 
cações de guerra Portuguezas e Francezas em 
Cabo Frio a 18 léguas do Rio de Janeiro(499). 

Nesta data escreve EIRei D. João III a Braz An. i5S4 
d'AIvide, seu Embaixador era França, sobre bro uT 
uma náo que nao pôde entrar em Lisboa, 
ordenando-lhe que a reclamasse do Governo, 
francez no caso de ter sido apresada (500). 

Relação de João Capei lo, Embaixador de Ve- An. iss4 
neza em França, sobre os negócios d'essa Corte 
com as diversas Potencias d'Europa. 

Vindo o sobredito Embaixador a tratar das 
relações, que então existiao entre França e 
Portugal, diz, que EIRei de França tinha pouca 
conte||ip1açao com ÈIRei de Portugal, e que 
respondia ás embaixadas, que lhe mandava, 
queixando-sc dos dam nos , que seus vassallos 
soffriao dos Francezes , mais com vans pro- 
messas do que com satisfações (501). 



(499) ArchiYO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 92, doe. 113. 

o Antor dos Ânnaet da Marinha poriugueza, não trata 
doeste combate , nem conheceo este documento. 

(500) Mss. de S. Vicente de Fora, T. 1 , foi. 381, no ArcbÍTO 
Real da Torre do Tombo. 

(501) Relations des Ambaisadenrs de Venise sur les aíTaires 
de France au xvi* siècle, recueillies (>ar Tommaseo, T. 1, 
p. 383. — Collection (fé P>«<^^^tes sur rhistõire de France , 
par ChampoUion-Figeac. -""qP ' 

III. 22 



— 338 -— 

Ao. iã&4 Saint-Gerraain-en-Laye.— Nesta data ElRei 
bro*is de França assignou uitia carta patente na qual 
expõe, que, como quer que para a manutenção, 
continuação e augmento da boa , inteira e per- 
feita amizade que tinha com ElRei de Portugal, 
seu bom irmão, compadre é amigo, e para pôr 
termo às depredações e injurias, que seus vas- 
sallos e os do dito Rei de Portugal reciproca- 
mente alguns tempos atraz se havião feito, hou»- 
vesse por carta patente em o anno de 1 547 
ajustado e concertado com o sobredito seu 
irmão e compadre ElRei de Portugal, cessas- 
sem de então por diante, e durante o espaço de 
dous annos , de ter efiFeito as cartas de marca, 
contramarca, e represálias alcançadas pelos 
seus respectivos súbditos por qualquer causa 
e occasião que o tivessem sido, para durante 
este prazo se discutirem e sentenciaillh as 
causas, qued'ellas se houvessem originado, pe- 
rante os Juizes commissarios por elle Rei de 
França e por ElRei de Portugal; ou seus res- 
pectivos Embaixadores , eleitos e nomeados ; 
disposições que forão confirmadas e prolon- 
gadas por outras cartas patentes de 19 de No- 
vembro 1549, e 14 de Setembro 1552; estando 
ainda pendentes algumas causas provenientes 
das ditas depredações e injurias de parte a 
parte feitas e recebidas, de acordo com o dito 
Rei de Portugal , ha por bem prolongar por 
inais cinco annos, conteilQS da data doesta, a dita 
suspensão dé cartas^Wptoirca p contramarca, ^ 



— 339 - 

represália e todo qualquer actode hostili dade, 
conforme mais longamente ifora ordenado nas 
precedentes cartas patentes, debaixo da condi- 
ção que outro tanto fará ElRei de Portugal , 
promettendo e obrigándo-se elleRei de França 
por si e por seus oíiiciaes e ministros a cumprir 
e guardar as condições e estipulações da dita 
cessação de hostilidades, conforme ficava estipu- 
lado e assentado entre elle e ElRei de Portu- 
gal (502). 

Tratado de tregoas feito em Vaucelles pelo An. isss 
Almirante Coligny, por cinco annos, entre Hen- 
rique II Rei de França d'uma parte, e o Impe- .. 
rador Carlos V, e Philippe §eu filho d'outra. 

No qual foi estipulado da parte de ambas as 
altas partes contractantes em o art. XII, seria 
ElRei de Portugal seu commum alliado nelle 
também comprehendido (503). 

Nesta data escreve ElRei D. João m a ElRei An. isss 
de França Henrique lí para acreditar a Gaspar 



(502) M88. da Bibliotheca Real de Pariz , Cod. 55 {fonds de 
Brienne)y p. 180. 

(503) Recueil des Traités de Paix, etc., entre les Gouroimes 
d'£spagne et de Franco, imprime a AnTera, iii-12, p. 229. 

Frédéric Leonard, T. 2, p. 502. 
Dnmont) Corpa Diplom., T. 4, P. 3, p. 82. 
Biblioth. Real de Paríz , casa dos Mss., Cod. 9,736. 
Encontrámos os Actos das Confèroioiafl qna precederão 
^^ este Tratado, na GoUecçào de Bríenne, 68, p. 84. 



JL 



— 340 — 

Palha, sobre vários negócios que d'elle con- 
fiara (504). 

An. 1555 Nesta data escreve EIRei D. João III ao Car- 
deal de Lórrena para acreditar a Gaspar Palha , 
sobre vários negócios qued'elle confiara (505). 

An. 1555 Carta d'ElRei para JoSo Pereira d' Antas , 
Embaixador de Portugal eíB França, acre- 
ditar a Gaspar Palha, sobre vários negócios 
que d'elle confiara (506). 

An. 1555 Carta d'EIRei D. João UI para Braz d'Alvidê 
acreditar a Gaspar Palha , sobre vários negó- 
cios que d'elle confiara (507). 

An. 1555 Nesta data escreve Dioso Lopes de Souauí a 
EIRei D. João Hl sobre o que passara com EI- 
Rei de França , Henrique II , a respeito da paz 
cora o Imperador (508). 

Vide Relaç. de Portugal com ò Império. 



(504) Archivo Aeal da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1 
maç. 97y doe. 43. 

(505) ArchiYO Real da Torre do Tombo, Corp. Obrou., P. I 
maç. 97, doe. 43. 

(50fi) Archivo Real da torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1 
maç. 97, doe. 43. 

(507) Arcbivo Real da torre do Tombo, Corp. Cbroa., P. 1 
maç. 97, doe. 43. 

(508) Arcbivo Real da Torre do Tombo, Corp. Cbron., P. 1 
maç. 96,. doe. .65. 



— 341 — 

Carta de JoSo Pereira d'Ântas, Embaixador *st- »<( 
1^ de Portugal eni França para ElRei D. JoSoID, "^wu 
sobre os negócios de que fôi^ encarregado , e 
participando a noticia da morte do Doutor Braz 
d'Alvide, que alli estava tratando os da Infanta 
(509). 

Nesta data Henrique II, Rei de França , por An. isss 
carta patente registrada no Parlamento de brow 
Pariz, em consideração de lhe terem exposto os 
Mercadores portuguezes , chamados christãos 
novos, que tendo noticia da boa administração 
da justiça em França, e da abundância de to- 
das as cousas necessárias que ali havia , dese- 
javSo vir residir e commerciar nas differentes 
cidades do dito reino, e tendo em consideração 
o terem os Reis , seus predecessores , em todos 
os tempos favorecido singularmente os Merca- 
dores portuguezes, concedendo-lhes amplis- 
simos privilégios, por meio dos quaes elles - 
engrossavão em seus tratos com notável bene- 
ficio do reino de França, ha por bem, reno- 
vando-lhes os ditos privilégios, conceder-lhes 
cartas de naturalização, como de facto lhes 
tem concedido, com aviso e approvaçao de seu 
Conselho, e Príncipes do seu sangue, para que 
possão vir, quando bem lhes parecer, residir e 
morar no dito seu reino de Franca com suas 



(509) Archiro Real d« Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1 , 
nuiç. 96, doe. 100. 



^ 






— 342 — 

mulheres, familias e haveres, entrar e sair 
d'elle sem impedimento algum, podendo ah i 
adquirir bens moveis e de raiz par& si e seus 
herdeiros legítimos, como se fossem naturáes 
de França, gozando de todos os privilégios, 
franquezas e liberdades de que gozavao os 
vassallos de França (51 0). 

An. 15» Neste anno Nicolao Durand de Villegagnon, 
cavalleiro de Malta, interprende a viagem da 
America. Seu amor pela gloria ou, segundo al- 
guns, a paixão que tinha a ajuntar riquezas o 
impellio a pedir a ElRei licença para armar 
uma frota, e ir, debaixo de seus auspicios, ar- 
vorar as armas de Franca em o Novo-Mundo: 
o que alcançou por intervenção de Gaspar de 
Coligny, Almirante de França. Em publico 
diziao que este era o meio de extender a gloria 
do nome francez, ede enfraquecer os inimigos^ 
os quaes tiravão d'aquellas terras auxilios effi- ' 
^^ cazes para prolongar a guerra ;' que o exemplo 

dos Francezes serviria de estimulo ás outras 
nações, patenteando-lbes o caminho d'aquel]a 
parte do mundo^ de sorte que remindo do 
cativeiro os Americanos, estabeíecer-se-hia 
um commercio publico e commura ás nações , 
commercip do qual até ali s6 os Hespanhoes 



mA» 



(510} Mss. da Bibliotheca Real de Pariz, Coá, 
accordés aux marchuids étraDgers) , fouds deB 




— 343 — 

tiravao proveito por haverem sobmettido os 
Americanos a um jugo insupportavel : tal era 
o que se assoalhava por toda aparte. Mas a ver- 
dade era que Villegagnon tinha tratado secre- 
tamente cora Coligny, e como sabiá que o Al- 
mirante favorecia os Sectários da religião dos 
Suissos e de Genebra, que já abundavao em 
França, tinha-lhe dado esperanças que esta- 
beleceria esta religião nas terras de que se as- 
senhoreasse. Fez Villegagnon armar dous gran- 
des navios de cem tonneladas de porte com a 
artilharia necessária, e outro para os viveres 
c munições, e partiodo Havre em 12 de Julho 
com um grande numero de cavalleiros, ma- 
rinheiros, e artifices ; porem, salteando-o uma 
tormenta, teve de arribar a Dieppe, onde deitou 
em terra alguns dos seus que, dissaboreados 
do mar, não quizerão deitar mais avante ; de- 
pois do que voltou para o Havre, e nSo partio 
d'ali pela segunda vez senão cm 14 de Agosto^ 
e tendo saido da Mancha vinte dias depois, 
chegou á altura do Pico de Teneriffe , a pri^i- 
cípaldas Canárias, a duzentas legoas do lugar 
donde partira, e a vinte e sete gpáos de latitude 
septentrional. Despois,. tendo costeado a Ber- 
béria, passou alem de Loire, e dobrando o Cabo 
Branco que jai debaixo do trópico do Cancro, 
chegou em 8 de Septembro ao cabo da Ethio- 
pia (Cap-Vert) que jaz a quatorze gráos do 
equador, e donde se contio trezentas legoas ate 
ôPicc^ de Teneriffe. D*ali costeou a Guinée na 






— 344 — 

zona tórrida, c achou o clima d'aquella legião 
mui temperado, contra a opinião dalguns, que 
se podia ali andar vestido ou nu , e chegou em- 
íim em 10 de Outubro á ilha de São Thomé 
situada debaixo da linha equinoxial, d'onde o 
vento de sudoeste, impellindo-o ao leste, achou- 
se em 20 do mesmo mez de fronte da ilha da 
Ascenção, a oito gráos e meio de latitude meri- 
dional e a quinhentas legoas da terra firme. 
Em 13 de Novembro entrou no rio Ganabara, 
assim chamado pela semelhança que tem com 
um lago d'este nome. Este rio, a que os Portu-- 
guezes chamão Rio de Janeiro, jaz a 23 gráos 
alem da linha equinoxial debaixo do trópico 
de Capricórnio. Desembarcando os Francezes 
neste lugar vierão fclicitál-os, e trazerem-Ihe 
refrescos obra de quinhentos naturaesdopaiz, 
testemunhando-lhe a alegria que recebiao com 
sua vinda, porque os deviao defender dos 
Portuguezes c outros seus inimigos, etc. (511), 

An. 1S56 Carta de marca concedida porEIRei deFranca, 
a favor de Guillebert Scòt e seus companheiros, 
para poderem fazer aprehensao em quaesquer 
bens dos Portuguezes, no caso de se lhes nSo 
satisfazer dentro de três mezes a importância 
da presa que os mesmos lhe fizerão (512). 
* Nesta data o Imperador Carlos V, movido 



(511) DeThou, T. 2,p. 647. 

(612) Archivo Real d« Torre do Tombo, Gav. 3, maç. 2, n. 7< 



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k' 



— 345 — 

das instancias c rogos de sua irmS, a Rainha de ao- an 
França se determina a mandar a Lisboa D. bmi 
Sanclio de Córdova , com ordem de soli- 
citar d'ElRei D. João III a entrega da In- 
fanta, D. Maria, e na carta de crença , que 
para esse effeito expedio , representava a 
EIReiD. João, que não havendo elle deferido, 
como era de razão, ao que por Luiz Sarmento 
da parte d'clle Imperador, e por D. João de 
Mendonça da parte da Rainha de França, 
lhe fora exposto, de novo lhe escrevia sobre 
aqnelle assumpto , porque quaesquer que fos- 
sem as razoes que EIRei D. João allcgava para 
que a Infanta não saissc de Portugal, muito 
mais valiosas erSo as que o obrigavão a cum- 
pi'Ír com o que por seu pai EIRoi D. Manoel 
havia sido estipulado, eporclle mesmo, quan- 
do Príncipe, ratificado; e sobretudo a que as- 
sistia á Rainha de França e á Infanta para 
viverem uma ao pé da outra; assim que, de- 
sejando cllc Imperador dar essa satisfação a 
sua irmã, e havendo-lho promettido, lhe pedia 
houvesse sem mais dilação de consentir na _ 
cutr^a e partida da Infanta, alias ver-se hião 
elle Imperador, e EIRei de Castclla seu filho 
obrigados a assistir a Rairdia de França, e a 
fazer com que se guardasse e observasse o que 
fora por EIRei D. Manoel estipulado no tempo, 
era que com a dita sua irmã se desposara. 

E de seu próprio punho ajuntou mais algu- 
mas razões, pedindo encarecidamente a EIRei 



i 



— 346 — 

D. JoSo houvesse de attender ao qiuilhe ex- 
posera, consentindona partida dalnfama(51 3). 



An. 1556 Mesta mesma data 9 e por via do mesmo en- 
bro 1 viado, escreveo também o Imperador á Rainha 
D. Catherina, sua irmã sobre o negocio da In- 
fanta^ dizcndo-lhe quão pouco razoável lhe pa- 
recera a resposta que ElRei D. JoSo, seu marido 
havia feito á reclamação da Rainha de França, 
estando obrigado a fazer o que se lhe pedia , 
pois havia ratificado o que ElRei D. Manoel sen 
Pai promettêra e estipulara no contracto de 
seu casamento com a Rainha D. Leonor, e pe- 
dindo-lhe houvesse de fazer com ElRei, seu 
marido, com que sem mais dilações, annuísseá 
partida da Infanta ; porque a não ser assim, nSo 
poderia elle Imperador, bem como ElRei de 
Castellaseu filho, deixar de assistir naquella 
pretenção á Rainha de França, e de pugnar por 
que se cimiprisse com o que havia sido estipu- 
lado no contracto de casamento d'ella com El- 
Rei D. Manoel. 

Ede sua própria mão escreveo mais algumas 
regidas, encommendando-lhe houvesse de em-* 
pregar toda a sua influencia para a conclusSo 
e brevidade d'aquelle negocio, lamentandõ-se 



(5 1 3) Fr. Miguel Pacheco, rida da Infanta D. Maria , cap. í 3, 
foi. bi v". 

nde Secçio XV doeste Quadro Elementar (Relações entre 
Portugal e Heépanha), T. 2, p. 98 fn fin. 



- 347 — 

de nScHpòder ser raais extenso por lh'o impe- 
dir a enfermidade de que soffriã (514). 

Na mesma data a Rainha de França D. Leo- An. iss« 
nor, principal interessada em o negocio da broi 
partida da Infanta, respondendo á carta que a 
Rainha D. Catherina, a instancias d'£lRei seti 
marido, lhe havia antecedentemente escrito, 
bem como ao Imperador e á Rainha de Hun- 
gria, depois de agradecer-lhe o cuidado que 
tinha do bem e honra de sua filha, e o em- 
penho que mostrava ter de a guard||[| ao pé 
de si em lugar de filha; sem 'se affastar do res- 
peito e cortezia com que costumSo tratar-se 
as pessoas de tão alta jerarquia , deixando em 
silencio algumas das razões que em sua carta 
havia a Rainha D. Catherina apontado, para a 
continuação da estada da Infanta D. Maria em 
Portugal, mostra-sepor extremo aggravada de 
lhe haver a dita D. Catherina estranhado de 
sacrificar ao desejo que tinha de ter junto a si 
a filha a honra e reputação d'el1a, e de haver 
feito um tão máo conceito delia Rainha de 
França, que não cedia a ninguetn vantagem 
no amor, como em tudo o que tocava a honra 
e reputação da Infknta, accrescentando que, 
ainda que ella tivesse em muito o quererem 

(514) Fr. Migael Pacheco, yid« da Infanta D. Maria, cap. IS, 
foi. 52. 

f^ide SecçSo XV d'eatê Qnadro Elementar (RelaçOes entre 
Portagal e Heapanha ) , T. 2 , p. 99. 



— 348 — 

ellaD. Catherina, e ElRei seu mando fm[*eii]iril(L 
Junto a si em lugar de íilha^ nSo pcMljla deixar 
de lembrar -lhes era cila sua verdadeira mãi ^ 
e portanto muito acima de uma adoptiva ; que 
ella Bainha de França se nao havia esquecido 
da boa criação de Portugal^ e que seria faz»*- 
lhe injúria o suppor que a tinha perdido, e que 
corria risco a reputação de sua filha por vi- 
ver junto d'ella; que ella D. Gatberina devia 
instar com ElRei seu marido para que cum- 
prisse com o que por seu Pai fora estipulado, 
e com o, seu querer e vontade, que fora que.os 
filhos d'ella a seguissem; e que seria contra a 
reputação d'EIRei D. João o saber-se estorvava 
a saida da Infanta , obrando em contrario do 
que seu pai havia tratado^ e d'aquillo a que 
elle mesmo se obrigara , confirmando, e rati-« 
ficando o dito tratado, privando-a assim injus- 
tamente da liberdade que seu pai e a natureza 
e razão lhe havião dado (515). 

An. ISS7 Nesta data despachou ElRei D. João III a 
•neiro j^^^jpjj ^^ qualidade de seu Embaixador ex- 
traordinário para tratar do negocio da entrega 
da Infanta, por cuja conclusão instava a Rainha 
•^ de Franca, a Lourenço Pires de Távora , e as 

instrucçoes que lhe deo forãoem substancia as 
seguintes. 



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(515) Fr. Miguel Pacheco, vida da Infanta D. Maria, cap. 13, 
fd. 52V. 



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— 349 — 

Visitar da sua parte ao limperador cora 
mostras de grande amor e obsequio^ coraó 
ie aijuella embaixada , despida de outros in- 
teresses, fosse unicamente cncaminbcRla a 
saber da vontade d'elle, para com eUá 6on- 
formar-se^ sen(lo grande o sentimento que 
eUe EiRei P. João tinha de o inquietar em seu 
retiro. 

Antes de se appresentar ao Imperador, infor- 
mar-se se estava era disposição de o receber e 
ouvir, e obeccder-lhe, se por ventura lhe negasse 
audiência, c o remettcsse ás Rainhas de França, 
e de Hungria : Goncedendo-lh'a , insinuar-lhe 
com geito quão prompto elle D. João estava para 
executar o que o Imperador ordenasse, sendo 
os reparos que fazia,encaminhados unicamente 
ao maior bem da Infanta, e após isto ir-lhe com 
destreza expondo os inconvenientes da parti- 
da d'ella. Não querendo o Imperador dar ou- 
vidos a isto , propor-lhc casamentos, para por 
meio d elles ganhar tempo. 

Erão os noivos qtie convinha propor , EIRei 
dos Romanos D. Fernando , irmão do próprio 
Imperador, ^ depois o Archiduque. 

Não o ouvindo o Imperador, e remet- 
tendo-o á Rainha de França e á de Hungria, 
fazer- lhes as mesmas propostas do modo 
mais cificaz e persuasivo, e sendo todas 
aquellas diligencias vãs^ não consentindo o 
Imperador que fossem por diante; despedir- 



— 350 — 

se com mais aíHicção, que desabrimento(5i6). 

^ ^^^ Nesta data escreve o Embaixador Lourenço 
laneiro pir^ jie Tavora de Xarandella, lugar em que 
ra6Í<JBt o Imperador, e onde o dito Embaixador 
chegtgei em 14 d'aquelle mez^ havendo gasto 
7 dias na jornada^ e tendo- se demorado deus 
em Galisteo, d'onde escrevera a Quixada, 
para saber as determinações do Imperadoi*, 
o qual o dito Quixadá lhe fizera saber estava 
disposto a recebêl-o; do que inferira elle 
Embaixador^ estava o Imperador determi- 
nado a estorvar-lhe a ida ás Rainhas , e 
proseguindo cm sua narrativa, refere que, 
logo que recebera aquelle recado, continuara 
em sua jornada e se fora apear á casa do dito 
Quixada, por lhe ter este para isso convidado ; 
que naquelle mesmo dia o mandara o Impe- 
rador visitar e dizer-lhé que, porque devia dç 
estar cançado da jornada , não o ouviria senão 
no dia seguinte. 

Que com effeito nesse dia o vira, e entrcs- 
gando-lhe as credenciács o saudara em nome 
de seu Soberano, ajuntando que, supposto elle 
Embaixador viesse ali a negocio , era o prin- 



(516) Fr. Miguel Pacheco, yida da Infanta D. Mana, cup. 15 
foi. 55. 

^ide SecçSo xy d»c8te Quadro Elementar (Relações entre 
Porjtiígal e Heapanha) , T. 2 , p. 99. 



— 351 — 

cipal o visitál-o da parte d'EIReiy e saber novas 
de sua saúde. 

Que a isso respondera o Imperador, dando* 
lhe por racúdo conta da indisposição , que os 
dias passados tivera, indisposição que lhe du- 
rara oito dias , sendo que havia mais de nove 
mezcs que não havia tido attaque de gota. 
Que passado aquillo, viera eUe Embaixador ao 
negocio, de que ia encarregado, começando , 
antes de entrar nelle, a fazer-lhe grandes pro- 
testos da amizade , que EIRei seu amo ao 
Imperador tinha^ e da grande consideração com 
que olhava tudo quanto lhe tocava, e logo 
depois lhe trouxera á lembrança o que elle 
Imperador lhe dissera em Bruxellas, que 
grande parte das amizades dos Príncipes pen- 
dia dos Ministros, que entre elles negociavão ; 
e que em lembrança d'aquelle seu dito lhe pe- 
dia que, se entre as razões que elle Embaíxa- 
êr apontasse, alguma lhe parecesse algiim 
Éto dura, a attribuisse a descuido seu, por- 
que a tenção d'EIRei D. João, seu amo, era 
houvesse elle de tratar aquelle negocio' por 
modos táes, que viesae o Imperador a conhecer 
com a maior evidencia que. em tudo desejam 
conformar-se com a sua vontade. 

Que o Imperador lhe respondera com algu- 
mas palavras em louvor d'clle Embaixador, 
que, por sei^em táea^ erão escu^das naquella 
sua relação. Que elle Embaixador entrara logo 
em matéria uos tei^moa de sua Insti*uccão con- 






■ f 



— 352 — 

cluindo as primeiras razões, que dera do modo 
com que o havia feito D. Duarte de Almeida, 
com algumas modificações todavia para lhes 
dar um certo ar de novidade, e accrescentando 
que, posto houvessem outras que poderião 
ser allegadas por parte d'ElRei, seu amo, como 
era do dever d'elle Embaixador, estava per- 
suadido bastava as que tinha apontado, pára 
elle Imperador reflectir no modo, com que se 
devia proceder naquella matéria. 

Que o Imperador quizera replicar-lhe, e que 
entendera elle Embaixador, tratava aquelle 
Soberano de encurtar razões , e i^eceando qiic 
as que lhe dava o tornassem desabrido, lhe 
rogara houvesse de ouvil-o até o fim ; que elie 
o satisfaria sobre o artigo do contraio, pelo 
qual tencionava o Imperador começar. 

Que tornando ao recado, que para o Impe- 
rador d'ElRei seu amo levava , procedera com 
clareza em quanto fora tratando, e desejoso de 
comprazer-lhe fora discorrendo até chegBÈt 
a propor--lhe o casamento da Infanta t:om El* 
Rei dos Romanos, fazendo-lhe ver as grandes 
<rf>rigações em que EiRei D. João , seu amo, se 
constituía, deixando partir a Infanta, sem lhe 
dar a sua bencao. 

Que vendo-K) o Imperador tratar d'aquella 
matéria y lhe prestara maior attenção, e ficara 
algum tanto pensativo; más que como estava 
i^esoluto a nao tratar d'outra cousa senão da 
vinda da Infanta, começara a refutar quatrto 



-* 



^ 853 — 

elle Embsdxador havia dito, e que vendo eHè 
se ia o negocio empeiorando, lhe rogara hou- 
vesse de dar^lhe licença para responder áquel- 
las razões^ pois também tinha que replicar a 
ellas : que todavia o imperador proseguira 
rfsspondendo no concernente ao Rei dos Ro- 
manos ; que já havia inandado convocar em 
Ratisbona a Dieta ^ estando resoluto a renun- 
ciar o Império nelle ^ e depois de dar os mo- 
tivos d'aque1|a sua resolução^ concluio dizendo, 
que seu irmão por nenhum respeito se casa- 
ria ; que tinha muitos filhos^ e outras muitas 
considerações a guardar^ e que aconselhava a 
ElRei D. João de não pensar elm tal casamento^ 
porque se seu irmão tivesse filhos da Infanta ^ 
não teria que lhes deixar; tudo isto di2ia o 
Impe^ldor,- prosegue o Embaixador, afim de 
escusar tratos, e de se mostrar empenhado na 
vinda da Infanta, como quem aguardava, para 
recolher-se ao mosteiro, a conclusão d'aquelle 
negocio. 

Que vendo elle Embaizftder que o Impe- 
rador, excluindo o n^ocio d^ElRêi dos Roma- 
nos, não o remettia á decisão das Rainhas , se 
dera pressa em trazer a conversação acerca do 
s^undo noivo , a saber, do Archiduque Fer-* 
nando , provando com razões evidentes quSe 
longe estava ElRei D. João de bliscar dilações, 
e entretenimentos, Btqdo a única cousa qqé 
tinha em mira o nf^ÉMxar sair de seus 
reinos sua irmã sem j^Keiro dar-lhe estado. 

Ill, ?8 



— 364 — 

Que o Imperador parecera folgar oòm aquella 
proposta^ e lhe dissera devia ella ser tomada 
cm consideração^ dado que ignorasse se nella 
consintiria a Infanta. Ao que lhe respondera 
elle Embaixador que seria bom se communi»- 
casse ás Rainhas^ porque sendo elle e elln 
contentes^ nenhuma duvida havia em qua a 
Infanta annuiria^ Que continuando a tratar 
d'aquelle assumpto lhe dissera o Imperador, 
não via outros noivos para a Infanta senio o 
Archiduque , e o Duque de Saboya. Que lhe 
parecera a elle Embaixador mui bem aquella 
lembrança do Imperador, a quem dissera igno- 
rava o porque ElRei seu amo n&o proposéra 
esse ultimo noivo, e que talvez fosse por en- 
tender seria o Archiduque mais do agrado cia 
Rainha de Hungria , e por conseguiaflpika de 
França. Que emfim fora resolvido, queoln»- 
perador escreveria á Rainha de Hungria, e 
buscaria modos com que elle Lourenço Fim 
fallasse á de França, mas que era mister aaber- 
ae se ElRei D. Joio approvava qiie entrasse 
também o SílHIue de Saboya naquella propo- 
aiçao(5<7). 

« 

Ãn. an Informado Dom Sancho de Córdova, .encara 
^*^i''^ nffido pela Rainha de França e pelo Imporat* 

• - . - • 

(SI 7) Fr. M«afl FucIm», vUh di^ InStmU U. Mark^ ^p. 1«, 

JPTáU Secçjlb XV d'e8Íal|uMlro Elementar ( Relaç9et entre 
Poriá^ e Hespanha), T. H^i p. 99. 



— 3»5 — 

ébráú negodo dâ Infanta^ da partida de Lou- 
renço Pires de Távora e do que este passara 
com o Imperador^ participa a ElRei D. Phi- 
lippe de Castella, que se achava então em Flan- 
dres p que ElRei de Portugal guardara para a 
Tolta a Pm^tugal de Lourenço Pires de Távora 
a resposta ás cartas que elle D, Sancho lhe 
•ntregára com as credenciaes da parte do 
Imperador e da Rainha de França ; assim que^ 
até que aquelle fosse de volta tudo se achava 
suspenso^ tanto da parte d'£lRei D* João, como 
da d'elle D. Sancho ; que havia sobre aquelle 
assumpto conferido com a Infanta, e ambos 
tinhio por certo que o Gabinete Portuguejí% 
nada mais tendia, que a furtar-se a uma de- 
terminação por meio de dilações, e a mover em 
CSasfirik e em Flandres tratos, com que ella se 
toruasie impraticável, quando não. fosse bem 
aucoedidano primeiro d'estes dous expedien- 
tes ; que em Portugal nSo OHsavão fallar<^lhe 
oaquella matéria, porque alguãs vezes que acer- 
tarão de o fazer, lhes havia elle D. Sancho res- 
pondido de modo a não lhes dar motivo a con- 
tinuar na pratica ,* que de tudo qijpito ali se 
passara havia dado aviso á Rainha de Hun- 
gria , e que -se não atrevera a oommunic&l-o á 
Rainha de França, por saber o quanto se 
afDigia com os tratos que em Portugal se 
para malograr os seus desejos (64 8). 

(51S) Fr. Ugad Pidieoo, Tida da Infanta D. VarU; 
tol. 57. 



^> 



— 356 — 

An. I5ST Nesta data escreve a ElRei D. JoSo III 
m'* Lourenço Pires de Távora, seu Embaixador 
extraordinário junto ao Imperador e á Rai- 
nha de França, sua irmã, dando-lhe conta 
das conferencias que com este e com a Rai- 
nha tivera acerca do negocio da Infanta D. 
Maria, e referindo por meúdo as objecções 
que pelas ditas Rainhas e pelo Imperador 
havião sido feitas contra a estada da dita 
Infanta em Portugal , e a resolução em que 
estavão de obrigarem a ElRei a cumprir 
com o que havia sido estipulado por ElRei 
D. Manoel, conclue dizendo : que nos ter- 
mos em que estavão as cousas dous erSo os 
arbítrios que se podiao seguir, um o de ne- 
gar, outro o de conceder; que o de negar só 
se podia fazer dizendo , nao quera, resoluçSo 
esta que lhe parecia a elle nao ser admissí- 
vel ; ao passo que concedendo-se, estaVa o ne- 
gocio em termos de concluir-se do melhor modo 
que a ElRei convinha. De mais que o Impera- 
dor e as Rainhas nao deixariao de insistir nas 
mesmas instancias até conseguirem o fim, que 
desejavaOj^que era a vinda da Infanta ; e que 
ás razões que para aquella vinda apontavSo 
accrescia a justiça do contracto contra a qual 
nada as podia satisfazer. Assim que, aconselhava 
a ElRei o EmbsHxador, que respondendo na 
forma que melhor lhe parecesse, o mandasse 
retirar d'ali, onde sua presença era inútil, 
podendo de caminho ir ver o Imperaclar, o 



*• 



» '^\ 



— 357 — 

qual ja se havia recolhido ao convento de Juste 
(519). 

Nesta data EIRei D. João III nao obstante o ^ ,5^, 
que por Lourenço Pires de Távora lhe fora ^«^•^•«. 
relatado na carta antecedente, lhe dá por ins- 
trucçao diga ás Rainhas que elle D. João havia 
visto á resposta que ellas lhe haviao dado , e 
lhe ordenava fosse immediatamente ter com o 
Imperador^ porque em quanto elle nao tivesse 
resposta d'esse soberano^ nada se resolveria a 
decidir sobre o negocio da Infanta; que assim 
o posesse em effeito^ e se por ventura a res- 
posta do Imperador concordasse com a das 
Rainhas , posto que ja despedido da pretençao 
a que fora, como de seu motu próprio , e levado 
do interesse que ton^ava nas cousas d'£lRei e 
do Imperador^ representasse o quanto era en- 
contrado com o que cumpria ao serviço de 
ambos a resolução que haviao tomado as 
Rainhas , e que feito isto^ se partisse para Por^- 
tugal ; a pequenas jornadas^ e antes de entrar 
no feino fingisse alguma indisposição com 
que sé 'detivesse até receber ordens suas (520). 



(519) Fr. Mignel Pacheco, tida da Infanta D. Maria, cap. 16, 
foi. 64. 

FuUSee^Tf d^eate QnaAro Elementar, T. 2, p. 9^; 
Fr. Bernardo de Brito , If em. cit. 

(520) F^. MiOMl Fiacbeco, rida da InfanUD. Haria, cap. 1 7. 
foi. 73 r: .^^^ 

rtíiê Ã^ihM AitoQiladro Eiemeatar^ T. 2;, p. 1002. 



— 35Ô — 

▲n. 4SS7 Nesta data escreve a Rainha de França a 
ElRei D. João III para consentir na ida da In» 
fanta D. Maria ^ para Castella (521). 

àm. iiif Nesta data escreve a ElRei D. João Ijl Lou- 
*^*' renço Pires de TavorUi seu Embaixador ex- 
traordinário^ junto ao Imperador, e 4 Rainha 
de França , que conforme as suas instruc<;aes 
viera esperar em Plasencia a resposta do hn* 
perador, e d'ali sairá em breve para que se 
entendesse a diligencia com que caminhava | e 
fora despachar aquelle correio em o lugar 4f 
Ganaverales, a sete legoas de Plasencia, duende 
tencionava ir proseguindo lentamente na jor- 
nada, e em Albuquerque aguardaria ordeni 
d'£lRei ; que lhe nSo fora possível em tSo curto 
caminho fazer maior dilação sem despertar ã9 
suspeitas que em geral ali havia de que o Go^ 
verno portuguez tratava de dilatar a conclusSo 
d'aquelle negocio : que elle Embaixador podia 
ter voto na matéria , pela experiência recenti 
que tinha das cousas d'aquella Corte , e por- 
tanto aconselhava a ElRei houvesse de n&o 
ordenar novidade alguma , sem que elte che- 
gasse ; porque com isso escusaina muitíssimoí 
inconvenientes (522). 



■•^■-^1^ 



(521) Fr. Bemard. de Brit., Mem. Mas, de D. Seb., p. 29| cH, 

(52;^) Fr. Misne) FuiOt^cOí Tida di^ lafaati^ P, lUm, cèp. 17, 
Yol. 75 v«. 

ride Siodo XT dfite OBAdro ElamMiUri T. 3^ |^ 100 
fin. 



— 359 — 

Representadló dd* Mercadores francezes a ^ .{«*^ 
EIRei de França sobre serem sequestrados seus 
bens^ «.sentenciados a galés, entrando no 
porto da Lisboa (523); 

REINADO DO SBlfHOR RII D. SBBABTIÃO. 

Avisa-se a EIRei do insulto feito por um m. ust 
corsário francez no porto de Funchal (524). ^""í^ 

Nesta data Henrique n. Rei de França, as- m. nss 
signou-uma carta patente, confirmando as *i9^ 
disposições ç^s de 29 de Fevereiro de 1547, 
1 9 de Novembro 1 549 , 1 4 de Setembro 1 552, 
6 1 3 Dezembro 1 554, e prolongando por mais 
cinco annos contados da data da presente a 
cessação de todo acto de hostilidade entre os 
seus vassallos e os de Portugal, para que no 



0f^6fioti«"iii6 MifraMB iO|p 6BI Pdvtu^ily 6 'fftidiillttido nSo 
podia demorar mais a entrega da Infanta sem Buutífeito rifoo, 
chamou os dona Embaixadores do Imperador e Rainha de 
França , e despachon-os ; como isto snccedesse logo depois da 
«kegãda de LourelifO Mret, attrfbnlo o liQperaAMr a Me a 
breridade do despacho, e escrcTeo a sen Embaixador qne antes 
^M siTwe da Gdrt« Um sgridMMse da mm fufè. Todo se 
encaminhaTa para a salda da Infanta; ficon poràm lado no 
oMiaM) ser pda DMite d« D. lolom tm 11 do IquIio de 1557. 

(ht$) àrétífo Bffd da TèfníIsTMBb», Corp. Qma.\ P. 1, 
maç. 101, doe. 26. 

<S24) Archivo RadéiToiMdDlMbOyCorp.ChroiUy P. 1, 
maç. 102, doe. 2. 



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« 



— 360 — 

decurso do dito prazo podessem os Juizes^ de 
parte a parte nomeados para sentenciarem as 
Causas provenientes das cartas de marca e 
contramarca^ reciprocamente conf^enjidas Dps 
tempos atraz^ concluirem a tarefa de que 
estavao encarr^ados , como mais amplamente 
se continha nas sobreditas cartas patentes; 
promettendo por si e por seus officiaes con« 
• formar-se com o conteúdo d'ellas^ expedindo 
ElRei de Portugal^ seu irmão e compadre, 
uma carta patente do mesmo theòr, e obrí- 
gando-se igualmente a observál-a, e fazèl-4 
observar (525). 

1SS8 Nesta data escreve o Gondestavel de Franca 
ts á Rainha de Portugal , sobre a nomeação do 
Embaixador de França para Portugal, em 
lugar do que residia em Lisboa, que era Hono- 
rato de Gaix que foi substituido (526). 



er.ii» 



15S8 Carta d'ElRei de França para os Juizes nas 
causas das tomadias , as ^pcidirem no termo 
de 5 annos (527). 



(535) Mas. da Biblioth. Real de Pariz, Cod. 55 (fondfl de 
Brieime), p. 180. 

(526) ArchÍYo Real da Torre do Tombo, Gorp^ Ghron., P 3, 
maç. 18, doo, 24. 

É á imtdaiiça doeste Embaixador que alude a Rainha 
D. Gatharina na carta qne escreveo ao Bispo de Portalegre de 
que adiante trataremos. 

. (527) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 2, 
maç. 246 y doe. '36. 



* 



— 361 — * 

Carta da Rainha D. Gatharina para.o Biapo An. isss 
de Porfepbgre , dando-lhe parte das noticias de Pev». 
importantes, que mandarão de França João 
Pereira d' Antas , e Gaspar Palha> que este lhe 
escrevera que ElRei de França manda outro 
Embaixador para a Corte de S. A., do qual di--* 
zia grandes bens , e de ser mui differente na 
condição, e qualidades d'aquelle, que nella 
entSo residia. Que João Pereira lhe escrevera 
que as duas cartas de marca erão annulladas, 
e que o Juizo lhe era concedido por tempo de 
cinco annos, e que todas as outras marcas 
erão suspensas, e que as presas feitas por 
Francezes nos navios portuguezes , sobre que 
ainda não erão dadas sentenças , se havia or- 
denado que se lhes restituissem ; e nas sobre 
que se havião dado sentenças, ficasse o direito 
reservado ás partes para requererem sua jus- 
tiça ante os Commissarios (528). 

Ficando a Infanta D. Maria por universal ao. isss 

Itf Jl^iMt SA 

herdeira de sua mãi, a Rainha D. Leonor duas 
vezes viuva, a primeira d'EIRei D. Manoel, e a 
segunda de Francisco I, Rei de França, e sendo 
um dos principaes Legados que lhe deixara o 
Senescallado de Agenois, e outros Senhorios 
na provincia do Languedoc, supplicou a dita 



(S7%) Mas. de S. Vicente de Fort, T. 10, foi. 221, no Archiro 
Rcud da Torre do Tombo. 



»«. 



— 362 — 

Infanta a sua tia a Rainha D. Catharina hou- 
vesse de interpor a sua autoridade ^f)^ ElRti 
de França ^ era cujos reinos ie achaySo situa:-* 
dos os Já mencionados dominiosi afim de que 
aquelle Monarca se dignasse confirmar oc»a 
sua approvação as ultimas yontadet d'uma 
Princeza que havia sido adorada no meamo 
trono em que elle imperava. Condescendendo 
a Rainha D. Catharina com tão justifioada 
supplica mandou a França o Doutor Brea de 
Alvide, pam.que ccmi as armas dajurispni'» 
dençia advogasse e patrocinasse, se pretíM 
fosse, a Justiça da Infanta^ e por duas cartaê 
escritas em nome de seu Real Meto representou 
a ElRei de França o direito e justiça que a 
Infanta sua Sobrinha tinha para a investidura 
d'aqueUes dominios; e para o efieito da isesnia 
pretenção escreveo a própria InfaOt^ a ElRei 
e á Rainha de França as cartas de que damos 
a substancia. 

Carta da Infanta D. Maria para fiURei df 
França. 

Depois de haver dado parte a ElRei de 
França do falecimento da Rainha sua u^$ 
desculpa-se de o nao ter feito ha mais tempo 
pela grande dor e «entimento , que cora f£e 
triste successo recebera ; o que naquella occar' 
siSo cumpria^ mandando-lh'o participar pdo 
Doutor Braz de Alvide , a quem encarTC^va 
juntamente de faillar a elle Rei dt F|«nçii «O* 






— 363 — 

bre as suas cousas, nas quaes tinha por mui 
certo que acharia nelle todo o favor não so- 
mente pelo affecto que lhe devia ter por ser 
filha primogénita da falIecidaRainha deFrança^ 
e Bua universal herdeira , mas ainda porque 
d'elle não devia esperar senão amor e bondade^ 
lembraiido-se que^ quando a Rainha sua mãi 
sendo em vida acertava de fallar das cousas 
d'ella Infanta por varias vezes lhe havia en- 
commendado^ e até mesmo ordenado, que 
quando as houvesse de tratar com elle Rei de 
França, lhe trouxesse á memoria er^Ila In- 
fanta filha de uma Rainha, que o fòrsreo reino 
de França, a qual sempre nelle achara para to- 
das as suas cousas muito amor, obediência, 
e boa vontade. O que esperava encontrar de 
certo nelle Rei de França , sendo ella tão con-* 
Juncta em divido c parentesco com os Reis de 
Portugal, os quaes havião sempre tido com os 
de França uma mui grande amizade e mui 
antiga alliança, e porque sobre aquelle parti- 
cular lhe deveria mais largamente fallar o 
Doutor Braz de Al vide, roga a Infanta a ElRei 
de França queira dar inteiro credito a tudo 
quanto da sua parte por elle lhe for dito. 

Carta da sobredita Infantft D. Maria para a 
Rainha de França. 

Deseulpa-se a Infanta, como na precedente, 
de lhe não ter dado parte do falecimento da 
Rainha sua roSi por Ih*o ntú periAittir o gtan* 






— 364 — 

dissimo pezar que tão funesto acontecimento 
lhe causara ; que com aquçlle dever naquella oc- 
casiSo cumpria , escrevendo a EIRei de França , 
e porque juntamente lhe mandava fallar pelo 
Doutor Braz de Alvideem suas cousas, nao 
obstante a certeza que tinha de encontrar nelle 
Rei de França todo o favor, lhe parecera a ella 
Infanta não deixar de pedir-Ihe houvesse tam- 
bém, como Rainha deFrança, ser-lhe em ajuda 
perante EIRei, por cujas boas obras ficaria 
ella Infanta a ambos em grandissima obri- 
gação, qniettendo-se no mais ao Doutor Braz 
de Al vide a quem lhe roga queira dar inteiro 
credito. 

Além d'estas cartas levava o Enviado por^ 
tuguez outras para as principáes pessoas da 
Corte de Franca, como forão o Cardeal de 
Lorrena, e o de Sens , o Presidente Séguier, e 
Monsieur de Montelion , Presidente do Parla- 
mento de Tolosa (529). 

^J^*|* Nesta data assignou EIRei de França Hen* 
ri que II uma carta missiva, ou circular, pela 
qual faz saber ao Parlamento e mais Justiças e 
Tribunaes da cidade de Pariz , que tendo Deus 
levado para si a Rainha de França D. Leonor, 
mulher que fóra d'£IRei D. Manoel de Portucral • 



(529) Barboza, MemorÍM d'ElRei D. Sebastião, T. 1, p. 121 
a 123. 



— 365 — 

e entSo viuva de Francisco I^ Rei de França, 
determinava fazer-lhe na Igreja Matriz um ser- 
viço solemne, ao qual lhes ordena hajSo de 
assistir, vestidos de lucto conforme o elQlp. 
Esta circular foi apresentada ao Parlaménlo 
no mesmo dia pelo Senhor de Lesigni, Conse- 
lheiro d'£lRei , e seu Mordomo (530). 

Mesta data se celebrárSp na Igreja Matriz de ad. isss 
Pariz as exéquias da Rainha de França D. Leo- 
nor, que támbem o fora de Portugal , ás quaes 
exéquias assistio toda a Corte, o Parlamento , e 
mais Tribunaes na conformidade da circular 
passada para esse fim por ElRei Henrique II 
seu enteado (531). 

Pleno poder d'ElRei de França para o Tra- in. isss 
tado de 3 de Abril de 1559, entre elle, e EIRei "• "^ 
deCastella(532). 

Pleno poder d'ElRei de Castella para o Tra- ab. isss 
tado de 3 de Abril de 1 559, entre elle , e EIRei ^S^ 
de França (533). 

Fecarop. — Assento de conferencia entre os ab. isss 
Flenipotenciarios d'ElRei de França Henri- m '^ 



(530) Ibf. da Biblioth. Red de Pmrii (fonds de Bríeime} , 
Cod. 264, foi. 108. 

(531) Ibf. da Bibliolh. Real de Pirii (Ibndf de Rríenne), 
Cod.264,rol. 111. 

(532) Dmnont, Carpe Diplom. Unir,, T. 5, P. 1» p. 42. 

(533) Diunont, Gorpe Dipiom. Unir., T. 5, P. 1» p« 41. 

4 t 



,» 



— 366 — 

que II, e os de GasteUa^ sobre M negociaçS^ 
para o Tratado de Cambresis^ eommunicado 
em carta ao dito Soberano de França, em que 
se trata que El Rei de Portugal seria juii na 
questão que entSo pendia entre a. França t a 
Inglaterra sobre a posse de Calais. 

No § 2 referem os Enviados de França que 
na conferencia que nessa data ti verão com os 
Ministros d'Hespanha, vindo-se a tratar do 
negocio de Galais, que se nao encaminhava a 
bem, apartárSo-se os ditos Enviados com o 
Duque d'Âlva e Ruy Gomes, e exposérao^Ihes 
o quanto cumpria que achassem um expediente 
qualquer que satisfizesse a ambas as partes 
contratantes^ pedindo-lhes quizcssem naquelle 
particular ajudát*os com seus conselhos ; os 
Ministros hespnnhoes depois de terem estado 
um pouco pensativos lhes tornarão : qu6 era 
impossivel que a França ficasse com Galais, 
que também não seria para desejar que se 
conservassem os Inglezes de posse; que O 
melhor alvitre seria de entregar esse porto e 
cidade em poder d'um Soberano neutro e amigo 
dos Monarcas de França e de Inglaterra , o qual 
a guardaria até que por juizo se decidisse a 
qual d'elles devia com justiça de pertencer, 
nomeando por juizes os seis Eleitores do Im- 
pério, ElRei de Polónia, de Portugal, e de 
Dinamarca, ou qualquer d*estes Monarcas 
assistido de seu C!onselho. £ como os Enviaídos 
franceses perguntassem qual seria o Soberano^ 



--. 867 ~ 

que devia de fiear por depoêitario^ retpondèrlo- 
lhes 08 Ministros hespanhoes que EIRei d'Hes- 
panha, dizendo que EIRei de França podia 
fiar-^se nelle^ pois lhe entregaria uma das tuas 
praças da fironteira (534). 

€ambresis. — Tratado de paz entre EIRei de aq. isst 
França d^unia parte, e EIRei de Gastella d'ou- ^"2'*'® 
tra , sendo também parte contratante EIRei de 
Inglaterra. 

Em o penúltimo artigo d*este tratado se esti- 
pulou ficava também nelle comprehendido 
EIAei de Portugal (535). 

Nesta data EIRei D. SebastiSo prorosa por ad. iss» 

• • V • <<i • • Janeiro 

mais cmco annos para os Juizes Ciommissarios 19 
d^elle dito Rei, e do de França, commettidos 
em Lisboa e Pariz, decidirem ^ e conhecerem 
das injurias, depredações, e represálias feitas 
Hitatre uns e outros vassallos (536). 

EIRei D. SebastiSo escreve a D. João Pereira ad. 1559 
d' Antas. Embaixador em Franca, dizendo* lhe ^^ST^ 

' • ' ^ Janeiro) 

a. 

(iU) Uêê. da BadioUu Real de Pariz (fonda dn Roi), 
Cod. 9,738, p. 55; Cod. 9,739, p. 7to; e Cod. 9,740 , p. 14. 

(Ml) ■«• da BUdioth. RmI de Faris, Cod. 9,739 ( fonds da 
Roi), p. 117. 

Eate Tratado foi preliminar, e o de 1559 definitíTO* 

(136) âiMjq Real da Ténre do Tombot Gar. 19, maç. 3, 
n. 16. 



— 368 — 

que Honorato de Caix (537) , Fiiiilwilwidor que 
fora d^ElRei de França na Corte de S. A^,. tlie 
dissera que lhe era devido de ordenado que 
tinha de Embaixador 3,600 libras , como. tam- 
bém dous raezes de vantagens, de que £IRei seu 
amo lhe fizera mercê , que erão mais de 600 li*- 
bras, de que tudo já estava feita assignatura 
para o Thcsoureiro d'ElRei as entregar : e o 
Embaixador lhe pedira a elle Rei D. SebastiSo^ 
quizesse escrever a elle João Pereira d' Antas 
que lhas quizesse fazer lá arrecadar por quanto i 
enviaria para isso procuração , pelo que lhe 
encommendava muito, quizesse fazer arrecadar 
tudo o que lhe fosse devido, e que o dinheiro 
que arrecadasse o tivesse em seu poder até o 
dito Honorato lhe. escrever. £ porque elle tinha 
feito muitos serviços a ElRei , dos quaea não 
houvera satisfação, nem o podia lá ir requerer, 
por sua muita velhice, S. A. agradeceria niuito 
a elle Pereira quizesse solicitar com ElRei. ^M 
França 9 que lhe fizesse aquella mercê (538). 

An. 1559 Neste anno escreve ElRei D. Sebastião a 
||prrtim Corrêa da Silva, seu Embaixador em 
(^stella, recommendando-lhe que pedisse á 



(537.) Este nome acha-se escripto por dirersas inaneirif not 
documentos, como se lêem muitos nas antigas Chronicas, eVe- 
morlas. 

(638) Mss. de S. Vicente de Fora, T.IO, foi. 235 ▼•, no 
ArchÍTo Real da Torre do Tombo. 






* 



Princa» mi Bahno oonduçto, para que o Em- 
baixador de França junto da Corte de Lisboa , 
que acabava de residir em Portugal, podesse 
livremente passar pelos reinos de Castella com 
os seus criados e cousas que se continhao na 
memoria que lhe enviava, por quanto o mar 
lhe fazia mal , e passaria muito trabalho indo 
por elle (539). 

Indirecto. — Saboya. — Tratado entre An. 1559 
França e Saboya (540). Março 27 

Vide Relaç. com a Itália. 

Gateau Cambresis. — Tratado de paz e d'a1- aii.jss9 
lianca entre Henrique II Rei de França d'uma 
parte, e Philippe II Rei d*Hespanha d'outra. 

Em Apial pelo artigo XI foi estipulado que 
havendo fallecido em Badajoz no anno antece- 
dente a Rainha christianissima Dona Leonor 



Abril s 



(539) Mm. de S. Vicente de Fora , T. 10, foi. 251, no ArchÍTO 
Real da Torre do Tombo. 

Sobre M artim Corrêa da Silra qne residia neste anno em 
Castella , Veja-se Secção XV y T. 2 d*este Quadro, p. 102. 

Na mesma GollecçSo dos Mss. de S. Vicente de Fora, T. 10, 
foi* 346, se encontra oatra carta d*£lRei para Marfim Corrêa 
dtfflra sobre o mesmo objeolo , e annnnciando-lhe a próxima 
partida do Embaixador de Fhmça. 

A foi. 353 do mesmo Tomo se encontra mna eaHa do dito 
Embaixador de França sobre este assnmpto. 

(540) ArchÍTo Real da Torre d^ombo, Córp. Chroii.9 P. 1} 
■lae. 103, doe. 53. ^ 

III. 24 



r j 






— 370 — 

viúva que fora d'ElRei D. Manoel de Portàgál 
deixando uma filha única a senhora D. Mana 
Infanta de Portugal , EIRei de França trataria 
bem e favoravelmente a dita Senhora Infiin ta , 
a qual ficaria gozando do dote que tinha em 
FrancaaRainha sua mãe. sem modificaçSo nem 
alteração alguma y e da mesma maneira que a 
dita Rainha o desfructára até a hora de soa 
morte. Que pelo que diz respeito ao doario ou 
supplemento delle até o dia do fallecimenfo da 
dita senhoraD. Leonor, EIRei de Franca se ha*- 
veria de modo a contentar a Infanta , e a teria 
por recommendada cm todos os negócios e li- 
tígios que tivesse em França fazendo-lhe em 
tudo prompta e boa justiça. 

£ pelo.art. XL^ que na dita paz e amizade 
seriao comprehendidos de com m um aljpordo e 
com consentimento dos ditos Senhores Reis 
christianissimo e catholico , se assim o quises- 
sem os alliados d'um e d'outro que ali fossem 
nomeados , sendo-o por parte de ambos EIRei 
de Portugal (541). 



(641) Rfleneil dea Traifés de Paix, etc, entre les Conromiei 
de Frafice, imprime à Anrers, in-12, p. 245. 

FrédéricLéonard, T. 2, p; 535. 

Dnmont, Corps Biplom., T. 5 , P. 1 , p. 24. 

Mis. da Biblioth. Real de Pariz (foiids du Roi) , Cod. 9,738, 
p.95; e Códices n<»« 9,736, p. 43; e 9,739, 9,741), p. 1Í8^ • 



Att;" Cod. 9,741, p,l. 






_37i — 
Ifésta data escreve Manoel de Mesouita ao. as* 

Ahril íA 

Pimentel^ Capitão da Marinha^ sobre o segui- 
mento que fez a 5 náos ; e os Francezes não 
terem feito resgate algum no tempo da seu 
governo, etc. (542). 

Nesta data escreve D. Francisco de Faro á ab. m^ 
Rainha D. Catharina sobre o que tratara com 
ElRei de Hespanha a respeito do casamento do 
Príncipe com a Infanta , e do dito Senhor nao 
passar a Castella sem receber a filha d'ElRei 
dè França (543). 

O Embaixador de Portugal em Castella, An. ns» 
Francisco Pereira, avisa o Secretario de Estado 
Pedro de Alcáçova sobre a cautella , em que 
este reino devia estar dos Francezes (544). 



Nesta data D. Francisco Pereira se achava An. issq 

Jonhoa 



(jl42) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Chron.y P. 1, 
maçr. 103, doe. 57. 

O Antor dot Jmnau dã Marinha poHugugza^ lio «iia «lie 
flMio , • nio conbeeeo eate docBOianto, 

(543) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. CSiroBU, P. 1, 
maç. Í03, doe. 6?. 

Barboia , Mem. d*ElRei D. Sebastião, T. 1, p. 126. 
Ktdè Secç. XV, T, 2, p. 103 doeste Qiúdro. 

(544) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
maç. 103, doe. 61. 

ride Secç. XV, T. 2 , p, 103. 



» 



j 



1 




-- 372 - ^ 

em França , com o caracter de Embaixador 
(545). 

An. 1559 Nesta data João Pereira d' Antas estava Em- 
baixador em França (546) . 

An. 1SS9 Morrendo desastradamente ElRei de França 
^á?ío Henrique II para dignamente representar parte 
Julho) do sentimento que em toda Europa causara 
aquelle triste acontecimento, manda ElRei D.. 
Sebastião a França a D. Álvaro deCastro, com o 
caracter de Embaixador extraordinário, o qual 
»gando a Pariz procura João Pereira d^ An- 
is , Embaixador de Portugal naquella Corte , 
para o conduzir á presença do monarca francez. 
Introduzido D. Álvaro de Castro áRéal Audiên- 
cia d'ElRei christianissimo Francisco n, expõe- 
lhe com sentidas expressões em nome de seu 
soberano o excessivo pezar que seu real amo 
experimentara com a noticia da morte de seu 
magnânimo pai Henrique II, não somente pela 
inalterável e sincera amizade que em todos os 
tempos houvera €ntre òs Reis de Portugal e de 
França y mas também pelo fervoroso zelo com 
que armara exércitos e expedira armadas para 
debellar mais os inimigos da Igreja que de sua 



(545) ArchÍTo Real da Torre do Tombo, Corp. Cbron., P. 1, 
maç. lOS, doe. 79. 

(546) Consta dos docninentos do Gprp. Chron., no ArchiTO 
Real da Torre do Tombo. 



— 373 — 

coroa ^ por cujos religiosos obséquios estaria 
aquellas horas dominando em outro mais su- 
blime império, sendo aquella interminável 
felicidade poderosa para suspender as lagrimas 
de seus yassallos^ principalmente quando na 
pessoa d'elle Rei de França adorayao renasci- 
do o extincto monarca, assim na magnificência ^ 
dó trono^ como na semelhança das virtudes. 

A mesma significação de sentimento mandou 
ElRei D. Sebastião pelo sobredito D. Álvaro 
representar á Rainha viuva Cathcrina de Mé- 
dicis , apontando-lhe por motivo de consola- 
ção e conformidade a nova alliança de sua filha 
com ElRei catholrco. 

Fez igualmente participantes de seu pezar 
por o sobredito falecimento o Duque deSaboya^ 
cunhado d'ElRei de França ; ElRei de Navarra, 
o Duque de Vendome, o Principe de Bearn 
bem como os Cardeaes de Lorrena, e de Sens 
e o Duque de Guise (647). 

Nesta data JoSo Nicot Embaixador francez An. isst 
em Lisboa escrevendo a ElRei de França a res- 
peito dos n^ocios , de que fora encarr^ado , 



(547) Barbosa, Mem. (TElRei D. SebMtíSo, T. 1, p. 22ê. 
O Eioiptor poitognas errou a data d*efta embaixada, 
poia a fixou a 27 d^Abril, mas neata ElRei Henrique II ainda 
▼iria. Eiie Soberano foi ferido mortalmente a 29 de Junho 
d*erteanno por Montgommeri, emocreo da ferida que.recebeo, 
alOdeJulbo. 



— 374 — 

refere-se ao que por despacho de 22 d'Outubro 
lhe havia participado de lhe haverem negado 
os cem quintáes de pimenta , que EIRei de 
França lhe mandara pedir para o fornecimento 
d'aquelle reino, e conta o como a Rainha D. 
Catherina lhe dissera lhos nao podia outorgar^ 
3em o consentimento dos contractadores , poír 
ser esta uma das clausulas do contracto feito 
entre estes e o falecido Rei de Portugal. O que 
entendido por elle Embaixador tratara de ha- 
ver o consentimento d'um dos principaes d'en- 
tre elles, e uma carta de recommendaçSo jpara 
os seus sócios ; os quaes , de pois de fazerem 
suas consultas, lhe haviao respondido ne-- 
nhuma duvida tinhâo em dar- lhe o seu con- 
sentimento para a salda da pimenta, com tanto 
que a importância d'ella lhes fosse paga de con- 
tado e em mao própria : que por aquelle modo 
estando o negocio em via de concluir-se, se 
malograra por insistir a Rainha em que o di- 
nheiro entrasse em 03 seus cofres. O que nSo 
obstante, consentirão os mercadores na venda 
e saldada pimenta, contentando-secom ter por 
escrito a resposta da Rainhaj que elle Em- 
baixador a mostrara aos ditos mercadores, e 
offerecera de lhes pagar de contado ; sem em- 
bargo do que a Rainha a nada se determinara, 
que vendo-se elle perseguido pelos mercadores 
franeezes, e entrando em suspeitas de que a 
Rainha tratava de eohonestar a negativa , «e 
resolverá a levál-ã de yencida jmh* meios ho- 



— 376 — 

nestoSy afim de saber o que tinha no coração, 
que com esse intuito lhe supplicára houvesse 
de mandar se lhe entregassem os cem quintaes 
de pimenta y como era obrigada pelo teor das 
allianças, ou como dom gratuito, ou recebendo 
o equivalente , ou em fim permutando-a por 
outra qualquer fazenda que elle em seus reinos 
tivesse ; e que pelo que diz respeito a saida da 
pimenta e seu transporte para França, elle 
Embaixador o conseguiria a despeito dos que 
pretendiSo estorvál-o, sem que S. Alteza nis^o 
interviesse. 

Que a Rainha lhe replicara tomaria sobre 
aquelle assumpto conselho; que passados 
dias, fora elle Embaixador pela resposta, e 
que a Rainha lhe dissera que os de seu con- 
selho lhe haviSo ponderado era a pimenta uma 
espécie de mercadoria que se devia manter 
sempre em preço, e que soffreria grande baixa, 
abrHido-9e a venda e saida d'ella^ antes de se 
prefazer o termo do contracto ;. e que alem 
d^sto poderiao dizer que, por se achar ella ne- 
oessitada de dinheiro, se havia determinada a 
ftzer aquella venda. Que elle Embaixador lhe 
replicara era aquelle arbitrio bom de merca- 
dor a mercador, mas que não parecia próprio 
d' um Conselho d'£stado ^ nem adequado ao 
pedido de um Embaixador em nome de seu 
Soberano, e para o fornecimento de seus rei- 
nos ; que tão fôra estava aquella resposta de 
ser conforme com o espirito dft ceiífiãderai^ 






— 376 — 

e allianca que entre ambas as coroas existia^ 
que elle a tomava por uma negativa formal; 
e que pois que tal tinha sido desde o princípio 
d'aquella negociação a intenção] de Sua Alteza^ 
podia ter-lhe poupado tantas idas e vindas ^e 
tantas despezas quantas erão as quehaviSo feito 
seis mercadores francezes no decurso • de mais 
de seis semanas, que tanto era passado depois 
que se começara a tratar daquelle n^odo. 

Que sabendo elle Embaixador havia ElRei de 
França assignado o Tratado feito com Portu- 
gal da suspensão das cartas de marca, reque- 
rera á Rainha houvesse de reconhecer por juizes 
os cinco que em virtude do dito tratado elle 
Embaixador havia nomeado ^ para tomarem 
conhecimento das queixas e reclamações dos 
súbditos francezes : o que a Rainha defirira de 
fazer, por se nao achar elle munido de pode- 
res especiaes para aquelle negocio; resposta 
esta que achara elle fundada em razão; mas 
porque sabia havia a Rainha de Portugal re- 
cebido a carta patente assignada por ElRei de 
França, on pelo menos copia d'ella, tinha oEm- 
baixador Portuguez em Pariz procedido á no- 
meação dos juizes , pedia a ElRei de França 
houvessem de ordenar se lhe expedissem os 
necessários poderes , e procuração. 

Que dizia-ae ali que se estava esperando por 
Embaixadores d'ElRei d'Hespanha, posto se 
nSo soubesse ao certo o porque ; que uns sup- 
punhXo vinhSo requerer dos três Estados de 



« *■ 



— 877 — 

Portiu^ houvessem de receber e jurar por 
Frinei^ de Portugal ao Príncipe de Gastella , 
por ser o successor immediato d'elle caso 
falecesse sem filhos o Rei que então reinava ; 
más que a elle Embaixador parecia-lhe aquella 
empreza suinmamente arriscada e difficil pela 
inimizade e má vontade que os Portuguezes 
tinhão aos Hespanhoes, e que estava certo se 
deixarião fazer em postas primeiro que em tal 
consentissem : que outros suspcitavão era o 
objecto da Embaixada a questão das Molucas y 
viveiro de dissensões e de disputas entre as 
coroas de Portugal e d'Hespanha^e de caminho 
narra o Embaixador o que sobre a possessão 
d'estas ilhas havia passado desde 1 483, e pro- 
seguindo na exposição dos diversos juizos que 
em Portugal se faziao sobre a vinda dos Em- 
baixadores Hespanhoes diz, que pessoas havia 
que pensavão vinhao elles representar a Rainha 
D. Catherina ao Cardeal , e aos Três Estados 
que sendo tão estreita a alliança que existia 
entre as duas Casas ^ e tendo-se EiRei de Cas- 
tella casado em França, era de esperar não tar- 
dasse a ter filhos e filhas^ por meio das quaes 
seestreitarião aindamais os vínculos de amizade 
entre as duas famílias reináútes ; assim que^ 
se não devia entender por então, no casamento 
4'ElRei B. Sebastião , nem ajnstál-o em outro 
: qualquer reino; oo que nenhum inconveniente 
havia, attentos os poucos annos que tinha; por 
fim que outros diMttnrife diversamente/ e di- 






— 378 — 

• 

zião que tendo-se divulgado por fora ograndi 
. desejo que havia em Portugal que ElRéElt). Se- 
bastião se desposasse com a Princeza ílai^gar- 
rida, irmã d'£lRei de França, tratavâooft Cas* 
telhanos de estorvai^ e a esse effeito manda- 
vão aquella Embaixada (548). 

An. 1S60 Âportão no Brasil em diversos navioa os 
Francezes , e se introduzem, e confederiLo com 
os gentios, a saber com os Petiguaras nas 
pro vincias da Paraiba e de Itamaracá ; com 06 
Cahetes na de Pernambuco e Rio de S. Fran- 
cisco; na Sergipe .com os Tupinambas; em 
Cabo Frio e na énsçada do Rio de Janeiro com 
os Tamoyos , e. sem embargo dos grandes 
estragos que nelles fazem os Capitães Pedro 
Lopes de Souza , Luiz' de Mello da Silva , e 
Christovão Jaques, persistem na empreza, esti- 
mulados com o. incebtivo da fama e do aug- 
mento de seu cpmmercio (549). 

Ao. 1560 São Vicente. •— Carta de Mendo de Sá para a 



(548) Mss. da Biblioth. Real de Pariz (fonds d6GoU)ert), 
Cod.483, p.405. 

Este docunMnto é o nnico que enoontrámoi d*efte Diplo- 
matico, çigo nome se tomoa tfto celebre por ter tnuádo de 
Portugal para França, e introduzido neste paia o XabiMX> 
(Nicotiana). £lle era.Soolior de Villemain. Ás particntaridades 
da* sna vida se podeiO' rir na Bhgrapku unÍ¥€rtelU, T. >!, 
jy. 263. 

(549) Bigrbou, Men. á'mA »*&ba0tiSot T. 1, p* 430. 



— 379 — 

Rainha D. Catharina^ Regente do reino na mi- 
noridade d'£lRei D. Sebastião. 

Participa-lhe como informado da chegada e 
desembarque dos Francezes . commandados 
por Villegagnon partira da Rahia em 16 de 
Janeiro, e chegara ao Rio em 21 de Fevereiro, 
onde sem demora fizera investir a fortaleza, 
qye ali havião feito os Francezes, que derrotara 
com perda de muitos. — Manda a Rainha com- 
primentál-o pda victoria (550). 

França. — Carta de Mendo de Sá expopdò a j^*^ 
EIRei o acontecimento da fortaleza do Rio de 
Janeiro, e victoria na expulsão dos Francezes 
dã mesma fortaleza , recommendando se po- 
voasse o dito Rio para segurança do Brasil 
(551). 

Nesta data parte de Lisboa pafa França ^\^^l^ 
D. Thomaz de Noronha , encarregado por El- *• 
Rei D. Sebastião de dar a Carlos IX, Rei de 
França, os pezataes pela morte de seu irmão 
Francisco II , e representa em- nome de seu So- 
berano a EIRei de França o pezar e sentimento 
que EIRei de Portugal tivera na intempestiva 
morte d'um Monarca , cuja memoria lhe po- 
deria servir a elle de continuo estimulo para 



(550) Barbosa, Mem. d'ElRei D. SebastiSo, T. 1, p. 435. 
(55 í) ArdÚTo Real da Torre do Tombo, Gar. 2, maç. 10, 



— 380 — 

intentar ou praticar acções dignas de eterna 
recomraendaçao. Com iguaes expressões de 
sentimento devia também o mestíao Embaixa- 
dor visitar a Rainha CatHarina de Medíeis , e a 
Rainha Maria Stuart, mai uma, e outra esposa 
do falecido Francisco 11, e pelo mesmo teor ao 
Cardeal de Lorrena , arcebispo de Reims (552). 

An. 1961 Nesta data expedio ElRei de França ás Jus- 
tiças de seu reino uma carta patente defen- 
dendo eprohibindo a todos., os mercadores, 
seusfRssalIos, que iao commerciar nos reinos 
de Castella e de Portugal , e seus domínios, 
sob pena de confisco nos corpos e bens, de ali 
levarem ou mandarem por outras pessoas li- 
vros compostos pelos sectários da supposta 
religião, ou suspeitos de heresia; prohibíndo- 
lhes igualmente debaixo das mesmas penas , 
durante sua estada em Portugal e Hespanha, 
sendo que tratem e discursem sobre a religião, 
de proferirem palavras escandalosas e contra- 
rias á antiga religião em todo o tempo obser- 
vada não só naquelles reinos, mas tambçm no 
de França, abstendo-se pelo mesmo teor de 
praticarem actos que possão ser com razSo 
taxados de contrários á religião, para nãó da- 
rem occasião aos Officiaes dos ditos Reis de 
Portugal e de Hespanha de proceder contra 



($52) Baiteza, Mem. â'£lRei D. SebastiSo, T. 1, p. 446. 



— 381 — 

elles por via de rigor, como já o haviSo feito 
em alguns lugares, o que poderia ser causa se 
interromper o escambo das fazendas d'iim e 
d'outro reino y e a continuação da mutua con- 
fiança t e da honesta liberdade com que os vas- 
sallos de sua Coroa costumarão traficar e com- 
municar com os dos súbditos reinos. Motivo 
porque com conselho da Rainha sua mai, d'£l- 
Rei de Navarra , e outros Principes do seu san- 
gue, se determinara a assignar a sobredita 
carta patenteia qual encommendava a todas as 
Justiças de seu reino houvessem de observar 
e fazer observar, publicando-a em todos os 
portos do mar, e procedendo com todo o rigor 
contra os que delinquissem (553). 

Capitulos da Nota do Embaixador Imperial ab. isai 
para Madame de Parma , a respeito de 8 náos 'bnS' 
que se armavSo no Havre de Grace para irem 
ao Brasil (554). 

Nesta data o Marquez de Sao Sulpicio que An. im 
bavia succedido neste anno ao Bispo de Li- '"'^* 
moges , como Embaixador de França em Ma- 
drid , dando conta a ElRei de Franca de sua 
entrada naquella Corte e recepção que lhe fora 






(S5S) Mm. d« Biblioth. Real de Paris (foiub de Bríenne), 
Cod. 205, foi. 249. 

(5JS4} ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Qiron., P. 1| 
maç. 105, doc.80. 



,-i 



— 382 

feita , depois de tratar de vários assilitfipCM. 
quasi no fecho dos seus despachos, diz qué o'* 
que ali havia de novo era o ter o Xarife iale-- 
vantado o cerco de M azagSo , onde os Po^#lj^-^ 
guezes havião adquirido grande honra por sé 
tet*em valerosamente defendido nSo obstante 
estar a fortaleza arruinada e quasi demolida, 
com grande proveito da liberdade d^aquellM 
mares (555). 

ab. ise2 Nesta data escreve a Rainha D. Catharina em 

Outubro 

» nome d'EIRei D. Sebastião ao Conde da Casta- 
nheira, dizendo-lhe que por cartas de Joio 
Pereira d'Ântas , Embaixador de Portugal nã 
Corte de França, de 16 de Setembro, que aca«^ 
bava de receber, participa o dito Embaixador a 
muita parte qué naquelle reino vão tendo os 
Ministros da seita lutherana, e seus sequazes^ 
e dos perigos em que estava a fé catholica eatf; 
França. Acrescenta a Rainha que ò dito Conde 
viria pela copia de outroOflicio de André Telles, 
Embaixador na Corte de Castella (556), que 
aquelle Soberano tinha mandado fazer acerca 
d'esta matéria com EIRei de França, pelo Se- 
nhor de Sanaz e Gentilhomem da camará do^ 
mesmo Rei de França, declara a Rainha que 



(555) MsB. d« Bibllotheca Reat de Pariz , God. 480 (?ondá de 
1Í^ Xiolbert) , p. 35. 

(556) Sobre este Eiâbaixador, vide SeccSo XV, T. 2 d*efte 
Qaadffo, p. 105,el06. 



# 



— 883 — 

parm aoeego de toda a christandade tem deter- 
minado mandar fallar nestas cousas aEIRei de 
França, e conclue exigindo do dito Conde lhe 
aponte pessoa própria, para partir para França^ 
afim de tratar d'este assumpto (557). 

Nesta data escreve Lourenço Pjrcs de Távora j^ ih, 
áPrinceza D. Joanna, mSi d'EIRei D. Sebastião^ 
dando-lhe parte de haver inclinado o Cardeal 
D. Henrique , que nesse tempo estava encarre- 
gado do governo do reino, a entender antes 
no casamento d'£IRei D. Sebastião com D. Isabel 
d*Austria^ filha d'EIRei dos Romanos^ que no 
do dito Monarca cora Madame Margarida, 
Duqueza de Yàlois , irmã de Carlos IX , Rei de 
França, e ao mesmo tempo pondera-lhe que 
semelhante negocio na conjunção em que então 
estavão se não devia tratar por Embaixador, 
porque querendo os Franceses, sem direito 
nem ra2Ío,commerciarem na costa de Guiné e 
do Brasil, era mister usar-se de manha; por^ 
que se viessem a laber que se tratava do casa- 
nento d'ElRei com a Archiduqueza tomarião 
d'aquillo escândalo, e se afoutarião em Mas 
injustas pretençSes (558). 



(557) Biblioth. Real de Paris , caM doa Um., Coá. 940, p. 1 74. 

(558) Barboia, Mem. dWRei D. SebastiSo, P. 2, Ur. 1, 
cap. 20,p. 286. 






— 384 — 

An. 156S Nesta data escreve João Pereira d' Antas, 

!• Embaixador em França para E}Rei ^ sobre se 

tirar a quarantena da moeda que girasse no 

reino ; concordata que fez com Yillegagnon, etc. 

(559). 

An. 1563 Nesta data escreve o Cardeal Amulio a ElReí 
D. Sebastião pedindo-lhe soccorresse ElRei de 
França contra os Turcos , etc. (560). 

Vide Relaç. de Portugal com Roma. 

An. 1S6S Nesta data escreve Jôao Pereira d^Anfas^ 
**'* * Embaixador em França, para ElRei, avisando-o 
de haverem partido 6 náos de Inglaterra a espe- 
rarem as da índia e Mina, etc. (561). 

Vide Relaç. de Portugal com Inglaterra. 

An. 1563 Nesta data, em officio secreto, partieípa a 
ouijibro gjj^^j (.^^j^g IX, e á Rainha de França' 

Marquez de São Sulpicio, seu Embaixador em 
Castella, que se fallava naquella Corte de três 
casamentos, o deMadama de Franca, o da filha 



(559) Axchivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1^ 
maç. 106, doe. 45. 

(560) Archiyo Real da forre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. 106» doc^56. 

(661) ArohÍYo Real dá Torre do Tombo, Corp. Ghron., P. 1, 
maç, 106, doo. 70. 



*■ . . 



-^ 385 — 

mais velha d'ElRei dos Romanos^ e o da Rainha 
d'£scossia, e que além d'isso havia um quarto 
casamento que se dizia estar já concluido, e era 
o d'£IRei de Portugal com a filha segunda do 
mencionado Rei dos Romanos (562). 

Nesta data a Princeza D. Joanna (563) res- An. im 
poddendo a Lourenço Pires de Távora , e ap- 
provando quanto elle fizera acerca do casa- 
mento d'EIRei D. Sebastião, seu filho, com a 



>» 



(56:?) Mss. da Biblioth. Real dePariz, God. 9,747, p.:?2vo. 

(563) Brantome , fallando doesta Princeza que foi uma das 
damas mais celebres do sen tempo , diz o seguinte : c J^ay eu 
cett honneur de Paroir veue et parle à elle assez prirement 
wtant en Espaigne retoumé de Portugal. Aiiuy que jestois 
allé la premlère fois faire la rererance à notre reyne Elisa- 
beth de FrdUce , et que je devisois avecques elle , me deman- 
dant force nonvetles et de France et de Portugal , on vint 
dire k la rejne que madame la princessé venoit. Soudain elle 
ae dit : < lie bcmgez , M onsieur de Bourdeille , vous Yerrez une 
bdld «llioimete princessé. Yous vous plairez k la Yeoir. Elle 
ierftiMen ayse de vous veoir, et de yous demander des oou- 
Tellesdu roy son íils, pnisque vous Tavez veu. » Et sur ce, 
inoiej Ia princessé arriver que je trouray três belle k mon gréf 
ftvt bien vestue , et coifiee d^nne toque à Pespaignolle de crespe 
^HW, qui luy baissoit fort bas en pointe sur le nez, et vestue 
1HB antrement en femme Tenfre, k Tespaignolle , car elle 
portoit de la soye qnaigr ordinalrement. Je la contemplay et 
•doalray d^abord , et si to Ément qne sur le poinct que j^en 
derenob rary, lorsque la rejne m'appe]a et me dit que ma- 
dame la princessé ronloit tçiifoir de moi des nonvelles dnrof 
sou fils ; car j^arois bíen ony «{avalie Iny disoit comme dto 
parloit et entretenok nn gentShomme da. roy sou firfrei|iii 
venoit de Portugal. Sor ce, je m^approçhe dUle, et lay 
lu, 25 



1 



^- > 



— 386 — 

filha d'EIRex dos Romanos, dia-lhe que grande 
seria o seu contentamento se ElRei dos Roma- 
nos quizesse desde logo mandar a filha á Ouh 
tella , porque d'este modo estava certa se effei- 
tuaria sem mais demora o casamento; mai 
que entendia tratava o dito Rei dos Romanos 
de entreter o negocio, senão é que também St 
Rei deFrança o estorvava, e conclue encommeih 
dando -lhe haja de fazer com que o Cardeal se 
conserve nos mesmos sentimentos até qw ic 
desvaneçao os projectos de allianças com França 
(564). 



sant sa robe à Pespaig^olle , elle me recueillit fort donfiomeol 
et privement, et puis se mit à me demander des oowr^lhm da 
roy son fíls , et de ses deportements , et ce qu^il m^ aemUoit, 
car alors on parloit de vouloir traicter maryage entre \uf el 
Madame Marguerite de France , socur du roy, mainteiuiit rtyiit 
de Navarre. Je luy en contay prou ; car alors je p«rloif PeqMi- 
gnol aussy bien ou mieux que mon françois. Entre untrw dm 
ses demandes elle me fit ceste-ci : si son fíis estoit besn, «t 1 
qui il ressembloit ? Je luy dis que c^estoit un det plm beans 
princes de la chrétienté, comme certes il étoit, et qn'íJ i« rtm* 
sembloit du tout , et que c^estoit le vray image de se beeviléi 
dont elle en fit un petit souris et la rougeor Iqy monta 
Tisage y qui montra une ayse de ce que je loy eroís did, 
aprés avoir assez long-temps parle à elle , on TÍnt <lllflrv Ia 
reyne pour souper, et par ainsy les deux soeurs se séperireatt 
et la reyne me dit alors en riant : c Yous lui avez feiot un greod 
plaisir de luy aroir dict ce que ?ous luy avez dict de UaBVW»* 
blance de son fils. » • - «**;*' 

Brantome, T. U, p. 345 (Panthéon Uttéreire). 

(564) Barboza^ Mem. dXlRei D. Seb^itUo, P. 11, ]}?, U, 
c»p.20, p.289. 



Por deapa^Q d'€6tft data o Marquez de Sao ad. tm 
Sulpicio, Embaixador de França em Madrid, bro 17 
tratando da vinda áquella Corte de ambas as 
filhas d'£lRei dos Romanos, participa á Rainha 
de. França que era voz que a mais velha era 
destinada ao Principe d'Hespanha, c a mais 
IIMMga a ElRei D. Sebastião de Portugal (565). 

Estava ainda em França Embaixador João ah. im4 
FMreira d' Antas (566). 

Nesta data participa á Rainha de França o An. i5«4 
Marquez de São Sulpicio, seu Embaixador em 
Castella, que o numero de navios que se arma- 
vão nos portos d'aquelle reino montava a no- 
venta e quatrO; nos quaes entravão oito d'ElRei 
de Portugal ; e adverte que não seria fora de 
razão que ElRei e Rainha de França mandas- 
sem guarnecer as costas da Provença , dado 
que nenhum motivo houvesse para se suspei- 
tar fossem ameaçados por parte de Castella 
d'uma próxima invasão (567). 

For despacho d'esta data o Embaixador de An. ism 
França em Castella Marquez de São Sulpicio par- brot 

(M») Ito. dt BibUoOi. ReU éê Parii» Cod. 410 (fimdi âm 

(WS) AicUto lUsl ds Torra do TobOx), Corp. GhroD., P. 1 , 
ni^ 10(, doe. 114. 
(567) llfs.dalliblioth.lU«lderiru, Cod. 9,747, p. lU ▼•• 



— 388 — 

bcipaao seu Governo havia partido de Cadiz a 
fi-ota d'llespanha, a qual era composta de no- 
venta c duas velas, em que eiitravão 8 caravel- 
las e maisalguns navios porluguezes , e <jue se 
dizia ião em direitura á costa d'Arrica (568). 

An. líti Em officio desta data o Marquez deS. Sulpi- 
dtTdí cio. Embaixador de Franca cm Madrid, depois 
'bnT dc haver participado a EIRei de França os 
grandes preparativos que em Madrid se faziào 
para as exéquias do Imperador, acrescenta qufi 
não obstante o falecimento recente d'aquelle 
Monarca, havia em Hespanha e Portugal uma 
alegria universal por causa da tomada dc Pi- 
nhão de Vellez (509). 

I Participa nesta data á sua Corte o meneio- 



(MS) Mss, díBibliolh. ReBldeParÍ!;,Cod. 9,748, p. 4 v". 

(ã[i9) Biblioth. Real de Pariz, casa dos Mas,, Códice 10, 
foi. 13â v [fonds de Brienne). 

No Mss. este documento acha-se datado deS de Agosto, 
inas esta datn c precisamente errada Inlvez pelo descuido do 
copista, pois, o oITicio do Embaixador uiu quo eouinmnica que 
« expedição SC Giera de vela para Arrica sendo de 3 de Setem- 
bro, a alegria que se experimentou pela tomad* nJo podia ler 
lids logar 8 8 de Agosto antes mesmo da porlídi» án expedição. 
Em lodo o caso a data de Setembro é conforme com o primeiro 
UHicio do Warquez de S. Sulpicio , e com a relação alias inte- 
ressante que nos da Barboza nas Memorias d'F:liteÍ D. SobastÍ3o, 
T. 2, 1ÍT. I, cap. 1, e !, da qual se aproveilan o Autor do* 

J/tnnei da Marinha portagutia , T. | , p. 500, Estós AA. põem 

B partida da expedivio a 31 d'Afoito. 




. 389 — 



liado Embaixador Marquez de São Sulpicio 
que havia dias se tratava na de Caslella do ca- 
samento da irmã de D. Duarte, Condcstavel 
de Portugal, primo irniào d'ElRei D, Sebastião, 
com o príncipe de Parma, o qual como se dis- 
punha a partir para Portugal adoecera grave- 
mente, ao ponto que desesperavSo de sua 
vida (570). 



Tratado e Renovação d'Alliança entre Car- i 
los IX Rei de França e a Liga dos SuÍssos, feito 
e concluído em Fribourgo. 

No artigo XXII foi estipulado que naquctia 
ailiança ficavão reservados por parte d'EiRei 
de França o papa e a Santa Sé Apostólica , o 
Santo Império, EIRei dllespanlia, de Portu- 
gal, d'Escossia, Dinamarca, Polonha, Suécia 
com a Senhoria de V'eiieza e os Duques de Lor- 
reiía, Sabóia, e Ferrara (571). 



< 



Por despacho desta data o Marquez de São x 
Sulpicio, Embaixador de Carlos IX, Rei de i 
França em Ilcspanlia, escrevendo ú Rainha Ca- 
therina ile Medicis lhe diz, que tendo ella os 
tempos atraz, por fazer-lhe mercê, escrito á 
Infanta de Portugal para que essa Princeza 
houvesse de dar-llie o Scnescaiado de Rouer- 



[570J Hm. d* Biblioih. R«al de Parii , Cod. 9,7 48 . p. 18 f. 
(.j"ll Dmnont, CorptDipTom., t. I,p. I?9, T, 5. 



*•* 



— 390 — 

gue , caso viesse a vagar, a Infanta lh6 tízem 
de mui boa vontade essa graça, que, pàssadoí 
tempos , confirmara ; porem que como reóeii 
que outrem o contrarie naquella pretencSo, 
como ja lhe havia acontecido em outras , lhe 
roga humildemente de não consentir que M 
presentes damnem aos ausentes, que se acklo 
empregados em seu serviço (572). 

Aúi 1M4 Neste anno continuando os Franceses â lii- 
íbstar a costa do Brazil , e augmcntar o seu eê^ 
tablecimento no Rio de Janeiro ^ ordenou a 
Rainha D. Catharina, Regente de Portugal, 
a Mendo de Sá , que empregasse todos os meios 
para os expulsar d'aquelle porto, e coiístruisSê 
nelle uma cidade. Para esta expediçSo lhe 
mandou dous galeões ás ordens d'£stacio de 
Sá, o qual chegando á Bahia, recebeo ordens 
do Governador para se dirigir ao Rio de Já-» 
nciro , juntando-lhe aos dous galeões todas as 
embarcações que pôde armar, e os soldados 
que existiao na Bahia. Estacio de Sá, chegando 
á Barra do Rio de Janeiro , soube por um pri- 
sioneiro francez, que estavSo dentro alguns 
navios francezes, e que osTamoioshaViSoque** 
brado as pazes , e fazião guerra aos Portuguih. 
zes. Vendo em prova a resistência que lhe ft* 



(572} Mss. da Biblioth. Real de Pará (fonds de GolberI)» 
Cod. 480, Amhassnãcs du MarquU de S, Sofyice, p. 843. 






— 39t — 

zerSo os Tamoios^ determinou áquelle general 
navegar para a villa de S. Vicente, e mandou 
pedir auxilio á Capitania do Espirito Santo, 
d^onde lhe vierao alguns soccorros, e reforçado 
com estes sahio d'esta villa a 20 de Janeiro de 
1 565, Experimentarão nova e vigorosa resis- 
tência, tendo sido atacados por 1 30 canoas de 
Tamoios armadas, sustentadas por 3 navios 
Arancezes bem artilhados, os quaès forao postos 
em completa derrota (573\ 

Nesta data António Carneiro escreve a £1- An. isss 
Rei D. Sebastião participando-Ihe a noticia de 
ter tido um grande combate com os Francczes 
junto ao Rio Nilo ( o Senegal ) (574). 

Em despacho d'e8ta data o Marquez de Sao An. is« 
Sulpicio, Em baixador de França em Hespanha, ^*** * 
participa a EIRei Carlos IX varias noticias d'a- 
quella Corte , e entre outras que era chegada 
da índia a frota Hespanhola com perto de três 
milhões em ouro, pertencentes a particulares^ '. «^^ 

e cinco a seis centos mil escudos d'ElRei Catho* ^• 

líoo, e que também á frota Fortugueza da In- 






(573) Rocha PíU , liv. 3 ; Brito Freire, liv. 1 1 Memorias d*El- 
Rei D. SebettiSo, T. 2, Iít. 2, cep. 12; QuintelU, Jnnaei dm 
Marinha Pàrtugueta , T. I , p. â03. 

(574) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chroa., P. 1» 
maç. 107, doe. 58. 



••w 



H. 



■ U 



— 392 — 

dia trouxera d'aquel]a vez muito mais esp<ecia- 
ria que nos annos precedentes (575). 

An. IMS Nesta mesma data dirigio o referido Em- 
Ago8i.ii ijj^jxador á Rainha Gatherina de Medicis um 
memorial de tudo quanto havia passado nas 
conferencias que tivera com ElRei Catholico, 
com o Príncipe d'Eboli , e com o Conde d' Alva; 
e diz que estando faltando com o dito Conde, e 
vindo a discorrer sobre o particular dos casa- 
mentos, elle Embaixador dissera havia escrito 
á Rainha de França se nSo cançasse em ajus- 
tál-os ; porquê via estávSo de ambas as partes 
as vontades tão bem dispostas , que de neces- 
sidade se deviao de effeituar, nao havendo pro^ 
porção ou conveniência para o casamento d'a-^ 
quelles principes e princezas em outra parte 
que em França, a nSo ser por ventura em 
Portugal (576)* 

An. t&M Nesta data escreve a ElRei D. SebastiSo 

Setem- 
bro 16 D. Fernando de Menezes , seu Embaixador cm 

Roma> fazendo-lhe saber que o Papa o mandara 

chamfir para communicar-lhe que por parte 

d'EIRei de França se tratava com instancia de 



(575) Mas. da Biblioth. Rea) de Pariz (fonds de Colbert), 
Cod. 480 , Jmbastadet du Marquis de S, Suipice , p. 1,021. 

(576) Mas. da Biblioth. Real de Pariz (fonds de Colbert) , 
Ci)d. 480, ^mbassades du MarçuUde S, Suipice, p. 1,053. 






— 393 

effeituar o casamento d'eI1e Rei D. Sebtfftilfo 
com a priíiceza Margarida, irmã do dito rdi de 
França, e que Iheencomraendárafizesseaquella 
participação com o maior segredo, por quanto 
elle julgava seria melhoro casar-se ElRei com 
a filha do Imperador; porque bem que a Priíx- 
ceza Margarida fosse filha de um tão grande 
Rei ^omo havia sido o de França , sabia-se o 
quSo enfermo andava aquelle reino nas cousas 
da religião (577). 

Investem novecentos Franceses, comman- in. isn ^ '^ 
dados por Montluc, e guiados por Gaspar "s "* 
Caldeira, natural deTangerc, qué havia sido 
moço da camará do Cardeal D. Henrique, 
a ilha da Madeira, e desembarcando na praia ^j 

formosa , se apossão da cidade com . gran- 
díssimo estrago de seus habitantes. Morre no 
ataque o commandante Montluc, retirão-se os 
Francezes com o sacco que fizerão, em 17 do 
mesmo mez , lançando ao mar grande copia de 
roupas e outros géneros, que não cabião nos 
navios (578). 



(577) BurlMâ^ Wun. d^ElRei Dé SebastiSo, P. 2, Iít. 2, 
cap. 26 , p. 67|. * 

ArchíTO Real ã9í Torre do Tombo, Gav. 15, maç. 3. 
Kide Relaçoei de Portugal com o Império, e com a Çuía. 

(578) Barbosa, Mem. d^EIRei D. Sebastião, P. 2, Iít. 2, 
eap. 24 . p, 639. ^ ^^ 

Cordeiro, Hist. IoidI., Iít. 3, cap. 14 , f S8 e leg. §PPf rxA^ /f^ 



— 304 — 

> Aa. isM Nwta data escreve Manoel de Arâujo AO Çaiw 
deal Infante sobre as Patentes, que KlRei de 
França lhe concedera contra o CapitSo Mont^^ 
luc(579). 



"" (579) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Gorp« Chron.|P. 1| 
maç. lOB, doe. 10. Wk 






O Marechal Montliic , pai doeste Capitão , refere nos 
Commentarios a morte doeste Official , dizendo : € et qnaiid J9 
» Teus perdu ensemble mon fíls le capitaine Montlac , qai fat 
» tué k Hadère appartenant au roy de Portugal , il me sembUi 
» que ron m^eust oouppé mes denx bras ^ elo. » ( Gommenfdlfes 
de Blaise de MontluCi p. 128, e 129, T. 21, Goll. de Petítot.) 

De Thou, T» 4 , liv. 44 , p. 121, tratando da ezpediçSo àm 
Montlac , diz que partira de Bordeos com três grandes narlos 
bem providof de marinheiros e de provisões de goarfi, e ãlèoi 
d'isto de mil e doientos soldados, lisongeandoHM de ftuMr 
algum feito illustre : que seu intento era de ir a Guiné, • d# 
visitar os reinos de Manicongo e de Moçambiqtie ; àe fazer «K 
altiança com algtms dos Príncipes da terra, e de alcançar p6r 
meio de promessas ou por forca licença para f^«er ttma fi^rtM 
leza naquellas paragens, para que os mercadores franceMi 
podessem ali ir debaixo da protecção do Rei , e fazerem o com- 
mercio d^Africa , sem ser mister, como até ali , de passar peíaa 
mftos dos Portugueses. Que com este designio havia o dlÉo 
Montluc levado em sua companhia alguns bandidos portugnetoa 
que conhecião aquellas paragens, e as monções em que se podia 
ali commerciar. 

Marechal Blaise de Montluc, diz nos seus Commentarios : 
« . . . Mon fíls, le capitaine Montluc , ne ponvant non pliw 
> vivre en repôs que son pére , et voyant inntile eu France , 
» pour n^estre courtisant, et ne sçachant nulle gnerre étranr 
» gere oú s^employer, designa une entreprise sgr mer pour 
» turer en AíTriqne et conquerir quelque chose , et pour ••( 
• effet , suivy d'une belle noblesse volontaire (car il aroit piai 
cens gentils-hommes) et d^un nombre des meilleun 
et capitaines qnll peust recouvrer, s^embarqaa à 



— 395 — 
Parte nesta data por Embaixador á Franca An. ism 



f- 



Nofem- 



João Pereira d'Antas, sendo o principal objecto, Jjj^^ 
de que ia encarregado, pedir satisfação do in- ^•'> 
sulto feito á ilha da Madeira pelos Franceses, 
capitaneados por Montiuc. Desejoso o Gabinete 
francez de conservar a amizade , que existia 
entre as coroas de França e de Portugal , para 
tirar todo o pretexto e causa de discórdia, 
tomou o arbitrio de propor o casamento da 
Princeza Margarida de Valois com EIRei D. Se- 
bastião^ sendo uma das condições do contra- 
to matrimonial , que nunca as armas de Fran^ 
ça infestariào as terras da conquista de PortU' 
galf e que os moradores da ilha da Madeira — 
seriSo indemnizados dos damnos que tinhão 
experimentado, justificando os ditos com tes- 



» Bor()eaiix avec six navires aussi bien éqnipez qu^il estoU 
» poMÍble. Je^e veuz m^arresler plus longuement sur le dessein 
» de cette malheureuse entrcprise enlaquellc íl perdit la vie, 
» ayant este emporté d^une mousquetade en Tísle de Maderes , 
» ou íl íit descante pour faire aiguade. Et parce que les insu- 
> laires ne rouloíent permettre de rafraischír ses raisseauz , il 
» fallut courir aiiz mains , á leur perte et ruyne, et plus k la 
» mienne, qui perdit lá mon bras droit. » 

Depois de Tarias exclamações próprias do sentimento de 
um pai pela paré% de um fllho, no qual punha todas as suas 
esperanças do futuro lustre , e gloria da sua familia , o Maré* 
chal continua , dizendo : c Le dessein de mon 61s n^estoit pas 
» de rompre rien avec l^pagnol ; mais je royois bien qu^il i* 

» estoit impossible qu^il ne donnast là ou au roy de Portugal ; 
» car à Toir et ouyr ces gens, on diroit que la mer est à eux. » 
(Gommentaires de Montlac , lir. 5 , p. 168, T. 22 dft C^. 4% 
Pctitoi,pccm. série.) •'^ " • ^^4 *w 



— 396 — 

temunhas francezas os géneros das fazendas^ 
de que haviao sido despojados (580). 

An. 15M Carta do Condestavel de França para o Car- 

^*?o" deal Infante D. Henrique, sobre a utilidade, 

que resultava ás duas Cortes de se unirem não 

só os Príncipes d'ellas, mas também os vas- 

sallos, etc. (581). 

An. isM Nesta data M. de Fourquevaux, Embaixador 
broi9~ d'£IRci d« França em Castella, escrevendo á 
Rainha de França, participa-lhe como chegara 
a Madrid um correio de Lisboa com a noticia 
de que EIRei de Portugal estava determinado 
a entender no seu casamento com a Princesa 



y^ (580) Barboza, Mem. d'ElRei D. SebastíSo, P. 2, Ur. 2, 
cap. 26, p. 670. 

De Thou, na Historia tui temporis, T. 4, liv. 44, p. i!í!í^ 
fallando das reclamações que por este insulto for&o feitas por 
parte de Portugal , diz o seguinte : « EIRei de Portugal tendo-se 
queixado d*isso por via do Embaixador que tinha na Corte de 
França y foi o negocio posto em conselho. O Almirante tratou 
de justificar a expedição de Hontluc; mostrou que os Francezes 

* que nella tinhão entrado não podião ser censurados por terem 
querido vingar com tamanho valor as injurias que os Porta- 
gnezes harião feito a Yillegagnon em uma expedição que em- 
prehendéra com beneplácito d^ElRei de França ; n'uma pala- 
vra com tanta força advogou a causa dos companheiros de 
Montluc^ que com temor se tinhão dispersado e escondido, que 
forílo declarados innocentes da accusação contrli elles inten- 
tada. 

(581) Archivo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. í, 
íiaç. 108,<^pc. 16. 



— 397 — 

Margarida filha da ditaRainha e irmS d'EIRei, 
cousa em que se fallava como se fora feita y e 
que assim se havia escrito a D. Francisco Pe- 
reira, Embaixador de Portugal, o qual o com- 
municou a EIRei Gatholico que tevemuitodes- 
prazer com aquella noticia, e pelo mesmo teor 
a Princeza D. Joana , a qual ordenara ao Em- 
baixador cm carta escrita de seu próprio 
punho que sob pena de desobediência e de in- 
íBdelidade a EIRei seu amo, partisse immedia- 
támeute para representar-lhe, bem como ao 
seu conselho muitas cousas , e dissuadil-o do 
dito casamento, pondo-lhe diante dos olhos 
os grandes males que sobreviriao a Portugal 
e'a toda a christandade, se EIRei de Portugal 
recebesse por mulher outra princeza que a^e- 
gunda filha do Imperador, esttindo os ajustes 
tSo adiantados. A qual estando com elle casa- 
da, EIRei de França seria' obrjgado a desistir 
d'aquel]e intento sem mingua de sua coroa, e 
talvez de casar-se com a princeàt de Portugal, 
roãi do dito Rei D. Sebastião, alliança que 
tanto importava ao socego de toda a christan- 
dade. 

Acrescenta o Embaixador que o povo de ^ 
Lisboa estava tão inci inado ao partido de Fran- 
ça que, se se soubesse ia o Embaixador a estor- 
var aquelle casamento, seríão capazes de ape- 
drejál-o, que naquelle entretanto sobrevicrao 
notícias da ilha da Madeira com as. quaes o ^ 






— 398 — 

begocio se esiViára, e que um Embaixador ^órm 
enviado a El Rei de França, e que o que ali es« 
tava fora a Lisboa f que a Rainha , avó d'£]* 
Rei, a qual era do partido hespanhol , lhe ret« 
pondera que os Estados do Reino seajuntarião^ 
edariao sobre aquelle assumpto o seu parecer | 
que sabiá que, estando este ultimo Embiaixador 
em caminho para Lisboa , fora outra ves dia* 
mado a Madrid , ao que elle nao quiaera ao-« 
nuir, bem que se achasse somente a dnoo le-* 
goas d'aque11a capital, por sabcp ara a mtiaio 
de que o queriSo encarregar o pedir um ra* 
forco de tropas a Portugal pai^ ElRei fiat^g^ 
lico se ajudar d'e11a na interpreza d'Argal| p^ 
dido este, que o Embaixador sabia seria mui 
desagradável ao Conselho, porque a ultima vn 
que ElRei Catholico fizera igual pedido, Iht 
respondera o Conselho que não erio ellei ea^ 
cravos d'ElRei Catholico para lhe darem tropaa 
para suas conquistas. 

Participa mais á Rainha o mesmo Embaijcait 
dor que João Pereira d'Antas na occasiao am 
que voltava para França, passando pella cidade 
d'Alvide fizera de sua própria autoridade met* 
ter em prisão um mercador Bretão que vinha 
de Portugal , e se retirava para sua terra ; a 
que aquelle infeliz ao fazer d'aquella se achava 
ainda preso; que os Portuguezes erão natural* 
mente arrogantes, e que segundo dizião, farião 
' fachina em toda a França por se vingaram 



— 399 — 

do que haYia acontecido na ilha da Madeira " 

(582). 

Nesta data ElRei de Castella, empenhado em ab. iiw 
que se eífeituasse o casamento d'ElRei D. Se* br» ao 
bastião antes em Allcmanha que em França, 
em uma carta assignada por António Peres , 
aeu Secretario d'Estado , a qual foi entregue a 
D. Francisco Pereira, Embaixador de Portugal 
em Madrid , depois de ponderar as utilidades 
que da alliança com o Imperador podiSo resul- 
tar a Portugal , aponta entre os inconvenien- 
tes da de França o pouco fundamento que se 
podia fazer nos promettimentos d'aquelle go- 
verno, de que havia um exemplo fresco no que 
havia pouóo tinha experimentado a ilha da Ma- 
deira (583). 

Entra nesta data Mendo de Sá a barra do An. im 
Rio de Janeiro, e em 20 do mesmo mez manda * u ^ 
investir as fortificações dos Francezes de que 
era a principal a de Urassúmuri , e consegue 
duas gloriosas victorias dos Francezes, colliga- 
dos com os Tamoyos. Morre nesta ae^o Esta- 



(58?) Mss. da Biblioth, Real de Pariz (fonds de Bríenne), 
Cod. 70, foi. 161. 

termo francês qiie se acha no officio do Embaixador, 
é '-^ fraeasseraient , 

(683) Barboza, Mem. d^ElRei P. SdMftilo, P. 3, Ur. 2, 
€ap. 26. 

Fide Relaçoef de Portugal com o Império. 



» 



— 400 — 

CIO de Sá ^ e o capitão de mar e guerra Gaspar 
Barbosa (584). 

An. 1S67 Manda EIRei mostrar a D. João de Castello 
31 Branco as cartas , que havia recebido de Jo&o 
Pereira d'Antas^ seu Embaixador em Franca , 
em que lhe dava parte do que passara com 
EIRei de França sobre os insultos e roubos, 
que os Francezes fazião na Ilha de Madeira ; e 
que EIRei de França lhe mandava hum En- 
viado» que estaria em Lisboa dentro de 6 
dias (585). 

An. 15M Vem a Lisboa um enviado de França (586). 

An. 1567 Nesta data Carlos IX, Rei de França por carta 
patente dada em Pariz confirma as disposições 
de outras passadas por seus predecessores e 
especialmente por Francisco I, seu avô, os 
quaes informados que muitos Reis e Príncipes 
estrangeiros entre outros EIRei de Castella, de 
AragSo, Portugal e Inglaterra havião feito em 
seus reinos terras e dominios certos edictos e 
estatulos^ pelos quaes prohibião edefendiâoa 



(584) Barboza, Mem. d'EiRei D. Sebastião, P. 2, liv. 2^ 
cap. 35, p. 759. 

(585) Fr. Bernard. de Brít., Mem. d'£]Rei D. Sebastião, p. 36, 
cít. — Coll. do8 meui Mm. 

(586) Biblioth. Real de Fariz, casa doa Usa., Cod. 940, 
aupplem., foi. 77. 



— 401 — 

seus vassallos de fretarem quaesquer navios e 
embarcações esti^angeiras , para exportarem 
fazendas a outros paizes , estendendo-se esta 
prohibiçao também aos estrangeiros, e parti- 
cularmente aos Francezes, os qilaes n3o podiao 
recolher fazenda alguma do paiz a bordo de 
seus próprios navios , sem a previa licença do 
soberano d*elle; e isto debaixo da pena de 
confisco dos ditos seus navios c fazendas; pro- 
hibiçao esta que tendia directamente a destruir 
e arruinar a navegação e commercio dos mer- 
cadores francezes, haviao os ditos Reis seus 
avós feito em França iguaes Edictos, os quaes, 
posto que fossem confirmados por todos elles, 
nunca tinhSo sido, nem erao guardados com o 
rigor que o caso pedia, nao obstante que o con^ 
trario se praticava nos ditos reinos de Castella, 
AragSOi Portugal, c Inglaterra, com notável 
detrimento de seus vassallos, os quaes se víão 
obrigados a deixar de continuar em seus 
tratos e navegações; desejando elIeRei dcFran- 
ca prover a estes inconvenientes, com aviso dos 
de seu conselho, confirmando os edictos dos 
Reis seus predecessores, prohibe e defende a 
todos os seus vassallos, enaturaes de seus rei- 
nos e dominios , de fretar navios estrangeiros , 
e de carregar nelles fazendas e mercadorias de 
seus reinos; prohibiçSo que também fie appli- 
cava aos estrangeiros, mercadores, capitíies de 
navios e outros , os quaes não poderiSo rece- 
ber nelles carga de qualquer fazenda ou género 

111. ^ 26 



s ^ 



— 402 — 

do paiz sem sua licença, debaixo de pena de 
conQsco dos ditos navios e fazendas , metade 
para o fisco, e metade para o denunciante, por 
ser sua intenç&o e vontade que em todaa as 
cousas fossem ôs estrangeiros tratados em seus 
reinos pela mesma forma que seus vassallos o 
erSo nos reinos de Gastella, Aragão, Portugal,t 
Inglaterra (587). 

7- Án. iMT Nesta data escreve El Rei D. SebastiSo ao 
onuibro Q^^^^ jg Vimioso, D. Affonso de Portugal, 

vedor de sua fazenda, dando-lhe parte das pro- 
posições de casamento que lhe haviSo sido íbi- 
tas, primeiro por parte deCastella, com a filha 
segunda do Imperador, e logo depois por parte 
d'£IRei de França e da Rainha suamii, oom a 
Princeza Margarida, e que estando nesses pon- 
tos o negocio, antes d'elle haver respondido, 
succedéra o insulto feito á Ilha da Madeira pe- 
los Francezes, com o qual justamente aggra- 
vado se mandara queixar a ElRei de Rrâmea 
dos excessos que os seus vassallos commef tiSo 
contra os d'elle Rei de Portugal, cousas bem 
alheias da amizade que entre um e outro rei- 
nava, e da que o dito Rei de França queria 
perpetuar e accrescentar por via do projecta- 
do casamento, no qual elle Rei de Portugal 



(587) Mfld. da Bibnoth. Real de Par» (foads de Bitaut), 
Ged. m, p. 84. 



3 

* 



• 1 



— 403 — 

nSo podia entender^ em quanto se lhe nao 
desse a satis&ç9o e reparação, que em tal caso 
era devida, dando cargo ao seu Embaixador 
naquella Corte de requerer e procurar a res- 
tituição e satisfação pedida. Que EIRei deFran. 
ça, posto se houvesse mostrado mui sentido, e 
se Ibe mandasse desculpar perante elle por 
um de seus gentishomens , e desse sempre a 
JoSo Pereira d' Antas mui boas palavras , até 
então não havia feito o que era de esperar fi- 
zesse, e que por isso havia elle ordenado ao 
dito João Pereira d'Antas de cessar toda a pra- 
tica no que diz respeito ao casamento, exemplo 
que havião também seguido os ministros d'EI- 
Rei de França , por entenderem quão pouca 
occasião de contentamento lhe havião dado, 
para que elle folgasse de entrar em símil hantes 
^justes.Que estando assim tudo suspenso, tanto 
, |K>r parte de Allemanha, como de França, re- 
novara EIRei a proposição de casar-se em Al* 
liMpiiht. Que do casamento com França bem 
entendia que se não podia, nem devia por en- 
tão tratar, e que differir-se o d'Allemanha parc- 
da-lhe que não convinha ao bem de seu reino; 
,||.por ser aquelle negocio de summa pondera- 
do, o commettia a elle Conde de Vimioso, para 
t|ii€ depois de o ter bem considerado , hou^ 
yesse de dar-lhe por escrito o seu parecer (588) « 



(SS8) Barboiâ, Mem. d*£lRoi D. SdiafUio, P.2, Ur. 2^ 
€«p. 269P.689. 



..\ 



— 404 — 

An. 1M7 Nesta data se communicou de Pariz que se 
preparava uma armada para dar em Terras de 
Portugal (589). ' 



• « 



An. 1S68 Nesta data ElRei D. Sebastião passa uma or« 

Janeiro . , , • ' 

dera para que nenhuma pessoa de seus reinos 
ajudasse, ou retivesse alguns rebeldes, ou trai* 
dores d'ElRei de Franta y conforme a conven- 
ção que entre os dous reinos se havia celebrado, 
para qu,e os vassallos respectivos nao podessem 
favorecer os rebeldes, e traidores de uma, c 
outra nação (590). 

An. 1M8 Provisão d'ElRei de França sobre o mesmp 
objecto (591). 

An. 1568 Nesta data escreve D. João da Cunha a ElRei 

Jullio4 *^ ^ • . 1 11 . #1 

D. Sebastião, promettendo-Ihe avizal-o de tudo 
quanto se tratasse em França quepodesse cau* 
sar prejuízo aos interesses de Portugal, e agra- 
decendo-] he as jóias que para sua filha lhe 
remettêra (592). 



(589) Mas. orig. de S. Vicente de Fora, T. 3, foi. 478, no 
Archiro Real da Torre do Tombo. 

(590) Mm. de S. Vicente de Fora, T. 3 , foi. 444 , no Archiro 
Renl. 

(591) Mss. de S. Vicente de Fora, T. 3, fòl. 446, no ArchÍTO 
Real. 

(592) Archiro Real da Torre do Tombo, Gar. 20 , maç. j» , 
n. 46. 



/ *, 



— 405 — 
Nesta data Carlos IX Rei de Franca, em carta An. ims 

* ' Agosl. 11 

escrita ao Almirante de Ghatillon^lhe manda, 
que consente sejao vendidas em Dieppe, por 
autoridade de justiça, quatrocentas caixas d'as- 
sucar que havião sido tomadas aos Portuguezes 
em represália e indemnização das perdas que 
tío anno passado havia o dito Almirante expe- 
rimentado da parte doS ditos Portuguezes, com 
condição porem que, se a tomadia tivesse sido 
feita de ma fé, e unicamente fundada em o re- 
latório do capitão que a fiz^a, seria o Almi- 
rante obrigado a prestar Gança idónea, e obri- 
gar-se a restituir a importância das ditas qua- 
trocentas caixas , todas as vezes que para isso 
fosse requerido ; porque não era da intenção 
d'£IRei decommetter injustiças (593). 

Nesta data a Gabinete Castelhano dirige a An. iscs 
ElRei D. Sebastião uma proposta de casamento 
doeste Soberano com a Princeza Margarida irmã 
d'EIRei de França (594). 

Enviuvando ElRci D. Philippe da Rainha an. ism 
Izabel de Valois, filha d'IIenrique II,*Rei de 
França, mandou este uma embaixada a EIRci 



(S93) Mm. da Bibjipth. Real de Paríz, God. U (fonds de 
Calbert),fol. 175. 
,» (694) BiblíoUi. Real de Pariz, casa dos Mss., God. 940, 
.^ *I. 150. 
^ . r^úU Secção XV, T. 2 f P* 4I1B é^ttU Qnadro ElemenCar. ' 



— 406 — 

deCastella, pedindo-Ihe que para se tornara 
soldaro parentesco interrompido namorte dV 
quella Princeza, quizesse ajuntar- se em matrí* 
monio com outra Princeza da casa Real át 
França ; e como EIRei de Castella nao se deter- 
minasse a acceitar a proposição, desejoso de 
amparar a irmã , tratou de casál-a com ElRei 
D. Sebastião. Martim Goncalvez da Camará é e 
o Mestre seu irmão, a cujos conselhos e dispo- 
sição estava EIRei entregue, fòrão de parecer 
convinha muito ao reino de Portugal aquellà 
altiança de parentesco com França, por ser mais 
bem provido de mantimentos de que muito 
carecia, principalmente de pão. Com estas e 
outras considerações estava o negocio a ponto 
de se acceitar, e com esperanças de concluir-^se, 
quando EIRei D. Philippe, escrevendo a EIRei 
D. Sebastião , lhe pcdio não acceitasse o casa- 
mento de França, nem desse palavra decisiva 
senr elle o saber e intervir nisto. Adherioa isto 
EIRei e seus ministros, e poserão em sua mão 
o negocio do casamento, dizendo acceitaria por 
molher a que elle D. Philippe elegesse, EIRei 
de Castella. sendo também tio das filhas do 
Imperacfer Maximiliano, assentou que ElRci 
de França casasse com D. Anna, filha mais velha 
do Imperador, e EIRei de Portugal com Izabel 
filha segunda. Communicado este arranjo a 
EIRei D. Sebastião, e á Rainha sua avó, e ao 
Cardeal , seu tio, pareceo-Ihes a todos bem , e 
assim a Luiz GonçalVez, mestre d'£lRei e a 



L« 



— 407 — 

Marti m Gonçalvez ^ seu Irmão ; porém El Rei 
D« Fhilippe f mudando ao depois de parecer ^ 
tomou um acordo, diíferente do assentadora 
foi, que elle Rei de Gastella casasse com a Prin^ 
ceza Anna sua sobrinha, filha mais velha do 
Imperador,, e ElRei de França com a segunda, 
com que de feito se praticou, e ElRei de Por- 
tugal com a Irmã d'ElRei de França , ' com 
quem antes estivera concertado. Mandou ElRei 
de Gastella recado a ElRei D. Sebastião da mu* 
dança, e novo assento, o qual algum tanto se 
aggravou por lhe quererem agora fazer acceitar 
novamente a molher que elle antes por seus 
conselhos rejeitara, e por conselho do Mestre, 
e de Martim Gonçalvez, não respondeo ElRei 
ao recado de Gastella ao primeiro correio, nem 
ao segundo, nem ao terceiro, e somente no 
quarto , no qual se mandava pedir procuração 
para se fazer o contracto, mandou uma resposta 
chea de queixumes sobre o quererfem dispor 
de sua liberdade. Do que aggravado ElRei de 
Gastella mandou por D. João da Silva, seu Em- 
baixador em Portugal, pedir a ElRei D. Sebas- 
tiSo afastasse dos negócios Martim Gonçalvez 
da Gamara, porque Ihé era por extremo sus- 
peito. Por este motiVò nSo teve eflbito o pro- 
jectado casamento (595). 



(S9S) Mm. da Bibliotii. R«al de Paríi, Cod. f 0,254, Eittor. 
Chron. do Reino de Portugal^ ele., cap. 7,' p. 19. 

rid€ T. 2 d^etie QwMiro, p. 416. 



ff 



broiS 



— 408 — 

dI'iÍ£? Nesta data o Bispo d'Adgou1éme, Embabn- 
dor de França em Roraa , escreve a £IRei de 
França participando-lhe a communicaçao que 
o Papa lhe fizera, do quanto importava á 
Ghistandade , e ao socego da Europa , o casa- 
mento d'£IRei D. Sebastiao.e o d*£IRei de 
Hespanha e de França (596). 



An. 1569 



O Conde de Ficalho, D. João de Borja, que UÂ 
Embaixador junto do Imperador Rodolphoíí^ 
tratou do casamento da Princeza de França, Mar- 
garida de Yalois, com o Senhor Rei D. Sebastião, 
que se não cffcctuou (597). 



An. 1M9 Relação de João Gorrero, Embaixador de Ve- 
neza em França , acerca dos negócios, doesta 
cor>te, e negociações que tinha com as c|as outras 
Potencias d'Europa. 

Pelo que diz respeito a Portugal refere o so- 
bredito Embaixador que era voz, estava EIRei 
de Portugal em via de casar-se com Madama 
Margarida de França, por intervenção d'£IRei 
Catholico; e que por aquelle consorcio se con- 
solidaria a boa harmonia-entre EIRei deFranca 
e o de Portugal; o qual em todo o tempo seba- 



(596) Biblioth. Real de Pariz, Cod. 9,749 a 9,751. 

Ainbassade a Rome de Mgr. rÉvéqae d^Angoiúéme , 
p, ^I .▼• do I", 
(r»97) Mem. Mss. (Coll. da Minha Livraria). 






— 409 — 

via mostrado desejoso d*aquel1a união e pa- 
rentesco, sem que ousasse manifestáUo, por 
contemplação por seu tio EIRei Philippe, epor 
sua raãiy a qual, segundo se dizia, tinhaa eate 
respeito feito algumas promessas ao Imperador 
d'Allemanha. Que todavia o Embaixador Por« 
tuguez lhe havia repetidas vezes affirmado, que 
EIKei seu amo nenhuma necessidade tinha de 

Erentar-se com a casa d' Áustria , tendo já 
ido de parte a parte frequentes allianças, 
equc lhe convinha muito mais vincular-se com 
a de França, por diversas razões, que nao dis- 
sera , mas que elle Correro inferia ser uma 
d'e]las a esperança de nao ser inquietado em 
seu commcrcio còm as índias,, como ultima- 
mente havia sido pelo filho de Montiuc, que 
perdera à vida na Ilha da Madeira (598). 

Nesta data EIRei D. Philippe de Gastella , in. imí 
achando-se viuvo da Rainha D. Izabel de Va- dep"^ 
lois, e tendo-se determinado a casar-se com sua 
sobrinha á Archiduqueza D.Ànna, primeira 
filha do Imperador, de preferencia á Princeza 
Margarida de Yalois sua cunhada, irmã d'El- 
Rei Carlos IX de França , para serenar o ani- 
mo d'ElRei de Franca,, tratou de casar este mo- 



(598) RelatíoDf des Ambassadeurs Vénitíens sur les aflairet 
dft France au xvi« aiêcle, recueíllies par Tommaaeo, T. 2, 
p. 1 75. — CoUection des piécetinédites sur rhistoire de Franca , 
p«r ChampolHon-Figeac. 



• 



— 410 — 

narca eom ft filha segunda do Imperador^ • 
EIRei D. Sebastião com a Princeza Margarida 
de Yalois , contra o que elle raesmo havia al- 
guns annos atraz aconselhado. Como a Rainha 
D. Catharina, que punha todo empenho em que 
seu neto se casasse em Âlleraanha, lhe estra-* 
iihasse o modo porque se houvera, e a mudan^ 
que havia feito sem consultar a vontade d'£l«* 
Rei seu neto, disculpa-se EIRei de Gastella, d^ 
zendo proviera aquella mudança da vontaV 
do Imperador, e não da sua, alem da repugoan* 
cia que tinha de casar com sua cunhada, como 
o era a Princeza Margarida, e que considerando 
que a pratica e ajuste do casamento d'£lReiD. 
SebastíSo seu sobrinho se não rompera por fal* 
ta de qualidade, autoridade e mais requisitoa 
da parte da noiva,- mas tão somente por al- 
gumas considerações que então se Julgarão at- 
tendiveis, entendera dever tratar do casa- 
mento d'ElRei seu sobrinho com a Princeza 
Margarida de França , e assim o fizera na per- 
suasão em que estava, era aquella alliança a que 
melhor convinha ao socego da Europa (599)* 

M5rç"í5 ^^^^ ^®^ ' "^^ ^^ satisfazendo a Rainha D* 
GatherinA com as razões apontadas por EIRei 
D. Philippe de Gastella, na carta que porD. Fer- 



iais) Barbosa, Mem. d»ElRei D. Sebastião, P. S, Ur. I, 
cap* 17, p, 98. 

ride Secção XV d'este Quadro Elementar, T. H, p^ 109. 



^ 



— 411 — 

nandoCarrilholhe enviara acerca do casamento 
d'£lRei D. Sebastião, seu neto, com a Princcza 
Margarida de Yalois , estranha-Ihe o ser elle 
Rei de Castella quem ehtao promovia aquella 
alliança, havendo sido o mesmo que aestorvára, 
reprovando-a por muitas razões, que a ella e a 
EIRei seu neto, por cartas e por via de D. Fran- 
cisco Pereira d'Ântas, havia apontado; e respon- 
dendo ao queElRei de Castella lhe havia escrito 
que tinha procedido d'aquclla maneira sem 
consultar a vontade d'ElRei seu sobrinho, por 
desejar saísse o casamento d'elle juntamente 
com o d'ElRei de França, pergunta-lhe se 
quando d'isso tratara se havia lembrado do que 
EIRei seu neto entendia se lhe fizesse em Fran- 
ca, havendo de ali casar-se, tantoa respeito de 
dote como das. condições que convinhao a bem 
da conservação de suas conquistas, demarca- 
ções e commerçio d'ellas, cousa que havia cus- 
tado tanto -sangue a Portugal , se também se 
havia lembrado do caso da Ilha da Madeira, so- 
bre o qual EIRei de França ainda não havia 
dado satisfação, e conclue rogando-lhe que 
pois pelas razões que elle Rei de Castella alie- 
gára se havia em outro tempo desfeito aquelle 
casamento, houvesse de fazer com que agora 
se effeituassc, como se fora o de seu próprio 

filho (600). 

<— ^^ ■ .^— — —i— 1 1ll I « »^— ■ 

(GOO) Barboza, Mem. d'£IReí D. Sebastião, P. 3, liv. I, 
eap. 12, p. 107. 

yide Secção XV doeste Qnadro Elementar ( Relações entre 
Portugal e Hespanha), T. 2, p. 110. 






— 412 — 
An. 1M9 Nesta data Carlos IX, Rei de Franca, escreve 

(depoit * 

Mi*rM* ? El Rei D, Sebastião, dando-lhe parte da in- 
signe victoria, que seu irmão o Duque d' An jõu 
alcançara em Jarnac, em 13 de Março d'aquelle 
anno, contrajLuiz dcBorbon,principe de Gondé, 
principal fautor dos Hugonotes; Manda ElReí 
D. Sebastião congratulál-o por D. João Masca- 
renhas, il lustre defensor deDio, que para esse 
effeito mandou a Pariz com o caracter de seu 
Embaixador extraordinário (601 ). 

An. IM9 Almeirim. *-r Recebe ElRei D. Sebastião no- 
iels^de ticiada morte do Principe de Conde, na batalha 
que por parte d'EIRei de França dera aos Pro- 
testantes, c que estes, capitaneados-pelo Almi- 
rante, se encaminhavão para os portos do mar 
d'aquelle reino, onde tinhao navios e aperce- 
bimentos com o fundamento de irem conquis- 
tar terras onde vivessem. Parte EIRcipaMeiLis- . 
boa, chama a conselho, c oixlena que se lán-r.^ 
casse immediatamente ao mar uma armada tfe 
vinte velas , capitaneadas por Jorge de Lima^ 
para proteger os Açores, e guardar as coataá 
de Portugal (602). ' 

An. 1569 Instrucçoes dadas a M. de Fourquevaux, 



(601) Barboza, Ifem. d'ElRei D. Sebastião, P. 3, liy. 1, 
cap. 17, p. 166. 

(602) Mss. da Biblioth. Real de Pariz, Cod. 940, Supplem., 
p. 70. 



— 413 — 

Embaixador de CarlosIX^ Bei de Franòa^ junto 
a ElRei de Castella acerca do casamento d'£l- 
Rei D. Sebastião com a Princeza Margarida , e 
do d'£IRei de França com D. Izabel, filha se- 
gunda do Imperador. 

No art. IV das sobreditas instruccões encom- 
mendava-se ao dito Embaixador^ houvesse de 
declarar que ElRei seu amo o havia revestido 
de poderes sufficientes para tratar d'um e d'ou- 
tro casamento; para o que estava prompto, 
quando fosse do agrado d'EIRei Catholico , a 
conferenciar com os seus Deputados, e com os 
do Imperador, e d'£lRei de Portugal, achando- 
se estes munidos dos necessários poderes. Que 
se, contra toda a expectação, lhe respondessem 
que o Imperador e ElRei de Portugal nao ha- 
viSo mandado poderes, por se louvarem no que 
por ElRci de Castella fosse feito , promettendo 
de o approvar e pôr cm effeito, deveria o dito 
M. de Fourquevaux objectar que, sendo os di- 
tos casamentos de grandissima importância, e 
do interesse particular do Imperador e d'ElRei 
de Portugal^ era requerivel que cada qual ali 
tivesse seu Deputado, e quando menos que 
houvessem enviado os necessários poderes para 
o ajuste dos casamentos com os Deputados d'£l- 
Rei Catbolico, com promessa e obrigaçSk> de 
approvarem c ratificarem quanto por ElRei 
Catholico fosse era nome d'elles tratado, e isto 
em prazo determinado^ «e da maneira que se es- 
tipulasse. 






— 4U — 

Pelo art. IV se lhe ponderava que ^ sendo a 
entrada e começo de semelhantes negociacSes 
e tratados a exhibiçao dos poderes pelos Depu- 
tados, ou negociadores y o dito M. de Four* 
qucvaux cuidaria em se fazer api^senlar Oê 
das pessoas com quem houvesse de n^ociar^ 
e, dado caso, que ElRei de Portugal e o Impe* 
rador tivessem effectivamenteenviado poderes, 
deveria todavia examinar, se no poder d'£|Rei 
Catholico se achava a clausula expressa de se 
obrigar pelos sobreditos Imperador e Rei ao 
cumprimento do que fosse pelos respectivos 
deputados ajustado. 

Pelo art. VII que deveria entender-se com 
os ditos negociadores sobre a quantia de di- 
nheiro que se daria em dote a ElRei de França, 
casando-se com a Princeza D. Izabel, em que 
espécie, e prazos seriSo feitos os pagamentos , 
regulando-se em todos aquelles pontos segundo 
sua prudência, sendo de presuppor que a 
quantia de dinheiro e o prazo do pagamento 
oíFerecido pêlo Imperador e Rei Calholico a El- 
Rei de França em dote havião de ser oa mes- 
mos, que o que d'elle exigirião pelo dote da 
Princeza Margarida; para por aquelle modo 
compensarem uma cousa com outra. 

Pelo art. VIII, que no concernente ao casa- 
mento da Princeza acima dita com ElRei de 
Portugal, alem dós pontos já mencionados 
noutros artigos das Instrucções, deveria M. de 
Fourquevaux regular-se pelo que fo»se ajus* 



— 415 — 

tado no d'ElRei de França com a Princeza 
Izabel. 

Que trataria de fazer que ElRei de Portugal 
desse a sua futura esposa em jóias e alfaias até 
a importância de cem mil escudos , ou quando 
menos cincoenta mil, a qual importância fica- 
ria em foro de herança ; como as jóias e alfaias 
que de seus pais lhe viessem , as quaes passa- 
ríSo a seus herdeiros; que a quantia, que se lhe 
prestaria durante a vida para seu tratamento 
devia de ser igual à que ElRei Catholico havia 
concedido à defunta Rainha. 

Que no caso de dissolução do casamento, a 
sobredita Princeza Margarida poderia retirar- 
se em liberdade para onde quer que lhe pare- 
cesse, com todas suas jóias, officiaes e criados, 
para cujo fim ElRei de Portugal , antes da pon- 
summação do casamento, prestaria fiança, 
8UJeitando-se a ser demandado e condemnado 
judicialmente no caso contrario, pela detenção 
de todas as pessoas naturaes de seus reinos que 
se achassem em França, as quaes fícarião em 
reféns, qualquer que fosse sua condição, e 
quantidade (603). 

Nesta data, tendo-se Philippe de Castella ^^ ^^ 
Gonstituido arbitro absoluto do casamento ^^^ '* 



(605) Mm. da Biblioth. Real de Paris, Cod. 65. 
Recaeil dei TMIée, tle., Ibh (M^ 



■ i 



— 4n — 

s^^infe lhe rc^ queira sem mais dilação en* 
viar os poderes necessários a seu Embaixador 
D; Francisco Pereira , e que espera que se ser- 
virá de o fazer^ pelas razões que militao em 
favor da brevidade d'aquelle n^ocio (606). 

Despacho do Bispo d^AnsouIeme. Embaixa- An. im9 
dor de Franca em Roma. 

Participa o Embaixador nesta data ao seu 
Governo, que naquelle dia se expedira ; e fora 
entregue ao Embaixador d'Hesp anha aBulIa 
de dispensa para o casamento d'ElRei Catho- 
lico. Que lhe dissera o Papa lhe havia EIRei 
Catholico escrito sobre aquella dispensa que 
elle suppunha difficil, e dando por motivo de 
tn^encia , que de seu casamento dependia o 
d'EIRei de Portugal , os quaes tão necessários 
erão para a paz e descanço da christandade, 
accrescentando, que o Papa os julgava seguros 
(607). 

Apontamentos de M. de Fourquevaux^ Em* An. nw 
baíxador de França em Gastei la, sobre o que 
se passara na negociação e ajuste do casa- 
mento d'EIRci de França, e de Portugal. 

Recebimento dos competentes poderes e 



(GOfi) Barboza, Mem. d'£lRei D. SebasliSo, P. 3, liv. 1, 
cap. 12, p. IIG. 

(C07) Ms6. clu Dibliulb. Hcal de Pariz, Cod. 9,750. 
Ainbabsadcs de Mgr. PÉvcque d^Ao^ulciue. 
III. 27 



— 418 — 

iiistfuccões referidas. Dá-lhe EIRei CatbolicQ 
audiência no dia seguinte^ e dia-lhe que o Iitt- 
p.erador lhe havia mandado o pleno poder pwf 
se tratar do casamento da segunda filha 4o 
Imperador com EIRei de França ^ que amandQ 
sua irmã como a própria filha daria pressa á 
conclusão d'aquelle negocio. Âgradece-lb^ o 
Embaixador em nome d'ElRei de Fraqea|ff 
supplica-lhe haja de explicar-lhe o porque 
se não fallava no casamento da irmã d'EU^ 
de França com EIRei de Portugal , e de dizftrr 
llie se erão ou não vindos os competentes po- 
deres ; porque tinha instrucções parfli tratar 
de ambos os casamentos conjunctainente, e 
não em separado. 

Responde-lhe EIRei Catholico^ quea demora 
que naquelle negocio havia ^ procedia da peste 
que então grassava em Portugal^ motivo por^ 
que senão tinhão ainda podido ajuntar EIRei 
de Portugal com a Rainha sua avó^ e seus conse^ 
Iheiros sem manifesto perigo, além de que era 
EIRei moço^ e aconselhava-se com pessoa^ de 
sua idade : o que não devia servir de estorvo 
para o ajuste do casamento d'ElRei de Franca | 
porque assim, achar-se hião as cousas maÍ9 
adiantadas e a ponto de se concluírem, quando 
chegassem os poderes d'EIRei de Portugal. 

Em 1 9 do mesmo mez teve o Embaixador de 
França uma conferencia com o Cardeal de 
Siguença, e o Doutor Velasco, na qual depois 
de varias praticas insistio sobre a necessidade 



— 419 — ; 

em quç se via de não poder, tratar do casa- 
mento d'£lRci de França, a não ser conjuncta- 
mente com o d'£lRei de Portugal (608). 

Nesta dataElRei D. Sebastião, respondendo ^^^*^fJJ 
á carta que ElRei d'Hespanha lhe escrevera em 
19 de Julho de que demos atraz o summario, 
como também ao que por parte do dito Monarca 
lhe fora dito por D. Fernando Carrilho, depois 
de agradecer-lhe o cuidado que tinha em suas 
cousas, lhe diz que não tendo até então visto 
o que por parte de França se havia de fazer 
no concernente ao seu casamento, conforme o 
que a Rainha sua avó apontara na carta que 
lhe escrevera em 13 de Março, parece-lhe que 
por então nenhuma necessidade havia de man- 
dar-lhe os poderes pedidos, e tinha para si que 
ElRei de Castetla, seu tio, seria da mesma opi- 
nião, pelo muito amor que elIeD. Sebastião 
lhe merecia , e pela obrigação em que estava 
de fazer tudo o que cumprisse a sua autori- 
dade, honra e proveito de seus reinos (609). 

Nesta data escreve o Bispo d'Angouleme, An. tseo 
Embaixador de França em Roma a ElRei, ^®*^^ 



(608) Mm. da Biblíotb. Real de Parii, Cod. 65. 
Recaeil deaTraités, etc, foi. 101. 

(609) Barboza, Mem. d^ElRei D. SebastiSo, P. 3, liv. 1, 
«ap. 12, p. 119. 

Kidê Seoçio XV d'es(e Quadro Elementar, T. 2, p. 1 10, 



— 420 — 

participando-lhe que havia apresentado as 
suas cartas , sobre o casamento d^elle Rei com 
a filha segunda do Imperador, e sobre o da 
Princeza Margarida com ElRei de Portugal^ 
accrecentando que sua Santidade estava já 
sciente d'isto pelas participações que os Em- 
baixadores do Imperador, d'ElRei Catholico, e 
de Portugal lhe tinhSo feito ; ajuntando o mes- 
mo Embaixador, que o Pontífice esperava que 
ElRei de França mandasse quanto antes as pro- 
curações para Hespanha , e que sobre a partida 
da Princeza Margarida para Portugal , o mesmo 
Pontífice lhe havia encarregado que escrevesse 
a elle Rei de França (610). 

An. isM Despacho do Bispo d'Angoulcme, Embaixa- 
^^^^^ dor de França junto á Santa Sé Apostólica , 
dirigido á Rainha de França. 
• Participa-lhe entre outras cousas que Sua 
Santidade folgara muito com a resolução do 
casamento d'ElRei de França com a fílha do 
Imperador, e do de sua irmã a Princeza Mar- 
garida com ElRei de Portugal , pelo bem que 
doestes dous consórcios esperava para toda a 
christandade. Accrescenta o mesmo Embaixa- 
dor algumas particularidades acerca das pro- 
curações, modo da viagem da Princeza Mar- 
garida, ajuntando, que o Embaixador de 
Portugal solicitava continuadamente em nome 



(()10} 13ibIJo(h. Real de Parfz, casa dotAlRU, God. n. 9,750. 



— 421 — 

d*EIRei, seu amo, ao Papa, para S. S. interpor 
a sua autoridade, afim de que estes casamentos 
86 concluíssem (61 1). 

Despacho do Bispo d'Angouleme, Embaixa- j^^\ 
dor d'EIRei deFratiça em Roma, para o Duque 
de Florença. 

Pelo qual lhe participa a elle e a seus filhos 
de ordem d'ElRci de França, seu amo, a reso* 
luçao em que estava de tomar por mulher a 
filha segunda do Imperador, e de casar sua 
irmã a Princeza Margarida com EIRei de Por- 
tugal^ o que lhes communicava como a pa- 
rentes e amigos d'ElRei de França, que neces- 
sariamente deviao tomar parte em tudo quanto 
fosse a bem e proveito d'ElRei seu amo (612). 

Despacho do Bispo d'AngouIeme, Embaixa- An. ism 
dor d*EIRei de França em Roma, dirigido ao *^*» 
mesmo Monarca. 

Participando-lhe o regresso do correio que 
expedira a Florença com a participação para o 
Duque e seus filhos da resolução do casamento 
d'ElRei de França com a filha do Imperador, e 
do da Princeza Margarida sua irmã com EIRci 



(Cl 1) BiblioUi. Real de Paríz, casa doa Hsp., Cod. 9,750. 

Ambafliadeida Mgr. TÉréque d'Angonléme , p. 43. 
(Cl 2) Mai. da pttUoth. Real de Paria. 

Ambaatadtoi de líigr. FÉTéque d^Angonléme, Cod. 9,750 , 
p. 45. #^ 



— 422 — 

de Portugal , partícipaçSo com que muitx> foU 
gára o Duque de Florença , bem como o Prín- 
cipe e o Cardeal , seus filhos (613). 

An. 1S69 Despacho do Bispo d'Ângouleme, Embaixa- 
bros dor d'£IRei de França em Roma, dirigido ao 
mesmo Monarca. 

Participa-lhe, como em conformidade cóm o 
que lhe fora ordenado pedira audiência ao 
Summo PotitiGce, e lhe fizeria entender como 
as cousas se pASsavao na Corte d'ElRei Cathò* 
lico afim de se Ir dilatando a conclusão do Ca- 
samento d'ElRei de França, e do de sua o^ilift a 
Pririceza Margarida com El Rei de Jhí^^i^i 
que Sua Santidade ficara por extreiéS. 
Ihado, c depois de estat um poiícò 
lhe tornara, que aquellas dilações naseiao dò 
natural d'ElRei Catholico, e do estilo d'aquella 
Corte em todos os negócios , e não de má von- 
tade y ou designio de rompimento, e que estava 
certo, que EIRei Catholico havia de levar tudo 
a bom fim; que também o Embaixador de Por- 
^. tugal Ihè havia pedido da parte d'ElRei seu 

amo de ajudál-o na conclusão do âeil casa- 
^. mento (614). 

*** 



(613) Mss. da Biblioth. Real de Pariz, Ck>d. 9,750. 
Ambassades de Mgr. FÉváque d^Angoaléme, p. 46. 

(614) Mss. da Biblioth. Real de Pasiz, God. 9,750. 
Ambassades de Mgr. rÉvcque dVUijoulêine , p. 73. 




— 423 — 

Nesta data escreve EIRei de Castella a ElReí An. tw 
D.Sebastião, por via de seu Embaixador D. João bro 9 
de Borja, instaiido-o porque mandasse a D, 
Francisco Pereira, Embaixador de Portugal 
em França os necessários poderes para elle 
assignar o contrato de casamento entre elle '""* 

Rei D. Sebastião e a Princeza Margarida de 
Valois, e pedindo-lhe houvesse de dar credito 
a tudo quanto o dito seu Embaixador lhe dis- 
sesse de sua parte sobre aquelle assumpto (61 5). 

• Évora. •— ^ Recebe EIRei D. SebastiSo caria An. i56o 
d'EIRei Carlos IX de França, em que lhe dá ^ro 
|Mirte da victoria que dos Lutheranos alcançara 
Bm 3 de Outubro do mesmo anno, o que já lhe 
"tevia fMto saber por via de seu Embaixador em 
Caatella (646). 

Parte para França por Embaixador d'ElRei An. imí 
D. Sebastião D. João Mascarenhas, com instruc- hn * 
cão de passar por Madrid , e visitar da parte 
d'EIRei a Princeza de Portugal ^ e ch^ndo a 
França comprimentar EIRei Carlos IX e seus 
irmãos , e mui particularmente á Rainha mãi , f 

pedindo a EIRei de França da parte do de Por- 



(615) Barboza, Mem. d*ElRei D. SebastiSo, T. 3, Ur. 1, 
oap. 24 , p. 200 a 202. 

f^íde Secçio XV d'estc Qaadro ElemenUr, T. 2, p. 111. 

(<16) Um. da Biblioth. RmI át Paris « Cod.940, sapplem., 
p. 76 V. 



%• 



I' 







• ^ 



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%. 



— 424 — 

lugal , de nSo fazer concerto algum com os Lu- 
theranos (617). 

An. 1569 Nesta data escreveo também a PrinCeza D. 
broTs Joanna a ElRei D. Sebastião seu 01ho, instan- 
do-o porque mandasse os poderes para assi- 
nar-se o contracto de seu • casamento com a 
Princeza Margarida de Valois, e dando as ra- 
zões por que agora lhe aconselhava aquella 
alliança; sendo que d'antes o havia d'ella dis- 
suadido, inclinando-se antes á da casa d'Aus- 
tria , diz-^lhe que, não sendo já possivel esta , 
não via outra melhor que a de França; e que 
suppostoosFrancezes não tivessem dado satis- 
fação aos excessos , que havião commettido na 
ilha da Madeira , não era isto razão sufficiente 
para se deixar de eífeituar o casamento inten- 
tado ; que bem via que a idade d'ElRei, seu filho, 
dava lugar a esperar, e que não deixarião de 
ofFerecer-se outros casamentos, mas que estes 
erão incertos e duvidosos, alem de que, se as 
negociações se rompeâsem , poderia EIRei de 
França dar-se por offendido, e pelo mesmo teor 
EIRei de Castella (61 8). 

An. IS70 Carta patente de Carlos IX , Rei de Franca , 

Janeiro ^ ' • 

84 



(617) Mss. da Biblíoth. Real de Pariz , Cod. 940, aupplem., 
p. 77. 

(618) Barboia, Mem. d'ElRei D. Sebastião, P. 3, lir. I, 
cap. 24 , p. ;Z0d. 






k' \ 



— 425 — 

pela qual faz saber a todas as Justiças d'aquelle 
reino, que havendo por outra carta patente de 
27 de Fevereiro dò anno antecedente, cora aviso 
dos do seu conselho, mandado dar mão levada 
de todas e quaesquer pessoas portuguezas, 
navios e fazendas que haviao sido embargadas 
e tomadfas por eífeito de algumas cartas de 
mi^rca e represália que contra os vassallosd'El- 
Rei de Portugal havia outrora concedido, por 
ser sua vontade que todas as ditas pessoas fos- 
sem postas em liberdade, e restituídas as fa- 
zendas, afim de haver commercio livre com 
os vassallos d'ElRei de Portugal, e desejando 
outrossim que as sobreditas cartas de marca 
e contramarca por elle concedidas ficassem 
sendo de nenhum eífeito, restituindo-se tudo 
aos vassallos d'EI Rei de Portugal; carta patente 
que elle Rei de França endereçara ao Vice- 
Almirante de Bretanha para lhe dar execução; 
como assim se tinha ali praticado, faltando 
somente para tudo concluir-se o fazer-se o 
mesmo em tpdos os outros ducados, abras e 
portos do reino de França, e especialmente tia 
provi ncia de Normandia , onde se faziao algu- 
mas diíficuldades, como lhe mostrara o Em- 
baixador de Portugal ou seu procurador, or- 
dena , e encommenda de novo a todas as suas 
Justiças e vassallos, que sem mais restricções 
hajSo de cumprir á risca com o ordenado nas 
sobreditas cartas patentes, para cujo eífeito 
manda publicál-as em todos os lugares do reino 



— 426 -^ 

de França^ especialmente nos porlos do mar^ 
para que a todos seja notório^ e .apregoál-as ao 
som de trombeta (619). 

Fcm^27 Nesta data escreve o Bispo d'Ângouleme , 
Embaixador de Franca em Roma, a ElKèi seu 
amo, communicando-Ihe que o Papa desejava, 
do mesmo modo que ElKei , a conclusão do 
tratado de casamento da Princeza Margarida 
com EIRei de Portugal, e que lhe ordenava 
expressamente, escrevesse a S. M. que élle es- 
perava destruir todas as difficuldades , que até 
então tinhão existido, visto que o Embaixador 
de Portugal lhe tinha pedido que se expres- 
sasse d'este modo (620). 

An. 1570 Nesta data Jaques Sofia, natural do condado 
de Àux da provincia da Normandia ^ saído da 
Rochella com uma esquadra de quatro náòs^ 
encontrando defronte da ilha da Palma a nào 
portugueza Santiago, que fazia viagem pa^a o 
Brasil , e em que ia embarcado o Padre Ignacio 
de Azevedo com trinta e nove Religiosos da 
Companhia de Jesus, investio-a, rcndeo-a, e 
passou á espada os Religiosos e quantos nella 
encontrou (621). 



Ué^.*^m 



(619) ÀrchÍTO Real dâ Torre do Tombo | GaV. 15^ maç. 15 , 
n. 35. 

(620) Biblioth. Real de Pariz, casados Mss. , Cod. 9,751 , 
.foi. 72 yo. 

(621) Barboza, Mem. d'EIRei D. SebaatUo,. P. 3, Ur. I, 
^ ih p. 239. 



>. 



•^ 427 — 
Nesèa dala Carlos IX 4 Rei de Franca, pro- An. isto 

' - ' r Julho 21 

mulga uma caria para se entregarem as pi^esas 
aos Portugnezes (622). 

Breve do papa Pio V, exhorlando ElRei D. An. isto. 
Sebastião a concluir o casamento projectado 
çom a Princeza Margarida de Vatois, irmã 
d'£IRei de França> para cujo effeito lhe depu- 
tava o Doutor Luiz Torres, seu Camereiro 
(623). 

Instruccões dadas pelo Bispo d^Aneouleme, An. isto 
Embaixador de Franca em Roma, a seu irmão 
M. de Fargiis para lhe servir de memento na oc- 
casião em que o mandava á Corte. 

Diz o sobredito Embaixador no preambulo 
das mencionadas Instruccões que^ ponderando 
de quanta importância fosse o casamento de 
que então se tratava de Madama Margarida de, 
França com ElRei de Portugal, e a ordem ex- 
pressa que tinha d'ElRei seu Amo de fazer-lhe 
saber por meudo as respostas que o Papa havia 
feito ás diversas supplicas que lhe forão dirigi- 
das, como lhe parecesse iropossivel satisfazer 
ao que lhe fora ordenado, dando parte por es- 
crito de quanto entre elle e o summo Pontifica 
sobre aquelle negocio havia passado^ tomara o 



(622) ArchiTo Real d« Torre do Tombo, G«t. 15, mfiç. 15, 
n. 35. 

(623) Barbosa, Mem. d'E1Rei D. SebasCtSo, P. 3, Iít. t, 
eâp. 24 , p. ?ÍMI. 



— 428 — 

arbítrio de enviar seu irmão á corte, na certeza 
de que elle daria inteira conta a £IRei de 
França, das respostas do Papa, e porque nao 
houvesse esquecimento o havia munido d'a- 
quellas Instrucções, 

Que em conformidade de despacho de 10 
d'Agosto (1 569) tendo cemmunicado ao Papa » 
resolução em que ElRei de França estava de to- 
mar por mulher a filha segunda do Impera- 
dor, e casar sua irmã a Princeza Marga- 
rida de França com ElRei de Portugal, tudo com 
a possivel brevidade , S. Santidade folgara 
muito com aquella noticia, écom mui boa von- 
tade promettêra empenhar-se para encher os 
designios de S. M . Christianissima. 

Que por despacho de 29 de Outubro seguinte 
tendo-lhe sido endommendado representasse a 
S. Santidade as dilações que oppunhaááonclu- 
são de um e outro casamento, mórmcmte ao 
d'E1Reide Portugal com Madama Margarida de 
França , a Corte d'Hespanha o fízera presente 
ao Papa, o qual posto que confessasse era verda- 
de, tratara de disculpar ElRei d'Hespanha, at- 
tribuindo aquellas dilações mais ao génio par- 
ticular d'ElRei Catholico, e ao vagar com que 
em tudo se costumava proceder naquella Corte, 
do que a qualquer outro motivo. 

Que ficando as cousas naquelles termos por 
nao ter tido instrucções que lhe prescrevessem 
adiantál-as, vendo oPapa que elle Embai 
lhe não falia vai mais no projectado casameu 



->* 




— 429 — 

Madama Margarida de França com EIRei D. 
Sebastião de Portugal, lhe perguntara donde 
vinha que se nao effeituava, e com o costu- 
mado affecto se tornou a offerecer de empre- 
garse em sua conclusão^ como em cousa de que 
esperava bom êxito, e que seria muito do gosto 
d^EIRci de Portugal ; o que tudo elle Embaixa- 
dor fizera saber immediatamente á sua Corte. 
Que havendo-lhe sido ordenado ao depois 
por M. De Foíx em despacho de 20 de Julho 
ultimo da parte d'ElRei de França houvesse 
de tornar a fallar ao Papa sobre os casamentos 
projectados, pedindo-lhe de empregar e pôr em 
effeito o aífecto e boa vontade que havia ate 
então mostrado a EIRei de França, assim o 
compríra, e tivera de S. Santidade as mesmas 
respostas. Que passado isto, recebera o despa- 
cho de 29 do mesmo mez, em virtude do qual 
tivera em 2 do seguinte audiência de S. Santi- 
dade, a qiiem começara por agradecer o aífecto, 
boa vontade e diligencia com que até ali se ha- 
via empenhado em effeituar o casamento de 
Madama Margarida , irmã d'Elllei seu amo, 
com EIRei de Portugal, no que havia dado, 
como em tudo o mais, claro testemunho de seu 
amor paternal para com a França; que igual- 
mente lhe dera graças pela alta opinião que ti- 
nha das virtudes da dita Princeza, e continuara 
a referi r-lhe quanto se havia passado e se pas- 
sava entre EIRei de França seu amo, e EIRei 
d'Ucspanha e de Portugal. 



IK 



.•/ 






— 430 — 

Que pedira a S. Santidade houvesse de se 
lembrar das provas que EIRei seu amo era to- 
das as suas acções havia dado do desejo que ti- 
nha do bem e socego da Christandade^ c como 
para esse eífelto havia resoluto desposar-se 
com a filha segunda do Imperador, e dar sua 
irmã em casamento a EIRei de Portugal, para 
que com a união e alliança de tão graudes 
Príncipes florecesse a religião, e que por essa 
razão desejava EIRei de França que ambos os 
casampiitos se eífeituassem ao mesmo tempo. 
Que todavia vindo-se a tratar do casamento 
d'ElRei de França, S. M. Gatholica se negara a 
tratar do de sua irmã com EIRei de Portugal, 
promettendo sem embargo de entender nelle 
logo depois ; com o. que EIRei de França se con- 
' tentara, fiando-se no que lhe havia sido dito da 
parte de S. M. Gatholica, e no que de seu pró- 
prio punho lhe escrevera. 

Mas que era a todos notório como, abusando 
da boa amizade e da lealdade d'EIRei seu amo, 
S. M. Gatholica elevava sobre o casamento de 

• ■ 

Madama Margarida com $lRei de Portugal 
umas após outras 4iyiPrsa6.dtfficuldades, dila- 
tando de ília em di^acQiiclDsfto do dito cousor- 
cio, suscitando obátáqulos de pouco momen- 
to, o que não podia deixar de indispor o animo 
de S. M. Ghristianissima. 

Que Eljlei seu amo lhe havia expressamente 
ordenado que, depois de expor-lhe tudo, hou- 
vesse de dizer-lhe seria uma cousa própria e 



í 



— 431 - 

digna de S. Santidade de fazer eoin que os pro- 
jectados casamentos d'elle e d'EIReide Portu- 
gal se concluissein scrn mais dilações, asquaes 
não podiao deixar de causar a S. M. Cbristia- 
nissinia mui grande displicência, sendo que 
aquelle negocio tocava em sua reputação c hon- 
ra, cousas de que era, como cunipria, por ex- 
tremo melindroso. Que seEIRei Catholico, e os 
que naquclles consórcios erão interessados 
mudassem de parecer, EIRci seu amo se resol- 
veria acollocar sua irmã em parte que não seria 
doagrado d'£IRei Catholico. Que nada obstante, 
por mais razão que elle tivesse, estava ainda 
em disposição e folgaria muito de entender no 
casamento de Madaraa Margarida comEIRei de 
Portugal, com tanto que não houvesse demora. 
Que tendo S. Santidade escutado com toda a 
paciência quanto elle Embaixador lhe dissera 
sobre todos os artigos, extendcndo-se conforme 
a importância d'elles, respondera que não ha- 
via no mundo cousa em que elle mais desejasse 
empregarse do que na conclusão d'aquelles ca- 
samentos, tanto por bem dos esposos, como 
pelo proveito que redundaria a toda a Ghris- 
tandade, e qoe elle tinha tao boa opinião da in- 
teireza e religião d'EIRei de Portugal, e de Ma- 
dama Margarida de França, que estava certo 
que muito lhes desagradavão aquellas dila- 
ções, e que elle não cessaria de solicitar quanto 
coubesse no possivel á conclusão d'aqueile ca- 
samento. 



— 432 — 

Que M. C... que elle havia despachado no 
mez de Março próximo passado em Hespànha 
para o tratado da Liga, tocara naquelle negocio 
aS. M. Catholica, e communicára com os prin- 
cipaes ministros d'ElRei de Portugal, e achara 
as cousas tão bem dispostas que ainda de 
fresco, a obra de oito dias, lhe havia elle Papa 
mandado commissao expressa sobre aquelle 
assumpto, e havia tansibem escrito a ElKei de 
Portugal. 

Queo projectado casamento d'aquelle Monar* 
ca com aPrinceza de França era grandemente 
desejado d'£lRei de Portugal, e de todos os 
de seu reino, á excepcSo de dous ou três parti* 
culares que trabalhavão por estorvál-o; e que 
elle Papa estava infomado, que mettiao em ca- 
beça a ElRei que para a conservação de sua 
saúde cumpria que diíferisse de tomar estado 
dous ou três annos mais :eaccrescentou oPapa^ 
que ainda quando aquillo assim fosse, cumpria 
que a Corte de França desse calor á partida de 
Madama para Portugal, desposando-a entre- 
tanto com ElRei de Portugal por procuração , 
afim de assegurar aquelle consorcio, como era 
estilo fazer-se entre tão grandes Principes. 

Que quanto ao que elle Embaixador lhe di- 
zia que , a usar-se de mais dilações, ElRei de 
Franca tomaria a resolução de collocar sua 
irmã em parte que muito descontentaria a El- 
Rei GáthoTico, elle Papa estava bem certo que 
S. M* Ghristianissima por mais descontente 



■*r* 



t s 



1^ 

i 



— 433 — 

que estivesse nao obraria com precipitaçSo no 
que dizia respeito a sua irmã (G24). Acrescen- 
tando outras particularidades doesta negociação 
cujo desenvolvimento se mostra nos seguintes 
documentos (625). 



Nesta dataaccusa o Bispo d'Ângouleme, Em*- An. tm 
baixadordeFrançaem Roma, recepção dos des-*^"»^'* 
pachos de sua Corte, de que fora portador um 
seu irmão, nos quaes se lhe encommendava 
instasse com o Papa sobre a conclusão do 
contrato de casamento da Princeza Marga- 
rida de França com EIRei D. Sebastião de 
Portugal ; e respondendo aos ditos despa- 
chos, refere como em comprímeoto d'elles pe* 
dirá audiência ao Papa^^ que lhe fora concedida 
em 14 do dito mez de Outubro, na qual não 
quizera que seu irmão o acompanhasse por en- 
tenderem ambos qoenão seria bem que o Papa, 
ou qualquer outra pessoa, suspeitasse havia 
EIRei de França mandado um expresso para 
adiantar o casamento, sendo sua irmã uma tSo ^ 
virtuosa Princeza que não podia deixar de ser 



V í.. 



(624) Um. da BibVioth. Real de Pariz, Cbd. 9,751 , P; 73 e 
segnintet, com o titolo : Amhassades à Rome de Mgr. rÈvéque 
d'Jngauléme, etc. 

P^de a nona Noticia doa Um* portngaexet da Díbliotheca 
Real de Paríi, de pag. 39 a 3L 

(G?5) f^icfe rclaçO«s com % Goria de Roma* 

Ml. 28 






— 434 T- 

procurada pelos mais poderosos monarcas da 
christandade. Que o Papa lhe certificara havia 
de empenhar-se na conclusão do dito casa- 
mento^ e que esperava em breve novas do an- 
damento das negociações que lhe devia mandar 
o Senhor de Torres. (O Embaixador accrcscenta 
o seguinte.) c(V. M.não se engana, desconfiando 
» do Embaixador de Portugal residente nesta 
» Górte^ porque ê o mesmo , da mesma ma- 
» neira de pensar dos dous Jesuitas que gover- 
'» não ElRei de Portugal, dos quaes o Papa não 
» está muito satisfeito, e conhece que e\\es tem 
» mais ambição do que zelo e religião, eS. San- 
» tidade tendo-se queixado d'elles ao dito £m- 
» baixador/ estis tomou a defesa d'elles, e lhes 
» fez os mafpres elogios, mas por fim escapou- 
» lhe que justamente aquellede quem mais se 
» queixava o Papa, e que era Confessor d'£l Rei, 
» era seu primo-co-irmao (!rí6). » 

An. 1570 Nesta data participa aElRei e Rainha de Fran- 

Deieiu- 
bro4 



(626) Bibliotheca Real de Pari z , casa dosMss., Cod. 9,951 
(^j^mbafsades). 

Para illustrar mais a parte doeste olficio do Embaixador de 
França relativa ao Confessor d^ElReí D. Sebastião , faremos 
aqui menção do que acerca do mesmo Jesuita reféHajíõ Go- 
verno Veneziano Tiepolo, seu Embaixador em mi|)On em 
157?, c transcreveremos outras particularidttdâl por fttté refe- 
ridas, alias mui inter e fls án td^, tendo nós ttfmdo estas noçOes 
de um Códice da Bibliotheca - Real de Parix. c Paliando de 
? Abrantes , onde pousara ^ dis qae era usia Tilla umito popa* 



elle Bispo s><lÉ||Kprn]ado^ã^ 
pedira audie^w ao Papai Ji»' 



.— 435 — 

ca o Bispo d'Ângouleme, seu Embaixadoí: ^m 
Roíua^ como tendo 
chegada do Torres 

qual lhe fora concedida era 24 de Novembro; que 
nessa audiência dissera ao Papa^ que sabendo 
era vindo o Torres, desejava saber de Sua San- 
tidade, se tinha alguma cousa que Ihecoramuni* 
car sobre o negocio do casamento de Madama 
Margarida com EIRei de Portugal. Que lhe 
respondera o Papa, que lhe nao podia ainda di* 
zer nada do que o dito Torres havia tratado eni 
Portugal, porque não tinha tido vagar para 
ouvil-o, nerapara ler as cartas d'£lRei de Por- 
tugal que havia mandado traduzir; razões es- 



losa , e civilisada , a nm dia de distancia da GolegS, muito boa 
villa. Chegando a Almeirim , faz grande elogio da vista a que 
chama deliciosa. Foi nesta villa que o Embaixador foi alojado, 
diz cllc, em uma boa casa muito bem preparada por ordem 
dXIKei, estando tudo provido com grande magnifícencia. 
No dia seguinte á sua chegada, tendo pedido audiência, lhe 
foi concedida para o mesmo dia , e muitos Senhores, e cava- 
lheiros vierão a cavallo para o conduzirem da casa ao palá- 
cio. A audiência foi publica, em uma grande camará, na qual 
estaviko os pessoas principaes da Corte, e o Cardeal , lio d^El- 
Rei, e D. Duarte ; accrcscenta , que todos esta vão eai pé, e do 
lado da parede. Qi^e EIRei tirara o barrette á revcreucia d'elle 
Embaixador, e isto com maior gravidade , do que lhe tinha 
feito EIRei d^Hespanha. Que EIRei lhe respondera em voz 
tâp baixa , que elle não ouvira , nem percebera nada: Diz que 
acabado o diacurso , l>eijára • flfôo ao Cardeal. EIRei é de 
idade de 18 annos, é de eelatora mediana, de pelle ^ cara 
branquisaiflia, e tem muita erànilhanra com a casa d\Viis(ria, 
de membroe proporctonadoty e delicados, uias c furte, o 



•- 




— 436 — 

9 

taS| que havjâo obrigado a elle Bispo a nao 
instar maisijjÍDin o Papa, e a reservar para o 
correio seguinte as informações que d'elle ob- 
tivesse. O que não obstante, se inquirira por 
via d'um chamado Costa de tudo quanto o dito 
Torres dizia, e viera* a saber que este assoa- 
lhava por toda a parte que o casamento de Ma- 
dama Margarida com ElRei de Portugal estava 
desfeito. Que informado d'isto, pedira ao Papa 
uma segunda audiência ; que admittido á sua 
presença, apenas lhe tocara no casamento de 
que se tratava, lhe respondera o Papa, que ti- 
nha lido a carta que ElRei de Portugal lhe ha- 
via escrito, e quenãopodia entender o que nelia 



3 robusto pelo continnado exercício qne faz a cavallo , e no 
» jogo da pélla, e de passar quasi todos os dias a caçar os por- 
» cos bravos, de que ba muitos neste logar d^ Almeirim. £ rai 
9 ElRei a estas caçadas só com 4 ou 6 cavalleiros, e 15, ou 
9 20 pedestres. Embaixador nota, que ElRei conduzia mui- 
» tas vezes 4 cayallos , e exclama sobre os perigos a que S. A. 
9 andava exposto. Biz que de lesta o luxo nos vestidos , e que 
9 ia tV>dos os dias passar algumas horas com os frades de um 
9 mosteiro que fica ao pé do palácio. Passa depois o Embaixa- 
9 dor a fallar da grande influejicia que tem Luiz Gonçalvez da 
» Gamara, c que Hartim Gonçalvez da Camará, que tem tanta 
9 autoridade em Portugal, como tinha Ruy Gomes da Sylva, 
9 em Hespanha. 9 Faz o seguinte retrato do Confessor : c É de 
9 idade de 50 annos, di kfmUa presenza, sem um olho, e mui 
> gago, instruido em thedÍEí|jÉli|| e de vida mui devota. È odiado 
9 de iodo o Reino, e da Bai/mt D, Caiharina , (acrescentando ) 
9 que tanto estes, como o Cardeal, e D. Duarte trabalha vSo 
9 para casar ElRci, afim de o livrar da iuílucncia do Ckun*' 
9 fcssur. 9 



»■'.., 



r^ 






— 437 ~ 

lhe quizcra dizer; que clle Papa estava acostu- 
mado a tratar francamente e sem dissimula- 
ção, e que como não ei*a seu intento encobrir 
cousa alguma a EIRci de França, ia pelo pri- 
meiro correio mandar ao seu Núncio copia 
das cartas que de Portugal recebera, para que 
elle as mostrasse ao mencionado monarca, para 
que elle mesmo podésse julgar do que se podia 
ainda esperar (627). 

Nesta data o Bispo d' Angouleme, Embaixador An. isto 
de França junto a Santo Sé, envia a Pariz Ha- 'iS??i' 
w/e, seu secretario, encarregado de participar 
a EIRei e á Rainha de França o que havia pas- 
sado com o Papa acerca do casamento d'E]Rei 
D. Sebastião com Madama Margarida de 
França, sendo as instrucções que levava o men- 
cionado secretario as seguintes. Dizer a EIRei 
e Rainha de França que, em comprimento da 
ordem que lhes havião dadode os informar com 
brevidade de quanto fosse passado acerca do 
casamento de Madama Margarida com EIRei de 
Portugal, elle Bispo d'Angouleme julgara ne- 
cessário de despachar um correio, tanto mais 
que lhe parecia seria conveniente fossem 
aquellcs soberanos inteirados de quanto se di- 
zia na Corte de Roma sobre aquelle negocio. 






(027) Mss. da Biblioth. Red de Parts, Cod. 9,751 {Ambas- 
smies) y p. 106. 



y 



— 438 — 

Que julgando escusado repetir quanto se ha- 
via passado ate o mez de Agosto de 1 569, de que 
elle havia dado conta por via de M. de Fargis 
seu irmão^ relataria o andamento que havião 
tido as negociações de então em diante, e 
depois da partida do Senhor de Torres, 
mandado pelo Papa a Portugal e a Hespanha 
para tratar do negocio da Liga contra os 
Turcos. 

Que acerca d'isso devia-se observar, que o 
mencionado Torres de seu rootu próprio se 
havia embarcado em negociar o casamento sem 
ter para esse fim commissao especial do Papa. 
Que em consequência d'isto ElRei de Portugal, 
vendo que a carta de crença, de que fora mu- 
nido o dito Torres, nao fazia menção alguma 
de tal negocio, se persuadira que elle excedia 
sua commissao, e mandara dizer ao Papa por 
via de seu Embaixador, que assentara nSo en- 
trar em negociação com o dito Torres sem 
primeiro saber se S. Santidade o tinha encarre- 
gado de agenciar a conclusão d'ilm negocio de 
tanta ponderação. 

Assim que, também o Papa se embarcara 
de leve em aquelle negocio, contando ocovi o 
bom êxito d'elle, fiado nas bellas palavras e 
promessas do flito Torres, e nas cartas que El- 
Rei de Portugal lhe havia escrito por via de 
seu Embaixador, e por um Jesuita que lhe en- 
viara, acabara por dar commissao expressa 
ao dito Torres de tratar do projectado casa- 



— 439 — 

mento, que clle havia começado a negociar 
sem ter para isso com missão. 

Que em consequência d'isto tivera o dito 
Torres , que estava na Corte dTIcspanha, de 
tornar outra vez a Portugal , onde tratara d'a- 
quçUc negocio do modo que podia julgar-se 
pelus eífeitos, esperando de dia em dia cartas 
do próprio punho do Papa, que o autorisassem 
mais claraaõíente para proseguir na negociação, 
a qual cora eífeito lhe fora expedida estando já 
o dito de volta, na qual se precipitara tanto 
quanto na ida. 

Queelle Bispo d'Angouleme tinha por certo 
que, antes de partir havia escrito ao Papa nao 
via apparencia de poder conduzir aquelle ne- 
gocio a bom íim, segundo o desejo e intenção 
de S. Santidade, reservando-se todavia a infor- 
mál-o meudamente de tudo, quando fosse de 
volta a Roma, onde com effeito havia chegado 
em 22 do mez que era passado. 

Què informado da vinda do Torres fallára 
ao Papa em 24 do mez passado, e o que com 
elle passara havia participado á Rainha de 
França em 3 do mez em que estava , pelo cor- 
reio de Lião que havia partido no dia seguin- 
te; e por evitar repetições entr^ava ao secre- 
tario uma copia para d'ella fazer o uso que lhe 
fosse ordenado, se porventura se tivesáem per- 
dido e levado sumiço aquelles seus despachos. 

Que havendo recebido em 6 do mesmo mei 
novas ordens d'Elftei e Rainha de Fnoica nio 



1 



— 440 — 

poderá pôl-as cm execução por scr já chegado 
o Torres ; que todavia procurara occasiao de 
fallar ao Papa, e no dia seguinte lhe cxposera 
por raeudo tudo quanto sobre aquellc negocio 
occorria, e lhe dissera : 

Em primeiro lugar sentia muito que as or- 
dens d'£lRei seu amo lhe nao tivessem chegpji^ 
antes da partida do ordinário de Lião, pèlo 
qual, supposto elle soubesse quaéB 4bssem as 
instrucções que o Papa mandava mo Núncio, 
elle lhe pediria de ajuntar mais algumas cou- 
sas, por quanto a Rainha lhe encommendava 
de informál-a particularmente de tudo quanto 
fosse relativo ao casamento de Madama Mar- 
garida com ElRei de Portugal, e que elle via 
com grande pezar, que de todos os Príncipes 
que d'isso tratavao era o Papa o único que se 
havia com sinceridade e inteireza. 

Que elle Bispo via bem pelas cartas da Rai- 
nha que ella estava descontente de ver que in- 
tentavao entretêl-a com palavras e boas de- 
monstrações acerca do projectado casamento, 
portanto que rogava a Sua Santidade houvesse 
de communicar-lhe quanto sobre aquelle as- 
sumpto sabia, na certeza que ElRei e Rainha de 
França se conformarião com os seus dictames. 

Que então o Papa começara a fallar-lhe com 
mais liberdade do que até então fizera, dizendo* 
lhe que por seu ultimo despacho havia man- 
dado ao seu Núncio as copias dos artigos das 
cartas que lhe havião escrito ElRei de Portu- 



— 441 — 

gal CO Cardeal, cncommendando-lhe houvesse 
de mostrál-as, afím que EIRei e Rainha de 
França podessem pelos ditos artigos conhecer 
as intenções dos que as haviao escrito. 

Que podia ser se enganasse, mas que lendo 
aquellas cartas parecia- lhe que nao só EIRei de 
Portugal e o Cardeal obravão com franqueza, 
mas até se persuadia estavão contentes de en- 
tender no negocio do casamento. Mas que, 
quando assim não fosse, no lugar em que es- 
tava cumpria-lhe não exasperar as cousas, 
sendo obrigado a manter a paz e a boa har- 
monia entre os Principes christaos. 

Ao que elle Bispo replicara , que tal era 
também a intenção da Rainha e d'£lRei de 
França ,os quaes todavia não podião entender 
o como, nem em que pé o Torres havia tratado 
d'aquelle negocio, e que elle Bispo não sabia 
ainda resolver-se, se o devia considerar como 
um vassallo deS. Magestade Catholica, se como 
um ministro de S. Santidade. 

Que o Papa confessara de plano que o dito 
Torres sem ter commissão alguma d'elle Papa 
havia communicado tudo a EIRei dllespanha, 
e que em lugar de tratar aquelle negócio se- 
cretamente^ elle o apregoara em toda a Corte ; 
desculpando*o todavia , e attribuindo tudo a 
um excesso de zelo na persuasão em que es- 
tava que EIRei d'Hespanha se camparia de 
levar a bom fim aquelle negocio. 

Qm nada obstante, elle Bispo não poderá 






4. 









— 442 — 

torsc que nao replicasse, que o procedimento 
do dito Torres sé não provinha de rríà inten- 
ção, era pelo menos um grande argumento de 
sua vaidade e grandíssima imprudência, pois 
que havia tratado d'um negocie de que nao 
fora encarregado } e que era estranho tivesse 
elle dito a M. de Fourquevaulx, Embaixador 
d'ElRei de Franca, que ao partir de Portugal 
lhe havia o Cardeal dito devia partir contente 
por levar boas novas ao Papa, accrescentando 
o dito Torres que esperava em breve tornar a 
PortQgiU para o mesmo negocio, e passar por 
França para saber a resolução d'£lRei de 
Franca. 

Que sobre aquelles dous pontos lhe respon- 
dera o Papa que pelo que dizia respeito ao se-* 
gundo, contava o Torres sem sua hospeda, e 
que elle Papa estava resoíuto a se não ingerir 
maisnaquelle negocio cm quanto S. M. Ghris-» 
tianissima não tivesse recebido resposta de 
Portugal, e que a^sim o mandaria dizer a El- 
Rci de França por seu Núncio. Que pelo que 
diz relação á linguagem que tivera o Cardeal 
D. Henrique ao Torres no momento da partida* 
d'este, que elle lhe tinha tudo contado, e que se 
reduzia ao mesmo que nas cartas que lhe es- 
crevera se continha, nas quaes faltando d'EI- 
Rei, seu sobrinho, se expressava em termos 
curtos e geraes, limitando-se a dizer, faria 
quanto fosse do agrado d'elle Papá. . ? . 

Que vindo as respostas dq Papa riinfiiiq|| n 



- í 



%,t 



no conceito que do Torres elle Bispo havia 
formado, pedíra-lhe ellc lhe dissesse se nos ar- 
tigos que enviara ao Núncio para communicar 
a ElRei de França entrava também a resposta 
por escrito que em Portugal havião dado ao 
Torres; quò-ò Papa lhe respondera que sim, e 
ali se flcára ; o que vendo elle Bispo proseguíra 
dizendo, que nao intentava saber mais do que 
fosse do agrado do Papa, mas que se via obri- 
gado a repetir-lhe quanto se dizia ali em Ro- 
ma ; que era voz que na resposta feita ao Tor- 
res se dizia que ElRei de Portugal tinha rece- 
bido tantas oífensas e damnos dos Francezes. 
que lhe nao ef a possivel de modo algum alliar- 
se com a casa de França, se antes d'isso nao o 
inteirassem de quanto havia perdido; que 
aquelle monarca tinha os Francezes por infíeis, 
e faltos de religião ; que se não podia capacitar 
houvessem dado ao Torres por escrito convi- 
cios taes, ainda quando tal tenção tivessem'. 

Que o Papalhe respondera que o havião in- 
formado mal, que a resposta que o Torres 
trouxera nada d'isso continha, constando de 
mui poucas palavras, que outra cousa não 
querião dizer, senão que absolutamente não 
querião responder. 

Que em summa de tudo quanto o Papa lhe 
dissera era manifesto, que pouca ou nenhuma 
esperança elle conservava de ver eífeituar-se 
o casamento , como era seu desejo ; que a Rai- 
nha, avó d'£IRei d« Portugal, e a maior parte 



# 



444- 



dos particiilíires o desejavao, e qae portanto ae 
nao devia por lentão deixar de negociar do 
modo que EIRei e a Rainha de França enten- 
dessem. 

Que então dissera elle ao Papa, passava a dar 
conta a EIRei de França de quanto era pas-> 
sado;o que o Papa approvára encommen- 
dando-Ihe sobretudo de n3p azedar os ânimos; 
o que elle promettêra, nao oKstante que o n3o 
devesse fazer, tendo-se em Portugal e em Hes- 
panha faltado tantas vezes de palavra a EIRei 
seu amo, sem fallar nas calumnias que espa- 
lha vao : que EIRei de França professava muito 
mais amor e respeito á Santa Sé que o de Portu- 
gal e os que se fazião gentes de bem. 

Que o Papa desde então trativa menos com 
elle d'aquellas matérias, do que d'antes o fazia, 
por estar descontente d'ElRei de Portugal e de 
seus ministros, tendo até então feito grande 
fundamento em suas promessas. Que fôra 
grande desgraça o ter-se ingerido naquelle ne- 
gocio o Torres , cujo alvo principal fora o de 
ganhar a graça d'EIRei catholico á custa d'ou- 
trem, pensando poderia conservar a do Papa, 
tanto mais que os ministros d'ElRei d^Hespa- 
nha e de Portugal, que ali erao, estavao de in- 
telligencia com o Torres para encobrir tudo ao 
Papa, e dilatar o -negocio; posto que qualquer 
d elles em particular lançasse a culpa ao vizi- 
nho; sobre tudo o Embaixador de Portugal, o 
qual dizia que EIRei, seu amo, se e«<*ande'izára 



*. 
í 

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•* 




\ 



— 445 — 

])orEIReicathoIico ter querido trata. d'ac,jel?e 
casamento com um poder absoluto. 

QucoPap.-! lhe havia também aíTirmado que 
não ouvira nunca dizer que ElRei de Portugal 
houvesse peiudo aEIReí calhoiico as Molucas, 
para conseUi..r fosse aquellecasaraenlo tratado 
jior suas mãos, nem <|uc Torres Iiouvesse 
feito três jornadas a Lisboa em lugar de 
duas (028). 

Nesta data ElRei de Casfella approva a con- ah. nu 
duta do seu Embaixador em Lisboa sobre a 
matéria do casamento d'EI[tei D. Sebastião, 
julgando que o que mais convinha era o da 
Princeza Margarida de França (629). 

Nesta data ElRei de Castella escreve ao seu ah. uh 
Embaixador na Curte de Lisboa, ordenando- **' " 
lhe que torne a porem pratica perante o Car- 
deal, c o Confessor d'EÍRei, as suas instruccõcs 
relativas ao casamento d' este soberano com a 
■Mncejta Margarida de França (630). 



Parle para Frauca por Embaixador d'ElRei ia. 



(628} Um. da Itibliolb. Boal do Paríf , Cod. í^ífS í Jmbai- 

tndrt). p. 108. 

((i!9) F-Jt T. 3 d*Mle Quadro E lemonUr, Sccç.ío XV, p. I M , 
o docam, de I() do Uiia do iiiesmo «uiua, citado • p. 112 
lio mesmo Tomo. 

(030) nãej. 3 d'«lctíuadroElemoulâr. Secção XV. p. 113. 



I: 



— 446 — 

D. Sebastião João Gomes da Silva, Alcfiiid^ mór 
e Comniendador da vil)a de Cea^ sendo as ins- 
trucçòcs que levava congratular a ElReí e 
Rainha de França por oecasião de seus desposo- 
rios, e felicitar igualmente a Rainha mãi, a 
Princeza Margarida de Valois, e ao Duque de 
Anjou, irmão d'ElRei (631 ). 

An. 1571 Investem nesta data osFrancezes, comman- 
broTí dados por João Capdeville natural da pro vincia 
da Gasconha, que succedcra no comniandò a la- 
ques de Soria, ná altura das Canárias a náo em 
que ia para o Brazil o Governador D. Luis 
Fernandes de Vasconcellos^ a qual depois de 
porfiado combate é rendida c mortos os Por-« 
tuguezes que nella ião, entre os quaes se acha- 
vão doze missionários Jesuitas (632). 

An. 1571 Nesta data Carlos IX Rei de França escre- 
outubro ^g|^ Jq g^ ]y(^ jg Ferralz, seu Embaixador era 

Roma^ e encommendando-lhe houvesse de ík- 
zer todas as diligencias para alcançar do Papa 
as dispensas necessárias para a celebração do 
casamento da Princeza Margarida sua irmã 
com EIRei de Navarra, que depois reinou com 
o nome de Henrique IV, nas instrucções que 



. (G3I] Barboza, Mcm. d'£lUei D. S«ÍM8tíão, P. 3, 1ÍT. 2, 
oap. 5 , p. 333. 

(G32) Barboza, Mem. d'ElRci D. SebMtiâo» P. 3, Uv. 2, 
cap. 5y p. 334. 



^ 44T — 

lhe dá recommenda-lhe se nSo esqueça de re^i- 
presentar aoPapa o quanto convinha activar-se 
a conclusão d'aquelle casamento , visto o modo 
por quç se houvera ElRei de Portugal no con- 
cernente ao seu casamento com a dita Princeza 
sua irmã; e também que este era o meio de 
lhe dar S. Santidade uma prova de que nessa 
negociação se havia portado com a mesma leal- 
dade que EIRci de França (633). 

Nesta data, escandalizado ElRei D. SeBas- ^n- *"* 
tião dos bárbaros e sacrilegos insultos, que ^. 
contra seus vassallos havião praticado os pi- 
ratas fííMícezes, escreve a João Gomes da Silva, 
seu Embaixador em Pariz » ordenando-lhe 
haja de representar da sua parte a ElRei chris- 
4ianis6Ímo os damuos commettidos por alguns 
^j4^ aew vassallos contra os da Coroa de Portu- 
gal, sendo os principaes Jaqucs de Soria, e 
João de Capdeville, ambos Calvinistas; c lhe 
rogassede dar quanto antes aqucllas providen- 
cias ^ que julgasse mais adequadas, para ata- 
lhar semelhantes actos de pirataria, conforme 
a obrigação em que estava pela alliânça e paz, 
que com elle D. Sebastião e com seus reinos ti- 
nha; e por quanto ellc ^^idava uma armada 
em busca dos sobrediWr* corsários, encom- 
menda igualmente ao dito seu Embaixador, 



*. 



i^mm 



(633) M88. da BiUiolil. Real de Pariz (fonds de Brieimc), 
Cod. 70,fol. 197f^. ,' 



— 448 — 

haja de diza? a EIRei de França da sua parte 
que queira mandar ao8 governadores e justi* 
ças dos portos de seu reino, que indo a dita 
armada ter a elles^ lhe'dem toda a ajud%^e Ar- 
vor ; que o mesmo diga á Rainha Mai^ e ao Du- 
que d'Anjou (634). 

• 
in. 1571 Nesta data escreve o Cardeal D. Henrique a 
EIRei de Castella^ sobre EIRei D. Sebastião se ir 
dis|)ondo para o casamento com a Princeza 
\ .; de França (635). 



9* 



An. 1571 De Thou no tom. IV liv. 50 da Historia cie 
seu tempo apag 473^ vindo a fallar da vinda do 
Cardeal Legado a Portugal^ e do objecto de sua 
embaixada , aífirma que pelo que diz respeito 
á proposição feita a EIRei de entrar na Liga 
contra os Turcos, que o nosso monarca lhe 
respondera estava para isso prompto, mas que 
nao sabia ainda por que lado atacaria ao Turco; 
que lhe parecia mais commodo e avantajoso 
levar a guerra ás vizinhanças do mar Vermelho^ 
porque dçterminando-se o Grão Tiirco a de- 
fender seus estados por aquella parte^ ver-se 
hia obrigado a dividir as suas tropas^ e qpie 



(634) Barboza, Mem. d'ElRer D. Sebaati3o, P. 3, Ur. 11, 
cap. 5, p. 337. 

(635) Fr. Bernardo de Brito, Mem. Hw. de D. Sebastião, 

foi. 56. 

T/ífe T. 2 d'eslc Quadro, p. 1 15. 



ytr conseguinte não poderia oppor tantas aos 
confederados^ os quaes com facilidade acaba- 
riãopop derrotál-o.Esepelo contrario o Grão 
Turco deixasse sem tropas os lugares vizinhos 
domar Vermelho, os Portuguezes os conquista- 
rião cora grande proveito seu, e de toda a chris- 
tandade. Que o Legado ao depois lhe fallára no 
casamento com Margarida de Yalois, irmã 
d'ElRei de França, aflirmando-lhe que ne- 
nhuma outra cousa podia ElRei de Portugal fa- 
zer, que mais agradável fosse ao Papa, nem mais 
útil á religião christã e a seus próprios esta- 
dos que o desposar-se com aquella Princeza. 
Que elle Legado sabia quanto o^ Portçguezes 
desejavão vèl-o casado, e que um âo8 rnoti- 
vos por que o Papa se empenhaya na conclu- 
são d'aquella alliança era o de impedir se ca- 
sasse a Princeza com o Principe de Navarra, 
fautor declarado doa SugODoles, a quem estava 
destinada. Que o Papa já bavia mandado fallar 
a ElRei de França naquelle negocio por Antó- 
nio Marino Sal viati, seu Núncio, sem ter até en- 
tão conseguido o seu intento, mas que estava 
certo que tudo se arranjaria, se ElRei D. Se- 
bastião se resolvesse a tratar d'aquella alliança 
seriamente. 

Nesta data despachou ElRei D. Sebastião ao An. istc 
Cardeal Alexandrino, Legado do Papa Pio V, a ^^3 
quem escreveo uma longa carta expressando- 
lhe a grande ^al^ia com que se dispunha a 

Jii. 20 



entrar na Liga, que contra os Turcod intèii^ 
tava o summo Pontífice fazer. Foi o Cardeal 
Legado conduzido até á raia por D. GonstaiH 
tino de Bragança^ e depois de demorar^se al- 
gum tempo em Madrid, passou a Pariz, onde 
tratou dos despòsorios d'ElRei D. SebastíSo 
com a Princeza Margarida, o que se não eSéir 
tuou por estar e^ta já destinada para consorte 
do Príncipe de Bearn, que depois reinou com 
o nome de Henrique IV (636). 

An. 1572 Nesta data ElRei de Castèlla participa ao seu 

"S?" Embaixador em Lisboa, que o Cardeal In/ante 

lhe escreva e á Princeza sobre se ir melhor 

dispondif^J^Eei D. Sebastião para o ca8aq|eiinf 

de FtHOçi (^7). 

Carta do Duque de Bra&;anca D. JoSo • a El- 

An 1572 ^ •» 7 **■ 

Janeiro Rei D. ScbastiSo em resposta á que ElRei lhe 
escrevera, dando-llM parte da vinda do Car^ 
deal Legado, e da rewíttçlo de seu casamento. 



(636) Barboza, Mem. d'ElRei D. SebastíSo, P. S, JjV. 2^ 
oap. 6 , p. 35^. . 

Varillas, nu giftfação da Historia de Carlos IX, diz , que 
H Corte de França, e sobretudo Catharina de Medíeis, que 
então estava á testa do Governo, se mostrara por extremo 
aggravada, por ter o Cardeal Legado visitado as Cortes derHiidríd 
e de Lisboa antçs da de Pariz , e que sem embargo de se ter 
disculpado com a ordem expressa, que trazia do Papa era 
natural experimentasse o quê ao Cardeal Bessarion accontccera 
reinando Luía XI, quando fAra visitar primeiro ao Duque dr 
Borgonha , se Carlos IX podesse dispensar-se de ter cerU coa- 
templação com o Papa então reinante, 
(637) ride T. 2 doeste Quadro, Secçio XV, p. ÍÍ5, - 



Agradeoe o Duque a ElRei a partwi^^o 
que lhe fazia da determina^ que toia^ de 
ooncluir o 8eu casamento^ e pondera que tra- 
tand(>-8e d'elle por ordem do sumiuo Pontífice, 
e ganhando muito a França naquella negocia- 
ção, era mister que se tratasse de n^aneira que 
a autoridade d'£IRei ficasse em seu lugar; por- 
tanto que não faria sobre aquella matéria mais 
lembrança alguma, porque como ElRei estava 
< resoluto no ponto principal d'ella que era o 
4^baiamento , o mais havia de depender da res- 
posta que de França viesse, a qual devia de 
ser tal, que sobre ella haveria pouco que 
replicar (638). 

Nesta data enviou Eliiei O, SebastíSo a Jo8o 
Gomes da Silva, seu Embaixador na Corte de Jaôe^ro^ 
França, as instrucções que aqui substanciamos 
áoerca das proposições que lhe propooera o 
Cardeal Alexandrino, Licgado e sobrinho do 
Papa Pio Y, fazendo saber ao dito seu Em- 
baixador que dous erao os negócios a que fora 
mandado o Cardeal Legado, o de convidál-o a 
entrar na Liga contra o Turco, e o de deter- 
iniuál-o a casar em França. 

Que quanto ao negocio da Liga lhe respon^ 
dera á sua satisfação, e que pelo que dizia res- 
peito ao casamento, havendo considerado no 
Opmo até ali havia procedido conforme convi-* 



nha á wta reputação, á honra de sua Cloróa^e 
bem de seus Ri|ttp^ e tendo respeito a ter-lhe 
o Papa mandadoVillar naquelle particular por 
uma pessoa de tanta autoridade, e ser isso fao 
conducente á conservação do Reino de França, 
e ás muitas virtudes da irmã d'ElRei Christia- 
nissimo, havia assentado declarar-se mais no 
concernente ao seu casamento, e dar commis- 
são sua ao sobredito Legado, para da parte de 
S. Santidade tratar daquelle negocio em Fran- 
ça, entendendo-se com elle João Gomes da 
Silva, por se acharem as cousas naquella Corte 
dispostas para se poder tratar disso sem min- 
gua de sua autoridade, visto ter cessado a pra- 
tica, que se dizia^ corria sobre o casamento de 
Navarra, eentender-se que o seu era maito 
mais para se estimar. 

Que indo o Cardeal Legado, segundo a or- 
dem, que do Papa tinha, munido da commissão 
delle Rei D.Sebastião, determinado a desempe- 
nhar o que tinha a cargo, e devendo para isso 
ajudar-se da cooperação delle Embaixador, ad- 
verte-lhe haja de vigiar sobre o processo e an- 
damento daquella negociação em razão de sua 
importância, e com tanto mais desvelo, quanto 
mais se ia approximandò do termo de sua con-« 
clusão. 

Que em recebendo as instrucçôes^ em sendo 
chegado o Cardeal, o deveria logo ir visitar, e 
dizer-lbe como tinha aviso delle Rei de Portu- 
gal da comjuissao que levava^ afim de com 



— 453 — 

elle cntcndçr-se no modo de ajustar o projec- 
tado casamento. 

Que também deveria communicar aquelle 
negocio cora o Padre Francisco, Geral da Com- 
panhia de Jesus, o qual poderia ser o vehiculo 
das communicações que elle Embaixador ne- 
cessitasse de fazer ao Cardeal, para desorien- 
tar as conjecturas, a que dao lugar as cartas^ 
. inferindo-se de umas cousas outras. 

Que emfim nas condições do contrato de seu 
casamento não deveria perder de vista a segu- 
rança das demarcações de sUas conquistas, a 
annulIaçSo das cartas de marca, e castigo dos 
insultos passados (639). 

Escreve ElRei D. Sebastião nesta data ao Ca- 
bido da Cathedral d'Evora , pedindo o empre»- Marto is 
timo de cinco mil cruzados para ajuda da 
grande armada que aprestava, afim de resistir 
aos Lutheranos e Calvinistas de França que 
estavão apostados a commetterem os maiores 
insultos nas costas de Portugal , e tinhSo em 
<^pressSo a ElRei de França (640). 

« 

^^f^ ElRei de Castella participa a seu Embaixa- /J^Jf^J 
)V na Corte de Lisboa para que haja de o com-r 
municar a ElRei D. Sebastião da armada que 
preparavao os Francezcs (641 ). 




(639) Barbosa, Mém. d^ElRei D. Sèbaflttto, P. 3, \\r. ?, 
cap. 1 1 , p. 400. 

(640) /&c<i.,. oap. 13, p. 416. 

(6<l) rUe T. 2 d'ettc Quadro, Secçto XV, p. 115. 



\ 



— 464* 

An. tm Nesta data ò nàeanio Rei escreve ao seu Em^ 
baixador em Lisboa sobre a armada de Fran- 
ça, e sobre o casamento d'£IRei D. Sebastião 

(642). 

An. IST2 Nesta data escreve ElRei de Castella ^bre o 

S6t6IIl-~ 

i»ro 1 quanto aproveitara a sua carta á Rainha de 

tmça^ para impedir o casamento da Princesa 
rgarida com o Príncipe de Bearn (643). 



An. 1572 Nesta data o Embaixador de Castella iunto 

Setem- , . •* 

A»ro4 à Corte de Lisboa, participa a EIReí Catholico 

Iue ÊIRei D. Sebastião preparava unia armada 
e 30 velas para resistir á da Franqa (644). 



I 



An. 1S73 O Embaixador dé Castella ein Portugal pur- 
* bkMffi ticipa a ElRei seu amo a chegada á ilha do 
Corvo das 60 náos das ilhas, em que vinhão 
3 nossas comboyando-as; que a armada por- 
tugueza que sairá de Lisboa , era sufiQciente e 
boa para .as segurar, e que houvera acção de 
graças pela morte do Almirante de França , e 
dos mais herejes (645)> por cujo motivo JEiRei 
^' determinava mandar uma embaixada ao de 
França (646). 

* Vide Secção XV, T. 2, p. 117. 

^' (642) Fide T. 2 d'e8te Quadro. Secção XV, p. 116. 

(643) Fide T. Ht dMe Quadro, Secç&o.XV, p. 116. 

(644) ride f . 1^ d^ Quadro, SecçAo XV, p. 117. 

(645) Era o Almirante Coligny. 

(646) Fr. Bemard. de BriU, Mem. ÍSm. de D. BelMtiio, 

fol.'54. 



• • 



— 465 — 
Nesta data mandou ElRei D. Sebastião á j^. tm 

. Nof.39 

França I por seu Embaixador extraordinário 
D. Âffonso deLancastre, Gommendador mór 
da ordem de Christo, sendo o objecto d'aquella 
embaixada significar a Carlos IX a alegria, que 
recebera com a noticia de ter destroçado o par- 
tido dos Lutheranos , e as instrucções que lhe 
deo forao as seguintes : 

Que iria pelft posta ; que quanto ao numero 
decavallos com que havia de correr, e vestidos 
que elle e os seusdeviâo levar, s^uiria a limi-* 
taçao que da parte d'elle Rei lhe fora dada^ 
Ihzendo caminho á ida pela Corte deCastella^ 
para visitar a Princeza D. Joanna d'Austria 
sua mãi , e a ElRei de Castella seu tio, a quem 
daria conta do objecto por^ que era mandado á 
Franca. 

Que visitaria também da sua parte a Rainha, 
sua tia , cum as mesmas palavras que aos pre- 
cedentes, accrescenm.. j^ os emboras do nasci- 
mento de sua sobrinha, feito o 4.-^ , ^^ ^^j,j^ 
pressa em partir para França, onde devena 
fazer por chegar com toda a brevidade. 

Que em chegando á Corte de Pariz, pousaria 
nas casas da residência do Embaixador ordi- 
nário João Gomes da SHva, com ciya infor*- 
mação , e parecer devia de proceder *m tudo 
quanto nas instrucções lhe era prescrito^ e por 
cuja via faria saber a sua chlgadá a ElRei de 
França^ e á Rainha, sua miif c quando tivesse 
licen^ para ir ao Pâqo o fiftria «nompanhado 



• * 



* 



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456. 



do referido João. Gomes da Silva, o qual devia 
de estar presente a todos os oíBcios que elle 
D. Âffonso fizesse , que enfreando a EIRei de 
França a carta que para elle levava, lhe diria ia 
de seu mandado visitál-o pela grande victoria, 
que alcançara contra os inimigos da Santa Fé^ 
pela qual já lhe havia mandado d^)ros|itrabens 
por João Gomes da Silva. 

Que depois de ter felicitadolMbijgratulado o 
dito Rei de França , lhe diria trazia para elle 
outro recado 9 que lhe daria em outro dia, 
quando para isso tivesse licença , seado o dito 
recado o exhortar da sua parte a EIRei de 
França a proseguir na total extirpação do Lu- 
theranismo, e mais seitas tanto ^ em França, 
como em Inglaterra, no que EIRei D. Sebastião 
se compromettia a ajudál-o. 

Que também visitaria as Rainhas Christia- 
nissimas, ao Duque d'An|ou^ ^ cl'Alençon, 
Madama Margap^^--'-^^^ ^^^^ seu marido, 

imeiro se o dito Príncipe estava Já 
em estado de ser visitado sem inconveniente, 
e no caso de já o haver feito o Embaixador de 
Gastei la, o Marquez de Ayamonte. 

Que trataria de encontrar-se no Paço com o 
Duque de Guise, e com o de Aumale seu tio, e da 
paríe <relle Rei de Portugal lhes diria, quão 
boa vontade sempre lhes tivera por sua chris- 
tandade, esforço^ e lealdade. 

Que havendo feitas as visitações acima ditas, 
e havendo as respostas d^ellas, se recolheria ao 



^. 



t 



— 457 — 

rei DO sem mais dilaçSo e em direitura (647). 

Assento tomado cm conselho sobre o trata- in. im ^ . 
mento que se havia de dar á Duqueza de Lor* 
rena, que havia mandado visitar ElRei D. Se- 
bastião pelofallecimentodaPrincezaD. Joanna 
por seu Afordomo-Mór. 

No qual se declarou , que sendo a dita Prin- 
ceza prima coirmã da falleçida , filha d'£lRei 
de Dinamarca ed'uma irmã inteira da Rainha, 
avó d'£IReiy se lhe devia dar o tratamento de 
Madama e Poderosissima Senhora» echamar- 
IheElRci tia, e no final pór-lhe muito humilde 
e muito obediente servidor (648). 

Assento tomado enl conselho sobre o recebi- An. is74 
mento e gasalhado que se devia fazer ao En- ^^ '' 
viado d'£lRei de França, vindo a visitar ElRei 
de Portugal por occasiao do fallecimento da 
Princeza D. Joanna, em ò qual se dccidio que « 
ElRei o mandaria agasalhar por D. Diogo Lopes 
de Lima , veador de sua casa, e que o levaria 
d'ella ao Paço, e o aposentaria nas casas do 
Duque d' Aveiro que se achavao despejadas^ 
fluíendo-se a despeza por conta d'ElRei (649). 



(647) Barboia, Vem. (TElRei D. SebMti&o, P. 3, Iít. 2, 
cap. 18, p. 466 eseg. 

(648) Mm. da Biblioth. Real de Pariz, Cod. 940, foi. 81 v«. 
r (649) Hás. <to Bibliodi.JlMld« Paris, Cod. 940, Sapplem., 






— 459 — * 

cAsllnento a EIRei de França^ como se trilara 
sido despachado para esse íim^ agora lhe mantia 
qtic o faça por sua .||KcessSo no Reino^ e pelo 
ftdleciraento de seu 'irmão EIRei Carlos (que 
eta a instrucçSo que levava e ao que era en- 
viado), e logo deflbis pelo seu casamento, di- 
zetido que EIRei assim lho encommendára 
com muita efficacia (651). 

Carta d'ElRei D. Sebastião a D. Nuno Ma- An. nn 
noel, seu Embaixador em França. u 

Recommenda-lhc faça presente a EIQei o 
quanto sente o trabalho em que se vé com a ida 
do Duque d'Alençon , e quanto pezar tem de o 
ií5o poder ajudar logo, e porque o dito Rei de 
$*rança, è sua mãi fallárao em emprestar-lhe 
pimenta , ordena-lhe haja de responder-lhes 
fbrmal mente que a pimenta é de partes, e per- 
tence a mais d'ella a seus vassallos; e qué á 
fazenda real somente pertence os direitos , os 
quaes se vao em despezas, e que nao bastando 
esto, erao seus vassallos roubados pelos Fran- 
cezcs, que naquelle anno haviao feito entre 
bu trás presas a do cofre d'ouro, que vinha da 
mina, que por ser perda de sua própria fa- 
irttán nSo fallava nella primeiro (652). 

(651) Íf80. (U Biblioth. Real de Paríz, Cod. 940, fot. 128. 

(652) Mm. da BibUoth. Real de Paris , Cod. 940, foi. 128 t% 
6M. 129. 



♦ _ 460 -^ 

An. 1575 Nesta data escreve ElRei D. SebastiaOtèf^/D* 
bro Nuno Manoel , seu Embaixador em Pariz , di- 
zendo-lhe que inteirado 4o estado das cousas 
em França, e do progresso que nella ião fazendo 
as armas dos Luthèranos, que senhores da 
Rochella ameacavão o reino > e infestavao os 
mares, se resolvera a dar a ElRei de França 
uma prova da amizade que lhe tinha, e do 
quanto se prezava de ser seu irmão ; assim que, 
lhe encommendava houvesse de participál-o 
nos mesmos termos a ElRei de Franca, e á 
Rainha sua mãi , accrescentando da parte d'elle 
D. Sebastião que lhe mandava offerecer a ar- 
mada que tinha prestes: para combater a Ro- 
chella ,.e tomál-a em o verão seguinte ; porque 
posto que aquella empresa não i^iportára 
tanto a seus reinos, deveria todavia acabar 
com ella por honra de a ter começado em 
tempo de seu irmão, sendo sua obrigação então 
differente do que a que naquella occàsião 
tinha : lembrança que lhe mandava fazer pelo 
grande desejo que tinha da quietação, e paz de 
seus reinos; e que para começar a pôr por 
obra o que lhe offerecia, desde logo mandava 
defender a entrada no reino de Portugal e seus 
domihios de qualquer navio da Rochella, e 
prohibir todo o commercio,e communicaçao 
com aquelle porto e cidade, porque assim en- 
tendia, que contribuia em castigo dos que con- 
tra elle Rei de França se havião alevantado, e 
por cumprir com o oíTicio de Rei , e com o que 



f 



— 461 — 

devia aos seus próprios vassallos. Ordena final- 
mente ao Embaixador haja de dar-lhe parte 
do que passou com EIRei e Rainha de França, 
e que caso EIRei de França rejeitasse o offere- ^ 
cimento da armada , cousa que elle D. Sebastião . 
não esperava , por ser um offerecimento tão 
favorável aos seus interesses e honra, tra- 
tasse de saber d^elle e da Rainha^ sua mãi, se 
lhes pareceria bem, que elle D. Sebastião 
mandasse em o verão seguinte a dita armada * 
castigar os da Rochella (653). 

Nesta data o Conde de Portalegre, Embaixa- ^„ ,5^^ 
dor de Portugal na Corte de Madrid, participa ^^^^ 
a EIRei D. Sebastião a grande difíiculdade, que 
tivera com a Rainha de Gastei la para que hou- 
vesse de se contentar com a resposta d'EIReí 
acerca do casamento proposto, e que a mesma 
Rainha lhe fallára na Rainha de Franca Izabel 
d'Austria, filha de Maximiliano II, que se achava 
viuva, cujo casamento com EIRei lhe nao pa- 
recia mal , por ser ella de idade a ter filhos , e 
assegurar a successão (654). 



(653) ArchÍTO Real da Torre do Tombo, Corp. Chron.^ P. 1, 
maç. Ill, doe. 10. 

(654) nde SeccSo XV doeste Qnadro, T. 2, p. A22 e seg. 
Efta Princeza paisaTa por um modelo de TÍrtade. De ThoQ 

diz d^ella : Prúci morU yti juvcnili ataiefxmina. 



462 — 



AfilKÁDO DO CARDBAL RBI, 



jíikiao Nesta data escrevendo ElRei Heoricjii^ IQ 
4ç Fi^^nça a M* Dabain, seu Embaixador junto 
^'% Santa Sé, diz-lhe, que as conjecturas, que elle 
Bnibaixador havia feito no despacho antece- 
dente, erão mui bem fundadas; que elle Rei de 
França sabia com certeza que EIRei Catholico 
havia ha pouco tempo mandado uma pessoa 
^ ao Xarife para congraçar-se com elle, e que lhe 
mandara um presente que se avaliava em 
cincoenta mil escudos; que portanto se Dão 
podia capacitar que intetitasse cousa alguma 
contra o dito Xarife, antes era para suppor-9|ey 
que aquellas forças as destinava EIRei Catho- 
lico para romper abertamente com os Portu- 
guezei, que não querião sujeitar-se á sua obe- 
diência, por mais offerecimentos e promessas 
que houvesse feito; e conclue o monarca ft^an- 
ces encommendando a seu ministro houvesse 
de conferir sobre aquelle assumpto com o Car- 
deal d'Est, tanto para esclarecer-se, cçiiio para 
avisarem o que naquellas occurrencias- x;um- 
pria fazer, afim de que aquella tempestade se 
não desatasse sobre Portugal. Que O soberano 
remédio, que para isso via, era conceder oPapa 
a dispensa que o Cardeal Rei pedia para poder 
casar-se, com tanta justiça e com a approvaçao 
de todoi os seus vasallos (655). 

(655) aiss. da Biblioth, Real de Pariz (fonds de Ckilbert), 
Ck)d, 345, p. 427, 



Escreve nesta data Henrique III, Rei de An. 1579 
França a M.Dabain seu Embaixador em Roma, 
e diz-ll)e vira a resposta que a elle Embaixa«< 
dor havia feito o Papa ás instaíicias, que por 
seu mando fizera sobre a concessão da dispensa 
que o Cardeal Rei solicitava, que elle Rei de 
França^ seria contente que o Papa se resol-^ 
vesse a concedera com a maior brevidade, 
conforme ElRei de Portugal e todoa M seus 
vassallos desejavão, pelas razões que evio n(h 
torias ; que elle Rei de França não achara accr* 
tado o propor aquella questão aos Doutores da 
Sorbona por entender não podião estes conhe- 
cer, nem julgar das causas que podião mover o 
Papa a outorgar a licença pedida por ElRei de 
Portugal ; porem que por então não dissesse 
elle Embaixador aquillo ao Papa em seu no«- 
me, por assentar que não convinha (656). 

Nesta data M. Dabain, Embaixador d'Henri- An. ni9 
que lli Rei de França na Corte de Roma, dando ^*^*'** 
parte a este monarca dos aprestos de guerra , 
que em Nápoles enaSicilia se fazião, segundo 
se dizia> contra Argel e Larache, pondera que 
com aquelles aprestos o Xarife que estava em 
má intelligencia com a Turco havia preferido 
concertar-se com ElRei d'Hespanha a tél-opor 



(656) Mm. da B&>lioth« Aed' dè Parb (fonds de Golbert), 
Cud. 345, p. 4n. Â;^^ 



♦... 



•*..* 

^ 



464 — 



inimigo, e que EIRei d'H€spaDha também se 
aproveitara d'aquelle concerto, por que por 
aquelle modo estorvava aos Portuguezes o ti- 
rarem dali soccorro ; que sujeitando-se assbaoí . 
o Xarife a sua amizade, prevalecer-se hia EI- 
Rei d'Hespanha delia, contra os Portuguezes, e 
não contra os Turcos ; que as pessoas mais 
perspicazes nao podião acreditar fossem aquel- 
ies armamentos contra Argel, por mais que se 
dissesse, e crião firmemente era encaminhado 
contra Portugal, onde pensavão que EIRei 
d'Hespanha encontraria pouca resistência^ 
porque ninguém haveria que o 'podesse soc^ 
correr com tão súbita invasão ; que o que dava 
grande força áquella opinião era o não vcr-se 
que o Papa fizesse apresto algum de guerra, 
nem para isso convidasse os outros Principes 
da Itália, como de certo o faria, se a guerra 
fosse contra os Argelinos; que elle Embaixa- 
dor havia renovado as instancias que EIRei de 
França lhe encommendára , para que o Papa 
concedesse a EIRei de Portugal a dispensa qué 
elle pedia para casar-se ; porem que o Papa re- 
mettera a decisão d'aquelle negocio para quan- 
do voltasse a pessoa que enviara a Portugal, a 
qual estava ainda em Hespanha , e devia tornar- 
se em companhia do CSirdeal d'£st ; que era 
voz, vinha a Roma principalmente para tratar 
com S. Santidade dos negócios de Portugal, e 
que se via claramente que os ministros^, e os 
partidários d'ElRei d'Hesp§nha n^quellà Côrtç 



faziSo quanto podiao para que o Papa denegasse 
a licença pedida (657). 

Escreve nesta data EIRei Henrique 111 de An. istq 
França a M. Dabain, seu Embaixador em ***'*^ 
Roma^ e vindo a tratar dos aprestos de guerra , 
que em Itália fazia EIRei Catholico, diz-Ihe que * • 
se não podia duvidar serem elles destinados 
para recolher a successão de Portugal, quando 
o Cardeal Rei fosse morto, debaixo do pretexto 
do direito que pretendia ter á coroa d'aquel]e 
reino ; empresa que lhe parecia devia o Papa 
madura e cuidadosamente avaliar, reflectindo 
nas consequências d'ella no estado em que en- 
^, tão se achava a Christandade^aflm de atalhál-as 
"^ a tempo ; que S. Santidade obraria com acerto, 
concedendo a licença que se lhe pedia para o 
casamento d'ElRei de Portugal, e dado que, 
attenta a sua muita idade, não se devesse es- 
perar filhos de tal tfonaorcio, ficava com tudo 
o Papa desobrigado para com Deus, e para com 
06 homens (658). 

Nesta dataM. Dabaín, Embaixador de Franca m. ist» 
em Roma, participa á Rainha Catherina de Me- 
díeis que havião ali chegado cartas que dizião 



/, 



(657) Mm. da Biblioth. Real de Pariz, Cod. 345, p. 1080 
(fonda de Colbert). 

(fóS) Mm. da Biblialh. Keal de Pariz (fonda. de Colbert) , 
God.34S,p. 434. 



« 



íiavia Elkei (l'ítespanhá ordenado que nienhum 
^'' armamento se posesse em ínovimetito em 
quanto elle não desse novas ordens^ havendo 
revogado as que ao principio dera, e licencmdo 
algumas tropas; donde se inferia que o que ti-|. 
vera em mente^ fôt^a o assustar os PortUguezes, 
como quem não desejava empregar â força, de 
d'isso se podesse excusar. Que alguns díizilo 
estava o negocio bem adiantado; que o Duque 
de Bragança e D. António recebido certa in- 
demnização por seus díreitoí ; qúe outt*os peií- 
savão o contrario, e aífirmavão que de indus- 
tria èspalhavão os Hespanhoes aquelles boatos, 
para d'elles se prevalebferfein j Ijue sfe havia^^ 
feito sòbi^eèstàb a partida da irofA por(}uê Qi^B 
Rei de Portugal tiao era morto, comòelles lía^^^ 
vi ao pensado, è que deferiria dè a ftzèr até 
que sua morte se verificasse; que se nío áttt^ 
pendião de terem adiantado ú tal potíto as còti- 
sas, por isso que começavíô atehterider que òâ 
Portuguezès , longe do qtiU cuidavâo , nS* 
deixarião de ser soccorridos. Afccrfesòèntá iSiaià 
o Embaixador que os Hespanhoes residentes 
em Roma estavão alvoroçados coni á nova da 
partida do Irmão d'£lRei de França pára In- 
glaterra, temendo fosse ella contrária a seus 
intentos sobre Portugal (659). 



(659) M68. da Biblioth. Real de H^ariz (fonds de GolMl) 
Cod.a46,p.lOM. . -='' 



• ^ 






— 4fe7 — 

I^éstà aãia Caihériíia de Medíeis^ mai d'ken- An. istq 
rique 111 liei de França, escrevendo a M. í)a- 
bain. Embaixador dê França em tloma, 
louva-ò de a ter advertido nos despachos de 
18 de Julho e 10 do mez que corria das cousas 
de Roma. e exhorta-o a continuara informál-a 
de tudo, e com especialidade do qi|e dissesse 
rai^ito ás forças que ElRei Cathoiico ajun- 
tava em Itália, bem como de quanto se nego- 
ciasse ^f^ o Papa concernente a Portugal ; 
gor^ue segundo ella entendia o dito Rei d'Hes*- 
panha, havendo posto em consulta as suas pre- 
tenções, e as dos outros, achara nellas poucos 
fundamentos e intentava recorrer ao Papa, 
para haver d'elle a investidura de Portugal, e 
mugmeutar e fortificar por aquelíe meio os seus 
supppstos direitos; que por tanto cumpria 
que elle Embaixador tivesse sobre aquella ne- 
gociação os olhos abertos, e caso soubesse que 
o dito Rei d'Hespanha progredia no negocio da 
investidura, houvseate, como de seu motu pró- 
prio, de representar ao Papa em particular a 
injustiça que commetteria contra ella Rainha 
de Frattça e contra ElRei, seu filho, annuiudo 
aos desejos d'£IRei d'Uespanha; attento o di- 
reito que cila pretendia ter á coroa e reino de 
Portugal, como o dito Embaixador devia de 
tèr visto nas memorias que lhe havia enviado; 
f 4|ae Auna ixmstar por bons títulos que desoo- 
bríra, t por outros que se andavSo buscMude; 
que tanibem em Portugal o Bispo de Coihr 



^ '. 



— 468 - 

iDÍnges^ seu Embaixador, havia sido recebido a 
provar os seus direitos, como os demais pre- 
tendentes, de igse esperava todos os dias novas 
(660). 

ab^stj Nesta data EIRei Henrique Hl de Franca es- 
crevendo a M. Dabain, seu Embaixador em 
Roma, diz-lhe que d'Hespanha lhe haviao es- 
crito que EIRei Catholico mandara retardar o 
embarque das tropas que aprestava, por ter 
sabido que EIRei de Portugal tinha cada vesb 
melhor saúde, e que os Portuguezes espen^lj||| 
que se o Papa concedesse a dispensa que se lhe 
pedia. Deus talvez lhe fizesse a graça de ter 
ainda filhos; o que soltaria todas as difficulda- 
des e differenças que pela successão se podido 
occasionar, o que seria de summo proveinP 
. para toda a christandade. C!onsideraçao que mo- 
via a elle Rei de França a supplicar de novo 
Sua Santidade de tomar aquelle assumpto ao 
serio , accedendo a tempo , antes que a morte 
viesse privar o Cardeal Rei e seu povo dos 
fructos d'aquella esperança (661). 

•Anj^» Manda EIRei de França o Bispo de Commin- 

imarei ges visitar a EIRei D. Henrique, ofiFerecendo o 

seu reino e todo o seu poder para o defender de 



(660) Mm. da Biblioth. Real de Pariz (fonds de GottMrl) , 
Cod. 345, p. 437. 

(661) JM. p. 442. 



- 469 — 

Gastei la ; e vendo que lhe nao deferiao a seus 
oífereci mentos, quiz também oppor-se á sucees- 
são fundado na accao de D. Âffonso III Conde 
de Bolonha, acçSo despropositada para seu di- 
reito, mas razoada para seu intento, que era por 
qualquer via metter pé em Portugal, preteii^ 
cão a que se opposerão os povos, convocadosO|^ 
três Estados do Reino, sendo Procurador d^elkflh 
o Doutor Fernão de Pina Marrecos ; nelles se 
'declarou aos procuradores d'£lRei de França 
e aos dos outros Pretendentes serem excluidos 
do que pretendião por terem os ditos Estados 
o direito de elegerem Rei, como o havião feito 
por cinco vezes. O Embaixador d'ElRei de 
França buscava também em que fundasse sua 
acçSo, pedindo que o admittissem, para no 
caso de se dar a sentença por outrem, ter mo- 
tivos para se queixar que lhe roubarão a jus- ^ 
tiça, e nSo o admittindo fazer o mesmo 
queixume, que o não quizerSo ouvir, para com 
isto ter maior desculpa dos roubos que a Por- 
tugal tinhão sido feitos (662). 

Nesta data escreve Francisco Giraldes a El- ^JiJU? 
Rei sobre ter agradecido ao de França a an- 
nulacão das cartas de marca, e o mesmo Rei 



(663) Mm. da BiblíoCh. Real de Paris, Cod. 10,?54. 
Histor. Chrono). do Reino de Portugal, cap. ?9, p. 206 
e leguintefl. 




- 4TP - 

Portugal (6!^^). 

Mi. iST9 Nesta data louva a Rainha Catherina de Me- 
*»~** dicis a M. Dabaip;^ seu Embaixador em Roma, 
>or lhe ter dadq prompto aviso do <jue fili se 
Lva, commuiílcando-lhe o que se dLàa ^ 

dos armameptos d'EIRei d'Hespanha, e 
negócios de Portugal, e encommènda-Ihe 
haja de continuar a inteirál-a de tudo, e sl^ 
gundo ó que visse , se por ventura ÊIRd 
d'Hespanha desse al^um passo no concernente á 
investidura, que nao perdesse tempo em íalfar 
sobre isso ao Pap^, còn^o de seu próprio movi- 
mento, e em estorvar por todos os modos poi- 
siveis o andamento d'aqueila neeociadío (6lS4). 

An. 1S79 Nesta data , escrevendo Henrique lU Rei de 
^ro29. França a seu Embaixador ent Roma M. Dá- 
bain, accusa recepção dos despachos de 24 do 
mez antecedente e de 8 do que etitSo corria, epi 
que o dito Embaixador lhe havia commuhi** 
cado a resposta que o Papa fizera ás instaqçias 
pelo Embaixador feitas em nome de seu sobe- 
rano sobre a concessão da dispensa qué os 
Portuguezes solicitavSo para o casamento do 
Cardeal Rei, ediz quesoBre aqueUe particular. 



(663) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 1, 
maç. Ill, doe. 72. 

(664) Mss. da Biblíoth. Real de Paris (fa|ids de Colbert), 
Cod. 34S , p. 444. 



— 4T1 — 

nac)^ ipais lhe occorre dizer, senão que sen- 
4o o Papa 4otadp de tap^a prudência ^ religião 
faria o que fosse inais conducente (605). 

Mir despacho d'esta data M. Pabain^ ¥^ID- ^^J^]^ 
tmixador de França em {Iqnia» participf^ a Çi- 
Rei Henrique III que hayiSo chegado ^quplla 
(3òrte dous correios de Portugal , um ao Pnn-; 
baixador e outro fio Núncio residente de Portu- 
gal , sendo as nov^s que trouxerão a confir- 
mação da sentença proferida pelo Cardeal Rei 
contra D. António^ o qual havia sido declaradp 
por illegitimo; e exduidoda successão do rei- 
no; que lambem se dizia que o dito D. António 
fazia altas diligencias com o Papa para alcan- 
çar d'elie o avocar a causa a Roma para ali ser 
determinada definitivamente; no que lhe erão 
contrários os Hespanhoes : que alguns erão de 
parecer que o Papa para não metler em deses- 
peração aquelle Príncipe, e para dar-lhe al- 
guma satisfação, de boamente se inclinava a 
€onceder-lhe a dita appellação, ou evocação; 
o que em poucos dias se saberia. Que D. Antó- 
nio tinha no reino amigos e partidários, e 
mesmo algumas intciligenciascom as potencias 
estrangeiras, e podia ser d'ellas soccorido, o que 
movia o Papa a não descontentál-o, e que tal 



(66d) Mu. da Biblioth. Real de Parfi (fopds de Colbert ) , 
Cod. 345, p.4i6. 



^ ^ft.. 



— 472 — 

era o seu principal direito. Que EIRei de Por^ 
tugal cessara de insistir na dispensa^ e oíazia 
com tal frouxid&o, que bem dava a entender 
sabia que se ia finando, e d^ahi ptorinha o 
pouco abalo que lhe cau8av3o os armfldõíBbtòs 
d'£lRei d'Hespanba, e que podia ser houvesK 
entre elles e o Duque de Bragança alguma idP 
telligencia. Que o Embaixador de Portugal^ 
que em Roma residia, dizia que não, mas qpit 
quando assim fosse, que ai podia elle fazer que 
negál-o por se conformar com as instrucções 
d'ElRei, seu amo (666). 

An. 1579 Em carta escrita nesta mesma data faz o 
mencionado Embaixador á Rainha Catherina 
de Medicis a mesma participação, e conclue 
dizendo : era ali voz que o melhor direito que 
assistia a D. António consistia nos meios que 
tivesse para se apossar do trono, ajudado de 
algumas potencias estrangeiras ; porque se en- 
tendia que EIRei d'Hespanha e de Portugal e 
o Duque de Bragança se uniriao contra elle, e 
que era por isso que o Cardeal Rei se não aba- 
lava com os armamentos que via fazer a EIRei 
d'Hespanha (667). 

An. 15T» Por despacho d'esta data continua M. Da- 



(666) TásA. da Biblioth. Real de Pariz (fonds de CoU>ert) 
Cod. 345, p. 1122. * 

(667) Mss. da Biblioth. Real de Pariz (fonds de Golbert), 
Cód. 345, p. 1125. 



I 



*• 



4T3 



baiii, Embaixador de Fraíni^ em Roma, a in- 
formar a Henrique III de quanto naquella 
Corte se passava relativo a Portugal, dizendo 
se affirmava reinava a melhor intelHgencia en- 
tre o Cardeal Rei e EIRei d'Hespanha, ou de 
industria e por antigo concerto, ou por temor 
dos grandes armamentos que EIRei d'Hespa- 
-^'ijjlbâ havia feito; que algumas pessoas Ibeha- 
1^0 certificado que o Papa, por nao metter em 
desesperação D. António, se resolvera a conce- 
der-lhe fosse a causa avocada a Roma, mas 
que outros dizião era aquillo um ardil dos 
Hespanhoes para o ir entretendo, e poraquelle 
modo estorvar -* lhe de interprender algum 
feito (668). 

Carta de D. António, Prior do Crato, a EIRei An. is79 
deFrança, inclusa na que nesta mesma data es- 
creveo o dito Prior ao Embaixador de Franca 
em Castella. 

Agradece D. António a EIRei de França a boa 
vontade, que tinha de o ajudar, e pede-lhe que 
por premio dos passados serviços o haja de 
occupar em novos, porque ainda que sua casa 
e bens fossem em Portugal, não era isso cousa 
que tolhesse o ir elle servil-o em França ou 
onde quer que EIRei Christianissimo se di- 
gnasse empregai^), segundo o que mais longa- 



(668) Mm. da Bíblioth. Real de Paríi, Cod. 345 (fonds de 
Colbert), p. ll?9. 



w 



4^ 



»* *• 



*• 




mente 9igni(ie4m •'fiii^l>«iiH^4pr m <^r(fl 

qu$ qaqiiQU44(i(pi W esçrevfr^ (6fl9)« 

• 

Ajjj^isTf Carta dl^. Antonio Prior do Cratq m Çpor- 
biqxadpr adnia dito pedindo as ai viçur^spqr smi 
chibada a Portugal depois da derrota 4'Alca- 
cerquebir, eao mesmo tempo dando-Ihe g] 
pelo interesse com que se eiqpenh&ra a rei 
do cativeiro dos Moinas, fazendo com que 
de França escrevesse a esse respeito ao soltao 
Muley Hamet^ Rei de Fez e de Marrocos^ cousa 
que a elle D. António muito lhe pessára> por- 
que pao quizera que por sua causa houverfii 
ElI^ei de França feito tanta honra a um tâip 
máo M ouro^ que havia tomado a sua (^rt? COm 
um modo desdenhoso^ e differido de respon- 
der; ao passo que tanto fazia por qualquer re- 
cado d'EIRei de Gastella, que lhe havia dadcldá 
graça o seu Embaixador, e dez ou doze fidaltf||^ 
mui principaes , e ultimamente lhe fizera pj^ 
sente do Duque de Barcellos, por quem pedia 
de resgate quatro centos mil cruzados. E de- 
pois passando a fallar do estado de Portpgal , 
significa-lhe a intenção em que estava de ir 
servir em França, pof^que tinha a certeza que 
ein breve seria o reino entregue a ElRei 4e 
QÉlteUa, e acaba pedindo ao^Embaixador hou- 



r (§gg) M88. da Biblioth. RealdfiParii, Cod. 25? ^ , ^eftreí 
deslRois, Reines, etc., foi. 151. 



— 478 — 

vessc d^ epcaininhar a ElHei de Frang%v|F|Hila 
qufi qaquella data lhe dirigia ri>ganda«1|M) Ihhis' 
vesse de empregál-o em seu serviço (67Q)« 

■'0- 

Carta de pti^Qéo Embaixador Fi^dQ<^tlÍHpi^^<f^^ 
Giraldes ao ^N^nrtirio Miguel- de Moira, fobr^ & 
assistir por convite d'EIRei de França ás Festas 
do Espirito Santo^ onde estiverão Embaixado- 
res, dando-lhe preferencia o de Toscana (674 )ff.iju^ i, 

B. ANTOIflO PRIOR DO CRATO, ■ OS PoaiPPBS jrittSPARIA. ' 

Por despacho d'esta data M. 0iid»ain . Bm- i^. ijrfk 
baixador de França em Roma, parHeipa aEIRei 
Henrique III que haviSo ali chegado de fresco 
novas d'Hespánha ; que diziSo que o exercitb 
que partira de Nápoles se achava ainda emCar- * 
tíiagena mal organizado, e a tal ponto desikicado ^ 
que EIRei d'Hespanha se vira obrigado a mail^ 
dar alistar mais Italianos para o referir; que 
porém todos aquelles aprestos erSo encaim^ 
nhados a fazer ver aos Portuguezes as ^andés |à 
forças que terião de combater, se por ventura 
se não sujeitassem á sua obediência. Que al- 
gumas pessoái diziSo que se flillava em ^sar I 
nrinceza d'Hespanha com o filho do Duqiie^ 



(670) Mm. da Biblíoth. Real de Paríz, Cod. 262 H, UA. |12. . 
(171) Archiro Real da Torre do Tombo, Corp. Pirou., P. 1» 
mac. 111, doe. 78. *- 



• * 



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% 



— 476 — 

Bra^nça, no caso d'EIRei Catholioo nSo 
poder levar ao cabo a era propor causa do dito 
Duque; queaquellesboatostínhSo pouco funda- 
mento^ e que a opinião dos homens sensatos era 
que o dito Rei bavia de emproar todos os meios 
para conseguir -seus intentos, epor concerto 
ou por força entronizarse em Portugal (672). 

fimn Continua o mesmo Embaixador no despacho 
d'este dia a avisar a Henrique m, Rei de França, 
de quant^ se passava , e dizia na Corte de Roma 
concernente a Portugal^ dizendo que se pro- 
cedia com vagar no alistamento da gente de pé, 
que, segundo havia participado no despacho 
antecedente, se fazia em Itália para reforçar o 
exercito que havia abalado para Hespanha, e 
que chegara ali aviso de ter EIRei de Portugal 
"* declarado por seu successor a EIRei d'Hespanha 
contra a vontade da pluralidade dos Portu- 
guezes, á excepção d'alguns Senhores princi-* 
pães que o dito Rei havia ganhado ; com tudo 
que aquella noticia ainda se não dava por 
certa (673). 

luitim? ^^^t^ d^ta Henrique m. Rei de França, escr^ 
"^K^rôT ^^"^^ ^ ^* Dabain , seu Embaixador na Géite 



(672) M88. da Biblioth. Real de Pariz (fonds de Colbert), 
Cod. 345,p. 1169. 

(673) ^Ms8. da Biblioth. Real de Paríz, Cod. 345 (fonds de 
Colbert) ,>. 1 1 73. 






— 477 — 

tf 

de Roma, manda-lhe que em 22 d'aquelle mez 
havia elle Rei recebido a noticia da morte d*£l- 
Rei de Portugal , acontecida segundo lhe havia 
escrito o Senhor de Saint Goard ^ no ultimo do 
mez antecedente. E que posto toda a gente dis- 
sesse, e corresse a mesma voz em Madrid, que 
a Duqueza de Bragança, depois da dita morte, 
havia sido nomeada Rainha de Portugal pelos 
Eslados do Reino, todavia o dito Saint Goard 
lhe escrevera que ElRei Gatholico tencionava 
encaminhar com brevidade todas as forças que 
havia ajuntado para aquelle reino com intento 
de invadil-o, fundando-se no direito que pre- 
tendia ter ao dito reino, e em certa declaração 
que dizia havia feito em seu favor o Rei defunto, 
mas que elle Embaixador veria pelo traslado 
das Memorias que elle Rei havia recebido de 
Portugal quanto naquelle reino se tinha pas- 
sado, do que tudo o Papa devia de ter recebido 
aviso do Núncio que ali residia; portanto que 
cumpria que elle Embaixador mettesse em pra- 
tica, quando se achasse com o Papa, o caso da 
morte d'£lRei de Portugal, afim de sondar a sua 
opiniio sobre a deliberação do dito Rei Gatho- 
lico, e se achava justo que elle procedesse por 
aquella via , desapossando a Duqueza de Bra- 
gança da successSo d^aquella ooróa , se tanto é 
que ella tivesse sido mettida na posse d'ella; 
c que sobre aquelle particular lhe represen* 
tasse as consequências que d'um tal aconteci- 
jueuto }H>dião dimanar, com tanta mais razão 



— 478 — 

qlHí ife a Duqueài invocasse o auxilio dos òn» 
trdifríncipcs da christandade em fiiiror de sua 
causa y nenhuma duvida havia que mtiitos se 
rèsolveriSoa soccorrêl-a; que seria uma acção 
digna de sua paternal solicitude interpor em 
caso tal seu poder e autoridade para suffocar 
aquella discórdia. Diz mais ElRei ao Embaixa* 
dor, que tendo-lhe a Rainha m9i já feito saber 
quaes erSo as suas pretenções ao reino de Por- 
tugal , achará ao depois títulos e instrumentos 
authenticòs èm favor de seus direitos, como 
elle teria nas Memorias que lhe enviava; sendo 
a dita Rainha, sua mãi, herdeira e legitima 
descendente de certa Condessa de Bolonbm, 
mulher d'ElRei Âífonso III; o qae havendo 
éScjMMto ao ultímo Rei defunto, éllé lhe conce- 
dera que fosse admittida a provar, e justificar 
suá |>retençao, como os demais concurreutes ; 
poráti qtífe ilBo querendo a mencionada Rai- 
tibá, ífua mSi, causar alvoroço noreino durante 
a vida do Cardeal Rei, deferira de progredir em 
suas reclamações; o que agora eÀã^ reaoluta 
a fàxer, segundo visse a direccio que émFtu^ 
túfjjA tomavSo os negócios , e condne EMlei o 
l!è§j[Nicho, encommendando ao Bmbnxador de 
fiillar naquelle negocio ao Papa coÉio de seu 
ttotu próprio, e nos termos que Ifae parecessem 
Ikiais adequados (674). 



k^ 



(67{) Mm. d* Biblioth. Red de P«rU iSoaãa de ÓoUiàrO. 
Coa.Í45,p.497. * 



— 479 — 

Tàinbcm nesta data éscrcveo a Rainha Ca- An. isso 
therina de Medíeis ao sobredito Embaixador. <í«;«\«- 
dizendo-lhe que por que ElRci, seu íilho^ lhe 
havia escrito largamente , se limitava a en- 
coinmendar-Ihe de se haver com destreza, 
para saber qual fosse a opinião do I^apa sobre 
o que dizia respeito ás suas prctenções á coroa 
de Portugal (G75). 

Participa nesta data a ElRei Henrique lU de An. isso 

Mif CO s 

França M. Dabain, seu Embaixador em Roma, 
se dava naquella Còrle por certa a morte do 
Cardeal Rei, o qual falecera no ultimo de Ja- 
neiro ; que também se asseverava que ijúási 
todos os Portuguezes se negavãò a receber £1- 
Rei d'llcspanha por successor da coroa de í^or- 
tugal , principalmente a gente do povo que 
pretendia ser aquella eleição de seu direito; 
que o Papa, segundo se dizia, tencionava man- 
dar çm breve a Portugal uma pessoa d'auto- 
ridade, com commissSo especial de serênalr os 
ânimos, e atalhar alevantamentos, inasqnc 
por então ainda nSo constava quem Ibssfe á 
|ke6soa para isso nomeada (67G). 



Nesta data participa M. Dabain, Embaixadoi 



* Aa. isM 
■arcou 



(G7:i) Mss. da Bibliotli. Real de Pariz (fonds de Colbert), 
Cud. 345, p. 503. 

((i76) Hm. da BibliuUi. Real de Pariz (fonds de Colbert), 
God. ;^45,i>. iib;^. 



» 



— 480 — 

de França em Roma, a ElRei Henrique III que 
o Papa ainda não havia mandado a Portugal o 
Legado que, se dizia, tencionava enviar, por 
entender que nao o devia fazer senão depois de 
estar inteirado do estado em que estavSo na- 
quelle reino os negócios ; que em Roma se di:ri|j|^ 
que EIRei d'Hespanha havia de experimentar 
mais difficuldades do que cuidava,, por nao ter 
querido expor o seu direito perante as pessoas 
eleitas no tempo do Rei defunto para conhecer 
d'ene; que os Portuguezes estavao determina- 
dos a defenderem-se , se porventura elle in- 
tentasse por força sojeitál-os; assim que, 
assentava-se que aquelle negocio podia dilatar- 
86^ sendo poucas as tropas que havia tirado 
da Itália, e podendo os Portuguezes serem soc- 
corridos pela Rainha dlnglaterra. 

A mesma participação faz a Rainha Catherina 
de Medicis na data que assignalamos (677). 



i^. 15M Mesta data M. Dabain, £mbaix;ador d'Hen- 
rique ni Rei de França junto a Santa Sé, par- 
ticipa-Ihe que o Papa se havia a final determi- 
nado a mandar a Portugal um Legado, o qual 
devia fazer caminho por terra e passar por 
França; que o dito Legado lhe dissera havia, 
em conformidade com as instrucções que le- 



(677) M88. da Biblioth. Reâl de Pariz (fonds de Colbcrt) 
Cod. .345, p, 1191 e 1194. 



> . ^^ .'-: 






-^ 481 — 

vava, fazer o possivcl para accomniodar os 
n^ocios de Portugal, obrigando os preten- 
dentes á coroa d'aquelle reino a sujeitarem-se 
á decisão da justiça, e nãoá força d'arnias, en- 
tttndo uns com os outros em altercações e 
debates; que tocando-lhe elle Embaixador nos 
direitos de Gatherina de Medicis, mãi d'£lRei 
seu amo, discorrera parcamente, guardando 
para quando o Legado fosse chegado a Lisboa o 
informál-o mais amplamente , accrcsccntando 
que estava certo que ElRei de França de boa 
mente se havia de sujeitar ao que S. Santidade 
determinasse, se outro tanto fizessem os mais 
lirelendentcs; que o Legado folgara muito com 
Í88o, c lhe a (firmara que para trazer á razão os 
ditos pretendentes lhes apontaria o exemplo 
d'£IKei e Rainlia de França, que elles não po- 
dião dispensar-se de seguir; concluc o Em- 
baixador dizendo, que o que entendia era ({uc 
em Roma se desejava que fosse o Papa o ar- 
bitro d'aquella questão, ao passo que os Porlu- 
guczes estavão determinados a não reconhecer 
outros Juizes senão os que havião sido eleitos 
em Portugal por consentimento unanime do 
povo, os quaes sustentavão eruo os únicos 
competentes (G78). 



(678) Mm. da Biblioth. Kcal Uo Pariz (fouds do Culbcrt) , 
Cod. 34S, r. 11!)9. 

MU SI 






^ 



m 



— 482 — 

^is8o £ em carta á Rainha Catherina de Medíeis 
y. ^ diz ique o Papa folgara muito com a visita que 
a dita Rainha havia feito ao Duque d^Aleoçon^ 
seu filho ^ que se tinha retirado da GòrCe, e 
accrescenta que os Hespanhoes que residittl 
èra Roma estavão receosos que o dito Duque 
por via da Rainha de Inglaterra mandaase aoo- 
corros aos Portuguezes (679). 



^ An. 1580 Nesta data participa a ElRei Henrique IH de 

França M. Dabain, seu Embaixador em Roma, 
que era opinião geral naquella Corte que os 
negócios de Portugal se nSo podiSo decidir, se- 
não por forca d^^rmas j o cpie mais que muito 
magoava o Papa , e também aos HespanhoM 
que ElRei Catholico tirava dos presídios de 
Flandres para os encaminhar a Portugal (680). 

>n 1580 Também nesta data escreveo o mencionado 
Maio!ítí jvi. Dabain, Embaixador de França em Roma, 
á Rainha Catherina de Medicis, e vindo a fallar 
do casamento que se dizia estar Justo entre o 
Duque d^Alençon, irmão d'£lRei de França , e 
a I^rinceza de Navarra, diz que os Hespanhoes 
começavão a temer, que não se podendo con- 
cluir sem guerra os negócios de Portugal, 



((;7í)) Mss. da Bibliolh. Heal de Pariz (fonds de Colbert), 
Cod, 345, p. 1206. 

(680) Mm. da Bibliuth. Real de Pam ( fonds de CoUwrt), 
Cod. 345, p. 1208. 






— 483 — 

como parecia provável , vendo-se q dito Duque 
d'Aleiiçou com forças^ ajudado d'£IRei de Na- 
varra , tentasse alguma invasão na alta Na- 
varra para com aquella diversão favorecer os 
Portuguezes^ sobretudo tendo estes ^ segundo 
se afiirmava^ pedido auxilios á Rainha de In-* 
glaterra, a qual podia mandar as suas esqua- 
dras em ajuda do dito Duque; cofQ o que se 
tornaria ainda mais diíficil a conquista de Por- 
tugal. Accrescenta porém o Embaixador que 
aquellet boatos erão talvez inventados pelos 
inimigos dos Hespanhoes, ou pelos amigos da 
França (684). 

Btesta data M. Dabain, Embaixador de França An. isso 
em Roma^ dando conta a seu governo, do que ^'^^ 
se dizia em Roma , concernente a Portugal , 
refere que segundo as ultimas noticias d'Hes- 
panha estavão os Portuguezes mais do que 
n u Aca resol u tos a não ceder aos Ilespanhoes, e a 
nio se quererem accommodar que por via das 
armas ; o que ElRei d'Hespanlia estava deter- 
minado a por em pratica (G82). 

Mesta data o sobredito Embaixador francez 4„. ^^ 
em Roma, M. Dabain, escrevendo a ElRei Hen- ^*"^^ 



(681) Mm. da Biblioih. Red de Paríz (fonds de Golbcrt;, 
God.»46, p. 1213. 

((ÍS?) Hm. da Biblioih. Real de Pariz (fonds de Ckiibert) 
Cod«.M5,p. 12K. 



> 



— 484 — 

rique III, diz-lhe que recebera os despachos de 
22 e 26 do mez passado por via de Francisco 
Barreto, Gentilhomem portuguez, e que não 
perdera tempo em referir ao Papa o modo 
por que o seu Legado havia sido recebido nas 
terras da Coroa de França ; e depois de tratar 
d'outras matérias, vindo a fallar dos negócios 
de Portugal refere os differentes rumores que 
corriao em Roma, onde constava que £lll|ií^* 
d'Hespanha estava resoluto a entrar com seu 
exercito em Portugal , o que ainda loXo tiuha 
feito, segundo uns porque conservaM|c.*espe*. 
rança de reduzir em sua obediência os fortugue-- 
zes, por meios brandos, e segundo outros por 
não se achar com forças sufficientes para sujei- 
tar os Portuguezes , os quaes se mostravão 



solvidos, e apostados a defenderem-se, e receber ^^ 
os soccorros d'onde quer que lhes viessem para 9 
sustentar a justiça de sua causa, e a não soP- -^ 
frerem uma tal infracção ás leis e liberdade de 
seu paiz ; refere também o Embaixador, que o 
cavalleiro Barreto tivera audicncia do Papa, 
que segundo as instrucções que elle Embaixa- 
dor recebera , o havia assistido com todo o seu 
valimento em seus requerimentos; o qu#não 
obstante, que o Papa até ali não havia tomado 
resolução alguma, e que segundo elle entendia, 
não desejava de modo algum a ruina dos Por- 
tuguezes , mas que ficaria neutral , bem que 
tivesse sido requerido por parte d'ElRei d'Hteâ« 
panha de interpor a sua autoridade com exj^oi^ 




— A85 — 

facões e comminaçSes contra os Portuguezes , 
pela mesma maneira que estes, lhe havião feito 
a mesma supplica contra EIRei Catholico : que 
o que em Roma se desejava era que os Portu-* 
guezes tomassem o Papa por juiz de todos oêfo^ 
pretendentes á Coroa (f aquelle reino , cooift '^ 
em que elles nSo queriaó entender, sustentando 
serem os únicos juizes competentes os que ha- 
via sido eleitos para isto por parte d'ElRei de- 
funto, e fazi3o grandes instancias com o Papa 
para que houvesse de prorogar a cruzada, que 
devia findar no fim do mez que havia de vir, 
e outros subsidios concedidos contra os Turcos 
(683). . 

E na mesma data em carta escrita á Rainha, ad. isso 
Gatherina de Medicis, referindo-se ao que a El- "" ®*^ 
Rei escrevera sobre as intenções do Papa acerca 
das instancias feitas perante elle por Francisco 
Barreto sobre as cousas de Portugal , diz que 
o não deixara de assistir com todo o seu poder, 
e conclue aílirraando que se os Portuguezes se 
^determinassem seriamente a defender-se, e 
aproveitassem de soccorros que de fora lhes 
viessem , dariSo muito que fazer a EIRei d*Hes- 
panha , e entSo o Papa poderia servir-se contra 
EIRei d^Hespanha das instancias que os Portu- 






(683) Um. da BiblioUi. Real de PaHi (ftmái da Colbert), 
Cod. 345, p. 1223. 



> 



— 486 — 

guezes haviSo íbito toncernente á contimiadM^ 
da cruzada^ e Qutros subsídios , que estavão à 
expirar (684). 

An. 1110 Nesta dafa e dia foi P. António Prior do Grate 
ttieclamádo Rei pelos 'tres-Estados do Reino 



l^résença do Embaixador de Henrique In, Rei 
de França^ o qual na falia que fez^ deelarando- 
se em favor de 1). António , e dando-»lhe o tl»- 
tamento e titulo de Rei , fez tacitamente renntf- 
cia em nome de seu soberano das dereitoi« 
pretenções que a Casa de Franca Imvia, iiiinfiiuff' 
tado ter á Coroa de Portugal. 

Fundavao os Francezes estas pretençSea néè 
motivos seguintes. Que ElRei D. Affpnso JII, 
em quanto Conde de Bolonha tivera de ^ubl 
mulher a Condessa Mathilde um filho , dia* 
mado Roberto y que suceedéra a mia m£í no 
Condado de Bolonha, e deixara drâcendencia y 
sendo o ultimo Conde d'aquelle titulo João de 
la Tourj que trocara o condado^ e fora pai de 
Madalena, mulher de Lourenço de Medíeis, 
pai de Catherina de Medíeis, mai de Henrique II, 
Rei de Franca. 

Respondiao a isto os Portu^ezes : l^tfiie 
Mathilde não tivera filhos d'aqueHe oonsorao, 
o que se provava por não ter feito men^ 



(684) 1I«. d« Biblioth. Real de Pttríi (fondideColbert) 
Cod. 345, p. 123Í. '' 



% 



— 487 — 

alguma d'elles em seu testamento, nem tao 
pouco na occasiao em que os Estados do Reino 
mandarão pedir-lhe o seu consentimento para 
o desposorio de seu marido com uma segunda 
mulher; 2° Que a Condessa Mathilde havia sido 
repudiada por estéril ; 3"" Que D. Diniz nascido 
fio seguiidoconsorcio havia subido ao trono sem 
^ a menor contradicçao ; k"" Que o dito D. Diniz 
Auocedéra a seu pai por legitimo direito ; 5° Que 
O Papa Clemente lY confirmara o casamento 
de Afibnso III com a Infanta Dona Brites e 
• - Iç^timára os filhos procedidos do dito consor- 
cio; 6** Que ElRei D. Diniz fora institiiido her- 
deiro do trono por testamento de seu pai^ e 
accIamadoRei por consenso do povo; 7'* Que 
seus descendentes se tinhão conservado na 
posse pacifica da Coroa de Portugal desde 1 283, 
por consqpiinte por espaço de muitos séculos, 
o que era mais que bastante para a prescrip- 
ç3o d'aque1le supposto direito. 

Replicarão os Francezes que era certo havia 
EIRei D. Aífonso tido filhos da (!!ondessa Ma- 
thilde ; que tendo-se esta tansportado a Lisboa 
com seu filho Roberto, quando teve aviso do 
segundo consorcio, nao poderá alcançar d'EI- 
Rei que lhe desse audiência, e tivera de volt|ir 
para França, deixando em Portugal o filho na 
esperança de que viria a ser recebido por 
successor de seu pai ; o que nao tendo bom 
successo , voltara o filho para França. Que o 
Papa não tinha poder para confirmar o consor- 



— Ass- 
eio adulterino , contractado entre Affonso^ e 
Brites y nem de legitimar os filhos d'elle nas- 
cidos , por ser aquiUo contra as leis divinas^ e 
contra os decretos dos concilios que os Papas 
erão obrigados a observar , por que a Jkgiti- 
maçao para poder succeder, sendo um acto de 
superioridade não cabia na alçada do Papa, 
salvo nos limites de seu próprio território. 
Que a eleição de Diniz nSo estava tão pouco ao 
arbitrio do povo, e era invalida em quanto 
existissem herdeiros legi timos (685). 

An. 1S80 Nesta data se estipulou uma convenção en- 
tro 19 tre o Duque d'Alençon, e d'ÂnjoUy e os Estados 
Geraes dosPaizes Baixos em Plessis-les-Tours. 
No artigo XYII da qual se declarou que para 
maior segurança das partes contractantes con- 
tra os inimigos communs, que poderia suscitar- 
lhes aquelle ajuste e convenção, e juntamente 
a fim de manter a amizade e boa correspon- 
dência com que a Rainha de Inglaterra, os Reis 
de Dinamarca , Portugal^ Suécia , Escossía e 
Navarra, os Principes do Império, e mais algum 
Potentado havião tratado os sobreditos Esta- 
dos, serião a mencionada Rainha, Reis, e 
Principes convidados pelo Duque d'Alençon e 
dos Estados a entrarem com elles cm allianca 
firme e indissolúvel parao commum proveito, 
debaixo das condições que se julgassem accr- 



(685) Roíisset. — Intérét des Puissances de r£iirope , T. 2, 
p. 590. 



•• -.« 



«• 



— *%89 — 

tadas para a seguridade dos confederados (686). 

Nesta data a Rainha Catherina de Medicis m. mt 
escrevendo ao Senhor D. António diz-lhe que 
]*ecebcra com grande satisfação a carta que elle 
lhe escrevera pelo capitão jPradin, porque alem 
das expressões de amizade que jiella se conti- 
:Ílhlo , tivera a certeza de sua boa saúde , cuja 
continuação desejava como a da d*ella mesma, 
para o poder ajudar em todas as suas cousas 
de modo que o contentasse; afíançando-lhe que 
sempre acharia nella a mesma boa vontade e 
desejo 9 cpmo lhe certificaria o Embaixador 
d'EIRei seu filho em Londres e o já mencionado 
Capitão Pradin (G87). 

Por despacho desta data EIRci de Franca An. issi 
Henrique III , respondendo ao que M. de Ma- *^ 
jBVissière lhe havia escrito acerca do Senhor 
H« António^ diz-lhe que muita razão tinha 
aquelle Príncipe para fazer fundamento em sua 
amizade c na da Rainha , sua mãi, porque tanto 
elle como ella erão seus sinceros amigos^ que 
sempre os acharia em boa disposição para assis- 
til-o^ e continuar a fazer-lhe quanto podcssem^ 
mas que como a Ramha, sua mãi, lhe havia os 
dias a traz escrito , era mister que elle £m- 



(686) Dumont, Corpt IMploin., T. S, P. 1, p. 380. 
Frédéríc Léoiiard, T. }^ p. (i?K. 

(687) Nm. da Biblioth. Real de Pariz (fonds dcrx>lbert), 
CoJ. 473, p. 179. 



— 490^ — 

F 

baisfuior soubease proinptsLi^^nte e com clareza 
o que o dito D, António entendia fazer, e o 
que queria que se fizesse concernente ao arma- 
ttientõdos navios que D. António entendia fazer 
com toda brevidade para ir ao encontro da frota, 
que vinha das índias Occidentáes e do Peru , 
por que segundo os meios e commodidades que 
o seu reino offerecia encontraria nelle Rei de 
França a melhor vontade ; que assim lho fi- 
zesse saber tanto da sua parte , como da Rai- 
nha, sua mSi ; e que lhe fizesse saber promp- 
tamente a resposta por um correio expresso, 
porque nao admittindo o negocio dilaçSo, 
podiao-se aproveitar dos navios que um certo 
Carie de Bordeos estava aprestando, os quaes 
deviao em breve fazcr-se á vela , e podião mui 
bem servir a D. António com mais alguus ou- 
tros navios mercantes armados em guerra; 
que não seria cousa difficil levál-os áquellfts 
partes tratando-se com os armadores ; que se- 
ria bom aproveitar-se da occasiao pois era 
chegada a monção em que os ditos navios soião 
partir; que pelo que diz respeito á carta que 
a Rainha de Inglaterra havia dito a D- Antó- 
nio seria bom que ejle Rjei de França lhe escre- 
vesse, parecia-lhe desnecessária^ porque bas- 
tava que elle Embaixador lhe tivesse da sua 
parte fallado naquelle particular (688). 



(688) Mm. da Biblioth. Real de Par» (fonds de Colbert), 
Cod. 473, p. 179. 



t 



— 491 — 

Nesta data eacrevendo o mesmo Monarca ao An. issi 
sobredito seu Embaixador em Inglaterra^ lhe 
diz que folgara muito com as boas novas que 
seu primo D. António lhe havia mandado da 
amostra que os habitantes da Ilha Terceira 
h&vião dado aos Hespanhoes que intentarão 
tomál-a de salto (689). 

Nesta data encommenda a Rainha Catlierina An. issi 
de Medíeis ao Embaixador d^ElRci^ seu filho, i»ro n 
em Londres, haja de dizer a D. Aotonio que 
tanto elle como EIRei Henrique UI seu filho 
sentiao grandemente a demora que seus negor 
cios padecião, e que fariao o possível por abre- 
vcàl-a (G90). 

Nesta data Cláudio Pinart Senhor de Cre- An. issi 
maille, Ministro secretario d'£stado d*£lRei ^rou 
Henrique Hl de França, e um dos Deputados 
commissarios nos ajustes que entre esta coroa 
e a de Inglaterra nesse tempo se fazião em des- 
pacho dirigido a M. deMannuissière, Embaixa- 
dor do mesmo Monarca em Londres, lhe parti- 
cipa como o Embaixador inglez Walsingham 
havia pedido uma audiência particular á Rai- 
nha Catherina de Medicia. que lha coocedéra: 



(689) Mm. da BiUíolh. Retl de Pariz (fondf de Colbert), 
Cod. 473, p. 188. 

(r>90) Hw. da Bibliotfa. Real de Paríi (fondadfl Golberl), 
rAd.47S, p. 206. 



— 492 -- 

que o dito Walsingham começara seu discurso 
pelos negócios de Senhor D. António, ao que a 
Bainha replicara com firmeza e sem rebuço, 
ínostrando-Ihe o como a demorm que em Ingla- 
terra se fazia á partida dos nairioa que D. An- 
tónio ali fizera armar causava grandissirfio 
prejuizo ás cousas daquelle Príncipe : o que 
não obstante, o mencionado Embaixador ne- 
nhumas esperanças dera, dizendo somente que 
talvez deixariao sair quatro, encerrando-se a 
Rainha soa Soberana na carta que ella deman- 
dava d'EIRei de França, sen&o assignada por 
^ seus ministros, ao menos por elle tão somente 
' (691). 

An. 1581 Nesta data o Senhor D. António, Prior do 
•^ Crato^ foi recebido em Eu, a sete legoas de 
Dieppe, pelo irmão d'EIRei de França, com toda 
a honra na qualidade de Rei e herdeiro da co- 
roa de Portugal. Determinado o lugar da en- 
trevista, mandou o Príncipe francez por seus 
officiáes aprestar tudo quanto era mister para 
que o Senhor D. António e os seus encontras- 
sem ali todas as commodidades da vida, e fos- 
sem tratados e servidos honradamente. 

No dia aprazado para a mencionada vista, 
que foi n'uma sexta feira, partio o Senhor 
D. António de Dieppe, e sabendo que o Prin- 



r691) Mm. da Biblioth. Real de Paríz (fendsdeColbert), 
Cod. 473,p. 190. 



— 403 — 

cipe fraiicez se avizinhava^ se adiantou a meia 
legoa da cidade acconipanhado do Conde de 
Vimioso Condestavel de Portugal^ do Conde de 
Torres- Vedras, de M. de Strozzc, d'Antonio 
de Brito, seu Embaixador cm Inglaterra, e de 
Diogo Botelho, com mais alguns Portuguezes 
que haviao seguido o seu partido c fortuna, 
fazendo um total de obra de cincoenti a ses* 
senta cavallciros. 

^lO dia antecedente M. de Bacqueville havia 
saido ao mar com nove navios portuguezes c 
alguns de Dieppe com seis centos arcabuzeiros 
fraucezes, para guardar as costas, c fazer le- 
vantar o blo([ueio do porto de Dieppe, (juc se 
dizia intentava fazer o Principe de Parma, e 
caso nao estivesse a cidade bloqueiada acossar 
os Ilespaniiocs ao longo das costas de Gravilli- 
ncs. 

S. Altc/u, o irmão d'Eiriei de França, partio 
também de Siiint-Valery , onde estava com 
cento e vinte de cavallo, acconipanhado do 
Principe d^Aulphin, dos Condes de Lavai e de 
Saint-Âignan, e de mais alguns dos princípacs 
cabos do exercito. 

Apenas as duas tropas se avistarão os. Se- 
nhores Portuguezes mettcruo os cavallos ao 
galope, e se adiantarão para ii*cm beijar a 
mão ao Principe francez, ficando o Senhor 
D. António somente com o Condestavel , e 
Strozze. Logo que os fidalgos portuguezes ai- 
Icauçárãu a truiia du PrincifM;, apcáràu-KC e fo- 



— 494 — 

rSo beijar-lhea miío. O Príncipe deixou-se 
tár a cavallo, e assim se adiantou ao encontro 
de D. António^ o qual da sua parte se adiantou 
também para o Príncipe, e quando se adiarão 
a 15 ou 20 passos distantes um d^outro apeá- 
rao-se ambos ao mesmo instante^ e forão ao 
encontro um do outro, o irm3o d'£lRei de 
Franca com só três dos seus, e D. António 
com só dpus. Então ambos os Príncipes tirando 
ao mesmo tempo os barretes se saudário , e 
abraçarão fraternalmente, reciprocando-se al- 
gumas palavras de amizade. 

Ao depois montarão a cavallo, nao sem te- 
rem longo tempo pleiteado sobre qual toma- 
ria a direita ; porém por fim como D. António 
se visse apertado pelas instancias que lhe fhzia 
o Príncipe franccz, houve de se pór à direita, 
dizendo ; que assim o fazia por não começar a 
desobedecél-o sendo que tanto amor lhe tinha, 
e tanto desejo de assignalar-se em seu serviço. 

Assim a cavallo se encaminharão para a ci- 
dade seguidos dos Portuguezes e Francezes^ en- 
tre os quaes como D. António reconhecesse um 
fidalgo francez que já o havia visitado da 
parte do Príncipe francez quando elle se 
achava em Inglaterra, chamou-o e tratou-o 
mui graciosamente; o que vendo o Prítaeipe 
francez ordenou ao dito fidalgo ficasse ao pé 
delles para servír-lhe de interprete, como o 
fez no decurso da jornada. A' entrada da ci- 
dade forão os Priucipes recebidos com salvas 



— 495 — 

d'artílharia e descargas d*arquebuzaria ; 
houverão também ali novos debates sobre 
qual entraria primeiro, e teve outra vei 
D. António de ceder, dizendo que o faria por 
estar ás ordens do Principe francez, e por 
abrir o caminho aclle e aos seus. 

Os magistrados da cidade como governador 
á testa quizerão fazer a costumada arenga ao 
Principe para dar-lhe os emboras de sua 
vinda , porém «este por contemplação por 
D. António os não quiz ouvir ali, mas sim em 
sua pousada. 

£ porque a residência destinada para D. An- 
tónio ficava mais longe que a do Principe, e 
era mister para ir a ella passar primeiro por 
esta, accompanhou D. António o Principe 
grande espaço de caminho, com intento de o 
levar a casa, porém o Principe bem advertido 
tornou para traz e não lho quiz consentir, an- 
tes apcando-se á porta das casas da residen"^ 
cia futura do Principe portuguez, se despedio 
dclle e se foi a jantar; o que também fts 
D. António sendo a despeza feita por conta do 
irmão d'EiRei de França, &o serviço pelos ||f|Bi- 
ciács desuacasa. 

Depois do jantar renovou-se a compete||KdAi 
sobre qual iria primeiro visitar o outro, e 
como o Principe frttbcez tivesse partido afié pa- 
ra ir visitar aD. António, o encontrou em mais 
de metade do caminho que lhe vinha apeii- 
€ouli*o, e que ae lastimou d^^r-Uie;p Piiocipe 

• V 






— 496 — 

aiiticipado. Montárao então a cavallo e forSo 
SC a conselho , ao qual somente assistirSó o 
Príncipe d'Au1phin, o Condestavel, Conde de 
Vimioso, e Strozze. Durou o conselho duas ho- 
ras, e duraria mais, se a .noite o não viera 
interromper. 

Apenas entix)u em casa o Príncipe , foi-o 
D. António visitar, c tão de súbito que não 
teve este tempo para ir-lhe ao encontro, 
achando-o já nas escadas. Estiverão os Prínci- 
pes obra d'uma meia hora tratando de seus 
negócios, e depois de se abraçarem uma e outra 
vez se despedirão. Deixou o Príncipe francez 
para o Senhor D. António a sua carruagem e 
luna^^aMolta de quarenta a cíncoenta cavallos 



An. i»8i Por despacho d'esta data participa EIRei 
IS Henrique III de França ao seu Embaixador em 
llnglaterra ^ que havia quatro dias que tinha 
dado audiência ao Senhor Cobhan , Eml)aixii^ 
dor de Inglaterra, o qual lhe fallára, como já 
o havia feito á Rainha, sua mãí, a favor do 
lSe|LhorD. Aulonio da parte da Rainha de In- 
glaterra, a qual havia escrito uma carta que o 
dito Embaixador lhe apresentara, na qual 
vinha a mesma recommendação ; assim que 
estaca elle por todos os i^espeitos obrigado a 



(692) Mss. da Biblioth. Real de Pariz,, God. 269, foi. 172 
(fbndd de Brieuoe). 



:v 



— 497 — 

fazer a favor d'aquelle Príncipe quanto em seu 
poder estiresse (693). 

Carta do Senhor D. António para Vasco Fer- a», issi 

KcvcF 18 

rão Piínenlcl , sobre estar em França de partida 
para este reino com poder bastante para tomar 
satisfação das tyrannias d'£iRei de Castella 
(094)/ 

Nesta data o Senhor D. António, Prior do á" '**' 

Fever.jo 

Crato, e asserto Rei de Portugal, escreve a El- 
Rei Henrique III de França , que obrigado de 
seu valor, grandeza d'animo, e quahdades so- 
breexcel lentes que o fazião respeitável em todos 
os seus reinos ia procurar a amizade delle, e 
ofierecer-lhe a sua , para cujo effeito o mandava 
visitar por D. António de Menezes , de seu 
Conselho d'Estado, o qual lhe diria o mais que 
elle naquella carta lhe nao dizia, rogando-lhe 
muito houvesse de em tudo dar-lhe credito, e 
que por elle lhe mandasse mui boas novas 
suas, tendo por certo que em tudo o que d*elle 
D. António comprisse faria em toda occasiio o 
que elle Rei de França lhe merecia, porqnt 
ninguém mais que elle D. António desejava a 



(G93) Mm. da Bibliotb. Real de Pariz (fonds de Colbert) , 
Cud. 473, p. 216. 

(G9{) Archivo Real da Torre do TumbUf Corp. Chrou., P. I, 
maç. 111, duc. 90, 

111. 32 



-. 498 — 
prosperidade de todas as suas cou&as (695). 

An. isn Nesta data o Senhor D. António, Rei eleito de 
*** Portugal , tendo mstidado D. Francisco de Por- 
tugal, Conde de Viiiiioso e seu Condestavel, 
supplicara ElRei de França houvesse de ajudál-o 
contra Filippe II que se tinha empossado de 
Portugal , chegou o Conde de Vimioso a França 
na occasião em que o Duque d'Anjou, irmão 
d'£lRei de França aprestava um exercito para 
ir sitiar Cambray, onde se achava o exercito 
hesparihol commandado pelo Duque de Parma 
Alexandre Farnesc; o que foi occasião de o 
dito Conde de Vimioso se achar na jornada de 
Cambray, tanto pelo desejo que tinha de pelei- 
jar com os Hespanhoes seus próprios inimi- 
gos, como para empenhar mais o Principe 
francez a interessar-se nas cousas d'£IRei de 
Portugal, seu amo, d qual ignorando a causa 
da longa demora do dito Conde , seu Condes- 
tavel, veio em pessoa a França, onde tendo re- 
presentado a ElRei Henrique III o máo estado 
das suas cousas tíio pôde alcançar d'elle o que 
diMBejava, por causa da allianca que em todo 
tempo tinha havido entre a França e a Hespa- 
nha^ todavia a Rainha mãi movida a com- 
paixão, como achasse M, de Strosse então 



(695) Autographo. ttss. d« Biblioth, Real de Pariz (fonds de 
GulberlyCod.;^^, 



— 499 — 

Coronel da inihntaria franccza disposto a 
eiiiprehender o feito, usando do poder de sua 
autoridade fêl-opromptamente resolver. Pre- 
paravão-se pois algumas companhias que de- 
viSo ir-se embarcar em Bordeos, onde as espe-- 
rava o dito Strosse, general d'a(juelle exercito 
naval , porém o vagar com que procederão nos 
aprestos deo tempo a ElRei d'Hespanha de se 
preparar para a defeza. O que muito magoava 
a D. António, e aos que estavão nos Açores, 
os quaes temião verem-se sitiados pelos Hes- 
panhoes se lhes tardassem os esperados refor- 
ços ; do^e foi avisado M. de Strosse peloConde 
de Torres Vedras , Governador da Terceira, e 
por M. de Carie que ali* commandava havia 
dezoito mezes quatro companhias deFrancezes. 
Ora como a Rainha, mãi d'EIRei de França, ti- 
vesse aviso dos grandes armamentos que em 
Sevilha e Lisboa se faziuo contra as ditas ilhas, 
vendo que 06 seus estavão demorados, mandou 
a M. de I^ndreau com o seu regimento, com- 
posto de oitocentas praças, á ilha Terc^eira, 
onde estava o Conde de Torres Vedras encom- 
mcndando-lhe houvesse de cm tudo obedecer- 
lhe (696). 

Nesta data chegou o Senhor D. António ao j^^ ,,„ 
porto de Belle Isle, onde se achava o exercito ^•■^" 



(K9€) Viagem de M. def^iidreatt aus Aroreii. Mas. áà, Bibii^^ 
tbecA Kcal de faiu ^louda de Culbeil) , Cud. '^\), 



— 500 — 

naval commandado pelo general Strosse em 
uma galera real, na qual partira de Nantes ; 
apenas foi lançar o ferro junto da náo capitaina 
que p saudarão com repetidas descargas d'ar- 
telharia e mosquetaria ; que tão contentes fica- 
rão todos com sua vinda pelo desejo que ti- 
iihão de fazer-se á vela, pois se ião acabando os 
mantimentos, sem fazer cousa de importân- 
cia, mormente alguns particulares que servião 
sem soldo (697). 

An. 1582 Neste dia se fez á vela do porto de Belle Isle 
Junho 10 ^ armada naval de Franca, mandada mÊk.Ayov 
do Senhor D. António debaixo do contiDàndo 
do general Philippe Strosse, que levava entre 
outros cabos i Ilustres por lugartenente o Du- 
que de Brissac. Era esta armada composta de 
cincoenta e seis velas alem de sete navios In- 
glezes carregados de soldados Francezes, com- 
mandados pelo capitão Pradin, e um navio de 
guerra com um patacho e uma barca do capi- 
tão Scalin, que aguardava a passagem da ar- 
mada nos Sables d'01onne com sete a oitocen- 
tos homens, o que faria um total de cinco mil 
combatentes (698). 

An. 1582 Participa a Rainha Catherina de Medicis 

Julho 2 



* (697) Mss. da Bihlioth. Real de Pam, Cod.>% 

(698) Mss. da Bibliulh. Keai de fmz (fi>A« de Colbert), 
Cod. 2y. 



— . 501 — 

nesta data a M. de Manuissiére, Embaixador 
de França em Londres, que sendo o portador 
;^^uella carta o Senhor Leitão^ enviado em 
'Inglaterra por seu primo o Senhor D. Antó- 
nio, a seu rogo, havia por bem escrever-lhe e 
encommendar-Ihe houvesse de o assistir do 
modo que podesse em todos os negócios de que 
ia encarregado, e que representasse á Hainhç^ 
de Inglaterra, que segundo o que a todo tempflt*; 
lhe promettèra, lhe rogava houvesse de consi- 
derar o quanto em França já se tinha feito com 
o armamento de 55 navios, e bom numero de 
gente de guerra, que erão em Portugal, e que 
oSo parecia razão que ella se ativesse ás difi- 
culdades que havia proposto, antes pelo con- 
trario estava-lhe bem ajudar naquella occasiao 
ao dito Senhor D. António, como elle sempre 
delia o esperara, fiado em suas promessas 
(099). 

Nesta data se celebrou um tratado de ai- An. ts82 
liança entre ElRei Henrique III de França e a " ** * 
liga dos Suissos, no Art. XXII do qual se esti- 
pulou ficavao reservadas por parte d'ElRei de 
França, o Papa e a Santa-Sé, o Imperador, os 
Reis d*Hespanha, de Portugal^ d'£scossia, Di- 
namarca, Polónia, e Suécia, a Senhoria de Ye- 



(G99) Vmi dt KUioth. ReM do Pimtí» ( fonda de Colbert), 



— 802 ^ 

neza e os Dnques de Lorrena^ Saboya e ¥er^ 
rara, e por parte dos Suissos também o Papa, 
e outros seus confederados (700). « 

Aiu isn Nesta data ElRei Henrique de França, escre- 
* vendo a M. de Manuissiére, seu Embaixador 
em Londres , sobre vários n^ocios daquella 
Embaixada , lhe transmette uma memoria, 
que o Embaixador d'Inglaterra lhe havia 
apresentado, cujo ccmteado era em substancia 
o s^uinte. Que a Rainha, sua soberana, sabia 
que o Senhor D. António, Rei eleito de Portu- 
gal, havia feito uma declaração, vedando aos 
vassallos das nações estrangeiras de frequentar 
os portos de Portugal . Que a dita sua soberana 
lhe encommendára de pedir a ElRei de França, 
houvesse de fazer expedir uma declaração ou 
Carta Patente, para que o exercito, que .se 
achava em Portugal, não molestasse os seus 
vassallos, que se achassem nos mares vizinhos, 
e para que fossem postos em liberdade os na- 
vios inglezes, que por ventura tivessem sido 
capturados (70Í). 

An. i5« Nesta data escreve a Rainha Catherina de 
bro < Medíeis ao sobredito Embaixador, e entre ou- 



(700) Dnmont, CorpsDíplom., T. S/P. 1, p. i2d. 

Frédéric Léonard , T. 4. 
(70P Ms3. da Biblioth. Real de Paris (taidf de Colbert), 

Cod. 473, p. 305. 



% 



— 503 ~ 

tras cousas lhe diz a seguinte. « Estamos aqui 
u á espera , como vulgarmente se diz , dos 
Cf coxos, e receosos de saber o como as cousas 
w se passarão no combate entre o nosso exer- 
ce cito e o dos Hespanhoes em Portugal, que 
« creio terá sido ganhado pelos nossos, por 
« que os Hespanhoes não estão mui contentes, 
« e nada dizem, segundo as ultimas novas, que 
« temos de Lisboa (702). » 

Nesta data EIRei Henrique Hl de França es- An. isss 
creve ao sobredito seu Embaixador, e depois n 
de louvál-o pelo modo com que se houvera na 
negociação do intendado casamento do Duque 
d^Anjou, seu irmão, com a Rainha delnglaterra, 
encommenda-lhe de agradecer á dita Rainha 
pela resposta que fizera a M. de La Mothe Fé- 
nelon á cerca dos doze navios que lhe havia 
mandado requerer, e lhe rogasse houvesse de 
guardar aquella boa vontade para quando lhe 
fosse necessário, por isso que ainda não estava 
resolvido acerca do que lhe convinha de fazer 
em proveito da Rainha, sua mãi, e seu no que 
dizia respeito a Portugal, bem que a ajudaria 
em tudo quanto fosse possi vel para recobrar o 
que era seu, sem comtudo romper a paz com 
EIRei d'Hespanha em tudo quanto fosse esti« 



(70!^) Mm. da Biblioth. Real de Paríi (fonda de Colbert), 
Cod. 473,p. 315. 



504 



*^ 



•• 



pulado nos tratados; e que ainda qaando 9e 
não tratasse do direito que a dita Bainha, sua 
mãi, tinha ao reino de Portugal, os tratados, que 
elle Rei de França e seus predecessores btl^ião 
tido com os Portuguezes, o obrigavao a assis- 
ti r-lhes e dar-lhes soccorro contra os que pre- 
tendessem opprimíl-os (703). 



An. 1584 Em despacho desta data participa M. de Lon- 
glée. Embaixador de França em Madrid, a El- 
Rei Henrique IH, que as novas de mar que ao 
fazer daquelle cor^iao erao que do porto de 
Lisboa saia uma esquadra de quinze navios, 
com dous mil combatentes, com destino para a 
Mina, onde temião que fossem os Francez^ 
(704). 

An. 1515 Nesta data Henrique Hl Rei de França expe- 
*'^** dio uma Carta Patente fazendo saber aos go- 
vernadores, Almirantes , Vice-Almirantes e 
mais justiças de seus Reinos, que tendo-lhe seu 
Primo o Senhor D. António Rei eleito de Portu- 
gal representado a tomadia que tinha sido feita 
cm alguns navios, fazendas, e outras muitas 
cousas pertencentes a alguns Portuguezes nas 



(703) Mss. da BibUotlu Real de Pariz (fondt de Colbert), 
Cod. 473,p«254. 

(704) Mw. dn WbliQth, R^Ai i9 fmz ((<mi$ à» QAkttt) , 



— 50Í -• .v-Hi 

oQstas de França , e havendo elle llei^ ãm: 
Franca, deferindo a sua jusla reclamação, or^ 
(lenado por Carta Patente de 25 de Novembro 
de 1581, que immediatamente se procedesse a 
sequestro em todos os géneros e navios indivi- 
damcnte apprehcndidos, e depois de inventa- 
riados fossem entregues ao Senhor D. António, 
ou a pessoa por elle nomeada, não obstante 
qualquer appellaçao ou aggravo, os quaes elle 
defereria como de razão ; o que não obstante, 
em desprezo do que havia ordenado havião os 
ditos seus oíficiaes retido a decima parte do 
valor dos objectos inventariados; o que moti- 
vara outra sua Carta Patente , dada em o ulti- 
mo de Outubro de 1 582, na qual mandara aos 
ditos seus oíficiaes houvessem de entregar ao 
dito Rei de Portugal seu primo, e aos Portu- 
guezes seus vasssallos aquillo que delles fosse, 
sem diminuição alguma; constando-lhe que 
sem embargo de todas aquellas providen* 
cias continuavão alguns de seus vassallos^ 
como dantes, a capturarem os navios e fazen- 
das pertencentes aos Portuguezes, dispondo 
delias a seu querer, e perseverando igualraenfo 
os seus offíciáes a receber o dizimo contra as 
disposições das já mencionadas Cartas P<itentes 
de 25 de Novembro 1 581 , e ultimo de Outubro 
de 1582, de novo lhes ordena para atalhar 
d'uma vez a todos aquelles inconvenientes 
e depredações que hojâo de abster^se de 



*- B06 — 

i 

ímxo de tnais graves penas com o ordenado 
nas sobreditas. Cartas Patentes (705). 

An. 1515 Nesta data Henrique III, Rei de Franca e de 
Polónia, expeclio uma Carta Patente ao Senes- 
chal de Nantes ordenando-lhe houvesse de de- 
vassar e proceder com todo o rigor contra 
aquelles que haviSo intentado apoderar-se da 
pessoa de D. António, Rei de Portugal, por lhe 
constar que um certo Hespanhol, chamado João 
de Heredia, que se dizia sobrinho do Marquez 
de Santa-Cruz , com mais alguns cúmplices e 
adherçntes, de sua autoridade privada, em 
menoscabo da delle Rei de Franca e Polónia, 
e contra as leis e costumes de seu Reino, que 
em todo o tempo havia sido o asilo dos afflictos, 
haviSo intentado aprehendere apoderar-se da 
pessoa de seu Primo D. António, Rei eleito de 
Portugal , e da de seus filhos que residiao no 
palácio de Beauvois, pertencente a Madama de 
La Ganache, onde commettêrSo nSo poocos 
excessos e roubos ; tendo-se igualmente certo 
Beauchesne, tenente da companhia do capitão 
Escollin, accompanhado de alguns dos seus, 
apoderado á força de dous* patachos armados e 
avictualhados , com cem arcabuzes , cincoenta 
mosquetes, e mais outras cousas pertencentes 



(705) Briefre et Sommaire Descriptíoa de la vie de. D. An- 
toine, p. 29. 



— BoT — 

ao dito Rei de Portugal, e alem d'Í9to que o 
mencionado ||ieredia havia metido em prisSo 
um padre portuguez por nome Fructuo8oRor 
drigues, que vinha da Rochella com cartas para 
o mencionado D. António, retendo-o de forea 
em Nantes nas casas d'outro Hespatihol, cha- 
mado Pedro d'Almanduche , e que também 
certa Portugueza viuva d'um chapeleiro l^jBô- 
panhol, chamado Valledolid, recebia em sua 
casa espiões em prejuizo de seu serviço e real 
autoridade, por todos estes motivos ordena ao 
dito Senescal haja sem perda de tempo de 
proceder contra os autores d'aquelles attentá- 
dos, e especialmente contra os chamados Herc^ 
dia, Beauchesne, e Almanduche, fazendo pôr 
em liberdade o padre Fructuoso Rodrigues, e 
restituindo os objectos roubados ao dito 
D. António, ou a Diogo Botelho que está eiH* 
carregado d'essa entrega (706). 

Nesta data escreve EIRei de França Henri- An. isss 
que 111 ao Duque de Mercueur, fazendo-lhe sa- 
ber que tendo-se o Senhor D. António Rei 
eleito de Portugal retirado para o Reino de 
França, que fora em todo o tempo o asilo dos 
infelizes, era da intenção e vontade d*elle Henri- 
que III, que o dito Rei de Portugal ali podesse 



(706) Briefr^tlSommilrt DeMriptkm de la rie de P/An- 

toipe, p. 39. 






viver Gom toda a segurança e liberdade, con- 
duzi ndo-se bem^ e de modo a i^o prejudicar 
as cousas c interesses de seu peino^ como sabia 
havia feito, sem embargo do que constava-lhe, 
coin grande magoa sua, que alguns dos inimi- 
gos do dito Senhor D. AntoQJio ae havião arro- 
jado a^attentar á sua pessoa e á de seus filhos 
e^^rteilos, praticando alguns excessos, e che- 
gaado mesmo a rosbál-os com manifesta vio- 
lação dos direitos e leis da hospitalidade, que 
foi sempre respeitads^or todas as nações, por 
tedos aqu^Iles motivos se determinara a tomar 
ò dito D. António e os seus debaixo de sua pro- 
iMçao e seguido, motivo por que lhe participa 
|tor aquella carta afim de que o dito Duque 
haja de prestar toda ajuda aos officiaes que fo- 
rem encarregados das diligencias necessárias 
para a restituição dos objectos roubados, os 
quaes se achavãoem Nantes, de que o dito Du- 
que era governador (T07). 

Aa. 1515 Nesta data Henrique III Rei de França, escre- 
^•^•'^ vendo ao Maire e mais justiças da cidade de 
Nantes sobre as cartas patentes decommissão 
e seguro , passadas a requerimento e em favor 
do Senhor D. António, lhes encommenda hajão 
de vigiar na execução e observaçãa4ÍO.^ue nel- 



ff 07) JJrlefre et Souhaiíi^ |)9iortp(ipa d9 Ia vi9 d« p, Aa^ 



.» 



* 



*. 



las se continha, afim de-M aprehenderam os 
cúmplices do roubo e attentado oommettido 
contra o dito Senhor D. António, em desprezo 
de sua real autoridade, e do respeito devido ás 
leis sagradas da hospitalidade (708). 

Nesta data Catherina de Medicis, mãi de An. isss 
Henrique III Rei de França, esà^eveaD. Auto-, bro™' 
nio Prior do Grato, e asserto Rei de Portugal, 
que nessa occasião se achava em Inglaterra, 
signiíjcando-lhe o pezar que tivera dos damnos 
que a elle D. António havião sido feitos em 
França nos alevantamentos que nesse reino 
w havião passado, não obstante as providen- 
cias que da parte d'ella e de seu filho forão a 
este respeito dadas, como já lh'o fizera saber 
por M. de Ghateauneuf, seu Embaixador, Sem 
embargo do que lhe deputava de novo o capi^- 
tíio Pradín para assegurar-lhe estava tudo dis- 
posto para recebèl-o, desejando summamcntc 
EIKei de França, seu filho, dar-lhe todos os 
meios para o restituir ao trono de Portugal 
(709). 

Nesta data sendo D. Bernardino de Men- An. mi 
donça. Embaixador d'EIRei Catholico, repre- ^fãT 



(708) Briefvc vt Soiuuiaire DencripUon de U vie de D. Au- 
ioiue, p. yò, 

(7 OU) Hrieívc et Soiiuuairo PeiKripliua de iâ vm de D. Aa- 
toiae. VáTUj li}2)), r# 61* 



51d ^ 

sentado a El Rei 3is França por parte de seu 
Soberano houvesse por bem para a conserva- 
ção da paz que entre ambas as coroas existia^ 
de ordenar fossem annulladas e consideradas 
por não havidas as cartas patentes alcançadas 
por Rodrigues, procurador de D. António, Rei 
eleito de Portugal^ pelas quaes lhe fora conce- 
dido de ajudar-se das fazendas portuguesas 
onde quer que as encontrasse^ debaixo da pro- 
messa e condição de embolsar os donos deHas' 
do valor equivalente, quando isso lhe fosse 
possível; EIRei de França ouvido o seu conse- 
lho, e examinado o teor em que as ditas cartas 
evSiO concebidas, mandou responder ao dito 
Embaixador d'EIRei Catholico que desde o dia 
29 de Outubro antecedente havia ordenado se 
sobreestasse a executo das sobreditas cartas, e 
á vista do novo requermienlo que lhe fora 
apresentado ordena que, segundo as vias ordi- 
nárias de justiça em seus i^inos observadas 
sejão as partes ouvidas em seu conselho para 
se lhes fazer a justiça que fór de razSo (J^0). 

An. isM Nesta época dirigirão a EIRei de França e ao 
seu conselho os Capitães da marinha de França, 
uma representação, em o i'* art. da qual sequei- 
xio de que os Portuguezes e Hespanhoes cap- 



(710) Kss. da Bibliolh. Real de Paru (fondi de Colbert}, 
Cud. o'ò%j p. 1157. 



— 511 — 

turavao quantos navios francezes encontravão 
nos mares alem da linha meridional e do ti*o- 
pico do Cancero para as partes do sul, preten- 
dendo que todos estes mares lhes pertencem 
por direito. 

Mo art. 3^. Que uma tal lei estabelecida 
pelos Hcspanhocs ePortuguezes, c posta por 
cllcs em pratica d' ha muito não deveria pare- 
cer cousa nova aos Francezes, assim que era 
fora de duvida que lhes ficava o direito de re- 
peli ir a força pela força, capturando os navios 
portuguezes e hespanhocs pelo mesmo teor 
que estes capturavão os seus : o que parecia 
ser conforme com as intenções d'£IKei de 
França, que ate então não lhes Unha defendido 
de visitar e navegar naquelles mares (71 1). 



(711) S<;p;ue-HC a esta reprcscnlarào uma lista dos iiuvius cap- 
luradtw |h.'Ios l*ortu(;ue7.es u Hespanhocs. Os que lorào captu- 
rados pelos lN>rtuguezes sào os seguintes : 

Anuo de lóJO. O uavio P^u^e^ Capitão Gosselín de Dicppo, 
ioi atacado uo (jauibia |>or uui (çraude numero de Portuguezeu 
c|ue Ibe niaUírao li'eze dos seuit. 

1679. Os (iupiíries Laniole, Gillcs, Cléuicnce, Fret, Houct, 
Guilherme Le Faivre de Dieppe ; Grcnier, Ganiier, e outros do 
llavre, no total onze navios, lc\audoai>ordo por um miUiuo do 
fazendas, torâo ata<'ados no rio de S. l)ouiing4)s no Urasíl pov um 
grande numero de rorlii^ue/es, de lul modo que para remirem 
as vidas forâo obrifrodos a abaudonar seus navios, a que oaPor- 
tu);nez<*s deilurào togo, e a se recolherem uos matos com «v 
selvagens. 

1Ó82. Capitão Luiz La liire de Dieppe, achoiiduse na costa 
d^Uilca a viat« iegoíis do ca^tdiu da Mina > íoi «lacadu |híc 






• ■• 



* 



— 512 — 
An. isu Nas instruccoes dadas nesta data por Hen- 

Abril 1 * 

rique III, rei de França a M.de Fresne-Forget, 
seu Embaixador cm llcspaiiha, Iheencommeií- 
da que, caso ElRei d'llcspanha lhe faltasse na 
liga que contra seus Reinos havia feito com as 
gentes dos Paizes-Baixos^ o irmão d'elle Rei de 
Fi*ança, houvesse de respondcr-lhe certili- 
cando-lhe que aquclias ligas e novidades nao 
havião sido nunca do seu agrado, que ellc 
sempre as desapprovára , e não fizera mais 
pela reverencia que tinha a sua mãi que aber- 
tamente as protegia, em represália da injustiça 
que assentava lhe havia feito ElReid Hcspanha 
nas suas pretençòes ao Reino de Portugal , e que 



dans galeras portuguezas, e obrigado a render-sc com luorlc 
de muitos dos seus. 

158Í. O Capítru) Jncqucft Varin de Dieppe vindo de íratar 
com os nepr«»'« do Cn\\*> Verde foi eiicoii Irado j>or dez íinliõos 
liespanhoes e iMutusuczos , e por clles aturado, vencido, c fei(o 
j>risioncii o com todos os seus. 

1586. Capitão Thomas Uernard de Dieppe traficando n<> 
Cabo Verde foi atacado e bombardeado por duas galeras |Hir- 
tuguezas que o meterão no fundo , com morte de muitos dos 
e seus. 

>^ 1587. Capitão Poidemil de Sai ntonge, tendo hido traficar 

... ao BrasilyC tcudo ali aportado com os seus csliaustode viveres , 

f forâo todos presos na bahia de Todos os Santos , e dezoito dias 

* ** depois enforcados. 

mesmo acconteceo nesse mesmo porto ao Capitão Goribaut 

^ e a 75 homens do navio le Sagc da Rorliela. 

^'' Este documento encontra -te cm uma collecçao de papeis 

'^ avulços da Bibliotheca Real de Paiiz, c nos foi commiuiicado 

J* . por M> Tcrnaiu-Couipans. 



■• ♦ 



% 

m 

K 



bem via EtRei d'Hespanhà que tendo sua mãi 
fallecido, com ser elle Rei de França seu legi- 
timo herdeiro, voluntariamente iiavía dado 
renuncia ás mencionadas ^retenções, como o 
havia feito, e tornado notório na resposta que 
dera aos deputados que lhe haviào sido man- 
dados. Ordenando além disso ao Embaixador 
declarasse ao Rei d'Hespanha que para remo- 
ver todos os motivos de dissenção não punha 
duvida em entregar -lhe a cidade de Cam- 
bray (712). 

Nesta data Dom Bernardino de Mendonça, An. li» 
Embaixador d'EIRei d'Hespanha em Pariz, lhe ""'*" 
participa que por cartas vindas de Roma lhe 
constava estavao de volta as nãos que havíSo 
levado o (íllio de D. António a Berbéria, c que 
EIRei de Marrocos se escusara de ajudál-o com 
ler guerras com alguns de seus vassallos re- 
beldes (71 3). 

Nesta data escreve o Senhor D. António a An- in. ,sw 
touio de Escobar, seu agente em França, ieTda 
dando-lhe parte do mão succcsso da expedição 
que contra Lisboa intentara, sendo a resolu- 



(713) Km. da BiblioLb. Rol de Paríi (fond* «le Colbert), 
Cod. 100, foi. 9?, e Cod. a^HJ áa mesma coIIcc^So, foi. 173; 
cNolice e( EitraiU desM»., T. 2, p. 8?. 

(713) Hu. da tiibliuth. Real ile Parii (fonda d« Colbert), 
Cod. 33. 



lU 



35 



— 514 — 

g3o de tudo o achar-se elle tio porto de Ply- 
mouih 9 o que bem vezes lhe fizera lembrar o 
que elle £sc<^r lhe havia prognosticado^ a 
saber que estavSo ordenando uma victoria para 
EIRei Philippe. Que dali fora a armada a Co- 
runha em direitura porque assim o tinha or- 
denado a Rainha e seu conselho^ e ainda que o 
nSo ordenara estava a dita armada tão falta de 
mantimentos pela pressa com que partira , e 
com o temor que o almirante e seus collegas 
rompessem a ser nada , que não poderia che- 
gar a Lisboa. Que chegados que forão á Co- 
runha se havião embarcado em querer tomál- 
a o que lhes custara assas de gente , e para 
maior desgraça levarão d'ali tal doença, bem 
que dissimulada ^ que quando chegarão a Lis- 
boa não havia gente para commctter uma 
barca ; que a maior parte delia estava mais para 
morrer que para peleijar, e faltava-lhes pól- 
vora. Que a frota que D. Francisco Drak tinha 
em Cascáes não entrara na acção ^ segundo 
elle D. António cria , por ordem expressa da 
Rainha^ porque de outra maneira não deixa- 
ria de entrar, porque ao dito Drak e ao gene- 
ral Norris sobejava a vontade de o meter em 
Lisboa, Que no cabo de tudo, depois de occu- 
parem desde o bairro da Esperança até as por- 
tas de Santa Catherina ti verão de tornar a Cas- 
cáes, e d'a]i se embarcarão com intenção de ir 
ás ilhas e com os temporáes havião sido obri- 
gados a tomar aquelle porto. 



• 



-5,5- , 

Que sabendo nao tinha o dito seu agente 
Escobar recebido cartas d'elle D. António de- ' 
pois que o dito agente se partira de Londres, 
e^revendo elle por duas vezes , entregando o 
derradeiro maço de cartas ao Doutor Lopes , 
se lhe atravessara Manoel de Andrade, que 
dizia ir em direitura a Nantes, e as entregaria 
em mao própria , saia-se agora dizendo quê o 
perdera ou que lh'o tirarão no caminho, o 
que elle D. António nao accreditava.Por tanto 
julgara acertado escrever-lhe para lembrar- 
Ihe se nao esquecesse de avisál-o do que por 
França se passava, visitando a ElRei da sua 
parte, e dando-lhe conta da sua tornada a In- 
glaterra com as circunstancias necessárias, 
signifícando-lhe que elle D. António com o seu 
favor esperava ser aquelle que castigasse os 
seus inimigos , que bem se via de que parte 
vinhSo os trabalhos que elle Rei de França 
experimentava; que feito aquelle oíficio, se 
fòMe possivel dar o dito Escobar um salto 
aonde elle D. António estava , seria cousa bem 
importante porque nraitas havia que não se 
atrevia a dizer-lhe por escrito; que a se em- 
barcar na Bretanha ou na Guiana lá iria ter 
cm breve, o que elle desejava saber com anti- 
cipação; que a carta que lhe mandava para 
ElRei de França era somente de credito , pelo 

que nao se havia extendido mais (714). 
^ • 

(714) Mm. d« Biblioth. R««l de Pwiz (fondf d« CoHiwt), " 
Coa.3», 



t, _ 516 — 

ia. im Ttestadata o sobredito Embaixador, escre- 
vendo a EIRei Catholico, lhe diz que a carta de 
D. António, de que no antecedente correio lhe 
mandara o traslado, lhe havia dado Sansom, c 
que èlle Embaixador aconselhara a David que 
a tornasse a entregar a Escobar, porque sendo 
élla em cifra, seria mais fácil a David o enten- 
der a substancia d'ella do que decifrál-a; que 
havia dado ao dito David ate ao fazer d'aquella 
250 escudos, assim pelo que havia gasto com 
08 que enviara a Hespanha, como no caminho, 
e para elle poder manter-se ao pé de D. Antó- 
nio, porque nas circumstancias em que se 
achava ninguém ]>odia melhor informar-se 
'das cousas d'este Pi'incipe como o sobredito 
David^ sobretudo se elle viesse a mudar de re- 
sidência, porque então era de suppor que D. 
António se servisse d'ene de preferencia a qual- 
quer outro para lhe servir de interprete; e que 
elle Embaixador via nelle inuifo zelo e boa 
vontade para o serviço d'ElKei Catholico, de 
que era prova os perigos a que se havia exposto 
nas idas e vindas que não erão de pouca mon- 
ta , e que naquella occasiSo faria , porque era 
forçoso fizesse ajornada a pé, como um pobre; 
assim que tinha merecido que EIRei Catholico 
lhe fizesse mercê quando se'retirasse ; que elle 
Embaixador lhe havia ordenado de seguir seu 
caminho em direitura, sem ir ao Bearne, por- 
- que o essencial era achar-se ao pé de D. Antó- 
nio, o (jue o industriara no modo por que 



— 517 — 

devia de haver-se; que também escrevera a D. 
Guilherme de Sao Clemente, Embaixador d'EI- 
Rei Catholico em Praga, que escrevesse por to- 
das as vias a Hambourg, e a Danzic que hou- 
vessem de ter conta com os Portuguezes, se por 
ventura alguns ali aportassem ; porque D. 
António estava mui fora de despacho, e a fazer 
caminho seria bom se soubesse o numero de 
amigos e pessoas de seu seio que ali tinha^ 
para elle dizèl-o ao mencionado David, afim de 
que se D. António fosse lá ter soubesse quem 
elle era logo ao desembarcar. Acrescenta mais 
o Embaixador, que ao sobrinho do tal David 
nao lhe dera Deus tempo para ir ter com o Ar- 
chiduque Cardeal, porque falecera na jorna- 
da; que sabia que D. António nao havia estado 
doente, mas sim Diogo Botelho que estivera ás 
portas da morte; que continuava a entreter 
Sansom, porque se nao fosse para Inglaterra, 
porque se o dito Sansom faltasse não poderia 
elle Embaixador achar outro homem tao a 
propósito, como elle, quando se oíFerecesse al- 
guma cousa do serviço d'EIUei seu amo, por- 
que tinha entendimento e pratica (715). 

(715) Mm. da Biblioth. Real de Pariz (fonds de Colbert), 
Cod. 33. 

Em uma nota marginal que se encontra neste documento 
se declara que este Darid , era Manoel d^Andrade, Português, 
espiSo summamente hábil, o qual deo conta cm uma carta 
datada de Inglaterra , de todo o acontecido a D. António depoif 
da sua derrota. Estas cnríom policias seiio transcrqpUf na 
fccçSo nx du iKMMs RelaçOcf com Inglaterra, 



# 



An. nn Nas instrucçdes dadas nesta data por Henri- 
WDis quelV,ReideFrança,aM.deBreve8,8euEiii- ^. 
baixador em Constantinopla, encommenda-Jbe 
este monarca como um dos príneipaes dtóos 
de persuadir o SultSo de apartar-se da allian^ 
d'Hespaiiha , o lembrar-llie os 6ris a que 
tendia apolítica d'aqueUegoverno, e as conse- 
quências que d'ella podião dimanar com o vol- 
ver dos tempos, servindo de argumento a ele- 
vação e grandeza a que tinhachegadoa monar- 
quia hespanhola com a usurpação dePortuga) 
efleituada por Felippe II, não failando no de- 
sígnio que também tivera de se apoderar do 
trono d'Ingla terra (716). 

ÀD. itn Nesta date uma das instrucçSes que EIRei de 
bro to" França deo a M. de Breves, seu Embaixador 
em Constantinopla, f(x que houvesse de empe- 
nhar-se com o Grão SultSo em favor de D. An- 
tónio despojado por EIRei d'Hespanhado trono 
de Portugal, e então refugiado em Inglaterra, 
em tudo quanto dissesse respeito aos negócios 
d'esse Príncipe, e particularmente no eoncei^ 
nente á reclainacSo e acção intentada por elle 
contra um certo Álvaro Mendes, alias Salamão, 
que fora feitor dos jfteis seus predecesso- 
res, e até então lhe não havia dado contas, 
como mais meudamente informariSo ao dito 



(716) Mu. da Bibliotb. Real de Porii (fondi de Br{eime>, 
foi. 3S. 



-- 5Í9 — 

Embaixador as pessoas que tinhao a seu cargo 
as cousas do mencionado Senhor D. António^ 
a quem prestaria cm nome d'a11e Rei de França 
todo o auxilio que podesse tanto nesse particu- 
lar como em todas as outras suas pretenções 
(71 7). 

Carta patente de Henrique IV, Rei de França, An. ims 
em favor de D. António Prior do Grato, asserto 
Rei de Portugal. 

, Nesta data não podendo ElRei de França, em 
razSo do máo estado em que se achavao as fi- 
nanças de seu reino, cumprir a promessa que a 
D. António havia feito de lhe emprestar cento 
c vinte mil escudos para se restabelecer era 
Portugal contra a usurpação que d'elle havia 
feito ElRei Philippe, pela mencionada carta 
patente convida a todas as pessoas de seus 
reinos a assistir com as quantias necessárias 
para prefazer a dita somma de cento e vinte 
mil escudos ao dito Senhor D, António, seu ir- 
mão, primo, e alliado, obrigando-se elle Rei 
do França ao embolso, o que eíFeituaria consi- 
gnando para isso o producto das receitas ge- 
raes de Pariz, Ruào, Caen, Orleans, Tours e 
Poífiers do anno futuro de 1596, sendo o 
pagamento e embolso feito no fim de cada tri- 



(717) Mss. da Dihlioth. Real de Parif (fondt de Colberi), 

Cod. 100, foi. 221 y\ 



— 520 — 

meslre : o que tudo promette cumprir, como 
roais amplamente se coutem na sobredita carta 
patente debaixo de sua real palavra (T18). 

^J^^ Nesta dataestftudo o Senhor D. Antoniogra- 
vemeutc infermo escreve a Henrique IV, Rei de 
França, e diz-lhe que ainda que seja obi-igação 
dos Reis a quem Deus ajuda o amparar os que, 
lançados Tora de seus estados, a elles se aco- 
lhera, mais particular fica sendo a dita obriga- 
ção para aquelles que também já se virão 
alíligidos : e que posto que os trabalhos d'elle 
D. António houvessem sido mui diffeventcs de 
todos, e as calamidades e misérias que havia 
tantos annos padecia fossem mais para dar 
exemplo a outrem que para ellc tomál-o, 
bastava a experiência que de taes males tinba 
ElRei de Franca, para elle D. António estar 
persuadido da boa voulade que sempre EIRei 
tivera de assisti 1-oe ajudai -o em sua pretençào, 
a qual sem duvida conseguira, se as necessida- 
des do tempo não forão dilatando tanto a El- 
Rei de França a execução d'aqueUa obra, e a 
elle D. António encurtando por tal modo a 
vida que temia se lhe acabasse esta primeiro 
que acabasse elle a sua empresa. Assim que, 
pedia a EIRei de França, que caso Deus o le- 



(718) Briefve «t Sommnire Deicnptioa da U tís de D, JLn- 
toine, etc. Puú, IS29, p. 11?. 






-sal- 
vasse para si com a sede que havia tantos ân- 
uos trazia da restauração de Portugal^ quizesse 
lembrar-se de seus filhos e criados que ali 
deixava desabrigados, bem como de Diogo Bo- 
telho a quem elle deixava encommendada a 
sua pobre familia (71 9). 

Lyao. — Nesta data escreve Henrique IV, Rei ^^,J|gf 
de Franca, a Diogo Botelho significando-lhe o **"* *• 
grande pezar que tivera com a morte de seu 
primo ElRei de Portugal, de quem tinha rece- 
bido a carta que pouco antes de sua morte lhe 
escrevera : que o dito seu fallecido primo 
deixara um testemunho do são juizo que tinha 
na escolha que d'elle Diogo Botelho ede Scípião 
de Figueiredo havia feito para serem os execu- 
tores de suas ultimas vontades. Que pelo que 
dizrespeitoás particularidades que seu fallecido 
primo lhe havia deixado cargo de communicar 
a elle Rei de França, esperava estar em breve 
cm Pariz para as ouvir da boca d'elle Diogo 
Botelho ; que entretanto dava ordem aos de 
seu conselho de finanças que se achavão em 
Pariz de pagar o que a seu primo 'se devia de 
sua pensão até o fim do anno que corria, e que 
nesse prazo avisaria ao que para o futuro coo» 
vinha que se fizesse a beneficio de Dom Ghrift- 



(719) BrícfTe et Sommaire Description de la TÍe de D. An- 
toiiie> etc. Paris, 1629, p. 116. 



— 522 — 

torSo e 8cus criados, entre os quaes nao igno-. 
rava o lugar e posto que elle Diogo Botelho oo 
cupava (720). 

An. 159T Nesta data se celebrou um tratado de alliança 
e amizade entre Henrique IV, Rei de França 
d'uma parte, e o sultSo Mehemetd^outi^a, con- 
firmando- se nelle, e renovando-se as estipu- 
lações da con vencSo de 1 507 com mais aIsu-> 
mas ampliações, sendo uma d'ellas a que foi 
expressada no art. Ill, em que se declarou que 
os Inglezes, Hespanhoes, Portuguezes, e outros 
que navegassem e aportassem nos portos do 
dominio da Porta, se o fizesssem debaixo da 
bandeira (Vanceza, seriao tratados como os 
mesmos Francezes, e gozariSo da mesma 
proteção e amparo (721 )• 



(720) Briefve et Sommaire, Descríption de la vie da D« Àn- 
toine. Paris, 1629, p. 129. 

Na mesma data , e quasi na mesma conformidade escreTêo 
o mencionado Monarca a Scipião de Figueiredo, segundo eiaca* 
tordo testamento do Senhor D. António, o qual morreo em 2$ 
d^Agosto do anno já citado de 1 595 com 64 de idade. EIRei de 
França escreveo ao Príncipe de Conty, e ao Cardeal de Gondy 
sobre a ordem que se devia guardar acercado corpo do defunto : 
os quaes o fízerâo embalsemar, e achou-se ter sido causa de sua 
morte a petríficação dos rins. Foi o corpo metido em um caixão 
de chumbo , e como o quizesse depois na capella da Rainha 
mãi , opposerão-se os executores do testamento por causa da 
despeza. coração foi depositado na igreja da Are Maria ,.e o 
corpo levado para o convento dos Franciscanos de Pariz. 

(721) Mss. da Biblioth. Real de Pariz, God. 10,344 (fonds 
deBnenne)9P. 1. 



— 523 — 
Nesta data o celebre Duque de Sullv, escre- Ap. ism 

1 " ' Abril S 

vendo a Henrique IV, exhorta-o a precaver-se 
conlra a politica d'Elllci d'IIespanha, a qual 
desde Carlos V nao tendia a outra cousa mais 
que a uma monarquia universal e absoluta, a 
que havia dado principio a reunião das casas 
d'Austria e d'llespanha, e progredido de modo 
a assustar a imaginação, adquirindo por via de 
casamentos as províncias dos Paizes Baixos e 
ducado de Borgonha o reino de Navarra, e 
por usurpação o de Portugal (722). 

Instrucçòes d'ElRei de França para o Conde An. laoo 
de La Rochepot, enviado a liespanha , or- 
denando-lhe de prestar auxilio perante o 
ministério hespanhol aos fidalgos portuguezes^ 
que alli se achavao (723). 

Nesta data se celebrou um tratado de reno- An. im 
vaçao de alliança entre Henrique IV, Rei de ii 
França d'uma parte, e a liga dos Suissos d'ou- 
tra, em o art, XXII ilo qual forão reservados 
por parte d'ElRei de França o Papa e a Santa 
Sé, o Imperador, ElRei d'IIespanha, de Portu- 



(722) Mss. da Diblioth. Real de Paríi (fondj de Brienne), 
Cod. 10,3<4, p. 31. 

(723) Biblioth. Real de Pariz, caM dos Mn., Cod. 8,965, 
p. 'íO. 

^id€ a nossa NoticU dos Mss. da Diblioth. Real de Parií. 
Lisboa, 1827, p. 15. 



oo4 



gal^ d'Escossia, Dinamarca, Suécia, c Polónia, 
a Senhoria de Veneza com os Duques de Lor- 
rena, Sabóia, c Ferrara (724). 

ab. IM7 Nesta data se passou alvará para Joào Pe- 
droso, Auditor geral do exercito, conliccer, se 
os Francezes c Inglezes levavào mercadorias 
d'este reino a portos de inimigos (725). 



oSiabn Cirta patente de Luiz XIH , Rei de França, 
concedendo a M. de Ravardiere o cargo de seu 
lugar-tenente para estabelecer unia colónia 
no Brasil (726), 



An. 1614 Carta de Ravardiere, Coramandante francez, 
**■" a Jeronyrao de Albuquerque, Commandante 
da conquista do Maranhão (T27). 



An. 1611 Capitulação entre Ravardiere e Jeron ymo de 
Albuquerque. (728). 



(72 <) Dumoiit, Corps Diplom., T. 5, P. 2, p. IS. 
Frédéric Léonard , T. 4. 
Mercure Français, T. 1, p. 81. 

(725) ArchiTo Real da Torre do Tombo, Corp. Chron., P. 2, 
mtç. 313, doe. 79. 

(726) Berredo, Ann. Híst. do Maranhão, p. 148. 

(727) Berredo, Ann. Hist. do Maranhão, Iít. 4, p. 124. 

(728) Berredo, Ann. Hist. do MaranhSo, p. 144. 
Mem. pm a Hvt da Capitania do Ibaranhão , p. 80. 



— 525 — 

rrfslrucção de Joroiiynio de Albuqiierfpie *n. isii 
para Gregório Fragoso de Albuquerque (729). ""• '* 

Nesta data se lavTárao os Ajustes no Mara- *«. ms 
**nli3o(730). 



I 

i 

I 



Relação do roubo que fizerSo os Francezes a 
d'uma náo que vinha do Brasil, e da restituição 
que sepedio á França, c por a não querer dar 
se mandarão embar-gar os bens dos Francezes 
'ate á quantia do roubo (731). 

Carta patente de Luiz XIII, nomeando a An. ■«»' 
M- de Ravardiere, e Londriers, Tenentes Ge- 
neraes na America, desde o rio ilas Amazonas 
stí: a ilba da Trindade (732). 

Assento tomado por EIRei de Franca cm *„. , 
eonselho, em virtude do qual mandou entre- *'""' 
gar a um certo Freitas, cavalleiro da ordem de 
Ciiristo , agente d'EIKci de Hespanlia, os restos 
dos navios portuguezcs naufragados nas costas 



(;!9) tterredo, Ann. IlUt. do U*rnnlilo, foi. 159. 
(730) nerrcdu, Aim. U»t. do Harauhlo, M. 173. 
[731} ItiblioUi. itcal de Hudríd, csl. li a" 55, fui. IR6. 
(73!) UiMIoth. Real de Vtuh, casa doi Hm., Cod. 9.350 
ftl8,p.!3. 

fiJt a noúcta doa M». dk SiblioUi. Utial de Tatu , p. 15. 




— 526 — 

lia Boauce, desde Cabo Brelao, e praias de Me- 
doc(733). 



An. ii;i4 Dcclaracào de Luiz XUI, Rei de Franca, 
mandando a seus vassallos, que nao commettão 
hostilidades contra os navios hespanhoes,e 
portuguezes (734). 

Agôsi.15 Primeira instrueçao dada a M. Sampé, 
Cônsul de Franca em Lisboa (735). 



(733) Bibliolh. RcaldePariz, casa dosMss., Cod.320. 

(734) Brelodano, Trat. de riiilippe 1\ , T. 2, p. 592. 

(735) Negociarrio das Embaixadas do Doutor Luiz Pereira de 
Castro (Mss. da Coroa na Bibliolbeca do Rio de Janeiro). 



FIM 1)0 TEBCKIRO TOMO. 



rARIS, "M NA OFFICINA TYPOGKAPniCA DE FAI.\ K TUM^QT^ 

Rua Racine, 29, juDto ao Odeoo. 



""'o"""í'"! 'li" """""""" """81111 IH mi I 
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