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Full text of "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem"

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QUARENTA E CINCO DIAS 



ANGOLA. 



APONTAMENTOS DE VIAGEM. 



NA rVPO(iH.\PlIIA DE SKHASTIÀO JO?É PEKEIl-.A, 

liiia (lo Almada, 641. 

1862. 



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QUARENTA E CINCO DIAS 



ANGOLA. 



BOSTON PUBLIC LIBRARY 

Josiah H. Benton 
Fund 



QUARENTA E CINCO DIAS 

EM 

ANGOLA. 



APONTAMENTOS DE VIAGEM. 

b ^ 




1862. 



//Ce y/- jQ 



porto: 1862 — typ. de sebastião josé pereira, 
Ruado Almada, 641. 



AO LEITOR. 



Decorreram uns poucos de mezes depois de con- 
cluída esta narração de viagem, que o author desti- 
nara a um amigo de infância. 

O único motivo que o decidiu a imprimil-a foi 
o desejo de satisfazer ás instancias dos seus amigos 
e conhecidos, a quem ouvia frequentemente dizer : 
— Haja tanto tempo que regressou d' Angola, e nada 
nos tem contado do que por lá viu. 

O leitor sabe perfeitamente que é tão aborrecido 
ouvir contar a mesma historia muitas vezes, como ter 
de a repetir a varias pessoas. Foi para evitar esse 
incommodo que resolvi publicar esta obra sem mere- 
cimento litterario ; — occuKei de propósito o meu no- 
me, para que se não julgasse que a vaidade podia ter 
alguma parte em determinação tão temerária. Tam- 
bém me não poderão arguir de especular com esta pu- 
blicação, porque dos poucos exemplares que mandei 
extrahir, mais de metade serão espalhados por todos 
aquelles que me honram com a sua amizade, e a quem 
com prazer a oíFereço. 



Porto, 8 de Novembro de 1861. 



^^^e^í caia <^ 



J^^d^aoa 'í^ c/e K^fÔato ae y^^. 



canc/edcenc/encm /ee€' /cíjf,e'»' a S^jfé'í'ca. 

& lud/a tí-ue cu^n/i4^a a títee •^e ^'iO'í^e/ú, e o^ue 
Ace^e a aa^-^e a ^edAee/a a a^-ue^/md no^ad Aod- 
dejdoed, a^naa /ao Ao^^co cor^nec^aad €'í^Ae nád, od 
€dc/a'é€C€''»nen/od aiie ^n-e Aeoád/cd. 

õ' Aoaca /e'?n/io a-ae '»ne ae^to^et. e'r/n S^'ríao^ 
^ao ^ne Aie'é'mt//e de^ /ao '^^/'^^uctado ccx'^na c/ed^a- 
va^ >^e'^rí. c/e e^/ia'»^ ^a aAéec/acao c/e ceé/od /ac/od 
o^ue de Aia/cca'»^ Aaia o /n/e4€0'»^ o/a c/i^omnc-ca/ 
Aoé/a^/o o(ua^/o a ed/e '^edAei/o /e c/^er, de<.'~oAo'»' 
^92 a /e'ée'f9t con/ac/o Ae/doad o^ue con^necc^^i /.e^^n a 
/n/e'é€o^, 0'?^c/e ^nao /a/, ^e'/n c/ede^atJta i<^. 

^az/nZ-e^-n en/enc// c/et^e^ Aa/da^y^ e^f^-t c/aia od 
eA/docuod y?7^ai€Úy^od c/a ^^€'aae9n, Aoétíue e a€'>^e4o 
ofue od ^o^^anced /e'f9^i Aod/o jfaéa c/e com/.a/e. 



òd/ad €'mA'ée^aeJ e<Jcé^^'^ad a^im ao coéíey aa 
Áen^a, Aao ae ■nece^auan^ en/e .í'ede?7/ty-de a ^^ào/ 
^■naà o '^ncM Á''^?. ^4<nc€y2a/ /o^ act^-Ze a'?77a tc/eia 
ao Aa€^ a^e màt/e-c' — a^^ede/i/a^-/e, Aor a^C'»n 
a^^e^f", n ed/e /iaúa/Zio, urrea /íAaZoataAÃta, €'9'n- 
'Uaia a Aiova /^ao da-n^^e /íeijfet^a. 

/&aa de-c de /oine-c ^e'f7^ da^enZed a'^U'í'?7ad ^'e- 
j^é^í/iaJ, aue de aojíe-é^a^n. -tn/éoao^^'^ 'nad ^io^ad 
co^</i<ad, ae ^^e '^a^f^/od ^ed^^^aceod /ioaca^?^?.ad co- 
-^e-»' — a ao ta do^ie/^^c/o aae a aued/ao ao aiyoaao, 
Aa^a a/^ /em ^2-c€€'/o Aai/€c^/a4*n€^/e a//4a/uc/o 
a de^^a a//e/tcão c/a ^^a-Uí/e^ia. 

^Tao aoud od AanZod e^e^c^aed, e doZ-ée od 
a€€aed ^7a<d aede^ava ^hdtd/r.'^.' 

S^ €^nAo4/a>tC(a c/ad '99t<^Õ€d, co'?^na //íuí. 

^oae^odo yneio Aaéa cõ/tde-étía^ f a^^a^f^zen/ai' a y€- 






tntíryàarà e 



/lovod, /e-è-mi./^a/^c/o a/e cei/a Ao^/a ad 

aedaiae-nd '0.e/u'codc€d e-^n ç^ue anc/a^nod can/^h^ía- 

'men/e ca'?n- od ^nr/tae^^ad c/a <V?/€ito^, e 

'S^ ^n^c/a?2ca c/a (^aA^/a/ /iaia K^ÔexJ^a- 

'^neaed, ^^e Ae/a d eia ueíM di/uacao e '?9taa'^'cY<co 
cu /na ed/cé /a^ar/a Aa^ta de^^ a ^a/i/Zatc/a c:^4o- 
mnc-c'a a t^^^r^o/a. (y aoneino ç/eveiía de^y a A^<- 
'^neiio e^^n de emAcí^Áa»^ -n e^a -tn-^iaiJacaO; c/a aaa/ 
c/eAe^c/e /a/vej^ o /a /ai o c/ aa-ae//a ncx/dc^ /ít^e/dacx . 
^/)//cí /d/o, Áác/ed Áitncc/iccír a /ec/cacc c/ e/Sed 
a/ion/a'?ne/2/od c/e ti/aç(e'?9z. 



QUARENTA E CINCO DIAS 



ANGOLA. 



APONTAMENTOS DE VIAGEM. 



-4-9t-H- 



Governo geral d'Angola comprehende a parte da 
costa Occidental da Africa, que se acha pouco mais ou 
menos entre 8 e 16 graus de latitude sul ; — vem a ter 
proximamente 220 léguas d'extensão, e talvez 130 de 
largura. Digo talvez, porque em muitos pontos os nos- 
sos limites estão ainda mal demarcados, e são essas du- 
vidas que por varias vezes tem dado causa aos ataques 
que temos soíFrido da parte do gentio. 

De todas as povoações d'Angola, Loanda, como se 
pôde suppôr, é a mais importante; seguem-se Ben- 
guella, Mossamedes, e o Ambriz na extremidade do 
norte. 

Os rios mais importantes que atravessam o nosso 
território de leste a oeste, são : o Ambriz — o Dande — 
o Bengo — o Coanza — o Longa — o Giinza — e o 
Catumbella; além d'estes ha mais treze de segunda or- 
dem. 



2 

A nascente tUalguns d'estes rios é ainda de nós igno- 
rada, ou pelo menos muito duvidosa, principalmente 
a do Coanza, a respeito da qual bastante se tem es- 
cripto, sem que nada de positivo se tenha colhido a tal 
respeito. 

O defeito principal de muitos rios d'aquella nossa 
possessão, é de terem escavado pouco o seu alveo nas 
proximidades da costa; — as areias que elles arrastam 
sào tão abundantes, que seu fundo, por falta de corren- 
tes fortes, se conserva quasi sempre na altura dos terre- 
nos confinantes; sitios ha tão permeáveis, que as aguas 
somem-se n'uma grande extensão para reapparecerem 
a pequena distancia da foz. 

D'aqui resultam dous grandes inconvenientes : em 
primeiro lugar lorna-se a navegação muito difíicultosa, e 
até impossível em grandes extensões; e em segundo na 
época das chuvas chamada — das aguas — não podendo 
os leitos conter a grande quantidade de agua que a elles 
afíluem, espalham-se pelos terrenos marginaes, onde se 
conservíim por alguns tempos. A esta trasbordação, cha- 
mada cheia, attribuem os indigenas a fertilidade d'aquel- 
les terrenos, e não é raro vér os pretos irem fazendo as 
sementeiras á proporção que as aguas vão recolhendo 
ao leito natural. Ha sitios mesmo, onde praticam toscas 
comportas para inundar certos terrenos que por muito 
tempo se conservam cobertos de agua, até que sumin- 
do-se e evaporando-se pela acção do sol, dão lugar a 
que n'elles se faça a sementeira. 

Esta é sem duvida uma das principaes causas das 
febres a que dão o nome de carneiradas , e que devoram 



— 3 — 

por anno centenares de pessoas na Província d'Angola. 
As folhas séccas, o capim, e mil vegetaesque brotam es- 
ponlaneamciite nas margens dos rios, depois de cober- 
tas pelas cheias, entram em decomposição, e passam ao 
estado de putrefacção apenas recebem os primeiros raios 
do ardente sol tropical ; d'alli o desenvolvimento dos 
miasmas pestilentes que os ventos chamados terraes es- 
palham por toda a parte. Era talvez possivel cohibir 
tudo o que a este respeito é causado pela mão do ho- 
mem, mas de que serviria isso, e como remediar o mal 
causado pela natureza n'uma tão grande extensão, e tão 
variados sitios? 

Pensar em canalisar os rios seria uma loucura, que 
pôde por ventura vir á mente de qualquer dos nossos ho- 
mens d'Estado, mas que o bom senso reprova, e que não 
deixará de ser stigmatisada por todo aquelle que tiver o 
mais pequeno conhecimento do paiz, e não ignorar o es- 
tado de penúria em que nos achamos. O que veio con- 
firmar a minha asserção acerca da causa das epidemias, 
foi o seguinte facto que me contaram em Mossamedes, 
excellente terra, que tantas recordações me trouxe do 
Minho, e da qual fallarei mais detidamente. 

Quando os primeiros colonos que se deram á cultura 
nos terrenos de Mossamedes, foram em busca do local 
mais apropriado para fazerem os seus ensaios agrícolas, 
depararam com uma extensa planura onde indubitavel- 
mente tinham em tempos immemoriaes corrido, e talvez 
estagnado, as aguas que mais tarde escavaram e se reco- 
Iberam ao sitio onde hoje corre o rio Béro^ a não mui 
grande distancia do sitio chamado as — Hortas. Ospri- 



— 4 — 

meirosque tentaram revolver aquella terra foram victi- 
raas dos seus esforços, e não foi sem receio, sem muito 
perigo, e sem pagar um largo tributo de vidas, que 
aquelles infelizes conseguiram arrotear aquelle terreno 
virgem, e de uma extraordinária riqueza. Depois d'isso 
desappareceram as febres, e hoje Mossamedes é tanto 
ou mais saudável do que qualquer cidade do sul do 
reino. 

Suppondo mesmo que actualmente fosse possivel 
tornarem-se a inundar aquelles sitios, é muito provável 
que os effeitos não fossem os mesmos, porque o solo 
acba-se limpo na maior parte, e muito revolvido pela 
constante cultura, e o aquecimento e decomposição das 
raras plantas parasitas que alli se encontram, pouca ou 
nenhuma influencia poderiam ter na pureza do ar. 

O assoreamento dos rios é devido á natureza mesmo 
do terreno, que na maior parte dos sitios que percorri, 
é composto d'areias grossas, e d'argila de varias cores. 

Com quanto tenhamos direitos inquestionáveis á 
posse do rio Zaire, nao deve elle ser considerado como 
pertencente á Provincia d'Angola; direi comtudo al- 
gumas palavras a respeito d'este rio, um dos mais im- 
portantes da costa occidental d'Africa, a fim de tornar 
mais intelligiveis alguns trechos que mais adiante se hão 
de encontrar. 

Tem o Zai7'e de largura na sua foz, cerca de vez e 
meia a do Tejo, e apesar dos muitos obstáculos que elle 
apresenta, póde-se considerar navegável n'uma extensão 
de trinta e cinco milhas em tempos normaes, porém na 
época das aguas a corrente chega a ter dez e onze mi- 



— 5 — 

lhas de velocidade. Nas margens d'este rio, e em ter- 
reno summamente pantanoso, acham-se estabelecidas 
sobre ilhotas d'areia, varias feitorias estrangeiras e na- 
cionaes que o Arnbriz alimenta, e d'onde se espalham 
as negociações e trocas para a Cabinda, para o Congo, 
e para muitos outros pontos das margens do rio. A 
contar do ponto onde o Zaire deixa de ser navegável 
por navios d'alto bordo, e para o lado de leste, divide-se 
o rio em vários affluentes, e ahi começa a confusão 
acerca da sua origem. 

Os esclarecimentos fornecidos pelos indígenas, tanto 
sobre o curso dos rios, ou a situação de qualquer po- 
voação, merecem sempre muito pouco credito, porque 
ou seja por falta d'inlelligencia, ou por ligarem pouca 
importância a estas cousas, raro é encontrar meia dúzia 
que concordem entre si. O modo como elles contam as 
distancias, e a facilidade de se contradizerem, não são 
garantias para estabelecer factos que a muitos interes- 
sam. Para ir de tal ponto a tal outro, dizem elles, é pre- 
ciso que durante a jornada o sol appareça tantas vezes. 
E' uma maneira bastante vaga de marcar uma distancia, 
e o erro pôde ser tanto maior, quanto ella o for. 

Se se perguntar a um negro, se para ir a tal sitio se 
toma pela direita, elle responde sem hesitar: 

— Pela direita, sim senhor. 

Mas se lhe disserem immediatamente que pela es- 
querda também lá se deve ir ter, elle replica logo : 

— Também, sim senhor. 

Uma vez perguntei a um preto quantos dias seriam 
precisos para ir ao Dande. 



— 6 — 

— Sete, meu senhor — respondeu elle muito de- 
pressa. 

Como esta resposta precipitada me fez acreditar que 
talvez nem elle soubesse onde era o Dande, disse-lhe 
para o experimentar: 

— Mas tem havido quem lá tenha ido em dous 
dias. 

— Em dous dias, sim senhor — accrescentou elle 
muito de prompto. 

Já se vê que quem se fiar em taes mentores a muito 
se arrisca. 

É nas margens do Zaire que actualmente mais se 
trafica em escravatura, e muitas das feitorias, para não 
dizer todas, de que acima fallei, não são mais do que 
capas que acobertam, ou dependem d'esse género de 
commercio, que as convenções propostas pela humana 
Inglaterra, e acceites pelo ingénuo Portugal tiveram a 
habilidade de tornar o mais lucrativo de toda a costa. 

Apesar do apparato das estações navaes, e dos no- 
meados cruzeiros, a escravatura continua, e ha de sem- 
pre existir, já porque os lucros são enormes e convidam, 
já porque o vapor empregado no transporte dos negros 
apresenta um carregamento com menos despeza na Ha- 
vana, fugindo rapidamente a qualquer navio que por 
acaso appareça na occasião da sabida. O negreiro, além 
de ser sempre atrevido e esperto, é summamente gene- 
roso ; sabe dar grandes jantares e lautas ceias áquelles 
que lhe convém obsequiar, perde mesmo ao jogo alguns 
contos de reis, quando aquelle de quem depende está 
em veia de ganhar, e se fôr preciso emprestar, ou man- 



dar entregar qualquer quantia em Lisboa á ordem das 
authoridades civis e militares da terra onde se achar, ou 
mesmo de algum officialde marinha, ninguém o faz com 
mais pontualidade. Se as authoridades são, d'antes que- 
brar que torcer, o que é excessivamente raro d'encon- 
trar em Angola, soffrem muitos desgostos, armam-se- 
Ihes immensas intrigas, correm mil perigos, e sempre 
são illudidas. Raro é aquelleque não cansa muito breve 
de luctar com tanto inimigo, e até com a própria con- 
sciência. 

A repressão da escravatura tem feito subir de uma 
maneira incrivel o preço dos escravos: ainda não ha 
muitos annos que um negro na America o mais que cus- 
tava eram quinhentos mil reis, e hoje na Havana com- 
pram-se quantos apparecem pelo dobro. 

Facilmente se comprehende que é um negocio que 
deve tentar muita gente. O preço médio de um preto, 
ou preta em qualquer parte da costa, é de quarenta a 
cincoenta mil reis ; mas o negreiro por esse custo já dá 
um grande lucro ao agente, que o obteve a troco de al- 
guma pólvora, de aguardente, ou de missanga. 

A fiscalisação por parte da estação naval, a maior 
parte do tempo é feita por um palhabote, commandado 
por um segundo tenente, ou por um guarda-marinha, e 
tripulado por um patrão e dez a doze marinheiros ; per- 
correm as feitorias, visitam as barcas e navios que saem 
dos portos suspeitos, e quando descobrem alguns pretos 
retidos para embarcar, ou que tentam levar para fora es- 
condidos entre lenha e outros géneros, fazem a apprehen- 
são, e conduzem-os para Loanda, onde são recolhidos no 



— 8 — 

antigo convento ou collegio dos jesuítas, vulgarmente co- 
nhecido pelo pomposo titulo de — Obras Publicas — . 
A estes pretos, e aos que são appreliendidos no alto mar, 
é que dão o nome de — libertos; custa o sustento d'esta 
gente cerca de treze mil reis por dia ao cofre da Provín- 
cia, sem d'ahi colher proveito algum. Muitos d'estes li- 
bertos são distribuidos pelos proprietários que os requi- 
sitam, debaixo de determinadas condições, entre as quaes 
me parece estar estabelecido o tractamento que os pre- 
tos hão de receber, e o numero de annos que tem de 
servir; porém esta ultima clausula, posso afiançar, que 
nao é cumprida, como provavelmente a outra não o 
será. 

Deveria haver da parte do Governador geral o maior 
cuidado em não conceder libertos senão aos proprietá- 
rios, ou colonos que se dedicassem exclusivamente á 
agricultura, e que não tivessem meios sufficientes para 
comprar os escravos precisos. Seria mesmo muito con- 
veniente e acertado, que se concedesse grande numero 
d'estes pretos aos agricultores das ilhas de S. Thomé, e 
do Principe, onde, por falta de braços, se estão per* 
dendo bellas colheitas de café. Sei de boa fonte, que os 
cultivadores d'estas ilhas não só os tractariam com muita 
humanidade, mas que lhes dariam uma soldada em har- 
monia com o trabalho de que fossem capazes. 

Infelizmente, longe de proteger a cultura n'aquellas 
ilhas, os nossos ministros que, por desgraça, tem sem- 
pre sido homens que não formam a mais pequena ideia 
do que são as nossas possessões, tem legislado de um 
modo que lhes tem sido bem funesto. Não quero de 



— 9 — 

forma alguma contestar as boas intenções do Visconde 
de Sá, mas é innegavel, que mal aconselhado, ou infeliz- 
mente inspirado, elle se tem tornado prejudicial á Pro- 
víncia d'Angola. 

Não é de certo n'um paiz onde ha falta de braços e 
onde o preto é por natureza o único ente próprio para o 
trabalho, porque elle só resiste ás fadigas e á influencia 
de um clima que nos é tão prejudicial, que se lhe deve- 
ria ter concedido a liberdade de que não é digno. O 
abuso que elles fazem d'essa liberdade veio crear não 
poucos embaraços e difficuldades ao commercio d'aquella 
Provincia. 

O preto geralmente é traiçoeiro, mentiroso, ladrão 
e bêbado : ba-os bem morigerados e aíFeiçoados aos seus 
senhores, mas esses são tão raros como os bons sone- 
tos. Todos são indolentes por habito e systema, mas as 
suas necessidades são mui limitadas e fáceis de satisfa- 
zer. Três metros de fazenda d'algodão estampada, um 
punhado de farinha de pau e uma pinga d'aguardente 
de canna [cachaça) são os únicos objectos de que ne- 
cessita para se vestir e sustentar; uma cubata^ ou bar- 
raca composta de ramos de coqueiro e barro, que elle 
levanta com summa promptidão, serve-lhe d'abrigo e a 
suas companheiras: uma simples esteira estendida no 
chão é para elle um excellente leito em que o braço faz 
as vezes de travesseiro. 

Para occorrer a tão diminuta despeza não necessita 
cansar-se muito, e não é raro encontrarem-se pretos a 
quem as pretas sustentam, sem que elles tenham mais 



— 10 — 

alguma cousa a fazer, do que ir levando docemente uma 
vida patriarchal. 

Cabe aqui fazer distincçao de uma certa raça de pre- 
tos que, com quanto não pertençam aos nossos estados, 
se acham em grande numero emLoanda, onde vão pro- 
curar trabalho. 

Chamam-lhe Cabindas, por pertencerem a essa po- 
voação que fica ao norte do Zaire. Esta gente occu- 
pa-se quasi exclusivamente em serviços marítimos: são 
elles que fornecem para Loanda, juntamente com os 
Muxi-Congos, a agua do Bengo, e que fazem todo o 
serviço da pequena cabotagem, e do porto. O esca- 
ler da alfandega é tripulado por doze Cabindas, que se 
tornam insupportaveis com a sua aborrecida cantilena 
com que acompanham constantemente o movimento dos 
remos. Esta raça de pretos é sem duvida a mais activa 
e a mais útil que se encontra em Angola, onde prestam 
excellentes serviços ao commercio. Teem um cônsul 
em Loanda, e são governados na sua terra por um preto 
educado no Brazil, fallando varias linguas, e que se 
apresenta mui decentemente. Recebe n'uma soffrivel 
casa de habitação bem mobilada, e obsequeia todos 
quantos o procuram, mas para não desmerecer dassym- 
pathias dos seus patricios, habita n'uma cubata modes- 
tamente construida. 

Todos os navios nacionaes e estrangeiros que che- 
gam a Loanda costumam, para poupar as tripulações, 
tomar para o serviço de bordo uma companha de Cabin- 
das, commandada pelo seu capitão. Muitas d'estas com- 
panhas conservam-se a bordo dos navios que teem de 



~ 11 — 

percorrer a costa, e alguns d'elles já teem vindo a Lisboa 
a bordo dos vapores da — União Mercantil — ; cons- 
ta-me até que um d'estes para cá trouxe um íilho que 
tem a educar n'um collegio da capital. 

Os Cabindas são summamente económicos, e como 
a bordo recebem a ração, e uma macuta por dia (cin- 
coenta reis fracos), chegam a juntar dinheiro; julgo-os 
sóbrios, mas não de delicado paladar, porque a um 
d'elles vi, na força do verão, comer ao almoço pimenti- 
nhãs com sal e bolaxa, beber em seguida a sua ração de 
cachaça, e ficou tão satisfeito como se tivesse tomado 
um sorvete. 

N'uma conversa que tive com um Cabinda foi que 
vim no conhecimento do verdadeiro sentido que os pre- 
tos ligam á palavra — branco — pela qual nos domi- 
nam. Perguntei-lhe se quando estavam a bordo dos na- 
vios estrangeiros entendiam as linguas que lá lhes falla- 
vam, e elle respondeu-me com certa presumpção: 

— Me falia flancé, inglês e língua de Manco. 

Esta lingua de branco é a portugueza. Só nós so- 
mos considerados brancos, porque assim designaram os 
descobridores e conquistadores d'aquellas possessões, e 
só a elles é que os negros julgam pertencer esta deno- 
minação. 

Os Cabindas, á semelhança de todos os mais pretos, 
são mui supersticiosos: fazem uso de pequenas manilhas 
de ferro para afugentar o feitiço, e algumas vezes lhes 
vi pintar com barro certos signaes na testa e nas fontes 
para combater dores de cabeça, que elles attribuem a 
effeitos diabólicos. Se todos os pretos da nossa posses- 



— 12 — 

são fossem tão industriosos como os da raça Cabinda, o 
commercio e a agricultura teriam por certo attingido em 
Angola um elevado grau de prosperidade, mas infeliz- 
mente dos outros nada se pôde esperar voluntaria- 
mente. 

Que meios empregar para obrigal-os ao trabalho? 
Em vista das tendências dos nossos ministros para a 
abolição da escravidão, não ha senão um : é fazer-lhes 
crear necessidades, obrigando-os a andar vestidos e cal- 
çados, e a ter um modo de vida qualquer, para que pos- 
sam ser úteis á sociedade. 

Sei que esta é uma das reformas que tenciona intro- 
duzir o novo Governador Sebastião Lopes de Callieiros, 
e se conseguir fazêl-o, Angola dará um largo passo no 
caminho do progresso e da civilisação. 

É muito mal entendido quererem legislar e gover- 
nar aquellas nossas possessões, com as nossas leis e có- 
digos liberaes. Aquelle povo não está ainda bastante 
maduro, para poder ser governado constitucionalmente. 
Um estado composto na sua maioria de pretos boçaes, 
de degredados por toda a espécie de crimes, de nego- 
ciantes em grande parte de má fé, sem educação, nem 
consciência, de muitos militares ambiciosos e pouco es- 
crupulosos, não pôde civilisar-se, nem ser governado 
senão por um despotismo illustrado. Os Governadores 
geraes que tentarem fazer algumas reformas necessárias, 
cortando abusos inveterados e que se encontram a cada 
passo em todos os ramos da administração publica, teem 
de combater uma opposição terrivel, porque aquelles 
que se julgarem assim feridos nos seus interesses, não 



— 13 — 

terão duvida em recorrer aos meios mais infames, para 
se desfazer de um homem que lhes pôde ser fatal. Se o 
Governador não poder pelo seu lado recorrer aos meios 
rigorosos e repressivos, ha de succumbir na lucta irre- 
mediavelmente. 

É preciso dar força sufficiente a um só homem, para 
poder luctar com milhares d'elles ignorantes, ou corru- 
ptos. 

Permitta Deus que os nossos governantes se com- 
penetrem de todas estas considerações: a boa escolha 
nos empregados a quem devem remunerar de forma que 
compense as privações e foíFrimentos que para alli vão 
supportar, sem que tenham de recorrer a meios illicitos 
para adquirir fortuna, é a principal base para fundamen- 
tar o progresso e engrandecimento d'aquella Provincia, 
e só assim e por meio da religião poderemos cumprir a 
nossa missão, que é de civilisar e concorrer para a inde- 
pendência d'aquella terra. 

Sei que esta ideia causa espanto a muita gente; mas 
se todos conhecessem mais de perto as nossas possessões, 
haviam de convir comigo, que a Africa civilisada e in- 
dependente nos havia de oíFerecer mil outras vantagens 
que hoje não oíTerece pelo estado selvático em que ainda 
se acha. 

Que perdemos nós com a independência do Brazil? 
Nada, absolutamente nada. Perderam sim os fdhos bas- 
tardos da casa real, os filhos segundos das casas titula- 
res, os aventureiros e os protegidos a quem a corte dava 
os governos e os empregos das provincias como benefí- 
cios simples, mas as nossas transacções commerciaes 



— 14 — 

continuaram como d'antes, e o Brazil, apesar da sua in- 
dependência, não deixa de ser portuguez, e não cessará 
nunca de o ser em quanto alli se fallar a nossa lingua. 
Elles mesmos tanto o reconhecem, que já tentaram ar- 
ranjar uma lingua brazileira, conseguindo apenas a 
pronuncia de um jocoso dialecto de preto. 

Na actualidade as transacções commerciaes com o 
Brazil parecem de menor importância, porque se acham 
espalhadas por muito maior numero de negociantes, do 
que antes da independência; mas quando assim não 
fosse, o monopólio dos portos já não é possivel, n'uma 
época em que nações fortes ?fabris empregam todos os 
meios para dar sabida aos seus productos. 

Entre nós, assim como nos paizes em que se tem 
escripto e discutido sobre a escravatura, encara-se esta 
questão pelo lado humanitário, e é certo que o commer- 
cio de carne humana repugna a todo o homem de senti- 
mentos nobres. 

Vejamos porém se pela repressão conseguiram o 
fim que se propozeram, e examinemos as causas que 
dão lugar á escravatura. 

Os chefes das povoações do interior a quem dão os 
nomes de Sobas, Régulos, Príncipes, eBeis, imitando 
os romanos da republica, educam os seus povos na caça 
6 na guerra, mas ignoram totalmente que aquelles, ter- 
minadas as luctas, depunham a lança e o escudo para 
lançar mão da charrua, e cultivarem a terra que os devia 
alimentar como boa mãe que é. O seu estado d'ignoran- 
cia faz com que repetidas vezes, faltando os meios de 
subsistência, se vejam obrigados a pedir á força ao visi- 



— 15 — 

nho, o que elle de boa vontade lhes não concederia, 
altendendo a que o seu estado de prosperidade de ma- 
ravjlha pouco mais lisonjeiro será. 

Para se declarar a guerra é preciso que haja um 
pretexto, mas quando o não ha inventa-se, e elles assim 
fazem. Atravessar os estados sem licença, caçar fora 
dos limites, são motivos mais que sufficientes para lan- 
çar a discórdia entre dous potentados. Se esses mes- 
mos pretextos vem a faltar, consulta-se então o singilla 
que, depois de «invocar os deuses occultos, declara em 
tom propbelico que o Soba do estado visinho foi quem 
matou por feitiço os últimos individuos que falleceram 
n^aquella povoação, e que pretendia ainda fazer o mes- 
mo a muitos outros. 

Feiticeiro!! guerra! guerra! grita a povoação em 
peso, e todos correm vingar as victimas de tão nefando 
crime. 

O ataque é dado de improviso, e a vingança, que 
dizem ser prazer dos deuses, mal pode saciar a sua ira, 
roubando e saqueando tudo, bois, porcos, gallinbas, 
mandioca e fructa, e só quando nada ha mais que rou- 
bar, nem destruir, é que os valentes centuriões retiram 
ufanos, conduzindo os ricos despojos com que se hão de 
manter por algum tempo na ociosidade. 

Os prisioneiros pilhados com as armas na mão, são 
levados na frente, assim como suas mulheres e tilhos, que 
os acompanham sempre. Estes infelizes são conduzidos 
ao mercado e vendidos aos agentes dos negreiros a troco 
d'aguardente, pólvora, missanga, e fazendas d'algodão 
de cores, a que na Africa ú\dimdim pannos . 



— 16 — 

Ora como nem sempre ha compradores, acontece al- 
gumas vezes que os vencedores se vêem obrigados a con- 
servar em seu poder, e sustentar os prisioneiros; e não 
lhes agradando este ónus, se por desgraça a ausência 
dos compradores se prolonga mais que o costume, o 
Soba determina que, como medida económica, se corte 
a cabeça aos prisioneiros ! 

É o meio de resolver radicalmente a questão, e como 
entre o gentio se cumprem as leis á risca, a execução 
segue de perto a sentença. 

Não pretendo com esta ideia, que tem ares de para- 
doxo, justificar os negreiros, nem sei como elles ira- 
ctam os escravos ; confesso que não sympathiso com se- 
melhantes traficantes, porque aquelles que me tem sido 
indigitados como taes, me tem parecido grosseiros, al- 
tivos e eminentemente desmoralisados ; mas attendendo 
ao numero considerável decreaturassubtràhido por elles 
ao cutello do algoz, havemos de concordar que contri- 
buem com melhor êxito para o fim humanitário, que 
nós pretendemos conseguir pela repressão do trafico. 

Escusado será também accrescentar, que estes me- 
liantes não o fazem de maneira alguma por considera- 
ções de virtude, ou espirito de philantropia, nem elles 
se arriscavam por tão pouco. 

Se seguirmos o escravo e o formos vêr em poder do 
seu senhor, tanto nas Mauricias, como nos Estados-Uni- 
dos e na Havana, encontral-o-hemos vestido, bem ali- 
mentado, baptisado e educado, o que seguramente lhe 
não acontecia na sua terra natal, onde só gosava da fa- 
culdade de poder passar a sua existência sem fazer cousa 



— 17 — 

alguma, tornando-se inútil a si e aos mais. Se o traba- 
lho é uma desgraça, não somos nós todos bem desgra- 
çados? 

Quantos e quantos pretos existem hoje na America, 
que depois de resgatarem a liberdade com o fructo das 
suas economias, conseguiram estabelecer-se, tornan- 
do-se cidadãos úteis ao paiz que os acolheu? Se os 
exemplos não são tantos, quantos eram para desejar e 
podiam ser, é isso devido ao desmazelo e vida desre- 
grada da maior parte dos escravos a quem o futuro não 
afflige demasiadamente. 

O tractamento que os pretos recebem dos seus pró- 
prios, é infinitamente mais cruel do que o são os casti- 
gos infligidos pelos brancos, e d'isso nos podemos cer- 
tificar presenciando as scenas horrorosas praticadas pe- 
los Regidos, nossos visinhos, a quem a estúpida su- 
perstição cega a ponto de sacrificar, em honra de um 
mono ridiculo, victimas innocentes, abrindo-lhes o ven- 
tre, arrancando-lhes as entranhas palpitantes, e beben- 
do-lhes o sangue ainda quente e fumegante ! 

Para mostrar até onde chega a crueldade d'aquella 
canalha, citarei o seguinte caso, que me foi contado por 
um official de marinha muito conhecedor da costa Occi- 
dental d'Africa, onde permaneceu por muito tempo. 

Ha já bastantes annos um dos Sóhas do interior, 
homem provavelmente tão velhaco, como covarde, fez 
um contracto com o chefe da estação ingleza, compro- 
mettendo-se, mediante certa quantia por cabeça, a de- 
nunciar-lhe quando e onde embarcavam os escravos que 
elle vendia. As denuncias foram dadas com a maior 



— i8 — 

exactidão, e pela sua parte o commandante inglez não 
foi menos pontual no pagamento em letras das quantias 
que pelo contracto pertenciam ao Soba. 

Como porém este contracto tinha sido feito sem con- 
sultar o governo inglez, este entendeu não o dever sanc- 
cionar, e as letras que o Soba tinha mandado para In- 
glaterra foram-lhe devolvidas. 

Algum tempo depois o commandante inglez, fazendo 
uma excursão pelas margens do rio, junto ao qual mo- 
*rava o tal Soba, saltou em terra com a sua gente, e di- 
vertia-se caçando, quando o vieram convidar da pítrledo 
Soba para acceitar uma refeição e assistir a uma bri- 
lhante festa com que elle se propunha obsequiar o seu 
hospede. 

Movido pela curiosidade, o commandante acceitou o 
convite, e seguiu com a sua gente o enviado até á cu- 
bata do Soba, onde se achavam preparadas algumas 
iguarias, que os inglezes não recusaram por condescen- 
dência. Findo o banquete, durante o qual reinou a me- 
lhor harmonia e cordialidade, o Soba, depois de ter 
dado as suas ordens em particular, convidou os inglezes 
para irem até á praça publica, onde devia ter lugar a 
festa promettida. 

Quando lá chegaram, duzentos pretos prisioneiros, 
com as mãos atadas atraz das costas, e acompanhados 
cada um do seu guardião armado de machado, rodea- 
vam o local destinado para as danças e divertimentos 
públicos. A um signal dado pelo Soba, duzentas cabe- 
ças rolam no chão : um grito de horror escapa aos espe- 
ctadores atónitos. O commandante quer saber porque 



— 19 — 

motivo se pratica tão inaudita crueldade, mas o Soba 
interrompendo-o lhe diz : — « Inglez, convidei-te para vi- 
res assistir a uma grande festa: parece-me que cumpri a 
minha promessa; outro tanto, accrescentou elle, enlre- 
gando-lhe as letras que lhe tinham sido recambiadas de 
Inglaterra, outro tanto não fazem os da tua nação. Pe- 
ço-íe que guardes esses papeis como lembrança minha.» 

Foi então que o inglez conheceu em que mãos es- 
tava, e não foi sem grande espanto seu e dos que o 
acompanhavam, que se viu a bordo da sua lancha sem 
ter soffrido o menor insulto. 

D'estes actos brutaes e ferinos é que os brancos, 
mesmo os mais endurecidos no trafico da escravatura, 
de certo não praticariam a sangue frio. ^ 

Não tem, por exemplo, o Rei de Dahomey assim 
adquirido tão monstruosa celebridade? 

De vez em quando noticiam os jornaes uma nova 
hecatomba: sacrifícios, ou massacres de centenares de 
victimas, que assombram a Europa inteira! 

Mas deixemos este assumpto, e voltemos ao Zaire, 
a respeito do qual pouco resta que referir. Já disse, se 
bem me recordo, que a natureza do terreno, nas mar- 
gens do Zaire, e geralmente nas parles que visitei na 
costa, é eminentemente friável e escavavel; isso dá lu- 
gar a que repetidas vezes se destaquem nas partes pouco 
frequentadas do rio grandes porções de terra, que o ca- 
pim e as raizes d'arbustos conservam por muito tempo 
solidamente ligadas, até que a crusta superior se rompa 
e se vão submergindo os fragmentos que d'ellas se se- 
param. 



— 20 — 

Eslas porções de terra, a que vulgarmente dão o 
nome de ilhas fhictuantes , descem pelo Zaire no lempo 
das cheias com tal velocidade, que se tornam muito pe- 
rigosas para a navegação, e é vulgar enconlral-as no 
Oceano, onde a corrente do rio as arrasta, e onde vo- 
gam por largo tempo. 

Muito ha de certo que dizer a respeito do Ambriz, 
onde temos uma alfandega, porém não me julgo sufíi- 
cienlemente habilitado para accrescentar mais cousa al- 
guma ao que já disse; por isso naveguemos para o sul, 
fazendo uma curta parada no Bengo, 

É do rio Bengo que se leva para a capital a maior 
parle da agua que alli se bebe, e todos a preferem com 
razão á do Coanza, onde por vezes lambem recorrem, 
e á dos poços da Mayanga. É igualmente do BengOy 
assim como do Dande, que vai para Loanda a lenha, o 
carvão, e o sal proveniente das salinas que existem junto 
ao Zenza. O Bengo dista quinze milhas proximamente 
de Loanda; é talvez o rio de maior consideração de toda 
a costa, não pelas suas dimensões, noas pelas transac- 
ções commerciaes que facilita, e por se achar perlo da 
capital e lhe fornecer diariamente a agua, que apesar de 
muito impura, é preferivel a qualquer outra da que alli 
se gasta. 

A agua é transportada em pipas^que os pretos con- 
duzem n'umas barcas bastante mal construidas, a que 
dão o nome de dongos, e que fazem navegar á força de 
remos, quando a brisa, que é o vento que reina de dia 
de oeste a leste, não é sufficientemente forte para pode- 
rem usar d'umas velas d'esteira fabricadas por elles. 



— 21 — 

Ba certas occasiões em que o mar da costa perde a sua 
tranquillidade e se torna agitado, a ponlo de não pode- 
rem ir as bdiTCíiSdiO Bengo: n'essas épocas, chamadas da 
— callema — , sobe o preço da agua em hoandãy e 
muitos dos seus habitantes se vêem obrigados a gastar 
agua do sitio da Maifanga^ nos subúrbios da cidade, 
ou dos poços, a que chamam cacimbas. 

Tenho dito que a agua do Bengo é preferivel a qual- 
quer outra de que se possa fazer uso na capital, comtudo 
isto não quer dizer que ella seja excellente. Se os pre- 
tos que a vão buscar ligassem a devida importância á 
qualidade de uma bebida tão necessária á vida, sobre- 
tudo n'aquelles climas abrazadores, é provável que a 
agua fosse menos salobre; mas como os aguadeiros cos- 
tumam fazer as provisões em*certas horas para se apro- 
veitarem das marés e das brisas, resulta d'alii que quasi 
sempre se contentam em tomar a agua a uma distancia 
da foz do Bengo, onde elles julgam já não chegar a maré. 
O paladar dos que se occupam n'este negocio, não sendo 
muito apurado por causa dos seus alimentos excessiva- 
mente salgados e apimentados, na occasião das provas 
toda a agua que não for do mar lhes parece doce, e é 
sem dúvida por esse motivo, que não sacia a sede. Além 
d'este inconveniente, que a mistura d'aguardente ou ge- 
nebra destróe em parte, a agua do Bengo tem mais o 
de conter sempre em suspensão grande quantidade de 
matérias lodosas, depositando-se estas substancias ao 
cabo de alguns dias ; mas n'um paiz onde se faz grande 
consumo d'agua, e onde todos desejam tèl-a fresca, nin- 



— 22 — 

guem espera que ella clarifique de per si, e todos prefe- 
rem filtral-a. 

Para os que por negligencia ou por falta de meios 
não fazem uso do filtro, esta bebida é muito prejudi- 
cial, e a origem das moléstias de figado tão vulga- 
res em Loanda. Tive mesmo occasião de o experi- 
mentar no meu regresso para Lisboa, bebendo agua do 
Bengo por filtrar, e que o balanço do navio não deixava 
depositar. Assisti em varias occasiões á distribuição da 
agua : vi-a sahir dos tanques côr de café, e por necessi- 
dade muitas vezes assim a bebi; mas desde Loanda até 
S. Thiago de Cabo Verde senti constantemente um in- 
commodo d'estomago, que ia augmentando diariamente 
de um modo que bastante cuidado me deu, porém esse 
padecimento foi-se desvanecendo desde que principiei a 
beber agua da cidade da Praia. 

O Coanza é navegável, n'uma extensão de mais de 
sessenta léguas, por lanchas que se empregam no trans- 
porte de ditferentes géneros entre Cahimbo e Caynbani- 
he, e sél-o-ia até ás alturas de Pungo-Andongo , se uma 
grande cascata se não oppozesse á passagem dos barcos, 
n'um sitio pouco distante de Cambambe, D'esta povoa- 
ção e de Calumbo exporta-se bastante madeira para 
Loanda. Os Hollandezes tentaram, em 1641, formar 
um canal que abastecesse Loanda com a agua do 
Coanza, mas este projecto grandioso foi abandonado, 
6 hoje ninguém tentaria executal-o. 

É tempo de fazer a descripção da Cidade de S. Paulo 
de Loanda. 

A Capital da Provincia d'Angola acha-se situada a 



~ 23 — 

8 graus de latitude sul, no fundo de uma grande ba- 
hia formada pelo continente e pelas ilhas de Loanda 
e de Cazeange, grande orla d'areia de uns quatrocentos 
melros de largura, que corre parallelamente á costa, 
desde as proximidades do Coanza até ao moiro das 
Lagostas, na extremidade norte da cidade. 

E' n'estas ilhas que moram os Muxi-loandas , raça 
de pretos que se occupam unicamente da pesca. Exis- 
tem alli modernas casas de campo, mandadas construir 
por alguns negociantes de Loanda, e um elegante de- 
posito para os mantimentos da estação americana. 

Vista da bahia, Loanda apresenta um lindo pano- 
rama, devido á coníiguração do terreno em que está edi- 
ficada, e que muito se parece com Setúbal. O aspecto 
da vegetação é encantador, sobretudo para europeus que 
não estejam aíTeitos a ver sitios onde brotem plantas tro- 
picaes, e cujo tom verde é tão agradável á vista, que 
apenas podemos comparal-o ao do nosso linho de prado. 
Os palmares, os coqueiros, os tamarinheiros, as cajuei- 
ras, as bananeiras, as mangueiras, e muitas outras arvo- 
res, cujos nomes me não occorrem agora, dão á cidade 
e a seus arrabaldes um colorido tão bello, que mal se 
pôde acreditar que alli em vez de ar puro e saudável, 
só se respirem miasmas pestilenciaes. Da mesma forma 
que em quasi toda a costa africana, o terreno em que 
Loanda se acha edificada é areento, misturado de barro 
vermelho e amarellado. 

A Capital divide-se em cidade baixa e cidade alta : 
a cidade baixa, a — commercial — é construida sobre 
uma restinga de areia que parece ter sido formada 

3 



— 24 — 

pelo assoreamento de parte da baliia, onde as aguas 
mortas não tinham, por causa do pequeno cabo da 
fortaleza, a necessária corrente, e pelas terras acarre- 
tadas da cidade alta nas occasiões de grandes chuvas. 
Estes assoreamentos vão augmentando sempre, e dimi- 
nuindo consideravelmente a área da bahia. Os navios 
d'alto bordo, que d'antes se aproximavam muito da 
terra, fundeiam actualmente a uma distancia talvez su- 
perior a mil e quinhentos metros do cães. A cidade 
alta fica situada sobre um monte cortado a pique, que 
circunda a baixa em toda a sua extensão. 

A differença de nivel entre as duas partes da cidade 
é proximamente de setenta metros, o que as tornaria 
quasi incommunicaveis, se não fossem duas fortissimas 
rampas, construidas sobre muros de supporte, nos dous 
pontos mais accessiveis da cidade alta. 

Loanda deve ter hoje perto de onze mil almas, sen- 
do a maior parte de seus habitantes de raça preta e mes- 
tiça. 

A cidade baixa contém grande numero de casas; 
algumas d'ellas, ainda que construidas sem elegância, e 
sem gosto algum architectonico, denotam terem sido 
edificadas em tempos remotos por alguns nobres des- 
contentes da sua sorte, e que áquellas praias foram ten- 
tar fortuna nos azares da guerra ou nos do negocio licito 
d'aquelle tempo. As modernas construcções, apesar de 
muito mais regulares do que as antigas, deixam ainda 
muito que desejar. 

É no centro d'esta parte da cidade que se acha a 
igreja de — Nossa Senhora dos Remédios — , templo 



— 25 — 

mal conservado e de pobríssima apparencia, mas que 
gosa das honras de — Sé nova — , desde que a antiga 
passou a servir de curral ! 

Em qualquer aldeia do nosso Minho, se encontra 
uma igreja com mais aceio e esplendor, do que em 
Loanda, e isso não é para estranhar attendendo ao 
pouco uso que d'ellas se faz. Ainda não encontrei terra, 
por mais desmoralisada que. fosse, onde se cumprissem 
menos os preceitos da nossa religião. As próprias mu- 
lheres, que por natureza são sempre mais inclinadas ás 
práticas religiosas, essas mesmas pouco ou nada fre- 
quentam os templos! Geralmente, em toda a Africa, tra- 
ctam mais do corpo, do que da alma. Ha tal, que de ma- 
nhã negaria uma libra para as obras da igreja, em quan- 
to que de tarde perderia um conto de reis ao monte. 

Não sei se a desmoralisação das nossas possessões é 
devida á falta de bons parochos, se aos maus exemplos 
que alguns teem dado ; o que é certo, é que geralmente 
a gente branca tem os padres em pouca consideração, e 
talvez que também para isso concorra pertencerem 
muitos d'esles á raça mestiça. Notei sempre nos pretos 
maior predilecção pelos ecclesiasticos do que nos bran- 
cos, mesmo os mais rústicos, e varias pessoas me afíir- 
maram, que o primeiro cuidado do preto do interior, 
quando apparece alguma expedição militar, é de per- 
guntar se — vem padre. Muitos pretos vivem e morrem 
sem baptismo, por não ter havido padres que se dedi- 
cassem a percorrer o interior, a fim de instruir uma infi- 
nidade de creaturas, das quaes se conseguiria muito 
mais com a cruz, do que com a clavina. 



— 26 — 

Ignoro se o novo Bispo, que dentro em breve deve 
seguir viagem para Angola, terá força sufficiente e po- 
derá dispor dos meios necessários para reformar os tem- 
plos da sua diocese, entregal-os a parochos honestos e 
dedicados, e tractar seriamente da propaganda religiosa. 
Dizem-me que lhe não falta talento e boa vontade : isto 
já não é pouco, mas terá elle animo bastante e saúde 
para resistir a um clima tão mau e tão desanimador? 
Deus o queira. 

Persuado-me que foi um erro enorme, a abolição 
dos conventos no Ultramar. Dessem-lhes embora uma 
organisação mais adequada ao paiz, e ao lim a que se 
deveriam propor, mas da sua conservação se colheria 
o maior proveito, tanto para a Provincia, como para o 
Estado. Verdade é, que os frades mandados dos nossos 
conventos nem sempre eram de exemplar conducta, 
mas isso mesmo seria fácil de remediar na occasiao em 
que se aboliram as ordens religiosas, porque é provável 
que d'entre tantos indivíduos que por ahi ficaram ao 
desamparo, muitos acceilassem passar para o Ultramar 
se lh'o tivessem proposto. 

Quando medito no passado, vejo que ás ordens re- 
ligiosas se deve a maior parte de tudo quanto na Africa 
ha, ou houve soffrivel. Os Jesuítas construíram em 
Loanda um bello templo e um grande convento, onde 
os pobres recebiam a educação, e que hoje se acha 
transformado em Palácio episcopal. Foram elles que, 
pelas missões, espalharam no seio de immensas povoa- 
ções selváticas, o gérmen do catholicismo, que tão enrai- 
zado ficou no coração d'aquella gente, que apesar de te- 



— 27 — 

rena decorrido cerca de trinta annos sem que os minis- 
tros de Cliristo tornassem a apparecer entre elles, ainda 
hoje pedem padres, desejam ser baplisados, e cederiam 
de boa vontade a algumas exigências nossas, se houves- 
sem governadores de districto, bastante intelligentes e 
desinteressados, para dispender alguma quantia na reedi- 
íicação dos primitivos templos, que o tempo e o aban- 
dono reduziram a ruinas ! 

Para prova da fé viva e profundo respeito, que 
aquelles povos consagram á nossa religião, bastaria tal- 
vez lembrar que em vários silios onde as igrejas desaba- 
ram, e onde ha muito por falta de padres se não exerce 
o culto divino, tem os pretos, apesar do grande apreço 
pelos objectos de prata, guardado escrupulosamente 
todos os adornos, e alfaias que os nossos Bispos e Go- 
vernadores para lá lhes mandaram no tempo em que os 
seus rendimentos eram mais avultados. 

E' realmente para estranhar que o Collegio do 
Bombarral, destinado para as missões, não tenha en- 
viado para Angola ministros da religião, que incalculá- 
veis serviços prestariam á civiHsação e á humanidade. 

No interior, grande numero de povoações onde 
nunca chegaram a apparecer os nossos pregadores, con- 
servam ainda as crenças barbaras e fanáticas que se as- 
semelham ás dos Gaulezes: — é o druidismo, com pe- 
quena differença. Acreditam na metempsycose , ou 
transmissão da alma de uns para outros corpos; na vida 
eterna, passada n'um mundo de delicias, para onde a 
alma vôa d'este que veio habitar como prova ou castigo. 
Ha bastantes exemplos de pretos atacados de nostalgia. 



— 28 — 

que depois de transportados para a America se tem sui- 
cidado, para escaparem aos castigos d'este mundo e irem 
gozar a bemaventurança que no outro esperam encon- 
trar. 

Como os Druidas, também teem os seus adivinhos, 
— gangas — que não devemos confundir com os feiti- 
ceiros, por serem estes, objecto de especial aversão para 
o gentio. Teem igualmente curandeiros, ou distribui- 
dores de especificos milagrosos compostos de summos 
de certas plantas, que descobrem a moléstia, e a sua 
origem pela magia, recorrendo a certos signaes mysterio- 
sos e invocando inspirações de um ente sobrenatural 
que é vulgarmente o idolo, objecto das suas adorações. 
Fazem uso de talismans — milongos — para combater 
o feitiço, e tal é a superstição que ainda hoje os domina, 
que frequentemente celebram horrendos sacrifícios hu- 
manos, debaixo mesmo dos muros dos nossos reductos. 

Quando as missões não alcançassem outra cousa 
mais do que pôr termo a esses horriveis espectáculos, 
nao fariamos nós um grande serviço á humanidade? 

Quasi todos os conventos que ha em Loanda estão 
já em completa ruina; existe comtudo o de S. José a 
curta distancia da cidade, e n'uma situação deliciosa, 
que apezar de deteriorado é susceptível de grandes me- 
lhoramentos. N'esse convento é que o Governo deve- 
ria estabelecer um seminário, onde recolhesse e edu- 
casse gente natural do paiz, com o fim de percorrer o 
interior, e propagar até ás povoações mais longínquas a 
doutrina christã. D'ahi haviam dimanar os elementos 
civilisadores para firmar a paz tão desejada, e sem du- 



— 29 — 

vida alguma resultaria o engrandecimento e prosperi- 
dade dos estados Ião vastos em que ainda predomina- 
mos. Essas expedições eram mil vezes mais proveito- 
sas, e infinitamente menos desbumanas, do que as dos 
soldados europeus que a ignorância dos nossos gover- 
nantes votou barbaramente á miséria e soffrimento I 

É incontestavelmente um crime inaudito, aquelle 
que presenciamos dos meios que se empregam para an- 
gariar gente para servir no Ultramar : illudindo uns com 
postos d'accesso, que afinal lhes regateam com chicanas 
miseráveis ; a outros pintando-lhes Angola qual outro 
Eldorado, paiz de fadas e d'encantos; engodando ou- 
tros com soldos dobrados, adiantamentos e gratificações, 
e finalmente empregando-se até com alguns desgraçados 
o terror e as ameaças ! 

E tudo isso para que? 

Para lançar nas praias d'um paiz inhospito, cente- 
nares de creaturas, que vão partilhar da triste sorte que 
as nossas leis reservam para os criminosos condemnados 
á pena ultima, e que a clemência real, ou a moderna ci- 
viHsação commulou em degredo perpetuo. Que bello 
quadro de perversidade ! 

Não é possivel que haja coração, por mais insensivel 
que seja, que se não constranja, sabendo a que misero 
estado ficaram em tão pouco tempo reduzidos aquelles 
bellos corpos que d'aqui sahiram ha um anno, e que a 
morte tem ceifado inexoravelmente. Aspecto cadavé- 
rico, cabellos arripiados, olhar espantado, ventre in- 
chado, e as pernas cobertas d'asquerosas chagas, eis o 
desgraçado estado a que se acha reduzida a maior parte 



— 30 — 

d'aquelles infelizes, a quem a morte parece ter poupado 
só para lhes prolongar os padecimentos. 

Repetidas vezes vi alguns d'esses pbantasmas fa- 
zendo guardas. Julguei a principio que iam recolher ao 
hospital, mas soube depois que de lá tinham sahido; — / 
a sciencia dera-os por promptos para todo o serviço ! 

Quasi diariamente pela força do verão, tiveram esíes 
infelizes de conduzir com bastante custo e fadiga ao ce- 
mitério do Alto das cruzes, os cadáveres dos seus com- 
panheiros fallecidos no hospital. Ao recolher ao quar- 
tel, era fácil divisar no seu ar abatido e melancólico, o 
mau eíTeito que aquelle acto deve produzir no espirito 
enfraquecido do soldado, que vé rarear todos os dias o 
numero dos seus camaradas. 

É provável que esta ceremonia fúnebre faça parte 
dos regulamentos militares, mas muita cousa ha suppor- 
tavel em Portugal e intolerável em Angola, onde se vive 
constantemente debaixo de impressões aterradoras, e 
onde estas scenas lúgubres concorrem para mais facil- 
mente ser atacado das moléstias do paiz. 

Porque se não ha de organisar o exercito com os 
indigenas, que são os únicos que podem resistir á perni- 
ciosa influencia d'aquelle clima? 

Haja muito embora um corpo d'europeus, gente de 
confiança do Governador geral, mas que seja um corpo 
fixo, e não o obriguem a sahir da capital e a entranhar-se 
nos matos do interior, onde vão acabar de perder o 
garbo e energia que mal se podem conservar ainda assim 
em Loanda. 

O preto depois de fardado e disciplinado é um ex- 



— 31 — 

cellente soldado. O espirito de corpo domina-o do 
mesmo modo que os brancos; e nas expedições que se 
teem feito nota-se que não é elle o que melhor tracta 
os gentios. Tive occasião de ver, que o soldado preto 
além de ser muito aceado, tem muita propensão para a 
vida militar, porque só assim se pôde ver bem vestido 
e calçado, o que lhe dá um subido grau de superioridade 
sobre aquelles que só trajam pan7ios e andam descal- 
ços. Depois de fardado e calçado, elle mesmo se consi- 
dera branco, e tracta de — negros — os da sua espécie, 
que não andam calçados. Esta vaidade deveria até ser 
aproveitada, para d'ella tirar bom partido, o que era fa- 
cillimo dando á tropa preta um uniforme commodo e 
de cores vistosas, pois é bem sabido que elles se deixara 
fascinar pelos enfeites abrilhantados. 

Isto não é ideia nova: — ha muito que os inglezes 
na índia, e os francezes em Argel, a pozeram em prática 
e assim poupam os seus soldados e utilisam braços que 
despresados lhes poderiam ser funestos. 

Ha em Angola muita rapaziada parda que sabe ler e 
escrever: são esses os que deveriam ser escolhidos para 
officiaes inferiores, entregando o commando dos corpos 
e das companhias a officiaes brancos do exercito do Ul- 
tramar, filhos do paiz, ou europeus aclimatados já pelos 
muitos annos de residência, ou a officiaes do exercito de 
Portugal, que por sua livre vontade queiram ir para 
Africa. 

É muito conveniente que os officiaes superiores se- 
jam brancos, não só por serem muito mais intelligentes 
e terem mais conhecimentos práticos do que os mulatos. 



— 32 — 

mas também por ser um facto de todos bem sabido, que 
os pretos preferem ser commandados pelos brancos, 
que lhes inspiram maior confiança. 

A superioridade do soldado preto sobre o branco 
torna-se bem notável todas as vezes que ha qualquer 
marcha para o interior: os brancos são os primeiros que 
cançam, os que mais soífrem com a falta d'agua, e 
quando chegam a algum ponto em que o mato os obriga 
a parar, são sempre os empacaceiros que passam para a 
frente a abrir-lhes caminho. Não nos devemos admirar 
que a nossa gente de a direita á tropa preta n'essas difti- 
cultosas marchas, porque raro é o branco, por mais ro- 
busto que seja, que possa aturar por muito tempo o ter- 
rível calor do verão, e resistir ás febres, fadigas, e priva- 
ções, a que muitos d'elles succumbem desgraçadamente 
por falta de remédios e de facultativos. 

Pára terminar sobre este assumpto, farei ainda uma 
consideração. 

Causa espanto que se tivesse abolido no exercito o 
castigo da chibata, único elemento de disciplina que res- 
tava, para o substituir por um castigo mil vezes mais 
bárbaro e immoral! 

Actualmente todos os soldados do nosso exercito 
que cornmettem três faltas de certa gravidade, que d'an- 
tes expiavam com umas tantas chibatadas, são condem- 
nados a servir nas companhias disciplinarias do Ultra- 
mar, onde morrem victimas da febre, ou onde vivem 
promiscuamente com facinorosos e malvados de toda a 
espécie. Aquelles que teem a fortuna de escapar, vol- 
tam de lá mais desmoralisados, se não mais viciosos do 



— sa- 
que foram. Será isto de algum modo proveitoso para o 
exercito e para o paiz? 

As impressões de uma viagem, por mais suecinto 
que se queira ser na sua narração, obrigam sempre a 
certas reflexões que a importância do assumpto suggere : 
é o que nos tem acontecido, e é natural que ainda torne 
a contecer. 

Por em quanto voltemos á descripção de Loanda, 

Foi, como já dissemos, para a igreja de — Nossa 
Senhora dos Remédios — que os modernos Bispos trans- 
portaram a sua cadeira, e é n'este templo que se cele- 
bram immensos ofíicios de corpo presente. E' também 
alli, que os novos Governadores se dirigem depois do 
desembarque para assistirem ao Te-Deum, acompanha- 
dos pelo Governador que vão substituir. De lá seguem 
para o Palácio, onde se reúnem na sala do docel as au- 
thoridades civis, militares, e ecclesiasticas, e grande nu- 
mero de empregados públicos, e commerciantes para as- 
sistirem ao auto da posse. É costume trocarem os Go- 
vernadores entre si phrases lisonjeiras e cordiaes, apro- 
veitando-se o recem-chegado da occasião, para dirigir ao 
auditório uma espécie de programma do seu futuro go- 
verno. 

O desembarque de um novo Governador é cousa 
bastante curiosa a presenciar, por uma particularidade 
que a torna assaz caricata, e que já por varias vezes tem 
feito encordoar os recem-chegados. 

N'essa occasião o povo todo de Loanda reune-se na 
praia, junto ao cães do desembarque, para vêr e feste- 
jar o seu novo Governador, a quem os pretos chamam 



— 34 — 

Mani-piito {^)\ mas como o numero d'estes, é muito su- 
perior ao dos brancos, fácil é de comprehender que a 
sua alegria e ovações devem predominar e tornar-se 
muito salientes. Com eífeito assim acontece, e creio 
que não é fácil presenciar um acto de ridículo tão subli- 
me como o do regosijo dos pretos de Loanda. 

Ao troar do canhão das fortalezas e dos navios sur- 
tos na bahia, junte-se o estalido das girandolas de fo- 
guetes, os repiques de sinos, a musica regimental, as 
estrepitosas acclamações, os pulos desordenados e a in- 
ferneira produzida por alguns milhares d'apilos e de 
gaitas capadeiras, e mal se poderá formar ideia da im- 
pressão causada no espirito de um europeu, que pela 
primeira vez presenceia tão delirante espectáculo. Se o 
desembarque tem lugar no verão — de meado de No- 
vembro a Maio — enxames de cigarras juntam o seu 
canto ruidoso ao immenso alarido da multidão. 

Estas scenas de eífusão devem ser presenciadas 
para poderem ser comprehendidas. Supponho, mas 
não ò affirmo, que aos Bispos fazem iguaes recepções. 

Não é só na nova Sé, que se exerce o culto divino: 
também se diz missa todos os dias santificados n'uma 
igreja da cidade alta, cujo orago é S.João Baptista, e á 
qual assiste de ordinário o Governador com seu estado 
maior, e os destacamentos da guarnição com a musica 
do 1." de linha, uma das melhores cousas que encontrei 
em Loanda, e á qual na realidade me não esperava. 

Na cidade baixa ha ainda a igreja do Corpo Santo, e 

(') Também dão este nome ao Rei de Portugal. 



— 35 — 

mais duas capellas. Não é de certo por falta de templos 
que em Loanda se não ouve missa; — talvez seja por 
falta de padres. 

Já disse que a igreja dos Jesuilas está em completo 
estado de ruioa: apenas existem as quatro paredes, ás 
quaes encostaram uns pequenos alojamentos ou barra^ 
cas de feira, a que chamam — officinas das obras pu- 
blicas — onde vi executar algumas obras de ferreiro, 
espitigardeiro, funileiro, correeiro, tanoeiro, torneiro e 
carpinteiro, parte d'ellas feitas por operários degreda- 
dos, e outras, por operários a jornal. 

Parece que este estabelecimento, á testa do qual se 
acha um capitão, deveria ser de grande proveito n'um 
paiz onde tudo vai de fora por subido preço; infeliz- 
mente não acontece assim, visto que a mão d'obra e o 
valor dos materiaes empregados, importam em muito 
mais do que a receita das officinas. No mesmo edifício, 
mas na parte do antigo convento, conhecido ainda hoje 
por — Collegio — é que se recolhem os pretos prove- 
nientes das apprehensões feitas pelos cruzeiros portugue- 
zes, chamados por isso libertos, e não porque elles gozem 
da sua liberdade, porque não saem senão para fazer 
algum serviço no Palácio do Governo, ou nas reparti- 
ções publicas, e sempre acompanhados por soldados. 
Alguns vi também n'uma immunda enxovia que existe 
dentro do próprio estabelecimento. 

É tão pouca a coníiança que o Director tem n'esta 
gente, que quando os emprega no transporte de objectos 
de algum valor, costuma pôr-lhes umas gargalheiras de 
ferro que os prendem uns aos outros, e assim percor- 



— se- 
rem as ruas da capital comboios de pretos que muito se 
assemelham ás recuas dos nossos almocreves. 

Existe ainda a capella mór separada do resto do 
edifício por uma divisão de madeira, e serve de de- 
posito da agua para os libertos e operários. Alli ura 
d'estes, escondido atraz do altar mór, exerceu por algum 
tempo a honesta profissão de moedeiro falso, que já em 
Portugal tinha exercido com algum proveito, até que os 
nossos tribunaes pouco admiradores das bellas artes, o 
expatriaram para longe da Izabelinha, terra da sua na- 
turalidade. O altar mór, é de mosaico, ido de Itália, e 
muito semelhante a um do Convento da Batalha. Ape- 
sar de muito sujo e mal conservado, não me pareceu 
deteriorado: apenas lhe faltam quatro bellas columnas 
torcidas, de mármore côr de rosa, que adornavam o re- 
tábulo, e que o Governador Féo mandou tirar, para figu- 
rarem na construcção de um monumento para comme- 
morar a acclamação d'El-Rei D. João VI, e o mau gosto 
de que era dotado. 

O embellezamento da actual praça de D. Pedro V, 
perto do Palácio do Governo, onde se achava tão apre- 
ciável monumento, exigiu a sua remoção para sitio mais 
adequado; por isso o apearam, e depositaram em monte 
a um lado da praça os materiaes de que se compunha. 
Ha annos que alli existem e naturalmente continuarão a 
existir, com o que nada se perde ; seria no entanto con- 
veniente que as columnas voltassem para o seu primitivo 
logar d'onde nunca deveriam ter sabido, removendo-se 
aquelle altar mór, a melhor obra d'arte que existe em 



— 37 — 

Angola, para alguma igreja onde se lhe desse o apreço 
que merece. 

Também lá encontrei, meio enterrado no chão e co- 
berto com pontas e aparas de madeira, um lindo obuz 
de bronze, notável pela sua grande antiguidade e bello 
desenho: — é uma peça muito digna de figurar n'um 
museu d'artilheria. 

A Sé velha, que inculca ter sido um sumptuoso edi- 
fício, apenas tem hoje quatro paredes desmanteladas: 
depois de ter servido de curral, é agora o deposito de 
lixos e immundicias. 

Estas ruinas pertencem também á cidade alta, na 
qual se acham os melhores edifícios pubHcos, e para onde 
os primeiros Governadores tentaram chamar a povoa- 
ção, porém os interesses commerciaes tiveram maior 
poder, e assentaram a cidade no sitio menos próprio 
para esse fím. 

O convento deS. José, de que fallei quando lembrei 
a instituição de um seminário em Loanda, era também 
um bom monumento, e n'elle esteve por muito tempo o 
hospital militar, mas como se acha um tanto afastado da 
cidade, o Physico mór e mais facultativos, incommoda- 
dos com este pequeno passeio que tinham de fazer — 
uma vez — por dia, entenderam que o melhor era des- 
acreditar o local e edifício ; e transportaram os doentes 
para o Hospital da Misericórdia, onde de certo o Physico 
mór está mais á sua vontade do que os enfermos. 

Não cheguei a visitar esse estabelecimento, porque 
me não agradam taes visitas; mas pelas informações que 
tive, é uma das repartições que mais notável se tem tor- 



— 38 — 

nado tanto pela falta de aceio, como dos objectos mais 
necessários para commodidade ebem-eslar dos doentes. 

No tempo das aguas, cho\e, por toda a parte, e mais 
de uma pessoa me asseverou que os facultativos se viam 
obrigados, por vezes, a fazerem a visita aos doentes, de 
guarda cbuva aberto. Pôde ser que n'isto haja exage- 
ração; porém o que posso aliançar, é que tendo sido 
atacado da febre, um dos meus companheiros de via- 
gem, e sendo obrigado a recolher-se ao hospital, por o 
nao quererem conservar na casa onde se achava hospe- 
dado, depois de ter dado entrada no hospital, mandou 
pedir ao Governador, pelo amor de Deus, que lhe man- 
dasse uma enxerga e lençoes, porque a cama que lhe ti- 
nham dado se achava em tal estado, que elle preferia 
morrer debaixo de uma arvore, do que deitar-se n'ella! 

Nada posso dizer com fundamento do modo porque 
alli são traclados os enfermos; sei que o sulfato de qui- 
nino é a base de todos os tractamentos, e d'elle se faz 
um consumo espantoso. As raras visitas do Physico mór 
ao hospital, obrigam-me a acreditar que aquelle estabe- 
lecimento não é mais do que um recolhimento para as 
pessoas atacadas de moléstias, e que ninguém quer con- 
sentir em casa; um deposito de moribundos: — o ponto 
de tranzição da vida para a morte infallivel. 

Feliz aquelle que se pôde tractar em sua casa, e a 
quem Deus deu mulher e filhas estremosas que lhe pro- 
digalizam os seus cuidados! O homem solteiro, que 
vive só com escravos, é sempre victima do abandono em 
que o deixam os seus servos, e algumas vezes os amigos 
com quem vivia. 



— 39 — 

Junto ao hospital está a igreja da Misericórdia, e ex- 
teriormente não me pareceu mal conservada. 

Existem ainda na cidade alta as ruinas do convento 
do Carmo e do hospicio de Santo António, em parte ha- 
bitado por alguns pobres, onde provavelmente se abri- 
gam de graça : é um triste remédio de que podem um dia 
ser victimas. 

Junto ao collegio ou repartição das obras publicas, 
vé-se o Paço do Bispo, que era o corpo principal do 
antigo convento dos Jesuítas, edifício 'bastante deterio- 
rado, mas susceptível de melhoramento. ]N'uma parte 
d'elle está estabelecida á Secretaria do Governo, que é 
uma das repartições que me pareceu mais bem mon- 
tada. No andar térreo acha-se a imprensa da Província, 
onde se imprime o — Boletim (f Angola, — pequeno 
periódico semanal que publica os actos ofíiciaes, e alguns 
annuncios. No mesmo pavimento servem uns quartos 
d'arrec3dação ás companhias expedicionárias que d'aqui 
foram . 

Pegado á Secretaria, e com communicação interior, 
temos o Palácio do Governo, que é a obra mais solida 
que vi em Loancla. As madeiras empregadas na sua 
construcção foram todas do Brazil : só assim é que po- 
deram dar ás salas, dimensões que não seria possível 
obter com as madeiras da Província, as quaes, por falta 
de meios de transporte, são apparelhadas em dimensões 
tão acanhadas, que se tornam impossíveis construcções 
de grandes vãos. f 

No interior do paiz existem excellentes madeiras tão 
boas como as da America, taes como a malanga, jaca- 



— 40 — 

randá, páco, pau ferro y pau cToleo, espinheiro, tacula, 
imhondeirOy cujo tronco serve de cortiço ás abelhas tão 
abundantes em Africa, que apesar do bárbaro e absurdo 
processo empregado pelos naturaes do paiz para a co- 
lheita da cera, sua producção não parece ter diminuido 
muito. Os pretos lançam o fogo ás tocas das abelhas, 
queimam enxames inteiros, perdem o mel, e deterioram 
a cera, que poderia ser um dos mais bellos e mais ren- 
dosos productosdas nossas colónias. Ha lambem '^gra- 
Iha, cujos ramos, apenas tocam no chão, pegam raiz, e 
assim vão com o decorrer dos annos reproduzindo em 
volta do tronco successivas galerias concêntricas de uma 
belleza admirável. 

Os pretos por não fazerem uso da serra, e se verem 
obrigados a apparelhar tudo a machado e machadinha, 
escolhem sempre as menos duras e de menor bitola. 
Não ha nada mais curioso do que vêl-os chegar ao mer- 
cado com taboas de quatro centimetros d'espessura, e 
de oito a dez metros de comprimento, desbastadas a ma- 
chado e empenadas em todos os sentidos. Não é menos 
para admirar o modo extravagante que os indígenas em- 
pregam para as confeccionar, pois que para obter uma 
laboa, desperdiçam, reduzindo a cavacos, uma arvore 
que lhes poderia dar seis ou sete boas taboas, se empre- 
gassem a serra braçal. Dir-se-ia que praticaram no 
nosso arsenal de marinha! 

O Palácio do Governo tem uma bella escadaria de 
dous lanços, dando para uma sala d'espera. Segue-se 
um salão de reuniões, taes como a da commissão mixta 
(na qual a nossa fiel alliada deveria ter um mais digno 



— 41 — 

representante), a que preside o Governador geral, mo- 
bilado ad hoc; e onde estão os retratos de D. João VT, 
D. Maria II, e de dous ou três Governadores, sendo um 
d'elles o do Visconde do Pinheiro, de tamanho natural, 
íazendo pendant ao da Rainha ; e o do celebre general, 
restaurador d'Angola, Salvador Corrêa de Sá Benevides, 
que em 1648 expulsou os Hollandezes d'aquelle terri- 
tório, que o Governador Pedro Cezar de Menezes não 
soubera conservar. 

A este salão segue-se o do docel, ou de recepções 
officiaes, que é o melhor de lodos, mas está adornado 
com demasiada simplicidade. Parallelamente a estas 
três salas, que occupam toda a fachada do corpo princi- 
pal do edifício, ha um corredor, á entrada do qual se 
acha o gabinete dos ajudantes d'ordens, e que dá com- 
municação para três saletas particulares, sala de jantar, 
e habitação do Governador e de seus familiares. 

A sala de jantar fica virada para o lado do mar, e 
d'ella se descobre grande parte da ilha de Loanda: é 
uma espécie de varanda envidraçada de quinze metros 
proximamente de comprido por cinco de largo. 

Todo o lado do Palácio exposto ao poente está mais 
damniíicado, que o resto; sobretudo a sala de jantar, 
que já tem parle do travejamento rendido. O telhado 
acha-se em tão mau estado, que das vinte oito reparti- 
ções de que se compõe a distribuição interna, apenas na 
sala do docel é que não chove. 

A quarta parte do espaço occupadopelo andar lerreo 
está inutilisada : é uma enorme cozinha com dous gran- 
des fornos, e numerosas fornalhas, em tudo própria de 



— 42 — 

um convento de Bernardos. Os modernos Governado- 
res teem feito uso de uma cozinha que ha perto da sala 
de jantar, não só por maior commodidade, mas também 
para mostrar que se não come hoje tanto como antiga- 
mente. 

Nas trazeiras do Palácio ha uns quintaes com al- 
gumas arvores, perdidas entre uma immensidade de her- 
vas bravas e de plantas silvestres, entre as quaes abun- 
da o carrapateiro, do qual se poderia tirar maior pro- 
veito, extrahindo o óleo de mamona, que tão boa accei- 
tação teria nos mercados da Europa, era vez de ven- 
derem o carrapato a granel como agora fazem. Esta 
planta nasce espontaneamente em todo o território da 
Provincia. O anil, esse rico producto tão procurado pe- 
los diíferentes ramos da industria, cresce abundante- 
mente, mesmo nos subúrbios de Loanda. Os Jesuitas 
occuparam-se muito da extracção d'este producto, mas 
depois ninguém mais cuidou n'isso. 

Junto ao Palácio do Governo está o quartel do 1.° 
de linha, que é composto de degredados válidos, e o 
dos destacamentos de caçadores. Este edifício, como 
todos os mais que pertencem ao Estado, ameaça des- 
abar; parte d'elle já está abandonado. 

Em frente depara-se com a casa da — Junta da Fa- 
zenda — obra solida, mas pesada e pouco elegante: tem 
cento e dez annos de existência. Foi mal escolhido o 
local para a sua edificação, porque assim privaram o 
Palácio do Governo da magnifica vista que tinha para a 
bahia e cidade baixa. 

Ao lado da casa da — Junta da Fazenda — existe a 



- 43 — 

cadêa, pequena construcção de um andar, que primiti- 
vamente serviu de casa da Camará, e me pareceu mais 
aceada exterior, do que interiormente. 

Próximo fica o quartel da companhia dos artífices. 
Esta companhia é commandada por um alferes já ma- 
duro, e que não pertence ao corpo d'engenharia militar, 
apesar de usar d'esse uniforme. Estes artifices são na 
maior parte degredados : não ha entre elles um bom 
operário, e pareceram-me quasi todos não só veteranos, 
mas inválidos. Se artifice quer dizer — incapaz — , en- 
tão a companhia de Loanda está perfeitamente organi- 
sada. 

Concluirei esta ligeira descripção da cidade alta, 
mencionando a fortaleza de S. Miguel, onde está o tele- 
grapho, collocada n'uma eminência em frente da hahia, 
dominando toda a cidade baixa e parte da alta, e d'onde 
se avistam as embarcações apenas despontam em qual- 
quer lado do horisonte : é n'ella que os officiaes cum- 
prem o tempo de detenção, a que por vezes são condem- 
nados. Uma das cortinas que ficam viradas para a ci- 
dade baixa, destacando-se um dia do resto da construc- 
ção, deixou-se escorregar pela encosta do monte, até 
que encontrou um obstáculo que a deteve no sitio onde 
agora existe. 

Isto não nos deve causar admiração, porque em 
Portugal temos muitas fortalezas em peor estado. 

Não tive occasião de visitar a fortaleza, mas ouvi di- 
zer que não está mal conservada, faltando-llie apenas 
artilheria soffrivel, porque tanto a que a guarnece, como 
a da fortaleza do Penedo, é tão ordinária, que mal serve 



_ 44 — 

para as salvas; comludo manda a justiça que se diga, 
que as peças d'artilheria, tanto em Loanda, como em 
Benguellãy e Mossamedes, tem feito o seu dever, e de 
maravilha se darão tantas salvas em parte alguma como 
por lá. A entrada e sabida dos cruzeiros estrangeiros, e 
os embarques e desembarques dos Governadores, são 
causa de se gastar muita pólvora, que apesar de ser or- 
dinária, fica á Pravincia pelo preço da boa. 

Fallando com alguns sujeitos a este respeito, disse- 
ram-me, que um polaco de olho azul, governador de 
uma fortaleza, e que vive em Angola ha muitos annos, 
onde tem feito casa, costuma comprar quanta pólvora 
avariada apparece para substituir com ella a que o Es- 
tado lhe fornece, a qual depois é vendida por bom preço, 
não só aos pretos do interior, mas até a certos logistas 
da baixa. — São transferencias que pôde executar com- 
modamente por ser o depositário de toda a pólvora que 
os negociantes recebem para negocio, e que são obri- 
gados a arrecadar no paiol da fortaleza de que elle é go- 
vernador. 

Estas falcatruas e muitas outras que taes, são vul- 
gares em toda a costa d'Africa : creio poder dizer, sem 
grande risco de me enganar, que o são em todas as nos- 
sas possessões. 

Ha em Portugal um funccionarlo publico, de quem 
me não declararam o nome, que gosa de credito, e que 
não deixou em Loanda a melhor reputação. Parece 
que este digno homem, quando teve a seu cargo o depo- 
sito de mantimentos da nossa estação naval, fazia ao vi- 
nho, á aguardente, e ao azeite a mesma operação que o 



~ 45 — 

outro faz á pólvora ; isto é, misturando agua e. azeite de 
mendui n'aquelles géneros. Foi assim que se juntaram 
alguns contos de reis, e se fez jus a certas distineções, 
como remuneração de serviços prestados ao paiz! 

Desçamos agora á cidade baixa, e vejamos de re- 
lance quaes são os principaes edifícios do Estado. 

Temos em primeiro lugar a — Alfandega — , cons- 
trucçâo de modesta apparencia, e de mui limitadas com- 
modidades. As repartições occupam o único andar, e ao 
rez da rua existem os armazéns, que apesar de construi- 
dos com solidez, não teem a capacidade necessária para 
arrecadar os objectos d'estiva, o que causa transtorno 
aos negociantes, que não teem em casa espaço sufficiente 
para recolher as mercadorias. 

O actual Governador para remediar este inconve- 
niente, e convencido de que será mais proveitoso para o 
commercio e para os interesses da Provincia utilisar o 
quartel de cavallaria, que está próximo da Alfandega, ou 
o edifício do Trem, tenciona dar em breve principio a 
uma obra de Ião urgente necessidade. Loanda ficará 
então tendo uma Alfandega com sufficiente capacidade, 
e os direitos d'armazenagem hão de augmentar conside- 
ravelmente a verba de receita. 

Defronte da porta principal da Alfandega é o cães de 
desembarque, com um guindaste para as mercadorias 
pesadas, que são transportadas n'um carril de ferro até 
aos armazéns. O cães de desembarque, coberto com 
um telheiro muito simples e assaz elegante, é onde se 
reúnem alguns negociantes: — póde-se considerar o 
pasmatorio de Loanda. 



— 46 — 

Junto a esse cães estão as antigas escadas, e ainda 
alli existe a celebre cadeira de pedra, onde em outros 
tempos os Bispos se iam sentar para baptisar os escravos 
que embarcavam aos magotes. Já se vê que esse sacra- 
mento se concedia com menos apparato do que se cos- 
tuma em taes actos, porque aquelle era o principal ramo 
de negocio, e em negocio não ha tempo a perder. 

Contaram-me que a ceremonia se fazia do modo se- 
guinte : 

Os pretos formavam na praia e esperavam o Bispo, 
que logo chegava acompanhado dos seus caudatários, e 
dos ecclesiasticos que compunham o Cabido. Tomava 
assento na tal cadeira de pedra, debaixo de um toldo, 
que n'essas occasiões se armava, empunhava o hyssope, 
e aspergia os pretos que se lhe apresentavam aos grupos 
de dez e doze, dizendo : 

— Em nome de Deus, eu vos baptiso João. 

A outro grupo dava o nome de Pedro, de Paulo, 
ou de qualquer outro santo que lhe viesse á ideia, e as- 
sim se ia enchendo um navio, onde os Josés e os Fran- 
ciscos entravam ás dúzias. 

Este rápido systema de baptismos era muito rendoso 
para os Bispos e Governadores, que recebiam certa 
quantia por cada — cabeça — . Houve quem julgasse, 
que o baptismo era um pretexto para o Bispo assistir ao 
embarque, porém que o verdadeiro fim era contar as 
— cabeças — para que não houvesse logro no paga- 
mento dos direitos da mitra. O que é certo, é que este 
simulacro de baptismo de nada servia, visto que os pre- 
tos vindos do interior, não entendendo o portuguez, fica- 



— 47 — 

vam ignorando os nomes que lhes tinham dado, pelo 
que forçoso era haplisal-os de novo quando chegavam 
ao Brazil. 

Agora continuemos o nosso passeio pela cidade 
baixa, e antes de mais nada entremos no — Trem — . 

Este nome a principio faz scismar a gente, porque 
se suppõe que em Loanda ha um arsenal bem provido 
de machinas e utensilios próprios para reparar com bre- 
vidade e economia qualquer avaria que um navio tenha 
soffrido. Enganam-se: no Trem não se concerta nada. 

Houveram em tempo algumas officinas que serviam 
de capa a muitos roubos, até que um Governador julgou 
mais acertado mudar aquelle covil para a ilha, porque 
se não animou a acabar com elle por uma vez, como de- 
veria ter feito, já que lhe não era possivel dar-lhe uma 
organisação em harmonia com as necessidades e conve- 
niências da Provincia. 

Actualmente o Trem não passa de uma arrecadação 
onde se recolhem vários objectos do Estado a cargo do 
Almoxarife, espécie de cónego secular, pertencente á 
grande familia dos improductivos, tão numerosa no Ul- 
tramar. 

Angola não pode prosperar em quanto não tiver em 
algum dos seus portos, um estaleiro de reparação bem 
montado, e um material capaz de poder executar qual- 
quer concerto, que seja exigido tanto pelos nossos na- 
vios, como pelos estrangeiros; sem isso mal se poderão 
conservar alli vapores para as viagens da costa, que tão 
proveitosos deveriam ser para o commercio e para o 
Estado. 



— 48 — 

Nunca me ha de esquecer, que tendo chegado a 
Loanda um dos nossos vapores de guerra com um mas- 
taréo rendido, e desejando o commandante substituil-o 
por oulro, viu-se em taes apuros que leve de mandar 
operários de bordo para ajudar os das officinas da ilha; 
quando não teria ficado sem mastaréo. Não é portanto 
para admirar que o vapor — Maria Anna — se visse 
obrigado a ir ao Cabo da Boa Esperança compor as cal- 
deiras. 

Se Loanda fosse possessão ingleza, é provável que 
alli houvessem todos os preparos indispensáveis para 
concertos, e até para construcções navaes, mas sendo 
portugueza, como ha de ella possuir aquillo que em Lis- 
boa apenas é um arremedo do que deveria ser! 

Deixemos o Trem, de celebre memoria, e vejamos a 
ermida da Nazareth, cuja capella mór é forrada d'azule- 
jos representando a grande victoria alcançada em 1666 
pelas nossas tropas sobre as do Rei do Congo, que 
n'essa refrega perdeu a cabeça. 

Vamos espalhar a melancolia que o Trem nos inspi- 
rou por este bonito caminho que se nos apresenta: é 
uma bella estrada arvorisada que se dirige ao passeio 
publico da ponta da Isabel. O sitio é aprazível: aqui te- 
mos a Quitanda pequena, lugar de tristes recordações 
onde o algoz por varias vezes tem exercido o seu odioso 
cargo, e que serve igualmente de mercado. Seguem-se 
umas babitações assaz elegantes, a que chamam casas de 
campo. 

Onde nos conduzirá esta estrada que vamos seguin- 
do? Ah ! já sei : — eis-nos na fortaleza do Penedo, as- 



— 49 — 

sim chamada por ter sido construída em cima de um pe- 
nedo balido pelo mar. A linda vivenda que avistamos 
é a do governador, o tal polaco de quem ha pouco 
fallei. 

A fortaleza não está mal conservada ; a artilheria já 
disse como se achava, precisando toda de reforma, por- 
que as mesmas peças menos deterioradas estão sem re- 
paros. O excessivo calor, e o salalé, destroem em 
pouco tempo todas as obras de madeira, o que se pode- 
ria evitar montando a artilheria sobre carretas de ferro, 
havendo cuidado de as conservar pintadas ou enverniza- 
das. 

Mas quaes são as attribuições do governador da for- 
taleza? Tem varias. Manda dar as salvas com a pólvora 
que nós sabemos; para não deixar os soldados na ocio- 
sidade, manda-os trabalhar em casa d'elle em differentes 
arranjinhos, e cobra os direitos d'entrada que tem de 
pagar todos os géneros que os pretos introduzem na ci- 
dade quando n'ella entram por aquelle lado, seguindo a 
estrada de Cacuaco. Na arrecadação dos direitos leva o 
rigor a tal ponto, que um dia pretendendo ficar com 
tudo o que os pretos traziam, estes abandonaram qiiibu- 
tos, mucatas, bois e cabritos, e correram ao Palácio 
implorar o auxilio do Governador geral. Este excesso 
de zelo esteve para lhe ficar caro, porém o bom do ho- 
mem é como os gatos, — cáe sempre de pé. 

Ainda ha uma terceira fortaleza para visitar: é a de 
S. Pedro da Barra, mas fica distante, e em Loanda na.o 
se podem dar grandes passeios a pé. 

Regressemos á cidade, e de passagem lancemos uma 



— 50 — 

vista d'olhos sobre o Terreiro construido em 176S pelo 
Governador Souza Coutinho, onde os pretos depois de 
dizimados pelo governador da fortaleza do Penedo, vem 
expor á venda os restos que lhes deixa da farinha, feijão 
e milho. 

Os géneros que vi vender no mercado da Quitanda 
são os seguintes : 

Gallinhas, carne de porco e toucinho muito ordiná- 
rio, farinha de mandioca, e fubá (que é outra farinha 
mais ordinária), bananas, mangas, beringellas, caju, la- 
ranjas verdes, massango, cocos, goiavas, peixe salgado e 
fresco, couves muito más aos raminhos de cinco folhas, 
ovos e uma infinidade d'acepipes de duvidosa apparen- 
cia, de que fazem uso os pretos e a gente ordinária. 

Além d'estes géneros, os pretos também trazem ao 
mercado esteiras de palha e de palmar, objectos de 
barro muito grosseiros, tecidos d'algodão conhecidos 
pelo nome à^ pannos da costa, lenha, pássaros, caça, 
macacos, tabaco em folha, e vários objectos de ferro tos- 
camente fabricados. 

É provável que o mercado offereça variedade de gé- 
neros nas diíferentes estações: o que acabo de mencio- 
nar é o que vi vender na força do verão (Fevereiro e 
Março). 

AUi temos um edifício pequeno sim na extensão, 
mas grandioso na intenção: é o — Asylo da Infância — 
ou de — D.Pedro V. — Não o cheguei a visitar, mas 
ouvi-lhe tecer elogios; é o único estabelecimento de be- 
neficência que existe em Angola, não fallando no hospi- 
tal da Misericórdia, e faz honra áquelle que tomou a 



_. 51 — 

iniciativa para se levar a eíFeito ião util insliluição, e não 
menos aos que concorrem para a sua sustentação. 

Os pretos forros que se occupam em carretos e na 
venda a retalho de diversas miudezas, vivem em dous 
bairros bem distinctos, compostos de cubatas espalha- 
das a esmo : um fica situado na fralda do morro da for- 
taleza de S. Miguel, e o outro junto á praia do Bungo. 

Loanda também tem o seu theatro particular, onde 
representa uma sociedade de curiosos. Fui convidado 
para uma representação, mas preferi privar-me d'esse 
divertimento, que não compensa o incommodo que se 
soíFre por causa do excessivo calor. 

O divertimento favorito dos habitantes d'aquella 
terra não me pareceu ser o theatro, por isso duvido que 
Ião agradável recreio se possa sustentar: professam 
todos um grande culto pelo baralho e alguns levam a ve- 
neração a ponto de lhe fazerem o sacrifício dos seus ha- 
veres. 

Como toda a acção má necessita ser encoberta por 
outra apparentemente louvável, imaginaram um meio 
d'attrahir á banca muita gente que talvez lá não fosse se 
soubesse para o que ia. Esse meio é o das rifas de vá- 
rios objectos, cujo producto é sempre destinado a soc- 
correr algum necessitado. Fazem-se os convites, mar- 
ca-se a hora, e no dia aprazado procede-se á extracção 
dos prémios; mas o dono da casa é sempre obsequiador 
e muito mal lhe ficaria se deixasse sahir os convidados 
sem os reunir á sua mesa, onde lhes offerece uma me- 
renda ajantarada, consistindo n'uma immensidade de 
pratos e de numerosas garrafas de vinho generoso. Con- 



— 52 — 

cluida a merenda, e quando os convivas se acham já suf- 
ficientemente enlhusiasmados, apparece um baralho — 
para brincar um bocado — e matar o tempo. Os curio- 
sos agrupam-se em volta do banqueiro, deixam-se ten- 
tar, e é então que os paláus pagam bem caro o Porto 
que beberam. 

Em Angola, principalmente no Ambriz, joga-se 
muito : ha casas onde a banca é permanente ; o ban- 
queiro só se levanta para tomar algum alimento, mas 
fica substituido por um sócio. Este maldito vicio é 
causa da ruina de bastantes pessoas e da má conta que 
vários negociantes tem dado de si. 

Julgo a propósito dizer algumas palavras, relativa- 
mente ao modo de negociar em Loandãy e geralmente 
em toda a Costa d' Africa. 

Os géneros importados para uso tanto dos europeus, 
como dos indigenas, pelos portuguezes, inglezes e ame- 
ricanos dos Estados -Unidos, são pouco mais ou menos 
os seguintes: 

Vinho, vinagre, aguardente de canna, cognac, ge- 
nebra, licores, cerveja, manteiga de vacca, presuntos 
e carne ensacada, azeite d'oliveira, farinha triga, fru- 
ctas seccas e de conserva, sardinhas de Nantes, assu- 
car de canna e de beterraba, cebolas, alhos, massas para 
sopa, chá preto e verde, macella, queijo, conservas de 
legumes, roupa e fazendas brancas, fato feito, chapeos 
de seda e de palha, luvas brancas, calçado, charutos e 
tabaco, cartas de jogar, espingardas, pólvora, ferragens 
ordinárias e ferramentas, louças, vidros, cassas, chitas, 
sabão, stearina, louça de barro, relógios de bolso e de 



— 53 ~ 

parede, drogas e tintas, madeira de pinho americana, 
óleo de linhaça, fazendas d'algodão de cores, missan- 
gas, lenços de cores, chumbo, ferro, cobre, estanho, 
folha de Flandres, bezerro, vitella, carneira, cabos, 
cordas, barbante, alcatrão, breu, pregaria e cutelaria, 
objectos para adorno de casa, papel de diíFerentes qua- 
lidades, palitos, phosphoros, carvão de pedra, alguma 
mobília, e diíFerentes artigos de toilette. 

Os géneros de exportação são mais limitados, mas 
não menos importantes; resumem-se nos seguintes: 

Urzella, marfim, abada, carrapato, azeite de gin- 
guba e de palma, café de Cazengo e de Encôge, cera, 
gomma copal, chifres, couros seccos, dentes de cavallo 
marinho, e algum algodão. 

Este ultimo artigo dá-se perfeitamente na Africa. A 
importância que este rico producto deu aos Estados-Uni- 
dos, chegou a ponto de seus habitantes, apesar de repu- 
blicanos, o appellidarem Rei, talvez por tornar a Gram- 
Bretanha sua feudataria. Os inglezes, para conjurar a 
crise industrial que parece querer ameaçal-os, e que a 
desunião entre os Yankees tende a apressar, tem acon- 
selhado a cultura do algodão em todos os paizes em que 
se dão as necessárias condições atmosphericas para con- 
seguir livrar-se d'aquella perigosa tutella. 

As amostras d'algodão vindas da costa d'Africa pro- 
vam a boa qualidade d'aquelle género, e ainda que não 
possa competir, por em quanto, com algumas das melho- 
res qualidades dos Estados-Unidos, já é muito superior 
ao da índia, principalmente na Hmpeza. 

A costa d'Africa pôde em poucos annos crear im- 



— 54 — 

mensos recursos com a cultura do algodão, concorrendo 
para abastecer em grande parte os mercados da Europa. 

Desde que ha a carreira de vapores, estabeleceu-se 
um novo ramo de commercio, que parecendo á primeira 
vista insignificante, deixa comtudo no fim do anno bas- 
tante interesse em Loanda, e principalmente em Ben- 
guella. Esse negocio é o dos pássaros de variadas e 
lindas cores, que se encontram em grande quantidade 
na costa d'Africa, sendo os mais notáveis: os papagaios 
cinzentos, periquitos escarlates, viuvas, januarias, car- 
deaes, bigodes, cospe fogo, bicos de lacre, bicos de 
prata, monsenhores, bengalinhas, maracachões, palan- 
ques, peitos celestes, tecelões, e canários. 

Não fallo nos productos das famigeradas minas do 
Bembe, por ter ouvido dizer que a maior partedo mi- 
nério extrahido é preto, e impróprio para os mercados 
da Europa. 

Passemos ao modo usual de fazer as transacções 
commerciaes. 

Os navios que carregam para Angola visitam ordi- 
nariamente quasi todos os nossos portos, porque nem 
sempre acham n'um só, sahida para toda a carga. Ape- 
nas fundeados, apresentam-se logo a bordo os negocian- 
tes mais espertos para tractarem parte do carregamento, 
ou qualquer dos artigos que lhes faz mais conta. Nota-se 
que os mais empenhados na compra são quasi sempre 
aquelles que menos dinheiro teem, e gozam de peores 
créditos. A táctica seguida, é dizer mal ao capitão do 
navio, ou consignatário que vier a bordo, das pessoas 
para quem trouxerem cartas, ou que se acharem pre- 



— 55 — 

sentes para conlractar. A ouvil-os, nao ha um só que 
tenha dinheiro: este está empenhado até ás orelhas; 
aquelle metteu-se em transacções arriscadas com um 
sócio do Brazil, do qual já se não reza bem ; aquelFou- 
tro tem perdido ao jogo quanto possuia, e viu-se obriga- 
do a reformar umas letras, que não tardam a ser protes- 
tadas; — emfimnão ha infâmia a que não recorram para 
desacreditarem os concorrentes, e obterem por esse 
modo, por um preço favorável, os géneros que preten- 
dem. 

Notei que em Angola de ordinário se mente muito : 
é um habito de certo devido á frequente convivência 
com os Americanos. 

Depois d'eslas visitas, que são sempre acompanha- 
das de convites para almoçar, ou para jantar, embora 
em casa não haja com que mandar comprar o pão ao pa- 
deiro, e quando o espirito do capitão se acha mais soce- 
gado da má impressão causada pelas terríveis noticias 
que acabam de lhe dar, dirige-se para terra, e procura 
as pessoas a quem vai recommendado. Se offerece a fa- 
zenda, fazem-lhe propostas inacceitaveis; se a não offe- 
rece e se quer desfazer d'ella, como acontece a todos, 
tem de entrar em ajuste com os espertos. O vendedor 
não deixa de conhecer o quanto é critica a sua posição, 
porém prefere o risco a um prejuízo certo. 

Em Angola ha pouco dinheiro: — vêem -se raras li- 
bras e alguns dollars amerícanos ; o resto é em moeda 
papel, ou cédulas de mil, dous mil e quinhentos, e cinco 
mil reis, moeda immunda, que o Governo deveria ha 

muito ter tirado da circulação, mesmo por ser tão fácil 

5 



— se- 
de falsificar, que admira que algum habilidoso se não 
dedicasse ainda a esse trabalho. 

O dinheiro em cobre são macutas e quipacaSy de 
que ha uma immensidade de differentes tamanhos e fei- 
tios, com carimbo e sem elle. 

Julgo que foi n'uma época em que o numerário fa- 
lhou, que o Governo decidiu dobrar o valor á moeda de 
cobre, pondo-lhe um carimbo pessimamente executado 
e de tão fácil imitação, que vários sujeitos carimbaram 
em casa todo o dinheiro que poderam apanhar, dobran- 
do o valor ao cobre que tinham, quando isto não devia 
ter lugar senão depois de lançado em giro pela Junta da 
Fazenda. Como porém em Angola os artistas de mere- 
cimento são ainda mais raros do que o dinheiro, aconte- 
ceu que os carimbos sahiram de diversos feitios. 

Também foi preciso em tempo, para facilitar as 
transacções, cortar as moedas de prata em quatro, para 
augmentar os miúdos que falhavam no mercado; pois 
d'isto mesmo tiraram partido alguns matreiros, cortan- 
do as moedas em cinco ou seis partes, operação que 
não foi pouco lucrativa. Antigamente era moeda cor- 
rente e ainda se servem para o interior, d'uns tecidos 
de palha muito perfeitos, a que dão o nome de libongos, 
e já se fez grande uso de uma certa qualidade de búzios, 
que se achavam na ilha de Loanda, chamados zimbos; 
actualmente ainda se considera boa moeda, o sal mineral 
das magnificas minas da Quissama, que os indigenas 
extrahem em palhetas de palmo de comprido, e de duas 
a três poUegadas de diâmetro. 

É provavelmente, por haver pouco dinheiro, que to- 



— 57 -^ 

das as transacções se eífectuam em trocas, mas assim 
mesmo não se julgue que o pagamento seja menos mo- 
roso. Quando o capitão do navio perdeu de todo a es- 
perança de realisar a venda a prompto pagamento, en- 
tra em ajuste a prazos, meio pelo qual sempre se conse- 
gue vender seja que artigo fôr. Gomo os prazos são 
longos, e quando Deus quer eternos, tracta o vendedor 
de dar ás fazendas dobrado valor d'aquelle por que as 
cederia a dinheiro. O negociante o que pede é tempo — 
o preço pouco lhe importa — e já se vê, qvte este au- 
gmenta na proporção do prazo estipulado. 

Esta indiíferença pelo preço da fazenda explica-se 
bem : alguns compram já com a íirme tenção de não pa- 
garem, e apresentam-se fallidos nas vésperas do venci- 
mento das letras. 

A maioria dos negociantes, com quanto gosem da 
fama de serem ricos, e de girar com muitos contos de 
reis — phrase usual — não passam de uns commissa- 
rios, que recebem fazendas para vender no interior, e 
só podem satisfazer os seus compromissos quando são 
embolsados das vendas que igualmente íizeram a pra- 
zos, que ás vezes n'estas transacções são de dous, três, 
e mais annos. Ahi é que vai o mal, porque o credor 
nem sempre se acha no paiz na época dos pagamentos, 
e os jantares e o jogo vão pouco a pouco absorvendo os 
lucros, e o valor das fazendas. 

É raro também encontrar credores que se não la- 
mentem na occasião de saldar as suas contas; só então é 
que reconhecem ter comprado caro ; não houve fazenda 
que se lhe não avariasse, e em que não perdessem. Es- 



~ 58 — 

tas choradeiras tornam-se, por assim dizer, uma opera- 
ção mercantil, porque dão sempre um resultado de dez 
a quinze por cento d'abatimento. Apesar d'esse rebate, 
o credor ainda lucra por causa do preço elevado por 
que vendeu. Felizes aquelles a quem se oíFerece occa- 
sião de fazerem d'essas concessões, porque é signal que 
lhes pagam. 

As fazendas destinadas para o interior, são enviadas 
por carregadores aos sócios ou correspondentes estabe- 
lecidos nos differentes presidios, ou entregues a corre- 
tores mulatos, chamados — pombeiros — e — avia- 
das — , que se encarregam de correr as povoações e as 
feiras do interior, hoje pouco frequentadas, e de eíFe- 
ctuar as trocas. Estes amigos desapparecem ás vezes 
com o santo e com a esmola : — então a quebra do ne- 
gociante é certa. 

Estas operações levam tempo infinito a realisar por 
causa das distancias enormes que as fazendas tem de 
percorrer, e dos péssimos meios de transporte de que 
podem dispor os taes corretores. 

Na venda a retalho, tanto em Loanda, como nas 
mais partes da Provincia, são todos os géneros falsifica- 
dos sem dó, nem consciência, e d'ahi resulta morrei* 
muita gente envenenada, com fama de febre amarella; 
se fizessem uma analyse rigorosa aos diíFerentes géneros 
expostos á venda, haviam de apparecer composições tão 
aterradoras, que os próprios Borgias as teriam inve- 
jado. 

A genebra, por exemplo, de que fazem muito uso 
para misturar na agua, é uma mixordia de agua salgada. 



— 59 — 

cachaça, e agua raz. A base de todas as composições 
para licores é a agua raz ! 

Os direitos prohibitivos que pesam sobre os vinhos 
de quaesquer procedências, influem provavelmente para 
que o negociante de uma pipa d'elle já impuro, faça três 
ou quatro detestáveis, e como sabem que em Angola o 
que se pretende são vinhos fortes, preparam um — vi- 
nho do Porto — pouco mais ou menos pela seguinte 
formula : 

Vinho qualquer impuro 25 

Agua de cacimba^ ou do mar com infusão de 

campeche 60 

Agua raz 10 

Infusão de pimentínhas (malagueta) ... 5 

100 

Não é só na botica que se vendem os cáusticos, e 
facilmente se avaliam os estragos que semelhantes elixi- 
res devem causar á saúde. 

Regra geral: em Angola todo o vinho é do Porto, 
tenha elle o gosto, a côr, e a procedência que tiver. 
Talvez assim lhe chamem, por causa da grande quanti- 
dade d'agua que lhe misturam... wo porto do desem- 
barque. Se não ignorassem absolutamente o que é vi- 
nho do Porto, de certo que me não teriam apresentado 
com a melhor boa fé, e com particular recommendação, 
uma garrafa com o seguinte distico : 

Vinho do Porto da fabrica do Brito de Santa Appolonia. 
Lisboa. 

Parece-me que o único género que se usa puro, é o 
assucar de beterraba, por ser vendido em forma, ou aos 
bocados, e não. poder por isso soíTrer preparação. 



— 60 — 

Esqiiecia-me tocar n'oiitro artigo que encontrei pés- 
simo, por toda a parte onde andei em Angola. Quem 
sáe de Portugal aíFeito a soíírer as prepotências e cynis- 
rao dos contractadores do tabaco, imagina que vai re- 
galar-se de bom fumo e barato, mas engana-se, porque 
o Brazil só para alli manda tudo o que fabrica de peor, 
e osEstados-Unidos apresentam charutos quasi tão maus 
como os do nosso Contracto, com a única differença de 
que ao menos ardem, o que já não é pouco. É fácil 
fumar bem pedindo a alguém, que tenha correspon- 
dente no Brazil, para mandar vir charutos bons, mas 
ficam bastante caros. Os cigarros fabricados em Loan- 
da com tabaco do paiz, ou americano, são tão maus, 
que por varias vezes ouvi fallar com saudades do nosso 
cigarro bregeiro ! 

Os pretos e as pretas fumam o tabaco da terra sem 
preparação alguma, em cachimbos de madeira compri- 
dos e mal feitos. As pretas ainda fumam mais que os 
pretos, e é tal o apego ao vicio, que na falta de tabaco 
fumam toda a casta d'herva sêcca, e com particularidade 
uma que exhala um cheiro nauseabundo. 

Houve antigamente um fabricante de charutos no 
Golungo, mas actualmente parece-me que ninguém se 
dedica a essa industria, que só poderá prosperar quando 
o nosso Governo se convencer, do quanto é immoral, 
estar enriquecendo meia dúzia de homens á custa da 
nação inteira. 

Entre muitas curiosidades dos usos e costumes 
d' Angola, a que impressiona bastante os europeus logo 
ao desembarque, é o vehiculo de que se servem osbran- 



— ól- 
eos e alguns pardos. Em Loanda não ha, que eu saiba, 
senão um caleche puxado por duas raulinhas, perten- 
cente ao negociante Flores, uma das firmas mais acre- 
ditadas d'aquella praça; apesar d'isso pouca gente anda 
a pé, principalmente de dia. O fortissimo calor do sol, 
e o das areias da cidade baixa, são dous inimigos terrí- 
veis, que convém evitar, assim como as cacimbas, ou 
orvalhos da noite. 

O meio de transporte de que se servem é o da ma- 
chillaf espécie de palanquim suspenso, servido por dous 
pretos. Farei a descripção d'este traste, que faz parte 
de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em 
lodos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por 
motivo de retirada, como de fallecimento. 

A base que serve de assento pôde comparar-se á 
de um camapé de palhinha, de metro e meio de com- 
prido, e setenta centímetros de largura. N'uma das 
extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitu- 
dinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para 
servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremida- 
des partem cinco cordões, que atravessam a grade de 
madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de ura 
metro, a umas argolas que se introduzem em dous gan- 
chos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam 
tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notá- 
vel leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões 
pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de 
um bambolim, para esconder os arames em que correm 
duas cortinas de chita adamascada de cores muito visto- 
sas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da 



-. 62 — 

tungãy e como então o assento fica apenas arredado do 
chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar 
para entrar para a machilla, onde se senta com as per- 
nas estendidas, como quem está n'um banho de tina. 

Os pretos carregadores marcham um diante do ou- 
tro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas 
do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua 
e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeita- 
mente os dous carregadores, e até quem vai dentro 
d'e11a. 

Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chi- 
balinha, ou um cacetinho curto, principalmente os car- 
regadores, que parece ao andar equilibrarem-se com 
elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Al- 
guns usam um pau curto com uma bola na extremidade, 
e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a 
grandes distancias tão certeiramente, que chegam a ma- 
tar caça. 

A primeira vez que entrei n'uma machilla senti 
grande repugnância ao vêr-me transportado por dous 
homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, 
com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguarda- 
do por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo 
varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a 
cidade alta. 

O balanço que se sente ao andar é agradável como 
o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo 
este meio de locomoção não deixa também de ter seus 
inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, 
ou que a tunga quebra, tem a gente de soífrer não só a 



— 63 — 

queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, 
ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que 
se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos 
á pequena altura entre o chão e o assento da machilla. 

Não sei o motivo porque ha tão poucas cavalgaduras 
em Angola : durante o tempo que estive em Loanda não 
vi mais de dous cavallos particulares. É pena que a 
candelária do Estado, ha muito estabelecida no Dande, 
não tenha produzido melhores resultados, porque pou- 
cas terras tenho visto mais apropriadas á creação da raça 
cavallar. Os cavallos do esquadrão de Loanda estão 
tão bellos, tão nutridos, e tão folgasôes, que os soldados 
mal os podem conter debaixo de forma. 

Angola parece ter sido destinada para cavalgaduras, 
e não para gente : é talvez por essa razão, que certos em- 
pregados, cuja intelligencia pouco diíFere da d'aquellas, 
tem vivido alli quinze e vinte annos sem padecerem in- 
commodo de maior. 

Disseram-me que existe no interior uma qualidade 
de mosca venenosa chamada tsé-tsé, que é um verda- 
deiro flagello para os animaes, e talvez isso influa no 
pouco apreço que os habitantes dão ás cavalgaduras. A 
falta d'ellas faz com que as viagens para o interior sejam 
igualmente feitas a hombros de carregadores, n'umas 
redes como as que usam no Brazil para dormir, e a que 
dão em Angola o nome de tipóia, que também vai pen- 
durada á tunga do mesmo modo que a machilla, po- 
rém fica mais desviada do chão ; nunca vi nenhuma 
que tivesse docel, nem cortinas, mas ouvi dizer, que em 
jornada as cobrem com uns pannos passados por cima 



— 64 — 

das tungas, a fim de resguardar o viajante dos raios do 
sol. A tipóia contém sempre um enxergãosinho e tra- 
vesseiro, porque n'el]a se vai deitado. Dizem que é o 
melhor modo de viajar: — não o contesto, mas pare- 
ce-me excessivamente massador, e uma longa viagem de 
dez ou quinze dias deve ser enfadonha ao ultimo ponto. 
Á noite suspende-se a tipóia a duas arvores, e assim 
dorme o viajante em silios ermos, para evitar de ser vi- 
ctima das feras, senhoras d'aquelles vastos sertões. 

Em quanto se não abrirem alguns caminhos para o 
interior, que facilitem a passagem a qualquer vehiculo 
puxado a mulas, os transportes das mercadorias hão de 
sempre ser caros, e chegar desfalcados aos seus desti- 
nos; e as tropas continuarão soíFrendo todas as priva- 
ções durante essas aterradoras marchas, que tantas vi- 
ctimas tem causado. Sei que é uma difficilima empreza, 
mas o Governador geral não recuará diante d'ella, se o 
Governo da metrópole lhe ministrar como deve os meios 
necessários para levar a efíeito tão proveitoso trabalho. 

A falta de commodidades nota-se também nas habi- 
tações, que achei mal construidas, e pessimamente dis- 
tribuidas. A maior parte das casas de Loanda, asseme- 
Iham-se ás que em Portugal se alugam no tempo dos 
banhos, nas terras do littoral. Por falta de madeiras 
com boas dimensões, vêem-se obrigados a distribuir as 
salas em pequenos vãos, o que é terrivel n'um paiz de 
clima abrasador. Algumas casas tem o andar térreo la- 
drilhado, único de que o prédio muitas vezes se com- 
põe; não obstante isso estabelecem ahi os quartos de 
dormir, onde se deitam transpirando e agitados por to- 



— 65 — 

da a casta d'excessos, sem se lembrarem que essas ha- 
bitações são anti-hygienicas, e que a demasiada fres- 
cura, que ao alvorecer n'ellas se senle, é uma das cau- 
sas principaes das febres, devidas á suspensão da trans- 
piração, estado este, que apesar de debilitante e desani- 
mador, convém conservar constantemente. 

Diz certo author, que ha povos nas regiões tropi- 
caes, que em vez do comprimento habitual : — Tem 
passado beml costumam dizer: — Tem suado beml 

Isto é perfeitamente entendido, e próprio das loca- 
lidades onde a frescura da cútis é um signal evidente 
de moléstia. 

É muito para sentir que as habitações sejam tão mal 
construidas, e tão pouco apropriadas ás necessidades 
d'aquelle paiz, porque a habitação influe de um modo 
notável sobre o temperamento e bem-estar do individuo. 
Mas como é possível que estas casas, que na maior parte 
pertencem a orphãos, tenham os arranjos necessários, 
ou n'ellas se façam melhoramentos, se os tutores não 
authorisam os simples concertos que a conservação do 
prédio exige ! 

Quando o Governador Franco fez entrega ao actual 
Governador, disse-lhe n'um breve discurso, que proferiu 
n'essa occasião: — V. Ex^ encontrará de certo mui- 
tas faltas: só verá ruínas por todos os lados, — e é 
verdade. Oxalá que esta declaração, de uma excessiva 
sinceridade, sirva um dia para attestar os serviços pres- 
tados pelo activo e intelhgente cavalheiro, que preside 
aos destinos d^aquella Província. 

Ha porém duas cousas que concorrem poderosa- 



— Ge- 
mente para a ruina de todas as construcçôes : uma é fá- 
cil de remediar — a outra quasi impossivel. 

A cal que empregam na argamassa, á excepção da 
que vem do Dande, não é, como em Portugal, de pe- 
dra calcarea. Na occasião das vasantes, e quando uma 
grande parte das areias, que tem assoreado a barra da 
Corimba, do lado do sul da fortaleza de S. Miguel, 
ficam descobertas, vé-se todos os dias certo numero de 
pretos saltar das suas canoas, que deixam ficar em sêcco, 
e apanhar, durante o tempo que dura a vasante, todas 
as conchas que podem descobrir n'essas areias, e trans- 
portal-as depois para uma pequena praia próxima, onde 
as depositam em rimas para serem queimadas quasi pelo 
mesmo processo empregado para cozer o sulfato de cal. 
Essas conchas, extrahidas do fundo da bahia, contéem 
sal em tão grande quantidade, que a operação da queima 
não é sufficiente para o destruir completamente, o que 
bastaria para produzir uma argamassa de má quahdade. 
Não satisfeitos com isso, notei que a extincção, ou por 
outra, a operação de reduzir a cal a pó, é feita com 
agua salgada, por ser a que lhes fica mais á mão. 

Parece que toda a pessoa de bom senso que visse 
preparar esta cal, renunciaria logo em fazer uso d'ella, 
mas não o entendem assim, e não só a empregam, mas 
até fabricam a argamassa, misturando-lhe areia salgada 
tal qual a vão buscar ao rio I 

A pedra de que se servem nas construcçôes é muito 
má; ha-a de duas qualidades: uma é um grés summa- 
mente tenro, e a outra uma espécie de lodo mal petrifi- 
cado, muito semelhante na côr ao tripoli. Nas ruinas 



-» 67 -» 

dos quartéis do caslello de Palmella existem ainda pa- 
dieiras e umbreiras de portas já muito carcomidas, que 
em tudo se assemelham á pedra de que acabo de fallar. 

Não é difficil ajuizar do effeito que deve produzir 
uma argamassa carregada de sal marinho, sobre uma pe- 
dra tão atacavel. Em poucos annos começa a obra a ca- 
hir aos pedaços, e a desfazer-se em pó excessivamente 
fino, formando immensas cavidades, que compromettem 
a segurança da construcção. N'esse estado é que se 
acham quasi todos os edifícios públicos, e bastantes pré- 
dios particulares, que debalde tentam mascarar com no- 
vas camadas d'argamassa. Este mal tem um remédio 
facilimo, lavando bem as conchas e areia em agua doce, 
e conseguindo fazer uma boa argamassa, abandonar a 
pedra, e empregar nas construcções o tijolo, para o que 
tem excellentes barros. 

Á segunda causa de destruição só se obstaria ado- 
ptando o ferro nas armações e travejamentos, como es- 
tão usando em França, visto que as madeiras apresen- 
tam tão pouca duração. 

O salalè em terra, e o tare no mar atacam todas as 
madeiras, e destroem-as com uma rapidez vinte vezes 
maior do que o faria o caruncho. A bibliotheca do Bis- 
po, que contém talvez cerca de dous mil volumes, está 
quasi destruida pelo salalé, o qual, depois de ter ata- 
cado as estantes e as encadernações, proseguiu devo- 
rando, com a avidez de um verdadeiro bibliophilo, os 
clássicos latinos, e os doutores da igreja. 

Teem tentado todos os meios para afugentar esses 
insectos damninhos, mas nada conseguiram ; talvez que 



— es- 
se preparassem as madeiras pelo systema Boucherie, 
Bethel, Payne, ou qualquer outro, obtivessem algum re- 
sultado satisfactorio. Em todo o caso o emprego do 
ferro parece mais vantajoso ; mas seja qual for o systema 
que adoptarem, em quanto se não dedicarem seriamente 
ao estudo d'esta questão de tanta transcendência, terão 
de vêr ruinas eternamente em Loanda, 

A não ser em Mossamedes, creio que no resto da 
Provincia d' Angola nunca se poderá esperar que os seus 
habitantes construam confortáveis habitações. Aquelles 
que para lá vão estabelecer-se não fazem tenção de fixar 
perpetuamente a sua residência n'um paiz onde falta 
tudo o que concorre para o bem-estar do homem, e on- 
de só abundam os incommodos; todos levam em vista 
ganhar meios com que possam vir para a pátria passar 
remediadamente o resto dos seus dias, e se edificam, 
contentam-se em fazer obras que durem em quanto são 
precisas, e que possam vender na occasião da retirada, 
embora ellas caiam no dia seguinte. 

Note-se que tudo quanto tenho dito relativamente a 
construcções, entende-se só com os edificios e prédios 
urbanos da capital, por ser onde elles existem em maior 
numero, e com maiores dimensões, porque tudo quanto 
é construído longe da vista do Governador geral, e de- 
baixo das ordens dos governadores dos presídios, ho- 
mens quasi sempre leigos n'esta matéria, não passa de 
curraes, compostos de tungas e bordões mergulhados 
em barro, e cobertos de ramos de palmeiras. 

Se fosse possível colllglr todos os officlos dos gover- 
nadores dos dlstrlctos a respeito d'essas construcções, e 



— 69 — 

de outras não menos caricatas a que chamam — for- 
tes — , estou bem convencido, que a leitura de todos 
esses bellos relatórios faria acreditar a quem tem tido a 
felicidade de nunca ir a Angola, que Paris e Londres 
não possuem monumentos iguaes áquelles, e feitos com 
maior economia. 

Baratos ficam elles, d'isso tenho a certeza ; e mes- 
mo não vejo como podessem ficar caros, mas desgraça- 
damente a Nação paga-os bem pagos. 

Que querem? Para que se sujeita tanta gente a ir 
para a costa d'Africa: não é para fazer fortuna? 

Os ordenados são pequenos, e nem todos tem cora- 
gem bastante para dizer que pelo preço lhes não serve 
tal officio. Ora quem se sacrifica assim pela prosperi- 
dade das nossas colónias, torna-se merecedor, não só 
dos maiores elogios, como também de algumas recom- 
pensas honorificas. Pôde ser que ellas sejam bem me- 
recidas, mas o que é certo é que as taes construcções 
resistem perfeitamente... em quanto não caem, com 
tanto que lhes não chegue agua pela raiz (não emprego 
a palavra abcerce, porque é cousa que lá não ha), quan- 
do não acontece como aos monumentos do Ambriz, que 
se derreteram um bello dia com tal rapidez, que os em- 
pregados para salvar os livros e mais papelada das repar- 
tições publicas, viram-se obrigados a andar a pescal-os, 
e a estendél-os ao sol! 

O Governo da metrópole é o único culpado n'estes 
desvarios, pela má escolha que ordinariamente faz dos 
empregados que manda para o Ultramar. 

Quando qualquer rapaz, d'esses que se dizem do 



— 70 — 

tom, depois de ter gasto em jantares, deboches, e joga- 
tina a fortuna que seus pães lhe deixaram, se vê perse- 
guido pelos credores que vem substituir os amigos, que 
n'estas occasiões batem sempre em retirada, a sua pri- 
meira ideia é dirigir-se a alguma pessoa influente, e com 
quem tivera relações, pedindo-lhe um emprego. Como 
nem sempre os ha, nem é conveniente invental-os para 
todos os dias satisfazer a espantosa quantidade de pre- 
tendentes, o individuo a quem é feito o pedido para 
mostrar os seus bons desejos, e quem sabe, talvez para 
se vêr livre do importuno, offerece-lhe um emprego 
para o Ultramar, falla-lhe em Angola, que é uma cousa 
que está muito em moda, em ordenados de contos de 
reis — sem lhe explicar se são fortes ou fracos — , faz- 
Ihe uma pomposa descripção de Loanda, e conclue di- 
zendo-lhe: 

— « Eu, em seu lugar, acceitava já. Olhe que aquillo 
não é tão mau como por ahi se diz. Se o senhor se sou- 
ber governar, dentro de três ou quatro annos pôde jun- 
tar uma pequena fortuna, e tornar a levantar cabeça; — 
mas faça o que quizer — eu não lhe digo nem que vá, 
nem que fique. Consulte fulano e sicrano (empregados 
quasi sempre do ministério da marinha), que já lá esti- 
veram, e veja o que lhe dizem. » 

As informações são sempre boas: o pobre diabo, 
apertado de dor d'ilharga pelos credores, resolve accei- 
tar; recebe na Pagadoria um adiantamento, ao qual lhe 
descontam, in conlinenti, os emolumentos da secreta- 
ria, que absorvem grande parte do adiantamento, ves- 
te-se de novo n'um armazém de fato feito, despede-se 



— Ti- 
dos amigos, e no primeiro vapor com destino para An- 
gola, elle ahi vai barra fora, levando o coração cheio de 
saudades, e um bahú quasi vasio. 

Ninguém ignora que um grande numero dos chama- 
dos janotas recebem uma educação muito superíicial: sa- 
bem francez de cabelleireiro; citam Racine e Voltaire, 
Victor Hugo e Alexandre Dumas; faliam de musica, de 
cavalfos, de mulheres, e de touros; mas raro é aquelle 
que tenha préstimo para alguma cousa. São umas ver- 
dadeiras nullidades: mas no ministério da marinha não 
se prendem nada com isso, porque desde ha muito que 
resolveram empregar nas alfandegas e nas legações da 
Junta da Fazenda toda a casta de patarata I 

Não é de certo com semelhantes empregados que a 
administração financeira pôde andar bem organisada, e 
a prova tenho-a eu nas irregularidades e curioso syste- 
ma d'escripturação, que o novo Escrivão Deputado foi 
encontrar em todas as repartições a seu cargo, e nas 
difficuldades que tem tido em introduzir as necessárias 
reformas, e fazer comprehender aos empregados as ope- 
rações mais simples e claras. 

Mas como não ha de acontecer assim, se o Governo 
lhes paga tão mal, que só gente sem meios, nem modo 
de vida é que se tem sujeitado a ir para o Ultramar! É 
preciso que se convençam de que todo o homem de me- 
recimento, que se resolva a ir para Angola, deve ser 
muito bem remunerado, e tudo quanto se possa dar me 
parece pouco para recompensar os serviços de um func- 
cionario honesto e zeloso, cousa hoje tão rara d'encon- 
trar nas nossas possessões. 

6 



— 72 — 

Não ha uma reforma para os empregados do Ultra- 
mar ; os ordenados são miseráveis — ha-os na Junta da 
Fazenda de 12 e 15^000 reis fracos por mez! — Será 
isto um bello incentivo para os homens de merecimento? 
Não o creio. 

Eis o motivo que obriga geralmente os empregados 
a fazerem-se negociantes; muitos d'elles buscam até au- 
gmentar os seus rendimentos, sem lhes importar os 
meios que para isso empregam. Bastará dizer, que em 
Loanda ha um official que é moleiro ! 

Será por acaso muito para invejar a sorte d'aquelle 
que, á custa de mil privações e padecimentos, conseguiu 
juntar cinco ou seis contos de reis, que mal lhe che- 
gam para se curar dos achaques que lá foi buscar! Ha- 
verá talvez quem lhe inveje o dinheiro, mas não accei- 
taria os soffrimentos por semelhante preço. 

Os Inglezes entendem melhor as cousas : sabem que 
todo aquelle que quizer ser bem servido, ha de pagar 
bem — por isso elles são grandes em tudo, e por toda a 
parte. 

O Governador da Serra Leoa, colónia comparativa- 
mente menos importante do que Angola, recebe annual- 
mente £ 4,000, ou 18:000^000 reis, fora certos emolu- 
mentos. O Governador d' Angola recebe a terça parte, 
e como não pôde, ainda que queira, ser muito econó- 
mico, volta no fim de três annos tão pobre como foi. 

Por isso já alguns tem tractado de emendar esse erro 
da nossa legislação. 

Não é só na escolha dos empregados civis que tem 
havido desleixo; na dos militares também se tem sido 



- 73 - 

pouco cauteloso, encarregando do governo dos dislriclos 
homens sem instrucção, sem tino, e alheios aos mais tri- 
viaes preceitos de administração publica. 

Mas dir-me-hão: não ha quem queira para lá ir. 
Podéra ! — com as grandes vantagens que offerecem á 
classe militar, não ha certamente homens d'instrucção, 
que se resolvam a degredar-se, e a arriscar a vida. 

Também é uma falta de bom senso nomear gover- 
nadores, que não sejam da escolha do Governador ge- 
ral : são empregos de confiança, que não devem ser en- 
tregues a pessoas, que muitas vezes, por maldade ou 
ignorância, podem comprometter ou transtornar todos 
os projectos da authoridade superior. Temos tido bas- 
tantes provas da inconveniência, d'essas nomeações, e 
das cousas pasmosas, que a este respeito me contaram, 
citarei apenas dous casos, para não tornar esta narração 
demasiado extensa. 

Certo governador de um dos fortes do interior, que 
pelas suas arbitrariedades e fins convenientes tinha pro- 
movido desordens com os naturaes, o que é muito vul- 
gar, officiou para Loanda, descrevendo o estado precá- 
rio em que se achava, e pedindo com instancia, que lhe 
enviassem mantimentos e munições para poder comba- 
ter a rebellião, e sahir do estado de sitio em que se 
achava. Não foi sem alguns sacrifícios que lhe poderam 
mandar farinha, bolaxa, feijão, aguardente, e munições 
de guerra. 

Que uso julgam que elle fez de tudo isto? 

Tractou logo de negociar o valor dos mantimentos, 
e em seguida passou a vender aos sitiantes a pólvora. 



— 74 — 

com que depois lhe fizeram fogo ! Os soldados da guar- 
nição, vendo que as armas se tornavam um objecto de 
luxo, trocaram-as por gallinhas e leitões! 

Ahi vai outra. 

Quando certo Governador promoveu uma subscri- 
pção voluntária para premiar os grandes serviços, que 
prestou á Provincia, houve um governador de districto, 
que tendo recebido dos indigenas quarenta bois, era lu- 
gar de fazer como os outros, que ficavam com metade 
dos donativos, guardou trinta e nove partes para si, e 
enviou uma para a capital. 

As revoltas dos pretos são, na máxima parte, devidas 
aos excessos e á cubica dos governadores de districto, e 
quasi sempre se manifestam na época em que se arreca- 
dam os dízimos, ou quando se tracta de fazer uma re- 
messa de carregadores. O que esses governadores que- 
rem é receber ordem para procederem a qualquer d'es- 
sas diligencias, que executam conforme bem lhes pa- 
rece. 

Na arrecadação dos tributos, ha sempre grande des- 
contentamento causado pelas exhorbitantes exigências e 
insaciável avidez dos governantes, e por mais de uma 
vez tem acontecido abandonarem os indigenas as sanza- 
las, levando comsigo as portas das cubatas, único obje- 
cto a que ligam valor, para escaparem ás perseguições e 
vexames de que são alvo. 

Quanto aos carregadores, eis a maneira como cos- 
tumam praticar. Quando o commercio ou o governo 
precisa de carregadores para o interior e que em 
Loanda os não ha em numero sufficiente, officia-se ao 



- 75 — 

governador do districto para onde se quer carregar, or- 
denando-lhe que envie á capital a gente necessária para 
essa conducçao. Se a ordem é, por exemplo, para quatro- 
centos, o governador do districto manda intimar mil, e 
vai dispensando do serviço todos aquelles que allegam 
alguma razão de convencer, até que apura os quatro- 
centos que lhe pediram ; cuja sorte recáe sempre nos 
mais pobres, e d'ahi resulta o descontentamento e 
grande indisposição qjie ha tempos tem lavrado entre os 
indigenas e os brancos. 

Dando as authoridades exemplos d'estes, como é 
possivel que os seus subordinados deixem de os seguir? 

É por esse motivo que as remessas de mantimentos 
e munições chegam sempre defraudadas ao seu destino. 
Não ha muitos annos que um official da nossa marinha, 
que pela sua coragem se tornou celebre no Congo, teve 
de andar no Ambriz por casas particulares, e de alguns 
empregados, fazendo restituir uma enorme quantidade 
ÒL^moitetes de peixe e de cazungueis de farinha, que ti- 
nham sido roubados na occasião do desembarque, e 
chegou a juntar duas carradas ! 

D'estes desvios da fazenda do Estado, praticam-se 
vulgarmente e são prova da pouca confiança que se deve 
depositar em grande numero d'empregados. Sobre este 
assumpto poder-se-iam encher volumes, porém como 
o meu fim não é de escrever os mysterios d'AngoIa, 
mas dar uma pequena ideia d'aquella nossa possessão, 
vou fidlar da policia de Loanda, que me pareceu ser 
uma das instituições mais proveitosas pelos bons resul- 
tados que d'ella se colhem. 



— 76 — 

A polkia é feita por um corpo de prelos a que cha- 
mam empacaceiros onpacaças. 

Se me perguntarem porque, não o saberei dizer, e 
notarei de passagem que em todas as nossas possessões 
se emprega uma infinidade de lermos, que com quanto 
não sejam portuguezes, parecia que o uso os tinha vul- 
garisado bastante para que devessem figurar no nosso 
diccionario, não só para enriquecer a Hngua, mas tam- 
bém para que as pessoas pouco versadas n'essa phraseo- 
logia tivessem onde recorrer para achar o verdadeiro 
sisjniíicado de um termo estranho. 

Os empacaceiros fazem as vezes da nossa guarda 
municipal : tem como elia difíerentes corpos de guarda, 
fazem a pohcia de dia e de noite, e no que mais diíTe- 
rem dos nossos soldados é no armamento e no calçado. 
O seu chefe é um antigo degredado que aUi vive ha 
muitos annos, e hoje major de segunda hnha. O farda- 
mento dos empacaceiros é assaz original, e consiste 
n'uma fardeta de panno azul, calça branca, saiote curto 
de ganga azul, boné redondo encarnado com Hsta e bo- 
tão preto. Andam descalços, não sei se por economia, 
se por commodidade. O seu armamento é uma lança 
como a dos lanceiros, mas sem bandeirolla. 

Fazem excellente serviço mantendo a pohcia no 
mercado, rondam de noite, e capturam todos os escra- 
vos que encontram passada certa hora, sem um salvo 
conducto do seu senhor ; perseguem os escravos fugiti- 
vos, e em varias occasiões os vi conduzir levas de re- 
crutas em numero oito vezes superior ao d'elles. 

Fora do corpo da guarda, a arma do empacaceiro é 



— 77 — 

uma simples chibata ou um pausinho curto, objecto fa- 
vorito de todos os negros; é assim que se apresentam 
nas rejiartições publicas, onde quasi sempre está um ás 
ordens. Quando tem de fazer uso da authoridade de que 
estão revestidos contra os da sua cor, e este é o caso 
mais vulgar, visto que a maioria da população de 
Loanda é composta de pretos, triumpham facilmente da 
resistência que por vezes lhes oppoem; o que só acon- " 
tece quando os delinquentes se acham em estado d'em- 
briaguez, porém isso mesmo é raro, porque n'esse 
ponto, com pejo o digo, estão mais civilisados do que os 
brancos, respeitam a lei, e submettem-se com resigna- 
ção ao castigo que ella lhe impõe. 

Mas quando é preciso empregar a força para captu- 
rar um branco, o caso então muda muito de figura, não 
só pelo respeito que todos os prelos tem aos brancos, 
mas também por saberem por experiência que estes lhes 
são superiores em força. Os marinheiros inglezes são os 
que mais trabalho lhes dão, por se defenderem a sôcco, 
e não ser este exercicio famiHar dos pretos; comtudo 
longe de desanimarem conseguem sempre prendél-os, 
cahindo-lhes em cima em grande numero, e ligando-os 
com cordas de modo a reprimir-lhes os movimentos, e 
assim se tornam senhores d'elles, e os conduzem á pre- 
sença do chefe da policia. 

São scenas estas que não deixam de ser engraçadas. 
Parece-me que a policia seria ainda mais respeitada 
pelos indigenas, se os seus agentes andassem calçados, o 
que é para os pretos um signal evidente de distincção e 
superioridade. 



— 78 — 

Ha em Angola uma outra força policial a que cha- 
marei — rural — mas com diíferente organisação, ou 
para melhor dizer, desorganisação. Quero fallar da 
Guerra preta, espécie de milicia do paiz, da qual 
actualmente só restam os officiaes, quasi todos pretos ou 
mulatos do interior, para quem a farda, a banda, e as 
patentes, são distincções do maior apreço. 

Ouvi dizer que o actual Governador geral tenciona 
aproveitar o espirito marcial d'aquella gente para reor- 
ganisar a Guerra preta, da qual espera tirar bom par- 
tido. Este projecto tem agradado a muitas pessoas mais 
conhecedoras do que eu das necessidades da Província, 
mas desagrada aos receosos que pretendem ver na orga- 
nisação d'esses corpos indigenas um elemento poderoso 
que active e concorra para a independência d'aquella 
possessão. Julgo estes receios infundados, por quanto o 
atrazo em que se acha ainda aquelle paiz a todos os res- 
peitos, não lhe permitte sustentar-se como território in- 
dependente. Elles bem o conhecem, e n'esse caso já 
que nasceram portuguezes preferem conlinual-o a ser, 
porque sabem que se cahissem debaixo do dominio de 
qualquer outra nação, é provável que fossem tractados 
como costumam sel-o os povos conquistados. 

Não sei se n'esse sentido se tracta alguma cousa nas 
lojas maçónicas, que me dizem ser tão numerosas em 
Angola como no Brazil, sem que d'isso se faça mysterio 
algum, a ponto de fazerem procissões nocturnas pelas 
ruas de Loanda. É uma carolice de outro género. 

Quanto aos usos e costumes da sociedade da capital, 
pouco poderei dizer, porque raras casas visitei ; não 



— 79 — 

obstante isso, pelo que pude observar e em vista das in- 
formações que me deram, julgo-os muito semelhantes 
aos da America meridional. 

As senhoras, com quanto ostentem aos domingos 
grande luxo, ataviam-se com uma immensidade d'ador- 
nos e de enfeites de cores garridas e de bastante mau 
gosto. N'isto não são ellas as mais culpadas, vendo-se 
obrigadas a comprar o que acham á venda e que os fa- 
bricantes ou correspondentes europeus para lá man- 
dam, predominando sempre n'elles a ideia de que tudo 
quanto for para a costa d' Africa deve ser encarnado, 
quando não que se não vende ; sem se lembrarem que 
em Angola, apesar do sangue já andar muito misturado, 
ainda ha familias brancas de raça pura. 

A indolência própria d'aquelles climas, refina nos 
europeus quando se vêem rodeados d'escravos e mu- 
camhaSy por quem mandam fazer todos os arranjos da 
casa, e que estes executam sempre muito mal, e de má 
vontade. 

Nunca vi terra onde se quebre tanta louça e tanto 
vidro ; — os pretos são como os macacos, é preciso não 
lhes fallar em certas occasiões, senão largam o que tive- 
rem nas mãos para poderem responder. Estive n'uma 
casa em que havia um preto, que prato em que elle 
pozesse a mão estava logo feito em bocados. 

Um dia vi uma preta limpar uma panella com um 
guardanapo adamascado, e depois deilal-o fora, só para 
não ter de o lavar. Não se pôde confiar nada d'ellas — 
todas as cautellas são poucas ; quantas gavetas e armá- 
rios ha em- casa, tem de andar tudo fechado. Se os 



— 80 — 

prelos dão no doce e no vinho, fazem ainda maiores es- 
tragos do que o salalé na bibliotheca do Bispo. Rou- 
bam tudo quanto podem, e vão vender fora a certos ta- 
berneiros — quasi sempre degredados — que lhes pa- 
gam com aguardente. Para elles todos os objectos tem 
o mesmo valor; tanto pedem por um lenço d'algodão, 
como por uma colher de prata. As casas dos homens 
solteiros estão constantemente expostas a esta pilhagem. 

Observa-se nos trajes usuaes das senhoras grande 
desalinho, quando não estão preparadas para receber 
visitas de ceremonia; e consta-me que a parte econó- 
mica da casa, em que o bello sexo na Europa tanto se es- 
mera, não é o que mais cuidado dá ás senhoras africanas. 

Nas creoulas notei um sotaque muito semelhante ao 
dos brazileiros, devido á frequente convivência com as 
escravas, com quem aprendem mais a fallar a Hngua 
bunda, do que o portuguez, que estas apenas entendem. 

Na chronica escandalosa de Loanda não tocarei, 
para não dar a estes apontamentos de viagem as consi- 
deráveis proporções da obra de Saint Simon : — bastará 
dizer, que as senhoras são excessivamente amáveis, e os 
maridos dotados de bom génio, tolerantes e muito obse- 
quiadores. 

Portatur leviter, quod portai quisque libenter. 

Em toda a Africa, mas principalmente em Loanda, 
ha grande numero de lavadeiras e engomadeiras. Não 
sei qual é o modo de lavar, mas creio que não fazem 
varrella, e que por isso se vêem obrigadas a dar taes tra- 
ctos á roupa, que rara é aquella que não a entrega em 



— 81 — 

farrapos, e cheia de nódoas, que apanha ao seccar so- 
bre certas plantas próprias para tinturaria. Vi uma vez 
as escravas da minha lavadeira andarem passeando pelo 
quintal calçadas com as meias dos freguezes, e bem se 
pôde imaginar o estado em que ellas ficariam. Além 
d'estes inconvenientes, sempre falta alguma peça de 
roupa, porque as escravas roubam a que podem, e se 
são descobertas, dizem que a acharam. 

Estranhei o costume de estarem os escravos deita- 
dos em esteiras nos portaes das casas, e não me admirei 
menos de vêr essas entradas bastante sujas, conhecen- 
do-se até em algumas um rasto de immundicie, que os 
pretos descalços e escorrendo em suor deixam por toda 
a parte onde passam amiudadamenle. 

Mencionarei agora um facto característico de costu- 
mes, e que é notável. 

A sympathia que os europeus tem para com seus 
filhos havidos das escravas, de preferencia aos de suas 
próprias mulheres, é constante, e não ha carinhos e cui- 
dados, que não prodigalisem a um íilho mulato. 

As creoulas imperam no coração de muitos brancos, 
e isso pôde expHcar-se, porque as mulheres da Europa 
perdem, em pouco tempo, a belleza e a frescura da mo- 
cidade, n'aquelle clima tão contrario ásua delicada com- 
pleição. 

Rematarei este pequeno quadro de usos e costumes, 
descrevendo o modo original e engraçado, como vi um 
preto barbeiro ambulante fazer a barba a outro negro. 
O Figaro trazia uma única navalha, que tirou de dentro 
de uma camisa velha que tinha vestida, abriu-a, e cor- 



— 82 — 

reu-a umas poucas de vezes na palma da mão esquerda ; 
a viclima sentou-se no chão, e cruzou as pernas; — o 
operador cuspiu na mão, e principiou a esfregar a cara 
ao freouez, e assim continuou gravemente exercendo o 
seu mister, fazendo supportar ao paciente as conlorsões 
mais caricatas. Aquelle methodo expeditivo de rapar os 
queixos, só pode ter applicação na costa d' Africa, por- 
que geralmente os indígenas são pouco barbados. 

Não queria deixar a capital sem dizer alguma cousa 
da Justiça. Mas, que direi eu? 

Ella é a mesma por toda a parte, — lá como cá: é 
ministrada pelos homens, e como elles não são infalli- 
veis, ella também o não pôde ser. Demais, querer que 
a justiça de Loanda seja menos digna de censura, do 
que a de qualquer terra de Portugal, não seria isso ex- 
ceder os limites rasoaveis da exigência? 

Em Loanda ha Desembargadores da Relação, Jui- 
zes de Direito, Escrivães, Advogados formados, e outros 
que o não são, escreventes, e beleguins — emíim tudo 
tal qual como cá. 

Conheci dous empregados subalternos, dos quaes 
tencionava colher algumas informações sobre o ramo a 
que pertenciam, mas como principiaram logo dizendo 
mal ura do outro, dei-me por satisfeito. Ouvi geral- 
mente elogiar um juiz, que pertence a uma familia muito 
conhecida em Portugal, e casado ultimamente com a 
filha do ex-Governador Amaral. Este juiz é digno de 
toda a consideração pelas suas boas qualidades, e pela 
independência e rectidão com que tem desempenhado 
os deveres de tão meUndroso cargo. 



— 83 — 

O Presidente da Relação, em Angola, é considerado 
como a primeira personagem abaixo do Governador ge- 
ral, e faz parte do conselho do governo. Ás vezes ha 
graves conflictos entre este funccionario e o Governador, 
que se vê obrigado a liictar com um antagonista, que o 
guerreia ao abrigo da independência judicial. São fúteis 
ordinariamente os motivos da desintelligencia, e os Go- 
vernadores costumam olhar para esses homens com re- 
serva, porque entendem, com razão, que não convém 
dous gallos n'um poleiro. 

Pretendem certas pessoas fazer-me acreditar, que na 
organisação dos governos ultramarinos é sempre bem 
entendido que haja um poder independente, que possa 
contrabalançar o do Governador, e reprimil-o quando 
elle pretende exorbitar. Isso seria admissivel, se tivés- 
semos a certeza que esse poder independente estivesse 
sempre na mão de um homem de prudência e conheci- 
mentos, que não fizesse uso d'elle senão em casos extre- 
mos, e que, fora d'isso, tractasse de viver na melhor 
harmonia com o Governador, a quem elucidasse com os 
seus conselhos. Mas não acontece assim; e o decoro e 
socego publico são sempre sacrificados aos caprichos do 
amor próprio : acho pois preferível qualquer excesso do 
Governador geral, a todos os excessos a que se entre- 
gam ambos os campeões, se chegam a romper as hosti- 
lidades. 

Os governos das nossas possessões são, como a 
maior parte dos das francezas e inglezas, essencialmente 
militares: a crise n'aquelles estados é, por assim dizer, 
permanente, o que nos obríga a estar constantemente 



alerta para resistir a qualquer aggressão dos visinhos, 
que tanto nos incommodam. Governos d'estes só é pos- 
sivel desempenhal-os bem, quando as pessoas a quem 
são confiados podem obrar desassombradamente, e sem 
receio de coallisões que lhes façam perder o prestigio de 
que tanto carecem. 

A Relação de Loanda não preencheu o fim para 
que foi cfeada: o pensamento era bom, mas falharam na 
prática os resultados. A distancia que separa o reino 
d'aquella possessão, e a falta que d'antes havia de com- 
municações regulares, davam causa a muitos embaraços 
e enormissimas despezas, quando qualquer pleito linha 
de vir á Relação de Lisboa : — organisou-se portanto 
para remediar esses males a Relação de Loanda, com 
um apparato digno de melhor terra. A ideia foi excel- 
lente, mas ninguém se lembrou, que a febre não res- 
peita mais a beca, do que a farda, e que a Relação, por 
falta de membros, se havia de vêr a cada passo impossi- 
bilitada de funccionar; pois é justamente o que está 
acontecendo, tornando-se este tribunal um corpo inútil, 
que deve ser supprimido, visto haver agora um serviço 
regular de vapores para a Africa, que por conta do Go- 
verno, ou de particulares não deixará mais d'exi§tir. 

Como fallei da justiça, não devo esquecer o grotesco 
papel sellado da Provincia : — é uma folha de papel al- 
masso, que em vez da marca do — credito publico — , 
tem duas nódoas, ou borrões pretos de formato oblongo, 
que quem quer pôde facilmente imitar. 

Digamos adeus, e adeus para sempre, a essa forna- 
lha ardente chamada Loanda, e á sua cohorte de mos- 



--. 85: — 

quitos, aranlíões, osgas, e baratas, — flagello infernal, 
que de dia e de noite atormenta os infelizes, a quem a 
má sorte lança n'aquellas praias de crocodilos. Sahi 
com o estômago nauseado do cheiro repugnante das ba- 
ratas, que durante mez e meio senti em toda a roupa 
que vesti, e em tudo quanto comi e bebi. 

Naveguemos para o sul, onde nos promettem um 
clima mais ameno. 

Alli temos a foz do Coanza, cujas aguas barrentas 
vamos sulcando ; — eis o Cabo Ledo, tão conhecido 
dos navegantes, e que ha pouco parecia estar na nossa 
frente; — acolá está o Longa, e alli foi Benguella ve- 
lha. Estamos nas alturas do presidio de Novo Redon- 
do, assente n'um elevado promontório, d'onde domina a 
embocadura do rio Gunza, e o território adjacente ; — 
temos passado a Bahia de Lobito: já se avista a foz do 
Catumhella — mais algumas horas de martyrio, e esta- 
mos em Benguella. 

Ao entrar na extensa, mas estreita bahia de Santo 
António, formada ao sul pelo curioso morro do Som- 
breiro, descobre-se a cidade de S. Filippe de Ben- 
guella, edificada em terreno summamente baixo e pan- 
tanoso. 

A vegetação brota por toda a parte, o arvoredo é 
magnifico, e por entre elle se divisam as alvejantes ha- 
bitações, a fortaleza, a igreja, e o hospital da Misericór- 
dia. Este paiz parece-me bello e sadio. Admira nin- 
guém vir a bordo : — por mais que lance o óculo não 
descubro movimento em terra... 

O mar na bahia de Benguella está quasi sempre 



— 86 - 

agitado : os navios fundeiam ao largo para se poderem 
safar se se levantar callêma, e não é sem grande diffi- 
culdade que os barcos chegam a vencer a praia. Ben- 
guella não tem cães, e os desembarques são perigosos 
por causa do meio que usam para esse fim. Os remado- 
res ao aproximar-se da praia, empregam toda a força 
de remos para encalharem o barco : então dirigem-se a 
elle quatro pretos, trazendo aos hombros uns varaes 
que sustentam uma grande cadeira de braços, onde ca- 
bem á vontade duas pessoas. Os pretos entram na agua 
e aproximam-se do barco, de modo que o passageiro 
possa saltar para a cadeira, mas algumas vezes tem acon- 
tecido escorregarem e mergulharem os viajantes. 

Este accidente, que á primeira vista provoca o rizo, 
tem quavsi sempre funestos resultados n'um paiz onde 
se anda transpirando constantemente : a febre, rara vez 
deixa de accommetter a pessoa a quem succede este 
transtorno. 

Na praia ha um grande barracão que pertence á Al- 
fandega, que o mar no tempo da callêma tem chegado a 
invadir; também já alH houve uma ponte de desembar- 
que, que o tare promptamente arruinou. 

Largos arruamentos, boas construcções ainda que 
demasiadamente baixas, — mas por toda a parte não se 
vê senão desolação ; — apenas se encontram alguns pre- 
tos, e esses mesmos bisonhos. O viajante não pôde per- 
ceber qual seja o motivo de tanta tristeza, n'uma terra 
tão verdejante e tão linda: parece que os habitantes ao 
avistar o vapor, abandonaram as suas vivendas e fugiram 
para a serra! Com eífeito alguns as abandonaram ainda 



— 87 — 

ha pouco, para sempre, e os outros jazem no leito de 
dôr, esperando que lhes toque a sua vez. 

Benguella, com o seu ar risonho e seduclor, com o 
seu manto de verdura e de aspecto tão attrahente, é a 
mais temível das nossas possessões. 

Ai d'aquelle que se deixar illudir pela sua formosa 
apparencia, e que não evitar esse laço que a cruel lhe 
prepara, para o aniquilar no meio do mortifero ambiente 
que alli se respira! 

Governador, Secretario, Director da Alíiindega, 
chefe da Delegação, Capitão do porto, e muitos outros — 
todos estão doentes. Apenas encontro três pessoas das 
muitas que procurava, mas em que lastima! Surdas, co- 
xas, inchadas, cobertas de escrófulas e atacadas de es- 
corbuto. Os infelizes nem conhecem o misero estado 
em que se acham, porque perguntando a cada umd'elles 
como iam de saúde, responderam-me : — «Agora, gra- 
ças a Deus, sinto-me bom; estive muito mal, aqui ha 
cousa de um mez, mas valeu-me uma boa dose de qui- 
nino, e estou óptimo. » 

Coitados! Estaes todos óptimos, mas é para conser- 
var em alcohol, e figurar como curiosidades em algum 
museu. 

Se Loanda é má terra — Benguella é trinta vezes 
peor: — pois é pena porque tem uma apparencia agra- 
dável, e é muito farta. O gado que aqui se vende, é de 
boa qualidade, e baratissimo, por ser em grande parte 
roubado pelo gentio do Nano, Vendem dous arráteis 
de carne, que é o menor pezo que lá fazem, por 35 reis. 

7 



— 88 — 

Benguella, é um ponto commercial de grande im- 
portância, e sem duvida o primeiro depois de Loanda. 
Existem alli grandes depósitos de cera, gomma copal, 
urzella, marfim, enxofre e azeite de palma. N'umasó 
casa, vi uma porção de marfim, que me disseram impor- 
tar em mais de sessenta contos de reis. O negocio de 
couros também é bastante considerável : notei que jun- 
tamente com os de boi, vendiam muitos de zebra. Estes 
animaes percorrem o interior em grandes manadas, e os 
pretos conseguem matar grande numero com frechas e 
azagaias, ou armando-lhes laços. Também se encon- 
tram muitas pelles de tigre e de onça, mas raraéaquella 
que esteja bem tirada: a quasi todas falta alguma garra 
e até a cabeça. 

Os pássaros de lindas e brilhantes cores, que tão 
apreciados são na Europa, abundam aqui. 

Ha corças e veados apanhados no interior, onde pa- 
rece que a caça existe em muito maior quantidade do 
que para o norte, talvez por ser um clima mais fresco e 
ter melhores pastos. 

Bengiiella também se ressente da falta d'agua potá- 
vel : em consequência d'isso paga o seu tributo ao rio 
Catumbella, assim como as outras povoações o pagam 
aos rios mais próximos. 

Nada mais posso dizer, porque n'uma visita d'al- 
gumas horas, poucos conhecimentos se podem adquirir 
de uma terra qualquer. 

O triste espectáculo que alli se presenceia, faz-me re- 
cordar com saudade da — cadeira — que tanto receei ao 
desembarque. Voltemos para ella e de lá para bordo. 



— 89 — 

Amanhã levantamos ferro, e seguimos viagem para if/bí- 
samedes. 

Adeus maldita Bengiiella : — não terás as minhas 
cinzas! Fica-te com os teus elegantes coqueiros, e com 
as tuas lindas bananeiras — deixo-te sem saudades — o 
teu ar mata. Adeus homens óptimos; Deus vos conceda 
uma óptima cova, onde sejaes optimamente enterrados: 
— viver n'esse estado não é viver. 

Vamos seguindo uma costa árida e melancólica, que 
os homens ainda não conseguiram cultivar, e que o pró- 
prio Creador parece ter abandonado. Esta solidão é me- 
donha!... 

Ao contemplar o horisonte limitado por escarpa- 
das e estéreis montanhas, cujos cumes se confundem 
com as nuvens, sinto o coração comprimir-se-me de 
tristeza; volvo o pensamento para a Europa, mas ás sau- 
dades que de mim se apoderam, só posso dar allivio 
vertendo lagrimas de arrependimento. 

Pátria, familia, e amigos, que eu nunca devera ter 
deixado, tornar-vos-hei a ver ainda?... 

Quanto é extensa esta costa ! Ha vinte horas que 
navegamos e comtudo apenas tenho descuberto duas ou 
três feitorias. Ah ! lá se avista a Ponta G?vssa; estamos 
na bahia a que os inglezes deram o nome de — Pequena 
bahia dos peixes — e de um só lançar d'olhos pôde o 
viajante abraçar toda a povoação de Mossamedes, hoje 
villa, e á qual os habitantes dão o nome de Praia. 

Mossamedes, ao inverso de Benguella, apresenta 
um aspecto triste, porque as suas casas baixas e por em 
quanto pouco numerosas, estão como perdidas no meio 



— 90 — 

d'um extenso areal. Em frente de nós e sobre um 
morro alcantilado temos a fortaleza; á direita, mais para 
o interior, descobre-se a igreja — mais longe, algumas 
babitações e o hospital. Á esquerda, na baixa, e em ar- 
ruamentos regulares está a povoação ; — no fundo, a ex- 
tensa e longínqua serra de Chella, um dos mais admi- 
ráveis caprichos da natureza, Hmita este quadro de um 
colorido pouco variado. 

A distancia talvez de três quartos de légua, avis- 
ta-se arvoredo e bella vegetação: — é o sitio das Hor- 
tas, alfobre delicioso, onde se reproduzem todos os fru- 
ctos, hortaliças, e arbustos europeus juntamente com 
os dos trópicos. Entre as Hortas e a Villa, veem-se 
espalhados alguns túmulos e cruzes toscas, levantadas 
em memoria dos primeiros colonos que alli se foram es- 
tabelecer. Aquelle cemitério está abandonado, por te- 
rem feito outro em sitio mais próprio e conveniente- 
mente disposto. 

Saltemos em terra e vejamos esta povoação, que 
tanto nos tem gabado. 

O clima é delicioso. Sinto renascer, n'uma agradável 
transição, a energia que o calor abrasador de Loanda 
me tinha feito perder: já não estou alagado em suor, co- 
mo hontem ainda me acontecia — julgo estar na Europa. 

Mossamedes é uma villa moderna, em que muitos 
dos melhoramentos indispensáveis estão ainda por exe- 
cutar; assim mesmo muito se conseguiu com os poucos 
recursos de que poderam dispor, porque o Governo não 
tem olhado como deveria para aquelle abençoado torrão. 
É a terra da Província que mais tem sido visitada pelos 



— 91 — 

europeus: — todos os empregados que adoecem, pedem 
licença para se irem restabelecer á Cintra africana, e isso 
hoje é-lhes mais fácil com os vapores da «União Mer- 
cantil» , do que no tempo em que não haviam senão uns 
pequenos navios do Estado, em que se viam obrigados a 
alurar as demoras e caprichos que os commandantes po- 
dessem ter nos diversos pontos da costa. 

Não ha ainda vinte annos, que n'aquelle extenso 
areal nem uma só cabana se avistava; — agora possue 
três bellas ruas, bem alinhadas, cortadas por outras tan- 
tas que dão accasso á praia, com lindas casas térreas no 
estylo americano, bem construidase commodamente re- 
partidas. Os colonos estrangeiros, mais avisados, leva- 
ram comsigo operários intelligentes, que introduziram 
innovações desusadas em outros sítios da Provincia, sa- 
bendo tirar todo o partido dos raríssimos recursos que 
o paiz lhes offerecia. 

Successivos comboios de colonos teem ido estabele- 
cer-se em MossamedeSy contando actualmente a villa e 
subúrbios para mais de dous mil habitantes, sendo seis- 
centos e tantos brancos, mil escravos, e compondo-se o 
resto de pardos, pretos livres e libertos. 

As três tríbus circumvisinhas de Crok, Giraúl, e 
Quipolãj tem para cima de setecentos habitantes. 

Os concelhos da Hidlla, do Bumbo, e dos Gam- 
bos, reunidos, apresentam uma população muito mais 
numerosa, mas os brancos não excedem talvez a cento e 
setenta, os pardos a trínta, e os escravos e libertos a 
quinhentos e quarenta, avultando a população em indi- 
genas dos Gambos, que orçam por uns cincoenta mil. 



— 92 — 

As primeiras conslrucções, foram como no resto da 
Provinda, compostas de Urtigas, com barro e ramos de 
palmeira servindo de cobertura: algumas d'essas hu- 
mildes habitações ainda hoje existem, a parede outras 
mais elegantes, como para mostrar ao viajante, por que 
serie d'incommodos tiveram de passar aquelles que se 
animaram a lançar as bases de uma povoação, que está 
destinada para ser um dia a mais bella das nossas pos- 
sessões africanas. 

Mossamedes podia ter prosperado muito mais, se ti- 
vesse tido sempre governadores tão intelligentes e hon- 
rados como Fernando da Costa Leal, a quem ella muito 
deve. Moço de iustrucção, de um caracter enérgico, e 
de uma honradez exemplar, foi o único governador de 
Massamedes que fizesse obras de reconhecida utilidade, 
apesar das difíiculdades que teve de vencer, e da crua e 
injusta guerra que lhe moveram alguns habitantes da 
villa. Já ha muito reconheceram elles os seus erros, 
porque viram que a inteliigencia, energia e boa vontade 
foram bem mal substituídas, attendendo-se ao interesse 
particular e despresando-se completamente os do dis- 
tricto. É verdade que este estado de cousas convém a 
certos indivíduos; porque em Mossamedes, se a terra é 
boa, a gente nem toda o é: ha muito quem pesque era 
aguas turvas, e a quem convenha a desordem e o des- 
leixo. 

Esta é infehzmente a grande ulcera das nossas pos- 
sessões. As ambições, a inveja, e o ascendente que 
muitas vezes certos empregados subalternos tomam so- 
bre outros mais graduados, mas de menos intelhgen- 



^ 93 — 

cia, são causa de muitos devaneios, de muita injustiça, 
de muita intriga, e acabam sempre pela completa desor- 
ganisação do systema administrativo que se tenha ten- 
tado seguir. Mas ainda esta não é a maior difficuldade 
que a authoridade tem de combater, porque havendo 
sufficiente energia, com pouco custo faz entrar no seu 
dever os seus subordinados, e facilmente pôde afastar 
para longe aquelles que lhe forem hostis; o que é mais 
para recear, são certos habitantes que depois de se pi- 
lharem senhores de uma casaca preta, de um chapeo de 
copa alta, e de um par de luvas brancas, esquecem o 
que foram, e o que verdadeiramente ainda são, preten- 
dendo como o gaio da fabula, revestido das pennas do 
pavão, que lhes dêem uma importância que elles não 
merecem e até de que não são dignos. 

Quando um governador, que conhece o seu lugar, 
encontra d'esses perus cheios de vento e de soberba, e 
não transige com elles, tem de luctar constantemente 
com mil intrigas e embaraços que adrede lhe preparam 
aquelles, cuja influencia foi despresada. 

A mania geral em Angola, é ser o favorito dos go- 
vernadores, dominal-os, e fazer depender da sua appro- 
vação certos pedidos e determinações. 

O Governador Leal emancipou-se d'essas tutorias: 
— achou-se só no campo, luctou com perseverança, pa- 
gou a ingratidão com benefícios, e succumbindo com 
gloria, retirou-se, sem que a mais leve nódoa tivesse 
manchado o seu nome. D'estes homens não convém 
para as nossas possessões : — por isso teve de recolher 
a Portugal. 



Este zeloso funccionario levantou uma planta de 
Mossamedes, e n'ella indicou as construcções que ten- 
cionava mandar fazer: projecto bem combinado, e con- 
veniente para evitar o desalinho que se nota em to- 
das as terras, onde logo de principio não houve o cui- 
dado de traçar um plano geral de obras. Edificou o 
quartel, que com quanto seja hoje um dos peores edifí- 
cios de Mossamedes, era n'aquelle tempo o melhor q^ue 
havia, mesmo porque então não se dispunha ainda de 
muitos objectos que já se encontram no mercado, e 
também porque os recursos que tinha, eram mui restri- 
ctos. Principiou a fortaleza, cujo plano foi depois alte- 
rado e estragado por quem o substituiu na direcção 
d'aquelles trabalhos. Lançou as fundações de um Palá- 
cio para o governador, juntando á custa de muitos sa- 
crificios, grande quantidade de materiaes para a sua 
continuação. Edificou uma bella igreja, com residência 
para o parocho, e tentou estabelecer um moinho, para 
cujo fim chegou a receber de Lisboa as pedras necessá- 
rias, que jazem dispersas na praia onde provavelmente 
ficarão cobertas pela areia. Visitou o interior, cons- 
truiu fortes, e deu grande incremento á Colónia da 
Huilla, onde estabeleceu um moinho, que ainda hoje 
trabalha com proveito dos colonos e da guarnição. 

Actualmente as únicas obras que se vêem em anda- 
mento são as da fortaleza, mas essas mesmas seguem 
com morosidade, porque os operários também se occu- 
pam no serviço de alguns particulares influentes. Os 
materiaes, destinados para o Palácio, tem sido vendidos, 
dados e roubados! 



— 95 — 

Contrasta de uma maneira bem singular este estado 
de dissolução com a actividade que presidiu ao desen- 
volvimento material, que em outro tempo se manifes- 
tara, e que eu tractei de esboçar. 

Em Mossamedes não ha senão uma casa de um an- 
dar, e nem é prudente fazel-as ; não só por falta de ma- 
deiras solidas, como também por causa do modo de 
construcçao de que se servem por não haver pedra; 
pois que a que apparece na villa é um grés friável, ou 
uma petriíicação curiosa, que se compõe de conchas en- 
volvidas n'uma espécie de betume. Com esta qualidade 
de pedra é que estão construindo a fortaleza. 

O Governador Leal descobriu próximo de Mossa- 
medes gesso de excellente qualidade, de que fazem 
grande uso na villa, e que os navios poderiam transpor- 
tar como lastro para Loanda: — é mais um ramo de 
commercio que tem sido despresado. 

As construcções são feitas com adubos seccos ao sol, 
sem nenhuma outra preparação, e formando pedaços de 
grandes dimensões. Cada tijolo tem proximamente 4-4 
centímetros de comprimento, por 22 d'espessura, e ou- 
tros tantos de largura : o barro é do melhor que se pôde 
desejar, e daria magníficos tijolos se os cozessem e os 
fabricassem do formato francez. 

A casa de melhor risco é onde vive o governador, e 
pertence a um portuguez, natural de Lisboa, estabele- 
cido na ilha de S. Thomé. Afora mais algumas casas 
particulares, as outras são occupadas por gente de nego- 
cio, soldados casados e degredados com officio. 

Quasi todas as habitações da Praia tem páteos, 



— 96 — 

onde plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos 
quaes abrem a sua cacimba, pequeno poço, cujo reves- 
timento interno é formado cora barricas sem fundo, so- 
brepostas umas nas outras, e d'onde tiram a agua para 
usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade. 

Apesar de ser muito melhor que a de Loanda, a 
agua é igualmente filtrada, e julgo que vêem do interior 
os filtros que lá usam, de um grés mais compacto do que 
o que se emprega nas construcções. 

O açougue fica situado n'uma elevação, e algum 
tanto afastado do centro da villa. 

As ruas estão por calçar; — tencionavam dar prin- 
cipio a esse melhoramento, o que me não pareceu muito 
acertado, em quanto não tiverem fixado com plantações 
de arvores, ou outras edificações, as areias que os ven- 
tos trazem sempre em movimento. 

Sem uma barreira no littoral que se opponhaá inva- 
são das areias, e que sirva para no futuro fornecer ma- 
deiras de construcção, mal poderá Mossamedes conse- 
guir ter nas suas excellentes ruas um piso commodo e 
uma communicação fácil com o sitio tão concorrido das 
Hortas. Dizem-me que já tentaram a sementeira dos 
pinheiros, mas sem resultado. Houve por força má 
direcção n'essa experiência, porque o pinheiro ha de 
dar-se n'um clima tão benigno como aquelle : longe de 
desanimar, deveriam repetir por mais vezes, e em diífe- 
rentes pontos, outras tentativas, porque o seu bom êxito 
muito contribuiria para a prosperidade d'aquella terra. 
Convinha primeiro plantar ao longo da praia cinco ou 
seis fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua sal- 



— 97 — 

gada, para se poder estabelecer uma linha de defeza, 
como se pratica nas Landes, e ao abrigo d'ella ir se- 
meando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se de- 
pois de semeados os deixarem abandonados e entregues 
ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira, 
essa mesma serve de resguardo ás que depois quizerem 
fazer. 

É muito para sentir que se tenham occupado tão 
pouco de plantações: apenas na praça da Colónia se 
vêem algumas arvores mal resguardadas. 

O Governador Leal tentou edificar a villa no sitio 
mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a 
commodidade dos desembarques, e sobre tudo o receio 
que muitos tinham que alli se não encontrasse agua, fi- 
zeram com que preferissem a baixa. Tempo virá em 
que aqueiroutro terreno será mais apreciado, sobre tudo 
se se levar a cabo o Palácio projectado. A falta d'agua 
já a não devem recear, porque também aquelle governa- 
dor a encontrou a pequena profundidade. 

Ha em Mossamedes dous operários de merecimento : 
um d'elles é carpinteiro, e faz as vezes de sub-delegado, 
e d'arcbiteclo — falia de paporna Novissima Reforma, e 
nos diíferentes estylos d'arcbitectura ; o outro, chamado 
Espirito Santo, é um d'esses homens como se encon- 
tram muitos nas cidades do Minho, e a que dão o nome 
de — faz tudo. — Uma das suas obras existe na forta- 
leza: é uma chapa de fundição com letras em relevo, 
que não líchei mal feita, e dei-lhe bastante apreço por 
ter sido executada n'uma época em que faltavam as cou- 
sas mais indispensáveis. Dos outros officios que exerce. 



— 98 — 

nada posso dizer, senão que como cozinheiro, faz detes- 
táveis maças, e deixa queimar os assados. Assisti a um 
jantar, íeito por elle, onde provei um bocado de maçado 
assado, que me não pareceu delicado manjar. 

Também ha um excellente funileiro, natural do 
Porto, e para alli enviado pela Relação. 

A bahia de Mossamedes é uma das mais bellas que 
tenho visto — o seu fundeadouro é magnifico e vasto. 
Como na maior parte das nossas possessões africanas, 
faz-se o desembarque aos bombros de barqueiros, o que 
sempre apresenta certo risco aos visitantes que se não 
acharem preparados para tomar um banho de choque. 

Um cães bem construido, que nivelle a praia pela 
altura proximamente das construcções regulares que 
alli existem, com escadarias para os desembarques, e 
uma ponte de descarga para o serviço da Alfandega, são 
as obras mais urgentes. 

A Alfandega precisa também ser reformada : a actual 
é um barracão impróprio e sem accommodações. Uma 
Alfandega deve ser um edifício isolado, próximo ao 
desembarque, e com as condições necessárias, não só 
para os empregados, mas principalmente para armaze- 
nar as fazendas, que muitas vezes os compradores não 
podem recolher nas suas habitações. 

Na praia presenceia-se uma scena assaz desagradá- 
vel e á qual deveriam pôr termo, se os Camaristas qui- 
zessem mais tractar dos interesses da terra, e menos de 
certas intriguinhas, e questões pessoaes, com que nin- 
guém aproveita, e elles muito perdem. Quero fallar da 
escallação do peixe, que convinha se fizesse em sitio re- 



— 99 — 

tirado e mais apropriado para esse fim ; onde o vento da 
barra não cobrisse d'areia fina, como agora acontece, o 
peixe preparado de fresco, o que o torna impróprio 
para quem não estiver ainda aífeito como os negros, a 
trincar areia sem se lhe arripíar os cabellos. 

Também é costume quando chegam os pescadores 
virem á praia os pretos comprar o peixe para os seus se- 
nhores, e leval-o para casa, já aberto e escamado, para 
o que vêem sempre munidos d'uma faca. Os cães attra- 
hidos pela esperança de pilharem alguma lambugem, 
rodeiam os pretos na occasião do amanho. Alguns mais 
atrevidos, ou mais famintos, levam a ousadia a ponto de 
querer partilhar melhor quinhão do que aquelle que lhes 
destinam, mas pagam caro o atrevimento, porque o 
prelo, estúpido e cruel, dá-lhes desapiedadamente com 
o gume da faca nas mãos, e continua tranquillamente o 
seu trabalho. 

Contei n'um dia em que fui ver chegar o peixe, 
vinte e seis cães, deitados á sombra de uns barcos que 
se estavam concertando: vi-os levantar de vez em 
quando a cabeça, e olhar para o lado d'onde deviam vir 
os barcos, e como nada avistassem, recostar-se, fechar 
os olhos e dormir. Repetiu-se esta scena muitas vezes, 
até que chegando finalmente os pescadores, elles ahi se 
levantam todos, e a passo lento se dirigem ao sitio onde 
os barcos aportaram. Foi então que tive occasião de no- 
tar, que a maior parte d'elles eram aleijados das mãos, 
e que me explicaram o motivo de sua má sorte. 

Não sei de que sirva tanto cão em Mossamedes, a 
indiíferença dos habitantes deixa-os assim reproduzir 



— 100 — 

espantosamente, até que se vejam obrigados a comba- 
tel-os, como os primeiros colonos tiveram de fazer aos 
lobos, que todas as noites vinham cumprimentar os 
seus novos hospedes. 

O que é muito singular e digno de reparo é, que em 
Angola, onde o calor é excesssivo, e onde se não encon- 
tram tão facilmente como na Europa sitios onde os cães 
possam beber, não ha lembrança de um só caso de hy- 
drophobia. 

Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a cir- 
cunda, que se deve ajuizar da importância de Mossa- 
medes como colónia agricola : para isso teriamos de nos 
entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só 
para nos restabelecermos de um incommodo febril, que 
nos accommelteu em Loanda, contentar-nos-hemos de 
montar ii'nm boi-cavallo, e ir até ás Hortas e á quinta 
dos Cavalleiros. 

Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensa- 
ção no viajante, que se persuade ir ver um animal de 
nova espécie, producto hybrido da raça bovina e caval- 
lar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que 
me apresentaram nenhuma diíFerença fazia dos outros 
bois. 

Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes 
digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje 
lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos 
povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as 
pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, prin- 
cipalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu 
boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito 



— 101 — 

os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as 
ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão 
de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual á dos 
cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem 
os Ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo 
com rabicho, é o arreio ordinário em que montam ho- 
mens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço 
anda com uma velocidade pouco própria do — passo do 
boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua 
andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; 
mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua- 
mente para lhes recordar o seu dever. 

Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, 
que é um passeio que quem \\s\t3i 3Iossamedes não deve 
deixar de dar. 

As Hortas distam três quartos de légua da Prata: 
é um terreno muito bem cultivado, e de uma fertilidade 
espantosa. Véem-se alli excellentes melancias e melões, 
romãs, figos, varias hortahças, milho, feijão, mandioca, 
e algum algodão: as nossas arvores fructeiras, plantadas 
ha pouco promiscuamente com as africanas, principiam 
já dando mostras do que hão de vir a ser. As videiras 
foram também victimas do flagello. 

Todos os dias se estende a cultura n'aquelle magni- 
fico solo: as edificações principiam a levantar-se, e já 
entre tão luxuriante vegetação se descobre aqui e além 
a abegoaria, o curral, e a casa de habitação. Este sitio 
sem horisonte, e pouco pittoresco, tem comtudo uma 
certa poesia que nos prende, e a uns faz esquecer a Eu- 
ropa, e a outros lhes aviva as saudades. Todos ambicio- 



— 102 — 

nam possuir um bocado de terra nas Hortas para cons- 
truírem o seu arimo, nome que dão aos pequenos pré- 
dios com o seu cercado. 

Mossamedes possue o paraizo africano : — oxalá que 
o saiba conservar e augmentar, e que nova serpente 
traidora não venba originar a desventura de seus habi- 
tantes. Em todo o caso não será ella proveniente da 
causa da queda de nosso primeiro pae, quando não já 
ha muito que o castigo teria vindo, porque o pomo tem 
sido tragado a bom tragar. 

É portanto escusado dizer que em Mossamedes, 
apesar de ser a terra onde ha maior numero de senhoras 
europeias, com boa educação, os hábitos são tão licen- 
ciosos como os de Loanda. O parocho tem meia dúzia 
de libertas ao seu serviço, escolhidas d'entre as mais 
novas e mais bonitas ! Edificante exemplo ! 

Como aconteceu fallar no parocho, devo mencionar 
uma circumstancia notável, e que muita admiração ha 
de causar aos parochos do nosso Minho, onde as resi- 
dências se acham quasi a meia légua umas das outras. 
O parocho de Mossamedes é-o igualmente da Huilla, 
que dista cerca de quarenta léguas de Mossamedes l 

Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. 

Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio 
ainda ha pouco deu provas da sua estupidez e covardia. 
Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa; 
— proporciona-nos a occasião de vermos a propriedade 
do mais excêntrico dos facultativos. 

O cirurgião-medico de Mossamedes, além de sèr 
habilissimo na sua arte, é um excellente homem, esti- 



— 103 — 

mado de toda a gente qiie tem a felicidade de o conhe- 
cer. Lapa e Faro é o seu nome, estudou quatro annos 
na escola do Porto, frequentou o quinto em Lisboa, en- 
trou para o serviço da armada, e acha-se, não sei como, 
estabelecido em Mossamedes, onde gosa dos melhores 
créditos. Dotado de um génio independente, obsequeia 
a todos, mas não se torna importuno com pedidos. 
Qual outro Robinson, poderia o acaso lançal-o em al- 
guma ilha deserta, que pouco se affligiria com isso : ha- 
bilidoso em todos os officios, é elle que se veste, se cal- 
ça, e faz os seus chapéos — mas tudo parece mais obra 
de um hábil mestre, que de um simples curioso. Para 
mais commodamente visitar os seus doentes, construiu 
um carro de novo género, tendo por motor um hoi-ca- 
vallo guiado por um moleque. 

Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de 
chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um 
andor dos que se usam nas aldeias do Minho. Preferin- 
do Viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma 
casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz ma- 
gnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem 
uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma 
grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de 
casado em Portugal, parece estar no firme propósito de 
trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde 
tenciona occupar-se da cultura do algodão. 

Continuemos agora a nossa excursão. 

O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é 
triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, 

8 



_ j04 — 

110 qual se não respira senão pó, e em que o espirito do 
viajante cansa na contemplação de um monte árido, de 
côr monótona, que se estende á direita, e continua ainda 
além do sitio que vamos visitar; á esquerda íica-nos o 
rio Béro, que na maior parte do anno está sêcco n'uma 
distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areia 
do seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gre- 
tar e arquear em forma de telha, pôde ser transitado, e é 
até uma soífrivel estrada. 

D'esse mesmo lado descobrem-se vários terrenos cul- 
tivados, e algumas habitações de lavradores. Entre ellas 
acolá se avista a de uma portuense celebre, que tendo 
ido para o Brazil, fez parte da colónia que foi d'aquelle 
Império para Mossamedes. D. Isabel d'Austria, era 
uma senhora muito prendada e de bastante instrucção, 
que falleceu ha poucos annos ; no cemitério velho vé-se 
o seu tumulo, mas com o nomequasi inintelhgivel. Esta 
senhora dedicou-se á agricultura e á educação dos seus 
escravos e escravas : ellas ainda hoje são das mais pro- 
curadas, e algumas adoptaram e conservam o nome da 
sua primeira possuidora. 

Esse costume é muito frequente em Angola, e até 
certos Régulos do interior teem pedido como grande 
honra a alguns Governadores geraes a mercê de pode- 
rem usar de igual nome, inclusivamente do de familia. 

Eis-nos na quinta dos Cavalleiros'. é uma extensão 
immensa de terreno, cultivado á maneira do Brazil, com 
excellentes plantações de canna d'assucar de magnifica 
qualidade, bello algodão, muita mandioca e bananas. 

Esta propriedade pertence a um individuo que fazia 



— 105 — 

parle da colónia brazileira, e que hoje se acha na Eu- 
ropa, com pouca tenção de voltar a Mossamedes. 

Dentro da habitação do fazendeiro está uma boa ma- 
china americana de limpar o algodão, que trabalha com 
a maior regularidade, dando óptimo resultado. A pe- 
quena distancia existem as ruinas do engenho do assu- 
car, que não funcciona por falta de meia dúzia de traves 
para o reparar provisoriamente ! 

Tudo quanto do terraço podemos alcançar com a 
vista foi aqui ha tempos devastado e roubado pelos Mu- 
nanoSy ou Nanos, espécie de vândalos do interior, que 
só vivem de pilhagem. Quando a fome os aperta fazem 
as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassal- 
los, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não 
teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo 
por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os pri- 
sioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas 
proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes 
quantias. 

Cinco mil d'estes gentios tentaram uma invasão em 
MossamedeSj onde já não faltava medo, porque não es- 
tavam então preparados para lhes poderem resistir. En- 
traram pelo lado do norte, que é o mais mal guarneci- 
do, — com quanto fosse fácil formar um reducto a qua- 
tro léguas de distancia da villa, para conter em respeito 
estes bárbaros, — chegaram á quinta, onde umas de- 
zoito pessoas mal armadas os conliveram durante umas 
poucas de horas; lançaram o fogo e talaram Iodas as 
plantações, incendiaram o engenho e a habitação, e re- 



— 106 — 

tiraram a final, levando prisioneiros o fazendeiro e parte 
dos seus escravos. Aquelle recolheu d'ahi a dias 2lMos- 
samedes com os trajes que trazia quando veio ao mun- 
do, e alguns escravos que depois conseguiram fugir vie- 
ram apresentar-se-lhe. 

Assim ficou em poucas horas, este homem laborioso, 
reduzido quasi á miséria; mas graças aos esforços e há- 
bil administração da pessoa a quem o proprietário deixou 
entregue a sua quinta, a não serem as ruinas do engenho, 
nada nos poderia fazer acreditar n'uma semelhante de- 
vastação. 

Póde-se dizer que a quinta já se acha talvez em me- 
lhor estado, do que antes da invasão, mas muito mais se 
teria conseguido se o fazendeiro contasse o numero de 
escravos precisos para o serviço. Com muitos sacrifícios 
tem comprado alguns, mas o seu numero ainda está 
longe de chegar ao que d'antes era, e esse mesmo, na 
actualidade, seria insufficiente. 

O Governador geral deveria animar este homem 
brioso, pondo ao seu serviço, durante quatro ou cinco 
annos, um numero avultado de libertos; quando não, 
continuará, por falta de braços, a perder-se a colheita 
da canna e do algodão. 

Foi por occasião d'esta invasão que o Governador 
de Mossamedes deu a mais evidente prova da sua iné- 
pcia. Apenas teve noticia que os Mu-nanos se aproxi- 
mavam, o seu primeiro cuidado foi de flanquear uma loja 
em que vende manteiga, com quatro peças d'artilheria, 
e convidar os habitantes para o coadjuvarem. Para o re- 
solver a enviar soccorros á quinta, foi preciso descom- 



— 107 — 

pôl-o : — mandou então a muito custo uma peça, mas 
com balas que lhe não serviam ! 

Eu não quiz regressar á Praia sem vêr uma das 
cousas talvez mais curiosas das nossas possessões: são 
diíTerentes familias de pretos gentios, que se deixaram 
íicar nas proximidades de Mossamedes quando os por- 
tuguezes alli se estabeleceram. Estas familias de pasto- 
res, a quem dão o nome de Mimdombes, vivem em cu- 
batas de ramos séccos, do. feitio dos fornos que ha na 
provincia do Minho, em certos soutos onde se costu- 
mam fazer arraiaes, e para as quaes elles entram de 
rasto. 

Cada familia compõe-se de um homem com três ou 
quatro mulheres, e um avultado numero de creanças. 
Estas creaturas, apesar de viverem já ha annos perto 
dos europeus, e estarem todos os dias em contacto com 
elles, em nada tem modificado os seus hábitos primitivos. 

Os homens usam de um traje que se compõe de um 
panno d'algodão amarrado em volta do corpo, e outro 
lançado aos hombros como um manto, e trazem sempre 
um cajado na mão. São d'elegante estatura, e as suas 
posições e movimentos muito diíTerentes das dos pretos 
das outras tribus, que andam com acanhamento, e não 
perdem uma occasião em que possam estar de cócoras, 
ou sentados. 

As posições dos Mundombes são nobres e altivas. 

Nas mulheres é que existe toda a originalidade 
d'esta raça. Trazem sobre a cabeça um bocado de pelle 
de boi por curtir, levanta m-lhe as pontas de traz e de 
diante para cima da cabeça, de forma que aquelle adorno 



— 108 — 

immundo e de cor escura, assemelha-se a um pequeno 
chapéo como o de Napoleão. Por vestuário apenas dous 
bocados de pelle, caliidos da cinta para baixo, um por 
diante, e outro por traz, e por cima d'elles, cobrindo- 
Ihes as nádegas e o ventre, uma quantidade enorme de 
missangas brancas, azues, e encarnadas. N'isto consiste 
todo o seu luxo: — aquella que tem o maior pezo de 
missanga é a mais feliz. Nas pernas e nos braços trazem 
grande quantidade de manilhas de ferro, que é o distin- 
ctivo das casadas; em volta do corpo uma correia lhes 
aperta os peitos, os achata, e estende ás vezes do com- 
primento de palmo e meio, o que dá a estas fêmeas o 
aspecto mais repugnante, — mas passa entre ellas por 
uma das maiores bellezas. Não se lavam nunca, e au- 
gmentam a immundicia em que vivem, untando o corpo 
e o cabello com manteiga de vacca fabricada por ellas. 

Ás casadas só é permittido divertirem-se, ou por 
outra, dançarem, porque n'isso se resumem todos os 
seus divertimentos. As suas danças podem comparar-se 
aos passos desenfreados, que os antigos nos descrevem 
quando faliam das famosas Saturnaes. 

Assisti ás danças dos Mundombes executadas por 
diversos grupos: — eram copia fiel umas das outras. 
Reunem-se sete ou oito mulheres, e formam um circulo, 
entoando uma cantiga de uma monotonia capaz de fazer 
morrer de spleen lodos os collaboradores do «Chariva- 
ri;» acompanham este canto batendo as mãos, e le- 
vantando ora um pé, ora o outro. Ao cabo de cinco mi- 
nutos pouco mais ou menos, e quando começam a ele- 
ctrisar-se, entra uma d'ellas para o centro, e desata a 



^ 109 — 

saltar como endemoninhada, fazendo passos e gestos in- 
críveis, que vão crescendo conforme a approvaçao dos 
assistentes. As mais velhas são as que mais se saraco- 
teiam ; não é difíicil acreditar, que são ellas também as 
que apresentam contracções de physionomia mais hor- 
rendas no delirio a que se entregam. 

O que deduzi de tudo quanto presenciei, foi que o 
estudo principal d'aquellas mulheres é tornarem-se feias 
e immundas, porque as raparigas são quasi todas lim- 
pas, e bastante engraçadas. Estas usam em volta do 
corpo um panno d'algodão, como as demais pretas da 
costa, com a diíferença que lhes não passa abaixo dos 
joelhos; nas pernas trazem manilhas de vime, que é o 
signal de virgindade. Fácil é de comprehender quanto 
anhelam trocar estas manilhas pelas de ferro, que além 
d'outros gosos, lhes faciUla o da dança, que ellas tanto 
apetecem. 

Na occasião das danças as raparigas conservam-se 
em grupos a certa distancia, vendo-as com inveja. Os 
rapazes chegam-se para os velhos, e sempre n'uma posi- 
ção académica, contempkim com seriedade todas aquel- 
las desenvolturas. 

As creanças andam inteiramente nuas até aos oito 
ou dez annos, mas já antes d'essa idade as raparigas tra- 
zem as manilhas de vime. 

O sustento de toda aquella gente compõe-se de 
milho pisado com uma pedra, cozido em agua e leite : — 
é uma comida insipida que qualquer desdenharia sem ser 
gastronomo, mas a que dão grande apreço. 

Os Mundombes pagam os tributos em géneros, como 



— 110 — 

nos mais districtos da Província : são eleitores, e não sei 
se elegi veis. Note-se que nenhum sabe lêr, e que raros 
são os que faliam ou entendem o portuguez. 

As mulheres não tendo nada mais em que se occu- 
par do que em cozinhar a cachupa, sobrava-lhes tempo 
se prezassem a limpeza para destruir a immensa quanti- 
dade de bichos que trazem por entre as missangas; mas 
preferem dormir, fumar, e dançar. Este viver, que pa- 
rece mais próprio d'animaes, do que de creaturas huma- 
nas, tem taes attractivos para quem foi creado n'aquelles 
hábitos, que ainda não ha muito, que uma rapariga que 
estava a servir uma familia da Praia, teve de a acompa- 
nhar á Europa, onde se demorou bastante tempo, pare- 
cendo ter adoptado os nossos costumes, e regressou a 
Mossamecles bem vestida e calçada, e de luva branca. 
Não tardou porém muito tempo que a mucamba não 
trocasse esses bellos atavios por manilhas de ferro, epor 
missangas ! 

Lá a vi entregue ao frenesi da 9ança, trazendo es- 
carranchado na anca uma creança, a quem fazia soffrer 
de certo grande martyrio, por causa dos solavancos oc- 
casionados pelas posturas desordenadas. Era curioso 
vêr as caretas que o moleque fazia, agarrando-se á mãe 
com medo de cahir. Esta maneira de trazer as crean- 
ças, a quem chamam crias, é usada pelas negras em to- 
da a Província, com a difíerença que as escravas e liber- 
tas trazem-as envolvidas n'uma segunda saia, que arre- 
gaçam e prendem em volta do corpo, de modo que só a 
cabeça da creança fica de fora. 

Gomo ouvisse fallar muito nas sanzallas, quiz vér o 



— Hl — 

que era: achei uma certa quantidade de cubatas em que 
vivem os negros, compostas só de ramos; fiquei des- 
apontado, e voltei para a Praia. 

Uma das cousas mais desagradáveis que encontrei 
em Mossamedes, e que sempre me causou repugnância, 
foi o gosto do fumo muito pronunciado em todas as co- 
midas que vão ao lume; como não ha carvão vegetal, 
cozinham com lenha verde, e rara é a comida que não 
fique estragada. 

Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que 
assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão 
inscrever os nomes n'um grés moUe de que é composta 
parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns 
nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos 
por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a am- 
bição levaram áquellas praias ; e outros desconhecidos, 
mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous 
séculos. 

Quiz ver as obras do forte, porém ao approximar-me 
fixaram-me a attenção uns gritos compassados, que de 
lá sahiam; entrei para descubrir a causa d'aquelles la- 
mentos, e fiquei horrorisado quando vi, amarrada ao 
reparo de uma peça d'artilheria, uma preta escrava, 
com o panno arregaçado na parte posterior, soltando 
um berro rouco cada vez que um soldado de caçadores, 
em mangas de camisa, com a mão esquerda assente na 
ilharga, lhe descarregava sobre o trazeiro o golpe de 
uma disciplina composta de quatro correias. 

Achavam-se presenciando esta scena mais dous pre- 
tos, para quem estava reservada igual sorte, e um em- 



— H2 — 

pregado da policia, encarregado de levar os negros á 
correcção, e de contar o numero de surras que tinham 
de receber. 

Desataram a preta, que foi substituída por um dos 
pretos, que a principio parecia querer usar de ceremo- 
nia com o seu companheiro, pretendendo ceder-lhe a 
vez. Apenas sentiu a primeira pancada principiou gri- 
tando com desesperação: — Ah morra meu siorl morra 
meu sior (i) ! e assim continuou até levar os cem açoites 
a que tinha sido condemnado por ter roubado o amo, e 
tentar assassinal-o, convidando outros para o coadjuva- 
rem e fugirem depois para o interior. 

Não quiz continuar a presenciar estes actos que re- 
pugnam a quem não estiver acostumado a elles, ainda 
que reconheça, como eu, que sem castigo nada se con- 
segue do preto. 

Com quanto entenda que um viajante deve vértudo, 
confesso que sahi do forte bastante arrependido de ter 
satisfeito a minha curiosidade, e desci para a praia refle- 
ctindo que cem açoites, dados com uma disciplina de 
quatro pontas, correspondem a quatrocentos. 

Será isto uso, ou abuso? 

Foi bom que prohibissem aos senhores de castiga- 
rem os escravos, porque alguns o faziam desalmada- 
mente, mas não me parece conveniente que o papel de 
algoz seja desempenhado por um branco, e sobre tudo 
por um soldado, o que é degradante para a classe. 
N'esse ofíicio era melhor empregar um negro a quem se 

(') o verdadeiro sentido d'esta phrase é: acuda-me, meu amo, se- 
não eu morro, e subentende-se, e você jierde quanto eu lhe custei. 



-- 113 — 

pagasse, e que havia de cumprir o seu dever com dedica- 
ção e zelo, porque toda a vez que se Iracta de ganhar 
dinheiro, fazendo mal, póde-se contar com elles. 

Quando cheguei á praia notei certa animação: as 
portas e janellas das casas estavam occupadas com gente 
que olliava para a bahia. Era causa d'esse movimento a 
chegada de um dos três navios costeiros de que jáfallei: 
são de pequena lotação, e empregam-se no transporte 
de munições e mantimentos para os differentes pontos da 
costa; estão todos em mau estado, e por isso mesmo foi 
que os cederam á Provincia. O commando d'esses navios 
está confiado a segundos tenentes da armada, que de fa- 
cto são os senhores d'aquellas embarcações, pois que a 
Provincia só tem a seu cargo a despeza que com ellas 
faz, em quanto que os lucros são para os commandan- 
tes; carregam a bordo por sua conta, ou da de particu- 
lares, recebem passageiros com quem ajustam a passa- 
gem, demoram-se o tempo que lhes parece nos portos 
onde vão negociar, e regressam a Loanda quando lhes 
faz conta, sem dar satisfação a ninguém. Costumam al- 
guns dias depois da chegada enviar á Junta da Fazenda 
um quarto de papel, escripto muitas vezes a lápis, mos- 
trando laconicamente o rendimento da viagem, que ra- 
ras vezes attinge a quanlia de quarenta mil reis. 

A companhia «União Mercantil» veio fazer grande 
concorrência a este proveitoso negocio, que é um dos 
abusos mais escandalosos que se praticam em Angola, 
e cuja repressão não escapará seguramente á penetração 
do Governador geral. 

O systema de transportes na costa deve ser reforma- 



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do. Os navios de vela, n'aquellas paragens, onde o 
vento escasseia a miúdo, são demasiadamente morosos: 
a Provinda necessita absolutamente dedous vapores pe- 
quenos, por exemplo, como o « Lynce » . Sem elles 
posso afiançar que não ha governo possivel em Angola. 

No primeiro domingo que passei em Mossamedes 
levantei-me cedo para ir á missa, onde esperava ver 
reunida a melhor sociedade da villa, mas fiquei admira- 
do de me achar só com o destacamento. Disseram-me 
que d'anles as senhoras frequentavam a igreja, mas que 
em consequência de desintelligencias com a mulher do 
Governador, deixaram de lá voltar. Os deveres religio- 
sos teem pouco império sobre o bello sexo de Mossame- 
des, que tão facilmente os sacrifica a um despeito mes- 
quinho. 

Aqui, como no resto da Província, não ha distrac- 
ções, e o vicio do jogo é dominante por toda a parte. 

Os prelos passam o domingo nas suas batucas (dan- 
ças) ao som das fnarimbas, acompanhadas de uma can- 
tilena lamentosa, cujo ritornello impressiona profunda- 
mente o europeu que ouvir aquelles cantos melancóli- 
cos n'um paiz onde o coração está sempre disposto para 
a tristeza. 

No que Mossamedes excede muito a todas as outras 
terras d' Angola, é na bondade do seu cHma: para alli 
tem de ser mudada a capital, n'uma época que talvez 
não esteja distante, e então poderá gosar os melhora- 
mentos de que é susceptível ; a essa transferencia será 
devido o desenvolvimento em larga escala da agricultu- 
ra, que tão proveitosos resultados deve dar a quem d'ella 



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se occupar, e ao Governo que a animar e proteger. A 
cultura do algodão, da canna do assucar, e do tabaco, 
ha de necessariamente produzir uma considerável ri- 
queza, mas para isso cumpre que se dê áquella colónia 
a importância que ella merece, e que por uma efficaz 
coadjuvação possa attingir tal grau de prosperidade, que 
seus habitantes cheguem a esquecer que vivem em An- 
gola. Só então é que Portugal terá uma possessão que 
lhe seja verdadeiramente proveitosa. 

Mossamedes e os terrenos que lhe ficam contiguos 
n'um raio de trinta léguas, valem quasi tanto como todo 
o resto da Provincia: é um paiz virgem, de uma fertili- 
dade extraordinária, e de uma temperatura própria para 
alU habitarem europeus; — emfim, é uma terra desti- 
nada a um brilhante futuro. 

Quanto mais proveitoso não seria, tanto para o paiz, 
como para os próprios emigrados, se em vez de se enca- 
minharem para o Brazil, fossem estabelecer-se com o 
auxilio do Governo no districto de Mossamedes? 

A ideia em que todos estão de que só na America se 
pôde fazer fortuna, é causa da indiíferença com que ge- 
ralmente se olha para as nossas possessões. As fortunas 
consideráveis que teem vindo do Brazil ahmentam a de- 
plorável e irresistivel fascinação de muitos desgraçados, 
que nem sequer pensam no risco d'essa loteria em que 
tão raros são os prémios, em proporção da immensidade 
de gente que assim vai temerarianoente tentar a sorte. 
Depois que n'aquelle Império se tornou endémica a fe- 
bre amarella, pôde ser tido, com justa razão, como um 
vasto cemitério de portuguezes. 



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Infelizmente em Portugal pouco ou naua se conhece 
esta parte da nossa Africa, que offereceria aos colonos 
uma vantajosa concurrencia; os nossos Governos não 
apreciam bem o alcance d'esla questão vital, e entre- 
teem-se n'uma politica ridicula, e ha parochos que em 
vez d'esclarecerem o povo, não se envergonham de 
exercer sordidamente o odioso e vil papel de engajado- 
res d'escravatura branca ! 

Concluo esta singela narração, fazendo uma obser- 
vação que talvez fosse desnecessária, mas que eu lenho 
a peito aqui registar. 

Encontrei em Angola, em todas as classes da socie- 
dade, algumas pessoas de muito fino tracto e de esme- 
rada educação : na classe commercial, que é a mais nu- 
merosa, é onde são mais raras, e portanto mais apreciá- 
veis. Conheci militares de probidade e de maneiras mui 
delicadas; officiaes de marinha em commissão, alguns 
d'elles meus companheiros de viagem no regresso, so- 
bre quem não peza a mais leve suspeita. 

Se as cores com que esbocei este quadro, não são 
agradáveis e parecem demasiado carregadas, ninguém o 
sente mais do que eu; — mas entendi que era prestar 
um serviço, dizer clara e francamente a verdade em as- 
sumpto que tanto nos interessa. 

Oxalá que estas paginas possam contribuir para 
algum bem, que nãojulgaria então perdidos os quarenta 

E CINCO DIAS EM AnGOLA. 



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