(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Questões do dia: observações políticas e litterárias"

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct and hclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers rcach ncw audicnccs. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



QUESTÕES DO DIA; 



observações polilieavS e litterárias 



escriptas por vários 



B 



ooordeuadas 



POR 









/ K 



TOMO I . 



mo DE JANEIRO 

TVP06RAPHIA B LITHOGRAPHIA — IMPARCIAL — 
146 A BUA SBTB DB SBTB^$BO 146 A 



Advertência 



Compôe-se este volume de 376 paginas, em 15 
números successivos. Contôm o 1°. n\ 7i páginas^ 
e comprehende as 4 primeiras cartas de Cincinnato. 
Cada um dos restantes 19 números tem 16 páginas» 



Várias pessoas coUaboram n'esta publicação ; cada 
uma escolheu um pseudónymo. Tendo-se concordado 
em plena liberdade de redacção, cada signatário só é 
moralmente responsável pelo que subscreve. 



CARTAS POLITICAS 



DIRIGIDAS 



PELO ROCEIftO CraCMNiTO AO CIDADÃO FABRÍCIO. 



CARTA 1/ 

Amigo.— A estas matas seculares, a este deserto em 
que me apago, quasi a sós com a natureza, a este rp- 
manso para onde ha tantos annos fugi desses campos 
de batalha, em que se digladiam as paixões politicas 
6 sociaes , chega de ordinário amortecido o écho da^ 
lutas com que ahi se recreiam os nossos homens pú- 
blicos. Se não fora, portanto, a tua bondade de me 
mandares as- publicações que ora tenho ante mim, 
ignoraria eu que as mil questões graves que prendem 
com o futuro do Brasil estão ahi sendo substituídas 
por discussões sobre logomachias. Pelo que Tejo a de 
hoje é o poi>ER PESSOAL, monstro ingente e informe, 
Tisiphone ou Medusa de casta nova. 

Estou longe dos homens e das cousas publicas ; mas 
sabes que, emquanto pertenci ao mundo, fui libera- 
lissimo, isto é, conservador; e^pois que Deus me nSo 
deu míoh)s versáteis, persisto nas minhas idéas. 

Ao contemplar o quadro que me envias, não resisto 
a bradar, Gorregio do sertão, AnchHo l e peço vénia 
para te submetter atropelladamente algumas das obser- 
vações que tão ingrato assumpto me suggerc. 



— 4 — 



I. 



Theses ha, curtas na expressão, mas longas no 
alcance, que, por audazes, costumam ser ajudadas da 
fortuna : moeda falsa que circula, lava que se alastra. 

Essas theses aspiram logo a fóros"de axioma. Já foi 
dito que os astuciosos as lançam às turbas ; os pre- 
guiçosos de intelligencia apoderão-se delias, por lhes 
pouparem o trabalho de reflectir, e repetem-n'as, para 
alardearem comprehendôl-as. E todavia representam 
essas proposições o absurdo, quando são analysadas; 
mesmo assim mil bocas as reiteram, e, para demonstrar 
aquelle absurdo, é mister contrarial-as mil vezes. 



It. 



E nem se julgue que essas theses íicão sempre em 
tnnocenles brincos do espírito, em gymnasticas theo- 
ricas, como as controvensias das escolas rhetoricas dos 
antigos. Muitas vezes são joio semeado, que poderá um 
dia afogar a seara. Cumpre não desprezal-as : são o 
grão de areia de Pascal. 

Que significa, na forma de governo q/ie nos rege, 
pâr a these poi>cr pessoal na ordem do dia da imprensa, 
do parlamento, das assembléas, dos clubs, das confe- 
rencias, dos corrilhos e das praças?! Que significa 
arrastar a coroa para o campo dos debates"^ Injuriar 
a pessoa que o pacto fundamental qualifica de invio-^ 
lavei e sagrada ? Responsabílisar a quem não está su- 
jeito a responsal>ilidade ? Atacar a quem não pôde, nem 
deve, defender-se, nem tem de que ? 

Será uma fácil valentia, se lhe não achas outro nome ; 
será um pouco invejável laço armado a uma falsa popu- 
laridade : tudo será, menos acto reflectido e prudente. 
Estas tentativas (venham d'onde' vierem) sò levam a 
um perigoso desprestigio, ou á mais abominável das 



-8- 

ochiocracias. O que só conseguen^ esses arautos da 
anarchia é, Encelados sob o Etna, estremecerem e 
convaisarem a terra. Tal não é a missão dos bem 
inteacionados. 

Talvez baja, entre esses , alguns dos que dizemos 
de antes quebrar que torcer ; dos que não reconhecem 
amigos nem inimigos ; águias que se affrontam com o 
próprio sol sem pestanejar ; orgulhos que se ufanam 
com o antigo motto etiam si omnes^ ego nonf entes 
ideae^ em summa, como o justo e tenaz phantasiado 
por Horácio. Como não devasso o foro intimo, res- 
peito-lhes as intenções. 



m. 



Lamento mais que tudo ver arvorada por um va- 
lente alferes conservador, n'uma hora de allucinação, 
a desgraçada bandeira anti-dynastica. 

Era já o Sr. conselheiro José de Alencar, que ria 
sua folha Dezeseis de Julho (de Haio e Junho de 1870) 
fizera do moii^ poder pessoal a sua Delenda Carthago. 
Comquanto os artigos dessa folha fossem anonymos, 
pelo dedo se conhecia o gigante. S. Ex. mesmo em 
lugar bem alto e publico^ os perfilhou. 

Na sessão parlamentar desse mesmo anno, o illustre 
orador adoptou o mesmo thcma para seus raptos objur- 
gatorios. 

Finalmente agora (de 21 a 31 de Março) ahi voltou 
outra vez ás mesmas variações no Jornal do Com- 
niercio^ sob o titulo de Ultima phase. * 

Temos, portanto, uma voz autorizada, repetindo as 
duas palavras fatídicas, aterradoras como as do festim 
de Balthazar. Autorizada, sim. Hontem erão essas pa- 
lavras pelouros frios, tiros imbelles, porque sabiam 
de arraiaes naturalmente hostis, e dava-se o devido 
desconto á arguição, arrojada sem sciencia nem con- 
sciência. Mas quem as profere hoje? 



OOESTOESDODIÂ: 



observações polílicavS e litterárias 



eseriptas por vários 



B 



ooordeuadas 



POR 



• / 



^*5<?. / ■-/ •' 






TOMOI - 



mo DE JANEIRO 

TVP06RAPHIA B LITHOGRAPHIA — lUPARCIAL — 
146 A BUA SBTB DB SBTBàiSBO 146 A 



I 

— 8 — 



Não tem sentido algum-, se se lhe tira aquella ccAnitira 
de requisitos. 

Representa um grande principio constitucional^ se se 
dá áquelles termos a devida interpretação 



V. 



Despotismo ne«ta abençoada terra t Mas que entendem 
os publicistas por despotismo? Será elle possivel, onde 
não é lei a vontade do monarcha ? Onde existem e 
funccionam os poderes independentes? Onde a imprensa 
é livre? Onde o habitante goza de todos os privilé- 
gios reconhecidos á humanidade pela celebre declaração 
dos direitos do homem e do cidadão? Onde o mo- 
narcha não é proprietário do seu império, mas dele- 
gado delle? Onde a autoridade não pôde coarctar a 
liberdade aos cidadãos? Onde os tribunaes ^ não são 
subordinados aos caprichos do poder? 

Não : a coroa do Brasil não è o chapéo de Gesslcr. 



VI. 



O poder pessoal (se isto quer áizer poder régio) existe ; 
quem o duvida? Existe em toda a sua força, em toda 
a sua plenituí^e, pela natureza das cousas, pela Índole 
do governo, pelo espirito das instituições, pela letra 
da constituição. 

E pois que é um correligionário quem diverge, ha 
feliaftente um terreno neutro em que não discre- 
pamos. Eis como se exprime o Sr. Alencar {Dezeseis 
de Julho n.^ 113):^ 

t A escola conservadora adopta, como umanormapra^ 
tica^ a distincção feita pela constituição entre o poder 
executivo e o poder moderador, exduinio os actos deste 
da responsabilidade ministerial. 

c Dahi resulta que o gabinHe não intervém nos actos 
privativos do monarcha t E continua, dizemdo que a 



constituição brasileira confiou á corda^ daqueUa forma ^ 

o elemento conservador, constituindo-o o centro dos 

potleres políticos. 
Que é^ isto. Santo Deus? Pois a pesâoa do monarcha 

•; centro dos poderes politicos ; pois a pessoa do monarcha 
individnul mente exerce actos privativos ; pois nestes 
acto^ da pessoa do monarcha nem é permittido ao 
gabinete intervir ; c ousais aflirmar que é illicilo o 
poder pessoal! Appeilo de Phílippe para Philippe ; sois 
vòs mesmo que vos condemnais. 



VII. 



Nos legeni habemas. Como se nâo trata de direito 
constituendo, é a constituição do linperio a nossa biblia 
politica. . , 

E' ella quem nos ensina, que o monarcha iem poder 
pessoal; que é elle o chefe supremo ;que a elle pri- 
vativamente cumpre velar incessantemente oobre a ma- 
nutenção, equilibrio e harmonia dos mais poderes po- 
liticos. 

Como pede a pessoa do soberano exercer essa vigi- 
lância incessante ordenada pela lei das leis, sem poder 
pessoal? 

Não quero discutir supremacias; mas direi que, se- 
gundo a constituição, o poder io monarcha é de todos 
os iHKleres o mais amplo c variado. Emquanto cada 
um dos três poderes se circumscreve em uma dada 
orbita, o poder privativo do imperante penetra nas 
orbitas de todos. 

E não tem poder pessoal ? ! 

O poder legislativo não julga nem executa ; o exe- 
cutivo não julga nem legisla; o judiciário não legisla 
nem executa. 

E qual o poder pessoal e privativo do imperador? 

Ei-lo : 

Quanto ao moderador, e^erce-o plena o exclusiva- 
mente; 

2 



— 10 - 

« 

Quanto ao legislativo, tntervem na promulgação ou 
suspensão da lei, na convocação extraordinária da ao- 
sembléa geral, na prorogação, adiamento ou dissolução 
da camará dos deputados; 

Quanto ao executivo, ô o rei chefe delle, e noméa e 
demitte livremente os ministros ; 

Quanto], finalmente, ao judiciário, o rei intervém 
suspendendo os magistrados, nomeando-os e transfe- 
rindo-os, concedendo amnistias e moderando as penas 
aos réos condemnados por sentença. 

Não serão tudo isso.poderes máximos pederes? Não 
serão ,tão exercidos pela pessoa do soberano que até 
nelles, segundo a linguagem do Sr. Alencar, não é dado 
aos ministros interferir? E quando assim o decreta o 
código dos nossos deveres e direitos, ha cidadãos que 
lhe opponham o seu veto, de uma penada annullando 
principies, antes axiomas constitucionaes ? 

Poder pessoal de um escriptor qualquer superposto ao 
poder pessoal do rei I 

E se esta é a doutrina fundamental, no tocante a attri« 
buições, não só foi ella consagrada pelo espirito que a 
dictou, senão também pelas mais positivas e formaes 
disposições. 

Quando a constituição estabeleceu que o imperador 
se considerasse o primeiro representante da nação, e que 
velasse por que fossem sempre uma verdade as garan- 
tias que ella offerece, não lhe conferiu vastíssimo poder 
pessoal ? 

Não lh'o conferiu, quando o obrigou a prestar jura- 
mento de fazer observar a constituição e as leis, epro- 
ver ao b&m geral ? 

Não lh'o conferiu, quando, submettido por ambas 
as camarás um projecto de lei, o autorizou a negar-lhe 
consentimento, ouvindo em resposta louvores do inte- 
resse que toma pela nação ? 

E é esta entidade preponderante e suprema, este 
Argos, a quem a lei prohibe o dormir, a quem ella 
assenta no posto mais eminente para servir de senti- 



- 11 - 

ncHa de todos os deveres e direitos, este poder que 
íunde em si attribuiçòes de todos os poderes, ou as 
exerce privativamente ; o homem-instihnção^ creado 
para a inspecção summa da sociedade ; é este magistrado 
supremo, a cuja pessoa se pretende negar poder ! 

Impõem-lhc a lei e o 'juramento uma permanente 
direcção e intervenção (directa ainda quando indirecta, 
seé licita a phrase), e ha quem Ibe denegue os meios 
de cumprir o seu dever I 

Quer-se inverter Ioda a marcha da civilisação, a exi- 
gência de tempos illustrados, substituindo o rei intel- 
ligente^e amigo da pátria por um phantasma de soberano I 
Quer-se pôr ao vivo era scena a ironia de Boileau? 

Hélas! qu'est devenu ce temps,cet heureuxtemps,* 
Ou les róis s'honoraient du nom de fainéánts I 

A aspiração será explicável para quem se sentir com 
forças de se arvorar cm maire du poiais^ suppondo en- 
contrar ante si massas de Dagobertos. 

Não e não. Em presença da forma de governo c da 
constituição que nos rege, se á nação compete a omni- 
potência, ao imperador é delegado amplissimo poder 
pessoal. 



VIII 



E porque o debate naquelle terreno já se vô que le- 
varia a duvidar da luz meridiana, fica-me uma hesitação. 
Dar-se-ha que sereduza aannullaçãodo poder régio aos 
actos que só prendem çom a direcção do poder exe- 
cutivo? 

O absurdo c inconstitucionalidade da accusação não 
seria menor. Mas, se essaé a interpretação do horrendo 
poder pessoal^ aceite-se a discussão, mesmo nessas aca- 
nhadas proporções. 

Vamos ver se resumimos o cerebrino pensamento : • 

€ Concedemos que o imp(M'ante possa por si, e sem 



— 14 — 

€ Por mim sei que nunca S. M. o Imperador me 
coagiu a acto algum, porque nem eu me sujeitara, 
nem Sua Magestade m'o impuzera. Desta minha certeza 
dá prova o facto de ter eu strvido anno e meio como 
ministro, pois não serviria 24 horas, se me sentisse 
annullado e desairado. Dào igual prova as declarações, 
por mim feitas na camará dos deputados, em 4 e i8 
de Junho de 1870, patenteando.que não deixei a pasta 
da justiça por falta de confiança da coroa ou na coroa, 
mas sim por ter o gabinete a que eu pertencia apoiado 
a divergência de um collega meu; e acrescentei': t Esta 
^éaunicae verdadeira causa. » Dão igual prova outras 
phrases minhas, quando na camará tratei da minha 
candidatura senatorial, e di^se: c Entendi que minha 
t posição de ministro me impunha o dever de commu- 
t nicar a minha resolução à coroa, porque esta reso- 
t lução podia modificar a confiança do poder irrespon- 
c sável, confiança sem a qual eu não cámpreliendo a per- 
« manencia do ministro. » Ora, se esta linguagem é pos- 
terior á minha estada no poder ; se eu tão explicita- 
mente declarei que conservara até ao fim a confiança da 
coroa ; se funccionei sempre, com a liberdade própria 
do meu caracter e da minha posição ; se não foi attrito 
algum com a chefe supremo que motiVou a minha sa- 
hida ; é obvio que nunca para commigo foi indebita- 
mente exercida coacção de espécie alguma ; antes me 
foi sempre deixado o pleno uso das faculdades, peio qual 
me cabia responsabilidade.» 

Iguaes, creio eu, s.eriam os depoimentos dos 149 res- 
tantes ex-ministros. Não são manequins de cortiça, 
boiando á lona do poder, acariciados e cobertos de Icn- 
tejoulas; são os caracteres da tempera do Sr. conse- 
lheiro Alencar, os cidadãos fortes e independentes, que 
entoam coro, em que não destoa uma voz única. 

Só n'um accesso epheraero de despeito ou ira se. 
podia calumniar a nação nas pessoas de suas primeiras 
illustrações. « Poder pessoal é subserviência, e o Sr. 
visconde de S. Vicente era a encarnação do poder 
pessoal! O seu desejo de aproveitar para a pátria 



— 15 — 

OS lalenlos (isto è, de cumprir a constituição) é tra- 
balhar na obra nefasta do aniquilamento dos par- 
tidos I... i Escondamos o sudário. 

Aquella primeira interpretação da palavra intervenção^ 
como variante de reprehensivel poder régio, está fora 
de causa. Progridamos. 



X. 



Venhamos á segunda ; a essa^ que eu digo ser licita 
e honrosa, obrigatória, veneranda ; a esse poder pessoal, 
que eu proclamo benéfico; a esse, cuja interrupção 
por 24 horas fazia a um Tito exclamar : Hodie diemperdidi. 

Esse poder pessoal^ q\ie eu dentro dos limites approvo 
e louvo para os actos do poder executivo como para 
todos os mais, é poder decretado pela constituição e 
aconselhado pelos principios. E, visto existir lei escripta, 
antes de tudo regjilemo-nos por ella. 

Que prescreve a constituição ao Imperador?— Que es- 
teja permanentemente vigilante em* fazê^-a observar; 
em prover ao benl geral ; em manter a harmonia dos po- 
deres ; em representar a nação. — Não ha nesses preceitos 
excepções nem restricções ; não ha mais nem menos : 
abrangem todos os negócios públicos, qualquer que 
seja a orbita a que eiles pertençam. 

Deste altíssimo jus de vigilância será acaso exceptuado 
o poder executivo? ficará o Imperador excluído desse, 
o mais activo, militante e permanente de todos os 
poderes ?De modo nenhum. Salva uma única restricção, 
tem todo o direito, como tem toda a obrigação de 
estudar os actos submettidos á sua referenda. 

A restricção a que alludo é a seguinte: 

Sendo certo que a responsabilidade do acto projec- 
tado recahe sobre o ministro, que succede? Se o Impe- 
rador o julga acertado, subscreve-o ; se o desapprova, 
ao passo que o ministro persevera na sua opinião, 
fica ao monarcha a opção entre ceder neste ponto^ 
ou demíttir o dissidente. 



— 16 — . 

Em tudo mais, o Imperador póJe, deve estudar os 
negocies que correm pelo executivo, com tanto que 
por ultimo respeite a responsabilidade alheia. Como!' 
Pois ignora-se acaso que o Imperador forma parte 
integrante do poder executivo?! Tanto forma, que o 
art. 102 o denomina chefe do poder executivo^ é curioso 
seria que a cabeça de lim corpo fosse parte estranha 
a esse coi*po. Pois a lei que créa um membro e chefe 
do poder, que encargos lhe impõe, se se quer entender 
que esse chefe e membro seja mudo ! E que constituição 
seria esta, que, reconhecendo ao iníimo cidadão jus de 
communicar seus pensamentos, igual jus recusasse a 
quem occupa o pináculo do edifício social ; a quem só 
o emprega em zeloso desempenho de seu oíTicio de 
Rei? 

Nem se diga que a constituição só confere ao Impe- 
rador a nomeação e demissão dos ministros, mas que 
emquanto estes funccionam se suspende toda a interfe- 
rência magestatica. Nomeação e demissão são attribui- 
ções do Moderador; o exercido do executivo, isto é, 
a eífectividade das suas resoluções, pertenceaosministros; 
mas o trabalho prévio da elaboração, do estudo, compete 
ao Imperador com os seus ministros, à cabeça com 
o corpo; e do mesmo modo que, n'um governo soli- 
dário , è acto de todos os ministros , embora não 
signatários, o acto do ministro que o praticou, assim 
pôde o chefe do executivo temar parte nas deliberações, 
deixada por elle a responsabilidade a quem de direito 
couber. Até jrei mais longe, observando que^ficçãoeu 
verdade) a constituição proclama o Imperador como 
não sendo só o chefe, mas personificando o próprio 
poder executivo, visto declarar que é o Imperador quem 
pdos seus ministros o exercita. 

Gonseguintemente, opoder pessoal^ 'considerado como 
direito imperial de exprimir opinião sobre todos os 
assumptos da administração, e de tomar parte nos 
trabalhos do poder executivo, é formalmente estabe- 
lecido, recommendado^ prescripto pela constituição 
do Império. 



- 17 — 



XL 



Assim o prescreve a lei escripta, assim o devia m* 
limar. Os actuaes monarchasjã não administram jus* 
liça i sombra de um carvalho ; mas em tão complicadas 
sociedades como as actuaes, cabe-lhes muito mais larga 
esphera. 

Nem se imagine que, no tumultuoso século em que 
vivemos, haja para os reis encanto na arbitrariedade ; 
poder arbitrário è contra a indole e a natureza do 
régio poder ; o que pôde namorar um cidadão, não 
seduz um soberano ; o imperante fica» o seu escolhido 
passa ; rei não é mtaistro. 

Colloque-se ao leme um rei illustrado e justo, 
e a náo do Estado vogará sempre com ventos galernos. 
Ora, a justiça^ qualidade mais rara do que parece, é 
dever de todo homem^ do inflmo como do máximo; 
e, para o exigirmos dos outros, importa que interro- 
guemos a nosso respeito a própria consciência. A justiça 
(diz J. Simon) é inexorável: o que elia impuzer^ 
satisfaça-se incontinente e lealmente, sem hypocrisia 
nem pensamento reservado, por ser justo, e não por 
ser lucrativo ou glorioso. Cale-se o coração quando 
desharmonisar da justiça. Ao dever nunca se falta. 

Sejamos Jiistos, que vale tanto como: sejamos po- 
iiticos. Não apedrejemos o sol que alumia. Não inju- 
riemos quem no throno foi collocado, não por cálculos 
das suas commodidades, mas por conveniências do nosso 
interesse. Não desgostemos da sua dedicação a quem 
ha perto de meio século nlo tem ferias. Não conver- 
tamos merecimentos em defeitos; não imputemos a 
ruins imp|)sos actos muitas vezes nobilíssimos; não 
demos por synonimos ingratidão e independeria. 

A Benjamin Gonstant devemos, em parte, o que ha 
de peculiar' no jogo das nossas instituições, e nomea* 
damente no que respeita ao poder neutro, interme- 
diário entre os poderes activos. E' o melhor expositor 

da nossa instituição de realeza constitucional. OaçTimol-o: 
3 



— 18 — 

f OíTcrece-nos a monarchia constitucional um poder 
neutro, indispensável á liberdade regular. O rei, era 
terra livre, é um ente á parte ; sobranceiro á variedade 
das opiniões ; com a mira n'um só alvo— a maiiu- 
tengifo da ordem e da liberdade ; estranho á condição 
commum ; inaccessivel por isso ás paixões procedentes 
dessa condição. A augusta prerogativa da realeza dá 
ao espirito do monarcha uma tranquillidade de que as 
posições inferiores não participão. Eleva o homem por 
sobre as humanas agitações; e a obra prima da orga- 
nização politica foi ter creado assim, no próprio seio 
dos dissentimentos, sem os quaes nenhuma liberdade 
existe, uma inviolável esphera de segurança, de ma- 
gentade, do imparcialidade, que pacificamente permitte 
àquellas divergências desenvolvcrem-se (emquanto não 
ultrapassam certas raias), e que, apenas sôa a hora do 
perigo, lhos põe termo por meios legaes, constitucio- 
nacs, e sem arbitrariedade. » 

Disséreis que, ao traçar este quadro, fitava o grande 
publicista olhos no Brasil, que não tem certamente 
razão de queixar-se das suas instituições, e do modo 
como ellas funccionam. 

Cabe-nos a fortuna de podermos aprender com as 
alheias grandezas e felicidades, com os alheios desastres 
e humilhações. Temos visto nascer, vegetar e mor- 
rer doutrinas e seitas ; variadas turmas têm seguido 
caudilhos de san-simonianismo, socialismo, commn- 
nismo, e quantas extravagantes concepções tém aspi- 
rado a pautar a sociedade por um quadro imaginário 
impossível. Às más doutrinas não tém achado écho 
nestas regiões. O Império é um irmão gémeo da cons- 
tituição ; esta tem creado e acompan hado a nossa ci- 
vilisação e a nossa politica; não nol-as adulterem. 

Na nossa monarchia constitucional, o soberano não é 
um Deus, não é uma omnipotência, mas é um altíssimo 
poder,»um poder exercido pessoalmente^ poder com facul- 
dades superiores não aos outros poderes^ mas sim ao» 
elementos que os constituem, 

E se não, veja-se a organização da Inglaterra, do 



— 19 — 

paiz (]^onde o systema representativo foi para os outros 
transplantado. 

Ahi o monarcha é superior aos elementos que cons- 
tituem : 

O poder executivo^ quando nomeia e demitte livre- 
mente os ministros. 

O parlamento^ quando profere o veto. 

A catnara^ hereditária, quando noméa novos ^ares. 

A camará ekctiva, quando dissolve a assembléa dos 
deputados. 

O poder judicial^ quando amnistia^ commuta ou perdoa. 

E' ama entidade que instiiicto o reflexão, mais ainda 
que a educação politica , ensinam a acatar, a rodear 
de certa aureola de veneVação, sem que nisso entre 
sombra de baixeza, servilismo ou indignidade, gratuitos 
insultos que, á falta de razões, costumam os illumi** 
nadissimos prodigalisar aos que não recusam respeito ás 
cousas que tém como respeitáveis. 

O código criminal permitte, em termos babeis^ cen- 
sura dos actos do governo e da administração; não 
prevô a censura dos actos pessoaes do soberano, porque 
mais alto código o proclama inviolável, sagrado, irres- 
ponsável. Como se ousa, pois, estar sempre dando para 
ordem do dia o que nem é tolerável apontar de fugida? ! 



XII. 



E por Deos, que exigem da pessoa que empunba o 
sceptro brasileiro? formulem as suas instrucções: que 
lhe querem? Por que bússola Ifc de dirigir-sc que não 
seja a constituição e a sua razão? 

Que outros pharóes tem elle que o orientem? 

A opinião ? 

Sejamos francos. Opinião, merecedora do nome de 
publica, é planta que está entre nós por acclimar. Este 
immenso território mal povoado ainda não ofiercce 
as condições de paizes populosos, mais antigos, maii> 
adiantados, mais estudiosos dos interesses públicos. 



— 20 — 

I 



A imprensa periódica não polilica é um conruso 
deposito de opiniões indivíduaes e contradiçtorias. A 
imprensa politica, rara e sustentada laboriosamente, 
mereceria que os partidos e o paiz lhe dessem mais im- 
portância do que lhe dão ; e confessemos que, por em- 
quanto, mais é a opinião éco da imprensa, que a im- 
prensa écHo da opinião. Os homens eminentesem sciencia 
pouco se appHcam a tratar, em obras especiaes, os 
grandes problemas de governo. A importante classe 
agrícola compõe-se de indivíduos, que se concentram 
nos seus trabalhos ruraes. A classe mercantil absorve-so 
no immenso desenvolvimento pratico dos seus ne- 
, gocios, não curando das questões que não tocam na sua 
especialidade. A classe militar cumpre bem os seus 
deveres, mas não opina, nem fôra próprio que opinasse; 
e assim as mais. 

Oago que augustos lábios soltaram a formosa phrase: 
f O que eu íne considero é chanceller da opinião. > 
Pôde isto levelar nobilissima disposição; mas nada 
msiis: opinião é por ora uma chimera no tocante a 
alterações no systema do nosso governo. Por mais que 
o soberano applique o ouvido, não percebe som algum 
distincto. Tem, pois, que se guiar pelos seus con- 
selheiros naturaes e pelos dictames da própria razão. 



XIII. 



Temos atè aqui faUado vagamente da entidade im- 
perador, sem DOS referirmos emi particular a quem 
actualmente preenchera suprema magistratura. Fallar 
de quem impera é navegar por entre os parceis das 
supposições. Oue importa? A verdade, por se tratar 
* de um príncipe, será força escondel-a ? Chegaríamos a 
tempo em que um sólio não sirva para matis que 
pelourinho ? 

Receia-se o jpoderpessoai exercido pelo Sr . D. Pedro II T 
Para ' quem é deste tempo e desta terra, o dito já vem 
por si mesmo refutado. 



— 21 — 

Quem é unirersaimente coaLecido por uma vida 
inteira de abnegação, ia, após 40 annos de glorioso 
reinado, exorbitar dos seus poderes ! Para que ? Para 
elevação ? Não pôde subir mais alto ; e longe de subir^ 
desceria. Para consideração 7 Taes meios lh'a não 
dariam. Para enriquecimento? Não ba quem mais des- 
preze as opulências, qli^m mais as tenha rejeitado, 
quem mais haja consagrado seus parcos meios a con- 
veniencia» alheias. Para popularidade? Não precisa 
acrescentaNa quem tamanha e por tantos titulos 
a conquistou ; e isto antes lh'a diminuiria. Para 
absolutismo ? Não ha maior inimigo do arbitrário, nem 
quem neste Império tome tanto ao serio a constituição 
que jurou. 

Se não pôde, pois, imputar-se ao actual soberano 
pensamento reservado e calculo pessoal, a ttrvbuam-se* 
os muito legitimes actos que pratica ao modo como 
concebe o desempenho dos seus deveres, que são 
diversos dos de todos os outros cidadãos. 

Tudo se lhe move em torno : só elle fica ; só nelle 
se encarnam e perpetuam as tradições, a successão dos 
negócios. Senado f Não tem já um membro,.designado 
pelo Sr. D. Pedro I, nem pela primeira regência do 
acto addicional ; são todos escolhidos pelo Sr. D. Pedro II, 
e entre esses já, dos antigos, raros restão. Depntadêst 
Renovam -se constantemente. Ministros^ Um por anno, 
desde a maioridade, em cada repartição. Se, pois, tudo 
desapparece, e só o sober^jio occupa permanentemente 
o seu lugar ao leme do Estado , é elle incontesta- 
velmente a pessoa mais idónea para, nas cousas pu- 
blicas, aconselhar, ou guiar, ou*interferir, ou mandar, 
segundo a co-relação entre as suas attribuiçOes e os 
casos supervenientes. 

Niní^oem lhe nega, creio eu, amor de pátria, ins- 
trucção rara , esclarecido espirito , desinteresse , ex- 
periência, conhecimento dos homens e das cousas, mag- 
nanimidade, tudo sobredourado de summa rectidão. 
Que receio pôde então inspirar quem, dotado destas 
qualidades e do grande amor ao trabalho, mostfa que 



— 22 — 

não quer ficar ocioso, antes sente satisfação em dar 
ao serviço publico todas as horas que a alta cultura 
do seu espirito lhe poderia estar ambicionando para 
mais attractivas occupações ? Preferir-se-hia acaso que 
o natural centro de todos os poderes se mostrasse in* 
diíTerente e estranho a quanto o circumdasse? Que 
o piloto adestrado ficasse impassível em presença de 
todas as manobras? E, finalmente, que aquelle que 
pôde até demittir, se lhe desprazem os actos do seu 
ministro, fique inhibido de lhe apresentar sequer a 
sua opinião acerca dos mesmos actos? 

Ainda que não fosse um dever e um direito do cargo, 
6 poder pessoal seria uma conveniência, quanUo exer- 
cido por tão recto e illustrado animo. £' esta uma 
geral convicção, e do coro unisono nem sempre dis- 
crepa a voz do Sr. conselheiro Alencar. E, como o 
seu elegante estylo dá outra qualidade de relevo ao 
pensamento, aqui transcrevo uma significativa phrase 
do discurso proferido por S. £x. em 14 de Maio ultimo, 
phrase allusiva ao Sr. D. Pedro H, e em que a justiça 
aposta primazias com a elegância : 

c Asattribuições magestaticas estão personificadas em 
uma individualidade ; esta individualidade é susceptível 
de convicções, e de convicções profundas ; pôde ser 
inspirada nestas convicções pelo desejo de bem servir 
ao paiz. • 

E* o mesmo Sr. Alencar, que no seu segundo artigo, 
no Jonial doCommercio^ declara enunciar uma convicção 
gue i sua e de todos os que têm dirigido o paiz. Pal- 
iando, de todos esses e do si mesmo, diz que sempre 
têm tido c os ministros a consciência das puras intenções 
do Imperador e do seu iticontestavel patriotismo, » 

Deve exultar com o exercício do poder pessoal quem 
assim o vé depositado em mente pura e mãos incun- 
testavelmente patrióticas. 

Basta. Se o poder pessoal é legitimo exercido por 
qualquer imperante, exercido pelo actual é benéfico» 
louvável e livre de toda a espécie de risco. 



-23 - 



XIV. 



E, antes de sahir desta matéria, occorre-nos uma 
curiosa reflexão sobre o modo como o Sr. D. Pedro tem 
praticamente exercido o poder pessoal , que as ins- 
tituições lhe conferem. 

Algum proveito se ha de tirar do ser velho: é ter 
archivadas muitas recordações ; e essas invoco eu agora. 

Não ha nada mais pessoal, individual, privativo, 
exclusivo do monarcha, do (}ue é o direito, que ninguém 
lhe contesta, de demittir livremente os ministros. 
Ninguém ? engano-me ; parece haver alguém que lh'o 
não concede : é elle próprio ! 

Disse eu que, desde a maioridade, tem quasi havido 
annualmente um ministro por cada repartição ; disse 
que orçavam por 150 os ministros, o que representa 
nma inflnidade de ministérios. Pois bem ; nessa in- 
fíniJade não vejo senão três, cuja sabida proviesse de 
repulsas do Imperador. Todos tem dado, no parlamento 
ou na imprensa, e na occasião opportuna , as razões 
da sua retirada, a qual. tem constantemente provindo 
das indicações parlamentares ou politicas, de dissi- 
dências entre os collegas, de moléstias ou de outras 
causas ; nunca de atlritos com a coroa. 

Já se vê que em taes casos o soberano foi passivo, 
c não usou da sua faculdade magestatica. Um tanto 
mais activo foi nos trcs casos únicos de que fallo, mas 
cm todos esses appareco o acto honrosissimamente 
explicado. 

Na sua extrema mocidade reagiu contra um gabinete 
enérgico, mas que exigia tenazmente para com um alto 
servidor uma demonstração, não motivada por conve- 
niências de serviço, e sim por considerações alheias a 
elle. Não era ainda a experiência, mas era já o instincto 
da justiça, que o fez insistir naabstenção, e o gabinete 
díssolveu-se. 

AlCTns annos depois, certas demasias de turbulentos, 
cm dias de eleições na capital do Império, que deviam 



-24 — 

correr paciGcas» patentearam que os ministros eram, por 
sua pouca acção, accusados de negngencia, fraqueza e 
até complicidade ; e, comquanto não houvesse motivo 
para tantas accusaç(5es, não era menos desmoralisada a 
situação, e entendeu Soa Jfagestade dever escolher 
ministério mais forte na opinião. 

Finalmente, em um caso próximo, tendo sido tentada 
a invasão da sua, mais que nenhuma, privativa attri* 
buição da escolha de um senador, e não sendo conven- 
cido da inconveniência da que fizera, aceitou a resig- 
nação com que fora ameaçado, 

Eis-ahi, entre tantos ministérios, as três únicas 
espécies de meio-conflicto, terminadas pela demissão 
'dos gabinetes ; e em todos esses três casos actuando no 
animo do soberano um motivo de alto interesse publico. 

Quem nessa attribuição fundamental, e incontesta- 
velmente própria, renuncia a empregar o seu poder 
pessoal, mostra que nunca delle usou nem usará, nas 
attribuições secundarias, senão parcamente, constitu- 
cionalmente, e em harmonia com o interesse nacional. 



XV^ 



O Sr. conselheiro Alencar, attribuindo ao poder 
pessoal, a que elle denomina esterilidade dos partidos, 
quando ^bem ao governo do Estado, exprime-se desta 
arte: 

c Que temos nós adiantado, a respeito dos melhora- 
mentos moraes e materiaes do Império 7 d 

Não duvido de que a intenção da resposta a esta 
pergunta seja bomba de ricochete. Por ser o imperante 
parte muito activa e essencial no governo da repu- 
blica, pretende-se-lhe attribuir especialmente o dezar 
proveniente dessa esterilidade. Nesta ordem ds idéas^ 
obvio fica igualmente que será para a gloria do mesmo 
imperante, se a interrogação tiver solução contraria á 
que ingrata e injustamente se supp^e. 



— 25-- 

Pois bem. A resposta, eil-a aqui: durante o reinado 
do Sr. D. Pedro It tem-se o Brasil transformado com* 
pletamente e adiantado, com progresso notável, nesses 
mesmos melhoramentos moraes e materiaes. 

Uma nacionalidade nascente radicou-se e fortificou-se. 

Um paiz pouco considerado dos estrangeiros, e cer« 
cado de mil republiquetas, firmou a sua monarcbia e é 
acatado como a segunda nação (e nem em tudo segunda) 
de ambas as Américas. 

A esphcra armilar, divisa quasi desconhecida do ocea« 
no, com eile travou largo conhecimentoe dos portosonde 
não havia um vaso de guerra sahiu possante armada. 

Todas as nações do mundo tém cultivado com o Brasil 
as mais constantes e cordiaes relaçScsf.* 

Uma delias, que ousou recentemente provocar o Im- 
pério, sentiu a finar oseíTei tos de sua imprudência, 
e acrescentou na fronte do Brasil novos loiros mar^ 
ciaes, aos que duas outras republicas, hoje amigas, já 
lhe haviam ennastrado. 

A riqueza do paiz cresceu por tal forma que, ao sahir 
de cinco annosdc dispendiosíssima guerra^, a fazenda se 
ostenta florescente ; e tão vigorosa é a seiva productora 
da riqueza nacional, que as rendas publicas foram sempre 
subindo progressiva e annualmente, durante essa 
guerra, e a despeito delia. 

As constantes revoltas que, no principio. do reinado, 
ensanguentaram successi vãmente numerosas províncias, 
foram substituídas por paz octaviana. 

A instituição da escravatura levou golpe mortal com 
a extincção do ^raQco de Africanos, e tem seus dias 
contados. 

Umaredede vias férreas liga numerosas regiões em 
muitas provindas do Imjperío. 

Importantíssima navegação a vapor sulca os mares de 
to<Ias as costas, e os rios de muitas regiões. 

Tclegraphos eléctricos unem entre si muitas locali- 
dades. 

AI»riram-sQ a todas as bandeiras o Páraguay, Paraná, 

Uruguay e Amazonas. 
4 



— 26 — 

Em muitas províncias, solo outr'ora deserto está 
rasgado de boas estradas, algumas das quaes podem 
ser apontadas como exemplares. 

As principacs cidades são illuminadas a gaz. 

Promoveu-so a instrucção. 

Promulgaram-se códigos e simpliflcou-sc a legislação. 

A população do Império duplicou. Neste reinado 
quintuplicou a importação, e a exportação sextuplicou. 

Os rendimentos públicos, com suavidade de impostos, 
sextupl içaram, 

Grearam-se ou reorganizaram-se institutos, academias, 
faculdades de direito e medicina, escolas militares, 
observatórios, roUegios de letras, lyceus, bibliothecas, 
thealros, conservatório, institutos aí^ricolas, archivos, 
sociedades, bancos, estabelecimentos de caridade, hos- 
pitaes geraes e de alienados, hospícios de surdos mudos 
e de cegos, prisões e casas penitenciarias, cemitérios, 
asylos de inválidos da pátria o de inválidos da ma- 
rinha, lazaretos, casas da moeda, diques, passeios, 
obras de salubrisação, esgotos e limpeza das cidades, 
systemas de viação aperfeiçoados. 

Longe iria esta resenha se nella me quizesse de- 
morar. Não é matéria que de fugida se percorra. K 
se deste esplendido quadro resulta gloria para S. M. 
Imperial, o thuribulario è o Sr. conselheiro Alencar, 
que deduz os factos moraes e matcriaes do paiz do 
poder pessoal do imperador. 

XVI. 

Disse eu que o Sr. Alencar, denunciando o abomi- 
nável abuso do podíT p^ssoaí, não dera a mínima prova 
da aíTinnaliva, não allegára um único facto. Eis-mo 
coberto de sacco e cinza ; errei ; S. Ex. deu valentes 
provas, allegou factos tremendos I E, pois ahi fica feita 
a confissão, permitte-me tu agora perguntar-te se são 
exactas as versões que por este sertão correram acerca 
de dous acontecimentos. 



— 27 — 

PRiMEiao. Retrocedamos aos tempos da Uruguayana. 
Diz-se que, nos princípios da guerra com o Paraguay, 
no mais renhido e arriscado delia ; quando Lopez se 
ostentava com excessiva força; quando a sua causa 
tinha grandes ramificações em Bplivia, Entre-Rios, Cor- 
ricntes, Montevideo e Buenos-Ayres ; quando o próprio 
exercito brasileiro ainda estava em gérmen ; quando sur- 
giam diariamente difíiculdades, não só com os alliados, 
mas alé entre elementos de força brasileira ; quando- 
SC havia creado a nova milicia ios voluntários dapairía^ 
a que importava dar animação e prestigio ; quando o» 
solo do Brasil estava já calcado por pé inimigo ; quando 
emíim se reconlieceu a urgência de uma deliberação 
arrojada e a conveniência de fazer capitanear todas 
as forças por espada, a que nenhuma outra se equi- 
parasse em hierarchia, pondo assim termo a perigosas^ 
dissidências; nessa crise melindrosa, digo, o Imperador 
patenteou a resolução de partir para os campos de 
batalha, e participar dos incommodos, das privações. 
c dos riscos a que seus súbditos andavam expostos. 
Diz-se que esta decisão achou manifesta repugnância 
em muitos conselheiros da coroa, que á porfia ex-^ 
punham a Sua Hagestade os inconvenientes do seu he- 
róico projecto. Dizem que Sua Miigestade respondera r 
• Rt»solvi ir: qiíeroiv. Se me não deixam ir como 
Imperador, abdico, e vou como cidadão. Se me não 
deixam ir como general, não me podem tirar a qua- 
lidade de brasileiro; alisto-me como voluntário da 
pátria, e vou com uma espingarda, t (Aqui disse: 

QUEUO) ) 

- SsciUNDO. Diz-se mais que no anno passado, quando 
o governo assentou ein mandar proceder a uma solem- 
nidadc olTicial, em acção de graças ao Omnipotente 
pela terminação da guerra, aconteceu que o encarre- 
gado desses trabalhos apresentasse uma tabeliã onde 
SC orçava em 36:000^000 a coUocação de uma estatua 
equestre do Sr. D. Pedro, em frente ao quartel do 
campo da Acclamação ; e diz-se que apenas Sua Ma- 
gcslade leve conhccimonto desso plano declarou que 



— 28 -- 

«00 consentia que se lhe erigisse semelhante estatua. 
(Aqui disse : nâo quero !) 

Boquiabertos escutemos agora o Sr. Alencar na 
sessão de 19 de Maio, ao tratar desta recusa da es- 
tatua e (já se sabe) do poder pessoal. 

São suas te:ítuaes palavras: 

« Já uma vez, senhores, foi trazido a este recinto 
um qiierOy que se disse ser irrevogável ; foi a pro- 
pósito da Uruguayana. Não desejava que qualquer 
m^^mbro do gabinete de 16 de Julho viesse trazer a 
esta casa um não quero/ » 

Parabéns, meu amigo, parabéns ! Que tens que lhe 
dizer? O juiz togado allegou e provou. Agora ninguém 
mais poderá duvidar da existência, intensidade e pe- 
rigos daquelle tyrannico poder pessodl^ daquella espada 
de Damocles pendente sobre a cabeça de todos os ci- 
dadãos. Os crimes do pod<^ pessoal ahi estão patentes: 
o Imperador qiiizf e não quizf Quiz ir expôr-se ás 
balas, em defesa da pátria, e foi! Não quiz que lhe 
erigissem estatuas, e não se erigiram! E' o mais bár- 
baro, atroz, e virulento abuso que nunca se viu do 
indigno poder pessoal. Rei que delle usa assim, de que 
horrores não é capaz II 

Omittoo muito mais que ainda no espirito me tu- 
multua. A' fé que foi bem contra minha intenção se 
neste aranzel me escapou uma palavra que denotasse 
desrespeito para com um talento distincto, embora 
neste ponto o considere transviado; também me não 
passou pela mente duvidar da sinceridade das suas 
convicções, ou attribuil-as a motivos reprovados. Apenas 
se me alTigura que o nobi^e conservador, poeticamente 
movido de alta inspiração, se deixou drrrebatar pelos 
espaços imaginários. O que ardentemente lhe desejo, 
visto ser conservador, é^que evite a discussão de outras 
theses como esta, embora fique vencedor, pois corre 
perigo de ter de exclamar como Pyrrho : t Mais im& 
Victor ia assim^ e >estou perdida! i^ 



CARTA «•* 



Amigo.^NSo sei se te queira mal. Pratico a sós com- 
tigo, na branda eíTusâo de um coiloquio particular, c tu 
arrastas-me para a praça 1 A imprensa, meu amigo, que 
para uns é templo capitolino, nâo passa de pelourinho 
para nós outros, os plebeus da pcnna. Fabricio querido, 
para que me puzeste em exposição ? Tu, com essas repas 
embranquecidas nas lutas da politica (nâo raro dege- 
nerada em pelotica ), devias antever o quesuccedeu. 
Para certa ordem de estadistas^ a argumentação não vale 
nada, despreza-se, ridicularisa-se, refuta-se com de- 
clamações bombásticas, bolhas de sabão que mentem 
arvores e ediflcios, mares e soes que um ténue sopro 
apaga. Substitue-se a discussão proveitosa dos prin- 
cípios pelo fsfíiscar das autorias, pelo sentenciar das 
intenções : Fábio aspira ao poder, Curcio almeja por um 
titulo, Sempronio vendeu-se por um conto ou por 400 
contos, Tarquínio é estrangeiro, Curcio é aulico, Pan- 
cracío é ignorante... e assim se vai argumentando^ e 
triumphando, e provocando o riso alvar dos coros do 
comparsas, porque a final de contas Alhenas e a Beucia 
slo ambas sita^ na mesma Greciu. 



— 30 — 

Que Ululo me assistia a mim, humildo roceiro, sem 
intelligencia, sem circulo, sem nome para me isentar 
daquellas onerosas consequências da publicidade? E. 
apezarde tudo, aqui muito á puridade te digo que nào 
me arrenego muito, porque não é cousa pouca ver-se 
um boçal roceiro em letra redonda, e enfatuar-se com 
o seu noSf quoque gens sumas. 

Além disso, como não é minha mente transviar-me 
das cousas para as pessoas, nem ultrapassar os limites 
do que é licito aos debates políticos, deve outorgar-se- 
me a tolerância, que é para com todos, quaesquer que 
sejam suas opiniões, a minha constante divisa. Deixo pois 
á tua consciência queimares ou mostrares a minha cor- 
respondência. Se não fôr, e talvez seja, stulta presump- 
ção. fazer subir estes aranzêis á tribuna universal, 
carta branca ! A's minhas rabiscas, digo o que diz o Ir- 
mão Terrível ao Ncophito, no escancarar-lhe as poe- 
tas do templo : « Ahi vo-las entrego ; não respondo mais 
por ellas. » 



I. 



Recebo o diluvio de papelada com que me alagas, e o 
teu relatório sobre o que ahi se está admirando, quanto 
ás duas questÕesHla ordem do dia : poder pessoale elemento 
servil. Recommendas-me particularmente o extracto, 
publicado a 14 do corrente, de um discurso proferida 
na véspera por S. Ex. o Sr. conselheiro José de Alen- 
car na camará dos deputados, discurso onde, como sem- 
pre, superabundam elegâncias de phrase, arrojos de dic- 
ção, demonstrações de elevada cultura, e dotes orató- 
rios de subido quilate. 

Feita esta profissão de fé, que, dentro de taes limites, 
constituo não favor, mas justiça, igual justiça me guia- 
ráfao contemplar o reverso da medalha* Não timbrarei 
de severo nem de nimiauieiUe rigoroso ; tenho pouco 
geito para Genturião de procissão ; hei de dizer as cousas 



~ 31 — 

» 

chSmentc,^em fazer de mim javali nem ouriço cacheiro. 
Se ea tiver razão, hSo de achar-m'a ; se a não tiver, 
certamente ma não dariam as severidadcs^, nem os ri* 
gores nimios. 



II. 



Não ha remodio senão entrar também em scena o eu^ 
não obstante sua insignificância. Sempre pensei que o 
mea nome, desconhecido além de 500 braças do sitio 
onde resido, estava condemnado a resvalar esquecido 
da terra para o Lethes ; mas não senhor; agora, zoilos^ 
tremei ! posteridade^ és miiika ! agora superviverei e 
perdurarei, mas que seja com a invejável sorte de um 
Bavio ou Mevio, perpetuado por melhor Virgilio. 

O facundo orador, que se não abaixara, e com razão, 
a tomar em consideração as ponderações que na minha 
anterior te submettí acerca da sua mofina do poder 
pessoal ; o nobre disputante, luminar da imprensa, que 
pela imprensa me não respondeu, decidiu esmagar-me 
em pleno parlamento, i9to é, no olympico recinto, até 
rujas eminências se não sublimam as vozes de simples 
mortaes ; reservava ao meu nome a honra de echoar 
sob aquellas abobadas augustas, gloria esta e monu- 
mento mais perenne do que o bronze. 

Alludindo a não sei que benévola insinuação, e di- 
rigindo-se ao [Ilustrado relator da commissão do ele- 
mento servil, disse-lhe que elle (feria conter a sua 
ndmiração por certo estylo romano^ recheado de erudição^ 
que etiamos habittiados a ver ahi nos jornaes surgir com 
n rubrica de Epaminondas ou de Cincinnato ; pois foi 
essa admirando o que o comprometteu. 

Que eu sou Cin:innato, é verdade; Epaminondas 
não conheço, e nem era dos meus ascendentes, se nasceu 
na Grécia. Estylo romano ? ó muita honra ; eu sou como 
o peão fidalgo : fallo. em prosa sem o saber; e con- 
formo-me com o preceito, do mestre : 

« J'ap|)elle un chat un chat, et Rollet un fripon. » 



— 32 — 

Pois um estylo que nem é estylo, um dizer sem ele- 
yaçSío nem cdr, pôde aspirar á preeminência de formar 
escola» de crear propaganda ? Fico sabendo que esta 
linguagem pedestre constitue^stj^fo romano ; e que delle 
se deve fugir como Satanaz da Cruz. Aceito a fla- 
gellaçâo: poenitet me peccati; 'c sahindo agora da ber- 
linda, supplico a S. Ex. se digne sen ta r-se nella. 



III. 



Antes de entrar na questão magna, nao resisto á 
vontade de seF esclarecido sobre duvidas. 

Bradou o nobre orador : c Nesta tribuna^ é necessário 
nâo ver individualidades. » E logo em seguida, como 
desenvolvimento desta these, leio que os ministros de- 
clamam ; que o da agricultura procura incutir o terror ; 
que o presidente do conselho o escuta risonho, como 
assistiria a um brinde daquelles que o tém muitas 
vezes festejado nos grandes banquetes diplomáticos; 
que o ministro da justiça tem uma voz agoureira e 
tétrica (risadas! do dito espirituoso); e assim uma 
porção de outras phrases individuae^^ que d'ora avante 
tomarei como typos de cortezia e parlamentarismo. 

Mas é que neste terreno convincente, lógico, dia- 
léctico , irrespondivel, nem Yerres nem Catilina ins- 
pirou tão brilhantemente ao collega romano (não é o 
do estylo). Os doestos, exprobrações e invectivas, são 
os únicos argumentos desta enérgica oração, desta 
metralhadora parlamentar, toda a sociedade ahi cabe 
prostrada aos tiros de lingua 1 

O Imperador^ adiante veremos como é tratado. Toda 
a organização hierarchica tem igual sorte, uns a re- 
talho, outros por atacado. Exemplos dos syttogismos 
deste discurso: . 

Que é o jfwcrno?— Athleta, que salta á arena, e se 
trava, corpo a corpo, com a nação; luta para aba- 
tOi-a e esmagal-a. Sectário ardente da propaganda. 



— 33 — 

emancipador fanático, agitador, revolucionário. Pre- 
cipitados, ameaçadores. Homens que t#mam o povo por 
um rebanho, que se dirige com um aceno. Vertiginosos. 
Desgraçados, que jogam no páreo da ambição interesses 
capitães, como são a ordem publica e a paz social; 
que invocam a insurreição para suffocar a resistência 
l^gal ; quo querem atacar a razão com as quatro syl- 
iabas do despotismo. Conjurados, que pretendem des- 
mascarar o absolutismo, etc. 

Que soo 0$ defensores deste projecto de lei ? — Os que o de- 
fendem tém em vista a giba do orçamento, emquanto os 
do outro lado são o braço e o cérebro da nação. São 
obreiros de ruinas. Não servem á sua cpnvícção, á sua 
pátria, mas obedecem aos influxos do poder, aos im- 
pulsos da opinião estrangeira . Emissários da revolução, 
apóstolos da anarchia. Retrógrados, assassinos do paiz. 
O^tentadores vãos. Sacrificadores dos interesses da pátria 
a velleidades de gloria. Cruéis, iuiquos. Heróes do 
extermínio. Erostratos da nação, etc. 

Não continuarei, pois teria de copiar toda a oração, 
cujo sueco... 6 isso que ahi vôs. Que inversão de po- 
sições I Sediciosos e retrógrados são os que propugnam 
pelos principies do eterno direito; os que os atacam 
^o os homens da ordem e da liberdade I 

Quis tulerií Grucchús de seditione queretUes . 

Será acaso esta descomposta linguagem, esta sequencia 
de allrontosos ultrages, um meio de persuasão? 

Imaginará o disíincto parlamenta^ que assim angaria 
para... para suas idéas supponhamos, as sympathias 
dos a quem combate insultando, ou mesmo dos indille- 
renies a quem taes scenas devem repugnar? Parece-me 
que não ha nada mais inhabtl, mais contra-producente 
que estes -temppraes em copos d'agua, estas exaltações 
c!e «ncommenda, estes enthusiasmos oeí usum De^hini^ 
estas hyperboles injuriosas; será sempre de inconcussa 
verdade aquella observação do poeta : 

On affaiblit toujours tont ce qu^on exaggère, 

%» 

'O 



— 34 - 

Quando algumas horas houvessem volvido sobre a 
recitação deste j^ouco feliz discurso^ para mim tenho 
que o senso reclo, o espirito de justiça do fogoso 
cavalheiro lhe terá segredado aos ouvidos da cons- 
ciência^ que andara errado ; que se nSo tratam assim os 
companheiros de trabalhos na representação nacional. 
Não lhe terá tardado o arrependimento de haver pro- 
ferido phrases como estas: 

c Quem defende esta proposta ? A condescendência e a 
in^lèerencia. A condescendência dos que estavam com o 
governo hontem, estão hoje e estarão amanhã , sem atten- 
derem á$ mudanças de physumomia que.se operam tias sete 
cabeças do podev^ etc. t 

Mas a condescendência^ em assumptos vitacs do paíz, 
é crime de lesa magestade nacional ; é holocausto da 
intelligencia á conveniência ; é abdicação dos foros de 
representante, de cavalheiro, de homem ; é vil traição 
á pátria. Honra i maioria da camará dos deputados, 
se ante semelhantes verrinas conservou imperturbável 
placidez ; não será ^Ivo de invejas o orador a quem 
impunemente se tolerem taes. liberdades. Quizera eu 
nesses ihomentos estar lendo por dentro os sentimentos 
de 60 varões, flor da nação, eleitos delia, a cujas faces 
se arremessa a accusação de vendidos ao poder ; afer- 
rados á giba do orçamento; incapazes, hontem, hoje, 
amanhã, de se destacarem do cofre das graças que har- 
poaram I 

Se eloquência é isto, nada mais fácil que ser elo- 
quente, e não é em cadeiras de parlamentos que esta 
linguagem se aprende e usa com mais vehemencia e 
emphase. Mas nelia ha perigos, e não é ultimo o das 
reconvenções ; quem assim, justa ou injustamente, 
penetra em foro intimo, autoriza suas victimas a, justa 
ou injustamente, penetrarem no seu próprio ; e então 
onde iria isso parar? 

Obraram admiravelmente, deixando passar o pam- 
peiro ; não reciprocando ; não retribuindo injustiça 
com injustiça. Outro tanto farei eu. Declararei ao 



— 33 — 

contrario, que tudo induz a crer que o illustre orador 
só foi arrebatado por admiráveis Ímpetos, sem sombra 
de sentimento reprovado. 



IV. 



Gaidava eu morta e enterrada a qucstSo do poder 
pessoal, mas agora reconheço que se o que sobre ella 
se escreveu não foi pulverisado, dcveu-se isso á magna- 
nimidade do invencível orador, que por algum tempo 
a trouxe á moda, pois que, gerada da sua imaginação^ 
só a eila deveu a ephemera duração , e vegetou á 
sombra do seié grande nome ; de certo que S. Ex. se 
revia ao espelho intellectual, quando invocava no seu 
discurso o magni nominis umbra^ e eu lhe supplico 
se digne não destacar a phrase do poeta e ler as outras 
palavras : 

muUumqne priori 

êredere forturuB. 

« 
Os tempos nem todos são uns. 

Est4 visto, portanto, que o pesadelo do poder pessoal 
é ídéa íl\a do Sr. conselheiro Alencar. Tem-se visto 
fri*quentemente,em homens iliustradií:simos,esta con- 
centrarão das faculdades n'um só pensamento, muitas 
vezes phantastico : bem grande era Pascal, e imagi- 
nava ver sempre um abysmo ao lado esquerdo de sua 
pessoa ; são aberrações que não merecem censura. 

Como não nasci para relógio de repetição, e já tratei 
este ponto, sem ver minhas asserções rebatidas, admiro 
a sem-ceremoaia com que se volta à carga dez vezes 
com as aquilatadas banalidades ; e como Cincinnato não 
teve a ventara de convencer o illustre antagonista , 
espero ser hoje mais feliz, pois para refutar o Sr. José 
de Alencar, impetrei o auxilio.... do Sr. José de 
Alencar.! 

Não esttgmatisarei o estadista com a sua própria 
plirase: c Uoje as abjurações esl^ em moda. » Não cm- 



— 36 — 

pregarei o luxo de vocabulário com qae elic qualifican 
as suppostas incoherencia$ dos a qaem combate. 

Ao contrario, na sua mndança de opiniões exaltarei 
sua sabedoria^ desde que sapientú est mutare cansilium. 
Na sua instabilidade reconhecerei o seu horror ao 
absurdo^ desde que 

L'homme absfurde est eelui qui ne changc jamais. 

Nas suas variações acharei a applicação de uma lei 
providencial, revelada por Camões: 

Hudam->se os tempos ; mudam-se as vontades ; 
muda-se o ser; muda-se a confiança. 
Todo o mando é composto de mudança, 
tomando sempre novas qualidades» 

A my thologia porem fabula-nos Acteon devorado pelos 
seus próprios cães ; a historia cita o sujeito que com o 
braço direito cortou o esquerdo. Dar-se-ha caso... 



Ha meia dúzia de annos, sahiram dos prelos desta 
corte umas publicações, cm forma de cartas, endere- 
çadas do povo e ao Imperador^ e assignadas por nib 
Sr. Erasmo. 

Sabia eu que, deste nome, tinha havido um menino 
do coro da sé de Utrecht, depois frade, depois con- 
selheiro, e depois sábio; que além dos seus Cottoquios^ 
não deixou quasi senãio o seu ehgio da loucura; que 
tinha por divisa : quando einbirrei^ embirrei {Nemini 
cedo)^ e de quem Scaligero tez uma descripçâo que 
não ouso recordar ; mas eu nunca suppuz que fosse 
esse o autor das taes cartas, porque morreu ha mai» 
de 300 annos, e não podia ser. 

Voltei-mc para o outro lado sem mais pensar em 
tal, quando agora leio com pasmo no discurso do Sr. 
José de Alencar ser aqueile o pscudonymo de que 



- 37 — 

S. Ex. usou em 1897 ! Fui-me á pobre estante, oude 
jazem uns poucos de alfarrábios e folhetos, e regozi* 
jei-me tanto com a instructiva leitura das famosas 
cartas, que, se eu andasse mais folgado em cobres, 
mandava reimprimir aquellas cousas em letras de 
ouro. 

Como porém isto náo pôde ser, contento*me com 
transcrever algo do quo vem a propósito da questão. 

Não ha Potosi neiá Golconda, de mais rico ouro 
nem mais esplendidos diamantes que esta inexgotavel 
mina. Que inveja me não infunde o Sr. Alencar Erasmo 
na superioridade com que refuta o Sr. Alencar do 
discurso t 

Não é de hoje o caso; já lá vão li annos que me 
deliciei com a leitura de uma comedia, intitulada : 
O Rio de Janeiro verso e. reverso. Desde então me deu 
no goto este modo de encarar as cousas pelo direito 
e pelo avesso; levante-se o panno para o 3.* acto da 
comedia : Verso e reverso. (*) 

Ouçamos os dons Srs. Alencares. ^ 



VI. 



§ 1.* Aceusação do Sr. Alencar^ do discurso. 

c Emprega-se a ameaça, a ultima ratio regum, o 
summum jus do governo pessoal, i 

* Refutação do Sr. Alencar Erasmo. 

— A existência do governo pessoal está na crença 
ée muitos Brasileiros. 

Deleita-se a malignidade em cultivar semelhante 
convicção, interpretando a geito alguns factos recentes, 
oa pondo em^ circulação uma copia de anecdotas de 



(*} Cartas pyliUca^ de Erasmo ao Imperador; 2.*' edição 
1806. 



— 38 — 

reposteiro; fabulas que, fugindo á luz da publicidade 
e pullulando quaes immundicias no lodo escuro (I), não 
são esmagadas como deveram (pag. 26). 

-^Insofregas (!) ambições já lôm por mais de uma vez 
formulado positivamente a accusação. Mas deveis re- 
gozijar-vos, senhor : são ellas próprias que, ao appro- 
ximar-se do throno, mais se allucinam na atmosphera 
superior, e dão ao publico o grotesco espectáculo de 
sua ebriedade cortozã (pag. 28). 

— Se ha falsa prevenção, é esta que' se tem estabe- 
lecido a respeito do governo pessoal. Minha convicção 
vai muito além. Não somente nenhuma influencia di- 
recta exerceis no governo, mas vosso ^escrúpulo chega 
ao ponto de frequentes vezes concentrar aqúeile rcllexo 
que uma intelligencia sã e robusta como a vossa deve 
derramar sobre a administração (pag. 25). 

— Protesto alto contra semelhante imputação, e não 
quero mais prova que o próprio facto ; dispenso os ar- 
gumentos ijue poderia tirar do vosso critério e aus- 
t(^ridade de princípios (pag. 26). 

— Desenganem-se pois os abusados a respeito do go- 
verno pessoal. Nas paginas em que se desenrolam as 
últimos acontecimentos, o que está em- relevo é a abs- 
tenção da coroa. levada a um extremo que talvez ex- 
ceda da imparcialidade constitucional. Vossa augusta 
pessoa somente se destaca quando trata-se do sacrifí- 
cio e abnegação. Então vos debuxais no primeiro plano, 
reclamando a parte do leão na fadiga e perigo (pag. 31). 

— Conío é possível que se propague esse erro deplo- 
rável do estabelecimento de um governo pessoal, quando 
as actas contemporâneas a cada passo o dissipam comple- 
tamente ( pag. 26 ) ? 

— Forte é a tempera da virtude que repelle as ins- 
tantes provocações do poder. Sob a purpura imperial 
palpita em vosso peito um desinteresse de Cinciniiato c 
Washington ( pag. 40 ) ! 

— Senhor, é esteanhelo com que a nação vos está pro- 
vocando a assumir o governo pleno do Estado ( pag. 3i) ! 



-89 — 

— Liberdade de imprensai... dizem. Desgarros da 
licença, que nSo oasára tanto, se a opinião reagisse 
com indignação contra esse insulto á soberania repre- 
sentada no poder 1 Mas por desgraça nossa o riso e o 
exemplo insuflam taes misérias (^pag. 12 ) I 



§ S."" Aceusação do Sr. Alencar do discurso . 

« O Brasil è a anima Yilis, a matéria prima de uma 
coroa de triumpho. > 

BefiUaçâo do Sr. Alencar Erasmo. 

— Aberração do espirito publico, tanto mais estra- 
vagante, quanto os factos geralmente assignalados com 
o conho da pretendida influencia da corda, são aqnelles 
em que mais se accnsa uma escrupulosa imparcialidade 
(pag.26). 

— Mas é na esphera da constituição que se dilatam 
essas aspirações liberaes. Invocava-se a corda, para re- 
clamar delia a verdade do systema ( pag. V ) . 

— Mas penso eu que se iUude ; o somno do povo bra- 
sileiro, confiado na virtude do seu monarcha, é possível ; 
sua servidão, não acredito ( pag. YIII ). 



{ 3.* Accmação do à'. Alencar do dist^rso. 

€ (O imperador é ) a mão que ata e desata os nossos 
destinos, o conquistador, que marcha á conquista da 
gloria promettida. ■ 

Befííiação do Sr. Alencar Erasmo . 

— A primeira serie, contendo dez cartas, cingiu-se á 
necessidade da iniciativa imperial para arrancar o paiz 
da crise em que se debate. 



— 40- 

Limiiou-se o trabalho ao estudo consciencioso da 
actualidade. Dos factos resalta a verdade. No meio da 
inércia e compressão de todas as forças viras da nação, 
só o impulso generoso da corda terá efflcacia [Adver'^ 
tencia) . 

— Será na dedicação de Erasmo à pessoa do mo- 
narcha ; na confiança que manifesta peia acção bem- 
fazeja da coroa ; na appello á energia da mageslade 
(pag. 5). 



§ 4 / Accnsaçâo do Sr. Alencar do discurso . 

t(0 Imperador é) o único poder deste Império, 
aquelle que o estrangeiro chama ingenuamente dono c 
senhor da terra. • 

Refutação do Sr. Alencar Erasmo. 

— Rei constitucional, vossa missão é a do sol: não 
aquelle astro fatídico e abrazador de Luiz XIY, que 
condensou a borrasca de 1789, mas o fúco brilhante 
que rege todo um systema e dardeja luz e calor para a 
naçio(.pag. 25). 

— A' região superior em que vos coUocou a sobera- 
nia nacional, não sobem, senhor, nem o pó que torve- 
linha, nem os rumores que se escutam, no estádio onde 
se agita a pátria, afllicla do presente e temerosa do 
futuro. Os miasmas da terra nâo costumam attíngir as 
eminências^ pag. 4). 

' — A constituição vos conferiu em sua inteireza o 
titulo, como a effectividade, das prerogatívas imperiaes. 
Basta que vossa vontade se enuncie de um modo posi- 
tivo e solemne, torna-se logo, de sun própria virtude 
e essência, facto consummado. No domínio da lei não 
se concebe resistência para ella ( pag. 58). 

— O Imperador nâo pôde sem duvida desprezar a opi- 
nião publica ; se, porém, a opinião se extravia e con* 
tamina com a mais feia ímmorniidade, ellc, probo e 



— 41 — . 

austero, tem, nâo s6 ante a nação, porém ante Deus, a 
obrigação indeclinável de resistir cm nomo da lei e da 
moral ( pag. 50 ). • 

— Si tuado na oupola do systema, neutro e inaccessivel, 
o monarcha, poder nacional, plaina (f) sobre os outros, 
meros poderes politicos.EUe não exprime somente, como 
a le.í^islatura, uma delegação da soberania ; exprime um 
deposito permanente e sagrado. O Imperador é mais do 
que o primeiro representante da nação ; é seu defensor 
perpetuo, o magistrado supremo do Estado (pag. 57). 

— Chamo-o— poder nacional — para significara quasi 
communidade em que se acha com a nação. Nelle reside 
uma parte de soberania popular, que isolou-se (!) em 
principio e se consolidou nessa grande individualidade, a 
fim de resistir aos desvarios da opinião ( pag. 58 ). 

— Não ha contestar esse ponto. Os actos do poder mo- 
derador sao de exclusiva competência vossa: para exer- 
cel-os não dependeis de agentes, e actualmente nem de 
conselho (pag. 58). 



I 5."* Accusação do Sr. Alencar do ^discurso. \ 

t Este golpe de estado ha de firmar no paiz o absolu- 
tismo, ou antes de.ímascaral-o. » 

Refutação do Sr. Alencar Erasmo. 

— A summa questão da actualidade 6 esta, da vigo- 
rosa iniciativa que deveis tomar em prol da constitui- 
ção; ncllaestàa chave de todas as outras, tendentes á 
realidade do systema e restauração do paiz (pag. 40). 

— Só appareceis onde a, vossa presença é necessária 

• 

para cobrir as faltas do governo e seus agentes. No Rio 
Grande para promover a defesa deleixada por muitos 
mezes e applacar dissensões. Em Uruguayana para res- 
g^uardar o decoro nacional compromcttido por grave 



— 42 — 

omissão do tratado de alliança. Na corte prra activar a 
expedição das tropas e trem de campanha ou zelar o bem 
estar do soldado ( pag. 32 ). 

— Mas é só dedicação e actividade individual que assim 
dispensais prodi^^amenle: a magostade se envolve na 
magnânima cordura que releva a negligencia e o erro. 

Esta é a verdade ( pag.. 32 ). 

— Emquanto vos esquivais á politica, a nação, desabu- 
sada dos homens que a governam, vos reclama e solicita 
com abundância de coração ( pag. 33). 



^§ 6/ Accnsaçâo do Sr . Alenc do discurso. 
f Idèa funesta, que vinha de cima. » 

Refutação do Sr. Alencar Erasmo. 

— Por todos esporos rotnpe a effusão do paiz que se 
abandona e confia exclusivamente da lealdade e critério 
do seu monarcha (pag. 34 ). 

—Este povo, apathico e indiíferente ás mais nobres 
funcçõesda soberania^ ainda sente por vossa pessoa sin- 
ceros transportes. Não sereis sua fé única ; porém, com 
certeza sois o estimulo das outras raras e sopitadas ; 
o estandarte capaz de nestes tempos inertes levantar 
enthusiasmo em prol de uma causa (pag. 31). 

— Grato e fácil é o designio de convencer uma razão 
recta, quando não se tem outro prol além da verdade. 
Mais ainda, se a convicção já alli despontou e só aguarda 
espaço e vez de produzir-se (pag. VII ). 

— Nossa felieidade é possuirmos a monarchia para 
socalcar as ambições afoutas ; e na monarchia um prin- 
.'!ipe recto, liberal, invulnerável aos assaltos da paixão 
(pag. IV). 



-.43 - 

I 7.° Accimção do Sr. Alencar do discurso. 

€ A proposta é o precursor do projecto incubado no 
alto ; provocação para. . . atacar a razão combayonelas, 
o fuzil, o sabre e o canhão, que são as quatro syllabas 
do despotismo. > 

Refutação do Sr. Alencar Erasmo. 

— Monárcha, eu vos amo e respeito. Sois, neste tempo 
calamitoso de indifferentismo e descrença, um enthu- 
siasmo e uma fé para o povo. As esperanças que bro- 
taram na primeir- metade de vosso reinado, e mur- 
charam ao sopro'* itiao do presente, aiuda podem re- 
florir sob os raios de vossa coroa. O cidadão livre se 
approxima sereno de vosso throno porque nunca ahi 
senlQu-sc a tyrannia ; sua dignidade não se vexa, ao 
reclinar-se para beijar-vos a dextra augusta, porque 
em vós acata elle o pai da nação (pag. 4). 

— Alli está a cabeça da nação. Não toldam a lucidez 
da mente superior sombras que projecte a inveja. Sua 
abnegação c civismo estão provados (pag. 7). 

— Homem, cu vos prezo, admiro. Virtudes cívicas e 
domesticas adornam vossa pessoa . Na cúpula social onde 
a nação vos collocou sois para a sociedade brasileira 
mais do que um rei, sois um exemplo. Quando por 
toda a parle se ostenta impune o pungente espectáculo 
do relaxamento do dever e obliteração do senso-moral, 
a alma da gente honesta se expande, contemplando 
era vós um typodc homem de bem ( pag. 5 ). 

— Em uma" palavra, e cila resume vosso elogio : Bem 
poucos monarchas dirão como D. Pedro II : « Nunca, 
cm um reinado de 23 annos, es^lreado com a inex- 
periência da juventude, nun:a abri meu coração a 
ura sentimento de ódio, nunca puz meu poder ao ser- 
viço de mesquinhas vinganças. »(pag. 5) 



■ — 44 — 

§ 8.* Accmação do Sr, Alencar do discurso. 

t O golpe foi decretado in excelsis^ e nâo se podem 
mostrar vellcidades de resistir à vontade omnipo- 
tente. » 

Refutação do Sr. Alenccrr Erasmo. 

— Eis porque Erasmo se dirigiu ao throno. Lá está 
o que o egoismo c a vaidade lhe recusariam em muita 
parte. Ouvido benévolo para o escutar; dedicação 
prompta para o comprehendcr ; illustraçâo magnâ- 
nima, que nào desdenha a idóa, e corrige o erro sem 
mofa (pag. 7). 

—....com o risco mesmo de molestar o pudorda 
magestade. Não vos falta coragem moral para enca- 
rar de frente os males do paiz (pag. 31). 

— Ache ao menos a liberdade que desertou a alma 
succumbida da pátria, um abrigo á sombra do manto 
imperial, para que não morra conspurcada nos tri- 
púdios da anarchia ( pag. 16 ). 

— Ha, senhor, nesse pronunciamento, que brota a 
cada canto, uma demasia que degenera em lisonja e 
frisa o ridículo. Mas não convém escarnecer destes 
desvios, c somente corrigil-os. Todo o enlliusiasmo do 
povo é generoso ; e n»íste dos Brasileiros por seu 
Imperador, 'parccc cfuo estão realmente concentradas 
durante a crise as forças vivas da nação (pag. 36). 



Vil. 



Fica evidenciado, por boca do Sr. Alencar de hon- 
tem, que nenhuma razão assiste ao Sr.;^AIencar de 
hoje. 

S. Ex. nos ensina que não existe entre nós poder 
pessoal; que só a malignidade pôde tal aventar; quo 
c uma falsa prevenção ; que a missão do Imperador ê 



— 43 — 



V 
^ 



I 



( lai e qual) como a do sol ; qae ellc protesta alta- 
raentc contra a imputação ; que a imparcialidade da 
corda excede os limites devidos; que só o impulso 
delia. poderá ter efficacia;que o Imperador ó o pai 
da pátria, para beijar cuja dextra augusta^v elle se 
honra em reclinar-se ; que o Imperador 6 a cabeça da 
nação.; que apenas elle enuncia sua vontade, isso b.ista 
para se tornar logo, de sua virtude e essência, facto con- 
summado, contra o qual se não concebe resistência, 
etc, ele. 

Pouco tempo depois, o Sr. Alencar era ministro da 
justiça* 



VIII. 



De que modo S. Ex. foi deixado em liberdade no des*- 
empenho de seu alto cargo, já eu o dissessem ter sido, 
csem risco de ser, contrariado. Como, porém, a decla- 
mações balofas é útil antepor factos concludentes, ve- 
nham mais dous, do arsenal do próprio Sr. Alencar, jun- 
tar-se a tantos que adduzi. 

Será um delles o que o próprio Sr. Alencar agora 
neste discurso vem delatar, fallando da sua opposição 
a:) pensamento da abolição da instituição do captivei- 
ro. Diz S. Ex. : 

c Na qualidade de ministro, resisti francamente á < 
cor(Va na promoção desta reforma, cujo projecto, elabo- 
rado pelo conselho de estado, mandei archivar na se- 
cretaria da justiça. • 

Admira, meu Fabrício, esta esplendida demonstração 
do poder pessoal/ Resulta desta inconfidência que, a coroa, 
chamando a attcnção do ministro para um projecto do 
conselho de estado, foi o ministro quem lho pôz o seu 
velo e mandou archivar os papeis, oppondo-sc a que 
se lhes desse andamento; e esse ministro continuou mais 
de am anno em exercicio, e declarou ao parlamento que 
fóra por divergências individuacs com outros conse- 
ILieiros da coroa que resignara a pasta. 



— 46 — 

« 

Se S. Ex. se não arroga o dom da infallibilidade, ha 
de tolerarque outros ministros podessem pensar de um 
modo diverso, e não achassem tão archivavcis os traba- 
lhos do Conselho de estado. 

Mas, eia todo o caso, o certo é que o Sr. Alencar de- 
nunciou que comsigo mesmo teve a prova, nesta pró- 
pria questão, de que a coroa não exerceu pressão de 
espécie alguma ; nem ella se lembrou de quebrar, como 
tão constitucionalmente poderá ter feito, o instrumento 
que se 'oppunha áquillo que ella acaso considerasse 
bem.do paiz. 

Também não é fora de propósito apontar pai^a a nar- 
ração (lue oSr. Alencar faz, no seu discurso, das phases 
por que foi passando o pensamento emancipador. FJs 
como se exprime : 

€ Inaugura-se esta situação em 1868... A falia do throno, 
documento authentico da nova situação e seu program- 
ma, fazer\do'um contraste patente com os dous ante- 
riores discursos da coroa, calou-se a respeito da eman- 
cipação; guardou sobre essa questão um silencio elo- 
quente. > 

Aqui o discurso do coroa é considerado obra dos mi- 
nistros, e, portanto, eloquente... no silencio (silen- 
tium verbis facundius) ; alli o mesmo discurso da coroa 
é considerado obra do rei, e, portanto, abominável INão 
appello de Philippe para Philippe;mas concluo do tal 
relatório do Sr. Alencar que os discursos da coroa 
são de feitura e responsabilidade dos ministérios, e 
que o throno tanto comprimiu a situação, de 1871 [para 
fallar, como havia comprimido a de 1868, para calar-sc. 

E já que estamos no campo das anecdotas e tu vives 
na corte, onde as pcsquizas são fáceis, quizera me in- 
formasses do seguinte : 

Uma das mais preciosas attribuiçôes do pader mode- 
rador, é sem duvida a de perdoar as penas. São notó- 
rios os tramites que os respectivos regulamentos esta- 
belecem para serem instruídas as petições dos indiví- 
duos condemnados, mas não é tão geralmente sabida a 
marcha posterior destes processos. E' \crdade que, se- 



— 47 — 

gundo as pra\esda secretaria da justiça, estos processos 
eram nella preparados, e em seguida subiam ao ministro, 
o qual os estudava também e os submettia com o seu 
parecer á suprema deliberação de S. M. o Imperador ? 

Será verdade que, occupando a pasta da justiça um 
cavalheiro que a respeito de poder pessoal pensa va-appro- 
ximadamente como Erasmo, foi um de seus primeiros 
cuidados pôr termo a estas praticas, dizendo a Sua Ma- 
gestade : t Senhor I Eu não tenho nada que ver com 
o exercício do poder moderador; é desse poder o jus de 
perdoar. Em taes casos o governo não deve interferir, 
nem mesmo com o seu conselho. Faça Y. M. como em 
sua sabedoria achar ju^to. fteora avante estes processos 
subirão a suas augustas mãos, sem relatório, nem pare- 
cer do ministro respectivo? » 

Será verdade que.em virtude desta singular abstenção, 
abdicação ou como melhor nome haja, do ministiro, foram 
por eile assim alargadzR as ensanchas do que por ahi 
denominam poder pessoaH Quem seria ? E são elles que 
faliam... 



IX. 



E como por sainete destas agruras tenha seu cabi- 
mento a farça, cá se me depara na fulminante catilinaria 
outro bocadinho de ouro. 

Tem o censor do poder pessoal sido cem vezes con- 
vidado a expdr um só acto, que durante os seus longos 
18 mezes de assento nos conselhos da coroa presenciasse, 
exorbitante dos deveres e dos direitos da realeza cons- 
titucional; a nada o censor se move ! 

Já se vô que não é por escrúpulos de consciência 
timorata, .attento o perenne alarde de independência 
c autoflomia ; e seria cem. vezes menos hostil, mais 
franco e leal referir factos sobre que ninguém pediu 
segredo, c em que a discrição apenas é aconselhada 
pelo senso-commum das conveniências, que batalhar 
com a arma curta das reservas e a espada de canna 



- 48 - 

das reticencias : accusaçues poiRm rcpellir-se, reslric^ 
çues (loixam sempre um campo vago. 

Segundo sempre ouvi, S. M. o Imperador, o defensor 
p(?rpotuo do BrasiK o constitucional timoneiro da náo 
do Estado, o magistrado supremo a quom incumbe a 
pormanenie vigilância, tem por uso prestar sempre a 
mais accurada at tenção aos negócios públicos; quando 
cm conselho, escuta cuidadosamente as exposições, o 
para não interromper, costuma ir tomando nota do que 
lho vai chamando a advertência, para depois dissipar 
duvidas ou emittir opinião. 

Reparaste, bom Fabricio, no modo como o Sr. Alencar 
ccnsuri, fulmina, ridicularisa e«te ^nobre habito, esta 
prova do zelo o da seriedade com que o monarclia estuda 
os negócios públicos ? Relê e pasma 1 

t Armei-me do lápis, porque todos nós lemos o veto do 
lápis ; não é privilegio da realeza, t 

E leio mais, que isto despertou hilaridade 1 ! Creio-o 
bem; creio que a hilaridade é a única disposição que 
condiz com linguagem semelhante; mas hilaridade s 
assim só são de feição.. ♦ em palco diverso. Já sevo 
quaes seriam os escrúpulos de tal delator, em correr o 
reposteiro dos paços onde ura dia lhe iteram entrada, ou 
em provar seriamente com factos a intrusão da coro:*, 
quando tão ingratamente se procura expôl-a ao ridi* 
culo, por praticas dignas do acatamento; mas em ver- 
dade, o Sr, Alenaar, que 6 poeta, precisava chave de 
ouro para o seu soneto das provas do poder pessoal: 
já vimos o 1.' quarteto do qiiero da Uruguayana ; o 
2.* quarteto do nào quero da estatua ; agora, 1.* terceto, 
oprivilegio da realeza ; 2.° terceto, veto do lápis. 

São argumentos monumentacs, discursos demosthc- 
nicos, canhões Krupps. 



Tencionava, preclaro Fabricio meu, dizer-te algumas 
palavras sobre o pouquíssimo, não declamatório, que 
da oração do Sr. Alencar se espremo sobre a magna 



— 49 — 

questão (lo elemento servil, mas já te consagrei uma 
tarde inteira, e isto nâo vai a matar. Se amanhã ou 
depois me sentir com disposições, palestraremos. 

Por agora, aqui me cerro, quando talvez já de sobra 
tenha bacharelado. 

Sabes tu o que ando a ler nas horas vagas? Aquelle 
thesouro que denominam Carta de Guia. Ora, quem falta 
a um dever, está apto para faltar a todos; cesteiro que 
faz um cesto faz um cento, o caso eslá em darem-lhe 
verga e tempo : a honra politica comparo-a eu á honra 
da mulher ; e c a honra da mulher ( segundo diz o alço- 
rio) é como gí algarismo : tanto a erra quem erra em 
um, como quem erra em mil.» E afinal de contas lá vai 
todo o discurso pelos ares ; è ainda aqui me acode a 
mesma Carta de Guia, dizendo : • Parece-me a mim 
agora isto, como quem põe meada grande em doba- 
doura pequena, que em lhe puxando pelo ílo, traz o 
íio, a meada qa dobadoura tudo a terra. > 

Saudades á comadre e aos pequerruchos. 



Teu velho amigo, 



Chiei una to. 



CARTA 8/ 



Amigo. — ^Disse-te, na minha ultima, que tornaria a 
palestrar comtigo sobre o discurso de um de nossos 
laminares do parlamento, se me sentisse para ahi vi- 
rado. Ora hoje não tenho muito que fazer ; os pretinhos 
andam por fora a cortar canna ; e eu, se hei de estar 
a embalar-me na rede, ou a berrar com o feitor, ou a 
pedir que me façam cócegas ou dém cafonés, venho 
governar o mundo em secco, e aborrecer-te com as mi- 
nhas tontices, privilegio triste dos annos largos. Se eu 
disser muito disparate, desculpa, que eu sou o primeiro 
M nlo dar nada pelo meu bestunto ; e quem me descar- 
regasse paulada, seria bárbaro, porque daria em homem 
morto • 

Não sou dos que aspiram a dominar o universo, a 
imperar sobre a intelligencia humana com o seu verbo 
omnipotente, porque li a historia de ícaro, cujas azas se 
derretiam ; de Lúcifer, cujo orgulho o precipitou do em- 
pyreo nas profundas ; e sempre me toou aquella velha 
máxima : c Quem quer tnais do jjue lhe convém^ perde o 
çuequereoquetem. > E ainda que não venha a pro- 
pósito, quero transcrever- te um passo curioso de um 
sermão do padre A . Vieira : 



— 52 — 

« Toda a creatura nao sóappetece sempre ser mais 
do que é, senão também qnerer mais do que pôde. Tal 
é a cegueira de um entendimento ambicioso : ha de 
querer mais do que pôde, ainda que conheça que é im- 
possivel. O oílicial pôde viver como oíTicial, e quer viver 
como escudeiro ; o escudeiro podo viver corao^cscudeiro; 
e quer viver como fidalgo ; o fidalgo pôde viver como 
fidalgo, e quer viver como titulo ; o titulo pôde viver 
como titulo, e quer viver como príncipe. 

€ E que se segue deste tão desordenado querer ? O 
menos é que, por quererem o que não podem, venham 
a não poder o que podiam. 

€ Quanto sobe violentamente o querer para cima, 
tanto desce sem querer o poder para baixo. Quem 
quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o 
que tem. Se apenas podeis sustentar um cavallo com 
um mochila, porque haveis de ler uma carroça com 
oito lacaios ? Com essa mal considerada vaidade, que 
é o que adquiristes, com o que perdestes ? » 

Portanto não corro eu perigo, continuando a aren- 
gar-te sobre cousas de que entendo pouco ? Se eu não 
poder sustentar uma these, para que me hei de metter 
cm fofas ? para que hei de menosprezar o prudente quid 
valeant humeri ? Se eu sei apenas sargentear uma 
companhia, para que arvorar-me em generalíssimo? 
Se a minha estatura épygméa, para que hei de pedir 
um covado aos tacões da bota ? Se com justiça me con- 
cedem alguns dotes, para que hei de' eu, ambicionando 
glorias inattingiveis, arriscar-me a que se me neguo 
pão e agua ? 

Nada. Qaemquer mais do que lhe convém, perde o 
que quer e o que tem ; e eu não quero perder o con- 
ceito de espirito singelo e chão em que tu, meu Fabrí- 
cio, sempre me tens tido ; e por isso/tudo quanto te 
submet ter será em simples forma dubitativa ;e onde 
eu desarrazoar, faze a merco decorrigir-me. 

Eu cá de nada me gabo, e em nada tenho presumpção, 
nem mesmo em ser coherente ; para que presta isso ? 
Sc eu não fosse tão velho, senil, encanecido, ancião, 



■^^■^■■^^^^■g^tl 



- 53 — 

decrépito e der rengado (confesso todos os meus crimes), 
talvez ainda sentisse pretençõcs de subir até o sétimo 
çéOy sem me importar com os degráos ; hoje palhaço de 
corte, amanhã iribono da plebe, e... Nada ! 

Desisto dessas aspirações : estou carcomido ; nâo valho 
pitada de tabaco. 

E, pois se me concede alvará para delirar e tontear, 
aproveito a generosa licença e entro em matcria. 



I. 



A escravidão. 

Folgo de ver que os poderes públicos tomaram a si a so- 
lução da jà tio demorada questão do elemento servil, por- 
que era essa amanpha que deturpava a nossa sociedade, 
e cada dia qne passava na inacção constituia uma ver- 
gonha e am perigo. 

A instituição da escravidão só se coaduna cora o gráo 
intimo da civilisaçâo, e repugna-mc ver esta terra accu- 
sada de occupar esse gráo na escala das naç5es. 

Eras houve em que a escravidão seria, relativamente, 
até nm beneflciopara as victimas de tal instituição. Em 
longes tempos desastrosos, a guerra era acompanhada 
de um cortejo de horrores, que, para confusão do deno- 
minado século das luzes, só nestes dias se viu reprodu- 
zido. Nas taes eras o direito das gentes ! autorizava o 
guerreiro a immolar o vencido ; nessas eras também 
o trabalho significava deshonra. Quando pois o interesse, 
e não a caridade , convenceu o vencedor de que apro- 
veitava mais com o trabalho do que com a carniceria dos 
vencidos; quando se reconhcceujser preferível aprovei- 
tar, a degolar, os prisioneiros, procuraram conserval-os, 
de onde vem o termo servus , e utilisar os seus serviços; 
c dahí seconclue que a escravidão, em taescircumstan- 
cias, foi ura progresso, comparada com a sorte que 
a;ruardava as míseros. 



'o 



— B4 — 

Mas essas praxes são remotissimas. Pôde dizer-seque 
JadcQS, Gregos, Romaups fandaram sobre a nefasta 
ínstítaição uma organização social, e até a philosophía 
lançava saa espada de Brenno na concha da balança : 
Platão e Aristóteles, reconhecendo-a contraria i natu- 
reza humana, proclamavam todavia que sem escravidão 
não havia estado politico passivel 1 e a matrona romana, 
se Juvenal não mente, espantava-se de que alguém sup- 
pozesse possível que o escravo fosse homem. {Itaservus 
homo est?) Era natural nessas sociedades o torpe espec- 
táculo do corpo livre e da alma livre (pois são insepa- 
ráveis ) vendidos a preço de dinheiro, embora só a venda 
do corpo parecesse indigna aos espíritos rectos, como 
o de Ovidio: 

Turpiter ingenuum munera corpus emunt. 

Com o andar dos tempos, com o pharol do christianis- 
mo, com o progresso da philosophia, com o aperfeiçoa- 
mento da civílisação, reconheceu -se que o homem não é 
objecto venal, e que a instituição é contraria aos mais 
elementares principies do direito. Assim o]proclamaram 
todos os povos e se não desaira ser o Brasil, por peculia- 
res circumstancias, ultimo que em seu pendão inscreveu 
o motto liberdade universal^ por certo lhe não estaria bem 
se por mais tempo demorasse a sua resolução pratica, 
embora rodeada de cautelas, impostas por excepcional 
situação. 

Felizmente vejo que todos os pensadores, quaesquer 
que suas dissidências sejam, estão concordes neste 
ponto; se nos recônditos ancos de alguma intelligencia 
se abriga pensamento diverso, e o plano de perpetuar 
o captiveiro, ao menos no coro dos lábios reina a mai^ 

honrosa unanimidade. 

Tem universalmente calado nos ânimos aquellesapo- 
phtegmas de Erasmo, lá dooulro,o Erasmo de Ulrecht: 

— NuUa volúpias viris suavior est UberMe. 

— NUiil beatum^ si absít libertas. 



— KJ — 

E* também delle, um que eu tenho medo de citar : 
Pestilmtissifnum genus est adulationis, sub libertatis ima- 
gine blandiri ; 
mas emíim, como vai na língua da missa, passe. 

n. 

o projecto. As iras. 

Li atientamente o projecto do gorerno, tendente á 
gradual abolição da escravidão ; li as modificações que 
nelle introduziu a benemérita commissão da camará 
dos deputados ; li o muito que me mandaste^ pró e 
contra ; e adquiri convicção deque,nascircumstancias 
actuaes do Brasil, esta lei é previdente e sabia ; e( em- 
bora ea desejasse nella algumas addiçdes, taes como a li- 
berdade dos escravos sexagenários que a desejassem, in- 
demnizados os senhores comum titulo deSOOjSlOOO; ne- 
nhum imposto sobre os escravo^ da lavoura, e uma taxa 
de S^HOOOa mais em cada anno, em progressão indefinida, 
sobre os escravos das cidades eem beneficio da caixa da 
emancipação, e algumas outras secundarias modiflcaçdíes, 
de que se não faz cargo quem não é legislador ), tenho 
para mim que as disposições da lei são dignas de plena 
aceitação. 

Seja Deus o direito ; seja César o dono dos escravos ; 
parece-me que esta lei dá a Gesar quanto lhe é pos« 
sivel dar, offerece a Deus quanto lhe pôde oSerecer. 

Nas transacções^ impostas pelo dever e pela prudên- 
cia, é frequente imitar a lei ao grande Affonso de Albu- 
querque, quando se queixava de ficar mal com o rei por 
amor dos homens, mal com os homens por amor^do rei . 

Troquemos as palavras rei por direito, homens por m- 
nhares ie escravos^ e acharemos que toda ^ kide con- 
ciUaçâò ficará mal com o direito, por não exigir tudo 
qnanto este proclama ; mal com os senhores, por lhes 
nio conceder a permanência da escravidão, ou pelo 
menos o adiamento para as kaiendas gregas, de qualquer 
plano de acabamento da triste instituição. 



— oG — 

-^ Vejo com pczar que essa questão, precisada de 
attençâo e Iranquillidade de animo, tem sido discutida 
com exaltações e scenas violentas, e nesta distancia 
não posso avaliar de quem é a culpa. Deploro-o, pela 
dignidade do parlamento, pelo credito das instituições 
juradas, pelos duplos preceitos da civilidade e da ci- 
vilisação. Nunca ouviram os iracundos, sejam quem 
forem, que não ha paixão que tanto abale asinc«riladc 
do juizo como a cólera ? que essa paixão corre ás armas 
sem aguardar oplacet da razão? .E aftida se issoiossc 
um movimento casual, único, de despeito ou desres- 
peito, desculpar^se-hia o tributo prestado ás imper- 
feições da natureza humana ; mas a cólera arvorada 
em systema I repetida quotidianamente como argu- 
mento convincente l Não deve ser. t Fora para desejar 
( diz o meu ancião Séneca ) que os movimentos do furor 
não podessem prejudicar mais que uma vez, a exemplo 
das abelhas, cujo ferrão se parte í primeira picada que 
dão. » Oh Séneca, Séneca! Quantas intactas trombas de 
bisouros te não desmentem i 

Mas visto que cada um enterra seu pai conforme 
pôde, barafustem lá como lhes aprouver, e continuo 
a servir de texto para os meus estudos o discurso do 
inimigo do poder pessoal. 

Tu sabes os meus hábitos. A todo o cidadão, òomo 
cidadão, como particular, tributo respeito, e nada tenho 
com elle; isso pertence lá ao seu foro interior. Mas 
pertence a mim, como a todos, o que é do foro exte- 
rior: as opiniões politicas proclamadas urbi et orbi per- 
tencem á.sciencia politica, ao debate, á publicidade ; e 
triste idéa daria da çua firmeza, da sua convicção, ou 
da procedência das suas theses quem, por meios repro- 
vados, fugisse a sustcntal-as,jou phantasiasse declina- 
torias para annullar contradictores. 

E' nestes termos que entendo a polemica, e nelles 
continuarei. 

Procedam outros como lhes aprouver, que não me 
demoverão. 



^ím 



i)J — 



III. 



Se o projecto baixou do alto. 

Loio no discurso: 

• Ogol(>e foi decretiido in excelais; é, com a ameaça» 
o $nmmam jua do governo jpessoal ; mana de quem as* 
pira a esta coroa de triumpho, do uiiico poder do Im? 
perio; idéa funesta que \€m de cima ; golpe de estado 
que ha de Ormar no paiz o despotismo, e te, ele. t 

Que se lh6 ha de fazer ? 

São sempre variações do mesmo thema ; a idéa fixa, 
a aberração; o abysmode Pascal. 

Opensamento da liberdade humana baifj do alto, foi 
dtcrttaáo in excelsis. Certamente: quem o duvida ? 

Sim, foi decretado m cxcelsis no dia em que o fí^^ 
demptor desceu á terra e proclamou a rcdempçâo dos 
captivos e o dogma da fraternidade humana, e o maior 
numero dos preceitos do decálogo— Gloria a Deus nas 
alturas . 

Sim, baixou das alturas da philosophia^ nâo menos 
que da religião, para esclarecer a guiar as socie- 
dades. 

m 

Sim, baixou das alturas do direito^ do verdadeiro, do 
rtcrno, do ímmutiivel, do natural, do que nao varia 
com os tempos e as circumstancias. 

Sim, baixou das alturas da civilisaçâo^ que se nâo 
compadece com as ruins doutrinas do captiveiro. 

Sim, baixou das alturas do consenso unanime da 
humanidade^ que baniu essa instituição para nâo sub- 
sistir senão nas paginas tristes de mais bárbaros tempos, 
e a condemnou para nunca mais resurgir. 

Sim, baixou das alturas da moral social^ que ante essa 
instituição velava o envergonhado rosto. 

Sim, baixou das alturas da politica universal, que em 
todas as nações, sem excepção alguma, apagou dos códigos 
a mancfia que os conspurcava. 



— 38 — 

Sim, baixou daa alturas da economia politica^ da f/?- 
du&iria^ da prodmção^ e da illustrada experiência^ que 
nosmo.^tra ser a honra do trabalho, incentivo, alimento 
e premio dellc ; ser estacionaria a sociedade com es- 
cravos ; alar-se eila a seus magestosos destinos, desde 
que se lhe desprende esse grilhão ; .vogar ligeira, desde 
que â nào do Estado se arranca o entorpecimento du 
rémora. 

Não serão bastantes esses ín é^rrcri^w, essas altnrast 
quereis mais? quereis as supremas elevações da nossa 

terra ? 

Não sei bem como o mercúrio do vosso barómetro po- 
litico TOS determine e.^sas alturas: mas honra seja 
feiia á nossa sociedade, percorrei-as todas, e cm todas 
achareis grafado o mesmo sentimento. 

A nossa ma!^ elevada eminência, o nosso Himàlaya 
político, a residência terrestre do nosso Deus Mahadeva, 
denominado Op«ur(ío,é o primeiro oráculo que devemos 
consultar : elle nos respondessem hesitação nem am- 
biguidades, que a escravidão deve acabar. Seja prova 
disto o eloquente facto de hingnem ousar oppõr-se á 
idéa em si mesma: a opinião publica exige pojs o 
termo da instituição. 

Exigem-n*o, Q^o menos, as vozes generosas em todo 
o Império; a reproducção dos debates sobre este as- 
sumpto, desde o dia da independência, se não antes, 
e com especialidade em ambas as casas do parlamento 
lia alguns annos ; o desenvolvimento que vão tomando 
as espontâneas alforrias, concedidas por assembléas 
provinciaes, corporações pias e profanas, particulares 
em sua vida e causa niortis ; o profundo estudo feito 
sobre esta matéria pelas summidades sociaes que cons- 
tituem o conselho de estado; a organização de socie- 
dades libertadoras c de jornaes protectores da liber- 
dade em numerosas províncias; finalmente quantos 
elementos sociaes podem gerar a persuasão de que o 
sol americano sazonou alíim o frucfo opimo da li- 
berdade. 



Ahi tendes as alturas^ e n'outra parte nao as pro- 
cureis. Dissipai da vossa imaginação sobrexcitada o 
daende, o espectro do poder pessoal, que nada tem 
com a questão, a qual não pertence a nenhum indi- 
viduo, mas ã religião, á philosophia,à politica, á hu- 
manidade e á pátria. 

Não ha contradicção mais flagrante que a do cava- 
lheiro que pretende rebaixar o soberano, attribuin- 
do-Ihe o desejo de aspirar para a sua pátria áquillo 
a que a própria pátria aspira. Se é certo que o Im- 
perador do Brasil forma votos por que os legisladores 
do Brasil consagrem o principio que o Brasil todo 
aceita ; e se nem ainda assim exorbita um ápice dos 
seus poderes, a nação lh'o agradece. 

Nada mais imprudente, por parte de quem fdr ini- 
migo da realeza , do que attribuir a essa realeza o 
«neto mais glorioso que estes tempos legarão. Bajulador 
involuntário, aulico invicto, cortezão ínnocente, decla- 
rado palaciano, será o que só barafustar por convencer 
<iue a nobre idéa, rellectida do Império inteiro no animo 
do Monarcha, foi o animo delle que a dardejou no 
Império inteiro ! Tributo o devido acatamento i pessoa 
do Imperador, mas não o adulo nem o incenso, attri- 
buindo-lhe mais do que uma opinião, aliás digna e pa- 
triótica, sobro um ponto, que só os nossos estadistas 
poderão resolver. 

— Antes de transpor este assumpto, direi que, se- 
fmndo um autor, tem o homem a faculdade de trans^ 
formar-se tão promptamente como de mudar de ves- 
tuário ;e é assim ; toma liçSes dos lepidopteros e outras 
creaturas, que successívameníe se nos desflgurara cm 
sementes, larvas, borboletas, vermes, etc, etc, se- 
gundo as conveniências da sua natureza. Devemos suppór 
que a politica participa algiim tanto dessa natureza 
actifissima ; aliás nao poderíamos explicar certos phe- 
nomcnos . 

Na minha precedente chamei a tua attonçao para 
umas cartas de um Erasmo, amouco do Sr. D. Pedro II 
cm 1800 ; agora te rccovdaorci ^lue, ji mcadjo o anno 



-Go- 
dé 1867, forani publicadas Novas cartas politicas de 
Erasmo ao Imperador^ cm espirilo diamelrajincnlo 
opposto ao que diclára as Antigas, Tivemos /pois, um 
Erasmo o Velho^ typo do cortezãos , e um Erasmo aiíofo^ 
typodeaDti-dyaastícos ; para mim tenho quenâo podiam 
ser uma e a mesma pessoa ; seriam os dous Plinios. 
; Seja como fôr, direi que Erasmo o Moco disse tantas... 
altivezas a S. M. I., como Erasmo o Velho lhe di« 
rígira.... amabilidades. Parte grande dessas cartas rèovas 
versou sobre a emancipação, e já então se delatava uma 
boa vontade, atè neste assumpto, ao Imperador, tão 
bem fundada como a historia do qtiero enão quero. Ora, 
olha tu; os crimes do poder pessoal, assacados, a pag. 12 : 
• Libertando, uma centena . de escravos, cujos ser- 
viços a nação vos concoddra (1.* mm^); distinguindo 
com um mimo especial o superior de uma ordem re- 
ligiosa que emancipou o ventre (2.* críiwe); esliniulan<lo 
as alforrias por meio de mercês honorificas (3." crime); 
respondendo ás aspirações beneficentes de uma sociedade 
abolicionista da Europa (4." crime); e, Onalmenle, recla* 
mando na falia do throno o concurso do poder legisla- 
tivo para essa delicada reforma social (5,* a^me); sem 
duvida julgais ter adquirido os furos de um rei phi- 
lanthropo I Grande erro, senhor 1 Prejuízo rasteiro, que 
não devora nunca attingír á altura do vosso espirito 1 » 

Ora, em verdade qualquer commentario embaciaria 
este aço limpo e terso. Censurado o Monarcha porque 
os seus ministros aconselham na falia do throno o con** 
curso do poder legislativo! Porque um desses ministros 
responde a aspirações beneficentes I Porque estimula al- 
forrias voluntárias! Porque aprecia um nobre acto 
praticado por uma ordem religiosa t Porque liberta 
uma centena áe escravos! 

O' Fabrício, nâo ó este o caso da operação gue o rei 
do Olympo pratica naquelles quos Júpiter vtUt perderet 

Não são tudo isto versetos de um responsorio, ou antes 
cânticos de um hymno em honra e louvor do Imperante ? 

II me snnble voir fc diable 

Que Dieu force à loner ks saints. 



— fil — 

« 

Claro cslá que naquelles factos níngucm senão Erasmo 
acharia matéria p^ra rcprehensão; suo do natureza 
adamantina. Só no primeiro poderia um* excesso de es- 
crúpulo demorar algum reparo; e e.>se mesmo apenas 
servirá pura provocar, ao contrario, novos tributos do 
applauso à augusta pessoa que se pretendeu deprimir. 

Oiz-se alií que o Sr. D. Pedro libertara escravos, 
que a nação lhe concedida ; e isto com o manifesto 
intuito de accusar a roaleza de dispdr , como sendo 
seu dominío, daquillo que a naçSo apenas em usufructo- 
lhe concedera. 

Pois bem: se cu não estou mal informado, mani*- 
festar-te-hci um facto tanto menos conhecido quanto 
mais merece que o seja ; merece-o, sim, porque se a 
verdadeira caridade occuUa á mao esquerda o que faz 
a direita, a terceiros è licita a revclarSo, menos para 
desnecessário premio que para nobre incentivo. 

Consta-me pois que, ha largo tempo, nao yè o Sr. 
D. Pedro entre os que o servem nascer um só escravo. 
E por que artes de engenhosíssima caridade? Mandando 
na pia libertar os (llhos^das suas escravas, e satisfazendo 
loíTO, do sea bohinho, a importância dos^a emancipação, 
cujo valor, para que não seja desfalcado o património da 
corda, é íncontinenti constituído em apólices, que ao 
mesmo património ficam pertencendo. H.irmoni:;e-se a 
sin.í^eleza da narração de um acto dçsta magnitude (e 
om que a virtude se escondeu tanto como outros escon- 
deriam malefícios), com a sublime singeleza com que 
tem sido praticado ; e nem ihais uma palavra. 

As alturas^ portanto, de onde o projecto baixou, são 
a> alturas, não do poder possoal, mas da razão, da jus- 
tiça, do direito e do futuro desta grande nação. 



Cumpre não abusar da tua condescendência. Fique- 
mos hoje por aqui, mas já que dei principio, voltarei a 
imporlunar-te. Eu não te aconselho que publiques estas 
e\lravagancias de um »pobre inhcnho; e de mais eu 



— 62 — 

nâo quero revolver a bíie de ninguém, e muito menos 
de quem tiver a innocentc infelicidade de estar acom- 
mettido de alguma idéa fixa. 

Tu sabes o que é uma macuca ? uma ave gallinacea, 
espécie de perdiz grande, de cujos ossos se diz que a 
applicaçSo cura as mordidelas da cobra? Pois, meu 
amigo, em 1835, achando-mc eu em Minas, conheci lá 
uma velha que tinha a mania de se crer transformada 
em macuca, e dava por páos e por pedras quando alguém 
llíe dizia que nSo era tal ; a familia, por ordem do 
medico, deixava-a fazer o que lhe dava na tola, e a 
boa da mulher fez o seu ninho em um grande cesto, 
aonde estava sempre acocorada e assegurava a quem 
ia visitaUa que d*aili a pouco lhe viriam as macuquinhas. 
E era mentira, nâo sahiu nem uma! 



Teu velho amigo. 



Cincinnato. 



CARTA A- 



Oh Fabrício! 

Isto de escrever é como o coçar ; peíor é principiar» 
lá que tens a paciência dé aturar-me, queíxa-ie de ti 
mesmo. Eu ando com meus barruntos de partir um dia 
destes para essa corte, aonde me chamam ha um anno os 
metts altos negócios do Estado ; tudo nesta fazendola ha 
mister de reforma ; estive hontem pondo ao ar os pre- 
paros de jornada e flquei. petrifícado i nem sequer os 
aprestos de marcha ! ponche esburacado, rebenque roido 
dos ra tos, ciiapéo de Chile traçado, cochenílho sem pello, 
chilenas sem rosetas, tudo uma miséria ; mas eu pre- 
ciso ir á corte, ainda que seja a trancos e barrancos, 
mercar para a gente carne secca, baetâo e outros tecidos 
felpudos, e caturrar com o correspondente, a ver se me 
cahe com algun^; contitos para certos arranjos. Se tu 
me não embaças, asseverando-me qucahi nâo h\ bexigas 
(que saoomeu Adamastor^ a minha estatua do commen* 
dador, o meu poder pessoal, o meu terror-mór), que 
Dielhor occasiáo posso eu escolher? Já nâo apanharei 
Ho>sí, Taborda,, nem Emilia Adelaide; mas nem todos 
05 cómicos representam no palco, e sempre ahi hei de 



- Cfi — 

não famn, a algodão que não tece ; e as barras de nossos 
portos são a origem de nossa prosperidade. Estamos na 
dependência quotidiana do elemento estrangeiro ; é cs- 
tulticie, além de ingratidão, repellíl-o. 

E que pensas tu, meu Fabrício, da doutrina mahome- 
tana que arrebata ao estrangeiro a faculdade de pensar? 
Está boa esta! Consínto-lhe quo venha flxar-se em 
nossas terras ; que nellas goze dos mesmos direitos civis 
que os naturaes ; que como estes regule a sua proprie- 
dade ; que funda os seus interesses nos da nossa asso- 
ciação... mas vendo-lhe os olhos, e tapo-lho a boca • 
não ha de ver, nem fallar sobre aquillo que importa a 
elle tanto como a nós ; se divisar um recife à proa do 
navio em que vai embarcado comnosco, condcmno-o se 
elle ousar chamar a attenção dos oíTiciaes de bordo ! 

Ha mais. Nós arrogamo-nos o direito de emittir opi- 
nião sobre o que se passa no mundo inteiro ; quer o Sr. 
Alencar que ao mundo inteiro vedemos boqueje sobro 
cousa alguma que nos interesse ! Os retrospectos annuaes 
da nossa imprensa relatam, criticam, exaltam ou depri- 
mem quanto occorrea durante oanno transacto nas outra» 
naçGes ; os membros dessas nações hão de ser uns fucos 
vesiculosos, umas alforrecas inertes, que apenas servem 
para na praia se calcarem ! Nos parlamentos, nas so- 
ciedades, na imprensa, nos colloquios, podemos des- 
cretiar e sentenciar sobre o que se passa fora do paiz; 
não ha de quem não seja do paiz expender sequer du- 
vidas ou animar esforços, tratando-se de questões que 
pertençam, não a nós individualmente, mas á humani- 
dade inteira \ 

Não pôde ser. Sou muito conservador, muito liberai 
e muito tolerante. Não rechaço a discussão, venha ella 
de onde vier. Quero luz! quero luz! e não pergunto 
á luz, se me è projectada de azeite francez, de sebo 
montevideano, de gaz inglez, de petróleo americano, 
de cora italiina, de mamona ou carnaúba nacional. 

Todos os espiritos illustrados e por isso rectos, rectos 
e por isso tolerantes, prpciamam entre nòé esta nobre 
doutrina; mas para contraposição, bom é que surda 



- 67 - 

pnrabi algum Luu XI cm mlaialura, que laçiilo seu 
Inrbclro •> mais íntirno conliílcnio; alí<:uni conslrue- 
lorsiuho iJe muralli;) tarlara, altruni Fnncín-niiriín 
i|ai; innriac o seu Império a todos os estrangeiros. 

Faz-Die este [lonlo comitliScs de mais lar^its ilcsea- 
volv [mentos, nus nàu devo uloiigiir<mc; alii Iílíi j.'i fi.-ila 
a c»m3 pira o assuiilplo a (juc me .irrastani os scguiulL>s 
trechos do discurso do Sr. Alencar: 

• Este projcclv é um cortejo â opinião cslraiiQeira. 54 
tfm o intuito, de se dizer a algitem : Senhor, por ate acto 
nxM» nome uii^uirini uma famit imperecível. Resignese a 
n/resa. ate que n interfenfão de ali/uma socieilnde nlrangeira 
imteprla fua Uberdade, Ou emnncipadoreu obedecem ao» iin- 
pulfos da opinião estrnnfieirã. Nada mais tialuraldo que siijt. 
pór-sií iiue se procurasse um estrangeiro, para dar d proposta 
eertú resaibo d'alén-mnr. A idi-a de eiimncipação c um pro- 

dutto de fabrica europea, consignada ao dono da terra, ttc. > 
ToJo isto Jâo uns enredozinlios, uns cstralaíenia- 
xtnltoa para desvairar-se a opinião nacional, iiidispt}I-a 
ifljiutamcnic com o projcclu, servir ã niorma do poder 
pmoal, e prosar cruuda conlra estrangeiros, a qual 
««ni capítaniiadu peto mandarim Fu-Ti-liOou-fu, que já 
na seu barrete arvorou a pfnna de'pavâo. 

Pelo que vejo, a politica rccoínmcndaiia, a nitra- 
rliiaeia, cúasislc cui fazermos ni^ o contrario do que 
a liamanidade praticar; niioòassim? Todas as oulrai^ 
nac^Sos são estrangeiras; ergo se todas cilas disserem 
— eocamido— tanto basla para nós dizermos— aznl — ; 
(lis licença que cliame a isto— poííííOí de íesourinha'1 
Com «sie antagonismo, não lique pildra sobre pedra; 
íílra rom a religiàQ que veio da Palestina ; com as 
inslílDífJicit, quo vJLTam da luglalerra; comacivíli- 
uçío, qDC veio de toda a parto. 

Sun. o género Iiunuao é aocúrdc' em que o homem 
Aio deva ser objecto do compra e venda ; e nada mais 
reneraodo que o esforço teiti neste sentido por naçOes, 

ciedacjes ou individuo», nasecssem onde nascossem, 

ai cujos desinteressados trabalhos sO ti^m por a4vo 

regeneração da tiumana e-^poeic. 



- 68 - 

Quem reprova esforços laes, quem julga, com o labéo 
de estrangeiros, conspurcal-os, vá mais longe; styg- 
matize até as missões. Que criminosos não foram os 
estrangeiros que, sahindo das mais adiantadas terras, 
ousaram pregara palavra divina nas Índias, na.Chipa, 
no Japão, na Oceania, em todo o Novo Mundo 1 Que 
criminosos não foram Pedro, João, Thiago, Matheus, 
Thadeo, Paulo e outros apóstolos, a quem o Redem- 
ptor ordenou que fossem doutrinar nas terras estran- 
geiras 1 

Os apóstolos da emancipação das almas Sião também 
evangelisanles, e a voz de quem clama pela verdade, 
sóe d'onde soar, merece, não repulsa, mas acatamenlo- 

Seja dito em honra do paiz: O caracter brasileiro, 
fifeneroso, recto, hospitaleiro, repelle a obsoleta dou- 
trina ; tudo quanto 6 verdadeiramente liberal acolhe, 
aceita, provoca a manifestação dos pareceres, venham 
ellesd'onde vierem; presta culto sobretudo á imprensa, 
à opinião, rainha do globo, e não rainha de tal ou tal 
parallolo. Que importa portanto que uma voz desafine? 
Uma andorinha não faz verão. O voto illuslrado de 
quem tem voto, é que dave condemnar-se ao desprezo 
a cerebrina theorla de devor-se' rechaçar uma lei, só 
porque as summidades da nação a consideram util, e 
só porque essa lei representa uma aspiração do mundo 
inteiro! Thjcses são estas que basta descarnar. 

Vou mais longe ; e digo que em quasi todo o mundo 
civilisado, a base de cada lei vem, por via de regra, 
de regiões estrangeiras. E apparece quem aconselho 
que façamos uma excepção a esta regra da sabedoria 
e da prudência universal 1 

E os que se esforçam (indirectamente, mas de facto) 
por perpetuar a escravidão, a que fontes vão elles pró- 
prios buscar o seu imaginário direito? á mã antigui- 
dade européa ; vão hauril-o, pelo menos, da parto mais 
injuridica. mais indigna, do velho corpus júris civilis^ 
que são todas essas disposições dcshonradoras do Ji- 
reito de familia, autorizando a escravidão, no mesmo 
código que também autorizava as relações do marido 



— 69 — 

leíraimonle (yranno pnra com a mulher súbdita, do 
pai omnipotente para com os íilhos vassalos. 

Ni Itália e no sul da Franca, nas terras do direito 
escriptOy toda essa jurisprudência romana lançou fundas 
raizos. Na França é ella, a cada passo, invocada em 
apoio das próprias prcscripções do codip:o civil. Os tri- 
banaes ecclesiasticos na Inglaterra e Escosi&ia seguem 
geralmente esse direito estrangeira como regra. Na 
Allemanha, o direito romano foi legalmente consagrado, 
confirmado nas leis do império; por exemplo, no re- 
gimento da camará aulica^ e em grão-numero de leis 
locaes, particulares a certoi paizes. O mundo moderno 
emfim vai lodo prestar homenagem, como jus subsi- 
diário, áquella legislação estrangeira ; melhor faltando 
da jurisprudência que de tudo o mais, ^ pôde Rutilio 
dizer á sua Roma : 

Pecisti patriam diversis gentibus umm. 

A base actual da legislação áo Brasil é ainda hoje, 
em grSo-parle, a de Portugal. A nossa lei de 20 de 
Outubro de 1823 determina que a legislação do Império 
abranja a daquelle 'Outro Estado, até 25 de Abril de 
1821, e os decretos das cortes porluguezas ahi especi- 
ficados. E já a ordenação do llv. 3.* tit: 64, tinha es- 
tabelecido que, nos casos omissos na legislação nacional, 
regulasse legislação estrangeira. Acaso todas aquellas 
naçOes (e nós com ellas) se consideram desairadas, por- 
que semelhantes disposições foram originariamente 
proclamadas para além das suas fronteiras? 

Bis ta. Ha tanta procedência em suscitar op posição a 
leis justas por ciúmes internacionaes, como já mostrei 
que a haveria cm desafial-a por ódio à pessoa do Im- 
perante. 

— Liga-se ainda outra à dupla accusação contra o 
poder pessoal e contra tudo quanto é estrangeiro. 

Diz o Sr. Alencar que c esses trabalhos do conselho de 
estado^ que o gabhiete com tamanha repugnância remetteu 
d camará^ haviam sido communicados aos membros da junta 
central abolicionista^ e citados na conferencia que houve 
nn Pariz a 26 de Agosto de 1867, como consta das actas 



— 70 — 

das suas sessões^ levando-se o desprezo a tal ponto^ que o 
paiz não teve conhecimento do facto senão de torna* 
viagem. 9 

So o attentado horrendo foi praticado cm 1867, csle 
governo nondum natus erat^ c podia dizer ao seu illus- 
tre accusador t Deus o faroreça, irmão ; bata a outra 
porta ! t . 

E SC css*outra poria tivesse a condescendência de 
abrir-se-lhc, talvez lhe perguntassem de dentro: 
« Quem lhe disso ao senhor, que foi o governo, ou 
poder pessoal, que mandou para a Europa esses folhetos 
impressos, tirados em assaz avultado numero, c de que 
algum exemplar pôde ter cabido em mãos de amigos 
daquella sociedade? Muito mais secreto era o tratado 
da tríplice alliança, e além disso manuscripto, e là 
viajou de Montevideo para Londres, sem ser levada 
pelo phantastico paquete, denominado Poder Pessoal. 
Boas noites ; temos conversado. » 

Façamos porém de conta que se descobriu o cul- 
pado do monstruoso sacrilégio. Pallido e tremulo acudi- 
ria c^se misero á bnrra do tal juiz, c Jhe diria em 
vozes entrecortadas : t Suspenda V. Ex. o seu alfange, 
e seu inclyto poder pessoal, mais rutijantc que os 
possoaes de quem qucfr que seja. 

c Eu sou Brasileiro, muito amante de minha pátria. 
Desejo por honra e interesse delia ver finda a insti- 
tuição do captiveiro. Como apanhei um exemplar das 
actas do conselho de estado, não o divulguei aqui^mas 
dei-o a um amigo, que o mandou para Pariz, com meu 
conhecimento. 

c Almejava o meu amor da pátria por que na Europa 
soubessem os que se occupam activamente da questão, 
os que ouvem tanta gente infamar-nòs de escravocratas, 
que o Brasil não merece os apodos de que era victima, 
trabalha para equiparar-se a todas as nações, e estuda 
o modo de o fazer, sem sacrifício de vastos interesses 
creados por lei. Entendi que o conhecimento desse li- 
vrinho não tinha inconveniente tilgum naquella terra 
onde è já domínio dos prelos quanto se ha dilo e possa 



— 71 — 

dizer sobre a magna questuo ; mas que no Brasil é que 
não era pruJ^nX^ vulgar isar taes trabalhos, antes do dia 
em que a IJiese tivesse de ser tratada em parlamento, 
porque é incandescente, perigosa quando extempo- 
rânea, e da natureza daquellas para as quaes, apenas 
aí^itadas, naodeve haver um amanhã; toda a solução 
é preferivel a uma suspensão. 
• t Se errei, perdôe-me V. E^. ; mas já vé que foi por 
patriotismo que o livrinho viajou para a Europa ; por 
patriotismo que no Brasil o não divulguei ; por pa- 
triotismo que os successivos gabinetes julgaram que 
tal publicidade era prematura. » 

E o mais galante seria vir correndo o accusado e 
di2er-me ao ouvido que ninguém ha menos habilitado 
que o Sr. Alencar para atirar esta pedra, ' pois no 
mesmo discurso declara elle que teve tanto conhe- 
cimento dos trabalhos do conselho de estado, que sobre 
elles discutia com a coroa, e os mandou archivar ; 
portanto, sobre elle recahe a sua própria censura, de 
nio terem sido apresentados esses trabalhos ao par- 
lamento, procedimento com que contrasta o do actual 
ministério, que entregou tudo á publicidade , apenas 
chegou o dia dos debates, sem a denunciada repug- 
nância, antes com o intuito de contribuir assim jMira 
que tão estwiado assumpto seja sabiamente resolvido. 



Tive qae levantar a penna. 

Qae historia, que historia, meu Fabrício ! 

E' já quasi chegada a hora do correio, e deixo o 
caso de remissa ; mas sempre te quero prevenir do 
segainte: Estava eu disposto ainda a continuar este 
aranzel, quando ha meia hora ouvi uma algazarra no 
campo do sitio ; cheguei á janella, e vi um grupo de 20 
ou 25 aggregados e vizinhos, que vinham precedidos de 
um tocador depuita. Abri-lhes a porta, e então soube 
eu que aquella boa gente, ouvindo aos meus paizinhos 
que eu partia amanhã ou depois para a cdrte, vinha 
despedir-se de mim, e pedir-me...varíasque cousas. 



— 72 — ^ 

O impagável, porém, c a chaiileriiidadc com que se me 
apresentou um bom preto que aqui ha, chamado o 
Panturrào^ o qual me leu, e depois depositou em minhas 
augustas mãos uma mensagem, em nome dos meus 
vizinhos ; o peior foi o comportamento do meu mo- 
leque Adão, que me ia entornando o caldo, como para 
outra vez te direi. 

O Panturrão accumula : é barbeiro, ensina primei- 
ras e segundas letras , faz uns pasteis que é mesmo 
comei-me, comeí-me, e amola facas e tesouras. Este 
benemérito enthusiasmou-se por certo estilo^ cheio de eru- 
dições e de et costeras, que por ahi apparece ás vezes e as. 
pira a imital-o. O maganão do meu moleque Adão está 
com 12 annos feitos, aprendeu a ler com o padre 
Tiburcio e já é capaz de dar sota e az a qualquer; 
é um azougue, benza-oDéus. O atrevido fez uma scena 
jocosa ao Panturrão, e tão mal creado que nada servia 
mandal-o eu calar; foi a vergonha da minha cara. 

Se tiver tempo, antes de partir transcrever-te-hei 
a referida mensagem com que engordei a olhos vistos, 
e repetir-te-hci algumas das observações do meu endia- 
brado moleque. 

Santa Rita de Cássia te tenha na sua santa guarda. 



Teu velho amigo, 
Cincinnato, 



QUESTÕES DO DIA 



MT. 

RIO DE JANEIRO, 29 DE AGOSTO DE 1871 



Heflexões politicas • dirigidas pelo roceiro Cin- 

cinnato ao cldado fnabrioio 



CARTA QUINTA 



RIO Bíi JANEIRO, 20 DE AGOSTO DE 1871. 



Esta nao se faz, cidadão Fabrício, aaose faz. Vir eu 
da minha Tliebaida a cavallo na mulinha, tico-tico, ato 
n corte ; esperar o alegrão de abraçar o amigo velho, e 
ficar com cara de palmo e meio, ao ouvir dizer à coma- 
dre que partiras para Pindamunhangaba 1 

E' duro. Tua mulher cá me entregou a carta em que 
explicas os urgentes motivos da tua súbita jornada, e me 
ordenas te retribua eu na mesma moeda de que és meu 
credor, dirigindo-te agora umas ephemerides do que por 
aqui se está passando, ou pelo menos continuando a mi- 
nha analyse do sabido discurso, e do sabido orador. Seja 
assim ; empregarei as minhas noites nesta divertida oc- 
cupaçao, já que o rheumatismo, a gota e os calos me 
privara de fácil locomoção. 

Ha coincidências estupendas. Chego hontera k tarde, 
e eu que lá no sitio não sabia ainda das honrarias que 
drsvo ao meu idolo politico, caio das nuvens, quando me 
trazem ao almoço o Jornal do Comincrcio^ onde leio (jue 
'^ Sr. José de Alencar empalmou á tarefa politica todo o 



tempo de uma das ultimas sessões parlamentares deste 
anno, para me roer nos calcauhares e pôr a minlia insig- 
nificante pessoa na ordem do dia I Darás licença por- 
tanto para eu intercalar umas cartinhas sobre a incrivel 
sessão do dia 5 do corrente. Nilo vale nada a minha 
pessoa, mas vale muito o aresto; ha fervuras em que Im- 
portadeitar agua; venço a repugnância, e venho à scena. 

— Antes de mais nada, pasmo da longanimidade da 
camará, ao consentir d'est'arte o atropêllo de todítô as 
conveniências, a protelaçao dos mais serio.'^ debates, o 
descurar dos mais vitaes interesses, o despreso das dis- 
posições do regimento por que deve dirigir se; e ao tole- 
rar que tudo isto se sacrifique a certos orgulhos gárrulos, 
que levam horas a repizar trivialidades, a injuriar o 
género humano, e a dar tristes documentos de incapa- 
cidade politica. 

Invoco as tuas recordações, Fabrício. Reconhecerás 
que esta minha correspondência começou por testimu- 
nhos exaggerados de consideração para com o Sr. Alen- 
car. Trouxera elle á imprensa descabelladas verrinas 
contra o Poder Pessoal. Suppondo eu que fosse uma these 
omnipatente á discussão que elle mesmo desafiava, es- 
crevi-te a esse respeito sem me desviar um apse do terreno 
licito, do politico ; e recordar-te-has de que a esse senhor 
attribui, por meus peccados, appreciaveis dotes como 
escriptor, estadista, romancista e orador ( Antes da 
quaresma me confessarei desse peccado]. A paga nao se 
fez esperar, nao senhor : começou por, de logar inacces- 
sivel, me arremeçar as insinuações desagradáveis, sobre 
que já falíamos ; agora vejo que as completa com os iu 
sultos mais ferinos, com as calumnias mais próprias para 
revelarem o caracter do provocador ; muda o negocio de 
figura. Batido em todíis as discussões, refugia-se era 
abrigada casamata, d'onde me atira mortaes..., pipa- 



ruteá. Jiilfrava esse senhor que com seus ademaes me 
atemorisaria ; ai, níío; aqui metem. 

Ha quem timbre na sublimidade do muito fallnr; lá o 
virou nao a propósito, importa pouco ; comtanto que a 
azenha rode, que môa ou nao moa o trigo, ou a paciên- 
cia, é o mínimo de que o Pretor nao cura. Ai, venerando 
Fabrício, desadoro com galinha, que leva a cacarejar 
sem pôr ovo. (Tem tu paciência, que eu aprendi com um 
pensador, que diz que se nao devem tratar ao serio senão 
as cousíis serias : 

Co' a matéria convém casar o estvlo. 

— Levante-se a expressão se é grande a idéa; 

— se a idéa é negra, a locução negreje ; 

— e ténue sendo, se attenue a phrase. 

Mais ténue do que istonão ha nada. 

Sirva pois a regra para minha justificação de ora 
avante; onde me vires rir, é porque considero a cousa 
risivel). 

Ora, toca a dissecar a eloquente arenga, com que o 
campanudo orador esteve escarnecendo do parlamento. 

— Principiou, jurando que fugiria, como diabo da cruz, 
dos exercicios oratórios ; é de crer que logo os ouvintes 
«6 entre segredassem que iam assistir a nao mais que um 
exercício oratório. Mas enganar-se-hiam, confesso, pois 
ao que iam assistir era amais desbragada descompostura 
a tudo e a todos, com uma raiva, um phrenesi tal, que 
eu recommendo cautela, pois nos ataques de hydro- 
pliobía morde-se com aquella sanha. Aqui as dentadas 
foram em tudo quanto o rodeava de facto, ou lhe atro- 
pellava o cérebro rábido. 

— Dentada no ministro do império, por dois crimes : 
V ter só feito nesta sessão dois discursos, 2** serem estes 
ao lusco- fusco. 



— Dentada no presidente, que Uie pedia (quando de- 
via mandar-lhe ) se conformasse com o art. 217 do regi- 
mento ; attribue-llie o plano de restringir a liberdade 
da tribuna; e ameaça a pátria de a deixar na orphan- 
dade, privando-a dos seus falatórios, em que sempre 
apparece representada uma scena dos Vemandistas^ de 
Racine, ou em que a propósito de uma avella, se des- 
crevem todolos successos para cá do diluvio. 

— Dentada no Poder Pessoal; isto já se sabe; nao 
havia remédio senão coçar na borbulha. E' mofina para 
a qual, embora calhe como canção de noivado em cemi- 
tério, ha sempre opportunidade. Coitadinha da macu- 
quinha I 

Aqui agora, houve um intervallo nas dentadas, porque 
S. Ex. fallou de si, e é essa a única pessoa em quem nSo 
morde. Ora, como esta carta é nao menos um relatório, 
eis como o caso foi ; vá também de entreacto. Desenfar- 
delando citaçõ^is (sem serem da esckola ingleza^ d'esta 
feita), comparou se, modestamente como sempre, com o 
grande jurisconsulto Labeon, a quem os contemporâneos 
tinham por louco, attenta **a austeridadee rigidez do seu 
caracter, e o seu amor á liberdade, incorrupta liberlatc^ 
dice Tácito''. Isto nao faz mal: quanto á primeira parte, 
. a da comparação com o impávido, acérrimo, rigido e 
aspérrimo, quem ha de gabar a noiva, senão o pai que a 
quer casar ? quanto á segunda, ( se a intenção foi 
attribuir a narração a Tácito, que, a mio ser assim, en- 
traria aqui como Pilatos no credo ) nao passa de unia 
citação falsa, que nao quebra osso, e demonstra alta 
sabença, visto como d'est'arte 

aqui vão berrando 

os échos das bombas 

que estalam nas trombas 

dos rhinocerontes. 



amphiyuri,q\in^i como o do Filinto. Tácito nunca appli- 
cou a LabeoD a locução incorrupta lib&r late ^ pela simples 
circumstancia de que nunca escreveu uma só palavra a 
respeito dotal estouvado: nos -4/inaes fallou, sim, de 
um Labeon (IV 47, VI 29) mas esse era o Pompeio, e de 
outro Labeon (II 85), mas esse era o Titidio, e nao mais se 
occupou da família dos beiçudos ; ora o tal, do liospicio 
de Pedro II do tempo (.e Augusto, era Labeon Antistio. 
Cá o nosso preclaro orador ouvio cantar a gallo, mas nao 
soube aonde ; leu isso, nao em Tácito, mas em alguma 
colleçao franceza de anecdotas, ou em algum Supico, e 
fez muito mal om comparar-se com Labeon. D'esse pa- 
peou, por exemplo, Aulo Uellio (XIII 12) que do tal 
jurisprudente, sábio e mentecapto^ repete o seguinte: 
" Sed agitabat honiinem libkrtas quoedam nimia atquií 
vfXORs ; iisque eo, ut ratuin pensumque nihil haberet^ nisi 
fpiotl jiiMum sanctunique esset^ in romanis anliquiiaíibns 
lerfissel "\ Ora ali, no yí?co/*5, pôde haver suas duvidas, 
porque o endiabrado vocábulo exprime, umas vezos 
doudo, outras furioso, e outras tolo ; mas quanto ao 
re.sto a tradução é clarissima. A palavra nimio quer dizer, 
fletnasiado^ ftobejo^ demais, O Sr. Alencar já nos participou 
quí^ era nimiamente severo^ severo de mais : o Labeon 
lambem ([ueria liberdade de mais \libe7*t(U{nimià.; masd'alii 
por diante, não senhor, nâo admitto comparação, visto 
que o romano levava as suas exigências a ponto do lou- 
cura ou de toleima [atfjue vecors] ; mas entendessem lá 
o tal romano ! liberalfio dos quatro costados, quando 
berrava por liberdade infinita ; e ao mesmo tempo cor- 
cunda de papo amarello, quando bramava por que se 
não bulisse nas idéas antigas. Mas aqui outra vez, sim; 
entrevejo suas paridades : era um Erasmo o Moço, e um 
EIrasmo o Velho, de pernas para o ar. Acabou o eu- 
treacto ; prosogue a comedia das Dentadas, 



8 



— Dentada em Horácio, porque vilmente chamou 
insano a Labeon^ para agradar ao seu protector Mecenas, 
como os actuaes Mevios sao proteg^idos pelo presidente 
do conselho ; tal e qual. 

— Vinte dentadas no referido presidente do conselho, 
porque é altisonante e grandíloquo (nestas terras é 
defeso caçar; ha quem jà se apossasse delias, por ar- 
rematação ou adjudicação^ que é uma e a mesma 
cousa); porque tem velleidades pedagógicas; porque 
marcha de paradoxo em paradoxo; porque nSo é 
homem de bera ; porque voa com azas Içarias ; porque 
arranha os adversários; porque suas iras suo felinas; 
porque deve a carreira aos seus grandes gestos e scepti- 
cismo ; porque deve a sua exaltação a um grande vácuo 
que tem dentro em si para o manter á tona etc. etc. 
E conclue com esta phrase, de uma propriedade impa- 
gável : *' Mas, senhores, nem esta reconvençao seria 
tolerada pela minha consciência [consciência) j nem a 
minha delicadeza [delicadeza] permittiria que a fizesse". 
Avante I 

— Dentada nos membros da commissa© especial, 
aquém accusa de pregar sermão inçad 3 de profanidades, 
e de affrontar os brios nacionaes e a dignidade do par- 
lamento. 

— Dentada no relator dacommissao, ao responder-lhe 
que as suas palavras, nem dignas sSo de ser ouvidas. 

— Dentada no governo, fa]»ricante de torpedos polí- 
ticos, porque o trata com desdém e ironia. 

— Dentada na maioria, porque o amordaça, e não lhe 
deixa jorrar esta catadupa de irresistíveis argumentos : 
e porque a maioria nao é senão o gabinete, e o gabinete 
nao é senão o presidente do conselho. 

— Dentada no senado [viilpis ad uvatn) e no conselho 
destado, porque é nesses elementos vitalícios e anti- 



9 



constitucionaes, que a também vitalícia coroa se apoia 
(macaquinha). 

Dentada em S. M. o Imperador, e em S. A. a Re- 
gente, dizendo ao ministério que iiao pense ganhar a 
partida, apezar de ter nas su is cartas o rei e a dama. 

Bem era que, após estas e outras mordeduras e tor- 
quezadas, se concluisse pregando a insurreição ao pa- 
cifico povo, que nunca imaginaria que da assembU'a dos 
seus legisladores, de um areópago conservador, surgisse 
uma voz provocando sedições e levantamentos. 

— Salto a pés juntos por sobre outras gentilezas, e 
venho já ás imprecações contra a imprensa em geral, 
que apoia o governo : 

"Imprensa clandestina do governo — Lucrativa em- 
preitada — O suor do povo desce do céo, como Júpiter 
transformado era chuva de ouro, para seduzir e profa- 
nar a imprensa — O governo inoculou-lhe o virus da 
desmoralisaçao, a lepra da subvenção — O governo fa- 
brica uma opiniílo falsa, que nao é inspirada pelas idéas, 
mas pelo salário — A imprensa subvencionada rebaixa 
uma profissão tao nobre como ojornulismo — O governo 
levantou contra o orador uma coliorte de anonj^mos a 
qiiem incumbio nao de refutar as suas idéas, mas de 
lançar sobre a sua pessoa doestos ; artigos que, por sua 
profusão, bem se via que eram pagos por tao abastado 
e generoso capitalista, como é o cofre secreto — Arma 
a ra?lo do mercenário para insultar os adversários que 
nrio se anima a combater na tribuna — O governo 
chama em seu auxilio os mercenários da penna, 
esses que na phrase de Marcial verba et iras locant^ 
alugam a palavra e a bilis. — Instrumentos de diffa- 
niacao, etc, etc/* 

A que deferência pôde aspirar quem assim vilipendia, 
com a mais desenvolta linguagem, nao só os governos, 



10 



mas os e.scriptoiv.s f*m massa ? Qiioesiylo é este, que uSo 
acha precedente seiírio uas peiores paginas da Tripa 
Virada, ou da Besta esfolada? K como não andaria bem 
consultada a justiça, quando leve por seu consultor 
quem entende descarte as prescripçòes da justiça I 

Esta ladainha de aitrontas a.ssenta numa accusação 
de facto ; porque nao esperou a declaração desse facto, 
antes do accesso hydrophobico? Ora o presidente do 
conselho, n'um discurso antipoda deste, em elegância, 
cortezia e dignidade, respondeu : — ^'Qne o gabinete 
actual nao tem subvencionado escriptores ;*' e após inn 
explicita declaração, o juslo e leal parlamentar na j re- 
tira as suas iniqua.s accusaçoes de chuva d*ouro, lepra 
da subvenção, salário, mercenários da penna, e outros 
ai^fl II mentos, dos únicos de que se aclui provido o arsí^- 
nal do tonitruante orad-jr! Lamentável privilegio o di^ 
similhantcs eloquências: tristíssimo, quando só inspi- 
ram piedade. Os illustrados, nobres e desinteressados 
escriptoreí?, (pie assim se te/ita vilipendiar, riem dos 
Labeons, e vão andando. 

Mas eu, é que não. Ao bom ]»ngailor nao dóe o pi*- 
nlior. Temos uma continha que ajustar. Kmtjuanto nu» 
illudi, suppondo possivel discutir uma questão, de Ín- 
dole exclusivamente politica, sem se nJirapassarem os 
limites que a simples educação ensina, usei da mais 
respeitosa linguagem, e de quantas precauções signiti- 
cassem apreço, superior até ao devido, dos dotes do 
adversário. Fui cauteloso em não proferir palavra que 
resvalasse das idéas politicas para as moraes, sociaes 
ou outras, defezas aos debates. Não approuve este co- 
medimento ao valente athleta: descobri i contra mim a 
sua metralhadora, de tiros de cortiça, sem resguardo 
de espécie alguma ; acceito o novo estádio a que me 
chama: dente por deute, olho por olho. 



u 



i)Tiei-er-^-1i.i '[nti fui an o prnvocado, 6 qiiR quem 
affitãhiii p.irii muito luaiit lonfr^ □'• limit&i qtie eu me 
L trnrado. foi quum ij^urava o snnexim: (jaera 
«pnpftoar. itn rara Ibo cabe. l)'ora «vante o csUi- 
, tiescriptor, o critino. o romancista, n jariVcoa- 
\tAtt livi-R ibmtníi) (la aanlysfl. A d la Cí igiieorsa 
Hlndv iiAo '^om privilegio truliisiro dos I^aheona. , 
[eriormftnte, cnm muita eRtranheza minha, ci 
r uii* r(iii>;uriini na pnrlaaiBDto, comn notei 
srior. Ouço, p'irém, ijiie pretendia ngora 
^ A minha pifíuioa, >jiinndH iitt^^tc memorando dlit- 
', pr«VAliv:findn>ftâ nobremente Atu inim unidade» da 
I ((ii[ai u tcnnn 6 feminino), profariíi as so- 
llpndiirHM, n <\np desejo an^inentar a merucida 



■ - irrave, a (|ii<! mais rcTolta no 

i-, iW|Uvt diamou em seu iin> 

,: iríi para roadjiival-o nos scus 

Aon pHrÍiuiii*utare^<', díHCittir m nej^con do paJK, 

atcrtnlrn f* «■"1* «li versa rios ihTeclivM..., Nilo se 

■ I. fnltando »fis dfivcres de cor- < 
U-n bospUul idade, .se arrofrua 

■ .'mpenbe cm deprimir os seus 
l^rArtBn** |iiiltUi-oii. O pai» onde i^imílliaDlit fiicto se 
iijn'^- oem uma retirtSa enerifiCJ do povo, wtíb,.., etr." 

íii itiítraiigcirophobi»: 'i", d«- 
iro; ;^, convite ao povo para 
i-odamii-uos: Sc cii »uii Cjo- 
r^ -^Mi: nanei em Roma; e c& este 
itr t|ui<r ((fíioriar-)w>, fiuwndo coin (jue 
a touta (ahlruHcnl capitem, dix neste 
N [ruga i)p ter eu approvado ao veltio 
' 1^0 g-HURral de r«v«ll»ria liz«se ow- 
'> iKjbrc ^rviliu Axilta. Nflo ba rnxA" 



12 



de queixa. Aclio em realidade este o mais hábil expe- 
diente para caiar contradictores; veulia de lá uma boa 
cabeçada : homem morto nao falia. 

Quer porém S. Ex. ver na minha assi^rnatura um 
pseudonymo? Porque não? Ouve tu cá! Empreg^a-^se a 
pseudonymiíi, ora por tMctira, ora p.")r medo, ora por 
calculo; mas tf.mbem .se adopta ás vezes por .se pensar 
qiie, quando se tem um nome obsuiro, nadaaccrescenta 
elle ao valor ou á insignificância dos raciooinios, os 
quaes sao assim, com mais liberdade o justiça, aqui- 
latados. 

A explicação da minha assi{*:natura i* esta ultima; e 
nao se imag'ine que sou movido por temor de espécie 
alguma: se eu tivesse medo, comprava um cao. Eu fui 
baptisado; ponha o denumúanto. o meu nome por ex- 
tenso, que eu lhe protesto que, assim como o meu an- 
tecessor dava peio nome do Quinto-Lucio-Cincinuato, 
eu quando o nobre delator cliamar pelo meu nome. Fu- 
lano de tal e tal, bradarei immediatamente : Trompti)! 
Adswii; in me coiivertite ferram. Emquanto porém o 
nao fizer*, consinta que eu vá andando meu caminho, 
coxeando na pingada de quem hontem assignou Erasmo 
o Velho^ hoje aL. agora Erasmo o Moí;o, logo a Voz de 
jDeiM, depois o Autor da corte do leão, outra vez /. (í. 
dos Tamojjos^ outra G. M. da Diva^ outra Seiíio do 
(íaúcho^ outra o AiUor da festa macarn^onia, e se mais 
mundo houvera lá chegara. (Esse, sim, esse quem 
quer que seja, que toda a vida tem usado e abusado 
da anouymia, é curioso quando clama, em questão de 
princípios, que se nao abaixa a discutir com anonymos ! 
Perdeu-se alli um bom diplomata). 

Quer p')is que enseja estrangeiro? Aponta com o 
dedo para a minha pessoa, nao para discutir (que isso 
nao é. cousa do seu gosto), mas para me injuriar, e pro- 



Tocnr conlTB mim opooo a uma reacção enerificaf Poíá 
«rei. que mais quer? Serei au ; e qtiem wu eu? E30 
siivi tfvii 9unt. 

Oro iigortt, sabe o qoo maisí Faiw iverdiide em loao-s 
OA iiunti» fi virgulas da suii verrina. 

Falta & «rdade, quunJo affirma <i»e o ffabinete m« 
chanioM i'nm o coadjuvar em s«itó trabalhos pnrkmeu- 
liiíu s(S iiulitt lio projecto sobro o ele- 
,u depois ijiití elle iipiitrereu impresso ; 
. trúquei palavra ^fbve tal «ssuiiipto 
cfltn t|iiuiii '{ucr 4iie aeja. 
fiilta á verdade. aflSBverando tftr-me o gaVmetH cuii- 
URdo a lHn<.Mif i0vi:cliv«fl contrA adversariya. Nem 
Bicui invectiva alguma: ortn o gabinete «ra capax do 
b*U pedir, nwn ou d« escrever uma pUrtwP- que «lo 
provÍcís« da mnts intima convicção. 

Falta 8 v«riliide. quando <Uz .[ue i!u fui dfiscortez 
a çom e.ne pniz: o quera nat. riuer piissar pur... por 
n nOHiH muito feio. raostrt! uma só locuçriu minba quw 
I d«iioÍ« iiraixadtí sincera o justiça para cura este im- 
, n quom. no contrarí'!. nesta mesma polemica, a 
o dcídc li primeira carta, dafendi ener(?icamente das 
lOgUuitea Bxprobraçflw que. contra uUe a tudo (luatilo 
Ml«, vomita o illUíilro dcvanoado. que só iraajfioftri» 
il de amtlo iConro. quando elle subi-we ao governo, 
IBftíelRVftrOes. iím'iuaiiU> a'Js cá «os fossemos 
ÍAn ufwtcMniilo de ferro, em que 
A . . In anrl Irarlooqaa («n ce «Iwle à« ter) 
R pUaau luand U Tuni, mit Mn uu due et |mú. 
bi verdade, quando mo pinta como devendo I 
^ndeoido pcln Inxpitaiidiuif (/ue nrlc p<lij; 11 
IrAlH) lil HuuriHroií com a bonevnlencia que 1 
^rema sltunt atA its iu&ranR camadas, mQ lia \ 
tntemenU dispeiisidit ; maa de igrnal bene- j 



14 



volencia tenho sido alvo era varias naçõeis, que me nSo 
vendem por mercê de hospitalidade o ser eu amigavel- 
mente tratado por aquelles a quem trato amigavel- 
mente. Vim para aqui, porque uma importante missão 
me trouxe; conservo-me, porque me apraz; nem pela 
vinda, nem pela estada, ha obsequio de quem quer que 
seja. Nada devo; nunca devi; nada peço que nao seja 
de justiça; nunca pedi. Se aqui prefiro estar ; se aqui 
dispendo o que possuo; se aqui vivo (respeitando as 
leis, mas sem adular homens, nem ante preconceitos de 
qualquer género pôr joelhos em genuflexório) é porque 
quero, só porque quero, e sem tolerar mais que se 
chame hospitalidade k minha estada, do que se eu tivesse 
a vergonhosa pequenhez de dar esse nome ao acolhi- 
mento fraternal e dedicado que o Brazileiro encontra 
em todas as terras que percorre, mormente em al- 
gumas. 

Falta finalmente á verdade, allegando que eu de- 
primo os caracteres politic/)s do BraziU E' outra esper- 
teza; quer fazer clientella á minha custa! Muito lido 
na historia da França, pauta o seu procedimento (si 
parva licet componere magnis) pelo de Napoleflo III, 
cujo machiavelismo o levava a nao fa'^er guerras 
senão de parceria: Crimea , Áustria, Itália, Co- 
chinchina , México , tudo foi tentndo com as costas 
quentes; e a primeira vez que se vio sozinho, levou 
tremenda liçrio da Prússia. Esta subtileza agora tem 
por fira gritar : oh da guarda, nh (/ui d^el-rei, que uie 
escovami Tem igualmente por fim desvairar o juizo dos 
caracteres politicos, com uma falsidade. Nunca eu disse 
uma palavra contra um único, individual, nem contra 
muitos, collectivamente ; ou nao bailo senão conforme 
me to'^im ; ncredito com sinceridade que os que nao 
pensam couio eu i)ensò, é porque a sua intelligenci« 



15 



ixàsim lh'o ordena, e talvez tenham mais razílo do que 
eu; it] só com o Sr. Alencar que eu tenho discutido, e o 
Sr. Alencar nSo é plural,, para fal lar de caracteres ^ e 
contente-se se poder empregar esse nome no singular. 



Nao te quero cançar, Fabricio querido; paro aqui. 
Cedo continuarei os commentarios ao grão thema. 

Agora fecharei, tocando em assumpto que nada tem 
com o que precede, e que é uma simples trivialidade 
moral. 

Eu também leio os meus Supicos, e num d'elles acho 
que a argutissima antiguidade tinha, entre os seus 
sophismas celebres, um denominado — o Mentiroso — , e 
cuja formula era esta : 

O que mente, e diz que mente, 
mentiu ou dice verdade? 

Até agora o typo mais cómico d'aquella virtude era a 
personagem de Dorante, na comedia de P. Corneille, 
que tem o nome do tal sophisma. Antes d'isso, exclamou 
um personagem de Plauto: ^'Si dix ero mendãcium^ soltns 
vieo more fecei'o\ que um annexim nosso traduzio por : 
'* Mente Pedro, porque o tem de veso". Mas as figuras de 
Plauto, os Dorantes e os Pedros, neste século de monde 
?/iarc/íe, já sao fosseis e eclipsados. 

Bem eclipsado és tu, que te pozeste a audar ; e attento 
o grão crime da minha caducidade, fóssil é este teu 
amigo ; o qual, depois de se ter dirigido a ti, volta-se 
para o Illra. Exm. Sr. conselheiro José de Alencar, di- 
zendo-lhe outra vez que, para todos os effeitos, tenha por 
entendido que esta carta é assignada pela pessoa que 
lhe approuver, ou pelo roceiro 



ittCI 



lioaio. 



QUESTÕES DO DIA 

RIO DE JANEIRO, 3 DE SETEMBRO DE tSTl 



Veii(lo-se em casa do Srs. E. & II. L<aeiinnert— Praça da Constituição, 
Loja do Canto— Rua do S. José n. 110— Livraria Aaidoiuica, e Cniz 
Coutinho na uiesnm rua n. 75. Preço :^00 réis. 



Xtcforma juclloiarla 

O Parlamento brasileiro acaba de votar uma das pnais 
importantes reformas reclamadas pelo paiz. 

K' de crer, que brevemente a .sanceão imperial con- 
verta em lei o projecto aceito por aiuba? as camarás 
legislativas; e log-o que este facto se realise, poder-se-ha 
dizer, que o Brasil é um dos paizes do mundo civili- 
sado, onde a liberdade do cidadão encontra as mais 
amplas g\arantias. 

O Brasil pude ufanar-se de possuir as instituições ju- 
diciarias mais excellontes, e capazes de einparelhar 
com as dos povos mais adiantados em civilisacfio, e 
mais zelosos da liberdade individual. 

O jnry, essa instituição, que os ingdezes denomina- 
ram a verdadeira cidadeila do pmo, e a inexpií^-navel 
Liibraltar da sua constituicrio, acaba de receber da re- 
cente reforma o possível melhoramento, tendo gnran- 
ti:is superiores talvez ás do jnry ing^lez. 

(/Oufronte-se o que na In;:i*laterra se es:abelecc em 
Fídacílo a este assumpto com o que a reforma provi- 
dencia eatre nós, e nfio liaverá- exa<i'g*eracrio da no.-sa 
parte. 

Os Kstados-Unidos e a Ing-laterra, paizes modelos de 
libenlade, nâo ofitírecem em sua le^-islnção criminal 
mais desenvídvida protecção a essa liberdade. 

Para mostrar a exactidão do nosso asserto, basta 
contrapor as disposições do scui direito ás disposições 
do nosso direito novo. lím aml)os oí?' paizf\^ notam ano- 
malia^, <[U<» i^ntre ni)S o espirito esclarecido do 1{\í:^*1s- 
lador tem rejeitado. 

A ri'ft)r.na já votatlíi traz ^*r:nidís (Miii])orLantes me- 
llioramcMilos c?m vaiila^NMii do cidadão, o mostra um 



2 



espirito de liberdade, que ninguém rasoavelmente con- 
testará. 

Xao podemos deixar de fazer sobresaliir cm primeira 
pluna o re.speito, que a reforma consagra ao grande 
principio da inviolabilidade da vida humana. 

Si a reforma uao abolio formalmente a pena de 
morte, todavia a tornará raríssima, e talvez impossível. 
Para a applicaçíío deseja pena, exige-se agora a unani- 
midade na decisão. 

A unanimidade em julgamento de pena capital é por 
certo difficilimo succcsso, qnando por caracter os bra- 
sileiros são brandos, e infensos a castigos atrozes, como 
é uma pena, que é irreparável sem ao menos ser exem- 
plar. 

A nova disposição tem ainda salutar etteito em rela- 
ção á injustificável e barbara lei de 10 de Junho de 
Í835, que com o ultimo supplicio punia o escravo 
autor de crimes, em que essa pena era comminada. 

A lei não attendia a circumstancias: a morte casti- 
gava o caso atroz e horroroso, assim como punia o facto 
mais justificável e simjjles. 

F/ uma lei tora do todos os principios de justiça, e 
humanidade; nenhuma gradação de penas reconhecia. 

l^ela reforma, desde <iue não lia unanimidade na vo- 
tação sobre o crime, apj) jcar-se-lia a pena immediata : 
assim já uma gradarão apparece para modificar o rigor 
absoluto da lei draconiana. 

A abolição do procedimíMito fx-o/fícío nos casos 
crimes é de alta conveniência para a cansa publica. 

A simples consideração de í|ne actualmente o juiz é 
parte ejnlgador, mostra (juão desvirtuadas estavam as 
regras de justiça. 

l)*ora (un diante o juiz conservará o seu caracter de 
arbitro desapaixonado e desprevt;nido. 

O jniz formador da culpa por j)ropria iniciativa não 
podia deixar de levar o fermento da parcialidade contra 
o accusado. em quem elle começava por ver um crimi- 
noso. O espirito assim preoceupado prejudica a justiça, 
que requer, no momento de avaliar e pe/ar as provas, 
animo desprendido de qualquer consideração alheia á 
natureza dessas mesmas provas. 

A reforma neste ponto restaura o grande principio 
da imparcialidade, e da dignidade do juiz. 

O réo VÊ seu jnlgador, mas não o homem eivado do. 
inter^BS^ií no bom êxito de uma accnsação. qne elle pro- 



jirio levantou; porque assim arreda (l(í si a argiiirOo 
«lo leviano, (íomoraudo o procedimento iniuudaíh, e 
rí>nseg'ue os fóro.s de per.spicajs, (juo nao deixou passar 
incólume o criminoso escapo á vig-ilancia das demais 
autoridades. 

Na ordem daí? garantias imm^ídiatas da liberdade 
civil o melhoramento operado pela reforma coUoca o 
cidadão em posição mui sobranceira. 

Elle já não verá no g-oso da sua liberdade pessoal a 
simples e bondosa concessílo da autoridade policial, ([ue 
armada de arbitrio para prender por m(M'as suspeitas, 
ou indicies, que fantasiava, tinha o eondao ma{i'ico de 
tolher o cidadilo cm sua independência, quando lhe 
aprazia. 

A segurança do cidadfSo brasileiro estava hoje depen- 
dente do terrível anathema, que a autoridade proferia 
nestas palavras : " Estás iniciado em crime inafian- 
ravel. '^ 

Tanto bastava para o cidadrío ver empallidecer diante 
de si iodas as seguranças da lei constitucional. 

Atrora a autoridade criminal lerá rejirras definidas 
ynm constituir o indiein mento e:u crime, e já não po- 
Jevá jireíider senão em vista do facto incontistavt.»! d(; 
• itlVnsa á b'i, e em face de ])rovas concludentes da cri- 
nii^ialidade de um individuo. 

(.> ridadã" tem abri^ro certo na lei : não fica apenas 
(Mitrí.'írue ao bom ou ináo critério da autoridade. 

Aquillo <[ue o cidadão tem de mais ])recioso na so- 
<;itída<le civi!. a sef^^iiranca de sua pessoa, será uma 
realidade, .^em facto seu devidainent<> com])rovado, elle 
não se temerá do cárcere: a sua pessroa é livn». 

O }ifih.fHft'rori)ns foi desenvolvido ])ela reforma. As- 
-ontaJo em nossas leis do processo criminal, sotfria na 
pratica resiricçnes incompatíveis com a natureza de tão 
>;iiut?ir instituição. 

Nos casos de maior nec(»ssidade. por isso mesmo que 
a opy»r";s<ão se acidx.rtava com a falsa Ic.íralidade, tor- 
:iand''»-se intolerável e ousada, o írraude recurso das 
Ti'^>s.is lilu-rdados, dfM^ahia, e perdia a sua eíHcacia. 

i)^ nossos tribuuae^ vacillavíim sobre a. amplitude do 
Ifih-^as-r.orpiir,. e muitas ve/es os pacientes, escandalosa- 
ment»'. vexados, tinham de resignar -se aos rigores da 
prizão urbi traria. 

A autoridade violenta procedia sem competcuí^va. 



SEXTA CARTA 

DO ROCKIUO riXClNNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 

Kio de Janeiro, 23 de Agosto de 1871. 
Fabrício d'est'alma 

Obrig-ado pela tua cartinha. Tu nunca te esqueces 
(los amiyos, bom velho. Já sei que chegaste a Taubaté 
e rincbununhaniraba ; que o teu primeiro cuidado foi 
tlirigireí-to a N. Sra. do Bom Succosso, e ires lojro á 
caj)ella de S. José, ouvir missa por intenção de todos os 
Josés passados, presentes c futuros. Sei que meias mandar 
pela bahiade Ubatuba uns rolos de precioso fumo indig'e- 
na, mimo que é muito de menj^osto. Excellento Fabricio! 

Teimas pelíi minha correspondência ; níio te aflijas, 
que hnsdç recebel-a, e de ora avante um pouquinho 
mais livre, gmcas a J)eos 

Ag^ora o que me atrapalha é a abundância de matéria; 
pobre, á força de rico, diziam os romanos: tenho ante 
mim as duas lenfifa-leníras monumentaes com que o 
insigrie orador andou aos g^rillos e a que serviram de 
pretexto — num caso o elemento civil — no outro 
a cerebrina interpellaçao. Kmvez de absorver as minhas 
admirações num só desses Koh-i-noors políticos, reparti- 
las-hei por ambos, mas já agora continuemos com o 
parou these que a interpellaçao abriu. 

Deos me livre de cercear uma virgula á diatribe com 
íjue a mordacidade desse subjeito imaginou fulminar 
este pobre homem de palha, contra quem houve por bem 
espinhar-se. Quero repetir litteralmente as suas palavras 
])ara que s • avalie a dignidade do orador, a justiça das 
incropaçíles, a valentia dos argumentos, a decência da 
phrnze...e a revira-volta a que me constrangeu. Trans- 
creverei os trechos d'aquelle jaez que, segundo dizem, 
teve cm mente encarapuçar-me quem á discussilo pro- 
fere a disputa : 

'' Senhores, a camará comprehende que nem eu nem 
os meus amigos damos a menor importância a esses 
escriptos e ao seu auctor. Kssas rahulires litternria^' 
{ mandou que o Jornal do Commarcio pozesse em 
gripho) nao chegam até nós ; nem me occuparia com 
ellas, pois tenho nojo de tocar-lht:s, se nilo fosse euco- 
incndã do g"overno. " 



ner quem sao os «míjos deste seulior, e o nome 

POUCO- f^n^H ''. P'"^^x ^ ''" ''"' 1»« J^ »ao é tao 

um t rf Tn" ■?'?? ^ 'i"' propósito diziam os autip-os: 

é « m s.^ii" "^ """ ''^"''^'^ " P'^^'^^'-- ^ ^?°'^'»« 
ara do ^" ' "í"'"? '" * -'^ "™«' 'í^ ní"/"«>n é 



a,!?m^"f-"'« importância aos meus escriptos nem 
do si In ' ^°,f '^•'°>-"--Nao, que realmente pirraças 

^Sr, \ ^"^' ^^«''"^o « costume, amanha pen- 
teio T ""' ? "''^ ""^'"'^ *^"- esperança é já conso- 
dos ;..?; J"^ "1""'^ ^ "í""' f'^"'^"^« tão poiico ca.o 

a nla Lí7 P^'"^^'»^»^"*' ^™ ^'"^ cada palavra sua 
"Pne .e pSr^''^ '^^ ''"'' ''"' P'^^^"« '^^ ^^^^^'"'^ 
Dizemos auexins : quem se queima é poniue peo-a 
em bra/as; quem se pica cardos come. Fa/ mal em co- 
mando' ' "'""^ ''^ ^'"'*'^' ^°'" P™^ ^''^ ^^'•''^ ' ^''' ^'i- 

Quanto , is minhas ra/m/i>ev lillerarias, orçam pe- 
as rabuhces htterarias, jnridicas, oratórias,* dramá- 
ticas, e outras, do certo vulto que eu cá sei, de cert-i 
frralha, cujas ].eunas senlo, um', a uma,- arrancadas ató 
que lhe hque, sim, o jus de gralhar, nuis uno de pavo- 



nenr-se. 



Coiitiuua o Demosthenes, provando do seguinte 
modo seremos meus escriptos encommenda do froverno' 
Le e pasma : 

" A prova circumstancial ó a intimidade que ostenta i 

r..m o g-ovyrno esse estran-eiro; o carbo e or-ulho que 
oUe tem de ser um auxiliar prestimoso da administra- 
ção : e o custo exc.íssivo dos longos e esteirados 
urtipsjs; tudo está revelando o dedo do ministério. 

Acamarão vio exlabir-se neste recinto diariamente, 
em coUoquios com o nobre ministro do império, e 
com o nobre relator da commissao, fazendo trempe. 
Aberta a discussão ello a accompanhou constantemente 



8 



como uma espeoie de arolito da illiístrada commisáão ; 
e parecia desafiar os oradores da oppí/siçao a que ou- 
sassem tocar no seu insulso arauzel. 

'' Nrio cuidei que os reis constitucionaes carecessem 
de suissos de peniuis. Pode o uobre presidente do conse- 
lho despejar os cofres públicos para pajrar aos cavalleiros 
de injuria... Os aventureiros que hlazonam do protec- 
tores do «governo rc^viliinlo no despreso publico, donde 
pertender.im surdir.., 

Dizia o direito romíuio : Adori Incumbit oritis pro- 
bíindi. Olha tu, meu Fabricio, a jurisprudência d'esto 
causidico. São do governo os nituis artigos, P porque 
conheço algum dos ministros I 2" porque tenho garbo 
de os auxiliar (invenr.ao du orador) ! 3" i)orque os arti- 
gos sfio longos e esteirados (não pode ser erro typogra- 
phico, pois í.s7iraíZo.v seria redundância : logo .são com 
etfeíto, além de longos, esteirados" !-i" porque conversei 
com 2 cavalheiros, fazendo tremm ( não entendo, 
mas deve ser espirituoso, vislo que o Sr. Alencar diz quíí 
provocou hilaridade !J õ" porqucí me vio na camará 
(como poderá ter visto centenares de curiosos, tão vadios 
como eu) ! finalmente (>** poríjue eu parecia desafiar a 
opposição a ousar tocar no meu insulsí) avanzel (que 
nranzel é este ? em que é que eu lhe ])areci desafiar a 
ninguém? Vou para Minas, visitar a velha da ma- 
cuca.) 

K eisahi imí provas. Limpe as mãos á parede: são 
tão convincentes como as com que acaba de pejar us 
]>relos sobre um ponto juridico, em que, depois de de- 
j)ennado por Inibil antagonista, acaba também de ter no 
supremo Tribunal a consohiÇão de não acb;ir um só 
Voto que oi)inasse ter a sua doutrina o sim|»le.^ senso 
Cíunmum. Mas não antecipemos: a annlyse do jurispe- 
jito, hade vira seu tempo; por agora liniiteiíio nos 
a erguer as mãos ao céo ])or não s(ír juiz, cjuem ]íor 
taes chamadas provaa circujínstancites condínnna os mi.^e- 
ros que odeia. 

Quanto ao r.avuHeiro do injuria, e ao avcnlureirn. con- 
versaremos, depois de transcrever mais um treilio da 
audaciosa verrina; 

*' Mercê de Deos, não preciso da tribuna ])ara com- 
bater os meus adversários pe.rsoaes, nem consinto que 
S. ]'!x. ])roí'ai-i' ivhni\ar-me, jr.lgMUíb» qin? (mi ]).í«"Ii'ssi» 
ycr, nny. i\<r*\'iy,{yi-\ n que me r<*í*'rí, uni advi':.-'ri.). Nã ^ 



senhores, 03 meus adversários uilo sao d'aqnella ordem. 
O nobre presidente do conselho, que o tem posto a par 
íle si, abríndo-lhe o thesouro que outr'orase lhe fechou, 
o nobre presidente do conselho é que poderá conside- 
ral-o algum dia seu adversário, quando elle prestar a 
outro, e por i^^ual razão, o mesmo serviço que lhe está 
agora prestando. 

" E' meu costume combater os meus adversários de 
frente, e sinto coragem bastante p^ra dizer a verdade 
em face. Nunca recorri a pennas mercenárias para 
atirar a meus antagonistas o stygma que nfio tivesse 
a coragem de lançar em rosto ; nunca I „ 

Nao precisa de tribunal! Oh se precisa ! precisa até de 
tribuna, que seja inaccessivel a qualquer antagonista, 
porque só assim poderá alardear triumphos que deva a 
silêncios forçados. Pois pensava o Sr. José de Alencar 
que ousaria exprimir-se assim, se visse ante si com a pa- 
lavra o cidadão a quem julga insultar?! Não; as sums 
valentias sao as do verdugo, que açoita a victima alge- 
mada. E alardeia aquillo a sua coragem ! Com uma tiara 
de immunidades ! 

Qual combate de frente ? ! O seu combater é o da som- 
bra, que foge de quem o segue, c segue a quem se afastn. 
O Sr. Alencar bravateia onde a fortuna o coUocou fura 
de alcance. Tem três privilégios para injuriar sem 
respeita : 

!.• Tema galharda chibança de atacar no parLamenlo 
a quem nao pode ali retorquir-lhe ; e assim abuza da 
irresponsabilidade parlamentar, que só dovOra conser- 
var-se para as opiniões, e nunca para os convicios contra 
estranhos. 

2,* Tem o exclusivo de propagar os seus doestos, á 
custa dos cofres públicos, reproduzindo-se estes pela 
imprensa. 

3/ E como se tudo isto nao bastasse, accresce-lhe a 
exempção da resposta grammatical (que é pelo mesmo 
caso que se faz a pergunta), attento o inconstitucional 
contracto em que a camará dos deputados inhibe o 
prande orgam da publicidade de dar á luz escripto 
al^rum em que se responda livremente ao Sr. Alencar. 

Onde ninguém falle, brilha S. Ex. ; da imprensa 
livre, desadora; provoca e foge, e acha lá uns pretextos 
íucoraiJrehensiveis para explicar a seu guerrear de 
Partho, que dispara flexas fugindo. Se é, como diz, filho 



10 



da imprensa, para elle fez C. De la Vigne o verso cujo 
sentido é : 

Filho da imprensa, a tua mãi suffòcas ! 

Venhamos agora ao amnlureirOy indigno de ser adver- 
sário d'este senhor, que per tende converter-me em 
armazém de pancadas. Kaz-uie cócegas ao bico da penna 
uma resposta appropriada ; mas ha ura certo pudor que 
impede de descer demasiado, ou de sujar as mãos com 
punhados de lodo, ainda quando de lodo sejam as armas 
adversas. E' as.im mesmo com indizível repugnância 
(|ue me vejo forçado a redarguir a ti"lo insólito descome- 
dimento, (lizendo que por todo u qualquer lado que o 
Sr. José de Alencar se delicie no espectáculo das suas 
grandezas, o humilde roceiro que i^sto escreve (salvo no 
talento) está a par, ou muito acima de S. E\. Se eu 
quizesse desfiar-lhe isto. seria facillimo : mas ó terreno 
desagradável ; basta a tliese, cuja exactidão afianço, e 
passo adiante. 

Chama-me viercoiario^ a mim, que nem agora, ninu 
nunca em minha vida acceitei um ceitil como assala- 
riado, e isto me ó lançado em rosto por (juem tem sido 
assalariado, frequentemente, como te mostrarei. E sobre 
tantas proposições vergonhosas, mais uma se distingue, 
(|ue por si só basta para revehir quaes os principios do 
facundo orador. O Sr. Alencar cantou a ária de 1). Ba- 
7Ílio, do Barbeiro de Stvilha^ com os competentes piano 
piano^ rinforzando e crescendo. 

Se é calumnia a im])utaçrio falsa de actos culpáveis, 
armada pelo inventor; se Menaudro a define : ódio ser- 
vido pela mentira ; se Voltaire escreve : (Juand uno fois 
la valomnie est entrée dans Vesprit du méclíaní^ elle nen 
déloye pas ; se a calumnia é uma serpente alada, que ora 
se arrasta, ora voa; cumpriria aos homens collocados 
em certas posições ostensivas evitar que se lhes appli- 
qué a mais abjecta das denominações. 

Lè-se no discurso impresso do Sr. Alencar a seguinte 
plirase, (jue elle não proferira na camará (pois este 
discurso foi penteado e brunido no gabinete), que 
'' o Sr, presiílcnte do conselho me csíd abrindo o ihesonro^ 
que OMÍ7*'o?ví se me fechou.^' 

Isto sHo fados \ e que nome merece quem os tiver ex- 
cogitado ? E' claro que o Sr. Alencar nao entende por 
estas palavras qualquer recepção, tao legitima como a 



IJ 



dos honorários de deputado, que S. Ex. recehe do the- 
souro ; entende insinuar, ou delatar que outr ora se 
fechou o thesonro a assaltos meus, e que ag^ora estou 
dispondo d'elle, recebendo somnias indevidas. 

Declaro-lhe eu que são duas proposições, qual a qual 
mais falsa. Dig'o ra.ais: nunca recebi para mim um real 
do thesouro ; nunca recebi para terceiro um real, que 
nao fosse proveniente de leis ou sentenças ; e ha muitos 
annos que de novo nao tenho recebido um real do the- 
souro, sfíja porque titulo for. 

Agora accrescento o sejruinte : tiro o Sr. Alencar a 
terreiro; nao é capaz de despir a sua immnniílado parla- 
mentar, e vir á imprensa repetir aquella phrase ( a nfio 
st;r com evasivas jesaiticas), pondo o meu nome por 
extenso, e subjeitnndo-st» á responsabilidade que a hn 
applica â calumnia, pois protesto que lh'a faria impor. 
Nílf) SC metterá a bordo doesse chaveco ; macaco velho 
não trepa em ramo secco ; é mais seguro escudar-se com 
o seu poder pessoal. 



Snpponho, Fabricio meu, que me dás razão, ven- 
<lo nin mudar o estylo respeitoso para com quem in^rra- 
taraente m'o desoonheneu, qualiíicando-me torpemente 
de aventureiro, morcenario, indiii^no de s^r adversarií), 
e. ravalleivo da injiu^ía. E dize me cá : se te dessem a es- 
rnlher, que preferirias tu ser : cnvalleiro da injuria, ou 
p^hirro da r^alumnia ? 

Ainda não levanto mão do assumpto, m.-is basta de 
dar á lin.írua por hoje. 

Estas cousas de dinheiro sHo curiosas na bocca de 
fctos prototypo.s.... de cousas e lousas. 

Ha por hi muito qu<^m a esse idolo sacrifique todos os 
pensamentos, e entno. nos outros os dedos llie pareeem 
hospedes : e todavia 6 para esses taes que os velhos di- 
zem : quem quizer que o l)areo corra, de-lhe cebo nos 
paraes. 

Teu capellão obrig-ado 

Uiucitittato. 



DfJ Pfirnambiico recebemos o scírninln notavrl artigo, que, por suas 
dimonsões, encurlíiinos, mas que subsequentemente conUnuavemos a 
pubUcíir. 



12 



I>ol8 discursos do Oonsollielro [Joaó de AJLenoar 

lia homens, que nascem, vivem e morrem convenci- 
dos de que o mundo ó a albergaria liumilile o servil d(í 
seu palácio de mármores, e que u sociedade é uma 
caterva de pobres de espirito, cujo único destino é bater 
palmas em honra sua, e tripudiar no eterno festejo das 
suas glorias triumphaes. 

Esses homens sao mais felizes do que todos os outros; 
porque nflo conhecem os penosos esforços das abnega • 
rOes bemfazejas ; nflo conhecem os desgostos e os peza- 
r(?s das almas modestas, que nunca vêem completadas 
as suas ambições de fazer bem ; níio conhecera a dolo- 
rosa alHicçfío daquelles, que, reputando jjoucos todos os 
seus sacriticios em bem da humanidade, soffrem pela 
impotência dos seus muitos e continuos esforços; e mio 
sentem em si a fraqueza, que é partilha da es])ccie 
humana 

Esses homens nflo padecem nuncn pelos males alheios, 
nem sao capazes de remorsos. A sua pessoa enche todo 
o ambiente, em que vivem. Fazendo de si o seu próprio 
Ídolo, extasiam-se na mais enlevada contemplação das 
suas incomparáveis bondades : bastam-se a si mesmos 
para a sua completa felicidade. 

O conselheiro José de Alencar foi premiado ])ela na- 
tureza com o dom dessa felicidade. PMle, e o que é seu, 
sao o tudo que conhece snh teffmine avlovum. O demais 
precisa de receber a lei da sua dictíulnra. 

E' esse o seu caraeter como litterato. E iS por esse 
caracter, que se modela e ostenta o politico e parlamen- 
tar, face mais protuberante do seu typo. 

O homem, que se impõe pelo orgulho e pela inque 
brantavel ostentação de uma superioridade tolerada 
por todos e nfto atacada por ninguém, faz uma tradiçílo 
pessoal e um direito de ser por fim cegamente acatado 
em todas as velleidades. Nao o atacarflo depois impu- 
nemente: porque seguro do seu prestigio, elle rir-se-ha 
dos temerários, e imporá sempre a lei da sua vaidade. 

Pelasegurissima e inabalável convicção da sua imcy- 
clopedica sufficiencia o Sr. Jostl de Alencar chegou a 
fazer parte do ministério de 10 de Julho, e elegeu-se 
deputado á assembléa geral. 

]?or essa crescente e exorbitante convicção de 2S. Ex, 



li 



devera ser pleno jure eleito e encolhido senador deste 
império. 

Fatalidade I Foi eleito, mas nao foi escolhido. Isto è, 
foi bruscamente precipitado da sua montanha no valle 
chatis.simo das vulgaridades mundanas I 

Fazer crerão mundo que um fanático adora um idolo 
falso, e tentar a couscienfia do próprio fanático, 6 para 
elle uma cousa, tilo horrivelmente absurda, que ello a 
repellirá com todos os excessos e furores de uma ira 
voraz e descommunal. Ai daquelle que ousar tamanha 
oifensa, porque esse a pagará car'j, será puniil) até. á 
sétima geração. E si fôr mister matar todos os nascitu- 
ros para que nao escape a victinia destinada a applacar 
as iras desse fanático offendido ; si fòr preciso desonra- 
beçar um povo; incitai- o á guerra, ao incêndio, á d»»s- 
truição; si fôr mister a conílagraçãi) de um imperiu; nao 
liaja duvida, tudo isso será feito para lavar a aíTronta 
daquella consciência injuriada, i)ara elevar arinia do 
todas as verdades — que e^^^e hí)nieni *!• excepcional, in- 
<*umparavel, superior a todas as elevaçOt;.; sjciaes, o 
t^nantnin satis para todas as possiveis felicidades da na- 
rau, que teve a honra de o ver nascer. 

O í^r. D. Pedro II será afinal convencido de que com- 
irietteu um erro palmar, deixando de escollier si/nador 
du seu imj)orio o totutn cotitineiis da no-ísa grandeza 
so'*ial e politica. 

Pagará caro, muito caro o simi erri. 

E' esta toda, iiitiura. a irraiidií)sji po!ili<'a do illustrado 
M insigne conselheiro José de Alencar. 

Os dois notáveis discursos, qne tem proferido est<* 
anno como opposicionista, d«^*5en]iani-no mais ao vivo 
do fjue o poderiamos lazer por nós s'Mnent'\ 

O primeiro desses discursos tfvi». por fim estvginalisar 
a viagem do i:n])erador á Iíui'opa c a menção da questão 
servil na falia do thr«)no. Em um governo tfio briltuii- 
ramente parlumfntar^ como querem «jue s-íjii o nosso, — 
nem uma falta i)ód<í fazer o imperador, ausentando-se, 
desde que o s-^u logar de mera honra continua a s^r (jc- 
cupado. Para o próprio Sr. Jí>sí'* dí> Ahíucar. C{}ino para 
toíl»)S o.> nossos ''stadista.s hritnaif'n\\ nãn soifre duvidas 
esta verdade. K Uí^sle pjnto estão dií accordo comuí).'!'*». 
cora a ditF'.M'tMu;a de »jU(í não ar.iMjitamos esse lo'jar de 
mera lionra^ armação de phanUi.sias, fii^rão de ourop«;is, 
negaça de mentiras sabidas. 



14 



A questílo servil, por seu lado, em vez de ser os.sa 
calamidade tremenda, em que a converteram aphan- 
tasia e a declamação dos traidores da pátria, é a ques- 
tílo vital da honra nacional, do direito so]>erano da li- 
berdade, da pfrandiosa aspiração da humanidade atra vez 
de séculos de lucta. 

A sua inclusão na falia do throno, se nílo devia dar 
occasiao aos últimos e fulminantes desaffopfos de uma 
indifíMiaçno lonpramente suffocada, deveria pr()V')car o 
perdão final do todas as almas em f -ivor dos traficante-^ 
o dos govíTuos que os teem proteg-ido, porque cm fim 
declaram que é tempo de fnzer alg*uma cousa. 

A questno da emancipação dos escravos, nílo encon- 
trando Já, antes do minist-.rio de 7 de Março, outra oj)- 
posição que nfio fosse o líartido conservador; e sendi) 
tíste partido quem ajorora se resolvera a dirií^ir o log-i- 
timo e irresistivel movimento nacional. desapjKiroci i a 
única possibilidade de alteração da paz c da ordem pu- 
blica. 

Portanto, inadmissível, como é, a intewençJlo pessoal 
do imperador na soluçilo dessa como na de todas as 
questões sociaes, a sua viaprem d(íV(>ra ser fa<*to de todo 
secundário, sem a menor importância ]>ara um povo tflo 
seriamente possuido dasconve niencias de uma paz a 
todo o transe, pelas quaes tem chep^ado a comjirometter 
osnolíres estimulos de lepritimas reacções. 

^las nflo ! Acabar com a escravidílo, de qualquer 
modo que seja, é para o -Sr. José de Alencar uma. catas- 
trophe horrorosa. S. K\'. e\a<rera os seus horrores para 
insinuar que o imperador sahia do seu império por 
medo dos peri/íos imminente- ? 

A existência da espravidílo é para o elevado orador 
uma f(dicidade, porque lhe offorece dupla oeeasino de 
brilhar c Ae, vingar-sp, K foi por isso que denunciou á 
naçílo que o imperador ateara o facho das desordens e 
das calamidades publicas, e fuíria ao periíro (pie attra- 
hira sobre os brasileiros. 

Pedio a palavra o Sr. conselheiro José de Alencar, o 
auctor do drama intitulado Mui, que íiuer acliar na 
conservaçílo do estado servil uma frlorií* politiea qu(í 
sobre])UÍe á prloria littpraria do dramaturpro. 

Os liomens. ípn^. nos bons t^^mpos íloresc(>utes do Diá- 
rio '{n fí'^ '^ )nheceram em S. ]í\, aíjuelle n»publica- 



15 



uismo, que mal podia inascarar-se com apjiareiícias de 
mera liberdade, — embora a sua transformação politica, 
pensaram que .S. Ex. se deixasse arrebatar um momento 
pelus impelos sopeados dos seus antig'os anhelos demo- 
cráticos, e esperaram o instante de admirar os deslum- 
brantes lampejos da mais inspirada eloquência. 

O discurso do Sr. conselheiro José de Alencar foi o 
aborto de uma grande inspiração, mas o parto com- 
pleto e feliz de uuia aberração formidável. 

Quem quer conhecer em que condição elevada foi 
coUocada a questão politica que fez objecto do discurso, 
descobre somente, é triste dizel-o, a fatuidade e o des- 
abafo de concentrados rancores. 

<fc>uem quer conhecer qual o principio politico, qual o 
valioso interesse social, que pode fazer a syntliese dessa 
peça (>ratoria, j)erde-ífe no balsuiro das venenosas iro- 
nias, das allusoes ag-gressivas, das malifrnidades des- 
peitosas, (las insinuações descortozes, das jactâncias 
jíueris, das atfeclações de umaeneryia, que poreja baixa 
lisonja. 

O que apparece em todo o discurso é a saliência os- 
ten.siva da sua entidade social, é a importância politica 
..lo seu vulto de estadista, impondo-se pela própria exu- 
berância do valor pessoal. 

O orador u?lo teve outro propósito sen?lo desenhar o 
;-eu retratj em ^*'rande, e ainda par ilussus h murche 
jii*»ldural-o ricamente. 

lia no seu discurso uma palpitante exploração dos 
tlesgrostos, das contrariedades, dasoftensas, das dolorosas 
reminiscências de um povo, que tem experimentado op- 
pre.ssOes. S. Exa. apanhou todos esses elementos de 
reacção, e pol-os ao serviço de seu orgulho descommunal. 

Foi despertando-os todos que tentou ganhar adhesões 
para si- e applausos para o seu discurso. 

E com effeito, se a camará lhe negou esses applausos, 
a clafjíie litteraria que conquistou os redactores da Ite- 
forma^ e que se vai tornando em cltKjue politica, tem-lhe 
fiivoneado as vaidades , e correspondido ao seu maligno 
expediente. 

Sbl mais diíficil collisão entre os reclamos da honesti- 
dade e das conveniências parlamentares por um lado, e 
jior outro os pequeninos, mas exigentes impulsos do seu 
de^jpeito e egoismo, o Conselheiro José de Alencar çre- 



16 



cisou de empregar todo o esforço dos seus recursos 
oratórios para cohonestar a attitude esquerda que 
tomara. 

Precisou, mais de uma vez, de queimar iucensos ao 
Ídolo imperial que já uão veuéra, para melhor veucer a 
confiança de muitos, e fazer crer na sua rectidão. 

Para seduzir a mais alguns, — mostra-se apprehensivo 
pela falta immensa c irreparável, que sentirá o governo 
com a ausência das luzes^ da experiência e do patriotismo 
do imperador, que aliás é, eserá ainda alguns annos ou 
mezes, accusado, por dd cd aquclla palha, de ostentar 
governo pessoal. 

Queimou o orador esse incenso por que teve necessi- 
dade de insinuar que era falso o motivo allegado 
da viagem,— moléstia da imperatriz — ; visto que de 
longa data projectada, essa viagem "estava reservada 
para o condão magico do nobre presidente do conselho, 
depois de a não poderem obter os Srs. Marquez de Olinda 
e Visconde de Itaborahy. 1' De modo que, fosse embora 
verdadeira a moléstia, o motivo da viagem era mentiroso. 

Queimou o orador esse incenso, porque lhe era neces- 
sário dizer: "Senhores, quem n?lo conhecesse o Sr. D. 
Pedro II, e não soubesse das provas de civismo, que elle 
tem dado em trintas occasioes, diria que esta viagem 
precipitada ora.... inspirada pelas círct*?n.çíancía5 gravei?, 
em que se acha o paiz. ■' 

Longa e qualificada foi a premeditaçao de fugir aos 
perigos daquestílo servil, seja o Marquez de Olinda fura 
procurado para obter autorisaçfio para a viagem I 

Esta nobre insinuação caracterisa o orador e o seu dis- 
curso I 

Mas em que consistem essas graves circufnstdnciàs, de 
que falia o orador? 

Para aquelles, a quem o egoismo e o calculo ainda 
nao tiraram o bom senso, essas circumstancias consistem 
só e unicamente na agitação dos especuladores, na grita 
insensata dos descontentes, na opposiçao contra todas 
as grandes reformas, por que isso é o que estimula a in- 
dignação e o desabafo , e pôde atear outras causas 
latentes de reacção, inais elevadas e inais dignas. 



[Continua) 



Typographia — americana — Rua dos Ourives n. 19. 



QUESTÕES DO DIA 

RIO 1)B JAÍÍBtBO, 8 DE SETEMBRO DE 1871. 



Vcade-se eoi caaa iIo Srs. E. & II. Laemniert— Prni;u da ConsUtaíH 
t«ia do CoDio— RufL da S. João u. 110— Livmria Académica, t 
Qtulíiilin nu mesuiti rua n, 75. Pkço â» réis. 



BU n trlbii ae I.CV1 do parti 



1 coasorvador 1 



Temo» asâistiilo u um espectáculo contristador, qaaP 
nqiieilã âi U^m datlu a miaoria da camará temporária 
em sua» falsa.>4 e apaixonadas apreciações da fQÍ}Xv:,i). ú.a 
cprOu / fazeado assim cíJro com os mais exaltados escr íp- 
turea adversos à ordem coastitucioual da monarcUia ri 
presentativa. 1 

Nunca tal fora visto no seio do parlamento, n ^ 
tD6sniú iiuK tempos, em que alli estiveram em opposiç&o 
otf liburauii mais exaltados. Nilo: alli nuuca se investio 
tSa de frente coutra a pessoa dfi chefe do Estado ; nunca 
au eoiinciaram proposições tao subversivas. 

Estava isso reservado para uma minoria que \ 
tunda ropreseotar aa genuínas idéas do partido conai 
rador I \ 

S«)iida da situação inaugurada pelo ministério de 16 
de JuUio, a camará actual nao devia collocar-se em an- 
lifODÍflino cem os bons princípios de governo. E nno se 
eollocou, como o attesta a illustrada e patriótica maio- 
ria, (inc.ãrmts e corajosa, apoiou o ministério na grandu 
lueta. em que até hoje tem vencido; mas desgraçada- 
mente ficam os precedentes deploravei«, plantados pela 
minoria, mijos chefes tenlo com o seu comnortamcnto 
D» sesíflu desto anno a parto mais vnlueravel, e sempre 
fraca do sua vida política, para poderem no futuro, a* 
forem governo, arcar contra os excessos das mínolf 
ijae os combaterem. 

NAo attetidoram siuflo a falsos interesses do occanifl 
nXtí escutaram sinfto os impulsos de sentimentos n _ 
tospiradoã ; quebraram os elos preciosos de unidade do 



2 IV 

partido conservador ; e excitaram na imprensa a mais 
solta, a mais desrespeitosa linguagem contra o chefe da 
nação, contra as sabias instituições politicas da nossa 
forma de governo ; e deram aos contrários o mais des- 
graçado exemplo da desorganisaç&o de um partido, 
que, em seus verdadeiros recursos, possue os melhores 
elementos de forca. 

E o que foi que accendeu tamanhas iras, e levantou 
t&o medonha tempestade, que desprendeu os raios de 
indignaç&o da minoria ? 

Foi, dixem elles, a questão do elemento servil, pomo 
de discórdia, desafio do poder contra os interesses da 
nação : foi o governo pessoal, que vicia a marcha dos ne- 
gócios do Estado. 

E quem é que o diz ! quem é que apoia semelhantes 
proposições? 

Sao alguns ex-ministros da coroa, e ex-presidentes de 
provincia, que o foram na situação creada pelo 16 de 
Julho I 

Foram elles, ha pouco instrumentos desse poder, 
como membros primários do executivo, ou delegados 
deste na plana immediata da jerarchia administrativa, 
que agora vieram denunciar-se como subservientes, e 
executores do poder pessoal! 

Mas nada mais devia admirar-nos desde que vimos 
que um que tivera acção tao livre no governo, que po- 
derá mandar trancar na sua secretaria todo o trabalho 
que existia referente ao elemento servil, e praticara 
sem embaraço todos os actos administrativos, emquanto 
preparava o ninho, em que esperava agazalhar-se, aguar- 
dando depois fora do ministério a coroação dos seus 
cálculos; só reconhecera ò monstro governo pessoal^ 
quando, na solução final, vira cahirem esses cálculos 
por um dos mais sábios actos de moralidade politica da 
coroa. 

Sábio, sim, foi sem duvida o acto, que não deu ganho 
de causa ás pretenções de um individuo, que como mi- 
nistro improvisou uma candidatura que não podéra 
tentar antes e, não obstantes todas as considerações que 
o arredavam de tal pretenção, se obstinou a sustental-a 
como se fora direito perfeito, que a passagem pelo po- 
der lhe houvesse feito adquirir. 

Foi esse o grande, o imperdoável crime da coroa; 
d^ahi a origem dessa mania, que se tornou como um 
spectro, que acompanha o individuo despeitado por toda 



IV 3 

A parte, n lhe iiinitio no animo o propósito de erigir em 
[wHlica de partido os spntimentos ile ódio nascidos de 
SUB iocommensiiravpl vnidade 

Mas o Sr. José de Alencar nao fora preterido por no- 
mes obscuros, sem importância: qualquer dos dois es- 
colhidos é homem pncanecido no serviço publico, é 
homem de reconhecido merecimento, e tinha jà sido 
incluído era lista senatorial. 

Varfles eminentes esiatera hoje no senado, ijue plis- 
saram por mais de iimn eleiçílo, vendo outros escolhidas, 
«em que Í4so lhes aguçasse ns iras contra a mesma 
coríl». Reconheceram que na escolha estava ella perfei- 
tamente no seu direito coustitucional ; e nao havia of- 
feofa de direitos, quando de uma lista tríplice s6 pôde 
liahír um de cada vez. e nii opportunidade da escollia 
do qne é desig^nado sii a corfla é o juiz comi)etente. 

Voltando, porém, ao nosso ponto, ao que serve de nexo 
Às nossas observações sobre o comportamento da mino- 
ria da camsra, devemos tornar bem saliente que a nossa 
reitsnra nSo é parque o governo nSo tivesse a unanimi- 
dade dos votos da camará na questão do elemento servil ; 
mas nn modo, jiorqne, em sun oppo3Íç&o, se conduzio 
a minoria, tanto na eamam como na imprensa, attri- 
buíiido a motivos menos honrosos o apoio dado á pro- 
posta du governo, e excedendo-se no emprej^-o dos meios 
de opposíçfto, de modo altamente condemnavol. 

A abflliçan da escravidão no Brasil nao é um acto 
irop*8tíi pela vontade caprichosa de Cesfir ; nao è uma 
imposição da coroa; e nao pôde ser traduzida 'X-mo 
£ub%rv'iencia A vontade irresponsável, porque, em si, 
a questílfl nasceu da marcha dos acontecimentos; é 
como o fructo amadurecido na arvore, que deve ser co- 
lllido «m tempo para que se nao deteriore. 

E" um tentame insensato o daquelles, que entendem 
que podem fszer parar o carro de nm acontecimento que 
e determinado por causas fataes. 

Quando a locomotiva sibila, desprendendo a carreira, 
Dfto conhece resistência : esmagará os obstáculos que se 
llie anteposerem : e só cumpre dirigila pelos meios con- 
venientes para que nan saia do trilho, até ir precipitar-se 
Ho abismo. 

A questão do elemento servil traz hoje o impulso da 
locomotiva que Ibe (', própria, a força dos verdadeiros, 
dos primários interesses de ordem económica e social, 
qae a impellom para sua prompta solução. 



IV 

Foi isto o que nSo quiz reconhecer a minoria da ca- 
mará; é a isto que n&n quer attenâer a obt^tinação de 
certos interesses que actuam dentro o fora do parlamento, 
que pretendem desviar do seu verdadeiro ponto de queda 
a torrente que engrossou, e que mais suberba crescerá 
com a repressão das comportas que imaginam ante- 
por-lhe, a tal ponto que, si nflo se Ibe acudir a tempo, 
quebrará todos os embaraços que encontrar, e se despe- 
nhará, da montanha com horrível fragor em medonhas 
catadupas. 

Pensam que a oratória apaixonada da tribuna parla- 
mentar, que enfáticos, e faltazes artigos de jornal, e 
planos calculados para o fim de retardarem um aconte- 
cimento inevitável, sao meios regulares conducentes ao 
retardamento da extinccSo do captíveiro 7 

Em seu plano, aopposiçSo procura amontoar trabalhos 
e embaraços ao governo para fazel-o recuar em sua mar- 
cha. E' assim que tem procurado, mas muito sem geito, 
promover o descontentamento da classe militar, na qua! 
vê um auxiliar poderoso contra o governo. Erro grave I 
cujas consequências, si o plano surtisse effeito, seriam 
bem perigosas para o paiz. 

Mas porque só hoje se pretende agitar esta arma do 
opposiçao, só boje se manifesta esse interesse por um» 
classe, sem duvida, muíto merecedora das attençces do 
governo ? 

Ha nisto summa deslealdade, e grande desacerto no 
modo de defender os interesse.^^ públicos. Esse meio de 
opposiçao é como uma espada de dous gumes, que, si 
fere o adversário, também fero a quem com tao grande 
má fé e imprudência a maneja, 

A situação é grave, como bera reconhecemos ; a socie- 
dade exige grandes remédios administrativos , mas eites 
nfio podem sair a lume com as excitações e os estorvos 
oppostos por uma minoria era opposiçao systematica. 

Uma dns grandes necessidades reclamadas é a 
colouisaçao que, na ordem económica, é a primeira 
quest&o. depois da do elemento servil, si é que com ella 
nAo marcha pari passu ; mas como poderá ser satisfeita 
essa necessidade, sem que seja traduzida em lei a aboli- 
ção do elemento servil de um modo eíficaz T 

E' desenganar, porque as tentativas iofructiferas até 
hoje feitas ahí estão para attestar o facto : com a escra- 
vidão, acolonisaçao jamais será entre ods uma realidade; 



IV 5 

todos 05 esforços serão como a onda que vai queorar-se 
sobre o rochedo. 

Na ordem administrativa,ha outras questiles de grande 
alcance, cuja solução conveniente nao pôde ser dada 
sem que a proposta sobre o elemento servil, j& felizmente 
approvada pela camará dos deputados, seja convertida 
em lei com a necessária approvaçao do senado. 

A reforma judiciaria, hoje lei, em cuja discussão o 
illustre ministro da justiça appareceu em toda a altura 
de seu assignalado talento, e nunca desmentido patrio- 
tismo, com sacrifício de sua enfraquecida saúde, é, certa- 
mente, um grande benefício conseguido ; mas as medi- 
das de governo nao podem isolar-se, prendem-se por um 
encadeamento necessário como elos administrativos 

A reforma judiciaria, é força reconhecel-o, para pro- 
duzir os seus salutares effeitos está na dependência do 
melhoramento das condições do estado civil do povo, 
melhoramento que não poderá operar se, sinão com 
a extincção da escravidão ; mas desde já começarão a 
sentir-se, em parte, esses effeitos, ató onde (\ possivel 
chegar a sua influencia na actualidade, muito embora 
um grupo de praguentos condemne tudo que parto do 
actual ministério. 

O paiz não deve estar subordinado sempre a certas in- 
fluencias estacionarias : seria um impossível, e, se pos- 
sivel fosse, seria grande calamidade. 

Não ha hoje em dia Josués, que possam fazer parar o 
sol em sua carreira : a missão divina da rodempção do 
írenero humano já foi consummada pelo maior dossacri- 
fícios; os milagreít já não são necessários para guiar a 
familia humana. Entre nós ninguém terá força para 
proferir o sisíe na marcha regular dos acontecimentos, 
que vem, por que irremissivelmente hão de vir. 



rutittiò. 



IV 



SÉTIMA CARTA 



DO ROCEIRO CINCINNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 



Rio de Janeiro, 5 de Setembro de 1871. 

Fabrício querido. — Dou as mãos â palmatória; tenho 
gazeado ; passei uns dias em Petrópolis, que numsa me 
agrada tanto, como quando parece deserto ; e eis-me de 
volta, proseguindo na tarefa que me impuzeste. 

Consagrei as duas missivas ultimas a conversar com- 
tigo sobre a famosa interpellaçao do dia 5 do passado, e 
devia naturalmente seguir-se agora uma interpellaçao 
minha ao interpellante, com as provas documentaas de 
ser sobre elle que recahem as accusações de assalariado 
e mercenário, e outras gentilezas com que pretendeu 
acabrunhar-me ; porém como na tua ultima carta me 
ponderas que estou gastando demasiada cera com bom 
defunto^ e que preferes ouvir-me divagar sobre a ques- 
tão magna do dia, obedeço ; guardo para um pouquito 
mais tarde a continuação do ajuste de contas pessoal, e 
volto ao apimentado discurso que o Sr. José de Alencar 
proferio sobre o elemento servil, analyse interrompida 
pela tal interpellaç&o, de eternas luminárias. Venha 
portanto para a frente o thema das minhas variações. 

V. — As CONTRADICCÕKS 

Fulminou o Sr. Alencar o projecto do governo e o pa- 
recer da commiss&o especial da camará dos deputados, 
por ejstabelecerem principios contradictorios, inconci- 
liáveis ; e exprimio-se com a brandura e delicadeza, que 
estão em seus modestos hábitos. Ora deixa me transcre- 
ver-te o principal desses trechos. 

" A argumentação é um calculo egoístico, uma 

transacção politica ; é o pacto da religifto com a iniqui- 
dade.... Desde que no parlamento se declara que uma 
instituição é barbara, iniqua e torpe, consentir que ella 
continue a contaminar o paiz é um crime de lesa-naçfto 
e de lesa-humanidade " (Esta mesma idéa é esparra- 
Ihada por dez formas diversas) **.... Estas contradicções 
tem uma causa ; n&o ha na illustrada maioria uma opi- 
nião, o que ha sao aspirações divergentes, heteroge- 
aeas ; falta o nexo para as consolidar em uma só convic- 



IV 

çSo, em uma sií i<]éa; por isso cada trecho do parecer 
revela UBui duvida, uma iudeci-sao, uma incoberencia" 
etc., ele. 

Desataviada das pumpas, iiligranas e espertezas ora- 
tórias, coadeiisa~se e fortifíca-se esta accu^ação feita ao 
projecto u aos fundamentos eiQ que se estriba, no se- 
fruinte dilomma descarnado:— "tíe a escravidão repre- 
âenta direitos rasneitaveís, como dizeis; porque a r^Lio- 
reÍK abolir? Se ella é contraria aos princípios da reli- 
g-íao, da moral, do ioteresíie publico, como também 
dizeis; porque a conservais ? Sois contradictorios ! " 

Se isto fosse conlradicção, poderíamos, com Joubert, 
exclamar: "Pôde por erro cair-se em contradicçao ; 
maâ se é pela Verdade que nella se cae, es^a contrudic 
çfto é veneranda, (t alors il faut ti'yjeUer à corps perdu." 
Mas com qutj fundamento ae chama a isto coiitradic- 
Ç&o? Como úqua um Roas i em miniatura applica a se- 
ttielhaale b yputbese a duvida Haniletiaiia do «er ou nuo 
sert O que 03 philosophos denominavam o principio do 
contFadic^Tfto.fonnulava-se assim : t" impossível que uma 
couêa, aomeamo icmpo, «eja e não xeja. lufelizmento a 
pliilosopliia e a religifto nao atto as únicas legisladoras 
do inuodu. Servt;ui, sim, para, com «eus fachos lumi- 
nujios, ir aperfeiçoando as instituições; porém as leis 
do houiera uão tem a .labedoria e immutabilidade das 
luís dú Creador, Desde o principio d-i eterno Fiat, achou 
o Legislador Supremo que tudo e'4tava bom ; mas o le- 
gislador bumatio, desde a origem das sociedades que 
anda apalpando, lidando ua sua teia de Penélope, pro- 
clnuiaudo hoje mentira o que hontem fiira, o que amn- 
aUa tornará, a ser, verdade. E, eis como em matéria de 
leis, nunca o melhoramento deverá ser alcunhado de 
contradicçao, iiem tao pouco o serii quando considera- 
oACu dn alto momento forçarem a coutemporisar, ainda 
I»r algum praso, até que respeitáveis interesses sejam 
atlenilidoti. 

O progresso é a magna charta das sociedades: nflo o 
prog-reiíso da faísca, para log-o convertida em labareda ; 
u&o o do rocio instantaneamente transformado em 
iaunilaçao. Progresso real, fecundo, civilisador, 6 o me- 
ditado e gradual , o que avança, dando tempo para 
Unçar ollios em torno, e nao aquelle que vôa ãs cíga^, 
quer saltar ao alto da escada sem lhe subir us degraus, 
qnar chegar ante:« de partir, tfe em terras como as aosiías 
ua diOerença entre um liberal e um conservador, a diffe- 



8 tV 

rença é só eeta : aspiram ambos approximadameDte à 
mesma cousa, mas aquello com impaciência, soffre- 
guid&o, e colhendo o fructo verde; este comsocego, fir- 
meza, e exigindo ao fructo que amadureça. 

Eií alii porque o projecto entende dever pôr termo á 
instituiçso do captiveiro, mas entende também que esse 
desiderwidum deve respeitar direitos adquiridos A sombra 
da lei ; se ha conlradicção, toda ella está no amag:o da 
própria questão. Os que exageram os direitos oriundos 
dessa tíío peculiar propriedade, acham se no campo que 
os jurisconsultos UeSnem pra Icfie contra jurem; os que 
só admittem o extrorao da emancipação immodiata, tio 
campo pra jure contra íeye/». Naa circumatancias espe- 
ciaea do Brasil, ambos esses oxtremos sao viciosos. 

O direito eterno, o natural, o direito por excellencia, 
que dúvida ha de que repelle a instituição? Que dúvida 
ua de que o termo propriedade é mal applicado é relaçílo 
entre o senhoreo escravo, no anno de graça de 1871 * 

Propriedade I Compra e vendai A primeira, a uuica 
legitima condiçfto do commercio é recair sobre objecto 
vmial ; venal nfto é a alma nem o corpo de um ente hu- 
mano. Toda a propriedade se atfere por um padrão, a 
preço de dinlieiro; estranha cousa é pòr-se a proprie- 
dade-homem , como o carneiro ou o jumento . em 
almoeda, aos lanços. 

E como se hnde exigir que o mísero coUocado nessas 
condições, alifts embrutecido (porque o embrutecimento 
di raça é uma das condições do seu estado], se dedique 
fervorosamente ao bem da sociedade, fi que uflo per- 
tence ? Elle nos respondeni : 

" Deus? Descreio; porque me illude, proclamando- 
me vosso egual, e eu sou vosso captivo. 

" Patbia T Descreio; porque ndo sou nem serei nunca 
cidadKo, e porque ú disposição delia nso me é dado piír 
ss minhas faculdades. 

'■ Fauilia? Descreio; porqna v(5s me ensinais a des- 
prezar 08 laços que 8Ó unem a vossa; me difBcuUais 
o formal>a legitima; e, depois de consUtuida, nau a 
rodeais das mesmaa seguranças. 

'■ Ec ? Irrisfio ! Que sou eu t Alma penada, se é que 
sou alma; Saturno, que devoro os filhos; ignóbil 
creatura, para quem o espirito nao foi dom, mas con- 
demnnçUo; inhibido de respirar a atmosphera que me 
circumda; considerado suspeito, inferior, inimigo; con- 
demuado a trabalho insuuo, cujo fructo aproveita a 



IV j) 

outros: no passado, vileza: no presente, miséria: futuro 
>eni esperança. Estou sirnplesmenttí euclieudo altura na 
terra, onde nem vestígios ficarão da minha passag-em, 
porque Oá nao podem deixar o suor nem as lag-rvmas. *' 

Ponjue se não liade dizer isto, se istí> 6 a verdade? K 
;i tantos horrores, vemhnje nesta terra outra curiosa des- 
i>rualdade auírmentar o seu cortejo de al)ominaçr)es. 
Fallo da anomalia, dacontradiccão, da injustiça máxima 
<Ie collocarmos em posiçflo interior af|uelle que ao.-; 
nossos olhos deveria ocoupar posição d(? superioridade ! 
Acham-se dons homens em absoluta identidailo do cir- 
cumstancias: chamamos ambos, escravos; mas, se um 
chejrar ahi, estrangpeiro, trazido de lonj»'es terras, sem 
liíraçao alg"uma com esta; se o outro for creoulo, com- 
patriota, nascido na mesma terra ([xw o.< outros bra- 
sileiros, que succederá? para aqutdlí», aliás com razão, 
mas em condições inferiores, a liberdade immediata ; 
para este, conterrâneo, o perpetuo captiveiro! 

Tudo isto é de evidencia meridiana : não se offusque 
o sol, cobrindo-o com uma peneira ; não se zombe de 
considerações d'estama«^-nitude ; não .^e exija, para foro« 
de estadista, cortar a cabeça, arrancar o coração, pctri- 
lical-o, ou converíel-o n'umasimpl(ís bola d^ouro. (Isque 
applaudom (» ])rojecto, é por verem noUe a aurora do 
ília em que o vocábulo escravo d«»sapp}irecorá do nosso, 
•'omo de todos nn idiomas. 

Mas se o christão, o iiliilosoidio, o ])atriota, o homem 
:i. cabeça e coração, reflexiona assim, sur/jre opoliticu, e 
::.ipõe-lhe outro íhiver que se não coaduna com aquelle. 

Pondera o politico — que atraz dessa nobre (juestão 
iia outra, que embora de menos momento, uuTece res- 
jjeito : — qui» a lei civil estabeleceu a instituição ; — que 
dfí conformidade com essa lei, e sob a salvaj^uarda 
d'ella existem valiosos interesses : — (jue estes se 
acham ainda vinculados com a actual orjranisação 
do trabalho: — que a sociedade peri^Mria com o liber- 
tamento instantâneo de todos os cai)tivos ; — que é 
axioma o jure ííuo iwnio i}rivandus : — cpn^ sem indem- 
nisacão dos serviços, a alforria ^'•oral seria uma extorcão: 
— que para a decretar com indemnisacão, seria ao Estado 
imj»ossivel achar recursos ; — que cons(í^^uintemente 
<» direito deve ceder um tanto á pressão pcditica, porque 
também aqui o sunumun jus seria a sinmna Injuria: e 
Tionjue teríamos então direito contra direito, violência 
contra violência, desordem, anarchia. 



10 IV 

Kis-ahi pois o que inexactamente denominam contra- 
dicçflo : as considerações da primeira ordem levariam á 
abolição immediata do captiveiro, as da segunda ordem 
mostram-na impraticável ; Ahi, ahi é que estão os inte- 
resses oppostos, que constrangem o legislador a fugir a 
qualquer dos dons extremos, a adoptar um meio termo, 
uma composição, que por um lado afiance aquella ex- 
tincçao num prazo mais ou menos curto, por outro per- 
mitta ainda a duração d'essa deformidade social, quanto 
baste para se não imputarem á lei as pechas de desorga- 
nisadora, espoliadora e iniqua. 

Assim a vemos neste projecto prudentemente decretar 

— a impossibilidade de futura escravidão, pela liber- 
dade dos nascituros— o respeito á existente propriedade 
de serviços, pela conservação do estado excepcional da 
actual classe captiva — a possível protecção a esses 
miseros, pelos variados esforços feitos para as suas 
alforrias. 

Quem desconhece que o rigor da lógica se não con- 
tenta com essas prudentes reservas? Corollarios lógicos 
só poderiam tirar-se de uma das contrarias proposições : 

— Perpetue-se a instituição — ou — SuppyHma-se a insti- 
tuição. Ora, se nem uma n*,.*m outra cousa é factível, 
claro está í|ue nenhum expediente pode ser lembrado a 
que se exijam rigores dialécticos. Os que interessam na 
duração do captiveiro, hão de sempre bramar contra as 
monstruosidades que renlniente resultam por furça d'esta 
duração anómala ; os que só do direito se enamoram, 
hão de stygmatisar uma lei que os não acompanha em 
suas impaciências, e hão de. como o fez o AiUi-Slavery 
Repórter^ do 1" de julho, qualificar este projecto, não 
como de suppressao,mas como de alongamento da insti- 
tuição abominável. 

Sendo certo que, nem no parlamento, nem na im- 
prensa, nem nas representações, nem nas associações, 
nem nas salas, nem nas praças, ha uma só voz que não 
proclame a necessidade de acabar com a escravidão ; 
sendo pois esta a opinião unanime do Brazil ; e não ha- 
vendo tão pouco quem, nas peculiares circumstancias 
d'este império, desconheça a necessidade de não dar o 
golpe de súbito ; é de primeira intuição que nenhum 
alvitre poderia imaginar-se escoimado de,reaes ou appa- 
rentes, injustiças relativas, de disposições contradicto- 
rias, se assim querem chamar á inevitável condescen. 
íTencia com direitos, senão oppostos, diversíssimos^ 



IV 11 

Oc.safío a que algum melhor Lycurgo, dadas as duas 
condições imprescindíveis, exliiba projecto, d'onde nao 
puUuíem os inconvenientes d'este penero, que ao do 
g-overno assacam. Ninguém do boa fó o poderá negar. 
Pode porém, tem carta branca, negal-o o Sr. José de 
Alencar, e exclamar o seguinte : 

•' — Nflo ha nem pode haver senão duas opiniões poli- 
ticas, dous partidos, o da emancipação indirecta e o da 
emancipação directa e immediata. ^' 

Partido de emtincipaçao directa e immediata, pode 
havel-o lá fora; nao o ha no Brazil. Na Europa podem 
ter-se deixado levar pelos impulsos exclusivamente hu- 
manitários, não só hoje para a propaganda, como até em 
tempos mais afastados, quando alli havia interesses 
diversos na questão; alli podia ter alcance exclusiva- 
mente generoso e nobre, quando estava em causa o 
principio da liberdade humana, aquelle famoso brado : 
Pereçam as colónias^ e salve-se o principio I O trabalho 
servil das colónias inglezas e francezas nao era a 
Inprlaterra nem a Franca; mas as colónias do Brazil sao 
o próprio Brazil, e portanto, aos olhos do muitos, aquelle 
hrado aqui, sêro-hia de suicidio. 

Nao ha pois neste império nem partido, nem opinião, 
<[ue pu^ne i)ela emancipação directa e immediata; e 
qnnnto á extinoçao indirecta e gradunlda escravidão, ó 
isso que o projecto assegura. 

P(3de tardar o dia da verdade, mas para todas as 
grandes conquistas sociaes, é lei providencial, raia ine- 
vitavelmente. Para as melhores e mais indispensáveis 
prescripçOes ha sempre rémoras, como o orador qno 
analyso; mas a despeito delias, os principios lá vao 
marchando f/uo faia vocant, Barafustíi o nobre depu- 
tado por que se demore ou eternize a solução deste jis- 
surapto; nao pode ser; demasiado tem elle figurado nos 
debates especulativos. Todas as naçOes admittiram a 
negra instituição, mas já todas sem excepção a derruba- 
ram ; está madura a idéa da humanidade, e o Brasil 
jiertence á humanidade. 

Cada doctrina, atn das que hoje mais nos arripiam, 
teve existência legal, e muitas vezes constituindo di- 
reito publico internacional ou privado. 

A escravidão dos judeos, gregos e romanos na anti- 
guidade, e modernamente a dos povos do oriente e da 
Africa, foi base social, e teve extensão mui outra que 
<»sta nossa escravidão, a derradeira. Onde vai ella? 



( 



12 IV 

O despotismo do chefe da família para com sua con- 
sorte, filhos e fâmulos, onde está? 

O caprichoso direito de conquista e do incorporação, 
íícin titulos nem motivos, nao desappareceu ? 

O direito albinato (alibi nalus, droit d\iiih(une)^ ({iie 
tornava o soberano local herdeiro do alienígena, ou de 
quem nao deixasse succcssor reinícola, precisa já hoje 
a declaração dos tratados para ser desprezado ? 

O direito da praia {jits liltoi^is] que aos mesquinhos 
naufrag-os augrmentava a miséria, vendo elles leg'al- 
mente arrebatada toda a sua propriedade arremecada 
pelas ondas a alheias costas, 6 hoje mais que uma tra- 
diç.lo vergonhosa? 

Tantos denominados direitos feudaes e senhoriaes que 
os séculos toleraram sem espanto, formam acaso mais 
que negras paginas de obsoleta civilisaçao? 

E nao obstante, todas essas façanhosas barbaridades 
arreiavam-se com o usurpado nome de direitos, direitos 
e direitos, por mais tortos que esses direitos fossem. 
Tenhamos cautela em nao enterrar a mao na chaga, 
nós outros: quem sabe se em 1871 com igual razão 
não chamamos direito ao que, á devida luz, só devesse 
cham;ir-se interesse ? 



Ai, Fabricio, que ainda agora dou por mim 1 Parece 
que também eii estou hoje (H)m cara de poucos amigos, 
(íe bitaculas franzidas, com o fígado segregando bile 
negra, e arrependo -me porque melancolia não paga di- 
vidas. Também a culpa foi minha: eu tenho uma receita 
infallivel para por mede canninha na agua: é olhar 
para certos furores, \C*y certos discursos, e ver ursos a 
dansar; o que tudo é excessivamente alegre. Desta vez 
li pouco, e sobre themas de Bertholdo thalberguei va- 
riações áestabfU mater; foi o assumpto que irresistivel- 
mente me chamou á seriedade, que houvera sido impró- 
pria do discurso que analyso. 

Naofecho esta, sem chamar atua attençSo para uma 
oração proferida pelo respeitável conselheiro Nebias, 
um dos mais nobres vultos do parlamento e do paiz, 
discurso que hoje foi publicado no Jornal de Commorcio. 
O venerando ancião hostilisa o projecto, e tudo induz a 
crer que por convicção. Com quanto eii divirja da sua 
opinião, respeito-a, porque, afinal de contas, as convic- 
ções do homem probo e illustrado sao sempre dignas de 
acatamento. Persuado-me porém que o Sr. Alencar terá 



IV 13 

ficado como uma bicha com o illustre estadista, que 
aliás timbra pela franqueza, mas a franqueza da leal- 
dade e boa educação, quando, alludindo ixs conferencias 
sobre o elemento servil, entre os membros do poder 
executivo, de que eram parto o orador e o Sr. Alencar 
também, se exprimio assim : 

" Declarei a Sua Magestade o Imperador (que discu- 
tio sempre com os seus ministros em plena liberdade e 
confiança, ficando cada um de nós com a sua responsa- 
bilidade) queetc... Em resultado ^da discussão) a falia 
do throno desse anno nao disse nada acerca do elemento 
servil Nós éramos ministros re-^ponsaveis, e tomámos a 
responsabilidade dessa ommissao. "' 

Eis ahi o famoso ab alío^ a pressão exercida pelo poder 
pessoal. Um varão, incapaz de adular nem mentir, diz 
que os ministros, quorum pars magna fuit o Sr. Alencar, 
nunca foram coa«ridos pelo chefe do poder executivo ; 
que n<^^ta própria matéria, como em todas, obraram 
sempre em plena liberdade e confiança ; o que as reso- 
luções tomadas foram sempre sof^undo o seu modo de 
vére conformes á sua responsabilidade. E o delator do 
poder pessoal ouvio e nao ousou desmentir. Infeliz 
mortal ! tudo lhe corre torto. 

Ainda mais íiutra: Na sessHo do hont(.Mn. no senado, 
o illustrado Sr. Zacarias de (íoos ■(iu«í a um aíilluido pu- 
zera, na pia do baptismo, o iionie d(í FfitiiuUnho] ])on(l(»- 
rou que parecia impossível ter o ministro da justiça oní 
1870 declarado á camará dos deputados, em seu carac 
terofficial, que não existia trabalho al^rtim do consellio 
de estarlo sobre o elemento servil ! n o respeitável Sr. 
visconde de Itabornhy accresceníou, em á ])arte, que já 
desdn o anno de 18(58, os i^apeis do conselho de estatlo 
e outros haviam sido entreg'u<»s ao Sr. José de Alencar.... 
que ag^ora vem accusar os outros do não terem disto 
dado conhecimento ao poder leí^islativo. Habilidoso 
líermann, sí> Deos «'• Deos, e tu o seu prr)j)heta I 

O íTuerroar desleal 
contra o pí)der pessoal ; 
o jti vamos do barqueiro ; 
o sf})n. faliu (Palfaiate : 
esporada d'arrieiro; 
bom vinho na taboleta.... 
tildo é peta. 
Verdade só é, meu vciiio, ser eu inalteravelmente* len 
constíinte admirador Cint Innato. 



14 IV 



Do us discursos <to conselliolro Josó d.o Alencar. 



( Continuação ) 



Portanto o imperador fugiria (l*aqiiillo, que o orador 
havia de fazer, e começou já a fazer com os seus dis- 
cursos ! 

Deve portanto a nação ficar de sobreaviso, e tomar 
ruidndo com o Sr. Conselioiro Alencar. 



Mas ali ! O orador precisava mui ti) de fazer ver ao im- 
perador — que nJlo será impunemente que »^. Majestade 
deixi'U de trioutar homenagem a um estadista da polpa 
de S. Exa.; quo caro í^vk custar á naçfio o desapreço, 
que o excluio do senado. 

O orador precisou de fazer saber á nacao e ao mundo 
que ha neste paiz um monarcha tilo imprevidente, que 
nao sabe receber em sua casa com a devida distincçilo c 
amabilidade um homem da elevação politica , e da 
illustraçao sem parelha, do Conselheiro José do Alencar, 
de cujo tracto devera S. Míi^estade colher tflo boa lição 
de conhecimentos humanos. 

O Sr. Conselheiro precisou muito de fazer constar ao 
paiz e ao mundo que o esphacelamento actual do partido 
conservador dat'i, e provém da desastrada recusa, q le 
ousaram fazer dos seus inestimáveis projectos — de re- 
forma judiciaria e da p^uarda nacional, dos quaes de 
certo dependia a salvação da pátria. 

Fazendo de si tilo exaltido con<*eito, crendo-se uma 
verdadeira influencia nacional, concebi^u a apprehensllo 
de que o imperador quiz abrir eoinelle uma hicta pessoal 
de prestigio politico, intollectu;d e scientifico E que 
mostrar que, por força da sua autoridade parlamentarer 
politica, ha de cahir a fracçOo desse partido, que pela 
recusa dos seus projectos deu razflo ao imperador na lucta 
que este travou rontra o autor do(jaú'*ho. 

O senhor Con^;rdheiro alfaga í) ardente propósito de 
mostnsi', .u' ;isuanílo escolha de senador pela província 
do Ceará hade ser paga com usura: porque S. Exa. ó o 



IV 15 

rier pias ultra, o solas, tohis et unas deste império de 
parvos. 

A gana de molestar o imperador, que o levou a dizer 
duras verdades, naolhe cousentio que omittisse nas suas 
criticas a antigualha ridicula do beiia-mao, embora 
fosse obrigado a confessar que tamliem lhe tem prestado 
reverencia, sendo porém a tal respeito uma espécie de 
amigo livre. 

Lamenta o orador que — *' a liberdade seja sempre 
neste paiz uma outorga da realeza, e não uma briUiante 
conquista do povo." 

Estas palavras deveram ter sido proferidas com ver- 
dadeira compuncçao, e com lagrimas I.... 

Como ! Nao está S. Exa. deitando montes abaixo para 
abafar e aniquilar essa conquista, longa, demorada, 
tardia, que o povo fez, da emancipação dos escravos? 

Como pois consentiria que este pobre povo tentasse 
alg^uma conquista, e. ainda mais a fizesse de um modo 
brilhante? 

Que liberdade poderia ser conquistada sem que 
. Exa. se deixasse possuir de apprehensOes contra os 
perigos da ordem publica, em favor da segurança indi- 
vidual e de propriedade, contra os excessos e açoda- 
mentos imprudentes ? 

E' que o orador representa com a maior seriedade 
o seu papel. 

Cria corn geitosa phantasia enormes inimigos da pa;^ 
publica — para ceder depois á necessidado de cumprir o 
sagrado e imperioso dever de os debellar. 

py assim que *S. Ex. fabrica perigos, desordens, re- 
voluções, cataclysmas mentaes ; vè a perdição total 
deste império em todo e qualquer meio razoável de ex- 
tinguir a escravidão ; e declara não só temeridade, mas 
atteutado, aberração, monstruosidade, baixeza, e cor- 
rupção repugnantes , as convicções dos estonteados 
poetas e philosophos deste paiz, ( pondo de parte os ro- 
mancistas e os dramaturgos) porque ha quem pugne pela 
emancipação da escravatura. 

E' assáim que ÍS. Ex. moureja, fatiga-so e extenua-se, 
— em demonstrar a existência e a invasão ostensiva c 
insólita do poder pessoal do imperador ; desse mesmo 
poder que durante o dominio dos progressistas era tao 



S 



miur . 

Mo. ' 



QUESTÕES DO DIA 



.4 



I^. õ 



BIO DE JANEIRO 14 DE SETEMBRO DE 1871. 



Vende -se em casa do Srs E. & H. Lacmmert— Praça da Constituição, 
Loja do. canto— Bua de S. José n. 110— Livraria Académica, o Cruz 
Coutinho na me:>ma rua n, 75. Preço 200 reis. 

01>x*as cie Senlo— O Oaúelio. 

(Cartas a um amigo.) 

Meu amigo. 

Compreheado o gaúcho assim : organisaçao deste- 
^mida, vasada nos moldes dos Guaycunis ou dos Pata- 
^es, que sao os primeiros cavalleiros do mundo. 

O rebenque e as chilenas castigam e subjugam os 
Ímpetos do cavallo indómito. 

Ha em sua physionomia illurainada de um explendor 
insano, em seu animo iu.soffrido, o entumecimento e iis 
palpitações precipites do arrojo semi-barbaro. 

Finalmente vejo no gaúclio alguma cousa que se 
pareça com Osório ou Zeno Cabral — no espirito, fontes 
inesgotáveis dos maiores lieroi.smos, — no sentimento a 
exaltação e a decisão, que pode inspirar a cálida ven- 
tania das savanas, — nas acçOes, nos gostos, uma reso- 
lução firme, implacável — n'uma palavra, a intei^^-ra per- 
sonalisaçao da virilidade continental. 

O cavallo o completa : é o .seu appendicc ou antes o 
seu epilogo : repre.^enta o papel de sou escravo, antes 
que o de seu amigo , e melhor o de victima que o de 
escravo : o gaúcho é mais o tyraiiuio do cavallo do que 
seu senhor. 

Jíao sei, meu amigo, si já leu uma intcre.ssante his- 
toria, intitulada — O (Inaranu — por Cuistave Aimard *? 
Ahi pode estudar-se o gaúcho com proveito. Encontra- 
.?e otypo exacto e nao a fabula rachitica. O historiador 
francez estudou em pessoa os costumes da vida nómada 
do pampa. Escreveu como quem viu, e nâocomo quem 
\ik a. 



2 V 

Por isso os personag-ens, nessa verídica historía, silo 
de uma vitalidade eloquente ; tem toda a efflorescencia 
da vida ; e nao são pallidas visões, creaturas dií>formes, 
descoradas, confusas e em contraposição á verdade na- 
tural e ethnographica. 

E o cavallo do pampa? Compreliendo-o deste modo: 
susceptivel, vertiginoso, estremecendo de mil inquie- 
tações a qualqu r leve rumor do deserto, arredio do 
homem em quem adivinha, por instincto eporlicçílo,um 
inimigo encarniçado de sua independência ; um animal 
que, ao vêr o gaúcho, dispara a correr, com medo de sua 
enfeza, por banhadí^s e coxilhos, impellido pela exal- 
tação, pela investida, pela desencadeamento dos pânicos 
brutaes ; um animal que só possam domar a teuieraria 
audácia e. a clássica perícia do gaúcho, e a que fora 
licito applicar, sem risco de impropriedade, o nome * 
expressivo de desespero ou furacão. 

Nem um, nem outro, nos dá Se) tio. 

Manoel Canho, apresentado como realisando o ideal 
do gaúcho, caraclerisa-se por estes signaes : ódio eterno 
para com a espécie humana, frouxo e effeminado inter- 
necimento para com a raça hippica. Senio emitte a dou- 
trina de que o gaúcho tem mais em si de cavallo do 
que de homem; que dizer gaúcho é querer dizer— corarão 
para umaraça bruta, ninscido apenas para a sua própria 
espécie e alê para a sua família. 

Canho morre de amores pelas éguas. Com ellas vive, 
convive e dorme. Cavallos e poldrinhosdespertam-ihe 
todos os estremecimentos do affecto mais terno e mu- 
lherengo. Já viu maior aberração, meu amigo? 

Quanto aos cavallos, vejamos como foram ideados 
por Senio. 

São muito discretos, sensatos e reflectidos. A baia é 
sensível, amorosa e ciumenta de Canho; a tordilha 
tresanda a humanidade e a piedade christã ; o alazão, 
o pae do lote, é polido e cumprimentador como um 
conselheiro. 

A baia, em logar de tempestade^ chama-se morena. 

Ai ! morenas tão decantadas, romantisadas, poetisa- 
das todos os dias e pelas melhores pennas, quão pouco 
vos deveis lisongear com o original capricho de Senio ! 

Moreninha chamou Macedo a um bello livrinho seu, 
de cunho nacional, que faz as delicias do sexo amaveU 
e as estantes brazileiras recolhem como uma jóia. 



Pois este significativo epitlieto,de tradicional encanto, 
clássica presnmpçao do que ha de garrido, de gracios ), 
de tentador na mulher nacional, qualifica no Gaúcho 
uma égua. Canho alardeia de fazer tudo pela besta, pela 
mulher nada, E a propósito de besta : deve saber Senio, 
que no Rio Grande do Sul nunca se emprega esta voz 
para significar egua^ como erroneamente se faz no seu 
Gaúcho, 

Depois da morena quem ha de seguir-se *? Ò Jucá. 
Podereis adivinhar quem seja esse moço,de nome insinu- 
antemente alterado ? Nao é um moço, é um poldrinho! E' 
querer levar a espécie ao ultimo ludibrio. 

D'e5t'arte temos o tratamento amoravel, que a mae 
estremosa dá ao filho do seu coração, o carinhoso di- 
minutivo com que a donzella chama o irmão ou o pri- 
mo, em signal de estima e de intimidade aftavel e jovial, 
temol-o aqui applicado ao potro. Para se chegar a 
humanisar a sociedade equina, nao se hesita em cavallí- 
sar a sociedade dos homens. 

Meu amigo : entendo nio dever passar além, sem 
primeiro lançar certas bases, certos preceitos que regu- 
lem o processo analytico-litterario. 

Por isso, para toda boa ordem e claresa de idéas, re- 
duso a questão ao dilemma : ou Gaúcho pretende as 
honras de um romance de cosfiirnes^ ou satisfaz-se com 
o ser de mera p/ia/i^a5Ía. 

No primeiro caso, protesto. Longe d'isso, o Gaúcho é 
desnaturado, falsissimo, apocrypho. 

Tal qual foi concebido e executado, importa a mais 
pungente palinodia contra a o*entilesa, a masculinidade, 
a fama das illustres façanhas e legendarias tradições do 
campeão das savanas austraes. 

No segundo, ha de permittir-nos Sento a franqueza 
de lhe declararmos que sua phantasia é das mais tristes, 
porque importa uma corrupção do sentimento natural 
e racional, o rebaixamento vivo e indecoroso da 
espécie. 

Raciocinemos. 



Q/em^io^€0. 



'(Continua) 



OITAVA CARTA 

DO ROCEIRO CINCINNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 

Fabrício. — O homem é animal de hábitos, e estes 
sao segunda natureza. Ora se o tal senhor habito é a 
repetição frequente dos mesmos actos, e se tu me 
tens obrigado a escrever-te missiva sobre missiva, 
jâ isto vai correndo como habito, e és tu o culpado 
da transformação da minha natureza taciturna. Jà 
quasi venho insensivelmente cavaquear comtigo, por 
attracçao inexplicável. Tu lembras-te d'aquella nossa 
boa camaradagem de 4 annos ,lá de S. Paulo? Éramos 
um pêndulo ; o que fizemos hontem, faziamol-o hoje: 
apenas abriamos os olhos, trazia-nos a mulata a 
dose matutina de caffé, que era o nosso mata-bicho ; 
quando nos iamos estirar no catre, lá vinha, para 
conciliarmos o somno (ainda então nao eram inventa- 
dos certos discursos) o cojio da socega. Quem nos tirasse 
estes hábitos, infernizar-iios-hia; parece-me que já me 
sucederá outro tanto, se tu agora me prohibires estes 
desabafos, a que já espontaneamente me atiro á voga 
arrancada. 

Continuemos pois a' nossa pratica. Fique ainda de 
remissa a conclusão da tal giga-joga da interpellaçao: 
reconheço que nella só estão em causa duas figuras das 
Arábias, eu e outra, nenhuma das quaes tem impor- 
tância para ser anteposta a questões de interesse pu- 
blico: guardemos as nossas pessoinhas para a sobre- 
meza, e continuemos com a analyse da oração pro ser- 
t;iítiíe,d'aquelle berreiro da montanha que deu á luz 
um rato. 

Em muitos pomos graves,a claridade vai penetrando. 
O Sr. Zacharias de Góes, na sessão do dia 4, matou o 
principal cavallo de batalha do Sr. Alencar, queé 
de uma felicidade estupenda ; mas também a quem 
Deus quer bem, o ventp lhe apanha a lenha. Dissera 
este no seu perigrino discurso: 

u Os brios nacionaes se confrangem... o paiz nSo teve 
conhecimento do facto senão de torna-viagem. Ainda 
ultimamente nao vimos nós manifestar-se esse menos- 
cabo de uma maneira revoltante ? Esses trabalhos do 
conselho doestado, que o gabinete com tamanha repug- 
nância remetteu a esta augusta camará, e só depois de 
requerido e instado, esses trabalhos eram communicados 



V o 

aos membros da junta central abolicionista e citados 
na conferencia que houve em Pariz a '26 de Ag-osto de 
1867 Semação. Vozes Oh oh ! Nâo sei se este ó ó era 
para o mandar durmir) Assim dava-se conta ao estran- 
geiro, primeiro que ao parlamento brazileiro... O Brazil 
tem representado nesta magna questão o papel de uma 
creança, de cujos destinos se decide, sem coiisultar-lhe 
a vontade » etc, etc. E elle alii vai. 

Os factos, os factos! declamações de serrazinas, 
cobras e lagartos venham depois. O chefe do gabi- 
nete de 3 de agosto, que governava ao tempo d'essa 
tortia-viagem, doesse menos-cabo que revolta, que C07\- 
frange^os brios^ que distribue ao Brazil o papel de 
creança, declarou que « approveitava a occasiílo para 
desfazer uma irninUarão levanlada na outra camará^ 
dizendo-se que o ministro fornecera copias desse tra- 
balho a estrangeiros, ao passo que as negava á ca- 
mará » e accrescentou desejar que esta negativa 
tivesse a forma mais categórica. 

Eis-ahi desmoronado o edifício erguido ao som da 
náutica buzina. Eis-ahi a demonstração de que de 
uma pulga se faz um cavalleiro armado. Uma pagina 
de injurias, de menos-cabos, de confrangimentos e 
quebrantamentos, de sensações, de óse de /./s, assenta... 
numa falsidade. 

A verdade é como o azeite : por mais que o afundem 
vem á tona d'?^gua. Claro está que se o acto fosse 
privado, de um cidadão qualquer, não poderia o trisulco 
de Jove fulminal-o, nem teriam cabimento as expro- 
brações e exclamações. Para justifícar o ore rohnido, 
para produzir effeitos cómicos, sensações e espasmos, 
era mister que o acto manasse do governo d'esse 
tempo ; mas que custa a um dramaturgo imaginoso 
inventar uma peripécia? u Foi o governo do Impe- 
rador, horror ! foi o governo do Poder Pess(,al. » 

Acaba de ser levado á ultima evidencia o que já 
era convicção universal, e de que eu mesmo junto a 
ti já fora interprete. Não resta sombra de duvida, 
de que a accusaçãofoi uma falsidade, mas que importa 
isso? Não teve a scena palmas no dia da primeira 
representação ? quem exige da comedia a verdade 
histórica? Produzido o effeito,já o xisgaravis pode 
fazer ablativo de viaírem. 

Foi uma falsidade: deixal-a ser: quem interroga 
o oceano pelas gottas de que se compõe ? Não saiu ella 



6 V 

dos mesmos lábios que attribairam ao Presidente do 
Conselho escancarar-me o thesouro e a mira assaltal-o ^ 
Nao é bom que se saiba que se os consultores da 
justiça ! ministros delia I ignoram o espirito e a letra 
dos art. 7,167 e 229 do Código Penal, tem artes de 
refugiar-se atraz do art. 26 da Constituição, dando-lhe 
aliás interpretação e elasticidade absurda ? 

Ao que erra perdoa uma vez, mas nâo lhe perdoes 
trez ! Adeante. 

VI. — PLANO DE ESTORVAR A LEI. 

Nao perscruto as intenções dos outros membros da 
dissidência ; admitto, sem approvar, que julgassem 
cumprir deveres, lançando mao de meios que se me fi- 
guram contrários á indole dos parlamentos, e ao regi- 
mento da camará. 

Já uma rã estoirou, por aspirar a boi ; por isso Deos 
iLie livre de tão alto pôr a mira, que ouse pretender a 
uma cadeira no areópago, apezar de nella.s ver algum 
areopagita menos grave que S. Diniz. Mus supponha- 
mos que a innocencia da fortuna me guindasse áquellas 
excelsas alturas, e que eu tivesse de tomar ao serio a 
minha inopinada elevação. Que diria eu a mim mesmo? 
Parece-me que diria o seguinte : 

« 1**. A minha linguagem deve ser constantemente, 
não par.i lamentar, mas parlamentar, isto é, simples, 
lacónica, lógica, respeitosa ; no dia em que me faltar 
cuialquer destes requisitos, a minha curul estremecerá ; 
e se eu vier a ser o provocador de linguHgem análoga, 
a triste respons vbilid ide de scenas indignas recahirá 
sc»bre a minha cabeça. 

(( 2\ Convicios, furores, despeitos, injurias, tumul- 
tos serão por mim stj^gmatizaJos ; mal vai a argumen- 
tação quando o seu calor sobe a incêndio : espectáculos 
tnes não degradam S(5 o homem da sua categoria de 
cavalheiro, ou de simplesmente bem educado, mas, o 
UJ13 é p^or, desauctorisam a lei, e nivelam o legislador 
CD n o frv^jue Hidor de bodegas ; abster-me-hei pois de 
toda a violência. 

(( 3". C)!isideraudo que, em quanto a lei é lei, a 
t'»dos cumpre acatal-a : que duplo achatamento merece 
a lei fimdameutal, e a essência do regimen, que me 
Conferiu este assento ; que, s»^gundo as prescripçoes da 
constituiçlo, art. 25, e as normis do guverno represen- 
tativo, são as maiorias que resolv m os negócios ; nuuca 



V 7 

na ])ratic:i desconhecerei, pertençirea a ura ou outro 
gruppo da assembléa, esta base fundamental da forma 
do governo. 

« 4°. Regeudo-se a augusta camará por lei especial, 
respeiíal-a-hei, cora a snbmissao que todo o cidadão 
deve á lei, qualquer que seja, ou antes tanto mais 
quanto mais alta for, a iiierarchia delle. Mandando o 
art. 2.7 do regimento, que, salvo na discussão do pri- 
meiro artigo de ura projecto, o orador se cinja á ma- 
téria que se debate, eu nunca levarei a mal ao presi- 
dente que me chamar â ordem, quando, se acaso eu me 
deixar desvairar pelo decien repetila placebit^ eu repizar 
em todos os artigos as matérias já fora do debate, e 
dissertrir deomnire sciòili, soh o pr.^texto de que, se- 
gundo a arvore de Bacon, na sua Instauratio Magna^ 
todos os conhecimentos humanos es <lo ligados t?lo in- 
tima uienre. que o discorrer sobre peciilio prende en- 
tranha\elmente com a guerra da Ahyssinia ; e muito 
menos ine arremeçarei sobre o prosidenie que invocar a 
minlia attençâo, nem lhe direi : « V. Ex. é um parvo ; 
o que quer, é atabalhoar-me, e <i talhar os voos da 
minha facúndia ; nao sejasoffrego ; daqui a duas horas 
começará a entrever por que invisíveis mns sólidos fios 
eu vou agarrar o pecúlio ao (irão Nego, imperante da 
região dos Monophysitas.» Se não 'lueuderem, pouco 
importa ; a cousa é assim mesmo. 

K .V. N 10 se recrutando para deputado, e proibindo 
só d*' MÚuha legitima ambição o assento que nesta casa 
se me iiuuver concedido, heide occupal-o com todas as 
condii^Oes que lhe são inherentes, e não acceital-o a be- 
neficio íle inventario. Quando os eleitores me escolhe- 
ram, i»íip'izeram-rae esta obrigação : » Salvo motivo 
de granule enfermidade ou força maior, comparecerás 
sempie ás sessões, para que os negócios públicos se nao 
atrazj*ín ; discutirás, quando souberes, quizeres ou po- 
der 's ; votarás em liberdade , niMs votarás sempre , 
queir 's ou não queiras, agrade-te ou despraza-te ! « A 
minlia cmsciencia qualificaria poi.s de acto reprehen- 
sivel a minha falta individual a qunhjuer sessão, e de 
atte itad.j contra a constituição, de ])erigoso minar dos 
seus alicerces, todo o conluio, cnnjiiração, parede, 
ijvrcf\ du como em g'iria politica inellior nome haja. 
Ob»- .vÃn ('s outros como lhes approuver ; quanto a Uiim, 
ou(h* n inçio me coUocou de atalaia, não desertarei do 

pu<ti). 



8 V 

O meu roteiro teria muitas outras estações ; mas 
emfim, como isto é vagamundear pelos espaços imagi- 
nários, e como, sem que eu por isso me damnasse, a 
minha candidatura jâ gorou, como tem succedido aos 
mais pintados» escuso fazer programmas, que jà agora 
nunca sairei da cepa torta. Ora como eu me nao arvoro 
em pregador, e nao pretendo ensinar padre nosso ao vi- 
gário, nem vender siso a Catão, Deus me livre de ten- 
tar propagandas ; eu cá teria pensado assim, mas isso 
nao quer dizer que nao pensasse detestavelmente. 

Trégua a devaneios, e vamos á sabbatina do sara- 
patel. 

Observando que todos unâ você pedem a suppressao 
do captiveiro, o Sr. Alencar lá deu á idéa um frio 
apoiado ; mas sem detença desmanchou com os pés o 
que fizera com a cabeça. Sem appresentar projecto 
algum ( nao se esquece da sorte sempre reservada a 
projectos seus), ataca o do governo com unhas e dentes; 
nao come, nem deixa comer. Onde porém surrateira- 
mente e pisa-mansinho, revela aspirações,rato escondido 
com o rabo de fora, patenteia que o seu plano é pro- 
crastinar a urgente solução para o dia do ante- 

christo. Oucamol-o : 

(( E preciso esclarecer a intcUigencia embotada, ele- 
var a consciência humilhada, para que um dia^ no mo-- 
mento de conceder-lhe a liberdade, possamos dizer : Nós 
vos remimos, nao só do captiveiro, mas da ignorân- 
cia.» 

Nao achas, Fabricio, que isto vale por projecto, lei, 
código ? Toca a instituir escolas. coUegios, faculdades, 
só para os pretos. De ora avante, os senhores alter- 
narão o serviço dos escravos com o de sua cultura das 
lettras e sciencias, e por toda a face deste império se 
empregarão as forças vivas da sociedade em levantar 
senzalas universitárias ! O senso commum diz que 
para dissipar a ignorância, é precisa a liberdade ; cá este 
expositor recommenda que, para conquistar a liberdade, 
se dissipe a ignorância. 

É por certo este plano efficaz e intelligentissirao. 
Pois nao é? E ha ainda mais outra raridade : quem 
tau 10 labuta por prolongar a instituição do captiveiro 
dos negros, vê-so instantaneamenl;e accomettido de uma 
paixão negro phila, que o leva a exigir a favor do negro 
actualmoat í escravo, o que não pede a favor do hraiKO, 
actualmente livre ! 



V 9 

Nilo confundamos: uma cousa sSo as iruserias da 
escravidão^ outra são as misérias da indigência. 

Fazeis consistir a autonomia humana, a liberdade 
plena, o jus do cidadão, na cultura intellectual ? Então, 
a loírica manda-vos condemnar ao captiveiro milliões 
de compatriotas vossos, totalmente baldos dt; instrucção 
e cujo intellecto se nivella pelo dos escravos. Esses 
são igualmente tolhidos na sua intelligencia, abatidos 
na sua consciência, membros inúteis da sociedade, 
hordas selvnjrens no seio de um povo culto. 

Não consiste a condição ingénua na capacidade do 
engenho e na perícia da doctrina, sendo tão livre um 
Bertholdo como um Newton ? Então, não junteis aos 
infortúnios do escravo uma exigência absurda, atroz, 
impossivel ; não o colloqueis n'um circulo vicioso, em 
cujo centro se leia a inscripção do inferno do Dante : 
esperar o din da dissipação da ignorância, para obten- 
ção da liberdade I 
« 

Intendo, intendo^ como diz Hernâni. Com o regimen 
da escravatura, nunca será dissipada a ignorância dos 
miseros, nem nelles mesmos, nem nas suas gerações, 
perpetuamente subjeitas ao partas rentrem serfailur : 
assim inpossibilitado o diploma scientifico que abre as 
portas da liberdade, ficam estas trancadas p^^r omnia 
scecula s^rculorum. 

A subtilei.a é diaphana ; não pega: a mente culta 
não dà mais títulos á liberdade que a grosseira. Até 
para o ensino e o apostolado, houve, entre os embai- 
xadores de Christo, mais ignorantes que safjios : se 
Paulo era tão profundamente instruido, que o gover- 
nador Festo lhe lançou em rosto extravagaiiciar. por 
excesso de sciencia, lá diz o texio sagrado que Pedro, 
André, João, eram homens analpha])etos, idiotas (?) 

A condição real da liberdade está na existência da 
alma : quem a possue, doato ou boçal, tem, em pé de 
egualdade, du*eito á sua autonomia. 

Em quanto durar a escravidão, a regra ( de que 
sempre haverá, como em tudo, honrosas excepções^ será 
que o senhor conservará intencionalmente o servo no 
embrutecimento, sem o qual toda a artificial discij)lina 
periclita. Se, para libertar a raça, se esperasse o fa- 
moso dia da sua ascensão intellectual, estai-ia ganha a 
causa do addiamento eterno ; fixar-se-hia a solução 
para as kalendas dos gregos, que não tinham kalen- 



iO V 

rias, e iiiscrover-se-hia aaembaçadella do plauo, aquillo 
de Lafontaine : 

Notre Uèvre n^avait que quatro pas à faire, 
j'enteud.s de ceux qu*il fait lor.sque, prés d'être atteiat, 
il «'éloi.i^ne des cliiens, /e? renvoyeaux calendss^ 
ot leur fait arpenter les landes. 

La mannniission dcs esdaves^ d^apvès le 'projeí du 
sienr d'Ale)}ca7% arpenterait les landes juscpA' à lan 3000. 

Confesso -te que acabo de perpassar attentamente 
pelos olíioso lai discurso todo, para ver que outra pro- 
videncia o Sr. Alencar sul)nielte á discussão ; nada e 
nada mais. O seu projecto conipõi3-se de 2 artigos : 1." 
A escravidão acabará no dia em que todos os pretos 
forem doctores ; 2." Fica revofí:ada a leuislacão emcon- 
trario. 

Faz'^r leis sDbre assumptos árduos, não é zang-arrear 
insultos ou esparralhar criticas sobre lucubraçõas serias. 
O Sr. Alencar não se arriscou a servir de columna aos 
liobrè^)s, nem tão pouco a atar o guiso ao pescoço do 
Rodilardo. A missão doeste leírislador não é legislar ; é 
só censurar: Catãosinho. 

Ai, não ; a julgar pelos parentliesvjs semeados no seu 
discurso, parece ler ainda ouira missão na camará: a 
de Tribgulet parlamentar. Que .'es ver? 

(( O nobre ministro da justiça, com uma .' signal de 
quo não tem duas ) vo;c telri^ia e agoureira, prophe- 
tisoa / )'isa(las » 

OiM, meu caro amigo, tu, que estás em Pindamo- 
nhan'J:-abn, não te escangalhas também a rir doeste ar- 
(jumento graciosíssimo? não chega lá tão longe o con- 
tagio? Mas não ; já te estou ouvindo, a ti homem 
gra\ e •; sisudo • — a Cada um iom a voz que Deus lhe 
deu. :'/ inqualificável ridicularisar a um dos mais nobres 
vultos (]*esta terra, inaccessivcl a settasinlias inotfen- 
sivas. M' iuhal)il expor-se a que se retalie contra (luem 
caro 'ei* d't».sses dotes physicos, p?.la voz ingrata, pelo 
eneaixílhar da cabeça nos hoinbros, pelos ademães 
l)url'v>;cos, e outros dotes d^^ que, sí^gundo vejo. nem 
cons^-ioncia tiver. » Calo-me, ])^)is, e transcrevo mais : 

H Todos n6> temos o veto do lápis ' hilaridwlc J , não 
é privilegio d:i realeza. » 

No primeirí) caso uma indecencia ; neste uma iniqua 
injustiça um epigramma insulso, de que já fallei. 
Vejamos mais : 



V 11 

« Se uma ( não são duas; é o homem à-xs umas) lei 
similhante fosse votada, eu não a poderia comparar 
senão a essa vaga Veniis de que se falia no parecer 
da illustradri commis^do (hilaridule prolon^/acJa). » 

Isto n'outra bocca, seria a demonstração da mais 
supina ig^norancia. Já vi, pelo illustrado relator da 
Commlssão, tratada esta critica de um modo irres- 
pondivel; não me arriscarei a dizer mal o que já 
foi perfeitamente aquilatado. Só fica de pó a inten- 
ção benévola de fazer rir de um collega, polo eu- 
phemisrao do uma imagem: e isto no mesmo discurso 
em que nos ensina que — a liberdade é fogo sagrado 
entregue ao Ímpeto, ao arrojo de um novo e sel- 
vagem Proraetlieo» — a questão é anima rilis de uma 
;uma) experiência philantropica, e matéria prima de 
uma (uma) coroa de triumpho » — « o monstro de 
Horácio » — « o Bemembe)\ de Milton, » — e logo de- 
• pois: — « a águia de Júpiter » — a Júpiter transforma- 
do em chuva de ouro » — euuia multidão de imagens, 
que nem approvo, nem censuro agora, mas que lhe 
tiram o jus de atirar pedra ao tell^ado do visinho. 
^ Continua, na interpellação, com estas excitações 
ao diaphrag'ma parlamentar: 

« Nesta sessão, o ministro do Império tem feito 
apenas doas (graças ! não é um! ) trechos de discur- 
so (hilaridade^ , e isso mesmo ao Insco-fusco '^continua 
a liilaridade] » 

Este engenhosissimo argumento já foi apreciado. 
Quem inventou o provérbio « Travaram-se de ra^Oes » 
para exprimir descomposturas, sem duvida antevia 
/[ue as razões haviam de ser destas. 

'i Não me admirei quando o ►Sr. Presidente do Con- 
selho, tomando um um^ tom de mestre, tratou de 
aimn^>;taros alurauos deste colleg*io. 'hilaridade da 
opposirão yi 

Eair.* o rozario de delicadezas, fig*ura ei^tx. Se com 
eífeito o censurado realmente mestre parlamentar) 
tives^o; assumido o tom de mestre, teria no s'hi colle- 
gio alíifum alumno, que nem S. Luzia pode^se sal- 
var, pois llie daria o váo pela barba, ao doctrinal-o nos 
rudimentos de edncaclo politica e outras educações. 

« Por ter entre as suas cartas o rei ea dama^níio 
conte ganhar a piri ida [hilaridade da O]^jfosirilo.)>y 

Plirase^ destas não se commentam. Pr osiga a ge- 
ringonça: 



12 V 

— «Ávida do Sr. Presidente do Conselho nao tem 
sido mais do que um longo secretariato (hilaridade da 
oppoúção) » 

O secretariato cá vai para o lexicon do Bacellar. 
E não admiras tu o arreganho, c orgulhoso , entono 
aristocrático com que o filho do sol e neto da lua 
alça a preclara grimpa, no intento de ludibriar a 
Estadista que ha largos annos, com zelo, illustraçâo 
e patriotismo, tem servido o seo paiz nos mais elevados 
cargos, e isto por que, no começo de sua brilhante cansei- 
ra ,toi secretario de presidência e de ministro? Mas onde 
se vio que estes cargos fossem dcshonrosos ou des- 
airosos ? Quem igmora que, ao contrario, é de uso 
escolher para desempenhal-os quem disponha de ele- 
vadas habilitações intellecluaes ? Nestas formas de 
governo, são esses, do mérito, os mais invejáveis per- 
gaminhos. Raros os ostentam, brilhantes como os do 
Estadista ridiciilarisado. 

Em fim, diz que fez rir; então ganhou a partida. 

» Des:le que S. Exa. me re^.usa os esclarecimentos 
que pedi, posso eii esperar que me sejam concedidos^ 
pela maioria que o sustenta a todo o transe ? O nobre 
Presidente do Conselho quer que eu recorra de S. 
Exa. para S. Exa. mesmo ? » hilaridade) 

Está bonita esta !.. Quando fores bigorna, aguenta: 
e, quando malho, malha ! Agora aqui tundas por ata- 
cado: a maioria é nada; a questão servil mudou de 
face; a instituição do captiveiro foi dos pretos endossada 
na maioria, a qual está de tal forma escravisada ao 
Governo, ou ao R\ssoal,([ue já nelle se consubstanciou. 
E' de crer que alguém risse, porem mais certo deve ser 
que mui outro sentimento t(»rá o orador inspirado aos 
cavallieiros que tem a fortuna de ser seus collegas. 

— « Lembro-me de artigos, que chistosamente fa- 
ziam a conta da despeza de cada entrelinhado ^risadas}r> 

Dizo cá : comprehenderias tu esta hilaridade demo- 
critica, a não ser que os hilariantes se hilariassem dn 
liilarisador ? Soltarem-se gargalhadas em coro, por ap- 
plauso a uma conta detypographia ! Nada, não ])0(h». 
ser ; estes impulsos risonhc-s, estas carranquinhas d^^ 
cabo de chapéo de sol, estas risadas não foram i)rovoca- 
das por cousas alegres, mas sim pela extravagante di- 
ligencia do orador, debatendo-se para fazer rir, invitâ 
Minerva; se alguém risse n'uin caso d'esles, é porque. 



V 13 

mãos invisíveis lhe estariam titillando as plantas dos 
pésinhos. 

Conta-se que Rabelais, que tambera levou toda a 
vida a rir e fazer rir, egualinente se conservou na dis- 
posição faceta, em sua derradeira infermidade. Afinal, 
quando já na agonia, abriu os olhos pela ultima vez, 
€ balbuciou : Pano abaixo ; esta acabada a farça ! 

E' de crer que, ao findar a frandulagem oratória, 
outro tanto exclamasse, de si para si, o nosso ridente 
orador,de quem gosto mais assim do que embezerrado. 
O certo porem é que, depois de concluir a campanha 
d*esse dia, apregoava, no imraediato, como tendo sido 
um triurapho sem par, um combate em que, sem per- 
der um só argii montinho, desbaratara as fileiras cerra- 
das da maioria, reproduzindo o boletim do general Beur- 
noBiville, acerca das batalhas feridas em Bellygen e 
New-Machen : <c Após três horas de uma acção treme- 
bunda, em que três mil inimigos foram feitos em postas, 
limitou-se a perda dos fraucezes^àdo dedo minimo de um 
granadeiro » 

Macte^ puer, sic itiir ad astra ! 

Teu velho amigo 

ClNCINNATO. 



A liiter*peIlaçao do ftJr*. Alencar* 

No Jornal do Commercio^ de hontem, foi publicado o 
admirável improviso com que o Sr. Visconde do Rio 
Branco pulverisou todas as proposições que o rancoroso 
interpeUante tinha levado semanas a brunir. É um 
modelo de discussão vigorosa, fina, esmagadora, ur- 
bana, parlamentar ; seja-nos licito transcrever d'esse 
brilhante discurso uma parte que prende mais parti- 
cularmente com pontos que temos tratado. 

O Sb. Visconde do Rio-Buanco ( Presidente do con- 
selho) : — Com referencia ao gabinete de 7 de Março. 
devo declarar que elle não tem subvencionado imprensa, 
nem escriptor algum.... 

Os Srs. Ministros do Império, da Marinha, da -Igri- 
ruLTURA E ESTRANGEIROS : — Apoiado. 

O Sr. Visconde do Rio Branco ( Presidente do con- 
celho] : — É uma grande injustiça a accusação arti- 
<!nlada pelo nobre deputado. 

Todos sabem que nunca causa alguma teve defeii- 
.sores mais espontâneos, mais independentes do que esta 
[[muitos apoiados] ; mas nós sabemos também que 



14 V 

aquelles que tem aptidão para escrever, que estão ha- 
bituados ás lutas da imprensa, não dispõem de grandes 
recursos nem podem supportar, além do trabalho intel- 
lectuai, as despezas com a publicação de seus escriptos. 

Uma Voz : — Então para que trabalham, senão para 
serem pagos ? Oh ! ) i 

O Sii. Ministro do Império : — ■ Nunca se pagou ar- 
tigo algum; tem-se pago algumas publicações. 

O Sr. Andrade Figueira : — Não ha nisso o menor 
desaire *? 
[ Ha outros aparlcfi ; o Sr. presidente reclama altenção,) 

O Sr. Visconde do Rio/Branco ( Presidente do con- 
selho ) : — Repito á camará : o gabinete de 7 de Março 
não tem subvencionado a escriptor algum 'ajjoiados) ; 
tem autorisado a despeza com a publicação de artigos 
de interesse publico, escriptos com moderação e pru- 
dência ; não tem corrido por conta do governo tudo 
quanto tem sahido em defesa da questão do elemento 
servil. Muitos defensores da idéa tem pago á sua custa 
os artig-os que publiccan, e até alguns artigos são evi- 
dentoineute de orig*e:n liberal, pois não são unicamente 
os amigos do g*overno os que se empenham pela victoria 
da causa da emancipação, 

[Tíocam-se apartes,) 

O nobae deputado pela província do Ceará conhece 
bem os segredos da administração; quando, pois, nos 
dirigio a .sua interpellação, devia saber que não viria- 
mos aqui dar nma resposta negativa, como figurou ; 
porque seria mentir á camará e ao paiz negar um facto 
que está no conhecimento de todos, que não é de hoje,, 
mas de ha muito tempo, facto praticado por todos os 
ministérios, mesmo por aquelle de que S. Ex. fez parte. 
[Muitos apoiados da maioria ). 

O Sr. Alencar Araripe :— E um facto licito. 

O Sr. Visconde do Rio-Branco [Presidente do con- 
selho ) : — A verdadeira causa desta interpellação, reve- 
lou-se no final do discurso do nobre deputado : ahi 
está ella claramente patenteada, S. Ex. entende que- 
alguns artigos que elle attribue á habillissima penua 
de um estrangeiro iilustre, artigos que ( ou eu estou 
muito illudido ou j^ me Jião recordo do que li ) nao 
continham injuria alguma, mas sim uma discussão 
muito digna de cavíÁheiros ; S. Ex. entende que esses 
artigos foram encommendados pelo governo, pagos pelo 
governo, sendo também o escriptor subvencionado í 



V 15 

Senhores, é preciso estar muito apaixonado para vir 
a esta tribuna aventurar proposições desta ordem, com- 
metterdo uma g^rave e dupla injustiça contra o g-abi- 
nete t; contra este dislincto qscvíçíoy {muitos apoiados 
da maioria)^ se é o mesmo que eu presumo ! 

O nobre deputado nos disse que ama os estrangeiros, 
que os quer ver entre nós, que deseja que afluam em 
grande numero e com toda a confiança ao nosso paiz ; 
o nobre deputado também é camperio da liberdade da 
imprensa, é filho da imprensa, como aqui nos disse ha 
pouco ; mas, entflo, como S. Ex. esquepe que essa lança 
de Achilles cura as feridas queella própria faz*? como 
S. Ex. em vez de tomar o desforço que cabia á sua il- 
lustraçfio, empunhando também a penna c respondendo 
a esse esrripior, abandona a imprensa e vem viiig*ar-se 
no ministério, trazendo essas paixões á tribuna e fa- 
zendo consistir nellas o objecto principal de uma inler- 
pellaçHo ? ! 

Vozes da maioria : — Muito bem ! 

O Sr. Visconde do Rio-Branto [Presidente do Conse- 
lho): — Sr. presidente: se o nobre deputado, pelas cir- 
cumstancias a que desreiK alludio a um iilustre estran- 
geiro que conheço, S. ]£\. foi summamente injusto. 
Esse notável homem de letras é incapaz de representar 
o papel que lhe atuúbuio o nobre deputado] Muitos 
apoiados da maioria). 

(Trocam-se apartes.) • 

Se alguma cooperação prestasse ellc ao gabinete, seria 
a mesma que prestaria a qualquer outro que defendesse 
uma causa que interessa a todo o mundo civilisado. 
[Muitos apoiados da maioria,) 

Senhores, o nobre deputad'j lamentou a facilidade 
com que entre nós se desvirtuam as intenções, se depri- 
mem os caracteres, o empenho com que se procura tudo 
nivelar, gerando o descrédito e a descrença no paiz ; 
mas com que direito veio S. Ex, aggredir-nos aqui 
pelos escriptos que attribue a um iilustre estrangeiro ? 
com que direito nos torna responsáveis pelos seus arti- 
gos, quando é temerária e inteiramente inexacta a as- 
serção de S. Ex., de que esses artigos fossem encom- 
mendados pelo ministério, ou publicados sob as vistas 
deste ? ! Como se anima o nobre deputado a assegurar 
o que nao pôde saber e o que é inteiramente inexacto '? ! 
E como traz S. Ex. para esta discussão um escriptor 
anonymo, um estrangeiro respeitável [muitos apoiados 



16 V 

da maioria), quando elle nao pôde defender-se aqui e 
nao deve ser olyecto de discussão nesta casa ? ! (Apoia- 
dos da maioria.) 

A discussão em paiz livre, como o nosso, é e deve ser 
permittida a todos, nacionaes e estrangeiros ; e se isto 
é certo, liade levar-se a mal que um estrangeiro, 
quando vè debater-se um assumpto de interesse uni- 
versal, sinta algum enthusiasmo e procure manifestar 
suas idéas ?! 

Como quereis que sejamos julgados e apreciados nos 
outros paizes, como poderá haver nelles um estran- 
geiro que defenda o Brazil, se é um crime que o estran- 
geiro no Brazil possa manifestar seu pensamento sobre 
uma questão social desta ordem? (Muitos apoiados da 
maioria.) Onde estão aqui os principios da liberdade 
da imprensa ?! Oh! filhos da imprensa! vós esqueceis 
a vossa própria origem! 

VozKs DÁ maioria: — Muito bem! 
O Sr. J. de Alkncar: — A questão não é essa; é a 
do insulto. 

O Sr. Visconde do Rio-Branco (Presidente do Con- 
selho): — Eu nao approvo o insulto, e nenhum homem 
de educação o pôde approvír. O nobre deputado não 
ignora que a melhor resposta que se pôde dar ao in- 
sulto é o despreso. Se porém os artigos a que alludio 
são os mesmos que eu li, e, se não estou esquecido, não 
havia nelles injuria alguma ; havia uma discussão 
muito illustrada, e muito decente. (Muitos apoiados da 
maioria.) 

O segundo ponto da interpellação é a despeza que 
temos feito com a publicação de artigos políticos na 
imprensa diária. Senhores, nunca se fez semelhante 
pergunta a ministério algum. (Apoiados da maioria.) 

Se o nobre deputado, o que eu não creio, presume 
que possa haver aqui algum abuso offensivo de nossa 
honradez, devo dizer-lhe com toda a confiança que, se 
S. Ex., tão prevenido como se acha contra nós, subir 
ao poder e entrar em todos os escaninhos das secretarias, 
nada lia de encontrar com que possa ferir-nos por esse 
lado : ao contrario, achará provas de que temos proce- 
cedido e procederemos sempre como os ministros mais 
honestos que tem tido o Brazil. (Muitos e repetidos^ 
•apoiados da maioria.) 

Typ. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sete de Setembro n- 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 



isr. 6 



RIO DE JANEraO ITDE SETEMBRO DE 1871. 



Vendesse em casa dos Srs E. & H. Laemmert— Praça da Constituição, 
Loja do canto— Rua de S. José n. 119— Livraria Académica, e &uz 
Coutinho na mesma rua n, 75. Breco 200 reis. 



A q.ii.estão d.o elexnento sex*vll 

Votada na camará dos deputados a proposta do go- 
verno com as emendas da commi&são especial, está ella 
iigora sujeita & discuss&o do Senado, onde diversos 
oradores têm tratado do assumpto, pró e contra. 

(Combatem a proposta, na forma e na essência, os Srs. 
Muritiba, Três Barras e Itaborahy, como j& se sabia 
que fariam. 

Na camará dos deputados dissera o Sr. Paulino de 
^uzai digno chefe da minoria, adversaria da pro- 
posta: 

a Neste século de luzes, e para homens que profes- 
sam a lei do Evangelho, a causa da escravid&o está 
julgada, e para sempre. y> 

Mas esta proposição, que devia leval-o, e & minoria, 
^e fossem consequentes, ao caminho verdadeiro, por 
onde se chegará ao desideratum^ que naquella camará 
-íL minoria tantas yezos protestou ser também seu, foi 
no senado posta em duvida, sinao contrariada pelo 
illustre Sr. Visconde de Itaborahy, que tantos encó- 
mios teceu no seu discurso ao trabalho escravo, que 
sté entende que só o escravo é próprio para resistir, no 
Berviço da lavoura, ao sol abrasador deste paiz ; e que 
o serviço exercido por homens livres n&o é tão lucra- 
tivo como por braços escravos ! 

Pensa também o honrado senador que a escravidão 
n&o é embaraço para a colonisaç&o ; e é egualmente o 
clima a razão poderosa que a isso se oppõe. 

J& se vd que o Sr. Visconde de Itaborahy tem maior 
franqueza na enunciação de suas idóas, do que outros 
'Contradictores da proposta. J& se vê que para elle, no 
fundo de suas opiniões regaladas pelo interesse da la^ 



2 VÍ 

voura, nao é certo que, neste século de luzes, a causa da 
escravidão esteja julgada, no sentido em que se enunciou 
o distincio Sr. Paulino de Souza. 

O Sr. Visconde de Itaborahy foi consequente. Con- 
siderando o braço escravo como o auxiliar mais útil da 
lavoura, dirigiu todos os seus argumentos ao fim bem 
manifesto de estender a instituição pelo maior tempo 
que for possivel, jà que nao pôde ser eternamente. 

Possuido de taes sentimentos, nada ha que estranhar 
no . tom de azedume, com (J^e o orador entrou na dis- 
cussão, nem no modo pessimista, com que encarou a 
proposta, desde que ella foi levada á camará dos depu- 
tados. 

Nao vê que haja perigo em ficar adiada a solução 
de um negocio de tanta gravidade para a sessão fu- 
tura do parlamento ; pensa que os lavradores não leva- 
rão a mal esse adiamento ; não ha nisso inconvenientes 
de natureza alguma. Se o governo com i.s.so se escan- 
dalisasse ( accrescenta o Sr. Visconde ) e tencionasse 
ameaçar o paiz com disposições ainda mais prej iidiciaes 
aos interesses da lavoura, antes que executasse algum 
acto dictatorial, o governo estouraria, e talvez comdleas 
instituições que nos regem. 

Estas proposições, e outras contidas no discurso de 
S. Ex., confirmam bem o que sempre se disse — que o 
Sr. Visconde de Itaborahy não é o chefe menos intole- 
rante da cruzada contra a proposta. 

Mas haverá grande prudência em ameaçar com es- 
touros políticos? Deviam estas palavras sahir de 
tao autorisados lábios, ou ser proferidas em tão alto 
logar? O illustre senador, quando mais a frio, reco- 
nheceria a impossibilidade de pairarem na mente do 
governo as intenções que apaixonadamente lhe attri- 
buiu. 

O attento exame do que se está passando na socie- 
dade brasileira leva á convicção de que a opinião ga- 
nharia forças com a resistência, e que, desgraçada- 
mente, si estouro houvesse, seria todo em grande cala- 
midade dos interesses, que S. Ex. e outros pensam 
defender. 

Obstinam-se em ver na proposta erros e perigos, que 
ella nao encerra, como jâ tao extensamente, com tanto 
critério de apreciação e luz de verdade, se tem de- 
monstrado. 

Obstinam-se em transviar a opinião dos lavradores ^ 



IV 3 

que só agora vêm tanta oJB5.ciosidade n'esses amigo^;, 
que nunca acharam meios de suavisar-lhes os padeci- 
mentos, que levam uma considerabilissima parte 
d'elles a estar vendo todos os dias em praça, para 
pagamento de dividas, aggravadas por penosos juros, 
os seus escravos, as suas plantações, as suas terras de 
cultura ! 

Um dos pontos, tantas vezes allegados contra a pro- 
posta, e tantas outras victoriosamente combatidos, é a 
posiçílo dos nascituros livres, segundo a proposta, no 
meio dos escravos, creados por suas mães escravas, e 
vivendo na fazenda, com a obrigação de prestarem ser- 
viço até os 21 annos. 

Ora argumentam que a própria proposta será lei de 
Herodes, será a degolação dos innocentes. Mas porque ? 
Os senhores das escravas que derem filhos, faraó com 
sua severidade que estes pereçam ? 

Ora, que taes indivíduos serão elemento de indisci- 
plina nas fazendas; desorganisarao o trabalho, creando 
a desobediência. 

Ora, que serão realmente escravos ; que o nome de 
livres será um som vao ; que serão galés do trabalho ; 
que contrahirao todos os vícios do captiveiro; que serão 
na sociedade membros perigosos. 

Ora, finalmente, que os senhores de suas mães nao 
os quererão : que os entregarão ao Estado ; e que este 
nao terá meios de educal-os... 

Em tudo isto as contradições em que caem, nao podem 
ser maiores. 

Si os nascituros, nas condições da proposta, ficam 
realmente, como se diz, na posição de escravos, nao ha 
risco de serem elemento de desordem nas fazendas. 

Demais, nao devem ainda ser elemento de desordem, 
attenta a sua idade até os 21 annos, em que nao podem 
tornar-se instrumentos de propaganda desmoralisadora; 
nem o podem ser depois d'essa idade, porque ou sao 
submissos, e seus serviços convém ao fazendeiro, e con- 
tinua este a conserval-os contratando-lhes os serviços; 
ou, nao convém ao fazendeiro a sua conservação, e os 
despede ; estão elles na idade de reger-se, sujeitos ás 
leis communs. 

Nao serão instruídos, como nao sao tantos homens 
livres entre nós, que nascem, e sao creados no tra/- 
balho; mas analphabetos. Os remédios a esses inconve 



4 IV 

nientes vfto yindo & proporç&o que os meios de ins- 
trucçao do povo se forem desenvolvendo. 

£' nossa firme convicç&o que as crianças nascidas 
livres, de mães escravas, por beneficio da lei terão os ca- 
rinhios maternos sem resaibo de ciúme, e antes com 
aquella dedicação que suas m&es poderem prestar-lbes; 
e taes crianças serão muito vantajosamente aproveita- 
das no serviço das fazendas. 

Estamos no Brazil, e é pnra o Brazil que se legisla. 
Aqui a escravidão foi desde i83l collocada em condi- 
ções bem diversas da de outros paizes. ' 

J&nao é possivel, com o movimento no sentido eman- 
cipador que desde alguns annos começou, e de dia em 
dia vai crescendo, manter-se a instituição escrava pelo 
tempo indefinido que a querem os adversários da pro- 
posta ; é verdadeira loucura pensar-se tal cousa. 

O que nos diz o Sr. Visconde de Itaborahy sobre os 
rigores do clima, que n&o permitte trabalho efficaz na 
lavoura senão por braço escravo, é desmentido por factos 
comprovados do norte ao sul do Brazil, e por todo esse 
interior, onde o homem livre supporta o trabalho da la- 
voura com toda a vantagem para a producç&o. Isto é 
bem sabido ; desde que o homem se habitua a um tra- 
balho, na idade conveniente, contrahe o habito para o 
mesmo,e para a fadiga qued'ahi provêm. Os nossos ho- 
mens do campo s&o nfto somente robustos,como também 
sóbrios. Querem todos os que guerreiam a proposta, 
que o impulso abolicionista nascosse da opini&o ; e que 
o governo fosse conduzido como a reboque ou arrastado ! 
Sem duvida o impulso nasceu, e nasceu de causas im- 
periosas; éa opinião publica que o gerou I e da parte do 
governo haveria grande erro, si n&o se puzesse & frente, 
dando-lhe direcç&o. Si tivesse continuado o ministério 
de 16 de Julho, o Sr. visconde de Itaborahy nfio hou- 
vera podido conservar-se na posiç&o que aconselha. 
N&o é de hoje que as republicas nossas conterrâneas 
nos detrahem por motivos da escravid&o. Tem-se procu- 
rado no exterior, e com successo, em parte, desde muito 
tempo, crear indisposições contra a nossa nacionali- 
dade, por esse motivo. 

A escravid&o no Brazil tem seus dias contados desde, 
que no mundo christ&o ó este o único paiz que ainda 
conserva tal instituiç&o na sua existência social. 

E pode alguém, com a m&o na consciência, qualquer 
que seja o jogo que faça com os algarismos, demonstrar 



VI 5 

que, com alforrias parciaes e limitadas, se conseguirá a 
extíncçao do elemento servil, continuando a fonte de 
producçao cora os nascituros na condição de escravos ? 

Eé sincera, é fundada a accusaçao,que fazem ao pro- 
jecto approvado pelatsamara dos deputados,por nao dis- 
por essa lei por modo que os nascituros,livres segundo 
a mesma lei, recebam uma educação, qual o Estado nSo 
dá aos raeni lOs livres das classes necessitadas da nossa 
sociedade, sinno em proporção limitada, visto como o 
ensino popular ainda nao está devidamente desenvol- 
vido eitre nós ? 

E é verdade que o governo attente contra a lavoura 
cora a proposta, quando é certo que ella consulta todos 
os interesses p.usentes e futuros da lavoura ? E pode 
acreditar-se que nao foi um pensamento grandioso que 
guiou o governo, quando a razRo tranquilla reconhece 
qu* co'n a escravidão nao será possível que a sociedade 
brazileira se eleve ao ponto de melhoramento moral, 
industrial e económico, tao próprio das condições em 
que se verá coUocada com a sabia providencia? 

Ftílizmente para o Brazil, si entre os antagonistas da 
proposta ha retardatários, nao o é a nação, nao o é a 
grande maioria dos representantes d'ella, não o é o go- 
verno. 

Temos fé em que a proposta será lei do Estado no 
corrente anno. 

JunÍKs. 



Ol>i?as <le Sonlo— O Oaviclio. 

Caretas a um amigo.) 

II 

Meu amifíro. 



o 



Nunca tive nem terei uma palavra mais severa pjira 
exprobrar ao moço a fraqueza, em que incorrer, arris- 
cando suas primeiras luctas na escabrosa arena das 
lettras. 

A litteratura, como se ha dito tanta vez, é um sacer- 
do -io, e como todos os sacerdócios tem de ser ser- 
vida por diversas (jrdens de religionarios. O neo- 
phyio, em regra, paga irremissivelmente o natural 



6 VI 

tributo do excesso de fervor, que caracterisa todo o no- 
viciado. Exigir d'elle serviço completo fora impiedade. 

Nao assim com os serventuários provectos, de repu- 
tação feita e perfeita. Si deslisam do verdadeiro trilho, 
é dever imperioso arguir-lhas as feitas, para que nao 
succeda aos sectários inexperientes seguirem o máo 
exemplo, na persuasão de se estarem edificando. Ha pra- 
ticas, que sendo apparentemente sans, nao deixam de 
ser no fundo heterodoxas. 

Nao ponho em duvida os créditos e a auctoridade, de 
que Senio gosa n'este género de labor intellectual. 

E justamente por estar cônscio de sua auctoridade e 
dos seus conceitos, é que estremeço pelas lettras pátrias, 
que vejx) ameaçadas de um transtorno inevitável, si 
fizerem escola as fátuas phantasias de uma peana phi- 
lauciosa, que abusa das suas faculdades procreadoras, 
vestindo o centauro com as roupagens da bella Juno, 
envolvendo na crosta côr de rosa do confeito perfuma- 
do a bryóuia ou o tártaro. 

Tanto mais me receio dos males que da aberração 
possam provir, quanto é innegavel a espécie de idola- 
tria, que existe em certo circulo para com as obras 
oriundas da penna de Senio. Si a confissão d*esia ver- 
dade lhe desvanece ainda mais o descoinmunal amor 
próprio, embora; refociUe-se no ingrato gôso. 

Um folhetinista conceituado, referindo-se á Pata da 
gazella^ chegou a declarar que, por ser ella -«scripta por 
quem fora, merecia as honras da alta jerar chia litteraria 
do auctor, e não podia passar sem as salvas do estylo. 
Nao penso outro tanto. A obra e só a obra — eis tudo, 
venha d'onde vier, seja de quem fôr. Pego no ^olume, 
sem indagar quem o escreveu ; e si fôr anonymo, tanto 
melhor. 

Já antecedentemente havia dito o folhetinista que si 
a obra nao fora filha legUima dac/iÁelle applaitdido tor 
Ze/í/o, seria justo recebel-a como um mero accideníe ub 
litteratura. 

Haverá confissão mais flagrante da idolatria ? Isto 
quer dizer que, a nao ser a obra de quem é, passaria 
com inteira inditferença. Semelhante juizo, vindo de 
uma penna amiga e grata, importa uma condemnaçlo. 
Quanto a mim, o que o folhetinista quiz em balde dis- 
farçar com as filigranas de seu luxuoso estylo, foi o se- 
guinte conceito : « A obra, por si só, nao presta. »> 
E cntao i Pois também cá pela republica das lettras 



VI 7 

havemos de ter oráculos indiscutiveis, auctoridades do- 
gmáticas ? Também por cá os divifios^ quando parece 
ter soado a hora dos papas e dos pães Soulouques... 
Vamos ao Gaúcho, 

O romance de nacionalidade ainda por ninguém foi 
melhor entendido e executado do que por Cooper. 

Walter Scott, de quem a Europa ta-j legitimamente se 
vangloria, ainda assim a certos respeitos é menos recom- 
merdavel do que o suberbo escriptor norte-americano. 
Por exemplo : antes de Walter Scott haver empre- 
hendido a construcçao do agigantado edifício da his- 
toria da Escossia, já outros o haviam precedido n'este 
mister, colhendo e recolhendo muitos costumes, muitas 
superstições narionaes, como observa um profundo cri- 
tic J. Walter Scott nao é no todo original. Mistriss Grant. 
Burns, AUan-Ramsay, Buchanan, Ma.^pherson e outros 
ti abam já explorado as virgens fontes, para onde Walter 
Scott nao fez mais que a-centuar com sua penna arro- 
jada vastos caminhos, descobrindo com amplitude pers- 
pectivas bellissimas, apenas entrevistas e semi-occultas. 
Walter Scofu achou veredas para seguir no dédalo; nao 
podia perdjr-se u'elle. 

Antes de Cooper porem, que observação litteraria 
havia já perlustrado as seculares solidões do Oliio, do 
Mississipi, do Illinois ? Que peniia rasgara a cellula 
virgem e immehsa de uma riaiureza acima de todos os 
\òos^ de todas as preoccupações das mais arrojadas phan- 
ta-íias, e fi^^era jorrar d'alli a veia cnudal <ia poesia a iie- 
ricana, para inniindar mares e coutineutes ? Quem já 
havia (Teado e dado um cerlo molde ))ara exemplo? 

«Cooper não tem predeces-for: veredas ainda nao bati- 
das se lhe apresentam de todos os lad)>. U na inexgo- 
tavel variedade de maieriaes; sceiías que exigiam um 
tlieatro; painéis que demandavam um (|u;Klro: p Jiiios de 
vista, que solieitavam um pintor: p )r lod-i a pane no- 
vidade, bizarria^ maravillias ; um intevesstí tido rno- 
derii'> ; um povo, api3nas saliido de sums faixas e já 
pod*:*roso; uma historia, cujas primeiras pagi.ias brilliam 
(Ip civilisiiçao e falam de couquisía ; a singularidade 
de iiin Jieroismo trauqiiilio, piedoso e perseverante ; os 
n-iiiies de Washington, de Peun, de Kratiklin ; para o 
fundo do quadro as florestas seculares; para actores, os 
apo3:olos do Xovo Mundo, entreiendo-se com os fillios 
du wUjicam e ái) caluniei ; os progressos da arte eiiropea 
no meio d'essas solidões sem dono ; os combates de op- 



8 VI 

pressos e de oppressores, uns reclamando, outros que- 
rendo, abafar a liberdade e a tolerância ; — que digo ? 
talvez nova éra social, fechada para o mundo, e prestes 
a emanar de Philadelphia 1 » 

O grande merecimento de Cooper consiste em ser 
verdadeiro ; porque nao teve a quem imitar sinao à na- 
tureza ; é um payzagista completo e fidelissimo. 

Nao escreveria um livro siquer, talvez, fechado em 
seu gabinete. Vê primeiro, ooserva, apanha todos os 
matizes da natureza, estuda as sensações do eu e do não 
eu, o estremecimento da folhagem, o ruido das aguas, 
o colorido do todo ; e tudo transmitte com uma exacti- 
dão daguerreolypica. 

Apontam-lhe o defeito de serem seus quadros um 
pouco sêccos, em consequência d'essa minuciosa fideli- 
dade de pormenores. Mas embora ; nSo deixa de occu- 
par o priíiíeiro logar, ao nosso ver, n'essa galeria de 
vultos gigantêos. 

Cooi)t»r é americano, Senio também o é — eis ahi um 
pont^ de analóíria, que os aproxima. 

Ao passo pr)Vem que Cooper daguerreotypa a nalureza. 
Senio^ á força de querer passar por original, sacrifica a 
realidades ^do sonho de sua caprichosa imaginação ; des- 
preza a fonte, onde muita gente tem bebido, mas que 
é inexo-)tavel, e onde ha muito liquor iniacto. Para 
Senio a, verdade, dita por muitos, perde o encanto. Elle 
não ha de escrever pelo ramerão; fora rebaixar-se. E' 
preciso dar cousa nova, e eis surge o monstro repug- 
nante e dí^spresivel. 

Senio ulo í^omprehende a poesia americana, como em 
geral tem sido concebida por bons talentos que o Iro 
precedido, e vem dar-nos o ideal da « poesia verdadei- 
ravxente brazileira, haurida na lingua dos selvagens » na 
sua etfeíninada Iracema, onde os guerreiros falam unia 
lin»ru.)giiem débil, esmorecida e fláccida, que não po- 
diam de modo alguni usar em sua braveza. 

Isto importa um característico : a penna de Senio não 
foi talhnda para construir a epopea ; faliam-lhe azas 
para elevar-se nos assumptos heróicos, que demandam 
vô )S ex-elsos do pensamento, phraseologia máscula, 
jo^ro de piixõ^s vehemen;ese arrebatadas. A linguagem 
de Senio é dole.ite e languida. No dizer de um criiif^o 
portuguez, sua pmna pôde ter bom succ sso « na poesia 
dengue e cof/uelte^ poesia arrebicada, doentia, ras.ei- 
rinha, poesia d'alcôvas e salões, complacente, p egas. 



VI 9 

cousa de toilette^ feminina.... como o pó de arroz, 
o6 vinagres aromáticos, os espiritos de peíites domex 
e de pelits crêvés, o Ilangylang, o bouquet Manilha, e 
o cosmético Miranda, d 

N'es3e prurido de querer passar por original c< seus 
exforços de imaginação sao voos de uma intelligencia, 
que quer crear, e que em sua impotência cria chime- 
ras » na phrase de um critico, apreciando Brockden 
Brown. Exemplo ; Diva^ Pata da Gazella^ Gaúcho. 

Além do mais, Serdo tem a pretençao de conhecer a 
natureza, os costumes dos povos (todas essa«i variadas 
particularidades, que só bem apanhamos em contacto 
com ellas), sem dar um só passo fora do seu gabinete. 
Isto o faz cahir em frequentes inexactidões, quer se 
proponha a reproduzir, quer a divagar na téla. 

Porque nao foi ao Rio Grande do Sul, antes de haver 
escripio o seu Gaúcho ? A litteratura é uma religião, e 
tem direito de merecer taes Sbcrificios de seus sinceros 
cultores. Nao nos teria então talvez dado esses esboços 
de physionomíafria,de cútis contradicioria, concepções 
hybridas, a titulo de figuras esculpturaes e legendaria.s 
da campanha. Muita rasao tinha Balzac : nao fundava 
acção nenhuma em logar que nao conhecesse. 

Convençamo-nos: a imaginação, até amais viril»* 
opima, .se esgota, cança e desfallece. Apreciando a 
decadência do theatro hispanhol, diz uma auctoridade, 
que ella teve por causa o haver-se esquecido de que a a 
opulência das mais magnificas correntes exige uma 
renovação e uma economia na despeza ». 

A renovação faz-se pela observação. A natureza offe- 
rece cada dia um encanto novo, que a imaginação sa- 
dia recolhe para dar-lhe mil feições graciosas, ainda 
nao conhecidas. O fluido proprÍM mente original e ima- 
crinoso é apenas applicado a dar o tom, o equilíbrio, o 
reflexo esthetico às creações reaes. Com tao comedido 
emprego e uso, nunca se poderá dar a bnncarôía. 

A imaginação atrophiada nas cidades só pôde procrear 
a mentira, a falsidade, quando quer estampar acções e 
figuras da vida florestal uii do decerto. Nflo é a leitura 
isolada, embora dos mais escolhidos modelos, que dará 
a expressão fiel da natureza. E' preciso contemplal-a, 
receber impressões face a face com o desconhecido, 
experimentar verdadeiranente todas as sensações da 
inapiraçílo, nao ficticia, mas real. 
O quê foi que contribuiu para ter cedo a America do 



10 VI 

Norte uma litteratura orig^inale grandiosa, graças ao 
trabalho de poucos obreiros ? Foi o nao fazerem outra 
cousa sinao copiarem fieliaeate as grandes scenas, as 
magaificas perspectivas d^essas regiões virgens, onde 
tudo offerecia um cunho de originalidade tao graciosa, 
que nao só dispensava, porém mesmo excluía o uso da 
creaçao phantasiosa^ por somenos aos magestosos 
painéis. 

O que faz Audubon ? Estuda os pássaros, suas cores, 
suas paixões, suas metamorphoses,para e simplesmente 
á sombra das florestas do Mississipi, a Audubon nao 
somente comprehendeu essas harmonias, no meio das 
quaes viveu e que repercutiram no fundo de sua alma, 
porém reproduziu-as em estylo admira\''el de sim- 
plicidade, cheio de sabor, de seiva, de eloquência e de 
sobriedade. » 

Ao passo que esses illustres constructores vão pedir a 
natureza os traços harmoniosos, os painéis correctos, as 
cores vivas com que devem erigir e adornar o pantheon 
das glorias da pátria, e de sua própria immortalidade, 
entende Senio que conseg lirá idênticos r»^sultados, des- 
presando o inexhaurivel manancial ; e, cego pela 
vaidade, nao vê sua veia apparecer em seus últimos 
livros deprimida e exangue ? Lamentamos do coração 
o engano d'alma. 

Na sua monomania de querer passar por creador ou 
melhor por cZúeí/or de novidades tem a pachorra de 
asseverar em sua Diva ao publico, para quem se deve 
ter a gravidade e a reverencia devida a tão alto senhor^ 
que os termos nubil^ pubescowia^ olympio^ frondes, afflar 
e outros (já de muito consignados nos diccionarios da 
lingua) sao innovações suas I e demora-se em justifi- 
cal-as. 

Ora, todos estes vocábulos se acham em Moraes e 
Constâncio, e especialmente em Fonseca, edição de 
Pariá, de 1852 — volume portátil. — Núbil — diz o lexi- 
cographo — adj. de 2 gen ; em estado de casar, casa- 
douro. — Nubilidadey s. f. idide, estado do que é núbil. 
— Pubescenciu, s. f. puherd id ; (bot.) existência de pe- 
los. — Olympico, Olytnpio^ a, adj. pertencente aos jogos 
olympicos ou ao olympo, — Frondes^ s. m. pi. [bot.) 
ramos de arvores folhudos. —A^ayi/c, adj. de 2 gen^ 
que assopra ou bafeja. — Afflar v. a. lançar o hálito : 
soprar para alguém ou alguma cousa ; (/u/.) communi- 



VI 11 

caro ar como assoprando ou bafejando ; [poetj inspirar 
os vates. » 

Na sua Iracema diz, na carta final, que « as etymo- 
logias dos nomes das diversas localidades sao de cunho 
original. » Entretanto os vocábulos Ceard^ Aracaiy, 
Meruóca, Quixeramobim^ Pirapora^ Pacatúba e outros, 
vem todos no Glossário do Dr. Martins, quasi pelos 
mesmos termos ! 

Sento tem a mania das notas. Nao ha volume seu, 
d'entre os últimos que assigualam a sua precoce de- 
cadência litteraria, que nao seja acompanhado de al- 
guns desses enxertos, que em sua maioria só servem 
para desabonar o auctor. Na Pata da Gdzella escreve 
Tilbure^ champanhe, porque entende que devemos im- 
primir certo cunho portugaez nas palavras estrangei- 
ras adoptadas pelo uso. Por esta regra devemos escre- 
ver buque, soarê, etc. Nao te parece uma extravagân- 
cia? 

No Gaúcho offerece-nos hennilo, com certos ares de 
novidade, por nao encoutral-o em Moraes ou em Cons- 
tâncio; e crê (este crê dá ura specimen da frivola vai- 
dade de quem nao quer achar auctoridade antes de si, 
até na própria lingua) que Fonseca dá hinnir ehinnito. 

Notável singularidade ! Parece que Senio faz timbre 
de lançar a confusão nos espiriíos. Quando elle diz que 
inventou tal verbo, eucontra-se o verbo nos dicciona- 
rios mais vulgares ; quando diz que em tal diccionario 
vem tal termo, justamenie este termo deixa de vir no 
diccionario referido. E sim ; cá o meu Fonseca, tao in- 
discreto e abelhudo no afflar, na pubescencia e nos ou- 
tros, está mudo quanto au henniío e aohennirl Nao 
sao, porém, vocábulos novos ; Filinto Elysio empregou 
hinnitory rinchador, e modernamente Odorico Mendes 
faz o mesmo no seu Virgilio Brazileiro, Hinnus chamam 
os naturalistas ao filho da burra com o cavallo. 

Diz-nos ainda Senio, no seu inexgotavel Gaúcho, a 
titulo de idiotismos e yiria da campanha: « carneador, o 
que mata a rez e a esfola e mauLêa a carne ; salgador o 
que salga ; que serro é monte; que lomba é ladeira; que 
mondongo sao tripas ; que pó/í/ro é cria da égua. » 

Nao é uma mania de querer a todo o transe passar 
por philólogo ? 

Diz-nos mais que os Yankees chamam far-west ao 
í£ue os russos chamam steppes e os castelhanos sabanas 
— isto é, « as immensas planícies rasas que se dilatam 



12 VI 

por aquellas regiões, e que, de certo, no,dizer dos via- 
jantes, parecem á noite cobertas de um branco lençol. » 

Está enganado : os Yankees chamam far-west ao des- 
conhecido^ o inexplorado ; e, talvez, mais propriamente 
ás mattas virgens, onde ainda nao penetrou o esforça 
civilisador. 

Com o titulo de Far-west ha um bello livro, com 
auctoridade e cunho de qnem viu as cousas, e cuja lei- 
tura recommendamos a Senio, 

Diz-nos mais que pampa é uma palavra originaria 
da lingua kichúa, que significa simplesmente o plaino. 
Porque nSo declarou de onde hou^e esta noticia sobre 
a lingua kichúa, tão pouco conhecida entre nós, e que 
nao se aprende nas academias? 

A tal respeito lê-se no Guarany, de G. Aimard, pag. 
41, capitulo intitulado — O ?*anc/io— em seguida ao que 
se intitula — O Gaúcho : 

c( Le mot pampa appartient à la langue Qiiinchúa 
(langue des Incas); il signifie textuellement place, 
terrain plat, savane ou grande plaine. » 

Ora esta ! ora esta ! 

Tenho-me alongado de mais nesta carta, e reservo- 
me para a seguinte. 






As oausas das eausas. 



DEDICADO AO SR. S. 



Time i8 money 
John Bull. 



Todos os males diversos 
que vem á terráquea bola 
devem-se a esses pervprsos 
que ignoram a inglezaeschola. 



VI 13 

Se nos abraza o calor , 
é culpa do Imperador. 
Se faz frio glacial, 
cão do Poder Pessoal ! 

Se de nada serve o berro, 
de nada a interpellaçao ; 
« se alguém ficou com ferro 
da sua atrapalhação ; 

se fez fiasco algum doctor, 

é culpa do Imperador. 

Quem pOe bobo em arraial, 

é o Poder Pessoal. 

Se alguém viu saguins sem rabo ; 

se viu gigantes pygmeos ; 

se uma lingua do diabo 

se transforma em Voz de Deus ; 

se ha quem viva de rancor 

é culpa do Imperador ; 

a culpa de falar mal 

6 do roder Pessoal. 

Se um homem que calça luvas 

n&o leva os dedos despidos ; 

e se todas as viuvas 

sao senhoras sem maridos ; 

d*estes effeitos o auctor, 
quem será f o Imperador, 
que, no bem como no mal, 
tem um Poder Pessoal. 

Se eu não quero se emancipe 
quem nasceu na escravid&o ; 
e se o cónego Philippe 
tem ratinhos na razSo ; 

se tenho ar de inquisidor, 

6 culpa do Imperador ; 

sou um marquez de Pombal 

co^o meu Poder Pessoal. 

Se um homem que cai de costas 
n&o vai de ventas ao chão ; 
e se um João, feito em postas, 
fica sendo um ex-João ; 



14 V 

se quem ama tem amor, 
é culpa do Imperador ; 
se ter ódio é querer mal, 
guerra ao Poder Pessoal ! 

Se sao yayás as meninas, 
e se aos poldros chamam Jucás; 
se a pobre velha de Minas 
esperava pôr macucas ; 

e se o rato é roedor, 

culpado é o Imperador. 

Se ha doidos no hospital, 

culpo o Poder Pessoal. 

Se entre Rómulo e Pilatos 
muito século correu ; 
se Adão nao calçou sapatos ; 
se Eva nao usou chapeo ; 

se Caim foi lavrador, 

é culpa do Imperador ; 

e se o Abel foi zagal, 

fêl-o.o Poder Pessoal. 

Se houve no Egypto e na Grécia 
a divindade Serapis ; 
se hoje o grão Deus da fiicecia 
é o do Veto do lápis ; 

se houve um sábio consultor, 

foi culpa do Imperador ; 

se ha mingáos que nao tem sal, 

safa ! é Poder Pessoal, 

A historia fala de um louco 
que havia em Porto Pyreo, 
que, ao ver naus, tinha o descôco 
de julgar ser tudo seu. 

Quando o sol ás eiras for, 

leval-o-ha o Imperador ; 

e se ha chuva no nabal, 

quem lá chove, é o Pessoal. 

Se um homem de perna bamba 
tem o nome de cambaio ; 
e se nunca uma caçamba 
pode vir a ser balaio ; 



I 



VI 



15 



se ha escravo o se ha senhor, 
a culpa é do Imperador ; 
se ha quaresma e carnaval, 
culpa é só do Pessoal. 

Se ha quem ostente ser nimio 
austero^ severo e fero ; 
e se um dialéctico eximio 
fulmina o quero e o não quero ; 

se li bra em >er delator 

é culpa do ImiJerador. 

Seja-lhe o rei pedestal ! 

Novo Poder Pessoal ! 

Se ha quem se julgue facundo, 
por adeinaes e tregeitos ; 
se ha quem calque a todo o mundo, 
por tributo a seus despeitos ; 

se é todo o cao ladrador, 

a culpa é do Imperador ; 

cae em dezembro o natal, 

por culpa do Pessoal. 

Se eu bramo como dez fúrias 
contra qualquer que me vença ; 
se eu vomito e babo injurias* 
contra quem me nao incensa : 

se eu sou berrante orador, 

culpem lá o Imperador ; 

se imito o lobo cerval, 

é cascar no Pessoal. 

Se acho a bem-aventurança 
no dinheiro e mais dinheiro ; 
se pago alta confiança, 
descerrando o reposteiro ; 

se me acham declamador, 

quem tem culpa ? o Imperador. 

Vendeu-me a alma a Baal 

espectro do Pessoal. 

Se eu já vi um tira-dentes 
arrancal-os sem ganir ; 
e se vi certos valentes 
a provocar é a fugir ; 



se hoQtem fui conservador, 
tinha em vista o Imperador ; 
sou hoje ultra-liberal, 
por pirraça ao Pessoal. 

Se eu souhei subir do nada 

té ao cume derradeiro ; 

se, ao ver-me em tamanha alhada, 

me sai o gado mosqueiro ; 

se nao subo a senador, 

quem tem culpa ? o Imperador ; 

e se eu faço... et cosfra e tal, 

é por birra ao Pessoal. 

Emfim, se tudo no mundo 

anda de pernas p'ra o ar ; 

se o primeiro, sem segundo, 

é o ,, - 

deve-ae o inferno do Dante, 
e opeccado original, 
aos influxos (lo Imperante, 
e ao monstro do Pessoal. 



PiTT « BlíCkstonb, em colUiboraçâo. 



Typ. e Litb.— IMPARCIAL— fl<ia Sete de SeUnbro n' USA. 



QUESTÕES DO DIA 



N. 7 



RIO DE JANEIRO 20 DE SETEMBRO DE 1871. 



Vende-se «m casa dos Srs E. & H. Laemmert.— Praça da Constituição, 
Loja do canto .^Livraria Academicai Rua de S. José n. 119— Largo do 
Paço n. 12 C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 



Ol>x*as de Senio-^O Gai^obo. 



(Cartas a \im amigo.) 



III 



Meu amigo. 



Aqui estou outra vez^ proseguindo em meu insamo, 
e sem duvida inglório labor. 

Â' luz dos príncipios estabelecidos na minha carta de 
hontem, estudemos o Gaúcho, como romance nacional. 

Achou-se um dia Manoel Canho em um rancho ou 
pousada de Entre-Rios, onde uma égua brava tinha 
desbancado os mais hábeis e destemidos picadores. 
Ouçamos Senio: 

a Fora longa e renhida a lucta dos piOes com o ani- 
mal, antes que lho deitassem a m&o. Em se adiantando 
algum mais affouto, a égua juntava, e de um salto 
espantoso se arremessava longe, disparando aos ares 
o couce terrível e encrespando o pescoço para morder. 

« Conheceram a final que era impossível levar a sua 
avante pelos meios ordinários. Foi então laçado o ani- 
mal peia garupa em um dos corcovos, e jungido ou 
antes enrolado ao moirfto. » 

Jà antes d^essa tremenda prova da indomabilidade da 



2 V.. VII 

égua, D. Romero (o dono) e mais dous camaradas, que 
trazia, haviam empenhado, mas de balde, os maiores 
esforços para montal-a. Era tal a rapariga, que D. Ro- 
mero a dava de graça a quem a montasse, tao con- 
vencido estava de o nao conseguirem. 

Canho, que nunca vira o animal, adianta-se, crava 
o olhar na pupilla brilhante da baia, solta um mur- 
murejo semelhante ao rincho do poldrinho, e temos a 
égua rendida. 

Graças a esse simples olhar amoroso, a esse arrojo. 
Canho consegue aproximar-se e pôr-lhe a mâo nas es- 
padoas 

— «Só mandinga!» observa lim dos da pousada, 
attonito pelo prodígio. Nao podia deixar de ser um 
homem de senso, esse. 

Canho cinge-llie o collo garboso. Os olhos de ambos se 
embeberam uns nos outros. — «Que palavras mysterio.sas 
balbuciaram os lábios do gaúcho ao ouvido do indó- 
mito animal, com a mao a tiíillar-lhe os seios "^ » per- 
gunta Senio, 

« O bruto entendia o homem — responde elle mesmo. 
— A égua estreita com o pescoço o gancho. Houve um 
coUoquio do bruto com o homem. Ficam todos os ran- 
cheiros pasmados » (Nem era para menos). 

Mas Canho continua nos seus carinhos e blandicias. 
Amacia as finas íêdas da crina e abraça a égua. Esta 
volta o rosto para ver o semblante do gaúcho e agra- 
decer-llie a caricia. Domada, ou antes rendida ao amor, 
a baiu aproxima-se do terreiro, sacando com gentileza 
e elegância. 

E' de tal força o milagre que os da pousada que- 
rem crer que a égua já fora amansada, ou fugira ha 
tempos de algum pasto, e outras cousas mais. 

Porém Canho, cônscio do seu estupendo prestigio, 
desafia a que consigam o que elle acaba de* obter de 
morena. Alguns temerários, levianos, se aproximani 
para outra vez tentarem cavalgar o animal, mas foi 
uma tal ccuicata de couces, que todos correm a refugiar-se 
no alpendre. 

E comtudo — mirabile dieta ! — morena correu para 
junto do gaúcho, que estava arredio (arredado, devia 
dizer) e começou a roçar por elle o pescoço, como se o 
affagasse ; Manoel montou de novo, sem que a égua fi- 
;sesse o menor movimento de impaciência. (Artes do- 
demo ;não tem que ver.) 



VII 3 

Para quem sabe o que é a égua bravia, maxime si 
está recem-parida, essa transfusão de sentimentos affec- 
tuosos^ de que nos fala Senio^ operada entre morena e 
Canho, é o cumulo do absurdo, senão do ridiculo. 

Perguntae, desde o sertanejo do norte até o picador da 
cidade, e d'este até o gaiiclio da campanha do sul; per- 
guntae a qualquer pessoa de todos os paizes, entre os 
primeiros povos dados á arte de montar, mais astutos, 
mais férteis em artefactos e fraudes para illudir os 
sentidos aguçados, levados ao ultimo acíime, da égua 
parida, si é possivel essa scena por mera sympathia ou, 
influencia sentimental; e todos rirfío de vossa ingenui- 
dade. 

« Os Americanos — diz um auctor — apanham os cavai- 
los bravos, deitando-lhes o laço ao pescoço, pondo-lhes o 
freio e a sella, a de^ipeito de todos os esforços do animal 
para se ver livre de taes obstáculos ; um domador va- 
lente monta então o cavalloe fal-o correr, picando-o com 
as suas agudas esporas, até que o animal se cance.)) Senío 
não seri capaz do citar, para apoio de sua concepção^ 
uma só opinião em favor da domesticação do cavallo,pelo 
sentimento brando e affectuoso. Muito menos se se tratar 
da égua no estado de morena^ estado em que adquirem 
esses animaes um tal grau de excitabilidade e suscepti- 
bilidade que só não desconhecem o próprio filho. 

Senxo parece querer de algum modo insinuar ajustifi- 
caçãode sua desnaturalidade, pelo ornejo de Canho imi- 
tando o rincho débil do poldnnho recem-nascido. E' uma 
filigrana, que cede a uma só observação : a égua cer- 
tifica-se do filho, não tanto pelo rincho como pelo cheiro 
d'elle. Mas ainda assim : pegae do filho da égua e 
approximae-vos d'ella com as mostras mais aflectuo-sas 
de vossa ternura, e duvido que a consigais abrandar. 
Talvez succeda o contrario, e cada vez mais a irriteis, 
com risco de a fazõrdes desprezar o próprio filho. 

O auctor acha, entretanto, simples o segredo da proeza 
do gaúcho. Jamais moça ardente, sòtFreiJra de lascivos 
prazeres, coraprehendeu melhor um olhar de ternura, 
€ d'elle se deixou vencer, do que morena do olhar de 
Canho. 

Morena é a encarnação pois do talento racional.' 
Conlicce as meaores intenções de seu dominador des- 
couheci<lo. Torna-se em momentos o escravo mais intel- 
ligente, submisso e dedicado do estranho. 

A's vezes vem a contradiccão dar diversão ás idéas. 



4 VII 

Como comprehendesse o gaúcho que a égua estava com 
saudades do filho, apressou-se a satisfazel-a. Foi, « pas- 
sar a tronqueira do pasto e a besta desfechar n'uma 
corrida veloz. »(£' tranqueira e nao tronqueira.) 

Pois esse animal, que assim corria instinctivamente 
em procura da prole ausente ; aue devia ter uma cor- 
rida louca, sem parar, faz alto á beira do arroio, i^õe-se 
a retouçar os tufos da gramma, e assim fica esquecido do 
filho, ponto supremo de attracç&o irresistível, que o 
seduzia è o arrastava por sangas e coxilhos^ galgando 
encostas e transpondo barrancos 1 

Canho está deitado dentro do rancho, emquanto a 
égua solta pastava.» Porque não correu, selvagem e 
livrey para onde a chamava o instincto com tanta vehe- 
meneia? » pergunta o auctor. EUe accode logo: a Antevia 
que tinha necessidade do homem, carecia do seu auxilio, 
ou antes uma força desconhecida a prendia à vontade 
superior, que a domava.» A égua tinha já adivinhado 
que succedâra ao filho algum desastre^ do qual só o 
homem o poderia salvar ; como, pois, o deixar! 

Mas emfim lembrou-se morena que nao era bem de- 
morar-se mais a pastar ; e em logar de seguir só seu 
caminho, como faria qualquer outro que só desde horas 
conhecesse o gaúcho, vejamos o que ella faz. Ouçamo» 
Senio : 

K N'esse momento metteu a égua a cabeça pela porta. 
Dando com o gaúcho sentado, fitou n*elle os olhos é 
começou a ornejar baixinho^ como para chamar á atten- 
çEo do companheiro.» 

O auctor nao se demora em explicar o phenomeno por 
«stas palavras : 

<i Era a égua um intelligente animal ; e depressa 
aprendera a linguagem pittoresca e symbolica, inven- 
tada pelo gaúcho para suas relações sociaes com a raça 
equina.» 

Que eguasinha, hein, meu amigo! ! 

Em poucas horas comprehendeu a giria symbolica 
do Gaúcho. Se esta égua frequentasse uma faculdade, 
que de prodígios nao operaria ! Era capaz de impro- 
visar discursos, recheados de sensações. 

Ha por ahi talento que possa tantil 

Também naoé muito para admirar, porque já morena 
se rendera ao só olhar do brazileiro, e um simples 
ornejo d'este lhe vencera os Ímpetos bravios, quando 



vn 5 

ainda eram inteiramente desconhecidos ; e isto logo ao 
primeiro encontro. 

Um folhetinista diz que o Gaúcho é um romance pri- 
moroso, de vasto alcance litterario, philosophico e his- 
tórico (nada menos). 

Espera o leitor que o profundo critico entre na vasti- 
dão d'essa philosophia enigmática, boudhica ou my- 
thica, n'esse alcouce litterario de logognpho, e cedo 
cahe das nuvens, fulminado pela mais atroz desillusão. 
O que o escriptor adduz para provar suas pomposas pro- 
posições, sao estas palavras: 

a Tenho em m&o o primeiro volume da obra. Que 
belleza de imagens ! que voos audaciosos e brilhantes 1» 
E vai proseguindo n'esta apologia, apologia, e nada 
mais que apologia ! 

Só a morena poderá explicar o lalum^ longum et pro- 
fundum do contexto. 

A burra de Balaão falava, e, pelo que as cousas 
mostram, ainda assim ficava áquem de ^novena. 

Tenam também as orelhas da burra biblica a virtude 
•de ttse enroscarem como ums. cojicha? » As orelhas da 
morena faziam doestas magicas. Prosigamos. 

O que vemos agora ? Duas éguas que se abraçam e 

acariciam : — moremi e tordilha. Estamos junto da 

gruta, onde cahiu e está agonisante o Juca^ o filho da 

primeira. 

Canho penetra na guéla pétrea, d'ondesaca o menino. 

Ao vêl-o, a raae soluça e ri. 

A esta gentil creança havia a tordilha^ na ausência 
da amiga, amamentado por alguns dias^ condoída do 
orphão. Tordilha é um portento de sentimentalismo : 
a égua parida só consente tocar-lhe nas tôtas o próprio 
filho ; tordilha, posto que selvagem, pelo contrario : 
é ella, de motu próprio, que vai em soccorro depecí<r- 
r^icho ! 

Entretanto — admirável contraste ou capricho da 
natureza! — ao passo que assim procedeu com o jucá 
durante a ausência da mae, agora, ao contemplar com 
Manoel a morena deitada com a criança equina, casti- 
fjQva a travessura do seu próprio poldrinho, arredando-o 
de si, quando se elle chegava para acaricial-a. « Nao 
queria ella — diz o auctor — , a mae feliz, dar áquella 
mãe desventurada o espectáculo de sua alegria! !» 

Em seguida tira Canlio o poldrinho do regaço ma- 
lemo. Égua nenhuma consentiria em tal, mas emfim 



6 VII 

morena iiuo é uma égua humana^ de sentimentos rebel- 
des e vnlorares ; pertence, pelo contrario, ao Olynipo, 
como o Péf^aso ; é uma égua divina. 

Canho chama a tordilha, que ligeira accode, o/fere- 
cendo asívlas para amamentar o pobresinho desfallecido. 
Só então consentiu tordilha que o seu pirralho brincasse; 
mas ainda assim, só ao longe, para mio acordar o ca- 
marada. 

O enternecimento da amiga de worenanao fica n'isso, 
e vai pressurosa chamar as selvagens coudelarias, para- 
que venham felicitar a exilada pela sua boa volta aos 
serros nativos. 

Espantando-se com o gaúcho, que se levantara do 
chão, dispararam os magotes. Morena porém corre a 
dissuadil-os de seus receios, contando-íhes tudo sem 
duvida: seus recentes amores, sua nova paixão ao Canho, 
os sacrifícios prestados por este a favor do jííca, filho do 
pae do lote, e là volta a cavalhada. 

Ahi então o espectáculo é edificante. O maioral da 
tropa, o suberbo alasão, cumprimenta Canho ; Canho- 
corresponde á saudação do rei do deserto, a Não houve 
entre elles affagos nem familiaridades » vem logo 
dizer-nos Senio^ para que não pensemos que elles te- 
riam d'essas effusões, só próprias de gente-relé, faltando 
á corlezan pragmática^ mas uma dt.-nonstração grave de 
mutuo respeito e confiança. 

Canho é verdadeiro heróe d'aquella festa cavallar. 

Rodeiam-n'o, saúdam-n'o, cada qual mais ceremo- 
nioso, obsequioso e solicito. Pôde mesmo suppor-se que 
alli se praticou de cousas concernentes á. hippica gente^ 
e fallou-se compridamente da politica dopaiz era intima 
confiança, como n*uma. sessão de parlamento. Canho 
parece-se com o oráculo. Si lhe occorresse improvisar 
no deserto uma ceremonia das monarchias, lembrando- 
o beija-mão, todos teriam corrido commovidos e á poi^fia 
a oscular a pata do grande alasão. 

Depois d'esse solemne cortejo, celebrado namagestade 
das solidões, sente o gaúcho exigir-lhe o coração o 
cumprimento do humano dever de malar um homem — 
embora o assassino de seu pae. Esse coração era a 
esphinge. Tão vilão para com seu semelhante , quão 
pródigo de impossiveis affectos para o bruto ! Homem 
que, tendo o sentimento tão apurado para o animal, 
deixasse de o ter para a sua espécie, seria um alejão da 
espécie humana. Pois Canho era assim : desde mtniíka^ 



VII 7 

jnUnneditara vingar a morte de .<;eii pae. Não tora elle 
tao sensível para os cavallos e as éguas, e nao se admi- 
raria essa r(»soluíTio. EUa estíi até na Índole e natureza 
do arrebatado e vingativo gaiicho, só não na do simu- 
lacro mais imperfeito, do arremedo mais incompleto, 
da caricatura mais contradictoria e desnaturada do typo. 

Sois vós isso, acaso, gaúcho ? 

« Não se explica semelhante aberração » diz-nos o 
auctor. 

Ah ! não se explica. E dá-se-nos a aberração como 
o typo ! Triste phantasia, a que não explica sua própria 
creacão. 

Canho vai, em fim, partir para vingar-se. 

Apanhou a novilha, que já não tinha poldrinho para 
amamentar. Nenhuma resistência fez o animal. Todos 
se haviam rendido d influencia mystenosa do gaúcho ; e 
todos desejavam tanto mostrar-lhe seu affecto, que 
\ion\e ffuasi (luevellas e arvíffoít de ciúmes^ pela preferencia 
dada d novilha. 

Morena^ vendo que seu bemfeitor ia partir, arrancou-se 
no Jubilo maternoj correu para Canho e abraçou-o. De- 
veria ser uma scena toda de commover, aquelle suprema 
lance de despedida de dons amantes, apaixonados. 
Quem dera um Raphael, para levar á tela o quadro 
portentoso doeste sublime abraço ! 

Não nos podemos furtar á tentação de re])etir aqui as 
ultimas sentidas palavras de Canho, que fazem cortar 
o coração : 

— « Pensavas tu. Morena, que me iria sem abraçar-te? 
Adeus í Levo de ti muitas saudades. A corrida que 
dêmos juntos, nunca, nunca hei de es(piecel-a. Duvido 
que já alguém sentisse prazer igual a esse. Falam 
outros das delicias de alyraçar mna bonita rapariga * se 
dles te apertassem^ como eu, a cintura esbelta^ voando por 
estes ares ! » 

Vade retro I Que lhe faça bom proveito, senhor 
Canho. 

— « Adeus, adeus ! conclue o gaúcho. Lembranças ao 
álajinofi})ího,n 

Será lembrado. Vá com Deus. E Canho partiu. 

Mas apenas vencera algumas quadras, ouviu o tropel 
da veloz corrida de morena^ que distribuiu quatro di- 
zias de couces e outras tantas dentadas à novilha, por 
haver tido a ousadia de merecer attencOes de seu 



8 VII 

amante. Manoel entendeu logo — podéra nao ! Eram 
ciúmes, 

E para acabar de uma vez com esta repugnante his- 
toria de hippicos amores, fique-se sabende úue Canho 
montou na morena, põz o jucá na garupa, e toi-se. 

Santo Deus I Para onde foram deportados o bom senso 
e o gosto litterario do Rio de Janeiro ? ! 

Ah qui d*el-rei ! Quem denominou jamais pha/nta$ia 
o que nem se alça & categoria de puerilidade ?I 



Gr^tn^io^ti^, 



(Cow/tn?ía) 



IVona 



DO ROCEIRO CINCINNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 



Fabrício querido, 



Rio de Janeiro, 18 de Setembro de 1871. 



Continuam as attenções a absorver-se na questfto 
magna ; envolva-nos a onda. Nao estou hoje com dis- 
posiçtLo jovial ; tem paciência ; atura os meos azeites. 

Subiu o projecto de lei sobre o elemento servil á ca- 
mará vitalicia. Tudo induzia a crer que nao só seria 
impossivel repetirem-se alli as demasias,que os amantes 
do systema representativo já haviam deplorado, mas 
também que a discussão correria rápida, como em 
casos d'esta ordem o aconselham a próceres e provectos 
todas as indicações da prudência. Com surpresa e 
pesar, vejo e ouço cousas.... difficeis de explicar; e que 
o programma de alguns é buscar cinco pés ao gato. 



VIÍ 9 

Jà não é tempo de papas na língua. Com questões 
-delicadas, como a do elemento servil, não é licito brin- 
car ; nem são ellas das mais próprias para gymnastícas 
vOratorias e funambulismos parlamentares. Desde 1867, 
1850, 1831, 1826 e 1817, que este assumpto se estuda 
-entre nós,por todas suas faces: o período platónico deve 
emfim transfundir-se em período pratico; as questões 
sociaes são como os systemas : quando amadurecidos, 
.03 Copernicos geram os Galileos, e estes são os precur- 
sores dos Newtons : e pur si muove^ e a verdade tri- 
umpha. 

Em quanto só se tratava de dissertações académicas 
a favor da instituição, e de thoorias especulativas, 
seriam innocentes as divagações ; mas chegada a hora 
da solução, toda a perda de tempo ó um mal e um 
perigo. 

E que significa senão, pelo menos, perda de tempo, o 
j)rucedimento dos oradores, que, depois de declararem 
que hão de votar pela lei, ou que não esperam poder 
estorval-a, e nem sequer fazer acceitar emenaas ã 
ella, levam horas a desmoralizal-a? 

Será esse o dever que a circumspecção impõe ao le- 
gisladora 

O politico, o verdadeiramente liberal, o que toma & 
âerío esta forma de governo, hade respeitar os princi- 
.pios elementares do regimen representativo; hade,sim, 
.pugnar pela victoria de suas idéas, quando sinceras, 
mas não hade fatuamente superpor a sua ás outras in- 
telligeucias, nem indignar-se contra as opiniões de que 
divergir, nem lançar mão de armadilhas, lograções e 
•esparrelas, para dificultar ou impossibilitar o anda- 
mento legal dos negócios públicos. Mal vai á socie- 
dade, quando anarchico for o exemplo d'aquelles que 
o devem dar. 

Tal não succederá certamente no senado brazileiro. 
•Suas nobres cadeiras, alvo das derradeiras, das má- 
ximas ambições, são occupadas pelos homens encane- 
cidos no leal serviço da nação, por cidadãos a quem a 
experiência e os annos devem ter apagado as labaredas 
das paixões tumultuosas, por estadistas versados nas 
doctrinas e praticas do governo, por politicos que não 
Lão de, em proveito ephemero de uma opinião do mo^ 
mento, afiar segundo gume da espada que um dia os 
fira. Haverá algum que esqueça estas obrigações da 
sua curul? Não, certamente ; ou se um impulso instan- 



10 VIÍ 

taneo o desvairar, razão fria o trará para log-o íi pru- 
dência, que uiinca devera desamparal-o. 

Se os usos e o reg^imeuto do senado perinitteni it 
multiplicidade dos discursos stereotypados, é reflexo» 
de certa jurisprudência antig-a a que já alg"uem alhi- 
diu. Entendeu-se que ura areópago de varões sábios, 
patrióticos e prudentes, nun(*a teria de deplorar o espec- 
táculos de discursos-maranhas, de expedientes proiela- 
torios, de embargos de matéria velha, de opposiçoes 
acintosas, de minorias revolucionarias. Leis assim dis- 
cutidas, seriam confeitos de enforcado. 

Se os 58 senadores proferissem 2 discursos sobre cada 
artigo, um projecto em dez artigos seria illumrnado 
por nada menos de 160 orações! isto é, levaria, só nr> 
senado, para ser convertido em lei, três sessões an- 
imas, em que fosse constantemente dado para ordem 
do dia ! 

Ora assumptos, da Índole do de que se trata,iiao se 
eternizam no tear do parlamento. Por isso mesmo que 
prendem com vastos interesses; que excitam apprecia- 
COes apaixonadas: que são punhaes politicos e barris de 
pólvora sociaes; que se prestam a ser instrumentos de de- 
sordem; que auctorisam receios de bons e criminosas es- 
peranças de máos ; que prejudicí^Ti mais pela indecisão 
que por qualquer golpe ; que podem, pelas perplexida- 
des e hesitações, trocar de repente os tempos de modo 
que a solução passasse a tornar-se forçada e violen- 
ta ; — por isso tudo, urge que os Dionysios cortem os 
cabellos das espadas, para que o Damocles social possa 
ao menos dormir em paz. 

A missão do corpo legislativo é legislar, e não im- 
pedir nem discretear. Se o orador reconhece e proclama 
que o projecto hade ser lei, que lucra elle ou o paiz 
com seus inúteis arrazoados ? 

Beniy já se ve que nenhum pôde fazer ; mal, certa- 
mente. Se no fim da sessão âunua, discutindo-se tão 
grave questão, taes discursos impedirem que a lei 
passe, sei-ão esses bacharéis os culpados de quantos 
inales se seguirem : aelles deverão attribuir-se — o ul- 
terior desasocego dos ânimos — os perigos da ordem pu- 
blica — a escravisação de alguns milheiros de infelizes, 
que, nascidos nos doze mezes que ora começara, só esses 
oradores terão condemnado á escravidão. Triste Ct>usa 
é suspeitar que uraa corporação, tao veneraada,tao pre- 
cisada da respeitosa confiança nacional, corra o perigo- 



VII 11 

de sor victima de manejos de alguém, e considerada 
cúmplice da ruim obra em que ao menoiá a quasi tota- 
lidade do senado é por certo innocente. 

Para que servem jii hoje intermináveis arengas, em 
que se nao apura, por nm nem outro lado, um só argu- 
mento que, de estafado, não deite a língua de fora? 
Servirão talvez para brilhaturas e scintillações de 
algum sublime perorador; mas não é isso que o paiz 
requer. O programma é bacharelar : cada um tem seu 
plano, no qual só achu salvação, e em todos os outros 
ruina; mas toda esta confusão tem precedentes nas reli- 
giões profanas, e sagrada. Na fonte de Dirce havia ura 
dragão que devorou os companheiros de Cadmo, o qual 
foi ás ventas do bicho, e arrancou-lhe e semeou as 
dentes ; doestes nasceram homemzarrões armados, os 
quaes no mesmo ponto deram cabo uns dos outros, e os 
superviventes fundaram então pacificamente a cidade 
de Thebas no lugar marcado pelo oráculo. ( O dragão 
é o captiveiro ; homens armados são os impugnadores, 
que entre si se destroem ; Thebas, prevista pelo orá- 
culo, é a liberdade humana decretada pelo direito.) 
O que estamos vendo faz também lembrar o tumulto 
e o labyrintho que um sábio Padre descreve nestas con- 
densadas palavras: « Les hommes ont bati la tojtr de 
Babel ^ et la femmos la tour de babíL » Noas avons aussi 
des assemblées liermaphrodites, o») je ve sais le/juel deff 
deac predomine : ta lonr de fíabel^ ou la tour de babil. 
Ora vejamos : 

Podem diVidir-se os dizedores em três categorias : 
P. os que defendem o projecto, 2*. os que totalmente 
o impugnam, 3*. os que parcialmente o censuram, mas 
votam por elle. 

Os que defendem o projecto, já em ambas as casas do 
parlamento, e pela imprensa, tem rechaçado as opiniões 
contrarias. 

Os que o impugnam, tem todos declarado que, em 
presença da disposição dos ânimos, perderam toda a fé 
no seu triumpho, e então, cebolas do Egypto, nisi utile 
est (fuod fwdmus^ stulta est gloria. 

Finalmente os que se coUocam entre a cruz e a cal- 
deirinha, os que declaram votar pelo projecto, mas se 
comprazem em censural-o, praticam uma imprudência. 
Comprehendem-sebem as duas posições definidas ; mas 
não esta do qiirero^ mio quero^ mettei-me neste eapello. 
Quem vai, pelo seu voto, ser cooperador da lei, não deve 



12 VII 

começar por atacal-a; quem aspira a ser obedecido, nao 
desvirtua 03 seus próprios preceitos; quem lança o balão 
às alturas, nao lhe dá cani vetadas na seda. 

Se alg-uem ha que assim pense e obre, affigura-se-me 
que mudará de systema. Bem bastam as dificuldades 
gravíssimas com que hao de luctar os governos que, em 
. seus regulamentos, tiverem de providenciar sobre as 
cem novas e urgentes necessidades creadas por tao ra- 
dical mudança; para que hão de artificialmente jun- 
tar-se a tantas graves exigências da situação estas ex- 
citações artifíciaes, estas desconfianças, estas picadas 
de alfinete politico ? 

Convertido o projecto em lei, são precisos no governo 
Bryareos, Centimanos, para preparar a transformação, 
e fazer com que ella se opere com a possível suavidade. 
Quantos objectos diversíssimos e urgentíssimos não 
terão de chamar a attenção do poder executivo, e sem 
duvida também do legislativo ! — A mudança progres- 
siva no systema do trabalho, — o aperfeiçoamento das 
industrias, especialmente da agrícola — o império da 
machina inanimada substituindo o da machina-homem 
— a civílisação, tomando o logar do embrutecimento da 
raça negra — a creação dos estabelecimentos onde o Es- 
tado recolha, eduque, moralize e approveíte as creanças 
.que houverem de ficar sob a sua tutella — o desenvolvi- 
mento dos mil trabalhos importantes a que possam ser 
:applicados esses braços, n'uma região cuja opulência 
inter-tropical só braços está pedindo — o recolher dos da- 
dos estatísticos sobre os vários pontos ligados com a 
questão — o providenciar com ínstruccOes e regulamentos 
.sobre os escravos actuaes ; o modo de os ir libertando ; 
o uso do seu pecúlio e da sua redempção ; os excessos 
vd'elles contra os senhores, ou více-versa ; a animação á 
constituição das famílias ; as relações entre os livres 
nascituros e os senhores de suas mães; afixação das obri- 
gações jurídicas resultantes d'estas relações interme- 
diarias — o regular prudentemente a matrícula dos es- 
cravos presentes, de modo que se evitem fraudes e abu- 
sos—o organizar os títulos trintannarios, que hão de 
•compensar a creação até os 8 annos, estudando os ele- 
mentos com que a esse ohus se hade fazer face— regula- 
xisar a transferencia de serviços — estabelecer as bases 
das associações especiass, efiscalisal-as constantemente, 
para que em vez de auxiliares respeitáveis da sociedade, 
se não convertam em f )co de especulaçõ3S — providen 



13 

ciar sobre o (ptantum das alforrias parciaes em cada pro- 
Tiscia — vijriar sobre a applicaçflo do fuudo de emanci- 
pação— dar destino aos libertos que pertenceram è na- 
fAo, i coroa, á^ heram;as vagas, ao evento — promulgar 
r8g:iilameut03 sobre a forma do processo especial — es- 
tebelecer os registros parocbiaes, propor melboramentos 
na lei das terras, approveitar o immenso território in- 
culto para a iudustria particular, rasg-ar estradas, faci- 
litar a immigraçau por incentivos, tratados e reformas 
da leg-iálaçau ; e eiiifím as mil miudezas que, em tSo- 
Tasto império e grave assumpto, a execução d'esta lei 
e<tá apertadamente demandando. 

O estadista, que sò é guiado por amor da pátria, 
compreheude que, se é coroa para o governo estalei, 
■fio menos os rubis que a adoranm, que os espinhos com 
pie ella se crava na fronle dos invejados triumpliado- 
tg ; e não irá, de rnSo beijada, multiplicar, com dis- 
«rsofi vãos, ns dii&culdades. Se alguém lia, de coração- 
So bolota, que de si para si approve a lei. mas sú a 
dflie por ter de ser referendada por quem o hade ser^ 
oiiip«aeça-.se de si mesmo p da sua cadeira, e resigne-se. 

Em logar menos elevado, certos estratagemas sio 
xplícaveis ; mas na suprema corporação nacional, è- 
Itster muito calculo, muita discriçilo, muito pro- 

lifj : aquellas cadeiras impOem, para a cnsa, summo- 

íoro ; para o homem, summa dignidade. Quem nella.-; 
1 assenta, é perpetuo conselheiro da naeao, e tem sido, 
t ou está nos circumstancias de ser, conselheiro dai' 
deveiu todos v.8ses potentados parlamentares, 
nliticos magnntes, ser homens da ordem, do governo, 
t cotwtituiçíiu'. antevendo o hodie míhi, eras tibi, devem^ 
ipellir todas as praticas inroustitucionues ou alicanti- 
eiraa, impróprias do homem publico em qualquer grau^ 
'i escala, torpes no que recebeu as mais esplendidas 
rovaa de reverencia, da parte do povo e do rei, 

A fliha de Prinmo aó proplietisava desgraças, e essas 
ealinvam-se : na primeira parte parecem-se com ellic 
I lUisos Cassandras políticos, mas nSo na segunda, 
taças s Dáus. Tem-se vaticinado perturbações, suble- 
kÕ^^ caíaclismoa, ruiuas ; e o certo é, que nund o 
ftuc prãsear-.iou mais ocinviatia pa» que desde que esta 
pesUto ie debate no parlamento, de cuja sabedoria a 
kçAo estiem conliadamente a soluç-So da crise. Mais 
Irídicos prophetas serão, sem dúvida, osque sustentanr 
i lei de que se trata, facillima de executar, em 



^ 



i 




14 VII 

cou.sequeacia dos excelleiítes iustiiictosdo pov), e aurora 
do dia da dignidade, da liberdade, da opulência,. da 
grandeza, e dos esplendidos futuros d'esta nação. 

E' de uso hostilisarem o projecto, por não terem sido 
para elle ouvidos os fazendeiros, os quaes se aílirma 
serein-lhe infensos, e lá terem uma incógnita panacéa, • 
un spéci/hiiie unif^ue^ qai tjaéril les maiix pcissé^^ présents^ 
fatnrs^ nonvecmc. 

E que fundamento ha para serem considerados in- 
fensos ? Sabemos todos perfeitamente a historia de 
varias representações submettidas áo parlamento ; 
sabemos que se os amigos do governo tivessem querido 
lançar miXo de iguaes expedientes, teria apparecido o 
décuplo das representações em sentido contrario ; sabe- 
mos onde diversas tem sido fabricadas ; sabemos haver 
casos de numerosas assignaturas, todas do mesmo 
punho, e de outras, que nunca foram dadas para tal 
fim, e contra as quaes os próprios reclamaram ; sabemos 
que personagens que ha bem poucos dias percorreram 
logares dos mais afamados pela energia das represen- 
tações, se espantaram de ver que nenhum d'entre 
centos de fazendeiros com quem praticaram, llies tocou 
sequçr no assumpto que se pinta aqui como desvelando 
todo Q^SQ interior ; sabemos de muitos cidadãos que 
prestaram suas firmas, por condescendências de campa- 
nário ; sabemos de muitos outros, cujas opiniões diver- 
sificam tolo coeío das que subscreveram; sabemos que, 
se ha certo accòrdo na destruição, não ha o minimo 
nas aspirações e propostas, etc, etc. 

Entretanto, onde está essa mesma apregoada unani- 
midade, que nãLo significa senão minoria infima? Das 
vinte províncias do Império, de todas as quaes havia 
largo tempo para chegarem manifestações, sao apenas 
três as que mór numero de escravaria possuem, e as que 
tem com effeUo enviado algumas representações. 

Se eu argumentasse com o que se passa em 
.qualquer outra, lançar-se-me-hia em rosto nao haver 
nella tão altos interesses comprehendidos : tomarei pois 
lesta mesma do Rio de Janeiro, importantíssima por sua 
riqueza e illustraçao de seus habitantes ; facillima '^e 
manejar, pela proximidade da corte e facilidade de 
communicações ; interessadíssima na questão, pelo 
numero de escravos que encerra, e por serem aqui os 
iseus principaes empórios. Pois bem ; o que acontece *? 
Ha na província do Rio de Janeiro 36 municípios, e 137 



VII 15 

fregiiezias ; o que tudo representa 173 naturaes focos 
de populaçílo agrícola ; e quantas sâo as representações 
recebidas d'esta província, no parlamento ? líí ! Eis 
ahi e>tá a unanimidade da opinião dos fazendeiros, na 
província onde o projecto deveria ver enfeixadas todas 
as condições mais desfavoráveis ! 

Ora agora, dado e nao concedido que os factos fossem 
o contrario, tenho para mim que seria insustentável o 
alvitre de nao decidir a questão, senão depois de ouvi- 
dos 05 fazendeiros. 

Concedo-lhes tudo : illustraçâo, patriotismo, impar- 
cialidade, abnegaçílo ; mas aos legisladores hei de 
conceder qualidades pelo menos iguaes. O peor é que 
aquelltís illustres. cidadãos, considerados os mais pró- 
prios para decidirem o negocio, sao, por isso mesmo, 
aos meus olhos, p^r causa dos seus interesses, os menos 
aptos. A clareza de vistas perde-se no interesse pró- 
prio, como um rio se perde no mar ; ])or mais perfeita 
que seja a nossa retina intellectual, o nosso interesse 
pôr-nos-ha sempre óculos roxos ante os olhos, que assim 
verão tinctos em roxo os mais claros objectos. Nestas 
circumstancias todos nós, mesmo dotados da melhor fé, 
mentimos involuntariamente ; espar-tar-se-hia a nossa 
consciência se lhe fosse dado enxergar os esforços que 
fazemos para simplificar o que nos parece confuso, para 
confundir o que nos parece claro. 

Se vingasse a lembrança de nao legislar senão depois 
de consultar os interessado?, teríamos de substituir o 
nosso raechanismo constitucional, convertendo todas as 
cKsses n'ama espécie de tribunaes de consulta, ou 
antes de juntas legisladoras, ou communas parlamen- 
tares. 

Trata-se de uma lei sobre assumptos ecclesiasticos ? 
Congreguem-se os bispos, padres, frades, sacristães, 
a sineiros. 

De uma lei militar? Convoquem-se os generaes, coro- 
néis, cabos d'esquadra, fornecedores e vivandeiras. 

De alfandegas ? Tem a palavra inspectores, despa- 
chantes, capatazias, e trapicheiros. 

De forma de processo? Consultem-se as Relações, 
Juizes de Paz, escrivães, porteiros e beleguins. 

Do saúde pública? Legislem medicou, boticários, 
parteiras, applicadores de sanguesugas e enfermeiros. . 

De construccao naval? Brilhem agora os coutra-mes- 



16 VII 

três e mandadores, polieiros e torneiros, calafates & 
carapinas. 

Et sic de cwteris» 

Deus nos livre : tal doctriua seria absurda. Ckda 
membro da sociedade tem sua miss&o, como cada 
tecla do piano tem seu som; tractent fabrilia fabri :0y 
carapina aplaine, o enfermeiro vele, o beleguim citeo 
o trapicheiro arrume, o cabo d'esquadra diga razOes, ^ 

sacristã chuche galhetas, , o fazendeiro agriculte- 

e o legislador legisle. Tao ridiculo é um padre com 
mandando uma brigada, como um major dizendo* 
missa. 

Nao sei como isto foi hoje, meu amigo. Dei o giro 1& 
por outros bairros mais serios,e só agora observo que me 
esqueceu o meu ídolo; eu podia facilmente accrescentar 
algo mais, mas seria deslocado : quem sai da sala é im- 
próprio ir para a cosinha; e nSLo se tratam no corpo da 
folha objectos levissimos, só próprios de folhetim. Por- 
tanto, adeusinho até a primeira. 

Cà recebi o fumo; tu mandaste-o a mais alguém? 
quem fuma, tem fumo; nao è assim ? 

Tout à toi 

ClNCINNÀTO. 



Typ. e Lilh.—IMPARC1AL— Ru» Sele de Setembro o- 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 

]sr. 8 

RIO DE JANEIRO 22 DE SETEMBRO DE 1871. 

VeDde-se em casa dos Srs E. & H. Laemmert. — Praça da Constituição» 
Loja do canto. — Livraria Académica, Rua de S. José n. 119 — Largo do 
Paço n. 12 C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis* 

01>r*as de Senlo— O Oavkolxo. 

(Cartas a um amigo.) 
VI 

Meu amigo : 

Hoje occupo-me apenas com o pampa, cuja descrip- 
çao no primeiro capitulo do romance tantos louvores 
tem grangeado a Senio. 

Nao tenho tempo para mais. Escuta ! : 

c Como são melancólicas e solemnes, ao pino do sol, as vas- 
tas campinas que cingem as margens do iJraguay e seus af- 
fluentes ! » 

Melancólicas as campinas, ao pino do sol^l Defeito de 
observação. 

Que as selvas o sejam sempre, as selvas que natu- 
ralmente vestem aspecto sombrio, de indefinivel tris- 
teza, comprehende-se. Mas campinas, embora immen- 
sas, embora solitárias, porém banhadas de luz ! 

Nao ha sitios descobertos, ao ar livre, como a sa- 
vana, que apresentem melancolia ao pino do soL A 
luz, que se diffunde como um diluvio, esclarecendo 
tudo, imprime, ao contrario, no descampado uma fei- 
ção radiante e bella. 

E Senio tanto parece esposar esta opinião que de- 
clara que. (( ao pôr do sol^ a physionomia crepuscular 
do deserto é suave nos primeiros momentos^ e só depois 
é que ressumbra profunda tristeza. » Oh ! Pois, si no 
crepúsculo da tarde, quando uma solemne melancolia 
envolve toda a natureza e portanto deve já ser triste 
a savana, é, pelo contrario, no dizer de Senio^ stiave. 



2 VIII 

isto é, aprazível^ então ao pião do meio dia, quando 
tudo é luz, calor e viJa, é que o pampa ha de ser ine- 
ZancoZíco? Ainda mais: chega elle a dizer que nesse 
momento (isto é, ao pino do meio dia) o pampa é mais 
pavoroso do que a immensidade dos mares. Que pampa 
seria esse que Senio observou e estudou ? 

« No seio das ondas, o nauta sente-se isolado ; é átomo en- 
volto n'uma dobra do infinito. As ondas se agitam em cons- 
tante flucluaçílt) ; tem uma voz, murmuram. No firmamento as 
nuvens cambiam a cada instante, ao sopro do vento ; ha nellas 
uma physionomia, um gesto. A tela oceânica, sempre ma- 
gestosa e esplendida (e porque nâo também o pampa?) ressum- 
bra possante vitalidade. O mesmo pego. insondável abysroo, 
exhubera de força creadora; miríades de animaes o povoam, 
que surgem á fiôr d'agua. 

« O pampa, ao contrftrio, é o pasmo, o torpor da natureza. 
Em torno ao viandante faz-se o vácuo. » 

Em torno do viandante faz-se o vácuo, no pampa ? E 
porque não também no mar em torno do nauta isolado t 

As miriades de animaes que povoam o mar surgem 
(i flor d' agua? Prodigiol Nisto não pôde deixar de ha- 
ver milagre de Santo António de Pádua. Caracterís- 
tico do mar, ao pino do meio dia: os peixes deitara a 
cabeça de fora. 

« Lavor de jaspe, imbutido na lamina azul do céo, é a nu- 
vem. » 

As nuvens no firmamento do mar têm o direito de 
cambiar, e no firmamento do pampa tem a nuvem o 
dever de ser lavor imbutido, pela mesma razão porque 
alli não pôde deixar de soprar o vento, e aqui não pôde 
deixar de reinar a paralysia. 

As ondas murmuram, é certo ; mas as altas hervas 
da savana nao rumorejam ? Pois Seuio nao diz que o 
pampa é n pátria do tufão? Nao é muito que onde 
reina o tufão, possam também soprar galernos. Con- 
clusão, que muito interessa à meteorologia: no pampa, 
ao pino do sol, não ha vento. 

« O cliâo semelha uma vasta /ajmrfa musgosa de extenso pa- 
vimento. » 

Ora, si a savana figura as fluctuações do mar alte- 
roso, como se compara a savana com a lapida ? 

<( Para a fujria dos elementos inventou o Creador as rijezas 
cadaverícas da natureza; diante da vaga impetuosa collocou o 
rochedo; como leito do furacão, estendeu pela terra as infindas 
savanas da America e os ardentes areaes da África. » 

O rochedo é com effeito uma rijeza. Mas as savanas 



VIÍI 3 

ondítlosaSf os areaes movediços seráo também t^ijezas 
cadavéricas da natureza ? 

« Arroja-se o furacão pelas vastas planícies; espoja-se n'ellas 
como o potro indómito. » 

Em suas Cartas sobre a Confederação dos Tamoyos^ 
estranha J. de Alencar ao poeta G. de Magalhães o 
haver « d águia dos Alpes^ ao cysne da Greda, ao condir 
dos Aiides^ opposlo por parte do Brasil a andorinha^ ave 
de todos os paizes, » Pois bem : Senio compara o fu- 
racão das savanas com o potro ! Como assim se ames- 
quinha um dos mais magestosos phenomenos da natu- 
reza americana ?! Quem dissera que Senio reproduzira 
o preceito que devia condemnal-o ? 

Queres agora ver o contraste mais vivo e completo *? 
E' ura escriptor americano que vai descrever o fu- 
racão. E' Audubon : 

« Por sobre o continente americano — diz Audubon — nSo 
pjassa o furac&o sem deixar traços. Quanto a mim, que fui tes- 
timunha de um desses phenomenos terríveis, tão viva lem- 
brança me ficou d'elie que talvez me taxassem de exaggerado.si 
•eu reproduzisse a sensação de assombro que ainda me invade, 
quando a memoria me representa os pormenores d'essa hór- 
rida scena. 

flf Jornadeava eu a cavallo. Achava-me entre Shawaney e a 
ponta do Canot; lindo estava o tempo ; o ar meigo ; ia deva- 
garínho o meu cavallo. 

« Apenas entrei na garganta ou valle que separa a ponta do 
Canot da d'Highland, obscureceu-se océo; cerração negra foi si- 
mulando noite profunda. Parei, cheio de espanto; sentia ardente 
aède, que saciei num arroio próximo. 

« Para logo escutei uns sons vagos, sem nome em lingua 
humana, um como murmúrio longo. Sobre o fundo tenebroso 
do firmamento foi-se desenhando uma faixa oval e lívida. 

« Os ramos superiores das arvores estremeceram ; depois 
communicou-se esse movimento aos ramos inferiores. Num 
relancear de olhos, vi os troncos estalarem em pedaços, desen- 
ralzarem-se, fugirem ao sopro da ventania, e toda a floresta 

rsar ante mim como torrente de agig antados e a terra- 
es phantasmas. Esses troncos se embatiam e entrechoca- 
vam em sua viagem. 

« No centro da corrente tempestuosa, viam-se os topos das 
mais grossas arvores forçados a tomar uma direcção obliaua, a 
vsrgar : abaixo e a cima d'ellas, massa espessa de ramalnada, 
galhos estalados, poeira erguida, tudo redemoinhava sob a 
mesma impulsão. O espaço até ahi occupado por todas essas 
arvores, nada era mais que arena vasia, ou antes coberta de 
raízes, c destroços ; diríeis o leito do Meschacebe inteiramente 
nú. As cataractas do Niagara não atroam com mais violência ; 
não é mais poderoso o ímpeto da sua queda terrivel. 

« Quando a sanha primeira do furacão se mostrou como que 
tarta ou. cançada, milhões de ramos despedaçados revoavam 



viir 



ainda pelo ar, e a marcha da columna densa que ia assignalando 
á passagem da tempestade perdurou ainda horas, como que 
determinada por nfto sei que força de attracção. 

« Cobrirase o firmamento de um véo esverdinhado e lu- 
ffubre: cheiro de enchofre excessivamente desagradável impre- 
gnava a atmosphera. Silenciosa e pasmado, esperei que a na- 
tureza transtornada readquirisse, sinão a forma primeira, ao 
menos seu costumado aspecto. i v «^ 

u Atravessei o leito da torrente aérea, conduzindo pela brida 
o cavallo, que espantavam todos esses cadáveres dar\'ore9 
despojadas e derruídas. , 

«As ruinas da floresta destruída jaziam amontoadas no 
solo, onde formavam tâo espessa barreira, que obrigado, ora a 
abrir vereda nesse labyrintho, ora a arrastar-me por debaixo 
dos ramos enlaçados, ora a transpol-os de um salto, senti, 
durante o tempo que a esse trabalho co.nsagrei, íaaiga 

Daortal. , j ^«*^ 

« Essa columna de vento, que occupava côrca de um quarto 
de milha, levantou telhados, arrebatou casas, forçou rebanhos 
inteiros a emigrar violentamente pelos ares. Achou-se uma 
pobre vacca morta no cimo de um pinheiro para onde a levaram 
as azas dofuracSo. O valle ó ainda hoje um logar desolado, 
coberto de musgo e de sarças, inacccssivel aos honiens: os 
animaes de rapina o escolheram para asylo. » f Vid. P. Liiasies, 
Etudes síir ta liUélrattire et les maurs des Anfflo-Américains.j)^^^' 
85 e seguintes.) 

Tanto tem esta descripçao de grandiosa e verdadeira, 
quanto a primeira de apoucada e falsa. 

Além de comparar a fúria do furacão com o potro, 
vê, meu amigo, como Senio pinta a passagem do im- 
ponente e horroroso phenómeno : 

« A final a natureza entra em repouso ; serena a tempestade; 
queda-se o deserto, como d'antes plácido e inalterável { Queria 

dizer ifialterado.) 

« E' a mesma face impassível ; nao ha ah surriso, nem ruga. 
Passou a borrasca, mas não ficaram vestígios (Que insignificantes 
borrascas são as do sul, julgadas por Senio ! ) 

« No tronco da arvore derreado, nos galhos convulsos, na to- 
Ihagem desgrenhada, ha uma attitude athletica. Logo se co- 
nhece, que a arvore já luctou com o parapeiro e o venceu. » 

Pois se em consequência das luctas com o pampeiro é 
que a arvore fica derreada, e seus galhos convulsos, e 
sua folhagem desgrenhada, como é que 'passou a bor- 
rasca e não ficaram vestígios ? 

Mas a arvore luctou cora o pampeiro e venceu-o. Que 
• arvore ! e que pampeiro! Já viste arvores colossaes pas- 
sarem arrebatadas, estranguladas nas azas do furacão, 
como acaba de nos referir Audubon. Senio porem affir- 
ma que a arvore do pampa (Nrio falando nas altas her- 
vas, a vegetação lenhosa do pampa é fraca e acanhada, 
sem proporções, nem solidez para resistir ao furacão ) 



VIII õ 

não só resistiu a este, porem venceu-o I E Senio nos 
diz isto ! Mas continuemos. 

« A trecho passa o poldro bravio, desgarrado do magote; eil-o 
que se vai retouçanao alegremente babujar a grama do pro^ 
ximo banhado. 

« Xas margens do Urugaaj, onde a civilisaçâo já babujou a 
virgindade primitiva, etc. » 

Uma das manias que perdem Senio é querer passar 
por outro Colombo, descobridor de mundos novos, por 
mares nunca d^antes navegados. Insiste, demora-se n'es- 
sas novidades, com a intenção de imbutil-as *io idioma 
vigente. Quer a todo o transe introduzir na linguagem 
moderna — nomenclatura, phraseologia, que se attribua 
â sua iniciativa e sapiência. 

O vocábulo babujar é empregado frequentes vezes no 
volume. Os diccionarios da lingua nao o trazem e so- 
mente babugem, vocábulo este muito usado pelos nossos 
homens do campo, para também significar a grama ras- 
teira, que aponta com as primeiras aguas. Senio não se 
contenta somente com dizer que o poldro baòuja ; e sem 
se importar com o simile pouco lisongeiro a que dá logar . 
:seu vaidoso capricho, faz também a civilisação babujar 
(como cavallo) s. virgindade primitiva das regiões. Aqui 
nao temos simplesmente o rebaixamento do homem ao 
nivel de irracional, idéa fixa e capital de Senio em sua 
obra ; temos mais que isto : o phenómeno supremo e 
providencial da humanidade, a civilisação, exerce a 
fuucção do^ bruto — babuja. 

Descance também o auctor : ha de pegar a moda do 
termo ; e d'aqui a pouco, sinão jâ, nílo só o Rio de Ja- 
neiro, mas também o mundo em peso estará, nao a 6a- 
bujar, que é a tal funcção especial do bruto, mas a sa- 
borear, com enthusiasíica leitura, as bellezas e as novi- 
dades do seu Gaúcho. 

« Tal é opampa— conclue Senio.— Esta palavra, originaria da 
lingua kicíuia (keckúa escreve o Dr. Martins em seu Glossário, 
dando-lhe a significação de campo] significa simplesmente o 
plaino ; mas sob a fria expressão do vocábulo está viva e pal- 
pitante a Idéa. Pronunciae o nome, como o povo, que o inventou 
(Como havia de ser que elle o pronunciaria ? ) Nilo vedes no 
som cheio da voz (Ha pouco, a expressão do vocábulo era fria, 
açora ha cheio som de voz ) que reboa e se vai propagando ei^- 
pirar no va^^o, a ima^^em fiel da savana a dilatar-se por hori- 
zontes infindos ? Não ouvis nessa maprestosa onomatopea re- 
percutir a surdina profunda e merencória da vasta solidão ? » 

(Aqui jà a solidão, isto é, o pampa tem uma voz, a 



6 VIII 

surdina: murmiira. Está claro que nao ha de ser ao 
pino de meio dia.) 

Nao ha duvida que é muito significativo o termo 
pampa. Por mais, porém, que o queiramos, hao pode- 
mos ver nelle um som (e os sons tamhem se vêem?) que 
reboe e se vá propagando, e muito menos descobnr-lhe 
onomatopéa. 

Que indica tudo isto ? O fructo agorentado e fana- 
dinho de uma imaginação, farta em bagagem de 
cores vivazes para pintar os quadros da natureza real, 
mas que só produz, inteiramente entregue a si, pálidos 
e coatradictorios desenhos, onde sobresai a confusão 
árida. 

Lendo-se a descripçao do pampa por Senio, vê-se que 
« essas solidões nao lhe serviram d^ gabinete de traba- 
lho ; que elle nao percorreu os vastos desertos ; que nao 
respirou o ar carregado de emanações da vegetação 
primitiva » como fez o grande ornithólogp das mar- 
gens do Mississipi e do Ohio. 

O espectáculo verdadeiro do pampa está desfigurada 
no Gancho. 

Aquella nuvem nao está imbuíida no céo, divaga ; 
aquella campina nao é melancólica^ mas expande-se e 
surri ; aquella savana nao é o torpor ou o pasmo ou a 
paralysia^ agita-se ; aquelle cliao nao se parece com 
a lapida do claustro ou do tumulo, sinao com as sinuo- 
sidades do vasto oceano ; aqueíle furacão nao se espoja 
como o potro, mas subleva-se, contorce-se, revolve-se, 
devasta e tala o deserto como vórtice ou cataclysma. A 
natureza protesta contra o panorama traçado á custa 
do prolongado esforço estéril. 

Queres ver, meu amigo, um painel vivo e natural ? 
E' a descripçao suave do pampa por G. Aimard. 

Aqui nao se escreveu para encher um capitulo. Sao 
pinturas rápidas, mas incisivas, próprias de penna 
modesta e despretenciosa. Por via de regra, para dar-se 
noticia desta natureza meridional, que é portento de 
magnificência e formosura, nao se ha mister de longosr 
desenvolvimentos, prejudiciaes sempre ao vigor e effei- 
to das scenas. 

« A campanha em torno de mim — diz G. Aimard — estava 
deserta e plácida como no dia da creaçSlo. 

a Os cães, vigilantes sentinellas, que durante a noite nos 
haviam velado o repouso, levantaram-se ao ver-me, e vieram 
festejar-rae com latidos alegres. 



VIU 7 

« O aspecto do pampa é dos mais pittorescos, ao nascer do 
sol. 

« Silencio fundo paira por sobre o deserto ; dir-se-hia que a 
natureza se recolhe e recupera as forcas, ao desabrochar do dia 
que enceta. 

« Tremula docemente a fresca brisa matinal, por entre os 
altos macegaes que ella inclina em ondeados e leves movi- 
mentos 

« Por aqui. por alli, erguem os veados as cabeças, tomados 
de espanto, e circumvagam olhares temerosos. 

« Os passarinhos, encolhidos de frio sob as ramagens, pre- 
ludiam por algumas notas tímidas o seu matutino hosannah. 

• Sobre os montículos de areias, formados pelas to(ías aas 
vigonhas, poisam curujinhas indolentes e immoveis.como sen- 
tinellas ; em sua meia somnolencia, deslumbradas pelos raios 
do astro do dia, escondem as redondas cabeças na plumagem 
do pescoço. 

« Lá pelas alturas, urubus e caracanis bordejam em círculos 
alongados, librando-se negligentemente, á feiçflo do vento, á 
espera da presa sobre que hajam de cahir de siibito, com a ce- 
leridade do raio. 

« Assemelha-sp o pampa neste momento a mar de verdes e 
calmas ondas, cujas margens se occiíllem lá por detraz das 
dobras do horizonte. » 

Eis ahi era rápidos traços o pampa. Opulento ou po- 
bre de encantos, é isto. E' a natureza copiada com fi- 
delidade photographica. 

« A imaginação dos homens ãc génio, observou um crítico, 
reproduz as paixões e os quadros do mundo, como espelho íieí 
e orilhante repete bella campina, ou rosto regular ; a imagina- 
ção falsa assemelha-se porém a esses vidros oblíquos, que o 
óptico dispõe de modo que não apresentam reflexo algum 
exacto ; ahi tudo nos apparcce ou diminuído ou desmedida- 
mente dilatado. Uma está para a outra na mesma proporção do 
retrato para a caricatura. » 

No Gaúcho nota-se uma pompa, uma dema ia pala- 
vTosa, sacrificando o pensamento á forma. Pede-se ahi 
de mais à imag^inacão estanque. 

E que succetle, afinal? Se ha hi forma que scintille,é 
scintillar de lentejoulas ; é lustro de ouropel ; é cas- 
quinha de brilho fictício e fallaz : mal roçardes o arte- 
facto, conhecereis o inferior quilate da quinquilharia. 

Desculpa, meu amipfo, a prolixidade, e permitte-me 
voltar ao assumpto. 



dC 



[Continua) 



8 VIU 

Decima cax*ta 

DO ROCEIRO CINCINNATO' AO CIDADÃO FABRÍCIO 

Venerando amigo. 

Rio de Janeiro, 21 de Septembro de 1871. 

Recebi a tua carta, de 15 do corrente, e li com a 
maior attençao o que passaste com esse respeitável fa- 
zendeiro, de que me falas, homem illustrado e de bôa 
fé, mas que, vivendo sempre longe doestes centros das 
maranhas, entende que é ouro tudo o que luz, e 
tinha-se deixado levar pelas declamações interessadas, 
receando que o projecto sobre o elemento servil fosse 
inconveniente, por prejudicar seus direitos e interesses, 
por ameaçar o futuro d'este paiz,e por o stygmatizarem 
homens distinctos, que todos considera só movidos dos 
mais santos impulsos do amor da pátria. Mostraste-lhe 
as minhas cartas, e pediu-te me consultasses ainda 
sobre vários quesitos; a minha opinião é desauctorisa- 
dissima, porém está à disposição do teu amigo, a quem 
rogarás que tome esta carta, como a elle dirigida. 

Antes porem de entrar na matéria, direi que em al- 
gumas folhas da Corte appareceram, tempos ha, sob o 
titulo Resenha^ uns artigos de penna valente, defen- 
dendo theses mui diversas das que sustento, mas dis- 
tinguindo-se por argumentação de ordem superior, e 
muitas ve/.es por uma delicadeza e cortezia de formas, 
que mesmo combatendo a quem neste ponto conside- 
ravam adversário, tao dignamente o faziam, que nao 
houvera sido desar o render-se a suas opiniões; nao 
raro foram modelo de polemica. Appareceu depois um 
notável Parecer do Sr. Conselheiro Ottoni, mui mere- 
cedor de estudo attento, e bem assim uma analyse 
d'es3e Parecer, composta e publicada por um respei- 
tável Senador, sob o titulo de : Carta aos fazendeiros e 
comimrciantes fluminenses sobre o elemetito seroil. Con- 
sidero este folheto, vade-mecum em tal matéria; e pois 
te envio tudo isto» fora talvez mais prudente esquivar- 
me a emittir opinião própria, porque Deus me nao deu 
grande geito para echo. Entretanto, com a devida 
vénia, passo a responder aos quesitos do teu amigo. 

Por via de regra, nada ha mais singelo e chão, que 
o homem dos campos; por mais alta que seja a sua in- 



VIII 9 

telligencia, por maiores dotes que á natureza deva, a 
sua convivência com as arvores e o trabalho toma-o 
aatural, innocente, inimigo da simulação e de tudo 
quanto contraste com a inteireza do caracter. Por isso 
que a ninguém engana, suppõe em todos sinceridade 
egual; por isso que núo calcula com os outros, imagina 
que os outros a nao tomam a elle para instrumento de 
seus cálculos. 

Infelizmente o machinismo da forma do governo re- 
presentativo appresenta compensações ás vantagens 
d'elle ; e d'essas tristes compensações nao é a menor a 
perversão do espirito, gerada da politica. Onde a todos 
é licito aspirar a tudo, bem se concebe que a todos nos 
insuffle a ambição, e que o natural amor próprio, —de 
tudo, com verdade ou miragem, nos proclame ca- 
pazes. 

E' assim que, entrQ nós, se entende a politica. Este 
vocabulo,que na sua origem significava a arte que rege 
a cidade^ a nação ; a arte social, por excellencia ; o 
grande estudo dos interesses geraes de toda a ordem, 
que deveria ir buscar no thesouro dos conhecimentos 
humanos quanto contribua para o bem dos cidadãos ; 
o approveitamento de todas as forças vivas para pro- 
gresso material e moral da commuiiidade; a creação 
de um impulso motor, appropriado á Índole do mecha- 
nismo social, e à educação, á instrucçao, às tradições, 
às aptidões, e á historia de cada povo ; o estudo das 
áuccessivas alterações das cousas, mesmo quando ainda 
conservam nomes que já nao deveram ser os seus ; o 
dissipar das illusOes e o accompanhar a razão pública : 
— vocábulo, cuja base Aristóteles assentava só n'este 
princípio: o justo e o honesto, — tem hoje sigaificaçao 
muito diversa: a politica é qualquer conjuncto de 
traças, ardis e tretas, com que se sustentem ou com que 
se derrubem ministérios. 

Já nao merecem o epitheto de homens políticos os 
Alexandres, Césares, Pedros Grandes, Freaericos, Rí- 
chelieus, Washingtons, Pombaes ou Pedros Primeiros, 
esses que, ua pratica do poder supremo, exerceram 
larga influencia nos povos, e fizeram triumphar seus 
systemas e planos : politico de polpa é o discorredor que 
injuria freneticamente um ministro ; corretor eleitoral 
mie falsifica bem uma urna ; Protheo que bajula ou 
mtraja as alturas, a talante de sua conveniência. 

Máxima questão politica é que o Conselheiro Quincas 



10 VIII 

substitua no poder o Dr. Manduca : em aquelle che- 
geando ao tal poder, fará o mesmo ou menos que este, 
mas a mudança trará os applausos dos candidatos ao 
coffre das graças e ás migalhas do orçamento, o que 
tudo constitue um dos mais flammantes capítulos de 
politica transcendental. 

Ora como estasciencianao excava cérebros, accontece 
que, a par dos raros engenhos privilegiados, aptos para 
empunharem as rédeas de um Estado, surge ahi um 
formigueiro, um fervedouro de salvadores da pátria, 
de inventores de panacéas, de Codros e Curcios polí- 
ticos, de missionários sem missão, de procuradores sem 
procuração, de Mentores sem Telemacos, de politiquei- 
ros ou pelotiqueiros sem o senso commum. 

Le rnonde marche em tão desabrido galopear, que o 
menino saldo da eschola já faz bico á idéa de ser de- 
sembargador, deputado, ministro, e até senador com 
dispensa de edade. 

Silo tantos, por isso, os candidatos ás elevações, e 
estas siio proporcionalmente tao poucas, que a nossa po- 
litica toda consiste no jogo do empurra: ôle-toi de fó, <yu#? 
je my meíle ; os dez que estão de dentro sao rechaçados 
pelos trezentos que estão de fora ; os alcatruzes que 
descem insurgem-se contra os que sobem ; e é a este 
vai-vem, a esta cerração da velha, que ahi decoram 
com o harmonioso nome de equilíbrio constitucional. 

Ha quem pense que n'aquella ordem de ideas lan- 
ça raízes o facto que presenciamos. A questão ãt^ 
elemento servil, tal como o governo a concebeu é 
nobre, previdente, sympathica; poucos homens illus- 
trados a repulsam por convicção; mas não se pres- 
tava ella a servir de instrumento politico da tal pe- 
lotica ? Facillimamente. 

Os dissidentes ( exceptuo sempre os de boa fé) esfre- 
garam as mãos, dizendo: — « Bôa arnlfe politica é esta; a 
educação do paiz, suas tradições, alguns interesses, 
disposição de alguns ânimos, alguma audácia, algum 
talento, alguns inconvenientes reaes, tudo isto bem 
aproveitadinho, pôde dar com este governo eui terra: 
mãos á obra ! » 

E na mais incestuosa união, fundiram-se as mais 
oppostas legiões, todas accordes no plano da demo- 
lição, cada uma com diverso pensamento reservado. 
E republicanos, diceram: — « Extremos tocam-íe: 
Russias e Estados-Unidos sympathisam. Os toleran- 



vm 11 

tes que aceitam o motto: fraternidade ou morte, tam- 
bém aceitam a instituição do captiveiro. Toca a des- 
moralisar o projecto do governo; toca a attribnil-o 
á pressão de uma cousa, que alcunharemos Poder 
Pessoal; toca a tornar odioso o monarcha, odiosa a 
monarchia, e desfraldaremos nossa bandeira victo- 
riosa. » 

E liberaloes, diceram: « Que importa ser tanto essa 
a nossa convicção que aííirmarnos terem-nos roubada 
uma das clausulas do nosso programma ? No thea- 
tro da politica, admittera-se as mudanças á vista e 
as magicas, et nos miitamur ia illis. Oppondo-nos ao 
projecto, baqueará o governo, substituil-o-bemos nós, 
e o Faustino tocará o liymno ! I 

E dissidentes, diceram ! ! Nos quoque gens sumus; cr- 
ganise-se um ministério com 38 pastas, e volverá o 
reinado d'Astrea. Como não querem, sentiráo o peso 
da nossa justa indignação. Tanto faremos que o go- 
verno hade saltar; e visto que a situação é conserva- 
vadora, os naturaes herdeiros do defuncto, seremos 
nós. » 

Eis ahi politica, politica e sempre politica ! 

D'est'arte cahio sobre o espirito dos fazendeiros 
um enxame de evangelisantes, entre os quaes ha muito 
advogado talentoso, muito bacharel habilitado, muito 
sophista destro, e também muito pescador d'agua& 
turvas. Depois de lhes circumcludirem os ânimos, 
apresentaram-lhe a papinha feita, e muitos se deixa- 
ram r.ahir na armadilha. 

Assim se prestaram esses a servir de manivellas 
a aspirações monarchómacas, diametralmente oppostas 
aas seus pensamentos de ordem e de respeito ás ins- 
tituições juradas; arriscaram-se a passar indevida- 
mente por escravocratas, por homens que nao fossem 
da sua naç&o e do seu tempo ; abaixaram-se, esses, os 
maia beneméritos cidad&os, a servir de degraus a 
planos subversivos ou a combinações degradantes. 

Com quanto, como já demonstrei, os fazendeiros que 
representaram contra o projecto constituam tao infima 
minoria que nao chegam a um por cem, esses mesmos 
que se deixam adormecer por paradoxos, cedo se es- 

7 uivarão á acção anesthesica do tal chloroformio po- 
itico, 

Acordarã.0 para a verdade e para a luz, quando vi- 
rem: 



12 VIII 

— que a instituição derruída no mundo inteiro nao 
podia perpetuar-se no Brazil; 

— que nobre será a sua extincção,. quando nenhuma 
pressão externa ou interna subjugar este paiz; 

— que qualquer d'estas poderia vir a surgir, se 
adormecêssemos ; 

— que então já para os possiveis cálculos actuaes 
do rasoavel interesse, poderia dar-se aquella locução 
fatal: £' tarde ! 

— que pelo systema do projecto se conciliam, até 
onde podem ajustar-se, os direitos dos escravos e dos 
senhores; 

— que se alei civil estabeleceu, contra jus, a insti- 
tuição, melhor pôde, com jus, modifical-a em tempo, 
em circumstancias, emjufidicos effeitos; 

— que a liberdade do ventre é pensamento ouasi 
geral, desseca a fonte da monstruosidade, e proclama 
um facto sem contrariar um direito; 

— que o pecúlio e a redempção, não somente são 
faculdades naturaes, mas nada innovam nos usos da 
terra; 

— que a serie de providencias destinadas a tornar 
cada vez mais brandas as relacOes entre o servo e o 
servido, são reflexo do successivo abrandamento com 
que os nossos costumes se temido civilisando; 

— que conservando-se a actual escravaria, só com 
equivalente indemnisação do serviço pode o senhor ser 
privado dos braços de que dispOe; 

— que insultam e calumniam os senhores de escravos 
os que falam de degolação de innocentes, injuriando 
assim os sentimentos de cidadãos, que de homens trans- 
formam em feras; 

— que a lei não desorganisará o trabalho, e dará 
tempo e meios de o ir vantajosamente modificando; 

— que devendo geralmente ser approveitado pelos 
agricultores o serviço dos nascituros, até que comple- 
tem a edade dos 21 annos, teremos ainda, durante al- 
guns decennios esse valioso concurso; 

— que chegado o dia em que esses cidadãos possam 
dispor de si, escolherão, na máxima parte, a continua- 
ção do serviço nos mesmos estabelecimentos onde ten> 



vni 13 

parentes e onde foram nascidos e educados (sempre 
que liouverem sido humanamente tratados); 

— qne, se se considera preciso para conviverem es- 
cravos c livres, que estes tenham melhor alimento,, 
vestuário e tratamento, bem vinda seja a lei que in- 
duza os senhores a collocar todos no mesmo nível, 
quanto a estas legitimas recompensas do trabalho hu- 
mano; 

— que, desta melhoria geral do tratamento d'esses 
valiosos instrumentos resultará diminuição de mor- 
tplidade, augmento de forças e productos, alegria e 
bem estar dos operários, vantagens reciprocas para o 
servido e o servo; 

— que, a condição livre de largo número de homens 
elevará dentro em pouco a altura da civilisação; 

— que, todos estes progressos tornaráõ cada vez 
mais amigas as duas raças, que os preconceitos ainda 
hoje separam; 

— que dentro em pouco veremos entre nós honrado e 
facilitado o trabalho, e com elle o desenvolvimento da 
intelligencia, da moralidade e da riqueza nacional ; 

— que só então accudirao espontaneamente a estas 
plagas hospitaleiras correntes d'immigrantes indus- 
triosos ; 

— que nesse dia o concursq do trabalho livre de es- 
trangeiros e indígenas operará milagres ; 

— que a experiência, em toda a parte, ha mostrado 
que a extincçao d'esta praga tem sido aurora de im- 
menso progresso ; 

— que esta modificação induzirá os agricultores a es- 
tudar mais a sua especialidade, a introduzir novos 
systemas, a empregar a machina e o vapor, a; dispen- 
der com melhor êxito menor copia de forças vivas ; 

— que finalmente nos cobrirap as bênçãos de Deus,da 
humanidade, da raça libertada, e da nossa consci- 
ência. 

Tal é a minha convicção profunda, meu amigo. Er- 
rarei eu ? Não o creio. Sou echo da opinião pública, 
da imprensa, das associações, da grande maioria da 
camará dos deputados, da quasi unanimidade do se- 
nado, e do illustrado Governo a que está reservada a 
maior gloria com que Estadistas podem ser recompen- 
sados. Politica, sim, é isto. Quando actos similhantes 
transformam as sociedades ; quando da seara opima 
é por mão firme arrancado o joio ; quando a humani- 



14 VIII 

dade avança mais ilma etapa na marcha da grande ci- 
•vilisaçao, os coros da terra e dos anjos exultam 6 en- 
toam novo hosannah ao Senhor. 

Perdão. Creio que estou mais carregado e sombrio 
<io que devera, e tu gostas : desculpa ; emendarei 
a mão. 

Teu dedicado amigo 

ClNCINNATO. 



A Escravatura no Bx^azll. 

NOTÁVEL DISCURSO DO SR. PARANHOS. 

Sob este titulo publicou a Nacion, de Buenos Ayres, 
Tim artigo, que sentimos nEo poder reproduzir na inte- 
gra ; mas eis aqui alguns trechos d'elle. 

. Quando a Rússia, vencida pela civilisaçao occidental 
emSebastópoli, em si mesma sereconcentrou, e estudou 
:as causas da sua debilidade e derrota, achou-as no ele- 
mento servil; e para logo emancipou os servos da gleba, 
-chamando-se desde então Rússia livre. 

Quando o Brazil, vencedor na guerra contra a tyran- 
nia do Paraguay, deu conta a si mesmo das causas que 
geraram tantos esforços e resistências, e ura tanto lhe 
aguarentaram a victoria, achou-as na escravatura ; e 
para logo se occupou de extirpar cancro, que poderia 
acabar por corroer todo o corpo politico e social. 

Quasi todos os povos que esta grtlo reforma operaram, 
que romperam os grilhões do escravo e arrojaram seu 
ultimo elo aos abysmqg do passado, fizeram-no em meio 
de grandes crises e dolorosas convulsões. 

A America do Sul, e à testa d^ella a Republica Ar- 
gentina em 1813, proclamou a liberdade dos ventres, 
ao matutino arrebol da revolução de sua independên- 
cia, e resgatou os escravos com as rendas do Estado, 
levando os libertos de raça ao campo de batalha, a com- 
batera a par dos libertos coloniaes. 

O Estado Oriental aboliu os últimos vestígios da es- 
cravatura, quando Rosas o invadiu ; os seus libertos 
foram núcleo e nervo da defesa, no immortal sitio de 
Montevideo.... 



VIII 15 

O Brazil, como a Inglaterra, pode hoje operar esta 
magnifica reforma em meio da paz, sem nenhuma pres- 
são externa ou interna, dependepdo a sua solução no 
Brazil, como antes dependeu na Inglaterra, do voto 
illustrado e livre do parlamento, que pode immortali- 
zar-se em um dia, firmando a carta de emancipação dos 
•escravos do porvir, preparando a extincçSo da escrava- 
tura como instituição, e como facto inconsistente com 
« civilisação moderna, com a moral universal, com a 
•conservação social, com a prosperidade pública, e até 
com o decoro internacional. 

Ha jà tempos, que esta revolução de idéas e senti- 
mentos se vai no Brazil operando, nao só na opinião 
illustrada do império, senão também nos interesses bem 
-entendidos dos productores, que chegaram a formar 
4ima espécie de consciência pública, a qual, reagindo 
contra o facto e o direito de tão barbara instituição, 
tem dado ponto de apoio á reforma no passado ; e, tor- 
nando-a factivel no presente, hade contribuir para fa- 
xel-a fecunda no futuro. 

Aspiração dos grandes pensadores, desde os primei- 
ros dias da independência do Brazil; convicção dos eco- 
nomistas, que profundaram as suas questões agrícolas; 
paixão geuerosa em charac teres elevados, que no escravo 
reconheciam creatura de Deus, feita á imagem e simi- 
ihança do seu irmão, o branco ; previsão nos Esta- 
distas, enxergando a impossibilidade da prolongaçãa 
do captivciro, no dia era que o mundo todo emancipasse 
os escravos ( como jà succedeu ), ficando essa nação 
isolada no mundo, como excepção da moral e da liber- 
dade universal ; — a extincçâo, mais ou menos gradual, 
da escravatura no Brazil, é facto fatal, irrevogável, 

3ue obedece à lógica das idéas e â força das cousas, que 
omina todas as vontades como aspiração sublime, 
solução económica, e facto que nada e ninguém pôde 
impedir ou retardar. 

.... A abolição da escravatura depende hoje do 
voto das suas camarás, ou antes não depende já de 
niQguem, porque taes questões, quando enterreiradas, 
resolvem -se por si mesmas, sem que desde então de- 
pendam já do voto fallivel dos homens. 

E não obstante, era mister coragem cívica, intrepidez 
politica, amor á idéa, para soltar o signal d'alarma, e 
romper decididamente a batalha com o facto trium- 



16 VIU 

f 

phante, as jpreoccupações, os interesses illegitimos ou 
raal entendidos, e as combinações possiveis dos politi- 
cos de parlamento que, para seus fins particulares, fi- 
zessem fogo contra bandeira nao erguida por elles, 
ainda quando nella vissem inscripta a lenda de um dos 
principios do seu credo. 

Prosegue o escriptor na descripçao do estado da 
Brazil, e dos seus partidos, bem como do amadureci- 
mento da grande idéa; e fazendo justiça aos altos e ex- 
cepcionaes dotes do alferes que empunha aquella ban- 
deira, em torno á qual, dentro em pouco, todo o Brazil 
se apinhará, o Sr. Visconde do Rio Branco, exalta e- 
gualmente o seu valor, a sua paixão moral.... 

O sr. Paranhos, com quanto comprehenda as dificul- 
dades e as resistências em que tropeça, nao assume at- 
titude arrogante. Nao se appresenta aos compatriotas 
como excepção, nem como propheta destinaao a con- 
verter incrédulos, nem como força que imponha con- 
vicções : é singelamente o homem da crença e da pa- 
lavra, que joga num dia tudo por tudo, em nome e na 
interesse de uma grande idéa, estribando-se nas forças 
sociaes, na consciência pública, nos próprios interesses: 
buscando seus antecedentes na tradição, sem por isso 
deixar de confessar a doctrina humana, e de collocal~a 
sob os auspicies da moral do género humano, de que 
os brazileiros e os seus escravos constituem parte. 

Continuando no mesmo espirito este notável escripto, 
dà-se ampla noticia de um dos memoráveis discursos 
do sr. Presidente do Conselho, cuja fronte, nesta sessão 

f)arlamentar se engrinaldou de tao imraarcessiveis 
ouros, que nos fastos do Brazil nao ficará pagina em 
lettras de ouro tao esplendida como a que hade ins- 
crever os nomes de tal Estadista e de tal Governo. 



Typ. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sele de Setembro n* 146A. 



QUESTÕES DO DIA 

N. 9 

BIO DE JANEIRO 28 »E SETEMBRO DE lff71. 



VeDd«-s« *m rasa dos Sis. E. & H. Laemiacrl.— Pra^ da Coaslituigftg* I 
l,o>* do raalo.— Livraria Academi™, Rua de S. José u. 119— Larpi * 
paço D. I3C.— Rua ãe Gonçalvcti Dias n. 79.— Pre^ 200 reis. 



D. Pedr^ Px-lmelro. 



IINTE B aCATRO DE SEPTBMDEO. 



Kra Umbem um rei ; também poderojo e grande. 
Subvertera montes, entulhara mares, erguera moiiu- 
meatos rom que a reg*!!!» da.i nuvens se atfroutava. 

Em todo isso.... E todavia, alargando olhos, do 
fmiiie de um rochedo, por extensão sem fim, toda co- 
berta de inaiimeravel numero de homens, alag'ada d 
nm exercito infinito. Xerxes chorou ! E mais, exércitos 1 
e montes, povos e mare.s, tudo aquillo era seu. 

D — Choro — dixia — porque, em cem aunos, d'enl.re ] 
tantos nem um restará. » 

Nestes dias de imraeusa dôr, subamos ao rochedo de 
^erxes, e roasoiemo-nos. Baixemos olhos por sobre 
rase universo, que iios pés nos redemoinha; observemos 
9 taceisaute martellar do Tempo leve ! Mundo juncado 
je ruínas; perpétuo batalhar dasg-entes com as geutes, 
dos reis <^>m os reis, dos impérios com os impérios : 
triampho? e derrotas; grandezas asmagadas e insigni- 
flesDcia^ erg-uidas; incêndio, devastação e morte, ar- 
Toradai em arautos de civilização. Estendei a vista em 
lAmo: aqui, um apunhalado ; além, um coroado de 

^touros : d'aquelle lado, um feliz, levado em carro tri- 
impbat a capitólio ; d'este, o mísero, (]espe.ihadu da 
Tarpeía. Danças e jogos ante vós: alli pranto e deses- | 
lersção : no longe, incensos; no perto, maldicçoes... E 
I iQfSiiio homem, ínstauteapós instante, segue asort« 
i'es«es tantos que a vista abarca: — louros e dansas, 
|Bs««peraçao e pranto, inceusos e maldicçOes, Tarpeia e 

^^aipitolio, nascimento e morte, tudo isso é commum. 
E oao é só o exercito de Xerse.s; é toda a humani- 



2 ' IX 

dade, que hoje vive, e se a^ita, e se revolve, e pratica 
êc<í0e» grandes, e commette crines negros, e chora, e 
ri, e corre, e võa, e conta com uma eternidade de exis- 
tência, que amanhã... amanhã será toda pó de ca- 
dáver. 

Paia bam I a essa lei commum da humanidade, tam- 
bém EiXK cedeu. O frágil involtorio caiu pedaços ; e o 
que era mortal, passou. Que admira'? Mocidade, belle- 
za, força, poder, nada retarda um instante o golpe da 
inevitável foice. Ainda rodeado de todas essas vanta- 
gens, dirieis em cada homem um conjuncto monstruoso 
de dons companheiros inseparáveis; ao vivo anda sem- 
, pre abraçado o inorlo^ que só larga o companheiro no 
dia em que pode, triumphante, calcal-o aos pés de es- 
queleto. 

Bem I Morreu o que podia morrer. 

Mas dessa tirannica lei, libertam-se alguns raros, ra- 
rissimos nomes, que, desprendendo-se do que nelles era 
terra, sobem fulgurantes ás ethereas regiões, para d'al- 
li, planetas brilhantes, admiração de todos os povos e 
de todas as edades, affroutarem a eternidade. 

Esses nomes são raros ; tal mixto de eminentes qua- 
lidades exigem, que a antiguidade os denominava semi- 
deuses, e os séculos correm sem junctar um só à curta 
lista d'esses eleitos do Senhor. 

Um d'esses, embora caia ceifado em flor : para elle 
não ha somno eterno, nem somno longo. No momento 
mesmo era que fechou os olhos, a humanidade em peso, 
com a sua voz grande, q^ue também é voz de Deus, bra- 
da como elle : Swge qui dormis, et exurge a mortais! 

Succumbiu, neste dia, um d'esses que o mundo ve-. 
nera unanime como immortal modelo do rei, do sol* 
dado, do legislador, do philosopho, do esposo, do pae, 
do cidadão, e do homem. 

D. Pedro, que ha 37 annos existia cheio de vida e 
força, e juventude e esperanças; que libertava dous 
mundos; que, nos campos da batalha, semelhava o anjo 
da tempestade, que, tranquillo, no seio de um turbi- 
lhão, dirige os ventos, impera aos furacões, e aponta 
ao raio onde hade ir fulminar... hoje! desengano atroz! 
jaz alli, naquella terra irmã, mudo e quedo, inanimado 
corpo sem coração, esse coi^po onde um coração im- 
menso palpitou, como nunca outro algum, por quanto 
no céo e na terra ha nobre ! 



IX 3 

Se porém na eterna mansão dos justos podem as al- 
mas exultar, lá estará hoje o fundador deste império 
implorando novas bênçãos sobre esta terra tfto sua, 
e danda as derradeiras graças ao Senhor, por vêr 
emfim coroada a obra que emprehendêra, e que nunca 
hoav«ya sido completa, emquanto nao tivesse sido 
promulgada, como acaba de o ser, a redempç&o de 
todos os homens nascidos neste torrfto abençoado. 
Desta grande obra, a semente foi lançada pelo rei 
philosopho. 

Retumbem por esses échos o estrondo dos canhões, 
o dobrar dos sinos, os saudosos lamentos ! Revista-se 
toda esta redimida sociedade de lucto e de dó ! E 
aprendam as gerações futuras, que, no século XIX, 
só uma cousa houve, egual ao immenso amor de um 
monarcha... foi a perpetua e immensa gratidão dos 
povos que elle remiu ! 



•Os leitores nos agradecerão, sem duvida» que os presenteemos 
com o seguinte mimoso inédito, em que a delicadeza do sen- 
timento disputa primasias á appropriada singeleza da forma. 
Tivemos de vencer a modéstia de seu auctor, que se julga 
tanto menos do que vale,quantos outros valem menos do que se 
julgam. E' distincto membro de uma familia,na qual o talento, 
nem por ser hereditário, diminue o património de cada um, da 
mesma forma que a tocha nSLo diminue o fulgor da tocha a que 
se aceendeu. Se, nessa familia, não distingue o engenho sexos 
nem edades, mais de uma vez a foice da morte veiu invejosa 
ceifar em flor, ou em já esplendido fructo, esperanças que des- 
cortinavam horisontes sem limite. A amostra, que oraj damos, 
é também sympathica, pela natureza do assumpto inspirador 
desta poesia : que aromas não.rescende o amor dos amores, o 
do joven filho a seu provecto pae I Não ha entre as harmonias 
da natureza outra que mais suavemente faça vibrar as fibras do 
coraç&o/ Oh/ feliz aquelleaquem é dado poder prestar estes 
preitos a ura pae ! 



IX 
Três ô« «f-ulHo. " 

Hontado velho I 
tu na estrada da honra me pozeste. 

QíLTTetí—CamôeJt. 

Cada poeta na lyra 

canta o amor que lh'inspira 

o bater do coração. 

Deixas . que eu consagre um canto 

ao pae, nos risos, no pranto, 

minha mais doce affeicao. * 



Os mares beijam as ilhas ; 
as flores, dos troncos filhas, 
ennastram gentis o chfto, 
que adorna a mimosa planta, 
que para os céos se levanta, 
como que em pia oração. 



Pendem os fructos dos ramos, 
e a beijar os encontramos 
annosa, tosca raiz. 
A flor, a fructa cahida, 
no tronco que lhe deu vida . 
tem um pae, que a fez feliz 



Se a planta frágil é grata, 
se nos orvalhos de prata 
alenta a côr, que se esvae, 
ganha perfumes e viço, 
meiguice, brilho, feitiço, 
para coroar seu pae, 



ai, não te admires se venho 
trazer as rosas que tenho, 
tua grinalda formar 
com tão míseras florinha-s ; 
pobres, como eu (que são minhas), 
a ti que as fazes brotar. 



II 



Ao meu primeiro vagido 
ancioso prestaste ouvido, 
escutaste esse meu ai! 
e teus olhos me disseram : 
« Por ti meus braços esperam ! 
« vem, filho, abraça teu Pae.» 

E déste-me um beijo sancto ; 
libaste logo esse pranto 
com que o infante acolhe a luz : 
foste-me seio d^amores, 
como orvalho que nas ^ôres 
suspende o sol que reluz. 

Dentro. d'um berço— meu ninho— 
concha d'amor e carinho—, 
aquecftu-me o teu amor. 
Deste vida ás ondas mansas 
doesse berço d'esperanças, 
que ficaram sempre em flor ! 

O meu passo vacillante 
seguiu, meu Deiís ! foi avante, 
guiado por tua mao. 
No bater igual, perfeito, 
deparei dentro em teu peito 
echo do meu coração. 

Do livro a. primeira folha 
quem me abriu, de sua escolha ? 
quem a peqna me estendeu ? 
quem me apontou da scíencia 
branda luz, com paciência, 
foi o Pae que Deus me deu I 

Plantaste muito, é verdade ; 
mas não qui? a divindade 

Íremiar o teu suor ! 
iveste tantas colheitas 
n'outros. filhos, tao perfeitas ! 
devia esta ser menor. 



BH 



m I ■llWll^ipill.Wl^.l^ft^jn.r^:.,,..." 



IX 



Deram outros c'rôa e palma.... 
dou-te murchas flores d'alma, 
nascidas de puro amor. 
N&o tenho os raios da gloria, 
para teu nome na historia 
douràt de novo fulgor. 



Sim, meus irmfU)s foram grandes ! 
Também meiiores que os Andes 
ha o monte, o valle e o chão ! 
E n'uns e n'outros o dia 
com perennal harmonia 
ostenta de um Deus a mSo. 



Tiveste illustrados filhos. 
Inda esplandecem os trilhos 
do breve caminho seu. 
Nao, nâo; nfto tenho esse brilho, 
porém sou também teu filho, 
e bom Pae lambem és meu. 

Ter Pae ! é cousa tao doce I 
O mesmo Deus humaiioii-se 
para ser filho. •— Jesus, 
quando a libertar-nos veiu, 
deixou o materno seio 
mas ao Pae voltou da cruz. 



Teus filhos — doçura, enleio, 
acham no paterno seio, 
remedio.s promptos á dor ! 
Teu coração nao tem raias : 
immenso mar, mas sem praias, 
transborda sempre de amor! 



Acceita este canto. — é preito, 
qne vem render-te meu peito 
eoffre de amor filial. 
Viiiarda a grinalda; essas fiares 
i)rotaram murchas, sem cores. 
d'este m^n peito no vai. 



IX T 

N'esta pude e pobre offerta 
vai minh'alma, em flor aberta, 
osculando a tua mão, 
no Urro de nossa vida 
ínscreTer agradecida 
um só nome — g-ratidao. 

Rio de Janeiro, — 1871. 



Oaz*ta I. 



wir.cir^rií^to a Síir^proaio 



SemproDio amigo. 

Agradeço cordialmente as admiráveis cartas em que 
me tens ido fazendo a analyse do famoso Gaácho^ com 
intelligencia e agudeza critica tal, que me parece a 
tuapenna, ncdelo para similhantes e.studos, e digna de 
applií^ar-L-c á appreciação de trabalhos de vulto. Sim, 
pennas, cora( a tua, devem ter mais alta missão, mas 
emfim, b'?m laja quem foi origem de lucubrações tao 
valiosas, na e;^encia e na forma, como estas cartas são. 

Mandas-me com a tua 4* carta, um exemplar do 
(ittâcho, pnra dn^ eu, confrontando-a com o documento 
original, te dii^a se és severo ou justo. Já que me per- 
mittos. dir-te-iei que me não pareces justo uem seve- 
ro : em vez de rigor, lia ahi brandura ; longo de jus- 
tiça, ha favor los teus julgamentrs: afHgura-se-me que 
ainda (M>u'*ede ao escriptor qualidades imaginarias, 
em desconto de-eiis peccados. Agora que li o tal livnn^o, 
lenho para min que no seu auctor venernroi de bòa 
ii:en!c uma e%:c.lienie pessoa: mas como escri])tor, isto 
não é mais queim operário da couimuna lilteraria, 
dí-molidor feroz, petrolisador iutellcctua!, di.iruo mo:n- 
brod'1 direriori( da Eschola Coiívbrn. 

N<»st;i lua -i"* ca-ta, dissecas brilhantemente u I" cvjpi- 
tulu do Gaúcho, i aiuda assim saltas ])or sobre Uiil hei- 
h'Z(ts^ prova\eimaite porque, para aquilatal-as todas, 
houveras precisalo Oi 60 volumes in- folio da Etiri/do- 
j ''tl.'(- Melhoúico. 

Concordo ccaiiti^o : fite cscreved^r tem ;. mauiít <la 



ê IX 

novidade.^ U lui faut du nouveau, quand il n'y en a ptus; 
logo no proemio doesta cousa, nos diz elle que na no- 
vidade é que elle acha o sainete ; é da raça dos taes que 
nfto hesitarão em descrever o mar como encarnado 
e o circulo como bicudo, só para conquistarem a gloria 
de ceifar estranhezas, e dar à luz novidades; foi queiA 
aconselhou Alcibiades a cortar o rabo ao cão. Onde 
a imaginação lhe parece frouxa, ou desenfreada, pou- 
co importa; acceíta-se tudo: às maiores hucuras, 
chamarse originalidade; o devaneador é chefe de es- 
chola, e já que n&o pode brilhar pelo senso oDmmum^ 
contenta-se com o pechisbeque de casa: 

Quand onn'a pasce que Ton aime, 
il faut aimer ce que Ton a. 

Tons carradas de razão em quanto pondera,mas reco- 
nheço que muito te arriscas,porque, segund) parece,até 
este Deus tem seu pagode, com os competentes adorado- 
res ou pagodeiros. No L. 4 de varia Histeria da índia 
Oriental cap. 8, escreve o Padre Fr. João dos Santos, 
que nas terras do Malabar, de que é sentor o Çamoriy 
rei de Calecut, ha um pagode a que em <ertos dias d^ 
festas, acodem uns endiabrados devotos, chamados 
Amoucos^ e mettem-se pelo. meio da geite, apostados 
a matar quantos poderem, em^ honra e lOUvor do seu 
nume, até morrerem na contenda, como de ordinário 
succede depressa, porque, como sua vindié sabida e es- 
peradc^fha muita vigia que lhes sai logp ao encontro, 
e peleja até dar cabo d'elles ; e com esta>arbara solem- 
nidade se. celebram as festas d'este jagode. Fernão 
Mendes diz que se untam com o nngfienUminhamundy. 
Ouço que alguém se anda por ahi minlamundyzando, 
m^s por ora ainda a cousa se reduz a iicensos e genu- 
flexões; e isco é innocente; agora quemem dia de festa, 
for fazer das suas no pagode, muda o 3aso de figura. 

Continuando pois, direi que o tal cçitulinho, a me- 
lhor cousa da melhor obrado melhor atctor, objecto dos 
espantos de espantadiços,tem, nas pousas linhas de que 
se compõe, outras muitas curiosídadbs, além das que 
notaste. Bem as viste certamente, mai não te abaixaste 
a indical-as. Permitte que eu U apcnte para algumas 
d'entre tantas outras : 

— « A savana ondula pelas sanitas, que figuram • as 



fluduações das vagas nesae verde ocuauo... A^ ondas 
«e agitam em constante fluctuação etc. » 

Oiide se viu riqut:za mais pobre í Fííícípís é ouda : 
fluctuação é a agitação ia onda; ondular (se é (jue »\istej 
jt^Difica imitar o movimeuto da onda. Que eluqueacla 
è est« verbosidade, i^ue está dando em cíqco viubjriâ 
1^ trocos dos tojtOes ! Quem diz fluduaçilo teia dito 
o^itacãQ das ondas, eex|)rime~se tristemente quem escre 
ve ; « as ondas se ugilam em ductuaçao " • o restante 
eciparralbamentu que por alií fica. 

Nao era isto que Frederico II chamava a abundância 
estéril de Bernis f 

— « à trecho passa o poldro bravio '■ Conbeço a lo- 
cução adverbial a trechos, sig-aitícaudo de tempo a 
tempo, mas no singular é ueolo^ia c&d'este clássico. 
— o O nauta é átomo envolto u'uma dobra do infí- 
aito ! » Bravo ! o íniinito com dobras ! e dobras de in- 
finito para envolverem átomos! Que ineUio.r poderia 
dizer o cirurgião Rozendo, o preclaro fundador da es- 
chola coimbrã ? Deixem estar: esta adiniravel pbrase 
vai matar, de inveja aos patriarchas da escola. Apeaafi 
Henrique IV deu a ultima espadeirada. n\wi a famosa 
batalha, escreveu islo ao duque de Crillon: — « Enfor- 
ca-te. bravo Crillon; combatemos em Arques, e tu 
ailo estavas cà . ... Adeus, bravo Crillon; gosto de ti, 
a Uirto e a direito. « Agora o peuaclio branco .lubs- 
títuirá a penna de pavão do maudarinado, e j& là 
vai ao auclor das Odes Hodertias este bilhete: « En- 
\ forca-ic, bravo Q.; envolvi um atorao em dobras dn 
I infinito, e tu ficaste a olhar ao signal. , Adeus, bravo 
I Q.; gosto de ti a torto e a direito. " 

t A ambula iaiuieusa tem só duas faces. convexas : 
1 o mar e o céo..» Ah qui d>l-rei, bravo Crillon; mor- 
I de-te e remorde-te. Olha! aqui estou eu denlro,d'um 
I aavio veudo duas faces converan ! a saber, o céo, que. 
I do ponto d'onde o eu vejo, me parece concavo, e ven- 
F do o mar, o qual me parece, que me parece liorizonlal. 
Oli bravo Crillon, nem tu, que podes tudo, podeste 
jamais dizer que uma coucavidade e uma horizonta- 
lidade, eram duas couvevidadeci; euforca-te ! Mas nio 
le enforques ainda; cuidavas que a estupenda brilha- 
tura ficava por aqui "í Qual historia ! A barra vai 
adeante; ha melhor: o que rodeia um nauta é uma um- 
btUtt imntensa; tal e qual; aquella cousa toda represen- 
Uk uma botija, uma garrafa; a convexidade inferior... 



■■^■■■. L JlTw ■■■■!, ■-■■•.^^g^^^^^^^M 



10 1$: 

é o mar, que ó concavo para baixo; a superior é o céo 
que tem o bojo pára cima; e o gargalo... o gargalo... 
isso façamos de conta que 1& da alt^ira do septe-estrello' 
ascende um tubo muito comprido, que na ultima do- 
bra do infínito vai dar com a imaginação pomposa do 
Senio, servindo-lhe de rolha. 

— «Em ambas as faces, a scena é vivaz e palpitante» 
Erro em duplicata: admittidos que fossem, no figu- 
rado, estes adjectivos, nem um nem outro teria a 
significação que o impávido escriptor aqui applica ás 
taes" convexidades concavo-horizontaes. 

— « As ondas murmuram: — « Ouviu-as murmurar. 
D'isto agora é que eu nao duvido. Em minha igno- 
rância cuidava eu que só o homem era inclinado á 
murmuração, mas dou as mãos à palmatória, e reco- 
nheço haver casos em que as monstruosidades são de 
tal casta que nem as cousas inanimadas podem ter 
mão em si, que as não censurem ! Na Epistola aos Pi- 
sões, diz Horácio; « N'uin consultor da justiça ( consid- 
tiis júris ', num rábula de demandas actor causarum^^j 
mesmo quando em facúndia e sciencia (diserlf, nec stil) 
esteja infinitamente abaixo de um Z. ou de um L. abest 
Messalce.., quantum Ca^celUns), tolera-se-lhe a medio- 
cridade ímédiocris^) e pode dar-se-lhe em paga o pre- 
ço de 600$000 rs. que elle exija por uma insignificante 
imput^nação tle embargos :Uimen in pretio esl]\ mas 
mediocridade num auctor I isso não o supportam os 
homens, nem os deui>es, nem as coíumaa^i !» 

Consnltns júris et actor 
causaram mediocris abest virtate «liserti 
.Messalcp, nec scit, quantum Ca.scellius Aulns: 
sed tamen in pretio est: mediocribus esse poeti ^ 
non homines, non dí, non concessere colnifuni^. 

Ora o.^ta.s rohinínas eram ms pilares das loja.; de li- 
vreiro: e por tanto, se os pilares re/iníi'am, n"ioé iir.iiío 
que as ondas murmurem. Está direito. 

— u As nuvens rcnnhiani a cada ins. ante; lia nellas * 
um fjcsío. •> Minha Nossa Senhora ! tjiie ])ro])ria acção 
(lo cambiar I e-jue será o gesto chis iinvo.s ? lír-sp^índe- 
me o (Jrillon ([ue de\e ser7'".v^f) nelf!floso\ is.- > entrí.j. 
sim; bem nebulosa é toda essa rudiíi iiiflifjrsiafjm' nfnlew 
-(Jue (!omparaç<jes, meu ami^io, que imagens ' Fa/ lem- 
])rar tim ti^echo de uma en<>-rneadissimn po«\sí;i. -nie 



IX 11 

pinta bem a posiç&o em que se collocaifi esses caça- 
dores de efFeitos que levam a vida a atirar-lhes e* a 
falhar: 

Pois bem ! vou arrojar-me pelo vago 
d'essas comparações que a troche-moche 
do romantismo o geaio cá nos trouxe 
que p'ra todas as cousas vao servindo; 
eá phautasia as rédeas sacudindo, 

irei, bem como um cego; 
que us românticas musas desenvoltas 
costumam navegar a velas soltas. 

« — A tela oceânica re.^ssumbva possante vitalidade. » 
Esta phrase é inadmissível : concedendo a paparrotice 
da tela oceânica^ dir-se-hia : u da tela oceânica ressum- 
bra vitalidade » Nao é a tela que ressumbra vitali- 
dade, porque ressumbrar não é espremer ou expellir ; 
è a própria vitalidade que da tella ressumbra, còa, 
transluz, surge, apparere, ou emfim se deixa ver fora 
do lugar onde estava. 

u — Em turno do viandante no pampa, faz-se o 
vácuo. )j Que vácuo é este ? Non dalur vamum in 
reruíu natura. Que macliina pneumática trabalhou 
no pamp:' ? Eu quero crer que vácuo não é vácuo, o 
.sim a idéa sesquipcdalizada de solidão ; mas sendo 
assim, onde a antíthese com o que succede ao nauta t 
O viandante liça oppn?sso, por se ver a sós numa grande 
|ilanicie terrt^stre, onde os olhos podem medir 5 ou () 
legu«s de horizonte em torno, e sente-se muito do.sop- 
presso, e uiuito accompanhado, quando, no pLiino 
equoreo, aloncviudo olhos por uni circulo de ccin lé- 
guas, não avista um ente vivoí Pois sim. 

ti — Alluvio de luz. » Certamente : preceitos <jue 
mais obrigam ; podir quem pode mandar. E ois-aqni 
ju^tauicutí» purque sua tilha está muda. 

<t — Para a fiiria dos ehí:!i« Mitos, inventou o Creador 
;is rijexas «"Kbiverica-- danature/a : deante da vaga im- 
petuosa, rollneoii o rooliodo etc. » Pronietto um ov'> 
rórido aqiKiin desalg'araviar esta enibriilhada; decidi- 
Jament»» »*.<crev«ír assim, é dar razão a quenidiee ler a 
palavra sido tlada aohonu.4n para (^115^ o não entendruu; 
ma-; já \[\u' nos aventuram )s nesta iinuiensa nocturna 
.sa\ana. ac«vMidamos um pavio. 

Cjme<'tMnos, antes de tudo, rebaixando Dens á eab»- 



12 IX 

goria de inventor ! Inventar, é dispor da facul- 
dade, eminenteoxente humana, que leva o bichinho 
terrestre a achar alguma cousii engenhosa, à força de 
talento e de imaginação : inTenta-se uma arte, uma 
sciencia, um processo, um systema, uma machina, um 
meio, um expediente; inventou-sc a escripta, a im- 

rrensa, a música, a bússola, o barómetro, a pólvora 
càesta, nao foi o Senio ); em todas essas, e quejandas 
invenções, figura, sempre o cérebro humuio, tomando 
por giiia a natureza. Também o homem inventa um 
poema, um conto, um Gaúcho, uma astúcia, uma fa- 
bula, uma calúmuia ; inventa, quando convém, um 
poder pessoal, ou assaltos ao thesouro, denunciados 
por novos gansos do Capitólio. Mas de tudo isso, quem 
é ô inventor ? O homem ou o diabo. Deus a inventar ! 
Invental-K) a Elle, se nfto existisse, sim, -deveria o ho- 
mem, como de Lucano traduziu Voltaire ; mas Deus 
inventor! . j., 

Ahi restam dous dos melhpres livros- de Cícero, 
sobre a invenção, e nem naquella religião, toda maté- 
ria , se considerou Júpiter inventor. Não queres ver o 
Ente Supremo, Conservador de todas as cousas, Pae da 
Natureza, Eterno architecto, Soberano Motor, Arbitro 
Perpetuo, o Altissimo, o Sjr dos Seres, o Omnipotente, 
a .Fonte única de toda a intellígencia, que rege com 
poder e sabedoria, sem limites todas as espécies eo 
universo, o- que a uma só voz extrahia do chãos mi- 
lhões de mundos, o que do seiovdas trevas mandava k 
luz que fosse, e a luz era.... não vês o Creador exca- 
vando o espirito para inventar uma pedra, e isto só 
com a missão de oppõr a uma: fúria uma rijeza? ' 

Dissequemos mais: « Os rochedos são as rijezas ca- 
davéricas da natureza. » Rochedos serem rijezas, era 
uma definição que ainda estava por dar, e muito in- 
telligente. Mas porque razão serão rijezas cadavéricas? 
Como pôde . o rochedo ser cadáver? Se nos reinos ani- 
mal e vegetal se nasce, vive e morre, outro tanto não 
succede ao' rochedo : até à con^ummação dos séculos 
(a não se darem cataclis* nos ), conserva r-se-ha elle tal 
qual se acha desde ii creaçio ; a sua existência é 
aquella, aquella a sua ríjeza congénita ; es;>a rijeza 
nãoé cadavérica, porque o rochedo não morre. 

Porque chamará pbis o auctor aos rochedos, *<c rijezas^ 
cadavéricas da natureza ? y^ Será porque assim como o 
animal morto enrijece, também o rochedo é duro? 



IX 13 

Santo Deus, seria a mais estapafúrdia das imagens; 
seria uma comparação de pernas para o ar. Se o ca- 
Savef enrija um tanto, ao cadáver fica todavia flexi'- 
biUdáde^ molleza relativa : o granito é sempre gra- 
nito ; se po^s a comparação é só quanto & dureza, seria 
talvez tolerável a exaggeraçao que comparasse o ca- 
dáver ao rochedo, mas é eschola coimbrã egualar o 
rochedo ao cadáver. Estas confrontações do máximo 
com o minimo, de César com Jo&o Fernandes, tem o 
mesmo mérito que se algum inspirado, para exaltar 
as magnificências da natureza, comparasse o Vesúvio 
f!om um fogareiro. 

— « Passou a borrasca. A savana permanece como 
foi hontem, como hade ser amanhfi, até o dia em que o 
verme homem corroer essa crosta secular do deserto.)! 
Trocadilho, amphigHri^ charada ou logogripho, nao 
sei bem classificar isto... que é ode certamente ; mas 
emfim dou de barato, que inlmjo ("quero arvorar-me 
era mais esperto, que Deus me fez. ] Que é esta crosta 
xecular ¥ Ah, já sei; nflo éecclesiastica; isso sim: outra 
accepção nao seria própria, por que, em relaçí&o àanti- 
guidade, é impróprio chamar secular ao que se nao 
conta só por alguns séculos, ao que é coevo da crea- 
çao. Vemos para deante: Temos pois o verme homem 
a corroer a crosta do dese^to\ figura-se-me que isto, 
em portuguez, quer dizer que um dia esse deserto hade 
ser cultivado ou approveitado pelo homem, que ahi 
agricultar ou edificar. Dei com a adivinhação ? entOo 
só me resta um grande empacho: Se hoje a savana está 
devastada pelo furacão, como o foi hontem, e como o 
hade ser amanha, por que é que o nao hade ser mais, 
senão aU o dia em que o homem nella arar ou constrair *? 
como é Que o indómito uracao, em vez de derrubar 
após o tal dia arvores e plantas, ; nlacios e choupanas, 
hade conter os seus furores ante essas obras humanas ? 
Quem hade nesse dia dizer ao vendaval: Pára; té aqui, 
mais nao ? Só sefôr o Poder Pessoal. 

— « Ao pôr do sol, perde o pampa os toques ardentes 
da lujj meridional. » Aqui entrou coUaboraçlio do có- 
nego Philippe : toques ardentes são uns que geram o 
mal das vinnas ; mas emfim ficamos inteirados de que 
o sol, quando se põe, nao arde tanto como ao meio-dia; 
agora o que importava observar,para gloria deste sécu- 
lo observador, é que o tal phenomeno estupendo nao se 
dá senão no pampa. 



14 IX 

— « Âs grandes sombras, que não intercepl;:ni moa- 
tes.aem selvas...» Quer dizer exactamente o contrario: 
ií Ás sombras, que nem montes nem selvas intercepi- 
tam » mas também, em gira d'esta casta, tanto é o 
sentido de deante para traz como de traz para deante; 
tanto vai dar-lhe na cabeça, como na cabeça lhe dar. 

— « Ao pôr do sol.. . a savana figura um vasto lençol 
desfraldado por sobre a terra. » Nunca a idéa de len- 
çol occorre sem acompanhamento da alyura ; pòr isso^ 
é bem acceita a imagem, ao desci*everem<'Se toalhas de 
altar, um campo coberto de neve, areaes entremeadas 
nas verduras etc, mas de que côr será este lençol, 
composto de terras, vegetaes e fundos-negros 9 Ah, jâ 
sei: assim como ha mantas de retalhos, será um lençol 
dos sujpraditos. 

— « ... ressumbra tao funda tristeza que estringe a 
alma » Cà temos mais ressumbramentos a dous passos 
de distancia. E quem é em portuguez este senhor es- 
tringe ? será verbo da estranja ? nao tenho a honra. 

— « Uma alma pampa » Nao parece assim uma alma 
bamba 9 Não é onomatopaico? Nao gostas doestes subs- 
tantivos adjectivados? Nao achas aqui muita proprie- 
dade na applicaçao ? 

— « Tem o quer que seja » ou tem o que quer que 
seja ? 

— í< Parece que o vasto e imrnenso orbe, cerra-se » 
Conviria neste caso fugir ao emprego de tal verbo ; 
mas, a ter de empregar-se, nao se deve dizer « Parece 
que cerra-se » e sim « Parece que se cerra w Agora lá 
quanto ao immenso^ já tardava : Temos — pag. 1, a im- 
mensidade dos mares — a pag. 2, a immensa plauicie — 
a pag. 4, a immeiísa planície, eo immenso orhe — a 
pag. 6, immeiísa coroo a savana — e tudo por hi a flux 
é uma immensidade de immensos, que demonstram a 
immensa sciencia de Senio na arte de escrever. 

Basta, basta ! Um capitulosinho de 120 linhas de 
lettra garrafal, apontado como a melhor cousa e pór- 
tico da obra, deu margem para a tua carta magnifica, 
e deixou-me estes sobejos, ficando ainda intacta maté- 
ria para outras tantas observações. 

Tens pois razão ás carradas, repito. Eis-ahi as bul- 
ias com que certos escriptores se collocam a si mesmos 
em nichos no pantheon litterario. Também os phariseos 
affectavam ser nimiamente severos, pagavam o di- 



IX 15 

2ÍIQ0, e ostentavam observar as cerimonias da lei; mas 
acharam quem lhes desmascarasse o orgulho e a hypo- 
crisia, e os expulsasse, Deus sabe como, do templo. 
Tomaram elles continuar a ter força para condemnar 
ao supplicio da cruz. 

Teo leal amigo ' 

^ ClNCINNATO. 

Neoessidade da assooiaoao oatlxolioa 

Proposta db S. Ex. o Su. Duque de Saldanha. 

Atravessam as sociedades uma crise que não parece passa 
geira, e a arvore da civilisaçfio apodrece pela raiz. Os leaes 
pensadores, encarando a situação aterradora, estudam q mal 
e o remédio. Muitos dos bem intencionados persuadem-se de 
qufí a humanidade precisa novamente retemperar-se na reli- 
gião, origem de toda a liberdade, egualdflde e progresso, e 
estrada real das vidas transitória e perenne. O Sr. Duaue de 
Saldanha, tâo sincero e illustrado crente, como é, soldado va- 
lente, exiraio patriota, e intelligencia de esfera superior, 
acaba de consagrar suas vigílias a assumpto de tanto mo- 
mento, e de lembrar providencias praticas, que S. Ex. justifica, 
D*um importante escripto, que julgamos útil publicar ; e é 
do leor seguinte : 



A ordem permanente de qu« os povos necessitam 

Sara que a sua felicidade seja constante, deve resultar 
o acordo harmónico entre a auctoridade e a liberdade, 
que só dimana do Catholicismo, e fora do qual nem 
uma nem outra se accommodam à justiça, à moral, 
e ao verdadeiro progresso das sociedades. 

A legitima liberdade do homem tem por limite o 
respeito do direito alheio ; nao se funda, por certo, 
neste principio de eterna verdade qualquer providencia 
que tenha por fim o coarctar essa liberdade, isto é, a 
ordem nao deve resultar necessariamente do emprego 
iinico da repressão. 

O acordo da liberdade com a auctoridade deve por 
isso nascer principalmente da circumstancia, que a 
obediência resulte da convicção de que o superior só 
deseja o bem do inferior ; da circumstancia de que 
este se reconheça como tal ; e da convicção de que o 
áuperior está prompto a tudo sacrificar, até a própria 
viaa, onde tanto se exija, para assegurar ao inferior 
o gozo de seu direito e a sua felicidade. 

Em um estado tao elevado, a persuasão e o senti- 
mento do respeito que o superior inspira a todos os 
espíritos de bastante elevação para receberem a in- 



16 IX 

flileocia de uma natareza eminente, serSlo os mais po- 
derosos sustentáculos da auctoridade. 

O superior será, como Nosso Senhor Jesus Christo, 
o servo dos servos, pois que a sua única preoccupação 
ser& a felicidade de seus subordinados. 

Tal caridade, tal abnegação, só pôde nascer nos co- 
rações, que tenham por exemplo o amor e o respeito 
que o Mestre tinha à liberdade dos homens. 

E' comtudo evidente que uma jerarchia inferior, 
como é um poder politico, nao poderá fazer abstracção 
absoluta da força coerciva, mas só a empregará quando 
veja que o homem se perde no caminho que segue, 
e obrará então como a mãe carinhosa que retira o 
filhinho da borda do precipicio em que ia despenhar-se. 

A necessidade do emprego da torça coerciva será 
tanto meuQs frequente quanto a jerarchia £5t de ordem 
mais elevada. Esta jerarchia será tanto mais elevada 
quanto mais o Catnolicismo dominar no coraçfto do 
homem. 

Nenhuma forma de governo á incompatível com o 
Catholicismo. A republica christa é bem preferível á 
monarchia atheista. 

O governo representativo, no seu sentido genuíno, 
assegura a todas as classes igual justiça ; o liberalismo, 
C/Omo hoje o preconizam e como a experiência tem 
mostrado, é a mais completa perversão de uma ver- 
dadeira e nobre theoria. 

O liberalismo, como hoje o pi-oclamamjtraz com- 
sigo o gérmen da sua dissolução, e, se chegasse a do- 
minar, nao poderia resistir, nuo poderia sobreviver 
aos conflictos sociaes e políticos que continuamente 
suscita. 

No liberalismo a base fundamental, a única medida 
por que se afere o direito, é a vontade das maiorias 
numéricas, substituindo em politica, como o raciona- 
lismo em religião, o querer do homem ao querer de 
Deus. 

O desenvolvimento deste principio, a sua conclusão 
lógica, é a guerra das classes, que uma tal theoria 
infallivelmente traz comsigo, guerra que afinal neces- 
sariamente faria succurabir o liberalismo, para dar 
logar ao coinmunismo, que é o seu successor natural. 

(Continua') 



Typ. e Lith.— Imparcial— Rua Sete de Setembro n. 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 

]sr. IO 

RIO DE JANEIRO 30 DE SEPTEMBRO DE 18TÍ1. 



Vende-se cm casa dos Srs E. & H. Lacmmert.— Praça da Constituição, 
Loja do canto. — Livraria Académica, Rua de S. José n. 119— Largo do 
Paço n. 12 C. — Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 



Al>olieSo cia eâer^a vidão . 

Raiou finalmente o dia grande da emancipação da 
raça humana. Nos fastos do Brazil inscreve-se, com 
lettras de ouro, a data memoranda — 28 de Septembro^ 
— em que a lei coroou as mais santas aspirações da 
humanidade. Desde este dia, ninguém mais no mundo 
nasce escravo : a liberdade é desde hoje apanágio uni- 
versal ; direito, tao incontestado como já era incontes- 
tável, de todo o género humano. E' esta a aurora da 
verdadeira independência, autonomia, dignidade da 
creatura racional, fadada a altos destinos. 

Ainda ahi fica uma turha de míseros innocentes, para 
quem nao pôde soar o doce nome. Ciirve-se o senti- 
mento ante a razão politica ; ceda o coração á intelli- 
geacia > respeitem-se as raias do possível ; Hercules 
gravara nas suas columnas : AU' aqui ! mais não ! Che- 
gámos até essas columnas. Se as nltrapassassemos, no 
reverso da columna de Calpe, leríamos desorganização ; 
da de Abyla, anarchia. Não se pôde, não se deve na- 
vcg'ar para mais longe. 

Asrora, mui outros são os deveres, mui outros os in- 
teresses dos cidadãos. Se até hontem, em quanto se 
tratava de direito constituendo, eram naturalmente 
explicáveis as dissidências até apaixonadas, os esforços 
até irregulares, de ora avante, constituído como se 
acha o direito novo, ninguém terá interesse em contra- 
riar, na prática, a mais suave realísação do grande 
pensamento. Agora, a todos e cada um de nós, com- 
pete a sua missão. 

Para o Governo, abre-se estádio novo. Concluiu glo- 
riosamente a mais brilhante campanha ; mas se Alcides 
esmagava serpentes no berço, tinha na sua virilidade 



de emprehender trabalhos de maior magaitude ; ^o 
esseâ os que de ora avante o devem desvelar ; só o en- 
numeral-os, assoberbaria o pensamento. 

O Poder Legislativo tem ae presidir, com disposições 
adequadas,à transformação social porque vamos passar; 
tem de providenciar harmonicamente sobre muitos 
pontos, da sua alçada, que prendem com o futuro re- 
moto e próximo. 

Os senhores de escravos, conhecedores dos direitos 
que a lei lhes consagra, serSo os mais prestimosos e 
desvelados auxiliares delia; como utilíssimos membros 
da communidade, esforçar-se-hso por facilitar a so- 
lução do problema; como caridosos e christãos, concor- 
darão em ver nos seus operários entes dotados de alma, 
e dignos da sua misericórdia; como illustrados mante- 
nedores de seus próprios interesses, tratarão com ca- 
rinho, alimentarão, vestirão bem os infelizes que sorte 
adversa ainda conserva era captiveiro, e darão a possi- 
vel ventura a esses instrumentos da sua prosperidade ; 
como previdentes, applicar-se-hão a melhorar o systema 
do trabalho, a approveitar mais as forças, e a dispor 
as cousas para os milagres originados do regimen da 
liberdade. 

Finalmente os políticos não se dividirão mais entre 
vencedores e vencidos, como no senado e na imprensa 
se confundiram patrioticamente os votos de conserva- 
dores e liberaes. Por maior que a divergência fosse, es- 
peremos que, resolvida por lei esta base social, só de 
ora avante surja entre as illustraçOes do paiz emula- 
ção, mas no sentido de depor no altar da pátria res- 
sentimentos sem alcance, e de enfeixar idéas e esforços 
para que a gradual emancipação se vá effectuando pa- 
cificamente, e com o máximo respeito a todos os inte- 
resses que na questãe se achão envolvidos. Oxal& ! 

O diade 28 Septerabro deverá ser considerado como 
o primeiro dia de gala d'este Império. 

iVeoessidade da assoolaoSo oatliolioa 

Proposta de S. Ex. o Sr. Duque de Saldanha. 

(Conclusão,) 

Sendo a vontade das maiorias o unico fundamento de 
todos os direitos, estabelecendo o liberalismo que não 
ha direito absoluto ou verdade no mundo que não 
esteja subordinada á voz do maior numero, segue-se 



que a única reg^a a que o homem deve obedecer é á 
tal voz do maior numero. 

E esta vontade suprema pôde nao se contentar com 
atacar as monarchias, abolir a religião ; mas , des- 
truindo a suprema única sancçao sobre que até agora 
se fundava a ordem social, pôde ir avante, e declarar 
que a propriedade é roubo, a fé superstição, a virtude 
utopia e crime. E quem lhe resistirá ? Neste império 
absoluto e despótico, nesta lei suprema e única do libe- 
ralismo, o que é que o homem poderá considerar como 
seguro, de tudo quanto possue ? Em face do movimento 
geral que chegaria, logo que o liberalismo conseguisse 
infiltrar nas massas populares (para o que emprega 
todos os meios) o atheismo e a desconsideração para 
com tudo que é auctoridade, os corypheos de tSo atroz 
desmoralisação seriam, elles mesmos, victimas, e rece- 
beriam dos seus adeptos a recompensa da sua obra in- 
fernal. 

Porém, não obstantes os esforços empregados, e ap- 
parentes triumphos obtidos, o liberalismo, cujo natural 
herdeiro é, como dissemos, o communismo, está muito 
longe de occupar no mundo o lugar que suppOe ter con- 
seguido no espirito e no coração dos povos christãos da 
Europa. 

A christandade, a igreja catholica, conta entre os 
seus lieis muitos e n^uitos nobres intellectos, a mais 
elevada litteratura, e vastas mós de christãos que, no 
dia da provação, estarão promptos para defender quanto 
ha sagrado no mundo. 

Os inimigos de Deus, da religião revelada, e de todas 
as religiões, portanto da sociedade, para conseguirem 
seus fins diabólicos, têm buscado a força nas sociedades 
Becretas. Porque motivo não buscaremos nós, os catho- 
licos, em associações publicas e n'iima união catholica, 
a força para frustrar aquellas cavililaçOes infernaes? 

Auctoridade e liberdadey são principies sobre que se 
firma a ordem moral do mundo. E' necessário não sa- 
crificar uma á outra. 

Foi pela sua corajosa firmeza, abnegação, e indepen- 
dência ante o poder absoluto dos tyrannos, que o cnris- 
tianismo reivindicou a liberdade de consciência, e sobre 
ella fundou seu dominio, estabelecendo essa harmonia 
divina, que faz da obediência condição da liberdade, e 
da justiça lei superior a toda a auctoridade. 

No mundo romano então ninguém fazia resistência ; 



4 X 

abandonada toda a ídéa de liberdade, só havia a mais 
abjecta submissão a todas as oppressOes. Foram os 
christaos que levantaram, cora o da verdade, o estan- 
darte do direito, e portanto a resistência legitima, mas 
passiva, na abnegação e na caridade, a quanto podesse 
ferir ou offender aquelles principios. 

Duas expressões ou máximas levaram a revolução 
franceza em voltado mundo : «Os direitos do homem, » 
e as palavras « liberdade, igualdade e fraternidade. » 
Delias sahiram bens e males, progressos e ruinas dos 
nossos tempos e de um futuro desconhecido. 

Tudo quanto ha bom e verdadeiro ne.^tas máximas 
é christao e foi proclamado pelo christianismo, que 
repelle e condemna tudo quanto nellas ha funesto e 
falso. E nao só nesta assustadora e terrível confusão o 
christianismo proclama o bem e condemna o mal em 
principio, mas só elle na realidade tem a auctoridade e 
a força moral necessárias para domar e submetter o mal, 
sem que o bem desappareça na lucta; e isto sopeia razão 
de que a verdade e o direito nao perecem; e o chris- 
tianismo é o triumpho glorioso destes dous principios, 
eternos porque vem de IJeu.s, e sobre os quaes se funda 
a justiça e o amor, svmbolisados na auctoridade e na 
lei. 

Com muita razão nos ufanamos hoje de termos che- 
gado a considerar o homem, o individuo, a sua exis- 
tência, a sua liberdade pessoal, os direitos, como o fim 
essencial do estado social. Sahimos do profundo sulco 
da aníÁgnidade pagã, que subordinava e sacrificava o 
individuo ao estado, e abaixava e annullaim dianU de 
nma classe milhares de creaturas humanas, Desapparece- 
ram as raças ; o mundo não se compõe de romanos e 
de bárbaros, de homens livres e de escravos. 

Foi o christianismo não só o primeiro que proclamou 
esse principio, masquepoz em pratica essa verdade su- 
perior. O direito do homem, o valor da alma humana 
independentemente de toda a situação exterior ,é o ponto 
de partid^a, a idéa fundamental, o preceito dominante 
da religião christa. Foi, sem a menor duvida, na socie- 
dade religiosa, na igreja christa nascente, que este 
principio foi desde logo e pela primeira vez proclamado 
e posto em pratica, epor ella posteriormente seguido 
com o escrúpulo e exactidão que só pertence a quem 
leva por guia a inspiração divina. 

As relações do homem para com Deus e para com os 



X 5 

outros homens sao, pelo cbristianismo, o primeiro e o 
mais importante negocio da vida humana. E' perante 
Deus que os christãos reconhecem, e unicamente existe, 
igual a importância das almas ; são os christãos que 
eutre si se dão o nome de irmãos ; e d'esta fraternidade 
dimana a caridade, que é a sua principal força social. 
A idéa christa, tão poderosa como fecunda, mantem-se, 
espalha-se atravez dos séculos e dos espaços, não obs- 
tantes todos os obstáculos. 

Jesus Christo, Deus e homem, rehahilitou o homem 
diante de Deus, e o homem nunca mais se deixou humi- 
lhar e abater diante da tyrannia humanai. Em presença 
das ^desigualdades terrestres mais poderosas, o nome 
de irmão nunca deixou de ouvir-se nas sociedades 
rhristãs. E hoje mesmo, depois de todos os progressos 
da pretendida igualdade na sociedade civil, é ainda 
unicamente na sociedade religiosa, nas igrejas christãs, 
que os homens ouvem chamar-se, tratur-se e em tudo 
oonsiderar-se, irmãos. 

A paixão dos nossos dias é o desejo de liberdade e 
igualdade, n'uns inlelligente e honesta. n'outros des- 
regrada e cega. Esta paixão algumas \eze6 desenvolve 
a sua força por meio de revoluções, outras vezes des- 
vanece-se, e murcha nas reacções óiovidas pelos exces- 
sos que Hs revoluções trazem comsigo. 

A liberdade do homem e a sua responsabilidade mo- 
ral é o que dá ao ser humano, a todo o ser humano, o 
.seu valor; é porque o homem conhece e accredita essen- 
cialmente na distincção do bem e do mal, e na obriga- 
ção que esse conhecimento lhe impõe de os seguir ou 
rejeitar ; é pelo uso que faz dessa liberdade, e porque 
tal é a natureza do homem, qu3r elL^ a reconheça ou 
uão, que o Evang'elho o colloca tão elevado, e lhe an- 
nunciatão sublimes destinos. Os philosophos teem feito 
grandes esforços para resolver o problema da liberdade 
humana, em vista da prestúencia divina :o Evangelho 
reconhece e proclama a liberdade humana, sem lhe 
importar com o problema da philosophia ; é sobre o 
facto que o homem é um ser livre e responsável que se 
lirma a religião de Jesus Christo. Convém comtudo não 
confundir esta liberdade intima da vontade, regulada 
|*elas leis da consciência e da fé . com a liberdade 
externa de nossos actos , restricta pelas leis civis, 
e sociaes ; embora ambas constituam o priucipio ge- 
nérico da liberdade christã, aquella respeita ao livre 



6 X 

arbítrio do homem perante Deus, esta aos direitos de 
sua acção entre os mais homens. 

Em todo o caso, a liberdade é o ponto de partida de 
tudo o que o christianismo diz e ordena á humanidade. 

£' pois o christianismo essencialmente liberal, em 
proveito e utilidade de todos os homens, e, pela sua 
noçEo primeira e fundamental da natureza humana, dà 
á liberdade a base mais solida, e o mais amplo direito 
que a perfeição do pensamento humano pôde conceber. 
Tudo quanto os mais atrevidos publicistas teem escripto 
está muito longe de elevar a dignidade nativa e uni- 
versal do homem á altura que lhe marca o Evan- 
gelho. 

O christianismo, fundando a liberdade christà, deu- 
lhe ao mesmo tempo a sancção prática que lhe era 
necessária, estabelecendo o jus de resistir com a 
verdade, com o direito, e pela obediência que lhes é 
devida, á oppressao e á tyrannia do erro. « Julgae vós 
«mesmos, seé justo diante de Deus obedecer-vos pri- 
« meiro que a D ?us (1), » resvponderam S. Pedro e 
S. João aos sacrificadores e chefes da synagoga, quan- 
do estes lhes prohibiram de ensinar em nome de Jesus. 
E ás instancias dos mesmos, S. Pedro responde (2) : 
« Primeiro está obedecer a Deus que aos homens.» 

Mas, ao mesmo tempo que o christianismo afirma e 
proclama a liberdade, proclama e affirma igualmente 
a auctoridade e os seus direitos. « Dae a César o que é 
« de César, dae a Deus o que é de Deus, » respondeu 
Jesus Christo aos Phariseos, que lhe perguntaram se 
era ou nao permittido pagar os tributos a César. S. Pau- 
lo recoramenda (3) a Tito que ensine os Cretenses a se- 
rem submissos aos principes e ás auctoridades, e a obe- 
decer á sua voz. O respeito á auctoridade constituída, 
seja em quem fôr, pagdo ou herético, é preceito da li- 
berdade christa (4), que em tudo só vê a vontade e lei 
de Deus, seu único limite. 

Duas são as causas das desgraças dos tempos em 
que vivemos, causas que deploram todos os homens 
de espirito elevado, todos aquelles que sinceramente 
desejam o bem da humanidade, catholicos como pro- 

!l) Actos dos Apóstolos, cap. iv. e v. 
2) Actos dos Apóstolos, cap. vn. 
3) S. Paulo a Tito, cap lu. 
(4) Ibid. ; a Tim : cap. vi, etc; S. Jeron. Comment. 



testantes , conservadores como progressistas. Estas 
causas sao, a preponderância dos interesses materiaes, 
a sede dos gosos physicos e vulgares, e os hábitos do 
egoísmo eda molleza, que dVhi resultam. Mas, infeliz^ 
mente, mesmo entre os homens esclarecidos e bons que 
conhecem, e que sinceramente se affligem pelo mào 
estado das nossas sociedades, ha grande numero que 
nao avalia toda a grandeza do mal, nem o tremendo e 
horrível resultado, que infallivelmente virá, se não se 
remediarem as causas que hoje tao eficazmente corroem 
as ditas nossas sociedades. 

O individuo,o povo, que quer ser livre, que quer que 
a liberdade de que gosa seja também herança de seus 
filhos e netos, necessita, é-lhe absolutamente preciso, 
que nao esteja, com exclusão de tudo mais,preoccupado 
s6 do seu bem-estar material e da satisfaccão dos seus 
desejos pessoaes. E contra o egoismo e contra o epi- 
curismo que deve estar prevenido. O epicurista gros- 
seiro ou delicado dificilmente se resigna a empregar 
esforços, a fazer sacrifícios, e facilmente se contenta, 
com tanto que nossa ter a certeza de satisfazer prazeres 
a seu sabor. O mesmo egoismo prudente e pouco exi- 
gente é paixão fria e estéril, que só domina enervando 
6 rebaixando a natureza humana. A verdadeira li- 
berdade, a sua duraçao,exige costumes mais vigorosos, 
aspirações mais elevadas, resistências mais fortes, es- 
tado de alma, no qual a symparhia moral e o des- 
interesse occupem grande logar. 

Eis-aqui o que o christianismo, e só o cliristianismo 
pôde dar ã moderna sociedade, e que tanta falta lhe 
faz. Ensina aos grandes e pequenos, aos ricos e pobres, 
a nao fazer con-^^istir toda a sua vida nas satisfacções 
materiaes ; chama o homem a regiOe.s mais elevadas, 
e, ao mesmo tempo que lhe inspira ambições mais puras, 
faz raiar,para elle mesmo e pelo caminho da felicidade, 
as mais bellas esperanças. Poderoso ou humilde , 
ostentoso ou modesto, o christao nao faz consistir na va 
panacéa da politica a sua preoccupaçao exclusiva, o seu 
único movei : tanto pelo que lhe diz respeito, como 
para com os skus similhantes , tem outro fim que 
attingir, outras leis para cumprir, outros sentimentos 
para manifestar e satisfazer ; nao pôde ser, nem egoista, 
nem epicurista. 

Tal é a primnra e a maior utilidade que as 
jsociedades hoje aspirantes á liberdade podem receber 



8 X 

(lo christianismo, do qual as tem progressivameate 
afastado a cegueira das ambições , e os erros da 
ignorância. A seguoda nao é menos importante. A 
liberdade traz sempre comsigo boa porção de licença. 

É sonho julgar que podemos gosar dos benefícios 
de uma , sem correr o risco dos inconvenientes da 
outra. E também sonho pensar que com leis pe- 
naes , com tribunaes e agentes de policia , se pôde 
efficaz e convenientemente reprimir a licença. A re- 
pressão legal e material é necessária, mas é insuf- 
ticiente; n'esta lucta necessita-se de alguma cousa mais 
que processos e castigos. Contra a licença, que a li- 
berdade infallivelmente traz comsigo, é indispensável 
a prevenção moral e espontaDea, a influencia do bom 
estado dos espirites e dos costumes. 

Duas cousas estão hoje fora de toda a dúvida : 

!■. Em paiz livre, não é possivel reprimir completa- 
mente a licença, como no governo absoluto e despótico 
se não podem prevenir demasias e funestes abusos do 
poder. 

2*. Só as forças moraes e preventivas da sociedade 
podem pôr os governos e os povos em estado de sup- 
portar a parte da licença que nao é possivel supprimir, 

O christianismo importa a mais efficaz, a mais po- 
pulnre amais provada d'essas forcas, que elle exerce 
como principio e como meio. Como principio mamem 
á auctoridade o seu direito e a sua dignidade sem a hu- 
milhar diante da liberdade que lhe põe por limite, da 
qual elle também reconhece e reclama o direito, re.s- 
tricto á obediência e á caridade. Como meio, o chris- 
tianismo inspira aos homens um sentimento indispen- 
sável á auctoridade, o respeito. A falta de respeito é o 
maior perigo que ameaça a auctoridade, que soffre 
muito mais do vilipendio que da aggressao. Atacar e 
aviltar systematicamente a auctoridade, insulial-a sem 
cessar, é o que têem sempre em vista os seus ardentes 
inimigos, que a isso dao falsamente o nome de liber- 
dade, consistente só em guerra infatigável à moral e á te 
christã, e por isso aos principios e ás instituições ca- 
tholicas, que sâo guarda e deposito sagrado dos the- 
souros do christianismo. 

Nao se pôde negar que nas sociedades christas 
também ha licenciosos, insolentes, turbulentos, como 
nas outras ; mas as leis, as crenças e costumes chris- 
tnos suscitam e mantém nas turbas populares, como 



X 9 

nas regiões elevadas , o dominio da consciência for- 
mada no temor de Deus, no amor do próximo, e no 
conhecimento da verdade; o que torna lespeitosos 
amigos da ordem legal e moral, homens a quem o 
insulto e a licença aborrece tanto quanto os assusta, 
e que, usando da liberdade que também lhes pertence, 
recorrem às máximas e ás armas que a mesma liber- 
dade lhes fornece para combater abusos que a viciam 
e destroem. 

Dá-nus a historia a este respeito os mais conclu- 
dentes exemplos. Os povos christaos sao os únicos 
que a licença nao tem definitivamente levado áanar- 
chia ou ao despotismo; únicos que por muitas vezes 
e por salutares reacções têem atravessado taes peri- 
gos, sem succumbir moral ou politicamente aos exces- 
sos do poder e aos excessos da liberdade. Afastando-se 
do christianismo, as sociedades cedem ao principio de 
morte que se manifestou em quantas se formaram fora 
da luz da verdade e da fé. Nem os estados do antigo 
paganismo, nem os do oriente boudhista ou musulmano 
poderam resistir àquelles excessos. Tiveram dias de 
vida e de gloria ; mas quando a peste da liberdade ou 
datyrannia os atacou, succumbiram para nunca mais 
.<e levantarem. Gloria e honra á religião christa, que 
em si tem (^ò meios de curar as sociedades das suas mo- 
léstias como aos individues de seus desvios, e que nas 
suas crenças e sentimentos tem já mais de uma vez for- 
necido, aos amigos da ordem, e aos amigos da verda- 
deira liberdade, asylo nos seus revezes, abrigo contra 
perseguições, e meios e forças de readquirir para a 
felicidade dos povos o perdido pelas invasões barbaras 
do erro, e da revolução. 

A exposição que precede apresenta as considerações 
j>elas quaes o abaixo assignado ( que por misericórdia 
fie Deus teve a ventura de nascer no seio do catholi- 
rismo, entre um povo catholico, e que está prompto a 
derramar o seu sangue na sustentação de todns as 
verdades da sua religião, que prompto está também 
u expor a vida, quando seja necessário, para que os 
.seus concidadãos conservem as liberdades de que go- 
.sani; deseja ver estabelecida uma associação catholica, 
que, fortalecendo a união nacional nas crenças e na fé, 
e dando impulso à verdadeira prosperidade da pátria, 
tenha por objecto os meios de tanto conseguir, como são 
H gloria de Deus e a prosperidade da igreja, e o tra_ 



10 X 

balhar para que haja uma verdadeira representação 
nacional. 



Londres, IS^l. 




^aaue ae <S/a^anÁa. 



Cincinnato a Sempronio 

OI>x*as d.e Senlo—O Oaikolio 

(Cartas a um amigo). 

V. 

Meu amigo. 

No que fica apontado até aqui ha suficiente material 
para se basear um juizo ácêrca do Gaúcho. Permit- 
te-me, porém, nao concluir sem te chamar a attençao 
para uns padacitos nao menos preciosos, cuja aprecia- 
ção mais detida deixo inteiramente á conta do bom 
senso, que te adorna. 

Em seu capitulo intitulado O Páreo, diz o Gaúcho. 

a Para ter geito de mondar, afírouxou o paraguavo o laço, que 
prendia os quartos do animal fa morena) ao tronco*; e ajustando 
as rédeas, pôz o pé na soleira do estribo. 

a Im mediatamente aos olhos dos campeiros attónitos passou 
uma cousa subitânea, confusa, estrepitosa; uma espiecie de 
turbilhão, para o qual só ha um termo próprio; foi uma 
erupç&o. » 

t adeante : 

a Retrahiu-se o flanco sobre os quadris agachados, emquanto 
a tábua do pescoço arqueou, dobrando a cabeça ao peito entu- 
mecido. De súbito, esse corpo que se fizera bomba, estourou. » 

De que espécie seria essa erupção estrepitosa que mais 
abaixo estourou ? Aqui ha malicia. 

No capitulo seguinte : 

a Suspensa na ponta dos rijos cascos, longos e delgados^ de 
cabeça leDantaday cruznndo a ponta das orelnas finas e canuta- 
daSf com o pello erriçado {adoSj ada, adoi^ ado I ) e a cauda 
opulenta a espasmar-se pelos rins, parecia, etc. » 

Os cavallos no Gaúcho tém um sing^ular caracteris- 
tico: arripiam-se como fazem os gatos e os cae.<. 



11 

Nunca oavi dizer, meu amig^o, que cavallo erriçasse o 
òêllo ao sentir uma commoção, por mais intensa que 
fosse, em condição nenhuma. 

Mas com que se parecia a égua assim enriçada ? 

Ao leres esse pomposo lanço, calculado para dar idéa 
do estado de excitação da égua, e quando o auctor, 
próximo de terminar, diz que o animal pareda..,, nao 
âuppozeste, meu amigo, que a morena ia ser comparada 
com um animal legendário, de grandiosos Ímpetos, 
animal imponente pela força, pela fereza, pelo animo 
descommunal? Illusao, que rápido se desvanece! A 
morena parecia, , . o animal prestes a desferir a corrida 
veloz. Um animal era morena^ e estava prestes a galo- 
par. Para que preveniu Senio o espirito do leitor, fa- 
zendo*o depois cahir das nuvens ? 

No capitulo subsequente : 

a Havia entre o Gaúcho e os cavallos verdadeiras relações 
sociaes. Alguns faziam parte de sua familin; outros eram seus 
amigos; aos mais tratava-os como camaradas c simples conhe- 
cidos. » 

Canho tinha dedo para as hierarchias. 

« Com os irmãos e amigos vivia em perfeita intimidade; con- 
sentia que lhe roçassem a cabeça pelu hombru, ou lambessem- 
Ihe a face. » 

Jà ouvistes dizer algures que algum cavallo lambesse 
a face a alguém, assim a modo da vacca que lambe o 

filho? 

« Muitas vezes comiam em sua mão; andavam constante- 
mente soltos; não havia cabresto, nem suga para elles; eram 
corseis livres, » 

Grande novidade. Um cavallo comer n i mfio! Quanto 
a andarem constantemente soltos, não andam elles de 
outro modo na campanha, a não ser algum parelheíro de 

«grande estimação. 

a Aos camaradas n&o consentia o Gaúch.» aquellas familiari- 
dades; ao contrario os tratava com certa reserva. Saudavam se 
pela manhã ao despontar do dia; eá noite, na uccasião de 
recolhei . 

Assim devia fazer quem era tao zelo^ío observador 
das distancias sociaes 

<r Commumente se encontravam na hora da ração : comiam 
juntos, 08 brutos no embornal, o homem na palangana. » 

Tem lá palangana, um Gaúcho, que come o chur- 
rasco com o punhado de farinha, e muitas vezes a carne 
á escoteira? 

c Na opiniio de Manoel, o caVallo e o homem contrahiam 
obrí^açito reciproca; o cavallo de servir e transportar o homem ; 
o homem de nutrir e defender o cavallo. » 



12 X- 

Isto nao é só na opinião do Canho; todo o senhor co- 
nhece o dever, que tem, por próprio interesse^ de nutrir 

e defender seu animal. 

« Nao passava elle por um legar onde visse um cavallo en- 
fermo ou estropeado que se não K\}Qíi%%e^ fosse embora com pressa ^ 
para o soccorrer. Sangrava-o, se era preciso : cauterisava-lhc 
as feridas, etc. » 

Teriam muito que esperar os cavallos que um gaúcho 
siquer do Rio Grande, á excepção do Canho, tivesse 

para elles taes attençOes. 

« Tinha eomprado alguns cavallos que os donos arrebenta- 
vam-de mao tracto, unicamente para llies dar repouso e assegu- 
rar-lhes velhice socegada. » 

As justiças do municipio deviam dar um curador a 
Canho, como prodig'o, nos termos da Ordenação. 

í( Não via o Canho castigarem barbaramente um animal, sem 
tomar o partido deste. » 

Esta lunnanidade não constitue uma especialidade do 
heróe de Senío. Geralmente fica-se indignado, ao teste- 
munhar espectáculos brutaes. E os jornalistas uma 
hora por outra estão ahi a clamar contra os carroceiros 
que castigam immoderadamente seus animaes. 

« Por isso affirmavam que era elle o gaúcho mais popular 
entre os quadrúpedes habitantes das verdes coxilbas. » 

Cabem aqui^os versos : 

(( Que cavallos tão bregeiros^ 
E que Ganhos tão seiuleiros l » 

Continua Senio : 

« Em qualquer ponto onde estivesse, precisando de um ca- 
vallo. não carecia de o apanhar a laço ; oastava-lhe um signal c 
logo apparecia o uar/otc alegre a festejal-o, olferecendo se para 
seu serviço. O traballio era escolher e arredar os outros, pois 
todos queriam prestar-se, como seus oMigos i\\xt eram, uns por 
gratidão, outros por sympathia. » 

De semelhante popularidade só o Canho se poderia 
lisongeur na campanha com cíYeito! E o trabalho na 
escolha havia de ser cousa de dar o váo pela barba. E 
se todos os magotes eram assim compostos de amigou 
por sympathia e \)0v gratidão, onde esta\am os simpleíí 
conhecidos^ aquelles a quem apenas saudava pela ma- 
nhan e á noute, e que tratava com certa reserva? Ah! 
Senio, qna' te dewcntia ctejiif^ l 

« Quando partia, o acompanhavam, algumas auadras cur- 
veteando a seu lado, como demonstração de amizade. Atinai pa- 
ravam para .ç<^^fa7- o com a vísia, até que sumia-se por dotray- 
das coNilhas. » 

« Taes eram os contos, que referia a gente da Campanha 
(Bellos contos, não ha duvida) Verdadeiros ou não, todos nolles 
acreditavam (que gente crédula/ ); e até apontavam-se /i<f<yMw,ç. 



X 13 

que tinham sido testemunhas dos factos » [Seino estará contem- 
plado neste numero? Duvido.) 

Apezar de ter pressa de concluir este juizo, consente 
• ![ue eu faça ainda por ultimo umas ligeiras observa- 
ções, em ordem a firmar mais a critica. 

D'onde vinha o ódio do Manoel Canho á espécie hu- 
mana e até à sua própria família^ ou mais particular- 
mente á sua própria màe? De haver esta casado segun- 
da vez. Parece incrivel que quem tinha tao bom coração, 
tivesse tao máos bofes. 

Digam-me o que me disserem : o Canho é uma triste 
ooncepçao de Senio. Por mais que este se haja esten- 
dido e esbaforido por justificar o repugnante aleijão, 
tanto peior; cada vez o mirnstro mais se accentúa e 
r:aracterisa. 

A historia das segundas núpcias, senão a origem do 
tremendo ódio, conta-se em poucas palavras : 

Um negociante do Alegrete, Loureiro, perseguido 
por castelhanos, refugiou-se em casa de João Canho, 
pae do Manoel. Os castelhanos nao respeitaram a casa, 
e depois de defeza renhida, e por uma traição, succede 
ser assassinado o Jofío, emquanto o Loureiro escapava 
em fuga, a unhas de cavallo. 

A noticia da morte de JoSo chegou a Loureiro, que 
se penalizou em extremo com aquella desgraça de que 
elle fura causa. Lembrou- se da viuva, que ficara ao de- 
samparo com dous filhos menores; e sentiu-se obrigado a 
amparara família o?'/}/ia/i. Estás vendo, meu amigo, 
i|ue o Loureiro nao era um máo próximo, cujo con- 
sorcio cora Francisca, a viuva, se devesse reputar uma 
desgraça ou um aviltamento para a familia. Portanto 
nao procede o ressentimento do Manoel, a nao haver 
outra razão. 

Loureiro diz a Francisca estas textuaes expressões: 

— Fui eu, sem querer, a causa da despfraça Q^e a senhora 
soffreu, perdendo seu marido, ^i pudesse restituil-o, sem 
duvida Gue o faria. Não podendo, faço quanto está era mim, 
offereço-lhe, para o substituir, outro que na de cstimal-a tanto 
ou mais. 

A uma amiga de Francisca, que affirmára ao Manoel 
ser verdade o casamento, atiràra-se elle com furor, 
rasgando-lhe a roupa e arranhando-lhe o rosto com as 
imhas. O Canhinho era onça ! 

Um dia, em que Loureiro passeava pelo campo, o 
Manoel se lhe apresenta trazendo empunhada a faca 



14 X 

do Canho ( pae ). Pergunta-lhe o noivo, recdando que 
o travesso menino viesse a ser victima da arma : 

— Para que é esta faca, Manoel ? 

— Para te matar. 

— A mim ? Que mal lhe fiz eu, meu filho ? 

— Nao sou teu filho I gritou a criança, querendo 
ferir. 

Sabendo Francisca do occorrido,quiz castigar o filho» 
e o faria sem a intervenção de Loureiro, que em face de 
taes circunstancias teve escrúpulos e receios de contra- 
hir o casamento. Vae sempre notando, meu amigo, que 
nao tendo o Loureiro um máo caracter, mas revelando 
até ser homem de senso, generoso, compadecido, sen- 
sível e humano, nada justifica o ódio do menino, e 
muito menos o de Senio, para dar-lhe tao desastroso 
fim, qual o de morrer de uma queda do murzello, ca- 
vallo que fora do Canho velho. O murzello, senhor das 
intenções, do ódio do menino, jurou também auxilial-o 
em sua gratuita vingança; e com effeito dà com o ne- 
gociante no chão, e corre para Manoel, saltando e gin&- 
íeando de contente^ por ter desempenhado o seu papel 
com tal successo. 

Vejamos agora, nao jíi o menino, porém o homem 
a tomar a vingança ào assassino do pae, e revelando- 
um grau de perversidade admirável e rara. E' galante 
o modo como Senio pretende justificar o Manoel. Re- 
produzo as palavras : 

<( O gaúcho n9o tinha ódio ao Barreda [ o assassino áo* 
velho. ) A vingança da morte do pae nfto era para sua alma a 
satisfaç&o de um profundo rancor ; mas o simples cumprimento^ 
de um dever. EUe obedecia a uma intimação que recebera do- 
céo ( o céo mandando matar gente! ) ; á ordem d'aquelle que- 
sempre tinha presente á sua memoria. £ obedecia friamente^ 
com a calma e impassibilidade do juiz, que pune em obser^ 
tancia da lei, » ( E' bôa ! ) 

Depois da renhida lucta entre o Manoel e o Barreda». 
correu este a refugiar-se em casa, onde sua mulher 
chorava ; mas nao o conseguiu porque seu contendor 
atirou-lhe as holas, e o inimigo cahiu. O que segue 

sao textuaes palavras de Senio : 

« — Pede perdfio a Deus, que chegou tua hora. 

« A mulher do Barreda prostrava-se n^esse momento aos^ 
pés de Manoel, implorando compaixfto para o marido. Riu-se o 
gaúcho com dureza e escarneo : 

« — Virá outro marido para a consolar. 

ff Arredando a desgraçada mulher, chegou o ferro da lamçm 
aos olhos do castelhano. 

« Conheces 7... E' a lança com que ha doze annos feriste mea 



X 15 

pae â traiçfio Eu jurei que havia de craval-a em teu coração, 
mas depois* de vencer -te em combate leal. 

<« Com uma calma feroz, espetou o ferro da lança no corpo do 
assassino de seu pae, atravessando-lhe o coração, como faria 
com uma folha secca. 

(( líurzello, que se conservara immovel ao lado durante esta 
f^cena, avançou a um signal do senhor^ pisou com a pata a face 
contrahida do moribundo» que ainda estremeceu ante essa der- 
radeira affronta. 

« Em quanto a victima se debateu nas vascas da agonia, Ma- 
noel a contemplou friamente. Quando se apagou o ultimo vislum- 
bre de vida, se afastou sem lançar um olnar de compaixào á mu- 
lher desmaiada. » 

Que tinha a pobre mulher com o crime de seu mari- 
do, para nao inspirar compaixão a um coração tao sen- 
sível como o do Manoel ? si Canho, depois de haver per- 
petrado a sua vingança, se voltasse para a viuva, com- 
padecido d'ella, daria, sim, prova de coherencia com o 
tal simples cumprimento do seu dever ; e tanto mais 
quanto jà uma vez, tendo oUe vindo para matar o Bar- 
reda e achando-o doente, medicou-o e tratou-o, posto 
que para tomar uma desforra mais cynica e solemne. 
Como tudo isto é edificante; nao é, meu amigo ? 

Mas ainda nao é tudo. De repente ouve o Manoel o 
rincho da morena seguido da detonação de um tiro. O 
tiro fora disparado contra Manoel por um negro da es- 
tancia, onde o Barreda era capataz. A morena, que es- 
tava contemplando de longe a scena do combate, presenr- 
tira que a pontafHa, feita pelo pião, ameaçava a cxw- 
tenda de sei^ amigo ^ e disparara como uma bala, e, pas- 
sando por junto do negro, desfechara-lhe nas costas um 
couce que o atirara sobre a macega! Ouvindo o nitrido, 
Manoel adivinhou ás primeiras notcLs o sossobro do te- 
mor e a angustia, pela ^remu/a vibração da voz^ sempre 
límpida e argentina. 

Em face de taes cousas, pergunto-te, sem a menor 
intenção hostil para com o auctor, que posso dizer que 
eâtimo, admiro e respeito : será um romance de costu- 
mes o Gaúclu)? Romance brazileiro — diz o frontispício 
da obra ; logo nao ha duvida de que o auctor o deu 
como tal. 

Tudo quanto conheço, por leitura de viagens e 
por informações pessoaes, concernente a esta face 
ainda tfto pouco explorada da America Austral, im- 
porta a negação mais completa do que nos dá Senio. Pe- 
ZBrme disel-o^ mas forçi^me ao sacrifício a consciên- 
cia. 



16 X 

E ainda bem que temos em opposição ao Gancho au- 
ctoridades que nos evitarão no estrangeiro o ridiculo 
que attrahe esta obra sobre os costumes da campanha 
do Rio Grande do Sul, tao interessantes e romanescos, 
mas nao tao arredados da decência e da rasao publica. 

Ha ahi um drama de auctor portuguez, que nao dei- 
xa de encerrar muita exactidão sobre este aspecto. 
O drama intitula-se — O Monarcha das Coxilhas — e é ori- 
ginal de César de Lacerda, que esteve no Rio Grande 
e estudou os costumes. Quanto a mim, tem um grande 
defeito o trabalho de Lacerda: é personalisar o typo 
do gaúcho em um portuguez, o que só explica o exces- 
sivo" espirito de nacionalidade do auctor. Além deste 
defeito de essência, contém outros que entendem me- 
ramente com a forma litteraria; em todo o caso porém 
o trabalho é plausivel. 

Como se explica pois, a antithese ? 

O auctor nacional afasta-se, em quanto os estran- 
geiros se approximam da verdade das cousas. 

Não te parece isso um infortúnio para as nossas let- 
trás, para a nossa terra tao fértil em talentos, entre os 
quaes o resoluto talento de Senio ? 

Como é triste fazer em publico taes confissões ! Mas 
urge fazel-as para que lhes succeda a emenda com o 
que temos deinfallivelmente ganhar,segundo o espero. 

Confio muito na nossa plêiade de novéis litteratos, e 
devo dizer-te com franqueza, confio muito no próprio 
bom senso reparador de Senio. 



Q/em^ 



i^n€0. 



[Conímna^ 



Typ. e Lith.— Imparcial — Rua Sete de Setembro n. 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 



isr. 11 



RIO DE JANEIRO 5 DE OUTUBRO DE 1871. 



Vende-s6 em casa dos Srs. E. & H. Laemmert. — Praça da Constituição, 
Loja do canto. — Livraria Académica, Rua de S. José n. 119 — Largo do 
Paço n. C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 

i^essao pax^lamentax* de 1S71. 

Concluiu-sea sessão d'este anno, a qual deixará, nos 
annaes parlamentares do Brazil, a mais esplendida pa- 
gina. O Presidente da Gamara Temporária, ao encerrar 
os trabalhos de tfto benemérita corporação, proferiu um 
discurso curto, mas valiosissimo, em que, fazendo jus- 
tiça á illustraçao e dedicação do parlamento, compen- 
diou em quadro breve os resultados da laboriosa tarefa 
dos legisladores, durante uma quadra de poucos mezes, 
mas que, além das occupaçOes ordinárias, dotou o paiz 
com progressos taes, que tornar&o o anno de 1871, 
para o Brazil, marco milliario na estrada da grande 
civilisaçao. Eis aqui esse discurso : 

O Sr. Presidente : — E' hoje, senhores, a ultima 
sessão do S"* anno da 14' legislatura, e no momento de 
deixar esta cadeira, eu sinto necessidade de dirigir-me 
aos meus illustres collega^ para agradecer a subida 
honra que me conferiram, elevando-me a esta alta po- 
sição, e auxiliando-me efficazmente no desempenho de 
tao importante tarefa. 

Semelhante aspiração nunca poderia ser por mim 
alimentada, porque j&mais me julgaria habilitado a 
satisfazer as funcçOes do mais elevado cargo desta au- 
gusta camará !... [Muitos não apoiados,) 

Surprendido, porém, pela vossa decisão, eu nao me 
julguei com o direito de recusar-me a um mandatOj 
cuja transcendência se augmentava pela especialidade 
das circumstancias em que foi dado ; e confiando no 
vosso patriotismo e prudência, obedeci, como me cum- 
pria. A minha confiança não foi illudida, e a tarefa, 
que se afigurava árdua e difficil, tornou-se a mais 
suave, pelo vosso próprio procedimento. 



2 X 

Pela minha parte, senhores, tenho convicção de que 
me esforcei, tanto quanto era de meu dever, para exer- 
cer as funcções que me foram confiadas, com a impar- 
cialidade que exigia o seu desempenho. [Muitos apoiar- 
dos,) Se nfio correspondi à vossa honrosa espectativa, 
ao menos fizestes justiça á minha bôa vontade e á sin- 
ceridade do meu procedimento. Eu o agradeço. 

Mas permitti também algumas palavras sobre os re- 
levantes serviços que prestastes á causa publica. 

Ao rotirar-vos para vossos lares, levais em vossas 
consciências o maior galardão u que podia aspirar o 
vosso patriotismo, qual é a convicção de bem haver 
exercido o sublime mandato da nação. 

A par de numerosas deliberações sobre os diversos 
ramos da administração do Estado, também mereceram 

a ' 

particular solicitude desta camará alguns assumptos 
cuja importância e interesse se revelam da sua simples 
enunciação. 

Assim, foram approvadas numerosas pensões conce- 
didas em remuneração de relevantes serviços prestados 
á pátria; e especialmente para protecção da viuvez e 
orphandade, victimas da gloriosa guerra que susten- 
támos contra o governo do Paraguay. 

Diversas leis de animação a emprezas destinadas ao 
desenvolvimento material do paiz foram solicitamente 
elaboradas. 

A providencia concernente aos estudos preparató- 
rios, determinando que os exames feitos em alguma 
das faculdades do Império sejam válidos em qualquer 
outra, tem a dupla vantagem de consagrar uma me- 
dida de equidade e grande economia de tempo para os 
trabalhos da assembléa geral. 

A lei que regulou as fyudas de custo dos bispos, 
supprindo uma lacuna da nossa legislação, estabeleceu 
uma regra previdente e salutar. 

Outra, regulando melhor as ajudas de custo dos 
presidentes de provincia, consultou convenientemente 
uma necessidade da administração. 

A lei sobre a naturalisação de estrangeiros simpli- 
ficou o processo para a obtenção da respectiva carta, 
com grande proveito para a immigraçSo, condição es- 
sencial do nosso progresso e desenvolvimento. 

O credito especial para prolongamento das estradai; 
de ferro D. Pedro II, S. Paulo, Pernambuco e Bahia, 
satisfazendo a mais vital necessidade publica, é um 



XI 3 

grande incentivo do progresso da industria e da ri- 
queza nacional. 

A reforma judiciaria, que preoccupaha longos annos 
a attençao dos poderes do Estado e de todos os partidos 
políticos, tornou-se uma realidade pela lei recente- 
mente sanccionada que, regulando a administração da 
justiça, garante melhor a liberdade do cidadão. 

Além destas leis, cuja execução vai satisfazer gran- 
des necessidades públicas, e que por isso bastariam 
para recommendar a actual sessão legislativa, foram 
ainda iniciados muitos projectos importantes, que 
pendem de vossa decisão. 

Mas, d'entre todos os actos legislativos, sobresahe, 
pela sua importância e gravidade, a reforma do estado 
servil, medida de grande transcendência para os mais 
vitaes interesses do paiz. 

Esta reforma, que teve por base a iniciativa parla- 
mentar, e sobre a qual se pronunciaram os membros 
desta augusta camará com a maior independência e 
patriotismo, ha de necessariamente produzir os seus 
salutares effeitos. A historia fará justiça a cada um dos 
representantes da nação, que com a maior abnegação 
e inexcedivel civismo se consagraram á solução de tao 
grave questão. 

E' cedo para que possamos apreciar todos os bené- 
ficos resultados que devem auferir-se dessa lei, e dos 
quaes estão profundamente convencidos seus auctores. 
É' cedo para que se possam aquilatar os serviços pres- 
tados pela actual legislatura sobre tilo melindroso as- 
sumpto. 

Mas nao é cedo, senhores, para que possamos bem- 
dizer a Divina Providencia, que concedeu aos legisla^- 
dores do Brazil a graça de poderem discutir e votar 
uma lei t5o importante, sem as calamidades que em 
outros paizes acompanharam a sua solução ( muitos 
apoiados j, sem nenhuma perturbação da riqueza e da 
tranquillidade publica. ( Apoiados ). Nfto é cedo para 
agradecermos ao Todo Poderoso a protecção que nos 
concedeu, fazendo com que a nação brazileira assumisse 
a mais prudente attitude em face de uma questão tâo 
momentosa, que podia agitar os mais perigosos estí- 
mulos das classes socíaes; e que em suas múltiplas 
relações interessa, não somente uma parte da socie- 
dade, mas toda ella, nao somente aos cidadãos bra- 



4 XI 

zileiros, mas à todos os habitantes do Brazil!... [A- 
poiados). 

Graças, senhores, a essa protecção que tao eficaz- 
mente inspirou o patriotismo de nossos concidadãos, 
podemos apresentar um bello exemplo às outras na- 
ções, que sò depois de grandes provanças conseguiram 
realizar essa difficil conquista do progresso e da civi- 
lização. E' com ufania que devemos dizer : « A reforma 
do estado se7'vil não achou adversários no Brazil. » 

Quanto a mim, conservarei como a mais grata e hon- 
rosa recordação da minha vida politica o facto de ter 
sido chamado à presidência desta augusta camará em 
condições tao graves como as que presenciámos por oc- 
casião da discussão desta reforma, que sem duvida é 
a questão mais importante que tem sido submettida á 
decisão dos legisladores do Brazil desde a indepen- 
dência do Império. { Apoiados). 

E, finalmente, julgo exprimir o pensamento desta 
augusta camará dando um público testemunho de re- 
conhecimento á população desta capital, que mais de 
Serto accompanhou os nossos debates, e que pela gravi* 
ade e decoro com que se portou sempre que compare- 
ceu para assistir ás discussões, provou que a confiança 
pública em nossas sabias instituições e o respeito aos 
poderes do Estado sao uma realidade no Brazil. Tenho 
concluído. 



Oarta II 

Gincinnato a Sempronio 

Continuo a metter-me a taralhfio: nSo venho, amigo, 
caçar nas tuas terras ; está bem entregue o Gaúcho ao 
teu braço secular, mas faz-me gosto servir-te de cama- 
rada ; tu és Marechal do Exercito ; eu serei Tambor ; 
mas o certo é que ambos pertencemos á mesma milicia. 
Continuemos a campanha. 

Vejo que já pareces ir aproando para terra, por con- 
siderares sufficiente o que tens dito. Seja assim; mas 
como me deste o gáudio de mimosear-me com um exem- 
plar do livro monumental, quero agradecer*t'o, pro- 
vando que nao deitaste agua em cesto roto, e que, 
tendo eu convidado a Senio para preceptor, vou prós- 



XI 5 

crever todas as noções que tinha do idioma, substi- 
tuindo-o por uma lingua incógnita, nova, moderna, 
triumphante, conquistadora e fresca, a que darei o 
nome de SeniaL Passo também a impregnar-me nas 
phrases, imagens, descripçOes e locuções, nao menos 
SeniaeSy e espero poder vir a arremedar o género pan- 
tafaçudo, porque onde me faltar a idéa, buscarei uma 
phraseologia onomatopaicamente campanuda, phraseo- 
logia pâââmpa, com que porei os meus admiradores 
boqui-abertos e zonzos. Seguirei a moda coimbrã ; 
seguirei a moda, já proclamada pelas Cacholetas : 

Hoje é moda estylo abstruso ; 
enrodilhar palavrões. 
Nunca perde por confuso 
quem fizer allocuções. 
E' moda que tem pegado , 
porque vem de auctor graúdo, 
que devera dar ào estudo 
o tempo mal empregado 
em tecer, por modo novo, 
os discursos nebulosos 
de que se ri todo o povo. 

Como nao heide escrever 10 volumões para analj- 
sar 2 voluminhos, vou só apontando o dizimo das 
bellezas que esfervilham por toda esta biblia do Bom 
gosto. 

Começa o cap. 2;** : 

a — Çon^a o anno de 1832. Um cavalleiro co7V'ia, 
n toda brida..,. » 

Perfeitamente: se o anno corria, o cavalleiro por força 
que também corria', é lógico e é elegante. Agora o que 
vou accrescentar aos meus estudos da língua, é a ex- 
pressão toda 6rií/a para significar á desfilada: na era dos 
Affonsinhos, dizia-se a toda a brída. 

O cavalleiro levava na cabeça um chapfo desabado 
de baí^ta, premiado, como invenção Senial, na Exposi- 
ção d'aquelle anno, em que nao houve exposição ; e lá 
por dentro levava uma alma sui generis^ alma com a 
velocidade {!) do vôo do gavião. 

Ch«^ga Manoel Canho ao rancho do Chico Baeta /'ap- 
pelidado o Semmedo, por ser homem sem medo de que 
o convertam em desabado', e entr'ambos começa um 



6 XI 

dialogo, opulentíssimo em grammatica e vernaculi- 
dade. Por exemplo : 

(( — Em uma corrida, ha 2 annos, o senhor nfio es- 
teve lá ? 

(( — Fui um dos que corri, » 

Por minha parte, eu cá fui um dos que ficaram colo- 
ridos de vergonha, de nao ter aprendido tâo correcta 
lingua, e lá vi o Canho montado no murzello, porque 
tinha ainda que fazer umas cinco léguas. 

Em poucas linhas, temos :— a murzellinha fez traz 
zas — o elogio feito — fazendo um esforço — fazer 5 léguas 
— farei presente— /e^ o viajante — etc.,etc. o que prova 
com que engenho se pode conjugar um verbo todo, 
sem ter ar d'isso: estylos assim sao ainda menos ro- 
mânticos que didácticos. 

Afinal pára o Canhu; come a janta^ e bebe agua '' pelo 
bocal do estribo " que o rapaz teve o cuidado de lavar 
para dar-lhe a serventia de copo. Que o rapaz era a- 
ceado e fez bem, nao ha dúvida nenhuma, visto que o- 
tal estribo devia vir porquinho, lá isso devia; porem o 
que me espanta é a sobriedade do Canho, que, tendo, ao 
pino do meio dia e com sol claro, aturado muitas léguas 
de corcovos, capriolas*, repellôes e curvetas do murzello 
a t> da brida, se contentava com i; pinguinho d'agua, 
que um bocal, de uma pollegada quando muito, po- 
deria conter. Os Gaúchos, em taes circumstancias, bebem 
pela mão, por qualquer folha larga de arvore, ou cousa 
assim: o P(ídro Javardo pag. 72; (( para beber agua 
ia ao arroio, e estendia-se de bruços pela margem. » O 
próprio Manoel Canho,» quando topava com cavallo es- 
tropeado (pag. 6G) arrastava-o para a sombra, e ia 
buscar-lhe agua no chapéo. » Mas, nesta memoranda 
occasino, o Gaúcho estava na apojadura de apurado e 
delambido: para sanar uma damnada sede ( não era 
certamente tão damnada como isso ;, não só se con- 
tentou com um golesinho d'agiia homeopathico, mas 
para isso teve de pòr-se primeiro a desprender os loros 
dasella, a tirnr os estribos da argola, a despir delles os 
bocaí^s para fazer púcaro... complicada operação de per 
si ])astante para apagar a sede de um Dário, fugindo 
d*Alexandre. 

« — ... afrouxou as rodeas ao ruão,7?/e lançoií-st' como 
uma flecha» aquegirou-lhe em torno da cabeça » i( pro- 
seguiu o animal e lhe fendeu o craneo » « o suor que n- 
lagava-lhe o corpo )> c< cuja estampa descnhava-se » 



XI 7 

« olhos a se engolfarem » ele. etc. e idênticas locuções, 
que Senio reproduz a cuda passo, e se me affiguram 
incorrectas. 

Aqui porem tem elle uma desculpa, se lia culpa : é 
este seu dizer assaz frequente no Brazil, e caracterís- 
tico dos mais seg'uros para se affirmar, prima facAe^ 
ter uma obra portugueza sido aqui escripta. Nem me 
applico a censuras, nem a proselytismo ou propag*anda ; 
mas deve-me ser tolerada a franqueza, g-erada da con- 
vicção : adeante de Platão, a verdade ! e nem receio 
que os sensatos me levem a mal a observaCã) que 
submetto respeitosamente, quanto a esta liberdade 
local. 

Affigura-se-me pois que não será fácil mostrar, em 
auctor portuguez, antigo ou mcderno, já não di^*o 
clássico, mas simplesmente de bua nota, as locuções 
supra-citadas ; e que a construcção d'ellas será sempre 
a^sim : ffiie se lançou, (jue lhe girou, fciiclea-lhe. que lhe 
édagarOj cuja estampa se desenJta^-a, olhos a engolfarem^ 
sf\ etc. 

Regula-se (creio eu^ por eguaes preceitos a coUoca- 
ção, tanto da variação do pronome da 3\ pessoa coui 
que apassivamos os verbos, como dos outros pronoinc^s 
e casos íulverl)iaes que unimos aos verbos reílexos ou 
rociprocos : me, te, lhe, nos, vos, se ele. e a rei:*ra para 
coUocação de qualquer d'e>tes, abranij-e a todos os 
outros. 

Phrases ha em que o uso dos dout^^ concede li- 
berdade mais ou menos amjda para indistinctamente 
antepor ou jKJspòr aos verbos a(|uelles pronomes ; 
porem na máxima parte, ha regras, de que não é licito 
eximirmo-nos, se aspiramos a não sei* tidos por muito 
incorrectos. A leitura dos bons modelos é o primeiro • 
guia ; mas creio que para as seguintes normas .se não 
a«*hará excepção. 

No seguuíio modo de apa^sivar verbos . isto é. 
quando juntam()s o caso sp aos sui)jtútos da *i\ pessoa. 
que não podem fazer a acção em si mesmos ). e quando 
aos verbos activos, reílexos ou recipi'ocos, ligamos o.s 
raso^ adv<*rbines, dá-se cnllocarão forruda^ nas seguin- 
tes hypotheses : 

1*. Se ao verbo precede o articular demonstrativo e 
i-onjunctivo r/í/(\ ou outro relativo, ou couiunccão, ou os 
advérbios /íí/o, nunca, jn, s^^rtipr", untes, c', lu, mais, 
in filo, assim^hem, (^ua^i todos o< tí»rmiimd"»s em mcnt^ 



8 XI 

(excepto, em alguns casos, os ordinaes, por outro 
motivo ) etc, deve sempre o pronome antepôr-se ao 

VERBO. 

Exemplos : — que se lançou^ e nao que lançou-se ; — 
que lhe girou, e nao que girou-lhe — cuja estampa se 
desenhava^ e nao cuja estampa desenhava-se ; — não te 
amOj em vez de não amo-te ; — nunca te admirei^ e nao 
nunca admirei-te ; — deixe- nie,, e nao me deixe ; — jd te 
conheço^ e naoja conkeço-ie ; — sempre te enfatuaste, e 
nao sempre enfatuaste-te ; — antes nos divirtas, e nao 
antes divirtas-nos ; — ca me vou, e nâo cá vou-nie ; — 
Id vos espichastes, e nao lá espichastes-vos : — mais te 
exaltas, e nHo mais exaltas-te ; — muito te prestas, e nao 
muito presías-te ; — assim te ajude Deus, e nSo assim 
ajude-te Deus ; — bem me importa, e não bem importa- 
me ; — parvoamenle se exprime, e n^o parvoamente ex- 
prime-se. 

2.* Geralmente nos restantes casos, quando a oraça* 
começa pelo verbo, ou pelo seu agente, o verbo ante- 
põe -se AO pronome. 

Exemplos : Este menino perde-se, e nao este menino se 
perde] — as finanças evaporanv-se, e nao ^e evaporayn\ — 
divertes-me, coiiheço-te, vou-me embora, enâo me diver- 
tes, te conheço, me vou embora ele, etc. 

Uf ! que maçada ! nao foi ? agúenta-a, em desconto 
dos teus peccados, e se o andante foi tristonho, siga-se 
o galhofeiro alegro : refocillemos o animo na admiração 
do romance. 

Chega o Canho ao Jaguarao, lia hora em que os sol- 
dados de Lavalleja vao depor as armas, com um senti- 
mento de humilhação, que era partilhado pela popula- 
ção : « un sentiment d-humiliation^ qui étail partagé pa?* 
ia population. » Eu também bato palmas ao neologis- 
mo, substitutivo do compartir, participar de, emais va- 
riantes indigenas ; mas então proponho que creemos o 
tal verbo partilhar para que signifique : dar o quinhão 
da herança ; e acceitemos francamente o pariajar ou 
partejar, para uns apertos doestes: assim ficará plirase 
ainda mais harmónica e gallica : « sentimento de hu- 
milhação, que era partajado pela população. •> 

Apparece depois um ferrador e o coronel Bento Gon- 
çalves, vasado na mesma tempera de Osório e Andrade 
Neves, Ficamos pois sabendo que um homem se pôde 
vasar em rijeza ou consistência : ou antes que tempera, 
.em idioma senial, é synonymo de modelo ou molde. 



XI 9 

Mas, adivinhada esta charada, fica outra peior : Que 
Osório e Neves fossem vasados na mesma tempera, em 
que outr*ora o foi Bento Gonçalves, vade in pace ; mas 
que uma heroicidade, patenteada 30 annos antes, já 
então fosse vasada na têmpera que havia de apparecer 
lima geração depois, nao deixa de ser habilidade. 

E o coronel Bento era feliz, porque os homem o ado- 
ravam; as tnulheres o admiravam, » Pelo que as mulhe- 
res faziam, segundo para baixo se vê, ha exactamente 
aqui um chnssé croisé de verbos : eram as mulheres que 
o adoravam, e os homens que o admiravam ; mas isso é 
•o mesmo. 

Segue-se um dialogo onde se vê um tal CoUeira allu- 
dir ao « degolo y que todas as manhãs fazia nas rezes 
destinadas ao corte de charqueada » e que geralmente 
nao sao degoladas; e surge uma trapalhonasinha, de 12 
annos, e de excellente embocadura, chamada Catita^ 
nome que Bluteaudá por synonymo de Catharina.,Aiío 
singela, como, ás duas por três, mostrou que o era a Ca- 
tharininha, que, na famosa canção irónica do Mephis- 
topheles. serviu de pseudónymo á Margarida do Fausto, 
.subjeitiuha esta com quem sempre impliquei, por nol-a 
venderem como typo de innocencias, começando ella 
por ser facilmente comprada com quinquilharias do 
diabo, e acabando por estrefegar mííe, irmão, filho e 
amante, e nao obstante subir até ás bambolinas do ceo, 
cousa que tanto custa a qualquer simples mortal. 

Esta rapariga era um demonico. Nós cá diriamos que 
ella tinha a boquinha mais gentil ; mas errariamos ; o 
que ella tinha, segundo Senio, era a bonfjuinha xmais 
gentil. Tinlia mais 1.° cabellos negros, 2." os olhos 
negros como os cabellos (Sina! Charaa-se mnrzello o 
cavallo todo negro ;e pois Canho era todo uma vul- 
cânica paixão equina, estava no livro dos destinos, que 
se lhe havia de assemelhar a namorada ao seu mur- 
zello . Ressumbrava graça etc, segando o systema geral 
do^ ressumbramentos Vide o Movo Metliodo]. 

Como a pequenina viera ao mundo, predestinada 

f)elo menos para figuranta do Theatro Li/rico^ compre- 
lende-se bem a utilidade do seu requebro faceiro^ 
nrsinho de malícia^ esticamenlo da perna bem torneada^ 
nrqueamento do pisinho^ figura de danra^ e olhar bre- 
griro '! Sim,senlior; as musas de uns senhores homens, 
chamados Atiacreontes, Parnys e Pirons, inspiravam-se 
assim ; nao ha que dizer: o nome do General Camará 



10 XI 

deu euphemismo a uma rua ; e o marcial pavilhão 
cobriu a mercadoria. 

Ha, entre aquellas expressões cândidas e significa- 
tivas, uma que me dá ainda mais no goto que o olhar 
bregeiro ; é o 7'e(juebro faceiro . Este sympathico auctor é 
enthusiasta das faceiras ; lá volta, a pag. 73, a Morena 
vergando faceiramcute o homhro ; vocábulo frequente- 
mente repetido. 

Este faceiro, assim, sempre quisilei com elle. Eu nSo 
sei se o Moraes tem ou não razfio; mas descreve d'est'arte 
a faceira : « A carne das faces do boi. Vaidoso, pata- 
rata, casquilho rafado, que se sustenta com faceira de 
boi e o mais á proporção, e aperta a barriga, e soffre 
outras necessidades para se enfeitar etc. » Que, figu- 
radamente, a faceirice seja equivalente de bandalhice, 
peralvilhice, e casquilharia rafada, nao digo nada ; 
mas que faceiro seja synonynio de gentil, mimoso, en- 
graçado, airoso, galante, ai-jesus, só no idioma 
Senial. 

Continue em scena a faceira-bregeira. 

Agora, o que torna o Xn\ feitiço^ prodígio nunca visto, 
é a descripçao do Senio, que, ao pintal-a... fez um ca- 
pote e um milagre. Já viste, ou viu alguém neste 
mundo, uma creança de 12 annos, de pernas bem tor- 
neadas, que tivesse cabcUos que dessem até d bahiha da 
saia, desenvolvimento este, a que a natureza nunca se 
presta senão em edades muito mais adeantadas? Isto só 
podia ser visto j^or quem viu uma catita, filha de um 
selleiro gaúcho, arqueando o pcsinho calçado com um 
sapato de íiiarroquim azul, cheg^ado, pelo ultimo pa- 
quete, da casa Campas: e que naturalmente a feiticei- 
rinha comprou em Pelotas, na loja de Mlle. Elisa. 

Mas isto nao é nada ; o mais está para ver. A garota 
queria o Canho para noivo : este estava w alheio ao que 
passava junto. » ; Xao sei bem o que é que passava, 
nem janto de quem, nem porque ) ; emfim tinha uma 
(( expressão de recolho. » Recolho '? recueillement ? 
Nada. ( Isto provavelmente é erro typographico: o 
Canho estava tao fecliado e redondo, que tinha erjtres^ 
são de repolho], E o caso nao é para menos. O Canha 
bem quer adcíiar o seu matrimonio paro quando a abe- 
lha seja ainda mais mestra ; para quando for viuva : 
porque emfim de cavallos gosta, mas de borracliinhos 
novos, não. Está pois alli enrolado como um rej'()llio, 
a meditar n*! vaidade das vaidades a que anda subjeit.^ 



XI 11 

a espécie humana, e na sorte que o aguarda quando 
por sobre a ornada fronte lhe vier a desabar o Carmo e 
a Trindade. 

E como poderia aquella portentosa Catita deixar em 
socêg-o o coração de toda a gaucharia, e mais dos bu- 
gres, charruas, guaicanans, guaranys, minuanos, ta- 
pes, e restantes ornamentos silvestres da província de 
S. Pedro do Rio Grande! Era vellhaquinha, que andava 
sempre de olhos piscos, aos 12 annos, e que quando 
erguia as pálpebras ( o que erafim lá succedia de tem- 
pos a tempos), « parecia que seu rosto se tinha banhado 
em joiTOS de luz. » Era assim mesmo : o lavar da cara 
daquella menina ( de mezes a mezes) era num alguidar 
de jorros de luz ; até aqui vai bem ; agora ser isto uma 
comparação para o caso da despiscadella dos olhos... lá 
verás. 

O retrato da menina precisou ser feito do toutiço até 
à perna torneada e ao pésinho arqueado, sem faltar uma 
pollegada. Lá vem o ar, a boiKjuviha^ a fronte, os 
cabelíos, as espáduas, o talhe, as formas, o requebro, 
os olhos piscos, as pálpebras róseas, a perna, o pé, a 
pirueta, e o olhar brejeiro ; agora .só falta o nariz e o 
cotovello... Ai, nâo ; falta também a tez; toca a ver: 

— « A tez, quem a visse, em repouso, sob a ne^rra 
madeixa, cuidaria ser alva ; mas nas inflexões do coUo 
e dos braços percebia-se, como sob a transparência de 
opala, uns reflexos de ouro fusco. Então conhecia-se 
que era morena ; e o tom cálido da sua cútis lembrava 
o aspecto das brancas praias de areia, illuminadas pelos 
últimos raios do sol. » 

« A tez.quejn a visse, cuidaria,,.)) Certamente ; quem 
a não visse, não cuidaria nada. 

« A tez, (jnem a visse em repouso.., » Tez em repouso, 
já é bom; ver lez em repouso, é muito melhor. 

M Penebia-se lUis reflexos... )> Muita palmatoada levou 
ura condiscípulo que eu tive em gramrn atiça, quando 
éramos pequenitos, e que dizia d'e>tas ! Nunca o mestre 
lhe poude fazer entrar nos cascos que um nominativo 
no plural com verbo no singuhir, é prohibido. 

Vamos para deante. Olha tu para a raparifi*a. Cuidas 
qtie é alvíi ? tó, que te damnas. O modo de olhar para 
ella, não é commum : tem de s^u* examinada por uma 
opala, (|ue é a luneta própria para estas averigniações. 
Já tens a opala, no canto do olho ? ora, muito bem. 
Agora, maganão, começa por lhe olhar para as infle- 



12 XI 

xões do coUo ou pescoço, e dos braços, que, já se sabe, 
sao o sovaco e o sangradouro ; e acharás que essas in- 
flexões sao côr de ouro fusco, e que a Catita é morena. 
A cara parece branca ; o gasnete é de ouro fusco ; o 
sangradouro é pardo ; e o sovaco é côr de opala. O que 
à rapariga vale é não ter nascido no tempo e na terra 
de D. Miguel ; tao certo como 2 e 2 serem 4, esta bel- 
leza ia à forca, por malhada, 

E >»inda por alli não fica, no tocante ás imbirrações 
da cútis. Tem também um tora cálido ; e para se, não 
dizer que a imagem nao tem tom nem som, lembra o 
aspecto das brancas praias de areia ; ergo, as praias de 
areia náo silo pretas; sao brancas, mas, ao pôr do sol, 

tingem-se em moreno ouro fusco de conformidade 

com o systema das cacholelas. 

Será tudo isto progresso na arte de escrever ? Será 
com linguagens e phantasias doestas, que derrubarão 
a antipathica columna Vendôme do terso dizer dos 
mestres ? 

Nas impagáveis notas á Iracema^ cora que talvez me 
divirta um (Tia, diz o Sr. Alencar : 

— « Aquelles que censuram minha maneira de escre- 
ver, saberão (assim o tenham entendido, e o façam exe- 
cutar) que nao provera ella, mercê de Deus (esta bafo- 
rada, esta mercê de Deus vale quanto pesa) da ignorân- 
cia dos clássicos, mas de uma convicção profunda (po- 
bres clássicos, mais vos valera nunca terdes nascido) a 
respeito da decadência d^aquella eschola » « O velho 
estylo clássico destoa no meio doestas florestas secula- 
res, d'estas catadupas formidáveis, d'estes prodígios de 
uma natureza virgem, que nao podem sentir nem des- 
crever as musas gentis do Tejo ou do Mondego. » 

Sim Sr. ; é assim mesmo. Ora comparemos estes mo- 
dernismos Seniaes com as intoleráveis antigualhas dos 
clássicos, e abramos um doestes ao acaso, era paginas 
onde também se descrevam raparigas catitas, e o ef- 
feito que ellas produzem em corações masculinos. Caiu- 
me, por exemplo, debaixo das mãos, a Eufrosina, como 
poderia cair qualquer outro jarreta. Lê : 

— « Passando agora peUi porta da minha rapariga, 
achei-a falando com uma nossa vizinha ao pé da escada 
de dentro ; eu como n'estes casos súbitos mostro mi- 
nha SLifficiencia, e ando sempre provido de cautelas 
para os taes recontros, porque occasião de fazer bem 
nunca se ha-de perder, levo do tudesco para traz, como 



XI 13 

cortezao soldadesco, e chegando-me ao limiar da porta, 
perguntei-lhe se era ahi o senhor seu pae ? A rapariga 
estava bonita como o ouro de sua vasquinha amarella 
quartapisada, em mangas de camisa, seus cabellos ata- 
dos com uma fita incarnada, tao de verão que vos ride 
vós de mais sereia pintada, e por mais ajuda, em me 
vendo, ficou fraca, e dizendo-me » é fora da cidade, 
virá amanha por noite — » ao despedir fez-me uma mi- 
sura com um recacho, que me aleijou ; e assentae que 
é um camafeo de pequena em fora: e eu com isto ve- 
nho espirrando, lançando mais faiscas de amor- que es- 
trelh\s com suão. 

... E estando assim, erguia, de quando em quando, uns 
olhos verdes claros, húmidos, orvalhados de alegria so- 
cegada, tao grandes e graciosos como todo o primor 
das Charites ( por maneira que com razão se pode cha- 
mar a 4* GraÇa ) ; e pondo-os em mim, a tempos fur- 
tados, com um olhar quebrado surrateiro e brando, 
atravessam -me... Já sabeis que sou perdido por olhos 
quebrados, que fazem furtos no ar.. Quando contemplo 
comigo que estive á fala, rosto por rosto, com a senho- 
ra Eufrosina, e que ouvi aquellas doces palavras de 
delicada pronuncia, aquellas razões brandas e discretas, 
aquelles risos, aquelles temores honestos, os favores 
escassos da vontade liberal.... e nisto junctamente os 
olhos que faraó clara a noite escura, os cabellos en- 
trançados que representavam todo o thesouro do mundo, 
aquelle rosto, aquella presença, aquelles ais frautados 
quando se maguava. . . por certo eu me espanto como 
não abafei em tanta gloria, e perdidos os espirites.... 
E d'outra parte, quando cuido que tive coração para 
me apartar d'ella, fico frio, e nunca homem commetteu 
tal ousadia » 

Levo mao doestas transcripções. Que homem de gosto 
ha hi, que a dizer tão singelo, elegante, vernáculo, 
attractivo, prefira os inqualificáveis estylos de um 
Senio, com os seus Ganhos escanhoados, e as suas Cati- 
ta.s acatingadas ! 

Esta guerra aos clássicos, para certos escrevedores, 
é precedida do manifesto da raposa, inimiga da uva. 
As obras dos mestres, os eternos modelos tomam-se ob- 
jecto do escarneo dos innovadores, capazes de desthro- 
nar os Demósthenes e Homeros. Tivemos a eschola da 
antiguidade ; depois, certo numero de regras tradicio- 
naes ; mais proximamente, a emancipação de todas as 



14 XI 

normas, proclamando-se typo único a natureza; agora, 
surgem os ministros do bello, sacerdotes du ideal, de- 
molidores do senso commum, despresadores de quanto 
merece veneração, e que nao produzem senão monstros 
litterarios, sem alcance ou de alcance detestável, sem 
missão ou com a missão desorganisadora, sem forma ou 
com tauxia das mais incongruentes formas. 

Uma sub-divisão doesta casta de auctores compre- 
liende a dos caçadores de effeitos. Conheci eu em Ouro 
Preto um ratão, que desejou industriar-se na caça ; le- 
vou 6 mezes aprendendo a carregar a espingarda, e 
um anno diligenciando passarinhar ; aflB.igia-s8 porém 
com o estampido do tiro, de modo que, quando puxava 
o gatilho, virava a cara, abala seguia para o norte, o 
passarinho deitava a rir para o sul, e o meu caçador, 
encarando então a sua façanha, exclamava invaria- 
velmente: « Brava I fugiu. » Os taes caçadores littera- 
rios imitam toda esta operação ; só com a difiFerença de 
que, quem exclama o a Brava I fugiu » é o publico. 

O processo, neste caso, é singello. Proclama-se o 
poder pessoal da excentricidade, embora ridicula ; da 
originalidade, embora extravagante ; da novidade, 
embora absurda; e quando se tem assim embrulhado 
desatinos e puerilidades em esfarrapado manto de vas- 
cosa linguagem vasconça, imagina-se subir em carro 
ebúrneo ás glorias capitolinas. Arago, na sua AstronO" 
mia jwpular, fala de um tal Dr. Elliot, sapientissimo, 
e ainda mais excêntrico, e que havia demonstrado, 
entre outras novidades, ( e com a mesma evidencia com 
que o estudante de um observatório astronómico de- 
monstrou haver ratos na lua ) que o sol era habitado. 
Adergou que um dia em que o doutor estava com os 
seos azeites, matou, num accesso de cólera, miss BoydelU 
Não teve o advogado, Simmons, mais que expor ao tri- 
bunal a theoria do sapientissimo, para lhe obter a absol- 
vição, por unanimidade. Que a theoria do doutor fosse 
nova^ concordo, mas que egualmente nova fosse a 
mania do homem, isso é que não, pois remonta lá até 
os tempos do incêndio do templo de Delphos. 

Participo-te que o teu Carlos está com escarlatina; 
as febres andam assanhadas. 

« 

Teu leal amigo 

ClNCINNATO. 



XI 15 

Epigramnias e madrigaes, orlginaes ou imitados 

Dialogo com. um. Rva.Poota 

« — Bocage descreu dos médicos ; 
fez-lhes muitos epigrammas. 
Tu, Vate Reverendissimo, 
aquelle exemplo nao amas ? » 
« — Queres que eu siga, sem calculo, 
exemplo que me nao quadre ? 
Faltando defuncto e exéquias, 
de que hade viver um padre ? ! 

Quiniiliano. 



Um casamonto acsfclto 

Quizeste casar co' o Jucá, 
Matliilde; és mulher de siso. 
O Jucá roeu-te a corda; 
inda Uie acho mais juizo. 



-V uma actriz qiie enviuvou Hontem. 

Morreu o esposo da cantora Alpini, 
que hoje devia o Trovador cantar. 
Quel-aem scena o empresário! O homem é doido. 
Hoje é dia de rir, nao de chorar. 



Oonaiçõos cio favor 



Se eu te peço um favor, para que o seja, 
fal-o ! fal-o depressa e em bom humor I 
Se o fazes manco, ou tarde, ou de má cara, 
o mérito perdeu ; nao é favor. 



Amor fugçindo 

Idolatro a que me foge. 
Nao desejo a que me quer. 
Se amor douram as recusas, 
sô menos fácil, mulher! 



16 

A. um, que nunca ologia poetas ^vivos 

Só de elogios a mortos 
nao és, Decio, nada avaro. 
Safa ! ser por ti louvado 
nao vale a pena; sai caro. 



A. uma feia <lelâm'bi<la 



Gertrudes, tem por amigas 
mulheres velhas, ou feias, 
ou tortas, ou aleijadas, 
ou vesgas, ou centopeias. 
Leva-as comsigo aos theatros; 
só taes subjeitas visita. 
Faz bem, faz bem, que ao pé d'ellas 
alguém dirá que é bonita. 



Os porquês do uma demanda perdida 

« — Tu só ganhas más demandas» 
mr.u querido Balthazar ! » 
« — Top ! o mal dos meus burricos 
foi quem me fez alveitar. 
Sem justiça, ganho sempre. 
Com justiça, historia ! apanho. 
Com ella, fiei-me... e perco; 
sem ella, comprei-a... e ganho. 

Zero. 



Questões do dia 

O 1* volume, de 300 paginas, compOe-se do N. 1, de 
72 pag. ( preço 500 rs.), e dos Ns. 2 a 15, cada um de 
16 pag. ( a 200 rs. cada numero ). Para encadernar, 
dá-se grátis, nma folha, de rosto. Saem dous números 
em cada semana. Quem desejar que esta publicaç&o 
lhe seja entregue em casa, poderá avisar na loja do 
Canto, Praça da Constituição. 

Typ. e Lith.— Imparcial— Rua Sete de Setembro n. 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 



N. 13 



RIO DEJASEIROT DE OCTIBHO DE 1811. 



Ti!n<l«-*e am ra*» dos Sr* E. & H, Liem mo ri.— Traça d» ConstituiçSo. 
l.^a do rsDto. — Livraiia Academira, Rua de S. José n. 119 — Lari^j do 
Pav^ o. Cl— Rua de Gonçalves Dias n. 7S. — Profo 20fl reis. 



A sessão de 16T1. 

O paix foi dotado com três leis importantes na 

i «âãdão legislativa, encerrada em 30 de septemhru ul- 

I timo. Com tíjfla a raKuo será a sess^ d'este aimo coasi- 

Jerada nos anuaps do parlamento brazíleíro como uma 

dãa mais importante.s e fecundas, siiitlo. talvez, a pri- 

meim rora r«ferenciu ao immenso alcance de uma da» 

1 lei*, a que alhiilimos. 

Observemos rapidamente cada uma d'e.ssa.s tre.s lei». 
— ?5ii sua ordem de datas a primeira é a que concedeu 
' um credito de '20 mit contos pura o prolongamento da 
I e:strada da ferro, que pnrle d'esta Corte para o interior. 
L Com o poderoso auxilio que acaba de receber a estrada 
l de D. Pedro II terá de segfuir até o ponto terminal, por 
■ 'ora assestado, ia prorincia de Miniis. d'onde no futuro 
1 essa e„'itnida continuará na direcção, que for entAo 
I jnltfRiiH mnís conveniente ao tim de irnidiar-se pelo in- 
* teríor do Bruzil. 

O qoe ora foÍ decretado éjã muito para o futuro de 
ima parte importante d"essii rira província, e de di- 
I veraue mnnicipioí< dn nito menos rica provincia de 
|S. Paulo. 

Nau somente na direcção da sua linha, romu ainda 
nm fw ramaes, que necessariamente terão de ser crea- 
Idofi, a estrada servirá a valiosissinios tnteresse.s mate- 
I riaes e ecouumicos, facilitando ã lavoura e cominer('io 
I dos pontos a que tem de approveitar um largo desen- 
I TolTimenlo de actividade industrial, que muito seri 
^ para fecundaras fontes do trabalbo, da prcducçíio e da 
I riqueza. 

[ Como Consequência oatural, a população terá de 
nmdeiiBar-se iia-t zonas próximas d'essa grande artéria 



2 XII 

de viação: o sibilo da locomotiva n'essíis rogiões dis- 
tantes dos grandes centros commerciaes de beira-mar 
despertará, com o seu echo estridente, a vida agrícola 
das populações dissoíninadas por área va.stissima, que 
até hoje tem vivido em lucrta insana cora as difficulda- 
des do isolamento, nascidas da falta de meios fáceis de 
communicacão. 

Assim os vinte mil contos, com que o Estado subven- 
ciona essa obra importantíssima de progresso, têm de 
reverter ao thesouro com abundantíssimos juros; porque 
o augmeiito da producçao, e o progresso da industria 
engrossarão as rendas dos cofres públicos, em propor- 
ções muito vantajosas. 

As facilidades de communicacão e transporte serão, 
também, para a colonização estrangeira, um muito po- 
deroso incentivo; e desde que a população assim cres- 
cer, e que com o seu crescimento se desenvolver o tra- 
bailio em escala sempre ascendente, e em suas melho- 
res condições e methodos, a vida da nacao se tomará 
gradualmente mais vigorosa; as empresas se facilita- 
rão; o povo animar-se-ha, tendo fé em si mesmo, nos 
seus recursos industriaes; e a família, que é o núcleo 
do Estado, se multiplicará convenientemente com os 
melhores, e mais esperançosos meios de existência. 

Taes serão, em* substancia, os grandiosos benefícios, 
que necessariamente devemos esperar da lei que dotou 
a estrada de ferro de D. Pedro II com o credito de 20 
mil contos; e do desenvolvimento que outras impor- 
tantes estradas, como a da Bahia, a de Pernambuco, a 
de S. Paulo, reclamam egualmente da solicitude do 
governo. 

Temos robusta fé que serão attendidas, conveniente- 
mente, até onde o permittirem os recursos do Estado, 
que, infelizmente, não pôde a um tempo satisfazer 
a estas e outras necessidades de ordem material e eco- 
nómica. 

— Quanto á lei da reforma judiciaria,a 2* na ordem das 
datas, sua importância é geralmente reconhecida: era 
uma necessidade urgente da administração da Justiça 
civil e criminal, e essa necessidade foi satisfeita. 

A reforma, intendendo com um e outro foro, desem- 
pachou a administração da justiça de certos embaraços, 
que a prejudicavam ; estabeleceu praxes úteis, consul- 
tou o bem do cidadão, deu melhores garantias á liber^ 
dade individual; cortou as delongas dos julgamentos 



XII 3 

nos tribunaes superiores; e, finalmente, deu outras pro- 
videncias, que a pratica terá de demonstrar como muito 
salutares. 

— A lei de 28 de septembro, a ultima votada e sanc- 
cionada, marca uma era nos fastos do parlamento, e na 
vida da naçSo. 

Longamente discutida nas camarás e na imprensa, . 
concebèram-se sérios temores de que nao passasse no 
senado, na sessão d'este anno. 

Quiz a bôa estrella do Brazil que assim não fosse: o 
paiz nao permaneceu nas incertezas perigosas do adia- 
mento de uma medida de tal magnitude, e a proposta 
do governo é hoje lei do Estado. 

Pede a j ustiça que reconheçamos os importantes ser- 
viços, que nas duas camarás, como seus muito dignos 
presidentes, prestaram os Srs. Conselheiros Jeronymo 
Teixeira e Visconde de Abaete 

Na camará dos deputados o Sr. Conde de Baependy, 
como presidente, consentira, na discussão da proposta, 
ns mais inconvenientes divagações, que deslocavam a 
discussão e exarcebavam as paixOes. 

Substituindo-o na cadeira presidencial, o Sr. Conse- 
lheiro Teixeira teve de haver-se com esse precedente, e 
de toleral-o até certo ponto, sendo seu grande empenho 
moderar a exaltação nos debates, e cohibir tanto quanto 
possivel as divagações, antes toleradas; e n'isto provou 
sua muita capacidade para o lugar honroso e difficii, 
em que a maioria o coUocara. 

No senado, o venerando Sr. Visconde de Abaete pro- 
•cedeu com todo aquelle tacto que lhe é reconhecido. 
Deade o principio da discussão, mesmo quando pelo re- 
gimento d'aquella camará é permittida a apreciação 
geral da lei em todos os seus artigos, o dislincto presi- 
dente fez que o debate se circum8creveí*se o mais pos- 
sível aos assumptos da lei, que a camará discutia. 

Por isso a discussão n'aquella camará correu plácida; 
e da parte de alguns oradores foi muito luminosa. 

Nao é menos digna de louvor a constância com que 
o Sr. Visconde de Abaete, o mais velho, como elle 
disse, dos membros do senado, se conservava na cadeira 
presidencial por õ longas horas. S. Ex., como o go- 
verno, como todo o senado, reconhecia que o assumpto 
eragTavissimo,e que cumpria dar-lhe solução na sessão 
d'este anno. 

Sabe-se com que insistência um grupo de antago- 



4 XII 

ni8tas da proposta, que nenhum recurso poupava para 
obstar & sua passagem nas duas camarás, procurava 
fazer pressão sobre os ânimos dos legisladores, dizendo- 
que a lei nascia do capricho, do imperialhmo, da voU" 
tade do Imperador, que assim queria; e que uma tal 
imposição desvirtuava o mérito da grande medida. 

Era uma arma de guerra desleal, e de mà tempera; e 
n&o surtiu e nem podia surtir o premeditado. eifeitOr 
porque a providencia em si era a expressna*de uma alta 
necessidade no geral reconhecida; era uma verdadeira 
aspiraç&o nacional: e si o Imperador e o seu governo ser 
punham á frente, levavam em mira um fim, que a na- 
Ç8.0 applaudia com enthusiasmo, como attestam os- 
quasi diários factos de manumissOes de escravos, de que 
as folhas públicas dão frequente noticia, praticados em 
todas as provincias do vasto império. 

Sobre a subserviência das camarás à vontade do mi- 
nistério, assim discursou o dístincto e patriótico Sr. 
Visconde do Rio-Branco, repellindo o que enunciara o 
Sr. Silveira da Motta : 

« E' notável, Sr. Presidente, como o nobre senador 
por Goyaz considera o procedimento das duas camarás, 
e suas relações com o ministério!.... Si a camará (tem- 
porária) approva, como approvou, esta proposta, n&O' 
obedeceu aos dictames da sua consciência, não consul- 
tou seus altos deveres, os grandes interesses nacionaes; 
foi impellida pelo ministeriol... O senado obedece ao 
impulso ministerial !... mas o senado procede conscien- 
ciosamente. » 

Ha n'esta contradicta muita cortezia, mas muita 
força. 

O muito respeitável Sr. Visconde de S. Vicente assim 
dizia : 

tt O senado do Brazil, sempre fiel aos sentimentos ge- 
nerosos, dominado sempre por sua tranquilla sabedo- 
ria, depois de longa ôiscussão, parece desejoso, e pres- 
tes a adoptar definitivamente o grande principio, a 
grande medida de justiça, de progresso, e de civílisa- 
ção, de que se trata. 

« Embora a proposta fosse susceptivel de alguns^ 
melhoramentos em suas disposições secunaarias, ou 
detalhes, o profundo critério, o saber pratico da grmode- 
maioria do senado com muita razão prefere adoptal-ai 
tal qual, antes do que adial-a por meio de emendas. 

« E' porque sabe bem, que essas disposições ou de- 



XII 5 

talheâ a todo o tempo podem ser melhorados, se assim 
for conveniente; é porque sabe bem que quem vale tudo 
é a disposição fundamental, a idéa capital da libertação 
das gerações futuras; é porque comprehende que cada 
dia de demora vale o captiveiro para muitos seres in- 
nocentes, que pela primeira vez divisam a luz do sol 
brazileiro: é porque o addiamento para o anno importa- 
ria a escravidão para vinte ou trinta mil creaturas, que 
aliás devem gozar da liberdade. E', emfim, porque esta 
idéa em vez de ser apreciada pela maioria do senado 
•com fria indifferença, pesaria por modo penoso sobre 
• seu coração e consciência. [Apoiados.) 

c( E' porisso, e não por qualquer outra razão, que 
essa maioria não quer, nem admitte emendas. (Apoia- 
dos.) Nao é por fazer ou não o gosto ao ministério. Ainda 
quando o ministério adoptasse alguma emenda, ao me- 
nos eu, e alguns amigos não a adoptariam os. [Apoiados.) 
Fiquem, pois, certos os nobres opposicionistas, que 
não teem mais independência do que os membros da 
maioria. 

«Como, é portanto, que o illustre senador peia Bahia 
se julga auctorisado a dizer que o senado se rebaixa,ou 
se reduz a mera chancellaria ? E' uma expressão 
offensiva, que sinto ouvir dos lábios de um senador ; e 
se alguém se rebaixa, então será quem pronuncia tal 
phrase, e não o senado. 

«Complete este o seu alto e nobre pensamento, e pou- 
cos dias depois ninguém mais nascerá escravo no Bra- 
zil; poucos dias depois a escravidão começará a dimi- 
nuir até que se extinga totalmente, e para sempre, 
como exige a honra e a moralidade de nossa pátria. A 
idéa capital é tão santa que uma vez decretada será 
irrevogável: por certo ninguém quererá encarregar-se 
de propor a sua impossível abrogação. »> 

Os sentimentos, que enunciou o Sr. Visconde de 
S. Vicentií, foram os que influirain na firme maioria da 
camará dos deputado.^, e no animo do senado. 
Foi assim que sempre apreciámos a- proposta. 
O governo tem agora sobre os seus hombros tarefa 
muito e muito espinhosa. 

>ía execução da lei tem de arcar com os maiores em- 
baraços. 

w 

o governo inostra-se de todo possuído da grandeza 
de sua missão. 

JUNIUS. 



6 XII 

OI>x*as cie Senlo— O Oaúclxo 

(Cartas a um amigo). 

VI. 

Meu amigo. 

Tencionava concluir n'esta carta as minhas conside- 
rações sobre a obra de SeniOf mas, chegando-me ás 
mãos o segundo volume, não quero deixar de o chamar 
á fala, ou antes de o receber com as honras do estylo. 

O auctor vem sangrando-se na veia da saúde com 
estas palavras da sua nota final : 

« N5o faltará quem increpe o livro de inverosímil, na parte 
relativa ao cavallo. Duvidar hoje, depois de tantos factos c de tão 
respeitáveis testemunhos, dos resultados admiráveis do ins-. 
tincto dos animaes, é uma excentricidade, que não vale a pena 
de refutar. Demais, n*este livro, a maior parte dos actos intel- 
lipentes praticados pelo cavallo são antes attribuidos pelo Gaú- 
cho ao animal, do que attestados pelo escriptor. » 

O que nao vale a pena de refutar é a filigrana 
de se eximir da responsabilidade d'esses actos o auctor, 
a titulo de serem elles attribuidos pelo Gaúcho aos ani- 
maes, e nao attestados pelo escriptor. Longe de importar 
islo uma justificação, aggrava a situação do escriptor, 
qu^í não encontra em si mesmo vslzv^s para confirmar 
os devaneios de sua pbantasia. 

Quanto a nós, é cousa que a boa critica menos tem 
que indagar, si as asserções são attestadas pelo auctor 
da obra, si são deixadas á mera conta dos personagens. 
N'uma obra em que o escriptor se limite a fazer as 
descripções meramente essenciaes de tempo e logar, 
deixando esclarecer-se o mais à conta do dialogo, nem 
por isso terá elle men'>s responsabilidade moral e lit- 
teraria. 

Pelos dialo^*os, p^^las idéas n^ellos emittidas e trava- 
das, á que principalmente se Iride conhecer o caracter 
de cada figura. Não será d'.) que o auctor afflrma ej- 
auctorttaie sua qilíí se deduzirá m exoellencia ou infe- 
ri()ridad(5 da concepção. 

Si uin auctor preconisar o exaltar muito os mereci- 
mento.í de um personagem, que no desenvolvimento 
da a^^ção não corresponder pelas suas obras ás premis- 
sas, não prevalecerá a recommendação do auctor, sinão 
o que se deduzir do papel desempenhado pelo persona- 
gem. 



XII 



E quando o escriptor se propOe a dar um typo nacio- 
nal e verdadeiro, cora maioria de razão, nâo se pode 
de bòa fé abstrahir d'essa responsabilidade legitima e 
intuitiva. Se o Senio nos declarara dar uo seu Gaúcho 
o typo de um contador de petas para divertir agente, 
calar-nos-hiamos ; no caso contrario, não ; tenha paci- 
ência. 

Demais, contestamos que a maior parte d 'esses actos 
inlelligentes seja attribuida pelog-a^cho aos animaes; 
não, a maior parte é attestada pelo auctor ; abre, meu 
amigo, qualquer dos dous volumes, e vêl-o-hàs. 

Mas disse-nos iV/*i'o que NÃO vale a pena refutara 
excentricidade de quem duvida dt'S admiráveis resulta- 
dos do inslinciodos animaes\ certamente, e muito menos 
nós o duvidaremos. L-rge, porem, estabelecer a devida 
diátincção ; uma cousa é o resultado do puro instincLo 
atiitnal^ e í)utra a funcção reflectida, judiciosa, da fa- 
culdade humana de conhecer^ ou do entendimento, 

Todcs os actos que increpamos ao primeiro volume do 
seu fiaúrho não só importam operações da razão, mas 
de uma razão tisclarecída e sã — conquista de civilisa- 
ção adiantada, e tamb^nn do sentimento mais humano, 
mais jusU>, mais apurado, sempre presidiíK) polacons- 
rieucia da mais fina moral, antithese do ('anho. 

Nã') me demorarei em fatigar a tua paciência, repe- 
tindo os trechos que ficam desonvolvidauitíute aj)rocia- 
dos e julgado.s. No entanto, como compleme.iitj ás no- 
tas jà adduzidas, citarei ainda os seguint-^s passos do 
ullimo volume d3 ^''/•W7//j,que :igora niesiuo arabo de 
ler : 

1". o reconhecimeuto do L'icas pelo Murzollo, pag. 
•37 ; "2". a baia reboar que o fjgo desse signal ao ini- 
mit'*o, pag. 11(5 : 3". ficar escondido ni restinga cada 
animal da tropilha, k espera, que o Tanho fizesse o 
sÍLf*nal de chauial- )S, pii;r. lOò e 141 ; 4". sentir o Jucá 
ter sido reconhecido, não ter p:)r isso necessidade mais 
ih* erumu lecfT, e soltar o nitrido, pag. 210 ; Jnca e 
Morena repararem no movimento do C:»nho, farejanMu 
o cbão, e ao sahirda villa já conhecerem a pista do 
^av illo d»' I). Romero tão bem como o gaúcho, pag. 
•J2G. .lá o (riiicho conhecer o rosto de um animal que 
elh' vira i>onais rezes tem o que s^^ lhe diga. 

Haverá (|uem creia que todas estas operaçOv^s de uma' 
razi j activa e previdente, desenvolvida e perspicaz. 



8 XII 

«ejam actos de mstincto animal ? Senio o dirá de 
bôa fé ? Quem melhor se quizer convencer do prodígio, 
leia a obra. 

Declaro que muito poderia produzir ainda para prova 
das impugnações, o que deixo de fazer por já me achar 
em extremo fatigado e até enojado da matéria, por 
si mesma tao pouco agradável para a quem quer que 
for deter por mais tempo. Seja-me, porém, licito a- 
venturar uma apreciação synthetica da obra, encaran- 
do -a ao mesmo tempo sob outro aspecto. 

Diz Senio em sua alludida nota ultima c^ue «o 1". 
volume é o desenho de um grande scenario, o esboça 
de um caracter vigoroso, cuja exuberância ainda nao 
foi revolta e propellida pelo esto da paixão; que no 2". 

volume começa o drama. 

« 

Nao é as.sim: a obra divide-se em quatro livros, inti- 
tulados— 1°. O Pião; 2°. Jucá; 3°. Morena; 4". Huppa ! 
Os três primeiros, o auctor gastou-os em preparar a 
acção, que verdadeiramente nao apresenta interesse 
algum sinao no ultimo livro. Antes doeste não ha movi- 
mento que seriamente preoccupe o leitor, posto que al- 
gumas circumstancias destacadas nao deixem de o im- 
pressionar. 

Por exemplo : um subjeito que joga a amante no 
pacáu, cousa nao só pouco verosímil, como de máo 
gosto, sob o aspecto estethicol a coUocação de uma 
cruz sobre a sepultura de um cavallo, como se fora a de 
um christão ! unia velha que esld ainda de camisa à beira 
do rio, com medo de entrar no banho ! a Catita a pôr 
em seu regaço a cabeça da ^lorena e cobril-a de cari- 
nhos e lagrimas l Outra vez a Catita a arrostar a voraci- 
dace dos cães chimarrões por amor da égua, e que seria 
victimados molossos, um dos quaes jà começara a des- 
pedaçar-llíe a saia, si não passa jrrovidenciaJmenie uma 
vacca ferida, que os attrahiu para longe ! finalmente o 
grande amor do Canho a Catita, tendo soe absoluta- 
mente só por origem a affeição da moça á Morena. Si a 
moça não trata da égua, o Canho a nao amara nunca ! 
Nao podia ter flin diverso do que teve um amor, que 
nascera sob taes auspícios. 

Has de permittir-me, meu amigo, que transcreva aqui 
as palavras sentidas do Canho, que as proferio de joe- 
lhos ao lado do corpo da Morena ferida. Admira est^ 
rasgo do sentimento épico e sensato do gaúcho, que nao 



mi 9 

66 pôde ler sem se sentirem as lagrimas acudir aos 

olhos : 

«_A.ssim devia ser '.—balbuciaram seu? lábios frouxos.— 
Vivemos juneto8,morreremosjuiictos,no mesmo dia. Murzello, 
nosso velho amigo, foi o primeiro; deixou-nos esta manhã. 
Tíós ficámos para \ingal-o ; elle deve estar contente, ( Porque 
não ? Si estava no céo... Vid. a pag. 172. ) Jucá, a esta hora 
talvez já esteja com o padrinho í Quem era esse heróe T j ; já 
terá conhecido o pae e o mano. A bala sem duvida traspassou- 
Ihe o coracáo, porque nfto soltou um gemido, nem chamou por 
ti nem pôr mim ; foi mais feliz ; nSo soffreu como tu. Mo- 
rena { » 

Conheces typo de simplório mais perfeito do que este 
-Canho ? ! 

Continua a laxjientação do bravo e másculo gaúcho: 

«—Foste tu çueni te mataste, amiga, e para salvar-me ! A 
bala em vez de atrazar a carreira te deu azas ; sentiste que me 
perseguiam, e voaste para me pôr fora do alcance do inimigo. 
£ nem um gemido, nem um signal por onde conhecesse que 
estavas ferida ! Ah ! se eu adivinhasse/ Para que fugirmos ? 
Melhor era morrermos ambos, combatendo, e vingando o nosso 
Jucá ! Eu só, nfto terei forças nem coragem i Que vale um 
homem meio morto ? eu já morri no Murzello, já morri no 
Juea; quando acabar de morrer em ti, que fico sendo ? Uma 
cabeça sem corpo ( nego; um coipo sem cabeça como sempre 
foi ) *; uma mfto sem braço / Entáo melhor é dormirmos juiictos 

no seio da terra, » 

• 

Estás alagado em pranto, meu amigo ? 

Senio fez que os melhor intencionados críticos e a- 
niigos calassem das nuvens. Todas as espectativas fa- 
voráveis à obra foram enganadas. 

O segundo volume veio esmagar os mais resplande- 
centes castellos ; dissipar as mais brilhantes esperanças 
cios folhetinistas benévolos, concebidas por sympathia 
sem dúvida ao auclor, com a publicação do pri- 
meiro. 

L'ra d'esí»es escriptores disse : 

« O episodio, que constitue o romance de Manoel e Catita, 
acha-se apenas esboçado; provavelmente no segundo volume, 
que ainda nfto appareceu, ficará accentuado aquillo que já se 
entrevê. 

« Com que mimo e delicadeza é apresentada a travessa me- 
nina, que consegue domar a indomável natureza do filho dos 
pampas ! 

Outro disse : 

<» O perfil de Catita, o lyrio do matto. appareoe no meio d'a- 
ouellas contorsões, combates, perigos e lagrimas, como o vulto 
d- uma estrella limpida resplandecendo ua tempestade. » 



10 . XII 

Engano de ambos. Nao foi a travessa menina qnera 
domou a indomável natureza do gaúcho; o auctor 
negou a este desgraçado Canho a misericórdia de um 
sentimento sublime, despertado exclusivamente pela 
mulher ; o gaúcho amou Catita, porque Catita mostrou 
compadecer-se daegut». 

Também Catita nao é o lyrio do matto, a estrella 
limpida resplandecendo na tempestade. E' uma mulher 
vaidosa, que acceita a corte de Romero, que com ellp 
conversa á janella, e por quem se perde afinal. 

E' ainda astuta e velhaquèta, que pretende illudir o 
Manoel com os versos de sentido dúbio ou duplo, que se 
applicam também ao castelhano : 

(( Ai. nao fuja, nao, meu bem, 
« Que me mata esse desdém. » 

Conclusão: nao havia sinceridade no amor de Catita; 
nao havia espontaneidade nem exclusivismo no amor 
de Canho. Misérrimas concepções \ Cada qual mais 
triste e deplorável ! 

Disseram mais os escriptores referido.s : 

« Tratando de Bento Gonçalves, que, adivinha-se, terá de 
representar um grande papel no seu romance, .José de Alencar 
dá-lbe ura caracter épico e esculptuAl. cobrindo de veneração 
o grande homem do seu paiz. 

« O perfil do coronel Bento Gonçalves, que vai formar » 
base primordial do segundo volume ào Gnúrho, está delineado 
com mâo de mestre. » 

Engano de ambos. Nem Bento Goncalve.s rejiresoita 
nrn grande papel no romance^ nem Bento (lonçalves 
vai formar a bcise primordial do seginido rohivto do 
Gaúcho. 

O auctor passa por cima do nome e das l^uli(;(H^^, e, 
posso até dizer, da historia do grande brazib^n», como 
galo \)ovlrrazas. Sempre o defeito característico : des- 
preza a fonte perenne, inexgotavel, para ir pedir al- 
gumas gôttas ao arroio estanque; deixa-se a historia e 
a natureza, e soccorre-se ao apoucado capricho t» k ima- 
ginação exhausta. 

« Quanto á parte histórica, o auctor foi mais solunotlo que 
desejava, e quiçá do oue esperava o leitor ; limito-me a atra- 
vessar de relance o prologo da revolução rio-grandense. n Vui 
Sento que acabou de fallar. 

Todos ficam boqui-abertos, menos o que escreve »'stas 
linhas. Atravessar de relance o prologai Nem, ao meno.<. 



XII 11 

teve em consideração as previsões para dar algum de- 
senvolvimento á parte histórica e ás espectativas do 
publico. Tudo quanto pOe ligeiramente em scena com 
relação k revolução é incompleto, minguado e depri- 
mido. 

« A isso o obrigaram seus escrúpulos; trinta e cinco annos, 
menos de meio século, não bastam para archivar factos e per- 
sonagens t&o lijprados ainda ao presente pelos vínculos das 
paixões e da familia » eis a razão ciada por Sento, 

Uma cousa te digo, meu amigo, vem a ser : que 
poucos se julgarão com pulso para pôr a mao n'essa 
ceara, d^ouue lia épicos fructos a colher. 

Ninguém dirá que o Gaúcho nSo seja uma espiga. 

Mas devo declarar-te com franqueza: os fructos pecos 
e fanados só servem para mais sensivel nos tornarem o 
damno da abundantíssima e excellente messe, que se 
perde nos campos nataes, á míngua de um segador 
idóneo. 

O tempo no-lo trará decerto. Nao desanimemos. 



éC 



[Continua) 



Uncleciíràa car*ta 

DO ROCEIRO CINCINNATO AOCIDADÃO FABRÍCIO 
Rio de Janeiro, 6 de Octubro de 1871. 

Preclaro amiíro. 



'tD 



Passei uns dias sem caturrar comtigo, e já tinha sau- 
dades dVste nosso cavaco ; vamo-nos a elle. 

O projecto, geralmente almejado, é lei. Deixemos o 
paiz regosijar-se com a nova e honrosa era, que os le- 
gisladores lhe depararam; o governo receber os testi- 
munhos internos e externos da gratidão da huruani- 
dadíí; e todos, como cada um, prepararem-se para a es- 
plendida transformação social. P] visto que voltamos a 
l«mpi)s normaes, é chegada a occasifio de concluir eu o 
paganiíuito de uma divida. 

Já nas minhas ò». e 6*. carta, de 20 e 2'2 de ao-osto, 
escriptas, apenas o Jornal do Connuercio deu o leor da 



m 



XII 

interpellaçao do Sr. Aleucar, repuUi a série de invecti- 
vas, falsidades e calumaias, que ( de logar onde me 
uao era possível dar-lhe resposta, aliás o mo ousaria) 
imaginou derramar .-lobre mim, se é certa a iatençao 
que g:eraImeDle se lhe altribue. 

Eutre essas amenidades, disltnguiram-seas seg:uiri- 
tes: X — Não dou a menor imporlancia a esses escriptos, 
nem a seu auctor. — « Rabulices litterarias, de que 
lenho nojo » — Esse estrangeiro acoompanhou a dis- 
cussão como acolyto w — « . o seu iusulso arauzel n — 
suisso da penna » — « cavalleiro de injuria, para pagai* 
arj qual se despeja:u tis coffres públicos » — « aventu- 
reiro )) — «pertende surg-ir do despréso publico em que 
caiu. n — «Os meus adversários [ mercê de Deus j nSo 
sao d'aquella urdem. » — «O Presidente do Coaselho 
abriu-lhe o Tbesouro, que oHtr'ora se lhe fechou, n 
— II Hade prestar a outros, e por erjual vazão, o mesmo 
serviço que ora está prestando, ii — " Penna mercená- 
ria, n — « Assalariado » etc. etc. 

Está o extracto feito com lealdade, e condensado por 
tal arte que a injuria omDÍmodae.-iguicha que nem agua 
da fonte de compressfio^ Estimo, estimo: e se novamente 
desenrolo o sudário, é porque me pesaria que ulguem 
desconhecesse o inqualificável e ferino das provoca- 
ções com que correspondeu ás maiores provas de cor- 
tezia e deferência, quem fugiu do terreno para onde 
chamara. Eu que almejo por tratar cora respeito ti 
todo o género humano, para merecer tratamento egual, 
uao quizera se desconhecesse um momento a força 
maior, que rae constrangeu a mudnr de linguagem 
para com quem gratuitamente me vilipendiava e ca- 
íiimniava. Ha homens, que é preciso pôr no seu lugar. 
Declarei pois, desde logo, que levantava a luva, com 
a differença de que uao pagaria injuria com injuria, e 
mil vezes menos calumnia com calumnia; que agrade- 
cia a rudeza com que se saltava por sobre tDdaa as 
considerações, auclorizaiido-me a saltar por sobre al- 
gumas ; que parem aj .ivstema adverso de invenEor 
factos deshonrosod, corresponderia com o systema ju- 
rídico de allegar e provar. 

Curvei-me ante a condemnaçfto da mínha intelligea- 
cia, mas nao ante a da rainha probidade, fsao appeliei 
da sentença, que m^ giroclamava rábula litterario, es- 
Irangeirj acolyto, auctor à.i aranzeis insulsos, e digno 
do dcspi'i3so (io chauceller das ri;p«taç<les. Tudo isso 



XII 13 

sao apreciações intellectuaes, em que S. Ex. pode ou 
nflo ssr acompanhado pela opiniaof acceito tudo das 
dadivosas mãos de S. Ex., inclusive o diploma de 
parvo. 

Agora, o que nHo acceitei com egual humildade, foi 
o restante autem genuit de accusações de facto, d'aquel- 
las que, uma vez proferidas, ou deshonram o accusado 
com o stygma de miserável, ou o accusador com o fer- 
rete de calumniador. Declarei eu immediatamente que 
convidava o arrenegado orador a despir-se das suas 
í elásticas ) immunidades, a repetir as mesmas argui- 
ções pela imprensa, protestando-lhe eu habilital-o no 
mesmo dia a dcsmascarar-rae, provando nao todas, mas 
uma única das suas increpaçOes de mercenário^ assalor- 
riado^ cavalleiro dHiyuria, s7iisso da penna para quem 
se despejam os coffres públicos^ a quem o Thesouro ou- 
Ir ora se fechou e se abrnn arjora etc. etc. Que nome me- 
rece quem vem à praça com linguagem d'estas, e con- 
vidado pela sua victima a justificar as suas palavras, 
treme de repetir f^ora responsabilidade aquillo que sem 
responsabilidade barateia? 

Se me não posso lisonjear de gabar-lhe outras qua- 
lidarlos, ao menos a da prudência merece os meos prol- 
façrt.s. R*íalmente faz muito bem, porque a invenção 
foi triste, porque só a immunidade parlamentar (?) a 
tornou impune, e porque, barafustasse o accusador 
quanto quizesse, nunca acharia um pretexto sequer 
para as suas ousadas asserções. 

Se S. Ex.* quizesse dar-se ao incommodo de occupar 
os seus espias, e se elles o nao illudissem, dir-lhe-hiam, 
de Cincinnato, ou de quem quer que neste nome se 
chrismasse, o seguinte : 

— E' falso que cUe seja, nem jamais fosse, assala- 
riado por ninguém, nem noBrazil, nem em parte al- 
guma, do mundo. Nunca poz a sua penna ( de ouro, 
ou de chumbo, isso não é o caso) á disposiç&o senão das 
suas convicções. Tem pejado os prelos com dezenas de 
volumes, impressos sempre á sua custa, ou de seus edi- 
torei. Tem superintendido a redacção de 7 folhas perió- 
dicas, durante largos annos ; tem sido escriptos seus 
accolhidos em mais de 30 jornaes, allemSes, francezes, 
portuguezes, brazileiros, sem que jamais recebesse es- 
tipendio algum por estas col laborações, e sendo pro- 
priedade sua as folhas que superintendeu. Doeste cons- 
tante procedimento em nada destoa o recente: ninguém 



i4 XII 

lhe offereceu, niaguem lhe ousaria offerer^M' espécie 
alguma de remugieraçao por seus pobres escriptos, jà 
pelo cavalheirismo inconcusso de quem taes offereci- 
mentcs houvesse podido verificar, já pela certeza pré- 
via de que bastaria o mínimo vislumbre que a tal pro- 
posta se assimilhasse, para o fazer não molhar a penna 
em tinta, mas quebral-a. 

E mais lhe diriam os mexeri^^ueiros : 

— E' egualmente falso o tal escaucaramento do The- 
souro, pois, após as mais minuciosas pesquisas, achá- 
mos, que Cincinnato nunca directa ou indirectamente 
d'alli recebeu um ceitil, que nao proviesse de poderes 
conferidos por credores que o eram por leis ou senten- 
ças; que ha muitos annos e até hoje, nem mesmo nestas 
legitimas qualidades tem levantado nada ; e que final- 
mente nao tem lá, nem por si, nem por procuração de 
terceiro, requisição ou pertençao de espécie alguma. 

Parece ser tudo isto assaz positivo, e que um dos 
dous falta á verdade ; qual será? 

Sem applicaçao, e só coma pratica entre nós ambos, 
dir-te-hei que em algumas de minhas recentes leituras, 
impressionaram-me certos estudos retrospectivos. As- 
sim li eu que no tempo dos imperadores romanos, já 
quando se considerava extincta toda a vida publica, o 
famoso direito de accusaçRo privada deu origem aos 
abusos mais odiosos, e o papel de accusador tornou-se, 
sob o nome de delação, tão lucrativo como infame. 
« V.yt isso, uma das mais bellas creações do génio mo- 
derno ( diz a Noxm Encyclopedia) é indubitavelmente a 
instituição de um ministério publico, orgam da lei e 
representante da sociedade, substituindo as accusações 
particulares, eivadas geralmente de sentimentos ranco- 
rosos ou de interesses egoistas. » 

Depois de affirmar que a obrigação do denunciante» 
é dirigir-se abertamente á justiça, e appresentar-lhe as 
provas de suas asserções, Montesquieu chama bem a 
attençao para este memorável uso : « Em Roma, o ac- 
cusador injnslo era notado de infâmia. » 

Nós cá, se já tivemos na lei a marca L para certos 
casos, nunca tivemos a marca C para calumniadores ; 
mas se é certo que hoje nos parlamentos reside seu quê 
de soberania, e tanto que os Deputados sao Augustos^ 
e tem o rei na barriga, lembrar-te-hei que a nossa or- 



XII 15 

denaçao nao era tao imprevidente como isso, pois no 
L. V. tit. 10, alli diz o competente Augusto : « Man- 
damos que toda a pessoa que nos vier dizer mentira, 
em prejuizo de alguma parte, seja degradado 2 annos, 
e pague 20 cruzados para a parte em cujo prejuizo nos 
assim disse a mentira, e mais ficará em arbitrío do 
julgador dar-lhe mór pena, e julgar á parte sua inju- 
ria, se for caso d'injuria. » 

Graças a Deus, que as luzes do século, a liberdade 
da lingua, a inviolabilidade dos inventores, as con- 
veniências sociaes, e o monde marche^ tudo isso subs- ' 
tituiu o eterno direito pelo direito novo ; e d'estar'te as 
sociedades marcharão avante por uma estrada real ; 
se uâo for a da civilisaçao, será a de Pantana ! 

Paro aqui. Logo terei occasiao de, estupefacto, per" 
guntar-te quem é a bocca d'onde saíram taes accusa" 
•ções...! por hoje nao compliquemos. 

Teu dedicado 

ClNCINNATO. 



"Epigraramas e madrigaes, originaes ou imitados 



Dua troca 



Eu mandei-te uns pobres versos ; 
( Tiveste a bilha de leite ). 
Mandas-me um presente esplendido. 
( Graças & bilha d' azeite I ) 



Jk. uma moça, qu.o sotore a sua otlad.e, mento sempro 

« — Quantos annos fazes, Ânna, 
neste'dia afortunado ? » 
«' — Dezoito.» — « O que! Vinte e cinco 
fizeste o anno passado. » 



16 XII 

(( — Quantos ânuos fazes, Anna ^ » 
ft — Este é o vigessimo quinto. » 
« — Dizes sempre isso ha dez annos !» 
« — Pois ahi vê que nao minto.» 

« — Quantos annos fazes, Anna ? 

« — Hoje faço dezesepte. » 

« — Nao me admira, não me admira; 

essa continha promette. 

Fizeste vinte, ha dous annos; 

no passado, menos um; 

indo assim... em poucos annos, 

.nao fazes anno nenhum. » 

Zero. 



Ao ou-vir-se que a IRA.OE:>i A ia sor trasladaOi 

a Italiano. 



Là vao verter a Iracema 
em grego, e latim, e inglez. 
Se eu fosse o auctor do poema, 
vertia- o em portuguez. 

Themislocles^ 



Typ. e Lith.^IMPARCIAL— Rua Sete de Setembro, 146. 



QUESTÕES DO DIA 



isr.. 13 



RIO DE JANEIRO 12 DE OCTUBRO DE 1871. 



Veode-se %m casa dos Srs. E. & H. Laemmert. — Praça da Constituição, 
Loja do canto.— Livraria Académica, Rua de S. José n. 119 — Largo do 
Paço n. C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 

rrendeneias desor^ganisadox^as 

O que a constituição regulou sobre a existência po- 
litica da sociedade brasileira assenta om tao solidas 
bases de verdadeira sabedoria, que, alliando no interior 
a ordem e a liberdade, serve de exemplo, attrahe aat- 
tençao, e o respeito dos povos estranhos. 

No entanto ha um circulo de innovadores, que, 
apresentando, com deturpação clamorosa da verdade, 
este paiz em lucta incessante com a influencia de um 
elemento desorganisador da liberdade politica, pre- 
tende, com insistência, inocular no espirito do povo 
principios erróneos, e .subversivos da monarchia re- 
presentativa. 

As idéas republicanas estão desde muito desaccredi- 
tadas no Brazii ; e nao será hoje que conseguirão fazer 
fortuna ; porque hoje, mais que em tempo algum, o 
prestígio da monarchia, como foi pautada pela nossa 
constituição, acha-se justamente firmado na pessoa do 
actual imperante, e na augusta familia, cujas virtudas 
o Brazii admira. 

As idéas republicanas foram já vencidas pelos prin- 
cipios suos da nossa forma de governo, quando preten- 
deram os seus coriphêos irapol-as com a denominada 
reimbíica do Equador em 1824, com a sabinada na Ba- 
hia, em 1837, e com a republiqueta de Piratinim, nos 
primeiros annos do actual reinado. 

As idéas republicanas cahíram em justo descrédito 
com esses e outros movimentos políticos, em que sempre 
triumphou a ordem constitucional da monarchia repre- 
sentativa. Hoje essas idéas pretendem rehabilitar-se. 



2 XIII 

tendo por apóstolos um ou outro liberal histórico, al- 
guns descontentes e insofeidos ambiciosos de mais re- 
cente data, e jovens sonfiadores em quem queremos» 
suppôr boa fe. 

E, cumpre dizer, o que lhes deu animo para essa 
tentativa de hoje, na imprensa, foi o despeito de alguns 
dos nossos homens politicos, a quem, por sua posição 
na sociedade, corria imperioso dever de serem sempre 
comedidos nos seus meios de opposiçao, e em suas aspi- 
rações ao governo. 

Temos visto, desgraçadamente, que, sempre que os 
partidos entre nós descem do poder, ou todas as vezes 
que certos homens se vêem burlados em seus cálculos 
politicos, é logo a peasôa do chefe irresponsável da 
nação o alvo certo de aggressOes ou insinuações mais 
ou menos manifestas, com o fim de fazel-o passar como 
exercendo no governo influencia indébita, e perni- 
ciosa !... 

Temos visto, mesmo no seio das camarás, serem 
enunciadas, e repetidas, proposições n'esse sentido !... 
Deplorável desabafo I grande erro !... 

Houve já quem dicesse que no poder moderador es- 
tava consagrado o absolutismo!... E dizia-o em voz 
accentuada, mas nao exprimindo a verdade constitucio- 
nal, nem a verdade da sua consciência, porque sempre 
dera provas de que a sua consciência politica n'este 
ponto era outra : exprimia somente a paixão, mal ca- 
bida, do momento. 

E mal cabida, porque os homens politicos, altamente 
coUocados, e de reconhecida intelligencia, nao podem, 
sem desconceituar-se, e nao devem, sendo homens de 
ordem, apaixonar-se por modo que appareçam em pu- 
blico, ou pela palavra, ou pela penna, soltando erró- 
neas proposições de tal gravidade. 

Ainda na sessão doeste anno, por occasiao de discu 
tir-se a proposta do governo sobre o elemento servil, 
testimunnámos todos o que se disse no parlamento, o 
que se escreVeu nà imprensa, por parte dos adversários 
da grande providencia, sobre a influencia do supposto 
poder pessoal,.,. 

Tudo isto tem serv do de incentivo, de tempos a esta 
parte, para essa cruzada que se pretende arregimentar 
contra a instituição da monarchia representativa entre 



3 XIII 

nós ; contra essa forma de governo, que nos tem con- 
servado unidos como nação, que nos tem angariado a 
estima e o respeito dos povos civilisadbs; que r.os tem 
dado gloria, como aquella que nos veio dos nossos 
triumphos contra a barbaria do tyranno do Parag-uay, 
que ameaçava subjugar as republicas visinhas, sem- 
pre tao mal reconhecidas dos serviços que de nós 
recebem. , 

Olvidam os partidos entre nós que sao elles que se 
inutilizam, que se gastam depressa, e se inhabuitam 
para continuar no governo, quer por suas discórdias 
intestinas, quer por erros, ou incapacidade, ou des- 
gostos dos seus chefes, desgostos quasi sempre gerados 
por seus próprios partidários. 

A situação politica decaída em 15 de julho de 
1868, bem o sabem os liberaes, e progressistas de 
entSLo, nao foi determinada pelo capricho, pela impo- 
sição da corda, mas sim pela força das circumstancias, 
que actuaram de modo dissolvente no partido liberal. 

Essa situação, como é sabido, e confessado por muitos 
dos principaes chefes que n'ella activamente figura- 
ram, nunca podéra formular programma certo, confes- 
savel, de governo. 

Os chefes liberaes, reunindo-se por mais de uma vez 
para chegarem a um accôrdo n'esse sentido, nao o 
conseguiram. 

D'ahi resultou que alguns se retrahiram, e outros fo- 
ram fazendo politica por sua conta. 

D'ahi resultou nao menos que desde logo a situação 
se viu coUocada em terreno falso; e o fraccionamento 
do partido, composto de elementos dissolventes, tor- 
nou-se manifesto, denominando-se uns /i6e?'ae5 históricos 
e outros progressistas, 

D'ahi a lucta que se tornou encarniçada ao ponto de 
dizerem os históricos^ em pleno parlamento, ser pre- 
ferível a ascensão dos conservadores. 

Chegadas as cousas a este ponto, e quando o presi- 
dente do conselho do gabinete de 3 d*agosto, chefe da 
fracção dissidente, creava, calculadamente, como tudo 
faz crer, uma crise, com o fim duplo, ou de tornar-se 
dominador absoluto da situação, ou cair e dando mate 
aos históricos^ dos quaes se achava completamente di- 
vorciado, a mudança que se operou na politica do 
paiz foi consequente, foi natural. 



4 XIII 

Si logo, no outro dia, &s duas fracções decaídas se 
uniram, em amplexo fraternal, para guerrear a nova 
situação, creada pelo chefe dos progressistas do modo 
mais desasado, foi isso consequência? Não foi antes um 
desconceito para os que assim procederam ? E que im- 
putação justa contra o procedimento da coroa podia 
ser feita pela nova liga, uma vez que a coroa não 
tinha outro alvitre, sinão o que tomou? . 

Os liberaes tinham-se inutilizado para continuarem 
no governo : seus chefes mais illustres, como o Sr. 
Nabuco e outros, tinham estado no ministério, e ha- 
viam-no deixado por desgostos com o partido. E si 
havia o Sr. Theophilo Ottoni para organisar novo mi- 
nistério, não era possivel que fosse bem succedido, 
visto como, sendo histórico^ estava em guerra aberta 
com o Sr. Zacarias, chefe dos progressistas, e por estes 
seria hostilizado. 

E, sendo consultado pelo Imperador o chefe do ga- 
binete demissionário sobre a pessoa que lhe parecia 
mais adequada para, n'essa occasião. ser encarregada 
da organização do novo gabinete, o Sr. Zacarias não 
indicou o Sr. Ottoni; reconheceu que era chegada a vez 
de passar o governo às mãos dos conservadores, e in- 
dicou o Sr. Visconde de Itaborahy. 

Ora, sendo tal facto determinado logicamente péla 
ordem dos successos, si não teve a coroa, sinão aquella 
influencia constitucional que justamente devia exer- 
cer; não podendo haver outra solução possivel; não foi 
um desabafo lamentável, e desleal de partido tudo 
quanto se escreveu então, tudo quanto se disse contra a 
politica pessoal da coroa, no modo porque exercera a 
prerogativa constitucional?.... 

O thema constante dos novos propugnadores dos 
princípios republicanos é a mà influencia do poder pes^ 
soai existente com a mouarchia; e pára isso, ou inven- 
tam factos, ou desfiguram os que se passam, e investem 
contra todos os actos do poder executivo ! 

Si a policia prende os criminosos, é ura abuso r.ívol- 
tante da politica imperial I 

Si se dá o caso de um assassinato, é effeito dapoZtZica 
impe^Hai I 

Si o gov^no apresenta, como apresentou, a proposta 
para abolição do elemento servil, é uma imposição ím- 



XIII 5 

perial; perde todo o merecimento a grandiosa idéa, 
porqne se pôz & sua frente o governo do Imperador! 

£ o mais é que n'isto foram animados por quasi 
todos os que (como j& pouco antes observámos) comba- 
teram a proposta, pertencentes ao partido conservador, 
ou como taes considerados ! 

Oh ! bem perniciosa é a influencia da politica do poder 
pessoal^ que, interpretando sabiamente a opinião pu- 
blica, promove o maior dos bens, que o paiz podia re- 
ceber dos seus legisladores. 

Bem perniciosa, no vosso dizer, é a politica imperial 
que veda o trucidamento dos partidos entre si, como 
auccede nas republicas, que tanto admirais, vós outros 
que pregais o gpverno republicano • 

Pelo regular exercício das attribuições, de que se 
acha investida, a monarchia modera a fúria dos par- 
tidos. Sendo este o governo que consagra placidamente 
o governo das maiorias, nao sendo o Imperador crea- 
lura de um partido, mas chefe vitalicio, e defensor 
perpétuo da nação, nao pode ser sinSo o juiz impar- 
cial, que nas evoluções regulares dos partidos, entrega 
o poder & maioria em condições de governo nas pessoas 
de seus representantes mais auctorizados, seja a maioria 
liberal, seja conservadora. 

Na nossa feliz forma de governo, estas operações fa- 
zem-se por meios naturae^, sem as commoções que 
âoem dar-se nos governos de forma republicana, onde, 
geralmente falando, as maiorias despotizam, porque 
sao sobre maneira intolerantes; o chefe que empunha 
as rédeas do goverao é o chefe do partido que vence, 
tem dividas de partido a pagar : tem paixões a satis- 
fazer. 

A má fé, com que os propugnadores das idéas que 
combatemos querem implantal-as com o descrédito da 
monarchia, e mesmo das qualidades pessoaes do Impe- 
rador como magistrado supremo da nação, essa falta 
de verdade com que apreciam os actos de um governo, 
que só pode querer o bem da nação; e os perigos que 
na sua applicaçao encerram como gove»'no os principios 
itípublicanos, fazem que a opinião pública repilla entre 
nós taes principios; mas, nao obstante o descouceito era 
que sao tidos, não será de mais que os amigos da ordem 
mouarchica os apreciem uma ou outra vez, como agora 
fazemos, no interesse da defeza das boas idéas. 



6 XIII 

Nas condições do Brazil, nSo lhe convém outra forma 
de governo, sinao aquella que possue; porque offerece 
ét liberdade politica os precisos impulsos, como também 
à ordem publica. 

Do que precisamos é de educação politica nos partidos 
militantes; que os cliefes saibam conservar-se na altura 
dos seus deveres; que saibam reconhecer que a lucta 
das opiniões deve ser sempre nas espheras constitucio- 
nal e moral dos partidos, nao se desprestigiando elles 
mesmos com soffregas ambições. 

Nao será sinao com a forma de governo que feliz- 
mente possue, que o Brazil, grande no seu território, 
grande nos seus recursos naturaes inexgotaveis, ha de 
engrandecer-se moral e politicamente entre as nações, 
exercendo tranquillaraente, e com zelo patriótico, seus 
direitos politicos; cultivando e desenvolvendo o tra- 
balho e ás fontes de riqueza; fazendo cada um conveni- 
ente uso.de sua actividade individual. 

JUNIUS. 



OTbras cie Senio— O Oa-ú.olxo 



(Cartas a um amigo). 



VII. 



Meu amigo. 



Acabo de ler o Gaúcho e pergunto á memoria ou ao 
sentimento, si houve no decurso d'essa historieta ras- 
go, que me deixasse duradoura impressão no espirito 

ou no coração. Embalde ! 

• 

Nada, meu amigo ! Nem um lance de mestre em 499 
paginas ! Por mais que se queira, nao se encontra uma 
scena completa, que verdadeiramente commova e ar- 
rebate, ou deixe traços no anima djy leitor que sobrevi- 
vam á leitura. Si tudo nao é pallido e frio, e n'alguma 



XIII 



cousa lia cores e calor, esse calor é incongruente, esse 
colorido é desvairado. 

Sento nao escreve para explorar o sentimento. Preoc-' 
cupado inteiramente com os enfeites, com os arrebiques, 
com as exterioridades de inadmissivel estylo, pouco se 
importa com pintar ou nao a vida. E' de tal ordem o 
dizer deste livro, que, em pre sença d'elle, até se po- 
derá achar mimo na Lucíola, e fluente suavidade no 
Guarany. 

No último livro, que é onde apparece certo movi- 
mento dramático, situações ha que offereceriam ensan- 
chas para um effeito commovedor; entretanto, passam 
frias ou com calor mediocre; o leitor adivinha, compre- 
hende que o lance aspira a força, mas nao o sente ; des- 
nerdiçam-se d'est'arte occasiões solemnes, d'onde uma 
"jenna proporcionada á altura das circumstancias po- 
UTÍa aproveitar mais de um brilhante successo. 

Recuemos ao livro 3". Sabes que Senio encarece aos 
quatro ventos o seu Canho. Forma d*elle idéa agigan- 
tada que se perde nas alturas do zenílh: reputa-o ty- 
po, grandeza cabal — organisação escuiptural e alhlé- 
tica. 

t-m olhetinista comparou o Gaúcho ao « Cid Cam- 

fícador, que se destaca das paginas do livro, à seme- 
hança iqs bustos de mármore nas raaos artisticas de 
Pradier. E a propósito: busto é de certo o Canho, 
isto é um organisação mutilada, amputada, que de 
homem se tem o rosto, e longe está do exprimir a 
energia vaimij em toda a sua inteireza. 

Sao tanth as cousas a dizer que sò um volume bas- 
taria. 

Vejamos co.q acorda aquelle coração « cujo desper- 
tar devia ser ^ilento, uma explosão; cujo amor nasce 
no meio dos coihates sanguinolentos u como nos refere 
o auctor. » 

Entre parenthe.^ ; que combates sanguinolentos são 
esses, no meio d* quaes nos diz Senio ter nascido o 
amor de ManoeH > leitor apenas e difficilmente os 
poderá presuppôr, í^q oue o auctor os tenha pintado 
para fazer vivo, na.pal e grandiosamente original o 
rebentar do affecto. v gaúcho nao era mais que um 
botnheiro , qualidade q% q impedia de empenhar-se em 
lucl * serias ; era um e.^^^ q cq^qq tal o vemos escon- 



8 



J^lLL 



dendo-se no matto, fugindo ao ver troços inimigos, 
conduzindo cartas a Rosas, etc. Onde os combates san- 
guinolentos, no meio dos quaes brotou a pHÍxr.o & Ca- 
tita ? 

Áh ! bem diversa se passou a transição. A paixão re- 
sultou de uma circumstancia accidental para elle — a 
de encontrar a Catita abrigando no regaço uma égua 
agonisante. 

« — -Morta ! — disse elle, precipitando-se. 
« — Nao I — balbiíciou Catita. 

« Os olhos do gaúcho, encontrando os da rapariga, 
nao se desviaram, como outr*ora. Quem elles viram 
n&o era mais a mulher bonita e seductora, e sim um 
coração, que entendia e partilhava sua dôr ; uma alma 
que n'aquelle momento solemne entrava na santa com- 
mimhaode suas affeiçOes. » (Vid. pag. 129 e seguinte. 

Eis ahi como nasceu a paixão do Hercules eunucb, 
do preconisado centauro com coração de pomba-rola 

Depois d'isto elle nao tem o primeiro abraço para^a- 
tita, mas para o alazao. « Só então abraçou o alazo, a 
çwcm na véspera julgara morto. » (pag. 130.) 

No meio d'esse doloroso transe, vem o Luc» cha- 
mal-o, e parte, sem dizer à Catita : Aqui te l?am as 
chaves e Id se foi ouvir, três discursos, um de 
Ortis, outro de Verdun, e o ultimo do furriel > ( pag- 

132.) 

Apresentou, porém, certa duvida para ^o seguir 
03 correligionários, não em attençao à C«^ta, mas á 
morena^ que estava enferma. 

« — Porque razão nao quer você ir c^^^osco, Ma- 
noel ? 

c( —Algum dos senhores abandonaiá- seu irmão e 
seu amigo, quando elle está a expirar "^ 

« — Acima de tudo a pátria ! 

« —Minha pátria é a campanha, ^^^ ^orre meu ca- 
vallo. » 

Nada ainda de grande para co* ^ °i^Ça» nem tam- 
bém para com a pátria, como vês, 

Por fim como houvesse extr/^^^^ » bala da ferida 
da égua, o gaúcho a apertou/ seio o corpo trémulo 
damoça e desappareceu. » 






/ 
/ 



XIII 9 

Eacontrou-a depois montada na égua. 

« — Manoel ! disse Catita. 

<í — ^Viva! balbuciou o gaúcho. » (pag. 145.) 

Foi então que « Manoel colheu a flor dos seus lábios 
mimosos, que soluçaram n'um beijo » Todo entregue 
nos seus cavallos e às suas éguas desde creança, saberia 
acaso o Canho que existia no mundo uma cousa a que 
se chamava — beijo ? 

Soubesse ou nao, eis como despertou aquelle immen- 
so coração. Ainda procuro a explosão e nao acho. Por 
um olhar, por um amplexo, por um beijo principiam 
quasi todas as paíxOes e até as mais comezinhas e tri- 
viaes. O que nos deu, pois, Senio de excepcional e ma- 
gestoso no despertar do amor do Canho ? 

Entramos agora no 4° e ultimo livro. 

Ha duas situações enérgicas neste livro, mas imper- 
feitas: a primeira, quando Manoel volta, creio que para 
casar com a Catita, e a encontra víctima de sua per- 
fídia ; a segunda, quando depois de haver assassinado 
o castelhano, e de o arrojar ao abysmo, dá com a moça 
a fazer -lhe mil protestos. 

Na primeira, lá andou o auctor assim assim; ahi tal- 
vez interesse ao leitor, posto que só empregando a lin- 
guagem do silencio. Ha muito quem seja tido por elo- 
quente e até sábio, por guardar silencio. 

Na segunda, falta o auctor á lógica, deixando o ga- 
úcho tolerar a mulher lançar-se á garupa da morena e 
com ella desapparecer na corrida desesperada pelo de- 
:5erto a dentro. 

Em situação nenhuma o Canho caiu tanto, como 
n'esta, da qual podia ter tirado o auctor o melhor par- 
tido, que ella a isto se prestava. 

íí'aquelle auge, um homem de génio vertiginoso, de 
'•ar^-sTír arrebatado, nlo teria piedade para a mulher, 
que o tr.iliira na primeira, na uiiica excelsa paixão de 
sua vida. Uma ve/2 « abarcando na cai)ei"a da moca as 
longas trancas negras, revoltis pel) sopri) da tempes- 
tade »> devia arreinjssal-a ao abvsmo, <jii le se achava 
o chileno. Tocante verosimilhança havtjriu n*esse as- 
soía i de vingança bravia I 

St:. ih disdeiiiia, p)rém, a naturalidade para favo- 
re tv o romance"! 

\A vai Ciitita correiídj s)b t)los os mil azorragiie^ 



10 XIII 

do parnpeiro, agarrada ao Canho ; e perdem-se amidos 
na immensidade do desconhecido. Vão viver muito- 
bem, talvez, muito felizes nas esplendidas oLscuri- 
dades do deserto. 

Pobre Canho ! 

Ha um typo consequente: é o de Félix, que se suicida 
quando vê escapar-lhe o gaúcho, de quem elle morria 
de ciúmes, por causa da Catita. 

E o pampeiro *? 

Quando conheciamos apenas o primeiro volume da 
obra, censurámos a Senio a descripçâo minguada e ca- 
ricata, que fizera do furacfio do pampa. Agora que, 
no segundo, consagra especialmente um capitulo á pin- 
tura do pampeiro, aprecieiuol-o. 

Desenhando a savana ao pino do meio dia em seu pri- 
meiro volume, abstrahe de toda a creatura animada 
que habita n'essas solidões, e chega a dar a estas a de- 
nominação de pasmo^ de lot^por da natureza. Acha mais 
natural e verosímil surgirem os peixes á flor da agua 
no mar para denunciarem ahi a vida, do que correrem 
e relincharem os cavallos, pastarem as rezes, apparece- 
rem veados e outros animaes, voarem aves no pampa, 
com o fim de deduzir d'ahiuma suppostaimniobilidade 
ou paralysia para a natureza. Tudo por amor de um 
contraste í de mero capricho í 

Em quanto assim faz relativamente, á savana, ve- 
mol-o cahir no excesso opposto fazendo « arreraetr 
terem no pampeiro cem touros selvagens bastava nvi 
para dar idéa da braveza da natureza ) escarvando o 
chão ; sentir-se o convólvulo à^mil serpentes, que es- 
tringem as arvores colossaes e as esiilhaçam silvando 
( que arvores colossaes essas, que as serpentes estilha- 
çam com seu convólvulo l) \ m\eLV a malilha b morder 
o penhasco d- onde arranca lascas da rocha do penhasco 
ou da rocha ? ) como lanhos da carne palpitante das 
víctimas; tombarem os tigres de salto sobre a presa 
com um rugido espantoso; finalmente ouvir-se o ronco 
medonho da sucury braudirdo nos ares a cauda enor- 
me e o frémito das, azas do condor, que me cora hór- 
rido estridulo. » (óptimo esdrúxulo). 

Já Senio tinha dito : « O pampeiro é a maior chólera 
danaturera; o raio, a tromba, o incêndio, a inundação, 
todas essas terríveis convulsões dos elementos nflo pas- 
sam de pequenas iras, comparadas com a sanha ingente 
do cyclone, etc. » 



XIII 11 

Depois de assim pomposamente apregoado o pam- 
peiro como a chólera maior da natureza, ante a qual 
sao pequenas iras as terríveis convulsões dos elementos, 
o que ó que vai constituir a magestade original, a des- 
communal grandeza do phenómeno meteorológico *? O 
arremesso do touro, o aperto da serpente, o uivo do 
cfto, o salto do tigre, o ronco da sucury (ainda serpen- 
te,, as azas do condor. 

Ainda mais : o pampeiro é também a cauda da sucu- 
ry brandindo nos ares! 

E as gargalhadas do raio ? E a alma do Canho a cris- 
par-se'^ E as tempestades fugindo pávidas com medo do 
pampeiro, como um bando de capivaras ouvindo o ber- 
ro da giboia ? ! ! 

« Únicos, no meio d'essa horrivel subversão, aquelle 
homem ( o Canho ) e aquella mulher ( a Catita ) nao se 
apercebiam dos furores da procella. » Estavam cadá- 
veres, nao ha que ver. O Canho nem via os relampa- 
g-os cingindo de uma auréola fulminea o semblante da 
moça ! 

Nao; « dentro de suas almas lhes tumultuava outra 
furiosa tormenta, que as devastava com sanha mais 
terrível que a do raio. » 

Ainda assim não era motivo para se nao aperceberem 
dos furorL . da procella. Daria o auctor mais verdade e 
força ao lance, si fizesse esse homem e essa mulher ti- 
rarem novas energias e novos estimulos da própria 
lucta dos elementos, tendo porém d'ella clara consciên- 
cia. 

Nota-se n^essa descripçao luxo de palavrosidade, 
vigor de phrases retumbantes, cijclones, athletas, gigfi^f^- 
tes, cobras, touros^ tigres, cães, e até demónios, que vem 
do bárathro, porém na verdade muito pouca cousa do 
real desabrido embate dos elementos. 

Depíús de se haver admirado a deácripçao do furacão 
por Audubon, nao pôde ler-se sinao para ficar-se con- 
tristado, mormente si se é brazileiro, a descripçao do 
pampeiro por Senio. 

Meu amigo : nao quero mais alongar-me n'esta fa- 
tigante analyse. 

Amanha dnr-te-hei minha última palavra sobre o 
Gaúcho. 

{fiontinúa) 



12 XIII 

I>u.odeoima eax^ta 

DO ROCEIRO CINCINNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 

Kio de Janeiro, 10 de Octubro de 1311. 

Venerando pé de boi. 

Bons dias, meu velho. Cá volto a bater o pre^o. Queixas- 
te de que eu na minha correspondência tiacte ab kocet ab kac, 
e me nfto concentre mais. Podia responder-te que, se ha culpa 
em mim, 6 no opposto ; mas nilo disputemos. Ja receio parecer 
pefifajoso, nilo clesaferrando de tão seceante matéria : vejamos 
pois, se se acaba, desta feita, com a an%ljse da interpellaç&o. 

Já provei que houve injustiça nas accusações parlamentares 
feitas pelo Sr. Alencar contra quem tomou por um pata-choca, 
contra quem n&o pertencia ao parlamento, e nem mesmo ao ser- 
viço puolico ; agora cumpre deslindar quem seja o marruaz que 
atira estas pedradas de cortiça, sonhando-as de bronze. De lá 
vitupérios, d'aqui argumentos : vós ás duras, eu ás maduras ; 
quem diz o que quer, ouve o que nfto quer, comquanto eu reco- 
nheça que onde elle é sol, nilo passo eu de pirilampo. 

Mas para que me não acoimes de insultuoso, preciso primeiro 
varrer a testada, e deixar assente ja minha opinião sobre duas 
questões prévias. 

Deixa tu gyrar os alcatruzes da nora I 

' l.« E' punivel. na ordem criminal, moral, religiosa, civil, 
ou politica, o abjurar? Eu ponho-lhe muita dúvida. 2." Ha 
crime em ser mercenário ? Também me parece que não. 

Quanto á primeira these, não ha nada mais fidalgo que os 
precedentes históricos : Clóvis, Turenne, Pedro III, Catharina. 
Christina de Suécia, Augusto de Saxonia, os sábios Zacharias 
Werner. conde de Stolberg. Schlegel, Hnller, e tantos outros 
luminares, abjuraram; assim como apostataramo padre Anto- 
nio,Bernardotte, e uma porção de outros tiííurões. Substituindo 
o barrete de clérigo p^la carapuça vermelha, muitos padres re- 
negaram da sua crença no altar da Deusa Razão, que a despeito 
do nome, não gerava senão desarrazoados horrores. 

Não cxcaves muito, porque em geral acharás sempre um 
porquô, muito feio, nestas revira-voltas, de pássaros de bico 
amarello, em cada uma dns (\\v\q^ o apóstata costuma segredar 
a si mesmo a phra-e que Heuritiue IV dice, se é que dice : 
« Com :íOO pip-A^, o rein j do França vale bem uma missa. » 
Entretanto esta> iingicas intelh^etuaos nãi) são raras, nem 
obscuras ; e quando meditadas e n?.o repetidas, podem estas 
abjiiraçúos ser conversões. Resolva-o a consciência, e não o 
fulminem os homens. 

Pelo que toca á segunda these, direi que se hade stygtnatisar 
a alma mercenária, que, nas cousas da vida, (^ue devem ser 



xm 13 

pautadas p^loB princípios da nobreza e dos sentimentos, só 
t^m por pli:t:*ol o egoísmo e o calculo .Mas eu agora, quando 
usar do vocábulo mercenário^ n&o o tomarei senfto na accepçSLo 
do operário que recebe o salário de serviço ; e porque se me 
nio assaque depois intenção injuriosa, transcreverei aauillo, 
da Miicellanea, de Miguel Leit&o de Andrade, dial, 18 pag. 
157 : « Mercê procedeu da palavra mercês latina, que quer aizer 
.falario de serciç.o, ou soldada, por onde dizemos por cortezia 
Vossa Mercê (como quem diz : « Vós, que me poaeis dar sol- 
dada, como meu maior, e eu servir-vos.) » E em rigor, é tanto 
6 mais que senhoria, porque aos reis nossos de Hespanha se 
falou já por Mercê e Senhoria, depois Alteza e Magestade^ etc. » 

Os livros santos, em muitos logares, honram a posiçfto do 
mercenário, como em S. Lucas, quando diz (10) : « Dignns est 
enitn operarius »iercede siía » ; e Tobias ( 4 ) : « Quicumque tih% 
alicia operatus fuerit, staíim ei mercedem restitue, et mercês mer- 
renarti tui omnino apud te non remaneat etc. Houve uma dis- 
tinctissima ordem militar e depois religiosa, fundada por S. 
Pedro Nolasco, accompanhado de S. Raymundo de Penhaforte, 
e de Pedro rei de Ârag&o, denominada dos Mercenários ( com 
voto de trabalhar para a redempção dos captivos, como outros 
o fazem de barafustar por impeSil-a ), Portanto, e pelo mais 
dos autos, e invocados os doutos supprimentos, acceitemos a 
declaração de que a palavra mercenário não é desairosa; agora 
accrescênto : 

— O Sr. José de Alencar, nas varias transformações poli- 
ticas por gue tem passado, teve ao menos uma consistência : a 
de haver sido perennemente mercenário. — 

Se é certo o que me affirmam. tem S. Ex. sido constante- 
mente assoldadado para escrever na imprensa periódica. 

\o tempo em que era liberal exaltado, e protegido dos a 
quem depois virou costas, recebeu o salário dos seus artigos. 

Quando escreveu os folhetins Ao correr da penna^ eram-lhe . 
pagos pelo Correio MercautiL 

O finado José Bernardino de Sá pagou-lhe salário para es- 
crever no Diário do Rio, no principio da sua mutação para con- 
servador, motivada pelas razões que talvez um dia te repita. 

Quando se metamorphoseou. por amor da pátria, em inimigo 
do poder pessoal, que antes bajulara como nenlium aulico até 
então o fizera, e creou o Dezeseis de Julho, d'onde saíram os 
fundos para costear essa publicação ? 

A quem, porque, como, e para que, se fixou a mezada de 
"300$000, além de outros biscatos ? 

Após a 4". mutação, depois que o ultra-conservador começou 
a commungar as idéas e as aspirações republicanas, até que 
oliegou a denominada Ultima phase ( que indubitavelmente não 
será kl f ima ) foi S. Ex. quem pagou os artigos todos, que com- 
poz e fez imprimir? 

Quando alguns cavalheiros da lavoura e do commercio pen- 
saram em crear um jornal, e houve idéa de para elle angariar a 
i*oUaboracão retribuida do prestante escriptor, repeli iu elle o 
pensamento ? 



S^^^^^^-^LJ^J^^^^^^^ 



14 XIII 

Etc. etc. etc. 

N5o sou eu. quem em todos estes, e muitos outros análogos 
factos, imprime stygma, visto como acceito a regra de S. Lucas. 
Quem qualifica os que assim procedem de suissos ua penna, 
mercenários, assalariados e vilõep) quem nfio vê o agreiro no seu 
olho, é o culpado; ora tendo o interpellante, apezar da afilrma- 
tiva do Sr. Presidente do Conselho, de que ninguém fora retri- 
buido pelos seus escriptos, continuado a sua accusaçSo por 
factos muito mais innocentes do que os aqui expostos, queixe- 
se o Sr. Alencar do ferrete que lhe imprime o Sr. Alencar, 
como já teve egual occasião de lamentar a refutação trium- 
phante com que Erasmo o esmagou. Quem tem telhados de 
vidro nâo atira a telhas adamantinas. 

Ha pessoas para quem o dinheiro é a pedra philosophal, o 
desiderandnm, a alma mater ; não pertence Cincinnato a esse 
número. Seccam-se de inveja, quando imaginam que outrem 
pode extrahir alguma vantagem pecuniária d'aquillo de que 
arremataram o monopólio ; os dedos lhes parecem hósx)edes. 
Está-me esfervilhando na ponta da lingua uma correnteza de 
anecdotas harpagonicas, mas deixemos historias de Josés 
Nabos, que não vem ao caso, e voltemos já á interpellação do 
Sr. Conselheiro Alencar. 

Na memorável sessão em que esse senhor, dando por páos e 
por pedras, pretendeu alfinetar-me, foram proferidas por 
elle, em sua admirável parlanda, que promettia— chuva e aeu 
vento, muitas phrases como estas : 

« — Cumpre que o suor do povo, convertido em impostos ex- 
cessivos... » etc. « — ... o povo onerado de impostos iníquos, 
além de onerosos... » etc. t — Aquelles que, apoderando-se do 
governo, pOe ao serviço de suas ambições os recursos que a re- 
presentação nacionaí vota para a gestão dos negócios pu- 
olicos » etc. 

Bravo, facundo orador / Nunca as mãos lhe doam / Dô para 
baixo, dê, nos aue dissipam e esbanjam os rendimentos públi- 
cos, nos que aão má applicação ao suor do povo, nos que es- 
tragam o tempo que a nação paga para ser empregado no ser- 
viço d*ella, nos que encarregam o thesouro nacional de satisfa- 
zer o custo das suas particulares e individuaes questões. 

E' pois de crer que o nobre orador, ao metter-se no tilbury 
para regressar a casa, depois d'esta verrina, terá ido monolo- 
gando o seu essere ó 7ion essere, da seguinte forma : 

« — De inconsequência^, já basta. Palavras sem obras, plu- 
mas ao vento. Uma vez na vida, preciso ser lógico. Levei a 
minha, nobremente, avante. A quem me contrariou pela im- 
prensa, tive a circumspeeção ( ah pés, para que te c^uero T ) 
de nada dizer pela imprensa; mas também agora vinguei-meva- 
lentemente: como na camará lhe não podia ser dada a palavra» 
dcscompul-o á minha vontade. Se alguém o duvidava, agora 
todos ncam sabendo que estou despicado. Certamente : inun- 
da-me o prazer dos deuses; mas resta-me, confesso-o, outra 
dever. 

« O facto de roubar aos trabalhos legislativos uma sessfio 
inteira, só destinada a espalhar os rubis barrocos da minha 



XIII 15 

eloaiiencia atrabiliária, de substituir as ouestões de interesse 
publico pelas do meu poder pessoal ; ae inutilizar muitas 
noras que actualmente, quando no fim da sessSo legislativa, e 
pendentes graves projectos de lei, equivalem a mezes; e de 
mil outras cousas assim, é já consummado e irremediável ; 
mas ha outra consideração, ligada com esta, que eu devo com- 
pensar, quanto possivel.' 

«f Pois que ! Levei 3 horas a bramar contra o máo emprego 
do suor do povo, contra o estrago do tempo que a nacSo paga» 
contra o esbanjamento dos impostos (que não só denominei 
<y»erosoSy mas iníquos .' ), e não vejo eu que. uma sessão da ca- 
mará dos Deputados custa muito dinheiro ao tal suor, aos taes 
estragos, e aos taes impostos iniquos ? Não deve recair sobre 
a minha algibeira a responsabiliaade dos gastos, como sobre a 
minha cabeça a do inutilizar dos trabalhos ? Não fiz eu levantar 
o pano d'este espectáculo só para representar cm meu bene- 
ficio ? Vou dar um exemplo altamente moralizador; vou resti- 
tuir ao thesouro o que lhe fiz despender, em pura perda; ai, o 
«uor do povo / ui, os impostos iniquos/ Vamos ás contas. 

flf Como estudo muito as cousas de dinheiro, compulsei ainda 
hontem o Orçame^ito da Recrita e despeza do Império para o exer- 
cício de 18r72— 73, e ahi vi votadas, a pag. 5 e 6, as quantias 
de Rs. 454:250^000, applicaveis á camará dos Deputados. Ora, 
como geralmente em cada sessão legislativa s^ ha umas 80 
assentadas, custa cada uma ao suor do povo cerca deRs, 
5:6785000, somma de que eu vou pedir guia, para entrar com 
cila na Recebedoria do Município. y> 

No fim da sessão legislativa, é também de crer que, em 
attenção áquellas meritórias disposições de restituição ao cofre 
<los impostos iniquos, S. Ex. examinasse nos seus assentos, ou 
nas actas, ou nas declarações do Jornal, e achasse que em todo 
o anno apenas compareceu na camará, quando devia, umas 27 
veze'? ; e então o venerando Hamleto ou Carlos V do Hernâni 
terá recitado outro monologo monumental : 

— >« Preciso cautela, eu que já me adornei de plumagem de en- 
xertia. Com que direito reprehenderia eu nos outros a apçlicação 
íjue dão honradamente aos dinheiros públicos, se eu, insigne 
jurisconsulto, me locupletasse com a jactura alheia T A nação 
estabeleceu o meu subsidio para eu ao menos comparecer na 
camará. Se eu só lá appareoo quando no meu escriptorio de 
Advocacia não tenho autos para despachar ; se é unica e ex- 
clusivamente porque as partes me dão boa maquia, que eu 
desamparo o serviço publico ; se eu recebo a um carrilho, e as 
«ccumulações estão prohibidas ; vou também repor tudo quanto 
«Tida e indevidamente recebi do suor do povo, e dos impostos 
iniauos. A conta é fácil : pelos 120 dias dos 4 mezes manda a 
Ui dar, e eu recebi Rs. 2:400jJ000; ora eu só adquiri jus a 27 
dias, logo estou em debito de mais Rs. 1:511$112 ; e não seria 
senão nm declamador, um Frei Thomaz, se, commiserando-me 
do suor do povo estragado por outros, me comprouvesse eu em 
n mim propno, e abusivamente, e pospondo o serviço desse 
povo aos meus lucros particulares, me alimentasse do apontado 
fiuor. 

Creio piamente que assim terá succedido, e que na publica- 



16 Xlli 

ç5o próxima da Receita da Recebedoria do Municimo, admira- 
remos esta moralizadora e lógica verba de Rs. 7:189j|ll2, entre- 
gues pelo Catoniano interpellante. 

Acabemos com a interpellaçfio, de que se pode dizer, o que- 
Voltaire respondeu, depois de oíivir certa oraçio fúnebre: 

« — Como a achou ? 

« — Como a espada de Carlos Magno. 

« — Em ser o que ? 

c — Longa e chata. » 

Imaginou sem duvida o ílammispiranté orador que me tinha^ 
enguhdo; e ha quem diga que, nos seus raptos e transportes,, 
de mostarda ao nariz, julgando que me via a mim, ao encarar 
entSo um dos seus admiradores (porque emâm eu sempre reco- 
nheço que estou a jogar o whist com perna de páo ), essa vista 
lhe "produzia uns efieitos hydrophobicos, ou lembrava Salvini 
ao encarar o Hervondillo da tragedia famosa que o Goethe es- 
tudou no seu Wilhelm Meister, Se os tregeitos, de que as inno- 
eentes aspiracOes a invectiva eram accompanhados, vinham 
oom sobrescripto a mim, nfto occulto que um eíleito, sim, me 
excitaram : de riso e de compaixão. Toctavia, ja que repeti um^ 
dialogo, vá outro. Tendo um poeta mostrado a um critico certa 
ode sua A' Posteridade^ e perguntando-lhe, com philauciosa 
modéstia, o que achava, respondeu-lhe este : 

« — Acho que não chega ao seu destino. » 

Outro tanto desejarei eu que nfto succeda á presente, com 
que remato a appreciação da catilinaria que me dispara a 

Í)henix dos oradores, que já na tua opinião vai trepando de 
)ispo a moleiro. 

Adeus, meu velho. Trago uns callos, que é ver as estrellas. 

Teu velho amigo 

ClNCINNATO. 



Typ. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sete de Setembro, 146. 



QUESTÕES DO DIA 



N. 14= 



RIO DE JANEIRO 15 DE OCTUBRO DE 1871. 



Vende-se «m casa dos Srs E. & H. Laemmert. — Praça da Constituição, 
Loja do caDto. — Livraria Académica, Rua de S. José d. 119 — Largo do 
Paço n. C. — Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis 

A política especuiativa. 

As doctríaas insidiosas de uma politica aspecula- 
tiva» que, com iosisteate coatradicção da verdade dos 
factos, c com uma theoria perniciosa á ordem poli- 
tica existenie, pretendem impor-se, não podem convir à 
nação brazileira: a nação as repelle. 

Possuimos uma constituição tão liberal, baseada em 
prin<*ipios tão salutares de governo, que é, de todo, 
adequada & satisfacção das mais razoáveis, das mais 
justas aspirações de um povo, que vê consagrado, 
em seu código fundamental, o governo do paiz pelo 
paiz. 

Sim. porque o chefe supremo do Estado, no ex3rcicio 
de suas elevadas funcções, não governa por si, mas 
st5gundo a ordem dos principios políticos, que o facto 
social estabeleceu; e no modo, pelo qual se acham dis- 
tribuídos os poderes, ha tão perfeita harmonia no gyro 
da niàchina governativa, em suas funcções naturaes, 
que não pôde haver embate fatal á causa da liberdade, 
desde que o direito de livre exame e de franca discus- 
são é amançado na tribuna e na im prensa. 

E que o é entre nós, não se pôde duvida:*. O paiz é 
testímunha doesta grande verdade; tem as provas mai*^ 
patentes de que possue em toda a sua plenitude, e 
ainda além de seos verdadeiros ligiite^, tão precioso 
direito. 

A aurtoridade pública Lão exorbitaria; e ao contrario 
se manteria no exercício legítimo de seos deveres, se, 
com a lei na mão, obstasse ao vicioso uso, que da liber- 
dade de imprensa fazem aquelles que propalam, e pre- 



2 XIV 

tendem incutir no animo do povo, princípios contrários 
á razão constitucional da nossa organização politica. 

Mas o governo vê com sobranceria, e perfeita con- 
fiança no bom senso público, esses condemnaveis ten- 
tames de espíritos, que se transviam por paixões polí- 
ticas incontinentes, que uao querem, ou nâo sabem, 
medir o abysmo a que arrastariam o paiz, se trium- 
pbassem as suas idéas. 

O Dodêr tem seos attractivos, suas seducçOes ; mas 
egualmente os seos desgostos, suas asperezas, seos es- 
pinhos. 

Os partidos só o visam pela face dos encantos, quando 
o cubicam; esquecem-se, ou fogem de consideral-o com 
os seos escabrosos deveres, com as suas angústias ! 

E' sempre a eterna contradicçao do espírito humano 
entre os desejos, quando almeja por satisfazel-os, e a 
justa apreciação dos prós e dos contras, no implemento 
de taes desejos. 

Assim vemos, de contínuo, em sua lucta, os partidos 
políticos mais exaltados, mais impacientes do poder, 
ferindo, sem escolha de armas, os adversários, que sao 
governo, sem reflectirem que as dores causadas lhes 
serão retribuídas, quando conseguirem subir ao poder. 

Nos governos de instituições liberaes, a lucta entre os 
partidos é natural; nasce do systema; é mesmo indis- 
pensável, para que a auctoridade administrativa tenha 
salutar correctivo no exercício de sua missão. 

E' isto geralmente reconhecido ; não pretendemos 
dizer cousa nova; mas, se é da índole do systema a 
opposição mais ou menos vigorosa, não o é a opposiçao, 
que se torna radical ao poncto de pretender substituíra 
fórma política do governo existente, calumniando-a, 
desfigurando-a, por outra fórma de governo, fundada 
em princípios perigosos. 

Não é dos modernos séculos, mas sim desde os tampos 
remotos da antiguidade, a pesquiza, o estudo dos ho- 
mens políticos, dos philósophos, e dos sábios sobre a 
fórma de governo mais consentânea com o bem-estar 
dos povos; e o qut até hoje parece averiguado é que o 
melhor governo é aquelle em que a existência política, 
isto é, a liberdade do homem social, é mais garantida, 
de harmonia com o seo bem-estar na ordem e desin- 
volvimento moral, e condições económicas, em relaçílo 
aos meios de prover á sua subsistência. 



XIV 3 

Os experimentos, no sentido em que tractâmos este 
poncto, foram bem longos e dolorosos em alguns povos; 
tem sMo, e continuam a sel-o entre outros ; mas, nesta 
lucta secular, nao ficou ainda decidido, nem decidido 
será jamais, que a república seja o regimen mais feliz 
dos povos; antes, sim, o que prova a história, nos anti- 
gos tempos, o que attestam os exemplos contemporâ- 
neos, os da actualidade no mundo christao, isto é, no 
mundo civiliaado, é, quanto ao passado, que o go- 
verno republicano nunca conseguiu perpetuar-se, quer 
em suas verdadeiras formas democráticas, quer em 
suas formas mais ou menos aristocráticas; e, quanto 
ao presente, que é um governo sempre agitado, e em 
muitos casos oppressor, e subjeito às empalmaçoes do 
mais astuto, ou do mais audaz e menos escrupuloso, e 
do mais forte. 

As índoles dos povos nao sao as mesmas; seos costu- 
mes, seos hábitos variam segundo os climas, nas diffe- 
rentes raças, em que se divide a humanidade; e, assim, 
o governo que se coaduna a um povo, pôde, como 
attestam os exemplos do mnndo, nao convir a outro- 

Tem-se accusado as monarchias, mesmo as limitadas, 
ou mixtas, como a nossa, da influencia indébita da 
coroa no governo do Estado; e, entre nós, tem-se tor- 
nado esta accusaçao um thema obrigado, da parte de 
certos políticos, quando em opposição] a phrase consa- 
grada é — governo pessoal. 

Mas, onde o governo ou poder pessoal se ostenta com 
maior pujança, do que nas repúblicas? Nestas é sem- 
pre épocha de grande lucta a eleição do presidente, ou 
chefe do governo; e o indivíduo eleito exprime a vic- 
tória de um partido; e este passa a gosar dos principaes 
favores, e das boas graças do chefe vencedor. 

Argumenta-se que ahi o perigo do governo pessoal 
desapparece, ou é menor, porque o chefe da república é 
temporário e responsável por seos actos, e está subjeito 
a ser accusado pelas câmaras; emquanto nas monar- 
chias representativas a irresponsabilidade do monar- 
cha e sua vitaliciedade sao circumstancias permanentes 
para crearem o poder pessoal. 

Os que assim argumentam nao querem, muito de 
propósito, fazer cabedal da responsabilidade dos minis- 
tros, nas monarchias representativas; nem da acção 
efficaz das câmaras legislativas sobre o governo, com- 



4 XIV 

batendo a sua politica na tribuna e nas votações; não 
querem ter em linha de conta a poderosa i^ma da 
imprensa. 

Não querem elles attender a que o monarcha, nas 
condições da nossa constituição, está em posição muito 
sobranceira às rivalidades, e aos inrédos dos partidos, 
dos quaes não é feitura; que o chefe da nação, conhe* 
eido o voto d'esta, não pôde querer siaão marchar de 
accõrdo com esse voto na escolha dos seos ministros, 
e na vereda constitucional. 

Não querem attender a que não se dará o caso,porqae 
não poderá dar-se, de constituir-se entre nós o chefe do 
Estado protector de um partido para esnjagar o outroy 
antes será sempre o seo empenho fazer que se mode- 
rem, que se aproveitem devidamente todas as aptidòas, 
que melhor convenham para os importantes cargcs 
públicos. 

Não querem ainda attender a que uma das vantagens 
políticas, mais characterística da proeminência do go- 
verno monárchico representativo, é a de se operarem as 
mudanças de política,ou suas modifícaçOes, com a subida 
de uns ministros ao poder, e descida de outros, sem 
perturbação da ordem pública. 

Entte nós o chefe do Estado tem sido, felizmente, 
sempre da maior dedicação ao bem-estar da sua pátria. 
Dotado de variadíssima instrucção, e alto tino poli- 
tico, tem, na acção que lhe compete, quer como chefe 
supremo do executivo, quer como poder moderador, 
dado provas exhuberantíssimas de verdadeiro monarcha 
constitucional. 

O Sr. D. Pedro II, que a Europa agora pessoalmente 
conhece, e admira, pelas provas esplêndidas que alli 
tem dado do seo muito elevado mérito, nutre, sem dú- 
vida, grande ambição, mas nobre, patriótica, —a de ser 
o m!iis dedicado servidor do seo paiz. 

Outra qualidade, altamente apreciável no Sr, 
D. Pedro II, é a firmeza de sua vontade na abnegação 
das pompas da realeza, no seo viver habitual: ninguém 
mais lhano, mais communicativo no tracto. 

Tem-se dicto, e com issj tem-se pretendido formar 
um capitulo de censura á sua ingerência indébita dq 
governo, que foi por imposição da sua vontade que a 
proposta para abolição do e^stado servil foi apresentad ^ 



XIV õ 

no parlamento ; que foi, em obediência a essa imposi^ 
cão, que o ministério tanto se esforçou para que fosse, 
como felizmente é hoje, lei do Estado. 

O que sobre isto acreditámos, é que o Imperador e o 
ministério, reconhecendo, com elevado bom senso, que 
-era urgente uma providencia, que determinasse a ex- 
tirpação do cancro da escravidão, confiaram no parla- 
mento, fizeram justiça à opinião pública, e nfto quize- 
ram que tosse addiada tão importante resoluçãos; o mi- 
nistério tomou sobre seos hombros o grande commetti- 
xnento, no qual obteve tão assignalada glória. Segue-se 
de tudo isto, que mais uma vez o Imperador, identifi- 
cando-se com^ a naçPo, mereceu as bênçãos do paiz in- 
teiro, que tem applaudido a lei. 

Por maiores que sejam os esforços de alguns homens 
<le:)peitados, e de um limitado círculo, que se arvorou 
em paladino dos princípios republicanos, não consegui- 
rão desprestigiar, no conceito nacional, a sábia, salu- 
tarissima influencia do Imperador no governo do Es- 
tado. 

Querem, com doctrinas erróneas, precipitar o paiz 
no abysmo da revolução, dissolvendo os laços da união 
das províncias, e reduzindo-nos ás tristíssimas condiçGes 
das repiiblicas nossas conterrâneas, que se dilaceram 
em guerras civis. Pretendem, insensatamente, fazer 
accreditar á nação que será ahi, n'esse chãos, que será 
ahi nas angústias, geradas pela oppressão das ambi- 
ções incarniçadas, disputando o mando, que o paiz se 
innobrecerá; que só nos dolorosos vaivéns do governo 
republicano será livre ! 

Que loucura!.. Nem attendem a que temos deante dos 
olhos as desgraças da França, para aprendermos que 
um povo só será feliz... tendo juízo. 

Junius. 



6 XIV 

Obras de Senlo— O Oaiúiolio 

(Cartai a um amigo), 
Vhl. 



«A 



Meu amigo. 

Viste que o Gaúcho não pôde pretender as honras 
de romance de costumes, fim que aliás visa, mérito de 
que faz alarde. 

Senio nao se parece com John Crevecceur, auctor do 
Agricultor, obra, onde «payzagens, costumes, lingua- 
gem, sentimentos, tudo é essencialmente americano; 
onde nao se encontram somente os objectos, mas tam- 
bém as sensações e as idéas de um paiz recente. » 

Nao se parece com Waíshington Irving, que apezar 
de « dever seo renome à imitação graciosa da littera- 
tura ingleza » apezar de « só para a Inglaterra diri- 
gir seos pensamentos » como a critica o atacasse, pe- 
netrou nas tribus bravias, explorou e estudou as flo- 
restas, os campos, os rios, e deu-nos o seo magestoso 
livro — A planície — [La Prairie.) 

Menos se parece com Fenimore Cooper, como já se 
dice, o auctor do — Ultimo dos Mohicanos -^ohvB, para 
a qual debalde procurarão um parallelo em toda a bi- 
bliotheca de romancistas. » 

Menos ainda se parece com Audubon, que um crítico 
coUoca superior a Buffon, e com o qual a oiais variado 
que Irving, mais colorido e puro que Fenimore 
Cooper se completa o que se pôde chamar a primeira 
épocha litterária dos Estados-Unidos. » P. Chasles. 

Transportemo-nos. 

Senio também se nao parece com Walter Scott, « que 
soube haurir nas fontes da natureza e da verdade um 
género desconhecido; allia á minuciosa exactidão das 
chrónicas a majestosa grandeza da história, e o in- 
teresse instante do romance, génio poderoso e curioso 
que adivinha o passado; pincel verdadeiro que traça 
um retrato fiel por uma sombra confusa, e nos força 
a reconhecer até o que nao vimos; espírito flexível e 
sólido que se impregna do sêllo particular de cada 
século e de cada paiz como cera branda,e conserva es.<ia 



XIV 7 

marca para a posteridade, como bronze indelével. » Y , 
Hugo. 

Nao se parece com Chateaubriand » que deu ás pai- 
xões innocencia que ellas nao comportam ou que nao 
tem sinao uma vez. Em Atala^ as paixOes sao cobertas 
por longos véos brancos. » * 

Nao se parece com B. de Saint Pierre que no seo 
Paulo e Virgínia >> sabe escolher o que ha mais puro 
e opulento na língua; cujo estylo, se assimelha a esse 
famoso metal, que, no incêndio de Corintho, se forma- 
ra da mistura' de todos os outros metaes. » J. Joubert. 

Nao se parece com Balzac, que « toma corpo a corpo 
a sociedade moderna, arranca a todos alguma cousa, 
a uns a illusao, a outros a esperança, a estes um grito, 
àquellés a mascara; que esquadrinha o vício, disseca 
a paixão; que cavae sonda o homem, a alma, o coração, 
as intranhas, o cérebro, o abysmo que cada um pos- 
sue em si mesmo. » V. Hugo. 

Todavia de uma grande obra de Balzac — Le Dernier 
des Chotians — obra que prima « pelo pittoresco, pelo 
cunho dramático, pelos caracteres verdadeiros, pelo 
diálogo feliz » diz Sainte Beuve que «a imitação de 
Walter Scott e de Cooper é evidente, o E a Sainte 
Beuve chama nao sei si Paulo Raynol, que agora bem 
me nao lembro, « eminente juiz das cousas do espí- 
rito ». 

Com quem se parece, pois, Senio no seo Gaúcho — 

5>or ventura arremedo remoto, caricato e illógico do 
lomo e do Ursus, do Homem que ri ? 

Nao seria difficil dizêl-o, mas nao o quero fazer, li- 
mitando-me apenas a dizer com quem penso que Senio 
86 nao parece ; e nao é pouco. 

O que fica fora de toda a dúvida, quanto a mim, é 
que o Gaúcho nao paf sa de uma producçao cachética,de 
que a litteratura brazileira pouco se deverá lisonjear. 

<í Ha duas maneiras de .ser sublime — diz um crítico 
francez : — pelas idéasou pelos sentimentos. No segundo 
estado tem-se palavras de fogo que penetram, que ar- 
rastam. No primeiro não se tem sinao palavras de 
luz, que pouco aquecem, mas que deslumbram. » No 
Gatícho o sentimento é frouxo e frio, a idéa descorada 
c infeliz ; é por isso que o estylo nem deslumbra, nem 
arrasta. 



8 



A.X 



Si estudamos o Gaúcho em seo character hUtóricOj 
tanto peior; é tudo vago, indeciso, maxime insignifi- 
cante. Lendo-o, não se fica tendo uma idéa da revolu- 
ção rio-grandénse. Nao ha um traço vigoroso que se 
deixe demorar no ânimo do leitor. A revolução appa- 
reee, em uma attitude fugaz, fungivel como a sombra 
do quadro — a luz pertence aos cavallos, ou aos ar- 
roubos da imaginação delirante. 

Intendeu Senio que, citando taes e taes nomes, que 
figuraram no movimento, e dizendo que este caminho 
vai ter aJaguarão, aquelle a S. Borja, tinha preen- 
chido e satisfeito a parte histórica da obra. Erro ou 
[Ilusão I 

O espírito do tempo, o cunho varonil e incisivo do 
acontecimento, sua acção moral ou politica, tudo deixa 
addiado para d*aqui a um século talvez a quando jà os 
personagens não se achem tão ligados ainda ao pre- 
sente pelos vínculos das paixões e da família. » 

Que família, que paixões? Pois tem alguma cousa 
que ver com isto o escriptor profundo, consciencioso, o 
crítico justo e severo, que não transige com espécie 
alguma de interesse, e só se dirige a attingir o alvo 
excelso da verdade histórica? Frívola ^aze esta que não 
incobre os defeitos, as nodosidades do arcabouço re- 
pulsivo ! 

Falando de Alexandre Herculano, como romancista" 
histórico, diz um dos bons talentos críticos modernos da 
Península: « Nos romances histórico-nacionaes, nunca 
tanto como alli talvez, se eleva o escriptor a uma idea- 
jisação característica, pessoal, crítica e philosóphica. 

« Em geral fica com Walter Scott na chrónica ro- 
mantizada. E esplendidamente romantizada. A história 
é escrupulosamente tractada: estudam-se a épocha, os 
costumes, as tendências, as ambições, os homens. » 

Fez acaso outro tanto Senio no seu Gaúcho^ para pre- 
tender com razão um logar na ordem dos romancistas 
históricos ? Si acaso se não acha ainda inaugurada no 
paiz a eschóla, não ha de ser de certo a obra de Senio 
que servirá de modelo, tão certo é faltar- lhe a possança 
e a firmeza de acção e de crítica imprescindíveis em tra- 
balhos taes de iniciativa no género. 

Si conchegámos o Gaúcho âs fórmulas geraes da 
plástica, aos preceitos da arte e do bello, ao purismo da 



-XIV 9 

linguag^em castiça, não se ressente elle de menos des- 
lÍ2es com feições de defeitos que difficilmente se po- 
•derão escusar. 

A neologísmomania puUúlae palpita a cada pagina, 
infastia. A titulo de inriquecer-se a língua, já de si 
iAo opulenta, inventam-se vocábulos por mero arbítrio. 
A prevalecer o abuso, quem se intenderá d'aqui a 
pouco ? O direito, a auctoridade que tem Senio para 
introduzir na língua vernácula termos novos ex aucto- 
ritate qnâ scribiíj muitos também o têm; e onde iremos 
parar, si todos esses se Jeixarem dominar pelo mesmo 
'erro e vaidade de inventarem por conta própria ? 

A contar da Diva para cá, justamente a obra que as- 
^ignala o prin^^ipal período de decadência de Senio^ não 
ha trabalho seo que se possa Ier,de recheado, que vem, 
4e quanta innovaçRo lhe occorre fazer, como si isso de- 
nunciasse grande m-i^recimento intellectnnl, e deman- 
<la3se alto esforço e superioridade no escriptor ! De 
um verbo deriva Senio um substantivo; de um vSubs- 
tantivo deriva um verbo — e eis a que se reduz a 
grandiosa procreaçao philológica de Senio. Quem é 
<[ue nao poderia fazer outro tanto, sem, de' mais a 
mais, snppôr ter descoberto a pólvora, ou se julgar . 
çor isso com jus ao respeito e á admiração de pre- 
sentes 8 pósteros 1 

E que razão de necessidade poderia determinar taes 
inn)vaçOes? Por ventura Senio cria idéas tao sublime- 
mente originaes, que nflo incontre na inexgotavel ri- 
3ueza da língua nacional termos, que lhes correspon- 
am e que as exprimam ? Serão essas idéas creanças 
<le septe braços para quem seja mister talhar camisa.-^ 
^e septe mangas ? Não será difficil na verdade deparar 
•era nossas últimas lettras com aleijões de tal ordem. 

Em um caso indisputavelmente seria preciso inven- 
tar uma língua própria : no de querer fazer o homem 
intendido em seus mais recônditos phenómenos psychi- 
•cos pelos cavallos, e de intendel-os elle egualmente ; 
mas então inventem uma língua nova, e não queiram 
aviltar na ínfima funcção a illustre e heróica língua 
dos Barros e dos Vieiras. 

Longe me levaria esta ordem de considerações, e eu 

t<5uho pressa de terminar a série, apezar do muito que 

me fica ainda por dizer. Aguardarei outra occasiã^), em 

*que farei a apreciação da Diva, da Iracíma como ro- 



10 XIV 

mance typico-indiano-brazíleo, e da Pata da Gazella^. 
se antes d'isso nos não der Senio cousa mais nova^ como 
promettem os arautos e passavantes. 

Segundo vès, meo amigo, seja incarado o Gaúcho* 
sob o aspecto, ethnógraphico, ou seja-o sob o esthé- 
tico, ou philológico, urge que os que sinceramente se 
interessam pelo lustre das pátrias lettras façam cruzada 
para que elle nao consiga abrir eschola. 

Discutamol-o entretanto, e a vôo de pássaro, em ter- 
reno diverso, isto é considerado como romance iephan- 
tasia^ segundo te prometti em minha primeira epis- 
tola. 

Nao condemno este género da litteratura romântica. 
O Ha7i rf' Islândia é horrivelmente bello. A Ondinn^ de 
Fouqué, é sublime. Também não deixa de ser interes- 
sante o Diabo côxo^ de Lesage, posto que plágio do Di(^ 
bio cujuelOy de Guevara. E muitos outros, que ahi fazem 
as delicias dos diletianíi da litteratura do impossível e 
do sonho ou da fábula. Nao condemno pois in limine 
o romance de phantasia, 

Parecei\do-me, porém, que o romance tem influencia 
civilizadora ; que moraliza, educa, forma o sentimento 
pelas licções e pelas advertências ; que até certo poncto 
accompanha o theatro em suas vistas de conquista do 
ideal social — prefiro o romance intimo histórico^ de cos- 
tumes^ e até o realista, ainda que este me nflo pareça 
característico dos tempos que correm. 

Em uma palavra prefiro o romance verosimil^ possi- 
vel, quero « o homem juncto das cousas » definição da 
arte por Bacon. 

E é justamente por isso que o Lazarillo de Tormes^ de 
Don Diego H. de Meudoza, exerceu tao considerável 
importância nao só na história política da Hispanha» 
sinão também na história litterária de toda a Europa — 
como diz Viardot. « O pequeno Lazaro de Tormes é umr 
ingeitado, quepaasa de senhor em senhor, que se vinga 
de os ter servido exprobrando-os' desapiedadamente, e 
que, em cada condição nova, faz a crítica amarga de 
una classe da sociedade » E' um monumento em nove- 
capítulos. 

Mas o GaAcho não é um romance de phantasia, nem 
pensa em tal, desde que localiza sua acçRo n'um thea- 
trc; verdadeiro, e n'ella pretende offerecer a photogra- 



XIV 11 

phia dos costumes de uma sociedade conhecida c con- 
temporânea, dando ás pessoas e ás cousas seos próprios 
nomes. 

O Gaúcho pretendia ser de costumes, mas depravou-se 
na aberração. « A pietençao de excessiva novidade 
nao pôde dar em resultado sinao uma triste mistura de 
comedia gruiesca e de grandeza phantdstica^ que se nao 
encontra em livro algum » diz Philarète, apreciando 
as Viagens d' Herman Melville. Dir-se-hia que o pro- 
fundo crítico francez talhou n'estas palavras a carapuça 
de Senio. 

Terei sido acaso ssvero, meu amigo ? Nao, de certo, 
pelo que me parece. 

E' preciso dizer abertamente a Sento que poucos po- 
dem ser Dumas ou Voltaire. A fertilidade proveitosa 
só é partilha dos génios. Non omnia possumus omnes ; 
e a Coryntho nao vai quem quer. 

Os graves incargos de conselheiro do Estado, de po- 
lítico, de advogado, de parlamentar, de opposicionista, 
6 de muitas cousas mais, não permittem aos talentos lit- 
terários produzir sinao abortos, se querem dar creanças 
em menos de nove raezes. 

Quando Senio era simples advogado, e não queria 
campar de philólogo abalizado, politico profundo, nem 
concebera ainda a vaidade de passar espichas nos clás- 
sicos e de arvorar-se em mestre de eschola, tudo ia 
bem. 

Chegando-lhe o tempo para applicar-se ás lettras a- 
menas, compor seos trabalhitos com vagar, corrigil-os, 
à luz do gosto e do bom senso, até onde este lhe che^ 
gava. A prova temol-a nós no Guaraay^ na Viuvinha, e 
no Demónio Fa/niiliar. O têmpora. 

Hoje, porém, como tudo está mudado ! Os elogios 
immoderados apodreceram cedo o talento útil, fazen- 
do-o mfunar-se da presumpçâo de ser génio. Prejuízo 
para a litteratura natal I porque em vez de recolher 
mais duas ou três producçOesinhas, dos quilates da 
Viuvinha ou do Guarany^ temos uma bagagem de vo- 
lumes, que nao valem nem o arroubo dos — Ciiwo mi- 
nutos, 

Metta a mâo em sua consciência, e diga Senio si nao 
temos razão. 



12 XIV 

Mas nada de desacoroçoar. E' ainda occasíão de re- 
cuperar o tempo gasto em pura perda, e reparar o mal 
que tem feito ao seo nome e áis lettras brazileiras. 

Tenho concluído, meo amigo. Pede por mim desculpa 
ao pública, e a Senio que me uâo queira mal. 

FIM. 



O Brazll (Jor^nal.) 

Sob este título começou a publicar-se em Lisboa, na 
dia 25 de agosto passado, um periódico cujo program- 
ma resulta da exposição, que d'elle transcrevemos em 
seguida. Com effeito, os seos três primeiros números, 

Sue temos á vista, occupam-se quasi exclusivamente 
e um noticiário do Brazil em geral, e de cada uma 
das suas províncias, dissertando egualmente sobre as- 
sumptos de interesse para este Império, ou irando no- 
tícias da Europa, que prendem com o desinvolvimento 
do paiz. Jâ pela forma da redacção, jà pelo valor dos 
^escriptos, ou das matérias nelles tractadas, julgámos 
aue serão lidos com attençao os seguintes artigos, qua 
a'aquellas coluranas trasladamos. (*) 

INTRODUCCXO. 

* 

A' iiitrada do ultimo quartel do presente século 
existe incontíistavelmente, por entre muitos e graves 
motivos para lamentos, um facto innegavel, grande- 
mente. consolador; é o espírito de fraternisaçao, que 
de dia para dia se desinvolve, e cresce entre os diver- 
sos povos, e que nem as luctr.s políticas, nem as diffe- 
renças religiosas, nem os passageiros accidenies das 
guerras, hao de já agora supplantar. 

Ninguém, que metta fundo a mao na consciência, 
deixará de sentir em si mesmo esta benéfica, esta auspi- 
ciosa tendência humanitária. E' uma revolução moral 

(*) Nesta corte, sfto correspondentes d'esta folha os Srs. E. 
e H. Laemmert, em cuja cana se tomam assignaturas ()or anno 
a lõjJOOO. por semestre a SjJOOO; e se recebem annúncios, para 
serem publicados no Brazil a 60 rs. por Unha ; tudo dinheiro 
do Império. (Em lAsbôa : Redacção^ António Maria de Castilho ; 
Administração^ Pedro A. d' Almeida.) 



XIV 13 

iniciada pelo Christianiámo. e perfilhada pela philoso- 
pbia, que sao as duas potencias, que sempre, cedo 
ou tarde, conseguem triumphar. 

Que será porém, quando ás razões geraes do senti- 
mento, que leva espontaneamente o homem para os 
homens, accrescem interesses mais (Jefinidos, mais po- 
sitivos, mais palpáveis ? Enião a hospitalidade natu- 
ral corrobora-se ainda com todas as forças do egcismo ; 
é jà o commércio mútuo dos benefícios. 

Das naçOes a que esta ponderação affeiçõa mais par- 
ticularmente a nossa, duas ha, que em primeiro logar 
se apresentam ao espirito : a Hispanha, e o Braz 11. 
Com a Hispanha (Iriua e não sennora) estamos, por 
mútuo accõrdo, estreitando cada vez mais relações 
scientifícas, litterárias, artisticas e commerciaes. Co- 
meçamos a conhecer-nos de parte a parte, e por conse- 
guinte a appreciar-nos, a respeitar-nos, a servir-nos. 
As casas d'estas duas irmãs, agora que se arra/ou o 
muro secular que as separava, hao de de melhorar am- 
bas co:n a pacífica e aprazivel convivência. 

Bem com a irmfl, de quem já nao temos que temer, 
mas tudo que esperar, resta a Portugal outro íntimo ; 
o seo filho emancipado : o Buazil. Um amigo útil ao 
pé da porta, outro amigo nao menos útil a uma dis- 
tancia, de duas mil léguas ainda ha pouco, hoje... 
de alguns dias, graças ao successivo desinvolvimento 
ue as sciencias e as arleá, á hora que lhes foi marca- 
a pelo Progresso (isto é, pela Providencia ; trouxeram 
á mais prompta reaailo, de todas as partes do 
mundo. 

Uma das razões que à Hispanha nos affeiçoam c in- 
contestavelmente a similhança da língua ; essa refor- 
ça-se ainda para com o Brazil ; a língua é uma única 
nos dous povos. Todos sabem quanto contribue para 
nos amarmos, o intendermo-nos. 

Mas nao é só i.sto. As glórias de Portugal são gló- 
rias brdzileiras, porque as nossas origens gloriosas 
sfto idênticas. Nenlium portuguez, ou raro, deixará de 
ter, próximos ou remitos, parentes no Brazil ; nenhum 
brazileiro (e a generalidade dos appellidos que o diga) 
deixará de comptar, remoto ou próximo, algum ou 
muitos parentes em Portugal. 

Mais ainda : uma parte dos habitantes d'aquelle 
Império auspiciosíssimo, de Portugal sai ; em amor 
pátrio se acrisola n'egsas apartadas regiões, e de lá volta 



i 



14 XIV 

quasi sempre ao seo ninho, ao cabo de aunos de tra- 
balhos úteis, galardoado pela fortuna que premeia os . 
seos trabalhos, e trazendo, para até á sepultura, sauda- 
des de uma segunda pátria. 

A colónia d'estes homens, que entre nós vem acabar, 
úteis á nossa terra, depois de o terem sido á terra 
alheia, homens que mereceram, e trazem, e nao rene- 
gam, o título de brazileiros, sem renegarem nem des- 
merecerem o de porUiguezes, é de todas as colónias es- 
trangeiras entre nós a mais numerosa. 

E' para elles especialmente que nós emprehendemos 
esta fólha. 

Cifra-se o nosso empenho na anciã de lhes apresen- 
tarmos sem dilação de dias, como a outras folhas for- 
çadamente acontece, nas primeiras, e quasi á primeira 
hora, todas quantas novidades nas folnas e correspon- 
dências particulares do Brazil podermos receber por 
cada um dos vapores transatlânticos. 

Conio nenhum outro assumpto nos propomos, nem 
admittimos, n'esta publicação, poderemos consagrar a 
elle o muito espaço que ao3 outros periódicos absorvem 
noticias políticas do mundo, as particulares do nosso 
paiz, e mil outras considerações imperiosas. 

O Brazil é pois especialmente destinado a trazer o 
mais cedo e o mais abundantemente que ser possa, as 
novidades de todo o género, que devam interessar a 
todos os que manteem relações, quer de commércio, 
quer de amizade com aquelles nossos bons Irmãos do 
ultramar. 

Nao sao portanto unicamente os muitos que vem ter- 
minar os seos dias por essas províncias, respeitados e 
queridos no torrão do seo nascimento, e os muitíssimos 
Que vem repousar-se das suas lidas no seio e nos gosos 
das nossas cidades principaes, os que esperamos nos aco- 
lham benevolamente; serão tamoem, e principalmente 
os filhos da sempre lembrada terra de Sancta cruz, re- 
sidentes entre nós, os que se hao de comprazer de estar 
vendo passarem-lhes por diante dos olhos do espírito 
quantos acontecimentos de lá constem. 

Dêmos candidamente razão de nós. Obrigamo-nos 
pela boa diligencia no desempenho do nosso encargo ; 
e com as disposições que havemos tomado para apromp- 
ta obtenção de jornaes e correspondentes, curiosos e 
fidedignos, esperámos que este papel, de paquete para 
paquete, irá crescendo de importância. 



XIV 15 

O Bx*azil littej?a]?io. 

Sabe a Europa como é esplendida a natureza no con- 
tinente americano ; como alli se eleva imponente a 
palmeira majestosa ; como o cipó se inlaça vaidoso por 
entre as mangueiras e as mil copadas árvores das 
mattas virgens do Brazil ; como os colibris gorgeiam 
por entre aquella riqueza de vegetação; que pittorescos 
sao os seos vales; que panoramas immensos se desin- 
rolam do alto das suas collinas; sabe, finalmente, como 
a Providencia foi pródiga de todas as bellezas, do Ama- 
zonas ao Paraguay. 

Sabe a Europa quão sincero é alli o amor aos que 
trabalham: com que hospitalidade sao recebidos os que 
v5o em* busca de uma nova familia e de uma nova 
pátria ; com que boa fé e confiança vai até ao seio das 
famílias o homem de bem, nobre, ou plebêo, rico ou 
pobre; com que alegria é olhada a prosperidade de 
extranhos; sabe, também, finalmente, como alli se 
premeia a actividade e a honradez. 

Eis o muito que sabe ; eis o que três séculos de expe- 
riência lhe tem provado ; mas ignora ainda muito, e 
tanto, que tem razão para alcunhar de egoísta o paiz 
que a todos se entrega e que de todos é pátria. 

Que é feito da litteratura brazileira ? Onde estão 
os cantores inspirados por tanta belleza ? onde os 
poetas intoando hymnos ante aquella magnificência ? 
onde as lendas das tribus americanas ? 

E o echo só tem alguns nomes a repetir; a medo 
balbucia.... Gonçalves Dias... Magalhães... Casimiro 
de Abreu... Pereira da Silva... poucos mais, e em- 
mudece. 

E cala-se sem ração ! Que egoismo é este "? porque 
haveis vós, poetas e prosadores, tantos que sois já, de 
monopolizar os fructos da vossa inspiração, a quem 
tanto de braços abertos vos quer também ? 

Vai elevar-se agora um monumento a Gonçalves 
Dias, a essa glória brazileira tão invejada de Norte a 
Sul, que, para que todo o Brazil tivesse direito a cha- 
mal-o egualmente seo, se foi sepultar na immensidade 
do Oceano. Pois bem; segui o exemplo, que para se- 
g^uir é : elevae outro monumento que vos não honrará 
menos. Junctae todas as vossas obras; distribui-as pelas 
bibliothecas do velho mundo; nfto as deixeis circums- 
criptas ao vosso império; apresentae-vos e sereis respei- 



16 . XLV 

lados ; provae que, de mãos dadas com o commércio t; 
a agricultura, caminha e progride a litteratura bra- 
zileira. ^ 

Mal vai ao povo que tudo exige do governo, e que* 
entre a indecisão e a indifferença deixa que o tempo 
olvide o nome d^aquelies que bastariam à glória de 
uma nação. Nao sejaes do número d'esses: convencei- 
vos de que nem só o bronze e o mármore resistem á 
acção dos tempos, e de que a história, mais duradoura 
do que aquelles, atravessa impassivel os séculos, senv 
que nem as commoçoes politicas nem os caprichos hu- 
manos a abalem ou destruam. 

Volvei os olhos para o vosso InsiUuto Histórico ^ 
Geográphico^ para essa academia que tem recebido em 
seo seio tantos talentos privilegiados, que teminrique- 
eido a sua bibliotheca com tantas obras notáveis, e 
alli podeis medir as vossas forças. 

Drtspertae! E' azado e de molde o ensejo. Prestae um 
tributo bem merecido e bem digno de Gonçalves 
Dias; e na hora em que a sua província natal vestir aa 
43uasgala« ao descobrir a estatua do immortal cantorbra* 
zileiro,fazei com que, em honra d'esse nom<í, que vistes 
t&o acatado na Europa, ella poss*i conhecer-vos, ava- 
liar-vos e dar-vos o honroso logar que vos compete j& 
na litteratura contemporânea. 



NOTICIÁRIO. 

ELEicao. — Na academia real dasbellas artes foi élei" 
to, pelos artistas iuscriptos como concurrentes & expo'' 
siçao de Madrid, para fazer parte do jury de admissão 
das obras destinadas àquelle certemeu, o sr. Manuel de 
Araújo Porto Alegre, cônsul geral do Brazil em 
Lisboa. 

Foi s. ex.' um dos mais dísti netos cultores e pro~ 
fessores das bellaj artes no Rio de Janeiro, onde gran-* 
geou pelo seo talento uma reputaçílo noiabili^isíma. 



Tjp. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sete de Setembro, 146. 



QUESTÕES DO DIA 

N. 15 

BIO DE JANEIBO 1» DE OCTUBBO DE 1811. 



-Hf. *m usa dos Ses. E. & tí. LaemmpH.— Pri^a ila Consliluifão, 

lo .» rffi rjintn. — Livraria Arademit», Rua deS. Joae r. IV9 — LMigftdo 
pa^ o. C— Rua de Gonçalves Dias d. 79. — Pibí« 200 reis 



Saber do and&nieato que teve a. honrosa idéa, ini- 
ãada D'esta corte, da erecção de tira monumeiítú ao 
ttoatre poeta do Sado, dará satiafecçao a muitos de 
lossoe leitores, ou por terem prestado o seo concurso i 
eftUzaçao do pensamento, ou pela sympathia que 
^ram estan manifestações de veneração à memória de 
uu grande vulto, de que se honrara as lettras do nosso 
idioma, 

Tendo-nos sido confiados varío.s documentos, rela- 
ÍÍT08 a este assumpto, e especialmente a act-a da ultima 
da commissSo central, que n'esta corte funccio- 
noa, obtida a devida veaia, aqui trasladamos o es- 
Mneiat : 

COMWISSXO CBNTBAL DO MONUMENTO A BOCAGE. 

Setíão exlraoráaulria em 4 de junho de 1S71. 

Ae meio dia, preseotettos Srs. Ministro de Portug;*!, 
Coa^elheiro Mathias de Carvalho e Vascoucellos, Osn- 
Mlheiro José Feliciano de Castiilio Barreto e Noronha, 
BarSo de 8. Clemente, Visconde de Sapucahy, Com- 
ntendador Boaventura Gonçalves Roque, Coaselheira 
JoAo C»rdo,-«o de Menezes e Souza, Commendador Ao- 
José da Costa Braga, Quintino Bocayuva, Com- 
mcoidador Agoãtiaho Maria Correia de Sã, Bernardo 
Itooiin^uas da Silva Araújo e Ernesto CTbi-fto — o pri- 
BUiro, a convite especial do Sr. Presiaeate dacom- 
miaBOo Boca^aaa, e os outros membros da mesma; — 
preseatee mais os Srs. Commaadador Padre José Luiz 
d' Almeida Martins, Desembarg:ador Manoel de Freitas 
Travageofi, e Consellieiro Francisco Borges Xavier de 
lembroa da commissfio de Nictheroy — e os Srs. 
daSilvaMelloGuimarftes, Joaquim Maria Ma- 



2 XV 

chado d'A8siz, António José Victorino de Barros, Gui- 
lherme Cândido Bellegarde, Justiniano Augusto de Fa- 
ria, e Dr. José Cândido de Lacerda Coutinho, membros 
conspícuos da grande assembléa do Jubilêo de Bocage; 

O Sr. Conselheiro Castilho, Presidente da commissfto, 
convidou o Sr. Vice-Presidente, Barão de S. Clemente, 
para dirigir os trabalhos que iam inceptar-se. 

O mesmo Sr. Barão abre a sessão. 

Secretários os Srs. Ernesto Cybrao e Quintino Bo- 
cayuva. 

Lê-se uma carta do Sr. Visconde do Rio-Branco, 
declarando que n&o pode comparecer â reunião da 
commissao, de que é membro, porque a outro poncto 
o chamam negócios urgentes do Estado. 

Obtendo a palavra o Sr. Conselheiro Castilho, pro- 
cede á leitura do seo Relatório^ que é do teor se- 
guinte : 

Senhores. 

Reunimo-nos hoje, para que providenciei/s definiti- 
vamente sobre assumpto que com tanta propriedade 
foi commettido ao vosso zelo, quando uma numerosa 
e escolhida assembléa, congregada n'esta corte, vos 
requereu tractasseis dcu^écção de um monumento que 
simbolizasse o respeito tributado pelos homens da 
língua portugueza a um de seos mais primorosos orna- 
mentos, o Sadino Manuel Maria Barbosa du Bocage. 

J& para esse grandioso vulto é chegado o dia da ver- 
dadeira e desprevenida appreciaçao ;jâo nosso julga- 
mento pôde assumir character de justiça recta, de fria 
imparcialidade. Quando nem cinzas restam das paixões 
que incendiaram os contemporâneos do homem grande: 
quando se dissiparam os preconceitos perturbadores do 
espirito ; quando a distancia dos tempos e dos homens 
permitte ficar estranho &s attracçOes do amor cego,e da 
ódio mais cego ainda ; quando o exame auxilia a ver- 
dade; é vindo o dia, fixanse a opinião, e a posteridade 
profere a sua sentença, de que nao ha appellação. 

E então se aquilata o mérito real: os que foram seos 
perseguidores jazem sepultados soba mais pesada das 
lousas, a do esquecimento; o perseguido vive, sobre- 
vive, triumpha. Fará elle o laude póstera. A elle, sim^ 
é licito, o brado : Poateridadej és minha I porque es£» 
posteridade, ente de raz&o em que se fundem e perso- 
nificam séculos ou decennios, povos e homens que se 



.s^gninm, é a (|ue decreta, em derradeira instaucia, 
condemnaçao ou apotheose. 

Quando d'esse julgamentu houver safdo iacólume a 
memória de um beneraérito, e a sociedade reconhecer 
une esse homem se elevou, por dotes excepcionaes, 
muito arima do nivel commum, útil é. para prémio e 
incentivo, se manifestem pura com essa cara memória 
oa testimuuho» de respeito e gratidão. 

Se isto asaira deveria ter .sidu sempre, parece que 
mais activaraeate se deve promover que o aeja hoje, 
«fim Je contrastar a actual tendência, qae faz cora que 
tuats vivamoii para o presente, e para a matéria, e para 
DÓS, que — para o futuro, e para a floria, e para a bu- 
maniilade. Já discutimos se a posteridade é uma reali- 
dade ou um mytho ; paraella trabalhã.mos meuos que 
para o alfaiate, u estofador, o mordomo ; a fama coq- 
yerteti-jítí em mercadoria e officio ; as aspirações nobres 
a&o utopiaíi : as recompensas nacioíia^s, enredos; e as 
rolumnas-VeudOrae de todas as glórias, procuram der- 
rocal-ax, mesmo com o risco de se ficar esmagado pela 
queda dVllas. 

Has os que, como v4s, ainda crêem, trabalham e es- 
peram, continuam na sua missão que é sancta. Para 
BSaes a glória, ti&o se vende nem se compra, ou antes 
B glúria é a moeda com que a humanidade compra o 
Krviço, e o preço que a memória do benemérito cou- 
■seate em receber; amemoríl£í,digo, porque essas recom- 
pensas, para sarem supremas, hão de ser pagas pelos vi- 
T08 aos que já sob a campa os nfio podetn escutar. 

Ua â6 annos que o vulcSo, denominado cérebro de 
Soeage, deixou de arremessar labaredas, e lavas, e 
pedras, e areias leves, que do tudo havia também n'a- 
■queila cratera humana. Nenhum de nós o conheceu: 
é o Ualba. Otho, ou Vitellíu. de quem nem benefício 
wm injúria recebemos; nao pôde ser averbado de sus- 

Píito o nosso tribunal; e aqui repetirei o que jíi dice : 
oje nao estão j ulgando Bocage olhos fanatizados pelo 
pasmo, nem desvairados pela inveja, quasi exclusivos 
]UJze» do seo engenho, omquanto pertenceu á terra. 
FiSne homem nascera eminentemente poeta. Pródiga 
latureza, ao derramar em sua alma torrentes de estro, 
íufaodiu-lhe parte grande da scieacia, que só costuma 
er dominio da arte. Vida aventurosa e estragada in- 
lols o impediram todavia de opulentar iniraitavel- 
Beata as suas producçOes com aquelles toques ma^is- 



1 

4 




4 XV 

tmas.» que sói segreda meditação, estuado, leitura e a^- 

Ílicaçfto. Victima de insanos applaueos, e de mk turba 
e adouf adoces, a elles deveu oa peiores dias da sua 
exialeiMna de homem, os mais ruins impulsos e os maia 
disooràeasons da ena lyrade poeta. Character fogose^e 
indómito, paixões árnã>atadas e omnipotentes, subju- 
garam alma ali&e melancholiea, em que até os maiS' 
doces sentimentos vibravam escabrosos e acerbos. Am- 
bicioso de todos 06 lauréis poéticos, tentou com deee- 
gual fortuna todos os váurios géneros e estylos. Idólatra 
da bannonia métrica, desencantou segredos de inexge- 
tavel melodia, e escravizou a locuç&o, nfto para lhe 
AvsieT^ mas pam cantar-lbe os pensamentos. O idicnia 
dfi GamOes subiu em suas mftos a tal grandeza e majee» 
tade, que nunca houve segundo typo que se lhe equi* 
parasse. Seo extremado gosto o fez ousar uma tente- 
tiva de reacç&o contra o caaçado estylo bucólico. Coo- 
ciso e claro,' metaj^órico mas natural, hyperbólico 
BI48 verdadeiro, as azas da sua imaginação levan- 
tavam o ouvinte & esphera onde reinava. J& em tAo 
verdes annos sem par em diversos géneros de poesia^ 
todos os houvera iliu^trado, se a psurca n&o tivesse eei^ 
tado t&o brilhante e esperançoso fio. Chefs glorioso da 
uma esch(da nacional, teve a dita de Moliére : lançou 
a barra onde ninguém lh'a poude ir buscar. 

Nós, ministros humildes mas fieis da religino da 
arte, ousámos com mfto trómuta chegar o facho á pyra 
do grande morto. D'entre as chammas em que ábrazár 
mos quanto n'elle havia de mortal, vimea levantar-se, 
sob aspecto de cyme, um espírito que logo rasgou vôo 
seguro para osoéos da glória. Napyra se consummou 
a apatheose: desappareceu o homem, e dobrámos o. 
joelho ao humano semi-deus. 

Corria o anno de 186&. Occupava-me eu de corrigir 
e ampliar, para a 2* ediçfto da Lwra/ria Clássica Part^^ 
gueza^ o meo. obscuro mas amplo estudo sobre o inexoe- 
divel improvisador, assumpto entllo de aturada corres- 
pondência com meo irmfto Ajitonio Feliciano de Oaa- 
tilho, um dos mais convicto» admíradopes d'aquelle ^a 
accesos turbilhões aa voz desato. Elle mepondeioa 
que, tomando a nossa geraçllo sobre si solver muita» 
débitos, dos que a precederam, erguendo monumentoa 
aos quaem suas obras nos legaram outros mouumentaa 
mais perennes que o mármore ou o brenze,f6» para da- 
seiar que justiça se fizesse á memória de Boeage,porqua 




ftjtes ftctoâ eepleadidoâ de gTKtidfio nacionsl são honras 
4o presente, recompensas do passado e sementes do 
futuro. 

E eu, qae bem i^tmheço aterra onde ha um quarto 
Je século resido, — que sei que u'eUa acham prorapta- 
iBcute écho iodos oh pensamentos generosos, — que me 
costumei por doce experiência a Mo achar em taes 
>cs80s distiDcçio entre brazíleiros e porttiguezes, — que 
vi que o génio que illuminava o átrio do presente sé- 
■culo brilhara uo lempo em que formávamos uma só 
&imilia.»eRdo conseg-uintti mente glória de uns e outros, • 
— que esse Petrarcha portuguez tinha uma peculiari- j 
daJe pam o Brazil. e era ser neto do vice-almiranta 
íiA du Bocage, famoso por muitas façanhas, entre as 
ijusesi as praticadas na defezn do Rto de Janeiro contra 
jut hostes de Duguay-Trouín, — nao hesitei em consul- 
tar um auditório tao numeroso como illustrado. 

Faxia um feliz acaso que a 15 de septembro de 1865 
fo6*i! o anuiversário secular de Bocage, nascido om 
egaat dia,em 17õã. E por quanto em paizes adeantados 
teu estado em nobre uso celebrar o jiibilèa de homens 
graudes, como succedeu na AUemanha, no dia dos 100 
annoi de Scliiller eim 1859. na Inglaterra no dia dos 
HUtianDos de Shakspeare, em 1864, na Itália em egual 
aono * no dia dos 600 annos de Dante etc julguei que 
em tSo civilisada cidade como esta, sf'ria bemacceita a 
idé» decelebrarmos o jubilêo dograo fidalgo do idioma, , 
do príncipe do improviso, do Anacreoute da lyrica, dõ i 
Pulrarcha do soneto, do Rembrandt do ciúme, do 1 
Kdi-i-nuor da metrificação portugueza. 1 

Gstãan memória de todos a esplendida solemuidads I 
(l*esaa etitbusiastica noite, que tao apuradas penuas | 
4escrf!Vi!ram «m todaa as folhas do Rio de Janeiro, e ' 
nas principaes de Portugal. Se no empyreo se é sensível 
ao auv os homens fazem na terra, terá estremecido dfl 
júbilo a alma de Bocage, tao sedenta do atfecto dos 
«eof, — uao ao ver uma imagem collocadasob um'docel, 
lanieaila. t^ircumdada de flores, bagas douradas, da-J 
mmcos, luzes, lyra ingrinatdada de rosas, fíualmeutél 
aLtnr lythtirgico da religião poética — mna de admirai" 
^uc 800 cavalheiros se con^egasseni para victoriar 
um hemem morto antes de quasi todos elles terem nas- 
cido ; c concordassem unisonos e jubilosas em procla- 
mar e.>MU l]tiado digno de perpétuo respeito da poste-a 
rídade. Alli o mais popular dos nossos escriptoreíi tevf 
msi.t popular das consagrações. 



I 
I 

3 

m 



6 XV 

Resolveu entfto a assembléa se promovesse a erecçaa 
de um singelo monumento a Bocage, na própria terra 
do seo nascimento, Setúbal; e foi, acto continuo, no- 
meada para angariar donativos uma commissfto cen- 
tral, composta indistinctamente de brazileiros e por- 
tuguezes, recaindo a escolha, â excepção de um nome, 
em cavalheiros, por todos os titulos,distinctissimos. 

Cumpre aqni recordar que ao nosso talentoso coUega, 
o Exm. Sr. 1*. secretario Dr. Pedro Luiz Pereira de 
Souza, deveu a commissão um auxilio valiosissimo, 
qual foi o admirável brado de excitaç&o; o sursuni 
corda de um formoso escripto relativo ao monumento, 
escripto a que foi dada a devida ampla publicidade. 

Então se applicou a commissao a desempenhar-se do- 
seo encargo, nao só espalhando listas, mas estabele- 
cendo commissões filiaes em todo o Império, susten- 
tando durante uns 3 aunos uma correspondência que 
representa mais de 500 oflicios recebidos e expedidos, 
e lançando mao de quantos meios occorriam para aug- 
mentar o algarismo da subscrípçao, sendo formuladas e 
mandadas, em todas as direcções, particulares ins- 
trucçOes para boa ordem dos trabalhos. 

Infelizmente a quadra era péssima para similhante 
intento: a guerra do Paraguay nao só fazia escacear 
geralmente os recursos, mas absorvia as attençôes; e, 
observando-se que as sommas agenciadas nâo subiam 
alto, julgou-se mais prudente sobr'estar, aguardando 
melhores tempos. 

Todavia importa reconhecer que achámoe dedicada 
cooperação em muitos honrados cidadãos, que nos auxi- 
liaram. Se é licito particularizar, mencionarei, quanto 
à corte, sem falar em membros da commissao, os ser- 
viços que prestaram nobre e desinteressadamente ( de- 
sinteressadamente, digo, porque desde o principio se 
proclamou que esta empresa, exclusivamente patrió- 
tica, nao daria logar a remuneração alguma nobiliária, 
ou de outra espécie ) os seguintes senhores : — L. C^ 
Furtado Coelho, que com a generosa annuencia da sua 
companhia dramática, nos proporcionou a vantagem de 
dous lucrativos benefícios, um na corte, outro em Nic- 
theroy— o Sr. Joaquim da Silva Mello Guimarães, 
que a si tomou parte grande da direcção do expediente 
e contas, — o Sr. Joaquim Insley Pacheco, que nos con- 
cedeu cem photographias do poeta, que destinávamos % 
principio para oiBFerecer a valiosos auxiliares, etc, Tam- 



XV 

bem concorreram, por si ou por meio de listas de 
subscriptores, com qaantias superiores a 20$ rs. os 
cavalbeiros, cujos nomes se acham indicados na rela- 
ção juncta. 

Egualmente mencionarei vários espontâneos oiBFereci- 
mentos, ainda não utilizados; taes como os dos Srs. pa- 
dre José Joaquim Correia de Almeida, de considerável 
número de exemplares das suas producções; Francisco 
Libório Fernandes, portuguez, residente no Pará, de 
um notável quadro , primorosamente desenhado a 
penna. 

Uma inopinada desgraça annullou porém subita- 
mente os resultados de tantos esforços. O nosso hon- 
rado e infeliz thesoureiro, Sr, José Ricardo Moniz,para 
cujas mãos passavam constantemente todas as sommas, 
apenas por mim recebidas, depositou-as, com venci- 
mento de juros, na casa bancária Portinho á Moniz, 
a qual arrastou na sua fallencia todos os valorescom 
que comptavamos, e tão laboriosamente agenciados. 
Da exposição do nobre thesoureiro resulta que a quan- 
tia a elle entregue, e seos juros subiu a Rs. 8:427s640; 
?ue as despezasj segundo os documentos foram 
•-6928420 e «jue por conseguinte lhe ficaram líquiJos 
Rs. 6:735$220. 

Em relação a esta quantia, o único rateio pago (em 
maio de 1870 ) ao meo procurador, durante a minha 
ausência em Portugal, foi de Rs. 1628000. 

Cumpre porém notar que, excedendo talvez as mi- 
nhas attribuiçOes, deixei de intrar para a thesouraria 
com as duas ultimas verbas por mim recebidas, e que 
já* o foram, quando eram notoriamente tristes as cir- 
cumstancias da casa Portinho & Moniz, e por isso fica- 
ram em meo poder essas duas verbas, a saber: 

Da commissão da Parahyba do Sul, por mão do 
Sr. Dr. Cândido Mendes de Almeida 2008000. 

Da dieta em Nictheroy,por lettra do Sr. José Pereira 
da Silva Porto 1:3838000, prefazendo as três quantias 
por mim guardadas Rs. 1:7458000. 

De conformidade com a minha ordem, foi-me remet- 
tida esta quantia^ em septembro, ao cambio de 184 */o, 
como se vê da 2*. via de lettra juncta, correspondendo 
por tanto em Portugal a somma de minha total res- 
ponsabilidade, em dinheiro forte, a Rs. 6148437. 

Consta-me que mais algumas quantias ha arrecada- 
das, que nem chegaram às mãos do Sr. thesoureiro 



8 XV 

nem ás minhas, sobre as quaes resolvereis o que vos 
approuver. 

Passo agora a confessar mui respeitosamente as ex- 
orbitaneias a (^\xe me abalancei ( sem auctorizaçAo, e 
por isso com risco da vossa censura ), relativamente 
á tarefa que nos fora commettida. 

Estive em Portugal duas vezes depois da nossa or- 
ganização :— em 1866 a 1867,— em 1869 a 1870. 

Da primeira vez procedi a muitos estudos cçm pessoas 
competentes: ainda ent^o eu comptava que podessemos 
dispor de uns Rs. iO:000$000 dinheiro do Brazil; mas 
quando vi um dos principaes esculptores orçar só a 
a estátua, independente de todo o monumento, em 
Rs. 7 a 8:000$000 fortes, esmoreci, e intendi que de- 
víamos esperar melhores dias, quando o Brazil nSlo 
estivesse assoberbado pela guerra, e Portugal por uma 
grande crise pública e particular. Nada tínhamos pois 
enttlo que fazer : nem havia meios para obra de algum 
vulto, nem possibilidade de obtel-os. Entretanto, meo 
irmão e eu quizemos approveitar o tempo para estudar 
a localidade onde o monumento devia ser coUocado, e 
a disposição dos espíritos em Setúbal. Junctos achareis 
diversos números do Jornal de Setúbal, onde apparece 
minuciosamente descripto tudo quanto occorreu na mi- 
nha visita áquella cidade, cumprindo-rae aqui declarar 
que tomei como feitas a todos os cooperadores do pen- 
samento as distincçOes de que alli fui alvo ; e qne da 
parte do Presidente da respectiva Camará Municipal, 
como dos respeitáveis oradores Setúbal enses, foram 

Íior todos os modos manifestados os seos sentimentos 
e gratidão para com os seos irmãos brazileiros e 
portuguezes, residentes neste Império, tanto pela idéa 
em si mesma como pela sua execução. Suscitou-se alli 
por esta occasiao uma variante ao nosso projecto, a 
qual consistia em se applicarem antes os fundos á crea- 
çao de um estabelecimento de ii^trucção, denominado 
Asylo Bocage; mas nao me suppondo eu com faculdade 
de desviaros dinheiros da premeditada applicaç&o;tendo 
uma assembléa de mais de 60 membros resolvido dei- 
xar a solução a nosso arbítrio ; e dirigindo meo irra&o 
uma carta ao Presidente da Camará [ carta que juncta 
achareis impressa, por ordem da mesma Camará ) ; 
permanecemos na primitiva deliberação, quanto á erec- 
ç&o do monumento, quando para isso houvesse meios. 
Creou se em Setúbal uma commissao, dando-se-vos o 



XV 9 

lo^ar de hoara, pois é só nessa qualidade que meo ir- 
mfto e eu tomámos a eleiç&o ( já se yâ que honorária ) 
4l*ell6 para Presidente» e de mim para Vice-Presidente. 
£sta commissao poróm pouco poude angariar, e eu 
«reio ser vossa meate .que ^sse producto lá tenha o 
destino que a cjmmissão local julgar dever dar-lhe. 

No anno de 1869 a 70 porém já eu, por occasião de 
nova viagem a Portugal, sabia que estavam perdidos 
os tundos da subscrípção, excepto a pequena somma 
«zistente em meo poder. Éutao, considerei eu que era 
próprio da commissao eleita dar conta do incargo que 
4U!ceitara — que haviam desapparecido os meios de 
que dispunha — que nao era da nossa dignidade ir, para 
41 mesmo fim, provocar subscripções novas, tendo as 
anteriores tido tão máo êxito — que purém o material e 
m^o de obra em Portugal são bons, e por baixo preço — 
que a pequenhez da terra,e a singeleza do homem cujo 
mérito se commemora, nao demandam ostentosa cons- 
trucção — que o intuito moral se preeiíclie, erigindo-se 
uma modesta columna e estatua — que d*e.ss'arte pode- 
ríamos com pequeno sacrificio, e sem recorrer a subs- 
crípções novas fora dj nosso grémio, levar avante o 
que se nos incumbira. 

Dirigi-me pjis ao Sr. (lermano José de Salle.s, intel- 
ligeuce director de um^i das primeiras officinas de cs- 
culptura de Lisboa, e a quem foi incarregada grande 
parte do trabalho do monumento recem-erigido ao 
immori^alSr. D. Pedro IV o I; e nesse patriótico artista 
achei a mais prompta acquiescencia, declarando-me 
que portal forma abraçava o pensamento que se promp- 
tificava a realizal-o, até com perda. Depois de várias 
conferencias, e coadjuvado pelos meos honrados ami- 
gos, o Sr. conselheiro Francisco de Assiz Rodrigues, 
Director da Academia das Bailas Artes, António da 
Silva TuUio, e conselheiro António José Viale, conser- 
vadores da Bibliotheca Nacional, Dr. António Rodri- 
gues Manitto, Presidentp da Camará Municipal do 
Setúbal, Júlio de Castilho <ítc., concordei definitiva- 
mente no plauD da obra; e depois de feitos os compe- 
tentes desenhos, e dpprovado por todos o modelo da 
pstátua, tal como eu a recommendara, modelo que foi 
obra do esculptor Sr. Pedro Carlos dos Reis, ordenei se 
começassem immediatamente os trabalhos, e eis-ahi o 
excesso de poderes pelo qual vos snpplico, se o raere 
cer, um voto absolutório. 



10 XV 

Aqui vos appresento, Srs., o plano do nosso mo- 
numento a Bocage. £' todo elle feito com aquella 
pedra lioz , extrahida das pedreiras de Pêro Pi- 
nheiro. , que denominam mármore de Lisboa. 

Tem, em proporções menores, alguma similhança 
com o que se erigiu ao Sr. D. Pedro, no Rocio, de- 
Lisboa. Sobre uma escadaria, de quatro degraus, dos 
quaes o primeiro tem 4 m. de largura, sendo a altura 
d'elles de 1 m. 10, ergue-seum pedestal quadrado, que 
da base até á cornija tem 2 m. 40 de alto, 1 m. 50 de^ 
largo ; nos 4 ângulos é chanfrado, e nas 4 frentes- 
ha de levar como inscripções 4 quartetos de Bocage, 
dirigidos — um a Deus — outro á pátria — terceiro aa 
amor — quarto à amizade. Superpõe-se ao pedestal 
uma columna assaz elegante, de ordem corynthia, com 
canelluras ; e medindo o envazamento a altura de* 
O," 60, o fusto 4," 4 de altura e O,*" 66 de diâmetro, 
e o capitei O," 80; nesse capitel, entre as volutas 
e folhas d'acantho estão umas lyras coroadas de rosas. 
Por sobre a columna vê-se um supedâneo com altura der 
O^^ySO ; sobre este uma convexidade como topo de abó- 
bada, e é nessa convexidade que Bocage assenta os pès. 
Está o poeta com a cabeça descoberta, vestido com a 
trajo do tempo, casaca e calção, e unaa capa, manto 
ou capote ; empunha na direita uma penna de ave, 
na esquerda umas folhas de papel ; tem a cabeça leve- 
mente curvada; a altura da estatua é de 2"., e de 
12". (ou cerca de um 3" andar) o total do monumento. 

Tivemos a fortuna de alcançar, para guiar o esta- 
tuário, o melhor e mais fidedigno retrato que existe da 
Sadino, cuja história devo aqui reproduzir: 

Quando publi(juei a 1* edição da Livraria Clássica, 
tinha baldado diligencias em Portugal para descobrir 
um retrato (que D. Gastão Fausto da Camará, o grande 
amigo do poeta, me asseverara ser o único fidedigno), 
executado por Henrique José da Silva, mezes antes, mas 
no mesmo anno, da morte de Bocage. Como havia eu 
de lá desincantal-o, se elle estava no Rio de Janeiro ? 
Henrino ficou com o retrato que tirara, e vindo para 
o Rio, onde foi professor de Bellas-Artes, trouxe-o ; 
por sua morte, passou no espólio a seo filho, porteiro 
do musêo, e depois por morte d'este a siios filhas^ 
nascidas no Brazil. Foi avaliado em 10$000, e por suas 
donas adjudicado, como mimo ao gratuito advogado* 
no inventário, Exm. Dr. Joaquim José Teixeira, que o 
conserva com o apreço devido. Comquanto como obra 



XV 11 

d'arte nao seja um primor, transverbera-lhe no rosto 
uma n&o sei que vaga expressão de verdade e vida, que 
atordoa até aos profanos, e incute convencimento de ser 
este o retrato authéntico. 

J& por ser esta preciosidade pertencente a um cava- 
lheiro que razoavelmente a nao dispensava, jà também 
porque artisticamente está muito incorrecto, obtive do 
referido amigo a concessão de se tirar uma cópia, a 
qual foi confíada a Mr. Moreau, que da tarefa se saiu 
perfeitamente, reproduzindo com a maior fidelidade 
as derradeiras minúcias dos traços phjsionómicos, ma» 
aperfeiçoando notavelmente o incorrecto trabalho, e 
augmentando- lhe consideravelmente as dimensões; 
foi este painel que serviu de modelo ao esculptor. 

A' Gamara Municipal de Setúbal offereci eu deixar- 
lh'o em depósito, declarando-lhe que ficaria proprie- 
dade sua, se esta commissão a isso auctorizasse, o que 
vós decidireis. Provisoriamente, e até vossa resolução, 
determinou aquella corporação que fosse collocado no 
logar de honra do vasto salão das suas conferencias. 

Claro está que, desde que assumi a responsabilidade 
de mandar fazer a obra, subjeitei-me a completar por 
mim a parte do numerário, que acaso] possa vir a 
faltar para a conclusão da obra e seos accessórios, se 
me não absolverdes das minhas usurpações ; ou mesmo 
a satisfazer todo o custo d'ella, se o que está feito não 
merecer a vossa approvação. 

Solliclto pois vossas resoluções sobre os seguintes 
ponctos : 

1'. — E' ou não approvado o que até hoje se tem pra- 
ticado e consta d'este relatório ? 

2*. — Convém incumbir alguém de levar ao cabo a 
empresa, dirigindo o que resta para fazer, e reclamando 
de quem os tiver, os fundos já subscriptos e ainda não 
recolhidos ? 

3^. — Quer a commissão fixar o dia da inauguração, 
e o programma d'essa solemnidade, e nomear iis pes- 
soas qne em Portugal a devem representar ? 

4'*.-— Auctoriza todas as despezas que se julgarem 
convenientes, com o monumento, medalhas, impressos, 
melhoramento da praça, e o mais que parecer acertado, 
com tanto que se não promova nova subscripção para 
fora dos membros da commissão? 

5*. — Precisam estes gastos do successivo consenti- 
mento da commissão, ou ficam desde já auctorizados. 



12 XV 

bastando que, depois de effectuaáoi»^ a ^commisdao se 
congregae pela última vez para o exame das contas? 

B^^.-^Deve dar*se publicidade a alguma cousa? 
ao quê ? 

7». ..-.Cumpre, n'aquelle caso, mandar exemplares 
d^essas publicações aos contribuintes, renovando-llxes q 
agradecimento da coadjuYaçfto ? 

Só tsjte resta reiterar as expressões da minha grati- 
dão aos que me fizeram a honra de consentir que eu me 
associasse aos vossos trabalhos, e a vós mesmos pela 
confiança e benevolência com que vos tendes dignado 
distinguir-me. Se a ellas n&o correspondi, culpe-se-me 
a insuficiência, que n&o certamente a vontade. 

Rio de Janeiro, 3 áe junho de'1871. 

J. F. BK Castilho Babbeto e Noronha. 



Este acto foi interrompido, quasi em principio, pela 
presença do Sr. José Ricardo Moniz, Thesoureiro da 
CommissSlo, o qual declara que só a urgência do caso^ 
e a singularidade da sua posiç&o perante os subscripto- 
res para o Monumento a Bocage, o forçariam a appre- 
seutar-se em público, no dia em que baixava á sepul- 
tura um de seos irm&os : por isso pedia para ser ouvido, 
afim de poder retirar-se. 

Concedida a urgência, o Sr. Moniz leu o seo Rela- 
tório, que é do teor seguinte : 

Senhores. 

Para conhecimento de todos aquelles que tem direito 
de perguntar o que se ha feito dos dinheiros arreca- 
dados para o monumento a Bocage, de cuja commissfto 
fui thesoureiro, apresento o balimço, mostrando dever 
existir em meo poder a quantia áevs. 6:735S290. 

Este algarismo, obtido às migalhas, e pode-se dioér, 
na sua totalidade,devidas ás relações pessoaes do Exm* 
Sr. Conselheiro José Feliciano de Castilho, iniciador 
da idéa, para realização da qual tudo tem sacrifi- 
cado, foi sempre por mira exclusivamente arreca- 
dado, e depositado a juros na casa bancária, da qual 
eu era sócio solidário. 

O fatal desbarato dos negócios d'essa casa, levou- 
me á ruina em que me acho. 

Julgado pelos Tribunaes do paiz, a que me submetti, 
devo aos cavalheiros, que na melhor fé confiaram na 
minha moralidade uma justificação. 



13 

Por mais maliiid^M e vauda que seja, a minha po- 
si^ n'e^te laomeato, consolo-me por ter no meio d^ 
todo o meo descalabro salvado esse mesmo principio 
de moralidade O bom senso reconhece que eu n&u 
podia nem devia preferir outro estabelecimento que 
nAo fdsse o meo, para ser oaixa d^essas quantias que k 
formiga se arrecadavam. 

A legalidade de meo procedei é tao intuitivo que 
toda a reflexão seria uma oanalidade. 

lias porque nao salvastes no meio do vosso naur 

fetigio 08 dinheiros da subscripQfto que se achavam a 
vosso cargo? 

Isso importaria nada mais nem nada menos do que 
salvar-me a mim próprio; e nao seria moral ^ue eu trao- 
tasse de me salvar, sacrificando todos os pnncipios pe- 
los quaes me constitui responsável d'esses mesmos 
dinheiros. 

Um tal proceder seria a negaç&o de meps foros, na 
sociedade que me considerou. 

A moralidade n&o é trapaçaria, e embora o incadear- 
mento de fataes incidentes me prenda a um poste de 
interpretações. equivocas, confio no meo braço, eu» 
minha actividade, para ainda um dia poder solver esse 
débito contrahido pela minha dualidade de Thesour 
rdro e commereiante, fundida na minha própria indi- 
vidualidade 

Nfto posso dar costas ás accusaçOes impertinentes 

nno ultramar se fizeram a propósito d'este malfa- 
o commettimento, ao character doincançavel Sr. 
Conselheiro José Feliciano de Castilho, que eom tanto 
enthusiasmo, e nOo egualada dedicação, se applicou de 
oorpo e alma a traduair em facto a sua nobre idéa, 
pondo ao serviço d*ella o seo afanoso trabalho e o seo 
grande valimento. 

O character d'este distincto cavalheiro, o qual se tem» 
deixado sacrificar até hoje para salvaguardar o meo 
nome, nao {>óde por dmús ten:^ continuar a partilhar 
de uma posição indefinida. 

Segundo deveis saber, os trabalhos da commiisao 
ficaram reduzidos, o adstrictos a elle como Presi- 
dente, e a mim como Tbesoureiro; cabendo a elle toda 
a oorrespondencia, e a mim toda a narteeeonóm^ioa. 
As raias de nossas aoçoes assim estaoeleoidas demap* 
cavam a nossa independência ; e nao é sem grande 
oonfrangimento* que entro n'estas minúcias para nao 



14 XV 

pôr em dúvida a minha total responsabilidade, pois 
considero-me bastante forte para nao corar diante das 
impertinências, que um successo desgraçado pôde fazer 
nascer em espíritos que medem a honra pelo paga- 
mento & vista. 

Nao me acastello atraz das theorias dos factos, e 
nfto chamo em meo soccorro os desbaratos que levaram 
os dinheiros da subscripção pnra o monumento a 
Camões, nem da Caixa de Pedro V, cuja responsabili- 
dade legal e moral das commissoes desappareceu deante 
das considerações de força maior^ porque intendo que 
quando os brios cavalheirosos se acham empenhados, 
as obrigações não prescrevem, nem a responsabilidade 
se divide. 

E' tudo quanto tem a dizer o 

Ex-Thesoureiro 
José' Ricardo Moniz. 

Rio de Janeiro 31 de Maio de 1871. 



 Âssembléa, tendo escutado attentamente as consi- 
derações oraes e escriptas do Sr. Thespureiro, toma 
parte em seo desgosto, e interrompe a sessão durante 
algum tempo. 

Tendo-se retirado o Sr. Moniz, continuam os traba- 
lhos começados, e prosegue a leitura do Relatório do 
Sr. Conselheiro Castilho,fínda a qual o Sr. Conselheiro 
Cardoso de Menezes propõe que se votem os quesitos, 
in finSy do Relatório. 

O Sr. M. de Mello lembra a conveniência de se re- 
lerem as conclusões do mesmo Relatório. 

O Sr. Conselheiro Cardoso de Menezes accrescenta 
que, tendo a leitura sido interrompida, convém talvez 
que o Sr. Conselheiro Castilho faça um resumo do seo 
trabalho, e assim se resolve. 

Terminada a exposição, feita por este senhor, propõe 
o Sr. Commendador Costa Braga, que as conclusões do 
Relatório sejam votadas inglobadamente. Objecta a 
Sr. Couselheiro Castilho que, tractando ellas4e maté- 
rias mui diversas entre si, convém separal-as. 

Entra em discussão o P. quesito a F ou não appro^ 
vado o que até hoje se tem feitOy e consta doeste ReUsc 
tório ? )) Resolve-se pela afirmativa, unanimemente, 
e sem discussão. 

Entra em discussão o 2^. quesito « Convêm mcunibir 



15 

alguém de levar ao cabo a empresa^ dirigindo o que resta 
para fazer: e redamando de quem os tiver ^ os fundos jd 
subscriptos^ e ainda não recolhidos ? » 

O Sr. Costa Braga declara ter em seo poder cerca de 
350SÓOO rs. pertencentes & subscripçao, que reteve até 
iigtira, por conselho das círcamstancias. Outro tanto, e 

Selas mesmas razoes, fez o Sr. Commendador Correia 
e Sà,que declara ter em sua mao cerca de 900$000 rs., 
procedente3 de egual origem. 

A Assembléa agradece a estes senhores, e sob pro- 
posta do Sr. Conselheiro Cardoso de Menezes, resolve 
unanimemente que o Sr. Conselheiro Castilho seja sol- ' 
licitado a levar ao cabo a empresa; e dà^-lhe solemne 
voto de louvor. 

O Sr. Conselheiro Castilho, agradecendo mais esta 
prova de confiança da Assembléa ( « confiança mere- 
d^idissiman <i simples justiça » bradam muitas vozes) , 
acceita todos o.^; incargos, menos o de arrecadar, o que 
A receber houver. Vários cavalheiros insistem embalde 
oom Sua Excellencia. 

O Sr. Cybrfto propõe que os Srs. — Presidente, Con- 
jflellieiro Castilho — e Vice-Presidente, Barão de S. Cle- 
mente — ^sejam incarregados de levar ao fim a tarefa; 
« entr:f si dividam os trabalhos. Esta proposta é una- 
nimemente approvada. 

Lêem-se os quesitos 3°., 4\, e 5\, e resolve-se : 

Quanto ao o**. : que os Srs. Presidente e Vice-Presi- 
^ente façam o que melhor lhes parecer ; • 

Quantj ao 4". : o mesmo, e que se as sommas arre- 
cadadas não derem para os gastos a que se refere, seja 
cada um dos membros da commissão consultado por 
c?%rta, a respeito da quantia com que deseja con- 
tribuir ; 

E quanto ao 5"". : que iicam desde já auctorizados 
todos os gastos precisos. 

Lâ-âe o 6°. quesito, e resolve-se : que os Srs. Presi- 
dente e Vice-Presidente mandem, quando opportuno o 
julgarem, publicar o que ihes parecer, do occorrido 
n'e.sta sessão, e o que convenha acerca do seo in- 
cargo. 

Julga-se prejudicado o quesito 7." 

Mais se resolveu, em presença da promessa contida no 
Relatório do Sr. Thesoureiro, que a todo o tempo que 
este senhor possa restituir os fundos, que por uma ca- 
lamidade commercial se perderam, ficam os mesmos 



18 

Srs. Presidente e Vice^Presidente auctorizados a rece* 
bel-oSy e i4)plical-os a qualquer objecto análogo, que 
julgarem conveniente. 

Obtendo a palavra o Sr. Commendadór Almeida 
Martins, prop0e que o voto de louvor, tfio espontanea- 
mente offerecido ao Sr. Conselheiro Castilho pelos v»* 
levantissimos serviços prestados jpor S. Ex. para o bom 
êxito da empresa começada, seja extensivo ao Sr. Vi»* 
conde de Castilho, de quem nasceu a idéa d^ um Mor 
numento a Bocage, segundo a declaraçfto do &*. Con- 
selheiro. Esta proposta é accolhida com geral a]^lau60^ 
e a Âssembléa vota unanimemente louvores e cordiae» 
agradecimentos aos dous diçnos IrmSos Castiihos, o 
Sr. Visconde e o Sr. Conselheiro. 

Levanta-se a sessfto ás 2 1/2 horas. 



Ebnesto Ctbbao. 
Secretário. 



ADVERTENCU 

Já estava em grande adeantamenio a compósito da 
matéria d'este número (a qual pnecisa ainda ser conti- 
nuada no seguinte} quando foram successivamente en- 
tregues, para serem publicadas, as cartas 13*^14* e 15 *, 
de Cincínjiato a Fabrície» Saírfto á luz, apmas o 
paço o permitta. 



Typ. 6 Lità.— mPABCIAIr--Bm Sete dfl Setembio,,lé$. 



QUESTÕES DO DIA 



isr. 16 



RIO DE JANEIRO 21 DE OCTUBBO DE 1871. 



Pafo n. < 



ísa dos 5rs K. di H. Laemniírt.— Praça da ConslituiçãD, 
o,— LívrnHa AcadcmUra. ttua de S. Josa d. 119— Largo do 
- Rua de Gonçalves Dias o. 79. — Preço 200 reis. 



>toiiuiuexito a Bocage. 

Dêmos no precedente número a acta da última sessfto 
'» commissao central, creada n'''ãla corte para promo- 
Ter s erecção de um modesto monumento a M. M. Bar- 
hozB àu Bocage, Elmano Sadino, a qual vai verificar- 
se proximamente, e talvez no dia 21 de dezembro d'eate 
anDo, em Setúbal, cidade natal do poeta, coramemo- 
rnudo-se assim o 66' anno do seo passamesto, como, 
no dia 15 de septembro de 1865, egualmente se com- 
Inemorãra, n'um brilhante jubilêo, o anniversÃrio se- 
Eular do seo nascimento. 

Nomeadas para Lisboa e Setúbal commisaOes com- 
postas dos cavalheiros mais competentes, tndo faz es- 
perar que o generoso pensamento, iniciado nesta corte, 
I ao qual se associaram cidadãos brazileiros eportugue- 
ies. seja dignameute realizado, pois consta acharem-aa 
mtn andamento os derradeiros trabalhos. 

Este número será pois ainda inteiramente consagrado 
_0 mesmo assumpto, e sonos permitteo espaço pu- 
blicar uelle o excellente escripto do Sr. Dr. Pedro Luíe 
Pereira de Souza, e a correspondência trocada entre o 
Sr. António Feliciano de Castilho e a Camará Muni- 
eíp«l de Setúbal. Ficam muitos outros curiosos docu- 
neotos, a alguns dos quaes talvez ainda damos egnal 
publicidade. 

Monumento a BQ:;age. 

Em dias do mez de septembro, na cidade do Rio de 
Janeiro, celebrava-se uma festa litterária em honra & 
lyra de llocage. 

Os amigos das lettras e de nossas antigas glórias 

Itsviam sido convidados para uma reunião nas salas do 

lub Fluminense, pelo Sr. Conselheiro José Feliciano 



2 XVI 

de Castilho Baireto e Nonmha, em áeo nome, e no de 
seo distincto irmão o Sr. Dr. António Feliciano de Cas- 
tilho, de quem, como S. Ex. annunciou, recebera 
aquelle honroso incarjfo. 

Tudo concorria para aquecer os ânimos n'essa elo- 
quente contemplação do passado. 

A illustre personagem que apparecia á frente de tao 
generoso movimento conquistara de ha muito tempo a 
admiração dos contemporâneos. As musas carinhosas 
lhe embalaram o berço, e na existência litterària do 
illustre cego ingastaram inniimeras jóias do mais fino 
quilate. Alma sempre nova, espírito sempre audaz, 
talento sempre fecundo, ainda sonha o grande, o ideal. 
Nao cançou. Não descreu. Naose assentou alquebrado 
à beira da estrada, nem se recolheu ao sombrio silen- 
cio da ironia. Antes caminha sempre, carregado de 
trophéos, saudando com fervor a geração que tem ância 
de poesia e de futuro. Os olhos, que j^ara a luz se fe- 
charam, fitou-os elle em outro céo mais límpido. 

Ainda agora se nos revela o Ovídio portuguez, e lá 
do seo Tibur nos convidava para a festa do passado, 

A data em que nos reuníamos era solemne. O dia 15 
de septembro de 1865 completava o século do nasci- 
mento de Bocage. Éramos pois convivas de um jubilôo 
litterárío, ceremónia poética, e original entre nós. 

Não podia ficar estéril a saudação que dirigíamos á 
sombra de Elmano. O.Sr. Conselheiro Castilho expoz a 
nobre idéa de perpetuar no mármore e no bronze a ve- 
neração da posteridade ao assombroso poeta. Foi caloro- 
samente abraçada. O plano do monumento apresentado 
por S. Ex. circulou pela assembléa. E* simples, ele- 
gante e modesto. Uma escadaria de mármore leva por 
quatro degraus a um átrio, onde oito columnas de or- 
dem jónica sustentam uma cúpola, sobre a qual se 
eleva a musa da poesia, com a mão esquerda apoiada 
em uma lyra, e a direita alçada, empunhando uma 
coroa. Ao meio do átrio, e sobre um pedestal quadran- 
gular, em cujas faces se lerão versos do poeta, er- 
gue-se o busto de bronze de Bocage. 

Desde logo foi acclamada uma commissão para levar 
a effeito o magnífico pensamento. 

Sem dúvida merece Bocage essa oblação eloquente, 
ainda que singela. Aquelles que se acharam no cami- 
nho do poeta percebiam n'elle o deus interior, presen- 
tiam a chamma sagrada a incendiar-lhe o cérebro, a 



XVI 3 

crepitar no verso que lhe rebentava de improviso, a 
fulgurar em seos olhos azues, que paraciam reflectir a 
immensidade. Esse homem, que alli andava na turba, 
tinha a mens divinior. Em torno d'elle havia o círculo 
do espanto. 

Cabia á futura geração consagrar aquelle sentimento. 
O renome de Elmano passou pelo chrysol da posteri- 
dade. Entre nós e o berço do poeta se estende um sé- 
culo. Pois a figura de Bocage, de tEo inspirada, de tao 
grandiosa, assumiu a nossos olhos proporções legen- 
dárias. E* quasi um ente phantástico ! 

Para aquelle homem a musa nao tinha segredos ; 
de seos lábios brotava em jorros a poesia; a murmurosa 
lympha da Castália despenhava-se-lhe em catadupas. 
Seos livros ahi ficaram; attestam muiio alto aquelle 
maravilhoso ingenho e a febril inspiração que lhe 
transbordava da alma. Para elle n&o íxavia barreiras. 
Os horizontes, por mais remotos, era fital-os, e ao olhar 
do ^énio se rasgavam luminosos. 

Mas nem sempre pairava nas regiões olympicas 
aquella suberba phantasia. Roçou de perto, e nao raro, 
as misérias humanas, e n'isso sentia singular prazer. 
Génio inquieto, louco, devorado de scismas, deixava-se 
arrastar pelo tropel das paixões^ como elle próprio mur- 
murou em hora de tristeza, n'aquelles versos que todos 
nós sabemos. Rastejava então por sobre o pó da terra. 
Zunia de seos l&bios o epigramma como uma setta 
hervada. Sua risada mordia deveras. 

O soneto nascia-lhe de um jacto e primoroso. Ora 
parecia o fascículo das varas com que se 'comprazia 
em flagellar o vicio, ora um festão de lindas rosas, 
como que entrelaçando suspirados amores. Cançado da 
terra, fugla-lhe a alma então para as nuvens douradas. 
A cantata serena o inlevava manso e manso; a ode 
pomposa o arrebatava no turbilhão de fogo; e ouvidos 
terrestres procuravam o bardo nas regiOes do ideal. 

Tal foi Bocage. 

Onde pára aquelle crâneo- vulcão... ninguém o sabe. 
Não se desfolham goivos sobre a lousa que incobre as 
cinzas do poeta. Pois levante-se na terra do seo berço 
a pedra symbólica do futuro. E' um tributo esse que 
lhe devem duas naçoes : Portugal e Brazil. 

A idéa do monumento a Bocage deve acordar pro- 
fundas sympathias áquem ealém do Atlântico. Bocage 
nao é o representante de uma nacionalidade: é o filho 



4 XVI 

sublime de uma raça. Suas glórias nfto se acham pre- 
sas em mesquinhas circumscripções geográphicas : 
pertencem á língua harmoniosa que falam dous povos 
irm&os. 

Alma errante nos paramos da poesia, assim lhe cor- 
reu a penosa vida. Aqui na plaga brazileira yiveu 
também Elmano; respirou d*este ar embalsamado; nos 
seos inspirados cantos flammeja o raio quente d'este sol. 

Uma vez ainda — e agora em nome da poesia — abra- 
cem-se brazileiros e portuguezes. 

N&o é faustoso monumento o que se quer levantar k 
memória do divino cantor; nao é a traducç&o d'aquelle 
estro em mármore, pois que o estro ahi ficou no mundo 
traduzido em versos immortaes: é uma offerenda sin- 
gela do futuro, que só colherá esplendores da idéa que 
symboliza; um tributo gracioso e modesto; iima pe- 
dra que vai alegrar os manes queixosos do bardo, e ás 
duas nações pesará bem pouco. 

Pedro Luiz. 

Rio de Janeiro-*octubro de 1865. 



Senhores : presidente, e vereadores da camará, no- 
táveis, E HABITANTES EM GERAL DA ILLUSTRB CIDADS 

DE Setúbal. 

Mais que atrevimento deveria parecer o dirígir-me 
eu hoje a vós coUectivamente, se vós mesmos, dignan- 
do-vo6 de me honrar com excessivas mostras de bene* 
volencia, me n&o houvéreis imposto necessidade e obri- 
gação de agradecimento. 

O agradecido é um amigo; e todo o amigo tem di- 
reito de expor chan e lisamente os seos sentimentos» 
Sem mais vénias o farei. 

Penhorastes-me, quanto nSo cabe em expressão, ao» 
ceitando-nos com alacridade um projecto, em que meo 
irmão e eu havíamos posto o maior empenho e diligen* 
cia; e esse vosso obséquio, já de si tao grande, ing^ran- 
decestel-o ainda mais, preparando-vos para nos receber 
e hospedar com magnificência digna de vós, e de qud 
até príncipes se pagariam. Coroastes finalmente 
o obsequio, deferindo em parte ás nossas instâncias^ 
e attenuando um. pouco essas públicas manífes* 
taçoes, com que a nossa justa humildade se nfto 



.trevia. Ainda assim, o que d'eUas ficou, sobraria para 
ÍDSoberbecer aos mais aoibicíosos. i 

Jà pela Toz de lueo irmão soubestes a causa que me 

irivoíi de accompauhal-o, nesta que para nós em de- 

TOtisaima romaria, e que a vessa urbanidade mais que 

nerosa nos transformou em triumplio; mas o que 

lem pela voz d'el!e podestes decerto comprehender, 

;em eu por palavras vos saberia explicar, é o inliDito 

^ue a vós me prendestes com as acclamaçOes, em que, 

â'uiD dia todo de Bocage, o meo nome andou conso- 

Eiado com o do grande Poeta, no meio dos seos conter- 

neos mais tllustres. Inthesouro para glória de fa- 

ilia as folhas publicas e a» cartas, em que sa me 

l«tain eâsas memoráveis horas de 17 a 18 d'este 

arco. 

Glorificado por vós com o titulo de Presidente ho- 
lorÀrio da commissftoque deve tractar do monumento 
» Cysne do Sado, venho jà ao assumpto que sobre- 
ido oos interessa. 

Filhos digníssimos d'este século, quereríeis, e quí- 
jra-o eu tambem,que os manes de Bocage se podessem 
lobilitar com um monumento productivo : que uo 
lilo se preferisfie para elle o bom; à pompa artis- 
ica. a educação e acaridade ; a um quasi mausoléo, 
berço queattrabisse as bênçãos de Deus para sfibre 
^ litados da Fortuna. As pyramides do Egyplo reu- 
Idas nSo valem a mais humilde eschola. Tal é j& de 
uito a minha convicção intima: livre a expuz, e 
^ diuturnamente a sustentei na lievista Vni- 

•rgúlt quando se iractava do como se ergueria padrílo 
"igno ft D. Pedro IV : e outra vez ainda tomei voz 
ela civilisaçao contra a vaidade, quando se contro- 
vertia por D, Pedro \' qual melhor o representaria: — se 
im colosso surdo, mudo, cego, immovel, gelado, sem 
ÍDtraohas : — se um mestre, embora o mais obscuro, ou 
I mais humilde me.stra, preparando no eremitério de 
mos eschola o bemdicto milagre de homens e mulhe- 
reí para o porvir. 

Que eu defendia, no jà quasi anachrónico pleito, a 
njellior parte, sabe-o a rainha consciência, e compro- 
T88le)-o vós tambeui. 

Todavia, Senhores, como nem todos ainda o inten- 
detn aisim, e o.s dinheiros jà tributados, para a home- 
nagem que hoje se projecta, vieram logo. e talvez 
(idíÀí se retrahiriam, de-ítinados a couverter-se em mo- 



6 .vVI 

numento^na accepção vulgar do termo, intendo eu que 
todo e qualquer debate n^este sentido seria jà agora 
intempestivo, e inútil quando menos. 

Renunciemos pois virilmente o óptimo para onde nos 
fugia o coração, e ousemos contentar-nos com o simples 
bom, que tao risonho, ainda assim, e t&o conseguivel 
se nos presenta. 

Por sermos vencidos do número, nao havemos de 
fugir do campo; e esperando por dias de mais rasgada 
luz, consolemo-nos, que também é boa philosophia, 
considerando que d'entre todos os monumentos infe- 
cundos, estes, os dos filhos de si mesmos que se nobili- 
taram pelos trabalhos da intelligencia, sao sem duvida 
os de maior préstimo. 

Quem se instrue ou se melhora com a estátua de um 
rei, mas que fosse Trajano,o IV Henrique,ou D. Pedro? 
Que diz esse mármore ou bronze, que o não diga me- 
lhor, mais ampla, mais alta e mais duradouramente a 
história ? e quantos monarchas ha para irem escutar a 
esse simulacro de príncipe uma exortação, que nunca 
lhes virá de fora, se já Deus ao nascer lh'a n&o 
insinuou ? 

O vulto de Colombo, sim; é o rei dos utopistas, por 
quem o mundo se duplica ; essa fígura, como a do In* 
mnte D. Henrique, eleva a almn ao pensamento das 
g^raudes cousas; pregoa o estudo, o trabalho, a perseve- 
rança : todo o espinhoso itinerário da Glória. 

No mesmo caso estão as effigies solemnes de Galli- 
lêo, de Newton, de Linnêo, de Guttemberg, de Was- 
hington, de Franklin, e estariam a de Fulton, a de 
Olivier de Serres, a de Jacart, a de Cobden, a de Da- 
guerre e as de duzentos outros que negociaram os ta- 
lentos divinos, em proveito de seos irmãos. 

Ainda após estes, ha logares honrosos, a chamar 
pelo cinzel, e podem, com interesse público outorgar- 
se aos homens do mundo ideal, aos devaneadores do 
bello, ess'outros fecundadores do mundo pelo menos; 
espíritos incarregados pela Providencia, de o aformo- 
sentar com as flores do espírito, com as saudades do 
bom que foi, e com os arrebóes prophéticos de me- 
lhores dias. Os Shakspeares, os Molières, os Schillers, 
os Cervantes, os Camões e os Bocages, pertencem a 
este número de eleitos, cuja verdadeira vida principia 
da sepultura. 

A estátua do poeta, essa sim que nao é mlida ; por 



XVI 7 

ella falam ainda 08 seos versos. O filho das Musas 
ouve-a cantar, no mundo estéril, por onde vagueia in- 
differente, como nos areiaes do Egypto o coUosso de 
Memnon modulava hymnos ao apparecimento da Au- 
rora sua mãe 

Já naoé pedra aquillo; é um conselho vivo de estudo, 
de recolhimeoto solitário, de meditação, de paciência, 
de esperança, de fé na própria estrella, de renunciaçao 
ás pequenhezes, aos iurédos, a todas as misérias ca- 
ducas e perecedeiras. 

Falei de Camões e Bocage. Que de ponctos de con- 
tacto, entre estas duas glórias nacionaes! Permitti-me 
recordar-vol-os, que será insoberbecer essa terra a que 
já tanto devo. 

Com quasi doas séculos e meio de distancia, nascem 
de famílias honradas, mas de pouca fortuna, os dous 
máximos cantores portuguezes, no prazo precisamente 
em que mais úteis podiam ser, como exemplares á 
língua e poesia nacional. Camões regulariza e fixa, 
com o adjutório do latim, do italiano e dohispanhol, a 
arte do escrever claro e culto : 

..,.. um som alto e sublimado, 
um estylo grandíloquo e corrente. 
Bocage, outro Messias litterário. offusca, dispersa, 
qua^si anniquilla de todo a synagoga arcàdica. Fone 
egualmente «'om os idiomas da antiga e moderna Itá- 
lia, e como francez, de que elle sabe não colher senão 
o necessário, o útil e o bom, abelha delicada entre in- 
sectos impuros que só venenos lhe sugavam, dá a ouvir 
pela primeira vez aos echos multiplicados e attónitos 
uai falar altiloquo e terso, claro e elegante, cheio e 
harmonioso, conij nenhum, em poesia, ainda por cá 
se ouvira, nem se tornou a ouvir, depois que elle em- 
mudeceu. Camões e Bocage são pois ainda hoje dous 
mestres; mbs o segundo, por mais achegado a nós, 
mestre para mais aproveitamento. Na traducçao inex- 
cedivel, e no soneto inegualavel. 

Ingenhos peregrinos ambos, começam a colher tein- 
poran a celebridade; ouvem em vida os applausos dos 
vindouros, e por entre os susurros harmoniosos dos 
loureiros, já também os pios importunos das invejas. 
D'aqui talvez a esplêndida bile que em ambos se desa- 
bafava em sátyra; d'aqui também, aquelles frequentes 
assomos com que ambos, nao sem escândalo de me- 
díocres, ousavam pregoar, como Ovídio, como Horácio, 



8 XVI 

como todos os gigantes, que ardia n'elles o fogo sacro, 
q^ue os inspirava um nume, e que as suas obras n&o 
tinham de morrer. 

Beprehende-se à Fortuna a sua prodigalidade para 
com entes vulgares, abjectos, nuUos, ao mesmo passo 
que pelo commum se mostra mesquinha aos espíritos 
eleitos! Que desarrazoado nCLo é esse queixume ! e basta 
uma consideracao,ommittindo vinte outras que a refor- 
çam : — Seria por ventura justo que a Providencia dis- 
partisse tudo a uns, e a outros nada "? que os pobres de 
espirito fossem também mendigos dos bens terrestres, 
emquanto os talentos e génios possuíssem os palácios 
e parques, os cavallos da Arábia, as mesas de LucuUo? 
« Não escreve Lusíadas quem janta 

(c em toalhas de Flandres ; 

já o tinha dicto Garção. 

A Camões e a Bocage vá pois a vida pobre, atormen- 
tada, trabalhosa. Quem sabe se a contrária os não afo- 
garia ! 

Camões recorre á milícia; Bocage recorre á milícia. 
Ambos vão servir a pátria nas terras d'alem-mar,no Ori- 
ente, na região do sol e das palmas; a ambos os espera 
lá a inspiração, mas os infortúnios também; a ambos 
a ausência apura a sensibilidade; a ambos os chamam 
es amores para o ninho paterno. 

Amores : qual dos dous levará n'isto a palma ao 
outro ? Nem um nem outro é Petrarcha para uma só 
Laura, ou Dante para uma só Beatriz, a quem ame 
viva, e a quem ame dobradamente depois da morte. 

Cada um d'elles é, como o segundo por si confessou 
ingenuamente : 

í( devoto incensador de mil deidades. 

Não amam a uma formosa, inleva-os a formosura : 
ardera por mil; adorara a todas ; a feminidade sob 
qualquer fórina ou nome, é o seo iman perpétuo. 

Era rumos incontrados, e com a mira em estrellas 
diversas, é sempre a mesma luz celeste, a belleza.quem 
os enamora, quem lhes chama : aos olhos, ora o riso, 
ora as lágrymas ; ao coração, ora a esperança, ora o 
ciúme; aos lábios, ora os hosannas, ora os impropérios, 
que são ainda amor. Por isso, nem um nem outro se 
atreve a escolher uma companheira para a jornada 
trabalhosa da vida. Por filhos e herdeiros só hão de 
deixar as próprias obras. 

A existência namorada, aventurosa, errabunda, for- 



XVI 9 

tuita, amphíbia,quasi aérea,quasi chimérica,e quasi de 
•chímeras uaicameate pascida, a tal poncto os irmanou, 
«que Bocage nao poude abster-se de exclamar no seo 
«xilio indiano : 

Camões, grande Camões, quão similhante 
acho teo fado ao meo quando os cotejo ! 
egual causa nos fez, perdendo o Tejo, 
arrostar co'o sacrílego Gigante ; 

como tu, juncto ao Ganges susurrante, 
da penúria cruel no horror me vejo; 
como tu, gostos raos que em v&o desejo 
também carpindo estou, saudoso amante ; 

ludibrio, como tu, da sorte dura, 
meo fim demando ao cèo, pela certeza 
de que só terai paz na sepultura. 

E ainda então, senhores, o vosso cantor, o vosso Ca- 
mOes II, não sabia quantas mais similhanças com o 
grande homem o aguardavam no futuro. Como elle, 
havia de experimentar por leviandades a amargura 
expiatória do cárcere; como elle, havia de chegar a 
ver a Pátria n*uma grande crise, suprema dor para 
um coração portuguez ! como elle, havia de se finar 
n'um aposento desconchegado, esoccorrido da caridade; 
como elle, até depois de interrado, havia de naufra- 
gar e perder-se com a própria sepultura; como a elle 
em&m havia de chegar um dia, e, foi Deus louvado! 
era nosso tempo, em que a gratidão pública o evo- 
casse glorioso d'entre os mortos. Foi necessário um sé- 
culo para a canonização da arte; acampa extraviada 
le^urgiu pedestal, quasi ara. 

CamOes e Bocage vão reapparecer nas suas cidades 
uataes; d'estavez, de bronze para a eternidade, a domi- 
narem com toda a sua grandeza intellectual em meio 
de praça-; do seo nome; emquanto as Musas do drama 
e da comédia os offerecem aos applausos das turbas, 
Camões pelos meus exforços, Bocage pelo ingenho 
prestigioso de Mendes Leal, o príncipe do nosso 
theatro. 

Um génio poético do novo mundo, inspirado cantor 
d'aquellas terras, ainda nossas pela fraternidade, d'a- 
quelle paiz único do ouro e do sol, dos diamantes, da 
poesia e da mocidade, Alvares de Azevedo, dera-nos o 
-exemplo ^pobre moço, tão em flor cortado á glória do 



10 XVI 

Brazil e do nosso commiim e opuleiítíssinio idioma!); 
carpira o fim misérrimo de Bocage, em páginas digna.^ 
do seo assumpto, mostrando-nos por dentro e ao natu- 
ral o coração vulcânico, o espirito sublimemente de- 
lirante doeste filho pródiíjo das Musas, que ainda melo- 
dioso ao expirar, como a ii\e do Caistro, suspirava o 
pesaroso gemido que a ninguém esqueceu : 
« Meo ser evaporei na lida insana 
« do tropel das paixOes qué me arrastava. 
Surja pois, muito nas boas horas, no melhor Fórum 
de Setúbal, ao som dos vivas de Portugal e do Brazil, 
essa projectada rotunda, occupada por Bocage, e domi- 
nada da Musa lyrica, podendo-se intalhar no pedestal 
aquelle verso delle, então prophecia, hoje história : 

<( Zoilos, tremei I Posteridade, és minha ! 

Todos os bons ingenhos portnguezes, hao-de sem 
falta acudir com os seos cantos a essa inauguração 
expiatória, o que será para Elmano terceiro monu- 
mento: o primeiro jà o havia elle mesmo levantado a 
si com os seos versos de ouro. 

D'aqui me estou eu deliciando a antever essa festa 
nacional ! Toda a vossa cidade de gala; a capital visi- 
tando-acom inveja; a praça alcatifada de loiírob e mur- 
tas; a música alvoroçando ainda mais os coracOes; os 
edifícios colgados de púrpura: os representantes do 
município em toda a pompa official, e, a convite d*elle, 
as damas, indo coroar de flores o seo escravo, agora rei. 

Quanto nao seria para desejíir, que esta emblemá- 
tica cerimónia, da coroação do talento pela formosura^ 
se renovasse perpetuamente de anuo a anuo, no dia do 
nascimento do poeta, ou no do seo renascimento em 
estátua! 

Confessemos que n"estas cousas tao sympàthicas, e 
tao fáceis de si que até sao gratuitas, vai alguma 
cousa mais que mero regosijo popular; vai estimulo 
enérgico a muito ingenho. A glória também é conta- 
giosa; nao o haviam de ser só as outras febres. 

Por este lado o monumento, que a principio nos pa- 
receria estéril, já cessa de o ser; e a Posteridade alguma 
cousa porventura confessará que lhe devíMi. quando 
der de século a século o seo balanço. 

Senhores, vós tendes várias outraíi praças; vejamos 
se se evocam do nada futuros grandes homens, para aí> 
occuparem com a sua effigie. 



XVÍ 11 

Setúbal recebeu da natureza boa bençam de poesia » 
Já tivera antes de Bocage o vosso Va^co Mausinbo de 
Quebedo, o pregoeiro épico do Affonso Africano; e 
Thomaz António dos Santos e Silva, o infeliz carpidor 
de Lésbia, génio inculto, que o estudo, e um pouca 
menos de adversidade houveram podido sublimar. 
Quem sabe quantos outros eguaes ou maiores não po- 
derá ainda crear um torrão, pela amenidade, pelo céo, 
e pelas circumvisinhanças, tao inspirativo: com a 
Arrábida religiosa a um lado, vestida dos seos rosma- 
ninhos e alecrins; e Palmella, a devanear do seo castel- 
lo proêsas guerreiras d'outras edades;d'outro ladoTroya, 
a romana antiga, que para alli se jaz; e o Oceano, a 
meditação immensa; torrão das laranjeiras noivas^ 
como a Itália; e por baixo, thesouro de jaspes e mármo- 
res, resguardados para estátuas de seos filhos. Solo 
providencialmente prendado de tudo, e d'onde, ainda 
ha dous dias, um insigne poeta dinamarquez, o nosso 
amigo Andersen, estanciando ahi depois de percorrida 
a Europa, me escrevia quê tinha incontrado ao cabo o 
Paraízo Terreal. 

Se eu não temesse offeuder modéstias que venero, 
citaria exemplo contemporâneo, de que a terra que deu 
Bocage nao ficou por isso exhausta de poesia. 

Mas vol:"mos ao nosso Bocage.. Nao o conheci eu 
pessoalmente. Despedia-se elle do mundo quando eu 
apenas o intrava; mas conheci e tractei depois a alguns 
dos que o haviam admirado, e que d'elle me falavam, 
como se na véspera o tivessem applaudido. Eram estes 
po6ca.s, seos cortezaos, nada menos que Vicente Pedro 
Nola.sco da Cunha, João Vicente Pimentel Maldonado, 
Morgado de Assentiz, D. Gastão Fausto da Camará Coi- 
tinho, Belchior Manoel Curvo Semmedo Torres de 
Sequeira, José Ni^^oláo de Massuelos Pinto, José Agos- 
tinho de Macedo, e duas poetisas: Condessa de Oyen- 
hausen, Marqueza d'Alorna, e D. Anna Pereira Mare- 
cos, a cada uma das quaes dedicou um dos seos tomos 
poéticos, e o coração também, segundo é fama. 

Toda essa constellação poética já lá vai sumida no 
occaso. D'entre est^s nove ingenhos não vulgares, não 
houve um, sem exceptuar o Padre Macedo, flagel- 
.lado com a mais tremenda e memorável das sáty- 
ras bocagianas, que me não confirmasse o que eu ou- 
vira a meo próprio pae, não poeta, porém juiz muito 
competente emcou<as litterárias: — que o improvisador 



12 XVI 

Elniaao fora ainda muito maior na facilidade e felíci- 
dade da improvisação, que nos seos versos esmerados 
para a luz pública. Como poeta, poder&o os diversos 
gostos contrapôr-lhe um ou outro rival; como repen- 
tista, nenhum. Eis ahi um novo jus ao monumento. 
Vão longe aquelles dias dos tão afamados oiteiros 
poéticos de Portugal; jà também agonizavam quando os 
«u alcancei; mas eram donosa occupação e bom esti- 
mulo de ingenhos, emquanto a juventude era juven- 
tude, e a politica nos não tinha a todos e de todo des- 
salgado ; mas quem nos diz que ao pé do vosso Bocage 
resuscitado, não poderiam, se os evocásseis vós, re- 
suscitar egualmente aquelles certames nocturnos dos 
ingenhos, no dia, ou no tríduo do anniversârio do 
monumento ? 

E se resuscitassem, não seria esse um facto bem fe- 
cundo? não sabemos todos nós o que a história ainda 
Urlo esqueceu das luctas de poetas e de poetizas na 6ré- 
<;ia, na pátria do bom gosto e dos eternos exemplos? 

Quando repomos em uso e era honra, sob o nome de 
regatas, as naumàchias festivas dos Troyanos, quaes 
Virgílio nol-as descreveu; quando imitámos as apostas 
dos cavallos voadores de Elide; quando se vai palmear 
a ferocidade sanguinosa do Circo romano, em batalhas 
de feras com homens, ou antes d'homens-feras com 
animaes forçados a infurecer-se ; porque motivo só 
desdenharemos da sábia antiguidade o que se refere 
á cultura do ingenho, o que tende a amenizar a convi- 
vência, a polir os costumes, a approximar e reunir os 
sexos no convívio dos gostos delicados? Que lustre 
não seria para Setúbal, a Bocagiana, instaurar ella 
esse estádio, em memória do seo filho ! Embora o não 
viesse a conseguir, já o tental-o a innobrecôra; nós di- 
ríamos no nosso poucochinho: — os jogo^ setubalenses ! 
como a Grécia blazonava os seos jogos olyrapicos e os 
pythicos, a que se cria presidir o mesmo Apollo ! 

Os ânuos vao frios, não o iguor:) ; mas que mal faria 
tentar-se ainda o bello, o gracioso, o admirável ? 

A' fé que não valia, nem vale ainda hoje, a aldeia 
franceza de Salency , o que ha de valer, e o que já vale 
a vossa cidade tão bella e tão populosa ; e todavia um 
grave prelado, um velho, despegado do mundo, e que 
mereceu canonisado, S. Medardo, instituiu lá, e lo- 
grou-se de vêr pegada à festa annual da Roseira, de- 



XVI 13 

pois transplantada para tantas outras partes ; e que^ 
extirpada passageiramente pelo tufão revolucionário, 
tornou a pegar, e ainda hoje se conserva. Que ricos 
fructos moraes, e em que larga cópia nao tem produzido 
aquella coroa de rosas, trançada para a meça mais 
virtuosa pelo risonho velho, poético e innocente Ana- 
creonte da caridade! Tentae vós também, e jà pode ser 
que Deus vos abençoará a tentativa, e que algum dia 
ainda, em recompensa d'esses esforços, vos permittirà 
levantar, em face do monumento de Bocage, outro da 
civilizaç&o: a eschola, o asylo, como vós e eu os cubi- 
cámos. 

Sao horas de cerrar t&p larga conversação de amigo 
com amigos ( perdida não espero eu que ella o fique 
totalmente); Por agora despeço-me de vós, formando 
votos para que o êxito corresponda &s vossas diligencias,, 
e d'aqui a pouco se esteja celebrando na vossa terra, com 
a assistência de todos os poetas portugueses, o jubilêo 
de Bocage. 

Setúbal é já uma linda cidade: d'ahi avante, po- 
derá chamar-se uma cidade famosa, porque também de 
Sulmona, que de certo a não valia^ lá dizia o Bocage 
romano, Ovídio: — <c Muralhas da minha terra, não sois- 
muito, não ; mas quando um viandante vos avistar de 
longe, dirá: — Terra que tamanho poeta creaste, embora 
não abarques largo território, chamar-te-hei Grande! » 

Permitti-me a honra de me assignar 

O vosso 

mais respeitoso e agradecido servo, 
Lisboa 20 de março de 1867. 

A. F. DB Castilho. 



Illm. o EjLXKtm Sr. Consellielro António 
Felioiano de Oastillxo. 

Novos laços de gratidão prendem hoje a V. Ex. o 
povo de Setúbal. 

Em nome dos habitantes d*esta cidade, que nos hon- 
ramos de representar, agradecemos do coração as be- 
névolas expressões, que V. Ex. se dignou de nos 
dirigir na sua excellente e obsequiosa carta. 



■ -H-U - J 



U XVI 

As deraonstraçõed com que este povo de >9java re- 
ceber as diatinctas illustraçoes, que vinhain visitar 
esta terra, representavam apenas uma imperfeita ma- 
nifestação de respeitosa komenagem ao primeiro poe- 
ta do áeo paiz e um singelo tributo de sincera grati- 
<iílo ao homem benemérito, que tanto se tem desvela- 
do a bem do povo, praparando-lhe pela instrucçao 
um melhor futuro. N'essa occasiao tornava mais vivo 
o enthusiasmc dos filhos d'esta terra a lembrança dos 
motivos que tinham determinado a visita de tao il- 
lustres hóspedes: honrar a memoria de um géíiio fe- 
cundo, de que Setúbal se orgulha de haver sido berço. 

E' explendida a maneira com que V. Ex. expressa 
os seos elevados conceitos : será modesta a nossa res- 
posta, porque modestos «ao os nossos recursos. E' 
justo que mais dê quem mais possue, e a V. Ex., a 
quem a natureza concedeu com mao pródiga os altos 
•dotes da intelligencia e do coração, cal>e a vantagem 
e a glória de Doder dar muito mais do que pôde re- 
•ceber. 

Seja pois lhano e cordial o nosso agradecimento, e 
valha pela sinceridade com (jue é offerecido o que nao 
pôde valer pela riqueza das imagens nem pela pompa 
do estylo. 

Aquella carta, Exm. Sr. , devora ser lida em assem- 
bléa aonde concorresse o maior número possível dos 
conternlneos de Bocage, se nao fosse ainda mais útil 
dal-a á estampa e distribuil-a com profusão, para que 
fique bem gravada na intelligencia o no coração de 
todos, e seja um poderoso talisman que avive mais e 
mais n'este povo o amor ás instituições humanitárias, 
de que V. Ex. tem sido sempre incançavel propu- 

gnador. 

Como complemento de tao assignalados favores, ou- 
sámos pedir qíie V. Ex. consinta que as brilhantes 
páginas d^iquella carta sejam divulgadas pela impren- 
sa e cheguem assim ao conhecimento de innúmeros 
indivíduos, anciosos de admirar mais uma vez o génio 
de V. Ex. e inthesourar tao preciosa jóia litteÃria. 

Sala das sessões da Camará Municipal de Setúbal, 
eixí "21 de março de 1867. — António Rodrigues iíanit- 
to. — José de Groot Pombo, — Francisco Alberto dos San-^ 
tos, — Manoel José Vieira Novaes. — Martinho da Sitva 
Mendes. — Joa/juim Pedro de Assumpção Rasteiro, 



XVI 15 



III ms. e e:x:«$. ^n.r.9. Presidente e Vereadores d(t 
Oamara Municipal do S9otul>al. 



Segunda ve-/- me confundem V. Exs. com a sua 
generosidade Ambicionar honras, é um sentimento 
natural, muito lícito, e muito proveitoso ; mas quando 
AS honras vem superiores ao merecimento, sao co- 
roas que miis depressa esmagam do que ingran- 
decem. 

Dos três louvores que V. Exs. me libríralisam, des- 
•cabem -me dous, seja-me permittido confessal-o ; um, 
é o que recaí excessivo sobre a minha poesia; o outro, 
o que me converte em mérito, o que é simples acto 
de justiça : o Je.^ejo em que eu accompanho a meo 
irtnao, e a V. Exs. mesmos, e creio que a todos os 
portuguezes, de que se tributem a Bocage, mostras 
solemues da gratidão pública pelos altos serviços que 
«lie prestou à poesia nacional. 

O terceiro louvor sim, que julgo nâo o ter desme- 
recido, e é de todos o que mais e melhor me enche 
e alegra o coração. Sip, meos Senhores ; creio como 
vós, e firmemente o creio, que nao vim inútil ao mundo, 
pois que alumiei, arejei, ajardinei, e tornei attractiva, 
philosóphica e fecunda a eschola primária, pia baptis- 
mal única onde os povos se podem regenerar. 

Todos os meos outros livros pouco valem; o meo 
méthodo de ensino, fácil, rápido, e aprazível, des- 
«oraprehendido, mal apreciado por muitos, e por quasi 
todos, esse é que é a minha primeira e última obra. 
Se os mortos sabem o que se passa na humanidade, 
algum dia, d'aqui a quantos aunos nao scei, ainda me 
heide deliciar de ouvir isto aos nossos vindouros. 

Também eu fiz uns Lusíadas', só uns: foi esta carta 
<ie alforria da puerícia. Nao cantei os portuguezes 
passados, mas forcejei por que houvesse portuguezes 
futuros, o que nao vale menos, se è que nao vale mais. 

A Camões, as palmas de cantor de génio; a mim 
bastam-me, e prefiro-os, os emboras de trabalhador 
4)bscuro mas útil; de amigo provado das creanças, 
de suas mães, e da terra em que me creei. 

Com a maior gratidão pois beijo a V. Exs. as 
mãos. que me assignam este documento, de que nao 
trabalhei totalmente para ingratos; este testimunho de 



16 XVI 

que ainda ha homens-humanos nos nossos municí- 
pios. 

Pelo que respeita à publicação da minha prece- 
dente carta, podem V. Exs. de lhes apraz, confe- 
rir-me essa nova honra; como nessas paginas eu não 
depositei sen&o o de que estava convencido, e o qua- 
se me figurava, e ainda se me figuro, de algum prés- 
timo, até desejo e agradeço que ellas vão conversar 
com maior número de espíritos. 

Podem pois V. Exs. mandal-as dar & estampa^ 
assim como estas, assim como todas quantas por ven- 
tura eu haja de dirigir a V. Exs. Os obreiros d» 
civilisaç&o gostamos de trabalhar ao grande sol. 

Com a maior satisfacçfto me assigno 

De V. Exs. 
respeitoso e agradecidíssimo servo 
Lisboa, 29 de março de 1867, 

A. F. DK Castilho. 



l^p. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sete de Setembro, 146.£ 



QUESTÕES DO DIA 



isr. 17 



RIO DE JANEIRO 24 DE OCTUBRO DE ISTfl. 



Vende-se em casa dos Srs E. & H. Laemmert. — Praça da Constituição, 
Loja do canto.— Livraria Académica, Rua de S. José n. 119— Largo do 
Paço n. C— Rua de Gonçalves Dias n. 79.. — Preço 200 reis 



A r*epi3Ll>lloa federativa. 

Se n'esta capital, ou em alguma outra das provín- 
cias do Brazil, um gruppo de indivíduos tentasse oi^a- 
nizar-se em partido do absolutismo^ creando uma folha, 
que servisse de orgam de suas doctrinas, e no frontis- 
pício do logar das suas palestras fizesse inscrever este 
motto Club absolutista ^ esse pretenso partido se col- 
locaria fora do terreno legal, como incitador contra a 
ordem política existente ; mas estaria tanto no seo di- 
reilo^ como o gruppo, que actualmente aqui se ostenta 
com essa publicidade, como partido republicano. 

Jà em outro artigo dicemos que datam dos primeiros 
annos da nossa existência como nação independente as 
aspirações republicanas de uma minoria, que nunca 
poude tornar-se verdadeiro partido , porque nunca ob- 
teve fazer proselytismo que lhe desse no paiz o apoio 
que fortalece os partidos legítimos. 
. A ídéa de federação das províncias sob a forma repu- 
blicana j& outr'ora tentou, e com muito esforço, fazer 
fortuna no Brazil, tanto no primeiro reinado, como 
depois da abdicação ; mas, assim como nao vingou a 
idéa republicana, por occasiao da independência, nos 
ânimos dos nossos grandes homens, que prepararam e 
eíFectuaram esse grande accontecimento, dispensando 
todo o seo efficaz apoio ao princípio monàrchico, por 
ser aquelle que assegurava a unidacie e a liberdade po- 
litica do paiz, sem os riscos da dissoluç&o, que seria 
consequente com a forma republicana, assim tam- 
bém o mesmo bom senso predominou entre os homens 
que mais influíram na situaçfto que se seguiu ao 7 de 
abril, na qual tivera a mais decidida influencia o par- 
tido liberal, dirigido por homens t&o eminentes, como 
Paula Souza, Vergueiro, Lino Coutinho, Paula Araújo, 



2 XVII 

Limpo de Abreo, Costa Carvalho, Feijó, Evaristo, Vas- 
concellos, Alencar, e tantos outros. 

Sociedades federaes com sessões públicas, onde s® 
discutia, no tom mais expressivo, a federação das pro" 
vindas^ existiam em varias capitães ; as idéas n'esse 
sentido procuravam obter triumpho ; seos jornalistas 
as defendiam com calor aqui, e em todos os ponctos do 
império, onde a politica tinha seos orgams; mas os 
homens políticos, que então dirigiam a sociedade brazi- 
leira (e eram elles, como jâ observámos, os liberaes no- 
táveis e insuspeitos ) reconheceram que, sim, convinha 
dar mais expansão politica e administrativa ás provín- 
cias, mas nao federal-afi sob a forma republicana, 
como queriam os exaltados. 

Foi assim qiie nasceu o acto addicional, nao obstante 
a opinião de alguns liberaes muito circumspectos, que 
d'este modo se enunciavam : « Da constituído, nem 
uma vírgula deve mudár-se : tal como é, satisfaz. O 
que falta é a boa prática do governo constitucional 
que possuímos; a educação política; é a instrucçao do 
povo; é o verdadeiro patriotismo, a leal coadjuvação, 
a firmeza e a dignidade dos homens; e leis adminis- 
trativas e regulamentares, que melhorem conveniente- 
mente os serviços públicos, sirvam de pinhor á liber- 
dade individual, e dêem mais vida ás administrações 
provinciaes: mas tudo isto se pótíe obter nos limites da 
constituição.» 

O acto addicional foi discutido e votado sob o in- 
fluxo daá impressões e opiniões de tempo. Nao obstante 
as sábias e prudentes inspirações dos liberaes mode- 
rados, nao puderam estes deixar de acceder a algumas 
disposições, de ordem regulamentar, que nao tardaram 
em manifestar-se, na prática, repugnantes com a bõa 
ordem do governo, como confessaram liberaes cons- 
cienciosos. 

No emtanto as províncias, ás quaes a constituição 
concedera seos conselhos de governo, que nao as satis- 
faziam, tiveram, pelo acto addicional, assembléaa le- 
gislativas, incarregadas de proverem ás suas necessi- 
dades locaes e económicas, em uma esphera sufliciente 
para affiançar o desinvolvimento de sua prospe- 
ridade. 

Grande conquista foi essa ; e a exj)eriencia tem de- 



JXVII 3 

xnonstrado que o sábio exercício doeste direito tem 
.sido para o império, em geral, um grande beneficio. 

Mas os abusos, que se foram dando no modo de se- 
rem desinvolvidas em algumas províncias várias dis- 
posições do acto addicional, abus<vs sentidos desde a 
primeira regência eleita de conformidade com o mes- 
mo acto, occasionaram a necessidade indeclinável da 
lei interpretativa e regulamentar, que tao cautelosa e 
i3abiamente provê sobre esses abusos. 

Foi uma necessidade de governo, no interesse da 
ordem pública, e do regimen constitucional em sua 
marcha, convenieote ao interesse da communidade, no 
sentido administrativo. Isto em nada offendeu o grande 
principio da autonomia das províncias em sua vida 
intima; e o mais que, no sentido d^ facilidade admi- 
nistrativa, em proveito dos povos, é lícito conceder ás 
províncias, sem infraquecimento dos elos, que, no in- 
teresse commum, devem sempre ligar a nação brasi- 
leira, e manter a harmonia e a força indispensável do 
.gx>vêmo nacional, isso, cremos firmemente, que, depen- 
dendo somente de actos administrativos nas attribui- 
çoes do executivo, ou de leis regulamentares, será de- 
cretado, sem commoçOes politicas, sem penurbaç^lo da 
ordem pública; por isso pugnem os partidos ! 

A república federativa uilo pode convir ao Brazil ; 
seria o anniquilamento d'este grande paiz, porque traria 
-em si o gérmen fatal das luctas civis incarniçadas, 
(^ue sao usuaes e congéneres doesta forma de guvêrno, 
onde a auctoridade pública está sempre sob a influen- 
cia directíi das paixões dos partidos. 

Este grande todo, este império, que já excita o res- 
peito dos outros povos, e que, de annopara anuo, vai 
marchando para o seo ingrandecimento, nao territo- 
rial, porque nSo o necessita, mas económico, indus- 
trial, e moral, e d'ora em deante mais ainda sob o bené- 
fico influxo da lei de 28 de septembro, seria despeda- 
çado, e sentiria todos os males deploráveis doesse frac- 
cionamento, so por desgraça se tornasse república. 

Nos tempos que correm, t*3m-se reconhecido que a 
unidade dos povos em respeitáveis corpos de naçílo è 
uma necessidaae, a bem dos mesmos povos. 

Vemos a Itália, (que nunca desde o império romano 
existira politicamente unida, e que por largos séculos 
fora dividida em diversos estados, ou republicanos, ou 



4 XVII 

mon&rchicos), completar dos nossos dias a sua unidade- 
sob um só regimen político, e muito concorrendo para 
esse grande acontecimento os liberaes de todos os ma- 
tizeSf até os republicanos de Mazzini. 

Vemos como a raça germânica, desde longos anno^ 
aspirando â t^ua unidade politica, tem reconstruído o- 
grande império germânico. E nem se diga que é so- 
mente fructo da ambição do novo Imperador, da poli* 
tica do seo chanceller, da força dos seos exércitos, e 
perícia dos seos generaes. 

Nfto : o rei Guilherme da Prússia nfto poderia ter 
obtido da Allemanha a força da opinião pública, que a 
accompanhou e accompanha, abafando quasi a auto- 
nomia política, e a influencia dos chefes dos estados- 
secundários, so os allemaes dos vários Estados que 
hoje constituem partes integrantes do novo império, 
nao vissem no rei, hoje imperador, o representante do 
grande princípio da unidade germânica; e é esse senti- 
mento, que parece actuar sobre os 8 milhões de alle- 
mães, que fazem parte do império austríaco, por modo 
que mantém em sobresalto o chefe d'esse império. 

E' que os povos, assim, manifestam justo, e natu- 
ral orgulhe de formarem uma grande e respeitável 
nacionalidade, por bem da defeza, e dignidade com- 
mum; porque na unifto é que está o desinvolvimento 
das forças,, e dos interesses communs. 

Se inçáramos outro poncto da Europa, vemos a po- 
derosa Inglaterra zelando com o maior patriotismo a 
sua unidade política, nao poupando esforços para man- 
ter a sua auctoridade ra Irlanda, e velando pela sua 
grandeza, para nao descer do pedestal em que se acha 
coUocada. 

Se da Europa volvemos olhos para o Continente 
Americano, temos muitas licçOespara aproveitar, mui- 
tos escolhos para evitar. 

Na grande república do Norte vemos, sim,o governo- 
republicano federativo; mas em que condições ? — A 
unidade nacional é mantida com vigor tal por parte do 
governo central, que, para defendel-a, se empenhou 
n'essa guerra colossal, espanto do mundo inteiro. Sna- 
força venceu, anniquillando a nova confederação dos 
Estados do Sul; e para domar e conter os vencidos^ 
nem o governo federal, nem o congresso trepidarant 
jio emprego dos meios repressivos. 



XVII 5 

Intendeu-se que,fraccionaado-se, a grande república 
desceria das alturas a que se tem elevado no mundo, 
como nação una. £ é um grande problema que ao 
futuro pertence resolver, se, com a sua actual forma 
•de governo, aquelle grande paiz poderá permanecer 
por longos annos formando uma só nação. 

Estendendo as vistas sobre os paizes americanos, da 
língua e raça hispanhola, nada vemos oue invejar 
de sua forma de governo: nem é n'elles elemento de 
prosperidade e paz a república federativa onde ella 
existe, como n&o o é no geral a república unitária. 

E em qual dos paizes a que nos referimos, dotados 
de governo republicano, existem melhores fianças de 
liberdade individual e política, do que noBrKzil? 

Em qual d'esses paizes seria tolerado que circulasse 
livremente uma folha política, pregando a monarchia? 
e que um partido escrevesse na frente da casa de suas 
reuniões: Club mondrchicol 

Aqui prégam-se abertamente as doctrinas mais sub- 
versivas da nossa forma de governo, quer na imprensa, 
quer em conferencias públicas, e a auctoridade nao op- 
põe o mcuor embaraço !... Veja-se bem como é inimiga 
da liberdade esta monarchia I... 

Em nossa opinião, a auctoridade procede com su- 
bido critério. Tolera esses desabafos de ambições 
incontinentes e despeitadas da parte de uns, é meros 
sonhos da parte de outros^ ávidos de novidades; mas 
tolera atè o poncto, em que nSo sejam verdadeiro em- 
baraço para a marcha regular do governo constituído 
essas prédicas á revolução. 

Também, è certo, essas aspirações republicanas nao 
couseguem exercer influencia, porque o bom-senso 
público sabe apreciaUas e reconhece que sUas nSo tem 
razão de se?. 

Querem os innovadores levar o paiz do conhecido 
para o desconhecido, pretendendo que a nação par- 
ticipe, jurando em suas palavras, não só de suas vi- 
sões, mas egualmente de suas paixões. 

Não, não é a actual forma de governo, que nos pre- 
judica; mas sim o desregramento das ambições de to- 
dos quantos entre nós querem ser governo, sem saberem 
4*iiperar que Jhes caiba a vez. 

Isso, quanto a uns: quanto a outros, é a emprego- 
mania que os impelle a desejarem sempre o transtorno 



6 xvlr 

do que existe, esperançados em serem aquinhoados com. 
rendoso emprego em uma nova ordam de cousas. 

A educação da nossa mocidade dá logar a isso: no* 
geral todos querem que seos filhos cursem estudos su- 
periores; e depois? O que ha de ser do bacharel, ou do 
doctor? — E' um pretendente; e pretendente mal succe- 
dido é, em geral, um gritador contra o go/êrno. 

Nos paizes constituidos desde séculos, ha sempre me- 
lhoramentos que operar na ordem administrativa: e se 
n'esses paizes assim é, se vemos a Inglaterra, que se 
nos apresenta como modelo do governo livre, sempre 
trabalnando em melhorar a sua legislação em ponctos 
muito importantes, como ainda agora no sentido elei- 
toral relativamente ao escrutínio secreto, e no iní^e- 
rêsse da melhor organização do seo exército, e em 
outras providencias tendentes aos interessais públicos, 
que muito é que entre nós haja ainda tanto que fazer 
no interesse d'este grande paiz ? 
' Mas, cumpre repetir, isto não se conseguirá conve- 
nientemente, senão pelos meios regulares. Não é insi- 
nuando idéas demolidoras da unidade brazileira, não 
é procurando plantar a desconfiança entre o governo e 
o paiz, não é promovendo nos espíritos má vontade 
contra a monarcaia constitucional representativa, que 
poderemos adeantar-nos na carreira do progresso, da 
civilização, e da riqueza; não será por tal guisa que 
• seremos fortes; mas sim tendo juízo... juizo... sempre 
juízo. 

Junius. 



Decima ter*celx*a carta 

DO ROCEIRO CINCINNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 
Rio, 15 de octubro de 1871. 

Querido amigo. 

Não Fomos nada neste mundo. Homem propOe, e 
ás vezes o díabj díspoe ; é porque este bípede hu- 
mano não é mais que uma molécula, um corpúsculo, 
um poncto, um nonada, emfim um átomo embrulhado 
n'uma dobra do infinito. 

Communicara-te eu a tenção de pôr termo, com 
o n. 15 das Questões do dta, á minha correspondência 
comtigo, no tocante a Senio e C,*: Não scei dar em 



XVII 7 

• 

nomem morto, e durante 3 mezes nflo ouvi uma só 
voz defendendo a quem, até ha pouco, vivia e cam- 
peava, e£'VÍ de uma reputação pânica. Daniel aflELr- 
ma que certo rei da Babylónia ( como outro arvorado 
em rei de uma Babylónia linguistica) destruiu Jerusa- 
lém ( como outro destruiria, se podesse, a Jerusalém 
das lettras ), errou 7 annos na forma de um animal 
feroz ( isso agora é que nao ) reduziu um povo in- 
teiro à escravidão (como est^outro, menos feliz no 
êxito de suas aspirações, ambicionava ), e levou o 
seo poder pessoal ao poncto de decretar que o ado- 
rassem em estátua, a qual figurava umas cousas por 
nhi além, mas por desgraça tinha os pés de barro, 
t/onde resultou que um dia, como era de razão, veiu 
tcda aquella caraminhola a terra. Historias velhas ! 

Voltando á vacca fria, repito que estava eu no 
fim d*esta inglória tarefa, como quem em direito hou- 
vess? chegado aos 29 anno.s e 11 mezes; quando ago- 
ra iiopinadamente vejo surgir o adversário, inter- 
romptndo a prescripção, á última das horas. 

E' ocaso, que, hoje me trouxe um amigo o Diário 
do Rio^ onde, sob o título de Palestras, c a rubrica 
de Pubó.caçôts a fedido^ apparece um longo escripto, 
que prouette dar-me a vantagem e o gáudio de 
coníinuar, denunciando duas intenções: ai.' de in- 
deusar o «r. Conselheiro José de AÍencar, ou eleval-o 
até o incaiapitar no zenith; a 2.' de me subverter 
pelo chão ibaixo, até me arremeçar ao nadir. 

E por coiiseguintemuda o negócio de figura. Dou- 
me por citau); está interrompida a prescripçflo, e co- 
meçam novos iOannos; rira bieii^ qui rira le dernier, 

0^ nosso amigo (a quem chamarei Ticio ) vinha 
muito arrenegâo, e queria afinar-me pelo seu dia- 
pasão ; sublinhiva-me, com a voz, as palavras e phra- 
ses insultuosas, de que o artigo exclusivamente se 
compõe, e espmtava-se do meo sangue de barata, e 
da placidez con que eu, á sua ladainha e no logar 
do ora pro nofcwretorquia somente com estes palavras: 
.'Vôo faz ynal ! E como a minha memória nfio é^ das 
peores, e o diálojo está ainda fresquinho, quero dar-te 
uma idéa d'elle. ^il- o : 

Ticio ( depois 0. haver lido com emphase ) — Que é 
isso, sancto Deus Pois, em vez de tomares isto com 
ira, chólera, furo^ iracúndia, raiva, agastamento, e 



8 XVII 

assanho, satisfazendo a ambição do escriptor, continuas 
a palitar os dentes, e a rir! 

ciNCiNNATO. — Porque nao? Que ha hi que motive in- 
dignação ou prejudique quem quer que seja ? 
Ticio. — Ai, nao vês nada ? ! Olha que tudo isto as- 

Í)ira a ser comtigo; e só uma alforreca ficaria indif- 
erente a tamanhas insolências. Vae contando:!!... 
Reptil que levantas pó — intromettido — rasteiro — es- 
trangeiro pretencioso — especulador — merecedor de 
desprêso profundo — philaucioso — audacioso chefe de 
empreitada diffamatória — estrangeiro imprudente — 
novo Sancho Pança — calúmnias e insultos, próprios 
de quem os escreve, mas nao tem a precisa coragem 
de assignal-os — lodo -^ o auct rde taes impropérios 
está muito conhecido nesta corte, como homem— es- 
criptor de tesoura— manipulador de almanaks— sabet- 
ça inferrujada — o que só ha de seo. é mofo e bobr 

— falador de cabinda — parlapatice — - parvure'las ! — 
jogo dos disparates — parvoiçadas de farça — orelhido 
dos que pastam a relva — rolho poetastro, mettid> em 
um farrapo de toga romana-^ Cinciuuato, por .*ausa 
da gafurinha — em Coimbra nao metteu o »iariz ! 

— o José..ú -^errabraz , que nascera taga*ella — 
tenda de crítica — montador de pasquino, proílaman- 
do-se um dos primeiros litteratos..,. 

CiNC. — Deixa rabiar, homem! Sao válvilas, que 
se abrem para a máchina nao estoirar. Ou v' dizer que 
um suDjeito, chamado Pope (que, valha a verdade, nao 
tinha das melhores línguas^ publicou um /olume; on- 
de nada havia de sua lavra; compunha-^ exclusiva- 
mente das affroutas, injúrias, impropéri)s, convicios, 
calúmnias e coutumélias, com que, emíalta de argu- 
mentos, o haviam frechado. 

Tic— E depois'? 

CiNC — E depois, ficou sendo tno Pope como d'antes. 
Se bom ou máo era, tao bom ou tao raác ficou. 

Tic. — Mas nao ves que isto é vingançt ? 

CiNC. {rindo) — Vingança, i^^to? coladinho. Ora lè 
aqui : A vingança é uma satisfacçao, qtie os homens 
tomam diversamente, uns por modo ridículo, outros 
por modo inhumano. Os Getas atiraíi settas ao sol, 

auaudo se pno. Os Pygmêos movem guerra aos grous» 
s Psyllos chamam a desafio os ventc^. Outros têm de- 
safogado a sua ira com estocadas < punhaladas nos 



XVII 9 

<^adáveres de seos adversários morlos. Doestas dizia 
Platão, que se parecem com o cao, que morde a pe- 
<Lra que lhe chegou, e não na pessoa que com ella o 
feriu. Ticio! deixa là, quem quer que seja, mordera 
pedra, e morde tu este delicioso Havana. 

Tic— ^uem quer que sejal Pois tu hesitas em dar 
<o nome aos bois ? 

CiNC. — E' cousa em que nem pensei, nem me im- 
porta. 

Tic. — Pois devia importar, attento um facto, de que 
•eu tenho sciencia certa, mas que mesmo sem isso eu 
iiouvera jurado, à simples leitura d'este escripto admi- 
rável. A divinização de Senio é jobra do próprio Senio. 

CiNC. — Tinha que ver! Então prestei eu mais atten- 
•ção à tua leitura que tu mesmo. Olha aqui o que se diz 
d'elle, e imagina se haveria no mundo homem tao... mo- 
desto, que de si mesmo dicesse o seguinte : — « Brazi- 
leiro illustre, como cidadão, político e litterato — » por 
fortuna para nós (!) está tao altamente coUocado, que 
Q&o iuxerga etc. — distincto par seos merecimentos — 
As obras de Senio sao appreciadas em seo justo valor 
pelos melhores talentos 

Tic. — Tudo isso é a minha 1» prova ciroumstancial, 
pois uao haveria facilmente segunda penna que, neste 
estado de cousas, assim gabasse a noiva, senão a do 
par» que a quer casar, ou a de quem nao quer deixar o 
aeo crédito por maus alheias, embora saiba o que sig- 
nifique louvor em bôcca jírópria. Tenho mais 738 pro- 
vaci de que é esta... outra metamorphose de Protêo. 

('ixc. — Deixa-te d'isso, nao me convences. Hade ser 
producçio le algum dos muitos que se iiileiam, as- 
sombram e pasmam das magnificências do intellecto 
Senial: d^ algum dos s.íjs sábios -idrairadores. 

Tic. — Na tua edaJe. é para admirar estares ainda 
fom os beiços com que mamaste! A primeira regra do 
jui:í instructor, é profundar o ca^o, e perguntar a si 
mesmj: cai prodeií'] A q'iem approveita inthronizar 
Senio no apogôo do solV a Senio. Quem, natural d'este 
paiz, te brutalizou jamais d'esta forma *? ninguém, se- 
não Senio. E o nnnio z^lo do seo despique deitou-o a 
parJt^r : ainda se pnderia crer que fosse de algum 
admirador o escripto, sendo menos immoderado; mas 

tufm traç iria tantas finezas senio quem estivesse hy- 
rophóbico de despeita V 



10 XVII 

CiNC. — Verdade seja que, assim como nunca maltra- 
ctei ninguém n'esta terra, nunca fui maltractado; e ad- 
miraria que hoje, sem provocação ( como aquella cota. 
que Senio me fez demover dos meos hábitos e systema) 
apparecesse segundo Ferrabraz, com grosserias da- 
guerreotypadas das com que Senio me mimoseou. 

Tic. — Qual segundo, nem meio segundo! São três 
bravos distinctos e um só Senio verdadeiro. 

CiNC. — Temos mystério*? Como é isso do três e um*? 
Eu sou conhecedor de estylos e sinto zelos de quem se- 
arvora em demasiado esperto: Quem sfio esses três 
e um ? 

Tic. — Então vds com zêlos^ porque eu ja dei com a 
charada. Querem .... (N. B. Aqui seguia-se uma cousa 
muito confusa, que eu, ja ílepois de composta, c-ortei.) 

CiNC. — Falas-me por perlincafuzes, como diz o padre 
Manoel Bernardes. Nao intrujo uma palavra. 

Tic. — Eu te conto a história. N. 1 Senio dá os apon- 
tamentos magistraes, recommcndando que nada appa- 
reça por sua leira. N. 2. Salpica o discurso com 
amenidades próprias do sertão. N. 3.... e fica esca- 
broso. 

CiNC. — Escabroso é todo esse imbróglio. Entretanto 
esses, coitadinhos, não tem imputação. A questão única 
é com o bafejador-mór, se' o ha. 

Tic. — Ha; é Senio. Eu não digo que elle se não es- 
conda por detraz de um ou dous cujos. Faze de conta 
que eu assisto á tragédia Fausto, e que tu és o Valen- 
tim, irmão da Margarida ; quem figura dar-:e a esto- 
cada é o pobre Doctor (a juncta é de 3 doctores), mas 
quem guia o braço e a catana é Mephistópheles. 

CiNC.^Nãome rendo: tem paciência. Pois se fosse 
obra de um luminar da imprensa^ teria similhante re- 
dacção? Levaria duas columnas de typos a injuriar 
somente, sem sombra de argumentação? Escreveria em 
lingua tupinamba ? A propósito de alhos, tractaria de 
bugalhos ? 

Tic. — Saneia Sxmplicilas l Cada uma d'essas cousas 
tem sua água no bico. Não ha alli nada, que não leve 
£sgada uma intenção de esperteza, esactamente no gé- 
nero dos hábitos Seniaes. 

CiNX. — Nada, nada. Com que intenção thuribularia 
Octaviano, Pedro Luiz (que nunca, nem um nem ou- 
tro, que eu saiba, publicaram juizo algum favoravev 



XVII 11 

do escriptor Senio ), Luiz de Castro, Miizzio, Guima 
raes, Serra, e Salvador de Mendonça, declarando-lhes 
serem elles os melhores talentos d'esta terra, os pri- 
meiros litteratos etc. ? 

Tic. — Estás por conquistar. E' a hábil estratégia do 
<i Ohda guardai Ah qui d'el-reique me escovam l » E' o 
plano ja transparente, desde o tempo da mterpellaçao, 
quando se pretendia angariar prosélytos, iusinuanda 
que tu, na pessoa d'elle, injuriavas os characleres poli- 
ticasy e quando pedia ao povo que te desse provas tan- 
giveis da sua indignação. 

CiNC. — Digo, com a mao na consciência, que 
tenho a mais profunda convicção de que todos esses- 
escriptores ahi invocados poderão reconhecer em Senio 
os dotes que nem mesmo a sua iniustiça me fará ne- 
gar-lhe ; mas de que nem um d'elles deixará de con- 
cordar na procedência das censuras politicas e litterá- 
rias, que Semprónio e eu lhe temos íeito. 

Tic— Forte dúvida! Aquillo foi uma rede de 
arrastar ; se nao pescou haleia nem mero, sempre pes- 
cará algum bagre ou siry. 

CiNC. — E para que é que (tractando-se de um ya- 
pehicho tão desprezível como diz que .^-ao as Questões do 
dia) vem á baila outra vez a questão dos estrangeires, 
e da prohibiçao de escreverem ou pensarem sobre pes- 
soas ou assumptos nacionaes ? 

Tic. — E' outra these do discurso interpellador 
(matéria que já tractaste irrespondivelmente), e que 
apenas serve para confirmar que é a mesma pessoa, a 
que em ambos os legares echôa as mesmas idéas. 

CiNC. — Mas imaginando-me portuguez, porque 
fac elle agora tantas zumbaias a portuguezes, con- 
demnando-me a mim como precito, e insinuando que 
pôde a minha insignificante voz produzir cataclismos 
nas relações internacionaes ? 

Tic. — Tem bem que ver ! « Oh da guarda, ah qui 
(íel-rei^ que me escovamly> Viu que nao achou écho em 
parlamento; viu que o nao achou na imprensa: tem 
certeza de que o nao achará nos nomes illustres inten- 
cionalmente implorados ; bate a outra porta para que 
lhe acudam, e quer ver se encontra em membros de 
uma nacionalidade respeitável, quem te induza a dei- 
xal-o em socêgo, ou quem partage os preclaros inte- 
rêsses da eua própria conveniência Q'elle. 



12 XVII 

CiNC. — E será tainbem para isso que invoca uns 
imaginários brios nacionaes, que... 

Tic. — Certamente, é o afogado deitando a unha 
ti quanta palha avista. U Brazil é Senio I Senio é o 
Brazil ! Quem o não proclama escriptor de trus^ poli- 
tico de maço e mona, vilipendia a todos os brazileiros, 
rebaixa o Império da Sancta Cruz. Ora olha: — «O 
^pirito nacional deve incher-se de indignação » — a 
appreciaçflo de um romancista é « um negócio domés- 
tico )) — (( os brazileiros illustrados... têm susceptibili- 
dades nacionaes » — uo zelo é legitimo, nós o sentimos, 
etc, etc.» Nao estás ahi vendo outra vez o fi Oh da 
guarda, meo povo / » *? Repetição das provas tangiveis^ 
da interpellaçao. 

ciNC. — Realmente jà lhe vou achando seo furo; 
mas o estylo... 

TIC. — E' elle, sem tirar nem pôr, no pejasamento e 
na forma. 

E se nao, repara bem ! 

Viste-o, na interpellaçao, estomagado por imaginar 
que tu ganhasses muito dinheiro ( idéa fixa como a do 
pessoal) '? Aqui o tens!! «o meo dinheiro em garatujas; 
isso é para os que vivem d^ellas, e de tudo fazem 
especulação &» E* a historia cios assoldudados, — Viste-o, 
em quantas occasiOes se lhe deparam, vulpis ad uvam^ 
injuriar os clássicos? Aqui o tens, repetindo as suas 
exprobrações aos pernadas ds longo fôlego^ que deixam 
a gente sem fala, e mais cousas assim. — Viste-o, na 
interpellaçao, dizendo que seos adversários (mercê de 
Deus ) nao eram da tua casta ? Aqui tens a mesma 
idéa : Por tortuna para nós ( nós, é cousa atada ), está 
tao altamente collocadoá.» — Visto-o, na mesma occa- 
siao, responder da bua cáthedra ao Relator da Com- 
missão especial, que lhe nao redarguia, porque lá da 
sua altura nem escutar podia as suas palavras Y Aqui 
tens a variante da mesma delicadeza, na phrase : » 
que nem inxerga o pó que se levanta no rojar do 
reptil.» — Viste-o, sempre no mesmo dia dizer que nuo 
fazia caso de ti, ao passo que te tornava objecto 
único do fiasco da sua interpellaçao ? Tal e qual agora, 
quando repete que o silencio da imprensa tem pro- 
vindo do desprêso profundo votado ás tuas publica- 
ções, e logo te dedica em seguida duas columuas do a- 
mabilidades, prom'?ttendo continuar. — Viste-o, em seo 



XVII 1? 

brilhante discurso, dando prova da sua cultura intel- 
lectual, chamando a hilaridade da Camará para a ex- 
pressão Vaga Vénus? Câ o apanhas com a bõcca na bo- 
tija, voltando à carga, e em nota (para destacar 
melhor) onde pergunta com graça de um urso a 
dansar» Este Cupido será marido da Vénus vaga ?! — 
Viste-o, na inteipellaçao, citar erradamente o Labeao, 
de Horácio, e os alugadores d'iras, de Marcial ? Aqui 
o tens agora, citando Juvenal erradamente, tanto nas 
palavras como no pensamento. 

ciNC. — ^Ja me convenceste ; mas pára ahi, que isso è 
de mais. Pois é possivel que n'esse senhor, as citações- 
falsas se convertessem n'nma espécie de mania ? 

Tic. — Ohi se é ! Esta sátyra scei-a eu quasi toda de 
cór; e no logar alludido, tractando dos Senios do seo 
tempo, diz Juvenal (o que depois em distincto auctor 
francez tem sido citado como original : Rien ne lui bat 
sous la inamelle gaúche ): 

... quod Iwva in parte mamilícB 
NiL salit arcadico juveni; 
e o nosso intelligente crítico imputa-lhe o contrário ! : 
quod IdBva parte mamillcB salil arcadico juveni. Pergunta 
o poeta, se acaso o coração doesse joven Arcádio (Vecto) 
nfto pulsa; e imagina Senio que isto allude a uns burros 
que pastavam a relva da Arcádia ! 

CiNC. — Basta, meo amigo, basta . No tempo de Pey- 
ronnet não se exigiam tantas provas para um processo 
de tendência, e.... 

Tic. — E ós neologismos estrambóticos, taes como 
parvnrellasj e restantes moxinifadas, não estão dela* 
tando o inventor do novo idioma? E os erros de Imgua- 
gem, taes como o emprego do verbo carecer (sem ser na 
significação de precisar-se cousa de que ha falta, e cuja 
falta se sente) ; o gallicismo do partilhar, e do tim e 
uma a torto e a direito ; o uso do mais ( plus ) 
quando o portuguez manda escrever o jd: e mil outras 
absolutas paridades entre o estylo d'este aranzel e o de 
Senio, deixa-te isso tudo no espirito sombra de diivida? 

CiNC. — Uf I deixa, sim senhor. 

Tic. — Então descobriste a quadratura do circulo. 

CiNC— Contra esse exército de argumentos tenho um 
canhão Krupp. 

Tic. — Hade ser areado... 

CiNc. — Invencivel. O Diário do Rio não publicava a 



14 XVII 

cousa pílos lindos olhos do eficriptor; custava dinheiro; 
<linheiro! corda sensível* fibra d^alma... 

Tic, — Pois é Krupp, sim senhor. Ainda nao ha muito 
que eu vi aquelles mesmos typos d'aquelle mesmo 
Diário porem pela rua da amargura aquelle mesmo 
Senio que agora exaltam nos A pedidos. Sendo porem 
certo que aquelles, como estes, prestantes escriptores 
satisfizeram a sua espórtula, está direito. Do que eu 
duvido muito é de que Senio pagasse taes publicações; 
segredos da abelha, para desvendar os quaes tomara eu 
interpellar... fosse a quem fosse.... 

CiNC. — A matéria está discutida; deixemos a autó- 
psia do auctor. Lê por hi abaixo, e vê o que elle me as- 
saca, limitando-te a tirar o chapéo ao que só forem 
insultos descarnados. 

TiG. — A ti, nada mais. Diz que te vai catar a tua 9*. 
carta, mas nao caía nada^ e como catavento^ vira logo 
para outra banda. 

CiNC. —Ah, sim? Eatao mede-se com o amigo Sem- 
próaio? 

Tic. — Qual! n'essa nao cai elle. Em resposta ás 8 es- 
magadoras cartas de Semprónio, faz-lhe uma careta, 
chama-lhe um nome feio [arcádio) ^ e vira de rumo. E' 
porque com pennas d' aquellas nao se brinca; e de 
mai>,faltavam-lhe as muletas dos estrangeiros, das sus- 
ceptibilidades, das nacionalidades, e do Oh da guarda! 

CiNC. — Bom, bom; fecha ahi a catilinária. 

Tic. — Nao. Procede de modo estupendo.* poe-sea 
ladrar á lua. Investe contra a sombra de um dcs má- 
ximos vultos do nosso idioma, e farta-se de dizer ba- 
buzeiras acerca de quem os primeiros mestres procla- 
mam todos seo mestre. 

CiNC. — ilas porque carga d'àgua traz elle para a 
discussão quem reside a duas mil léguas de distancia? 
quem nem sequer sonha que exista similhante polé- 
mica? quem até nunca imaginou que existisse uma 
cousa, chamada Senio? 

Tic. — E' outra esperteza transparente. Muito lido na 
mythologia, occorreu-lhe a história de Castor e PoUux, 
e dice coinsigo : Sou um azougue de esperteza ; vou 
transviar o debate;vou mudar a guerra de ofFensiva em 
defensiva; vou substituir o assumpto por outro; escapo- 



XVII 15 

me da arena, sem mais arranhões e estou salvo. Vamos 
-a ver, se pega. 

CiNC. — Nao pega, nao senhor. Seria até caso de fa- 
zer a um raio soltar gargalhadas titânicas, ao surriar 
fustigando as escarpas de um rochedo, se eu me pozesse 
a defender António Feliciano de Castilho das inno- 
<!en*es frechadas de um Senio. Pode delirar a tal resr- 
peito quanto lhe apraza, que d'isso farei eu tanto caso 
•como o público faz. Comigo é que eu pergunto; co- 
migo, nao implica mais? 

Tic. — Nao; mas promette continuar. Eu te trarei o 
Diúiio. 

CiNC. — Obrigado: até mais ver. 

E foi-se. Ahi tens tu, meo amigo, o pè em que hoje 
a controvérsia fica. E' outra variante. Como quem tem 
muito medo ingrossa muito a voz, foi primeiro plano 
aterrar me, fazer de papão, amiaçar-me de logar inac- 
cessivel, e de quartel de saúde. D. Fr. António de 
4jouveia, na sua Relação da Pérsia, fala de certos 
Mouros-Medusas, que só com o olhar matam ; cha- 
mara-se Cafatares; cà o nosso Cafatar quiz experi- 
mentar em mim aquelle seo poder pessoal. Parece 
<jue tinha perdido a virtude, por ingarrafado desde 
muito tempo ( sao várias as possanças ingarrafadas, 
que já nao illudem ninguém ). Tenta agora systema 
novo, em que lhe nao prevejo mais fortuna ; e d'ahi, 
veremos. Em todo o caso, descança. que andarás 
sempre em dia com este curioso espectáculo. Prova- 
velmente de lá, segundo o uso, nao virao^ mais do 
que affrontas ; quanto a mim, guiar-me-hei sempre, 
.sem que o máo exemplo me desmande, pelos preceitos 
que tenho lido : só considerarei eita controvérsia como 
liaialha litterária, onde a minha penna terá logar de 
espada, a língua de mao, os livros de escudo, o racio- 
cínio de poder.- meos tiros serão argumentas, e na 
razão procurarei a victória. 

Desculpa a prolixidade, e crê-me inalteravelmente 

Teo velho amigo 

ClNCINNATO. 



16 xvir 

Epigrammas e madrigaes, originaes ou imitados 

A lei de H:ex*odles. 

Ser livre o ventre da escrava 
estatue lei brazileira ! 
Dizem que d'isto se aggrava 
quem nfto tem eira nem beira ; 

que a raça de Can sossobra 
sem esperança de porto, 
e a funesta causa sobra 
no infanticídio, no aborto ; 

que um ou outro fazendeiro 
pensa n'isto e perde o somno t 

n'isto, sim ; nfto no dinheiro 

que suppõe minguar ao dono. 

Mentira / calumnia I as vistas 
sâo de alta moralidade ; 
nem de humanos cafézistas 
se desquita a caridade. 

Pois, ricos e bons senhores, 
escutae I ( um chrístão pede-o.) 
Tendes contra esses horrores 
em vossas mãos o remédio. * 

A' vossa phijanthropia 
por ventura nfto parece 
que víctimas haveria 
só quando algozes houvesse 7 

(Juintilianò, 



Apprcciaçâo critica, da inAOKMA , salda diy 
toestunto do mco criado. 

Diz um gngo, meo criado 
( nue é rapaz, lido em gramroática, 
e dOs pronomes tem prática, 
que se adquire no Mercado ) 
« Que o tal romance Irracima 
(que é um romance de truz ) 
é dos romances a... gemma... 
porem... de ôvode... abestruz.ii 

TkemUtorles. 



Lilh.-lMrAKCIAL— Kua Sele de Fetcmbro, 146. 



QUESTÕES DO DIA 



isr. : 



RIO DE JANEIRO 29 DE OCTUBRO DE 1871. 



Vende-se em casa dos Srs. E. & H. Laemmert. — Praça da Constituição, 
Loja do canto. — Livraria Académica, Rua de S. José d. 119— Largo do 
Paço n. C. — Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis 



Deelnxa q.uax*ta oar*t» 

DO ROCEIRO CINCINNATO AO CiDADÃO FABRÍCIO 

Rio (ie Janeiro, 17 de octubro de 1871. 

Caro amigo. 

Psssei hontem o dia em Andaraliy, e por isso nfto 
pude palestrar comtigo. Sai agora d'aqui o Tício, 
que me trouxe a 2*. e 3*. Palestra do V. ( ? ), publi- 
cadas hontem e hoje. 

Lemos junctos aquellas duas peças de architectura» 
e discutimos largamente se era licito tomar em consi- 
deração escríptos redigidos com formas tao baixas, que 
é duvidoso merecerem resposta. Estas pugnas litterá- 
rias tem seo quê do duello : acceitarias tu- um repto 
para te bateres, nao com armas licitas, mas com pu- 
nhados de lodo ? Eu jà nem me presto a copiar as pa- 
lavras e expressões, que esta casta de adversários julga 
admissiveis em taes polémicas ; embora seja simples 
transcripçâo, ha certo pudor que veda reproduzir com 
a nossa penna linguagem que só se aprende nas taber- 
nas e nos açougues. O sal âttico doestes senhores, é sal 
do cosinha, e do mais ordinário. 

O idioma é em todos os géneros t&o opulento que 
nada houvera mais fácil do que a uma insolência res- 
ponder com dez insolências, a uma brutalidade com 
cem brutalidades ; mas ainda quando o adversário 
nada mereça, merece muito o público, e a nossa própria 
dignidade. 

Depois de lidos estes dous artigos, tinha um de três 
arbítrios a tomar : 



^2 XVIII 

l®. Responder na mesma afinação, ou meio tom 
acima. Seria seguir um. vergonhoso exemplo ; trans- 
formar controvérsia em pugilato; desrespeitar o leitor e 
a mim mesmo. 

2°. Em vista de tamanho descomedimento, guardar 
silencio, por nao julgar decente polémica de espécie al- 
guma com taes contendores. Seria deixar campear im- 
pune o desacerto boçal, e auctorizal-o a proclamar ir- 
respondiveis os seos delírios. 

3". Fechar olhos a tudo quanto em taes artigos re- 
veste a forma brutal, extrahird'elles lealmente o que 
aspire a foros de argumentação, e aquilatal-a, como se 
fosse proferida com decência e compostura, e por 

auem tivesse em mente, nao a injúria, mas a apuração 
e doctrinas controvertidas. Por exclusão de panes, 
intendi que era esta a marcha que eu tinha de seguir. 
Deixarei pois, de boamente, a Senio a glória do seo 
vocabulário. Nao reciprocarei os piegas^ MaiiianUj 
salsinha litterãrio^ charlatão^ casmun^o, palhaço, crili- 
queiro^ cacassenOy etc, etc. (*) Acceito tudo, epago-lhe, 
dizendo que nada d'isso me demove da posição de 
justiça e plena rectidão em que me coUoquei, nem me 
auctoriza a represálias, que em taes termos seriam in- 
dignas do público, de mim... e do próprio Senio. 

Nao ha quem tenha esquecido a lucta entre J. A. 
de Macedo e Bocage, no fim do século passado. Aquelle 
começou a sua excellente sàtyra por estes versos : 

Sempre, ó Bocage, as sátyras serviram 
para dar nome eterno e fama a um tolo. 

A sátyra monumental em que Bocage analysou 
aquella, principiou assim : 

Sátyras prestam, sâtyras se estimam, 

quando n'ellas calúmnia o fel nao verte 

quando forçado epítheto afprontoso 

{ tal que nein cabe a ti ) nao cabe áquelle^ 

que já na infância consultavam Phebo. 

Eis-ahi, ao menos n'este poncto da sàtyra, um bello 
exemplo. Bocage tinha um arsenal provido : quem lhe 
chamava tolo, dava-lhe o direito de redarguir com 

Y*) Em seguida a esta carta, chamo a tua attenj^o para o qua 
yai transcripto, sob o título de Infirmidades ãa tingia. 



xviir 3 

egual energia : parvo, néscio, asno, tolambana, bas- 
baque, asneirao, estólido, fátuo, papalvo, párvoalho, 
inxovôdo, inepto, insensato, parvoeirEo, tolaz, patau, 
simplório, sandêo, tolSo, simpleirUo, stulto, ignorante, 
lorpa, zote, bestial, pateta das luminárias, amente, 
mentecapto, lunático, tresvariado,demente, tonto, par- 
voinho, alarve, alvar, animal, bobles abobles, bolonio, 
oamfilo, caturra, orate, despro{}ositftdo,estouvado, estú- 
pido, patola, e mais duas dúzias de variantes, que se a- 
f)rendem na praça do Mercado. Tal nEo fez: começou 
ogo reconhecendo, nao obstante a ira que o inflammava, 
ufto ser aquelle epitheto applicavel a quem lh'o applica- 
va;como nfto faria outro tanto, eu, em quem taes violen- 
i^ias nao geraram agastamento, mas simples com- 
paixão ? 

Deixarei pois aquellas energias de linguagem para 
quem precisar lançar poeira aos olhos ; eu, que só 
preciso raciocinar som vitupérios, dispenso esses tristes 
recursos da impotência. 

Pelo que vejo, abcndonai^am ao braço secular o poder 
pessoal, o orador, o tstadista, o escriptor. Só defendem 
o romancista. Vamos a isso. Semprónio consagrou 40 
páginas á anályse do Gaúcho ; não se atreveram 
rom elle: eu rabusquei na vinha que o hábil vindi- 
mador deixara, consagrando apenas duas cartinhas ao 
meo supplemento de anályse, e é sobre mim que Senio 
cai desapiedadamente, por me saber mais fraco. Faz 
lembrar Cosar em Dyrráchio, investindo o campo de 
Torquato, por supp61-o maia fácil de derrotar do que 
se atacasse as forças de Pompeo. Resigne-se cada um 
& sua sorte, e vamos a isso. 

E' um tanto difflcil conquistar attençao sobre assum- 
ptos já cançados, e que naturalmente saciam. Sem- 
prónio fez uma primorosa anályse do Gaúcho ; eu co- 
mecei-lhe um insignificante additamento ; agora o tal 
V. disseca-me a mim ; eu vou dissecara sua dissec- 
ção de modo que isto vem a ser anályse da anályse 

do additamento á anályse da obra. Fora mister muito 
mais alto mérito litterário em mim, e no meo fusti- 
í^ador, para ser isto supportavel; todavia cumpra-se o 
dever, inteiro e com lealdade. 

E para d'ella dar mais uma prova, quero (nao obs- 
tante o risco de ver converter-se-me em desar a con- 
fissão espontânea) declarar que houve n'estas cartas 



4 XVII 

uma observação inexacta. Passando pelos olhos as //w- 
titutas de Justiniano, de Ortolan, là achei a citação de 
Labeon, tauto do Tácito, como do Horácio, reproduzida 
no discurso do Sr. Alencar: e então, examinando mais 
attentamente, vi que a minha afirmativa proveiu de 
uma ommissSlo do auctor da Taboada geral das maté- 
rias contidas nas diversas obras de Tácito^ o qual pro- 
mettendo aponctar a** logares onde o grão discípulo de 
Quintiliano fala de personagens notáveis, menciona 
sob a rubrica de Labeon outros indivíduos d'essa famí- 
lia, e nfto o bàbio e louco Antístio, de quem é todavia 
certo que o grave auctor dos Annaes tracta no L. III 
§ 75. Nao sou como aquelles a quem í>e appresenta 
prova de inexactidão de suas accusaçoes e as nfto reti- 
ram ; em obséquio á verdade, retiro esta,sem que vies- 
sem notar-m*a, e com a mesma espontaneidade reti- 
raria qualquer outra, quando a consciência m'o pres- 
crevesse. 

Agora, supprimindo os insultos, discutamos os pou- 
ctos sobre que Senio repelle as minhas observações. 

§ L ii« andais se agitam em (luctuação. 

Na minha i*. ca''ta a Semprónio ( Questões^ n. 9 ) 
censurei esta phrase do Gaúcho em 4 linhas, e respon- 
de-se-me com um i columna de typos. E' um desper- 
dício de palavras que bem se harmoniza com o da 
phrase censurada. Nâo sou pois eu o culpado, se tiver 
de seguir nesta trilhada. 

Eu transcrevi do romance os seguintes trechos : « A 
savana ondula pelas sangas, que figuram as flvcluarôes 
das vagas ^ n'esse verde oceano.... As ondas se agitam 
em constante fluctuaçào etc. » Qualquer amigo mais 
prudente do auctor calar-se-hia, reconhecendo comigo 
que isto estava tristemente expresso e esparralhado. E 
como redargue o imprudente V ? 

(( — Nao vê (senhor piegas) que de propósito comea o 
constante^ e levantou um aleive a Senio ? isto é ser 
calumniador. » 

Oalumniador, meo sábio mestre ! a isto é que o 
mestre chamaria calúmnia ? Sabe bem da língua, não 
ha dúvida. 

E onde é que eu comi o constante^ meo leal censor *? 
Nao o yè alli, na phrase litteralmente reproduzida ? 
Olhe que se me nao alimentasse sendo de comida 
assim, dava a alma a Deus em 3 dins. 



XVIII s 

E note mais, que bem podia eu ter ommittido o ad- 
jectivo, sem fazer falta alguma. A minha repugnância 
não é contra o constante^ que só d& idéa de que o tal 
movimento è aturado, duradouro; é contra (a moléstia 
pega-se) a redundância da pleonàstica eicpressSo do 
tal movimento ; e já vê que para isso tanto importa ler 
como supprimir o adjectivo. 

Ondas representa águas em movimento; fluctua- 
Ção^ representa águas em movimento; agitarem-s^ 
/ij'/a.ç,representa águas em movimento. O que eu digo 
por tanto é que a expressão — as ondas se agitam em,., 
flucttiação, — trocada em miúdos,dá isto: — as águas que 
se movem movem-se em movimento de águas.— Se 
approva, também eu. 

Ksta perissologia, sempre reprehensivel, ainda o é 
mais, quando, logo antes, tinha o auctor escrípto 
que a savana ondula pelas sangas, que figuram as 
fln:lHaçôes das vagas nesse verde oceano l Oceano sao 
águas; vagas o movimenio d^ellas; fluctuação, idem; 
ondular^ idem; de forma que bom nadador hade ser 
quem leia, se sair incólume deste dilúvio. 

I)á-nos o Sr. V. a novidade de que «aquella plarase, 
exprime em estyio nobre e elegante ! este pensamento: 
As ondas estão em constante movimento. » D'isso é 
que me eu queixo; foi uma idéasingelissima, diluída 
em repetições de palavriado; sao dizeres de Mr. de la 
Falisse, ou do cónego Philippe: «Se elle nao estivesse 
morto, ainda estaria vivo. » Nilo ha dúvida de que, 
era alguns casos, sóbrias repetições augmeutam a in- 
tíjnativa^ mas nuo devem usar-se quando, como aqui, 
nãi) cnbp intenção de ingrandecimento, pois a phrase 
de Seuio nao descreve temporaes, e .comente ondu- 
lações. Quando Molière escreveu: Je Vai vu, dis-je, vw, 
4Íe 7nes propines yeax vit, ccqnon appellevn » teve em 
mente uma idéa enérgica, energicamente expressa. 
Quando ao contrário os próprios escriptores da nossa 
lingMia escreveram os idiotismos: — Eu por mim-^Su- 
bir para cima — Parece-me amim— Descer para baixo — 
E» parece-me --e cem outras flucíuações das ondas agi- 
/nrfífA, procederam reprehensivelmente. 

Seguem-se agora as erudições polyglottas, ante 
a^ qaaes me curvo reverente, pois fiquei sabendo que 
í» nobre crlrico sabe habilmente compulsar um dic- 
oionario. 



6 XVIII 

Abre por exemplo um Calepino, onde vé citada a 
Eneida, IV. 313: 

Trojaper undosum peierelur classiòus osquor^ 
e noticía-nos que Virgílio dice undosum (Bquor (que 
podia perfeitamente dizer, pois ahi n&o se acha re- 
petição, como a nSlo ha em maré undosum,) 

Mas o mais divertido é isto. Procura no mesmo Ca- 
lepino a palavra fluctivagus^ e lô ; çuod fluctibus agir- 
íatuvy ut Naula flucíivagiy unda fluclivaga, Stat. 1. 3. 
Sylv, 1. V. 84 e Théb. I. v. 271 » Imaginou natural- 
mente que isto eram 3 auctores : — Théb.^ senfto fosse 
a ex-imperatriz, condessa de Teba, seria a nympha 
Thebe, que Ovidio pinta, amada do rio Asopo — Stat. 
será. . . o Statilio, cúmplice de Catilina — No que nao 
ha dúvida é em que 5s^/v. é o escriptor Silvio, tilho 
d'Ascanio, segu|iao rei d' Alba. 

Ergo, escreve Senio : « Em latim ^ dice Silvio: unda 
fluctivaga. » 

Sao os inconvenientes da erudição lexicogràpliica, 
os ossos do officio. O infeliz Senio julgou que havia 
um senhor Silvio, que tinha dicto aquellas bonitas pa- 
lavras, e enganou-se. Houve, sim, um poeta, chamado 
Stácio, que J. A. de Macedo traduziu, levando u7(/ia- 
dan de Bocage ; esse poeta compoz iima série de Carmes ^ 
divididos em 5 livros, obra que denomine u Sylvas, e 
2 poemas, intitulados Thebaida e Achilleida. 

Portanto, o « Em latim, dice Silvio » traduz-se u'isto : 
« nas sUrOÃ Sylvas^ dice Stàcio » E até isso mesmo seria 
errado, porque aquellas referencias, nao comprelien- 
didas por Senio, sao a outra cousa diíferente. O verso 
das Sylvas n&o diz tal unda fluctivaga, e sim 

Fluctivagos nautas, scrutatoresque profundi : 

e portanto n&o é para o unda fluctivaga, que o diccio- 
nàrio o cita. Onde o Calepino indica isso, é na Thebni- 
da, e ahi com effeito s^ lê : 

,..fl,uclivaga qua prceterlabitur unda. 

Consaguintemeute em vez de o Silvio dice cm latim , 
leia-se: o Stàcio dice na Thebaida. 

As superfluidades de palavras não sao invenção Se- 
nial. Já n'aquelles tempos se perpetravam. Quintiliano 
queixava-se da locução húmida vina e similhantes; cha- 
mava a esses dizeres supervacua oraíio ou abundans 
supra necessilatem oratio, Desadorava com as gemi- 



XVIU 7 

naçOas; indignava-se com discursos que vao logo sendo 
tiradoâ em pública-forma ; que diria elle da mesma 
idèa, desbotada e chata, repetida dez vezes ? placebií ? 

Da sciencia lexicogràpliica romaua passa o Senio, 
ou V., para idêntica sciencia portugueza. Diz que são 
eguaes pleonasmos dguas fluctuosas (como se as aguas 
não podessem ser paradas ) ; — mar undoso ( como se o 
mar nao podesse estar estanhado). Diz mais que tam- 
bém CamOes dice : « Eslava-se como as onda^ ondeandor* 
(como se Camões fizesse versos errados). E' o passo em 
que o poeta descreve o phenómeiio da tromba absor- 
vente d^agua de mar, ou manga do nuvem, e diz que 
ella ( man^a ) estava fazendo uns movimentos de ondu- 
lação similhantes aos que as ondas faziam... c o nosso 
preclaro crítico imagina, para justificar o seo pleonas- 
mo, que sao as ondas que estão ondeando. Pois sim. 

O que é, porém, mais impagável é a profundidade 
doestas erudições, todas ellas também de diccionário (e 
ainda se fosse só isso, seria meio mal\ 

1' zrudtção lusitana \ t< Emportuguez, Menezes diz : 
as dguas fluctuosas "> Com efleito es<e autor da ^lía/aca 
ConquistadAi^ dice : 

Rompendo Affonso as águas fluctuosas 
chega >• Coulao e foi bem recebido ; 

mas ndo foi no poema que V. achou isso, e sim no dic- 
clonàrio de Mcráes, onde se encontra, verbo ttuctuoso, 
a citação, tal qual a copia. 

2* — K Na riysséa, cap. 1 v. 24, vèse mar undoso » 
Vide o mesmo diccionàrio:)) undoso: que tom ou faz on- 
das* v. gr. o mar undoso. Ulys 1. 24» E a j)rova plena 
de que a cópia foi cegamente do diccionàrio, e que nem 
sequer se tem noção do que se cita, é que o copista so- 
nhou que o I era capitulo 'de um poema ! ) e o 24 era 
verso, quando 6 1 era o canto^ e o 24 era a estância. 

;j» — (( E o clássico Camões, canto V v. 20 diz : £s- 
tavorse como as ondas ondeando »> Veja-se ainda Moraes: 
— »< Ondear-se: Mover-se còm as ondas: Estava-se co' as 
ondas ondeando. Lus. V ítO » E que nem sequer aqui 
foi mais do que uma cópia muito intelligente, demons- 
tra-se com o facto de chamar verso 20 a estância 20 
porque nao comprehendeu a citação do Moraes. 

«i E TM CHARLATÃO DE TAL JAEZ METTIDO A CRlTICO! )) 

E' como V. conclue esta parte da sua defesa, de que 
acabo de rjxtrahir toda a força, pedindo licença para 



8 XVIII 

fechar olhos ao roceiro, maitiante, salsíaha litierário, 
merceeiro da critica, e restante molho de vilão (é termo 
téchaico) com que aquella cosinha se vai adubando. 

Por hoje basta. Ficou-me jnuita matéria notincteiro; 
nao vai a matar. 

Teo velho amigo 

» . 

ClNCINNATO. 



l]aílx*iTiiaa<les da língua 

O ingenhoso bacharel Manoel José de Paiva publi" 
cou» meado o século passado,uma porção de obras, ge* 
ralmente da mais fina crítica, sob o pseudónymo d® 
Silvestre Silvério da Silveira e Silva. Ha entre ellas 
uma, curiosís-^úma, dedicada a S. António, sob o titulo 
de Infirtnidades da língua^ e arte (jne a ensina a eiumude- 
cer para mdhoYar , livro quo o Sr. Conselheiro d'Estado 
José Silvestre Ribeiro diz que « supposto seja ura tra- 
ctado de moral prática, e de finíssima critica das ten- 
dências ruins do homem, deve comtudo ser comptado 
entre os subsídios philológicos etc. » Este livro, no 
maior número das suas páginas, de sabor clásf^iro, é 
pouco manuseado pelo geral dos leitores, mas parece 
ser o vade-mecum de certos escrevedores, não para se 
afastarem dos dizeres que elle condemna, mas para se 
apoderarem das torpezas que profusamente exempli- 
^ca. Nao será desr-abidí», nem desagradável, ler (»ni 
seguida uma porção de trechos da dita obra, que sem 
dúvida aguçarão o desejo de recorrer ao original. 
Transcrevamos : 

« ~Em lamentáveis ruínas se considera estar a lín- 
gua que a Providencia creou com tanto re^i ;uardo, e 
que, saindo tantas vezes fora deseos limites, se perver- 
teu de sorte, cora o vulgar tractaraento, que a natural 
limpeza se lhe tem convertido na artificial corrupção. 
Assim como, quem se chega ao fogo se queima, assim 
ficaria ferido quem se poz3Sse perto do contágio.... 
A língua publica, que não teme exércitos, que nao 
respeita monarchas, e que o mundo todo é pusillânime 
para seo "emulo; porque ella, cora qualquer venida de 
que usd, ou força que faça, aos mesmos astros podírii 
derribar do firmamento.... Eis-aqui a declarada ini- 
miga contra que este livro quer sair a carap:inha. 



xvrir 9 

« .... Para que uma líugua de fogo uao faça damna 
ao pàbulo a que se chega, afasta-se este com vigilân- 
cia, e assim a labareda sobe ao seo centro sem estrago, 
mas.... A língua deve ser luz que alumie, e não fogo 
que abraze... Se os homens nao intendem as cousas, 
•calem-se, e ficarão na opinião de homens ; mas quando 
.as não intendem, se falam, saibam que ficam na opi- 
nião de brutos. 

a Reparo em duas vezes em que Christo não deu 
resposta a Pilatos : —uma, quando lhe perguntou, de 
que pátria era — outra^ quando lhe dice, porque não 
-contrariava as accusaçOes dos judôos ? Que não respon- 
desse à ociosa pergunta da pátria, não me admira, 
porque um Senhor tão sábio bem conhece o pouco que 
importa a differença das pátrias etc. . 

« Porfia um louco a formar de areia uma estátua,. 
mas da sua loucura é evidente signal esta porfia : a 
mesma acção com que a está compondo, é a com que a 
vai desfazeudo ; como não tem união substancial em 
que se segurem aquellas partes, apenas se vão levan- 
tando, quando vem caindo. Assim as palavras suber- 
bas, como soltas ou dissolutas, não podem admittir 
composição, que não seja desmancho. 

u ... As palavras da emulação, da invejando ódio, 
4^8 ira. e da vingança, são as bandeiras que o coração 
vai trt»mulaudo, para que lhe tenham medo; e o medo 
é it nielKop preservativo contra o estrago. Mas que suc- 
cedc* ? O iunocente foge, o inimigo cança-se, e ades- 
pe/.i qui' tem feito o deteriora, porque não faz preza 
qu.' Ih*!! pigue ; e por último effeito d>sta diligencia, 
ouvt» uma náutica gritaria com que é escarnecido. 
Quem jaiiTais attondeu ás palavras doestas paixOes, de- 
poi> í|ue \) ir taes as distinguiu? Em se conhecendo que 
.prokVílem de origens tão indignas, já se avaliam por 
loucas, e se julgam por indei^entes. Diz mal o irado do 
objfiMM da .iua ira: e com que escárneo se não recebem 
u-i tumultuo^ií expressõas de ardor tão temerário? Por 
f >;r^i fátuo s^ uit'M*pr<Ua, na opinião dos que percebem 
tã j diffiísas lahiri>J')S, tã'» inquietas, tão desproporcio- 
nadus. t j ) impróprias e t>lo loucas, como as mesmas 
palavr2i< o dizem. (.VimpO?-se a ira da descompostura 
án< palavras : t» como pode apparecer composta a que 
faz u-ala da descompostura ? l^ue período se lhe obser- 
vou jamais com elegância, com discrição e com acôrto? 
Ir:im-ie contra si os que se iram. 



10 XVIIl 

<( Ha na língua uma espécie de borbulhas, a que 
chamam brotoeja, e ainda que nao è de perigo, pari» 

ficar com saúde perfeita, bom será alimpar-lh'a A 

língua ò o mostrador do relógio, que diz, com o acerto, 
o aceito que n'elle se acha ; mas quando se desmancha 
este, logo ella o manifesta, para que ninguém o 
creia. 

«... Que phrases indignas nao tém composto a 
apprehensão dos ignorantes ! Que palavras torpes nao 
têm inxertado na sincera planta da linguagem, que 
sem necessidade chegou a ver-se tao corrupta! ...de 
sorte que a linguagem dos livros é diversa da lingua- 
gem do vulgo ; nos livros acham-se as palavras como* 
limadas, no vulgo incontram-se como cheias de limos ; 
e succede ordinariamente que a gente humilde que em 
sua casa e fora d'ella nunca se tracta com aceio, nau 
passa da immuudicie, mas a gente limpa, em quanto 
está em sua casa, nao se mancha, e por sair à rua so 
mette pela lama e se salpica. 

«... Entre as innumeraveis palavras que a igno- 
rância tem introduzido e em que a língua tem degene- 
rado, escreverei as que agora me lembram e as indignas 
phrases de que o vulgo usa, infamando-as por indis- 
cretas, por loucas epor temerárias, já porque nao têm 
recta deducçao da linguagem, já porque as institniu a 
ignorância, já porque nao sSo attendidas pela prudên- 
cia, já porque as nao recebeu a discrição, já porque só 
se usam nos períodos desço npostos, e já porque só 
d'ellas se tracta nas práticas deshonestas. » 

Comquanto esta matéria esteja perfeitamente irac- 
tada, e lenha grande ])arentesco com a dos e;stylo.^ 
adoptados pelos S»*nios interpellantes e pelos V. escrip- 
tores, nao devo continuar a transcripçao, e limito-mi! 
a dizer que o nosso auctor pOe em seguida, e por 
ordem alphabética, uma multidão de termos e phra- 
ses, defesas a toda a penna que se respeita, e entre a> 
quaes appare^^em quasi na totalidade os dizeres d'estas 
Palestras, d'r>nde se collige que realmente os seosi 
auctores $ao mui lid( s n^este meio-classico, a quem 
impetraram auxílio, afim de lhes fornecer para sjCouso 
as locuções exactamente que o hábil crítico desterrou 
como indignas dos typos. Pelos tempos que coriHm;,, 
ha lógica em tudo isto : quando a propriedade é r«.ubo. 
a religião farça, a monarchia flagello. o incccJro 



XVIII 11 

meio, a destruição fim, a glória lucro, a honra phau- 
tasma, o progresso desordem, e a liberdade anarchia,. 
nada mais natural do que desinthrouizar-se a lin- 
guagem culta, ou sobre as cinzas d'ella fazer pom- 
pear a geringonça ou gíria dos ciganos e galés. 



Alonurmeiato a JBooas^*(*) 

Ha vontades de ferro, espíritos persistentes aosquaes 
nenhuma dificuldade desanima^ e que vencem e supe- 
ram toda a sorte de obstáculos. Cabe a esta raça pri- 
TÍlcgiada de lidadores saír-se vic tório ;a sempre das 
luctas que emprehende : a palavra ijiipossivel^ por naa 
ter noção correspondente em sua vida práctica, foi 
ha muito supprimida do vocabulário próprio. 

Pertence incontestavelmente a esta família — pouco 
numerosa, ainda mal ! — o Sr. consel)u;iro José Felicia- 
no de Casiilho Barreto e Noronha. Documentos de toda 
a authencidade ahi nol-o estão a testificar, e, se de 
nova demonstrar&o se carec^ssse para affirmar a sua fi- 
liação n*aquella genealogia predestinada, o assumpto 
que vamos tractar nol-a ministraria cabal e perfeita. 

Bocage é um vulto notabillíosimo da litteratura por- 
tuguesa; Mias nao est&o ainda de todu extincta^ as 
paixões que sublevou o seo assombroso talento. Uns o 
proclamam o principal poeta da península n'este século; 
porfiam outros que nao soube extremar-se da turba de 
versejadores de outeiro. 

Com mfto segura e sciencía de mestre, o Sr. conse- 
lheiro Castilho tomou o escalpello da anályse, e \)yí^- 
vou que, ire os primeiros eram exaggerados na sua 
classihcação, peccavam os segundos por nimiamente 
injustos no conceito em que tinham a Elmano. N'este 
paciente e consciencioso trabalho, que forma os tomos 
vii ft VIU da Livraria Clássica, levantou o Sr. Castilho 
primoroso monumento á glória do grande vate setuba- 

(•) Tendu dado n*este rcpcsit^rio vários dos principaes escrip- 
tosqae prendem com este assumpto.transereveremos alfçuns ou- 
tros. Os que vfto ler-8e,appareceram no jornal illustrado d'esta 
capital A Vtda F/iMnt»^^.accompanliando um excellente dese- 
nho do monumento, em que ró ha uma inexactidão: a de iigu- 
rmr armas reaes no logar onde estfto lyras. Também depois se 
mandou colocar emtòrno do monumento uma elegante gradaria 
de ferro, octógona, elevando-se, dos 8 ângulos, columnas, 4 das 
quaes sustentam grandes candelabros, e i alternadamente lyras. 
— O 2.0 artigo saiu nR Gazeta ie SetvbaL 



*i XVIII 

leuse ; podia pois descançar repousado da sua obra» 
^ue formosa e imperecedora lhe sairá ella. Mas no 
mauusear e estudar profundamente o nosso poeta, mai- 
ores motivos de admiração se lhe foram deparando, 
mais elevado grau de intensidade ganhou o seo enthu- 

siasmo. 

Bocage, que fora « uma dobadoura de bons dictos, 
girândola de epigrammas, azenha de graças, mâchina 
de repentes » é para elle ( e para quantos prezam as 
lettras ) « o grRo fidalgo do idioma, o 'príncipe do im- 
proviso, o Anacreonte à^ lyrica, o Petrarca do soneto, 
o Rerabrandt do ciúme, o Koh-i-noar da meti^íficaçâo 
portugue7-a. » 

Doesta convicção lhe nasceu a idéa de que, para hon- 
Tar a memória de homem tal, só uma estátua erecta em 
praça pública seria padrão bastante e condigno de seo 
grande renome. Formular esta idéa e tractar de a pôr 
em execução foram actos simultâneos. 

Era no anno de 1865, poucos dias antes do centésimo 
anniversário do harmonioso bardo. Occorreu-lhe logo 
o pensamento de approveitara feliz coincidência, solem- 
nisando com um jubilêo litterário, celebrado segundo 
o moderno rito poético, aquella data memorável. 

A 15 de septembro, por convite e a esforços de 
S. Ex., uma luzida sociedade se congregava nos saloes 
do Club Fluminense, e, em meio dos esplendores da 
festa, o projecto de se erigir a Bocage memória perdu- 
rável foi accolhido com unanime acquieseencia. 

Nomeada uma numerosa comraissao central, com- 
posta de influentes e distinctos cavalheiros, brazileiros 
e portuguezes, em breve começaram os trabal losese 
iniciou a subscripçao. 

A esse tempo, oorém, surge a guerra do Paraguay. 
e deu isto causa a que a subscripçao tivesst» êxito muito 
limitado, n5o obstantes grandes diligencias e constante 
trabalho da parte do Sr. Castilho, presidente da oom- 
missão. Sabidos thv^^astre.s coinráerciae.^ vieram desfal- 
car, quasi na totalidade, a coilocta já de .si minguada ; 
e n'esta situação desanimadora ninguém cria ainda na 
possibilidade de se edificar o planejado monumtMito. 

Nao esmoreceu, comtuHo, S. Ex., e comptava sempre 
realizar a sua concepção, embora sosinho e desajudado 
se viesse a achar. Em sua ultima viagem a PortugaU 
mais vivo se lhe reaccendeu o seo generoso intuito, e 
tomou então uma resolução extrema, ideando um plano 



■ K 



XVílI 13 

simples e elegante, coatractoii com o Sr. Germano José 
de Salle^, hábil director de uma importante officina 
de esculptura em Lisboa, a feitura da obra, e imme* 
diatamente se principiaram os trabalhos, debaixo de 
sua exclusiva responsabilidade, correndo risco nâo- 
menor que o de nao ser approvada a sua deliberação, 
e ter conseguintemente de pagar de seo bolsinho toda 
a importância de t&o dispendiosa fábrica. 

A commissao central, reunida a db de junho próximo- 
passado, approvou, porém, plenamente a nobre decisão» 
de S. Ex., e resolveu ratear entre os seos membros as 
despesas da constr ucçao, que devem exceder conside- 
ravelmente o pouco que ha apurado da antiga subs- 
cripcao. Honra lhes seja por tao assignalada munifi- 
cência ! 

O desenho com que hoje brindamos aos nossos as- 
signantei? é cópia fiel do do esculptor. ( Supprimimos 
aqui a descripção do monumento^ por jd ter sido lida no 
Relaíório) . 

Tal será o monumento do grande satyrico, do espi- 
ritiiosQ epigriímmatista, do bucólico virgiliano, do mi- 
moso elegíaco, do arrojado, do suavíssimo Bocage, que 
dos ceos houve 

o solemne idioma, o tom dos numes, 
a voz que longe vai, que longe sobe, 
que sôa além do mundo, além dos t3mpos. 

Louvores a quantos cooperarem para o resgate d'esta 
divida de reconhecimento a um esplêndido ingenho, 
e nomeadamente ao Sr. conselheiro José Feliciano de 
Castilho, iniciador da idéa, e seo zeloso e infatigável 
promotor. 

¥. O. 



IVotlolax^io 

Lô-se no Jornal de Setúbal^ de 24 de março de 1867y 
o seguinte : 

Chegada. — Dommgo pelas 4 horas e meia da tarde, 
chegou a esta cidade o Exm. Sr. José Feliciano à& 
Caijiilho Barreto e Noronha. 

S. Ex. veiu só. O Sr. António Feliciano de Castilho 
ainda chegou ao cae.s dos vapores para embarcar para 
Setiibal, mas viu-se obrigado a retirar, em razilo do 
tempo estar muito mào. 



U XVIII 

Suas Excelleacias tinham mandado dizer era uma 
carta qu^^ só viriam, caso o tempo estivesse inteira- 
mente seg-uro, e por isso a commissao incarrefarada da 
recepção d*aquelles cavalheiros, os nao esperava em 
tal dia. 

Logo que, por uma participação telegráphica, se 
soube que S. Ex. havia chegado á estação do Barreiro, 
reunira m-se o presidente e alguns membros da com- 
missao, que o acaso fez encontrar, pois estavam já 
dissuadidos da chegada dos illustres hóspedes, e parti- 
ram para a estação do es minho de ferro. 

Ali poude aind& chegar, ao tempo que chegou a 
parte da commissao, uma deputação da camará mu- 
nicipal. 

Feitos que foram na estação os devidos cumpri- 
mentos ao distincto visitante por parte dos dignos pre- 
sidentes da camará municipal e da commissao, dirigi- 
ram-se todos a visitar as praças da cidade, afim de se 
vor qual a queS.Ex. julgava mais appropriada para a 
■erecção do monumento ao nosso illustre conterrâneo o 
famoso poeta Bocage, para o qual S. Ex. tem solicitado 
e obtido já importantes donativos. 

S. Ex. nao se pronunciou definitivamente pela es- 
colha do local, e pareceu ficar indeciso entre a linda 
praia, ao lado poente do cães, e a praça principal da 
cidade, jà denominada de Bocage. 

Concluida a visita aos locaes que poderiam prestar-se 
á coUocaçao do monumento, dirigiu-se S. Ex. com as 
pessoas que o accompanhavam aos paços do conselho, 
onde antecipadamente havia manifestado desejo de 
<?onferenciar com as pessoas competentes sobre o as- 
sumpto que era motivo da sua vinda à terra do grande 
Elmano. 

S. Ex., recusando oocupar o logar principal que 
lhe fora oflTerecido pelo Sr. presidente da camará, 
sentou-se ao lado d'e.:te,e tomando a palavra, expôz em 
claro e conceituoso discurso os trabalhos preparatórios, 
qu3 tinha levado a effeito para o monumento a Bocage, 
e o fim que tinha em vista na realisaçíio e forma d*e.sse 
monumento, declarando ser a iniciativa do monu- 
mento do seo Exm. irmão, o Sr. António Feliciano de 
Castilho. 

Seguiu-se-lhe no uso da palavra o Sr. Presidente da 
camará, felicitando os habitantes de Setúbal pela hon- 



XVllí 15 

ro.>a visita quo acabavam de receber, e agradecendo 
4ios Srs. Castilhos, em nome dos Setubalenses, o lou- 
vável e assidiio empenho que tomaram para se pagar 
nm tributo devido & memória de um tao illustre setu- 
balense. 

S. Ex.. em coritinuaçílo expôz o estado de obscu- 
rantismo doesta terra e a grande necessidade de ins- 
truir o pivo, e n'e3te intuito submetteu & appreciaçao 
<lo Sr. Castilho a idéa de um monumento eschóla- 
hnvIo^ com o titulo— Bocage, e com distinctivos que 
dice.^sera /espeito ao poeta, a fira de que assim o mo- 
numento pMJectado reunisse duas qualidades úteis. 

Dis^ur^iu em seguida, no mesmo sentido, o Sr. 
presidente d\ conmi^^ao, dpm:)iistrando a dupla utili- 
dade do monumento e-^chòla-a-iylo. 

Respondeu ao^ dou^ oradores o Sr. Castilho, di- 
z,^iido que eUava em tudo disposto a empenhar-se na 
realisaçío do monumento, qualquer que fô-ise a respeito 
d'elle a vontade dos setubalenses. Notou comtudo 
r|ae vil diffi^uldal?^ attvíiidiveis e:n se alterar o pen- 
sam ^uto que tinha .-esivido de bio á offerta de quan- 
*iín< já obtida-j para o monumento, difficuldades que 
íli'/5ia par^»c*r-lh? tornariam ra3no> importante o resul- 
tado da subícripçl,o que ainda tencionava abrir em 
Portugal para o fim indicado. 

Djpois de alga na disca -«si o sobre a natureza do 
iu> uni?:i^o, o Sr. pi^endent^ da cimira repetiu o que 
JH havia dito, que uio punha a sua propo=?ta & votação, 
II •ni ra^sm) p^día discussão sobre ella, e que só a 
siibmettia k appreciaçao de S. Ex. 

C) Sr. Castilho deiniii-it.^ou ainda, se banque em 
•]4hriis:í em qu3 revelava a sua extrema delicadeza, e a 
i?fc»rencia ((ue se dignava ter com a as^embléii, que a 
-iUi opinilo divi^rgía d:\ qu^ tinhisido aventada em 
^ui prjív^íiiçi. e manifeUoa des3Jo de ouvir a opinião 
íla as-;embléa. 

Em seguidri o Sr. pr^^ideiite d i camará de^biroa, 
«4 II'* unicamsnte para anceder á> instanciai que o Sr. 
Castilho lhe estava fa/.endo, iaconverter em proposta 
tf idi*»a 4ue tinha appresentado a respeito do monu- 
mento e pol-a â votação. 

O Sr. Castilho tinha padido aquella votação para 
«•«onhecer até que poncto a assembléa se manifestava 
à^r^rcfi de uma ou outra formado monumento; desistiu, 
p-or-m. d'<41a logo <[ue alguns cavalheiros propozeram 



16 xvm 

que se transferisse para outra reunião da assembléa e 
que se dessem os trabalhos d'aquella sessão por 
concluídos. 

?soineou-8e em seguida uma commissao para couti- 
nuar os trabalhos precisos n'esta cidade relativamente 
ao monumento, ficando presidente e vice-presidente 
d'ella os Eims. Srs. António Feliciano de Castilho e 
José Feliciano de Castilho, e terminou a sessão. 

Saindo dos paços do conselho , foi S. Ex. acompa- 
nhado pelos Srs. presidente da camará, da commissfio 
e por n;uitos membros d'esta até a casa que estaVa des- 
tinada para seo aposento. Alli se serviu ao illustre 
hóspede um jantar em que tomaram parte o Sr. presi- 
dente da camará e a direcção da commissao, e ao qual 
assistiram, por deferência ao Sr. Castilho, mais tres^ 
membros da mesma commissao. 

Fizeram-se recíprocos e aflFectuosos brindes, nao es- 
quecendo o nome do primeiro poeta portuguez da actu- 
alidade, incansável apóstolo da instrucçao e iniciador 
do monumento a Bocage, o S. António Feliciano de 
Castilho. 

Durante o jantar, a conversação correu animada: e o 
Sr. José Feliciano de Castilho mostrou grande e admi- 
rável profundeza de conhecimentos sobre variados as- 
sumpto.s,e deu as maiores provas do quanto lhe é fácil a 
palavra e cheia de hentenciosos conceitos, o que jà^ 
tinha sido objecto da admiraçat) da assembléa que o 
tinha escutado nos paços do concelho. 

Terminado o jantar, o Sr. Castilho leu uma excel- 
lente biographia de Bocage, de que è auctor, a qual 
está escripta com mâo de mestre. Depois da leitura tra- 
vou-se uma brilhante conversação entre o Sr. Castilho 
e o talentoso mancebo o Sr. br. José Braz, que teve 
presas as attenções dos circumstantes, e onde appare- 
ceram de parte a parte luminosos raciocínios, imagens 
cheiíis de belleza, animadas de vivíssima inspiração. 

O Sr. Castilho mostrou desejos de ver alguns dos ob- 
jectos descobertos han excavações de Cetóbriga,e apenas 
um dos membros da commissao ponde offerecer a S. Ex. 
algumas moedas de cobre aili encontradas. 

S. Ex. partiu no primeiro comboyo de segunda-feira^ 
sendo accompanhado á estação pelo presidente e mais 
alguns membros da* commissao. 

Typ. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sete de Bcti^mbro, 146. 



QUESTÕES DO DIA 

N. 19 

RIO DE JANEIRO 4 DE NOVEMBRO DK 1871. 



V«ide*se Mn casa dos Srs. E. & H. Laemmert.— Praça da Gonstítuiçio, 
Loja do canto.-*-Uvraria Académica, Rua de S. José n. 119-^ UiigQ.do 
I^ço D. C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — tareco 200 reis. 



m ^ 



Deolma ciulnta oai*ta 

DO ROCEIRO CINCINN ATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 

Rio, 15 de Octubro de 1871. 

Bom Fabrício. 

Acabo de te escrever sobre assumpto bem fatilj e 
nfto resisto á teataç&o de vir novamente praticar com- 
tigo, sobre cousas sérias, ao toque do AragSlo, depois 
de ter lido uma notável memória sobre a Prússia após 
a emancipaç&o dos servos, cheia de considerações e 
factos, merecedores da mais attenta reflex&o. Tumul- 
tuam-me na mente idéas associadas, e vou submetter-te 
o fructo do meo estudo e das minhas impressões. Ponc- 
tos ha de paridade entre os impérios asiático-européo e 
americano, no tocante & grave questfto social que acaba 
de ser agitada; e para o nosso dia de amanha bem 

£óde ser matéria de ensino aquelPoutro alheio dia de 
ontem. 

Quem consulta um mappa-muadi, e vê o enorme 
coUosso brazileiro occupar na terra espaço egual ao 
de quasi toda a Europa; quem observa os rios-mares 
que o abraçam, e as caudalosas torrentes que o vSLo 
pautando de grau em grau do parallelo; quem examina 
auás regiões diversíssimas, e a omnimoda variedade e 
uberdade do seo solo; quem hesita em qual dos três 
raínos a natureza foi aqui mais pródiga; quem reco- 
nhece na raça dominante os characteristicos de uma 
vitalidade possante; — espantasse de que este abençoado 
clifto esteja ainda despovoado, e de que a civilisaç&o 
afio haja ainda operado todos os seos usuaes mi- 
lagres. 



2 XIX 

Também a Rússia é immeasa. Para o norte, estea- 
deu-se até o impossível ; diríeis que em seos braços 
gigantêos quer abarcar o polo. A leste, separara-n'ada 
Ásia uma cordilheira immensa e nm rio magnífico, fi- 
cando-lhe um paiz maior que meia Europa. Ao sul, 
zombou das barreiras, cavalgou o Cáucaso, e se nSo 
fòsse a guerra da Crimea, houvera convertido o mar 
negro n'um lago russo. Para o lado de oeste, é perma- 
nente amiaça : Finlan-lia, provincias allemans do Bál- 
tico, Lithuânia, Polónia, attestam a sua insaciabili- 
dade. Se nao fora a guerra, e a derrota da Moscóvia» 
talvez ella hoie se estendesse até o Báltico e o Medi- 
terrâneo. Mas a sua derrota valeu-lhe mais que uma 
victória, o que nao é raro na história dos povos, a 
quem a Providencia liberaliza ás vezes estas com- 
pensações. 

O Brazil e a Rússia tiveram de sustentar guerras me- 
donhas. Se aquelle nao viu ante si tao vastas mós de 
homens, tao possantes intelligencias, tao collossaes re- 
cursos béllicos, tao poderosas allianças, também esta 
nao teve que superar eguaes difficuldades topográphi- 
cas, que batalhar contra mais dedicndas hostes, que 
erguer da terra instantaneamente como Pompêo ba- 
tendo com o pé exércitos aguerridos, que vencer mais 
variados e perigosos obstáculos. 

Ambos os Impérios cumpriam nobremente o que era 
seo triste dever, desde que desembainhavam as valenta> 
espadas. A Rússia foi gloriosamente infeliz. O pendão 
auriverde, coroou-o o louro da victória. Foi sorte das 
armas, que em nenhuma das bandeiras deixou labéo. 

Mas ambas as grandes nações, ao retirarem-se dos 
campos da batalha, meditaram sobre os successos em 

3ue acabavam de figurar. Remontaram ás causas, alli 
a sua fraqueza relativa, aqui da necessidade de esforço 
desproporcionado ao êxito, e ambas comprehenderam 
que nem só o número constitue os elementos da força. 
Ambas, em occasiao análoga, ambas logo após a 
cruenta lucta, passaram em revista todas as suas ins- 
tituições fundamentaes, e resolveram modifical-as, 
quanto o temperamento da naçfto o permittisse. 

Vejamos primeiro o que se passou no Império de 
alem-mar; mais ao porvir que ao presente caberá com- 
parar consequências que das sementes, ora lançadas 
á terra, ainda aqui nao podem germinar. 






XIX 3 

Das ruínas de Sebastópoli sjurgiu a Rússia livre. 
Uma intelligencia superior e uma vontade firme fize- 
ram de uma catástroplie brotar a regeneração de um 
povo. 

A servidão na Rússia, com as suas mil gradações, 
differia essencialmente, no seo principio, da servidão 
do occidente, mas pouquíssimo no seo character e nos 
seos effeitos. Os servos constituiam em grande parte 
a ciasse dos camponezes, e esta instituição foi ^Ui 
creada em tempos não remotos. Quando Ivan, o Ter- 
rível, anniquilou em 1554 o poder dos Tártaros, achou 
tudo por fazer: planícies immensàs devastadas, campos 
incultos, aldeias destruídas; nem estradas, nem segu- 
rança ; mendigos e vagabundos aos milheiros. Era 
mister chamar o cultivador ás terras ; fixal-o ao solo. 
Para isso, a corte de Moscou usou, ora da persuasão, 
ora da violência, e acabou por crear a classe dos kre- 
postnoij servos addictos d gleba. Pareceu resolvido assim 
o complicado problema; o camponez lucrava com o solo 
regado pelo seo suor; mas por maisque se unctassede 
mel a borda do vaso, era a escravidão. 

O servo pagava os impostos, servia em tempo de 
guerra; mas era inhibido de deixar a sua terra, de tro- 
cal-a por outra, ou de sair de uma aldeia para se ir 
estabelecer em outra diversa. Nomearam-se inspecto- 
res para vigiarem os camponezes, obrigal-os a ferti- 
lizar o terreno; estes voivodes traziam como distinctivo 
de auctoridade o bastão, que symbolizava o direito de 
serem obedecidos. O bastão caía duro nas costas do 
camponez, quando este negligenciava as colheitas ou 
as cabanas, ou nílo pagava regularmente o tributo, 
A' força de bater no servo, o inspector considerava-se 
senhor d'elle, e se o nao podia converter em cousa, 
▼endél-o ou compral-o, exigia d'elle serviços forçados, 
e eis como, pouco a pouco, o inspector veiu realmente 
a tornar-se senhor absoluto do servo, que com dor se 
resignava, dizendo : « Deus está muito alto e o tzar 
muito longe. » Afinal ^^e contas, transviada a insti- 
tuição, passou o servo a ficar cousa, escravo : batiam- 
lhe, esfaimavam-n'o, transportavam-n'o, vendiam-n'o 
até, a despeito das leis que o escudavam contra este 
ixkàximo ultrage. 

Pedro I prohibiu a venda dos servos nas terras que 
ellcs cultivassem ; mais tarde Paulo I decretou que os 



4 -XIX 

^eúhores nfto podessem exigir á^elles tnais c^ue os ser- 
vi èos^ de' três dias por semaha; Alexandre I Cfeou uma 
classe 'de camponezes livYes ; mas tudo isso etam in- 
sigfnificantes pailiativos. 

O actttal Imperador, legatário, não invicto mas 

invito, da g^uerra com o Occídente, acabou còm ella, 

mais cedo que o precisava, para, liberto das preoccupa- 

çoíbs exteriores, se consagrar todo ao interior. As 

^perdas xjue lamentUVa (mínimas para quem ficava 

•soberano de 70 milhões de súbditos) iam ser mais que 

Compensadas coma renasctmça nacibnal. A servidão 

enerva, adormece, debilita, despoja o homem de suas 

' melhores qualidades; e Alexandre achava-se em' fá(5e 

'^de um povo ignorante e rebaixado (Sabiam ler um 

em 10, escrever um em 50). 

Começaram então as grandes refortíias, taes como a 
buppressao do militarismo do corpo docente e 'das 
universidades ; o inelhorámento da instrticçâo publica ; 
a amnistia aos polacos; a simplificação do recrutamento 
e do inlpbsto ; òperdao de innumferaveis condemnados; 
o systema de estradas, communicações, e fefro-vias, 
etc, até que o grande reformador chegou à magna 
questão do Império, para atacal-a de rrente. 

Com o augmento da classe fidalga, era innumeravel 
a quantidade dcs poderosos senhores de servos. Dav^a- 
se enorme desproporção entre o número dos habitantes 
ou antes dos trabalhadores, e a extens&o das terras, hk 
também se dizia, como aqui, que, com o regimen da 
liberdade, a agricultura perderia os braços, 6 pai2 a 
prosperidade. 

Deixo a narração dos trabalhos a que a illustrada e 
firme vontade do Imperador Alexandre presidiu, e 
limito-me a dizer que a Rússia teve também o «eo 
grande primeiro de março ^ poisai março 1861 foi 
promulgada a lei, destructora dos derradeiros vestigios 
do dominio t&rtaro, e que, libertando o camponez, Ike 
dava a sua casa e o seo campo, comprados por elle, e 
abrindo-lhe para isso o governo um crédito (Em ja- 
neiro ' 1S69, mais de metade dos servos emancipados se 
tinham servido d'este crédito, e haviam contrahido 
uma divida enorme para com a coroa.) 

Comprehendia a raça liberta 22 milhOes de sereos 
ordinários, 3 milhOes de camponezes dos apanágios, 
e 23 milhões de camponezes da coroa. Estas duas 
classes deram logar a alguns artigos addicionaes. 



XPÍ 5, 

Be]]ireaeni^ya isto mais de dous terços da pp vo^o da , 
Rúsisia, e era justo e prudente proporcionar-lhes subsis^ 
teAcia.d^sim como conxbater.p^a puis^ da pgopri^^4f » 
a. tondmcia, nómada do Russo, o que induziu a limitaj: 
com certas re^tricções o exercício da liberdade. 
Sao 9 os artigos que a regulam: 1.° O. camponez, 

3ue deixa a sua aldeia perde o lote de terra que a^ocie^ 
ade Ibe deu ; 2.° Se a sociedade recusa acceitar o tal 
campo, pertence ao senhor ; 3/ Hade ter satisfeito ás 
leis do recrutamento ; 4.° Hade ter pago todos os im- 
postos, até o do anno inceptado ; 5.° Hade provar á 
administração do cantão que preencheu todas suas obri- 
gações , 6". E' preciso nao haver contra elle processo 
algum ; 7°. Hade fazer face primeiro ás precisões de 
todas as pessoas de família que deixar; 8^ Hade ter 
pago todos os atrazados devidos ao senhor, pejla terra 
que lhe foi concedida. 9". Tem finalmente que exhibir 
certificado das auctoridades da localidade onde se quer 
fixar, em como alli adquiriu um lote de terras, a me- 
nos de 11 milhas da aldeia, e mais que duplo do que 
possuia. 

Como todas as reformas que mudam radicalmente 
a face de uma sociedade, o acto da emancipação foi 
por muitos accolhido com desconfiança. Aos sei^vos 
dd-se de mais^ diziam os senhores. De mais conservam, 
os seyihores^ diziam os servos. Mas apezar de certo 
abalo momentâneo, restabeleceií-se sem detença a tran- 
quillidade, e para logo se sentiram os salutares eflFeitos 
da liberdade, nao obstantes as sombrias predicções dos 
adoradores do oassado. O estrangeiro que percorre 
aquelles campos nota que os camponezes andam mais 
hera vestidos, nutridos e accommodados; vivem vida 
mais conchegada e com certo conforto ; as mulheres 
cuidara melhor de si e dos filhos. A casa do trabalha- 
ílor mudou de aspecto; já não é a senzala do escravo, é 
a habitação de um homem livre. 

Com quanto a iustittuição derrocada revista entre nós 
a*^SHz diversa natureza, ponctos ha de contacto, que 
merecem exame, nas paridades e nos effeitos. 

;\ obra de Wil. Hepworth Dixon, em 2 volumes, 
ÍM)pri»í>sa em Londres, sob o titulo Free Rússia^ e a Me- 
'iiória do pastor genebrez Cailliate, sobre o Estado so- 
riaidn Rússia, merecem a tua attençao,e a de quanto?? 
^p interessam pelo importante problema com que o 
Bra/.il arca n'este momento. Mais uma vez proseguirei 



6 XIX 

n'este assuiiipto, em dia próximo, se o nao considerares 
pesado em demasia. 

E' tarde; ponho poncto agora n'isto. Amanha,se Deus 
me der vida e saúde, projecto continuar a entreter-me 
com o Senio, transformado em PalesíreirOy e servmdo-se 
de um pobre testa de ferro, que assigna, e realmente 
tem jus de assignar-se, V. 

Recebe um estreito abraço do 

tf 

Teo amigo 

ClNCINNATO. 



Terceira oax*ta 

DO ROCEIRO ClNCINNATO A SEMPRÒNIO 

Rio de Janeiro, 18 de octubro de 1871. 

Querido amigo. 

Forçaram-me a trocaras politicas pelas litteratura». 
Em qualquer d'esses campos, sou eu um curioso muito 
inválido, mas emíim tudo serve : quem nao pode 
brandir clava, descarrega piparote, e as minhas aspi- 
rações nao sobem a mais. As infallibilidades sao }»ara 
os Papas das lettras, Senios^ V, &- 6'".; eu, na egreja do 
aoc, apenas invergo a opa de sacristão. Olho para os 
livros, como boi para palácio. 

Náo tenho mSos a medir. O Sr. V., faz-me andar 
n'uma dobadoura. Ahi me trazem hoje 4*. PaJeístra, 
como as precedentes elegante, delicada, respeitosa, 
intelligente, inatacável e irrespondivel. Eu bem me 
vejo em talas, bem me sinto esmagado, e merecedor de 
tremenda vaia, por me nao curvar silencioso ante elo- 
quência tamanha ; mas que queres ? sou um iusuppor- 
tavel tagarella, que mesmo sem sombra de razão heide 
estar sempre bacharelando ! Ora isto, após tao repe- 
tidas qualificações da minha inópia, e tantas amiaças 
do olhudo instrumento de Tolentino, em tao apertado 
lance, ultrapassa as raias da imprudência. Mas é que 
eu também nao me sublevo contra os firmans de quem 
ludo pôde ; não tenho voz activa nem passiva; recebo 
com seráphica humildade as descomposturas civiliza- 
doras; e, apenas rosnando por entre os dentes, subraetto 
aos illustres infalliveis a continuação das rainhas 
muito rendidas e submissas dúvidas, protestando con- 



XIX 7 

formar-me, afinal de contas, com o que for decretado 
pelos muito altos e poderosos Srs. Senio, A. de V. & C*. 
E ainda mais, elevo súpplices vozes ao céo, para que 
isto, em mim, nao sejam rompantes de leão. paradas 
de sendeiro. Dêmos tempo ao tempo. 

Continuarei pois a transcrever fidelissimamente as 
ponderosas reflexões das Palestras^ sem saltar uma 
única, nem lhe attenuar no mínimo a enerofia da argur- 
mentaçao, reiterando somente o pedido de licença para 
eliminar as palavras e phrases acerbas, jíi poroue 
aprendi que as injúrias sao as razões de quem as nao 
têm, já porque emfim reconheço com todo o acata- 
mento que ellasme pungiram no âmago das intranhas. 
' Quem castiga com raiva não castiga, vinga-se ]. 
Vamos levando esta cruz ao calvário. 

§ 2 A abundância estéril de Bermh. 

Diz o meo preclaro mestre, para me abaixar a 
grimpa : 

« A propósito de abundância estéril, fala em Fran- 
gi cisco I ! cita como grande auctoridade litterária um 
w rei ignorante. Para apoiar as sandices de um Cin- 
« cinnato e roceiro, só um litterato como Francisco I. 
ti Racine tinha mais gosto litterário em uma unha do 
« pé í ou diable le goút liLierawe va-t-il se nicherl ) do 
" que Francisco I em toda sua real pessoa. » 

Anda lá, Francisco I, leva para o teo tabaco ! Im- 
porta pouco teres tu sido admirador d'Erasmo; estava- 
te destinada, no fim de três séculos e meio, segunda 
Pavia; e abella Ferronière naofa pregou mais.... na 
menina do olho, do que este severo Senio. 

Está muito bem, sim senhor, nunca as mãos lhe 
doam ; mas, oh tu, Senio, typo de lealdade, a que pro- 
pósito trazes para a dansa o pobre poeta da Donna è 
mobile ? Diz tíenio, ou o seo porta-voz V . que « a pro- 
pósiío de abundância estéril, eu citei Francisco I, » Com 
a devida vénia, represento a V. Ex. que nao citei tal; 
que esta citação é de V. Ex., illuminado discípulo de 
D. Quichote, que desbaratava moinhos. 

O que eu dice, depois ^e me queixar da diffusao da 
loquacidade, e da prolixidade do palavrório dos 7 mo- 
vimentos das ondas pacatas, foi o seguinte, ipsis verbis 
' Vid. Questões^ n. 9 ) ; « Nao era a isto que Frede- 
rico II chamava a dibundancia estéril de Bernis? » Esta 



8 XIX> 

minha pkrase curta, è que serviu de thema ás varia- 
ções longas de Senio. 

Ora, se o illustre Senio dá licença, Frederico lí è, 
se nao me engano, personagem mui diversa de Fran- 
cisco 1 1 Frederico II, o mais admirável príncipe do 
seo século, foi cc^nominado O Grande; cultivou scien- 
cias e lettras com- amor ; correspondia-se cbm os 
sábios Wolf, Bollin, S'Gravesande, Mcwipertuis, Al- 
garotti etc. Sao de sua régia penna as — Memárias para 
servirem d história da Casa de Brandeburgo — História 
do meo tempo — Memórias sobre a guerra de seple annos 
eto. etc. Suas numerosas poesias valem, se isto nao é 
heresia, um pouquinho mais que as quadrinhas de 
Senio; e na parte epistolar que fígura na coUecçao das 
obras de Voltaire, talvez que a secção mais notável 
seja a da correspondência que tantos annos durou 
entre estas duas testas coroadas. Era tao superior, tao 
poeta d'alma, que na famosa noite em que se viu 
cercado de quatro exércitos inimigos, Frederico da 
Prússia, em posição desesperada, e já resolvido ao sui- 
cídio, compoz aquella admirável epístola a Voltaire, 
que rematava com estes nobres veri^os : 

Pour moi, menacé du naufrage, 
je dois, en affrontant Torage, 
penser, vivre et raourir en roi ! 

Ja me está parecendo que um tal homem, apesar de 
rei (é precisa esta precaução oratória do apesar de rei, 
para amimar certos neóphitos, candidatos a republi- 
canos, que esiao querendo dar arrhas aos seos novos 
correligionários), nao era tao ignorante como isso, O 
caso é que a tal estéril abundância foi fecunda em de- 
sastres. Frederico satyrízava frequentemente nos seos 
versos as concubinas do rei de Franca e os poetas áu- 
licos ; entre a Pompadour e Bemis tinha havido es- 
treitas relações. A Frederico portanto caiu a sopa no 
mel, quando, entre outras facécias, escreveu o verso^ 
de que, segundo parece, o Sr. V. nao tinha notícia: 

Evitez de Bernis la stérile abondance. 

Seguiu-se logo após, a guerra de 7 annos, que alguns 
incadearam, de consequência em causa,áquelles versos 
satyricos ; e tanto que então viu a luz outra sátyra 
anónyma, a qual terminava assim : 



XiX, 9i 

Six ceets mille hommes égorgés, 
MoQsiear l'abbè, de grace,est-ce assez de victioies; 
et les méprís d'un roi poar vos petites rimes 

Yous semblent-ils assez vengés ? 

Basta d'isto. 

Apezar de caber à defeza mais insancbas que â accusa- 
ç2o,receio que se me assaque também abundância estéril j 
« por isso mudo de rumo, terminando com esta justifi- 
cação : P. Nao citei Francisco I ; 2'. Citei Fre^lerico 
O Grande, o historiador, o prosador, o poeta ; 3°. A 
sua phrase feliz estava predestinada para Senio. 

« E UM CHARLÂ.TÃ0 DE TAL JAEZ, METTIDO A CRITICo! » 

Com estas palavras, remata Senio a discussão doeste 
poncto. Tenciono ir sempre repetindo o significativo 
estrebilho, nao com o audaz intuito de reciprocal-o, 
porque eu nao perco as estribeiras, mas para habilitar 
o nobre crítico a ir avaliando a propriedade da sua 
exclamação. Corre -jponcierá esta phrase slo a Irmãos^ 
tendes de morrer » dos Trappistas, ou ao Remernber 
whaí l loan thee de Milton, que o Sr. Alencar tão ele- 
gantemente invocou em certo final de um discurso. 
Nao importa, nao importa, e deu com septe navios 
á costa. 

s5 3 Dos pleonasmos. 

l)efonde-se Senio, dizendo que elle nSo é o único, e 
que muitos auctores têm também empregado pleonas- 
mo<. Forte dúvida ! Pois a sua ambição de inventor 
leva-o ao extremo de julgar que o suppomos inventor 
dos pleonasmos ? Nao, senhor; só digo que dos plco- 
násticos carneiros de Panúrgio, Senio será o millío- 
néitm3 ; e em tal imitação, apenas lhe reconliecerei a 
glória de que, transplantado de outro solo para o seo, 
esse fructo toi 

peor tornado no terreno alheio. 

Ora agora, iutenda-se bem, não alludr eu, nesta 
minha censurada observação, ao derramamento das 
idéas, mas à impertinência das vnriante> verbaes: e seja 
licitD reproduzir aqui algumas ponderações sobre o 
genus dicendi. 

Ha um mundo entre os estvlos conciso e ditfuso. 

O e:^cripior conciso condensa os pensamentos no mí- 
nimo número de termos; só emprega os mais expressi- 
vos ; repelle, como redundante, a expressão que algo 



10 XIX 

nao addiciona ao sentido. Quando introduz ornatos e 
figuras, mais o faz por força que para graça. Nunca 
repete duas veies um pensamento. Descreve-o sob o 
aspecto que mais appropriado se lhe aflâgura; mas se a 
essa luz o nao comprehenderdes, nao espereis que a 
outra vol-o revele. Primam suas sentenças mais pelo 
compacto e pela energia que pela cadencia e harmo- 
nias. Esse dizer lacónico mais inspira a imaginação 
do leitor do que directamente lhe exprime. 

O escriptor diffuso estira e esparralha os pensamen- 
tos. Appresenta-os em variadissimas apparencias, e 
prohibe ao leitor o coUaborar, com elle. Cuia pouco 
de exprimir-se, desde o princípio, com toda a força ; 
porque calcula que tem de reiterar a impressão, e cun- 
seguintemente o que lhe falta em força, hade sup- 
pril-o com a abundância. 

O excesso de ambas estas qualidades é perigoso. 
Em concisão, nem todos se podem conter nas raias de 
Aristóteles, Tácito, Montesquieu ( no Espirito d<u 
Leis ), ou Filinto. E i: ditfusao magnífica, nem todos 
nas de Cícero, Ovídio, Addison', Temple ou Bocage. 

A ditFusao torna o estylo fláccido, débil, e cança o- 
leitor; mas é tolerável em penna de superior ordem, 
por ser condão do génio até defeitos converter em 
bellezas. 

Importa porem nao confundir: Uma cousa é o incarar 
do mesmo pensamento por muitas faces, outra o repro- 
duzir da mesma expressão com muitas palavras. No 
primeiro caso pôde haver sua justificação; no segundo, 
jamais. 

Tomemos para exemplo um grande escriptor, natu- 
ralmente prolixo, posto que a trechos magnificamente 
lacónico, Ovídio. Esse poeta nao sabia decotar, dn 
tronco da sua idéa, os ramos, os galhos, renovos e 
garfos que o incobriara; muitas vezes, onde uma só 
imagem bastaria, multiplica 4, õ e 7 símiles ! mas 
ainda ahi, se é lícita a expressão, nos depara na uni- 
formidade immensa variedade ; seria descabido, n'este 
escripto fugaz, aponctar cópias d*este defeito-bel- 
leza. 

Mas nem n'esse esplendido génio é desculpável o 
erro, em que raras vezes caiu. de reproduzir exacta- 
mente a mesm i idéa por diver^^as palavras, por 
extímplo : 



XIX 11 

— Omnia pontus erat; deerant quoque (!) littora ponto. 
— Semibovemque vi rum, semivirumque bovem. 
— At vos, qua veniet, tumidi subridite montes! 
Et faciles curvis vallibus e.ste vioe! 

e assim em outros logares. Eis-ahi pleonasmos repre- 
hensiveis, ou antes perissologias detestáveis, mas fi- 
dalgas, por virem de quem vêm. 

E a critica leal e digna, que fecha olhos à grandeza 
do censurado, e o exprobra, quando elle diz duas vezes 
a mesma cousa por palavras diversas, tem rigorosa 
obrigação de stygmatizar cem vezes mais o vicioso uso 
das 7 variantes para darem a mesma idéa, como suc- 
cede no Gaúcho. 

Para justificar o : As ondas se agitam em fhiciuação^ 
(o que aliás podia ser tão brando com^) O contínuo 
vaivém das mansas ondas, de que nos fala Bocag-e ] 
cita o Sr. V. dous versos de Racine, em que diz haver 
sido achado pleonasmo. Se o houvesse, mais nao seria 
isso do que mancha em sol, mas nao o vejo. Os versos 
de Racine sao ambos estropiados pelo docto Pales- 
treiro, o qual nol-os dà a-^sim : 

Cependant sur le dos de laplauie humide^ 
Sf-^ve à gros bouilloiis une montagne lújuide, 

(As orelhas métricas de V. erraram ambos os ver-o:>, 
pondo liquide onde devia ser humide^ e /iwmíí/eouJe 
devia ser liquide). Todos os termos aqui tem uma in- 
tenção sobre si, .>em que haja sombra de repetição de 
idéa — La plaine liquide^ em relação ao mar, serve para 
distinguir das plaines íen^estre, celeste, azurée, rtoilce, de 
t'air etc. — Moiitagne humideàk idéa da grande eleva- 
ção das águas, sendo aliátó este adjectivo appropriado, 
i'omj quando J. B. Rousseau escreveu : 

L'humide empire oíi Vénus prit naissance. 

E uem se diga que do dorso do mar era d'água que for- 
çosamente devia sobresair a montanha, vi.<to como 
podia ser uma ilha — A* gros bouillons^ em grandes bor- 
bulhrics, também dá outra idèa ; de forma que nem 
avalio onde pos<a aqui imaginar-se pleonasmo, ou 
como tao elevada e poética linguagem possa invocar-se 
para justificação de Às ondas se agitam em fluctuaolo. 

Ha PLEONASMOS 6 FLEONASNOS* 



12 XIX 

E UM CHARLATÃO DE TAL JABZ METTIUO. A CRÍTICO ! 

(PhrasedeV. dirigida a Cincinoato, a qual nem por 
isso, como V. esperava, lhe fez crear sangue de bugio.) 

§ 4 Átomo invôlto nas dobras do infinito. 

Hesitei*- ante esta quinta essência das imagens, e 
agora transcrevo a sargentona anályse do Sr. V. 
<i Diz Senio : — n No seio das onda^^ o nauta sente^se 
isolado; e átomo invôlto em vana dobra do infinito. » 
Imagem sublime I de um traço desenha-se o painel do 
homem infinitamente pequeno, perdido ' na imoiensi- 
dade da solidão infinitamente grande, na qual basta 
uma vaga, uma fraga, um destroço de navio, emfim, 
para escondêl-o. Nao se pôde exprimir tanto, nem com 
maior energia, nem menos palavras.» 

Depois de assim posta a história em trocos miúdos, 
seguem-se as* generosas descomposturas. Argumento é 
só istíi : um idem per idem, uma explicação que nada 
explica, uma demonstração de que nao comprehendeu 
a censura, ou buscou uma tangente para eviíal-a. 

A minha questão era com as.doèra* do infinito ^ e sou 
realmente culpado da minha ignorância, visto como jà 
outro que tal sacerdote do Ideal me havia explicado a 
gerigonça nas Odes modernas : 

c( Diz a eterna missa da karmonia 

« o que veste a estola do infinito^ 

« para deitar a grande bençam — Vida! » 

kSe o querem mais claro, deitem-lhe água. Syllogismo 
evidente : l**. Todo o infinito é uma listola ; 2^ Toda a 
estola tem dobras ; 3"". Ergo, ha dobras do infinitjo; e 
.se acertam em apanhar na prega um átomo qualquer, 
cai na ratoeira e fica esborrachado. 

Que imagem esta, sancto Deus! Infinito é o espaço 
que se vai sempre estendendo, sem óbices nem limites 
existente:?, ne:n possíveis ; e o que fosse susceptível de 
dobrar-se, cessaria de ser infinito ; podemos, sim, an- 
nexar também a idéa do infinito ao tempo, à extensão, 
ao número, mas nao ha uma só variante do substan- 
tivo, que se coadune com a idéa de ruga, de termo. 

Se alguma cousa ha mais ridícula do que a imagem* 
é a explicaçrio do Sr. V. Diz^nos que, collocado um 
objecto entre um nauta e.... [ e nao sei qu^ : falta o 
outro termo ) fica escondido e invôlto n'uma dobra do 



-XIX 13 

infinito I ha mais : essa cousa, dentro da qual o átomo 
se embrulha, no meio do mar, pode ser uma vaga ou 
uma fraga I que espécie de fragas serão estas que o 
B0S80 fragalhoteiro descreve no seio das ondas ? Elle 
caberá o que é fraga ¥ 

« E UM charlatKo de tal jaez mettido a crítico ! » 
( Phrasede V., dirigida a Cincinnato ). 

E nada mais accrescenta o' Sr. V., senão uma ima- 
gem extrahida do Eurico^ a qual tem tanta paridade 
com a de que se tracta, como um espeto com um re- 
queijão, e que passo a pés junctos, por nada vir 
ao caso. 

Agora, algumas palavras mais, sem applieacão, 
como simples generalidade, e em que só repetirei o jâ 
dicto pelos reguladores do gosto. 

Nada, na arte de escrever, demanda mais cautela do 
que o uso dos tropos, figuras e imagens. Os mais su- 
blimes e pathéticos passos dos mais admirados aucto- 
res, em prosa e verso, * acham-se expressos no estylo 
mais simples e sem figuras. Pôde, por outro lado, 
nbundar uma composição em ornamentos estudados, 
em linguagem artificiosa, esplendida, figuradíssima, e 
ser no todo affectada e glacial. Quem nao falar ao es- 
q)írito e ao ooraçfto, por mais gymnásticas de estylo a 
-que se abalance, se este fôr ostentoso, esquisito, pre- 
sumpçoso, impróprio ou obscuro, poderá lançar poeira 
aos olhos do vulgo, mas nunca aprazer a juízo dos 
competentes. 

As imagens e figuras acceitaveis hao de adaptar-se 
naturalmente ao objecto : suggere-as a imaginação, 
quando altamente excitada, produzindo metáphoras e 
comparações ; suggere-as a paixão, quando o peito se 
commov^, gerando ent&o prosopopèas e apóstrophes. 
Está perdido quem deixa o curso do pensamento para 
se ir á caça das figuras ; nao apanha leOes nem veados, 
mas sombras impalpáveis e ridículas. — Erra quem 
pensa que ornamentos de estylo se cosem á compo- 
sição como a gola á casaca. Eis como o Visconde de 
Seabra verte um trecho da Epístola aos Pisões : 

A começos magníficos mil vezes 

se alinhavam de púrpuras remendos, 

que ao longe brilham, como quando os meandros 

da &gua que gira pelo ameno prado, 



14 XIX 

de Cynthia o bosque, as venerandas aras, 
o Rheno, oii o arco pluvial, se pinta.... 
mas era do logar impróprio o quadro. 

Os ornamentos verdadeiros nao sSo arrebiques, ou es- 
forços de imaginação infêrma ; devem correr no mes- 
mo álveo por onde se desliza o pensamento. Hade-se 
falar como se sente, e não pedir emprestado o effeito. 
Quando invila, a Mimrva vinga-se. 



E por sobremesa, para gratificar o teo paladar deli- 
cado, lê agora comigo este final do cap. 3 do liv. IX de 
Quintiliano : « Auctores, que até os argumentos dão 
por figuras, é fugir d'elle.s. Estas, mesmo quando ver- 
dadeiras, se adornam o estylo, postas a propósito, tor- 
nam-se mais que ineptas, empregadas sem moderação. 
Taes ha que se julgam summos artífices, porque, 
sem curarem da essência das cousas, nem da 
solidez dos pensamentos, amontoam palavras sem 
sentido, e ridiculamente se empenham em procurar 
gesto onde não ha corpo. Até no uso das cousas legi- 
timas, é mister <!autela: a expressão do rosto, o vibrar 
dos olhos, muito ajudam ao orador ; mas se o vires 
contorcer esquisitamente a bôcca, e trazer testa e olhos 
em movimento desesperado, deitas âs gargalhadas. A 
oração tem também a sua face natural; nem immobi- 
lidade cadavérica, nem o movediço da careta. Nimio 
cuidado no palavrório gera desconfiança; e sempre que 
se ostenta artificio, tudo parece mentira. » 



CaroSemprónio meo,tuhasde reconhecer sem dúvida 
que não é possível ser mais brando, mais dócil, mais 
submisso do que eu o sou para com Senio. Desde o 
principio d'este dize-tu direi eu, que o tracto com as 
formas mais blandísonas e mellínuas, e nao alcanço 
hada; quanto mais molle acha, mais carrega. Tomara 
eu que tu me ensinasses o modo de o amansar ; eu bem 
procuro fazer-lhe a vontade, e estou atè prompto para 
proclamar que Deus, que se não cançou era fazer o 
mundo em uns poucos de dias, levou depois muitas 
semanas para invental-o a elle, e ficou estafado; mas 
nada : pelo que coUijo das Palestras^ dictadas pelo 
Senio, e editadas pelo companheiro, o irado Jove To- 



XIX 15 

nitruaate nao larga da dextra o trisulco. Estou bem 
servido ! 

Ora escuta aqui uma história : 

Havia na Bahia ura homem, chamado o Sr. Gabriel, 
muito mal incarado, cujas delícias eram bater na 
pobre mulher. Dous annos supportou a infeliz a sua 
cruz, levando quotidianamente bôa conta de pauladas 
á tôa. 

í< — Ah! tu deixaste-me esfriar o jantar. .. Toma lá. 

í< — Nao deixei, menino, que está bem quente. 

« — Ah! tu resping'as! toma lá. 

E assim approveitava todas as razOes para repetir a 
antiphona. Deu-lhe uma amiga um conselho : « Diga 
teo marido o que dicer, nao contraries. Mande o que 
mandar, faze logo. Assim lhe tirarás os pretextos. » 
Chega o Sr. Gabriel : 

« — Maria, descalca-me as botasl 

« — Prompta, 

a — Maria, está aquella janella aberta para intrar o 
sol ? {Era noite). 

<( — Eu vou fechal-a. 

« — Maria, dá cá aquelle chicote. 

« — Slle aqui está. 

« — Maria, está muito calor; vae fazer-me acama no 
quintal! 

Foi a mulher, e fez o que se lhe mandava. Deitou-se 
o bom do homem, e, passado um instante, levantou-se 
a bater-lhe. 

« — Que teQS tu, meo maridinho *? 

« — Ainda m'o perguntas, cachorra? Foste-me pôr a 
cama logo por baixo da estrada de Santiago : se por lá 
tropeça um macho e cai, vem-me logo cair no 
toutiço. 

Assim parece accontecer comigo. Se eu nao estivesse 
certo do meo sexo,julgar-me-hia mudado em D. Maria; 
todavia, para teo socêgo, asseguro-fce que tens sempre 
em mim 

O teo velho e cordial amigo 

C1NCINNA.T0. 



16 <XIX 

Noticiário 

CoLONisAçao. — Pfojeota-se em Inglaterra a remessa 
de emigrantes úteis para o Brazil, em número e bases 
taes que assegurem o desinToWimento do paiz e^ faci- 
litem as negociações no Império. O plano j& apresen- 
tado ao governo, por intermédio do sr. Cônsul brazileiro 
€m Londres, explica detida e largamente c projecto,no 
qual se propOe, entre outras cousas, qvte as reservas de 
terras férteis e desocoupadas nas províncias do Sul, en- 
tre 22 e 30 gráos S.-, e contíguas a algum posto esta-* 
belecido ou por estabelecer, sejam vendidas ; que o 
governo sanccione a acquisiçaó, sob sua garantia, pe- 
los seos agentes financeiros em Londres, de um capital 
nao superior a 600:000 lib., capital que será reembol- 
sado em um praso fixado até 30 annos, aoomptardada- 
ta em que aquellas terras se reservem para a venda, fi- 
cando os capitães obtidos em poder dos mesmos agentes 
do governo imperial ; que aquelle capital se applique, 
400:000 lib. ao pagamento das passagens adeantadas 
em dinheiro e seguros de vida de cada chefe de famí- 
lia até 10:000 emigrantes annuaes e as restantes 200:000 
lib. na abertura de estradas e mais obras públicas, 
para adeant amentos ás municipalidades, mediante pres- 
tações nao excedentes a 100:000 lib. a cada uma. E 
finalmente que os terrenos, urbanos ou ruraes, que 
forem comprados, o serão, metade pelo governo brazi- 
leiro e a outija metade pela respectiva municipalidade, 
uma vez que as terras pertencentes a cada municipali- 
dade offereçam segurança ao reembolso dos adeanta- 
mentos referidcs, para a creaçao das citadas obras? 
póbiicas. 

( O Brazil, jornoZ de Lisboa { * ) 



(*) Nesta corte, sSo correspondentes doesta folha os Srs. E. 
e H. Laemmert, em cuja oasa se tomam assignaturas por anno 
a 15j||000, por semestre 8jj|000; e se recebem annúncios, para 
serem publicados no Braztl a 60 rs. por linha; tudo dinheiro 
do Império. ( Em Lisboa: Redacção^ António Maria de Castilho; 
AdminisltaçãOj Pedro A. de Almeida. ) 



Tjp. e Lith.— IMPARCIAL— Rua Sete de Setembro, 146. 



QUESTÕES DO DIA 

RIO DE JANEIRO 10 DE NOVEMBRO DE 1871. 



Vende-se em casa dos Srs E. & H. Laemmert. — ^Praça*da Constituição, 
Loja do canto.— Livraria Académica, Rua do S. José n- 119'^ Largo do 
Paço n. C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 

CINCINNATO À SEMPRONIO. 

Meo illustre crítico . 

Recebo n. tua carta, interessante como quanto sai da 
tua penna. N'ella me d&s a noticia de que applicarás 
mais algumas horas vagns ao exame das producçOes 
liUeràrias de Senio, com o que sem dúvidfa teremos 
todos muito que aprender. 

Com a tua carta, recebo a de um nosso distincto a- 
migro commum que, referindo-se também a certo 
escriptor (quem seja, nao vem ao caso) se exprime 
d'e3t*arte : « Folgo com um tao completo desba- 
rato da fôfice, da pedantaria, do orgulho petulante, 

e das bulias falsas Com effeito sempre lhe achei 

ares excêntricos, fornias hybridas, contornos naons- 
trúosos, planos disformes, lavor irregularissimo, mín- 
gua de gosto e senso artístico, ambição impotente de 
eflFeitos ridículos. Depois, vindo a vez do político, ma- 
nifestou-se-me elle ura ambicioso vulgar, um acabado 
especulador, que armava tilo somente ao próprio inte- 
resse, e que se desmascarou, no dia da prova & & » 

Mas emfím, isto nada tem com a matéria que tra- 
ctãmos, e portanto continuemos com a anàlyse da;:) 
PcUeeiras ; e preciso, antes de tudo, pôr bem claro um 
poncto. Saem estas palestras de debaixo do telhado de 
oenio : assume a paternidade d'ellas um senhor homem 
que se senta á mesma carteira que o primoroso escri- 
ptor : esta, e outras circumstancias me convencem de 
que, embora o estylo seja exclusivo e characterístico 
do dito .senhor homem, as partes da oração sao-lhe mi- 
nistradas pelo companheiro Senio. •£' conseguinte- 



â \X 

mente com este, que eu me entreteuho : se tivesse a 
persuasão de que o seuhor hamem era o aiictor do que 
copia e aduba, passaria de largo respeitosamente^ & 
silencioso o deixaria brilhar á vontade. Continuo, por 
que na lettra V. das Palestrai nSo vejo mais que outra 
anonymia Senial. Prosigamos: 

§ 5° O cvtdiío não deixado por mãos alheias. 
Tenho ante mim agora a 3*. Palestra, da qual ex- 
traio us seguintes trechos : 

— «O Gaúcho è uma das melhores creaçOes da pátria 
« litteratura! livro, qu^í só de per si, e desaccompanhado 
(( d» qualquer outra prova, bastaria para dar um nome 
« e dos melhores ! ! 

— « Dicemos c repetimos : José d' Alencar está tâo 
a altamente coUocado que não pode inchergar o pó que 
« se levanta, no rojar do reptil. 

— «O político severo ( ! ), o jurisconsulto abalizado 
(( (! 1, o littíírato mimoso ( ! ], o character nobre { ! ) 
«^.0 filhu que d^ orgulho á pátria (I ), o orador lan- 
ce reado por tantos triumphos ( ! ), nao pôde decair do 
« pedestal a que foi elevado pela opinião pública, pela 
a admiração dos doctos e sensatos, pelo preito e home- 
c< nagem de seos émulos no talento e na illustraçao.... 
<c Columna de mérito, em cuja cripta desponta sobran- 
te ceiro aquelle vuito » 

E vai continuando por este modesto teor. 

Pelo que toca aos adjectivos (severo, abalizado, mi- 
moso, nobre, orgulhoso, laureado, e pedestalizado )» 
eu ftiço choro, e ainda acho pouco. 

Quanto ao preito e homenagem dos doctos e sensatos, 
também é muito bem proposto. Venham todos os escri- 
ptoies, jurisconsultos, políticos, oradores, e litteratos 
d'e.sta terra, ajoelhar ante o seo capitao-mór, o alto e 
poderrso D. Senio. Preito e homenagem só se prest» 
a soberanos ; e é bom, em vésperas doesta solemnidade^ 
repetir como estas cousas se fazem. No auto de jura- 
mento Preito e homenagem que os Três Estados fizeram 
ao Infante D. Pedro & { impresso em Lisboa, no anuo 
de 1669 ) se indica o cerimonial. D. Vasco Luiz da 
Gama, marquezde Nisa, foi a primeira pes.soa que 
jurou : chegando ao logar marcado, ajoelhou, e postA 
a mão direita sobre a cruz e missal, dice todaa as pa- 
lavras do dicto juramento, preito, e homenagem ; e, 
acabando de jurar, meiteu as mEos entre as de S. Al- 
teza, e logo lhe beijou a mao d, e o mesmo fizeram os 



XX 3 

mais. O vassallo dizia ao S60 príncipe : Devenio homo 
vester & Fique pois assentado em irmos todos, clero, 
nobreza e povo, dar homenagem e preito ao rei da in- 
telligencia ; juremos que o seo sceptro è indisputável ; 
brade-lhe cada brazileiro sensato edocto: Devenio homo 
vester. 

O ficado Senador Theóphilo Ottoní narrava com 
summa graça numerosas particularidades dos usos e 
costumes dos selvagens do Mucury. Lembro-me bem 
de lhe ouvir esta história ; — « Para um Botecudo, 
toda a sua idea de superioridade e prioridade funde-sè 
no vocábulo : Capitão. Â mim chamam-me Capitão 
Pogirum, que quer dizer : Homem de posiç&o elevada 
e de mftos brancas. A um francez, do Mucury, chamar 
vam Capitão Ouioui, por que era de raça branca, e re- 
petia frequentemente a palavra oui ; e assim os mais. 
O curioso porem é que o termo applica-se nao menos a 
cousas inanimadas ou não humanas ; por exemplo : 
de um renque d' árvores, a primeira é a arvore-capita^; 
no delta formado por aves de emigração, a primeira 
é o pássaro-capitão ; de uma vara de cochinos o que 
vai adiante é o portxhcapitão » 

Sempre me lembra o Senador Ottoni, quando ouço 
d'estas ; e, longe de contrariar a asserção, concordo em 
que Senio é o orador capitão, o advogado capitão, o 
politico-capitão,o litterato capitão,o Gauchista capitão, 
o jurisconsulto capitão, o laureado capitão, o filho que 
d& orgulho capitão, o character capitão, finalmente o 
centurião, o eapitãozarrão, o capitão general dos capi- 
tães. Que anais querem? Prestemos-lhe todos este - 
preito e homenagem. 

Mas, agora com o que eu desadoro, é com o logar 
onde o preclaro V. pertende collocar o meo heroe : 
€ C^lumna de mérito, em cuja crypta desponta sohtanr 
« ceiro aquelle vulto. » Segue-se logo : 

« fT irrisório I » E eu não sei se isto se refere ao 
próprio pensamento ou á imagem, pois irrisório é real- 
iBente tudo isto. Já é bello o despontar sobranceiro, 
mas na crypta I Onde será esta senhora ? 

A palavra vem de um verbo grego, que significa 
esconder : dar-se-ha caso que V. estivesse fazendo um 
epigramma a Senio, dizendo-lhe que o seo vulto só 
pôde despontar onde esteja escondido ? Aqui me diz o 
amigo Ticio que i^aturalmente V. ouviu cantar o gallo, 
e confundiu orypta com plintho^ que, na ordem tos- 



4 XX 

cana, é a parte superior do capitel, por o seo capitel 
nao ter címàcio, como na jónica. 

Glória, pois, ao novo grão Vitrúvio, ou antes glória 
8 ambos : ao architecto da columna do mérito^ e ao 
vulto que já se pôz na crypta (Vdla, 
§ 6**. O Creador inventou as rijezas cadavéricas da natu- 
reza (que são o rochedo), 

Nao sou relógio de repetição, e por isso me refiro às 
minhas anteriores observações sobre o que n'esta phrase 
me parece incerrar dous absurdos. Descarnemos, dos- 
insultos adversos, cousa que aspire a foros de argu- 
mento: 

« Inventou o Creador é de incontestável belleza... 
« Edificar, fabricar, etc, são attributos de Deus, que 
« fez o mundo, e tudo o que n'elle se contêm, com uma 
<( palavra. Na phrase inventou o Crtador vejo uma 
« soberba antithese! O Creador,ao tirar do nada quanto 
c< existe, inventou^ isto é, destinou ^ ordenou as rijezas 
(( cadavéricas para a fúria dos elementos. 

« As sagradas escripturas descrevem a maneira 
« como Deus ordenou o mundo, alteou as montanhas e 
« estendeu as planicies. » 

E nada mais. Que triste defeza ! Pois quem contes- 
tou a omnipotência do Creador? Seria acaso eu, que 
consagrei meia página a exaltal-a? Do que me eu 
queixo, é exactamente do contrário, isio é, de que 
Senio rebaixasse a majestade suprema, nivelaudo-a 
com os cancados esforços da intellifireucia humana. 
Grande temeridade é querer definir a Deus, mas vergo- 
►nhosa profanarão 6 applicar á essência divina os attri- 
bui j ua natureza humana, e n'este caso e/?tá a wt- 
ven^ão. 

Reflectem os competentes, que dizem alguns ser Deus 
uma primeira mente, primeiro intendimçnto, primeira 
substancia, primeira causa, primeiro ser ; mas Deus não 
é mente, não é intendimento, não é substancia, não é 
causa, não é ser ; é sôbre-mente, sôbre-intendimento, 
sôbre-si4>i5tancia, sôbre-causa, i^ôbre-ser ; superior ao 
ser, anterior á causa, ulterior ao intendimento, alem de 
substancia, e mais que ser ; mente de toda u mente, 
intendimento de todo o intendimento, substancia de 
toda a substancia, causa de toda a causa, ser de todo 
o ser. 

Deus, ua phrase de Lactancio, mundum ènihilo fecit^ 
do nada fez o universo. Tolera a linguagem, applicada 



XX 5 

A essa estupenda obra, as palavras creou, fez, edificou, 
ordenou, regulou, fabricou, architectou, construiu, 
formou, e outras, aliás defícientiscimas todas para 
representarem o que nem conceber pôde o verbo hu- 
mano ; mas ao menos todos esses vocábulos dao va- 
riantes da idéa da - creacao sem esforço intellectual. 
Nunca jamais escriptor, que SQubesse os segredos de 
•qualquer idioma, diria que Deus inventara rochedos ; jâ 
que V. se proclama tao lido, e alardeia a sua citação de 
auctores, procure n'elles se algum ousou jamais appli- 
car o verbo inventar ao fiat da creacao. Nao achará 
por certo. 

« E UM CHARLi^TAO DE TAL JAEZ, MBTTIDO A CRITICO. )) 

(Phrase que, por ordem de V., c& me applico a mim 
mesmo), 

— Repelli eu a locução rijeza cadavérica, como defi- 
nição do rochedo. Pondo de parte parte dos impropérios, 
eis-aqui como V. defende isto : 

— « Cá o plantador de batatas críticas nao compre- 
« hendeu que, para exprimir as rijeza^ graníticas se 
« usava da expressão cadavérica. » 

Cita a phrase do Eurico : « Era horribilissimo ver 
convertido era cadáver, de todo immovel e mudo, o 
Oceano. »* 

( jue infeliz argumentador I No Eurico^ temos o Oce- 
au j, naturalmente animado e vivo, immovel e muJo ; 
a comparação, pois, com o cadáver, é no tocante á im- 
mobílidade e mudez ; imagem nobre e verdadeira. 

No Gancho, confessa o próprio V. que o cadáver é 
impetrado para symbolizar a rijeza granítica ! isto é, 
em vez de alludir ao movimento e á acção, refere-se á 
substancia da matéria ; e para exaltar a rijeza do 
mármore, que é sempre duríssimo, compara-o com a 
carne, que no próprio cadáver, posta em parallelo com 
um rochedo granítico, é sempre fláccida e molle. 

ícE UM CHARLATÃO DE TAL JAEZ MRTTIDO A CRÍTlCo!» Cá 

tne vou disciplinando com estas disciplinas que o bom 
do Senio tem a caridade de administrar-me, por inter- 
médio do Sr. V. E a propósito : nunca eu tinha com- 
prehendido a razão de se denominarem disciplinas, 
tanto as artes liberaes e scienciascomo certos bacalháos 
com que os disciplinantes até nas procissões costu- 
r:iMvam açoutar-se. Agora, sim senhor, já intendo. Por 



6 XX 

nao avaliar a omnisciência do Sr. Capitão Mór em 
todas as disciplinas, aquellas enérgicas phrases sao a* 
disciplinas com que elle flagella o 

Teo obediente creado 

ClNCINNATO. 

l^onu-iineiito a Booa^e. 

De uma carta fidedigna recem-recebida de Lisboa 
copi&mos o seguinte, que deve interessar a muitas pes- 
soas n^este paiz, visto ter sido aqui iniciado o projecto, 
que se está tractando de levar proximamente ao cabo. 
Eis-aqui : 

— « Tem sido, em todos os ponctos,seguidas. tanto 
n'esta cidade, como em Setúbal, as recommendaçOes^ 
dos Srs. conselheiro J. F. de Castilho, e Barão de S, 
Clemente, Presidente e Vice-Presidente da CommissRo 
Central do monumento no Rio de Janeiro, incumbidos 
pela mesma commissao de dirigir a conclusão dos 
trabalhos. 

Foram egualmente recr^bidos os convites d^aquelles 
senhores aos vários cavalheiros que designaram nas 
duas cidades para constituirem commissoes especiaes, 
A de Lisboa, presidida pelos Srs. Marquez d' Ávila 
e Bolama, e Visconde de Castilho, vai reunir-se para 
deliberar, de accôrdo com as in.strucçOes recebidas, 
sendo o local das suas sessões na Academia Real das 
Sciencias. 

O desenho do monumento está muito exacto, tal 
qual o deu o jornal illuslrado d'essa corte Vida Flu- 
minense^ só com a differeuça de que no logar indicado 
com armas reaes, estão lyras. 

A estátua, que muito honra o esculptor Reis, está 
prompta, como tudo mais. Gravaram-so na.? quatro 
frentes do pedestal os seguintes quartetos, do próprio 
Bocage : 

1®. Frente 

De Elmano èis sobre o mármore sagrado 
a lyra, em que chorava ou ria amores... 
Ser d'elles, ser das musas, foi seo fado. 
Honrera-lhe a lyra vates e amadores ! 

2". Lado esquerdo da estJtiia, 

Doou-me Phebo aos séculos vindouros. 
Deponho a flor da vidn, e guardo o fructo. 



Pagando á vil matéria um vão tributo, 
retenho a posse d* immortaes thesonros. 

3**. Costas. 

E!ste, com quem se ufana a pedra erguida. 
ah ! se incantou com sonorosas cores... 
já Bocage nao é ! n&o sois, amores ! 
Chorae^he a morte, e celebrae-lhe a vida ! 

4*. Lado direito da estátua. 

Um Nume, só terrível ao tyranno, 
nao à triste mortal fragilidade, 
eis o Deus, que consola a humanidade, 
eis o Deus da razão, o Deus de Elmano. 

No dia 9 do corrente (octubro) foram a Setúbal, o 
Sr. Salles. domno da officina ondif foi feito o monumen- 
to, e o Sr. A. Torquato Azedo e Silva, para esse fim 
êommissionado. 

Apenas chegaram, passaram immediatamente a exa- 
minar com attenç>»o qujil a praça que melhor se pres- 
tava ao intuito. Acharam que a praça, jà denominada de 
Bocage, era grande e assaz desegual no seo todo ; mas 
que a parte que propriamente se pode chamar praça era 
a mais adequada, e tal qual podesse deseiar-se, se de 
novo houvesse de ser feiui. Nao tem casebres, ou pré- 
dios em máo estado, senão um, que pertence a um 
cavalheiro opulento, o qual acaba de construir um pa- 
lacete na rua que deita frente para a praia, e parece 
t^ír promettido erguer agora n'aquelle chão um edifício 
digno da elegante praça 

Ha duas grandes construcções que a affrontam, e que 
naturalmente um dia desapparecerao ; entretanto ficam 
um pouco distantes, e nao no recinto da praça : sao 
uma egrejae o Paço da Gamara; ambos estes edificios 
sobresaem do alinhamento dos prédios ; mas ficam em 
tal distancia que nada tem com a praça propriamente 
dieta. Ha também um chafariz defronte do Paço da 
Camará ; fica no meio da rua, mas também em distan- 
cia, que nao prejudica o offeito, E' egualmente n'a- 
qiielle largo o mercado da fracta, mns mui afastado do 
recinto da prnça de Bocage, a qual verdadeiramente 
fica isolada, e é do tamanho tal que se proporciona per- 
feitamente com o tamanho da memória. 

A Camará reuniu-se logo, e ambos aquelles senhores 
se lhe apnresentaram. Entregue a carta que levavam do 



8 XX 

Sr. Visconde de Castilho (impossibilitado de ir pes- 
soalmente) ao Presidente da Gamara, Sr. Dr. Manitto, 
que a recebeu em pé, leu-a, e dice que o Sr. Conselheiro 
J. F. de Castilho, quando alli fora, mostrara preferir a 
praça de Bocage para a erecção do monumento, mas 
que perguntava se levavam ordem de escjlher outra. 
Sendo-lhe respondido que nao, « Nesse caso (dice o 
venerando Presidente) a Camará Municipal decidiu que 
fosse posta a praça á disposição da Commissao C mtral 
no Rio de Janeiro. Podem começar a obra quando qui- 
zerem ; eeu, por deliberação da Camaia, estou auctori- 
zado para declarar que ella está prompta para cooperar^ 
da melhor vontade, com aquillo que poder, para a 
realisaçao do pensamento da Commissao no Brazil. » 

Responderam-lhe que a Commiosao no Brazil pedia 
licença paranlo receber auxílio algum pecuniário, ou 
de outra qualquer natureza, com relação a tudo que diz 
respeito ao monumento ; e só pedia que a Camará fi- 
zesse quanto podesse para que a inauguração se veri- 
ficasse com a grandeza devida ao vulto a quem se 
honrava. Foi respondido que a Camará se empenharia 
n*isso, quanto coubesse em seos meios e faculdades. 

Immediatamente se começaram os trabalhos, por- 
que, nas instrucções do Brazil, se havia pedido que a 
inauguração .se realizasse no dia 21 de dezembro, 
sexagésimo sexto anniversàrio do passamento do poeta ; 
mas uma circumstància, que era desconhecida, torna 
problemática a fixação do dia. Com effeito, adquiriu-se 
certeza de que, a uns cinco palmos abaixo do chão, 
âe iílcontra água, nau só alli, mas ainda muito mais 
distante do mar , na mesma direcção ; sendo in- 
dispensável possante estacaria para solidificar o ter- 
reno, de modo que possa aguentar o grande peso, 
como aliás tem sido obrigados a praticar, com assaz 
avultada despesa. diversos prop.-ietários que n'aquellas 
immediaçOes têm mandado edificar. 

Ficava-se egualmente aformoseando a praça, para 
o que 03 moradores concorriam jubilosamente. Em 
Lisboa se preparava umà elegante gradaria, para ro- 
dear o monumento. A alguma distancia vao Sr^r col- 
locados quatro renques parallelogrammáticos de ár- 
vores, alternadas com bancos de ferro. Por fora d*estes 
bancos e árvores, segue, também em parallelogramma^ 
uma bonita calçada, de pedra miúda, da qual sobre- 
ssem «eis coUossaes lampeoes. 



XX 9 

'! Tudo estará acabado para o dia 21 de dezembro^ 
caso o permitta, como dicto fica, a abertura e o pre- 
paro, a que se procede, dos alicerces. » 



CONTO. 

o GRÃO SENHOR DAS LETTRAS 

Um dia certo pedante 
da turba dos pomadistas 
lembrou-se de assentar praça 
no bando dos romancistas. 

D' entre todos os assumptos 
nenhum lhe quadrou melhor 
que as ddicias dos selvagens 
sob o império do amor. 

E elle, então todo inlevado 
no seo próprio aj uizar, 
introu logo em movimento, 
e poz-se a penna a aparar. 

N» sublime operação 
empregou mais de hora e meia : 
era tempo de invernada , 
e a noite de lua cheia. 

Por acaso, juncto & mesa 
onde se ^ oz a escrever, 
veiu miar-lhe um gatinho 
magrinho, quasi a mjrrer. 

E o escripior emproado, 
intrando em meditação, 
tomou isto por preságio 
de futura elevação. 

De chofre exclamou suberbo, 
trovejando em tom severo : 
« Sê tu minha musa, oh! gato! 
« iuvocar a ti só quero : 

« Que importa que sejas macho^ 
« e as musas ?ní///ierps sejam? 
« eu creio que, ao leo influxii, 
4. mais alto os cysnes adejam. 

<i Vem tu, pois, abre-me os cofres 
« da suprema inspiração ! 
a faze que o meo génio exceda 
<x toda a humana geração ! 



10 



« Escreverei prosa e verso, 
« como ninguém tenha escripto ; 
« vou no drama e no romance 
a ter valor mais que infinito * 

« Hei de mostrar aos oue julgpam 
« valer, um pouquito o Horácio, 
« qufto longe estava do bello 
« aquelle génio do Lácio : 

n E se ha hi quem louca fama 
« proclame grãos sabedores, 
a nade fazer de seos louros 
u holocausto a meos furores. » 

Segue-se ligeira pausa, 
e depois inthusiasraado, 
eis solta esplendidos voos 
ao seo estro sublimado 

Leu, tresleu, roeu as unhas, 
borrou papel a valer, 
e um formosíssimo drama 
veiu então a apparecer. 

O rapas ^ que da pomada 
faz um commér io per^nne, 
pôde erguer nos seos escr!ptos 
um monumento solemne. 

Desde a hora em que lhe appronve 
vagar das lettras no espaço, 
Desbancou Virgílio, Homero, 
Lucano, Camões e Tasso. 
Como poeta e estylisía^ 
nenhum lhe i^anha vantagem : 
todos a flux, cabisbaixos, 
lhe prestam preito e homenagem, 

E' fecundo dramaturgo, 
é raro folhetinista, 
historiador sem segundo^ 
delicado romancista. 

Qual eschola ou meia eschola ! 
forma eschola por si só : 
todas as mais são supérfluas, 
ninharias, fumo, pó. 

O que mais alto distingue 
o seu mérito immortal, 
é o pendor que o impelle 
á cultura da moral. 

Passa por ser um dos homens 



XX 11 

mais lidos n'essa cidade: 
— Bom milagre do gatinho, 
que fez tanta novidade : — 

£' condão dos pomadistas, 
que tudo deixam atraz: 
Basta um gesto de arrogância; 
a prova está no rapaz. 

Ck)'um escrópulo de audácia^ 
meia onça de franqueza^ 
quatro oitavas de mystérios, 
e a cerviz erguida e teza; 

com certo ar d'aita importância^ 
de plebéa fidalguia^ 
e um pince-nez e umas lavas 
e a phrase nlmio bravia^ 

ani surge um homem grande, 
um htterato, um poeta^ 
embora na mente côncava 
confunda a curva co'a recta. 

Mas o mundo é assim mesmo: 
os parvos sSo sabichões ; 
os sábios sao vis jarrê as, 
que nao vale>m attençOes. 

Ser pomadistal..,. Isto agora 
è caso muito diverso: 
so quem cultiva a pomada 
é grande em prosa e no verso. 

O exemplo é bem patê ate, 
eiPo ahi no grau maior: 

3uem pôde negar a fama 
as lettras ao Grão-Senhor ?!... 

Exalçado à eternidade 
pela inspiração de um gato ! ! 
quem jamais poderá crêl-o ! ? 
pois o conto é muito exacto. 

Ouvi-o a certa velhinha, 
que tí das fidalgas d^aJèm^ 
e que sabe muita cousa 
que faz mal e que faz bem. 

Asseguro que ella mesma 
me contou toda essa história; 
e eu muito crente nos contos, 
conse^^vpi este em memória. 

Transmittindo-o agora mesiio 
á plena publicidade. 



12 XX 

dou prova de que n?io zombo 
dos aireitos da verdade. 

Pago um tributo á pomada, 
saudando o mór pomadista^ 
o poeta^ andor de dramas, 
historiador^ romancista. 

Deus Ihft dê annosde vida, 
para ser ainda maior. 
Eu só lhe peço uma graça. 
— Não desprese o meo amor. 

Archiloco. 



« — ^Já leste, Jucá, a Iracema ? » 
<c — Vale a pena ? » 

« — E' obra prima... » 
o — Algum romance ? » 

((-•E' um poema, 
lido... de baixo p'ra cima. » 

<( — Li três vezes o Gaácho, 
Achei-o três vezes chocho. » 
« — Pois eu li-o uma só vez, 
e achei-o três vezes três. » 

Da tal Pala da Gazella 
eis o inrêdo verdadeiro. 
Cautela, leitor, cautela ! 
Quando a ii, perdi meo tempo ; 
quando a comprei, meo dinheiro. 

Themisiocles, 



FIM. 



XX 18 






r 



das xiiatcirias contidas xi'cste voliune. > 

( H, B. Ás A primeirat carias dç Cintinnato constituem o Vi. 1. O «nte 
vai apontado em cifra romana indica o número, que se esífnde dei a 
XX. O que vai em cifra arábica indica a pdgina da rf^ívectito número.) 

Cartajs vh CiNaNNATo ▲ Fabru 

1*. — Poder pessoal . 1 :j 

2*. — Idem. Linguagem de um parlamentar I 29 

2*. — Anályse de um discurso. O projecto so- 
bre o elemento servil A escravidão. 
As iras.Se o projecto baixou do alto 1 51 

4*. — Os estrangeiros I 63 

5". — Anàlyse de um discurso de inierpella- 
ção. As dentadas. A imprensa. A 
estrangeirophobia. As calúmnias 

do interpellante II 3 

6*. — Defesa de Cincinnato contra as accu- 

saçõfts da interpellaçao .... Ill 6 

7'. — Elemento servil. As suppostas contra- 

dicçoes . • IV 6 

8*. — Arguições infundadas. Plano de estor- 
var a lei. Dos oradores lálariantes. V 4 
9*. — O projecto sobre elemento servil, no 
senado. As variadas providencias 
que a lei ainda demandará . . . VII 8 

10'. — A origem de certas opposições à lei. 

Benefícios que d'ella resultarão. . VIII 8 

II*. — Defesa de Cincinnato contra as accu- 

saçõed da interpellaçao. . . . XII II 

12*. — O interpellante convencido de cata- 

vento e mercenário XIII 12 

13'.— O Gaúcho. A 1' Palestra do Didrio 

do Rio XVII 6 

14'.— Idem. A 2-, e 3- XVIU I 

Io\ — A Rússia, depois da emancipação dos 
servos. O Brazil, depois da lei de 28 
do septembro XIX 1 

Cartas de Cincinnato a Semprónio [sobre o Gaúcho) . 

1.— IX 7 

2'.- Xi -4 

3*. —O Gaúcho. As palestras do Wrfrio do Rio aIX 6 
4'.— Idem XX I 



V 



IJaktas de Sempronio a um amigo (sobre o ííaí^çho) 

i\\ 1—2*. VI 3—3'. VIÍ 1-4'. VIII l— 5'.X lO 
>^6\ XII 6—7'. XUl 6—8'. XIV 6. 
/ Artu o db Sólon 

Reforma^ Judiciária . 111 l 

Aktioos de Junius 

Eis a tribii de Levi, do partido conservador IV 

A quesUJó do elemento servil.* .... VI 

Asesslode 1871. XU 

Tendências desorganisadoras XUl 

A política especulativa XIV 

A república federativa XVU 

Proposta do Sr duque di Saldanha 

Necessidade da associação cathólica. '. . IX 15 X 2 

Discurso do Sr. visconde de Rio Branco 

Eespoiáta & interpellaçao do Sr. Alencar . V 13 

Artigos sIsm assignaTura 

Vinte e quatro de septembro. D. Pedro I . IX l 

Três de julho (poesia) IX 3 

x\boliçâo da escravidão X 1 

Sessão parlamentar de 1871 XI 1 

Monumento a Bocage. Acta da sessão de 

. 4 de junho de 1871 da commissao central XV 1 
Idem idem. Artigo do Sr. Dr. Pedro Luiz 

Pereira de Souza XVI l 

Idem idem. Correspondência entre o Sr. A. 

r. de Castilho e a camará de Setúbal. , XVI 4 

Idem idem. Artigo da Vida Fluminense, . XVIU 11 

Idem iáem. D.'' áfi Gazela de Setúbal. . . XVIU 13 

Idem idem. Noticiário de Lisboa. , . . XX 6 

Infermidades da língua XVIU 8 

Artigos do Jornal o a Dhazil » 

Introduccílo XIV 12 

O Brazil litteràrio XIV 15 

Noticiário XIV 16 XIX 16 

Artigo du (cJornal do Recife 

Dous discursos do conselheiro J. de Alencar Hl 121V 14 

Artigo du Jornal «La Naliou 

Notável discurso do Sr. Paranhos . . . VIU 14 

CoNTOS), EPIGRAMMAS E MADR10AE8 

De Quintiliano . ...'... XI 15 XVU 16 

De Themistocles XU 16 XVU 16 XX 12 

De Zero, XI lõ, 15, 15, 15, 16, 16, 16 XU 15, 15, 16, 16 
C\)nto. por Archíloco XX 9 

POKSUDE PlTT B BLACkSTONE 

As causas aas causas . • VI 12 



OOESTOES DO DIA; 



observações politicas e litterárias 



eseriptas por yários 



B 



POR 



j£uceo ^aená^ (umannaA. 



TOMO U 



RIO DE JANEIRO 

TYPOORAPHU B LITHOGRAPHIA — IMPARCIAL — 

146 A RUA SBTE DB SETEMBRO 146 A 

18T1 



Adverlencia. 



^^^■^^^^^^«#%«%«NrfN^kM^h^«tf^^k^»tf«^ 



Várias pessoas collaboram ii'esta publicação ; cada 
uma escolheu um pseudóuymo. Teado-se concordado 
em plena liberdade de redacção, cada signatário só é 
moralmente responsável pelo que subscreve. 



QUESTÕES DO DIA 



N". 91 



RIO DE JANEIRO 14 DE NOVEMBRO DE 1871. 



Veode-se em casados Srs E. & H. Laemmert.— Agostinho de Freitas Gui- 
marães âí Comp., 26, rua do General Camará.— Praça da Constituição, 
Loja do canto.— Livraria Académica, Rua de S. José n. 119— Largo do 
Paço n. C— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 

A sinoex^ldade das aooSes 
opposlolonlstas.- " 

As opposiçOes, nos governos de livre discussão, para 
serem úteis, cumpre que sejam verdadeiras ; e para 
isto devem, nos seos justos fins, inlacar-se em máxi- 
mas, em princípios de ordem elevada, tendo somente 
como poncto objectivo o público bem. 

As opposições, como systema assentado unicamente 
com o empenho de derrubarem os homens do poder, 
sem escolha de armas, servindo-se de todas, boas e 
más, com tanto que obtenham o descrédito do governo, 
^sas opposições aninham em si elementos destruidores 
dos princípios regulares da ordem e das conveniências 
governativas: são opposiçOes pautadas somente por 
ambições mal contidas, que podem, sim, destruir, á 
força de suas incessantes martelladas, o edifício cons- 
tituidoy se conseguirem transviar a opinião; mas, com 
certeza, nada conseguirão recompor durável no terreno 
político. 

Odillon Barrot, e quantos, na mesma plana, hosti- 
lizaram nos últimos annos, excitando as paixões popula- 
res,© governo do sábio e venerável Luiz Philippe, iai- 
putando-lhe erros, que não havia commettido, e reves- 
tindo de cores negras as menores faltas administrati- 
vas, sempre no tom de desconceito á monarchia de 
Julho, ficaram surpreendidos, quando viram baquear 
essa monarchia, que não queriam destruída, e, em 
aeo logar, erguer-se a república, com todos os seos 
demagógicos furores, que deram depois em resultado 
o impário. 

Nas vistas do illustre Thiers, o grande orador, 
quando hostilizava o governo de Napoleão III, nfto 



4 XXI 

podia intrar o desialace que.se âeu. Adversário siste- 
mático do império, orleaniBta reconhecido, elle, sem 
dúyid», visava a substituição da ordem de cousas exis- 
tente por alguma outra; mas essa nao era a república; 
era uma nova monarchia. 

Sem o presentir (fazemos-lhe essa justiça) concorreu 
para as grandes calamidades, que cairam sobre sua 
infeliz pátria; desmoronou-se o império, mas nSo o 
substituiu o governo que desejava. 

Ninguém, tanta como elle (porque^ nenhum outro 
consegiuira tfto grande auctorídade na tribuna com im- 
portantes discursos, preparados com tanto esmero « 
talento), cavou a ruina do império : ninguém, tanto^ 
como elle, animou, affagou. as illusOes, os appetites 
guerreiros, e a incontinência politica do povo trancez, 
sempre inquieto, sempre vário, sempre ávido de novi- 
dades, como bem havia apreciado Júlio César nos seos 
commentáríos ha 19 séculos: mas intendera errada- 
mente o grande orador opposicionista, que sua voz só 
teria o alcance que lhe queria dar; que poderia mode- 
rar 08 Ímpetos da naç&o, e guia!-os com osoccorro dos 
eiTos do império, atè onde (fazemos-lhe também esta 
jnstiçaj considerava exigil-o o bem do seo paiz, e a po- 
litica aa sua concepção. 

Quando os homens importantes por suas posiçOes e 
por seos talentos se excedem nos seos meios de oppo- 
siçao contra o governo, auctorizam, com o seo ceusn- 
ravel exemplo, outros excessos, que, em suas consciên- 
cias, nao poderão approvar, mas contra os quaes nao 
se animam a protestar abertamente. E accontece que, 
assim coUocados em um plano inclinado, quasi sempre 
vao escorregando gradualmente para um terreno, que 
nunca poderá convir-lhes, e no qual, ou terão de sus- 
tentar posição falsa, ou de fazer grande esftrço para 
voltarem a melhor caminho. 

Foi o que acconteceu ao illustre Thiers. Se fftsse po- 
litico tao eminente, ou menos apaixonado, como é no- 
tável orador, teria sabido regular a sua opposiçao ás 
faltas graves do império, de moio que evitasse o 
plano inclinado, por onde, a seo pesar sem dúvida, se 
sentiu resvalar. 

Em politica as boas intenções nao absolvem dos 
grandes erros : estes somente podem, mas apenas eoo 
parte, ser attenuados, ou resgatados por importantes 
serviços, como aquelles que procura prestar actual* 



KXI 5 

mente A Franca humilhada o eminente chefe do poder 
«Kecntiyo. 

Se a história dos pas^sados tempos é sempre instruc- 
tira, miais proveitosas devem ser para os governos é 
jpara os povos as licçOes dos factos contemporâneos de 
países que marcham na frente da civilisação do 
mundo. 

 França, a orgulhosa, a poderosa, a gloriosa 
França d&-nas actualmente prova bem digna de estudo, 
-com as tristes e espantosas peripécias porque tem pas- 
sado n'estes últimos tempos. 

D'onde tem nascido essa lucta continua d*aquelle 
nobre paiz, no redemoinho político ? 
• Como o doente que não inrontra no leito posição que 
o satisfaça, procura o melhor governo, mas nenhum o 
contenta; e hoje está mais distanciado de socêgo po- 
litico, do que em qualquer outro período de sua exis- 
tência, visto como tudo alli actualmente é transitório. 
Nada aprendeu no passado: saberá agora aprender 
com a dolorosa licçao presente ? 

A tribuna e a imprensa, grandes pliaróes da civili- 
sação moderna, e, antes d'elles, e com elles, aphiloso- 
phia que illustra,e guia o espirito humano,preparando 
os povos para bl^ grandes conquistas moraes no per- 
passar das edades, fízerara da França, não ha dúvida, 
iim grande paiz, nas lettras, nas artes, na riqueza,nas 
indústrias, na força, e na glória. 
* Consagrado como verdadeiro este princípio, a França 
tem sido ao mesmo tempo, mais que algum outro paiz 
do mundo civilizado, victima dos excessos, das paixões, 
dos erros, e da fallácia arguciosa da tribuna, da im- 
prensa, e da philosophia mendaz, que lhe cavaram a 
queda horrorosa no abysmo 

Princípios exaggerados ou falsos fizeram alli pullu- 
lar escriptos de doctrinas perniciosas, influindo de 
modo deplorável sobre o characttr das turbas menos 
instruídas, e o geral do povo. 

E este mal, que é grande na França, também se tem 
inoculado, e vai fazendo sequella era outros paizes ; 
▼ai-se tornando um perigo de todos os dias, nos povos 
do anti»ro continente. 

A commuiia^ que tao desastrosa se ostentou com esse 
desfaçamento, que surprendeu o mundo inteiro, alta- 
mente denuncia o relaxamento dos indispensáveis vín- 
-culos da sociedade humana. 



6 XXI 

A Internacional^ sua sócia 6 irmã. gémea, declarando 
guerra ao capital, ou querendo subordinal-o à bitola 
de uma insensata economia política, denuncia a au- 
sência de todo o bom senso nas numerosas classes ope- 
rárias de diversos paizes europêos; porque sem o capital 
o trabalho não pode ser fundado ; e se não ha capital 
que anime o trabalho, este não pôde existir; e, se não 
ha trabalho, o povo fenece na miséria. 

A sociedade, em suas condições de ser, nos elos que a 

f>rendem em laços necessários, só pôde manter-se regu- 
ar com essa harmonia que resulta da reunião das for- 
ças de cada um, e com a troca dos serviços e auxílios 
de todos entre si. 

Os lavores não podem ser eguaes, porque as aptidões 
differem, e umas são mais lucrativas do que outras ! 
A actividade individual e a intelligencia nao são egua- 
ladas pela natureza. 

Uns nascem com propensão para o commércio; outros 
para as artes ; outros para tal ou tal industria. 

Este têm queda para a poesia ; aquelle para a pin- 
tura : uns para as sciencias e estudos superiores, e 
outros para a lavoura ; e assim por deante. 

Ora o que é certo é que todas as classes dependem 
umas das outras, as ricas como as pobres ; e d'ahi essa 
harmonia que fortifica a todos, arapajando-se, com o^ 
secs meios uns aos outros no interesse commum e 
geral. 

A communa inspirou-se nas idéas perniciosas de es- 
criptores sem consciência, que empregaram e empre- 
gam o talento em especular sobre os ânimos da mul- 
tidão, qUe sonha venturas, acceitando taes doctrinas. 

São despresiveis especuladores, que merecem o aná- 
thema da sociedade. 

Mas não são somente os que assim tão baixa e peri- 
gosamente especulam com o povo os que devemos con- 
demnar. 

Os demolidores políticos, que se arvoram em de- 
fensores de princípios que ninguém ataca, o inventam, 
a seo bel prazer, factos que adulteram, ou os desfigu- 
ram, mentindo á consciência do dever de bons cida- 
dãos, são justamente merecedores da expnibraçao 
geral. 

No nosso paiz, se não ha apóstolos do communismo, 
nem filiados da Internacional, ha certos regeneradores 
da sociedade política brazileira, que estão de continuo 



XXI 7 

a insinar idéas contrárias à ordem politica existente, 
como salvatério^ que trará ao paiz uma edade de ouro. 

Em outra linha de combatentes, ha muitos que in- 
tendem despender bem toda a sua actividade intel- 
lectual, e fazer justa applicação do seo patriotismo, 
atiçando o fogo sagrado da liberdade com uma oppo- 
siçâo constante aos actos do governo, e mais ainda, se 
taes actos têm cunho conspícuo na ordem administra- 
tiva. 

Ora das folhas opposicionistas o governo não pôde 
esperar louvores ; mas entre o louvor de que prescinde 
e a censura baseada em falsa appreciaç&o, ha grande 
distancia. 

Esta politica de verdadeira personalidade podia bem 
ser substituida por outra mais elevada, eque justamente 
o paiz agradeceria, occupando-se as folhas opposicio- 
nistas das muitas necessidades de ordem industrial e 
económica, e também de várias leis administrativas, no 
interesse da boa governança do Estado. 

A licçao das desgraças estranhas, a experiência do- 
lorosa dos outros paizes n9o lhes insina o perigo das 
talsas idéas, e das ambições incontinentes ? 

Dar-se-ha caso que nunca se po.ssa, ou se queira 
aprender nos males alheios ? 

Triste obcecaçao da raça humana!... muitas vezes 
nem a experiência própria, por dolorosa que seja, serve 
de correctivo, e evita a repetição dos erros !... 

Como amigo sincero da nossa pátria, sempre con- 
demnaremos a política regulada pelos interesses mo- 
veis e egoístas das facções. 

JUNIUS. 



Oarta 5« 

DE CINCINNATO A SEMPRÒNIO. 

Rio, 9 de novembro de 1871. 

Respeitável Semprónio. 

Tenho a stulta manha de muitas vezes discursar de 
alhos quando se tracta de bugalhos ; e se me cai a 
talho de fouce uma leitura que me quadra, transcrevo 
logo, embora venha despropositada; e comod'istojá 
agora me nfto emendo, porque quem torto nasce, tarde 
ou nunca se indireita, lá vai uma das taes leituras, 
sem atilho nem vencilho. 



Celebrava-se antigamente em algumas egrejas do 
Norte, por £ns de dezembro, uma ie^t^ denominada 
Libertas decemjbrka^ ou, mais commupaojiante, do Papa 
fytuorum. Np tempo dos officios divinos, saiam da ca* 
tliedral os clérigos emmascarados, ou em trajos mu* 
llieris, ou vestidos de bQbus e chocarreiros, dançapdo 
jà saltando e correndo, qom grandes alaridos. Junctos 
jQo choro, can^vam cftntigas deshonestas, faziam dos 
altares mesas, com grandes comesanas e galhofas, dei- 
tavam solas de chichellos nos thuribulos, e com fétido 
luuio incensavam as paredes, e com outras sacrílegas 
ep^travjagancias, procediam & eleição do seo Poutifíce, 
que tinha por titulo O Papa dos fátuos. Foi conti- 
nuando este b&rbaro escândalo, até que, em 1444, os 
theólogos da faculdade de Paris, com a circular que 
dirigiram aos prelados de França, e que depois foi 
]àada á luz por João Savaro, extinguiram a festa do 
Pçipa fatuorum. Fizeram muito bem, e estou conven- 
cido de que nunca mais se rastabelecerà o ridículo pro- 
topapado. 

Emfim, deixemos os assombrosos costumes da edade 
média, tão outros dos actus^s, e continuemos a nossa 
pr&tica litterária. 

Uma folha d'esta capital, de aspirações adeantadis- 
simas, dâ ao orbe intellectual a fausta notícia de que 
ás suas columnas coube a glória de serem escolhidas 
para uma nova brilhatura romaatica do Sr. José d'A- 
lencar, o conservador. Hade chamar-se-lhe.. O TU I e 
justificar a qualificação, já dada ao seo auctor, de chefe 
da litteratura brazileira. Podes imaginar com que an- 
ciedade é esperado o novo parto da fecunda musa,para 
glória nacional, orgulho e desvaiíecimento (da pá- 
tria [sic). 

E para matar o tempo, que tão moroso se espre- 
guiça até á chegada do apregoado Messias, vamos con- 
tinuando a examinar, com profundo respeito, a ele- 
gante defesa que Senio publica, de si mesmo, pela voz 
do seo confrade V., nas Palestras áo Diário. Segue- 
se a 4'. : 

§ 7.** As citações erradas. 

A primeira cousa que me chama a atteução são 
as duas citações, portugueza e latina, por onde a vasta 
erudição do meo indómito contendor começa desde logo 
.a patentear-se : patuit dea I 



JXL 9 

Já temos observado quão competente é Seaio na... 
lioguagem enérgica : ora as accumulaçoes estão pro- 
Mbidas, e um homem, por mais admirável que nos 
pareça, nao pôde ser omnisciente. As orelhas do porta- 
voz de Senio, quaesquer que suas dimensões sejam, 
-está visto que tem mal collocados os anfractos e emi- 
nências do seo helix e anthelix : são antípodas da har- 
monia métrica, e sou eu o primeiro que pugno pela 
coherencia do meo nobre adversário, ao menos n'este 
poncto: nunca emprega u ma citação, em idioma al- 
gum, que a não estropie radicalmente ; e tão feliz é 
na solução d'e3te problema, que, se Herodes tivesse 
sido egualmente severo em não poupar um só innocen- 
te, o menino Jesus não houvera escapadq ao tetrarcha 
da Judéa! Ora eis-aqui citações feitas pelo bom do 
Senio n'estas Palestras. Em latim, diz elle : 

SiccstidcB MusoB, paulo majora canamus. 
Devia escrever : 

Sicelides Musob, paulo majora canamus ( Virg. Egl. 4) 
E até no macarróníco erra, pondo : 

Pfós quoquegens samus, et cavalgara sabemus. (Palito) 
E n'outro íogar, trazido como Pilatos ao credo: 

... trensversis tiientibus hircis, 
leia-se : 

... transversa tuentibus hircis (Virg. Egl. 3) 
Em france/. erra os versos da Racine, di-^endo : 
CependaiU^ sur le dos de la píaine huinide, 
s^élève à g^oss bouillons une montugne liquide^ 
quando o que o harmonioso vate escreveu, foi ( como 
já notei ) 

Cependant, sa^ le dos de In plaina liquide 
s^éUve à gros í^uillons une montagne humide. 
Mas quH arimira se as orelhas e o sentido, nem se- 
quer em portuguez o ajudam ! E' assim que cita uma 
quadra, que é da 3*. carta do Toleutino (ao cabellei- 
reiro) as.^im .* 

Mil vezes travessas musas 
da obra o desviam ; 
e, mostrando -lhe o tincteiro, 
pós e banhas lhe escondiam, 

quando no 4" verso a palavra é no singular, banha; e 
o 2*. é : 

da baixa obra o Jesviam 

^tc. etc. Nem assombra que imagine serem tudo 



• J -ii l lj. l 



10 XXI 

aquillo versos, quem desde a 1". Palestra se mostrou 
tao intelligente d'elles, que a terminou por estes dous, 
nao de ane menor, mas de arte mínima : 

Cobre o rosto ^ Lusitânia I 
Querem fazer de ti Lapónia I 

E nao te ponhas tu agora a imaginar serem tudo isto 
innocentes incúrias typcgráphicas, como vais ver. 
Tendo no Jonial do Commercio^ do dia 19 de octubro, 
apparecido um artigo, cujo auctor te dou minha pa- 
lavra que ainda hoje ignoro quem seja, e em que o 
Sr. V. é posto no seo logar, saiu-se este critico, logo 
no dia seguinte, com uma Palestra avulsa^ em resposta, 
onde se lê o seguinte : 

ií Ora pillulal e eu nao ia tomando ao sério este sub- 
« jeito que fala em estropeari vejam como citou o 
« lindo verso de Camões ! Em vez de 

« Ohl tu que tens de humano o gesto e o peito 
« estropea-o d'esta forma : 

a Ohl tu quede humano só tens o gesto e o ptUo.)> 

Perdeu portanto todo o direito de escudar-se com os 
typógraphos em suas citações, quem, depois de ter 
commettido todos aquelles erros, sem os emendar, 
e nem sequer dar por isso, se appresenta inexorável 
contra um erro análogo de terceiro (que talvez tivesse 
em vista fazer-lhe o epigramma de imital-o). E' lei da 
natureza que eu padeça o mesmo que eu fiz padecer a 
outro; é o que os Rabbinos denominavam Talião idên- 
tico ou pyíhagórico; ao pé da lettra: é a applicacao do 
Levitico : « Quòd si quis intulerit corporis vitiuni pró- 
ximo suo, quemadmodum fecit, sic fiat ei: fractura 
pro factura, oculus pro óculo, dens pro dente ete. » 

« E UM CHARLATÃO DE TAL JAEZ METTIDO A CRÍTICO I)> 

( Phrase nao minha, mas com que este mesmo ve- 
nerando Sr. V. devida e charidosamente síí dignou 
flagellar-me). 

§ 8°. A ambula immensa tem só duas faces 
convexas : o mar e o cèo. 

A's vezes hesito quasi na paternidade das Palestras : 
sao ellas de Senio, ou de algum figadal inimigo seo ? 
Quando uma vez se teve a infelicidade de atirar ao 
papel phrases assiai, o único arbítrio prudentíí ê con- 
tinuar no anterior syste ma: esmagar os censores com 
o silencio do mais soberano desprêso ; d'esse modo ha 
certa coherencia com uma phrase que ouvidos fidedig- 



XXI u 

nos attribuem a Senio: « Eu minca leio o que se escreve, 
em mal^ de mim, » Ha nestas baforadas seo quê de 
pantafaçudo, mas lambeu de habilissimo. Agora sus- 
tentar polémica sobre evidencias d*estas f trazer o 
ite^^m' Chrispinus para uma causa perdida ! fazer do 
sambenito galla ! é manifestamente zombar do bom 
senso público. E com que vem Senio á praça ? ouça- 
mol-o, supprimindo sempre as phrases mais ascosas^ 
mas conservando toda apossança' da alta argumen- 
tação: 

« — E' claro que o auctor observa esse orbe do lado 
« de fora ; e comparando ( o que *? ) com uma immensa 
a ambula, imagina suas faces exteriormente, e portanto 
« convexas. » 

Que defesa esta, sancto Deus ! Ignorar o que seja 
convexidade pôde denotar. . .isto ou aquillo,mas nao está 
condemnado pelo Código Penal nem pela cartilha da 
Padre Ignacio. Agora o que dos Códigos Penaes passa 
para os Moraes são as circumstancias aggravantos que 
n'este caso se dao de — ter o delinquente reincidido em 
delícto da mesma natureza — ser impellido por motivo 
reprovado — dar-se a premeditaçao — haver procedido 
cora fraude — ter precedido ajuste entre 2 indivíduos 
para o fim de commetter-se o crime. 

Ora pois, como quem nao pôde, trapaceia, eis-aqui 
como, ( aiuda assim para se sair com tão melancólica 
apologia '• Senio obrou: havia elle escripto no Go/úcho 
(p. 2): 

— « No seio das ondas, o nauta sente-se isolado ; é 
« átomo involto numa dobra do infinito. A ámbula 
« immensa tem sô duas faces convexas, o maré o céo » 

Desenvolve o aspecto do mar e do céo, vistos pelo 
nauta, com o intuito de appresentar a ccmtraposição 
do chão e da atmosphera que em seguida pinta, vistos 
pelo viandante ua savana. 

Então quem observa o mar e o céo ? é o. auctor ou é 
o nauta ? 

E ha mais : Para se livrar do absurdo que se lhe pa- 
tenteou, cai nesta coarctada, e agora em absurdo ainda 
maior. CoUoca o observador-auctor da parle de fora das 
duas faces convexas, isto é, para alem do mar, para 
aleui do céo, para alem do infinito ! De lá esse divino 
Ivuce entre o qual e o nosso mar se interpõe milhões 
de milhões de léguas e de astros, divisa distinctamente 
Lão só o nosso planeta, que nem em forma de nebulosa 



12 XXI 

lhe seria dado inxergar, e em vez de só lubrigar dis- 
tinguiria nelle clarameute a parte equórea, e reconhe- 
<^eria manifestamente a sua lorma convexa ! Habilida* 
des ! Mas o que maior habilidade seria ainda, é a se- 
g-unda parte. Onde collocaria o auctor o seo observatório 
de alem-universo, para vir dar à humanidade a incrivel 
uoticia 1°. de que ha um logarfóra do infinito e das 
^uas dobras, 2**. que o universo, visto d'esse logar, é 
convexo ? 

Eis os despropósitos a que nos levam emendas fal- 
sas, e que ainda assim hcam peiores que o soneto. 

Deixemo-nos de novas tricas e alicantinas, geradoras 
de ainda mais estupendos disparates, é o nauta 
quem, no Gaúcho, vê as duas convexidades, asquaes 
constituem . . .uma perspectiva concava,outra horizontal! 

Todavia parece, quanto a estas apparencias ópticas, 
que ha mares e mares, e agora scei que nas viagens, 
por ex. até Macahé, a vista é outra, pois me ensina o 
Sr. V. como a cousa é. 

Pergunta em que díccionário pesquei o termo hori- 
zontalidade^ e tenho a honra de responder-lhe que no 
diccionario das Necessidades e do senso commura. 
«Quando a lingua me ensina que a parte internado 
uma esphera oca constitue uma concavidade e a externa 
uma convexidade ye^tk-me auctorizando a chamar hori- 
zonlalidade[^OT nao se poder dar a idéa senão por longa 
periphrase)a parte superior de uma linha que se cruza 
em angulo recto com a vertical. Venhamos porém ao 
que importa, qu^. não é a minha vernaculidade, visto 
como todas as minhas pessoaes sabenças entrego eu, 
semphiláucias,ao braço secular de Senioá C. ,soberanoi5 
senhores, dominadores e únicos introductores e bele- 
guins de todosos neologismos passados, presentes e 
futuros. DizV : 

« Basta ter embarcado para se saber que se aíRgura 
<( a quem está no mar achar-se dentro de uma esphera; 
(( porque o horizonte visual não é como o horizonte 
« matliemàtico, perpendicular ao diâmetro da teri-a. w 

Este porque é uma espécie de ergo rosas, porqxte 
nunca tal consequência poderia conter-se era simi- 
ihante principio, mas ronca bem, e representa a fun- 
dura dos conhecimentos mathemáticos do DoUore En- 
ciclopédico chiamato signor Se)tio, Mas peço ao nosso 
Newton se digne instruir-me sobre a sua curiosa de- 
iiuição, dissipando as dúvidas originadas da minha 



XXI t^ 

i&ópia. O hori^íonte imaginário, que os astrónomos de- 
nominam racional ou geocêntrico^ será acaso uma linha 
que se suppOe passar pelo centro da terra, dividindo 
a esphera em duas metades, mas parallela ao ho- 
rizonte astronómico *? e este horizonte nao é o plano 
tangente ao logar oftde o espectador se acha ? §e to- 
dos os pontos do globo podem por tanto ser o ele- 
mento variabilíssimo do cálculo db horizonte geocên- 
trico, como é que o preclaro professor do observatório 
do infinito não vê nesse horizonte senfto perpétua per- 

gindicular ao diâmetro da terra 1 e também se não* 
ra receio de infadar, quizera aprender se a tal linha 
é perpendicular ao diâmetro ou ao contrário perpen- 
dicular ao eixo da terra, pois me parece que dá para 
tudo. 

Só resta por tanto, independentemente dosscienti- 
ficos porquês ^ a certeza de que o olho de quem viajA 
até Macahé persuade o nauta de que sulca o centro 
de uma esphera, a qual se compõe, já se vê, de uma 
abóbada que vai para cima, denominada firmamento, 
ejà se sabe, para symetria, de outra egu ai concavi- 
dade para baixo que profunda alé ás profundas, fican- 
do necessariamente o nauta em situação dolorosa e 
vertiginosa, com risco de dar um trambolhão por allí 
abaixo, mais perigoso que o que no S. Luiz deram un& 
meninos no Mundo ds avessai. Eu, como nunca via- 
jei senão até Nictheroy, tinha tão ridículo olho que 
toda a água me parecia horizontal, e pôr-me-hia a rir 
de quem me quizesse persuadir de que se lhe afigura- 
va estar collocado no centro de uma esphera. Mas 
quem sabe, sabe. 

Completam-se as amabilidades com a explicação 
da âmbtila. Diz V : « Confunde âmbnla (vaso sagrado 
e de bocca estreita e sem gargalo) com um frasco, que 
chamaram também âmbula os antigos, pela simi- 
Ihaaça de bojo. Com que sonhas, porco*? com a bo- 
lota etc. y> 

Eu, verdade seja, tenho enorme queda para os li- 

anores espirituosos, e rara ó a semana em que não vou 
ar com os ossos no xadrez da policia ; mas isso não 
tira que o termo âtnbula não signifique um vaso de 
vidro ou cristal, com maior ou menor bôcca ou gar- 
galo ; e o applicar-se o vocábulo ao receptáculo do 
santo chrisma ou do óleo com que os reis de França 
se ungiam etc. em nada lhe altera a significação. 



16 xxr 

passo na vida das reformas, é sempre o primeiro a der* 
ramar as águas do baptismo sobre a institaiçao,o prin- 
cipio que ha de nascer para a nova vida social. Com<> 
consequência d'esta verdade, toúa a homenagem ao- 
progresso da civilisação e da scieneia acham sempre 
n'elle o mais ardente partidário. 

Por tudo isto brilham já para D. Pedro as horas 
formosai de alegria e satisfacção que muitos soberano» 
da Europa invejariam para si ao contemplar o enthu- 
siasmo com que tem sido acolhido o sábio, modesto e 
virtuoso guarda da liberdade de um povo no mais am- 
plo gõso de uma existência próspera etranquilla. 

Se olharmos para o Mexico;se examinarmos como em 
quasi toda a América vai plantado o systema queWas- 
nington legou aos yankees; se lançarmos um lançar de 
olhos do Prata ao Pacifico, ha de o coração confranger- 
se-nos ao ver tanta discórdia intima alterando de con** 
tinuo a paz das familias; e o homem observador, acy 
folhear a nistoria contemporânea da América, fixando 
toda a sua attenç&o nas páginas que tao ricos exem- 
plos offerecem á humanidade, e ao referir- se ao Brasil, 
dirá espontaneamente : Eis o paiz mais feliz da terra? : 
eis onde o império é paz, porque o chefe do e^adò 
é o primeiro cidadão da nação, pela religião do dever e 
da honra. [Brasil^ jornal de Lisboa). 

NOTICIÁRIO. 

Pantheon MARANHENSE. — O cxmo. sr.dr.Antonio Hen- 
ríques Leal, distincto maranhense e muito considerado 
na república das lettras, vai publicar uma obra com o 
titulo doesta noticia. 

Constará esta obra de três volumes em 8®. grande, 
contendo as biographias dos maranhenses fallecidos 
que honraram a província pelos seos escriptos, e pelos 
seos serviços á pátria, entre os quaes Odorico Mendes, 
Gonçalves Dias, Sotero dos Reis, Lisboa, dr. Joaquim 
Gomes de Souza, barão do Pindaré, Jos^ Cândido de 
Moraes e Silva (Pharol), brigadeiro Falcflo, senador 
Franco de Sá, Trajano G. de Carvalho, António Fran- 
cisco de Sá etc. 

Portugal que se ufana de ter em seo seio este dis^ 
tincto ornamento da litteratura, applaude já também a 
notícia e espera ancioso por este trabalho, que hade de- 
certo ser digno do já tao respeitável nome do sr. dr. 
Leal, (Idem). 



QUESTÕES DO DIA 



]sr. 22 



RIO DE JANEIRO 24 DE NOVEMBRO DE 1871. 



VeDde-M em casa dos Srs E. & H. Laemmert.— Agostinho de Freitas Gui- 
■aries & Comp., 26, rua do General Gamara.— Praça da Constituição, 
Lqjado canto.— Livraria Académica, Rua de S. José n. 119 — ^ Largo do 
Paço n. C.— Rua de Gonçalves Dias n. 79. — Preço 200 reis. 

^ — ^^^—^-^^——^^^—^^-^^^ 

A Repiil>lloa e os estudantes. 

I 

Quem (mmr, sem maior reflexão, os echos de certo s 
órgãos da imprensa brazileira,accreditará que o her- 
pe lento da corrupção, lavrando surdamente pelo or- 
ganismo social, tem invenenado as fontes da vida 
a esta grande e poderosa nação, anniquilando n'ella 
todos 08 princípios de ordem, todas as ideas do 
honesto, todas as aspirações de liberdade e justiça. 

— «A ineptidão, a ignorância e a immoralidade 
( brada um ) mcarnam-se hoje nos altos funccioná- 
rios do Estado, que são os depositários do poder 
e os directores da suprema administração. Nuilida- 
des, que nunca sonharam surgir da sombra, a que 
estavam condemnadas ; espíritos mesquinhos e ta- 
canhos, cujo horizonte intellectual é tão acanhado 
como o do campanário em que nasceram, sentam- 
se hoje nos conselhos da coroa. Incapazes de com- 
prehender ( quanto mais de desempenhar) a mis- 
são árdua e sublime de dirigir os destinos de um 
povo nobre e generoso, imprimindo-lhe a direcção 
aue reclama o espirito do século, servem somente 
ae rémoras animadas ao progresso e desinvolvi- 
mento d'esta parte da livre América, que recebeu 
e aperfeiçoou o legado de civilisação do velho 
mundo, a quem ha de,em breve, substituir nocyclo 
do processo humanitário. )> 

— «A monarchia (acode outro) é uma instituição 
caduca e anachrónica, que se esboroa e desfaz em 



u 



XXII 



I pó á luz das modernas idéas, como ao contacto do 

Par se dissolve o cadáver incerrado ha séculos na 

catacumba. A realeza — adoração de um fetiche, 

fenuflexão a um symbolo illusório — não está jà era 
armonia com o estado de perfeição da actual so- 
ciedade. E' a essa obsoleta e caduca forma de go- 
verno ; é a essa ficção ridícula e incompatível com 
a dignidade humana, que torna sagrado e infallivel 
fc^um nomem, collocando-o n'uma esphera superior 
fás fraquezas communs de seos similhantes; é a 
fessa mascarada ignóbil e truanesca que deve o Brazil 
I arrastrar^e ainda hoje na retaguarda do progresso, 
Lmiando outras nações menos favorecidas da Provi- 
Idencia, mas em cujo seio germinou e deu sasona- 
Idos fruclos a semente plantada por Washington e 
Franklin no Novo Mundo, occupam logar de honra 
o mappa dos povos cultos. » 
E em seguida a tão estranhas tbeorias, concluem 
b^os raptos declamatórios com o estribilho força- 
■do: — « Uetirae-vos do poder, toupeiras; deixae 
que as águias, únicas que podem incarar de frente 
o sol das excelsas regiões, pousem em penelraes das 
régias olympicas ; em vossas mãos, inexpertos Phae- 
tontes. afrouxam-se os bridões á quadriga do sol, 
e o carro vai ás tontas errando pelo espaço, até que 
tombe em terra, levando comsigo oincendioca 
devastação. 

Mas para que o bom senso público, único juizo 
ampetente e irrecorrível, recebesse o libello ac- 
-cusatório e os artigos de preferencia, appresen- 
tados pelos apó^toIus das novas idéas, fora de 
mister que um e outros viessem acompanhados 
de provas concludentes e irrecusáveis. 

Cumpria, antes de tudo. pôr em relíívo e levará 
luz da evidencia a falta de habilitações dos Pali- 
nuros que empunham o timão ao leme da nau do 
Estado. 

Imputações de lál gravidade não são accreditadas 
pelo simples enunciado. Ciíae os factos I aponctae 
os erros f descarnae as misérias da alta adminis- 
tração I e a nação inteira vos será grata por haver- 



XXII 19 

des arrancado ás gralhas as pennas do pavão, e 
reduzido a suas reaes proporções os pigmeos, que 
tentam inculcar-se gigantes, subindo em andas de 
taquara. Eia, senhores da imprensa regeneradora ; 
despi os histriões de seos ouropéis e lentejoulas ; 
desfazei os embustes dos prestidigitadores, e ex- 

Sonde^os á apupada da praça pública na sua ver- 
adeira nudez. 

Mas não é este o systema, que haveis adoptado. 
Vossas ousadas asserções vêm sempre á luz da pu- 
filicidade desaccompanhadas de demonstração, sem 
apparencias de verdade, e até sem visos de plausibi- 
lidade. Abris o vocabulário das ir^júrias, escolheis 
n*elle os mais ferinos doestos, os mais affrontosos 
insultos e os arrojais a mãos cheias contra os re- 
presentantes do poder, que tem direito, senão a 
vosso respeito e deferência, ao menos á corteziá, 

3ue se devem mutuamente os homens bem educa- 
os. 

E, quando desfeita, ao sopro da anályse, a volu- 
mosa bolha de sabão da vossa objurgatória, o que 
se vê? Nada, alem de mera declamação; naua, 
alem de factos appreciados sob o prisma de falsos 
princípios e desfigurados pela má vontade e por 
inexactas informações. 

E quereis que sobre tão frágeis alicerces firme 
a opinião pública um veredictnm condemnatório con- 
tra eminentes cidadãos, cuja primeira virtude é 
acceitar o poder, n'uin paiz em que se cospe a saliva 
da injúria e o veneno da calúmuia contra os aue 
assim alcançam a confiança da coroa e do pana- 
mento ? 

A opinião pública, que pretendeis embalde des- 
vairar e illuair, recusa aahesào e cerra ouvidos á 
vossa abstrusa propaganda, que tende a desmora- 
lizar tudo o que ainda merece o respeito e a vene- 
ração do mundo. 

Elia não acceila sem prévio e rigoroso examo, sem 
escrupulosa e accurada investigação de causa, ossas 
sentenças proferidas por vós em processos raal 
instruidos e documentados, e com os quaes jul- 



ao XXII 

gais na vossa apaixonada mente aue apagastes os 
nomes de vossas victimas do rol dos cidadãos be- 
neméritos. Nâo ! Titulos de benemerência e apti- 
dão, diplomas de incapacidade ou de ignorância 
não são os que arvoram o estandarte da anarchla 
e da dissolução social que os podem distribuir. 

E, reconvindo justamente contra vós, pergun- 
ta-vos a sã e recta consciência da sociedade : — 
Quem sois vós ? D'onde vindes ? Que documentos 
comprovam a vossa capacidade intellectual , os 
vastos conhecimentos administrativos e litterários 
que alardeais ? Quaes os homens competentes, que 
vos decerniram o bastão de juizes dos que manu- 
seiam as rédeas da suprema administração ? Que 
provas de moralidade» que testimunhos de bom 
senso e de independência abonam o vosso passado 
e dão arrhas pelo vosso presente ? 

O silencio da vaidade confundida responde a 
taes interrogações; a desconfiança olha de revez para 
essas typographias, que se improvisam, e para 
alguns d'esses redactores, que n*ellas tumultuam» 
quaes inxames de ephémeras, e cujos nomes, 
apenas conhecidos em circulo limitadissimo , 
ainda não resoáram aos ouvidos de seos conci- 
dadãos como reveladores de um rasgo de civismo 
ou do mínimo serviço prestado á pátria. 

E a voz da verdade, echoando da consciência 
da sociedade, brada pujante e imparcial : 

— « Não ! Carecem de base, ou não são bem 
apreciados os factos arguidos aos actuaes chefes 
do poder executivo, que, unicamente por dedica- 
ção á pátria, exercem o ingrato, bem que hon- 
roso cargo a que os chamaram o eleitor dos minis- 
tros e os próceres da Nação. 

« Não 1 os egrégios cidadãos, que vós amarrais 
ao poste da diffa mação, não são nuUidades philaa- 
ciosas, que subi. sem ás altas posições por mero 
acaso ou por outra influencia, diversa da que le- 
gitimamente lhes dão. o seo merecimento e rele^ 
vantes serviços ô causa pública. A Nação sabe 
devidamente aquilatar os sacrificios, que para ser- 



TÍl-a fazem esses seos filhos, e não será a opinião 
peita de umpugiUo de ambiciosos, que lhe apa- 
H no peilo o sentimento de gratidão. 
< Nâo I A Monarchia no Brasil nào é rémora 
do progresso; é sim condição essencial do desin- 
volnmento d'esta nova terra de promissão; a rea- 
Uza não é instituição anachróhica e em deshar- 
inonia com o estado de civilisação do Brasil — é 
a íórma de governo, que convém ú Índole 
Teste povo, e a cuja protectora sombra têm pros- 
perado as suas libérrimas instituições ; não é um 
etUhe. superstição ridicula, ou symbolo iUusório, 
que offenda a dignidade do homem ; 6 sim a sal- 
vaguarda de nossa liberdade, a égide de nossa 
Bonstituiçào politica, a acção benéfica, o influxo 
alnlarde nossa vida social.» 

Os í|utí condemnam a monarchia como eraba- 
Bço ao livre caminhar d'este gigante do Novo 
Hnndo, que em breve ha de formara syntheseda ci- 
nlisação do continente Sul-.\.mericano, são acco- 
Diidos pela parte sensata da população (a quasi 
lolalidade dos brasileiros) com o mesmo surriso 
de incredulidade, que fez abortar no berço as 
Iheorias da moderna eschola racionalista, quando 
^tr^TU que o estado de progresso do género hu- 
mano demandava uma religião mais perfeita que 
o actual catholicismo ! 

Quem. por conseguinte, ouvir, reflectindo, os 
fechos d'e3ses órgãos da imprensa brasileira, que 
^^ tornaram vehiculos das reprovadas doclrinas 
ue consubstanciamos, não julgará que as bases 
i sociedade estejam abaladas, e que marchamos 
_ ira a anarchia c para a revolução; sentirá 
antes confranger-se-lhn o coração, por ver que al- 
guns talentos escolhidos, que podiam dedicar-se 
ova brilho a definir e propagar os verdadeiros princí- 
ãos. se desvairam pelo matagal emmaranhado de 
heorias sem filiação, imitando a voz que clamava 
to deserto, porque não terão força para abalar, 
Kmdeleve, em seo pedestal a monarchia. inraizada 
1 fonição e no espirito dos brasileiros, nem para 




22 XXII 

mareara reputação illibada dosintegérrimoseillu»- 
trados cidadãos que se senlam nos conselhos da 
coroa, e que nas bênçãos dos brasileiros incootraitt 
recompensa ás provações por que estio passando. 
Pompeo. 
(Continua.) 



I*r*lmelra oarta. 

MUCrO SCCEVOLA A QUINTO CINCINNATO. 
Rei operam dabo. 

Honrado cidadflo romano. Tenha accompanhado os 
vossos admiráveis escriptos, e iiSo sei o qiirj inai» poâaa 
maravilhar, se a dicçilo majestosa com que tão hem 
sabeis sustentar a fidalguia da língua tão malbaratada 

Sor bofarinheiros, se a lóg:ica irresistivel com que an- 
ais patenteando a luz da verdade, escondida nos ecli- 
pses de despeitos desarrasoados, que barafustam por 
andurríaes e se somem nos sorvedouros subtwrfi- 
neos. {•) 

Um célebre Basílio Valentim, là imaginou uma en- 
tidade a que deu o nome de — íl.hcheo. — Paracelso e 
I Van Hei moul, agarraram este Sr. archéo e responsabili- 
saram-uQ por todos os phenómenos da economia viva. 
I Leibiiitz creou a sua harmonia pre^tabeháda: a inglês 
, Cudworth, líi forjou o seo viedindor plástico; e oa 
philósophos modernos, não menos opulentos de ima- 
ginação, e nao menos vi.sionàrios que seos anteces- 
sores, andaram procurando com seos mystérios caba- 
lísticos a pedra philosophal, e U nas suas elucubra- 
ções, à força do muito doudejar, crearam.... o poder 
pessoal, e fizeram d'este mylho o -■=«) archéo e o seo 
mediador plástico; fazendo d'e8te gigante da aUm- 
pada maravithusa de Aladino o editor responsável 
de tudo que de máo accontecia por este mundo sub- 
lunar. 

Vós, Cincinnaio meo, fostes o Hércules da mytholo- 
gia, que entre os vossos doze trabalhos esmagastes estg 



notável escripto de uma brilhantíssima penna. Esta conai- 
peraçio venceu a primeira, cuja fdrça aliás nío denco- 
alieiemos. 



IXIJ 23 

novo leão da Neméa, nascido aqui n^esta nossa terra, 
onde está ainda tudo, muito por fazer, e onde o mecha- 
nismo d'eâta cousa chamada liberdade, ou como melhor 
nome haja, est& ainda muito por compreender. Ora, 
depois da explanação larga e longa de vossas magni- 
ficas theses de direito constitucional ; depois da argu- 
mentação esplendida e concludente dos embargos com 
. Que viestes áquelle libello do poder pcissoalj era multo 
ae esperar-se a contrariedade cathegórica e na altura 
dos principies tao logicamente postos. Pois, nada 
d'isso aconteceu : acastellaram-se na taciturnidade 
do surdo-mudoy e, como este desherdado da palavra, 
responderam com visagens e tregeitos que os afearam, 
o que lhes deslustrou e anniquilou de uma vez o seo 
malfpdado invento do mediador plástico^ tao mal ca- 
bido em cousas sérias. 

Ora, meo estimável Cincinnato, vós que sois homem 
da roça, como eu, que vivo pelos desertos d'esta 
Thebaida, sabeis que, à falta de convivência, a mór 
parte das vezes, em se acabando o ser&o fica um ho* 
mem sem nada que fazer ; ainda quem tem livros, 
1& vai matando o tempo o melhor que pôde, mas quem 
nfto os tem, como eu, nada faz ; só tenho aqui sobre 
uma tulha o Lundrio perpétuo^ o Fios Sanctorum e uma 
collecçSlo de folhinhas do Laemmertj tudo lido e re- 
lido ; mas tenho cá um vizinho, que faz divisa pelo 
rumo, e»se recebe os jornaes da côrte^ de 5 em 5 dias, 
e emprestá-m'os para que eu depois lhe conte o que 
n'elles vem; com. esta espécie de contracto synalla- 
gm&tico dou-me bem, porque estou i)*essas horas mais 
feliz, que os sonhadores de repúblicas. Leio-os detida e 
pausadamente, como quem tem de repetir a licçao de 
cór, e nas horas de folga ponho-me a scismar em todo 
esse descalabro que vai pelo mundo velho e pelo mundo 
novo e que também se reílecie com um arremedosinho 
n'este nosso torrão, tao feito para a paz e para a vida 
plácida e abastada. 

Dá-me muito que pensar esse vozear descompassado 
que por ahi vai, dos que gritam : liberdade e mais 
uberdade I queremos liberdade ! 1 1 Então, digo entre 
mim: ou nós n&o temos a mesma noção d'este vocábulo, 
ou vós não sabeis o que quereis e o porque gritais. 
Vás dizeis, que viveis tyrannicameute opprimidos: em 
coacção permanente; que se vos tolhem os vossos di- 
reitos; dizeis tudo isto e o mais que vos apraz dizer; eis 



24 XXII 

ahi a prova pleua e ÍQconcusda da illimítada e dema- 
siada liberdade de que gozais. Fazeis comicíos e a'elles 
só aao grita quem nlo tem bofes para tanlo; escreveis 
deãcabelladamente, na explosão do despeito e da cbólera, 
quauto vos dá ua gaaa;expoiideâ tabolelas auuuuciando 
a — república — ; desacatais o elemento r^íligios'», e o 
chefe supremo do Estado; desauctorisais e atFrontais 
com os epilhelos mais deprimentes aos mais nobres ca- _ 
racteres, aos mais conspícuos e prestantes cidadãos do 
vosso paiz; préguis doctriaas altaineiile heterodoxas e 
subversivas; e idea em paz repousar das fadigas e co- 
lher oa louros de vossos tWumphos declamatórios, e no 
dia seguinte ides continuar a vossa ladainha de todos 
os dias. Agora dizei-me francamente, vós, cavalteiros 
andantes d'eata inglória cruzada! pôde haver maior 
somma de liberdade 1 qual é o paiz do mundo em que 
ella é mais ampla, mais largamente concedida, mais 
usada e mais abusada f 

Se no vosso sonhado regimen republicano, alguém 
ousasse levantar o grito — Viva o rei — qual seria a 
sorte d'essemal aventurado? a mesma que tiveram mi- 
lhares de suspeito.-^, apenas, de idéas de ordem, ua re- 
publicaníssima convenção nacional, no México, na 
república <le Prim e de Topete, na república do Para- 
guay, que também era república, nas repúblicas do 
Prata, onde se assassinam os chr-fes dos Estados em 
pleno dia no meio das ruas, e onde se dilaceram os filhos 
da mesma terra com guerras fratricidas que nAo teem 
fim, e em toda parte onde o espírito revolucionário tem 
podido assenhorear -se e derrocar o império da lei, da 
ordem e do bem estar; porque emfim os taes republi- 
canos representam a fábula de Saturno : quaudo u&o 
podem mais nivelar os mais altos, pelo pescoço, come- 
çam a devorar-se uns aos outros, e cauçados il'esta he- 
catombe, desingauados pela improcedência prática de 
suas utopias, intregam-se de braços cruzados ao pri- 
meiro que lhes parece que tem juizo para os governar. 
Se incontram um Carlos II, vai tudo mal, porque nao 
é este o espirito recto, enérgico e forte para tirar da 
voragem, da subversão e dos destroços a ordem, a mo- 
Talidade e o acatamento ás instituições que se fundam 
no bom senso e que asseguram a inviolabilidade dos 
direitos de cada um; se incontram um Napoleão 1, tudo 
ressurge das trevas, tudo se alumia com luz espleo- 
dida; o paiz prostrado, exangue, invilecido e coberto 



XXII 35 

de minas reconquista nome, honra, glória e admira- 
-çao, porque n'eâte ha o génio creador, a elevação do 
espirito ao apogêo das concepções grandiosas; ha em 
summa o homem moldado e destinado por Deus para 
levantar pelos cabellos uma nação a quem a ferocidade 
sanguinária dos utopistas havia precipitado no abysmo 
das abjecções e do aviltamento. 

Paro hoje por aqui, meo bom Cincinnato, nao posso 
ir adeante com o turbilhão de pensamentos que me 
suggere o scismar no descalabro que vai por esse 
mundo, que Deus em sua infinita sabedoria creon com 
tantas leis q^ue o regem e o dirigem, e que os homens 
•em seo desatmo andam a ver se podem fazer voltar 
ao chãos d'onde sairá, pela bondade infinita do Omni- 
potente. 

Até outra vez. 

O vosso ex-corde 

MUCIO ScdVOLA.. 



Deolma sejcta oai^ta 

DO ROCEIRO CINCINNATO AO CIDADÃO FABRÍCIO 

Inappreciavel amigo* 

Ja me tarda que acabes lá esses teos negócios na 
invejosa e monopolisadora Pindamonhangaba ; e até 
se me afl5.gura que se nao voltas breve, abalo por esses 
mares e terras, e dou comigo na supradicta cuja. 

Comptas-me a grande figura que por ahi tens feito, o 
que n&o me admira, pois conheço os teos talentos, e 
por mim scei que quando nós là na roça recebemos um 
figurfto da corte, esmeràmo-nos por agradar-lhe, e 
provar que também somos gente e avaliámos o qne 
^bom. 

Entre as tuas tribulações porém, narras-me a da per- 
seguição dos albumSf e dizes que te anda o bestunto em 
polvorosa, á cata de ideas miríficas e magniloquas, 

Jara dar vasAo a 1798 albums que ahi tens por cima 
as cadeiras e do soalho, denunciantes da curiosidade 
intellectual d'essas damas e cavalheiros, n'uma área de 
14 léguas e meia. Chegou tarde a mania a Pindamo- 
uhang^^aba, mas emfim chegou ; que dó ! 

Pedes-me que te ajude e te diga alguma cousa de 
«unca dicto ou feito em tal matéria : di/fidUm rem 



26 XXII 

Estes inimigos d^alma tem tradição muito antiga e 
aristocrática. 

As auctoridades em Roma empregavam certas pa- 
redes muito alvas^ para n'ellas mandarem gravar, em 
cores vermelhas ou pretas, as suas ordenanças, privi- 
légio entre nós monopolisado pelos agentes do Tónico 
Orientai^ Relojoaria Gôndola e Vigor d' Ayer. 
^ Mais por aqui, mais por alli, havia o álbum dos decu- 
rioes, o do pretor, o dos juizes, o dos senadores, e em 
fim de certas classes altas, o que tudo é muito mais 
velho que o tempo em que se tomou indispensável 
andar de chapeode sol aberto, para evitar que a cabeça 
do cidadão seja permanentemente inundada da chu- 
vinha miúda dos albums universaes. 

N'esse tempo, quem punha a mao para apagar uma 
só leltra d'esses albums era punido de morte; agora sflo 
os próprios albums que nos punem de morte a nós. 

Que cada um tenha, para seo uso, e para a sua prá- 
tica, sós a sós cora a consciência, um livrinho de recor- 
dações, umas ephemérides íntimas, um memorial da 
memória, um álbum da sua própria cabeça e do seo 
próprio coração, comprehende-se : é condensar maté- 
ria prima para o dia dfis rememorações, das reflexões, 
das saudades, das melancholias, das comparações, das 
animações, da justiça ou do arrependimento. Também 
chamam albums a esses confidentes íntimos e perigosos, 
visto que só devem servir para os que os traçam, sob 
pena de tornarem-se muito mentirosos, ou arriscada- 
mente denunciantes. 

Nao é raro ver o viajante, sobretudo Irancez, trazer 
comsigo o seo a/6itm, carteira de lembranças, para 
lançar um esboço de paizagem, cu os aponctamentos,. 
que hao de senrir depois para um volume illustrado, 
com o titulo : Impressões de viagem. Sendo francez, a 
regra é esta : 

Dorme o viajante n'uma estalagem, onde lhe dao 
uma cama, em que ha pulgas. Na descripçSo da res- 
pectiva cidade, lê-se : — « Por contraposâçac, ha n*essa 
terra uma praga inaudita, peor que a dos gafanhotos. 
Todas as casas sao covis de pulgas, ratos, baratas, 
lagartixas, carochas e mais sevandija^s, que pulam, 
saltam, mordem, devoram, palpitam, e atormentam 
principalmente ao estrangeiro recem-chegado ; de modo 
que casa onde n&o haja um maíorcarochas fica inhabi- 
tavel.» — Ao erguer-se, chega á janella, e vendo em. 



XXII 27 

frente um rapazinho a tocar realejo, atira-se logo ao 
álbum, e escreve : — «O grande atrazo d'esta povoa- 

go consiste no emprego que geralmente se d& à in- 
icia e juventude : todas as crianças de 7 a 12 annos 
passam a vida moendo musica. Como é possivel que 
similhante educação não embote todos os sentimentos 
nobres na quadra em que o coração dilatando-se e o 
espirito assanhando-se, tendem a... etc, etc. « 

Mas a raça peor dos albums,a mais damninha, ainda 
não é essa. E' a que reveste a forma de um livro parai- 
lelogrammatico, capa de couro da Rússia, rebordos 
dourados, papel apergaminhado e fechos de ouro, tudo 
a dizer : Comei-me, comei-me I Mão mais ou menos 
mimosa te ofFerece as alvas páginas d'este álbum, para 
que tu lances n^uma d'ellasum pensamento (â moda de 
iim senhor, que todos nós conhecemos). 

E' caso de embatucar. Se alguém dicesse a Triboulet 
ou Bertholdo : Diga Id uma graça^ bastava isso para 
instantaneamente o des-salgar, ou para heraclitar um 
Demócrito. 

Celebro portanto e communico-te uma noticia que 
leio n'uma carta de Lisboa, e que pelo menos torna de 
ora avante toleráveis e não inúteis os albums, facili- 
tando nliás o trabalho dos míseros contribuintes para 
o pagamento d'éste inexorável foro. 

Uma dama, distincta por talento, graça e formo- 
sura, tem jà no seo a/òtk^ uma coUecçíio muito in- 
teressante de autógraphos das mais illustres pennas, 
usando de um processo singelíssimo. 

No recto de cada folha mandou imprimir, do lado 
da extrema esquerda, 24 perguntas. O escriptor não 
tem mais que lançar em frente d'ellas, em prosa ou 
verso, mas em phrases curtas, a resposta que lhe 
apraz. No exemplar que eu vi, as perguntas era \ em 
francez, e consistiam no seguinte : 

1 Votre vertu favorite ? 

2 Vos qualités favorites chez Thomme? 

3 Vos qualités favorites cliez la femn^o? 

4 Votre occupation favorite? 

5 Le trait principal de votre carr ;tère? 

6 Votre idée du bonheur? 

7 Votre idée du malheur? 

8 Votre couleur et votre fle ir favorites ? 

9 Si voiis n'étiez pa3 vous, qui voudriez-vous être ? 
10 Oú préféreriez vous vi\re ? 



28 XXII 

11 Vos auteurs favorisen prose? 

12 Vos poetes favoris? 

13 Vos peíntres et compositeurs favoris? 

14 Vos héros favoris dans la vie réelle (rHistoire)t 

15 Vos héroines favorites dans la vie réelle ( THis- 
toire)? 

16 Vos héros favoris dans les romansou lafable ? 

17 Vos héroines favorites dans les romans ou la fable? 

18 Votre nourriture et votre boisson favorites ? 

19 Vos noms favoris? 

20 L'objet de votre plus grande aversion? 

21 Qiiels caracteres détestez vous le plus dans 
rhistoire ? 

22 Quel est votre situation d'esprit actuelle ? 

23 Pour quelle faute avez vous le plus d*indul- 
gence ? 

24 Quelle est votre devise favorito? 

Vi diversas respostas, mas bastando-te receberes 
simples amostra, para fazeres idéa do dicto systema, 
eis-aqui o que uma das mais brilhantes pennas por- 
tugue^^as redarguiu a cada item do inquérito : 

l^ La compassion — 2'. La loyauté — 3**. La patience 
— 4**. La rêverie— 5*. L'ántipathie contre tout ce qui 
est faux — 6'. La vie sans remords, quelle qu'elle soit 
du reste — 7*. Lemalheur suprême est, selonmoi, celui 
de ceux qu'on aime — 8*. Le pourpre: la rose — 9*. 
Pierre 11, du Brésil — 10*. A' la campagne, prés de la 
ville, dans une patite maiso^nette, bàtie par moi — 11*. 
Alexandre Dumas, parmi les modernes; parmi les 
anciens, Pline le Jeune — 12°. Virgile; parmi les mo- 
dernes, Victor Hugo, d'autrefois— 13*. Peintre,.. 
toujours Virgile ; compositeur, Bellini — 14". Scipion 
15®. Ste. Elisabeth, de Portugal — 16". Dans les ro- 
mans, d'Artagnan,* le mousquetaire; dans la fable, 
Orphée — 17*. Dans le roman, Clarisse Harlowe; dans 
la fable, Andromaque— 18*. Les végétaux et Teau 
19°. Nom d'homme, aucun: nom de femme, Marie— - 
20*. Le serpent, ou bien le calomniateur — 21*. Hudson 
Lowe — 22". Apathie et raécontentement — ^ií3". Pour 
celles qui tiennent à la faiblesse du coeur — ^24*. Rien 
n'est beau que le vrai. 

Nao achas ser este um brinquedo útil, e um grande 
melhoramento na indemonhinhada lida dos albums ? 
Tenho sobre a mesa muitas outras respostas ; mas um 
exemplo basta; agora é de Pindamouhangaba que ea 



XXII 29 

espero mais. Âffigura-se-me que assim se toma um 
albuai, depositário de thesouros de erudiçfto, gabinete 
anatómico para dissecção de corações humanos, espe- 
lho que retrate o pensamento intimo, theatro em que 
façam todos os actores, com a mesma matéria, dilfe- 
rente papel. 
Adeus, amorinhos. 

Teo capellao obrigado 

ClNCINNATO. 



Suppx^essSo da esex^avldSo xio Bi^azll 

À philosophia, o christianismo e a liberdade trajenr 
de gala, corõem-se de louros em toda a superfície da 
terra ! O juTcnil império brasileiro acaba de dar ao 
mundo um dos mais sublimes espectáculos, um dos 
mais sublimes exemplos de verdadeira civilisaçfto. 
Cerrando heroicamente ouvidos aos clamores de secu- 
lares preocupações, atirou com um sopro para o abys- 
mo do passado, n'uma hora bemdicta, como aqueila 
em que Deus proferiu — façase a luz — os grilhões com 

Íue mais de um milhão de filhos da raça africana de- 
nhavam, sobre uma terra amora vel que dá tudo, e 
sob um cèo que ri sempre, condemnados, elles só, 
entre um povo bondoso e livre, a peor inferno que suar 
e padecer de contínuo ; ao tormento de se nao repro- 
duzir, senão para testar pelos séculos fora miséna e 
escravidão aos filhos precitos dos seos amores. 

A magnânima proposta do governo do Brazil está 
emfim sanccionnda por todo o corpo legislativo, victo- 
riada por toda a immensa maioria pensante da nação, 
e saudada com alvoroço pelo mundo inteiro. 

Os anniquiladores da tyrânnica omnipotência de 
Lopez completaram hoje a mais 4pur^<l^ página dos 
seos fastos nacionaes. 

A nós, irmãos do heróico povo brasileiro, anos, 
que de herança tantas e tão bel las qualidades temos 
em commum com essa juvenil gente, do nosso sangue 
e dos nossos appellidos ; a nós, um quinhão legítimo 
na ufania com que elles devem estar celebrando o seo 
triumpho, triumpho incruento, triumpho auspiciosís- 
simo, triumpho em que só a alegria verte lágrymas. 

Está emfim iugastado na coroa de D. Pedro II o ver- 
dadeiro diamante Montanha de Ltiz^ que ha de as- 
sombrar com o seo brilho a posteridade. 

Do Brazil^ jornal de Lisboa 



30 XXIÍ 

OolonisacSo do Br*azll 

Discute se ha largos annos na imprensa port:igueza 
a questão da colonisaçao do Brazil ; (]^uantos epithetos 
desagradáveis tem a língua se applicam ao que cha- 
mam vulgarmente escravalara branca, e, queixando- 
se uns de que os colonos s&o tractados como escravos ; 
outros de que se illudem pobres diabos que além v&o 
morrer a braços com a miséria; outros de que Portugal 
é gravemente prejudicado com esta emigração, s&o 
todos accordes em pedir ao governo que de uma vez 
para sempre cohiba este nefa/iido tráfico. 

Esta quasi unanimidade na accusaç&o faz crer boa 
intenção, grave o assumpto e sérias ás consequências ; 
parece que de facto se substituiram as negociações em 
Africa, pelas negociações em Portugal ; que, severa- 
mente vigiada a costa occidental d' Africa, convergiu 
a negociação illídta para o archipélago dos Açores 
especialmente, e para as províncias do Minho, Traz-os* 
Montes, Beira alta etc. 

Vejamos se assim é ; examinemos se tem razão de 
ser esta accusação, corroborada por muitas pennas 
illustres, fortalecida por muitos espíritos esclarecidos. 
Como se tracta apenas da emigração para o Brazil, 
virão factos e opiniões auctorisadas em auxílio da 
nossa argumentação : concentraremos as nossas vistas 
no império, que de certo nos ha de fornecer dados para 
a sua defeza. 

Dividiremos portanto este trabalho em quatro partes : 
— Insalubridade do clima — Falsidade nos contractos — 
Melo tractamento aos colonos — Miséria e abando^no, 

I 

INSALUBRIDADE DO CLIMA 

Houve épocha,'e não vai longe, em que por todo Por- 
tugal se apregoava a facilidade de adquirir cabedais 
no Brazil, e volver rico á pátria e de alli se assegurar 
uma velhice socegada e feliz. Como é natural, isto de- 
safiava a cubica de muitos, senão de todos, e o ardente 
desejo de sacrificar alguns annos de vida, amargurados 
pelas saudades do torrão natal e pela ausência da fa- 
milia estremecida, à certeza de um futuro próspero e 
risonho. 

Mas, como tudo no mundo, tinha reverso esta meda- 
lha ; dizia-se que a felicidade de um representava a 
vida de centenares de compatriotas, de amigos qu® 



XXII 31 

alli tiaham morrido, dizimados pelad terríveis e cons- 
tantes moléstias dos Brazis. Isto esfriava os desejos de 
ínriquecer; e poucos eram os que chegavam a ir, com- 
parativamente com os que haviam chegado a fazer 
castellos no ar, calculando o resultado provável, ou 
certo, da sua ida á América. 

N'es3e tempo eram as viagens longas : navio que 
aportava &s terras de Santa Cruz com menos de 40 
dias de derrota era comptado nos jornaes das duas capi- 
tães. Os homens laboriosos e decididos que haviam 
Jogado a vida pelo futuro dos seos, internavam-se pelas 
províncias, e muitos não sabiam escrever ; deixavam 
portanto de dar noticias aos entes que lhes eram caros, 
os quaes, amaldiçoando a ídéa e a hora da partida, 
prancteavam como morto o parente que se aventurara 
a ir a longes terras^ cego pela ambição. 

Com o correr dos annos, foram-se multiplicando as 
viagens, estabelecendo carreiras quinzenaes de pa- 
quetes com marcha accelerada : após estas vieram as 
carreiras semanaes, e as cartas, recebidas mais amiuda- 
das vezcs e de mais moderna data, iam affastando a 
lúgubre idéa de morte. A par com esses progressos, 
começava a conhecer-se mais aquelle paiz, a falar-se e 
a ouvir-se falar mais do seo clima e modo de viver: 
vinham as estatísticas, e tudo comprovava que a idéa 
de horror ligada á insalubridade do clima era mais 

Shantasia creada pelo affecto que deixara na pátria o 
lho ausonte, do que realidade. Vinham carias das 
provincias do sul, das colónias de Theresó[)')lis e de 
Petrópolis, de toda a província de Minas Ger>i;^s, de 
Vassouras, de Valença, de Iguassú, de NovaFribargo, 
finalmente da maior parle dus ponctos por ou Je a colo- 
nisaçao se tem desinvolvido em escala superior, a uro- 
varem a amenidade do clima n'aqueue3 poacios, dado 
o desconto à differença da temperatura , que é í empre 
mais ou menos .sensível aos homens que, aascidòs na 
Europa, passam, na edade viril, a viver na Am^^rica 
do sul. 

Isto quanto às informações particulares. Os dados 
oflBciaes, quer com relação á colónia portug"iesa, quer 
com relação á colónia allema, provam exh^ror.rítnte- 
mente que a mortalidade nao attinge cifra qu*) aucto- 
rise a considerar insalubre o clima do Brasil, n^m 
mesmo na épí)cha em que a febre amarella tem feito 
mais víctimas, por isso que as províncias toem sido 



32 XXII 

sempre poupadas, grassando apenas as epidemias hr- 
zenao estragos no litoral. 

Escusado é portanto discutir mais este poncto. Ou 
as estatísticas talam verdade ou nflo- se falam,destroem 
a accusaç&o : se n&o falam nao se pôde fazer obra por 
uma ou outra fazenda, onde se n&o respeita tanto a 
h jgiene, ou que de si própria é menos saudável. Por- 
tugal tem o exemplo frisante em uma das suas coló- 
nias. Em S. Thomé, ao passo que ha roçds mortíferas 
pela proximidade de pântanos, e essas s&o geralmente- 
as que circulam a cidade, tem outras tSLo saudáveis, e 
em que a temperatura differe tanto, que os liberto» 
africanos e os europêos sao fortes, robustos, e até, caso 
raro, grandemente dispostos ao trabalho. ( Continua ] 

Idem, 



RazSo pouoo llsoiiselr*a. 

No baile, minha Senhora, 
n&o se despresa a etiqueta, 
nem cortezias penhora 
lapúz de grossa jaqueta. 
Vai perguntar joven linda"" 
a Diogo Madureira 
se Sua Excellencia ainda 
nao tem par para a primeira. 

O homem stava disponível, 

acceita o honroso convite ; 

do favor nSLo é possível 

considerar-se elle quite. 
Convidar tem sido dado, 
n'este caso, ao cavalheiro; 

Sela dama convidado 
>iogo foi o primeiro. 

No íntervallo da quadrilha 
è de assucar a palavra, 
e, vencendo a prata, brilha 
qual ouro da melhor lavra. 
« — Discreta joven, consinta 
que minha ousadia inquira 
porque o costume desminta 
quem para a dansa me tiraf 

« — Motivo assaz cautelloso 
deveis ínchergar n'aquilloI 
Meo marido é mui zeloso, 
e assim fícar& tranquíllo. 



QUESTÕES DO DIA 



IST. 23 



RIO DE JANEIRO, 1 DE DEZEMBRO DE lOTl. 



9ende-se em rasa dos Srs. E. & H. Laemmert. — Agostinho de Freitas Gui' 
maràes 6l Comp., 26, rua do General Gamara. — Livraria Académica» 
Rua de S. José n. 119— Largo do Paço n. C.— Preço 200 reis. 



A Republica c os Estudantes 

II 

Para levar à evidencia a asserção de que os org&os 
da imprensa brasileira, a que nos referimos no anterior 
artigo, sHo instrumentos de ruína social, basta attentar 
na direcção que a República deu á questão dos exa- 
mes dos estudantes. 

Felizmente hoje a imprensa justa e imparcial p6z 
em reiêvo todas as principaes faces d'esse negócio, 
convertido pelos obreiros da destruição em catapulta 
contra o ministério. A razão pública, prudente e 
convenientemente e.^clarecida por Themístocles, foi 
reconduzida ao terreno da justiça, d'onde, mais por 
imá fé do que por ignorância, tentaram arredal-a aquel- 
les que, até das immundicies da calúmnia invejosa 
fazem arma oflFensiva contra o poder, que sôffregos 
ambicionam empolgar. Desfez-so o nevueiro de 
sophismas e prejuzos que adrede fora estendido ante 
a luz da verdade, e acalmada a paixão de momento, 
reduzido a suas verdadeiras proporções o principio 
de falso pondonor, resta somente o pejo dos próprios 
excessos e o arrependimento de se haver seguido 
errado caminho. 

A terrivel catapulta, a destruidora 'arma de guerra 
com que imaginaram derrocar depois de dous ou 
três bombardeios o bastião governamental, quebrou-se 
nas msos dos esforçados guerreiros, como essas 
espingardas e lanças de frágil madeira cora que 
brincam as creanças. Nem a mais leve brecha apparece 
na praça que atacaram , a fortaleza nem se apercebeu 
de qu»? lhe atiravam projectís : pareceu-lhe que um 



34 XXIII 

vento desolador levantando do chão folhas sêccas e 
fazendo remoinhar o pó das ruina'?, lhe arrojava de 
incontro às muralhas alguns grãs de areia, com cujo 
attrito conseguia apenas polir-lhe as pedras esver- 
deadas pelo limo que os séculos n'ellas haviam 
depositado, pondo assim a descoberto a solidez e a 
perfeição de sua constructura. 

Falhou mais esta condemnavel tentativa da anar- 
chia contra a ordem; mais uma vez o principio da auc- 
toridade, legitimamente constituída e exercendo-se 
dentro da esphera leg'al, poude fazer triumphar as suas 
justas e jurídicas prescripções. Mais uma vez os apre- 
goadores da insubordinação, os fautores da desordem 
se viram forçados a recuar e a cantar a palinódia, ater- 
rados aute os eflFeitos de sua subversiva propaganda. 

Nao ! Este povo, protegido pela sombra damonarchia 
constitucional, educado nas máximas da religião do 
Crucificado, que pregou obediência ao poder, acceitando 
resignado o suppiicio,mandando que se desse a César o 
que é de César, e ordenando a Pedro que não ferisse a 
Malcho, porque só ao juiz competia punil-o ; este povo 
que floresce e prospera rapidamente e sem abalos, ao 
influxo de benéficas instituições, tem em si tanto bom 
senso que inxerga á primeira vista nos pose nas drogas 
dos Dulcamaras políticos o fermento do tóxico traiço- 
eiro, com que lhe querem illudir o paíadir, insinuando- 
Ihe que o pretendem curar de males imaginários. 

E que outra cousa que nao mortal peçonha tentou a 
República introduzir nas veias da mocidade brasileira, 
prégando-lhe as doctrinas que se lêm em seos us. 183 
e 184 na parte editorial sob a rubrica — Questão Acadé- 
mica'^ — Com suprema habilidade tentaram os distinctos 
redactores d'aquella folha invenenar a arvore fron- 
dosa do futuro nos seos esperançosos rebentos. E' nos 
pimpolhos que desabrocham esplendidos de viço e seiva, 
ao sol da liberdade e da religião, que aquelles cul- 
tores do espírito público, falseando a sagrada missão 
da imprensa, inoculam o virus corrosivo das más ide- 
as e implantam os germes corruptores, que hao de 
trazer o corroimento do cerne e o esphacelamento do 
tronco. 

E' na geração que puUula agora cheia de vida e 
actividade febril que reside a esperança do Brazil. 
Tanto a geração que está no pleno vigor da edade como 
a que vai concluindo a sua peregrinação na terra e 



XXIII 35 

camiahaudo par^ o sepulchro devem uni r-se para, de 
commum acordo, aponctar-lhe os bons exemplos, insi- 
nar-lhe os verdadeiros princípios de disciplina, e edu- 
cal-a em todas as grandes verdades do evangelho 
social. 

A*quelles, que receberam em partilha o talento, das 
mãos munificentes da Divindade, áquelles, que assu- 
miram o brilhante e nobre papel de intérpretes e direc- 
tores da opinião pública, incumbe o rigoroso dever de 
formar o coração e a intelligencia da mocidade, e de 
traçar-lhe a renda por onde deve caminhar para con- 
seguir augmentar a grandeza e a glória da pátria. 

Quaudo porem, esses espíritos privilegiados apagam 
o archote, com que devem illuminar os olhos das gera- 
ções contemporâneas, e, em vez da luz directora, lhes 
dao o negro penacho de fumo e as sombras da morte, 
quando trocam o seo mandato de apóstolos da verdade 
pelo de pseudo-prophetas — commettem um attentado de 
lesa-humanida(le,.digno do castigo de Deus e da mais 
severa reprovação da sociedade. 

Vejamos como a República comprehendeu e desempe- 
nhou o seo mandato. 

No dia 14 de Novembro dizia ella : 

« O nosso jornal e um homem de bem\ não se presta 
a nenhum papel menos digno. 

Estas expressões serviram de epigraphe para justi- 
ficar a seguinte proposição : 

« O decreto, na opinião da maioria da imprensa^ na 
opinião das congregações das faculdades de medicina e de 
direito^ na opinião dos estudantes de 5. Paulo e doesta 
capital^ foi reputado inopportuno, iníquo^ viole)do e aU*' 
illegal.n 

Em seguida narra aquella folha os actos praticados 
pelos estudantes de medicina da corte e a deliberação/ 
por elles assentada, de fazerem parede^ isto é, de 
nenhum se inscrever para exame. 

Accrescenta que no campo dos que tomaram este 
alvitre levanta a honra o seo estandarte, e que no con- 
trário « levanta seos arraiaes esse exército aaónymo^ mas 
que sempre acha recrutas no seio de uma sociedade cor- 
rompida pelas tradições peculiares ao seo regimen poli- 
ticOn o regimen dos genuflexões... a A's queixas da moci- 
dade^ offendida nos seos brios e nos seos direitos, respon- 
demos (conclue) com a sympathia do nosso apoio.» 



:J6 XXIÍl 

No dia seguinte a República incita os estudantes á 
resistência pacifica ; instiga-os fazendo apêllo ao senti- 
mento do pondonor^ a que não rompam a parede para 
nao merecerem o stignia inftimante, que a maioria dos 
estudantes de S. Paulo lançou sobre os díscolos e sobre 
os medrosos. « Ser-nos hia doloroso j-^exclama) ter de 
registrar um acto de subserviência por parte de mancc' 
bos, que vêem offendida nas suas pessoas a dupla dignir 
dade de estudantes e de cidadãos. Ao que nos consta^ a 
mocidade não está disposta a receber dos velhos a licção 
da prudência^ que se traduz em servilismo.., » 

Os tópicos transcriptos suscitam um mundo de 
reflexões, a que se nuo prestam as dimensões, que 
talhámos a esta perfunctória anályse. Assignalaremos 
apenas de leve os coroUários, que d'elles se inferem. 
Nao nos faremos carg-o de demonstrar a justiça, 
legalidade e exequibilidade do decreto de 22 de oc- 
tubro, — nova boceta de Pandora, a que os pessimistas 
do dia attribuem o inxamede males, que phantasiaram 
choverem d'elle sobre a classe académica e sobre a 
instrucçao pública ; a brilhante penna de Themisto- 
cies já levou essa these à luz da evidencia; até a pró- 
pria Republica par?ce que seguiu a torrente da geral 
opinião e se deu por nobremente convencida, a jul* 
gar-se pelo silencio que tem guardado. Ainda bem 
que não morre impenitente e reconhece a sabedoria do 
brocardo : sapientis est mutare consilium. 

Dado, porém, mas não concedido que o decreto 
contivess:í os erros e dislates, que lhe emprestaram de 
má fé ; * dado que fosse iniquo e inexequível, podia o 
direito de resistência pacífica, aconselhado pela Repú- 
blica, tomar as formas de manifestação e a direcção 
que se lhe deu,e que ella tanto applaudiu e a princípio 
tão calorosamente animou em seos artigos editoriaes? 

Seria legítima e digna de louvor e acoroçoamento a at- 
titude,que tomaram os estudantes da^s faculdades de di- 
reito de S. Paulo e de medicina da Corte, aos quaes nSo 
compete, por não serem sui-juris, o direito de petição. 

O direito de petição (dir-se-ha) é permittido pela 
constituição a todos que habitam este paiz libérrimo 
(que ellcs no emtanto proclamam regido pelo despo- 
tismo do baixo império) ! 

Em virtude d'essa grande garantia, os e^^ítudantes 
podiam pedir ao governo o que intendessem a bem do 
seo direito. 



XXIII 37 

Não negamos nem podemos contestar o direito de 
petição ; mas o que nos parece fora de questão é que 
os indivíduos que nao attingiram o período da maiori- 
dade legal, e que nao sao, por conseguinte, capazes de 
direitos, possam exercer aquelle ! 

Dêmos ainda de barato que os estudantes, em quanto 
na condição de menores, possam requerer outra cousa 
fora do círculo de acçSo e do elencho das matérias que 
lhes é permittido pela lei e pelos estatutos das facul- 
dades e dos estabelecimentos de instruccão. 

Perguntamos agora : Limitaram-í^e os estudantes de 
S. Paulo a requerer o que lhes era a bem do direito ? 
Representaram sequer contra o decreto de 22 de oc- 
tubro em termos convenientes e respeitosos ? 

Ba^ta ler o inqualificável protesto académico de 28 
de octubro último, assignado por cerca de 170 estu- 
dantes para adquirir a convicção de que aquelles estu- 
dantes insultaram e desrespeitaram os seos lentes, ar- 
vorando-se em juizes e censores d'aquelles que, coUo- 
cados para cora elles na razão de pães, tinham a seo 
favor, quando não a prova, ao menos a presumpção 
de experiência, sabedoria e dignidade. 

AqueUes jovens, transviados talvez pela opinião 
de algum de seos mestres, que intendesse dever-s9 
negar execução ao decreto de 22 de octubro, qualifi- 
caram de subservientes e ignorantes os que, formando 
a maioria da respectiva congregação, votaram para 
que se fizesse effectivo desde logo o systema de exames 
que o mesmo decreto estabelecia. 

Tal não devia ser por certo o procedimento d'aquelles 
estudantes. A injúria é arma dos que não têm razão, 
e, irrogada, como foi, a seos superiores, toma cha- 
racter de gravidade, que se torna credor de geral 
reprovaçrio e severa punição. 

Os que assim se portaram, deram triste idea de sua 
educação, do seo espírito de disciplina e subordinação. 

Que pode esperar a pátria d'aquelles que, preparando- 
.se para auctoridades, juízes e funccionàrios da alta 
administração, assim faltam á deferência, á submissão 
e .MO rtíspeito que devem aos que estão pela edade e 
pela lei coUocados em posição de credores do seo 
preito de menagem ? 

Qu.* modelos de bons cidadãos , que promessas 
brilhantes de excellentes servidores do Estado nao 
se «iifixam entrever em tao denodados campeões do 



38 XXIII 

doesto e do insulto! Que direito terá para exigir dos seos 
subordinados obediência e respeito, quem por forma 
tão descommunal inxovalhaas cans da experiência e do 
saber, e, afrouxando todos os vínculos da disciplina, 
recorre ao tumulto e á amiaça para fazer triumphar 
as ideas da Interjiacional e oppôr condemnavel resis- 
tência a ordens legaes ? ! 

Isto, senhores da imprensa republicana, nâo é nem 
pode ser (salvo por irrisão) qualificado direito de pe- 
tição ou de representação. 

E o que é a parede ? E' a conclusão lógica, o des- 
fecho necessário d'aquelle 1° acto de desobediência 
e opposiçao à ordem do governo. 

E' a resistência da inércia, a desobediência passiva, 
mas nem por isso menos criminosa, às prescripções do 
poder competente. 

E podia o corpo académico tomar tão extranlm e ex- 
traordinária resolução i Nao lhe aconselhava o dever 
que se subjeitasse ás provas exigidas pelo decreto e que 
foram promulgadas depois de ouvido o parecer das con- 
gregações e de muitas pessoas habilitadas na matéria ? 
Não constituo esse alvitre um desafio acintoso ao 
ministério? Não é um acto de tácita insubordinação 
contra seos pães, que correm perigo de vel-os perder o 
anno, com o respectivo cortejo de prejuízos e despezas, 
que a esse facto se ligam essencialmente ? Nilo é uma 
confissão implícita do não cumprimento dos deveres 
escholásticos no anno lectivo, revelada pelo receio de 
se subjeitarem ao exame ? 

Responda a consciência dos próprios estudantes, que, 
arrependidos de seo errado proceder, se lesulveram 
finalmente a comparecer, com raras excepções, aos actos 
académicos. 

E todas estas tresloucadas deliberações, fnictos mais 
do verdor dos annos, da inexperiência, e de incitações 
imprudentes, foram acoroçoadas pela imprensa repu- 
blicana ! 

Appelou-se para os falsos brios da mocidade: pintou- 
se-lhe como heróico e louvável o acto de resistir pas- 
sivamente ao decreto, e até se lhe pregou a dortrina 
de que incorreria no labéo de infame o que rompesse a 
parede. 

Isto o dice a República ! ! . . 

Felizmente a propaganda perigosa, partida das co- 
lumnas d'aquelle orgam da imprensa brazileira, nao 



XXIII 39 

incontrou terreno favorável para fazer fructificar a sua 
semente de morte. O bom senso do paiz reagiu contra 
tao louca tentativa; e a louvável energia e a poderosa 
força de vontade do digno e ill listrado Ministro do Im- 
pério oppôz insuperável barreira à invasão da onda 
sediciosH,e fez abortar no nascedouro os planos condem- 
nados dos fautores de desordens, que ficaram bem co- 
nhecidos á face do paiz. 

Pompêo. 

Qixinta cax*ta. 

DECINCINNATO A SEMPRONIO 

Rio, 24 Novembro 1871. 

Illustrado amigo. 

Recebo a tua preciosa carta, de 10 do corrente, na 
qual me dizes que talvez te divinas com o testa de 
ferro de Senio, parecendo-te porem mais methódico 
esperar qae elle despeje o seo vasto arsenal de co- 
nhecimentos, expressos em linguagem appropriada. 
Accrescentas : •> Far-se-ha então uma appreciaçfio syn- 
thética, e pôr-se-ha a nú a intelligencia do critico. 
Crê tu que o Gaúcho me otferece matéria para outra 
longa série de cartas, e não estou longe de escre- 
vêl-a. Entretanto, para mudar de assumpto por agora, 
vou entreter-me com a Iracema. » 

Escuta cá, meo amigo. O anónymo V. das Palestras 
declarou depois que depunha a máscara, e que era 
Vasconceilos, com o que ficou mais anónymo que 
d'antes! A casa de Castello-melhor vai querellarda 
injúria, pois desde o tempo do ií em Rodrigues se diz 
de VasconcelloSy nunca em tao cerúleo sangue houve 
heroe d'esta casta. Consta porem que o individuo Vas- 
concellado se defende, declarando que aquillo nao é 
appellido, mas alpunha, que elle a si mesmo poz, 
com summa propriedade; que o seo intuito tra reco- 
nhecer que fala lingua vasc«jnça, que sempre era 
um tal sarapatel que no tempo dos romanos se nao 
atreveu PomponioMela a reduzir a escrip:ura os nomes 
í^e seos povos. Ora, bem se pode alcunhar Vascon- 
ceilos quem tao vascoso torna o leitor, e quem tanto 
lhe vasconceia.. delicadezas. 

Já esmerilhei as criticas do pimpão. Prometteu es- 
magar-te a ti, e a mim ; mas depois subverteu-se 



r ■ m - ■n-mi^ i r m aw aia#u»wp * * í i H 



40 XXIII 

pelo chão abaixo, dizendo apenas que ia fazer uma 
viagem,e ha pouco accrescentou que estava já de volta, 
e aparelhado para amarrotar-nos.. Ficámos com o juízo 
suspenso, o que é muito incómmodo, visto que um 
juizo, pendurado tanto tempo, acaba por cauçar. Roeu 
a chorda ; remetteu-se ao silencio, segundo a doctrina 
da eschola Senial. Promeítre et lenir ^ sont denx. Tam- 
bém nao vai longe o dia em que o Sr. José de Alencar 
amiaçou com a horripilante publicação de um livro 
do futuro, que ficou para as kaleadas greyas, como 
as criticas do Sr. Vasconcellos, o anónymo. 

Visto, porem, que o senhor quem quer que seja se 
esbofa por convencer-nos de que as suas estupendas 
lucubracOes sao realmente suas, e nenhuma neces- 
sidade vejo de o desmentir, acho mais curial que 
de ora avante o deixemos, tu e eu, em sancta paz. 
Já demonstrou o que sabe e o que vale aquelle senhor 
homem. Se o senhor homem imagina que, por si^ 
tem direito de ser por nós contrariado, engana-se 
de meio a meio. Se elle é eile, parce sepullis. Nâo 
contribuiremos para as suas glórias, nem mesmo Eros- 
trdticas. Fica-lhe campo livre para repetir, sem receio 
de mais resposta, as suas brilhaturas. 

Quem está na berlinda não é nem poderá nunca 
ser nenhum phantástico Sr. Vascoucellos. Poderia to- 
lerar-se o officio de caça-tigres^ mas nunca o de inata- 
carochas. Sempre suppuz que alguém assignava de cruz 
o que o Espirito Sancto lhe dictava, ou que pelo 
menos esse alj^uem tocava as .suas variações sobre o 
thema do mestre, de cuja alta intelligencia julga- 
vam todos dimanarem aquelPoutras preciosidades. 
Teima-se em que estas nao sao auihenticamente do 
inspirado ; n'esse caso, faço meia volta, e passe por 
lá muito bem o delicado Palestreiro. Algumas outras 
decididamente auíhenticas hei de achar. O Imperador 
Justiniano deixou-ços nas suas Constituições as Au- 
thenticas ; por fortuna da humanidade também nós 
temos as nossas Autheíiticce seu Novella*. Constitutiones do- 
mini nostri Alencaris^ inaximi magisíri atque sacratis- 
simi principis. Parabéns á pátria: estas Autkenticas 
Constituições ( visto que o oes tem um til ) chamam-se 

o TIL- 

Tu, que estás longe, talvez queiras andar em dia 
com a monumental história d'este monumento ; eu le 
compto o que scei. 



XXII I 41 

Já leste o vaudevUle de Scribe, intitulado A gala 
transformada em mulher, de que ultiraameute Offen- 
bach fez uma opereta ? é uma das ma:s ingraçadas e 
orig^inaes producçOes do inexhaurivel dramaiurgo. 
Um allemaosito exaltado inlouqueceu com a leitura do 
Fausto; accredita na metempsycose, enamora-se da sua 
gata. Uma prima ricaça quer cural-o da ridícula paixão, 
tiral-o da miséria casando com elle, e arvora-se em 
rival da bichanica gata. Conluia-se com um falso ni- 
gromante índio, que vai predispondo o novo Werther 
para a metamorphose do animal felino em mulher. 
Lá chega o preparado momento. ELs-alli a bichana 
dormindo n'uma alcova, emcima de um canapé ; profe- 
?idas as palavras mágicas, corre-se o panno... a E' 
uma mulher ? » « E* uma gata ? » Tem-se visto gato 
pjr lebre, mas mulher por gata... O certo é que é uma 
e outra, na forma de uma linda menina, que, em vez 
de miar, papeia e garganteia ; mas a alvura do vestido 
e « arminho que o borda lembram perfeitamente a 
ga\a ; o impagável porem é a imitação dos modos, 
gesros, andar, alegria, gentileza e vivacidade. A bi- 
cha lica nao era mais ágil, mais galante, mais volup- 
tuosa ; nao gostava mais das snas commodidades, nem 
.se espreguiçava com mais delícia sobre o veludo das 
cadeiras ; sao tal e qual as manhas d^ella, os seos mo- 
vimentos leve-í, as suhs marradinhas graciosas o soo 
brincar com as patinlias rosadas. Ficou-lheegualmente 
o !i:wi:ral, como as maneiras do quadrúpede : ágata 
feita mulher conserva oeíroísmo, a inclinação maléfica, 
a asUicia, o gosto de furtar. Para surrupiar um pud- 
din^r. para embaraçar as linhas de um novêllo, para 
atirar uma unhada, nem a verdadeira bichanica era 
mais hábil. Emfim é a gata sem tirar nem pôr, só com 
fóvij^i diversa: e o allemão. felicíssimo, soUicita e al- 
cança a pala da bichana. 

Hn um mundo de doctrina dentro d'este quadro curto. 
E' o tliassez le naturel, i! rerient au (jalop, posto era 
acção Quando vires um republicano, por índole e edu- 
cação, dizer ao rei — que a naçílo o provoca a assumir 
o governo pleno do Estado — que a sua missúo é a do 
soí— qii* basta a sua vo'itade, enunciada de um modo 
positivo e solemne para se tornar logo, de sua própria 
virtude ^ essência, facto consummado — que para ella 
se nao concebe resistência, no domínio da lei — que elle 
tem ante a nacao e ante Deus obrigação indeclinável 



42 XXIII 

« 

de resistir á opinião pública em nome da lei e da mo- 
ral — e outras cousas assim, é gaia transformada em 
mulher. Como então o escriptor está fora da sua nat\i- 
reza, aquellas demasias nao têm imputação. Cuida elle 
que similhantes bajulações e baixezas constituem um 
credo conservador, quando só constituem linguagem 
de que o mais exaggerado àulico se invergonharia ; 
os extremos tocam-se ; gente assim halouça-se sempre 
entre o César e o João Fernandes. Faze bem á gata, 
saltar-te-ha na cara. 

Matriculada a gata como conservadora, e depois de 
se lhe recusar o senatorial pudding, volve á sua natu- 
reza : mia, arranha e apanha rates. Miau ! poder pes- 
soal ! Miau ! absolutismo ! Miau ! golpes de Estado ! 
Miau ! bayonetas, fuzil, sabre e canhílo ( que sao 4 syl- 
labas) ! Miau ! ab alto e in excelsisl E todos quantos 
outros miaus constituem os items do credo republicano, 
e fazem do género humano gato-sapato. 

Tornando-se desnecessária a máscara, cada um volta 
para os seos arraiaes, e assim é melhor. Porque um ho- 
mem a si mesmo se chama conservador, nao se s^ue 
que o seja ; pode isso até ser uma antíphrase, um sim- 
ples Cabo da Boa Esperança. A's vezes sao illusões óp- 
ticas da retina physica ou intellectual. Quando eu, de 
bordo de um navio, vejo as casas e a praia a correr ; 
quando se me torna angular o pào que na agua netti 
direito; quando observo no horizonte a pôr-se o sol, que 
já está para baixo d'elle, ou o vejo apparecer, quando 
ainda não é nado ; quando os olhos me affirmam ser 
redonda uma torre quadrada ; quando vejo a ninha 
cara feia atraz de um espelho, nao estando ella atraz 
nem adeante ; quando um vidro me patenteia caterva 
de animálculos onde eu só julgava estar uma gôtta de 
água puríssima, e bem assim valles e montanhat na 
face mimosa de uma virgem; quando vejo tanta cousa, 
digo que é superficialidade fiar nas apparencias; que o 
hábito nao faz o monge, e que nao basta dizer-se que 
uma cousa é, para que o seja. O nobre parlamentar, 
por costume, denomina-se conservador, mas de facto 
repassou já ha muito tempo o seo Rúbicon, com armas 
e bagagens, e lá está já n^^ campo dos repiiblicos. fa- 
zendo o seo officio de dissolvente. 

Era portanto naturalíssimo que levasse á República 
a sua nova oblação : assim como o era que o incapo- 
tado carrijligionário fosse bem accolhido ; tu oao mal- 



XXin 43 

tractas quem entra na tua sala. O Sr. José d' Alencar 
levou, pois, o seo TU à folha ultra. 

Veiu a publicação precedida de um manifesto, de- 
claração de guerra, proclamação, ou cousa assim, es- 
tampada na sobredicta, de 3 do corrente. 

A parte litterária fica para depois, mas a politica é 
já ahi impagável. 

Diz que anda assignalado como republicano disfar- 
çado, mas que nao é tal. Peso de consciência. 

Diz que é monarchista da idea. O' Sempronio, que 
sentido tem isto? Para dar-lhc cousa que com isso se 
pareça, supponhâmos que a phrase aspira a significar 
uma contraposição a monarchistas da pessoa ; advinha- 
ria eu ? Mas então ah qui d'el-rei ! Que doctrina é 
esta ? Ha moijarchia-idea que se nao incarne em rao- 
narcha-pessoa ? Intende este publicista que a raonar- 
chia é um ente de razão, um phantasma, um mytho? 
que para ma servir da phrase de Racine, a monarchia 
ríesíqiCune idée^unrêve ylatonujue? Admirável modo 
este de pugnar pela monarchia, hostilizando o monar- 
cha! Quer missa sem padre, victória sem soldados, 
ganhar na loteria sem comprar bilhete. Proclamar-se 
monarchista, denunciando o soberano como déspota, 
tyranno, usurpador, é o systema das petroleiras^ que 
apagavam o fogo com kerosene. 

E está tao convicto, mesmo da tal ídca, que faz. 
saber que a presumida infallibilidade ( em itálico ) roe 
o cerne das monarchias. A bom intendedor, meia pa- 
lavra. 

Acaba condignamente por este impagável treclio: 

— « Convencidos nós, os monarchistas, de que é 
passível atacar a cidadella invencível, correremos a 
defender a brecha, por onde, no momento do perigo, 
hao de fugir espavoridos os ganços do Capitólio. » 

Se nao fosse a minha humilde admiração da vasta 
sabedoria do eminente escriptor, diria que cousas doestas 
nao as escreve senão quem, ou nao sabe o que diz, ou 
está debicando com o seo paciente público. Que signi- 
fica similhante phrase? Ja sabemos que um novo Man- 
lio fará a grande Africa de defender uma cidadella 
iíwencivel : mas que motivo tem Manlio para descom- 
por e laxar de covardes e inúteis ( caso único em que 
se compreenderia a intenção da phrase ) os pobres 
ganços do Capitólio ? Dar-se-ha caso ( tudo é por^sivel ) 
que o erudito romancista ouvisse cantar o ganco, sem 



44 XXIII 

saber d'onde ? que lesse algures a locução ganços do 
Capitólio^ a achasse bombástica, e a atirasse para ahi, 
fosse como fosse ? Euja não juro nada. 

Tito Lívio (V. 47) compta que, estando Roma em grão 
perigo, cercada dos Gallos, foi Cominio incumbido pelo 
senado de ir a Veios buscar para dictador o desterrado 
Camillo ; mas tão apertado estava o sítio que era peri- 
gosíssima a tentativa de rompêl-o ; todavia o portador, 
regressando, lá achou artes de penetrar no Capitólio, 
por uns atalhos mal guardados. Talvez que observando 
os vestígios da passagem do mensageiro, approveita- 
ram os Gallos uma noite assaz clara, e nao sem muitas 
dificuldades, foram subindo até o alto do morro, tao 
caladinhos, que por ellos nem deram as senti nell^s, e 
nem os cães, animal que de noite o çiínimo ruído 
acorda. Só a que:n nao lograram, foi aos sacros gan- 
ços de Juno, que, a despeito da terrível fome, tinham 
sido poupados. A elles deveu Roma a salvação. Come- 
çaram os ganços a estrugir os ouvidos dos romanos, e a 
dar-lhes rebate, batendo com as azas, e gasnando 
estrepitosamente, d*onde resultou precipitarem-se os 
Romanos sobre os Gallos, que iam jà intrando no Capi- 
tólio, e darem cabo doestes, o que não succederia seos 
ganços houvessem demorado alguns minutos o seo 
chamamento. 

Por tão grande foi este serviço considerado, que nas 
cerimónias públicas, os ganços, como qualquer con- 
sultor, andavam de sege, e não scei se com correio 
atraz , mas scei que à cerimónia chamavam anser 
in leclica , e que era isto tido por suprema hon- 
raria, em memória dos beneméritos ganços do Capi- 
tólio. 

Será a estes que allude o atilado escriptor? Será a 
este Capitólio, cujo nome dizem que proveiu de alli ter 
sido achada a cabeça de Tolo, capul Toli, que era um 
quidam que elles lá sabiam? 

Mas se os Cranços do Capitólio foram mais sollícitos 
que as sentinellas, se foi a sua intervenção que salvou 
Roma íq}i(p res salutis fnil^ diz Lívio), como imagina o 
Sr. Alencar que a sua locução signifique desaire, me- 
noscabo, labéo, desdouro? 

Os patos, sim senhor, patinham; mas os ganços do 
Capitólio são o emblema da lealdade, da vigilância, 
do cuidado. 



XXIII 4.> 

Neste sentido foram, por famílias illustres, tomados 
para divisHs suas, do mesmo modo que a águia foi 
divisa do l.iipério romano, e depois cora 2 cabeças, 
alludindo á divisão do império oriental e occidental ; 
e a esphera do Sr. D. Manoel alludia ao domínio do 
mundo ; e o pelicano do Sr. D. João II, com o moito : 
Pola-ley e polorgr&y^ alludia ao modo como esse mo- 
narcha intendia o offício de reinar, etc. Era assim, 
alludindo às altas qualidades que história ou fábula 
proclama nos ganços do Capitólio, que estes se torna- 
ram uma honrada empresa ; mas cá o uosi^o nivelador- 
mór desadorou com o poder pessoal dos ganços, e 
rebaixou-os de posto, ou antes, por uma antíphrase 
inexpKcavel, converteu em censura o que sempre foi 
tido por louvor. 

Eis-ahi tens tu o que seja a carta introductória do 
novo romance O TU : como sempre, uma baforada, 
uma arrogância, uma injúria. 

Segue-se falar no começado, apregoado, assoprado, 
ingraudecido, celebrado, hyperbolizado , incarecido, 
exaltado e inthronizado romance. Está-me caindo da 
penna um verso de Boileau, mas nao quero, nao 
senhor. 

Teo respeitoso amigo. 

ClNCINNATO. 



G Brasil. 
11 

FALSIDADE DOS CONTRACTOS 

Nao menos condemnada é a questão de emigração 
para o Brasil, pela falsidade e má fé que se diz 
presidir a todos os contractos celebrados em Portugal. 
Acceitâmcs a accusaçao como verdadeira, em pane; 
no todo nâo, e vamos dizer o porque. 

Um dos fazendeiros que mais tem sido aggredido, 
talvez por ser o que mais colonos ajusta para os seos 
estabelecimentos agrícolas na província de S. Paulo, 
é o desembargador Bernardo Avelino Gavião Peixoto. 
O governo imperial celebrou já n'este anuo um con- 
tracto cora aquelle agricultor, no qual, determinando 
que se observem no transporte de colonos as dis- 
posições do decreto do l.** de Maio de 1868, deter- 
mina mais : Que, antes de embarcarem nos porto . de 



46 XXIII 

sua procedência, os emigrantes assignarào perante o 
cônsul ou agente consular do Brasil^ ou na falta d'este 
perante a aucioridade /occ/, a declaração em dupli- 
cata, de terem conhecimciUo doà condições dos con- 
tractos feitos para a importação no império, nspeci- 
ficando-se a cláusula de nao irem por conta do go- 
verno, o qual fica exempto de toda e qualquer der- 
pezacom o transporte, desembarque, agasalho, sustento, 
tractamento dos colonos, e conducçâo de bagagem ; 

Que o governo imperial auxilili a despe.^a com a 
passagem com os colonos menores, de 2 a 14 anno;?, 
que forem em companhia de seos pães, na pro- 
porção de 4 por cada família, e nao excedendo de 
80S000 rs. o auxilio para cada passageiro ; e bera 
assim de 3508000 para a passagem dos colonos adul- 
tos do sexo masculino, de modo que o número de 
passagens auxiliadas nao exceda a 200, comprehen- 
didas as dos menores ; 

Que da dívida dos colonos para com o importador 
será deduzida em favor dos mesmos a importância do 
auxilio concedido pelo governo imperial para as pas- 
sagens, tanto dos menores como dos adultos ; 

Que, finalmente, a subvenção só será paga em 
vista de um exemplar da declaração exigida e at- 
testada do agente consular do Brasil, na qual se 
mencione a edade, naturalidade, filiação, profissfio, 
estado, religião e o número dos emigrantes, e pre- 
cedendo a appresentaçao de cada um ao agente no- 
meado pelo governo para fiscalisaçao do contracto. 

Como, pois, pôde accusar-se de falsidade nos ron- 
tractos o governo que toma taes medidas e o par- 
ticular que acceita taes condições ? Como pode haver 
falsidade no contracto, se elle só pôde ser válido, 
em interessa do próprio agricultor, depois do colono 
haver declarado quaes as condições com que seescrip- 
tura e de as acceitar? 

Outros haverá, e ha talvez, que sejam illudidos na 
sua boa fé. Mas de quem a responsabilidade ? Do 
governo imperial, de certo nao, (|ue o nao pôde evi- 
tar. Chega a qualquer poncto do império um navi'^ 
conduzindo colonos, que se declaram ajustados por 
motu-próprio e livre vontade : como ha de o governo 
imperial castigar o contractador, se nao ha accusaçâo. 
se ninguém se lhe queixa, se o próprio cônsul por- 



XXIII 47 

tuguez tem de legal isar e dar sancçao aos con- 
tractos ? 

Sao estes contractadores os contrabandistas, e esses 
ha-os em todos os paizes. Claro é, portanto, que só 
«s auctoridades locaes podem ou devem fazer com- 
prehender aos indivíduos que se dispõem a seguir 
para o Brasil, que tem dous alvitr^.s a tomar e dous 
caminhos distinctos a seguir : ou contractarem pe- 
rante auctoridades legaes e responsáveis pelos seos 
actos, em cujo caso uao podem ser illudidos ; ou ajus- 
tarem a occultas, sem conhecimento de quem quer 
que seja, que possa coarctar qualquer abuso ou qual- 
quer fraude nos seos contractos. 

Em ambos os casos, absolva-se a colonisaçao para 
o Brasil que, se tem custado vidas, tem também 
salvado muita família da fome e da indigência, e 
feito de muito homem indolente um cidadão útil a 
siy a(»s seos e à sociedade. 

[Continua). 

Do BrasiL 



ARCHILOCO A CINCINNATO. 

Conheço na minha terra, 
meo querido Cincinnato, 
um charlata pequenino^ 
arvorado em litterato. 

Dando por páos e por pedras, 
em fofo estylo arrogante, 
crê-se o magister da lingua 
sendo n'ella archi-ignorante. 

E' mania imperdoável 
d'esse ingenho sem egual 
escrever de omni scihili.r 
que importa se bem ou mal ! 

Por vocábulos esdrúxulos 
que nao valem um vintém, 
julga-se um sábio da Grécia, 
e nao respeita a ninguém. 

Quer o mísero ser tido 
em conta de novelleiro ! 
mas no mercado das lettras 
é simples bufarinheiro. 



48 XXIII 

Anda sempre atarefado 
em romanescos lavores ; 
occupa log'ar distincto 
na turba dos palradores. 

Quer ser crítico eminente, 
e dnr liccões sobre tudo. 
Ninguém dà o que nao tem ; 
philaucia nao suppre «estudo. 

Se romântica e faz dramas^ 
enche resma.s de papel, 
parece escrever na lingua 
que se fallava em Babel, 

Brilha de um modo espantoso 
na abstrusa phrase.... queé linda, 
e deixa a perder de vista 
o próprio José Cabinda. 

Nas talentosas imagens 
verão o bello e o bonito. 
Não é átomo, é gigante ; 
dobra e desdobra o infinito. 

E ha quem o eleve ao throno ! 
por Deus ou por Belzebuth! 
Thronos d'estes só assentam 
no reino de Lilliputh. 

Archiloco. 



E P I G R A M M A S 

Ha hi quem tenha apostado 
que as taes dobras do infinito 
o fizeram pequenito 
e algum tanto amarrotado. 



Dentro de um taquarussii 
veio de Itapemerim 
notícia para Iguassii 
de como o infinito assú 
passa a infinito merim. 

Estes epigrammas como o último do precedente nú- 
mero sEo de Quintiliano. 



Typ. e lith.— Imparcial— Rua Sete de Setembro n. 14« A« 



QUESTÕES DO DIA 

]Sr. 34 

RIO DE JANEIRO, 8 DE DEZEMBRO DE 1871. 



?ende-8e <m casa dos Srs E. & H.Laemmert.— Agostinho de Freitas Gui' 
maiies & Comp., 26, rua do General Gamara.— Livraria Académica) 
Rua de S. José n. 119— Largo do Paço n. C.— Pr^^ 200 reis. 



Shdx*. I^tedaotox* aas « Questões do Dia » 

Do excellenteescriptorSemprónio recebo, com outras, 
a carta inclusa, destinada & publicidade, e n&o posso 
enYÍar-lh'a, desaccompanhada de duas ponderações. 

A primeira é que, dignando-se V. acceitar as minhas 
garatujas, poderá parecer vaidade ou insânia transcre- 
yerem-se nas mesmas páginas encómios á minha pessoa, 
aliás exclusivamente devidos á cega benevolência de 

Srotectora amizade. Repito porém o que ja tive precisão 
e reflectir, e que me servirá de salvaguarda ,se por 
ventura alguma outra vez me achar em eguaes con- 
dições : Vejo-me entre a espada . e a parede. Que 
fazer? 

— Deixar de publicar estes escriptos ? Seria defraudar 
os leitores d'estes modelos de critica ; abusar de hon- 
rosa confiança ; corresponder a uma delicadeza com 
uma Vasconcellice. 

— Publicai -os, operando-lhes alterações e cortes? 
Seria desfigurar a producçao ; arvorar-me em censor, 
sem direito ; superpor a minha penna rude á aparada 
de quem a maneja muito melhor do que eu. 

— Dal-os à luz, intactos? Por exclusão, é o linico 
expediente lícito, supplicada, como fica, para este e 
todos os ca.sos análogos, a desculpa do leitor, a quem 
n^o me considere subjeito então a força maior. 

Venhamos a outro poncto. 

Na carta que vai ler-se, abaixa-se Semprónio a tomar 
em consideração, embora seja para esmagal-o, ao Pa- 
lesireiro do Diário do Rio. Está longe o conspícuo es- 
criptor. Pensa elle, como todos tinham pensado, que 
eram ou dictadas ou insufiladas por Sénio as tristes 
Palestras^ que lhe imitam o estylo ; que lhe reproduzem 



50 XXIV 

a argumentação ; que se sabe saírem de debaixo do 
iiidsiao telhado e de sobre a mesma mesa em que Sénio 
escreve. 

Foi exclusivamente esta coEvicção que levou a raim 
e a Serapróaio, a descermos.ao poncto de discutir com 
o Palestreiro^ guardadas sempre as devidas distancias 
de linguagem, isto é, brandindo nós espada de aço 
contra espada de canna temperada em lodo. 

Surge porém um çuidam^incoberto sob o pseudóaymo 
VasconcelloSj bradando serelle, e não Sénio^ o auctor da 
Nova Tripa Virada, e a reclamar para si certo privilégio, 
de que afirmam usava uma Viscondessa da Lourinhã. 

Quer, a toda a força, celebrizar-se ; é o que os fran- 
cezes chamam reclame ; quer que façamos faiar nelle ; 
quer que annunciemos aos taberneiros o seo escriptório 
de* advocacia. Perde o tempo. 

Quanto a mim, ja avaliei a importância do critico, 
e pode esbofar-se, que lhe não darei mais attenção a 
quantas inépcias escrevinhar, em linguagem de prós- 
tíbulo ou de aço^igue. Nada, não senhor. Eróstrato era 
um parvo obscuro, aquém atormentava o delírio da 
celebridade. Qieria immortalizar-se fosse como fosse, e 
com o petróleo de Epheso queimou aquelle Rocheford o 
Velho uma das 7 maravilhas do mundo. Isso foi lá com 
elle; mas eu, simples cidadão, e respeitador da lei, 
curvo-me á que promulgaram os Ephesianos, quando 
prohibiram expressamente que se proferisse o nome do 
inceadiàrio. Por isso, surrindo, o vejo voltar ao Dia' rio 
do Rio ( ha folhas, que, em se lhes pagando, pablicam 
tudo ; tomam a sua missão por uma tigella da casa jor- 
nalística ], fazendo-me tregeitos e visagens, e dizendo 
que o Sr. José d' Alencar E' SOL ( de quem ja obteve, 
e appira a m is.... certo calor que nós sabemos ), e 
outras bajulações tão nojentas como as diatf ibes com 
que sonha fulminar-nos. Coitado, reqaiescat in pace. 

O que é lamentável, porém, é que Semprónio se 
curvasse a inxergar similhante escrevinhador, a quem 
faltam todos os dotes de sciencia, consciência, intel- 
ligencia, gosto, estudo, educação, e senso commuoi. 
Entretanto, submetta-se Semprónio aos ossos do oficio: 
isto é o (c Lembra-te que és homem l do romano trium* 
phador. Quando o general victorioso, ia revestido da 
túnica palmata e da pintada toga^ coroa de louro na 
fronte, ramo de louro e ebúrneo sceptro nas mãos, pouco 
importara que ao pescoço levasse uma nómina contra 



XXIV 51 

a inveja : atraz d'elle, no carro magnifico de marfim, 
pachado por 4 alvos conséis, ia um escravo ébrio, des- 
compoodo-o e insultando-o, e desde o Campo de Mafte 
até á Porta Carmental e ao Clivo Capitolino, confundia- 
se a voz do truSo com o Io trvumphel das multidões. 

Cada um occupe o seo lugar, e Semprónio trium- 
phe ! 

Desde que, porém, nos querem convencer de que 
Sènio nao é o auctor das Palestras^ persu€tdo-me que 
o distincto escriptor fará devida justiça a si mesmo, 
Gondemnando ao desprêso a insolente, analphabeta 
e chata escripta de um V. 

Semprónio vai inceptar o estudo da Iracema e da 
Diva. Acaba de sair à luz uma sequencia de produc- 
ções estupendas, incontestavelmente do Sr. José de 
Alencar ; para que se hade brigar com phantasmas, 
quando ante nós temos o corpo ? 

Ahi está fresquinho o impagável TiL Temos o 2* 
tomo do Tronzode Ipê (que os thuribulàrios do costume 
já proclamaram famoso, eloquente, de forma rara e 
mais que appreciavei etc, nada menos). Ha muito 
por onde esmerilhar, sem que se nos saia ao incontro 
com hesitações sobre authenticidades. 

Ha mais outro livro, que participa de empalmaçSo 
^ de roedéla de chorda, e que parte da mesma selecta 
intelligencia ; mas este merece duas palavras de re- 
miniscências. 

A 23 de abril de 1870, publicou o sr. José de Alen- 
car uma carta muito perra, fazendo saber ao mundo 
que nio tinha ficado pârro, por nflo ter sido escolhido 
para senador, carta ds que ainda espero occupar-me. 
E' uma verriUfi, quanto ao passaao ; uma amiaça, 
quanto ao futuro. Leem-se nella estas phra^es, por 
exemplo : 

« Sou obrigado a revelar ao paiz os motivos pes- 
soaeSf e as razões occultas, que determinaram minha 
exclus&o. Abrirei aos contemporâneos as páginas de um 
livro, que eu havia escripto para o futuro. Accredito 
que nao serão páginas perdidas para ^ história doeste 
paiz ; aquelles que se derem ao trabalho de a.s folhear 
conhecerão que essa condemnaç&o do meo ministério 
foi lógica. Eu a esperava como a consequência neces- 
sária de alguns actos de energia e m^ralidade^ que 
pratiquei no governo. » 



i^k«W 



52 XXIV 

Ponhamos de lado o despeito e o desabrimento com 
que se tracta o mais que sol^ aquelle contra cuja 
vontade se não concebe resistência no dominio da lei, 
O género humano tomou nota da promessa formal. 
Exultou de ver que um melhor Chateaubriand pre- 
senteava a actualidade com umas interessantes Memó- 
rias destinadas à posteridade, mas que generosamente 
se transformavam em Memórias àe a>quem^ca/mpa. Tem- 
se preparado para admirar o promettido Livro do futuro, 
com seos foros de apocalipse. Excitara-lhe a curiosidade 
a certeza de que ia estudar as consequências lógicas, 
razões pessoaes, e motivos occultos, porque emfim, 
desde tempos immemoriaes, as sciencias occultas têm 
arte de despertar geral appetite. 

Já lá vai anno e meio, e moita I O Livro do futuro 
assimilhava-se ás prophecias do Bandarra, e D. Se- 
bastião sem apparecer I Mas afinal, parabéns, surgiu, 
eureka^ eil-o ani . 

O Sr. Alencar imprimiu os seos brilhantes discursos 
d*esta sessão. No prólogo (diz o Jornal do Commércio) 
declara o auctor que offerece estes discursos como paga- 
mento do promettido livro sobre a sua passagem pelas 
regiões do poder, e que se intitulará Dezoito mezes no 
podfix. Antes que este appareça, promette reproduzir, 
ainda como pagamentos^ os seos discursos aa sess&o 
de 1870, e como prefácio uma 3* edição das Cartas 
à^Erasmo. 

Que a impavidez é dote d'aquelle descommunal 
talento, se tantas provas nao houvesse, bastaria esta 
para evidencial-o. Emfim, tem-se visto quem faça 
do sanbonito gala. Mas que se pague em moeda falsa, 
isso é que nao parece de jurisconsulto, que sabe as 
penalidades da lei. Deve alhos e dá bugalhos. Por 5 
libras sterlinas dá egual forma em 5 vinténs. Promette 
livro do futuro, e diz que paga reimprimindo farelórios 
do passado. Obriga-se a revelar consequências lógicas, 
motivos pessoaes, razões occultas, e empalma tudo, 
pagando ern cobre o peso do que devia em ouro, e 
burlando uma vez mais o público paciente. Ficaremos 
pois intendendo que a alta novidade das Cartas de 
Erasmo, e àns arengas parlamentares do passado é o 
Livro do Futuro l ! 

Todavia ahi esiá matéria sem termo para appreciaçao 
d-o orador, do estadista, do romancista, do escriptor, 



XXIV 53 

aos quaes, a seo tempo, seguirá o jurisperito e o 
dramaturgo. 

Peço desculpa de haver dado a estas linhas de in- 
troducç&o e justificação maiores dimençoes que projec- 
tava, e permitta subscrever-me 

ClNCINNATO 



NONA CARTA DE SEMPRONIO A ClNCINNATO 

( Epíittola aparte.) 

ínclito amigo. 

Tenho sido de uma descortezia atroz. 

Três cartas tuas até hoje sem resposta ! E que 
cartas! onde a liberalidade mais cavalleirosa confunde 
o ignorado escrevinhador de província I três primores 
de ingenho e de arte, padrões de vernaculidade, eru- 
dição e atticismo. 

Mil perdoes. 

Tu tambor, emquanto ftu marechal do exército ! 
Nao te lembres d'isso. 

Eu, sim, é que me apresso a reconhecer em ti o 
mestre, capaz de me dar licçOes, ricas de insino para 
viagens de instrucçao n'este labyrintho inextricável 
da crítica. Nao sou senão justo, prestando-te do co- 
ração o culto a que têm indisputável direito os teos 
múltiplos e fecundíssimos talentos, as tuas graciosas e 
castiças lettras. 

Acabo de chegar do arrabalde, onde a minha dete- 
riorada saúde me deteve cerca de quatro mezes. Tran- 
quillisa-te, porém ; estou disposto e preparado para a 
esgrima. 

Vi as minhas frandulagens sobre o Gaúcho. Agra- 
decido. 

Mal pensara eu, quando tive de escrevêl-as, a ins- 
tancias reiteradas de um amigo que chegara havia 
pouco da campanha do Rio Grande, que Sénio, em 
resposta e sem ler em consideração a excellencia do in- 
tuito, nem o comedimento e selectos modos da minha 
compostura, viria, arrojado e infrene, assacando-nos 
doestas fidalguissimas amenidades : 

« To7nOj para começar^ a 1* carta em que Cindnnato^ 
d laia de amigOy se dirige a um Semprónio, AMBO FLO- 
RENTES, não na edade^ poisque o de lá ainda estd na 
esjnga e o de cajá chegou ao sabugo^ mas com certeza 
ÁRCADES AMBO ; e bom será que se saiba que ha dt- 



• 



54 "- XXIV 

versas espécies de ARCADIOS, sendo estesdousd'aqudles 
de que tracta Juvenal sat. VII v. 160 : QUOD L^VA 
PARTE MAMILLCE SALIT JUVENI ARCADICO, 
qua/ndo faz aJUusão a certos ORELHUDOS de bom vo- 
/ume, qae pastavam a relva da Arcddia. » 

Diz uma auctoridade em lettras : a Quando a alma 
é elevada, as palavras vem do alto, e a expressão nobre 
^ accompanha sempre o nobre pensamento. » Faze a ap- 
plicaçao. 

Orelhudo só pode ser filho de burra. Ora d'esta es- 
pécie de animal nunca figurou, que eu saiba, na minha, 
posto que plebéa, estyrpe. Para onde se voltou, pois, 
Sénio, quando quiz achar a finíssima allusao ? 

A' vista de tao polido exórdio hesitei, a principio, 
como tu, se devia ou nâo travar contenda com quem 
assaz mostrou só saber torneiar d gancha. 

Ora, nunca me empenhei em taes luctas — verda- 
deiros exercícios bárbaros. De meos pães, de meos mes- 
tres, da boa sociedade, da civilisaçao ( da nossa civi- 
lisaçao que nao babuja^ como a de Sénio ] aprendi a 
pleitear com as armas do pensamento — pela palavra, 
esse escudo sonoro, e pela penna, essa tersa lança do 
brioso lidador. 

Mas deixar de accudir à intimac^lo ! isso nunca. Dou^ 
me também por citado, e venho á lide para discutir, se 

o quizerem, e nunca para rebaixar-me. E' falar 

em bom portuguez. 

Quizesse eu combater d Gaúcha^ nada mais fácil, 
apezar da minha falta de hábitos, de gosto e de aptidão, 
confesso-o, para esta espécie de pugna gentílica : o 
amigo, de quem acima te falei, tem ainda em seo poder 
um rebenque e umas chilenas, que de bom grado me 
prestaria; e até um Jucá acharia eu defronte de mim 
para o cavalgar. 

Mas renuncio para outros á glória de sobresair n'est6 
páreo. O público da cidade , que nao confunde , 
como Sénio, o homem com o bruto, vai tendo o bom 
senso de antepor ás corridas ferozes as nobres justas do 
raciocínio, únicas que instruem e dao triumpho sem 
molestarem. 

Para prova de que estou disposto a discutir, vou 

occupar-rae com a continuação da gauchada de Sénio. 

« Prometto continuar — diz elle — logo q-ue regresse t pois 

que para concluir a tarefa^ que tomei sobre os homkros^ 

inda me resta debicar um pouco o Sr. Semprónio^ que 



XXIU 55 

também se metteu a criticaço^ e pinoteou pela campanha 
da litteratura^ para mostrar ao vivo como comprehende o 
ca/úaUo do Gaúcho. » 
Duas observações : 

L* Sénio nao abandonou ainda o estylo equino. Vai- 
lhe a phantasia tão recheiada de visões hippicas, que 
as imagens que lhe occorrem nao sSo de outro género. 
Piríoteoit pela campanha da Htteratura. Que gentileza 
de me^Aphora ! A Htteratura convertida em campanha, 
onde se pinoteia ! E' da mesma ordem da civiíisaçao 
que babuja. Descobriu-se o Chiarini da Htteratura. 

2.* O que eu disse foi como comprehendia o cavallo 
do pampa, e nao o cavallo do gaúcho ; sao idéas bem 
differentes. E' preciso que Sénio, por amor de si mesmo, 
tenha presente o seguinte: que & improbidade litterá- 
ria doá palestreiros jesuítas deveu Pascal em grande 
parte o seo majestoso triumpho. 

Accrescenta o nosso fidalgo oppositor : 
« Ora, Sr. Semprónio I Vd esbrugar os seos indios do 
Jagiiaríbe, e fp,iando lhes tiver tirado o cascão, etc. » 
Bôa dúvida ! Grande achado ! 

Que o>í taes indios tinham cascão, e do mais espesso, 
foi o auctor o primeiro que o declarou, alto e bom som. 
Leiam a nota 1* no final do vol. 1*. 

Semprónio, provinciano bronco e obscuro, nunca 
pretendeu ser tido por grande cousa, por formador de 
eschola, Htterato inatacável, philólogo inerrante, sábio 
illuminado. De taes velleidades não se accusa. Escre- 
veu, garatujou aquillo por mero desinfado. E ficará 
em excelso agradecido ao pio leitor, ao próprio Sénio, 
m se dignar indicar-lhe os erros, porque se elles nao 
forem irremediáveis, promette tentar emendal-os con- 
forme poder na 3* edição, se resolver dal-a Chateau- 
briand, dócil ás licções dos críticos, nunca se despresou 
de corrigir suas obras. E' elle mesmo quem nos con- 
fessa que, sendo reimpressa a Atala onze vezes, se con- 
frontassem essas onze edições, apenas incontrariam 
duas inteiramente similhantes. E' que pelo menos dez 
vezes a Atala teve cascão. Antes quero pensar com Cha- 
teaubriaud do que com Sénio (perdôe-me elle a prefe- 
rencia), que emperrou, emperrou 

Semprónio estava uma vez muito caladinho no sea 
canto, quando recebeu o 1* numero da República (diá- 
rio que se pubHca n'essa corte) trazendo um formoso e 
obsequiosíssimo juízo crítico sobre os índios. Era da 



ôt) XXIY 

penna do Sr. Silva Maia, cavalheiro que o auctor n&o 
tinha nem teve ainda a fortuna de conhecer. 

O Sr. Silva Maia, julgando da acção, dizia o se- 
guinte : 

« E' esta por ventura um pouco arrastada e longa, e 
interrompida não poucas vezes por incidentes, talvez 
alheios ao seo movimento e desinvolvimento, etc. » 

Semprónio toma o livro, folheia-o, medita, e conclue 
confessando á sua consciência, como ao público o de- 
clara .agora, que o Sr. Silva Maia tem carradas de 
razão. Eisahi. 

Acceitar com reconhecimento e gáudio salutares 
instrucções e advertências, por mais elevada que seja 
a posição que se occupe, sempre foi próprio do es- 
col dos espíritos. O que me parece triste, e das me- 
diocridades desabridas, é perseverar voluntária e 
obstinadamente no erro por amor de preconceitos vãos. 

O mundo é uma eschola, onde se pratica, não o 
elogio, senão o insino mútuo, com esta circumstancia 
porém — que não ha magister super omnes. 

Firme n'estes princípios é que Semprónio irá tam- 
bém esbrugar e dissecar a Iracema e a Diva^ que, 
segundo alguns, têm moléstia na pelle ( elephancia» 
de estylo ), e, segundo outros, talvez mais bem avi- 
sados, o principal defeito está em alguma mielite ou 
alguma viciosa disposição da espinha ( destempêros 
de acção e de characteres ), d'onde vêm os corcovos e 
B& suturas ósseas, que lhes dão a figura de monstren- 
gos. 

Notarei : nas delicadas operações, que vou con- 
tinuar, nunca os erros, as fragilidades, os arroubos 
disformes, os caprichos frívolos do auctor farão Sem- 
prónio deixar de ter para com Sénio as attenções devi- 
das ã sua edade, posição social, admiráveis talentos, 
illustre pessoa, e particular character. Sénio precisa 
mais de ter quem lhe diga certas verdades proveitosas 
do que de pão para a bôcca. Hei de dizer-lh'as, apoia- 
do na minha bôa fé, em meo desenvolvido espírito de 
rectidão. 

Não é de hoje, uão é no interesse de quem quer 
que seja, que reajo em nome das lettras nataes. As 
minhas cartas sobre o Gaíicho, posto que sé agora 
publicadas, foram escriptas ha perto de um anno, e, 
o que é mais, estiveram todo este tempo ahi na corte. 
Scei que de tudo isso tem Sénio notícia. 



XXIV 57 

Repito: estou plena e profundameate convencido 
•de que, procedendo assim, presto serviço ao Bra- 
2il. A crítica, que se preza de justa e independente, 
é inquestionável agente de progresso ; poe diques 
«(deixem 1& falar) aos extravasamentos das imagi- 
nações superabundantes, alimenta e aguça os estímu- 
los productivos, apura o liquor das boas fontes sem 
estancal-as. 

Nsio sSo mais brazileiros do que eu, os que só têm 
o incenso que embriaga, e nunca uma palavra de ju- 
diciosa e firme admoestação. Muita vez o applauso é 
desserviço, e quando perenne, converte-se em nojenta 
6 nociva idolatria. Admira que os mesmos que alar- 
deiam querer espancar o chamado fetichismo político^ 
estejam alimentando o fetichismo litterdrio^ real, fu- 
nesto e enervador. 

Serão da injustiça mais injuriosa e acerba, se me 
tacharem de iconoclasta de imagens da terra ; o que 
faço é, do fundo da minha obscuridade, aponctar a 
eiva ao ídolo, e pedir que o reparem, para que nfto 
caia aos pedaços. 

Quem souber commover-se e orgulhar-se com as 
grandes cousas ^da pátria nSo o ha de saber melhor 
do que eu ; estão enganados ! Quando J. de Alencar, 
â^piples neóphyto nas lettras, escrevia desabridas 
cartas contra um brazileiro, a todos os respeitos illus- 
tre e respeitável, verdadeira glória do Brazil, o con- 
selheiro Gonçalves de Magalhães, alguém o chamou 
de iconoclasta de imagens da terra 'i Pelo contrário : 
houve de sobra quem o applaudisse e acoroçoasse. E' 
que ha homens que nascem sob um signo inteira- 
mente feliz : J. de Alencar é doestes. 

Pois bem : nSlo faço mais do que seguir o edificante 
exemplo de J. de Alencar. 

Fico com o escalpello sobre a Iracema . 

Teo amigo e admirador sincero 

Sbmprónio. 



o MCE30 IVO>IE3. 



Apparecendo pela primeira vez perante o público 
doesta capital, natural é que alguém pergunte quem sou* 
d^onde vim, e para onde vou. Ora, como eu sou do 
«éculo da publicidade, vou já pôr tudo aqui em pratos 
limpos, afim de n^o deixar a mínima dúvida. 



58 XXIY 

Como se verá na fralda d'esle escripto, chamoHoae 
Oilon. Nao é nome que me pozessem na pia do baptis- 
mo : assim como Ha muita gente, que abandona 06 no- 
mes, que seos pães lhe deram para tomar outros, qu^ 
muitas vezes valem menos, assim fiz eu , appro- 
veitando o exemplo. 

Mas porque razão dei eu preferencia antes a este que* 
a qualquer outro ? 

Eu explico. Otton é o nome de vários individnos 
conhecidos na história : entre elles pelo menos tres 
imperadores. 

Ora eu queria um nome, que impozesse às turbas : 
pareceu-me qiie este estava muito no caso, nao tanto 
por ser nome essencialmente monárchico, mas porque 
com pequeníssima variante se transforma em outro» 
perfeitamente republicano. 

Eu sou monarchista, isso lã sou eu ; porém não scel 
quanto tempo isto ha de durar. Nos dias que vao cor- 
rendo, um homem muda de posto com mais facilidade 
do que muda de camisa. 

Supponhâmos que sou chamado ao ministério : é 
difficU, mas nao é impossível. Se houver eleiçSo se- 
natorial, là meincaixo eu ; e que hei de intrar na liâta> 
isso é dos livros. Mas não sou escolhido : republicano 
no caso. O cao dos Animaes Falantes^ de Casti, o fuib- 
dador da monarchia leonina, só porque o demittiram,. 
foi para o campo do elephante. 

Porventura nao houve ahi alguém que tomou o no- 
me de Sènio? Porque? Sem dúvida por ser com peque* 
na alteração o anagramma de nhcio. Eu tomei o nome» 
Otton, porque me serve, emquanto a cousa me correr 
bem , mas em me chegando a mostarda ao nariz, ldrgt> 
cutellos e varredouras : é apenas um risquinho e um 
pinguinho ; estou cá, e estou là ! 

No tempo em que o wapor nao fazia mover carros 
nem barcos, e nem havia telégrapho eléctrico, a cousa 
nao ia a^sim : as idéas andavam tao de vagar como as 
pernas. Ainda por ahi ha muita gente, que para obter 
o seo retrato, depois de dar quinze ou vinte se^sOes ao 
seo pintor, tinha de esperar seis mezes. Hoje é negó- 
cio de segundos, a tres mil réis a dúzia. 

A gente fala das cousas, segundo o modo porque as 
Yê : mas os olhos sao màchinas photogràphicas que 
appresentam os objectos de diíFerentos modos. 



XXIV 59 

A inveja tem os olhos vesgos, nao é assim? que 
eu, excluído, hei de ter inveja do escolhido, isso nao 
admitte dúvida. Ficam-me os olhos vesg-os : de Otton 
que sou, passo a ser o meo simile, por outra, de monar- 
chista que sou, passo a ser republicano de papo ama- 
rello. 

Tenho falado muito de mim : para outra vez falarei 
dos outros* 

Otton. 



TRAGEDIA Igtiez de Castro. 

Se o nao conhecem, deixai-o-hao seguir sem atten- 
tar n*elle, e sem lhes passar pela mente que vai alli 
uma grande intelligencia, uma alma nooilissima e 
um coração de pomba. 

Júlio de Castilho é assim : crenças, puras como a 
dos primeiros annos ; coração, vivíssimo como o dos 
vinte ; talento, profundo e sólido como o dos cin- 
coenta. Modesto (sincera e demasiadamente modesto), 
imaginando insignificância quanto faz, mesquinho 
quanto inventa, rachítico quanto concebe, ó pasmo de 
quantos lhe sabem estas virtudes a noticia de que um 
trabalho seo vai ser lido em público ou publicado em 
livro. Se o virem n'um gabinete, em que é tantas 
vezes o primeiro, julgal-o-hao o último, tal é a timi- 
dez com que expõe a sua opinifto sobre o assumpto 
que se discute. E, não obstante, poucas vezes hade um 
pae, já immortal como o d^alle, confiar aguardv fu- 
tura do seo nome a um talento tao seguro como o de 
Júliq de Castilho. 

Tem fácil explicação este character. Educado por 
uma senhora, toda virtude, toda carinho, toda saber, 
senhora que ainda hoje é prancteada por tantos pa- 
rentes e estranhos, foi-se aquella alma abrindo ás 
luctas da vida, entre exemplos de resignação e de 
amor, despretenciosa e modestamente praticados entre 
as quatro paredes do seo lar. Se se soltava dos braços 
da mfte estremecida, para voar ao collo do pae, d'a- 
quelle pae de quem elle foi sempre o inlêvo, via-o 
longas horas do dia intregue ao trabalho sem trégua, 
ao e>tudo sem infado, como se elle, que tanto sabia, 
tivesse ainda tudo que aprender. Se ouvia falar es- 
tranhos, podia, creança ainda, levantar a fronte aL 



60 XXIV 

tiva, pelo culto de veneração e de respeito com que 
era repetido o nome d'aquelle que lhe dera o ser. Se 
assistia aos saràos litteràrios, contemplava attónito a , 
multid&o que corria a ouvir a palavra do seo mestre 
e melhor amigo. Finalmente, se folheava o Méthodo 
portuguez^ segredava-lhe a posteridade o nome de seo 
pae. 

Que mais fora preciso para fazêl-o tremer ante a idéa 
de firmar com um nome tão glorioso um trabalho seo ? 
Que importavam conselhos, que valiam incitamentos 
de amigos, se mais alto lhe falavam as imposições 
d'esse nome, e o respeito com que elle era repetido ? ! 

Tal foi a lucta d'aquelle espirito até 1863. N'esse 
anuo começava a surrir-lhe a vida : jia posse de um 
anjo lhe baixara uma primavera de flores. Embriagou-^ 
o perfume d^ellas, e cego e surdo a tudo, para só vêr a 
candidez e ouvir a voz harmoniosa da esposa que me 
recêra a Deus, foi-se cantando, cantando amores, que 
tempos depois publicava com o titulo formosíssimo 
de — Memórias dos vinte annos, 

E fugiu. 

Como a avesinha innocente que, ao som do tiro 
do caçador, solta o vôo em busca de outro refúgio, 
assim fugiu aquella creança para o campo, involto 
nas azas do seo anjo. Corou de si próprio, do seo ar- 
rojo, e a nSo lêr nos olhos d'aquella cândida pomba o • 
— bem hajas ! — teria volvido a comprar todos os 
exemplares, para que ninguém podesse ler o seo livro. 

Nas saudações da imprensa, nos parabéns dos ami- 
gos, via elle apenas indulgência e amizade ; e se um 
dia se convenceu de que a sua estreia tinha algum 
valor, foi preciso que um parente, tao sábio como 
austero, lhe dicesse largamente o que pensava do seo 
livro. Foi-lhe o único voto insuspeito, nao porque o 
dictasse menos amizade, mas porque lhe exigia a in- 
trega immediatade todos os seos versos inéditos, para 
que. áquelle volume se seguisse outro, e outro, e 
muitos, 

Publicaram-se entfto os Primeiros versos ^ e nfio me- 
nos festejado foi aquelle volumesinho. Em todo elle se 
revelava a herança do pae ; gemia-se com o gemido 
d'aquella harpa ; surria-se com o surriso das flores que 
lhe ingrinaldavam a fronte ; respirava-se em todas as 
páginas poesia e amor. 



XXIV 61 

Após tao supremos esforços, pediu tréguas. Preci- 
sava rrpouso que nSLo tinha : prostàra-o a anciedade, 
o receio de insombrar as tradições dos seos, e depoz a 
lyra, para a tanger três annos depois, rica de nova 
harmonia e de sons dulcíssimos. 

Um dia despertaram os seos íntimos, aquelles a quem 
é mais familiar o tracto das lettras,. com um convite 
para assistirem á leitura de uma tragédia do moço es- 
criptor, intitulada Ignez de Castro. O próprio cartão 
de convite o photographava : a um cantinho de linha, 
em lettra mais trémula e sumida, as palavras — drama de 
Júlio de Castilho^ — como que se escondiam invergo- 
nhadas I 

Ninguém se escusou a tal convite, senão os que a 
doença impedia de tomar parte em tao appetitoso coma 
raro festim. 

A's 7 e meia começou a leitura, perante um selecta 
auditório. D'aquelle róo eram juizes em primeira instan- 
cia Pereira da Cunha,Duarte de Sà,D. António da Costa, 
Freitas e Oliveira, Silva TúUio, Castilho e Mello, Dal- 
huaW, Biester, conselheiro Lisboa, visconde de Al- 
menaro, Álvaro Paes, Luiz Philippe Leite, dr. Acácio 
Caldeira, Júlio Machado, Roma, Bulh&o Pato, Zacha- 
rias Aça, Xavier, José Aboim, Silva Ramos, dr. Hen- 
rique Leal, e Ramiro Guedes. Se o vísseis passar a 
vista, inquieto e offegante, de um ao outro extrema 
do gabinete, veríeis que tortura lheian'alma, tor- 
tura <^ue ia morrer ante as cans venerandas de um 
astro immenso, que em frente a elle o animava e a 
incitava : de seo pae, o Sr. Visconde de Castilho. 

Fez-se profundo silencio, apenas quebrado pelo 
arfar descompassado d*aquelle peito, contrastando com 
a serenidade do pae e a convicção em qn.e estavam 
todos os convivas de que o banquete havia de ser 
digno dos convidados. 

No fim de cada acto, fugia Júlio de Castilho, a res- 
pirar a sós : os que o queriam abraçar, que eram to- 
dos, iam ihcontral-o no poncto mais escuso dos gabi- 
netes contíguos, e era para ver com que attençao ouvia 
conselhos e parabéns de todos, como a todos agrade- 
cia com o coraç&o nas mãos as palavras de sincera ad- 
miração qiie lhe tributavam. 

Isto pude contar ; mais não scei, nao me cabe a mim, 
único que estava deslocado n'aquella sala : o oue tan- 
tos talentos lhe diceram, nem sequer em é aado re- 



(52 XXIV 

petir. O que vou dizer, perdoem-m'o e suppoDhauí que 
me chegou aos ouvidos, ora aqui, ora alli, doutre os 
diversos gruppos que ajuizavam da tragédia. 

Nao scei que Júlio ae Ca-tilho podesse metter hoin- 
bros a empresa mais afaiiusa. Se era muito o ter de 
atbender á palavra da historia, ao character dos perso- 
Dageus, ao estudo da épocha, ao desenho das figuras 
que tinham logar n^aquelle quadro, ás exigências de 
um poema dramático, á ligação racional das scenas e 
dos actos entre si, era tudo o confronto com a immensi- 
dade de tragédias a que tem dado assumpto aquelle 
thema ( algumas das quaes, de subido valor ), e a difi- 
culdade de prender a attençao de espectadores, que 
todos conhecem a fundo as peripécias da tragédia, em 
que nao ha o imprevisto, em que cada figura que entra 
em scena é esperada, e para dizer palavras que todos 
sabem. 

Pois tudo salvou Júlio de Castilho : nenhum dos 
espectadores, apesar de lidos e versados nas leitras, 
tinha até então visto ou lido a Ignez de Castro :tudo era 
novidade, tudo era attrahente, commovedor, suberbo ;' 
^, nao obstante, a parte histórica lá estava respeitada 
nos mais insignificantes ponctos. 

Como conseguiu tanto o moço escriptor ? Como soube 
fazer chorar com elle, arrebatar com os arrebatamentos 
da sua lyra, enthusiasmar com os enthusiasmos, can- 
tar amores com os seos amores? Lereis um dia o livro 
e sabel-o-heis : com a maior opulência de estylo, com 
a maior suavidade de versos, dando á rainha o amor de 
mâe que vira na sua ; ao sr. rei D. Affonso o valor de 
que são capazes os reis portuguezes ; a Ignez de Castro, 
o céo de encantos que lhe dá a SUA Ignez de Castro ; 
ao velho Almada a lealdade, o conselho e a prudência 
de seo extremoso pae. 

Aos 30 annos náo se escreve melhor ; aos 50 dificil- 
mente se escreverá tao haa : na sua edade ninguém 
firmou assim uma reputação de verdadeiro talento. 
Lede aquella scena entre o rei e a rainha, a da rainha 
e Ignez, a de Ignez e Pedro ; ouvi á rainha dizer o que 
é o povOj e convencer- vos-heis de como fica bem per- 
petuado em Júlio de Castilho o prodigioso talento de 
António Feliciano de Castilho. 

Dictou a admiração, nao a amizade, estas linhas; se 
as tomarem por affecto, por delicadeza ou testimunho 
de cada um doa íntimos que ouviram a leitura da Igiits 



XKIV 63 

dê Castro^ provará i&so que sou apeaas echo de quem, 
com direito inço atesta vel, coroou já poeta a Júlio de 
Castilho. 

Lisboa, Octubro 31. 

A. DE Castilho. 



A causa do réo discute-se 
perante o seo julgador. 

— « Que houve crime, é cousa liquida » 
diz o forte accusador. 

— « Sim I A prova nao é sólida » 
responde-lhe o defensor. 



Se de Homero o poema, antigo e celebrado, 
coube dentro da casca estreita de uma noz, 
quando o infinito fòr e bem e bem dobrado 
nade vir a caber n'uma casca de arroz 

Quintiliano, 



Dou & luz para a semana 
o liodo romance— Til ! — 
E' serio ( diz a República ). 
Quem diz que é poisson d* Avril I 

O rei das lettras brasileas 
vai para o meo rodapé I ! 
Como Sardon na FerlíUinda 
exclamo em júbilo : cc Té / » 

O' folhetim de espavento, 
tu nos vais cobrir de glória ! 
D'esta feita a oossa folha 
grimpa ao templo da Memória I 

Quem vence a Scott em Romances, 
e é nas Leis mais que Lycurgo; 
Quem desbanca atè Shakspeare 
se se mette a dramaturgo ; 



64 XXIV 

quem cr«ou 01 fato e Olho 
nas ricas — Minas de Prata; 
quem fez a pobre Iracema 
parir em pé como pata ; 

nos campos do Rio Grande 
quem põe rocíns a falar; 
o da âmbula do infinito, 
o que faz côncavo o mar ; 

o chefe da pátria eschola, 
co'opseudónymo Cazuza^ 
cedeu-nos, ó glória, um fhicto 
de sua fecunda Musa. 

Ides ver a flor mimosa 
do seo vasto repertório. 
O' leitores, preparae-vos 
para mais um purgatório ! 

Pompeo. 



ANJVLNCIOS 

Qi.E.sTr)ríf DoniA. — Veiulo-se j^or 3$000 rs., brochado, 
ou por 4S000rs. , iuquaderiiado. o I./' volume dVsta 
tolha. 



O Bmaval, jo^rnal (Iti Liabôa. — N'esta corte, sao corres- 
] oiuUnírs d'esta folhii os »Sr.s. E. e II. Laemmert, em 
"lija c: sti SP tem: m ^ossigiiíituras por aiino a 158000, 
por seii:e.síri^ a SSOOO ; c .-.e rocThem anmincios. para 
-rrpin i«ii^)licíido- m^ P.raztl íi 60 r?. j.or Imha ; tudo 
ib>'lif*ir«) t\o íiiiprri^. ;Fm Li.-Ka. rua Au{riif>ta u 188: 
íírtJan^ro. Ant«;ino Mana de Castiih'^ : Adminúirarão, 
Pedro A. d'Almeida.) 



'.y, : ;::!;.- ij;i:'..i::l- Lu; hí íc •:• )^fl(7í'1 n- i . 1-j<* A . 



QUESTÕES DO DIA 



N. 25 



RIO DE JANEraO, 13 DE DEZEMBRO DE 1871. 



Vende-se «m casa dos Srs E- & H.LaemiDert.~Ágostinbo de Freitas Gui* 
narães & Comp., 26, rua do General Camará.— Livraria Académica* 
Rua de S. José n. 119— Largo do Paço d. C— Preço 200 reis. 



Bio9rapli.la d.e H» SC. o Imperailor do Brasil 

E' mui conhecido o Esèudo Biogrdphico^ traçado ha 
alguns annos pelo respeitável McHisenhor Joaquim 
Pinto de Campos, e puolicado no periódico litter&rio 
O Fuluro, redigido pelo admirável poeta da natureza, 
Faustino Xavier de Novaes, t&o prematuramente rou- 
bado ás lettras e a innumeraveis amigos. 

Bem era que um dos primeiros soberanos tivesse a 
sua biographia feita por uma das primeiras pennas 
doesta terra, e publicada por um dos mais talentosos 
hóspedes que *nella hao sido recebidos, e reproduzida 
agora na nação-irmã por um dos primeiros prosa- 
dores de que Portugal se honra. 

Coube pois, e muito naturalmente, a Cainillo Cas- 
tello Branco, o honroso incargo de presidir à ediç&o 

?ae de parte d'esses opúsculos se acaba de fazer no 
torto, o que acaba de sair á luz, em nítida ediçSlo, com 
o retrato do Sr, D. Pedro II. 

Camillo Castello Branco, tao facundo como fecundo 
escriptor, tornou-se uma das priífcipaes glórias do 
nosso idioma. Desde muitos annos ^ue 'nelíe se dis- 
putam primazias as mais raras qualidades de que um 
auctor possa orgulhar-se : pureza, vemaculidaae, ele- 
gância, sciencia, sentimento, graça, imaginaçSo, pro- 
priedade, estudo, fidelidade, tudo coUocado^ a seo 
tempo, tudo posto no seo lugar. Tal é a superioridade 
das p&ginas d'essa admirável penna, sobretudo nos 
últimos lo ou 15 annes, que um de nossos primeiros 
poetas e prosadores, considerando-o clássico em vida, 
tem inriquecido o sèo diccíonário com centenas de pa- 



66 XXV 

lavras e phrases, consagradas por aquella formosa 
penna de Camillo Castello Branco. 

Inimigo de indeusar poderosos, repugna ao sec cha- 
racter tractar de assumptos que prendam com encómio 
a elles ; mas o Sr. D. Pedro constitue uma excepção ; 
nunca em ser justo pode haver desar. 

Damos pois em seguida a Advertência^ com que o 
primoroso escriptor incepta o livrinho. Formamos, 
por elle e pelas lettras,votos por que se restabeleça da 
grave e obstinada infermidade que o acabrunha. Viera 
Camillo a Lis^ôa,em princípios de octubro, com tenção 
de se demorar uns 15 dias ; mal eram passadas 24 
horas, tornou-se arrebatadamente para o Porto, com 
medo, dizia, de morrer separado dos filhos. S apezar 
de tudo, e de se lamentar que sente já apagada em si 
a luz da imaginativa, e o &nimo para trabalhar, e até 
para escrever, censta que nos curtos intervallos em 
que a doença lhe dâ folga, vai sempre escrevendo 
obras novas. Esperemos que os receios do doente sejam 
infundados, e que tão preciosa viaa se prolongue 
largos annos para honfa e lustre da lingua que fa- 
lamos. 

A citada Advertência é do seguinte teor : 



A biographia do Sr. D. Pedro II, trasladada 'neste 
livro, é escripta por um dos mais insignes litteratos do 
Império brazileiro. Monsenhor Joaquim Pinto de Cam- 

Sos, 'nesse primoroso trabalho, revela do:es superiores 
e bem pensar, de bem escrever, e — o que mais realça 
— de manter a verdade histórica, a respeito de um 
principej vivo, sem incorrer, se quer, na venialidade 
da lison a. « 

Foi publicada esta biographia em um periódico lit- 
terârio do Rio de Janeiro, annos antes que o Brazil 
fosse apalpado pela mão da trabalhosa guerra "*ue 
mais relevantes lhe tornou os merecimentos ao louvor, 
após a suspirada victória. E' muito para desejar que 
a vigorosa penna que tao magistralmente urdiu a his- 
tória da pacifica existência de Sua Majestade Imperial, 
nos descreva os corajosos alentos insinuados peio au- 
gusto imperante no ânimo brioso dos generaes quo lhe 
honraram o reinado, tanto quanto se nobilitaram ser- 
vindo o império. 



XXV 67 

Os factos, porém, relativos ao período deplorável 
que perturbou temporariamente a prosperiaade do 
Brazil, sacrificando á honra as vidas de muitíssimos 
filhos seos, s&o recentíssimos, bastante notórios, e vi- 
riam supérfluos, sobre dissonantes, :ie outro historia- 
dor os relatasse. 

Este livro não se apresenta occasionado somente pela 
visita com que o festejado Imperador honrou a terra 
de seo augusto pae e avós. Cabe-lhe mais elevada 
graduação e quilate de outra mais nobre espécie, por 
que ha ahi páginas identificadas ás da história de Por- 
tugal, e relanços capitães da vida política do Brazil, 
mal conhecida entre nós, da lo que por amor da língua 
e costumes, e das relações commerciaes, e da tao vasta 
quanto respeitável colónia portugueza n*aquelle im- 

Íério, nos estejamos sempre mutuando affectos como 
e irm&os. 

Houve quem, possuindo o periódico em que Monsenhor 
Pinto de Campos publicou os seos preciosos artigos, 
se lembrasse de responder com este livro à curiosidade 
de muitíssimas pessoas que de nome apenas conhecem 
o augusto hóspede que tantas affeiçGes grangeou em 
Portugal. 'Nesse estimável pensamento fui convi- 
dado a coUaborar, em parte assim insignificante quanto 
dispensável ; porém, como na ci.ada biographia super- 
abundassem notas circumstanciadas de iilucidaçoes 
politicas menos interessantes para portuguezes, cedi a 
eliminar 'neste traslado as menos precisas na narra- 
tiva. 

Nao scei que impressão deixará no ânimo do leitor 
a biographiade tão bondoso quanto illustrado príncipe. 
Deve de ser estranha, attenta a raridade dos vultos 
majestosos d'este porte que nos offj^rece a história con- 
temporânea : e deve de ser melanchólica, se inrràmos 
em confrontos, de que não podemos tirar senão traços 
que nem os thuriferários abjectos podem fazer pare- 
cidos entre si. Figurou-se, outr'ora, que a Providencia 
nos dera um rei com o coração aureolado por grandes 
virtudes e talentos ; mas, um dia, fechou-se uma 
sepultura ; e a bella alma, que se alumiou em es- 
treita de eterna saudade para portuguezes, não pôde 
baixar com os seos resplendores até o throno d'onde 
subira. 



68 XXV 

A' primeira vista, avulta-se a nas certos illumÍDadoí> 
na arte de governar que os reis constitucionaes dis- 
pensam a prática das DÍbliotheca^, c o tracto dos bons 
exemplares em matéria de reiaar. Nao é bem afisim, 
posto que 86 haja ahi eacripto qae D. João III fora rei 
magnifico, mas que a muito custo soubesse deletrear 
os Regimentos da laquisiçSo ; e que D. João II, o 
assassino de dons duques, aeos reaes parentes, nao era 
também melhor lettrado. 

Seja como Fòr, a ignorância áo!j reis nfto é cousa a 
que devamos consagrar poemas, invocando as tágides, 
nem 03 Pyndaros modernos lhe poderiam ajustar os 
seos épodoa cantados ao tiarpejo da^ guitarras pala- 
cianas. 

Eu, por mim e em nome do^ amantes dos scos ruis 
e da glória da saa terra, quereria que de todos os sobe- 
ranos portuguezes sapodesse dizer, sem iis fragrância» 
do tomilho da adulação, o que Monsenhor Pinto de 
Campos tfto luminosa como verdadeiramente compta 
do augusto Imperador do Bra^íil. 

Camillo Castbllo Branco 



OBKAS DE J. DE ALENCAR - A IRACEMA 
I 

Meo respeitável amigoi 

Visto que estas fartas se devera intender contí- 
nuaçno das outras sobro o Gaúcho, nao me deterei em 
nova exposiçaii deiuotivos. Inrontrarás na^ primeiras 
com que .npprir a deficiência das últiuiM. Entro, pois, 
sem mais tardança na matéria. 

Representa o Gaúcho o ponto extremo da decadência 
da Sènio até hoje. 

D'eutre todas aa obraa da sério que inceptoii sob o 
»ovo pscndiinymo, nenhuma, qnanto n mim churticte- 
riza melhor o esvaecimenlo ilris iUui^es juvenis ou 
viríe, a «na litteréria seriectnd-^ 

Açha-aa o aucior de ta! forma iil«niÍfi<rado cum este 
8eniim#nto, tao despovoado o #rmo cntihene o coffni do 



XXV 69 

deo espirito, tão regpelada a sua phantasia, lAo decré- 
pita a 9or dos sonhos resplaxadecentes^ — que q appellido 
que adopta é o de Sénio. Confessa-se velno, quando a 
htteratura natal tinh«k o direito de o suppor moço ainda. 
Tiriste destino o da pátria ! 

Estas nossas conjecturas n&o h&o arbitrárias. Depre" 
hendem-se das phrases repassadas de angústia, de 
acerba descrença do prólogo, que vêm na Pata da 6a* 
zella^ que se repete ipsis verbis no Gaúcho^ e que terá 
talvez de ser ainda reproduzido ipst« virgulis no Til^ que 
pomposamente se annuncia e com antecedência se fes- 
teja como um primor. Dir-se-bia que o auctor, persis- 
tindo em nfto desligar das obras tao solemne e signifi* 
cativa confidencia, quer fazer crer que o sopro, que 
acaba de lhe crestar as mais intimas e pulchraa illusoes, 
foi-lke de veras certeiro ao coração, afogou-lhe as 
aspirações mais elevadas, derrocou-lhe de uma vez 
para sempre os mais esplêndidos e agigantados cas- 
tello.*? ! Accompanho-o de coração na sua rude e cruel 
dÔr. 

Mas .se o Gaúcho exprime o poncto extremo, a /ra- 
cêmaf com que me vou occupar, é, pelo contrário, o 
poncto de partida da queda do astro, que descamba em 
marcha rápida para o occaso, quando não espargira 
ainda luz suficiente para que se presumisse ter já 
chegado ao zenith. 

Não incontraremos, pois, aqui aquella copiosa» 
aquella inexgotavel messe do Gaúcho, cnpaz de fazer, 
por si, a eterna fortuna de um vindimador hábil, paci- 
enta e desfructador. Todavia teremos já muito que res- 
pigar. O campo promette. 

Qual a razão da differença de feição e de organização, 
entre os dous filhos do mesmo progenitor ? Explica-se 
bellamente: .são seis annos antes df^ dTecadencia que vão 
do primeiro ao último. 

Este, posto que ataviado das lentejoulas de um es- 
tylo deslumbrante e fallaz, logo á primeira vista é a 
moio de disformidade, que nada pôde disfarçar ou il- 
ludir, porque o volume é descommunal e enorme. Com 
o primeiro já se não dá o mesmo; é preriso que o 
observador consciencioso se approxime mais, e estude 
com alguma detença aquelle character esquisito e todo 
de mera creação phautástica. Mas não vacilleis, não 
receeie um instante não achar com que cevar a boa 



70 XXV 

critica. Pelo contrário encontrareis sem grande custo 
as tortuosidades ou as depresOes da débil e pállida cre- 
atura. 

Sabes, meo amigo, que a Iracema tem a pretençfto 
confessa de realizar o typo da poesia brazileiral O 
auctor, na carta final dirigida a um amigo, assim se 
exprime « Este livro é^ pois^ um insaio ou antes amostra. 
Verd realtsadas 'nelleas minhas ideas a respeito da liltera- 
tura ruicional , a^hard ahi poesia inteiramente brazileira^ 
haurida na língua dos selvag&ns. » 

Se a carta precedesse a obra, o leitor intendido teria 
de cair das nuvens, lendo esta. EUa importaria a de- 
cepção, o esmagamento mais formal da espectativa con- 
cebida com a pomposa promessa do auctor. 

Como, porém, a carta segue o volume, e sò pôde ser 
lida quando já o leitor deve ter formado idéa mais ou 
menos approximada d'esse poema in anima prosaica^ 
involuntariamente sobr'estará, e attónito c perplexo 
inquirirá a si mesmo: ' 

« — Pois é esta a poesia eminentemente brazileira, 
offérecida como padrão de belleza e de verdade "? » 

N&o se dissipam as mil hesitações. O leitor fecha o 
livro 6 perde-se-Ihe a mente n'um mar de conjecturas. 
O quQ elle sente Jistinctamente é que tem o ef; !rito 
cançado e oppresso, depois da leitura da obra-modêlo. 

A poesia do selvagem deve ser simples, e aquella 
é um artefacto de múltiplas combinações. 

Deve ser singela, e aquella é apparatosa o vai- 
dosa. 

Deve ter certo cunho de energia, certa expressão 
de braveza, e aquella tem a feiç&o e o requebro do uma 
poesia fláccida e feminil. 

Deve ser espoatânea, desegual nas sua^s formas, 
e aquella é forçada, porque se mede e bate a com- 
passo. 

Deve arrebatar, e aquella opprime e prostra o espi- 
rito. 

Como I Pois aquelle pôde ser o selvagem brazileiro ? 
Aquella a sua linguagem ? Aquella a sua masculi- 
nidade ? Aquelks os seos fogosos sentimentos ? 

A Iracema foi localizada nos sertões do Ipú, ataquem 
Ibyapaba. Deixando, portanto, a savana, parece que 
tive de dar um salto mortal : n&o é assim, meo 
amigo ? 



XXV 71 

Pois nem por isso. A transição foi fácil, embora 
desnaturai. Os extremos tocam^se. 

A impressão, que experimentei, ao intrar no pampa, 
segundo os desenhos desvairados do »Sénio, foi a de 
quem penetrasse n'um cemitério. Lembro-me até que 
Sénio compara a savana com a vasta lápida. 

E sim. Surprende-se ahi a raça humana rebaixada á 
última degeneração animal — abysmada, desapparecida, 
morta. O pampa é uma neerópoli. 

Se, porém, das solidões do pampa retrahindo-nos um 
pouco vamos ter às solitárias florestas e planí- 
cies dos tabayáras^ o espectàcula muda, a impres- 
são é diversa, sim, mas congénita. As extensíssimas 
paragens que rios bordam e florestas delimitam, figu- 
rara leitos de um hospital immenso,sombrio e merencó 
riol Contempla-se alli sei.^ annos antes, ainda a raça do 
homem, victima de morbidez ede lonsuni] çSo 

Ora entre o hospital e o cemitério só ha um passo • 
« Bem poucos passos vào da vida d mo7*le i» diz o poe' 

ta. O que ha notável a fazer aqui, é dar esse passo.... 

para traz. 

E sim. Nas savanas austraes, homens e cavallo^ 
identificam-se, confundem-se, vasam-se uns nos outros» 
nas extensões do septentriao os homens, posto qu® 
selvagens, o que quer dizer — a personificação do arro- 
jo, da petulância, do ardimento da correnteza ou do 
TÓrtice — tresandam a effeminaçao e a moUeza e nao sao 
mais do que a negação completa da gentileza tradi- 
cional de Ararigboia ou de Jaguarary ! 

Resumamos: Da raça colossal do norte fez J. de Alen~ 

car um inferno; da raça esculptural do sul fez 

Sénio um... cadáver! O que resta — dize-me tu — d'essas 
immensas e originaes grandezas, d'eisas pomposas e 
estupendas herculeidades, nunca^ assaz exaltadas, do 
Brazil ? 

Desgraçado, misérrimo Brazil ! E é um filho, e um 
grande filho teo, quem d'est'ane te desfigura e rebaixa! 
Oh I dor I 

Sim. Tao intensa e verdadeira é a pena que me 
punge, ao meditar um pouco sobre estes estranhos ca- 
prichos da sorte, que a afflicçao me vence e cai-me a 
pennn da mao. 

Sempronio. 



72 IXV 

Sex.ta oai:*ta 

DE CINCINNATO A SEMPHCNíO. 

Rio, 8 dezembro 1871. 

Le monde marche^ n&o ha dúvida nenhuma ; cami- 
nha por uma estrada larga ; se é estrada real, ou de 
Pantana, os Paduanos dirão ; mas lá que elle marcha, 
isso é de fé. O andar é lei geral de toda a animalidade: 
até o caranguejo ( como qualquer Sénio, ou outro bi- 
pede mais ou meuo."^ conhecido ) anda. 

Ora eu te digo o que tenho, em parte lido, e em 
parte visto, demonstrativo de certa casta de progresso^ 
que progride a olhos visto. 

Da janella de uma casa, da rua do ouvidor, gesticu- 
lava um bemfeitor da humanidade ante uma turba 
boqui-aberta : 

« Meos senhores, concidadãos de pé fresco ! Vendo 
por uma tuta e meia um especiflco único, um bál- 
samo balsâmico, um elixir prodigioso, que opera ma- 
ravilhas, prodígios, milagres. E nao receeis a acçSo 
dos ingTedientes, illustres cidadãos! O meo elixir com- 
pOe-se de simples ; e em quanto eu aqui dispozér de 
simples, está a cousa navegada. Um boiao por 2 vinténs. 
A glória, a saúde, a felicidade, e tudo o mais por um 
cobrinho ! E' outro portento mais. Aqui está ; quem se 
chega ? 2 vinténs ; quem merca ? » 

A raça dos charlatães ó antiquíssima, que digof 
a sua prosápia trepa mais longe ainda que o homem e 
sua creaçSo. Eu não juro nada, mas eis-aqui o que 
affirmam, e vá por conta do narrador, também antigo, 
pois é do século XVII, que lá fica mais próximo da 
creaçBo. 

O primeiro doestes sympáthicos industriosos tomou 
posse da sua dignidade ( ou instaUou-se^ como dizem ) 
no Paraizo Terreal , e^Satanaz incarnou-se na forma de 
uma cobra. Dem^nstra-se esta incarnação com docu- 
mentos mais authênticos que innumeraveis perga- 
minhos qno por ahi andam, ou nEo andam... vamos 
a ver : 

Em todos os tempos e logares, as propriedades e con- 
dições doesta linhagem de charlatães palreiros, e pres- 
tidigitadores saltimbancos, r.ão, no exercício da sua 
arte, nada menos de cinco: 

1'. Mascarar-se. — Assim o fez o pae-avô da família 
quando se mudou em reptil. Seguem*lho as licçoes o» 



XXV 73 

modernos, quando, habilidosoa Protêos, se appreseutam, 
ora como reptis, ora como absolutistas, como conser- 
vadores, liberaes, republicanos, communistas, petrolei- 
ros, selon les besoins de la cause. E a final de contas, 
nao sfto nada d'isto, como Satan nao éra biçba, porque 
o que unicamente sao, ó especuladores talentosos, que 
a tudo quanto existe superpõem exclusivamente o 
poder pessoal das suas pessoinfuis. 

2*. Trepar-se acima de um banco para pregar, — As- 
sim o ínsinou mestre Satan, pois affirmam que a astuta 
serpe trepara por uma árvore, para conversar com Eva, 
e di2.er-lhe : « Comei esta maça, sem medo, porque 
logo se vos abrirão os olhos, e sereis como uns deuses, 
conhecendo o bem e o mal » Agora, ou na praça trepa- 
se no banco, ou no parlamento á tribuna, ou no iomal 
ao componedor, ou emfím a um telónio qualquer, 
d*onde se etnbace a humanidade. 

3*. Dizer e comptar mentiras. — E naquelle dia, Sa- 
tan segredou a Eva: Nequaquarn moritmini ! E foi por 
alli adeante, impingindo-íhe cada carapetao que te 
parto, e preparando a ampla estrada que hoje òs seos 
successores tao brilhantemente percorrem. 

4*. Negociar com a credulidade e simplidd^zde dos outros. 
— Assim obrou D. Satanaz, quando introu a seduzir 
aquelles papalvos, promettendo-lhes vida sem termo, 
eternidade de venturas, divinal scíencii, empregos 
rendasos sem trabalho nem complicação de cabeça, 
olhos enoriue.^, e o poder pessoal de um Deus. Tal e 
qual, comij os que preparam a república, pauacéa 
universal, que com oò me3ra(j>í ingredientes hade trans- 
formar tudo, isto é com só farinha e carvão hade fazer 
arroz doce; instituição que hade substituir por va- 
rões, sparciatas, çtemi-nuines, os actuaes ambiciosos, 
servis, miseráveis ou desordeiros. Levou-sea tal poncto 
esto mandamento, que até se imagina que o povo hade 
accreditar nas palavra^>de quem hoje defenae o ama- 
rello, como hontem propugnou pelo azul e pelo roxo, 
tí amanha bradará pelo encarnado e pelo preto. 

õ'. Vender elixires. — A nossa avó bem caro nos com- 
prou a maçã que lhe vendeu a avó lá d'elles. E* a 
maça da communa, da Internacional, da — liberdade, 
egtialdado ou morte, — da república, de que Sénio 
seria digníssimo Presidente, cercado de um conselho 
que eu cá scei, se nao fossem certas dúvidas, que scei 
aíndn melhor. 



74 XXV 

Leio que Roberto Houdin (mestre, árbitro infal- 
livel em matéria de charlatanismo] narra um caso 
curioso, cujo resumo é este : 

Passeava eu uma tarde, quando uma trombeta pró- 
xima me arrancou ás meditações. Corri, com muitos, 
e achámo-nos formando circulo à um distincto ar- 
tista. Era um latagao, olho vivo, atrigueirado, ca- 
beça que se interrava nos hombros, voz nasal, e can- 
galhas (ja se sabe nos olhos). Tive tempo de obser- 
val-o pausadamente, porque o subjeito, nao conside- 
rando o auditório assaz numeroso para merecer as 
honras da sua interpellação, poz o compadre a va^- 
concellar, e a estrugir-nos os ouvidos um quarto d'hora 
com a sua trombeta desafinada ; afinal o gruppo era jà 
satisfactório.O nobre artista circumvagou gravemente^ 
exhortando a recuar um pouquito, depois do que es- 
tacou, passou a mão pda guedelha, olhou para dentro 
dos óculus, recolheu-se em poética inspiração. Depois» 
com voz metállica e ingrata, exprimiu-se d'est*arte : 

c< Claro auditório meo ! Atteução ! Eu cá não sou 
o oue pareço. Direi mais: sou o que nao pareço {Hila- 
ridade), Sim, nobre auditório, sim senhor: vocemecês 
tomam-me por um d^esses pobres diabos, que por 
ahi vogam á tôa,e julgam que eu venho impUrar 
ásua generosidade alguns cartões de bonds. Illusao, 
venerandos cidadãos! hallucinaçao ! deliriol Se eu 
vim pôr-me hoje aqui, foi simplesmente para allívio da 
humanidade que padece, em geral, e para bem de vo- 
cemecês em particular, assim como para seo diverti- 
timento [Vozes: muito obrigado). 

Aqui o orador, que parecia de província do Nonc, 
pelo sotaque, passou segunda vez a mao pela gafo- 
rina, olhou á roda pelas cangalhas, metteu graciosa- 
mente o toutiço pelos hombros abaixo, dice uma pi- 
Ibéria á direita, outjH á esquerda, e continuou : 

« O que sou, vocemecês logo verão. Assim como os 
profundos pensadores, os altos metaphysicos, os go- 
vernantes sagazes, os jurisconsultos exhorbitantes e 
os estadistas abstrusos, nas horas roubadas a suas 
enormes meditações se occupam de de§infadar e re- 
crear a humanidade, assim, antes de habilita-los a 
appreciar-me em toda a minha grandeza, peço li- 
cença de lhes appresentar, para os distrair, uma reles 
mostra df ninha perícia. (Grande homem ! bradaram 
dons Beócios). 



XXV 75 

Regularizou o circulo, abriu uma mesa de X, poz 
nella 3 copos de lata que parecia prata, e começou 
^num chorrilho de habilidades pasmosas, tirando até 
com 03 dedos bolinhas do nariz de um joven especta- 
dor^que tanto tomou a cousa a sério,que se matou a as- 
soar-se para ficar certo de que nao flca^ram nos miolos 
mais bolinhas d'aquellas. Quando a assembléa estava 
emfím na melhor disposição, acabou o entr'acto, fe- 
chou a mesa, e fez signal de que ainda nao ficava por 
alli o Que tinha que dizer. Pousou ambas as patas so- 
bre a aita mesa, como se fosse a balaustrada de qual- 
quer tribuna parlamentar, e assim continuou : 

" Claro auaitóríol [EUe nao era todo claro, por- 
que tiuha muito preto, mas isso não faz ao caso] (Aqui 
agora, tomou elle uns modos de modéstia virginal, 
conhecida caçadora de não apoiadoSy destinada a produ- 
zir certos effeitos oratórios). Tive a dita de fazer 
que vossas senhorias prestassem benévola attenção 
aos meoa innocentes brinquedos. MuitOÃ graf:as\ (Incli- 
nou a cabeça até o chão). Ora almejo por mostrar- 
Ihes que nfto estão lidando com um ingrato ; vou 
pagar-lhes a sati facção que lhes devo. Dignem-se 
escutar-me um instante. 

(( Prometti eu a vossas senhorias dizer-llies quem 
sou, e vou desempenhar-i:.e. (Mudança súbita de pÂmo- 
gnomia^ à moda do TU ; sentimento de alta estimação 
de si mesmo). Os senhores têm ante si nada menos 
que o celebérrimo Dr. Carlosbach. Já assaz lhes 
indica a consonância du meo nome ser eu de origem 
angUhfrandsêo-germànicay privilegiada região, onde 
se vem ao mundo com uma coroa de louro sobre a 
fronte. Oh ! Fazer o meo elogio mais não seria que 
aer eu o intérprete do renome, com as suas cem 
bôccas de ouro e de azul. 

?> CoQtentar-me-hei com dize^lhes, apenas, que tenho 
am talento que vai até o infinito e dobra ainda, e que 
a minha incomensurável reputação não pôde ser 
egaalada senão pelo meo puaor. Coroado pelo oscol 
dos liiteratos, chefe inconcusso de tudo quanto ha, 
águia que não inxérgo reptis, capitão mór da íntelli- 
gencia em todas suas applicaçoes, inclino-me ante o 

1'uizo de todos os sábios (o Jucá Palreiro, o Quincas 
^atusco, o Manduca Urso, e a mais concomitante 
caterva) que proclamaram a universalidade dos meos 
conhecimentos e e infallibil idade de minhas sentenças 



78 XXV 

alturas, como em dia de eleijio, o official de sapateiro 
chucha excellencia ; o caso é então que tenha um voto, 
como agora que tenha no bolso uma pataca). 

'Nisto, lira da caixa o ex-doctor uma enorme ruma 
de folhetos, intitulados • CoUecção dos discursos profe- 
ridos em diversos logares^ no anno do taly pelo pseudo- 
nymo Carlosbach. Vai-os offerecendo, a um e um ; e 
graças á sympathia que o seo disciacto talento, pro- 
fundo saber, e largo character haviam inspirado, 
vendeu toda a futrica, e teve de fazer outra ediçSU). 

Finda a sessão, voltei para casa com a cabeça repleta 
de um mundo de sensacQes desconhecidas. Puz-me a 
parafusar no volume, mas o pseudo-doctor continuava 
'nelle o seo systema de mysti/lcação.e.^ov mais que me 
mBtasse, não pude chegara comprehender uma única 
das tretas e peloticas, de que o auctor dava a inex- 
plicável explicação. Da minha pataca só me consolou 
a interpellação que lhe ouvi, e ahi foi reproduzida. 

Esta arte divina vai entre nÓ3 tomando incremento 
espantoso, e é para admirar o ingenho sagacíssimo 
com que se estende a publicidade até os derradeiros 
coniSns da... da não sei quê 

Agora, a moda, meo a nigo, é inforcar uma toalha, 
ou uma verónica, de janeLla a janella fronteira 4^ 
ruas estreitas, e estampar nella o elixir que se vende 
na loja em baixo. Eis aqui alguns exemplos : 

'Numa rua, vê-se uma das taes verónicas, com uma 
cabeça de porco pintada, e por baixo, artisticamente 
disposta esta inscripção : « Hotel do porco de prata. 
Dá casa e cama barata. Aqui se faz óptima tripa ía- 
sopada, e vatapá de primeira qualidade. » 

'Noutra, pin'ado um rato defuncto, e uma barata 
exânime, e por baix8 : «Guerra áa sevandijas ! Aqui 
se matam ratos, mosquitos, pulgas, persevVjos, bara- 
tas, e outros anicetos mais ; a 400 rs. o frasco ! 

Mas as que me deram mais no goto, são as veró- 
nicas estendidas,^ do primeiro andar do lomal Á Repún 
blica á casa da sapataria defronte. Uma d^ellas nuo é to- 
alha, é lençol: lettras góthicas e garrafaea; disposiçfto 
apparatosa, a que só falta um realejo; e a redacção^ 
se me ficou bem na memória, é, pouco mais ou menos, 
a seguinte: 



XXV 77 

quem toma o meo b&lsamo, fica embalsamado por 
antecipação ; o homem toma-se immortal. Ah, senho- 
res, se bem conhecessem todas as virtudes do meo su- 
blime elixir, precipítar-se-hiam todos sobre mim, para 
m'o arrancarem, atirando-me punhados de ouro ; nao 
seria distribuição, seria saque, seria... 

Parou um instante, para limpar a testa com uma 
mfto, em quanto com a outra, indicava aos ouvintes^ 
aue ia falar mais. A turba-mulcta queria chegar-se ao 
doctor ; Carlosbach fingia nao notar, e tornando á 
attitude dramática, proseguiu : 

« Porém, dirão os senhores, que preço poderá ser 
o de thesouro similhante "^ Temos nós riqueza para 
tanto ? Pois bem I Vao ver a extensão do meo desin- 
teresse. Este bálsamo, para cuja confecção tenho sec- 
cado a minha vida, este bálsamo que soberanos com- 
prariam pelos seos sceptros, este bálsamo impagá- 
vel dou-vx)ro! ! ! 

A multidão, anciosa, fremente, parece ficar embasba- 
cada : mas para logo^ como se todos estivessem sob a 
impressão de um fluido eléctrico, todos estendem súp- 

Slices braços, invocando a generosidade do doctor. 
[as... ó surpresa! é decepção I Carlosbach o cele- 
bérrimo, Carlosbach o bemfeitor da humanidade, larga 
súbito o papel de çharlatfto, e desata a rir homerica- 
mente. Como em mudança á vista, tran%forma-se a 
aoena, caem a um tempo todos os braços ; olham uos 
. para os outros, interrogam-se, murmuram, depois vol- 
tem a si, 6 sem demora propagasse o contágio do riso, 
€' era um choro geral de gargalhadas estrepitosas. 
O primeiro que pára é o saltimbanco ; pede silencio e 
iiz: 

« Senhores meos (diz elle então com o tom mais 
natural do mundo], n&o me queiram mal por esta brin- 
cadeira:o que tive em vista com#sta comédia foi preca- 
vél-<os contra os çharlat&es que ahi os andam a embaír 
todas os dias, exactamente como agora o fiz. Nao sou 
doctor, mas um simples... um simples artista presti- 
diçitaiório, lente de mystificaçoes, e auctor de uma 
ocuiecçfto de discursos, como este com que ora os brin- 
da, e por entre os quaes vossas excellencias incontra- 
xfto g:mnde número de receitas de empalmaç&o. Que- 
rem vossas excellencias conhecer a arte de se diverti- 
ftm t Por uma pataquinha podem vossas aUeza.s 
satisfazer-se ».(Se dura mais, ia até majestade: 'uestaí^ 



80 XXV 

Continuando 'neste systema, vê-se diariamente na 
4". pagina da folha, um parallelogramma, rodeado de 
uma tarja, com isto : 




I 



ENIGMA PITTORESCO 



f 





DECIFRA-SB na RDA DO OUVIDOR N. 132 

m 



Uns teimam que aquillo é uma sobrancelha ou ujd9 
sanguesuga mal feita ; mas a quem vai ao balc&o da 
República, dizem que é um TU mais mal feito ainda, 
mas que assignem para o correligionário, que é o que 
se quer. 

Poderia dar-te muitas noticias d'este jaez, mas ja fiii 
mais longe do que talvez devesse. Deixemos por tanto* 
os accessórios,e passemos ao estudo do tal Ti/, título que 
ainda nSo farejo a que propósito venha, e que me pa-- 
rece como qualquer dns aiicantinus do Dr. Carlosbach. 

Por hoje basta ; até cedo. 

Teo respeitoso amigo 

ClNCINNATO. 



Tjp. e lith.— Imparcial— Bua Sete de Fetcrobro n. 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 



]sr. 26 



RIO DE JANEraO, 15 DE DEZEMBRO DE 1871. 



Vende-se «m casa dos Srs E. & H.Laemmert. — Agostinho de Freitas Gui- 
marães & Comp., 26, rua do General Gamara. — Livraria Académica, 
Bua de S. José n. 119— Largo do Paço n. C.— Preço 200 reis 



Segunda caz*ta. 

DE MUCIO SCCEVOLA A QUINTO CINCINNATO 

Honrado cidadão romano. Como discursámos das 
cousas que são, nao devemos esquecer as cousas 
que foram, e que nos serão sempre guias e pharol 
no meio doeste oceano revolto em que navegam os 
ntopistas e sonhadores de repúblicas platónicas, de 
visualidades aéreas e os íncolas do mundo da lua, 
que^ com toda a certeza, nao eram filhos de Adão. 
E% e foi sempre axioma de boa nota o seguinte : 
onde todos mandam^ ninguém manda. O chefe da fa- 
mília é sempre o supremo regulador da ordem e 
da direcção da casa. Ha uma perturbação no teor 
d*aquelle viver doméstico ; ha excessos ou afrouxa- 
mentos nas rédeas da vida íntima ; o que deve 
&zer o fâmulo mais ajuizado e mais sério da casa? 
é sem dúvida communicar ao chefe da família o 

?[ue por alli vai de desarrazoado e mal cabido, e 
ázel-o com cortezia e respeito, que tudo isto se 
deve ao superior, para que venha elle com seo 
provimento impor os preceitos ^ue acabem com os 
transvies ; e mais deve elle premiar os bons para 
metter brios a quem valha esse incentivo e cas- 
tigar os ruins para pôr exemplos aos mal inten- 
cionados e turbulentos relapsos, que têm por ins- 
tincto a revolta e por sestro a prática de actos sub- 
versivos, sem outra razão de ser j^não o gosto sa- 
tânico da perturbação e da desordem. Ora, que se 
insubordinem e revoltem a mulher, os filhos e os do- 
mésticos contra o chefe da família ; que gritem 



82 XXVi 

todos e ralhem ao mesmo tempo ; que cada um se 
governe a seo modo ; que a mulher proclame a sua 
emancipação e nao queira subjeitar-se à tutella do 
marido e venha propugnar por sua elegibilidade e 
direitos à deputação e á senatória; que os rapazes 
nao reconheçam mais o jus paterno de um velhusco 
que, eivado de doctrinas obsoletas, crê ainda em 
Deus e no rei ; e que os domésticos proclamem a 
egualdade e fraternidade, e que quando tenham de 
ir à fonte buscar o cântaro d'água vao para a ta- 
berna e da taberna para a praça pública, vestida 
a camisa vermelha do heroe de Caprera^ apregoar 
os direitos do homem segundo o Emilio e o con- 
tracto sscial de João Jacques.... o que fora por fim 
de contas toda esta balbúrdia? uma verdadeira casa 
de orates, senão um detestável foco de immorali- 
dades, um núcleo de máos exemplos, e um protesto 
vivo contra o senso commum d'aquella gente e mais 
contra a energia e o juizo recto do oheft* que nao 

fióde ou nao sabe pôr cobro em desmandos e trope- 
ias de similhante jaez. 

Eu quero mil vezes, meo caro Cincinnato, aquelle 
velho rei Codro, que se foi metter entre o inimigo e 
se deixou matar e morrer porque o Oráculo lhe ha- 
via assegurado que da sua morte viria a salvação 
de seo povo ; nao quero os trinta patriotas e po- 
pulares de Athenas, conhecidos ainda hoje, e isto 
ha jà sua meia dúzia de annos, pelos trinta tyran- 
nos, posto que eram alli por imposição estranha ; 
todavia entre aquelles célebres democratas muitos 
eram athenienses e naturalmente patriotas. Nao 
quero Pisístratos, pescadores d'aguas turvas, que, 
para subirem com estado maior vistoso e luziaio, 
que lhes dê lustre e bizarria aos sentimentos de- 
mocráticos, em cujo nome ascendem á suprema al- 
tura, tenham o máS gosto de se arranharem e es- 
murrarem as ventas para obter a canonização de 
mártyres da pátria, quando a pobre pátria é que 
é mártyr d'elles. Quero Numa Pompilio, Antonino, 
Trajano e Vespasiano . Nao falem em tribunos, em 
decêmviros, et réliqua^ súcia de libertinos e ambi- 
ciosos turbulentos, porque decididamente nao os 
quero, e nem os tolero, assim como aos Mários e 
Syllas, que, exaltados da obscuridade pelo pobre 
povo, que a final é quem paga as favas, foram-no 



XXVI 83 

lavando em rios de sangue e arrancando-lhe liber- 
dades, direitos e tudo quanto os pães dapátriavao 
dizendo ao povo que elle tem, e possue, e delega, 
e retoma quando lhe apraz. 

Meo caro Cincinnato,esta raça de cônsules, de tribu- 
nos, de triúm vires e de decêmvirob, v.òtá toda ella sub- 
jeita á lei da metempsycose de Pythágoras ; faz sua 
incessante transmigração, e depois de animar e vivi- 
ficar Marat, Collot d^Herbois, Danton,Billaud Varen- 
ne, Rob'»3pierre e tantos outros, que se lembravam 
de haver em tempos anteriores incarnado nos seos 
ante es^^res Cartucho e Mandrin, veiu fazer sua hy- 
póstasis nas figuras ridículas ou hideondas deMazzini, 
e de tant )S outros patriotas de blusa e camisa ver- 
melha, H a fin-rvl veiu animar os salteadores regicidas, 
e tev»* u desfaçumento de vir á luz do dia era pleno 
século |j',r em campo e dar vida aos patriotas republi- 
canos .'.»"irnunistas, ás associações internacíonaes, 
aos r<n grossos da paz, aos phalanstérios, ao sansimo- 
niaí:í-]!i ,f^ n quantas extravagâncias podem nascerdes 
cérel» > '.>t» 'vertidos dos apóstolos do incêndio, da 
devji>? i'^o e da libertinagem, do sacrilégio e dasub- 
ver>r.' '■*. indo quanto os homens de bem acatam e 
ver' r : 

is i i^^-iinnla do esquadrio lazarento de toda esta 
díinr I I' abra vem arvorado o lábaro da peste e da 
devi • ), com estas três palavras escriptas em 
chat •-: dr^ sangne : Liberdade, eguatdade e frater- 

júdiK' '^Liio horror, arripiara-se-me as carnes e o 
cal"' I ír.ndo vejo estas três palavras fatídicas e 
hy;»'. ', •. ^criptas em qualquer tabolêta de fábrica 
de ' V i\^-. ; lembra-me a lenda do festim de Bal- 

thi/ I |)'*'fíuiaç?lo dos vasos sagrados, as Ires pala- 
vras . \ ^. :'io^as dociphradas por Daniel na n''«it^ mal- 
dict.» • . •>i'^;''légio e da orgia, a deftruiçâo e a q leda 
de H ' f) M^-ia íj o castigo exemplar dos j^rofanadores 
íra[)i'. ' .-íí.íTÍlegos, como s(lo os de hoje. Estes taes e 
quej.í \'[jj jjuriotas do archote e do cuiello, que vSlo 
puii II ♦'. !o jy)r toda parte como cogumelos no ester- 
quilÍM'" ?' n dias de chuva, .começaram sempre por 
uma •.** :ií\i que importa nao esquecer : principia- 
ram D i.f juo.agauda satânica por lisonjear os reis ca- 
th»')litvi , i:iduzindo-os a crer na usurpaçfto, que lhes 
fazia a Srv;.:ia Sé, de seos direitos e prerogativas ; in- 
dispuTih im o rei contra o clero e o clero contra o rei ; 



84 XXVI 

prepararam a reacção das prímazias do padroado contra 
bulias e decretaes pontifícias ; e quando viram que a 
reacç&o tomava caminho e que o fim estava preinchido, 
acabaram por sulapar os alicerces do throno, depois 
de haverem àiffamado as prerogativas, e a sanctidade 
do altar. 

Esta táctica diabólica é sempre a lenda dos revolu- 
cionários. Robespierre, depois de matar os padres, 
profanar os templos, fazer de uma mulher das ruas a 
Deusa Razão, fez reconhecer por um decreto a exis- 
tência do Ente Supremo I ! ! 

Garibaldi é proposto para Novo Christo, no con- 
gresso da paz ; os revolucionários da Itália pOem em 
assédio o sancto padre, tomam Roma á Christandade 
Cathólica, reduzem a supremacia do Papa a um titulo 
vao, porque querem que elle dê preito e homenagem, 
e que se despoje do poder temporal, a beneficio de 
inventário, na partilha a que se está procedendo, e 
querem pôr veto ás decisões de um concílio. Isto tudo 
fez-se e continua a fazer-se com uma impudência que 
enoja. 

Para subverter-se a ordem social, é necessário trans- 
tornar a ordem das idéas e desembaraçar o espirito 
dos vínculos que o ligam a Deus, desprende ndo-o do 
acatamento, do amor e do temor que se lhe deve; é 
necessário nSo crer na religião revelada e na auctori- 
dade da Egreja ; e no encalço de tudo isto vem a ne- 
cessidade de desacatar o Papa e menoscabar os mi- 
nistros do altar, como corollário obrigado. Em uma 
{)alavra, para se causar tao grande número de mã- 
es, cumpre que se atrophie a consciência, porque o 
remorso seria um juiz severo e implacável, e para 
revolucionários e turbulentos de officio, nao ha re- 
morsos. 

Como se chegada obter este satânico desideratum? 
Pelo atheismo e pela materialidade ; por este bom ca- 
minho çhega-se com segurança a regenerador da so- 
ciedade, a modo dos iconoclastas, demolidores e mem- 
bros da communa. Da têmpera d'estes energúmeno» 
eram os Cartuchos, os Lacenaires e os Tropmanns ; 
todos estes heroes do crime pertenciam á grei dos e:*- 
píritos fortes que se desprendem das peias que os 
jungem ao carro do dever, da honra e da veneração 
ao que é sancto, e do respeito ao que é nobre e digno, O 
homem que tem o verdadeiro sentimento religioso 



XXVI ^ 85 

bem arraigado no fundo do coração, tem a consciên- 
cia muito prompta em accusal-o de qualquer acto 
menos lícito que pratique. Quem se accusa e arrepen* 
de de qualquer acç&o que julga menos recta, n&o pôde 
commetter crimes, nao pôde ser revolucionário ; por 
tanto não é chefe de caudilhos, nem capitão môr de 
iasurgentes e desordeiros. To las as tropelias de que 
a sociedade tem sido víctima, todas as depredares 
que tem soffrido a propriedade, todo o sangue que a 
humanidade tem derramado, todos os ultrages e sa- 
crilégios que tem a religião supportado, teem tido por 
mote, em sua bandeira de destruição e de ruínas, estas 
palavras fatídicas do diccionàrio da devastação e da 
morte: Liberdade, Egualdade^ Fraternidade. E' com 
estas três palavras, infeitadas por fora e vazias por 
dentro, que se vai embalado a credulidade dos incau- 
tos, que não vêem nem sabem que estes três vocá- 
bulos sonoros são, no sentido em que os applicam os 
pseudo-regeneradores, a antíthese completa da essên- 
cia e natureza da pobre humanidade, que Deus creou 
assim como ella é, foi e hade ser. Liberdade^ gosam-n'a 
todos e d'ella muito grande somma gosa quem a sabe 
gosar. Egualdade; isso là, não ; é egual quem o é; 
quem não vê qutí o idiota, o ímpio, o revolucionário, 
não podem ser egunes ao sábio, ao homem orthodoxo 
e ao cidadão pacífico e sustentador da ordem, da lei e 
da moral pública e privada ? Frateniidade, vá feito ; 
mas em que consiste ella ? em não fazer a outrem o 
que não queres que te façam a ti. Respeitae a honra 
alheia ; não diffameis o próximo ; soccorrei os desva- 
lidos ; curae os infêrmos ; levae consolações e auxilies 
aos »ffiictos ; em uma palavra, cumpri as obras de 
miãencórdia, e só então tereis direito pleno de pro- 
ferir cora significação completa a palavra — frater- 
nidade — . • 

Não scei, meo caro Cincinnato, onde me levariam 
estas reflexões, se eu fosse abrindo campo ao que me 
vai suggerindo a idea do que vi e li em tempos que já 
lá vão muito longe, porque hoje nada leio, senão os 
joraaes do vizinho da encosta. 

Estes trabalhos da roça, não me deixam lazeres. 
Este s€)rviço com escravos é a cousa mais estúpida que 
a egualdads dos homens podia crear para atormentar- 
nos a nós, que somos seos eguaes e seos irmãos; porém 
estes nossos irmãos da costa de Guiné não nos com- 



86 XXVI 

prebendem; nao trabalham como mácbinas, que é o 
que nós queremos ; comem, dormem e adoecem ; e 
ainda em cima de todas estas cousas ruins que elles 
fazem, o que é ainda peor, meo amigo, é que se fazem 
6ÓCÍ0S comigo nos lucros da Fazenda, sendo eu o com- 
manditário, de sorte que uma boa parle da safra vai 
sendo passada para a tasca vizinha de um Ambrósio, 
que pelos modos pertence á seita dos communistas 
e phalansterianos. 

E' necessário de uma vez acabarmos cora esta civi- 
lização do azorrague. Bem haja a lei de 28 de sep- 
tembro, que arrancou de uma e de muitas gerações o 
anáthema que a segregava da communhao geral no 
gôso de direitos e de pre rogativas sociaes. 

Meo bom e illustre Cincinnato, tenho 'nestes últimos 
tempos visto em algumas gazetinhas ahi da corte, de 
que é assignante o meo vizinho do rumo, de quem jà 
vos falei na minha anterior, uma cousa que me tem 
feito espécie e me tem dado que seis mar. Todas estas 
dietas e referidas gazetinhas sao ou devem ser jornaes 
cathólicos e escriptos por cathólicos, segundo cremos ; 
pois, meo amigo, todos elles entiiusiasmam-se, extasi- 
am-se e glorificam-se deante das doctrinas salvadoras 
áoá dous mentecaj .os, Martinho Luthero e João (' .1- 
vino,e sobre tudo preconizam, nrbi et orbi,a concepção 
hybrida de cohabitaçao sacrílega das duas .^eitas que 
deram o aborto infiesado, rachítico e monstruoso a que 
puzeram o nome de egreja evangélica ! Annun- 
ciam elles todos os dias a hora, o dia e o logar em que 
se celebraram, celebram ouhaode celebrar : sessOes da 
egreja evangélica presbyteriana, explicações de cathe- 
cismo, exercício de doctrina, culto, prégaçflo de evan- 
gelho, leitura, themas de epístolas de S. Paulo, e que 
scei eu ? E' tudo ijto um armarinho de drogar^ vene- 
nosas, que exhalam cheiro mystico de apostasia, senão 
de parvoíce selvagem. 

Que se tolerem as seitas heterodoxas, como o per" 
mitte a lei fundamental, vá. Que vão ouvir ecrei* 
n'essas cousas, os que tiver.im a infelicidade de nas- 
cer fora do grémio da egreja cathólica, isso compre- 
hende-se, parque em summa o cego anda às cabeçadas, 
porque íi4o pôde ver. Porem que se façam, aberta, os- 
tensiva e acintosamente, propagandas e cathecheses, e 
que sejam cathólicos os propagandistas e cathechi -^tas» 



XXVI 87 

isto é o que s*3 nuo pôde tolerar e causaria compaixão, 
se PEo produzisse indignação e asco. 

Deante d'est;us extravaii^ancias do espirito humano, 
o homem nSo sabe se seja Heraclito ou Demócrito. Eu 
nao posso saber a que vem estes desconchavos e con- 
traposições de crenças ; nSo corapreliendo este renegar 
da fé de seos pães em que pôde servir ; não alcanço 
como estes sacrilégios e apostasi as podem aproveitar 
como matéria de opposição ao governo; o certo é que 
elles lá o sabem, se é que o sabe:n ; o que também é 
certo, é que se manifestam por toda a parte os grita- 
dores de liberdade e os patriotas do petróleo como pro- 
fanadores do altar e demolidores de todas as institui- 
ções que nos dãu paz e ordem. 

Meo caro Cincinnato, ponho por hoje remate ás re- 
flexões que por ahi ficam atiradas a esmo. Não posso 
ser operário diligente d'esta boa cruzada de ordem, por 
que a nossa vida atarefada de homem da roça, nfo dá 
para sobejidões e largas no dizer. No emtanto peço 
fervorosamente aos sanctos da rainha devoção que vão 
inspirando e dando alento aos homens de bons ins- 
tinctos para que sejam atalaias vigilantes, e bradem 
muito alto contra a desorganisação, que lavra como a 
peste, pervertendo i)elo contágio tanias intelligencias 
que se transviam, por desacauteladas, que, não sendo 
bem incaminhadas em tempo, se exti aviam pelos la- 
byrinthos e ficam irremediavelmente perdidas. Até 
outra vez. 

O vosso ex-corde 

MUCIO SCOBVOLA. 



Decima carta de feSeinpronio a Oinclnnato. 

OBiíArf DE J. DE ALENCA|l.— A IRACEMA 

II 

Meo respeitável amigo ; 

Volto ainda á faina com o ânimo contristado. Como, 
porém, o caso é de consciência, tudo sotoponho, e vou 
para deante. 

Dice-te na minha preced^?nte (se bem me lembro) que 
na Iracema^ o absurdo, o paradoxo, quer de substancia 
quer de forma, não fere logo a vista, como no Go 'içho. 
Ter-me-hia acaso in<i*anado ? 



88 XXVI 

Affigura-se-me que o auctor nao passava ainda 
então por cima de certas decencias iitterárias. Guar^ 
dava 05 apparencia^. Como que lhe fazia peso uma 
cousa que se chama — opinião^ que elle se interessara 
antes em attrahir para apoio seo, do que diligenciara 
concitar em seo desfavor. 

E' que a sua reputação não estava consolidada. 
Aquelle nome ainda não era utn prestígio, um oráculo, 
como hoje. Os créditos, que .se accentuavam, podiam ser 
varridos e apagrados pelo sopro de qualquer accommet- 
tiraento feliz. Nao existia o forte partido, que mais tarde 
apavorasse e tornasse in limine impossível a manifea- 
tação de toda critica^ por mais espontânea e consciente 
de sua serventia que fosse. Por isso refreava o auctor^ 
como podia, as petulâncias da insolente phantasia. 

Tenha, porém, o leitor da Iracema olhares desinte- 
ressados e perscrutadores, e attente. para estas floreB 
mágicaíí ; ha de perceber o fervilhar do verme, amia- 
çando corroer-lhes a juvenil corolla. 

A planta está em plena primavera, e no seo matiz se 
adivinham pegadas de antecipado outomno. Mais tarde 
nos primeiros fructos, conhece-se que já trabalham es- 
tragos de corrupção. Aquella deslumbrante florescên- 
cia, aquelles fúlgidos pomos aílo passam de productos 
de uma vegetação, cuja seiva, uma vez em contacto 
com os gazes deletérios da trêfega phantasia, principia 
a contaminar-se. 

O escriptor propende para a aberração ; a enormidade 
o tenta. Queres a prova ? Eil-o mais logo a offerecer-nos 
na donzella do salão selecto a creaçao brutesca da 
amante que esbofeteia o objecto das suas affeiçOes, ea 
quem só verdadeiramente ama depois que se sente por 
elle ^injuriada e aviltada, depois que d'elle apanha, 
como se fora vil escfava — é a Diva ; ou então um pé 
nojento, abominável, immund'», servindo de protogo- 
nista da obra, causando horror e asco ao pio leiíor, e 
que dirias uma baixa miniatura excogitada do Quasi* 
modo — é a Pala da gazella ; ou eniao o hippoceatauro 
chato, informe, indecoroso, repulsivo, como typo de cos- 
tumes brazilios — e temos finalmente o Gancho. 

Eis-nos na actualidade. O escriptor tem chegado á 
phase mais coruscante e mais elevada do seo império de 
vaidade e de aberração ; isto é, tem }>ttingido o período 
decisivo da mais manifesta decadência. 



XXVI 89 

E' o patriarcha da litteratura brazileira, um génio 
talvez, porque crea a torto e a direito, seja o que for, nao 
importa o quê ; crea visões ; crea disformidades ; crea 
uma linguagem nova;. crea vocábulos já creados, velhos, 
incanecidos! Quando eu leio que no século XVII a pri- 
meira condição do candidato a génio consistia em que- 
brar copos na taberna do dd)oche ; que no século XVI o 
homem de génio esgrimia maravilhosamente, embriaga- 
va-se todos os dias, e sujava de ti neta e de vinho as pá- 
gÍTias do seo Píndaro ; quando leio que Montaigne, Cal- 
deron, calmo e sereno, prazenteiro e modesto, Cervantes 
ingénuo, e natural Shakespeare, que nao o era menos, 
náo realisava, nenhum d'elles, o typo do génio, e a 
utodos se fechavam ultrajantemente as portas da glória» 
comprehendo entào que se possa no século XÍX ser tido 
como tal, por pintar se a natureza inanimada com a 
feição da imbecilidade ou da loucura ; por f»zer-se de 
grandiosas e gigantéas raças vis caricaturas ou repu- 
gnantes monstros ; por converter-se a língua mais opu- 
lenta n'uraa saccola de pedinte I 

Estamos em pleno império dos Marc Lasphyse, dos 
Dubartas, dos Jodelle «triste innovador, adorado do seo 
tempo, )» Com este Jodelle, innovador e adorado do seo 
tempo^ bem se vai parecendo J. de Alencar. 

Hoje em dia entre nós, o candidato a génio deve fazer 
versos escabrosos e horripilantes, comédias hybridas, 
discursos túmidos, anasarcos, romances loucos. O que 
se exige de mais peso, é certo apparente arranjo na es- 
tructura para illudir os incautos, e poder, impune e 
libérrima, cabecear á vontade a idéa mais paradoxal. 
Os romances, repassados do sabor local, adubados do 
mais fino sal áttico, sensatos, naturaes, moralisadores, 
que sao uma fiel photcgraptíia da nossa sociedade, esses 
com qne cada dia nos dota a penna habilíssima de Ma- 
cedo, nao silo da iguaria, que mfis gratifica o paladar. 
h o Brazil tem um patriarcha e uma litteratura ! O que 
o Brazil infelizmente tem é um baixo império nas lettras. 
Isto sim. 

Admíra-se, exalta-se a imaginação de J. de Alencar. 
Admirável é, nao ha dúvida ; agora exaltavel, isso é 
que nao. 

Deve-se festejar e applaudir a imaginação que re- 
produz com incautos novos e novas vivacidados os 
gruppos, os accidentes, as attitudes, os recursos da 
natureza ; que faz esses grupos interessantes, esses 



90 XXVI 

accidentes pittorescos, essas altitudes graciosas, es.sas 
seenas animadas e felizes. Isto é imaginar, no uso 
rigoroso e didáctico da expressão. D'ahi vem que, 
quanto mais se appropria o escriptor dos matizes va- 
riados da creaçâo, ou das sensações e phenómenos da 
vida, e tanto mais fielmente os retrata ou reproduz, 
impregnados do cunho da sua pessoal idealisaçfto, tanto 
mais se diz ser elle original^ tanto mais génio. 

<( Ab'. sa-^se da elasticidade de linguagem, quando 
se ousa fallar de intelligencias creadoras. Em defini- 
tiva nao ha creaçao ; reproduzir, imitar, eis quanto 
nos cabe. Se Homero, Cervantes, Ariosto, Byron ti- 
vessem vivido incerrados 'num ergástulo, o-que teriam 
podido imaginar ? Que creaçao teriam dado ao mun- 
do ? » Logo, a natureza em primeiro logar, e depois 
complexa e completa observação — eis os dous ele- 
mentos, as duas possantes azas do génio. 

E' consequente com estes princípios que o escriptor 
define a memória na esphera da esihética >? — thesouro 
de lembranças, cuja indigeueia conslitue o que se 
chama o idiotismo^ cuja confusão dá em resultado a er- 
travagancia, cuja riqueza e plenitude constituem o gé- 
nior) 

Nao sou relógio de rep.tiçao, como dizes tu ; mas 
nunca é ocioso adduzir certas considerações ade- 
quadas ao assumpto. Perdoa, pois, a ditFusão. 

Paulo e Virgínia é um monumento na litteratura, 
justamente porque o theatro descripto, e amor so- 
nhado, a ingenuidade, a pureza, o devotamento dos 
typos estão na própria natureza, dentro das suas am- 
plíssimas raias e múltiplas possibilidades. 

Atala é um primor, justamente porqutí os senti- 
mentos, os suavíssimos intrechos, a paixão plácida e 
morna, as manhas e as tardes bravias e bellíssimas, a 
expressão particulartlos characteres, a feição geral dO . 
conjuncto, tudo é condigno e próprio do mundo e das 
circumstancias do assumpto, que laz o poema. 

O Guarany, de J. de Alencar, agrada algum lant^e 
interessa ao leitor, justamente porque as descripções 
parecem brazileiras. A natureza alli nao pecca por 
tao demasiado artificial, como no Gaúcho* O leitor ;.çha 
no índio modos, brio,impertérrito valor, sagacidades ^* 
recursos vários, dedicação sem limites, que nao des 
toam de uma raça, que as florestas embalaram no seo 
berço libérrimo de trepadeiras e de folhagens, que c^ 



XXVI 91 

calores do equinóccio retingíram, e a cuja têmpera os 
riscos das vicissitudes, as emboscadas d) inimigo ou 
da fera, as conspirações da natureza deram a tensão 
mais apurada e ampla. 

Pery parece-se com o índio do Brazil. Ressum- 
bram do seo todo, que é o poncto commum entre 
duas nacionalidades, da mesma sorte que na Evaji- 
gelina de Longfellow, energia bárbara e affectos, 
digamo-lo assim, cultos, que incantam. Selvagem, 
realisa o prodígio ; adventício de uma sociedade 
civilisada, pratica virtudes limadas. 

Nesse tempo o demónio da vaidade nao tentara 
ainda J. de Alencar. Elle nao pretendia então , 
(pelo que parece) conquistar nomeada stnSo como 
escriptor de cunho nacional, e nao a de génio crea- 
dor, no sentido em que alguns hoje o consideram 
e que é lícito ajuizar pelas suas últimas obras. Ti- 
nha, seguramente, por muito honroso e acertado 
voltar-se para o e.spectáculo grandioso da natureza, 
6 pedir-lhe alguns traçns de seos painéis de eterna 
poesia, alguns ligeiros matizes da sua pompi)sa e 
perenne efflorescencia. 

Eis que uma nuvem de desgraça empana esse 
nome e a face resplandecente da litterdtura natal, 
que espargira tao auspici sos brilhos. O escriptor, 
longe de cultivar a mina, que a natureza tornara 
capaz de inriquecer um mundo, longe ('e exerci- 
tar-se e aprimorar-se no género, de.-ípreza-o, talvez 
por sediço e commum ! 

Franklin, Washington, Jeíferson, Governador Mor- 
ris, Quincy-Adams, tem medo da imaginação .* dom 
magnifico e perigoso •? ^ Em face das verdes sa 
vanas, das florestas virgens, dos lagos que sâo 
mares, dos rios cujas margens escapam à vista, as 
m&sculas virtudes dos heroes ]^uritanos ingrande- 
ceram, e sua imaginação permaneceu muda. ^ J. 
de Alencar, porém, espírito então ainda novo, ainda 
nao feito, e quiçá inexperiente, dá costas á mansão 
virgem, que nada pôde egualar na sua majestade 
e pompa, e deixa-se arrastar para o poncto procel- 
loso — indício certo de próximo e cabal naufrágio 
— com que lhe acena o clarão carregado da túr- 
bida phantasia. Sua primavera foi fugaz. O Gua- 
rany uSo tem irmão. As faculdades creador-s estão 
embotadas e corrompidas; José de Alencar esiá Sénío, 



92 XXVI 

Quando correu que elle tinha em mãos uma obra 
destinada a dar o padrão da poesia verdadeiramente 
brazileira^ os leitores, que o haviam appreciado no 
Guarany, tiveram de sentir grata commoçao. 

Pareceu-lhes que o typo nao estaria muito longe; 
só, sim, despojado, estreme de toda mescla de ele- 
mento estrangeiro, a cousa realisaria o puro ideal 
da poesia nativa. A decepção foi tão esmagadora, 
quando appareceu a obra, como lisonjeira tinha 
sido a espectativa alimentada uurante a despera- 
dora gestação. 

Se por litteratura nacional se deve intender aquel- 
la em que « se reflecte o character de um povo, que 
dá vida ás suas tradições e crenças, a harpa fre- 
mente em cujas cliordas geme, como um sopro, a 
alma de uma nação, com todas as dores e júbilos, 
que, atravez dos séculos, a foram retemperando » ; 
se (( cada povo tem suas paixões como cada indi- 
viduo, e essas paixões constituem a alma de cada 
poesia?»: parece de bom aviso, que o candidato a 
realisador do typo da litteratura propriamente bra-- 
zileiray quando já nao era possivel estudar no vivo 
as paixões de uma raça quasi desapparecida, ou» 
pelo menos, decaída da sua primitiva grandeza, 
se voltasse para a história e para o estudo dos mes- 
tres, feito sobre o índio colonial, e d'ahi apanhasse 
a expressão complexa e fiel d'este, seos costumes, 
suas inclinações, sua poesia emfim. 

Já havia alguns modelos realisados aobre o the- 
ma indígena. Sancta Rita Durão, Basílio da Ga- 
ma, Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães ti- 
nham quasi todos batido nas mesmas sendas. N&o, 
nao podiam haver tomado a nuvem por Juno esses 
illustres ingenhos, alguns dos quaes tiveram occa- 
sirio de estudar o ftidio em original. Podiam falhar 
ou desvairar-se os pormenores, nunca porém a es- 
sencÍM, de modo que devesse ser condemnada a ve* 
lha escoUi como apócripha. 

I)ir-se-hia, pois, com justo fundamento que a eschola 
estava inaugurada, a incógnita descoberta, resolvido 
o problema. Fora lícito accreditar aue nao restava 
neste poncto,a quem ambicionasse colner novos lauréis 
para si, e proporcionar novo realce á pátria, mais do 
que alargar esses caminhos, afastar o mais possivel 
esses horizontes, para que surgisse na máxima pleni* 



XXVI 93 

tude a perenne mansão de incantos. Nao é o que faz 
J. de Alencar. 

Principia, contrapondo-se aos mais auctorisados mes- 
tres. Sem nunca haver tido occasiao de estudar efi- 
cazmente o elemento de que se presume conhecedor, 
nutre a vaidade de suppôr que achou o character d'este 
na sua mesa de estudo e sem dúvida mediante os 
subsídios, devidos aos mesmos escriptores, contra os 
quaes rompe. 

« O conhecimento da língua indígena é o melhor 
critério para a nacionalidade da litteratura, » diz-nos 
elle na sua carta final. Ora, como ha de conhecer 
essa língua quem nao penetrou nas tribus, quem nao 
se achou em contacto com o povo, quem a nao estudou 
nos tempos primevos, porque era impossível fazel-o, 
nem mesmo nos tempos actuaes em que jâ o verdadeiro 
character indígena decahiu e se corrompeu ? Ha de 
forçosamente estudal-a nas obras e diccionários que nos 
deixaram os nossos predecessores. Pois bem : elle 
acha que « de quantas producçOes se publicaram 
sobre o thema indígena, nenhuma realisava a poesia 
nacional » ; e quanto aos diccionários é o primeiro a 
taçhal-os de « imperfeitos e espúrios. »> Ao próprio 
G. Dias nega o condão de realisador da poesia ame- 
ricana. Diga-nos quem poder e quizer : onde foi J. de 
Alencar buscar esse molde de poesia selvagem, fórá dos 
diccionários, que « são espúrios », fora das producçoes 

Sublicadas, que í* nao arealisam», fora dos modelos 
os mestres que « só exprimem idéas próprias do ho- 
mem civilisado, e que nao é verosimil tivesse no 
estado de natureza ? » No seo gabinete de improvi- 
sador. 

Ah! justamente por nao havel-o incontrado em 
parte nenhuma foi que elle adoptou e nos offereceu 
como o verdadeiro padrão essa poesia pedantêsca e 
diffusa que se esparrama nas páginas da sua Iracema, 

Meo amigo, estou-te escrevendo estas cartas por 
honra da firma. Se já m'o promettêra a mim mesmo, 
e se ultimamente t'o prometti também a ti... o pro- 
mettido é devido. Mas, á fé, que estudos em que só se 
tem de apreciar desaires e nSo sublimidades e formo- 
suras, cançam a final, o não pedem deixar de levar 
á monotonia. 

Quando escrevi, ha mezes, as minhas cartas sobre o 
Gaiiçho estava cora disposição para a cousa. Também 



94 xxvr 

era a primeira ceifa, e em <; le campo I Era dar para 
a esquerda e para a direita, e cair espiga. Mas 
também pelo muito que so vindimou, sobreveiu o 
tédio pn • i a repetição das operações. 

Se aquellas cartas tivessem sido dadas á imprensa 
em tempo, jâ n anàlyse da Iracema^ da Diva e da Pata 
da Gazella estariaoi feitas, porque, approveitado o 
humor do momento, um só e mesmo fôlego abrangera 
tudo. 

Mas foi o contrário. Quando eu esnerava recebel-as 
publicadas, chega vam-me noticias, dando-me formal 
desingano. Lá ficaram por meze.s ; já nao me lem- 
brava d'elias, e tinha-as até por extraviadas (que 
talve:: fõosse o melhor.) 

Eis que vem a questão do elemento servil, o parecer 
da commissao da câmara dos deputados, os discursos 
parlamentares de J. de Alencar, as tuas magnificas 
cartas a Fabrício, e finalmente as Questões do Dia. 

Ora, durante todo esse tempo, estive eu cuidando 
dos meos verdadeiros interesses (que isto de lettras, 
entre nós, nao dá para mandar ao açougue) como 
fossem algumas questões forenses, algumas garatujas 
para gazetas politicas, etc. Nem me lembrava mais 
de Sénio, senFlo como um político, e este velho, des- 
crentey como elle mesmo se diz. 

A inspiração do momento foi-se. Veiu depois a 
doença, que mo forçou a retirar-me para o campo ; e 
ahi, quando menos o esperava eu, vejo ressuscitarem 
nó teo periódico as minhas defuncthsimas cartas. 

Foi quando tive de voltar à cidade, e agora já nao 
pareceria de bem que eu deixasse de cumprir a palavra, 
que imprudentemente empenhei, a pezar de nao ter 
« primeiro calculado das forças mínimas para em- 
preza tao grande. » 

Pois bem : peço-te |x3rmissao para tomar fôlego e 
continuar na seguinte. Até lá. 

Teo amigo e admirador 

Semprónio. 



M:o3iLTLiiieiito a Bocage 

Segundo as últimas notícias de Lisboa, os alicerces 
que o máo estado do solo exigiu, estavam muito adean- 
tados, mas sendo precisos ao menos 15 dias para in- 
xugar, e nRo cessando a chuva desde fins de octubro 



XXVI 95 

« 

ate meado novembro, ; trazou isto muito os trabalhos, 
por tal motivo de força maior. Para solidificar o ter- 
reno, foi mister suterrar estacaria de 9 palmos de al- 
tura, e proceder a morosos e inesperados trabalhos. 
Apenas segurasse o tempo, o que nao parecia próximo, 
ia começar a assentar-se a cantaria. 'Nestes termos, a 
solemnidade do dia 21 de dezembro limitar-se-ha pro- 
vavelmente á collocacâo dos fundamentos. Os dous 
Membros da Comaiissão Central 'nesta corte incumbi- 
dos de dirigir esta tarefa, approveiraram estas circums- 
lancias para recoramendar que a definitiva inauguração 
se reserve para quando S. M. o Sr. D. Pedro Segundo 
se ache em Portugal, esperando-se que, com seos au- 
gustos parentes, abrilhante o esplêndido acto. 

A com missão em Lisboa, de que é Presidente o Sr. 
Marquez d' Ávila e Bolama, e Vice-Presidente o Sr. 
Visconde de Castilho, prosegue em seos trabalhos, de 
accôrdo com a commissao de Setúbal, e ambas com a 
Ceutral do Rio de Janeiro. 

O Presidf^nte da Comniis^âo especial, que o è tpm- 
bem da Câmara Municipal de Setúbal, dirigiu para 
esta Corte as suas coinmunicações, das quaes se col- 
lige que a Rainha do Sado verá em dia próximo 
uma das mais brilhantes festas de que neste género em 
Portugal haja memória. 

O mesmo cavalhe'iro dirigiu à Commis^ao em Lisboa 
um ofiicio do teor «eguinte: 

« No empenho louvável de abrilhantar a festa da 
inauguração do monumento dedicado ao celebre poeta 
Bocage, corapuzerata e ofterecerain á CArnara Muni- 
cipal d'este conselho dous liymnovs dt stir.uJos a serem 
executados no ar-to da dieta inaiigur-irão, os profes- 
sores de musica Carlos Augusto Alves Bim^m, e Antó- 
nio do Nascimento e Oliveira, ambos conierràtieos do 
poeta, o primeiro residente em Lisbj:.t. e o segando 
residente nesta (.idade de Setúbal, onde k^ locoaliocido 
o seo mérito artístico, e cujas PhilarmÓLiiv*as tiveram 
já partituras do segundo dos indicados hyinr.os. 

Julgando a Câmara, por mais acertada drliber^çlo 
deixar â illiistn»da commisslo incarregada de dirigir 
a solemnidade alludida, tanto a apprccir.cao da poesia 
que faz parte do bymno de que a miisica é composta 
por António do Nascimento e Oliveira, ccmuo a música 
de ambos os hymnos, por isso tenho a honra de os re- 
m etter a V. Ex. afim de os fazer presentes âquella Ex*. 



96 XXVI 

Comraissao, que a tal respeito resolverá do modo que 
à sua muita competência e subida illustraçao mais justo 
parecer. Deus Guarde a V. Ex. — Setúbal 15 de no- 
vembro de 1871. — lUm. Ex. Sr. Visconde de Castilho. 
— O Presidente da Câmara António Rodrigues Ma- 
nitto. 

Quando, porêm, chegou este officio, já as bandas de 
música da Guarda Municipal e outros corpos estavam 
ínsaiando um lindo hymno, expressamente composio 
sob o título Hymno a Bocage. 

As RevoluoSes 

Como ha por ahi muita gente boa, que sonha com 
revoluções, e se os seos desejos fossem satisfeitos, 
teríamos ao menos uma por dia, será bom lembrar-lhe 
os proveitos que d'ellas se auferem, porque muitos ha 
que cuidam que revolução é o mesmo que pfto com 
manteiga. 

Tomaremos para exemplo a França, que, 'nesse gé- 
nero ninguém negará que seja clássica. 

A grande revolução franceza, que matou a Lmz 
XVI, trouxe o Terror. 

Do Terror, que acabou por uma revolução, veiu o 
Directório^ com todas as sjias torpezas. 

Do Directório, que acabou por uma revolução, veiu 
Napoleão com todo o seo despotismo, e a^ giierras do 
Império. 

De Napoleão, que acabou por uma revolução, veiu a 
Restauração com a occupação^ e os milhares de indenmi" 
zação. 

Da Restauração, que acabou por uma revolução, veiu 
Luiz Philippe com todas as suas fraquezas. 

De Luiz Philippe, que acabou por uma revolução, 
veiu Luiz Napoleão, com todas a.v suas misérias. 

De Luiz Napolefb, que acabou por uma rL^Víliiívao, 
veiu a occupação pelos Allemães, o pagamento ih nlijuns 
milhares de milhões e a communa. e sabe Duus o '[ue 
ainda virá. 

Arreda de lá o velho, dizia certo sexagenário, .i ij'íem 
comptavam que uma grande patuscada tiuha a-.wl^ado 
por uma grande desordem. 

Otton. 

Typ. e lith. — Imparcial— Rua Sete de Setembro n. 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 



]sr. 27 



RIO DE JANEIRO, 20 DE DEZEMBRO DE 1871. 



Vende-se em casa dos Srs. E. & H.Laemmert. — Agostinho de Freitas Gui- 
maries & Corop., 26, rua do General Camará. — Livraria Académica, 
Rua de S. JG^e n. 119— Largo do Paço n. C— Preço 200 reis 

O !• volume, com perto de 400 paginas— 3$00B. 

OBRAS DE J. DE ALENCAR — A IRACEMA 

(Oartas a Oincizinato) 
III 

Meo ilhistre amigo: A Iracema teve por fim des- 
empenhar o comprcmisso que o auctor commetteu a 
imprudência (palavras suas e dEo dice mal) de contra- 
hir, quando escreveu algumas cartas sobre a Confede- 
ração dos Tawoyos, 

Ora, a Confederação dos Tamoyos pertende as honras 
nSo só de poema, porém de poema épico. Sinto nao ter 
esta ^bra, que li ha tempos, para agora averiguar a 
minha asserção. Quer-me, todavia, parecer que nao 
estou em equivoco. 

J. de Alencar, criticaado-a, dice que « as tradiçOes 
dos indígenas davam matéria para um grande poema» 
que talvez um dia alguém appresenta.sse sem ruído nem 
apparatu. » Infelizmente ainda nao chegou este dia. 

Suppozeram que o auctor se refei^ia a si, e pergunta- 
ram-lhe varias pe.iiôaá por elle. Tanto hastou para que 
se mettesse em « brios lillerarios, e começasse a oora 
com tal vigor que de um fôlegofa levou ao quarto 
canto! m 

(Vid. a carta final, na pag. 193.) 

Depois, por certas considerações, que nao vem ao 
caso recordar, f jí o auctor levado a dar « um ensaio 
das suas iuéas sobre a poejiia verdadeiramente brazi* 
leiva in anima prosaica. » Tal o, Iracema, 

Pergunta-sy : o que é lícito conjecturar em face de 
todas estas circura.siancias e precedentes, a saber — 
depois de uma critica feita a um poema candidato a 



98 XXVII 

épico, depois de uma solemne promessa de apresentação 
de um grcmde poema, jor julgar o crítico que aquelle 
não realizava a verdadeira poesia brazileira, e depois 
finalmente da amostra em prosa d'essa promeciida e 
perguntada obra? Seguramente que esta amostra per- 
tende offerecer ao mundo não só o typo d'aquella poesia, 
senão também o de um poema épico em contraposição 
ao que foi julgado incapaz de satisfazer aquelle deside- 
ratum. Com eflFeito ! 

Ha um grande nome na litteratura hispanhola — don 
Juan Ruiz de Alarcon y Mendoza, que um auctor col- 
loca acima de Moratin, de Montalvan, e immediata- 
mente depois de Lopez de Vega e de Calderon. 

Era elle « infernalmente orgulhoso » na pbrAse do 
crítico aquém peço estas notícias. Em um dos seos 
prefácios se lêem estas memorareis palavras allusivas 
ao público (ai volgo) : « Canalha, animal feroz, dirijo- 
me a ti ; nada digo aos gentis-homens, que me tractam 
melhor do que desejo ; intrego-te as minhas peças ; Saae 
d*ellaso que fazes das boas cousas — sê injusto e estú* 
pido, como é teo costume. Elias te inçaram e te affron* 
tam; seo desprêso para comtigo é soberano. Se as 
achares ruins, tanto melhor — é que são boas. Se te 
agradarem, tanto peior — é que para nada prestam. 
Paga-as, e folgarei de te haver custado alguma 
cousa. » 

J. de Alencar dá poemas e romances de costumes^ sem 
ter estudado a natureza nem os povos, e condemnando 
além d'isso os estudos dos mestres e os diccionàrios 
existentes, que chama <c espúrios ». Essas obras» elle 
as dá do fundo do seo gabinete, assim a modo de 
quem expede avisos para um império inteiro. Espé- 
cies de encyc^icas litterdria^, trazem o cunho da aucto- 
ridade dogmática e infallivel : são matéria de fé. Hou- 
ve de certo immen%\ modéstia, quando nos dice que a 
Iracema era uma experiência ou amostra. E' que foi 
isso ha seis annos antes a esta parte, e têmpora mu* 
tantur. Hoje, com a sem cerimónia de quem conhece 
o terreno onde pisa, suas palavras para com o público 
seriam talvez estas : Canalha imbecil, corja de idio- 
tas ou de boçaes, que só tens tido um luus perennis 
para os meos caprichos, a minha fatuidade e as mi- 
nhas aberrações, toma lá esta.... lUlada brazileira. 
Os que conhecem os meos erros e defeitos tractam-me 



I 



XXVn 99 

melhor do que seria para esperar. Graças ao seo 
silSacio, filho do p uco caso ou da cobardia, a mioha 
reputação pãoica transpôs jâ. os umbraes da posteri- 
dade, e perde o tempo ou é parvo f|iiPTii t«ntBr apear- 
medo meo pedestal. Paga tu a obra, u ulug*iu-ii por toda 
a parte, como tem sido teo co-stume. « 

Haveria 'oestas amabilidades alguma cousa pare- 
cida com as de Alarcoo, mas, umas ligeiras obser- 
vações: o auctor bíspanhol era de tanto génio, que 
Corneille vasou o seo Menleur no molde da Veraad 
Suspeckosa. obra (jue denomina « a maravilha do thea- 
tro, e para a qual nSo se acha, como elle diz, nada 
comparável, quer entre os antigos quer entre os mo- 
dernos. B Infelizmente as cousas sao muito diversas, 
em relação ao caso actual. O Brazil de hoje está 
tao di.stante da Hiapanha do século XVI e do século 
XVII, quando fornecia assumptos à Itália, á França, 
á Inglaterra, a Corneille e a Shakspeare ! O nosso 
compatriota, posto que muito illuslre e respeitável, 
está tao afastado physica, chpouólogica e litteraria- 
meate de Alarcon ! E depois* accresce : J. de Alencar 
nao teria razão p^ra m queixar do piiblico : só .Mar- 
cou — perspicaz e profundo — desconfiaria d'eR8e pe- 
reniie acoihimeuto ás suas obras. Bti-^eamos ao nosso 
I aasimpto. 

Tu, que és mestre e intendei tSo bom da cousa 
como nem ouso pertendel-o 91, achas que a poesia 
brasileira tenha incontrado o seo ideal na Iracema ? 
A poesia de um povo, que fazia das guerras sua 
principal, senão ilníca, fonte de pnixOi-s, nao podia ter 
eaa» expressão de flaccidez e de langurir, que faz 
a feição completa da obra citada. 

Achelos tumultuosos, affectos desinfrendos, pra- 
L nres lúbricos, Sí>nsaçAes intensas e bravias, rcstumam 
I Intunzir-do era linguagem de outrt* possança ; isto é 
f O que nos parece dizerem o senso critico e o es- 
tado das primitividades de todos os povos do mundo. 
O poeta, intérprete der^sa poesia, n5o tem mais que 
apanhar o colorido ardente, e com elle velar as impu- 
dldcias ou as fealdades da natureza brutal. 

Cumpre mais acnrescentar que a fiirma de tal 

[ po&)in, parti cularmi-nle bebida ua fonte grosseira dos 

I aealidos, devia tender mais ao plástico, ao material, 

do que a uma ideal ísacão que de modo nenhum cabtf 



f 



100 XXVI! 

em aimilbante natureza. Ura moderno archeúlogo e 
sábio ing^lez, Lubbock, estudando os costumes dos 
aborígenes da América do Norte, diz que o « estylo 
da sua música é magro e sem arte. » Sabe-se que 
a monotonia faz também um characterisíico das festas, 
das danças e dos cantos dos selvagens em geral ; 
8 com relação aos do Brazil, é fácil deprehender 
do que dizem os competentes, qite lambem era 
traço distinctivo da sua linguagem cerio cuubo de 
varonilidade, repercussão do estjlo com que cele- 
travam suas paixOes tumultuarias. 

Só duas fontes vejo onde o poeta açbasse para 
beber o character da poesia brazileira: a saber — 
specimens na própria lingua vernácula , ou , na falta 
d'estes, o dizer dos histopíadores. Ora, a primeira é 
sabido que nos talta ; nao só os índios nno escreviam, 
mas também quem o podia fazer n nao se dpu ao 
trabalho de recolher ou verter era língua portu- 
guesa 08 cânticos dos Índios » como diz ura litte- 
rato contemporâneo. Resta, portanto, a segunda, que, 
longe de auctorizar, conderana a perlensa eschola, 
inaugurada por J. de Alencar. 

Em verdade, biista uma interpretai; ilo approximada 
da história para vermes a medida d'essa poesia. 
Um povo dado principal raente íis luctas viol«itas, 
d'onde derivam os seos mais assíduos passatempos e 
labores nao havia de ser frôxo o débil, quando é 
certo que a poesia é o reflexo raaia animado, firme 
e substancial das paixOes de ura povo. 

Mas o que no.-í dizem os historiadores? Vejamos. 

Simão de Vasconcellos diz, — Iractando dos cantos : 
«Cantam no me.smo tora arengas de suas valentias e 
feitos de guerra com taes Dssobios, palmas p patoadas 
que atr.-ara os valles. » 

Ferdinand Deny* di;!, occupaudo-se eoni o mesmo 
a-"Sumpto : "Cantavam alternadamente as swns faganhcu 
em tnm grave e compassado. » E referiu d c-.se a uma 
certa dansa accresreota que « do seio da mtilttdno se 
levantiiva um choro harmonioso, que celebrimi a glória 
dos antepassados e incitava os bravos a novos feitos 
de honra, » 

Verdade seja que G. Dias nos observa: « Entre os 
Tupys era tudo música e poesia — o nascimento <s 
jBOrte — a guerra e as festas — o amor e a reli^^^ 



XXVII 101 

— a linguagem e ávida — era tudo poesia Na sua 

linguagem harmoniosa e quasi toda labial, travada e 
intercalada de vogaes — imitavam o ciciar dâ. brisa a 
correr sobre as ondas espalhadas do oceano, a agitar 
levemente a igara derivando á tona d'agua, e a inre- 
dar-se pelas folhas dos bosques, que aromatizam o 
littoral. » Para apoiar esta opini&o declina a de di- 
versos auctorizados escriptores, como o padre Figueira, 
Laet, Vasconcellos, Du Montei, os qua^s todos s&o 
accordes em que a língua geral era muito rica, suave 
e elegante. 
Devo entretanto produzir duas rápidas observações . 

Primeiramente, historiadores) também ha, não menos 
abalisados, e entre outros p*Orbigny, que suppoem que 
« quasi todas as línguas americanas eram pouco ex- 
tensas, grosseiras, e careciam absolutamente de termos 
para exprimir um pensamento, uma idéa delicada, 
ou mesmo a paixão. » Se coubesse nos estreitos limi- 
tes de uma carta, escripta a vôo de pássaro^ algum 
desiuvolvimento sobre matéria sem dúvida transcen- 
dente , eu reproduziria com Lubbock, Forster, Ellis, 
Cook, Kolben, Thunberg, Harris e muitos outros, 
factos e considerações que avigoram esta opinião. 

Em seguindo logar direi que,mesmo admittida a opi- 
nião esposada por G. Dias e pelos outros citados his- 
toriadores, essa suavidade, opulência e elegância, 
longe de se contraporem à these, que resalta da his- 
tória, mais a accentuam e corroboram. Quanto mais 
opulenta e elegante fõr a língua, tanto mais em con- 
dições 'de ostentar fidalguia e gentileza, quer de 
forma, quer de essência. E tanto assim é que o próprio 
G. Dias não vasou as suas poesias americanas em outro 
molde. 

Se dos cantos passámos às dantas, o que vemos? 
Refere o próprio Dias : « Essas mesmas dansns não 
eram mero exercício de força ou simples distracção. 
Simulavam (os guerreiros) nos passos choreográphicos, 

j& o caçador em attitude viril e ameaçadora,... já, 

mais enérgicos, imitavam com6a(e5 de homem contra 
homem, em que se succediam as palavras aos golpes^ 
etc. » Confirmando esta afiBlrmativa, ajUncta P. Dinys : 
a Era antes ( a mais solemne das dansas ) uma ceri- 
mónia maixial que uma dansa propriamente dieta. » 



102 XXVII 

Eis, pois, ainda aqui characterisada a poesia sel- 
vagem pela energia e fortaleza, qae imbutiam, diga- 
mol-o asáim^ na linguagem, nos gestos, nas acções, 
as diversas formas, sempre elevadas, de decantar 
assumptos grandíloquos, como as batalhas, os conví- 
vios em honra das bárbaras proezz&s, os exercícios e 
noviciados béllicos. 

Penso, pois, assim : ou a poesia tivesse de exprimir 
motivos de essência épicos — as luctas gigantéas, as 
glórias marciaes ; ou motivoa melodramáticos, os pra- 
zeres eróticos, as magnificências da natureza inani- 
mada, os incautos da vida florestal ; ou de referir-se 
ás suas práticas e crenças religiosas — em qualquer 
doestes casos ser-lh^hia impossível abstrahir do cunho 
de vivacidade, do colorido vigoroso, própno do sen- 
timento universal de braveza e do modo geral de dizer 
que especialmente os assignalava e que era como as 
tinctas predominantes de todos os seos phenómenos 
sociaes e moraes. 

Pensando assim estou de accordo com os dous primi- 
tivos patriarchas da poesia brazilica, Basílio da Gama 
e Sancta Rita Dur&o, e também com os gfandiosos in- 
genhos do Dias e do Magalh&es, que nos tempos actuaes 
tamanho impulso deram á eschola nascente, apezar de 
ser de data colonial. O Dias foi infatigável, verdadeiro 
propagador d'essa eschola, que cultivou como o sacer- 
dote mais estrénuo, suctorizadoe feliz. E' elle indispu- 
tavelmente o nosso primeiro poeta, e difficilmente teri 
um successor que se lhe approxime, se a ingrata sorte 
arrabatar cedo á pátriít o astro mágico de Fagundes 
Varella, que, no meo fraco intender, é o vate mais 
genuíno, opulento e mavioso da moderna plêiade na- 
cional. 

Ora, se pego a^ora mesmo do Vruguay e o abro ao 
acaso, o que incontro ? £' o poncto em que o índio, 
Cacambo, se appresenta ao general como parlameu* 
tário. Ouçamol-o. 

t< O' general famoso, 
« tu tens á vista quanta gente bebe 
« do suberbo Uruguay a esquerda margem. 
« Bem que os nossos avós fossem despojo 
«c da perfídia de Europa, e d'aqui mesmo 
« co' os n&o vingados ossos dos parentes 



^•> 



XXVII 103fc 

<t se vejam branquejar ao longe os valles, 
« eu, desarmado e só, buscar-te venho. 



c( Âs campinas que vês, e a nossa terra 
í< seo e nosso suor e os nossos braços 
« de que serve ao teo rei ? Aqui não temos 
4c nem altas minas, nem os caudalosos 
a rios de areias de ouro 



« Pobres choupanas, e algodões tecidos, 
tt e o arco, e as settas, e as vistosas pennas 
<c silo as nossas phantàsticas riquezas. 



c< Que mais queres de nós? Nao nos obrigues 
(( a resistir- te em campo aberto. Pôde 
<c custár-te muito sangue o dar um passo ; 
« n&o queiras ver se cortam nossas frechas; 
« vê que o nome dos reis não nos assusta. » 

Mas j& n&o quero este assumpto que podem tachar 
de forte em si mesmo, e vou ter a outro de diversa 
ordem — o amor. Abro o Caramwrú^ e não é já um guer^ 
reiro, porém sim uma simples mulher quem fala. Para- 
guassii, promettendo a Diogo Alvares oaptizar-se e ser 
sua esposa: 

« Esposo — abella diz — teo nome ignoro, 
« mas n?io teo coração, que no meo peito, 
« desde o momento on) que te vi, que o adoro: 
« nao scei se era amor jà, s# era respeito ; 
«( mas scei do que entSlo vi, do que hoje exploro, 
«( que de dous coraçOes um só foi feito : 
K quero o baptismo teo, quero a tua egreja 
« meu povo seja o teo, teo Deos meo .^eja. 

« Ter-me-has, caro, ter-me-has sempre a teo lado, 

« vigia tua, se te occupa o somno : 

« armada sairei, vendo-te armado; 

« tao fiel nas prisões, como 'num throno . 



104 xxvn 

(( Outrem aao temas que me seja amado : 
(( tu só serás seuhor, tu sómsu domuo; » 
« Taato lhe diz Diogo, e ambos juraram ; 
« e em fé do jurameuto as mios tocaram » 

Pois bem 'ne-^se mesmo assumpto nlo ha frouxidão 
nem moUeza na expressão ; pelo contrário: a lin- 
guagem do nífecto não se deturpa, não se abastarda, 
não despe, nos lábios da moça, da selvagem louçania 
sempre, em brio e garbo, na altura condigna. 

Recorro ao Dias, não no hitnpejante Canlo do guer- 
reiro, não no Y — 7iicaP</7Vima -^modelo de pondonor é 
de ufania bárbara, nem no Tabyna eminentemente mar- 
cial o athlético, mas 'numa poesia da insinuante 
sentimentalismo e amor — o Canto do índio. Tu bem 
sabes com que pujança* de idéa e galhardia de lin- 
guagem o poeta exalta em notas plangentes o amoc 
grandioso do selvícola. Ouve : 

(( O' virgem, virgem, dos christúos formosa, 
« porque eu to visse assim, como te via, 
<( calcara agros espinhos sem queixar-me, 
« que antes me dera por feliz de ver- te. 
(( O tacape fatal eu terra estranha 
<( sobre mim sem temor veria erguido; 
(( dessem-me a mim somente ver teo rosto 
« nas águas, como a lua, retratado.... 
« Passara a vida inteira a contemplar-te, 
<( sem que dos meos irmãos ouvisse o canto, 
(( sem que o som do boré que incita á guerra 

c( me infiltrasse o valor que me has roubado 

<( Escuta, o' virgem dos chrisuios formosa. 

u Odeio tanto aos teos, como te adoro ; 

(( mas queiras tu ser minha, que eu prometto 

(c vencer por 1»o amor meo ódio antigo, 

<( trocar a maça do poder por ferros, 

« e sor, por te gozar, oseravo d'elles. » 

Esta magnificência, este primor comprehemlo eu 
como o echo da paixão sumptuosa do selvagem. Esta, 
sim, se não foi, presume-se que poderia ser a verdadeira 
poesia brazileira. As sensações e as idéas, os estimulou 
altivos como o coraçílo, que se expandia nas luctas 
eternas, que as eterntis solidões ainda mais solemnes e 



XXVII 105 

majestosas faziam, têm 'aestas suavíssimas, sem dei- 
xarem de ser seguras e másculas vozes, um echo fiel e 
intimo, que vai coando na alma. O selvagrem tupy, 
victima da paixão como soe brotar en; ânimos de tal 
têmpera, ou fala assim, ou não fala. 

Quem ha ahi que nao conheça a poe.sia intitulada — 
Leilo de folhas verdes — do mesmo inspirado poeta ? 
Aquella viração da noite, aquelle rumorejar do bosque, 
a mangueira altiva, a flor do tamarindo, o doce aroma 
do bogari, valles e montes, lago e terra, a arasoya, a 
forisa da manha, tudo nos fala da natureza virgem, e 
dos « rendes vous no mato, tão simples e prosaicos em 
si mesmos, mas que não obstante deram assumpto a 
uma das mais bellas e graciosas composições do Sr. G. 
Dias, no dizer de J. F. Lisboa. O poeta tira da paleta 
onde guarda as mimosas cores da sua elegante phan- 
tasia,as mais appropriadas ao deâenh(>,e combinando-as 
com as ameníssimas galas da natureza, entretece o 
sendal de variegadas illusOes com que incobre o fundo 
material, e quiçá abjecto do motivo. O leitor haure, 
como ura deleite,esses esplêndidos versos, sabe o facto 
que elles decantam, facto em si mesmo simples e pro- 
saico^ e nem uma palavra sequer lhe vem estremecer a 
placidez d'esse véo de decência e de poesia, que se di- 
ria cobrir o puro leito da inaocencia. E comtudo não 
ha exagtiração, o mínimo desvaire no quadro. As cores 
são vivazes, a pintui*a é verosímil, 

O contrário se dá na Iracema, O estylo em geral 
pecca por inchado, por alambicado. As imagens suc- 
cedein-se, atropellam-se. Ha um esbanjamento de ima- 
ginação, quo, desdíí a primeira vista, se nota que está 
muito longe de approximar-se da verdade; para que os 
personagens p^desseru falar assim, n'essa perenne fi- 
gura, fura preciso suppor *nílles o talento, e talvez a 
cultura do próprio auctor, tão ci^toso e trabalhado se 
conhecc' ter sido aquelle arranjo ostentoso. De repente, 
porém, o que succede, para ainda mais desabonar o 
pincel do artista '? O artefacto de roupagens supérfluas 
contrahe-í^e, e desnuda em plena luz a mais deslavada 
materiali.lade. Exemplo : 

Abro o poemiv na pag. 71. Martim tem passado a 
primeira noite com a índia na cabana de Araken. Ape- 
zar de ter o moço u inchido sua alma com o nome e a 
veneração do t-eo Deus — Christo ! Chriato ! » ( como 



106 XXVII 

diz o auctor ) o seo Deus n&o o preservou de commet- 
ter a vilania ( que a foi ) na « caoana hospedeira, » 

Depois de ter o auctor contado o tal infortúnio da 
moça, que da noite para o dia deixara de ser digna de 
guardar os sonhos da jurema e de merecer os afféctos e 
as considerações do seo velho pae, com que chave de 
ouro achas que se sairia o auctor para fechar este pri- 
moroso capitulo ? Ouve : 

« As dguas do rio depuraram o corpo consto da recente 
esposa I ( Sao textuaes. ) 

Considera, meo amigo, que o auctor despendeu uma 
nota inteira, apag. 169, em justificar a denominação 
de — Acaraú — que deu ao rio — Acaracú -- áizenáo ter 
a usado alli da liberdade hcraciana. com o fim de evi- 
tar em uma obra litterària, obra de gosto e artlstica^nm 
som áspero e ingrato. 

Que contradicçao flagrante é esta?! No trecho ci- 
tado, não ha só a aspereza e ingratidão de um som ; ha 
um período inteiro, offerecendo a.> espirito do leitor 
uma idéa vil, expressa por palavras indecentes: depois 
da baixeza, a india foi tomar banho no rio para ncar 
limpa. 

Como isso é de gosto e de arte ! E sobretudo, que 
fina e edificante poesia ! 

Nao posso mais por hoje. 

Teo amigo certo 



Sóptima cart:a. d.e Oinoinnato a Sempronio : 

Rio, 15 de dezembro 1871. 

Talentoso amigo. 

Onde estávamos nós ? Ah, já me lembro ; no Ttxt. 
Admirámos os mil modos interessantes empregados 
para activar a vendfll do livro monumental, tao supe- 
rior a qualquer outra producçao como o til o é ás pa- 
lavras a que se superpõe. Interrogava-ire eu a mim 
mesmo sobre a explicação d'este apparente puff« 
quando me chega ás m&os uma epistola, que esclarf ee 
tudo, e não posso deixar de a transcrever. Resa ella 
assim : 

« Sr. Cincinnato. — De pouco se admira Vm ; e a 
sua admiração cessará de todo, quando souber coma 



XXVII 107 

as cousas correram. O nobre auctor do Til adora afama, 
a glória, e a pátria, mas dá n&o menor apreço a certa 
cousa tangivei, com que se compram os melões. Foi a 
glória que o fez passar de liberal para conservador, 
em qualidade de consultor. Foi a glória, que o fez 
negociar com a empresa do Diário do Aio, exigindo a 
troca de uns papelinhos por moeda bem met&llica. 
Foi a glória, que o fez organizar outra folha, com 
gordos estipândios para casa. E a glória, que a tantos 
sacrifícios taes o tem condemnado, é sempre o seo 
pharol nas costas da litteratura. Parece pois que a 
Redacção da República ahi caiu 'num laço bem ar- 
mado. Acceitou um contracto desint&ressacíOj em que 
o glorioso neólogo accedeu a dar gratuitamente o seo 

Jortentoso manuscripto, apenas debaixo doestas mo- 
estas condições .* — Tirar-se a obra em volume, e 
receber d'este 2000 exemplares ; ir logo à porta fron- 
teira receber por cada um a 900 rs., e insaccar assim 
gloriosamente uma continha surda, e muito bem 
ganha, de Rs. 1:800S000 ( Quem de tao gordas lettras 
tamanho lucro haja tirado, nao conhece este Império ; 
e ainda ha 'nelle quem lhe conteste a glória ! ). Dà-se 
por assentado que os Redactores compraram nabos 
em sacco, e assim o creio : sejam boas ou más as 
doctrinas por esses mancebos apregoadas, ninguém 
lhes negará talento, ou supporá possivel que elles 
acceitassem similhante embroglio para as suas colum- 
nas, se primeiro o tivessem passado pelos olhos. Foi 
um fiasco abominável. No final do capitulo 15 da obra, 

Íue bem pôde imprimir-se em 15 pernas, pois saiu em 
5 pequenos folhetins, já se lâ fim do primeiro volume. 
Todas estas tricas sao da eschola do Dr. Carlosbach. 
Seja porém como for, ja se comprehendem as reciprocas 
barretadas: — O Sr. Alencar ao Jornal: Esta folha é 
magnifica— O Jornal ao Sr. AJj^ncar : Este til, e este 
senhor sao magníficos. Sao os dous leigos a darem 
Reverendíssima um ao outro. Um agradece os 2000 
exemplares ; outro quer desforrar-se, angariando 2000 
dous vinténs. Tudo é glória, patriotismo, indepen- 
dência, desinteressa^ e amor da pátria » 

A cousa ia continuando sempre na mesma afínaç&o ; 
mas como eu nao creio absolutamente nadada conteúdo 
da tal missiva, permaneço na convicção de que o ex- 
clusivo intuito do reformador-reitor das lettras, foi 



carauguejar mais um paaao uo progreaso do seo re- 
gteaso... como dizia o Sr, Vhcoude de Laborira. 

Ainda uao tive paciência de passar pelos olhos 
senão os primeiros capítulos do TU, mas ja li bastante 
para adi^uirir a convicção de que lia mais outras leis 
da physica applicaveis à ordem moral. 

Todos sabem que um corpo que ahi vera caindo 
peios ares nSo percorre espaços pguaes em tempos 
eguaes; ao contrário, quanto mais se approxima do 
çh5o, mais corre ; o movimento do corpo é então uni- 
formemente accelerado, na razSo dos quadrados das 
distâncias. Se Atwood applicasse a sua iogeulios» 
màchina aos escriptos de Sénio, faria como Kepler, 
estendendo a lei da órbita eliiptica do planeta Marte 
aos outros planetas, e reconheceria na distincta intel- 
ligencia do honrado escriplor uma accele ração de queda, 
na razão do cubo das respectivas distâncias. A deca- 
dência vai jà de foz em fora, e nao tardará que faça 
ralar de inveja a antigos escriptores da rua da Úarioca, 

Parecia recommendar a prudência ao preclaro ro- 
mancista ( agora que se Ihedesvaneceua fama p&nica, 
tí que ja vai sendo coUocado no logar que lhe compete) 
algumas férias de imprensa, ou pelo menos que se accon- 
selhasse com algum amigo leal que lhe desvendasse 
os olhos, ou lhe corrigisse os barbarismos, nao para 
reconquistara usurpada posição ja impossível, mas 
para nao aggravar mais o ridículo em que como es- 
cripfor tem irremsdinvelraente caído. E todavia, ou 
não tem um amigo que u desiugane, ou a traiçoeira 
vaidade lhe faz fechar ouvidos às admoestações des- 
interessadas. 

O TU nilo parece um romance, mai uma rebemdita! 
.Se até hontem causava pana a successiva decadên- 
cia da peuniL de Sénio, hoje produz assombro este 
pereuiii? ataque no sei^o commum, revelador, ou do 
gniiidc ilesprCsii com que se tracta o pilblico. ou de 
mau if e,-t íi pL'<-aii'l>aríio de faculdades. 

Sctíi que ó malbaratar o tempo, consaííral-o a lao 
fulil occu])ai:ao, mas pouco tenho qne fazer, e quem 
teiii va:;";»!', faz ci)lhére3. O tal folhetim e.-!tà indubi- 
taveimi:;!!.' nlmixo da critica, porem nao descouvei 
collocar um pnurol 'neste.'! pérfidos escolhos do mar d 
lettras. Consagremos, pois, algumas p&ginas 
inglória tarefa. 



XXVII 109 

E' mania doesta penna a creação. Tudo para elle 
sai do berço, do nada, para só viver quando ba- 
fejado por seo divino sopro. Caracol da maledicên- 
cia, baba quanto o precedeu ; e assim como, na Re • 
laçao do inferno, Bhadamanco sentenciava feitos, 
assim chama á sua barra os clássicos, os puros, o^ 
escriptores, os romancistas, os jurisconsultos, os es- 
tadistas, brandindo sobre todos a fera la cariccata. 

Já nos proclamou que havia de insinar o que era 
a poesia brazileira, a política brazileira, a jurispru- 
dência brazileira ; agora diz que nos insma o que 
seja o romance brazileiro. Conquistou o universal 
monopólio de todas as especialidades ! . . . . Tem-se 
visto d'estas aberrações : contam que o poeta Accio^ 
de tão acanhadas dimensões que orçava por pygmêo, 
elevou, no templo das musas, a sua estátua, repre- 
sentando-o gigante, e dedicou-a à Eternidade. 

Nfto é possivel levar a maior evidência que tu o 
tens feito, que nada ha nos romances brazileiros do 
Sr Alencar que represente uma litteratura parti- 
cular d'estas regiões, O pení?amento de todas as obras 
de imaginação, nem têm pátria nrm parallelo ou me- 
ridiano. Pode-se sentir com mais ou menos energia, 
ser-sb mais ou menos impressionado pela natureza 
ambiente, proceder de modo diverso segundo a edu 
caç&o ou grande civilização; mas aíBgura-se-me que 
o homem nao varia tanto como se aíElrma, c que o 
coraç&o dos trópicos nílo tem auricsila^ nem ven- 
trículos diflferentes do das regiões polares. E toda- 
via,concordo em que a poesia dv^ cada zoaa possua offere- 
cer matéria prima especial aos respectivos prodiictores, 
incauto especial aos respectivos consuininidores. Ap- 
plicando esta regra ao Brazil,è em que deverá con- 
sistir a poesia local, a merecedora d(» monçAo, a 
que se nfto limite a uma caric^iura i;::riobil, a que 
commova, instrua o arrebate, a digna dos applausos 
dos intendidos e das turbas? 

Parece-me que essa especialidade tem do compor-se 
de muitos element-vs:— a reli/:''irio dos incclns, com 
todos seos dogmas, liíhurgiaas, bellczjK^. r.s(.s e supers- 
tições — as tradições f]>lles, com suns história. , lendas 
e mythos — a sua poesia nativa, com seM.s arrojos ou 
singelezas, com suas harmonias ou dis 'ordànoias— os 
i8eos costumes, com suas generosidades ou baixezas, 



110 XXVII 

dedicações ou vilanias— as suas Índoles, com as com- 
petentes virtudes ou vícios, dignidade ou servilismo — 
a sua nfltureza, com as peculiaridades d'ella, com os 
seos pheuómenos, as suas grandezas, os seos rios* 
mares, catadupas, florestas monumentaes, e o seo admi- 
rável reino animal, e as infindas opulências que ia- 
cerra o seio d'este magaiflco torrão. Finalmente cum- 
pre applicar a observaçFio mais attenta ao estudo de 
quanto a mesma natureza offerecc próprio, ingénito, e 
ao de quanto a raça humana appresenta de excepcio- 
nal em seo temperamento, compleição, génio, condi- 
ção, tendências e história. 

Quem nao se sentir com pulso para erguer tamanho 
peso, nao se ostente creador, nem procure naturalizar 
producçoes desvairadas, em paiz que as não conhece 
nem tolera. Tudo aquillo demanda muita applicaçSo, 
cultura, estudo, e não certas noçOes superfíciaes, hau- 
ridas de outiva, e tão pingues e gordas que, do mesmo 
modo que nas águas abetumadas do lago Âsphaltites, 
tudo bóia na superfície, nada nada até o fundo. 

Não ha neste romance do Sr. Alencar (ao metios no 
que tenho lido) cousa que justifique a ambiciosa quali- 
ficação. Characteres mal desenhados, pessimamente 
sustentados, descripções sempre defectivas, diálogos 
impróprios, personagens repugnantes, linguagem 
muitas vezes abaixo de plebéa ( não só nas falas postas 
em bocca das figuras, mas frequentemente nos dizeres 
do auctor], deficiência de senso moral e de alcance do 
inrêdo magro e descosido, eflFeitos mal preparados, e 
perenne artifício impotente. Imagina este e^ríptor 
que, por dar, aqui e acolá, os nomes de umas terras 
ou cousas do Brazil, dá romance brazileiro! E' um ve- 
nerando achaque do espírito, 

Nilo chegou ainda o tempo de avaliarmos o romance 
synthelicamente, poMue está no princípio, e não scei 
de quantos volumes fde 15 páginasj virá a compor-se. 
Conseguíutemente o que posso é chamar a tua attençSo 
para o chorrilho de bellezas de estylo, de grammática, 
de sciencia, e de vernaculidade,*^que pulíulam n*este 
vasto tremedal. £' o que farei nas seguintes cartas. 

Creio que o coroUário será que ao nobre mestre con- 
viria retirar-se da scena para aprender primeiro o mui- 
to que lhe falta, para poder insinar. Faria bem de 
transportar-se para a sua soledade-çharneca, ou para a 



XXVII 111 

sua Thebàida. Da separação de toda a sociedade ociosa 
saíram os Zoroastros, os Orphâos, os Epiménides, e 
outros famosos contemplativos, que passados alguns 
anãos reappareceram cheios de sciencias e virtudes. 
Faria bem em epimenizar-se. 

Portanto para a outra vez proseguiremos na anâlyse 
mais miudinha das façanhas linguisticas do Til. 

Teo sincero respeitador 

ClNCINNATO. 



Bil>liosr*aplxla . 

Nunca será muito quanto dicer a imprensa sobre 
um bom livro, maiormente sobre aquelies que se 
destinarem à infância, aos cidadãos, aos mestres; aos 
pães de família .futuros. 

O poeta saudado em 1862 por toda a imprensa 
fluminense, e em seguida pelas demais do Império, 
por oScasiao de dar à estampa um volumesinho de 
versoSfílenominado flohks e fructos, o mancebo a 
quem, por esse tempo, a sympàthica, estudiosa e 
intelligente sociedade ensaios litterabios offerecêra 
uma rica penna de ouro, o talentoso e illustrado Sr. 
Bruno Seabra, querendo também ser agradável e 
útil aos nossos concidada isinhos, deu à luz um in- 
teressante livro, que lhe dedicou, intitulado O alvorge 
DA BOA-RAZÀo. Tcmos à mao um exemplar da nova 
edição d'esse livro, e posto, no seo género, nenhum, 
que saibamos, se avantaje no accolhimento que me- 
receu, sendo, immediatainente depois de publicado, 
approvado com louvor pelas Directorias de instruc- 
^ão pública das províncias de Minas e da Bahia, 
transcrevemos para aqui o seguinte parecer, incerto 
n'uma gazeta do Maranhão, da ^mmissao composta 
de três membros, nomeada expressamente para sobre 
es.^c livro emittir sua opinião. 

Eil-a : 

<t Illm. Sr — Lemos o livrinho que, para meninos, 

sob o titulo ALFORGE UA BOA-RAZAO, dcU à luZ O 

Sr. Bruno Seabra, já bastante conhecido entre nos- 
sos homens de lettras por suas producções poéticas 
de subido q^érito, e cujo exemplar com este resti- 
tui mos a V. S. 



112 XXVIl 

E' nossa opinião que o Alforge da boa-razÃo preen- 
che bem fim a que mirou seo intelligente e il- 
lustrado auctor, que, em sua preciosa obra, coUi- 
gindo grande cópia de preceitos com o fim de im- 
primir no espirito da infância, como em branda cera, 
os princípios da moral mais sa, fal-o era estylo fá- 
cil e natural, dicção correcta e clara, nao menos 
que em linguagem pura e de lei ; qualidades que, 
amenizando-a, muito recommendam a obra do Sr. 
Seabra, pondo-a ao mesmo tempo ao alcance da com- 
prehensao infantil d'aquelles a quem se destina. 

Inspirado pelo amor paternal, e com desvelo es- 
cripto no intuito de dispor o filho para a felici- 
dade, incutindo-lhe em verde princípios que, se 
'nelles se embeber, necessariamente lh'a darão, e 
d'elle faraó um membro utíl à Sociedade, a obra 
do Sr. Seabra nao desdiz dos encómios que lhe têm 
sido tributados, e merece ser admittida nas nos- 
sas escholas provinciaes. Deus guarde a V. S. lUm. 
Sr. Dr. Luiz António Vieira da Silva, Inspector da 
Instruccao Pública do Maranhão. 

Pedro de Sousa Guimarães.^ 
Luiz Carlos Pereira dé Ca^stro. 
Trajano Cândido dos Reis. >* 

Transcrevemo-la para estas páginas, crendo pres- 
tar algum serviço aos pães de família, indicando- 
Ihes, por nossa voz, um livro que, como bem dice 
uma illustre penna portugueza, a do Sr. Dr. An- 
tónio Xavier Rodrigues Cordeiro, como o Bom ho- 
mem Ricardo^ de Franklin^ deve andar nas mãos de 
todas as creaiif^aSy pelo insino que lhes dd^ formari' 
do-lhes as almas, e pelo modo porque o expõe^ de/et- 
tandO'lh'as. E tudo vHo^ e é escripto em portuguez 
de lei. * 



Corte, 1871. 



Varrâo, 



Typ. e lith. — Imparcial— Rua Sete de Setembro n. 146 A 



QUESTÕES DO DIA 



ISr. 28 



mo DE JANEIRO,' 23 DE DEZEMBRO DE Iffn. 



h^^ 



Vendesse «m casa- dos Srs. E. ãt H.Laemmert.— Agostinho de Freitas Qui- 
naràes ãt Comp., 26, rua do General Gamara. — Livraria Académica, 
Bua de S. José n. 119 — Largo do Paço n. C— Prevo 200 reis. 

O !• Tolume, com perto de 400 paginas— StfOOO. 

OBRAS DE J. DE ALENCAR— A IRACEMA 

Cartas a Oix&olni&ato) 

IV. 

Meo amigo : 

Para verdadeiramente dizer-te, é esta a vez que -me 
sento com melhor disposição de conversar sobre a 
Iracema. Quando a gente leu um livro, de que nfto 
gostou «atira-o para um canto, nunca mais pega n'elle ; 
as impressões passaram, e se pretende reexperimental-as 
e relê a obra , é um íngano! 

Isto me acconteceu com a lenda sertaneja de J. de 
Alencar, e admira-me que ella me tenha já dado mar- 
gem a três epistolas, das quaes algumas crescidinhas. 

Nflo importa. Approveito o humor e.... conversemos. 

Quando tive occasifto de ler, em livro de auctor es- 
trangeiro, um benigno juízo crítico sobre a Iracêmaj 
daas impressões me assaltaram — oppostas, postoque 
congénitas — uma de prazer, outra de pezar. 

Se o escriptor (que reputo compr|ente) se houvesse 
limitado a festejar, pura e simplesmente, o illustre no- 
me brazileiro, e só a isso, á fé te digo que, na qualidade 
de brazileiro, que também sou, tei^me-hia exclusiva- 
mente regozijado com l&o fidalgas finezas ; e, sem 
descer a indagar se seriam em si justas ou se filhas de 
mera vontade de fratemizar com o, por assim dizer, 
Go-irmao nas lettras, nem mesmo de relance com ellas 
me occuparia na presente occasifto. Sou muito cordato, 
6 scei bem até onde deve ir o espirito de nacionalidade. 

Mas nao succedeu assim. D*involta com as meiguices 
e delicadezas, prodigalizadas a quem certamente conta 



114 xxvnr 

títulos a attençoes e acato, tópicos se destacam que ia • 
justamente desfavorecem reputações feitas, em que a 
pátria se re^ê com legitimo orguího — reputações que 
j& baixaram da região dos problemas para receberem a 
consagração prática do reconhecimento, do respeito e 
da admiração nacional. Fora covardia nfto defender 
esses numes, sacrificados em bonra de um idolo que, se 
tem seo valor (o que ninguém contestp], náo está com- 
tudo na altura de merecer que se lhe immolem taes 
hóstias. 

Leem-se, por exemplo, 'nesse livro, pedaços como 
este, tractando-se de Gonçalves Dias : 

a Nsio conhecendo esse poema (os Tymbiras)^ n&o 
posso formar juizo sobre eile ; mas outros poemetos 
indianos, publicados no volunore de versos do grande 
poeta brazileiro, edição de Leipsick, auctorisam-me a 
suppor que a morte ceifou Gonçalves Dias antes d^elle 
ter inaugurado verdadeiramente a litteratura nacional 
do Brazil, e que á Iracema do Sr. José de Alencar per- 
tence a honra de ter dado o primeiro passo affoito na 
selva intrincada e magnificente das velhas tradições.)» 

O Sr. Pinheiro Chagas já tem dicto antes que « Qon* 
çalves Dias e Magalhães sulcaram o formoso lago 
d'uma poesia estranha ás regras e aos hábitos europêos, 
mas como o cysne alvejante que só procura semear de 
pérolas a cândida plumagem, e que receia inlodar no 
vaso do fundo o collo nítido e correctamente airoso, a 
aza branca e lisa, a cabeça graciosa e fina. '> 

Tem dicto egualmente que « de^^de o Caramurú de 
Sancta Bita Durão, o.«; poetas brazileiros têem entrevisto 
a mina riquíssima, d'onde podem arrancar diamantes 
litterários, tão fulgurantes como as pedras preciosas 
que resplandecem por entre as areias de Tejuco, mas até 
agora irenhum se ynpregou bastante 'nessa inspiração 
selvática.» E conclue dizendo que « a Iracema está 
destinada a lançar no Brazil as bases d*uma littera- 
tura verdadeiramente nacional. » 

E' desculpável, 'num escriptor estrangeiro (postoque 
de talento seductor, e postoque já tenha pisado, segundo 
cremos, n'estas terras brazueiras, e nos haja brindado 
com a sua Virgem Guaraciaba) cair em inganos, que 
bem explicam quanto ainda entre próprios irmãos está 
desconhecida no seo justo valor a nossa nascente, mas> 
já accentuada litteratura. Cumpre, porém, declarar 
que o ingano do Sr. Pinheiro Chagas é evidente, é de- 



xxvni 115 

vido talvez a impressões instantâneas, deixadas por 
uma perfunctória leitura da Carta com que J. de 
Alencar fecha o seo livro. 

Colhe-se com efFeito do dizer do Sr. P. Chagas que 
os talentos, que precederam J. de Alenrnr v-y p\iiV>rt)- 
çao da mina, cousa nenhuma apanUaram uu a^cuão ia- 
significancias, 'nesses campos esmaltados de incantado- 
rasgallas, — 'nessas selvas solemnes, regiOes immarces- 
siveís da poesia mais melanchólica e mais pathética — 
'nessas montanhas majestosas, e nesses valles somhrios 
onde ainda se parecem ouvir echos de uma raça de 
Atlantes — 'nesses rios gigantôos, que uma vegetação 
descommunal horda e veste de eterno viço, de louçania 
perenne. 

Parece que tudo estava ainda por fazer, que a poesia 
dormia na immensidade inexplorada dos ôrmos, ou que, 
assim a modo de jaguar ou de ophidio venenoso se 
recolhia em antros profundos, 'd'onde os antecessores de 
J. de Alencar só a tinham podido exhumar completa- 
mente desfigurada ou morta, ou antes onde nao haviam 
penetrado. Bom é comtudo observar que alguns d'esses 
primeiros exploradores, a quem tão peremptoriamente 
se recusam sagradas direitos adquiridos e reconheci- 
dos, tiveram, mais de uma vez, occasiao de se acharem 
em immediato contacto com a natureza virgem, de 
contemplal-a em pessoa, de perscrutar os seos augustos 
mystérios e de receber d'ella directos influxos e inspi- 
rações. Póde-se acaso dizer outro tanto de José de 
Alencar, que, como é sabido, arrancou essa pretensa 
poesia brazileira do fundo da sua phantasia palaciana, 
6 lhe deu forma sobre a sua mesa de cortezao ¥ 

Se o symp&thico escriptor portuguez conhecesse me- 
lhor as cousas de nossa terra; se soubesse que, ao 
passo que Gonçalves Dias percorria^o Brazil do sul ao 
norte, penetrou nas intranhas das tribus do Ceará, do 
Maranhfto, do Pará, do Amazonas, atravessando rios 
caudalosos, margens ínvias, estudando costumes e 
dialectos vários, colhendo mil noticias e tradições, José 
de Alencar escrevia folhetins impregnados de essências 
de salões, frequentava os passatempos da corte, sonhava 
louras visOes de luvas de pellica e de crinoline na rua 
do Ouvidor ou no Carceller, 'numa palavra hauria a 
vida puramente de cidade, de filigranas, de excitações 
procuradas, de estimulantes fáceis e á mfto ; se soubesse 
que, á proporção que elle ruminava, talvez entre uma 



116 XXVIII 

chávena de café e um delicioso havaim, sob a abóbada 
caricata de um kiosoue artificial, a poesia também arti- 
ficial e brunidinha aa Iracema^ Gonçalves Dias combi- 
nava na sua grande imaginaçfto, á sombra de um gi- 
gante da floresta, ou & mai^gem inundada de emanações 
aquáticas, ou no píncaro de uma serra a topetar com a 
immensidade, a poesia musculosa e farta, que se per- 
cebe palpitar natural, vehemente e livre do menor ren- 
cilho nas páginas immortaes do Y-juca-pirama e dos 
Tymbiras ; se soubesse, finalmente qual o juízo incon- 
trastavel da universalidade brazileira 'neste poncto, 
certo nao teria aventurado idéas que nSo açnai^^, 
porque nao podiam nem deviam achar, a menor guarida 
entre nós. 

Se houve já alguma obra de J. de Alencar, a cujo 
respeito se nSlo demorasse a manifestar-se, sem hesita- 
ção, o juízo público, está certamente em tal caso a 
iracétna ; e esse juízo nao lhe foi fevoravel. 

Segundo jâ tive occasiao de observar 'numa das pre- 
cedentes cartas, o appareciínento da lenda sertaneja, 
longe de corresponaer á espectativa suscitada pelo 
Guarany^ do mesmo auctor, fêl-^ despenhar^-se na mais 
amarga e rude decepç&o. Geral frieza a recebeu, e 
quer-me até parecer que appreciaçffes auctorizadas lhe 
recusaram os direitos, que também agora lhe contesto, 
de filha da terra. 

Nem era de esperar o contrário, porque a poesia bra- 
zileira estava já entfto verdadeiramente inaugurada no 
paiz. Nem é outra senEo a que nos deixaram esplen- 
didamente insaiada Basílio da Gama e Sancta Rita 
Durão, e que deve ao portentoso pineel de Gonçalves 
Dias os contornos accordes, os toques magistraes, as 
linhas firmes, as cores feiticeiras e primorosas com que 
se arreia, 'numa piilavra as sólidas e inabaláveis bases 
em que hoje a vemos definitivamente firmada. O que 
J. de Alencar nos deu na sua Iracema foi uma poesia, 
de sua invençfto, como de sua invenção nos tem querido 
dar uma língua, uma natureza humana e uma natu- 
reza inanimada ao avesso. A poesiíBL de um povo nfto 
se inventa a mero arbítrio, e dizeiàos que o typo da 
Iracema é de pura ficção do auctor, porque elle nJlo se 
apoia nem na lettra ou espírito da história, nem nos 
modelos e estudos dos mestres. 

Fique sabendo o Sr. P. Chagas que no Brazil n9o se 
conhece outro padr&o de litteratura indiana com foros 



XXVIII 117 

para interpretar fielmente o character local, senão 
aq\ielle que o paiz deve ao prestimoso talento do Dias, 

£sà;e typo j& recebeu o sagrado baptismo das popula- 
ções e dos intendidos, e é o único destinado para 
perdurar e transmíttír-se & posteridade, porque foi 
bebido nas fontes autbênticas do estudo, mais conscien- 
temente feito, do nosso aborígene. Pois bem : d'esse 
typo é tao essencialmente diversa a Iracema, quanto a 
^ua do vinho. 

Explica-se o desacerto de J. de Alencar^ emprehen- 
dendo contrapor à verdade a ficç&o da sua phantasia. 

Ha organísaçOes que h m&xima generosidade preju- 
dica primeiro do que beneficia. Guarany tinha visto 
a luz, e tendo só direito a ser festejado na razão de 10, 
foi-o na razão de 100. Ora, o espirito d'esse auctor nfto 
é d'aquelles que as mais exaggeradas ovaçOes não des- 
pojam nunca da majestosa calma da consciência, o 
brilhante realce das grandes organisaçOes moraes. 
Sopitada a çhamma intima, a pretenção mais desbra- 
gada tomou o logar & razão e ao bom senso. O homem 
reputou-se logo com suficiente auctoridade e cabedaes 
para demolir o que a edade e o génio tinham custosa- 
mente construido. Mas demolir^ sem ao mesmo tempo 
edificar, não era decente nem plausivel. £ depois era 
preciso, antes de tudo, mostrar que o novo estava muito 
acima dos velhos archi tectos ; d'ahi a idéa de inaugu- 
rar eschola, que transmittisse á posteridade o nome do 
seo fundador. E então, bom Cincinnato ? Não podia, 
como vês, ser mais modesta a aspiração. Loucura! 
Nem ao menos reflectiu qssq homem que o seo Guarany 
tinha principalmente agradado, porque mostrava certo 
Hccõrdo com a conhecida feição histórica e tradicional 
do aborígene brazilico ! 

J. de Alencar escreveu eutão as suas célebres cartai 
:&ohre a Confederação dos Tamoyos.^k' sombra dos folhe- 
tins, e principalmente do Guarani/ (que se não foi pu- 
blicado antes das cartas^ o foi de certo, se bem me re- 
cordo, simultaneamente comellas), fizeram carreira e, 
comoé natural, visto que ninguém quiz antepor-se-lhe, 
novos créditos vieram recommendar o talento do espe- 
rançoso escriptor. 

Suppondo este, por illusão de óptica da sua vaidade, 
haver suterrado o nome, consolidado jà, do poeta Gon- 
çalves de Magalhães, com que insânia presumes tu 
que seria agora tentado ? Presta attençfio ! 



118 XXVIIf 

Barreira ingente interrompia o tõo àquellas j& des- 
comedidas aud&cias. Essa oarreira era o nome pres- 
tigioso do Dias — o pae nunca assaz prancteado da poe- 
sia brazileira, como Cullen Bryant, Waldo Emerson 
e Henry Longfellow o haviam sido da poesia da Amé- 
rica do Norte*- do Dias, que conquista elogios <x nfio 
incommendados » de A. Herculano, e que Wolff ap- 
plaude. 

Pois bem, meo amigo. Não ha respeito, nao ha con- 
sideração, que o detenha. Eil-o que se arroja contra o 
colosso formado, gõtta a gôtta, e dia a dia — stalactite 
inaccessivel e sublime do génio, consolidado no con- 
ceito de mais de uma naç&o ; somente o assalto é diri- 
gido com mais gcito, estratégia e arte : em vez de 
simples critica offerece uma obra com todas as seduc- 
çOes da novidade; em logar de modos desabridos, prin- 
cipia dizendo que « Gonçalves Dias é o poeta nacional 
por excellência, e ninguém lhe disputa o conhecimento 
da natureza brazileira e dos costumes selvagens » ape- 
zar de concluir, declarando que « entretanto os selva- 
gens do seo poema f os Tymbiras ) falam uma lingua- 
gem clássica e exprimem idéas próprias do homem ci- 
vilizado, e que n&o é verosimil tivessem no estado da 
natureza. » Ora dize-me : que poeta nacional por ex- 
cellência é esse; que conhecimento da natureza brazi- 
leira e dos costumes selvagens pôde fazer crer que tem 
aquelle que faz dos seos selvagens n&o só homens ci- 
vilizados, mas até falando linguagem clássica ? Nao 
se vê que a proposição inicial só teve por fím illudir a 
agrura, sem diminuir-lhe a intensidade, da proposiç&o 
final ? Que o pomo contém verme corrosivo, e a flor 
veneno mortífero ? Opportunamente tocaremos *ne8se 
presumido classismo e civilização dos selvagens dos 
Tymbiras. ^ 

Em resumo : eis ani duas importantes auctoridades, 
duas grandes columnas do nosso modesto templo de 
lettra», victimas do c^^martello do verdadeiro icono- 
clasta dos nossos primeiros numes. Ah ! n&o s&o so- 
mente estes dous sustentáculos, que padecem golpes 
de destruiç&o cruel : J. de Alencar tem o descõco de 
dizer, mediante aquelle seo eslylo insidioso, que appa- 
renta o melhor desinteresse e cordura, mas em reali- 
dade perigoso e malfazejo, que das « producçoes que 
se publicavam sobre o thema indígena, nenhuma reo- 
lizava a poesia nacional^ tal como lhe apparecia no es- 



XXVIII 119 

tudo da vida selvagem dos autochthones brazileiros ; 
que muitos peccavam pelo abuso dos termos indígenas 
accumulados uns sobre outros (havemos de ver se elle 
nSo caiu ^neste abuso ], o que não só quebrava a har- 
monia da lingua portugueza (quem defende a língua!) 
como perturbava a intelligência do texto ; que outras 
eram primorosas no estylo e ricas de bellas imagens, 

r)rém certa rudez ingénua de pensamento e expressão 
e H, Iracema satisfez estas condições?^ que devia ser a 
linguagem dos indígenas, nao se incontrava alli. » 
Logo, meo amigo, a aggressao não se circumscreveu a 
Gonçalves Dias e a Gonçalves de Magalhães : Porto 
Alegre, Basílio da Gama, Fr. Sancta Rita e todos 
ouautos (passados e modernos) tinham escripto sobre o 
thema iudígena, a todos esses se dirigem os projectís 
d'aquella màchina de arremesso, forjada pela mais 
descommunal philáucia litter&ria de que haja noticia 
entre nós. 

Chegámos emfim a este extremo : antes de J. de 
Alencar, ninguém! O bello nacional estava ainda in- 
colhido no õvo, e o ôvo escondido, como em ninho 
enorme, dentro do regaço opaco da natureza. 

Os mais beneméritos e qualificados ingenhos tinham 
até então doudejado por fora da colmeia immensa, e 
nada de atinar com a intrada e extrahir algumas gõttas 
de mel virgem. O próprio Sr. Pinheiro Chagas diz 
que haviam sulcado o lago « como o cysne alvejante, 
que só procura semear de pérolas a cândida plumagem, 
6 que receia inlodar na vasa do fundo o collo nítido. » 

Moderno Colombo, J. de Alencar, depois do seo mer- 
gulho nas intranhas dormentes e até então impene- 
tradas do desconhecido, assoma á superfície, mostran-- 
do-nos um mundo, ou uma maravilha. As pàllidas 
sombras dos nossos avós são evocadas aos túmulos das 
edades pelo boato, pela divulgarão do milagre ; e re- 
surgem infiadas de vergonha as illustres figuras dos 
nossos primeiros épicos,que a inquietitude do ciúme im- 

Selle, como trémulas páginas de névuas para o logar 
a exhibição. 

O que é que vedes, vultos venerandos ? A exemplo 
daa miragens do deserto, o sonho dissipou-se e esvae- 
ceu-se. Ah I foi tudo de certo um sonho, ou um delírio 
de louca phantasia. Perdoae a profanação, que foi 
imprudentemente despertar-vos dos vossos jazigos secu- 



120 XXVIII 

lares. Foi tudo uma farça, e eterno perd&o tos peço 
para quem a desempenhou. 

Que novo portento de estatuária nos offerecia J. de 
Alencar, em substituição ás columnas camartelladas, 
mas nao alluidas do templo? Vê bem, meo amigo. O 
<c mergulhador de Schiller » tinha-nos trazido, nto 

Sérolas ou coraes raros, mas justamente a vasa inloda- 
õra do fundo, que G. Dias, Magalhães, Porto Alegre e 
outros tiveram a fidalguia de nSLo levantar para nos 
pouparem um triste presente. O que se vô na Iracema 
e uma composiç&o infezada e anémica, posto que con- 
gesta de serosidades e flatulências, para que n&o have- 
ria remédio, a n&o ser a morte. É na verdade tfto 
depressa nasceu como depressa morreu. A tentativa 
abortou. O õvo estava goro. Nao fosse elle posto por 
« aquelle applaudido talento » e já d'elle n&o restaria 
nem mais a dilacerada casca. 

O escriptor portuguez, referindo-se á Iracema^ ao- 
code . 

u Pela primeira vez apparecem os índios falando a 
sua linguagem colorida e ardente ; pela primeira vez 
se imprime fundamente o cunho nacional ^num livro 
brazileiro ; pela primeira vez sao descriptos os selva- 
gens com aquelles toques delicados, que dao realce tao 
vivo aos typos do romancista da América do Norte. » 

Nao, peço vénia, nao ! 

Pela primeira vez apparecem os índios falando uma 
linguagem banzeira e esmorecida ; pela primeira vez 
sao descriptos os selvagens com toques, com tinctas da 
affectaçao mais visível , mas tmctas lyinphdticas, 
quando o selvagem é simples e singelo na sua majt^a- 
tosa grandeza. 

Falta-lhes o colorido próprio, expressivo, interes- 
sante. O que aquella linguagem tem, sfto demasias de 
arte. Debaixo da agglomeraçao fastidiosa de compara- 
ções, as mais das vSses fora de villa e termo, e que 
haviam de ter custado bom trabalho ao próprio auctor, 
a natureza subverteu-se como 'num abysmo. A palli- 
dez visivelmente se mostra atravéz das cores postiças, 
fugaces e precárias. 

O que me parece que se devia achar na Iracáma^ 
para que se podesse dizer que 'nella estava funda- 
mente impresso o cunho nacional, era ruído de grandes 
embates, repercuss&o de magnânimas acçOes e geotile* 
zas, tanto no amor como em tudo. 



XXVIII 131 

Quizéramos ver ahí o character do índio, primando 
na heroicidade e no valor tradicional. 

Quizéramos se nos deparassem scenas pathéticas, e 
nao episódios grutêscos e abaixo do nivel de uma raça 
que qualidades verdadeiramente superiores tornaram 
legendária. 

Quizéramos ver travar-se a paixão com força ingente, 
o sentimento (principal motor da acção] rasgar situa- 
ções grandiosas, surprendentes e dramáticas ; mas só 
ach&ioas iutcecho.^ triviaes e insignificantes, perfeitas 
bagatellas, que admira como tennam preoccupado um 
instante a phantasia de um espirito elevado. 

Quizéramos que o modo de expressar essas luctas, 
essas energias profundas, esses thesouros insondáveis 
de affectos e de smisaçOes bárbaras, fosse impetuoso e 
arrogante, correspondendo ás ousadias intimas, e tra- 
duzindo cabalmente as expansões abruptas. Mais uma 
vez o diremos : J. de Alencar nao tem pulso para es- 
crever a epopéa. 

A linguagem dos gigantes das selvas primitivas é 
qual se fora a de degenerados pygmêos — pállida e fria, 
gem alentos, nem vibraç&o. 

O amor da indía ó um amor çhorao, enervado, 
piegas. A sua compleição physiológica tem alguma 
cousa de inane, que repugna á organisação desabro- 
chada em pleno trópico, recebendo fluidos de todas as 
abundantes fontes damaissuberba natureza do mundo. 
Se quiz modelar a Iracema pela Ato/a, errou em claro: 
os sentimentos modestos, por assim dizer impalpáveis, 
d'esta última s&o d&vidos á influencia poderosa do 
christianismo, e por tanto diversissimos no character 
e até no seo ser bravio, ardendo perenncmente em todas 
as çhammas brutaes da natureza. 

Passando do amor ás batalhas,, sancto Deus ! Aqui 
o desmoronamento do génio indiglna é completo, des- 
perta compaixão. 

O guerreiro é poltrão e moUe. Está ausente a inves- 
tida eloquente do animo, que tanto o recommenda e 
particulariza sempre que pOe em contribuição o seo 
brio e as suas glórias. 

Hei de mostrar bem ao vivo o que agora apenas de- 
nuncio. 

£ 'neste gosto tudo vai. Que amostra de poema épico 
é estai! 



122 XXVIII 

O Sr. Pinheiro Chagas ha de afinal convir comigo 
em que, apezar do seo extenso olhar critico» andou 
errado. 

Pois é pena: faço o mais vantajoso conceito do seo- 
elegante talento. 

Mil desculpas por hoje. 

E até amanha. 

Teo sempre com todas as veras 



á/e^<Uu.. 



1/ CARTA DE PLAUTO A CINCINNATO 

Rio, 20 de Dezembro. 

Caro amigo. 

Em resposta á tua última carta, em que me per- 
guntas o que ha de novo pelos theatros da cõrce, res- 
pondo com esta, que terá apenas o merecimento... de 
te nao roubar muito tempo. 

Intrãmos no tempo das comédias-mègicas.Shakspeare 
pede a demissão — Molière retira-se à vida íntima !.... 
Vêem substituil-os nas suas funcçoes Perrault e M"* 
D' Aulnoyl... 

Os emprezários convenceram-se, — e, quanto a mira, 
nao se inganam, — de que só os contos da carochinha 
lhes podiam d&r contos de réis ! . . . 

A tragédia, o drama, a comédia de costames e de 
typos, retiram-se da scena cabisbaixos, mettendo a 
viola no saccol... O palco povôa-se de sylphos' fadas e 
ondinas !... de cyclopes, demónios e feiticeiras !.. . 

Triumpha o alçapão e o tam-tam I Reina o ouropel 

e o fogo azul I.. — De^apparecem os tyrannos que tri 
umpham no quarto^acto com a justiça dos hcyfnens^ e, 
no quinto, levam para o seo tabaco com e^ justiça de 
Deus ! — Somem-se os pães nobres de cabelleira neva- 
da, os galans que recitam ao piano, os artistas de mào 
calqada^ e os generaes de bigode d* algodão que pa* 
decem de gôtta e contam historias massadoras.- O pú- 
blico, farto de boas idéas e bom estylo, tem cançado o 
bicho do ouvido, e quer gozar pela vista, — e a rampa, 
ha tempos a esta parle, tomou a deliberação de não 
illuminar nenhum facto que valha menos de quatro 
centos mil réis ! . . . 



XXVIll 123 

E' por isto que a PheniX' dramática põe em acena a 
Princ0zaF/^HÍe-mato, com grande satisfaççao dos es- 
pectadores e das algibeiras do emprezário. A peça tem 
tido inçhentes successivas, e ha até quem se tenba 
arriscado a uma gymnástica perigosa para ver do alto 
da varanda das galerias, o demóoio que devora gente, 
e o dragão, devoto de Baccho, que se embriaga na 
fonte. 

Nada, porem, d'isto teve comparação com o successo 
que alcançou a Pêra de SatanaZj que viu a luz da 
rampa no theatro de S. Luiz, e que j& começou a série 
de representações que promettem ser intermináveis, se 
o gosto do público permanecer como t&o estrepitosa» 
mente se manifestou. 

Esta nova mágica, meo caro amigo, não é uma peça, 
— é um mundo I... Senta-se um homem pacificamente 
na sua cadeira da platéa,e transporta-se em duas horas 
a todos os paizes conhecidos... e a muitos em que 
nunca ouviu falar, — o que aug^menta consideravel- 
mente os incautos da viagem... eé sobremodo ins- 
tructivol... 

Ck)mprehendendo a missão do theatro, e junctando 
ao útil o agradável, quer a empreza, divertindo o pú- 
blico, alargar-lhe a esphera dos seos conhecimentos!.. 

Afim de n&o alongar esta carta, peço licença, meo 
caro amigo, para sacudir as considerações philosóphi- 
cas que n'este momento me accodem aos bicos da pen- 
na ; e — seguindo no empenho de apreciar a peça, — 
aqui te subscripto e estampilho as impressões que ella 
me deixou. 

Principiemos pelo principio. 

Eis o inrêdo da comédia : 

Era uma vez uma princeza muito linda, filha de um 
rei muito poderoso -^ 

E d'ahi, para que heide coatar-te o inrêdo?... 

Seria, a meo ver, roubar- te a surpreza da representa- 
ção, a que tu, meo amigo, como homem de bom gosto, 
n&o deixarás por certo de assistir. 

Nfto devo, comtudo, t-^rminar esta carta, sem te dizer 
que a peça está opulentamente preparada, e com mais 
esplenaor do que em Lisboa. 

Adereços, vestuário, machinismo, mise-en-srkne^ — 
tudo é digno de ver-se. 



124 xxvin 

A música ,.composiç&o original de Furtado Coelho, di 
á peça um realce admirável, e incerra trechos delicio- 
sos, que de certo hao de toruar-se populares. 

Quanto ao scen&rio, direi apenas que é simples* 

mente admirável, — e que o Sr. Rocha, scenógrapho do 
theatro de S. Luiz, é decididamente um dos mais hábeis 
artistas que tenho visto. Tem a peça dezoito ou vinte 
quadros, e entre elles, são dignos de louvor, principal- 
mente— a apotheose, o reino d&s campainhas, a ilha da 
harmonia, o palácio das cartas, a casa do pintor, os 

jardins do imperador da China — Perdfto. A lista 

vai um tanto longa. — Emendemos : — Sfto dignos de 
louvor principalmente, .... todos os quadros que a peça 
tem ! . . . 

Por via de regra,em producçoes doesta natureza,só se 
procura satisfazer completamente os olhos. Esta sai do 
ramrão. J& te dice que nao meãos a agradecem os 
ouvidos, pois prima por mimosa e appropriada a mú* 
8ica de Furtado Coelho, o qual toda a compôs e instru* 
mentou, sendo também este múltiplo talento que regeu 
a orchestra, j& com o piano e j& com a batuta, ao 
mesmo tempo que dividia a attençao por outros porme- 
nores da represe atacSLo, do scenário e do movimento. 

Accresce por último outro mérito raríssimo em taes 
producções : A peça de Ed. Garrido (o qual veia cx* 

Sressamente de Po/tugal para a pôr em scena) é cheia 
e chiste e graça desambiciosa e natural. As situações, 
os trocadilhos, os gracejos, tudo é tao conchegado, tao 
nosso de lei, que do principio ao fim, a peça se sustenta, 

Srovocando a hilaridade legitima, aquella que nasce 
a jovialidade innocente, e n&o do reprehensivel sacri- 
fício das conveniências. 

Se a Pêra de Satanaz deu em Portugal mais de 200 
representações com inçhentes, quantas nao dará no 
Rio de Janeiro, ondAiao é menos bem representada, e 
está |)0:>ta em «^cena com tamanho esplendor! NSo 
haverá quem deixe de acudir ao feliz theatrinho, 
quando for possível achar legares. 
Até cedo. 

Teo dedicado, 
Plauto. 



XXVni 125 

MONUMENTO A BOCAGE 

Tendo melhorado o tempo, e parecendo consolidado 
o terreno s6bre que vai erguer-se o monumento, re- 
solven-se collocar a pedra fundamental, e a Câmara 
Mnnicinal e a commiss&o filial, de Setúbal, resolve- 
ram proceder a essa formalidade com pompa. ^Neste 
sentido, o digno Presidente d'aquellas corporações di- 
rigiu ao Sr. Visconde de Castilho um officio, onde 
se Ha o seguinte : 

« Sciente de quanto V. me diz na sua carta de 
15 do corrente ( é resposta a outra anterior ) tenho 
a responder que na próxima sexta-feira, 24, irei pro- 
curar V. em sua casa para o fim a que na dieta carta 
se refere 

Approveito esta occasiao para declarar a V., que 
na ausência da commissao que digna e illustradameute 
snperintende na Aireeçao áos prep&rutivos e festejos i^ 
lativos ao monumento dedicado ao exímio poeta Bo- 
cage, resolveram a Câmara Municipal e Commissâo 
filial d'esta cidade fazer a cerimonia da coUocaçao da 
primeira pedra sobre o alicerce do dito monumento 
com modesta mas decente formalidade, na seguinte 
quarta-feira, 22 do referido mez, pelas duas horas da 
tarde, resolução que peço a V. leve no conhecimento 
e submetta & esclarecida appreciaçSo da Exma. Com- 
missao d*essa capital etc. >» 

Ck>m eflfeito, tomadas as devidas providencias, rea- 
lizou-se a cerimonia no dia 22 de novembro, às 2 horas 
da tarde, 'coUocando-se sob a pedra um coflf^e açha- 
roado, contendo outro de zinco, onde se incerraram: 
1.^ um exemplar em pergaminho do jornal SeUdfolense^ 
doesse dia, 2.^ o auto, também em pergaminho, assig- 
nado pela C&mara, pela Commis^o filial, e mais pes- 
soas gradas, 3.* moedas de prata e ouro, cunhadas 
no anno corrente. 

Em toda a praça emtorno fluctuavam flsmmulas ra- 
riegadas, mas por sobre todas tremulavaim, próximas 
uma da outra, e sem logar de precedência, as ban- 
deiras |)ortttgueza e brazileira. No ecto da collocação 
da pedra subiram ao ar numerosas girftndolas de fo^ 
gnetes, e tocaram bandas de musica, tudo coberto 
pelos vivas e gritos da immenga multidão, apinhada 
na praça, deficiente, apezar da sua grandeza, para 
conter tamanho concurso de povo. Foi jà uma bri- 



3 



126 XXVUI 

Ihante solemnidade, que fa-^, antever o que será a 
do dia da inauguração. 

O suberbo retrato de Bocage, a óleo, e de ta- 
manho T^atural, tirado no Rio de Janeiro, pelo ar* 
tista MoreaUy do único retracto fidedigno, que é o 
ue tirou Henrique José da Silva, no último anno 
a vida de Bocage, retrato que é hoje propriedade 
do Exm. Sr. Dr. Joaquim José Teixeira, açha-se 
já col locado em logar de honra no vasto sal&o do 
Paço da Câmara da cidade do Sado ; ficando as- 
sim também satisfeita essa resolução que a com- 
missão central no Rio de Janeiro commetteu aos 
seus dous membros, incumbidos de levar a tarefa 
ao cabo. 

Tinha sido composto para a festividade um gran- 
de hymno, e dous outros foram remettidos de Se- 
túbal. No dia 24 vciu o Sr. Dr. Manito a Lisboa 
6 com os Srs. Castilhoc e diversos membros da com- 
missao Ulyssiponeuse, assistiu no quartel do Carmo 
i execução do hymno pela excellente banda de 
música da guarda municipal, hymno que ha de ser 
executado pela músicd do 2 de infantaria, e yâ- 
rias philarmónicas, e que já está impresso para 
piano. 

Ficavam-se preparando tribunas para a inaugu- 
ração, que eflFectivamente parece dever ser hoje, 21 
de dezembro. Preparavam-se em Lisboa conducçOes 
extraordinárias, e no Barreiro comboios para trans- 
portar os visitantes. 

Reina em Setúbal grande enthusiasmo, por verem 
assim satisfeita esta aspiração, e paga esta .divida 
ao primoroso poeta, com que o Sado se honra. A 
cidade toda já está em gala : os prédios renovados, 
pintados ou caiados, derrubados os casebres aue 
desfeavam a praça e suas immediaçOes, coUocaaos 
elegantes bancos na praça, similhantes aos que 
adornam o Passeio Público de Lisboa. 

Dentro em pouco teremos definitivas informações, 
mas desde já se pôde asseverar que, a despeito de 
contratempos, pôde considerar-se realizada a decido 
tomada pelos cavalheiros que em 15 de septembro 
de 1865 celebraram no Club Fluminense o jubilêo 
do grande poeta portuguez Manoel Maria Barbosa 
4u Bocage. 



XXVIII 127 

F^óx^ma deGovêz^no. 

Nas mouarchias absolutas em geral, a mudança d^ 
uma situação depende da vida do monarcba, que 
tanto laais velho quanto mais afferrado é às suas 
opiniões. Ser preciso commetter um crime, de que 
a hii»tória nos appresenta tantos exemplos, ou e^t&o 
esperar por sapatos de defuncto, nao sao cousas agra- 
dáveis. Demais, 'nessa espécie de governo, os saltos 
são tao grandes que ha muito risco de cair e que- 
brar as pernas. De um rei velho, atrazado meio sé- 
culo ou mais, o sceptro passa para um moço, que 
muitas vezes quer ir adeante do seo tempo. Talvez 
se as vidas de Luiz XIV e Luiz XV nao tivessem 
sido tao longas, Liiiz XVI nao tivesse ido ao ca- 
dafalso. 

Nas repúblicas, as grandes questões resolvem-se a 
pólvora e baila, no campo da batalha. E' o juízo 
de Deus. (Sou muito religioso, mas accredito pouco 
na justiça de taes juízos). 

Nas monarchias representativas ou parlamentares, 
uma quest&o custa mais ou menos palavras, mais 
ou menos papel. Os homens sobem e descem como 
alcatruzes de nora ; as situações sSlo mudadas com 
mais frequência do que conviria á causa pública: 
prefiro essa versatilidade â immobilidade. As opi- 
niões contrárias, ou apenas diversas, v&o apparecendo 
à luz, mixturando-se e confundindo-se de maneira, 
que perdendo todas as asperezas, a final se conver- 
tem em uma só. E' a história de todos os parla- 
mentos. 

Otton. 



O podex* pesiJoal. 

Houve tempo, em que as pobres amas se viam 
obrigadas a custosas despezas de imaginação para 
conterem os meninos travessos. Phantasmas, lubisho- 
*mens, bruçhas, almas do outro mundo, era ahi uma 
multidão de cousas, cujos nomes formariam longo 
catálogo. 

O mundo marchou : tudo isso se reuniu ; e da com- 
binação chimica de todos, resultou um novo ente : 
um biçharõco! Eu bem o queria descrever.... mas creio 
4ue nunca o hei de poaêr conseguir, porque sem 



128 XXVIII 

o ver, nao pôde ser.... e se elle chegar ao pé de 
mim.... fecho os olhos por tal modo, que me ha de 
custar a abril-os outra vez. 

Çhama-se.... até tenho medo de o dizer : chama* 
se PODER PESSOAL. Safa ! Que nome ! Olhem que 
só o nome basta para assustar. O poder pessoal f 
Agora sim: não ha mais creança manhosa. 

O poder pessoal! Como o Sr. Alencar fala muito 
'nelle, ainda lhe hei de pedir que nos diga como 
elle é.... se é que S. Ex. alguma vez o viu, por- 
ue, segundo as suas próprias confissões, muitas vezes 
'e virou as costas e fugiu espavorido. 
Mas que a cousa foi bem achada, foi. Quando ha 
or ahi tanta gente, que quer acab.ir com o podar 
o diabo, era preciso crear alguma cousa para pôr 
no seo lugar. O poder pessoal é a mais bella in- 
venção da humanidade! Otton, 



5 



Se ruim é quem em ruim conta se tem, que juízo 
poderemos nós fazer de uma república, que se ven- 
de por dous vinténs, dando ainda de quebra um fo- 
lhetim de Nesio ? Otton. 

PROBLEMA. 

Discute-se nos melhores círculos d'esta capital uma 

Juestaò da maior transcendência, e de cuja soluçSo 
epende a felicidade do género humano: questão 
muito mais importante do que aquella da differenca 
entre o jota e o i romano, de que se occupava a 
mestre do bom Tolentino. Tracta-se de saber se é o 
Nesw^ que com o folhetim quer fazer passar a Re* 
pública, se é a República que pertende fazer acceí- 
tar o Nésio. Que dous I ! 

O Sr. Alencar f^da a viver a República ; será 
S. Ex. republicano ? Elle diz que n&o, e S. Ex. 
n&o é capaz de mentir. O Sr. Alencar é um ho* 
mem grandemente charitativo; exerce à lettra os pre- 
ceitos do Evangelho : soccorre e auxilia os seos 
inimigos. S. Ex. prepara-se para a vida, que em 
sua fé julga, que ha de vir : censural-o porque as- 
sim cauteloso vai arranjando o seo fardel para um 
dia gozar da bemaventurança, é a maior das injustiças. 

Otton/ 

Typ. elith. ^Imparcial— Rua Sete de Setembro n. 146 A. 



QUESTÕES DO DIA 



n: 39 



RIO DE JANEIBO, 28 DE DEZEMBRO DE 1871. 



W eÊá D n a tm cau dos Srs. E. & HJUemvert—AgcMtfiilio de Freitas Gui- 
■Mrtes & Comp., 26, rua do Goieral Gamara.— Livraria Académica, 
Bus de 8. José n. 119— Largo do* Paço n. C— Preço 200 reis* 

O !• voluBie, coB perto de 400 paginas— 3(000. 

OBRAS DE J. DE ALENCAR — IRACEMA. 

Omrtas a Oinoianato» 

V 

Meo charo amigo : 

Chegou a dilaç&o das provas e n&o a perco ; é entre- 
tanto ao Sr. Pinheiro Chagas que me estou dirigindo, 
porque tu já sabes de tudo isto. 

Vou dar-me ao trabalho, insano por certo, de co- 
piar ipsis verbis um capitulo integral da Iracèmay em 
qae se descreve um combate de Índios. 

Hartim, Poty e Iracema vao sendo perseguidos 
pelos guerreiros tabajáras. E a propósito de Martim : 
diz J. de Alencar, na página 9o, que vendo esse 
heroe « os verdes mares e as alvas praias, onde as 
ondas murmurosas ás vezes soluçam e outras raivam 
de fúria, rebentando em frocos de espuma ( o que 
quererá elle dizer? ) seo peito suspirou, porque esse 
mar beijava também as brancas areias do Potengi, 
MO berço natal, onde elle vira a luz americana. » E 
mais adeante, na página 180, em%ota : « Potengi— 
rio que rega a ciaade do Natal, d*onde era niho 
Soares Moreno. » 

Tenho minhas dúvidas, com o devido respeito. 
Southey, Lisboa, Constâncio, Pompéo e outros nSò 
dixem que Martim Soares Mdreno fosse natural do 
Bio Grande do Norte. Pelo contrário, alguns até 
deelaram que Martim era pairmte do sargento mór 
Diogo de Campos Moreno ( português ), o que de' 
algum modo faz presumir que Maftim pertencia á 



130 

mesma nacionalidade. O general A. e Lima, cuja 
auctoridade nao se pôde com boas razões contestar, 
diz positivamente na sua Synopsts^ a p&gina 70, que 
Diogo de Menezes « contentou-se com mviar ao Ceará 
um official portuguez, Martim Soares Moreno, que 
tinha accompanhado a Pedro Coelho, etc. » 

Ssio taes e tantos os testimunhos auctorizados 
'neste sentido, que nao será fácil recusar-lhes fé. 
Chego um momento, quando vejo contrariado pelo 
Sr. Alencar o facto, a suppor que este Sr., dispondo 
d'amplos recursos, e açhando-se 'numa corte, onde ha 
um Instituto Histórico e uma rica Bibliotheca Nacio- 
nal, bebe todas estas novidades em fontes abundantes 
e satisfactórias, de que o pobre bisonho provinciano 
nao pôde nem de teve provar. Mas occorre-me logo 
a anecdota da invenção do verbo afflar e de outros 
vocábulos ; da etymologia dos nomes das diversas 
localidades do Ceará, que vem aliás no diccionário do 
Dr. Martins, e outras galantes graçolas d'esta ordem, 
e sou levado a crer que o Sr. Alencar na Iracema é 
o mesmo Sr. Alencar da Diva^ do Gaúcho^ da Pata da 
Gazella^ etc. Então digo comigo, a sós, depois de 
fundo cogitar : 

— ^ Só se o Alencar ( assim se diz na auaencia ) 
açliou isto, ou achou aquilFoutro nas chrónicas incó- 
guitas, onde também achou a sua poesia banzeira, os 
seos selvagens mandriões, etc. Sendo assim estou 
calado. 

Mas nao. E' que J. de Alencar nao quer fazer só- 
mente uma nova língua, uma nova natureza, uma 
nova poesia : quer fazer também uma nova história. 
E se o homem diz que inventou o que está claro e 
velho nos lexicógraphos, que mais é que dê a Martim 
uma pátria a seo geito, quando a história nao é tAo 
positiva n'este pon*o quanto fora para desejar ? Temos, 
pois, este grande serviço mais a agradecer ao Sr. Alen- 
car : o ir explicando e completando por serdes vós quem 
sois a história pátria, no que ella tiver de duvidoso ou 
pouco preciso. Faz muito oem. E quem fôr homem de 
sangue no olho que lhe vá ao incontro. Metta-se 
'nisso I 

Desculpa a digressão, e volta comigo ao campo 
dos tabajáras ; já nao é o dos tabajáras, mas sim o dos 
pytiguáras. Havemos de dizer algumas palavrínhai^ 



XXIX 131 

sobre a etymologia que dà o Sr. Alencar a esta nação 
de índios. Fica para logo. 

Vai travar-se a pugna gigantéa, tremenda entre 
duas tremendas e gigantéas hordas inimigas. Pre- 
para-te para assistires a uma epopáa dig-na de Atlan- 
tes. Attençao I 

« Treme a selva com o estampido da carreira do povo 
tabajàra. 

« O grande Irapuam,* primeiro, assoma entre as 
árvores. Seo olhar rúbido viu o guerreiro branco entre 
nuvem de sangue ; o grito rouco do tigre rompe de seo 
peito cavernobo. (Este tigre é da família : também 
timbra em novidades ; até hontem dizia-se que o tigre 
bramava ; mas cá este grita I). 

« O chefe tabajàra e seo povo, iam precipitar (pôde 
deixar de dizer-se: precipítar-se? aqui o verbo preci- 
pitar é verbo activo? onde está o paciente? é verbo 
reflexo) sobre os fugitivos como a vaga incapellada 
que arrebenta no Mocoripe. (Como a vaga só?). 

a Eis late o cão selvagem. 

tt Poty solta o grito da alegria: /'faz como o tigre). 

— O cao de Poty guia os guerreiros de sua taba em 
soccorro teo. 

<x O rouco búzio (dous roucos t&o junctos 'numa obra 
de gôsío e artística l) dos pytiguàras estruge pela flo- 
resta. O grande Jacaúna, senhor das praias do mar, 
checava do rio das garças com seos melhores guer- 
reiros. 

« Os pytiguàras recebem o primeiro ímpeto enne- 
migo (com este ennemigo depois nos entreteremos) nas 

Sentas erriçadas de suas flechas, que elles despedem 
o arco aos molhos, como o coandú (fábula I) os espi- 
nhos do seo corpo. Logo após sõa a pocêma, estreita-se 
o espaço, e a lucta se trava face a faom. » 

Quando vejo esses pytiguàras despedindo do arco 
flechas aos molhos^ como o coandú os espinhos do seo 
corpo, lembro-me do trecho de um crítico appre- 
ciando o Washingtorij de Robert Payne, auctor norte- 
americano. Bobert Payne também dá a pomposa qua- 
lificação de epopèa ruicional á sua obra, que elle foi 
levado a compor, despeitado por Channing haver dicto 
que os Estados Unidos nao possuíam uma litteratura 
nacional. « Robert Payne — diz o crítico —representa 
Washington de pé, repellindo com o peito os trovOes a 



192 XXIX 

empunhando a espada núi^^a modo de conductor eléc- 
trico, para dirigir o raio para o oceano, onde vai apa- 
gpar-se. Èãte lieróe p&ra-i-aio ê a obra-príma da poesia- 
m&china. » Assim também esses heróes-coandú^ P^^ 
oem-me o nec plus ultra da poesia-mondriice. Conti- 
nuemos. 

a Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel 
combate que bastara a dez bravos, e nfto esgotou ainda 
a {6rça dos grandes chefes. Quando os dons tacapes ae 
ineontram, a batalha toda estremece, como um só g^er* 
reiro, até as intranhas. 

« O irmão de Iracema veiu direito ao estranedro* 
que arrancara a filha de Âraken á cabana hospedeira ; 
o faro da vingança o guia ; a vista da irmft assanha a 
raiva eni' seo peito. O guerreiro Cauby assalta com 
furor o ènnemigo. d 

Ent&o f J& sèi que estás tremendo de medo da tama- 
nha peleja. Â cousa est& mesmo f^ijpí. Mas emfim cora- 
gem, bum Cincinnato, que haveinós de contar da festa 
sem o mínimo arranhão. 

Iracema, unida ao flanco do seo guerreiro e esposo, 
vim de longe Cauby e falou assim : 

« — Senhor de Iracema^ ouve o rogo da tua escrava; 
n&o derrama (II) o sangue do filho de Araken.Se o guer- 
reiro Cauby tem de morrer, morra elle por esta mfto, 
nfto pela tua. 

(c Martim pôs no rosto da selvagem olhos de horror : 

<c — Iracema matará seo irm&o ? 

(( — Iracema antes quer que o sangue de Cauby 
tinja sua mfto que a tua ; porque os olnos de IraoAiaa 
vêem a ti, e a elle nfto. (É' uma razfto, como qualquer 
outra). 

« Travam a lucta os guerreiros,^ Cauby combate 
com furor ; o «hristfto delende-se apenas ; mas a setta 
embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro 
contra os botes do ennemiço. 

« Poty já prostrou o vdho Andirae quantoa guer- 
reiros topou na lucta seo válido tacape. Hariim lhe 
abandona o filho de Araken, e corre s6bre Irapuam. 

«(—Jacaúna é um grande chefe; seo collar de guerra 
dá três voltas ao peito. O tabajára pertence ao guer- 
reiro branco. 

€ — A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna 
ama o amigo de Poty. 



133 

« O grande chefe pytigaara levou além o formidável 
tac&pe* O combate renhíu-se eatre Irapuam e Martim. 
A espada do christao, batendo na clava do selvagem, 
fesHse em pedaços. O chefe tabajàra avançou contra o 
peito inerme do advers&rio. 

« Iracema silvou como a boicininga (pois a mulher 
silvou ?1 ), e se arremessou ante a fúria do guerreiro 
tabajàra. A arma rígida tremeu na dextra possante 
do chefe e o braço caiu-lhe desfallecido . 

<c Soava a pocâma da victória. Os guerreiros pyti- 
guàras, conduzidos por Jacaúna e Poty, varriam a flo- 
resta. Os tabajàras, fugindo, arrebataram seo ç lefe ao 
ódio da filha de Araken que o podia abater, como a 
jandaia abate o prócero coqueiro roendo-lhe o cerne. 
(Onde foi que o Sr. Alencar viu isso ?] 

« Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram 
o çhao juncado de cadáveres de seos irmãos ; e longe o 
bando dos guerreiros tabajàras que fugia em nuvem 
negra de pó. Aquelle sangue que inrubecia a terra era 
o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de ver- 
gonha 

« O prancto orvalhou seo lindo semblante. 

tt Martim affastou-se para n&o iavergonhar a tris- 
teza de Iracema. Deixou que sua dõr nua se banhasse 
nas l&grymas. » ( Uma dor nua a banhar-se em lá- 
gTjmBs I ) 

Acabou-se a batalha, e o capitulo, e, como vês, sftos 
e salvos ficámos ; ainda bem. 

Ora, eis ahi ao que se pôde mesmo chamar um mo* 
dêlo de descripçfto de combates de índios. E um modelo 
devia mesmo ser um combate entre chefes taes como 
Irapuam (Md Redondo )j Jacaúna, eo Camai^o ; reco- 
nheces aoui o grande, o insigne Camz&rao ? 

Muito levianos, senão mais que isso, eram esses his- 
toriadores da conquista. Chegarem ^ dizer que « estes 
americanofiLSSLo tao incarniçados nas suas guerras,que, 
emquanto podem meçher com pernas e braços n&o re- 
cuami nem dao as costas, combatem incessantemente, 
e isto ó 'nelles a cousa mais natural.» Quall histórias 
da carochinha. Esses supra mencionados guerreiros, 
até 08 mais afamados, n&o passai am de guerreiros 
coandús. E a prova está 'nesse mesmo Irapuam, tSo 
illustre na história pela sua braveza e perseverança^ 
que principiou aqui vendo tudo côr de sangtke^ e deu 
costas como sendeiro. Tabajáras de uma - figa, co- 



134 XXK 

vardes tabajâras ! De que vos servia serdes — o povo 
SENHOR ? Poty, Jacaúna, Iracema e Martim, isto é^ 
três homens e uma mulher vos puzeram a trote, a 
ver estrellas ao meio dia. Verdade é dizer-nos o 
auctor que Jacaúna viera com seos melhores guer- 
reiros. Mas também não se presume que Irapuam 
viesse com os peiores. E depois que melhores eram 
esses, dos quaes um nome se não dice? 

Contraponhamos agora a esl» descri pçao, feita por 
quem desceu ao fundo do lago e foi ter « ás flores 
maravilhosas que desabrocham nas cavernas de co- 
ral » aos recifes de madrepérola que expandem na- 
carados reflexos sob a transparência das águas » a 
descripçao de quem nao passou da superflcie « re- 
ceiando inlodar o coUo nitido, e a aza branca e lisa, 
a cabeça graciosa e fina » e vejamos quem na ver- 
dade se imodou na vasa, quem extrahiu as pérolas 
e os coraes. E' Gonçalves Dias que vai pintar uma 
lucta entre dous guerreiros (nenhum dos quaes de 
valor histórico). Attençao. 

Travaram lucta fera os doiís guerreiros. 
Primeiro ambos de longe as settas vibram. 
Amigos manitõs, que ambos protegem, 
nos ares as de.^jarram. Do Gamella 
introu a fréçha trémula 'num tronco 
e só parou no cerne ; a do Tymbira, 
ciciando veloz, fugiu mais longe, 
roçando apenas os frondosos cimos ; 
incontram-se os tacapes, lá se partem ; 
ambos, o punho inútil rejeitando, 
•6treitam*se valentes, braço a braço. 
Alentando açodados, peito a peito, 
revolvem fundo a terra aos pés, e ao longe 
rouqueja o peito arfado um som confuso, d 

Tudo aqui é natural, meo amigo. A lucta vai-se des- 
invoivendo gradualmente. Principiam os guerreiros 
despedindo as frechas ; depois brandem os tacapes, 
porque aquellas foram desgarradas pelos manitõs (ma- 
gistral applicaçfto da tradição ou da crença selvagem) ; 
e finalmente, partindo-se estas últimas armas, estrêi- 
tam-se, conçhegam-se corpo a corpo, e rugem no agi- 
gantado esforço, e revolvem a terra com os pés. Pa- 
rece-nos estar vendo a pugna de dous só, mas mi- 
rífica. Prosigo. 



135 



Scena vistosa ! quadro appat-atoso ! 
Guerreiros velhos, à victória affeitos, 
tamanhos campeões vendo na arena, 
e a lucta horrível, e o combate accêso, 
mudos quedaram de terror tranzidos. 
Qual d'aquelles heróes ha-de primeiro 
sentir o egrégio esforço abandonai -o ? 
perguntam ; mas não ha quem lhes responda. 

Sao ambos fortes : o Tymbira hardido, 
esbelto como o tronco da palmeira, 
flexível como a frecha bem talhada, 
ostenta-se robusto o rei das selvas ; - 
seo corpo musculoso, immenso e forte, 
é como rocha enorme, que desaba 
de serra altiva, e cai no valle inteira ; 
nao vale humana força desprendel-a 
d'alli, onde ella está ; fugaz corisco 
bate-lhe a calva fronte sem partil-a. 

Separam-se os guerreiros um do outro', 

foi d'um o pensamento... a acção foi d'ambos. 

Ambos arquejam : descoberto o peito 

arfa e estua, eleva-se e comprime-se, 

e o ar em ondas sôffregos respiram. 

Cada qual, mais pasmado que medroso, 

se estranha a força que no outro incontra, 

a mal cuidada resis encia o irrita. 

— (( itajubal Itajubal os seos exclamam. 

Guerreiro, tal como elle, se descora 

um só momento, é dar-se por vencido » 

O filho de Jaguar voltou-se rápido. 

D'onde essa voz partiu ? quem n'o aguilhõa ? 

Raiva de tigre annuviou lhe o rosto, 

e os olhos cõr de sangue irady pulam. 

a — A tua vida a minha glória insulta!/] — 
grita ao rival — e já de mais viveste. » 
Dice, e como o condor, descendo a prumo 
dos astros, sobre o Ihama descuidoso, 
pávido o prende nas torcidas garras, 

e sobe audaz onde não chega o raio 

võa Itajuba sobre o rei das selvas, 
cinge-o nos braços, contra si o aperta 
com força incrível, o colosso verga, 



1^ 



M.iê 



inclina-se, desaba, cai de chofre, 
e o pó levanta e atroa forte os echos. 
Assim cai na floresta um tronco annoso, 
e o som da queda se propaga ao longe/ 

O fero vencedor, um pé alçando, 

« Morre I •— lhe brada — e o nome teo comtigo !» 

O pé desceu, batendo a arca do peito 

do exânime vencido : os olhos turvos 

levou, a extrema vez, o desditoso 

&quelles céos de azul, áquellas mattas, 

dõce-cobertas de verdura e flores ! 

Depois, erguendo o esqu&lido cadáver 

sobre a cabeça, horrivelmente bello, 

aos seos o mostra insanguentado e torpe . 

Então por vezes três o horrendo grito 

do triumpho soltou ; e os seos três vezes 

o mesmo grito em choro repetiram. 

Aquella massa emfím voa nos ares ; 

porem na dextra do feliz guerreiro 

dividem«se entre os dedos as melenas, 

de cujo crftneo marejava o sangue ! » 

Ora, diga-me sinceramente o Sr. P. Chagas, com o 
cavalheirismo que o distingue : em qual doestas duas 
descripçoes está fundamente impresso o cunho nacío* 
nal — na de J. de Alencar, ou na de G. Dias ! Acha 
o illustre critico portuguez que uma pugna sangrenta, 
de vida e morte, entre gigantes da floresta, inimigos 
sanhudos e feros, como se presume que seriam Irapu- 
am e Poty, ou Mel-Redondo e Camar&o, havia de 
correr d'ess*arte pl&cida e desinxabida, e sobretudo 
teria aquelle desinlace mesquinho e ridículo ¥ Atten- 
da-se mais ; que & precedente inimizade entre ambos 
accrescôra a recent^uga de Iracema, devida a Mar- 
tim, de Iracema, que a turbara osomno do primeiro 
guerreiro tabaj ar a » que o fizera descer (c do seo ni- 
nho de águia para seguir na v&rzeaa garça do rio» 
( Vid a pag. 26. ; 

Mas diz-nos o Sr. P. Chagas que <c n&o conhecend o 
os Tymbiras (d'onde fizemos o extracto supra), nfto pôde 
formar juizo sobre elle; mas outros poemetos indianos, 
publicados no volume de versos do grande poeta bn^ 
zileiro (edição de Leipsick) auctorisam-n'o a suppor 
que a morte ceifou Gonçalves Dias antes d*elle ter 



XXIX 137 

inau^rado verdadeiramente a litteratura nacional do 
Brazil. )» 

Pois nSo seja esta a dúvida ; temos tanto as Obras 
Pósthumas do grande poeta, como os seos Cantos (edi- 
ç&o de Leipsick), como suas Poesias (edição novíssima 
de Paris, do Sr. Gramier, precedida da biographia do 
auctor pelo Sr. cónego Fernandes Pinheiro. ) 

Abro o volume dos Cantos^s, mesma ediçfio que tem o 
Sr. Pinheiro Chagas, e incontro na página 155 outra 
descripção de um combate de índios. £' na poesia 
intitulada Tabyra. 

Eis que os arcos de longe se incurvam ; 
eis que as settas aladas jé voam ; 
eis que os ares se cobrem, se turvam, 
de fréçh&dos, de surdos que s&o. 
novos gritos mais altos reboam, 
entre as hostes se apaga o terreno, 
j& tornado apoucado e pequeno, 
j& coberto de mortos o chão ! 

Mas Tabyra ! Tabyra I que é d'elle t 
onde agora se esconde o pujante ? 
Nào n'o vedes ? ! Tabyra é aquelle 
que. sangrento, impiedoso, lá vai I 
Vél-o-heis andar oeojpreadeante, 
larga esteira de mortos deixando 
traz de si, como o raio cortando 
ramos, troncos do bosque onde cai. 

« Tem um olho de um tiro frechado I 

« Quebra as settas que os passos lhe impedem, 

<c e do rosto, em sco sangue lavado, 

« frecha e olho arrebata sem^ó ! 

<c e aos imigo'^, que o campo não cedem 

« olho e frecha mostrando extorquidos, 

« diz, em voz que mais eram rugidos : 

« — Basta, vis, por vencer-vos um só ! » 

Pois estas três strophes nao valem, falando sincera- 
mente, cem vezes mais que o capítulo inteiro do Sr. 
Alencar t 

Ao ler^se este episódio do Tabyra, arrancando o 
4)lho com a fréçha que o cravara, e que parecerá, 



138 XXIX 

talvez, exaggerado, como em caso análogo se tem 
dicto de Lucf-no, íembro-me de uma história que 
nos conta Âudubou, muito em harmonia com aquelle 
episódio. 

« Defronte de mim, diz o naturalista americano, 
estava um índio, com os cotovellos incostados aos 
joelhos, e a cabeça ás mãos. Segundo o uso dos in- 
dígenas da América, nao se moveu ao çhegar-se-lhe 
o homem civilizado. 

« Os viajantes nao tem deixado de interpretar como 
indício de priguiça, de estupidez, de apathia, esse 
silencio nascido do mais altivo orgulho. 

« Via-se, incostado á parede, um grande arco, mui- 
tas frechas e pássaros mortos espalhados pelo çhao. 
O índio nao se meçhia; nem parecia respirar. Di- 
rigi-lhe a palavra em francez, idioma de que a mór 
parte dos índios d'esses logares sabe ao menos alguns 
termos. Levantou a cabeça, mostrando-me com o dedo 
um dos olhos saídos da órbita, e o sangue correndo 
sobte o rosto; depois, com o outro que lhe restava lan- 
çou em mim um olhar singularmente significativo. 

« Depois soube eu que, havendo-se a fréçha do seu 
arco quebrado no momento em que a chorda estava 
tesa, um dos pedaços da arma partida resurtira contra 
o olho do índio e 'nelle se cravara. 

« Soffria calado. A despeito da viva dor, conser- 
vava imperturbada a dignidade altiva. Era bem feito, 
ágil, bem disposto; physionomia intell igen te e cân- 
dida. 

« Adm irei esse valor do selvagem , stóico do deserto, 
e stóico sem vaidade. » 

Como se vê, G. Dias e Audubon estão accordes ; 
quem se separa e fica só, é o Sr. Alencar. 

Conhece-se 'neste trecho o índio. Ha notável firmeza 
e verdade no finaMo mestre, que viu o original das 
estampas que desenha, e nao tem a vaidade de pintar 
figuras de sua exclusiva concepção. Bápidos contor- 
nos e cores ligeiras destacam o desenho, a que só falta 
o movimento da vida. Nem uma dVssas linhas ou 
tinctas provoca a menor contestação. 

Mas, voltando ao assumpto: o que é que vemos 
no capítulo do Sr. Alencar, com o cunho nacional 
fundamente impresso ? A bair ininga ( á similhança 
da qual silva Iracema ), o tigre (que grita^ ) o coandú,. 
etc. 



XXIX 139 

Mas nos versos do Dias vemos o condor, o Ihama, 
também o tigre, etc. Dirão : o condor e o Ihamá 
nao sao propriamente do Brazil. Responderei : também 
o tigre e o coandú nao sao exclusivamente d'este 
paiz — o primeiro incontra-se na Guyanna e Surinam, 
e o segtindo na Guyanna e no México. Logo 

Estou fatigado em extremo. Continuarei, 

Teo do coração 
Semprónio 

A Xieox*saiilzao3o do t]?a1>aUio 

A classe operária e a tndàstria no Brazit. Necessidade da 
rehabílitação e melhor organização do trabalho. Con- 
siderações sobre o meio de realizar esta grande e gene- 
rosa aspiração da sociedade brazUeira, 

I 
O Brazil acaba de passar por uma profunda e radical 
modificação. O dia 28 de septembro de 1871 é o génesis 
de sua regeneração social. A lei que indirectamente 
aboliu a escravidão no Império é a segunda memorável 
épocha de sua bistória. Nova ordem de cousas nasce 
d'esse grande accontecimento. Triumpbo esplêndido e 
incruento da civilização, foi elle a aurora do progresso 
6 da regeneração para este povo, fadado pela Provi- 
dencia a sustentar, em futuro n&o muito remoto, a 
balança do equilíbrio entre as naçOes da América do 
Sul. A terra que da cruz bavia tomado o nome, nOo 

Sodia tolerar que 'nella se perpetuasse a escravid&o — 
esmentido formal do Evangelbo que professa, contra- 
dicçfto viva com as doctrinas libérrimas que prega e 
executa — anacbronismo inexplicável e absurdo no sé- 
culo de luz em que vivemos 

Este importante facto, preparado de ba muito surda 
e lentamente, e nos dous últimos ^nos, precipitado pelo 
impulso irruptor da civilização, era previsto de longa 
data pelos publicistas mais notáveis da Europa, que^ 
fazendo justiça ao cbaracter brazileiro, viam, como diz 
Victor Hugo: 

.. .comme une mer sur son ri vage 
Monter d' étage en étage 
L' irrésistible libené. 

Já em 1868 o distincto economista Miguel Cbevalier 
escrevia « O vasto Império do Brazil prepara visivel- 
mente a grande transformação social. » 



140 

Sem abalo sensivel, sem a gigantéa e sanguinoleiíta 
lucta de que foi theatro a república dos Estado»- 
Unidos, conseguimos converter em lei do Estado uma 
providencia que, ainda mesmo nao secundada por 
outras que mais tarde lhe servirão de complemento, 
traria dentro de alguns annos a extincçlo completa da 
escravidão no Império. 

Abolido no futuro, e no presente diminuido conside- 
ravelmente este elemento da populaç&o, que na sua 
maioria ou quasi totalidade era o instrumento principal 
e quasi exclusivo de producç&o entfo nós, ficam suW 
tancialmente alteradas, no que diz respeito ao trabalho, 
as relações sociaes. Se se n&o cuidar seriamente em 
substituir de prompto, e do modo mais pppropriado e 
vantajoso possível, os braços que têm necessariamente 
de escacear á lavoura, em consequência da alforria dos 
ncLscUuros^ ou da geraç&o que vier ao mundo depois 
da lei de 28 de septembro a'este anuo, o paiz passará 
por uma crise; suas fontes de producç&o, dimmuindo 
em r&pido decrescimento, influirão sôbrt a receita pú- 
blica, que hoje tao próspera avulta. 

a O grau de potência productiva a que chegou a 
indústria moderna ( diz um escriptor contemporâneo ) 

Sela intervenç&o conjuncta, e crescentemente activa, 
a sciéncia e do capital, fez vencer obst&culos, que 
outr'ora seriam reputados insuperáveis. Foi assim que 
se resolveram proolemas que interessavam á política 
geral e á boa ordem do género humano. » 

Para comprovar essa verdade tomaremos, como 
Dareau um exemplo da história de nossos dias, tanto 
mais a propósito, quanto é applicavel a uma situação 
similhante &quella em que se acha actualmente o 
Brazil. 

A escravidão nas co^nias foi abolida pela Inglaterra 
em 1833 e pela França em 1848. 'Nessas regí0e8,a8sim 
ouasi despovoadas de braços, os proprietários do solo 
ncaram em difficil posição. Os escravos alforriados reca- 
saram*se tenazmente a trabalhar nos ingenhos de 
assucar, que lhes lembravam uma história de dolorosos 
padecimentos, em que elleb e as gerações que os haviam 
precedido tinham sido as victimas. Residindo em miee* 
raveis cabanas « que com as próprias m&os levantavam, 
viviam do producto da pesca ou de alflfuns legumes 
que lhes davam, ouasi independente de cultÍTO, oa 



141 



férteis torrões em que lançavam a semente. Poucos d'en- 
tre 08 melhores d'esses libertos se prestavam, mediant