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Full text of "Real capella da universidade: alguns apontamentos e notas para a sua història"

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EcL^k^c, 5 l VS.V^â .S 



rWanmrd C%íleqe J^hnin^ 
c^n Jtíemon/of 

de Soto/nayor d\7flmeida 

eí^conceUos 
G>iint of Santa £u/aiici 

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'eíj CapcIIa 



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dô. 



Ut2lVE:R5tDflDE 






Real Capella da Universidade 



Prof. Dr. ANTÓNIO DE VASCONCÉLLOZ 



Real Capella 
da Universidade 



( niguns apontamentos e notas para a sua história ) 




COIMBRH 
Imprensa da Universidade 

1908 









0^ 



,W, :-l~^ 



R. 4806 



Êj Presente opúsculo não foi escrito com pretensões 
^"^ literárias, nem tampouco houve o intuito de nelle 
se produzir um trabalho histórico definitivo. Nada disso. 
No desempenho do seu cargo de director do archivo 
da Universidade, o obscuj^o autor destas linhos tem ali 
encontrado bastantes referências e documentos desco- 
nhecidos, relativos à real capella universitária. Encar- 
regado por outro lado, ha seis annos, da direcção da 
mesma real capella, tem tomado conhecimento dos ser- 
viços, do pessoal e do material deste estabelecimento, e 
ao mesmo tempo tem recolhido interessantes tradições, 
prestes a perderem-se. 

Lemb7'ou-se por is^so de colligir e publicar despreten- 
ciosamente os apontamentos e notas, que sobre o assunto 
possuía; elementos que aqui ficam reunidos à disposi- 
ção de quem mais tarde os queira aproveitar, para com 
elles, e com outros, poi"ventura mais interessantes, que 
venham aumentar o pecúlio, traçar então a história da 
real capella da Universidade. 



A GAPELLA REAL DE S. MIGUEL EH GOÍHBRA 




EMONTA aos inícios da nacionalidade portuguesa 
a fundação da capella real de S. Miguel nos 
paços da Alcáçova em Coimbra. Assentando 
nesta cidade a sua residência habitual, el-rei 
D. Affonso Henríquez erigiu no seu próprio 
palácio uma capella, onde quotidianamente se 
celebrasse o Sacrifício eucharístico, e se recitas- 
sem privadamente as horas canónicas, para satisfação da 
piedade de el-rei e da régia família. 

Não me preocupo neste momento com a questão das remo- 
tas origens das capellas reais dos monarchas christãos da 
península hispânica; nem, folheando as collecções dos concí- 
lios, irei agora procurar nas memórias do suppôsto concílio 
de Lugo (1 janeiro 569) referência à capella do rei Theodomi- 
ro, erecta no mosteiro de Dume, junto dos muros de Braga, e 
tendo por primeiro capellão-mór o bispo S. Martinho, a quem 
seria dada jurisdição ordinária sobre o rei suevo e sua corte, 
nas palavras: — Ad sedem Dumiensem família regia ^ Muito 
se tem dito e escrito a este respeito; mas passo a deante, 
por ser alheio ao meu plano demonstrar aqui a nenhuma au- 
toridade das actas attribuídas a esse imaginário concílio. 



* LoAÍsA, Collect. Concilior. Hispan.'^- 
t. 3; etc. 



- Harduin, -ácía Concilior., 



CAP. I— A CAPELI.A REAL DE S. MIGUEL 



No que porém não ha dúvida é na existência permanente 
da capella real nos paços dos nossos monarchas, logo desde 
o reinado de D. Affonso Henríquez. 

Residindo em Guimarães, ali erigira o primeiro monarcha 
português a insigne coUegiada de Nossa Senhora da Oliveira, 
onde satisfazia os seus deveres de piedade, como sendo pro- 
priamente a sua capella real. Transferindo depois para Coim- 
bra a sede da corte, fora o mosteiro de Santa Cruz, por elle 
ennobrecido e grandiosamente acrescentado, que teve a honra 
de lhe servir de capella, onde elegeu por seu confessor e par- 
ticular conselheiro o primeiro prior deste convento, S. Theo- 
tónio '. 

Mas em breve dentro do seu próprio palácio, que se erguia 
no alto da collina onde, cercada por forte cintura de muralhas, 
assentava a cidade do Mondego, erigiu uma capella privativa, 
que dedicou ao archanjo S. Miguel 2. 



Grande era a devoção que o fundador da monarchia por- 
tuguesa tributava ao archangêlico príncipe da milícia celeste, 
em cuja protecção muito confiava. 

Edificando a igreja do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, 
a elle fez consagrar a primeira das capellas laterais da nave 
da Epístula; em sua honra também erigiu capellas na igreja 
da Alcáçova de Santarém, e em Santa Maria d' Alcobaça; 
fundou finalmente a notável ordem militar de S. Miguel da 



* Cardoso, Agiolog. Lusit, t. 1, p. 399; — D. Nicolau de S.ta Ma- 
ria, Chron. dos Cónegos Begr.j t. 2, pp. 17 e seg. ; — Fr. Leao de 
S.io Thomas, Benedictina Lusit, t. 2, p. 160; — Caetano de Sousa, 
Hist. Genealog. da Casa Real Portug., t. 1, p. 56; — Gaspar Estaco, 
Varias Antiguidades de Portug., c. 25, n. 6, p. 103 ; — Serra Cras- 
BECK, Catalogo dos Rdigiosissimos DD. Ahhades de SM Maria de 
Guimarães etc, p. 16, in Collecçam dos Documentos e Memorias da 
Academia Peai da Historia Portuguesa, 1726; — Jt.Ão Bautista de 
Castro, Mappa de Portugal antigo e moderno, t. 3, pp. 164 e seg. 

2 Cardoso, op. cit., t. 3, p. 126 ; — Castro, op. cit., t. 2, p. 259. 



SUA FUNDAÇÃO POR D. AFFONSO HENRIQUEZ 



Ala, que em breve desappareceu, e cuja memória escassa ficou 
envolvida em denso nevoeiro de lendas *. 

Desde então os nossos reis e o povo português ficaram 
considerando o archanjo S. Miguel como o espírito tutelar, 
que vigia, protege e defende esta nação. Foi por isso que 
el-rei D. João ,ii, mandando pintar a imagem do archanjo em 
um altar da igreja de S. Francisco em Évora, lhe fez ornar o 
braço com um escudo, no qual se devisávam as Quinas por- 
tuguesas ; a elle, e não a outro espírito celeste, teve em vista 
el-rei D. Manuel, quando impetrou do papa Leão x a festa do 
Anjo Ctistódio do Reino, que no terceiro domingo de julho se 
celebrava solemnemente em todo o Portugal com esplêndidas 
procissões, nas quais eram obrigadas a tomar parte todas as 
classes de cidadãos*; a esta devoção obedeceu D. João iii, 
quando pediu e obteve concessão do papa Hadriano vi para 
na capella real dos seus paços se poder recitar o offício votivo 
de S. Miguel, em todas as terças feiras não impedidas do anno. 
No mosteiro da Batalha todos os dias, desde o tempo de 
D. Manuel, e por ordem deste, se cantava uma antíphona e 
oração em honra de S. Miguel, como Anjo Custódio do reino '. 



1 Cardoso, ibid. ; — Castro, ibid.; — Fr. António Brandão, Mo- 
narch. Lusit., part. 3, 1. 10, c. 23, e 1. 11, c. 21 ; — Fr. Francisco 
Brandão, Monarch. Lusit., part. 5, 1. 17, c. 48 ; — Duarte Nunez do 
Leão, Chron. dei Hei D. Affonso Henriques, fl. 39; — Caetano de 
Sousa, loc. cit. 

2 C. R. de 6 de junho de 1504; — Ordenações Manuelinas, I. 1, 
tit. 78 ; — Cardoso, ibid. 

3 Cardoso, Ioc. cit. ; — Fr. Luís de Sousa. Hist. de S. Domingos, 
t 1, 1. 6, c. 35. 

No hymno, que antigamente se cantava a vésperas na festa do 
Anjo Custódio em algumas igrejas, havia uma estrophe, que in- 
dicava claramente ser considerado este espírito um dos príncipes 
da milícia celeste ou archanjos, e nâo um símplez anjo. Dizia assim : 

Te laudamus venerantes 

Ornnes caeli Principes, 
Sed praecipue Custodem 

Hujus regni et populi, 
Qui, te juhente, a malis 
2 Nos tuetur omnibus. 



10 CAP. I— A CAPELLA REAL DK S. MIGUEL 



Durante os primeiros reinados conservou-se em Coimbra 
a sede habitual da corte, e na capella real de S. Miguel man- 
teve-se regularmente o culto. 

Era nella que os nossos reis, e as pessoas de suas famílias, 
satisfaziam os seus deveres religiosos ; a ella iam mui frequen- 
temente implorar do ceo a protecção e auxílio para as suas 
empresas e commettimentos béllicos. 

Quantas horas longas, em tempos successivos, não pas- 
sariam nesta capella em ferventes preces a caridosíssima 
D. Mafalda de Mauriana, a fecundíssima D Aldonça de Ara- 
gão, e a formosíssima D. Urraca de Castella, enquanto seus 
respectivos maridos D. Affonso Henríquez, D. Sancho i, e 
D. Affonso II talavam as terras dos mouros em perigosas 
escaramuças, ou lhes assaltavam os castellos em sangrentos 
ataques e perigosas escaladas ! 

Quantas vezes aqui mesmo, ajoelhada ao lado de seu ena- 
morado esposo el-rei D. Sancho ii, não assistiria aos actos 
religiosos, celebrado*s pelo seu capellão D. Silvestre', a se- 
ductora D. Mécia López de Haro, que tam perfidamente havia 
de abandonar mais tarde o desgraçado rei, deixando-o morrer 
só e desamparado nas amarguras do exílio! 

Quantas torturas não soffreria neste santuário D. Brítez 
de Guzman, considerando a irregularidade da sua situação, 
enquanto vivia a primeira mulher de seu esposo, a consciência 
a accusar-lhe a irregularidade peccaminosa das suas relações 
maritais, fulminadas pelas censuras pontifícias e mal vistas 
do povo, o coração de mãe a confranger-se em face da nódoa 
da illegitimidade que acompanhava seus filhos, a crença ca- 
thólica a apavorá-la com a lembrança do tremendo dies irae e 
das severas contas que teria de dar perante o tribunal divino ! 
E mais tarde, fazendo passar pela mente essas atribulações 
dos tempos pretéritos, revalidados e santificados os laços ma- 
trimoniais, que a ligavam affectuosamente ao grande rei Af- 
fonso III, quantos perdões não pediria a Deus para as faltas 



' MonarcJiia Lusit., part. 5, escrit. 38. 



DURANTE A PRIMRIRA DYNASTIA 11 

passadas, quantas bênçãos não imploraria para seus filhos, 
assistindo aqui aos actos religiosos officiados pelo seu cápel- 
lão, o virtuoso agostiniano Domingos Martinz ! * 

Depois destas rainhas, como não seria esta capella fre- 
qiientada pela austera, adorável, virtuosíssima e muito popular 
esposa de D. Dinis, a rainha Santa Isabel, que nella recebia 
a sagrada communhão das mãos do seu capellão Mestre Gon- 
çalo ^, e assiduamente aqui viria supplicar graças e agradecer 
favores, cobrar alentos e desabafar m águas, solicitar caritati- 
vamente perdões divinos e formar devotamente propósitos 
santos, pondo toda fetiaa em nosso Senhor Jesu Christo, &na 
Virgem Santa Maria sa Madre^ S na Corte CelestiaP, 
particularmente no príncipe da milícia angélica, em cuja honra 
se erguera este santuário ! 

Que variedade de impressionantes recordações que nos traz 
à imaginação esta antiga e nobre capella real de S. Miguel do 
paço dos nossos primeiros reis! 



Quando el-rei D. Dinis principiou a fazer mais permanente 
residência em Lisboa, erigiu no seu palácio do Alcáçar ou do 
Castello daquella cidade uma nova capella real, que também 
dedicou a S. Miguel, à semelhança da que existia no paço de 
Coimbra; e a 10 de janeiro de 1299 ordenou que nella quoti- 
dianamente se recitassem as horas canónicas e se celebrasse 
missa, ainda que os reis estivessem ausentes. 

Não se trata de uma trasladação da capella real de Coim- 
bra para Lisboa, mas da instituição de uma nova capella, 
em tudo egual à de Coimbra ; assim como, semelhantemente, 
mandou que a capella real existente nos paços do Alcáçar de 
Santarém, também dedicada a S. Miguel, tivesse de futuro 



* Torre do Tombo. ChanceUaria de D, Affonso III, 1. 1, fl. 140. 

2 Doe. do Cartório de S.t» Clara de Coimbra, datado de 21 nov 
era 1328 (an. 1290), existente na Biblioth. Nacional de Lisboa. 

3 Declaração feita pela rainha ^M Isabel a 8 de jan. era 1363 
(an. 1325), logo depois da morte de D. Dinis, in Monarch. Lusiti, 
part. 6, 1. 19, c. 43. 



12 CAP. I — A CAPELLA REAL HE S. MIGUEL 

capellão permanente, que quotidianamente lá dissesse missa 
e rezasse o offício divino *. 



A capella real de S. Miguel da Alcáçova de Coimbra con- 
tinuou a subsistir, não somente durante o reinado de D. Dinis, 
mas ainda nos dos seguintes monarchas. 

Aqui deve ter por muitas vezes invocado o auxílio celeste, 
para o bom resultado da empresa, em que andava empenhado, 
o mestre d' Avis D. João, quando, depois de ter feito na qua- 
lidade de regedor, defensor e governador do Reino a sua 
entrada solemne em Coimbra, na sexta feira 3 de março de 
1385, se hospedou nos paços da Alcáçova, onde aguardou, 
preparou e acompanhou, com os seus dois grandes amigos 
Dr. João das Regras e Nunálvarez Pereira, a reunião das 
cortes, que nos mesmos paços se celebraram, e onde no se- 
guinte mes dabril feria quinta^ dez dias andados dei , , , os 
onrados Prelados, Arcebispo, e Bispos, fidalgos, e ricos ho- 
mens, e Cavalheiros, e outros Senhores, Concelhos, e homens 
bons dos Reynos de Portugal, e do Algarve dentro na Alca- 
ceva dos Reys de Portugal alçarão por Rey de Portugal ao 
mui nobre Dom João Mestre Daviz, regedor e defensor dos 
sobredittos Reynos filho do muy nobre Rey D, Pedro, e netto 
do muy nobre, e de memoria santa Dom Affonso quarto dos 
Affonsos Reys de Portugal, e do Algarve aos quais Deos per- 
doe Amen, A missa dissea Dom Lourenço Bispo de Lamego, 
amigo, e servo de Deos gratias Amen 2. 



Esta capella ainda existia nas mesmas condições em tem- 
pos de el-rei D. Affonso v, quando em maio de 1446 este mo- 
narcha, tendo apenas 14 annos de idade, vesitou a cidade do 



• Monarchia Lusit., part. õ, 1. 17, c. 28. 

2 Chronicon Conimbricense, apud Caetano de Sousa, Provas da 
Hist. Genealog., t. 1, p 388. 



NOS PRIMEIROS REINADOS DA SEGUNDA DYNASTIA 13 

Mondego, onde se demorou cerca de um mês em companhia 
de sua noiva a infanta D. Isabel e de seu sogro o regente 
D. Pedro, duque de Coimbra, que a esse tempo aqui manti- 
nha, à custa das suas próprias rendas e de alguns bens eccle- 
siásticos, um Estudo geral ou Universidade, cuja vida foi 
ephémera, por elle fundado em nome de el-rei por carta de 
31 de outubro de 1443, e do qual era protector K Durante a 
sua residência em Coimbra, era na capella real de S. Miguel, 
sita junto aos paços, que D. Affonso v cumpria habitualmente 
os seus deveres religiosos. 

Um pouco mais tarde vê-se forçado o ex-regente a retirar-se 
da corte, e a emigrar para Coimbra, recolhendo-se à sua re- 
sidência ducal dos paços da Alcáçova, ao eremitério da sua 
família, dos seus livros^. Aqui deve elle ter cultivado e dei- 
xado expandir a sua grande devoção ao archanjo S. Miguel, 
que elegera por seu especial patrono, adoptando como devisa 
as suas balanças, e a quem fez dedicar o altar erguido em 
face da sua própria sepultura, no qual depois da morte se 
lhe haviam de celebrar missas quotidianas por alma. 

Desenrola-se depois essa tristíssima tragédia, que foi ter o 
desenlace, a 20 de maio de 1449, na várzea de Alfarrobeira; 
e, enquanto ella se desenrolava, quantas consolações não 
viria aqui, a este santuário, procurar para suas amarguras o 
infante D. Pedro, ao ver de todos os lados as fatalidades do 
destino, as desgraças preparadas pela perversidade dos ho- 
mens, a desencadearem-se contra si, e o abysmo inevitável, 
horrendo, aberto a seus pes, para o qual uma força irresisti- 
vel, superior à sua vontade, o arrastava ingloriamente ! 

Chegada a Coimbra a notícia da horrível catástrophe de 
Alfarrobeira, D. Isabel, a duquesa viuva, vê-se forçada a 
abandonar o paço e a fugir de Coimbra; mas antes não dei- 
xaria de em uma última vesita entrar na sua capella, rodeada 
dos filhos, a encommendar a alma de seu defuncto marido e as 
vidas dos filhos queridos à protecção do archanjo tutelar. 



* Cf. D. Nicolau de S. Maria, Chron. da Ordem dos Cónegos He- 
grantes, 1. 9, c. 26, t. 2, p. 257; — Oliveira Martins, Os Filhos de 
D, João I, p. 308. 

' Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, p. 309. 



14 CAP, I — A CAPELLA REAL DE S. MIGUEL 

A família do duque de Coimbra emigrou, continuando no 
exílio a libar o eáliz da adversidade, que teve de esgotar até 
às fezes; os criados e familiares dispersáram-se, e o paço 
ficou por algum tempo abandonado. Então, pela primeira vez, 
cessaram os actos do culto na capella real de S. Miguel da Al- 
cáçova de Coimbra, deixando de haver capellão que ali sacri- 
ficasse quotidianamente, recitasse as horas do offício divino, 
e orase pollo estado do Rey rreinãte e pollos outros seus 
antecesores • . 



Decorridos seis annos, durante qs quais se conservou sus- 
penso o culto ordinário nesta real capella, D. Affonso v faz 
expedir em data de 25 de abril de 1455 um alvará, no qual 
ordena que e a capela de sã mjgel que esta ê os nossos paaços 
dalcaçoua da dieta cidade (de cojnhra), se restabeleça daqui 
è diante o culto na forma antiga, nomeando capellão, com as 
obrigações e mantimentos que tiveram seus antecessores, a 
Pêro de Semide, sacerdote pobre ê que esta esmola bem 
cabe *. 



* Alvarás de D. Affonso V, referidos nas notas seguintes. 

2 Por serem inéditos e desconhecidos, transcrevemos na íntegra 
o texto deste documento, e dos que vam em as seguintes notas. 

«Dom Affomso etc. A uos Joam lujs noso almoxarife ê cojnbra e 
a uos Joam daujs noso almoxarife das nosas jugadas da dieta cidade 
e aos scpriuaes desses oíiçios e a outros quaees quer que hi despos 
uos vierê por nosos almoxarifes e Recebedores e scpriuaes Saúde 
sabede que nos fomos certo que per os Rex nossos antecesores foy 
hordenado que ê a capela de sâ mjgel que esta ê os nossos paaços 
dalcaçoua da dieta cidade ouuese huu capela que neela ê cada 
huu dia disese misa e orase pollo estado do Rey rreinãte e pollos 
outros seus antecesores ao quall hordenarõ pêra seu mãtimento ê 
cada huu ano huu moyo de trigo e pêra cõduyto e vistido e cera 
dous mjl e trezentos rrs braços e ora nos foy dicto que despois da 
morte do Jfante dom pedro nõ ouue o dicto capeiam e porque 
nosso desejo e vontade he que o serujço de deus senpre per nos 



DURANTE O REINADO DE D. AFFONSO V 15 

Por outros diplomas deste reinado e dos subsequentes, 
sabemos que a capella real de S. Miguel se manteve com o 
seu capellão permanente, apparecendo-nos em alvará de 5 de 
maio de 1462 nomeado João Alvarez, creligo de myssay para 
preencher a vaga de Pêro de Semide, que fora tomar conta 
de uma sua igreja *. Mais tarde o capellão João Alvarez re- 



seja acreçentado e nõ nyguado praz nos que daqui ê diante aja hi 
o dicto capelom e esguardãdo como pêro de simide he sacerdote 
pobre ê que esta esmola bem cabe e tal pesoa que bem seruira a 
dieta capelanja Auemos por bem que elle a sirua daqui è diante E 
aja o dicto mâtimento suso declarado segumdo senpre ouuerom os 
outros capelães que ante elle na dieta capeela forom e porem uos 
mâdamos que dos dinheiros e pam que das rrendas e direitos do 
dicto almoxarifado E das dietas Jugadas Recebeestes ou Receber- 
des des primeiro dia de janeiro que ora foy desta presente era de 
iiij*' L b ê diante dees e pagees em cada huu afio ao dicto pêro de 
simide o dicto moio de trigo e dous mjl e trezentos rrs Os quaees 
dinheiros lhe uos dicto almoxarife ou que o dicto carrego teuer pa- 
garees aos quartees e uos dicto Joam daujs ou qu6 o dicto uosso 
carrego teuer o, dicto moyo de trigo em fim do mes dagosto em 
cada huu afio sem majs esperardes o asentamento nÔ auerdes pêra 
ello outras nossas sobre cartas porque queremos que se nõ entenda 
ê esta esmola porque he cousa que nõ pode falecer a quall paga 
lhe fazee aos tempos e per a guisa que dicto he sem sobrelo poer- 
des nêhuu enbargo E uos dictos almoxarifes cada huu per sy fazee 
rregistar esta nossa carta aos scpriuaes de nossos ofícios em seus 
liuros e faço neele declaraçõ como lhe a dieta paga fazees e per o 
dicto trelado e conhecimento do dicto pêro de simjde que fi cada 
huu ano cobrees mâdamos aos nossos cõtadores que uolos rreceba 
^ despesa E o dicto pêro de simjde tenha esta carta pêra sua 
guarda dada {5 lixboa xxb dias dabril gonçalo cardoso a fez Ano de 
nosso Senhor Jhesu christo de mjl iiij* L b.». — (Torrk do Tombo. 
ChanceUaria de D. Affonso V, 1. lõ, fl. 141). 

* «Dom afomso etc A vos João luys nosso almoxarife em cojn- 
bra e a uos João daujs almoxarife das nossas jugadas da dieta cidade 
E aos espriuaees desses ofíiçios e a outros quaeesquer que despois 
de uos hy vierem per nossos almoxarifes ou rreçebedores E escri- 
puaees Saúde sabeede que nos fomos certo per os rrex nossos an- 



te GAP. I — A CAPBLLA REAL DE S. MIGUBL 

signa a capellania por ser ocupado ê serujr húa egreia que 
oora nouamente ouuera, e para lhe succeder é logo nomeado 



teçesores foy hordenado que em capella de samyguell que estaa 
em os nossos paços dalcaçoua da dieta cidade ouuesse huu capellam 
que nella em cada huu dia disesse myssa e orasse pello estado do 
rrey rregante e pellos outros sseus anteçesores e hordenarom pêra 
sseu mantimento em cada hu ano hu moyo de triguo e pêra con- 
duyto e vistido e cera dous mjll e dozemtos rrs brancos E porque 
nos foy dicto que despois da morte do Jfaante dom pedro meu tio 
que deus aja atee sete anos nÕ ouue em ella capellam hordenamos 
Entam por seruiço de deus que o ouuesse dehy em dyamte e foy 
dada per nos a pêro de ssemyde creligo saçardote por sseer pessoa 
que bem seruiria a dieta capelanya a quall atee ora teue E nos 
dysse que nom pudya mais ter carreguo da dieta capella por- 
quamto sse queria hyr pêra hua ssua Jgreia pidyndonos que a 
déssemos a quem nossa merçe fosse E esguardando nos de Joham 
aluarez creligo de myssa que a seruiria bem a dieta capella E a 
seruiço de deus segundo teemos hordenado Avemos por bem que 
elle a sirua daquy endyamte e aja o dicto mantymento em cada 
huu ano acima declarado segundo ssenpre ouuerom os outros 
capellaees e o dicto pêro de semyde que atee ora asy teuerom a 
dieta capella O quall anno em que asy ha de começar a cantar 
a dieta capellanya E auer o dicto mantimento será de Janeiro 
a Janeiro da feitura desta em dyamte E porem vos mandamos que 
dos dinheiros e pam que das rremdas e direitos do dicto almo- 
xarifado e das dietas jugadas rreçebestes ou rreeeberdes des pri- 
meiro dia de Janeiro que ora foy desta pressente era de iiij* Ixij 
endyamte dees e paguees asy em cada huu ano como dicto he ao 
dicto Joham aluerez o dicto moyo de triguo e dous mjll e trezêtos 
rrs brancos os quaees dinheiros lhe vos dicto almoxarife ou quem 
o dicto uosso carguo teuer pagares aos aos quartees do ano e vos 
Joham dauis ou quem o dicto uosso carguo teuer o dicto moyo de 
triguo em fim do mes dagosto de cada huu ano ssem mais esperardes 
o asentamento nS auerdes pêra ello outras nossas sobre cartas e 
posto que vos mamdado tenhamos que no paguees nebíiu dinheiro 
a nôhuas pessoas per cartas jeeraees sem outras nossas sobre car- 
tas porque queremos que sse nõ ent^da em esta esmolla porque he 
coussa que nom pode falleçer a quall pagua lhe fazee ao teupo e 



DURANTE O REINADO DE D. AFFONSO V 17 

capellão da capella real, a 17 de agosto de 1469, o sacerdote 
de Coimbra Luís Gonçálvez '. 



pella giiissa que dicto he ssem sobre ello poerdes nem híiu enbar- 
guo e vos dictos almoxariífes cada huii per sy fazee rregystar esta 
nossa carta aos escripuaees de nossos ofícios em sseus liuros e fa- 
eom nella declaraçom com lhe a dieta pagua fazees e per o dicto 
trellado e conhecimento do dicto Joham alaarez que em cada híiu 
ano cobrares mâdamos aos nossos comtadores que vollos rreçebam 
em despesa E o dicto Joham aluarez tenhaa esta carta pêra ssua 
guarda dada em starem b dias de mayo pêro dalcaçoua a fez ano 
de nosso senhor Jhesu Christo de mjll e iiij« Ixij». — (Torre do 
Tombo. Chancellaria de D. Affon^o F, 1. 1, fl. 34). 

* «Dom AíFomso per graça de deus Rey de purtugal e do algarue 
e senhor de cepta e dalcacer ê affrica a uos pêro lopez nosso almo- 
xarife ê a cidade de cojnbra e ao almoxarife das nossas jugadas ê 
ella E aos scpriuaes desses ooficios E a outros quaesquer que de- 
pois de uos uijerê por nossos almoxarifes ou rrecebedores e escpri- 
uães Saúde sabede que nos fomos certo per os rrex nossos anteces- 
sores foy ordenado que ê a capella de ssã mjguel que estaa ê os 
paaços dalcaçoua da dieta cidade houuessft híi capella que nella ê 
cada huu dia dissesse missa E orasse pollo estado do rrey rregnate 
e pellos outros sseus antecessores E ordenara pêra sseu mâtimento 
c5 cada huu ano huu moyo de trigo e pêra cuduto e ujstido eçera 
dous mjll e iij** rrs brancos E porque nos foy dicto que depois da 
morte do Jfante dom pedro meu tyo que deus aja atee ssete anos 
nõ ouuera ê ella capella ordenamos êtam por serujço de deus que 
o ouuesse dhy ê diamte E foy dada per nos a huu pêro de ssemjde 
clérigo de missa por ser pessoa que bem serujria a dita capellanja 
E depois por nõ poder serujr nos a demos a híiu Johã aluarez clé- 
rigo o qual nos oora êujou dizer que por elle ser ocupado ê serujr 
hua egreia que oora nouamente ouuera fora da dieta cidade nõ 
padia serujr nê catar a dieta capella segundo lhe per nos era mã- 
dado e obrigado era E nolla êujou arreníiciar que a déssemos a quê 
nossa merçe fosse fosse mostrou per hflu estormento de rrenuciaeao 
que dello fez o qual parecia ser fecto per Johã gonçallues tabel- 
liam ê a dita cidade aos xxbij dias do mes de julho da era presente 
pedindo nos por mereee lujs gonçallves clérigo de missa morador 
ê a dita cidade que lhe fezessemos merçee da dita capella E uêedo 



1Í5 CAI». I — A CAPELLA REAL DK S. MIGUEL 

A 31 de outubro de 1516 servia esta capellania o padre 
Álvaro Martinz, na qual ainda se encontrava provido a 29 de 
novembro de 1527, sendo por alvarás destas duas datas au- 
mentados os seus vencimentos, por terem também aumentado 
os encargos da capella^ 



o que nos asy rrequeria E queremdo lhe fazer merçee teemos por 
bem 6 o damos por capellã delia E queremos que a sirua daquj ê 
diante como cõpre a serujço de deus e nosso e aja o dito mâtimento 
ê cada híiu ano segundo è cimahe declarado E o aujã o dito Joham 
aluarez e os outros capellaèes que ante elle fora Porem uos mâda- 
mos que dos dinheiros e pam que das rrêdas e direitos do dito 
ahnoxarifado e das ditas jugadas rrecebestes ou rreceberdes des 
primeiro dia de janeiro que ora foy desta presente era de iiij* Ixix 
è diante dees e pagues asy ê cada huu ano como dito he ao dito 
lujs gonçallves o dit^ moyo de trigo E dous mjll e iij* rrs braços os 
quaes dinheiros lhe vos dito almoxarife ou quê o dito uosso carego 
teuer pagarees aos cartes do ano E uos dito almoxarife das jugadas 
ou quê o dito carrego teuer o dito moy de trigo ê fim do mes da 
gosto de cada huu ano ssê mais esperardes o assêtamento nê auer- 
des pêra ello outras nossas ssobre cartas E posto que uos mâdado 
tenhamos que nõ pagues nêhuus dinheiros a nêhfiuas pessoas per 
cartas geeraes ssê outras no&as ssobre cartas queremos que sse nõ 
êtenda e esta esmoUa porque he cousa que nõ pode falecer a qual 
paga lhe fazee ao tempo e pella gujsa que dito he ssê ssobre ello 
poerdes nehuu êbargo e nos ditos almoxarifes cada huu per sy 
fazee rresistar esta nossa carta aos escpriuaes de uossos ofícios ê 
seus liuros E faça ê ella dtclaraçõ como lhe a dita paga ffazes e 
per o dito trelado e conhecimento do dito lujs gonçallves que ? 
cada huu ano cobrares mãdamos aos nossos cÔtadores que uoUo rre- 
cebâ ê despesa E o dito lujs gonçallves tenha esta carta por ssua 
garda dada na nossa cidade de lixboa xbij dias dagosto lopo fer- 
nandez a fez ano de nosso senhor Jhesu christo do mjll e iiij« Ixix 
anos». — (Torre DO Tombo. Chancellaria de D. Affonso V, 1. 31, 11. 89)' 

1 «Dom Joam etc a quantos esta minha carta vire faço saber 
que por parte dalluaro martjnz morador e esta cidade de cojmbra 
foj apresentado híi aluara esprito em prugamjnho de que ho theor 
tall he : 

«Nos ell Kej fazemos saber a vos noso contador allmoxarife ou 



ATÉ AO REINADO DE D, JOÃO III 



Deste modo vemos a capella real de S. Miguel dos paços 
da Alcáçova de Coimbra, fundada por D. Affonso Henríquez, 
atravessar incólume as crises de que a história nos dá conta 



Recebedor do noso allmoxaiifado de cojmbra que ora sois e ao diate 
fordes que nos prouemos da capelanja ê capela dos nosos paços da 
dita cidade alluaro martjnz segundo que ho tem per noso alluara o 
quall nos dise ora que elle tynha cõ a dita capelanja cinquo mjll 
e quinhemtos rs ê cada hu ano e era obrigado a poer as candeas 
vjnho e agoa e osteas pidimdonos que porquâto a dita capela era 
cotidiana e tynha os ditos emcarregos nos prouuese lhe acreçdtar 
ho dito mâtymento e visto per nos seu dizer e pidir por nos parecer 
justo avemos por bem que deste janeiro que vem de v" xbij em 
diamte ê cada hu ano o dito alluaro martjnz aja de nos de mãti- 
mento cõ a dita capellanja oito mjll rs a saber os ditos cinquo mjll v" 
que tee ora teue e os dous mjll v^' que lhe per este novamente ora 
acreçêtamos conprindo elle os emcaregos de cotodiana e do dito 
vinho e agoa e candeas e osteas e bem asy hagora daquj por diante 
diga na dita capella por dia de samjgel mjsa cantada e em todas 
as mjsas e oras que Rezar na dita capella tenha hua alampeda 
acesa e porem vollo noteficamos asy e vos madamos que daquj em 
diante lhe pageis em cada híi ano des ho dito primeiro dia de ja- 
neiro que vê em diâte os ditos biij'* rs como dito he e per este noso 
alluara sem mais tirar outra carta de nosa íFazenda vos madamos 
que lhos pageis e per o trellado delle que se asemtara nos liuros 
do dito allmoxarifado pello esprivam do dito ofyçio e ho conheci- 
mento do dito alluaro martjnz como os de vos Recebe vos serã 
lleuados em comta e praz nos que este valha como se fose carta 
per nos asynada e asellada do noso sello pendemte sem ebargo da 
hordenaçom em comtrairo feito ê lixboa ao derradeiro dia do mes 
doutubro manoel de moura o fez de mjll e qujnhemtos e dezaseis 
anos E ha mjsa que ha de dizer cotediana será de fynados Resall- 
uãdo ha do dia de samjgel que será do dito santo e asy as das 
festas de noso senhor e de nosa senhora que será das ditas festas. 
«Pidimdo o sobredito por mercê que lhe confyrmase o dito all- 
uara e lhe mãdase pasar sua carta e visto per mjm seu requerj- 



20 CAP. I — A GAPELLA REAL DE S. MIGUKL 

nos quatro primeiros séculos da monarchia portuguesa, man- 
tendo-se imperturbavelmente, com o seu culto quotidiano re- 
gular, durante os reinados dos monarchas da primeira e 
segunda dynastias, até D. João iii, com excepção apenas dos 
seis annos immediatos à morte do infante D. Pedro. 

Ainda mesmo durante o tempo em que se andou reedifi- 
cando a capella, nos fins do reinado de D. Manuel e princípios 
do de D. João iii, entre 1517 e 1522, não deixou de haver ca- 
pellão como acabámos de ver, que exercia as funções do seu 
cargo em qualquer outra parte, para onde provisoriamente 
se trasladaria a capella real de S. Miguel, cantando missa no 
dia 29 de setembro consagrado a este archanjo, e rezando-a 
em todos os outros dias do anno, e bem assim recitando quo- 
tidianamente o offício divino, com uma lâmpada da capella 
accesa, enquanto fazia esta recitação K 



No reinado de D. João iii deu-se um facto, que modificou 
profundamente as condições de existência da capella real de 
Coimbra. 

A Universidade portuguesa foi transferida de Lisboa para 
esta cidade em março de 1537. Não havendo edifício apropriado 



jiiento e queremdo lhe fazer graça e merçe tenho por bem e lho 
comfirmo e hej por confirmado como se nele comthê e mãdamos que 
asy se cunpra e guarde e asy hej por bem e me praz que elle tenha 
e aja mais de mãtimento cada ano de janeiro que vem de v® xxbiij** 
em diante dous mjll rrs aliem dos oito mjll que ateequj ouue e asy 
que avera x rs cada ano e lhe serom paguos neste allmoxarifado 
de cojnbra per estaa sob carta sem mais tirar outra de mjnha fa- 
zenda asy e da propia forma e maneira que lhe pagauõ e atee quj 
ouue os ditos biij rs e por o trellado desta com seu conhecimento 
se lleuarom cada ano em conta ao allmoxarife ou Recebedor qne o 
pagar dada ê cojnbra a xxix dias de novembro antonio diaz a fez 
de mjll V** xxbij eu damja diaz a fiz espreuer» — (Torre do Tombo. 
Chancellaria de D. João III, 1. 2, fl. 120). 

* Vid. doe. transcrito em a nota antecedente. 



APROVEITADA PARA CAPELLA DA UNIVERSIDADE 



21 



para a sua conveniente installação, abriram-se os primeiros 
cursos a 2 de maio do anno referido nas próprias casas de 
habitação do reitor D.Gar- 
cia de Almeida, sitas à 
porta de Belcouce, onde 
hoje se chama a Estrella. 

Mas isto não passou 
de um expediente de mo- 
mento. Por carta régia de 
23 de setembro do mesmo 
anno mandou D. João iii 
que as aulas se transferis- 
sem para os seus próprios 
paços da Alcáçova, onde 
principiaram a funccionar 
os cursos em outubro im- 
mediato. 

Installada no paço real 
a Universidade, e haven- 
do ali húa capella, em q se 
celebram os offícios divi- 
nos, é esta mui natural- 
mente aproveitada para 
que nella os possam ouvir 
mais comodamente o Redor j lentes & estudantes ^. 

Deste modo a antiga capella real de S. Miguel dos paços 
da Alcáçova, sem perder a categoria que até ali tivera, e con- 
tinuava tendo, de capella del-rei, com todas as isenções e 
privilégios correlativos, passou a ser tembém a capella da 
Universidade de Coimbra. 




Sêllo da real capella 



A Universidade é então largamente dotada pela munifi- 
cência del-rei, e pela protectora generosidade da Igreja, que 
lhe adjudica rendas importantes. 



* Estatutos da Universidade de 1591, 1. 1, tit. 1. 



22 CAP. I —A CAPELl.A REAL DK S. MIGUKI. 

Em especial a capella é também contemplada nesta gran- 
diosa instituição joannina. 

Á antiga capella de S. Miguel foi annexada a do paço real 
do Paul de Muge, ficando servida por quatro capellães, pagos 
à custa da fazenda real. A estas quatro capellanias acrescen- 
taram-se mais nove, próprias da Universidade, além do re- 
stante pessoal empregado no serviço do culto *. 

Nos estatutos de D. João iii dados em 1544, de cuja exis- 
tência, até ha pouco tempo muito contestada, existem nume- 
rosos vestígios nos livros de escrituração, que a elles fazem 
frequentes referências, encontravam -se sem dúvida disposi- 
ções sobre a real capella e sobre o culto divino nella exercido. 
As multas e descontos nas terças de cada anno impostas pelo 
conselho dos deputados aos capellães da Universidade, por 
faltas de cumprimento das respectivas obrigações, suppõem 
estes serviços devidamente estabelecidos e regulamentados. 
Além disso temos a notar, que em 1557 o conselho dos depu- 
tados e conselheiros resolveu a 16 de outubro adquirir umas 
alfaias, que eram de urgente necessidade, a custa das Rendas 
da vniversiJe ate vir a prouisam q na Reformaçam dos esta- 
tutos era feita sobre a dita capella ^ ; o que bem mostra que 
o vesitador-reformador Balthasar de Faria, na vesitação feita 
no anterior anno de 1556, desde 19 de fevereiro em que tomou 
posse, até 1 de setembro em que se despediu do claustro- 
pleno, notara algumas reformas ou addicionamentos a fazer 
ao estatuto, relativamente ao regime e dotação da capella. 



Também ficou agregada à capella da Universidade a con- 
fraria dos lentes e estudantes, instituída pelo infante D. Hen- 
rique quando a Universidade estava em Lisboa, a qual tinha o 
seu capellão privativo, e muito concorria para a manutenção 
do culto e esplendor dos actos religiosos. Era sua padroeira 



1 Estatutos de 1591, 1. 1, titt. 2 e segg. 

2 Conselhos, t. 2, 1. 4, fl. 110. 



VE8JTADA POR EL-REI D. JOÃO III 23 

a Virgem Santíssima, sob a invocação de Nossa Senhora da 
LuzK 

Logo depois da mudança da Universidade para Coimbra, 
começamos a encontrar nos livros dos conselhos académicos 
os assentos das eleições annuais e juramentos dos mordomos 
da Confraria, embora não haja livros especiais de escrituração 
desta pia irmandade senão desde 1597 em deante. 



Em 1550 veiu de vesita à Universidade el-rei D. João iii, 
acompanhado da rainha D. Catharina, de seu filho o príncipe 
D. João, e de sua irmã a infanta D. Maria, fazendo a sua en- 
trada a 6 de novembro. Segundo o programma combinado, 
era no sabbado immediato, 8 do referido mês, que devia ter 
logar na sala grande a sessão solemne de recebimento, con- 
gratulação e agradecimento, em que discursaria na língua 
latina o distincto humanista, padre-mestre Ignácio de Morais; 
mas a família real não quis ir a esse acto de homenagem e 
reverencia a suas pessoas, sem primeiro descer a esta sua 
real capella, a prestar as devidas adorações e homenagens ao 
Rei dos reis e ao Príncipe da milícia angélica. As pessoas 
reais ouviram missa, e logo em seguida foram a receber os 
cumprimentos solemnes da Universidade ». 



' «Ifem ordenamos que todollos lentes & scolares mantenham 
a antiga confraria.. .». (Estatutos de D. Manuel^ fl. 4).— «Na Vni- 
aersidade auerá a confraria que sempre ouue dos lentes òt estu- 
dantes, instituída pello lífante dõ Henrique mestre da ordè òs. 
milicia de nosso senhor lesu Cliristo, quãdo os estudos estauão em 
Lisboa...». {Estattdos de 1591^ 1. 1, tit. 15). 

2 «aos oito do dito mes (novembro de lÒòO). suas altezas, 
vierão ouvir misa a capella dos seus paços Ót ouvida se forâo a sua 
salla grande donde estava toda a vniv'sidade ss. o Rector òa doc- 
tores. Ót m.ire» em seus lugares altos, q p" elles sao feitos, p* estar? 
aos autos de Repetições. & doctoram.tos & outros da vniv'sidade ó: 
defrÕte da cadeira estaua hum teatro, de seis degraos. de catorze 
palmos em largo, Ót dezoito de traves, o qual estaua mujio bem 



24 CAP. 1 — A CAPELLA REAL DE S. MIGUEL 



Também foi no mesmo século esta Universidade vesitada 
pelo joven monarcha D. Sebastião, que na sexta feira 13 de 
outubro de 1570 entrou com grande séquito em Coimbra, 
sendo acompanhado por seu tio o cardial infante D. Henrique, 
pelo infante D. Duarte, filho do duque de Guimarães irmão 
de D. João iii, e pela infanta D. Isabel. 

Foi de alguns meses a demora da corte em Coimbra, e 
certamente era na capella real que el-rei e a régia família 
cumpriam os deveres religiosos; aqui deve ter celebrado 
várias vezes o cardial, que depois foi rei. Não encontro porém 
registo senão de uma destas vesitas à capella, na segunda 
feira immediata à chegada, em que el-rei, o cardial e o infan- 
te, antes de irem aos gerais assistir às lições de prima das 
quatro faculdades, desceram e vieram ouvir missa ^ 



Durante quase meio século usufruiu a Universidade os 
paços reais de Coimbra, sem que por parte dos monarchas 
houvesse a mais leve demonstração de quererem privá-la 
deste benefício. 

Apenas porém assumiu a coroa portuguesa el-rei D. Filip- 
pe II de Castella, logo mandou à Universidade como vesitador 



alcatifado Ót cÕçertado donde suas altezas, se asentarâo em suas 
cadeiras, p* ouvir a oração cio Reçebim.io q lhe fez o in.ire Ynatio 
de morais, q foi m.ire do s.or do duarte f* delRei, a qual durou por 
espaço de huma ora & foi muji" lovada. & de muj'a autoridade, e 
acabada, suas altezas forão ver os geraes & ouvir as lições de 
p'ma ss. de theologia cânones leis. & medeçina & em cada huma 
estauã hum pedaço asentados. ouvindo. & acabados de ouvir se 
forão a jantar». (Conselhos, t. 1, 1. 5, fl. 92 v.**). 

1 Conselhos, t. 6, 1. 4, fll. 29 e segg.— Cf. O Instituto, t. 1, p. 59 
da 1." ed., ou p. 38 da 2.» 



NO TEMPO DOS FILIPPES 25 



O licenciado Manuel de Quadros, cuja posse e juramento foi 
a 21 de maio de 1583, encomendando-lhe que providenciasse 
para que se construíssem edifícios próprios para as escolas. 
Chegaram a fazer-se as necessárias medições no bairro de 
S. Pedro, que ficava entre o paço real e o castello, e a avaliar-se 
as casas sitas no local escolhido, a fim de serem expropriadas. 

Considerou- se entretanto em claustro o desequilíbrio fi- 
nanceiro que vinha causar à fazenda universitária esta obra, 
orçada em mais de cem mil cruzados, e os inconvenientes de 
desalojar para cima de trezentos estudantes, que residiam nas 
casas que tinham de ser demolidas, os quais mal poderiam ir 
habitar no bairro baixo, já pela distância a que ficava da Uni- 
versidade, já pela difficuldade de ali encontrarem casas em 
número sufficiente, por se terem arruinado muitas com as 
arêas do Mondego; por isso se resolveu representar a el-rei 
fazendo estas ponderações, e pedindo-lhe a mercê de ceder os 
seus paços para nelle se fazerem as escolas, onde realmente 
estavam havia já mais de quarenta annos K 

A esta representação respondeu el-rei, em carta datada de 
S. Lourenço a 30 de setembro de 1583: — Vy a carta em que 
me pedis que aja por bem de conceder a essa vniuersidade os 
Tneus paços, pêra fazerem nelles as escólios; E posto qu£ Eu 
des^o de lhe fazer toda a mercê, & favor que ouuer luguar, 
não me parece conuiniente a meu seruiço, nem. ao bem pu- 
brieo dessa cidade despor delles, antes he minha tenção, como 
a vniuersidade os desocupar, mandatos concertar, pêra Eu 
poder em algum tpÒ ir a elles, como desejo, e que mevà sub- 
çessores possam fazer o mesmo, por o mJo que a estimo, S 
elles a deuem estimar, e assy o tenho respondido d camará 
delia, q os dias passAo^ m'escretteo sobr^este particular -. 

Foi-se adiando a resolução do assumpto, as escolas foram 
continuando a funccionar nos paços reais, até que por fim 
el-rei, prescindindo já dos seus edifícios, por alvará de 17 de 
maio de 1597 fêz à Universidade a mercê de lhos vender por 
trinta mil cruzados, lavrando-se a carta de venda a 16 de ou- 
tubro seguinte, com estas clausulas: — 1." que em nenhum 



» Conselhos, t. 10, 1. 1, fll. 100 v." e segg. 
2 Provisões antigas, t. 1, fl. 54. 
4 



CAP. I — A CAPKLLA RBAL DE S. MIGUEL 



tempo se poderia alegar lesão, nem ainda enormíssima, contra 
esta venda, porque no caso em que os paços valessem mais 
da maioria e excesso, fazia pura e irrevogável doação à Uni- 
versidade ; — 2." qiie os ditos paços em poder da Universidade 
ficariam conservando as prerogativas, preeminências e immu- 
nidades de paços reais '. 



E effectivamente, depois que a Universidade tomou posse 
dos paços da Alcáçova, e começou a usufruí-los como pro- 
priedade sua, continuaram, sem a mais leve discrepância, a 
ser considerados por todos, monarcha e súbditos, pessoas 
universitárias e estranhas, auctoridades ecclesiásticas e civis, 
como verdadeira e propriamente paços del-rei, sendo-lhe reco- 
nhecidos, como até ali, todos os privilégios, garantias e isen- 
ções que por tal qualidade lhes pertenciam ; e a real capella 
do mesmo modo continuou, sem contestação de ninguém, a 
ser respeitada como capella do rei, isenta por isso da juris- 
dição do prelado diocesano, que jamais, até hoje, nella exer- 
ceu um só acto jurisdicional 

No uso de um antigo privilégio eram os reis portugueses 
que escolhiam e designavam a pessoa ou pessoas ecclesiásti- 
cas, que deviam fazer a vesita canónica às capellas dos seus 
paços. Nesta conformidade el-rei D. João iii havia já designado 
a pessoa do reitor da Universidade para vesitador da sua ca- 
pella de Coimbra. Não conheço o diploma régio, em que se 
fizera esta determinação, talvez o próprio estatuto de 1544, 
que se perdeu ; mas é certo que encontramos o reitor a fazer 
a vesitação da capella, como quem exerce um direito e cumpre 
um dever, o que suppõe poderes anteriormente recebidos^. 

Havia porém um inconveniente: só em um ecclesiástico 
podia regularmente recair a escolha, e, conquanto o reitor 
fosse em regra ecclesiástico, e sempre realmente o foi até 1834 



* Cf. Catalogo dos Beitores de Carneiro de Figueirôa, c. 13, fl. 73. 

2 Veja-se, v. gr., o assento subordinado ao título — Visitdçam 

da Capella, que se encontra in Conselhos, t. 2, 1. 4, fll. 109 v." e seg. 



SUA ISENÇÃO 27 



(se não contarmos a reitoria ephémerá de D. Garcia d^Al- 
meida), podia contudo dar-se alguma vez o caso de ser leigo. 

Prevendo a possibilidade de tal hypóthese, resolvêra-se a 
difficuldade collocando el-rei ao lado do reitor uma outra pes- 
soa ecclesiástica, com poderes de vesitador, e sem a qual o 
reitor não podesse realizar a vesitação. Foi em conformidade 
com isto que os estatutos de 1591 designaram as pessoas do 
reitor da Universidade e do lente de prima ou, nos seus im- 
pedimentos, do de véspera da faculdade de theologia, para 
duas vezes em cada anno vesitarem no espiritual e no tempo- 
ral a capella deste instituto de ensino superior, que simul- 
taneamente o era do seu paço de Coimbra, com poderes para 
castigar, reprehender, multar e suspender dos seus cargos 
os capellães e restantes empregados, devendo ser escrivão 
desta vesitação o secretário da Universidade, se fosse clérigo 
in sacris, e, se o não fosse, um estudante clérigo de bom 
exemplo, para isso eleito pelos vesitadores *. 

Depois de ter passado para a posse da Universidade o paço 
com todas as suas pertenças, foram promulgados e acceites 
em claustro de 23 de fevereiro de 1598 os estatutos confirmados 
por alvará régio de 8 de junho de 1597; e nelles vinha inscrito 
no seu livro i o mesmo titulo xii — Da Visitação da Ca- 
pella^ nos precisos termos em que se lia nos Estatutos ante 
riores, e em que mais tarde se conservou nos confirmados por 
D. João IV, por alvará de 15 de outubro de 1653. 

E ha a notar uma circunstância, que não pode nem deve 
deixar-se no esquecimento. Na primeira vesitação da capella 
feita depois da venda dos paços, foram vesitadores o doutor 
canonista Affonso Furtado de Mendoça, que depois veiu a 
ser successi vãmente bispo da Guarda e de Coimbra, arce- 
bispo de Braga e de Lisboa, e o lente de prima de theologia, 
o grande luminar da sciéncia theológica e da sciéncia canóni- 
ca, padre Francisco Suárez, o Doctor eximius, cuja autori- 
dade é singular, estrénuo propugnador das immunidades e 
direitos da Igreja, a cuja defesa sacrificou commodidades, 
interesses, saúde, e por fim a própria vida. Pois o doutor 
Suárez (assim como todos os restantes vesitadores) reconheceu 



• Estatutos de 1591, 1. 1, tit. 12. 



28 CAP. I — A CAPELLA REAL DE S, MIGUEL 

sempre a completa isenção da real capella da Universidade, 
não hesitando em exercer repetidas vezes os direitos de vesi- 
tador no temporal e no espiritual, que só ao ordinário dioce- 
sano pertenceriam, se não houvesse o privilégio alludido. 

Ainda hoje existem no archivo da Universidade, em livros 
especiais, os assentos destas vesitações, repetidas duas vezes 
cada anno durante séculos, sem a mais leve hesitação, dúvida, 
contestação ou protesto. 

Seriam usurpadores dos direitos da Igreja tantos prelados 
respeitabilíssimos, que deixaram a cadeira reitoral da Univer- 
sidade, para ascenderem às mais altas dignidades ecclesiásti- 
cas? tantos theólogos consummados, que tiveram sempre a 
sua palavra eloquente, a sua sciéncia profunda, a sua penna 
apuradíssima ao serviço da sã doutrina, prontos a defender 
a autoridade ecclesiástica ? ! 

Diga-se porém mais uma vez, que esta isenção jamais foi 
contestada, e sempre até hoje tem sido reconhecida e respei- 
tada pelos prelados diocesanos de Coimbra. 



Além do privilégio de isenção outros ha, de que a real ca- 
pella goza. 

Sempre a Universidade tem usado da faculdade de erguer 
ali, sem intervenção de qualquer autoridade estranha, altares 
portáteis supplementares, quando as conveniências do serviço 
divino isto pedem. Tem-se isso feito por muitas vezes, em 
virtude de resoluções tomadas, sem hesitação alguma, em 
conselho, com o voto deliberativo de theólogos e canonistas 
dos mais respeitáveis por seu saber e virtudes, e muito escru- 
pulosos na precisa observância das disposições canónicas e 
litúrgicas. Assim é que, por exemplo, em conselho de 8 de ja- 
neiro de 1554, a que assistem doutores theólogos da autori- 
dade de Marcos Romeiro e fr. Martinho de Ledesma, e dou- 
tores canonistas como James de Morais e Luís de Castro, se 
resolve que, para celebrar as exéquias e outros suffrágios por 
alma do príncipe real D. João recem-fallecido, filho de el-rei 
D. João III, far se ha hum altar alto no andar da essa sobre 



SEUS PRIVILÉGIOS 29 



O altar mor. . . & aleuantar se am três altares mais p." dize- 
rem os Religiosos S capelães & outros padres misas K 

E não só dentro da capella, mas também fora, quando isso 
se tornava necessário ou conveniente, se erguiam altares em 
qualquer sala, e nelles se celebravam os actos do culto, pri- 
vada ou publicamente, e até com grande solemnidade. Foi 
assim que, por morte de D. João iii, as exéquias solemníssi- 
mas, que a Universidade fez em junho de 1557, não se reali- 
zaram na capella, que para isso era pequena, mas, por delibe- j 
ração do conselho mór da Universidade, na sala mais ampla jl 
do edifício, àqual se juntou outra contígua abrindo um arco í 
de communicação ; lá se ergueram nove altares, onde se ceie- ; 
bráram muitas missas, dirigindo esta adaptação da sala e I 
superintendendo em todo este serviço das exéquias, por dele- ,j 
gação do conselho académico, o reitor D. Manuel de Meneses | 
abalisado canonista, e os insignes doutores e lentes fr, Mar- 
tinho de Ledesma e João de Morgovejo, o primeiro da facul- !' 
dade de theologia, da de cânones o segundo 2. 

Também nos aposentos reitorais houve sempre, e ainda 
ha, um compartimento destinado a oratório particular do pre- 
lado, onde se celebra missa todas as vezes que este deseja; 
oratório que é considerado uma dependência da real capella, 
contando-se, como celebrada nesta, qualquer missa que os 
capellães nelle celebrem \ Algumas vezes, achando-se impe- 
dida por obras a capella, se tem mudado o Santíssimo para o 
oratório do reitor, e ali se têem celebrado os actos universi- 
tários, que nella deviam normalmente realizar-se, tais como 
as missas para licenciaturas ou doutoramentos, e outras. 
Assim succedeu desde fevereiro de 1858 até setembro de 1859, 
enquanto se restaurou o tecto e se fizeram outros concertos * ; 
e muito recentemente em 1892 a 1893, quando se solhou e la- 
drilhou o corpo da capella. 

Antes de passarmos adeante devemos ainda consignar, que 



» Conselhos, t. 2, 1. 1, fll. 103 v° e seg. 

2 Ibid., 1. 4, fll. 130 v.«, e 134 e seg. 

3 Reformação de 1612, n.« 19, in Estatutos da Universidade, ed. 
de 1654, p. 304. 

4 Registo dos relatórios da Capella, t. 1, fll- 6 v." e 7. 



30 CAP. I — A CAPELLA REAL 1)K S. MIGUKL 

a real capella da Universidade foi pelo summo pontífice 
Paulo V ennobrecida com muitas indulgências e graças espiri- 
tuais. Uma delias é a de privilégio de altar, concedido ao de 
Nossa Senhora da Luz '. 

Em claustro de 21 de outubro de 1610 é esta notícia com- 
municada officialmente pelo reitor aos lentes das quatro ca- 
deiras maiores, e resolve-se que a publicação solemne se faça 
no próximo dia de Todos os Santos, 1 de novembro, e que 
nesse dia se dê préstito aos estudantes. As festas, para solem- 
nizar o jubiloso acontecimento, prolongara m-se pelos dias se- 
guintes*. 



Pelos estatutos de 1653 se regeu a real capella da Univer- 
sidade até à reforma pombalina de 1772. 



' «E porque achamos que depões de se ter preuilegiado o 
altar de Nossa Sra concorrem m'«s mais padres a dizer Missa do 
que resulta mais gasto ao P.® Thesoureiro, e tendo respeito a seu 
bom seruiço ordenamos que aia mais dous mil rs do que tinha 
dantes e isto cada anno pêra cera, hóstias, e vinho e mais cousas 
necessárias». — (V€sitaçãx)y t. 1, fl. 53, assento da vcsita de 2 dez. 
1610). 

* «Claustro dos dd. de cadeiras grandes sobre as endulgen- 
sias que se hâo publicar — Enos 21 de outubro de 610 annos na 
casa do cons" desta v*^* se ajuntou o Snor Reitor com os Snrs dd. 
lentes das cadeiras grandes de todas as quatro faculdades, e p'poB 
o Snor Reitor como Sua Santidade tinha concedido mi^s endul- 
gensias p* a capella da v*'® e depois de se tratar sobre o modo e 
solenidade conque se auiâo de publicar se asentou iuntam.'« que se 
dese préstito aos studantes p* que endia de todos os santos que he 
o primeiro dia enque se hâo de publicar se aiuntem todos na ca- 
pella da v*i® do que tudo íis este termo Rui dalbuqueique secretario 
desta v*^® o fiz — declaro que o préstito se nam ha de dar semio 
somie p* este primeiro dia da publicasao Rui dalbuquerque- — D5 
Francisco de Castro Reytor — D. fr Egídio DAPUEsêrAÇÃo — dr. 
Francisco diaz'>. — {Conselhos, t. 16, 1. 1, fl. 126). 



KA ÉPOCITA DA REFORMA POMBALINA 31 

Para realizar esta, veiu a Coimbra o marquês de Pombal 
com plenos poderes del-rei, e faculdade de usar não só dos qv>e 
foram concedidos, diz a carta régia de 28 de agosto do referido 
annoS a Vosso Quinto Avo Balthasar de Faria, Primeiro 
Reformador Vezitador da dita Vniversidade, pelo Alvará da 
sua Commissão expedido em onze de Outubro de mil e qui- 
nhentos sincoenta e sinco, que sérvio de norma aos outros Re- 
formadores Vezitadores, que depois foram mandados á mes- 
ma Vniversidade pelos Senhores Rêys Meus Predecessores; 
mas tãobem de todos os mais poderes, que os ditos Senhores 
Reys costumavam reservar para si: Delegando-vos os qu^ 
para os sobreditos fins me pertencem como Protector da 
mesma Vniversidade, ecomo Rey, e Senhor Soberano: Econ- 
cedendo-vos, como concedo sem rezerva, todos aquelles que 
considerareis necessários, segundo a occorrencia dos cazos . . . : 
Obrando em tudo como meu Lugar Tenente, com Jurisdicção 
privativa, exclusiva, e illimitada para todos os sobreditos 
eff eitos. 

O marquês fez a sua entrada em Coimbra a 22 de setem- 
bro, e cá se demorou até 24 de outubro do dito anno, sendo 
sempre acompanhado e cercado de extraordinário fausto e 
apparato, qual nunca até hoje nenhum dos nossos monarchas 
teve, nas suas vesitas à Universidade, 

Aqui, nesta real capella, fez elle a sua entrada solemne no 
sabbado 26 de setembro, immediatamente depois de ter sido 
lida, em sessão solemníssima na sala grande dos actos, a men- 
cionada carta régia de sua nomeação; sendo recebido como 
verdadeiro monarcha, à porta da capella debaixo do pálio, e 
tomando em seguida logar na cadeira reitoral collocada em um 
estrado alto, quase um throno, sobre o qual se elevava um 
riquíssimo dossel de veludo. Assistiu ao canto do salmo Lau- 
date Dominum e do hymno TeDeum laudamus, acompanhado 
de toda a Universidade, e de toda a nobreza da cidade e 
muita das províncias, que acudira a render vassalagem ao 
astro luminoso, que diffundia raios do zenith do poder 2. 



* Prorisòes modernas, t. 1, fl. 7 v.** 

2 Diário do q se passou em a Cid.^ de Coimbra desde o dia 22 
de 7 Mo de 1772 em q o IlL^v e Ex.^^'o S.^ Marq.^ de Pombal entrou, 
até o dia 24 dSMo em q partio fia d," Cidade, fl. 4. 



32 CAP. I — A CAPELLA REAL DE S, MIGUEI, 

Na tarde da segunda feira ímmediata, dia 28, aqui assistiu, 
com a mesma pompa, às vésperas solemnes do orago S. Mi- 
guel, e no dia seguinte pela manhã à missa *. Veiu de tarde 
à sala grande, onde se fez então a promulgação dos novos 
estatutos, e dahi foi à capella, onde se cantou um festivo 
Te Deum 2. 

A 1 de outubro assistiu à missa do Espírito santo para a 
inauguração do novo anno lectivo, e em sua presença fizeram 
todos os lentes a costumada profissão de fé cathólica e jura- 
mento "*. 

Nos dias 10 de tarde e 11 de manhã aqui esteve assistindo 
com o mesmo apparato a uma festa religiosa comemorativa da 
reforma da Universidade, festa que elle marquês instituiu, 
determinando se fizesse todos os annos *, como em outro logar 
referiremos. 

Ainda voltou à real capella no dia 17 a ouvir a missa do 
doutoramento em cânones de José Pessoa Monteiro, presi- 
dindo à cerimónia do grau, que se lhe seguiu na sala grande \ 



O marquês reformador tencionou levar a sua reforma àléra 
da legislação literária das faculdades, e traçou um novo plano 
de estatutos, que completariam os promulgados a 29 de se- 
tembro do anno referido, abrangendo o Governo Politico, 
Civil, Económico, Cerimonial e Ecclesiastico da Universida- 
de^. Para execução deste plano chegou a dar ordem, a 22 
de outubro do anno referido, para que fossem separados, 
coUeccionados e a elle remettidos todos os papeis e livros que 



* Diário cit., fl. 5. 
= Ibid., fl. 5 wP 

3 Ibid., fl. 6. 

4 Ibid., fl. 8 v.o 

5 Ibid., fl. 10 v.« 

6 Béíaçào Geral do Estado da Vniversidade de Coimbra^ por 
D. Francisco de Lemos Pí:reira Coutinho, bispo de Zenópole, re- 
formadoi-reitor da mesma Universidade, pp. 7 e seg. 



EM SliGUIOA Á REFORMA POMBALINA 33 

podessera servir de utilidade para a realização desta em- 
presa >. E no alludido plano occupava um lugar preponde- 
rante a reorganização da real capella. 

Não teve porém tempo para levar a cabo esta reforma, 
e tudo isto parou nas primeiras Linhas, e em Reflexões feitas 
sobre os Títulos dos Estatutos Antigos, não chegando até 
agora a formalizar-se esta parte da Legislação tão neces- 
sária para o Governo Académico^, As alterações feitas 
nesta épocha ao liv. i dos estatutos velhos, onde se legislava 
sobre a real capella, seu pessoal e serviços, limitaram-se a 
algumas providências regulamentares avulsas, continuando 
no restante a observar-se as tradições, usos e costumes da 
Universidade, porque as ditas Tradiçoens, e Costumes, explica 
o reitor reformador no seu relatório, eram a pratica dos Es- 
tatutos Antigos, que só necessitavam, de que o zelo dos que 
dirigiam, introduzissem nelles a alma, e o espirito, de que os 
tinha privado a relaxação dos últimos tempos 3. 

Uma provisão do marquês de Pombal, datada de 12 de 
outubro ainda do anno de 1772, e um edital de 17 do mesmo 
mês, haviam mandado recolher todos os exemplares, impressos 
ou manuscritos, dos abolidos estatutos velhos, cora a com- 
minação de penas severas no caso de alguém maliciosamente 
os encobrir; entretanto, como se vê, esses estatutos proscri- 
tos continuavam a ser observados na parte de que nos occu- 
pamos, e em outras, a titulo de vãos e costumes universitários. 

A carta régia de 5 de novembro de 1779 vem remediar esta 
anomalia, ordenando à Universidade, como providência inte- 
rina, que não obstante ficou definitiva, que se governe pelos 
antigos estatutos em tudo aquillo, que ou pelos novos estatutos 
não se achar contrariamente ordenado, ou que por meio de 
providencias régias não haja sido alterado. 

Assim continuou a real capella subsistindo, sem modifica- 
ções notáveis, durante mais de meio século. 



^ Provisões modernas, t. 1, fl. 116. 
* Relação Geral referida, loc. eit. 
5 Ibid. 
5 



34 CAP. I— A CAPELLA REAL DE S. MIGUEL 



Em outubro de 1832, de passagem para o norte, esteve em 
Coimbra D. Miguel, que foi recebido pela cidade com grandes 
e enthusiásticas demonstrações de regozijo. 

Chegado no sábbado, 20 do mês referido, em companhia 
de suas irmãs, as infantas D. Isabel Maria e D. Maria da 
Assumpção, e feita a recepção costumada na sé cathedral, di- 
rigiu-sc em préstito festivo à real capella, onde chegou pelo 
fim da tarde, sendo recebido debaixo do pálio por todo o 
corpo académico ornado das suas insígnias, e pelo coUégio dos 
capellães, que cantaram um solemne Te-Deum, Depois recolheu 
ao paço. 

Aqui assistiu à missa nos domingos 21 e 28 ; e na sexta 
feira 26, dia do seu anniversário natalício, depois duma 
sessão solemne com oração latina gratulatória na sala grande 
dos actos, veiu dali em préstito vistoso à capella, acompanhado 
dos doutores, nobreza e auctoridades da cidade, assistir a um 
Te-Deum capitulado pelo dom prior-geral dos crúzios, cancel- 
lário da Universidade. As infantas estiveram na tribuna real 
durante o acto religioso. 

No dia 20 partiu D. Miguel com as infantas e séquito para 
o norte, indo pernoitar em Águeda K 



As perturbações sangrentas, que acompanharam as luctas 
políticas do princípio do segundo quartel do século xix, aba- 
laram profundamente o organismo da capella da Universi- 
dade, como o de todo este estabelecimento scientífico. Paixões 
políticas agitavam-se violentas, e dominavam toda a vida 
académica. 

Ao período das perseguições movidas pelos sectários do 



• Gazeta de Lisboa, an. 1832, n. 251, p. 1219 ^ n. 206, p. 1239; 
e n. 259, p. 1251. 



NA IMPLANTAÇÃO DO SYSTEMA LIBERAL 35 

lifosolutismo segue-se o das exercidas pelos partidários do 
systema liberal; e uma lamentável desorganização, devida a 
causas muito diversas, e algumas bem diffíceis de determinar, 
campeia em todos os ramos de serviços públicos, produzindo 
effeitos desastrosos, perdas irreparáveis, que ainda hoje 
sentimos e lamentamos. 

Saiu muito mal ferida desta prova a real capella univer- 
sitária. Em portaria vice-reitoral de 30 de junho de 1834 sam 
suspensos do exercício das suas respectivas funcções, para em 
seguida serem demittidos pelo governo, pelo crime de terem 
seguido abertamente o partido proscrito, ou de se mostrarem 
faltos de coragem na profissão da sua fé política, ou finalmente 
de serem neutrais, nada menos de quarenta e seis lentes das 
diversas faculdades, seis bedéis, quatro contínuos, quinze 
archeiros, e cincoenta e seis outros empregados da Universi- 
dade, achando-se comprehendidos neste número o chantre, 
quatro capellães, o organista, e dois acólythos da capella >. 



* A título de curiosidade, e por ser pouco conhecida, aqui 
transcrevo a portaria reitoral, que acompanhava a lista de pro- 
scrição : 

«Não convindo ao Serviço de Sua Magestade Inperial, o Duque 
de Bragança Regente em Nome da Rainha, que sirvão Empregos 
públicos individuos, que tiverão o temerário arrojo de seguirem 
uma Rebelião perjura na sua origem, aleivosamente criminosa nos 
fins de que se servia, verdadeiramente anti-social nos mizeraveis, 
iniquos, e desgraçados fins, a que se propunha, e sempre distituida 
de probabilidades, em seus resultados, nem tãobem aquelles que, 
posto que mais fracos, não são menos indignos, que não tendo a 
coragem de seguir em publico o vil objecto de suas adorações 
infames, fazião em segredo ferverosos votos pelos progressos da 
Uzurpação, e tirania ; assim como os neutros politicos, entes nullos 
na sociedade, egoístas, cobardes, que não tendo sentimento nenhum 
moral ou politico, forâo inseusiveis ás desgraças públicas por vil 
pusillanimidade, e a quem nem o luto da sua Pátria, nem a com- 
pleta Ruina de seus Concidadãos, nem os ultrages feitos á Cauza 
da Liberdade, e da Civilização geral, poderão nunca arrancar huma 
demonstração de interesse e compaixão; sendo necessário para 
dever ser empregado publico n'hum Governo Monarchico Repre- 



36 CAP, I — A CAPELLA RHAL DE S. MIGUEL 

Os exercícios religiosos ficaram reduzidos ao mínimo, o 
culto quasi suspenso, e a capella pouco menos que fechada e 
abandonada. Bastará dizer que do numeroso coUégio dos capel- 
lães apenas escapou, além do thesoureiro, um só capellão, 
único pessoal que foi mantendo o culto quotidiano. 

Entretanto lá se realizavam com pessoal ecclesiástico es- 
tranho, para isso convidado, as solemnidades académicas que 
o estatuto mandava que fossem na capella, como, por exemplo, 
o juramento dos lentes a 1 de outubro; e ainda quaisquer 
outras funcções religiosas extraordinárias. 

Assim é que, quando D. Fernando, então príncipe esposo 
da rainha D. Maria ii, visitou Coimbra em 1836, tendo che- 
gado às oito horas da manhã do dia 18 de julho, acompanhado 
dos marechais duque da Terceira e marquês de Saldanha, e de 
mui luzida comitiva, logo ao meio dia se dirigiu em préstito 
com toda a Universidade, grandes do reino e autoridades à 
real capella, onde se cantou um apparatoso Te-Deum ^ 



sentativo ter eíFectiva capacidade e merecimento positivo-, porque 
a Clemência do Rei, salvando do castigo, nâo habilita para os Em- 
pregos, que suppoem a confiança do Governo, que só podem merecer 
a probidade, a aptidão, o patriotismo nobre, e decidido, em execu- 
ção da Portaria, que me foi expedida pelo Ministério dos Negócios 
do Reino em data de nove de Junho do corrente anno, para sus- 
pender os Empregados máos da Vniversidade, e propor a Sua 
Magestade Imperial a sua dimissao motivada; suspendo do exer- 
cido de suas respectivas funções na Vniversidade os indivíduos, 
que constam da Relação, que acompanha esta. O Secretario da 
Vniversidade faça registar esta Portaria, transmitta a ás Repar- 
tições competentes, expessa as Ordens necessárias, e dê lhe pu- 
blicidade. Coimbra 30 de Junho de 1834 — José Alexandre' de 
Campos, Vice Reitok». — (Portarias, 1. 6, fll. 16 v.** e 17). 

O pessoal da real capella, comprehendido nesta lista, era o se- 
guinte : —Manuel José Ferreira, chantre e capellão; Diogo Tavares 
Cabral, José Lourenço dos Santos, António Fernandes Affonso, e 
José Xavier da Veiga, capellães; Bernardo Carlos, organista; 
Manuel Joaquim da Silva Mattos, e José Maria do Amaral, acóly thos. 

• Breve noticia do recebimento, que a Universidade de Coimbra 
fez em julho de 1836 a el-rei o Sr. D. Fernando, então príncipe esposo 
de S. M. a Rainha, in O Instituto, t. 1, p. 161 da l.« ed., ou 104 da 2.« 



REFORMADA EM 1845 37 



Obviou àquelle estado de cousas o decreto de 15 de abril de 
1845, pelo qual, tomando em consideração a proposta do reitor 
conde de Terena, o governo veiu prover ao restabeleeimento 
dos exercícios divinos na real capella da Universidade^ para 
por meio do culto externo ser inalteravelmente mantida a 
expressão do sentimento e crenças religiosas em um estabele- 
cimento de letras e sciéndas, que form,a o centro da instrucção 
e educação nacional K 

Mas infelizmente este decreto foi redigido muito à pressa, 
e sem o prévio estudo attento dos antigos privilégios, isen- 
ções, usos e serviços, em parte esquecidos durante o período 
de desorganização, que vinha de decorrer. O regulamento 
reitoral de 27 de junho de 1845 não conseguiu preencher a 
lacuna, nem corrigir os defeitos do decreto precedente. 



Andando em vesita às províncias do norte a rainha D. Ma» 
ria II, acompanhada de seu esposo el-rei D, Fernando, e de 
seus filhos o príncipe real D. Pedro d'Alcántara duque de Bra- 
gança, e o infante D. Luís Filippe duque do Porto, fizeram a 
sua entrada em Gfoímbra na sexta feira 23 de abril de 1852 
pelas 9 horas da manhã, e aqui se conservaram até à segunda 
feira immediata. 

No sábbado 24, depois de terem ouvido a segunda parte 
do exame privado do bacharel em mathemática Luís Albano 
de Andrade Morais, suas majestades e altezas dirigiram-se à tri* 
buna real da capella, donde assistiram à collàção do respectivo 
grau de licenciado, conferido com as cerimónias usuais pelo 
vice-reitor dr. José Manuel de Lemos, mais tarde bispo-conde; 
e no dia seguinte, domingo, assistiram na mesma tribuna à 
missa do doutoramento do referido Luís Albano, celebrada 



Preâmbulo do decr. cit. 



38 CAP. I — A CAPELLA REAL DE S. MIGUEL 

pelo chantre, bacharel António Lopo Corrêa de Castro, então 
alumno do quinto anno de direito, servindo de mestre de ce- 
rimónias o capellão-thesoureiro Joaquim Al vez Pereira, ba- 
charel formado em theologia •. Partindo na manhã do dia 
seguinte para o Buçaco, a rainha teve devoção de ali assistir 
à missa, e quis dar à real capella da Universidade a honra 
de ser um dos seus capellães que a celebrasse. Foi para este 
fim designado o capellão-chantre acima referido, o qual foi 
realmente naquelle dia celebrar na capella do convento do 
Buçaco, em presença de suas majestades e altezas. 

Testemunhando o régio agrado, com que D. Maria ii assis- 
tira aos actos religiosos celebrados em sua presença na real 
capella, veiu o decreto de 3 de maio de 1853, em que ao chefe 
do coUégio dos capellães, o thesoureiro Álvez Pereira, foi 
concedido o título de capellão-mór da real capella da Uni- 
versidade. 



A 27 de novembro de 1860 foi a Universidade honrada com 
a vesita rápida do adorado rei D. Pedro v, acompanhado de 
seus irmãos os infantes D. Luís e D. João, no regresso da 
exposição agrícola do Porto. 

Nunca os estudantes receberam em Coimbra um monarcha 
com tam caloroso enthusiásmo, nem com tam amoroso cari- 
nho, obrigando-o a prometter voltar brevemente em tima vesita 
mais longa; promessa que as infelicidades successivamente 
desencadeadas sobre a nação e sobre o rei, e em seguida a 
morte prematura deste, não deixaram realizar. 

Na quarta feira 28 distribuiu por sua própria mão aos es- 
tudantes 08 diplomas de prémio e accessit; e de tarde, fazendo 
a visita aos estabelecimentos universitários, esteve orando na 
real capella. 

Partiu no dia immediato, para não mais voltar, deixando 
nos corações tanto do corpo cathedrático como da juventude 
académica uma saudade muito intensa, que se desafogou nas 



» O Instituto, t. 2, p. 123. 



ÚLTIMAS VESITAS RÉGIAS 39 

exéquias sumptuosíssimas, que logo após a morte lhe foram 
feitas na real capella pelos professores a 15 e 16 de dezembro 
de 1861, e pelos estudantes a 30 de janeiro de 1862 na sé cathe- 
dral, porque a capella da Universidade não podia comportar 
a academia, que toda queria com a sua assistência prestar 
homenagem ao seu querido monarcha ^ 



Depois têem-se repetido com certa frequência as vesitas de 
príncipes de sangue real a Coimbra, e, em regra, não deixam 
de vir a esta capella fazer as suas preces e orações. Vamos 
relacionar pela ordem chronológica estas vesitas régias e prin- 
cipescas feitas nos últimos cincoenta annos à real capella da 
Universidade 2. 

Não me consta que nella entrasse o príncipe Humberto, 
mais tarde rei da Itália, quando em outubro de 1862 esteve em 
Coimbra, assistindo na tribuna real da sala grande dos actos, 
na tarde do dia 22, à oração de Sapientia recitada pelo 
dr. Manuel Eduardo da Motta Veiga, lente de theologia, 

El-rei D. Luís com a rainha D. Maria Pia, de regresso do 
Porto, fizeram a sua entrada em Coimbra no domingo 6 de 
dezembro de 1863 pelas 3 horas da tarde. No dia immediato 
houve a solemnidade da distribuição dos prémios, a que pre- 
sidiu el-rei, como três annos antes fizera seu malogrado irmão : 
e na terça feira 8 de dezembro, dia da Im maculada Conceição, 
padroeira da Universidade, assistiram suas majestades à missa 
na tribuna da real capella, indo em seguida para a sala dos 
actos grandes, onde el-rei conferiu o grau de doutor em di- 
reito aos licenciados José Joaquim Fernández Vas, e Macário 
de Sousa Pinto Cardoso. 

Em 1865, de passagem do Porto para Lisboa, estiveram 



i O Instituto, t, 9, p. 260, e t. 10, pp. 188 e 224; — cf. os jornais 
de Coimbra pablicados nesta épocha. 

^ As notícias, que damos em seguida, sam colhidas nos jornais 
conimbrigenses publicados nas respectivas épochas, assim como 
nos testemunhos presenciais de pessoas ainda hoje vivas. 



40 CAP. I — A CAPELLA HEAL OE S. MIGUEL 

em Coimbra durante algumas horas, na tarde de quarta feira 
21 de junho, a princesa imperial do Brasil D. Isabel Christina 
com seu esposo o conde de Eu. Nessa pequena paragem vie- 
ram orar à real capella. 

O mesmo fez na sexta feira 3 de julho de 1868, pelas 10 
horas da manhã, o infante D. Augusto, duque de Coimbra, 
descendo do paço privadamente e sem apparato, e sendo re- 
cebido pelo capellão-mór Alvez Pereira. Achava-se o infante 
em Coimbra para assistir à festa da rainha Santa Isabel, que 
se realizou no domingo immediato. 

Também aqui esteve a 5 de março de 1872, pouco depois 
das 8 horas da manhã, o imperador do Brasil D. Pedro ii, 
subindo da capella às tribunas das aulas, onde a essa hora 
funccionavam os cursos de theologia. Assistiu attentamente e 
com muito interesse a parte das prelecções dos professores 
dr. Manuel Eduardo da Motta Veiga (estudos bíblicos), dr. Da- 
másio Jacintho Fragoso (história ecclesiástica), e dr. António 
José de Freitas Honorato (dogmática especial), assim como 
a lições de estudantes destes cursos. Depois passou a ouvir 
algumas lições das outras faculdades. 

Ainda no mesmo anno de 1872, achando-se nos paços reais 
da Universidade el-rei D. Luis, a rainha D. Maria Pia, o prín- 
cipe real D. Carlos, e os infantes D. Augusto e D. Affonso, 
para assistirem às festas da rainha Santa Isabel, celebradas 
a 14 de julho, fizeram à real capella uma visita rápida. 

El-rei D. Fernando acompanhado do infante D. Augusto e 
da condessa d^Edla, chegaram incógnitos a Coimbra no dia 13 
de maio de 1873, hospedando-se em um hotel da cidade baixa ; 
e no mesmo dia vieram vesitar a capella e outros estabeleci- 
mentos universitários. 

Em agosto de 1882 passaram no paço real de Coimbra a 
noite do dia 2 para 3 suas majestades el-rei D. Luís e a rainha 
D. Maria Pia, e suas altezas o príncipe real D. Carlos e o in- 
fante D. Affonso, partindo logo pela manhã para a Figueira 
da Foz, a assistirem à inauguração do caminho de ferro da 
Beira Alta; mas não consta que viessem à capella. 

Emigrados da América, estiveram os imperadores do Bra- 
sil hospedados alguns dias nesta cidade, onde chegaram no 
domingo 22 de dezembro de 1889 à noite. Logo no dia imme- 
diato à chegada o imperador, deixando no hotel a sua esposa. 



ESTADO ACTUAL 41 



cujo estado de saúde era melindroso, subiu à Universidade, 
e veiu orar na capella do paço de seus maiores. 

Finalmente no domingo 24 de julho de 1892 pela última vez, 
até hoje, estiveram na capella da Universidade príncipes de 
sangue real. Neste dia aqui assistiram à missa na tribuna 
suas majestades el-rei D. Carlos e a rainha D. Maria Amélia, 
e sua alteza o príncipe D. Luís Filippe. Depois da missa 
el-rei, na sala grande dos actos, conferiu o grau de doutor em 
philosophia ao licenciado Bernardo Ayres *. 



Depois da reforma de 1845 algumas providências foram 
adoptadas em portarias diversas, mas de pouco alcance. 

Por fim os artigos 173.® a 177.« do decreto n." 4 com força 
de lei, de 24 de dezembro de 1901, e o regulamento approvado 
por decreto de 13 de novembro de 1902, seguido das instru- 
ções regulamentares ordenadas por portaria reitoral de 22 do 
mesmo mês, reorganizaram a real capella da Universidade 
sobre novas bases. 

Hoje a direcção e fiscalização da capella pertencem à fa- 
culdade de theologia, que as exerce por um dos seus lentes 
cathedráticos em serviço, a quem elege director. O reitor com 
a faculdade de theologia fazem todos os annos, pelo menos 
uma vez no fim do anuo lectivo, a vesita à real Capella, para 
tomarem conhecimento do pessoal, dos serviços e do material, 
darem instrticções e corrigirem abusos ^. 



• Encontram- se colleccionados os documentos para a história 
desta visita das pessoas reais à Universidade em um folheto, que 
entílo se publicou ofticialmente, com o título — Documentos relati- 
vos á visita da Família Real á Universidade d£ Coimbra — Jidho 
de 1S92. 

2 Decr. LS nov. H)02, art. 24." 



II 



edifício e objectos do culto 




o primitivo edifício da capella real affonsina 
absolutamente nada encontra hoje o archeó- 
logo curioso. Construção de estilo românico, 
de pequenas dimensões, podemos conjectu- 
ralmen te assentar, com alguma probabilidade, 
que ficaria situada no próprio local da ho- 
dierna capella da Universidade, mas com a 
orientação de leste a oeste, como costumavam 
ter os templos daquella épocha. 

Conservou-se este edifício até ao primeiro quartel do sé- 
culo XVI. 



Foi no tempo del-rei D. Manuel que os antigos paços, com 
a sua capella, foram demolidos, para se reedificarem com 
maior amplidão, no estilo que do nome daquelle monarcha 
assumiu entre nós a designação de manuelino. 

Destes novos edifícios nenhum subsiste com a sua feição 
caraterística, senão a capella. Ha porém vestígios dos paços : 
duas portas e quatro janellas manuelinas, e ainda uns cubei- 
los, já mais ou menos desfigurados, na fachada setentrional da 
Universidade; e finalmente uma série de arcos, por entre 



44 CAP. n--EniFÍcio e objectos no culto 

ruínas e escoinbros de muros, a indicar a linha que por oeste 
limitava os edifícios e seus annexos, e que, vindo na direcção 
da actual fachada occidental das aulas dos gerais, correm pa- 
rallelamente ao eixo da capella, até se encravarem na massa 
de alvenaria da bibliotheca. 

Por estes restos, que a norte e a oeste assignalam a exten- 
são das construções manuelinas, se vê a amplidão notável 
que ellas tinham. 

Só a capella é que se conserva ainda quase íntegra. Tudo 
o mais, que deixo apontado, não passa de uns símplez vestí- 
gios, indicativos do estilo, que caraterizava a construção; 
sam como que uns marcos delimitando ó terreno occupado 
pelos paços, que D. Manuel mandou construir. 



Uns interessantes documentos, publicados pelo incansável 
investigador e benemérito publicista, meu prezado amigo e 
collega Sousa Viterbo, no seu Diccionario histórico e docu- 
mental dos arckitectos, engenheiros e constructores portuguê* 
sesy ou a serviço de Portugal, vieram revelar-nos algumas 
particularidades sobre o mestre de obras, que ajustou e exe- 
cutou na sua máxima parte estas edificações, e ainda, com 
bastante precisão, os annos em que ellas correram. 

Foi Marcos Pirez, pedreiro, morador em Coimbra^ bõo 
oficiall do dito oficio ', aquelle mesmo mestre que realizou 
a obra da crasta e outras no mosteiro de Santa Cruz desta 
cidade, onde trazia às suas ordens cinqoenta oficiaes e xx 
criados'^, quem de empreitada reconstruiu a capella e os 
paços de Coimbra, sendo surprehendido pela morte antes de 
acabar os edifícios ajustados. 

* Carta régia de D. Manuel, nomeando Marco» Píiez mestre 
das obras reais em Coimbra, registada na Torre do Tombo, Chan- 
rellaria de D. Manitely 1. 9, fl. 28 v. (apiid Sousa Viterbo, Diccio- 
nario dos arcJiitectos etc, t. 2, p. 309). 

'^ Cartas de Gregório Lourenço, vedor das obras do mosteiro, a 
D. Manuel, datadas de 28 janeiro e 22 julho de 1518 (apud S. Vi- 
terbo, loc. cit. p. 310). 



CONSTRUÇÃO DA ACTUAL CAPELLA 45 

Como tinha recebido importantes quantias à conta das em- 
preitadas, e deixara a obra por concluir, tiveram de ser me- 
didos os trabalhos feitos, e apuradas as contas, do que resultou 
reconhecer-se haver uma dívida considerável de Marcos Pírez 
para com a fazenda real, sendo penhorados os bens da sua 
viuva Ignês Díaz, moradora na rua da Moeda nesta cidade, e 
ainda os dos fiadores, entre os quais avultava a mãe de Mar- 
cos, chamada Lianor Afomso, dona veuua. molher que foy de 
Pedre Annes Campelo ^ morador na das Brancas, termo da 
vila de Leirya '. 

Pelos documentos publicados por Sousa Viterbo sabe-se 
que Marcos Pírez, em carta régia de 11 de março de 1517, foi 
nomeado, segundo os dizeres do documento, mestre das nos- 
sas obras que se fazem^ e daquy em diante na dita cidade 
ouv^rê fazer, asy e polia guisa que ho elle deve ser, e como 
o sam os ouiros mestres das nosas obras do Regnno '. A 13 
de março de 1522 era dirigida a Vasco Ribeiro, vedor e rece- 
bedor das obras, uma carta régia, dando como fallecido aquelle 
mestre, e mandando socr estar e escreuer toda sua fazemda, 
e bem asy a de seus fy adores que ele tivesse dado pêra as ditas 
obras, apurar contas com sua molher e erdeyros do que delas 
tem recebido, e medir e receber as obras que tyver fectas, . . . 
vemdo bem o que podem valer ^, Finalmente, na descrição 
minuciosa da medição da obra de Marcos Pírez, que se lê 
nos autos respectivos, encontram-se as duas alíneas seguin- 
tes : — Item no tempo de Guomçalo Priuado lhe foy paga 
toda a capela e tem por ladrilhar a dieta capela e fazer os 
degraos dela por que lhe am de ser dadas as lájeas e momta 
somemte das mãos no que esta por fazer b cento reaes, — 
Item tem por guarnecer a capela que sam Ixxij braças e R. 
palmos da parte de demtro e da parte de fora estam por 
guarnecer Irix brancas que sam por todas cemto Ixxj braças e 



' Escritura de fiamça e ahonaçam, feita na villa da Vitorea da 
Batalha, a 23 abril de 1521, por Saluado Pirez puhryco tahaliam, 
archivada na Torre do Tombo, Corpo ehronologico part. 1, maço 27, 
doe. 117 (Viterbo, loc. cit., p. 312). 

2 Loc. cit., p. 309, 

3 Ibid. p.311. 



46 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

mea e coremta palmos que se merece somemte das mãos bj 
çemto Ir, reaes ' . Têem bastante interesse estes dados. 



• É muito interessante este documento, para se ajuizar da obra 
dos paços mandados fazer por D. Manupl, nos quais foi alguns 
annos depois iustallada a Universidade ; reproduzimo-lo por isso 
da cit. obra de Viterbo, t. 2, pp. 318-323. 

»Auto que Vasco Rybeyro Yeador e recebedor das obras dos paços 
da cidade de Coymbra iiiamdou fazer sobre a mjdiçam das obras 
dos ditos paeços 

Medição. — Anuo do nacymento de Noso Senhor Jliesu Christo 
de mjl e quyuliemtos e vymte dous annos ao prymeyro dia do mes 
d abril do dito anno na cidade de Coymbra nas casas da morada de 
Vasco Ribeyro veador e recebedor das obras dos paços delRei 
uoso senhor na dita cidade estamdo ele hy polo qual foy dito a 
mym espriuam que elRei noso senhor lhe escreueo ora sobre a 
mydyçam das obras que Marcos Pirez mestre que foy delas ja 
fynado tinha feitas nos ditos paços e que por quamto lhe era nese- 
çareo se as ditas obras averem de medir e receber que ele mam- 
daua a Bastiam Paez omem das dietas obras que fose dizer a 
molher do dito Marcos Pirez que vyse em tamto híia pesoa que por 
sua parte vise as ditas obras e esteuese por ela a dita mydiçam 
delas e que asy fezese por toda esta somana e o dito Bastiam Paeez 
foy com o dito recado e dise que ele noteficara todo o que dito he 
a molher do dito Marcos Pirez e que ela lhe disera que ela buscaria 
híia pesoa que por ela estiuese a dita mydição e eu Dioguo de Beya 
que esto espreuy. 

Item aos bj dias do mes dabril de mjl e quynhemtos e xxij anos 
lia çydade de Coymbra e casas de mym espriuâo estamdo hy Vasco 
Ribeiro veador das hobras dos paços da dita cidade per ele foy 
dito que elrey noso senhor lhe espreuera que mamdase mydyr to- 
dalas obras que Marcos Pirez tinha feitas dempreytada nos ditos 
paços por quamto o dito Marcos Pirez he falecido e ate o presemte 
se nom tynha feita comta com ele das ditas empreytadas e que per 
a dita medicam ele se louuaua em Pedre Annes mestre das ditas 
obras e em Tomas Fernamdez outro sy mestre de sua alteza da 
pedrarja aos quaes deu juramemto dos Samtos Avamgelhos que bem 



CONSTRUÇÃO DA ACTUAL CAPELLA 47 

Está portanto, ein vista do que fica exposto, perfeitamente 
averiguada, e demonstrada documentalmente, qual a épocha 
precisa em que se realizou esta construcção. 



e verdadeyramente visem todas as ditas obras que ao dito Marcos 
Pirez foram dadas dempreytada e as medisem e reçebesem segumdo 
forma dos comtrautos que lhe logo hy o dito vedor deu c eles por 
o dito juramemto diseram que asy o fariam e por verdade asynou 
aquy com ho dito vedor e eu Dyoguo de Beya espriuam das ditas 
obras que esto espreuy. 

E despois desto no dito dia o dito vedor mamdou a Bastiam 
Paez homem das ditas obras que tose dizer a molher de Marcos 
Pirez como se ele tynha louuado nos sobre ditos Fedre Annes e 
Tomas Fernamdez que visem e mydisem as ditas obras e que ela 
por sua parte se louuara em outra pesoa ou pesoas que com eles 
fizesem a dita mydieam e o dito Bastiam Paez foy loguo e dise que 
lhe noteficaua todo o que dito he e que ela lhe disera que ela 
eomfiaua nos dictos Pedre Annes e Tomas Fernamdez e que alem 
deles ela mamdaria la algua pesoa que com eles amdase e reque- 
rese sua justiça e visto per o dito veador sua reposta mamdou que 
outra vez lhe fose noteficado e que com o que disese se fezese hum 
termo e ela o asynase Dioguo de Beya espriuam das ditas obras 
que o espreuy. 

E despois desto no dito dia e casas do dito veador estamdo ele 
hy peramte ele pareçeo a dita Inês Diaz molher que foy do dito 
Marcos Pirez pola qual foy dito ao dito veador que ela se louuaua 
pêra estar a dita mydieam por sua parte em Gonçalo Martjnz seu 
cunhado pedreyro morador na dita cidade que com os sobre ditos 
amdasem na dita mydieam e o dito veador mamdou asy todo escreuer 
e eu Djoguo de Beya espriuam do almoxarifado que esto espreuy. 

E despois desto aos dez dias de junho do dito anno de mil e 
quynhemtos e vymte dous annos na dita cidade semdo o dito 
veador ele hy peramte ele pareçeo a saber a dita Inês Diaz e 
Pedre Annes e Tomas Fernamdez e Guomçalo Martjnz e Pedre 
Anes e per a dita Inês Diaz foy dito ao veador que os sobre ditos 
estauam descomcertados na dita mydyçam e lhe parecia que hya 
nyso em ero que lhe requerya que a dita obra fose mydida por 
Guomçalo Madeyramydjdor da dita cydade por ser pesoa que nyso 
bem emtendia e a tinha medida ja em tempo de Marcos Pirez e 



48 CAP, II— EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

De todos os dados, que acabamos de referir, se conclue, 
que o actual edifício da capella da Universidade foi princi- 



visto por o dito veador seu dizer fez pergumta aos sobre ditos Pedre 
Annes e Tomas Fernamdez e Guomçalo Martjnz que era o que lhes 
diso pareçya e por o dito Pedre Annes foy dito que ele tornara a 
reuer a dita mydiçam e que achaua jr omde (?) comtra a dita lues 
Diaz e que o dito Guomçalo Madeyra era dado por oficial do dito 
oficio e o sabia muy bem fazer e que ele e Guomçalo Martjnz lhe 
pareçya que deuyam mamdar medir a dita obra e vysto per o dito 
vedor a dita duujda mamdou aos sobre ditos que a tomasem a 
reuer e fose a dita mydiçam descretamemte e eu Dioguo de Beya 
que esto espreuy. 

E em comprimento do qual fezeram os sobre ditos a medicam 
segymte : 

Medicam das obras dos paços delrey Noso Senhor qne fez Guomçalo 
Madeyra per mandado de Yaseo Ribeyro das obras de Marcos 
Pirez mestre delas 

Item na medida do eyrado se achou oytemta e seis braças e 
quoremta iij palmos. 

Item avaliaramse as lageas do dito eyrado em dous mjl e no- 
uecemtos b reaes. 

Item achouse na parede da sala da bamda do tereyro nouemta 
quatro braças e três quartas e onze palmos. 

Aposemtamemtos dos jnfantes 

Item nas primeyras duas camarás dos aposemtamemtos dos 
jnfamtes que estam sobre a varamda a par da porta da emtrada 
do tereyro acharamse certas tyrados os vãos. 

Item majs nas outras duas camarás loguo seguymtes se acharão 
tyrados os vãos xxxbj braças e xbj palmos e meo. 

Item nas outras duas que sam as terçeyras se acharão tirados 
os vãos ficaram certas xxbj braças e mea e bj palmos e meo. 

Item majs nas outras duas caniMras seguymtes que sam os 
quartos se acharam tirados os vãos xxiij braças e Rbiij palmos e 
meo. Sam as braças dos aposemtamemtos acima dos jmfamtes 
cemto biij" braças e mea xxbij palmos e iij quartos. 



CONSTRUÇÃO DA ACTUAL CAPELLA 49 

piado por ordem de D. Manuel depois de março de 1517; e 
que, ao fallecer este monarcha a 13 de dezembro de 1521, 



Item 86 mediram as outras duas camarás que sam as quymtas 
e se acharam tirados os vãos ficaram certas xj braças e xxxbiij 
palmos. 

Item majs de bicos e outras cousas de pedaços que se mydiram 
em que se adiaram duas braças e seis palmos e três quartos. 

Item mais se médio a parede que core de fora da varamda e 
acharam certas tirados os vãos xxxiij braças e mea e xxbiij palmos. 

Item majs ua parede da varamda da parte do tereyro se acha- 
rão tirados os vãos xxbiij braças e xxxb palmos. 

Item majs na parede abayxo da varamda da bamda do tereyro 
se acharam cymco braças e mea e xbij palmos. 

Item majs hua braça uo quanto das varamdas e cymco palmos. 

Item majs se médio a parede damtre as camarás e a varamda 
e acharam tirados os vãos trynta e oyto braças e mea xbiij palmos. 

Item se mydyram cymco arcos que estam debayxo da varamda 
e acharamse quatro braças e xx palmos. 

Item majs na primeyra casa da par do cobelo que sam as logeas 
das outras casas de cima e o cobelo e o eyrado do cabo xij braças 
e ix palmos. Soma cemto xxxbij braças xxb palmos iij quartos de 
palmo. 

Item majs ua houtra logea seguymte de duas paredes tyrados 
os vãos xiiij° braças iij quartos ij palmos. 

Item majs na outra, terçeyra casa se mydiram nas paredes tira- 
dos os vãos acharam certas xiiij braças iij quartos e ix palmos. 

Item majs hua parede apar da sala deseomtamdo os vãos e-asy 
outros buracos de sobre as janelas e portaes iij braças e mea. 

Item se médio o cubelo gramde do cabo e achouse certas tirados 
os vãos xxb braças xxbij palmos. 

Item majs se médio outro cubelo seguymte e acharam certas 
xxb braças e mea xx palmos. 

Item majs se mydio o muro da bamda de fora e se acharam 
certas Ixx braças e mea xbiij palmos. 

Item majs mediram a parede da repart3'^çam damtre as logeas 
da par do cubelo gramde e tem b. peças x braças e R. palmos. 

Item majs outra parede doutra repavtyçam seguymte tem certas 
biij braças iij quartos e biij palmos e nieo. 
7 



50 CAI». II —EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

estava quase completa a obra de pedreiro, pois nos princípios 
de 1522 restava apenas por fazer todo o ladrilhamento, os 



Item majs a terceyra parede damtie as mesmaB logeas ix braças 
e mea e xix palmos. 

Item majs de huns pedaços de parede em que momtou Ima braça 
e b palmos. Soma cemto Ixbj braças e mea e xxiij palmos e meo. 

Item majs se médio a parede que core debayxo da varamda e 
tem tyrados f.s vãos acharam cymcoenta iij braças e hum palmo. 

Item majs se mediram os pedaços ij braças e xxij palmos. 

Item majs na logea que parte com a sala e com hua parede que 
esta abayxo da janela da mesma logea acharam certas seys braças. 

Item majs achamos no muro que core da porta do tereyro ao 
longuo da varamda da porta de fora três fiadas de parede que tem 
ix braças. Sam das braças dos aposemtamemtos dos jmfamtes iiij« 
Ixxxij braças e mea Rij palmos. E quamto as mydições e as guar- 
nyçoes noin as asemtamos aquj por que as açamos estarem certas 
huas com as outras ja fectas damtes. 

E despois desto aos xxiij dias do mes de junho de mjl e quy- 
uhemtos e vymte dous annos na cidade de Coymbra e casas de 
mym espriuam pareceram hy Guomçalo Madeyra e Guomçalo Mar- 
tjnz pedreyros moradores na dita cidade e diseram que eles por 
mamdado de Vasco Rybeyro veador das obras dos paços delRey 
noso senhor mediram todas as aluenarias atras espritas aos quaes 
eu espriuam dey juramemto dos samtos Avamgelhos de mamdado 
do dito veador se aviam por boa a dita mydiçam que feita tinham 
e eles por o dito juramemto diseram que eles tynham feita a dita 
mydyçam bem e verdadeyramente e aviam por bom o que mediram 
e por verdade asynaram aquy e eu Dioguo de Beya espriuam da» 
obras que esto espreuy. 

E loguo no dito dia na dita cidade de Coymbra e casas do dito 
veador estamdo ele hy jieramte ele pareçeo a dita Ynes Diaz mo- 
Iher do dito Marcos Pirez e asy o dito Guomçalo Madeyra e Pedre 
Anes e Guomçalo Martjnz e o dito veador com eles fez comta per 
a mydiçam a tias esprita de todas as aluenarias que ate o presemte 
eram fectas nos aposemtamentos dos jmfantes e achouse por ver- 
dadeyra comta que tem feitas nos (iitos apousemtamemtos quatro 
çemtos e oytemta e duas braças e que momta a iiij* Ixxx reae» 
duzemtos e trymta dous mjl e dez reaes. 



CONSTRUÇÃO DA ACTUAL CAPELLA 51 

degraus, e o guarnecimento de cal tanto por dentro como 
por fora. Tudo o mais estava pronto. 



Item diseram que mediram a parede da sala e que lhe acharam 
nouemta e quatro braças e ires quartas e xj palmos e meo a iij*= 1 
reaes a braça em que monta xxxiij ij® biij°. 

Item diseram que mediram a parede do heyrado com o peytoril 
que acharam oytemta e seys braças e liua quarta e três palmos a 
quatro çemtos reaes a braça em que momtam xxxbij iiij« Ixij reaes. 

Item diseram que avia daver das lageas que pos no eyrado sobre 
o peytoril ij ix« 1 reaes. 

Item viram os comtrautos e diseram que avyam de aver dos dez 
arcos das varamdas do apousemtamemto dos jmfamtes a dous mjl e 
bj® reaes por arco em que momtam vynte seys mjl reaes — i1j'=xxbiij 
bj* Ixxx. 

Item viram seys arcos de repartymemtos das dietas casas de que 
adaver a mjl b« reaes cada liiia em que momta ix reaes. 

Item diseram que tinha feitas xxbiij** janelas nos apousemtamemtos 
dos jmfamtes a dous mjl b*' reaes a janela em que momtam Txx rs. 

Item diseram que tinha feitos no dito apousemtamento dos jm> 
famtes xix portaes a dous mjl reaes cada hum xxxbiij" reaes. 

Item diseram que avia majs daver doutras janelas e portaes a 
saber de quatro na sala a ix« reaes cada hua e do portal da em- 
trada da sala iiij reaes e outros dous na logea da dita sala a nj 
reaes cada hum e de hfia fresta que fez que vai ij reaes que sam 
por todos dezaseys mjl e bj« reaes. 

Item diseram que nas casas que estam ladrilhadas açhauam 
nouemta três braças a iiij« Ix reaes a braça momta quoremta e dous 
mjl e seteçemtos e oytemta reaes. 

Item diseram que mediram todalas guarnyçoes das paredes e 
que açhauam bij*" Riij braças e dos vãos xxxbj braças majs que sam 
per todas bij*' Ixxix braças e b palmos a cemto reaes a braça em 
que momta xxby^ ix« reaes Soma iji^liiij" ij* Ixxxb reaes. 

Item comtaram as ameas guarnecydas e diseram que sam çemto 
e none ameas de que adaver a ijc reaes cada hua em que momtam 
vymte hum mjl e oytoçemtos reaes. 

Item comtaram majs as ameas por guarnecer e diseram que 
sam ijc e duas que valem semdo guarnecydas qoremta mjl e iiij^ 
reaes e açhauam que avia mester pêra se guarnecerem xbj cemto 
reaes e asy fycam. 



CAP. II — EDIFÍCIO E OBJKCTOS DO CULTO 



Segundo se deprehende dos mesmos documentos, conti- 
nuou com a obra Tomas Fernandez outro sy mestre de sua 



Item diseram que avia daver dos peytoris que fez nas janelas 
de que tirou outros quebrados e asy desquebrados em que momtam 
ij bijc reaes. 

Item diseram que tinha laurada pedraria que esta no tereyro 
uom emtramdo aquy os sete arcos em que momta dez mil e seys 
eemtos e nouemta reaes. 

Item diseram que avia daver do cubelo que fez com quymze 
ameas ao redor que vai ao todo KJ^j mjl bc reaes e por as ameas 
nom serem guarnecidas que avia mester mjl reaes pêra se guarne- 
cerem e asy ficam quoremta cymco mjl e bc reaes. 

Item diseram que avia daver do coregymemto do outro cubelo 
quatro mjl e bc reaes. 

Item diseram que viram o comtrauto que adaver da varamda 
da senhora Rainha que fez quoremta mjl reaes. cemt<» 1 iiij<^ IK 
reaes. 

Item diseram que mediram os telhados nos quaes acharam quy- 
nhemtas e trimta braças de que avia daver cem mjl reaes se che- 
gasem a bc braças e se majs fosem nom avia daver majs que os 
ditos çem mjl reaes e destes lhe foy descomtados quatro mjl telhas 
que ele gastou no ladrilhar dos cayamemtos que aviam de ser la- 
drylhados de tigolo azul a sua custa e ele feios da dita telha que 
lhe ade ser descomtada a mjl e oytoçemtos reaes por mjlheiro em 
que momtam bij ij*' reaes asy que ha daver deles nouemta e dou» 
mjl e oytoçemtos reaes e oluylho aviam de ser Ixxx braças e he xj 
braças e xxx iiij palmos que lhe descomtam a mjl reaes a braça em 
que momtam cymco mjl e oytemta bij reaes e meo e asy adaver 
Ixxxbij bij«^ xij rs. 

Item diseram que avia daver de cousas que fez polo meudo de 
emmemda que fez em cousas que lhe mamdaram emmemdar e co- 
reger por hum comtrauto que se nom decraram por serem meude- 
zas com hua janela que fez no oytauo da varamda cm que todo 
momtam oyto mjl e duzemtos e cymcoemta reaes. 

Item diseram que viram sete arcos que estam laurados polo 
tereyro por asemtar de que adaver a dous mjl e oytoçemtos reaes 
por cada hum asemtado e por nom serem asemtados lhe descomtam 
a bjc reaes por arco asy que feito o dito descomt^ adaver deles 
quymze mjl e iiij<í reaes. 



CONSTRUÇÃO DA ACTUAL CAPELLA 53 

alteza da pedraria, Â de carpinteiro também certamente es- 
tava ao tempo bastante adeantada, se é que se não achava 



Soma do que tem merecydo ao todo sam biij« r biij mjl e biijc e 
xij reaes. 

Descomtos que se ham de fazer ao dito Marcos Pirez que am 
de sair do que tem merecydo por lhe serem pagos e os ter por fazer 
escreuem do tempo de Guomçalo Priuado. 

Item no tempo de Guomçalo Priuado lhe foy paga toda a capela 
e tem por ladrilhar a dieta capela e fazer os degraos dela por que 
lhe am de ser dadas as lageas e momta somemte das mãos no que 
esta por fazer b çemto reaes. 

Item tem por guarnecer a capela que sam Ixxij braças e It, 
palmos da parte de demtro e da parte de fora estam por guarnecer 
Irix braças que sam por todas çemto Ixxj braças e mea e coremta 
palmos que se merece somemte das mãos bj çemto Ir. reaes. 

Item tem por fazer as três escadas a saber a do apousemta- 
memto da senhora rainha e as duas delRey e foy avaliado o que 
esta por fazer nelas a fora as açheguas que lhe ara de ser dadas 
xxxb reaes. 

Item diseram que na varamda da senhora Rainha achauam 
ajmda por fazer todalas cymalhas que se merecem delas íiij bijc 1 
reaes e asy se merece de telhar sobre as ditas cimalhas e repyey- 
TOS ditos arcos e fazer as jumtas e fazer duas vinhas no cunhal do 
raeo sobre que vem o cano e por híia gargora mjl çemto 1. reaes. 

Item acharam que se merece de repiados dez arcos da varamda 
dos jmfantes iiijc reaes e do repear os arcos dos repartymemtos 
çemto 1 reaes e das janelas do cnbelo e rebatos e outras cousas 
meudas e cupires e culunas se merece de todo xiij iiijc xbj reaes» 

Item deue a obra quatro çemtos e oytemta caradas de pedra 
que valem a dez reaes a carada em que momtam iiij biijc reaes. 

Item deue a obra que lhe emprestou oyto moyos de cal a saber 
quatro de delgada e outros de grosa e os de grosa emtreguou e a 
delgada lhe descomtam a çemto reaes por movo em que momta bj*' 
reaes. — soma dos descontos Ixbj ij*" 1 bj. 

Item tenho eu Diogo de Beya espriuam das obias posto em 
lerabramça que o dinheiro que Marcos Pirez tem recebido dos em- 
prestidos a trás espritos asy do tempo de Guomçalo Priuado como 
de Nycolau Leytam que foram veadores das obras e asy de Vasco 
liybeiro veador delas he ho seguymte e por que os lyuros delas 



54 CAP. 11— KDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

concluída de portas e tecto, como deverá inferir-se do estado 
em que se encontrava a parte pertencente aos pedreiros. 



estam no» comtos reportome a eles pêra que se coteye esta» adições 
com eles e sua alteza nom va em ero nem o dito Marcos Pirez. 

Item no emprestido dos telhado» reeebeo Marco» Pirez de 
Guomçalo Priuado xj xj reaes e no tempo de Nycolau Leytam Rb 
reae» e asy reeebeo de Vasco Ribeiro no ano de b''.xbiij — xxxiiij 
reaes que sam por todos IR xj reaes. 

Item da empreytada dos cajamemtos remeis em meos tem recebido 
o dinheiro seguymte a saber de Nycolau Leytã Ixb cemto xx reaes. 

Item da empreytada da» parede» da sala reeebeo o dinheiro 
seguymte a saber de Nycolau Leytam IR reaes e de Vasco Ribeiro 
no ano de bc e xbiij" cemto ix mjl reaes que sam por todos çemto 
e nouemta e noue mjl reae». 

Item tem reçebydo da empreytada noua das casas dos jmfamte» 
de Vasco Ribeiro no ano de b.c xbiij oemto e oytemta mjl reaes e 
no ano de b.c xxj cemto e seys mjl e b.c reae» que »am por todo» 
ijc Ixxxbj b.c reaes. 

Item tem reçebyda majs de empreytada das guaruyções dos 
cubelos dos paços da parte de fora no ano de b.c xxj annos xxbiij 
reaes damte mão. 

Item de empreytada dos ladrylhos e guarnyçoes e aliienaria» 
reeebeo o dinheiro seguymte : 

Item reeebeo no ano de bc xix ijc IRix e bije Ixxij reaes e no 
ano de bc xx — çemto R. iiijc R bij e neste mesmo ano cemto xij 
que sam por todos b« liiij ij« xix reaes. 

Item tem majs recebido per sy mesmo R reaes em parte de pago 
da empreytada das cozynhas os quaes coremtamjl reaes ele trazia 
do tempo de Guomçalo Priuado dante mam da empreytada do» 
eyrados e capela os quaes ele deuya a &ua alteza e eu e»priuam 
lhos emtregey em reçeyta sobre Vasco Ribeiro e o dito Vasco Ri- 
beiro lho» deu em parte de pago da empreytada das cozinhas dante 
mão R reaes. Soma do que tem recebido hum comto e ij« Ixj mjl e 
biij'' 1 reae». 

E ajumtadoB aquy o» Ixbj ij« Ibj reaes que deue das cousas que 
nom fez como atras fycam decraradas e por todo o que deue com 
o que tem recebido que he hiun comto e duzemtos e sesemta hum 
mjl e oytocemtos e cymcoemta que sam por todos hum comto e 
trezemtos e vymte oyto mjl e cemto e sey» reaes. 



CONSTRUÇÃO DA ACTUAL CAPELLA 55 

Parece que toda a obra de carpintaria do novo edifício ma- 
nuelino do paço real da Alcáçova de Coimbra e da respectiva 

E tirados daquy os oyto cemtos e quoremta e cymco mjl e oy- 
tocemtos e doze reaes que se acha que tem merecydo no que tem 
feito fyca deuemdo o dito Marcos Pirez a sua alteza quatrocemtos 
e oytemta e dous mil e duzemtos e nouemta quatro. 

Sam menos os ij ix« 1 reaes das lageas. 

Item a varamda da Senhora Rainha se telhou a custa de sua 
alteza e leuou de telha sete mjl e quynhemtas telhas e o dito vea- 
dor a comprou per a o dito Marcos Pirez a nom querer por e dizer 
que nom era a jso obriguado e veyase o comtrauto e se a ele hade 
por descomteselhe e emtregese este dinheiro majs nadyuyda a b.* 
reaes o mylheyro. Sam IIj bij<5 1 reaes e demtro aos paços b.® 1 reaes 
que sam por todos íTij iijc reaes ^jsto nom detremynou o veador 
por a também ter duuyda e o remeteo ao senhor amo com o trelado 
deste auto que lhe o veador mamdou pêra que o deteremynase. E 
despois desto aos três daguosto de mjl e quynhemtos e vymte seys 
{8ic) annos na dita cidade e casas de A^asco Ribeiro veador estamdo 
ele hy peramte ele pareçeo Ynes Diaz molher do dito Marcos Pirez 
e dise ao dito veador que lhe requeria que lhe descomtase da dita 
dyuyda dous mjl cemto Irbj tigelos mazajs em que momta a mjl e 
iiij« 1 reaes o mylheyro que lhe tomou que tynha nos ditos paços 
e asy seys mylheyros de tigelo daluenaria que lhe outro sy toma- 
uam pêra as ditas obras que hum e outro tinha nos ditos paços com 
a qual o dito veador fez comta por lhe o dito tegelo ser tomado pêra 
as estrebarias que se neste anno fizeram per seu mamdado e no 
tigelo muzaal momta a mjl iiij« 1 reaes por mylheyro por estar 
demtro nos ditos paços iij cemto Ixxx reaes e nos seys mylheyros 
daluenaria a bj*^ reaes por mylheyro por outro sy estar nos ditos 
paços em que momta iij bj* reaes os quaes jumtos aos iij cemto Ixxx 
reaes do tigelo mazuel sam por todos seys mjl e seteçemtos e oy- 
temta reaes os quaes lhe a dita Inês Diaz requereo que lhe des- 
comtase da dyuyda que deuya por lhe o dito tigelo fycar nos dictos 
paços e lhe nom mymgoa tomado se nam agora e estar por seu os 
quaes bj bij*^ Ixxx reaes descomtados. 

Deue tyrados estes descontos iiij*^ Ixxij ijc xx reaes». 

(Torre do Tombo. Corpo chron/jlogico, part. 1> 
maço 27, doe. 117). 



56 CAP. 11 — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

capella foi executada por Pedre AneSj carpinteiro dos paços 
deli Rey nosso Senhor desta cidade ^ o qual era gemro da 
dita Lianor Afonso^ e por tanto cunhado de Marcos Pírez; 
tinha uma filha casada com o pintor Christóvão de Figuei- 
redo 2, mencionado pelo conde Raczynski ' e por Sousa Vi 
terbo *, e outra, de nome Isabel Pírez, com o grande escul- 
ptor João de Ruão^. Pedro Annes era, segundo se lê em 
uma carta régia datada de Évora a 29 de julho de 1524, 
carpeteirOy mestre da carpetaria de todalas minhas obraSy 
tirado Ribeira ^. 

O estado em que a obra se encontrava em 1522, e o espírito 
piedoso de D. João iii, que certamente desejaria o pronto 
estabelecimento do culto divino em a nova capella dos seus 
paços de Coimbra, levam-nos a suppôr que o edifício re- 
ligioso ficaria acabado em breve tempo, sob a direcção dos 
mencionados Pedro Annes e Thomás Fernández; e, sendo 
assim, já a capella estaria acabada quando Diogo de Casti- 
lho, depois de ter trabalhado sob a direcção de seu irmão 
mais velho João de Castilho na construção da abóbada de- 
baixo do coro da sé de Viseu, e em seguida na obra do mos- 
teiro de Belém, obteve ser nomeado mestre das obras dos 
paços de Coimbra, por carta régia de 7 de abril de 1524 " . 



Em 1537 installa-se nos paços reais a Universidade, e dez 
annos mais tarde encontramos o antigo mestre das obras dos 



1 Torre do Tombo. Corpo chronologico, parte 1, maço 29, doe 16 
— Auto da visita e aualiaçào que se fez da obra que aa mester se 
fazer no mosteiro de S. Jorge (apud Viterbo, op. cit., t. 1, p. 33). 

^ Sousa Viterbo, op. cit., t. 1, p. 36. 

3 Dictionaire historico-artistique dii Portugal, p. 97, 

4 LOC: cit. 

5 Ibid., p. 37. 

^ Torre do Tombo. Corpo chrouologicoj parte 1, maço 117, 
(loc. 97 (apud Viterbo, loc. cit.) 

" Viterbo, op. cit., t. 1, p. 170 e segg. 



PRIMEIROS CONCERTOS NA CAPKIXA 57 

paços reais, Diogo de Castilho, já então honrado com o título 
de cavalleiro da casa real, nomeado mestre das obras de pe- 
draria e aluenaria da dita Vniversidade por alvará de 18 de 
março de i547 ^ 

Mas nestes tempos, e nos próximos seguintes, não se rea- 
lizaram na capella obras de importância. Notemos aqui, pela 
ordem chronológica, as referências que temos encontrado a 
obras feitas no edifício até ao fim do século xvi. 

A 1 de março de 1549 mandou a mesa da fazenda da Uni- 
versidade pagar aos empreiteiros q lageam a capella de sam 
miguei das schola^ três mil rrs^. Substituir-se hia nesta 
épocha o primitivo ladrilho por lageado em todo o pavimento, 
ou lagear-se hia a capella mór apenas? Não o sabemos, nem 
temos notícia da importância total da obra. 

Em mesa a 29 do mesmo mês lembrava o capellão-the- 
soureiro q se tapasem as frestas q estão as ilhargas dos alta- 
res, & q se guarnecese a capela, & se cõçertasê os altares 3. 
Esta lembrança foi attendida em parte, em sessão de 29 de 
abril seguinte, pois mãdotisena dita Messa q se pase mãdado 
p^ nicolao leitão mãodar tapar as frestas da Capella de 
tijollo, éc ^ m,ãde guarnecer os altares da dita Capella dazu- 
lejos, éc não os avêdo q se cõçertê os cãtos delles de taboado 
ou tijollo por a cal não danar as toalhas, ... S se pinte o 
ãjo*; referencia certamente à imagem do archanjo titular, 
que devia estar no altar-mór. 

No anno de 1557 foi assente um púlpito de pedra, obra de 
Gaspar da Costa, avaliado pelos louvados João de Ruão e João 
Gonçálvez em 6$000 reis, que se mandaram pagar a 6 de abril 
do anno referido '. 

Obras de alguma importância foram feitas por Pedro 
Gaspar nos telhados <€ paredes & simalhas da Capella da 
VnjtiA^ por tn^o da mesa sendo R'or o S^^ Dom Nuno de No- 



* Viterbo, op. cit., p. 179, extrahido dos Escriptos diversos de 
A. FiLippE Simões, p. 227. 

2 Mesa da fazenda, t. 1, 1. 2, fl. 17 v.® 

3 Ibid., fl. 23 v.<» 

* Ibid., fl. 33 V." 

5 Ibid., fll. 140 v.« e seg. 

iS 



58 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

ronha (1578-1584). de que lhe ficaram em divida 15$777 reis, 
que em mesa a 30 de agosto de 1593 lhe foram mandados 
satisfazer ^ 

Achando-se a antiga pia da agua benta, provavelmente 
embutida na parede, em sítio a onde não podia commodamente 
chegar-se, por causa dos bancos, em vesitação de 30 de maio 
de 1598 deu-se ordem para dali se remover, mudando-se para 
mais perto da porta 2; ordem esta que não foi logo satisfeita, 
insistindo-se na sua urgência na vesitação seguinte, a 5 de 
dezembro '. Esta antiga pia desappareceu, collocando-se em 
vez delia uma que ainda hoje lá se encontra, à direita de quem 
entra a porta principal. 

As portas da capella estavam já bastante deterioradas, 
como se verificou em visitação de 22 de março de 1600; pelo 
que os vesitadores ordenaram ao padre thesoureíro, que as 
mandasse ver por um bom official, para se concertarem ou 
fazerem de novo ^ 



Nos três séculos depois decorridos, não foram grandes as 
transformações soffridas pelo edifício da real capella da Uni- 
versidade. 

Em 1613 revestiu-se toda a capella-mór de azulejos, os 
mesmos que ainda hoje lá se vêem. Foram fabricados em Lis- 
boa por Gabriel Ferreira, e faziam parte de uma grande en- 
commenda de 14:000 azulejos (ou mais se fossem necessários), 
sendo dnquo mil delles de folhagem, e os demais da^ três 
obras, devendo ser fornecidos, a preço de 16 reis cada um, 
até ao fim de agosto de 1612 os 5:000 de folhagem, azuis e 
brancos ; até dia de Natal immediato os restantes. Deste con- 
trato lavrou-se escritura a 3 de agosto do referido anno ^. 



« Fazenda, t. 3, 1. 1, fi. 35. 

^ Vesitação da Capella^ t. 1, fl. 6. 

3 Ibid, fl. 8 V." 

4 Ibid., fl. 12 v.° 

» Escrituras da Universidade, t. 19, 1. 3, fl. 97. 



REVESTIMENTO DB AZULEJOS DA CAPELLA-MÓR 59 

Jorge Gonçálvez, w«»* nesta cidade a monteRojOy mestre de 
asentar azulefo, por escritura de 10 de agosto de 1613 deu 
quitação à Universidade da quantia de 56S000 reis, por que 
elle tratara cõ o sor Reitor & v.^^ de alentar todo o azulefo 
da capella de 8a?n miguei da v^ quanto diz do arco p« demtro 
da capela mor *. 



É por esta mesma occasião que se assenta o grande retá- 
bulo, que ainda hoje veste a parede toda do topo da capella 
mór. 

Tem este retábulo uma história, e peço licença para nella 
me demorar um pouco mais. Os eruditos, que se preoccupam 
com a história da arte portuguesa, certamente me absolveram 
deste peccado, em troca de uma revelação interessante que 
vam encontrar em uma página de péssima caligraphia e pouco 
melhor orthographia, que í^té hoje se tem conservado recôndita 
em um dos muitos livros de escrituras da Universidade, e 
que eu agora denuncio, trazendo-a pela primeira vez a público. 

Vamos pois à história. 



Bem modesto devia ser o primitivo altar-mór da capella 
manuelina de S. Miguel. Â mesa do altar, encimada por um 
pequeno retábulo de escultura ou de pintura, representando 
o archanjo com os seus attributos usuais, a balança, o escudo 
e a lança, subjugando e ferindo o dragão infernal; ou talvez 
um símplez nicho, onde tivesse sido collocada uma antiga 
imagem do padroeiro, conservada piedosamente na substitui- 
ção do velho templo românico. A ordem emanada da mesa 
da fazenda a 29 de abril de 1549. para que se pinte o ajo, à qual 
já fiz referência 2, torna mais provável esta última hy pó these. 



• Escrituras, t. 20, 1. 1, fl 28. 
2 Vid. supr., p. 57. 



60 CAP. II — KUIFÍGIO E OBJECTOS MO CULTO 

Começa porém a reconhecer-se a insufficiéncia deste altar, 
a confrontar-se a sua mesquinhez com a majestade do bello 
edifício, em que occupava o logar de honra, e d^aí a aspiração 
e desejo de todos, de o verem substituído por um retábulo 
condigno da capella real, e da Universidade. 

A 20 de junho de 1601, indo à capella em vesitação o reitor 
Affonso Furtado de Mendoça e o lente de prima de theologia 
dr. Francisco Suárez, antes de mais nada feriu-lhes desagra- 
davelmente a vista o pobre retábulo, e, fazendo-se ecco da 
opinião geral, ordenaram ao escrivão G. Lourenço de Gueris, 
que escrevesse : — Primeiram^^ nos pareceo bem que se re- 
pj^esente a sua Mag^^ a necessidade que a dita Capella tem 
de M retabolo no altar mor; e que agora ha m,^^ commodi- 
dade pêra se fazer j assim da parte da v^j como por estarem 
aqui de presente officiaes de fora m^o bons, chamados a outras 
obras pollos não auer moradores nesta Cidade, nem derredor 
delia, e assim com esta occasião se poder fazer com menos 
custo que nunqua ^ 

Não sei se a representação chegou a ir, e se voltou re- 
sposta; o que sei é que foi encommendado um projecto para 
o novo retábulo, e que a mesa da fazenda, em sessão de 5 de 
julho de 1605, assentou q se desem doze mil rs a bernardo 
Coelho pello rascunho e traça ^ troixe pêra o retabollo da 
^de por assim parecer na mesa da Reformação ^, Estava então 
em Coimbra, como reformador da Universidade, desde 10 de 
novembro de 1604, D. Francisco de Bragança, para esta missão 
nomeado por provisão régia de 20 de março do referido anno. 

Não tornamos a encontrar referência ao projectado retá- 
bulo senão, decorridos cinco annos, em uma carta régia de 23 
de novembro de 1610, dirigida ao reitor, com a qual se devolve 
o projecto que ha annos tinha ido para Madrid, e se ordena 
que se execute com a maior brevidade e perfeição o retábulo 
segundo aquelle modelo, visto haver dinheiro, do qual porém 
se retiraram primeiro três mil cruzados para a obra das 
classes menores •*, 



* Vesitação, t. 1, fll. 16 v.", e »eg. 

2 Fazenda, t. 3, 1. 3, fl. 50 v.« 

3 Eis o texto (la carta: — «Dom Francisco de Cagtro Rector 
amigo Eu ElRey Vos enuio mJo saudar. Ha aiincs q se me enuiou a 



RETÁBULO DA CaPELLA-MÓR 61 

Põe-se em praça a obra, e a 2 de agosto de 1611 lavra-se a 
«scritura do contrato, pelo qual Simão da Motta, samblador, 
morador nesta cidade, se obriga a fazer o retábulo, comforme 
a trassa que elle,vio & entendeo, pela quantia de 420$000 reis; 
o qi fará de bordo m'o fino botn e bem sequo, com toda a 
perfeição da dita trassa, dentro de outo meses ". 

Nova carta régia, em data de 14 de setembro immediato, 
manda retirar parte do dinheiro que estava em depósito, e 
applicá-lo a obras das classes menores ', Mas o retábulo foi-se 



modelo que se fez, para o retabolo da Capella dessa Vniuersidade, 
cuja obra por a falta q hauia de dinheiro s€ foi dilatando attegora, 
sendo justo qu-e pola qualidade de que he, se prefira a todas; E assi 
hauendo de presente o dinheiro que por Vossa ordem se tem co- 
brado das diuidas atrazadas, me pareçeo mandamos enuiar o ditto 
modelo (que se uos dará com esta minha carta) pola qual Vos en- 
comÔdo muito, E mando que com toda a breuidade ordeneis (dando 
disso conta aos officiaes da Vn,do a que he costume) que do dinheiro 
das dittas diuidas se faca et ta obra em toda perfeição conforme ao 
modelo, pondosse em pregão para se dar de empreitada a officiaês 
que bem o cntendao com a segurança necess.* e com tempo limi- 
tado e . . . proueito da Vniuersidade que puder ser, e como Vos o 
procurais, de q . , . bem seruido, e o serey de que Vos apliqueis 
muito esta obra e me (ireis da)ndiO conta do que nella se fizer: 
porem primeiro que se tratte delia (será f) cumprido o que por 
outra minha carta Vos tenho mandado sobre o pagamento dos três 
mil cruzados que se hão de dar para a obra das classes menores. 
Escrita no Pardo a 23 de Nouembro 1610. 

Key , . - 

Conde de Ficalho 
P.» o Rector da Vn.Je de Coimbra». 

(Provisões antigas, i. 1, fl. 107). 

' Escrituras, t. 19, l. 2, fl. 165. 

2 Diz assim: — «Reitor amigo Eu ElRey Vos envio muito 
saudar. Hauendo Visto o q escreuestes em carta de 27. de Junho 
sobre o dinheiro que esta no cofre do deposito das diuidas dessa 
Vniuersidade, e sobre o que será neçess.° para a obra do retabolo 
da Capella, e poderá ficar para se continuar a das classes meno- 



62 CAP. II — EniFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

executando, e o reitor, ao dar conta do adeantamento em 
que elle ia, lembrou ao rei a conveniência de se irem fazendo 
outras obras na capella, e bem assim as portas de entrada do 
terreiro da Uni versidade ; ao que o monarcl\a respondeu a 17 
de janeiro de 1612, ordenando que primeiro se complete o 
altar, de pintura e douramento, em seguida se proceda à outra 
obra na capella, e por fim às portas do terreiro '. 



res ; hey por bem, e mando que do dinheiro que esta no ditto cofre 
do deposito façais dar aos Religiosos da Comp.* mil cruzados para 
a obra das dittas classes, e assj mais os quinhentos mil reis que 
por conta das mesmas diuidas se hao de cobrar de P.° Soares; os 
quais se lhe entregarão assy como se forem cobrando. Escrita em 
sao L.ço a 14 de Settembro de 1611. 

Rey . . - 

Conde de miranda 
P.* o Rector da Vn.de de Coimbra». 

(Provisões antigas^ t. 2, fl. 129). 

1 Ei-la: — «Rector amigo Eu El Rey Vos enuio muito saudar. 
Reçebeosse a Vossa carta em que anisastes dos termos em que esta 
a obra do retauolo da Cappella dessa Vniuersidade, e das que he 
necess.° fazeremse na Igreja e portas do terreyro; e pareçeome 
agradecer uos o cuidado com que attendeis a estas cousas de que 
me hey por bem seruido; e encomendamos (como faço) que procu- 
reis uâo a diante; e antes de dar principio a outra algua se ponha 
em perfeição o retauolo assy de pintura como de dourado, e des- 
pois se entenda na obra da Cappella, e ultimamente nas portas do 
terreyro, fazendosse todas estas despesas do dinheiro das diuidas 
atrazadas da Vniuersidade cuja cobrança esta a uosso cargo, e 
pondosse em pregão para se arremattarem a quem as tomar em 
mais acomodado preço, E do que em tudo se fizer me ireis dando 
conta, para eu o ter entendido. Escrita em Madrid a 17 de Janeiro 
de 1612. 

Rey . .' - 

Conde de miranda 
P." o Reitor da Vn.dc de Coimbra». 

{Provisões antigas^ t. 2, fl. 130). 



PINTURA DOS QUADROS DA CAPELLA-MÓR 63 

Não encontro registo do douramento do retábulo; em 
compensação porém reproduzo em nota * a escritura de con- 



' «Contrato feito antre a xA^ & os pintores do ret abolo da 
capella. 

Saibâo os que este p.co Imstr.« de obrigação & contrato uirem 
q no anno do nascim.io de noso s.or Jesu xpô de mil e seis cemtos 
e doze quatro dias do mes de agosto do dito anno nesta cidade de 
Coimbra & v.^e delia no aposemto do s^r dom João coutinho do c.« 
de sua mg<*e Reitor da dita v.de semdo elle presemte & bem assim 
Simão Rõiz & D"s viejra pintores ora estantes nesta cidade, loguo 
pello sor Reitor foi dito perâte my spuâ e t"s que elle estaua con- 
tratado cÕ elles Simão Roiz e D°8 Viejra p* effeito de pintarem o 
Ratabollo nouo q ora yM mãda fazer na sua capella na manejra e 
forma seguimte It. que elles farão as pinturas no dito Retabollo 
pelo modo q se segue, q no Retabollo grande no meio pintarão o 
espirito samto, & em hum dos Retabollos meonPs da mão dr.ia pin- 
tarão a surejcão, & no outro da outra bamda o Aparecim.i» de nosa 
s.«, & na outra bamda em sima da dri» o nascimio de noso s.í^r lesu 
xpõ & da mão esquerda os Reis, & no bamquo cÕprido de baixo a 
cea de noso s.or, & nos dous piquenos a par do nicho de sam Miguel, 
noso sor atado acluna & da outra bamda o erçe homo, as quaes 
pinturas todas assima referidas elles farão com toda a perfeição e 
jndustria posivel de muito bons óleos & tintas tudo muj fino & de 
muito espirito de tal maneira que eicedão as pinturas do retabollo 
de s^ Cruz que ora fizerão, & muito a contentam.if» do so« Reitor & 
mais v.do & que sendo caso que as ditas pinturas não tenhão aquella 
viueza, espirito, & perfeição que conuem a v.<le em tal caso lhe não 
dará por ellas cousa algíia & as farão a sua custa delles pintores 
sem por isso se lhe dar nada & que pellas ditas pinturas assim 
perfeitas & acabadas a v.«lc lhe dará duzentos & corenta mil rs a 
cuia conta tem Ja em sy trezentos crusados & a demasia se lhe 
dará no fim da obra & elles simao Roiz & domingos Vieira pinto- 
res diserão que herão muito contentes de fazer as ditas pinturas e 
Retabollos pello dito preço de duzentos e corenta mil rs & confe- 
sauam ter Ja em sy Recebidos da dita v.de trezentos crusados & que 
elles se obrigauão a fazer e pintar os ditos retabollos na forma & 
manejra atras declarada e Referida tão boils e tã perfeitos que a 
v.de os aceite & aproue por perfeitisimos asim nas tintas como na 
viueza das Imagens e em tudo o mais pertensente ao dito retabolo 



64 CAP. II — KDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

trato com os pintores, que fizeram os cinco painéis antigos 
que nelle destacam, e mais três que foram arrancados e se 
perderam. Esta escritura, que tem a data de 4 de agosto de 
1612, vem resolver um problema, que até agora debalde se 
tem procurado decifrar: quem seria o auctor daquelles qua- 
dros, e de outros conhecidos, que saíram do mesmo pincel? 
Arremataram esta obra Simão Rodríguez e Domingos 
Vieira Serrão, que acabavam agora de pintar o antigo retá- 




Assignatura do pintor Simão Rodríguez 

bulo da igreja de Santa Cruz desta cidade. Tudo leva a crer 
que Simão Rodríguez era o mestre, e que Domingos Vieira o 



com todas as condições atras incertas & q nâo se lhe aceite não 
temdo tudo o que atras fica referido & a v.de lho possa regeitar sem 
por isso elles leuarem cousa algua & tornarão os ditos trezentos 
cruzados a V.«le & a todo obrigauão suas p"s e bfíns e pello toquante 
a esta obrigação e contrato Responderão perante o conseruador 
desta v.<ie e renuncião juiz de seu foro & auendo de ser citados 
pêra q^qr cousa toquante a este contrato fazem seu pdor ao guarda 
da v.*^e & mandarão fazer este str° q asinarâo e que eu escriuao 
estipulej & aceitej em nome da vA^ quanto em drio poso e devo. & 
neste concerto vjerâo depois desta obra andar em pregão no pateo 
pco desta yA^ &. se lhe arematar a elles ditos Simão Roiz e d"» 
viejra. & forão t*s mcí de pina mor nesta cidade e ant** díz m^r em 
fornello do monte c" dalafões Miguel da^^seca a escp. 

Dom Joao Coutinho R'o»" 

Simão Rõiz Domingos vr." serrão 

Manuel de pina ant." -]- diaz». 

(Escrituras, t. 19, 1. 3, fl. 98). 



PINTURA DOS QUADROS DO ALTAR-MÓR 65 



acompanhava como official ou ajudante. Os nomes de um e 
de outro sam bem conhecidos, e acham-se inscritos na galeria 
histórica dos pintores de Portugal. O primeiro é mencionado 
por CyrilloVolkmar Machado', Raczynski^ e Sousa Viterbo'; 
o segundo pelos mesmos^, e por José da Cunha Taborda ^ 
Simão Rodríguez, por alvará régio de 20 de maio de 1589, 



Aesignatura do pintor Domingos Vieira Serrão 



fora dispensado de servir na bandeira de S. Jorge, por ser hum 
dos milhores pimtores de ymagynaria dolio que ha nestes 
Reynos e a dita arte de pimtura de olio e yfnaginaria ser 
havyda e reputada por nobre em todos os outros Reynos ^. 
Domingos Vieira, que aqui encontramos representando um 
papel secundário, já antes andara trabalhando com Simão de 
Abreu no convento de Christo de Thomar, em 1592-1594^; e 
apparece-nos, sete annos depois da obra de Coimbra, provido, 
por morte de Amaro do Valle, no logar de pintor del-rei, por 
alvará de 1 de junho de 1619 ». 

Dos quadros apontados no contracto existem actualmente 
os dois menores, do Nascimento de Jesus e Adoi^ação dos 
magos, e os dois maiores, da Resurreí^ão e Apparecimento de 



* Collecção de memorias, relativas às vidas dos pintores, e esctd- 
tores, architetos, e gravadores portuguezes, p. 67. 

2 Op. cit., p. 250. 

^ Noticia de alguns pintores portuguezes, série 1, p. 135. 

* Machado, op. cit., p. 71; — Eaczynski, op. cit., p. 303; — Vi- 
terbo, Noticia cit., série 1, pp. 158 e segg., e série 2, pp. 77 e segg. 

* Regras da arte da pintura, p. 193. 

® Viterbo, Noticia- cit., série 1, p. 135. 

^ Ibid., pp. 159 e segg., e série 2, pp. 77 e segg. 

* Torre do Tombo. Chancellaria de D. Filippe II, 1. 43, fl. 216 
(apud Taborda, loc. cit.). 



66 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

Christo resuscitado a Nossa Senhora, bem como o oblongo 
da Ceia, que occupa toda a largura do altar; como este, em 
reformas successivas do pavimento da capella, foi subindo até 
cerca de meio metro sobre a posição primitiva, o quadro da 
Ceia está actualmente meio occulto pela banqueta, onde as- 
senta a cruz e os castiçais. Foram arrancados dos seus logares 
em modificações posteriores do retábulo, e depois desappare- 
ceram, o grande quadro central do Espirito Santo (provavel- 
mente representando a scena do Pentecostes), e dois pequenos 
quadros, que ficavam abaixo deste, aos lados do nicho central 
de S. Miguel, também supprimido, e que representavam Jesus 
preso à columna, e o Ecce homo. 

Um outro quadro possue a real capella da Universidade^ 
devido ao mesmo pincel, representando S. João Baptista; 
acha-se depositado no museu de antiguidades do Instituto de 
Coimbra. É pintado sobre tela, enquanto que os outros o 
sam sobre madeira. 

A conclusão do altar foi communicada para Madrid ao real 
protector, o qual, em carta de 14 de janeiro de 1613, se con- 
gratula por isso, fazendo allusão à obra da capella, que se hia 
continuando •. Esta obra era a do revestimento de azulejo da 

1 «Reitor amigo Eu ElRey uog enuio m.io saudar. Folguei de 
entender por o que me escreuestes, que esta acabada de todo a 
obra do retauolo, e que se hia continuando a da Cappella da Vni- 
uersidade, e muito uos aggradeço o cuidado com que assistis a 
ella, como espero que o façais daqui em diante, e me uades aui- 
sando sempre do que se fizer. 

Ao Bispo Viso Key tenho mandado escreuer que emcomende de 
minha parte ao Colector que faça olhar pola Justiça dessa Vniuer- 
sidade na demanda sobre o padroado da Igreja de S. Miguel de 
Veire. Escrita em Madrid a 14 de Janeiro de 1613. 

Rey . \ ^ 

Buque de Villahermosa 
Conde de fi calho. 

P.* o Keítor da Vniuersidade de Coimbra». 

{Provisões antigas, t. 2, fl. 106). 



OBRAS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVII 67 

capella-mór, a que já nos referimos, e que se achava con- 
cluída em julho deste mesmo anno de 1613, pois na vesitação 
feita a 22 do dito mês escreveu-se : — Com ocasiam das obras 
da Capella ouue queixa de auer falta de limpesa; e por esta- 
rem as obras acabadas eficomendamos muito ao R^ pj^ The- 
soureiro mande ter nisto particular cuidado K 

Daqui em deante todas as referências à limpeza interna 
das paredes, que com freqiiéncia se encontram nos livros, sam 
concebidas nestes termos, ou semeUisnites i—Caie-se muito bem 
a capella e limpe-se a capella mór — Caie-se a capella e sa- 
mídam-se os azulejos — Caie-se a sacristia e toda a igreja e 
espane-se a capella mór, etc. 

Quanto às portas do terreiro da Universidade, a que se 
encontram várias allusões nos documentos, e que a carta 
régia de 17 de janeiro de 1612 mandava que se fizessem logo 
depois do retábulo e das restantes obras da capella, diremos 
que se foi adiando a sua execução, até que em 1622 se fez o 
pórtico das escadas mais tarde denominadas de Minerva, 
vindo a pôr-se lhe o remate com a estatua symbólica somente 
em 1724; o pórtico principal da Universidade, com as suas 
régias estatuas e figuras emblemáticas, construíu-se em 1634, 
collocando-se lhe a porta férrea em 1640, como lá dizem os 
respectivos letreiros. 



Desde o verão de 1647 atê ao fim do anno de 1648 andaram 
obras de importância na capella. 

A 5 de outubro daquelle anno foram Manuel de Saldanha 
reitor, e Fr. Leão de S J« Thomás lente de prima de theologia 
fazer a vesita costumada, mas não se alentou nada de nouo-, 
nem se mandou fazer couÃa algúa por estar a Capella ocu- 
pada com as obrasj e empedida com, andaimes '. 

Não se realizou a vesita, ordenada pelo estatuto, na terceira 
épocha deste anno lectivo, isto ê passada a Dominica in 



> Vt^sitação, t. 1, fl. 60 V» 
'■i Ibid, fl. 107 V." 



68 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

albis ', de 1648; nem s. q se cuatuma fazer pelo s, Miguel, a 
qual só veiu a effectuar-se a 31 de dezembro, e se dilatou 
tanto, per a Capella estar impedida com os andaimes das 
obras q nella se fizerão '. 

Parece dever daqui deduzir-se que as obras eram então 
acabadas; mas não. Vê-se pelos successivos pagamentos, re- 
gistados no livro de receita e despesa de 1648-1649, que, tendo 
findado as restantes obras, continuaram entretanto as de pin- 
tura, que se protelaram até julho deste último anno. 

Ladrilhou-se de novo a capella; substituíu-se o antigo 
púlpito de pedra pelo actual, fornecendo por 4$000 reis as 
pedras para a sua base o cabouqueiro da villa de Ançã Antó- 
nio Azenha, fazendo a obra de madeira por 20$000reis Manuel 
Ramos, e pintando e dourando o sobreceo por 7 $000 reis Ma- 
nuel Vaz ; assentou-se no topo transeptal do lado do Evan- 
gelho a lápide commemorativa do juramento da Conceição, 
recebendo a quantia de 10$000 reis Simtiel Tibão pella pedra 
q fes pêra capella de Nossa Snra da Ltis da vnd^ e letras q 
nella abj-io ^ ; foram pagos 30$000 reis para azulejo e obras 
da capella, e mais 20$000 reis pêra os gastos do caretto do 
Azuleio q vem pêra capella da vnd«*f mas não encontrei 
notícia da quantidade nem do custo de tal azulejo, nem sei a 
applicação que teve, pois supponho não ser desta épocha o 
que reveste o corpo da capella; gastaram-se 33$725 reis no 
resguardo das janellas com varões de ferro e rede de arame, 
no que cooperaram Domingos Marquez serralheiro da Uni- 
versidade, Manuel Fernández ferreiro, e Francisco Jorge 
vidraceiro, que fez a rede: e, finalmente, fez-se a pintura da 
capella, figurando nesta obra os pintores Luís Alvrez, Ma- 
nuel Pereira, e por último Álvaro da Costa que pintou o 
arco, os quais receberam desegualmente a quantia de 218^000 
reis. Supponho que nesta empreitada de pintura seria com- 
prehendido o tecto, que então era de madeira. 



* Estatutos velhos^ 1. 1, tit. 12. 

2 Vesitação, t. 1, fl. 107 v.° 

5 Receita e despesa, 1647-48, fí. 48. — E neste mesmo lado do 
transepto, e junto da lápide, que se encontra o altar da Senhora da 
Luz. 

4 Ibid., fl. 62. 



ALTARES E IMAGENS 



Em 1663 fez-se uraa alteração no altar mór. Em quinta 
feira santa e nas festas solemnes armava-se um throno portátil 
em frente do nicho de S. Miguel, e nelle se fazia a exposição 
do Sacramento. Mas era difficil ir lá collocar a custódia, e re- 
tirá-la no fim. Removeu-se por isso o altar, afastando-o do 
retábulo e fazendo-o avançar mais para a frente, por forma 
que se podesse subir por trás do mesmo, mediante uma escada, 
e ir-se à pyrámide ou throno *, 



No transepto, ao lado do Evangelho, havia um altar lateral 
muito decente, dedicado a Nossa Senhora da Luz, no qual se 
venerava uma interessante imagem da padroeira da confraria 
dos lentes e estudantes, que era desta invocação. 

Essa imagem ainda hoje se vê sobre o altar, no mesmo 
local onde se conserva desde o fim do século xvi, mantendo-se 
com a pintura e douramento primitivos. 

Foi logo na primeira vesita official que à capella fez o 
Doctor eximiusy com o reitor dr. Affonso Furtado de Mendoça, 
a 5 de dezembro de 1597, que estes dois vesitadores mandaram 
escrever no respectivo assento: — Também pareceo que a 
Imagem de vulto vestida qestaá em o altar de nossa srã, não 
esta tão decente como çonuem^ nem, o poderá estar pella pouca 
commodidade que ha na dita Capella de pessoas que a com- 
ponhão bem ; e assim por este com,o por outros respeitos nos 
pareceo bem mudala, e por alli huã hnagem de vulto que 
não tenha necessidade de vestidoSy ou huã boa taboa de pinsel 
da Imaqem, de nossa srã; e assim ordenamos se fizesse acco- 
modando pêra isto a que antes alli estaua se parecesse ba^ 
tante, e se não mandando fazer outra ^. 



» Vesitação, t. 1, ú. 123 v." 
2 Ibid., k 3 v.« 



70 



CAP. II — edifício e obji:cto>! do cli.to 



A nova imagem apparece descrita pela primeira vez no 
inventário dos móveis da confraria entregues a 15 de mareo 

de 1600 ao novo mordomo 
D. Manuel de Meneses, onde 
se lê : — Item huã Sorã de 
uulto q está no altar da 
parte da pia cuio feitio cus- 
tou ao todo 26000 K Em 
um inventário de 1606 des- 
creve-se assim:— Huã imagê 
de N, Sõra cõ seu bendito 
filho Jesu '. Ainda um outro 
de 1601 acrescenta: — Huã 
Senhoi^a de vulto toda esto- 
fada douro ^ Não resta pois 
dúvida, que esta é a nova 
imagem ; e não sam necessá- 
rios mais signais, para reco- 
nhecermos a sua identidade 
com a que ainda hoje existe. 
É inconfundível com a que 
os vesitadores mandaram 
substituir em 1597, à qual 
encontramos uma referência 
descritiva em um dos livros 
da confraria, entre as des- 
pesas do anno de 1599-1600, 
onde se diz que era huã Sõra 
de gonços qentãOy isto é, nos 
annos anteriores, tinha a 

Imagem de N. Senhora da Luz (sec. xvi) <^onfrarta . 

Sobre a origem da actual 

imagem da Senhora da Luz 

nada mais sei do que o que fica exposto. É certo q cõ o 




^ Confraria de N. Sra. da Luz, t. 1, 1. 3, fl. 1 v/' 

2 Ibid., 1. 11, íl. 2. 

3 Ibid., 1. 5, fl. 1 v.« 

^ Ibid., 1. 2, fl. 46 v.o 



AI.TARKS E IMAGBN3 71 



nicho se mandou fazer a custa da confraria *, e que a imagem 
custou a dita confraria vinte e seis mil reis ~. 



Em correspondência com o referido altar da Senhora da 
Luz havia outro altar, onde se venerava SM Catharina, mas 
que era excessivamente modesto, e destoava. Ajustou-se a 
22 de abril de 1690 com Manuel Pereira, escultor, morador 
na cidade de Leiria, pêra haver de fazer o Retabollo da ca- 
peila de santa catherina na forma e feitio do de nossa senhora 
da luz com, nicho da mesma sorte, e histo em presso e conthia 
de setenta e cimco mil reis , . . q he o mesmo presso porq foi 
o da dita senhora da luz K 



Feito este altar, e antes do seu douramento, apparece uma 
nova lembrança. 

A real capella da Universidade ia estando muito aformo- 
seada : — o transepto, ornamentado com os seus novos altares 
e com o bello arco manuelino, rematado lá ao cimo pelas 
imagens representativas da scena do Calvário, era um ádito 
magnífico, onde os olhares piedosos se detinham em mystica 
comtemplação, e donde em seguida deslisavam e convergiam 
para o interior da capella-mór; e ali, o brilho dos azulejos 
que revestiam as paredes, os fulgores do retábulo aurilu- 
zente, a doçura e suavidade impressionante dos quadros de 
Simão Rodríguez que o esmaltavam, as cores variegadas das 
alcatifas de Castella e de Veneza que tapetavam o pavimento, 
^s colgaduras de precioso veludo e de riquíssimo brocado que 
pendiam das janellas e do baldaquino, tudo isso dava nos dias 
de solemnidade um tom de grandeza e magnificência a este 



* Confraria^ íl. 37 v.** 

2 Ibid., 1. 3, fl. 3. 

3 Escrituras, t. 32, 1. 3, fl. 107. 



72 CAP II. — EDIFÍCIO B OBJECTOS DO CUhTO 

bello scenário, no qual se desenrolavam as majestosíssimas 
cerimónias da liturgia eathólica. 

Uma cousa porém parecia destoar destas grandezas : era a 
mesquinha pyrdmidey onde entre algumas luzes se expunha 
o Santíssimo Sacramento sobre o altar-mór, em frente do 
nicho de S. Miguel. 

Já então havia começado a moda dos grandes thronos, que 
em breve se generalizou por todo o Portugal e pela Espanha; 
a Universidade também quis seguir a moda. 

Arrancou-se a parte central do retábulo do altar mór, com- 
prehendendo o grande quadro do Espírito santo, e bem assim 
o nicho de S. Miguel e os pequenos quadros que o ladeavam ; 
rompeu-se a parede que ficava por trás, edificou-se uma pe- 
quena casa annexa, na qual se construiu um camarim ornado 
de talha, tendo por boca a grande abertura resultante da 
remoção de toda a parte central do retábulo, desde o arco 
superior até ao quadro da Ceia que lhe ficava ao fundo, e 
fez-se então de novo uma guarnição de madeira, que se adap- 
tou a emmoldurar essa bôcca. Dentro do camarim ergueu-se 
o throno. 



A 2 de junho de 1692 celebrou-se um contrato entre a 
Universidade e Luís d'01iveira, official de dourador, natural 
de Lisboa, assistente em Coimbra no dourar do lietabollo da 
See da mesma cidade. Em virtude desse contrato obrigou-se 
elle a dourar o Retabollo de santa Catherina e estofar a 
Imagem da Santa, como também dourar as três Banquetas 
dos Altares da d,^ Capella, e a Renda (ou guarnição) que esta 
na Boca da tribunna que de novo se fez na rf.« Capella, como 
também a da ca^a emtalhada da mesma tribunna e trono 
delia, tudo isto pela quantia de 300$000 reis '. 

Resta-nos ainda hoje a imagem de S.»» Catharina com o 
douramento e pintura de Luís d'01iveira; a escultura é desta 
mesma épocha ou pouco anterior, mas nada sei da sua origem. 



1 Escrituras, t. 33, 1. 1, fl. 93. 



MODIFICAÇÕES DO RETÁBULO DO ALTAR-.MÓR 73 

Também nos resta a maior parte da moldura ou guarnição 
da boca do camarim ou tribuna, que se conserva no mesmo 
sítio; e temos finalmente umas pequenas amostras do revesti- 
mento entalhado e dourado da própria tribuna, pregadas no 
extradorso da tribuna actual, e pelas quais vemos que mal 
empregado foi o ouro que se gastou no seu douramento e no 
do throno, que devia ser do mesmo género, e que nada temos 
a lamentar por se não haver conservado essa enxertia bastarda. 



E que foi feito dos três quadros de Simão Rodriguez, 
arrancados para dar logar ao throno? 

Os dois menores, representando o Senhor preso à columna 
e o Ecce homo, desapparecêram, não tornando a haver notícia 
alguma delles; o grande quadro do Espírito Santo, ao retira- 
rem-no do retábulo com a sua respectiva moldura, devem 
tê lo collocado em qualquer das paredes da capella, pois, na 
vesitação feita a 6 de maio deste mesmo anno de 1692 pelo 
reitor Ruy de Moura Téllez e pelo padre -mestre Fr. António 
Corrêa, se determinou o seguinte : — E porq o paynel da boca 
da Tribuna está cõ algu mao trato, mandamos q se limpe, e 
concerte o q for necess"; e ainda q em algumas occasiões se 
arme a capella, em nenhuã forma se pregue pregos, ne alfi- 
netes no dt.^ paynel; porq de assim se fazer, se tem seguido o 
maior dano '. No próprio retábulo, onde até então estivera, 
é que não podia ter ficado, pois nem se adaptava à boca da 
tribuna que era consideravelmente maior, nem era praticável 
a sua collocação e remoção freqiientes nas festas mais solem- 
nes, para dar lugar à exposição do Santíssimo, porque não 
podia deixar de ser muito pesado, como pintura sobre ma- 
deira, no género dos restantes ; nem se concebe que, se fosse 
de tela, nelle se tivessem espetado pregos e alfinetes, como 
diz o termo referido. 

É verdade que no assento da vesitação de 27 de novembro 
de 1743 lemos esta determinação: - E também ordenamos, q 



' Vesitação, t. 1, fl. 183 v.*» 
10 



CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULIO 



O Agente mande fazer logo hum paynel p.* a boca da Mbuna 
eyn panno a milhor cousa ^ poder ser, e pello milhor pintor 
q houver j com o mesmo paso, e imagens q tem o antiguo, por 
este estar incapaz^ e se nam poder bem consertar . Será licito 
conjecturar, que depois de removido do retábulo o primitivo 
quadro, se tenha pintado um outro maior para tapar a boca 
da tribuna, e que a este se fizesse referência no texto transcrito, 
e não ao de Simão Rodríguez? É bem possível. 

Não sei se chegaria a pintar-se este novo painel em tela ; o 
que sei é que em 18^9 estava a tapar a boca do camarim um 
enorme quadro, pintado sobre grossas pranchas de madeira, 
a cujo peso se attribuía o mau estado de conservação de todo 
o retábulo, que ameaçava imminente ruína'. Para remediar 
este mal encommendou-se o painel em tela, que actualmente 
lá está, ao hábil artista António José Gonçálvez Neves, pai 
do actual professor de desenho da Universidade sr. António 



» Vesitaçàoj t. 2, fl. 4 v.» 

' «O retábulo do Altar mor, que já em 1756 fora mandado re- 
formar, está hoje muito deteriorado, e, ao meu ver, mui pouco 
decente, principalmente em um templo tão authorisado, como é a 
Capella Real da Universidade. — A pintura e douradura tão gastas 
e safadas estão, que em muitas partes estão à vista o aparelho e a 
madeira, muitos ornatos de talha cabidos, e o madeiramento tão 
desligado, que ameaça ruina, tendo certamente concorrido para esta 
deslocação o enorme peso do quadro ou painel, que fecha o cama- 
rim do trono, que é de grossas pranchas : pelo que, não só aquelle 
retábulo carece de ser reformado, conforme tem declarado o Mestre 
das Obras; mas também o painel, que me parece ser melhor sub- 
stituil-o por outro de panno, como se usa em todas as Egrejas. — 
Depois da pintuia do tecto, torna-se muito mais sensível o estado 
ruinoso de toda esta peça, que a reformar-se, como parece indis- 
pensável, V. Ex.» se dignará resolver se convirá fazer-se antes de 
se apearem os andaimes, que se levantaram para a obra do tecto ; 
não só pela economia, que nisso poderá haver, mas também p* 
evitar, que em outra occasiào depois se tornem a interromper os 
exercicios religiosos, e fechar por isso outra vez a Capella». — (Be- 
gisto dos relatórios, fl. 7 v,**, relatório da thesouraria da real ca- 
pella ao reitor da Universidade a 9 de agosto de 1859). 



OUTRAS OBRAS NO FIM DO SÉCULO XVII 75 

Augusto Gonçálvez, um benemérito a quem muito devem as 
artes em Portugal. 



No anno lectivo de 1696-1697 houve na real capella da Uni- 
versidade grandes obras, a ponto de se ter de suspender nella 
o culto, trasladando-se todos os actos litúrgicos, que ali deviam 
realizar-se, para a igreja do coUégio da S8,^^ Trindade, na qual 
se fizeram por este motivo as vesitações de 18 de dezembro 
de 1696 e 11 de junho de 1697. Era então reitor o dr. Nuno da 
Silva Téllez, que deixou a sua prelatura universitária assigna- 
lada por importantes melhoramentos materiais. 

Infelizmente não tenho encontrado notícias minuciosas das 
obras então realizadas no edifício da real capella ; apenas sei 
que se desmanchou o antigo tecto de madeira, que era apai- 
nelado em três planos, cortaram-se 2"^ na altura das paredes 
do corpo da capella até ao transepto exclusive^ construiu-se 
o tecto actual de estuque, revestiram-se talvez de azulejo as 
paredes do transepto e do corpo da capella (se é que este 
revestimento não havia já sido feito em 1648), melhorou-se a 
sacristia, e finalmente pintou-se todo o novo tecto, ficando a 
pintura datada de 1697. 

Quando o reitor Nuno da Silva Téllez vai pela primeira vez, 
a 11 de junho de 1697, fazer a vesita official à capella, já con- 
certada e alindada, tem um natural desvanecimento com a sua 
obra; e, ao notar que na sacristia falta um espelho, dá ordem 
para que immediatamente se compre, e faz escrever no as- 
sento da vesitação q ficando a Capela com as obras, que 
novam^^ se lhe fizer ão, tão composta y do mesmo m,odo a Sa- 
cristia, não he justo, q se veja nella a imperfeição da falta, 
que fas o dito espelho no lugar que p" elle estava destinado ' . 
O espelho compra-se; e deste modo se consumma a perfeição 
desejada pelo reitor. 



1 Vesitação, t. 1, fl. 200. 



76 CAP. II —EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



Chegámos ao século xviii, durante o qual se fizeram obras 
de importância, que modificaram o edifício da real capella 
da Universidade, collocando-o no estado em que actualmente 
se encontra. 

Dentre essas obras a primeira, tanto na ordem chronoló- 
gica como na importância decorativa e valor artístico, foi 
sem dúvida a construcção do magnífico órgão, que chama as 
attenções de qualquer pessoa, que se aproxime da porta prin- 
cipal da capella. 

Procedamos com méthodo, referindo o» antecedentes his- 
tóricos desta notável peça. 



No século XVI havia um ór^ão no coro da capella da Uni- 
versidade, e a elle encontramos bastas referências. 

A mesa da fazenda em sessão de 30 de setembro de 1581 
entrou em contrato com Pêro Pimentel organista, para a 
limpeza e reforma dos órgãos da capela K Por então fez-se 
símplezmente a limpeza, vindo a reformar-sé mais tarde, em 
1595; em sessão de 9 de maio deste anno assentouse qse desse 
ao organista uyte mil rs a conta dos coreia e q^^o mil rs q 
hadauer dos órgãos da Capella de q se fez côtrato 2. Mas a 
obra não saiu boa, pelo que, em mesa de 2 de dezembro 
immediato, asentouse q o orguanista seja chamado p^a con- 
certar o órgão nouo, e não vjndo q seja p^a iso cytado -K 

Parece que o artista era fraco, e que o órgão ficou com 
vício de origem, pois mal havia decorrido um anno, e já a 
24 de dezembro de 1596 tinha de se mandar pagar três myl 
a hií home q veio concertar os órgãos da capella^. Não 
havia porém concerto possível; a desafinação continuava, o 



» Fazenda, t. 2, 1. õ, fl. 79. 
2 Ibid., t. 3, 1. 1, fl. 97. 
* Ibid., fl. 132 V." 
4 Ibid., 1. 2, fl. 34. 



ÓRGÃO 



que obrigou os vesitadores, a 12 de julho de 1600, a notarem : 

— Mandamos que se affinem os órgãos como ouuer commo- 

didade p.* isso de offícial ' ; mas como em 1605 houvesse tal 

commodidade de official habilitado, logo na vesi tacão de 16 

i de maio deste anno se ordenou : — Mandamos que se mande 

I affinar os Órgãos p'" termos emformaqão que estão mui desa- 

j finados pois ao presente esta official na Cidade o q se Em- 

I commenda ao Chantre p^ ser seu officio \ 

Depois de tantos cuidados e concertos, o órgão continuava 
a desafinar horrivelmente, chegando-se por fim à conclusão 
! de que era indispensável uma reforma radical, para o tornar 

! tolerável. Na mesa da fazenda, a 20 de novembro de 1610, 

ordena-se q se faça contrato com o organista sobre o q ha 
de fazer no concerto do órgão da capella\ contrato este 
que se realizou no mesmo dia, perante o tabellião da Univer- 
sidade, com o organista Manuel da Guerra, da villa de Pom- 
beiro, pêra elle m^^ da guerra auer de fazer no órgão que ora 
tem a dita vJ^ na sua Capella cinquo registos de mistura 
I asi, outaua quinzena dezanouena vintadozena, tryntena, os 

quães cinquo 7'egistos serão m^o bons e de Receber vozeiros de 
bom stanho & bem laurados e perfeitos de sorte que os ditos 
órgãos fiquem com toda a perfeição <& conforme a arte re- 
quere; devia começar o trabalho logo depois do Natal, para 
estar pronto pela semana santa, recebendo ao fazer da escri- 
tura 4$000 reis, e havendo de receber depois 8$000 reis e os 
órgãos velhos que stão na casa do cartorjo da dita vJ« , . . e 
os canos de chumbo q se tirarè dos órgãos q ha de consertar 
q nã seruirepera elles, e tendo elle organista de fazer à sua 
custa todas as despesas de coUocação dos registos e as acces- 
sórias, até ficar tudo perfeito a funccionar \ 

Desta vez a capella ficou mais bem servida de órgão, que 
nos sessenta annos mais chegados só teve de soffrer concertos 
pequenos em 1625^ e 1645''. Em abril de 1675 estava-se 



> Vesitaçào, t. 1, fl. 14 v.« 

2 Ibid., fl. 33 V." 

•^ Fazenda, t. 4, 1. 1, fl. 4. 

^ Escrituras, t. 19, 1. 2, fl. lOG v. 

& Fazenda, t. 4 J. 2, fl. 48 v." 

« Vesitaçào, t. 1, fl. 106 v." 



78 CAP. II —EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

procedendo ao concerto ou reformação delle * ; mas conjec- 
turo que tal concerto só serviu para o estragar, ou então 
veiu a deteriorar-se por occasião das grandes obras dé 1696 
a 1697, pois na vesitação de 23 de maio de 1698 se escreveu q 
o Órgão estaua desconcertado em forma, q mais serve de dis- 
sonância, S[ de harmonia no Coro, pello q ordenamos q logo 
se concerte com toda a brevidJ e cuidado ^. 

Na vesitação seguinte, realizada a 4 de fevereiro de 1699, 
achando os vesitadores que o concerto, que se havia mandado 
fazer no Órgão, não se executou, sendo tão preciso, manda- 
ram ao Agente, ^ logo ponha em execução o que estava or- 
denado ^ Esta ordem, para que se concertem os órgãos que 
estam no coro, é repetida em vesitações de 12 de março de 
1707 * e de 17 de julho de 1731 \ 

Por fim resolveu-se mandar construir um órgão novo, que 
fosse digno da capella real da Universidade. 



Começou o actual órgão a ser construído nos princípios 
do anno de 1732, e estava concluído no fim de julho de 1733. 
Não tenho encontrado documento algum que me esclareça 
sobre quem foi o organeiro que o construiu, nem o entalhador 
que executou a parte externa e decorativa deste bello objecto; 
e pena é, pois tanto um trabalho como o outro bem mereciam 
que ficassem registados os nomes dos construtores. 

A única memória, que tenho encontrado, resume-se no 
registo das quantias que successivamente foram saindo do 
cofre da Universidade para a despesa do órgão, q se manda 
fazer p,^ a Capella desta vnJ^, diz o registo da primeira 
quantia saída a 1 de março de 1732 ^ ; ou p." a despesa da 



í Vesitação, t. 1, fl. 136 v.« 

2 Ibid., fl. 202. 

3 Ibid., fl. 203 v.« 
* Ibid , fl. 237 v.« 
í» Ibid., fl. 280 v.« 

•» Receita e despesa, 1732, fl. 76 v.* 



70 



ohra do orgam que se faz p^ a Capella, diz o da segunda, 
saída a 31 de maio do mesmo anno * ; e assim as outras. A im- 
portância gasta com a construção foi de 3:131$100 reis»; 
addicíonados 2159000 reis, custo do douramento e pintura, 
montou a despesa total à quantia de 3:3468100 reis. 

O pintor foi mais feliz que os construtores, pois logrou 
a sorte de o seu nome ficar consignado na escritura de 1 de 
junho de 1737, em que se exarou o contrato para o doura- 
mento, celebrado entre a Universidade e o mestre pintor Ga- 
briel Ferreira da Cunha, morador nesta cidade ^ 

Em 1858-1860 fizeram-se grandes obras no edifício da real 
capella, como logo veremos; e o órgão, que a esse tempo já 
estava reclamando largos concertos, damnificou-se muito com 
essas obras, tornando-se indispensável concertá-lo a precei- 
to ^ Realizou-se esta obra apenas terminadas as outras, em 
1860, sendo executada pelos organeiros curiosos de Coimbra 
Francisco d' Almeida e Manuel d'Almeida ^. Tal concerto porém 
foi menos conscienciosamente feito, inutilizando-se muitos 



1 Receita c despem, 1732, fl. 79. 

2 Nota das verbas dispendidas com a construção do órgão, 
indicando-se a data em que cada uma delias saiu do cofre univer- 
sitário, e as folhas dos livros de receita e despesa, em que se en- 
contram registadas. 



30oi;ooo... 


1 mar. 


1732.. 


. . L.» 1732, fl. 76 v.« 


480|;000... 


. 31 mai. 


» . . 


.. » » » 79 


iooi;ooo. . . 


. 13 set. 


» . . 


» » » 81 v.« 


300i;ooo... 


7 out. 


» . . 


» » » 82 


240|;000. . 


. 23 dez. 


» . . 


. . L." 1733, fl. 73 


720|;000. . . 


. 14 abr. 


1733.. 


» » » 78 


35811600.. 


. 30 mai. 


M . . 


» » » 79 


152|;500... 


6 jun. 


» . . 


» » » 79 V.® 


480í;000 .. 


. 28jul. 

_ J A„_ 




» » » 81 V.** 


<)--| 0< « lATk : 





3: 13111100 reis, despesa total 



3 Escrituras, t. 53, 1. 3, fl. 56. 

♦ Registo dos relatórios, t. 1, flL 1 v.'', 2 v.°, 5 v.° e 6 v." 

& Ibid., fl. 8 V.» 



80 CAP. H — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

registos, subtraíndo-se muitos tubos, e até desapparecendo 
um pequeno órgão supplementar, de tubagem de cobre, que 
estava na casa dos folies, e respondia ao registo do ecco. 

Para obviar em parte a este desastre, pedia em 1870 o ca- 
pellão-thesoureiro ao reitor auctorização para mandar fazer 
por um mechánico um concerto radical em muitos registos j 
que não funccionam,, e noutros que só fimccionam com, muita 
difficuldade \ calculando em 508000 reis a despesa correlativa ; 
mas illudia-se redondamente, porque a reparação indispen- 
sável é muito mais complexa, e só por um organeiro hábil e 
sabedor poderá ser executada. 

Ainda hoje se encontra no mesmo estado este magnífico 
instrumento, bem digno de outra sorte. 

Sob o ponto de vista musicai é um bom órgão ; incontesta- 
velmente, e apesar dos estragos soff ridos, é hoje o melhor 
que ha em Coimbra. Pena é que, por falta dos necessários 
concertos, reparações e limpeza interna, continue a ter muitos 
registos desaproveitados, não podendo tirar-se delle todo o 
effeito a que se prestaria. O ex.*"** prelado universitário tor- 
nar-se hia credor de louvores e agradecimentos, se realizasse 
o bom serviço de o fazer restaurar convenientemente. 

Quanto ao aspecto decorativo é bello e majestoso, como 
pode avaliar-se um pouco pela estampa 1.% que acompanha 
esta publicação. 



Outros arranjos e modificações se fizeram no edifício du- 
rante o século xviii. 

Não satisfazendo já os retábulos laterais, fabricados e 
dourados no século xvii, determina-se a 16 de abril de 1758 
que p,^ os altares collaterais de N. Sr,"" da Lus, e Santa Ca- 
therina se fassão nouos retabolos todos de madeyra de casta- 
nho ao moderno com toda a perfeição e primor da arte, por 
se achar incapaz o deN, S,^ da Lus-. Fizeram-se realmente; 



1 Registo dos relatórios^ t. 1, fl 14. 

2 Vesitaçào, t. 2, fl. 27. 



ESTAMPA I 




Órgão da real capella 



(Pag. 80) 



OBRAS NO SÉCULO XVIII 81 

nelles se collocaram as imagens dos antigos, às quais já nos 
referimos, e sam estes os retábulos que ainda hoje existem. 
Addicionáram-se mais duas novas imagens, e bem interes- 
santes, a cada um destes altares, cabendo ao de Nossa 
Senhora da Luz a de S. José com o Menino ao collo e a de 
Santo Agostinho; ao de Santa Gatharina a de Santo Ignácio e 
a de S. Francisco de Borja. 

A boca do camarim, aberta no retábulo da capella-mór no 
fim do século xvii, era desproporcionada pela sua excessiva 
altura, e o throno que nelle se erguia não parecia bem; 
achou-se por isso, na vesita de 17 de abril de 1765, ser preciso 
mandar levantar a boca da tribuna do altar mayor, e refor- 
mar o trono, approvejtandose a madura e talha que puder 
ser de sorte que fique com a pocivel perfejçãOy e decência K 
Effecti vãmente subiu-se o fundo da bôcca do camarim mais 
de 1™,5 preenchendo-se esse espaço com um frontal de ma- 
deira ornamentado de talha dourada, que desafina inteira- 
mente do retábulo; nada se approveitou do antigo camarim 
e throno, fazendo-se então de novo aquillo que actualmente 
lá está, e que passa aos olhos dos sapientes por ser cousa 
vistosa e elegante, deixando-se, como que para amostra da 
obra anterior, alguns pedaços de madeira com talha grossei- 
ríssima, inteiramente dourados, embebidos no extra-dorso 
do camarim. 



Não existia então o degrau, que separa do transepto o corpo 
da capella, e onde assenta a teia de vedação. O transepto fi- 
cava no mesmo plano do pavimento da capella, havendo 
apenas um degrau próximo do arco cruzeiro, e um outro logo 
em seguida a este, elevando assim o pavimento da capella- 
mór. Sobre o plano do transepto levantavam-se de um lado 
e outro os suppedáneos dos dois altares, que iam tocar no 
primeiro degrau do arco, ficando de nível com elle. 

Também então a disposição da capella-mór era bastante 



« VesUaçào, t. 2, fl. 30. 



82 CAP. n — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

differente da actual. Corria toda em um só plano, sobre o qual 
se erguia o suppedáneo do altar. Junto do altar- mór, do lado 
do Evangelho, entre as duas pilastras que sustentam as co- 
lumnas, e exactamente debaixo do quadro da Resurreição, 
erguia-se a cadeira prelatícia do reitor, com as costas para o 
retábulo, a frente voltada para o corpo da capella. De um lado 
e outro, assentes sobre o plano, estendiam-se encostados às 
paredes os doutorais, que do lado do altar topavam nas pilas- 
tras do retábulo ; mas do lado do arco, enquanto o da banda 
do Evangelho vinha incidir, como agora, na parede do mesmo 
arco, o da parte da Epístula terminava a alguma distância, 
deixando ficar o espaço sufficiente, para dar lugar à única 
porta que então communicava a sacristia com a capella. Desta 
sorte, quem queria ir à sacristia, tinha forçosamente de passar 
pela capella-mór, assim como eram obrigados a fazer por ella 
serventia os sacerdotes que vinham celebrar aos altares late- 
rais; o que torna intelligivel a recommendação feita em vesita 
de 3 de fevereiro de 1663 : q os P.«« Capellanis quando forem 
pêra dizer missa, desão ao ultimo degrao da capella mor 
p."" o curseiro ', e tornem a sobir os degraos dos altares 
aonde hão de celebrar, e não continuem em hir encostados 
pela esquina do arco, como thegora fasião, e tenhão cuidado 
de isto aduertirem aos mais P.^« de fora '. 

Para obviar aos inconvenientes, e até indecéncia, de se fazer 
pela capella-mór a passagem para a sacristia, não só dos Sa- 
cerdotes, e seus Ministros, mas taõbè de pessoas seculares, e 
muitas vezes mulheres, em 1765 mandou-se abrir outra porta 
no topo do transepto, junto do altar de S.'» Catharina, tapar 
a porta antiga que estava atrás do arco, e prolongar o Dou- 
toral no lugar delia ate o arco cruseyro 3. Pelo lado da 
sacristia aproveitou-se o vão desta porta, para nelle se acom- 
modar um armário de castanho, onde se arrecadam os cálices, 
missais, sanguinhos, etc. 

Nesta occasião, ou pouco depois, abriu-se outra pequena 
porta de communicação com a sacristia junto do altar-mór. 



* Scil. cruzeiro ou traDsepto. 

2 Vesitação, t. 1, fl. 122. 

3 Ibid., t 2, fl. 36. 



OBRAS NO SÉCULO XVllI 83 



O degrau que havia abaixo do arco cruzeiro avançou à 
frente, erguendo o pavimento do transepto; coUocaram-se 
então as grades de pau preto, que servem de teia à entrada 
do mesmo, pella precisa decência de se não acharem nas 
ftinçõis ciáticas da Igr." e académicas da vniversidade mu- 
lheres misturadas com os seus indeviduos K E apenas collo- 
cadas as grades, logo na im mediata vesitação de 22 de dezem- 
bro de 1767 ficou regulsunentsiáo: — Porque se tem mandado 
fazer cancelos a fim de dividir a cappella mayor do seu corpo 
para evitar em iodo tempo principalmente nas funçõis cla- 
cicas da Ir.^ e académicas da vniuercidade mulheres mistura- 
das com os seus individuos; ordenam,os que nenhu dos moços 
da cappella permita intrarem mulheres para dentro dos ditos 
cancelos, com, a comminação de serem todos simultaneami^ 
multados cada hum em sincoenta rs por cada vez p.* a Con- 
fraria de N, 5r/ da Luz, e recomendamos muito ao R.^o Padre 
Appontador, que ao presente he, e ao diante fòr haja de Haver- 
se com toda a vigilância na execução da dita multa ' . 

O pavimento da capella-mór foi também modificado, col- 
locando-se ao mesmo nivel do transepto. Os doutorais, que, 
como fica dito, iam até topar nas pilastras que sustentam o 
retábulo, foram primeiro cortados: do lado do Evangelho 
para dar logar à cadeira do prelado, que nos fins do anno de 
1762 deixou a sua antiga posição junto do altar-mór, para ir 
fixar-se no sítio, em que tinha assento a faculdade de theologia, 
e onde ainda hoje se conserva aquella cadeira •'; do lado 
da Epístula para deixar espaço à nova porta, que aqui se 
abriu, e ao banco aonde se deve acentar o Prestes, Diácono 
e Subdiacono nas funçõis da Capp,^ ^, os quais anterior- 
mente se sentavam próximo do altar, em banco raso ou em 
mochos. Nestas reformas tanto o altar como a cadeira prela- 
tícia e os doutorais erguêram-se bastante, em virtude de três 
degraus que de novo se levantaram sobre o plano da capella- 
mór, A primitiva situação do altar é bem fácil de determinar 



» Vtsitaçào^ t. 2, fl. 38 v.» 

2 Ibid., fl. 39 v.» 

3 Ibid., fll. 26, 26 v.«, 27 v.% e 33. 
♦ Ibid., fl. 26. 



84 CAP. II — KDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

pelo quadro da Ceia, actualmente meio encoberto, e que lhe 
ficava sobranceiro; a dos doutorais pelo revestimento dos 
azulejos, que marca com precisão a linha onde chegava o 
respectivo espaldar. 

Também por esta épocha se rasgou a grande porta, hoje 
vedada, que se vê ao meio da tribuna real, ao fundo da capella^ 
sobre o coro, e que dava ingresso para uma tribuna anterior 
à actual. 



Em 1772 realizou-se a notabilíssima reforma pombalina da 
Universidade; e por essa occasião correu o edifício da real 
capella o maior perigo de desapparecer, pela acção nefasta do 
mesmo camartello demolidor, que destruiu o bello claustro 
da Sé velha, hoje felizmente em estado adeantado de restau- 
ração. O marquês vesitador, usando das faculdades amplís- 
simas de Plenipotenciário e Logar-Tenente de ElRei seu 
Senhor na Fundação da Vniversidade de Coimbra, e Tendo 
visto a imprópria situação da Real Capella da Vniversi- 
dade, e da Livraria della^ cuja pequenez 7iem corresponde 
a Magnificência da mesma Vniversidade nem pode conter 
o grande numero de livros de todas as Scieneias, e Artes que 
deve formar o Corpo da Biblioteca Académica; E tendo visto 
ao mesmo tempo as sobreditas Capella Real e Livraria com 
as portas no pateo, como se fossem lojas de alguns particu- 
lares, expostas as injurias do tempoy e ás muitas indecencias 
inevitáveis em. casas térreas cujas portas devem estar abertas 
para delias se fazer o uso a que estão destinadas: com esteíf 
justosy e urgentes motivos: Houve por Serviço de Deos e de 
Sua Magestade que as mesmas Capella Real e Bibliotheca 
fossem logo reedificadas pela planta, e prospecto delia, por 
elle marquês assignados, e debaixo da Inspecção do Reytor 
da mesma Vniversidade ' . 



^ Provi&So de 17 de outubro de 1772. Nâo existe o original 
deste documento no respectivo livro das Provinòes, ma& encontra-se 
cópia na cit. Relação Geral de D. Francisco de Lemos, fl. 307. 



OBRAS NO SÉCULO XVIII 85 

Perderam-se a planta e o prospecto ; não foi grande o pre- 
juízo, e é fácil conjecturar o valor e feição artística da obra 
projectada. Felizmente não chegou a realizar se a demolição, 
por falta de tempo; a essa circunstância fortuita, e talvez ao 
desprazer que causava ao reitor a demolição da capella, se 
deve o termos ainda hoje o edifício manuelino, de que nos 
vamos occupando ', 



Entretanto a grande actividade do reformador-reitor 
D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho, erguido à dignidade 
de coadjutor e futuro successor, com o titulo de bispo de 
Zenópole, do bispo-conde D, Miguel da Annunciação, manifes- 
tava-se nas importantes obras de reforma e melhor adaptação 
dos edifícios universitários 2. 



* Vid. nota seg. 

2 Relatando estas obras, em setembro de 1777, escrevia o 
reitor : 

«Vendo o Marquez Vizitador, que a Livraria da Vniversidade 
tinha o defeito de não ter hua Caza de Entrada, para nella 
estarem os Officiaes ; que a mesma Caza de Livraria era pequena 
para o grande numero de Livros, que deve ter a Vniversidade ; e 
parecendo-lhe que o meio de remediar o dito defeito, e de occorrer 
a outros inconvenientes, era mudar-se a Capella, e fazer-se outro 
Corpo de Livraria; depois de averiguar o Terreno fez formar a 
Planta, que vem junta ao Livro das Provizoens, e mandou, que se 
procedesse a estas Obras. 

Sendo porem as ditas Obras de grandes despezas; e havendo 
necessidade maior dos outros Estabelecimentos; suspendi ate o 
prezeute as ditas Obras. E averiguando interinamente o melhor 
meio de remediar- se o defeito da Caza da Livraria, e de ampliar-se 
este edifício sem se bulir na Capella, achei que o meio mais con- 
veniente era o que consta da Planta Num. o qual meio fiz ver 
ao Marquez Vizitador, e não tive resposta a este respeito. 

O Edifício dos Paços da Vniversidade ate agora estava todo 
dividido sem communicação interior, que desse serventia a todas 



86 CAP. II --edifício e objectos no culto 

Á capella também se estendeu a grande actividade deste 
homem verdadeiramente notável. 



as suas partes : Não se podia hir ás Aulas senão publicamente ; 
não havia serventia para a Capella, senâo pelo Pateo ; e da mesma 
sorte para a caza da Meza da Fazenda, que ficava em lugar sub- 
terrâneo. A mesma caza Reytoral estava muito mal disposta, e sem 
as accomodaçoens necessárias. O Prospecto para a Cidade estava 
torpíssimo *, e não havia entrada para as Officinas baixas deste vasto 
Edifício, que facilitasse a serventia, e uzo delias. Havia uma Va- 
randa aberta, pela qual se hia da Casa Reytoral para a dos Exame s 
Privados, na qual estavam as janellas, que servem de Tribunas par? 
a Salla Grande dos Actos expostas a chuva, e aos ventos. 

Todos estes defeitos se emendaram. Mandei formar na Varanda 
aberta a Galaria, que se ve na Planta Num. a qual deu formo- 
zura ao Edifício, e facilitou o uzo das Tribunas, e a serventia para 
as mais partes do Edifício. Mandei levantar o tecto das Varandas 
dos Geraes ; e se formaram Corredores, que circulam todas as aulas, 
e dão Tribunas para ellas, das quaes pode o Reitor ver e observar, 
o que se passa nas ditas Aulas. Facilitei por meio de Escadas, e 
outras aberturas a communicaeão interior para todas as partes do 
Edifício. Emendei os defeitos da Caza Reytoral, e a puz em estado 
de servir dignamente aos usos Académicos ; e de dar boa accomo- 
dação aos Prelados, que nella rezidem. Separei os Paços dos torpes 
e insignifícantes Edifícios Velhos, que com elles pegavam. Mandei 
formar huma Muralha, que aliviando a Imprensa do Monte de terra, 
que a sepultava, sustenta o pezo da terra ; forma hum Terreno 
agradável sobre a Cidade, e por ella se dá communicaçâo dos Paços 
á Imprensa. Mandei formar Novas Aulas, e dividir outras para as 
Lições das seis Faculdades; e preparei-as de Cadeiras, mezas, 
bancos, e tudo o mais necessário para o seu uzo decente. E porque 
não havia accomodaçoens capazes para as Officinas da Casa Reitoral 
principiei a fazellas no lugar dos Edifícios Velhos, que o Marquez 
Vizitador mandou adjudicar a Vniversidade. 

De todas estas obras dava conta ao Marquez, e elle achando-as 
úteis, e necessárias, as mandava fazer, como se verá das Cartas de 
Officios e respostas a ellas. 

Resta para complemento destas Obras emendar-se o grande 
defeito que ha — 1.** De não haver sallas para os Concelhos da 



OBRAS NO SÉCULO XVIII 87 

Demoliu o antigo coro, que se erguia, naturalmente sobre 
columnas, ao fundo da capella, com a sua balaustrada de ma- 
deira, ao meio da qual pousava um Crucifixo sob o competente 
baldaquino *, correndo de lado a lado umas gelosias, guar- 
necidas por dentro com cortinas, que roubavam o interior do 
coro às vistas da igreja, cortinas estas que, segundo o estilo 
da real capella, estavam sempre cerradas, e só se abriam na 
missa cantada ao chegar a Sanctns, para novamente se cer- 
rarem depois da communhão-. 

A fim de abrir communicação directa para a mesa da fa- 



Vniversidade, e Congregaçoens Literárias. 2.® De nao haver cazas 
próprias, e accommodadas para a Secretaria, e Cartório próprio 
delia. 3.° De não haver cazas para o Estabelecimento da Junta da 
Fazenda, que necessita ao menos de quatro, e de huma Salla para 
a mesma Junta, junto da qual deve estar o Cofre na conformidade 
das Jnstituiçoens delia. 4.° De não haver cazas para as Secretarias 
das seis Congregações Literárias que os Estatutos mandão haver. 

As Congregaçoens, Concelhos, e Juntas ate aqui tenho feito em 
huma das Sallas da Casa Reytoral, por não haver outra decente. 
A Junta da Fazenda está occupando o mesmo lugar subterrâneo, 
que antes servia com muito incommodo; porque são só duas pe- 
quenas cazas; e em huma delias está o Cartório antigo, não se 
podendo ainda arrumar a multidão de Titulos, que para ella vie- 
ram por occasião da Nova Doação. 

As cazas para o Expediente da Junta, sua Contadoria, Cartó- 
rio, e Caza do Thezouro, devem fundar-se no mesmo Edifício das 
Escolas: E porque não se podiam accommodar nas sobreditas duas 
cazas, mandei interinamente preparar huma parte da Imprensa 
para servir de Contadoria, e Cartório, como se vê da Planta N.°21. 
Mas como este Estabelecimento he interino, se faz necessário que 
o próprio se faça no mesmo Edifício dos Paços das Escolas ; assim 
como as Secretarias necessárias para o Governo Académico, e Li- 
terário, Sua Magestade á vista de tudo dará as Providencias, que 
lhe parecerem convenientes». 

(Relação Geral do Estado da Vniversidade, pp. 152-156). 

i Veaitaçào, t. 2, fll. 14 v.«, 15, e 16. 
« Ibid., t. 1, fll. 58 v.°, e 64. 



CAp. II— edifício e objectos do culto 



zenda e outras repartições, acommodadas no rez do chão do 
claustro dos gerais, o reitor mandou levantar uma parede 
ao fundo da capella, roubando a esta em toda a sua largura 
uma facha de 5™,75, e rasgando as paredes laterais da capella 
em uma e outra extremidade desta facha. Sobre a nova pa- 
rede firmou o coro, por baixo do qual ficou assim um corre- 
dor, para onde abrem três portas de entrada da capella, ras- 
gadas na dita nova parede. A abertura deste corredor para o 
páteo foi guarnecida com um pórtico, que tem a data de 1780, 
sobrepujado por uma varanda, que dá para o coro; obra esta 
que destoa inteiramente do resto da fachada manuelina. 



Ainda por esta mesma épocha, na reforma das aulas dos 
gerais e dos respectivos telhados, foi obstruída a grande 
porta que dava ingresso para a tribuna real, situada sobre o 
coro; tornou-se por isso necessário demolir a tribuna, e sub- 
stituí-la por uma varanda corrida, que occupa toda a largura 
da capella, abrindo em um dos topos uma nova porta de en- 
trada para esta galeria. 



Também no século xix alguns melhoramentos se realiza- 
ram. 

O estuque do tecto achava-se bastante damnificadoe amea- 
çando ruína ' ; era urgente restaurá-lo, e realizar outras obras 
de egual necessidade. Suspendeu-se por isso o culto na capella 
em fevereiro de 1858, e começaram a ser armados os andaimes. 

A reforma do estuque foi dada de empreitada pela Univer- 
sidade, a 4 de junho seguinte, por 1:100$000 reis; a pintura e 
douramento do tecto pela repartição das obras públicas do 
districto pela quantia de 850$000 reis, a 6 de abril de 1859, 
encarregando-se deste trabalho o hábil pintor António José 



A Registo dos relatórios, t. 1, fll. 2, 5 v.**, e tí v.' 



OBRAS NO SÉCULO XIX 89 



Gonçálvez Neves, que o executou seguindo escrupulosamente, 
na fornia do seo ajuste, o desenho da pintura do antigo tecto, 
que havia sido feita em 1697 '. A esta empreitada seguira ni-se 
outras de pintura e douramento do arco cruzeiro, abóbadas 
transeptais, sacristia, retoques no órgão, etc, encarregadas 
pela mesma repartição ao referido artista *. 

Também foi gateado e consolidado o altar-mór, que estava 
ameaçando ruína 3, 

No fim da quaresma de 1860 já as obras se achavam em 
tal estado de adeantamento, que poderam suspender-se, para 
se realizarem as solemnidades da semana santa, continuando 
logo depois da páschoa, e vindo a concluir-se no verão deste 
anno. 

Restabeleceu-se o culto regular desde 1 de outubro em 
deante ^. 



Tinha sido removida, ignoro em que épocha, a columna 
que ficava a meio do pórtico de entrada, naturalmente por 
estar corroída, sendo no seu logar collocada uma columna co- 
rínthia vinda de outra parte, que desafinava extraordinaria- 
mente do estilo do pórtico. O reitor dr. António Augusto da 
Costa Simões, que deixou o seu governo assinalado por muito 
importantes melhoramentos materiais nos edifícios universi- 
tários, deu ordem para que fosse remediado aquelle disparate, 
restaurando-se a pureza primitiva do pórtico. Com a ex- 
cecional competência, amor e bôa-vontade que todos lhe 
reconhecem, incombiu-se de dirigir aquella restauração o 
nunca assaz louvado professor A. Augusto Gonçálvez, execu- 
tando-a o intelligente canteiro José Barata em 1895. 

O plano daquelle reitor era mais amplo. Resolvera elle 
realizar a restauração de toda a fachada da capella, bem como 



* Registo dos relatórios, t. 1, fl. 7 v." 

2 Ibid., fl. 9, 

3 Ibid., fll. 5 v.«, 6 v.«, 7 v.«, 8 e 9. 

4 Ibid,, fll. 8 v.«, e 10. 

12 



90 CAP. II — KDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

do altar-mór; foi até annunciada a praça para a restauração 
e douramento deste, mas teve de ser adiada a obra por não 
caber nas forças orçamentais da Universidade. Quanto à fa- 
chada chegaram a restaurar-se em 1896 os ornatos do pórtico, 
bastante damnificados e empastados de cal, e uma das janellas 
que ficam ao lado da porta; em 1897 trabalhava- se na restau- 
ração da outra janella, quando foi exonerado aquelle reitor, e 
quem lhe succedeu no cargo mandou immediatamente sus- 
pender a obra. Desfez-se o andaime, e as pedras, meio apa- 
relhadas, ainda hoje aí estám a salitrar-se ao abandono ! ! . . . 
Acto de benemerência incontestável seria o do reitor, que 
obtivesse meios para que se completasse de uma forma sen- 
sata a restauração da fachada erguêndo-a à primitiva altura, 
se substituísse o retábulo do altar-mór por outro de pedra, 
em que mais uma vez se manifestasse o grande talento de João 
Augusto Machado, se retirasse a obesa e destoante balaiistrada 
do coro, collocando em lugar delia uma outra no estilo do re- 
nascimento, e finalmente se restaurasse o magnífico órgão, 
a melhor peça no seu género que hoje existe em Coimbra. 



Depois de termos notado estes ligeiros apontamentos das 
modificações, arranjos e concertos soff ridos pelo edifício da 
real capella da Universidade desde a sua construção até hoje, 
vamos, para completar, descrever a largos traços o edifício e 
seus annexos, na actualidade. 



Apenas o vesitante transpõe a pórta-férrea, ádito principal 
do páteo da Universidade, deparam-se-lhe logo na sua frente 
os edifícios que formam o lado Occidental do terreiro, e que 
rematam a norte pela torre, a sul pela bibliotheca, constru- 
ções ostentosas do reinado de D. João v. 

A meio dessa linha, e occupando a maior extensão delia, 
chama a attenção a fachada lateral da capella em todo o seu 
comprimento. A planta deste edifício tem a forma geral de 



PLANTA DA CAPELLA 



91 




Planta alta da real capella 



92 CAP II. — EniFÍCIO K OBJECTOS DO CULTO 

um rectângulo estendendo-se de norte a sul, cortado a dois 
terços do comprimento por um outro, o transepto^ cujos topos 
avançam para o exterior salientando-se mais de um metro, e 
dando ao edifício a forma crucial K 

Os ângulos da extremidade sul, correspondente à capella- 
mór, rematam por torreões, um dos quais (t) se conserva 
bem à vista, enquanto que o outro (u) se encontra parte embe- 
bido nas construções annexas à bibliotheca; e naturalmente 
dois torreões iguais se erguiam primitivamente nos ângulos 
da extremidade norte, desapparecendo quando se lhe encostou 
o edifício das aulas dos gerais. 

Na fachada que deita para o páteo, e que corresponde ao 
lado do Evangelho, abre-se sobre quatro degraus (s) a bem 
conhecida porta principal geminada, com duas grandes janel- 
las aos lados. Outra janella mais modesta fica no topo saliente 
do transepto, e uma quarta mais elevada na parte da parede 
que corresponde à capella-mór. Em correspondência com 
estas ha outras janellas semelhantes na fachada lateral opposta, 
voltada pára uns quintais. 

Sobre a extremidade norte do telhado pousa uma imagem 
manuelina do padroeiro S. Miguel, voltada para o páteo; e 
mais adeante, sobre a parte do telhado correspondente à pa- 
rede divisória do cruzeiro, ergue-se uma cruz do mesmo 
estilo. 

Retraiamos agora a nossa pena insciente e mal aparada, 
para dar lugar ao cálamo autorizadíssimo de A. Augusto Gon- 
çálvez, que, perfeitamente conhecedor da história da arte, e 
sabendo ver e sentir como poucos, vai, em face desta fachada, 
fazer-nos algumas breves considerações. 



«O trecho capital, que pode considerar-se como frontispício 
da capella, reduz-se à porta principal e duas janellas que a 
ladeiam. 



' Vid. na p. antecedente a planta do edifício, k qual se repor- 
tam as letras que vam ser intercaladas no texto. 



ESTAMPA n 




Rórtico da real capei la 



(Pag. 92» 



o PÓRTICO 93 



«A porta é no seu género dos mais apreciáveis exemplares 
manuelinos, notável entre tantas que o país possue. 

«Uma única conheço de idêntica feição decorativa, que não 
é mais que uma cópia desta, e conjecturalmente obra do 
mesmo archi tecto: é a porta da igreja da Ega, entre Condeixa 
e Soure. 

«A composição do seu traçado, formada de longas nervu- 
ras, é assaz original, e denota a sinceridade imaginativa dum 
artista, que, em incitamentos de fausto, ingenuamente se es- 
mera, na delineaçâo da obra, que o seu sentimento lhe dieta. 
E sempre a convicção e a lógica foram em architectura as 
qualidades válidas e fundamentais de toda a decoração ar- 
tística. 

«O edifício exteriormente pittoresco, como sam sempre as 
construções manuelinas, nada offerece de notável, a não ser 
a constatação dum facto que, embora vulgar, demonstra 
sempre a perturbação esthética desse período histórico. A 
cornija do transepto e da capella-mór, bem como os dois 
pequenos torreões encimados de domos, collocados nos ân- 
gulos terminais do topo sul, sam em exclusivo estilo do re- 
nascimento. 

«Esta promiscuidade, não rara em construções manuelinas, 
é sempre interessante, porque mostra as diversas formas, 
pelas quais o espírito de transigência tentou a conciliação 
impossível entre os dois systemas, fundados sobre princípios 
inteiramente irreductiveis. 

«Todavia o aspecto desta fachada, que em outras circun- 
stâncias seria singularmente agradável, causa uma impressão 
discordante e penosa. 

«Alinhada entre edifícios predominantes, de ostentação em- 
phática, modernos e pretenciosos, sem delimitação sensivel 
que lhe dê importância e destaque, tem a apparéncia mes- 
quinha duma enkistação caiada, que se pretende disfarçar e 
esconder, como um archaísmo vexatório. 

«E, para mais lamentar, a abertura ao fundo duma porta 
e janella sobreposta, impertinentes de jactância, constitue a 
perpetração do mais insólito destempero, que podesse inven- 
tar-se para a deformação do conjunto. 

«Resta saber se seria de todo impraticável a attenuação 
desses damnos, pelo menos apparente, restituindo à igreja 
13 



94 CAP. 11 — El) FÍCIO K OBJECTOS DO CCLTO 

uma exterioridade, que a separe e distinga das edificações que 
a comprimem e prejudicam» '. 



O interior da capella impressiona-nos agradavelmente. 

Tem de comprimento total cerca de 34"», comprehendidos 
10»" da capella-mór, e perto de 6"» do coro. A largura geral é 
de quase 9'", exceptuando o transepto, que mede aproxima- 
damente 12n\50. 

Acha-se toda vestida de azulejos ; os do corpo da igreja (B) 
e transepto, com pintura tríchroma bastante ornamental, 
emmoldurados em amplas cercaduras, deixam-nos adivinhar a 
aproximação do século xviii, e sam de bom effeito decorativo. 

O tecto de estuque de volta abatida, que substitue o pri- 
mitivo forro de madeira apainelado, é todo vestido de pinturas 
de ornato de cores vivas, tendo ao centro o escudo das armas 
reais portuguesas, sustentado por um grupo de anjos. Ao 
fundo o coro (D), obra de D. Francisco de Lemos, onde 
estám as bancadas dos capellães {o o o o), no lugar principal 
a cadeira do officiante {p)y e à frente a estante coral de pau 
santo, rematada por um Crucifixo (q) ; em roda, fixados nas 
paredes, oito quadros medíocres, pintados em madeira, dos 
fins do século xvi, representando a história de Tobias, os 
quais foram pelo bispo-conde D. Affonso de Castello-Branco 
doados, juntamente com a sua livraria e outros objectos, à 
companhia de Jesus por escritura de 26 de janeiro de 1600 ', 
e que do coUégio da companhia vieram para a capella da Uni- 
versidade, provavelmente em tempo de D. Francisco de Lemos. 
De um lado do coro a porta que para elle dá accesso; é, fron- 
teira a esta, a porta que abre sobre a varanda de pedra (r), 
com que D. Francisco de Lemos teve a infeliz idéa de afrontar 
a fachada da capella. 



* A. Augusto Gonçálvez, Notas avulsas sobre a capella da Uni- 
versidade, ms. em meu poder. 

' Documentos para a historia dos jesvitas em Portugal, pelo 
DR. António José Teixeira, p. 280: — dk. Teixeira de Carvalho, in 
Resistência, n 1218, de 23 junho li»07. 



ESTAMPA in 




Vistn do interior clí=i real capella 



(Pag. 94) 



CORPO DA CAPRLLA R TRANSEPTO 95 

Por cima do coro fica a tribuna real ; por baixo a passagem 
roubada ao corpo da capella, que dá ingresso à secretaria e 
outras repartições, communicando com o templo por três 
portas (/ m n). 

Da parede fronteira à porta lateral, entre as duas janellas, 
emerge sumptuoso o órgão (C), a que nos referimos já larga- 
mente; um pouco adeante, junto do transepto, o púlpito O), 
muito símplez, com a sua cúpula de madeira de côr escura 
e ornatos dourados. 



Segue-se o transepto, separado do corpo da capella por um 
degrau e uma grade singela de pau santo {% i) ; da grade para 
dentro só às pessoas universitárias, ou convidados, é permit- 
tida a entrada. Foi sempre, e ainda hoje é, absolutamente 
vedado o ingresso de mulheres para lá desta grade durante 
os actos litúrgicos '. Nesta parte da capella ergue-se ao lado 
do Evangelho o altar de Nossa Senhora da Luz (^), que em 
1610 foi privilegiado por Letras apostólicas 2; ao da Epístula 
o de Santa Catharina (Ã) : já a elles temos feito referências. 

O arco cruzeiro é manuelino; termina em ogiva, e delle 
se erguem umas nervuras, que rematam por três mísulas, 
sobre as quais pousam as três imagens clássicas do Calvário, 
o Crucifixo, a Virgem e o Discípulo amado, esculturas da 
mesma épocha; faz fundo ao Crucifixo uma glória cercada de 
serafins, em azulejo. Aos lados dos arcos da ogiva, preen- 
chendo os dois espaços triangulares, que restavam depois de 
tudo contornar com a cercadura trichrómicaque emmoldura as 
paredes da capella, destacam, também pintadas em azulejos, 
com uma feliz intenção decorativa e mystica, as figuras de 
Adão e Eva, cobertos com as símplez túnicas que lhes deu o 
Criador ao expulsá-los do paraíso; cercados de folhagens sem 
frutos, fora do Éden ali representado pelo santuário da capella- 
mór, choram tristes e desanimados a felicidade perdida. 



1 Vesitaçào, t. 2, fl. 39 v.^ 

2 Conselhos, t. 16, 1. 1, fl. 126; — Vesitaçào, t. 1, fl. 53. 



o AP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS l>0 CULTO 



Os dois topos do transepto formam umas pequenas capei- 
las, cobertas com as únicas abobadas que aqui ha, e as janel- 
las, que nelles se abrem, sam internamente as mais ornamen- 
tadas de todas; o inverso do que succede exteriormente. 



Entremos na capella-mór (A). 

O tecto de estuque toma a forma octogonal ao nível da 
cornija, e ergue-se suavemente em cúpula. A sua pintura é 
congénere da do corpo da capella, mas mais delicada e de 
ornamentação mais minuciosa. 

Tem ao centro uma figura de mulher sentada, de coroa 
real na cabeça, uma palma na mão direita, e na esquerda um 
livro aberto com a inscripção : — initium sapientiae timor 

DOMINI. 

Quem tenha visto a figura symbólica da Sabedoria, nos 
sêllos da Universidade, reconhece-a immediatamente ali, ape- 
sar de lhe faltarem os attributos carateristicos. Substitua-se 
a palma pelo sceptro encimado pela esphera armillar, e collo- 
quem-se-lhe ao lado o mocho vigilante e a joeira da crítica, e 
temos a representação da Sabedoria personalizada, que a 
Universidade usa como insígnia. As variantes do typo clás- 
sico, que se encontram no tecto da capella-mór, têem boa 
explicação. Foram introduzidas em 1859, quando se fez de 
novo a pintura. Tinha-se estabelecido o uso geral de chamar 
Minerva àquella figura symbólica de mulher, que nada tem 
commum com a deusa gentílica', a não ser o collocar-se-lhe 

* Esta insígnia universitária, que muita gente imagina ter a 
sua origem no» estatutos de 1591, é muito anterior. Os próprios 
estatutos antigos, descrevendo-a, dizem que esta Vniuersidade de 
seu fundamento a tem (1. 2, tit. 26, n. 13 na ed. de 1593, n 14 na de 
1G54). Effectivamente a Universidade usava nos seus sêllos, desde 
a installação definitiva em Coimbra, e provavelmente já de tempos 
anteriores em Lisboa, híía figura de hua molheVy que representa a 
sapiência, assentada com hua esphcera na mão, rodeada de livros 
(loc. cit.). Entretanto jamais houve, até tempos relativamente re- 



CAPELLA-MÔR 



97 



ao lado um mocho. É natural que, passando em julgado a 
identificação, principiasse a causar estranheza, e até escândalo, 
a certa gente escrupulosa, 
o estar pintada no tecto 
do santuário cathólico 
uma divindade pagã; d'aí 
o pedido, ou talvez a or- 
dem terminante ao artista 
que restaurava a pintura, 
para que transformasse 
a supposta deusa Minerva 
em santa Catharina, pro- 
tectora dos estudos. A 
transformação fez-se mui 
facilmente, para o que 
bastou apagar o mocho e 
a joeira, e substituir o 
sceptro de rainha pela 
palma de mártyr, cer- 
cando a cabeça da mulher 
do nimbo luminoso dos 
santos. O desenho da fi- 
gura ficou como estava. Sêllo da Universidade 

Mais abaixo destacam 
em quatro escudos os emblemas das faculdades maiores, se- 




centes, quem se lembrasse de dar a essa mulher o nome da deusa 
Minerva. Temos do meado do século xvi uma interessante descrição 
do sêllo universitário no documento seguinte: — «entrega do sello 
— Aos quatro dias do mes de nov"^" de j b'" lia òe. cinquo anÕs na ci- 
dade de Coimbra no taboleiro dantre as escadas dos paços dei Rei 
nosso SÕr. o Sõr doutor a° do prado Reitor entregou o sello da vni- 
versi*'« ao doutor M*' da Costa q foi eleito por chancerel delia & elle 
se ouue por entregue do dito sello q he de prata & tem a figura da 
sabiduria cÕ hua espera na mão. & huas letras ao Redor q disem 
p' me Reges Regnãt et legum conditores justa disçernunt (aliás 
decemunt) & forao test.** os doutores Marcos Romeiro òi o mestre 
alur" da fonseca & outros & eu dj" daz*^" o escreui». — {Conselhos^ 
t. 2, 1, 3, fl. 24). 



98 CAP. 11 — EDIFÍCIO E OBJKCTOS UO CULTO 

gundo a antiga organização universitária : a theologia synibo- 
lizada pelo sol brilhando a meio da cruz, e diffundindo os seus 
raios em todos os sentidos ; os cânones pela theara pontifícia 
com as chaves; as leis pelo braço empunhando a espada nua 
e a balança; a medicina pelas duas serpes enroscadas, e pela 
cegonha emblema da ternura e piedade. 

As paredes, com excepção da do fundo, onde assenta o re- 
tábulo, acham-se todas guarnecidas de azulejos dos princípios 
do século XVII, pintados a azul sobre fundo branco, um de- 
senho símplez e pobre, mas recordando accentuadamente o 
estilo do renascimento. 



É este o lugar reservado aos prelados, grandes do reino, 
auctoridades principais, e aos doutores. 

Os grandes do reino e auctoridades de alta gerarchia assen- 
tam-se em cadeiras de espalda no plano, acima do arco; mas 
se está presente alguma pessoa real, as cadeiras de espalda 
sam substituídas por bancos ou escabellos forrados de veludo 
carmezim, como se fez quando D. Fernando aqui assistiu a 
um Te-Deurnj a 18 de julho de 1836 '. 

Subindo três degraus encontra se um plano superior, onde 
correm de um e outro lado os doutorais (ee. /"/), bancos 
de madeira exótica com espaldares elevados ao longo das 
paredes e ornados de embutidos; nelles se sentam única e 
exclusivamente os doutores, usando o tradicional privilégio 
de pessoas ecclesiásticas, e recebendo as honras que nas 
cathedrais se prestam aos cónegos. Note-se porém que os 
próprios- doutores nunca podem occupar aquelles logares, 
senão vestidos com o trage académico, que também é eccle- 
siástico. 

A parte da Epístula, sobre um pequeno estrado, o banco (d) 
do celebrante e ministros sagrados; à do Evangelho, subindo 



1 Vid. O Instituto, t. 1, p. 161 da 1.- ed. (in-4.«;, e p 104 da 
2.* ed. íin-fol.). 



CAPEÍ.LA-MÔR 99 



um degrau, encontram-se, em frente de um amplo espaldar 
de veludo vermelho ou roxo, segundo a natureza das solem- 
nidades, dois escabellos para os decanos de theologia e direito, 
assistentes ao prelado universitário, e ao meio delles, sobre 
um suppedáneo mais elevado, ergue-se a cadeira prelatícia do 
reitor (c), revestida de ricos brocados, de cores idênticas às 
do espaldar. É aqui mesmo que se ergue o throno, debaixo 
dum dossel de veludo, quando alguma pessoa real assiste às 
solemnidades; e neste caso removem-se os escabellos, e à 
direita do throno, mas já no plano do doutoral, coUoca-se uma 
cadeira de espalda mais modesta do que a costumada, para o 
reitor se sentar. Foi assim que se fez, quando o marquês de 
Pombal em 1772 veiu reformar a Universidade com poderes 
e honras majestáticas *, e quando D. Miguel visitou a Univer- 
sidade em 1832, e D. Fernando em 1836 ^ 

Quando aos actos religiosos assiste algum prelado sagrado^ 
costuma-se-lhe armar um espaldar como o do reitor, ao lado 
da Epístula, fronteiro àquelle, e ali se colloca sobre um único 
degrau uma cadeira, para elle se sentar. 

Ao centro ergue-se o altar-mór (ô), ao qual se sobe por três 
degraus, e sobre elle, acima da banqueta mas em plano mais 
recuado, surge um pequeno throno, com um bello sacrário de 
bronze dourado, onde se guarda permanentemente a sagrada 
Eucharistia; aos lados deste throno estám as imagens de 
Nossa Senhora da Conceição padroeira da Universidade, e 
de S. Miguel orago da capella, ao qual é dedicado este altar: 
esculturas medíocres, que não merecem referência. 

O retábulo veste todo este topo do edifício, e nelle chamam 
a attenção os cinco quadros que restam dos pintados por 
Simão Rodríguez: ao meio do retábulo fica o camarim do 
throno (a), onde se fazem as grandes exposições do Santíssi- 
mo, nas solemnidades extraordinárias; usualmente porém o 
camarim está occulto pelo grande quadro, pintura em tela 
de Gonçálvez Neves, representando a descida do Espírito 
Santo sobre o apostolado, ao qual já noutro lugar fizallusão. 



* Diário do qtie se passou em a Cidade de Coimbra, já cit., fl. T) \ 
cf. fl. 3 v.« 

' O Instituto, loc. cit. 



100 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

No friso, que corre sobre este quadro central, mal se de- 
visa, em letras de ouro já muito apagadas, a legenda: 

EMTfE kCEM TWM B >£'R1^'EM TVAM 

Volta agora a ter a palavra àcêrca do retábulo da capella- 
mór o distincto professor A. Gonçálvez. 



«O arranjo architectónico do retábulo é produção medío- 
cre dum artista de somenos valor. Quase uma obra de car- 
pintaria. 

«O auctor não conhecia, nem por instincto, a differença 
entre a madeira e a pedra, e gisou o seu projecto com ele- 
mentos desgraciosos e pesados duma fachada de cantaria. 
A abertura do camarim, para a coilocação do throno, importou 
mutilações, que ainda mais o desvalorizam. 

«Compare-se este retábulo cora outros quase contempo- 
râneos, de idêntico caráter, que se vêem nas capellas laterais 
da Sê Nova, por exemplo, e comprovar-se ha a inferioridade 
manifesta desta indigesta molle, 

«Nos princípios do século xvii já se patenteavam os synto- 
mas do embate das idéas entre os architectos que na penín- 
sula propagavam a revolução innovadora de caprichosas 
fantasias, e os que reagiam, sustentando a austeridade das 
doutrinas neo-clássicas, e lançavam nos espíritos menos cultos 
a indisciplina e a confusão, produzindo aberrações hybridas 
semelhantes. 

^Um único título, ainda assim, torna este retábulo recom- 
mendavel: os quadros que o adornam. O dr. A. de Vascon- 
célloz teve a fortuna de prestar um assinalado serviço à 
história da pintura portuguesa, pela descoberta do nome do 
autor, que em Coimbra gozou dum acolhimento generoso, a 
avaliar pelas numerosas pinturas que do seu pincel existem. 
A identificação do seu estilo, pouco menos que ignorado até 
agora, fica definitivamente estabelecida. 

« E Simão Rodríguez, se não era um alto e raro engenho. 



ANNEXOS DA CAPELLA 101 



era contudo um artista notável pela sua maneira pessoal e 
inconfundível, pela facilidade firme e espontânea do desenho, 
e pela segurança decisiva, que só pode dar a longa prática, 
com que marcava sem hesitação, duma só vez, os effeitos de 
luz e de coloração, na intensidade do relevo e na graduação 
do destaque» K 



Passemos aos annexos da real capella, 

O principal é a sacristia (E). 

Ha nella uns gavetões de madeira exótica com embutidos 
grosseiros e boas ferragens de bronze dourado, obra execu- 
tada em 1731 ', Sobre os gavetões a parede tanto na frente 
como nos lados é revestida de madeira apainelada; ao cen- 
tro {v), debaixo dum pequeno dossel, um Crucifixo; aos lados 
dois grandes espelhos. 

Encostado à parede da capella-mór ha um altar {x) de pau 
santo, ornamentado com filetes de pau setim, tendo aos lados 
duas credencias da mesma madeira, conjuntas com o altar; é 
parte de um grande móvel pombalino, adaptado a este mister. 
O altar é dedicado à rainha Santa Isabel, esposa do fundador 
da Universidade, 

Sobre uma das credencias vai-se construir um escaparate^ 
onde fiquem em exposição permanente os mais interessantes 
objectos de ourivezaria da capella. 

Em frente do altar está a fonte, trabalho medíocre do 
século XVII, executado em pedra de Ançã, 

Ha em volta das paredes uns quadros insignificantes, e 
alguns cartíiches de talha dourada com inscrições extrahidas 
da Bíblia e do Pontifical, allusivas ao ministério sagrado. 



Contíguas à sacristia existem três pequenas casas, de 
pouco pé direito (F), sendo destinada a primeira a depósito 
de cera e vestiário do moço da capella e acóly thos, a segunda 



> A. A. GonçÁlvez, Notas avvlsas^ já cit. 
2 Vesitação, t. 1, fl. 279 v.« 



102 CAP. II — EniFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

a vestiário dos capellães; a terceira^ de todas a maior, é o 
gabinete do capellão-thesoureiro. 



Subindo uraa escada interior, encontram-se no primeiro 
andar a casa dos folies do órgão (G), e o ante-côro (I) onde 
funcciona a aula de música, e onde se acham em exposição, 
bem acondicionados em um grande móvel de pau santo, os 
melhores paramentos que a capella possue. 

Esta sala tem três janellas, que deitam para um terraço 
descoberto (H), e communica de um lado com o coro, e do 
lado fronteiro com o gabinete do director da capella, e com 
uma escada, que dá serventia para o segundo andar, onde se 
encontra uma casa de arrecadação de paramentos e armações, 
bem como a ante-cámara da tribuna real. 

Daqui ha communicação, através de corredores^ salas e 
galerias, com o paço reitoral. 



Resta-nos agora dar notícia de alguns dos mais interes- 
santes objectos móveis, e alfaias do culto, que actualmente 
possue a real capella, e de outros não menos interessantes, 
que infelizmente já não existem, mas que sam memorados nos 
documentos. 

a) Objectos de ourivezaria 

Anteriores a 1590 possuímos apenas uma píxide e um 
gomil com o respectivo prato. 

Temos porém referência a um antigo CcUiz da Capella de 
sam miguei q não he da vniversi^^; era particularmente esti- 
mado, e para ser guardado convenientemente, em conselho dos 
deputados e conselheiros a 16 de outubro de 1557, se mandou 
fazer hua Caixa K 

Este cálíz era da antiga capella real, e anterior à installa- 
ção da Universidade nos paços del-rei. 



1 Conselhos, t. 2, 1. 4, íl. 109 v." 



ALFAIAS DE OURIVEZARlA DO SÉCULO XVI 



103 



Não sei ao certo que destino teve; mas não é provável que 
se extraviasse tam cedo, que não chegasse a ser mencionado 
nos inventários. Sou levado a crer, que passaria para a posse 
da confraria da Senhora da Luz, e que seria hum cálix de 
prata todo dourado cõ suas campainhas e caixa ', que nos 
apparece descrito nos inventários antigos desta corporação, 
desde o primeiro de todos, que é datado de 1597. 

É crivei que fosse um cáliz manuelino, que viesse para o 
paço de Coimbra no princípio do século xvi. Mas nada se pode 
a tal respeito affirmar com segurança. 



PixiDE, — É um formoso trabalho executado em prata re- 
batida e cinzelada, com forte douradura a fogo. Tanto na 
tampa, como em volta da copa, e 
no pé, tem incrustadas umas pe- 
quenas medalhas circulares fundi- 
das, representando bellas cabeças 
de personagens bem conhecidas na 
história romana, especialmente mu- 
lheres célebres e imperadores. A 
contrastar com uma cabeça forte- 
mente barbada e cingida de coroa 
real, e com o bello perfil másculo 
coroado de louros de Agrippa, im- 
pressionam os delicados e admirá- 
veis typos femininos de Cleópatra, 
Cornélia, Lucrécia, duas Júlias, e 
uma sexta mulher innominada. 

Nada sei da proveniência deste 
bello vaso, Gonçálvez suspeita que 
seja de origem espanhola. Qualquer 
porém que geja a sua proveniência, 
é elle uma jóia de bastante valor. 

No mais antigo inventário da capella, que possuímos, encon- 
tramo-lo mencionado, com o laconismo do costume, nas 




Pixíde (séc xvi) 



* Confraria, t. 1, 1. 2, fl. 2, 



104 



CAP. II— EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



palavras seguintes : — Hú vaso de prata dourado da corri' 
munhão com sua cruz e tapadoura ^ 

Era devidamente apreciado como objecto de muito valor, 
e por isso se conservava guardado dentro de um estojo, como 
se refere no assento da vesitação de 7 de junho de 1704: — 
Achamos q a caixa de couro de hú vazo de prata da Comu- 
nhãOy lhe faltava húa tapadoura, pelo q mandamos se lhe 
faça logo húa tapadoura -\ 



Gomil e prato. — Sam graciosos, e de forma interessante. 

Foram propositadamente fabricados para o uso da real ca- 

pella, como sedeprehende 
das armas reais nelles 
cinzelladas. Devem ser do 
reinado de D. Sebastião. 
Supponho que eram pro- 
priedade da confraria de 
Nossa Senhora da Luz ^ 
Também não tenho 
dados documentais refe- 
rentes à fabricação destes 
objectos. No campo da» 
hypótheses não destituí- 
das de probabilidade, po- 
demos conjecturar que 
sejam obra de Luis Gon- 
çaluez ourivez de prata 
m.or nesta cidade^ que 
desde o anno de 1550 vi- 
nha sendo official privile- 
Gomíl e prato (séc. XVI) giado da Universidade, 

em virtude do contracto 

celebrado a 5 de maio no Jardim do LJo esteuão nugj<^ sin- 




1 Inventario^ t 1, fl. 2 v.° 

2 Vesitação, t. 1, fl. 224. 

3 Ibid., fl. 35 v.o 



ALFAIAS DE OURIVEZARIA DO SÉCULO XVI 105 

dico da vniversidade q esta junto do Rio, pelo qual se obrir 
guou éc ohrigua a eorreger de gra^a toda^s as cousas de prata 
da dita vniuersidade <& de suas ygrejas. ss. maçoà dos bedéis, 
iribullos cruzes calizes patenas custodiai castiçães & todas oã 
mais peças ^ tocara a dita vniversidade & de suoã ygrejoà 
porq todo ho coRegimM de todas as sobreditas cousas <& de 
qtiaesquer outras de praia q forê da dita vniversidade elle 
não queria feitios algOs & dello fazia serviço a dita vniver- 
sidade porq de iodo não queria leuar cousa algua como dito 
tinha soomi* o ouro & prata ^ no corregim^o das ditas cousas 
guastase de sua casa queria que lhe paguasem Sz mais não 
dizendo mais elle luis gllz^ q se a dita vniversidade mãdase 
fazer de novo outras alguas peças de prata jo* seu seruiço & 
de stias ygrefas q elle se obriguaua as fazer tirado do feitio 
dous tostões de cada marco, tudo isto mediante a nomea^^ão, 
que a Universidade ia propor a el-rei, do dito Luís Gonçál vez 
para oficial da dita vniuersidade p» guoçar dos preuillegios 
delia & dos q guozão & vsão os outros officiais delia *. 



Depois, em 1588, apparece-nos outro ourivez da Universi- 
dade, que, pelas obras que delle nos restam, não pode deixar 
de ser considerado artista muito notável; apesar disso, o seu 
nome tem andado até hoje em esquecimento. Chama va-se Si- 
mão Ferreira, 

Foi-lhe passada em nome de D, Fernão Martinz Mascare- 
nhas reitor, e do conselho de deputados e conselheiros da 
Universidade, carta de privilégio como off icial da mesma, em 
data de 21 de março do sobredito anno. Este documento, cujo 
registo se encontra no archivo da Câmara municipal de Coim- 
bra, diz que simão fferreira ouriuez de prata morador nesta 
cidade & offiçiall desta vniuerçidade de lhe ffazer todas as 
cousas de prata q f for em nescesarias para a sua capella e 
para todas suas ygreias q tem neste bispado e no do porto 
ellameguo que sam quorenta ygreias pouquo mais ou menos 



1 Escrituras^ t. 3, 1. 1, fl. 63. 
14 



106 CAP. 11 — EDIFÍCIO B OBJECTOS DO CULTO 

para o quall hoffiçio foi elleito no conselho de deputados e 
conselheiros e por asy ser elleito guoza dos priuillegios desta 
vniuerçidade asy como guozam os Lentes e estudãtes hofficiais 
e pesoas delia e o conseruador o admitira em seu juizo como 
pesoa preuillegiada da vniuersidade *. 

Conservam-se ainda na real Capella duas peças por elle 
fabricadas; mas de outras mais temos notícia. 

Nos documentos do archivo da Universidade, até hoje por 
mim explorados, estendem-se as referências a este artista 
desde janeiro de 1593, em que principiou o primeiro trabalho 
que documentalmente nos consta ter feito para a real capella, 
até 19 de junho de 1606, dia em que na cidade de Coimbra e 
casa de residência do dr. Manuel Rodríguez Navarro, lente de 
digesto velho e deputado da mesa da fazenda, commissionado 
para celebrar este contrato, estando presente o reformador, 




Assinatura do ourívez SímSo Ferreira 

que então era D. Francisco de Bragança, pareceo Simão 
feRj^ ourivez de prata m.o** na dita cidade pello q^ foi dito 
. . . que por quanto auia muitos annos que elle seruia de 
ourivez da Universidade, agora lhe constava que na mesa da 
reformação se tratara de despedir alguns dos privilegiados, 
por não servirem de utilidade à Universidade; em vista do 
que elle dito Simão feR,^'^ se tinha ofrecido por uezes & de 
nouo se ofrece & pede a dita vJ^ lhe faça mercê de ho não 
prjuar de seu previlegio & officio q auia tantos annos ^ 
seruia, cõ elle Simão feRj^ se obrigar de nouo a VA^ a lhe 
fazer de graça todos os concertos de todas suas obras de ou- 
rivez com tanto se pêra ellas fosse necessária prata em contia 



' Archivo da Camará Municipal de Coimbra. Registo, t. 5, fll. 319 

e segg. 



OBRAS DO OURIVBZ SIMÃO FERREIRA lU7 

considerável a v^^ lha daria sem lhe ficar obrigada a pagar 
cousa algúa de seu trabalho pellos ditos coiieertos o ^vMpello 
dito dor em vertude da dita eomisão dise que o s^^ Reitor & 
m^is deputados herão contentes de lhe conceruar a elle Simão 
feRjo. seu preuilegio & ho auerem por official da vA^ com a 
dita condição e obrigação de q nã leuaria cotesa algUa pellos 
feUjos e comeertos das obras da vJ^ na forma sobredita não 
semdo feitios de obra q de nouo se faça '. 

Sabemos entretanto que Simão Ferreira pouco sobreviveu 
a esta renovação de contracto. Ha no archivo da Camará mu- 
nicipal de Coimbra o registo de uma carta de privilégio, pas- 
sada pela Universidade em nome de el-rei D. Philippe em data 
de 7 de agosto de 1607, na qual se diz que foj acejtado por 
ofisial da dita universidade de oriues das obras da capela 
ejgrejias dela ha ã/.^ ferejra ouriues morador na djta efdade 
em lugar de Sjmão ferejra ouriues defunto q o serujo ate for 
leser por o djto ãtJ' ferejra ser pesoa atUa <fe sufisiente p^ bem, 
serujr o djto ofisjo de ouriues da djta capela das obras dela 
e das mães jgr.^ da djta vn'^^ enter todas as partes ^ para 
bem serujr ho djto o ff'' se Requerê-, 

O ourivez Simão Ferreira fez, que nos conste, para a real 
capella da Universidade as principais obras referidas com 
especial menção nos seguintes parágraphos. 



Custódia, — Em sessão da mesa da fazenda de 12 de ja- 
neiro de 1593 lavrou-se este assento: — iS'o6r« o feitio da 
custodia Asentou-se q se desê a simã fr^a orjuez desta V7iiu^^ 
seseta myl rs p" a custodia q ha de fazer p' o emceRam^^ do 
s^o saeram^o dos off>* da capella na somana «'« com^forme aos 
stalutos, e isto ha boa conta K 

A 1 de junho seguinte fez-se o apontamento : — tratouseda 



' Escrituras, t. 18, 1. 2, fl. 165. 

2 Abchito da Camará Municipal de CVjimbra. Registo, t 11, 
fl. 95 V.» 

Fazenda, t. 3, 1. 1, fl. 15. 



108 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

custodia qSimã fr^^ tem feyta, &qka de dourar e pede p* iso 
dr^'f p* a acabar, asentarã q se lhe dese agora coreia myl rs 
alie dos oitenta myl rs ^já se lhe deram p* ella, e ^ se pase 

ffldo p* Í80^. 

Finalmente a 15 de janeiro de 1594 exarou-se nova memória 
relativa à custódia, a qual diz : — Viose a cota ^ se fez cõ 
simã fr^a orjtiez ^fez a custodia, e bordão do w'»*« das serjmo- 
nias e remates das varjnhas dos bedéis, e se achou q mota 
na prata e feitios cento e tryta myl doz^^s noueta e ojto rs e 
meio de q som^^ se lhe deuia vjnte myl dozentos noueta e 
ojto rs e meio e de tantos manda9'ã que pase m^o p* lhe serê 
paguos 2. 

Vê-se destes assentos que a custódia era pouco pesada, e 
certamente pequena. 

Quanto à sua forma, alguma cousa sabemos também. Os 
inventários foram repetindo lacônicamente a referência sím- 
plez a este objecto, mas num ou noutro encontramos feliz- 
mente algumas expressões, que nos denunciam o typo, aliás 
bem conhecido. Já o inventário de 5 de maio de 1664 descre- 
vera — Huma Costodia de prata dourada com hum Anjo com 
seu Christo^. Elucida-nos porém mais a descrição do de 6 
de novembro de 1699, dizendo : — Húa custodia de prata sobre 
dourada com seu Anio, e Christo por remate, adonde se mete 
a hóstia, e vidrasas de cristal, e com seis pendentes de cristal 
emgastados em casquilhos de prata com sua caixa de couro 
preto*. Finalmente, em uma revisão que a 26 de janeiro de 
1742 se fez ao inventário datado de 25 de julho de 1715, o 
dr. João de Sousa Araújo, servindo de secretário da Univer- 
sidade, lançou em seguida à descrição da custódia, que era 
reprodução da que deixamos transcrita, esta observação : ~ 
no remate suprior nam tem Anjo algum, mas tem hum sera- 
fim entre as vidraças em q se expõem o S.^r^, 

Resta-nos dizer o destino que teve esta custódia. Vindo em 
vesitação à capella o reformador-reitor D. Francisco da Annun- 



1 Fazenda, t. 3, 1. 1, fl. 30. 

2 Ibid., fl. 46. 

^ Inventario, t. 1, fl. 2 v.° 
* Ibid., fl. 23 V." 
5 Ibid., fl. 37 v.« 



CUSTÓDIA E LÂMPADA 



10;^ 



ciação, com o lente de prima de theologia jubilado Fr. António 
Chichorro, a 30 de março de 1754, ordenaram que se fossa hum 
novo Ostensso- 
rio p* a Expo- 
sição do San- 
tissimo Sacra- 
m^Of servindo a 
prata do antigo 
que se acha na 
mesma real cap • 
p.% e qtie esta 
obra seja feita 
com toda a per- 
feyção da moda 
mais moderna 
em attenção ao 
seu altissimo 
ministério, e 
p7'oporção á 
grandeza do 
trono em que se 
costuma colo- 
car K 

Fez-se então 
a grande custó- 
dia actualmente 
existente, ma- 
jestosa, é ver- 
dade, e muito 

bem feita; mas que pena, haverem destruído a antiga, e não a 
terem conservado ao lado da moderna ! 




Custódia (seo. xviii) 



LÂMPADA. — Devia ser uma peça formosíssima, pois ainda 
hoje é bella, apesar de mutilada e conspurcada com poste- 
riores restaurações vergonhosas. 

Resolveu-se em mesa da fazenda, a 5 de outubro de 1569, 



i Vesitaçào, t. 2, fl. 20. 



lio 



CAP, II — edifício e objectos do culto 



fazer uma lâmpada de prata para a capella, que pesasse 60 a 
65 marcos. Lavrou-se logo escritura do contrato, pelo qual o 

ourívez da Uni- 
versidade Simão 
Ferreira ficou 
encarregado de a 
fazer. Em paga- 
mentos successi- 
vos se lhe foram 
abonando peque- 
nas quantias à 
conta desta obra^ 
até montar à 
somma de reis 
172$000. Nos fins 
de outubro de 
1597 apresentou 
a lâmpada, que^ 
pesada perante 
os deputados da 
mesa da fazenda, 
se verificou ter 
81 V> marcos de 
peso, avaliando- 
se a mão d'obra 
em 1$100 reis 
cada marco. Fei- 
ta a conta ao va- 
lor da prata e 
ao feitio, viu-se importar na quantia total de 3018850 reis, 
passando-se logo mandado para o pagamento de 129$850 reis, 
que era quanto se restava. Para que uma peça artística tam 
rica e interessante não se deteriorasse com o mau acondiciona- 
mento, fez-se-lhe uma caixa especial, que importou em 3$000 
reis *. 




Lâmpada do ourívez Simão Ferreira (fim do sec. xvi) 



* Eis, na sua íntegra, os documentns relativos à fabricação da 
hhnpada, até hoje encontradi^s. 

— «q se faca alapada 

f^ asentouse q se faça huà alapada de prata como esta m^o nas 



LÂMPADA - Hl 

Esta lâmpada a princípio não andava a uso; nos dias 
communs achava-se no logar delia uma de latão, que, por 



visytacÕes p" a Capella, de sesêta ate 65 marcos, e isto do dr." q 
etregou p*' diaí de toRes q aReeadou da diujda do Relogeeiro». 

(Fazenda, t. 3, 1. 2, fl. 26, assento da sessão 
da mesa a 5 out. 1596), 

— «Obrigação de Simão feRja orjuez da Y.''* a fazer alapada p* 
a capella de 60 p" 70 marcos». 

(Escrãurasy t. 15, 1. 2, fl. 122 v.«). 

(É o título de uma escritura que devia lavrar-se, mas não se 
lavrou, neste logar, ficando apenas o título como lembrança, e lan- 
çando-se-lhe à margem a seguinte nota remissiva: — «esta fiz no 
Jj" T no fim delle, porq estaua esta nota pasada, e eõ este t.** atras 
p« asinar». — Nãe tenho podido até hoje descobrir a escritura, a 
que se faz aqui referencia). 

— «Ant" home 

leuâo se em conta ao d.ií>r Ant." homem do dinheiro q sobre elle 
carrega no libro do anno passado per hú m do de 22. de Outubro de 
96. cincoenta mil rs q deu pêra a alampada ao Ouriuez Simão Ferr.« 
E assi se lhe leua em cota pelo dito m.do quarenta mil rs q tinha 
dado ao dito Ouriuez ao fazer do contrato. E se lhe leua mais em 
conta por outro m.do de 26. de Outubro de 96. trinta & seis mil rs. 
q deu ao dito Ouriuez pêra a alampada. E per outro mAo de 16. de 
Dezembro de 96. se lhe leua mais em conta desaseis mil rs q deu 
ao dito Ouriuez pêra fazer a dita alampada q faz do qual todo dará 
o dito Ouriuez conta Ant." de Barr.* o escreui», 

(Á margem) — 50^ 
40^ 
36^ 
16p 

142;S tè dado cota» 

{Receita e despesa, 1594-98, fl. 44 v.")- 

— tíxxx rs p^ alapada 

•[ pareceo nesta mesa o orjuez Simão fr^ e dise q p** a alapada 



112 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJKCTOS DO CULTO 



estar quebrada, foi em vesitação de 1 de junho de 1605 man- 
dada substituir por outra de quatro Balaustres do mesmo 
metal ^ A de prata collocava-se apenas em certos dias, que 



q faz pa a cappella da v^e, lhe erão necessaryos trjwta ou corenta 
myl rs allê do mais q tê Recebjdo; asêtarâo q se lhe dé mais trjnta 
myl rs». 

(Fazenda, t. 3, 1. 2, fl. 54, assento da sessão 
da mesa a 15 jul. 1597). 

— «Simão ferreira ouriuez se lhe passou m.do a 15. de julho de 97. 
pêra o prebêdeiro lhe dar trinta mil rs aa boa conta do q ha de 
hauer da alampada q faz pêra a capella da Y^^ alem do mais dr.* 
q ja tem de q dará conta Ant.<* de barr.* o escreui». 

(Á margem) — ^\m^o ferr.« — Conta a fl.« 44. s. 142í;000 q cõ 
estes fazê 172ij5. tê dado cota». 

{Receita e despesa, lê94-98, fl. 54). 

— «caixa p* a alapada iii rs ao Vargas 

% asentouse q se pague ao varguas três myl rs p'a caixa q fez 
p* alampada». 

(Fazenda, t. 3, 1. 2, fl. 69 v.**, assento da ses- 
são da mesa a 14 out. 1597). 

— «sobre alapada 

^ asentouse q a alampada q fez Simão fr.« q pesou outenta e 
hu marco e m** q se pesou p'ãte os sores depdos se lhe pague a Re- 
zâo de myl e cem rs e se faca cÕta do q tê Rdo & p» a demasia se 
pase mdo». 

(Ibid., fl. 71, sessão de 4 nov. 1597). 

— «Simão ferreira ouriuez se lhe passou m.<Jo a 8. de Nouembro 
de 97. se lhe passou m.do pêra o prebend.ro felipe Lopez de Afon- 
seca lhe pagar cento vinte òt noue mil oitocentos & cincoenta rs q 
tãtos se lhe deuião do feitio & da prata da alampada q fez pêra a 
capella da v.^e como cÕstou da certidão do côtador junta ao m.í^o e 
a demasia tinha ja recebido e custou ao todo a alampada trezentos 
e híi mil oito centos e cincoenta rs Ant.** de Barr." o escreui». 
(Receita e despesa, 1594-98, fl. 64 v.*»). 

» Vesitação, t. 1, fl. 35 v.« 



LÂMPADA 113 

variaram no decorrer dos tempos, havendo sempre a cautela 
de a não deixar lá de noite * ; até que por fim se deixou estar 
permanentemente*'. Havia prohibição muito especial para 
nunca se emprestar esta lâmpada ^ 

Cedo começaram a fazer-se-lhe reparos. Em 1625 concer- 
tou-a o ourívez João Roque de Coimbra, pelo que recebeu a 
27 de setembro 2$000 reis \ Outro concerto .lhe fez o ourívez 
da Universidade Manuel da Costa em 1666, importando em 
8$500 reis». Novamente é limpa e concertada em 1687, e 
então se lhe põe, diz o registo, a peça que esta em poder do 
Thesoureiro^. Na vesitação de 13 de julho de 1703 reconhe- 
ce se estar ella denegrida e pouco decente, em vista do que se 
ordena ao padre thesoureiro que a mande alimpar mJ<* bem 
ao Ouriues da Vnd,<: p.» milhor aceyo e ornato da Capella ". 
Outra vez se manda q se alimpe e concerte a alampada da 
capela mor, a 21 de julho de 1739 "; repetindo-se a 7 de janeiro 
do anno seguinte a mesma ordem, com a cláusula — pondolhe 
huma peça q lhe falta^. Finalmente a 23 de junho de 1752 
dá-se ordem ao agente que entregue ao ourívez, para fazer 
obra nova, alguns objectos antigos de prata, entre os quais 
a Alampada velha e hum pedaço da outra; e que venha 



» Vesitaçãoy t. 1, fll. 73, 80, 80 v.«, e 100 v.« 

2 Ibid., fl. 166 v.«, visitação de 18 abr. 1687. 

3 Ibid., fl. 73 v.«, visitação de 20 abr. 1626. 

4 Fazenda, t. 4, 1. 2, fl. 62 v.« 

s «No mesmo dia fí6 de feuereiro de 666) se regista aqui hu man- 
dado q se passou a Manoel da Costa ouriues da V.'** pêra o dito 
Prioste (Manoel Mascarenhas) lhe pagar outo mil e quinhentos rs, 
a saber quatro mil e quinhentos q pos de pratta na Alampada da 
Capella da V.*'* e quatro mil rs q em meza se lhe mandarão dar do 
trabalho de a comcertar, tendo respeito ao tempo q gastou no ditto 
comcerto Diogo frz de Mesqi^* o escreuj». — (Receita e despesa, 
1665-66, fl. 27). 

® Vesitação, t. 1, fl. 166 v/* 

1 Ibid., fl. 220. 

8 Ibid., fl. 288 V." 

9 Ibid., fl. 289. 

13 



114 CAP. 11— EOIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



com o ourives ver se a Alampada que existe na Capella, tem 
perigo, e se pode conservar •. 

Tudo isto foram escolhos em que podia perder-se a lâm- 
pada de Simão Ferreira; felizmente, e quase por milagre, 
escapou dos repetidos perigos, e ainda hoje a conservamos, 
embora bastante avariada e com vestígios evidentes dos nau- 
frágios soffridos. 

Ha na cúpula oito cariuches, dentro dos quais estavam 
cravados outros tantos escudetes, talvez com as armas reais 
portuguesas e as espheras armillares alternadamente, como 
se vê ainda hoje na parte inferior da lâmpada. Aquellas oito 
pequenas peças desappareceram ; e um ourívez boçal, depois de 
ter obturado os boraeos da cravação, tomou sobre si a em- 
presa de rebater, nos fundos lisos onde tinham assentado os 
escudetes, outras tantas cabeças de perfil, que parecem obra de 
selvagens, contrastando com a perfeição admirável de toda a 
peça, e em especial das carrancas ornamentais que destacam 
logo abaixo de cada cartouche, assim como nas bases dos 
columnellos. O fundo da lâmpada é também um remendo 
deitado pelo mesmo ourívez, ou por ontro ejusdem ftirfuris. 

Esta bella peça de ourivezaria foi à exposição da arte or- 
namental, que se realizou em Lisboa em 1882, e voltou sem a 
mais leve deterioração, antes um pouco melhorada. Tornou 
mais tarde, em 18d5, a ir a Lisboa à exposição que se fez por 
occasiào do centenário de Santo António, e desta vez foi me- 
nos feliz, pois voltou toda arrombada e partida. Para a collo- 
oarem de novo na capella-mór, amarraram com cordas os 
ci>lumnellos à cúpula, e assim se conservou durante annos. 
Depois que assumi a direcção da real capella, em 1902, não 
descansei enquanto a não vi i'^stauradaY trabalho que incumbi 
ao muito hábil ourívez de Coimbra, já bem conhecido por 
alguns de seus trabalhos, Manuel Martinz Ribeiro, o qual se 
desempenhou muito bem desta incumbência. A folha de prata 
da cúpula eslava já teuusssima, pelas numerosas vezes que 
durante séculos tinha ido ao foiro para ser branqueada, e em 
muitos pi>utos até já se tinha r^^mpido; não podia por isso 
suv>p^>rtar o peso i\>nsideravel da parte inferior. Foi desamo- 



> rf-^íí j.M ^ i. :;2. ti, IT v>* 



OUTRAS OBRAS DE SIMÃO FERREIRA 115 

lada e concertada com todo o escrúpulo, e revestida interna- 
mente de uma forte armadura de prata, que ficou sustentando 
todo o peso. Com este concerto, deve durar largo tempo, se 
fôr bem tratada, como merece. 



Duas coroas de prata. — Foram feitas por Simão Rodrí- 
guez em 1599 ou 1600, a fim de servirem na imagem de Nossa 
Senhora da Luz com o Menino respectivo, à qual já fizemos 
referência. Não existem, e os únicos apontamentos que tenho 
a seu respeito sam os que seguem. 

Apparecem descritas pela primeira vez no termo de en- 
trega dos moveis da confraria de Nossa Senhora da Luz ao 
novo mordomo, a 15 de março de 1600, onde se lê: — Item 
duas coroas de prata cõ sua pedraria cõ suas folhai doura- 
das ç[ ao todo cõ feitio custarão — 23400 ' : e no titulo das 
despesas da Confraria na primeira terça de 1599-1600, come- 
çada a 11 de novembro daquelle anno, depara-se-nos esta 
verba : — Deu mais a Simão ferr,* oriuez de resto das coroas 
q fez de prata sete mil rs de q tê quitação — 7000-, 

Eram tidas em apreço, segundo se deduz do assento 
seguinte, que se lê na relação das despesas na segunda terça 
do mesmo anno : ~ Deu de hUa caixa ^ se mandou fazer no 
porto encourada e forrada cõ fechadura e chave p^ as coroas 
de prata -^ 800 K 



CÁLiz, E CALDEiRiNHA COM HYSSOPE. — Ordcnára-sc em 
vesitação de 30 de maio de 1598: —Achamos ser necessário 
hú cálix de prata melhor que os que ora sentem. Mandamos 
que compridas as demais cotizas necessárias se faça *, 

Outras obras, consideradas mais urgentes, fôram-se ante- 



» Confraria, t. 1, 1. 3, fl. 1 v.' 

2 Ibid , fl. 38. 

5 Ibid., fl. 36 v.« 

* Vesitação, t. 1, fl. 6. 



116 



- edifício e objectos do culto 



pondo a esta, até que a 28 de agosto de 1601 se lavrou a 
escritura de contrato com Simão Ferreira, na qual se esti- 
pulou que elle Simão feReira seija obrigado a fazer um cálix 
de prata dourado & laurado da milhor emuemção qse possa 
imaginar & cÕ forme ha húq mostrou ao Reitor até dia de São 
miguei do presente anno . . o qual cálix será da>s festas da 
t;.</<? & pêra o altar mor da capella delia muj perfeito & aca- 

bado, & asim fará ate o 
natal de seiscentos & dons 
húa caldeira de prata cd 
seu jzope muito bem feita 
& ao modo de húa q tã- 
bem tinha mostrado ao 
Reitor & dauentagem 
asim na obra como no 
pezo &, perfeição ^ 

O artista recebeu à 
conta 80$000 reis, e de- 
sempenhou-se bem, tra- 
balhando com amor e di. 
ligéncia, por forma que 
a 21 de maio tinha apre- 
sentado a sua obra, que 
foi pesada e avaliada, re- 
cebendo logo a quantia 
de 36$670 reis, qper resto 
de conta de húa caldei- 
rinha de prata cõ hysope 
e hú cálix q fez se lhe fi- 
carão deuendo ale dos 
oiteta mil q p,'' isso ia 
tinha recebidos *. Mas of- 
ficialmente só a 8 de ju- 
nho seguinte é que a mesa da fazenda lavrou o assento, man- 
dando pagar este saldo em dívida, e descrevendo a conta 
minuciosa, que é interessante, de uma e outra obra, da qual 




Cáliz do ourívez Simão Ferreira 
(princípio do aec. xvii) 



' Escrituras, t. IG, 1. 3, fl. 1^2 v." 
•^ Receita e despesa, 1601-1602, fl. 41. 



cÀLiz 1!7 

se vê que o cáliz importou em 43$390 reis, e a caldeirinha 
com o hyssope em 72$360. 

O CÁLIZ é um bom exemplar do estilo do renascimento, 
com as suas pedras engastadas e os seus tintinábulos orna- 
mentais '. 

Não sei como escapou à fúria, que se desenvolveu particu- 
larmente no meado do século xviii, de fundir todos os objectos 
de prata antigos, para fazer outros à moderna. Talvez a sen- 



* «Faz por Simão feReira sobre o cálix e caldejra da capella 
\ asentarão q se paçasse mandado pêra se pagarem a Simão 

feRera ouriuêz trinta e seis mil seis centos e setenta rs que se lhe 
estauão deuendo per conta de hum cálix de prata e hua caldeiri- 
nha dasperjes com seu Isope que fez por mdo da \A^ peraacapella 
acuia conta Ja tinha Recebidos por outro mâodado de fora oitenta 
mil rs e asim veo amontar toda a dita obra com prata e feitio 
cemto e desaseis mil seiscentos e setenta rs a qual contia se des- 
pendeo naman^a seguinte 

\ pesou o cálix sete marcos seis onças e hua oitaua em que 
se montou com os engastes das pedras vinte mil noue centos e 
dez rs. 

•[ item de ouro quatorze oitauas que a Rezão de seis tostois a 
oitaua somão oito mil e quatro centos rs. 

\ custarão as pedras cõ o feitio dos emgastes dous mil rs. 

* montou-se no feitio do cálix arezão de mil e quatro centos rs. 
por marco noue mil e quatro centos rs. 

«; inportou o cálix ao todo corenta e três mil trezentos e no- 
uenta rs. 

^1 pezou a caldeirinha desoito marcos e três onças de prata o 
Izope hum marco e cinquo onças menos huã oitaua que vem a dizer 
vinte marcos menos hua oitaua no que se monta a Rezão de dous 
mil seis centos rs o marco cinquoenta e hum mil noue centos e 
sessenta rs. 

í montouse no feitio a Rezão de mil e duzentos rs por marco 
vinte mil e quatro centos rs. 

E feita esta conta na forma sobredita custarão as ditas peças 
de prata ao todo cemto e desaseis mil seis cemtos e setemta rs». 
{Fazenda, t. 3, 1. 2, fl. 183 e 183 v.", assento 
da sessão da mesa a 8 jun. 1G02). 



218 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

tença chegasse a ser lavrada. Em vesitação de 10 de julho de 
1742 deu-se uma ordem geral — Os cálices q se mandem dou-- 
rar; mas pouco depois, e ainda no mesmo acto, reflectindo-se 
que o melhor seria fazer obra nova, rectificou-se — No q re- 
speita aos cálices nos pareceo ^ por hora se lhe nam bulisse 
porq se poderám mandar fazer outros ^ 

E mandaram realmente. Dos cálices do século xvi nem um 
só existe, e dos do século xvii escaparam dois apenas: o rico 
de que nos occupamos, e um outro liso e muito símplez, tam- 
bém dourado. Os restantes foram todos derretidos então, ou 
em épochas differentes. O de 1602 escapou felizmente, e com a 
lâmpada sam as duas únicas obras daquelle ourívez hoje exi- 
stentes, e pelas quais podemos aquilatar o seu talento artístico. 

Á CALDEiRiNHA e HYSSOPE ha algumas allusões docu- 
mentais. 

Nos successivos inventários apparecem mencionados estes 
dois objectos, mas em referência tam lacónica, que nada 
adeanta; ha porém um inventário, o de 6 de novembro de 
1699, que nos dá um leve esboço descritivo nestas palavras: 
— Hua caldeirinha de prata grande com seu Izope laurada 
com carranquaSy e armas Reais, e do feitio da Alampada do 
Altar mor com sua caixa de couro preto -. 

No último quartel do século xvii ainda era estimada a cal- 
deirinha, e diligenciava-se a sua conservação poupando-a; 
neste sentido se fizeram algumas recomendações. Mandamos, 
diziam os vesitadores a 16 de outubro de 1678, ja por vezes ^ 
a Caldeirinha de prata se conserte ao ^ se não tem dado 
comprimento; Mandamos se lhe faça hum fundo de cobre q 
desta maneira se poupara melhor, e q seja prateado ^ 

Mas no meado do século seguinte tanto a caldeirinha como 
o hyssope correram a mesma sorte da quase totalidade das 
pratas da capella. Os vesitadores a 10 de julho de 1742, depois 
de ordenarem q se mandem fazer hmna naveta, e três pares 
de galhetas da moda, accrescentam : — Mais se faça hum 
Hisopo de prata por estar incapaz o que ha e para ajuda 



1 Vesitação, t. 1, fl. 292 v.« 

2 Inventario, t. 1, fl. 24 v.** 

•' Vesitação, t. 1, fll. 146 v.^ e seg. 



AINDA MAIS OBRAS DE SIMÃO FERREIRA 119 

destas peças de prata q mandamos fazer, que vem a ser na- 
veta, galketas e Isopo se daram as q agora ha em desconto '. 
E a 23 de julho de 1752 preceituam mais — Qiie se faça hua 
nova Caldeyrinha de prata p* agoa benta com seu aspersorio 
tãobem de prata, e da mesma dois Castiçais, ou siriais, p* o 
^ dará o AgJ^ a caldeyrinha velha q ha, etc. K 

Lá foi para o cadinho mais esta obra do Simão Ourívez, 
denominação por que o artista era conhecido entre os seus 
coevos. 



Além destas peças, que tenho enumerado, outras obras 
houve, de menor importância, feitas por Simão Ferreira, tais 
como: em 1594 o bordão do secretário da Universidade e os 
remates das varinhas dos bedéis, a que já fiz referência 3; 
uma píxide, que em 1595 lhe foi paga por 9$560 reis^; o 
concerto das maças da «apella, rematadas por uns anjos '", 
que foi executado em 1600^; os engastes de prata das varas 
do pálio da Confraria, em 1601 ', etc. 

É ao mesmo ourívez que devemos attribuír, com a máxima 
probabilidade, outras peças valiosas, de que nos dam conta 
os inventários e outros livros de escrituração sem consigna- 
rem o autor, mas que foram feitas quando Simão Ferreira 
era o ourívez da Universidade, devendo por isso ser obra sua. 
Ainda faremos referência a ellas nos seguintes parágraphos. 



^ Vesitação, t. 1, fll. 292 v.", e seg, 

2 Ibid., t. 2, fl. 17 v,« 

3 Vid pag. 108. 

* — «q se pague o custo do vaso de prata 

% asentarão q se pague a Simão fr" noue myl e quinhentos e se- 

sota rs q mota no custo da prata e ouro e fejtio do vaso q se fez 

p" administrar na cappella o s"»« sacram^o e q se pase m^o p» iso». 

(Fazenda, t. 3, 1. 1, fl. 88, assento da sessão 

da mesa a 4 mar. 1595). 

5 Inventario, t. 1, fl. 3. 

« Fazenda, t. 3, 1. 2, fl. 152. 

7 Confraria, t. 1, 1. 5, fl. 19. 



1^0 CAP. II — KDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



Dois thuríbulos e uma naveta. — Um destes thuríbulos 
foi mandado fazer pela confraria, em cujos inventários appa- 
recia desde 1597; mas, em sessão da mesa da fazenda de 31 de 
outubro de 1606, asentouse que em compHm^^ da vizitação pa- 
sada A capella em que esta m^ que aia dotis tribolos nella que 
se compre o da comfraria que ora se uende sem feitio por se 
emtemder que he maisproueito da v,^ que mandar fazer outro 
de nouo ^ A confraria desfazía-se delle, e de outros objectos 
de prata, para mandar fazer uma lâmpada pequena para o 
altar da Senhora da Luz, que não destoasse da da capella- 
mor. Realizou-se effectivamente o contrato. Vendeuse o turi- 
bolo da cõfraria a vA^ pello peso q pesou dez mil e duzentos 
e eincoenta rs ^. 

O outro thuríbulo fora mandado fazer pela Universidade, 
e esta proveniência diversa explica o facto de ser um delles 
dourado e outro não, embora fossem, assim como a naveta, 
do mesmo estilo mas de difrente feitio e desiguais na gran- 
deza, O inventário de 25 de julho de 1715 é o único. dos in- 
ventários, onde encontramos uns traços descritivos, que vou 
reproduzir. — Dois tribullos de prata hú sobredourado 
outro não e laurados com, escudos das Arraa^ Reais com 
suas cadeias e remates, —Húa Naveta de pratta com escudos 
doà armas Reais com sua culher de pratta e sua cadeja em 
húa caixa de coiro preto ^. 

No meado do século xviii, na épocha da grande febre de 
modernização dos objectos de prata, a 5 de maio de 1741, re- 
solveram os vesitadores : — Item por serem, de difrente feitio 
e desigtiais na grandeza os dois tributos qha, alem de serem 
mJo antigoSj nos pareeeo q se fizessem, dois novos do feitio 
mais moderno, p^ o q se dariam ao ourivez os antigos, pare- 
cendo asi7n a meza da fazenda. Declaro q mandamos fazer 



í Fazenda^ t. 3, 1. 3, fl. 96 v.o 

2 Confraria^ t. 1, 1. 7, fl. 3 v." 

3 Inventario, t. 1, fl. 37 v.<* 



AÍNDA MAIS OBRAS DE SIMÃO FKRREIRA 121 

OS d,os tribulos sem qp^ isso seja necessário dar conta alg^ á 
meza da fazenda^ nam excedendo esta despeza os vinte cruza- 
dosy q o statuto dá faculd,^ aos vizitadores p* dispenderem '. 
Esta declaração ou reconsideração faz-me suspeitar, que have- 
ria alguma opposição da mesa da fazenda à destruição dos 
antigos thuríbulos ; o que é porém certo é que elles foram 
sem demora derretidos, pois no inventário, logo em seguida à 
descrição delles acima reproduzida, e antes da da naveta, o 
dr. João de Sousa Araújo, desempenhando as vezes de secre- 
tário, na revisão feita a 26 de janeiro de 1742, lançou a nota 
seguinte : — em lugar destes dois tribullos se fizeram outros 
dois modernos e lavrados^ q nam dourados com suas caldei- 
rinhas de cobre ^ sam os q existem de q adiante se fará men- 
çam-, 

A naveta pouco sobreviveu aos thuríbulos. Na vesitação de 
10 de julho de 1742 mandou-se fazer huma naveta e três pares 
de galhetOÃ da moda, acrescentando- se : e p» ajuda destas 
peqoà de prata ^ mandamos fazer . . , se daram as ^ agora 
ha em. desconto ^, 



LÂMPADA DO ALTAR DE N. SeNHORA DA LUZ. — Fez-Se UO 

anno de 1606, pois que se encontra no livro da confraria re- 
lativo a este anno o seguinte apontamento lançado pelo mordo- 
mo : — Mandei fazer per ordem do Sõr R^or hua alapada de 
prata jo* o altar de Nossa Sõra da luz que pesou 21 marcos 
duas onças e húa outaua que cÕ feitio mõtou ao todo 66000^; 
e no inventário feito no anno seguinte lá encontramos men- 
cionada húa alampada de prata q importou sesenta e seis mil 
rs q se agora fez ^. 

Continua a apparecer nos inventários até ao século xviii. 



' Vesitação, t. 1, fl, 291 v." 

2, Inventario, t. 1, fl. 37 v." 

•* Vesitação, t. 1. fll. 292 v/>, e 293. 

^ Confraria, t. I, 1. 7, fl. 3 v.'* 

•• Ibid., 1. 9, fl, 2. 



122 CAP. II — KDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

Deve ter desapparecido na voragem da modernização das 
pratas. 



Castiçais. — Em 1600 mandou a confraria da Senhora da 
Luz fazer dois castiçais, que encontro pela primeira vez de- 
scritos no inventário de 1601 nos termos seguintes: — Dovs 
castiçais grandes de prata •. Sobre a sua origem encontro 
apenas dois assentos no livro de 1600, que pouco esclarecem. 
Ei-los : — Deu mais o Snôr Dom João "^ ao ourivez q fas os 
castiçais pêra a confraria trinta mil reis — 80000. — Deu 
mais o Snôr Dom João ao ourives que fes os castiçais seis 
mil reis do feitio — 6000 ^, 

Eram de certo obra do ourivez da Universidade Simão 
Ferreira, a quem a confraria mandava fazer toda a sua obra, 
mesmo a de somenos importância, como a dos engastes das 
varas do pálio feitos em 1601 ^. Sobre o valor destes castiçais 
nada se pode dizer, porque;, aquellas duas verbas apontadas 
não representam certamente a importância total da obra. 

Foram fundidos em 1741, para se fazerem quatro castiçais 
à moderna ^. 

Quando no primeiro de junho de 1605 o reformador e vesi- 
tador da Universidade D. Francisco de Bragança fez a vesita- 
ção à capella, mandou escrever no assento respectivo : — E 
porque achej que pêra o altar mor auia quatro castiçais de 
prata s, dous grandes q sam ia quebrados, e dous miãos. 
mando se facão seis de nouo, dous de prata dos grandes 
acrescentando lhe a que for necessária, e quatro mais pêra que 
possão fiquar no altar mor seis castiçaes, e os dous que sobei- 
jão pêra hu dos altares colateraes, porque o outro altar se 
serue com dous da Confraria, os quais castiçaes se- farão 
conforme ao debuxo que pêra isso estaá feito^, 

1 Confraria, 1. 5, fl. 2. 

2 D. João de Lencastre, mordomo neste anno. 

3 Confraria, t. 1, 1. 4, fl. 5. 

4 Ibid., 1. 5, fl. 19. 

& Vesitaçào, t. 1, íl. 292. 
6 Ibid., fl. 35 V." 



CASTIÇAIS 123 



Não é verosímil que se incumbisse desta obra outro ourí- 
vez, que não o da Universidade; o que ignoro porém é se ella 
chegou a realizar-se. 

Em 1624, quando já não existia Simão Ferreira, sam en- 
carregados de fazer quatro castiçais para a capella da Univer- 
sidade dois ourívez de Coimbra, João Roque, e António Fer- 
reira (que occupava o logar de official da Universidade desde 
a morte de Simão Ferreira), e dam-se a cada um delles dois 
castiçais velhos para lhes aproveitarem a prata. Seriam os 
mesmos castiçais que D. Francisco de Bragança queria sub- 
stituir ? Seriam dos que porventura para esta substituição já 
se tivessem feito de novo ? Acho mais verosímil a primeira 
hypóthese. 

Os quatro novos pesavam 72 marcos e meio, enquanto que 
os antigos tinham apenas 20 marcos e meia onça. Para a sua 
avaliação foram a 1 de junho encarregados o agente da Uni- 
versidade e o escrivão da fazenda de colherem informações 
do que se costumava dar pelo feitio de cada marco de prata, 
e partieularmM dos padres da companhia do que dera pellos 
seus, pellos quaes os da vJ^ se fizerão por serem do mesmo 
feitio; e do que aehassem dessem cota nesta mesaK Depois 
de feitas com todo o escrúpulo estas diligências, de que se 
lavrou registo minucioso, foram avaliados os novos castiçais 
em 235$227 reis, computando-se o marco de prata a 28600 reis, 
e arbitrando-se 680 reis de feitio por cada marco '. 

Estes castiçais não existem já. Os vesitadores a 7 de junho 
de 1704 notaram; — Achamos ter a capela mór som'^ quatro 
eastiçaes de prata grandes, e ser mais decente serem, seis, p" 
o ^ mandamos se facão mais dous, não havendo estatuto q 
taxaiivam^^ disponha deverem ser só quatro na d.^ Capela 
mór, porq havendo o tal estatuto em tal caso mandamos qos 
quatro ^se reformem fazendose ao moderno, e não havendo 
estatuto, se farão mais dous, p* o que se desfarão os quatro 
jt>^ q todos seis fiquem do mesmo feitio, e ao moderno ^. 

Não se tendo cumprido esta disposição, a 2 de fevereiro de 



1 Fazenda, t. 4, 1. 2, fl. 22 v/ 

2 Ibid., fl. 24, e 24 v." 

3 Vesitação, t. 1, fl. 228 v.» 



124 CAP. II —EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

1711 prescreveram os vesitadores : — Ordenamos que se mande 
fazer kiima Crux grd.'' Salamonica p" o altar mor; e asim 
mais p" o mesmo altar seis castissais de prata grd.^^ — Item 
Mandamos q se mandem vir de Lx,^ quatro jarras com qua- 
tro ramalhetes de pratta p* o altar major •. A 13 de dezem- 
bro de 1715 estranha-se não se ter ainda satisfeito esta ordem-, 
e a 25 de julho de 1716 insiste-se em que, visto haver provisão 
de Sua Mgd.^ se fassão logo os castissais de pratta ^. 

Para os altares laterais, a 13 de outubro de 1741, mandam- 
se fazer outto castiçais e duas cruzes d Salomonica, p* o ^ 
se daram os seis q ha da confraria e q se façam coatro *. 
Mais tarde, em vesitação de 1 de junho de 1751, recommen- 
da-se — Que se alimpe^n mJo bem a Cruz, e castiçais de prata, 
q se achão colocados no altar mor, mas por ourives, o qual 
os endireitara nas pM onde disso necessitão^; e a 28 de 
maio de 1752 acrescenta-se — Que se alimpem por ourivez os 
castiçais de prata dos altares calaterais; e— Que se desfaçam 
todos os castiçais de prata a7itigos, e se reduzam por lero- 
nymo Aff,"" a castiçais da moda^, E assim se fizeram os 
quatro castiçais, que faltavam, para cada um dos três altares 
ser adornado com seis castiçais de prata. 

Mas nas festas eram precisos, além daquelles, mais dois 
ciriais para os cerof erários ; os vesitadores mandaram-nos 
fazer a 23 de julho de 1752, ordenando ao agente que para 
elles, e para a caldeirinha e aspersório também encomenda- 
dos, entregasse a caldeirinha e a lâmpada antigas, e um outro 
pedaço de prata que havia ■. 

Assim se limpou a capella das pratas antigas, escapando 
as pouquíssimas que já conhecemos; mas em compensação o 
brilho e riqueza das cruzes à salomónica e das banquetas à 
moderna, bem como dos ciriais, que fazem suar os pequenos 



í Vesitação, t. 1, fl. 250 v." 

^ Ibid., fl. 259 V." 

3 Ibid., fl. 2G2. 

'» Ibid., fl. 292. 

5 Ibid., t. 2, fl. 15 V." 

í-' Ibid., fl. 17. 

' Ibid., fl. 27 y.» 



CALHETAS 125 



acólythos, que mal podem com elles, causam admiração aos 
fieis nos dias de solemnidade! 

E quem olha para aquellas monstruosidades de mau gosto, 
pode lá suspeitar, que nellas se encontre a mesma prata que 
já foi delicadamente rebatida e cinzelada por hábeis artistas, 
dando-lhe formas bellas e graciosas ! Que inconscientes van- 
dalismos ! 



Galhetas. — Vesitando o reitor a capella em 1557, notou 
que nella havia apenas uma só galheta de prata para as mis- 
sas; por isso em conselho dos deputados e conselheiros, a 
16 de outubro, se resolve q se troque hua galheta q anda soo 
<Sc se côprê duas *. 

Em 1597 havia na real capella um único par de galhetas de 
prata com o respectivo prato, mas pertenciam à confraria; 
deviam ser boas, pois se conservavam cuidadosamente res- 
guardadas em um estojo 2. Ignoro se seria obra recente, 
saída da officina de Simão Ferreira, se mais antiga. Desap- 
pareceram, ao que supponho, vítimas também da febre de 
derreter as peças antigas, para fazer outras à moderna. Em 
1674 já não existiam ^ 

Por não haver na capella outras galhetas de metal pre- 
cioso, pediam-se estas emprestadas à confraria, assim como 
o gomil e prato, quando havia festas da Universidade. Para 
obviar a esta falta, o reformador-vesitador D. Francisco de 
Bragança a 1 de junho de 1605 determinou :— JJfaTzdo que pêra 
o altarmor se facão duas galhettas de prata com hua salva, 
e hum gumil e prato dauga as mãos, por não auer nehúa 
destas couzas e seruirse de prata emprestada K 

Não se fizeram porém logo, e só a 8 de janeiro de 1608 é 
que a mesa da fazenda deu ordem para que se encomendas- 



1 Conselhos, t. 2, 1. 4, fl. 109 v." 

2 Confraria, t. 1, 1. 1, fl. 2; — ibid., 1. 2, fl 3. 

3 Inventario, t. 1, fl. 10. 

^ Vesitação, t. 1, fl. 35 v." 



126 CAP. II —EDIFÍCIO E OBJECTOS f^O CULTO 

sem ^ Demoráram-se ainda, sendo necessária nova e mais 
urgente requisição dos vesitadores, a 4 de dezembro deste 
último anno, para então virem as galhetas ~, resolvendo-se 
em mesa da fazenda, a 7 de fevereiro de 1609, q se posasse 
mandado pêra darem vinte mil rs ao p« António Soares ti- 
zoureiro da capella, pêra pagar os galhetas e prato de prata 
que mandou fazer pêra a capella eõforme a visitação 3. 

Já então era fallecido Simão Ferreira ; devem ter sido feitas 
pelo ourívez da Universidade António Ferreira, seu successor. 

Que destino tiveram? Vamos vê-lo. 

Notando-se na vesitação de 24 de outubro de 1690, que na 
capella não estavam nenhumas galhetas de prata, que aliás 
eram necessárias, preguntou-se, o que era feito das que havia ? 
A resposta foi que as tais galhetas estauão ha muyto tempo 
em caza do Ourives. Os vesitadores mandaram que as galhetas 
se procurem logo concertadas, pêra não hauer falta no ser- 
uiço da Igreja K Nos annos seguintes não temos notícia de 
tais objectos, até que, no assento da vesitação de 28 de março 
de 1703, encontramos a seguinte referência: —Por ser notoriOj 
e sem duvida q as galhettas de prata com seu prato padece- 
rão naufrágio na mão do official de ourives desta Vnid,^ por 
quebrar^ e estar attualmM homisiado, sem speranças de tão 
cedo se restaurarem as dM galhettaSy mandamos q logo se 
facão húas galhettas de prata com seu prato na mesma for- 
ma qas antigas, p^ qnão haja notta nas galhettas indecentes y 
q em lugar das de prata estão servindo ^. A mesma reco- 
mendação foi repetida em vesitação de 13 de julho seguinte ^ 

Ficamos pois sabendo, que estas galhetas não foram der- 
retidas para se fazerem outras à moderna^ como succedeu à 
maior parte das alfaias de prata antigas; pelo contrário, 
ellas padeceram, naufrágio na mão do ourivez. 

As galhetas, que por esta êpocha se fizeram em substitui- 
ção das anteriores, também não existem; foram fundidas em 

» Fazenda, t. 3, 1. 3, fl. 122 v.° 

2 Vesitação, t. 1, fl. 47. 

a Fazenda, t. 3, 1. 3, fl. 146. 

♦ Vesitação, t. 1, fl. 175. 

& Ibid., k. 218. 

'•• Ibid., fl. 219 Y.o 



CRUZ PROCESSIONAL 127 



1742 1, por occasião de se fazerem os três pares de galhetas 
novas com os respectivos pratos 2, que sam as que ainda hoje 
existem. 



Cruz processional. — Havendo na real capella um corpo 
collegial de capellães, que tinha de desempenhar funções 
litúrgicas, em que a cruz processional é exigida, não podia 
deixar de existir este objecto do culto. 

Havia effecti vãmente uma cruz processional na capella, e 
a confraria da Senhora da Luz tinha outra. Ambas eram de 
prata dourada. Nos inventários antigos da confraria appare- 
ce-nos descrita húa cruz grande de prata toda dourada com 
sua caixa; nos da capella — Húa crux de prata sobre-dou- 
rada com sua aste de canudos de prata laurada, q vai noà 
procissões com sua caixa de couro preto, 

A cruz processional da confraria não sei que naufrágio 
padeceu; é certo que já não apparece descrita no inventário 
de 1674 K 

Quanto porém à da capella é-lhe feita uma referência 
no assento da vesitação de 24 de julho de 1744, que diz; — 
Também ordenamos se mande fazer Mia crv^ de prata á 
mudema p* hir nas procissões da capella como a q ha no 
Rial mosteiro de Santa Crucie, por acharmos q a ^ ha está 
toda desatarrachada, e por mM antiguação (não) meresse 
consertto e q a prata desta se de p^ se fazer a nova '*. 

Não teve porém execução ainda desta vez a ordem de des- 
truição da antiga cruz, porque foi suspensa na vesitação 
immediata, a 23 de dezembro de 1744: — PrimeiramM orde- 
namos j q supposto na vesita antecedente se ter determinadoy 
se mandasse fazer huma crux de prata á mudema p* hir 
nas procissõis da capella, por informaçam ^ entam houve, 



1 Vesitação, t. 1, fl. 293. 

2 Ibid., fl. 292 v.° 

5 Inventario^ t. 1, fl. 10. 
4 Vesitação, t. 2, fl. 5. 



128 



CAP II. — edifício e objectos do culto 



de qaqha estava ineapas de servir con decência, visto nam se 
ter athe qui mJ^ fazer a outra, se suspenda essa delig,^<^ e 
se mande logo consertar a q ha p.^ servir como athe gora 
sérvio ^ 

Esta suspensão deu ainda mais dez annos de existência à 
antiga cruz processional. Mas estava determinado pelos fados, 

que também esta 
alfaia desapareceria 
na voragem do ca- 
dinho, como suce- 
dera a tantos e tam 
importantes obje- 
ctos de valor artís- 
tico e archeológico. 
Na vesita feita à ca- 
pella a 30 de março 
de 1754 determinou- 
se que se fassa hu- 
ma nova cruz p^ o 
uso das procissÕiSy 
p^ que fundirá a 
que seruia para as 
mesmas '^, 

Fez-se então a 
elegante e bem de- 
senhada cruz actual, 
cuja perfeita execu- 
ção rivaliza com a 
da custódia, que 
é exactamente da 
mesma épocha.Esta 
nova cruz adaptou- 

Cruz processional (sec.xv,.i) ^^ ^ ^^^^ j^^^^^ .^ 

existente, que deve ser dos fins do século xvii. É toda 
dourada. 




1 Vesitaçãn, t. 2, fl. ô v.« 

2 Ibid. fl. 20. 



129 



Sacrário. — Não tenho dúvida em o enfileirar na classe 
dos trabalhos de ourivezaria, embora não seja de ouro nem 
de prata, mas de cobre reba- 
tido e cinzelado, e depois dou- 
rado. 

Tem a forma de uma torre 
ou castello, em dois corpos 
sobrepostos, e rematado por 
uma espécie de coroa. 

Infelizmente faltam-lhe al- 
gumas estatuetas, que se per- 
deram. 

Quando e por quem foi 
fabricado? donde veiu para 
a capella da Universidade? 
Sam problemas, que os do- 
cumentos por mim vistos até 
hoje não esclarecem. O es- 
tilo diz ser obra do século xvi, 
ou talvez do princípio do 

XVII. 

As suas linhas sam bellas 
e elegantes; é, sem dúvida, 
um dos objectos de valor ar- 
tístico, que a real capella pos- 
sue. O remate, que o coroa, 
desafina um pouco, do resto 

do notável sacrário. Sacrário de bronze dourado (sec. xvi ?) 




B) Paramentos e tapeçarias 



No século XVI era muito pobre de paramentos a real 
capell*!. 

Em 1557, vinte annos depois de se ter a Universidade in- 



130 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

stalado nos paços reais, ainda a penúria era grande, porque 
os antigos ornamentos da capella real estavam muj danifi- 
cados, chegando-se a ponto de casi não aver o neçesario p,* 
seruiço delia, Resolveu-se por isso em conselho retirar das 
rendas da Universidade o sufficiente para adquirir uns objec- 
tos de uso indispensável, de $ p^ Remédio era neçesario pro- 
uersef . . . por quanto auia muj^o grande falta de vestim^<^^ e 
das mais cousas do seruiço da dita Capella K 



1 «Aos dezeseis dias do mes doutubro de j y'^ !•» òs. sete anos na 
cidade de Coimbra e casa dos paços dei Rei noso Sor onde se faz o 
Cõselho da vnirersi/'*' sendo hi presente o sôr dõ M*' de meneses 
Reitor e os deputados e cõselli'""" juntos e chamados a cõselho & 
cõselho faz*^<* segundo seu costume ... — visitaçam da Capella — no 
dito cõselho Referio elle Sõr Reitor q por os ornami^s ^ cousas do 
seruiço da Capella estarem muj danificados e casi nâo aver o ne- 
çesario p.* seruiço delia a visitara e achara q p» Remédio era ne- 
çesario prouerse do seguinte 

— hu couado de tafetá carmesim singello p* se fazere os san- 
guinhos q nelle ouuer por quanto os de lenço se çujam muj. to e nâo 
se podem bem lavar 

— hua caixa p" ostias 

— vara e meia de pano de linho p* dous amitos p" seruirè quando 
se os outros lauarê. 

— q se troque hua galheta q anda soo óc se cõprd duas 

— q se cõpre duas varas de pano de linho p" panos de calizes 

— hu cordam de linhas p* as vestim.tas 

— vara óc meia destopa p" forrar três pedras dará 

— duas varas de linho p» se fazere três panos de mãos. 

— q se cõprase hua fechadura p* a arca de pao q esta na Capella 

— q se cõpre hua vestim.ií^ de chamelote preto cõ sauastro de 
cetim preto p'feita 

— hu frontal do mesmo 

— hua vestim.ta de damasco carmezim cô savastro de velludo da 
mesma cor perfeita 

— híi frontal do mesmo. 

— hua caixa p" o Caliz da Capella de sam miguei q não he da 
Yniversi.*^^ 



PARAMENTOS E TAPEÇARIAS NO SÉCULO XVI 131 

Encommendou-se de Madrid, no anno de 1595, por ordem 
do bispo capellão-mór de sua majestade, um rico ornamento, 
sendo passados em fevereiro de 1596 dois mandados, na im- 
portância de 1628960 reis, para satisfazer o seu custo * ; mas 
esta acquisição occorreu apenas numa pequena parte às ne- 
cessidades que havia, segundo se pode ver dos inventários 
insertos nos livros da confraria, e dos termos das vesitações. 



— hua lenterna 

— q se forre os altares de taboado p" se pregarè os frontaes 

— hus estrados p* os pés 

q visem suas m'ces se lhe parecia bem conprarê se as ditas 
cousas a custa das Rendas da vnircrsi/*® ate vir a prouisam q na 
Reformaçam dos estatutos era feita sobre a dita capella, e a todos 
pareçeo bem e asentarao q elle Sor Reitor o mandase prouer asi 
como no Rol se cotem e sendo mais algua cousa neçesaria p" ser- 
uiço da dita Capella o mandase cõprar por quanto auia mujio grande 
falta de vestim.'»'* e das mais cousas do seruiço da dita Capella. E 
q quando os estatutos Reformados viesê se proueria no mais q p*^ 
elles ou p' prouisam dei Rei noso Sõr se ordenase E asentouse q 
tudo ho q se gastase nas ditas cousas p"^ ordenança delle Sõr Reitor 
se leue em cota pellos cõtadores da \niversi.*^^ dj" daz'''* o escreui». 
{Conselhos, t. 2, 1. 4, fll. 108, 109 v.« e seg.). 

1 «^ por conta do ornamio 

O padre Joào Corrêa Rector do Collegio da Companhia se passou 
mandado pêra felipe Lopez prebend/» lhe pagar dous mil ót seis 
centos setenta e oito Reales por outros tantos q em Madrid deu o 
padre Baltezar Barreira ao d'"'' Rui Lopez da Veiga pêra o orna- 
m^o q por ordem do Snor Capellâo mor se faz pêra a capella da V/'^ 
por m.'^" a xij. de feu/" de 96. Ant." de Barr.*" o escreui». — (A mar- 
gem:) - 107|íl20. — {Receita e despesa, 1595-96, fl. 47 v.«). 

^ por cota do ornam'o 

O d.'or Manoel Rõiz Nauarro se lhe passou m."'" pêra felipe 
Lopez prebend.""" lhe pagar mil & trezentos & nouenta òl seis reales 
por outros tantos q mandou dar & se derâo por sua conta em Ma- 
drid ao d.ior Ruy Lopez da Veiga pêra o ornam. 'o & a letra assinada 
pelo d'f^r Rui Lopez vai acostada ao ra."i« feito a 22. de feu.""" de 96. 
e q monta cincoèta & cinco mil oitocentos òl quarenta rs. Ant." de 
Barr.* o escreui;. — (Ibid., fl. 48 v."j. 



132 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CUl.TO 

Inventários das alfaias da capella não temos anteriormente a 
1664, embora em várias vesitações mais antigas se ordene 
terminantemente que se façam '. Houve-os, sem dúvida, e 
a elles se encontram referências várias ; mas não chegaram 
até nós, provavelmente por se inutilizar o inventário antigo, 
quando se fazia um novo, que era cuidadosamente guardado 
na secretaria da^ Universidade até ser substituído ^, 

Sabe-se entretanto que havia alguns ornamentos de valor, 
tais como Hú pálio de veludo Caiinezly franiado de ouro, e 
Hú pano de veludo Carmezi goarnecido de renda de ouro 
aonde se leua a Relíquia ^ os quais serviam nas procissões 
que a Universidade fazia, sendo nellas levada uma relíquia do 
santo Lenho, a que corresponde aquella cor litúrgica. 

Havia também um rico pálio de veludo de cor preta e 
ouro, que servia na procissão de sexta feira santa, com o veu 
umeral roxo para o celebrante, segundo as regras litúrgicas, 
em uso naquelle tempo '^^ 

» Vesitacàn, t. 1, fll. 90, 93, 122 v.°, etc. 

2 Ibid., fll. 93, 122 v.«, etc. 

3 Confraria, t. 1, 1. 1, fl. 2. 

* A respeito da acquisição deste pálio, encontro os seguintes 
assentos : 

— «xbiíj" ijc rs ao syrgi'<> p" o paleo 

^; apresentou o agi** hn Rol d anf* da mota syrgro das franjas 

douro e preto e cordões p" o paleo preto das endoenças da cappella 

e q monta dezoito myl e dozif^s rs mandarão pasar m^o pa geríf pagos». 

(Fazenda, t. H, 1. 1, fl. 87, sessão da mesa a 

28 fev. 1.^^95). 

— «q se pague o velludo p" o paleo e out^s cousas 

^ asòtarão q se paguò e í^tregue a fr^-'^ de Rezende qtorze myl 

e quinhentos rs de qtorze couados e m? de velludo preto p^ o paleo 

da cappella 



•^ a tomas Rqjz mercador vjnteseis myl bjc rs de damasco verde, 
e franjas e outras cousas q deu p^ o paleo, e p" o de pojares como 
se vjo pllos Rolles destas cotias e mandara q nas costas delles se 
pasè os m.dos». 

(Ibid., fl. 88, a 4 mar. 1595). 



PARAMENTOS E TAPEÇARIAS NOS 8EC. XVI E XVII 133 

A confraria tinha paramentos brancos, e outros azuis para 
a missa de Nossa Senhora que aos domingos celebrava no seu 
altar * ; e ricas vestes de brocado, e de damasco apassama- 
nado de ouro fino, para a imagem da sua padroeira, enquanto 
esta foi de vestir-; e depois que se substituiu, no fim do 
século XVI, por uma imagem de escultura pintada, não deixou 
de se lhe lançar sobre os ombros um manto, que variava 
segundo as cores litúrgicas das solemnidades, havendo a 
princípio apenas dois modestos de tafetá, um roxo e outro 
branco ^, e adquirindo-se mais tarde outros melhores, de 
todas as cores litúrgicas *. Um delles era de tella branca 
dobrada eom palheta de ouro com estrema de prata q distou 
coarenta e dous mil reis'*. No meado do século xvii adqui- 
rira-se também um manto de damasco amarelo laurado de 
azul, forrado de tafetá azul cÕ seu esgoruião de prata fina^. 
Ainda hoje existe um manto desta imagem, de riquíssimo 
brocado vermelho, em excellente estado de conservação; 
acha-se depositado no museu do Instituto de Coimbra. 

Mas tudo o que havia, no tempo a que acima me reportava, 
era muito pouco, e as faltas eram grandes. No assento da mesa 
da fazenda de 12 de novembro de 1594, deixou-se registado 
que propôs o s<"' Reytor como visytando a capella desta vni- 
uersidade elle e o m^o R^o pe m^« frej Anto de são Ds acharão 
q se detie p*uer de m<«s covãoã necessárias "'. 



Pouco a pouco fôram-se adquirindo as alfaias precisas; e 
para conseguirem ir substituindo algumas que havia, pobres 



• Confraria, t. 1, 1. 1, fl. 2; — ibid. 1. 2, fl. 3. 

2 Ibid., 1. 2, fl. 3;— 1. 3, fl. 36 V.» 

3 Ibid., 1. 5, fl. 2 v.» 

♦ «Quatro mantos da Snõra hu branco, outro uerde outro roxo 
outro cramesim». — (Ibid., t. 2, 1. 1, fl. 2). 

» Inventario, t. 1, fl. 10 v." 

6 Confraria, t. 2, 1. 9, fl. 3 v."; e 1. 12, fl. 2. 

■í Fazenda, t. 3, 1. 1, fl. 74. 



184 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



OU pouco decentes, por outras boas, resolveram os vesitadores 
a 26 de janeiro de 1601 qvs quando a V^e ouuer de prouer 
algúa de suas Igrejias de ornamentos nouos, se lhes dem 
algús comús qus aja em esta Capella, os quaes pêra este lugar 
não sam tam competentes, e pêra os outros bastariam^ e qu-e 
em lugar destes se façam, outros milhores pêra a dita Capei- 
laK 

Em conformidade com esta deliberação, na vesita de 20 de 
dezembro de 1602 mandam-se fazer três vestimentas de Da- 
masco branco com sanefas (sebastos) de tella, e mais três 
vestimentas de Damasco verde, três de Damasco cramezim, 
três de Damasco roxo, todas com sanefas de veludo das mes- 
mas cores, e ainda mais outras tantas vestimentas em cada 
húa destas cores de chamalote de seda, com sanefas de Da- 
masco da mesma côr; ordenando-se por fim qtie das vestimen- 
tas uzadas que destas cores tem a Capella, que sam poucas e 
mal tratadas, se desfaça pêra uzo das outras Igreijas que a 
VJ^ tem 2. 



Ha várias e frequentes notas de outras acquisições de pa- 
ramentos, frontais etc, que, por não offerecerem interesse, me 
abstenho de referir. Não devo porém deixar de consignar a 
ordem exarada na vesitação de 1 de junho de 1605 : qu£se com- 
prem as alcatifas necessárias pêra o altar mor, que serão de 
Castella ou de veneza *. 

Em 1636 mandaram-se fazer ricos paramentos brancos e 
vermelhos, que importaram em 373$415 reis ^ 

Nenhum destes paramentos existe já. 



1 Vesitação, t. 1, fll. 15 v.^, e 16. 

2 Ibid., fl. 20. 

3 Ibid., fl. 35. 

* Encontrámos a conta minucio&a do custo destes paramentos, 
que é interessante. Ei-la: 

«A 31. de mayo de 636. em mesa 

= fas pellos custos, e gastos do nouo ornamento que se fes 

p" a capella da v.*^® 



PARAMENTOS DO SÉCULO XVII 135 



Remontam a esta mesma épocha, pouco mais ou menos, 
alguns paramentos dos mais antigos que a real capella pos- 



^ Comprousse em lisboa sincoenta couados e m » de tella branca 
Alchachofrada, a dous mil e cem rs' o couado que monta em 
todos cento e seis mil e sincoenta rs* (106|>050) 

^ Vjnte e dous couados de tella cramesim q a Reza de dous mil e 
duzentos rs* o couado monta quarenta e oito mil e quatrocentos 
rs' ((M8|;400) 

^ Vjnte couados de lama branca a mil rs' o couado soma vjnte 
mil rs' (020|;000) 

^ quarenta couados de bocaxim Amarelo a cem rs' o couado soma 
quatro mil rs' (OOijíOOO) 

E assim somão estas quoatro addições a<^ima cento e setenta 
e oito mil e quoatro centos e sincoenta rs* que . . . asentou atras 
a folhas duzentas verso se mâdarã leuar em couta ao p'uoste 
gregorio dias Ramalho, por os a ver mandado pagar em lisboa 
por seu cunhado gaspar pacheco; e se lhe pasou mandado co- 
Rente p* se lhe leuarem em conta — Diz entrelinha — verso — 

= segensse os mais gastos deste ornamento 
^ fizerãsse de toda esta aedaçima as peças seguintes, a saber, 

— hua vestimenta de tella branca Alcachofrada cÕ sabastros de 
tella cramesim, e foRo de bocaxim, e sobrefoRo de tafetá ama- 
rello tostado com estola hu maniplo, e duas Almaticas da mesma 
sorte CÕ sua estola, capellos e maniplos, com seus cordões 

— fesse mais hu frontal p* o Altar mor da mesma sorte, com 
sua frontaleira, e ilhargas de tella cramesim 

— fesse mais hua capa da mesma tela branca com capello e 
baRas de tella cramesim, e foRo de bocaxim e sobrefoRo de 
tafata, da mesma sorte 

— fesse mais hu pano de pulpeto cô suas baRas de tella cra- 
mesim da mesma sorte 

— Mais híi pano destaute grande da me^ma sorte cô baRas 
de tella cramesim 



136 CAP. II— EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

sue, e que se encontram em excellente estado de conservação ; 
mas não tenho podido descobrir nenhuma referência à sua 
compra. 



— Mais hu pano pequeno p" a estante do Altar, cõ baRas de 
tella cramesim e sobrefoRo de tafetá amarello 

— Mais hua manga p* a cruz da mesma sorte cõ baRas de 
tella cramesim, e sobrefoRo de tafetá amarelo 

= Dos vjnte couados de lama se fizera as obras seguintes : 

— Duas vestimentas p." os Altares colaterais, com sabastros 
de tella branca Alcachofrada, cõ suas estolas, e maniplos fo- 
Rados de bocaxim e sobrefoRo de tafetá amarelo 

— Dous frontaes dos Altares colaterais, com suas frontaleiras 
e ilhargas de tella branca Alcachofrada, e o mesmo foRo 

— Dous panos pequenos dos ditos Altares da mesma sorte 

= E alem dos cento e setenta e oito mil e quoatro centos e 
sjncoenta rs' que atras ficão que custou a tella e lamas e 
bocaxim, se fizerao mais as despesas seguintes p" o dito 
ornamêto 
^ comprarâse no porto onze maços de ouro, p.* as franjas e obras 

do dito ornamèto todo, que custou cada maço seis mil e quj- 

nhentos rs' em que mõtaô setenta e hu mil e quinhentos rs*- 

(071|;500) 
^ comprousse mais nesta cidade hu maço de ouro, por sete mil e 

duzentos rs' (007|200J 
% mais se comprarão duas meadas e mea de ouro, que pezarâo qujnze 

oit^uas que custarão mil e quinhentos rs' (OíUjSõOO) 

Soma estas três addições do ouro que se comprou oitenta 
mil e duzentos rs' que se pagarão ao sirgr.'» Manoel de oli- 
veira. 

^ comprarãsse mais ao dito sirgr/* sesenta e dous couados de ta- 
fetá amarelo tostado, de que se foRou ho dito ornamento, que 
a Reza de duzentos rs' o couado, mõtara, doze mil e quoatro 
centos rs' (012^00) 

^i pezou toda a franja, cordões e borlas e alamarcs, em que se gas- 
tara os onze maços que vjerão do porto cento e nouenta e sete 
ouças e m.*", de que descontando nouenta e noue onças, do» 



PARAMENTOS AÍNDA EXISTENTES DO SÉCULO XVII la7 

Estes paramentos sam : 

— Uma casula de veludo vermelho, com os sebastos borda- 
dos a ouro com bastante relevo, bello e rico exemplar, que foi 



emchumes dos onze maços de ouro, e quoatro onças dos en- 
chumes das borolas, fiquíto nouenta e quoatro onças e m.^ de 
Retrós que a Rezâo de duzentos e sincoenta rs' por onça so- 
mâo vjnte e três mil e quinhentos rs^ (023|Í500) 

^ custou o feitio das franjas borolas e lamares, a saber de deza- 
sete varas de franja larga emRedada de ouro, a Reza de tre- 
zentos rs* por vara, soma sjneo mil e cem rs' (OOõjíílOO) 

% de cento e quarenta e sete varas de franja de baRinha, a sjn- 
coenta rs* por vara soma este feitio sete mil e trezentos rs' 
(07|;300) 

% de feitio de cento e quarenta e três varas de franja de Roda, a 
setenta rs* por vara, soma oito mil e quinhentos e oitenta rs* 
(0811580) 

^ de vjnte e dous alamares grandes e quoatro pequenos de feitio 
três mil rs* (03,^000) 

^ das sjnco tranças e as duas borolas dos maniplos de feitio mil 
rs* (01|;000) 

% das duas borolas dos capellos das Almaticas seis centos rs* de 
teitio (00|;600) 

^ de feitio e Retrós e perilhos cõ que guoarneçeo três bolças p.* 
hos corporaes seis centos rs* (00ií>600) 

^ de três pastas p.* as bolças dos corporaes sesenta rs* (00|060) 

^í de vjnte varas de listão branco a sjncoenta e sjnco rs* a vara 
soma mil e cem rs* (OI5JKIOO) 

% pezarão duas varas e m." de franjão de ouro emRedado, e sjnco 
varas e mea de ba Rinha p.* a maga da crus, dez onças e sjnco 
oitauas e mea; 

% pezarão três varas de franja larga p.^ os três panos das estantes 
sete onças e sinco oitauas, que asjm a manga como estes três 
panos, leuarâ o maço de ouro e duas meadas e m." que aquy s*». 
comprara pello preço asjma dito ; e descontando onze onças dos 
emchumes deste ouro, e três oytauas e m.« do listão que se 
pregou no franjão, ficâo sete onças de Retrós, que a duzentos 
e sjncoenta rs' por onça soma mil e sete centos e sincoenta rs* 
(0U750) 
18 



138 CAP. 11 — edifício e objectos do culto 

restaurado em 1903, substituindo-se-lhe então os primitivos 
galões de cobre dourado já muito enegrecidos, por outros. 



% deu o dito sirgr." três varas e quoarta de fita larga p.*» os três 
panos das estantes a trinta e sjnco rs' a vara, soma cento e 
dez rs^ (0,^110) 

% mais duas varas de listão p.* o franjâo da manga da crus, a sin- 
coenta e sjnco rs' por vara soma cento e dez rs' (O^JÍllOj 

% de feitio das sinco varas e m.* de baRinha a sincoenta rs' por 
vara soma duzentos e setenta e sjnco rs' (Oií>275) 

% das cinco varas e m." de franja larga e franjao de feitio a tre- 
zentos rs' por vara soma mil e seis centos e sjncoenta rs^ 
(U6Õ0) 

^ do cordão que o dito sirgr.** fes p* a mangua da crus cento e 
sjncoenta rs' (Oil^lòO) 

= Ate aquy he a cota do que se despendeo com o sirgr.** — 
segesse os feitios dos Alfaiates 
A m*' da costa 

•1 de feitio das duas vestimentas que fez da lama com sabastros e 
baRa de tella branca Alcachofrada, e estolas, e maniplos, e 
foRo de bocaxim, e sobrefoRo de tafetá dous mil rs (2jíi000) 

% mais ao dito m®' da costa de feitjo de dous frontaes, p.» os Alta- 
res colaterais cõ frontaleiras e baRas de tella branca Alca- 
chofrada e foRados de bocaxim mil e seis centos rs' (1|>600) 
Conta do outro Alfayate o palhao 

^1 comprou quare digo trinta e sjnco couados de bocaxim amarelo 
nesta cidade alem do q se comprou em lisboa que custou cada 
couado cento e vjnte rs' soma quoatro mil e duzentos rs' e foy 
p.« foRar o ornamento (4|)200) 

% comprou m.* onça de passamane de ouro fino p." as cruses das 
estolas e maniplos por trezentos e v^e rs' (0ií>320) 

% leuou de feitio das duas Almaticas e Capellos, e estola e mani- 
plos foRados de bocaxim e sobrefoRados de tafetá dous mil 
rs' (2|;000) 

^ de feitio da vestimenta do Altar mor de tella branca Alcacho- 
frada cõ sabastros de tella cramesim foRada de bocaxim e 
sobrefoRada de tafetá mil rs' (1|)0(X)) 

% de feitio da capa de tela branca Alcachofrada cõ sabastros ba- 



PARAMENTOS AÍNDA EXISTENTES DO SÉCULO XVII 139 

também antigos, de prata dourada, que harmonizam perfeita- 
mente com a bordadura dos sebastos. (Vid. fig. na p, seg,). 



Ra e capello de tella cramesjm e foRo da mesma sorte mil e 

duzentos rs' (1|;200) 
^ leuou de feitio do pano do pulpeto cõ baRas foRo seis centos rs' 

(0|;600) 
^ leuou de feitio dos três pequenos das estantes dos Altares seis 

centos rs' (0|;6(X)) 
^1 de feitio do pano grande da estate seis centos rs* (0|i600) 
^! leuou do feitio do frontal do Altar mor de tella branca e fron- 

taleira e jlhargas e baRas de tella cramezjm mil e duzentos 

rs* (1|;20Ò) 
% leuou de feitjo da manga da crus de tella br"^", e baRas de tella 

cramesjm seis centos rs* (Oj^GOO) 

Soma a despeza do Alfajate o palhão doze mil e trezentos e 
vjnte rs* (12ijf;320^ 

% Mais qujnze couados de baeta branca q comprou o padre Ant.* 
Soares thr.<* p" se meter emtre as tellas deste ornamento a 
duzentos rs* o couado mõtã três mil rs* (3|J000) 
% mais sete couados de bocaxim m"* vsado cõ q se foRou hua Roca 
p." emRolar o pano das exéquias a sesenta rs' montousse nelles 
quoatro centos e vinte rs* (O5JK42O) 
^ de porte do caixão em que vierâo as tellas de lisboa quoatro 

centos rs* (OjíéOO) 
% os caixões p.* este ornamento e frontaes, custarão asim de ma- 
deira, como feRagem, e aos offiçiaes vjnte e três mil e quoatro 
centos e vjnte rs* (23|;420) 

Soma toda a despeza acima e atras declarada, que se fez cõ 
o dito ornamento, caixões e mais gastos, como atras vão 
lançadas trezentos, e setenta e três mil e quoatro centos e 
qujnze Res e tantos se lançâo aquy da dita despeza p." a 
todo o tempo constar (373iJK415). 

Dom Alu--^ da Cia R"»" 
Frej André de si<^ thomas Di" mendes Gd** 

(Fazenda, t. 4, 1. 2, fll. 203-206). 



140 



CAP, 11 — EDFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



— Duas dalmáticas de veludo vermelho, com os sebastos 
de bello brocado de ouro, galões de cobre dourado. 

-- Uma casula, 

duas dalmáticas e 
um pluvial de da- 
masco verde, com 
sebastos e capello 
de brocatel verde 
e amarello, galões 
de retrós ; bellos pa- 
drões de damasco 
e brocatel. 

Também restam 
deste tempo duas 
soberbas cobertas 
de veludo adamas- 
cado italiano com 
galões de ouro, ma- 
gnificamente con- 
servadas; e algu- 
maspequenaspeças 
e retalhos de bro- 
cados vermelhos, 
que se acham em de- 
pósito no museu de 
antiguidades do In- 
stituto de Coimbra. 




Casula de veludo vermelho bordada a ouro (séc. xvii) 



Nesse tempo ainda não havia os ornamentos necessários 
para a decoração da capella nas solemnidades principais; a 
Universidade tinha um armador contratado, que nas festivi- 
dades académicas vinha armar a capella, as salas dos actos 
das diversas faculdades, e a igreja de Santa Cruz, onde quer 
que essas solemnidades se realizassem, fornecendo elle as sedas 
e alcatifas para isso necessárias. 

Foi armador da Universidade Nicolau de Carvalho,, o no- 
tável impressor desta cidade; e succedeu-lhe naquelle mister 
seu filho Manuel de Carvalho, também impressor bem conhe- 



ARMAÇÃO DA CAPELLA NO SÉCULO XVII 141 

eido. Isto consta da escritura de contrato lavrada a 18 de 
dezembro de 1648. Por este contrato é Manuel de Carva- 
lho, armador e emprensory nomeado armador da Universi- 
dade, obrigundose o dito M^ carvalho a ter tanta seda 
pronta e alcatifas quanta baste p" em hum mesmo tempo se 
fazerem autos em a saÀla geral de theolegia e medesina exzam^ 
priuado e auto em santa cruz e obrigandose outro si a 
armar a capella mor da V^^ em as emdoenças de cada hum 
anno cõ três tansos de panos de seda de húa e outra parte 
desdo canto da porta da samcr estia ^ ate o altar mor e ar- 
mando o dosei da vJ'' em seu lugar; e em seguida sam in- 
dicadas as armações que é obrigado a fazer nas differentes 
solemnidades, as propinas que lhe ficam pertencendo, e as 
restantes cláusulas do contrato, concedendo-se-lhe lisença p* 
q do dito off,"" de armador q foi de seu pai nicolau carualho 
€ em que elle continuou desde o tempo de sua morte te o pre- 
sente posa fazer renunsiasão em sua vida ou nomearão ate 
ora de sua morte p* o q a V^^ fará comselho e nelle lhe dará a 
dita lisença na forma costumada *^, 

As alfaias necessárias para a armação e decoração da ca- 
pella nas solemnidades fôram-se adquirindo pouco a pouco. 
Assim é que, em vesita de 15 de janeiro de 1698 se determinou: 
Mandam.os q se compre hum, pano^ que sirva de Cortina na 
porta da Capella em 5." fr* Maior ^ por não ser justo q /?* 
isso se peça emprestado '; — na de 6 de julho de 1701: Man- 
damos q se compre hua alcatifa das q se fabricão em Arrayo- 
los p* a Capella maior q cubra todo opavimJ» delia, p^ servir 
nas festas mais solemnes^; - a 25 de julho de 1716: Manda- 
mos q se comprem, três alcatifas duas p" os dous altares e 
huma p* debaxoda Cads^ do Prellado'*; — em 31 de julho de 
17Ò0: q se facão dois panos novos p* as portas prinsipais^, etc. 



^ Que então ficava junto do arco cruzeiro, como noutro logar 
fica dito (p. 82j, 

2 Escrituras^ t. 26, 1. 2, fl. 74, 
5 Vesitaçãoj t 1, fl, 201, 
4 Ibid., fl, 213. 
^ Ibid., fl. 262 v.o 
« Ibid., t. 2, fl. 14 v." 



U2 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 



Para os concertos dos paramentos que havia, também a 
Universidade tinha um sirgueiro privativo, como se pode ver 
de uma escritura de 21 de fevereiro de 1650, na qual Manuel 
da Costa sirgeiro e morador em Coimbra se obriga a fazer 
todos 08 consertos das obrais da samcrestia da dita V,^ no 
tocante a seu off.'' sem por iso leuar d V^^ nem pedir cousa 
algua peitos ditos consertos nê estipendio algum de suxis 
mãos fazendo lhe a V^^ mercê de o auer por perueligiado 
delia e som^^ lhe pagara a V^^ o que fizer de nouo franias e 
mais cotísas necessárias p^ asditoà obrOrS da dita capella *. 



Em 1703 mandaram-se fazer uns paramentos brancos, 
muito ricos e preciosos -, para servirem apenas nas quatro 
festas principais da capella em que celebrava o prelado uni- 
versitário, e eram a de 5,* fr,* mayor, dos Reis, das CandeyaSy 
e do S, Miguel^; e em 1704 mandou-se adquirir hum Palio 
Branco de Telia de Ramos de Ouro ligeira, p* q digua com 
o Ornamento RicOy e possa seruir na função de 5.» fr,^ mór, 
e nas mais q se offereçerem, o qual será p^ seruir nas seis va- 
ras de prata, e será franjado com franja ligeira ou com 
rendalho de ouro, e com os cordões e Borlas q se costumão 
também ligeiras^. 

Destes paramentos ricos ainda hoje existem os principais^ 
e em regular estado de conservação, sendo os que actualmente 
servem nas maiores solemnidades. Sam: uma casula, duas 
dalmáticas e três frontais dos altares, de bello brocado branco 
precioso. O pálio, que era de tela de prata com ramos tecidos 
de ouro, foi, ha muitos annos^ desmanchado, mas também a 



1 Escrituras, t. 26, 1. 2, fl. 173 v.« 

2 Vesitaçào, t. 1, fll. 220, e 224 v,'> 
5 Ibid., íl. 231 V.'» 

* Ibid., fl. 228. 



Paramentos do século xviii 143 

capella possue ainda a maior parte delle, em pedaços, actual- 
mente depositados no museu do Instituto. 



Mas em breve se reconhece que a magnificência crescente 
do culto solemne na real capella exigia, para as diversas fes- 
tividades, maior abundância de paramentos valiosos ; e então, 
a 24 de maio de 1738, se ordena qse façam dois ornamM ricos 
de damasco de (mro^ hum branco e outro encarnado, q con- 
stem cada hum de três vestimM^ com suas estollas e manipolos, 
três frontais, huma capa e hum pano de estante^ e duas Dial- 
maticas *, 

Não sei se chegou a fazer-se tudo isto. Se tais paramentos 
se fizeram, já não existem, a não ser um veu d^ombros de bro- 
cado vermelho. 

Dos fins do século xviii porém ha bons paramentos bran- 
cos de brocado e de Ihama; dos princípios do século xix 
existem ricos e muito bem conservados de brocado vermelho. 

No meado deste mesmo século fizeram-se de precioso bro- 
cado roxo todos os paramentos necessários para as solemni- 
dades da semana santa; e também se adquiriram outros pa- 
ramentos, e se repararam os que havia, applicando-se a tais 
despesas, no anno de 1848-49, um legado, que para este effeito 
deixara em testamento o bacharel Custódio Manuel Teixeira, 
thesoureiro que foi da fazenda da Universidade '• 

Ainda outros se compraram à custa das importantes eco- 
nomias feitas nos annos de 1858 a 1860, com a suspensão do 
culto na capella, por motivo das obras então realizadas 3. 



Hoje não se adquirem alfaias nem paramentos ricos, porque 
a dotação exígua para tal não chega. Mas ha presentemente 



^ Vtsitaçào, t. 1, fl. 287. 
Conselho dos decanos, t. 6, fl. 127 v.% acta da sessão do conselho 
a 12 de abril de 1849 ; — Registo dos relatórios, t. 1, íl. 1 v," 
3 Registo dos relatórios, t. 1, fll, 8 v.^, e 9 v." 



144 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

todo O cuidado em reparar e conservar o melhor possível o 
que existe, e em proceder com são critério nas novas acqui- 
sições indispensáveis. 



Para concluir diremos que houve sempre, da parte da au- 
toridade universitária, o maior cuidado em providenciar, 
para que as alfaias do culto se conservem em bom recato; 
o que não quer dizer que essas providencias fossem sempre 
observadas escrupulosamente. 

Havia a prohibição expressa ao capellão-thesoureíro de não 
emprestar omametos nem mitra cousa algua do seruiço da 
eapellaj nem o Rector, continua o estatuto, lhe poderá dar 
licença pêra fazer tal empréstimo^. Para tomar mais ef- 
fectiva e rigorosa esta prohibição, o reitor e deputados da 
Universidade pediram e obtiveram do vice-colleitor apostólico 
em Portugal uma provisão, datada de 7 de agosto de 1641, 
em que é fulminada a pena de excommunhão maior ipso 
facto, cuja absolvição é reservada aos colleitores e a Sua Santi- 
dade, contT2iq'uaÍ8querpe8sôaSf de qualquer graUf qualidade, 
ordem, preeminência 'e dignidade que sejam, seculares e 
ecclesiasticas, sacristães, capellãesy thesoureiro e outros offi- 
dais da Real Capella da dita Universidade, inda que sejam 
os mesmos Reitor e Deputados supplicantes, que emprestem ou 
façam emprestar ornamentos, nem qualquer outra peça ao 
culto divino dedicada, e á dita Real Capella da Universidade 
de Coimbra pertencentes, inda que seja sob pretexto de so- 
lemnisar o mesmo Culto Divino em outras Igr^as, Ermidas, 
e Capella^'. 

Tudo isto porém não foi bastante para surtir o effeito de- 
sejado, como se vê do assento da vesitação de 20 de maio de 
1696, onde se lê: — Por sermos informados que o» veos dos 



* Estatutos velhosy L 1, tit. 2, n. 17. 

* Tanto a petição do reitor e deputados, como a provisão, en- 
contram-se registadas no livro antigo da capella — Portarias e 
ordens do Prelado y fll. 42 v."-43. 



CUIDADO COM A CONSERVAÇÃO DAS ALFAIAS 145 

cálices e alguas peças semelhantes se em/pr estão p.* seruir na 
dança da mourisca, e actos profanos^ Mandamos e ordena- 
mos ao P/ Thesoureiro q não empreste mais peça algiía das 
^ seruem nos cálices e altares, e seruiço da capella, sob pena 
de ser priuado do officio de Thesoureiro e com, as mais ao 
nosso arbitrio ^ Esta ordem terminante ainda não teve a exe- 
cução que era de esperar, sendo necessário, a 20 de maio de 
1696, exarar no assento de vesita o seguinte: — Achamos q os 
moveis da Capella, assim de prata, como de ornamentos sa- 
hem muitas vezes a empréstimos contra a disposição expressa 
do Estatuto desta Vn,^ que o prohibe, e de se faltar a esta 
observância se tem seguido o mao trato, com q mJ<^ peças se 
aehão: pello q mandamos q a prata e ornamentos da Capella 
se não emprestem mais a pessoa algiía na forma que o Es- 
tatuto dispõem; e q o mesmo se observe com os moveis da 
Confraria de Nossa Snora, e assim o mandamos aos escrivães 
da mesma Confraria, a ^ estão entregues; E porq nos constou 
q o P/ Thezour,^ emprestou alguas peças por sua authori- 
dade, o multamos em seis centos reis na forma do mesmo 
Estatuto; e he a condenação a respM de hua só peça, porq 
não sabemos ao certo quantas forão *^. 

Actualmente ha o máximo cuidado em não emprestar ob- 
jecto algum da capella, para servir em outras igrejas ; a não 
ser em casos excepcionalíssimos, e sempre em virtude de 
ordem escrita do prelado. 



Por occasião de calamidades públicas, que ponham em 
risco a guarda das alfaias da real capella, tem-se providenciado 
para que sejam collocadas em segurança, até passar o perigo. 

Foi assim que na grande peste de 1599, debandando de 
Coimbra quase toda a gente, e ficando a Universidade deserta 
e a capella confiada à guarda de um dos moços apenas, a mesa 



1 Vesitaçâo, t. 1, fl. 170, 

2 Ibid., fl. 196. 

19 



146 CAP. II — EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO 

da fazenda, antes de abandonar o seu posto, resolveu em 
sessão de 30 de março que, porque os trabalhos das doenças 
cada ues cresdão mais, e se temer ao diante, ao parecer dos 
médicos, mM peor, ^ a prata e moueis mais p* ciosos da vn de 
se puzessê em lugar seguro e ^ este parecia o Collegio de Je- 
sus, e não querendo os padres todos se leu^sseao Collegio de 
são bento e q se fizesse inuentario das peças ^ a cada hu dos 
ditos collegios se leuasse^. 

Ao dar-se a invasão francesa no princípio do século passa- 
do, também se cuidou a tempo de pôr em segurança os valores 
da capella, enviando.-se clandestinamente, no mês de setem- 
bro de 1810, em carros para o convento do Buçaco, onde esti- 
veram em esconderijo apropriado até passar a tempestade. 
Quando se fazia a condução, sobreveiu uma trovoada, a chuva 
penetrou nas arcas, e alguns paramentos molharam-se; a isto 
é devida uma grande mancha, que ainda hoje se vê em uma 
das ricas planetas de Ihama branca, que a capella possue. No 
templo ficou apenas um cáliz com a respectiva patena de 
prata, para o uso quotidiano ; uma seta do mesmo metal, que 
esqueceu na imagem de santo Agostinho; algumas alvas, 
toalhas, alfaias ordinárias, e cera. Tudo isto foi roubado '*. 



Só nos resta indicar, qual a dotação da real capella actual- 
mente consignada para satisfazer todas as despesas com o 
material, comprehendendo tanto as despesas de conservação 
e restauração do que ha, como as de acquisição do que é ne- 
cessário comprar-se, e bem assim as de límpêsa, expediente, 
etc. 



1 Fazenda, t. 3, 1. 2, íl. 116 v.° 

2 Vid. Relação geral das perdas que soffreu a Universidade de 
Coimbra pela invasão do exercito francez no i.° de outubro de 1810, 
extrahida das informações que deram os Chefes das differentes Re- 
partições da mesma Universidade, in Ammario da Universidade, 
1876-77, p. 209. 



DOTAÇÃO DA REAL CAPELLA 



147 



Encontra-se esta verba no cap. 10.", art. 66.° do orçamento 
do Estado, e vem assim redigida : 

— Gera, guisamentos, acquisição de alfaias, 

concertos, e diversas despesas 361 $300 

E nada mais. Aos estreitos limites desta verba é necessário 
feduzir a despesa annual. Apesar porém da insignificância 
desta dotação da real capella, bastante se tem ali feito, restau- 
rado e adquirido ha annos a esta parte. 







! 



III 

ACTOS DO CULTO 




POUCO se reduzia o culto divino na an- 
tiga capella real de S. Miguel dos paços 
da Alcáçova de Coimbra. Um capellao 
todos os dias nella celebrava missa, e 
orava pello estado do rrey rregnante 
e pellos outros sseus antecessores^ re- 
citando as oras do offício canónico '. 
D. Manuel, em alvará de 31 de outu- 
bro de 1516, aumenta os encargos desta capella, impondo ao 
respectivo capellao o ónus de dizer por dia de samjgel mjs,a 
cantada, e de ter em todas oã mjsas e oras que Rezar na dita 
capella húa alampeda acesa; e também estabelece a cláusula, 
que ha mjsa que ha de dizer cotedianasera de fynadosj Resall- 
tíâdo ha do dia de samjgel que será do dito santo e asy as 
das festas de noso senhor e de nosa senhora que serã das 
ditas festas ^, 

Assim se conservaram as cousas nos primeiros tempos do 
reinado de D. João iii ^, até que a Universidade, transferida 
para Coimbra, e installada nos paços reais, se apropriou da 
capella para os seus usos religiosos. 



1 Vid. notas às pp. 14, 16 e 17. 

5f Nota à p. 19. 

5 Ibid., e p. seg. nota. 



150 CAP. III — ACTOS DO CULTO 



Não tenho encontrado documentos, que directamente nos 
digam que actos cultuais exercia a Universidade desde o co- 
meço da sua installação em Coimbra, no tempo de D. João iii. 
É porém fácil indirectamente haver conhecimento de alguns 
desses actos. 

Já em Lisboa esta instituição de ensino tinha um capellão 
privativo, o eapellam do studOy que quotidianamente celebrava 
missa em saindo ho sol, começando as lições dos lentes de 
prima logo em seguida a esta missa '. 

Tal obrigação continuou a cumprir-se na Universidade de 
Coimbra. Ignoro o que a tal respeito prescreviam os perdidos 
estatutos de D. Joãoiii; mas nos de D. Filippe, de 1591, lá se 
oj-dena que sempre na capella aja missa que comece meya 
hora antes da lição de prima ^, ordem que se encontra tex- 
tualmente reproduzida nos estatutos seguintes, e que não é 
mais do que a continuação, reconhecimento e confirmação 
do antigo costume trazido de Lisboa, e aqui observado. 



Outros actos cultuais praticava a Universidade de Lisboa^ 
e se continuaram na de Coimbra. 

Por instituição do protector do studo o infante D. Henri- 
que, em carta de 22 de setembro de 1460, ia todos os annos em 
dia de Natal preegar a preegaçom no moesteiro das freiras do 
saluador o lente da cadeira de prima de theologia, por elle 
generosamente dotada, e ali suffragava a alma do iofante; e 



1 «Do tempo da missa — liem ordenamos que ho eapellam do 
studo se aparelhe de maneyra que em saindo ho sol comece a 
missa. E em fim delia começaram os lentes de prima a leer. E 
quando ho eapellam for negligente ho Reetor mandara que pague 
algua pena arbitraria». — {EstaUttos de D. Manud, íl. 4). 

2 Estatutos de 1591, 1. 1, tit. 2, n. 5, fl. 2. 



PRATICADOS PELA UNIVERSIDADE DE LISBOA 151 

a 25 de março, por dia de sancta m* da anunçiaçõ, ia o mes- 
mo lente com hos redores conselheiros leentes & todollos 
outros escolares do dicto estudo em sua hordenança segundo 
costume à igreja da Graça, no moesteiro de sancto agostinho, 
é hi dizia missa cantada & preegaçony devendo todos suf- 
fragar a alma do benemérito protector. Esta segunda obri- 
gação já fora pelo mesmo imposta em carta de 25 de março 
de 1448 K 

Nos estatutos de D. Manuel encontram-se ordenadas seis 
procissões em cada anno, seguidas de outros actos de culto 
religioso; as duas primeiras ali indicadas sam em cumpri- 
mento do referido legado do infante D, Henrique 2. Passemos 
a relacioná-las todas. 



* «Oiitrosi seera theudo (ho leente de theologia da cadeira 
de prima) por dia de natal de preegar ha preegaeom no moesteivo 
das freiras do saluador segundo he costume. E ante q ha compeçe. 
alta voz dirá aa gente q lhes pede que diguam cada húu por minha 
alma & dos da dieta hordem (de xpistus) & daquelles por q asi 
theudo sou rogar como dito he. ho pa^er uoster & aue m* por ho eu 
& ha dieta hordem contentarmos por Jhe diaer aquella preegaçõ, 
& esto asi pêra sempre. E também seera obrigado liir a sancta m* 
da graça q he no moesteiro de sancto agostinho da dieta cidade 
por dia de sancta m» da anunçiaçõ que he a xxv. dias de mÇ^^ . & hi 
dirá missa cantada & preegaeom. E em este dia deuem hir sempre 
com elle hos rectores conselheiros, leentes & todollos outros esco- 
lares do dicto estudo em sua hordenança segundo costume ao dicto 
moesteiro por encomendar mjnha alma a deus em renembrança da 
doaçom que lhe fiz das casas em que estaa ho dicto estudo. E lio 
dicto leente da theologisL ante que compeçe ha missa se uoluera p* 
a gente encomendandome asi a deus p"^ a guisa suso dieta, notifican- 
dolhe como he contente p'" mim & ha ordem, por aquella missa e 
preegaeom ali dezer». — (Carta de 22 set. 1460, in Akch. da Univ., 
gav. 2, maç. 3, n. 46; cf. carta de 25 mar. 1448, no mesmo maç., 
n. 55. — Foram publicadas in O Instituto, t. 41, pp. 502-506). 

2 «Das proçissõees missas & pregaçõees & como hirâ horde- 
nados. — liem ordenamos que todollos lentes & scolares mantenham 
a antiga confraria que faz cadano ao moesteiro do saluador na 
forma & maneira que no testamento do Iffante dom o,mRique he 



152 CAP. Ill — ACTOS DO CULTO 

1.^ Da igreja de 8am giam (S. Julião) para a do mosteiro 
do Salvador, procissão esta que se fazia em dia de Natal. Cele- 



comtheudo .8. que vam todos aa precisam que se faz de sam giam 
atee o dio moesteiro do saluador onde ouuiram pregaeam & missa. 
E pagara cada hu dez Reaees pêra arqa & gastos da d'a comfraria. 
pregara & dirá missa ho cathedratico de p'ma de theologia sob a 
pna comtheuda no d'o testamento & daram aos moesteiros que la 
acustumam hjr çem Reaêes a cada hu nam faram comuite lios mor- 
domos. Ao dia de santa m" de março se faça segundo ha ordenança 
do líFante dom emRique homrrada proçissam com solemne missa & 
pregaçam que dirá & fará ho chatedratico de prima de theologia 
e daram dofferta aa custa da Vniuersidade çem Reaêes & duas 
vellas de hua liura & hua omça de emçemsso E se os frades nom 
quiserem dizer a missa no altar de nossa Sõra & em tempo diuido 
cowsulatur ordinari9 — 

Toda a vniuersidade vaa a sam domingos duas vezes no anno. 
8. p*^ sancta chaterina & per sam thomas de aquino ordenadamente 
e ouuiram suas vesp^as missas & pregaçõees segundo tem de cos- 
tume E asi mesmo vesp'a de sam nicolao faram sua proçissam ou- 
uiram missa & pregaçam ao dia na Igreja de sam nicolao ho lente 
de philosophia natural seia obrigado aapregar & quando for jmpi- 
dido per justa causa ofi*ereça ao conselho tal pessoa que seja de 
seu contentamento — 

íTavemos por bem & lhe agardeçemos & encomendamoslhe que 
asi se faça o que ora a d'a vniuersidade tem ordenado de hir sem- 
pre por nos per modum vniuersi a nossa Sõra da comçeyçam 
aauespera & aa missa em cada híi anuo & que ho lemte da cadeira 
de philosophia moral ou metaphisica (seja obrigado) aa pregaçam & 
missa cantada E p" esto damos alem dos Ixx Reaêes que temos em 
cada hu anno dados aa dia vniuersidade quatro mil Reaêes em 
cada hu âno .s. três mil pêra ho dto lemte que haa de ter caRego 
da missa & pregaçam & os mil sejam pêra delles se daar por nos 
hum cruzado dofferta aa d'* missa & se comprar vellas & emçemso 
& o que fiqar dos ditos mil Reaêes será pêra arqa do dio studo — 

Nestes auctos & procissões hiram todos per modo de vniuersi- 
dade com ho Rector honesta & homrradamente. E queremos & mam- 
damoB que os bacharêes feitos no á^ studo nom semdo nossos 



PRATICADOS PELA UNIVEHSIDADK DE LISBOA 153 

brava e pregava o lente de prima de theologia, dando a 
Universidade de propina a cada um dos mosteiros, que lá 
costumavam juntar-se, cem Reaees. 

2.* No dia da annunciação da Virgem, a 25 de março, à 
igreja de N. Senhora da Graça, onde a Universidade assistia 
à missa, pregando o mesmo lente de prima; dava-se à igreja 
a propina de çem Reaêes, & duas vellas de húa liura, & húa 
omça de emçemsso. 

3.» Á igreja de S. Domingos, a 6 e 7 de março; assistia-se 
às primeiras vésperas, à missa e pregação da festa do anjo 
das escolas, o grande doutor S. Thomás d'Aquino. 

4.a Na festa de Santa Catharina, a 24 e 25 de novembro, à 
mesma igreja de S. Domingos ; fazia assistência a idênticos 
actos em honra desta santa mártyr, protectora dos estudos. 

5.* A 5 e 6 de dezembro, à igreja de S. Nicolau, onde hon- 
rava este santo assistindo-lhe à festa, na qual pregava ho 
lente de philosophia natural. 

6.a Finalmente nos dias 7 e 8 de dezembro ia a Universi- 
dade per modum vniuersi a nossa Sõra da comçeyçam^ assis- 
tir às vésperas, missa e sermão; cantava a missa e pregava 
ho lemte da cadeira de philosophia moral ou metaphisica; 
e para esta festa recebia a Universidade da fazenda real 
quatro mil Reaees em cada hu ãnOj tendo as applicações se- 
guintes: — três mil reais pêra ho do lemte que haa de ter 
caRego da missa & pregaçam^ um cruzado dofferta aa rf^^ 
missa y do restante se tiraria o preciso para comprar vellas & 
emçemso, e o que sobrasse era pêra arqa do d^o studo. 

Transferida a Universidade para Coimbra, mantiveram-se 



desembargadores acompanhem a à^ vniuersidade em todas suas 
proeisoêes e nom ho fazemdo asi pagara cada hú três dobras douro 
pêra arqa do d'o studo nom mostrando justa causa ao Rector & 
comselheiros & deputados per que deixaram de hirem E o Rector 
deputara pessoas que tenham caRe^fo de Reger os scolares de 
man" que vam de dous em dous e estes seram os lemtes em parti- 
cular de gramática e de lógica & leuaram suas varas vermelhas & 
os que nom obedecerem seiam punidos ad arbitrium». — {Estatutos 
de D, Manuel, fl. 4). 
20 



154 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

estes mesmos saimentos e actos religiosos, passando as pro- 
cissões a ir da capella real para diversas igrejas desta cidade, 
escolhidas para esse ef feito. Já com o nome de procissões, já 
com o de préstitos, encontramos todos esses saimentos con- 
firmados e ordenados, juntamente com outros, nos estatutos 
filippinos, como havemos de ver. 



Nos fins do século xvi eram numerosos e complexos os 
serviços litúrgicos da real capella da Universidade. Encon- 
tram-se prescritos e regulamentados nos estatutos de 1591; 
os estatutos de 1598, mais tarde confirmados por D. João iv 
em 1653, nada mais fizeram nesta parte do que reproduzir 
aquelles. Conservou-se esta organização dos serviços religiosos 
da real capella até 1834, com algumas ampliações, que na su- 
cessão dos tempos se foram introduzindo. 

Dividem-se naturalmente em sete categorias : — a) missas 
quotidianas e missas solemnes; — b) vésperas solemnes; — 
c) solemnidades do Natal e Semana santa ; — d) préstitos e 
procissões; — e) suffrágios; — f) pregações; — g) outras so- 
lemnidades extraordinárias. 

Vamos a dar uma notícia summária. 



a) Missas quotidianas e missas solemnes 



Havia todos os dias seis ou sete missas obrigatórias, rezadas 
pelos capellães: uma começava meia hora antes da lição de 
prima, outra apenas terminada esta lição, e uma terceira 
logo que acabavam as lições das cadeiras grandes, isto é, por 
fim da manhã ; eram as missas destinadas aos professores e 
estudantes, para que podessem còmmodamente assistir a este 
acto religioso, sem prejuízo de suas aulas. As restantes três 
ou quatro missas não tinham hora fixa. 

Duas das missas quotidianas eram applicadas pela alma 
del-rei D. João iii, restaurador, dotador S ampliador desta 
Vniuersidade; as outras pelo Protector, Rector, lentes, gra- 



MISSAS OFFICIAES 155 



duados, estudantes, officiaes, & pella Vniuersidadey & aug- 
mento delia '. 

A princípio todas tinham de ser celebradas dentro da ca- 
pella, excepto no dia 11 de junho, anniversário do fallecimento 
de D. João iii, em que apenas um dos capellães, que estivesse 
de semana, a celebrava na real capella, e os restantes iam cele- 
brar à igreja do mosteiro de Santa Cruz, onde a Universidade 
fazia os suffrágios por alma daquelle monarcha ~. Mas com o 
andar dos tempos fôram-se estabelecendo algumas excepções, 
como vamos ver. 



Coimbra foi por algumas vezes duramente experimentada 
pela peste, que nella fez grandes estragos. A vesita, que este 
flagello fez à cidade universitária em 1599-1600, foi horrível, 
e a elle se encontram freqiientes e apavoradas referências 
nos livros de escrituração académica daquella épocha. 

Em tais crises, era impossivel manter a regularidade do 
culto, porque reitor, lentes, estudantes, capellães, tudo fugia 
da cidade e se disseminava pelas províncias. Assim é que em 
sessão da mesa da fazenda, a 30 de março de 1599, se resolveu 
que não houvesse offícios da semana santa, nem se armasse 
a capella, visto o tempo, e o mal da peste, de q Z>» nos liure, 
crescer , , , e não auer estudantes nê d^^^^ na terraj e na Ci- 
dade mui pouca gente^. Os próprios moços da capella fugi- 
ram nesta occasião, ficando apenas um destemido, de nome 
Manuel Tavares, que não arredou pé do seu posto, e seruio 
na capella, e ficou nella pello tempo da peste seruindo p^ sy 
e por os outros. Esta coragem e serviço foi gratificado, pas- 
sados quatro annos, com a quantia de 2$000 reis * ! Na refor- 
mação de D. Francisco de Bragança, em 1612, providenciou-se 
para casos semelhantes, concedendo-se em o n.^* 17, que em 



* Estatutos de 1591, 1. 1, tit. 2, nn. 5 e 6. 

2 Ibid., n. 5, e tit. 13, n. 11. 

3 Fazenda, t. 3, 1. 2, íl. 116. 

4 Ibid., 1. 3, fl. 40. 



156 CAP. Ill —ACTOS DO CULTO 

tempo de peste podessem os capellães, com licença do reitor, 
deixar dois ecclesiásticos por elles pagos, para celebrarem na 
capella quotidianamente ; dois capellães assistiriam ao reitor e 
governo da Universidade, onde elle estivesse refugiado, para aí 
dizerem missa e servirem ; os restantes capellães cumpririam 
celebrando as missas obrigadas, onde quer que estivessem *. 

Também por turno um dos capellães, a quem pertencesse 
dizer missa na real capella, ia celebrar ao coUégio de S. Paulo, 
por virtude de obrigação imposta em o n.^* 18 da mesma re- 
formação '. 

O reitor tinha a faculdade de mandar, quando quisesse, 
chamar um dos capellães, para celebrar no seu oratório par- 
ticular, e esse capellão cumpria, como se a missa fosse dita 
na capella ^. 

Deprehendo ainda dos assentos das vesitações de 17 de 
abril de 1646 e 6 de julho de 1701, que a capella mandava 
celebrar, provavelmente aos domingos e dias santificados 
apenas, uma missa na cadeia académica, para os presos a 
ouvirem, quando ali houvesse algum ; e tais missas eram tam- 
bém contadas como celebradas na capella ^ 



Estas eram as missas officiais quotidianas. Mas quaisquer 
sacerdotes, fossem lentes, capellães, ou estudantes da Univer- 
sidade, ou fossem estranhos à corporação académica, que qui- 
sessem vir celebrar à real capella, podiam livremente fazê-lo, 



* Vid. append. aos Estatutos de 1653^ p 303. 

2 Ibid., p. 304. 

3 Ibid., n. 19. 

4 «Mandamos q as missas da Capella q na cadeia se disem 
seião como e na mesma forma q se disê em S. Paulo». {Vesitação, 
t. 1, fl. 107). — «Constounos q algus dos PP. Capellães faltâo nas 
missas dos dias s.ios hindo dizer em outra p.i'' as q haviâo de ser 
dittas na Capella, e q algiias vezes nâo ha PP. q digào as do Coll.'* 
de S. Paulo, e cadea, &.■ pello q mandamos q não se falte a esta 
obrigação, alias sejâo multados na forma q se dispõem em alguas 
das vesitas antecedentes». (Ibid., fl. 212 v."). 



MISSA8 PKIVADAS 157 



depois que satisfizessem a condição indispensável de provarem 
que tinham licença da autoridade ecclesiástica para celebrar 
na diocese de Coimbra * ; e, desde que os sacerdotes estranhos 
exhibissem a sua licença, longe de lhes serem criadas diffi- 
culdades, era-lhes pelo contrário facilitado quanto possível o 
accesso e a celebração, mandando-se-lhes fornecer gratuita- 
mente os guisamentos necessários 2, e recommendando-se ao 
pessoal da capella que usasse com elles de toda a cortesia, 
respeito, primor e urbanidade '. 

Tudo isto ainda hoje se acha em vigor. 

Em 1610 obteve-se de Roma para a real capella, entre ou- 
tras graças espirituais, a de ser privilegiado o altar de Nossa 
Senhora da Luz; o que attrahiu muitos sacerdotes de fora a 
celebrarem neste altar K 

Esta multiplicidade de missas continuou nos tempos sub- 
sequentes, a ponto de apparecerem para celebrar mais de 
vinte sacerdotes em cada dia *, sendo deste modo estorvada 
a celebração das missas officiais dos capellães ; o que obrigou 
os vesitadores, a 21 de fevereiro de 1700, a regulamentarem 
este serviço *. 



1 Vtsitaçãoy t. 1, fll. 95, 99, e 130. 

2 Ibid., fll. 7 v.«, 13 V,", 29 v.", 68, 164 v.", e 1S2 -, - Fazejida, 1. 1, 
1. 2, fl. 6 v.° 

J Vtsitaçào, t. 1, fll, 131, 131 v.", e 135 v.« 

* Ibid., fl. 53. 

^ Fazenda, t. 4, L 2, fl. 91, sessão de 2 março 1627, 

* «Constounos que pello grande concurso de sacerdotes que 
vem dizer missa à Capella, ficavão os Capellaeus delia eem dizerem 
as missas da sua obrigação, por que lhas nao deixavâo dizer os que 
primeiro chegavão, querendo preceder pella antecipação; e por 
que não hê justo, que sendo local a missa dos P.®" Capellaeus, ha- 
jão os Sacerdotes de fora de impedirlhe que a digão no lugar que 
são obrigados ; mandamos que os d."" Capellaeus precedão a qual- 
quer outro Sacerdote que esteja p,* dizer missa na Capella, quando 
concorrerem ao mesmo tempo ; e p.* que todos a possão dizer cõmo- 
dam.ie, estará com inalterável observância aberta a Capella athê 
as horas que dispõem o Estatuto, e as vezitas passadas, e prompto 
todo o guizam.i'^ necessário». {Vesitaçào, t. 1, fl. 206 v."). 



158 CAP. Ill —ACTOS DO CULTO 



Além destas missas quotidianas rezadas, outras se celebra- 
vam com solemnidade, catadas com diácono & subdiâconoj 
dizem os estatutos. 

Todos os domingos, & festas de guarda, as quais então eram 
muito numerosas, havia duas missas solemnes: uma cantada 
no altar de N. Senhora da Luz pelo capellão da confraria, 
ajudado por quatro capellães da Universidade para isso desig- 
nados por turno, cantando no coro os alumnos da aula de 
música sob a regência do respectivo mestre ^ ; e depois ou- 
tra, a da Universidade, no íiltar-mór, cantada de verão às 
nove horas, de inverno às dez, por todos os capellães, sendo 
um delles celebrante, designado por turno *. 

Esta última era cercada de grande pompa, com assistência 
de toda a Universidade, nos dias mais solemnes. Em alguns 
destes, a princípio na quinta feira santa apenas, mais tarde 
nas quatro festas principais do anno, Epiphania (em que se 
anunciavam as festas móveis, como ainda hoje se faz, segundo 
o Pontifical romano), Purificação (solemnidade titular da con- 
fraria), quinta feira santa (a principal solemnidade universi- 
tária), e 29 de setembro (festa de S. Miguel titular da real 
capella), celebrava o próprio reitor da Universidade, servindo 
então, e só então, os paramentos brancos riquíssimos, que 
para este effeito se fizeram '. 



1 Estatutos de 1591, I. 1, tit. 2, n. 7; tit. 6, init.; tit. 15, n. 10. 
— Cf. Vesitaçào, t. 1, fll. 45 v.", 53, 62 v.«, e 142. 

' Estatutos velhos^ 1. 1, tit. 2, n. 7; tit. 3; tit. 5; — Vesitação, 
t. 1, fl. 152. 

5 «Con&tounos ser necessária hua capa de Asperges braDca, 
6 rica p." servir em 5.* fr." Mayor ua procissão q fasemos depois da 
Missa, e p." se expor o Sanctissiino; porq a do ornam.io branco 
sobre estar com damnificação não tem mM decência p.*' a pessoa q 
a veste pello q ordenamos q se faça hua capa branca, e rica p." q 
haja de servir tão som.te no á.^ dia, e se não vse delia nas mais 
occasioês em q servir o ornam. ^^ branco, nem outra pessoa q não 



MISSA DA CONFRARIA 159 



Quanto à missa de Nossa Senhora, cantada antes da prin- 
cipal, temos a notar que em 1681 foi por deliberação dos ve- 
sitadores, em vesita de 14 de abril, e contra a letra expressa 
dos estatutos ^ transferida dos domingos para os sábbados, 
havendo de tarde ladainha de N, Senhora, também cantada ~. 



for a q Governar a Vn.**«». (Ibid., fl. 211, vesita de 15 janeiro 1701). 

— «Pellas mesmas conciderações porq mandamos q se fisese hna 
capa de asperges de tella branca p." servir na solenidade de Quinta 
fr.* maior achamos ser necessária hna vestimJa na mesma forma p.* 
q possa vsar delia no mesmo dia quem occnpar este lugar, e assim 
mandamos q se faça, e q nâo vse delia outra algua pessoa mais q 
a q governar a Yn.'^». (Ibid., fl. 212 v.°, vesita de 6 julho 1701). — 
«Ordenamos e mandamos, q o ornam.to preciozo nâo sirva mais, q 
nas quatro festas principaes, em q celebrar o Prelado, ou q™ fizer 
suas vezes, e q o P* thez/° o nâo dé a outro uzo algu». (Ibid., 
fl. 225, vesita de 7 junho 1704). — «Considerando nos q as cortinas 
sendo de tafetá som.t« hera indigno adorno p." as celebridades, e 
funções solemnes desta Real Capella, e também de m.i<^ pouca du- 
ração, e porq nella deue corresponder tudo em iguoal grandeza, e 
magnificência . . . ; Ordenamos, q assim p." as duas janellas da dita 
Cap." mor, como p." as outras seis do Corpo da Igr.", e outrossim p.» 
as portas da S. Christia, do Choro, e do Púlpito, se facão todas de 
Damasco Carmezim com sanefas de veludo laurado da mesma cor, 
franjado de ouro, feitas com toda a riqueza, as quais seruirão so- 
m.ie nas celebridades em q o ornam.io rico servir, q são na de 5.* 
fr.* mayor, dos Reis, das Candeyas, e do S. Miguel, e em nenhua 
outra mais poderão servir, nem vzarse delias, o q nouamente man- 
damos, e recomendamos ao P.« Thizour.*» alem da recomendação q 
nas vizitas passadas se lhe tem feito neste particular.». (Ibid., 
fl. 231, vesita de 28 maio 1705). 

1 L. 1, tit. 2, n. 7 ; e tit. 15, n. 10. 

^ «Assim mais nos pareceo m.io concernente ao seruisso de Deos 
e louuor de Nossa Sr.*, que a missa cantada q athegora se costu- 
maua cantar a nossa Srã nos Dominguos; de hoje em diante se diga 
e cante em os sábados as próprias horas q se costuma dizer a do 
dia nos Domingos q he no uerão as noue horas e no imuerno as 
des; no q imcarregamos aos p.«" Capellaiíis mM esta advertência. 

— Ordenamos q daqui por diante se cante a Ladainha de Nossa 



160 CAP. III —ACTOS f>0 CULTO 

A missa principal aos domingos era precedida do Asperges 
cantado pelos capellães na capella-mór; e apenas terminado 
subiam para o coro, onde cantavam durante a missa * : tudo 
isto como sucede actualmente. 



No dia do principio das eschollas (1 de outubro) havia a 
grande solemnidade inaugural, consistindo em missa solemne 
do Espírito santo celebrada pelo cathedratico de véspera de 
Theologia, à qual se acrescentava a profissão de fé de todos 
os lentes, prestada segundo a fórmula de Pio iv, que era lida 
pelo mais antigo dos lentes de theologia, seguindo-se o jura- 
mento singular de cada lente. Enquanto se fazia o juramento, 
achava-se o reitor sentado em frente dos degraus do altar- 
mór^ a meio, de costas para o altar, tendo sobre os joelhos um 
gremial de brocado vermelho, e em cima deste um missal 
aberto, no qual os lentes punham a mão ao jurarem. Se al- 
guns professores faltassem, eram multados, não podendo ler, 
nem vêcer ordenados j té q não facão nas mãos do Reetor, em 
eôselho de conselheiros j a dita profissão. 

Da capella dirigiam-se todos em préstito festivo à sala 
grande, onde o lente de prima de theologia subia à cáthedra. 



Srâ todos os sábado» a tarde q será no verão as sinco horas, e no 
inverno as quoatro, no seu Altar, pois a todos he tão necessário o 
patrocínio de Nossa Srã; e Mandamos q por esta obrigação se dar«i 
p.* os p.«" Capellains Chantre e Thizoureiro e Tangedor do órgão 
por cada Anno sinco mil rês íj elles distribuirão emtresira aos que 
asistirem a dita Ladainha q Repartidos lhe couberem cada sábado 
e dos ditos sinco mil rês cresse hum tostão q se dará os mossos da 
Capella ; e nisto tãobem esperamos dos p.«* Capellains q asistão 
com todo o cudado e deuação q em semelhante acção se requere- 
08 quoais sinco mil rês sairão dos bens de nossa Srã : e a esta tal 
Ladainha se tangera com a campainha grande do Coro a sim como 
se tange as missas». (Vesitaçàoy t. 1, fl. 152-, cf. fll. 172, 173 v.", 191, 
247 v.o, e 251 ; t. 2, fll. 6). 
» VesitaçàOy t. 1, fl. 43. 



MISSAS, VÉSPERAS, SOLEMNIDADES DO NATAL 161 

e recitava a lição inaugural dos estudos, chamada oração de 
sapientia, no fim da qual, em cumprimento de um legado do 
infante D. Henrique, a que já noutro logar me reportei ', 
pedia a todos os presentes que dissessem hum Pater noster, A 
húa Aue Maria, pelas almas do Iffante dom Henrique, S dos 
eaualeiros da ordem de nosso Senhor lesu Christo, & das 
mães pessoas a q era obrigado '. 



Finalmente em a quarta feira de Cima, & o primeiro dia 
de lunhoy S aos noue dias de Nouembro, S toda a semana 
sancta, embora não fossem dias santificados, havia missa so- 
lemne; e solemnes eram também as três missas do NataP. 



B) Vésperas solemnes 

Cantavam-se com solemnidade as segundas vésperas nas 
festas de Todos os Santos, Natal, Circuncisão, Epiphania, 
Páschoa, Ascensão, Pentecostes, Santíssima Trindade, Corpus 
Christi, Invenção da Santa Cruz, Nascimento de S. João 
Baptista, todas as de Nossa Senhora e dos Apóstolos, Santo 
António, e Dedicação de S. Miguel Archanjo. Em todas estas 
solemnidades appareciam capellães paramentados eom, capas 
& sceptros ou maças de prata, quatro se a festa era de pri- 
meira classe, dois se de segunda ^, 

c) Solemnidades do Natal e Semana santa 

Festejava-se com grande pompa o Natal do Redentor, 
Na tarde do dia 24 de dezembro, depois de luzida procissão 
do templo de Santa Cruz para a real capella da Universidade, 



» Vid. p. 151. 

* Estatutos velhos, 1. 1, tit. 2, n. 7, e tit. 13, init. e nn. 1 e 2. 
3 Ibid., 1. 1, tit. 2, nn. 7 e 10. 

♦ Ibid., n. %\^Vesitação, t. 1, fl. 50. 

31 



i62 CAP. 111 — ACTOS DO CULTO 

havia nesta vésperas solemnes. De noite eantavam-se matinas 
com toda a solemnidade> e, no fim delias, a missa da meia 
noite, seguida de laudes. Ao romper da aurora, depois de 
recitada privadamente a hora de prima, celebrava- se com a 
mesma solemnidade a segunda missa. De dia, à hora usual, 
cantava-se com grande aparato a missa principal da festa, 
sendo celebrante um cathedrático de theologia, e pregando o 
lente de prima desta faculdade, em cumprimento do legado 
do infante D. Henrique'. Concluía a festa do Natal pelas 
segundas vésperas 2. 



£ram imponentes, e muito para ver-se, as solemnidades da 
Semana santa, que principiavam em domingo de Ramos, e 
terminavam em domingo de Páschoa. Cantavam-se as missas 
de cada dia, com as respectivas paixões as que as tinham, e 
restantes actos complementares, e bem assim as horas do 
offício canónico, 

A missa de quinta feira santa, celebrada pelo próprio reitor 
em pessoa, era solemníssima, e nella se aproximavam do altar 
todo o corpo docente, grande parte do discente, e o restante 
pessoal da Universidade, para receberem o pão eucharístico 
das mãos do seu prelado. 

Infundia grande respeito o logar para onde se transportava 
a Santíssimo Sacramento encerrado na bella custódia para 
este effeito fabricada por Simão Ferreira 2, e onde ficava 
atrahindo as adorações dos fieis até à missa dos presantif iça- 
dos do dia seguinte. Trinta & três círios grandeSf de hum 
pauiOy de mea arroba cada hum ardiam permanentemente 
in conspectu Domini, além das velas necessárias áccesas nos 
degraus. Várias caçoulas de metal reluzente, repletas de vivas 
brasas, estavam dispostas junto do altar, e jovens acólythos, 
de vestes roxas e alvas sobrepelizes, derramavam nellas colhe- 



i Estatutos velhos, 1. 1, tit. 2, n. 10 -,— Vesitação, t. 2, £. 3 v.'* 

2 Cf. § antecedente. 

3 Vid. pag. 107 e seg. 



SOLEMNIDADES DA SEMANA SANTA 163 

res cheias de incenso, evolando- se nuvens de aroraátíco fumo, 
que ascendiam, como as orações dos fieis, até ao throno de 
Deus. Ajoelhados em almofadas de veludo, com amplas vestes 
talares pretas, sobre as quais destacavam as cores garridas e 
vistosas dos capellos, sustentando nas mãos grandes círios 
accesos, dois doutores estavam permanentemente em adoração 
ao Santíssimo, revezando-se de meia em meia hora. Toda 
Coimbra corria com devoção e piedoso alvoroço à real capella 
da Universidade a vesitar a sagrada Hóstia, e a lucrar as in- 
dulgências que a santa Igreja, com mão generosa, dispensa 
aos fieis neste dia, que o nosso povo designou pela denomi- 
nação antonomástica de quinta feira de endoençaSy i. é, de 
indulgências. 

E no dia immediato, quando, depois de cantada por três 
diáconos a paixão, o celebrante descerrava a cruz de ébano 
com a sua imagem de Jesus crucificado de marfim, e a ia re- 
clinar no pavimento da capella mór sobre uma grande e rica 
almofada de Damasco roxo de ouro, donde se estendia pelo 
chão um bello veo de tella Branca com ramos roxos bordados, 
todo cercado de opulenta franja d'ouro; e quando em seguida 
vinha o reitor com a sua veste prelatícia de cauda roçagante, 
e os lentes, doutores e mestres das diversas faculdades com 
os seus trajes negros talares, todos descalços, e se prostavam 
três vezes adorando a grande Vítima da Redenção e osculando 
os pês da veneranda imagem, não havia alma que não se com- 
movesse, olhos que se conservassem enxutos. 

Nestes dois dias um grande veu de respeito, tendo ao meio 
húa cruz com crucifixo, estendia-se a revestir cá fora a fa- 
chada da capella, para indicar aos fieis os sacrosantos mys- 
térios que lá dentro se encerravam e commemoravam *. 

Havia tanto cuidado e escrupuloso esmero em fazer decor- 
rer estas sagradas funções com o maior respeito, gravidade e 
imponência, que no anno de 1692 causou profunda indignação, 
assumindo as proporções de um verdadeiro escândalo, o facto 



* Estatutos velhos j 1. 1, tit. 2, n. 10, e tit. 14, n. 4 ; — Fazendo, 
t. 3, 1. 1, fll. 15, e 79 v.«; t. 4, 1. 1, fl, 8 v.°; — Vesitação, t 1, fll. 211, 
212 V.", e 231-, t. 2, fl, 12, etc. 



164 CAP. Ill — ACTOS DO CULTO 

de irem apagar as velas do throno, depois de retirado de lá o 
Santíssimo em sexta feira da paixão, uns símplez leigos, em 
vez de serem clérigos vestidos de sobrepelizes K 



D) Préstitos e procissões 

Eram duas manifestações solemnes, bem distintas uma 
da outra. 

Ambas consistiam em saimentos, nos quais ia toda a cor- 
poração universitária ; distinguiam-se porém em que as pro- 
cissões eram verdadeiramente actos ecclesiásticos e litúrgicos, 
como o sam todas as procissões do culto cathólico; enquanto 
que os préstitos eram actos puramente académicos, embora 
muitos fossem realizados com uma intenção cultual religiosa. 
Naquellas ia o collégio dos capellães com a cruz da real ca- 
pella alçada, com paramentos e o restante aparato litúrgico 
em tais actos usado; nestes não iam nenhumas insígnias 
litúrgicas ou religiosas. 



Préstitos. — É uma denominação da linguagem académica, 
resultante de serem todas as pessoas universitárias obrigadas 
a nelles se incorporarem, em virtude do juramento de obe- 
diência ao reitor e de cumprimento dos deveres impostos pelos 
estatutos, que cada uma delias prestara; era dever que todos 
tinham de cumprir vi praestiti juramenti, ou sub poena 
PRAESTiTi juramenti. 

Havia alguns préstitos, e estes constituíam o maior número, 
que eram propriamente actos religiosos, embora extra-litúr- 
gicos ; realiza vam-se com intuito cultual, e dirigiam-se sempre 
a algum templo, a assistir a determinados actos litúrgicos 
solemnes. Outros porém eram exclusivamente saimentos cí- 
vicos, sem carácter algum religioso. 



» Vesitaçào, t. 1, fl. 182 v.» 



PRÉSTITOS 165 



Préstitos cívicos. — Faziam-se ordinariamente : — sl) para 
acompanhar os candidatos, quando iam receber o grau de 
doutor ou mestre, e tomavam nelles parte o reitor, doutorando 
e pessoal docente universitário, revestidos das suas insígnias, 
indo a cavallo do terreiro da Universidade para a igreja de 
Santa Cruz, onde eram conferidos os graus theológicos, ou do 
largo de Sansão (hoje praça 8 de maio), fronteiro ao mosteiro 
de Santa Cruz, para a Universidade, onde se davam os graus 
das outras faculdades ; — b) para acompanhar o cancellário e 
o reitor, quando vinham assistir a qualquer acto solemne, 
Realizavam-se extraordinariamente para ir receber e para 
acompanhar com solemnidade pessoas reais, ou alguma per- 
sonagem de mui alta categoria, indo a pé ou a cavallo segundo 
as circunstâncias. 

Em todos estes préstitos iam os lentes ordenadamente por 
faculdades e por antiguidades, e atrás de todos o reitor, pre- 
cedido da guarda de honra dos bedéis, e seguido das autori- 
dades e das pessoas nobres que apparecessem. 

Quando porventura o bispo-conde concorresse a qualquer 
destes préstitos, tinha o seu lugar designado à esquerda do 
reitor K 



^ Foi o que ficou assente, sem contestação, antes com expresso 
consenso do bispo diocesano, quando se discutiu o programma para 
o recebimento do infante D. Luís, em julho de 1548. No conselho 
maior, a 4 do referido mês e auno. resolveu-se que o Heitor tomará 
a mão d^ereita dt qualquer S.or ou príncipe a que sair a Receber j e 
dei Hei tomara a honMa q seu seruiço for de lhe dar, e isto se acordou 
asi Respeitando a grande denidade q o oficio de Reitor em si té. E 
porq no dito còselho se moveo q o bispo da cidade por estar no seu 
bispado queRa preceder j se asentou q o doctor Johã de morgovejo lete 
da cadeira de vespora^ lhe fose a dar cota do q no còstlho se asetaua 
€ q niso ficese os mais còprimM neçesarios. ( Conselhos, t. 1, 1. 4, fl. 85). 
— Houve pois com o bispo uma atteneâo de cortesia, que em nada 
prejudicava a resolução definitivamente tomada: e achando-se 



166 CAP. III -^ ACTOS DO CULTO 

Como actos cívicos» tais préstitos não interessam ao as- 
sunto, que faz objecto deste trabalho, e por isso passo adeante. 



reunido o conselho dos deputados e conselheiros a 7 do mesmo mê» 
de julho, preguntouse ,., ao doctor morgovejo no dito cdselho se falara 
ao bispo desta cidade sobre o q se praticara acerca do HeçebimM do 
S.or infàte do luis, & do ^ no côselho fora ordenado, & Respòdeo ^ o 
bispo era côtente do ^ fora asètado & ^ no MeçebimM elle se poria 
a mão ezquerda deiocando a dereita ao Reitor. (Ibid., fl. 41). — Con- 
vém notar, que então era bispo de Coimbra o ostentoso D. João 
Soárez, que assombrou os cardiais, bispos e príncipes, reunidos em 
Trento por occasiâo do concílio, pela magnificência com que fez a 
sua entrada naquella cidade, para tomar assento no concílio ; e que 
era reitor da Universidade o modesto e humilde monge de S. Jeró- 
nymo Fr. Diogo de Murça. 

Quando a Universidade se preparava para receber condigna- 
mente o seu novo reitor D. João Coutinho, nomeado por provisão 
de 16 de abril de 1611, constou que o bispo-conde D. AíFonso de 
Castello-Branco queria ir honrar o acto do recebimento com a sua 
presença; e apesar da grandíssima consideração que se tributava 
à pessoa deste prelado, que chegara a ser vice- rei de Portugal, 
resolveu-se em claustro de 29 de maio do anno referido, manter os 
usos e tradições de precedência do reitor da Universidade sobre o 
bispo diocesano, usando contudo de todas as atteuções e cortesias 
para com este. Eis o que se lê na acta respectiva : 

— «... propôs o p® vise Reitor como entendia que o Snr bispo 
determinaua hir esperar o Síior Reitor nouo e que no acompanha- 
m.io uisem o lugar enque auia de uir o Snr bispo e depois de se 
uotar se asentou que se desse conta ao Snõr bispo e se soubese 
delle se queria hir acompanhar e que se tiuesse com elle com- 
primio e que quando quisesse dar o lugar que a undo tem m'o em- 
bora, e que quando nao, se dese conta ao Síir Reitor nouo e que p* 
hir saber a reselução do Snr bispo fosem os dd. Grauiel da Costa 
fr«° dias fr«** caldeira e Baltezar de azeredo do que tudo fiz termo. 

— D. FR. EOIDIO DAPRESêXAÇIo V. R. — GaBRIEL DA CoSTA — DR. FrAN- 

ÇI8C0 DiAz». — ( Conselhos, t. 16, 1. 1, fl. 72). 

Tudo isto não passa da aplicação e execução de princípios e 
doutrina, assente e resolvida logo desde os primórdios da Univer- 
sidade em Coimbra. Veja-se em confirmação o assento seguinte : 



PRÉSTITOS 167 



Préstitos re/i^zo50S, — Nelles se incorporava toda a Uni- 
versidade, desde o reitor e corpos docente e discente, com os 
respectivos coUêgios que faziam parte integrante do organismo 
universitário, e as autoridades respectivas, até aos ínfimos 
empregados e officiais; e assim iam todos à igreja, onde se 
celebrava o acto litúrgico, ordinariamente as primeiras vés- 
peras da solemnidade, que tinHa o seu complemento no dia 
seguinte. 

Era na capella da Universidade, que o pessoal se reunia 
pelas duas horas da tarde; e daqui partiam todos após o 
reitor, a quem acompanhavam per Tnodum universi em direc- 
ção à igreja do destino. 

Formando a vanguarda iam os charamellas, trombetas e 
atabales tocando os seus instrumentos, e o meirinho com os 
seus homens fazendo despejar o caminho, Á frente da Uni- 
versidade caminhava o reitor, ladeado pelos dois primeiros 
lentes de theologia *, e seguido pela guarda d'honra dos be- 
déis, com as suas maças de prata levantadas. 



— «p'lo Rector q se lhe fale pWm/® — Aos três dias de maarço 
deste Anno de mil e qujnhentos e quor^ta e seis foi feito comselho 
mayor p'lo sõr Rector e lentes e deputados e conselh'"'** junctos 
chamados a conselho segdo seu bom costume, e foi acordado q vindo 
aos autos desta vnji^crsjdade qualqr prelado ou bispo ou sõr de 
titulo se caute prim™ benevolência ao snõr Rector por assy estar 
asêtado dãtigamête e ser uso desta vniuersydade quintino míz 
espVão do conselho o espVj e o sõr Rector assinou e eu esp'vâo. 

FRKY DJ® 

Reitor 

DE MURÇA 

QUINT1N9 B9 

{Conselhos, t. 1, 1. 2, fl. 48). 
* A reformação de 1612 modificou no seu u. 88 esta disposição 



168 CAP. Ill — ACTOS DO CULTO 

Depois, por sua ordem, as quatro faculdades maiores, 
oceupando os mestres e doutores o lugar que dentro de cada 
uma delias por antiguidade lhes pertencia; atrás os mestres 
em artes, e os licenciados e bacharéis lentes; seguiam-se 
os collégios das ordens com os seus prelados, leitores, estu- 
dantes e passantes, e depois os collégios seculares, pois uns 
e outros faziam parte do organismo universitário, preceden- 
do-se entre si segundo a antiguidade de sua fundação. Era 
exceptuado o collégio dos cónegos regrantes de Santa Cruz, 
único dispensado de comparecer, pella estreita clausura que 
professão. 

Atrás o guarda das escolas com a sua vara, e os officiaís. 
Por último a turba multa dos estudantes, sem guardarem 
entre si ordem de precedências *. 

No dia seguinte ao do préstito era todo o pessoal obrigado 
a ir à mesma igreja assistir à missa e pregação, mas já não 
havia o preceito de irem encorporados. 



Seis eram os préstitos religiosos ordinários, que se faziam 
no fim do século xvi e princípio do xvii, 

--a) Préstito de Santa Catkarinay a 24 de novembro, ia à 
igreja do collégio do Carmo, onde se celebrava a festa da dita 
Santa no dia 25. 

— b) Préstito de S, NicolaUy a 5 de dezembro, à igreja do 
collégio de S. Jerónymo, 

— c) Préstito de Nossa Senhora da Conceição, a 7 de de- 
zembro, à igreja do collégio de Christo, ao qual o reitor dava 
um cruzado de offerta, e de esmola 3Í5000 reis, e velas e in- 
censo para a missa, em cumprimento do disposto nos esta- 
tutos de D. Manuel ♦. 



dos estatutos velhos, 1. 1, tit. 14, n. 8, prescrevendo que de futuro 
em todos os ajuntamèlosy & Préstitos da Vninersidade, em q se achare 
prezentes os professores . . . com o Reitor, estará sempre hum Theologo 
á parte direita, & hum Canonista à parte esquerda. 

> Estatutos velhos, I. 1, titt, 13 e 14, etc. 

'^ Vid. p. 1Õ2, nota. 



PRÉSTITOS 169 



— d) Préstito de Santo Thomás d^Aqiíino, a 6 de março, à 
igreja do eollégio de S. Domingos. 

— e) Préstito da AnnunciaçãOy a 24 de março, ao eollégio 
de N. Senhora da Graça, dos eremitas de S.^o Agostinho; e na 
festa do dia seguinte pregava o lente de prima de theologia 
per sij & não per outrem, côforme ao testamento do Iffante 
do Henrique, dando a Universidade ao eollégio de esmola 100 
reis, e duas velas de cera de um arrátel cada uma, e uma 
onça de incenso. 

— f) Préstito de S. Barnabé, a 11 de junho, à igreja do mos- 
teiro de Santa Cruz. Este era fúnebre, com memorando o anni- 
versário da morte de D. João iii, e por isso se fazia sem cha- 
ramellas ou outro qualquer instrumento. Era acompanhado 
pelo cancellário da Universidade, câmara e cidadãos da cidade 
e justiças delia ^ 

Mas além destes préstitos religiosos ordinários, freqiientes 
vezes se costumavam fazer outros extraordinários, em acção 
de graças, por oocasião de algum acontecimento, que moti- 
vasse público regozijo, ou em deprecação plangente, quando 
urgia alguma grave calamidade. Estes préstitos dirigiam-se 
geralmente à igreja de Santa Clara, onde se encontra o corpo 
da santa Rainha, esposa do fundador da Universidade. 

Em um trabalho, que publiquei ha annos, intitulado Evo- 
liição do culto de Dona Isabel de Aragão, esposa do rei la- 
vrador. Dom Dinis de Portugal (a Rainha Santa), relacionei 
os préstitos desta natureza, de que encontrei notícia noarchivo 
universitário 2. Para esse livro remetto o leitor, a quem este 
assunto possa despertar algum interesse. 



Depois, no decorrer dos tempos, fôram-se instituindo outros 
préstitos ordinários. 

— g) Préstito de S, Boaventura, a 12 de março, à capella 
do eollégio deste santo, onde se celebrava a festa da sua trás- 



' Estatutos velhos, tit. 13, n. 7 ; e Reformação de 161% n. 24. 
2 Op. cit., tit 1, pp. 5j1 e segg 
32 



170 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

ladação no immediato dia 13. Foi instituído por provisão 
del-rei D. João iv. 

— h) Préstito da Rainha Santa Isabel, a 3 de julho, à igreja 
desta santa, no mosteiro de Santa Clara. A sua instituição foi 
proposta a el-rei em elaustro-pleno de 25 de março de 1626 * ; 
em claustro-pleno de 10 de maio de 1716 novamente se versou 
o assunto, e se redigiu consulta favorável * ; finalmente por 
provisão régia de 20 de junho de 1 719 foi instituído este pré- 
stito, com determinação de que os doutores fossem de capêl- 
los, e recebessem propinas dobradas '. A provisão régia de 
16 de junho de 1744 ordenou que as vésperas fossem capitu- 
ladas e a missa cantada por um lente de theologia ou de outra 
faculdade ^, e a de 4 de junho de 1746 impôs à faculdade de 
theologia o ónus do sermão à missa, que devia ser pregado por 
um dos seus lentes, por turno ^,' a importância das propinas 
foi fixada pela provisão régia de 15 de novembro de 1747 <^. 

— i) Préstito de Santa Teresa, a 14 de outubro ^. 

— j) Préstito da restauração de Portugal, a 1 de dezem- 
bro 8. 

— k) Préstito de S, Francisco Xavier, a 2 de dezembro K 



Pela reforma pombalina, em outubro de 1772, foram revo- 
gados os antigos estatutos, em que os préstitos eram prescritos 
e em parte regulamentados, não se providenciando quanto ao 
futuro. 



1 Conselhos, t 20, 1. 1, fl, 96 \.^ 

2 Ibid., t. 35, 1. 1, fl. 71. 

3 Archivo da Real Confraria da Rainha Santa. — Documentos 
antigos, foi. 51 (Provisão original). 

* Provisões antigas^ t. 5, fl. 54. 

^ Archivo da Real Confraria da Rainha Santa. — Documentos 
antigos, foi. 64 (Provisão original). 

* Registo antigo das provisões, t. 5, fl. 29. 
' Vid. Provisões modernas, t. 1, fl. 108, 

8 Ibid. 
» Ibid. 



PRÉSTITOS 171 



Não foi intenção do marquês reformador supprimi-los ; e 
tanto que, entre as collecções de documentos do archivo da 
Universidade, que requisitou em data de 22 do referido mês 
e anno, para serem tidos em consideração na redacção dos 
pTojectSidos Estatutos litúrgicos, lá se encontram especificados^ 
em sexto logar, os que versassem sobre este assunto: — 
Da forma com que marcham nas Procissoens, antes chama, 
das Préstitos, e tomam assentos na Capella Real, e Igr^as a 
que se dirigem, e em que se celebram as Festividades das ditas 
Procissões *. É certo porém que, não havendo instruções a 
tal respeito, o reitor escreveu ao marquês preguntando se 
deviam continuar a fazer-se os préstitos. Veiu resposta affir- 
mativa, datada de 30 de novembro de 1772, na qual se prome- 
tiam instruções especiais quanto aos préstitos de junho e 
julho ', 



* Vid. Provisões modernas, t. 1, fl. 117 b. 

2 «O Portador da Carta de V. S.*, que trouxe a data de 23 do 
corrente, me entregou com ella os Papeis, que a acompanharam. 
Ao mesmo tempo fiquei na intelligencia de tudo o mais, que V. S.* 
me informou sobre as Procissoens, Festas, e Funçoens Ecclesiasti- 
cas, e Académicas dessa Universidade ... — D." Guarde a V. S.* 
m.* a". — Sitio de Nossa Senhora da Ajuda a 27 de Novembro de 
1772 — S.***" Francisco de Lemos de Faria Pereyra Coutinho. 

De V. S.- 

Mayor am." e mais affectuozo gr.io 

Marquez de Pombal». 

(Provisões modernas, t. 1, fl. 104). 

— «A ocorrência dos Negócios fes com que partisse o ultimo Ex« 
presso sem levar a Resposta relativa ás Procissoens, que V. S.* 
deve fazer continuar. A suspenção delias foi huma necessária con- 
sequência da derogaçâo dos Estatutos velhos, e da falta do novo 
ceremonial, que não coube no tempo athe agora. — Porem como 
nelle hão de ser incluídas; a da festividade de Santa Thereza a 
quinze de Outubro; a da Acção de Graças pela Aclamação no 
Primeiro de Dezembro; assim o pode V. S." segurar aos Prelados 



172 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

O mês de junho ia adeantado, o dia da Rainha Santa Isabel 
estava próximo, e não tinham ainda vindo as instruções 
annuneiadas. Francisco de Lemos insiste por ellas, pregun- 
tando se tal préstito à igreja do mosteiro de Santa Clara se 
devia fazer. O marquês, em provisão de 30 de junho, responde 
que sim *. 

Mas não foram apenas conservados na reforma pombalina 
os préstitos até então estabelecidos ; o marquês reformador 



das respectivas Igrejas; explicando lhes a cauza com que iiâo pu- 
deram ter este anno effeito. — As dos dias, Trez, Seis, e Outo de 
Dezembro se devem celebrar indubitavelmente. — O mesmo se deve 
observar nas dos dias, Seis de Janeiro, Sete, Treze, e Vinte e sinco 
de Março. — E quanto as outras que restam de Junho, e Julho 
brevemente responderei a V. S." 

Deos Guarde a V. S.* Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 
30 de Novembro de 1772. 

Marquez de Pombal. 

8.°" Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho», 

(Provisões modernas, t. 1, fl. 108). 

1 «A procisâo de quatro de Julho, em que a Universidade cos- 
tuma hir annualmente ao Mosteiro de Santa Clara solemnizar a 
Festa da Raynha Santa Izabel, tem um objecto tão natural, e pró- 
prio da religiozissima devoção de El Rey Meu Senhor, que Sua 
Mag.® gostozamente permitte, que neste prezente, e em todos o& 
successivos annos se faça, e continue a dita devoção. Com o que 
respondo a Primeira das três Cartas de V. S.**, que trouxeram as 
datas de vinte e quatro do corrente. — Deos guarde a V. S." Palá- 
cio de Nossa Senhora da Ajuda em 30 de Junho de 1773. 

Marquez de Pombal. 

S°' Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho. 
Cumpra-se e registe-se. Paço Real das Escollas em 10 de Julho 
de 1773. 

Ref.<"-»>. 

(Provisões modernas, t. 1, fl. 190). 



PRÉSTITOS 173 



instituiu um de novo, inaugurando-o elle próprio com a sua 
presença. Foi o seguinte : 

— 1) Préstito da reforma da Universidade, no 2.» domingo 
de outubro. Consistia em um préstito da sala grande dos actos 
para a capella da Universidade, seguindo-se a missa, sermão e 
Te Deum. Devia de ser, segundo os dizeres do diploma insti- 
tuidor, uma manifestação perpétua do reconhecimento^ com 
qys todo este lotwavel Corpo Académico tem feito publica a 
stui summa Gratidão o/o incomparável Benefício, com que a 
Divina Providencia armou o Poderoso Brax^o de El Rei, para 
tirar as Artes Liberaes, e as Sciencias da septdtura do maia 
profundo esqvseimento '. 



1 «Em observância das Ordens, que tenho de ELREY Meu Se- 
nhor : Hey por serviço de Deos, e de Sua Magestade, que o Reli- 
giozo reconhecimento, com que todo este louvável Corpo Acadé- 
mico tem feito publica a sua summa Gratidão ao incomparável 
Beneficio, com que a Divina Providencia armou o Poderoso Braço 
do dito Senhor, para tirar as Artes Liberaes, e as Sciencias da 
sepultura do mais profundo esquecimento, pela Fundação desta 
Universidade, seja nella perpetuado com huma Festividade Anni- 
versaria, que principiará pela Procissão de todos os Lentes, e 
Académicos desde a salla athe à Real Capella ; onde haverá Missa 
Solemne com Sermão; e acabará pelo cântico Te Deum Laudamus : 
sendo o Dia da sobredita Festividade, e o que para EUa he mais 
próprio, o de Nossa Senhora do Remédio, e do Patrocinio de Sao 
José ; no qual concorre também a Trasladação do Grande Doutor 
Santo Agostinho, cujas brilhantes Luzes tornaram agora a appa- 
recer em todo o seu Esplendor, depois de haverem os reprovados 
Mestres, que nos distrahiram, empregando quasi dous séculos em 
as escurecer, para nos precipitarem nas Trevas da Ignorância. O 
Secretario publique logo esta na salla ; e fazendo-a aífixar por 
Edital nas Portas delia, a registe no Livro, a que toca, para assim 
se ficar perpetuamente observando. Coimbra em 7 de Outubro de 
1772. 

Marquez Vesitadok». 
{Provisões modernas, 1. 1, fl. 49), 
É no dia 11 de outubro, que na cidade e diocese de Coimbra se 



174 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

O dia escolhido pelo próprio marquês foi o segundo do- 
mingo de outubro; e neste dia realmente, quando elle refor- 
mava a Universidade em 1772, fez-se pela primeira vez o 
préstito solemne, presidido pelo marquês reformador, que, 
dirigindo-se à eapella, ali assistiu à festa gratulatória, na qual 
pregou o doutor Fr. Joaquim de Santa Anna, lente substituto 
das três cadeiras de dogmática K 



Havía-se introduzido nestes actos um abuso condemnaveU 
Nem todos os doutores, nem todos os collégios universitários, 
vinham nos dias dos préstitos à real eapella, para daqui saírem 
encorporados acompanhando o reitor, como era ordenado 
pelos estatutos ; muitos deixavam-se ficar nas suas residências 
à espera, e, quando o préstito lhes passava à porta, então é 
que nelle se encorporavam. 

Para obviar a este abuso, expede o marquês de Pombal a 
11 de novembro de 1775 uma provisão, na qual ordena, com 
comminação de penas, que sejam todos os Lentes e Doutores, 
sem distincção alguma de Collegiaes, ou não Collegiaes, obri- 
gados a achar 'Se na Real Capella da Universidade ao tempo, 
em que se fizerem os signaes do costume em semelhantes Func- 
çôes; para delia sahirem processionalmente encorporados 
ás suas respectivas Faculdades até o Templo a que se houver 
de dirigir a Procissão; e para nelle assistirem d Festividade 
que se houver de celebrar 2. 

A falta de regulamento a respeito de préstitos e procissões, 
bem como de todos os actos religiosos da real capella, era 



celebra a primeira trasladação de Santo Agostinho ; este dia coin- 
cidiu naquelle anno de 1772 com o segundo domingo de outubro, 
em que então se achava fixada a festa do patrocínio de S. José, e 
no qual se festejava, em algumas partes, N. Senhora dos Remédios. 
Foi portanto o segundo domingo de outubro o dia escolhido para 
este préstito annual. 

• Diário do ^ se passou em Coimbra cit., fl. 8 v." 
• ' Provisões modernas, t. 2, fl. 164. 



PRÉSTITOS 175 



muito sensível; suppria-o porém o bom senso e tino admirável 
do bispo reformador e reitor da Universidade, que ia proce- 
dendo como melhor lhe parecia, segundo elle mesmo escreveu 
no relatório feito em setembro de 1777, a que já por vezes 
tenho aludido *. 



1 «Tendo cumprido o Marquez Vizitador a sua Commiasão: 
Considerando Sua Magestade, que a Legislação Literária formali- 
zada pela Junta, não sp achava acabada em todas as suas Partes : 
E outro sim, que restavão ainda por fazer os Estatutos Económi- 
cos, Políticos, Ceremoniaes, e Ecclesiasticos, que eram partes da 
Legislação Académica: Querendo, que tudo se completasse, foi 
servido continuar ao mesmo Marquez Vizitador a Commissão dos 
amplos Poderes, que lhe havia já dado para o fim do progresso, e 
complemento de toda a Legislação Académica, por Carta de 6 de 
Novembro de 1772. 

Por effeito desta Nova Commissão examinou o Marquez Vizita- 
dor os Estatutos Antigos, no que tocava ao Governo Politico Civil 
Económico Ceremonial e Ecclesiastico ; e traçou hu Novo Plano 
de Estatutos dividido em vários Livros segundo os referidos objec- 
tos. Porem tudo isto parou nas primeiras linhas, e em Reflexões 
feitas sobre os Titulos dos Estatutos Antigos, não chegando até 
agora a formalizar-se esta parte da Legislação tão necessária para 
o Governo Académico. 

Como os Estatutos Antigos haviam sido cassados por Sua Ma- 
gestade, e não haviam Leys Novas, que substituíssem a sua falta ; 
sendo necessário por outra parte, que houvesse huma Regra, pela 
qual me dirigisse no Governo Académico : Assentei de regular-me 
em tudo o que não era determinado nos Novos Estatutos Literá- 
rios, e na Ley Fundamental, e Instrucções da Junta da Fazenda, 
pelas Tradiçoens Vzos, e Costumes da Vniversidade, as quaes Tra- 
dições, vzos, e costumes examinava : Vendo, que eram bons deixava 
subsistir ; e vendo, que necessitavam de reforma, e alteração, dava 
parte ao Marquez Vizitador, e com a sua resohição obrava* 

Assim pelo progresso do tempo se foram fazendo algumas re- 
formas tocantes a objectos differentes do Literário; o que tudo 
consta das Cartas de Officios, e Respostas, que se hão dt conservar 
na Secretaria de Estado. 

Nisto porem fui moderado, assim por não querer previnir as 



176 CAP. III — ACTOS DO CULTO 



Entretanto é certo que esta multiplicidade de préstitos pre- 
judicava notavelmente o ensino, pois cada um delles não 



Providencias da Legislação, que sabia estar delineada, como por- 
que as ditas Tradiçoens, e Costumes, eram a pratica dos Estatutos 
Antigos, que só necessitavam, de que o zelo dos que dirigiam, in- 
troduzissem nelles a alma, e espirito, de que os tinha privado a 
relaxação dos últimos tempos». 

{Relação Geral do Estado da Vniversidade 
de Coimbra cit., pp. 6 e segg.). 

— «Providencias Necessárias para complemento da Nova Refor- 
mação da Vniversidade, que dizem relação immediata a si mesma. 

A Vniversidade, considerada com relação a si mesma, he hum 
Grande Corpo formado pelos Senhores Reys, e magnificamente 
dotado pelos mesmos Senhores, para o fim de ser o Seminário 
<3[eral da Nação, no qual se instrua a Mocidade Nobre, e Civil de 
toda ella nas Sciencias, e Artes. Para se conseguir este fim deve 
ter Leys, pelas quaes se dirija. 

Estas Leys, segundo os diíFerentes objectos do seu Governo, 
são Politicas^ Civis, E eclesiásticas, Ceremoniaes, Literárias, e Eco- 
nomicas. 

Vê-se do que disse na Breve Historia da Reformação, que pela 
revogação dos Estatutos Antigos ficou a Vniversidade sem Leys 
escriptas, para o seu Governo Politico, Civil, Ecclesiastico, e Cere- 
monial ; e que se tem governado até aqui pelas Tradiçoens, e Cos- 
tumes, e por algumas Providencias, que novamente se derâo. 

Esta Legislação chegou a delinear-se; porem parou nas pri- 
meiras Linhas. He necessário que Sua Maoestade seja servida dar 
as Providencias, que lhe parecem convenientes a este respeito. 
Faltão pois — 1." as Leys Politicas. 2.® as Leys Civis. 3.** as Leys 
E eclesiásticas. 4." as Leys Ceremoniaes. 

Para se ordenarem estas Leys servem as mesmas, que ja antes 
existião; E só he necessário, que sejão reformadas em muitas 
Partes, para se accomodarem ao novo sistema do Governo Literá- 
rio, e Económico, que se introduziu». (Ibid., pp. 250 e seg,). 



PRÉSTITOS 177 



SÓ importava um feriado completo para a assistência á festa 
respectiva, mas ainda fazia supprimir de véspera as aulas do 
meio dia em deante, visto geralmente os préstitos se fazerem 
na véspera das festas às duas horas da tarde. 

Para acudir a este mal, foram suppriraidos todos os pré- 
stitos universitários, com excepção do da Rainha Santa, pelo 
10,<* dos Artigos decididos ^ mandados observar por carta régia 
de 28 de janeiro de 1790 K 



Não obstante esta resolução definitiva, ainda veiu depois 
disto a instituír-se um novo préstito annual, e este de natureza 
acentuadamente política. Foi o seguinte: 

— m) Préstito de acção de graças pelo restabelecimento do 
regime absoluto, a 5 de junho, à igreja do mosteiro de Santa 
Clara. Tem uma história. 

Em claustro de 4 de junho de 1823 a Universidade resolve 
adherir aos últimos acontecimentos políticos, fazendo grandes 
festejos por se haver levantado (transcrevemos textualmente) 
contra o espirito de vertigem infelizmente dom,inante nestes 
últimos tempos, a Voz e grito da Religião, da Rasõo, da 
Justiça^ e da Reversão aos justos y santos, e verdadeiros Prin- 
cipios, que tem feito a felicidade e Gloria da Nação Portu- 

j gueza ■ . Um dos números dos festejos foi um préstito extra- 

ordinário a Santa Clara, que se realizou no dia seguinte, 

I cantando-se lá um solemne Te Deum '. 

A 13 do mesmo mês ficou resolvida em claustro a insti- 
tuição de um préstito annual à mesma igreja, onde se canta- 
riam vésperas solemnes a 4 de junho, e missa e sermão no 
referido dia 5, por ser o da entrada de Sua Magestade na 
Capital dos Seus Reinos ^ Esta instituição foi confirmada 



* Encontram-se publicadas na Legislação académica desde o* 
tstatutos de 1772 até ao fim do anno de ÍSÕO, pp, 33 e segg. 
- Claustro pleno, t. 1, fl. 111 v." 
' Ibid. 

^ Ibid., fl. 113. 
â3 



178 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

por aviso régio de 8 de julho do mesmo anno*; mas o pré- 
stito realizou-se por pouco tempo, e ficou sendo conhecido pela 
denominação de préstito do José Caetano, por haver sido 
um lente deste nome o enthusiástico promotor de tal insti- 
tuição. 



O decreto de 15 de abril de 1845, que reorganizou os servi- 
ços da real capella, no art. 1.**, n.*» 5, preceituou que continuasse 
a fazer-se o préstito e funcção da Rainha Santa Isabel^ aos 
S e 4 de julho, 

E realmente até 1891 fez-se todos os annos este préstito a 
Santa Clara no dia 3 de julho; com excepção do anno de 1874, 
em que se não poude realizar por se andar reconstruindo a 
ponte sobre o Mondego, fazendo-se entretanto do museu de 
história natural para a real capella, onde se cantaram as vés- 
peras, e no dia seguinte a missa, em virtude de resolução do 
conselho dos decanos, em sessão de 18 de maio do anno refe- 
rido '. 

Em 18S^2 porém deixou de se fazer, e desde então ficou 
de facto supprimido ; mas a Universidade continuou todos os 
annos a mandar executar em Santa Clara pelos seus capellâes 
a festa de Santa Isabel, assistindo o prelado e alguns lentes 
tanto às vésperas como à missa. 

Este mesmo resto do antigo costume deixou de cumprir-se 
pela primeira vez no anno passado de 1907, passando a fazer- 
se a festa da Rainha Santa com vésperas e missa na real capella 
da Universidade, no domingo Immediato a 4 de julho. 



Procissões. — Realizavam-se com grande imponência e 
solemnidade as procissões universitárias. A disposição e ordem 



* Eucoutra-se transcrito na acta da aessâo do claustro pleno 
de 11 de julho de 1823, em que o vice-reitor deu conhecimento 
deste aviso. Vid. Claustro pleno, t. 1, fl. 114. 

'^ Conselho dos decanos, 1. 8, fl. 28 v." 



PROCISSÕES 179 

do pessoal era quase a inversa da guardada nos préstitos 
religiosos. 

Á frente abriam a procissão o meirinho com seus homens 
desempedindo o caminho; depois caminhavam os estudantes 
não coUegiais, os collégios seculares e os collégios regulares, 
todos empunhando tochas acesas, sendo esta parte da pro- 
cissão regida pelos mordomos e escrivães da confraria do 
anno presente e do transacto, com varas vermelhas. Em se- 
guida um ecciesiástico, fazendo as vezes do capellão-thesou- 
reiro ', paramentado de dalm ática, hasteava a cruz da real 
capella ; e aos lados dois acóly thos, com as suas batinas roxas 
e sobrepelizes rendadas, transportavam os respectivos ciriais. 
O corpo de capellães era reforçado por muitos coUegiais 
ecclesiásticos dos collégios universitários, que, vestindo sobre- 
pelizes e com tochas acesas, vinham enfileirar-se após a cruz 
da real capella ; e, atrás de todo este clero, quatro capellães com 
ricos pluviais alçavam os scetros ou maças de prata. Nas 
procissões extraordinárias mais solemnes, em que ia debaixo 
do pálio o Santíssimo, o clero, em vez de levar símplez sobre- 
peHzes, revestia sobre ellas ricas dalmáticas, casulas e plu- 
viais, o que muito abrilhantava a longa procissão. 

Após o clero, e acompanhado de doze tochas, ia o pálio, 
debaixo do qual levava a cruz de prata dourada com uma relí- 
qua do santo Lenho, ou a Custódia com o Sacramento, um 
lente de theologia ou cânones, ladeado por dois doutores clé- 
rigos que ministravam de diácono e subdiácono, indo às varas 
do pálio doutores das diversas faculdades com seus capellos ; 
fazia entretanto excepção a procissão de 6 de junho, em que 
levavam as varas do pálio os fidalgos principaes da Vniver- 
sidade, <ê em seu defeito os mestres em artes q o Redor pêra 
isso nomeas&e. Dirigia este troço ecciesiástico da procissão o 
cerimoniário da real capella. 

Atrás do pálio tinha o seu logar marcado o corpo docente 
e restantes doutores ou mestres: primeiro os artistas, depois 
os médicos, os legistas, os canonistas, e por fim os theólogos, 
sendo todos regidos pelo conservador da Universidade, com 
a sua vara. 



* Estatutos velhos, 1, 1, tit. 4, ii, 6, e tit. 14, n. 7. 



180 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

Precedido dos bedéis, com as respectivas maças alçadas, 
ia o reitor acompanhado de dois lentes, e seguido dos officiaes 
da Universidade, e das auctoridades e nobres que porventura 
comparecessem, fechando a procissão o^guarda das schollas 
cô sua vara pêra deter a gente ' . Nas procissões, em que a 
câmara municipal de Coimbra concorria com a Universidade, 
quer fossem quer não fossem procissões universitárias, o lo- 
gar da vereação era logo depois do corpo docente, encorporada 
com o reitor ; em tal caso deixavam de ir aos lados deste os 
dois doutores, sendo o prelado universitário ladeado pelos 
vereadores municipais ^. 



Duas procissões ordinária^s havia em cada anno, por dis- 
posição dos estatutos. 

Uma fazia-se em véspera de Natal, para cumprimento do 
legado do infante D. Henrique '. Partia do templo de Santa 
Cruz, e vinha à real capella da Universidade, onde, apenas 
chegada, os capellães e músicos cantavam a antiphona da 



1 Todo este cerimonial é pautado pelos Estatutos velhos, 1. 1, 
tit. 14, e por outras disposições disseminadas pelos vários títulos 
deste livro. 

* Conselhos, t. 22, 1. 4, fl. 74 v."* e seg. ; — Conferencias, que na 
Secretaria d^ Estado fez o Secretario Francisco Corrêa de Lacerda 
em ordem a trasladação da Rainha Santa Isabel, e forma nesta ma- 
teria por elle ordenada, doe. ms. publicado na minha obra Evolução 
do cvltn de Dona Isabel de Aragão, vol. 2, p. 248 ; — Carta régia de 
2 out. 1677 ao claustro-pleno da Universidade, in Eegisto das pro • 
visões antigas, t. 3, fl. 25õ ; — Livro dos Assentos qtie se tomarão na 
Cidade de Coimbra pelos Conselheiros de Estado, o Marquez de Ar- 
ronches, e o Visconde D. Diogo de Lima, em ordetn a trasladação que 
se fez do Corpo da Bainha Santa Isabel da Igreja velha do Convento 
de S. Clara para a Igreja do Convento novo, servindo de Secretario 
Roque Monteiro Paim, conferencia de 21 out. 1677, in Evolução d(} 
culto cit., vol. 2, pp. 258 e 260. 

* Cf. p. 150. 



PROCISSÕES 181 



festa, e o lente que presidia recitava a respectiva oração*. 
Na noite e dia immediatos faziam-se as solemnidades da festa 
do Natal, como noutro lugar deixo referido. 

Este acto religioso foi pela reformação de 1612, n.^ 25, 
transferido para a véspera da Epíphania, por ser dia mais 
desoGCupadOf & a Vniuersidade estar mais junta ', 



À outra procissão annual fazia-se na tarde do dia 6 de 
junho, commemorando o anniversário do nascimento del-rei 
D. João III, por cujo natal se davam a Deus graças. Esta saía 
da real capella da Universidade para o templo de Santa Cruz, 
onde, à chegada, se cantavam as antíphonas da exaltação da 
SM Cruz, e de S, João Baptista, dizendo as correlativas ora- 
ções o cathedrático que presidia. Na manhã do dia seguinte 
os capellães e músicos da real capella cantavam com muita 
solemnidade a missa votiva de S. João Baptista com comme- 
moração da SM Cruz e de Nossa Senhora, sendo celebrante o 
próprio cancellário da Universidade, dom prior geral do mos- 
teiro K 

Esta procissão foi instituída «m substituição doutra, tam- 
bém de acção de graças, pela concessão à Universidade das 
rendas do priorado^mór do mosteiro de Santa Cruz, feita a 
pedido e instâncias de D, João iii, por bulia do papa Paulo iii, 
datada de 8 de junho de 1545, a qual foi notificada à Univer- 
sidade em conselho de 15 de maio de 1546 ^ A 18 deste mês 
entrou a corporação universitária na posse destas importan- 
tíssimas rendas e respectivas jurisdições ^, resolvendo logo 
em seguida, que no sábbado immediato, dia 22, fosse toda a 
Universidade em procissão solemne ao templo de Santa Cruz 
dar graças pela grande mercê recebida; e que de futuro se 



> Estatutos velhosj 1, 1, tit. 14. 
2 Ibid., ed. 1654, p. 305. 
' Estatutos velhosy tit. 14. 

* Conselhos, t. 1, 1. 2, fl. 48 v.« 

* Ibid., fl. 49. 



iS2 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

repetisse annualmente esta procissão no dia 17 de maio, a 
assistir no mesmo templo a umas vésperas votivas solemnes, 
e no dia seguinte fosse também presente à missa gratulatória, 
que ali se havia de celebrar, commemorando o anniversário 
daquella posse ^ Foi esta resolução approvada e confirmada 



* «Sobre sancta •{• — Aos dezoito dias de majo deste Ano de 
mil & b« e qrenta e seis Annos ê o conselho acyma dito ê a sala 
dos estudos fazêdo se conselho major sendo presemte o sor Rector 
e lemtes de todalas faculdades e deputados e eoselh"*' junctos cha- 
mados a conselho seg**" seu bom costume e fazemdo conselho moor 
logo foy hordenado q ho sõr Rector cÕ os lentes de prjma de cânones 
e theologia e leis vâo visitar o cÕuento e padres de sancta cruz. 
E foy tambê hordenado q ha posse das cousas da vnjuersydade q 
hora (?) lhe vê cõ as Rendas do prjorado moor de sancta cruz q 
lhe he cÕcedido pio sancto papa a vaa tomar amrrique de parada 
e nicolao lejtão e os fazê procuradores cõ todalas clausulas p' jso 
necessárias e pertencentes, e a jnstruçâo p" jso façâo os doctores 
martim de azpilcueta e ant** soarez. E q se esp*va húa carta a 
elRei noso sõr p'la m*^® q ha feyto a esta vnjuersydade e a esp'va 
o doctor eytor Rõiz e mireyoão fernãdez. E q se faça hua procyssâo 
solene de toda a vniuersydade ha sancta cruz a q' se fará sábado 
q vê e daquj p* todo sempre hordenâo q ê cada hu AnÕ se faça a 
dita procissão ao decimo oitauo dia de majo de cada hu Anõ ê a q* 
vâo todos os doctores de todalas faculdades e mestres cõ suas jn- 
signias e capelos e hyrão ao dia de antes has vésperas e ao decymo 
oitauo dia ha missa e has vésperas hão de hyr cõ suas jnsignias e 
ao out<* dia terão suas jnsignias na missa e isto por Resão de no 
dia sobredito decimo oitauo se fora tomaar a posse do prjolado e 
Rendas dele de sancta cruz p* esta vujuersidade ha q' procysao 
hira cõ suas cruzes e vyrâo os Religyosos e clérigos (?) da cydade 
e colegyo» e dirseha a mjsa do Bjyiritu. sancto cõ três colectas hua 
do Bjpiritn sancto e a 2" por elRej dom afonso amrriquez e a ter- 
cejra p"^ elRej noso senhor e hira a cera da confrarja na dita pro- 
cissão e a vnjuersydade lhe mâdara pagar o q se gastar dela 
quTtino míz espVâo do conselho o esp'vj. — frei dj" dk murça Reitor 
— Marcos Romeiro — el ik)ctor morgovejo». 

{Conselhos, t. 1, 1. 2, fl. 51). 



PROCISSÕES 183 



encomiàsticamente pêlo monarcha em duas cartas, uma de 31 
de maio * dirigida à Universidade, outra de 1 de junho ao 
reitor ^. 

Mas os cónegos crúzíos não podiam ver isto com bons 
olhos. Quando em 20 de outubro de 1540 vagaram por morte do 



' «Padre Rector lentes deputados e conselheyros Eu ellRey vos 
êuio muy to saudar. Vy a caris, q me stpvestes è Reposta da q Vos 
mandey com as bulias do santo padre p* se tomar pose pella Vni- 
uerssidade da lurdieão e Rendas que forão do priorado moÔr do 
moest" de sancta cruz. que sua sanctidade aa minha Instancia con- 
«edeo e anexou Inperpetuo âa dita Vniuerssidade, e o padre Rector 
me stpveu particuUarmente, o que se nisso em conselho hordenou 
e fez e tam bê tudo foy feyto e como hordenastes de se fazer ê 
cada hu ano hua preçissâo gerall p"" my no dja ê que se começou de 
tomar a dita posse S memoria da merçe que niso fiz aa Vniuerssi- 
dade de q Reçeby mio prazer e cowtentamiêto e voUo Agardeeo e 
tenho m'o ê seí'ujço Manuel da costa a fez è allmerim a xxxj de 
maio de 1046. 

Rey . . - » 

{Provisões antigas, t. 1^ íL 329), 

2 «Padre Rector eu ellRey vos Ôuio muyto saudar. Vy a carta 
q me stpvestes ê Reposta da q vos mandey com as bulias p" se 
tomar posse pella vniuerssidade das Rendas e lurdição q tinha o 
pryor moor do moesf" de santa cruz, 6 q me daes meudamête conta 
de como se tomou a dita pose nessa cidade e se hordenarâo pesoas 
que a fosê tomar das cousas de fora delia e do q pasastes com os 
cónegos de santa cruz e o modo de que vos cÕ elles ouuestes e como 
ficarão paçiflicos e aseseguados e se asentou que se fizese cadan- 
no hua precissão geral p*^ my no dya 6 que se começou de tomar 
a dita posse ê mimoria da merçe q fiz aa vniuerssidade / e assy 
vy tudo o mais que p"^ vos neste casso com o conselho foi ordenado 
e tudo me pareçeo mto bem e o ey p*" bê feyto e Reçeby disso 
muyto prazer e vos agardeeo muyto tudo o q ordenastes e fezestes 
e a boa manr* de que vos niso ouuestes e folguey de me stpyerdes 
tâo particularmête como tudo passou e assy vos êcom''" q o façaes 



186 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

Nada porém chega a resolver-se, até que enfim é esta 
procissão supprimida em 1558, por uma carta régia de D. Se- 
bastião, lida em conselho-mór da Universidade a 20 de maio, 
sendo aquella procisão substituida pela de acção de graças no 
anniversário do nascimento de D. João iii <. 



^ «Sobre a preçissão de mayo — aos uy*^ ^i*^ ^^ ^^^ ^^ maya 
de j b*" Ibiij** anos na cidade de coimbrã e paços delRey nosso Snõr 
na sala grande honde custumã fazer os cÕselhos plenos sendo hy 
p'seute ho Snõr dom Jorge dalmeida Reitor e o d. di** de gouuea e 
o doutor g**" giz' e o d. belchior cornejo e o d. luis de crasto e o d. 
m®' da costa e o d. ayres pinei e o d. thomas RÕiz e foi tâbê p'sente 
o doutor marcos Romr* e o m^n p» de sousa foy tâbê p'8ente o d. p" 
barbosa e o m^re diogo de payua e o brêl fi'<» machado e o brêl fr®** 
de melo e o brêl y" de fig**" e o brêl graujel da costa foy tabê 
p'sente o doutor James de morais e a'* pereda lête de musyca e o 
brêl di'* dafonseq" e o brêl lionis simõis foy tâbê p'sente o doutor 
Jeronío p" e o doutor thomas Rõiz e o 1^« Jorge de sa o m^rc martí 
giz' da camará e o brêl lionis simõis e o m're m®' de pina e o biêl 
ãt<* de barros e a brêl melchior damarall e o mtre danjel da costa 
e o mire ât<* soares e o !•'" jnofre fr«<» sindico e asy tâbê foy p'sent€ o 
padre simhâ pinhr® todos juntos lentes deputados cõselhr®* e offi- 
eiais a cÕselbo chamados e côselho mor fazendo / ho dito snõr 
Rior logo hay p'pos como sua alteza mandaua q ha precisa q a 
vnjuersidade fazia no mes de mayo se mudase e fizese no mes de 
junho no dia que el Rey q deus tê nasçeo p*^ asi por alguas Rezôe» 
q hay dise parecer mais côvenjête q êtâo se fizese e asi q estaua 
mays ordenado p"^ sua alteza q a vnjuersidade cada ano p* semp* 
fizese saymií^s p"" elRey q deus tê no dia q falleçeo e q mandaua sua 
alteza q ha cidade se achase presête nestes ajuntamêtos e ofiiçios 
q ha vniuersidade auja de fazer e asi tâbê se mâdaua fazer outro 
offiçio p'los sanctos cadâno na capella dos paços porq o de mayo s^ 
auja de fazer no mostr° de sancta cruz honde hya a pí-rçissâ como 
tudo p"" hua carta do sõr dom manoel q lhe escrevera se declaraua 
e q isto era tâo aRezoado e deujdo q ha vnjuersidade p'la obriga- 
ção ê q estaua a elRey q deu& tê ho djuera fazer e ordenar pr?mr'* 
quâdo mays ser lhe mandado / ho q p*" todos foy louuado e aceitado 
q asi se fizese / e logo hy se elegerá quatro doutores .ss. o doutor 
marcos Romr° e james de morais p" jrê ao mpstr'* de sancta cruz 



PROCISSÕliS ^ Is? 



Além das duas procissões ordinárias, outras se faziam 
extraordinariamente, em occasiões singulares. 

Está neste caso, por exemplo, a procissão que se fez na 
tarde do dia 3 de julho de 1649, para a bênção e coUocação da 
primeira pedra do real mosteiro de Santa Clara, que ia edifi- 
car-se, em grande parte a expensas régias, no monte da Es- 
perança, fronteiro à cidade de Coimbra. 

D. João IV, em carta de 19 de junho do referido anno, or- 
denou ao reitor da Universidade, que em seu real nome e como 
seu representante fosse fazer o lançamento da primeira pedra, 
leuando em sua companhia a Vniuersidade em forma solem- 
ne, o cabido e camará também em corpo de communidades, 
com a mayor decência e solemnidade qtie fôssepossiuely fazendo 
naquella occasião repique geral dos sinos da Cidade^ lumi' 
narias de noute, e as mais demonstrações de alegria K O 
reitor mandou fazer as devidas communicações desta carta ao 
cabido e à câmara, tendo com o cabido a consideração de pre- 
ferir a Sé cathedral, para ponto de reunião e de saída da pro- 
cissão. Levantaram-se logo dúvidas da parte das duas enti- 
dades, ecclesiástica e municipal, quanto a precedências. Em 
claustro-pleno de 30 de junho resolveu-se o que havia a 
fazer *. A câmara facilmente cedeu, visto ter o lugar tradicio- 



e eu escriíiâo co elles da parte delle Sõr B.^r e vniuersidade p* lhe 
darS cota do q pasaua pedindo lhe q p* yso estiuesê prestes dando 
todo bõ aujamêto / e a cidade fosse o doutor frey martinho e ayres 
pinei outro si pedindo lhe da parte da vnjuersidade cõ mujta jn- 
stançia se achasê p'sentes aqles offiçios e ajuntamio* como sua alteza 
màdaua / e asi os dtos doutores marcos Romr" e james de morais 
fosse aos mais collegios a lhe fallar e dar conta, p" q todos estiuesê 
p'parados e prestes p** vire e serê presêtes uaqles dias paulo de 

i barros o spvj». 

I ( Conselhos, t. 3, 1. 1, fll. 126 v." e seg.). 

i 

^ Provisões antigas, t. 3, fl. 334. 

2 Conselhos^ t. 22, 1. 4, fl. 74 v." e seg. 



188 CAP. Ill — ACTOS DO CULTO 



nalmen te designado nas procissões ordiná rias da Universidade, 
a que ella concorria; o cabido manteve-se intransigente, em 
não querer occupar lugar secundário. Prescindiu-se por isso da 
comparência daquelle alto corpo ecclesiástico ', e lá se fez a 
procissão, com todo o cerimonial das procissões académicas, 
saindo do mosteiro de Santa Cruz. Ia debaixo do pálio, a 
convite do reitor, e revestido in pontificalibtcsy o dom abbade 
benedictino doutor Fr. Manuel da Ascensão, que depois foi 
lente de véspera de theologia, o qual de mitra e báculo fez a 
bênção da primeira pedra com toda a solemnidade ; voltou-se 
em seguida, ainda processionalmente, à igreja do velho mos- 
teiro clarista, onde terminou o acto religioso '. 



Não omittireí ainda uma leve referência a duas procissões 
extraordinárias e solemníssimas, feitas ha pouco tempo com 
todo o apparato e cerimonial antigo das procissões da Univer- 
sidade acima descrito, mas simplezmente em volta do páteo, 
saindo da real capella e a ella revertendo. 

Ambas foram em' acção de graças, e como remate ao canto 
do Te Deum laudamus. A primeira foi em 1863, pelo nasci- 
mento do principe D. Carlos : houve solemnes Vésperas no dia 
80 de Setembro, e no dia 1 de Outubro Missa sòlemne com 
Santissimo exposto e sermão, e na tarde desse mesmo dia Te 
Deum e Procissão pelo terreiro da Universidade -^ à qual pre- 
sidiu, levando o Santissimo debaixo do pálio, o dr. José 
Gomes Achíles, lente de véspera da faculdade de theologia, 
A segunda realizou-se a 28 de abril de 1879, pelas melhoras da 
rainha D. Maria Pia, salva de uma grave doença, sendo este 
acto religioso presidido pelo dr. António Bernardino de Me- 
nêseS; lente de prima e decano da mesma faculdade. 



» Conselhos^ i. 22, 1. 4, fl. 74 v.« e seg. 

2 Historia da vida, mortCj milagres, canonização, e trasladação 
de Santa Isabel, por D. Ferhasfuo Cokrêa de 1^ackri>a, Bispo Dt> 
Porto, p. 439 da 2." ed. 

5 Registo dos Relatórios da cajjdla^ t. 1, fl. 11 v.** 



PROGISSÕBS. — ENTERROS E 8UFFRÀGIOS 189 



Nas raríssimas procissões não universitárias, a que a Uni- 
versidade concorre, ocupa sempre de direito o mesmo lugar 
que nas procissões académicas, isto é, immediatamente atrás 
do pálio, seguindo-se a ella a camará, que vai encorporada 
junto do reitor. 

Ficou isto assente, reconhecido e confirmado no anno de 
1677, em que se ventilou a questão, quando se fazíamos pre- 
parativos para a trasladação solemne do corpo da Rainha 
Santa Isabel do antigo para o novo convento de Santa Clara K 



E) Enterros e fiuffírágios 

Não nos referimos aqui às missas, que quotidianamente se 
applicavam na real capella pelas almas del-rei D. João iii e de 
todas as pessoas da Universidade fallecidas; já noutro lugar 
delias falámos. 

Occorre occuparmo-nos neste ponto dos funerais e offícios 
solemnes de defuntos, celebrados durante o anno por obriga- 
ção imposta pelos estatutos. 



A Universidade fazia o funeral dos seus finados, que fall^e- 
cessem em Coimbra, indo o coUégio dos capellães com a 
cruz da real capella acompanhar os cadáveres e cantar o offício 
de sepultura às igrejas, onde quer que se sepultassem, se o 
fallecido fosse: 

— a) reitor, cancellário, mestre ou doutor, sendo obrigados 
a ir, sub poena praestitijuramenii, não só os estudantes, mas, 
dizem os estatutos velhos, os doctores lentes S não lentes tam- 
bem, 8t o Reeíor trabalhará quanto for possível por ir; 

— b) bacharel, estudante, ou official, caso estivesse alistado 



* Vid. doce. citt. em a nota 2 k p. 180. 



190 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

na confraria de N. Senhora da Luz, sendo obrigados todos os 
estudantes a ir, sob a mesma pena ; 

— c) capellão da Universidade, devendo ir todos os capel- 
lães com a cruz da real capella, e fazer-lhe um offício de corpo 
presente. 

No enterro do reitor ou de algum lente era a tumba trans- 
portada por lentes ; no de doutor não lente era-o por símplez 
doutores, e no de mestre em artes por mestres ; se o defunto 
fosse bacharel» levavam-no bacharéis ; se estudante, estudan- 
tes *. 



No fallecimento do reitor, cancellário e cathedráticos, além 
do funeral, fazia a Universidade outros suffrdgios. Pelo reitor, 
cancellário, ou por cathedrático de alguma das cadeiras maio- 
res, fazia-se na real capella, em dia designado pelo reitor (ou 
vice-reitor), um offício solemne de nove lições, com missa 
também solemne e absolvição, tendo-se armado a eça, aos 
lados da qual, durante todo o acto, estavam dois moços da 
capella, vestidos de sobrepeliz, incensando constantemente. 
Por cathedrático de alguma das cadeiras menores ou cathe- 
drilhas, cantava-se apenas um nocturno com laudes e missa, 
estendendo-se um símplez pano de veludo preto no pavimen- 
to, em vez da eça. 

A alma do reitor defuncto era ainda suffragada com mais 
seis missas, celebradas pelos lentes de theologia e cânones. 

Sendo o defunto confrade de N. Senhora da Luz, havia 
também o suffrágio de mais três missas, que a confraria 
mandava celebrar >*. 



Fallecendo algum Rei, Ramàa, ou Príncipe Jurado destes 
Reinos, mayor de dez annos, fazia sempre a Universidade, 
por obrigação dos estatutos, exéquias solemníssimas na real 



1 Estatutos velhos, L 1, tit. IG. 

2 Ibid. 



EXÉQUIAS REAIS 191 



capella, vestindose para isso de pannos negros as paredes, e 
armando-se uma sumptuosa eça no transepto, tudo com appa- 
rato egual ao usado no anniversário de D, João iii, que a 
Universidade fazia em Santa Cruz. 

A missa era celebrada pelo reitor ou cancellário, e havia 
duas orações fúnebres: uma à tarde, depois das vésperas, 
recitada por um lente de qualquer das faculdades académicas, 
embora leigo, em uma tribuna armada debaixo do púlpito; 
outra no púlpito, depois da missa, por um lente de theologia ^ 

Realizáram-se pela primeira vez exéquias solemníssimas 
pela morte do real protector, quando falleceu D. João iii 2; e 



^ Estatutos velhos^ 1. 1, tit. 16. 

* «Esa & exéquias delRei dõ Joam o terceiro q deos aja. 
Aos quinze dias do mes de Junho de j b« V^ & sete anos na cidade 
de Coimbra & pousadas do Sòr dõ M«' de meneses Reitor / sendo 
elle presente e o doutor frei martinlio de ledesma & o doutor y<* de 
niorgoueio & o d. James de moraes, & o .d. g" gllz'. & o .d. Simão 
de sa & o .d, Jorge liSo e o .d. M.el da Costa & o .d. Eitor Rõiz & 
o .d. aires pinhel & o .d. Jerónimo p/* & o .d. Jorge anRiquez &l o 
}d'> f,.ro ^e lucena home cÔseruador & o ,d. belchior corneio & o 
,d. alur.® vaz & o 1''** Jorge de saa & o 1«^<» a* de gueuara & o brèl 
Jorge pinto & o l''" p*» barbosa & o mestre fr'^** carlos & o m^'" p® 
leitão & o brèl dÔ Jorge dalm.'"» & a** de perea lente de musica & 
o brêl dj" mendez & o m^re p» de sousa & o brèl luis mestre & o 
brêl dj" a" daguiar & o brêl dj** darrosa & o mestre fr*^*» carlos & p* 
diz castello branco veedor & o 1''" Esteuão nug." sindico, lentes 
deputados & cÔselbr"* & officiaes juntos & chamados a cÕselho mor 
& CÕselho mor faz.''° segundo seu costume /hi propôs elle s**^ Reitor 
q a todos era notório as tristes nouas da morte dei Rei dõ Joam o 
terceiro deste nome nosso s""^ q Restaurou & de nouo dotou esta 
vnivers.»^* cÕ Rendas & m'çes tam manificas / a què alem da obriga- 
c'ão natural q todos lhe tinham como a seu Rei e Sõr. esta vnirer- 
side & as p""* delia lhe eram em muj.'o maior obrigação pollo cuidado 
& amor q a esta em geral & a todos em particnlar tinha E por q 
elle CÕ palabras não podia dizer o q sentia & cria q todos sentiam 
CÕ perda tam sem cõparação pedia a suas m'ces tratasem do lugar 
& como se lhe faria a esa p* cÕ os deuinos offiçios se pedir a noso 
sõr. Reyebese em sua santa gloria sua alma / donde cria q estaua 
polias sua santas obras & virtudes / pedindo cometesem a alguas 



192 CAP. 111 — ACTOS DO CULTO 

ficaram servindo de typo e modelo de todas as outras, que 
na sucessão dos tempos se fizeram, no decesso das pessoas 
reais indicadas. 



p.*"* do dito cõselho tiuesem cuidado de ordenar adita esa & todo o 
mais q p' se fazer como deuia era neçesario / E asi nomeasê quê 
avia de fazer a oração fúnebre as besporas & a pregação ao dia / e 
cÕ isto acabou de dizer aRasados os olhos dagua & cõ a voz casi 
partida p*" q bem mostraua o sentimto & dor cõ q a formaua / E erâo 
mais presêtes o doutor Marcos Romeiro & o doutor Joam de morguo- 
ueio / & votando o cÕselho cõ o mesmo sentim.to & palabras foi 
asentado q a esa se faça na sala grande por ser lugar mais capaz 
q a capella p* ho q se podia partir & tirar do teatro o neçesario 
abrindose a porta da guarda Roupa p° milhor seruiço & Recolhi- 
m.io da gête & cometeose a elle sÕr Reitor q cÕ o padre doutor 
frei martinho de ledesma & o doutor g^*" gllz' a ordene & mande 
fazer & asi todo ho q p* o cõprimi» delia for neçesario. mandando 
conprar madeira & panos de doo & cera & todo o mais q p* p'feição 
da dita esa & exéquias e auto fúnebre cuprise fazendose tam sun- 
tuoso quâto fose posiuel por tal Rei & tal Sõr a quê a dita Yniver- 
si.í*« em tanta obrigação he / & mandarão q todo o gasto & dinhr.<> 
q fose neçesario p*" o sobredito se dese & despendese a custa do 
dinhr** do Rendimio das Rendas da vnivcrsi.de & q pellos mandados 
do dito Sõr Reitor em q se declare q foi asentado & mandado des- 
pender o tal dinlir." p"" elle & os ditos dous doutores, os cõtadores 
da wmversiM o leuê em cota / E por SLver p*** no dito cÕselho de 
letras & erudição q muj bem poderiam fazer a oração & pregação, 
foi elleito o doutor belchior corneio lente do decreto p* pregar ao 
dia & o doutor Mel da costa lente de prima de leis p« fazer a oração 
a vespora e não se teue por em cõueniête fazer elle a oração sendo 

leiguo. por ser p» iso muj suficiente . . 

— q os estudantes & offiçiaes traguão doo. — asentouse mais q se 
mande a todos os estudantes q os q puderê traguam doo & q os q 
tiuerê manteos frisados os cardem. & os q tiuerê tosados os vire do 
aueso & carde. & q todos traguam carapuças, & o mesmo farão o» 
offiçiaes da vniversi^e dj" dazdo o escreui. 

dõ manoel de mn es 
Marcos Romeiro D.tou gaspar gllz». 

{Conselhos, t. 2, 1. 4, fll. 130 e segg.). 



EXÉQUIAS REAIS 19? 



Ha tempos que estes obséquios se não prestam, senão ao 
monarcha protector da Universidade. 



— «q se dee doo aos bedéis & officiâes q trabalharão na esa 
Aos vinte & oito dias do mes de Junho de j b*' U» & sete anos na 
cidade de Coimbra & casa dos paços df IRei nosso Sõr onde se lee 
theologia. sendo hi presente o sõr dõ Md de meneses Reitor & os 

srês lentes deputados cÕselhr"" & officiâes 

juntos èc. chamados a cÕselho mor & cõselho mor faz"^** segundo seu 
costume / hi se louuou & otorgou todo ho q elle sõr Reitor & dou- 
tores frei martinho de ledesma & gaspar gllz' mandarão fazer & 
se gastou & despendeo no fazer da esa & exéquias delRei nosso 
sõr. E por todos se gabou o lugar onde se fez & a altura que teue 
q cõ os degraos do altar teue a esa vinte & três degraos de altura 
ficando no baixo altura de três degraos q se deixarão de por por 
não ocupar tanto a salla dos paços onde se fez & p* ficar seruentia 
cõueniente p.* o seruiço delia & de dous altares q estauam no baixo 
as ylhargas da esa em costados a parede q he a banda donde ora 
esta a copa e no cabo da salla no uao das duas deRadeiras janellas 
das ylharguas estauam outros dous altares & na guarda Roupa q se 
fez hvia casa juntam.i*' cõ a salla p" milhor caber a gente ficando 
a parede do meio aberta em maneira de hu arco estauam outros 
quatro altares, q por todos cõ ho altar mor forão noue altares. & a 
esa q esteue cuberta de panos de do & asi o pesadiço degraos & 
altar mor & o paleo debaixo do qual esteue a bandeira cõ as armas 
Reaes & abitos dos três mestrados de cristos santiaguo & avis & 
cõ o tosão & espera / tinha ao Redor em duas ordees hua mais alta 
q a outra çcm tochas & abaixo da tumba na fronteira da esa esti- 
uerão oito escudos das armas Reaes posto» per copas em mujto boa 
ordem. & toda a sala esteue tapiçada de panos de doo & os asentos 
altos em q estiuerão asentados os doutores & p."" honRadas de hua 
& da outra banda da sala tanbem estiuerão cubertos. & os offiçios 
da bespora & dia se fizerão cõ mujia magestade em q se acharão 
todos os collegios de cleriguos & frades & mostr."* da cidade fez a 
oração fúnebre as besporas o doutor M«l da costa lente de p'ma de 
leis q alê do estillo arte & erudição mostrou o sentim.to q a matéria 
pedia & elle sentia / & elle Sõr Reitor asistiu nas besporas cõ os 
doctores dj<» de gouuea & o doutor Martim Saluador q juntamie forão 
diácono & sob diácono na misa q o dia seguinte dise elle Sõr Reitor 
'25 



194 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

Realizou-se isto pela última vez por morte dei -rei D. Luís. 
f azendo-se as exéquias a 26 e 27 de novembro de 1889 ; nellas 
orou de tarde, em seguida às vésperas, o dr. José Frederico 
Laranjo, cathedrático de direito, e de manhã d^ois da 
missa o dr. Francisco Martins, cathedrático de theologia. 



o q a todos pareçeo muj bem celebrar per &i exéquias dei Rei nos&o 
Sõr fundador e doctador desta vmversi.'l« & a quê ella em geral óc 
todos em particular tanto deuiam E os offiçios & Responsos se offi- 
çiarão em camto dorguam e ao tenpo dos Responsos estauam os 
doctores & Religiosos & p»** lionRadas cô tochas acesas q seriam 
bem oitenta alem das da esa & o doutor belchior corneio lente do 
decreto pregou cÕ tanta erudição & dotrina & cõ tanta arte & pru- 
dência q a vida & grandeças & santidade do morto Rei q Repre- 
sentou na verdade moueo tanto aos q o ouuirâo q todo o sermão foi 
hu choro calado & hu pasmo comíi. nao achando ninhua p.» palabras 
}iê sospiros cõ cõ q se cõsolar & desabafar dor & sentim.io de perda 
tam sem cõparaeão / E tendo elles Srês Reitor & cÕselho q tinham 
ainda feito muj piqueno sentim.to em cÕparaçâo do mujt<^ q deuiam 
a elRei q deos tem por quê o faziam asentarão q do pano tinto q 
ficou da esa se dese vestido aos offiçiaes cõtinuos das escolas .ss. 
aos cinquo bedéis guarda & escríuâo do cdselho & as p*" q mais 
seruiram na dita esa como foi o veedor p* diz de castello branquo 
fr*** rooreira solicitador belchior piz sacador lopo Rõiz porteiro da 
faz.*** & mais ao porteiro diante o cõseruador por ser muj 'o pobre 
& tanbê por parecer necesario q os q seruê & ande aparecer nos 
lugares pubricos & autos da vnie?ersi<l« andem da libree de doo de 
q toda ella anda vestida / & cometese a elle sõr Reitor q elle mande 
dar a cada hu dos sobre ditos offiçiaes o pano q lhe bem parecer & 
asentouse q asi o dinhr** q se mõtar no dito pano como ornais q se 
gastou na dita esa ót cousas p« ella necesarias selleue en cota poUos 
cõtadores da vniversi.<íe e isto o q côstar q se gaston p*" mandado 
delle sõr Reitor & doutores frei martinho & g"'" gllz' a quê se co- 
meteu o fazer da dita esa como no cÕselho atras se asentou . . . . » 
dj° daz'**» o escreui. 

DÕ MANOEL DE MNES», 

(Ibid., m. 133 v.« e »egg^.). 



OUTROS SUFPRÁGIOS 1^5 



Todos os annos se fazia, ai e2 de novembro, a commemo- 
ração solemne dos fieis defuntos, recomendando o estatuto 
que no dia l, depois das vésperas de Todos os Santos, se can- 
tasse inteiro o offício de defuntos, constando de vésperas, 
matinas e laudes, e se guardasse para o dia 2 a missa e absol- 
vição apenas K 

Esta prescrição, por ser menos conforme com as normas 
litúrgicas, modificou-se mais tarde, passando-se as matinas e 
laudes para o dia 2 antes da missa 2, É assim que ainda hoje 
se pratica, 

Armava-se nesta commemoraçâo uma eça igual à que se 
punha nas exéquias dos reitores. 



Muito mais solemne porém era o anniversárío, que no 
templo de Santa Cruz fazia sempre a Universidade nos dias 
10 e 11 de julho, por alma de D. João iii. 

Era muito de ver a magnificentíssima eça, que se armava 
na capella-mór, e que a tomava quase toda, cercada de alça- 
Ufas estreitas, todas de hú lauor, e coberta com hum pano de 
noue couados de comprimento, <& sete de largo, de tella de 
ouro negra raza^ cõ hua bordadura de largura de mea tella^ 
<fe húa Cruz de largura de toda a tella, que tomava todo o 
pano, & a bordadura & Crua eram de tella de ouro negra, 
de dous altos, laurado. 



* Estatutos velhos, 1. 1, tit 2, n. 9. 

2 «Ordenamos que a celebrid.« dos defuntos se diga as suaé 
horas competentes as vesporas nas vésperas e no dia seguinte as 
Matinas e Laudes com pena de dous mil reis, des tostoins ao chan- 
tre, e des tostoins ao M* das cerimonias se o contrario fizerê the 
ap."vizita; e se forem contumazes os suspendermos ou contra 
elles procedermos como nos parecer». (VesitaçâOf t. 1, á. 244 v»"). 



196 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

Todos 08 collégios universitários ecciesiásticos, quer regu- 
lares quer seculares, tinham obrigação de tomar parte nestas 
exéquias, formando coro com os capellães da Universidade 
sob a presidência do próprio reitor desta. A cada responsório 
do offício, ia o clero de um dos collégios, por turno, Junto da 
eça, o reitor ou prelado desse collégio tomava estola e pluvial 
preto, e, depois do canto do responsório, dizia-se o Pater-noster 
enquanto o dito reitor ou prelado collegial aspergia e incen- 
sava o túmulo, rematando pelo canto das preces e oração pró- 
pria. Se algum dos collégios faltasse a cumprir esta obrigação, 
a pena era severíssima, pois ficavam os respectivos collegiais 
privados de todos os privilégios, prerogativas e benefícios, 
que lhes resultavam da incorporação na Universidade ', 

Além disso três sacerdotes de cada collégio, e todos os ca- 
pellães da Universidade, com excepção do hebdomadáriOy 
único que neste dia celebrava na real capella, eram obrigado» 
a dizer missa por alma de D. João iii na igreja de Santa Cruz. 



No anno de 1562 não se realizou este anníversário na igreja 
dos cónegos regrantes, mas na do convento de Nossa Senhora 



* «Qualquer dos Rectore», & prelados religiosos, ou seculares, 
dos mosteiros, ou collégios que a este préstito & anníuersario nao 
vier com todos os leitores», pregadores, passantes, & estudantes que 
estiuerem nos taes collégios, ou nao comprir o acima referido, 
mâdo que os ditos collégios ou mosteiros não gozem dos priuilegio» 
da Vniuersidade nem os seus priuilegiados, nê serão auidos por 
estudâtes delia, nem o Rector os admitta a proua de cursos, nê lhe» 
assinem dias pêra terem actos, ou se graduarem, & sendo gradua- 
dos, pelio mesmo caso fique suspêso» da preeminêcia dos ditos grãos 
quâto a Vniuersidade té minha mercê, & o mestre das eeremonias, 
& o bedel da Theologia terão cuidado de apÕtar os que nâo forem, 
& de os dar ao Rector pêra mandar fazer execução, o que compri- 
râo com pena de suspençâo de seus officios, & o Reformador & Vi- 
sitador, perguntarão por este capitulo se o cumpre o Rector», 
(Estatuto» velhos, 1. 1, tit. 13, n. 13). 



A UNIVERSIDADE EXCOM.MUNQADA PELOS CRIJZIOS IV? 

da Graça, dos eremitas de Santo Agostinho. É um episódio 
curioso na história das relações entre a Universidade e o mos- 
teiro crúzio; e por ser geralmente desconhecido, e ter inte- 
resse, embora seja bem pouco edificante, peço licença para 
aqui o referir. 

Os cónegos regrantes nunca tinham podido conformar-se 
de bôa-mente com a cedência, feita à Universidade, das rendas 
do seu priorado-mór ; começaram desde logo demandas e 
litigios, que se prolongaram por muitos annos, sobre a de- 
terminação de quais as rendas que eram da mesa do priorado- 
mór extincto, ora pertencentes à Universidade, quais as da 
mesa conventual. Demandas foram essas cheias de peripécias, 
a que se encontram numerosas referências nas actas dos con- 
selhos académicos, que não vieram a terminar senão muitos 
annos decorridos, por intervenção autoritária de D. Filippe iii 
de Castella, fazendo-se escritura de transacção e composição 
em Valladolid a 26 de março de 1606, assignada pelo doutor 
Fr. Egídio da Apresentação, lente de véspera de theologia, 
procurador da Universidade, e D, Francisco do Soveral, có- 
nego crúzio, procurador do convento. 

Ora succedeu que, correndo no mencionado anno de 1562 
uma dessas demandas, a respeito da igreja de S, Mamede de 
Valle de Remígio, o prior geral de Santa Cruz D. Lourenço 
Leite achou que não valia a pena supportar as demoras do 
processo, e aguardar a sentença final do juiz competente. 
Lançou mão de meio mais pronto e expedito: fulminou a pena 
de excomunhão contra o reitor da Universidade D, Jorge 
d*Almeida e contra os deputados da mesa da fazenda, que 
eram a parte litigante contrária ao seu convento, 

A Universidade, surprehendida com a audácia estulta e 
ridícula, riu-se de tal despropósito; mas, chegando o dia do 
anniversário de D. João iii, não poude ir ao mosteiro de Santa 
Cruz fazer o offício ordenado pelos estatutos, porque os frades 
se recusaram a admittir excomungados na sua igreja ', Fo- 
ram por isso à igreja da Graça, onde se realizou o anniversário 



* Para a história deste conflicto eucontram-se bastantes doeu- 
meutos no Archivo da Universidade, espeeialmente na colecc, 
ConselkoSf t, 4. 



198 CAP. III — ACTOS DO CULTO 

com a pompa usual, e com assistência das justiças da terra, sem 
que entretanto comparecesse a câmara municipal, que foi a 
Santa Cruz assistir ao offício, que os cónegos ali fizeram à 
mesma hora a que a Universidade o fazia na outra igreja. 
Este procedimento da câmara foi severamente censurado pela 
rainha regente D. Catharina, em carta dirigida ao senado de 
Coimbra ^ 



' «Juiz vereadores e pp/***'" (procurador) da cidade de cojmbra, 
eu ellRey vob emuio in.io saudar. São e formado que estando a vni- 
uersidade desa cidade pêra faz' no moestr*» dç santa cruz o sai- 
mento que nelle cadano faz pola alma delRey meu sôr e avo que 
Santa gloria aja, o prior e padres do dito moestr" fizerão pubricar 
certas cesuras e declarar p' excomungados o Reitor e deputados 
da dita vniuersidade por causa da demanda que antre ella e o dito 
moestr** se trata acerq" da Igreja de são mamede de Vai dermijo, 
e que posto que da p*e da vniuersidade se estudase o caso poUos 
lentes de prima e vesp" de theollogia e cânones e se achasse que 
as ditas cesuras não ligauâo nê proçediao p' não serem legitima- 
mête postas o dito prior e padres do dito moestr** nao qui serão con- 
sentir que fosê a elle o dito Reitor & deputados pêra effeyto ^o 
dito saimêto, polia q* causa a vniuerssidade ordenou de o faz' no 
moestr*» de nossa sõra da graça como de ÍM^ fez com muito escan- 
dollo do pouo por Rezão das ditas cesuras, e vos mandou Recado 
e asy ao L""" guaspar temr'<» do meu desembargo C**"" (Corregedor) 
desa comarq* que ttbseis estar presente ao dito saimêto no dito 
moestr<* de nosa Sõra da graça como tenho mandado que esteis no 
de sancta cruz, o que o dito C'"" fez & vos não tão somente não 
quisestes jr mas ajnda mandastes lançar pregões polia cidade com 
certa penna que de cada casa fose hua p." ao dito moestr*» de 
santa cruz de que me muito desaprouue e nao poso deixar de voUo 
estranhar por que ajnda que as causas das ditas cemsuras forâo 
justas e boas não ouuereis de perturbar a sollenidade do dito sai- 
mento que soes tão obriguados acreçentar e vos ouuereys dachar 
presête a elle no dito moestr" de nossa sõra da graça como o fez o 
dito C.***" quanto mais constando ciaram'® serê as ditas cesuras jn- 
justam'e postas e por juiz jncompetente. PoUoque vos mando que 
não favoreçaes daquy ê diante semelhantes causas por que fazendo 
o será neçesario estranharuollo e prouer niso como a eallidade do 



199 



F) Pregações 

Tinha a real capella da Universidade o encargo de vários 
sermões durante o anno. Este encargo ordinário comprehendia 
os sermões seguintes : — na festa de S. Miguel, titular da real 
capella, a 29 de setembro; em todas as quartas e sextas feiras 
de quaresma; e finalmente em todas as solemnidades a que 
a Universidade ia assistir em préstito ou procissão. 

Destes sermões havia uns que pertenciam a lentes da Uni- 
versidade, determinados nos estatutos, e eram: — o do Natal 
(depois transferido, como fica dito ^ para a Epiphania) e oda 
Anunciação, os quais eram ónus do lente de prima de theo- 
logia; o do anniversário do nascimento de D, João iii, que 
pertencia, em annos alternados, aos lentes de prima e de 
véspera da mesma faculdade; e o do anniversário da morte 
do mesmo monarcha, que devia ser pregado pelo lente da Sa- 
grada Escritura, e, se houvesse duas cadeiras de Escritura, 
pertencia a ambos os lentes alternatim^. A provisão régia 
de 4 de junho de 1746 acrescentou à faculdade de theologia 
o encargo do sermão na festa da rainha Santa Isabel 3. 

Os restantes sermões ordinários eram pelo reitor distribuí- 
dos pelos collégios universitários, devendo ser pregados pelos 
seus respectivos lentes e pregadores ^ Geralmente o sermão 



caso Requerer, e escreuermeis loguo o descarguo deste negocio e 
a causa p*" que asy jnconsideradamente vos iielle ouuestes Jorge da 
costa o fez em lixboa a xbj de Junho de 15G2. Manuel da Costa a 
f€z escreuer, 

Raynha». 

(Archivo da Camará Municipal dk Coimbica. Cartas originaes dos 
reis, fl. 129). 

« Vid. p. 18 L 

2 Estatutos velhos, 1. 1. titt. 13 e 14. 

' Evolução do culto de D. Isabel, t. 2, p. 342. 

** Estatutos velhos, 1. 1, tit. 11. 



200 CAP. IH— -ACTOS DO CULTO 

de cada uma das festas, que a Universidade ia em préstito fazer 
aos eollégios nella incorporados, era distribuído ao collégio 
respectivo, onde a festa se havia de celebrar; e o próprio esta- 
tuto insinua isto mesmo quando, falando da festa de N. Se- 
nhora da Conceição, que ia fazer-se ao collégio dos freires de 
Christo, ao referir-se à pregação, introduz o parénthesis (qtíe 
farão 08 Freires) ^ Mas nem sempre assim se fazia, e por 
vezes iam pregadores de um collégio fazer o sermão na festa 
realizada em outro collégio. É assim que encontramos o P.* An- 
tónio Vieira, do collégio dos jesuítas, a pregar perante a 
Universidade o bem conhecido sermão de S.i» Catharina a 
25 de novembro de 1663 na igreja do collégio do Carmo, onde 
se fazia esta festa ^. 

Nas grandes solemnidades extraordinárias, quer festivas 
quer fúnebres, eram geralmente lentes da faculdade de theo- 
logia os incumbidos dos sermões. 



Esta forma de distribuir os sermões nas solemnidades 
académicas, já modificada pela praxe estabelecida depois da 
reforma pombalina, a qual foi sancionada por deliberação do 
claustro-pleno a 24 de janeiro de 1778^, tornou-se de todo im- 
praticável depois da suppressão dos eollégios universitários 
com a implantação do novo regime político. 

O decreto de 15 de abril de 1845, que reorganizou os servi- 
ços da real capella, determina no art. 3/', que serão annual- 
mente distribuídos por turno aos lentes de theologia os ser- 
mões das festividades da capella, ficando exceptuados os 
sermões do Mandato e S. Miguel, que serão encarregados aos 
oppositores e doutores addidos. Esta excepção deixou de se 
respeitar, desde que foram snpprimidos os concursos por 
longa opposição para o provimento das cadeiras, passando a 



1 Estatutos velhos, 1. 1, tit. 13, n. 5. 

2 Ibid., n. 4. 

3 Claustro-pleao, 1. 1, fl. 41 v.* 



SERMÕES 201 



distribuír-se estes dois sermões também por turno, assim como 
os restantes, pelos lentes de theologia. 

É esta ainda a forma de distribuição dos sermões nas so- 
lemnidades da real capella, em conformidade com o art. 177.o 
do decreto n." 4 de 24 de dezembro de 1901, e com as instru- 
ções regulamentares da reitoria de 22 de novembro de 1902, 
art. 3.^ 



Desde 1834, extinctos os collégios universitários das ordens 
religiosas, ficou o púlpito da universidade reservado exclusi- 
vamente aos lentes e doutores ; e não tenho conhecimento de 
ser aberta até hoje outra excepção, senão a 24 de novembro de 
1895, dia em que os estudantes da Universidade celebraram 
na real capella um pomposo Te Deum em acção de graças 
pelo triumpho das nossas armas em Africa, subindo ao púlpito 
o Ex.™o D. António José de Sousa Barroso, então bispo de 
Himéria prelado de Moçambique, e actualmente bispo do 
Porto, que, achando-se casualmente nesta cidade, foi pela com- 
missão académica convidado, apenas com algumas horas de 
antecipação, para fazer a oração gratulatória. Jamais ouvi um 
discurso tam vibrante de enthusiasmo e patriotismo. A im- 
pressão produzida no auditório foi extraordinária ; e, quando 
o benemérito prelado, findo o acto religioso, saía da capella, a 
academia aguardava-o no terreiro, e fez-lhe espontaneamente 
a ovação mais enthusiástica, a que tenho assistido ! Sua Ex.^ 
não poude entrar no carro que o aguardava, vendo-se obri- 
gado a fazer o trajecto para a casa, onde se achava hospedado, 
caminhando sobre capas académicas, que tapetavam o cami- 
nho, no meio de delirantes acclamações da juventude univer- 
sitária, e sem a mais leve nota discordante. Semelhante mani- 
festação lhe foi feita pela academia algumas horas depois, na 
estação do caminho de ferro, quando o benemérito bispo- 
missionário partia de»ta cidade. 



â(i 



202 CAP. III — ACTOS DO CULTO 



6) Outras solemmdades extraordinárias 



Sam numerosas as referencias, que se encontram nos livros, 
a solemnidades religiosas extraordinárias celebradas na real 
capella da Universidade, por occasião de sucessos singulares 
ou anormais. 

Não tomamos sobre nós o encargo de relacionar e dar no- 
tícia dessas solemnidades, porque isso nos levaria muito 
longe, sem vantagem considerável. Não podemos porém deixar 
de abrir uma excepção, referindo-nos à grande festa do jura- 
mento solemne da Immaculada Conceição, feito pela Univer- 
sidade no sábbado 28 de julho de 1646. Foi uma das festas 
mais brilhantes, piedosas e enthusiásticas, que na real capella 
universitária se têem realizado, associando-se a esta festivi- 
dade, com grandes demonstrações de regozijo, a cidade inteira. 

Encontram-se largamente referidos os precedentes histó- 
ricos, que determinaram este acto. em um opúsculo, que pu- 
bliquei em 1904 com o titulo — O mystério da Immaculada 
Conceição e a Universidade de Coimbra, Reproduzirei agora 
apenas a notícia da solemnidade. 

Era então presidida a academia conimbrigense pelo reitor 
Manuel de Saldanha, bispo nomeado de Viseu e mais tarde de 
Coimbra. 




Assinatura do reitor Manuel de Saldanha 

Na manhã do referido sábbado dirigiu-se o reitor com toda 
a pompa, acompanhado da Universidade em luzido préstito, 
para a real capella, onde já se achavam, nos seus respectivos 
lugares, as communidades religiosas, os ofliciais, justiças e 
pessoas nobres da cidade. 

Ao meio do retábulo do altar-mór destacava, entre luzes e 
flores, uma bella imagem da Virgem, que ainda hoje se con- 



JURAMENTO DA IMMACULADA CONCEIÇÃO 



203 



serva exposta à veneração K Toda a capella havia sido vistosa 
e ricamente engalanada, como convinha à grande solemnidade 
que nella se ia realizar. O R.™® Padre D. Leonardo de Santo 
Agostinho, cancellário da Universidade, paramentado in pon- 
tificalibtis, de mitra preciosa na cabeça e báculo na mão, cer- 




Assinatura do cancellário doutor D. Leonardo de S.to Agostinho 



cado dos seus ministros revestidos de ricos paramentos de 
brocado branco, aguardava a chegada do reitor e corpo 
docente. 

Chegaram. O reitor tomou lugar na sua cadeira prelatícia, 
ao lado do Evangelho; ocuparam os doutores os bancos que 
lhes eram destinados a um e outro lado da capella-mór, e 
começou a missa pontifical com toda a pompa e solemnidade. 

Ao Evangelho pregou o notabilíssimo doutor beneditino 
Fr. Leão de S.io Thomás, lente de véspera da faculdade de 
theologia. 




Assinatura do doutor Fr. Leão de S.i» Thomás 



Terminada a missa, o cancellário depõe a planeta, a dal- 
m ática e a tunicella, e vestindo o pluvial, dirige-se ao altar, 
sobre o qual fora collocado o livro dos santos Evangelhos ; 



* É a imagem que figura na estampa da p. 70. 



204 GAP. III — ACTOS DO CULTO 

ali, de pé, adornado com a mitra preciosa e apoiando a mão 
esquerda ao báculo pastoral, voltado para a imagem da Vir- 
gem, com a mão direita sobre o livro, estando ajoelhados 
em frente do altar o reitor, lentes e doutores, o cancellário 
pronuncia em nome da Universidade a fórmula, pela qual 
faz voto, promessa e juramento de defender, ler, pregar e 
ensinar pública e particularmente^ que a Virgem Santíssima 
foi preservada, por singular privilégio, da mácula do pec- 
cado original; e se obriga, por lei e estatuto, que valha e 
tenha força para sempre, que em nenhum tempo seja admit- 
tido aos grauà desta Universidade, o que não fizer o mesmo 
juramento, obrigando-se a defender pública e particular- 
mente esta sentença e voto. 

Feita a protestação, voltaram todos para os seus logares, 
e o cancellário sentou-se em frente do meio do altar, voltado 
para o povo, com o livro dos santos Evangelhos aberto no re- 
gaço. Então o reitor desceu da sua cadeira, e acompanhado 
do mestre de cerimónias e da guarda honorífica dos bedéis, 
todos com as suas insígnias, foi ajoelhar aos pés do cancel- 
lário, e, pondo a mão direita sobre o livro, pronunciou a fór- 
mula do juramento — Ego Emmanuel de Saldanha, hujus 
almae Universitatis rector, idem voveo, spondeo, et profiteor, 
Sic me Deus adiuvet, et haec sancta Dei Evangelia, Depois do 
reitor vieram as faculdades, uma por uma, prestando jura- 
mento cada um dos seus membros singularmente. 

Enquanto se procedia a este acto solemne, tangiam fes- 
tivamente as charamellas, trombetas, atabales e os outros 
instrumentos, de uso tradicional nas solemnidades universi- 
tárias. 

Terminada a festa religiosa, continuaram as demonstrações 
festivas de alegria por toda a cidade. 

Para perpetuar a memória deste acontecimento, esculpiu-se 
uma pedra com larga inscrição latina, que se collocou na real 
capella, no topo do transepto, do lado do Evangelho, junto do 
altar onde ainda hoje se conserva a bella imagem de Nossa 
Senhora da Luz, perante a qual, previamente para isso col- 
locada no altar-mór, a Universidade de Coimbra se obrigou 
pelo solemne voto e juramento, que acabamos de descrever, 
a ensinar, pregar e defender a doutrina da Imraaculada Con- 
ceição. 



JURAMENTO DA IMMACULADA CONCEIÇÃO 



^5 



Logo na tarde desse mesmo dia 28 de julho se começou 
a executar a determinação assente, exigindo-se de cada um 




Lapide coramemorativa do juramento da Immaculada Conceição i 



dos graduandos o juramento semper et ubique defensurum^ 
Beatam Mariam Virginem Dei Genitricem absque macula 
peecati originalis conceptam exstitisse. Os primeiros que o 
prestaram foram os candidatos ao grau de bacharel em câno- 
nes, Francisco Soárez, de Tentúgal, e Francisco Aranha, do 
Porto 2, 

Cumpriu-se religiosamente a obrigação contrahida. Daí em 



1 A inscrição diz assim: — anno \6ie. sabbato 28» ivlii innocen- 

TIO H\. PONTIFI-JCE MÁXIMO, lOANlíE 4 ® FOSLICISSIMO LVSITANIíE REGE, 
KE-JCTORE EMMANVELE DE SALDANHA, VISENSI EPISCOPO ELE-|cTO. FLO- 
RENTISSIMA GONIMBBICENSIS ACADEMIA PIETA-JTIS GVLTV ERGA DEIPARAM 
INSIGNI8, CVNCTIS RITK, AV-jGVSTÈQVE PERACTIS SOLEMNI VOTO, INVIOLA- 
BILI IVRA-jMENTO SE SE OBSTRINXIT, VT IN POSTERVM TAM PVBLI-|cÍi, QVAM 
PRIVATIM DOCEAT, PR^DICET, DEFENDAT, SAN-IcTISSIMAM VIRGINEM, IN 
PRIMO 8V^ CONCEPTIONIS 1N8TÃ-|TI, AB OMNI ORIGINALIS CULP^ LABE, 
GLORIOSÈ PR^-|SERVATAM EXTITISSE. Et TAM SACRVM RELIGIONIS | OBSK- 
QVIVM HOC 8AX0 POSTERITATI COMMENDAVIT. 

2 Autos e graus, t. 33, 1. 3, fl. 43 v»" 



206 CAP. III— ACTOS DO CULTO 

deante não mais se conferiu grau algum sem a prévia presta- 
ção do juramento; até que o magistério authéntico da santa 
Igreja, definindo solemnemente pelo summo pontífice Pio ix 
o dogma de fé da Iramaculada Conceição, tornou inútil e su- 
pérfluo aquelle juramento, e por isso caducou a obrigação. 
Todos os cathólicos sam hoje obrigados a crer e defender esta, 
como todas as outras verdades reveladas por Deus e definidas 
pelo magistério ecclesiástico. Lá se encontra implícita essa 
verdade na profissão de fé, que os doutorandos em theologia 
pronunciam antes de receberem o grau, e que os professores 
de todas as faculdades académicas annualmente affirmam e 
juram no acto da abertura solemne da Universidade, no mê» 
de outubro. 

O conselho dos decanos, em sua sessão de 5 de maio de 
1855, declarou por isso derogado o respectivo preceito e de- 
ver ^ O último graduando, que prestou o juramento, foi 
Manuel Eduardo da Motta Veiga, mais tarde lente da faculdade 
de theologia, que nella se doutorou a 19 de novembro de 1854. 



Actualmente o culto na real capella mantem-se com toda a 
decência e regularidade, embora privado do antigo esplendor, 
por força de várias circunstâncias, entre as quais avulta a da 
mesquinhez dos recursos pecuniários, que não se compadecem 
com ostentação e pompas. 

Os actos ordinários do culto, que na actualidade estám pre- 
ceituados, sam os que passo a ennumerar. 

— a) Seis solemnidades de 1.» classe, a que assiste o reitor 
com o corpo docente, e em que officiam e pregam por turno 
lentes da faculdade de theologia, e vêem a ser : — Missa do 
Espírito santo e profissão de fé com juramento dos lentes, a 
16 de outubro ; — Commemoração fúnebre, constando de vés- 
peras, matinas e laudes, missa e absolvição, de todos os de- 
funtos da Universidade, a 1 e 2 de novembro ; —Vésperas, tércia 
e missa da Immaculada Conceição, padroeira da Universidade, 



* Conselho dos decanos, t. 7, fl. 15. 



CULTO NA REAL CAPELLA ACTUALMENTE 207 

a 7 e 8 de dezembro; — Solemnidades de quinta e sexta feira da 
semana santa ; — Matinas e laudes, procissão e missa da Re- 
surreição em domingo de Páschoa * ; — Vésperas e missa da 
Rainha Santa Isabel, a 3 e 4 de julho, solemnidades estas que 
desde o anno passado se transferem, por determinação rei- 
toral, para o sábbado e domingo immediatos. 

— ò) Dez solemnidades de 2." classe, em que officia o lente 
director da real capella, e sam as seguintes: — de S. Miguel, 
titular da real capella, no primeiro domingo depois da abertura 
da Universidade; do Natal, Epiphania, Purificação, Domingo 
de Ramos, sábbado d'Alleluia, domingo de Pentecostes, festa 
de Corptis^Christiy de S, Pedro e S, Paulo, e missa de Réquiem 
no anniversário do último monarcha fallecido. A esta última 
assiste o reitor com o corpo docente. 

— e) Oito solemnidades de 3.* classe, em que officia um ca- 
pellão, por turno, as quais sam nos dias : de Todos os Santos, 
Circuncisão, S. José, Annunciação, Ascensão, Santíssima Trin- 
dade, Coração de Jesus, e Nascimento de S. João Baptista, 

—d) Missa cantada, e no fim antíphona e oração de Nossa 
Senhora, em todos os restantes domingos e dias santificados 
occorrentes durante o anno lectivo, isto é, desde 16 de outubro 
até ao fim de julho, havendo acompanhamento de órgão todas 
as vezes que as regras litúrgicas o não prohibem. Esta mim» 
é votiva da Immaculada Conceição, por privilégio especial, no 
primeiro domingo de cada mês; e, se houver impedimento 
litúrgico, passa para o domingo seguinte não impedido \ 



^ Já ha annos que se não realizam as solemnidades da semana 
santa e páschoa, principalmente por falta de recursos ; e também 
por ser tempo de férias e ter-se ausentado quase todo o pessoal 
universitário. 

* Pelo referido indulto especial da Sagrada Congregação dos 
Ritos, é concedido à real capella Sancti Michaelis Archangtli in 
Urbe Conimbrigen.^. prima cnjusvis mensis Dominica... ut Missam 
. . . Immaculatae Deiparae Conceptionis in eodem Sacello celebrari 
liceaty necnon ut ejusmodi Mis^ae celebratio transferri possit in {tybse^ 
quentem Dominicam non imptdiiam, quoties prima in mense rite im- 
pediatur * . . dummodo non occurrat Duplex primae vel Btcundae clas- 
sÍ8y Dominica primlegiata vel Octava item privilegiata, necnon fes- 



808 CAP. III -^ ACTOS no culto 

— e) Uma missa rezada no altar-mór, onde está o sacrário 
com o Santíssimo, todos os dias do anno lectivo, sejam ou 
não santificados. A esta missa assiste o reitor com o corpo 
docente nos dias em que se efeitua algum doutoramento; e 
naquelles em que se faz algum exame de licenciado, assiste 
o reitor com a faculdade respectiva. Além da referida missa 
quotidiana, que é official e obrigatória, celebram na real ca- 
pella quaisquer ecclesiásticos que o desejem, quer pertençam 
ao corpo docente ou discente da Universidade, quer sejam 
estranhos, uma vez que mostrem ter licença para celebrar 
na diocese de Coimbra. 

Nestes actos litúrgicos exercitam-se não só os capellães, 
que sara todos estudantes, mas ainda quaisquer alumnos da 
faculdade de theologia, ou clérigos alumnos das outras facul- 
dades, que requeiram à reitoria a sua inscrição como addidos 
ao collégio dos capellães K 



Sam simplezmente mesquinhas as verbas de que hoje se 
dispõe para os actos do culto solemne na real capella univer- 
stifáilíft; encontram-se inscritas no cap. 10.", art. 65." do orça- 
meUtíodo Estado. Ei-las: 

— Pessoal na>8 seis festividades de 1,* classe 

(celebrante, or adores f propinas do 
pessoal maior e menor, música e can- 
tores) 148$200 

— Pessoal nas festividades de 2," e 3." clas- 

ses (celebrante e propinas do pessoal 

maior e menor) 23$70O 

Somma 17UI900 

Em qualquer freguesia rural, para festejar o orago da 



Uim aliquod Beatae Mariae Virginis: servatis Rubricís. -—{Arckivo 
t>A Universidade, gav. 150). 

^ Tudo isto se encontra disposto no decreto com força de lei 
n.** 4 de 24 dez. 1901, no regulamento da real capella approvado 



SUA DOTAÇÃO 209 



igreja matriz ou de qualquer confraria, dispõe-se de mais 
avultados recursos, do que na capella real da Universidade 
para realizar todas as solemnidades do anno ! Basta dizer que, 
nas duas últimas vezes que aqui se efeituaram as solemnida- 
des da semana santa, sendo então reitor o sr. conselheiro 
doutor António dos Santos Viegas, se gastou com as funções 
apenas de domingos de ramos/quarta, quinta e sexta feiras 
da referida semana, a quantia de 517$415 réis em 1890, e em 
1891 a de 462$200 réis. Não mais se fizeram, por falta de do- 
tação, apesar de dizer a lei que se façam todos os annos. 

A cera, vinho, hóstias, incenso e restantes guisamentos 
adquirem-se cerceando a verba deminuta, a que nos referimos 
no capítulo precedente *, destinada a acquisição de alfaias, 
concertos, e todas as mais despesas com o material da capella. 



Na reforma pombalina houve intenção de aproveitar a real 
capella, para por meio delia exercer sobre a educação moral 
da juventude académica salutar influxo mais intenso e efficaz, 
do que o produzido apenas pelos actos do culto, e pelos ser- 
mões das solemnidades ^. 



por decreto de 13 nov. 1902, e nas instruções regulamentares da 
reitoria de 22 nov. de 1902. 

1 Vid. p. 147. 

2 «Todos os cuidados da Vniversidade para inspirar aos Estu- 
dantes, a Religião, e a Piedade são úteis, e necessários; porem 
nunca poderão produzir todo o effeito, que se dezeja, se por outra 
parte não conspirarem os Pastores para o mesmo fim. Porque que 
progressos pode fazer a Mocidade na Virtude •, se ella vê todo o 
Culto Externo da Igreja arruinado; se os Pastores e Sacerdotes 
tendo obrigação de cathequizar os seus Freguezes, e de explicar- 
Ihes a Palavra Divina, não cumprem estas obrigações, e passao 
toda a sua vida em silencio ? Que utilidade podem tirar dos Ser- 
moens, se os Pregadores cuidam mais em pregar-se a si, como diz 
São Paulo, do que a Jezus Christo? Esta dezordem posta continua- 
mente aos Olhos da Mocidade he certo, que a faz desprezar, e 
illudir todas as Leys Académicas, e a move, ou a reputar por huma 

27 



SIO CAP. III — ACTOS DO CULTO 

Combinara o reitor com o marquês de Pombal, que todos 
os domingos, de manhã ou de tarde, houvesse uma exposição 



Theoria vâa as regras da Virtude, e da Ordem que aprendem nas 
Aulas, ou por força, por coacção, e impertinência todo o zelo, e 
cuidado, dos que dirigem a Vniversidade. 

Reflectindo eu sobre este ponto tâo substancial, e vendo o mi- 
zeravel Estado, em que estava o Clero, e o Culto Divino da Cida- 
de, intentei emendar tudo com duas Vistas ; huma de reformar a 
Igreja; outra de reformar a Vniversidade, e fazer, que a Mocidade 
sahisse delia solidamente instruída na Religião, e formando idea» 
solidas e illustradas da Piedade Christâ. 

O meu Plano foi 1.® Reduzir oito Igrejas Parochiaes, que ha na 
Cidade a cinco por serem só as necessárias ... — 2.® Vnir as rendas 
das Igrejas supressas ás existentes . . . — 3.<> Ordenar, que oa Pa- 
rochos fossem Doutores da Faculdade de Theologia, e precizamente 
fossem obrigados em todos os Domingos e Dias Santos a fazer Ca- 
tecismo, e a explicar o Evangelho, ou qualquer outro Lugar da 
Escriptura, que a Igreja põe na Missa para ser lido, e explicado 
aos Fieis : Que os mais Beneficiados fossem ao menos Bacharéis 
Formados na mesma Faculdade, para exercitarem o mesmo Minis- 
tério, e cooperarem com os Pastores na Salvação das Almas &.* 

Neste Plano falei ao Núncio Conti, o qual o achou muito con- 
forme com a Disciplina da Igreja, segurandome, que da sua parte 
estava prompto para auxiliarme. Passei também a reprezentalo a 
Sua Mage que Deos tem pelo Marquez de Pombal, o qual por duas 
Cartas de Ofíicio declarou-me, que era muito do gosto, e approva- 
ção do mesmo Senhor, e que não retardasse eu a execução pelas 
grandes utilidades que delia se seguiriâo . . . 

Alem deste Estabelecimento lembrei-me também de que seria 
muito conveniente, que nos Domingos de manhã, ou de tarde hou- 
vesse na Capella Real da Vniversidade huma explicação catheque- 
tica das verdades mais principaes, e fundamentacs da Religião ; na 
qual se procedesse á maneira dos antigos Padres. Propuz esta ne- 
cessidade ao Marquez de Pombal, o qual aprovou a lembrança. 
Mas as circumstancias, que occorreram, e a falta de sujeito, que 
satisfizesse a este Instituto como se tinha meditado, e era neces- 
sário, fizeram suspender a sua execução». — {Belação Geral do Es^ 
lado da Vniversidade, pp. 229-232). 



PLANO DE D. FRANCISCO DE LEMOS 211 

OU explicação catecketica das verdades mais principaes e 
fundamentaes da Religião; mas não chegou a realizar seme- 
lhante plano. 

Esta medida era completada pela reforma das paróchias de 
Coimbra, deminuíndo-lhes o número, augmentando o rendi- 
mento das que ficavam subsistindo, e coUocando à frente 
delias párochos que fossem indispensavelmente doutores em 
theologia, obrigados em todos os Domingos e Dias Santos a 
fazer Catecismo, e a explicar o Evangelho, ou qualquer outro 
Lugar da Escriptura, que a Igreja põe na Missa para ser 
lido, e explicado aos fieis; e exigindo para o provimento de 
todos os outros benefícios ecclesiásticos, que então havia nas 
igrejas parochiais e collegiadas de Coimbra, pelo menos a 
formatura theológica, para os beneficiados exercitarem o 
mesmo Ministério, e cooperarem com, os Pastores na Salva- 
ção das Almas. 

Mas nada disto chegou a realizar-se, ficando tudo em sím- 
plez projecto. O marquês de Pombal, depois da morte de 
D. José, caiu na desgraça, e a sua obra ficou por concluir. 

Não tardou a erguer-se a reacção temerosa contra toda a 
obra, má e boa, do extraordinário ministro. Avolumaram-se 
os erros, dissimularam-se e apagaram-se as virtudes; nada 
se reconhecia como aproveitável, em tudo quanto o marquês 
fizera. 

A própria reforma litterária da Universidade, por elle 
realizada, estava prestes a ruir ; delia pouco ou nada se salva- 
ria, se não fosse o reitor D. Francisco de Lemos de Faria Pe- 
reira Coutinho metter ombros à empresa de a sustentar e 
salvar. A admirável Relação Geral do Estado da Vniversi- 
dade de Coimbra, que. por vezes temos citado, e que elle 
escreveu com grande tino e lucidez para ser presente ao go- 
verno de D. Maria i, teve a virtude de conjurar a tempestade 
de reacção, que rugia ameaçadora. Foi um valente muro de 
defesa, que ergueu em roda da Universidade pombalina, pe- 
rante o qual succumbiram as paixões demolidoras dos adver- 
sários. 



IV 



PESSOAL E SEDS VENCIMENTOS 




EM pobre de pessoal era a antiga capella real 
de S. Miguel de Coimbra, segundo temos 
visto. Um só capellão a servia, o qual cele- 
brava missa e recitava o offício divino quoti- 
dianamente, auxiliado sem dúvida por um 
acólytho ou moozinho. Este o único pessoal 
ordinário, que alli executava os actos do culto 
litúrgico. 

Não podemos, por falta de documentos, organizar a lista 
dos capellães desta real capella, desde a sua instituição; nem 
do facto de nos apparecer, em pergaminhos dos primeiros 
reinados, um ou outro nome acompanhado dos epíthetos de 
capellão dei rei ou capellão da rainha, podemos concluir, 
que os ecclesiásticos assim designados tivessem a seu cargo 
a manutenção do culto na capella de S. Miguel do paço real. 
Apenas depois da morte do infante D. Pedro duque de 
Coimbra, e da restauração do culto divino nesta capella em 
1455 *, é que principiam a apparecer com indicações precisas 
os nomes dos capellães, que sucessivamente a serviram. 

Pedro de Semide foi capellão da capella real de S. Miguel 
de Coimbra desde 1455^ até 1462 3; succedeu-lhe neste anno 



> Vid. p. 14. 

^ Vid. p. 15, nota. 

3 Vid. p. 16, nota. 



214 CAP. IV-— PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

João Alvarez ^ que occupou o benefício sete annos ^ ; em 
1469 foi substituído por Luis Gonçalves ^, que não sei quantos 
annos serviu; em 1516 era capellão Ãlvai^o Martinz^, que 
ainda se conservava em 1527 *. 



Também sam poucas as notícias que temos dos vencimen- 
tos percebidos pelo capellão de S. Miguel nessas épochas 
remotas. 

Em tempo de D. Affonso v vencia annualmente um moio 
de trigo pêra seu mãtimento, e 2$300 reis brancos em dinheiro 
pêra cõduyto e vistido e cera ; affirmando este monarcha, em 
três alvarás sucessivos, que esse vencimento per os rrex 
nossos antecessores foy hordenado ^. 

No reinado de D. Manuel o capellão era obrigado a poer 
as candeas (velas) vjnho e agoa e osteas, e vencia 5$500 reis; 
este ordenado é elevado a 8$000 reis annuais desde janeiro de 
1517 em deante, com a nova obrigação de ser cantada a missa 
em dia de S. Miguel a 29 de setembro, e de ter húa alampeda 
acesa em todas as mjsas e oras que Rezar 7. 

D. João III aumenta 2$000 reis ao capellão, que assim 
fica vencendo 108000 reis annuais desde janeiro de 1528 em 
deante *. 

Era este o ordenado, quando em 1557 a Universidade se 
installou nos paços reaes da Alcáçova de Coimbra. 



A Universidade, quando installada em Lisboa, já lá tinha 
o seu capellão privativo ^. Mudada para Coimbra, o respec- 



1 Vid. p. 16, nota, 

2 Vid. p, 17, nota, 

5 Ibid. 

4 Vid. p. 19, nota. 

6 Ibid. 

8 Vid. notas das pp. 14 a 18. 

7 Nota na p. 19. 
« Nota na p. 20. 
o Vid. p. 150. 



EM TEMPO DE D. JOÃO III 215 

tive capellâo passou, como era natural, a exercer as suas 
funções na capella real, que simultaneamente o era do studo ^ 
Não sei quando é que a Universidade ampliou o quadro 
dos seus capellães ; os perdidos estatutos de 1544 certamente 
se occuparam deste assunto. O que sei porém é que em 1549 
se celebravam três missas quotidianas obrigatórias na real 
capella, o que nos mostra a existência de três ou mais capel- 
lães ordinários K 



1 Vid. p. 150. 

^ £ interessante o assento da mesa da fazenda, que vamos 
publicar em seguida: 

«^ h-^ frz' Capelão & tr<» da Capela. 

Aos xxix dias de março de yb* coarêta & noue anos^ na cidade 
de Coimbra & casas do .s.®' frei diogo de murça Reitor sendo elle 
presente & os .s.""* deputados da mesa da façeda juntos & chamados 
p* despacho da dita mesa & mesa façêdo segundo seu bõ costume 
& p° diz castel branco veedor & cõtador nâo esteue presête por 
estar nas cotas de g" mazcarenhas / a hi forão apresStados hus 
itêis de fr<^« fi*z' Capelão da Vnirersidade a quê ora o s.^ Reitor 
em comêdou a tesoureria da capela da dita Vnit^rsidade & madou 
q lhe fosem emtregues as cousas delia / & nos ditos itêis pedia lhe 
quisesem asentar algua cousa certa p** as cousas neçesareas do 
seruiço da dita Capela .ss. p" as candeas das misas cotedianas & 
p* vinho & ostias & agua p* as pias & seruiço das ditas misas & p" 
quê lauase as toalhas dos altares & as aluas & asi mais apõtaua a 
elle lhe ser neçesareo hum moço q o ajudase ao seruiço da dita 
capela pollo q pedia o ajudase cô q o pudese vastir & sustêtar, & 
outro si lenbraua q se tapasem as frestas q estão as ilhargas dos 
altares & q se guarnecese a capela & se cõçertasê os altares & q 
erãc neçessareas dous pares de galhetas & duas pedras dará & 
duas estãtes portatiles & outras mais cousas, o q tudo praticado 
pelos .S/*" Reitor & deputados mouidos c5 zelo q o seruiço & cou- 
sas da dita capela andasem em ordê & be tratadas & linpas p." q 
o culto deuino facêdo se como se deuia nosso . S."' fose seruido / & 
cofiando q elle fr*"® frz* o fará asi asentarão q elle tiuesse o dito 
caRego asi como lhe he em cõmêdado & por tanto tenpo quâto a 
elle .S.®"^ Reitor bê parecer / & p" as cousas q tinha apõtadas q 
erã neçesareas p" as missas & agua beta & lauagõ de toalhas & asi 



216 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

É neste anno que nos apparece já nomeado thesoureiro 
pelo reitor o capellão Francisco Fernández, o qual foi em 
virtude desta nomeação encarregado da guarda das alfaias, 
da limpeza e lavagem da capella e roupas do culto, do for- 
necimento de hóstias, vinho, cera e agua, e da manutenção de 
um moço, que acolythasse às missas e o ajudasse no restante 
serviço religioso e de limpeza. Ignoro quanto então vencia 
cada capellão; ao thesoureiro foi fixado, para satisfazer a 
todos estes encargos, o vencimento de 3$000 reis em dinheiro 
e um moio de trigo, ficando-lhe certamente salvo o que já 
percebia como capellão ^ 

Em 1563 era capellão-thesoureiro Diogo Fernández, que a 



p» o moço q o ade ajudar na dita capela / lhe asentarão três mil rrsi 
em dinheiro & hum moio de triguo / o q tudo lhe será pago pelo R****' 
da Vniuersidade .ss. os três mil rrsi as terças segundo ordê deste 
estudo & o pão se pagara junto ou por se ha em algum Rendeiro 
por ordinária p" q lhe seja pago / & as cousas p^ q se o dito di- 
nheiro da & o preço a cotia delias he pola maneira siguinte : 

— de cãdeas p" as três misas obrigatórias q se cada dia dizíf 
na dita capela a dous rrsi de cadeas p" cada misa mõtase por aiio 
dous mil & c*'* & nouêta (rrs* y c'° IR rrs') 

— de vinho p" as ditas misas cada semana duas sumichas a 
cinco rrs: a sumicha mõtase por ano quinhetos & dez rrs (b®.x. rrs') 

— dagua p" a pia & seruiço do altar / cada semana duas talhas 
a dous rrsi a talha mõtase por ano doe**"* & oito rrs' (ij*' biij rrs') 

— p** lauagS das toalhas dos altares & aluas hu tostão por aíio 
(e*° rrs) 

— p" ostias .X. alqueires de trigo por ano & elle poera a lenha 

— p*" ajuda da mâtêça do moço o mais q p» cõprim*" do moio 
falta. 

& isto foi asêtado & pelos ditos preços / poios S/'^* Reitor & 
deputados / a elle fr«° frz' cõ a decraraçâo acima dita / & o mais 
do q he neçesareo a capela ficou asêtado q elle s"' Reitor o mádase 
prover dj^ daz'*** o screvi. — frey dj" de murça Reitor — 

M*^' DANDRADE DOCTOR — O DOCTOR MaNOEL DA CoSTA». 

{Fazenda, t. 1, 1. 2, fll. 23 v.« e seg.) 
1 Vid. doe. precedente. 



QUADRO DO PESSOAL NO FIM DO SÉCULO XVI 217 

7 de julho apresentou à mesa da fazenda uma petição, que foi 
deferida, concedendo-se-lhe uma mercê e esmola da arca da 
faculdade ^ 

Os moços da capella usavam, como ainda hoje usam, 
beca ou batina de côr roxa 2, e da mesma côr era a veste ou 
roupeta do andador da confraria •*. 



Nos estatutos filippinos de 1591 encontramos definitiva- 
mente estabelecido o quadro do pessoal da capella, fixados os 
seus vencimentos, e perfeitamente regulamentados os servi- 
ços e encargos que lhes incumbiam. Havia trêzo capellães, 
dos quais nove pertenciam à Universidade, e quatro aos paços 
reais de Coimbra e do Paul de Muge; estes quatro eram pagos 
pelo erário real, sendo porém todos egualmente providos per 
opposiçãOj & tempo de seis annos. Nesta opposição votavam 
como eleitores o Redor cõ os cathedraticos de Prima das 
quatro faculdades, não sendo admittidos ao concurso senão 
Sacerdotes estudantes, sem raça algua, virtuosos, pobres, não 
tendo beneficio, ou renda, de que se podessem sustentar: de 
boas vozes, & que soubessem bem cantar ^. 

Além destes capellães havia também um capellão privativo 
da confraria, que era provido da mesma sorte •'. 

Do numero dos capellães elegia-se um chantre e outro 
thesoureÍ7'o; esta eleição fazía-se por concurso, perante o 
mesmo conselho dos lentes de prima, sob a presidência do 
reitor ®. Havia também o apontador, que era um dos capel- 
lães, annualmente eleito em dia de sam Hieronymo á tarde, 
derradeiro de Setembro, por todos os capellães, presididos 
pelo chantre, que em seguida deferia juramento ao eleito'; 



» Fazenda, t. 2, 1. 1, fl. 28. 
2Ibid. 1. 5, fl. 71. 

3 Ibid. 1. 2, fl. xiij; cf. 1. 1, fl. 22 v." 
* Estatutos velhos, 1. 1, tit. 1, init. e n. 1. 
^» Ibid., n. 2. 

« Ibid., nn 2 e 3, e titt. 3 e 4 iuit. 
7 Ibid., tit. 5 init. 
â8 



218 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

e de certo tempo em deante foi também egualmente eleito um 
mestre de cerimónias. 

Era do mesmo modo contado entre o pessoal da real ca- 
pella o mestre de música, depois, no decorrer dos tempos, 
apellidado lente, e actualmente professor da cadeira de mú- 
sica; acumulava, como ainda hoje, as funções de mestre da 
capella, pertencendo-lhe como tal ensinar os músicos, e reger 
o coro quando o canto é de música polyphónica, pois quando 
é de canto gregoriano pertence ao chantre esta função ^ A 
cadeira de música era provida por oposição, como as outras 
cadeiras universitárias, votando os lentes de theologia e me- 
dicina, os mestres e licenciados em artes, e os ouvintes da 
referida cadeira 2. 

O tangedor dos órgãos, mais tarde chamado organista, 
era nomeado pelo reitor, depois de examinado pelo mestre 
de música'. 

Havia quatro moços da capella, que exerciam as funções 
de acólythos em todos os actos litúrgicos, e usavam roupa 
roxa de mangas, segundo costume, & barrete preto, vestindo 
suas sobrepelizes todas as vezes que tinham de funcionar. 
Estas roupas eram fornecidas pela Universidade *. 



1 Estatutos velhos, 1. 1, tit. 3, n. 4, e tit. 6, n. 2. 

2 Ibid., I. 3, tit. 5, n. 28, e tit. 6, nn. 23 e 9,Q^g. 

3 Ibid., 1. 1, tit. 7. 

* Ibid., tit. 8. — A mesa da fazenda já em tempos anteriores 
mandava fornecer as becas, lobas ou roupas roxas aos moços da 
capella. Depois de promulgados os estatutos de 1591, o primeiro 
assento que encontro a este respeito é o seguinte : 

— «Em os xix dias do mes de Junho deyb* IRiij anos estando 
no despacho ordinarjo — lobas dos moços da capella — ^ Asen- 
touse q se paguem a fellippe lopêz alfaiate da vniu.*** dez myl & 
nouecêtos & tryta rs' q mõtou nas lobas p" os qtro moços da cap- 
pella, e nos feitios segundo se vjo pello Rol de sua letra e sinal, e 
q nas costas delle se lhe passe m'^<* di° coutinho spVí — O Br.** 
DOM Fernão Mar^ÍN MAscareN^as Rtor — D. fr. Egídio DAPREsêTAçÃo 
DEP. THEOL. — D""" Sebastião de Sousa dep. canon.» — {Fazenda, t. 3, 
1. 1, íl. 30 v.*>) 



DIRECTOR DA GAPELI.A 219 



O pessoal hoje é aproximadamente o mesmo; variaram 
algum tanto as attribuições de um ou outro funcionário, e 
pouco mais. Mas a capella, que era immediatamente dirigida 
pelo reitor, passou a ter, pela reforma de 1901, um director 
especial, eleito pela faculdade de theologia de entre os setis 
lentes cathedráticos em exercício, com a cláusula expressa de 
que servirá gratuitamente ^. 



Director. — Ê sempre um lente cathedrático de theologia^ 
para isso eleito pela sua faculdade; exerce as funções de 
chefe deste estabelecimento: sendo-lhs subordinado immedia- 
tamente todo o respectivo pessoaL 

Fiscaliza e dirige os actos do culto divino, e superintende 
em todos os serviços da real capella, e da respectiva aula de 
música; celebra as missas nas solemnidades de 2." classe; 
participa mensalmente ao reitor as faltas do pessoal, propondo 
a aplicação das multas regulamentares; faz proposta de um 
dos capellães para ser nomeado chantre, e de outro para 
vice-cerimoniário ; também tem obrigação de propor a sus- 
pensão ou demissão de qualquer dos capellães ou dos empre- 
gados menores, quando a disciplina e decoro do estabeleci- 
mento o exijam; dá informação no fim de cada anno do modo 
como cada capellão cumpriu as suas obrigações; informa 
finalmente os requerimentos para admissão dos addidos, e 
despede estes quando o decoro ou as conveniências do ser- 
viço assim o pedirem '. 



Thesoureiro. — O thesoureiro era o segundo dos capel- 
lães, subordinado ao chantre. Guardava sob sua responsabi- 



1 Decreto n.« 1 de 24 dezembro 1901, art. IT^.*^ 

2 Regulamento da real capella, approvado por decreto de 13 
novembro 1902, artt. 6." e 7.« 



220 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

lidade as pratas, ornamentos e móveis do serviço comum S 
ordinário pertencentes à capella ; as pratas, que não andavam 
a uso, estavam no cofre da Universidade; e os ornamentos e 
outros objectos de valor, que não serviam quotidianamente, 
eram recolhidos na casa da tapiceria, confiada ao guarda do 
cartório*. Dava fiança, para lhe serem entregues as pratas 
e ornamentos, cuja arrecadação lhe pertencia 2. 

Também eram obrigações do thesoureiro : - abrir e fechar 
as portas da capella às horas regulamentares, tê-la varrida 
e limpa, os altares concertados com frontaes convenientes ao 
tempo, e bem assim arranjados os bancos, & púlpito no dia de 
pregação; velar pela conservação dos livros litúrgicos e dos 
paramentos, dispondo-os convenientemente quando houves- 
sem de servir; armar a capella nos dias solemnes, devendo 
ser-lhe paga em especial toda a despesa, que nisto fizesse; 
aprestar o incenso, cera, vinho, hóstias, e agua para as missas 
cantadas, e para se dizerem as missas em todos os altares, 
sem auer falta algúa; e finalmente dar por si hum clérigo de 
ordês Sacras que nas procissões da Vniuersidade, & mais 
offidos solemnes leue a Cruz com sua almatica entre os cie- 
rigos das sobrepellizes ^. 



Como acabamos de ver, a armação da capella era, pelos 
estatutos de 1591 impressos em 1593, imposta como obrigação 
ao thesoureiro, acrescentando-se a cláusula — k a despesa qíie 
se nisto fizer pagarseha â ctista da fazenda da Vniuersi- 
dade^, E effectivamente começam em breve a apparecer 
deliberações da mesa da fazenda, mandando que se desse & 
pagasse todos os gastos da Armação indeterminadamente ^, 
ou fixando a quantia ''. 



* Estatutos velhos, 1. 1, tit. 4, e L 4, tit. 4, n. 5, 
2 Escrituras, t. 15, 1. 3, fl. 109 y.^ 

' Estatutos velhos^ L 1, tit. 4. 
4 Ibid., n. 3. 

* Fazenda, t. 3, L 1, fl. 38, sessão de 12 outubro 1593. 

* aao th™ da capela — % asentouse q se paguasê ao th^ da 



CAPELLÃO-THESOUREIRO 221 



Mas não decorre muito tempo que se não vejam os incon- 
venientes deste systema, de pagar ao thesoureiro contas 
de despesa, sem fixação de limites ; pelo que os da mesa, em 
sessão de 11 de outubro de 1594, resolvem q o agente se jn- 
forme dos guastos e custos q se pode e deue fazer nas arma- 
ções das três festas de natal, e sam miguei^ e a dendoenças p* 
se fazer acento daquillo q ê cada hu anno se lhe ha de dar ^ 

Parece que depois disto continuam a dar-se abusos ; para 
a elles obviar, determina a mesa da fazenda, a 23 de março 
de 1596, q o th^o da capella nã tragua de fora armadores e 
sirua niso Ant.^ glz^ a q a mesa mandara satisfazer e o q se 
houuer de comprar e aluguar p^ esta e p^ as mais armações 
o peça ao agente q o dará p^ conta da vJ^ -, Pouco depois, a 
31 de agosto do mesmo anno, delega a mesa no seu vogal 
dr. António Homem os poderes necessários, para que ajuste 
com o thesoureiro António Soárez, e se cÕtrate cõ elle na 
forma q lhe parecer q conve à VniuA^, fazendo as armações 
na forma q se fizera o ano p^o e dauantagê^. 

Assim foram continuando as cousas, até que a 11 de de- 
zembro de 1632 se lavrou uma escritura de contrato, em que 
a Universidade combinou dar ao thesoureiro 26$00O reis 
annuais pelas armações nas festas, e gastos com as missas de 
pessoas estranhas, que vinham celebrar à capella K 

Mas este contrato teve pequena duração, tomando-se 
depois um armador, que fizesse todas as armações nas solem- 
nidades da Universidade, tanto ecclesiásticas como acadé- 



cappella, dos gastos q fez na armação de bespora de natal q o sta- 
tuto manda q se pague à custa da Vniu*'® sete myl e trez^*»» e 
ojtêta rs* q môtarao nas addições dos gastos q fez, e q se pase m.*^" 

Br«' DOM Fernão M.artm MA«careNAas R^"*" — O n"*" fr<^° rIz froez 
Dep theolg — O D"*" Ant*^ da Cunha dep. legist. — O d**' luís Corrêa 
DEPU. CANO.» — (Fazenda, t 3> 1. 1, fl. 45 v.*, sessão de 11 janeiro 
1594). 

1 Ibid., fl 71 v.» 

2 Ibid., t 3, 1. 2, fl. 4 v.« 

3 Ibid., fl. 22. 

* Escrituras, t. 23, 1. 2, fl. 124* 



222 CAP. IV- PESSOAL IS SEUS VENCIMENTOS 

micas *. Ainda este systema não é duradouro, revertendo em 
breve novamente para o thesoureiro a obrigação de armar a 
capella. 

Em 1849, por deliberação do conselho dos decanos, o 
encargo das armações da capella, que então andava attribuído 
ao porteiro da secretaria, volta para o thesoureiro, sendo por 
isso aumentado o vencimento deste '*. 

A reitoria, com intuitos económicos, encarregou em 1893 
os carpinteiros da Universidade de armarem e desarmarem 
a capella por occasião das solemnidades ; durante alguns 
aniios fizeram elles este serviço, causando lamentáveis estra- 
gos com a sua imperícia. 

Actualmente ha um armador privativo, estando o capellão 
thesoureiro aliviado do ónus das armações. 



Outro encargo do thesoureiro era fornecer os guisamentos 
para o culto, inclusive para todas as missas que se celebras- 
sem na capella. 

Para ajuda de custo recebia, àléra do seu ordenado de 
30$000 reis, mais 14$000 reis pêra hóstias^ vinho, éc lauage de 
roupa, S pêra a cera, eiisenso, azeite, & junco, S maia cousas 
de sua obrigação 3. 

Levantaram-se dúvidas por algumas vezes sobre se esta 
obrigação se estenderia também ao fornecimento dos guisa- 
mentos para as missas dos sacerdotes estranhos à capella, que 
vinham aqui celebrar. O thesoureiro recusava-se a isso, ale- 
gando que nenhuma disposição do estatuto o obrigava a for- 
necer cera, hóstias e vinho para as missas dos hóspedes, e 
assim queria obrigar estes a trazerem os guisamentos neces- 
sários para celebrarem. 

Os vesitadores a 30 de maio de 1598 prohibiram tal 
exigência: — Achamos que os Clérigos de fora^ que vem dizer 
missa a Capella se lhes pede cera pêra as tais missas, o que 



1 Vid. p. 140 6 seg. 

2 Consdho dos decanos, t. 6, fl. 131 v.", sessão de 28 setembro 1849. 
^ Estatutos velhos, 1. 1, tit. 4, nu. 4 e 5, e tit. 10, n. 2. 



GAPELLÃO-THESOUREIRO *?23 

mandamos que em nenkúa maneira se faça mais, se nam que 
a todos os q a ella vierem dizer missa se lhes de comprido 
aviamento da Capella sem nenhúa falta ^. 

Esta mesma recomendação é repetida em vesitações de 
12 de julho de 1600 ^ e 19 de dezembro de 1603 ^ acrescen- 
tando-se que, se porventura o thesoureiro não tem realmente 
obrigação de fazer tal fornecimento, se dará da VA^ pêra o 
que se fará lembrança na meza da fazenda 4. Parece que se 
verificou pertencer ao thesoureiro esta obrigação, pois a 30 de 
outubro de 1618 se ordena: —Mandamos que o thesoureiro 
dee todo o auiamento conforme ao Estatuto a todos Estran- 
geiros que uierem dizer missa ^. 

Mas é certo que a resistência continuou, e houve necessi- 
dade de dar maior subsídio ao thesoureiro, para elle cumprir 
este dever. 

Já anteriormente a mesa da fazenda, a 24 de abril de 1596, 
assentara que ao padre thesoureiro se desêpor este ano myl rs 
por dar candeas p^ as missas dos hospedes q vierê dizer missa 
na capella^; e a 2 de dezembro de 1610 arbitrara -se-lhe em 
vesitação um aumento de 2$000 réis annuais, por se verificar 
que o numero de missas havia crescido consideravelmente: 
— E porque achamos que depões de se ter preuilegiado o al- 
tar de Nossa Sr a concorrem m^^s mais padres a dizer missa 
do que resulta mais gasto ao P" Thesoureiro, e tendo respeito 
a seu bom seruiço ordenamos que aia mais dous mil rs* do 
qtie tinha dantes e isto cada anno pêra cera, hostiasy e vinho 
e mais cousas necessárias \ A 2 de março de 1627 tomou co- 
nhecimento a mesa da fazenda de uma representação do padre 
thesoureiro António Soárez, em que este allegava que os qua- 
torze mil rs que tinha pello estatuto p^ hóstias^ vinho, lava- 
gem de Roupa e outras cousas e cera^ na bastauão^ porquoãto 



1 Vesitação, t. 1, fl. 7 v.« 

2 Ibid., fl. 13 v.« 
5 Ibid,, fl. 29 V.» 
* Ibid. 

5 Ibid., fl. 68. 

« Fazenda, t. 3, 1. 2, fl. 6 v/ 

7 Vesitação, t 1, fl. 53. 



224 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

de cõtinuo vinha mM sacerdotes de fora dizer missas na 
capella que hera em cada hu dia mais de vjnte missas, em 
vista do que pedia aumento de quantia para este effeito; em 
face disto resolveu-se, que alem dos ditos quatorze mil rs 
se dem mais quoatro mil rs eada anno ao dito ãto soares 
emquoãto seruir de tkJ^ somêtep^ os gastos do auiamento ^ 
será obrigado a dar aos sacerdotes qv£ vjerem dizer missa 
na capella ^ 

Assim ficou remediado este mal por algum tempo. Mais 
tarde porém os thesoureiros voltaram a exigir, que os sacer^ 
4otes estranhos trouxessem os guisamentos para as suas 
missas; a quantia de 18$000 reis, que ficaram recebendo para 
estes gastos, é aumentada successivamente, por forma que 
rias folhas, a contar do anno de 1665-66 em dèante, nos appa- 
rece já elevada a 30$000 reis; mas continuava a praticar-se 
o abuso de se recusarem guisamentos aos padres estranhos 
à capella. Em vesitação de 6 de maio de 1692 escreveu-se: — 
E por^ fomos emformados ^ o P^ Thez.^o não dava guizamJ^ 
promptamM aos clérigos de fora da capella, q vê dizer missa 
a ella; lhe ordenamos ^ evite esta queixa, alias procederemos 
contra elle^. 



É grande o desvelo com que os vesitadores frequentes 
vezes, e levados apenas pela profunda reverência ao sacrifício 
eucharístico, recommendam ao padre thesoureiro todo o es- 
crúpulo, quanto ao vinho e agua que fornecer para as missas : 
— Mandamos que o Thesoureiro ueija todos os dias antes 
que se comecem as missas se o uinho com q se hão de dizer 
he fresqux) tirado daquelle dia e lhe encarregamos a consciên- 
cia que não deixe v,o de hu dia pêra o outro pello perigo que 
pode auer, e por ventura ouue de estar ia corrupto, ou quasi, 
e seija certo que nas visitações se ha de perguntar por isto 
particularm^^ , e que lhe ha de ser m'^ estranhado se não se 
prouer nisto como conuem; E assi mandamos que a Agoa q 



1 Fazenda, t. 4, 1. 2, fl. 91. 
^ Vesitação, 1. 1, íl. 182. 



CAPIÍLLÃO-THESOUREIRO 225 

86 der nas missas seija do Rio polia reuereneia do sanctissr 
sacramento^; mais tarde acrescentam que terá sempre na 
samckristia hum vaso com vinho, e h^ta quarta dauga limpa 
da fonte ou do Rio por nos constai que algúas vezes a tomão 
do lauatorio os moços que andam a^ missas * ; e ultimamente 
ordenam-lhe que mande buscar agoa limpa e boa pfi as 
MissaSy e não a mande dar da sistema '. Como estas depa- 
ram-se-nos outras recomendações semelhantes. 



Também pertencia ao thesoureiro, segundo vimos, a obri- 
gação da limpeza da capella, e nisto os vesitadores tinham 
todo o cuidado em exigir esmerado cumprimento. 

Assim, por exemplo, na vesitação de 25 de outubro de 
1675, ordenavam : — O P.« Thesr,o terá grA^ cuidado na lim- 
peza da dM Capellay e Altares della^ sacudindo os retabolos 
do pôy e têas de aranha^ q tiverem *; e na de 18 de abril de 
1689 insistiam : — liem que o P^ Thesoureiro tenha cuidado 
de alimpar os altares, varrer a Igr.^ e o Coro, e que tenha 
os ornamentos com aceo, limpeza e resguardo^ e qv£ logo se 
mandem concertar no q lhe for necessário ^ ; acrescentando 
na de 6 de maio de 1692 : — E porq os missais estão sempre 
nos altares em as estantes, o P,^ Thesr.o tenha cuidado de os 
recolher acabadas as missas, cobrir os altares, e limpalos \ 



O capellão-thesoureiro tem, desde tempos antigos, apo- 
sentadoria em casas da Universidade. 

Antes do meado do século xvii a sua habitação era em 
uma casa, que ficava contígua à escada, que da capella subia 



' Vesitação, t. 1, fl 33, vesitação de 16 maio 1605. 
* Ibid., fl. 43, vesitação de 17 dezembro 1607. 
^ Ibid., fl. 174, vesitação de 27 de maio de 1690. 
« Ibid., fl. 137 v.« 
^ Ibid., fl. 171. 
« Ibid., fl. 183. 
2!) 



226 GAP. IV— PESSOAL B SEUS VENCIMENTOS 

para o coro, no local onde hoje é o ante-côro ^ e o gabinete do 
director. A esta casa se faz referência no assento da vesita 
de 31 de outubro de 1631, onde se diz : — Mandamos ^ se fasa 
húa porta no topo em sima da escada q vai para o choro 
iunto a casa do R^o tesouro pêra q se possa fechar pella mesma 
casa do tesoureiro a porta da igreia de sorte J fique huma 
porta dentro na ca^a do dito tesoureiro e outra no topo da 
esquada com hum passadiso de húa a outra 2. 

Por occasião das reformas feitas nos edifícios pelo refor- 
mador-reitor D. Francisco de Lemos, foi essa casa transfor- 
mada na que lá está hoje, e ao thesoureiro foi dada uma 
casa pequena, que havia na rua do Norte, e que mais tarde 
nos apparece designada pelo n." de policia 360. Em 1849 foi 
esta casa cedida, com outros edifícios da mesma rua, à Im- 
prensa da Universidade, pelo que o conselho dos decanos 
resolveu, em sessão de 25 de julho do referido anno, transferir 
a residência do thesoureiro para a rua de S. Pedro ^, onde 
ficou em uma dependência do antigo collégio de S. Paulo, 
sendo o resto do edifício cedido mais tarde à Academia dra- 
mática. 

Quando em 1890 se tratava de demolir todo este edifício 
para a reconstrução do theatro académico e da sede da 
Associação académica, o conselho dos decanos, em sessão de 
26 de fevereiro, destinou para habitação do capellão thesou- 
reiro o andar superior da bella casa dos Mellos, ao cimo da 
rua do Norte ^ É onde actualmente reside. 



Como deixamos dito ^, o lugar de capellão-thesoureiro era 
provido em concurso pelo conselho dos lentes de prima. 

O decreto de 15 de abril de 1845, que exalçou este funcio- 
nário à categoria de chefe do collégio dos capellães, determina 



* Vid. planta na p. 91, I. 

2 Vesitação, t. 1, fl. 91. 

3 Conselho dos decanosy t. 6, fl. 129. 
Ubid, t. 8, fl. 117 v." 

6 Vid. p. 217. 



CAPELLÃO-CHANTRE 227 



que tal lugar será sempre provido em um dos capellães, que 
€^a bacharel formado em tkeologia, e que o seu provimento 
deve ser vitalicio e sujeito aos direitos de mercê e sêllo K E 
assim continua sendo presentemente. 



Chantre. — Pelos estatutos velhos o chantre era o chefe 
do collégio dos capellães; e foi-o realmente até 1834. Era elle 
que regia e governava o coro, quando se executava canto-chão; 
que fiscalizava a regularidade de todos os serviços da capella, 
e o modo de proceder e trajar dos capellães ; que fazia por 
elles a distribuição das diversas funções, que havia a execu- 
tar, organizando para isto a respectiva tabeliã ; que dava final- 
mente ordem, & regra aos capellães em todas as missas, 
procissões, S quaesquer outros ajuntamentos, onde per ordê 
da Vniuersidade se houvessem de celebrar os offídos diuinos, 
é; auendo de ser presente com os mais capellães lhe presidiei. 
Tinha a faculdade de impor aos capellães multas não supe- 
riores a hum tostão para a fábrica da capella, com recurso 
para o reitor; e pertencia-lhe apontar qualquer falta do apon- 
tador 2, 

Pela reforma de 1845 passou a occupar o segundo logar no 
collégio dos capellães, subindo à categoria de chefe do mesmo 
collégio o thesoureiro. Continuou aquelle a ser o regente do 
coro, mas perdeu, umas de direito outras de facto, as restantes 
attríbuições. Ficou sendo nomeado annualmente pelo reitor 
de entre os capellães ^ Entretanto nunca se determinaram as 
suas attríbuições, o que deu lugar por vezes a desintelligén- 
cias inconvenientes. Por isso já em seu relatório de 30 de se- 
tembro de 1855 representava o capellão-mór ao reitor: — Como 
pela nova organização da Capella não competem ao Capei- 
Ião, que em cada anno fizer as vezes de Chantre, todas as 
attribuições, que antigamente competiam, ao Chantre, pare- 
ce-me urgente, ^ p^ bem da regularidade e disciplina na 



i Decreto cit., art. 5." 

2 Estatutos velhos, 1. 1, tit. 3. 

3 Decreto de 15 de abril, e regulamento de 27 de junho de 1845. 



CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 



mesma R, Capella, sejão explicitamente designadas as obri' 
gações ou attribuiçõesy que lhe possão competir , baixando p,^ 
isso em Portaria do Ex.^o Prelado alguns artigos, que sejão 
annexados ao regulamento em vigor, os qua^ determinem 
aquellas attribuições '. 

A reforma de 1902 manteve-o na mesma categoria em que 
se achava, continuando a ser de nomeação do reitor, escolhido 
de entre os capellães e proposto pelo director da capella, sendo 
obrigado a servir pelo menos um anno 2, 



CerimoniXrio. — Não havia na real capella um capellão^ 
que exercesse privativamente as funções de cerimoniário. Era 
notável esta falta, e em 1612 o reformador D. Francisco de 
Bragança cuidou de a remediar, pelo que foi estabelecido em 
o n.o 23.0 da reformação : - Hei por bem, que na Capella aja 
Mestre de ceremonias, que será o Chantre, ou outro que os 
Capellães elegerem: & auerá dous mil reis de ordenado em 
cada hum anno '. 

Fácil é porém de ver o grave inconveniente que resultava 
de ser encarregado de cerimoniar o chantre ; teria de abando- 
nar a regência do coro para fazer assistência ao altar, ou 
abandonar este para reger o coro. Reconhecidos praticamente 
estes inconvenientes, a vesitação de 18 de abril de 1689 orde- 
nou: — E por nos constar que o P.« Chantre se desculpa na 
falta das ceremonias com a assistência do coro, mandamos 
que o P.® Capellão mais antigo tenha a seu cargo o sabella» 
e exercitalas no q for necessário, por não hauer falta nem 
em, o altar, nem, em o coro, e o q elle disser se guardara com 
pena de quem o contrario fizer pagar duzentos rês sem re- 
missão *. 

Esta determinação não foi executada, pelo que os vesita- 



' Registo dos relatórios da capella, t. 1, fl. 5. 
* Regulamento de 13, e instruções regulamentares de 22 no- 
vembro 1902. 

' Estatutos velhos, ed. 1654, p. 304. 
4 Vesitação, t. 1, fl. 171. 



CAPELLÃO-CERIMONIÃRIO 289 

dores, a 28 de abril de 1691, tomaram uma resolução radical: 
— Por nos constar qite o P.« Chantre, que the o presente ser- 
mão de Mestre da^ seremonias, qtie não acodia a esta obriga- 
ção eomo conuinha a respeito da que tem de assistir no choro 
fica esta ocupação sendo incompativel nomeamos pêra a 
exersitar ao P.« Francisco Nunes Adriam, e lhe auemos por 
múi emcarregado, que estude as seremonias, e pêra este 
efeito se lhe entregue o liuro da^ seremonias composto por 
Bertolameu gauanto, que em seu poder tem o dito P.« Chan- 
tre, que se comprou com o din.ro do ResebimJ'* da fabrica 
desta Capella •• Na vesitação immediata, de 23 de outubro 
do mesmo anno, ordena-se ao novo cerimoniário que em 
dias festivos assista ao altar, para que as cerimonias se fasam 
com a perfeisam que se deuem fazer, e dispõem os seremo- 
niaesy e neste tempo fica desobrigado dassistencia do Choro ', 
Foram muito infelizes os vesitadores na escolha do mestre 
de cerimonias Adrião, vendo-se obrigados a privá-lo deste 
offício em vesitação de 8 de maio de 1694, nomeando para o 
exercer o capellão thesoureiro '; e na de 17 de maio de 1695 



í Vesitação, t. 1, íÍ.17e. 

? Tbid , fl. 180 v.« 

3 «Constou Nos q o P,® Fr.«" Nunes Adrião nao procedia h^^ 
assim no q toca ao habito sacerdotal facendosse contratador em 
j olivaes e lagares de azeite, como também no oíF.® de capellão, no 

qual cõmettia m.*as faltas, e tinha duvidas e razões cõ os mães P.*' 
Capellaes ainda no coro da dt" Capella, tanto q chegava a causar 
perturbação nos off.®" divinos, e totalm.tc falta ao oíF.® de Mestre 
das Ceremonias q tem, não o exercitando, e ignorando-as : e outro 
si tendo 10. ou 12, anos de Vnd.® não aproveita em o estudo cousa 
algua; tanto assi, q depões de se matricular m.io» afios na faculd* 
de Theologia, sem nella fazer acto algíi cavilosamt.* só a fim de 
poder salvar os interesses de capellão, em q ja foi reconduzido, se 
passou a matricular na de cânones, em q também te o presente 
não tem feito acto algu, nem assiste nos Geraes, e suas lições, no 
q tudo delinque contra a forma dos estatutos. Pello q considerando 
Nos as sobredt.^* culpas, e o q os dt.°* estatutos dispõem nesta p.íe 
conforme a elles, havemos por bem de o suspender, e cõ etft.° sus- 
pendemos do off." de capellão the apr.^ vizita, e o privamos total- 



230 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

mandaram ^ o M« das eeremonias assista ponttiàlmM a todas 
as Missas cantadas de modo ^ possa advertir o que acha em 
termos de o fazer ^ 

Por se reconhecer a illegalidade desta nomeação do the- 
fioureiro para mestre de cerimónias, por ser contrária à letra 
da reformação de 1612 ^, em vesitação de 23 de junho de 1700 
ordena-se, que de futuro os Padres Capellães façam eleição 
de Mestre como sempre se costumou ^. 

Desde então era deante manteve-se até à reforma de 1902 
este modo de escolha do cerimoniário, por eleição do collégio. 

Não era porém isenta de inconvenientes esta forma de es- 
colher o cerimoniário, e na prática surgiam a cada passo esses 
inconvenientes. Já no relatório de 30 de setembro de 1855, 
dirigido pelo capellão-mór ao reitor, se dizia : — Julgo que 
também conviria, que alem da 7tomeação do Capellão-chan- 
tre, que deve annualmente ser feita pelo Ex,'^^ Prelado, . . 
fosse também nomeado • . . um Capellão-Mestre de Ceremo- 
nias, cargo que deve ser desempenhado por um dos Capellães. 
como se entende da Reformação dos Estatutos n.* 28, p* evi- 
tar alguns inconvenientes, que se tem dado até hoje na eleição 
do ^. devia exercer este cargo ♦. 

Hoje deve ser de nomeação do reitor, mediante concurso *. 
Não havendo porém no orçamento verba para pagar a este 
funcionário, sam as suas attribuições desempenhadas por um 



mt.* do oíF.° de mestre da» eeremonias, e do salário, q por o dt." 
off.** de mestre das eeremonias tê vencido, e não tê cobrado, o qual 
mandamos se lhe nâo pague, e fique a Vnd.® e com eíFt." entregara 
logo o gavanto de caeremoniis, q em seu poder tê, q he desta Vnd.« 
ao R* Thesr.'», a quê, por o acharmos sufficiente e capáx, e se escu- 
sar a falta de outro capellâo no coro, q este alias podia suprir pella 
obrigação q tê de assistir ao altar, constituimos, e ordenamos por 
mestre delias eõ o mesmo ordenado q a esse respt/* tinha o dt.** 
F.«" Nunes Adrião.» — {Vesitaçào, t. 1, fl. 189). 
í Ibid., fl. 192 v." 

2 Estatutos velhos, ed. 1654, p. 304, n. 23. 

3 Vesitação, t. 1, fl. 209. 

♦ Registo dos relatórios da capella, t. 1, fl. 5. 

* Decreto de 13 novembro 1902, art. 11.* 



CAPELLÃÕ-APONTADOR. CAPBLLAES SIMPLEZ 231 

dos capellães, nomeado vice-cerimoniário pelo reitor, segundo 
o disposto no regulamento de 13 de novembro de 1902, 



Apontador.— Poucas observações se encontram nos livros 
da capella ao apontador, o que não admira, porque o serviço 
que tinha a desempenhar era de uma simplicidade tal, que 
difficil seria proporcionar-se aos vesitadores occasião de lhe 
fazerem reparos e admoestações. Entretanto uma ou outra 
veE lhe dirigem advertências sem importância, singularizan- 
do-se contudo a que foi exarada no assento da vesita de 17 
de maio de 1695, Ei-la: — Achamos ^ o P^ Manoel Teixeira de 
Carv,"" Apontador que tem sido estes dons annos satisfás 
tnuyto mal oã obrigares deste offS" e eom mM desigualdade 
assim na execuçãOy como na distribuição das multas, pello q 
o suspendemos delle, e mandamos q não seja mais eleyto ;>,» 
Apontador K 

Este cargo manteve-se distinto até depois da reforma 
pombalina, tendo então o nome de contador do coro. Mais 
tarde porém desappareceu, passando a sua função a ser 
desempenhada pelo thesoureiro. 

As reformas de 1845 ^ e 1902 ^ confirmaram e legalizaram 
esta annexação. 



Capellães símplez. — Os quatro capellães de S. Miguel 
dos paços reais percebiam, desde 1593, exactamente os mesmos 
vencimentos, que os nove da Universidade, e estavam sujei* 
tos aos mesmos regulamentos, obrigações e distribuição de 
serviço; differiam apenas em que os capellães da Universidade 
recebiam da fazenda universitária, enquanto que os de S. Mi* 
guel recebiam da fazenda real no Almoxarifado de Coimbra, 
devendo entretanto ser pagos ao mesmo tempo e em idênticas 



1 Vesitaçào, t. 1, Ô. 192 v.» 

» Regulamento de 27 junho 1845, art. 1.° 

3 Regulamento de 13 novembro 1902, art. 10.'*, alinv 5.* 



232 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

condições. Os estatutos providenciavam, para que estas dis- 
posições tivessem pronta e regular execução K 

Houve primeiro alguma relutância ou descuido da parte 
dos executores e almoxarifes, em satisfazer estes pagamentos ; 
mas apareceram providencias régias, a cortar radicalmente 
um tal abuso -. 



Por tolerância expressa ou tácita, os capellães a princípio 
fôram-se introduzindo em casas da Universidade, e nellas 



* Estatutos velhos j 1. 1, tit. 10, nn. õ e 6. 

2 «Eu El-Rei faço saber aos q este aluara uirê q eu sou infor- 
mado q os executores e almoxarifes da Cidade de Coimbra acujo 
cargo esta o pagamio dos meus quatro capellães q me seruê na d* 
Cidade na capella de sâo Miguel q tenho nos meiis paços delia lhes 
não pagão a seus tpõs dividos seus ordenados e esmola de missas 
conforme aos estatutos da vnd.® do livro pr'* ti« 10. § 5. e 6. E p*» q 
daqui emdiante se pague aos ditos capellães conforme aos ditos 
estatutos Ey por bem emando ao Rior da d. vnd* q hora he, e ao 
diâte for q constandolhe q os d. executores ou Almoxarifes não 
pagão aos d. meus capellães o d. ordenado e missas nos tpõs q lhe 
forem dividos na forma do d. estatuto os constranja cÕ as penas e 
pello modo q lhe paresser, e lhe fará pagar o sobredito na forma 
e manr' q o prouedor da Comarca o pode fazer conforme ao dito es- 
tatuto q dará aexecução sê appellação nê agrauo até com effeito os 
d. capellães serê pagos. E aos d. executores e almoxarifes mando 
q neste particular obedeçâo aos d. Rtres^ e este Aluara se cumprira 
como se nelle cotem posto q não seja passado pella chancellaria e 
o effeito delle aja de durar mais de hu anno sem embargo das* 
ordenações do 8g''° livro titulo 20 q o contrari'. dispõem e de qual- 
quer regimio q encotrario aja o qual se registara no liuro da proue- 
doria p" q entodo o tpÕ sesaiba q o conteúdo nelle se fez por meu 
^do ^co matoso ofez em Madrid a uintaseis de outubro de M. D. 
nouêta e seis. António monis dafonseca ofez escreuer. 

Rei», 



{Registo antigo das provisões, t. 2, fl. 35 v.**). 



CAPELLÃES SÍMPLEZ 233 



habitavam. A mesa da fazenda, em sessão de 4 de março de 
1595, depois de assentar várias medidas, entrou em deliberação 
sobre as casas êq pousa os cappellães, e determinou qse noti- 
fiqtie aos cappellães da cappella ^ de dia de são J^ bap^^ em 
diante busque casorS por que a V^^ as ha mester p^ seu vso e 
seruiço K 

Saíram, e não me consta que depois voltassem em qual- 
quer tempo a gozar o benefício de aposentadoria. 



Na real capella os capellâes respectivos têem, e sempre 
tiveram, certos privilégios, sobre os clérigos estranhos, que a 
ella concorrem a celebrar, ou a exercer outros actos litúrgioos. 

Já na vesitação de 21 de fevereiro de 1700 se lhes tinha 
reconhecido o direito de precedência na celebração das missas, 
em relação a quaisquer outros sacerdotes, que concorressem 
a celebrar na mesma occasião '*, 

Âínda hoje o altar-mór é reservado exclusivamente aos 
lentes da Universidade que forem sacerdotes, e aos capellâes: 
àquelles para todas as missas, incluindo as privadas ; a estes 
apenas para as missas de obrigação ou officiais. No altar-mór 
não podem officiar ecclesiásticos alguns estranhos, nem se- 
quer como símplez ministros ; pelo que, quando algum capel- 



« Fazenda, t. 3, 1. 1, fl. 88. 

- «Consto unos que pello grande concurso de Sacerdotes que 
vem dizer missa à Capella, íicavão os Capellaens delia sem dizerem 
as missas da sua obrigação, porque lhas não deixavão dizer os que 
primeiro chegavâo, querendo preceder pella anticipação 5 e porque 
não hé justo, que sendo local a missa dos P.** Capellaens, hajao os 
Sacerdotes de fora de impedirlhe que a digao no lugar que são 
obrigados; mandamos que os d."" Capellaens precedão a qualquer 
outro Sacerdote que esteja p.» dizer missa na Capella, quando con- 
correrem ao mesmo tempo ; e p.* que todos a possâo dizer cõmoda- 
m.te, estará com inalterável observância aberta a capella athê as 
horas que dispõem o Estatuto, e as vezitas passadas, e prompto 
todo o goizamto necessários. — {Vesitação^ t. 1, fl» 206 v.**). 



234 CAP. IV — PESSOAL R SEUS VENCIMENTOS 

Ião legitimamente impedido se faz substituir por outro clé- 
rigo, se nesse dia lhe pertence ministrar de diácono ou sub- 
diácono, o substituto vai para o coro cantar, e vem dali um 
capellão, que ao altar desempenha as funções do capellão 
ausente. Ficara assente, na vesitação de 6 de outubro de 1662. 
— Que o altar mor seia priueligiado so p* os p« da capella 
e ^ os mossos do choro não aiudem as missas a clérigos de 
fora em o dito altar, e fazendo o seião multados •; a portaria 
reitoral de 30 de maio de 1888, resolvendo umas dúvidas le- 
vantadas pelo pessoal da capella, ordena que nunca se obste 
a que os lentes, proprietários e substitutos, da faculdade de 
theologia ou das outras faculdades, que sejam presbyteros, 
digam missa no altar-mór '^; finalmente as instruções regu- 
lamentares de 22 de novembro de 1902 nos art.*" 29.<» e 36.* 
regimentam o assunto. 



Algumas vezes, era occasiões especiais e oportunas, tem 
o collégio dos capellães dirigido pelas vias competentes ao 
Summo Pontífice mensagens, manifestando sentimentos de 
congratulação, e de reverência e filial obediência para com o 
supremo Jerarcha da santa Igreja. 

Assim fez, por exemplo, quando foi definida a doutrina da 
Im maculada Conceição de Maria, que desde 1646 a Universi- 
dade vinha jurando defender; quando se festejou o jubileu 
pontifical de Pio ix; e por último no quinquagenário do dogma 
da Immaculada ^. 



t Vesitação, t 1, Ú. 121 v.° 

2 Registo das portarias e ordens do prelado, Ú. 5. 

' A mensagem enviada nesta última occasiâo era do teor se- 
guinte : 

«Beatissime Pater. — Rector Regii Sacelli in Academia Conim- 
brigensi, aliique sacerdotes eidem addicti Sacello cum ceteri» 
ministris, ad Sactitatis Tuae pedes cogitatione accedunt gratula- 
bundi laetis&ima die, qua Virginem Dei Parentem fuisse primige- 
uiae labis exsortem Pius ix. Pont. Max. solenmissimo ritu, quin- 



COLLÉGIO DOS CAPELLÃES 235 



Pode-se em geral affirmar, que o coUégio dos capellães, 
apesar de constituído na sua quase totalidade por estudantes, 
em quem a verdura dos annos poderia por vezes levar de ven- 
cida a gravidade do sacerdócio, tem tido através dos séculos 



quaginta ante annis, edixit. Nam gratulationem huiusmodi in 
communi orbis catholici gáudio et spe nobis suggerit suadetque 
in primis locus ipse in quo sacris nobilissimi Archigymnasii solemus 
operari, ac rite annua solemnia hodie instauramus. Idem est enim 
Sacrarium regiis aedibus olim adstructum, ubi Deum adorare con- 
suevit Elisabetha, regina sanctissima, quae prior in Lusitânia, ut 
mcmoriae proditum legitur, purissimum Mariae Dominae nostrae 
Conceptum publico recoli festo instituit. In hoc etiam Sacello, 
anno mdc-xlvi , quemadmodum inscriptus diserto titulo lápis tes- 
tatur, florentiasima Conimbriyensis Academia, pietatis miltu erga 
Dtiparam insignis, cunctis rite augtisteqite peractis, aolemni voto, in- 
violabili iur amento sese ohstrinxit, tU in posterum tam puhlice quam 
privatim doceat, praedicet, defendat, Sanctissimam Virginem, in primo 
suae Conceptionia instanti, ah omni originalis cvlpae lahe, glorioae 
praeservatam extitisse. 

Deinde nunquam destitit ipsa Academia Virginem sine labe 
conceptam, veluti Patronam suam et Fautricem, literariis orna- 
mentis sanctisque celebrare caerimoniis, unde Sacello nostro con- 
tigit, ut quasi Deiparae Immaculatae proprium, licet Micha(?li 
Angelorum principi dedicatum, perpetuo cultu memoraret atque 
extoUeret singularem eiusdem Dominae laudem, quam denique 
optatissimo decreto Summus sacrorum Antistes sanxit omnino cre- 
de ndam. 

Itaque, Pater Beatissime, nostri officii esse duximus omni lae- 
titia et reverentia Te consalutare ac de tanta gratulari celebritate, 
quae nos quasi auspicato secundiora têmpora, pro Sanctitatis Tuae 
atque universae Ecclesiae votis, sperare iubet. Insuper, data occa- 
sione, uti iuvat, ut augustissimae Romani Pontificis Sedi ânimos 
profíteamur nostros vehementi studio addictos et in perpetuum 
devotos ', ac postremo a benignitate Tua, Pater Sanctissime, sup- 



236 GAP. IV— PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

um procedimento digno de elogio e imitação. É edificante, o 
que se diz na grande maioria dos assentos das vesitações da 
capella, quanto ao espiritual; graves e austeros, os vesitado- 
res, ou não encontravam na vida e costumes dos capellães 
nada a corrigir, ou então umas leves faltas, que não merecem 
especial menção. 

Devemos entretanto dizer, em homenagem à verdade, que 
uma ou outra vez lá apparece um feio senão, a deslustrar esta 
consonância K Encontramos até um período, que decorre de 



plices petamus, ut Apostolicam Benedictionem, certissimam prae- 

sidii caelestis au&picem, impertiri nobis cunctis digneris. 

Sanctitatis Tuae, Beatissime Pater, humile» filii, &ervique obe- 

dientisBÍmi 

Conimbrigae, vi- Idus Decembr. 

(L. ►!< S.) A. D. MDcccciv- 

Dr. Antonius Garcia Ribkiro de Va&concellos, presbyter, Theo- 

logiae professor, Regii Sacelli rector 

Bernardus Joakimus Cardoso Botelho, pre&byter, Regii Sacelli 

the&aurariu» 

Akthur Josephus Ferreira, presbyter, Regii Sacelli cantorum 

praefectus 

Arthur Fernasdes de Mattos, presbyter, Regii Sacelli caere- 

moniarum magister 

Candidus Augustus de Mello, presbyter, capellanus 
Franciscus Cotrim da Silva Garcez, presbyter, capellanus 
Josephus Ribeiro Cardoso, presbyter, capellanus 
Josephus Emmanuel Pereira dos Reis, presbyter, capellanus 
Antonius Pereira da Silva, presbyter, capellanus 
Antonius Pereira de Figueiredo, presbyter, capellanus 
Josephus Marques Dias Júnior, presbyter, capellanus 
Franciscus Moreira dos Santos, presbyter, capellanorum coUegia 

addictus 

Antonius Simões de Carvalho Bakbas, Regii Sacelli musicorum 

praefectus 

Franóiscus Lopes Lima de Macedo, organoedus». 

' Haja vista o documento, que fica transcrito em a nota 3 4 

p. 229. 



COLLÉGIO DOS CAPELLÃES. PROFESSOR OE MÚSICA 237 

1692 a 1700, em que o pessoal, ao que parece, perdeu o senso 
moral e toda a seriedade, e até no decorrer dos offícios divinos 
se não guardava a compostura mais elementar ; era uma per- 
feita anarchia. Os assentos de vesita daquella épocha sam 
peças de leitura pouco edificante. Mas o mal foi reprimido 
energicamente, e por fim extirpado ^ 



Professor dí: música, — A cadeira de música existiu sem- 
pre na Universidade, até que, em virtude do decreto de 13 de 
novembro de 1850, passou para o Lyceu de Coimbra, estabe- 
lecimento então annexo à Universidade, A carta de lei de 14 
de junho de 1880 desmembrou-a do Lyceu, e novamente a 
ooUocou na Universidade, anexando-a à real capella. 

Ainda hoje é muito f aliado o compositor de música sacra 
José Maurício, cujas composições sam estimadas especial- 
mente em Coimbra. Regeu esta cadeira, para a qual foi des- 
pachado lente por carta de 10 de abril de 1802, vindo a fallecer 
em 1815, 



Ao professor de música incumbiam as funções de mestre 
da capella, e como tal era sua obrigação contratar, preparar 
e habilitar os músicos, que deviam cantar nas solemnidades 
religiosas, e bem assim reger o coro, sem que a princípio 
tivesse jus a perceber gratificação alguma especial por isso^. 



1 Vesitação, t. 1, fll. 182 a 209. 

2 «Em os xbij de Junho 1597 se asentarã as cousas seg,tes — 
P»* coRea — % Viose nesta mesa hua petição de p" coEea mMe da 
capella ê q pedia lh€ mandaste dar o q parecese a mesa p* satesfa- 
zer aos catores q fora a s'* f cantar na procissão e préstito dos 
capellos, e oflP* de bespora e dia ê sia -j- a 13 de Junho ; e por estar 
asentado no ano de 95 q dalj em diante fezesse cõ seus dis-cipolos 
destros estes offícios, asentarã q asy se guardase e asy se lhe de- 
clare e a quê for mi^e p'llo tpõ e diante q hade fazer cõ seus discj* 
pollos todos estes off"% por cÕta do ordenado q tê por o estatuto 



240 CAP. IV — PBSSOAL E SEUS VENCIMENTOS 



Anotações L tabella retko 

* Anno em que principiaram a vigorar o» estatuto» de 1591. 

2 Anno a que remontam as mais antigas folhas do pessoal uni- 
versitário existentes. 

3 Ultimo anno anterior â reforma pombalina. 

* Primeiro anno depois da reforma pombalina. 
^ Anno final do antigo regime político. 

* Na actualidade. 

* Ordenado 30|>000 réis; para fornecer cera e restantes guisa- 
mentos para as missas quotidianas 14|>000 réis. 

* Ordenado 30|iOOO réis ; para guisamentos 30|>000 réis. 

9 Com obrigação de fornecer k sua custa os guisamentos para 
as missas. 

^^ Sem obrigação de guisamentos, 

^* Ordenado de capellão 24|>000 réis; gratificação pelasfunçõe» 
de chantre 6|iOOO réis. 

*- Ordenado de capellão 24ij5000 réis; gratificação de chantre 
8Í000 réis. 

'3 Sem ordenado, mas com as vantagens: — a) de dispensa ào 
pagamento de matrículas, da compra de livros, e igualmente do 
sêllo e propina académica das cartas do curso; — h) de participa- 
ção equitativa na verba annual de 138|>500; — c) de percepção de 
algumas propinas nas principais solemnidades, e nos actos grandes 
e doutouramentos. 

1* Esta função era cumulativamente desempenhada pelo chan- 
tre, e sem remuneração até 1612. 

15 Ordenado de capellão 24|>000 róis ; gratificação pela função 
especial 2|>000 réis. 

1* Ordenado de capellão 30^000 réis ; gratificação especial réi» 
3^5000.^ 

17 É uma símplez gratificação pelas funções de cerimoniárío, 
exercida» pelo professor de música aposentado, e cumulativamente 
chantre em effectividade. 

1* A função de apontador passou a ser exercida pelo thesoureiro. 

19 Dez capellães símplez com o ordenado de 24|>000 réis cada 
um. Destes capellães somente seis eram pagos pela Universidade ; 
os quatro restant.es eram da capella real de S. Miguel, pagos pela 
fazenda real. 



ANOTAÇÕES Á TABELLA DOS VENCIMENTOS 241 

20 Dez capellães, sendo nove effectivos e um aposentado, ven- 
cendo cada um 24|>000 réis. Quatro destes eram pagos pelo erário 
real. 

'1 Nove capellães a 30:^000 reis, sendo cinco destes capellães 
pagos pela Universidade. 

-2 Os quatro capellies de S. Miguel, que até à reforma foram 
pagos pela fazenda real, passaram depois a entrar nas folhas da 
Universidade como os restantes. 

23 Nove capellães a 50|i000 réis. 

2* Havia então sete missas diárias, de estipêndio de 60 reis. 

2» Foi o que se dispendeu este anno em encargos pios. As mis- 
sas eram a 60 réis. 

26 O estipêndio de cada missa era então de 120 réis. 

-"' Foi a verba dispendida este anno. 

w Esta verba, que é distribuída egualmente por todos os capel- 
lães, com excepção do thesoureiro, em quatro prestações trimes- 
trais, provém da somma das verbas seguintes, que andavam nos 
orçamentos antes da reforma da capella em 1845: — Encargos de 
missas Õ6ií000 réis; andador da confraria de N. Senhora da Luz 
12|iõ00 réis; escriturário da cera 20ií000 réis; ordenado de um 
capellâo (único que existia do antigo pessoal, e que veiu a fall^cer 
a 6 de janeiro de 1864) õOiíOOO réis. 

29 A este ordenado foram na reformação de 1612, n. 156, acres- 
centados lOjíOOO réis, ficando a vencer daí em deante 60jÍ000 réis. 

30 Ordenado do professor de música effectivo 200|>000 réis ; de 
um aposentado 80s?>000 réis. Este era simultaneamente chantre em 
exercício, e acumulava as funções de cerimoniário. 

31 Ordenado 50|>000 réis ; gratificação por acompanhar as missas 
e outras funções da confraria 41^000 réis. 

32 Quatro môços-acólythos a 6|>000 réis. 
3> Quatro môços-acólythos a 16|i000 réis. 

3* Quatro môços-acólythos, percebendo cada um 36|>000 réis de 
ordenado, e 10íÍ>000 réis de gratificação annual. 

3» Um moço da capella 783^000 réis; dois acólythos a 155^000 réis 
cada um; terceiro acólytho para as missas cantadas dos domingos 
e dias santos 6|1000 réis. 

3« Não havia armador, estando a cargo do thesoureiro chamar 
quem armasse a capella por occasião das solemnidades, e sob sua 
responsabilidade. 

37 Não existia tal funcionário. 
31 



242 CAP. IV— PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

^* Eram os moços da capella, que por turno davam aos folies do 
órgão. 

3» Estes funcionários eram empregados da confraria, não da 
Universidade. 

40 Foram encorporadas estas verbas na que se distríbue tri- 
mestralmente pelos capellâes, acima indicada. 



Relação nominal dos capellâes da real capella 
da universidade, desde 1845 até hoje 

Não era dífficil empresa organizar a lista nominativa de 
todo o pessoal, que tem servido a real capella desde 1665 até 
1834; para isso bastava apenas o trabalho material de extrahir 
esses nomes das folhas dos vencimentos, cuja collecção se 
encontra no archivo. Quanto ao tempo anterior a 1665, encon- 
traro-se alguns nomes dispersos pelos livros de escrituração; 
poucos elementos, que mal dariam para uma relação incom- 
pletíssima. Em relação porém ao tempo decorrido depois da 
reforma de 1845, é fácil organizar a lista dos capellâes em face 
das actas das sessões do conselho dos decanos, em que foram 
eleitos, e bem assim procurando o registo das portarias, que 
os nomearam ' ; as listas dos outros empregados da capella 
fazem-se sem difficuldade, percorrendo as folhas dos venci- 
mentos. 

Não nos impomos a tarefa de tal empresa em relação aos 
tempos antigos, pelo pouco interesse que teria, e muito incóm- 
modo que dava ; limitamo-nos a publicar, em conclusão destes 
apontamentos, a lista completa dos capellâes, que têem ser- 
vido a real capella da Universidade depois da reforma de 15 
de abril de 1845. 



■ Têem, ainda assim, de se preencher, pelo livro das distribui- 
ções trimestrais aos capellâes, algumas lacunas resultantes de des- 
cuidos da secretaria, que deixou de registar as nomeações de um 
ou outi'0 capellâo. 



LISTA DOS capellães-thesoureiros 243 



A) Capellães-thesoureiros 

1. António Joaqnim de Oliveira. Era, como todos os seguintes, 

bacharel formado em theologia. Havia sido nomeado em 
conselho dos decanos, a 14 de novembro de 1837, alie- 
gando-se que tinha já exercido o cargo de capellão, de 
que fora privado e perseguido no tempo do Governo da 
usurpação pela sua affeição ás Instituições liberaes da 
Monarchia. O alvará de nomeação tinha a data de 29 
do referido mês. — A 12 de julho de 1849 allegava ao 
conselho de decanos a sua avançada edade e moléstia 
adquirida no desempenho do seu emprego, que o impe- 
diam de continuar, vendo-se forçado a ir tomar os ares 
pátrios, e propondo para o substituir interinamente o 
capellão-cerimoniário Joaquim Alves Pereira; o conselho 
deferiu, concedendo-lhe o ordenado por inteiro, o que 
não teve execução por ser contra a lei vigente, sendo-lhe 
nas folhas descontados dois terços do ordenado até ao 
fallecimento, occorrido a 19 de dezembro de 1850. 

2. Joaquim Alves Pereira. Era capellão da Universidade (vid. 

infr. lista dos capellães, n.<> 12), e já vinha substituindo o 
thesoureiro anterior no seu impedimento, sendo no- 
meado thesoureiro interino por portaria reitoral de 1 de 
fevereiro de 1850. — Em conselho dos decanos, a 24 de fe- 
vereiro de 1851, tomou-se conhecimento de uma portaria 
de 15 de janeiro anterior, mandando abrir concurso para 
o lugar vago de thesoureiro. Concorreu apenas o inte- 
rino, que foi nomeado effectivo por decreto de 9 de março 
de 1853. Foi notável pelo seu zêló e instrução litúrgica, 
sendo agraciado com o título pessoal de capellão- mór da 
real capella da Universidade por decreto de 3 de maio 
de 1853. Falleceu a 30 de maio de 1869. 

3. Manuel Ignácio da Silveira Borges (vid. lista dos capellães, 

n." 39). Nomeado interinamente quando falleceu o ante- 
rior, por portaria reitoral de 31 de maio de 1869. Foi 
elle o único concorrente a este logar, sendo nomeado 
thesoureiro effectivo por decreto de 28 de junho de 1870. 
A 8 de janeiro de 1876 desistiu do lugar. 

4. Alexandre José da Fonseca (interino). Sendo capellão (vid. 



244 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

lista, n.o 48), foi nomeado interinamente thesoureiro, 
em portaria reitoral de 9 de janeiro de 1876; e serviu 
este cargo até 2 de janeiro de 1877, desistindo delle nesta 
data. 
5. Bernardo Joaquim Cardoso Botelho (vid. lista dos capellães, 
n.* 56). A portaria reitoral de 3 de janeiro de 1877 no- 
meou-o thesoureiro interino; e, sendo o único concor- 
rente, foi provido definitivamente neste lugar por de- 
creto de 18 de outubro de 1878. Continua actualmente 
em exercício. 

B) Capellães-chantreg ^ 

1. António Gaspar Borges — 2 — (21 de maio de 1845). 

2. António Lopo Corrêa de Castro — 9 — (27 de novembro de 

1848). 

3. António Lopes Norte — 20 — (8 de novembro de 1855). 

4. José António de SanfAnna Corrêa — 27 — (1 de dezembro 

de 1859). 

5. Manuel Ignácio da Silveira Borges — 39 — (31 de julho de 

1866). 

6. Manuel de Jesus Lino — 47 — (12 de julho de 1870). 

7. António Dias de Sousa e Silva — 54 - (4 de outubro de 1873). 

8. António da Silva Carrelhas — 53 — (novembro de 1874). 

9. Francisco dos Prazeres —59 — (30 de outubro de 1876). 

10. José Manuel de Carvalho - 60 — (12 de março de 1881). 

11. António de Almeida — 64 — (7 de outubro de 1881). 

12. Eduardo Lopes da Silva — 72 (10 de dezembro de 1883). 

13. António Marques de Figueiredo — 79 — (interino a 1 de outu- 

bro de 1886). 

14. João Henriques de Sequeira Mora — 81 — (25 de novembro 

de 1889). 

15. António d' Abranches Martins — 78 — (15 de janeiro de 1891). 



1 Os números, que seguem immediatamente os nomes, indicam 
o lugar de ordem que cada um occupa na seguinte lista dos capel- 
lâes símplez; as datas indicadas entre paréntheses sam as das 
respectivas portarias reitorais, que os nomearam. 



LISTA DOS CAPELLÃES í?45 



16. José Marques Rito e Cunha— 96— (3 de novembro de 1894). 

17. José Augusto Dinis — 94 — (5 de novembro de 1896), 

18. João Ferreira Gomes — 98 — (9 de novembro de 1897). 

19. Manuel Simões da Costa — 103 — (30 de outubro de 1899). 

20. José Bernardo d'Âlmada — 107 — (27 de janeiro de 1902), 

21. Arthur José Ferreira — 116 — (8 de setembro de 1904). 

22. António Pereira de Figueiredo — 119— (23 de outubro de 

1907, 

c) Capellães simplez ^ 

1, António Bernardino de Meneses, filho de Luís António de 

Meneses, de Santiago de Sepões, Vianna do Castello (7 
de maio de 1845). Foi depois doutor em theologia, lente 
da Universidade, cónego da Sé de Coimbra, decano da 
faculdade de theologia, pròtonotário apostólico e pre- 
lado doméstico de Sua Santidade, do Conselho de Sua 
Majestade, Reitor interino da Universidade, 

2, António Gaspar Borges, filho de António Gaspar Trigo, de 

Gostedo, Villa Real (7 de maio de 1845), Bacharel for- 
mado em theologia, professor do Seminário de Santa- 
rém, prior dos Anjos e desembargador da Relação e 
Cúria patriarchal eia Lisboa, 

3, António de Vasconcellos Pereira de Mello, filho de António 

de Vasconcellos Pereira de Carvalho, de S.^ Christina 
de Figueiró, Porto (7 de maio de 1845), Bacharel for- 
mado em theologia, secretário do cardeal-patriarcha 
D. Guilherme, cónego da Sé patriarchal de Lisboa, bispo 
de Beja, e depois de Lamego, 

4, Caetano Joaquim Rêgo, filho de Isidoro Domingues Rêgo, 

de Caminha, Vianna do Castello (7 de maio de 1845), 
Bacharel formado em direito. 
6. João Ghrysòstomo d' Amorim Pessoa, filho de João Dias Pes- 
soa, de Cantanhede, Coimbra (7 de maio de 1845), Dou- 



* Designam-se eutre paréntheses as datas das respectivas no- 
meações. Consta haverem sido eleitos ou nomeados cerinioniários 
aquelles capellães, a cujos nomes juntamos a indicação (cer.J. 



246 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

tor em theologia, lente da Universidade, professor do 
Seminário episcopal de Coimbra, bispo de Cabo Verde, 
arcebispo de Gôa primas do Oriente, arcebispo de Braga 
primas das Espanhas. 
6.. João Rodrigues d'01iveira Grainha, filho de Francisco d'01i- 
veira Grainha, da Covilhã, Castello Branco (7 de maio 
de 1845). Bacharel formado em direito. 

7. D. Joaquim da Bôa-Morte Álvares de Moura, filho de Mannel 

Monteiro de Moura, de Medeiros, Villa Real (7 de maio 
de 1845). Cónego regrante de S,^ Agostinho, bacharel 
formado em philosophia, professor do Seminário episco- 
pal de Coimbra, vigário geral do arcebispo bispo-conde 
D. Manuel Bento Rodrigues. 

8. Joaquim Moreira Pinto, filho de Luís Theodoro Pinto de 

Carvalho, de Guimarães, Braga (7 de maio de 1845). 
Bacharel formado em theologia, cónego da Sé patriar- 
chal de Lisboa, reitor do Lyceu e do Seminário patriar- 
chal de Santarém. 

9. António Lopo Corrêa de Castro, filho de Lopo Corrêa de 

Castro, de Guimarães, Braga (23 de novembro de 1848). 
Bacharel formado em direito, cónego da Sé cathedral 
de Coimbra. 

10. João Luís Augusto de Pina, filho de Sebastião de Pina, de 

Alvôco da Serra, Guarda (23 de novembro de 1848). Ba- 
charel formado em theologia, professor do Lyceu e do 
Seminário episcopal de Évora, deputado da Nação. 

11. João de Santo Xisto, filho de Manuel Gonçalves, de Villa- 

rinho dos Freires, Villa Real (23 de novembro de 1848), 
Bacharel formado em direito, professor do Seminário 
de Aveiro. 

12. Joaquim Alves Pereira (cer,), filho de José Alves Pereira, 

de Coimbra (23 de novembro de 1848). Bacharel for- 
mado em theologia, official da Bibliotheca da Universi- 
dade, capellão-mór e thesoureiro desta real capella, 
professor do Seminário de Coimbra, Arcediago da Sé 
da mesma cidade. 

13. Manuel de Jesus Maria Soares, filho de José Miguel Soares, 

de S. Miguel de Fontoura, Vianna do Castello (23 de 
novembro de 1848). Bacharel formado em theologia, 
cónego da Sé de Faro. 



LISTA DOS CAPELLÃES 247 



14. António de Soiísá e Mello, filho de José de Sousa Mello, de 

Penafiel, Porto (2 de março de 1850), Bacharel formado 
em direito, párocho. 

15. José Simões Gomes, filho de Henrique José Gomes, do 

Porto (28 de setembro de 1850). Bacharel formado eni 
direito, cónego da Collegiada de Cedofeita, cónego da 
Sé do Porto, promotor nesta diocese. 

16. Manuel Martins Bogas, filho de José Martins Bogas, deVilla- 

Real (24 de fevereiro de 1853). Bacharel formado em 
theologia, cónego e deão da Sé primacial de Braga com 
o nome de D, Manuel Martins Alves Novais, vice-reitor 
do Seminário conciliar dá mesma cidade, pròtonotário 
apostólico e prelado doméstico de S. S.<*® 

17. José Joaquim da Silva Guimarães Júnior, filho de José Joa- 

quim da Silva Guimarães, de S.^ Christina da Malta, 
Porto (24 de fevereiro de 1853), Bacharel formado em 
direito, párocho. 

18. João Rodrigues, fílho de Filippe Rodrigues, de Fataunços, 

Viseu (24 de fevereiro de 1853). Doutor em theologia, 
professor e reitor no Seminário patriarchal de Sauta- 
rém, cónego da Sé de Lisboa, desembargador da Rela- 
ção e Cúria patriarchal. 

19. António Augusto Soares de Morais, filho de Manuel Soares 

Dias, de Solgos, Viseu (21 de fevereiro de 1856). Bacha- 
rel formado em direito, párocho, deputado da Nação: 

20. António Lopes Norte, filho de Manuel Lopes Norte, da 

Cunha-Baixa, Viseu (21 de fevereiro de 1856). Bacharel 
formado em direito, párocho, professor do Seminário 
de Viseu, 

21. Ildefonso José Cardoso d'Almeida Santos, filho de António 

d'Almeida Santos, Villa Sêcca d'Armamar, Viseu (21 de 
fevereiro de 1856). Bacharel formado em theologia, có- 
nego da Sé de Lamego. 

22. Joaquim Maria Leite, filho de José Manuel Leite, de Pena- 

cova, Coimbra (21 de fevereiro de 1856). Bacharel for- 
mado em theologia, chantre da Sé primacial de Gôa, 
deão da Sé dá Guarda, deputado da Nação. 

23. José Dias Corrêa de Carvalho, filho de Aiitóilio Dias de Car- 

valho, de Canellas, Villa-Real (21 de fevereiro de 1856). 
Bacharel formado em theologia e direito, advogado, pro- 



248 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

fessor do Seminário de Beja, vigário pro-capitular 
daquella diocese, prelado doméstico de S. S.'^®, commen- 
dador da ordem de N. S. da. Conceição, bispo de Cabo 
Verde e actual de Viseu, assistente ao sólio pontifício. 

24. Joaquim António dos Reis, filho de Francisco António, da 

Charneca d'Ourém, Santarém (8 de janeiro de 1857). Ba- 
charel formado em direito. 

25. Manuel António Lopes Roseira, filho de António Rodrigues 

Roseira, de Covas do Douro, Villa-Real (8 de janeiro de 
1857). Bacharel formado em theologia, cónego da Sé de 
Lamego. 

26. Sebastião Luís Martins, filho de Manuel José Pires, de 

Azinhoso^ Bragança (8 de janeiro de 1857). Bacharel for- 
mado em direito, cónego da Sé de Bragança e gover- 
nador do Bispado. 

27. José António de SanfAnna Corrêa, filho de José António 

de SanfAnna, de Tavira, Faro (17 de novembro de 1859). 
Bacharel formado em theologia e direito, capellão mili- 
tar, cónego da Sé de Faro. 

28. José Pires da Costa, filho de João Pires da Costa, de Villa- 

Real (17 de novembro de 1859). Bacharel em theologia 
e bacharel formado em direito, advogado, professor do 
Seminário, cónego da Sé e promotor do juízo eccle- 
siástico em Viseu. 

29. Manuel Joaquim Gonçalves Vieira de Sá, filho de José Joa- 

quim Gonçalves de Sá, de Messogaes, Vianna do Cas- 
tello (17 de novembro de 1859). Bacharel formado em 
direito, professor do Seminário conciliar e cónego da Sé 
primacial de Braga. 

30. Manuel José dos Santos, filho de José Manuel dos Santos, 

de Monsanto, Santarém (17 de novembro de 1859). Ba- 
charel formado em direito. 

31. António José Rodrigues Soares, filho de José Soares Rodri- 

gues, de Ribeira de Fráguas, Aveiro (15 de novembro 
de 1860). Bacharel formado em theologia, director de 
um coUegio em Aveiro. 

32. José Maria Corrêa de Bastos Pina, filho de José Manuel 

Corrêa, de Villa-Chã, Aveiro (15 de novembro de 1860). 
Bacharel formado em direito, párocho em Carrego sa 
(Oliveira d^Azemeis). 



LISTA DOS CAPKIXÃBS 249 



33. Manuel d'01iveira Gbaves c Castro, filho de Joaquim d' Oli- 

veira Chaves, de Lamego, Viseu (7 de novembro de 
1861). Doutor em direito, lente da Universidade, hoje 
aposentado, advogado. 

34. Francisco Martins Rodrigues d'01iyeira, filho de Francisco 

Rodrigues d'01iveira Araújo, de S. Pedro de Valbom, 
Braga (7 de novembro de 1861). Bacharel em theologia 
e bacharel formado em direito. 

35. Manuel da Silva Vianna (cer.)y filho de João da Silva, de 

Vianna do Castello (27 de novembro de 1862). Bacharel 
em theologia e bacharel formado em direito. 

36. Joaquim António Barradas, filho de Manuel Joaquim Barra- 

das, de Elvas, Portalegre (3 de março de 1864). Bacha- 
rel formado em theologia, cónego da Sé metropolitana 
de Évora. 

37. Manuel António do Gabo, filho de Manuel António do Cabo, 

de Aguas-Santas, Porto (3 de março de 1864). Bacharel 
formado em theologia, candidato aos graus maiores, 
falleceu secretário do cadeal-patriarcha D. Manuel Bento 
Rodrigues. 

38. Miguel Caetano Rodrigues, filho de António Rodrigues, da 

ilha da Madeira (1 de fevereiro de 1865). Bacharel for- 
mado em direito. 

39. Manuel Ignácio da Silveira Borges, filho de João Ignácio da 

Silveira Borges, da ilha de S. Jorge, Açores (30 de no- 
vembro de 1865). Bacharel formado em theologia, 
capellão-thesoureiro desta real Capella, vice-reitor do 
Seminário episcopal e cónego da Sé do Porto. 

40. António Mendes Bello, filho de Miguel Bello, de Gouvêa, 

Guarda (24 de outubro de 1867). Bacharel formado em 
direito, professor no Seminário de Elvas, vigário pro- 
capitular nas dioceses de Pinhel e Aveiro, arcebispo de 
Mitylene e vigário geral do patriarchado, bispo do Al- 
garve, actual Patriarcha de Lisboa. 

41. Carlos Brum da Silveira, filho de José Philippe Brum da 

Silveira, de Angra do Heroísmo (24 de outubro de 
1867). Bacharel formado em direito. 

42. João Theotónio Louro, filho de José Theotónio, de Niza, 

Portalegre (24 de outubro de 1867). Bacharel formado 
32 



250 CAP. IV— PBS30AL E SEUS VENCIMENTOS 

em theologia, professor do Seminário episcopal e páro- 
cho da freguesia da Sé em Portalegre. 

43. José Domingues Mariz, filho de António Domingues Mariz, 

de Christello, Braga (24 de outubro de 1867). Bacharel 
formado em theologia e direito, párocho da freguesia 
da Victória e professor no Seminário episcopal do Porto. 

44. Luís Gomes de Paula (cer,), filho de António Gomes, da 

Aldeia de S. Miguel, Guarda (24 de outubro de 1867). 
Bacharel formado em theologia, reitor do collégio de 
S. Caetano da misericórdia de Coimbra, professor no 
real collégio das missões ultramarinas em Semache do 
Bom- Jardim. 

45. José António Corrêa da Silva (cer,)^ filho de José António, 

de S. Pedro-Fins, Porto (24 de dezembro de 1868). Ba- 
charel em theologia e bacharel formado em direito, pro- 
fessor no Seminário episcopal e cónego da Sé do Porto. 

46. José Gonçalves d'Aguiar, filho de Yictorino Gonçalves Ro- 

cha, da ilha da Madeira (24 de dezembro de 1868). Bacha- 
rel formado em theologia, desembargador da Relação e 
Cúria patriarchal. 

47. Manuel de Jesus Lino, filho de Manuel de Jesus Lino, da 

Covilhã, Castello Branco (7 de abril de 1870). Doutor 
em theologia, lente cathedrático da Universidade, pro- 
fessor de hebreu no Lyceu e de sciéncias theológicas 
no Seminário episcopal de Coimbra, commendador da 
ordem militar de Santiago. 

48. Alexandre José da Fonseca (cer,)j filho de Francisco António 

da Resurreição, de Moncorvo, Bragança (11 de novem- 
bro de 1871). Bacharel em theologia e bacharel formado 
em direito. 

49. Francisco Xavier d'Athaide Oliveira (cer.), filho de Joaquim 

Martins d^Oliveira, do Algoso, Faro (11 de novembro 
de 1871). Bacharel formado em theologia e direito. 

50. Henrique Tavares Ribeiro da Silva, filho de João Tavares 

Ribeiro da Silva, de Quintella, Viseu (11 de novembro 
de 1871). Bacharel formado em theologia e direito, pro- 
fessor, reitor do Seminário episcopal, examinador 
pro-synodal, vigário geral e cónego honorário da Sé de 
Viseu, actualmente párocho da freguesia de Pinho 
(S. Pedro do Sul). 



LISTA DOS CAPELLÃES 251 



51 . Joaquim Luís d'A8sainpção, filho de António de Sousa d'As- 

sumpção, de S. Mamede do Coronado, Porto (11 de no- 
vembro de 1871). Bacharel em theologia e bacharel for- 
mado em direito, professor no Seminário episcopal e 
cónego da Sé do Porto. 

52. José Dias da Silva, filho de José Dias^ do Outeiro de Rei- 

goso, Viseu (11 de novembro de 1871). Bacharel em 
theologia e bacharel formado em direito, párocho. 

53. António da Silva Garrelhas, filho de António da Silva Car- 

relhas, de Ovar, Aveiro (20 de fevereiro de 1873). Ba- 
charel formado em theologia e direito, advogado em 
Oliveira d'Azemeis. 

54. António Dias de Sousa e Silva, filho de Luís de Sousa e 

Silva, de Muxagata, Guarda (14 de fevereiro de 1874); 
Bacharel formado em philosophia, director dos estudos 
e professor na Escola Académica em Lisboa. 

55. António Joaquim Pinto, filho de João Evangelista, de So- 

nim, Villa-Real (14 de fevereiro de 1874). Bacharel for- 
mado em theologia e direito, advogado em Coimbra. 

56. Bernardo Joaquim Cardoso Botelho (cer,). filho de Bernardo 

Joaquim Cardoso, de Formillo, Viseu (14 de fevereiro 
de 1874), Bacharel formado em theologia e direito, the- 
soureiro desta real capella, cónego honorário da Sé de 
Coimbra, commendador de N. S. da Conceição de Villa- 
Viçosa, professor do Seminário episcopal e interino do 
Lyceu em Coimbra. 

57. Constantino Ferreira d' Almeida (cer,), filho de Manuel An- 

tónio Ferreira, de Braga (19 de março de 1875), Bacha- 
rel formado em direito, advogado em Braga. 

58. Agostinho d'ÁImeida Azevedo fcer.), filho de António d' Al- 

meida Azevedo e Castro, de Santa Marinha, Guarda (23 
de dezembro de 1875). Bacharel formado em theologia, 
professor do Seminário de Santarém, cónego da Sé e 
desembargador da Relação e Cúria patriarchal em Lis- 
boa. 

59. Francisco dos Prazeres, filho de Marcellino José, do Casal- 

Farto, Santarém (23 de dezembro de 1875). Bacharel 
formado em theologia e direito, professor do Lyceu e 
Seminário episcopal da Guarda, actual presidente da 
Camará Municipal daquella cidade. 



252 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

60. José Manuel de Carvalho, filho de José Manuel de Carva- 

lho, de Tourigo, Viseu (9 de novembro de 1876). Bacha- 
rel formado em direito, professor do Seminário epis- 
copal e do Lyceu, examinador pro-synodal, e promotor 
do juízo ecclesiástico em Viseu, bispo de Macau, e de 
Angra do Heroísmo. 

61. João Bernardo Heitor d'Athaide (cer,). filho de Sebastião 

Lourenço d'Athaíde, de Gôa (12 de abril de 1877). Licen- 
ciado em direito, advogado, professor do Seminário 
episcopal de Coimbra. 

62. João Fernandes Dias, filho de Simão Fernandes Dias, de 

Mentrestido, Vianna do Castello (12 de abril de 1877). 
Bacharel formado em direito. 

63. Narciso Cândido Alves da Cunha, filho de José Narciso 

Alves, de Formariz, Vianna do Castello (7 de dezembro 
de 1877). Bacharel formado em direito. 

64. António de Almeida, filho de José de Almeida, de Lourosa 

da Trapa, Viseu (29 de janeiro de 1879). Falleceu sendo 
alumno do 2.® anno jurídico. 

65. João Paes Pinto, filho de José Maria Finto, de Casal- JusãOj 

Viseu (29 de janeiro de 1879). Bacharel formado em di- 
reito, advogado, professor e director espiritual do Se- 
minário archiepiscopal de Évora, abbade de S. Nicolau 
no Porto, e actualmente de Cabanas, diocese de Viseu. 

66. José Gonçalves Lage, filho de Bento Gonçalves Lage, de 

Serrasquinhos, Villa-Real (29 de janeiro de 1869). Fre- 
quentou as faculdades de theologia e direito, mas não 
concluiu curso. 

67. Ruy Tavares Ferreira, filho de Joaquim Tavares Ferreira, 

de Villa-Cortês da Estrada, Guarda (6 de outubro de 
1879). Bacharel formado em direito, párocho, vice-reitor 
do Seminário episcopal e cónego da Sé»da Guarda. 

68. Francisco Ferreira da Silva, filho de António Ferreira da 

Silva, de Aguiar da Beira, Guarda (24 de março de 1881). 
Párocho em Valverde (Aguiar da Beira), bacharel em 
theologia e formado em direito, professor do Seminário 
episcopal, cónego da Sé, vigario-geral e governador da 
diocese de Cabo Verde, actualmente bispo titular de 
Sienne e prelado de Moçambique. 

69. Arthur Henriques Bessa (cer.)y filho de Domingos Henri- 



LISTA DOS CAPELLÃES 253 



ques Bessa, de Faro (24 de março de 1881). Bacharel for- 
mado em direito, deão da Sé episcopal de Loanda, reitor 
do Hospício de S.*° António dos Portugueses em Roma, 
pròtonotário apostólico e prelado doméstico de S. S.^« 

70. José Maria Rodrigues, filho de Bento José Rodrigues, de 

Cerdal, Vianna do Castello (24 de março de 1881). Doutor 
em theologia, lente cathedrático da Universidade, reitor 
do Lyceu central de Lisboa, vogal do Conselho Superior 
de Instrucção publica, lente do Curso Superior de 
Letras, 

71. Pedro Gonçalves Sanches, filho de António Gonçalves San- 

ches, de Ganêdo, Villa-Real (24 de março de 1881), Ba- 
charel formado em theologia, vice-reitor e professor do 
Seminário conciliar e desembargador da Relação metro- 
politana de Braga, actualmente cónego-professor da real 
e insigne CoUegiada de Guimarães. 

72. Eduardo Lopes da Silva, filho de Joaquim Lopes, de S. Tiago- 

a-par-de-Ceia, Guarda (24 de novembro de 1883). Ba- 
charel formado em theologia, prior de N. S." dos Már- 
tyres em Lisboa, desembargador da Relação e Cúria 
patriarchal. 

73. Joào Corrêa de Paiva, filho de João Corrêa de Paiva, de 

S, Pedro do Sul, Viseu (24 de novembro de 1883), Bacha- 
rel formado em theologia, professor do Seminário epis- 
copal, cónego da Sé, examinador pro-sy nodal e vigário 
geral em Lamego, 

74. José Lopes Ferreira dos Santos, filho de Joaguim Lopes Fer- 

reira, de Arcozêllo das Maias, Viseu (24 de novembro 
de 1883). Bacharel formado em direito, advogado, pro- 
fessor do Seminário episcopal, cónego da Sé e exami- 
nador pro-synodal em Viseu. 

75. Manuel Bernardo Cardoso Botelho Furtado, filho de José Ber- 

nardo Furtado, de Formillo, Viseu (24 de novembro de 
1883). Bacharel formado em theologia, cónego-professor 
em Faro, professor e reitor do Seminário de Santarém, 
cónego da Sé e desembargador da Relação e Cúria 
patriarchal em Lisboa. 

76. Fernando Ramos de Brito, filho de António Ramos de Brito, 

de Idanha a Nova, Castello-Branco (7 de outubro de 
1884), Bacharel formado em direito. 



254 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

77. Abílio Augusto da ICaia e Gosta, filho de Alexandre José da 

Rocha Negrão, de Passos de Villariques, Viseu (28 de 
abril de 1888). Bacharel formado em direito, advogado, 
conservador do registo predial em Vouzella >. 

78. António d'Abranches Martins fcer,), filho de António d' Abran- 

ches Ferreira, de S. Martinho de Ceia, Guarda (28 de 
abril de 1888). Bacharel formado em theologia, professor 
do Seminário da Guarda. 

79. António Marques de Figueiredo, filho de João Marques de 

Figueiredo, de S.*^ Maria d'Alcofra, Viseu (28 de abril de 
1888). Bacharel formado em theologia, professor e vice- 
reitor do Seminário episcopal de Viseu, examinador pro- 
synodal, deão da Sé episcopal e vigário geral daquella 
diocese 

80. Ismael de Moura Tavares, filho de Jacintho de Moura Tava- 

res, de Coimbra (28 de abril de 1888). Bacharel formado 
em direito, professor da Escola Normal de habilitação 
para o professorado primário do sexo feminino em 
Coimbra. 

81. João Henriques de Sequeira Mora, filho de Emygdio António 

Mora, do Sardoal, Santarém (28 de abril de 1888). Ba- 
charel formado em theologia e direito, professor do Se- 
minário de Santarém, cónego da Sé e desembargador 
da Relação e Cúria patriarchal em Lisboa. 

82. Joaquim de Loureiro Niza, filho de José de Loureiro Niza, 

de Santar, Viseu (28 de abril de 1888). Bacharel formado 
em direito, advogado, párocho de Chans de Tavares. 

83. José Martins Peixoto, filho de Henrique Martins Peixoto, 

de S. João de Neiva, Vianna do Castello (28 de abril de 
1888). Bacharel formado em theologia e direito, pro- 
fessor do Seminário conciliar, desembargador da Rela- 
ção metropolitana e cónego da Sé de Braga. 

84. Mattaeus d'01iv8ira Xavier, filho de Joaquim d'01iveíra Brás, 

do Valle da Urra, Castello-Branco (28 de abril de 1888). 
Bacharel formado em theologia, professor do real Col- 



í Este ecciesiástico e os sete seguintes exerciam já interinar 
mente, havia mais de dois annos, as funções de capellâes, senda 
providos definitivamente» na data indicada. 



LIS IA DOS CAPELLÃES S55 



legio das Missões Ultramarinas, em Sernache do Bom 
. Jardim, reitor do Seminário de Rachol (Goa), bispo de 
Gochim. 

85. José Rodrigues Liberal Sampaio (cer,)^ filho de António Ro* 

drigues Sampaio, de Serraquinhos, Villa-Real (8 de 
outubro de 1888), Bacharel formado em theologia e 
direito, pregador régio, advogado em Chaves. 

86, António do Prado de Sousa de Lacerda, filho de Duarte de 

Sousa Lacerda Prado, de Aljubarrota, Leiria (interino 
durante o anno de 1890, não chegando a ser provido 
definitivamente). Bacharel formado em direito, advo- 
gado, 

87, Antào José d^Oliveira, filho de António José d' Oliveira, de 

S. Miguel da Carreira, Braga (5 de fevereiro de 1891), 
Bacharel formado em direito, abbade de Maximinos, e 
desembargador da Relação metropolitana de Braga. 

88, António Alves Ferreira, filho de Manuel Alves Ferreira, 

do Sardoal, Santarém (5 de fevereiro de 1891). Bacharel 
formado em theologia e direito, professor e vice-reitor 
do Seminário episcopal e promotor fiscal da diocese de 
Lamego, professor do Seminário de Santarém, cónego 
díi Sé e desembargador da Relação e Cúria patriarchal 
em Lisboa; coadjutor e futuro snccessor do bispo de 
Viseu, com o titulo de bispo de Martyrópole, 

89, Félix Maria de Magalhães Aguiar, filho de Francisco Ignácio 

d' Aguiar Pimenta Carneiro, de Vermoím, Braga (20 de 
abril de 1891), Bacharel formado em direito. 

90. Isidoro Martins Pereira d'Andrade, filho de Joaquim Martins, 

de Villar-Sêcco, Viseu (9 de outubro de 1891). Bacharel 
formado em theologia, professor do Lyceu Central e do 
Seminário episcopal de Viseu, 

91. Alipio Alhano Gamêllo, filho de José António Camêllo, de 

Bragança (24 de fevereiro de 1894). Bacharel formado 
em direito, advogado, professor no Lyceu nacional de 
Leiria, actualmente no central da 2." zona escolar em 
Lisboa. 

92. António Luís Vas (cer.), filho de Joaquim Elias Vas, de 

Verdoejo, Vianna do Castello (24 de fevereiro de 1894), 
Bacharel formado em theologia e direito, párocho em 
Lisboa. 



256 CAP. IV — PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS 

93. Joaquim Mendes, filho de António Mendes, de Coimbra 
(24 de fevereiro de 1894). Bacharel formado em direito, 
capellão da Penitenciaria de Coimbra. 

•94. José Augusto Dinis, filho de José Baptista Dinis, de Gouveia, 
Guarda (24 de fevereiro de 1894). Bacharel formado em 
direito, advogado, párocho na diocese da Guarda. 

95. José Augusto Rodrigues Ribeiro, filho de António Rodrigues 

Ribeiro, de S.'" Marinha, Guarda (24 de fevereiro de 
1894). Bacharel formado em direito. 

96. José Marques Rito e Cunha, filho de João Marques Rito, 

de Fulhadal, Viseu (24 de fevereiro de 1894). Párocho 
de Várzea de Tavares (Mangualde), capellão dos hospi- 
tais da Universidade, bacharel formado em theologia, 
reitor do collégio de S. Caetano em Coimbra, professor 
do Seminário episcopal, cónego da Sé, promotor do juízo 
ecclesiástico, governador do bispado em Viseu, pròto- 
notário apostólico e prelado doméstico de S. S.^» 

97. José d'01iveira, filho de José da Graça Bicho, de Niza, Porta- 

legre (24 de fevereiro de 1894). Bacharel formado em 
theologia, professor do Seminário e cónego da Sé de 
Bragança. 

98. João Ferreira Gomes, filho *de Joaquim Ferreira Gomes, 

de Alcafache, Viseu (6 de novembro de 1895). Bacharel 
formado em direito, advogado, professor do Seminário 
episcopal, cónego da Sé, promotor do juízo ecclesiástico 
e examinador pro-synodal em Viseu, professor do Lyceu 
de Amarante. 

99. Macário da Silva fcer,), natural de Mação, Santarém (6 de 

novembro de 1895). Bacharel formado era direito, advo- 
gado, professor do Lyceu central e da Escola normal 
de habilitação para o professorado primário do sexo 
masculino de Coimbra. 

100. António Martins Malhado, filho de Francisco Martins Ma- 

lhado, de Alpalhão, Portalegre (12 de novembro de 
1896). Bacharel formado em theologia, professor do Se- 
minário episcopal, e cónego da Sé de Portalegre. 

101 . Augusto Joaquim Alves dos Santos, filho de Manuel Joaquim 

Rodrigues dos Santos, de S.'" Maria da Cabração, 
Vianna do Castello (12 de novembro de 1896). Doutor 
em theologia, lente da Universidade, inspector da 



LISTA DOS CAPELLÃES 257 



2." circunscrição escolar, commendador da ordem mi- 
litar de Santiago. 

102. José Fructuoso da Costa, filho de José Duarte, de Pindo, 

Viseu (12 de novembro de 1896). Bacharel formado em 
direito, professor e vice-reitor do Seminário episcopal, 
cónego da Sé, promotor do juízo ecclesiástico e exami- 
nador pro-synodal em Viseu. 

103. Manuel Simões da Gosta, filho de José Simões, de Cacia, 

Aveiro (12 de novembro de. 1896). Bacharel formado 
em direito. 

104. António Manuel Santiago (cer.), filho de Augusto José Pinto 

Santiago, de Felgar, Bragança (15 de outubro de 1897). 
Bacharel formado em direito, cónego da Sé cathedral 
e professor do Seminário de Bragança. 

105. António dos Santos Gosta, filho de José dos Santos, de La- 

mego, Viseu (15 de outubro de 1897). Bacharel formado 
em direito, cónego da Sé episcopal de Lamego. 

106. Manuel Simões Pinto, filho de António Simões, de Vasco- 

verfo, Guarda (15 de outubro de 1897). Bacharel for- 
mado em direito. 

107. José Berna]4o d'Almada, filho de José Bernardo d' Almada, 

da ilha de S. Miguel (27 de outubro de 1899). Bacharel 
formado em direito, cónego arcediago da Sé cathedral 
de Angra do Heroísmo. 

108. António Ferreira Loureiro, filho de António Gomes Lou- 

reiro, de Gueral, Braga (19 de maio de 1900). Bacharel 
formado em mathemática e philosophia, professor do 
Lyceu do Porto. 

109. Thomás Afifonso Felgueiras, filho de Francisco Affonso Fel- 

gueiras, de Perre, Viánna do Castello (19 de maio de 
1900). Bacharel formado em mathemática, professor 
do Lyceu central e do Seminário conciliar de Braga, 
professor do Lyceu de Vianna do Castello. 

110. Gándido Augusto de Mello, natural de Viseu (8 de fevereiro 

de 1901). Bacharel formado em theologia e direito. 

111. Francisco Gotrim da Silva Garcez, filho de António Cotrim 

da Silva Garcez, de Dornes, Santarém (18 de outubro 
de 1901). Bacharel em theologia, alumno de theologia e 
direito. 

112. Manuel dos Santos Lourenço, filho de Joaquim dos Santos 

33 



258 CAP. IV— PKSSOAL K SEUS VENCIMENTOS 

Lourenço, de Lisboa (13 de dezembro de 1901) Bacha- 
rel formado em direito, párocho no patriarchado. 

113. António Ribeiro Telles, filho de Roberto António da Silva 

Telles e Moura, de S João Baptista de Sernache, Porto 
(2 de abril de 1902). Freqiientou as faculdades de theo- 
logia e direito, mas não concluiu curso. 

114. José Ribeiro Cardoso, filho de Domingos Ribeiro Cardoso, 

de Sobreira-Formosa, Castello-Branco (2 de abril de 
1902). Bacharel formado em direito, advogado, párocho 
de Castello Branco. 

115. Ârthnr Fernandes de Mattos (cer,), filho de António Fer- 

nandes de Mattos, de S.^^ Comba-Dão, Viseu (13 de no- 
vembro de 1902). Bacharel formado em direito, advo- 
gado, professor do Seminário episcopal de Bragança. 

116. Arthnr José Ferreira, filho de José Ferreira do Couto, de 

S. Tiago de Cassurrães, Viseu (13 de novembro de 1902). 
Bacharel formado em direito, advogado. 

117. José Manuel Pereira dos Reis, filho de José Manuel Nunes 

dos Reis, de Vermelha, Lisboa (23 de novembro de 1903). 
Licenciado em theologia, actualmente candidato ao grau 
de doutor. 

118. António Pereira da Silva, filho de António Maria Pereira 

da Silva, de S. João do Monte, Viseu (23 de novembro 
de 1903). Bacharel formado em theologia, alumno do 
5.*» anno de direito. 

119. António Pereira de Figueiredo, filho de Agostinho Pereira 

de Figueiredo, de Villa-Chã de Sá, Viseu (9 de janeiro 
de 1904). Alumno do 5.* anno de direito, actual chantre 
da real capella. 

120. José Marques Dias Júnior, filho de Joaquim Marques Dias, 

de Villa-Ruiva, Viseu (17 de outubro de 1904). Alumno 
de theologia e de direito. 

121. Francisco Moreira dos Santos (cer,), filho de José da Silva, 

de Fornos, Aveiro (2 de janeiro de 1905). Alumno de 
theologia, actual cerimoniário da real capella, párocho 
na diocese de Viseu. 

122. Augusto Henriques Baptista, filho de José Bento Baptista, 

de Viseu (22 de dezembro de 1906). Alumno de theo- 
logia. 

123. Caetano José Travassos Lima, filho de Caetano José Tra- 



L'STA DOB CAPELLAKS 



259 



vassos Lima, de S. José, de Ponta Delgada (22 de de- 
zembro de 1906). Alumno de direito. 

124. Elias Luís d' Aguiar, filho de Manuel Luís d' Aguiar, de 

Villa do Conde, Porto (25 de outubro de 1907). Alumno 
de theologia. 

125. Luis Lopes de Mello, filho de José Maria Lopes, de Moi- 

menta da Serra, Guarda (25 de outubro de 1907). Alu- 
mno de theologia. 

126. José Maria Ribeiro d'Âlineida, filho de João José Ribeiro 

d'Almeida, de S. Vicente do Bico, Braga (25 de outubro 
de 1907). Alumno de direito. 

127. Gaspar Augusto Pinto da Silva, filho de Manuel Pinto da 

Silva, de Várzea do Douro, Porto (10 de março de 
1908). Alumno de theologia. 




À muita amabilidade, dedicação e comprovadíssimo 
zelo do sr. Pedro Augusto de S, Bartholomeu Azevedo^ 
1.^ conservador do Real Archivo da Torre do Tombo, 
devo a descoberta e cómmunicdção dos interessantes 
documentos impressos em notas na^ pp, 14-20 deste 
opúsculo. O tributo pois dos meus sinceros agradeci- 
mentos a sua ex.^ 

Dr. António de Vasconcélloz. 



ÍNDICE 

CAPITULO I 
A CAPELLA REAL DE S. MIGUEL EM COÍMBRA Pag. 7 



Affonso Henríquez funda no paço da Alcáçova em Coimbra 
uma capella dedicada a S. Miguel 7. — Especial devoção que o 
fundador da monarchia tributava ao príncipe da milícia celeste, 
que ficou sendo considerado como anjo custódio do reino 8. — A 
capella real de Coimbra durante a primeira dynastia e os pri- 
meiros reinados da segunda 10. — Encerra-se esta capella por 
morte do infante D. Pedro, duque de Coimbra, em 1449 12, e é 
restaurada seis annos depois, por alvará de D. Affonso v 14. — 
Em 1537 a capella do paço real de Coínjbra passa a ser simul- 
taneamente capella da Universidade 20, sendo-lhe annexada a 
capella do paço real do Paul de Muge, e a confraria de lentes 
e estudantes, de Nossa Senhora da Luz 22. — E vesitada em 
1550 por D. João ni 23, e em 1570 por D. Sebastião 24. — 
D. Filippe II de Castella vende à Universidade os seus paços 
de Coimbra, conservando-lhes porém todas as prerogativas, 
preeminências e immunidades de paços reais 24. — Isenção e 
outros privilégios de que a real capella da Universidade goza 2«. 

— Reforma da Universidade em 1772; actos religiosos a que 
assistiu aqui o marques de Pombal, vesitador e reformador 80. 

— A real capella depois da reforma pombalina 32. — Vesita de 
D. Miguel em 1832 84. — Decadência da real capella depois da 
mudança de regime político em 1834 84. — Vesita de D. Fer- 
nando em 1836 86. — Reforma de 1845. — Vesitas régias na 
segunda metade do século xix 87. — Reforma de 1901 41. 



262 ÍNDICE 



CAPITULO II 
EDIFÍCIO E OBJECTOS DO CULTO p*«. 4« 



Nenhuns vestígios restam do primitivo edifício da capella real 
affonsina 48. — Construção do edifício actual por Marcos Pirez 
entre os annos de 1517 e 1522 44. — Obras nelle realizadas até 
ao fim do século xvi 66. — A capella-mór é revestida de azulejos 
em 1613 68. — Construção do retábulo do altar-mór 69, e pintura 
dos quadros que o adornam 68. — Obras realizadas em 1647- 
1648 67. — Modificação do altar-mór em 1663 69. — Acquisiçâo 
da imagem de Nossa Senhora da Luz 69, e construção do altar 
de santa Catharina 71. — Abertura do camarim onde se ergue 
o throno para as grandes exposições 71 ; douramento desta nova 
obra, e do retábulo e imagem de santa Catharina 72; remoção 
de três quadros do altar-mór 78. — Grandes obras de 1696- 
1697 76. — órgão da real capella 76; outras obras realizadas no 
século XVIII até à reforma pombalina 80. — Projecto do marquês 
de Pombal, felizmente não realizado, de demolir e reedificar a 
capella 84. — Obras importantes do reformador-reitor D. Fran- 
cisco de Lemos 86. — Restaurações efeituadas no século xix 88. 
— Notícia descritiva do edifício 90. — Objectos de ourtcezaria. 
Píxide 108, gomil e prato 104. — Obras do ourívez Simão Fer- 
reira 1588-1607 106 : custódia 107, lâmpada 109, duas coroas, 
cáliz e caldeirinha com hyssope 116, e outros objectos 1I9. — 
Thuríbulos e naveta 120, lâmpada do altar de Nossa Senhora 
da Luz 121, castiçais 122, galhetas 125, cruz processional 127, sa- 
crário 129. — Paramentos e tapeçarias. Pobreza de paramentos 
no século XVI 129. — Em 1595 encommenda-se de Madrid um 
rico ornamento 181. — Outras alfaias de seda que havia no fim 
daquelle século 182. — Acquisições feitas nos séculos xvii l«8^ 
XVIII 142, e XIX 148. — Cuidados com a arrecadação e conser- 
vação das alfaias 144. — Dotação da real capella para despesas 
com o material 146. 



ÍNDICE 263 

CAPITULO III 
ACTOS DO CULTO P*g 14« 

Culto divino na capella real de Coimbra até ao reinado de D. João 
III 149. — ActoB cultuais praticados pela Universidade de Lis- 
boa, e continuados depois da sua definitiva installaçao em 
Coimbra 160. — Culto na real capella desde os fins do século 
XVI 154 : — Missas quotidianas e missas solemnes 164 ; vésperas 
solemnes I6i ; solemnidades do Natal e Semana Santa 161 ; prés- 
titos cívicos e religiosos, e procissões 164; enterros e suffrá- 
gios 189 ; pregações 199 ; outras solemnidades extraordinárias 202. 
— O culto divino universitário na actualidade 206. — Dotação 
de que dispõe a real capella para custear as despesas com as 
solemnidades religiosas 208. — Plano irrealizado do marquês de 
Pombal vesitador-reformador, e de D. Francisco de Lemos rei- 
tor, em relação à capella da Universidade 209. 

CAPITULO IV 
PESSOAL E SEUS VENCIMENTOS Pag. 2i8 

Pessoal da capella de 8. Miguel de Coimbra, até ao reinado de 
D. João III 218; seus vencimentos 214. — Quadro do pessoal da 
real capella nos primeiros tempos da installação da Universi- 
dade em Coimbra 214. — Quadro do mesmo pessoal desde a pu- 
blicação dos estatutos de 1591 até à actualidade 217. — Funções 
e attribuíções do pessoal maior: — director 219, thesoureiro 219, 
chantre 227, cerimoniário 228, apontador 231, capellâes sím- 
plez 281, professor de música 287. — Vencimentos desde 1502 
até à actualidade; tabeliã comparativa 288. — Relação nominal 
dos capellâes desde a reforma de 1845 até hoje 242 : — thesou- 
reiros 248, chantres 244, capellâes símplez 245. 



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