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Full text of "Recapitulação da historia da litteratura portugueza"

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EDADE MEDIA 




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Editores: LIVRARIA CHARDRON, de Lél- 
io & Irmão^^^ — Rua das Carmelitas, 144 



OBRflS COMPLETAS 



RE CAPITULAÇÃO 

DA 

HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

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EDADE MÉDIA 



RECAPITULAÇÃO 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



I— Edade Média. Porto. 1909. In-8.<^ de vin-õ24 p. 1 vol. 
II — Renascença (Em publicação). 
III— Romantismo (Em preparação). 



Theõphilo Braga 



HISTORIA 



UTTERATURA PORTUGUEZA 



EDADE MEDIA 




V% %% ^% PORTO — 1^909 %%%%%% 
Editores: LIVRARIA CHARDRON, de Lél- 
io & Irmão — Rua das Carmelitas, 144 



o accordo assignado no Rio de Janeiro, em 9 de Se- 
tembro de 1889, entre o Brazil e Portugal, assegurou o di- 
reito de propriedade literária e artistica em ambos os 
paizes. 



A presente edição está devidamente registada nas Bi- 
bliothecas Nacionaes, de Lisboa e Rio de Janeiro. 



Imprensa OTogerna, 9e manoel hello 
R. aa Rainha D. Rmelia. 61 -PORCO 



Quando se faz um resumo sem a preparação 
prévia de trabalhos especiaes, fica sempre um 
apanhado concretamente mesquinho; se provém 
da condensação necessária de monographias ex- 
haustivas, constitue uma synthese, pondo em evi- 
dencia o systema em que assenta a obra. 

Já por trez vezes o vasto corpo da Historia 
da Litteratura portuguesa tem sido submettido a 
este processo de condensação: em 1875 ^o ^^ 
niial de Historia da Litteratura portuguesa (in- 
8.0 de VI 1-474 p.), destinado ás Hções oraes. Em 
breve ficou atrazado, pela publicação dos Cancio- 
neiros trobadorescos, e pelo aperfeiçoamento do 
methodo histórico e philosophico, dando logar á 
remodelação do plano em. 1885 no Curso da His- 
toria da Litteratura portuguesa (in-8.0 grande, 



de 412 p.) Desde essa data até ao presente, o 
campo da Litteratura portugueza da Edade mé- 
dia tem sido desvendado por insignes romanis- 
tas francezes, allemães, italianos, hespanhoes e 
americanos, e foram publicados numerosos textos 
dos séculos xiii a xv. Urgia incorporar esses 
subsídios dispersos. Emquanto não realisamos 
esse empenho na reimpressão dos Trovadores por- 
tugueses. Formação do Amadis de Gaula, Poetas 
palacianos e Os Historiadores portugueses, sup- 
primos esta deficiência de tempo com a promet- 
tida Recapitulação da Historia da Litteratura 
p07'tugueza da Bdade média, como a summula da 
primeira Época, tratada n'esses quatro livros. 

A vastidão do corpo da Historia da Littera- 
tura portuguesa corresponde á importância d'esta 



viva manifestação do génio esthetico cFeste povo, 
tão notável como a sua energia activa na inicia- 
tiva das Navegações e Descobrimentos geogra- 
phicos. A sua extensão impÕe uma recapitulação 
clara para os estrangeiros que desejam conhecer 
esta ignorada Litteratura românica, e para os na- 
cionaes que procuram um guia para o seu estudo. 
Os titulos de nobreza de Portugal não consis- 
tem exclusivamente em ter iniciado os grandes 
Descobrimentos e occupado o primeiro plano na 
actividade d'essa extraordinária Éra; embora pe- 
queno no seu numero, a par da occupação de vas- 
tissimos dominios, creou o Povo portuguez uma 
das mais bellas linguas românicas, e n'ella os 
seus Escriptores, Poetas, Historiadores, Viajantes 
e Philosophos produziram uma opulenta Littera- 



tura que seguiu a par e com brilhantismo a evo- 
lução das Litteraturas meridionaes. Essa lingua 
ainda hoje se falia em novos estados, authenti- 
eando a extensão que teve o dominio portuguez; 
e essa Litteratura foi e ainda é hoje uma das 
forças mcraes que sustentam a nacionalidade e 
autonomia de Portugal. 

Se está para este paiz terminada a empreza 
dos Descobrimentos, mantêem-se fecundas as suas 
faculdades artisticas, scientificas e philosophicas, 
suscitadas pela comparticipação no concurso men- 
tai europeu, em que acima de cada Nação se aftir- 
ma o ideal da Humanidade. 



HISTORIA 



LITTERATURA PORTUGUEZA 



O pequeno povo, que occupa a faixa Occiden- 
tal (la Hespanha, constituindo-se em nacionali- 
dade autónoma entre os novos Estados penin- 
sulares formados no século xii, que se foram 
unificando até á completa absorpção castelhana, 
assignalou pela energia da sua raça a acção mun- 
dial, realisada nos grandes Descobrimentos ma- 
ritimos, que deram inicio á Era moderna da Ci- 
vilisação da Europa. A individualidade ethnica, 
que o tornou inconfundivel com o Ibero, e a 
acção histórica inolvidável pelo seu influxo social, 
levam a considerar o génio caracteristico d'este 
povo, o cthos, expresso nas creaçÕes artisticas, 
nas formas litterarias, reflectindo a sentimentali- 
dade, o espirito de aventura, e a resignada espe- 
rança nunca extincta na alma portugueza. 

Tão importante é a historia dos Descobrimen- 
tos maritimos dos Portuguezes, como a da sua 
Litteratura; este poder de acção e de creação es- 
thetica explica o phenomeno sociológico da sua 



HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 



autonomia politica através das crises das naciona- 
lidades peninsulares, das conHa^s^racòes europêas, e 
do eni])irism() ])oçal dos seus próprios «'over- 
nantes. 

O p()\'() })ortiií^"nez, cuja raça foi caracterisada 
])or Frederico Edwards e Deniker como das mais 
])uras da Europa; e cuja nacionalidade Pi y Mar- 
í>all aiX)ntou como a de mais lógica formação 
entre os \arios Estados peninsulares, conserva as 
suas Tradições poéticas com uma inteireza ar- 
cliaica. destacando-se entre o Folk-Lore Occiden- 
tal ]>ela sua ricfueza e vitalidade, como observou 
Jeanro}'. Com estes elementos fundamentaes ou 
orgânicos, a elaboração da Litteratura portugue- 
za é o producto do cthos da raça, do sentimento 
da naci(^nalidade e da consciência histórica, acom- 
|;anlian(l() solidariamente a evolução esthetica das 
Littcraturas românicas, na Edade média, na Re- 
nascença e na época do Romantismo, seguindo a 
acção hegemónica de cada uma d'ellas, e por seu 
turno influindo também na creação da Novella de 
Cavalleria e na corrente do Humanismo. O es- 
tudo histórico d'este producto superior do génio 
portuguez, acompanhando-o nas suas relações 
com as Litteraturas modernas, através dos mo- 
vimentos sociaes e políticos da península hispâ- 
nica, presta-se á applicação de processos críticos, 
((ue só podem realjsar-se comprehendendo a i)sy- 
chologia collectiva e o pont(~) de vista sociológico. 



lÍLABORAÇAO ORGÂNICA 



PROLEGOMENOS 



Elaboração orgânica da Litteratura 

A i)alavra escripta, quando por ella se dá ex- 
])ressão ás emoções e concepções subjectivas, ou 
se representam actos e aspectos da natureza obje- 
ctivamente, torna-se pelos recursos estylisticos a 
mais elevada forma da Arte, a que na série es- 
thetica se chama Litteratura. Muitos povos que 
alcançaram adiantadas formas sociaes e consegui- 
ram poderosas condições de existência politica, 
não chegaram a crear uma Litteratura; é por 
(|ue este phenomeno, resultante da estabilidade 
social em que se fixam os Costumes que têm de 
ser idealisados, desenvolve-se pela comprehensão 
individual que lhe dá o relevo synthetico. E' ex- 
tremamente complexa esta transformação. Para 
que uma Litteratura se forme é necessário que 
uma raça fixe os seus caracteres anthropologicos 
pela prolongada hereditariedade, que funde a 
aggregação ou consenso moral de Nacionalidade, 
tendo o estimulo de resistência na sua Tradição 
e na unidade da Lingua disciplinada pela escri- 
l)ta, universalisando a relação psychologica das 
emoções populares com as manifestações concebi- 
das pelos génios artísticos. 

Comprehendida assim a Litteratura é uma 
synthese completa, o quadro do estado moral de 
uma nacionalidade re])resentando os aspectos da 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



sua evolução secular e histórica. O valor de qual- 
quer Litteratura patentêa-se nas condições do seu 
ílesenvolvimento, definindo os factores sociaes que 
a motivam e de que ella é a expressão consciente. 
Na marcha histórica de qualquer povo existe um 
trabalho constante de synthese ou coordenação es- 
pontânea de todas as suas energias, conformando 
os actos com os sentimentos e ideias dominantes. 
No estado presente da civilisação, a Politica geral 
tende a exercer-se como Synthese activa; a Phi- 
losophia, ratificando as concepções subjectivas pe- 
los dados objectivos e experimentaes das Scien- 
cias, determinando a ordem physica, a ordem or- 
gânica e a ordem social, constitue na sua inte- 
gralidade a Synthese especulativa; a Litteratura 
e Arte, cooperam para a urgente Synthese affe- 
ctiva, em que a vida emotiva e a tradição, par- 
tindo das manifestações da autonomia nacional 
recebem o relevo da solidariedade humana, esbo- 
çando o ideal da concórdia a que se aspira. 

Su]>ordinada ao meio social pela sua origem 
e destino, a Litteratura reflecte todas as succes- 
sivas modificações d'esse meio, achando-se, como 
todos os outros phenomenos sociológicos, sujeita 
a leis naturaes de ordem statica ou de conserva- 
ção, e de acção dynamica ou de progresso. Des- 
conhecendo os elementos staticos das Litteraturas, 
é impossivel comprehender a sua origem e modo 
de fonnação; sem a apreciação das condições dy- 
namicas mal se avalianá o que pertence cá influen- 
cia individual dos escriptores de génio. 

As Épocas litterarias de esplendor ou decadên- 
cia, de invenção ou de imitação só podem ser liem 



K L A R o R AÇAO O R ( ; A N RN 



caracterisadas pela dependência mutua entre os 
factores st áticos e dynamicos. Bacon, esboçando 
genialmente as bases da historia litteraria (De 
augmentis Scientiarum, liv ii, cap. 4,) indica os 
factores staticos e dynamicos : «Antes de tudo o 
historiador das Artes e das IvCttras, deve preoc- 
cupar-se... da natureza do paiz e da raça, sua 
aptidão ingenita ou ao contrario sua incapacidade 
para as diversas sciencias, as circumstancias his- 
tóricas favoráveis ou desfavoráveis, (factores dy- 
namicos) as influencias religiosas, aquellas que 
provêm das leis ])oliticas, emfim, o mérito emi- 
nente e a acção fecunda dos individuos para o 
progresso das letras...» 

E indicando do modo mais nitido o methodo 
a seguir, assenta o ponto de vista francamente 
histórico, e como synthese — «evocar d'entre os 
mortos, como por uma espécie de prestigio, o gé- 
nio litterario d'essa época...» Todo o progresso 
realisado até hoje na historia das Litteraturas 
comprova a suprema concepção de Bacon. 

Como órgãos subtrahidos á vontade indivi- 
dual, mas pelos quaes se exercem os processos da 
concepção artistica, constituem os elementos sta- 
ticos das Litteraturas : a Raça, a Tradição, a Lin- 
giia e a Nacionalidade. 

Quando uma sociedade não conseguiu dar a 
estes factores staticos uma feição individual, a 
Litteratura não. passa de um documento ethno- 
graphico, que por vezes suppre a deficiência de 
monumentos históricos; a.s_ Litteraturas orientaes, 
importantíssimas como documentos psychologicos 
e de reconstrucção histórica, só casualmente attin- 



III.STOKJA DA IJTT^KATURA I'(>RT UGL/KZA 



geni a expressão consciente de unia emoção, que 
se transmitte intencionalmente. A Littcratura 
grega, na evolução orgânica do seu Lyrisiiio, da 
sua Bpopêa e do seu Theatro, deriva da relação 
harmónica doestes elementos com a elaboração in- 
dividual, sendo por isso o modelo perfeito de to- 
das as Litteraturas, a norma do gosto, servindo 
de typo clássico de imitação pelo relevo ideal que 
as tradições hellenicas receberam na expressã(3 
universalista das altas individualidades. A Littc- 
ratura latina abandonando os seus elementos sta- 
ticos ou generativos, cahiu em uma imitação ar- 
tificiosa e no mechanismo rhetorico, ficando in- 
ferior ao caracter social e á funcção histórica da 
nacionahdade que a produziu. 

Com este critério apreciaremos o grupo das 
Litteraturas da Bdade média, ou românicas, em 
(jue a Litteratura portugueza é a derradeira re- 
])resentante : explica-nos o gráo de originalidade 
de cada uma. a rasão dos accidentes que as diffe- 
renciaram nas suas épocas diversas, e a fecundi- 
dade correlativa do seu vigor nacional. 

Novas nacionalidades se constituíram na Eda- 
de média depois da ruina da unidade imperial 
romana ; essas Nacionalidades, dando logar ao des- 
envolvimento dos dialectos vulgares em Línguas, 
então, i)ela expressão das suas Tradições oraes fi- 
xadas na escripta, formaram Litteraturas, as 
quaes cooperaram directamente n'esta transição af- 
fectiva do conflicto das raças para a sociedade mo- 
derna. Conforme os escriptores se aproximaram 
da cultura greco-romana, ou se itispiraram das 
tradições da Edade medieval, assim as modernas 



IvLAnoRACJAO ORCA MCA 7 

Litteraturas tiveram um clesenvolvjmento artifi- 
cial ou orgânico, resultando cFaqui as differenças 
dos seus caracteres, embora pertencendo todas á 
mesma corrente da civilisação. D'entre essas Lit- 
teraturas, umas foram elaboradas sobre elemen- 
tos tradicionaes antes do conhecimento dos mo- 
delos greco-romanos ou clássicos, como a proven- 
çal, que se extingue por falta do estimulo de uma 
nacionalidade, *sendo por essa causa substituida 
j)ela franccisa; outras foram dominadas pelo pres- 
tigio das obras primas clássicas, como a italiana, 
((ue se vi\iíica exprimindo a aspiração á vindoura 
unidade nacional. Entre as Litteraturas hispâni- 
cas, duas correspondem ás duas raças, a ibérica e 
a lusitana, que subsistem differenciadas desde as 
épocas remotas até ás mais recentes crises histó- 
ricas, e basta esta correspondência para descobrir 
o seu caracter tradicional e popular por vezes mo- 
dificado pel(j pedantismo erudito. Em quanto as 
Litteraturas castelhana e portuguesa avançam para 
a ])erfeição esthetica, outras, como a aragonesa, 
valenciana e catalã, que floresceram, extinguiram- 
se, porc|ue o apoio da nacionalidade reduziu-se a 
um regionalismo em revolta contra uma incorpo- 
ração politica e administrativa, como se confirma 
\,z\c\ galleziana. As Litteraturas modernas, como 
observou Frederico Schlegel, oscillam n^este dualis- 
mo, entre os elementos orgânicos tradicionaes e 
])opulares, e os modelos clássicos segundo a. in- 
fluencia erudita dominante. 



IIISTOKIA DA I.1TTERATURA PORTUGUEZA 



Factores staticos 

O estudo da raça, reconhecido como revelador 
das condições da vida nacional, é o preliminar 
para a comprehensão da Litteratura; com a sua 
grande auctoridade escreveu Spencer: «a Litte- 
ratura e as Bellas Artes não podem existir senão 
em virtude das actividades, que fazem que a vida 
nacional exista; e é manifesto que a cousa tor- 
nada possivel é consequência d'aquillo que a torna 
possivel.» E' este influxo persistente da raça que 
se reconhece i>enetrando os seus caracteres anthro- 
pologicos. Uma das grandes conclusões scienti ficas 
em (lue assenta a Anthropologia é a presistencia 
das Raças, nos seus typos ainda os mais remotos, 
e a conservação dos seus costumes através dos 
mais continuados cruzamentos, dando a revives- 
cência dos typos mais numerosos e mais fortes. 
Por estes resultados a Anthropologia torna-se um 
preliminar verdadeiramente reconstructivo da his- 
toria primitiva. 

As concepções mentaes, a intensidade emotiva, 
as formas de actividade, e mesmo as instituições 
sociaes e religiosas, differenciam-se pelas capa- 
cidades de cada raça. Como deixar de considerar 
as Litteraturas como reflectindo este cthosF 

1/^ A Raça. — Segundo Prichard, a designa- 
ção de raça comprehende todas os agrupamentos 
de individuos que appresentam mais ou menos ca- 



factukf:s staticos 



cacteres communs transmittidos pela hereditarie- 
dade, deixando de parte e de reserva a origem 
d'esses caracteres.» 

Precisando esses caracteres através das ma- 
nifestações de uma Litteratura e explicando o por- 
quê das suas formas, não é isto um abuso do 
critério das sciencias biológicas applicado a um 
phenomeno psychico e social. As Litteraturas dis- 
tinguem-se entre si pelas tradições elaboradas em 
linguas escriptas e pelo modo de sentir de uma 
nacionalidade ; consequência d'estes factores de 
ordem moral, nem por isso estão independentes do 
determinismo biológico, que em anthropologia são 
as persistências atávicas ou hereditariedade dos ca- 
racteres. 

Em uma mesma nacionalidade, que unifica po- 
liticamente diversos elementos ethnicos, os cara- 
cterísticos especiaes d'esses elementos transpare- 
cem na Litteratura, como tem confirmado a cri- 
tica: na Grécia, sob a unidade atheniense, distin- 
gue-se o génio dos Dorios e o dos Jonios, em 
arte, em politica e em poesia, como o reco- 
nheceu Ottfried Miiller. Sob a unidade romana, 
as tradições lucerenses e ticienses identificam-se 
com a historia, e penetrando de um modo incom- 
pleto na litteratura adstricta á imitação da cul- 
tura hellenica, tomam o seu maior desenvolvi- 
mento nas formas sacramentaes e symbolicas da 
Jurisprudência, essa severa poesia, como lhe cha- 
mara Viço. Na unidade nacional da França, os 
cantos épicos das Gestas correspondem ao norte oc- 
cupado pela raça franka, em que preponderava a 
instituição feudal e monarchica; as novellas da 



10 HISTORIA DA I.ITTKKATLKA TOKT lOT KZA 

Tavola Redonda desenvolvem-se onde a raça bre- 
tã se confinoii conservando os vestígios niythicos 
(lo sen druidismo; ao sul o elemento gaulez, com 
as instituições municipaes, em que se expande so- 
bre um fundo po])ular o Lyrismo trobadoresco, 
(|ue irradia da Pnnença por todo o Occidente eu- 
ro])eu, pela contiguidade das populações aquita- 
nicas com as duas ])eninsulas da Itália e da Hes- 
panlia. Este mesmo critério foi applicado por 
Taine á Litteratura ingleza, em que o elemento 
saxão conserva o génio e as tradições germâni- 
cas, a(j passo que o noriuando submette-se á dis- 
ciplina da imitação, como se manifesta na dupla 
influencia de um Shakespeare e de um Pope. Na 
Litteratura allemã, Heinsius determina-lhe os seus 
periodos pela preponderância successiva dos as- 
pectos da raça: gótico, até ao século vtii, franko 
até ao advento dos Holienstaufen no século xii ; 
suabio, ou dos Minncsinger, rhenano ou saxoiiio, 
da erudição e das Universidades do século x n- a 
x\i : o silcsio e siiisso, em (|ue im])era a infiueiicia 
franceza, e por lim a integração allciità, em 
([ue a plêiada dos grandes génios se inspira nas 
tradições germânicas. Na Litteratura russa, o gé- 
nio slavo, sob a pressão da ideia asiática realisada 
na soberania autocrática, e das imixirtações^ occi- 
dciitacs da administração, ha um antagonismo em 
(|ue o génio nacional se revela na exaltação mys- 
tica, no illuminismo religioso, politico e humani- 
tarista. Mesmo, os velhos monumentos litterarios 
e artisticos têm prestado dados ethnologicos para 
se discriminarem raças que não era ])ossi\el dis- 
tinguir physiologicaniente. 



l-ACTORlvS. ST \1~1C()S 



Sob este critério, ha um outro importante phe- 
nomeno a considerar: o encontro e fusão de duas 
raças determina uma revivescência de tradições 
hierologicas oii poéticas, como se vê na Grécia, 
com os elementos semitas dos cultos orgiasticos 
e anthropopathicos nas Epopêas ; egual crise na 
Europa medieval com as invasões germânicas, que 
determinam a elaboração das Cantilenas em Ges- 
tas ao norte, e com as invasões árabes ao sul, que 
favorecem com intuito social a propagação do ly- 
rismo trobadoresco meridional. E' pois o estudo 
(la raça na historia de qualquer litteratura o meio 
de descobrir a base tradicional sobre que se des- 
envolveu, e d'ella deduzir o que tenha de origina- 
lidade e feição nacional. 

Portugal, desde que se constituiu em naciona- 
lidade no século xii, occupa o território da faixa 
Occidental da peninsula hispânica desde o rio Mi- 
nho até ao Algarve; este território é ainda o que 
foi occupado pelas tribus lusitanas, tendo a menos 
a Galliza e a Andalusia, que formavam, segundo 
Stra])ão, no seu conjuncto a Lusitânia dos an- 
tigos. 

Tratando de Portugal, o problema da raça, é 
do mais alto interesse. Existe de facto uma raça 
portuguczaf 

A esta i^ergunta, respondeu Alexandre Her- 
culano negativamente, considerando a Lusitânia 
um território differente do de Portugal, e o Lu- 
sos umas tribus barbaras, com quem o povo \)0\'- 
tuguez nada tinha de commum, por ser um ele- 
mento adventício, transplantado das x^sturias e do 
reino de Leão; que pretender relacionar os da- 



]J HISTORIA DA LITTEKATUKA fOKTlT.UKZA 



dos de Strabão sobre os Lusitanos com os por- 
tiiguezes, era nma preoccupaçao heráldica dos hu- 
manistas do século XVI. Como poderia o histo- 
riador comprehender o individualismo ethnico de 
Portugal? Peior do que Herculano, veiu o phra- 
sista Oliveira Martins, considerando Portugal 
essa horda de adventicios asturo-leonezes sub- 
mettendo-se á aggregaçao de uma nacionalidade 
pelas ambições e esforços continuados dos politi- 
cos dirigentes. Assim, os dois historiographos, 
desnacionalisando Portugal, como favorecidos pela 
dynastia dos Braganças consideravam ainda um 
l)eneíicio providencial que ella explorasse isto na 
irresponsabilidade. Outra desnaturação do typo 
portuguez é feita pelos eruditos que compilam fa- 
ctos, que identificam Portugal com um paiz de 
Celtas, sem conhecerem nem a chronologia d'esta 
raça, nem os seus caracteres anthropologicos em 
antithese com os dos portuguezes. E, já é favor: 
por que, para os nossos visinhos castelhanos não 
lia differença alguma entre Hespanhoes e Portu- 
guezes, são um povo único! 

A eterna divortia, definida por Silio Itálico, 
na sua Púnica, entre Iberos e Sceltos, é ainda 
hoje implacavelmente mantida nas duas naciona- 
lidades hispânicas. Não é obra da politica, nem 
completamente devida á acção mesologica, mas 
ás di ff crenças anthropologicas de duas raças, a 
ibérica e a lusitana, evolucionando nas situações 
primitivas. A Peninsula da Hespanha está dividida 
pelos Pyreneos em duas vertentes, a oriental, oc- 
cupada pelos Iberos, e a occidental pelos Lusita- 
nos, mantendo através de todos os cataclysmos so- 



FACTORES STATICOS 13 



ciaes e históricos as suas individualidades ethni- 
cas, manifestando-se ao fim de tantos séculos a 
Nacionalidade castelhana e a Nacionalidade por- 
tugueza, sempre inconfundiveis. Ha aqui alguma 
cousa acima das vontades individuaes e das am- 
bições transitórias. 

Pela situação d'estas duas raças deduz-se a sua 
differente proveniência. A Epigraphia e a Lin- 
guistica põem em evidencia o desenvolvimento de 
um povo emigrante, revelado pela toponymia e 
pelas inscripçÕes votivas a deuses ainda hoje ado- 
rados entre tribus de raça mongolóide; os escri- 
ptores antigos chamaram a esse povo cpie occupou 
a vertente oriental da Peninsula /6^ro.y, emprega; 
dos na exploração dos jazigos metalliferos, prin- 
cipalmente o estanho (ah:}'). Segundo Bergmann, 
pertencem a essa raça da alta Ásia, que faz a 
transição entre a raça amarella e a ariana. Per- 
tencem a este grupo ethnico o Berber, o africano 
l^ranco, os Ethiopes ou Lybios, espalhando-se 
pelo Mediterrâneo e occupando as suas ilhas; es- 
tendendo-se á Itália, França e Inglaterra, consti- 
tuindo um fundo ethnico commum, que se revela 
nos monumentos archeologicos, nos vestígios de 
mythos religiosos, superstições e recorrência dos 
costumes. 

Na vertente occidental estabeleceu-se o Luso, 
ramo de uma raça navegadora que fazia o com- 
mercio do âmbar, do mar do Norte, os Ligures. 
Distingue-se esta raça pela sua estatura mediana, 
e cabeça redonda; pela còr trigueira da pelle, ca- 
bellos e olhos castanhos, e leptorhinia. Póde-se 
considerar o encontro de Iberos e Lusos na Hes- 



14 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 

panha como a unificação cVaqiiella grande raça 
sociológica de que falia Ephoro, seguindo a geo- 
graphia hesiodica e phenicio-grega, conforme a qual 
a Europa era occupada: na região do Norte pelos 
Hyperboreos. Cimmerios ou propriamente os Scy- 
thas: na região occidental, pelos IJgnres, também 
denominados Skeltos e Atlantes; e na região do 
Sul, pelos Ethiopes ou Lybios, os Hamitas que 
propagam ao Egypto e Cbaldêa a sua cultura. 
Este quadro, conservado por Epboro, com])rehende 
\'erdadeiramente a grande Civilisação occidental 
ou íh-onzifera, que precedeu as civilisações aria- 
nas, e que se deve designar pelo nome de Turania- 
iia, por que assim a denominou o mundo avestico 
oriental. E este titulo de Turan, de uma grande 
extensão geograpbica, proveiu do seu Zodiaco, le- 
\ado á America, á índia e ao Egypto, em que o 
curso do anno estival começava sob o appareci- 
niento da Constellação do Touro. Como facto- 
res (Testa Civilisação occidental, Iberos e Lusos 
não eram incompativeis ; as circumstancias porém 
foram fortificando o elemento ibérico pelas mi- 
grações do Busk, do norte da Europa, do Lybio- 
Phenicio, vindo da Africa, e mais tarde pela sua 
fusão com os Celtas errantes no vi século antes 
da nossa éra. O Luso foi comprimido na região 
da vertente occidental da Hespanba mas não assi- 
milado; o Ibero nunca perdeu a sua tendência 
absorvente, como o mostra desde a época liistorica 
o unitarismo casfcllianisfa. 

Esta primitiva extensão do território mostra- 
nos como a população lusitana pôde contrabalan- 
çar-se com a população ibérica, cujos caracteres 



FACTORES STATICOS 



são nitidamente differenciados pelos geographos 
gregos c romanos. Eml)ora diminuído o território 
pelas divisões administrativas romanas, e pelas in- 
corporações neo-goticas, o ])equeno Portugal de 
hoje nunca perdeu a população lusitana que o oc- 
cupava, podendo affirmar-se pelos recursos da 
comprovação antbropologica, que não ha solução 
de continuidade do typo luso para o portugucc 
actual. Herculano errou quando af firmou gratui- 
tamente a discontinuidade. As di ff crenças do Ibero 
c do Luso ainda hoje se impõem á observação no 
antag(Miismo politico, intellectual e moral ; não os 
separam fronteiras materiaes, nem tão pouco in- 
stituições religiosas ou sociaes, mas prevalece uma 
immanente antinomia. E' na raça que ella se 
hade encontrar. 

O Luso é um ramo da grande raça dos Ligu- 
res, ou pre-celtica : Hesiodo assim chamava aos 
Povos do Occidente, ix séculos antes da nossa era; 
este mesmo nome de Ligures era dado por Eschylo 
(vi século a. G.) á poderosa gente que occupava 
o Occidente; os povos que occupavam a península 
hispânica e a Gallia meridional eram chamados 
])or Heródoto Ligures, nome que Strabão diz que 
no i\' século (a. C.) designava, segundo Eratosthe- 
nes, os povos do Mediterrâneo. Plutarcho acha 
Iber.os em coexistência com os Ligures na bacia 
do Mediterrâneo. Das migrações Hguricas das 
bordas do Báltico, em frente da Scandinavia, como 
estai )elece Martins Sarmento, chegaram á penín- 
sula hispânica as tribus lusitanas, que occuparam 
a orla marítima occidental, encontrando já estabe- 
lecidas mais ])ara leste as tribus ibéricas. Custou 



■ 



l6 HISTORIA DA LITTERATURA •PORTUGUEZA 

muito a destacar este substratum ligurico confun- 
dido com os povos Célticos, aquelle ainda na civi- 
li sacão bronzifera, estes já possuidores do ferro. 
Belloguet demonstrou esta camada ethnica para a 
França, Celesia e Molon para a Itália, e Martins 
Sarmento para o pequeno estado fragmentário de 
Portugal. Os Gallos, os Ombrios (reteres Galli), 
os Callaici ou Gallaici da Hespanha são anterio- 
res aos Celtas e di ff crentes d'elles em typo an- 
thropologico, e caracteres ethnicos. Foi Strabão 
o que consignou este substratum, com que se re- 
constitue a extensão da Lusitânia dos antigos; 
diz-nos (III, III, 6, 7) que os Lusitanos, os Gal- 
lezianos, os Asturianos e os Cantabros tinham to- 
dos os mesmos usos e costumes, e não acha ana- 
logia alguma com os costumes e usos dos Celtas. 
Quando fixa analogias é com os Ligures, e com 
os Gregos, nome dado a colónias do norte, i A esta 
Lusitânia pertencia pela raça a Tartessida, ou 
Turdetania, Betica ou moderna Andalusia. Como 
era um povo aguerrido e de instincto de indepen- 
dência, os Romanos trataram de desmembrar o 
seu território, dividil-o administrativamente; se- 
gundo Strabão, a Lusitânia abrangia toda a fai- 
xa Occidental da Hespanha desde o Tejo até ao 
mar Cantabrico; mas já no tempo de Plinio, es- 
tava fora a Gallecia, começando a Lusitânia no 
rio Douro e acabando no litoral do Algarve. Por 
este tracto de território, em que veiu a consti- 



I Sarmento, Lcs Lusitaniens, p. 405, do Compte-rendu 
do Coiigrès anthropologique de t88o. 



FACTOKKS STATlCOS I7 



tuir-se um dia o Estado de Portugal, vê-se que 
essa nova nacionalidade appareceu no século xii 
como uma rcvwcsccncia ethnica. Sobre a impor- 
tância das povoações liguricas escreve Lemière : 

uEmfim, era preciso que os indígenas da Ibé- 
ria marítima fossem muito realmente Ligurcs, 
j)ara que um geographo tão instruído como Eras- 
tothenes fallando das três grandes Peninsulas da 
Iuu"opa meridional, a que cliama promontórios, 
entendesse poder designar com o nome de Li- 
giisiica a que formava a Ibéria.» i 

Por esta importância se explica como a inva- 
são dos Celtas na Hespanha actuou diversamente 
sobre os Iberos e sobre os Lusitanos. Martins 
Sarmento, ao par de todos os trabalhos dos an- 
tliropologistas modernos, define o Celta: araça 
puramente septemtrional e radicalmente distincta 
physica e moralmente das populações occidentaes 
e meridionaes da Europa ; uma onda de bárbaros 
(jue entre o vi i i-vii século rebenta d'além do Bál- 
tico sobre o continente, espraiando-se em bandos 
mais ou menos numerosos por di ff crentes dire- 
cções e perdendo-se ])or fim, mesmo como raça 
característica, salvo n'um ou n'outro ponto, no 
s?io dos povos com os quaes acabou por se fun- 
dir.» 2 Desde (|ue os geographos e historiadores 
antigos, como diz Vivien de Saint Martin, desi- 
gnavam com' o nome de Célticas as nações indis- 
tinctamente das regiões ao norte do Ister (Ger- 



r Btude sur les Celtcs et las Gaulois, p. 71. 

2 Celtas na Lusitânia (Revista scientifica, pag. 80). 



iS HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mania) e ao oeste do Rheno comprehendendo tam- 
bém a Hispânia, fácil foi fazer a confusão attri- 
buindo aos Celtas usos, costumes e linguas de 
outros povos ; e lidos esses livros sem exame cri- 
tico, diffundiu-se o enigma céltico, que tanto tem 
perturbado a intelligencia da historia e mesmo a 
philologia. I Em que condições se operou a in- 
vasão dos Celtas louros e corpulentos na Hespa- 
nha? Sarmento escreve: «A turba... que tomou o 
caminho do Rhodano tem-se empobrecido antes 
de entrar na Hespanha com os desfalques exigi- 
dos pelas invasões da bacia do Pó e pela occupa- 
ção do litoral dos Pyreneus, onde deve ter ficado 
uma parte considerável...» 2 £ni presença dos 
Iberos tiveram de afroixar na violência do ata- 
que, e, como observa Sarmento, diante do facto 
histórico : «As hostilidades acabam por uma trans- 
acção amigável ; Celtas e Iberos formam uma na- 
ção mixta os Celtiberos, uma verdadeira federação, 
onde não ha dominadores nem dominados — fa- 
cto que parece es(|uecerem os que nos faliam da 
dominação céltica na Hespanha.» (Ib., p. 133.) 
Em frente dos Lusitanos a invasão céltica foi 
mesquinha, pela inferioridade do seu numero e 
da sua cultura ; os Celtas do Ana admittidos 
pelos Turdetanos, são-lhes intellectualmente in- 
feriores, como observa Strabao; e esses mes- 
mos, que se estabelecem no promontório Ne- 
rio, quatro tribus aSão os únicos que appareccin 
na Lusitânia.)) (Ib.) A obsessão dos Celtas levou 



1 Celtas na Lusitânia (Revista scicntifica, pag. 82). 

2 Ib., pag. 132. 



FACTOKKS STATíCOS I9 



certos eruditos a vêr no onomástico da Lusitânia 
nomes célticos, e tiraram da sua hypothese ar- 
gumento decisivo; contra este argumento oppõe 
Sarmento : «a Ora maritima menciona nas Ilhas 
Britânicas e no Occidente da Hespanha nomes 
taes como Albiones, Hierni, Ana, que como se vê 
não podem pertencer á onomástica céltica, tendo 
aliás uma physionomia céltica muito pronunciada. 
Existe pois uma lingua pre-celtica que pôde ex- 
plicar alguns nomes pseudos-celticos. Porque 
não hade explicar todos os outros que forem da 
mesma natureza?» (Ib., p. 300.) Mas a Celto- 
mania do tempo de Bullet reappareceu com appa- 
ratos philologicos, submettendo a processos pho- 
neticos comparativos com os dialectos preceltiços 
existentes na Escócia, Irlanda e Bretanha fran- 
ceza todas as palavras pretendidas célticas. 

Escreve Roisel, mostrando que as linguas im- 
])ropriamente chamadas Célticas, o irlandez, o 
gadhélico, erse e o manx (ramo gaelico) e o 
welche, o idioma de Cornnwald, o armoricano ou 
baixo bretão, pertenceram a esse povo primitivo 
bronzifero, que desceu do norte da Europa, e que 
hoje se reconhece como Ligiire, aponta um diale- 
cto, o antigo moriniano, f aliado ainda em um re- 
canto do noroeste da França entre o Lys e o mar. 
(Lcs Atlantes, p. 106.) Quando nos poemas ho- 
méricos se falia nos Hyperboreos, citam-se os 
Campos Elysios, no extremo da terra; e Virgilio 
colloca esse extremo no «paiz dos Morinios, e a 
dupla embocadura do Rheno.» Para os escripto- 
res antigos, como Solino, o cabo do mundo era 
a costa maritima das Galhas.» (Op. cit., p. 136). 



-O lilSTOKlA DA IvlTTKKATUKA PORTUGUliZA 



A imasão d(3s Celtas na Europa foi a ruina 
(la C'i\iHsaçã() occidental on bronzifera; esta, raça 
corpulenta e nómada, de olhos azues e cornada 
fCiiali), ]x)ssuin(l() armas de ferro, vinha á de- 
pradação de um mundo rico pelo commercio ma- 
ritimo e fluvial e pelas producçÕes da agricultura. 
Os Celtas iniciaram a lucta ainda hoje persistente 
dos homens corpulentos do Norte contra os ho- 
mens medianos do Sul. No século v da nossa 
era, os Germanos continuaram essa devastação, 
descendo para o sul e destruindo a civilisação ro- 
mana, pelas hordas de Lombardos, Frankos, Sa- 
xões, Godos e Suevos; ainda hoje mantêm o mes- 
mo espirito de occupação militar e de espoliação. 

Alas a ruina da Civilisação bronzifera ou atlân- 
tica durou desde o século viii para vii antes da 
era moderna, até que os Romanos dirigindo a sua 
conquista militar para o Occidente, na Hespanha, 
nas Galhas e nas Bretanhas, influíram pela sua 
organisação administrativa, fundada no reconhe- 
cimento das garantias locaes, que se operasse a 
revivescência d'essa antiga Civilisação ou a renas- 
cimento ligurico. Historiadores modernos, ainda 
desvairados pelo prestigio de Roma, consideram 
este phenomeno extraordinário para quem desc(v 
nhecer os antecedentes, como assimilação da cul- 
tura latina. Não era em dois séculos que povos 
bárbaros, como pintaram os Iberos, Lusitanos, 
Gaulezes e Bretões, podiam assimilar a alta civili- 
sação dando a Roma philosophos, jurisconsultos, 
rhetoricos, poetas lyricos, épicos e trágicos, e até 
im])eradores. Tudo isto é na essência um renas- 
cimento ligurico. 



KACTORHS STATICOS 21 



Nem a invasão já enfraquecida dos Celtas, na 
Hespanha ; nem os Romanos pela sua falta de nu- 
mero entre os mercenários das suas legiões, nem 
os Phenicios pela sua incommunicabilidade semita, 
se mestiçaram com os Lusitanos, conservando-se, 
como observaram Frederico Edwards e Deniker, 
a raça mais pura da Europa. 

O estado de pureza das tribus Lusitanas é que 
as fez resistir a outros invasores, conservando ca- 
racteres próprios cuidadosamente descriptos por 
Strabão; mesmo certas analogias com costumes 
gregos são explicáveis pelo contacto com colónias 
mercantis dos Jonios do sul da França e da Hes- 
panha; os Jonios tinham seguido a exploração do 
Mediterrâneo para oeste, vindo encontrar-se na 
Peninsula hispânica com os Phenicios. A supe- 
rioridade d 'este ramo semita no commercio paci- 
fico, não actuou na população lusitana, embora 
sejam phenicias muitas designações topológicas, 
nem nos dialectos precelticos peninsulares, embora 
a sua influencia fosse continuada por colónias 
lyl)io-phenicias, dominio carthaginez e colonisa- 
ções judaicas. O conflicto das navegações e em- 
pórios dos Jonios e dos Phenicios fez com que 
aquelles chamassem os Romanos para os substi- 
tuirem na lucta, dando em resultado a ruina da 
raça semita no occidente até ao apparecimento e 
invasão dos Árabes. Na sua lucta contra os Ro- 
manos, os Carthaginezes, colónia phenicia do norte 
da Africa, exploraram as povoações Celtibericas 
acordando-lhes o espirito de autonomia para resis- 
tirem contra as legiões romanas. 

Roma ia fixando o seu dominio em Hespanha 



I 



22 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

pela concessão de garantias politicas, estendendo 
o direito itálico ás novas provincias, vindo sob o 
Império a realisar-se a primeira unificação his- 
pânica. Todas as luctas foram sustentadas contra 
Roma pelos Lusitanos, e Viriatho, o guerrilheiro 
que derrotava os Procônsules, fortificava-se pelas 
allianças federativas, que tornariam a Hespanha 
livre. E' esse vulto extraordinário que representa 
esplendidamente a raça; caiu pelo assassinato da 
traição romana, e com elle a independência. A 
cultura romana facilmente assimilada, como se vê 
pela biographia de Sertório, em nada actuou na 
raça lusa; os soldados com que Roma combatia 
e mantinha a occupação eram de ordinário mer- 
cenários germânicos, bem como o seu colonato. 
Dada a quasi semelhança do typo celta e do ger- 
mânico, como observou Strabão, dizendo — que 
podiam passar por irmãos, com costumes idên- 
ticos, pôde distiguir-se a sua influencia na mes- 
tiçagem com as populações celtibericas determi- 
nando uma regressão ao typo céltico, loiro, ao 
passo que na Lusitânia não se modificou o typo tri- 
gueiro e meã estatura. 

Escreve J. J. Ampere, na sua Histoire litterai- 
re de la France avant Charlemagne, (ii, 97) : «O 
uso imprudente de recrutar os exércitos romanos 
entre os bárbaros fez progressos bastante rá- 
pidos. Probo deu o exemplo de uma reserva pru- 
dencial, que deixou mais tarde de ser imitada ; 
elle determinou o numero de l)arbaros que po- 
deria admittir-se n'uma legião; apesar d'isso hou- 
ve legiões inteiras exclusivamente de bárbaros.» 
D'este erro politico resultaram duas consequen- 



FACTORES STATICOS 



cias : a facilidade da queda do Império no sé- 
culo V, diante das invasões germânicas, e a fácil 
assimilação da cultura latina pelos Visigodos em- 
quanto á unidade imperial e emprego da lingua 
dos Códigos e nos tribunaes. A Egreja, adoptan- 
do para a sua liturgia a lingua latina, e espalhan- 
do a traducção da Vulgata, cooperava também no 
desenvolvimento dos dialectos hispânicos com um 
vasto vocabulário latino. D 'aqui a illusão de um 
la fim rústico dando logar á creaçao das Linguas 
vulgares chamadas novo-latinas. Outra illusão é 
a de chamar povos românicos ou raça latina ás 
modernas nacionalidades, que pela restauração da 
tradição imperial nas monarchias germânicas, e 
pelo processo civil romano nos tribunaes durante 
a Edade média, chegaram no Occidente da Eu- 
ropa a dar uma certa unidade á civilisação mo- 
derna. 

A raça germânica, continuando a lucta dos ho- 
mens corpulentos do Norte contra os homens meãos 
do Sul, apparece egualmente na Itália com a inva- 
são dos Ostrogodos e Lombardos ; em França com 
a dos Frankos e Borguinhões; na Inglaterra com 
os Anglos e Saxões ; na Hespanha com Visigodos, 
Suevos, e Alanos. Dava-se esta calamidade no 
século V da nossa era. Esta similaridade de ele- 
mentos ia actuar sobre as instituições sociaes, de- 
terminando os dois typos do Estatuto pessoal e do 
Estatuto territorial, fundados na tribu e no can- 
tão; mas em quanto á mestiçagem da raça pouca 
transformação podia produzir, por isso que essas 
raças do norte rapidamente se extinguiram nos 
paizes quentes em que estacionaram. Pela ex- 



- 1 inSTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 

tensão da Lusitânia a dos antigos, espalharam-se 
as trihus germânicas, os Suevos e depois os Vi- 
sigodos na Galliza; os Vândalos occuparam a 
Betica, e na parte central lusitanica os Alanos, 
tribus que passaram para a Africa do norte, dan- 
do logar á ultima e mais forte invasão dos Vi- 
sigodos, (|ue se tinham fixado na Aqnitania. Se 
a historia da Hespanha começa com o dominio 
dos Romanos, a formação da sociedade moderna 
começa com o império \'isigotico. E' esta pro- 
])riamente a importância do elemento germânico. 
A continuidade das invasões fez com que a ban- 
do guerreira e a banda agricola eguaes como ho- 
mens livres (werh-rnan) se differenciassem, pre- 
valecendo os homens de armas sobre a decadência 
da outra classe, que se foi misturando com as po- 
pulações vencidas, do colonato romano, os lidi, 
leude, lazd ou Lige. Nesta separação estabelece- 
se um antagonismo mais profundo, em que a no- 
breza militar (os duques, condes, marquezes e ba- 
rões) adoptam as leis imperiaes romanas do Có- 
digo tlieodosiano, abandonam o culto de Odin 
l)elo catholicismo de Roma ; a classe dos lites, (os 
aldios, lac::i e vassns,) alliam as suas crenças de 
Hertha com o christianismo tradicional, conservam 
os seus costumes e symbolos juridicos, e numerosas 
tradições poéticas, que se transmittiam oralmente, 
e se confundiam com as das preexistentes raças. 

O orgulho aristocrático cada vez se]:)arava mais 
a classe guerreira ou senhorial ; e a decadência 
das garantias do antigo homem-livre cada vez syn- 
crctisava mais os lites com as populações lusibé- 
ricas, que nunca tinham sido destruidas, nem es- 



FACTORKS STATICOS 2=, 

cravisadas. Era n'esta população numerosa, que 
procurava a estabilidade territorial e a revives- 
cência das suas garantias (a fará) que havia de 
organisar-se a sociedade moderna da Hespanha. 
Uma circumstancia determina esse grande phe- 
nomeno: a invasão dos Árabes em 711. 

Se uma só batalha, a de Guadelete, destruiu 
o império visigótico, é por que elle se achava sem 
apoio, e só sustentado por uma diminuta classe 
privilegiada. E' essa a que constitue os refugia- 
dos das Astúrias, e que fortificando-se na unifica- 
ção catholica, tentam, ao passo que avançam na 
reconquista, restabelecer os velhos privilégios aris- 
tocráticos com leis aprocryphas e romanas forman- 
do o Código visigótico. Mas sob o poder dos 
Árabes, tolerantes em quanto á crença, garantias 
locaes e actividade, as populações sedentárias dei- 
xaram-se ficar, e foram evolucionando em um pro- 
gresso social que as levou a restabelecerem as suas 
primitivas liberdades cantonaes, elevando-se aos 
pactos federativos das Bchetrias, para as quaes 
mais tarde formulariam os pequenos estatutos tcr- 
ritoriacs, ou Cartas pueblas e Foraes. Do século 
VI ] I até ao século xi é que se opera esta transfor- 
mação de classes servas e decahidas de liberdade 
em povos livres que hão estabelecer novas nacio- 
nalidades. Designa-se esta população numerosa e 
com])lexa nos seus elementos pelo nome de Mo- 
sarabc, que significa aquelle que estando em con- 
vivência com o Árabe o imita nas maneiras exte- 
riores da existência ( inost' árabe ) , mas conserva- 
\a-se na religião christã ; e as populações agríco- 
las e fabris, que para obterem uma diminuição 



j6 ÍIISTOKIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



dos impostos adoptavam o culto do Islam, por 
esta protecção eram chamados Miilladies (do árabe 
manias, cliente.) Tal era a vitalidade d'estes ele- 
mentos sociaes, que a nobreza dos Asturo-leo- 
nezes debalde tentou na reconquista do solo his- 
pânico restabelecer as instituições senhoriaes; ao 
passo que a realeza teve de reconhecer nas Cartas 
pnchlas e Poraes as garantias locaes dos Mosara- 
bes e Mulladics. Muííoz y Romero viu admira- 
velmente a organisação d'estes factores sociaes, 
em que as formas civis e politicas appareciam nos 
Concelhos e nos processos como uma revivescên- 
cia do germanismo, mas fortificando a cultura lu- 
so-iberica. ^ 

Quando se constituiu a nacionalidade portu- 
gueza, no século xii, foi essa população dos Mo- 
sarabcs a matéria prima; era ella que estava no 
território da obliterada Lusitânia. Escreve Her- 
culano: «Dos territórios da Hespanha, nenhum 
talvez mudou mais vezes de senhores durante a 
lucta, do que os districtos de Entre Douro e Tejo, 
sobretudo nm proximidades do oceano, e por ven- 
tura em nenhum ficaram mais vestigios da exis- 
tência da sociedade mosarabica, da sua civilisação 
material, das suas paixões, dos seus interesses en- 
contrados, e até dos seus crimes.» - Por um feliz 
lapso de penna, Herculano chega a chamar-lhe 
raça mosarabc. Kra a intuição inconsciente da 



1 Fail sobre esta these que trabalhámos desde 1867 
nos Poraes, e em 1871 nas Èpopcas da Raça mosarabe, 
mas sempre 'incomprehendido. 

2 Hist. de Portugal, 5 v. 



FACTOR RS STATICOS 2J 



persistência do antigo typo lusitano, que tinha 
muitas vezes mudado de dominadores, mas que 
conservava o seu modo de ser, paixões e interesses. 

Depois de dominada a invasão dos Árabes pe- 
los neo-godos, a separação entre o Ihero e o Lusi- 
tano ficou ainda mais accentuada. A occupação 
dos árabes fez-se principalmente com tribus de 
Mouros e Berberes; e operando-se o cruzamento 
com os hispano-godos estabelecia-se uma certa re- 
corrência de caracteres ethnicos do Ibero: na re- 
conquista as colónias maurescas e berberes prefe- 
riram ficar no solo hispânico. Todas as luctas dos 
Emirados árabes, e todas as dissidências que em- 
baraçaram a consolidação do Império árabe na 
Hespanha, foram devidas ás luctas permanentes 
d 'esse elemento berbere e mauresco, cujo typo phy- 
sico e feição moral de impetuosidade e sombrio 
fatalismo transparece no hespanhol moderno. 

O Lusitano, realisando o ideal de povo livre, 
entrou na historia pelo caracter da raça ligurica, 
o génio das expedições maritimas, que o fez ini- 
ciar a E'ra das grandes Descobertas; pela sua te- 
nacidade, resistiu a todos os desvarios dos que o 
governaram atraiçoando-o, desde o castelhanismo, 
dos casamentos reaes até á sua desmembração ter- 
ritorial pela dynastia bragantina; e pela vitalidade 
das suas tradições e sensibilidade affectiva creou 
uma bella Litteratura nacional. 

2.0 A Tradição. — Emquanto as Nacionali- 
dades peninsulares se separam em organismos au- 
tonómicos, pela acção mesologica cooperando com 
a independência politica, os dialectos locaes cor- 



28 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUKZA 



respondem a essa differenciação; não se apagam 
as primitivas unidades ethnicas, que subsistem na 
Tradição, transmittida inconscientemente. Assim 
nos cantos populares, musicas e costumes da re- 
gião Galecio-Asturo-Portugueza e Extremenho- 
Betico-Algarvia nas suas similhanças reflecte-se 
acjuelle âmbito geographico da Lusitânia dos an- 
tigos descripta por Strabão. Póde-se estabelecer 
a continuidade entre essas tradições poéticas e 
consuetudinárias dos povos hispânicos e as popula- 
ções actuaes. Strabão, citando o testemunho de 
Asclepias de Mirleo, que vivera na Andalusia, diz 
que os Turdetanos possuiam Poemas c Leis ry- 
t /únicas com mais de seis mil annos. O P.e Sar- 
miento propondo a leitura de et ou, que significa 
anno, pelo quasi homophono epon, verso, inteira- 
mente plausivel, nota : «sin error, entederemos por 
Turdetanos á los Portuguezes e Andaluces, mas 
meridionales...» i Na Irlanda, o vate, (files) era 
conjunctamente juiz; e como observa Summer 
Maine, eram também em verso as leis de Moel- 
mud. As formas metrificadas dos anexins popu- 
lares, certas fórmulas tautológicas e aliteradas 
praxes juridicas são ainda vestigios (Festa phase 
emocional. 

As formas fundamentaes da Poesia, o Ly- 
risnio, a Bpopea e o Drania ainda api)arecem vi- 
vificadas pelos actos quotidianos do povo; são 
como (|ue uma maneira da sua expressão, uma 
natural relação da vida domestica com a vida pu- 
l)lica. O casamento, acompanhado de cerimonias 



Memoria, v, 41. 



FACT(JKKS STATJCOS 



immensaniente dramáticas, como o rapto, a coem- 
ptio, a cohabitação simulada, restos de outros 
estados sociaes, era o thema de certos cantos ly- 
ricos, que já no tempo da occupação visigótica 
eram tão persistentes no povo, que a Egreja os 
condemnaxa como pagãos no concilio ilerdiense 
do VI século. Santo Isidoro hispalense no livro 
das Btynwlogias aponta os cantos epithalamicos 
cantados pelos escholares em louvor dos noivos, 
que foram regularisados pela legislação neo-go- 
thica. D'estes mesmos cantos de Vodas e Torna- 
J^odas explorados pelos escholares vagabundos fal- 
ia por experiência o Arcipreste de Hita : e em uma 
disposição do Tombo do Aro de Lamego, de 1346, 
que vem citado no Bhicidario de Viterbo, estabe- 
lece-se que no Tatuo, ou festa nupcial, se não podia 
tanger adufc no mez de fevereiro, e que a melhor 
fogaça pertencia ao mordomo. A disposição pro- 
liibitiva referia-se aos ritos dos cultos chthonianos, 
que se praticavam já inconscientemente. As Rc- 
gncifas da Galliza são ainda esses cantos de vodas, 
communs também a Portugal. 

As cerimonias funeraes eram acompanhadas 
de cantos ou endechas dos mortos, a que os ro- 
manos referindo-se á Peninsula hispânica cha- 
maram Nenias, equiparando-as ás suas Landes; 
esses cantos eram acompanhados de dansas lú- 
gubres com um caracter local, e Tito Livio (Li^'. 
XXVII. \y.) chamava-lhe tripudiis hispanoniin. 
Silio Itálico reconhece este caracter primitivo da 
Endecha nacional, chamando-lhe barbara carmina: 
no funeral dos Scipiões a cerimonia constava tam- 
bém dos fúnebres ludi. Diodoro Siculo (v, 34) 



30 HISTORIA DA LlTTER ATURA PORTUGUEZA 

allude aos hymnos guerreiros dos Lusitanos, an- 
tes de entrarem em batalha, análogos ao harritiim 
dos Germanos; e depois da batalha, no funeral 
dos guerreiros cantavam-se as narrativas dos seus 
feitos, como conta Appiano do funeral de Viria- 
tho. Strabão refere que os Cantabros repetiam 
os seus hymnos de guerra, quando estavam pre- 
gados em cruzes pelos vencedores, onde morriam 
vociferando insultos. Esse género de cantos fu- 
ndires era commum a todo occidente da Europa, 
e ainda hoje denotam o substratum ethnico da 
raça ligurica: conhecem-se em Nápoles com o 
nome de Lamenti e Triholi, na Sardenha com o 
nome de Attitidos, na Córsega com o de Voe cr os, 
no Bearn com o de Aurust, na Vascongadas com 
o de Arirrajo, e entre os Tupis da America com 
o de Areytos. A sua revivescência na peninsula 
é attribuida por D. Joaquin Costa (Pões. pop., 
p. 280) á época visigótica; em Portugal foram 
estes cantos fúnebres conhecidos pelo titulo de 
Clamores, e um alvará de D. João i prohibia o 
bradar sobre finados. Na litteratura conservam- 
se documentos d'este género na sua phase tra- 
dicional, taes são as Seguidilhas cantadas por 
dansantes sobre a sepultura do Condestavel 
D. Nuno Alvares Pereira, e o Romance também 
cantado sobre a morte do principe D. Affonso; 
a forma litterariá chamava-se Lamentação , que se 
encontra no Cancioneiro de Resende, commum 
aos poetas cultos hespanhoes e italianos. O con- 
cilio 1 1 r de Toledo sob o nome de Fúnebre Cár- 
men prohibia estes cantos ou orações e ensalmos 
propiciatórios, de que o povo portuguez conserva 



FACTORES STATICOS 31 

um typo já satírico, nas Maravilhas do meu velho. 

As crenças religiosas e suas formas cultuaes 
foram themas essenciaes ou orgânicos de mani- 
festações poéticas, que ainda hoje sobrevivem; 
Strabão cita algumas dansas dos Celtiberos, pelo 
plenilúnio acompanhadas de cantares (liv. ii, 4, 
§ 16.) Este costume passou para as vigilias dos 
Santos, prohibidas pelo Concilio toledano (xvi, 
can. 2;^.), mas conservadas na Bretanha, e em 
Portugal, nas romarias a sanctuarios distantes. 
As Salvas, as Chacotas, as Alvoradas e Serenadas 
são vestígios de uma herança de tradições, que 
explicando o processo de elaboração das Littera- 
turas, nos restabelece pelos dados comparativos 
esse fundo commum, ou suhstratum ethnico da 
Civilisação Occidental. 

As formas lyricas das Serranilhas, Miiinhei- 
ras, e Baylias galecio-portuguezas, as Bailatas, e 
Ballets francezes, derivam «de um typo tradicio- 
nal commum ás diversas populações românicas» 
como observaram Paul Mayer, Costantino Nigra, 
Gastou Paris, Jeanroy ; a determinação d'esse 
typo tem conduzido a hypotheses provisórias, 
como a origem céltica apontada por Nigra, ou a 
origem franka proposta por Gastou Paris e Jean- 
roy. Mas no trama anthropologico da Europa, 
a raça dos Ligures, trigueiros e brachycephalos, 
precedeu em occupação e em civilisação todas essas 
outras, que foram destructivas. xA.lém do impulso 
da raça, os costumes sociaes é que impõem as 
formas artísticas, segundo os sentimentos e con- 
cepções dominantes. Um. povo que teve a com- 
prehensão do Anno solar, e que usou essa divisão 



IISTOKIA DA JUi'ni;liAXUKA IHJKTUGUHZA 



clinMiologica na sua vida social, relacionou os 
actos ci\'is com estes dois periodos f undamentaes : 
(lo começo do anno, ou Solsticio estival, e do fim. 
determinado pelo Solsticio hibernal. Da alegria 
da natureza que se rejuvenesce na vegetação, re- 
sultaram as festas ao ár livre, da Entrada da Pri- 
mavera, a representação das Maias, as dansas em 
roda da arvore reflorida, entre moços e raparigas, 
as cantigas chamadas pelos francezes Maicrollcs, 
e também uma variedade enorme de Cantos lyricos 
simultâneos com a dansa e o canto, que em toda 
a tradição ])()pular europêa conservam o mesmo 
typo mor]:)hologico. E' immensamente interessan- 
te seguir estas formas populares nos seus reflexos 
litterarios nas Canções jogralescas e trobadores- 
cas, que abundam nos Cancioneiros portuguezes 
da Ajuda, Vaticana e Coloci-Brancuti ; e inver- 
samente, reconhecer nos cantos populares oraes 
da Galliza ou Traz-os-Montes, a vitalidade d'essas 
formas medievaes. 

Das festas do Solsticio hibernal, ou a Entrada 
do Inverno, resultaram formas dos cultos orgias- 
ticos primitivos da morte do Joven heroe. caído 
prematuramente e chorado ])ela natureza inteira, 
(jue vem desde os mythos syro-phenicios e hel- 
leno-italicos até ao christianismo. As nacionali- 
dades semitas, ])henicias e carthaginezas. com- 
numicaram-nos cultos orgiasticos de que subsis- 
tem restos importantes nas superstições e praticas 
cultuaes das Deusas-Mães. Com estas explicações 
confundem-se mais ou menos as explorações e es- 
tabelecimentos dos Joiíios, na peninsula. espa- 
Ihando-se para o extremo occidente uma civili- 



FACTORES STATICOS 



sacão hellenica pela acção da confederação medi- 
terrânea cujo centro era Marselha. D'aqui a illu- 
são dos geographos gregos considerarem a civi- 
lisação ligurica, que encontravam, como sendo 
grega. N'esta época estavam em elaboração as 
Rhapsodias da Achilleida, a Pequena I liada, a 
Destruição de Troya, a Dolonia, as Peregrinações 
de Ulysses, a Telemachia, o Regresso de Ulysses, 
que os aedos hellenos levavam por todo o domí- 
nio dos Jonios, Rhapsodias que vieram a consti- 
tuir os Poemas homéricos. E' por isso que Stra- 
1)ão, referindo-se á vulgarisação das tradições 
troyanas e dos Errores de Ulysses, diz: «Não 
só na Itália se conservam passagens d'essas his- 
torias, se não também na Ibéria existem vestígios 
d: taes expedições, assim como da guerra de 
Troya.» (Liv. iii, c. 2, § 13.) Strabão, notando 
o facto, deixava inconscientemente consignada 
lima outra, — que os Turdetanos, que é o mesmo 
que Lusitanos, possuiam poemas com mais de seis 
mil versos, em que continham rythmicamente as 
suas Leis. Não careciam de apoderar-se das tra- 
dições gregas; os modernos estudos das lendas 
odyssaicas, por Cailleux, desde 1878 chegaram á 
conclusão, que as navegações mediterrâneas do 
poema odyssaico não condizem com as referencias 
geographicas, nem com as distancias apontadas 
nem com os aspectos da natureza. Trata doeste 
importante problema na obra : Poesias de Ho- 
mero feitas na Ibéria e descrevendo não o Me- 
diterrâneo mas o Atlântico, sustentando a these: 
«Os dois Poemas de Homero são inteiramente 
extranhos ao Mediterrâneo: a Ilíada relata uma 

3 



34 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



antiga guerra feita na Bretanha pelos povos do 
continente; a Odyssêa é uma descripção do paiz 
e da religião dos antigos Celtas.» N'esta these 
importa reparar na illusão céltica, a que ainda 
obedece Cailleux, porque foram os Ligures o povo 
navegador que iniciou as explorações do Oceano 
Atlântico. Cailleux, em outro livro Paires atlânti- 
cos descriptos por Homero, conclue também, «que 
esses paizes são a Bretanha, a Gallia, a Ih cria, 
e todos os Archii^elagos do Atlântico (Açores, 
Madeira e Cabo Verde) ; a religião que referem 
os seus poemas perpetuou-se nas nossas regiões 
e encontra-se nas nossas crenças.» Todos estes 
paizes indicados são aquelles em que os Ligures 
precederam os Celtas, que nada fundaram, sendo 
assimilados pelos povos preexistentes. E como 
para reforçar a verdade da these de Cailleux, o 
insigne archeologo portuguez Martins Sannento 
publicou em 1887 a obra Os Argonautas, na qual 
recompondo a lenda original primitiva i>elos ves- 
tigios dos poemas orphicos e do de Apollonio 
Rhodio com a epopèa homérica, reconstitue o pé- 
riplo de uma navegação atlântica, cuja tradição 
foi plagiada pelos gregos para uma situação me- 
diterrânea sem a realidade correspondente. Sar- 
mento não conhecia a obra de Cailleux, e chegan- 
do aos mesmos resultados, attribue esse périplo 
primitivo aos Phenicios, que são muito posterio- 
res aos Ligures. Estavam ambos os críticos a 
uma linha da verdade, mas interceptada pela mi- 
ragem céltica e pela phenicia, que não tem me- 
nos complicado a historia antiga. Vê-se que a 
affirmativa de Strabão fundava-se n'uma realida- 



FACTORES ST ÁTICOS 35 



de, que elle invertia; os historiadores da Renas- 
cença obedeceram á miragem hellenica, quando 
attribuiram a fundação dos estados modernos da 
Europa aos Chefes gregos, depois que se dispersa- 
ram do cerco de Troya; assim Ulysses fundava 
Lisboa; a França, como refere Warnefried, e a 
Escossia como afirmava Eduardo iii, -provinham 
dos heroes troyanos, ficções que foram depois pro- 
pagadas pelo celebre falsificador Anio de Viterbo, 
dominicano, e que reproduziu " com ingenuidade 
o chronista Fr. Bernardo de Brito. Nos Cantos 
populares existem os vestigios ou rudimentos épi- 
cos d'essas lendas odyssaicas; segundo Ampere, 
o romance da Bella Infanta ou a volta do Cru- 
zado ten? essa origem do regresso de um heroe 
ao seu lar, e para comprovar a sua antiguidade 
basta indicar a sua extensa vulgarisação, que o 
colloca em um fundo ethnico commum ao occi- 
( lente da Europa; trazem versões castelhanas, 
D. Agustin Duran; catalãs, Milà y Fontanals, e 
Pelay Briz; asturianas, Amador de los Rios e 
Menendez Pidal ; f rancezas, Tarbé, De Puymaigre, 
c Beaurepaire; bretãs, Luzel ; italianas, Ferraro, 
Wister e Wolf, Bernoni e na Grécia moderna 
Marcellus. A_ situação primordial, a vida errante 
nos mares, e a scena tremenda da anthropophagia, 
que se descreve na Náo Catherineta, accentua mais 
o caracter d'esse cyclo odyssaico ; e este romance 
popular portuguez é também commum aos povos 
occidentaes, como se pôde verificar pelas versões 
populares da Catalunha, publicadas por Fonta- 
nals, da Provença por D. Arbaud, da Bretanha 
por De Puymaigre, de Bordéus por Rathery, da 



30 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

França por Smith, e das Astúrias por Menendez 
Pidal. Quando regressa repentinamente o heróe 
• teve a fortuna de se appresentar a tempo para sal- 
var do casamento a que obedecia a sua namorada ; 
tal é o thema da Noiva arraiana, publicada por 
Garrett, que se encontra na versão catalã com o 
titulo La boda interrompida : na asturiana com o de 
La Esposa de D. Garcia, na f ranceza Le retour dii 
Mari, e na Grécia moderna, o Rapto. Perguntam 
os criticos — qual o paiz d'onde diffluiram estas 
tradições? Julgando assim explicar a sua simila- 
ridade assombrosa, uns diziam da Provença ; ou- 
tros (lo norte da França; outros da alta Itália, 
ou da Sicilia. Não é do território, mas da raça 
(fue ahi estacionou c que derivam as tradições, e 
portanto a resposta decisiva só se attinge quando 
bem se define o substratum ethnico commum a 
essas regiões e jx^vos actuaes. Vejamos como na 
Peninsula as duas raças persistiram em contacto 
com os povos históricos. 

As luctas (los ]v<»nianos contra os Carthagi- 
nezes no solo hispânico, e a longa resistência das 
tribus Celtibericas e principalmente dos Lusitanos 
contra a incorporação romana, influiram na per- 
sistência dos Cantos heróicos, que se foram ada- 
ptando como acontece com as homoplasias ás no- 
vas situações e acontecimentos. A vida his- 
tórica na Peninsula hispânica começa com o 
dominio romano conformando o seu municipa- 
lismo com os costumes das cidades livres e in- 
troduzindo uma administração centralista, que em 
nada influia nas tradições, mais avivadas entre o 
povo pelo systema do colonato, das tribus que an- 
tes das invasões germânicas se entregavam aos 
Romanos. 



FACTORES STATICOS Z7 



Depois da invasão, na peninsula, os Visigodos, 
pretendidos continuadores do Império romanisa- 
rani-se, prevalecendo a banda guerreira sobre os 
homens-livrcs, estes decahindo das suas garantias 
(juasi a uma servidão dos lifi ou laszi, e aquelles 
constituindo uma aristocracia militar, imitand(i os 
costumes romanos e traduzindo-lhes os Códigos. 
Esta duplicidade aggrava-se no percurso histó- 
rico, e da sua dissidência resulta a constituição 
da moderna sociedade hispânica. A sociedade 
aristocrática convertida ao Catholicismo romano 
sob Rekaredo, soffreu uma profunda desnatura- 
ção pela decadência da lingua gótica e desprezo 
das suas tradições nacionaes, como observou Jacob 
Grimm. A classe popular, cada vez mais compri- 
mida, só pôde evolucionar socialmente no prin- 
cipio do século VIII, quando a invasão dos Ára- 
bes pela tolerância politica e religiosa lhe permit- 
tiu a sua livre actividade e expressão das suas 
crenças. E' preciso distinguir esta dupla influen- 
cia, a aristocrática ecclesiastica, ou erudita, a qual 
pela circumstancia da resistência contra os Árabes 
se chama Astiiro-Lconcza, e a popular, desde o 
século XI conhecida pelo nome de Mosarahe. 

Os Visigodos mantendo a unidade imperial ro- 
mana acceitaram a unidade religiosa do catholi- 
cismo, que exerceu uma acção absorvente, domi- 
nando nas Cortes, impondo-se politicamente nos 
Concilios, dissolvendo a sociedade politica pela 
jurisprudência canónica, pela immobilisaçao da 
propriedade territorial, praticando o obscurantis- 
mo systematico do povo, alimentando pela intole- 
rância religiosa sanguinários conflictos dynasticos, 



38 HISTORIA DA LITTERATIRA l'ORTlJGUKZA 



animando na reconquista contra os Árabes a de- 
vastação como meio de ataque, e por fim estabele- 
cendo a Inquisição com os Autos da Fé, a subser- 
viência a todas as auctoridades temporaes e a ne- 
gação do espirito scientifico. 

J>lo longo periodo que vae do século viii ao 
século xTi, a sociedade popular visigótica, inte- 
grada por todos os elementos do colonato e das 
raças hispânicas nunca destruidas, foi converten- 
do os seus Costumes em Leis, que vieram a cons- 
tituir as Cartas Pueblas e os Foraes, como luci- 
damente explica Munoz y Romero, que estudou 
esses documentos: symbolos juridicos, cantos ly- 
ricos e épicos, superstições que apparentemen^e nos 
apparecem como germânicas, são-no como coexis- 
tindo com as revivescências provocadas pelas in- 
corporações ethnicas ante as novas formas so- 
ciaes. O canto popular e a lingua, segundo Gre- 
gorovius, conservam esse caracter a que os latinos 
cliamavam índoles; é pelos cantos populares, si- 
multâneos com a creação das linguas vulgares da 
Hespanha, que se determina a índole, que atra- 
véz das transformações politicas e históricas nos 
revela essa unidade Galecio-Asturo-Portugiicza e 
Bxtrenicnho-B:tico-AlgarvÍQ, que constituiram a 
primitiva Lusitânia. E' no periodo de formação 
da sociedade niosarabe que devem começar as in- 
vestigações dos elementos tradicionaes que vieram 
a prestar materiaes para a elaboração litteraria. 

A tradição popular não é ])ropriamente Litte- 
ratura ; mas a idealisação individual que se não 
apoia no sentimento collectivo, íica uma aberração 
mental, incommunicavel, sem sentido, e de mero 



FACTORKS STATíCOS 39 



artificio académico. A intima relação entre a tra- 
dição nacional e a interpretação artistica, é o que 
sem abstracções metaphysicas, constitue o Bello. 
O phenomeno da tradição adquire uma importância 
extraordinária observando as analogias dos cos- 
tumes, crenças, superstições, actos cultuáes, can- 
tos poéticos, recitações heróicas, jogos dramati- 
sados, que subsistem entre os povos que forma- 
ram a grande Civilisação occidental, e que se con- 
tinua nas nacionalidades modernas. As formas ly- 
ricas da Provença, as Gestas frankas de França, 
os themas novellescos da Bretanha, os typos po- 
pulares do theatro medieval derivam de bases tra- 
dicionaes, elaboradas artisticamente desde que os 
novos dialectos se tornaram Linguas litterarias. 
E da maior ou menor approximação do elemento 
tradicional se deduzem as características que des- 
tacam as di ff crentes épocas de qualquer Litte- 
ratura. 

3.0 A Lingua. — As manifestações mais com- 
pletas da linguagem, na sua forma escripta, cons- 
tituem a Liftcrafura, tornando-se assim um órgão 
de desenvolvimento social, um estimulo e apoio da 
independência nacional. Se a lingua não recebe a 
fixação pela escripta, ha a incerteza dos sons, 
e das formas da derivação, nunca se estabelece 
a disciplina grammatical, e a synonimia torna-se 
uma excrecencia embaraçosa, confundindo-se em 
um rude polysynthetismo, consequência do esta- 
cionamento de um povo. Por esta relação da lin- 
guagem oral para a escripta, observa Egger: «A 
Litteratura não se deve separar úr Philologia e da 



40 irrsroRiA da i.ittekat ura portugueza 



Historia, ou melhor, a historia das Hnguas, das 
instituições e dos costumes, forma a verdadeira 
base sobre que assenta o juizo acerca das obras 
do espirito.» i Seguiremos este critério no seu 
duplo aspecto. 

\ lingua portugueza pertence ao grupo das 
linguas chamadas por Schleicher romanisadas, por 
Diez românicas, ou geralmente nov o -latinas ; estu- 
dada na sua filiação e relações com esta grande 
creação da cultura meridional, comprehende-se o 
espirito da Litteratura, reflectindo o conflicto per- 
manente entre a auctoridade do Latim clássico, e 
o génio popular, que representa de um modo vul- 
gar, espontâneo, a tradição e a feição nacional. 
Conforme essa corrente tradicional prevaleceu 
nos povos pccidentaes, assim as Linguas româ- 
nicas se foram desenvolvendo pela construcção 
analytica, e dando ao sentimento nacional a ori- 
ginalidade de expressão, moderna e viva. No 
exame da lingua começa propriamente a com- 
prehensão das transformações da litteratura, como 
por estas se discriminam as phases da decadên- 
cia ou épocas do progresso da linguagem. 

a) Formação das Línguas românicas 

A creação das Linguas românicas, em que se 
encontram elementos dos vocabulários latino, bri- 
tonico, grego, germânico e árabe, levou os criti- 
cos sem a direcção do methodo comparativo a 



i Aí cm. de Littcraturc ancienne, p. xi. 



Factores staticos 41 



consideral-as como um producto da mistura dos 
povos romanisados e germânicos, depois das in- 
vasões; ao que Diez, em 1827 na sua obra Da 
Poesia dos Trovadores, contrapoz a seguinte base 
fundamental : «Protestamos contra a influencia 
creadora attribuida a essa confusão, considerando 
que nos paizes romanisados, como o testificam 
esses novos dialectos, a sua formação operou-se 
confoniie a principios análogos, que nos condu- 
seni a um typo commum...)) (Ih., p. 277). 

Para definir este typo commum devanearam 
os philologos antigos da renascença sobre a fi- 
liação immediata das linguas vulgares do La- 
tim, explicando por este as suas grammaticas; a 
esta hypothese succedeu a de uma origem do 
Celta, fundados em comparações de vocábulos 
dos dialectos chamados neo-celticos ; seguiu-se a 
theoria do Raynouard, derivando-as de um dia- 
leto commum popular chamado o Romance de 
que o Provençal era a forma litteraria. A theoria 
foi combatida por Schlegel ; mas Frederico Diez, 
em 1827, acceitava como o typo commum: «an- 
tigo romance, muito bem caracterisado em si para 
ser producto do cahos, acrescentando que n'elle 
existiam vestigios de uma grammatica fortemen- 
te constituida)). {Ih., p. 278). Esse organismo 
próprio, que Diez observa n'esses caracteres com- 
muns, eram a dissolução das flexões do Latim, 
lingua synthetica, e o desenvolvimento progres- 
sivo da syntaxe analytica. Tocava a essência do 
problema; depois, estudando no seu conjuncto este 
grupo de Linguas pelo exame dos seus processos 
de derivação t morphologia, e pelas construcçÕes 



HISTORIA 1>A IJTTERATURA PORTU&UEZA 



syntacticas, systematisou todos esses iiiíiteriaes na 
Granuiiatica das Línguas românicas, publicada de 
1836 a 1844. Ficou considerado como o funda- 
dor da philolog-ia românica, e domina no ensino 
ofíicial. 

Na successão das investigações a sua doutrina 
tem soffrido graves objecções, deduzidas dos ex- 
clusivos pontos de vista. Escreve Diez: «Seis 
linguas românicas attráem a nossa attenção, quer 
l>ela sua originalidade, quer i)ela sua importância 
litteraria : duas a leste, a italiana e a valacha; duas 
ao sudoeste, a hcspanhola e a portuguesa: duas 
ao nordeste, a provençal e a franc::sa... Todas 
estas linguas tem no Latim a sua primeira e na- 
tural origeun). 

Partindo d'este ponto, affirmava Schleicher: 
«o Latim deu o sêr ás linguas filhas, chamadas 
Linguas ronumicas...)), i e apontava como pro- 
cesso mais scientifico «Deduzir as linguas occi- 
dentaes do Latim clássico, sem intermédio da lín- 
gua chamada itálica, vulgar ou rústica.» (Ib.. p. 
195). Isto se pratica por meio de processos pho- 
neticos explicando como os vocábulos do latim 
clássico se modificaram nas linguas românicas ; 
assim o processo formativo era por Schleicher ex- 
]>licado como «o idioma latino acclimado aos di- 
versos oi^gãos ])honetico-acusticos das diversas na- 
ções para entre as quaes foi transportado». (Ib , 
p. 2TO). 

Depois d'estas af firmaçÕes exclusi^•as, ha ne-' 



I Les Langues de l'Hurope moderne, p. 168. 



FACTORES STATICOS 43 

cessidade de recorrer á lingua romana rústica, 
dos escriptores da Edade media, e Diez escreve: 
((Porém, não é do Latim clássico, empregado pe- 
los aiictores, que essas linguas derivam, mas sim 
da lingua popular dos Romanos, usada ao lado 
do Latim clássico.» E quando via n'esse antigo 
romance vestígios de uma grammatica fortemente 
constituida, d'onde por principi os análogos se ela- 
boravam as linguas novo-latinas, define essa lin- 
gua popular, usada nas classes inferiores com ca- 
racteres (|ue consistiam ((em uma pronuncia des- 
curada, na tendência paru lihertar-se das regras 
grammaticaes...}) E querendo explicar o accordo de 
todos os dialectos românicos no emprego das pa- 
lavras, das formas e sentidos, diz que isso «é a 
mais segura prova da sua unidade originaria; esta 
unidade só a podemos suppôr no idioma popular 
dos Romanos...)) 

Pelo seu lado Schleicher também reconhece, 
que: ((na região phonetica das linguas romani- 
sadas, quando se trata de formar palavras, todas 
ellas seguem effectivaniente um caminho diffe- 
rentc do seguido pelo Latim.» (Ib., p. 208.) E 
attribue a essa lingua rústica ((todas as palavras 
communs ás linguas romanisadas, que nunca per- 
tenceram ao Latim classicD.» (Ib., 211). 

Também o grande glotologo Max Muller es- 
crevia em volta d'esta mesma ideia: ((Nós sabe- 
mos, que o italiano, o francez, o hespanhol e o 
portuguez devem ter uma mesma origem, porque 
elles têm em commum formas grammaticaes que 
nenhum (restes dialectos poderia ter creado com 
os seus próprios recursos, e que n'elles não têm 



44 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 

mais significação, nem em certo modo vida.» i 
E querendo indicar essa fonte commum, avança: 
«Ainda qitc seja possivel de uma maneira geral 
fazer remontar ao Latim estes seis idiomas ro- 
mânicos, já fizemos observar que o Latim clássico 
não nos poderia dar a explicação completa da sua 
origem.» (Ib., p. 242). Para determinar fora do 
latim o phenomeno diz, que os dialectos români- 
cos são o latim de provincia fallado ou passado 
pòr boccas germânicas.» (Ib., 243.) 

Todas estas vacillaçÕes e affirmaçÕes vagas dos 
grandes philologos, resultaram de começarem a 
applicação do methodo comparativo pela Phono- 
logia, analysando as transformações dos sons nos 
vocábulos clássicos, e pela reacção contra a celto- 
mania phantasista. E' por isso que escrevia Sch- 
leicher: «uma lingua flexionai, que abranja to- 
das as viodificaçõcs phon éticas e synctaficas das 
Linguas românicas em geral... só existe na ima- 
ginação dos etymologistas.» (Ib., p. 197.) Par- 
tindo do grande numero de vocábulos latinos nas 
linguas românicas, concluiram que era o Latim a 
fonte das linguas vulgares : e pelas palavras com- 
muns a ellas, que não vem no léxico clássico, que 
um Latim popíilar se substituirá ao urbano, que 
se deturpava na decadência das suas flexões. Eis 
o ]m)blema, que C(^nstitue a illusão românica. 

Considerado o problema sob o aspecto synta- 
xico, reconhece-se que o Latim é uma lingua syn- 
thetica, em que pela importância significativa das 



I Science du Lanyagc, p. -'14. 



FACTORES STATICOS 45 

flexões, a ordem lógica prevalece sobre a ordem 
grammatical, conseguindo pelas relações casuaes 
e verbaes seguir uma construcção indirecta, elli- 
ptica e de uma belleza litteraria; as Línguas vul- 
gares ou românicas, são analyticas, mantendo a 
ordem grammatical antes da ordem lógica, as re- 
lações são expressas por preposições e pronomes, 
ficando o substantivo absolutamente independente 
de todas as relações da phrase, e o adjectivo ver- 
balisa-se facilmente pelos auxiliares. Posto isto, 
este processo analytico fundamental é anterior á 
decadência do Latim, na deturpação das suas fle- 
xões casuaes e verbaes, e mesmo sem dependência 
da lingua synthetica. Diez considerava esta trans- 
formação devida aos ix)vos entre quem se im- 
plantem o Latim; mas, em rigor, nunca uma lín- 
gua synthetica' se transnmda em lingua analytica, 
como se liade verificar: A lingua germânica, le- 
vada pelos bárbaros do norte para a França, Itá- 
lia e Hispânia, não passou de synthetica para 
analytica, e apenas actuou nas linguas preexisten- 
tes pelo vocabulário em relação a elementos so- 
ciaes. Os Árabes invadiram e occuparam a Pe- 
ninsula hispânica, e a sua lingua synthetica não 
deu logar á creação de um dialecto árabe analy- 
tico. O mesmo se deu com o hebreu. 

E para mais comprovar esta impossibilidade 
temos o Grego moderno, que se chama hellenis- 
ta, byzantino e romaico, o qual, provindo do gre- 
go clássico, appresenta uma separação muito vaga 
do antigo, sem attingir o caracter analytico: a 
Declinação grega, ao contrario do que se vê nas 
linguas romanisadas, conservou-se ; a Conjugação, 



46 inSTORTA DA.LITTERATURA PORTUGUEZA 



perdido o dual e o optativo, approxima-se do 
grego antigo, salvo certos tempos auxiliados, e 
conservou o vcrho passivo. Nos processos de de- 
rivação nos neologismos volta-se ás antigas for- 
mas das flexões ; e na linguagem escripta a cons- 
trucção é mais próxima do grego antigo, do que 
a forma culta românica do Latim, i Diante de 
um principio philologico tão capital, como se po- 
derá considerar o Latim como fonte das linguas 
românicas? Por meio de um Latim popular, lin- 
gua romana rústica? Dá-se a mesma antinomia. 
j)orrjue em nenluima das linguas syntheticas da Eu- 
ropa actual, ha uma divergência popular creando 
e usando uma linguagem analytica. 

Xcni mesmo o Latim clássico, escripto, teve 
uma antiguidade tão grande de cultura, que o 
separasse da lingua popular; escreve Witney, na 
Ilda (líi Liiii^iiagciii : «O Latim, nos seus mais 
velhos monumentos, não data mais de três sé- 
culos aiifrs da nossa éra, mostrando-se n'elles sob 
uma forma estranha e pouco intelligivel para 
aquelles que estudaram a lingua cultivada no ul- 
timo século antes de Christo.» (p. 152.) Três 
séculos é pouco para se destacar e prevalecer so- 
bre os dialectos itálicos como synthetica, e pouco 
os dois séculos da Egreja para dar logar a lín- 
guas analyficas ou novo latinas. Esta incon- 
gruência já tinha sido notada: Dominando Ro- 
ma na Grécia conquistada mais tempo do que 
na Hespanha, j-w^rque não implantou ahi o La- 



Schleicher, op. cit., p. 183, 



FACTORKS STATlCOS 47 



tim? Fixando-se numerosas colónias romanas na 
Illyria, não se adopta o Latim entre esses povos 
slavos, ao passo que se dá o contrario, alastran- 
do-se nos Alpes suissos por via de uma occupa- 
ção de Engadina que durou poucos séculos. O 
philologo italiano Gubernatis pergunta : Não ten- 
do os Romanos occupado certos valles alpinos 
distantes, apparece ahi o Latim substituído aos 
dialectos locaes? E tendo os Romanos occupado 
a Bretanha f ranceza e ingleza, amda ahi se conser- 
vam os seus dialectos gaèlico e kimrico. A theo- 
ria de Diez. exaggerada pelos seus discipulos con- 
finados em processos phoneticos sobre o léxico 
tende a ser modificada. ^ 

Eliminada a hypothese de Raynouard, a hy- 
]X)these de Diez caduca por fundar-se exclusiva- 
mente no exame do Vocabulário desconhecendo 
as condições das épocas da historia. Como res- 
ponder então a este problema da origem das lín- 
guas romanisadas? Escreve Edelestand du Mé- 
ril : «Os estudos que só considcrareiu a forma 
das palavras, não chegam a resultado algum; em 
logar (l'j procurarem a origem das línguas exclu- 
sivamente Jio seu vocabidario, é preciso investí- 
gal-a pela historia, e na influencia que exerce cada 



I . Do processo phonetico escreve Brunot : ^^a regulari- 
dade absoluta, que a eschola contemporânea pretende in- 
troduzir nas alterações phoneticas, parece-me chimerica e 
desmentida pelos factos conhecidos e certos. E' provável 
que se abandone brevemente esta concepção mechanica dos 
factos, por uma intelligencia mais exacta e mais histórica 
'la realidade." (Histoire de la Langue et de la Litterature 
française, p. vt, nota.) 



48 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

nação sobre o desenvolvimento e civilisação das 
outras.» Raynouard recorria á lingua geral, o 
Romance (a Lingua Romanitatis, titulo empre- 
gado por Lambertus Ardensis; ap. Du Cange, 
t. V, col. 1488.); mas não provou a sua rea- 
lidade e acção histórica. Du Méril oppÕe-lhe as 
seguintes considerações, que abrangem perfeita- 
mente a, hypothese de Diez : 

«Esta universalidade de um idioma, teria ne- 
cessariamente uma causa, e não se pode ligar a 
um facto que a explique : nenhuma conquista a 
im])oz pela força das armas, nenhuma coloni- 
sação a transportou por t(^da a Europa: ne- 
nhuma preponderância politica ou litteraria a tor- 
nou de um uso geral. Uma tal unifomiidade não 
seria possível senão, — que uma lingua, alterada 
em cada paiz j^ela mistura de diversos idiomas, 
sof fresse por toda a parte as mesmas mudanças ; 
se corrupções produzidas por causas cada dia 
mais (li ff crentes, se elementos cada vez mais con- 
trários formassem com o tempo novos idiomas 
que conservassem sempre a sua unidade primei- 
ra. I Depois d'este enunciado, conclue Edeles- 
tand du Méril : «Enunciar as condições de uma 
tal hy])othese, é tornar supérflua a sua discussão.» 
Com certeza a hypothese de Raynouard não sa- 
tisfaz aos dados d'este problema; mas a verifi- 
cação de um grande facto histórico explica o que 
foi essa Lingua romanitatis: 

Existiu no Occidente da Europa uma família 



I líi^toirc de In Porsir scandniai^c. p. 204. 



FACTORES áTATICOS 49 



de Línguas analyticas, a que correspondeu uma 
Civi li sacão ligurica ou pre-celtica, que actuou no 
desenvolvimento d 'essa grammatica dançlo uni- 
dade aos di ff crentes grupos dialectaes d'esse po- 
vo. A civilisação ligurica apagou-se sob as inva- 
sões barbaras dos Celtas, mas sob a conquista ro- 
mana pôde revivescer assimilando facilmente 'a 
cultura latina, apropriando-se do seu vocabulário. 
Quando por seu turno a cultura latina foi aba- 
fada pelas invasões dos Germanos, a decadência 
do latim não a tornou lingua analytica, mas sob 
este typo linguistico preexistente constituiram-se 
as linguas nacionaes, differenciadas pelos seus 
elementos primitivos, dando-se a illusão ulterior 
de que essa unidade grammatologica lhes pro- 
viera da origem latina. 

Na obra posthuma de Darmesteter, Curso de 
Grammatica histórica, sustenta o insigne philologo 
acerca do Latim popular uma unidade quasi com- 
pleta nas Gallias, na Hespanha e na Africa : «Essa 
unidade consistia na mesma grammatica e na 
mesma syntaxe, sem duvida no mesmo léxico, que 
dominavam do Mar do Norte ao Atlântico, e das 
margens do Rheno ao Atlas.» 

Uma tal unidade não provinha dos diversos 
processos de dissolução do Latim em tão variados 
meios : mas de uma Lingua analytica, que ante- 
cedeu a extensão do latim pela acção histórica dos 
que a fallaram. Ora, n'essa vastissima região ma- 
nifestou-se a cultura dos Hyperboreos, (Scythas) 
Ligures e Lybios (africanos brancos). Quando a 
denominaram Romaficium exprimindo a sua uni- 
dade linguistica, foi como protesto contra as lin- 

4 . 



50 HISTORIA DA LíTTERATURA PORTUGUEZA 

guas barbaras dos germanos ou Gothia; pois, 
como observa Mackel, até ao século vi todos os 
dialectos germânicos tinham uma physionomia 
uniforme. 

Na Sociedade para o estudo das Línguas româ- 
nicas, em sessão de 17 de Abril de 1869, Mr. Bou- 
cherie, combatendo a opinião de ter sido substi- 
tuida a lingua dos Gaulezes pela lingua latina, 
fundamenta : 

«Antes de tudo, quasi que se não comprehen- 
de como um povo intelligentissimo (solertissiina 
gens, César, Bell. galL) um povo compacto de 
sete milhões d^ homens pudesse renunciar tão 
repentina e completamente á sua lingua. Está 
verificado que o gaulez subsistia ainda no sécu- 
lo III (Lampridio, Vida d' Alexandre Severo, 
Ulp.), no século iv (Sulpicio Severo), no co- 
meço do século V (S. Jeronymo.) Se o gaulez 
cede o logar ao latim, isso só podia ser depois do 
século v; ora é precisamente n'esta eix)ca que a 
Gallia passa dos Romanos para os Germanos. 
Como suppôr que a Gallia escolheu este UK^mento 
para renunciar de repente á sua lingua e apro- 
priar-se da lingua dos seus antigos dominadores? 
Como suppòr também que os Gaulezes do Occi- 
dente poderam esquecer a sua lingua em alguns 
annos, quando os seus irmãos do Oriente conser- 
vavam ainda a sua na época em que nós falía- 
mos ( ív a v século, S. Jeronymo,) e isto na Ásia 
Menor, a setecentas léguas da mãe pátria e aix)z 
um intervallo de setecentos annos?» 

Mr. Boucherie faz notar, que onde quer que 
se encontra a lingua latina fora da Itália, mos- 



FACTORES STATICOS 5I 



tra a historia uma emigração gauleza anterior : 
em Portugal, na Hespanha, sobre as bordas do 
Danúbio. — O facto torna-se claro, desde que o 
nome de Gaulez se identifique com o possuidor da 
Civilisaçáo bronzifera, que no seu apostolado es- 
palhou o Zodíaco e a linha extraordinária dos 
Tumuli. 

Os dialectos de norte da Itália, principalmente 
o inílancz, o vcnesiano e o gcnovez, reflectem os 
caracteres da Lingua d'Oc, sendo chamados pe- 
los philologos italianos gallo -itálicos. 

A differença da Lingua torna-se explicável 
pela invasão e incorporação dos Celtas ; essas qua- 
lidades da lingua occitanica, revelaram-se por um 
^renascimento do génio meridional na época tro- 
badoresca. Essa dualidade encontra-se não só no 
Francez e Provençal, mas no Hespanhol e Por- 
tuguez, e nos dialectos da Itália do Norte com 
os do sul. 

As Línguas romanisadas, ou vulgares tem uma 
Phonetica differente do Latim, á qual submette- 
ram os vocábulos latinos com que alargaram o 
seu léxico. No Latim o accento barytonico oppõe- 
se á intonação da ultima syllaba: dá-se o rigor 
do accento por causa da flexão de consoantes, 
ou a quantidade prosodica. Nas linguas români- 
cas ha o desconhecimento da quantidade, e a pre- 
ponderância exclusiva do accento, que pôde ser 
agudo, grave, ou exdrúxulo, sendo esta colloca- 
ção na phrase a causa de uma nova forma de 
poesia e versificação. As linguas românicas ten- 
dem para a contracção dos sons e abbreviação das 
palavras, e por isso as palavras latinas, tanto 



52 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



como as germânicas ou árabes, soffreram a mes- 
ma adaptação ao entrarem nos léxicos vulgares. 

Tv lei geral das linguas românicas a persis- 
tência (la vogal accentuada, através de todas as 
obliterações flexionaes syntheticas, e modificações 
consonantaes ; exemplo : quadragésima, no por- 
tuguez quaresma, no francez carênie; rotundus, 
no francez rond ; canalicula, no portuguez quelha. 

Outra lei de adaptação pbonetica : — a sup- 
pressão da vogal breve, mostra-nos como as syl- 
labas latinas sem accentuaçao desappareciam, con- 
vertendo os pronomes em artigos, fazendo dos 
advérbios um circumloquio com o sufflixo mente, 
e dos superlativos uma redundância. Não era um 
processo de decadência, mas de vigor orgânico. 
Se a siippressão da vogal breve actuou na ruina' 
da flexão latina é por que os povos modernos não 
careciam d'esse meio de expressão synthetica, 
quando empregavam o vocábulo na sua constru- 
cção a n ai y fica. 

Uma terceira lei, egualmente natural e resul- 
tante do caracter das linguas românicas, essen- 
cialmente contrabidas : é a queda da consoante 
medial. N'uma palavra se exemplifica: o adver- 
bio Metipsissimiis, que no italiano dá medesimo, 
no portuguez antigo medes, e meesmo, mesmo, 
e no francez même. Quando estas linguas come- 
çaram a ser escriptas, os eruditos recorreram ao 
vocabulário latino, e esses neologismos, não tendo 
recebido as modificações populares, appresentam 
formas duplas, e derivações de tbemas latinos 
que nunca existiram na linguagem do povo. 

Estas leis pboneticas communs a povos affas- 



FACTORES STATICOS 53 



tados e sem accordo, e em antinomia com a pho- 
netica do Latim, por certo que provieram de uma 
Língua flexionai analytica, de uma extensão ter- 
ritorial mais vasta do que o Latim. Basta vêr o 
dominio geographico em que as linguas romani- 
sadas subsistem, para avançar pelos resultados da 
anthropologia para a solução do problema. Ter- 
minando o exame na morphologia, o caso da fle- 
xão nominal latina que apparece nas linguas ro- 
mânicas, o obliquo, é um duplo sem designar re- 
lação; na conjugação o participio torna-se adje- 
ctivo, e a forma passiva desapparece como in- 
expressiva diante do auxiliar ser. Èm quanto á 
Semeiologia, no Latim as palavras conservam uma 
significação inalterável, d'ahi a importância da 
lingua na Jurisprudência e na Egreja, durante a 
Edade media; nas linguas vulgares a palavra 
toma sentidos figurados, e muitas tornam-se pe- 
jorativas. Diez tinba visto claro, quando disse, 
que as novas linguas não podiam, provir da con- 
fusão, porque revelavam uma fonte que possuia 
nina granunatica fortemente constituída. 

A bypothese céltica foi appresentada antes de 
se conhecer bem a raça dos Celtas, que os ro- 
manos confundiram com os Gaulezes. D'esta con- 
fusão, em que os anthropologistas só tarde fize- 
ram luz, resultou a deplorável illusão céltica^ que 
hoje ^" impõe com os foros de methodo philolo- 
gico comparativo, e que ainda perturba o pro- 
blema das origens nacionaes. A raça brachyce- 
phala, de estatura mediana, trigueira e de olhos 
castanhos, precedeu na Europa, e excedeu em ci- 
vilisação essa outra raça dolichocephala corpulen- 



54 HISTORIA DA LITTP^RATUKA PORTUGUEZA 

ta, loira, e errante. Broca foi um dos primeiros 
que conseguiu fazer esta separação do typo an- 
thropologico. Pela gradação dos Índices cephali- 
cos chegou-se a determinar a marcha de uma po- 
pulação brachycephala, partindo de leste para o 
centro da Gallia, Ilhas britânicas, Itália e Hes- 
panha, sof frendo invasões dos dolichocephalos 
loiros. E' esta raça brachycephala que hoje se 
reconhece pelo nome de Ligurc, pelos trabalhos 
de Belloguet, de Celesia, de Martins Sarmento, 
e geralmente denominada pre-celtica. Aonde es- 
tacionaram essas povoações liguricas ahi se for- 
maram as línguas chamadas românicas, ou i>er- 
sistem as linguas erradamente chamadas neo-cel- 
ticas. Diz Zaboronwski : «Estas linguas (se. cél- 
ticas) parece com ef feito terem sido f aliadas em 
uma região para além da Gallia Bélgica, aonde 
o typo dos Celtas (dos anthropologistas) nunca 
existiu.» ^ A raça brachycephala, como observa 
Hovelacque, existe a leste dos Alpes e mesmo 
na Romania actual ; os Ligures acham-se na Pro- 
vença, ao sul do Carona; as populações cen- 
traes desde o alto Danúbio até á Armorica, pas- 
sando pela Saboya e Auvergne, pertencem tam- 
bém á raça brachycephala, de estatura mediana 
e de olhos castanhos; e na população actual da 
Inglaterra, como observa Deniker, o typo doli- 
chocephalo pertence ás regiões occupadas pelos 
conquistadores germanos e scandinavos, desta- 
cando-se os brachycephalos de estatura pequena e 



1 Dictionaire d'Anthropologie. 



FACTORES STATICOS 55 



olhos castanhos em uma percentagem irnportante. 
E' entre estes povos que não são Celtas (anthro- 
pologicamente dolichocephalos, corpulentos e loi- 
ros) que se conservam as línguas a que se dá o 
nome de neo-celticas, as quaes se dividem em dois 
grupos : o hibernico ou gaéiico, e o bretão ou kyni- 
rico, comprehendendo o primeiro o irlandês, com 
inscripçÕes do século v, o crse^ ou gaelico da Es- 
cossia, e o Manx; o segundo grupo, contem o 
gaullois e cómico e o bretão ou armoricano. Pelo 
estudo systematico feito por Edwards sobre este 
grupo de linguas, chegou-se ao conhecimento que 
ellas eram analyticas; e por isso póde-se inferir, 
que essa vasta população ligurica, entre a qual 
se encontram as Linguas românicas analyticas, 
não abandonou ou esqueceu as suas linguas, ro~ 
inanisoii-as apropriando-se do vocabulário latino 
para a expressão da sua cultura, que fora pertur- 
bada pelas invasões dos Celtas. Hovelacque nota 
nas linguas chamadas neo-celtas phenomenos ca- 
racterísticos das românicas : uma grande tendcn- 
cia para a concentração; no consonantismo muita 
af finidade com as linguas itálicas ; o vocalismo, 
no irlandez (século v a viii) muito análogo ao 
do Latim; a Declinação no irlandez e bretão, as 
desinências casuaes obliteradas e o artigo per- 
dendo a diversidade ; a Conjugação gaêlica e bretã 
com o mesmo systema dos auxiliares. A chamada 
lingiia rústica ou sermo zrnl garis, em que se des- 
envolvem as linguas românicas analyticas, era a 
lingua analytica, de que subsistem ainda, não 
tendo sof frido a romanisação, os dois grupos im- 
propriamente chamados neo-celticos. Roma teve 



HISTORIA DA LlTTRRATURA PORTUGUEZA 



de transigir com a vitalidade d'essas linguas, 
como se vê pela lei de Alexandre Severo de 230, 
permittindo fazer fideicomissos em linguas vul- 
gares. 

Vejamos como foram romanisadas; a politica 
romana acceitava para o serviço das armas mer- 
cenários recrutados em todas as provincias do 
Império, especialmente tribus germânicas, célticas 
e liguricas; nas expedições e guarnições militares 
longinquas tinha de transigir com o emprego de 
uma giria commum, mais fácil pelas suas formas 
analyticas. Depois de reconhecer os perigos do 
mercenarismo, Roma recorreu ao expediente do 
colonato, concedendo terras a varias tribus, coadju- 
vando a sua organisação municipal, e dependên- 
cia administrativa, com regulamentos de direito 
escripto. E' pelas relações juridicas e pelas fór- 
mulas do processo judiciário que o Latim se im- 
põe ás novas populações, ás provincias itálicas, 
gaulezas, bretãs e hispânicas, espalhando o seu 
vocabulário, fácil de adoptar quando as palavras 
provinham de uma origem commum árica. 

As classes elevadas, que as havia, reconheciam 
a superioridade da cultura romana, e admiravam 
o vSeu prestigio militar e administrativo, e por 
moda affectavam abandonar as linguas e mesmo 
os costumes das raças a que pertenciam, para es- 
creverem como os poetas e prosadores de Roma, 
e fallarem como os seus rhetoricos. Pela unidade 
legislativa, expressa em latim, os dialectos hispâ- 
nicos unificavam-se no mesmo vocabulário. Essa 
cultura tornou-se de fácil assimilação; Sertório 
fundou um centro de estudos em Osca, e Roma 



IfACTORKS STATICOS 57 



teve como continuadores da sua Litteratura os 
cordovezes Sextilio Henna, Lucano, Porcio La- 
tro, os dois Senecas, Annio Mela, os gaditanos 
Cornelio Balbo e Columella, Marcial natural de 
Catatayud, e o rhetorico Quintiliano de Calahorra. 
Authenticam esta assimilação os escriptores his- 
pânicos Cláudio Apollinario, Félix, Marco Lici- 
nio, Pomponio Mela, Lúcio de Tuy, Allio Januá- 
rio, Cordio Sinforo, Silio Itálico, Floro, Hygino, 
e os imperadores Trajano e Adriano. 

A propagação do Catholicismo, pela tradu- 
cção da Vulgata, homilias e liturgia ecclesiastica, 
facilitou um largo emprego do Latim; ainda no 
ultimo século do Império empregavam ,o latim 
na litteratura ecclesiastica os bispos Osio de Cór- 
dova; Porciano e Olympio, de Barcelona; Gre- 
gório Betico de Granada; Potamo de Lisboa e o 
papa Sam Dâmaso; Dextro, Juvenco, Idacio, 
Paulo Orosio, Prudencio, Elpidio e outros mui- 
tos. E' natural que tentassem reproduzir a urba- 
nidadc latina, como os Chrysostomos e os Basilios 
tentavam, na sua apologética, restaurar o atticismo 
do grego que decahia em dialecto commum. De- 
pois da queda do Império a tradição romana fica 
representada pela Egreja, que impõe a lingua la- 
tina para os seus diplomas e cânones, separando-se 
do povo, f echando-se em uma hierarchia aristo- 
crática e n'uma isolada erudição claustral. Co- 
meça a separação entre o povo, que elabora as 
suas tradições, e as classes aristocráticas, que se 
romanisam e se submettem.á erudição latino-eccle- 
siastica. Essa separação, que se observa na litte- 
ratura em Santo Isidoro, Paulo Orosio, Idacio, 



m 



5^ HISTORIA DA MTTERATLTRA PORTUGUEZA 

^ ^ . 



Viciara, Santo Ildefonso, Isidoro de Beja, Má- 
ximo, em Draconcio, poeta, Florentino, Eugénio, 
Commancio, e Valério, torna-se mais flagrante na 
condemnação dos Concilios de Toledo contra as 
tradições populares, que se transmittiram oral- 
mente até formarem os poemas do Cid e os Ro-* 
maneei ros. 

A invasão germânica na Hespanha fez-se por 
aquelles povos que mais se tinham apropriado da 
cultura romana, os Visigodos. Ao tentarem sub- 
stituir a unidade imperial, acceitaram as leis e os 
costumes romanos; com relação á lingua latina, 
que os Visigodos adoptaram [x^r causa da sua 
conversão ao Catholicismo, abandonando o Aria- 
nismo, a religião e a politica estavam de accordo 
para a sua manutenção of ficial. Diez attribue a 
decadência da lingua gótica a esse facto da con- 
versão de Rekaredo ao Catholicismo em 587, uni- 
formisando os direitos entre os hispano-romanos 
e os visigodos ; n'esta fusão social entram elemen- 
tos germânicos nos dialectos ^allgares, mas «não 
soffrem nenhuma perturbação essencial no seu 
organismo ; o grupo românico escapou quasi com- 
pletamente á influencia da grammatica allemã.» 
Diez assim o manifesta, observando: «que ha na 
formação das suas palavras algumas derivações e 
composições germânicas — na syntaxe vestigios 
de allemão, porém estas particularidades j^erdem- 
se na totalidade da lingua.» O facto capital, é que 
a lingua gótica, que excedera em desenvolvimento 
o franciko e o lombardo, na grande classe po- 
pular, que se formava, não se transformou de 
lingua synthetica, que era, em lingua analytica; 



l^ACTORKS .-^TAllCOS 59 



e ])ela romanisação crescente dos dialectos vul- 
«•ares em nada perturbou o seu organismo defi- 
nido. Apenas lhes enriqueceu o léxico com os 
recursos de instituições sociaes e de objectos te- 
chnologicos. 

A invasão dos Árabes é outra grande expe- 
riência glottologica ; por que a sua lingua syn- 
thetica também na sua propagação na península 
nunca produziu um dialecto popular analytico. 
Os latinistas ecclesiasticos, Isidoro de Beja, Se- 
bastião de Salamanca, Sampiro, o Silense, Lu- 
cas de Tuy e Álvaro de Córdova descreveram 
com cores pessimistas o dominio dos Árabes como 
uma tremenda calamidade. Os factos históricos 
de tolerância e liberdade contradictam essas nar- 
rativas ; mediante uma capitação, o djizyeh, o his- 
pano-godo tinha garantido a sua propriedade, a 
familia, a crença, e industria. Fácil foi a har- 
monia moral entre a população existente e o in- 
vasor, que se apropriara da civilisação hellenica, 
abrindo novos focos de revivescência do génio 
grego em Damasco e Bagdad. Os hispano-godos 
imitaram o viver dos árabes, conservando as suas 
crenças christãs, e formaram a população dos 
Mosorabes; as classes trabalhadoras, para se apro- 
veitarem da attenuação dos impostos concedida 
aos que abraçassem o islamismo, formaram os 
MiiUadis, ou os clientes. Foi com estes elemen- 
tos que se constituiu o povo moderno da Hes- 
panha. desde o século viii até ao século xii, em 
que se definem os organismos nacionaes , dos Es- 
tados peninsulares. A extensão do dominio da 
lingua árabe no Occidente tem sido investigada 



6o HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUÊZA 

na Itália por Narducci, na França por Mareei 
Devic, em Hespanha por Simonet, em Portugal 
por Fr. João de Sousa, Engelmann e Dozy; vê- 
se que o vocabulário românico enriqueceu-se com 
termos technicos, umas vezes subsistindo o la- 
tim a par do árabe, como sator, sastre e alfaiate; 
outras vindo do árabe, esquecida a forma anterior 
latina, como anfião, de aphium, que vem de opium. 
Muitas palavras árabes são admittidas em sen- 
tido pejorativo, taes como Cachich (o sacerdote 
christão) que se tornou uma interjeição de repu- 
gnância : Cachicha! As palavras Azaynhrado, Ma- 
draço, Leria, Chiça e outras muitas árabes de- 
cahiram na giria popular, pela animadversão ca- 
tholica. Na larga lucta da reconquista christã, as 
povoações sedentárias ficaram indi ff crentes á sor- 
te das batalhas; a penetração da cultura do árabe 
levava ao emprego das letras árabes na escripta, 
ou a aljaniia, fallava-se um dialecto chamado ara- 
via, mas as linguas românicas nada tomaram da 
syntaxe árabe, avançando, por causa da transfor- 
mação social, para o momento de se tornarem as 
linguas escriptas, que deram expressão a novas 
litteraturas. 

O triumpho da reconquista christã pretendeu 
restaurar integralmente as atrazadas instituições 
senhoriaes visigóticas; mas foi im])otente diante 
de grande classe popular, a dos Mosarabcs, que 
tinham creado os Concelhos, as Behetrias e redi- 
giam em vulgar as suas Cartas pnchlas e Porões; 
a aristocracia também punha em vulgar no Fuero 
jtisgo privilégios antigos mas irrealisaveis. E' 
n'este antagonismo que se desenvolve a sociedade 



FACTORES STATICOS 6l 



moderna da Hespanha, em que a realeza exerceu 
uma funcção coordenadora; as línguas românicas 
na península, órgãos de novas nacionalidades, por 
este phenomeno politico, attingiram o mais in- 
tenso desenvolvimento. 

b) Filiação da Língua portugueza 
e suas épocas históricas 

o pensamento da unidade imperial romana é 
realisado entre os Frankos por Carlos Magno, que 
fixa uma época de estabilidade para a Europa, 
inicio da civilisação moderna; coUocado no centro 
do Occidente, na Gallia, elle susteve as invasões 
das tribus barbaras do norte, romanisando a Alle- 
manha e pondo um dique á invasão dos Árabes 
no sul. Na creação de novas formas sociaes or- 
ganisaram-se Nacionalidades, e o Occidente, por 
uma crença commum, chega á acção commum das 
Cruzadas, cria uma mesma Arte, uma mesma Poe- 
sia, e funda a liberdade civil com as mesmas re- 
\'oltas communaes. Todos estes factos tornaram 
escriptas as Linguas românicas empregadas em 
dar expressão a esta grande synthese affectiva. 

A' evolução social e histórica, que simultanea- 
mente com a reconquista neo-gotica ia desmem- 
brando o território e povoações tomadas aos 
Árabes em pequenas nacionalidades independen- 
tes, corresponde a seguinte divisão dialectal : 
o PorHigucz, o Catalão e o Castelhano. São 
trez nacionalidades, as que mais profunda- 
mente se constituíram, achando-se ainda no sé- 
culo XVII Portugal e a Catalunha em lucta con- 



02 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tra a unificação ibérica castelhana. Diez considera 
a língua portugueza com caracteres próprios ; no 
Poema de Alexandre e no Poema do Cid encon- 
tro os typos formativos do castelhano; nos versos 
de Berceo, em que se conhece a influencia dos 
trovadores, destacam-se já as feições peculiares do 
catalão. Os outros dialectos, como o gallego, o 
valenciano, o malhorquino e o andaluz estacionam 
por falta de estimulo nacional. 

Entre o Português e o Castelhano continua-se 
a differença do Lusitano e do libero: escreve 
Schleicher : ((cada um d'estes povos tem uma aver- 
são profunda por certas combinações de vogaes 
e consoantes... Esta diversidade phonetico-acus- 
tica é baseada sobre uma diversidade physiologica. 
(Ib., p. 221.) — Quem, por exemplo, ousará ex- 
plicar porque é que o portuguez não gosta dos 
diphthongos hespanhoes ie e u.:, e em geral dos 
diphthongos tendo o accento sobre a. segunda par- 
te? O portuguez conserva fielmente o // e <' bre- 
ves, taes como os tomou do latim. Desconhece 
o som guttural rigorosamente aspirado dos Hes- 
panh(')es ; substitutue-o por um som sibilante des- 
conhecido a estes.» (Ib., 221.) Ha porém formas 
communs ao Portuguez antigo e ao Castelhano, 
que não são explicáveis pelo latim, como os par- 
ticipios em itdo; e na lingua portugueza a flexão 
de infinitivo conjugavel com relações pessoaes, 
que lhe é peculiar. A differenciação do Portu- 
guez, resultou de ter a Galliza i>erdido as condi- 
ções de vida nacional, e de ter o ])equeno Condado 
Portuculense attingido a autonomia politica no 
século XII. 



FACTORES STATICOS 63 



a) Separação do Português do Gallego. Des- 
de Fernando Magno a Galliza estendia-se até 
ao Mondego: ainda em 1065 pertenciam-lhe as 
conquistas ao norte do Mondego e do Alva; em 
1093 as suas fronteiras estendiam-se até á foz 
do Tejo, depois da tomada de Santarém e de 
Lisboa aos sarracenos. Affonso vi, de Leão, 
querendo fortalecer a administração d'este vasto 
dominio da Galliza, encarregou do seu governo 
a Raymundo, seu genro, que viera com os ca- 
valleiros frankos ajudar o monarcha leonez em 
T083 na batalha de Zalaka. Por estes factos se 
(leprehende, como se generalisou a lingua fal- 
lada em todo este território, dando uma certa 
unidade aos dialectos locaes. Nas invasões ger- 
mânicas do século V, a Galliza fora occupada pe- 
los Suevos, Alanos e Silingos, incorporados estes 
últimos aos primeiros quando Walia os forçou 
a abandonarem a Betica e a Lusitânia; mais tarde 
os Suevos estenderam o seu dominio sobre a 
Betica e a Lusitânia até serem submettidos por 
Leovigildo á unidade visigótica. Um mesmo in- 
fluxo germânico na differenciação de um dialecto 
vulgar; observam Helfrich e Declermont: «Com- 
l)aran(lo a vocalisação do dialecto suabio actual 
á do portuguez, julga-se ter achado a solução do 
problema. Foram os Suevos, que primeiro que 
todas as outras tribus germânicas, se estabeleceram 
na Galliza, e admittindo que a lingua allemã re- 
cebesse na bocca dos Suevos, desde a sua pri- 
meira apparição histórica, uma vocalisação distin- 
cta da do gótico, não custará a attribuir a into- 
nação nasal, particular ao dialecto suabio, e que se 



04 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

encontra de uma maneira surprehendente no por- 
tuguez, á influencia da lingua dos Suevos sobre 
o novo-latino que acabava de se fonnar unica- 
mente na Galliza.» i Uma maior estabilidade, du- 
rante o domínio dos árabes e no meio das suas 
algaradas, fez com que a Galliza se tornasse um 
centro de cultura, e que a sua Hngua podesse ser 
escripta, influindo isso na prioridade do lyrismo 
trobadoresco ao norte e ao oeste da peninsula. 
Território e raça tudo influía para a unidade do 
G alie mano. Na separação do Condado de Portu- 
gal, de que Henrique de Borgonha toma posse 
em 1096^ e de que resultou a formação da Nacio- 
nalidade portugueza, a Galliza, que tanto la- 
ctara pela sua independência reduziu-se á con- 
dição de província, decahindo a lingua no dia- 
lecto gallego, que deixa de ser escripto, depois 
de ter sido empregado artificialmente na littera- 
tura de corte, como nas Cantigas de Santa Maria 
de Affonso Sábio, e na Clironica de Troya, e 
ai)esar dos esforços de renascimento pelos poetas 
Villasandino e Juan Rodriguez dei Padron. 

A lingiia portugueza, como factor nacional 
exoluciona com aspecto menos archaico. Para que 
o território das margens do Minho até ao Tejo 
se desmembrasse do Condado da Galliza e se 
emancipasse da unificação ibérica da monarchia 
asturo-leoneza, não bastavam as ambições de Hen- 
rique de Borgonha, de sua viuva 1). Thereza, ou 



I Aperçu de 1'Histoirc des Langues neolatines en Es- 
tagne, p. 36. 



FACTORES STATICOS 65 



do seu íilho D. Af f onso Henriques ; os Concelhos, 
em que as cidades livres no seu desenvolvimento 
juridico se fortaleciam na associação de Behetria, 
avançavam para a organisaçao nacional, que foi 
verdadeiramente uma revisvescencia do hisismo. 
A vida nacional era suscitada pela acção geogra- 
phica : a proximidade do mar não era simples 
barreira defensiva, mas um estimulo de activida- 
de; pelo mar vinham as armadas que coadjuva- 
ram a reconquista, pelo mar se fizeram as in- 
cursões na costa do Algarve e se entrou depois 
da integração do território no periodo dos gran- 
des Descobrimentos geographicos. A lingua por- 
tugueza seguiu esta differenciação alargando o 
seu vocabulário pelos neologismos latinistas im- 
l)ostos péla cultura litteraria da Corte, da Egre- 
ja, e das Escholas. Deu-se assim uma aproxi- 
mação forçada do latim clássico, levando á illu- 
são de um maior parentesco originário d'essa lin- 
gua, como o acreditavam os eruditos da Renas- 
cença. Na linguagem popular conservaram-se mui- 
tas formas gallegas, que chegaram a manifestar- 
se nos escriptores ; e o gallego por seu turno rece- 
beu a influencia do portuguez. 

b) Modificações por via do francês. — Toman- 
do conta do Condado Portucalense, o cavalleiro 
borgonhez fixou no território os homens de ar- 
mas que o acompanharam, deu frankias ás coló- 
nias que chamou do seu paiz, e para as dioceses 
vieram bispos francezes, como S. Geraldo, 
D. Mauricio, D. Hugo, D. Bernardo. Havia uma 
:ausa permanente para que o francez influi sse na 
nossa lingua nacional; desde o século xii era a 
5 



66 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



lingua franceza a vulgar isadora de todas as tra- 
dições poéticas da Edade media; na Itália ava- 
lia-se o seu prestigio pelas palavras de Brunetto 
Latini : «/a parleurc française est la plus gracieuse 
et delictable de tous les aiitncs languages...)> Dan- 
te no De vnlgari Bloqiiio reconhece esta superio- 
ridade; na Inglaterra, no século xiii as procla- 
mações de reis, o ensino nas escholas e as bailadas 
do povo eram em francez; nos velhos romances 
allemães acham-se versos inteiros em francez, 
como no Tristam de Gottfried. Os portuguezes 
iam estudar a França, como D. João Peculiar, 
Gil Rodrigues; as lendas e Gestas carlingias for- 
mavam a Nova mestria, vulgarisada pelos jo- 
graes. A corrente franceza continuou na ejx>ca 
das luctas dos fidalgos contra D. Sancho 1 1 , re- 
fugiando~se os emigrados na corte de Sam Luiz, 
d'onde acompanharam depois para Portugal 
D. Affonso III, que deix)z o irmão. D. Diniz 
foi educado pelo francez Emeric d'Ebrard, de 
Cahors, e nas canções dos trovadores portugue- 
zes ha além de dois versos francezes, allusÕes aos 
ix>emas mais queridos da Matéria de França e de 
Bretanha. Seguindo as primeiras composições lit- 
terarias em portuguez este prestigio universal dos 
poemas francezes, a lingua recel)eria uma influen- 
cia que se contrabalançava com a latinisação for- 
çada dos eruditos ecclesiasticos. A Civilisação 
Occidental tinha achado o seu novo centro hege- 
mónico, suscitando o desenvolvimento da lingua 
portugueza na expressão da litteratura. 

c) O português eojneça a ser escripto. — De- 
baixc^ da inflexão alatinada d'essa lingua conven- 



FACTORES STATICOS d'] 



I 



cional e barbara dos documentos jurídicos, taes 
como o Livro dos Testamentos de Lorvão, ou o 
Livro preto da Sé de Coimbra, existem as pala- 
vras vulgares que mais tarde apparecem com for- 
ma própria nos textos litterarios. João Pedro Ri- 
1)eiro, nas suas Dissertações chronologicas e cri- 
ticas I transcreve documentos redigidos em por- 
tuguez no reinado de D. Sancho i, em 1192, e 
deduz que no reinado de D. Affonso iii, a co- 
meçar em ,1273 é que apparecem com mais fre- 
(|uencia os documentos em portuguez, tornando- 
se geral o seu uso de 1334 em diante. Estes fa- 
ctos são importantes para se reconhecer que exis- 
tia uma lingua popular que se impoz ao uso offi- 
cial ainda no século xii, e lucta com o exclusi- 
\ismo do latim da Egreja e da cúria. 2 

O uso litterario do portuguez começou pelas 
formas poéticas, sob D. Saflcho i (1154-1211) 
e princii>almente quando os fidalgos que regres- 
saram de França com D. Affonso iii, reprodu- 
ziram como moda da corte o lyrismo trobadores- 
co, que Dom Diniz aproximou da tradição popu- 
lar. A redacção em prosa começou pelos latinis- 
tas ecclesiasticos, traduzindo em portuguez os 
Evangelhos e alguns livros moralistas dos Pa- 
ch-es da Egreja. A Livraria de Alcobaça era ri- 
((uissinia d'essas traducções de livros ascéticos, 
compilados para uso dos clérigos que ignoravam 



1 Op. cit., I, 60, 61, 62-68 e 184. 

2 O testamento de D. Affonso 11, de 1214 ®é o mais 
antigo diploma escripto em lingua portugueza.^^ (Rev. Lusit,, 
vol. VIII, p. 82.) 



68 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

O latim. A erudição claiistral absorvendo para 
si o exclusivismo da instrucção e banindo os can- 
tos vulgares da liturgia, tornou o latim a giria 
das escholas e da poesia dos goliardos. A re- 
nascença do Direito romano, nas Universidades, 
fez com que da parte do Poder real se impozesse 
o latim nos tribunaes, allegaçÕes juridicas e pos- 
tillas doutoraes. Assim se enriquecia o vocabu- 
lário portuguez pelos neologismos, abandonando- 
se as formas populares no meio d'esta exube- 
rância de elementos eruditos. Raros foram os 
escriptores que se libertaram do prestigio da imi- 
tação latina, favorecida pelas auctor idades catbo- 
lica e académica, que afastaram a litteratura por- 
tugueza das condições orgânicas da sua origina- 
lidade. 

Mas a lingua portugueza, que differenciava 
uma raça, era meio de expressão do sentimento 
de uma nacionalidade. A escripta fixa-a, dá-lhe 
a norma de analogia nas suas derivações, e mo- 
dificando-a artisticamente pelo estylo litterario, 
tornada pelo génio dos seus escriptores, um meio 
de cohesão da própria nacionalidade. Terminada 
a época dos Descobrimentos, os Quinhentistas for- 
tificavam a vida da nação proclamando a cultura 
da lingua; são profundamente sentidos estes ver- 
sos do Dr. António Ferreira: 

Floreça, falle, cante, ouça-se, e viva 
A Portuguesa lingua, e já onde fôr. 
Senhora vá de si, soberba e altiva. 

Se 'téqui esteve baixa e sem louvor, 
Culpa é dos que a mal exercitaram, 
Esquecimento nosso e desamor. 



FACTORES STATICOS 69 



E OS que depois de nós vierem, vejam 
Quanto se trabalhou por seu proveito, 
Porque elles para os outros assim sejam. 

(Cart. III.) 

Este pensamento dos Quinhentistas não era 
ignorado pelos escriptores estrangeiros, que nos 
apontavam para exemplo. Na Carta de D. Diego 
de Mendoza, censurando o uso dos termos anti- 
quados na traducção do Orlando, de Urrea, allu- 
de-se a este facto: «Mas vos le débeis hacer por 
imitacion á los Portugueses, que han hecho ley, 
en que deíienden, que ninguno hable vocablo cas- 
tellano ni estranjero, si no solamente puro y ne- 
to.» Camões, servindo o sentimento nacional na 
epoi)êa dos Lusíadas, unificou a lingua popular 
com a erudita, que é a que se falia e que se es- 
creve em todo o paiz. 

Fora da Litteratura a lingua i>ortugueza teve 
um largo desdobramento de dialectos, devido ao 
forte individualismo do povo, e em consequência 
da expansão histórica em um vastissimo dominio 
colonial. No século xvi escrevia João de Barros 
em um dos seus Diálogos: «As armas e os pa- 
drões ])ortuguezes postos em Africa e Ásia, e em 
tantas mil ilhas fora da repartiçam das três par- 
tes da terra, matérias são e póde-as o tempo gas- 
tar ; pêro, não gastará doutrina, costumes, lin- 
guageiu, que os portugueses nestas terras dei- 
xaram.)) A verdade d'esta affirmação do nosso 
vigor nacional é bem evidente ainda ao fim de três 
séculos; temos o dialecto Crioulo nas possessões 



70 HISTORIA DA I^ITTERATURA PORTUGUEZA 

da Africa e Cabo Verde, o Matuto, no Brasil, o 
Reinol ou Indo-portuguez, em Columbo, capital 
de Ceylão, em Malaca. Escreve Radau, referin- 
do-se a Malaca: «O idioma que ahi se falia hoje 
ao lado do inglez é uma espécie de phenomeno 
philologico: é o portuguez despojado das suas ter- 
minações, e por assim dizer reduzido a raizes. Os 
verbos não têm tempos nem modos, nem nú- 
meros e pessoas; os adjectivos perderam o femi- 
nino e o plural. Bu vai, significa eu vou, eii tenho 
ido, cu irei, segundo as circumstancias. Algumas 
palavras do malaio completam es'a lingua, que 
appresenta um curioso exemplo de retrocesso ao 
estado primitivo.» i Os dialectos do portuguez 
são numerosos e tem sido estudados proficiente- 
mente por philologos estrangeiros e nacionaes; são 
um documento do poder de assimilação e de resis- 
tência do povo ix)rtuguez. 

Durante os quarenta annos da unificação ibé- 
rica (1580-1640) a lingua portugueza trocada pela 
castelhana i>ela aristocracia e homens cultos, era 
usada pela gente do povo, como o ultimo vestí- 
gio da nacionalidade, e foi ella também o esti- 
mulo da sua revivescência. 

á) A ]'\^rsificação portugueza: Syllabismo. — 
Quando os ]jovos criam as suas linguas, os 
sons com que as faliam são também os mesmos 
com que pela intensidade as cantam. D'esta ele- 
vação das intonações verbaes, deduziu Rousseau, 



I Un Natur aliste dans 1'Archipel M alais. (Rev. du 
Deux Mondes, t. 83, p. 679.) 



IfACTORES STATICOS "Jl 



que se não pode fixar onde acaba a palavra fal- 
lada e começa o canto. A mesma lingua, quando 
constitue a expressão grammatical, cria simulta- 
neamente a sua versificação; o accento prosodico 
da palavra, coincidindo com o accento melódico 
da phrase, deteimina o rythmo, em que se funda 
a accentuação métrica. Uma lingua tem sempre 
um systema de Versificação que lhe é própria. 
A poética das Litteraturas românicas têm uma 
similaridade, por que deriva do génio das Lin- 
guas vulgares ou romanisadas, unificadas pela 
sua natureza analytica. Como os philologos da 
eschola de Diez quizeram explicar a origem d'es- 
sas linguas meridionaes como uma degradação 
do Latim, laboraram no prolongado equivoco, de 
que a sua Versificação também proviera da mé- 
trica latina! Nunca conseguiram provar como 
uma Versificação baseada sobre a quantidade, 
podia transfonnar-se em uma base incompatível 
com essa forma prosodica, a accentuação. Bas- 
tava este facto para reconhecer-se o vicio do pro- 
blema respondido pela degradação do latim. Hoje 
já ha a tendência para abandonar o esforço de 
fazer confrontos entre a Versificação vulgar com 
a latina. ^ Na métrica da quantidade, a cadencia 
oratória ou declamatória suppria a falta de coin- 

Icidencia do accento prosodico com o accento ry- 
thmico, com o ictus, uma nova belleza ligada á 



I Procurava-se no verso adonico, o pentasyllabo vul- 
gar; no pherecratiano o heptasyllaho ; no glyconio ou jam- 
bo dimetro, o octosyllabo; no dactylo trimetro o decasyl- 
laho; e no asclepiade o alexandrino. 



12 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 

intonação do Radical da palavra e ao logar da 
constriicção syntaxica determinado pelas flexões. 
Em linguas analyticas, em que se perdeu a noção 
do radical, e a construcção syntaxica é directa 
e ix)r meio de preposições, predominou o accento, 
graduando o numero certo das syllabas dentro 
da pausa métrica, ou o verso, e dando ainda mais 
relevo á sua expressão pittoresca pela rima. 

A Versificação vulgar é produzida pelo Syl- 
lahismo: syllabas contadas, que dão a estructura 
do verso. Para que dentro de cada verso, ou no 
seu âmbito caibam as phrases, é preciso que os 
sons vocálicos se absorvam eliminando syllabas, 
ou ampliando-as por meio das chamadas figuras 
de dicção; taes são as cesuras, as ellipses, ecthli- 
pses, syncopes, aphéresis, apocopes, que antes de 
serem admittidas pelos rhetoricos já estavam 
creadas pela phonetica popular. A palavra que 
entra na construcção do verso, também pela va- 
ria disi^osição do seu accento prosodico, se col- 
loca ou usa para alcançar a sua coincidência com 
o accento métrico: tal é a oxytona (aguda, tron- 
chi) a par oxytona (grave, piani) e a proparoxy- 
toiía (esdrúxula, sdruccioli). E' ainda pela in- 
lluencia do Canto, que se estabelece a Estrophe 
ou o numero certo de versos, e as suas rei>eti- 
ções ou Refrem, e os versos metabólicos. 

Do systema das consoantes, por onde se dis- 
tinguem os radicaes nas palavras, apenas se con- 
serva o artificio da aliteração, sem logar defi- 
nido no verso. E' ef feito sonoro, que distingue 
a rima ])erfeita (siniid desincns) da assonancia 
(siniul caciois.) O verso, na sua extensão, com- 



FACTORES STATICOS "J^) 



põe-se de dois trechos, ou hemistychios, ou quebra- 
dos : são arsis e thesis, como o alevantamento e 
abaixamento da respiração. E' ainda o canto que 
influe nos versos de âmbito curto, da sexta syl- 
laba para traz, (redondilha) ou da sexta sylla- 
ba até á decima (endecasyllabo, ou endecha). Por 
meio dos hemistychios ou quebrados se variam 
indefinidamente as formas estrophicas, quasi sem- 
pre designadas pelo numero dos seus versos : 
terceto, quadra^ quintilha, sextilha, outava, de- 
cima. Como é que entrou na mente dos eruditos 
derivar um systema tão pecuHar de Versificação 
de Línguas analyticas, d'essa mal comprehendida 
métrica á2i quantidade da litteratura latina? Vê- 
se que o saber erudito nem sempre é intelligente. 

Com estes recursos, linguas prosaicas, pelas 
suas palavras immoveis (variando as relações por 
pre])osÍQÕes) conseguiram realisar a incomparável 
expressão da Poesia moderna, em tudo superior 
á poesia clássica. A similaridade das leis poéti- 
cas fez com que as Litteraturas modernas exer- 
cessem entre si uma mutua influencia ou acção 
hegemónica, levando muito longe o espirito de 
imitação das suas obras primas, cooperando to- 
das na elaboração i>erfeita dos géneros litterarios, 
e da cultura estylistica. 

Pelas suas transformações morphologicas e 
estylisticas, a lingua portugueza appresenta as se- 
guintes épocas históricas: 

I. (Séculos viu a xii): Periodo oral e 
de elaboração popidar, até- á unificação nacional. 
— N 'estes quatro séculos modificam-se os sons 
luso-ibericos, latinos, germânicos e árabes, estabe- 



74 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



lecendo o caracter da phonetica galleziana. Dos 
vocábulos (Vessas varias proveniências amplia-se 
o léxico vulgar, e este transparece sob a inflexão 
alatinada dos documentos juridicos. Pelo con- 
curso do nacionalismo, o portuguez destaca-se do 
gallego reflectindo o progresso social. 

II. (Seguidos xiii a xv) : Período de di- 
ircrgencia erudita. — Modificações produzidas pela 
acção da cultura latina; separação entre os es- 
criptores e o povo, occupados nas traducçÕes la- 
tino-ecclesiasticas. Muitas derivações fazem-se 
de themas latinos que não entraram na corrente 
da linguagem popular. Conformação da syntaxe 
com a latina, dando-se na legislação a necessidade 
de redigil-a em linguagem mais moderna, como 
se manifestou na reforma dos Foraes. 

rii. (Skculo XVI ): Período de disciplina 
graininatical. — Dá-se n'este século a preponde- 
rância das classes cultas, ou a Egreja e a Corte 
sob o prestigio do humanismo. Fernão de Oli- 
veira e João de Barros, publicam as primeiras 
Grammaticas portuguezas imitadas das gram- 
maticas medievaes. A centralisação da capital 
actua na decadência dos dialectos ])rovinciaes, ou 
fallar de Kntre Douro e Minho, da Beira e Alem- 
tejo. O ensino dos Jesuitas; imprime á gramma- 
tica ]K>rtugueza a disciplina da grammatica la- 
tina nos séculos xvi e xvii, confundindo-a com 
a rhetorica. 

IV. (Séculos xvii a xix.): Unificação da 
língua portuguesa popular e escrípta, em urna 
língua comnium a toda a nação. — Opera-se um 
exame histórico e critico da lingua por Duarte 



FACTORES STATICOS 75 

Nunes de Leão, mas decae este estudo na di- 
vagação rhetorica até ao apparecimento de um 
J^ocabtilario português por Bluteau, que serviu 
de base ao Diccionario de Moraes e Silva e a 
todas as outras compilações. A Arcádia lusitana 
sustenta o purismo da língua com os archaismos 
quinhentistas; prolonga-se o pedantismo gramma- 
tical até ao apparecimento do critério historico- 
comparativo, coincidindo este processo com o res- 
tabelecimento d'as bases tradicionaes na Littera- 
tura, ou o Romantismo. 

4.0 A Nacionalidade. — Depois de quebrada 
a unidade do Império gothico pela invasão dos 
Árabes em Hespanha, e antes de começar o es- 
forço da reconquista dos refugiados das Astú- 
rias, manifestaram-se as resistências locaes e 
ethnicas, revelando os esboços de futuras nacio- 
nalidades peninsulares. As cidades da Lusitânia 
que tinham resistido tenazmente contra as legiões 
romanas, e que haviam conservado as suas ga- 
rantias territoriaes contra a absorpção germânica 
do estatuto pessoal, foram as que apresentaram a 
hicta mais implacável contra a absorpção dos 
Árabes, que aspiravam ao unitarismo do kalifado. 
Tvts focos combateram para a realisação da re- 
conquista christã: a região lusitana ao occidente, 
a região catalã ao oriente, e a região asturo- 
cantabrico-gallega. Estes três focos esboçam as 
nacionalidades que se haviam de constituir com 
a libertação da Hespanha; dá-se esse grande phe- 
nomeno histórico desde o século viii até ao esta- 
belecimento das monarchias do século xii. 



I 



76 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



A resistência lusa é altamente significativa: 
segundo a Chronica do mouro Rasis, ^ a po- 
voação da vertente occidental da peninsula era 
a mais irrequieta sob o jugo de Abderaman i, o 
qual com o seu furor submetteu a gente de Beja, 
Évora, Santarém e Lisboa e todo o Algarve. Esta 
expedição feroz, feita no anno de 763 a 764, foi 
motivada pelo auxilio que estas povoações indi- 
genas propriamente lusitanas deram ao caudilho 
Alafá-ben-Magarit, o qual, como escreve Simo- 
net, na sua importante Historia de los Mosara- 
bes (p. 250) «quasi poz em perigo o novo im- 
pério árabe.» Continuava esta população occi- 
dental o mesmo impeto de resistência com que 
combateu Roma auxiliando Sertório. Foram vio- 
lentas as revoluções de Merida, e graças a esta 
vitalidade da raça lusa, o dominio dos' Ára- 
bes não passou a cima da Villa da Feira, 
fazendo apenas rápidas incursões á Galliza. 
O Território portucalense, assim libertado pelos 
lusitanos do sul, manteve as condições para 
revindicar a sua autonomia da absorpção unita- 
rista asturo-leoneza, e constituir no século xii a 
nação portugueza. Por isto se reconhece o ca- 
racter resistente e persistente da raça lusitana, 
(]ue sem o auxilio dos reis leonezes luctava pela 
sua independência, por forma que os árabes a 
reconheciam como (/ gente mais irrequieta da parte 
occidental da Hespanha. Nas divisões ecclesias- 
ticas da Lusitânia, em 780, que se encontram no 



I Gayangos, Xíem. de la real Academia, vol. viu, p. 
93. 



FACTORES STATICOS 7/ 



códice Ovetense do Escurial, enumeram-se as se- 
guintes sés : Emérita, Pace, Olissipona, Ossonoba, 
Egitana, Conimbria, Beseo, Lamego^ Calábria, 
Salamantica, Abelo, Ebbora, Caurio; e na região 
da Galliza, Bracara, Dumio e Portocale. Dois 
arcebispados dividem o novo território; o de Mé- 
rida, (Lusitânia) e o de Braga (Galicia) no qual 
entra Portocale. Não foi o território portuguez 
repovoado por colónias de asturo-leonezes, como 
pretendia Herculano; numerosas cidades se liga- 
\'am em Behetrias, desenvolvendo-se a sua po- 
pulação agrícola e fabril ; nem a autonomia de 
Portugal foi obra exclusiva do Conde D. Hen- 
rique e de seu filho D. Affonso Henriques, por- 
ei ue obedeceram ao impulso da autonomia come- 
çado por Sisnando. Nas' cartas geographicas pu- 
blicadas pelo Visconde de Santarém, encontra-se 
sempre representada a Lusitânia, com este nome 
desde o século vii até ao século xii. E' uma 
realidade, e não uma designação rhetorica dos 
eruditos da Renascença, como affirmava Her- 
culano. 

A par da lucta contra os sarracenos da banda 
de oeste, surgem os esforços da Restauração pi- 
renaica a leste, na republica montanheza da Ca- 
talunha, que precedeu na historia a resistência 
gótica das Astúrias. O primeiro chronista chris- 
tão Isidoro Menor, o Pacefise (Bejense) e os 
chronistas árabes, assignalam grandes combates 
nas montanhas do norte e diante dos Pireneos, 
onde os generaes árabes se achavam pessoal- 
mente á frente dos seus exércitos. E apesar de 
todo esse esforço dos sarracenos, os Estados Pi- 



/b HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 

renaicos (formados de antigas tribus ibéricas e 
dos povos que se lhes foram aggregando) recon- 
quistaram aos Árabes parte da Vasconia, Aragão, 
Navarra, Catalunha, Valência, Murcia e as Ba- 
leares. Fundaram uma monarchia ou unificação 
politica de uma forma moderadamente absoluta e 
sem luctas dynasticas. Sem esta reconquista, que 
fez sustar as incursões dos Árabes, a reconquista 
empenhada pelos refugiados Asturo-Cantabricos 
não poderia ter-se realisado com êxito. 

A Restauração Asturo-Cantabrica começou 
mais tarde, depois da lusitana e da catalã. Ter- 
minada a Chronica do Pacense em 754, ainda 
elle não falia do levantamento da gente das As- 
túrias e Cantábria; nem tampouco os Chronis- 
tas árabes (citados por António José Conde) 
faliam dos Asturo-Cantabricos, até ao anno de 
765, quando referem os combates com os Estados 
Pi renaicos. Os chronistas christãos do século ix 
chamam revoltosos aos Vascos. Formaram-se, 
portanto, os reinos de Astúrias, Cantábria e Gal- 
liza, por que os árabes invasores foram distra- 
hidos e até envolvidos em grandes combates pela 
gente mais irrequieta da região occidental lusi- 
tana, e da republica montanheza da Catalunha. A 
restauração Neo-gotica, alliando a ferrenha unida- 
de catholica ao renascimento do velho imperialismo 
germânico, foi sempre um elemento perturbador 
da organisação normal dos Estados peninsulares. 
O estado dos Asturo-cantabricos impoz-se, a pre- 
texto da unidade catholica, pelo mais audaz abso- 
lutismo, dando sempre a espectáculo odioso de 



Factores staticos 79 



crimes e usurpações dynasticas, accumulando as 
varias coroas com o intuito de restabelecer a uni- 
dade do extincto império gótico, pela união das 
Astúrias e Leão a Castella, que absorve também 
Aragão no fim do século xv. E' d'este momento 
em diante, que o germanismo da Casa da Áus- 
tria, realisa a unidade ibérica por violências e 
casamentos régios pela preponderância exclusiva 
(lo Castelhanismo. Os Reis de Castella possuiam 
todo o norte da Hespanha : Leão, Galliza, Pro- 
víncias Bascas, duas Castellas, Murcia, Extre- 
madura, e grande parte da Andaluzia; e ao sul, 
desde a embocadura do Guadiana até Tarifa. 
Faltava-lhes só incorporar Granada, o que se con- 
seguiu em 1482, e unificar Portugal, o que se 
realisou em 1580 por casamentos régios e trai- 
ções do unitarismo catholico. 

A historia da formação da Nacionalidade por- 
tugueza, e das suas revoluções para manter a sua 
autonomia em 1380, 1640 e 1820, synthetisa-se 
na resistência da raça lusitana contra a absorpção 
ibérica, sustentada pelo Castelhanismo. A nacio- 
nalidade portugueza constitue-se nos princípios do 
século XII, como consequência da agitação sepa- 
ratista das quatro Monarchias, Leão, Castella, 
Navarra e Aragão. Em 1109 é organisado o 
Condado Portucalense; em 11 28 torna-se estado 
independente, sendo reconhecido como a quinta 
Monarchia em 1143. 

A comparação chronologica é eloquente como 
revelação d'este phenomeno sociológico. Em 11 34 
dá-se a reconstituição da autonomia da Navarra; 
em II 26 o Aragão readquire a sua independência 



8o HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

de Castella; em 1170 Castella readquire outra 
vez a sua autonomia; em 1197 estabelece-se a 
independência de Leão. Emquanto estes Estados 
livres eram violentamente annexados uns aos 
outros por conquista, usurpação e por casamen- 
tos, e desmembrados por testamentos dos seus 
monarchas e revoltas cantonaes, o Condado Por- 
tucalense aproveitou-se d'esta corrente separatis- 
ta, tornando-se independente do reino de Leão. 
Em 1 1 28 dá-se a revolta contra a regência de 
D. Thereza, viuva do Conde D. Henrique, e na 
batalha de Guimarães annullacja a dependência da 
monarchia leoneza, o joven D. Affonso Henri- 
ques torna-se o instrumento da revivescência do 
lusismo no território portucalense. 

Emquanto os outros Estados se annexam e se 
unificam nos dois centros de Aragão e de Cas- 
tella, que por seu turno se integram no Castclha- 
nismo em 1469 e 1504, Portugal conserva sem- 
pre a sua autonomia nacional através de todos os 
cataclysmos históricos da Hespanha. A rasão 
(Keste facto constitue toda a trama da historia 
social, ix)litica e mesmo mental d'este pequeno 
]x>vo, que conseguiu assignalar-se na marcha da 
civilisação humana. 

A creação de uma nacionalidade é um ])he- 
nomeno de ordem statica, indej)endente da in- 
tervenção da vontade individual; é uma integra- 
ção das Pátrias locaes, quando uma aspiração 
ou um pensamento commum as une. E' pela syn- 
these dos interesses, ou o Direito, pela synthese 
dos sentimentos, ou a Arte e a Moral, que este 
órgão collectivo se eleva até á consciência, que 



l^ACTORIÍS STATICOS 8l 

em cada individuo não ia além do ideal de Pá- 
tria. A Litteratiira dá expressão a esta tendên- 
cia para a unificação politica, embora não reali- 
sada como aconteceu na Grécia ou procurada des- 
de um longo passado como aconteceu com a Itá- 
lia. A relação da Litteratura com a Nacionali- 
dade é immediata; as diversas instituições so- 
ciaes, como a Religião, o Direito, a Politica, a 
Industria fortemente dominadas pela paixão ex- 
clusiva das crenças ou dos interesses egoistas não 
representam completamente o génio nacional; so- 
mente as creaçÕes estheticas, tomando por base 
as tradições da collectividade e recebendo o sen- 
tido novo a que se elevaram as capacidades su- 
periores, estão sempre em uma intima relação 
com o vigor da nacionalidade que as fecunda. 

A Nacionalidade portugueza, constituida no 
século XII, pela autonomia do Condado Portuca- 
lense, sob D. Affonso Henriques, no seu terri- 
tório era uma parte minima da antiga Lusitânia, 
que abrangia da Galliza até ao Algarve; com a 
conquista sobre os Sarracenos, até Coimbra, San- 
tarém e Lisboa, foi-se reunindo grande parte do 
])rimitivo território, e por assim dizer, tornando 
o facto da Nacionalidade uma verdadeira revives- 
cência do Lusismo. E' a Anthropologia, nos seus 
processos de differenciação dos Índices cephali- 
cos, e a Etimologia, estabelecendo as sobreviven- 
cias dos costumes, que hoje explicam a persis- 
tência dos caracteres do Luso no mesmo territó- 
rio hoje occupado por Portugal. Esse facto mys- 
terioso para o historiador Scheffer, da formação 
de uma Nacionalidade sem ruido, e da sua resis- 

6 



82 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

tencia através de grandes conflictos históricos, 
não é obra dos politicos, mas de uma tradição, 
de uma aspiração instinctiva abafada desde o do- 
minio dos romanos. Desde o século xii o Ln- 
sismo, ou o génio da independência dos peque- 
nos estados achou-se em frente do Iberismo uni- 
tarista pelo pensamento imperial romano, germâ- 
nico e i)elo catholicismo; a historia de Portugal 
concentra-se toda na resistência contra esta absor- 
pção ibérica. Pela conquista do Algarve sob 
D. Affonso III, Portugal estende-se sobre esse 
extremo da Lusitânia, mas a Monarchia, moldada 
sobre o typo da Realeza da França, trabalhava 
para a concentração pessoal do poder soberano 
absoluto. Acabava em D. Affonso mo estabe- 
lecimento de Foraes, mas generalisava-se o Di- 
reito romano imperial; o génio nacional, compri- 
mido pela auctoridade real e ecclesiastica, parecia 
amortecido, ou desconhecido, como um simples 
aggregado provincial. Foi a revolução de Lisboa 
o primeiro symptoma de vida consciente; em 1380 
a soberania popular, avocando o poder supremo, 
delega-o no Mestre de Avis, elegendo-o em 1381 
nas cortes de Coimbra. E' o começo da existên- 
cia histórica de Portugal ; porque essa pequena 
nacionalidade triumpha em Aljubarrota como di- 
gna da sua independência, e reconhecendo, que 
pela sua situação entre o continente e o mar, for- 
tifica a sua autonomia, iniciava a Era dos gran- 
des Descobrimentos maritimos. Era o génio li- 
gurico, das primitivas explorações atlânticas, que 
levava o portuguez á navegação do Mar Tene- 
broso, á determinação do caminho maritimo da 



FACTORES STATICOS 83 

índia, e á volta do mundo. O génio lusitano rea- 
lisava esta missão histórica, em quanto a tendên- 
cia ibérica era servida pelos seus monarchas, que 
por meio de casamentos dynasticos pretendiam 
reunir em uma só cabeça a coroa das Hespanhas. 
O espirito popular, que se manifestara na revo- 
lução de Lisboa, estava animado de uma profunda 
poesia, idealisando o Condestavel como o Cid 
portuguez, e elaborando o seu vasto Romanceiro, 
como se vê pela riqueza das tradições dos Archi- 
pelagos da Madeira e dos Açores, alli confinadas 
desde o, século xv, e trazidas ás collecçÕes im- 
])ressas ao fim de quatrocentos annos de trans- 
missão oral. Embora os poetas palacianos se afas- 
tassem das fontes tradicionaes, e da communi- 
cação com o povo, n'esse século apparecem os 
trez grandes historiadores Fernão Lopes, Eannes 
de Azurara e Ruy de Pina. O impulso das Nave- 
gações dá ao génio lusitano o máximo do seu 
relevo; depois que Vasco da Gama em 1498 rea- 
lisa a viagem da índia, e Pedro Alvares Cabral 
em 1500 descobre o Brazil, opéra-se uma trans- 
formação na sociedade portugueza com a pre- 
]X)nderancia de uma classe média que pelo tra- 
balho cria a riqueza publica; com essa burguezia 
apparece a creação do theatro popular por Gil 
Vicente, como fazendo da scena o meio de dar 
expressão á opinião publica ; cria-se uma Arte 
líortugueza, na Pintura, como se vê pela obra de 
(jrão Vasco, e na Architectura como se patentêa 
nos Jeronymos por João de Castilho, na Ourivesa- 
ria, como o documenta a Custodia de Belém por 
Gil Vicente, primo co-irmão do poeta. A lingua 



84 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



portiigueza recebe a sua disciplina definitiva nas 
Gramniaticas de Fernão de Oliveira e de João 
de Barros, e torna-se clássica nas Décadas de 
Barros e na epopêa de Camões ; a própria Juris- 
prudência, sempre romanista, procura regressar 
aos costumes do reino. A vida portugueza era uma 
arrojada aventura, como se observa nos extraor- 
dinários viajantes Fernão Mendes Pinto e Fran- 
cisco Alvares, excedendo nas suas narrativas as 
maravilhas de Marco Polo e Mandeville. E 
n'essa época do humanismo, Portugal deu á Eu- 
ropa os primeiros pedagogistas, taes como Diogo 
de Gouvêa e André de Gouvêa, principaes dos 
Collegios de Santa Barbara e de Bordéus, e mes- 
tres de Rabelais, de Montaigne, de Ignacio de 
Loyola e Calvino. Entre os humanistas da Re- 
nascença figuram dignamente Ayres Barbosa, An- 
dré de Resende, Achilles Estaco, Diogo de Teive, 
Damião de Coes, e tantos outros que floresceram 
pelas Universidades estrangeiras. 

O génio de Camões, sob o influxo da Re- 
nascença, soube alliar o enthusiasmo pelas obras 
primas da civilisação greco-romana com o sen- 
timento nacional, formando a sua Eix)pêa não 
sobre um heroe individual mas no Peito lusitano 
pela intuição genial de todos os elementos tra- 
dicionaes e lendários da historia portugueza, 
exactamente como Virgilio na Bficida revives- 
cera as tradições do Latium por meio das formas 
da ix)esia hellenica. Os escriptores conheceram 
esse sentimento tão caracteristico do portuguez, a 
saudade, cjue desde Dom Duarte, que o analy- 
sara psychologicamente no Leal Conselheiro até á 



líACTORES STATICOS 85 



invocação de Garrett em 1824, inspirou todos os 
nossos poetas desde a emoção pessoal até á visão 
da Pátria, que suscitou os feitos de tantos heroes. 
O pensamento de uma Epopêa nacional, na época 
da descoberta do Oriente, foi proclamado por mui- 
tos escriptores, como Castanheda, João de Barros, 
pelos poetas António Ferreira, Caminha, Jorge 
de Monte-Mór e Pêro da Costa Perestrello; mas 
só Camões, dominando o perstigio da erudição 
humanista, e tendo, como elle diz, repartido pelo 
mundo a sua vida em pedaços, percorrendo todo 
o dominio portuguez na Africa, na índia, nas 
costas da Arábia, e em Malaca até Macáo, ex- 
I)osto aos combates e naufrágios, só elle achou a 
expressão ideal do — Pregão do ninho seu pa- 
terno, e no verso immortal : Bsta é a ditosa pátria 
minha amada. 

Repentinamente, como o escreveu Camões em 
1572, Portugal caiu em uma austera, apagada e 
vil tristeza, e o ix)eta não sobreviveu á incorpo- 
ração da sua pátria autónoma na unidade ibérica 
do Castelhanismo, em 1580. Como se deu tão 
estupendo phenomeno? Dispersa a energia nacio- 
nal nas grandes Navegações e conquistas, e en- 
fraquecida a vida local pelo centralismo da Corte, 
os reis como Carlos v e D. Manoel por casa- 
mentos dynasticos trabalharam egoistamente para 
a unificação ibérica; e n'este mesmo sentido, 
1). João III, servindo a unidade catholica, deu 
entrada em Portugal á Inquisição em 1536, e á 
Companhia de Jesus em 1542, que começando por 
extinguir a liberdade de consciência, e atrophian- 
do as intelligencias, apagaram o sentimento da 



86 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGU^ZA 



pátria, obliteraram diante das grandes catastro- 
phes, como a de Alcacer-Kibir, a rasão de sêr da 
nacionalidade. Isto explica como Portugal rece- 
beu Philippe II com arcos triumphaes e a egreja 
portugueza o consagrou com tédeums, tal como o 
repetiu na invasão napoleonica em 1807. Em 
trinta annos de educação jesuitica (1550-1580) 
operou-se na mocidade portugueza uma dcsiia- 
cionalisação tão profundia, que os homens m:iis 
honrados, como D. João de Mascarenhas, entrega- 
vam-se sinceramente a Philippe 11. 

Restaurou-se a Nacionalidade portugueza, 
quando a França pôde dividir o poder da Casa 
de Áustria. O sentimento nacional apenas se re- 
velava pelo prophetismo, na esj>erança de um Sal- 
vador, e o hisisnw tornava-se o Sonho do Quinto 
Império do mundo. A nova dynastia de Bragan- 
ça, de conivência com os Jesuitas, poz em jogo, 
para a sua segurança pessoal, a nação que lhe 
delegara a soberania. Não abandonou D. João iv 
a Bahia e Pernambuco aos Hollandezej, porque o 
Desembargo do Paço se oppoz a esse plano do 
jesuita P.e Vieira; projectou o casamento do 
príncipe D. Theodosio com a filha do Duque de 
Longueville, vindo o Conde governar Portugal, 
c indo D. João IV ser rei no Brasil, mas não se 
rcalisou este i)lano por (jue a noiva appareceu 
clandestinamente casada com Lauzan; modificou- 
se o plano para Mademoiselle de Monti^ensier. 
mas seu pae, o Duque de Orleans, vendo os ne- 
gócios de Portugal instáveis, recusou-se a isso. 
Tràtou-se do casamento da infanta D. Cathe- 
rina com o Duque de Beaufoit, mas falhando 



FACTORES STATICOS 87 



também, realisou-se o casamento com Carlos ii 
de Inglaterra, levando em dote Bombaim, e ca- 
hindo successivamente Portugal sob o ávido pro- 
tectorado da Inglaterra. Portugal voltava ao do- 
minio da Hespanha se Carlos ii de Hespanha 
consentisse no casamento do principe D. Theo- 
dosio com sua irmã, em 1649. Não acabam aqui 
os planos em que era sacrificada a nacionalidade 
portugueza á unificação ibérica, extensamente des- 
criptos por João Francisco Lisboa na Vida do 
Padre Vieira. O abandono de Portugal á sua 
sorte foi um expediente de salvação para Dona 
Luiza de Gusmão, para Dom José por occasião 
do terremoto de 1755, e foi levado á pratica em 
1807 quando D. João vi fugiu de Portugal por 
imp(3SÍção, do embaixador inglez Strangford com 
a sua fidalguia e criadagem para o Brasil diante do 
destroçado exercito de Junot. A obliteração do 
sentimento nacional permittiu todas estas trope- 
lias praticadas impunemente pela Dynastia ne- 
fasta dos Braganças, que procuraram o seu apoio 
no estrangeiro, a Inglaterra, que determinou a 
desmembração do Brasil de Portugal, que occu- 
pava militarmente pelo seu general Beresford, 
com o terror das forcas do Campo de Santa Anna. 
Os que conspiravam contra a occupação ingleza, 
desde 1818, foram-se refugiando em França; um 
sentimento de nacionalidade revivesceu entre a 
classe media de jurisconsultos, magistrados e ne- 
gociantes ; determinando essa crise fecunda da 
Revolução de 1820, que esboçou todas as liber- 
dades civis e politicas, contra as quaes se oppoz 
sempre a dynastia bragantina em 1823 com a 



88 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

restauração do absolutismo, e em 1826 com o so- 
phisma da Carta outorgada, imposta sempre á 
soberania nacional em 1842, 1847, ^ 1S51, por 
intervenção armada estrangeira e por sophismas 
parlamentares, burlas eleitoraes, e sangrentas di- 
ctaduras. I)'essas emigrações para o estrangeiro 
em 1823 e em 1829 regressaram individualidades 
que sentiram a saudade, a intuição da vida na- 
cional, e tendo-se batido i^ela liberdade na Ilha 
Terceira e no Cerco do Porto, de 183 1 a 1834, 
realisaram a renovação da Litteratura portugue- 
za, do Romantismo, iniciando uma nova poesia 
lyrica, um theatro original, o romance histórico 
e a historia critica, e a eloquência da tribuna. To- 
das as vezes que os escriptores se retemperam 
nas tradições e consagram a aspiração nacional, 
a Litteratura será mais vigorosa, fecunda e ori- 
ginal. A decadência que Portugal accusa n'este 
momento resulta da obnubilação do sentimento de 
nacionalidade estolidamente combatido por espí- 
ritos negativistas mais ou menos inconsciente- 
mente. Na situação presente a missão da Arte, 
da Litteratura, da Politica e mesmo da sciencia, 
consiste em revigorar Portugal, restituindo-lhe a 
consciência do seu lusisnio. 



FACTORES DYNAMICOS 89 



§ n 

Factores dynamicos 



As Épocas históricas e o meio social actuando 
nas Litteraturas 



Antes da concepção mechanica dos pheno- 
menos do universo systematisando a astronomia, 
teve Blainville a ideia luminosa de applicar aos 
phenomenos biológicos a distincção em staticos e 
dyjiauiicQs coma a expressão mais completa das 
condições da existência: o órgão apto para exer- 
cer-se é um elemento statico, sendo a funcção o 
estado dynamico da sua energia. 

Comte, applicando esta mesma distincção aos 
phenomenos sociaes, considerou a ordem como a 
base st atiça da existência social, como o progresso 
nas suas múltiplas transfonnaçÕes o effeito dy- 
uajiiico na evolução histórica. D'esta concepção 
de Comte, escreveu Alexandre Bain: «Mill tinha 
admittido a grande distincção estabelecida por 
Comte entre a statica social e a dynamica social, 
e adoptara-a para a sua Lógica. Eu também fi- 
quei maravilhado como elle, considerando qual 
seria o valor d'esta distincção como podendo ser- 
vir para a analyse...» 

A exemplo de Mill, pôde este critério ser ap- 
plicado á Litteratura, que, como producto social, 
participa d'esta dupla condicção de existência; 
ella tem uma parte statica, persistente, e alheia á 



00 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



intervenção individual, que são — a Raça, a Lin- 
gitagcm, a Tradição e a Nacionalidade. São, por 
assim dizer, o organismo, em que se elaboram as 
itmcções ou creaçÕes litterarias. O génio da raça, 
os tliemas da tradição, as formas da linguagem, a 
aggregação nacional escapam ás modificações das 
mais poderosas individualidades; d'ellas vem a 
emoção commum a que os escriptores e artistas 
dão a expressão synthetica, que acharam pelo seu 
modo de sentir individual reflectindo a marcha 
da corrente histórica. Os maiores génios, são os 
que mais profundamente representam uma civi- 
lisação; os poemas homéricos representam inte- 
gralmente a cultura hellenica na edade de bronze ; 
Virgilio condensa o mundo romano na sua altura 
e destino social, — pacis íiuponerc morem, no 
poema da í incida; Dante mostra-nos em toda a 
sua luz a l£(lade média na grande lucta do poder 
espiritual e do temporal, emergindo a libertação 
da consciência, no julgamento da Divina Come- 
dia; Camões faz sentir a Renascença n'esta lucta 
nova do homem contra as forças da natureza, 
impondo-lhe o seu im])erio consciente. 

Na historia litteraria é imprescindivel a luz 
philos()])liica para determinar as correntes histó- 
ricas (|uc caracterisam as épocas do desenvolvi- 
mento mental, derivando (Tahi a critica da acti- 
vidade individual. Todo o grande i>ercurso da 
Civilisação moderna, que abrange o quadro das 
transformações históricas do século xii até ao 
presente, acha-se ixirfeitamente caracterisado em 
três épocas fundamentaes, a Bdade média, a Re- 
nascença e o Romantismo. A Litteratura, como 



factore;s dynamicos 91 



um producto social, só pôde ser bem conhecida 
através das modificações históricas d'estas três cri- 
ses da civiHsação que reflectiram. Sem esta luz 
sobre a marcha evolutiva, tudo quanto produziu a 
Edade média foi considerado como bárbaro, e 
somente os modelos clássicos ou Greco-romanos 
merecem admiração e se impõem á imitação; e 
assim, individualidades geniaes como Gil Vicente, 
Rabelais, Montaigne, Shakespeare, Hans Sachs, 
são aleijões litterarios comparados a qualquer 
correcta banalidade académica. O génio de 'Ca- 
mões, sob o influxo da Renascença, soube alliar 
o enthuziasmo pelas obras primas da civilisaçao 
greco-romana com o sentimento nacional, for- 
mando a epopêa dos Lusíadas com todos os ele- 
mentos tradicionaes e lendários da historia por- 
tugueza, tal como Virgilio na Bneida fazia re- 
viver as tradições do Latium ])or meio das formas 
bellas da poesia hellenica. As grandes individua- 
lidades litterarias iniciam as transformações es- 
theticas, e pelo dom da universalidade relacionam 
o seu tempo com a marcha da humanidade. Como 
órgão da grande Civilisaçao occidental, Portugal 
conservou sempre uma forte solidariedade com 
as Litteraturas românicas da Edade média até ao 
Romantismo ; por essas relações, que não signi- 
ficam uma imitação banal mas uma cooperação, 
se demarcam as épocas capitães do seu desenvol- 
vimento litterario, comprehendendo-se-lhe o espi- 
rito pela sua solidariedade. 



92 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

a) Edade média 

A transição da Antiguidade para o mundo 
moderno effectuou-se em um periodo de dez sé- 
culos, denominando-se por isso Edade média. 
N'este periodo, crearam-se novas classes sociaes, 
como o proletariado, novas formas de trabalho 
dignificado na industria das Jurandas, outras con- 
cepções religiosas pelo sentimento popular ou 
christandade, o direito territorial das Communas, 
a Arte gótica, a poesia lyrica dos Trovadores, as 
Epopêas das gestas feudaes, o grupo das línguas 
romani sadas tornando-se escriptas, creando-se 
novas nacionalidades, e a Europa reconstituindo- 
se pela estabilidade dos costumes, terminadas as 
guerras mantidas pelas invasões germânicas e 
árabes. A Edade média, nos seus complicados 
aspectos, appresenta uma phase de dissideticia, ou 
do conflicto das di ff crentes raças, que se assimila- 
ram em unificações nacionaes; uma phase de con- 
corrência, em que os estados politicos procuram 
continuar a supremacia imperial, romana, travan- 
do-se a lucta dos dois Poderes, o Sacerdócio e o 
Império; [>or ultimo uma phase de convergência, 
em que as nações europêas obedecem, pela vaga 
noção da sua occidental idade a uma acção com- 
mum, pela primeira vez, nas guerras das Cruza- 
das, normalmente substituidas pela actividade in- 
dustrial. 

A Edade média foi considerada pelos historia- 
dores até ao século xv 1 1 1 , como uma edade de 
trevas e de anarchia, vendo-a apenas n'essa de- 
morada i)hase de dissidência: os historiadores ca- 



FACTORES DYNAMICOS )3 

tliolicos, observando que a Europa obedecera 
n'esse período anarchico á disciplina moral da 
Egreja, que implantara de um modo absoluto o 
seu Poder espiritual pela organisação do Papado, 
exaltaram o periodo da concorrência, reclamando 
por isso para a Egreja o prolongamento da sua 
intervenção temporal. Somente alguns escripto- 
res philosophicos que souberam determinar pelo 
periodo de convergência a continuidade da Civi- 
lisação Occidental, de que as nações da Europa 
são órgãos solidários, é que puderam assignar á 
Edade média o seu caracter progressivo, expli- 
cando-a historicamente como uma transição affe- 
ctiva. 

Sem esta comprehensão fundamental da Eda- 
de média, como relacionar factos tão incongruen- 
tes como o antagonismo do Poder espiritual da 
Egreja e o Poder temporal das Monarchias; en- 
tre a classe senhorial da sociedade feudal ou guer- 
reira e o Proletariado que se fortifica pela indus- 
tria, constituindo a nova classe da burguezia ; j^ela 
lucta do direito territorial dos Municípios entre o 
privilegio pessoal mantido nas Dynastias; pelo 
abandono da lingua latina, imposta pela aucto- 
ridade dos eruditos ecclesiasticos e jurisconsultos, 
reagindo com toda a vitalidade os dialectos vul- 
gares, que se tornam linguas nacionaes? Os his- 
toriadores que não penetraram o espirito reno- 
vador d'esta fecunda época da humanidade, des- 
orientaram-se n'essa por elles chamada noite da 
Edade média, perdendo o fio conductor com que 
se estabelece a lógica dos successos da historia 
moderna e contemporânea. 



94 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Uma i^hrase luminosa de Augusto Comte, 
condensa nos seus elementos principaes todas as 
forças activas da grande elaboração social, reli- 
giosa, politica, económica e artistica da Edade 
média : «Sob qualquer aspecto que se examine o 
regimen próprio da Edade média, vê-se sempre 
emanar ou da separação dos dois Poderes^ ou da 
transformação da actividade militar. ^) (Polit. 
posit., III, 459.) Desdobremos esta fórmula ni- 
tidissima. 

A separação dos dois Poderes é essa longa lu- 
cta entre o dominio espiritual da Egreja, procu- 
rando conservar como theocracia o poder tem- 
poral, que se destaca e exerce pelo summo im- 
pério das Monarchias. O desenvolvimento do 
Poder real realisa-se pela elevação do proleta- 
riado á independência da burguezia, que á activi- 
dade guerreira contrapõe a actividade industrial, 
tornando-se o poder militar meramente defensivo 
e estipendiado. Criam-se três meios sociaes em que 
as Litteraturas modernas "encontram condições es- 
peciaes para o seu desenvolvimento: a Bgreja, a 
Corte, e a Burguezia. 

i.o A Egreja. — Emquanto a Egreja confun- 
diu na sua acção os dois poderes, a Europa me- 
dieval esteve em certa forma sob um regimen 
theocratico, cujo espirito dominou na politica dos 
estados até á paz de Westphalia. A Egreja fun- 
dou uma disciplina moral e um systema de edu- 
cação popular nas Scholae das suas Collegiadas; 
na sua hierarchia apropriou-se da organisação 
administrativa romana, conservando as autono- 



FACTORES DYNAMICOS 95 

mias locaes, pela transformação das lendas pagãs 
em santificações patronaes; serviu-se dos Contos 
do povo para os Exemplos da sua prédica, em 
que teve de empregar a linguagem rnstica ou vul- 
gar para a propaganda doutrinaria, e as Canções 
populares como Prosas e Sequencias para a sua 
liturgia. Muitas superstições são conservadas 
como festas ecclesiasticas ; e a vida collectiva do 
proletariado, sentindo a sociabilidade i^ela unifica- 
ção da crença, construe as bellas Cathedraes, na 
mais espantosa floração do génio esthetico. - 

E' na Egreja, que o Drama moderno encon- 
tra o meio adaptado para o seu apparecimento e 
desenvolvimento dos Ludi litúrgicos : scenario es- 
plendido diante de uma multidão ingénua, e actos 
cultuaes solemnes representando em forma poé- 
tica as lendas evangélicas. Emfim o thema pri- 
mitivo de Anno estival e hibernal, do joven Deus, 
que morre e resuscita nas cerimonias da Paixão 
e do Natal, revivescia nas imaginações crédulas 
com toda a poesia dos mythos decahidos das ve- 
lhas raças. Escreve Bonloev^. no Ensaio sobre 
o espirito das Litteraturas: 

«Deparam-se os primeiros elementos do Dra- 
ma novo na própria liturgia da Egreja, não so- 
mente nos dialagos alternados entre o presbytero, 
o sacerdote e o povo nas Antiphonas e respon- 
sos, mas sobretudo n'este cyclo de festas que glo- 
rificavam universalmente a vida, as obras miracu- 
losas e a morte de Christo. Mas era principal- 
mente a tragedia grandiosa da Paixão, a sua re- 
presentação nos dias da Paschoa (com certeza a 
festa mais sagrada e mais antiga dos christãos) 



96 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 



que devia emocionar e abalar a alma dos fieis 
congregados no templo. — Este espectáculo deve 
ser considerado como o primeiro veio, como o 
primeiro ponto de apoio a que se ligam as tenta- 
tivas tão numerosas e informes da Edade mé- 
dia. — Como outr'ora na Grécia, a lenda de 
Baccho dera origem á Tragedia e Comedia an- 
tigas, a morte e o triumpho final de Christo fo- 
ram o ponto de partida da Tragedia e da Co- 
media modernas. A Tragedia saiu como já se viu 
(homilia de Eusebius Enisennus, m. em 359), do 
mysterio da Paixão; foi nas chamadas Morali- 
dades ou Diabruras, que se reconhecem os prin- 
cípios da Comedia. Na lucta contra Deus, contra 
Christo e todas as potencias santas, é sempre ven- 
cido, repellido, castigado com grande gáudio dos 
espectadores, torna-se ridiculo. — Sempre assim 
batido, torna-se por fim inoffensivo e fica o bobo 
da scena christã com as suas parou velas e sar- 
casmos.» (Op. cit., p. 210.) Por fim a Egreja 
prohibiu nas Constituições dos Bispados estas re- 
presentações populares ; separava-se do povo, aris- 
tocratisava-se. 

A preoccupação de manter o poder temporal 
levou a Egreja a centralisar-se, subordinando 
diante do Bispo de Roma as Egrejas nacionaes: 
oppondo ao Direito civil o Direito canónico; sub- 
mettendo a soberania da realeza á sagração do 
direito divino, e condemnando como heresia toda 
a liberdade do pensamento. No periodo mais in- 
tenso da acção da Egreja, ella condemna a lei- 
tura das obras dos escriptores da Antiguidade 
como profanas, substituindo as especulações dos 



FACTORES DYNAMICOS 97 



philosophos gregos e romanos pelas homilias theo- 
logicas; o Concilio de Roma (1131) prohibiu aos 
monges o estudo do Direito romano e da Medi- 
cina, e o papa Honório, em 1220 estendeu a pro- 
hibição a todo o clero. Cria-se o antagonismo 
entre o exclusivismo clerical e espirito secular. 
Este antagonismo era tão inconciliável, que em 
uma inscripção da egreja de San Martinho de 
Worms se proclamava ser mais fácil seccar-se o 
mar, ou ir o diabo para o céo do que o clérigo e 
o leigo entenderem-se como amigos, i 

A mutua animadversão explosiu em sátiras 
violentas contra o clercois, descrevendo a sua vida 
desenvolta com as agapetas, parodiando-lhe as 
cerimonias litúrgicas pelos goliardos, fazendo a 
farsiture das orações latinas e dramatisando os 
mysterios da religião. Todas as Litteraturas da 
Edade média reflectiram este espirito sarcástico e 
irreverente contra o elemento clerical, apesar da 
quasi unanimidade do sentimento christão. No 
seu desprezo pelo secular, o clérigo, empregando 
no culto a lingua latina, fazia da palavra latino 
synonimo de intelligente (ladino, ainda hoje cor- 
rente em giria vulgar) : o nome de romano em- 
pregava-o continuando a sua contraposição ao de 
bárbaro; a lingua do vulgo ou inculta, não litte- 
raria, era chamada romance, 2 e ainda na lin- 



T Cum maré sicatur, et daemon ad astra levatur, 
Tunc primo laicus fit clero fidus amicus. 

(Ap. Comparetti, Virgilio nel Médio Bvo, t i, 243.) 

2 No Isopet, ms. do século ' xrv, demaroa-S€ nitida- 

7 



98 HISTORIA DA T,lTTKRATrRA PORTUGUEZA 

guagem do século xvii romancista era o analpha- 
beto, sem estudos. No período em que se consti- 
tuíram as novas nacionalidades europêas, a cultu- 
ra latina apparece imposta pelos eruditos eccle- 
siasticos e pelos humanistas da primeira Re- 
nascença. 

2. o A Corte. — O conflicto dos dois Poderes, 
que preponderou em toda a Edade média, actuou 
na constituição das Nacionalidades modernas, no 
pensamento politico da unidade imperial romana 
do Occidente, sob a acção dos Papas (minor Dco, 
iiiajor homine) ou pela auctoridade temiXDral dos 
Imperadores. Cada um d 'estes Poderes, procu- 
rando restabelecer a tradição de Roma, apoiava- 
se no prestigio do passado: assim as letras latinas 
eram estudadas nos claustros, e os i>oetas christãos 
metrificando em latim imitavam os poemas dida- 
ticos da decadência, ou compunham sobre os mys- 
terios da Egreja poemas com ccntdcs virgilianos. 
Pelo seu lado a auctoridade monarchica mantinha 
todas as fórmulas do direito romano, e funda- 
mentava o absoluto poder real com a letra dos 
códigos imperiaes. A tradição greco-romana ten- 



mente o espirito culto do latinista e a tradição conservada 
entre o vulgo ou romance: 

Un clerc de grant science 
et de grant sapience 
le fist prémierement ; 
et je le mis en romans 
por entendre aus enfans 
et (7 la laye gent. 



PACTORKS DYNAMICOS QQ 



dia a renovar-se na primeira Renascença; as es- 
cholas ecclesiasticas trans fornia vam-se nos Estu- 
dos Geraes, e a realeza, apropriando-se d'essa 
nova disciplina pedagógica fundava as Universi- 
dades, em uma rivalidade na concessão da fa- 
culdade ubíquc docendi, em que se envolvia a 
Theologia. 

A realeza, na sua forma imi^erial e dynastica, 
n'esta lucta para concentrar em si o poder tempo- 
ral, apoia-se no restabelecimento da tradição do 
unitarismo do Império romano, pondo em vigor 
o Digesto, onde estava definida a esphera dos 
direitos reaes, criando um ensino secular ou leigo 
nas Universidades que começam no século xii, 
para o estudo das Leis, da Medicina e da Ma- 
thematica. N'esta organisação da Monarchia, a 
realeza avoca a si o privilegio de conferir no- 
breza, sustando o desenvolvimento da classe se- 
nhorial ou feudal pelo cadastro dos Nobiliários, 
e favorece as revoluções communaes contra a 
l^repotencia dos Barões, chegando a converter os 
seus Maíres du Palais em poder ministerial, e 
mais tarde as Guardas do corpo nos exércitos 
permanentes. Tal foi a marcha para o poder 
absoluto. Cria-se a Justiça de rei ou o Ministério 
publico contra o arbitrio feudal e estatuto local, 
e o summo império teve de ir abdicando nos mi- 
nistros, no generalato e nos parlamentos. 

As condições que determinaram as formas 
das Monarchias germânica, ingleza e france- 
za, n'estas luctas do poder temporal, vieram 
da situação da classe senhorial, á medida que 
se operava a transformação da actividade mi- 



100 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 

litar. A própria classe feudal, qne conservava os 
hábitos guerreiros das bandas germânicas, entra- 
va em um período de guerras defensivas, como 
se vê pela organisação da Cavalleria para a pro- 
tecção dos fracos contra os fortes (redresser les 
torts) e i>elo amor da mulher praticando todos os 
feitos de valor. As guerras das Cruzadas foram 
um esforço do Monotheismo Occidental tornado 
defensivo, contra o monotheismo oriental que in- 
vadia a Europa ; as luctas dos grandes vassallos 
converteram-se em guerras privadas, destacando- 
se na tradição popular e poética os typos nacio- 
naes, como o Cid. Arthur, Guilherme Tell, por 
servirem os interesses da collectividade. Foi este 
heroismo sociahsado (|ne motivou a mais com- 
pleta idealisação do typo de Carlos Magno, cen- 
tro de todas as Gestas medievaes ; admirável pela 
sua acção unificadora do Occidente, defendendo-o 
das invasões germânicas do norte, e dos árabes 
ao sul pela sua superior capacidade militar e po- 
litica. 

As condições que determinaram o predominio 
do Poder temporal favoreceram a livre commu- 
nicação com os monumentos da antiguidade gre- 
co-romana, n'essa Renascença do século xiii, 
abafada até revivescer nos philologos do sécu- 
lo XV. Os Reis tornaram-se protectores das Uni- 
versidades ; oppozeram á nobreza das anuas a 
nobreza da toga, (ccdant arma togae) vindo-se 
por este exagerado prestigio da segunda Renas- 
cença, no século xvi, a desprezar a tradição da 
Edade Vnedia e a renegal-a na sua continuidade 
histórica. Chegou-se mesmo a perder o conhe- 



FACTORES DYNAMICOS 



cimento da Edade média, explicada pelos erudi- 
tos da Renascença como uma deturpação da cul- 
tura greco-romana ; assim, para os Jurisconsultos 
do século xv, os Feudos eram uma forma bastarda 
da Buphyteuse e do Usofructo romanos; para os 
historiadores os modernos Estados foram funda- 
dos por heroes foragidos do cerco de Troya ; para 
os artistas as ordens gregas existiam syncretica- 
mente implicitas na architectura gótica, como 
considerava César Cicerano explicando a cathe- 
dral de Milão pelas regras de Vitruvio; para os 
theologos as doutrinas evangélicas eram susten- 
tadas pela Dialéctica de Aristóteles. A par da 
grande poesia épica da Edade média os verseja- 
dores desenvolveram o Cyclo troyano e de Ronie 
la grant; como também os Goliardos espalhavam 
entre o povo as Canções bacchicas em latim, como 
se vê em Gautier Maps, ou nas cançonetas escho- 
larescas, do Carmina Burana. 

Nas Cortes, em que a convivência com as 
Damas impunha a correcção de maneiras e a ga- 
lanteria, as festas e os passatempos usuaes man- 
tinham o espirito espontâneo da Edade media, 
nos Torneios, nas Dansas e nas Canções meló- 
dicas. Essa modificação dos costumes bárbaros 
dos homens de armas em agradável sociabilidade, 
tornando affaveis as redaçÕes pessoaes, recebeu 
o nome característico, que ainda persiste de Cor- 
tezia. Foi nas cortes reaes e senhoriaes, que a 
Canção do povo rece1)eu a sua forma litteraria, e 
que da sua melodia espontânea nasceu a Musica 
moderna. 

N'esses focos da mais delicada sociabilidade é 



102 HISTORIA DA I.ITTRRATrRA PORTUGUEZA 



que íioresceu a poesia lyrica dos Trovadores e 
se cantaram os bellos Lais bretãos, converten- 
do-se pelo interesse feminino em .complicadas c 
apaixonadas Novellas de Cavalleria. A própria 
subalternidade dos barões diante do rei, formando 
a parada da sua Corte, veiu dar a esta litteratura 
courtois um desenvolvimento quasi exclusivo, que 
a par da corrente erudita da Renascença oj^erava 
uma separação constante entre os escriptores e 
o povo. Foi por isso que as Litteraturas da Edade 
média, tendo abandonado os seus fecundos esbo- 
ços ou formas rudimentares, cahiram successiva- 
mente no culteranismo académico, até se afun- 
darem na frivolidade. O erudito Luiz Vives, no 
livro De institutionc F cem ince christiaíUE con- 
demnava todos os poemas da Hespanha, França 
e Flandres, todas as Novellas d'elles derivados, 
e todas as obras que ainda na Renascença conti- 
nuavam a tradição medieval, como a Celestina, e 
as Facécias de Poggio. As Litteraturas româ- 
nicas, foram umas mais do que outras assim afas- 
tadas do seu espirito nacional. 

3.0 A Burguezia. — A actividade industrial e 
mercantil coadjuvada pelos Descobrimentos ma- 
ritimos estimulados pelas especulações scíenti fi- 
cas, começa nos burgos ou cidades livres, e des- 
envolve-se pelas federações ou ligas, como a das 
cidades hanseaticas. A' ideal isação dos typos 
guerreiros, representantes da vida publica ou na- 
cional, contrapõe-se uma nova idealisação da vida 
domestica e das emoções pessoaes; a estabilidade 
social pela paz inspira sentimentos benignos de 



FACTORKS DYNAMICOS IO3 



amor, em uma extraordinária efflorescencia de 
Canções ou Bailadas que se succederam á época 
trobadoresca, ainda hoje persistentes nas versões 
oraes do povo. A satisfação do bem-estar era 
expressa pela graça dos Contos e Fabliaux, que 
se desenvolveram no Romance moderno. O es- 
tabelecimento de um poder moral, a Opinião pu- 
blica, leva a crear um órgão, o Theatro moderno, 
resolvendo na acção do drama como synthese a 
collisão dos interesses e deveres. Segundo Gui- 
zot, o império romano dissolveu-se por falta de 
uma ciass:: media; nas Nações modernas a sua 
força, riqueza e capacidade creadora está na Bur- 
guezia ou propriamente a classe média, em que 
predomina o bom senso pratico, a disciplina mo- 
ral e costumes idealisaveis. E' d'ella que surgem 
as altas individualidades. 

b) Renascença 

Toda essa insurreição mental, que appareceu 
no fim da Edade média, como a aurora de um 
renascimento da sociedade moderna, que se fixa 
no século xiii, apagou-se subitamente; todas 
essas doutrinas philosophicas foram perseguidas 
como heresias, todas essas aspirações politicas fo- 
ram abafadas pela realeza como revoluções, em 
guerras religiosas e devastações tremendas. Ope- 
rava-se a separação dos dois Poderes; a Egreja 
tornava-se intolerante e a Realeza absoluta ; uma 
queria submetter aos dogmas theologicos a rasão, 
a outra, na transformação da actividade militar, 
organisava o exercito. Deu-se este tremendo re- 



104 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



trocesso, que durou por todo o século xiv e xv, 
porque essa insurreição mental não se apoiava 
sobre conhecimentos positivos ou scientificos. Dis- 
solvida a synthese catholica, a intelligencia acha- 
va-se em um interregno theorico. 

Nos phenomenos sociaes predomina a comple- 
xidade dos ef feitos; no século xv trez descober- 
tas vieram suscitar uma extraordinária actividade 
mental e social : foram a Bussula, a Pólvora e a 
Imprensa. Pelo emprego da Bussula pôde esta- 
belecer-se a grande navegação, pela iniciativa dos 
Portuguezes, que desde o começo do século xv 
encetaram as expedições maritimas no Atlântico; 
pela Pólvora acabou a valentia individual do ca- 
valleiro, tornando-se accessivel essa força mate- 
rial ao braço do proletário, que se ia impondo pelo 
seu numero, auxiliando a realeza contra o feuda- 
lismo ; pela Imprensa revivesceu o humanismo, 
iniciado por Petrarcha e as obras primas da An- 
tiguidade vulgarisaram-se entre os eruditos re- 
velando que fora das doutrinas da Egreja exis- 
tiu uma sabedoria moral imperecível, e incompa- 
ráveis obras bellas bem dignas de imitação. 

Estes inesperados impulsos convergiram no 
principio do século xvi inaugurando a Época da 
grande Renascença, que enche o denominado — 
maior século da Historia. Peschel chama ao sé- 
culo XVI, a Bra dos Descobrimentos. Foram os 
Portuguezes, que depois da exploração dos Ar- 
chipelagos atlânticos e reconhecimento da costa 
africana, realisaram os descobrimentos da rota 
maritima da índia, da America boreal, equatorial 
e austral, e os descobrimentos no Pacifico, depois 



factore:s dynamicos 105 

de terem conseguido a viagem da circumducção 
da Terra. Tudo isto trouxe extraordinárias con- 
sequências á constituição social e politica da Ci- 
vilisação da Europa, cujas nações entravam em 
um novo equilibrio. Pela corrente humanista, a 
Renascença tomou também conhecimento do pri- 
meiro par scientiíico, constituido pelo génio gre- 
go, a Mathematica e a Astronomia; estas disci- 
plinas positivas vinham inaugurar a systematisação 
do interregno theorico. Por seguras deducções ma- 
thematicas pôde Copérnico demonstrar a redon- 
deza da terra movendo-se no espaço em volta do 
sol; mas como podia essa demonstração impôr-se 
ao vulgo e aos preconceitos theologicos, acostu- 
mados ao velho erro geocêntrico? Para Copér- 
nico os Descobrimentos maritimos dos Portugue- 
zes foram a prova verificável da verdade de- 
monstrada racionalmente. Este accordo entre a 
realidade objectiva e a noção subjectiva, é que 
constituiu o triumpho inabalável do espirito ou a 
rasão moderna. Na transição da Edade média, 
em que se operava a separação dos dois Poderes, 
o espirito critico ou o Livre-Pensamento exerceu- 
se sempre por um dissolvente negativismo. Os no- 
vos descobrimentos geographicos e scientificos, 
contradictando a auctoridade da Biblia e os do- 
gmas da Egreja, davam elementos para comple- 
tar a synthese natural ou propriamente physica; 
era este o scopo da transição medieval, reatar a 
continuidade histórica, restabelecendo e prose- 
guindo a cultura greco-romana. De novo os ve- 
lhos Poderes, para resistirem á corrente de reno- 
vação, tornaram-se ainda mais retrógrados; a 



I06 HISTORIA DA IJTTKRATURA PORTUGUEZA 



Egreja, pela organisação da Companhia de Je- 
sus, tentou restaurar a Thcocracia; e a Realeza, 
tendo reduzido a aristocracia feudal a séquito do 
apparato da sua Corte, conseguia, pela creação do 
exercito permanente, sustentar-se em um impe- 
rialismo absoluto. Nasceu esta tendência monar- 
chica do reapparecimento do Gcrinanisuio, no sé- 
culo XVI, quando Carlos v, atraiçoando a causa 
da nacionalidade allemã, para se tornar o repre- 
sentante do Imi>erio Romano se serviu do iini- 
tarismo catholico coadjuvando a Egreja na re- 
acção contra a Reforma. O humanismo vivificava 
a tradição do Santo Império ; todos os monarchas 
obedeciam á utopia de uma Monarchia univer- 
sal, formada pela incorporação de todos os Es- 
tados, ou por via dos casamentos dynasticos ou 
pelas invasões militares. Por via dos casamentos, 
a Casa de Áustria quasi avassalava a Europa, tor- 
nando-se esse perigo o principal objectivo da po- 
litica franceza; Carlos v, Francisco i, D. Manoel, 
Henrique vi ir, obedeceram ao desvairamento da 
Monarchia Universal; as novas nacionalidades 
foram envolvidas nas guerras dynasticas, vendo- 
se a França e a Hespanha invadindo a Itália, a 
Hespanha invadindo os Paizes Baixos e a Ingla- 
terra, occupando esta uma parte do Território da 
França, e desapparecendo a autonomia de Portu- 
gal, reduzido em 1580 a provincia castelhana. 
N 'estas luctas, manifestam-se as altas individua- 
lidades estheticas e especulativas, criando-se o 
ethos ou os caracteres nacionaes, representados 
nas Litteraturas. 

O curso da Renascença prolonga-se pelo se- 



I^ACTORES DYNAMICOS 107 



ciilo XVII, em que se eonstitue o segundo par 
scientiíico, a Physica e a Chimica, dando logar a 
uma nova actividade mental tornada mais intensa 
nas Academias, dando logar á synthese physica 
ou matheseologica por Descartes e á systematisa- 
gão moral em Bacon. O desenvolvimento do Ter- 
ceiro estado, constituindo a totalidade da nação 
no povo, funda-se no trabalho productivo colo- 
nial e financial, resultante dos Descobrimentos 
maritimos, começando-se desde então a resolve- 
rem-se os conflictos internacionaes pelos recur- 
sos suasórios da Diplomacia e creação do Direito 
das Gentes. A originalidade do génio esthetico 
moderno emancipa-se da subserviente imitação 
das obras greco- romanas, e fora das Cortes é que 
se criam, as bellas idealisações da sociedade mo- 
derna. A celebre Quer cila dos Antigos c Moder- 
nos veiu pôr em foco a importância das novas 
Litteraturas occidentaes. Ainda a transição da 
Edade média se reflectiu no século xviii, quan- 
do essa insurreição mental das heresias se trans- 
formou no mais audacioso racionalismo, e quan- 
do a renascença scientifica foi continuada no par 
scientifico, que na sua forma geral e abstracta 
veiu a constituir a Biologia e a Sociologia. A 
esse espirito critico, depressivo do século xviii 
deu-se o nome do Encyclopedismo, sendo os Lit- 
tcratos os que universalisaram as doutrinas, que 
depois da explosão temporal da Revolução fran- 
ceza, reorganisaram a sociedade europêa. Esse 
espirito critico, como negativista, era essencial- 
mente destructivo, por lhe faltar o sentimento da 
solidariedade histórica; procurando bases natii- 



108 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



raes para o direito, para a moral, para a politica, 
para a arte, renegou a Antiguidade clássica e a 
Edade média, desconhecendo a sua continuidade 
na civilisação moderna. As phrases de Helvetius, 
e Reynal sobre a Edade Média, denominando-a 
trevas sem nome e estéril barbárie, que tomaram 
curso nas opiniões vulgares, mostram a com- 
pleta ausência do senso histórico. Foi este novo 
critério da comprehensão da historia, que abriu 
ás intelligencias mais largos horisontes demar- 
cando uma época de verdadeira reconstrucção. 

c) Romantismo 

O grande período do interregno theorico do 
íim da Edade média, quasi ao fechar-se nos es- 
forços para a constituição do par scientifico da 
Biologia e Sociologia, complicou-se com a phase 
social, cuja explosão temporal caracterisa o fim 
do século XVIII, — a Revolução franceza. A sua 
\"asta repercussão em todos os estados da Europa, 
torna evidente que esse phenomeno local proveiu 
de causas geraes profundas. Em todas as mani- 
festações do espirito e da actividade moderna é 
indispensável a orientação d'este ponto de par- 
tida; i>or que essa crise violenta determina o mo- 
mento em que impulsos accumulados de ideias e 
sentimentos do passado produziram o movi- 
mento social procurando um novo equilibrio. De- 
finem-se na sua generalidade esses impulsos ou 
factos em que se accentua a longa decomposição 
do regimen catholico-feudal, que principiou pe- 
las heresias religiosas e terminou pelas revoluções 



) 

FACTORES DYNAMICOS lOQ 



politicas. Desde a Paz de Westphalia, que na po- 
litica europêa prevaleceu o espirito secular; as 
Egrejas nacionaes foram subordinadas ao poder 
dos reis, e com a queda dos Jesuitas o regimen 
catholico soffreu a sua plena destituição como 
poder destinado a dirigir a sociedade humana. 
O regimen feudal, representado ainda nos privi- 
légios e distincçÕes da nobreza estava concentrado 
com todos os seus antigos abusos nas Monar- 
chias absolutas. A queda dos Jesuitas, signifi- 
cando a separação final dos dois poderes, o espi- 
ritual e o temporal, por que foram reis catho- 
licos (|ue decretaram a sua extincção, veiu deixar 
a realeza em uma situação isolada, sem a subor- 
dinação passiva mantida nos costurhes, que a sua 
feição medieval exigia. A soberania absoluta foi 
discutida, compararam-se as instituições politicas 
dos di ff crentes povos, e o vasto cosmopolitismo 
provocado pela circulação dos productos do tra- 
balho livre, fez reconhecer a necessidade de uma 
reorganisação social sobre outras bases de con- 
córdia, que não vetustas hostilidades militares. 
Tsto levara annos antes da Revolução franceza, 
a i)resagial-a como inevitável. 

Pela fatalidade dos acontecimentos a realeza 
feudal foi executada na pessoa de Luiz xvi ; e 
os privilégios das classes aristocráticas, represen- 
tantes das bandas guerreiras das invasões germâ- 
nicas, derrogados ante os principios da — egual- 
dade perante a lei, e da lei egual para todos. 
As longas perturbações da época revolucionaria 
provieram dos esforços para substituir os Poderes 
decahidos : o poder espiritual foi genialmente esbo- 



IO HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



çado nas reformas pedagógicas da Convenção, mas 
deturpado pelo deismo robespierrista ; o poder tem- 
poral, provisoriamente substituido pela Republica 
democrática foi afastado da sua forma definitiva 
pelo terror, que provocou a restauração da mo- 
narchia e da egreja, i^elo Consulado e Império,- ex- 
plorando uma execranda retrogradação da Orgia 
militar napoleonica, sobre que se enxertou o so- 
phisma das Cartas outorgadas, patrocinado i>ela 
Inglaterra. 

Estes grandes abalos sociaes fizeram-se reHe- 
ctir nas idealisações das Litteraturas modernas; 
chamaram a essa crise esthetica ou affectiva Ro- 
iiiantisrno. Tem esta palavra dois sentidos, um 
puramente sentimental e o outro histórico. Como 
o romance, cultivado no século xvii, nas litte- 
raturas hespanhola e ingleza, representava a exis- 
tência pelo seu lado imaginoso e phantastico, 
como typos individuaes contrastando com a 
realidade vulgar, deu-se o nome de Romantis- 
mo á exagerada sensibilidade do fim do século 
XVIII, ás tendências melancholicas e contempla- 
tivas com que era idealisada a natureza physica 
para representar a vaga anciedade moral, e ainda 
aos protestos de um fino gosto em contraposição 
com o utilitarismo preconisado pelos Economis- 
tas e com o bom senso pratico das classes bur- 
guezas. Como o romance designou as linguas 
vulgares dos povos que na Edade média continua- 
ram a cultura romana, reconhecendo esse espi- 
rito de unidade i>ela erudição histórica, o Roman- 
tismo exprimiu bellamente este movimento litte- 
rario e artistico da Edade média filiando n'essa 
época fecunda os elementos nneionaes da tradição 



FACTORES DVNAMICOS III 



de cada litteratura. Por estes dois caracteres, que 
ainda coexistem, vê-se que antes da época do Ro- 
mantismo, iniciada pela Allemanha, foi antece- 
dido pelas Litteraturas hespanhola e ingleza, que 
conservando na sua organisação social as formas 
da Edade média, mantiveram a sua originalidade 
nacional através da auctoridade e das imitações 
clássicas da Renascença. A este phenomeno cha- 
ma-se propriamente Proto-Romantismo. Reco- 
nheceu-se que uma característica fundamental 
separava a arte moderna da arte antiga: a ideali- 
sação da vida domestica em vez da vida publica, 
como obser\'(nt o génio luminoso de Comte. De 
facto na litteratura hespanhola, séculos antes da 
época romântica, tem todos os caracteres do Ro- 
mantismo obras como a Celestina /le Rojas e La- 
zarillo de D. Diego de Mendoza, o Gil Blas de 
Lesage, Gusnian d\4lfarache, Picara Justina, 
e todos os romances picarescos ; na litteratura in- 
ingleza o Tom Jones de Fielding, Clarisse Harlozv 
de Richardson, toda a obra portentosa de Shakes- 
peare. Mesmo na litteratura franceza, rompeu a 
inexpressiva banalidade do pseudo-classicismo o 
Tartufo de Molière, a Manon Lescaut, de 
Prévost, a Princesa de Cleves de Mad. de La- 
fayette, a Marianna de Marivaux, a Religiosa de 
Diderot. Reconhecia-se a necessidade de reno- 
var a expressão do sentimento pela vulgarisação 
e imitação das obras estrangeiras ; chamou-se 
exostismo a este alargamento para a renovação 
' da Litteratura franceza, tentado por Voltaire, que* 
constitue verdadeiramente uma phase proto-ro- 
mantica, do século xvttt. 



IIJ HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

A sensibilidade, que se tinha revelado na as- 
piração ás grandes reformas das leis penaes por 
Beccaria, na saniíicação dos cárceres, na propa- 
ganda por sacrifícios pessoaes para o emprego da 
vacina, essa sensibilidade imprime á linguagem 
um maior relevo nas imagens e tropos dando al- 
ma ás cousas materiaes, como se vê pelo novo es- 
tylo de Chateaubriand. Tudo conduzia para a reno- 
vação estbetica, provocada pela rigidez da aucto- 
ridade dos modelos clássicos impostos como nor- 
mas de gosto. Na transição do século xvi para 
o XV II operou-se uma reacção espontânea em 
(o(las as littcratnras modernas contra esse ex- 
cesso (la imitação clássica da Renascença sob a 
hegemonia da Itália; chamou-se a nova doutrina 
litteraria o Culteranismo (Concettismo, Buphuis- 
III o, PreciosísJiio) mas como não provinha de 
uma noção histórica ou phenomeno social, os 
modos de sentir individuaes degeneraram em uma 
intemperança de rhetorica, em agudezas de en- 
genho, conceitos frivolos, peiores do que as ba- 
nalidades pelo seu absurdo. O que houve de po- 
sitivo n'este esforço de reorganisação estbetica 
foi a polemica critica conhecida na historia pelo 
titulo de Ouerclla dos Antigos c Modernos. A 
reacção contra esses destempêros rhetoricos das 
Academias ou Tertúlias foi a causa da prolon- 
gação da influencia greco-romana sob o nome de 
classicismo francez, durante todo o século xviii 
em todas as litteraturas da Europa. 

A reacção contra o exagerado influxo da Lit- 
teratura franceza da época de Luiz xiv, partiu 
do norte, da Allemanha ; Bodmer, Lessing, Wie- 



FACTORES DYNAMICOS II3 



lanei desbravam o caminho trilhado gloriosamente 
por Goethe e Schiller. Este phenomeno, que é de- 
terminado por causas accidentaes, como a Guerra 
dos Sete annos, que aproxima os escriptores alle- 
mães do conhecimento da poesia ingleza, e a corte 
de Weimar, denominada a Athenas da Thuringe, 
sob a regência pacifica de Anna Amélia de Bruns- 
wich, onde se reúnem Goethe, Schiller, Wieland, 
Herder : Schlegel, fulgurando a Bra dos Génios; 
porém na essência, a transformação litteraria do 
Romantismo acompanhava o movimento social da 
Revolução franceza, desde o negativismo critico 
dos Encyclopedistas até á transição ou alta pro- 
visória das Cartas outorgadas. 

O Romantismo foi sempre solidário com a 
agitação politica; na Alkmanha este impulso de 
renovação litteraria era mais do que uma reacção 
contra os modelos francezes sustentados por 
Gottsched, era uma continuação d'esse sentimento 
do natural e do individualismo germânico que 
fez a Reforma, que seguindo o espirito anarchi- 
co, francez, que prepara a Revolução, iniciava a 
emancipação sentimental com o Romantismo. Les- 
sing imita Diderot no theatro : Goethe admira 
o creador do Neveu de Rameau; Wieland reela- 
bora as gestas f rancezas, como no poema Oheron; 
Schiller continua a tragedia philosophica e é pro- 
clamado cidadão francez pela Convenção; Kant 
apropria-se da doutrina philosophica de Rousseau 
dando-lhe deducção, e Fichte define a funcção 
histórica da Revolução franceza. Gervinus de- 
nomina com imparcialidade este periodo da litte- 
ratura franceza Proto-Romantismo, estabelecendo 

8 



114 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



a sua connexão com a nova época. A instabili- 
dade social pelas luctas da Revolução e pelo re- 
gimen da devastação militar da retrogradação na- 
poleonica e reacção da Santa Alliança, embara- 
çaram a Litteratura franceza de proseguir n'esta 
evolução normal, vindo á Allemanha a competir 
essa missão de crear as formas litterarias em 
relação com os organismos nacionaes e o espirito 
moderno. 

O Romantismo appresentou os dois aspectos 
sentimentalista e tradicional nas Litteraturas alle- 
mã e ingleza; o sentimento, que provoca uma 
actividade philosophica e a creação da Esthetica é 
representado na Allemanha pelos irmãos Schlegel, 
Novalis, Schleiermacher, Tieck, Schelling, syste- 
matisando Hegel a phase romântica como a ul- 
tima da sua tricotomia esthetica: a parte tradicio- 
nal, conduzindo á comprehensão scientifica da his- 
toria, quer nacional e universal, é representada por 
Herder, pelos irmãos Grimm e por Uhland. Na 
Litteratura ingleza, o sentimentalismo, que fora 
suscitado pelas falsificações ossi-ancscas de Mac- 
Pherson, toma a expressão melancholica dos idea- 
lisadores dos lagos de Cumberland e Westmore- 
land, os poetas Wordsworth, Coleridge, Southey 
e Wilson, denominados os Lakistas; dá-se a re- 
surreição das velhas Bailadas tradicionaes por 
Percy, e Walter Scott cria o romance histórico 
reconstruindo a Edade média nos seus costumes 
e crenças. Em Byron apparecia a impetuosidade 
do saxão no mais revoltado individualismo, e o 
génio do Shakesi>eare aprecia-se como a mais ge- 
nuína expressão do ethos da raça. 



FACTORES DYNAMICOS II5 



A designação de Romantismo tinha um sen- 
tido verdadeiro, obtendo por isso curso unani- 
me; Frederico Schlegel applicava-a á Poesia da 
Edade média nas suas crenças religiosas e cos- 
tumes cavai herescos, mas abrangia a noção da 
unidade de civilisação das modernas nacionali- 
dades creadas depois da dissolução do Império 
romano. Caminhava-se para esta comprehensão. 
A Egreja, na sua direcção espiritual, renegara as 
obras primas da Antiguidade greco-romana, du- 
rante o largo periodo da Edade média; a Renas- 
cença negara por seu turno a importância das 
creações da edade mediévica, copiando servil- 
mente as instituições e os productos estheticos da 
edade polytheica; vem por fim o século excepcio- 
nal, o XVIII, que tudo discutira no seu negativis- 
mo critico, desligando-se de todas as relações 
com as duas Antiguidades, a clássica e a medie- 
val, retemperando-se na fonte viva do estado na- 
tural entrevisto pela rasão pura. 

Esta falta de comprehensão da continuidade 
histórica, ou do concurso successivo viciava todas 
as concepções, desviando-as da realidade para o 
dominio da utopia, aggravando assim a agitação 
anarchica da violenta crise occidental. A supe- 
rioridade da época moderna começou pelo conhe- 
cimento progressivo da intima connexão histórica 
entre o mundo greco-romano e a éra feudal ; 
começou-se por comprehender a historia no seu 
conjuncto, como fizeram Condorcet, Kant, Her- 
der e Augusto Comte. . Investigadores espe- 
ciaes occuparam-se com sympathia tanto da eru- 
dição clássica, renovada pelo génio de Ottfried 



]l6 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Miiller, como dos monumentos medievaes, estu- 
dados por Jacob Grimm. Após a rehabilitação 
sentimental da Edade média, pelos poetas, seguiu- 
se o trabalho de erudição, que a investigou e es- 
clareceu em todas as suas creaçÕes; estudou-se o 
grande problema das origens do proletariado das 
classes servas, operarias e agricolas, conheceu-se 
a organisação do trabalho livre das Jurandas, in- 
vestigaram-se as Catacumbas de Roma e as lendas 
populares que tão claramente explicam a propa- 
gação do Christianismo no Occidente precedido 
]>elo Mithriacismc^ ; o Direito territorial das Com- 
munas foi explicado pelos documentos e pela apro- 
ximação das fontes municipaes, publicaram-se as 
Canções de Gesta, as Canções lyricas dos Tro- 
vadores e as Novellas da Tavola Redonda; a Ar- 
chitectura gótica, longo tempo desprezada, reco- 
nhece-se como uma das creaçÕes mais bellas de 
uma civilisação nova, digna de competir com as 
ordens gregas; as linguas romanisadas, chamadas 
novo-latinas, foram também analysadas no seu 
conjuhcto, e (|uando todos estes elementos precisa- 
vam systematisar-se em uma construcção synthe- 
tica, o estudo do sanskrito e do zend, dos hiero- 
glyphos egypcios e dos cuneiformes na Chaldêa, 
vieram prestar todos os materiaes para a consti- 
tuição positiva da Sociologia. Os monumentos 
litterarios dos periodos védico, avestico, brahma- 
nico e buddhico, revelando-nos a continuidade das 
fómias poéticas universaes, conduzindo a uma 
melhor comprehensão do polytheismo helleno-ita- 
lico, e simultaneamente as Gestas carlingias fa- 
ziam ])enetrar no problema da formação dos poe- 



FACTORES DYNAMICOS llj 



mas homéricos. A historia tornou-se um critério 
methodologico, considerando-se o preHminar de to- 
das as sciencias cosmologicas e sociaes. Depois de 
ter atravessado as phases reHgiosa ou emanuehca, 
liberal, nacional e ultra-romantica, os génios es- 
theticos superiores comprehenderam a Litteratura 
universalista, idealisando a Humanidade, e dan- 
do aos themas da tradição collectiva o relevo de- 
finitivo das altas individualidades. 



Successão das Litteraturas modernas, e mutua 
acção hegemónica 



O dominio romano incorporou na sua uni- 
dade politica imperial o occidente da Europa, a 
Itália, a Hespanha, as Gallias e a Bretanha; á 
actividade social e mental d'estas raças, que im- 
mediatamente deram a Roma imperadores, phi- 
losophos, poetas, rhetoricos, com que ella ainda 
dourou a sua decadência, chamou-se-lhe roma- 
nisação. O império apenas explorou estes povos 
com a sua absorvente fiscalidade, reconhecendo 
])or urgência as suas instituições consuetudiná- 
rias : simplesmente esta tolerância politica facili- 
tou a revivescência da antiga Civilisação occiden- 
tal ou ligurica, que fora apagada pelas invasões 
dos Celtas, os homens louros de grande estatura 
na sua descensão do norte da Europa. Quando 
cessara esse tremendo retrocesso, e a civiHsação 
dos Italiotas, Hispanos, Gaulezes e Bretões, revi- 
vescia com o seu caracter de o ccident alidade, a 
(jue se chamou roínanisação, outra vez se repetiu 
a invasão dos homens corpulentos e louros do 



l8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Norte, as tribus germânicas, que se apoderaram 
de todos os domínios do Império. A Edade mé- 
dia na sua phase germânica foi verdadeiramente 
de trevas sem nome e de estéril barbárie, como lhe 
chamaram Helvetius e Raynal ; mas o fundo de 
cuhura dos povos subjugados absorveu essas tri- 
bus barbaras, constituindo-se as modernas Nacio- 
nahdades da Europa. Apesar de todas as diffe- 
renças e antagonismos, um consenso tácito unifi- 
cava morahnente estes povos, diante da tradição 
do Império e do Direito romano, e pela univer- 
salidade da lingua latina aproximando pelo seu 
léxico os dialectos jx^pulares. O catholicismo, co- 
piando na sua hierarchia a organisação munici- 
pal, aproveitou-se para fundar a unidade de sen- 
timento (a christandade) apropriando-se dos ri- 
quissimos elementos tradicionaes, vestigios das 
crenças dos Scythas, Scandinavos, Ligures e Gau- 
lezes. Celtas e Germanos, com que formou as 
suas Legendas i*eligiosas. As invasões dos Ára- 
bes no sul da Europa vieram provocar n;> sé- 
culo VIII esta unificação affectiva da crença 
commum, que se elevou á manifestação mental da 
primeira Renascença, quando das escholas árabes 
reflectiram os progressos das Sciencias da Grécia, 
a Mathematica, a Astronomia e a Medicina. As- 
sim se elevou a civilisaçao da Europa á affirma- 
ção consciente da sua oeeidentalidade. 

Entre os povos do Occidente, como a Itália, 
a França meridional, a Hespanha, essa unidade 
ethnica fez-se sentir muito cedo pela tradição do 
mesmo lyrismo, cpie irradiou da Provença, de 
eguaes rudimentos épicos, como os Romanceiros, 



FACTORES DYNAMICOS IIQ 



e de costumes sociaes e domésticos, que se transfor- 
maram nas mesmas creaçÕes dramáticas. Sobre 
este fundo commum, é que sobre a Gotia refloriu a 
Romania. Assim como nos estados da Grécia 
todos os elementos tradicionaes conservados com 
intenso af ferro pelos Dorios, receberam dos Jonios 
em Athenas, o livre desenvolvimento das formas 
artisticas, ao fixarem-se as Nacionalidades da 
Edade média a estabilidade social e a idealisação 
dos costumes realisou esta passagem das tradi- 
ções para as formas conscientes de esthetica indi- 
vidual. O syncretismo das tradições das diversas 
raças produziu uma extraordinária riqueza de 
elementos poéticos. A unidade affectiva do Occi- 
clente no fim da Edade média realisou-se pela 
Poesia. 

As raças germânicas deveram a sua incorpo- 
ração na Civilisação occi dental á propaganda ca- 
tholica : os seus mytlios polytheicos perdendo o 
sentido religioso persistiram como themas poé- 
ticos, elaborando-se as Lendas em Cantilenas, que 
vieram a fonnar o cyclo germânico dos Niebe- 
Iiingcn e o cyclo franko das Gestas Carlingias. 
O génio saxão, luctando para submetter a deca- 
liida raça britonica, provoca a revivescência das 
tradições do vencido no brilhante cyclo da Ta- 
vola Redonda e do Santo Graal. As Litteraturas 
modernas, creando-se na elaboração de tão varia- 
dos elementos tradicionaes, definem nas suas ori- 
gens e progressos a successão das Nacionalidades, 
que ao constituirem-se tornaram escriptas as suas 
linguas. 

O grupo do meio Dia da Europa foi o pri- 
meiro a continuar a Civilisação occidental, inter- 



120 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



rompida depois da queda de Roma; o grupo do 
Norte só entrou na civilisação moderna no século 
XVI, desviando as energias guerreiras para o tra- 
balho constitutivo da nacionalidade allemã. Com o 
desenvolvimento da Civilisação em concurso simul- 
tâneo, foram-se accentuando as similaridades eth- 
nicas dos ramos da grande raça árica na Europa, 
e as próprias instituições sociaes hellenicas, româ- 
nicas, germânicas e mesmo slavas, foram unifi- 
cadas em typos communs derivados da constitui- 
ção primordial ariana, como o provou scientiíi- 
camente Freeman. 

A França foi, entre os novos estados, o cen- 
tro hegemónico medieval, que imprimia impulso 
e direcção a esta corrente que é hoje a civilisação 
da Europa. 

a) Litteratura da França. — A hegemonia da 
França na Edade média é uma expansão da cul- 
tura de génio gaulez, que desde o iv século, antes 
da nossa éra, se revelara pelos estudos cosmogra- 
phicos de Pytheas e Euthymenes de Marselha, e 
de Erastothenes da Narboneza, de que tanto se 
aproveitaram Strabão e os geographos gregos. 
Esse mesmo génio gaulez actuou no norte da 
Itália sobre Roma, pelo grande numero dos seus 
l)c)etas, historiadores nascidos na Gallia Cisalpi- 
na, contrabalançando-se com a influencia do meio 
(Ha ou da Grande Grécia. César foi discípulo do 
gaulez Gnyphon, Cicero foi dirigido pelo gaulez 
Roscio, Tácito discípulo de Marcus Apes. Foram 
gaulezes os creadores do theatro romano; e desde 
que a Gallia foi reduzida a província romana, um 



FACTORES DYNAMICOS 121 

novo esplendor se reflecte nos productos de génio 
romano. Junto de Trajano e de Adriano era 
exercida a influencia da cultura gauleza por Fa- 
vorinus, e junto de Marco Aurélio por Frontonio. 
Esses philosophos, politicos e oradores, pela sua 
moral encontram-se com os Stoicos, e preparam, 
pelo contacto com o génio grego, o estabeleci- 
mento de uma nova sociedade religiosa, em que 
a confraternidade gauleza se tornaria em breve o 
foco do Christianismo. São das Gallias os gran- 
des Padres da Egreja, como : Santo Ireneu, Santo 
Ambrósio, Santo Hilário, San Martinho, S. Pau- 
lino, Sulpicio Severo, Santo Honorato e Vicente 
de Lerins. Toda a sua grande cultura resistiu 
á depressão das invasões germânicas, que foram 
submettidas pela propaganda moral ao christia- 
nismo, atacando pelo apostolado religioso a Ger- 
mânia. E' em volta de Carlos Magno, que se 
reúnem os claros espiritos dedicados ao renasci- 
mento litterario, histórico e philosophico, como 
Alcuino, Walfried Strabo, Raban Maur, S. Pru- 
dencio, Hincmar, João Scot. A cultura grega, 
cujo centro fora Marselha, e a cultura romana 
mantida em Tolosa e em quasi toda a Gallia me- 
ridional, integradas pelo génio gaulez, além das 
condições mesologicas, deram á França (já incor- 
porado o elemento bárbaro) a missão civilisadora 
hegemónica sobre todos os povos da Edade média. 
Pela região da Aquitania, propagava-se á Itália 
e á Hespanlia a poesia trabadoresca da Provença 
que encontrava as mesmas tradições pre-celticas e 
os "mesmos estimulos de contacto com os Árabes. 
Pela fusão com o elemento franko, tinha a Fran- 



122 HISTORIA DA LITTERATUHA PORTUGUEZA 

ça as condições para influir directamente sobre as 
raças germânicas da Inglaterra pelos Normandos, 
e da Allemanha pela communicação das Canções 
lyricas, da propagação das suas Universidades, dos 
seus dogmas theologicos e doutrinas politicas. 

Como a nacionalidade franceza foi a primeira 
que se formou, assim mais cedo se creou a sua 
Litteratura, vindo a ser imitada por todos os ou- 
tros povos da Europa. Dizia Martin de Carrale, 
em 1275, justificando-se de escrever a historia de 
Veneza em francez: aParce que Ia langue fran- 
çaise cort parmi Ic monde, et est la plus delitahlc 
à lire et à oir qu'e nulle autre.y) Desde a Edade 
média até ao nosso século, a hegemonia da França 
foi reconhecida pelos mais elevados espi ritos, como 
Dante e Brunetto Latini e Aldobrandini de Sena. 
Observa Charriere; «formada dos restos das na- 
cionalidades feudaes a França chegou a esta ho- 
mogeneidade perfeita que faz viver um povo 
como um só homem. Que seria ella hoje se as 
nacionalidades das suas provincias se tivessem des- 
envolvido fora do centro commum com as mil bar- 
reiras levantadas i)elos interesses de cada locali- 
dade, em logar do solido feixe que reuniu em uma 
mesma acção todas as variedades da sua natu- 
reza? Foi a ella cjue a França deveu esta socia- 
bilidade tão fácil, que faz delia em todos os tem- 
pos a nação civilisadora por excellencia, e que 
lhe revela por tcxla a parte, mesmo para os orga- 
nismos mais rebeldes e antipathicos um lado in- 
telligivel e apreciável, e que reproduziu na sua 
litteratura as feições especiaes de cada provincia 
sob uma physionomia geral : em Cornei lie, a ener- 



FACTORES DYNAMICOS 123 

gia rude e ousada da raça normanda, em Mon- 
taigne e Montesquieu a vivacidade do espirito ^a^- 
cão, em Voltaire o atticismo do espirito parisien- 
se, etc. ; concerto de intelligencias semelhante á 
harmonia das cores que as facetas do prisma se- 
param, e que condensadas em um raio único for- 
mam a luz que allumia o mundo.» (Politique de 
l'Hisf., II, 408.) 

Esta fusão de raças reproduz os seus caracte- 
res nas creações do espirito: o elemento Gallo- 
roínano da França meridional, depois da primeira 
cruzada desenvolve os germens tradicionaes do 
seu Lyrismo, das alvoradas, das serenadas, das 
tenções, dos Puy ou ajuntamentos poéticos, nas 
Canções escriptas dos Trovadores occitanicos, que 
se propagam e são imitadas no norte da França, 
na Itália, Portugal e Hespanha, na Allemanha, 
onde apparécem os Minncsingers reproduzindo 
todos os artifícios da Gaya S ciência. O elemento 
Gallo-Franko que apoiou a unificação nacional da 
França, desde Carlos Magno até Joanna d'Arc, 
idealisou o grande typo imperial nas Epopêas ou 
Gestas carlingias e na lucta dos grandes vassallos 
feudaes contra a unificação monarchica. E' ex- 
traordinária e verdadeiramente assombrosa a dif- 
fusão d'esta ef florescência épica: na Allemanha, 
do século XII é traduzida a gesta de Roland/ q 
reelaborada no principio do século xiii por Stri- 
ker; Aliscans é imitado por Wolfram d'Eschen- 
bach com o titulo de VVilhelalm. Na Neerlandia 
são conhecidas as gestas de Roncesvaux, Gtiite- 
chin, Floovant, Ogier, Renand, Aiol, e os Lorrains. 
Na Scandinavia, a compilação do Karlamagna- 



124 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

Saga, abrange o Coiironcment de Charles, Doon 
de la Roche, Ogier, Aspremont, Otinel, Ron- 
cesvaux, Moniage Guillaumc. Na Inglaterra são 
conhecidos Fier abras, (Sir Ferumbras), O finei. 
Na Itália, como escreve Léon Gauthier : aRoland, 
Ogier e Renaud acham uma segunda pátria. — Na 
região lombarda, veneziana é que esta feliz po- 
pularidade teve começo, e jograes francezes ahi 
])rimeiro os cantaram.» Nos Reali di Francia, de 
Andrea da Barberini, se condensaram Fioravante, 
Beuves de Hanstonne, Bnfances de Charlemagne 
e de Roland. Sobre este cyclo gallo-franco tra- 
balharam dando-lhe forma artistica Pulei, Boiar- 
do e Ariosto, fazendo a transição para a epopêa 
histórica. Na Hespanha foi conhecida a Gesta dé 
Gerars de Viane (única de que ficou manuscripto), 
Fierabras, Historia de Carlos Magno ,c de tos 
Pares de Francia; em Portugal conheceu-se a 
gesta de Roland, os Doze Pares e a gesta de Jeaii 
de Lanson, e muitos dos themas carlingios en- 
traram na elaboração dos romances populares. O 
elemento Gallo-bretão propaga os poemas de amor 
e de aventuras^ da Tavola Redonda, do Santo 
Graal, de Tristão e Yseult, de Flores e Branca- 
flor, de Percival, de Lanceio t do Lago, de Mer- 
lin, sympathicos a todos os povos do norte a sul 
e até ao Oriente, confundindo-se com o espirito 
messiânico da Cavalleria celeste, e sustentando-se 
no gosto através da Renascença nas Novellas de 
Cavalleria escriptas na prosa das Chronicas na- 
cionaes. O elemento latino e ecclesiastico, presta 
á litteratura franceza as interessantes Lendas agio- 
logicas. os poemas de Troie la granf, de Alexan- 



FACTORES DYNAMICOS 125 



dre: as Canções latinas dos escholares e goliardos, 
os Fabliaux e as Novellas desenvoltas, as Soties e 
Farças, em que se elabora o theatro moderno. A 
cultura clássica é recebida em Paris e Tolosa, para 
onde convergem os principaes espiritos, como 
Dante, Brunetto Latini, Boccacio, Petrarcha, n'es- 
sas Universidades mães onde os alumnos se agru- 
pam por nações. 

Sem conhecer estes aspectos fundamentaes da 
Litteratura franceza não poderão ser bem apre- 
ciadas as Litteraturas românicas em quanto ao 
desdobramento similar das suas origens. Póde-se 
dizer que até ao fim do século xv a Litteratura 
franceza na evolução orgânica dos seus elementos 
tradicionaes nas formas lyrica, épica e dramá- 
tica, exerceu uma incomparável acção hegemó- 
nica. 

b) Hegemonia da Itália. — A Renascença da 
Antiguidade clássica iniciada pela Itália veiu im- 
primir uma direcção uniforme ás Litteraturas ro- 
mânicas, desviando-as do elemento orgânico e fe- 
cundo das suas tradições ; renegando a Edade 
média pela rudeza dos seus esboços litterarios, in- 
cutiu o esmero das formas pela imitação dos mo- 
delos greco-romanos. E esse culto exaltado dos 
poetas e humanistas chegou por vezes a fazer o 
syncretismo do symbolismo polytheico com os 
dogmas e representações catholicas. A Itália 
achou-se em condições especiaes para a obra da 
Renascença: nunca o conhecimento da anti- 
guidade se perdeu alli completamente. As suas 
escholas de jurisprudência eram tão reputa- 
das como as antigas de Labeão e Capitão; os 



120 HISTORIA DA LITTERATURA FORTUGUEZA 



seus monumentos e ruinas foram educando os no- 
vos génios, para os quaes quando a Itália se viu 
occupada pela Allemanha, invadida pela França, 
conquistada pela Hespanha, atraiçoada pelo Pa- 
pado, desgostados da vida publica e sem esperança 
no futuro da sua pátria, esse mundo sereno do 
passado e da arte foi um refugio, consolando-se 
na reproducção d 'esse antigo ideal que tanto os 
alentava no meio das catastrophes. Emquanto os 
exércitos francezes talavam o solo italiano, os sá- 
bios discutiam o platonismo, e os pintores e poe- 
tas, como outr'ora Archimedes, não sentiam o es- 
trépito das armas invasoras. Os que conquista- 
vam a Itália, admiravam a sua cultura intelle- 
ctual, e a Itália exercia o seu prestigio sobre o 
vencedor, tal como a Grécia subjugada pelos ro- 
manos, e mesmo Roma subsistindo apoz a sua 
rui na pelo império das Leis. A actividade espe- 
culativa era o que restava a essas altas individua- 
lidades nascidas em um paiz sem liberdade. Por 
esta actividade que se exerceu no Humanismo, 
estudando e publicando os monumentos litterarios 
scientificos e philosophicos da Grécia e de Roma, 
a Itália estava destinada, além dos seus antece- 
dentes históricos, a ser o centro dos estudos das 
lettras humanas na Renascença do século xvi, in- 
fluindo directamente na França sob Carlos vi e 
Francisco i, na Inglaterra desde Chaucer a Sha- 
kespeare, em Hespanha pelos lyricos da Eschola 
poética sevilhana, e em Portugal desde D. João 1 1 
até á suprema belleza do lyrismo de Camões. 
Assim as Litteraturas românicas foram-se reci- 
procamente influenciando, unificando-se pela sua 



FACTORES DYNAMICOS 127 



intima embora mal conhecida solidariedade. O 
que era o lyrismo italiano, o dolce stil níiovo, na 
sua belleza de forma e profundidade philoso- 
phica? O aperfeiçoamento definitivo das Can- 
ções imperfeitas dos Trovadores, a que desde 
Dante a Petrarcha, o génio italiano deu a expres- 
são amorosa com o relevo das especulações das 
escholas neo-platonicas renovadas na Itália. A 
Epopêa era o esboço das Gestas medievaes apri- 
morado pela forma pura virgiliana, deixando á 
livre phantasia a creação das situações românti- 
cas ligadas para produzirem a emoção de agra- 
dáveis surprezas. Pelo estudo da Litteratura 
grega do periodo alexandrino, que servira de 
modelo á Litteratura latina, pôde a Itália appre- 
sentar á elaboração esthetica a Epopêa histórica, 
e a Tragedia philosophica, sobre que foram mol- 
dadas as obras primas da arte moderna. Os the- 
mas novellescos dos Fabliaux perderam a forma 
metrificada, e foram redigidos em prosa, em Con- 
tos, em que se descreviam as situações da vida 
burgueza, se desenhavam os tyix>s e caracteres, e 
as peripécias imprevistas, d'onde provém por 
ampliação a nova forma das litteraturas ^ — o Ro- 
mance. Sobretudo em um povo em que a vida 
civil era sustentada por uma forte organisação e 
independência municipalista, era natural o desen- 
volvimento da forma da Novella, creada por 
Franco Saccheti, Fiorentino, Boccacio; e em que 
a forma épica das Gestas carlingias era antipa- 
thica parodiando grotescamente esses quadros da 
sociedade feudal, e chamando com desdém Ciar- 
latini aos cantores das praças, os jograes que re- 



128 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

citavam as Gestas de Carlos Magno. O prestigio 
da Itália litteraria e artistica era absoluto; em 
França vimos Carlos v 1 1 1 chamar para a sua 
corte os sábios italianos; Luiz xii^enriquece com 
as bibliothecas da Itália as livrarias francezas; 
Francisco i é educado por um pedagogo italiano, 
e inscreve-se como cidadão no Livro de Ouro de 
Veneza. Na Inglaterra, sob Henrique viu, o es- 
pirito da Renascença é-lhe communicado pela 
Itália, inspirando os lyricos Wyat e Surrey. Es- 
crevia em 1592 o critico de Puttenham, refe- 
rindo-se a estes reformadores ; «Tendo viajado 
na Itália, iniciaram-se no metro harmonioso e 
no estylo magestoso da poesia italiana.» O pru- 
rido latinista que dominou em Inglaterra na es- 
chola dos BnpJiuisfas era semelhante ao da Plêia- 
de franceza. Uma grande parte dos themas his- 
tóricos das tragedias de Shakespeare é tirado dos 
Varões ilhistrcs de Plutarcho e dos Novellistas 
italianos como Boccacio, Geraldo Cynthio, Luigi 
da Porto, Belleforest, e Bandello. 

Em Hespanha a influencia da Itália data do 
principio do século xv, quando Miccr Francisco 
Imperial tornou conhecidas as poesias de Dante. 
O Cancioneiro de Stuniga a cada pagina revela 
que foi escripto por poetas que estiveram na con- 
quista de Nápoles. Essa hegemonia litteraria im- 
põe-se no primeiro quartel do século xvi quando 
em T524 Andrea Navagero foi enviado como 
embaixador de Veneza a Carlos v. Durante seis 
mezes que esteve em Granada, encontrou-se Na- 
vagero com Boscan, e nas suas largas conversas 
sobre litteratura trouxe á observação do poeta os 



FACTORES DYNAMICOS I29 

caracteres particulares do metro endecasyllabo 
italiano pedindo que o experimentasse na metrifi- 
cação castelhana. Boscan, satisfeito com o êxito 
da tentativa, continuou a exercitar-se, mas teria 
desfallecido na sua empreza sob os rudes ataques 
dos apaixonados dos metros de redondilha, se 
Garcilasso, já então conhecido como um eminente 
lyrico, o não viesse fortalecer com a sua franca 
adhesão. A questão do emprego do verso ende- 
casyllabo foi o facto contra o qual se feriram 
aceradas pugnas embaraçando a introducçao do 
gosto italiano. Accusavam o endecasyllabo de 
não ser nacional, equiparando-o ao verso alcaico; 
mas era um verso usado pelos trovadores e por- 
tanto românico. Também depois de terem sido 
frequentadas as escholas de Itália, na primeira 
Renascença, no fim do século xv a aristocracia 
portugueza seguiu o caminho da Itália «a fim 
de se lhe formarem os costumes, serem instrui- 
dos nas boas lettras e aprenderem todas as artes 
liberaes,)) como se lê em uma carta do humanista 
Angelo Policiano a D. João ii. A Renascença 
italiana, com os seus aspectos artistico e philolo- 
gico propagou-se a Portugal influindo na grande 
época dos Quinhentistas. Deu-se aqui como na 
Hespanha, o conflicto entre a tradição medieval e 
a auctoridade clássica ou italiana. Sá de Miranda 
teve essa gloriosa iniciativa, dando-se em Camões 
a admirável conciliação dos dois espiritos, fe- 
chando a edade de ouro da Litteratura portu- 
gueza. Sá de Miranda conheceu a relação evoluti- 
\a dos esboços provençaes com as formas defini- 
tivas e bellas do petrarchismo ; era um oonisciTente 
9 



130 lilSToKI \ l>\ IJTTERATUILV PORTUGUEZA 



renovador. Camões excedeu os modelos italianos, 
dando á expressão das emoções pessoaes o relevo 
philosophico d'esse idealismo platónico que dera 
o máximo fulgor ao génio artistico da Toscana. 
A influencia italiana exerceu-se também na Ar- 
chitectura e na Pintura, mas sem apagar a fei- 
ção nacional (|ue prevalece no estylo manuelino, e 
na eschola de (iram \ asco. 

c) Hespanlia c Portugal. — As duas raças 
])eninsulares, ibcrica e hisifaua, somaticamente dif- 
fercnciadas nos seus i_\|)os. eram, pelas tendenciais 
sociológicas, ainda mais divorciadas: o ibero uni- 
fica\'a em si todos os povos adventícios, alar- 
gando o sen i)o(ler, e con formando-se com a uni- 
dade politica fosse ella imposta pelos conquista- 
dores romanos, germânicos e árabes, ou pela au- 
ctoridade religiosa da intolerância catholica em 
uma quasi theocracia ; o luso, sempre apoiado nas 
suas liberdades locaes, nas garantias municipalis- 
tas, embora se enfraquecesse pelo isolamento, ti- 
rava da pureza da sua raça a resistência, com 
cjue persistiu através de todas as invasões, que 
soffreu a Hespanha, conservando todos os seus 
caracteres ethnicos. 

Esse fundo ibérico, persistente nas populações 
bispanicas e verificável nos costumes, nas tradi- 
ções e superstições do vulgo, acbou-se syncreti- 
sado com as invasões dos Celtas, formando o 
typo mixto ou Celtiberico: tornando-se adaptável á 
cobabitação das colónias jónicas e da occupação 
romana : desnaturando-se com os abundantes ac- 
crescimentos semitas de pbenicios. carthaginezes 
e árabes ; com regressões ao typo africano branco 



ÍACTORKS DYNAMICOS I3I 

de berberes e mouros. Toda esta mistura de san- 
gues deu ao ibero vários typos somáticos, mas 
ainda mais essas contradições profundas de cara- 
cter, que confunde o heroe com o salteador, 
n'essa antithese assombrosa de D. Quixote e 
Sanclio Pansa. Essa tendência para o imperia- 
lismo ou unidade ibérica, foi-lhe suscitada pela 
unidade catholica no fim da lucta contra o im- 
]>erio mussulmano; tal é o Caskúhanismo, absor- 
vendo em si todos os estados livres e nacionali- 
dades da Hespanlia, com a extincção das suas 
esplendidas energias creadoras. A unificação na- 
cional da Hespanha, realisada somente no fim 
do século XV, foi um phenomeno laborioso, vio- 
lento e deprimente, oi^erado por interesses egoistas 
de familias dynasticas, fundindo-se Aragão com 
Castella sob Fernando e Isabel, até Philippe ii, 
que servindo-se da intolerância da Inquisição, e 
presidindo á Liga Catholica, consegue incorporar 
no Castelhanismo Portugal. Durou pouco mais 
de meio século (1580 a 1640) essa ambicionada 
unidade ibérica, regressando as duas raças ao seu 
eterno divorcio. 

As duas Litteraturas, hespanhola e portugue- 
za, encerram revelações extraordinárias do ethos 
d'estes dois povos. Sob o nome de Hespanha en- 
tende-se desde o fim do século xv a unidade po- 
litica e linguistica castelhana, tendo absorvido em 
si a Coroa de Aragão (com o Principado da 
Catalunha e reinos de Valência e Aragão), Leão, 
com as Astúrias, Galliza, reino de Navarra e pro- 

Ivincias Vascongadas; o reino de Murcia, a Ex- 
trçmadura com os quatro reinos Árabes da An- 



132 HISTORIA DA LITTÉRATURA PORTUGUEZA 

clalusia (Granada, Jaen, Córdova e Sevilha). To- 
das estas nacionalidades peninsulares estavam cas- 
telhanisadas em 1482; somente ao fim de um sé- 
culo é que pela rede dos casamentos da Casa de 
Áustria hespanhola, Philippe 11 se apoderou de 
Portugal, castelhanisado na sua aristocracia fana- 
tisada, como herdeiro dynastico. Sob o nome 
de Portugal entende-se esse fragmento da ver- 
tente Occidental dos Pyrenneos, cujo território 
era occupado pela grande raça lusonia, chamada 
a Lusitânia dos antigos, na phrase de Strabão. 

Como resistiu Portugal, a este constante es- 
forço de absorpção e incorporação castelhana? 
E' tão assombrosa a formação da nacionalidale 
portugueza, se fôr desconhecido este problema da 
raça, como é também incomprehensivel a sua re- 
sistência contra o unitarismo ibérico sem o apoio 
das suas navegações e descobrimentos. A Litte- 
ratura portugueza nasceu dos germens da tradi- 
ção da raça e do ideal da acção histórica. A com- 
prehensão sociológica dos Descobrimentos sobre 
a autonomia de Portugal, é-nos dada pelo phe- 
nomeno da perda da autonomia da Catahuiha 
sob a unidade castelhana. E' preciso relembrar 
como as trez Nacionalidades de Castella, Cata- 
lunlia e Portugal se definiram no esforço da re- 
sistência de séculos para a expulsão dos Árabes 
da Hespanha. Emquanto o elemento aristocrá- 
tico, fugindo diante da invasão dos Árabes, foi 
crear no norte da peninsula esse centro de resis- 
tência dos Galecio-Asturo-Cantabros, na extre- 
midade oriental dos Pyreneos a republica da Ca- 
talunha, isto é, as 5H12LS cidades livres faziam 



N 



FACTORES DYNAMICOS 133 

sustar as incursões sarracenas. E d'essa época 
de lucta incessante foi essa característica da Ca- 
talunha formulada por Madôz, que toda a sua 
historia se reduz ás luctas para a sua liberdade. 
Na vertente do Oeste, confessam os chronistas 
árabes que os Lusitanos, eram os mais indomá- 
veis e sempre irrequietos, nao podendo estender- 
se por causa d'elles o dominio mussulmano para o 
Norte da peninsula. 

Quando esses refugiados das Astúrias vêm á 
reconquista das cidades do sul, apoderando-se d'el- 
las pela unidade catholica a titulo de libertal-as dos 
infiéis, visam logo a restaurar a unidade imperial 
neo-gotica, isto é o absolutismo da monarchia 
germânica! As quatro Monarchias que se esta- 
beleceram nos quatro planaltos dos Pyreneos, 
Leão, Aragão, Navarra e Castella, dispendem as 
suas energias nas luctas dynasticas de unificações 
e separações, segundo esses estados eram con- 
quistados ou herdados em testamentos. A esta 
incorporação castelhana, veiu também a Catalu- 
nha por uma imprevista fatalidade; a sua auto- 
nomia assentava sobre a sua actividade econó- 
mica, exercida na navegação do Mediterrâneo. O 
descobrimento da America em 1492, deslocou 
toda a actividade para o oceano Atlântico. Sue- 
cedeu-lhe como a Veneza, na sua decadência. 
Esse facto do engrandecimento de Castella pelo 
descobrimento do novo império colonial, identi- 
ficou o sentimento da pátria com o imperialismo 
castelhano. 

Portugal teria succumbido á mesma fatalida- 
de histórica, se depois da descoberta da America, 



134 HISTORIA DA LITT^RATURA PORTUGUEZA 

não realisasse pouco depois o descobrimento do 
caminho niaritimo da índia e do Brasil. Hegel, 
na sua PhilosopJiia da Historia, explica a separa- 
ção da Hollanda da Allemanha pela sua visi- 
nhança do mar. E' também a situação de Por- 
tugal : o mar tornou-se um campo de acção e 
uma condição económica da nacionalidade. No 
seu livro De Ia Neerlandc, Alfonso Esquiros, fal- 
lando do individualismo nacional da Hollanda, 
faz-nos comprehender a independência de Portu- 
gal : ((Os povos são o que as influencias exte- 
riores os fazem ser, o que d'elles fazem a agua, 
o céo e a terra. O valor d'estas causas augmenta 
mais, quando a nação se acha collocada em con- 
dições únicas de posição, entre o continente e o 
mar. A geographia d'este povo é então o prefa- 
cio da sua historia, a origem dos seus costumes, 
das suas instituições, e do seu génio.» (Op. cit., 
I, p. 4.) Em um outro estudo ex[)endemos sobre 
este cyclo das grandes navegações, desde Zarco 
a Vasco da Gama, que tornaram Portugal o ini- 
ciador da Civilisação moderna : «A vida histórica 
de Portugal coincide com o periodo das expe- 
(hções e (lescol)ertas maritimas — quando com- 
prehendemos a nossa situação junto do mar, re- 
agindo assim contra a pressão do continente. Fo- 
mos um povo de mareantes; o sentimento d'esta 
phase da vida nacional, as incertezas da navega- 
ção, o acaso das descobertas, a consciência da 
nossa força e riqueza, a distancia fazendo com- 
prehender \)t\a. saudade o ideal da pátria, tudo 
isto se reflectiu na nossa pequena litteratura, con- 
vergindo para produzir uma obra única, em que 



1'ACTORKS DYNAMICOS I35 



mais accentuadamente se determina este caracter, 
os Lusíadas, que, apesar da sua origem individual 
satisfaz as exigências moraes da nacionalidade. 
Extingam-se todos os vestigios da civili sacão, to- 
dos os monumentos, os sitios que occupamos, e o 
espirito superior irá recompor a vida histórica dos 
portuguezes pelos Lusíadas, como o fizeram já o 
naturalista Humboldt, Schlegel e Quinet, e com- 
prehenderá a sua alma aventureira nas Relações 
dos naufrágios, nos romances tradicionaes e na 
architectura.» (Theor. da híst. litt., p. 23). 

A autonomia das duas raças, ibérica e lusa, ma- 
nifes4ou-se ainda mais nitidamente n'esta grande 
crise, em que o commercio passou do Mediterrâ- 
neo para os estados occidentaes com a navegação 
do Atlântico. Da actividade dos hespanhoes n'este 
periodo escreve Heeren, no manual histórico do 
Systeuia politico dos Estados da Europa, desde a 
descoberta das duas índias: «Como o novo mun- 
do não lhes appresentou logo outros productos 
de grande importância, o ouro e a prata, para 
desgraça dos naturaes dos territórios, tornaram- 
se o objectivo único dos estabelecimentos que em- 
])rehenderam ahi fundar.» Contrapõe-lhes os es- 
tabelecimentos coloniaes dos Portuguezes: «A 
maneira como foram feitos os descobrimentos dos 
Portuguezes, e a natureza das terras por elles des- 
cobertas, tornaram os seus estabelecimentos colo- 
niaes essencialuicnte differentes dos dos hespa- 
nhoes. Como tinham chegado ás índias por uma 
marcha de progressos successivos e regulares, as 
suas ideias em muitos pontos tiveram tempo de 
se formarem, e a natureza do paiz não lhes dera 



136 HISTORIA DA I.ITTERATURA POFTUGUEZA 



ensejo para estabelecer ahi colónias para explo- 
ração de minas, mas unicamente feitorias de 
commercio, — não formaram grandes possessões, 
mas estabeleceram-se solidamente sobre alguns 
pontos principaes, próprios para as suas relações 
mercantis.» 

Essas riquezas fabulosas do México e Peru, 
esses thezouros phantasticos hallucinaram os fidal- 
gos, cuja disciplina de guerra tinha terminado 
com a conquista de Granada, e o povo perdera a 
noção da riqueza produzida pelo trabalho livre. 
Dá-se a flagrante dissolução dos costumes, e a 
repressão religiosa da Inquisição servindo de po- 
licia do estado germanisado. Os grandes génios 
da Litteratura que dão todo o brilhantismo á lín- 
gua castelhana, pertencem aos focos nacionaes 
apagados, á Galliza, a Aragão, á Andalusia, dando 
a illusão aos escriptores reaccionários, q^ue esse 
esplendor foi devido ao influxo da Casa de Áus- 
tria! Mas esse esplendor em breve se transfor- 
mou em um espirito sarcástico, de quem não tem 
a fé patriótica. Os velhos Romances tradicionaes, 
a mais pura expressão do génio épico da Hes- 
panha, são parodiados nas Xacaras ou narrativas 
dos crimes dos Guapos e Temeroncs nos feitos 
audaciosos dos contrabandistas. O romance no- 
vellesco, idealisando a vida domestica, foge das 
situações naturaes para a aberração moral e psy- 
chologica, na forma picaresca da Lozana Anda- 
lusa, de Gusman d'Alfarrache, da Picara-Jusiina. 
de Marcos de Obregon, do Lazarillo. A própria 
Novella de Cavalleria, que tanto apaixonava o 
génio hespanhol, por este intuito de parodia do 



FACTORES DYNAMICOS I3; 

espirito em revolta, é elaborada por um sarcasmo 
sincero, como no Dom Quixote, e na simulação 
. de Lupercio Argensola (Avelaneda). A falta de 
liberdade civil e politica, aggravada pela censura 
ecclesiastica das obras escriptas, foi compensada 
pela paixão do theatro, que não pôde ser elimina- 
do. Escreveu-se para a scena hespanhola, para 
servir esta avidez do vulgo. Os tliemas dos anti- 
gos Romances heróicos foram passados da forma 
narrativa para a acção dramática, dando logar á 
creação esthetica da Comedia famosa, de capa 
e espada. Tornou-se fácil essa transformação, em 
que se mantinha o verso octonario assonantado 
dos velhos romances, em três jornadas ou actos, 
com enredo duplo, sendo um baseado no ponto de 
honra e outro no contraste em um typo popular. 
Da multiplicidade dos themas dos Romances pro- 
veiu a infinidade das Comedias famosas com que 
a Litteratura hespanhola exerceu por sua vez a 
hegemonia nas litteraturas franceza, italiana e in- 
gleza. Basta notar como Corneille e Molière sou- 
beram elevar a Comedia famosa á altura das 
perfeitas tragedias e da comedia de caracter, to- 
mando esses typos hespanhoes do Cid e de Don 
Juan. A mesma hegemonia é exercida pela No- 

tvella picaresca, estimulando o génio gaulez como 
no Gil BI as de Santillana, o Diabo Coxo, o Bacha- 
rel de Salamanca. O apagamento do génio hes- 
panhol no século xvi foi a consequência irrefra- 
gavel do seu absorvente e material castelhanismo. 

Portugal. — Ao passo que as outras litteratu- 
ras liispanicas, como a galleziana, a aragonesa, a 



1^8 HISTORIA DA MTTERATURA PORTUGUEZA 



valenciana e catalan se extinguiam com a absor- 
pção das suas nacionalidades, desde cjue a Terra 
Portucalense se constituiu na Quinta Monarchia, o 
seu individualismo ethnico fortaleceu-se pelo des- 
envolvimento da lingua portugueza na creação de 
uma bella Litteratura. E' na raça lusitana (Por- 
tugal e Galliza) que se revela o génio lyrico tro- 
badoresco, influindo nas outras cortes peninsu- 
lares, como ainda no século xv o reconheceu o 
Marquez de Santilhana, celebrado poeta caste- 
lhano. Na Corte de Dom Diniz, onde eram aco- 
lhidos todos os jograes, segreis e trovadores ara- 
gonezes, valencianos, castelhanos e gallegos, a ly- 
rica teve tal desenvolvimento, que n'essa época 
este centro de cultura aristocrática exerceu uma 
acção hegemónica em todas as outras Cortes hes- 
panholas em que se elaboravam as novas littera- 
turas. Na evolução do gosto provençalesco, de- 
pois da morte do rei D. Diniz, prevaleceu o gosto 
pelos Lais bretãos; em Portugal esses Lais nar- 
rativos receberam a forma em prosa, ampliada na 
Novella do Amadis de Gania, o typo primário do 
género da Novella de Cavalleria. Foi essa a obra 
com que o génio portuguez, não obliterado sob a 
crusta rhetorica da amplificação castelhana, exer- 
ceu um influxo hegemónico em todas as littera- 
turas modernas, que tanto a imitaram e desen- 
volveram. No século XVI, quando a cultura ix)r- 
tugueza se amoldou aos cânones clássicos impos- 
tos pelos eruditos da Renascença, os Humanistas 
portuguezes professaram largamente nas Escho- 
las da Itália, e em França os Gouvêas, susten- 
tando a disciplina pedagógica em Paris e Bor- 



ÍACTORES DYNAMICOS I39 



déos, foram os mestres de Montaigne, de Rabe- 
lais, de Ignacio de Loyola, de Calvino, e tantos 
(Hitros vultos do grandioso século. E no esforço 
para crear-se a Epopêa moderna, digna de con- 
trapôr-se ás epopêas homéricas e virgiliana, so- 
mente o génio portuguez soube descobrir a ver- 
dadeira Tradição épica occidental das rhapsodias 
atlânticas creando sobre o mais decisivo facto da 
historia moderna a Epopêa dos Lusíadas. 

Épocas históricas da Litteratura 
portugueza 

Da marcha completa da Edade média e das cri- 
ses sociaes e politicas da nacionalidade tiram-se os 
tópicos com que se caracterisam de um modo ni- 
tido as modificações d'esta litteratura. Pela filia- 
ção histórica reconhece-se immediatamente o que 
a Litteratura portugueza recebeu das outras litte- 
raturas românicas, e por que formas influiu nas 
mesmas litteraturas embora mais fecundas, comple- 
tando assim o quadro da sua mutua solidariedade. 

PRIMEIRA ÉPOCA: Edadk média.— 
Preponderância dos elementos tradicionaes sob o 
influxo dos esboços estheticos franceses; começo 
da transição para o estudo da Antiguidade clás- 
sica. 

i.o Período. (Século xii a xiv.) — Predo- 
mina o Lyrismo trobadoresco em todas as cortes 
europêas, e essa corrente propaga-se a Portugal, 
primeiramente, acordando os latentes germens po- 



140 HISTORIA DA LITTIÍRATURA PORTUGUEZA 



pulares, depois pelas relações da corte portugueza 
com a de Leão, á qual convergiam os trovadores 
italianos, como Sordello e Bonifácio Calvo, refe- 
ridos e imitados nos nossos Cancioneiros; e por 
fim, pela emigração de alguns fidalgos portugue- 
zes, que acompanharam D. Affonso iii, quando 
Conde de Bolonha, durante a sua permanência na 
corte de S. Luiz, que era então o meio activo da 
imitação da poesia provençalesca modificada pelo 
norte da França. 

Uma phase nova de desenvolvimento lyrico 
começa com o rei D. Diniz, que imita directa- 
mente a poética provençal, elaborando ao mesmo 
tempo as formas tradicionaes populares dos Can- 
tares de amigo, das Serranas e Dizeres gallezia- 
nos. Por ultimo, a poesia provençalesca decae 
do gosto da corte, sendo preferidos os Lais bre- 
tãos, que pelo seu desenvolvimento narrativo le- 
varam á creação da Novella em prosa do Amadis 
de Gaida. Os Lais narrativos tinham dado the- 
ma aos poemas gallo-bretãos de Tristão e de Flo- 
res e Brancaflor, muito lidos na corte portugueza, 
(|ue também infiuia na corte castelhana de Affon- 
so XI, depois da batalha do Salado. 

Na grande época da primeira Renascença, re- 
liectiu-se em Portugal a cultura das Escholas de 
Paris, onde iam estudar os cónegos de Santa 
Cruz de Coimbra. Figuram n'essa ép)oca os gran- 
des luminares Pedro Hispano, cujas Siunmulas 
lógicas dominaram até ao século xvi em todas as 
escholas da Europa ; o mystico S. António de Pá- 
dua, e Frei Gil de Santarém, que antes de entrar 
na ordem dominicana se entregou aos estudos 



FACTORES DYNAMICOS I4I 

médicos. A cultura latina coadjuva o desenvol- 
vimento da independência do Poder real; cria-se 
a Universidade de Lisboa-Coimbra, e a lingua 
portugueza, que se mostra na sua belleza nas nar- 
rativas episódicas dos Nobiliários, enriquece-se 
por um grande numero de traducções do latim 
da Biblia, dos Santos Padres e tratados dos Mo- 
ralistas. 

2.0 Periodo. (Século xv.) — Não se continua 
o desenvolvimento da Poesia provençal, como suc- 
cedeu na Itália, com Petrarcha, e na Hespanha já 
secundariamente por Micer Imperial. Quando sob 
a Regência do Infante D. Pedro se reconciliam 
as Cortes de Portugal e Castella, o lyrismo cas- 
telhano da eschola de Juan de Mena é imitado 
l)elo proí)rio Infante D. Pedro, por seu filho o 
Condestavel de Portugal, e em Portugal são imi- 
tadas e |X)r vezes traduzidas as poesias do Arci- 
preste de Hita, do Marquez de Santilhana, de 
Jorge Manrique e de Hernan Perez de Gusman, 
predominando essa fascinação do castelhanismo 
no Cancioneiro geral de Garcia de Resende. Ain- 
da a influencia gallo-bretã se manifesta na pre- 
dilecção das Novellas da Tavola- Redonda, na De- 
manda do Santo Graal, no Joseph ah Arimathêa, 
e em outras que o rei D. Duarte colligira na sua 
magnifica bibliotheca. A predilecção pelas obras da 
antiguidade clássica, já se revela em obras com- 
l^iladas ou traduzidas de livros latinos, como Sé- 
neca, Tito-Livio, também colligidas na biblio- 
theca do rei D. Duarte. A Historia recebe a sua 
forma litteraria sob o influxo do poder real, nos 



142 HISTORIA i)A 1.1TTEKATUÍL\ PORTUGUKZA 

chronistas Fernão Lopes, Gomes Eannes de Azu- 
rara e Ruy de Pina, através das tentativas da 
redacção latina definitiva da historia nacional. In- 
troduz-se a Imprensa ; a mocidade portugueza vae 
a Itália frequentar as escholas dos humanistas da 
Renascença. Começa a Era dos grandes Desco- 
brimentos. 

SEGUNDA ÉPOCA: Renascença. —Prí*- 

domína a iniitaçCw da Antiguidade clássica; c re- 
negada a Bdadc média, chegando-se ao esqueci- 
mento das Tradições nacionacs. 

i.o Período: Os Quinhentistas (Século xvi.) 
— Corresponde ao periodo de maior actividade 
da nação portugueza ; a elaboração litteraria dos 
Quinhentistas é simultânea com as grandes nave- 
gações e descobrimentos da índia e Brasil. Cons- 
titue-se a Grammatica da Lingua portugueza por 
Fernão de Oliveira e João de Barros: funda-se (^ 
theatro nacional, por Gil Vicente, sobre as for- 
mas hieráticas populares; a poesia lyrica mantém 
a forma medieval a par do Dolce stil nuovo da 
Itália, propagado por Sá de Miranda, n'esse con- 
lUcto dos Poetas da medida velha com os Petrar- 
chistas. A poesia épica, esboçada na outava cas- 
telhana em endechas, recebe a forma italiana da 
ottava rima de Ariosto moldada sobre o poema 
virgiliano por Camões. A litteratura portugueza 
do século XVI deriva d'estes três poetas por uma 
relação muito clara. Gil Vicente é o que repre- 
senta de um modo completo e exclusivo as formas 
da litteratura medieval : é imitado por António 



FACTORKS DYNAMICOS I43 

Prestes, por António Ribeiro Chiado e até por 
Camões e outros na fornia do AíUo. Sá de Mi- 
randa oppÕe ás suas primeiras composições em 
rcdondilhas, os novos cnãccasyllahos, com que 
introduz a eschola italiana em Portugal, sendo 
imitado pelo Dr. António Ferreira, Pedro de An- 
drade Caminha, Diogo Bernardes, D. Manoel de 
Portugal, Falcão de Resende, Francisco de Sá de 
Menezes. Os seus versos em rcdondilhas, é que 
prevaleceram na imitação do século xvii; verda- 
deiramente a medida velha tinha a sustentar-lhe 
o infiuxo as Éclogas apaixonadas de Bernardim 
Ribeiro e de Christovam Falcão, e a predilecção 
da corte de Dom João iii, no gosto feminino. 
Camões, pela superioridade do seu génio, funde, 
estes dois elementos medieval e clássico nos Lu- 
síadas, da mesma forma que Shakespeare em In- 
glaterra; os seus versos lyricos foram largamente 
plagiados, nascendo também depois do seu im- 
pulso todas as Epopêas históricas. A justa rela- 
ção entre os elementos medievaes e clássicos foi 
quebrada pelo predominio dos Jesuitas no ensino 
publico, em Coimbra, em que a Universidade fica 
dependente do Collegio das Artes, e pela censura 
dos livros estabelecidos pela execrando cardeal 
D. Henrique. 

O castclhanismo, que tanto predominou na 
corte portugueza, pelos casamentos dos reis 
D. Manoel, D. João me príncipe D. João '(pae 
de D. Sebastião) apparece escripto por todos os 
poetas quinhentistas, que transigiam com a moda 
palaciana, mesmo apesar do seu consciente nacio- 
nalismo, como Gil Vicente e Camões. Mas ope- 



144 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

rava-se um esforço para manter o uso da lingna 
portugueza na litteratura, como o proclama Fer- 
reira na sua Carta iii, accusando o esquecimento 
e desamor dos que mal o exercitavam. A bella 
prosa 'portugueza dá forma á Historia, cultiva- 
da por João de Barros, Castanheda, Damião 
de Góes e Diogo do Couto, uns perseguidos, ou- 
tros pobres, e todos elles sem a liberdade para 
exercerem a critica. Ao fim de trinta annos o en- 
sino jesuitico exerceu nas novas gerações uma 
forte desnacionalisação , que augmentando o in- 
fluxo castelhano, servido pela reacção catholica, 
de que era chefe Philippe 1 1 , levou ao espectá- 
culo vergonhoso de os próprios Governadores do 
Reino em 1580 reconhecerem o direito do De- 
1 nónio do Meio dia para incorporar Portugal na 
unidade ibérica. . 

2.0 Periodo: Crdteranistas (Século xvii.) — 
Portugal não acompanha o movimento scientifico 
(|ue levou á creação das Academias na Europa. 
Sob a forte compressão catholica, estas corpora- 
ções foram exclusivamente rhetoricas, á maneira 
(las Tertúlias hespanholas. Toda a actividade dos 
])oetas dispende-se em engrandecer o reportório 
castelhano com Comedias famosas de capa e es- 
pada. No emtanto brilham Francisco Rodrigues 
Lobo^com as suas Novellas pastoraes e D. Fran- 
cisco Manoel de Mello, como ly ricos continuando 
o impulso de Sá de Miranda e de Camões. A 
Revolução de 1640 em que Portugal revindica a 
sua autonomia, como um movimento resultante do 
plano ;)olitico para a sdsão da Casa de Áustria da 



FACTORES DYNAMICOS I45 

Hespanha, não inspirou o sentimento nacional, 
apesar das numerosas Epopêas históricas seis- 
centistas. 

3.0 Período: Arcadistas. (Século xviii.) — 
O que fizeram os Jurisconsultos da Edade média 
para a emancipação da sociedade civil, continua- 
ram-no os Litteratos, no século excepcional, pro- 
curando pelas emoções artisticas proclamar a li- 
berdade politica. Em Portugal os escriptores es- 
tavam totalmente separados do povo, isto é, da 
nação, confinados nas suas Academias (Arcádia 
lusitana, Nova Arcádia, Academia dos Occultos, 
Academia de Humanidades, etc), imitando des- 
enfadadamente Horácio e promovendo o gosto da 
cultura latina e a auctoridade dos modelos qui- 
nhentistas, contra qualquer liberdade de elocução 
da phantasia culteranista. N'esta inconsciência 
da missão das lettras, acceitavam o despotismo 
como uma ventura do governo paternal, e todas 
as suas idealisaçÕes eram panegyricos régios das 
mais emphaticas e inexpressivas exagerações. 
Destacam-se n'estes numerosos poetas, os quatro 
• superiores arcadistas Garção, Diniz, Quita e Ma- 
noel de Figueiredo. O génio lyrico irrompe nos 
])oetas portuguezes nascidos no Brasil ; e as ideias 
revolucionarias do século xviii, apparecem nos 
versos de José Anastácio da Cunha e de Bocage, 
que por isso se viram nas garras da Inquisição. 
O espirito scientifico do século entra em Portugal, 
pela inciativa do Duque de Lafões e de Corrêa 
da Serra, fundando em 1779 a Academia das 
Sciencias de Lisboa, chegando-se ahi a lêr o Elogio 
10 



146 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



(le D'Alembert. Por essa obra se operou a fe- 
cunda tentativa do resurgimento de Portugal, re- 
lacionando-se este paiz com o movimento scien- 

tifico europeu. 

TERCEIRA ÉPOCA: Romantismo. — /^í?- 

-('rcrscciícia das Tradições nacionacs pela idealisa- 
çâo e rehabilifaçào da Bdade média, reconhecendo 
a solidariedade histórica da Antiguidade clás- 
sica. 

O contacto (le Portugal com a civilisação, es- 
tabeleceu-se depois de um terrivel cerco da In- 
tendência geral da Policia, em 181 7, quando fu- 
gindo ao canibalismo de Reresford, se refugia- 
ram em França o Morgado de Matheus, Masca- 
renhas Neto, Félix de Avellar Brotero, Domingos 
António Sequeira, Domingos Bomtempo, e ou- 
tros espiritos cultos subtrahindo-se á perseguição 
contra os inculpados de jacobinos. Sob a pres- 
são do governo militar de Beresford mantido em 
Portugal pelo gabinete conservador inglez, rom- 
peu a Revolução de 1820, em que se manifestou 
a força e a cultura da classe média. Todas as 
energias da nação foram acordadas, iniciadas to- 
das as reformas da sociedade moderna nas suas 
Constituintes; é n'esse movimento, que surge o 
génio de Garrett, cuja obra seria a própria nacio- 
nalidade revivescendo. Pela reacção do absolu- 
tismo apostólico servido por Dom João vi, c ras- 
gada a Constituição de 1822, e começa em 1823 
a segunda emigração, seguindo-se a de 1824, e a 
de 1828 deix)is de abolida a Carta outorgada de 



FACTORES DYNAMICOS I47 



1826, fugindo aos cárceres e forcas miguelinas. 
Assim se viu o espirito portuguez forçado a pòr- 
s€ em contacto com os progressos intellectuaes e 
artisticos da Europa. Depois do triumpho da 
causa liberal da transição ingleza, o regresso dos 
emigrados fez-se sentir na Litteratura, iniciando 
as normas do gosto romântico. Pela primeira vez, 
depois da época dos Quinhentistas, a Litteratura 
se ligou á elaboração das lendas nacionaes e nas- 
ceu o interesse pela poesia das tradições popula- 
res. Tal foi a missão de Garrett ensaiando todas 
as formas litterarias, lyricas, épicas e dramáticas, 
e realisando o mais bello estylo da prosa portu- 
gueza; Herculano, reconhecendo-se mais erudito 
do que artista, n'esta missão considerava-se jun- 
to de Garrett como Thierry junto de Victor Hugo. 
A época constitucional-parlamentar surgiu fecun- 
da; as ambições politicas absorveram todos os 
talentos, que era preciso corromper em pró da 
simulação liberal, e a Litteratura cahiu em uma 
symptomatica innanidade, n'essa estéril phase do 
Ultra-Romantismo, contra a qual reagiu indisci- 
plinadamente a chamada Bschola de Coimbra, i 



I ^^A litteratura portugueza, no seu conjuncto, tem 
uma physionomia á parte; posto que ella tenha por vezes 
imitado as litteraturas visinhas, por seu turno em certas 
épocas exerceu certa influencia sobre estas litteraturas. D'a- 
hi a importância que ella tem na historia geral. O caracter 
essencial da litteratura portugueza original, é que é lyrica, 
inteiramente penetrada de doçura elegíaca, e de sentimen- 
talidade enthusiasta. Em portuguez é que escreveram as 
Canções de amor não só os Portuguezes e os Gallegos, mas 
os poetas de toda a Hespanha, durante a primeira época 
da Litteratura. De Portugal é que proveiu o protot3rpo dos 



148 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



d) Inglaterra e Allenianha. — Resta-nos o 
grupo das Litteraturas do Norte nas suas rela- 
ções com as Litteraturas meridionaes ou româ- 
nicas; sem o conhecimento d'estas relações não 
se avalia a acção reflexa exercida pelo Roman- 
tismo. Ainda aqui a França exerce a sua acção 
hegemónica; assim como os dialectos da França 
meridional, do Languedoc, da Provença, Delphi- 
nado, Leonez, Auvergne, Limousin e Gasconha 
pela latinisação facilitavam a communicação com 
o Occidente europeu, também os dialectos da 
França septentrional, como o normando, o pi- 
cardo, o flamengo e o wallon tornavam a França 
communicavel a todos os povos que fallassem 
qualquer dialecto teutonico. A primeira influencia 
da França exerceu-se na civilisír;ro da Inglaterra 
pela conquista normanda: ao passo que Guilher- 
me o Bastardo promulgava as suas leis em fran- 
cez, ordenando que n'esta lingua se fizessem as 
rezas e os sermões, em França somente sob Fran- 
cisco I é que os actos judiciários deixaram de 
ser escriptos em latim. A lingua ingleza consti- 
tuiu-se sobre um "fundo anglo-saxão pelo vocabu- 
lário franko-nomiando, que era a linguagem da 
Corte e do governo, f aliada durante três séculos, 



heroes dos romances de cavalleria em prosa, o virtuoso 
Amadis. Os primeiros modelos do romance pastoral, taes 
como a Diana de Monte-Mór são portuguezes. -- Bastan- 
tes escriptores portuguezes, que se serviram da lingua de 
Cervantes, contribuíram para enriquecer-se o theatro e o 
romance castelhano.* 

D. Carolina Michaélis, La grande Bncyclopedie moder- 
ne, vb.° Portugal. 



FACTORE^S DYNAMICOS 149 

mesmo depois dos reis de Inglaterra terem per- 
dido a Normandia. Os alumnos de Oxford, ainda 
em 1328 eram obrigados a f aliarem latim ou fran- 
cez. O emprego da lingua ingleza nas escholas 
(1350) e nos actos officiaes (1362) coadjuvou a 
independência da nação ingleza nas suas luctas 
contra a França. Na litteratura preponderam 
estas duas correntes, a normanda, que representa 
o elemento latino ou clássico, e a anglo-saxã, con- 
servadora das tradições germânicas e medievaes. 
O vigor da nacionalidade ingleza affirmava- 
se no concurso de todas as suas energias sociaes; 
a própria dissidência religiosa, sob Henrique vi 11 
separando a Inglaterra da auctor idade de Roma, 
não se limitou á polemica theologica, foi a con- 
sciência nacional manifestando o seu individua- 
lismo de raça ; por que o Protestantismo foi na 
essência um abalo germânico sob a pressão ro- 
mana. Representante d'este momento histórico, 
Shakespeare- cria a tragedia moderna, na qual 
synthetisa o grande quadro de uma civilisação que 
decae em uma ruina inevitável e outra que surge 
imponente pelas suas energias sociaes. As trage- 
dias idealisando os vultos históricos de Roma, 
como César e Coriolano, e as que vivificam os reis 
de Inglaterra, encerram a lição profunda d'este 
impressionante contraste. Fora da Inglaterra 
Shakespeare, pelo seu extremo nacionalismo, não 
podia ser comprehendido senão em uma época re- 
mota, em que o espirito universal soubesse apre- 
ciar as suas revelações do drama subjectivo dos 
caracteres e estados de consciência. Foi por isso 
que a comprehensão de Shakespeare, a sua reha- 



150 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTITr.UKZA 



bilitação estlietica moderna definiu iim dos mais 
nitidos aspectos do Romantismo. 

Mas a acção hegemónica da Litteratura in- 
gleza sobre as litteraturas no secnlo xvii não foi 
exercida pela obra d'aquelle génio incomparável, 
e incomprehendido; escriptores burguezes, absor- 
vidos nos conflictos da concorrência social, in- 
dustriaes e magistrados, fazendo d 'essas situações 
vulgares da vida domestica quadros emocionantes, 
crearam a forma do Romance moderno, em que 
a magestade da Epopêa ou a fatalidade tremenda 
da Tragedia antiga ficam abaixo das collisÕes so- 
ciaes e moraes em que figuram typos anonymos, 
até ao momento indi ff crentes para toda a gente. 
Não eram eruditos os creadores do Romance 
moderno : eram espiritos temperados pela dura 
realidade da vida, que a sabiam representar nas 
suas fatidicas cruezas : Daniel de Foè, Fielding, 
Smollett, Richardson, Goldsmith, e ainda Swift 
e Sterne, criam maravilhas em extraordiná- 
rios Romances lidos e imitados em todas as litte- 
raturas. O Rohinson Crusoc de Foè, é a i(hali- 
sação da lucta do homem isolado diante da natu- 
reza, cujo realismo lhe foi suscitado pelo caso 
'do marinheiro escos^ez Selkirk; o Tom Joucs de 
Fielding, é o variadissimo cjuadro da vida acci- 
dentada de um filho natural. N'esses romances 
de Smollett, Rodcnck Randoii, Humphry Clin- 
kcr, nos de Richardson, como Panuia, Clarisse 
Harlow e Sir Charles Grandisson, a minuciosi- 
dade descriptiva do meio e das circumstancias. 
que deviam produzir o enfado, chegam a repre- 
sentar tão viva a realidade, que a acção se torna 



FACTORES DYNAMICOS I5I 



de um interesse invencível. Por isso dizia Di- 
derot, que se estivesse em um cárcere ou no exilio, 
bastavam trez livros para lhe occuparem o espi- 
rito: Homero, a Biblia e Clarisse Harlow. Goe- 
the, com o seu poder esthetico, realisou no poema 
Herman e Dorothea esta transformação de uma 
situação vulgar da vida popular em uma impressio- 
nante Epopêa. Os Romances inglezes foram tra- 
duzidos, e alguns ainda, passados dois séculos, 
exercem uma intensa fascinação. Além da hege- 
monia da litteratura ' ingleza, no século xvii, os 
seus escriptores fizeram valer a sua acção social, 
ascendendo á intervenção na vida publica; era um 
esboço do poder espiritual, que ainda não está 
normalisado. Pôde também considerar-se como 
expressão d'esse influxo hegemónico, a creação 
das Revistas, de que Daniel de Foè foi um dos 
iniciadores. Pelo seu caracter inteiramente na- 
cional, a Litteratura ingleza foi acordar no génio 
germânico o sentimento individualista da raça, — 
dando-se o assombroso phenomeno da creação da 
Litteratura allemã com obras primas verdadeira- 
mente geniaes, iniciando a época do Romantismo. 
Pelo catholicismo e pelas Universidades, a 
Allemanha recebeu a cultura greco-romana, quan- 
do o Humanismo obedecia ao movimento do Pro- 
testantismo, não podendo o prestigio da auctori- 
dade clássica abafar o individualismo germânico 
que se revelava no sentimento da nacionalidade. 
A influencia do pseudo-classicismo francez sus- 
tentava-se pelo prestigio da. moda nas cortes abso- 
lutistas : e essa imitação deu á Allemanha uma 
série de escriptores banaes, inexpressivos, como 



152 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Opitz, Gryphius, Kley, Lohenstein, e Gottsched. 
Essa influencia deletéria vinha desde o fim da 
Guerra dos Trinta annos (1646) até aos .fins do 
século XVIII, quando, por occasião da Guerra dos 
Sete annos, á Allemanha, pela communicação com 
a poesia ingleza antiga, se lhe revelou a tradição 
germânica obliterada, o elemento latente da vigo- 
rosa Edade média. A comprehensão d'este gérmen 
levou uma geração nova a dar-lhe forma artís- 
tica, como expressão do espirito nacional. A volta 
ao passado não era um retrocesso, mas uma orien- 
tação ; foi iniciada essa nova corrente litteraria por 
Lessing, Wieland, Gleim, Haller, Mathisson, Voss 
e Hoelty; Goethe e Schiller deram-lhe o nome de 
Romantismo, abrindo-se para a Allemanha a Era 
dos Génios, em que figuram Herder, João Paulo 
Richter, Uhland, os Schlegel e Tieck. E' no pri- 
meiro quartel do século xix, que a Allemanha 
pela sua litteratura exerceu nas litteraturas meri- 
dionaes a sua hegemonia, pelo novo gosto e dis- 
ciplina critica do Romantismo. Deram-se as fortes 
luctas doutrinarias entre Clássicos e Românticos; 
mas o problema foi complicado pelo antagonismo 
politico entre a reacção do partido catholico-feu- 
dal e o negativismo revolucionário, que se deba- 
tiam na transição ou alta provisória das Cartas 
outorgadas. Mas o que era o Romantismo? Dis- 
se-o Stendhal com uma clara simplicidade: «Eis 
acfui a theoria do Romantismo: é preciso que cada 
povo tenha a sua litteratura própria e modelada 
sobre o seu caracter particular, como cada um de 
nós traz o fato talhado para o seu corpo.» Não 
basta o sentimento nacional no seu exclusivismo. 



FACTORES DYNAMICOS I53 



é preciso dar-lhe o relevo da humanidade, para 
que uma litteratura passe além das fronteiras na- 
cionaes e das edades; não por simples exotismo, 
mas pela consciência philosophica da solidarie- 
dade humana. A renovação dos estudos da His- 
toria, e a creação da philosophia da Arte, ou a 
Esthetica, em que a Allemanha foi uma iniciadora, 
vieram completar esta hegemonia litteraria, cuja 
direcção final presentiu Goethe na phase univer- 
salista das litteraturas modernas, que Edgar Qui- 
net definiu esplendidamente : «Racine, Molière e 
Shakespeare, Voltaire e Goethe, Corneille e Cal- 
deron são irmãos. E' preciso elevar, ampliar as 
nossas theorias, para que haja ahi logar para to- 
dos... — Dominando as rivalidades, as inimizades, 
as antipathias dos climas, dos tempos, dos loga- 
res, aspiremos ao espirito universalmente uno, 
que está implícito nas obras inspiradas de cada 
povo. Até hoje o género humano esteve em guerra 
comsigo mesmo, e n'estas regiões supremas da 
poesia, em que parece deveria reinar a paz per- 
petua, ahi foi o conflicto mais obstinado. — Se a 
época em que vivemos tem alguma valia, será 
seguramente por que ella acabará de pôr em plena 
luz esta unidade do génio dos modernos. Em- 
quanto a critica continuava em tudo dividir, as 
obras, mais intelligentes, aproximavam já os ins- 
ti netos dos povos.» Por seu turno a critica tor- 
nou-se philosophica, alargando a comprehensao 
das litteraturas : relacionando-as com a sociedade, 
de que ellas são a expressão (Villemain) ; recom- 
pondo por ellas a psychologia do temperamento 
individual, cuja vida vale tanto ou mais do que a 



154 HISTORIA DA LlTTERATUKA PORTUGUEZA 

ol)ra de arte (Sainte Beuve) ; e determinando por 
ellas o fiicio em que actuam as grandes correntes 
da civilisaçõo (Taine). Tudo converge para a in- 
tegração actual das bases da critica na historia 
litteraria. 



PRIMEIRA ÉPOCA 

EDA DE MÉDIA 

(Skculo XII a xv) 

i.o Período: Trovadores portuguezes 

A litteratura portugueza é um phenomeno so- 
cial simultâneo com o estabelecimento da nacio- 
nalidade ; para ser comprehendida nas suas mani- 
festações do gosto, que carecterisam as suas épo- 
cas históricas, nas creaçÕes geniaes das altas 
individualidades, é preciso conhecer as raízes 
ethnicas d'este povo, que, mantêm todas as feições 
de uma raça pura, e a sua acção de concurso na 
marcha da civnlisação humana. Formada no sé- 
culo X 1 1 com a nacionalidade, a litteratura por- 
tugueza trouxe todos os caracteres d'essa éix)ca 
fecunda do desenvolvimento das Litteraturas ro- 
mânicas : a lingua escripta exerce-se nas Canções 
subjectivas do lyrismo trobadoresco, que viera 
acordar os germens de uma poesia tradicional, e 
ao mesmo tempo o predominio da cultura latina 



156 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

ecclesiastica desviou a actividade litteraria das 
suas fontes orgânicas para as traducções de len- 
das agiologicas e erudição escholastica. Estas 
duas correntes, a tradicional e a erudita, appare- 
cem em conflicto permanente em todas as litte- 
raturas da Edade média, variando o seu predo- 
mínio conforme a vitalidade de cada povo em 
frente da auctoridade da cultura greco-romana, 
(|ue se vae restabelecendo pela civilisação mo- 
derna. Pela riqueza dos seus elementos tradicio- 
naes ou orgânicos, e pela estremada cultura se- 
nhorial e ecclesiastica, coube á França a hege- 
monia na formação de todas as litteraturas mo- 
dernas. Historicamente se verifica, que todas as 
litteraturas românicas e germânicas no seu pe- 
riodo originário, imitaram as Canções de um 
exagerado subjectivismo e de requintado artificio 
poético escriptas na lingua d'oc, que se fallava 
na parte meridional da" França. Em quanto se 
estudou esta poesia separada das suas origens po- 
pulares, a Provença apontava-se como iniciadora 
da renascença mental da Europa. Determinados 
esses germens tradicionaes, que evolucionaram na 
i:)riorida(le do desenvolvimento do lyrismo pro- 
\ençal, explica-se a sua prompta irradiação para a 
França do Norte, para a Itália, llespanha, In- 
glaterra e Allemanha, suscitando essa unita-ção ;i 
revivescência dos seus elementos nacionaes. Quan- 
to mais vigorosos fossem esses elementos trad' 
cionaes, mais rápidas e originaes seriam as mani 
festações nas outras litteraturas. Assim se obser- 
va na Litteratura portugueza: oFoi entre 1190 c 
T253, que a Arte provençal, attingindo o seu auge. 



PRIMEIRA Época: edade média 15: 



se expandiu nas Cortes directamente visinhas da 
Catalunha, Itália, Norte da França e da Allema- 
nlia, Inglaterra e Sicilia, e no nosso Portugal, 
fructi ficando em toda a parte na segunda gera- 
ção, a contar de 1275.» i Não á influencia directa 
dos trovadores ocitanicos, mas á importância que 
ligaram aos cantos populares dando-lhes forma 
litteraria, é que em Portugal floriu no meado do 
século XII essa extraordinária actividade poética. 

§1 

Influencia do sul da França ou Gallo-romana 

A zona geographica em que se iniciou esta 
elaboração poética, abrange desde o norte do Loi- 
re, passando pela ponta do lago de Genebra, da 
Sèvres niorteza para oeste, ducado da Aquitania, 
Auvergne, Rodez, Tolosa, Provença e Vienne. 
Foi justamente n'esta zona, que a raça gauleza 
ficou submettida á conquista romana; ao fixar o 
seu dominio, não se cruzava com o vencido, e dei- 
xava-lhe o livre exercicio das crenças religiosas, 
dos seus costumes e lingua, comtanto que se sub- 
mettessem ao seu systema de administração, che- 
gando no periodo imperial a fomentar o desen- 
volvimento da instituição municipal. 

O sul da França deveu á liberdade democrá- 
tica do municipalismo a conservação das suas tra- 
dições e o vigor da sua cultura. Sulpicio Severo 



1 D. Carolina Michaèlis, Cancioneiro da Ajuda, il, p. 
690. 



158 HISTORIA DA trlTTERATURA PORTUGUÊZA 



escreve nos seus Diálogos, fazendo o contraste 
(Vessa cultura meridional com a rudeza franka, 
(|uando se dirigia aos que lhe pediam que tratasse 
de Sam Martinho: «quando eu penso que sou 
gaulez, e que é a Aquifanios que eu vou fallar, 
tenho receio de of fender os seus ouvidos muito 
]>olidos com a minha linguagem rústica; vós me 
ouvireis como a um labrego cuja linguagem des- 
conhece ornatos e a emphase.» E esses que falla- 
\am a' lingua (Foc, insistiram: ((Fallae céltico, 
com tanto que seja de Martinho.» Os Aquitanios 
eram essa raça de cabellos pretos que os celtas 
encontraram na sua invasão, mas que se conser- 
vou intacta á mestiçagem n'essa região compre- 
hêndida entre os Pyreneos, o Garona e o golfo de 
Gasconha. Nas suas Memorias de Anthropologia 
escreve Paul Broca : «Tudo induz a crer, que os 
Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pre- 
tos, cujo typo se conserva quasi sem mistura en- 
tre os Bascos actuaes.» (Op. cit., i, 282.) E 
Jorge Philipps, define esta população occidental: 
«Muito mais tarde, isto é, no tempo de César, os 
Iberos possuíam ainda na Gallia a maior parte do 
território situado entre o Garona, o Oceano e os 
Pyreneos; elles se conservaram nest.^ triangulo, 
apesar da conquista dos Ligures primeiramente, c 
depois, de um inimigo terrivel, a raça céltica.» A' 
])ersistencia da raça corresponde a dos costumes; 
Belloguet, na Bfhnogema gaulesa (iti, 329) con- 
sidera as Cortes de Amor, como uma sobrevivên- 
cia do costume gaulez na intervenção da mulher 
nos negócios {mblicos : «Crêr-se-ha que a tradi- 
ção d'estas mulheres juizas e diplomatas, desço- 



PRIMEIRA RPOCA : hdade; media 159 

nhecida no norte da Gallia, nunca se extinguiu 
completamente no Meio Dia, aonde os seus tribu- 
naes, com uma differente competência, é certo, 
passaram por terem reapparecido cpiinze séculos 
mais tarde sob o nome poético de Cortes de 
Amor.)) As assembleias poéticas ou os Pity (os 
Outeiros, portuguezes) foram a persistência po- 
pular d'essa antiga instituição renovada. Os Jo- 
graes e menestréis eram os representantes dos 
antigos Bardos decahidos das suas funcções so- 
ciaes de poetas sacerdotes ; Belloguet, f aliando dos 
Bardos das cortes, observa : (cesta instituição atra- 
N^essou séculos e tornou-se uma feição caracterís- 
tica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade 
média.» (Ib., m, 335-) 

A rota, ou o instrumento de corda a que se 
acompanhava o trovador, é a croud gauleza, que 
Venâncio Fortunato denominava a Chrota britana. 
Certos cantos conservavam o seu antigo caracter, 
como a Sirvente, a sátira com que os bardos gau- 
lezes \erberavam as acções indignas. As vaca- 
ç(5es nocturnas, provocadas i>elo clima agradável 
da zona gallo-romana, motivavam as formas pro- 
vençalescas da Aiibade e Serena, as alvoradas e 
serenadas das usanças populares ; das dansas falia 
vSanto Isidoro hispalense alludindo ao canto das 
Balliinastia (BaUhiiachia dansa guerreira?) e que 
durante a Edade média apparecem nas Baylata, 
Baylia e Ballet, no sul da França, Itália e Portu- 
gal ligadas á poesia amorosa. Os cantos gaulezes 
eram exclusivamente oraes, por que uma prohibi- 
ção religiosa im|>edira de serem escriptos. Já sob 
a disciplina da Egreja catholica continuou essa 



l60 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

prohibição em vários Concílios, como o de Auxer- 
re* de 578, contra os cantares das donzellas, e as 
cantigas satiricas, dando nomes infamantes aos 
que os cantavam, taes como Joculafores (jograes) 
Minisf rales (Menestréis), Histrioncs, Mimi e Jo- 
cístae. Sob estas ' maldições é que se degradou a 
poesia popular meridional, emíim, a tradição poé- 
tica da Occidentalidade, até ao momento em que 
no século xi a estabilidade da vida burgueza fez 
brilhar essa poesia, que suscitou a imitação de 
Guilherme ix, conde de Poitiers e Duque de Aqui- 
tania (1087) apontado como o primeiro Trova- 
dor. O phenomeno da Poesia provençal foi este 
resurgimento de uma tradição apagada, que pene- 
trou nas Cortes senhoriaes e reaes, onde se des- 
envolveu como planta agreste a Canção do povo, 
cjue se tornou artística. A esse typo popular se 
referem os trovadores nas suas canções subjecti- 
vas : Guilherme de Bergadan faz uma canção em 
um son veill antic; Cercamons é considerado pelos 
outros trovadores como auctor de Pasforellas no 
gosto antigo. K como a Canção do povo era si- 
multaneamente cantada e bailada, os trovadores 
distínguiam-se não só pela arte de trovar, como de 
«cantar e bailar a la provençalesca. n Jaufre Ru- 
dal fez hons vers el ah bons sons; Peire d'Alver- 
gne fez // meillcr sons de vers; Pons de Capduel 
trobava, viulava c cantava ben; Peire Rogier 
trobava c cantava ben. Pela entrada da poesia 
trobadoresca nas cortes, e imitada por príncipes 
e reis, nem por isso esses cantores do lyrismo occi- 
tanico perderam a sua origem plebeia. D'entre 
a s^rande lista A^^'^ t^^^vadores provençaes. vinte 



PRIMEIRA KPOCA: EDADE MEDIA l'Sl 

são conhecidos como Jograes de officio, quinze 
foram burguezes dados ao commercio ou filhos de 
commerciantes ; quinze eram escribas (clercs) e 
mesteiraes; assim EHas Cairel era ourives, Qui- 
lhem Figueira alfaiate, Peire Vidal filho de um 
peliteiro, Perdigon filho de pescador, Bernard de 
Ventadour filho de um forneiro, Albert e Elias 
de Fonsalada descendentes de jograes. Póde-se 
inferir, que uma das causas que actuaram na revi- 
vescência da tradição lyrica occidental foi o des- 
afogo da vida burgueza durante a época das Cru- 
zadas. A primeira Cruzada publicada em 1095 fez 
com que a classe senhorial se ausentasse dos seus 
castellos para a conquista do Sepulchro; a esta- 
bilidade civil desenvolveu pacificamente as suas 
garantias, em um bem estar que levava a ideali- 
sar os velhos costumes. Este esplendor poético 
ou efflorescencia da Poesia provençal dava-se no 
periodo intermediário das Cruzadas : da primeira 
(1095) até á ultima (1268) é que o lyrismo occi- 
tanico se esboça litterariamente. , Como se espa- 
lhou por todas as cortes da Europa esta nova 
poesia do amor? Não foi somente pelas viagens 
aventureiras dos trovadores meridionaes, mas pelo. 
gosto que elles acordaram ligando-se interesse aos 
cantos lyricos populares em uma fecunda crise 
social. Canções lyricas, que pareciam originarias 
da Provença appresentavam similes em Itália, ria 
Galliza e Portugal, em Valência, Aragão e Cas- 
tella, taes como as Pastorellas, as Bailadas, as Ser- 
ranas e Cantares de Amigo. Extraordinário pro- 
blema litterario, por que não provindo de uma 
imitação directa, revelava um typo primordial con- 
1 1 



102 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



servado em um fundo anthropologico- persistente 
das populações meridionaes. Paul Meyer consi- 
derando as analogias com as antigas Bailadas 
provençaes chegou á conclusão, que — aforam 
concebidas segundo um typo tradicional, que de- 
vera ter sido commum a diversas populações ro- 
mânicas, sem que se possa determinar em qual 
d^ellas fora crcado.)) (Romania, n.o 6, p. 265.) 
O problema assim proposto explica-se por esse 
fundo ethnico da Aquitania, a que pertenceu a 
Gallecia; esse typo lyrico ainda persiste na poesia 
popular dos povos românicos colligida com inte- 
resse pelos folkloristas. Fauriel foi o primeiro 
que, apesar de reconhecer a poesia trobadoresca 
como uma floração do espirito da cavalleria, teve 
a intuição que ella provinha de uma raiz popular, 
que a antecedera. Desde esta affirmação até á 
sua plena prova, foi longo o trabalho critico para 
a sua comprehensão. E comtudo não se tinha 
perdido completamente a noção (Festa proveniên- 
cia, que se definia nos dois estylos dos trovado- 
res : empregava-se o estylo plan, leu ou legicr, ao 
alcance do vulgo ; e o estylo car, chis, requintado 
na forma e requintado nas argucias do sentimento. 
Era este o que se desenvolvia nas fórmulas da 
cortezania que exprimiam as theorias do Amor. 
Essas formas populares, de que foram typo as Vil- 
lanellas da Gasconha, ^ eram reproduzidas pelos 



I Montaigne conheceu o valor artístico d'estas Can- 
ções populares da Gasconha: «La poesie populaire et pu- 
rement naturelle a des naifvetez et graces, par ou elle se 
compare á la principale beauté de la poesie parfaite, selon 



PRIMEIRA kpoca: edade média 163 



trez mais antigos trovadores da primeira metade 
do século X, depois do duque da Aquitania, Gui- 
lherme de Poitiers, todos trez nascidos na Gas- 
conha, para lá do Garona : Cercamons, Marcabrus 
e Peire de Valeira, escrevendo embora em um dia- 
lecto que não é o de sua terra. Na segunda metade 
do século XII, propriamente na edade de ouro 
dos trovadores, quando povo e burguezes rivali- 
sam com a nobreza, o trovador Giraud de Bor- 
neil, que se sentia vaidoso por lhe cantarem as 
suas Canções pelas cortes, mostra que o seu desejo 
seria que ellas fossem cantadas pelas raparigas, 
as filhas do povo quando vão á fonte. 

E' aqui que surge o problema litterario da 
origem d'estas canções populares do estylo plan 
ou legier, que attribuem á França do norte Gastou 
Paris e o seu discipulo Jeanroy, por ventura fun- 
dados na affirmativa de Raymond Vidal, do sé- 
culo X 1 1 1 : iiLa parladura francesa vai mais et es 
plus avinenz a far roínanz et pasturelles; mas 
cella de Lemosin vai mais per far vers, et cansons 
et serventes.» Concilia-se bem esta affirmativa 
com a situação da origem meridional; o reino 
da Aquitania, fora fundado por Carlos Magno 
para defender das invasões mussulmanas as fron- 
teiras do seu império. Essas luctas contra o An- 
daluz inspiraram ])oemas como o de GiiiUiaume 



Tart; comme il se veod es Villanelles de Gascoigne, et aux 
chansons qui n'ont coignoissance d'aulcune science, n*y 
meme d'escripture.^^ Essais, liv. i, cap. 35. — Miguel Lei- 
tão de Andrade, no fim do século xvi também dava este 
■nome de Villanellas ás Canções populares portuguezas, 



104 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

au court nec, e os cantos populares, que então Car- 
los Magno mandava colligir revelam que n'esse 
tempo algumas melodias meridionaes passaram 
para a tradição lyrica germânica. 

A eschola trobadoresca mais brilhante foi a 
de Tolosa, entre a Gasconha e o Auvergne, o 
foco mais antigo e natural da poesia meridional, 
como observou Fortoul, notando que a Provença, 
entre o Rhodano e os Alpes foi a eschola menos 
fecunda e menos celebre. O titulo de poesia pro- 
vençal, torna-se, pela sua extrema generalidade, 
uma designação falsa, apesar do brilhantismo das 
suas cortes aristocráticas. A poesia trobadoresca 
teve di ff crentes focos, ou centros de cultura: no 
fim do século xi Poitou, Saintonge e Guienne, em 
que a nobreza, apoz Guilherme de Poitiers cultiva 
a Canção de amor; no começo do século xii, é o 
foco da Gasconha e Auvergne, em que o gosto 
popular apparece simultâneo com o enthusiasmo 
da nobreza; em que Cercamons, Marcabrus, e 
Peire de Valeira revelam a dependência da tra- 
dição poética, e Pierre de Auvergne a preoccupa- 
ção litteraria; entre a zona oriental e a occidental 
ha o foco do Limousin, Perigord e Quercy, em 
que o povo e a burguezia rivalisam com a nobreza 
na arte e espirito: e abaixo d'estes limites nas 
margens esquerda e direita do Rhodano, a Pro- 
vença e o Languedoc (Tolosa e ]\Iontpellier). 
Pela determinação d'estes focos é que se caracte- 
risam as correntes do lyrismo, como as migra- 
ções dos trovadores, levando para ' as diversas 
cortes o interesse ou a moda do gai saber. 

A propagação do lyrismo á Itália é simulta- 



PRIMEIRA etoca: Edade média 165 



nea com a da AUemanha; no meado do século xii 
e principio do século xiii os imperadores Fre- 
derico I e II, não só imitaram a poesia troba- 
doresca, como a favoreceram e animaram em 
Aries, revindicada ao seu dominio, como em toda 
a Lombardia, onde faziam expedições militares e 
tinham a base da sua politica. Na Itália as prin- 
cipaes cidades do norte, como Génova, Massa, 
Casal, Mantua, Ferrara, Veneza, apresentavam tro- 
vadores naturaes que rivalisavam com os de Mar- 
selha e Tolosa. Estas correntes lombarda e ita- 
liana, foram conhecidas em Hespanha. A Ingla- 
terra recebeu o influxo da poesia trobadoresca, 
na segunda metade do século xiii, quando a sua 
corte estava no meio dia da França, relacionando 
os poetas anglo-normandos com os limosinos. 

Em Hespanha a corrente dos trovadores entra 
não só pela relação politica dos Condes de Bar- 
celona com a Provença, como pelas cruzadas 
contra os mussulmanos, mais sympathicas a esses 
cantores do que as expedições da Terra santa. Os 
Condes de Barcelona eram senhores de Narbona, 
Carcasonne e Bearn; pelo casamento de Ramon 
Beranger iii, (1T12) com Dulce, Condessa de 
Provença, liga-se a peninsula itahca á Hespanha; 
e Ramon Beranger iv, incorpora ao seu estado 
Aragão ficando constituida a unidade catalã. Ha 
um esforço para acclimar a poesia provençal no 
sul dos Pyreneus, chegando ao seu esplendor sob 
Jayme i, emulo do castelhano Affonso o Sábio. 

A Castella propaga-se essa nova poesia desde 
() casamento do Conde de Barcelona Ramon Be- 
ranger IV, com uma filha do Cid, como também 



j66 historia da littekatura portugueza 



pelo casamento da formosa Berenguella, irmã do 
conde de Barcelona Ramon Beranger iv, com Af- 
fonso VII (imperador) 1128. E' d'aqui que data 
a cultura provençal em Castella, encontrando-se 
n'essa corte os trovadores Marcabrus, Pierre de 
Auvergne, Geraldo Calansa, Gavaudan, Peire Vi- 
dal, Rambaud de Vaqueiras: assim também junto 
de San Fernando e Affonso x, Bonifazio Calvo, 
Nat de Mons, Giraud Riquier, Guilherme de Ber- 
gada e Hugo de San Cyr. As cortes de Aragão 
e de Castella abriram-se aos trovadores proven- 
çaes perseguidos pelas guerras de exterminio con- 
tra os pobres sectários albigenses; operou-se ahi 
uma como restauração da poesia provençal. Re- 
ferem-se á corte de Castella e de Affonso o Sábio 
os trovadores Galceran de San Didier, Bertrand 
Carbonell, Ramon Lator, Bartholomé Zorgi, Pau- 
let de Marselha, Bertrand de Rovenhac, Ber- 
trand de Born, filho; Aymeric, de Belenoi, Hugo 
de la Escura, Elias Fonsalada, Arnaldo Palagués, 
Ramon de Castelnau, Guilhelm de Montagna- 
nout, Fulquet de Lunel. 

Na corte de Leão, antes de estar unida á Cas- 
tella, Affonso IX protege os trovadores, que exal- 
tam a sua cortezia c liberalidade ; entre elles des- 
tacam-se Hugo de San Cyr, Guilherme de Adhe- 
mar e Elias Cairel. E quando unida a Castella. 
sob Fernando iii, o Santo, brilham ahi Bertrand 
de Almansor, Sordello mantuano, Azemar o Ne- 
gro, Adhemar, e Giraud de Borneil, denominado 
o Mestre dos Trovadores. E tinham estes tro- 
vadores visitado a corte de Leão e Castella, por 
que Fernando 1 1 1 «pagabase de omes de corte 



PRIMEIRA kpoca: rdade média 167 

que sabian bien de trovar et cantar, et de jogla- 
res que sobiesen bien de tocar estrumentos, ca de 
esto se pagaba et entendia mucho, et entendia 
quien lo facia bien et quien no.» Seguindo esta 
corrente de Catalunha (Condado de Barcelona) 
Aragão, Navarra, Castella e Leão, é que a Poesia 
provençalesca chegou a Portugal. 

Como é pois que o lyrismo trobadoresco portu- 
guez se propagou inicialmente a todas as cortes 
peninsulares, como o afíirmou na sua celebre Car- 
ta o Marquez de Santillana? Este facto, que só 
modernamente se explica, dá uma feição exce- 
pcional e única á Bschola trobadoresca portuguesa. 
Ella estabeleceu-se fora de toda a influencia di- 
recta ou immediata dos trovadores occitanicos. Os 
modernos estudos sobre a litteratura portugueza 
levaram á conclusão de que se não descobrira pro- 
va manifesta de qualquer trovador, mesmo dos 
que frequentaram as cortes de Leão, Aragão e 
Castella, visitarem a corte de Portugal. Deter- 
minada a época em que floresceu a poesia troba- 
doresca do meio dia da França, o lyrismo por- 
tuguez foi synchronico, desenvolvendo-se sobre os 
elementos tradicionaes populares, quando a vida 
nova da Nacionalidade que se affirmava autóno- 
ma se expandia por essa energia orgânica e pro- 
funda. No estudo A Poesia provençal na Bdade 
média Jeanroy apresenta esta situação excepcional 
do lyrismo portuguez, que pela sua linguagem se 
impôz ás outras cortes peninsulares: «Não é fácil 
de explicar como Portugal exerceu este influxo 
que parecia competir ao Aragão ou a Castella. 



l68 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Effectivamente as suas relações politicas com o 
Meio Dia da França eram muito raras, e restri- 
cto o numero dos trovadores que a visitaram (isto 
é, que alludem a Portugal.) O que é certo é, que 
desde o inicio d'esse século, a poesia provençal 
era conhecida em Portugal, e que durante uma 
centena de annos pelo menos, todas as formas 
foram apaixonadamente imitadas pelos fidalgos 
das cortes de Sancho ii, Affonso iii e Diniz, 
que foi elle mesmo um dos mais hábeis d'esses 
imitadores : Esta floração foi mais rica do que 
original : os trovadores gallezianos, como os tro- 
veiros do Norte, foram simples traductores, e nas 
innumeras Canções que nos deixaram, por ventura 
não haverá uma que não seja um centão.» 

Ha evidentemente aqui um absurdo. Como, 
em uma tão crassa imitação, poderiam exercer 
nas cortes peninsulares frequentadas pelos mais 
brilhantes trovadores occitanicos, uma influencia 
deslumbrante os trovadores gallezianos? Jeanroy 
prosegue, precisando uma causa, que elle ap)onta 
sem comprehender : 

«Mas estes poetas, embora impregnados de 
f()rmas estudadas, tiveram a ideia original e en- 
cantadora de penderem para a poesia popular, e 
de salvarem do esquecimento, remodelando-a por 
litteratos, alguns dos géneros que ahi subsistiam 
desde muitos séculos. Alguma cousa de análogo 
tinha sido tentado no Norte da França, mas com 
esmeros litterarios cujo excesso desnaturou com- 
jíletamente os géneros, em que só podia tocar uma 
mão leve e respeitosa : as nossas pastorcllas, as 
nossas canções de alvorada, da MaUnaridada, a 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA lÓQ 



mais das vezes requintadas ou licenciosas, não 
são senão aldeãs de opereta, tergeiteiras e provo- 
cantes. Em Portugal, pelo contrario, estas Can- 
tigas de Amigo, que os poetas cortezanescos col- 
locavam na bocca das ingénuas raparigas do povo, 

— Canções de dansa, de romarias e de despedida, 

— são por vezes maravilhosas pela ingenuidade 
ou travessura; bem parece em algumas, que nos 
achamos tão perto, quanto possivel da fonte po- 
pular, e não é uma pequena surpreza o encontrar 
n'estes enormes ramalhetes de flores artificiaes, 
que são os Cancioneiros, algumas frescas prima- 
veras, cujo brilho nos parece, graças a este con- 
traste, mais vivo ainda e o perfume mais suave. 

((Mas isto não era mais do que um feliz acci- 
dente. Em Portugal, como na França do Norte, 
a poesia cortezã, não tem, por assim dizer, exis- 
tência própria; ella não é senão um reflexo de 
uma luz já de si bem pallida.» i 

Esse caracter de ingenuidade popular proveiu 
de uma existência própria e não de uma imitação 
servil. O lyrismo trobadoresco portuguez serviu- 
se de uma lingua nacional, que tornou Portugal o 
Poitou das cortes peninsulares, e exprimiu senti- 
mentos do ethos luso, que não se confundem com 
os que se repetem nas Canções dos provençaes. 
Henry Lang, no prologo da sua edição' do Can- 
cioneiro de Dom Diniz define este caracter origi- 
nal, que notou pelos seus estudos : ((O serviço que 
os Provençaes prestaram a Portugal resume-se no 



Rev. des Deux-Mondes, 1903 (Fevereiro) p. 687. 



lyO HISTORIA DA LITTERATURA rORTUíUKZ \ 



exemplo que deram, abrindo caminho á lyrica po- 
pular pelo acto de penetrarem nos régios salões... 
Só sobre a base ampla de uma lyrica nacional, e 
graças ao talento poético e á Índole sentimental de 
gallegos e portuguezes, é que a lyrica palaciana 
trobadoresca pôde desenvolver-se viçosa e com 
aquella originalidade e graça que lhe assegura um 
logar á parte na historia da Poesia meridional.» 
(Õp. cit., p. cxi.iv.) E' o que se chama acção 
de presença, nos phenomenos catalyticos; a essa 
critica esthetica falta dar-lhe a base histórica. 

ESCHOLA TROBADORESCA PORTUGUEZA 

O governo de Dom Affonso Henriques, (nas- 
cido em 1109, e batalhando desde os dezenove 
annos para manter a autonomia de Portugal e 
alargar-lhe o seu território para o sul, em uma 
actividade heróica que se prolongou por cincoenta 
e sete annos até á sua morte provecta em 1185,) 
não parecia prestar-se ás galanterias de uma cor- 
te, enaltecida por apparatosas festas, e a attrahir 
os trovadores que pregavam a cruzada contra os 
Sarracenos. Mas esta mesma situação fazia com 
que elles se lhe dirigissem nas suas Canções, in- 
citanclo-o para a lucta. Fauriel aponta o trovador 
Marcal)rus, do ramo da Gasconha, da Aquitania, 
como tendo visitado as cortes christãs de áquem 
dos Pyrenneos ((nomeadamente a de Portugal, e 
é o único dos trovadores positivamente conhecido 
l)or ter visitado esta ultima.» i Marcabrus inci- 



I Histoirc de la Poesia provençale, t. 11, p, 6. Não 
se tem verificado em pesquizas ulteriores. 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA I7I 

tava-o a ligar-se com as pequenas potencias do 
Mediterrâneo para a lucta contra os Almohades, 
ajudando Affonso vii: 

Al lavador de Portegal 
E dei Navar atretal, 
Al sol que Barsalona i a vir. 
Ver Toleta Temperial, 
Segur poirem cridar reial 
E paians gen desconfir. 

(Raynouard, Choix, t. v, p. 130-150. 

Em uma outra Canção envia uma saudação a 
Portugal : 

En Castella et en Portugal 
Na trametré aquestas salutz. 

Um outro trovador, Gavaudan o Velho, inci- 
tando por uma canção os monarchas da Península 
contra a invasão de Mohamed ai Nassir, que che- 
gara a Sevilha com cento e sessenta mil homens, 
allude a Portugal, exclamando ironicamente: 

Portugales, Gallicx, Castellas, 
Navarrs, Aragonês, Ferraz, 
Lura vcn en barra sequitz 
Qu'els au rahuzatz et unitz. 

(Raynouard. Choix, t. iv, p. 3Ó, 87). 

Segundo Baret, as Canções de Cercamons e 
Peire de Valeira foram também conhecidas em 
Portugal, (Ti'ob., p. T19) assim como do des- 
vairado Peire Vidal. O conhecimento das Can- 
ções trobadorescas tornou-se mais directo, desde 
que D. Affonso Henriques casou em 1146 com a 
princeza Mahaut (Mafalda, de Saboya e Mau- 



HISTORIA DA lITTERATURA PORTUGUEZA 



riana) ; este casamento seria motivado pelas re- 
lações do Conde Borgonhez, por que 'então a Sa- 
boya formava parte da Borgonha. Mafalda era 
bisneta de Raymundo Beranger, o Velho; assim 
estava relacionado com os Condes de Barcelona. 
Pelos casamentos de seu filho, D. Sancho i, com 
Dulce, de Aragão, e de Mafalda com esponsaes 
com Raymundo Beranger de Aragão, e Urraca com 
o rei Fernando ii de Leão, a fidalguia portu- 
gueza entrava no convivio faustoso d'essas duas 
cortes, pondo-se em contacto com os trovadores 
provençaes e italianos que as frequentavam. 

Na Corte de Guimarães não havia logar para 
festas que attrahissem os trovadores; D. Affonso 
Henriques andava absorvido no esforço da inte- 
gração do território lusitano, reconquistando-o 
sobre os Árabes, e no desenvolvimento das ci- 
dades que ia resgatando, e ainda com as allianças 
defensivas com as outras monarchias hispanas. 
Os trovadores occitanicos proclamavam a neces- 
sidade da união ibérica imperial, e não teriam por 
isso grande sympathia por este pequeno estado 
autónomo e altivo, em que na cultura ecclesiastica 
predominava a influencia da França do Norte. 
Mas, apesar d'esta omissão da presença de tro- 
vadores, Guimarães foi o centro vital da primeira 
elaboração poética: «dentro dos limites portugue- 
zes, Guimarães foi o primeiro centro de Artes.» i 
Fundamentemos. O centro politico da recente na- 
cionalidade portugueza estabeleceu-se em Guima- 



T D. Carolina Michaélis, Cancioneiro da Ajuda, ii 
p. 766. 



PRIMEIRA época: edade média 173 

rães, um burgo populoso, que se desenvolvera pelo 
acolhimento á protecção do Mosteiro duplex, fun- 
dado pela viuva Mumadona, pelo meado do sé- 
culo X, e pela segurança do Castello fundado 
sobre a montanha fronteira para defender o Mos- 
teiro do perigo das incursões dos Normandos. 
Sob D. Af fonso Henriques ahi se estabeleceu a sua 
Corte : é também ahi que um Sanctuario venerado 
attrae os crentes e as generosas of feitas; é ahi 
(jue uma população agricola, mas essencialmente 
industrial e fabril, se reúne como elementos or- 
gânicos de uma sociedade nova e fecunda. Essa 
povoação alegre, segura e rica tem o prazer do 
canto e da dansa, como ainda hoje em todo o 
Minho ; e essa Corte e o venerando Sanctuario vão 
ser os meios onde as Cantigas de amigo e as Bai- 
lias vão transformar-se artisticamente nas Can- 
ções e Sirventes da Corte, e nas Sequencias das 
festas ecclesiasticas. O burgo cujas liberdades e 
costumes foram garantidos pelo Foral do Conde 
D. Henrique em 1095, ^"^ breve é o ponto em que 
se reúnem em Cortes os próceres ou fidalgos, e 
os bispos; é ahi que junto ao Castello se edificam 
f)S Paços reaes, e Guimarães torna-se o foco de 
toda a resistência de D. Affonso Henriques de- 
fendendo a autonomia Portucalense. Longe dos 
assaltos dos Sarracenos, a população vimaranense 
exerce a sua actividade na fiação do linho, na 
serralheria e curtimento dos couros. A vida bur- 
gueza vivifica a Canção tradicional, que acompa- 
nha os bailes de terreiro e as romarias distantes. 
O caracter burguez dós trovadores occitanicos 
ajuda-nos a comprehender esta expansão da poesia 



174 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



lyrica. Ondas de poesia brotavam d'este centro, 
ciue encantava os fidalgos, que não hesitavam a 
tomar conhecimento d'eíla e exhibil-a nas cortes 
de Leão, Aragão e Castella. A Galliza estava 
então decahida da sua autonomia, escravisada na 
incorporação leoneza; e afastada das relações de 
Portugal, desde as luctas contra D. Thereza e os 
fidalgos Gallegos. Era uma efflorescencia intei- 
ramente portugueza. A população de Guimarães 
differençava-se segundo a sua situação: a supe- 
rior, junto do Castello de San Mamede, pelo seu 
desenvolvimento forma a freguezia (filius ccclc- 
sicr) de San Miguel, á qual D. Affonso Hen- 
riques confere privilégios e jurisdicção própria; 
a inferior agrupa-se em volta da Egreja e mos- 
teiro de Santa Maria. Eram os dois Concelhos 
rivaes, tendendo a absorverem-se, luctando pela 
imposição dos seus privilégios ou murando-se 
para segurarem a sua independência. Esta riva- 
lidade dos dois Concelhos só veiu a terminar sob 
D. João I, trazendo estimulada as duas jx^voaçÕes 
em uma energia social, em espirito de indepen- 
dência, que suscitava o enthuziasmo pela tradi- 
ção poética semi-apagada em outros concelhos dis- 
tantes. A villa vclJia c a viJla do Castello criaram 
a energia po])ular da laboriosa e rica Guimarães 
unificada nas suas magistraturas locaes, quando 
a Corte portugueza teve de deslocar-se para o 
sul, para Coimbra, e pelos progressos da recon- 
quista até Santarém e Lisboa. 

Reconhecendo o extraordinário valor d'esta 
efflorescencia da poesia popular, escreve D. Caro- 
lina Michaèlis, accentuando a sua importância: «a 



PRIMEIRA rpoca: edadk media 



preexistência de uma poesia nacional rústica sacra 
e profana especialmente na Galliza — para o pro- 
blema das origens, os contactos com os represen- 
tantes das diversas nações latinas com a Galliza 
d'áquem e de além Minho, e com o reino Asturo- 
leonez nos séculos xi e xii, (digamos até 12 13) 
são de valia incontestavelmente superior aos que 
tiveram logar nos séculos xiii e xiv: a estada 
de D. Affonso iii, na corte de S. Luiz, e a sua 
longa demora em Bolonha, assim como a educação 
de D. Diniz por Aimeric (rEbrard de Cahors.» ^ 
Destacamos esta preexistência, n'este primórdio 
histórico na Galliza de áqncni Minho, onde actua- 
va o Ímpeto de uma nação recentemente cons- 
tituida. 

A Galliza, apesar dos seus antecedentes ethtii- 
cos persistentes e das tradições lyricas populares 
oraes pouco podia influir na expansão e florescên- 
cia do Lyrismo gallecio portuguez. Pouco durou 
a sua independência como Condado livre em 863, 
sendo como consequência do espirito unitarista da 
reconquista christã, annexada a Leão em 885 ; não 
lhe valeu a resistência de vinte e cinco annos para 
recuperar a sua autonomia, caindo outra vez 
n'essa unificação forçada em 981 ; e sob a acção 
imperialista de Affonso vi, foi incorporada para 
sempre a Castella em 1073. E á medida que a 
Galliza foi perdendo o espirito da liberdade e a 
esperança de independência, a sua lingua foi 



I Cancioneiro da Ajuda, t. ti, p. 690; ideia tambeni 
sustentada por Lang". 



176 HISTORIA DA IJTTKRATURA PORTUGUEZA 



abandonada pelas pessoas cultas, mantendo-se no 
simples uso popular, n'uma atrazada rusticidade, 
tornando-se por isso muito raros os seus monu- 
mentos escriptos ou litterarios. 

N'esta situação miseranda, que influencia po- 
deria exercer a Galliza n'esse phenomeno brilhante 
do apparecimento do Lyrismo peninsular, que irra- 
diou do norte da Hespanha, da região galecio por- 
tugueza? Nenhuma. 

E comtudo o facto deu-se ; reconheceu-o ainda 
no meado do século xv o Marquez de Santillana, 
mas sem explical-o. O mesmo succede ainda aos 
modernos críticos, ao porem em evidencia a ex- 
traordinária importância d'esta renovação inicia- 
dora ; escreve D. Carolina Michaèlis : «ondas de 
poesia popular, sabidas do coração palpitante da 
Galliza, haviam attingido ao mesmo tempo o sul 
(Portugal) e o leste (Leão) despertando em am- 
bos os reinos o propósito de, procedendo como os 
provençaes, catalães e francezes, darem á vida au- 
lica um nimbo poético de intellectualidade e de arte 
por meio da cultura da Poesia, da musica e da 
dansa, aperfeiçoada segundo o gosto então do- 
minante da Provença.» (Canc. d'Aj., 11, 765.) 
Para explicar esta influencia da Galliza, morta 
para a autonomia politica na época da expansão 
do lyrismo trobadoresco, (1150 a 12 13) Menendez 
y Pelayo recorre ao seguinte argumento: «O 
grande feito da Peregrinação compostellana é <^ 
que dá mais luz sobre as origens da poesia nova.» 

«...Foi disposição providencial... que ...inces- 
santes ondas de peregrinos, vindo de todas as re- 
giões do Centro e Norte da Europa, trouxe: jem a 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA 17/ 

Santiago, ao som do Canto de Ultréa, os germens 
da sciencia jurídica e escholastica e as sementes 
da Poesia nova.» (AntoL, iii, p. xii.) Menendez 
y Pelayo faz a Galliza apenas o reflector de 
uma extranha poesia, sem attender aos seus vi- 
gorosos germens tradicionaes ; D. Carolina abra- 
ça este influxo das peregrinações a Compostella, 
sem reparar que a fragmentação da Galliza, cons- 
tituído o Condado Portucalense que se tornou na- 
ção independente (1139), deslocara as energias or- 
gânicas para Portugal ou a Galliza do Sul. A 
decadência successiva do galleziano e o uso es- 
cripto da lingua portugueza, ficando aquelle um 
simples dialecto, proveiu d'este facto decisivo, o da 
formação de uma nacionalidade com condições de 
resistência e de acção histórica. E á medida que 
Portugal foi estendendo o seu dominio, incorpo- 
rando até D. Affonso iii cidades lusitanas do 
sul, a lingua f aliada por essas povoações veiu 
differenciar a lingua portugueza, que se exercia, 
da lingua gallega, que estacionava. Não foi pro- 
priamente illusão a affirmativa do P.^ Sarmiento, 
que via na linguagem das Cantigas do rei Affonso 
o Sábio o ((gallegtw antiguo, ai qual se parece mu- 
cho el português.)) Affonso o Sábio não ia estu- 
dar uma lingua archaica e sem cultura, quando 
estava em relação intima de interesses e parentesco 
com a Corte portugueza. E não errou Argote 
y de Molina, quando observara que na lingua por- 
tugueza, se escreviam todas as coplas, desde 
D. Henrique iii até D. Juan i. (Nohl. d' Andai, 
cap. 148.) 

Agora comprehender-se-ha melhor o texto da 

12 



178 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Carta ao Condestavel de Portugal, em que o Mar- 
quez de Santillana accentua a prioridade do ly- 
rismo trobadoresco no norte da Hespanha: «E 
depois acharam esta Arte, que Maior se chama, e 
Arte conimum, creio, nos reinos da GalHza e Por- 
tugal, aonde não ha que duvidar que o exercício 
d'estas sciencias mais do que em nenhumas ou- 
tras regiões e provincias da Hespanha se acostu- 
mou ; em tanto gráo, que não ha muito tempo quaes- 
quer Dizidores ou Trovadores d'estas partes, ou 
fossem castelhanos, andaluzes ou da Extremadura, 
todas as suas obras compunham em lingua gallega 
ou portugueza. E ainda é cer^o que recebemos os 
nomes de arte, como Maestria Maior t menor, enca- 
denados, lexaprem e inansobre.)) (§ xv.) Quando 
este phenomeno se operou já de longos annos não 
existia o reino da Galliza, reduzida a província 
castelhana; trovadores portuguezes frequentavam 
as cortes de Leão, de Castella e Aragão, onde 
exhíbiam os seus versos em lingua portugueza; : 
quando Santillana notava o facto «que não ha 
muito tempo» referia-se a essa revivescência do 
gallego do século xv, memorando Macias, Vasco 
Pires de Camões, e ainda o Arcediago cie Toro. 
Villasandino e D. Diego de Mendoza. Por tudo 
isto se destaca a independência da Bschola troba- 
doresca portuguesa, que andou anachronicamente 
confundida com o elemento gallego. 

As referencias que se fazem ao génio e lingua 
gallega, no século xi 1 1, correspondem a uma épo- 
ca adiantada da Eschola trobadoresca portugueza, 
quando os Jograes gallegos concorreraih á Corte 
de Guimarães. Xo Planeta, de Diego de Campo 



PRIMEIRA HPOCA: EDADE MEDIA Ijg 



(i2i8) dirigido ao arcebispo D. Rodrigo, exalta: 
((Galaecos in loqiuia;)) e nas Regras de Trobar, 
de Jofre de Foxa (1288 a 1327), a par da eschola 
fraiiceza, provençal e siciliana, cita o gallego, isto 
quando florescia o cyclo dionisio, em cuja corte vi- 
\iani fidalgos e jograes gallegos compondo as suas 
canções em portuguez, renovando as melodias e as 
cantigas populares. 

Este caracter popular do lyrismo é que dá todo 
o realce á BscJwla trohadorcsca portugueza. No 
s'ícuIo X í r deu-se o phenonieno da creação da 
musica moderna pela harmonia dos sons simultâ- 
neos, que a antiguidade não conheceu; eram prin- 
cipalmente as mulheres que cantavam, alterando- 
se o acompanhamento para grave, em que o Des- 
cante se fazia com terceiras. Este phenomeno 
ainda se observa nas povoações do Minho, e já 
fora notado no século xvii pelo Marquez de 
Montebello: «Com grande destreza se exercita a 
musica, que é tão natural em seus moradores esta 
arte, ((ue succede muitas vezes aos forasteiros que 
passam pelas ruas, especialmente nas tardes de 
verão, parar e suspenderem-se ouvindo a^ trovas 
que cantam em coros, com fugas e repetições as 
raparigas, que para exercitar o trabalho de que vi- 
vem, lhes é permittido. )) Nas Cantigas de amigo, 
dos Cancioneiros portuguezes são as raparigas que 
faliam de amor, das ausências, e da chegada dos 
seus namorados; são ellas que fazem as bailias, 
ou dansas coreadas, e as que cantavam nas egre- 
jas os «psalmos compósitos et vulgares» a que allu- 
de um cânon de San Martinho de Braga. Fixando 
este aspecto da Bschola trohadoresca portugueza. 



l8o HISTORIA DA IJTTRRATURA PORTUGU^ZA 



nota D. Carolina Michaèlis: ((Em Portugal são 
— meninas em cabello as que os peninsulares ce- 
lebram nos seus versos de amor, as introduzem 
como figuras dramáticas em Cantares de amigo. 
Por isso são tratadas com muito mais cerimonia e 
recato.» D'aqui tira a differença entre os trova- 
dores portuguezes e os provençaes : 

((N'esta parte os de Portugal talvez lhes levem 
vantagem : na sinceridade dos sentimentos e na 
ingenuidade com que os exprimem. Mas de que 
vale isso, se esses sentimentos são sempre os mes- 
mos, de uma delicadeza e mesmo tão perfeita que 
chega a desesperar? 

((Nos Dizeres de escarneo, por ventura a pal- 
ma deve ser conferida aos peninsulares. E egual- 
mente nos Cantares de amigo, de caracter popular, 
que constituem o seu mais valioso património.» 
(Canc. d'Ajud., ii, 682.) O illustre Milá y Fon- 
tanals, que estudou os Trovadores* catalães reco- 
nheceu os caracteres que destacam a Eschola tro- 
badoresca portiigueza: ((Pela época em que esta 
começa a florescer e pelo tom que n'ella domina, 
pela ausência de erudição escholastica e também 
pela gerarchia da maior parte dos que a cultivaram, 
é entre as poesias lyricas da Hespanha, aquella 
que com mais exactidão se pôde denominar £.s^- 
chola de Trovadores, e se as suas composições 
of ferecem alguma analogia com as dos provençae.^ 
que mais se distinguem pela naturalidade e pel'» 
earaeter affectivo, a esphera das ideias n'aquelles 
é todavia mais limitada, o estylo mais simples e 
menos ambicioso, o que, apesar da grande mono- 



PRIMEIRA época; EDADE MÉDIA l8l 



tonia, não deixa de offerecer certo attractivo.» i 
Essa simplicidade natural e apparente monotonia, 
é uma caracteristica do génio portuguez, uma das 
suas feições inconfundiveis, tão difíicilmente ap- 
prehendidas pelos estrangeiros ao primeiro en- 
contro. Sobre este fundo orgânico e preexistente 
é que a Eschola trobadoresca portugueza evolu- 
ciona em um periodo que vae de Dom Sancho i 
até Dom Pedro i, representadas pelas formai 
do seu Lyrismo as trez Nacionalidades hispâni- 
cas : a Asturo-Galecio-Portugueza, tendo como 
chefe o rei Dom Diniz, a Catalana-Aragoneza 
com Jayme i, e a Castelhana, com Affonso o 
Sábio. Foi n'este concurso do génio esthetico que 
competiu a Portugal a reconhecida hegemonia. 

Determinada a existência de um fundo tradi- 
cional e popular do Lyrismo portuguez, foi na 
Corte que elle teve o pleno desenvolvimento artis- 
tico, conservando o seu caracter original a par das 
imitações trobadorescas e persistindo na littera- 
tura pela revivescência nos mais vigorosos génios 
poéticos. Como entrou e prevaleceu na Corte este 
rudimento da Canção popular? Como resistiu e 
se impoz ás manifestações artificiosas de uma poe- 
sia allegorica com que os trovadores ocitanicos 
exprimiam as doutrinas do Amor? Pelo conheci- 
mento do meio courtois, nas suas relações com as 
Cortes peninsulares, não só pelos casamentos reaes, 
mas ainda pelos conflictos que forçaram por vezes 
muitos fidalgos de Portugal a refugiarem-se n'es- 



I Os Trovadores em Hespanha, p. 533. 



l82 HISTORIA J)A LlTTlíKATUKA PORTUGUEZA 



sas Cortes, é que se pôde comprehender este phe- 
nomeno excepcional : a originalidade da Eschola 
trobadoresca portugiieza, e esse outro facto ex- 
traordinário (Je ser a língua portiiguesa a preferida 
nas Cortes peninsulares para a expressão do nas- 
cente lyrismo. 

Sobordinada a Eschola trobadoresca portugue- 
za, na sua evolução, ás modificações por que pas- 
sou a Corte nas suas phases históricas, e em frente 
dos documentos litterarios chronologicamente 
agrupados, ella constitue estádios : 

— Cyclo pre-Affonsino (1185 a 1248): que 
abrange os três reinados de D. Sancho i, D. Af- 
f onso 1 1 e D. Sancho 1 1 . 

— Cyclo Affonsino (1248 a 1279) em que 
durante o reinado de D. Affonso iii a poesia 
lyrica é cultivada principalmente i>elos fidalgos 
que estiveram com elle na corte franceza. 

^ — Cyclo Dionisio (1279 a 1385) em que o rei 
D. Diniz, corno o mais fecundo e mais talentoso 
trovador porttiguez cultiv^ e protege a lyrica 
artistica eao mesmo tempo os que conservam a 
sympathia pelas cantigas populares. 

— Cyclo post-Díonisio (1325 a 1357) em que 
as Canções provençalescas são substituidas pela 
imitação dos Lais bretãos,que tornando-se narra- 
tivos determinam a forma da Novella. 

a) — Cyclo prc-Affonsino: As luctas incessan- 
tes de D. Affonso Henriques para manter a au- 
tonomia do estado de Portugal contra a absorpção 
castelhano-leoneza, e as campanhas contra os Ára- 
bes para estender o dominio d'esta quinta Monar- 



PRIMEIRA época: edade média 183 



chia para o sul, encheram o seu longo reinado, não 
dando logar aos ócios da corte e ás festas palacia- 
nas, que attrahiam os mais celebrados trovadores. 
Nos seus perseverantes estudos sobre esta época, 
chegou D. Carolina Michaèlis a esta conclusão ne- 
gativa, mas importante nas suas consequências: 

((Da vinda de Trovadores a Guimarães, Porto, 
Coimbra, Lisboa, Santarém, nada de positivo cons- 
ta todavia, apesar das relações de parentesco, das 
allianças, da influencia das colónias frankas, quer 
antes quer depois de 1200.» (Canc. Aj.^ 11, 723 ) 
Isto revela como os germens tradicionaes não fo- 
ram abafados por uma imitação banal das formas 
provençalescas. Mas o gosto pelo lyrismo foi sus- 
citado pelo que se passava nas outras cortes. A 
filha do primeiro rei de Portugal, D. Urraca, é 
casada com Fernando 11, rei de Leão, (divor- 
ciado por imposição do papa a pretexto de pa- 
rentesco) ; d'este casamento nasceu D. Af fonso v, 
pae de Fernando iii, o Santo, esse que tanto prote- 
geu os trovadores que frequentaram a sua corte, 
e que reuniu á Coroa de Leão a Coroa de Castella. 
Pelas relações intimas com a Corte de Leão, po- 
deram os fidalgos portuguezes conhecer os trova- 
dores provençaes que a frequentavam e apreciar 
as suas Canções. Sob a impressão dos cantares de 
Hugo de San Cyr, Guilherme de Adhemar, Elias 
Cairel, de Beltran de Almanon, Sordello de Man- 
tua, Azemar o Negro, e do grande mestre dos 
Trovadores Giraud de Borneil, os trovadores ix)r- 
tuguezes adaptaram a lingua nacional á expressão 
do sentimento amoroso, na sua forma métrica, 
vindo assim a tornar a lingua portugueza exclu- 



l84 HISTORIA DA I.1TTERATURA PORTUGUEZA 



siva da nova poética nas Cortes peninsulares. No 
seu esforço para manter a autonomia de Portu- 
gal contra a absorpção castelhana, D. Affonso 
Henriques allia-se com a monarchia catalano-ara- 
gonesa, vindo seu filho D. Sancho i a casar com 
l). Dulce, ou Aldonça, irmã de Ramon Beran- 
ger IV ; outra irmã d'este, D. Berenguella, casa 
com Affonso vii (o Imperador) primo do pri- 
meiro rei de Portugal. As festas d'este ultimo 
consorcio foram celebradas por tomarem parte 
muitos trovadores e jograes. A rainha Beren- 
guella introduziu na corte de Castella a civilisação 
provençal, e ahi nos apparecem os trovadores Mar- 
cabrus, Gavaudan o Velho e Peire Vidal, os úni- 
cos que nas suas Canções se referem directamente 
a Portugal : ahi dois trovadores Rambaud de Va- 
queiras e Bonifazio Calvo compozeram Canções 
na lingua portugueza! Por estas relações com as 
cortes de Leão, Aragão e Castella, alargavam-se 
as visitas dos fidalgos portuguezes, tendo de com- 
l)etir com os mais afamados trovadores, que ahi 
concorriam atrahidos pela cruzada contra os sar- 
racenos, ou pela protecção dos reis de Aragão 
so1>eranos antigos da Provença. 

O rei D. Sancho i, que só occupou o throno 
depois dos trinta e um annos de edade, foi tam- 
bcm trovador, como outros soberanos peninsu- 
lares: antes de estudar a Canção de amigo, que 
ainda se conserva, importa accentuar estas rela- 
ções de parentesco, que tanto actuaram n'este cy- 
clo poético. Pelo casamento de seus filhos, fixa- 
ram-se mais intimamente as relações com estas 
três cortes poéticas : o seu primogénito, D. Af- 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 185 



fonso 1 1 casa com D. Urraca, lilha de D. Af fonso 
de Castella; o infante D. Pedro, que fora perigri- 
nar, casa em Aragão, onde foi Conde de Urgel; 
e sua filha D, Thereza, casa com Af fonso ix de 
Leão (divorciada depois por imposição do papa.) 
Estas trez Cortes estavam abertas para a fidalguia 
portugueza, onde cultivava o gosto provençalesco, 
longe das perturbações guerreiras de Portugal, em 
uma lingua que era a que se fallava no alto Mi- 
nho e Douro. O critico Menendez y Pelayo aponta 
imparcialmente em que consiste essa imitação : «O 
único resultado, o mérito grande e positivo d'esta 
imitação provençal consiste na parte technica, na 
gymnastica das rimas, na dura aprendizagem que 
converteu a lingua gallaica no mais antigo typo 
dos dialectos ly ricos da Peninsula.» ^ Este aper- 
feiçoamento artístico deu-se na lingua portugueza, 
cujos documentos coevos em prosa contrastam pela 
sua rudeza morphologica e syntaxica. O lyrismo 
portuguez apropriando-se d'essas formas cultas va- 
riadíssimas, conservava o seu espirito originário, 
o sentimento nosso, delicado, ingénuo, e por vezes 
o reproduziram conscientemente adoptando a ex- 
pressão portugueza os próprios trovadores occi- 
tanicos. A Eschola trobadoresca portugueza teve 
(kias fortes manifestações : a efflorescencia de Can- 
ções de amor e de escarneo, nas cortes de Leão, 
Aragão e de Castella, onde foram colligidos os 
cadernos ou rolos avulsos que se juntaram ao 
Cirande Cancioneiro portuguez, e o desenvolvi- 



T Antologia de Poetas líricos castellanos, iii, p. xv. 



lcS6 HISTORIA DA UITTERATURA FORTUGUÊZA 

mento orgânico na corte de Portugal até ao re- 
gresso de D. Affonso iii de França, em que o ly- 
rismo não reflecte um contacto directo com os tro- 
vadores provençaes. Lang observando a ausên- 
cia de trovadores provençaes em Portugal, assenta 
sobre essa omissão uma das causas da indepen- 
dência da Eschola lyrica portugueza. E por que 
não vinham esses cantores a Portugal ? O mesmo 
critico attribue-o á instabilidade da nova Monar- 
chia. E' certo que alguns d'elles se mostravam 
hostis a Portuga], como o jogral Perdigon, sati- 
risando D. Sancho i (Canc. Ajud., ii, 733 not. 1 
e Guilherme de Tudela motejando D. Affonso u. 
O equilíbrio politico da Hespanha firmava-se 
na existência das quatro Monarchias, Leão, Ara- 
gão, Navarra c Castella; Portugal, constituindo a 
quinta Monarchia, era um obstáculo para reali- 
sar-se a unificação politica tendo por centro Ara- 
gão ou Castella. O trovador Peire Vidal 
(1175-1215) elogiando os Reis de Hespanha falia 
determinadamente nas quatro Monarchias, omit- 
tindo a mais recente que era a de Portugal : 

Ais quatro reis cVEspaign estai niont mal 
quar no valen avcr patz entre lor. 

(Ap. Bartsch., 364) 

A existência da quinta Moíiarchia era ainda 
instável: em 1158 fora combinado em Sahagun, 
entre os reis de Leão e de Castella a suppressão (U) 
reino de Portugal, plano ainda proseguido por 
1). F^ernando 11. As condições de independência 
impunham-se pela incorporação da faixa de oeste 



PRIMEIRA kpoca: icdajje; média 187 



conquistada aos sarracenos; e esse espirito portu- 
guez nas cortes peninsulares era também uma for- 
ça. O trovador Peire Guilhem, já falia em uma 
canção nos Cinco Remos de Espanha (Ap. Milá, 
Trov., p. 197.) As circumstancias occorrentes 
afastavam os Trovadores de Portugal; pela to- 
mada de Jerusalém em 1187, recrudesceu o delirio 
da Cruzada, e armadas transportavam cavalleiros 
de Dinamarca, Flandres, Hollanda e Frisia. O rei 
D. Sancho i, aproveitou esta passagem dos cru- 
zados para tentar a tomada de Silves, em uma 
expedição commandada por seu cunhado D. Men- 
do Gonçalves de Sousa, o principal rico-homem. 
mais conhecido pelo titulo de Conde Sousão. Essas 
campanhas longinquas, não permittiam os ócios 
palacianos, a que os trovadores concorriam. Mas 
a vida da guerra contra a mourisma não era in- 
compatível com as praxes da galanteria, como se 
formulara, consagrando o uso, nas Leis de Par- 
tidas : «E aun porque se esforçasen mas, tenian 
])or cosa guisada que los que ovicsen amigas que 
las noineassen en las lides por que les creciesen los 
corazones é tuviesen verguenza de errar.» O rei 
D. Sancho i cumprira á risca o dictame; depois 
dos amores com D. Maria Aires de Fornellos, an- 
dava loucamente apaixonado pela estonteante 
D. Maria Paes da Ribeira, a celebrada Ribeirinha 
a quem fazia Canções para ella e as suas damas 
cantarem. Esta paixão pela mulher fatídica, de 
quem teve muitos filhos, durou até á morte do 
rei desde ti 86 até t2ii. Eis a Canção que resta, 
colligida no Cancioneiro Colocci-Brancuti,- n.*^ 45: 



l88 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Ay! eu, cuitada 
Como vivo 
Em gram cuidado 
Por meu amigo, 
Que hei alongado! 

Muito me tarda 
O meu amigo 
Na Guarda ! 



Ay ! eu cuitada 

Como vivo 

Em gram desejo 

Por meu amigo, 

Que tarda e não vejo ! 
Muito me tarda 
O meu amigo 
Na Guarda. 



IJona Carolina Michaèlis fundamenta a au- 
thenticidade da Canção com a nota de Colocci a 
H. loo ^: a Registo: outro Rótulo das Cantigas 
que fez o mui nobre Rei Don Sancho de Portu- 
gal, c diz: — Ai, eu coitada como vivo.» (Ed. 
Molteni, p. 148.) E interpretra o refren: uFoi 
no anno de 1 199, que D. Sancho i deu em Coim- 
bra Foral á Guarda que acabava de fundar e po- 
voar, como que em resposta á fundação leoneza 
de Ciudad-Rodrigo... N'este mesmo anno, ou du- 
rante os trabalhos da fundação, creio foi escripto 
])elo filho de D. Af fonso Henriques o mais antigo 
entre todos os Cantares de amigo em disticos... o 
qual é ao mesmo tempo uma das mais archaicas 
poesias ])()rtuguezas.)) (Canc. da Aj., t. 11, 393.) 
1). Carolina Michaèlis dá-lhe a forma de distico 
segundo o rythmo da dansa de mnineira: 



PRIMEIRA época: edade média 189 

Ai, eu cuitada, como vivo 

Em gram cuidado por meu amigo, 

Que hei alongado! Muito me tarda 

O meu amigo na Guarda. 

Ai, eu cuitada, como vivo 

Em gram desejo por meu amigo, 

Que tarda e nem vejo! Muito me tarda 

O meu amigo na Guarda! 

Preferimos o corte estrophico pelas cadencias 
da melodia, indicado pelas mudanças da rima. 
Apoz este Cantar de amigo, segue a rubrica Bi 
Rey Dom Affonso de Leon; julgamos ser affon- 
so IX, sobrinho de D. Sancho i, que também cul- 
tivou a poesia, e que se destaca de Affonso o Sá- 
bio, que, dez Canções adiante tem uma Canção 
religiosa (N.o 359) com a rubrica: Bi Rey Dom 
Affonso de Castella e de Leon. São um extraor- 
dinário documento do uso da lingua portugueza 
nas duas cortes de Leão e de Castella; quanto á 
corte de Portugal é bem digno de consideração 
o predominio da forma popular da Cantiga de 
amigo, muito antes da corrente jogralesca que 
irrompeu no Cyclo dionisio, e d'essas Serranilhas 
que reflectiram as Pastorellas francezas, das quaes 
escreve Menendez y Pelayo : «Nota-se na Ser- 
ranilha artistica e provençalisada, um giro mais 
abstracto, impessoal e vago, menos intimidade ly- 
rica, menor enlevo de poesia e mysterio e também 
menos soltura de versificação.» (Antolog., iit, p. 
XXXIV.) Essas Cantigas de amigo, compostas por 
trovadores do cyclo pre-Affonsirío, reflectiam a 
pura tradição conservada no povo portuguez. E' 
diante d'este facto, que antecedeu a concorrência 
dos jograes gallegos, que surge o problema não 



I90 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



já da origem mas da sua maior intensidade em 
Portiií^al. Menendez y Pelayo escreve: 

«Quem poderá chegar até ás mais recônditas 
raizes d'este lyrismo ? Quem poderá surprehender 
seus primeiros passos infantis? Trata-se de um 
fundo ethnico commum a todos os povos do Meio 
Dia da Europa, ou de algum próprio e caracte- 
rístico do povo gallego? Porque alvoreceu alli a 
poesia lyrica com caracter mais popular do que 
na Provença, e com certo fundo de melancholia 
vaga, mysteriosa e devaneadora? A todas estas 
perguntas tem-se procurado dar resposta, porém 
até agora com mais força de engenho e agudeza 
do que de critica.» (Antologia, t. iii, p. xvii.) 
O fundo ethnico ou substratum commum Occi- 
dental está comprovado pelos cantares narrativos, 
colligidos pelos folkloristas ; nos cantos lyricos é 
a melodia que persiste, sendo a letra instável, mas 
ainda assim as similaridades subsistem. Para esta. 
sobrevivência a região gallaica ou propriamente 
portugueza tem um caracter privativo, fundamen- 
talmente sociológico. O reino de Portugal ou a 
Quinta Monarchia constituiu-se por aggregação 
de Cidades livres ou municipalistas, em que o 
Presidente (ou Podcstat, á maneira de Itália) da 
Behetria foi reconhecido por um pacto politico, 
como Rei. Os Innumeros Foraes dados por D. Af- 
fonso Henriques e D. Sancho i ás Cidades lusas 
reconquistadas aos sarracenos, são esses pactos 
bilateraes, em "que os soberanos ou chefes milita- 
res não apagaram a autonomia municipalista ou 
independência civil. A lucta na reconquista chris- 
tã até D. Af fonso 1 1 1 manteve a energia d'esta 



PRIMEIRA época: edade media 191 



forte população civil, cujo poder democrático pre- 
valeceu no desenvolvimento das Cortes com o ti- 
tulo de Braço popular. Os seus Cantos tradicio- 
naes eram uma alegria viva, que animara a corte 
do monarcha e os solares dos fidalgos. Emquanto 
ng sul da França e na Itália apenas se conserva- 
ram raros vestigios dos germens populares elabo- 
rados artisticamente pelos trovadores occitanicos, 
em Portugal o fundo lyrico é todo de caracter po- 
pular, por que este elemento social era orgânico 
e exclusivo da nacionalidade, constituida pelo pen- 
dor da época em Monarchia. E' preciso ter sem- 
pre em attenção esse facto histórico das Behetrias, 
para comprehender o caracter social, politico e 
artistico ou litterario de Portugal, em qualquer 
época. 

«O Doutor João Pinto Ribeiro, o homem de 
T640, no seu tratado das Injustas successões de 
Castclla, pretende provar que, quando os Portu- 
guezes acclamaram Affonso Henriques, a maior 
parte das povoações do reino eram Behetrias, isto 
é, não sugeitas a senhorio algum, podendo eleger 
seus chefes e governadores. D'onde conclue, que 
no tempo da acclamação de Ourique, e no da sua 
confirmação em Lamego pelos prelados, magna- 
tas e procuradores, não se commetteu acto algum 
de rebellião contra os reis de Castella, que de fa- 
cto não eram senhores do reino de Portugal ; pois 
as suas povoações gosavam dos foros de Behe- 
trias, como fica dito. Ainda depois de constituida 
a monarchia, houve terras que não perderam esta 
qualificação ; e, sobre reconhecerem o dominio ge- 
ral do rei, no mais conservavam a prerogativa de 



192 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

eleger o seu governador, e de não poderem ser 
dadas em senhorios a ninguém.» i 

Nos paizes em que predominaram as institui- 
ções municipalistas, como na Alta Itália e em Por- 
tugal, existiu uma vigorosa poesia popular, e con- 
sequentemente um florente lyrismo artistico rela- 
cionado com as suas origens orgânicas. Na Lom- 
bardia, com o fim dos Õttões, em 1002, estabele- 
ceram-se as Republicas italianas, de Milão, Como, 
Novara, Pavia, Lodi, Cremona e Bergamo: é 
n'essa vida civil, activa e livre que se criam todos 
os germens artisticos e capacidades estheticas em 
que o génio italiano se revela na primeira Renas- 
cença. E ainda depois de terem cabido essas Re- 
publicas no século xii sob Frederico Barba-Roxa. 
ellas bem conheceram onde residia a sua força 
• confederando-se para a resistência na Liga Lom- 
barda. Não admira que os trovadores occitanicos 
achassem na Ttalia sympathia pela arte, e que 
muitos dos principaes trovadores do século xii e 
xTii sejam italianos. As relações da Itália com 
Portugal datam do começo de seu estabelecimento 
em Estado autónomo; esse influxo manifesto na 
cultura mental jurídica e theologica, coadjuvava 
a intensidade poética dos costumes populares, cu- 
jas canções amorosas se escutavam e imitavam na 
corte de D. Sancho i, prevalecendo sobre os refina- 
mentos cultos do provençalismo. Este facto capital 
das Bchetrias ou Cidades confederadas sob a fór- 



I Dialogo dos Mortos, Interlocutores Padre Macedo 
— Padre Amaro. Pag. 17. Londres. Tn-8.* (1830, sem data.> 



PRIMEIRA época: edade média 193 

ma monarchia, com as suas garantias reconhe- 
cidas em Cartas de Foral, além do génio da 
raça e da persistência da tradição, explica o vigor 
d'esse fundo popular, que tanto caracterisa o Ly- 
rismo portuguez, máo grado a influencia que ti- 
nham de exercer os Trovadores occitanicos que 
frequentaram as Cortes de Leão, de Aragão e de 
Castella, intimamente relacionadas com a de Por- 
tugal pelos enlaces matrimoniaes e parentescos. 
Na época em que as Cantigas de amigo eram imi- 
tadas na corte de D. Sancho i, dava-se o con- 
flicto com a monarchia de Leão, por motivo do 
monarcha portuguez ter occupado Tuy, Ponteve- 
dra e Sampaio de Lombe; a tradição popular gal- 
lega, n'esta hostilidade internacional, não teve o 
acolhimento que se deu mais tarde no cyclo dioni- 
sio, sendo somente ahi verdadeiro o facto procla- 
mado pelo marquez de Santillana: que nas Cor- 
tes peninsulares era em gallego ou português, 
que se tratava a poesia. A sympathia de D. San- 
cho I pela forma das Cantigas de amigo revela 
o espirito do seu governo, procedendo ao desen- 
volvimento e defeza das cidades, depois de arran- 
cadas do jugo sarraceno, dando-lhes foraes, fa- 
zendo o arroteamento dos terrenos incultos, fun- 
dando novas povoações, defendendo-as com for- 
talezas, e resistindo ás terriveis crises de novas 
incursões dos Árabes, de que lhe resultou a per- 
da de Silves e de Alcácer do Sal, e ás perturba- 
ções de fomes e de peste. A poesia lyrica da Es- 
chola trobadoresca ix)rtugueza adquire em frente 
dos trovadores occitanicos esse caracter que a 
destaca na sua originalidade: a Arte communi, 
13 



194 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



partindo da métrica popular ou o Doble menor, 
para as Canções de amor, e 3. Arte maior ou Gram 
Mestria para as Canções de maldizer, que têm 
também uma feição caracteristica : as luctas po- 
liticas do fim do reinado de D. Sancho i, de 
D. Affonso 1 1 e D. Sancho 11, actuaram no 
desenvolvimento da poesia satirica ou de es- 
carne o. 

Da allusão histórica á Guarda deduziu D. Ca- 
rolina Michaèlis que a Canção de D. Sancho i 
era inspirada pela Ribeirinha, a formosa Dona 
Maria Paes Ribeiro, também celebrada i^elos tro- 
vadores portuguezes palacianos. Segundo as re- 
ferencias dos Nobiliários, era filha de D. Payo 
Moniz e D. Urraca Nunes : «ouvea el rei D. San- 
cho, o yelho, por barregan e fez en ella semel; 
depois que morreu este Rey D. Sancho, casou 
com João Fernandes de Lima.» Foi a ella, quan- 
do estava no auge do seu favoritismo, que o tro- 
vador Payo Soares de Taveirós escreveu a Can- 
ção n.o 38. do Cancioneiro da Ajuda: 

e vós, filha de Don Pay 
Moniz, e bem vos semelha 
d'aver eu por vos guarvaya: 
pois eu, mia senhor, d'alfaya 
nunca de vós houve, nen hei 
valia de uma corrêa. 

A palavra guarvaya apparece empregada na 
pragmática de 1340, onde se falia em pannos de 
sol ia, tabardo, redondel e guarvaya, e é permit- 
tida ao rei e aos princepes. Parece referir-se a 
uma veste de arminho ou de pelles, ^ mo se de- 
l)reheiíde do verso : 



PRIMEIRA IJPOCA: EDADE MÉDIA IQ5 



Bisclaveret ad nom en Bretan, 
Garzvall Tappellent li Norman. 

Este D. Payo Moniz foi um dos que con- 
firmaram o Foral da Guarda de 1199. Dos amo- 
res com a Ribeirinha nasceram D. Gil Sanches, 
que foi trovador, e D. Rodrigo Sanches, que 
morreu na Lide do Porto, denominado um outro 
Rotidandus, e duas filhas, todos opulentamente 
dotados pelo rei. No Cancioneiro da Ajuda, n.^ 
^^2 vem uma Canção de D. Gil Sanches, no gosto 
popular, paralletistica e de refrem; começa: 

Tu que ora veens de Monte-mayor, 
Digas-me mandado de mia senhor. 

Tu que ora viste os olhos seus, 
Digas-me mandado d'ella, por Deus. 

Pelo Livro velho das Linhagens sabe-se que era 
clérigo dos mais considerados de Hespanha, vi- 
vendo em mancebia com D. Maria Gomes de Sou- 
sa, uma das Netas do Conde, do maior rico ho- 
mem de Portugal, o Sousão. Por este enlace, 
D. Gil Sanches era como genro de D. Garcia 
Mendes de Eixo, o primeiro trovador da familia 
Sousão, e cunhado de outro trovador D. Fernan- 
do Garcia Esgaravunha. As netas do Conde eram 
conhecidas pelos apodos dos trovadores pelas suas 
aventuras amorosas, reveladas pelos Nobiliários c 
por algumas Canções do Cancioneiro da Ajuda, 
como a de Martins Soares, n.o 398. Figuram os 
outras netas do Conde, filhas de D. Guiomar 
Mendes de Sousa e D. João Peres da Maia: 
D. Thereza Gil, favorita de Sancho o Bravo, fi- 
lho de Affonso o Sábio, D. Elvira Annes, que 



196 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

foi roussada pelo infanção-trovador Ruy Gomes 
de Briteiros, depois nobilitado; e Mari'Annes, 
que casou com D. Gil Martins, partidário de 
D. Sancho 11. O trovador Martin Soares cele- 
brou em uma Canção as netas do Conde, e em es- 
pecial o caso de D. Elvira, como o indica na ru- 
brica: aBsta Cantiga de cima fez Martin Soares 
a Ruy Gomes de Briteiros, que era Infançon (e 
depois fez-lo el-rei) Ric ornem, por que roussou 
Dona Elvira Annes, filha de D. João Peres da 
Maia e de D. Guiomar Mendes, filha dei Conde 
Mendo.)) Começa: 

Pois boas donas son desemparadas 
e nulho ornem nó nas quer defender, 
no n'as quer' eu deixar estar quedadas, 
mais quer'eu duas por força prender, 
ou três ou quatro, quaes m'eu escolher! 
Pois non an já per quem sejam vengadas, 
netas do Conde quer' eu cometer, 
que me seran mais pouc' acosmiadas. 

Na segunda estrophe allude ao facto das emi- 
grações de fidalgos portuguezes por luctas par- 
tidárias e conflictos de familia de se deitar a 
Castella. A Canção 396, que é uma tenção entre 
dois trovadores Payo Soares e Martin Soares, 
tem uma preciosa rubrica: ^(Bsta Cantiga fez 
Martin Soares em maneira de Tençon com Paay 
Soares, e é descarnho. Este Martin Soares foi 
de Riba de Limia .cm Portugal, e trohou melhor 
ca todoVos que trotaram, e assi foi julgado antr 
os outros trohadorcs.)) 

Em uma das suas sirventas contra hum 
cavalleyro que cuidava que trobava muy ben, 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA I97 



Soeiro Eannes, revela-nos Martin Soares conhe- 
cimento das Cantigas populares i pondo-as em 
contraste com as producçÕes artisticas : 

Os aldeyãos e os concelhos 

todoros avedes per pagados... 

por estes cantares que fazedes de amor 

em que Ihis acham as filhas sabor... 

Bem quisto sodes dos alfayates 

dos paliteiros e dos moedores, 

do vosso bando son os trompeiros 

e os jograes dos atambores 

por que lhes cabe nas trompas vosso son, 

para atambores ar dizen que non 

acham no mundo outros sons melhores. 

(Canc. Vat., n.° 965.) 

D. Carolina Michaélis, na biographia d'este 
trovador, resume as conclusões de Lang, que dá 
Martin Soares como tendo conhecido as poesias 
dos trovadores Uc de Saint Cir, de Aimeric de 
Pegulhan, e ainda as de Peire Cardinal e Raim- 
baut d' Arenga, e accrescenta: «realmente as re- 
lações já apontadas com Affonso Eannes de Co- 
ton e Fero da Ponte tornam incontestável a sua sa- 
hida de Portugal, reinando aqui Sancho o Ca- 
pello e nos reinos visinhos Fernando o Santo.» 

Foi ao contacto com a plêiada dos trovadores 
occitanicos e italianos, nas Cortes de Leão, Ara- 
gão e Castella que os trovadores portuguezes se 
apoderaram de todos os segredos da technica da 



I O jogral cantava para o povo; assim Guilhems 
Figueira: mont se fez grazxr ais arlots... et ais hostes 
tavernies... 



198 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



poética provençal e adaptaram a língua portugue- 
za não só aos effeitos das combinações da rima, 
como á expressão dos mais delicados sentimentos 
do amor. Era um torneio de que se colligiram 
esses numerosos Rótulos ou cadernos de compo- 
sições individuaes que foram mais tarde, trazidos 
a Portugal para serem incorporados em um vasto 
Cancioneiro. 

A morte de D. Sancho i veiu dar largas ás 
malevolencias contra os seus bastardos, e anar- 
chisar a corte de D. Affonso 11, que não se pres- 
tava a cumprir o testamento do pae, surgindo a 
lucta armada dos partidários de suas irmãs. Dom 
Affonso II herdou também as difíiculdades da 
Coroa com a Cúria romana, e pelo grande desen- 
volvimento que deu ás povoações concedendo-lhes 
Foraes, vê-se que não firmava a sua soberania na 
confiança da nobreza. O seu curto reinado deixou 
de pé todos os conflictos que pezaram cruamente 
no seu successor Dom Sancho 11. Todas estas 
causas fizeram que muitos fidalgos se deitassem 3 
Leão, a Aragão e Castella. O trovador D. Garcia 
Mendes de Eixo, estava homisiado em Leão, o 
na Canção n.o 346, (Colocci) emprega versos 
em provençal dirigindo-se a Ruy de Spanha. Mas 
apesar d'este êxodo frequente, as Canções de 
amor acharam cultores na corte de D. Affonso 11, 
sobretudo em Santarém quando ahi estacionou 
por algum tempo, ou no período dos seus amo- 
res com D. Mór Martins, de Riba de Vizella. No 
Cancioneiro da Ajuda encontra-se um grupo de 
Canções anonymas, que se referem com enlevo a 
essa temporada da Corte em Santarém : 



PRIMEIRA época: rdade media 199 



A mais fremosa de quantas vejo 
cn Santarém, e que mais desejo, 
c cn que sempre cuidando sejo, 
non ch'a direi, mais direi-ch' amigo; 

Ai vSantirigo I ay Santirigo ! 

Al c Alfanx' e ai Sesserigo ! 

(Canção n.° 278.) 

Pêro eu vejo aqui trobadores, 

senhor e lume d'estes olhos meus, 

que troban d'amor por sas senhores ; 

non vejo aqui trobador, por Deus, 

que m'entenda o por que digo : 
Al e Alfanx' e ai Sesserigo! 

(Canç. n.° 279.) 

Amigos, des que me parti 

de mia senhor e a non vi, 

nunca fui ledo, nen dormi, 

nen me paguei de nulha ren. 

Todo este mal soffro e soffri 
des que me vin de Santarém. 

(Canç. n.° 280.) 

Não ha inconveniente em considerar o refren 
Al e Alfanx' e ai Sesserigo! uni grito de guerra 
tradicional, que se tivesse conservado desde a to- 
mada definitiva de Santarém em 15 de Março de 
1147, por D. Affónso Henriques. O casamento 
de D. Affonso 11 com D. Urraca, filha de Al- 
fonso IX de Castella, obedecera á nova corrente 
politica que deslocava o centro da unificação na- 
cional de Leão. Castella era o ponto de conver- 
gência dos trovadores occitanicos, e os fidalgos 
portuguezes que sabiam trovar encontravam alli 
uma corte florente onde eram admirados e imi- 
tados. O curto reinado de D. Affonso 11, e as 
perturbações que o fizeram morrer amargurado 



200 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

em 2^ de Março de 1223, afastaram da sua corte 
todos os trovadores que tinham achado favor 
junto de D. Sancho i. A attracção da Corte de 
Castella, tornou-se mais forte sob o seu successor 
D. Sancho 11 casando com D. Mecia, filha do 
potentado biscainho D. Lopo Dias de Haro, o 
maior favorito do monarcha castelhano, celebrado 
na sua morte em 1236 em uma canção de Pêro 
da Ponte. Na corte de D. Sancho 11, no meio 
das perturbações herdadas do governo de seu pae, 
a poesia tomou um caracter satírico, destacando- 
se entre os trovadores Ayras Peres de Vuyturon, 
com o látego de fogo contra os adversários do 
monarcha. E' n'esta crise violenta, que termina 
pela Lide do Porto em 1245, em que as facções 
dos fidalgos se conflagraram, que se deu a emigra- 
ção dos vencidos fixando-se na corte de Branca 
de Castella, em Paris. 

Martin Soares, um dos mais interessantes tro- 
vadores da corte de D. Affonso 11 e D. San- 
cho II, é um d'aquelles que sahiram de Portugal, 
e segundo Henry Lang, conferenciou pessoal- 
mente com trovadores occitanicos, como se de- 
prehende pelas ideias e modismos que apresenta, 
encontrando-os nas cortes peninsulares. Reco- 
nhece-se que sahiu de Portugal, pelas suas rela- 
ções com Affonso Eannes de Coton e Pêro da 
Ponte. Attendendo á época, observa D. Carolina 
Michaèlis: «Teria por tanto occasião de vêr e 
ouvir Adhemar o Negro, Elias Cairel, Giraut de 
Borneil, Guilhem Adhemar, e talvez Sordelo, o 
Mantuano.» (Canc. Aj., 11, 335.) O jogral Pi- 
candon cantava as Canções de Sordello, esse tro- 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA 201 



vador italiano consagrado por Dante, como pro- 
testo contra os que abandonavam a lingua italiana 
trovando em provençal, lamentando no Convito 
a morte politica da França meridional. O trova- 
dor João Soares Coelho apodava-o: 

Vedes, Picandon, soo maravilhado 
eu d'En Sor dei que ouço en tenções 
muytas e boas, ey mui boos soes 
como fui en teu preyto tan errado; 
pois sabedes jograria fazer, 
porque vos fez per corte guarecer 
ou vós ou el dad'ende bon recado. 

(Canc. Aj., i, n.° 371. Vat., n." 1021.) 

A vida aventureira de Sordello nas cortes de 
Itália e França, onde era bastante estimado, é aqui 
apontada por João Soares Coelho, notando o con- 
traste d'esses iiomini di corte, que se faziam va- 
ler pelos seus versos, com o jogral que repete as 
canções de outrem. Sordello era considerado como 
um grande mestre do gai saber, e Aimeric de Pe- 
guilhou terminava uma canção com este cabo ou 
fiida: «Este mensageiro leva o meu fabliau á 
Marche, a Dom Sordello, para que dê o seu leal 
juizo, segundo o seu costume.» As composições 
mais celebres de Sordello eram Tensões, coplas 
ou canções amorosas e sirventes, que o faziam 
temido. Em lucta com o trovador Pedro Ber- 
mont, replicava-lhe Sordello : «E' falsamente que 
me chamam jogral: jogral é o que vae atraz de 
outrem; eu levo alguém atraz de mim; eu nada 
recebo, e dou; elle, nada dá e recebe; tudo o que 
traz em cima de si, recebeu-o da compaixão; eu 
não acceito cousa que me faça corar; vivo do que 



202 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

é meu, recusando tudo quanto é salário, e não 
acceito senão o que é presente de amisade.» ^ Vê- 
se que os trovadores já luctavam com a invasão 
da classe interesseira dos jograes, que explora- 
vam as cortes; elles se viram forçados na côrtc 
de Castella a estabelecer estas distincçÕes. A's re- 
lações dos trovadores portuguezes com os occi- 
tanicos e italianos, deveram elles o conhecimento 
dos requintes da métrica provençal, que facilmente 
imitaram nas suas canções; mas os próprios pro- 
vençaes e italianos empregaram por vezes a lin- 
gua portugueza para comporem os seus versos. O 
trovador Bonifácio Calvo, de Génova (Bmiifaz 
de Jenoa) deixou duas canções em portuguez, 
que foram colligidas no Cancioneiro da Ajuda, 
n.o 265 e 266, e que apparecendo citadas no ín- 
dice do Cancioneiro de Colocci, n.o 449 e 450, 
foram depois encontradas no Cancioneiro Bran- 
cuti, n.o 341 e 342. Citaremos a primeira estro- 
phe de cada uma : 



Mui gram poder a sobre mi amor 
poys que mi faz amar de coraçon 
a ren do mundo, que me faz mayor 
coyta soffrer; e por todo esto non 
ouso pensar sol de me queixar en, 
tan gran pavor ey que mui gran ben 
me Ih' i fizesse por meu mal querer. 



I Fauriel, Dante et les origines de la Langue et de 
la Litterature italienne, t. i, p. 529. — De Lollis, no seu li- 
vro Vita e Poesie di Sordello di Goito (Italle, 1896) con- 
sidera que este trovador mantuano viajara pela peninsula 
hispânica antes de 1230. (Rev. crit. de Historia e Litte- 
ratura, Ann. m (1899) p. 304 



PRIMEIRA KP'.)CA ; :cdade: media 203 



Ora nen moyro, neii vivo, nen sey 
como mi vay, nen ren de mi senon 
a tanto que ey no meu coraçon 
coyta d'amor qual vos ora direy, 
tan grande que mi faz perder o sen 
e mha senhor sol non sab'ende ren. 

Não admira que por estes contactos se encon- 
trem alguns italianismos nas canções portuguezas, 
taes como : afan, aquesto, aquisto, aval, hesonha, 
cajon, camhhar, color, cór, dolçor, guarra, guir- 
landa, ledo, inensonha, toste. 

■ Outros trovadores occitanicos empregaram a 
língua portugueza, para lisongear as cortes penin- 
sulares que frequentavam, onde essa lingua era 
ouvida com encanto. Ramon Vidal de Bazoudun 
introduziu em uma novella versificada (a 2. a das 
Cortes de Amor) alguns versos em portuguez: 

Tal dona non quero servir 
per me non si denhe preiar 
já non queren lo sien prendir. 

Com leves retoques fica portuguez da época : 

Tal dona non quero servir 
per me non se digne precar, 
já non quer' eu lo seu pram dir. 

Ramon Vidal floresceu entre 11 75 e 1215, 
sendo muito estimado na corte de Affonso vi 11 
de Castella, e na de Affonso 11 de Aragão; (Canc. 
Aj., II, 734.) foi n'essas cortes que ouviu tro- 
var e cantar em lingua portugueza. Um outro 
trovador, .Rambaut de Vaqueiras, em um Descort 
escripto por 1 195-1202, entre as cinco línguas que 
emprega, mette este trecho em portuguez ; 



204 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Mas tan temo vostro pleito 

todo ú soi escarmentado; 

per vos ei pena e maltreito 

é mei corpo lazerado; 

la nueit quant jatz en mei leito 

soi moitas vez espertado, 

per vos, creo non profeito 

falhir ei en mei cuydado. 

I 

Mon corassó m' avetz treito 
E mont con afan Tan furtado. 

Rambaut de Vaqueiras esteve na corte de Af- 
fonso VIII. As Canções dos trovadores portu- 
guezes eram pela sua ternura imitadas pelos occi- 
tanicos. O próprio D. Af fonso x, o Sábio, não se 
dedig-nava de compor canções intercalando como 
centÕes versos dos trovadores portuguezes que fre- 
quentavam a corte de Castella; elle serviu-se do 
refren da Canção de João Soares Coelho: 

De mui bon grado queria a um logar ir, 
e nunca m'end'ar viir. 

(Canç. i6o. Ajuda.) 

E na Cantiga de Dom Affonso rei de Cas- 
tella e Leão (n.o 469. Colocci) vem assim apro- 
priado : 

De mui bon grado queria hir 
logo e nunca vir. 

N'esta mesma Canção, empregou Affonso x 



I Em alguns manuscriptos cabe aqui o verso : — Mais 
que fallir non cuide io. — Está supprimido em outro ma- 
nuscripto segundo a exigência da estrophe. 



PRIMEIRA época: edade média 205 



os versos d'este outro refren da Canção de João 
Coelho (n.o 175 do Canc. Aj.): 

Moir'eu, e mais per alguen ! 
E nunca vus mais direi en. 

Ainda n'esta Cantiga emprega o monarcha 
castelhano o refren da Canção de João de Gui- 
Ihade (n.o 228 Aj.) : 

porque moir ! e quer 'eu dizer 
quanto s'ende pois saberon : 

Moir' eu porque non vej'aqui 

a dona que non vejo aqui. 

O próprio rei castelhano D. Affonso o Sábio 
adoptou para as poucas canções profanas, da sua 
mocidade, a lingua portugueza como se vê pelo 
grupo das que foram colligidas no Cancioneiro da 
Vaticana, n.o 61 a 79, e no Cancioneiro Colocci, 
"•^ 359 3. 478 (série seguida no índice ms. de 
Colocci n.o 467 a 478 e 479 a 496.) A lingua 
gallega estava em um grande despreso, desde 
que decahira o foco da cultura leoneza; e essa 
decadência continuou-se, como observa Saralegui 
y Medina: «Posteriormente, desde a anarchia feu- 
dal do século XIV, a Galliza não teve já poesia ori- 
ginal distincta e própria; a sua voz extinguiu-se 
no vácuo com os últimos eccos do Cancioneiro;... 
Submettida á dura e cruel servidão, debaixo do 
despótico jugo de uma nobreza possuidora de 
direitos dominicaes tão extensos — a Galliza dei- 
xou de existir na realidade para a poesia, como 
não existia tampouco para a Architectura, Arte 
e industrias, envolta na commum e total rui- 



206 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

na...» I A lingua portugueza, que segundo Al- 
drete, ainda no tempo de D. Enrique iii se 
empregava geralmente na poesia, deveu esse pres- 
tigio ao seu predominio no lyrismo nas cortes de 
Leão, Aragão e de Castella, usada como um dia- 
lecto intermediário facilmente catalanisavel, (como 
se vê pela Canção de D. Garcia Mendes d'Eixó 
n.o 346, Colocci), ou castelhanisavel como na 
Canção de Alfonso xi. Este phenomeno litte- 
rario deu-se também com o dialecto do Poitou, (o 
poitcvin) que serv-iu de communicação do lyris- 
mo provençal para o norte da França e para In- 
glaterra. Os 48 trovadores gallegos que figuram 
nos Cancioneiros da Vaticana e Colocci Brancuti 
apontados por D. Manoel Murguia, são quasi to- 
dos do fim do cyclo Affonsino. Notou-o Menen- 
dez y Pelayo: «A irupção da poesia popular na 
arte culta tem de referir-se principalmente ao rei- 
nado de D. Diniz, em que por gala e bizarria se 
entregaram princepes e fidalgos a arremedar os 
cândidos accentos das Canções de romarias, de 
pescadores e aldeãos, adaptando sem duvida "no- 
vas palavras á maneira antiga.» (AntoL, iii, p. 
XVII.) A importância do Cyclo pre-Affonsino 
está na facilidade com que os trovadores portu- 
guezes de 1200 a 1245, se apoderaram de todos 
os artificios da poética provençalesca sem perde- 
rem as características do génio nacional, revelado 
no seu lyrismo. Observou D. Carolina Michaé- 
lis, com a intuição da sua feminilidade : «Tanto 



Um Trovador fcrrollano, p. 5. 



PRIMEIRA época: edade média 207 



nas adaptações dos modelos estrangeiros, como 
na dos géneros populares, o génio pátrio se ma- 
nifesta. O sentimento da saudade já era familiar 
aos coevos de D. Diniz. Em 1200 morrer de amor 
já era costume dos mimosos de alma atormentada : 
os grandes olhos de criança das damas portuguezas 
inspiravam pela sua meiga e dorida expressão, ao 
mesmo tempo sensual e soberanamente espiritual 
e casta amores apaixonados, mais vezes de perdi- 
ção do que de salvação. Sob a phraseologia con- 
vencional de cortezãos mensurados escondem-se 
frequentemente sentimentos fervorosos. — Mesmo 
a monotomia ou uniformidade dos protestos e 
queixumes de amor é significativa e attrahente.)^ 
(Canc. Aj., i, p. ix.) No precioso Cancioneiro da 
Ajuda encontram-se os trovadores do Cyclo pre- 
Affonsino que poetaram da ultima década do sé- 
culo XII até 1245, supprindo-se pelo Cancioneiro 
Colocci Brancuti os trovadores que occupavam as 
folhas perdidas do códice membranaceo. (D. Car. 
Michaèlis, op. cit., 11, 322.) Vinte e dois trova- 
dores encantaram a Corte de Guimarães, Coim- 
bra e Santarém, e inflammaram com a sua ter- 
nura sentimental as Cortes esplendorosas de Leão, 
Aragão e Castella, competindo com os trovadores 
mais afamados da Provença e da Itália. ^ 



I D. Carolina Michaèlis apura a seguinte série : 

Vasco Praga de Sandim — João Soares Somesso — 
Pay Soares — Martim Soares — Ruy Gomes de Briteiros — 
Ayras Carpancho — Nuno Rodrigues de Gandarey — Ay- 
ras Moniz d'Asme — Diego Moniz — Osoir'EanneG — Monio 
Fernandes de Mirapeixe — Fernan Rodrigues de Lemos — 



2C8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



b) Cyclo Affonsino (1248 a 1279). No es- 
tudo dos Cancioneiros trobadorescos portuguezes 
a observação estatistica leva «a considerar como 
edade mais fértil da arte trobadoresca ou pelo 
menos da Canção palaciana de amor a edade af- 
fonsina de 1245 a 1280 (respectivamente de 1252 
a 1284.))) D. Carolina Michaèlis chegou a este 
resultado pela comparação dos grupos de trova- 
dores dos trez Cancioneiros da Ajuda, Vaticana 
e Colocci. (Canc. Aj., 11, 600.) E' este o cara- 
cter mais brilhante da corte de D. Affonso iii, 
em que a influencia do norte da França se fez 
sentir através da corrente castelhana que se gene- 
ralisava. A sabida do principe D. Affonso, irmão 
de D. Sancho 11, em 1229, por occasião do casa- 
mento de sua irmã D. Leonor com o princepe 
Waldemar da Dinamarca, deu ensejo a que se 
demorasse percorrendo a Europa, entrasse em va- 
rias batalhas, vindo assistir uma temporada na 
corte de San Luiz, onde sua tia Branca de Cas- 
tella, exercia a laboriosa regência, na menoridade 
de seu filho. Fora isto em 1238. A rainha re- 
gente, muito nova e muito bella, era assediada pelos 
barões prepotentes, destacando-se entre todos pelo 
seu talento poético Thibaut, Conde de Champagne. 
N'essa corte de uma rainha fomiosa e viuva des- 



D. Gil Sanches — D. Garcia 'Mendes de Eixo — Ruy Gomes 
o Freire — Fernão Rodrigues Calheiros — D. Fernão Pe- 
res de Talamancos — Nunes Eannes Cerzeo — Pêro Velho 
de Taveiroz — D. João Soares de Paiva — D. Rodrigo Dias 
da Gamara — Abril Peres — Pêro da Ponte — Ayras Pe- 
rez Vuyturon — D. Diego Lopes de Haro — Bernaldo de 
Bonaval — Affonso Eannes do Cotom. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 209 



envolveu-se a galanteria e o lyrismo erótico; era 
iini meio de revelações atfectivas. Por esta mes- 
ma época Guillaume de Lorvis elaborava o seu 
poema allegorico Rouian de la Rose, cuja chave 
está na interpretação das aventuras numerosas da 
corte, algumas das quaes foram definidas como — 
honteiise eomiiveiiee ; n'essas intrigas a rainha fez 
o casamento do garboso principe D. Af fonso com 
sua sobrinha Mathilde, a viuva Condessa de Bou- 
logne. Ahi n'essa corte beata e apaixonada do- 
minavam as Cançonetas lyricas em lingua d'oil e 
especialmente em provençal, os sons poetevins, as 
Canções de refren do Auvergne e da Gasconha, 
ahi postas em moda por Alianor de Poitou. (Canc. 
Aj., II, 719.) N'este deslumbramento corteza- 
nesco estava enleiado o princepe D. Affonso, 
quando, nos conflictos e resistências dos fidalgos 
portuguezes contra a administração de D. San- 
cho II, vieram ás mãos com os partidários do rei 
em 1245, ^"^a ^íí/í? do Porto. Os bispos foram pre- 
parar junto do Papa a deposição de D. Sancho ii, 
e os principaes fidalgos vencidos emigraram para 
França, aproximando-se do princepe D. Affonso, 
que era apontado pela sua extremada bravura; 
ahi se encontraram n'esse foco de cultura e ele- 
gância fidalgos da familia dos Bayães, dos Por- 
to-Carreros, Valladares, Nobregas, Alvins, Mellos, 
Sousas e Raymundos; são estes os appellidos dos 
principaes trovadores, que figuraram na corte de 
D. Affonso III, depois de deposto o irmão. D. Af- 
fonso veiu a Portugal simuladamente e obte- 
ve a homenagem dos principaes Alcaides por ve- 
niagas que foram objecto de sátiras candentes. 
14 



210 HISTORIA DA LITTaRATURA PORTUGUEZA 



Alfonso o Sábio, quando considerava as suas 
próprias desventuras, comparava-se ao rei de Por- 
tugal : 

Nunca asy foi vendudo 
Rey Don Sanch' en Portugal. 

(Cant. Santa Maria, 235.) 

A sátira do trovador Ayras Perez Veyturon 
(Canc. Vat., n.o 1088) é sangrenta, estampando 
o nome d'esses Alcaides, e fazendo a farsisture 
com Versos latinos com que o papa absolveu os 
traidores; tem a rubrica: aBsta outra Cantiga c 
de maldizer dos que deron os Castellos como non 
deviam ai rey don Affonso.)) Os favoritos do 
novo rei retorquiam também com sátiras á par- 
cialidade vencida ; e assim, pelo estimulo politico e 
pela curiosidade das canções de maldizer e de 
escarneo, se acordou o interesse pela poesia lyrica 
e como imitação e lembrança dos dias passados 
na corte f ranceza. Martim Moxa atacava-os : 

Vós que soedes em corte morar, 

d'estes privados queria saber, 

se lhes ha a privança muyto durar, 

cá os non vejo dar nem despender; 

antes os vejo tomar e pedir, 

e o que lhes non quer dar ou servir 

non pôde rcm com el rey adubar. 

(Canc. Vat, n." 472.) 

O género mais cultivado era o da sátira, tam- 
bém em moda na Corte de Castella; mas n'este 
cyclo affonsino o lyrismo expressava-se nas mais 
frescas e deliciosas Pastorellas, verdadeiramente 
uma reminiscência da corte franceza que assimi- 
lara os sons poetevins. 



PRIMEIRA Época : edade media 



Influencia do Norte da França ou Gallo-frankà 

Attribuia-se á influencia exclusiva dos trova- 
dores occitanicos o desenvolvimento do lyrismo 
nas modernas litteraturas, reservando ao génio 
franko ou á França do norte a creação das Epo- 
pêas feudaes, ou as grandes Canções de Gesta, 
que idealisaram como centro de toda a acção he- 
róica a figura preponderante de Carlos Magno: 
mas considerados os factos, a França do norte 
possuia também as formosas canções lyricas das 
Pastorellds, e a França meridional assim elabo- 
rou Canções de Gesta, dos heroes da lucta con- 
tra as invasões sarracenas. A verdadeira critica 
consiste em descriminar estas influencias nos seus 
momentos históricos, abandonando as affirmações 
absolutas. A influencia do lyrismo do Norte da 
França sobre as Nações meridionaes, como pre- 
tende Gaston Paris e o seu discipulo Jeanroy, não 
se pôde fixar na época provençal, quando a França 
meridional era incorporada violentamente na uni- 
dade monarchica. D'essa época não se encontram 
Canções lyricas em lingua d'oil; e Jeanroy vê-se 
forçado a recompòl-as pelas canções portuguezas 
e italianas tornando-as como reflexo d'ellas. Essas 
Canções de caracter objectivo ou de toile, do norte 
da França somente se vulgarisaram no século xv, 
pelo meio indirecto das melodias francezas, como 
vemos com Gil Vicente introduzindo uma d'essas 
cantigas vindas de França no Auto dos Quatro 



212 TriSTORlA HA IJTTERATURA PORTUGUEZA 

Tempos, cuja melodia se encontra no Cancio- 
neiro musical do século xv, de Barbieri. Quando 
D. Af fonso T 1 1 assistia na corte de França com 
os -fidalgos i)ortuguezes que alii se refugiaram 
conspirando contra D. Sancho ii, estavam em 
moda as letrilhas e cançonetas em lingua d'oil, 
que eram compostas sob o influxo das Jlllanclas 
da Gasconha, dos refrens do Auvergne, mais co- 
nhecidos ahi pelo titulo de Sons poitevins. Foi 
esta forma, a Pastorclla franceza. que D. João de 
Aboim e outros fidalgos reproduziram com certa 
arte na corte de D. Af fonso iii em Santarém e 
em Lisboa. Sem attender ao elemento mais or- 
gânico ou tradicional do lyrismo dos Cantares de 
amigo, a illustre ronianista D. Carolina Michaèlis 
afhrma: «não é a França meridional, mas sim 
a do Norte cjii: foi a vcnicuicira corrente, e até 
certo ponto, mestra e guia.» (Cam. Aj,, ii, 683.) 
No ponto de vista restricto, essa corrente deter- 
mina-se no Cyclo Affonsino, com a imitaçã<^ das 
Pastorellas, que se identificaram com as Bailadas. 
Barcarolas e Cantigas de amigo, tratando themas 
de predilecção pertencentes ao fundo ethnico da 
Europa Occidental. Com este critério é que a eru- 
ditíssima romanista avalia a these de Jeanroy da 
origem franceza dos Cantares no Norte na lyrica 
portugueza: «O distincto investigador francez 
que tentou derivar todos os com caracter popu- 
lar de moldes franceses hoje perdidos, mas por 
elle engenhosamente reconstruídos por deducções 
das Cantigas ix)rtuguezas. conheceu insuficiente- 
mente a raça peninsular, a historia da sua civili- 
sação, os seus costumes, sua indole, suas cantigas e 



PRIM&IRA fiPOCA: SDADfi MÉDIA 



bailados. Como nos Cancioneiros modernos da 
dalliza e de Portngal se lhe deparasse muitas ba- 
nalidades e grosserias, sem vislumbre de poesia, as 
(|iiaes comi^aron com a assombrosa fcrinulid^uli^ e 
ligeireza da musa gauleza, não cjiii/ .iv uJit.n (|ne, 
t>utr'ora opulenta e ins])irada a musa indii-i n.i po- 
desse ter actuado nos poetas cultos, proporcionan- 
do-lhes typos, moldes e modelos. Argumentando 
issim esqueceu porém as suas próprias theorias, a 
lH)esia popular arcliaica e da naçfio inteira, tinha 
collalK)ra(lo em todas as daSvSes.» (Canc. Aj\, ii, 
()40. ) Ji d'esses moldes da poesia popular diz: 
*< vigentes no primeiro i>eriodo, — serviram de fon- 
10 de inspiratcão aos imitadores palacianos, e se 
l)orpetuaram ua memoria do povo até ao dia de 
boje n'alguns recantos de Traz os Montes, da 
('.alli/a e das Astúrias...» (Ib., p. 924.) Paul 
Meyer reconheceu na lyrica franceza a corrente 
meridional, comprehendendo melhor a phase por- 
tugueza: «a poesia lyrica franceza é formada por 
duas correntes, uma propriamente nacional, a ou- 
ira meridional. Ivstas duas correntes são repre- 
sentadas nos nossos velhos Cancioneiros france- 
ses do século XI 1 1 e XIV, e têm toda a apparencia 
(|ue as Canções de fiandeiras, canções de damas, 
(|ue formavam a parte mais preciosa da nossa 
antiga poesia popular, nunca teria sido colligida 
se o êxito da poesia do Meio Dia não viesse pòl-as 
em consideração. O mesmo aconteceu em Portu- 
gal.)) (Roniania, 1876, p. 267.) A Pastorella fran- 
ceza, reflectindo o espirito meridiomd, veiu vivifi- 
car as nossas Baylias. dentro das condições do na- 
: cionalismo. Este sentimento da tradição é que fez 



214 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Dom João de Aboim comprehender a Pastorella 
franceza, assimilando-a admiravelmente, como 
se vê: 

Cavalgava n'outro dia 
por um caminho francês i 
e húa pastor siia 
cantando com outras três 
pastores, e non vos pez*; 
e direy-vos todavia 
o que a pastor dizia : 

Nunca mulher crêa pér amigo, 
pois s'o meu foy e não falou migo. 

Pastor, non dizedes nada, 
diz húa d'ellas enton, 
se se foy esta vegada, 
ar verrâ s'outra sazon, 
e dig' a vós per que non 
falou vosc', ay ben talhada, 
e é cousa mais guisada 
de dizerdes com' eu digo : 

Deus! ora vehesse o meu amigo, 
e averia gran prazer migo. 

(Canc. Vat., 278.) 



I ^^N'esta época (século xiii) não era fácil passar os 
Pireneos e chegar são e salvo a Santhiago, apesar dos Có- 
negos de Santo Eloy de Compostella, terem emprehendido 
entre si a policia dos caminhos — e de conduzirem e recon- 
duzirem com segurança os peregrinos, vindos pelo grande 
caminho francês, que elles chamam ainda ao presente, que 
vem das Landes, de Bordéos a Leão.^^ — Francisque Michel 
transcreve esta passagem da Historia da Navarra de André 
Favyn, (p. 221): e acrescenta: ^^Por todo o caminho entre 
Bordéos e S. Thiago, existiam hospicios destinados a estes 
piedosos viajantes, nomeadamente em Barp, Belin, Saint 
Esprit, S. João da Luz.» (Le Pays Basque, p. 338.) 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 



O trovador af fonsino encaixilhou no quadro da 
Pastorella o Cantar de amigo ; transcrevemos uma 
estrophe typica de pastorella franceza, para veri- 
ficar esse influxo: 

L'autre jour je chevachoie 
Sor mon palefroi amblait, 
Et trovai en mi mai veie 
Pastorelle agniaus guardant 
Et chaipial faixant 
Partit á muguet 
Je lui dit : — Marguet 

Bargeronette, 
Três douce compaignete, 
Doneis moi vostre chaipelet, 
Doneis moi vostre chaipelet. i 

Pedr' Amigo de Sevilha, na Canção 689 em- 
prega este titulo de Pastorella: 

Quando eu hun dia f uy en Compostella 

em romaria, vi huma pastor, 

que pois fuy nado nunca vi tan bela, 

nen vy a outra que falasse milhor; 

e demandi-lhe logo o seu amor, 

e fiz por ella esta pastorella. 

O clérigo Ayras Nunes (Canc. Vat., n.o 454) 
cultivou o género com uma singular belleza : 

Oy' oj' eu húa pastor cantar, 
d'hu cavalgava per húa ribeira, 
e a pastor estava senlheira, 
e ascondi-me pola ascuytar; 
e dizia muy ben este cantar : 

Sol-o ramo verde frolido 
vodas fazen ao meu amigo; 
e choram olhos de amor. 



I Paul Meyer, Documents ms. de Vancienne litter ature 
de Prance, 



2l6 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



E a pastor parecia muy ben, 
e chorava e estava cantando, 
e eu muy passo fuy-m' achegando 
pol-a oyr, e sol non faley ren ; 
e dizia este cantar muy ben : 

Ay, estorninho do avelanedo, 
Cantades vós, e moir' cu c peno; 
d' amores ey mal. 

Seguem-se mais trez estrophes delicadamente 
bellas ; é comparável á Pastorella x do ms. de 
Paul Meyer: 

L'autrier un lundi matin, 
M'an aloie ambaniant; 
J'antrai en un biau jardin 
Trouvai nonetée seant. 

Cellc chansonette 

Dixoit la nonette : 
Longue demore e faltes 

Franz moines loiah! 
Sc plui sui nonette 
Ains kc soit li vespres 
Je morrai dcs jolis maL etc. 

A poesia lyrica franceza era directamente co- 
nhecida pelos trovadores portuguezes, que inter- 
calavam como centões versos em lingua d'oil nas 
suas Canções ; comprox^a-o a Canção de Fernão 
Garcia Esgaravunha, querendo por uma allusão 
aos costumes feudaes exprimir o sentimento de 
fidelidade á sua dama: 

Dizer-vos quer' eu uma ren, 

Senor que sempre ben quige : 
Or sachic:: vcroyamcn 
que ic soy votre orne ligc. i 

(Canc. Ai.. T26.) 



I Laboulaye, na Histoirc dii Droit de propriétc fon- 
c-.crc en Occident, (p. 448) : ^^Reparando para a affinidade 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 217 

Dom Affonso Lopes de Baião, reproduzindo a 
forma épica da Gesta de Roland, transforma-a 
em uma sirvente ou sátira pessoal como uma pa- 
rodia contrafazendo o portuguez archaico. 

A Bschola trohadoresca portiigiieza completa 
os seus caracteres próprios, além dos germens 
tradicionaes e de um sentimento nacional, appre- 
sentando uma morphologia poética, que lhe ser- 
viu de expressão. Examinando materialmente a 
métrica dos nossos trovadores, nota-se o emprego 
quasi exclusivo dos versos em rimas agudas, e ra- 
ramente os versos são quebrados; a estrophe ter- 
mina quasi sempre com refren ou estribilho, e 
pelas exigências da musica a Canção é tripartita. 
Nos tempos em que Dom Affonso iii com os 
seus partidários assistiu na corte de França, é que 
os trovadores do Cyclo Affonsino tomaram co- 
nhecimento de todos os artifícios da poética tro- 
hadoresca, mais dominante, que era a Eschola de 
Limoges. , O Marquez de Santillana, accusava esta 
influencia, na sua Carta ao Condestavel de Por- 
tugal : «Usaron e! Dccir en coplas de dez silla- 
bas, a la manera de los liuiosis...)) Chamava-se 
Arte maior em contraposição ás redondilhas ou 
Arte menor. E n'essa mesma carta accrescenta: 
((Estenderam-se, creio, d'aquellas terras e comar- 
cas dos Limosinos esta Arte aos Gallaicos...» 



da condição do lite com o colonato, afíinidade tão estreita 
que leva a explicar a origem da instituição romana por 
imitação dos usos bárbaros, — é fácil de comprehender 
como estas duas condições se confundiram ; o nome de 
Ite foi mais usado no Norte, o de colono ao Meio Dia, mas 
a tenencia foi mais ou menos a mesma... ^ 



2l8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Entrava-se em uma phase de disciplina; e effe- 
ctivamente encontrou-se junto ao Cancioneiro Co- 
locci-Brancuti o fragmento de uma Poética tro- 
badoresca portugueza, da mesma época em que 
D. João, sobrinho de Affonso o Sábio, escreveu 
uma Arte de trovar, que se não acha entre as suas 
obras, i E' um documento de valor histórico, 
como inferiu Menendez y Pelayo: «Havia cer- 
tamente na Poesia gallega uma disciplina de Bs- 
chola, e a exemplo e imitação das Poéticas pro- 
vençaes, chegou muito cedo a uma Poética pró- 
pria, um verdadeiro tratado doutrinal, que de- 
veria ter sido algo extenso, a julgar pelos pre- 
ciosos fragmentos que nos restam no Cancioneiro 
Colocci-Brancuti, que abragem 3 livros inteiros e 
parte de outro.» (Antol., iii, p. xviii.) Essa 
Poética, quasi illegivel, e restituida plausivelmente, 
constava de seis capitules, começando o fragmen- 
to em uma boa parte do terceiro. N'este se de- 
finem os géneros lyricos, taes como a Cantiga de 
amor e a Cantiga do amigo, a Cantiga de escar- 
ne o, de Me estria ou de rcfren e de Joguete cer- 
teyro. Define depois o género das Tenções, feitas 
por dois trovadores ao mesmo tempo: «per ma- 
neyra de razon que hun aja contra o outro em 
quaes diga que por l>em tever na prima cobra et 
o outro responda-lhes na outra dizendo o con- 
trario» Também vem indicando um género po- 
pular, cujo titulo o aproxima das Villanelas da 



I Amador de los Rios, Hist. crit. de la Litteratura 
espanola, t. 11, p. 626. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 2I9 

Gasconha : «Outras Cantigas fazem os trovadores 
a que chamam de Villão. Estas Cantigas se po- 
dem fazer d' Amor ou d' Amigo sem mal algum, 
nen son per arrabis, porque as não estimam mui- 
to.» No Cancioneiro da Vaticana vem um bello 
exemplo, n.o 1043, caracterisado pela rubrica: 
(.{Diz uma Cantiga de Villão: 

O' pee d'itma t©rre 
bayla, corpo' e giolo; 

Vedel-o cós, ay cavalleiro,'^ 

Sobre este molde compoz João de Gaia uma 
canção «por aquella de cima de Villãos, que diz 
a refren — Vedei o cós, ay cavalleyro; — e fe- 
ze-a a hun villão que foy alfayate do bispo don 
Domingos Jardo.» A' simplicidade popular con- 
trapunham-se os artifícios complicadissimos das 
trovas de se grei. Lê-se na poética alludida: «E 
este segrer é de maior sabedoria, por que toma 
cada uma das palavras da Cantiga que segue.)"» 
Póde-se inferir que este nome de Segrel, dado a 
determinados trovadores, proveiu da especial ca- 
pacidade de seguir em improviso ou estudada- 
mente umas determinadas palavras, ou repetições 
de rima e de versos. Quando uma estrophe se 
continua ou segue no seu sentido grammatical na 
estrophe immediata, chama-se-lhes atehiidas; ex- 
plica o género de doble, em que a palavra se re- 
pete duas vezes na estrophe, e o 7nór doble, em 
que as mesmas palavras mudam de tempo. O 
Marquez de Santillana caracterisou a lyrica do 
noroeste da Hespanha por este artificio dos ver- 
sos encadenados, lexapren e mansobre. A Can- 



220 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ção redonda designava o artificio em que o ul- 
timo verso da copla se repetia como começo da 
seguinte; competia-lhe a designação da encade- 
nada, quando a rima que Analisava a estrophe 
era a primeira palavra da estancia seguinte. Diez 
cita a rubrica de uma Canção de Giraud Riquier; 
«Canson redonda et encadenada de notz e de son.» 
No Cancioneiro da Ajuda é frequente o encade- 
uado, sendo a primeira rima repetida no primeiro 
verso das demais estrophes ; ou a ultima rima 
repetida sempre mas não como refren. O se- 
gundo artificio da poética trobadoresca portugue- 
za é o Icxapren, consistindo em repetir o ultimo 
verso da estrophe como primeiro da que se lhe 
seguia. A terceira forma ajx^ntada por Santil- 
lana é o Mansobrc, que consistia na rima repetida 
ora no meio e fim do verso, e então se chamava 
mansobrc doble, ora no meio do verso, e era o 
mansobre scncillo ou menor. No Cancioneiro de 
Baena, o verso : «Sin dobl: mansobre^ sencillo ó 
menor)) mostra-nos que só no século xv é que se 
empregou esta forma na poesia castelhana, sendo 
o mansobrc menor ainda usado por Sá de Mi- 
-n-Kla. De Mansobrc doble encontra-se um cu- 
rioso exemplo no Cancioneiro da Ajnda, n.o i6o: 

Vi eu viver coitados, mas nunca tan coitado 
Viveu com oj' eu znvo, nem o viu orne nado 
Dcs quando fui u fui, e a que vol-o recado : 

De muy bon grado querria a un logar ir 

E nunca m'ende ar viir. 

Também se faz alii a distincção das rimas agu- 
das e graves, empregando-as para ef feito artisti- 



PRIMEIRA TvPOCA: KDADU media 



CO : ((As Cantigas com' eu disse fazeren en ri- 
mas longas ou breves ou em todas misturadas.» 
As rimas em ecco apparecem apontadas no Fra- 
gmento, reproduzindo ainda no século xvi esta 
forma Gil Vicente e Bernardim Ribeiro, repre- 
sentante d'esta tradição bem definida por Sá de 
Miranda. Os jograes que frequentaram a. corte 
de D. Affonso iii, mostrando-se conhecedores 
d'estes artifícios da métrica, pretendiam acober- 
tar-se com o nome de segrel; assim Picandon 
retorquia a uma tenção do trovador João Soares 
Coelho : 

Johã Soares, logo vos é dado 

e mostrar-vol-o-ey em poucas rasões; 

gran dereyt'ey de ganhar does 

e de ser en corte tan preçado 

como Segrel que digo, mui ben vés, 

en Canções e Cobras e Sirventes, 

e que seja de f alimento guardado. 

A corte de D. Affonso tii foi assaltada por 
todos os Cantores vagabundos, quando D. Af- 
fonso o Sábio tentou na corte de Castella um re- 
nascimento da poesia provençalesca ; e deu-se isto, 
depois que D. Affonso iii, desposou uma filha 
bastarda de Affonso x, em cuja corte Giraud de 
Riquier em uma canção distinguia esta classe de 
cantores : 

E ditz ais trobadors 
Segries per totas corts. 

No Regimento da Casa real de 1258, D. Af- 
fonso III estabeleceu: ((El rei aia três j o gr ar es 
en sa casa e nom mais, e o jogral que veher de 



222 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

cavallo d'outra terra, ou Segrel, dê-lhe el rei ataa 
cem (maravedis?) ao que chus der, e non mais se 
lhe dar quizer.» i O titulo de Segrel era um 
gráo acima de jogral; Bernaldo de Bonaval, que 
apparece citado no Cancioneiro da Vaticana como 
Primeiro trovador, diz da sua pessoa em uma 
Canção a D. Abril Perez : 

Ca bem sabemos, Don Bernal, qual 
senhor sol sempre a servir segrel. 

(Canç. n." 663.) 

E em uma tenção com Pêro da Ponte referia- 
se Affonso Eanes de Coton a esta qualidade de 
cantor : 

em nossa terra, se deus me perdon', 

a todo o escudeyro que pede don, 

as mays das gentes lhe chamam segrel. 

(Canc. n.° 556.) 

O titulo de Trovador é dado exclusivamente 
áquelle que canta e compõe por amor, desinteres- 



I Portugália; Monumenta hist., Leges, i, 193. 

Sobre a «tymologia da palavra : século na sua for- 
ma popular antiga era segre, contrapondo-se ao que é 
religioso ou sagrado. Na tenção do trovador João Soares 
e o jogral Picandou, este replica-lhe : 

João Soares, por me doestardes 

non perc' eu por esso mia jograria; 

e a vós, senhor, melhor estaria 

d'a tod' orne de segre bem buscardes, 

ca eu sei cançon muita e canto bem 

e guardo-me de todo fallimen, 

e cantarei cada que me mandardes. 

(Canc. Vai., n." 1021.) 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA 22,3 



sadamente, e por isso apparece como uma dis- 
tincção nobiliarchica dos vdhos livros de Linha- 
gens : que frobou hen, trobador e mui saboroso. 
No Livro velho das Linhagens vem citado como 
trovador João Soares de Paiva, (Port. Mon., 
i66. ); no Fragmento do Nobiliário do Conde 
D. Pedro, distinguem-se nas séries genealógicas 
pelo seu titulo de trovadores Fernão Garcia Esga- 
ravunha, (Ib., p. 192 a 200) ; Estevam Annes de 
Valladares (p. 199.) João Soares de Panha (p. 
208) ; no Nobiliário do Conde D. Pedro, desta- 
cam-se com esse caracteristico João de Gaia (p. 
272); Vasco Fernandes de Praga (p. 349), João 
Martins (p. 302), e João Soares (p. 352.) A 
Eschola trobadoresca portugueza, afastando-se 
pelo artificio e prurido aristocrático das fontes po- 
pulares ia esgotar-se na actividade banal das Can- 
ções de escarneo, suscitadas pelas dissidências po- 
liticas. O que se passava na corte de Affonso x, 
de Castella, reflectia-se na corte portugueza, n'essa 
abundância de Cantigas de maldizer. Era costu- 
me velho na fidalguia peninsular, como se lê nas 
Partidas, que condemnam as ((Cantigas ó Rimos é 
Deytados maios de los que han sabor de infamar... 
deitavam-se nas casas dos fidalgos, egrejas e nas 
praças das cidades...)) 

Entre as sátiras do cyclo affonsino destaca-se 
a Gesta de Maldizer, que fez Dom Affonso Lo- 
pes de Baiam, a Dom Mendo e a seus vassallos; 
é em verso alexandrino imperfeitamente metri- 
ficado, em três estrophes monorrimas, separadas 
pela celebre neuma com que terminam as deixas 
(laisse) da ^hanson de Ralaud, Aoi. Torna-3e 



224 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

pelo titulo de Gesta, e pela sua forma uma prova 
de que essa grandiosa epopêa franka era conhe- 
cida em Portugal. A sátira de D. Affonso Lopes 
de Baiam, um dos mais validos ricos homens da 
corte de D. Affonso iii, visava o valimento 
d'esse infanção Ruy Gomes de Briteiros que por 
ter seduzido a gentil D. Elvira Annes da Maia 
foi elevado a rico-homem p:la roca, conforme a 
linguagem pittoresca medieval. Ruy Gomes de 
Briteiros achou-se na Lide do Porto e esteve em 
França junto do Princepe D. Affonso, a quem 
acompanhou a Portugal, quando veiu desthro^- 
nar o irmão. Pela referencia ao seu solar de 
Longos, e ao nome de Dom Mccndo, seu filho, 
é que se desvenda o sentido da Gesta, que mote- 
java das pretençÕes heráldicas, do descendente de 
um Pêro, natural da localidade de Longos- Valles 
em que os frades Cruzios tinham um convento. 
Tanto Ruy Gomes de Briteiros como seu filho 
Dom Meem Rodrigues de Briteiros foram tam- 
bém trovadores, de que restam algumas cançÕ3s, 
tendo talvez por (|ualquer copla provocado os 
chascos do poderoso rico-homem, que não via 
com bons olhos o seu favoritismo junto de D. Af- 
fonso III. O nome de Belpelho e Velpelho (di- 
minutivo de Viilpcs, a pequena raposa) alludia á 
iiidole ardilosa d'esses oriundos de Longos ; cFesta 
inferioridade de solar fere-os a copla : 

Deu ora cl rcy seus dinheiros 
a Belpelho, que mostrasse 
en alarcio cavalleiros 
e por ric' omen ficasse 
e pareceu a cavallo 
con sa sela de badana: 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 225 



Qual Ric' omen tal vassalo. 
Qual Concelho tal campana. 

(Canc. Vat., n.° 1082.) 

A Gesta de mal dizer (ib. n.o 1080) descreve 
esse alardo, feito por D. Mendo Rodrigues de 
Britei ros, com toda a pompa épica, verdadeira pa- 
rodia quixotesca: 

Sedia-se don Velpelho en hunha sa mayson 
que chaman Longos, onde elles todos son: 
per porta lh'entra Martin de Farazon, 
escud' a colo en qu'é senha un capon 
que foy já poF-eyr' en outra sazon. 
cavai' agudo que semelha foron, 
en cima d'el un velho selegon, 
sen estrebeyras, e con roto bardon, 
nen porta loriga, nen porta lorigon, 
nen geolheiras quaes de ferro son. 



E' quanto basta para conhecer a forma da 
Gesta e os chascos da parodia; o que interessa é 
determinar até que ponto se communicou a Por- 
tugal a corrente épica do norte da França. No 
Livro das Linhagens apparecem citados os Doze 
Pares, agrupamento heróico divulgado além da 
Chanson ae Roland pelas antigas Gestas da Ma- 
téria de F*-ança, a Viagem a Jerusalém e Reynana 
de Montauban; eis a referencia: «muytos ricos 
homeens, que iam para lhes acorrerem disseram a 
el rey Don Fernando que nunca viram cavallei- 
ros, nem ouviram fallar que tam soffredores fos- 
sem, e íizeram-nos em par dos doze pares. (Mon. 
híst., Script., 283. j No epitaphio de D. Rodrigo 
Sanches, bastardo de Dom Sancho i, morto na 
Lide do Porto em 1245, "^ revolta contra D. San- 

15 



226 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cho II, elle é comparado a Roland, no verso: 
«Laudibus ex dignis, alter fuit hic Rohilandus.)) 
A forma Rotnlandus foi empregada por Radul- 
phus Tortarius alatinando a forma germânica 
Hruodland, usada por Eghinard; e o trovador 
Guerau de Cabrera, traz em uma canção Rotlon, 
d'onde a forma Roldan, que se tornou popular. 
Na Canção de João Baveca (Vat. np 1066) en- 
contra-se : 

e ora per Roncesvales passou 
e tornou-se de Poio de Roldan. 

E no poema de Rodrigo Yanes, Crónica de 
Affonso Onceno, descrevendo a batalha do Sa- 
lado: 

Nin fue mejor cabal lero 
El arçobispo Don Turpin, 
Ni el cortes Olivero 
Ni el Roldan paladin. 

(St. 1793.) 

Muitas das referencias a Carlos Magno nos 
Nobiliários derivaram do Pseudo Tiirpin do Co- 
dex de San Thiago de Compostella, que «no livro 
IV consigna invenções fabulosas e reminiscências 
dos Cantares de Gesta,» (Canc. Aj., 11, 812) que 
foram também elaboradas no romanceiro penin- 
sular com caracter próprio, como provou Nigra 
em relação á cantilena de Vifarius ou de Dom 
Gayfeiros. Nos paizes onde o feudalismo não 
chegou a estabelecer-se, as Gestas frankas, que 
em geral idealisavam as luctas dos grandes vas- 
sallos contra o poder monarchico, não acharam 



PRIMEIRA época: EDADE média 22^ 



sympathia. Os jograes, que no século xiv e xv, 
cantavam pela Itália os feitos heróicos de Carlos 
Al aguo eram com crescente despreso chamados 
Ciartalani; em Portugal, o nome de Roldão tor- 
nou-se designativo de valentão grosseiro, e Val- 
devinus, um tunante ou vagabundo. No século 
XV citava a faidse Geste do Duque Jean de Lanson, 
Azurara como digno de memoria, desconhecen- 
do o seu typo odioso. Quando os trovadores co- 
meçavam a alludir ás Gestas francas, entravam 
na corte as Novellas amorosas do Cyclo da Ta- 
vola Redonda, que se apossaram do gosto e do 
enthusiasmo. Era uma renovação das Canções ly- 
ricas, que vinha acordar a paixão pelos poemas 
narrativos da Matéria de Bretanha. 

O Cyclo Affonsino tocava o seu termo, quan- 
do a corte portugueza acompanhava o recolhi- 
mento do rei pela sua prolongada doença. Para 
resistir ás exigências dos seus privados e do clero 
que lhe deram o throno, D. Affonso iii, affe- 
ctou como valetudinário crises de soffrimento, di- 
zendo os documentos contemporâneos (s.que avia 
bem catorze (annos) que jazia em huma cama, 
e que se nom podia levantar.)} Serviu-lhe esta 
situação para mandar colligir um grande Can- 
cioneiro trobadoresco, obtendo pela sua situação 
especial, os cadernos das trovas que existiam por 
mãos dos fidalgos, nas cortes de Castella e Ara- 
gão, e em Portugal ; e isso quando ao mesmo tem- 
po dava a seu filho D. Diniz uma esmerada edu- 
cação litteraria. Na Livraria do Rei Dom Duarte 
guardou-se um códice com o titulo: 

— Livro das Trovas dei Rey Dom Affonso, 



228 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

encadernado em couro, o qual compilou F. de 
Montemor novo. 

Na mesma Bibliotheca se guardou o Livro das 
Trovas de Bl-rei Dom Diniz. Naturalmente se es- 
tabelece a relação histórica entre os dois cancionei- 
ros. D. Carolina Michaèlis formulou essa plau- 
sivel hypothese, que se fundamenta com segu- 
rança ; e descreve o plano de D. Af fonso 1 1 1 : 
«Espectador das festas brilhantes da corte de 
S. Luiz, conhecedor das emprezas de seu tio-avó 
Al fonso II, de Aragão, que incumbira um monge 
do mosteiro de St. Honorat de ajuntar em um 
volume obras poéticas em lingua d'oc; sciente do 
esmero com que seu sogro, o Sábio de Castella, 
eternisava os seus Cânticos, e também da activi- 
dade poética de Thibaut de Champagne e Na- 
varra (servidor mais ou menos authentico de Blan- 
ca de Castella e herdeiro de seu tio Sancho San- 
ches, o Forte) o rei de Portugal não só publicou 
decretos sobre a posição dos jograes na sua corte, 
mas concebeu também, se não me engano, o plano 
de reunir em volume os ro fulos com versos dos 
seus vassallos e as reliquias que restavam dos rei- 
nados anteriores.» (Canc. Aj., ii, 233.) D. Ca- 
rolina Michaèlis que estudou fundamentalmente 
o Cancioneiro da Ajuda, reconstituindo-o nas par- 
tes truncadas e fragmentadas pelos logafes com- 
muns nos dois Cancioneiros da Vaticana e Co- 
locci-Brancuti, completando as séries das canções, 
pôde pelo estudo biographico e dados chronolo- 
gicos d 'esses trovadores, determinar os cyclos au- 
licos a que pertencem. Sobre estas bases chegou 
á conclusão, que o Cancioneiro da Ajuda: «é uma 



PRIMEIRA época: EdadE média 229 



collecção anterior independente de versos pre-dio- 
nisiacos, um núcleo primordial, que serviu de 
ponto de partida aos collectores subsequentes.» 
(Ib., II, 224.) No principio do velho pergami- 
nho, figuram sem excepção, os pre-Affonsinos, 
de 1200 a 1245; e prosegue: «Estudando as bio- 
graphias dos poetas, cujas obras de amor o Can- 
cioneiro da Ajuda nos conservou, apura-se que 
a maioria dos que materialmente apparecem an- 
tepostos aos Alfonsos de Castella e Leão e a 
D. Diniz de Portugal, pertencem, de facto ao 
reinado anterior, de D. Affonso iii, o Bolonhez 
(1245-1279,) ; e são ricos-homens e cavalleiros 
da sua corte. Alguns ainda alcançaram o tempo 
do filho e successor, ou em Castella o de Sancho iv, 
que herdou a coroa do Sábio. A vida dos dois 
prolongou-se depois de 1300.)) (Ih., p. 322.) Das 
310 Canções de que se compõe o Cancioneiro da 
Ajuda, 246 existem repetidas com variantes nos 
dois Cancioneiros da Vaticana e Colocci ; isto nos 
define com segurança o que seria o conteúdo do 
Livro das Trovas de Bi rei Dom Affonso. 

São trinta os trovadores que pertencem a este 
cyclo, alguns dos quaes frequentaram a corte de 
Affonso o Sábio. ^ 



I Apontaremos alguns: Dom João de Aboim — D. 
Affonso Lopes de Baiam — ^Ruy Gomes de Briteiros — 
João Soares Coelho — Fernão Fernandes Cogominho — 
D. Fernão Garcia Esgaravunha — Rodrigo Eannes de Vas- 
concellos — Rodrigo Eanes Redondo — D. Garcia Mendes 
de Eixo — Pêro Gomes Barroso — D. Vasco Gil — Fernão 
Velho. — Gonçalo Eanes de Vinhal — Affonso Eanes do 
Coton — Ruy Paes de Ribela — Pêro da Ponte — Bernaldo 



230 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



c) Cyclo Dionísio (1279 a 1325.) Justa- 
mente no período em que a poesia provençal de- 
cahia, entre 1250 e 1290, é que ella appresentava 
uma floração artificial, uma como revivescência 
culta. Escreve Paul Meyer: «Na França do nor- 
te, na Itália e na corte do joven Frederico 11, na 
Toscana, na Galliza, na corte do rei D. Diniz, 
compunha-se em maneira de provençal. )> Esta 
crise do gosto litterario reflectia os movimentos 
sociaes, religiosos e politicos. Paul Meyer resu- 
me-os: «A edade de ouro da poesia dos Trova- 
dores não foi longa: durou um século pouco 
mais ou menos; dos primeiros annos do século xii 
á Cruzada albigense. — A maior parte dos Tro- 
vadores emigraram para Aragão, para Castella, 
para a Itália, e a poesia provençal lançou ahi o 
seu ultimo fulgor, emquanto se extinguia lenta- 
mente nos paizes em que nasceu.» (Romania, 
1876, p. 263 e 265.) A corte de Dom Diniz tor- 
nou-se o centro de convergência dos trovadores 
gallegos, castelhanos, aragonezes e andaluzes, que 
alli vinham encontrar o applauso e o premio dos 
seus talentos, no esclarecido rei. Dom Diniz era 
uma organisação excepcionalmente constituída, 
que fora habilmente dirigida, revelando-se por uma 
acção histórica progressiva e consciente. D. Af- 
fonso III, receiando que fosse perturbada a sua 



de Bonaval — Payo Gomes Charrinho — João de Guilhade 
— ' Martin Soares — Ruy Queimado — Vasco Peres Pardal 
— João Vasques — Pedro Amigo — Pedro d'Ambrôa — Vasco 
Praga de Sandim — Pêro Velho de Taveiroz — Ruy Gomes 
o Freire — Vasco Rodrigues de Calvelos. 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 23I 



successão ao throno, por ter nascido quando ainda 
não estava divorciado da condessa Mathilde, 
(1261) nomeou-o expressamente como seu suc- 
cessor, e associou-o ao seu governo. Dom Diniz, 
receiando sempre que se levantasse como preten- 
dente o irmão nascido já em condições canóni- 
cas, (1263) manteve-se na linha de uma pratica 
da justiça, da ordem e do bem publico, tornan- 
do-se uma verdadeira manifestação do poder tem- 
poral. Nos dias descuidados da mocidade teve por 
seu mestre Aymeric d'Ebrard que lhe fez conhe- 
cer a poesia franceza; viu-se cercado pelos fidal- 
gos que estiveram homiziados na corte de Sam 
Luiz e de lá trouxeram o gosto das Pastorellas; 
conhecia a supremacia mental de Affonso o Sá- 
bio, seu avô, que tanto se empenhava pela restau- 
ração da Poesia provençal, e mandava traduzir a 
sua Crónica general de Espana; e foi na corte 
de Aragão, que elle procurou para esposa D. Isa- 
bel, filha de Pedro iii, que também cultivava a 
poesia, e nas suas Ordenações estabelecera a 
admissão dos jograes nas casas principescas, acar 
líir o f fiei done alcgria.y) Foi-lhe muito cedo es- 
tabelecida casa apartada; e os fidalgos nomeados 
para o seu serviço eram trovadores affonsinos, 
como João Martins e Martim Perez, o celebrado 
Dom João de Aboim, que depois da morte de 
D. Affonso III assistiu com a rainha em uma 
espécie de conselho de regência. Dom Diniz deu 
largas ás suas predilecções, cultivando como seu 
avô e seu sogro, a poesia com um talento exce- 
pcional, tornando-se o principal trovador portu- 
guez pela sua fecundidade, (138 Canções conhe- 



2J2 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

cidasj e pelo sentimento delicado e finamente ar- 
tistico. Devia exercer espontaneamente um gran- 
de influxo litterario, n'essa época de intensa acti- 
vidade mental, i e ao passo que alentava o des- 
envolvimento do lyrismo, fundava a Universidade 
de Lisboa, quando a de Salamanca, fundada por 
Affonso o Sábio, parecia estacionaria. A sua in- 
fluencia n'esta phase do lyrismo moderno, acha-se 
assim caracterisada por D. Carolina Michaèlis: 
«Considerando como apogeu da lyrica palaciana 
os annos de 1275 a 1280, em que o joven Dom 
Diniz, rodeado dos melhores trovadores de seu 
pae, dos veteranos do avô castelhano e de alguns 
artistas vindos da terra do seu sogro aragonez, 
manifestava o excepcional talento que possuia, 
penso que o plano do Bolonhez de reunir os pro- 
ductos da Gaia Sciencia hispânica, também foi 
iniciado e continuado até 1325 pelo filho.» (Canc. 
Aj., II, 288.) A creação do Consistório Tolosa- 
no em 1323 revela a importância com que era 
estudado o lyrismo occitanico, que, como observa 
Paul Meyer «revivescia fora da sua pátria sob 
formas novas.» E' este saber technico que se ma- 
nifesta no cyclo dionisio. O rei-trovador alardea 



I Uma filha bastarda de Affonso x. D. Beatriz casou 
com D. Affonso iii; além do rei D. Diniz nasceu d'este 
casamento a Infanta D. Branca, a quem Sancho iv, em 
data de 25 de Abril de 1295, deu o senhorio das Hueígas ; 
para ella Mestre Affonso de Valladolid (Rabbi Abner 
que se converteu ao christianismo.) que pertencia á casa 
da Infanta traduzia em castelhano o Libro de las Batalhas 
de Dios. D'aqui essa litteratura da Corte Imperial, Orto 
do Esposo, etc. 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 233 



O seu conhecimento das fontes puras do lyrismo, 
e separa a funcção mercenária dos jcgraes. Na 
Canção xliii (Vat., n.o 123) proclama: 



Quer' eu en maneira de provençal 
fazer agora um cantar de amor, 
e querrei muit' i loar mha senhor 
a que prez nem fremosura nom fal, 
nem bondade; e mais vos direi en; 
tanto a fez deus comprida de bem, 
que mais que todas las do mundo vai. 



Na Canção xlvii (Vat., n.o 127) confirma 
a superioridade dos trovadores Provençaes pela 
doutrina do Amor que professam e os inspira, 
distinguindo-os da inconsciência dos Jograes que 
vão cantando em dadas épocas do anno, no tempo 
da frol ou da reverdie: 



Proenças soem mui ben de trobar, 
e dizem elles que é com amor; 
mais os que trobam no tempo da frol 
e nom en outro, sei eu bem que nom 
am tam grã coita no seu coraçon 
qual m'eu por mha senhor vejo levar. 

Pêro que trobam e sabem loar 

sas senhores o mais e melhor 

que elles podem, sÕo sabedor 

que os que trobam quand' a frol sazon 

a, e non ante, se Deus mi perdon' 

nom am tal coita qual eu ei sem par. 

Cá os que trobam e que s' alegrar 
vam em o tempo que tem a calor 
a frol comsigu' e tanto que se for 
aquel tempo, logu' en trobar razon 
nom am, nen vivem em qual perdiçom 
oj' eu vivo, que pois m' a de matar. 



254 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A razão de amor era a doutrina philosophica 
com que os trovadores explicavam o seu senti- 
mento af fectivo ç apaixonado, que vem desde Ar- 
nald de Merveil até Dante, appresentando a forma 
mystica do ideal da Virgem, e a cortezanesca da 
Dama, que se eleva á representação allegorica das 
Beatrizes e Lauras. O rei Dom Diniz conheceu a 
doutrina do amor então recebida da philosophia 
platónica. Como determinar essa via? O Te- 
zoro de Bruneto Latini foi conhecido em Hes- 
panha e estudado por Affonso o Sábio; Bruneto 
Latini é que communicou a Dante e lhe explicou 
a philosophia platónica : «Foi elle também o mes- 
tre do grande poeta Guido Cavalcanti, elegíaco e 
por vezes pathetico, outras sensual, um dos mais 
francos modelos do circulo epicurista da Flo- 
rença.» I ' Dante memorou o Rei Dom Diniz na 
sua Divina Comedia; 2 e a protecção dada por este 
monarcha aos Templários, garantindo-lhes os seus 
bens e conservando-os com o nome de Cavelleiros 
de Christo, mostram-nos que elle estava no co- 
nhecimento das doutrinas do amor até no seu as- 
pecto mystico e heterodoxo. 

O ideal do Amor, vinha no fim do século xi i 
completar o individualismo heróico da Honra, e 
inspira uma nova poesia lyrica cortezanesca: 
«Traz comsigo esta concepção, grande em si, que 
o amor deve ser a fonte das virtudes sociaes. 
Determina uma força nobilitante. O amante deve 
tornar-se digno do sêr amado, pelo duplo exer- 



1 Gebhart, Vltalie mystique, p. 304. 

2 Del Paradiso, canto xix, t- 139. 



PRIMEIRA época: edadE media 235 



cicio da Valentia e Cortesia, e o .Amor só deve 
entregar-se por este preço; por que tem por fim 
o realisar a perfeição cavalheiresca. 

«Mas esta ideia vem da Provença, já velha e 
exagerada. O principio inspirador da poesia pro- 
vençal é que o amor é uma arte; e os trovadores 
aperfeiçoaram esta arte até á minúcia. Revelaram 
bruscamente aos troveiros uma completa rhetorica 
e uma casuistica de amor, uma dialéctica das pai- 
xões, um código de cortezania. Os sentimentos 
acham-se ahi catalogados e classificados, tão cui- 
dadosamente como os géneros ly ricos, sujeitos a 
leis tão rigidas como a sirvente, a tenção ou o joc- 
JDarti. Os poetas provençaes ensinam uma etiqueta 
cerimoniosa de corte, uma estratégia galante cu- 
jas manobras são reguladas como os passos d'ar- 
mas dos torneios. Visto que o dever do amante 
é merecer o ser amado e de valer pela sua cor- 
tesia, é esta a regra da estricta observância que 
elle deve praticar. Deve viver á vista de sua dama 
em uma perpetua tremolencia, como um sêr in- 
ferior e submisso, humildemente suspirando, há- 
bil, como um mestre de cerimonias, em exercer a 
propósito as virtudes de salão. Deve estar diante 
d'ella como o unicórnio, que aterrador para os 
homens, se humilha e se doma ao pé de uma 
donzella; ou como a phenix, que se lança na la- 
bareda ; ou como o marinheiro, que guia a estrella 
polar, immovel, serena e fria. E' um longo cor- 
tejo de banidos, de doentes que amam a sua 
doença e de esperantes desesperados. O amor já 
não é uma paixão, é uma arte, peior ainda, um 
cerimonial; vem a parar em um sentimentalismo 



236 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

de romance para guitarra, e os tro veiros passam 
sem transição das paixões rudimentares das can- 
ções de Gestas ás peores chatezas do trobado- 
rismo. 

«Indubitavelmente, a poesia da Edade média 
ter-se-ia rapidamente mirrado em uma galanteria 
preciosa e formalista, se a influencia céltica (me- 
lhor, bretã) não tivesse occorrido logo servindo de 
contrapezo á dos trovadores. Ao sensualismo in- 
nocente e bárbaro das velhas canções de gesta, á 
galanteria da poesia provençal, os cantos bretãos 
oppÕeni um puro idealismo. Aqui não se trata 
de bem fallar, nem de saber combinar rimas, nem 
de brilhar nos torneios. Nenhuma rhetorica de 
sentimentos. Não se trata mais de valer. Por 
que é Tristão amado por Yseult? Por sua ele- 
gância?... Não; é por que é elle, e por que é ella. 
A sua paixão acha em si mesmo a sua causa e o 
seu fim. O amor, n'estas lendas, é desprovido de 
todo o alcance mais geral : a ideia do mérito e 
do demérito moral é-lhes inteiramente ausente. 
Concepção a mais ingénua e bastante primitiva, 
mas profunda. A dama já não é, como nos poe- 
mas lyricos imitados dos trovadores, uma espé- 
cie de Ídolo impassivel, que reclama proezas de 
torneios ou o incenso das bailadas e das canções 
tripartitas. A' submissão do amante á amante, 
succede a egualdade diante da paixão.» i E' esta 
nova corrente que inspira a expansão lyrica de 
Dom Diniz na canção xvi (Vat., 95.) : 



I Joseph Bédier, Les Lais de Marie de France, (Re- 
vue des Deux-Mondes, 1891, t. v, p. 852.) 



PRiMKiRA época: edade média 237 



Pois que vos fez Deus, mha senhor, 
fazer do bem sempre o melhor, 
e vos em fez tam sabedor, 
unha verdade vos direi, 
se mi valha nostro senhor : 
erades bôa pêra rei. 

E' este refrem que dá um ef feito peculiar á 
estrophe. E para representar a paixão que o do- 
mina e submette á passividade, compara-se aos 
typos que então synthetisavam a fatalidade do 
amor, na Canção xxxvi (Vat. 115): 

Qual mayor poss', e o mais encoberto 

que eu poss', e sei de Brancafrol 

que Ihi não ouve Flores tal amor 

qual vos eu ei ; e pêro sõo certo 

que mi queredes peior d'outra ren 
pêro, senhor, quero-vos eu tal bem. 

Qual maior poss'; e o mui namorado 
Tristam sei bem que non amou Iseu 
quant' eu vos amo, esto certo sei eu ; 
e com todo esto sei, mao pecado, 

que mi queredes peior d'outra ren; 

pêro, senhor, quero-vos eu tal bem. 

Estes amores tornaram-se fortes realidades, de 
que são testemunhos os seus bastardos, e como 
seu pae, também trovadores, o Conde D. Pedro, 
nascido dos amores com D. Gracia, senhora da 
Ribeira de Santarém, e o Conde D. Affonso San- 
ches, nascido da vehemente paixão por D. Al- 
donça Rodrigues da Telha, i Mas estes delirios, 



I A estes amores allude o trovador Pêro Barroso, 
na Canção a Ruy Gomes da Telha, (Vat., n." 1051 a 1057; 
também na canção 1052 allude aos amores de D. Affon- 



238 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que tanto sanctiíicaram a rainha Isabel de Ara- 
gão, não impediam as especulações da casuistica 
amorosa, que eram o objecto das celebradas Cor- 
tes de Amor, em que as damas sentenciavam, es- 
tabelecendo pelas suas resoluções os Arresta 
Amorum. No Cancioneiro da Vaticana, a Can- 
ção 597 refere-se a este género de festa pala- 
ciana : 

O meu amigo novas sabe já 
d'aquestas Cortes que s'ora faram, 
ricas e nobres dizem que seram, 
e meu amigo bem sei que fará 
hum cantar em que dirá de mi bem, 
ou fará ou já o feito tem. 

Em aquestas Cortes que faz El-rei 
loará-mi e meu parecer, 
e dirá quanto bem poder dizer 
de mim, amigos, e fará bem sei 
hum cantar em que dirá de mi bem, 
ou fará ou já o feito tem. 

O cunhado do rei D. Diniz, D. Pedro de^ Ara- 
gão (bastardo de Pedro 11 1) visitava a sua corte, 
e trovava também no novo género lyrico dos Lais 
de Bretanha; lê-se na Canção 1147 da Vaticana: 

Dom Pedro est cunhado dei rei, 

que chegou ora aqui d'Aragon, 

com l.íí espeto grande de leitom; 

e pêro que vol-o perlongarei, 

d'eu por vassalo, de si a senhor, 
faz sempre nojo, non vistes mayor. 



so II con) D. Mór Martins, mulher de D. Ponço de Baiam, 
falecido por qualquer caso extraordinário: 

Moir' eu do que en Portugal 
morreu Dom Ponço de Baiam. 

D. Carolina Michaélis indica sugestivamente suicídio 
como resultante de ciúme. (Canc. Aj., il, 399.) 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 239 

Todas as correntes lyricas, occitanicas, fran- 
cezas, bretãs e populares brilhavam na corte de 
Dom Diniz, em que elle occupava a situação pri- 
macial pelo seu talento. Nas cento e trinta e 
oito Canções que formam o seu Cancioneiro, re- 
flectem-se estas phases poéticas na sua actividade: 
primeiramente prevalece o emprego do verso li- 
mosino ou endecasyllabo em que as Canções têm 
por assumpto essa vaga casuistica sentimental da 
superioridade da creatura amada, da necessidade 
do segredo absoluto, da severidade implacável da 
sua dama; quebrando esta estructura de um sub- 
jectivismo convencional, brilham os quadros obje- 
ctivos das Pastordlas no gosto francez, nas bellas 
e deliciosas Canções n.o xxiii, l,vii e Lxx, 
e por fim predomina o género nacional das for- 
mas parallelisticas dos Cantares de Amigo, de 
uma graciosidade e ingenuidade commovente pela 
pureza emotiva. O recopilador do Cancioneiro do 
Rei Dom Diniz destacou esse género na compi- 
lação : 

nBm esta folha adiante se começam as Can- 
tigas d'amigo, que o mui respeitahrc Dom Dinis, 
rei de Portugal fes.)) 

O fundador da philologia românica Frederico 
Diez foi o primeiro que soube avaliar esta forma 
do lyrismo de caracter popular determinando a 
sua origem tradicional pela sobrevivência nas can- 
çonetas de Gil Vicente e em outras épocas litte- 
rarias. i Era um problema de um alto valor es- 



I Ueber die erst portugiesischc Kiinst und Hofpoesie, 
p. lOO. 



240 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



thetico. Paul Meyer esboça-o: «No ponto de 
vista do historiador litterario, esta adopção 
do género popular, que no caso presente chega 
até a conservar a assonancia, é um facto interes- 
santissimo. Revela-nos os poetas da corte de 
D. Diniz dotados de um sentimento de poesia na- 
tural, que honra o seu gosto. Souberam alguns de 
entre elles imitar os trovadores, como o provou 
Diez amplamente, mas ao mesmo tempo soube- 
ram dar prova de uma effectiva originalidade. 
Elles tem um logar inteiramente independente na 
poesia da Edade média, e se lhes não dão até hoje 
um maior, a culpa é dos eruditos, que se não em- 
penharam em trazer á publicidade as suas obras.» 
(Romania, i, p. 121.) Essa originalidade e esse 
logar independente que nos compete na poesia da 
Edade média fundamenta o titulo da Bschola tro- 
hadoresca portuguesa, que ficará admittido. A 
expressão natural, espontânea e ingénua do lyris- 
mo portuguez, não está exclusivamente na forma 
popular, que os trovadores palacianos souberam 
imitar delicadamente; o sentimento, expresso nas 
cantigas soltas do vulgo, revelando o génio da 
raça, comprehende ou tem implicita uma doutrina 
completa de amor. Byron ao desembarcar em 
Lisboa fixou uma cantiga do povo, que elle tra- 
duziu como verdadeira synthese amorosa da alma 
portugueza, cujos poetas morrem de amor; a can- 
tiga é a vibração d'essa passividade: 

Tu chamas-me tua vida, 
Eu tua alma quero ser; 
Que a vida acaba com a morte 
E a alma eterna hade ser. 



PRIMEIRA época: Edade média 241 

Foi esta profunda emotividade que trouxe os 
trovadores fidalgos e o rei Dom Diniz á repro- 
ducção das formas tradicionaes da poesia popu- 
lar; e essas formas nunca mais foram esquecidas 
pelos grandes lyricos portuguezes, como Gil Vi- 
cente, Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão, 
Camões, D. Francisco Manoel de Mello, Thomaz 
António Gonzaga, e mesmo Garrett. E desde que 
nos aproximamos da tradição, o que se perde em 
originalidade individual, ganha-se em profundi- 
dade de energia vital, em fecundidade orgânica. 
A critica eleva-se mais alto; escreve D. Carolina 
Michaèlis : a A concordância de certos themas 
populares com outros estrangeiros, notadas por 
Jeanroy, explicam-se |>elas origens communs da 
civilisação neo-latina, e em parte também pela 
identidade das influencias ecclesiasticas ; as diver- 
gências pela evolução diversa de cada povo, em 
conformidade com a sua Índole e costumes. O 
mesmo vale das formações rythmicas e estrophi- 
cas. Verdade é, que nem mesmo as Cantigas em 
distichos ou tristichos com repetições ou conca- 
tenaçÕes de duas versões parallelas, são privativas 
da Galliza, Ha vestigios isolados do systema na 
França, na Itália e na Catalunha; semelhanças 
muito ao longe, entre Malaios e Chinezes. Mesmo 
o parallelismo de hymnos espirituaes vindos do 
Oriente e psalmodiados nas primitivas egrejas 
christãs á maneira de modelos hebraicos, offerece 
pontos de contacto dignos de estudo.» E como 
fundamentando a vitalidade da raça portugueza 
no seu ethos accrescenta: 

«Em parte alguma as Cantigas parallelisticas 

16 



242 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tomaram todavia no meio do povo um desenvol- 
vimento robusto como aqui. E o que importa 
mais é que em parte alguma as creaçÕes rústicas 
entraram nos paços de el rei, desassombradas na 
sua desataviada elegância, servindo ali de mo- 
delos a reis, magnates, e enxames de poetas de 
cathegoria menor.» (Canc. Aj., ii, 938.) Entre 
esses cantores villãos e populares que assignam 
canções de amor junto com os fidalgos figuram 
mais de vinte constituindo uma eschola jograles- 
ca, mantendo o contacto vivificador com a multi- 
dão. I E' esta a phase galleziana, reconhecida por 
Menendez y Pelayo, um lampejo súbito e deslum- 
brante, a que se succedeu a obnubilação completa 
de um povo. Reconheceram os jograes esse favor 
com que os accolhera o rei D. Diniz. O jogral 
leonez Joham, celebrando em uma planh a morte 
d'este monarca, refere a sua protectora influencia : 

Os namorados que trobam d'amor 
todos deviam gram doo fazer, 
et nom tomar em si nenhum prazer, 
por que perderem tam bòo senhor, 
com' é el rey Dom Diniz de Portugal 
de que nom pode dizer nenhum mal 
homem, pêro seja profaçador. 

Os trovadores que poys ficárom 
en o seu regno e no de Leon, 



I Citaremos os nomes de: Ayras, o Engeitado — Ay- 
ras Vaz — Fernam Padram — Meendinho — João Zorro — 
Martim Campina — Fero Meogo — Martin de Caldas — Fero 
de Dardia — Nuno Feres — Fayo Calvo — Golparro — Mar- 
tin de Ginoza — João de Cangas — Martim Codax — Fer- 
nam de Lugo — João do Requeyxo. 



PRIMEIRA época: edade média 243 



no de Castella et no de Aragon 
nunca poys de sa morte trobarom; 
et dos jograres vos quero dizer 
nunca cobraram panos nem aver, 
et o seu bem muyto desejarom. 

(Canc. Vat., n.° 708.) 

Como cultor e apreciador da poesia, o rei Dom 
Diniz era julgado como um arbitro; e os jograes 
que procuravam a sua corte, não eram attrahidos 
tanto pela generosidade como pela sua mestria. 
Depois da sua morte, diz a planh, os trovadores 
de Leão, de Castella e de Aragão não mais tro- 
varam. E' uma verdade histórica: terminado o 
Cyclo Dionísio acabou também a poesia proven- 
çalesca. Desthronaram-a os Lais bretãos. O bas- 
tardo de Pedro iii de Aragão, que assistira na 
corte do seu cunhado D. Diniz, fora um dos in- 
troductores d'esta novidade. 

Os filhos bastardos de D. Diniz, o Conde de 
xA^lbuquerque e o Conde de Barcellos, também fo- 
ram esmerados cultores da poesia trobadoresca. 
D. Affonso Sanches, nascido em 1286, era amado 
loucamente pelo rei, provocando grandes dissidên- 
cias da parte do princepe herdeiro. Lê-se no 
Nobiliário : «por que se dizia, que el rei Dom Di- 
niz queria fazer rei Dom Affonso Sanches, seu 
filho de ganhadia, que trazia comsigo e que elle 
muito amava.» i Os ódios continuaram depois de 
ser rei seu irmão D. Affonso iv. No Cancioneiro 
da Vaticana existem quinze Canções de D. Affon- 
so Sanches, extremamente deturpadas; ainda as- 



Mon. hist., Scrip teres, p. 258. 



244 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

sim conhece-se que tinha um elevado sentimenLo 
poético e que comprehendia a belleza das formas 
populares. E' bella esta estrophe da Canção n.o 

Quando, amigos, meu amigo veher, 
emquanto Ih' eu perguntar hu tardou, 
falade vos nas donçelas entom; 
e no sembrant', amigo, que fezer, 
veeremos bem se tem no coraçom 
a donzella por quem sempre trobou. 

O outro bastardo do rei Dom Diniz, feito 
Conde de Barcellos em i de Março de 1304, sou- 
be vencer os ódios da fidalguia contra estes bas- 
tardos, que redundavam em dissençÕes politicas; 
organisou um cadastro das linhagens, e culti- 
vando a lyrica provençalesca compilava também 
um Livro de Cantigas. Esta relação entre as no- 
ticias genealógicas e as collecçÕes de cantares era 
conhecida pelos trovadores ; N'Ucs de la Pena sabia 
las generacioncs deis grans hom^cs de aquella con- 
trada. O mesmo se dava em D. Pedro. Circum- 
stancia apreciável ; o Cancioneiro da Ajuda con- 
servou-se fazendo parte dos Nobiliários, por ven- 
tura por se caracterisarem ahi como trovadores 
alguns fidalgos. Existia effectivamente tima in- 
tima relação histórica entre estes dois extraordi- 
nários documentos, completando-se historicamen- 
te. Escreve imparcialmente D. Carolina Michaè- 
lis : ((Livro de Linhagens e o Cancioneiro, duas 
obras muito diversas, mas que se completam e ex- 
plicam de um modo feliz com relação á historia 
da Civilisação pátria, tanto para poder editar os 
cadernos da fidalguia nos Monumentos históricos 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 245 

de Portugal... e ainda para desenhar os quadros 
da historia nacional até i2'/ç. Herculano teve de 
arrancar os seus mais Íntimos arcanos a ambas as 
obras, compenetrando-se do espirito da Edade 
média, que n'ellas respira e falia.» ^ 

Depois da morte de Dom Diniz foi o Conde 
D. Pedro perseguido e desherdado por seu irmão 
D. Af fonso IV, indo refugiar-se por algum tempo 
junto de Af fonso xi de Castella, casado com a 
formosissima Maria, filha do monarcha portuguez. 
O Jogral Joham diz na Canção 707: «E ai do 
Conde f aliemos — que é irmão tio dQ El rei.y^ 
Foi por um sentimento de gratidão, que o Conde 
de Barcellos deixou por testamento, feito em 30 
de Março de 1350 o seu Livro das Cantigas a 
Af fonso XI. 2 Por esta circumstancia saiu de Por- 
tugal tão singular monumento. Da sua actividade 
poética conhecem-se apenas dez Canções amorosas, 
especialisadamente satíricas ou de maldizer; d'a- 
qui deduzimos que o seu Livro das Cantigas, 
tendo em vista a sua aptidão de compilador e as 
relações pessoaes com a fidalguia portugueza con- 
teria as composições dos trovadores das cortes 
de D. Diniz e de Af fonso xi de Castella, em 
grande parte perdidas. 

Representaria esse Livro das Cantigas do 
Conde de Barcellos a realisaçao do pensamento 



1 Responde ao manhoso Parecer de Gama Barros, 
apresentado á Academia real das Sciencias, embaraçando a 
incorporação dos Cancioneiros nos Portugalics Monumenta 
histórica (Scriptores.) (24 de Fevereiro de 1898.) 

2 Sousa, Provas da Hist. Genealógica, t. i, p. 138. 



246 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 

iniciado no Cancioneiro da Ajuda sob D. Affon- 
so III, organisando em um corpo systematico o 
Grande Cancioneiro gallecio-portuguez, de que se 
dispersaram fragmentos por Hespanha e Itália? 
Pelos grupos de Canções d'esses vários fragmen- 
tos em que predominam certos géneros lyricos, 
infere-se qual a disposição do grande Cancioneiro, 
que assim se recompõe nas suas divisões : 

, ( Cantares de Amor (Gram Mestria.) 
\ Cantigas de Amigo (Mestria menor.) 

,, i Cantigas de Maldizer e de Escarnho. 
\ Coplas de burlas e Joguetes certeiros. 

III — I Cantigas sagraes (Marial e Santoral.) 

As 2019 Canções, que possuimos (descontan- 
do as 310 Canções repetidas) são uma parte das 
composições lyricas que andaram dispersas nas 
seguintes collecções de que ha apenas noticia e nas 
que se conservam: 

1 — Pequenos Cancioneiros individuaes: 

Livro dos Sons do Dayam de Cales. 

Os Cadernos de Affonso Eannes de Coton. 

Cantares de Lourenço Jogral; de Picandon, etc. 

2 — Livro das Trovas de El Rei D. Affonso: 

Cancioneiro da Ajuda. 

II Libro di Portoghcsi. 

Códice de Bembo. 

Códice Icmosino. 

Libro spagnuolo di Romance. 

3 — Livro das Trovas de El-Rci D. Diniz. 

4 — Livro das Cantigas do Conde de Barcellos: 

Cancioneiro da Bibl. do Vaticano. 



PRIMEIRA época: edade média 247 



Cantigas j Serranas e Dizeres portugueses, de 
D. Meda Cisneros. i 

Cancioneiro de um Grande de Hespanha (dos Du- 
ques do Infantado, segundo Sarmiento?) 

Cancioneiro, apographo de Angelo Colocci. 

5 — Cantigas de Santa Maria. 

Milagres de Nossa Senhora. 2 



1 A'cerca do volume de Cantigas, Serranas e Dizeres 
portugueses e gallegos, que existia em casa de D. Mecia de 
Cisneiros, escreve Sarmiento: ^^Se hoje epcistisse aquelle 
volume, códice ou Cancioneiro, teríamos um thezouro para 
discernir os Poetas hespanhoes mui anteriores ao anno de 
1400. Ouvi dizer que os Senhores Duques do Infantado, 
descendentes do Marquez de Santillana possuem em Guada- 
lajara uma preciosa Livraria de manuscriptos e de impressos, 
que foram do Cardeal Mendoza, filho do dito Marquez. 
Acaso se achará alli o desejado Códice c outros semelhan- 
tes?* (Mem. para la Historia de la Poesia e Poetas espa- 
noles, n.° 562.) 

O Cancioneiro visto por Varnhagem em Madrid, em 
poder de um grande de Hespanha, cujo nome occultou, não 
será d'esta proveniência indicada por Sarmiento? Varnha- 
gem confrontou-o com o códice da Vaticana e eram eguaes. 

No n.° 833 Sarmiento falia outra vez da Livraria do 
Duque do Infantado; ^^si supiesse que en el se conservaba 
aún aquel Cancioneiro antiguo... se me haria suave qual- 
quer trabajo, unicamente por verle y registrale.^* 

2 Em 1754 escrevia Francisco de Pina e de Mello nos 
prolegomenos do seu Poema Triumpho da Religião: ^^Hoje 
existe na Livraria do Escurial um livro de versos seus (do 
rei D. Diniz) que elle mandou a seu avô, a quem chamaram 
o Sábio Cantares de loor de Santa Maria, offerecido a 
neros, de cujas composições disse o Marquez de Santilhana : 
^^àe las quales la mayor parte eram de el rei D. Diniz de 
Portugal..?^ 

O Códice, que segundo Duarte Nunes de Leão (Chron. 
P. I, t. II, p. 76) se guardava na Torre do Tombo intitulado 
Loores de Nossa Senhora, seria o volume do rei Affonso 
o Sábio Cantares de loores de Santa Maria, offerecido a 
seu neto o rei D. Diniz. 

No Inventario dos Livros da Rainha Isabel de Castella, 
feito em 1503, vem apontado: 



248 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

No testamento do rei Affonso o Sábio, de 2.2 
de Janeiro de 1284 elle chama a esta sua coUecção 
— Cantares de loor de Santa Maria, e também 
Cantares de Sancta Maria. Sobre a lingua em que 
estão escriptos estes Cantares diz o Marquez de 
Valniar ser mais culta do que a usada pela gente 
da Galliza; aé por demais o mesmo idioma em- 
pregado na prosa portugueza d'aquelles tempos, 
como pôde ver-se na Poética portugueza (incom- 
pleta) junto ao Canc. Colocci, do século xiv.» 
(Cantigas de Santa Maria, i, 172.) 

Estes quatro Cancioneiros, da Ajuda, da Vati- 
cana, Colocci, e Cantigas de Santa Maria, são, 
como observa o illustre Marquez de Valmar, «sin- 
gularissimos monumentos românicos, são a revela- 
ção de uma lingua e de uma litteratura, que, ainda 
que evidentemente nascida da cultura litteraria pro- 
vençal, chegaram a ter vida própria e subsistiram 
mais de dois séculos quanto era possível que sub- 
sistissem n'aquelles tempos de transformação e de 
progresso histórico.» (Ib., p. 17.) Essa transfor- 
mação operava-se na poesia pela revelação do ly- 
rismo italiano, e enthusiasmo pelos Lais bretaos 
desenvolvendo-se na forma narrativa em prosa em 
Novellas de Cavallaria. 

Quando a Eschola trobadoresca portugueza, 
por causas geraes e históricas se extingue fusio- 
nando-se com novas correntes litterarias, synthe- 



— Otro libro de marca mayor, en romance en perga- 
mino en lingua portuguesa, que son los Milagres de Nues- 
tra Seiiora, con unas coberturas de cuero... apontado de 
canto llano. (Ap. Barbieri, Canc. Musical, p., 14.) 



PRIMEIRA época: edade media 249 



tisemos os seus caracteres fundamentaes reco- 
nhecidos pelos grandes críticos. Frederico Diez, 
no estudo Sobre a antiga Poesia artistica corteza- 
nesca portuguesa, ^ aprecia assim a sua morpho- 
logia: ((Os seus últimos cultores (da poesia ar- 
tistica provençalesca) procuraram nacionalisal-a, 
aproximando a nova Arte dos géneros e da ma- 
neira indigena do povo. D'ahi a predilecção pelo 
rcfrcn, a forma dialogistica, e o que é da máxima 
importância, a imitação do estylo vulgar. D'ahi 
também a renuncia a pensamentos peregrinos e a 
todas as espécies que não tivessem correspondido 
a qualquer realidade na vida da nação.» Por ex- 
clusões negativas é que Diez chegou a este deci- 
sivo julgamento. Em quanto ao sentimento poé- 
tico da Eschola, Bellermann, que residiu algum 
tempo em Portugal, e que pôde aperceber o ethos 
d'este povo, no seu estudo Os antigos Cancio- 
neiros portugueses, define com verdade a sua es- 
thesia: ((Os seus versos parecem nascer de senti- 
mentos reaes... Apesar de uma grande mono- 
tonia, ha ahi verdadeira e intima poesia affectiva, 
que brota de um coração commovido, o que lhes 
dá certa vehemencia que se impÕe, um valor du- 
radoiro, e a primazia sobre as composições lyricas 
colligidas nos Cancioneiros impressos na Penín- 
sula. » Essa monotonia, que é uma feição ethnica 
do povo portuguez contrasta profundamente e dá 
um realce extremo á intensidade do sentimento. 

d) Cyclo post-Dionisio (1325 a 1357). Dom 
Affonso IV, em antagonismo com os seus irmãos 
bastardos, que cultivaram o lyrismo trobadoresco, 



250 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

nem por isso era indifferente ás invenções poé- 
ticas que appareciam na corte, como se confirma 
pela anedocta do Princepe D. Affonso de Por- 
tugal mandando modificar o caso de Briolanja na 
primeira redacção do Ainadis. .Não será absurda 
a inferência de que também versificasse, como os 
outros reis, como fundamenta o Catalogo di Au- 
tor i porto ghesi, Ms. junto ao Códice n.o 3217, da 
Bibliotheca do Vaticano, onde se apontam, sob os 
n.os 1323 a 1326, quatro Canções d'este monar- 
cha. Infelizmente o Cancioneiro Colocci, achado 
depois na livraria do conde Brancuti, não con- 
tém todos os poetas apontados no Catalogo di 
Autori. A actividade dos trovadores portuguezes 
e principalmente a sua Eschola expandiu-se em 
Castella, na corte do rei trovador Affonso xr; 
talvez pelo influxo d'este, o Conde D. Pedro rea- 
lisasse a grande compilação do seu Livro das Can- 
tigas, abrangendo todo o Cyclo Dionísio. Escre- 
ve D. Carolina Michaèlis: «E sendo D. Diniz o 
ultimo entre os reis de Portugal, que exerceu c 
protegeu efíicazmente a Arte trobadoresca mais, 
que quando depois do seu falecimento o rápido 
declinar se annunciou; esse plano foi completado 
reinando D. Affonso iv (1325-1357) pelo Conde 
de Barcellos, a quem movia o duplo interesse de 
propagar os versos do pae e os seus próprios. Cada 
geração, cada Cancioneiro.» (Canc. Aj., 11, 
228.) Teria sido auxiliado n'este emi>enho pelo 
trovador Estevam da Guarda. (Ib., ii. 282.) 

A lingua portugueza era empregada ainda nos 
fins do século xiv pelos poetas castelhanos; re- 
conheceu-o Milá y Fontanals, limitando a sua opi- 



PRIMEIRA DPOCA : EDADE MÉDIA 25I 

nião ao género lyrico, segundo o P.^ Sarmiento. 
Ha aqui um equivoco, confundindo a revivescência 
da lingua gallega, que se dava no fim do século 
XIV, com os germens tradicionaes do lyrismo ela- 
borados pelos trovadores portuguezes. Acclara- 
do o equivoco, resumbra a luz nova nas palavras 
de Menendez y Pelayo : «Assim se ha explicado 
satisfatoriamente a génese das Cantigas d\3 ser- 
raria do Arcipreste de Hita, das Serranilhas do 
Marquez de Santilhana, de Bocanegra, de Car- 
vajal e de tantos outros poetas do século xv, 
buscando não na Provença, nem na França, como 
até hoje se havia feito, se não na fonte imme- 
diata, isto é, na Galliza.» (Antologia, iii, p. 
xiviv.) A Galliza estava em completa lethargia 
sob o poder senhorial. Essa fonte immediata era 
Portugal, que no século xiv era o refugio dos 
fidalgos gallegos, e mantinha ainda a fascinação 
do seu lyrismo e o uso da lingua portugueza. De 
um Cancioneiro que pertenceu á ex-rainha Isabel, 
transcreveu Amador de los Rios, uma Canção 
com que exemplifica o caracter das composições 
amorosas do gosto dominante : 



Bien diré d'amor 
pues que m'el fez 
quedar esta vez 
por seu servidor. 

Eu ten' vontade 
d'amor me partir, 
et tal en verdade 
nunca o servir, 
sin aver gaardon 
de minha senhor. 



252 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Ho amor me dizia 
un dia falando, 
si me plazeria 
amar de seu bando 
gentil graciosa 
de fina color, i 



Rocaberti, auctor da Comedia de la gloria de 
Amor, cuja fómia em tercetos e estylo denuncia 
a primeira influencia de Dante na poesia catalã, 
cita o poeta portuguez Lorenç de Cuyna (Lou- 
renço da Cunha.) i Este fidalgo portuguez fu- 
gira para Castella, quando o rei D. Fernando lhe 
tomou para si a mulher, D. Leonor Telles. Che- 
gou a vulgarisar-se uma Canção por elle composta 
sobre a sua situação, de que as memorias coevas 
conservaram o verso : — «Ai, donas, porque tris- 
tura.» Nos Cancioneiros musicaes do século xv 
e XVI, ainda ligadas á melodia, apparecem poesias 
lyricas portuguezas ; quando a poesia castelhana 
avançava para a sua independência em João de 
Mena, ainda o primitivo prestigio do lyrismo por- 
tuguez se reconhecia, como se vê por uma nota 
marginal primitiva junto da Canção 232 do Can- 
cioneiro da Ajuda, do trovador João de Guilhade : 
(((' d'este aprendeu joam de Meita.» Esse influxo 
identificando-se no fim do século xiv com o re- 
nascimento galleziano, está representado no Can- 
cioneiro de Baena, em Canções do Arcediago de 
Toro, de Affonso Alvares de Villasandino, de 



T Na Hist. critica de la Litt. cspan. t. vii, p. 74. 
I Milá y Fontanals, De los Trovadores en Espana, 
516. 



PRIMKIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 253 



D. Diego de Mendoza, de Macias e Rodrigues 
da Camará. 

As duas cortes de Portugal e de Castella afas- 
tadas por dissençÕes de família, congraçaram-se 
intimamente, depois da estrondosa victoria do Sa- 
lado em 1340. O encontro dos cavalleiros portu- 
guezes com os poetas castelhanos e leonezes, n'essc 
momento de um perigo commum e de heroismo, 
teve uma acção característica na poesia palaciana. 
A Epopêa castelhana que se elaborara no pre- 
domínio da legislação foral sobre o Código vi- 
sigótico, e «buscou naturalmente os seus heroes 
não entre os monarchas leonezes, mas entre os 
grandes vassallos rebeldes, turbulentos ou dísco- 
los de Burgos» i era pela influencia portugueza 
elaborada sobre o grande facto histórico a batalha 
do Salado, ganha pela liga passageira dos Es- 
tados christãos dissidentes. D. Affonso iv, pelo 
seu desinteresse dos despojos da campanha, tor- 
nou-se o exemplar do heroe. Em uma Canção de 
Joham jograr, morador de Leão, são-lhe endere- 
çados louvores : 



A sa vida seja muyta 
d'este rey de Portugal 
que cada ano m' ha por f ruyta ; 
per o que eu canto mal... 



Os rex mouros, christãos 
mentre viver Ih' ajan medo, 
que el ha muy ben as maãos, 
et o Infante Dom Pedro 



I Menendez y Pelayo, Antologia, xi, p. 177. 



254 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



seu filho, que s' aventura, 
a htí grand' usso matar, 
et desi et sempre cura 
• d'el rei seú padre guardar. 

(Canc. Vat., n." 707.) 

Em outra Canção a Affonso xi, remata: 

Se mi justiça non vai 
ante rey tam justiceiro 
ir-m' ey ao de Portugal. 

(Ib., n.» 553.) 

Os poetas portuguezes e castelhanos celebra- 
ram a victoria do Salado em Poemas narrativos, 
tomando a forma de Chronicas rimadas. Faria e 
Sousa, no Bpitome e na Ásia portuguesa, citou um 
poema que tinha por assumpto a batalha do Sa- 
lado, escripto por um contemporâneo do successo 
Affonso Giraldes. D'elle se serviu como subsidio 
histórico o chronista Frei António Brandão na 
Monarchia lusitana (P. iii, liv. 10, cap. 45.) 
Também na Bibiotheca do Escurial se conservou 
manuscripta até 1863 uma Crónica en coplas de 
redondilhas de Alfonso Onceno, escripta por um 
contemporâneo que tomara parte na batalha 
do Salado, Rodrigo Yanes, a qual fora achada em 
Granada em 1573 por Diego Hurtado de Men- 
doza. O texto portuguez é apenas conhecido pelas 
estrophes transcriptas pelos dois Brandões, na 
Monarchia Lusitana, por Blateau e por Soares 
Toscano nos Parallelos de Princepes; não se sabe 
actualmente onde pára o Poema em que se des- 
creve o Successo da Batalha do Salado por Af- 
fonso Giraldes. Publicado o Poema castelhano de 



PRIMEIRA época: edade média 255 



Rodrigo Yanes, encontram-se estrophes eguaes, 
certas rimas deformadas que se tornam perfeitas 
restituida a palavra portiigueza, os modismos 
portuguezes e a mesma forma estrophica em qua- 
dras octosyllabicas, rimando o primeiro verso com 
o terceiro e o segundo com o quarto. Ticknor, 
historiador critico da litteratura hespanhola, pelo 
caracter de modernidade no castelhano da Cró- 
nica en coplas de redondilhas de Alfonso Onceno 
considerava o poema como elaborado no século 
XV : «Lo cierto es que son tan faciles y tan des- 
nudos de archaismos que no podemos consideralos 
escritos con anterioridade á los romances dei si- 
glo XV.)) O senso critico de Ticknor, embora er- 
rasse na data, revelou-lhe um gráo da verdade : 
por que as redondilhas da Crónica de Alfonso 
Onceno, foram traduzidas da lingua portugueza, 
que contrastava pelo seu desenvolvimento com o 
estado archaico do castelhano, como se observa 
em outros monumentos litterarios. A lingua por- 
tugueza estava no século xiv no estado a que só 
nos fins do século xv chegaram os Romances po- 
pulares castelhanos. O poema de Rodrigo Yanes 
está cheio de portugne sismos; versos errados na 
metrificação e na rima ficam perfeitos restituin- 
do-os á forma portugueza. O professor de phi- 
lologia românica Dr. Júlio Cornu chegou á conclu- 
são pelo exame linguistico que o poema de Al- 
fonso Onceno conservava os vestigios de um ori- 
ginal portuguez. 

Pelos pequenos fragmentos que nos restam, 
esse original portuguez é o poema do Successo da 
batalha do Salado, de Affonso Giraldes. O chro- 



256 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

nista Fr. António Brandão consultou-o pela sita 
veracidade histórica: «Um romance tenho, que 
trata da batalha do Salado, composto por Af fonso 
Giraldes, d'aquelle tempo, em principio do qual, 
entre outras guerras que se apontam, se faz men- 
ção d 'esta que o Abhade João teve com os mouros 
e seu capitão Almanzor.» (Mon. lusif., P. iii, 
liv. 10, c. 45.) Amador de los Rios, na sua His- 
toria da Litteratura hespanhola, transcreve uma 
estrophe d'esse poema que condiz com a referencia 
de Brandão : 

Outros faliam de gram razão 
De Bistoris gram sabedor, 
E do Abhade Dom João 
Que venceu rei Almanzor. 

Teria o erudito hespanhol algum fragmento 
do poema inédito? Depois de transcrever essa 
quadra, continua : «Guarda a historia por ventura 
alguma parte, ainda que não da extensão que de- 
sejáramos, das rimas de Affonso Giraldes, fi- 
dalgo portuguez, que se achou na memorável ba- 
talha do Salado.» (Op. cit., iv, 715.) Inferimos 
que um fragmento do poema se conserva em 
Hespanha. 

A allusão a Bistoris é uma reminiscência bi- 
blica dos desfiladeiros de Bctzachrah, onde Elea- 
zar praticou feitos heróicos ; a lenda da degolação 
das mulheres e crianças, por ordem do Ahhadc 
João, antes do ataque contra os mouros, é uma 
tradição gauleza, referida por Belloguet, que re- 
vivescia nas luctas da reconquista christã. No 
poema castelhano de Rodrigo Yanes, faltam tam- 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 257 



bem as primeiras estrophes. Apontemos as simi- 
laridades do poema castelhano publicado por 
Jener em 1863 com os fragmentos portuguezes. 
Na estrophe 335 da Crónica en redondillas : 

E dióles grandes franquias 
For Castella mas valer; 
Todas estas cortesias 
BI buen rey hizo fazer. 

No trecho com que Bluteau, no Vocabulário da 
Lingua portugueza (171 2) exemplifica a palavra 
Ai. MEXIA, escreve: «Como acção própria d'este 
regno, cá-ntou Affonso Giraldes esta distincção 
nas rimas que fez da Batalha do Salado, com os 
versos que seguem: 

E fez bem aos criados seus, 
E gran honra aos privados; 
E fez a todos os judeus 
Trazer signaes divizados. 

E os Mouros almexias, 
Que os pudessem conhecer; 
Todas estas cortesias 
Bste Rey mandou fazer. 

Ainda assim poderia parecer esta semelhança 
de dois versos uma phrase estylistica; mas na 
continuação da Monarchia lusitana (Ih., P. v. 
liv. 16, c. 13,) por Frei Francisco Brandão vem 
transcripta esta quadra: 

Gonçalo Gomes de Azevedo 
Alferes dei Rey de Portugal, 
Entrava aos Mouros sem medo 
Como fidalgo leal. 

No poema de Yanes lê-se a mesma quadra 
com inversão ; 
17 



258 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUfíZA 



Todos yvan muy sin medo 
para complir su perdon, 
B Gonçalo Gomes de Azevedo 
Levava el su pendon. 

(Est. 1326.) 

Semelhança de forma métrica e estrophica, de 
versos e de rimas, revelam que um poeta teve 
presente o poema do outro, traduzindo-o. No 
castelhano de Rodrigo Yanes, já estranho para 
Ticknor, ha o portuguezismo, que tanto actuara 
na expressão da poesia lyrica. Affonso Giraldes 
escrevera sob a impressão immediata do grande 
successo; d'ahi a sua prioridade e originalidade. 
Escreve Fr. António Brandão: «Affonso Giral- 
des, que escreveu em rimas portuguezas a bata- 
lha do Salado, no próprio anno em que ^uccc- 
deu...)) Os vestigios do original portuguez appa- 
recem nas rimas da Crónica cn redondillas de AI- 
fonso Onceno, retocando as consoantes imper- 
feitas do texto castelhano : 

Non ayades que temer 
Estes moros que son poços, 
Con vusco cuido vencer 
Este dragon de Marruccos. 

(Est. 1019.) 

Não ajades que temer 
Estes mouros que são pôcos, 
Con vosco cuido vencer 
Este dragão de Marrocos. 

La reyna vuestra fija 
Vos demanda que le dedes 
La vuestra muy real frota 
Vos gela embiedes. 

y (Est. 1020,) 



prime;ira kpoca : kdadi? média 259 



A rainha vossa filha 
Vos demanda que lhe dedes 
A vossa real flotilha, 
Vós que lh'a enviedes. 

Bos, buen rey, non lo buscastes 
E por bos cobraré corona, 
E pois me bien començastes 
La sima sea muy buena agora. 

(Est. 1825.) 

Vós, bom rei, não o buscastes 
E por vós cobrarei coroa 
E pois mui ben começastes 
Seja agora a cima boa. 

Si entramos en torneo 
Plase-me, cá es derecho. 
Pongo Dios en el comedio 
Que sea juez dei fecho. 

(Est. 1408.) 

Se entramos em torneo 
Apraz-me, cá é direito; 
Ponho a Deus em o meio, 
Que seja juiz do feito. 

Dixo : Sennor, si bos pias 
En la buestra tienda folgade 
Dormide e avede paz, 
Non vos temades de nady. 

(Est. 1491.) 

Dixe : Senhor, se vos praz, 
Em vossa tenda folgada, 
Dormide e avede paz 
Não vos temades de nada. 



Fallóla sobre a Algesira 
Con su hueste e su pendon, 
El buen rey quando lo biera 
Alegro el coraçon. 

(Est. 2231.) 



26o HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Achoii-a sobre Algesira 
Con sua hoste e seu pendão, 
O bom rei quando o vira 
Alegrou o coração. 

Evidentemente as rimas castelhanas imperfei- 
tas restabelecem-se na forma portugueza. O mes- 
mo com relação ao significado de certas palavras 
que Yanes não comprehendeu, como cima, ter- 
mo, feiclio, remate. O poema de Rodrigo Yanes, 
allude ao Leão DorDicntc, que declara ser D. Af- 
fonso IV, moroso em acudir ao seu genro Al- 
fonso XI, e o Porco selvagem, symbolisando o 
poder dos Mouros vencidos no Salado; isto nos 
mostra conhecimento da Prophecia de Merlin, 
([ue se tornou popular em Portugal apparecendo 
no principio do século xvi nas Trovas de Ban- 
darra. O poema narrativo foi escripto sob o in- 
fluxo das tradições bretãs, que se manifestavam 
no lyrismo dos Lais, nos Contos e Novella cava- 
lheiresca ; esta nova corrente foi iniciada em Por- 
tugal no Cvclo post-Dionisio. 
'^ Na decadência do lyrismo provençalesco tanto 
em Portugal como na Hespanha, actuava princi- 
palmente o grande desenvolvimento da poesia nar- 
rativa, a que Affonso o Sábio ligara a importân- 
cia de dissolver alguns d'esses cantares tradicio- 
naes na prosa da Historia geral de Hespanha. Na 
Crónica en redondillas allude-se a esses can- 
tares : 

E bien asy los reys godos 
Vuestros antecessores 



Deixaron por su testigo 
Romances muy bien escriptos, 

(Est. 147.) 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 201 



Referindo-se á classe popular e á linguagem 
cresses cantos narrativos: 



Giellas e Moçarabes. 

Dixieron los escuderos 
Sabedes bien la araviaf 
Sodes bien verdaderos 
De tornal-a en aljamia? 



(Est. 953.) 



(Est. 1293.) 



O Clianceller Pêro Lopez de Ayala chamou a 
estes cantares narrativos em redondilha assonan- 
tada : Versetes de antiguo rimar, em redondilha 
menor de cinco syllabas. Também na litteratura 
portugueza é que se encontra um typo único d 'este 
género reproduzindo a forma épica tradicional 
popular, na Canção de Ayras Nunes (Canc. Vat , 
n.o 466) : 

Desfiar enviaron 

ora de Tudela 

filhos de Dom Fernando 

ai rei de Castella; 

e disse el rei logo: 

— Hide a lá Don Vela 

Desfiade, e mostrade 
por min esta razon, 
si qiiizerem per cambio 
do reino de Leon, 
filhem porém Navarra 
ou o reino de Aragon. 



Na Crónica de D. Sancho IV encontrou D. Ca- 
rolina Michaèlis a narrativa desenvolvida sobre 
(|ue versa este romance, i N'este género de ro- 



I Zeitschrift fur romanische Philologie, vol. xxvi, p. 
^219-229. 



-'6j historia da litter atura portugueza 



mance narrativo vem no Cancioneiro Colocci uma 
Sátira de Af fonso o Sábio também em sextilhas ; 
começa : 

Don Gonçalo pois queredes 
ir d'aqui para Sevilha 
por veerdes voss' amiga 
(nem o tenho a maravilha,) 
contar vos ei as jornadas 
légua a légua, milha a milha. 

Ir podedes a Lebrija 
e torceredes já quanto, 
e depois ir a Alcalá 
sem pavor e sem espanto, 
que ajades de perder 
a garnacha nem o manto. 



Eu porén eu vol'© rogo 

e vol-o dou en conselho, 

que quand' entrardes Sevilha 

vus catedes no espelho, 

e non dedes nemigalha 

por min nem por João Coelho. 



Referia-se o Rei Sábio ao trovador portuguez 
D. João Soares Coelho, o mais fecundo depois do 
rei D. Diniz; correu terras de Hespanha e f aliou 
com o trovador Sordelo. Aqui temos trez typos 
de redondilha de cantares narrativos, em volta do 
Romance popular, que no século xv ia prevalecer 
nas litteraturas peninsulares pelo seu caracter ar- 
chaico ou velho. Menendez y Pelayo, f aliando da 
Crónica de Alfonso Onceno, diz : «prova a influen- 
cia dos Cantares do vul^^^o na épica historial dos 
versejadores cultos.» (AntoL, xi, p. 9.) E d'este 
«octosyllabo não popular mas artístico que existia 
no século xiv,» acrescenta: «puramente lyrico, 
procede da poesia galaico portuguesa como as 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 263 

outras combinações métricas usadas pelos trova- 
dores e que se encontra nas Cantigas do Rei Sá- 
bio.» (Ib., p. 98.) A elaboração dos Romances 
populares do século xiv consistiu na fusão ou 
syncretismo dos vários themas tradicionaes, fi- 
xando-se os quadros mais emocionantes, sendo as 
formas mais nitidas colligidas no século xv sob 
o titulo de Romances velhos. Escreve Menendez 
y Pelayo: «na segunda metade da decima quarta 
Centúria tinham começado a esgalhar-se da ar- 
vore épica muitos ramos, e começava a formar-se 
a epopêa fragmentaria, cujos últimos resíduos são 
os Romances.)) (Ib. p. 9.) As Gestas Carlin- 
gias e os Poemas arthurianos e mesmo as remi- 
niscências clássicas e lendas nacionaes tomavam a 
forma narrativa do romance, lacónica, dialogada 
e incisiva. Na Crónica de Alfonso Onceno vem o 
primeiro verso de um dos romances velhos mais 
populares: «Mal le passaron francezes.» (^. 
2285.) O Romance lyrico ou subjectivo destaca- 
se da musica a que eram cantados os Lais bretãos, 
também em moda no século xiv, como se lê na 
Crónica em redondilhas: 

La gayta que és sotil 
Con que todos plaser han, 
Otros estrumentos mil 
La farpa de Don Tristan. 

Que de los puntos doblados 
Con que falaga ai loçano, 
Todos los enamorados 
En el tiempo de verano. 

(Est. 409 e seg.) 



204 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

§ III 

Influencia armoricana ou Gallo-bretan 

Nos fins do século xiii, o lyrismo trobado- 
resco, pelo seu intenso subjectivismo e tendência 
allegorica desligava-se da musica para a idealisa- 
ção philosophica. Não era uma decadência, mas 
uma renovação; realisou-a o génio italiano. A 
creação da Musica moderna era simultânea com 
esta crise; e o desenvolvimento das Melodias po- 
pulares veiu provocar uma renovação poética. Es- 
palharam-se pelas cortes os Lais bretãos, de amor 
e novellescos. O trovador aristocrata Guerau de 
Cabrera da corte de Affonso ii de Aragão, em 
uma canção posterior a 1170, acoima o jogral 
Cabra, por não saber tocar na viola e cantar, nem 
terminar com a cadencia ou tempradura bretã: 

Mal saps viular 

E pietz chantar 
Del cap tro en la fenizon, 

Non sabz finir 

Al mieu albir 
A tempradura de Breion. 

E fundamenta, que não pôde mostrar-se ins- 
truido, quem não fôr fora da sua terra: 

Jes gran saber 

Non potz aver, 

Si fors non iers de ta rejon. 

O trovador enumera todos os Cyclos poéticos 
que interessavam a imaginação d'esse tempo, 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA 



i 



De la gran gesta de Carlon... 
Del setge qe a Troja fon... 

Enumera em seguida os poemas de amor que 
foram conhecidos em Portugal, de Flores e Bran- 
caflor e de Tristan, citados pelo rei Dom Diniz. 

Ni de Tristan 
Q' amiva Yceut a lairon 
Ni de Giialvaing... 

Pelo casamento de D. Diniz com D. Isabel, 
filha de Pedro iii de Aragão, e pela vinda do 
seu cunhado D. Pedro á corte portugueza, é que 
se propagaram os cantos lyricos dos Lais bretãos, 
e os cantares narrativos, que eram já conhecidos 
na forma de Novellas. O conhecimento directo 
das ficções bretans deu-se no primeiro quartel do 
século XIV, n'esse periodo de syncretismo em que 
as Gestas frankas se convertiam em Chronicas 
históricas, e as narrativas poéticas eram prosifi- 
radas. O Conde de Barcellos no seu Nobiliário 
tit. TT, segue a Historia Brítonmn de Geoffroy 
de Monmouth ; a genealogia do Rey " Arthur é 
cfHi forme os poemas da Tavola Redonda, citando 
como individualidades reaes Lançarote do Lago, 
Galvan (Gauvain) a Ilha de Avalon (Islavalon;) 
seguindo o Roman de Brut, descreve as aventuras 
trágicas do Rei Lear (Leyr) e do propheta ou 
bardo Merlin. 

Esboçando estas correntes tradicionaes, che- 
gamos ao plienomeno capital da formação da No- 
vella portugueza do Am adis de Gania, que tão 
profundamente actuou na litteratura novellesca 
da Europa até ao século xvii. 



?66 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



a) Os Lais amorosos. — As melodias e os ins- 
trumentos músicos britonicos apparecem conhe- 
cidos na corte dos Merovingios, como se vê pela 
referencia de Venâncio Fortunato á rhota britana, 
percorrendo a Europa desde o século vi ao xii, 
cantores vagabundos, como o descreve Villemar- 
(jué. Xo poema de Guílhanme an Cour-nez, acha- 
se um \'estigio do fervor com que nas cortes eram 
ouvidos os Lais, citando-se entre os grandes pra- 
zeres da vida, a par do bom vinho e da caça, o 
ouvir os cantos britonicos, que eram especialmente 
agradáveis ás mulheres. Dil-o Denys Pyramus : 
(<Lais soulent as dames plaire.» No Lai de VB- 
pinc de Marie de France, confirma-se o caracter 
britonico (Festa forma ix)etica, referindo-se ao ir- 
landez, que com ternura cantava na rhota o Lai 
de Aielis: 



Le Lais ecoutent d* Aielis 
Que uns yrois doucement note 
Mont le some en sa rote. 



A rota é a chrota britana, que deu o nome ao 
género lyrico da Rotnenges; a rota era equipa- 
rada á cithara ou hith (Lcii, lou, luz) , o que leva 
a derivar o nome do Lai, como proveniente da 
designação do instrumento musico. F' frequente 
este processo como no género da Lira, em que o 
instrumento dá o nome á Canção especial. 

Do caracter musical dos Lais, lê-se no Ro- 
luan de Brut: 



II avait apris à chanter 
Et Lais e notes á harper. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 267 

E cita OS differentes géneros ou estylos dos 
Lais segundo os instrumentos músicos que se fo- 
ram empregando: 

Lais de vieles, Lais de notes 
Lais de harpe et de fretiax. 

No poema de Gilles de Chin aponta-se a gran- 
de vulgarisação do género lyrico : 

Cil vieleur vielent Jais, 
Cançonetez et estampiez. 

No romance de Raul d-: Cambrai, apontam-se 
os melhores harpistas como bretões : 

Grand fu la joie, se sachiez de verité, 
Harpcnt Bretons, et vielent jongler. 

Os themas poéticos das tradições britonicas 
começaram a servir de pretexto ou letra d'essas 
melodias, e assim os Lais se foram tornando nar- 
rativos ; Marie de France, no Lai de Chevrefeil, o 
manifesta: 

Por les paroles remembrer 
Tristan ki bien saveit harper 
En aveit feit un nouvel lai. 

(Pões., I, 398.) 

Em Portugal no fim do Cyclo-Affonsino o 
descrédito das Gestas francezas apparece na pa- 
rodia satirica da Canção de mal-dizer de D. Af- 
fonso Lopes de Baião, e o enthuziasmo crescente 
Ideias novellas bretãs de Tristão e Yseut, de Flores 
e Br anca flor, em uma evolução completa. Em 
uma Canção de Gonçalo Eannes do Vinhal os 
Cantares de Cornivall merecem-lhe uma referen- 
cia como a de Guerau de Cabrera ao jogral : 



j68 HISTORL-. DA LITT.HKATURA l^ORTUGUEZA 



»Maestre, todolos vossos cantares 
já que filham sempre d'um a razom, 
e outrosi ar filhan a mi son, 
e nom seguades outros milhares; 
se non aquestes de Cornoalha, 
mays estes seguides ben sem falha, 
e nom vi trobar por tantos logares. 

(Canc. Vat., n.° 1007.) 

Nas Cantigas de Santa Maria, D. Affonso o 
Sábio memora um jogral, que entoava Lais á 
Virgem, conforme as melodias britonicas: 

Un jograr que seu nome 
era Pedro de Sigrar 
que mui ben cantar sabia 
e mui melhor violar, 
et en todalas eigreijas 
da Virgen que non a par, 
un seu lais sempre dizia 



aquell lais que el cantava 
era da Madre de Deus. 



(Cant., 8.) 



Em uma Canção de Fernan Rodrigues Re- 
dondo é chasqueado D. Pedro de Aragão, o bas- 
tardo cunhado do rei D. Diniz, que residiu em 
Portugal de 1297 a 1325 : 

Dom Pedro, o cunhado d'El-rei. 
que chegou ora aqui d'Aragon, 
com um espelho grande de leitom 
e pêra que vol-o perlongarei... 
Muy ledo scend' hu cantara seus lays 
a sa lidice pouco Ihi durou... 

(Canc. Vat., n." 1147) 

Pêro da Ponte (ib. canç., n.o 1T70) chasquêa 
de Soeyro Eannes, mostrando a imperfeição com 
(|ue imita os lais: 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 26g 



E por esto não sei no mundo tal 
home que lh'a el devess 'a dizer, 
de nem Ihi dar mui ben seu aver, 
ca Suer' Eanes nunca Ihi fal 
razon des qu'el despagado vay 
em que Ihi troha tan mal e tan lai, 
porque o outro sempre Ihi quer mal. 

No Poema de Rodrigo Yanes sobre a Bata- 
lha do Salado, fazem-se referencias ao fervor que 
produziam os cantares de Tristan; e o Arcipreste 
de Hita (1342) leva-nos a determinar a transfor- 
mação que se estava operando nos Lais lyricos 
para narrativos: 

cá nunca fue tan leal Brancaflor a Flores 

nhi CS agora Tristan con todos sus amores. 

Corresponde esta indicação chronologica ao 
facto de se estar elaborando o thema de Tristão 
em forma novellesca. «E' do primeiro terço do 
século XIV o fragmento de Tristão em castelhano, 
em prosa, achado por Monaci em um códice da 
bibliotheca do Vaticano, e publicado em fac-si- 
mile. — Outro fragmento foi achado por Bonilla 
na bibliotheca de Madrid, nas guardas de um ma- 
nuscripto d'essa época mas aproximado do texto 
impresso de 1528.» (Men. y Pelayo.) 

N'este processo de desenvolvimento do thema 
novellesco em prosa desci íptiva e dialogada, exa- 
geradamente discursiva, os Lais lyricos receberam 
uma transformação objectivando-se para matiza- 
rem as situações em que eram intercalados. Deu- 
se este phenomeno nas Novellas francezas. No 
Cancioneiro de Colocci acham-se colligidos cinco 
Lais, importantíssimos, cuja forma franceza se 



270 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



conservou entre a prosa de novellas inéditas. Re- 
ferem-se a situações das aventuras amorosas de 
Tristan. Como vieram estes Lais a ser incorpo- 
rados no Cancioneiro de Colocci? Póde-se inferir 
que elles pertenceram a essa redacção em prosa 
da Novella do Tristan^ de que appareceram os 
dois fragmentos do século xiv em castelhano. O 
mesmo aconteceu com o lai de João Lobeira, que 
apparece em parte no Cancioneiro Colocci e em 
parte no texto castelhano do Amadis de GauU, 
transformado por Montalvo com amplificações rhe- 
toricas. Um caso explicará o outro. 

b) Os Lais no%'cUescos. — E' positivo o conhe- 
cimento das Novellas da Tavola Redonda na 
corte do rei D. Diniz, alludindo em uma Canção 
aos Poemas de Piores c Br anca flor e de Tristão 
e Yseult. Também o trovador João de Guylhade, 
na canção n.f^ 358 emprega as mesmas allusÕes: 

Os grandes vossos amores 
que mi e vós sempre ouvemos 
nunca Ihi cima fizemos 
com 'a Brunchafrol c Piores. 

O trovador Estevan da Guarda, escrivão da 
puridade de D. Diniz, em uma Canção (Vat., nP 
930) faz referencias á lenda da morte de Merlin 
pela perfídia da fada Viviana : 

Com 'aveo a Merlin de morrer, " 
per un gram saber que el foy mostrar 
a tal molher, que o soub 'enganar ; 
por esta guisa se foy confonder 
Martim Vasques, per quanto lh'eu oí 
que o tem morto uma molher assi, 
a que mostrou por seu mal saber. 



prime:ira época: edadk media 271 



Sei que Ih' é muyto grave de teer 
per aquello que Ih' el foy mostrar, 
com quem sabe que o pód'ensarrar 
en tal logar hu conven d'atender 
a tal morte de qual morreu Merlín, 
hu dará vozes fazendo sa fim, 
ca non pod 'el tal morte escaecer. 

Na Canção 1140 do Cancioneiro portuguez da 
Vaticana, Fernand' Esquio, allude ao monstro 
produzido por um incesto, a Besta ladrador, da 
Novella do Graal: 

Disse hun infante ante sa companha 

que me daria besta na fronteyra, 

e non será já murzela, nen veyra, 

nen branca nen vermelha nen castanha; 

pois amarella, nem parda non fòr 

a pram será a Besta ladrador 

que Ih' aduzam do Reyno de Bretanha. 

O Conde D. Pedro, traz no seu Nobiliário a 
lenda do Rei Lear, colligida da Chronica brito- 
nica de Geoffroy de Monmouth, resumindo-a nos 
traços capitães ; i para fundamentar a origem ma- 
ravilhosa da Casa de Haro traz a lenda do Coouro 
da Biscava, e do Cavallo-fada Par dali o (nome 
grego Pardalis, dado á panthera, na Hist. naf. de 
Aristóteles, liv. vi, cap. 6.) E como o conheci- 
mento das obras de Aristóteles fora revelado í 
Europa por via dos Árabes, pela corrente árabe 
vieram também Contos e Fabulas orientaes, fi- 
gurando no Nobiliário a lenda de Gaya, e as Ra- 



I Portug. Mon.. Scriptores, fase. 11, p. 228. Trans- 
crevemol-a e discutimos na Historia da Poesia popular 
portúgueza, t. 11, p. 161 a 164 



2-]! HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

posias vulgarisadas com vários Exemplos, que sa- 
hiram de Kalila e Dimna para a transmissão oral. 
A obra de D. João Manoel, o Conde de Lucanor, 
é o documento d'esta nova corrente litteraria que 
veiu fortificar o castelhanismo pela revivescência 
dos seus elementos ethnicos resultantes da occu- 
pação sarracena. E emquanto o génio ibérico se 
compraz com os Fabularios orientaes pelo in- 
tuito moral coadjuvando a propaganda catholica, 
o génio lusitano foi attrahido para as galanterias 
do mais exaltado e desinteressado amor, dos poe- 
mas como o de Antar, de Medjnim c Lcila, Jtíssuf 
e Zoleika. Esta corrente affectiva do amor mys- 
tico, entrara na Egreja na doutrina do Pastor 
de H ermas, e renovava-se pela interpretação alle- 
gorica dos amores da Sulamite do Cântico dos 
.Cânticos, recebendo todo o relevo religioso no 
culto da Virgem. Em quanto o génio castelhano 
se exerce nas Cantigas de Santa Marin, em Por- 
tugal esse amor idealisa a mulher elevando-a 
acima do desejo sensual e da paixão invencível 
dos poemas britonicos; transformando os amores 
de Tristão, de Lancelot e Percival na adoração de 
Amadis. Foi assim que o génio portuguez reno- 
vou esses themas, que se syncretisavam em sopo- 
ri feras amplificações. Todos estes factos disper- 
sos, por onde se reconstitue o estado das ficções 
novellescas na transição do século xiii para o 
XIV. são indisi:>ensaveis para reduzir a uma con- 
sequência natural esse extraordinário producto da 
Corte de D. Diniz, a Novella do Amadis de Gaula. 
Esse cataclysmo que se deu na civilisação por- 
tugueza, que lhe fez perder e esquecer as gran- 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 273 

des riquezas da sua Poesia lyrica trobadoresca, 
abrangeu também a quasi totalidade das creações 
das suas Novellas em prosa, que a critica moderna 
está reconstituindo. O Marquez de Santillana, na 
sua celebre Carta ao Condestavel de Portugal, 
a f firmando que a língua portuguesa era a empre- 
gada nas Canções ly ricas, não estendeu esta affir- 
mativa ás Novellas em prosa, por não entrar esse 
assumpto no seu quadro histórico. A esta omissão 
observa D. Carolina Michaèlis, com justiça: «se 
foram os gallego-portuguezes que exploraram e 
nacionalisaram as Pastorellas, a Baleia e os Lais 
de Bretanha^ por que não se havia de explorar e 
nacionalisar também poemas diluidos em prosa? 
— Se no reinado de Affonso x e Affonso iii os 
Cantares de Cornoalhas estavam vulgarisados na 
peninsula a ponto de um trovador se poder apro- 
priar do seu son, sendo imitado por outros, como o 
mestre cujos seguires D. Gonçalo Eannes do Vi- 
nhal agride na cantiga 1007, não ha motivo para se 
chamar arrojada a conjectura, que no mesmo 
reinado tão litterariamente fecundo, houvesse 
quem juntamente com os sons britonicos tentasse 
senhorear-se da Matière de Bretagne, traduzindo 
os Lais e a Novella em prosa.» (Cano. Aj., 11, 

519) 

No Cancioneiro apographo de Colocci foram 
colligidos cinco Lais, de uma extraordinária im- 
portância historico-litteraria : estão acompanhados 
de rubricas explicativas das situações novellescas 
a que se referiam e em que foram intercalados. 
D. Carolina Michaèlis, pelo seu tino critico, des- 
cobriu entre os manuscriptos francezes da No- 

18 



-74 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



vella de Tristan, o texto poético de que foram 
paraphrasticamente vertidos trez dos Lais do 
Cancioneiro de Colocci, e determinou as situações 
novellescas para que foram versificados; são o i.^, 
2. o e 5.0. O 4.^ Lai, apresenta a sua musica pri- 
mitiva na obra sobre a forma dos Lais, por F. 
Wolf. (p. 240.) Esta descoberta é um triumpho 
da critica. ^ O facto irrefragavel da traducção 
versificada d'essees três Lais, leva a inferir pela 
forma libérrima da versão, que esse trabalho era 
concomitante de uma adaptação portugueza da 
prosa da Novella do Tristão, tal como 5>e achava 
na sua phase cyclica. O estudo d'esses cinco Lais, 
conduz á conclusão > de que existiu um texto por- 
tuguez de Tristão, em que elles estavam interca- 
lados. Seria esse Tristan em portuguez o que se 
guardava na livraria do rei Dom Duarte; e o 
fragmento em prosa castelhana de Tristan não 
resultaria da apropriação do texto portuguez. 
como se deu com o texto de Amadis? Estas pro- 
vas fazem-se por conjuncto de factos. 



I *Sendo conhecido o facto de varias Novellas fran- 
ce/as sobre Maticre de Bretaqne e especialmente os roman- 
ces de Tristan, encerrarem Lais lyricos, a necessidade de 
ahi procurarmos não só os assumptos mas os próprios mo- 
delos dos Lais portuguezes impunha-se desde o momento 
da publicação de Molteni (1880)...* 

^^Desde que um dos discípulos de Gaston Paris (Lo- 
seth) nos deu em t8qi a analyse comparada dos romances 
de Tristan, a nossa empreza se tornou comtudo viável. 
Por ora conduziu á descoberta de trez entre os cinco 
Lais, que serviram de fooite ao adaptador peninsular, 
assim como ao achado das scenas todas a que as rubricas 
alludem...* D. Carolina Michaélis, Lais de Bretanha, p. 2. 
— Id. Canc. Vat. 11, 479. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 275 

Vejamos como os Lais ix>rtuguezes do Can- 
cioneiro levam ao reconhecimento da novela Por- 
tng-ueza de Tristan. No Cancioneiro Colocci- 
Brancuti acha-se um começo de rubrica com o 
primeiro verso de um Lai, cuja cópia interrom- 
pida se completa no segundo Lai : 

«Bsta Cantiga é a primeira que achamos que 
foi feita, e fezeron-a quatro donzellas en el tem- 
po de Rey Artur a Maraot d' Irlanda por la (tray- 
çon?) c tornada en lenguage palavra por palavra 
r diz assi:)) 

A Cantiga foi transcripta em segundo logar, 
com esta nova rubrica, pela qual se descobre a si- 
tuação da Novella: 

«Bsta Cantiga fezeron quatro donzellas a 
Marote d'Irlanda en tempo de Rey Artur, por 
que Mauriit filhava- todalas donzelas que achava 
em guarda dos cavaleiros, se as pedia conquerer 
d' eles; c enviava-as pêra Irlanda pêra seeren en 
servidon da terra. B esto fazia d per que fora 
morto seu padre per razon dlma donzela que 
levava en guarda.)^ 

Discutindo a forma da Cantiga ou Bailada, 
(|ue esta rubrica explica, conclue D. Carolina Mi- 
chaèlis ; «segundo a chronologia da Novella, de- 
via occupar o primeiro logar... Nenhum dos 
versos analysados por Loseth e novamente exa- 
minados a meu pedido em Paris e Vienna con- 
tém esta Cantiga. E nenhum conta os aconteci- 
trientos de que ella parece derivar, pelo modo in- 
dicado na rubrica, comquanto o Morhout figure 
em todos (os versos) de maneira bem saliente c 
])ertença não só á versão primitiva e ás secun- 



2/6 HISTORIA DA LTTTKRAT URA PORTUGUEZA 

darias, mas também aos poemas que a prece- 
deram. 

(íKste facto, estranhavel em si, mais singular 
se torna em vista de uma informação do velho 
compilador portuguez, o qual classifica exacta- 
mente esta Cantiga — e só esta — como traduzida 
verso a verso.» (Lais de Bretanha, p. lo.) A 
confissão do poeta: a tornada em linguagem pala- 
vra por palavra^) encobre a originalidade e inde- 
pendência do adaptador. Achada a situação allu- 
dida no Lai, observou D. Carolina Michaèlis : 
«As divergências nos dizeres do Portuguez são 
bem notáveis.» Trata-se da libertação de um Tri- 
buto de Donzellas. «Mais tarde, quando este 
(Tristan) feito cavalleiro, vive na corte de Marc 
de Cornoalha, o Morhout passa o mar e vem exi- 
gir certas páreas, já pagas aos soberanos da Ir- 
landa durante dois séculos. Informado de que o 
reino podia ser livrado do horrivel treiiage, com- 
posto de loo donzellas, loo mancebos e outros 
tantos cavallos de preço, se alguém vencesse o 
Irlandez, Tristan vae reptal-o. Na ilha de Saint 
Sanson, onde os dois abordam sem acompanha- 
mento e no próprio dia consagrado ao santo, é 
que é a lide... O Morhout succumbe mortalmente 
ferido... com um estilhaço da espada de Tristan 
no cérebro. Tristan ferido egualmente de uma 
seta envenenada, leva comsigo além da arma com 
que ferira o Morhout. a liarpa c rota...» 

A situação a cjue corresponde o lai portuguez 
diverge: «Donzellas conquistadas uma a uma c 
mandadas em senndão ao reino do vencedor, sub- 
stituem as do tributo, com quanto essas também 



PRIMEIRA época: edade média 277 

fossem einmenées en servage. E a motivação do 
costume? O pae de Morhout? A donzella a que 
este havia servido de guarda. De nada d'isso ha 
o menor vestigio nos textos francezes.» (Ib., 

Conclue-se sem violência, que existia um Tris- 
taii em portuguez nos principios do século xiv; 
comprova-o a existência de uma outra bailada 
no gosto do estavillar asturiano, em que se ce- 
lebra a libertação do Tributo das Donzellas, que 
os estados christãos pagavam a Mauregato (Mor- 
hout,) sobre que se fez a lenda genealógica do 
Peito Burdclo, e se fundamenta o censo dos Vo- 
tos de Santhiago. Appareceu esta lenda pela pri- 
meira vez no século xiii, em Lucas de Tuy e 
no Arcebispo D. Rodrigo Ximenez; a data da- 
nos a corrente tradicional em que estavam no 
maior prestigio as aventuras de Tristan. Facil 
foi dar-lhe á sua popularidade o sentido religioso, 
para a Egreja exigir a prestação dos Votos de 
vSanthiago que na batalha de Clavijo apparecera 
em um cavallo branco, lil^ertando os estados chris- 
tãos do criminoso tributo do Mauregato. ^ E' a 
bem conhecida Canção do Figueiral, compilada 
no Cancioneiro do Conde de Marialva, d'onde 
Soriano Fuertes transcreveu a melodia popular, - 
ligada ao seu texto. Nas canções portuguezas do 
século XIV, Morhout, é o Mouro, (Morhaus, cod. 
de Vienna) que tem prezas as donzellas: 



T Historia da Poesia popular portuguesa, t, 11, p. 
lOT a 139. 

2 Historia de la Musica en Bspana, Hv. 11, 12 e 13. 



78 HISTORIA IM LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mouro que las guarda 
cerca lo achey; 
mal las 'meaçára 
eu mal me anogey; 
troncon desgalhara... 
Todolos machuquei... 

A situação da iio\Tlla de Tristan que pro- 
duziu o Lai, tornou-se popular e ainda hoje é 
celebrada no romance do Algarve Dom Almendo 
(Amoroldo, no italiano) incorporado no Ro- 
manceiro geral portuguez : 

Para ella avança o Mouro, 
Pensando a deteria; 
Ao puchar pela infanta 
A mão aos pés lhe cahia... 

Dona Carolina Michaèlis escreve: «Notarei 
que uma forma com a (Marlot, Marolte por 
Morholt) se emprega tam]:)em no Aniadis (liv. i, 
cap. IO) onde já encontramos Sansonha (ilha de 
Saint-Sanson) e os louvores tradicionaes ao poder 
sublimante do Amor.» (Lais, p. 12.) No ro- 
mance de Doin Gaifciros também se indica San- 
sonha, e nos romances do Conde Nino ou Olino, 
elle canta um cantar com que se denuncia á prin- 
ceza; e quando os dois amantes morrem das suas 
sepulturas nascem ramos que se entrelaçam no 
ár; no romance de D. Auscnda (Ausêa, de Yseult) 
ha a erva fadada ou a fonte cuja agua têm o 
poder genésico, como o philtro que desvairou os 
dois apaixonados, como o comprehendeu o rei 
Marcos. Como se poderiam tornar populares es- 
tes episódios, que receberam a forma de roman- 
ces velhos, se não proviessem de uma redacção 
portugueza do Tristan? 



i-RiMKiRA kpoca: Kdade media 279 



o designado primeiro I^ai no Cancioneiro de 
Colocci, tem esta rubrica : 

nBsie lais fez Blias o Baço que foi duc de San- 
sonha, qiMndo passou a gran Bretanha, que ora 
cJiainain Inglaterra. E passou lá no tempo do Rei 
Artur, pêra se combater con Tristan, por que lhe 
matara o padre en ua batalha. B andando un dia 
cn sa busca, foi pela Joysa Guarda u era a Rai- 
nha Yseu de Cornoalha. B viu-a tan fremosa que 
advir lhe poderia no mundo achar par. Bnamo- 
ruu-sc enton d' ela e fez por ela este laix: 

Amor, des que m'a vos cheguei 
bem me posso de vos loar, 
ca mui pouc', ant, a meu cuidar 
valia; mais, pois enmentei... 

Segiiem-se mais nove quadras, na forma bri- 
tónica (a b b a); em um dos mss. de Paris 
achou o original f rancez : 

Amor, de vostre acointement 
me lou le molt, se dex mament! 
quant a vos ving premierement 
petit valoie voirement... 

Dona Carolina resume a situação da novella 
manuscripta franceza, concluindo também pela 
divergência da redacção portugueza alludida na 
rubrica do Lai de Elis: «As particularidades que 
distinguem a rubrica portugueza são a alcunha O 
Baço (Le Brim) apposta a Helys; e a substitui- 
ção da Cornoalha, como paiz invadido pela Gram- 
Bretanha. Com relação a esta particularidade, 
não esqueço que segundo Gastou Paris, um dos 
traços característicos da versão rimada ingleza ou 



28o HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

anglo-noniianda, é o representar a Marc como 
rei da Inglaterra inteira, e não exclusivamente da 
Cornoalha;... A fóninila — aliás vulgarissima — 
a Graiu Bretanha, que ora chamam Inglaterra, 
encontra-se também no Livro de Linhagens do 
Conde de Barcellos em paragraphos extractados 
da Historia Britonum. A palavra diic, posterior- 
mente nacional isada em duque, ahi se acha egual- 
mente, assim como no lais de Tróia... Nem falta 
no Nobiliário o gallicismo Soisnes, nem tamix>uco 
Sansonha, forma nasalisada de Saxonia. Esta 
passou também para alguns romances épico-ly- 
ricos de Castella, e para o Amadis, o que é signi- 
ficativo. 

((N'este livro de cavalleria, em cuja primeira 
parte ha numerosos trechos que parecem deri- 
var do Cancioneiro gallaico-portuguez e cuja re- 
lação de parentesco com as Novellas britonicas 
não posso deixar de apontar aqui, encontro um 
elogio do Amor, n'um monologo de Amadis, 
que muito se parece com as primeiras coplas do 
nosso Lais. E diz: — Amor, amor, mucho tengo 
que vos gradecer por cl hien que de vos me 
viene... (Liv. ii, c. 3.)» 

O terceiro lai tem a rubrica : Dou Tristan 
o Namorado fes esta Cantiga. A illustre roma- 
nista achou o texto em um dos manuscriptos fran- 
cezes ; a forma ix^rtugueza é de uma das tenções 
mais bellas do cydo dionisio, superior ao tornei 
da novella : 

Mui gran temp'a, por Deus, que eu nom vi 
quen de bondade vence todo ren!... 

Crant tcmps a que te ne vi ceie 
qiti totf ren:: vaint de biauté... 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 281 



O trovador portuguez desenvolveu a estrophe 
uiiica em uma bella canção tripartita, ou de mes- 
tria. A situação a que allude «é logo depois da 
batalha contra Helys, o de Sansonha, que Tristan 
atravessa uma floresta primaverilmente engala- 
nada, onde o canto das aves evoca a saudosa me- 
moria de Iseut, longe da qual vivera mais de um 
anno como cavalleiro errante.» (Lais de Bret., 

P- 14.) 

O quarto Lai de Tristan (Colocci) é o Lai 
de pior, nos manuscriptos francezes, de que Wolf 
publicou a musica. Transcrevemos uma estrophe : 

Dom Amor, cu cant' e choro, 
e todo me ven dali, 
da por que eu cant' e choro 
e por me mal' dia vi. 

Damor vient mon chant et nion pior 
e diluec prendent naissement 
ceie fait que orendroit pior 
qui mera fait chanter sovent... 

A situação novellesca, é quando Tristan mal 
restabelecido segue caminho da Cornoalha, e ou- 
viu de noite uma donzella cantar o lai composto 
por Yseult, o Lai du Boivre amoureiíx. E' depois, 
(jue Tristan compoz o Lais de Plour. 

O quinto Lai tem esta rubrica: Bste laix 
fe.zeron' donzelas a don Ançaroth qimndo estava 
na Insoa da Lidiça quando a rainha Geneura 
achou con a filha do rei Peles e Ihi defendeo que 
non parecesse ant'ela. 

Escreve D. Carolina Michaèlis : «Também 
(resta vez a redacção franceza falta nas novellas 
de Tristan, com quanto os nomes todos e os fa- 
ctos a que a rubrica allude, occorram em algu- 



JÒ^ HISTORIA DA IJTTKRATIJKA POKTUGUEZA 



mas das versões cyclicas. E occorrem ainda na 
novella de Lancelot e na Demanda do Santo 
Graal, visto o heroe do canto ser o Cavalleiro do 
Lago. Em volta de seu escudo donzelas dansain 
c cantam jubilosas por elle ter alcançado qualquer 
victoria.» Depois de ter resumido este quadro 
de dois manuscriptos parisienses, da Isle de joie, 
conclue: «E' depois da victoria sobre Albano, 
que imagino dever collocar a balleta. — O suc- 
cesso romântico que motivou a desgraça e lou- 
cura de Lancelot a que se allude na rubrica, como 
se fora simultâneo á bailada, é uma aventura no- 
cturna, passada um decennio antes, na corte do 
rei Artur, a que o heroe da Demanda e modelo 
de Amadis, o casto Galaaz, deveu o seu sêr, e 
que por isso mesmo forma o ponto de ligação 
entre o Lancelot e o Graal. Enganado por... um 
philtro... Lancelot julgando-se em presença da 
Rainha Geneura, abraça a filha do rei Pelles, des- 
lealdade de que em seguida se penitencia, magoa- 
dissimo, meio louco e esquecido, vivendo longos 
annos — afastado da rcm do mundo que el mais 
queria.)) (Ih., p. 17 e 18.) 

Entre os romances velhos do Romanceiro 
castelhano h^ esta situação de Lancelot, no seu 
regresso de Bretanha, em que as damas o servem 
com regosi jo ; por certo que estas aventuras não 
foram vulgarisadas pelas narrativas francezas. 
Diz D. Carolina Michaèlis: «Sem que a maticre 
de Bretagne tivesse penetrado nas cortes penin- 
sulares, quem se teria lembrado de compor ou de 
traduzir essas novidades, levado ])or mero inte- 
resse litterario ou musical? A existência dos 



pRi.MKiKA í;poca: edadi: média 283 



cinco Lais é, a meu vêr, indicio não só forte mas 
irrespondivel da existência de romances de Tris- 
fan e Lancelot em prosa. Pôde ser que o traductor 
da prosa, resolvido a apropriar-se os intermezzos 
ly ricos todos, desistisse a meio do caminho... 
Ou ainda, que o collector do Cancioneiro esco- 
lhesse apenas as amostras, que mais lhe agrada- 
vam, por motivos que é impossivel adivinhar.» 
(Ib., p. 20.) 

Este ultimo caso é o que se repete no Can- 
cioneiro Colocci com a Canção de João Lobeira, 
que andava ligada a um episodio da novella do 
Amadis de Gaula, «a primeira e principal imita- 
ção das novellas de IWistan, Lancelot e Graal.)) 
Pelo caracter lyrico d'esta Canção ou Lai de Leo- 
noreta, determina-se a época em que foi composta 
á qual pertence a primeira redacção da novella 
portugueza. A publicação do Cancioneiro Colocci 
em 1880 trouxe sob os n.os 230 e 232 dois fra- 
gmentos de uma Canção de João Lobeira, que são 
um documento' decisivo para demonstrar a origem 
portugueza do Amadis de Gaula, e dar realidade 
a um certo numero de tradições acerca d'esta no- 
vella cavalheiresca. Começa a Canção pelo refrcn: 

Lonoreta 

Sin rosçta, 
Bella sobre toda flor, 

Sin roseta 

Non me meta 
Em tal coita vosso amor. 

Es!f estribilho ou tornei, como se lhe chama 
na Poética trobadoresca |)ortugueza, conserva-se 
também nos versos da Canção intercalada no tex- 



254 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

to castelhano do Amadis de Gaula (liv. ii, cap. 
1 1 ) na paraphrase rhetorica de Garci Ordones de 
Aíontalvo. Sobre a forma poética, nota D. Caro- 
lina Michaèlis: «esse lais-ballada de Lobeira cin- 
ge-se rythmicamente a dois cantares de Af fonso x, 
ou então aos modelos da litteratura provençal 
com a estrophe coiic:, que o rei seguia. E essa 
fónna foi transmittida (aabaab) aos trovadores 
gallaico-castelhanos da 2. a época lyrica, que a 
empregaram (vid. Cancioneiro de Baena e congé- 
neres) exactamente nos géneros denominados lais 
e dcscordos, evocando assim a suspeita de o Ama- 
dis primitivo.» (Ib.j p. 26.) De facto, o pró- 
prio Montalvo revelou a existência de uma re- 
dacção primitiva na sigla da emenda por ordem 
do princepe D. Affonso de Portugal no episodio 
dos amores de Briolanja. A primeira redacção 
do Amadis citado por poetas do Cancioneiro de 
Baena constava de três livros; seriam estes escri- 
ptos pelo trovador João Lobeira, pertencendo o 
quarto á remodelação de seu filho Vasco de Lo- 
beira, que Azurara deu como vivendo no tempo 
do rei D. Fernando. A erudição do chronista Azu- 
rara não permittia um engano tam capital, dis- 
tanciando-o do Lobeira trovador do cyclo Dioni- 
sio. Eis a Canção de João Lobeira, reconstruída 
dos dois fragmentos : 

Senhor genta 

Mi tormenta 
Voss 'amor en guisa tal; 

Que tormenta 

Que eu senta 
Outro nom nv é ben nem mal, 
Mais la vossa m'é mortal. 



PRIMEIRA KPOCA : EDADE MEDIA 28^ 



Leonoreta 

Sin roseta. 
Bela sobre todo fror, 

Sin roseta 

Non me meta 
Em tal coita vosso amor. 

Das que vejo 

Non desejo 
Outra senhor se vos nom 

E desejo 

Tan sobejo 
Mataria un leon, 
Senhor do meu coraçom. 

Leonoreta 

Sin roseta, etc. 



Mha ventura 

En loucura 
Me meteu de vos amar ; 

E' loucura 

Que me dura 
Que me non posso quitar. 
Ay fremesura sem par ! 

Leonoreta 

Sin roseta, 
Bela sobre toda fror, 

Sin roseta 

Nom me meta 
Em tal coita vosso amor. i 



I Monaci, editor do Cancioneiro de Colocci escrevia- 
nos em carta de 13 de agosto de 1880, dando noticia 
d'este facto: *Vi troverai in csso (Canc. Colocci) un do- 
cumento molto interessante per la questione dei Amadigi. 
E la poesia dei Lobeira Leonoreta sin roseta, chi se retrova 
in una forma molto piu corretta ed autentica che non nella 
dei Romanzo di Amadigi, e quindi offre un bell' argu- 
mento in favore delia opinione sustenuta da te.^' 



286 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUCUEZA 

Importa comparar as formas da Canção inter- 
calada na prosa castelhana do Auiadis de Gania, 
reconhecendo-se que o traductor Montalvo con- 
servou inconscientemente os vestígios de um texto 
primitivo portuguez. Não comprehendeu a es- 
tructura estrophica, nem o lexapren da rima, en- 
contrando mais estancias, que faltam no Cancio- 
neiro, em que se verifica o estado de inter- 
polação (n.os 230 e 232.) Vê-se que a necessi- 
dade da traducção o obrigou a alterar o typo poé- 
tico; e conservando a ((Canção que por amestro 
amor Amadis fizo siendo viicstro caballero)) dei- 
xou a prova irrefragavel de úm texto elaborado 
na corte do rei D. Diniz, onde florescia João Lo- 
beira, na menoridade do princepe D. Affonso 
(o iv), como se confirma pela declaração da 
emenda do caso de Rriolanja. (liv. i, cap. 40.) 
Eis a versão castelhana por Montalvo : 

Leonoreta sin roseta, 
Blanca sobre toda flor. 
Sin roseta no me meta 
En tal cuita viiestro amor. 

' Sin ventura yo eu locura 
Me meti de vos amar, 
Es locura que me dura 
Sin me poder apartar. 
Oh hermosura sin par, 
Que me dá pena y dolçor. 

Sin roseta no me meta 

En tal cuita vuestro amor. 

De las que yo veo no deseo 
Otra si no a vos servir; 
Bien veo que es devaneo 
Do no me puedo partir ; 
Pues que no puedo huir 
De ser vuestro servidor, 

No me meta sin roseta 

En tal cuita vuestro amor. 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDTA 2\^-^ 



Aiinqiie mi queja parece 
Referir-se á vos, senor, 
Que mi vida desfallece, 
Otro és la vencedor, 
Otra és la matador, 
Blanca sobre toda flor; 

Sin roseta no me meta 

En tal cuita vuestro amor. 

De me hacer toda guerra 
Aquesta tiene el poder, 
Que muerto vive so tierra 
Aquesta puede hacer 
Sin yo gelo merecer; 
Blanca sobre toda flor, 

Sin roseta no me meta 

En tal cuita vuestro amor. 

Não transcrevemos aqui a forma deturpada 
do texto castelhano, isto é, versos transpostos e 
mal cortados, que mostram a apropriação de um 
texto primitivo ; ha o typo estrophico de João Lo- 
beira, mas sem seguir o encadeado da rima; não 
tem a estrophe n.o 230 da lição de Colocci, mas 
apresenta mais duas estrophes que faltam ao Can- 
cioneiro. D'estas omissões mutuas entre o Can- 
cioneiro e a Novella, infere-se que a Canção dj 
A III adis andou na tradição oral, d'onde foi colli- 
[.pda por causa da melodia para o Cancioneiro tro- 
badoresco, sendo a versão da Novella mais com- 
]>leta ix)r provir de um texto litterario, de que fa-- 
zia parte. Este encontro dos dois textos, escriptos 
como prosa c mal cortados os versos nos seus he- 
mistichios, é um facto decisivo e irrefutável para 
fundamentar a elaboração novellesca portugueza 
do Am adis. 

De])ois dos ]:)rimeiros críticos hespanhoes, Milá 
V Fontanals e Mcnendez. v Pelavo terem accei- 



288 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

tado as conclusões sobre a prioridade do texto 
l)()rtiiguez da Novella do Am adis de Gaida por 
Vasco de Lobeira, dois novos argumentos fo- 
ram trazidos cá discussão recentemente, em sen- 
tido contrario. Pelo facto de ter sido encontrada 
])or Ernesto Monaci na Bibliotheca do Vaticano 
uma folha solta de uma traducção castelhana do 
século XIV da novella áo Trístan, quiz concluir o 
professor Gottfried Baist, no seu estudo do Quadro 
das Litteraturas românicas, que á mesma corrente 
deve pertencer um texto castelhano do Amadis de 
Gania : sendo em 1342 citado o Trístan como re- 
cente na voga (agora), pelo Arcipreste de Hita, 
é collocada a elaboração da novella do Amadis em 
meados do século xiv. E avançando nas suas de- 
ducções, Baist reconhece a superioridade lyrica 
dos portuguezes, mas nega-lhes toda a prioridade 
de textos em prosa, incluindo n'esta negação o 
Amadis de- Carda, e até quer que a Demafida do 
Santo Graal fosse traduzida de textos caste- 
lhanos. 

Diante do facto de apparecer na redacção cas- 
telhana de Amadis de Montalvo intercalada uma 
Canção de João Lobeira, entendeu Baist invalidar 
esse argumento a favor da prioridade portugueza 
por uma supposição capciosa : «que o traductor 
castelhano se cingira á moda do tempo, escolhen- 
do para textos lyricos o idioma gallego-portuguez» 
e (|ue o Lai de Leonoreta fora uma interpollação 
tardia e espúria se não do século xiv, pelo menos 
no texto do Montalvo. Todos os esforços de 
Baist visam a provar que a redacção em prosa do 
Amadis de Gaida data da mocidade do chanceller 
Avala, isto é do meado do século xiv. 



PRIMEIRA época: edade mêdia 



Pelo seu lado, D. Carolina Michaélis (Canc. 
da Ajuda, t. ii) attenuando as afíirmativas de 
Baist, que caracterisa como singelas e seductoras, 
sente a necessidade de collocar a elaboração da 
Novella de Am adis também no século xiv, rela- 
cionada como está com o Lai de João Lobeira : 
«Com respeito á edade dos Lais e da Novella em 
prosa a que pertencem, eu adoptaria de boamente 
a data do primeiro decennio do século xiv. — Bem 
desejava consideral-os como remate da época gal- 
laico-portugueza, transição para o período dos 
Romances de Cavalleria, epilogo (e não falso 
preambulo) dos Cancioneiro.s trobadorescos.» 

Que facto se oppõe a que tão justa conclusão 
critica se não verifique e se torne effectiva? Res- 
pondera-se: um anachronismo. 

Como existiu na corte portugueza um João 
Loheira, que figura em documentos officiaes de 
1258 a 1285, filho illegitimo de Pêro Soares Al- 
\'im, e que, segundo Brandão, na MonarcJi.ia lu- 
sitana, assigna João Pires Lobeira, acceitou-se 
que esse individuo era o trovador João Lobeira, 
auctor do Lai que se acha incluso no Amadts. 
Assim recuava para os principios do reinado de 
D. Af.fonso 1 1 1 o conhecimento dos Lais bretãos, 
e o começo da elaboração em prosa do Amadis; 
d'ahi as contradictas sensatas de Baist, e a ver- 
dade das observações de D. Carolina Michaélis. 

Comparando a forma da Canção de João Lo- 
beira, chega a insigne romanista a este resultado : 
«esse Lais-bailada de Lobeira cinge-se rythmica- 
mente a dois cantares de Affonso x, forma trans- 
mittida aos trovadores gallaico-castelhanos da 2.^ 

19 



2()0 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



época lyrica, que a empregaram exactamente nas 
espécies que denominam Lais e Descordos. (Op. 
cit. II, 515.) Depois da deducção d'estes caracte- 
res poéticos, e apesar de admittir as datas ana- 
chronicas de 1258 a 1285 referentes a João Lo- 
beira, diega lucidamente a reconhecer: «o Ama- 
dis de Lobeira pertenceria ao primeiro quartel do 
século XIV (ao i.o do seguinte)...» «E esse facto 
ojjrigaria a coHocar o primeiro Tristan peninsular 
no reinado de D. Affonso me Affonso x.» E 
na necessidade de conciliar as datas anachronicas 
do supposLO João Lobeira com o Lai, que está 
intensamente ligado ao episodio de Leonoreta no 
Aniadis, D. Carolina Michaèlis recorre á «hypo- 
t].L.s:', ([uc espiritos avançados, influenciados por 
contacto directo com auctores francezes, prepara- 
ram intrepidamente, no reinado do Bolonhez e do 
Sábio, o advento do novo gosto por Novellas em 
prosa.» (Op. cit., 11, 516.) E sentindo a neces- 
sidade de aproximar a data do Lai lyrico de João 
L^obeira da data da elaboração da Novella do 
Aniadu, continua D. Carolina Michaèlis: 

«Sc as apparençias não mentem, a Cantiga 
que graciosamente principia com o refren Leono- 
reta... foi ideada como intermezzo lyrico da pri- 
meira e principal imitação peninsular das novellas 
d'^ Tristan, Lancelot e Graal. 

«Dirigindo-a ostensivamente á pequena irmã 
(•a amada — segundo o systema tantas vezes re- 
commendado pelos trovadores, — Amadis falia 
no texto : sub rosa com Oriana a sem par, que 
amava a furto. — No Amadis, de Montalvo (IL 
11), onde surge em versão castelhana, a poesia 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 2gi 



é cantada por um coro de Donzellas, que dan- 
sam coroadas de rosas e capitaneadas pela Infan- 
tinha. O episodio é muito secundário, e não se 
vê por que motivo teria' tido maior desenvolvi- 
mento na redacção primittiva...» (Canç. d'Aj., 

E como o professor Baist entende, que da 
existência dos Lais se não podia inferir um co- 
nhecimento cabal das Novellas bretãs e muito me- 
nos da sua nacionalisação pelos trovadores por- 
tuguezes, responde-lhe D. Carolina Michaèlis: 
«Se foram os gallegos-portuguezes que explora- 
ram e nacionalisaram as Pastorellas, a Bailada e 
os Lais lyricos de Bretanha, porque não haviam 
de explorar e nacionalisar também poemas dilui- 
dos em prosa? Não poderemos considerar No- 
vellas de Amor como pertencentes á Gaia Scien- 
cia?» (Ih., II, 519). E atacando de frente as 
(abjecções de Baist, escreve a eminente romanis- 
ta : «A existência de um Tristan castelhano an- 
tes de 1342 (época em que o Arcipreste de Hita 
allude) e a de um Amadis em tempo de Pêro Lo- 
pez de Ayala, implica necessariameote a não exis- 
tência de um Tristan e Amadis gallego-portuguez 
anterior?» (Ib., 11, 547.) «Do portuguez foram 
transpostas para castelhano numerosas -poesias ly- 
ricas dos epigones, que encontramos estropeadas 
nos Cancioneiros do século xv.» (Ib., pag. 518.) 
Todas as negativas de Baist e laboriosas concilia- 
ções de D. Carolina Michaèlis recebem uma nova 
luz diante da existência de um João de Lobeira pae 
de Vasco de Lobeira, cujo testamento é datado de 
1386, collocando-nos assim no século xiv a simul- 



292 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

taneidade dos Lais lyricos com as narrativas no^ 
vellescas. 

Quando se tornava difíicil coordenar estes 
dois elementos, o chronologico e o artistico, fo- 
ram achados em Elvas valiosos documentos que 
authenticam a individualidade de João Lobeira e 
de seu filho Vasco de Lobeira; coube essa gloria 
aos perseverantes esforços do grande folk-lorista 
da província do Alemtejo, o nosso amigo Antó- 
nio Thomaz Pires. 

Por occasião do seu feliz achado, escrevia-nos 
em 24 de Novembro de 1903, entrevendo logo a 
parte essencial do problema: 

((Está absolutamente averiguado que Vasco 
de Lobeira, auctor do Amadis de Gaula, floresceu 
no reinado de D. Diniz? Se não está, terá então 
valor, e grande, um pergaminho que tenho pre- 
sente, e que se refere a um João de Lobeira, pae 
de um Vasco de Lobeira — o qual João de Lo- 
beira em 1386 (era de César) instituiu por seu 
testamento uma capella chamada de Santa Suzana, 
na egreja de Santa Maria dos Açougues, da 
(então) villa de Elvas. 

((O pergaminho é enorme e contém uma sen- 
tença acerca da Capella instituida. Eis um tre- 
cho d'elle, em linguagem corrente para a trasla- 
dação me ser menos trabalhosa, e visto não me 
sobrar agora tempo : — ((que em a dita villa de 
Elvas houvera um mercador por nome chamado 
João de Lobeira, que foi casado com uma mulher 
que chamavam Maria Domingues. Esta lhe mor- 
rera e casara depois com Aldonça Annes, filha 
de Domingos Joannes Cabeça: estando assim ca- 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 293 

sado com ella fizera um testamento na éra de mil 
e trezentos e oitenta e seis annos, no qual to- 
mara certos bens seus... e da dita Maria Domin- 
gues, sua primeira mulher, — cujo testamento 
disse que fizera, e mandara que o enterrassem em 
a dita Capella de Santa Suzana, que fizera o dito 
Domingos Joannes Cabeça, seu sogro. E por os 
ditos bens que a isso tomara, mandara que lhe 
cantassem dois capellães para sempre, deixando a 
cada um certa quantia de... em cada um anno 
por sua soldada; e isto fizera sem fazendo anne- 
xamento algum, mandando que a dita Aldonça 
Annes sua derradeira mulher fosse administra- 
dora da dita Capella se se não casasse, e casan- 
do-se dera poder aos Juizes e Procurador do con- 
celho de Elvas que logo a desapoderassem de todo, 
e que deixem a seu filho maior a dita adminis- 
tração. E a dita Aldonça Annes se casara logo 
com Miguel Sanchez, cavalleiro castellão, mora- 
dor em Badajoz. E o dito Concelho e Juizes e 
procurador tomaram a dita administração e a de- 
ram ao seu filho maior por nome chamado Vasco 
de Loheira, o qual possuirá até o tempo de sua 
morte, etc.» 

O documento pela relação com esse dois no- 
mes históricos e data de 1386, patenteou-se de uma 
importância capital para o problema pendente. Em 
carta de 18 de março de 1904, escrevia-nos António 
Thomaz Pires : «Durante o trabalho da copia da 
sentença, occorreu-me o seguinte: Não, seria o 
Ainadis composto por Vasco de Lobeira na lingua 
castelhana? Ou, se o compoz em portuguez, não 
o passaria elle próprio para o castelhano ? E' que a 



294 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



lingua castelhana devia ser-lhe bastante familiar. 
Como se vê na sentença, a mãe d'elle Aldonça 
Annes, logo depois de viuvar de João de Lobeira, 
casou com Miguel Sanchez, cavalleiro castelhano, 
morador em Badajoz, e se bem que Vasco de Lo- 
beira era obrigado pela instituição do morgado 
a viver em Elvas, não passaria grande parte da 
sua existência junto de sua mãe e seu padastro, 
attenta a pequena distancia que ha entre Elvas e 
Badajoz? 

«Outro caso. João de Lobeira ou João Lo- 
beira, e ainda João Delobeira — diz a sentença, 
que era mercador em Elvas; será o trovador do 
Q^íucionóvol Mercador e troveirof! Verdade é que 
esse mercador tinha como concunhado nada me- 
nos que — Álvaro Gonçalves, mordomo-mór de 
D. Af fonso IV, — como a mesma sentença diz.» 

Interessado no valor histórico d'este documen- 
to, António Thomaz Pires não cessou nas suas in- 
vestigações ; pelo i^ergaminho da camará muni- 
cipal de Elvas, descobriu que o testamento de João 
de Lobeira estava transcripto no Tombo 1.° da 
Provedoria de Elvas, actualmente depositado no 
governo civil de Portalegre. Foram extraordiná- 
rios os esforços empregados para poder consultar 
esse Tombo i.o A final, em carta de 25 de cKitu- 
bro de 1904, escrevia-nos jubiloso: 

((Até que consegui do governo civil de Porta- 
legre o empréstimo do Tombo iP da Provedoria 
da camará de Elvas, onde está trasladado na in- 
tegra o testamento de João de Lobeira, e onde tam- 
bém está trasladado o testamento (com codicillo) 
do sogro d'ell€ — o Domingos Joannes Cabeça — 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 295 



testamento do anno 1374. São enormes, mas in- 
teressantíssimos a vários respeitos, estes documen- 
tos. Abrangem 17 folhas do Tombo, que é de 
grande formato. Vale muito a pena publical-os; 
e a esse respeito vou consultar o meu bom ami- 
go...» I 

Que Vasco de Lobeira estava ligado a Elvas 
pela tradição histórica, dil-o Barbosa Machado na 
sua Bihliotheca lusitano, ao biographar o auctor 
do Amadis de Gmda: «a maior parte de sua vida 
assistiu em Elvas, onde instituiu um morgado que 
depois veiu aos Abreus de Alcarapinha.» Tam- 
bém Jorge Cardoso, no Agíologio lusitano, attri- 
buindo a composição do Amadis de Gaula a Pe- 
dro Lobeira, dá-o como tabellião em Elvas, (t. 
I, 410.) D'onde proviria esta tradição, espalhada 
nos séculos xvii e xviii? Jorge Cardoso apon- 
ta como seu informador de antiguidades a Ma- 
nuel Severim de Faria: e Barbosa Machado refe- 
rindo-se ao Morgado de Alcarapinha leva-nos á 
inferência derivada do mesmo informador, por- 
que um dos possuidores do morgado foi D. Chris- 
tovam Manuel, que casou em segundas núpcias 



I Com o mais extraordinário desinteresse, António 
Thomaz Pires entregava-me esses documentos para entra- 
rem na segunda edição do livro Formação do Amadis de 
Gaula. Mas essa nova remodelação do meu estudo vem 
longe, o que prejudicava o conhecimento de tão extraor- 
dinário descobrimento. Assim, a bem dos que estudam, 
acabam de apparecer á luz no fascículo vii dos Estudos e 
Notas Blvenscs, de que é editor o benemérito escriptor An- 
tónio José Torres de Carvalho. Acompanhou estes docu- 
mentos António Thomaz Pires com algumas notas que 
muito o esclarecem. 



296 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

com D. Joanna de Faria, filha de Gaspar Seve- 
rim de Faria; e esse morgado foi herdado por 
D. Sancho Manuel, i.o Conde de Villa Flor, que 
casou com uma sua sobrinha, filha de Gaspar Gil 
Severim. Vê-se pois que a tradição do auctor do 
Am adis de Gaula ser esse possuidor do morgado 
e assistir ou ser natural d'Elvas, era conhecida 
pelo antiquário Manuel Severim de Faria. Os 
documentos achados e agora publicados por An- 
tónio Thomaz Pires referem-se irrefragavelmente 
ao novellista e a seu pae, authenticando com toda 
a luz a época em que viveram. 

Como veiu o seu morgado e capella de Santa 
Suzana aos Abreus de Alcarapinha? Pelos docu- 
mentos vê-se, que Vasco de Lobeira, pelo casa- 
mento de sua mãe Aldonça Annes com o caste- 
lhano Miguel Sanchez, entrou na posse do mor- 
gado, deixando-o por sua morte a um filho ille- 
gitimo Martim de Lobeira. Por esta circumstan- 
cia foi a herança impugnada, obtendo sentença a 
seu favor Gonçalo Cerveira, que morrendo em 
1425, o deixou a um seu primo Gonçalo Brandão. 

Como este Cerveira, primo de Vasco de Lo- 
beira, era-o por parte da mãe e não dos Lobeiras, 
veiu em 1427 a ser o morgado dado a Martim de 
Abreu. 

Também se julgava o appellido de Lobeira de- 
rivado de uma terra da Galliza; mas este nome 
vem em documentos de Elvas de 1343 das grandes 
propriedades no Valle de Lobeira e Herdade de 
Lobeira no termo do Redondo. Este facto excluc 
toda a ideia de um trovador gallego de appellido 
Lobeira, que emigrasse para Portugal no tempo de 
D. Fernando. 



PRIMEIRA época: edade media 297 



Diante dos documentos achados e publicados 
por António Thomaz Pires, apura-se, que o João 
Loheira, que assignou como testemunha o testa- 
mento do Bispo de Lisboa D. Ayres Vaz em 1258, 
e que como filho bastardo de Pedro Soares Al- 
vim, foi legitimado por D. Af fonso 1 1 1 em 6 de 
maio de 1272, e que assigna em 1321, no instru- 
mento de compromisso entre o Rei D. Diniz e a 
Camará de Lisboa, não é o poeta da Canção de 
Leonoreta, cuja imitação dos Lais bretões accusa 
também uma época muito ulterior. Frei António 
Brandão escreve na Mofmrchia lusitana: 

((D'este João Lobeira descendem, ao que en- 
tendo, os que ha em Portugal d'este appellido.)) 
Os documentos actualmente descobertos justificam 
esta inferência; e o facto de João Lobeira ser mer- 
cador em Elvas, e não querer que na posse do 
Morgado entre cavalleiro, revela o orgulho da 
sua estiri:)€ burgueza, que se continuou em seu 
filho Vasco de Lobeira, armado cavalleiro depois 
dos sessenta annos, como se interpreta pelo epi- 
sodio de Mocandon, em 1384, (N. 1324 + 1403, 
79 annos.) 

A época da morte de Vasco de Lobeira, fixada 
em 1403, por Barbosa Machado, poderá • confir- 
mar-se pelo litigio demorado, em que seu primo 
Gonçalo Cerveira entra na posse do morgado de 
Santa Suzana, excluindo Martim de Lobeira, 
como illegitimo. Por morte de Gonçalo Cerveira, 
é que este deixou a um seu primo Gonçalo Bran- 
dão, em 1425, o morgado, que foi sentenciado 
vago, por falta de representantes de João de Lo- 
beira, vindo em 1427 aos Abreus de Alcarapinha. 



298 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 



E' depois de 1404, que se torna muito f aliado 
o Ajiiadis de Gaula pelos poetas do Cancioneiro de 
Baena e por Pedro Lopez Ayala; não se acha 
por elles reconhecida uma redacção castelhana. 
Essa versão fez-se pois sohre o texto portuguez, 
remodelando-se já com um quarto livro que 
não estava no plano, realisado somente em três 
livros. 

A descoberta de António Thomaz Pires vem 
dar ás objecções do professor Gottfried Baist uma 
resposta decisiva. Por ella temos datas que pre- 
cisam a época em que João de Lobeira e Vasco 
de Lobeira, seguiram a corrente do gosto bretão, 
realisando uma evolução completa do Lai lyrico 
para o narrativo e sua evolução em Novella em 
prosa. E, apparecendo no Cancioneiro Colocci- 
Brancuti os Lais lyricos do Tristão em portuguez. 
é também plausivel que essa folha da Novella do 
Tristão em lingua castelhana fosse resultante de 
uma primitiva forma portugueza, que se justi- 
fica pelas relações de Vasco de Lobeira com ca- 
valleiros castelhanos pelos laços de família. ^ 



I Na sua valiosissima descoberta, António Thomaz 
Pires levou o requinte de patriotismo a dedicar-nos o seu 
trabalho: ^^Persuadindo-me que semelhantes documentos, 
authenticos e até agora ignorados, podem efficazmente con- 
tribuir para a solução do tão discutido problema litterario 
— a nacionalidade do Amadis. resolvi, desde o momento 
que os salvei do pó dos archivos, offerecel-os a v. para os 
utilisar na segunda edição — já annunciada do seu precioso 
livro — formação do Amadis de Gaula.^ E' certo que so- 
bre estas bases novas todo esse livro será remodelado: mas 
d'aqui até esse dia, que vem longe, importa tornar conheci- 
do tão excepcional descobrimento, que directamente in- 
flue no problema, presentido por novas criticas subjecti- 
vistas e que os dados históricos resolvem definitivamente. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 299 

Origem portugueza do Amadis de Gaui.a 

Todos os grandes poemas da Tavola Redonda 
tinham terminado a sua evolução desde o desen- 
volvimento dos Lais narrativos em que primeiro 
foram esboçados, como o Tristan e Lanceio t, e 
transformando-se em prosa agruparam-se cycli- 
camente, constituindo em 1250 o que se chamou 
a Abateria de Bretanha. Portugal não ficou ex- 
tranho a este enorme trabalho de idealisação, em 
que Chrétien de Troies teve uma parte prepon- 
derante desde o Tristan e Lanceio t ao Percival, 
cujo assumpto tomou de um poema que de In- 
glaterra lhe trouxera Filippe de Flandres, Conde 
de Alsacia, marido de Thereza de Portugal. Não 
podiam estes poemas ser desconhecidos na corte 
de D. Affonso iii; a existência da novella da 
Demanda do Santo Graal em prosa portugueza do 
século XIV o fundamenta. A revivescência do ly- 
rismo provençal sob Dom Diniz, absorveu um 
pouco o interesse dos poetas da corte ; mas o gosto 
das Novellas, pelos seus quadros de aventuras ma- 
ravilhosas e de amores hallucinantes prevaleceu 
sobre a casuistica passional dos trovadores; a li- 
vre imaginação tomava os personagens secundá- 
rios, como Sagram or, como Ivain, como Amadas, 
e bordava-lhes uma biographia ideal, em que en- 
quadrava todas as situações mais bellas dos me- 
lhores poemas da Matéria de Brjtanha. Gaston 
Paris, dá-nos o conjuncto da biographia poética 
de um d'esses heroes: «Um joven cavalleiro des- 
conhecido, as mais das vezes sem familia, acaba 
de chegar á corte de Arthur, quando uma aven- 



300 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tiira qualquer, considerada por toda a gente como 
irrealisavel, lhe estimula a sua coragem; deixa 
a corte, vae correr a aventura, triumphar em muitas 
outras, e acaba por desposar a donzella n'isso en- 
volvida, e que em dote lhe traz um reino.» (Litt. 
franç. au Moyen-age, § 58.) Com leves modifi- 
cações é este o typo e o thema do Am adis de Gan- 
ia; accrescentando situações episódicas, a loucura 
por amor, como no Lai da Folie de Tristan repro- 
duzida no poema do Amadas, ou a tradição do 
morto reconhecido, de Richard le Beau, no poema 
inglez do Sir Amadace, chega-se da Chanson 
dlnstoire á formação cyclica da grande Novella 
em prosa. O valor moral da fidelidade inquebran- 
tável do amor, através de todas as suggestÕes, e 
tirando d'esse amor a energia para realisar as em- 
prezas quasi impossiveis, eis o thema que se des- 
taca, de todos os poemas e Lais narrativos, e que 
deu ao Amadis de Gania a primazia sobre todas 
as Novellas de Cavalleria. 

Na época em que foi composto o Amadis de 
Gaída, na corte de Dom Diniz, já as Novellas 
da Tavola Redonda estavam transformadas em 
prosa. Gaston Paris assentou este principio cri- 
tico para o conhecimento d'essas novellas: que os 
textos em verso as precederam e são mais antigos. 
Com o Amadis de Gaula deu-se este phenomeno; 
antes da sua redacção em prosa no século xiv, foi 
precedido de poemas em verso no século xiií, 
taes como o Amadas et Ydoine, em francez, e Sir 
Amadace, em inglez. 

No Discurso sobre o Estado das Lettras no 
Século xTi\ Victor Le Clerc, f aliando do rei 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA J^I 

D. Diniz, como fundador da Universidade de 
Coimbra, censura seu filho D. Affonso iv: «tra- 
balhou também para aperfeiçoar a sua lingua na- 
cional, e assignalar-se-ia já agora nos annaes das 
lettras, se podesse attribuir-se com certeza a Vas- 
co de Lobeira, morto segundo dizem em 1403, a 
primeira redacção do famoso Amadis de Gaula, 
que todavia, não é, como se vê pelo texto mais 
antigo hoje conhecido o hespanhol, senão uma 
imitação prolixa dos poemas da Tavola Redonda e 
dos romances de Aventuras, taes como o nosso ro- 
mance de Amadas.)) i O grande critico esboçava 
uma direcção para o estudo da novella. Littré com 
seguro senso nota: (.(.Amadas lembra o cyclo dos 
Amadises, que certamente hespanhol no século xv, 
tem por ventura ligações com as mais antigas 
composições francezas.» 2 Para determinar essas 
origens e fomiação importa conhecer os processos 
litterarios da Edade média, na evolução das for- 
mas, e no syncretismo dos variados poemas nas 
amplificações cyclicas. E não bastando ainda estes 
recursos contra a falta de documentos, o senso es- 
thetico revelará as harmonias orgânicas ou as in- 
congruências ; assim o comprehende Du Méril, no 
prefacio de Blanchefleur: «Os hábitos litterarios 
da Edade média complicam desgraçadamente to- 
das as questões de origens com difficuldades in- 
solúveis, se se não deixar ao sentimento tirar as 
conclusões, quando, escaceando os dados preci- 



1 Op. cit, t. I, p. 153. 

2 Dictionaire, Compl, de la Préface, p. Liv. 



302 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



SOS, O raciocínio se dá como incompetente.» (p. 

XXXV II.) 

Seguindo as phases da evolução do plano poé- 
tico do Aniadis, chegaremos ao apparecimento ló- 
gico c histórico da Novella portugueza, consti- 
tuindo-se com os elementos dominantes na sua 
época, ou os poemas que entraram na sua cons- 
trucção cyclica; e.caracterisando pelo sentimento 
a sua nacionalidade litteraria revelada no ethos 
portuguez. 

i.'i Phase: Lenda agiologica. — A tendência 
para a ]>ersonificação, faz com que muitas pala- 
vras qualificativas se convertam em entidades; é 
nma das bases da legendogonia. Assim a pala- 
vra lonke, a lança, tornou-se a individualidade de 
í.onguinhos, o designativo vera ícon, estampado 
no sudário, anthropomorphisou-se em Verónica. 
Foi assim que A matos, um qualquer designativo 
foi personificado por San Jeronymo como um dis- 
cípulo do eremita Antão. ^ l)'aqui a crear a le- 
genda áurea de um Santo é evolução espontânea 
em uma éix)ca de credulidade e de fecunda sancti- 
ficação popular. Como as grandes Epopêas deri- 
\'am as suas legendas heróicas de uma origem 
mythica, também algumas Canções de Gesta da 
lulade media foram a transfonnação de lendas 
agiologicas: a Canção de Aiol derivou-se da le- 
genda latina de Santo Aginlpho, ^ o santo Ab- 
bade de Lerins, do século vii, torna-se na Ges- 



1 Journal Asiatiquc de 1900; n.° i, p. 24. 

2 Acta Sanctorum, t. i, p. 728, 7^Z- 



PRIMEIRA época: edade média 303 



ta um estrénuo cavalleiro, que defende o impera- 
dor Luiz, filho de Carlos Magno, da revolta dos 
seus barões, e se retira para o claustro, aonde 
expira em santidade. Guilhaumc au Conrt-nez, 
cujas façanhas são celebradas em dezoito Gestas, 
é a transformação heróica do typo devoto de 
Saint Guilhaume de Gellone, da legenda do sé- 
culo X, colligida pelos Bollandistas. i O mesmo 
processo tradicional se dá com a Gesta de Miles 
et A mil es, tendo por base uma lenda agiologica. 2 
O que é todo o Cyclo do Santo Graal, senão o des- 
envolvimento épico-novellesco do Evangelho apo- 
crypho de Nicodemus? Na Novella do Amadis de 
Gania encontra-se o fio tradicional que liga o ca- 
valleiro typo da fidelidade ao prototypo de um 
Sancto; lê-se na redacção castelhana: «Este es 
Amadis... y este nombre era alli muy preciado, 
por que asi s: llamaba un Santo á quien la don- 
cella lo encomendo.» Nas Actas dos Bollandistas 
encontra-se a legenda de um Sanctus Ainandius 
Gallesinus. 3 No Isop?t II traduzido de um texto 
inglez do século xii de Walter TAnglais, vem 
na fabula da cigarra a exclamação: Par Saint 
Aniand! E no poema de Amadas et Idoyne, (T 
3092 ) : (íVenez, dame, par Saint Amant.yy Era 
este o Santo mais popular e querido na época da 
elaboração doestes ];X>emas, como se lê na Histo- 
ria litteraria da França; que na Edade média as 



1 Acta SS. Maii, t. vi, p. 809. 

2 Léon Gautier, Les Epopées françaiscs, t. i, p. 89. 

3 Acta SS. Febr., p. 816. 



304 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



vidas dos Santos eram muitsis vezes tratadas em 
verso : «Outras vidas de Santos em versos pro- 
vençaes parecem remontar ao século xi, como a 
de Sd-nto A VI and ius, bispo de Rodhez...» (t. xxii, 
p. 240.) No catalogo de uma bibliotheca monás- 
tica do século XII, junto com o poema de Miles 
et Amiles: «Milo unus, cum SM Arnandis vita me- 
trice compósita.» ^ 

As relações d 'esta lenda agiologica com a No- 
vella são imi>ortantes : Santo Amândio foge da 
casa de seus pães, e esconde-se na Ilha Ogia; no 
poema, Amadas também se ausenta da casa pa- 
terna, e na novella, refugia-se na Ilha da Penha 
pobre, aonde faz vida eremitica. As relações en- 
tre o poema e a Novella são mais interessantes: 
tanto Aniadis como Amadas servem na corte de 
um rei, por cuja filha Oriana ou Idoine se apai- 
xonam, e para merecerem-na vão nobilitar-se pelas 
armas, correr aventuras, até receberem o gráo de 
cavalleiros. N'este largo decurso de provas, os 
dois amantes dão o exemplo de uma inquebrantá- 
vel fidelidade; depois de terem salvado as suas 
amantes de i>erigosos encantamentos, casam a fi- 
nal e herdam o reino do pae, que se oppozera a 
este enlace. Paulin Paris e Leon Gautier consi- 
deram como excepcional a transfomiação de uma 
lenda agiologica em uma Gesta heróica ; no caso 
de Santo Amandiíis Gallesinus, bastava a sua 
muita popularidade, para esse nome entrar na 
corrente da idealisação cavalheiresca, como tan- 



I Btdl. de Mcademic de Bruxelles (1843) t. 11, p. 59i- 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 305 



tos nomes mythologicos e de personagens gregos 
e romanos, que serviram de thema a muitas Chan- 
sons dliistoire. 

Quando começaram a elaborar-se os Lais nar- 
rativos ou poemas sobre o Amadisf Pôde deter- 
minar-se essa data por um processo negativo : é de 
1 1 70 a celebre Canção de Guerau de Cabrera, ^ 
que ennumera todos os poemas que andavam na 
transmissão oral, do cyclo Carlingio e da Tavola 
Redonda, da mythologia clássica e da biblia, e 
entre essas preciosas referencias nada se encontra 
allusivo ao Ainadis. Comtudo ahi se apontam 
Tristan e Lancclot, que animariam o thema novo 
que ia ser elaborado em Lais narrativos. Nos fins 
do século XII, é que se espalham as Chansons de 
toile sobre o Aniadis. 

2.ÍI Phase : Lais narrativos. — No poema f ran- 
cez de Amadas et Ydoine refere-se a extensão im- 
mensa que as suas aventuras tinham na Europa, 
nos principios do século xiii, a que pertence esse 
poema : 

Tout droitement par Alemaigne, 
Puis fait son tour parmi Bretaigne 



Espandiie est já por Bourgoigne 
De lui la haut renommé. 

Qu'il n'a diisqu' as pars à'Espagne 
Dont si grans est la renommée 
De lui par tuit le mont alée 
Que áAngletcrre jusqn' a Rome... 



I Publicou-a com valiosas notas interpretativas Milá 
y Fontanals, nos Trovadores en Espana, p. 273 a 284. 
20 



306 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



De facto, em todos estes pontos indicados no 
poema francez encontram-se vestígios da tradi- 
ção poética de Amadas. O poeta Maèrlant, refor- 
mador da poesia neerlandeza, e falecido em 1291, 
faz uma referencia ao Amadis; i n'essa lingua an- 
davam já os poemas de Tristan, e Lanceio t, que 
lhe serviam de modelo. Do seu conhecimento em 
Inglaterra, temos a cantilena de Si?' Amadac:, 2 
do século XIV, e em França o Roman d' Amadas 
et Ydoone, acabado de copiar por João de Mados. 
Foi grande a popularidade d'este thema, cujas 
Canções narrativas apparecem mencionadas em 
numerosos poemas da Edade média e em catálo- 
gos de eruditos. No Donat dcs Amants, vem ci- 
tado o Amadis como o prototypo da fidelidade : 

Que fist Didoum par Eneas, 
E Ydoine par Amadas. 

E no pequeno poema romanesco Gauti:r d'Au- 
pais, na forma das Gestas, vem apontado; no 
poema de Gower, Confessio Amantis, (liv. vi,) 
de que existiu uma traducçao portugueza na Bi- 
bliotheca do rei D. Duarte : 

Is fed with redynge of romance 
Of Idoyne and Amadas. 



1 Jonckbloet, Hist. de la Littcratura neerlandeza, t. i, 
p. 161. 

2 Edição de 1842. Pertence este poema ao século xrv, 
segundo o prof. Brandi. (Gundriss der gernianischen Phi- 
lologie, t. II, p. 665.) No Archiv der romanischen Philo- 
logic, t. Lxxxi, p. 141, vem um estudo do Dr. Hipp, mos- 
trando que o poema do ^S";> Amadacc é o thema oriental 
do Morto agradecido. O prof. Breuster traduziu-nos do 
velho inglez este poema, illegivel para quem não fosse um 
philologo, 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 307 



X'o lai inglez de Bniare, é também memorado : 

Tn tath on korner mad was 
Idoyne and Amadas... 

No manuscripto de Guido de Columna, Regi- 
iiicnto de Príncipes, traduzido por João Garcia 
de Castroreges, por 1350, vem citado o Amadis, 
junto com Trisfan e Cif ar. No legado de Jean 
de Safres em 1365 ao capitulo de Clervaux, junto 
com os livros da Tavola Redonda vae também um 
Amadas. ^ Foi uma d'estas versões, que no sé- 
culo XVI Herberay des Essarts, ao traduzir do 
castelhano a novella de Montalvo, declara ter 
visto escripta em língua picarda; Du Tressan, no 
século XVIII, ao fazer o resumo da versão fran- 
ceza, confessa tel-a encontrado na bibliotheca do 
Vaticano no fundo doado pela rainha Christina da 
Suécia. 2 Estas duas affirmações ficaram pro- 
vadas desde que veiu á luz publicado por Hippeau, 
em 1863, o poema de Amadas et Ydoine. Publi- 



1 Victor Leclerc, Histoire litteraire de la France, t. 
I, 335- 

2 ^^Durante uma assistência de quatro mezes que o 
autor... fez em Roma, S. E. o Cardeal Querini honrou-o 
com a sua amisade e a Bibliotheca do Vaticano foi-lhe 
aberta... A' parte direita guarda-se a bibliotheca da celebre 
rainha Christina... Esta rainha altiva e instruída, tinha re- 
unido durante a sua estada em França uma prodigiosa quan- 
tidade de antigas edições e de manuscriptos f rancezes. — Foi 
alli que se lembra ter visto o Amadis de Gaula em uma 
antiquadíssima linguagem, que Herberay caracterisa deno- 
minando-a langue picarde, fundado em que o dialecto pi- 
cardo é ainda o mesmo dos romancistas do fim do reinado 
de Filippe Augusto e dos reinados de Luiz vi 11 e de S. 
Luiz.>^ (T. I, p. XXII.) 



308 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

cado desde 1810 o poema de Sir Amadace, e co- 
nhecido o romance de Aiidefroi le Bastará, Belle 
Idoyne, que é um episodio de Fleur et Blanchefleur, 
reconhecia-se a necessidade de explicar por elles 
o processo formativo da novella em prosa do 
Am adis de Gatda. No seu discurso Estado das 
Lettras no secido XIV , escrevia Leclerc: «Quan- 
do o ix>ema francez (te Amadas, que em 1365 
fazia parte dos livros de um cónego de Langres, 
e que ainda subsiste, tiver sido vulgarisado, quando 
o poderem comparar ao Amadace inglez, áquelle 
l)ravo, que os fragmentos publicados em 1840 e 
1842, segundo differentes textos manuscriptos, 
concordam em represental-o como o mais brilhante 
modelo de lealdade, de bravura e de respeito cava- 
lheiresco; quando principalmente se fizer uma 
ideia mais justa e mais completa da alluvião dos 
romances em prosa, que nos primeiros cento e cin- 
coenta annos da imprensa, para corresponder, 
tanto em Hespanha como em França, ao enthu- 
siasmo da moda, multiplicaram á compita os nos- 
sos antigos poemas, alongando-os com digressões 
importunas, conversas alambicadas, com uma am- 
pla brigada de gigantes, de fadas, encantadores, 
será occasião então de i^erguntar, se foi sem fun- 
damento ou se com rasão que o velho traductor 
francez do Amadis hespanhol, Herberay des 
Essarts, nos disse que descobrira alguns fragmen- 
tos escriptos á mão em lingua 'picar da, e decidir 
se este romance de aventuras, cujo plano pouco 
se prestava aos embellecos do i>er feito amor, por 
isso que começa por onde os outros acabam, nas- 
ceu em Portugal, em Hespanha ou em qualquer 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 309 



outra parte.» O problema está magistralmente 
posto, indicando Victor Leclerc ainda o espirito 
critico: «Nos Amadises, os quaes são derivados 
dos Lane cl o t e dos Tristan, e nos quaes se tem 
querido vêr o ideal do amor cavalheiresco, a bella 
Oriana concede tudo antes do tempo tão esperado 
em que os imperadores e os reis hão de vir assis- 
tir ás núpcias.» (Ib., p. 483.) 

D 'este processo critico chega-se ao conheci- 
mento que o thema do Amadis era generalisado 
na poesia medieval, na Europa no século xiii; e 
que entre esses poemas de toile, em lingua picar- 
da, inglez e neerlandez, e a redacção castelhana 
do fim do século xv, houve uma elaboração inter- 
mediaria, em lingua portugueza nos começos do 
século XIV. 

Tendo-se operado no século xiii a transfor- 
mação dos poemas versificados para a forma no- 
vel lesca em prosa, as analogias entre o Amadas et 
Jdoinc e o Amadis de Gaula não devem procu- 
rar-se na forma mas nas situações do thema tra- 
dicional : ambos são egualmente inspirados pelo 
mesmo sentimento da fidelidade no amor. Tanto 
Amadas como o Amadis servem na corte de um 
rei, por cuja filha Idoine ou Oriana se apaixo- 
nam, e para merecem-as vão ambos nobilitar-se 
nas armas para serem armados cavalleiros. E' du- 
rante as suas longas e arriscadas aventuras, que 
tanto o donzel como a filha do rei se mostram 
animados de uma absoluta fidelidade, terminando 
a acção pela posse merecida que sonhavam. Eis a 
situação que fez nascer esse amor, que pelo senti- 
mento da fidelidade encantou a Edade média; o 



310 HISTORIA DA LITTERATURA PORO^UGUEZA 



Duque de Borgonha dera um grande festim, e o 
Senescal n'esse dia veiu servil-o á mesa como lhe 
competia; a seu lado ia-o ajudando seu filho Ama- 
das, se não quando o duque mandou o Donzel ser- 
vir sua filha Idoine. 

Et Amadas devant son pére 
Devant son pére, á la table ere, 
Cui puis avint maint aventure. 
Li dus l'apela á droiture, 
Le mes li commande á porter 
Sa belle filie et presenter, 
Qui tint á une part sa feste. 
Com pucele haut geste. 
Li damoisiaz bien ensengniés, 
Comme courtois et afailiés, 
De cest message se íist prest. 

(y. 209 a 219.) 

En Tesgarder de la pucede 
Li saut au cuer une estincelle. 
Qui de fine amor Ta espris ; 
Já en est tos mas e souspris, 
Et entres en si grant effroi, 
Qu' il ne set nul conseil de soi ; 
Ne set s'il a joie ou doleur 
Ou amertume, ou douccur ; 
Ne set se il la vit ou non 
Par songe ou par avision... 

(y. 243 a 252.) I 

Agora a mesma situação com Amadis; apesar 
do seu alto nascimento, teve uma infância obscura, 



I Amadas et Ydoine. Edição de Hippeau. Paris. 1865. 
— No Zcitschrift far romanischc Philologie, vol. xiii, p. 
85, vem mais 286 versos de 2 folhas de um pergaminho 
de Guettingue. — Romania vol. xviii, p. 197. 

<<No Amadas et Ydoine encontra-se a primeira ideia 
da scena do tumulo, que faz o desenlace de Romeu e Ju- 
lieta de Shakespeare.» L. Cladat, VEpopée courtoise (Hist. 
de la litt. franç. i, 332.) 



PRIMEIRA época: edade média ^ii 

e só pelo seu garbo e gentileza é que foi tomado 
pelo rei Laiiguinés de Escossia para a sua corte. 
Foi na chegada de Oriana, vinda da Dinamarca, 
na festa que na sua corte lhe deu o rei Languinés, 
que Amadis viu e se apaixonou pela filha do rei 
Lisuarte. Lê-se na novella : nAmadis tinha então 
doze annos, mas pelo seu corpo e pelos seus mem- 
bros bem parecia ter quinze; servia a Rainha e 
era muito amado d'ella e de todas as damas e don- 
zelias ; mas logo que alli chegou Oriana, filha do 
rei Lisuarte, a rainha deu-lhe o donzel do mar 
para a servir, dizendo : — Amiga, eis aqui um gar- 
ção que vos servirá. Ella respondeu: que do seu 
agrado era. Esta palavra penetrou de tal forma 
o coração do donzel, que d'alli em diante nunca 
mais lhe sahiu da lembrança. E nunca, como esta 
historia o contará, em dias de sua vida se enfa- 
dou de a servir, e seu coração lhe foi sempre de- 
dicado, e este amor durou tanto quanto ambos vi- 
veram.» I Nas redacções em prosa, que se succe- 
deram tanto pela corrente cyclica como pelo gosto 
do tempo, os innumeros episódios, as historias ge- 
nealógicas e os longos discursos, fazem esquecer 
o simples trama, não deixando determinar as rela- 
ções com o texto poético originário d'onde proveiu. 

3.a Phase : Novella cyclica em prosa. — No 
século XIV encontram-se nos ix)etas hespanhoes 
numerosas referencias á novella do Amadis, e este 
nome torna-se um symbolo e uma designação sym- 



I Libros de Cahellcrias, p. 30. (Ed. Ribad.) 



312 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 

pathica. O rei D. João i, de Castella, poz a dois 
dos seus cães os nomes de Ogier e de Amadis; i 
e symbolisando a fidelidade instinctiva do cão é 
com este nome representado nos monumentos se- 
pulchraes. Don Aurelian Fernandez Guerra desco- 
briu em um sepulchro da egreja da Universidade 
de Sevilha, onde está representado um cavai lei ro 
estendido com os pés encostados a um cão, um si- 
gilai da vasta popularidade do Amadis em Hespa- 
nha ; o cavalleiro representa D. Lorenzo Soares 
de Figueiróa, avô do Marquez de Santillana, que 
fora Mestre de Santhiago e servira nas amias sob 
Henrique iii, D. João i e ii e faleceu em 1409; 
tem aos pés o cão com o nome de — Amadis, duas 
vezes inscripto na colleira. 2 Era esta mesma pre- 
dilecção que fazia, como conta Pablo de Céspe- 
des, que o Amadis fosse o assumpto de muitas 
telas pintadas no século xv. No Nobiliário do 
Conde D. Pedro, bastardo do rei D. Diniz, o nome 
de Oriana já apparece muito usado na fidalguia 
portugueza, como prova histórica da influen- 
cia do Amadis em Portugal no principio do sé- 
culo XIV. O descobrimento da Canção de Leono- 
reta pelo trovador João Lobeira, que foi inter- 
calada na redacção castelhana, fundamenta a rea- 
lidade histórica de uma primeira redacção por- 
tugueza em prosa na corte de D. Diniz, como o 
affirmara Miguel Leite Ferreira, dando noticia 



1 Milá y Fontanals. Trovadores cn Espana, p. 501, 
not. 6. 

2 Amador de los Rios, Scvilla Pintorcsca, p. 236. 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA ^1$ 



do texto portuguez na casa do Duque de Aveiro: 
((ua linguagem que se costumava neste reyno em 
tempo dei Rey D. Dinis, que lie a mesma em que 
foi composta a historia de Amadis de Gatda — 
cujo original anda na Casa de Aveiro.)) 

Ha ainda um outro facto, que leva a precisar 
esta primeira redacção portugueza, que constava 
aj>enas de tre:; livros, como o declara o poeta do 
Cancioneiro de Baena, Pêro Ferrús, que em 1379 
escrevera um Dizer á morte de Enrique 11. 

i.a Redacção portuguesa (de João Lobeira). 
Montalvo, explicando o movei da sua paraphrase 
castelhana do Amadis de Gania, falia «de los an- 
tiguos originales que estaban corruptos y com- 
puestos en antiguo estilo por falta de los diff cren- 
tes cscriptores...)) Logo adiante confirma a exis- 
tência de um texto do Amadis em trez livros, como 
revelara Pêro Ferrús: «E' yo esto considerando, 
y deseando que de mi alguna sombra de memoria 
quedasse, no me atreviendo á poner mi flaco in- 
genio en aquello que los mas cuerdos sábios se ocu- 
jjaran, quiselo juntar con estes postrimeros que 
las cosas mas livianas y de menor sustancia escri- 
bieron, por ser á el, segun su flaqueza, mas con- 
formes, corrigiendo estes três libros de Amadis, 
que por falta de los maios escriptores ó compone- 
dorcs muy corruptos ó viciosos se leian... y tras- 
ladando y emendando el libro ciiarto... que hasta 
aqui no es memoria de ninguno ser visto, etc.» 
:\uthenticada essa primeira redacção em três li- 
2'ros, que eram entremeados de Canções á maneira 
das Novellas da Matéria de Bretanha, o trovador 
do Lai de Leonoreta, João Lobeira, pae de Vasco 



314 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

de Lobeira como se sabe pelo seu testamento de 
1386, torna-se assim o auctor do texto em prosa 
do Ainadis. Do estado do episodio de Leonoreia 
na redacção castelhana, D. Carolina Michaèlis tira 
uma conclusão: «O episodio é muito secundário. 
Mas por ventura feria mais desenvolvimento na 
redacção primitiva, cuja perda obriga a tantas con- 
jecturas e discussões.» (Lais de Bret., p. 26.) 

O que se deu com este episodio, tornou-se mais 
patente com o episodio da princeza Briolanja; na 
lógica da acção, Amadis para não quebrar a leal- 
dade que sustentava pela princeza Oriana, tinha 
de não acceder á ternura de Briolanja, que se lhe 
entregara por gratidão. Isto determinou uma re- 
modelação da novella, por determinação do In- 
fante D. Affonso de Portugal. No texto caste- 
lhano de Montalvo ficou intercalada uma sigla com 
essa declaração interessante. E' uma nótula, que 
encerra um poderoso argumento histórico para 
authenticar a origem portugueza do Amadis de 
Gania: aatinqne el senor Infante Don Alfonso de 
Portugal, habiendo piedad doesta fermosa donzella 
(Briolanja) de outra guisa lo mandase poner. Bn 
esto hiso lo que su mercê fuc, mas no aquello que 
en effecto de sus amores se escribia.)) Este Infante 
D. Affonso de Portugal, que mandou modificar 
o episodio era o herdeiro do throno de Dom Di- 
niz, que teve muito cedo casa apartada (1297), 
e que dizia, segundo a Chronica de Nunes de 
Leão : ^ 

Para amores e revezes 

Ninguém melhor que os portuguezes. 



r 



PRIMEIRA kpoca: edade media 515 

Na edição dos Poemas lusitanos do Dr. An- 
tónio Ferreira, seu filho affirma que esse infante 
de Portugal er^ effectivamente o successor do rei 
D. Diniz. De Puymaigre, reconheceu que h allu- 
são era «a um princepe que foi rei sob o nome 
de Affonso iv, e que nasceu em Coimbra em 1290. 
Este infante devia contar vinte annos em 13 10, e 
estava em edade de poder interessar-se pela Brio- 
lanja.» ^ O princepe D. Affonso veiu a reinar em 
1325; por tanto desde 1304, entrado na puberda- 
de, podia ter compaixão da formosa donzella, e 
mandar fazer o retoque na Novella. Podia muito 
bem João Lobeira ir escrevendo os cadernos do 
Am adis, da mesma forma que fez João de Barros 
com a novella do Clarimundo, escripta aos ca- 
dernos para comprazer com o princepe que foi rei 
com o nome de D. João m. D'aqui se infere 
que já em 1367 podia o Chanceller Pêro Lopez de 
Ayala citar o Am adis no seu Rimado de Palácio, 
mesmo como reminiscência da sua mocidade, 
(1355) sem comtudo dar-se esse anachronismo 
imaginado por D. Pascoal de Gayangos. No rei- 
nado de D. Affonso iv apagou-se o interesse pelo 
lyrismo trobadoresco ; quanto elle seguia o espirito 
cavalheiresco das Novellas, que dominavam no 
gosto, vê-se no modo desinteressado como pro- 
cedeu na batalha do Salado. O seu caracter va- 



I Vieux Auteurs castillans, 11, 183; corrige o erro 
intencional de D. Pascoal de Gayangos, pretendendo inva- 
lidar a nótula com dizer gratuitamente que já era conhecido 
em Hespanha o Amadis cm 1359, e que D. Affonso de Por- 
tugal ainda não era nascido em 1370! (Libros de Cahalle- 
rias, p. XXIII.) 



3l6 HISTORIA DA LITTERATIJRA PORTUGUEZA 

ronil e forte, quando infante, andando sempre em 
lucta contra seu pae, revela-se na emenda que 
mandou fazer em contrario do que dos amores de 
Briolanja se escrevia: onde Amadis recusava a 
offerta do seu corpo excusando-se com muitas la- 
grimas choradas ix)r Oriana, manda que lhe faça 
dois filhos de um só ventre! 

Amador de los Rios, deduz d'esta modificação 
ter existido uma redacção anterior e mais pura: 
((E' pois evidente que Montalvo conheceu uma re- 
dacção em que interviera D. Affonso de Portugal, 
por ventura a attribuida a Lobeira; porém tam- 
isem parece ter tido noticia de outra, em que se 
conservava riiais fielmente o caracter cavalleiresco 
do Amadis, que reconhecia por base capital a fi- 
delidade dos s:us amores por Oriana; pois só com 
este conhecimento podia rejeitar como r>^..^"'^.i: -tó- 
rio, sui>erfluo e vão, o episodio dos amores da 
donzella Briolanja, introduzido na versão poitu- 
gueza.)) I Esta primeira redacção tinha a singe- 
leza da ingenuidade; a acção não era complicada, 
seguindo directamente para o seu natural desen- 
lace, subordinada aos modelos conhecidos da corte 
de D. Diniz, os poemas de Flores e Brancaflor, e 
de Tristan; notou Amador de los Rios esta fei- 
ção, destacando-a da redacção ulterior : «A ideia 
geradora do Amadis é a fidelidade do amor que 
se professam por toda a vida os amantes, fideli- 
dade que serve de purificação e de talisman para 
vencer todos os obstáculos e encantamentos, como 



JJisi. critica de ia IJtteratura cspanoia, 1. v, p. 94. 



PRIMEIRA Época: edade média ^ij 



acontece na Ilha Firme; esta ideia levada assim 
ao extremo, deriva indubitavelmente da historia 
de Tristan, e por ventura com mais exactidão de 
Flores c Brancaftor, espelhos de enamorados; e tão 
clara é a semelhança, que não ha poeta do século 
XIV que ao louvar a constância e verdadeira ter- 
nura de amor, deixc de citar egualmente, como 
modelos aquelles formosissimos pares.» i 

Por estes caracteres separa Amador de los 
Rios os trcz livros do Amadis como pertencendo 
a uma primeira redacção: «A singeleza, a exces- 
siva candura e infantil credulidade que se revela 
na narração dos maravilhosos impossiveis que 
n'ella se accumulam, a ingenuidade nativa das des- 
cripções, e o vigoroso e ás vezes aprazivel colorido 
que anima a suas romanescas scenas... o sabor 
archaico dos meios expositivos, da dicção e da 
phrase, especialmente nos três primeiros livros, 
bastante di ff crentes n'este ponto do ultimo, que 
não seria extranho a Garci Ordoííez de Montalvo 
a antiga Historia de Amadis, conhecida e com 
tanta frequência mencionada pelos mais notá- 
veis ix)etas da segunda metade do século xiv.» - 
O poeta Pêro Ferrús, em um Dizer dirigido a 
Pêro Lopez de Ayala, allegando-lhe o exemplo do 
cavalleiro Amadis na resistência resignada, falia 
nos três livros da celebrada novella : 

Amadis, el nuiy fermoso, 
las lliivias y las ventiscas 
nunca las fallo ariscas 



1 Historia crit. de la Lit. espahola, t. v, p. 85, nota. 

2 Ibid., t. V, p. 94. 



.3l8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

por leal ser é famoso : 
sus proezas fallaredes 
cn três libros, e di redes 
que le Dios dé santo poso. 

(Canc. Baena, i, p, 322.) 

Além da redacção das proezas do Amadis em 
//'(\s' livros, aqui authenticada, também se infere 
pelo Dizer do Pêro Ferrús, que a acção do Auia- 
(íis de Gaula não estava terminada, anciando o 
poeta: ((Que le Dios de santo poso.» Como ob- 
serva Amador de los Rios, a situação achava-se no 
resgate de Orianá do poder dos Romanos, sendo 
entregue por Lisuarte a Amadis, que vae a 
caminho da Ilha Firme esperar o termo d'aqueila 
aventura: «de maneira que estava muito distan- 
ciado Amadis do santo repouso, a que Ferrús allu- 
dia.» (Ib., p. 93, not.) A matéria dos três livros 
primitivos acha-se também destacando pela sua 
unidade esta primeira redacção da Novella. Reco 
nhece Amador de los Rios, que Amadis, Galaor, 
Florestan, com o intimo Agrajes, revelam uma 
impressão da Gesta dos Quatro Filhos d'Aymon, 
formando uma trama principal : ((Na historia dos 
três paladinos de Gaula cuja unidade assenta prin- 
cipalmente n'aquelle laço do sangue (os três fi- 
lhos do rei Feriou) liga-se á de Agrajes modelo 
de fidelidade áquelles três irmãos votados á gloria 
da familia por um próximo parentesco. Estes 
(juatro personagens nos quaes insiste a acção da 
Novella, pertenceram á priíneira redacção como 
bases indispensáveis da mesma.» (Op. cit., p. 85.) 
E ainda discrimina os trcs livros do Amadis de 
Gaula, pela confissão do próprio Montalvo, que 



PRIMEIRA época: edade média ^iq 



diz que os corrigiu e ejiiendotí, e declarando ter 
fraduaido o quarto livro. 

Vê-se d aqui que ainda se não tinha entrado 
na grande elaboração cyclica, encadeando episó- 
dios colhidos das variadas Novellas, para compli- 
car as aventuras cavalheirescas; essa phase litte- 
raria é que determinou a remodelação e amplia- 
ção do quarto Livro do Amadis de Gaula. 

2. a Redacção portuguesa (Vasco de Lobeira.) 
Sente-se através das ingénuas narrativas um pru- 
rido de apropriação e de referencias ás novellas 
do grande cyclo da Tavola Redonda. Observa 
Amador de los Rios este caracter que a Novella 
appresenta principalmente no quarto livro do Ama- 
dis: «as citações e allusões expressas que encon- 
tramos no Amadis, taes como as que se referem 
ao Santo Graal, a Tristão e Lanceio t, contidas no 
quarto livro, accrescentado... dá-nos o auctor co- 
nhecimento desde as primeiras paginas, de que era 
familiar da historia = do muy virtuoso Rei Ar- 
thur, que foi o melhor rei dos que alli (em Bre- 
tanha) reinaram = reflectindo-se no pensamento e 
composição de toda a ol^ra o mesmo conhecimento 
dos outros livros cavalheirescos.» A corte do Rei 
Lisuarte é remodelada segundo a do bom Rei Ar- 
thur; Archeláo, o maligno Encantador é como 
Tablante de Ricamonte no poema de Jofre y Bru- 
ncsinda; o episodio de Briolamja é mui seme- 
11; ante ao da rainha Conduiramor no Percival, ^ 



I Lê-se na Romania, vol. vii, p. 151, dando conta da 
critica allemã : ^^O episodio de Briolanja é tomado do ro- 
mance francez de Ãgravain.'^ 



3^0 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



assim como o reconhecimento de Amadis e Galaor 
egual ao de Feravis e Percival.» (Ih., p. 86.) Era 
este o processo cyclico, que foi geral na litteratura 
novellesca, a que pertence a elaboração detemii- 
nada pela alteração dos amores de Briolanja, feita 
por Vasco de Lobeira no esboço de seu pae. Foi 
este texto o que Montai vo conheceu e ampliou 
no fim do século xv, notando a sua incongruência, 
condemnando-o como alheio ao plano da Novella : 
((Todo lo que mas desto en este libro primero se 
dice de los amores de Amadis y d'esta hermosa 
reyna (Briolanja) fué acreccntado, como ya se 
os dijo; é por esso, como supérfluo c vano se de- 
jará de recontar, pues no hace ai caso; antes esto 
no v:rdadero contradiria é danaria lo que con 
nias razon esta grande historia adelante contará.» 
(Libr. de CabalL, p. 103.) Como é que Montalvo 
poderia condemnar este episodio de Briolanja, ex- 
pungil-o, e ao mesmo tenipo prometter des- 
envolvel-o no quarto livro, como declara: «Esto 
lleva mas rason de ser creida, porque esta fre- 
mosa reyna (Briolanja) casada fué con Galaor, 
como el quarto libro lo cuenta.»? Como é que o 
rbetorico Montalvo podia reprovar este episodio e 
tornar a alludir a elle no fim do livro segundo, na 
scena em que Oriana e Briolanja conversam acerca 
de Amadis, e em que esta lhe dá conta como teve 
d'elle dois filhos? D'aqui se vê que Montalvo não 
pôde apagar completamente na sua redacção cas- 
telhana o caracter do antigo texto ix)rtuguez, que 
os poetas do Cancioneiro de Baena conheceram 
nos primeiros annos do século xv, na forma que 
lhe deu Vasco de Lobeira. Transparecendo atra- 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA 32I 

vés d'estas contradicçÕes, Montalvo, preoccupado 
com a amplificação rhetorica, tão característica do 
fim do século xv, não comprehendeu o nexo entre 
a mesma situação do primeiro e do segundo livro. 
Braunfels n'um pretendido Estudo critico sobre 
o Amadis de Gaida, (Leipzig iSjó) para negar a 
origem portugueza d'esta novella, diz que não 
achou no fim do livro segundo a situação da con- 
fissão dos amores de Briolanja, de que nasceram 
os dois filhos. Mas lá está o sentido, implicito 
n'estas palavras : «Assi estuvieron ambas de consu- 
no con mucho plazer hablando en las cosas que mas 
le agradaban, é contando Briolanja entre otras 
cosas por mas principal lo que Amadis per ella 
federa, c como le amaba de coraçon.)) O que 
Briolanja contou era de natureza que exigia um 
inviolável segredo : «Mas quiero que vejais lo que 
en esto me acontecio, c guardadlo en pnridad, como 
tal senora guardalo debe; que yo lo acometi esto 
{|ue agora dejistes, é probé de lo haber pêra mi en 
casamiento, de que sempr? me occurre verguensa 
cíiando á la memoria me torna.y) (Ed. Rib., p 
15 1.) Que segredo era este, e que motivo de ver- 
gonha tinha Briolanja ao reconhecer que Amadis 
pela sua fidelidade a Oriana a não quiz desposar, 
se não o facto de haver o cavalleiro accedido aos 
desejos d'ella, de que resultaram dois filhos. '\ 
refutação de Braunfels é capciosa, por que cin- 
gindo-se materialmente á letra, exime-se á intel- 
ligencia do texto. 

O episodio de Briolanja, impressionando os 
poetas do século xvi, em Portugal, deu azo a que 
se conservasse uma positiva affirmação histórica 

21 



322 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



da origem portugueza do Am adis de Gaula. O 
Dr. António Ferreira, tendo começado a coorde- 
nar os seus Sonetos em 1557 na collecção intitu- 
lada Poemas hisitanos, no Soneto 34 do i.o livro 
escripto em linguagem antiga, trata da anecdota 
dos amores de Briolanja: 



Bom Vasco de Lobcira e de gram sen 
De pram que vós avedes bem tratado 
O feito de Amadis, o namorado 
Sem quedar ende per contar hi rem 



O nome de Vasco de Lobeira, como auctor do 
Amadis de Gaula apparece pela primeira vez ci- 
tado por Azurara, na Chronica do Coíide D. Pe- 
dro de Menezes, que ficou inédita até 1792; e tam- 
bém nas Antiguidades de Anfre Douro e Minho 
pelo Dr. João de Barros, que ainda estão inéditas : 
por tanto o Dr. António Ferreira leu o texto por- 
tuguez. Pela sua morte na peste grande de 1569. 
ficaram os Poemas lusitanos inéditos até 1598, em 
que seu filho Miguel Leite Ferreira lhes deu pu- 
Ijlicidade. No verso do frontispicio, entre algu- 
mas linhas de erratas, accrescentou o filho do poe- 
ta esta explicação: «Os dous Sonetos, que vão a 
íl. 24 fez meu pae na linguageni que se costumara 
neste reyno em tempo dei R:y D. Diniz, que he 
a mesma em que foi composta a historia de Ama- 
dis DE Gaula por Vasco de Lobeira, natural da 
cidade do Porto, cujo original anda n-a Casa de 
Aveiro. Divulgaram-se em nome do Infante 
D. Affonso, filho primogénito dei Rey D. Diniz, 
por quam mal este princepe recebera (como se vê 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 323 

da mesma historia) ser a fermosa Briolanja em 
seus amores maltratada.» 

A importância d'este documento é capital. O 
pae do poeta quinhentista, Martim Ferreira, era 
vedor da fazenda de Dom Jorge, Duque de Coim- 
bra, cujo titulo fora mudado pelo rei D. Manoel 
para o de Duque de Aveiro. Era fácil ao poeta 
vêr esse manuscripto do Amadis original, conser- 
vado na Casa de Aveiro; o Dr. António Ferreira 
era amigo intimo do Duque, para ter fácil accesso 
á sua livraria; bastava o herdeiro do duque ser 
também poeta, como se vê pelos Poemas lusitanos, 
para se communicarem estas amenidades littera- 
rias. Na Ode iii, na Écloga xii, na Carta v e 
IX, vê-se quão intimo amigo foi o Dr. António Fer- 
reira de D. João de Lencastre, filho do Duque de 
Aveiro; o seu poema de Santa Comba dos Valles 
é dedicado a D. Jorge, Marquez de Torres Novas 
e a seu irmão D. Diniz, filhos do velho Duque. 
Viviam em perfeita communhão intellectual ; isto 
justifica como Miguel Leite Ferreira, sempre esti- 
mado na Casa de Aveiro podia, ainda em 1598, 
a f firmar de visu que o original do Amadis an- 
dava na Casa de Aveiro. Contra este documento 
positivo, D. Pascual de Gayangos no seu Dis- 
curso sobre as Novellas de Cavalleria, para refutar 
a origem portugueza só teve um meio — a nega- 
ção da existência da nota de Miguel Leite Fer- 
reira no exemplar dos Poemas lusitanos de 1598! 
Demais, D. Nicoláo António, (em 1684) "a sua 
Bibliotheca, referindo-se ao original conservado na 
Casa de Aveiro, confessa ter visto a nota dos 
Poemas lusitanos: «Hujus autographum lusita- 



324 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



num extare penes Dynastas Aveirenses notatum 
inveni in qiiadam nótula, quse post Antonii Fer- 
rei rse Lusitani poetse opera edita est.» ^ 

Como refuta Gayangos a auctoridade do ce- 
lebre bibliographo? Considerando a affirmativa 
como alludindo a uma sigla manuscripta de um 
qualquer curioso! Eis as próprias palavras, que 
serão sempre uma vergonha contra o critério de 
Gayangos : «La nota attribuida ai hijo de Fer- 
reira, con que se pretende probar la existência dei 
manuscripto original en el palácio de los Duques 
de Aveiro, y la que se asegura puso igualmente ai 
Soneto relativo ai incidente de Briolanja no se hal- 
lan en la edicion de tjçS, única antigua que se 
conoce de los Poemas lusitanos. Anadidas poste- 
riormente en la reimpresion de los Poemas hecha 
cn T772, son obra de Editor moderno y no dcl 
hijo de Ferreira. El testimonio queda pues, redu- 
eido á la simples asercion de Don Nicolas António, 
quien sin duda vió algun ejemplar con una nota 
marginal y manuscripta de lector ocioso y autor 
descíMiocido, puesto que, á 'ser hijo de Ferreira, 
este la hubiese intercalado en el texto impresso.» 

Não ha n'isto só a impudência da má fé, ha 
também a ignorância voluntária: Gayangos ima- 
ginou duas notas, e ao mesmo tempo que uma 
trellas devia estar junto dos Sonetos archaicos, c 
que a outra era manuscripta escripta á margem 
por um curioso. Isto que elle inventa, é o que 
refuta, com um argumento da inintelligencia do 



I Bibl J^cfus, t. II, lib. 7, cap. 7. 



PRiMiíiRA ^poca: edade média 325 

prologo escripto pelo erudito académico Pedro 
José da Fonseca á edição dos Poemas lusitanos 
de 1772, onde no seu estudo biographico trans- 
creve as linhas das erratas do exemplar de 1598 
com a informação histórica do filho do Dr. An- 
tónio Ferreira, i 

O documento mais antigo qui cita o nome de 
Vasco de Lobeira como auctor de Amadis de Gan- 
ia, é de 1454, a Chronica do Conde D. Pedro de 
Meneses (cap. 63) escripta pelo chronista do reyno 
Gomes Eannes de Azurara. Eis o texto authen- 
tico : ((Estas cousas, diz o Commentador, que pri- 
meiramente esta Istoria ajuntou e escreveo, vão 
assy escriptas pela mais chã maneira que elle pôde, 
ainda que muitas leixou, de que se outros feitos 
menores que aquestos poderam fornecer... ; ou seja 
que muitos auctores cubiçosos de alargar suas 
obras, forneciam seus livros relatando tempos que 
os Princepes passavam em convites, e assy festas e 
jogos, e tempos alegres, de que se nom seguia outra 
cousa se nom a deleitaçam d'elles mesmos assi 
como sam os primeiros feitos de Ingraterra que 
se chamava Grani Bretanha, e assi o Livro d'A- 
MADis, como que somente este fosse feito a pra- 
zer de um homem que se chamava Vasco de Lo- 



I A bronca comprehensão de D. Pascual de Gayangos 
deu a seguinte conclusão lógica de Amador de los Rios : 
^'pero como observa Don Pascual de Gayangos, no exis- 
t lendo la dicha nota en la edicion de 1598, y hallandose en 
la reimpression hecha en 1772, hay razon para creer que 
fué posta después y carece por tanto de la autoridad que 
se le ha attribuido.'^ Hist. crit. de la Litteratura espanola, t. 
V. p. 83. 



320 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

beira, em tempo d 'El Rei Don Fernando, sendo 
todalas cousas do dito Livro fingidas do Au- 
cfor...» I Azurara referia-se ao grande Cyclo Ar- 
thuriano, c|uasi todo conhecido pelos exemplares 
guardadas na Bibliotheca do rei D. Duarte, e ao 
texto único do Amadis de Gaida, que devera exis- 
tir na Livraria de D. Af fonso v, de quem o chro- 



I Braunfels, no Kritischcr Vcrsuch nbcr dcn Roman 
Amadis vou Gallicn, pretendeu invalidar o texto de Azu- 
rara, esforçando-se com subtilezas para provar que esta 
parte do capitulo 63 em que Azurara se refere ao Livro 
Jr A)nadis é interpolada e apocrypha ! E o critico D. Juan 
Valera, como bom castelhano accerta como ouro de lei esse 
latão germânico: ^^El principal esfuerzo y trabajo dei Dr. 
Braunfels tira a demonstrar que todo el passaje ó parrafo 
que dicha noticia era incluida fue nota marginal en algun 
Códice de Zurara, interpolada lucgo ó adrede, ó per des- 
cuido en el texto de la obra.^^ (La Academia, vol. 11, p. 34.) 
Braunfels desconhece a historia externa do texto da Chro- 
nica do Conde D. Pedro de Menezes, que a Academia real 
das Sciencias imprimiu em 1792 no seu estado authentico, 
sem interpolações, e em uma época em que o Amadis de 
Cniula estava totalmente esquecido. Braunfels também igno- 
ra, que Azurara escrevendo essa Chronica se serviu de 
memorias particulares, a que segundo a erudição do sé- 
culo XV se chamavam Commentarios. Assim as phrases: 
^4ístas cousas diz o Commentador, que primeiramente esta 
historia ajuntou... ^^ querem dizer, que servindo-se Azu- 
rara de memorias particulares, quando trata das qualida- 
des domesticas do Conde D. Pedro de Menezes, pouco 
encontrou, porque esses Commentarios estavam escriptos 
de uma maneira chã, narrando apenas feitos gloriosos não 
se occupando com as descripções de festins e outras sum- 
ptuosidades principescas. Braunfels imaginou que Com- 
mentador significa um annotador ou glosador de um 
texto definitivo, e por isso julgou invalidar o texto de 
Azurara pela phantastica fusão com um glossa ! 

Lemke considera como um grave erro de Braunfels 
a negação da existência de um texto portuguez do Amadis. 
(Romania, vol. vi, p. 475-) 



PRIMEIRA KPOCA : EDADE MEDIA 



nista era bibliothecario; ^ e infere-se isto, por que 
o original da Novella veiu á posse da Casa de 
Aveiro, do Duque D. Jorge de Lencastre, bas- 
tardo de D. João 1 1 , ao qual foi dedicado um dos 
ramos cyclicos do Amadis de Gaula, intitulado 
Lisuarte de Grécia. Ha no testemunho de Azu- 
rara um dado chronologico, quando diz que Vasco 
de Lobeira florescera a^;;? tempo dei Rey Dom 
Fernando.)) Precisa perfeitamente a época de 
1367 a 1383, em completa concordância com a sua 
filiação do trovador João Lobeira, e em condi- 
ções de transformar e ampliar o plano da No- 
vella cyclicamente ; e concilia-se admiravelmente 
com o que escreve Duarte Nunes de Leão tra- 
zendo o nome de Vasco de Lobeira na lista dos 
que foram feitos cavalleiros depois da batalha de 
Aljubarrota em 1384. Fixada essa época por Azu- 
rara, temos também restituida a comprehensão 
histórica das referencias á Novella do Amadis de 
Gaula pelos poetas hespanhoes do fim do século 
XIV. Comecemos pelo Chanceller Pêro Lopez de 
Ayala, que esteve • prisioneiro em Portugal com 
os vencidos de Aljubarrota; refere elle, no seu 
Rimado de Palácio, escripto no seu desterro em 
Inglaterra em 1367, que o deliciava na sua mo- 
cidade : 

oyr mucbas vegadas 

Libros de devaneos et mentiras probadas, 
Amadis, Lançarote et burlas assacadas... 



I O insigne cosmographo Visconde de Santarém con- 
siderou que todas as obras citadas por Azurara nas suas 
Chronicas pertenciam á Livraria real, de que elle era bi- 
bliothecario. 



328 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A sua mocidade coincide com a eixx:a em que 
o lyrismo trobadoresco estava destituído pela pai- 
xão das Novellas de aventuras; e n'esta transfor- 
mação litteraria ainda a lingua portugueza era 
cultivada em Castella, podendo ser lido o Livro 
dç AniadiSj na redacção de João Lobeira ou na 
remodelação de seu filho Vasco de Lobeira, desde 
1360, em que Ayala já toma parte nos distúrbios 
de Castella. A Pêro Lopez de Ayala se dirigiu 
o poeta Pêro Ferrús, apontando-lhe a abnegação 
de Am adis, como se conta nos trcs livros das suas 
proezas. Mas este poeta, alludia nos seus versos 
ás façanhas de Enrique 1 1 e as suas victorias em 
Portugal sobre el-rei D. Fernando: 

No dexó per lavajal 
de llegar hasta Lisbona, 
é onrró la sua corona 
três veces en Portugal. 

(Canc. Baena. i, 323.) 

Referia-se Pêro Ferrús á morte de Enrique 1 1 
em 1379, e por tante) a sua poesia ao Chanceller 
Ayala morto em 1407, precisa-nos htm quando 
foi escripta. Por tanto a allusão ao Amadis entre 
1379 c 1407, concorda plenamente com a época 
da vulgarisação da Novella portugueza em 
llespanlia. Gayangos servindo-se das referencias 
d'esses trovadores -do Cancioneiro de Baena, 
força a verdade recuando a data das suas com- 
13<:)siçÕes, ([ue á mais simples leitura se verifica 
que foram escriptas depois de 1406. Julgava 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 329 

assim invalidar a redacção portugueza. A pri- 
meira citação do Ainadis é de Fray Miguel: • 

Amadis aprés, 

Tristan é Galas. Lançarote dei Lago, 
é otros aqnestos, decitme qual drago 
trago todos estos, é dellos que és. 

(Canc. de Baena, i, 46.) 

Na rubrica que acompanha esta poesia lê-se a 
sua data de 1406: «Este Dezir fizo fray Miguel 
de la Orden de Sant Jeronymo, capellan dei onr- 
rado obispo de Segóvia Don Juan de Tordesyllas, 
quando fino el dicho senor rey Don Enrique en 
Toledo...» Em uma poesia de Affonso Alvares 
de Villasandino, em uma rubrica determina com 
rigor esta data do Dizer de Fray Miguel : «quan- 
do el dicho seííor rey don Enrryque íinó en To- 
ledo, el domingo de navidat ^ dei ano de mil e qua- 
tro cientos c sycte.)) (Ih., i, p. 38.) O trovador 
Micer Francisco Imperial, cantando o nascimento 
de D. Juan it, desejava-lhe mais felizes amores: 

Que los de Paris et los de Vyana, 
Et de Amadis et los de Oriana 
Rt que los de Rlancaflor et Flores. 

(Canc. Baena, i, 204.) 

A rubrica inicial que acompanha esta poesia 
declara que fora escripta em 1405. «Este Decir 
tizo é ordeno micer Francisco Imi>erial... ai nas- 



I Como o anno novo se contava da noite de natal em 
diante, conclue sr que o rei Henrique 11 1 morreu ainda 
em 1406. 



330 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 

ciniiento de nostro sefuji- el rey Don Juan, quando 
nasció en la cindat de Toro, afio de MCCCCVo..,)) 
Por occasião (Keste nascimento, a rainha D. Ca- 
terina mandou fazer um torneio em Valladolid, 
e n'elle entraram alguns cavalleiros portuguezes, 
como se vê por este Dizer de Ferrant Manoel de 
Lando : 

De dentro de Portugal 
vino un noble cavallero 
Fernando Portocarrero... 

Estas communicações indicam como as Xo- 
vellas portuguezas passavam a Castella. No Mar 
de Historias de Fernan Perez de Gusman, aponta- 
se a Dcinanda do Santo Graal como não estando 
ainda em castelhano: «Esta historia non se falia 
en latiu, sinon cu jianccz, é dizese que algunos 
nobles la escrivieron.» (Cap. xc\a.) N'este fim 
do século XIV já se achava paraphraseada em por- 
tuguez a Demanda do Santo Graal, achada em 
Viena ao fim de cinco séculos da ruina do nosso 
grande espolio mediévico. Em outra passagem de 
Micer Imperial refere-se aos elementos generati- 
vos do Am adis: 

Et otrosy de Tristan 

Que fencsció por amores, 

De Amadis, et Blanca et Flores... 

O poeta Villasandino aponta o rei Lisuarte, 
pae de Oriana, como o espelho de cavalleiros : 

si le comple sufrir 

Fasta que el grant Lisuarte 
Se faga rey ó le farte. 



PRIMEIRA época: edade media 331 



Ainda se encontra uma outra referencia, a um 
personagem da Novella de Amadis; é em um Di- 
zer de Ferrant Manoel de Lando «declarando a 
la dicha coronacion en Saragoça: (1414. ) 

Pues que tengo otro sentir 
quiso ser con gran razon 
el segundo Mocandon... 

Como se lê pela lista dos Cavalleiros armados 
em Aljubarrota, em que Vasco de Lobeira figura 
sendo já muito velho, quiz-se vêr no personagem 
de Mocandon armado cavalleiro em provecta eda- 
de, uma representação do novellista a si próprio ; 
as noticias biographicas apontam a sua morte por 

1403- 

O trabalho de Vasco de Lobeira não ficara 
terminado no quarto livro do Amadis de Gania: 
ahi, f|uando Amadis gosava os seus amores na 
Ilha Firme com Oriana e seu filho Esplandian, 
chega a noticia da terrivel aventura do Rei Li- 
suarte ter cabido debaixo do poder do Encantador 
Archelaus. Os amigos e alliados que vão á Ilha 
Firme levar a sinistra nova offerecem-se a Oria- 
na para lhe irem libertar o rei seu pae; mas Es- 
plandian é armado cavalleiro para ir iniciar as 
suas cmprezas heróicas pelo resgate do seu avô. 
Vê-se que o quarto livro não continha o quadro 
completo da Novella, promettendo o auctor con- 
tinuar essas façanhas alludindo ás aventuras de 
Leonorina, filha do Imperador da Grécia. Por 
certo a novella ficou interrompida no quarto livro 
pelo falecimento de Vasco de Lobeira em 1403. 

Gayangos e Vedia, nas notas á sua traducção 



332 HISTORIA DA LITTÊRATURA PORTUGUEZA 



(la Historia da Lifteratura hespanhola de Ticknor, 
escrevem : «ha rasÕes muito poderosas para crer 
que o quarto livro foi accrescentado posterior- 
mente á obra, se não pelo mesmo Montalvo, ao 
menos por algum escriptor cujos originaes vieram, 
a parar ás mãos d'este.)) (Op. cit., t. i, p. 520.) 
Reconhecem as differenças: «o caracter e assum- 
pto do quarto livro, no nosso modo de vêr, é mui 
diverso dos três livros primeiros, embora n'elle 
se pinte Amadis mais como um rei sábio gover- 
nando com justiça os seus estados e recebendo em- 
baixadas dos outros reis, do que um cavalleiro an- 
dante.» (Ib. ) Também Ticknor reconheceu no 
quarto livro do Amadis um facto, que lhe serve 
de differenciação: lamenta-se o auctor no quarto 
livro, capitulo 53, das perturbações sociaes que se 
estavam passando. Observa o historiador ameri- 
cano, que esta circumstancia não podia referir-se 
ao reinado dos reis catholicos Fernando e Isabel : 
(Hist. litt. esp., t. I, p. 239) e effectivamente essas 
prolongadas perturbações deram-se entre o rei 
D. Diniz e seu filho o princepe D. Affonso; entre 
este quando rei com seu filho Dom Pedro i, cujo 
reinado foi de incertezas è violências; e ainda os 
tempos de D. Fernando em lucta com Enrique 
de Trastamara, até a revolução de Lisboa e ba- 
talha de Aljubarrota, em que Vasco de Lobeira 
tomara parte. E esta allusão vem revelar-nos essa 
fácula tenebrosa, que decorre do fim do reinado 
de D. Affonso iv até ao de D. João 11, de uma 
esterilidade na litteratura portugueza. 

3.-1 Terceira redacção portugueza (Pedro Lo- 
beira.) Sem alterar o plano fundamental da no- 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA T,Ò3 

vella, o conhecimento de outras composições cava- 
lheirescas obrigava a incorporar-lhe os surprehen- 
(lentes episódios que mais suscitavam a imagina- 
ção. Montalvo no prologo da sua paraphrase cas- 
telhana falia de aios antiguos originales . . . de los 
differ entes escriptores.,.)) Isto leva a considerar 
essa tradição conservada por Jorge Cardoso, no 
Agiologio lusitano (t. i, 410) de que o Infante 
D. Pedro, o que correu as Sete partidas do mundo, 
pedira a Pedro Lobeira, escrivão em Elvas, para 
fazer algumas modificações no Amadis de Gaula. i 
Pôde a tradição ser rejeitada como facto, con- 
creto, mas é certo que na corte de D. João i foram 
conhecidas as novellas inglezas como o revela a 
Confissão do Amante de Gower, traduzida para 
portuguez por Roberto Payno, e que foi parar á 
Bibliotheca do Escurial ; e essas fontes até ahi igno- 
radas vieram avivar os estimules esgotados das 
Novellas francezas, taes como as Viagens de San 
Brendan, que Azurara cita. na. Ch7'onica da Conquis- 
ta da Guiné como aproveitadas pelos nossos primei- 
ros navegadores ; a ilha encantada de Barontus, as 
prophecias do sábio Merlin, ou as Fabulas de 
Ysopct II de Walter o Inglez. Houve uma 



I Sc ha algum fundamento na interpretação do Ama- 
dis de Gaula, achando ahi allusões ás luctas dos Planta- 
j,aMietas e á morte do arcebispo Thomaz de Cantorbery, em 
que occupara José Gomes Monteiro os seus processos com- 
parativos, seria esta parte da historia da Inglaterra intro- 
duzida n'esta terceira redacção portugueza da novella pelo 
influxo do Infante D. Pedro. Bernardo Tasso, que tra- 
duziu o Amadis de Gaula da redacção castelhana, consi- 
derava-o de origem ingleza, 



334 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

recrudescência de enthuziasmo cavalheiresco na 
corte de D. João i. As tradições britonicas con- 
servadas até ao século xii no seu confinamento 
insular, estimulo d'essa raça vencida contra a 
raça invasora dos Saxões, tinham-se dif fundido na 
Europa por via do successo histórico do trium- 
pho dos Normandos sobre os Saxões odiados; 
esta corrente, veiu reflexamente acordar as tradi- 
ÇÕ3S da Bretanha continental,, combatida também 
pela intolerância dos dogmas catholicos, fortifi- 
cando-se pelo enthuziasmo das lendas insulares. 
A redacção litteraria de Robert Wace, no Ro- 
inan de Briit, suppriu a transmissão oral, sendo 
lido na vida sedentária das cortes com a predile- 
cção crescente que ia faltando ás Gestas Carlin- 
gias. A importância social da mulher, exaltada 
pelo lyrismo trol)adoresco, radicava o interesse 
pelas novellas de aventuras da Tavola Redonda, 
servindo de elemento histórico para a redacção 
synthetica das Chronicas e para as hallucinações 
religiosas do cyclo da Cavalleria celeste da De- 
manda do Santo Graal. Na éjXDca de D. João i. 
Portugal luctando pela sua indej^endencia era uma 
pequena Bretanha sob a ameaça do invasor; era 
o enthuziasmo cavalheiresco o que multiplicava o 
valor dos que formavam a Ala dos Namorados 
e a phalange dos Cavalleiros da Madre Silva, e 
a imitação das virtudes do cavalleiro parthenio, 
que levava o Condestavel D. Nuno Alvares Pe- 
reira a imitar a virgindade de Galaaz, como relata 
a sua Chronica anonyma. 

Fernão Lopes, na Chronica de Dom João i, 
cita esta significativa anecdota passada entre o 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDI.v 



335 



nionarcha e os seus cavalleiros no cerco de Coria : 
«Gram mingoa nos fizeram hoje este dia os boos 
cavalleiros da Tavola Redonda, cá certamente 
elles foram, nós tomariamos este logar. Estas 
palavras nom pode ouvir com paciência Mem Ro- 
drigues de Vasconcellos, que logo nom respon- 
desse e disse : — Senhor, nom fizeram aqui mingoa 
os Cavalleiros da Tavola Redonda; que aqui está 
Mem Vasques da Cunha que é tam bom como 
Dom Galaaz, e Gonçalo Vasques Coutinho, que 
é tam bom como Dom Trista-m ; e ex aqui Johan 
Fernandes Pacheco, que he tam bom como Lan- 
çarote; (e de outros que viu estar acerca;) e ex- 
me eu aqui, que valho tanto como Dom Ouça: 
assi que nom fizeram aqui mingoa estes Caval- 
leiros que vós dizeis : mas feeze-nos a nós aqui 
gram mingoa o bom Rcy Artliur, flor de lis, se- 
nhor d'elles, que conhecia os bons servidores: fa- 
zendo-lhes mercês por que aviam desejo de o 
bem servir. El rey vendo que o haviam por in- 
juria, respondeu entonce e disse: — Nem eu esse 
nom tirava a fora, cá assi era companheiro da 
Tavola Redonda, como cada um dos outros.» (Op. 
cit., II, cap. y6.) 

O fervor pelas tradições britonicas, desde a 
corte de Dom Diniz até a época de D. João i 
correspondia á situação da nacionalidade portu- 
gueza. Desde Dom Af fonso 1 1 1 estavam termina- 
das as guerras de conquista; as povoações orga- 
nisadas em concelhos governavam-se pelas suas 
Cartas de Foral ; pelo uso do direito romano 
iam-se regulando as prepotências senhoriaes sub- 
mettendo os ricos-homens á auctoridade real. As 



2,2»^ HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Gestas feudaes não tinham uma relação vital com a 
sociedade portugneza; a Matéria de Bretanha li- 
sonjeava a sentimentalidade de um povo onde os 
seus poetas morriam de amor como o apaixonado 
Tristan. Nenhuma corte peninsular tinha então 
a estabilidade para a cultura artistica, para a ga- 
lanteria das damas, para os passatempos littera- 
rios das Cortes de Amor. Esta situação moral, 
que suscitou essa extraordinária efflorescencia 
lyrica dos Cancioneiros da Ajuda, Vaticana e 
Colocci ; pela tendência da época e j^elo impulso 
do génio da raça lusa, pela assimilação dos Lais 
narrativos e dos mais saboreados poemas amo- 
rosos da Tavola Redonda, conduziu a uma syn- 
these poética — a invenção singular do Aniadis 
de Gaula. Passava-se o contrario na Hespanha 
ibérica, aonde a guerra da reconquista christã 
somente acabou no fim do século xv, e as luctas 
contra os grande vassallos só levaram o poder 
real a fundar muito tarde a unidade monarchica 
na concentração absorvente do castelhanismo. A 
disposição da Lei de Partidas, que impunha aos 
fidalgos, que só ouvissem Cantares que fossem de 
feitos de armas, correspondia á elaboração que 
se estava passando das Epopêas hespanholas, so- 
bre heroes nacionaes de perfeita realidade histó- 
rica. Menendez y Pelayo, reconhecendo a origem 
portugueza do Amadis de Gaula, confessa esta 
antinomia : «todos os heroes das Gestas hespa- 
nholas são eminentemente realistas. Vivem na 
atmosphera do seu tempo e d'ella recebem a sua 
grandeza. Suas emprezas até quando são fabu- 
losas, quadram com a realidade histórica, e sem. 



PRIMEIRA época: edade media S^y 



í^rande difíiculdade identificam-se com a historia 
(locniiientada. — Não é preciso amontoar exem- 
plos : lembremo-nos de todos os nossos typos épi- 
cos : Bernardo dei Carpio, Fernan Gonsales e seus 
successores; os Infantes de Lara e seu vingador 
Mudarra; finalmente sobre todos o Cid... Pois 
bem, o Amadis é a negação de tudo isto, — appre- 
senta os caracteres mais directamente opix>stos á 
genuina epopêa castelhana. 

((Havia na Peninsula hispânica alguma raça 
mais preparada do que a de Castella para receber 
o influxo do Amadis de Gaulaf Só uma existia, 
afastada nas regiões occidentaes, céltica (britoni- 
ca) sem duvida alguma de origem... O Amadis 
de Gania teve por typo os Poemas da Tavola 
Redonda... Aonde devia i>egar esta semente 
senão nas regiões da Hespanha — únicas que 
alimentavam crenças, superstições e costumes 
análogos aos dos bretões, e únicas portanto que 
podiam comprehender e sentir aquella poesia que 
rcsòa tão exótica a ouvidos castelhanos, arago- 
nezes e catalães? Em these geral, pois, parece 
nmi verosímil a opinião que colloca o berço do 
Aijiadis de Gania na região galaico-portugueza, 
cujos poetas deram carta de naturalisação ])ela 
primeira vez entre nós aos nomes de Tristan '^; 
Yscult e de Lançarote, e cujos cavalleiros gosta- 
vam, no fim do século xtv, de honrar-se e distin- 
gui r-se com sobrenomes tirados dos poemas do 
Cyclo bretão, — a ausência de todo o elemento 
tradicional e histórico na Novella, phenomeno 
inexplicável se tivesse nascido em Castella, e mui 
verosímil pelo contrario; em Portugal, que foi das 

22 



338 TlISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

• 

nacionalidades il^ericas a mais tardia a formar-se, 
e a que careceu da base épica, porque chegou á 
vida em tempos inteiramente históricos; e por ul- 
timo o facto mesmo da tradição continuada e im- 
perturbável em Portugal e ausência em Castella de 
todos os antecedentes a respeito do auctor ou da 
época das primeiras redacções do Ainadis, levam- 
nos se não a crer a suspeitar que os portuguezes 
tiveram grande parte na creação d'esta rarissima 
Novella.» 

O antagonismo entre os génios luso e ibérico 
])osto em evidencia pela creação do Ainadis, foi 
notado por Milá y Fontanals : «Foi tardia em Cas- 
tella a introducção do Cyclo bretão ou do Rei Ar- 
thur e da Tavola Redonda. Enlaçado com uma 
nova cavalleria menos heróica e mais refinada do 
que a do Cyclo Carlingio, não se comprazia com o 
caracter grave da Castelhana.» Menendez y Pe- 
layo conclue deliberadamente por essa differen- 
ciação: «Assim como em Castella, povo heroica- 
mente enamorado das grandezas da acção e das 
realidades da vida pegou facilmente a semente das 
narrações do Cyclo Carlingio, também no povo 
galaico, inclinado por temperamento... á saudade, 
á melancholia e ao devanear inquieto e phantas- 
tico, arreigaram-se mais do que em outra parte 
as historias e os lais do Cyclo bretão.» ^ 

Seguindo este mesmo critério, Amador de los 
Rios, que adoptara os resultados de Gayangos 
sobre o castclhanismo do Am adis de Gaula, vê-se 



T Antologia de Poetas líricos, t. iii, p. xl. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 339 

forçado a pòl-o em contraste com o génio hes- 
panhol : «para os heroes reaes da poesia nacional 
taes como Fernan Gonzales e o Cid Campeador, 
é lei suprema a palavra empenhada; para os pala- 
dinos do Amadis é o juramento o mais íii*me laço 
da vida.» (Ih., p. 87.) Não era por mera religio- 
sidade este juramento, mas pelo costume da ga- 
rantia dos Foraes das Cidades livres de Portugal, 
e da prova judicial dos Juratores nas defezas cri- 
minaes, pelo direito foraleiro. 

Em relação á mulher, ainda Amador de los 
Rios appresenta inconscientemente egual contras- 
te: «as damas que figuram no Amadis, emborn 
idealisadas pela exaltada imaginação dos caval- 
leiros, ainda que acatadas coiti um respeito que to- 
cava pela idolatria, são demasiado fáceis para os 
seus amantes; e não só acontece isto com as don- 
zellas das encruzilhadas que vão em procura de 
aventuras se não com as mais esclarecidas prin- 
cezas, com Elisena e Aldava, com Olinda, Bran- 
dueta e Oriana. Satisfeitas com a fama de inven- 
civeis que gosam Perion e Agrajes, Galaor e Ama- 
dis, além de corresponderem benevolamente aos 
seus amores, chegam também a provocal-os ; cír- 
cuinstancia que as separa da mulher histórica c 
poética de Castella, confrontando-as com as damas 
heróicas romanescas.» (Ih., p. 88.) 

Fernando Wolf considera o Amadis de Gania: 
«uma composição meramente artística e totalmente 
fictícia, sem base historico-tradicional, nascida sem 
duvida em um paiz aonde, como em Portugal, 
estavam em voga os livros de Cavallerias de ori- 
gem franceza ou ingleza, já de todo prosi ficados. 



340 HISTORIA DA IJTTKRATURA PORTUGUEZA 

não só nas suas formas senão também no seu 
espirito, já desvairados e extravagantes: nascida 
sem duvida em uma época em que, como na se- 
g-unda metade do século xiv, o espirito creador 
do cavalheirismo ideal já se havia extinguido, 
quando as ideias (lue o dirigiam passaram a ser 
formas ocas sem vida real, e como sempre em tal 
caso, a caricatura de um sêr que foi. Por tanto, 
nem o Amadis, nem as suas imitações, nem mes- 
mo os romances tirados d'ellas, poderam ser po- 
pulares em Hespanha...» (Introducção á Prima- 
vera y Pior de Romances ) .E accentuando esta 
carência de toda a base nacional ou historico-tra- 
dicional, e como arremedo dos modelos já de si 
bastante alterados e disfigurados, considera os Li- 
vros de Tirant il Blanco e do Amadis de Gaida, 
sem a minima duvida, puras ficções e com toda a 
probabilidade de origem portugueza.» (Nota 28, 
á Primavera.) 

Também D. Agustin Duran, no Romanccro 
^^cneral (p. xx) mostra que o Amadis de Gania 
não podia ser hespanhol : ((Que épocas, que cir- 
cumstancias retratavam os Amadises? Que typo 
necessário e |X)pular existiu d'elles entre nós? — 
O cavalheirismo exagerado e inútil dos Amadises 
só ix)dia representar-se a homens de corte cuja ca- 
ricatura foi o Don Quixote. De mais, prova que 
as referidas fabulas não tinham o selo da nossa 
verdadeira e arreigada civilisação.» 

Amador de los Rios teve informações de Fer- 
nando J. Wolf de que vira uma versão hebraica do 
Amadis de Gania na escolhida livraria de Oppe- 
nheimer : e observa : ((se esta edição se fez antes da 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA . 34I 

de Montalvo (1508 e 15 10) a sua importância é 
de milito vulto nas nossas lettras. Lastima é que 
Wolf não desse um extracto do seu argumento 
para avaliar se constava dos trez livros que indi- 
cou Pêro Ferrús, ou dos quatro hoje conhecidos.» 
(Op. cit., V, 90.) E' possivel mesmo que por 
essa traducção feita por algum judeu portuguez 
se podesse reconstruir o primitivo texto do Ajna- 
(iis. Nos Cantos populares dos Judeus do Le- 
vante, quasi todos sahidos de Portugal, acha-se 
com frequência o nome de Aiiiadi, reminiscência 
(le um typo de namorado, e Conde Aiiiadi. 1 
Nunca na tradição portugueza se obliterou o co- 
nhecimento d'esta creação bella do seu génio. 

Antes de ser escripta a traducção castelhana por 
1492, ainda a tradição do Amadis de Gaula era 
vivissima na corte de Dom João i t ; no celebre 
certame poético do City dar e Suspirar, invocaram 
() nome de Oriana a apar de Iseut, o velho Cou- 
del mór c Nuno Pereira : 



Alcgaes-me vós Iseu, 
Oriana com ella... 



Se o dissesse Oriana 
E Iseu, alegar posso... 

E a aristocracia portugueza usava os nomes 
civis de Briolanja e Oriana, de Lisuarte, perso- 
nagens da Novella portugueza, como também os 
nomes dos apaixonados que lhes serviram de mo- 



I Mcnendez y Pelayo, Antologia, vol. x, p. 309. 



342 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 

(leio como Iseii e Tristaii, Genebra e Laiicelot, 
Percival e Arthiir. 

Em Hespanha antes da versão de Montalvo, 
viilgarisada em 1508, era do Atnadis de Gania por- 
tngiiez que se faziam as referencias, taes como 
a de Urgaiida a desconhecida, que vem na novella 
catalan de Martorell, o Tiranf il Blanch, dedicado 
ai scrcnissiino Pr ince pe dou Fernando de Portu- 
gal (irmão do rei D. Áffonso v), escripto em 1460 
e impresso em 1490. ^ 

D'aqui taml)em a referencia de D. Luiz Za- 
pata, embaixador de Carlos v, em Portugal, por 
1550: «era fama en aquel reyno, que el Infante 
Don Fernando, bija (irmco} de D. Alfonso, ba- 
bia compuesto el Libro de Amadis.)) (Memoria 
de los Zapatas. Ms. de Bibl. nac. de Madrid. — 
Gayangos, Op. cit., p. xxii.) D. Fernando era 
pbantastico vaporoso e poeta, o que justifica esta 
relação com as duas novellas. 

Em umas trovas de D. Alfonso de Cartagena 
também a])parece o nome de Oriana designando 
o ideal da namorada : 



E' es tan cruel sin medida 
La belleza de Oriana, 
Que si dos mil prezos gana, 
No torna nin^uno á vida. 



I Lê-sc no fim de Tirant il Rlanch a declaração: «Lo 
qual fou traduit de Anglçs cn Iciiç/ua porUigucza e apres en 
volgar lengua valenciana.'^ D'aqui a falsa attribuição ao 
infante portugucz d'essa imaginaria traducção. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA J43 



Nas Coplas de disparates, glosando o roman- 
ce Oh Belerma! oh Belerma, do Cancioneiro de 
íxar, também se allude aos amores de Oriana: 



No fué discreto en murirse, 
Si murió de mala gana, 
No menos pude sofrirse, 
Que qu-edar sin escribirse 
Los amores de Oriana. 



Don Pascual de Gayangos, que tão contrario 
se mostrou á origem portugueza do Aniadis de 
Gania na introducção aos Libros de Caballerias, 
na nota á traducção de Ticknor, acceita como 
provado, que a primeira redacção do Ainadis cons- 
tava somente de três livros; que o quarto livro 
foi accrescentado posteriormente, isto é depois de 
1379, em que só os três livros eram citados pelos 
poetas d'essa época ; concluindo : «que todas as 
probabilidades são que Montalvo reunira os três 
livros... com o quarto de auctor desconhecido, e 
os traduzira para castelhano formando um corpo 
e corrigindo, como elle declara, os antigos ori- 
ginaes, tirando muitas palavras supérfluas e pondo 
outras de mais polido e elegante estilo. Só d'este 
modo se conciliam aquellas três palavras, ajuntan- 
do, trasladando e emendando.)) (Hist. de la Litf. 
espan., t. í, p. 522, notas.) 

4.0 -^- A redacção paraphrastica castelhana. 
(1492). — E' facto assente que o texto único co- 
nhecido i>ela impressão (1508) do Amadis de 
Gania, é em lingua castelhana, sob o nome de 
um certo Garci Ordonez de Montalvo, que a >i 
mesmo se chama «Regidor de la noble villa de 



344 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

AJedina dei Campo.» A época em que começou 
o seu trabalho de adaptação ao estylo dominante 
de amplificação rhetorica pôde fixar-se em 1492 
e 1504 por que allude á tomada de Granada sob 
l^^ernando e Isabel, 1 quando diz no prologo: 
((pues si en el tiempo de estos oradores, que mas 
en la fama que de intereses ocupaban sus juicios 
y fatigaban sus espiritus, acaescera aquella con- 
quista que el nucstro muy esforçado y catholico 
rey D. Fernando hizo dei reino de Granada, cuán- 
tas flores, cuántas rosas, asi en lo tocante ai es- 
fuerzo de los caballeros...» Para corresponder a 
este espirito novo da hegemonia do castelhanismo. 
(jue ia impôr-se a toda a península também pelo 
descobrimento da America, é que Ordoííez de 
Montai vo foi renovar os antigos originales do 
Aniadis de Gaida, sob o influxo do pedantismo 
rbetorico, que t?.ntc ^/'':'^v ^ humanismo hespa- 
nhol no fim do século xv. - lisáa versão caste- 



1 Falecida em 1504. 

2 A inferioridade das Sergas de Esplatidian, em que 
Montalvo continua o Amadis de Gaula, põe em evidencia, 
que as duas Novellas não foram escriptas pelo mesmo 
auctor. Cervantes o reconheceu ; quando na celebre scena 
(lo Cura e o Babeiro. condenma á fogueira o Bsplandian 
"não salvando o filho a bondade do pae.^^ Ticknor é de 
opinião, que Montalvo antes de ter feito a traducção cas- 
telhana do Amadis, já tinha composto a sua continuação. 
(Hist. da Litt. cspan.. i. 241.) E aponta a irreverência com 
que trata a idealisação que lhe não pertencia: «Nos feitos 
heróicos de Bsplandian procura offuscar as façanhas es- 
plendorosas de Amadis; não conserva aos personagens da 
novella-mãe os seus typos consagrados, alterando-os absur- 
damente, a encantadora e bella Urganda transforma-a em 
uma bruxa selvagem e feroz; assim também o sábio e 



PRIMKIRA ÉPOCA : EDADK MÉDIA 345 



lhana chegou muito cedo a Portugal; no Catalo- 
go da livraria do Rei Dom Manoel apparece apon- 
tado o Aniadis de Gaiila, que, pelas suas relações 
com a corte de Fernando e Isabel seus sogros, 
evidentemente se reconhece ser um exemplar im- 
presso. Foi sobre essa leitura que Gil Vicente fez 
e representou na* corte a tragi-comedia do Ania- 
dis de Gania; e foi como protesto contra essa pre- 
ponderância que adquiriu a redacção castelhana, 
que o Dr. João de Barros protestou, quando no 
seu livro Antiguidades e cansas notáveis de Antre 
Douro c Minho, referindo-se á cidade do Porto, 
escreveu: «E d'aqui foi natural Vasco de Lo~ 
BEIRA, que fez os primeiros quatro livros de Ama- 
dis, o1)ra certo muito útil e graciosa e aprovada 
de todos os galantes; mas como estas cousas se 
secam em nossas mãos, os Castelhanos lhe mu- 
daram a linguagem e attrihuiram a obra a si.)y 
A tradição portugueza não se perdia, e em 1589 o 
filho do Dr. António Ferreira, authenticava a exis- 
tência da (diistoria do Aniadis de Gaula, por Vasco 
DE L0BEIRA, cujo original anda na Casa de 
Aveiro.)) 

Resta determinar, pela persistência d'estas tra- 
dições quando se perdeu a noticia do original por- 
tuguez do Amadis. Na Conta dada pelo Conde 



mestre Elizabad. Nenhum dos caracteres já conhecidos 
nem dos inventados, está traçado com tino e habilidade.^^ 
(Ib., p. 243.) "Não tem a eloquência que brilha, em muitas 
passagens do Amadis... o argumento em verso de cada 
capitulo, é tudo quanto ha de mais prosaico, e muito in- 
ferior aos versos esparsos pelo Amadis?* (Ib.) 



34Ó HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

da Ericeira á Academia de Historia ix)rtugueza 
em 31 de Maio de 1726, appresentando extracto 
do catalogo das riquezas da Livraria do Conde 
de Vimeiro, que a esse tempo estava entregue á 
guarda de um velho creado, cita sob o N.o 19, 
um Catalogo d'essa Livraria que traz apontado 
como existente ali em 18 de Março de 1686, o 
— Amadis de Gania em Português. 

Na sua Conta á Academia diz o Conde : «Ser- 
vindo esta memoria para que se vejam os que fal- 
tam com tam justo sentimento de curiosos e para 
que a boa fé os restitua a este Archivo litterario.» 

Pela corrente geral das Litteraturas moder- 
nas determina-se também a origem portugueza do 
Amadis de Gania. Emquanto as Epoi^êas fran- 
cezas eram assimiladas pelas litteraturas româ- 
nicas, a Hespanha elaborava activamente as suas 
Epo}3êas nacionaes históricas. A Itália fez o syn- 
cretismo das Gestas Carlingias nos Reali di Fran- 
cia, Biioz'0 dAntona, Spagna, e Rrgimi Ancroja, 
chegando ás bellas formas artisticas de Pulei, 
Boiardo e Ariosto. Portugal identificou-se com o 
sentimento das Novellas amorosas e de aventuras 
do Cyclo arthuriano da Tavola Redonda, e fez 
a synthese esthetica do Amadis de Gania, com 
que exerceu nas litteraturas modernas uma plena 
hegemonia. ' 



I Fornutloii-a Cervantes, no D. Quixote; "es el me- 
jor de todos los libros que de »_sto género se han compuesto. 
y asi, como único en su arte, se debe perdonar.** (P. 
I, cap. 6j 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA ^4'/ 



§ IV 

Cultura latino-ecclesiastica 

Desde Carlos Magno em que se fizera a inte- 
gração politica da Europa, que se revelava a in- 
tuição entre uma grande parte dos estados mo- 
dernos de uma unidade de ideias e aspirações pre- 
valecendo sobre as diversidades nacionaes. Sob o 
ponto de vista religioso era a synthese affectiva 
da Chrístandade; no seu aspecto social era a au- 
ctoridade da Lei civil, definida pelos Códigos ro- 
manos, com que q Poder real se impunha ao Feu- 
dalismo e á Theocracia. Este antagonismo dos 
dois Poderes, nos conflictos do Sacerdócio e 
Império, abre a éra da grande revolução Occi- 
dental, em que se inicia a edade moderna, pela 
dissolução successiva do regimen theocratico-feu- 
dal. Preparada a sociabilidade moderna pela 
transição romana (activa) e medieval, (affecti- 
va) os povos europeus alcançaram as condições 
para se continuar a elaboração especulativa da 
Grécia. E' esta orientação que suscita e caracte- 
risa essa assombrosa primeira Renascença da An- 
tiguidade clássica, em que a Revolução moderna 
se appresenta mais como intellectual do que social. 
Na fervente anarchia tbeorica o Scholaticismo 
dissolve-se no Realismo, no Nominalismo, no Con- 
ceptualismo, e nas idealisaçÕes mysticas, e a au- 
dácia individual decompõe pela dialéctica os do- 
gmas e discute a lei, avançando até ás heresias e 
ás revoltas. E' a revivescência da cultura greco- 



348 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



romana que não deixa obliterar-se esta unidade 
especulativa pela nova corrente do Humanismo. 

N'este momento histórico de uma commum 
admiração, merece uma attenção especial o syn- 
cretismo das tradições clássicas ou greco-romanas 
com as tradições heróicas das raças da Europa já 
constituidas em nações. Ha poemas germânicos 
com forma latina, como o ÍValtharius; e surge 
uma classe de poetas e escriptores intermediários 
ao povo e aos eruditos, os G o liar d os, os vagos 
Scholarcs, que versificavam em latim as canções 
populares, e reduziam a métrica latina da quanti- 
dade á acccntuação e rima do vulgo, compondo os 
Cantos farsis, em que os versos latinos se alter- 
navam nas estrophes dos dialectos românicos. Era 
natural este phenomeno provocado i>eIo génio da 
parodia; diversas raças, como Ligurios, Iberos, 
Celtas, Illyrios, sob o dominio romano, discipli- 
naram as suas linguas analyticas pelo latim syn- 
thetico, enriquecendo-as com o vasto vocabulário 
d'essa cultura, por forma que ao desenvolverem-se 
em organismos nacionaes, acharam-se através das 
suas differenciaçÕes ethnicas instinctivamente so- 
lidarias com a cultura greco-romana e continua- 
doras d'ella. Enumerando as fontes tradicionaes 
dominantes da Edade média, Jean Bodel na Chan- 
sou dcs Soissons, aponta este elemento greco-ro- 
mano : 



Xe sont que trois Maticres à mil liomme, cntendent, 
J)e F rance, de Bretagne et de Rome la grand. 



'rodos estes trez cydos foram conhecidos em 
Portugal : o carlingio ou f ranko, o arthuriano ou 



PRIMARA época: EdadE media 349 

l:)retão, e o greco-romano, que chegou a syncre- 
tisar-se por via da eschola dos falsos Chronicoes 
com as nossas origens históricas. Mas, da Anti- 
guidade clássica, como observou Joly, só procu- 
ravam apprehénder a forma, o lado romanesco ; o 
espirito era-lhes completamente fechado, e em vez 
do lado esthetico consideravam o problema moral 
do paganismo. Popularisando essas formas bellas 
pelas parodias goliardescas e imitações scholares- 
cas, a Antiguidade clássica aproximava os dois 
elementos Clercois e Coiirtois, nos conflictos dou- 
trinários da Theologia e da Philosophia, das Es- 
cholas Geraes e das Universidades. 

a) Os Estudos quadriviaes 

Junto das Collegiadas existiram Escholas des- 
tinadas ao ensino ecclesiastico ; eram regidas pelo 
Cahiscol (Caput Scholse) e frequentavam-as os 
Montinhos ou Moziíihos -(os Mocinhos) para os 
(juaes o Bispo I). Paterno fundou em 1086 em 
Coimbra, junto á sé um Collegio. O Abbade de 
Alcobaça fundara em 1269 1^0 mosteiro de Santa 
Maria os estudos da Grammatica, Lógica e Theo- 
logia, não só para os monges, como para quan- 
tos quizessem frequental-os. O Bispo D. IJoniin- 
gos Jardo, admittia no Hospital de Sam Paulo em 
1266 ao estudo de Latim, Grego, Theologia e Câ- 
nones seis escholares. Porém a corrente domi- 
nante attrahia os espiritos para as Escholas Geraes 
ou leigas, e os estudos em vez de um fim ecclesias- 
tico faziam-se com um fim humanista. Nas Li- 



350 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

vrarias dos Bispos cio Porto Di Vasco (1331) e 
D. Vicente (1334) predominavam os livros de 
direito civil e canónico, mais do que as obras li- 
túrgicas e moraes. Em um livro traduzido por 
Fr. Roque de Thomar, se lê que é feito ((para os 
Clérigos minguados de scicncia, c por que lie assi 
como mendigado e apanhado dos Livros do Di- 
reito e da Sagrada Tlieologio.)) (Cod. ccLii.) 
Alargava-se o quadro dos estudos. 

i.o Philosophia e Theologia. — As Escho- 
las das Collegiadas, Abbaciaes e Episcopaes, em 
que se ensinavam as disciplinas da Grammatica, 
Rhetorica e Dialéctica, ou o Trivium, foram alar- 
i^adas no seu quadro pedagógico, facultando r^ 
Egreja o ensino de outras sciencias, como a Theo- 
logia, a Philosophia, esboçando assim o organismo 
universitário. Foi uma consequência da crise men- 
tal do século XIII. «Durante este rápido momen- 
to de fervor os dois Poderes, espiritual e tem- 
ix)ral, acharam-se de accôrdo para favorecerem 
a renovação dos Estudos, embora a Egreja pre- 
ferisse a cultura da Theologia e da Philosophia, 
e a Realeza ligasse a máxima importância ás 
Escholas de Jurisprudência. E' n'este momento 
transitório de um accôrdo que ia quebrar-se pela 
antinomia entre o dogma e a rasão, que ap]xi- 
recem os sábios pontífices, como Urbano iv, 
dando em Roma uma cathedra a San Thomaz 
de Aquino para ensinar Moral c Physica, Cle- 
mente IV protegendo o génio innovador de Ro- 
gério Bacon, Innocencio v elevando-se ao pa- 
pado pelos seus talentos de orador, canonista e 



PRIMJ5IRA Época: edade média 351 



metaphysico, e João xxi (o nosso Pedro Julião, 
mais conhecido pelo nome de Pedro Hispano) que 
dota as Escholas da Europa com as Suiii mulas lo- 
gicales, o primeiro compendio que prevaleceu com 
auctoridade até ao fim da Kdade média.» i 

A cultura theologica degenerava na dialéctica, 
criando-se as rivalidades das Escholas; Domini- 
canos e Franciscanos, aos quaes os papas confia- 
ram o ensino da Theologia, eram inconciliáveis 
no seu antagonismo doutrinário, seguindo embora 
a Philosophia de Aristóteles. Os Dominicanos 
eram thomistas, por que San Thomaz conciliara 
os processos criticos dos Nominalistas com a 
Theologia especulativa; os Franciscanos entrega- 
vam-se ao subjectivismo dos Realistas, defenden- 
do as opiniões de Alexandre de Halés, por que 
lhes auctorisava os devaneios do Mysticismo. 
Como observa Hauréau, na sua obra Da Philo- 
sophia Scholastica: a A paixão do século xiii é a 
Philosophia ; os chefes dos partidos belligerantes 
são commentadores de Aristóteles ; os problemas 
cuja solução agita as consciências, pertencem ao 
dominio das cousas abstractas.» Estas duas cor- 
rentes, como se lê na Historia da Universidade de 
Coimbra, dominicana e franciscana, foram supe- 
riormente representadas por portuguezes fora de 
Portugal : a thomista pelo afamado Pedro Hispa- 
no, e a mystica pelo não menos e in-yiiortalisado 
Santo António de Lisboa, que professou em Mont- 
pellier, em Pádua e Tolosa. 



I Historia da Universidade de Coimbra, t. i, p. 43. 



35-2 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Entre os grandes Doutores da Edade média, 
Pedro Hispano teve a singular gloria de ficar 
memorado por Dante, na sublime E^x^pêa da Di- 
vina Comedia: 



Ugo da San Vittore, é qui con elH 

E Pietro Mangiator, c Pirtro Hispano 

Le qual già Ince in dodcci libelli. 

(Pardiso, C. xii.) 



Dante referia-se ás Sunimulas logicalcs, cele- 
bres em todas as Escholas, as quaes se dividiam 
em doze tratados: i.o Da enunciação (das Pcri- 
hermcneis, de Aristóteles) ; 2.0 Dos cinco uni- 
versaes (dos Predicáveis de Porphyrio) ; 3.0 Dos 
Predicamentos (Predicam.^^nta, de Aristóteles) ; 
4.0 Do Syllogismo simpliciter (Liber Priorum, 
de Aristóteles) ; 5.0 e 6.0 Das Falácias (Elencos. 
de Aristóteles). .A estes seis tratados segiiiam- 
se os outros seis conbecidos pelo titulo geral 
De parvis logicalihns, divididos arbitrariamente 
nas Escholas: 7.0 Da Supix>sição; 8.0 Da Relaçã» ; 
9.0 Da Amplificação; lo.o Da Appellação; 11. o Da 
Restricção; 12.0 Da Distribuição. 

As Simimiilas logicales de Pedro Hispano 
eram um claro resumo do Organon de Aristóte- 
les, que Hauréau, o erudito critico da Philosophia 
Scholastic^ considera: «feito com gosto e intelli- 
gencia, e que mereceu tornar-se o manual dos 
professores e dos estudantes.» Kaebler, nas No- 
ticias sobre o Papa João xxi, celebre medico c 
philosopho sob o nome de Pedro Hispano, (Got- 
ting, 1760) escreve: «é a elle que pertence sem 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 353 

duvida o engenhoso quadro das diversas espécies 
de Argumentos, reproduzido frequentemente d'aii 
em diante.» Allude ás formas em Baralipton, 
Bar oco, Datisis, etc, que systematisaram os pro- 
cessos dialécticos em todo o ensino europeu. Pe- 
dro Julião era natural de Lisboa, do appellido do 
orago da sua freguezia, arcediago de Vermoim, 
Dom Prior da Collegiada de Guimarães e figura 
como Bispo de Braga sob D. Af fonso 1 1 1 ; foi 
nomeado Cardeal pelo papa Gregório x, no Con- 
cilio de Leão em 1274, succedendo no pontificado 
a Adriano v, em 1276, eleito em Viterbo, em 15 
de Septembro. Um dos primeiros actos d'este 
Clcricus universalis, assim chamado por ser gra- 
duado em todas as Faculdades, foi estabelecer a 
concórdia entre Philippe, rei de França e Alfonso 
o Sábio de Castella; em uma das Canções deste 
Rei-trovador, allude a elle, e a um Canonista 
compostellano chamado Garcia Bernardo: 

Pêro que ey ora mengoa de companha, 
Nen Pêro Garcia, nem Pcro d'Espanha 

Nen Pêro galego 

Non iran comego. 

E ben volo juro por Santa Maria, 
Que Pcro d'Bspanha, nem Pêro Garcia 

Nen Pêro galego 

Non iran comego... 

Canc. Gol., n.° 365. 

Rcro Hispano, que seguia o aristotelismo aver- 
roista, adoptara o mesmo auctor árabe nos seus 
estudos médicos, Cânones medicinales e Thesau- 
rus Paupernm. Martinho de Fulda f aliando d'es- 
ta obra, escreve: «.Fuit magnus jnedicus.)) Da- 

23 



^54 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

reniberg, na Historia das S ciências medicas, (vol. 
I, 282) aponta-o como um dos continuadores 
de Bartholomíeus, de Cophon, de Maurus e dos 
outros mestres da Eschola de Salerno, em que 
prevalecia o caracter menos individual, com um 
methodo dialéctico. Ainda depois da sua morte, 
alguns dos seus tratados foram traduzidos em 
grego. As relações de Pedro Hispano com Affon- 
so o Sábio, actuariam no emi^enho de Dom Di- 
niz em fundar a Universidade de Lisboa. 

A corrente mystica representada pelos Fran- 
ciscanos, no século xiv brilha com a excelsa fi- 
gura de António de Lisboa, sancti ficado nas poé- 
ticas lendas ix>pulares, pela influencia da sua pré- 
dica, e finando-se aos trinta e sete annos. San 
Francisco de Assis mandara-o seguir os cursos 
de Artes (Grammatica, Lógica e Rhetorica) e de 
Theologia no mosteiro em Vercelli, onde ensinava 
Thomaz Gaulez, vindo depois ensinar 1'heologia 
em Bolonha, junto de Rolando Bandinelli (papa 
Alexandre 1 1 1 ) e como suppõe Tiraboschi, ao 
lado de S. Thomaz de Aquino. Um bello docu- 
mento litterario apparece restituido a Santo An- 
tónio ; escreve Renan. que o Cântico delle Crea- 
tiirc, de San Francisco de Assis, fora posto em 
verso pelo nosso insigne portuguez: «O texto 
italiano que se i)ossue, é uma traducçao de uma 
versão portugueza, que tamisem fora traduzido 
do hespanhol.» i N'esta é]X)ca a litigua caste- 
lhana (só modernamente chamada hespanhol) não 



I Nouvellcs lítudcs dllist. rcUgicuse, p. 331. 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 355 



era empregada no lyrismo, tendo o próprio rei de 
Castella Affonso o Sábio adoptado o portuguez. 
Para italiano tradnzin-o rimando-o Frei Pacifico. 

Essa corrente mystica da Edade média appre- 
senta. a par da ortodoxa representada por Joachim 
de Flores no Evangelho Eterno, uma outra hete- 
rodoxa ou materialista, resumida no livro ima- 
ginado dos Três Impostores, que foi memorado 
em Portugal por um tal Thomaz Scot, prezo em 
Lisboa ((por ter ousado repetir por toda a parte, 
que houve no nunido Três Impostores (Três 
fnisse in imindo deceptores).)) Colhendo esta 
noticia de um manuscripto intitulado Collyrium 
Fidei eontra hacreseos, escreve Victor Le Clerc: 
«Cíjmo é que esta impiedade tão antiga, e que 
Gabriel Barlette no seu sennão sobre Santo An- 
dré attribue por antecipação a Prophyrio, teria 
chegado a Lisboa?» 

Lxplica-se perfeitamente pelo aristotelismo 
averroista, que dominava em Portugal ; Renan no 
seu admirável estudo sobre Averroes, escreve: 
(fVé-se que não foi sem alguma rasão que a opi- 
nião attribuiu a Averroes o pensamento criminoso 
do parallelo das religiões e do titulo dos Três 
Impostores. Este pensamento que perseguia como 
um pezadello todo o século xtti, era em parte o 
fructo dos estudos árabes...» Pela cultura dos 
Árabes é que se generalisou a Philosophia de 
Aristóteles em Portugal modificando a corrente 
dialéctica cjue considerava a Philosophia ancilla 
Theologice. No Nobiliário do Conde D. Pedro 
cita-se a auctoridade do stagirita: ((Esto diz Aris- 
t o til l es, que sse os homeens ouvessem antre si 



J56 HISTORIA DA LlTTIvRATURA PORTUGUEZA 



amisade verdadeira nom averiam mester rreys nen 
justiças, cá amisade os faria viver seguramente... 
(Mon. hist., Scriptores, i, 230.) Um outro cory- 
pheo do aristotelismo averroista em Portugal foi 
Gil de Roma, o auctor do De Regimine Prínci- 
puni, que Dom João i citava aos seus cavalleiros 
durante o cerco de Ceuta, e que o Infante D. Pe- 
dro traduzia para portuguez. 

2.0 As Traducções latinas. — O exame dos 
catálogos das Livrarias claustraes, episcopaes (t 
reaes revelam-nos as fontes eruditas e tradicio- 
naes, que exerceram o desenvolvimento litterario 
das modernas linguas nacionaes e suscitaram no- 
vas idealisaçÕes poéticas. Predominavam as obras 
de jurisprudência canónica e cesárea nas Livra- 
rias dos bispos do Porto, D. Vasco de Sousa, 
(1331) de Dom Vicente (1334); os nossos bis- 
pos, como observa Villa-Nova Portugal, que an- 
daram sempre no caminho de Roma, traziam de 
França e da Itália as Compilações, principalmente 
de Graciano, — as obras de Durant chamado o 
Speculator^ de Alberico de Rosate, de Guido Pa- 
pa, que todos escreveram por 1280 até 1300 e á^i 
outros. A Livraria do Mosteiro de Alcobaça 
(hoje em grande parte guardada na Torre do 
Tombo e na Bibliotheca nacional) era riquissima 
de traducções em lingua portugueza, que vem dv) 
século XI ao século xiv. O erudito Visconde (.h 
Santarém que visitou essa opulenta Livraria an- 
tes da extincção das Ordens religiosas, em notas 
addicionaes á carta ao Barão de Mielle, aponta 
um documento do século xi, a traducção da Re- 



PRIMEIRA época: Edade média 357 



gra de San Bento; dez do século xii; setenta e 
dois do século xiii : «notando especialmente dois 
J3iccionarios geographicos latinos do monge Bar- 
tholomeu ; um Vocabulário latino por Fr. Af f onso 
do Louriçal ; e uni exemplar das C o Ji fissões de 
Santo Agostinho, copiado por Frei António de 
Condeixa;» do século xiv, setenta; e vinte e cinco 
do século XV. D'estas enormes riquezas philolo- 
gicas e litterarias em portuguez está publicada uma 
diminuta- parte. 

Frei Fortunato de S. Boaventura publicou a 
traducção dos Actos dos Apóstolos, os D es Man- 
damentos, fragmento da Regra de San Bento, e 
as Historias d' abreviado Testamento Velho, se- 
gundo o mecstre das historias scolasticas e segun- 
do outro que as abreviaram, e com dezeres d'al- 
giins doctorcs c sabedores, i Aponta esta parte 
apelo menos do século xiv, foi trasladada do la- 
tim de Pedro chamado Comestor, e que sendo te- 
cida pela maior part: das palavras formaes do 
texto sagrado, e na jiarte da historia, que falta 
n'este, seguindo litterariamente a Flávio Jose- 
pho...» Na Bibliotheca dos Bispos de Lamego 
existia uma copia d'esta traducção do Velho Tes- 
tamento, que «pertenceu a Francisco de Sá e Mi- 
randa.» Com estas traducções do século xiv, com 
a dos Actos dos Apóstolos do século xv, com as 
traducções integraes do P. João Ferreira de Al- 
meida do século XVII, e António Pereira de Fi- 



I Collecção de Inéditos portugueses do século xiv, 
Coimbra, 1829. 3 vol. in-8." 



558 IIJSTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

gueiredo temos documentadas todas as modifica- 
ções morphologicas porque passou a lingua por- 
tugueza. 

O mais antigo documento que reproduz Frei 
Fortunato de S. Boaventura é a Regra de Sau 
Bento, que pertenceu ao Convento de S. Paulo 
de Almaziva a par de Coimbra. Transcrevo as 
suas primeiras linhas: «Filho, ascuita os prece- 
ptos do mestre, e inclina a orelha de teu coraçom 
e recil^e de boamente o amoestamento do padre 
piadoso, e afficadamente o comple, por que te 
tornes per trabalho de obediência a aquel do qual 
te partiste per prigiu'ça de desol3ediencia.)) fín^-d., 

h 249.) 

O Códice n.o 37 (cclvi), in-4.0 magno do fim 
do século xTv, traz os seguintes textos em por- 
tuguez : 

P^ida angélica do infante Josafat, filho d<: 
Avenir, rei indiano. ^ 



1 Publicado em 1898 nas Memorias da Academia real 
das Sciencias : Lenda dos Santos Barlaão e Josafat. (O 
texto foi copiado pelo paleographo Aires de Sá.) No Ms. 
tem o nome do traductor Frei Hilário da Lourinhã, em le- 
tras do século XVI II. E' a celebre lenda budhica extrahida 
do 'Latita Vistara, como o prova Max Muller (Essais de 
Mythologie comparée, p. 451 a 467.) O nome de Josaphai, 
empregado pelos christãos orientaes na forma de Joasaf, 
apparece alterado em Budaf. por falta dos pontos diacri- 
ticos de Bododliisathva. (Renan, Etudes d'Hist. rclig., p. 
133) Attribuiu-se esta versão primitiva a S. João Damas- 
ceno, mas pertence ao monge João de Damasco, anterior 
a Mahomet a sua vulgarisação em grego, e a Surio em 
latim. Os Bollandistas acceitaram esta vida lendária de 
Budha nas Acta Sanctorum de 27 de Novembro. O tra- 



PRIMEIRA KPOCA : EDADE MEDIA 359 



Vida de Santa Buphrosina, filha de Panucio. 
Vida de Santa Maria Bgypciaca. 
Vida de Santa Tarsis. i 
Vida de Santo Aleixo, Confessor. 
Vida de certo Monge. 

Exposição do Decálogo, segundo a Doutrina 
da Bgreja. 

Narração da morte de S. Jeronymo. 

O Conto de Amaro. - 

Historia do Mouro que desejou ir ao Paraíso. 

Historia do CavaUeiro Tubuli (Tundal. ) 

No Códice n.o 244 da Bibliotheca nacional, de 
í\. 90 a 104 vem uma outra versão : 

— Bstoria d' hum Cavalleyro a que chamava 
TuNGUivO, ao qual foram mostradas visivelmente 
c no per outra revclaçõ todas as penas do inferno 
c do purgatório. B outrosi todos os beês e glorias 
que ha no santo parayso, aúdando sempre hú an- 
geo eõ el. Bsto lhe foy demostrado por tal que 



(luctor portnguez termina com a seguinte declaração : ^^Ora 
diz Johã de maceno que esta estorya screpveo em lingu- 
gem grego : Eu escrepvi este sermõ segundo m>eu poder, 
assy como apprendy de mui honrrados e verdadeyros barõoes 
que m'o assy contarõ. E dos que vyra que este reconta- 
mento escrevia a proveyto das almas de nos outros que o 
leemos ê tal guisa que merecemos seer contados ê a parte 
dos Santos Barlaão e Josaphat bem aventurados amigos 
de nosso senhor.^^ 

1 Publicadas pelo Dr. Jules Cornu, na Romania, vol. 
XVI (1887) de pag. 357 e 390. — Também publicou no vol. 
XI da Romania, sob o titulo de Anciens Textes portugais. 
excerptos do Orto de Esposo. 

2 Publicado na Romania, vol. xxx, por Otto Klob. 
Paris. 1901. 



3^0 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



SC oiivessc de cor reger e emendar dos seus pec- 
cados e de suas maldades, i 

O Códice ccivXxiii contém: 

Orto do Esposo de vários lo gares da Bscri- 
ptura, dos Prophetas e Santos Padres, dividido 
em diversos capitidos com muitos Exemplos. Por 
Frei Hermenegildo de Tancos. No códice seguin- 
te \'eni outra versão do Orto do Esposo. 2 São nu- 
merosos os Exemplos ou Contos moraes, que for- 
mavam a elaboração originalissima das Littera- 
turas modernas: Exemplo das três Donzellas (fl. 
16); Trajano e a Viuva (fl. 20); é assumpto de 
um panno de raz do tempo de D. João 1 1 ; o 
Avarento (fl. 48) ; O rei que anda de noite (fl. 
54); O homem beberrão (fl. 55 T): O que se 
fa^ pelo melhor (fl. 63 T); O rei Alburno (fl. 
97); O criado que casa com a ama (fl. 89 T); 
Os dois irmãos (fl. 90 T) ; A Papisa Joanna (fl. 
99) ; Os Ladrões (fl. 105) ; O Cavalleiro que em- 
pobreceu (fl. 120) ; Os esposos piedosos (fl. 125) ; 
O Imperador e o filho (fl. 122 y,^): Os dois Irmãos 
(fl. 127); A arte das mulheres, (fl. 139.) 3 



1 A traducção do Cod. cclvii, fl. 124 a 137, está pu- 
blicada na Rc7'{sta Lusitana, vol. viii, p. 249, por J. J. Nu- 
nes. Esta outra redacção do Cod. ccxliv. fl. 90 a 104, foi 
também publicada na Rcz'ista Lusitana, vol. iii, p. loi, por 
Esteves Pereira. Attribue-se a primeira traducção a Frei 
Hilário da Lourinhã, e a segunda a Fr. Hermenegildo de 
Payopelle. Apontam-se muitas versões d'esta lenda nos 
mosteiros da peninsula. Mussafia. SuIIa Visione di Tundalo. 

2 O Dr. Julcs Cornu copiou estes dois textos, e pre- 
para uma edição critica do Orto do Esposo. 

3 Alguns d'estes Contos e Eitemplos foram publica- 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 361 

Outros Códices da Livraria de Alcobaça, são 
versões portuguezes de livros ascéticos, como o 
Liuro ascético intitulado Castello perigoso; a Vida 
de San Bernardo, traduzida por Fr. Francisco de 
Melgaço, e o Espelho de Monges, pelo mesmo. 

A Lenda de Santo Bloy. i 

Vida de S. Nicolau. 2 

Vida da Rainha Santa Isabel. — Apparece 
este documento pela primeira vez referido no tes- 
tamento do Infante D. Fernando, o Santo, feito 
antes da partida para Tanger: «Item, o Livro 
da Rainha Santa Blisabet.» Este livro veiu parar 
ao Mosteiro de Santa Clara, de Coimbra, d'onde o 
copiou Frei Francisco Brandão em 1751. (Mo- 
narch. Lusít., P. vi.) Uma copia existe no Vati- 
cano como documento para o processo da sua ca- 
nonisação. O códice de Santa Clara, Relação da 
Vida gloriosa de Santa Isabel Rainha de Portugal 
tem no principio "a sua imagem vestida com ha- 
bito, cordão, manto e véo da ordem; na mão di- 
reita um crucifixo e na cabeça uma coroa de es- 
pinhos ; a seus pés a coroa e sceptro, com a letra : 
CriLv et spinea corona Domini mei, sceptrum et 
corona mea. Um pequeno excerpto fará conhecer 
a antiguidade do seu texto: «Em sa casa se cria- 
vam filhas de muitos nobres homens, e filhos cb 
cavalleiros e d'outros homens, e dos que eram de 
edade, e achavam casamentos a si eguaes, casa- 



dos nos Contos tradicionaes do Povo português, vol. 11, 
p. 38 a 60. 

1 Impressa por Hincker. em 1900 ; começou a publica- 
ção no Instituto, de Coimbra, vol. xlvii. 

2 Dois fragmentos publicados por P. A. de Arevedo. 
1905 



362 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUIÍZA 

va-os, e outros punha em ordem a cada uma Deus 
procurava, e dava a elle de seu haver,, segundo 
a i>essoa que era e o estado que filhava. Outros 
muitos e muitas que non eram de sa casa, que o 
a ella demandavam, fazia ella ajuda para casarem 
seus filhos ou para necessidades outras que hou- 
vessem:... E per hu ella hia non ficavam empa- 
redadas, nem gafos, nem prezos, que sa esmola 
non recebessem parte.» As lendas poéticas que en- 
volveni a vida de Santa lsa])el, como a do pagem 
lançado ao forno, ou como a das esmolas conver- 
tidas em rosas, acham-se nos cantos ix)pulares por- 
tuguezes ; a primeira apparece na sua forma mais 
antiga em um Fableau, publicado por Legrand 
Aussy, na Gesta Romanorum, nas Cento Novelle 
antieJie, e nas de Geraldo Cynthio, e ainda na Can- 
tiga Lxxxviii das Cantigas de Santa Maria de 
Affonso o Sábio: a das rosas figura também na 
Vie de Sainte Elisabeth de HiDigrie. 

b) o Poder real protege o HVM\y\syio 

A sociedade civil no século xiv estaljelecia 
pela acção dos Jurisconsultos e do proletariado, 
apoiados no poder temporal da realeza, as condi- 
ções da sua secularisação e independência. Tal é 
o sentido da divisa: As Universidades sennn 
fiara ensinar, em contraposição com o ensino cle- 
rical das Collegiadas: as Jurandas serzriu para 
edificar, em contraposição cá actividade guerrei- 
ra dos barões, fortificando-se a classe obreira com 
espirito e disciplina da associação: e na ordem po- 
litica, os Estados servem para governar, contraba- 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 363 

lançando-se assim a vontade popular com a pre- 
potência senhorial em um accôrdo de que resultou 
o reconhecimento do principio supremo da sobe- 
rania nacional definida i>elos Jurisconsultos. A' 
sombra d'este impulso de reorganisação, procu- 
rou o Poder real estabelecer a sua independência, 
submettendo á lei escripta, estabelecimento, códi- 
go geral ou ordenação a arbitrariedade dos ba- 
rões. Para isso tratou de coadjuvar a emancipação 
das classes servas, de garantir as franquias com- 
munaes das Cartas pueblas ou dos Foraes, fixa- 
das pelo costume ou direito consuetudinário ; as- "^ 
sim se real i sou a elevação do terceiro estado, de- 
frontando com os estados clerical e aristocrático. 
Pela protecção aos estudos humanistas atacou o 
poder espiritual da Egreja, que se impunha pelo 
ensino das CoUegiadas, o único que então existia 
na Europa; e fazendo renascer o ensino e o uso 
do Direito romano, em que estava definida a es- 
phera dos direitos reaes, atacou a classe senho- 
rial, avocando a si o direito de levantar hoste, de 
bater moeda, de ter justiças próprias, e o privile- 
gio de conferir nobreza. O emprego da lingua 
vulgar para as obras litterarias e jurídicas, a fun- 
dação de uma Universidade, e a coordenação dos 
Nobiliários ou Livros de Linhagens são factos ca- 
pitães que nos relacionam com a marcha da civi- 
lisação moderna n'esta phase ephemera mas ful- 
gurante da primeira Renascença. 

i.o Fontes poéticas da Antiguidade clássica. 

— Libertado o sentimento poético da Edade mé- 
dia da obsessão religiosa das Lendas agiologicas 



3^4 HISTORIA DA UITTIÍRATURA PORTUGUKZA 

■ k „ 

e das Gestas guerreiras do Feudalismo, o génio 
esthetico foi encontrar novos themas para a ideali- 
sação nos poemas gregos, romanos e orientaes. 
Remodelaram-se n'essa livre phantasia dos trovis- 
tas a Illiada de Homero, a Eneida de Virgílio, a 
Thebaida de Stacio, a Pharsadia de Lucano, as 
Mctainorphoses e os Amores de Ovídio. Era, 
como observa Constans «uma esclnola em que se 
apropriava a matéria antiga ao gosto e aos cos- 
tumes do século XV, tomando da Kpopêa clássica 
e da Historia lendária os assumptos novos mais 
apropriados do que as antigas Gestas a um es- 
tado de civilisação já menos rude, graças á influen- 
cia crescente do Meio Dia e da sua brilhante poe- 
sia.» I No Roman de Flamenca, vem enumeradas 
as Gestas eruditas que constituíam este cyclo dos 
poemas greco-romanos, uns que ficaram na for- 
ma rudimentar do Lai narrativo e outros deram 
grandes ix)emas, como a Historia de Troya, o ro- 
mance de Thebas, Bneas, Jtdio César e Alexan- 
dre: ((Um canta de Priamo, outro de Piramo; ou- 
tro, da bella Hellena, como Paris foi á sua pro- 
cura e depois a trouxe: outro canta de Ulysses, 
outro de Heitor e de AchiUes. Outro cantava de 
Encas e de Dido e como por elle ficou triste e 
desolada: outro cantava de Lavinia... de AppoUn- 
nice, de Tideii, de Etidiocles... Um canta de Ale- 
xandre, outro de Leandro e de Hero. Um de Ca- 
dmo e sua fuga, e de Thebas como se edificou. 



I VEpopcc antique (Na Hisf. litteraire, de Julleville, 
t. I. p. 184.). 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 36; 



Outro cantava de Jason e do Dragão que desco- 
nhecia o somno; outro cantava de Hercules e da 
sua valentia; outro, como Philis attenta contra si 
pelo amor de Demophonte. Um diz como o bello 
Narciso se afogou na fonte onde se mirava. Um 
diz de Phitão como roubou a Orpheo a sua bella 
esposa... Um canta de Júlio César, como passou 
sósinho o mar, por que não sabia o que era o me- 
do...» Joly, no vasto estudo critico que acompa- 
nha o poema da Historia de Troya de Benoit de 
Sainte More, dá-nos a conclusão critica sobre este 
grande cyclo poético: «Sabe-se o que fizeram os 
velhos troveiros da Epopêa clássica. Na reali- 
dade a sua obra nada tem de antigo, nem litteraria 
nem moralmente. Das qualidades litterarias das 
obras primas da Grécia e de Roma nada têm; 
nem a sciencia da composição, nem o sentimento 
da unidade, nem a largueza dos desenvolvimen- 
tos, nem a perfeição da forma, nada emfim do 
que constitue o artista. E mesmo por isso, estes 
poemas appresentam um interesse que os excede, 
por assim dizer, lançam uma viva luz na poesia 
da Edade média inteira.» ^ Benoit de Sainte Mo- 
re, não conheceu directamente a Illiada de Ho- 
mero; como lhe chegaram as tradições troyanas? 
Desde o século iii, que ellas eram conhecidas por 
Aeliano, no século ix por Macelas, no x por Cons- 
tantino Prophyrogeneta, no xi por Suidas, e no 
século XIII por Isac Prophyrogeneta, Constan- 



I Benoit de Sainte More et le Roman de Troie, t, i, 
P. 391. 



S66 HISTORIA DA LlTTÊRATURA PORTUGU^ZA 



tino Manasses, João e Isac Tzetzés. E' por tanto 
explicável como pela tradição scholaresca veiíi esta 
corrente fecundar a poesia medieval jogralesca. O 
pedantismo erudito fez com que essas relações ima- 
ginosas da ruina de Tróia se convertessem em fa- 
ctos históricos. O Conde Dom Pedro, o que legou 
a í). Affonso xi de Castella o seu Livro das Can- 
tigas, transcreve no seu Nobiliário grandes pe- 
ripécias da Historia de Troya. Isto nos explica o 
facto de Affonso xi mandar traduzir da lingua 
portugueza para o castelhano uma Historia de 
Troya. O archivista André Martinez Salazar, que 
publicou este monumento considerado como es- 
cripto em gallego, observa : «O Códice acha-se em 
bom estado de conservação. — Tem guardas de 
pergaminho, e capa de chagrin verde com ferros 
lendo-se: Crónica, Troiana, Em Português. 
Formou parte da Bibliotheca do Marquez de San- 
tillana.» 

Sobre a lingua da Historia de Tróia, impressa 
como gallega, escreve o consciencioso editor : «Não 
tem unidade linguistica, contendo formas de 
todos os dialectos da região, umas litterarias, 
e outras populares, que são as que ainda se 
conservam na linguagem fallada actualmente: (p. 
XIV.) E em nota: «A lingua portuguesa concor- 
reu mais ou menos para estas formas litterarias 
archaicas.)) Accrescentando em seguida: «Nos 
escriptos portuguezes do século xv é difficil quan- 
do não impossivel distinguir o gallego do portu- 
guês, a não ser pelas formas dialectaes e locaes 
c pela ortographiú... mas não negaremos a pos- 
sibilidade de que esta versão gallega tenha pas- 



PRIMEIRA KPOCA: EDADE MÉDIA Z^ 

sado por outra portugjLieza...» (p. xv.) Vê-se que 
o copista gallego pelas simples alterações gra- 
phicas naturalisou o texto, que em tudo ficou por- 
tuguez do século xiv; d'esta Historia de Troya 
mandou Affonso xi fazer uma traducção cas- 
telhana. I 

Para formar-se ideia do texto portuguez da 
Historia de Troya, basta um excerpto do Nobiliá- 
rio do Conde D. Pedro: «,0 primeiro rrey que 
pobrou a Troya ouve nome Dardanus, e por esto 
as g-entes da terra forom chamadas dardanides. 
Esto foy no tempo d'Abraham, quando sayo das 
cidades dos caldeus. — Depois de Dardanus ouue 
hi outro rrey Ilius ; aqiielle fez o catello de Troya. 
E por este rrey Ilius ouve o castello nome Ylom. 
E depois do rrey Ylius, rreynou Leomedon. Este 
Leomedon, per a maa colhença que fez a Jason, 
neto de Peltus, quando vençeo Tarson, do ouro 
fiue era na Ilha de Calcus. E por esta rrasom 
([uando se tornou Jason, rrogou seus amigos e pa- 
rentes. E veerom com grande oste sobre a Troya. 
e cercou-a e tomou-a, e matou rrey Leomedon, e 
tomou huma sa filha que avia nome Esiona, le- 
voua cativa e foy a cidade destroyda. P^ste rrey 
Leomedon avia hum filho que aA'ia nome Priamo, 



I Escreve Menendez Pidal : **Creio que a castelhana, 
que está no Escurial, ainda que feita também na corte de 
Àlfonso XI e de Pedro i. se fez sobre a gallcga, contra o 
que affirma Amador de los Rios. Digo isto por que al- 
guns galleguismos descobri na do Escurial. ^^ Carta ao 
Dr. Rennert. Revista gallcga, anno viii, n." 361. (1901.) 
A anterioridade da versão gallaico-portugueza sobre a cas- 
telhana está provada pela chronologia litteraria d'essa época. 



368 HISTORIA DA UITTRRATURA PORTUGUEZA 



e era ido com grande hoste sobre seus emiigos, e 
iiom foy no destroimento da cidade. E quando 
tornou achou seu padre morto e a cidade destroi- 
da, e pobroua outra vez. E cercoua outra vez 
darredor de boom muro e fezea a mais forte que 
pode pêra se defender de seus emiigos. — Este 
rrey Priamo ouve cinquo filhos de sua mulher, que 
foram muy boons cavalleiros, hum ouve nome 
Eytor, e outro Paris, e o terceiro Troillos, e o 
(juarto Deifebus, e o quinto Elenus. E consse- 
Ihou-se rrey Priamo com seus filhos e seus ami- 
gos, e enviou Paris seu filho a Greçia per clamar o 
torto que lhe aviam feito os rreys, de Leomedon e 
de seu padre que lhe matarom, e de sua irmãa 
Esiona, que tinham cativa. E Paris foy á Greçia, 
e levou XII naaos e duzentos cavalleiros e gran- 
des gentes de pee e asy veo a Greçia. E entom avia 
pervemtuira que era hi ajuntada toda a gente da 
terra a humma festa que hi faziom. E era hi Ele- 
na a mulher de rrey Menelaos irmão de Game- 
non, que era a mais fremosa dona de toda a ter- 
ra. Paris quebrantou todo o templo e destroyu 
toda a gente que hi era e cativou os que quizerom. 
í\ filhou a rainha Elena e levoua a Troya para 
ssa molher. E per esta rrazon moveromsse todas 
as gentes das terras, e veerom sobre Troya e te- 
verom a cercada dez annos. E ouve hi grandes 
fazendas e mortes grandes cavallarias assy como 
falia na ssa cstoría. E a cabo de dez annos foy 
preza a cidade per gram arte e per grande engano 
de traiçom que hi ouve feita. E todos os que ouve 
na cidade forom mortos, e a cidade foy destroyda 
e queimada.» 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 36^) 

Depois do conhecimento da Hstoria de Troya, 
de Benoit de Sainte More, revela o Conde Dom 
Pedro conhecimento do Romance de Bneas^ ela- 
borado sobre o poema de VirgiHo : «Avia hi huum 
ricomem em a cidade que avia nome Eneas e avia 
per molher a filha dei rrey Priamo, que avia nome 
Aquilea. E prendeu esta molher em a prisom da 
cidade. Este Eneas escapou do destroimento da 
cidade de Troya. E ouve trezentos cavalleiros e 
uíjue naaos e meteosse no mar e trabalhou hi 
muito tanto que chegou a Cartago. E avia hi hum- 
ma rainha que avia nome Dido. E rreçebeo muy 
])em e amouo muito e deu-lhe seu corpo em poder 
e foy senhor de ssa terra. E a cabo de tempo par- 
tiosse Eneas delia a furto, assy que ella nom o 
soube e leixoua. E depois que ella o soube de pe- 
sar que ouue matousse com humma espada que 
Eneas lhe avia dado. — Eneas aportou en Itália, 
bonde ora he Roma...» ^ 

Os eruditos do século xiv explicavam a An- 
tiguidade clássica identificando-a com a sociedade 
feudal: Troya era um casteUo ; os filhos de Pria- 
mo hoons cavalleiros, Helena uma fremosa dona. 
Eneas um ricomem. Observa Joly no seu estudo 
sobre Benoit de Sainte More: «Nos séculos xii 
exiii a Edade média era ainda impenetrável ao 
espirito da Antiguidade como também ás suas qua- 
lidades litterarias. Tinha muita juventude e uma 
individuahdade bastante forte para poder ser ou- 
tra cousa a não ser ella própria. Immediatamente 



I Mon. hist. — Scriptores, p. 236. 
24 



370 HISTORIA DA I^ITTERATURA PORTUGUEZA 



instinctivamente, inconscientemente imprimia-lhe a 
sua original e forte feição, transformava na sua 
própria substancia tudo quanto tocava.» (Op. cit., 

II, 393-) 

No fim da Edade média cessou esta visão phan- 
tastica da Antiguidade clássica, mas as ficções poé- 
ticas foram reelaboradas como documentos his- 
tóricos, postos em circulação pelo dominicano Anio 
de Viterbo, que considerava como de origem 
troyana todas as nacionalidades modernas. Já 
os velhos chronistas Fredegario, Roricon, e Pau- 
lo Warnefried consideravam os Frankos de ori- 
gem troyana, e em documento de Dagoberto se 
lê: Bx nobilíssimo et antiqua Trojanorum reli- 
quiarmn sanguine nati. Em uma carta de Eduar- 
do III ao papa, mostrando-lhe a superioridade da 
Inglaterra sobre a Escossia, allega as suas ori- 
gens troyanas. Um bairro de Veneza povonea- 
va-se por povoado pelos foragidos de Troya ; e no 
Bdda de Snorre confundem-se as origens scan- 
dinavas com as lendas troyanaâ. Os estudos hu- 
manistas da Renascença, já quando a crença chris- 
tã estava abalada pelo protestantismo, e o regi- 
men feudal substituido pela realeza absoluta, de- 
terminaram a negação da Edade média, transitan- 
do da lenda de Trova para a da grandeza de Ro- 
ma, elaborando a ficção politica da Monarchia uni- 
versal. Estas duas tradições emditas reflecti ram- 
se em Camões, quando nos Lusíadas canta : 

Ulysses c o que i^z a santa casa 
A' deusa que lhe dá lingua facunda, 
Que se lá na Ásia Troya insigne abrasa. 
Cá na Europa Lisboa ingente funda. 

(Cant. VII, est. 5.) 



PRIMEIRA KPOCA : EDADE MÉDIA 371 

2.0 Fundação da Universidade de Lisboa. — 

A cultura greco-rpniana, que a Egreja renegara, 
appareceu no Occidente nas Escholas árabes; em 
529, Justiniano mandara fechar as escholas phi- 
losophicas, e Damascio, Simplício, Eulamio, Pris- 
ciano, Isidoro de Gaza, Hermias e Diógenes de 
Phenicia refugiaram-se na corte dos Sassanides. 
Tal foi o ponto de partida da communicação das 
sciencias da Grécia aos Árabes, por via dos quaes 
se tornaram conhecidas as obras mathematicas de 
Euclides, o Almagesto de Ptolomeu, as obras me- 
dicas de Hipócrates, o Organon de Aristóteles, 
o Phedon, o Cratylo e as Leis de Platão. Esta 
influencia das Escholas Árabes é considerada por 
J. J. Ampere como uma primeira Renascença. Os 
que haviam frequentado as escholas árabes eram 
procurados individualmente, e em volta da sua 
cathedra, em um logar isolado agrupavam os es- 
píritos sequiosos de saber. A organisação das 
Universidades foi o reconhecimento d'este novo 
modo de ensino, de que tanto a Egreja como a 
Realeza trataram de se apoderar. A influencia e 
o conflicto do poder papal e real transparece nos 
dois titulos Universidade e Estudo Geral, no cargo 
de Canccllario, representando o antigo inspector 
das Collegiadas, a par do Rector escolhido pelos 
estudantes ou nomeado pelo rei; na intervenção 
dos bispos nos gráos doutoraes, e na transferen- 
cia das aulas para onde residia a Ciôrte. A este 
periodo da creação das Universidades no século 
X 1 1 r , chamou Ampere a segunda Renascença. 
Os reis fundavam Universidades para centrali- 
sarem o ensino, evitando assim que os estudiosos 



,77-^ HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

fossem frequentar as Universidades estrangeiras, 
de Bolonha ou de Paris. Quando Dom Diniz fun- 
dou em 1291 a Universidade de Lisboa, já muitos 
portuguezes se tinham distinguido nas Universi- 
dades itahanas e francezas. A Universidade de 
Lisboa foi dotada pelos Abbadés de Alcobaça, de 
San Bento, e do Mosteiro de Santa Cruz de Coim- 
bra, e Reitores de certas egrejas seculares. Pela 
bulia do Nicolao iv, approvando a applicação dos 
subsidios aos estudos de c:rta faculdade pcrmitti- 
da, limitava-se a conceder aos lentes e escholares 
o privilegio de foro ecclesiastico, sugeitando os 
gráos á confirmação do bispo de Lisboa: «que os 
escholares nas Artes e nos Direitos canónico e civil, 
e na Medicina, possam ser licenciados na sobre- 
dita sciencia pelo bispo de Lisboa que n'esse tem- 
po o fôr, e quando estiver sede vacante por meio 
do vigário capitular.» As differenças de foro e 
os privilégios dos escholares produziram dissen- 
çÕes com os habitantes de Lisboa, tendo o rei 
sob esse pretexto de transferir a Universidade 
para Coimbra em 1307. Prevalecia uma razão 
mais funda ; não era i>ermittido o ensino da Theo- 
logia na Universidade de Lisboa, e para incor- 
porar n'ella essa disciplina, que se cultivava no 
Mosteiro de Santa Cruz, por mestres que iam 
estudar a Paris, mudou-se para Coimbra a Uni- 
versidade, considerando-se esse facto como sendo 
inaugurado radicalmente o Estudo Geral. Os pri- 
meiros Estatutos foram dados por Dom Diniz em 
1309, sof frendo novas modificações em I347- 
Para manter o seu caracter real, foi reinando 
D. Pedro i, transferida a Universidade para Lis- 



PRIMEIRA ÉPOCA ; EDADE MEDIA ^J^ 



boa, por estar ahi a corte, negando-se por isso os 
Ahbades e Priores a contribuirem com o subsidio 
da quota parte dos seus rendimentos. Por car- 
ta de i6 de Agosto de 1338, que mudava a Uni- 
versidade de Coimbra para Lisboa, fundamenta- 
se, pela ^assistência que n'esta cidade fama Bi 
Rei a maior parte do anno.)) Outra vez em 1354 
é trasladada a Universidade para Coimbra em 
virtude dos privilégios que então o papa lhe con- 
cede do jus ubique docendi, que como observa De- 
nifle, era muito raramente obtido pelas Univer- 
sidades. Tendo de contractar mestres no estran- 
geiro era difíicil trazel-os para a vida confinada 
da provincia ; para vencer esse óbice, o rei D. Fer- 
nando em 1379 transfere-a outra vez por causa 
(l(^s Lentes estrangeiros quererem residir em Lis- 
l)oa. Sob o governo de D. João i, e quando a corte 
teve estabilidade, é que em 1384 este monarcha 
ordenou que para sempre a Universidade ficasse 
em Lisboa, sendo estabelecida «a porta de Santo 
Vndré — da parte de fora, contra o arrabalde dos 
mouros.» E assim se manteve em uma vida apa- 
gada durante todo o século xv, até á reforma de 
I). João III, que a transferiu definitivamente para 
Coimbra em 1537. 

3.0 Nobiliários. — No século xiv a organisa- 
ção dos Livros de Linhagens correspondia a uma 
necessidade social. O Poder real definindo a es- 
phera dos seus direitos soberanos, avocava a si 
o direito de conferir nobreza. Nas Leis de Par- 
tidas, que foram traduzidas em portuguez, impÕe- 
se aos fidalgos, «que escrivian sus nomes, e el 



374 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

liiiage onde venian e los logares onde eran natu- 
rales en el Libro que estavan escritos los nomes de 
los otros caballeros.» i Em uma lei portugueza en- 
corporada na Ordenação Afformna (Liv. i, tit. 
63) explica-se mais claramente, impondo a nobreza 
por foro de el rei: «nenhum homem dos concelios 
de sua terra não podem ser cavalleiros se nom por 
mim ou per meu mandado.» O phenomeno foi 
geral em todos os estados da Europa. Este traba- 
lho suscitou uma certa actividade litteraria e his- 
tórica. Quatro são os monumentos conhecidos : c 
Livro velho das Linhagens, com um fragmento, 
publicado por D. António Caetano de Sousa, 2 
Fragmento de Nobiliário que andava junto ao 
Cancioneiro da Ajuda, e o Nobiliário do Conde 
D. Pedro, que se guarda na Torre do Tombo, 
achando-se todavia encorporados em edição paleo- 
graphica nos Portugalice M onumenta (Scriptores, 
p. 230 a 390) sob a direcção de Alexandre Her- 
culano. O velho linhagista dá a razão da sua obra : 
((Porém eu Dom Pedro, filho do muy nobre rey 
Dom Dinis, ouve de catar por gram trabalho por 
nniytas terras escripturas que fallavam das linha- 
gens. E veendo as escripturas com grande estudo 
e em como fallavam de outros grandes feitos, 
coinpnjc este livro por gaanhar o seu amor e por 
meter amor e amisade antre os nobres fidalgos do 
Hespanha...» E enumerando, as razoes que fun- 
damentam um tal trabalho, aponta: ((])or os reys 



1 Partida 11, tit. 20, liv. 22. 

2 Provas da Historia genealógica, t. t, p. 145, 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 375 



averem de conhecer aos vivos com mercês por os 
merecimentos e trabalhos e grandes lazeiras que 
receberam os seus avóos em se gaanhar esta terra 
de Espanha, por elles.» E referindo-se aos impe- 
dimentos canónicos até ao sexto gráo, que faziam 
a instabiHdade dos casamentos: «pêra saberem 
como podem casar, sem j>eccado segundo os casa- 
mentos da Egreja.» Vê-se que através dos mo- 
tivos, era o principal o fixar o cadastro das fami- 
Has de nobreza reconhecida, para d'ahi em diante 
admittir somente a nobreza de foro do rei. Ape- 
sar das Hstas fatigantes dos nomes, apparecem 
entremeadas tradições maravilhosas da origem dos 
Solares como da Casa de Haro, dos Marinhos, as 
grandes prepotências da arbitrariedade senhorial 
como o incêndio de castellos, o rapto e violação 
de mulheres, como o da decantada Ribeirinha, 
D. Maria Paes da Ribeira; a cegueira infligida 
por vindicta particular, a herança do crime e a vin- 
dicta pessoal e o ódio inveterado entre familias. 
Ahi se allude á penalidade symbolica, como a da 
hurrdla, e os factos históricos como o Lide do 
Porto, no conflicto decisivo entre os partidários 
de D. Sancho 1 1 e os de seu irmão, e os appelli- 
dos caracteristicos de alguns fidalgos : o trobador, 
o que trobou bem, trobador e niuy saboroso, refe- 
rencias, que revelavam uma ignorada actividade 
poética na época pre-dionisia, em que floresceram. 
Essas relações do parentesco fixadas pelos Nobi- 
liários espalham uma intensa luz sobre a realidade 
das situações idealisadas nos Cancioneiros troba- 
dorescos portuguezes. Para a philologia e para :i 
historia litteraria estes livros são preciosos pelas 



yjG HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

fónnas archaicas da linguagem, i>elos excerptos 
históricos que lhe servem de introducção, e se inter- 
calaram accidentalmente. No Fragmento do No- 
biliário, que anda junto ao Cancioneiro da Ajuda 
encontra-se uma extensa relação da Batalha do 
Salada, também celebrada em redondilhas por 
Affonso Giraldes. Pode-se dizer que é a pagina 
histórica mais perfeita a que chegou a litteratura 
portugueza no século xiv. O genealogista bem co- 
nhece que aquella narração histórica não pertence 
a essa ordem de escriptos genealógicos : «e se al- 
guns ouvesse contar as maravilhas e bondadas 
que faziam, seeria o livro tan grande que os que 
o lessem com a grande escriptura se anojariam 
e os outros de que aqui nom falassem ficariam re- 
prehendidos. Des i por que este livro he de linha- 
gens nom faz mester de en el falar de todo salvo 
de algumas cousas maravilhosas...» (op. cit. p. 
190.) O genealogista colloca na bocca dos seus 
personagens allocuções, como no estylo de Tito 
Livio, pouco depois tornado conhecido pelo chan 
celler Lopez de Ayala. Eis como falia de D. Af- 
fonso IV, o heroe do Salado: «E el-rei Dom 
Affonso de Portugal era de grandes feitos, e 
({uanto mais olhava \xy\os mouros, tanto Ihi mais 
c mais crecia e esforçava o coraçom como home 
(jue era de grancles dias e tinha que deus Ihi fe- 
zcra gram mercê en n chegar áquel tempo hu 
podia fazer cmmenda de seus peccados i)er salva- 
çom de sa alma e rece1)er morte por Jhesu Chris- 
to. El de t(^do boom contenente falou ali com os 
seus e disselhes assi : — Meus naturaes e meus vas- 
sallos, sabede l>em en como esta terra da Espa- 



PRIMEIRA IÍPOCx\ : EDADE; MEDIA 2)11 



Ilha- foy perdida por rei Rodrigo e ganhada pelos 
mouros, e em como outra vez entrou Almançor, 
e em como os nossos avoos donde descendedes por 
gram seu trabalho e por mortes e lazeiras ganha- 
rom o reino de Portugal, en como el rei dom 
Affonso Anriquez com que a eles ganharom Ihis 
(leu onras e coutos e liberdades e contias por que 
vivessem honrados, e noni tam solamente fez esto 
a eles, mais por a sua onra dava os maravedis aos 
filhos cjue jaziam nos berços e os padres serviam 
por eles. En como os reys que despois el veerom 
aguardarom esto. Eu despois que vim a este logo 
fiz aquello que estes reis fezerom, e se alguma 
cousa hy a pêra emendar eu a corregerei se me 
deus d'aqui tira. Olhade por estes mouros que 
nos querem ganhar a Espanha de que dizem, que 
estam esforçados e oie este dia a entendem de 
cobrar se nós não formos vencedores. Poede em 
vossos corações de usardes do que usarom aquel- 
les donde viides como nom percades vossas mu- 
lheres nem vossos filhos, e o em que ande viver 
aqueles que despois de nós veerem, os que hy mor- 
reren e viverem seerom salvos e nomeados pêra 
sempre. — Os fi(lalg'os j)ortugueses Ihi responde- 
rom : — Senhor, os que aqui estam oie este dia 
vos farom vencer ou hi todos prenderemos morte. 
Elrei foi desto muyto ledo.» {Ih., p. i8^:) Se- 
riam estas as tradições ou Estorças, que Fernão 
Lopes poz em Caronica? Assim a Historia como 
forma litteraria tem uma origem e desenvolvi- 
mento simultâneo e análogo ao da Poesia. A sua 
differença está no modo de tratar a fonte com- 
mum — a tradição. 



578 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

4.0 Chronicas e Relações históricas. — Nas 

Memorias para Ia Historia de la Poesia espaíiola, 
escreveu o P.^ Samiiento: «Este siglo decimo 
quarto, que con razon se poderá llamar el siglo 
de las Crónicas verdaderas, se poderá llamar tam- 
bien de las Crónicas fingidas.» (Op. cit., p. 330.) 
Estas duas formas litterarias apparecem digna- 
mente tratadas j^elo génio portuguez n'este periodo 
fecundo. Das Chronicas phantasiosas deixámos 
um monumento que seria bello em extremo se 
conservássemos a sua forma primitiva — o texto 
portuguez do Amadis d,:. Gania; das Chronicas 
históricas restam documentos, que se destacam 
dos registos latinos ou Obituários e Dietarios, que 
se usavam nos claustros. O apparecimento súbito 
do grande chronista Fernão Lopes no inicio do 
século XV, e a série das Chronicas dos Reis de 
Portugal, que apographos e plagiários lhe des- 
membraram, não se comprehende sem detemiinar 
a filiação d 'essas narrativas que elle integrou em 
uma forma da historia como a comprehendeu 
Froissart e os grandes chronistas da sua época. 

A Chronica mais antiga, escripta em lingua 
vulgar, que temos, é anonyma, e trata desde a 
fundação da monarchia até Dom Diniz. Acha-se 
publicada em o titulo de Chronica brez^e do Ar- 
cliivo nacional, e está intercalada no livro iv, fl. 
6 das Inquisições de D. Affonso iir. Foi trasla- 
dada em 1429 da éra moderna: «ata a presente 
éra que ora corre do nacimento de nosso sennor 
Jeshu Christo de mil quatro centos e vynte e nove 
annos.)} Explica a sua intenção: «A qual rre- 
menbrança serve a proll p(Mque muytas vezes mos- 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 379 

tram perante El Rey nosso sennor e perante os 

seus juizes algumas doações e outras escripturas, 
que fazem em prejuízo dos direitos e cousas da 
coroa dos Regnos, fazendo taaes cartas de doa- 
ções e escripturas mençom que forom outorgadas 
per hum Rey o qual segundo a data d'essa escri- 
ptura já era finado: E pêra tirar estas duvidas 
aproveitam muito estas eras.» A Chronica, confes- 
sa o auctor para justificar o seu laconismo: «faz 
mençom quando cada hum Rey começou de rre- 
gnar, e quando se finou, e onde jaz sepultado.» 
Traz um traço pittoresco acerca de Dom Sancho i : 
«E entom filhou El Rey huma dona de que se non 
pode saber o nome... E filhou Dona Maria Paes 
da Ribeira, a que elle deu Villa do Conde...» A 
linguagem da Chronica não é muito antiga; ape- 
nas se encontra uma palavra franceza adaprés da 
cidade de Lisboa.» Segundo a auctoridade indis- 
cutivel do colleccionador dos Portugália: Monu- 
incnta histórica, é a chronica em vulgar mais an- 
tiga que nos resta. 

A Chronica ou Relação da Conquista do Al- 
garve, descoberta por Fr. Joaquim de Santo Agos- 
tinho na Camará municipal de Tavira em 1788 
(Tomos velhos, i, p. 207 a 213), embora esteja 
retocada por um copista do século xv, foi escripta 
por quem não estava muito afastado da data d'essa 
conquista. O narrador allude ás ossadas que exis- 
tiam no sitio das Antas : «e quando chegou ás 
Antas e vio os cavalleiros mortos começou com 
os mouros muy dura pelleya, e morreu tanta gente 
d'elles, que ainda hoje em dia jas alli a ossada 
d'elles, e desde que os venceo seguiu ho alcance 



í8o HISTORIA DA I^ITTÊRATURA P0RTUGUE2A 



fazendo grande estrago em elles...» i A tendên- 
cia para a fonna liistorica no ultimo quartel do 
século xrv é uma prova da data d'esta nar- 
rativa. 

Era conhecida em Portugal a Crónica general 
de Espana; este livro mandado traduzir por Dom 
Diniz do original castelhano foi um dos primeiros 
ensaios e um grandioso modelo em que se exer- 
ceu a lingua portugueza para fixar as formas se- 
veras da Historia. Fernão de Oliveira, na sua 
Grammatica portugueza refere-se a esta tradu- 
cção : «As dicções velhas são as que foram usa- 
das, mas agora são esquecidas, como... ruão. 
que diz cidadão, segundo eu julguei em um livro 
antigo, o qual foi trasladado em tempo do mui 
esforçado rei Dom João de boa memoria, o pri- 
meiro d 'este nome em Portugal : por seu mandado 
foi o livro que digo escripto, e está no mosteiro 
de Peralonga e se chama Bstorea Geral, no qual 
achei estas com outras anteguidades de falar... )> 

Da Crónica general, escreveu Menendez Pidal, 
considerando-a como obra de Alfonso o Sábio: 
«Ella marca o desjiertar de uma éra na historio - 
graphia, pois i>ara ella converge uma multidão de 
imitações, que seguindo a eschola do Rei Sábio 
no mesmo plano e critério formam uma rica lit- 
teratura historial, anonyma e inteiramente popular 
que se renovava continuamente.» - A uma cir- 
cumstancia allude. (juc nos revela a importância 



r Memorias de Litteratura, da Acad., t. i. 

_' La Legenda de los Siefe Infantes de Lara. p. 54. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 381 

da traducção mandada fazer pelo rei D. Diniz : 
O grande numero de Manuscriptos da Cronícj 
general não permitte fixar qual fosse a sua fórm% 
mais primitiva e authentica ; é pois admissivel, que 
o texto portuguez, d'entre esses trinta e um ma- 
nuscriptos, provindo directamente do monarcha 
castelhano como offerta a seu neto, tenha exce- 
pcional importância para determinar-lhe a au- 
thenticidade. 

C(}m egual titulo se conservou na Bibliotheca do 
Rei Dom Duarte (n.o 24) ; e na Bibliotheca na- 
cional de Paris o manuscripto portuguez : His- 
toria geral de Hespanlia, composta em castelhano 
por Bi Rei de Leão c Castella, Dom Affoivso o 
Sábio, trasladada em portiigncz por rei Dom Di- 
niz ou por sen mandado. A esta traducção foram 
ajuntando os copistas os successos da historia de 
Portugal, vindo por isso ampliado o titulo: e con- 
tinuada na parte que dis respeito a Portugal até 
ao anno de 1433 no reinado de Dom Affonso v. 

Era uma traducção reduzida da Crónica de 
Alfonso o Sábio; pertencera ao Condestavel de 
Portuga] Dom Pedro, primitivamente. 

Na Bibliotheca da Academia real das Sciencias 
de Lisboa existe um códice pergaminaceo d'esta 
Chronica geral; ahi se lê: «E despois per tempo 
arribarom onde agora chama o Porto huas gentes 
en naves que eram degradados de sua terra, os 
quaaes erã chamados Galases; e estes pobrarÕ huã 
grande parte da Galliza, que era herma, e esta 
era antre dois rryos a que chama a hú doyro e 
o outro mynho; e enton poserom nome aa terra 
composto de duas partes, convém a saber Portu- 



382 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

galcsrs, ma.s despoVvS o enciirtarom e peseromlhe 
nome Portugal.)} No século xv nas Memorias bre- 
* ves de Santa Cruz de Coimbra citava-se como 
fonte histórica a Chronica de Espanha. Não admi- 
ra que Fernão Lopes revelasse a sua justa com- 
prehensão da Historia. 



2. o Período: Os Poetas Palacianos 

(Século xv) 



Elaboração do Lyrismo provençal pelo génio italiano 
(Phase allegorica) 



Os trovadores occitanicos tinham encontrado 
sympathia nas cidades italianas, que constituiam 
pequenas republicas ; a Canção amorosa idealisava 
situações da vida domestica, que ia ser o thema 
fundamental das litteraturas modernas. Os bur- 
guezes opulentos que transformaram alg'umas 
d'essas republicas em Principados, attraíam para 
as suas festas e palácios os trovadores que trans- 
punham os Alpes. A poesia lyrica italiana come- 
çou a ser elaborada por esta imitação e impulso 
social; e quando a Poesia trobadoresca se extin- 
guiu sob as violências sangrentas da cruzada con- 
tra os Albigenses, ou da realeza do norte contra 
o municipalismo do sul, esse lyrismo occitanico 



384 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

renascia pelo génio italiano, que dos esboços poé- 
ticos soube tirar as fónnas bellas, definitivas da 
Canção, do Soneto, da Elegia, e insuflar-lhes o 
sentimento pelo idealismo platónico da Primeira 
Renascença e pela exaltação mystica christan, que 
davam todo o relevo á emoção do Amor. Os tro- 
vadores italianos foram considerados os grandes 
mestres do Amor: souberam interpretar allegori- 
camente as indefinidas emoções da alma moderna, 
na consagração da mulher. Elles crearam a lin- 
gua nacional, avançando para a unificação syn- 
thetica das suas diversidades dialectaes : Sordelo, 
na Itália do Norte cria uma linguagem poética com 
os fallares de Cremona, de Brescia, de V^erona, 
cidades convisinhas de Mantua, sua terra natal ; 
Dante, e os cortezãos de Frederico 11, criam i)ela 
unificação d'esses dialectos da vertente direita e 
esíjuerda do Aj^enino a lingua toscana, que i>ela 
acção politica e pela litteratura se torna a lingua 
nacional, séculos antes da Itália realisar a sua uni- 
ficação |x>litica. A eschola toscana era represen 
tada por Guido Guinicelli, que Dante immortalisou 
nos seus versos, imitando ao mesmo tempo Ar- 
naldo Daniello, Guido Cavalcanti e Dante de 
Maiano, (jue subordinados ainda aos trovadores 
lhes compete a gloria de terem fecundado o seu 
génio. Dante foi o primeiro epigone (Kesta reno- 
vação esthetica, elevando-se dos eslx)ços proven- 
çalescos aos admiráveis Sonetos e Canções do mais 
])ur(> idealismo. Por Dante se exerceu a influen- 
cia do Lyrismo italiano fora da Itália, em todo o 
século XV : é a phase allegorica. Petrarcha era en- 
tão exclusivamente estudado como moralista e eru- 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 385 

dito, e somente no começo do século xvi é que o 
seu Canzoniere communicou ás Litteraturas da 
Renascença as formas definitivas do Lyrismo. A 
poesia italiana em Dante e nos Fieis do Amor. e 
depois em Petrarcha destacou-se dos modelos pro- 
vençaes pelo idealismo recebido em as doutrinas 
platónicas, que se desenvolveram mais tarde na 
Academia florentina dos Medicis. Dante conheceu 
essas doutrinas em Cicero, Boecio, Ricardo de Sam 
Victor, Sam Boaventura e Sam Thomaz; como 
moralista Petrarcha, depois reagindo contra o 
aristotelismo, seguia no seu estudo Platão, Santo 
Agostinho, San Bernardo e imitava Boecio. Esta 
nova poesia, de um vago subjectivismo, era pelas 
suas origens eruditas sympathica aos espiritos 
superiores que seguiam a corrente do humanismo 
do século XV. 

A Hespanha abraçou muito cedo o lyrismo 
italiano, na sua phase allegorica; Micer Francisco 
Imperial introduziu em Sevilha o conhecimento de 
Dante e da Divina Comedia, no fim do século xiv, 
e querendo o Marquez de Santillana prestar ao 
seu talento a homenagem devida, empregou uma 
designação erudita, que bem caracterisa o século 
do humanismo: «ai qual yo no llamaria decidor ó 
trovador, mas poeta.)) O influxo crescente da cor- 
rente italiana fez com que a Poesia castelhana 
prevalecesse no século xv sobre as outras littera- 
turas peninsulares, a gallega, a aragoneza e a por- 
tugueza. 

Porque não actuou a Poesia italiana directa- 
mente em Portugal, continuando a evolução tro- 
l)adoresca? Por que esgotadas as formas proven- 

25 



386 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

çalescas, o génio portuguez, pela fácil assimilação, 
apoderou-se da corrente novellesca, qne lisongean- 
do-lhe o espirito de aventura o inij^elliu á acção 
histórica. Nas luctas entre Pedro Cruel e seu ir- 
mão bastardo Enrique de Trastamara, interveiu o 
aventureiro bretão Bertrand Duguesclin, dando 
assim ás ficções bretãs uma realidade suggestiva; 
as relações com a corte ingleza vieram accentuar 
mais o interesse pelas novellas bretãs. Tudo nos 
afastava da passividade lyrica ; e conquistada Ceu- 
ta por D. João I, como a chave do império de 
Fez, seguiu essa série de feitos na occupação do 
norte da Africa, «dando um sentido real e verda- 
deiramente histórico ao espirito aventureiro, nas- 
cido das ficções cavalheirescas, emprehendendo-se 
e levando-se a cabo outras não menos afortunadas 
emprezas...» i A exploração da costa occidental 
africana e as navegações atlânticas imprimiram á 
sociedade portugueza uma vida em qu^ a activi- 
dade intensa a afastava das idealisações do ly- 
rismo. De 1350 a 1445, observa-se uma grande 
falha na producção litteraria portugueza; ainda 
assim a sua antiga influencia em Castella conti- 
nuou-se até aos reinados de Don Juan 11 e En- 
rique IV, como o reconheceu Menendez y Pelayo. 
Pelo seu lado Amador de los Rios também ob- 
serva: «o dialecto gallaico-lusitano, tradicional- 
mente conservado entre ambos os paizes, escre- 



I Amador de los Rios, Hist. crit. de la Litteratura 
espan., vi, p. 22. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 387 



vem n'esse dialecto Pêro Gonzalez de Mendoza, o 
Arcediago de Toro, Affonso de Villasandino e 
outros tantos, que n'aquella edade (século xiv) 
illustram o parnaso castelhano.» (Hist. litt. esp., 
VI, 2Z.) 

O Cancioneiro de Baena suppre essa falha que 
se determina na litteratura portugueza; acham- 
se alli poetas que floresceram desde 1368, em que 
nasceu Pedro Cruel, até 1406 em que começa o 
reinado de D. Juan 11, que foi, como notou Me- 
nendez y Pelayo, uma florente corte poética. Re- 
presentam esse elemento gallaico, Pêro Gonzalez 
de Mendoza, avô do Marquez de Santillana, que 
conservou a tradição lyrica das Serranillas, o 
chanceller Lopez de Ayala, micer Francisco Im- 
perial, Pêro Ferrús, Garci-Fernandes de Jerena, 
Affonso Alvares de Villasandino. O facto de se 
encontrarem n'este Cancioneiro versos de Vasco 
Pires de Camões respondendo a outros que lhe 
são dirigidos, define bem o espirito de revives- 
cência do génio gallego, n'essas luctas politicas, 
em que Portugal e Galliza se aproximavam. O rei 
D. Fernando, de Portugal, acobertando as suas 
pretenções ao throno de Castella com o pretexto 
de vingar a morte de Pedro Cruel, achou apoio 
em muitas cidades da Galliza, como Ciudad Ro- 
drigo, Ledesma, Alcântara, Valência d'Alcantara, 
Zamora, Tuy, Corufia, Santhiago, Lugo, Orense, 
Padron e Salvaterra. N'esta lucta de ambições, 
D. Fernando mostrou-se menos hábil do que En- 
rique de Trastamara, que chegou a invadir Por- 
tugal. Incapaz de sustentar-se na lucta, o mo- 
narcha portuguez offereceu azylo no seu reino 



30Í5 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

aos fidalgos gallegos que se comprometteram pela 
sua causa. D'esta emigração resultou a vinda de 
Vasco Pires de Camões, o terceiro avô do grande 
épico, para Portugal; vieram outras familias de 
que descendem os poetas Sá de Miranda e An- 
drade Caminha, que brilhando na renascença ita- 
liana não abandonaram as formas da medida ve- 
lha, do lyrismo tradicional. Vasco Pires de Ca- 
mões, tendo-se declarado em 1384 pelo partido de 
D. Fernando, refugiou-se em Portugal, obtendo 
numerosas doações regias, que o faziam considera- 
do como favorito do monarcha, comparando-o n'is- 
to a João de Mena, o poeta favorito de D. Juan 1 1, 
de Castella. O fidalgo Manoel Machado de Aze- 
vedo fallava d'esse favoritismo, dizendo como se 
podia — ser mais medrado, que Camões e João 
de Mena. O Marquez de Santillana, na sua Carta 
ao Condestavel de Portugal, de 1448, depois de 
indicar muitos trovadores portuguezes da eschoía 
provençalesca, aponta os que pertenceram a esta 
phase galleziana : «despues destos venieron Basco 
Perez de Camões e Ferrant Casquicio, é aquel 
gran enamorado Macias,,.)) Mas não era só o 
Marquez de Santillana, que pelas tradições do- 
mesticas conhecia estes monumentos gallaico-por- 
tuguezes; os -trez grandes poetas da corte de 
n. Juan II, João de Mena, Fernan Perez de Gus- 
man e elle próprio, mantinham através da cultura 
castelhana ainda a impressão da poesia gallaico- 
portugueza. João de Mena conserva a endecha, 
a que se chama de gaita gallega, de preferencia 
ao endecasyllabo italiano; Fernão Perez «seguiu 
na sua primeira época a tradição dos trovadores 



PRIMEIRA KPOCA : EDADÊ MÉDIA 389 



gallegos (isto é portuguezes).» i E de Santil- 
lana, escreve o mesmo critico : «Na poesia lyrica 
é grande mestre; por elle se acclima ao parnaso 
castelhano a Serranilha gallega ; se teve predeces- 
sores na sua família, elle os excedeu n'isto, como 
em tudo...» E recapitulando as influencias litte- 
rarias que actuaram na corte castelhana de D. Juan 
ri, aponta antes das formas allegoricas de Dante 
combinadas com reminiscências de Petrarcha, es- 
pecialmente nos Triumphos, — a tradição litte- 
raria dos antigos Cancioneiros gallegos, visivel 
nas Serranilhas, Villancicos, Esparsas, Canções e 
Motes, em geral em todas as poesias ligeiras e 
cantáveis. Isto nos explica o facto de figurarem 
nos Cancioneiros castelhanos do século xv muitos 
poetas portuguezes, achando-se ahi uma coplilha 
do Infante D. Pedro; na bibliotheca do Escurial 
apparece uma traducção de Juan de Cuenca da ver- 
são portugueza da Confissão do Amante ^ do poeta 
inglez João Gower, pelo cónego de Lisboa Rober- 
to Payn. 2 Mas todo este influxo teve de ceder 
diante da florescência do castelhanismo, nas trez 
cortes de D. João 11, Enrique iv, e dos Reis ca- 
tholicos, em que se manifestaram génios prima- 
ciaes, e em que a politica da unificação ibérica era 
a preoccupação dos casamentos régios. 

i.o A influencia castelhano-aragoneza. — 

Quando a poesia provençalesca decahira em Fran- 



1 Antologia, t. v, p: lxv ; p. lxxix. 

2 Ap. Rios, Hist. crit., vi, p. 46, nota. 



390 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUfíZA 

ça, em Tolosa procurou-se sustentar a sua cul- 
tura pela organisação da Sohregaya companhia 
deis sept Trovadores de Tolosa, em 1323; para 
Barcelona, onde era a corte habitual dos Reis 
de Aragão, passaram estas .instituições trobado- 
rescas, que os monarchas protegiam como um 
meio de resistência contra a penetração da lingua 
e poesia castelhanas. Em 1388, o rei de Aragão 
D. João I pediu a Carlos vi de França para os tro- 
vadores tolosanos virem a Barcelona fundar um 
Consistório poético, effectivamente creado em 
1390. Mas o castelhanismo começou em Aragão 
desde o compromisso de Caspe em 141 1, admit- 
tindo como rei um príncipe castelhano, o Infante 
de Antequera (141 6) D. Fernando. O que se con- 
servou dos Provençaes, como observa Menendez 
y Pelayo, era a tradição métrica mais ou menos 
degenerada em mãos dos trovadores do Consis- 
tório. Era preciso vivificar estas formas pela idea- 
lisação allegorica-dantesca. Sob Fernando o Justo 
a eschola trobadoresca teve novo impulso. D. En- 
rique de Villena, que foi director do Consistório, 
traduz a Divina Comedia (1427) e as composições 
em dialecto catalão e valenciano eram applau- 
didas e apreciadas. O Marquez de Santillana elo- 
giava no seu poemeto La Coronacion, os poetas 
lyricos catalães Ausias March e Jordi, intimamente 
italianisados. E' este novo gosto allegorico-dan- 
tesco o que irmana litterariamente com Castella, 
que se torna um centro hegemónico da poesia pe- 
ninsular no século xv. 

O centro da actividade de Castella foi a corte 
de T). João 11 (1407 a 1454) não só pelas altas 



PRIMEIRA época: IÍDADE MEDIA 39I 

individualidades que floresceram n'ella, mas pela 
própria personalidade do rei, que recebera uma 
excellente cultura litteraria dirigida pelo chan- 
celler Pablo de Santa Maria, e além da Moral phi- 
losophica, lingua latina, e arte oratória e poéti- 
ca, segundo o testemunho de Mossen Diego de 
Valera, sabia musica, cantava e tocava, ouvia com 
agrado Dizeres rimados e apreciava a historia, 
como o revelou o celebrado poeta Hernan Perez 
de Gusman. i Apezar das grandes luctas dos In- 
fantes de Aragão, e do seu privado D. Álvaro de 
Luna, esse esplendor litterario' tornou essa época 
a mais gloriosa da lingua e da litteratura caste- 
lhana, vindo a produzir os seus effeitos politicos 
no tempo dos Reis Catholicos. 

Em Aragão, D. Affonso v, primo de D." Juari 
II, assim como seu irmão rei da Navarra, rece- 
beram não menos esmerada cultura, competindo 
com o centro castelhano. D. Affonso v, no seu 
governo de Itália, cercou-se de todos os gran- 
des hum.anistas, que preparavam a Renascença. O 
que se passava na região central da Hespanha 
(Castella) e com egual fervor na região orien- 
tal (Aragão), reflectiu-se inevitavelmente em 
Portugal, pela sua dupla influencia. Pelo receio 
da absorpção castelhana, que levara os poetas ara- 
gonezes a sustentarem em composições littera- 
rias a sua lingua nacional, também depois da vi- 
ctoria de Aljubarrota (1385) os portuguezes afas- 
taram-se politica e litterariamente de Castella. O 



I Menendez y Pelayo, Antologia, v, p jcxv. 



392 HISTORIA DA LITTERAXURA PORTUGUEZA 

rei D. Duarte casa com D. Leonor, filha de 
D. Fernando de Antequera, rei de Aragão; para 
sua mulher escreveu a sua encyclopedia moral do 
Leal Conselheiro, e na sua Livraria existiam um 
exemplar de Valério Máximo em aragoez, uma 
Historia de Troya per aragoez, e a seu filho 
D. Fernando dedicou Martorell a novella de Ti- 
rant il Blanch. O Infante D. Pedro, duque de 
Coimbra, casou com D. Isabel, primogénita de 
D. Jayme o Desditoso, ultimo Conde de Urgel, 
que segundo Belaguer, também cultivava a Gaya 
sciencia. Como principal herdeiro dos direitos 
do Conde de Urgel, o Condestavel D. Pedro 
de Portugal, acceitou a coroa de Aragão, offe- 
recida por uma deputação catalã, em 1464. Na 
celebre carta-Proemio, que lhe dirigiu o Marquez 
de Santillana, citava com louvor os poetas ara- 
gonezes, como «grandes officiaes d'esta arte, 
como Jorde de Sant Jordi, e Ausias March, gran- 
de trovador e homem de assas elevado espirito.» 
O Condestavel de Portugal conheceu esta poesia 
aragoneza que revivificara a tradição da métrica 
provençal com o subjectivismo italiano, e d'ella 
recebeu a expressão allegorica que tão bem se 
quadrava corh a sua melancholica sentimentali- 
dade. No Cancioneiro geral de Garcia de Resen-' 
de, apezar do seu extremo castelhanismo, appa- 
recem por vezes as allegorias amorosas do gosto 
aragonez. 

A influencia castelhana na poesia portugueza, 
não só pela importância litteraria, como pelos en- 
laces matrimoniaes, tinha de predominar inteira- 
niente. Em quanto o esplendor litterario da Côr- 



PRIMEIRA época: EdadE média 393 

te de D. Juan ii é sustentado pelos talentos su- 
periores de Juan de Mena, Fernan Perez de Gus- 
inan e Marquez de Santillana, Álvaro de Luna 
faz o casamento do rei castelhano com a Infanta 
portugueza D. Isabel, sobrinha do Infante D. Pe- 
dro. 

O mesmo esplendor litterario continua-se na 
corte de Enrique iv, (145 5- 1474) casado com 
D. Joanna, irmã do rei de Portugal D. Af fonso v ; 
é n'este periodo que brilham os lyricos gallegos 
Juan Rodriguez dei Padron e Macias el Enamo- 
rado, que tanto são memorados pelos poetas pala- 
cianos portuguezes. Dado o conflicto transitório 
(lo roubo dos direitos de successão de D. Joanna 
(a Beltraneja) por sua tia Isabel de Castella, fo- 
ram tão intimas depois as relações da Corte dos 
Reis Catholicos (1474 a 1504), que D. João 11 
de Portugal casou o príncipe herdeiro D. Af fonso 
com uma filha de Fernando e Isabel, tendo em 
vista a futura incorporação ibérica a que falta esta 
parte da Hespanha Occidental. N'esta época lit- 
teraria dos Reis Catholicos, em que o appareci- 
mento do Amadis de Gaula symbolisa a absorpção 
castelhana, brilham Gomes Manrique e seu sobri- 
nho Jorge Manrique, e Garci Sanchez de Badajoz 
accende esse fogo da paixão amorosa que se pro- 
paga em Portugal a Bernardim Ribeiro, e Juan 
dei Encina acorda o génio dramático de Gil 
Vicente. 

Para chegar á clareza d'estas trez phases cas- 
telhanas, foi preciso que os eruditos hespanhoes 
Amador de los Rios e Menendez y Pelayo des- 
embrulhassem dos anachronismos dos vastos Can- 



394 HISTORIA DA l^lTTERATURA PORTUGUEZA 



cioneiros maniiscriptos do século xv o fio condu- 
ctor que nos dá o encadeamento histórico. N'este 
periodo do século xv, ou dos Poetas palacianos, 
a influencia castelhana mascara com o gosto da 
imitação da poesia esta penetração que se estava 
exercendo pelas relações politicas que deram o 
êxito ambicionado pela Casa de Áustria. 

Entre a Itália do século xiv, em que brilha a 
eschola toscana, e a Hespanha do século xv, em 
que floresce o lyrismo castelhano, ha uma verda- 
deira similaridade de condições do meio social ; 
esclarece-a a sympathia pela obra de Dante. Gi- 
del, no seu estudo Os Trovadores c Petrarcha, 
notou: «A Itália sugeita a ávidos conquistado- 
res; a ardentes inimigos destmindo a sua liber- 
dade; a crimes e a acções heróicas; no esforço de 
cidades para fundarem uma independência glo- 
riosa ; as artes nascendo no meio das conflagra- 
ções politicas, taes foram os grandes trabalhos 
com que foi ferida a imaginação do poeta.» (p. 
83.) Ainda n'este meio em que vibrava a con- 
sciência nacional, Dante apontava os trovadores 
(jue eram dignos de serem imitados, Bertrand de 
Born para as Canções marciaes, Arnaldo Da- 
niello para as Canções de amor, e Giraud de 
Borneilh para os encómios da virtude. 

Em Castella as perturbações sociaes não fo- 
ram menos profundas e calamitosas no século xv : 
é n'esse fragor de traições de fidalgos, de insur- 
reição de ])otentados senhoraes, de conflictos de fa- 
milias dynasticas, que se cria a bella poesia clás- 
sica de Castella, e a litteratura, que se tornou o 
titulo glorioso d'essa época. Antigos trovadores 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 395 



italianos como Sordello, de Mantua, e Bonifácio 
Calvo, de Génova, frequentaram as cortes de Ara- 
gão e Castella, deixando aqui esses germens que 
determinaram nas duas dôrtes o interesse pela 
obra de Dante e dos Fieis de Amor. Em Cas- 
tella, que se tornava um centro de preponderância 
politica, a nova poesia italiana era communicada 
pelas traducções e imitações dos poetas aragone- 
zes, e por directas relações dos seus homens cultos 
com a Itália. Teve Castella, no meio das prolon- 
gadas perturbações do reinado de D. Juan ii, 
poetas primaciaes como Juan de Mena, Hernan 
Perez de Gusman e o Marquez de Santillana, que, 
continuando a antiga influenda gallaico-portugue- 
za, souberam vivificar as esgotadas formas tro- 
badorescas com a belleza litteraria suscitada i>elo 
conhecimento das creaçÕes do génio italiano. João 
de Mena foi ò chefe prestigioso d'esta reforma 
poética, no seu Lahyrintho , ou as Trezentas ou- 
tavas de synthese histórica e moral ; elle mesmo 
traduz do latim a Ilíada. Diz Menendez y Pe- 
layo: «Com João de Mena compartilha o Mar- 
quez de Santillana o primado da Eschola allego- 
rica derivada de Dante, e naturalisada em Cas- 
tella por Micer Francisco Imperial.» (Ant., v, 
p. Lxxx.) «Foi um grande discipulo dos Italianos 
o Marquez de Santillana, e um dos mais quali- 
ficados precursores de Boscan.» Elle introduzia 
o metro endecasyllabo, como o reconheceu pri- 
meiramente Hernando de Herrera. Os quarenta 
e dois Sonetos que escreveu o Marquez de San- 
tillana são como elle mesmo indica ai modo ita- 
liano; e na Dedicatória confessa a origem: «Esta 



396 HISTORIA DA LITT^RATURA PORTUGUEZA 

arte falló primeramente en Itália Guydo Caval- 
gante, é después usaron d'ella Checo d'Ascoli é 
Dante, é iniicho mas que todos Francisco Pe- 
trarca, poeta laureado.» Como observa Menendez 
y Pelayo: «Não tinha chegado a Castella a época 
da dominação poética de Petrarcha; mas em com- 
pensação, o Petrarcha humanista e moralista era 
um dos auctores mais lidos e mais frequente- 
mente allegados.» (Ib., v, p. viv.) E definindo 
as influencias que actuaram na litteratura caste- 
lhana do século XV, depois das tradições do lyrismo 
dos Cancioneiros galaico-portuguezes, mostra o 
citado critico como prevaleceu a forma allegorica 
de Dante combinada por vezes com reminiscên- 
cias de Petrarcha, especialmente nos Triumphos, 
e de algum outro, poeta italiano...» (Ih., xxij.) 
E' também forte o influxo de Boccacio, tradu- 
zido integralmente em castelhano, destacando-se o 
poema de Fiamcta que dá origem ás Novellas sen- 
timentaes,' do Siervo libre de Amor, do apaixonado 
João Rodriguez dei Padron, que tanto encantou 
na corte de Enrique iv, e C areei de Amor de Die- 
go de San Pedro. Recebem a cultura italiana 
além do Marquez de Villena, Juan de Lucena, 
Alonso de Palencia, Pedro Dias de Toledo, Car- 
deal Mendoza; Juan dei Encina assistira em Ro- 
ma, onde esteve também João de Mena, sendo no 
seu regresso nomeado secretario das cartas la- 
tinas. 

O conhecimento da poesia castelhana em Por- 
tugal no século xv foi introduzido pelo Infante 
D. Pedro, amigo e admirador de João de Mena : 
seu filho o Condestavel D. Pedro também me- 



PRIMEIRA época: EdadE média 397 



receu a amisade do Marquez de Santillana a quem 
pediu as suas obras poéticas. Se não fossem as 
grandes desgraças que cahiram sobre a familia 
do Infante D. Pedro, esta iniciação litteraria 
teria tornado mais fecundo este periodo dos Poe- 
tas palacianos. 

O Infante D. Pedro, que acompanhou seu pae 
na tomada de Ceuta, em 21 de Agosto de 141 5, 
foi no começo do anno seguinte feito Duque de 
Coimbra, emprehendendo depois as suas viagens 
longinquas e demoradas por vários paizes da Eu- 
ropa. No livro da Tragedia da insigne Rainha 
Dona Isabel, allude o Condestavel seu filho a esse 
cyclo de Viagens d' «aquel que passando la grande 
Bretanha y las galicas e germânicas regiones a 
las de Hiigria, de Bohemia e de Boria partes per- 
^^ino, guerreando contra los exércitos dei grand 
Turco por tiempo estuvo, e retornando por la 
maravilhosa çibdat de Venecia, venido a las 
ytalicas e esperias provincias, escodrinó é vido las 
insignes é magnificas cosas, e llegando a la çibdat 
de Querino tanjó las relíquias respeitando honor 
é grandíssimas glorias de todos los princepes e 
reynos que vido.» i Não allude o Condestavel 
f^. Pedro ás viagens de seu pae ao Oriente, 
Jerusalém, Cortes do Soldão de Babylonia; foram 
apontadas na tradição que se idealisou sob o ti- 
tulo das Sete Partidas do Infante D. Pedro, vul- 
garisada no folheto de cordel attribuido a Gomes 
de Santo Estôvam. No século xvii D. Francisco 



I Ed. D. Carolina Michaèlis, p. 57, Madrid, 1899. 



398 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



Manoel de Mello faz uma referencia jocosa ás 
Sete Partidas, e Gongora pelo seu lado escreve 
no mesmo espirito : 

os envio ese inventario 
de las partidas que os debo; 
que es como se os enviara 
las dei Infante Don Pedro. 

Quando o Infante D. Pedro regressou a Por- 
tugal, esteve na corte de D. João ii, onde tomou 
amisade com João de Mena, que em umas copla- 
allude ás suas viagens de estudo : 

Nunca fué despues ni ante 
quyen vyesse los atavios, 
e secretos de Levante, 
sus montes, insuas y ryos, 
sus calores y sus frios, 
como vós, seiíor Ifante. 

(Canc. geral, t. ii, 72.) 

Na sua passagem por Veneza a Senhoria offe- 
receu-lhe a co])ia das Viagens de Marco Polo, que 
em Portugal muito suscitaram a empreza dos 
Descobrimentos geographicos. Quando se achava 
em Bruges escreveu a seu irmão D. Duarte em 
1428, aconselhando certas reformas na Universi- 
dade de Lisboa, á qual convinha agregar Colle- 
gios, como se usava em Paris e Oxonia. Era ani- 
mado do espirito da erudição humanista e mora- 
lista do século XV, cultivando também a poesia, 
e são d'elle apenas conhecidas as coplas que en- 
viou a João de Mena, chronista do rei D. João 11, 
(de 1429 a 1445) chamando-lhe acoronysfn 
abastante.» Pelo seu lado, João de Mena allude 
ás suas funcções soberanas de Regente do reino 



PRIMEIRA época: Edade media 399 



na menoridade do seu sobrinho D. Affonso v 
(1440): «por serdes byen regido — dios vos fizo 
su regente.}} O Duque de Bragança, seu irmão 
bastardo que elle dignificara, tomou-lhe um ódio 
mortal depois que as Cortes de 1441 auctorisaram 
os esponsaes de D. Isabel, filha do Infante, com 
seu primo o rei D. Affonso v : esse ódio tornou- 
se uma complicada intriga que determinou o assas- 
sinato do Infante D. Pedro em 20 de Maio de 
1449, quando vinha justificar-se perante o mo- 
narcha. Um poeta do Cancioneiro de Resende, 
Luiz de Azevedo, em uma Elegia em nome. do 
illustre princepe, conta este lance quasi parricidio : 

Eu andei por muitas partes 
e por muitas boas terras, 
muita paz e também guerras 
vi tratar por muitas artes. 
Mas aquelle dia martes 
foi infeliz para mim ; 
o meu sangue me deu fim 
e rompeu meus estandartes. 

Dom Affonso v decretou perseguições até ao 
quarto gráo a todos aquelles que acompanharam 
seu tio o Infante D. Pedro; é crivei que isto 
actuasse no desapparecimento das suas obras poé- 
ticas. A esta phase das relações litterarias com a 
corte de D. João 11 de Castella, sob o influxo do 
Infante D. Pedro, podemos attribuir varias tra- 
ducções para portuguez de poetas castelhanos. 
Na Bibliotheca do rei D. Duarte guardava-se 
um exemplar das composições do Arcipreste d'' 
Hita; e na bibliotheca municipal do Porto guar- 
da-se uma folha avulsa de pergaminho com de- 



400 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



zoito coplas escriptas a duas columnas, em que 
as quadras castelhanas em endechas estão redu- 
zidas a outavas em redondilha. Esse fragmento, 
em portuguez, corresponde ás estrophes 90 a 93, 
95 a 100, e 113 a 120 dos exemplares do Arci- 
preste de Hita. 

De Hernan Perez de Gusman, publicou Frei 
Fortunato de Sam Boaventura (attribuindo-as ao 
Dr. Frei João Claro, da Universidade de Lisboa) 
a versão do Te Deum laudamus e as paraphrases 
de Padre nosso e Ave-Maria^ que no Cancionero 
general de Castillo vem em nome do illustre pró- 
cere castelhano. Nos Inéditos de Caminha, vem 
em nome de Ayres Telles de Menezes fragmen- 
tos vertidos de uma Canção do Marquez de San- 
tillana, que iniciava o joven Condestavel de Por- 
tugal no conhecimento histórico das differentes 
escholas poéticas peninsulares. 

D. Pedro de Portugal, filho do Infante D. Pe- 
dro, nasceu em 1429; foi nomeado Condesta- 
vel em 1443, sob a regência de seu pae, do que 
se originou o ódio implacável do duque de Bra- 
gança, que pretendia que esse cargo fosse here- 
ditário na sua familia por ter casado com uma 
filha de D. Nuno Alvares Pereira. Aos dezeseis 
annos foi commandar uma expedição de dois mil 
infantes e seiscentos cavallos, a Castella, em 1445, 
em auxilio de D. Álvaro de Luna, contra os In- 
fantes de Aragão; esteve na batalha de Olmedo, 
onde conheceu pessoalmente o Marquez de San- 
tillana, ao qual mandou pedir, em 1449, a colle- 
cção das suas obras Cancioncs é Decires. O Mar- 
quez enviou-as para Portugal, com um Proemio 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 4OI 



OU Carta do mais alto valor histórico. Por esta ' 
época da expedição, o Regente contractou o ca- 
samento de D. Isabel, sua sobrinha, com o rei 
D. João 1 1 de Castella, pensando assim abrandar 
o ódio do Bragança que pretendia casar esta sua 
neta com o joven rei D. Affonso v. A estes fa- 
ctos allude o Condestavel D. Pedro na Tragedia 
da insigne Rainha, f aliando de seu pae: «Aquel 
que ai rey Johan de Castella sostuvo la real co- 
rona en la cabeça e la moneda de Portugal en los 
exércitos por el embiados, de los quales tã fuerte 
duque e conductor, hizo tomar a los Castellanos 
ai precio de la própria tierra e casou a la reyna 
dona Ysabel sii sobrina con el rey Don Johan de 
Castella e a su íija con el rey de Portugal.» (p. 
58. Ed. Mich.) Esta rainha, que deveu o seu 
casamento á influencia de D. Álvaro de Luna, 
actuou fortemente na perda do seu favoritismo e 
ruina. D'ella escreveu o Marquez de Santillana: 

Dios vos fizo sin enmienda, 
De gentil persona é cara, 
E somando su contienda, 
Qual Gioto no vos pintara. 

O Condestavel D. Pedro, durante a Regên- 
cia de seu pae, vivia nos seus castellos de Elvas e 
Marvão, no Mestrado de Christo, entregue aos 
seus estudos litterarios. Teve repentinamente em 
Março de 1449 de abandonar Portugal, pelo de- 
sastre de Alfarrol>eira, onde foi assasinado seu 
pcie pela parcialidade do duque de Bragança e do 
Conde de Barcellos. D. Affonso v, seu primo, 
destituiu-o de todos os seus cargos, entregando o 

26 



402 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mestrado de Christo ao Infante D. Henrique. 
Nas prosas da Tragedia da insigne Rainha, al- 
lude á situação do Regente : «Aquel que con tanta 
reverencia e lealtad, con tanto acatamiento, con 
tanta humanidat despues de puesto las sus manos 
próprias ai su pequeíio rey Alfonso en la real silla, 
por nove aííos lo crio, en tanta alteza, entre tan- 
tas e buenas doctrinas... (p. 58.) Aquel que ré- 
gio los reynos de los Portuguezes por tanto tiem- 
po con tanta sabieza, con tanta justiçia e clemên- 
cia.» Tudo isto foi pago pela execranda embos- 
cada de Alfarrobeira, a que succedeu o requinte 
da lei malvada de 10 de Outubro de 1449, P^^" 
seguindo até á quarta geração aquelles que acom- 
panhavam o Infante. Toda a sua familia foi des- 
membrada. Durante os nove annos de desterro 
o Condestavel de Portugal procurou consolação 
das desgraças de seus irmãos, escrevendo varias 
composiçõ-ís poéticas, que traduzia para caste- 
lhano seguindo o gosto allegorico, imitando o La- 
byrinto de Juan de Mena e a Comedicta de Ponza 
do Marquez de Santillana. A sua irmã, a rainha 
D. Isabel, esposa de D. Affonso v, dirigiu a com- 
posição allegorica intitulada Safira de felice e in~ 
felice vida, que declara, na carta que serve de de- 
dicatória ser «el primero fructo de seus estúdios.» 
Fora primeiramente escripta em portuguez, mas 
durante o desterro traduziu-a para castelhano 
«mas costrenido de la necessidad que de la vo- 
luntad.» D'esta obra, guardada na Bibliotheca na- 
cional de Madrid, deu extensa noticia Amador de 
los Rios, e Octávio de Toledo, achando-se hoje 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 40^ 

publicada por Paz y Melia. ^ Por 1457 escreveu 
outra composição allegorica entremeiada de prosa 
e verso, Tragedia de la insigne Rainha D. Isabel, 
dirigida a seu irmão D. Jayme, que morreu em 
Florença, sendo Cardeal-Bispo de Pafos em 1457. 
Esta obra existe actualmente publicada e com- 
mentada pela sapiente romanista D. Carolina Mi- 
chaèlis. 2 Foi ainda do seu desterro de Castella, 
quando a rainha D. Isabel, sua irmã, procurava 
reconcilial-o com D. Affonso v, que elle dirigiu 
ao monarcha, seu cunhado, as Outavas castelha- 
nas Del mcnosprecio é contempto de las cosas for- 
mosas dei mundo. Na dedicatória diz ao rei : 
«que con graciosos e amigables oios tu leas los 
mil versos mios acompanados de algunas glosas: 
los quales yo caminando por deportar é passar 
tiempo a la feria pasada de Medina, en mi viaje 
hove la introduçion e la invencion dellos feria- 
do...» No Catalogo da Bibliotheca do Condes- 
tavel de Portugal, publicado por Belaguer, y Me- 
rino, n.o 82, vem indicado um livro — «intitulat 
en la cuberta, ab letres dor. Safira de contento 
dei mundo: reservat en un stoig de cuyre forrat 
de drap negre.» Estas cento e vinte e cinco ou- 
tavas foram duas vezes impressas no fim do sé- 
culo XV, sem data, apparecendo nos exemplares 



1 Bibliófilos Espaiioles, vol. xxix: Opúsculos lite- 
rários de los Siglos XIV a xv. 

2 Na Homenage á Mencndes y Pelayo en el ano vi- 
gésimo de su professorado, com uma introducção : Uma 
obra inédita do Condestavel D. Pedro de Portugal. Ma- 
drid, 1899. 



404 HISTORIA DA I.ITTERATURA FORTUGUEZA 



vistos por José Soares da Silva e por Hain, ru- 
bricas manuscriptas, dando-as como impressas 
aseis annos depois que foi achada em Basiléa a 
Arte da impressão» e anove annos depois de in- 
ventada a famosa Arte.» Quando Garcia de Re- 
sende no primeiro quinquennio do século xvi, pu- 
blicou o seu Cancioneiro geral, n'elle incorporou 
estas Outavas, attribuindo-as ao Infante D. Pe- 
dro, e supprimindo-lhe os commentos em prosa, 
em que se revela o verdadeiro auctor. Esta errada 
attribuição prevaleceu na litteratura ; e Amador 
de los Rios justificava-a por uma referencia iso- 
lada mostrando que ahi era chamado D. Álvaro de 
Luna cl Maestre, Senor (FEsaclona, sendo-lhe 
dado este titulo em 1445, depois da morte do In- 
fante I). Enrique pelos ferimentos da batalha 
de Olmedo. (Hist., vii, 75.) Mas em seguida a 
esta allusão, o poeta falia na morte desgraçada de 
D. Álvaro de Luna em 1453: 

Mirad el Maestre si vivio penando 
Mirad liiego juncto su acahamicnto. 

(Est. 12.) 

Por este facto o critico Octávio de Toledo poz 
em evidencia que o Infante D. Pedro, morto em 
1449, "ão podia ser o auctor das estancias em que 
se commemorava um acontecimento de 1453. Os 
commentos em prosa authenticam a composição do 
Condestavel de Portugal escripta nas formas ge- 
neralisadas por Juan de Mena, e seguindo-lhe o 
mesmo espirito da historia. D. Affonso v res- 
tituiu ao Condestavel D. Pedro o seu mestrado de 
Christo, e este acompanhou-o á exp>edição afri- 



PRIMEIRA época: edadE média 405 

cana, achando-se com o rei em Ceuta em 1463. 
Novas fatalidades surgiam, para lhe atormentar 
a sua existência contemplativa. Falecido em 1463 
o Principe D. Carlos de Viana, também como 
elle grande apaixonado da litteratura, foi-lhe of fe- 
recido por uma deputação de Catalães o Princi- 
pado e Coroa de Aragão. O Condestavel acceitou, 
partindo logo para Barcelona, vendo-se immedia- 
tamente empenhado na lucta que lhe promovia o 
Princepe Fernando, sendo vencido em Prados 
d 'El rey. Refugiou-se na Catalunha, falecendo 
em 1469 em Granallers, com quarenta annos de 
edade. A 'sua livraria (de 96 volumes) continha 
obras clássicas, poemas italianos e francezes e tra- 
tados de moralistas. Era um dos mais illustres 
espi ritos do seu século. 

O desenvolvimento da poesia palaciana seria 
um facto inexplicável, se a creação definitiva do po- 
der monarchico não reduzisse a aristocracia a uma 
posição subalterna e parasita. Deu-se este phe- 
nomeno social no typo da Monarchia francçza, 
que prevaleceu em Hespanha e Portugal. Depois 
cie atacada a nobreza no seu foro, primeiramente 
l>elo estabelecimento dos Livros de Linhagens, em 
seguida pela adoi>ção de um Código ou Ordena- 
ção commum; atacada na sua parte vital a pro- 
priedade pela revogabilidade das doações regias, 
pela necessidade das confirmações geraes, e ainda 
por essa ficção romana, a emphytense ; reduzida í 
inactividade por ter acabado a reconquista sobre 
o poder mussulmano; e privada da acção indivi- 
dual por que a sua justiça arbitraria tomara um 
caracter abstracto na instituição do Ministério pA- 



406 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



blico, n'estas condições em que se occuparia a No- 
breza? Esgotada nas revoltas contra o poder real 
ou luctando pelo favoritismo, acercou-se do rei, 
fez-se palaciana, inventou festas, torneios, divi- 
sas, brazões, e para encher os ócios tediosos dos 
serões do paço fez-se também poeta. 

O Coudel-mór, dando instrucções a um sobri- 
nho para tratar o paço, recommenda-lhe : aApu- 
par alto lhe rima... E é bom ser rifador...» 
Passava-se este phenomeno nas cortes peninsu- 
lares; nas cortes de D. João ii, de Castella, de 
Enrique iv e na dos Reis catholicos floresceram 
os grandes fidalgos e grandes poetas, como os 
Marquezes de Vilhena e de Santillana, Hernan 
Perez de Gusman, os dois Manriques. Em Por- 
tugal, nas cortes de D. Affonso v e D. João ii, 
agrupam-se o Coudel-mór Fernão da Silveira, o 
Conde de Marialva, Álvaro de Brito, D. João 
de Menezes. As duas cortes aproximando-se pe- 
los casamentos reaes, poetas portuguezes figuram 
com numerosas composições nos Cancioneiros cas- 
telhanos, e um grande numero d'elles escreve em 
castelhano os seus versos. A poesia palaciana, 
aparte algumas composições allegoricas de um me- 
lancholico idealismo, tornou-se exclusivamente pes- 
soal, anecdotica e satirica, procurando, pela erudi- 
ção, o uso da mythologia clássica para dar algum 
colorido ás apagadas expressões convencionaes. 
Este género de poesia, tanto em Hespanha como 
em Portugal, deu logar á formação dos numero- 
sos Cancioneiros manuscriptos, sendo os princi- 
paes o de Ixar, de Stuniga, o Palatino, o de Gallar- 
do e o da Bibliotheca de Paris, vindo o de Hernan 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 4O7 



de Castillo por via da impressão a influir no tra- 
balho de Garcia de Resende do Cancioneiro geral 
portuguez, publicado em 15 16. 

2.0 Formação do Cancioneiro geral. — 

Quando Garcia de Resende começou a colligir 
as poesias da fidalguia portugueza do século xv, 
escrevia, como justificação do seu trabalho: «muy- 
tas cousas de folguar e gentylezas ssam perdidas 
ssem aver d'elas noticia. E sse as que ssam per- 
didas dos nossos passados se poderam aver, e dos 
presentes s'escreveram, creo que esses grandes poe- 
tas, que per tantas partes ssam espalhados, nam 
teveram tanta fama como tem.» Referia-se, como 
homem erudito, á poesia castelhana, italiana e 
franceza, cujos exemplares enriqueceram as livra- 
rias de D. Duarte, do Condestavel D. Pedro c 
de D. Affonso v. Resende accusa essa grande 
fácula na litteratura portugueza na transição do 
século XIV para o xv. Os desastres da invasão 
castelhana sob D. Fernando, a que succedeu, sob 
D. João I, o triumpho de Aljubarrota, a empreza 
guerreira no norte da Africa iniciada pela con- 
quista de Ceuta, as desgraças da corte do rei 
D. Duarte, que não pôde libertar seu irmão 
D. Fernando morto no cativeiro em Fez, o 
assassinato do Infante D. Pedro, em Alfarrobeira, 
e a morte mysteriosa de seus filhos D. Isabel, 
esposa de D. Affonso v, e D. João, rei de Chy- 
pre; a perseguição contra o Condestavel D. Pe- 
dro, e contra seu irmão D. Jayme, dão-nos um 
quadro bem sombrio para fundamentar o descui- 



408 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

cio por essas muytas cousas de folgiiar e gcnty- 
Iczas, a cuja perda allude Resende. 

Para emprehender a compilação do Cancio- 
neiro geral achava-se Garcia de Resende em uma 
situação privilegiada; entrara muito criança para 
moço da camará de D. João ii, que começou a 
reinar em 1481. Brilhava a poesia palaciana na 
corte dos reis catholicos; a grande importância 
que elle via dar no paço á poesia, que formava a 
parte mais interessante dos seroes, levou Garcia 
de Resende a cultivar também a poesia e a sa- 
bel-a julgar. O seu talento de musico e dese- 
nhador deu-lhe a sympathia do monarcha. D. João 
1 1 confessara-lhe que a ]X)esia era uma singular 
manha. Na chronica de D. João 11, descreve elle 
este quadro intimo: «E estando uma noite na 
cama já despejado, me perguntou se sabia as 
trovas de Jorge Manrique, que começam: Rc- 
cucfd el alma dormida, etc, e eu lhe disse, que 
sim; fez-m'as dizer de cór, e. 'depois de ditas 
me ^ disse que folgava muito de m'as vêr saber, 
e que tão necessário era em um homem sabel-as. 
como saber o Pater nostcr, e gabou muito o 
trovar de singular manha, e isto ix>r (jue eu hz 
vontade de o aprender e fazer saber.» (Cap. cc. ) 
Com um caracter jovial fleugmatico, com que res- 
pondia aos apodos contra a sua obesidade, esti- 
mado pelo monarcha que apreciava as suas va- 
riadas prendas, tudo o collocava em condições 
para obter os pequenos Cancioneiros particulares, 
os cadernos ou rolos de coplas avulsas, e consti- 
tuir com elles um grande Cancioneiro geral. Al- 
guns fidalgos, como Jorge de Vasconcellos, pro- 



PRIMEIRA época: KDADE MEDIA 409 

vedor dos Armazéns, excusavam-se, não podendo 
a final resistir á sua insistência ; ou como o Abbade 
d'Alcobaça, a quem enviara um emissário. 

A collecção portugueza, que encerra compo- 
sições de trezentos e cincoenta e um fidalgos, foi 
iormada ao acaso, sem ordem chronologica, nem 
de géneros poéticos, salvo a parte final reservada 
a Cousas de folgar. Pôde comtudo estabelecer-se 
uma coordenação, localisando pelos Livros das 
Moradias os poetas palacianos que pertenceram 
ás oôrtes de D. Affonso v, D. João ii e que 
ainda figuraram na corte de D. Manoel. Os 
nobiliários manuscriptos também esclarecem os 
elementos biographicos d'esses fidalgos e as suas 
frequentes homonymias. Importante para o co- 
nhecimento da vida intima da corte, o Cancio- 
neiro tem alto valor pelas referencias históricas 
d'esta laboriosa época da transformação social que 
se inicia. 

Provavelmente determinou esta coUeccionação 
o certame poético que se deu na corte entre vá- 
rios poetas que debatiam a questão subjectiva do 
Ciiydar e o Suspirar, em 1483. A estima que Re- 
sende encontrava em D. João 11, fez com que 
pudesse alcançar da Livraria de D. Affonso v, 
ou de D. Philippa de Lencastre as ix>ucas obras 
que restavam do Infante D. Pedro, seu pae, e 
do Condestavel de Portugal, seu irmão. Descre- 
vem-se n'essas composições os grandes successos 
do tempo, taes como as festas da Imperatriz, por 
occasião do casamento da Infanta D. Leonor com 
o Imperador da Allemanha em 1451; os ricos 
Momos que o Infante D. Fernando fez então; 



410 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

descobre-se ahi o regresso do Condestavel D. Pe- 
dro á corte de D. Af fonso v em 1464, nos versos 
do Coudel-mór «a el Rei Dom Pedro, que che- 
gando á corte se mostrou servidor d'uma senhora 
a quem elle servia.)) ^ Alludem também á desco- 
berta da Mina em 1459 e á batalha de Toro em 
1474; ás celebres Cortes de Monte-mór em 1477; 
á morte de D. Af fonso v em 148 1, e á morte do 
Duque de Bragança executado em 1483 : amas 
isto veo no tempo da morte do Duque-)) N'este 
anno se fez o certame do Cuydar e Suspirar, imi- 
tando as Cortes de Amor. Em uns versos refere 
Pêro de Sousa Ribeiro a grande festa de 1490: 
aquando el rei nosso senhor veo de Santyago, que 
fez o singidar Momo de Santos...)) O torneio e 
as Divisas por occasiao do casamento do prin- 
cepe D. Affonso com uma filha de Fernando e 
Isabel, em 1491, e a lamentação de Álvaro de 
Brito pela sua morte desastrosa; o enterro e tras- 
ladação de D. João n em 1495, tudo alli pulsa 
na corda plangente ou chistosa, fazendo do Can- 
cioneiro geral um verdadeiro monumento da vida 
moral da sociedade aristocrática portugueza, no 
século XV. Já n'este Cancioneiro figura Mestre 
Gil Vicente, (Mestre, titulo do graduado em Ar- 
tes) que entrou no paço como mestre de Rheto- 
rica de D. Manoel. E como na historia tudo 
é evolutivo, os Momos, Crisaufos, Bntremeses e 
Dansas de retorta, da corte de D. João n, tudo 



I São os versos d'este rei D. Pedro (de Aragão) os 
que se attribuiram irreflectidamente ao amante de D. Ignez 
de Castro. 



PRIMEIRA época: EDADE MEDIA 4II 

vem integrar-se no génio dramático de Gil Vi- 
cente, como as recordações dos f aliados Serões d' 
Portugal acordaram o génio lyrico de Sá de Mi- 
randa e de Bernardim Ribeiro. 

Considerado como obra de litteratura, o Can- 
cioneiro é essencialmente lyrico, de ordinário sa- 
tirico nos improvisos provocados nos accidentes 
dos serões do paço. Empregam-se as Voltas , Vil- 
lancetes, Esparsas, Apodos, Canções e Endechas; 
nas composições elegiacas emprega-se a forma es- 
trophica das celebres Coplas de Jorge Manrique. 
Ha no Cancioneiro Poemetos narrativos ou hii- 
toricos, endecasyllabos ou endechas, á morte do 
Princepe D. Affonso, e de D. João ii, e á to- 
mada de Azamor. Eram puras imitações da for- 
ma das Trezentas de João de Mena, constituindo 
um género usado também por Santillana sob ti- 
tulo de Lamentações. Os versos de Garcia de 
Resende em forma de Romance á morte de 
D. Ignez de Castro, são tão bellos, que se não 
existisse o episodio dos Lusíadas, seriam a expres- 
são artistica d'essa grandiosa tradição affectiva. 
Da forma dramática contém apenas um rápido es- 
boço no Momo do Anjo, feito pelo Conde de Vi- 
mioso, quando namorado. A maior parte das 
composições do Cancioneiro eram improvisos so- 
bre qualquer pretexto para animar os Serões do 
paço: um poeta propunha um thema em forma de 
Pergunta, sobre qualquer descuido de uma da- 
ma, qualquer trajo menos galante de um caval- 
leiro, como aconteceu com as ceroulas do chama- 
lote de Manoel de Noronha, ou com a gangorra 
de solya. ou com os pombos que uma dama atirou 



412 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



(le unia janella ; os poetas que entravam no Apodo 
vinham em Ajuda, e destacavam-se em duas par- 
cialidades, atacando e defendendo ás vezes em 
serões successivos. Outras vezes tomava a feição 
de um processo forense simulado, em que a pró- 
pria rainha D. Leonor vinha dar a sentença, como 
succedeu com o apodo feito a Vasco Abul. , Re- 
sende também foi alvo de enormes cargas satí- 
ricas a que elle próprio deu publicidade e em que 
se íixam alguns traços da sua vida. Esta ordem 
de composições entrou tão profundamente nos 
costumes palacianos, que difíicil foi a introducção 
dos novos metros da Eschola italiana petrarchista, 
no principio .do século xvi, oppondo-se obstina- 
damente ao dolcc stil ntiovo as trovas em redon- 
dilhas ou da medida velha. Também ^oi essa a 
primeira maneira dos grandes poetas quinhentis- 
tas, ensaiando as azas n'esse estylo de Caíicionei- 
ro. Entre aquella alluvião de poetas que metrifi- 
caram ix>r feição aristocrática, alguns se desta- 
caram, representando com altura esta época, como 
Álvaro Barreto, Álvaro de Brito, Fernão Bran- 
dão e Diogo Brandão, Garcia de Resende, e João 
Rodrigues de Sá, que nas suas Heroides, tradu- 
zidas de Ovidio, accentua a tendência erudita do- 
minante. 

Embora a principal actividade ix)etica do sé- 
culo XV esteja colligida no Cancioíieiro geral, 
muitos Cancioneiros particulares existiram, uns 
completamente perdidos e outros no esquecimento 
dos manuscriptos. Além das obras poéticas do 
Condestavel D. Pedro já estudadas, ha a|>enas no- 
ticia do: 



PRIMEIRA Época: edade media 41 > 



a) Lkro das Trovas de Bi Rei D. Duarte. 
— Sabe-se, i>elo Catalogo dos seus Livros de 
uso, achado na Cartuxa de Évora, da exis- 
tência d'este Cancioneiro. O rei D. Duarte sa- 
bia trovar, como a maior parte dos reis peninsa- 
lares, e as suas composições apresentariam pel'i 
seu caracter, uma feição didáctica, moralista, coi i 
imitações dos Trinmphos de Petrarcha, e versões 
dos hymnos ecclesiasticos, como fizera Fernan 
Perez de Gusman. Perdido o Livro das Trovas 
de Bi Rey, podemos fazer ideia da sua aptidão 
poética, pela versão de um hymno ecclesiastico do 
século X feita a pedido da rainha D. Leonor, sua 
mulher: «E por que por vosso requerimento tor- 
nei em linguag-em simplesmente rimada de seis 
pés de um consoante a Oraçon do Justo Juiz Jesu 
Christo, vol-a fiz aqui screver, a (jual pêra 
fazer consoar nom pude compridamente dar sua 
linguag-em, nem a fiz em outra melhor forma por 
concordar com a maneira e tençon que era feita 
em latim.» i Transcrevemos duas estrophes para 
conhecer-se a metrificação do poeta : 



I Leal Conselheiro, p. 477. Diz o editor: ^^Fizemos 
grande diligencia por descobrir esta Oração latina, mas 
com pesar nosso a não pudemos enconseguir; etc.^^ Tive- 
mos nós essa ventura ; é um hymno latino do século x do 
Ms. n." 30 da Academia de Historia de Madrid, publicado 
por Helffrich e de Clermont, no Aperçu de 1'Histore dcs 
Langues Neolathies en Espagne, p. 48. — João de Barros, 
na Compilação de Obras varias, p. 55, traz uma versão em 
prosa. 



414 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Justo Juiz Jesu Christo 
Rey dos Rex e boo Senhor, 
Que com Padre regnas sempre 
Hu he d'ambos hun amor; 
Praza-te de me ouvir, 
Pois me sento peccador. 

Tu, que do ceeo descendiste 
En o ventre virginal, 
Hu tomando logo carne 
Livraste o segre de mal 
Por teu sangue precioso 
De perdiçom eternal... i ^ 

Também existem algumas Oiitavas em ende- 
chas, -na forma castelhana, com Preceitos contra 
a peste. Dominava nas litteraturas o fervor das 
traducções dos poetas gregos, latinos, italianos, 
inglezes e francezes; é de presumir, que a ten- 
dência erudita de D. Duarte o levasse a exercer 
n'este campo a sua j^ericia métrica. Existiriam 
n'esse Livro das Trovas composições lyricas de seu 
irmão o Infante D. Pedro, de que mui pouco resta, 
e que elle tanto admirava. 

b) Cancioneiro portngu:z. — Falia d'este li- 
\r() Gil Vicente, citando composições que se não 
encontram no Cancioneiro geral ; o que leva a in- 
ferir ser uma collecção independente. N'este Can- 
cioneiro escreveu um poeta de Thomar, chamado 
Affonso TvOpes Sampaio, este rifão: 



I Eis a primitiva forma latina: 

Justus judex Jesu Christe, regum rex et domine, 

Qui cum Patre regnas semper, et cum sancto flamine 

Te digneris preces meãs clemente suscipere. 

Qui de ccelis descendisti Virginis in uterum, 

índe summens veram carnem visitasti saeculum, 

Tuum plasma redimendo sanguinem per proprium... 



PRIMEIRA época: EPADE média 415 



Matou-me moura e não mouro, 
E quem m'a lançada deu 
Moura ella e mouro" eu. 

Trovando sobre este versos, traz Gil Vicente 
a rnbrica: «Affonso Lopes Sampaio, christão 
novo que vivia em Thomar, fez um rifão, que an- 
dava no Cancioneiro portugiiez; ao rifão se fize- 
ram muitas trovas e boas. Pediu o Conde do 
Vimioso a Gil Vicente que fizesse também e elle 
fez esta trova.» 

c) Cancioneiro português da Bihliotheca de 
Madrid. — Fez o hespanhol D. José Thoma'!, 
em 1790, descripção d'este códice, contendo: 
«obras burlescas na lingua portugueza, recopiladas 
segundo parece no século decimo quinto. Corr.- 
prehende 96 folhas de folio, e ainda é maior o 
numero dos auctores de poesias n'elle conteúdas, 
as quaes são todas coplas reaes, compostas de duas 
redondilhas de cinco versos cada uma, outra de 
quatro: algumas mixtas; poucos villancicos e re- 
dondilhas de quatro versos com alguns tercetos. 
A maior parte dos versos são dos que chamamos 
de redondilha menor ou de seis syllabas, e se en- 
contra frequentemente o verso quebrado.» Será 
este Cancioneiro esse referido por Gil Vicente. 
Bem merecia ser copiado para a Bibliotheca na- 
cional ou para a Academia real das sciencias. 

d) Cancioneiro do Abbade D. Martinho. — 
Quando Garcia de Resende colligia materiaes 
para o Cancioneiro geral, soube d'esta com- 
pilação e desejou exanimal-a para extractar algu- 
mas composições. Assim o revela Resende em 
uma: «Trova sua a Diogo de Mello, que partia 



4l6 HISTORIA DA I^ITTERATURA PORTUGUEZA 



<ie Alcobaça, e havia-lhe de trazer de lá nm Can- 
cioneiro d 'um Abbade que chamam Frey Mar- 
tinho : 

Decoray pelo caminho 
té chegardes ó Mosteiro, 
qu' hade vir o Cancioneiro 
do Abbade frey Martinho. 

(Can. ger., iii, 634.) 

e) Cancioneiro de D. Francisco Coutinho, 
Conde de Marialva. — No fim do século xvi 
apparece pela primeira vez uma referencia a 
este Cancioneiro, por Frei Bernardo de Brito, a 
propósito da transcripção das trovas ou Canção 
do Figneiral: «E porque em matérias onde faltam 
auctores vale muito a tradição vulgar, e as cousas 
que antigos traziam entre si como authenticas e 
verdadeiras e as ensinavam a seus descendentes 
nos Romances e Cantares que então costumavam, 
porei parte d'aquelle cantar velho que vi escripto 
em um Cancioneiro de mão, que foi de Dom Fran- 
cisco Coutinho, Conde de Marialva, o qual veiu á 
mão de quem o estimava em bem pouco...» (Mo- 
narch. Lusit., f{. 296, 1609.) E accrescenta: n: 
depois ouvi cantar na Beira a lauradores antigos 
com alguma corrupção...)) De facto essa melodia 
foi transcripta no Cancioneiro, d'onde a extrahiu 
em 1855 em Barcelona, D. Marianno Soriano 
Fuertcs, publicando-a na sua Historia de la Mu- 
sica en Físpana. Em que consistiria a corrupção 
notada ;ia tradição oral ? Da sua forma dansada 
em coro de estavillar, passou para a cantilena em 
verso de redondilha maior assonantada, que c 



PRIMEIRA época: EdadE media 417 

como ainda hoje se repete no Algarve. Concorda 
com o que d'esta Canção escreveu no fim do sé- 
culo XVI Miguel Leitão de Andrade, na sua Mis- 
cellanea: «A qual me lembra a mim ouvil-a can- 
tar muito sentida, a uma velha de muita edade 
natural do Algarve, sendo eu muito menino.» 
(Nascera em 1555.) Além das Trovas dos fi- 
gueiredos, publicou Miguel Leitão na Miscellanea 
(p. 458 e 460) duas Cartas de Egas Moniz Coe- 
lho a sua dama, e as Outavas da Perda de Hes- 
panha (ib., p. 456) sem declarar que eram extra- 
hidas do Cancioneiro de D. Francisco Coutinho, 
quando as intercalou no meio de uma novella. 
Frei Bernardo de Brito, publicou na Chronica de 
Cister (Liv. VI, c. i) os Versos a Ouroana, tam- 
bém sem tornar a ref erir-se ao Cancioneiro do 
Conde de Marialva. Como verificar este conteii- 
do? O Cancioneiro só torna a apparecer citado 
no fim do século xviii pelo erudito académico 
Dr. António Ribeiro dos Santos, Blpino Diiriense, 
referindo-se ás supra-mencionadas composições : 

— Cancioneiro do Doutor Gualter Antunes. 
— «Vimos em tempos passados um Cancioneiro 
Ms., que parece letra do século xv, em que se tra- 
tavam Louvores da Lingua portuguesa, em que 
vinha esta Canção de Hermingucs (a Oriana), o 
fragmento do Poema da perda da Hespanha, e as 
duas Cartas de Bgas Moniz, com as Cantigas de 
Goesto Ansures (Figueiral), e com variantes em 
alguns termos que iremos notando em seus loga- 
res competentes ; este códice era da escolhida li- 
vraria do Doutor Gualter Antunes, erudito cida- 
dão da cidade do Porto, que nol-o mostrou e d*elle 

27 



4l8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

copiamos as ditas obras.» As variantes foram 
notadas confrontando as lições conhecidas pelos 
textos do século xvii, de Fr. Bernardo de Brito 
e Leitão de Andrade. Por este processo ficou iden- 
tificado o Cancioneiro do Dr. Gualter Antunes, 
ms. do século xv, com o Cancioneiro de D. Fran- 
cisco Coutinho pelo sábio philologo Dr. António 
Ribeiro dos Santos. ^ Contra esta identificação 
oppÕe D. Carolina Michaèlis um reparo infun- 
dado: (íMas esse volume (Ms. Gualter) era um 
opúsculo ém prosa portugiieza, entremeado de do- 
cumentos i Ilustrativos, entre os quaes avultava 
uma d'essas cinco relíquias.» Encontravam-se ahi 
as cinco peças vulgarisadas no século xvii, e ou- 
tras composições em verso, com transcripçao de 
musica, o que bastava para denominar esse manus- 
cripto do século xv um Cancioneiro. Como se ix)de 
affirmar isto, depois d'este dado fornecido pelo Dr. 
Ribeiro dos Santos : «Por morte do Doutor Gualter 
Antunes não sabemos onde foi parar com os mais 
Mss., livros e preciosidades do seu precioso gabine- 
te.» Em 1855, ^- Marianno Soriano Fuertes, pu- 
blicando a sua Historia de la Musica en Espana, 
indicava a pista d'este Cancioneiro: «Para dar 
alguma ideia da poesia portugueza no século xtt 
(!) e principios do século xiii, copiaremos uma 
Canção extractada de um Cancioneiro antigo, que 
foi de D. Francisco Coutinho, Conde de Ma- 
rialva.» E a Canção que transcreve é effectiva- 



I Mss. Vol. vTii, p. 233-251. (Nzi Bibliothtca na- 
cional). 



PRIMEIRA época: edade media 419 



mente em velho portuguez, e acompanhada, de 
musica; começa: 

A Reyna groriosa 

tan é de gran santidade, 

que con esto nos defende 

do demónio de sa maldade; 

e tal razon com'esta 

um miragre contar quero, 

que fez a Santa Maria, 

aposto e grande e fero, 

que nom foi feito tan grande 

ben des lo tempo de Nero, 

que emperador de Roma 

foi d'aquella gran cidade... ^^ 

Esta cantiga foi apontada por Amador de los 
Rios como pertencente a Affonso o Sábio; e de 
facto no livro das Cantigas de Santa Maria, pu- 
blicado pelo Marquez de Valmar tem o numero 
ivxvii. Soriano Fuertes ignorava a sua preciosa e 
authentica origem, o que mais valorisa a trans- 
cripção, bem como a sua melodia. ^ D'esse mesmo 
Cancioneiro, que tinha mais do que os Louvores 
(la lingua portugueza, transcreveu a Canção do 



I D. Carolina Michaèlis, querendo invalidar esta des- 
coberta do Cancioneiro de D. Francisco Coutinho, força 
a nota irónica : *^^Parece todavia que resurgiu no nosso 
-cculo, momentaneamente em Barcelona apparecendo a um 
musicographo privilegiado. Creio que em sonhos ! Soriano, 
cujos juizos em matéria "litteraria são de uma leveza inau- 
dita, diz ter colhido no Cancioneiro do Conde de Marialva 
uma cantiga do século xii ou xiii. E communicou-a com 
a notação egual á que se vê nas Cantigas de Affonso o 
vSabio. Isto não admira visto ser de facto obra do próprio 
rei, colhida em qualquer apographo secundário.* Em 1855 
ainda não estavam publicadas as Cantigas de Santa Maria, 
c Soriano transcreveu essa de ura apo^apho, que era O 
Cancioneiro de D. Francisco Coutinho, 



420 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Pigneiral, também com a musica que ahi estava 
notada; este facto identificava decisivamente o 
Cancioneiro do Dr. Gualter Antunes com o de 
D. Francisco Coutinho. Para invalidar este fa- 
cto, oppÕe D. Carolina Michaèlis, depois de ter 
dito que Soriano Fuertes vira em sonhos o Can- 
cioneiro, uma hypothese gratuita: «O texto ti- 
rou-o evidentemente da Monarchm hisifana.» E a 
musica que acompanhava a Canção? Convenci- 
da de què o Cancioneiro foi visto em sonhos pelo 
musicographo hespanhol, condemna os textos do 
Códice do fim do século xv como fabricação litte- 
raria do século xvii: «O romance (do appare- 
cimento) emparelha provavelmente com as mes- 
mas reliquias da arte nacional, em prosa e verso* 
que appareceram no tempo das mudanças mara- 
vilhosamente a ponto para fornecer certas patra- 
nhas e doutrinas históricas, genealógicas e littera- 
rias, então em moda.» (Canc. Aj., ii, 268.) Quer 
referir-se ao tempo das alterações, depois da pêrdí^ 
de Alcacer-kibir, em que se simularam sátiras e 
prophecias, em um fervoroso apocryphisnio. Nos 
fins do século xv é que irrompeu o apocryphismo 
litterario, iniciado por Anio de Viterbo revelando 
Annaes egypcios e chaldeus, e dando logar em 
Hespanha cá eschola pseudo-erudita dos falsos 
Chronicões, com um syncretismo de lendas do 
cyclo troyano e de poemas árabes. O Cancioneiro 
de D. Francisco Coutinho não era trohadoresco. 
mas uma miscellanea. como reconheceu a iílustre 
critica: isto explica o apocryphismo de algumas 
das composições colligidas, cujo valor consiste 
n'e5ta característica do seailo xv. O q le é in- 



PRIMEIRA época: édadé média 421 

acceitavel por absurdo, anachronico e estúpido, 
são as circumstancias que revestem essas compo- 
sições, marcando-lhes phantasiosamente épocas, 
personagens, auctores e situações históricas. João 
Pedro Ribeiro, o fundador da diplomática por- 
tugueza, rejeitou em bloco tudo isso, envolvendo 
as composições, sem lhes determinar a forma lit- 
teraria, que revelaria um apocryphismo do século 
XV, com certo valor artistico. Ribeiro dos San- 
tos fez o exame dos vocábulos, para determinar 
o seu valor archaico, sem notar que se simula 
antiguidade com palavras obsoletas. Não era esse 
o verdadeiro critério para apreciar as cinco com- 
posições do Cancioneiro de D. Francisco Cou- 
tinho, que se vulgarisaram avulsas no século 
XVII, apenas pelo espirito de compilação curiosa. 
Consideremol-as á luz do apocryphismo do sé- 
culo XV, que immediatamente se verifica : 

Fragmento do Poema da perda de Hespa- 
nha. — São quatro outavas em endechas, ou de 
gaita gallega, forma já usada por Af fonso o Sábio, 
mas posta em voga por João de Mena, no meado 
do século XV, nas suas Trezentas em bellas nar- 
rativas históricas. Esta forma foi empregada nas 
narrativas históricas do Cancioneiro de Resende, 
e ainda pelo chfonista João de Barros, fazendo 
um esboço da Epopêa portugueza. O thema da 
invasão de Hespanha vulgarisou-se com todo o 
impressionismo da lenda poética, desde que Pe- 
dro dei Corral, publicou em 1443 a Crónica Sar- 
racina, e a Crónica dei Rey D. Pedro con la Des- 
frucion de Espana; elle emprega tiradas da Cro- 
nyca Troyana^ e lances tomados do Amadis. O 



4^ HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

nome de Cava, (do árabe Cahha, rameira) filha 
de D. Faldrina, irmã de D. Opas, muda-se no 
de Florinda na Verdadeira historia de D. Rodri- 
go, por Miguel de Luna. i O nome de Mira- 
molini (Emir el mumenin) só foi usado do sé- 
culo XII por diante. Essas quatro Outavas eram 
uma Lamentação da perda de Hespanha, segundo 
o género de Lamentação, de que falia o Mar- 
quez de ' Santillana, das luctas f)oliticas do rei- 
nado de D. Juan ii e Enrique iv. 

Canção do Pigueiral. — Desprezadas as cir- 
cumstancias de que Frei Bernardo de Brito cer- 
cou este cantar velho, e o nome de Goesto An- 
sures, fica uma Canção bailada, ligada a um epi- 
sodio da lenda de Tristão da novella do século 
XIII e XIV. E podemos mesmo consideral-a um 
Lai primitivo do perdido texto do Tristão por-^ 
tuguez. Outros Lais de Tristão, foram colligi- 
dos muito deturpados no Cancioneiro Collocci 
Brancuti. Não será o do Figueiral um d'esses 
que pela melodia tradicional se conservou por 
seu turno no Cancioneiro de D. Francisco Cou- 
tinho? A lenda do Tributo das Donzellas, pago 
a Morhouet da Irlanda, foi transformada no 
Peyto burdelo que recebia Mau regato, servindo 
D milagre da sua libertação para fundamento do 



I Estas Chronicas são paraphrases da Crónica de 
D. Rodrigo anonyma, onde se agglomeraram as tradições 
da Torre ou Cova encantada de Toledo, os amores da Cava 
e a Penitencia do Rei Rodrigo, Pedro dei Corral também 
se serviu amplamente da Chronica do Mouro Rasis (Ahmed- 
Ar-Rasi) na ^^traducção castelhana do século xiv fundada 
sobre outra portuguesa feita pelo mestre Mohamed e o 
clérigo Gil Pires.» (Pelayo, Origines, p. CCCLv.) 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 423 

Censo ou Votos de San Thiago. Antes da No- 
vella de Tristão^ a lenda do Tributo das Don- 
zellas derivava do mytho dos Dragões, a quem 
se pagavam Donzellas, que os heroes, como per- 
sonificação solar, resgatavam. O mytho dissol- 
veu-se em lenda épica e novellesca, e também 
agiologica. Vemos esta transição no Lai de Guin- 
gamor, a que Af fonso o Sábio deu forma de lenda, 
conhecida em Portugal no enlevo de um monge 
de Villar de Frades. Também o Lai do Piguei- 
ral apparece na lenda agiologica de San Thiago 
libertando as Donzellas, na tradição de Simancas, 
Veiga de Carrion, lenda heráldica dos Queiroz, 
de Betanços ou Peito Burdelo, em Hespanha; e 
em Portugal, Figueiredo das Donas, em Vizeu, 
Alfandega da Fé, Castro Vicente, Chacim e Bal- 
semão. Foi o interesse clerical que propagou a 
tradição novellesca dando-lhe feição agiologica. 
E' absurdo desprezar uma Canção novellesca pro- 
pagada no fim do século xiv, e que mão pie- 
dosa coUigiu, a par de uma Cantiga de Af fonso 
o Sábio, em um Cancioneiro do fim do século xv. 
As duas Canções de Bgas Moniz. — Appare- 
ceram pela primeira vez publicadas por Leitão de 
Andrade, attribuindo-as gratuitamente a um ca- 
valleiro da corte de D. Af fonso Henriques; pela 
forma poética, vê-se que essas quadras com dois 
versos de redondilha maior, com quebrados de re- 
dondilha menor, foram empregadas pelo Arcediago 
de Toro no fim do século xiv, não apparecendo 
nos Cancioneiros trobadorescos portuguezes dos 
séculos XII a xiv; pela linguagem intencional- 
mente de uma rudeza archaica, conhece-se uma 



424 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



intenção satírica (como na' Gesta de mal dizer). 
Esse Egas Moniz, em nome do qual se fez a Can- 
ção, é um fidalgo do fim do século xiv, que atrai- 
çoou D. João I , passando-se para Castella, — como 
diz a Cantilena : «Cambiastes a Portugal — Por 
Castilla...» Pela Pedatura lusitana (m, fl. 7.) 
era filho de Pêro Coelho; «casara com D. Maria 
Gonçalves Coutinho, filha de Gonçalo Vaz Cou- 
tinho, d'onde procedem os Condes de Marialva.» 
Restituídas as circumstancias lendárias aos seus 
resíduos de verdade, as duas Canções, como do 
século XV, certo que João Pedro Ribeiro com todo 
o seu rigor diplomático as apreciaria como docu- 
mento litterario da Bschola gallaico-portugueza, 
em que escreviam Pêro Gonzalez de Mendoza e 
Gomez Manrique. 

— A Canção de Oiiroafia. — Publicada por 
Frei Bernardo de Brito na Chronica de Cister (p. 
713) acceitamol-a pov existir no Cancioneiro do 
Dr. Gualter Antunes, onde a leu o Dr. Antó- 
nio Ribeiro dos Santos em grande estado de de- 
turpação. Desprezemos todas as circumstancias e 
attribuiçÕes phantasiosas do chronista, que sendo 
bom poeta, poderia, com o seu intuito apocryphis- 
ta dar-nos uma Canção legível. Más d'essa 
mesma deturpação se tira uma certa luz. A 
Canção dirige-se a Ouroayia, nome da amante de 
Amadis de Gaula, celebrada no século xv por 
D. Alonso de Cartagena, e sendo thema de me- 
lodias ou Chacones. i O rapto de Oriana salva 



I No Catalogo da Bibl. de Musica de D. João iv, 
cita-se: Triumpho de Oriana, a 5 e 6 vezzes, de Michel 
Est. e outros. 



PRIMEIRA época: êdadE mêdia 425 

por Amadis do poder do Magico Archeláo teria 
sido o thema de uma das Canções perdidas da 
novella na sua forma portugueza. A Canção de 
João Lobeira explica estas perdas. Até aonde se 
degradam os versos intercalados na musica, vê-se 
no Cancioneiro de Barbieri, do século xv. Na 
Canção a Ouroana cita-se a forma da Chacone, 
ainda no século xvi commum á Itália e Hespanha, 
e em Portugal existe a Chacoina no povo de Friel- 
las, e a Chacoula no Alemtejo. 

Dos Cancioneiros trobadorescos portuguezes 
até ao Cancioneiro geral de Garcia de Resende 
vae um grande hiato, um vácuo, que em parte 
pode ser preenchido pela ennumeração dos poe- 
tas portuguezes que figuram nos vastos Cancio- 
neiros hespanhoes, e pela somma espantosa de 
Motes velhos, Cantigas, Esparsas, Dizeres, que 
passaram para a geração quinhentista, e que lhe 
suscitaram a delicada sentimentalidade, ou susten- 
tando a resistência dos poetas da medida velha. 

3.0 Existência de um elemento popular. — 

No século XV, como observou Gaston Paris, flo- 
resceu subitamente na Europa a poesia popular 
na sua forma lyrica e épica; são os Romances 
velhos em Hespanha, as Aramas em Portugal, 
as Canzone e Straniboti italianas, os Gwerziou na 
Bretanha, as Ballads na Inglaterra e Escócia, os 
í/^olkslieder na AUemanha, as Chansons à toile 
na França, e os Kampviser scandinavos. Cor- 
respondia este facto a uma transformação social, 
em que as classes servas da Edade média eram 
um terceiro estado que se integrava entre os po- 



420 HISTORIA DA I.ITTJÍRATURA PORTUGUEZA 



deres da nação, tal como escrevia um embaixador 
de Veneza : ache per você commune si puo chia- 
)iiare popolo.» E emquanto a aristocracia ou o 
elemento court o is e a Egreja ou o elemento cler- 
cois, se confinavam em uma erudição morta, em 
um separatismo degenerescente, o elemento po- 
pular, constituindo a classe média productora e^ 
numerosa,' inspirava-se da realidade da vida, que 
lhe sorria, aspirava a uma nova ordem social. O 
desenvolvimento litterario da lingua portugueza 
e a exagerada cultura latina dos seus escriptores 
determinam o afastamento c\o povo; a litteratu- 
ra, como a planta fora do húmus fecundo, desde 
que se não alenta na tradição nacional estiola-se 
procurando a luz nas correntes do gosto por uma 
imitação submissa. Assim nos aconteceu com o 
casfelhanisiiio. O iX)vo portuguez, que pela sua 
organisação social em Behetrias se elevou muito 
cedo á unificação nacional, possuia caracteres 
accentuados de individualidade, tinha costumes 
idealisaveis, festas, cantos e tradições maravilho- 
sas, como a das Ilhas encantadas. Tudo nos in- 
dica, que essa crença veiu excitar a imaginação 
dos navegadores portuguezes no século xv, le- 
vando-os á exploração do oceano Atlântico, do 
Mar Tenebroso dos antigos. Nas celebres via- 
gens do Barão de Rosmital, de 1465 a 1467, vem 
(lescripta a sua digressão em Portugal, e ahi 
aponta a narrativa de uma Ilha encantada a que 
aportaram os navegadores portuguezes: «que um 
dos reis de Portugal mandara construir navios e 
os enchera de todas as cousas necessárias, e pu- 
zera em cada navio doze escreventes, provendo-os 



PRIMEIRA época: edade média 427 

de viveres para quatro annos, para que d'aquelle 
logar navegassem pelo espaço de quatro annos até 
o mais longe possivel, e lhes mandou escrever 
u que vissem, os paires desertos a que chegassem, 
e finalmente os contratempos que no mar expe- 
rimentassem. Estes, portanto, segundo nos foi 
contado, tendo sulcado o mar pelo espaço de dois 
annos completos, chegaram a umas certas trevas, 
das quaes sahindo, passado o espaço de duas se- 
manas aportaram a uma ilha. Alli, chegados os 
navios á praia, tendo desembarcado, encontraram 
debaixo da terra casas construidas, abundantes 
de ouro e prata, das quaes comtudo não se atre- 
veram a tirar nada.» A lenda contada pelo via- 
jante Rosmital, é muito dramática e extensa, 
tendo recebido outras redacções curiosas em dif- 
ferentes épocas. A crença popular das Ilhas 
empoadas (Ilhas brancas) é alludida por Gil Vi- 
cente e D. Francisco Manoel de Mello, e segundo 
os crédulos ainda se avistam dos Açores e das 
Canárias. 

Refere-se também Rosmital ás Endechas, ou 
Clamores e brados sobre finados, que se prohibi- 
ram no tempo de D. João i : «Ha também alli 
certa costumeira: morrendo alguém, levam para 
a egreja vinho, carne, pão e outras comidas; os 
parentes do morto acompanham o funeral ves- 
tidos de roupas brancas próprias dos enterros, com 
capuzes á maneira dos monges, com o qual se ves- 
tem de um modo admirável. Aquelles porém,- que 
são assalariados para carpirem o defuncto vão 
vestidos com roupa preta, e fazem um pranto 
como o d 'aquelles que entre nós pulam de con- 



HISTORIA DA I^ITTÊRATURA PORTUGUEZA 



tentes ou estão alegres por terem bebido.)) Es- 
tes costumes denunciam a vitalidade 'de uma poe- 
sia popular semelhante aos A urus ta de Bearn, 
aos Areytos hispânicos, aos Tribuli e Prócer o da 
Itália e da Córsega. Encontram-se na Chronica 
dos Carmelitas do P.^ Pereira de Santa Anna, 
as Caritigas que o povo de Eisboa entoava na se- 
pultura do Condestavel D. Nuno Alvares Perei- 
ra, com que perpetuavam a memoria do santo 
guerreiro na tradição nacional; pela Paschoa flo- 
rida vinham as mulheres cantar-lhe varias se- 
guidilhas sobre a sua sepultura; e os moradores 
do Restello pela segunda outava do Espirito San- 
to, e os moradores de Sacavém pelo seu anniver- 
sario. Já em vida, á porta do Convento onde o 
Condestavel se recolhera, vinham os pobres sau- 
dal-o como santo em sinceras cantilenas. Por dif- 
ferentes chronicas se encontram intercaladas can- 
tigas do povo, pelo seu espirito epigrammatico, 
e grande parte d'ellas serviram como Motes ve- 
lhos nas trovas dos Cancioneiros, e foram glo- 
sadas pelos génios ly ricos do século xvi, salvan- 
do-se algumas entre as composições melódicas dos 
contrapontistas. Contra a Canção popular no sé- 
culo XV prevalecia a Canção allegorica dos poe- 
tas i)alacianos; contra o Romance ou canção nar- 
rativa deblaterava com desprezo a erudição do? 
humanistas. Assim o Marquez de Santillana, na 
sua Carta ao Condestavel de Portugal, com a 
auctoridade do seu talento e grande saber, soltava 
esta condemnação: «ínfimos son aquelles poetas, 
que sin regia ni cuento facen aquelles Cantares 
e Romances de que la gente baja e de servil con- 



PRIMEIRA época: EdadE media 429 



dicion se alegra.» Era o grito de separação en- 
tre os escriptores e o povo, que ia caracterisar a 
Renascença no século xvi. Mas apesar de todo 
esse desprezo os Romances tradicionaes tinham 
raizes fundas, e mesmo nas Cortes foram glo- 
sados e reelaborados. No Cancioneiro de Resende 
allude-se a dois romances Nunca fiie pena maior, 
e a Bella mal mandada. No século xv canta va-se 
o romance dos amores do rei D. Fernando com 
a mulher de João Lourenço da Cunha, conser- 
vado entre os Judeus do Levante; romances po- 
pulares sobre os amores de D. Ignez de Castro 
foram assimilados por Garcia de Resende e accom- 
modados em vários romances anonymos caste- 
lhanos e catalães: as aventuras verídicas dos 
amores de D. Pedro Nino com a princeza D. Bea- 
triz deram motivo para o romance do Conde Ni- 
nho (Olino) ; existem colligidos os romances á 
morte do princepe herdeiro de Castella, D. João, 
e do Princepe D. Affonso de Portugal, em 1491, 
com toda a energia pathetica da alma popular. 
Observa Menendez y Pelayo, sobre" a transforma- 
ção dos Romances populares : «E' certo que quasi 
todos os Romances que chamamos velhos, adqui- 
riram no século xv a forma que ainda conser- 
vam, ou como mais próxima a ella; porém é ra- 
ríssimo, principalmente os históricos (que são o 
nervo da nossa poesia popular e o mais caracte- 
rístico d'ella) aquelle que não tenha origens mui- 
to mais remotas e possa suppôr-se então com- 
posto pela primeira vez.» (AntoL, v. p. xvii.) 

Nos romances tradicionaes portuguezes no- 
tam-se duas formas de versificação : o metro qui-^ 



430 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



nario, de redondilha menor, que prevaleceu até ao 
século XV, emquanto o romance foi dansado e 
cantado, a que o Chanceller Ayala chamava Ver- 
setes de antiguo rimar; e o metro octonario ou de 
redondilha maior, que prevaleceu do século xv 
em diante, quando os romances separados da dan- 
sa e da musica, como exclusivamente narrativos 
eram resados (recitados). Esta forma fácil e es- 
|x>ntanea facultou aos eruditos a transformação 
dos romances velhos no thema, mas actualisados 
ao século xv, glosados e parodiados, até se tor- 
narem subjectivos. O nome de Romance, que 
para os eruditos significava a linguagem vulgar, 
também designava esses Cantares sin regia ni 
cuento, deprimidos por Santillana; o povo, que 
conservava oralmente o seu thezouro tradicional, 
dava-lhe o nome de Aramas. As populações por- 
tuguezas confinadas nos Archipelagos da Madeira 
e dos Açores desde o meado do século xv, con- 
servaram na mais estupenda integridade o grande 
romanceiro tradicional tal como existia na pe- 
nínsula hispânica n'essa época: basta vêr os mais 
completos paradigmas dos Açores e Traz-os-Mon- 
tes, com os focos tradicionaes das Astúrias e da 
Catalunha, estendendo as comparações para os 
cantos da França meridional e da Alta Itália. E 
este fundo poético portuguez ainda se enriquece 
com os Cantos tradicionaes dos Judeus portugue- 
zes, que se refugiaram no Levante. 

Nas Memorias avulsas de Santa Cruz de 
Coimbra, lê-se: «E este Mem Moniz era muv 
ardido cavallejro e sabia mui bem falar a ara- 



PRIMEIRA época: edade média 431 



via...)) I No século xv os poetas do Cancioneiro 
de Resende empregavam a palavra aravia para 
designar a falia do vulgo, nos seus ditos e chascos : 

D'estas novas nom dou mais, 
porque será demasia, 
querer falar aravia 
com vos que a ensinaes. 

(Canc. ger., 11, 300.) 
Dois pontinhos de aravia. 

(Ih., 130.) 
E falia mil ar avias... 

(Ih., III, 186.) 

Pareceys por aravia, 
grande couvão de vesugos... 

(Ih., III, 617.) 

Coincide o emprego d'esta palavra com a desi- 
gnação açoriana de Aravia; nas colónias hespa- 
nholas de México também se encontra o nome de 
Yaravi designando cantares heróicos em versos 
octosyllabicos assonantados. O missionário Acos- 
ta, na Historia natural da índia, referindo o gosto 
dos mexicanos pela musica, e da vantagem que 
d'isto se tirava para a catechese, diz: «Tambien 
han puesto en su lingua composiciones y tonadas 
nuestras, como de Cauciones, de Romances de 
redondilhas; y es maravilla quan bien los toman 
los Índios y cuanto gustan.» (Op. cit., p. 47.) 
Eis «aqui uma evidente connexao entre a Aravia 
açoriana e a Yaravi mexicana, reportando-nos a 
um fundo ethnico commum a Portugal e Hespa- 
nha entre a população mosarabe. O romance po- 



I Pcri. Mon. (Scriptores) i, p. 



432 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



pular chegou a ser desconhecido pelos escripto- 
res, mas não se obliterou na tradição portugiieza, 
considerada pelos folk-loristas como a mais ar~ 
chaica e bella da Europa. E' para notar, que na 
invasão do castelhanismo na litteratura portugueza 
do século XVI, os escriptores que crearam os Au- 
tos populares, nacionalisando o theatro pela re- 
presentação dos costumes, intercalaram com si- 
gnificativa graça muitos romances tradicionaes que 
andavam na versão oral antes da publicação das 
collecçÕes castelhanas. O theatro portuguez es- 
boçava-se no século xv sobre os elementos socraes 
da Edade média. Uma grande parte dos costu- 
mes portuguezes ainda hoje nos apresenta formas 
dramáticas, como os Descantes das Janeiras, das 
Maias, dos Colloquios da Lapinha ou Presépios, 
e muitos actos da vida usual, como as malhadas 
do centeio no Minho, a apanha da azeitona no 
Alemtejo, e o enterro das Sestas, a festança da 
obra nova ou páo de fileira, terminando com pa- 
radas e apodos satiricos. No século xv encon- 
tram-se muitas referencias a divertimentos thea- 
traes ; lê-se no Leal Conselheiro do rei D. Duar- 
te: ((em tal maneira que nom pareça que os al- 
bardaães teem mais sabedoria que nós, porque 
elles nom se trabalham d'arremedar as estorids 
niAhores, mas que lhe som mais convenientes. 
Pois estas cousas taes esguardará o albardam na 
zombaria, e nom as veerá o homem sabedor en 
sua vida...» fOp. cit., p. 321.) Esta palavra em- 
pregada pelo Arcipreste de Hita, é por Gil Vi- 
cente transformada para exprimir a sua predi- 
lerrqo TW']c\^ divertimentos dramáticos, dando-sc 



PRIMEIRA Época: edade média 433 



figuradamente por filho de um alhardeiro. No 
Cancioneiro geral Álvaro de Brito, em 1496, allu- 
de a uma forma theatral : 

Estudantes pregadores 
metem Santas Escrituras 

em Sermões ; 
derivados em amores, 
fazem de falsas fegiiras 

tentações. 

(Canc. ger., i, 189.) 

Em uma carta de perdão de D. João 11, de 2^ 
de abril de 1482, esclarece-se este costume de 
que fora accusado o estudante pregador Rodrigo 
Alves, escollar de Artes, morador em Setúbal, 
tendo sido prezo por andar «pregando como o ita- 
lião, e remedava Judeus em maneira de capellão e 
arrabi, e dezia Da-lhe, da-lhe, a que respondia o 
Juiz e tabelliães e alcayde em som de missa, e que 
dezia uma paixom de um Frade e de uma Freira 
e um Veredyno (vére dignum) de um Crerigo 
(jue roubarom em um caminho, e se acabava em 
uma você: Bibamus...)) E' um completo repertó- 
rio bazochiano. Gil Vicente, que se graduou Mes- 
tre em Artes, pertencera na época dos seus estu- 
dos a este elemento escholaresco. Tudo o impel- 
lia para a creação dotheatro nacional. A forma 
aristocrática do theatro estava também esboçada 
no século xv. No Archivo da Camará do Porto 
acham-se os recibos da despeza feita pelo Con- 
celho da Cidade para o Tablado e com os que 
tangeram nas Matinadas, por occasiao do baptis- 
mo do Infante D. Henrique de 20 a 22 de Ou- 
tubro e de 7 a 8 de Novembro da era de 1432- 

28 



434 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUÊZA 

(Perg. Liv. 3.0, da fl. 40.) Nas festas do paço 
também se usavam Momos e Bntremezes ; pelo 
casamento da Infanta D. Leonor ficaram na me- 
moria os que então se fizeram : 

Eram vossos tempos Autos 
nas festas da Imperatriz. 

(Canc. ger., fl. 47 T.) 

Duarte de Resende e Álvaro de Brito faliam 
nos novos entremezes ; no casamento do princepe 
D. Affonso, em 1491, fizeram-se em Évora Mô- 
mos, em que tomou parte D. João 1 1 envencionado 
cm Cavallciro do Cisne. No Cancioneiro geral ha 
referencia ao singular Momo de Santos. 

O theatro hierático era também dramatica- 
mente suggestivo; certas commemorações históri- 
cas foram celebradas com Procissões, como as qua- 
tro de Corpo de Deus, ordenadas por D. João 11, 
além da instituição da Eucharistia no dia do mi- 
lagre da cera, em véspera de Santa Maria de 
Agosto pelo vencimento da batalha real, e no dia 
da victoria de Toro e Samora. Para se vêr de- 
finida a forma dramática basta transcrever do 
regimento d*essa procissão: «Os homens d'ar- 
mas, estes todos bem armados sem nenhuma co- 
bertura, e com as espadas nuas nas mãos, e le- 
varão San Jorge muy bem armado com page c 
uma Donsella, para matar o Drago.)) Os grandes 
descobrimentos marítimos do fim do século xv 
crearam uma effectiva riqueza publica, que, am- 
pliando as relações da vida civil, proporcionaram 
o desenvolvimento da arte e litteratura no gran- 
dioso século quinhentista. 



PRIMEIRA época: edadE media 435 



§ II 

As Novellas portuguezas da Tavola Redonda 
e do Santo Graal 

Os romances da Tavola Redonda franceza, 
fundados sobre antigos poemas anglo-normandos 
de base gaèlica, foram os que mais se prestaram 
ás adaptações portuguezas no fim do século xiv. 
Xa sua forma mais primitiva, quando os Lais nar- 
rativos se desenvolviam em poemas, era o Amor 
o sentimento exclusivo que movia os Cavalleiros 
nas suas emprezas, segundo o génio britonico; 
no seu desenvolvimento pelos troveiros norman- 
dos prevaleceu a Cortezia, sendo o amor e o va- 
lor apenas os recursos ou estimulos para fazer 
brilhar esse cerimonial ou culto externo da ga- 
lanteria. Esta feição é que no século xv fez que 
nas Cortes fossem apreciadas as Novellas cava- 
lheirescas, dando-lhes um novo alento não de in- 
venção mas de estylo na sua prolixidade rheto- 
rica. O advento do Mestre de Avis ao throno de 
Portugal, se representa o momento histórico em 
que a nacionalidade teve a consciência da sua so- 
berania, assignala também a elevação de um 
obscuro bastardo á realeza, que para a conservar 
não se peja de sacrificar um povo livre á depen- 
dência de um alliado protector. D. João i mudou 
a politica seguida por D. Afforíso iv e D. Fer- 
nando para com a Inglaterra, pela Convenção de 
Londres de 9 de Maio de 1386, obrigando Por- 
tugal a servir a Inglaterra com armas e galés á 



43à HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

sua custa, para assim lhe garantirem o throno. 
Os chronistas d'este reinado calaram a Convenção, 
hoje* conhecida pelas Poedera de Rymer, pela qual 
se explica o pensamento politico proseguido por 
outros bastardos seus descendentes. Não só pela 
vaidade de uma realeza recente como pelo casa- 
mento com uma filha do Duque de Lencastre, 
D. João I deu todo o relevo á sua corte por 
exageração de fórmulas cavalheirescas. As No- 
vellas cavalheirescas, como em um pre-quixotis- 
mo, pautavam a vida palaciana. O Infante D. Pe- 
dro, mandando compilar as Ordenações Affon- 
sinas, fez ahi introduzir o Regimento de Guer- 
ra, em que minuciosamente se reproduzem as ce- 
rimonias da investidura dos gráos da Cavalleria 
com o ritual da época das cruzadas. Os Poemas 
(la Tavola Redonda, communicados pelo séquito 
de D. Phillippa de Lencastre e relações com a 
corte ingleza, eram lidos com fervor pelos ca- 
valleiros dedicados á nova dynastia e o próprio 
D. João I tratava os cavalleiros no cerco de Coria, 
pelos nomes dos companheiros do bom Rei Ar- 
thur, que com elle se sentavam á Meza Redonda. 
O prurido cavalheiresco era extemporâneo, mas 
acirrado pelas Novellas de cortezania; o Condes- 
tavel D. Nuno Alvarez Pereira imitava a vir- 
gindade heróica de Galaaz que tomava para mo- 
delo das suas acções. Esta p^hase das Novellas 
de Cavalleria, com os seus sentimentos ficticios, 
penetraram nos costumes da sociedade portugueza; 
apparecendo empregados na aristocracia como no- 
mes civis os nomes dos principaes heroes dos 
poemas arthurianos. Percorrendo documentos do 



PRIMEIRA í:poca: edadE média 437 



século XV, acham-se no onomástico usual, Dona 
Iseu Perestrello, Dona Iseu Pacheco de Lima ; são 
vulgares os nomes de Genebra, Oriana e Viviana; 
figuram Tristão Teixeira, Tristão Fogaça, Tris- 
tão da Silva; Lançarote Teixeira, Lançarote de 
Mello, Lançarote de Seixas, Lançarote Fuás; Li- 
suarte de Andrade, Lisuarte de Liz; Percival Ma- 
chado; Arthiir de Brito, Arthnr da Cunha. Os 
Votos denodados, e as aventuras galantes da 
Ala dos Namorados, dos Cavalleiros da Madre 
Silva, dos Doze de Inglaterra resultam de uma 
moda cortezanesca estimulada pelo género littera- 
rio dominante. Nas Bibliothecas portuguezas do 
século XV, como as de D. Duarte, Infante Santo, 
Condestavel D. Pedro abundam os poemas da Ta- 
vola Redonda em lucta com o elemento erudito, 
moralista e histórico. Operava-se um syncretis- 
mo dos themas da Tavola Redonda com os do 
cyclo do Santo Graal; isto exaltou mais as ima- 
ginações em que a emoção mystica acordava a apa- 
gada paixão amorosa. Este o caracter com que se 
elaboraram as Novellas portuguezas do século xv. 
O Cyclo da Tavola Redonda abrangeu as tra- 
dições britonicas da lucta contra a invasão dos 
Saxões, sendo o Rey Arthur o heroe em que se 
encarnara toda essa resistência e a inextinguivel 
esperança de resurgimento e triumpho. Para se 
vivificarem estas tradições guerreiras, ligaram-se 
na credulidade popular ao espirito religioso das 
lendas da introducção do Christianismo em In- 
glaterra (Egreja proto-cathédrica) pelo discipulo 
de Jesus, Joseph ab Arimathéa, que trouxe o Cálix 
(o Santo Graal) ou escudela por onde o Salvador 



43^ HISTORIA DA LlTTKRATUKA PORTUGUEZA 

bebera na ultima ceia com os apóstolos. Para a 
busca cUeste Cálix, perdido desde o incêndio do 
mosteiro de Glastombury, instituiu-se a Ordem 
da Cavalleria celeste entre os Cavalleiros da Ta- 
vola Redonda. Assim se fundiram os dois the- 
mas poéticos em uma nova elaboração artistica. 
Charles d'Hericault, determina uma phase em que 
os dois themas foram independentes: «E' vero- 
símil que nos dados primitivos, anteriores aos ro- 
mances que chegaram até nós, estas duas ordens 
de poemas eram bem distinctas. Póde-se inferir, 
segundo o grande numero de traços abafados no 
conjuncto, que a Cavalleria do Santo Graal re- 
presentava uma ideia puramente reHgiosa; ella 
queria mostrar-nos o ideal do guerreiro christão 
na lucta contra as paixões e contra o inimigo ex- 
terior da Egreja de Deus. Mas esta preoccupa- 
ção appareceu nitidamente só nos poemas alle- 
mães. Na Epopêa franceza, o poema do Santo 
Graal e o de Percival le GaUois, são os únicos que 
appresentam uma theoria mystica e que se preoc- 
cupam sinceramente do âanto Cálix. Nos outros 
poemas Arthur é o personagem preponderante 
e vêem-se brilhar os aspectos mundanos da Ca- 
valleria, a guerra e o amor, ou antes o habito da 
guerra e a galanteria do amor. Os cavalleiros, 
companheiros do Rei bretão, partem á demanda 
do Santo Graal ; foram investidos para estas eni- 
prezas, mas parecem sempre esquecer o seu pr )- 
jecto e fim da sua instituição no meio de mil aven- 
turas que surgem na sua ])assagem.» i 



Essai sur Vorigine de 1'Epopée française, p. 49. 



PRIMí:IRA flPOCA: íjDADfí MEDIA 439 

No começo do século xiii Robert de Boron 
emprehendeu narrar em prosa toda a historia do 
Santo Graal, tomando de Gautier a tradição de 
que esse Cálix pertencera a Joseph de Arimathéa, 
o apostolo da Bretanha. Esta primeira parte, tem 
por fonte o Evangelho apocrypho de Nicodemus. 
Todo este vasto Cyclo prosiíicado e ampliado por 
Boron, existiu adaptado á lingua portugueza. 
D'esta primeira parte intitulada Livro de Josep 
ah Arimathéa, achamos uma referencia no Can- 
cioneiro geral, em uns versos de Álvaro de Brito 
á morte do Infante D. Pedro em 1449 : 

Do comprido Mestre Bscolla 
ou Josep Baramatya. 

(Canc. ger., 11, 278.) 

No manuscripto n,° 643 da Torre de Tombo, 
tem esta Novella, no fim do volume, esta decla- 
ração: «Este Eivro mandou fazer João Sanches, 
mestre escolta de Astorga, no quinto anno que o 
estudo de Coimbra foy feito e no tempo do papa 
Clemente que destruiu a ordem dei Templo e fez 
Concilio geral em Viana, e posto o entredito em 
Castella, e n'este anno se finou a rainha D. Cons- 
tança em São Fagundo, e casou o Infante D. Phi- 
lippe com a filha de D. A.o anno de 13 bij anno.)^ 

Foi este texto do Mestre Bschola de Artorga, 
conhecido em Portugal por 1449; podemos des- 
crevel-o com as palavras de um copista do meado 
do século XVI : «O qual Livro segundo por elle 
parece he scripto em pergaminho e illuminado e 
a caise de duzentos annos que foi scripto, trata de 
muitas anteguidades e matérias boas e sabor o- 



440 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 



sas.» Este livro ficou perdido até principios do 
século XVI, em que foi achado pelo Dr. Manoel 
Alvares, do qual fez uma copia que offereceu a 
I). João III, ficando esta mesma também desco- 
nhecida até 1846 em que Varnhagem tomara nota 
d'ella em Lisboa. Eis o seu titulo com a parte da 
Dedicatória mais interessante : 

Livro de Josep ab Aram afia, intitulado: A pri- 
meira i^arte da Demanda do Santo Greal até a 
presente idade nunca vista. Treladada do próprio 
original por ho Doutor Manoel Alvarez Corre- 
gedor da Ilha de Sã Miguel. Derigida ao muy 
alto e poderoso princepe el Rei D. João ho 3.^ 
d'este nome, El Rei nosso Senor. i 

Na Dedicatória fixa-se a data da offerta: 
«E de quantos mosteiros e casas piadosas por 
vossa gloriosa memoria ajais edificado e nas da 
Unwersidade de Coimbra per V. A. principiada e 
acabada, e com vossos nestoreos annos será mui 
acabada.» Allude ás reformas de 1537 e 1549. 

Depois, justificando a offerta, dá estas noticias 
litterarias: «fora muy estranha cousa e por certo 
dina de grande castigo ser o presente Livro en 
vosso Reino achado, e dar-se a Princepe extranho, 
e ainda que nê menos de estranhar pareça em mim 
esta ousadia e de emprehender a trasladação da 
presente obra... E com esta ousadia comecei a 
trasladação do presente Livro, que a V. A. offe- 
reço, o qual eu achey em Riba Dancora (he uma 



I Foi. em papel de linho, com 311 folhas, e cxix 
Capítulos, com diversas letras do século xvi. Ms. n.* 643 
da Torre do Tombo. 



PRIMEIRA época: edadE media 441 



freguesia) em poder de uma velha de muy an- 
tiga idade no tempo que meu paay C.oi" de vossa 
Corte, servia V. A. de C.oi" Dantre Douro e Mi- 
nho.» E dizendo que era em pergaminho com 
ilkmiinuras, revela-nos uma obra principesca. Con- 
tinua : «E porém a letra cÕ a muy ta antiguidade 
nã ser tam legivel e asi por muitos vocábulos irem 
na antiguidade d'aquelle tempo que agora inin- 
telligiveis nos parecem, tomei d'isto por escudo 
vossa muita clemência e beninidade, que d'este 
temor me defenderão... d'elle não mudei senão 
hús vocábulos inintelligiveis, que se podem enten- 
der na antiguidade d'aquelle tempo os leixei hir.» 

Este apographo, perdido da corte de D. João 
III, tem a nota : «Livro da Cartuxa de Scala 
Coeli, do qual o Ill.nio Rev.mo Snr. D. Theotonio 
de Bragança Arcebispo de Évora e fundador da 
mesma Casa fez doação.» i 

A segunda parte da Demanda do Santo Graal 
contem a historia de Merlim, inspirando-se Boron 
da Vita Merlini de Geof froy de Monmouth. Esta 
parte foi desenvolvida na litteratura peninsular, 
achando-se hoje publicado o texto castelhano de 
1498, Baladro do Sábio Merlim, sendo uma am- 
plificação do Tristan com o nome de Bret de Luce 
de Gast. Na Bibliotheca do rei D. Duarte vem 
a])ontado um Merli; ::i da rainha Isabel a Catho- 



^ I D'esta Primeira parte da Demanda do Santo Graal, 
está publicado o cap. i.xvi : Dos grandes trabalhos que 
Mordain na pena passou e das tentações que o diabo lhe 
fez e do que lhe Deus disse, fl. 105. (Na Chrestomatia ar- 
chaica de J. J. Nunes, p. 56 a 62. Lisboa, 1906.) 



442 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



lica, uni caderno manuscripto «en romance que 
se dice de Merlín con cobertura de papel de cuero 
blancas, é habla de Josef ah Arimathéa.)) D'este 
livro restam ainda na tradição portugueza al- 
gumas estrophes propLeticas nas Trovas do Ban- 
darra. Na Hespanha, em vez de tomar os Saxões 
como os inimigos da fé, substituiram-lhes os Sar- 
racenos nas prophecias merlinicas; e desde as vi- 
ctorias de D. x\ffonso iv, na batalha do Salado, 
e de D. Affonso v em Arzilla, até D. Sebastião e 
D. João IV não se apagaram as esperanças do acor- 
dar do Leão dormente. 

Ainda nos costumes populares persistiram re- 
miniscências da novella de Merlin; no regimçnto 
da Procissão do Corpo de Deus em Lisboa, como 
se vê em um apontamento da Camará municipal de 
1493, indicando as figurações de cada mister, le- 
se: «Peliteiro com o Guato paull.)) Era a catk 
Palay, felino monstruoso do Lago de Genebra 
celebrado em muitas variantes de Merlin. Na 
novella de Cifar ha uma referencia a este Gato 
paull: ((viu-se o rei Arthur em maior aperto com 
o Gato Paus, que nos vemos nós outros com aquel - 
les malditos.» 

Escreve Menendez y Pelayo, nas Originas de 
la Novella, sobre os vestigios d'este cyclo em 
Portugal : «E o que são as próprias Trovas do 
sapateiro Bandarra, estranho apocalypse dos Se- 
bastianistas, se não uma sobrevivência das de Mer- 
lin? (Op. Cit., p. CLXXVII.) 

A terceira parte da Demanda do Santo Graal, 
ainda existe na lingua portugueza, no esplendid ) 
manuscripto n.o 2594 da Bibliotheca de Vienna, 



PRIMEIRA época: EdadE média 443 



do fim do século xiv com o titulo de: A historia 
dos Cavalleiros da Meza Redonda e da Demanda 
do Santo Graal. Consta de 199 folhas de perga- 
minho. I O texto francez, que foi liberrimamente 
paraphraseado em portuguez, intitula-se La tierce 
partie de Lancelot du Lac avec la Qneste du Sainte 
Graal et la dernièrè partie de la Table Ronde. Na 
Livraria de Isabel a Catholica, n.o 143, existia tam- 
bém a Tercera parte de la Demanda dei Santo 
Grial en romance; e na do Princepe de Viana, 
de 1461, também um manuscripto dei Sangreal 
em francez. Na folha 129 do texto portuguez faz- 
se referencia ao texto latino romanceado por Ro- 
berto de Boron: «ca o nom achei em francês nem 
Boron no diz, que eu mais achei na grande 
storia do latim, de quanto vos eu conto.» Seria 
allusão ao Liber Gradalis, contendo a lenda da 
vinda de Joseph ab Arimathéa á Bretanha, feita 
por um monge do século vi 11 e amplificada por 
Geoffroy de Monmouth. A parte secreta d'essa 
lenda, era a pretenção da Egreja da Bretanha á 
independência da Egreja de Roma, por ser tam- 
bém proto-cathédrica. A isto allude na fl. 21: 
«Mas esto nom ousou mudar Roberte de Boron, 
do francez em latim, porque as puridades da santa 
egreja nom os quis elle descobrir; ca nom con- 
vém que os saiba home leigo.)) 

Na redacção portugueza d'esta terceira parte 
da Demanda do Santo Graal deu-se uma alteração 



í Estão publicadas até fl. 70 pelo Dr. Karl von 
Reinhardstoettner. Berlin. 1887. O Dr. Wechssler, con- 
sidera-a uma traducção do texto francez. Na Revista lu- 
sitana, vol. V, está publicado um excerpto da parte inédita. 



444 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

profunda em que Lancelot, por causa do seu amor 
adultero, é substituído por Galaa^, o Cavalleiro 
parthenio. i Predominava em Portugal a tendên- 
cia para separar os dois Cyclos, tratando no de 
Santo Graal a theoria mystica, em que a sua em- 
preza era realisada pelo poder da perfeição moral 
do Cavalleiro. Cledat, no estudo sobre a Epo- 
péa cortezã, observa : «Tem-se reparado quanto é 
extravagante, que a lenda do Santo Graal ou o 
triumpho da castidade a mais perfeita se enxer- 
tasse na lenda arthuriana, que é a gloriíicação do 
amor o mais sensual e o mais apaixonado. Esta 
opposição das duas lendas está indicada nitida- 
mente e a siiá fusão é engenhosamente explicada 
pelo auctor do Lancelot em prosa no episodio da 
concepção de Galaaz.» 2 Q Condestavel D. Nuno 
Alvares ' Pereira, imitando a virgindade heróica 
de Galaaz, como refere a sua Chronica anonyma, 
lera na sua mocidade este desfecho da grande 
novella em prosa, que vae do nascimento de Lan- 
celot até a sua morte, ás aventuras de Percival, 
mas em que a gloria da conquista do Graal com- 
pete a Galaad. Eis o trecho da Chronica do Con- 
destavel: «E com esto avia gram sabor de leer 
livros de estarias, especialmente usava leer a es- 
taria de Galaa:2, em que se continha a somma da 
Tavola Redonda. E por que em ella achava que 
])er vertude de virgindade que em elle ouve, e 
em cjue perseverou Galaaz, acabara muy notáveis 
feytos, que outros nom poderam acabar. E elle de- 



1 Menendez y Pclayo, Origines de las Novellas, p. 

CLXXXII. 

2 Na Hist. litteraire, de Julleville, t. i, p. 324. 



PRIMEIRA época: EdadE media 445 

sejava muito de o parecer em alguma guisa, e 
muitas vezes em sy cuidava de ser virgem...» 
(Gap. III.) No Catalogo dos Livros de uso do 
rei D. Duarte, vem apontado O Livro de Galaaz; 
d'onde se pode inferir, que teve um desenvolvi- 
mento importante para substituir o de Lancelot. 
Tudo revela que existiram em portuguez todas 
as Novellas cortezanescas do Cyclo do Santo Graal, 
que soffreram essa calamidade que dispersou, 
quando não destruiu, o nosso opulento espolio lit- 
terario. 

Na novella manuscripta de Josep ab ■Ariína- 
théa, trata-se por vezes da lenda do Imperador 
Vespasiano; basta apontar a summula de alguns 
capitulos : «Como o Emperador perguntou se 
J. C. creia nos Ídolos (cap. 4.) — Como o Empe- 
rador enviou buscar as reliquias de J. C. pelo seu 
mestre sala (cap. 5.) — Como Vespasiano foi 
gafo (cap. 21.) — Como a Verónica veio a Ro- 
ma, e como Vespasiano foi são... (cap. 23.) — 
Vespasiano havendo promettido não queimar nem 
enforcar a Cai f ás, o manda metter em uma barca 
aventura, (cap. 27.)» 

Algumas d'estas summulas são eguaes á de ca- 
pitulos da Historia de Vespasiano, impressa em 
Lisboa por Valentim de Moravia em 1496. Per- 
tencendo esta novella ao Cyclo do Santo Graal, 
pelo seu desenvolvimento contamina-se com o 
Cyclo greco-romano e as lendas apocryphas dos 
Actos de Pilatos, i O moderno editor d'esta rari- 



i Edição de 1905, por Esteves Pereira. In-8.° de 114 
pag. comprehendendo prologo, texto, e appensos. 



446 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



dade bibliographica dá-nos preciosas indicações 
sobre a origem d'esta novella histórica. «A for- 
ma mais antiga d'esta narração parece encontrar- 
se em um apocrypho, de que ha duas redacções: 
uma pubhcada por Tischendorf, com o titulo 
Vindicta Salvatoris, e outra pubhcada por Mansi 
com o titulo Cura sanitatis Tiberíi Ccusaris Aii- 
gnsfi, por que n'esta redacção é o imperador Ti- 
bério, que, atacado da doença, foi sarado. Em 
uma segunda forma da mesma redacção, muito 
mais vulgar na Edade média, é o imperador Ves- 
pasiano que foi atacado de lepra e miraculosa- 
mente sarado, e emprehende a vingança de Jesus 
Christo...; esta íorma da narração... teve um 
successo immenso — e foi traduzida em quasi to- 
das as linguas falladas na Europa central e Occi- 
dental.» Embora não tenha sido encontrada esta 
redacção latina, determina-se a sua existeHcia 
«porque diversas redacções em prosa feitas em pro- 
vençal, francez, catalão e castelhano, presuppõem 
um texto original commum, tanto pela egual dis- 
posição da narração, como também pelo modo 
de dizer.» Attribue-se á segunda metade do sé- 
culo Xira redacção latina : as relações entre Josep 
ah Arimathéa e a Historia de Vcspasiano, a pri- 
meira mais extensa, remontando ao século xiv, 
c texto differente, assentam sobre esse originai 
latino, sendo a do século xv derivada da reda- 
cção franceza La destruction de Jerusaletn ou 
La vengeance de Jesus Christ, de 1491. Existe 
uma traducção castelhana, impressa in-4.0, sem 
data, de que dá noticia o Catalogo da Livraria de 
Fernando Colombo, filho do Almirante das In- 



PRIMEIRA época: edade média 447 

dias, e que elle comprara em Sevilha por outo ma- 
ravedis. I Será uma edição de Juan Vasquez, de 
Toledo, cujas impressões terminam ern 1486, ou 
uma outra de 1490. Esteves Pereira conclue: 
«que a redacção portugueza, posto que conforme 
com a franceza na sua disposição geral, differe 
comtudo d'ella em pequenos accidentes; emquan- 
to que ella concorda com a redacção castelhana, 
não só na sua disposição geral mas também nas 
menores particularidades, de modo que uma pa- 
rece ser traducção verbal da outra.» A edição 
castelhana da Historia de Vespasíano de 1499, 
pela sua grande conformidade do texto e das es- 
tampas da nossa impressão de 1496, como o af- 
firma Esteves Pereira: «permittem conjecturar, 
([ue o texto da impressão castelhana de 1499 é 
uma retraducção da redacção portugueza, como 
as estampas são uma copia com ligeiras modifi- 
cações das estampas da impressão portugueza » 
As relações intimas da corte portugueza com 
a de Castella determinavam estas communicaçÕes 
litterarias; pelo casamento de D. Joanna, irmã de 
D. Affonso V, com Enrique iv de Castella, 
(juando o prurido da erudição humanista aba-' 
fava o lyrismo allegorico, a galanteria da corte, 
com as suas intrigas amorosas, provocou o enthu- 
ziasmo Ideias Novellas cavalheirescas. O Ama- 
(lis de Gania, ainda na sua redacção portugueza, 
era h'do com predilecção, dando-nos noticia do 
seu auctor o chronista Gomes Eanes de Azurara, 



I Gallardo, Biblioteca, t. ji, p. 530. 



448 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



como quem o tinha diante dos olhos. A novel) a 
estava em uma nova elaboração cyclica, e em Cas- 
tella, encabeçavam nas narrações dos feitos do 
Amadis os de seu irmão Plorestan; allude a este 
ramo o poeta João Affonso a D. Juan ii, por 

1433: 

Jo lei dei Capitan 
et grand duque de Ballon, 
de Narciso e de Jason, 
de Ercoles e de Roldan, 
Carlo-Mano et Florestan, 
de Amadis e Lançarote 
Valdevinos é camelote 
de Galãs et de Tristan. 

(Co d. Gellardo, Fl. 34 v.) 

Gayangos considera a mais antiga novella cas- 
telhana Bi Caballero Cif ar como uma das imita- 
ções do Amadis; Menendez y Pelayo, reconhe- 
cendo que esta novella pode ser mais antiga como 
ficção, af firma que não têm relações entre si. Baist 
entende que Cif ar é mais antiga, mas o syncre- 
tismo dos elementos agíographico, cavalheiresco 
e didáctico provam o contrario, porque o effeito 
moral que se procura, sacrificando-lhe o processo 
artistico, é já uma degenerescência. Os novel- 
listas tinham sempre diante de si como typos de 
imitação os personagens da novella do Amadis; 
na novella catalan do século xv, Curial y Guelfa 
(p. 498) citam-se entre os mais celebrados aman- 
tes Amadis e, Oriana. (Pelayo, Orig., p. cem.) 
Os poetas castelhanos, como Fernan Perez de Gus- 
man, referiam-se sempre a esse ideal feminino: 

Ginebra e Oriana 
E la bella reyna Iseo. 

(Canc. Baena, n." 572.) 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 449 

A influencia do Amadis apparece reflectida 
no Tirant il Blanch, que Martorell, vivendo na 
corte de D. Affonso v, por 1460, escreveu na 
lingua portugueza, traduzindo-o depois para ca- 
talão, como reconhece Menendez y Pelayo. Ap- 
l)arece também essa influencia na novella do poe- 
ta gallaico da corte de Enrique iv, João Rodri- 
guez dei Padron; na sua novella Siervo libre 
de Amor, o episodio da Historia de los amo- 
res de Ardenlier é Liessa foi o gérmen que 
suscitou mais tarde Bernardim Ribeiro a crear 
a sua novella autobiographica. Também na Cró- 
nica Sarracina, de Pedro dei Curral, as aventu- 
ras de Amadis são adaptadas ás narrativas len- 
dárias da Perda de Hespanha pelo rei D. Ro- 
drigo. I Porventura este processo litterario sus- 
citou Garci-Ordonez de Montalvo a reelaborar o 
Amadis de Gaida, para consagrar a conquista de 
Granada como termo do dominio sarraceno em 
Hespanha. A recente introducção da Imprensa na 
peninsula, universalisando as novellas typicas de 
Cif ar e Amadis de-Gaida, deu vigor a esta repre- 
sentação do génio medieval através da corrente 
fascinadora dos estudos clássicos da época da Re- 
nascença. Mas a corrente humanista, como se vê 
pela Confectio Catoniana, manuscripto do século 
XV, considerava já uma leitura inútil as volumo- 
sas historias de Tristão, de Lancelot ou do 
Amadis. 

Paliando das poucas referencias dos poetas 
portuguezes do século xv ao Amadis de Gaida, 



I Menendez y Pelayo, Origines de la Novella, p. cciv. 
29 



450 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Menendez y Pelayo relaciona o facto: «conside- 
rando que qnasi todo o cabedal poético da pri- 
meira metade do século xv desappareceu, ficando 
uma grande lacuna entre os Cancioneiros da es- 
chola gallaica, que propriamente termina no rei- 
nado de D. Affonso iv e o Cancioíteiro de Re- 
sende, compilado nos primeiros annos do século 
XVI com obras de auctores que floresceram os 
mais, depois de 1450, e appareceram inteiramente 
dominados pela influencia de Castella.» ^ D'esta 
obra em que se revela o génio de um povo, diz o 
critico Menendez y Pelayo: «obra capital nos 
annaes da ficção humana, e uma das que por mais 
tempo e mais profundamente imprimiram o seu 
sello não só no domínio da phantasia como tam- 
l)em nos hábitos sociaes.» (Ihid., p. cxcix.) 

§ III 
Predomínio da Erudição latina 

O século XV continuou a primeira Renascença 
interrompida iniciando a época da erudição, pelos 
moralistas, jurisconsultos e hiunanistas. Desponta 
por toda a parte a, Renascença sob o aspecto phi- 
lologico e artístico. Não se opera de um modo 
brusco a negação da Edade média; os espiritos 
cultos ao passo que se apaixonam pelas obras da 
Antiguidade greco-romana, afastam-se do conta- 
cto com o povo, confinando-se nas escholas e na 



Origines de la Novella, p. cciv. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 451 

cúria, na corte e na egreja, desprezando o ele- 
mento tradicional da litteratura. A coexistência 
(las (In as correntes, a medieval e a clássica, appa- 
rece de um modo nitido nas transformações que 
recebe a lingua portugueza escripta, e na escolha 
das obras das bibliothecas principescas, antes da 
\'ulgarisação da Imprensa. 

i.t» Estado da lingua portugueza: Formas 
populares e eruditas. — Como a litteratura, a lin- 
gua nacional recebeu também um desenvolvimen- 
to erudito, modiíicando-a e imprimindo-lhe um 
caracter differente d'aquelle que teria, se os es- 
criptores do século xv, em vez de augmentarem 
o léxico com palavras tomadas directamente do 
latim ciceroniano, se reconhecessem obrigados a 
escrever para o povo, em uma linguagem ver- 
nácula que elle entendesse. Se a lingua portugueza 
seguisse uma evolução natural, chegaria organica- 
mente a essa contracção das palavras, que tanto 
se exerceu na lingua franceza, submettida so- 
mente no século xvi á auctoridade dos eruditos, 
quando já não podiam alterar a sua morpholo- 
gia, não obstante as innovações do seu léxico. A 
lingua portugueza desde que começou a ser es- 
cripta foi fixando as suas formas ao arbítrio dos 
traductores ; por isso as duas leis phoneticas — 
sup pressão das voga es mudas e queda das con- 
soantes mediaes, exerceram-se continuamente na 
linguagem oral, mas foram modificadas na lingua- 
gem escripta. Sob esta divergência os vocábulos 
appresentam formas duplas, conforme a palavra 
p'T>veiu do fundo popular modificada pela lei das 



45- 



HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 



alterações phoneticas, ou introduzida inimediata- 
mente do latim dando-lhe os eruditos a simples ter- 
minação portugueza; além d'isso as diversidades 
de accei>ção ou sentido, pelo processo semeiolo- 
gico, augmentam a duplicidade da mesma pa- 
lavra. I 

As formas populares, em que prevalece o ar- 
chaismo, só foram introduzidas accidentalmente 
nos textos como vicio de escripta ; as formas eru- 
ditas introduzidas com pretenção culta, tornaram 
a lingua litteraria convencional, á qual o rei 
D. Duarte chamava lingua ladina ou ladinJia; lin- 



I Eis alguns exemplos do phenomeno 



Popular: 



Erudito: 



Ancho Amplo 

Almalho Animal ... 

Amêndoa Amygdala 

Bodega Botica .... 

Bago Báculo .... 

Caldo Cálido 

Couto Covado ... 

Combro Cômoro ... 

Delgado Delicado .. 

Deão Decano ... 

Enxabido Insípido 

Eira 



Latim : 

.\mplus 

Animalis 

.Vmygdala 

Apothoca 

Báculo 

Calidus 

Cubitus 

romoru.s 

Delicatus 

Decanus 

Insipidus 



Área Área 



Froixo Flácido . 

Frio Frigido . 

Freima Fleuma . 

Oníde Glúten 

Insosso Insulso . 

Lidimo Legitimo 

ívobrego Lúgubre 



Meolo 



Flacidus 

Frigidus 

Flegraa 

Glúten 

Insulsus 

Legitiniuf 

Lugubr 



Medula Medula 



Mezinha Medicina 

Nédio Nitido 

Olho Óculo 

Paço Palácio 

Pardo Pálido 

P6 Pólvora 

Parola Palavra (Parábola) 

Quedo Quieto 

Relha Regra 

Sí^stro Sinistro 

Telha Tecla 

Vedro Velho 



Medicina 

Nitidus 

Occulus 

Palatium 

Palidus 

Pulvis 

Parábola 

Quietus 

Regiila 

Sinistrus 

Tegula 

Vetulus 



PRIMEIRA época: Edade media 453 



guagem que se tornou de uso corrente entre as 
classes illustradas, a ponto de já no fim do sécu- 
lo XV se julgar a linguagem popular de tal modo 
archaica que se tornou necessário traduzir para a 
linguagem corrente os documentos officiaes anti- 
quados, o que motivou a reforma dos Foraes ainda 
no tempo de D. João ii. Quando se colligem do 
(lictado popular as cantigas, romances e contos c 
que se nota quanto hoje mesmo a phonologia, a 
morphologia e a syntaxe da lingua do povo se 
affastam da linguagem escripta. Na morphologia 
distinguem-se os substantivos pelo suffixo mento 
em vez de ão; ha incerteza nas formas em om e 
aiii; emprega-se o pronome ornem e homem como 
indefinido; formas verbaes em ades (aes), par- 
ticipios em udo (ido), e toma-se directamente do 
latim o suffixo issimo para a formação dos su- 
])erlativos, que antes do século xv eram compostos 
com o adverbio mui, muito e mui muito. No Leal 
Conselheiro do rei D. Duarte fixa-se a introdu- 
cção d'este superlativo litterario: «porque nos Se- 
nhores esta virtude antre todas muyto recebe gran- 
de louvor, onde por especial d'ella som chamados 
illnstrissimos e sereníssimos, mostrando que som 
assy claros em verdade...» (p. 213.) E' d'esta 
mesma época o documento sobre Behetrias, onde 
se lê : ((Conde de Barcellos, filho do muito vir- 
tuoso e vitorissimo rey D. Joham.» i Nas cortes 
de Évora de 148 1 apparecem os seguintes super- 
lativos santissinia, christianissimo] grandissima. A 



I Mem. de Litteratura portuguesa, t i, p. 182. 



454 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



natureza d'estes últimos documentos revela-nos, 
que também os jurisconsultos na traducção das leis 
romanas imprimiram certo cunho litterario á lin- 
guagem vulgar ; na phraseologia juridica o archais- 
mo popular por vezes encontra-se como neologis- 
mo, assim na fórmula teúdo e manteúdo; nasci- 
turo, novimestre, etc. 

As traducções do latim. — A actividade dos 
traductores das lendas medievaes e dos patrolo- 
gistas, no século xiv, revelada pelos códices de 
Alcobaça, foi continuada no reinado de D. João i 
com mais fervor e enthusiasmo pelos moralistas 
e cultores da erudição clássica. Influiu este facto 
no augmento do léxico pelos neologisnios enidi- 
tos, e nas construcções clássicas que se foram tor- 
nando ellipticas. Egual phenomeno actuava nas 
linguas romanisadas. Pedro de Bercheure tradu- 
zindo Tito Livio, introduziu nas linguas moder- 
nas as palavras auguro, auspicio, cohorte, colónia, 
facção, fastos, iuauguração, magistrado, senado, 
transfuga, triumpho: Oresme traduzindo Aristó- 
teles introduz os novos vocábulos: aristocracia, 
demagogia, democraciO', déspota, insurreição, mo~ 
narchia, oligarchia, sedição, tyrannia. O poeta 
castelhano João de Mena, ampliando pela boa 
cultura humanista a linguagem poética, introduz 
no seu Labyrinto, as palavras compostas : armig:- 
ro, belígero, eviterno, nubifero; e os neologismos 
dulcido, exilio, fido, funéreo, minas, mendacia, 
pi gr o, superno, tabido, túrbido, ultrk: e os ver- 
bos : insuflar, prestigiar, trucidar. Em Portugal o 
Infante D. Pedro, ao fazer a compilação dos sete 
livros de Séneca, usa d'esta mesma liberdade neolo- 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 455 



gica, desculpando-se : «E os que menos letrados 
forem do que eu sou, nem se anojen d'algumas 
palavras latinadas e termos scuros, que en taes 
obras se nam podem escusar.» ^ Do secretario 
do Infante D. Fernando, Frei João Alvares, abba- 
de de Paço de Sousa: «E que não fez o aliás 
erudito Frei João Alvares?— Parece quiz trasladar 
todas as palavras latinas para o nosso idioma.» ^ 
A abundância e a facilidade dos neoterismos, 
actuava sobre o estudo da synonimià ; assim obser- 
va o Infante D. Pedro, na Virtuosa Bemfeituria: 
«A taes prazeres como este chamam-se em latim 
Jucunditates. E nós por não termos em nossa lin- 
guagem vocábulo apropriado, podemol-os chamar 
Sobreavondante e extremada alegria.» O rei 
D. Duarte também se entrega a estas considera- 
ções synonimicas : «Da yra, seu próprio nome em 
nossa linugagem é sanha.» (Leal Cons., p. gô.) 
Já com caracter philosophico procura estabelecer 
a synonimià da lingua : «Antre nojo e tristeza eu 
faço tal diferença; por que a tristeza, por qualquer 
parte que venha, assy embarga sempre contynua- 
damente o coraçom, que nom dá spaço de poder 
em ai bem pensar nem folgar; e o nojo é a tem- 
pos, assy como se vee na morte de alguns paren- 
tes e amigos, onde aquel tempo que per justa falia 
ou lembrança se sente, o sentymento é muito rijo; 
porém taaes hi ha que passado o dia logo riim, 
faliam, e despachadamente no que lhes praz pen- 



1 Ms. da Virtuosa Bemfeituria, liv. i, cap, 2. 

2 J. Pedro Ribeiro, Reflexões philologicas, N." 4, p. 42, 



456 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



sani. E a tristeza nom consente fazer assy, por 
que he húa door e continuado gastamento como 
apertamento de coraçom; e o nojo nom continua- 
damente, salvo se tanto se acrecenta que derriba 
em tristeza. E tal deferença se faz antre nojo e o 
pesar; porque o nojo no spaço que o sentem faz 
em aquel que o ha grande alteração, mostrando 
many festos sygnaes em chorar, sospirar, e outras 
mudanças de contenença, o que nom mostra o 
pesar solamente, ca bem veemos que das mortes 
de alguns nos pesa muyto, e nom nos derriba 
tanto que façamos o que o nojo nos constrange 
fazer, e menos caymos em tristeza, nem d'elles 
avemos sanha, mas propriamente sentimos no co- 
raçom um pesar com assas de sentido... O des- 
prazer he já menos, porque toda cousa que se faz, 
de que nos nom praz, podemos dizer com verdade 
(jue nos despraz, aynda que seja tam ligeira que 
pouco sintamos.» — «E o avorrecimento avemos 
de algumas pessoas que desamamos, ou de que ave- 
mos enveja, posto que seja em nossa secreta ca- 
mará do coraçom, e dos desgraciados, enxabidos ou 
sensabores, e aquesto do que fazen que a nós nom 
pertença nem nos torve;... E a snydade nom des- 
cende de cada húa d'estas partes, mas he hum 
sentido de coraçom que vem de sensualidade c 
nom de razom, e faz sentir aas vezes os sentidos 
da tristeza e do nojo.)"» (Ih., cap. xxv.) Os pro- 
cessos que assim actuaram sobre a degenerescên- 
cia da lingua jxM-tugueza, reduzem-se á innovação 
dos traductores. e á influencia do meio litterario 
cm que os escriptores pensavam e viviam. O bom 
saber consistia na arte de bem traduzir, em que 



PRIMEIRA época: edadE media 457 

predominava a forma paraphrastica. O rei 
D. Duarte expõe as regras : Da maneyra para 
bem tornar alguma leitura em nossa linguagem: 
«Primeiro, conhecer bem a sentença do que a to- 
mar, e poella enteiramente, nom mudando, acre- 
centando, nem minguando alguma cousa do que 
está escripto. O segundo, que nom ponha pala- 
vras latinadas, nem d'outra Hnguagem, mas todo 
seja em nossa Hngua scripta, mais achegadamente 
ao geeral boo costume de nosso f aliar que se poder 
fazer. O terceiro, que sempre se ponham palavras 
que sejam direita linguagem, respondente ao la- 
tim, nom mudando umas por outras, assy onde 
desser per latin scorregar, nom ponha afastar, e 
assy en outra semelhante, entendendo que tanto 
monta uma como outra, porque grande deferença 
faz para se bem entender serem estas palavras pro- 
priamente escriptas. O quarto, que nom ponha pa- 
lavras, que segundo o nosso costume de fallar se- 
jam havidas por deshonestas. O quinto, que se 
guarde aquella ordem que egualmente deve guar- 
dar em qualquer cousa que se escrever deva, 
scilicet, que escrevam cousas de boa sustancia cla- 
ramente para se l)em poder entender, e fremoso 
o mais que elle poder, e curtamente quando for 
necessário, e para esto aproveita muito paragra- 
phar e ])autar bem. Se um rasoar tornando do 
latim em linguagem, e outro escrever, achará me- 
lhoria de todo juntamente per hum só feito.» (Ih., 
p. 476.) O sábio monarcha exemplificou estas re- 
gras \'ertendo em redondilhas o hymno Juste 
Judex. 

Sob a influencia do rei D. Duarte, fez o sábio 
bispo de Burgos, D. Af fonso de Cartagena, quan- 



458 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



do esteve como enviado na corte portugueza, a 
traducção da Rhetorica de Cicero : «Fablando con 
vos, princepe esclarecido, en matérias da scicn- 
cia en que vos sabedes fablar, en algunos dias de 
aqiiel tiempo en que la vuestra corte, por mandad.j 
dei rey catbolico mi senor, estaba, viúvos a vo- 
Juntad de haber de la Arte de la Retórica, en 
claro linguage, por conocer algo de las doctrinas 
de los antiguos dieron para fermoso fablar. Et 
mandasteme, pues yo a esta sazon parecia haber 
alguno espacio para me occupar en cosas estudio- 
sas, que tomase un pequeno trabajo, e pasase de 
latin en nuestra lengua la Retórica que Túlio com- 
puso.» í Para o rei D. Duarte, quando princepe, 
compilou dos moralistas antigos um Tratado de 
Virtud; n'elle se lê: «Porque las cosas nobles e 
provechosas, mientras mas se extienden ai pro co- 
mun, non solamente mas nobles, mas aun divinas se 
facen. segund que lo escribio Aristóteles en el tomo 
de las Etílicas. Commigo pensando determine 
trasladar en nuestra comun lengua castellana, un 
gracioso e noble tratado que de virtudes fallé, el 
cual de los dichos de los Morales filósofos compuso 
el de loable memoria D. Alfonso de Santa Maria, 
obispo de Burgos, ai muy illustre é muy Ínclito 
sr. D. Duarte, rey de Portugal, seyendo primero 
princepe, ai cual Memorinl de Virtudes intitulo.» ^ 



1 Fl. 45, T do Libro de Marcho tulio çiçeron, que 
se llama de la Retórica, trasladado de latin en romance, 
por el muy reverendo D. Affonso de Cartagena, obispo de 
Burgos a ynstancia dei muy esclarecido Princepe D. Eduar- 
te Rey de Portugal. (Bihl. do Escurial) 

2 Ap. Oallardo, Biblioteca, t. tt, p. 255. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 459 



A rainha D. Isabel, filha do Infante D. Pedro, 
mandara também traduzir a Vita Christi, de Lu- 
dolpho Cartusiano; este livro andava na Casa real 
desde D. Duarte, que traduzira o capitulo septi- 
mo da primeira parte que intercalou no Leal Con- 
selheiro, (cap. 28.) No tempo d'este monarcha 
era ainda essa obra considerada de auctor ano- 
nymo : «aquel livro Vita Xpõ, que fez segundo di- 
zem, que per el nom se nomêa, huú freire da or- 
dem dos Cartuxos.» (Ih., cap. 85.) A rainha 
D. Isabel, mãe de D. João 11, «mandou trasladar 
de latim em linguagem portug-uez, ao muy pobre 
de vertudes dom Abbade do moesteiro de S. Pau- 
lo.» A rainha D. Leonor encarregou da impressão 
d'esta obra a Valentim de Moravia e Nicoláo de 
Saxonia a sua estampa; e como em 1495 a lin- 
guagem parecesse muito antiquada, encarregou o 
seu pregador Frei André, franciscano, da revisão 
do texto. Os philologos portuguezes do século xv i 
reconheceram este extraordinário phenomeno; es- 
creve Duarte Nunes de Leão: «Do tempo da rai- 
nha D. Philippa e de seus filhos para cá, houve er. 
Portugal, na policia e tratamento das pessoas reaes 
muita dif ferença e bons estylos e muita differença 
na linguagem e nos conceitos.)) ^ Também Fr. Ma- 
noel do Sepulchro assignala o mesmo facto: «E 
não ha duvida, que maior mudança fez a lingua 
portugueza nos primeiros vinte annos do reinado 
de D. Manoel : como vemos pelos escriptos em 
verso e prosa de uns e outros tempos.» 2 A carta 



1 Chron. D. João i, cap. 86. 

2 Refeição espiritual, § 2, n." 3, 



46o flISTORlA JM UTTKRATURA PORTUGUEZA 

regia de 22 de Novembro de 1497 reconheceu a 
necessidade de, modernisar o texto dos Foraes. 
Esta rápida transformação não se operou na lín- 
gua castelhana no fim do século xv; e quando 
Garci Ordonez de Montalvo corrigiu o Amadis 
de Gaula, em 1492, de los antiguos origi/nales, 
que estaban corruptos é compnestos en antigtw es- 
tilo, era sobre um texto portuguez que praticava 
esta modernisação «na linguagem e nos concei- 
tos.» 

Bihliothecas. — Somente os reis e princepes é 
cjue podiam jxDssuir livros, antes da descoberta da 
Imprensa, por causa dos seus preços extraordi- 
nários segundo o esmero dos copistas e illumina- 
dores e das luxuosas encadernações. Os livros que 
se facultavam aos estudiosos eram concatenatí, 
prezos por cadeias á estante, como bem se declara 
no testamento do Doutor Mangancha, de 1448: 
uc que os meus livros se po cessem en hum a Li- 
vraria per cadeas.)) Entre esses livros cita-se um 
Chino, o celebrado Commentario de Cino da Pis- 
toia aos nove primeiros livros do Código, ponto de 
resistência dos civilistas contra os decretalistas. 
Encontram-se os nomes dos vários copistas que 
trabalharam nas livrarias regias e principesca^.; 
em documento de 2 de Novembro de 145 1, falla- 
se en Johan Gonsalves, scripvain que foe dos li- 
vros do ifante D. Pedro; Domingos Vicente ap- 
parece aposentado do cargo de escrivão dos livros 
do rei D. Duarte, em 25 de Janeiro de 1446; o 
rei D. Affonso v tinha um illmniiwdor Vasco, 
c em 3 de julho de 1452 dá uma tença a Gon- 
çalo Eanes, creliguo, capellam, nosso illuminador 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 461 

dos livros... I Conhece-se a Bibliotheca do rei 
D. Duarte pelo Catalogo dos seus livros de uso 
encontrado na Cartuxa de Évora ; n'ella, como nas 
dos seus contemporâneos, acham-se promiscua- 
mente representados o elemento medieval, e o gre- 
co-romano e humanista, tendendo a prevalecer este 
ultimo, a ponto de no século xvi os poemas da 
Edade média serem desprezados e até esquecidos. 
Na bibliotheca do rei D. Duarte guardava-se a 
Dialéctica de Aristóteles, um Valério Máximo, Sé- 
neca commentado, Cicero, Vegecio, Tito Livio, 
Júlio César, as obras dos Santos Padres e mora- 
listas ecclesiasticos. O elemento medieval tam- 
bém se achava brilhantemente representado, figu- 
rando o Livro de Tristão, o Amante (Confessio 
Amantis) de Gower, Merlin, o Livro de Galaaz, 
a Historia de Troya em aragonez, traducçao de 
Jacques Coresa do francez de Benoit de Sainte 
More; o Livro do Conde de Lucanor de D. João 
Manoel, a Gran Conquista de Ultramar, as obras 
do Arcipreste de Pysa (Hita), o Livro das Tro- 
vas do Rei D. Diniz, e o das Trovas do Rei 
D. Affonso. Pelo caracter austero e estudos phi- 
losophicos do rei D. Duarte, deve considerar-se 
esta parte da sua livraria como núcleo da Livra- 
ria real de D. João i. Outros livros da Edade 
média eram lidos na corte de D. Duarte, taes como 
o Ovidio da Velha (De Vetula) traduzido por 
l^ichard de Furnival, que apparece citado no ma- 



I Documentos publicados pelo Dr. Sousa Viterbo, na 
sua memoria A Livraria real, especialmente no reinado de 
D. Manoel. 



402 HISTORIA DA LlTTÉRATURA PORTUGUEZA 



nuscrito da Corte Imperial: «bem sabedes que húa 
grande poeta muy genhoso e mui sotil antre os 
outros poetas foi o que ouve nome Ovidio Naso 
e foi gintil. E este fez muitos livros, o qual antes 
de sua morte compoz húu livro que chama Ou- 
vidio da velha, e este livro foy achado em no 
muymento...» Este poema exemplifica o syncre- 
tismo das duas correntes medieval e clássica, que 
o século XV ia separar implacavelmente. 

A pequena livraria do Infante D. Fernando 
acha-se apontada no testamento que fez antes da 
expedição de Tanger; n'essa lista destacam-se en- 
tre as obras mysticas : um livro de linguagem cha~ 
Hiado Rosal d\4mor. Item, outro livro que cha- 
inaiii Isac, em linguagem... Item o livro da Rai- 
nha D. Ilizabeth... Item, o livro de linguagem que 
chammn Hermo espiritual. Predominavam na sua 
livraria as obras dos Santos padres. 

A Bibliotheca do Condestavel D. Pedro, como 
se vê i)elo seu catalogo de 30 de junho de 1466, 
constava de noventa números, contendo obras ex- 
tremamente raras e com as mais esplendidas en- 
cadernações. N'esta livraria tem egual impor- 
tância o elemento medieval e o clássico com a eru- 
dição humanista; apontaremos o poema de Ale- 
xandre en ffrances. Deis fets de la Cavallerie en 
ffrances, Boecio de Consolacion en vulgar eas- 
tellã, Conquesfas de Ultramar en vidgar castella, 
Sidracho lo philosopho, Les Cent halades, Troya 
en leti, Joan Bocaci. Entre os livros da corrente 
greco-romana destacam-se o Sonho de Scipião, as 
obras de Aristóteles, Bthica, Politica e Econó- 
mica: Suetonio, a Vida de César, Tullio, D<: 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 463 



Officiis, Valério Máximo en vulgar francez, as 
Epistolas de Séneca en vulgar francês, Plutarcho, 
Liber de Viris illustríbus; Virgilio, Les Bnehi- 
des, Tito Livio, de secundo bello púnico; Josepho, 
De bello judayco; Plinio, de la natural istoria; 
Cornelio Tácito ; Commentarios de César, Justino ; 
Declamações de Séneca ; Ovidio, M etamorphoseos ; 
Liber Ysopetis, etc. 

Da Livraria de D. Af fonso v falia o chronista 
Ruy de Pina, dizendo: «que ajuntou bÕos livros 
e fez Livraria en seus paços.» Em uma quitação 
passada a Fernão Dias, almoxarife do Castello e 
paço de Lisboa, lê-se em data de i de janeiro de 
1452: ((Item, deu e pagou cinquenta e cinquo rs. 
a Symon carpinteiro do feitio de duas mezas, que 
fez para a casa honde está a nossa livraria, que 
foram postas em ella.» Não existe um Catalogo 
da Livraria de D. Af fonso v; mas pelas varias e 
eruditas citações do chronista Gomes Eanes de 
iVzurara, na Chronica da Conquista de Guiné re- 
constitue-se em parte, pelo que se lê no fim d'essa 
obra, terminada em 1453 • ^^E acabou-se esta obra 
na livraria que este rey fez em Lisboa.,. yy Cita 
successivamente S. Thomaz e S. Gregório, Oro- 
sio, Marco Polo; as Metamorphoses de Ovidio; as 
tragedias de Séneca, Phedra e Hypolito; Lucas 
de Tuy, continuador da Chronica de Isidoro de 
Sevilla; Cicero, S. Jeronymo; a Bthica de Aris- 
tóteles, Lucano, S. Chrysostomo, as Viagens de 
S. Brendan, de Civitate Dei de Santo Agostinho. 
Décadas de Tito Livio, Valério Máximo, Summa 
da Historia romana;. Rodrigo de Toledo, Flávio 
Josepho, das Antiguidades dos judeus, Gualter, 



464 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

das gerações de Noé; as obras dos Romãos (Ges- 
ta Roínanoriini) Vegecio, De re mUitari, a Bíblia, 
Bernardo, Regimento da casa de Ricardo^ Frei 
Gil de Roma, Regimento de Princepes, Tolomeu, 
Homero, Bsiodo, Mestre João o Ingres (Duns. 
Scoto) Hermas, o Pastor; Pedro Lombardo, Al- 
berto Magno; e a Gesta do Duque Jean de Lan- 
son a par da Chronica do Condestavel. Na outra 
obra, Chronica do Conde D. Pedro de Menezes, 
cita: «aquelle famoso poeta Dante, na sua pri- 
meira Cantica, etc.» Por esta enumeração se com- 
prehende o sentido da phrase de Ruy de Pina 
((ajuntou bõos livros,» comprando-os aos livrei- 
ros estrangeiros; a descoberta da Imprensa veiu 
satisfazer esta anciedade de possuir os livros ra- 
ros, mas nem por isso D. Affonso v e o seu suc- 
cessor deixaram de occupar os seus calligraphos e 
illuminadores. Vieram para Portugal impressores 
estrangeiros, e livreiros, como se vê pela carta 
de privilegio de D. Affonso v de 19 de Maio de 
1483, passada a Guilherme e Francisco de Mon- 
trete, e a Guido ((estantes em a nossa cidade de 
Lixboa, teemos por bem e queremos e nos praz que 
de todolos livros de forma que elles em a dita 
nossa cidade teveren e trouverem ou mandarem 
trazer de fora da terra a estes ditos nossos regnos 
nom ])aguem d'ello nenhuma sissa de sy e das par- 
tes a que os venderem...» ^ 

A Imprensa em Portugal. — Sobre a data do 
estabelecimento da Imprensa em Portugal encon- 



I Ap. Dr. Sousa Viterbo, A Livraria real, p. 6. Lis- 
boa, 1901. 



PRIMEIRA época: edade média 465 



tra-se uma noticia que se fundamenta pelo que 
já era sabido da iniciativa do Mosteiro de Santa 
Cruz de Coimbra. Escreve Buckmann: «Em 1460 
alguns negociantes d'esta cidade de Nuremberg 
informaram o governo real de Portugal da des- 
coberta e utilidade da Imprensa, feita por Gu- 
temberg e Faust em Mayença. Um cardeal ou o 
Prior de um grande Convento de Coimbra man- 
dou vir em 1465 os primeiros typographos de Nu- 
remberg para Portugal, onde elles imprimiram de 
1465 a 1473 em um convento, os auctores gregos 
e latinos e muitos livros ecclesiasticos, como por 
exemplo Thomaz de Aquino, etc. ^— Segundo uma 
velha chronica, estes impressores que vieram para 
Portugal eram Emanuel Semons (Simões) eChris- 
tophe Soll, de Altdorf, um burgo próximo de Nu- 
remberg, ensinaram muitos discipulos, e immedia- 
tamente a typographia espalhou-se por todo o reino 
de Portugal.» i No Mosteiro de Santa Cruz de 
Coimbra é que se estabeleceu uma imprensa para 1 
reproducção de livros gregos e latinos e grammati- 
cas para uso dos seus escholares. Um dos primeiros 
trabalhos dos prelos portuguezes foi o opúsculo 
sobre o Menosprecio do Murido do Condestavel 
D. Pedro: apesar de terem sido impressas sem 
data essas Coplas, certas notas manuscriptas coe- 
vas apontam aproximadamente o anno da sua pu- 
blicação. Segundo o académico José Soares da 
Silva, existia um exemplar d'este rarissimo mo- 
numento «na Livraria que foi do Cardeal Sousa, 



I Boletim da Sociedade de Geographia, 2.' série, p. 
684, (1881.) 

30 



406 HISTORIA J3A IJTTEKATURÀ PORTUGUEZA 



e existe na Casa dos Duques de Lafões, Mar- 
([uezes de Arronches.» Descrevendo o exemplar, 
declara trazer no fim a sigla de que fôraestam- 
])ado (uwve annos depois de inventada a famosa 
Arte de Inipresão.)) Também o Conde da Eri- 
ceira, relatando á Academia de Historia ix)rtu- 
gueza o estado da livraria do Conde de Vimeiro, 
escreve : «Também entre os impressos peniiane- 
cem muitos exquisitos, e entre elles as obras do 
Infante D. Pedro (aliás do Condestavel, seu fi- 
lho), com esta declaração no fím: = Bste livro 
se iniprimiu seis annos depois que em Basilea foy 
aehada a famosa Arte de Impressão. = O que ser- 
ve muito para averiguar a época d'este admirável 
invento, e disputar a gloria a Moguncia, e mos- 
trar a brevidade com que se introduziu em Por- 
tugal.» Sendo a Imprensa introduzida em Basile.i 
em 1474 é fácil de inferir que em 1480 foram 
estampadas as Coplas do Condestavel D. Pednx 1 
Os judeus ix>rtuguezes também empregaram muito 
cedo a Imprensa para a reproducção dos livros 
biblicos; em 1489, os judeus Samuel Zora e Ru- 
bem, imprimiram o Conunentario sobre o Penta- 
teuco, e em 149 1 fizeram a edição do Pentateuco 
em caracteres hebraicos. Os trabalhos esplendidos 
da Tm])rensa portugueza foram protegidos pela 



I Houve duas edições sem data, que se podem de- 
terminar por essas duas notas manuscriptas. Fixada a 
descoberta da Imprensa em 1456, nove annos depois foi 
impresso o opúsculo do Condestavel em 1465; tomando a 
data de 1474 como aquclla em que se estabeleceu a Im- 
prensa em Basilêa, temos seis annos depois uma nova edi- 
ção das Coplas do Condestavel em 1480. 



PRIMEIRA Época : edade média 467 



rainha D. Leonor, esposa de D. João 11, a mes- 
ma illustre senhora que foi em Portugal a insti- 
tuidora das Misericórdias, a que soube conhecer 
o talento de Gil Vicente, o ourives seu lavrantc, e 
que actuou no outro Gil Vicente, mestre de rhe- 
torica de D. Manoel, com directas instancias para 
que escrevesse novos Autos para os Seroes do 
Paço e para as festas religiosas. O livro da Vita 
Christi foi por ella mandado imprimir a Valentim 
de Moravia e Nicoláo de Saxonia, sendo esse es- 
plendido trabalho terminado em 1495. Valentim 
de Moravia figura até 15 14 em Portugal com o 
nome de Valentim Fernandes; em 1496 imprime 
a Isforia do muy nobre Vespasiano; em 1500, as 
obras de Cataldo Siculo, servindo já a corrente 
do humanismo, — Aquel Siculo elegante, — que 
por estes reinos vi no, como aponta Fray Juan 
d'Avila, apodando os eruditos; em 1501 imprime 
as Coplas de Jorge Manrique, de que tanto gos- 
tava D. João II, circumstancia que leva a pre- 
sumir a intervenção da rainha D. Leonor; em 
1502 imprime as Viagens de Marco Polo, tra- 
zidas para Portugal pelo Infante D. Pedro e se 
guardaram na livraria do rei D. Duarte. O in- 
teresse por essas Viagens de Marco Milhão, como 
lhe chamavam na Itália, apparece revelado no seu 
aspecto maravilhoso no Cancioneiro de Resende : 

Outros metem mais Mylham 
do mesmo pontificado... 

(Bd. Stutt., I, 141.) 

A corrente litteraria da época forçava-nos a 
abandonar as ficções medievaes pela erudição, e 



408 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

a realidade dos conhecimentos levava-nos ás nar- 
rativas históricas em vez das aventuras novel- 
lescas. 

2. o Humanistas, Moralistas e Philosophos. 

— Xo Catalogo dos Livros de uso do rei D. Duar- 
te cita-se Alvxandre, que era a forma lacónica de 
designar o Doutrinal áç^ Alexandre de Villa Dei. 
em que se achavam compilados os tratados gram- 
maticaes de Sérvio, Varrão e Prisciano, que se 
estudava com grande arriiido; em 1494 já se men- 
cionam mestres de grammatica da Arte velha e 
da nova. Era a corrente dos novos estudos hu- 
manistas, que penetravam em Portugal, qtiando 
Ayres Barbosa, cooperando com Nebrija, impri- 
miam «aos estudos de Humanidades a forma c 
organisação definitiva que haviam de conservar 
no glorioso século xvi...» i Cataldo Siculo, que 
ensinara rhetorica em Pádua, veiu a Portugal para 
educar D. Jorge, bastardo de D. João 11, e 
D. Manoel, desenvolvendo-se então na corte a edu- 
cação (obrigatória dos moços fidalgos, inscriptos 
nas Moradias aos doze annos. Durante a Edade 
média a litteratura epistolar teve uma importân- 
cia esi)ecial, sendo cultivada com o titulo de Ars 
dictandi: na época da Renascença a carta era um 
pretexto para os htimanistas brilharem pela imi- 
tação do estylo ciceroniano, que se tornou uma 
monomania. Não fallando das Cartas de D. Duar- 
te, do Infante D. Pedro, do Marquez de Santil - 



I Menendez y Pelayo, Antologia, t. v, p. xi. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE ^ÉDIA 469 



lana e de Angelo Policiano, nas suas relações com 
Portugal, destacam-se por um notável vigor de 
pittoresco realismo as Cartas de Lopo de Almeida, 
escriptas da Allemanha em 145 1, dirigidas a 
D. Affonso V, contando-lhe a jornada e as festas 
do casamento da imperatriz D. Leonor, irmã do 
monarcha. i A preoccupação rhetorica do século 
XV fez que o Magister dictaminis, se tornasse na 
corte o moço da escrivaninha, como Garcia de 
Resende junto de D. João 11, ou Bernardim Ri- 
beiro secretario da camará de D. João m. 

Pertence a esta phase humanista o manuscri- 
pto do Livro de Bsopo, traducção portugueza do 
século XV da collecção medieval intitulada Ro- 
mídus viil garis ou ordinarius, derivado das Fa- 
bulas de Phedro; nas 48 folhas de um texto pu- 
blicadas pelo Dr. Leite de Vasconcellos, 2 com- 
prehendem-se as seguintes fabulas, a que a lin- 
guagem archaica dá um pittoresco relevo: O 
gallo e a pedra preciosa, O lobo e o cordeiro, O 
rato, a rã e o minhoto, O cão que cita o carneiro 
em juizo, O cão e a posta de carne, O leão que 
vae com outros animaes á caça, O casamento do 
ladrão e do sol, O lobo e o grou, A cadella que 
pediu a casa a outra, O villão que recolhe a ser- 
pente, O rato da cidade e da aldeia, A águia que 
arrebata o filho da raposa, A águia e o cágado, 
O corvo e a águia, O leão velho, o asno, o touro 
e o porco, O l)ranchote, o seu senhor e o amo, O 



1 Provas da Hist. genealógica, t i, p. 633. 

2 Na Revista lusitana, t. viu, p. 12. 



4/0 nibiuKiA j).\ 1,1 i 1 i-,K.-A 1 l;ra portlíguhza 

calvo e a mosca, A raposa e a cegonha, O lobo e 
a cabeça do homem morto, O corvo enfeitado com 
as pennas do pavão. 

D 'entre estas fabulas merece destacar-se como 
um excellente trecho litterario a lenda da Ma- 
trona de Bpheso, que ahi tem o titulo A viuva e o 
alcaide (Fab. xxxiv.) 

Os Exemplos da Edade média renovavam-so 
pelas Fabulas da litteratura clássica, que se pren- 
diam ás preoccupações dos moralistas e das es- 
peculações philosophicas. Segundo a velha clas- 
sificação das Sciencias por S. Boaventura, remo- 
delada por LuUo, a Grammatica, Rhetorica e Ló- 
gica formavam a Philosophia racional, e a Phy- 
sica, a Mathematica e a Metaphysica constituiam 
a Philosophia natural, como a Monástica, Eco- 
nomia e Politica a Philosophia moral. O interesse 
por este quadro de estudos fez com que o rei 
D. Duarte, conhecedor das doutrinas raymonistas, 
mandasse traduzir a Rhetorica de Cicero e a 
Btliica de Aristóteles, cujo Canon dominava em 
Portugal sob a forma do averroismo. Os livros 
philosophicos d'esta época tem o caracter de com- 
pilações encyclopedicas, prevalecendo sempre o do 
gfmatismo moral sobre as suas conclusões ; doestas 
obras, escriptas em portuguez no século xv, ape- 
nas se acha impresso o Leal Conselheiro do rei 
D. Duarte; a Virtuosa Bcnifcitnria do Infante 
D. Pedro, e a Corte Imperial jazem inéditas nas 
bibliothecas municipal do Porto e da Academia 
real das Sciencias. 

O rei D. Duarte, cultivando os estudos litte- 
rarios, tinha o exemplo de grande numero de mo- 



PRIMEIRA época: iídadi: media 471 



narchas da Europa; em casa, o rei D. Diniz e 
seus bastardos Conde D. Pedro, e D. Affonso 
Sanches, depois D, João i, e Infante D. Pedro, 
pae e irmão, impelliam-no ao esmerado estudo das 
boas lettras. Elle próprio confessa este motivo da 
sua determinação : «E semelhante o muy excel- 
lente e virtuoso Rey, meu Senhor e Padre, cuja 
ahna Deus aja, fez húu livro das Horas de Santa 
Maria, e Salmos certos pêra os finados, e outro 
de Montaria; e o If fante D. Pedro, meu sobre 
todos presado e amado irmão, de cujos feitos e 
vida som contente, compoz o livro da Virtuosa 
Benifeituria, e as Horas da confissom; e aquel 
honrado Rey D. Affonso estroUogo, quantas mul- 
tidões fez de lecturas ? E assy Rey Sallamon, e 
outros da ley antiga e d'outras crenças, seendo 
en real estado, filharam desejo e folgança em 
screver seus livros de que lhes prouve, os quaaes 
me dam para semelhante fazer nom pequena au- 
toridade.» (Cap. XXVII.) ^o \\YVo ádi Ensinança 
de bem cavalgar, confessa que a exemplo de Júlio 
César escreve como elle no desenfado dos negó- 
cios graves : «E sentyndo esto o vallente empe- 
rador Jullyo César, por guardar e reter seu cuy- 
dado, por muyto que ouvesse de fazer, sempre 
quando avia spaço, seguya o estudo, e algunas 
obras de novo screvya. E veendo que meu co- 
raçom nom pôde sempre cuydar no que, segundo 
meu estado seria melhor e mais proveitoso; al- 
guns dias por andar a monte, caça e camynhos, ou 
desembargadores nom chegarem a mim tam cedo, 
estar como ocioso, ainda que o corpo trabalhe por 
nom filhar em tal tempo algum cuidado que em- 



472 HISTORIA DA TvITTERATURA PORTUGUEZA 

pecimento me possa trazer, e por tirar outros de 
que me nom praz, achey por boo e proveitoso re- 
médio alguas vezes pensar, e de minha mão scre- 
ver em esto por requerymento da vontade, e fol- 
gança que em ello sento, ca doutra guysa nunca o 
faria, por que bem sey quanto para mym presfi 
fazello ou leixallo de fazer.» (Prol., p. 498.) 

Quem lê o Catalogo dos livros de uso do rei 
D. Duarte, reconstitue a historia inteliectual áo 
século XV, e entreverá o conteúdo do Leal Con- 
selheiro, vasta encyclopedia da Theologia, Moral, 
Medicina, Lógica, Pedagogia e Grammatica de 
envolta com rápidas memorias pessoaes, ainda 
com a ingenuidade médievica, tempi delia vlrtu 
sconochiuta. A compilação era o processo habi- 
tual com que o rei D. Duarte exercia a sua apti- 
dão calligraphica, prenda rara no século xv en- 
tre os altos i^ersonagens. A coordenação d'esses 
elementos proveiu da vontade de comprazer com 
a rainha. Com o Leal Conselheiro dá-se o factj 
que tanto caracterisa a litteratura do século xv, a 
separação entre os sábios e o povo: «E tal trau- 
tado me parece que principalmente deve pertencer 
para os homens da corte, que alguma cousa sai- 
bam de semelhante sciencia, e desejam viver vir- 
tuosamente, porque aos outros bem penso que nom 
muyto lhes praza de o ler nem de ouvir.» Ape- 
sar de escripto sob o regimen da importuna eru- 
dição, o Leal Conselheiro pela sua origem fami- 
liar e domestica mostra na sua redacção «esta 
ordem de escrever na geral maneira de nosso f al- 
iar natural.» Sob este aspecto é um importante 
documento philologico para a historia da lingua 
portugueza. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 4/3 

O livro da Virtuosa Bemfeituria, que se guar- 
dava na bibliotheca do rei D. Duarte, é um tra- 
tado de moral em forma de compilação, escripto 
por seu irmão o Infante D. Pedro. No Leal Con- 
selheiro cita-o como auctoridade : «e o Infante 
D. Pedro, meu sobre todos presado e amado ir- 
mão... compoz o livro da Virtuosa Bemfeitu- 
ria...)) O chronista Ruy de Pina caracterisa-o : 
«foi bem latinado e assas mis tico (encyclopedico ) 
em sciencias e doutrinas de letras, e dado muito 
ao estudo; elle tirou de latim em lingagen o Re- 
gimento de Princepes, que Frey Gil Correado 
compoz, e assim tirou o Livro dos Officios de 
Tullio, e Vegecio De Re militari, e compoz o livro 
que se diz da Virtuosa Bemfeituria.)) i E' uma 
compilação dos sete tratados de Séneca; existem 
dois apographos na Academia real das Sciencias e 
bibliotheca municipal do Porto. 

O rei D. Duarte possuia um outro livro in- 
titulado Corte Imperial; existe ainda hoje na bi- 
bliotheca do Porto; - eis como explica o seu ti- 
tulo: «e tal nome lhe he feyto, porque asy como 
na corte do Rey ou do emperador ou d'outro alto 
princepe ssoê a seer trautados os grandes negó- 
cios e os altos feytos, e as árduas questões deter- 



1 Chron. de D. Affonso V , cap. 125. 

2 Manuscripto em pergaminho de 134 folhas : ^^Bste 
livro he chamado Corte emperial, o qual livro he dafons 
]'asques de Calvos morador na cidade do Porto?'^ Sabe-se 
pelos livros de linhagens, que este Calvos foi creado do 
duque de Bragança em 1442, e que em 1446 alcançou o 
ser isento por privilegio de servir de vereador nem ter al- 
gum officio da cidade. 



474 HISTORIA J)A IJTTKRATURA PORTUGUEí:A 



minadas, asy este livro tracta de grandes cousas 
e de niuy altas questões asy como — a essência 
de Deus e da trindade e da encarnação divinal e 
d'outras matérias proveitosas para conhecer e en- 
tender o senhor deus, segundo o jxxier da fra- 
queza humanai, provando tudo por auctoridades 
da santa escriptura cõ declarações e exposições 
de doutores e per rasões evidentes e dizeres de 
barões sabedores declarados de latim em lingua- 
gem portuguez...» Por esta obra se pôde sa- 
ber o estado do conhecimento dos livros árabes 
em Portugal em uma eix>ca em que nos paizes 
mais civilisados da Europa eram desconhecidos. 
Vejamos algumas citações : «segundo podedes 
veer por seus livros antre os qu^es fuy húu que 
houve nome hcrmogc, em húu livro que chamam 
logosteleos... (cap. xii) — Ca mafamede en seu 
livro alcarõ em que he escripto a vosa ley e pre- 
ceptos que vos ele deu, o qual livro he principal e 
authentico antre vós.» (Ib.) 

3.0 Universidade de Lisboa; Jurisconsultos; 
Codificação. — O espirito de secularisação sub- 
siste no desenvolvimento da Universidade no sé- 
culo XV. Como no tempo de D. João i se fixou 
a corte em Lisboa, assim quiz este monarcha, em 
1384, que a Universidade fosse para sempre em 
Lisboa, como ligada ao poder real. Havia classes 
de estudantes ricos, medianos e pobres. Durante 
as suas viagens o Infante D. Pedro escreveu ex- 
tensamente ao rei D. Duarte, seu irmão, lembran- 
do-lhe a reforma da Universidade, fundando jun- 
to d'ella Collegios a exemplo dos de Oxonia c 



PRIMEIRA RPOCA : EDADp; MEDIA 475 



Paris, O Infante D. Henrique coUocou a Uni- 
versidade em casa própria em 143 1 «para as sete 
artes liberaes, grammatica, lógica, rhetorica, ares- 
metica, musica, geometria e astrologia...» Em 
1442 o Infante D. Pedro fundava em Coimbra 
uma Universidade, como uma prerogativa regia; 
d'aqui talvez os ódios e intrigas que o victimaram 
na cilada de Alfarrobeira. Para estudantes pobres 
instituiu o Dr. Mangancha um Collegio, no seu 
testamento de 3 de dezembro de 1447. O Infante 
D. Henrique no seu testamento de 1460 instituiu 
um cadeira de Theologia dotada com doze marcos 
de prata. Prevaleceu o espirito clerical na Uni- 
versidade, entregando D. Affonso v em 1476 o 
governo e protecção do Estudo Geral ao bispo 
D. Rodrigo de Noronha. A Universidade de Lis- 
boa ficou estéril até á primeira reforma de 1504, 
envolvida nos conflictos scholasticos de Scotistas 
e Thomistas. A necessidade de irem frequentar as 
escholas humanistas da Itália os filhos das famí- 
lias fidalgas portuguezas, prova a insufficiencia 
do quadro dos nossos estudos. Por 1489 os filhos 
do chanceller João Teixeira frequentavam os cur- 
sos humanistas de Angelo Policiano, e Henrique 
Caiado attribue ás lições de Cataldo Siculo a sua 
cultura litteraria. Os estudantes de Theologia di- 
rigiam-se especialmente para a Universidade de 
Paris. 

O século XV é também a época dos Juriscon- 
sultos, que preparavam a independência do Poder 
real ; o Doutor Diogo Affonso de Mangancha, que 
se fizera notado em Bolonha pela sua erudição, 
quando foi por Adjunto á embaixada que o rei 



470 HISTORIA DA LITTKRATURA PORTUGUKZA 

D. Duarte mandou ao Concilio de Basilêa, era 
Regedor da Casa da Supplicação; e já no reinado 
de D. Affonso v, figura Vasco Fernandes de Lu- 
cena, Desembargador do Paço, Chanceller da Casa 
do Civel, tendo desempenhado trez embaixadas. 
Nas cortes de 1481 e 1482 convocadas para Évo- 
ra, elle fez a oração de abertura. 

Os Jurisconsultos foram os primeiros huma- 
nistas da Renascença ; conhecedores do systema 
das leis romanas, trataram de codificar as diffe- 
rentes ordenações especiaes, formando um corpo 
geral que veiu a destruir a legislação foral. Com 
o titulo de Leis antigas, achou o escrivão Jorge 
da Cunha entre o lixo da Torre do Tombo um 
pergaminho de 168 folhas, em 1633, que procu- 
rado seis annos depois pelo Procurador da Coroa 
Thomé Pinheiro da Veiga já não foi encontrado. 
Em uma certidão do Mosteiro de S. João de Ta- 
rouca da era de 1459, cita-se o Livro das Orde- 
nações que anda na Chancellaria; é crivei que 
fosse o código mandado organisar por D. João i 
ao seu jurisconsulto João Mendes Cavalleiro. Na 
bibliotheca do Rei D. Duarte «que en sendo In- 
fante foi Regedor da Casa da Supplicação» en- 
contra-se designado o Livro das Ordenações dos 
Reis: e no código affonsino cita-se o Livro das 
Ordenações do Reino e também o Livro das Leis 
que anda na Casa do Civcl. (Liv. iii, tit. 6, § i ; 
e tit. 15, § 29.) 

As occupações de D. Duarte quando Infante 
levaram-o a emprehender uma nova codificação 
das leis. Uma copia das Ordenações de D. Duarte 
chegou ao poder do ministro José de Seabra da 



PRIMEIRA KPOCA : EDADE MEDIA 477 



Silva, vindo outra copia do desembargador Joa- 
quim Pedro Ouintella a pertencer a seu filho o 
barão de Quintella; constavam de 450 folhas nu- 
meradas, segundo a descripção que fez João Pe- 
dro Ribeiro. Acham-se hoje publicadas as Or- 
denações de D. Duarte pela Academia real das 
Sciencias na coUecção Portugalice Momimenta his- 
tórica. Durante a Regência do Infante D. Pedro, 
na menoridade de D. Affonso v, elle mandou co- 
dificar sob o titulo de Ordeimções Affonsinas as 
leis dispersas dos diversos reis ainda da primeira 
dynastia; cada um dos seus titulos é precedido de 
um preambulo litterario, com ideias dos moralis- 
tas greco-romanos, misturando com ellas o sym- 
bolismo pittoresco da Edade média, no Regimento 
de Guerra. (Tit. 51.) Como obra de litteratura 
as Ordenações Affonsinas são um vasto reposi- 
tório de locuções e costumes populares, da vida 
social no século xv. Predomina n'ellas a eschollí 
bartholista, que impõe acima de todas as leis pri- 
vilegiadas, ecclesiasticas, locaes e senhoriaes o foro 
do rei, forma transitória da unificação civil. No 
século XV os Jurisconsultos eram homens de le- 
tras, cuja disciplina se continuou no espirito de 
Cujacio e da eschola histórica do direito. Os Ju- 
risconsultos encarregados de codificarem as leis 
portuguezas, como João Mendes Cavalleiro por 
D. João I , e Doutor Ruy Fernandes por D. Duarte 
e^ D. Affonso v, devem considerar-se como repre- 
sentantes da cultura humanista. 



478 HIÇTORIA DA IvlTTlSRATURA PORTUGUEZA 



§ IV 

Desenvolvimento da forma histórica 

A realeza travou a sua ultima lucta contra 
o poder senhorial; o movimento realisado por 
Luiz XI contra o Duque de Borgonha, teve tam- 
bém em Portugal e Castella repercusão análoga, 
na execução do Duque de Bragança, e na de 
D. Álvaro de Luna. O século xv, d'estas ix)de- 
rosas conspirações da aristocracia e da sangrenta 
rasão de Estado, legou-nos Memorias particula- 
res e pessoaes. A velha Chronica ingénua e des- 
tacando-se da tradição da Epopêa, veiu encontrar 
nos factos da vida social, nos interesses da ordem 
politica, na transformação das relações civis o 
objecto das suas pittorescas narrativas. As na- 
cionalidades recentemente constituídas reclamaram 
dos eruditos a invenção das suas genealogias his- 
tóricas, indo os graves eruditos filial-as nos he- 
roes de Troya foragidos em França, Veneza, em 
Hespanha e Portugal. Os estados geraes ou Cor- 
tes queriam que se fixassem authenticamente as 
rasÕes das reformas que estatuíam, e os Chro- 
nistas eram lisongeados pela realeza para justi- 
ficarem os seus arbítrios e crimes; conta Damião 
de Góes, que Affonso de Albuquerque presen- 
teava com jóias a Ruy de Pina para lhe ser fa- 
vorável nas Chronícas. No meio d'estas preten- 
ções de uma vaidade erudita, appareceram os Co- 
mines, os Platina, os Olivíer de la Marche ; Frois- 
sart viaja por França para colligir os successos 
do seu tempo: «Faltava-lhe alguma cousa a di- 



PRIMEIRA UPOCA : EDADE MÉDIA 479 

zer sobre as guerras de Hespanha, e precisava para 
isso o testemunho dos portuguezes. Assegura- 
ram-lhe que muitos cavalleiros d'esta nação esta- 
vam em Bruges. O cavalleiro andante da His- 
toria parte para Bruges; alli sabe que um outro 
portuguez valente e sábio estava na Zelândia; 
eil-o a caminho para a Zelândia para saber dos 
acontecimentos de Portugal. Alli encontra o seu 
homem gracieux et accointablc, e com elle está 
durante seis dias fazendo-lhe contar as historias 
e anecdotas, que vae reduzido a escripto. Depois 
de ter exhaurido a memoria d'este cavalleiro, parte 
para outra investigação.» i Com este mesmo es- 
pirito Fernão Lopes percorre Portugal para es- 
crever a historia de cada reinado, e Azurara visita 
as conquistas do norte da Africa. A realeza 
preoccupava-se com a organisação das Chronicas 
do reino, e convidava latinistas italianos como 
Matheus Pisano, Frei Justo Balduino, e Angelo 
Policiano para traduzirem paifa latim as memo- 
rias nacionaes. De D. João ii, escreveu Damião 
de Góes : «era tão curioso de fazer vir em luz 
todos os feitos d'este Conde D. Duarte e do Conde 
D. Pedro seu pae, e hos dos Reys passados, que 
para se divulgarem em lingua latina, mandou vir 
de Itália D. Justo, frade da ordem de S. Domin- 
gos, a quem por este respeito fez Bispo de Se- 
pta...» 2 Veiu-nos d'este frade a perda incalcu- 
lável dos melhores materiaes colligidos para a 



1 Lef ranc, Hist. crit. de la Litterature française — 
Moycn-Age — p. 395. 

2 Chron, de D, Manoel, P. vi, 38, fl. 49. 



48o HISTORIA DA LlTTERATURA. PORTUGUEZA 



nossa historia, por causa do seu falecimento re- 
pentino. Angelo Policiano não accedeu ao con- 
vite de D. João ii. No século xv propala-se a 
tradição das Quinas^ das Armas nacionaes, ex- 
plicando-as pela lenda do milagre de Ourique, re- 
ferida por Olivier de la Marche ; o Bispo D. Gar- 
cia, orando diante do Papa, emprega no seu discur- 
so humanista o nome de Lusitânia identiíicando-o 
com o de Portugal; Herculano motejou d'esta 
designação ethnica ^desconhecendo os Mappas do 
século VI a x 1 1 , em que o nome de Lusitânia de- 
signa sempre a região que veiu a ter, o nome de 
Portugal. 

Apesar do exagerado respeito pelos latinistas 
estrangeiros é no século xv que appa recém os 
grandes historiadores portuguezes escrevendo na 
lingua nacional, com um admirável relevo pit- 
toresco e com um elevado bom senso. A reda- 
cção ix)rtugueza julgar-se-hia então provisória, 
sendo destinada á amplificação do latim cicero- 
niano, como se pode inferir da despreoccupação 
do estylo em Fernão Lopes, e dos variados plá- 
gios que d'este chronista fizeram outros que lhe 
succederam. A fundação de um Archivo nacional 
(Torre do Tombo), e a creação do cargo de Chro- 
nista do Reino, inherente aos guardas d'esse Ar- 
chivo, actuaram directamente sobre o desenvol- 
vimento da forma histórica, determinando as ca- 
pacidades de Fernão Lopes, Gomes Eanes de Azu- 
rara e Ruy de Pina. 

i.o Conversão das Estorias em Caronicas. 

— Na carta escripta pelo rei D. Duarte, de San- 



PRIMEIRA Época: edade média 481 



tarem em 19 de Março de 1434, a Fernão Lopes, 
encarregava-o «de poer em. caronica as estorças 
dos Reys que antigamente em Portugal foram; 
eto) Herculano ligou a estas duas palavras sen- 
tidos dif ferentes : a estoria designava as memorias 
tradicionaes, os registos latinos, os obituários, as 
legendas mesmo oraes. De facto no syncretismo 
da Edade média os cantores narrativos foram 
chamados histriones^ e Gesta a historia de feitos 
lieroicos; como ainda hoje na ilha da Madeira os 
romances populares são chamados Estorias. A 
Chronica era a epheméride palaciana com o ca- 
racter de um registo; os seils redactores eram 
como os Logographos gregos. Para se chegar 
ás formas bellas e superiores das chronicas do 
século XV, convém indicar os esboços isolados em 
que as narrações eram ainda moldadas pela con- 
cepção limitada do século xiv. 

2i) A Chronica da fundação do Moesteyro de 
S. Vicente. — No principio do século xv fez-se 
uma traducção da relação latina intitulada Indi- 
cuhtm fundationis Monasterii Sancfi Vicentii, es- 
cripto no reinado de D.' Af fonso 1 1 ; ^ guardava- 
se esta traducção com o mais rigoí"oso affêrro na 
livraria do Mosteiro de S. Vicente, em Lisboa. 
Na Chronica dos Eremitas de Santo Agostinho 
(t. T, fl. 993) refere Frei António da Purifica- 
ção : ((também me admira o notável cuidado que 
se tem no Convento de S. Vicente sobre a guarda 
d'aquella escriptura latina da sua fundação, e do 



I Herculano, Hist. de Portugal, t. i, p. 506, Not. xvi: 
3I' 



482 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Ordinário de S. Rufo, não consentindo que pes- 
soa alguma as tome na mão para as lêr... Porque 
as escondem não só a nós, mas até aos outros his- 
toriadores e Chronistas do Reino.» Em 1538 
mandou D. João 11 1 imprimir este vedado ma- 
nuscripto traduzido ((em a própria língua antigua 
em que foi achado.)) Diverge este texto do que 
existe na Torre do Tombo e foi em 1861 publi- 
cado nos Monumentos históricos. ^ Sobre a Chro- 
nica dos Vicentes falia Herculano: ((Tem-se offe- 
recido algumas duvidas sobre a sua authentici- 
dade. O que se pôde ter por certo é que não foi 
escripta nos primeiros annos do reinado de 
D. Sancho i, como ahi se indica: ou que é copia 
tirada posteriormente... A letra porém do manus- 
cripto de S. Vicente é semelhante em grandeza, 
em forma, em tudo á de um volume de Chancel- 
laria de D. Affonso 11 (Maço de Foraes an- 
tigos, n.<^ 3.) 2 A Chronica: dos Vicentes, além 
de ser um valioso documento do estado da lingua 
portugueza no século xv é inapreciável para o es- 
tudo histórico dos primeiros annos da nação por- 
tugueza; alli se encontram tradições poéticas liga- 
das á memoria dos francezes que ajudaram á con- 
quista de Lisboa, como a sentidissima lenda do 
cavalleiro Henrique e da fidelidade do seu pagem, 
que com tanta arte idealisou Camões nos Liisiadas 
alludindo á palma que nascera sobre a sepultura 
do Cavalleiro. 



1 Portugalico Monumenta hist. — Scriptores, p. 407. 

2 Op. cit.. t. I. p. 506. 



PRIMEIRA época: Edade média 483 



b) Vida de D. Tello. — E' a historia no seu 
elemento biographico; a vida d'este arcediago de 
Santa Cruz de Coimbra foi escripta em latim no 
século XII, e encerra muitas circumstancias da 
historia nacional não referidas em outros monu- 
mentos. Traduziu-a para portuguez mestre Ál- 
varo da Mota, dominicano, o nomeado reitor da 
Universidade de Coimbra fundada pelo Infante 
D. Pedro ; lê-se no seu prologo : ((Aqui se começa 
a obra que fala do fundamento do moesteiro de 
Santa Cruz de Coimbra e quaes foram aquellas 
pessoas que este ordenaram, e fala mais da vida 
de D. Tello e d'outros homens seus companhei- 
ros. Esta obra está em latim no livro do erda- 
mento de Santa Cruz, e foi tornado em lingua- 
gem por que o entendessem muitos, a requeri- 
mento de Pedrcanes, prior de podentes, irmão 
de Affonso annes, conigo de santa cruz. E esto 
foy em tempo de dom gomes, prior de santa cruz, 
homem de santa vida, que primeiro foi abbade 
de frorença. E esta trasladaçam fez do latim em 
linguagem mestre Álvaro da Mota, da ordem dos 
pregadores, o maior letrado da ordem, estando 
em santa cruz com o prior dom gomes no anno 
I.V, no mez de Novembro.» A linguagem da Vida 
de D. Tello appresenta f(3rmas já não emprega- 
das por escriptores seus contemporâneos; ahi se 
lê : ((Vinham muitos velhos cãaos fazendo grande 
chanfo por D. Tello...» A forma vulgar de cãoos 
(canos ou encanecidos) desappareceu por causa 
da homonymia com cão, conservando-se a forma 
feminina caii por não ter esse inconveniente. Chan- 
fo era a forma vulgar de planctus, que desappa- 



484 HISTORIA DA I^ITTERATURA PORTUGUEZA 

receii diante da forma erudita de pranto, ficando 
a forma chantar proveniente de plantare. O tra- 
balho da erudição ia reconhecendo estas homo- 
nymias e homophonias, avançando para a disci- 
plina da lingua pela escripta. 

c) Chronica do Condestabre. — O auctor ano- 
nymo d'esta chronica classifica-a no seu pequeno 
prologo como estaria; Azurara compara-a sob o 
aspecto biographico á Gesta do Duque João de 
Lanson: ((Antigamente foi costume fazerem 
memoria das cousas que se faziam, assi erra- 
das, como dos valentes e nobres feitios. Dos 
erros, porque d'elles se soubessem guardar; e dos 
valentes e nobres feitos aos boos fezessem cobiça 
aver pêra as semelhantes cousas fazerem.» K' 
com este intuito que exemplifica os feitos errados 
com a faulse geste, e os nobres feitos com a Chro- 
niea do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira. O 
elemento tradicional predomina n'este importante 
quadro em que nos mostra o Condestavel apaixo- 
nado pela leitura dos poemas da Tavola Redonda : 
((.avia grani sabor de leer estarias.)) Alli também 
se encontra a lenda da Espada encantada que lhe 
entregara o alfageme de Santarém (cap. xvii) 
sobre a qual Garrett fundou um drama nacional. 

d) Crónica do Santo e virtuoso Infante 
D. Fernando, por Frei João Alvares. Foi publi- 
cada em Lisboa em 1527, na imprensa de German 
Galharde, Na Bibliotheca nacional de Madrid exis- 
te um texto manuscripto em portuguez do século 
XV, com o titulo: Fernando Infante, filho de 
D. João I de Portugal. Sua vida. N'elle se de- 
clara o auctor: ((Johã alvares, cavalleiro de Avis 



PRIMEIRA época: EDADE MÉDIA 485 



e da casa do S.o^ Infante D. Anrique, que foi 
creado e secretario do muito virtuoso 8.°^ Yfante 
D. Fernando.» João Pedro Ribeiro caracterisou 
esta Chronica como um continuado neologismo la- 
tino. Quanto á narrativa histórica, escreveu Fray 
Hieronymo Roman na Historia do los religiosos 
Infantes de Portugal, criticando também a remo- 
delação de Fr. Jeronymo Ramos de 1577: «todos 
quedaron cortos, ix>r que no vieron los papeies de 
la Torre de Tombo ó Archivo de Lisboa ni los 
dei Convento de Avis, ni otros memoriales que 
vinieron á mis manos.» 

2.0 Fundação do Archivo Nacional (Torre 
do Tombo. ) — Nas Chronicas de D. Pedro i e 
de D. Fernando, falia Fernão Lopes da Torre 
alvará ou do aver, construida primitivamente para 
se gitardar o Thezouro real. (Cap. 12; e cap. 48. ) 
A cargo do Vedor da Fazenda, já no tempo do 
rei D. Fernando (1367- 1383) ahi se depositavam 
como em archivo estável os livros findos das Chan- 
cellarias, na Torre de Menagem do Castello de 
Lisboa. D'aqui o nome de Torre do Tombo, 
(tomo) de Re cabe do Regni, inventario dos bens 
próprios nacionaes, e direitos. Tinha um escrivão 
privativo, que se tornou depois Guarda-mór, Con- 
tador da Fazenda, que authenticava os diplomas 
das provisões e certidões, em nome do soberano e 
l)em assim as allegações dos titulos e documen- 
tos. Os primeiros Guardas da Torre do Tombo 
ainda não estavam separados nas suas attribuições 
dos empregados do thezouro; assim foram João 
Annes, vedor da Fazenda por 1373; Gonçalo Es- 



486 HISTORIA DA WTTERATURA PORTUGUEZA 



tevês, Contador dos Contos de Lisboa, encarre- 
gado do serviço da Torre em 1403, vencendo o 
mantimento e vestir, posto que não trabalhasse 
nos Contos, o que leva a fixar a separação do 
cargo de Archivista do de Thezoureiro em 1403; 
seguiu-se-lhe Gonçalo Gonçalves, Contador dos 
Almoxarifados de Setúbal e Óbidos, incumbido 
do serviço do Archivo em 14 14 e exercendo-o até 
14 18. Em Outubro d'este anno estava já de posse 
d'este logar Fernão Lopes, o fundador da historia 
portugueza. O facto de apparecer nomeado em 
vida de Gonçalo Gonçalves leva a induzir que 
as attribuições de archivista e de thezoureiro fo- 
ram completamente separadas e tornadas com 
esta nomeação independentes. A competência de 
Fernão Loi>es seria reconhecida durante o exer- 
cicio de secretario do princepe D. Duarte e in- 
fante D. Fernando. Desde 14 18 até 1420 ha bas- 
tantes documentos assignadòs por Fernão Lopes 
m que d'iCsto he dado seu especial encarrego de 
guardar as chaves das dietas escripturas r o tras- 
lado d' cilas.)) 

Fernão Lopes exerceu durahte trinta e seis 
annos este cargo, pedindo a sua exoneração ((já 
tam velho e flaco, que p:r si^ não pode bem servir 
o dito officio...)) A nomeação do novo archivista 
recahiu em Gomes Eanes de Azurara, indigitado 
pelo próprio Fernão Lopes: ((per seu pradmcnto, 
e per fazer a elle mercê, como he razom de se 
dar aos boos senndores.)) Sobreviveu Fernão Lo- 
pes ainda cinco annos á sua aposentação. Azu- 
rara preencheu o seu encargo até 1490, em que 



prime;ira Época: edads média 487 



lhe succede Ruy de Pina, severo na critica his- 
tórica em que serve intuitos pohticos, sob a pres- 
são ofíicial. Erradas comprehensões fizeram que 
as Chancellarias dos primeiros reinados fossem 
destrui das e muitos documentos originaes se 
substituíssem por resumos e Índices summarios, 
e se reduzissem a leitura nova (1495-1557) tra- 
tando do luxo exterior da calligraphia- e illumi- 
nuras inçando essas copias de erros palmares. 

Os GRANDES ChRONISTAS DO SE:CUIvO XV 

Depois de Portugal ter affirmado consciente- 
mente a sua autonomia nacional, e iniciado as 
navegações modernas, que haviam de determinar 
a éra pacifica da actividade industrial, revelou-se 
o génio histórico nos seus grandes clironistas, 
como uma consequência lógica d'esse individua- 
lismo' heróico. Formulou Frederico Schlegel com 
notável tino: ((Feitos memoráveis, grandes suc- 
cessos e largos destinos não bastam para nos pren- 
der a attenção e determinar o juizo da posteri- 
dade. Para que um povo tenha este privilegio, 
é preciso que elle possa dar conta das suas acções 
c dos seus destinos.)) Isto nos mostra que a forma 
litteraria da Historia não foi um producto da eru- 
dição e do influxo official, mas um producto or- 
gânico, que no século xv competiu dignamente 
com as obras históricas dos grandes chronistas 
europeus, seguindo a evolução completa d'este gé- 
nero, que pela Grécia fora realisado na sua inte- 
gralidade. Para apreciar os Chronistas portugue- 



488 HISTORIA DA I^lTTERATURA PORTUGUEZA 



zes do século xv, basta observar como elles se ele- 
varam na evolução ascendente d'este género lit- 
terario. O chronista Fernão Lopes, pelo realismo 
das suas narrativas destacando-se pelo bom senso 
das tradições poéticas mas conservando-lhes o sen- 
tido do ethos nacional, é comparável a Heródoto, 
e a quantos seguiram esta forma ingénua e pitto- 
resca da objectividade das pessoas e dramatisação 
dos factos anecdoticos, pondo-se a par de Froissart, 
e de Joinville. O chronista Gomes Eannes dè Azu- 
rara, já se serve do processo subjectivo, dando-nos 
os discursos dos personagens e o aspecto politico 
do meio social, auctorisando-se com antigos exem- 
plos, aproximando-se das formas narrativas de 
Thucydides, embora não fosse geralmente co- 
nhecido o historiador grego. • Em Ruy de Pina ha 
a consciência do poder do julgamento da historia 
sobre os factos occorridos, cuja relação os nar- 
radores não accentuam, mas que conduzem o es- 
pirito critico á formação da noção synthetica. E' 
o grande mestre d'esta phase pragmática da histo- 
ria Polybio, o primeiro modelo, que só podia ser 
seguido quando a Civilisação moderna se reve- 
lasse no seu conjuncto, aos Ranke, aos Michelet, 
Bukle, Thierry. A acção mundial exercida pela 
nação portugueza, exige ser tratada na sua His- 
toria pelas formas syntheticas de Polybio, para 
a sua verdadeira comprehensão. Até hoje ainda 
não foi escripta por este processo, apezar dos seus 
factos estarem já esclarecidos no vasto quadro da 
civilisação moderna. Merece um interesse vivís- 
simo, como na marcha da nação portugueza para 



PRIMEIIRA E^OCA: EDADE MÉDIA 489 

OS grandes feitos mundiaes, se vae affirmando a 
consciência histórica dos seus Chronistas: 

i.o Fernão Lopes. — E' o verdadeiro funda- 
dor da Historia de Portugal; para elle o narrar 
os factos, e julgal-os é como achar-se investido 
da missão grave e conscienciosa de proferir uma 
sentença perante a posteridade; assim tendo de 
referir um acto indigno do rei D. Pedro i, de- 
clara : «O fruito principal da alma he a verdade, 
e ella hade ser clara e nom fingida, mormente nos- 
Reys e senhores.» — «e posto que escrito achamos 
d'el-Rey de Portugal que a toda a gente era man- 
teedor da verdade, nossa tençon he nom o louvar 
mais; pois contra seu juramento foi consentidor 
em tam fea cousa como esta.» Refere-se á troca 
dos castelhanos refugiados em Portugal pelos as- 
sassinos de D. Ignez de Castro. Era este sentimento 
da verdade que o dirigia na sua investigação com 
uma incansável actividade, esgotando todas as 
fontes de consulta; diz-nos elle no começo da 
Chronica de Dom João i; que: «com cuidado' e 
diligencia vira grandes volumes de livros e des- 
vairadas linguagens e terras, e esse mesmo, mui- 
tas cscripturas de muitos cartórios e outros loga- 
res, nos quaes, depois- de longas vigilias e gran- 
des trabalhos, mais certidam aver nam pode do 
conteúdo em esta obra.» O chronista Eannes de 
Azurara caracterisa de egual forma o trabalho do 
venerando mestre : «em andar pelos Moesteiros e 
Igrejas buscando cartórios e os letreiros d'ellas, 
para aver sua informação; e não só em este Rey- 
nc, mas ainda no Reyno de Castella mandou el 



490 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

rei D. Duarte buscar muitas escripturas, que i 
esto pertenciam.» i Todo este trabalho era accu- 
mulado para a formação da Chronica de Portu- 
gal^ que existiu na Livraria do rei D. Duarte. Co- 
nhecendo a sua excepcional competência, o rei 
D. Duarte, por carta de 19 de Março de 1434, deu: 
«o carrego a Fernão Lopes seu escripvam, de poer 
em caronyca as estorias dos Reys que antigamente 
em Portugal foram ; esso meesmo os grandes fei- 
tos e altos do mui vertuoso e de grandes vertudes 
el Rey seu senhor e padre, cuja alma deos aja; e 
per quanto em tal obra elle ha assas trabalho e ha 
muito de trabalhar; porém querendo-lhe agallar- 
doar e fazer graça e mercê, mando que el aja de 
teença em cada hum anno em todollos dias da 
sua vyda, des primeiro dia do mez de janeyro que 
ora foy da era d'esta carta em diante, pêra seu 
mantimento quatorze mil libras em cada hum an- 
no, pagadas aos quartees do anno.» Vem esta 
carta inclusa em uma outra datada <ie 3 de junho 
de 1449 iicom accordo do Yfante Dom Pedro, seu 
tyo defensor por el (D. Affonso v) dos ditos Re- 
gnos e senhorios...» 

A capacidade sui:)erior de Fernão Lopes, re- 
conhecida pelos dois mais illustres filhos de 
D. João I, acha-se proclamada por Azurara, f al- 
iando com profundo resi:>eito do seu caracter : «no- 
tável pessoa, homem de communal sciencia e gran- 
de auctoridade: escrivão da puridade do Infante 
D. Fernando ; ao qual El Rei D. Duarte, em sendo 



I Azurara, Chron. de D. João i, P. iii, cap. 2. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MÉDIA 49I 



Infante, commeteo o cargo de apanhar os avisa- 
mentos que pertenciam a todos aquelles feitos 
(guerra entre Portugal e Castella) e os ajuntar e 
ordenar segundo pertencia á grandeza d'elles, e 
authoridade dos princepes e outras notáveis pes- 
soas que os fizeram.» Tanto pela carta do rei 
D. Duarte como por esta citação da Chronica de 
Azurara, se vê que Fernão Lopes escreveu unia 
Chronica geral do Reino; allude a esta a carta de 
mercê de D. Af f onso v, feita em Lisboa em 1 1 de 
janeiro de 1449: «pelos grandes trabalhos que elle 
ha tomado e ainda hade tomar em fazer a Chro- 
nica dos feitos dos Reys de Portugal... )y Tanto 
José Soares da Silva como Mendo Trigoso, se- 
guiram a auctoridade de Damião de Góes, que 
transcreveu a mercê de D. Affonso v; assim nas 
Memorias de D. João i, escreve Soares da Silva : 
((Gomes Annes, no ultimo capitulo da Chronica 
do Conde D. Pedro, primeiro capitão de Ceuta, 
que elle compoz, na qual para verificar a jornada 
dos Infantes a Tanger, cita a Fernão Lopes, na 
Chronica geral do Reino, assim como o allega em 
partes; dando d'ella testemunho no principio do 
segundo capitulo da sua historia de Ceuta...» Fer- 
não Lopes completou este vasto trabalho com 
a Chronica de Dom João i, encommendada pelo 
rei D. Duarte. Por fatalidade injustificada esse 
monumento foi roubado e fragmentado em Chro- 
nicas especiaes, conservando-se apenas, com o no- 
me de Fernão Lopes as Chronicas de D. Pedro i 
e de Dom Fernando, e a de Dom João i, incomple- 
ta; todos os outros livros, passando por copias 
ou alterações continuadas, appareceram em nome 
de outros auctores. 



492 HISTORIA DA LITT^RATURA PORTUGU^ZA 



Damião de Góes, na Chronica de Dom Manoel, 
restituiu pela primeira vez por um processo cri- 
tico a Fernão Lopes, desde o Conde D. Henrique 
até D. Affonso iv, as Chronicas ^idos Reis que 
antigamente em Portugal foram.)) Confirmando a 
auctoridade de Damião de Góes, escreve acerca 
d'estes plágios: «E ainda que algumas d'estas 
Chronicas se acham accrescentadas ou recopiladas, 
como são a de -D. Affonso Henriques por Duarte 
Galvão (a quem o grande João de Barros na 
terceira Década, liv. i, cap. 4, chama seu apura- 
dor,) d, de D. Duarte por Gomes Annes ou Ruy 
de Pina, as dos nove reis por Duarte Nunes de 
Leão; sempre as substancias e o principal d'ellas 
é de Fernão Lopes.)) K^s» summulas feitas por 
Acenheiro roçam pela imbecilidade. A tendência 
dos chronistas das primeiras duas dynastias em 
plagiarem Fernão Lopes, provem de ter esse espi- 
rito iniciador esgotado as fontes docummentaes. 

Apesar de terem conservado o seu nome, as 
trez Chronicas hoje impressas sobre apographos, 
essas mesmas se perderam, restando traslados mo- 
dernisados, summariados ou ampliados. O con- 
fronto d'esses differentes textos revela por ve- 
zes os subsídios de que o chronista se servia, ou 
também como os plagiários se iam appropriando 
das suas narrativas ou mesmo fazendo-lhes con- 
tinuações até ao fim do século xvi. 

Examinando os manuscriptos das Chronicas 
dos Reys de Portugal, Dom Pedro o i.^ doeste 
nome e dos Reys o viii, e dei Rey Fernando, o 
i.o de nome e dos reis o ix, que se guardam na 
bibliotheca nacional de Madrid, o illustre lusita- 



pRiMiSiRA Época: edade média 493 

nophilo Sanchez Moguel, fez varias observações 
sobre a importância d'estes textos, não só da in- 
fluencia que no critério histórico de Fernão Lo- 
pes exerceu o grande chronista Pêro Lopez de 
Ayala, como a revelação de factos da historia de 
Hespanlia que são omissos em Ayala e que se en- 
contram referidos por Fernão Lopes. A edição 
da Chronica de D. Pedro i feita pelo P.<^ Bayam, 
considerada pelas deturpações, pareceu ao saloio 
académico que a reimprimiu em 18 16 nos Inédi- 
tos da Historia portuguesa, absolutamente neces- 
sário consideral-a ainda como realmente inédita. 
Apesar de se ter seguido o texto manuscripto da 
Torre do Tombo com o maior escrúpulo, San- 
chez Moguel, conhecendo outros códices portu- 
guezes e o madrileno, chegou á conclusão : «Falta 
pois uma verdadeira edição de ambas as Chroni- 
cas, tal como se entendem hoje estes trabalhos, 
tendo em conta todos os códices e todas as va- 
riantes, e o que mais importa, estudando o con- 
teúdo, comparando estas Chronicas com as penin- 
sulares e estrangeiras d'aquelles tempos ou que 
aos mesmos feitos se referem, enriquecendo-as 
com os documentos, illustrações e notas corres- 
pondentes; eto) Sanchez Moguel, encetando este 
estudo, chegou ás conclusões : Que a Chronica de 
Dom Pedro i se serviu de fontes hespanholas an- 
teriores ; e que se narram n'ella feitos importantes 
puramente hespanhoes, que nas Chronicas de Hes- 
panha foram omittidos, ou incompletamente se 
relatam, i Na Chronica em que Fernão Lopes 



I Reparaciones históricas, i, p. 43. 1894. 



494 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

trata da grande guerra e muito criia antre el Rei 
D. Pedro de Aragom, «seguiu passo a passo, com- 
pendiando-a fielmente, até ao ponto de reproduzir 
as mesmas phrases e locuções, quasi sempre tra- 
duzidas á letra, a Crónica dei Rey D. Pedro de 
Castella, do Chanceller López de Ayala.» Funda- 
menta-o com o schema dos capitulos communs ás 
duas Chronicas, e determinando que o texto se- 
guido pelo escriptor portuguez foi o da Chronica 
abreznada. ou vulgar de Ayala. Mas na Chronica de 
Fernão Lopes acham-se tratados largamente factos 
apenas alludidos por Ayala ; escreve Moguel : «Das 
relações que mediaram entre os dois Pedros, rei 
e sobrinho, pouco, e apenas o essencial, é o que 
nos refere Ayala; muito, em comparação, o que o 
chronista portuguez nos conta. — Refere Ayala 
o iniquo facto pelo qual ambos os monarchas se 
obrigaram, o castelhano a entregar a seu tio os 
assassinos de D. Ignez de Castro, refugiados em 
Castella, e o portuguez em troca, a seu sobrinho, 
os cavalleiros castelhanos que tinham ido para 
Portugal fugindo das suas crueldades; o chro- 
nista portuguez, conforme no essencial, accres- 
centa á narrativa castelhana factos e noticias im- 
portantes, como, por exemplo, a fuga de Diogo 
Lopes Pacheco, com todos os seus poéticos por- 
menores. 

«Falla-nos Ayala do projectado casamento de 
D. Beatriz, filha do castelhano D. Pedro cotn 
D. Fernando, filho do de Portugal ; e a Chronica 
d 'este rei, estende-se sobre a matéria, dando-nos 
a conhecer negociações e contractos celebrados 
não só sobre este matrimonio, como no tocante 



PRIMEIRA época: edade média 495 



a outros, de filhas do rei de Castellacom filhos do 
nionarcha portuguez, dos quaes nada disse o Chan- 
celler na sua Chronica. 

((N'esta pouco se lê relativo á ida de D. Pe- 
dro de Castella a Portugal, fugindo do seu vi- 
ctorioso irmão, e antes de sahir para Bayona e 
pôr sua causa em mãos dos inglezes. Pelo con- 
trario, a Chronica portugueza nos relata com mais 
riqueza de noticias a sahida de D. Pedro de Se- 
vilha, os th?30uros que possuia e' tentou tirar de 
Castella, as negociações e desaccordos que se 
deram logo entre os reis castelhano e portuguez, 
e a carta que este escreveu ao Princepe de Gales 
((/>or se desculpar do que el Rei Don Pedro dizia j) 
— «Para concluir : na Chronica portugueza acha- 
mos referidos factos importantes da historia de 
D. Pedro de Castella que o seu chronista passa em 
silencio, que tem sido imperfeitamente conheci- 
dos, e que só podem ser claramente apreciados 
pelo que na Chronica portugueza se contém.» 
N'este rápido estudo da Chronica de D. Pedro i 
por Fernão Lopes conclue Sanchez Moguel a su- 
perior influencia que o chanceller Pêro Lopez de 
Ayala exerceu sobre o fundador da Historia por- 
tugueza : «entre o que o chronista portuguez e 
o castelhano relatam não ha contradição que se 
note, o que abona altamente ambos os chronis- 
tas, e é prova mais eloquentíssima da gravidade 
histórica do Thucidydes hespanhol, mestre e guia 
do chronista portuguez na narração e no senso cri- 
tico, como o foi mais tarde do maior dos histo- 
riadores aragonezes, o grão Zurita, também seu 
discipulo,)) (Op. cit., p. 53.) 



496 HISTORIA DA LITTHRATURA PORTUGUEZA 

Da Chronica de Dom João i impressa pela 
Academia real das Sciencias nos Inéditos da His- 
toria portugueza, póde-se dizer que o texto ma- 
niiscripto da Torre do Tombo é um apographo 
mais moderno do que esse de Pêro Vaz Soares, 
que foi estrebeiro mór da Excellente Senhora, ^ 
que existe na Casa de Tarouca, que nos restitue 
quanto possível a sua forma authentica. D'este 
texto, faz uma interessante e nitida descripção 
o l)r. José de Arriaga, que elaborou o Catalogo 
d'aquella rica bibliotheca. Transcrevemos as suas 
])alavras de uma communicação á Academia real 
das Sciencias : 

«Escripto em estylo mui antigo, quasi con- 
temporâneo dos factos, é de incontestável valor. 
Fazendo uma relação mui desenvolvida dos fidal- 
gos que na batalha de Aljubarrota acompanharam 
a D. João I, e referindo-se aos que sahiram do 
reino, accrescenta o chronista : = dos quaes allgús 
já morrerõ assy como ho allmirante e o conde de 
Viana, Aires Gomes da Sylva, etc. = Donde se 
conclue que ainda no tempo d'elle existiam alguns 
dos que entraram na guerra. Ha mais provas 
d'isto. 

((A obra parece composta de trez partes. A pri- 
meira trata da conspiração contra o Conde de An- 
dei ro, de que o auctor faz princii)al protagonista a 
Rui Pereira. A segunda abrange o periodo desdo 



I Lê-se no testamento da Excellente Senhora. — Iten, 
seyscentas dobras a Pêro Vaz Soares, que foi meu estri- 
beiro mór em galardão de seus serviços.^* (Archivo hist por- 
tuguês, t. I, p. IO.) 



PRIMKIRA época: EdadE média 497 

a acclamação de D. João até á paz com Hespanha. 
E' a que existe. A terceira abrangeria, talvez, o 
periodo importante desde a paz de Hespanha até 
á morte do rei. 

«E' mui importante o que o auctor narra da 
batalha de Aljubarrota. Combatendo os exageros 
dos auctores portuguezes e hespanhoes, pretende 
fazer um calculo imparcial das forças que entra- 
ram em lucta. Diz que é esse o dever do chro- 
nista.» 

O Dr. José de Arriaga foi confrontar este 
texto trasladado por Pêro Vaz Soares com os có- 
dices da Torre do Tombo, e com a edição da Aca- 
demia real das Sciencias: «Resultou doeste es- 
tudo a convicção de que todas as Chronicas de 
D. João I até agora encontradas, são copias mais 
ou menos infiéis da de Fernão Lopes, cujos au- 
tographos desappareceram, talvez por cumplicida- 
de de alguns dos que desejaram passar por au- 
ctores. Desgraçadamente os originaes á face de 
que se fez a impressão, são das copias mais re- 
centes e infiéis. — A' sua escolha não presidiu bom 
critério. Basta apontar o facto estranho de o por- 
tuguez e ortographia da primeira parte serem de 
uma época posterior á da segunda. N'aquella já 
se usa o ão da ultima reforma da ortographia por- 
tugueza; n'esta ultima emprega-se o antigo on. 
N'uma e n'outro são frequentes os desleixos e 
até as alterações dos copiadores. 

(íAs copias mais antigas, por nós conhecidas, 
são a de Couto de Vasconcellos e a d*este archivo 
(de Pêro Vaz Soares.) Uma e outra são escri- 
ptas em caracteres da época, como os manuscriptos 

32 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



das Chronicas de D. Pedro e de £>. Fernando. — 
N'elle usam-se geral e invariavelmente as vogaes 
e consoantes duplas; o artigo o vem sempre com 
h, bem como as palavras começadas por vogaes. 
Ainda é costume antepôr-se a letra a a muitos 
vocábulos. 

((No manuscripto de Couto de Vasconcellos 
tudo isto desappareceu. Só em casos excepcio- 
naes se empregam as vogaes duplas, e se antepõe 
o h a, algumas palavras. — Se a copia de Couto 
de Vasconcellos mostra ser mais moderna do que 
a de Pêro Vaz Soares, o que diremos da que ser- 
viu de autographo para a edição : — Couto de 
Vasconcellos teve empenho em fazer divergir a 
segunda parte da primeira ; o editor, ao contra- 
rio, quiz harmonisal-as. Conservou as mutilações 
d'aquelle copiador que lhe convinham e metteu 
excerptos de sua casa...» 

((Em nossa humilde opinião é a copia (de Pêro 
Vaz Soares) mais antiga e mais fiel até hoje co- 
nhecida. — Este manuscripto pode abrir caminho 
a novas investigações e derramar luz sobre cousas 
até agora não suspeitas.» i 

As Chronicas de Fernão Lopes são intensa- 
mente dramáticas; os ditos e apodos populares, 
(jue definem um typo ou uma situação, cruzam-se 
]>or entre as reflexões sensatas do narrador, que 
os vae acareando com os documentos; os costu- 
mes públicos foiTnam o fundo d'este quadro ani- 



I Boletim da Segunda Classe da Acad. real das Scien- 
cias, Vol. I, p. II a i8. 



PRIMEIRA época: EdadE média 499 



niado, em que a linguagem é — ingénua e quasi 
vulgar — em uma construcçao francamente clara, 
n'essa justa proporção que só o bom senso na- 
tural sabe encontrar. O espirito de um Froissart 
educado por um Montaigne, é que nos daria o 
equivalente da superioridade de Fernão Lopes não 
só em Portugal, mas a par dos grandes Chro- 
nistas do século xv. Quando em uma boa edi- 
ção critica das suas Chronicas se restituirá este 
vulto á civilisação europêa? 

2. o Gomes Eannes de Azurara. — A prasi- 
iiicnto de Fernão Lopes, que já pela muita edade 
não podia continuar as investigações históricas, 
succedeu-lhe Azurara, compondo a Tomada de 
Ceuta, que forma a terceira parte da Chronica 
de D. João i, escripta trinta e quatro annos de- 
pois da interrupção de Fernão Lopes. D. Affon- 
so V encarregara d'este trabalho a Azurara, seu 
bibliothecario, posição que lhe facilitou essa affe- 
ctação de citações eruditas, que foi um prurido 
do humanismo do século xv; mas a erudição não 
destruiu de todo a ingenuidade do seu estylo; como 
Fernão Lopes, elle também procurava a impres- 
são local dos acontecimentos, visitando o campo 
da acção. Para descrever as guerras no norte de 
de Africa, Azurara residiu bastante tempo em Al- 
cácer Ceguer podendo assim descrever com forte 
relevo a tomada de Alcácer, de Arzilla e de Tan- 
ger; transcreve um ditado popular, que disse Go- 
mes Freire, um dos que lançaram a escada ao 
muro da fortaleza : 



500 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



— Oh noite má, 

P'ra quem te apparelhas? 

Que se completa pelo que ouvimos na tradi- 
ção oral da Foz do Douro: 

^^P'rós pobres soldados 
E pastores de ovelhas. 

— E os homens do mar 
Aonde os deixas? 
^^Esses, ficam metidos 
Até ás orelhas. 

Escreveu as Chronicas de Dom Pedro de Me- 
nezes e de Dom Duarte seu filho, e uma Chronica 
de Dotu Affonso V até á morte do Infante D. Pe- 
dro, da qual se apropriou depois Ruy de Pina 
ampliando-a e continuando-a. Por que faria Ruy 
de Pina este plagio? Podemos inferir que o fez 
por ordem superior; Azurara escrevera sob o pa- 
tronato de D. Affonso v, tratando de o justificar da 
iniquidade e ingratidão com que procedeu contra 
o Regente, o Infante D. Pedro seu tio. Ruy de 
Pina, escrevendo sob a auctoridade de D. João ii, 
que reconhecera esse attentado suggestionado pela 
intriga do Bragança, teve de modificar essa chro- 
nica, ampliando-a e continuando-a. Damião de 
Góes tratou lucidamente este facto de ser o tra- 
balho de Azurara aproveitado pelo chronista Ruy 
de Pina. (Chr. D. Manoel, P. iv, cap. 38.) Para 
a Chronica da Conquista de Guiné serviu-se Azu- 
rara de uma Relação escripta por Affonso Cer- 
veira: teve n'esta narrativa o intuito de constituir 
uma vida do Infante D. Henrique dando-lhe a 
exclusiva iniciativa dos Descobrimentos maríti- 
mos. D'este propósito de bajulação, proveiu a len- 



PRIMEIRA época: edade media 501 

da dos Infantistas, calando os esforços das Par- 
cerias do Algarve que o Infante com os rendi- 
mentos do Mestrado de Christo auxiliava para a 
participação dos lucros, e phantasiando uma Es- 
chola cosmographica de Sagres. Na Historia de 
Ceuta, confessa Azurara ter accrescentado á Chro- 
nica de D. João i de Fernão Lopes vários suc- 
cessos da guerra de Portugal e Castella. Escre- 
vendo na opulenta bibliotheca do rei D. Af fonso v, 
matiza as suas narrativas com sentenças tiradas 
de Aristóteles, de Valério Máximo, Tito Livio. 
Ovidio, Lucano, Séneca, e dos Santos padres, para 
fundamentar o seu juizo. Apesar de tanta capa- 
cidade, o prestigio da erudição fez que fosse cha- 
mado o frade italiano Frei Justo para escrever as 
chronicas em latim. 

3.0 Ruy de Pina. — Nos ofíicios de guarda- 
mór da Torre do Tombo e Chronista mór do icino 
succedeu a Azurara Ruy de Pina, que floresceu 
desde o reinado de D. Af fonso v até ao começo 
do de D. João iii. Ruy de Pina era escrivão da 
camará de D. João 11, e bastante considerado pelo 
implacável monarcha; em carta datada de Évora, 
de 16 de Fevereiro de 1490, nomêa-lhe um ama- 
nuense para o ajudar ano carrego e negocio de 
escrever cm nossos feitos famosos e de nossos 
Reynosj) Com egual data lhe manda D. João n 
passar uma carta de tença de nove mil quinhentos 
e sessenta reis. Ruy de Pina achava-se em uma 
situação delicada; tinha de historiar toda a cons- 
piração dos Braganças desde a morte do Infante 
D. Pedro traiçoeiramente em Alfarrobeira, e en- 



502 HISTORIA DA I^ITTERATURA PORTUGUEZA 

venenamento da joven rainha D. Isabel, sua íilha, 
até á traição castigada com a degolação do duque 
em 1483. Ruy de Pina achou-se de posse das 
Chronicas dos Reis, que formavam o corpo da 
Chronica geral do Reino, como o relata João Ro- 
drigues de Sá de Menezes a Damião de Góes em 
Novembro de 1558, tendo então mais de oitenta 
annos. Transcrevemos um trecho d'essa carta do 
velho poeta do Cancioneiro geral e Alcaide mór 
do Porto, pela qual se pôde fazer uma ideia do 
estado dos trabalhos históricos n'este periodo da 
actividade de Ruy de Pina : Damião de Góes acha- 
va-se então encarregado de escrever a Chronica 
de D. Manoel: 

«Folguo muito de lhe darem o carguo da Chro- 
nica dei rei dom Bmanoel, quomo me escreve, por 
que sei que a fará muito bem por a devoçam, e 
amor que teve a seu serviço e ás suas cousas, e 
parece esta conta que dá de quomo andou de mão 
e mão esta Chronica o que se escreve das Rha- 
psodias de Homero, e assi foram as Chronicas 
dos Reis passados de 'Portugal, que se perderam 
em poder de Frei Justo, Bisix> de Septa, italiano, 
que El rei D. Affonso mandou buscar a Itália 
pêra lh'as escrever em latim, e elle morreu da peste 
em Almada, e aí se perderam. Ruy de Pina, em 
tempo de D. João 1 1 , houve a mão, por mandado 
de el rei, umas Chronicas dos Reis antiguos, que 
mingoavam, de hum homem d'esta cidade mui 
principal, que se chamava Fernam Novaes, e um 
seu filho que se chamava Fernam Novaes couk^ 
elle, me mostrou a carta de el-rei, com o conhe- 
cimento de Ruy de Pina; e regnando el-rei 



PRIMEIRA kpoca: edadE media 503 



D. Emanoel, elle ou por ter estas Chronicas ou 
também por estar em seu poder o Tombo, em que 
estavam as cousas d'aquelles tempos, e por Chro- 
nicas de Castella, se offereceu a el Rei a lhe fazer 
as Chronicas que faleciam, e a isso veo da Guarda 
a Lisboa, e as fez com grande gosto de el rei, e 
com lhe fazer muita mercê por isso. Depois de 
acabadas, muitas pessoas vi descontentar-se d'el- 
las, á minha vontade sem rasão, posto que o es- 
tylo de Ruy de Pina, pelos muitos adjectivos e 
epithetos que se usavam n'aquelle tempo, he muito 
afeitado.» i 

Em carta dada em Évora em 24 de Junho 
de 1497, D. Manoel concedeu a Ruy de Pina 
uma tença de doze mil reis annuaes, e nomeando-o 
«Coronista Moor das Coronicas e das cousas pas- 
sadas e presentes e por vir de nossos Regnos e 
Senhorios ;» e também o nomeou seu bibliothecario 
com «o carrego e a chave da nosa Livraria, que 
está nos nossos paços da cidade de Lisboa, o qual 
officio e carrego queremos que o dito Ruy de 
Pina aja assy e pela guisa que ho tinha o doutor 
Vasquo Fernandes do nosso conselho e nosso 
chanceller en a casa do Civel que no lo deixou 
pêra o dannos ao dito Ruy de Pina por satisfação 
que lhe delle demos de que foy contente, e como 
o tiveram outros coronystas d'ante elle.» 

Sobre este trabalho da historia acham-se in- 
teressantes noticias em uma petição de seu filho 
Fernão de Pina a D. João iii, para succeder nos 



I Na Chronica de D. Manoel, P. iv, cap. 38, fl. 50. 



504 HISTORIA DA LlTTERATURA PORT JGUEZA 



officios de guarda-mór da Torre do Tombo e de 
Chronista mór do reino, desempenhados por seu 
pae. Esse documento é dos fins de 1522, ou do 
começo de 1523, porque Fernão de Pina foi no- 
meado Chronista Mór do Reino por carta de 23 
de Abril de 1523. Na sua petição dizia que desde 
a mocidade se creara para servir estes cargos, dan- 
do-se ao latim e ao grego ; e pediu também a tença 
de vinte mil reaes, resto dos trinta mil reaes que 
D. Manoel dera para seu pae fazer a Chronica 
de Bi rei Dom Affonso V, a de Dom Manoel, alle- 
gando mais, que elle e seu cunhado Fernam Bran- 
dão acabaram a Chronica do rei D. Manoel, que 
está por fazer (talvez redigir?) ; accrescenta ainda 
na petição, que o rei D. Manoel dera sessenta 
mil reaes de ouro para seu pae fazer a Chronica 
de Blrei Dom Sancho i até Blrei Dom Diniz: e 
pela de Bi Rei Dom Duarte lhe deu mil cruzados 
<le ouro, e pela de Dom Affonso V e de seu filho 
(Princepe D. João) os trinta mil acima ditos da 
tença, i Ruy de Pina frequentava os seroes do 
paço ; em uns apodos e chistes feitos em 1498 a 
Manoel de Noronha, filho do Capitão donatário di 
Ilha da Madeira, por que mandara fazer umas 
ceroulas de chamalote, lêem-se estes versos de An- 
rique Corrêa : 



I Archivo histórico português, vol. vi, p. 312. Braan- 
caiiip Freire fixa o falecimento de Ruy de Pina pouco 
antes de i8 de Novembro de 1522, por que em documento 
desta data se diz: Ruy de Pina que Deus perdoe. 



PRIMEIRA época: edade média 505 



Esta cousa he muito dina 

para no Tombo jazer; 

aa mister qu'a Ruy de Pina 

se faça logo saber, 

por ficar d'el]a memoria 

he razam, 

que s'escreva esta envençam. 

(Canc. ger., iii, 137). 

Em carta de 24 de junho de 1497 ^ôra no- 
meado Ruy de Pina Chronista-mór do reino. 
Pelas suas relações na corte, casou sua filha Isabel 
de Pina com o poeta palaciano Fernam Brandão, 
filho do Contador do Porto João Brandão; seu 
filho Fernam de Pina era também poeta dos se- 
rões manoelinos, restando d'elle um apodo a Si- 
mão de Sousa d'Ocem, por que veiu ao terreiro 
de Almeirim em uma mula com largas esporas da 
gineta esmaltadas e com chapins : 

Eu como homem teu amigo, 
quiz saber tua praneta, 
e achey que na gineta 
te vya hum gram perigo. 
E como te vi aqui 
metido n'essas esporas, 
logo disse, essas horas, 
ex aqui 
o perigo que lhe vi. 

(Canc. geral, iii, 252.) 

Este apodo fixa-se em 15 10, por uma copla 
de Garcia de Resende: 

Na éra de Jesu Christo, 
de mil quinhentos e dez, 
no terreiro de Almeirim 
foi um homem em mula visto 
com larga espora de l^ez, 
calçada sobre chapim. 



5ou HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



N'este tempo Garcia de Resende, que fora 
moço da escrivaninha de D. João ii, era estimado 
na corte nianoelina, e na intimidade com o chro- 
nista e bibliothecario de D. Manoel achou occa- 
sião para trasladar a Chronica do Princcpe 
D. João, que publicou em seu nome em 1554, 
fiado em que ficaria inédita a Chronica de Ruy 
de Pina. Seria esse plagio imposição official, para 
eliminar qualquer affirmativa com que Ruy de 
Pina justificava o rei D. João 11. No século 
XVI foi eliminada de vez a liberdade da historia. 
Em Ruy de Pina teniiina o cyclo dos grandes 
Chronistas do século xv, individualidades que em 
qualquer das litteraturas da l:!yUropa teriam fun- 
dado a sciencia da historia, e á qual deram todo 
o relevo que já tinha n'essa época. 



Os extraordinários successos do século xv, 
como a invenção da Imprensa, favorecendo repen- 
tinamente a corrente do Humanismo: da Pólvo- 
ra, immediatamente influindo no império da for- 
ça material nos confiictos politicos do novo equi- 
líbrio europeu ; e a applicaçao da Bússola, actuando 
definitivamente nos assombrosos Descobrimentos 
geographicos, accumularam novas condições que 
determinaram uma Éra nova da Humanidade, 
desde logo considerada como Renascimento. Esse 
culto da civilisação greco-romana, que se impoz 
pelo seu deslumbrante prestigio; essa actividade 
que se expandia na occupação da terra, contras- 
tavam com a apathia da Edade média, o cosmo- 
politismo com o isolamento do ascetismo christão. 



PRIMEIRA ÉPOCA : EDADE MEDIA 507 

N'esse enthuziasmo da nova Era, a Edade média 
foi menosprezada, esquecida, quebrando-se a con- 
tinuidade até ao século xix, que pela critica scien- 
tiíica soube reconhecer — questi tempi delia virtu 
sconoschiuta. O periodo medieval ou orgânico das 
Litteraturas modernas ficou obliterado e esquecido. 
A Litferatura da Bdade média tão fecunda e na- 
cionalmente original, foi uma das mais truncadas 
ficando totalmente ignorada até ao momento em 
que a critica philosophica vivificou a erudição mo- 
derna. Grandes thezouros litterarios estão hoje 
perdidos irreparavelmente ; obras preciosas e ines- 
timáveis foram descobertas nas collecções manus- 
criptas pelas bibliothecas europêas ; e um espolio 
valioso está actualmente publicado. ^ Urgia com- 



I Perdas de monumentos da Litteratura portugueza 
do século XII a xv; e enumerações d'aquelles que foram 
encontrados ou estão publicados : 

, Canções de D. Sancho i e D. Affonso iv. 

Livro das Trovas de BI Rei Dom Dini::. 

Cancioneiro de Nossa Senhora. 

Cancioneiro da Ajuda. 

Livro das Trovas do Conde de Barcellos. 

Livro velho das Linhagens, e Nobiliário do Conde 
De Pedro. 

Cancioneiro de D. Maria de Cisneros. 

Amadis de Gaula. 

Historia de Troya (traduzida em gallego). 

Tristão. 

Historia geral de Hespanha. 

As Partidas, em portuguez. 

Chronica do Mouro Rasis (Ahmed-Ar-Rasi) traduzida 
em portuguez por Gil Pirez, e d'esta lingua para castelhano. 

Traducção das Obras do Arcipreste de Hita. 

Demanda do Santo Graal. 

Baladro de Merlin. 

Livro de Josep ah Arimathia. 



508 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

pendiar todo esse material, vestígio de um vasto 
ii ventar io desbaratado, construindo o quadro da 
primeira Época da Littèratura portugueza, em que 
se fundamenta com eloquentes documentos o indi- 
vidualismo e fecundidade do nosso génio nacional. 
E' o que se intenta n'este livro. 



Poesias do Infante D. Pedro, e varias traducções dos 
Moralistas. 

Leal Conselheiro de D. Duarte. 

Livro das Trovas de El-rei D. Duarte. 

Sátira de felice e infelice vida do Condcstavel D. Pedro. 

Tragedia da insigne rainha D. Isabel pelo mesmo. 

O Amante de Gower, traducção de Roberto Payno. 

Baarlam e Josaphat; Amaro e Visão de Tundal. 

Livro de Bsopo. 

miada de Homero, 6 cantos. 

Vida da rainha santa Elisabett. 

Traducções da Biblia (Livraria de Alcobaça). 

Chronica dos Vicentes. 

Ordenações' de Dom Duarte. 

Chronica geral do Reino, por Fernão Lopes. 

Azurara, Chronica da Guiné; Chronica do Conde D. Pe- 
dro de Meneses. 

Chronicas de Ruy de Pina. 

Obras de Frei João Claro. 

Poesias portuguesas nos Cancioneiros castelhanos. 

Cancioneiro portuguez da Bibliotheca de Madrid. 

Sonetos sagrados de D. João da Silva (Beato Amadeo.) 

Obras inéditas da Livraria de Alcobaça; e obras da Bi- 
l)H()thoca do rei D. Duarte, do Condestavel de Portugal, e 
do D. Affonso v, que se dispersaram. 



índice 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

(RE CAPIXTJl^ A.ÇÀO) 



Explicativa v 

O ethos expresso na litteratura 1 



PROLEGOMENOS 
Elaboração orgânica da Litteratura 

Creação das Lltteraturas 3 

Consideradas como Synthese affectiva 4 

Concepção de Bacon sobre as influencias litterarias 5 

A litteratura grega exemplo completo da evolução orgânica O 

As lltteraturas modernas e o dualismo tradicional e clássico 7 



§ I 

Factores staticos 

1.» A Raça. — Seu caracter através da Litteratura 8 

Na Litteratura grega, segundo Ottfried Múller O 

Ma Litteratura franceza e allemã 10 

Existe uma raça portugueza 11 

— sua differcnça do typo ibérico 13 

A grande Confederação occidental e o elemento ligurlco... 14 

Extensão da Lusitânia dos antigos 16 

Tardia e debll invasão dos Celtos na Península 17 



510 ÍNDICE 



Ruina (ia Civilisaçao bronzifcra lmi 

Estado de pureza das tribus lusitanas li I 

As invasões germânicas continuam a acção dos homens 

corpulentos do Norte 28 

I'ersistoncia do elemento popular 24 

A invasão dos Árabes e a população dos Mulladis e 

Mosarabes l:" 

A aspiração nacional de um povo livre _(. 

2.0 A Tradição. — Mantém as primitivas unidades ethnicas 27 

Continuidade das tradições poéticas nas populações actuaes 28 

Formas tradicionaes do Lyrismo 31 

As Maias e Maierolles 32 

O tliema épico odyssaico 33 

Os romances da Bella Infanta e Náo Catherineta 35 

A Noiva arraiana 36 

O imperialismo germânico e a unidade catliolica 37 

Formação da sociedade mosarabe 38 

8." A Ling:ua. — Actua no desenvolvimento social e in- 
dependência nacional .80 



a) Formação das Línguas românicas 



Sob princípios análogos, que conduzem a um typo commum 40 
Conservam vestígios de uma Grammatica fortemente cons- 
tituída 41 

Diez doriva-as da lingua popular dos romanos 18 

Segundo Schleiger, seguem differente caminho do que o 

de latim 4.1 

Para Max Muller, o latim clássico não explica completa- 
mente a sua origem 44 

Imi)ossibilidade de uma lingua synthetica produzir lín- 
guas analyticas 45 

O latim pela sua vida de trez séculos não prevaleceu 

sobre os dialectos Itálicos 46 

O que foi a Lingua romanitalis 48 

Familia de línguas analyticas 49 

TTnidade determinada por Darmesteter 49 

Plionetica das línguas romanisadas 51 

O domínio geographico 53 

Acção litterarla do latim nas classes cultas 56 

Os germânicos que invadiram a Hespanha tinham a cul- 
tura romana 58 

A occupação dos Árabes não produziu um dialecto popular "'^ 



b) Filiação da Língua portugueza e suas 
ÉPOCAS históricas 



o Portuguez, Catalão e Castelhano correspondem a trez 

nacionalidades 61 



índice 



511 



a) Separação ão Portugnez e do Gallego... 
A Galliza deoao na situação da província... 
A autonomia nacional actua no desenvolvimento da 

portugueza 

b) Modificações por via do francez 

Influencia litteraria da França 

c) O portvguez começa a ser escripto 

Documentos de 1192 e 1214 

Os dialectos portuguezes 

d) A Versificação portugueza: Syllahismo... 
Nenhuma relação com a métrica de quantidade 
Épocas históricas da lingua portugueza ... 



lingua 



PAG. 

63 

64 

65 

65 
66 

66 
66 
69 

70 
71 

73 



4." A Nacionalidade. — ■ Os trez focos de resistência contra 

os Árabes ■ 

A resistência lusa, segundo Rasis 

As divisões ecclesiasticas da Lusitânia no século VIII 

são as actuaes... 

A restauração lusitana precede a asturo-cantabra... 

A Terra Portucalense toma-se estado independente em 

1128 

Reconstitue-se parte da antiga Lusonia até ao Algarve 

A vida histórica da Nacionalidade 

A expressão do génio nacional por CamSes 

As consequências do novo equilíbrio europeu da Casa de 

Áustria 

Obliteração do sentimento nacional sob os Braganças.. 



75 

76 

77 
78 

79 

81 
82 
84 

85 

87 



§ II 

Factores dynamicos 



— As Épocas históricas e o meio social actuando 
nas Litteraturas 



A Concepção de Comte, seguida por Stuart Mlll e Bain. 
As trez phases da cultura moderna 



89 
90 



a) EdADE; MÉDIA 



Caracter complexo d'esta época 

Conflicto do Poder espiritual e temporal. 



92 
93 



512 índice 



PAG. 

l.o A Egreja. — A educação popular nas Collegiadas 94 

Exemplos e Contos populares 95 

Moralidades e Diabruras 90 

Parodias goliardescas 97 

2." A Corte. — Contrapõe as Escholas ás Universidades... 98 

Os typos das Monarchias 99 

A Cavalleria e os typos ideaes 100 

Focos de sociabilidade 101 

3." A Burguezia. — A actividade pacifica 102 

Creação de uma classe média 103 



b) R:eNASCKNÇA 



A insurreição mental no século XIII 103 

A Éra dos Descobrimentos 104 

A Monarcbia Universal 105 

A diplomacia e a Querella dos Antigos e Modernos 107 

Caracter do Século excepcional 108 



c) Romantismo 



Fim da crise revolucionaria 108 

A sensibilidade romântica 110 

() Proto-romantismo 111 

A Era dos Génios, na AUemanha 113 

Influencias da AUemanha no Romantismo 114 

Kehabilitação da Edadc média Iin 

A historia com critério methodologlco 11 ti 



II — Successão das Litteraturas modernas, e mutua 
acção hegemónica 



Kevivcscencia da antiga Civllisação occidental 117 

O grupo do Meio Dia da Europa 119 

a) Litteratura da Fiiinça 120 

Sua acção sobre as litteraturas medlevaes 121 

b) Jlcfjemonia da Itália I--'» 

c) llcspanha e Portugal j;;<» 

As duas Litteraturas differenciadas pelo ethos d'estes dois 

povos 131 

Como resistiu Portugal á absorpção do Castelhanismo ... 132 

Purtufjdl r(>voln o génio da raça no seu lyrlsmo 138 



índice 513 



Épocas históricas da Litteratura portugueza 



PAG. 

Primeira Época: Edade média 139 

1." Período (Século XII a XIV) Predomínio do Lyrísmo 

trobadoresco 139 

2.0 reríodo (Século xv) Influencia do Lyrísmo castelhano 

e a erudição latina 141 

Segunda Época: Renascença 142 

1." Período: Os Quinhentistas (Século XVI) Quadro da 

maior actividade da nação portugueza 142 

2." Período: Culteranistas : (Século XVII) As Tertúlias 

e Comedias famosas 144 

3.» Período: Arcadistas (Século XVIII) O pseudo-classi- 

cismo francez 145 

Terceira Época: Romantismo (Século XIX) Revivescência 

das Tradições nadonaes 146 

Caracter da litteratura portugueza 147 

d) Inglaterra e Alleinanha 148 

Acção da litteratura ingleza no século XVII 150 

A influencia allemã 151 

O espirito universalista nas litteraturas 153 



primeira época 

EDADE MÉDIA 

(Século XII a XV) 
i." Período: Trovadores portuguezes 

Formação da litteratura simultânea com a nacionalidade... 155 

A corrente tradicional e a erudita 156 

Influencia provençal entre 1190 e 1253 156 

§ I 

Influencia do sul da França ou Gallo-romana 



A liberdade democrática e a cultura do sul da França... 157 

As Cortes de Amor 158 

Auhade e Serena 159 

As Pastorellas no gosto antigo 160 



33 



5M índice 



Unidade das Ctvnções lyricas da Provença, Itália. Galliza, 

Portugal, Valência. Aragão e Casteíla 161 

Sua origem meridional 163 

Eschola de Tolosa 164 

Propagação do lyrismo á Itália 164 

^ em Hespanha 165 

Trovadores na Corte do Leão ... 166 

Como se propagou o lyrismo portuguez Tis Cortes penin- 
sulares 167 

Preponderância do elemento popular 168 

A Eschola trobadoresca portugueza 

Marcabrus visitou Portugal 170 

Gavaudan o Velho, Cercamons e Peire Vidal referem-se 

a Portugal 171 

A Corte de Guimarães 172 

As Cantigas de Amigo e a pequena burguezia do Minho 173 

A Galliza d'áquem Minho 175 

Errada importância attribuida á Galliza do Norte por Me- 

nendez y 1'elayo 170 

Comprehensão do texto de Marquez de Santillana 178 

As mulheres cantoras no lyrismo portuguez 179 

Naturalidade e caracter affectivo 180 

Fundo tradicional do lyrismo portuguez 181 

Phases históricas da Eschola trobadoresca portugueza ... 182 

a) Ciiclo pre-Affonsi'110 (1185 a 124'8) O gosto do Ly- 

rismo trobadoresco suscitado pela corte de Leão e 

Aragão ... 182 

D. Sancho I, trovador 184 

A Quinta Monarchia 185 

Os amores de D. Sancho 1 187 

Canção á Ribeirinha no gosto popular 188 

A Serranilha artística precedeu os Jograes gallegos 189 

Fontes sociaes d'este lyrismo 190 

As Cidades livres ou Behetrias... 191 

O trovador Payo Soares de Taveiró 194 

As Netas do Conde apodadas pelos trovadores 195 

Õ trovador Martim Soares ;.. 196 

Trovadores portuguezes que emigram para Leão, Aragão 

e Casteíla 198 

Na corte de Santarém 199 

Martim Soares, da corte de D. Sancho II 200 

João Soares Coelho e Sordello de Mantua 201 

Canções do Bonifazio Calvo em portuguez 202 

Kamon Vidal e Rambant de Vaqueiras trovam > m portu- 
guez 203 

Affonso o Sábio centonisa versos de .loão de < iillhade e 

do João Coollio 205 

A anarchia feudal actua na degradação da Galliza 205 

O sentimento caractoristico do lyrismo portuguc: 207 

Trovadores pre-Affonsinos 207 

b) Cifclo Affonsino (1248 a 1279) A edade mais fértil 

da Arte trobadoresca 208 

Assistência do D. Affonso III na corte de França 20S 



IX Dl CE 



515 



Fidalgos portuguezes quo ahi se refugiaram depois da 
Lide do Porto 

A Sátira contra os Alcaides traidores por Ayres Perez 
Veytura 



PAG. 

209 

210 



II 



Influencia do Norte da França ou Gallo^franka 



As Canções lyricas da lingua d'oil 

D. João de Aboim e as Pastorellas "francezas... 
Esgaravunha emprega um retornello em francez. 
Affonso Lopes de Baião parodia a Gesta de Roland. 

Poética trobadoresca portugueza 

O Segrel 

Gesta de Maldizer contra Ruy Gomes de Briteiros. 
Conhecimento das Canções de Gesta em Portugal. 

Seria D. Affonso III também trovador? 

O Cancioneiro da Ajuda contém a maioria dos trovadores 
que pertenceram á corte de D. Affonso III 

C) Cyclo Dionísio C1279 a 1325) A corte do rei D. Diniz 
centro de convergência dos trovadores gallegos, cas- 
telhanos, aragonezes e andaluzes 

Aymeric d'Ebrard, de Cahors. mestre de D. Diniz 

Apogeu da lyrica palaciana 

Revivescência do lyrlsmo provençal 

A rasão de amor, ou a doutrina philosophica dos trova 
dores 

Os amores de I). Diniz 

Sua imitação do lyrismo popular 

O sentimento aproximou os trovadores d'esta origem po 
pular 

Convei-gencia de trovadores <« jograes de Leão, Castella 
e Aragão 

Relação entre os Cancioneiros e os Nobiliários 

Livro das Cantigas do Conde ãè Barcellos 

Systematisação do Grande Cancioneiro troljadoresco 

Os quatro Cancioneiros fundamentaes 

d) C.uclo post-Dioni-fío (1325 a 1357) Na corte de D. Af- 
fonso IV 

A lingua portugueza usada pelos trovadores castelhanos 

Canção do Infante D. Pedro 

O Poema da Batalha de Salado 

Relações com a Crónica de Affonso Onceno 

Foijuas portuguezas sob o texto castelhano 

Ver.setes de antiguo rimar 

Os romances velhos 



211 
212 
216 
217 
218 
219 
224 
225 
228 

229 



230 
231 
232 
233 

234 

2." 10 

241 

242 
244 
245 
246 

248 



249 
250 
251 
253 
255 
258 
261 
263 



§ III 
Influencia armoricana ou Gallo°bretan 



Os Lais bretães no fim do século XII L 
As tradições bretans em Portugal... 



264 
265 



5i6 



índice 



a) Os Lais amorosos 

líoferencias nos trovadores portuguezes ... 

b) Os Lais novellescos 

O amor ideal e desinteressado 

Cantares de Cornoallias 

Os Lais de Trístão intercallados nas Norellas. 

Lai do Tributo das Donzellas 

O original francez dos Lais de Tristão 

Lai de Leonoreta da Novella de Amadis... 

Restituição da sua forma estrophica 

Confronto com a apropriação castelhana... 

Chronologia da forma do Lai 

João Lobeira, pae de Vasco de Lobeira 



PAC. 

266 

269 

270 
272 
273 
274 
277 
279 
283 
284 
286 
288 
292 



Origem portugueza do Amadis de Gaula 



Prosificação dos poemas bretãos... 
O thema do Amadis de Gaula 



3(»0 



1.» Phase: Lenda agiologica 

Pactos similares de outros poemas 



302 
303 



2. a Phase: Lais narrativos 

Vulgarisação dos Lais do Amadis 

Elementos do Lai de Amadis communs ao Poema e 
Novella 



30r. 
306 



30» 



8.« J'íiase: Xorella cifcUca em prosa ;>] 1 

Forma portugueza do fim do século XIV 312 

l.a Redacção portugueza. em três livros (de João Lobeira) 313 

Reto(iue do episodio de Bilolanja 314 

Belleza d'<>sses três livros na tradicção castelhana 317 

2." Redacção portugueza (Vasco de Lobeira) 319 

Elementos accrescentados 320 

Referencias a este texto nos fins do século XIV 322 

O Livro de Amadis de Gaula na Casa do Duque de Aveiro 322 

Testemunho de Azurara 325 

Referencias dos poetas do Cancioneiro de Baena 328 

Trabalho de Vasco oe Lobeira ... 331 

3." '1'erceira redacção portugueza (Pedro Lobeira) 332 

Enthuziasmo pelas tradições britonicas 335 

O ethos portuguez reflectido na Novella de Amadis 337 

Os criticos hespanhoes e allemães reconhecem o seu ca- 
racter portuguez 338 

4." .4 redacção paraphrastica castelhana (1492) 343 

Inferioridade das Sergas de Esplandian 344 

Até quando ha noticia do texto portuguez •!4.~» 



índice 



SI 7 



§ IV 



Cultura latino-ecclesiastica 



Elaboração erudita da primeira Renascença ... 

a) Os Estudos quadriviatês 



347 



As Escholas da^ Collegiadas 

l.o Philosophia e Theologia 

Pedro Hispano e António de Lisboa 

A corrente mystica 

O Aristotelismo averroista 

2.° As tradições latinas 

Ttarlam e Josaphat 

Visão de Tundal 

Orto do Esposo 



34^ 

350 
351 
352 
353 

356 
358 
359 
360 



b) o Poder reae protege o Humanismo 



A divisa do estado social 

I." Fontes poéticas da Antiguidade clássica 

As lendas do Cyclo troyano 

Historia de Troya em portuguez 

2.0 Fundação da Universidade de Lisboa 

Os primeiros Estatutos 

3.0 Nobiliários 

Facto social que os originou 

Seus elementos históricos 

4.0 Chronicas e Relações históricas 

Chronica da Conquista do Algarve ... 
A Chronica geral de Hespanha 



362 

363 
365 
366 

371 
372 

373 
374 
375 

378 
379 
380 



2° Período: Os Poetas Palacianos 
(Século XV) 

§ I 

Elaboração do Lyrismo provençal pelo génio italiano 
(Phase allegorica) 



Depois da extinção da Poesia trobadoresca . 
Dante inicia a nova elaboração esthetica. 
Sua influencia em Hespanha 



388 
384 
385 



51^ índice 



1." A influencia caâtelhano=>aragoneza 389 

Actividade politica da cÔrto do D. Juan II 390 

() Infante D. Pedro e Juan de Mena 392 

O Condestavel de Portugal 400 

Tragedia da insigne Rainha 401 

Sátira de felice e infelice Vida 402 

Coplas de Contento dei mundo 403 

2." Formação do Cancioneiro geral 407 

Elemento histórico no Cancioneiro 409 

a) Livro das trovas dei El Rei Dom Duarte 413 

b) Cancioneiro portuguez ^14 

c) Cancioneiro portuguez da BihliotJieca de Madrid 415 

d) Cancioneiro do Abl)ade D. Martinho 415 

e) Cancioneiro de D. Francisco Coutinho Conde de Ma- 

rialva 416 

Como se identifica com o Cancioneiro do Dr. Gualter 

.Vntunes 417 

Manuscripto do século XV 418 

Documenta o apocryphismo lltterario d'essa época 420 

Analysc! morphologrica e tbematica das cinco composições 421 

3." Existência de um elemento popular 425 

Expansão da poesia popular no século XV 425 

Ilhas encantadas 426 

Romances velhos sobre João Lourenço da Cunha e Prin- 

cepe D. Affonso 429 

Centros poéticos de Açores e Madeira 431 

Rudimento do theatro popular ... 433 

Thoiítro hierático 4^4 

S II 

As Novellas porti.-};uezas da Tavola Redonda e do Santo Graal 

O Amor o Coiíczia bases das Novellas cavalheirescas ... 435 

Transformação d'estes Cyclos em Portugal 437 

Livro de Josep ah Ariwathéa 439 

Demanda do Santo Oraal 441 

Merlin — Gato l'aul e Prophecias do Bandarra 442 

Galaas substitue Lancelot 444 

Historia de Vespasiano 445 

O texto portuguez de Ariiadis em Castella 447 

Florestan 448 

.\s imitações do Amadis do Gaula 449 

Sua inliuencia social 450 

§ III 
Predomi/iio da Erudição latina 

Transição para a grande Renascença 450 

1.0 Efitado da língua portugueza (Fõrtvaa populares e 

eruditas) 451 

Os duplos 452 



índice 519 



PAG. 

As tradvcções latinas 454 

Influencia do Rei D. Duarte 457 

Versão da Vita Ghristi 459 

Bibliothecas 460 

— do rei D. Duarte 461 

— do Condestavel D. Pedro 462 

— de D. Affonso V 463 

A Imprensa em Portugal 464 

2.0 Humanistas, Moralistas e Philosophos 468 

Arte velha e nova ... 468 

Livro de Esopo, traducção portugueza 469 

O rei D. Duarte e o Leal Conselheiro 471 

Virtuosa Bemfeituria 473 

3.° Universidade de Lisboa; Jurisconsultos; Codificação... 474 

Collegios junto da Universidade 474 

Os Jurisconsultos eram humanistas 476 

Ordenações de D. Duarte e Affonsinas 477 

§ IV 
Desenvolvimento da forma histórica 

Preponderância social da Realeza 478 

1.0 Conversão das Estorias em Caronicas 480 

a) Chronica da fundação do Moesteyro de San Vicente... 481' 

b) Vida de D. Tello , , 483 

c) Chronica do Condestaltre.. 484 

d) Crónica do santo e virtuoso Infante D. Fernando 484 

2.0 Fundação do Archivo nacional (Torre do Tomho) ... 485 

Separação do cargo de Archivista do de Thezoureiro ... 486 

Os GRANDES ChRONISTAS DO SÉCULO XV 

Como se acordou o génio histórico 487 

1." Fernão Lopes 489 

Formação da Chronica de Portugal ... 490 

Como se desmembrou a sua Chronica geral do Reino... 491 

Relações com o Chronista Ayala 493 

Os textos da Chronica de D. João 1 496 

A copia de Pêro ^'az Soares 497 

2.'' Gomes Eanes de Azurara 499 

Sou caracter litterario 500 

3." Ruy de Pina 501 

Influencia de D. .João II... 502 

Contratado para escrever a Chronica de D. Manoel 503 

Como foram plagiadas as suas Chronicas 504 

Decadência da forma histórica 506 

Synthese do século xv 506 

As grandes perdas da Litteratura portugueza 507 



LlVRílRin CBfiRDROn, Se Ledo & Irmão 

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THEOPHILO BRAGA. 

Historia popular de Porta^jL^Jj^ , . , . , ff.) r,) 



Visão l^^^^pos 

Epopéa da Humanidade (Édí^ací integral) 4 vol. 284i^) 
Bodas de Ouro na Litteratura (1858 a 190o). Ver- 
sões polygiotas da Visão dos Tempos . . . i'lj*i 

Alma portuguezá 

RUapsodias da grande Epopèa d'um pequeno Pov<i 

F/riaí/io. Narrativa epo-historica, 1 voL ... i < 

Frei Gil de Santarmí (Fausto portuguez) 1 vol. < • 

Os Doze de Inglaterra (Poema) 1 vol. T 

Gomes Freire (drama histórico) 1 vol, .... 

D. I^nez de Castro ,....,..,.. ^ , - > 

Historia da Litteratura portuguezá 

Introducção e Theoria da Historia da Litferatifrn 
portuguezá, 1 vol 

Bernardim Ribeiro e o Bucolismo, 1 vol 

Gil Vicente e as origens do Theatro nacional, 1 vo1. ^ > 

Escliolade Gil Vicente e o dcAiencolvimento do Tliea- 
tro na/yional, l vol. 

Sá de Miranda e a Éschola italiana, 1 vol. . . 

Camões -^Vida e Época, 1 grosso vol. ... 

— Obra (Bihliographia caníQviana) . . . . 

Camões e o Sentimento nacional^ 1 vol. . 

A Arcádia hisHana, l \o\. . ... . . . . , - > 

Filinto e os Dissidentes da Arcádia, 1 vol. ... •. ^ 

Bocage, sua vida e época Jitteraria, l Yo\. ... 

Garrett e o Bomantismo,! yol. . ... . . 

Garrett e os Dramc^s românticos, 1 vol. *. ': '. . . ' 

As modernas Ideias na. Litteratura portugíiesa. 2 
vol ' . . , 

Recapitulação da Historia da LIttersitura portuguez:' 

I — Edade Média, ,1 vol. . . . . .... 

ll — Benascençaf 1 vol ....... 

Ill ^~ Bomantismo (Em preparação). 

A Pátria portugiiesu (O Território e a Raça) 1 vol. 
As Lendas christãs, i Yoh ....... 

Sifsmna dfí Sociologia, Ivo], çiirt. . . ... 1- 




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