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Full text of "Religiões da Lusitania na parte que principalmente se refere a Portugal"

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ALGUMAS OBRAS DO MESMO ADCTOR 



POESIA 

Bailadas do Oooidente, 1885. 
Poema perdido, 1895. 
Lyra de um morto, 1896. * 

ETHNOLOQIA 

Estado ethnographioo a propósito da ornamentação dos jugos e cangai dos bois 

de Entre-Douro-e-Minho, 1881. 
Tradições populares de Portugal, 1882. 
Portugal prehistorico, 1885. 
Romanceiro português, 1886. 
Poesia amorosa do povo português, 1890. 
O deus lusitano Endovellioo, 1890. 
Sur les religions de la Lusitanie, 1892. 
Sur les amuletteB portugaises, 1892. 
Ensaios ethnographioos, 1.° vol., 1891-1896. 

PHILOLOGIA 

O dialecto mirandês (premiado em concurso pela Sociedade das línguas românicas 

de França), 1882. 
Flores mirandesas, 1884. 
Línguas raianas de Tras-os-Kontes, 1886. 
A evolução da linguagem (dissertação de Medicina, approvada com louvor pela 

Escola Medica do Porto;, 1886. 
A phllologia portuguesa (história), 1888. 
O texto dos Lusíadas (anályse critica), 1890. 
As «Lições de linguagem» do Sr. Cândido de Figueiredo (anályse critica;, 

2. 1 ed., 1893. 
O gralho depennado (réplica ao Sr. Cândido de Figueiredo), 8. a ed., 1894. 
De «Margariti» villa in território Vimaranensi oommentariolum, 1898. 
Ghartam alteram de villa quae «Margariti» appellatur, 1894. 
Contribuições para o estudo da Dialectologia Portuguesa (21 opúsculos), 

1 880-1892. 

PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS 

Annuario das tradições populares portuguesas, 1883, 

Revista LuBitana (etimologia e philologia), 1889-1897,4 vols., estando no prelo o 5.° 
O Archeologo Português (publicação il lustrada), 1895-1897, 2 vols., estando no 
prelo o 3.° 



QUIETO CKHTEN1RIO DO DESCOBBUEHTO Dl INDU 

CONTRIBUIÇÕES 

SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA 

RELIGIÕES 

LUSITÂNIA 

PARTS QUE PUSCIPAUttSTE SE REFERE A PORTUGAL 
uif . "" ')'',-..■■ 

J-r LBITE DE VA900NOELT,08 " - J£m <■<■ ■ 
Profeiior um Bibllolhsc» Nicional de Lliboa 
Director do Miueu Etimológico FOrtanta 
S. 8. a. L. 

VOLUME I 




LISBOA 

IMPREK3A NACIONAL 

1897 



.b: 



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!. ' /O 



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AO 



MEU PREZADO PRIMO 



MANOEL NICOLAU OSÓRIO PEREIRA NEGRÃO 



(MOSTEIRO) 



EM PENHOR DO MUITO QUE MEU CORAÇÃO LHE DEVE 



PROLOGO 



Em 1892 devia realizar-se em Lisboa a 10. a Ses- 
são do Congresso Internacional dos Orientalistas, 
ao qual eu tencionava offerecer uma memoria sobre 
as Religiões da- Lusitânia, mais para aproveitar o 
ensejo de publicar o meu trabalho, do que por 
este, pelo seu caracter de occidentalismo, ter^usa 
fazer parte das memorias especiaes do Congresso. 
Afinal o Congresso não se realizou; mas como a 
obra já estava no prelo 4 , não desisti da publica- 
ção, e concorro agora com ella, como membro da 
Sociedade de Geographia de Lisboa, por cuja inter- 
venção se publica, para a celebração do Quarto 
Centenário do Descobrimento do Caminho Marí- 
timo da índia pelos Portugueses. 



1 Publicou-se um breve resumo intitulado Sur les rtUgions de 
Lusitanie, Lisbonne 1892. 



VIII 



Esta minha contribuição litteraria, humilde como 
é, não corresponde de modo algum á grandeza do 
facto que tem por fim commemorar ; mas leve-se- 
me em conta a sinceridade com que, através dos 
mil espinhos do assumpto, busquei projectar alguma 
pouca luz numa das matérias mais obscuras e mais 
desconhecidas da nossa antiga historia, — as reli- 
giões da Lusitânia. 

Quando um povo, em virtude das más cabeças 
dos homens que o constituem, ou de condições his- 
tóricas e geraes, está em decadência, como o nosso, 
permitta-se ao menos aos que amão a terra em 
que nascerão furtar-se, pela contemplação e estudo 
das cousas do passado, ás misérias do presente: 
assim se evitará uma causa de soffrimento moral, 
e ao mesmo tempo se tirará do conhecimento etimo- 
lógico do país, e da consciência da solidariedade 
em que os diversos momentos históricos estão entre 
si, estímulo para não deixar abysmar-se completa- 
mente no pântano das protervias sociaes o que 
ainda resta de sentimentos puros na alma nacional. 



Ao apresentar ao público o volume I da minha 
obra, julgo-me obrigado a testemunhar os meus 
agradecimentos aos três distinctos homens de scien- 
cia, os Srs. Joaquim Filippe Nery Delgado, Dire- 



IX 



ctor dos Trabalhos Geológicos de Portugal, Au- 
gusto Epiphanio da Silva Dias, Professor no Curso 
Superior de Lettras, e Dr. Sousa Martins, Profes- 
sor da Escola Medica de Lisboa, pela complacência 
com que me ajudarão na revisão das provas: o 
primeiro, em relação a quasi toda a obra, sobre- 
tudo nos assumptos paleoethnologicos e geológi- 
cos ; o segundo, em relação a muitas das notas em 
que faço citações em línguas clássicas; o terceiro, 
em relação ao paragrapho sobre a Trepanação, 
(pags. 170-197). A esta cooperação, que não se 
limitou á parte material da correcção typogra- 
phica, devo algumas observações que aproveitei. 

Aos Srs. Luis Couceiro da Costa, e Maximiano 
Gabriel Apollinario, conductores de Obras Publi- 
cas, aquelle ao serviço da Direcção dos Trabalhos 
Geológicos, este ao serviço do Museu Etimológico 
Português, agradeço o excellente auxilio que me 
prestarão fazendo diversos desenhos que adornão 
o presente volume. 

Pelo que toca á Imprensa Nacional, de cujas offi- 
cinas sae o livro, agradeço também ao Sr. J. A. Dias 
Coelho, chefe do grupo de typographos encarrega- 
dos da composição, e aos Srs. Filippe Fernandes, 
e João Maria Heitor, — como sendo com estes três 
hábeis artistas que directamente e de perto tra- 
tei — , a sollicitude com que cada um na sua secção 
trabalhou no meu livro. 



Ao Sr. Dias Coelho, alem dos serviços próprios 
da sua arte, mereci constantes cuidados na revi- 
são das provas, pois não deixava passar nunca 
sem reparo o que se lhe afigurava digno de sub- 
stituiçâo ou de emenda, quer no que dizia respeito 
á disposição typographica, quer ainda no próprio 
contexto da obra: e por tanto aqui lhe deixo este 
protesto especial da minha gratidão, e ao mesmo 
tempo a prova de quanto aprecio as suas excellen- 
tes qualidades pessoaes e intellectuaes, e não vulgar 
illustração, realçada ainda pela maior modéstia. 

Lisboa, 7 de Julho de 1897. 



índice methodico 



Dedicatória. v 

Prologo vn 

Introducção geral á obra 

I. Limites da Lusitânia, e accepção em que aqui se toma 

esta palavra xxi 

II. Razoes da presente obra, considerada como elemento 

para o conhecimento da Historia da Lusitânia xxv 

III. Divisão da Historia da Lusitânia em três períodos (pre- 

historico, protohistorico e histórico), e plano da pre- 
sente obra, de accôrdo com essa divisão xxvrn 

IV. Methodo seguido pelo auctor xxxm 

PARTE I 
Tempos prehlstorlcos 

Preliminares (Prehistoria Portuguesa) 

A) Noticia bibliographioa. Divisão da historia da archco- 

logia prehistorica portuguesa em dois períodos : um até 
1857 ; outro d'essa data para cá. Lista de todos os tra- 
balhos publicados durante os dois períodos 3 

B) Geographia prehistorioa. Indicação summária das 

antiguidades prehistoricas que ha nas differentes pro- 
víncias portuguesas 12 



XII 

C) Epoohas prehistoricas : 

Considerações prévias 25 

* 

a) Epocha da pedra : 

O homem terciário 27 

1. Período paleolithico. -Vestígios nos concelhos de 

Peniche, Óbidos e Leiria. Vida selvagem do 
homem paleolithico português 28 

2. Os kjoekkenmoeddings. Sua existência no valle 

do Tejo. Vida selvagem das gentes desses 
tempos ; caracteres physiologicos ; caracteres 
craniometrico8 31 

3. Período neolithico. Condições da existência semi* 

selvagem. Sepulturas, vestuário, cerâmica, 
objectos de pedra, moradas. A questão da ha- 
bitabilidade das grutas. Castros prehistoricos. 
Caracteres sociaes e anthropologicos dos po- 
vos neolithicos. Feição especial da civiliza- 
ção neolithica de Portugal 33 

b) Epocha dos mbtaes : 

Período de transição (ou chalGolithico) 70 

Período do cobre e do bronze. Sc o uso dos metaes 

em Portugal é originário de cá, ou importado. . . 72 

Condições sociaes do homem de então 78 

Período do ferro 79 

RELIGIÕES PREHISTORICAS 

Resumo do que fica dito á cerca da nossa prehistoria 81 

CAPITULO I 
Religiosidade do homem paleolithico 

Discussão da theoria do Sr. Gr. de Mortillet de que não havia 

religião nos tempos paleolithicos 8õ 

Não se conhecem povos sem religião 94 

Origem das religiões, e suas formas primitivas 96 

Applicação d' estas ideias ao periodo paleolithico português. . 97 



XIII 

CAPITULO II 
A necrolatria nos kjoekkenmoeddings 

Maneira de sepultar os mortos 99 

Se a veneração pelos mortos é religião 100 

Formas da necrolatria 100 

Recinto mortuário ou campo sardo 101 

CAPITULO III 
Ideias religiosas no período neolithico 

I. Culto da Natureza. A Lua. 

O homem primitivo e a Natureza 103 

Antiguidade e extensão do culto da lua cm geral 104 

Objecto prehistorico português com a figura do cres- 
cente ." 105 

Interpretação (Testa figura, pela comparação com factos 

da vida dos tempos históricos 106 

Mythos astronómicos 109 

II. Amuletos e objeotos oongeneras. 

Definição e diversas espécies de amuletos ; sua origem ; 
factos psychologicos 111 

A) Amuletos prehUtoricos constituídos por dentes : 

Costumes antigos e modernos de vários países . . 120 

Costumes portugueses antigos e modernos 122 

Factos colhidos na prehistoria e protohistoria es- 
trangeiras 125 

Significação dos dentes com orifícios, achados nos 

jazigos neolithicos de Portugal 129 

B) Objectos amuletiformes e outros : 

a) objectos de azeviche 136 

b) pingentes triangulares, cordiformes, etc 140 

c) conchas 146 

d) pingentes de osso 151 

e) contas 153 

/) placas: 

distribuição geographica 155 

descripção de alguns typos geraes 155 



XIV 



significação das placas 158 

placas em forma de báculo 161 

placas zoomorphicas 161 

. placas pequenas 163 

Observação final sobre os amuletos 166 

III. Trepanação prefcistorioa e f ao tos oorrelativos. 

Litteratura do assumpto 170 

A) Trepanação em vida: 

Doenças produzidas por espíritos maléficos : 

a) epilepsia. 171 

b) hysteria 172 

Obsessos e possessos ; exorcismos. 173 

Intuito da trepanação em vida 175 

B) Trepanação póstuma : 

Hypotheses diversas sobre a sua significação ... 178 

Expulsão de espíritos malignos 180 

Amuletos cranianos 184 

C) Pessoas dotadas de caracter sobrenatural 187 

Factos da prehistoria portuguesa : 

Crânio trepanado da Cezareda 191 

Amuleto craniano de Avis 193 

Observações fínaes 195 

IV. Culto dos mortos. 

Palavras prévias: concepção popular da vida, e da 
alma; destino da alma, — transmigração, anniquila- 
mento, vida futura; país dos mortos; existência ultra- 
tumular; almas do outro-mundo; intuito da necro- 
latria, — applacar as almas dos mortos, dirigir-lhes 
súpplicas ; evocação dos mortos 198 

A) Destino dado aos cadáveres : 

Costumes diversos 204 

Principaes costumes neolithicos portugueses : 

1. inhumaçâo 206 

2. incineração 206 

B) Espécies de monumentos stpulcraes : 

1. Grutas naturaes e lapas 212 

a) natureza das prutas 213 

b) designações vulgares das grutas 213 



XV 



c) distribuição geographica 215 

d) gratas funerárias 215 

t) typo geral das grutas 216 

/) ideias do homem prehistorico á cerca das 

grutas 219 

g) destino ulterior das grutas (lendas) .... 225 

2. Grutas artificiaes: 

a) Grutas de Palmella : 

Historia do assumpto 227 

1.* Furna 228 

2.* Furna 229 

3.* Fuma 230 

4.* Furna 233 

Observações geraes 234 

b) Grutas de Alapraia 237 

3. Sepulturas por excavação sem reves- 

timento interno: 

Da Folha das Barradas 239 

Várias sepulturas do Algarve 242 

Observações geraes 243 

4. Sepulturas por excavação com reves- 

timento interno: 

Monumento do Monge 245 

Monumento do Arrife 246 

5. Dolmens em geral: 

a) O que são dolmens 248 

b) Denominações populares dos dolmens. . . 249 

c) Dolmens cobertos e descobertos 260 

d) Distribuição geographica dos dolmens . . 266 
c) Typos geraes dos dolmens : 

dolmen coberto («n.° 1» de Alcalar).. . 266 

mamoinha com orla de pedras 268 

orca da Cunha-Baixa 271 

considerações diversas (dimensões dos 
dolmens e mamoas, natureza das 

rochas, estado (Testas) 273 

/) Significação primitiva dos dolmens 277 

g) Destino ulterior dos dolmens 285 

6. Monumentos de transição entre os 

dolmens e as cryptas de Alcalar: 

Monumento de Marcella 293 



XVI 



«N.° 2. de Alcalar 295 

•N ° 3» de Alcalar 298 

Observação 299 

7. Monumentos alcalarenses propria- 
mente ditos: 

«N.° 4» 301 

«N.° 5» 302 

«N.« 6- 303 

• N.° 7» 304 

Observações diversas 305 

8. Monumentos de transição entre os 
precedentes e as cistas: 

Monumento da Nora 307 

Monumento do Serro do Castello 307 

Observação 308 

9. Cistas (e ante 11 as) 308 

10. Sepulturas diversas: 

a) An ti nhãs 311 

b) Mamoellas 312 

11. Questões correlativas: 

a) Modo de deposição dos restos funerários 
no sepulcro 312 

b) Ossuarios 317 

c) Monumentos que apresou tão um orifício 
na camará 318 

d) Relação em que esta vão entre si qs diver- 
sos monumentos fúnebres 323 

' e) Situação dos monumentos fúnebres : 

orientação 324 

localização 325 

cemitérios 327 

C) Offerendas aos mortos : 

Costumes de differentes povos^ 331 

Costumes dos povos neolitbicos de Portugal 340 

Interpretação de todos esses costumes (crença no 

animismo) 348 

* Supervivencias modernas em Portugal 349 

V. Signàes insoulpidos em pedras. 
» 
Definiç&o e nomenclatura " 350 

Litteratura do Assumpto '. 351 



• 



• 



'I' 



'I* 



XVLl 



Factos observados ein diversos pais^s 352 

rheorias para os explicarem 354 

Tradições populares relacionadas com cllcs 355 

Significação provável dos signaes 357 

Factos observados em Portugal : 

a) em Tras-os-Montcs (e Douro) 358 

b) na Beira 3G3 

v) cm Entrc-Douro-e-Miuho 374 

<l) no Alemtejo S84 

c) no Algarve 385 

Factos observados na Galliza 380 

Pegadas cm penedos 381 

Resumo, classificação dos factos portugueses, observa- 
ções várias 380 

VI. Considerações geraes sobre a religião neolithioa. 

Em toda a religião ha crença e culto 301 

Conjuncto das crenças ncolithícas 391 

Conjuncto dos cultos ncolithicos 396 

Factos diversos 399 

Supcrvivencias do passado 402 

Resumo da religião neolithica 405 

Caracter dos povos neolithicos deduzido da sua reli- 
gião 405 



CAPITULO IV 
A religião na epocha dos metaes 



t 



Dificuldade de distinguir o período do çòbre do do 

bronze t ■ 407 

Sepulturas do período do cobre : 
Cistas argarvias : 

definição 408 

mobiliário fúnebre 410 

significação das cistas 410 

caracter das cistas 41.2 

várias cistas : . 412 

localização 412 

necropoles 413 

Sepulturas da foz do Mira. '. 414 

Sepulturas especiaes do Algarve i •. . . . 414 

Relação das cistas com os outros' monumentos 415 



XVIII 

Potes sepulcraes 41 li 

I doias roli^i<>Hii8 dos homens do pcriodo do cobre. . . 4 IN 

Sepulturas do período do bronze : 

Sepulturas dos arredores de Faro 421 

Urnas cinerarias de Mcrtola 421 

Xecropoles do período do ferro 422 



( Ihservnç uo linal do volume 42.'} 



AnniTAMKNTo 42") 

índice alpliabetico 43.'J 

Krratas 44 1 



INTRODUCCAO GERAL Á OBRA 

•» 



I. Limites 4a Lusitânia, e accepção em que aqui se toma esta palavra. — 
II. Razões da presente obra, considerada como elemento para o conhe- 
cimento da Historia da Lusitânia — III. Divisão da Historia da Lusitâ- 
nia em três períodos (prebistorioo, protonlstorico e histórico), e plano 
da presente obra, de accôrdo com esta divisão — IV. Methodo seguido 
pelo auctor. 

I. Sendo vários os sentidos em quo se tem tomado a 
palavra Lusitânia, começo naturalmente por explicar qual 
a accepção que lhe dou nesta obra, em cujo titulo ella figura. 

Segundo Estrabaa, que floresceu em Roma nos tempos 
de Augusto e Tibério, a Lusitânia primitiva tinha por limi- 
tes : ao Sul, o Tejo ; ao Occidente e ao Norte, o Oceano ; ao 
Nascente, os Carpetanos, os VettSes, os Vacceus e os Cal- 
laioos, — postoque pelo contrário alguns AA., acrescenta o 
geographo grego, chamassem igualmente Lusitanos a todos 
estes povos. Na segunda hypothese, isto é, incluindo-se na 
Lusitânia os referidos povos, os limites d'esta ao Nascente 
erão os territórios dos Astures o dos Celtiberos 1 . — Por 



1 Gcographia, III, in, o (e<l. de C. Miillcr, Paris, Didot). — E notá- 
vel que, dizendo Estrabâo que a Lusitânia confinava pelo N. com o 
Oceano (i. e., com o Mar Cantabrico), diga na primeira hypothese 
que cila tinba a E. os Callaioos, quando nessa hypothese, como 
também na segunda, os Callaicos dcviào estar contidos nclla, v 
íicarem ao N. Náo ha ôrro de texto, porquanto, ao referir os limites 
da Lusitânia no segundo sentido, falia outra vez dos Callaioos, como 
sendo dos povos confinantes que passito a ser Lusitanos. Houve pois 
equívoco nas ideias do geographo, ou os Callaicos occupavào a prin- 
cípio alguma estreita região vizinha da dos Astures? 



XXII 



causa das proezas guerreiras dos Callaieos, estes tizerão 
que a maior parte dos Lusitanos se chamassem também 
como elles 1 : por isso toda a terra que ficava ao Norte 
do Doiro, e que primeiro se denominou dos Lusitanos, 
passou a denominar-se dos Callaieos*. — Como a cidade 
trasmontana de Aquao Flaviae (Chaves) pertencia á tribu 
dos Túrodos, que ficava na Callaeeia 3 , pode dizer-se que 
não só, como acaba de se ver, estava comprehendida nos 
limites da Lusitânia a actual Galliza, o Entre-Doiro-e- 
Minho e a região portuguesa de entre Doiro e Tejo, mas 
ainda Tras-os-Montes. Estes limites fechavao propriamente 
a Lusitânia antiga ou pre-estraboniana, cujo povo, diz o 
insigne geographo, era o maior ou mais poderoso dos ibé- 
ricos : 'h AuctTovta iaii nèyurzcv tmv 'Icnptx&w éOvfJw v . 

Nos fins do reinado de Augusto, ou nos princípios do 
de Tibério, em virtude de uma divisão que se fez da 
Hispânia, constituiu-se uma aprovincia romana» denomi- 
nada Lusitânia 5 . Ao passo que a primitiva denominação 
era meramente tradicional, e conformo ás concepções geo- 
graphicas e ethnographicas, esta agora era official, com 
cunho politico bem pronunciado. Ficava comprehendida 
entre as fronteiras da Betica e da Tarraconense, e o curso 
do Doiro, desde as bocas do Guadiana ate o Promontório 
Sagrado e a foz do Doiro, com o mar por limite occiden- 



i Estrabao, ib., Ill, m, 2. 

2 Id. t ih., ib., iv, 20. 

3 Ptolomeu, Geographia, II, vi, 3í> (ed. de C. MiUler, Paris, I)i- 
dot). — Vid. a nota de E. Hiibner no Corpus Incriptionum J*atina- 
rttm, ii, p. 331, aeceita por C. Mtiller na interpretação do referido 
$ 30 de Ptolemeu. 

1 Estrabâo, ob. cit., III, m, 3. 

5 Cfr. E. Hiibner. La arqueologia d? Empana r t y Vttrtnynl\ Barce- 
lona ISSO, g 110. 



XX11I 



tal : isto resulta dos textos combinados de EstrabSo ! , e 
dos escriptores que se lhe seguirão, como Plinio (sec. 1 
E. C.) 2 , Mela (sec. i) 3 , Ptolemeu (sec. li) 4 , Marciano de 
Heraclea (sec. ni ou iv) 5 . — Sem fallar das comarcas da 
Extremadura Hespanhola, de Castella e de Leão, que nesta 
nova província se abrangiao, a Lusitana romana continha 
toda a região portuguesa de entre Doiro e Guadiana . 

Conclue-se do exposto que o nosso país, com excepção 
dos territórios situados na margem esquerda do Guadiana, 
os quaes pertencião á Betica, ficava coinprehendido na 
Lusitânia: de facto, no decurso dos tempos, chamou-se 
assim a todo o Occidente da Hispânia, desde a foz do 
Guadiana até parte da orla do Mar Cantabrico. 

No trabalho que emprehendi, de expor os systemas reli- 
giosos dos povos que habitarão no nosso país em tempos 
«m que elle não existia ainda como nação, podia exigir-se 
que eu extendesso as minhas investigações ao eonjuncto 
dos povos que ficavão na área da Lusitânia, tomada esta 
palavra na accepção lata que a cima vimos que teve : no 



1 Geographia, III, iv, 20. 

2 NeU. Hist, ív, § 113-116 (ed. de Dctlcfscn).— Á cerca de Plinio 
vi^i. um artigo do mesmo Detlefsen, intitulado «Dic Geographie der 
Provtnz Lusitanicn», na revista allcmã Philólogus, xxxvi, 111 sqq. 

3 De situ orôis, III, 1 (ed. de Frick). 

4 Geographia, II, v (ed. de C. Mttllcr, Paris, Didol). 

5 1'crijd., II, 12 (ed. de Mttllcr in Geograph. Graec. minar.), 

(i 8c os antigos Lusitanos dcmoravào, como vimos, ao N. do Tojo. 
porque ó que se deu agora, na epocha romana, o nome de Lusitânia 
a toda a região situada ao S. do Doiro, a qual comprchendia pois 
também o Sul do Tejo? Deve attribuir-sc isso ao facto de terem 
ido Lusitanos habitar a região meridional, trazidos, como diz Estra- 
bào (Gtographia, III, i, 0), da direita do Tejo pelos Reunimos. Visto 
que o N. do Doiro havia recebido, segundo se notou a cima, o nome* 
de (.'tdiucria, ficava assim muito naturalmente com o nome de Ln*i- 
Utnitt todo n país Minado ao S. d'nqu<'ll<* rio. 



XXIV 



em tanto, isso torníiva-sc-me difficil por falta de elemen- 
tos. Em Portugal tomo constantemente conhecimento, ou 
de qualquer trabalho archeologico que se publica, ou de 
qualquer antigualha que apparece, e a cada momento saio 
de Lisboa para visitar uma collecção archeologica, ou veri- 
ficar in loco a existência de um monumento ou de uma 
estação archaica. Com relação á Hespanha já não posso 
dizer o mesmo, pois apenas conheço directamente alguns 
museus de Madrid, e me informo do movimento archeolo- 
gico pelas revistas especiaes que recebo, ou raramente 
por algum livro. Por outro lado, não me falta que fazer 
em Portugal, para ter de ir oceupar-me de países estra- 
nhos, ainda mesmo quando, como no caso presente, a 
historia d'elles está intimamente enlaçada com a do meu, 
e lhe serve de esclarecimento. E por tanto só do Portugal 
que fundamentalmente me oceupo, e, quando muito, apenas 
uma vez ou outra farei incursões nos domínios, archeolo- 
gicos da Galliza e da fronteira hespanhola confinante com 
a nossa. Em compensação, não excluirei dos meus estudos 
o território português d^lein do Guadiana, com quanto 
elle, como a cima disse, pertencesse á Betica: ha nisso 
uma pequena infracção do rigor historico-geographico, mas 
evito periphrases e explico-me mais commodamente. Tam- 
bém o Portugal de hoje não é o mesmo do do tempo de 
D. Aftbnso Henriquez, e raro será o país em cuja historia 
se encontre esse rigor em todas as epochas: e comtudo 
não deixao de se empregar os nomes genies dos países 1 . 



1 Também André do Kesende, De Antiquitalibtts Lusitânia? (lõlKJ) 
c Fr. Bernardo de Brito, Geoyraphia antitja da Lusitânia (1597). 
com quanto dessem ás suas obras os títulos genéricos de Lusitânia, 
trataram nellas sobretudo do Portugal. 



XXV 



Independentemente mesmo das razoes particulares que 
acabo de dar, ha razoes geraes para que eu me oecupe 
sobretudo de Portugal, porquanto, nesta vasta zona Occi- 
dental da Ibéria, foi Portugal a parte que melhor se defi- 
niu etimologicamente, o se constituiu de modo duradoiro 
em nayão autónoma, apesar das suas affinidades de raça 
e de lingua com a Galliza. 

II. Na introducção da sua monumental Historia de Por- 
tugal combate Alexandre Herculano a opinião d'aquelles 
escriptores que admittião que entre a Lusitânia e Portugal 
existia certa espécie de unidade nacional ; mas ao exaggero 
de AA., como André de Resende e Fr. Bernardo de Brito, 
que ora empregavão a palavra Lusitanos para significarem 
os Portugueses, ora a palavra Portugueses para significa- 
rem os Lusitanos, contrapôs o sábio historiador exaggero 
não menor, sustentando que ó impossível ir entroncar com 
os Lusitanos a nossa historia, ou d'elles descer logica- 
mente a esta 1 . 

No tempo em que Alexandre Herculano publicou o seu 
trabalho, várias sciencias, como a Etimologia, a Anthropo- 
logia, a Glottologia, a Archeologia, estavão muito menos 
adeantadas que hoje, e por isso não espanta que elle, de 
mais a mais com o desejo do refutar opiniões que conside- 
rava, e de certo erao, exaggeradas, negasse factos que 
aquellas sciencias tendem successivamente a confirmar: 
isto é, que, não obstante os cruzamentos ethnicos que de 
todos os tempos se tem operado no nosso território, deve- 
mos contar entre os nossos ascendentes os povos da Lusi- 



Historia de Forti/ga?, i. 46 (2. a ed.) 



XXVI 



tania. Impróprio seria entrar eu aqui em grandes conside- 
rações sobre este ponto, tanto mais que a presente obra 
mira exactamente a fazer essa confirmação em alguns ramos 
da Ethnologia: contentar-me-hei com lembrar que, se o 
território de Portugal não concorda exactamente com o da 
Lusitânia, está porém coniprehendido no d'ella ; que a lín- 
gua que falíamos é, na sua essência, mera modificação da 
que usa vão os Luso-Komanos ; que muitos dos nossos nomes 
de lugares actuaes provém de nomes pre-romanos; que 
certas feições do nosso caracter nacional se eneontravão 
já nas tribus da Lusitânia; que grande parte dos nossos 
costumes, superstições, lendas, isto ó, da vida psychologica 
do povo, datâo do paganismo ; que bom número das nossas 
povoações correspondem a antigas povoações lusitanicas 
ou 1 uso- romanas ; que, numa palavra, quando estudamos, 
por meudo, qualquer elemento tradicional da nossa socie- 
dade, nos achamos constantemente em estreita relação com 
o passado, ainda mesmo com o mais remoto. 

Alem, pois, da curiosidade que um Português terá de 
saber o que em tempos .afastados se passou no território 
em que vive, — os hábitos, as ideias, as virtudes, os vicios, 
as façanhas, e, emfim, todas as circumstaneias physieas e 
sociaes dos povos de então, as lutas em que se empenha- 
rão, e em que cahirão vencidos ou se proclamarão vence- 
dores, os progressos que fizerão para seu bem e da huma- 
nidade, as suas instituições politicas, os aspectos da sua 
natureza, o luxo ou a pobreza das suas habitações: não 
pode elle deixar também de se interessar pela Lusitânia, 
visto que cl'ella descende, e a ella se acha vinculado por 
laços de toda a ordem. Quanto mais intenso for o conhe- 
cimento da Historia, tanto mais firme será a consciência 
da nacionalidade. 



XXVII 

Tendo eu começado, desde muito novo, a investigar, a 
par da Glottologia, a Ethnographia moderna de Portugal, 
.sobretudo as superstições, os costumes, as lendas e a litte- 
ratura popular, fui levado, pela successiva complexidade 
do trabalho, a occupar-me das cousas antigas, quando ellas 
servido, no círculo dos meus estudos, para aclarar os factos 
da actualidade, o que principalmente pude começar a reali- 
zar com algum proveito depois que entrei para a Biblio- 
theca Nacional de Lisboa, na qualidade de conservador, 
e d'ent&o para cá, depois que ficou a meu cargo a cadeira 
de Numismática do Curso de bibliothecario-archivista, e a 
direcção do Museu Etimológico Português. Assim appare- 
ceu no meu espirito, e se tem enraizado cada vez mais, 
a ideia de escrever uma Historia da Lusitânia. 

Ninguém duvida que no viver de um povo um dos ele- 
mentos mais importantes é a religião. Domina os actos 
mais simples, como os mais complicados; tanto leva ao 
heroísmo como ao aviltamento; por ella se luta, e por ella 
se morre. Limitada ao que nella ha poético, 6 como um 
luar que alumia a consciência dos crentes, e os mantém 
em paz; transformada em fanatismo, origina todos os 
horrores, e infunde aos que a abráção instinctos de feras. 
Medianeira entre o natural e o sobrenatural, produz nos 
homens uma espécie de abstracção da realidade, em que 
elles, pelo mysticismo, se tornão loucos, ou se julgao inspi- 
rados. Quantos bens não podem attribuir-se á religião! 
Quantos males a não tem por causa! 

Absurdo seria pois pensar na elaboração de uma Histo- 
ria da Lusitânia, sem pensar ao mesmo tempo na religião, 
ou melhor, nas religiões dos Lusitanos. 

Com a presente obra facilitarei o meu trabalho posterior, 
porque deixo já reunidos bastantes elementos para elle. 



XX VIII 

111. A palavra Lusitânia vem de Lusitani por meio 
do suffixo -IA, como Germânia de Germani, e Gallia de 
Galli. Quanto á origem do nome Lusitani, diversas tem 
sido as liypotheses eniittidas, desde a que o filia no de 
Lusus ou Lysa {Lyssa) 4 , d'onde se tirou Lusíadas, titulo 
da nossa epopeia nacional 2 , até á do Sr. F. Martins Sar- 
mento, que o suppSe deduzido de *Liusetani < *Ligu- 
setani, por sua vez tirado de Liguses, antiga forma de 
Ligures 3 . Entre as diversas hypotheses, a que me parece 



1 Esta hypothcsc vein já da antiguidade, pelo menos, de Varráo: 
apud Plínio, Kat. Hist. (ed. de Detlcfscn), III, § 8. 

2 A lenda de Lusus ou Lysa, a que se allude na nota precedente, 
se refere CamOcs (Lusíadas, iu, 21) : 

Lusitânia, derivada 

De Luso ou Lysa, que de Baccho antigo 
Filhos forão, parece, ou companheiros, 
E nella então os Íncolas primeiros. 

Assim se justifica o titulo de Lusíadas dado por CamOcs ao 
seu poema. Esta palavra significa descendentes ou fiUios de Luso, 
porque foi formada á imitação de Laertiadas, Laomedoníiadas, Ilía- 
das, aceusativos pluraes de Laertiades (o descendente de Ixiertes), 
Ijaomedonliadcs (de Laomedonte), Iliades (de ifo), palavras cm que 
entra o suffixo analógico - i à d e . 

3 Os Lusitanos, 1880, pags. 25-26, nota ; cfr. o opúsculo do mesmo 
A., intitulado Lusitanos, Ligures e Celtas, 1891-1893, p. 42. — Para 
se acceitar esta hypothcsc, seria preciso averiguar se na boca dos 
Luso-llomanos a palavra não deveria tomar a forma * Liguretani . 
com effeito o s de Liguses, nos períodos históricos do latim, só se 
manteve cm Ligas (a par de Ligur, por influencia analógica dos 
casos oblíquos), por ser final, e ein Ligustia, Ligusticus, JJgusti- 
nus, Ligustis, por estar antes de consoante ; quando 6 intervocalico, 
experimenta o rhotacismo, isto ó, muda-sc em r, por ex., em Ligu- 
res c Liguria. Igualmente se tornaria necessário saber se, havendo 
na região do Tnrtcsso um lacus Ligustinus, (Avieno, Ora marítima, 
2Hi, ed. de Ilolder), o g, que se conservou cm palavras usadas 
num ponto da Península, se teria syncopado em palavras análogas 
usadas noutro, quando a língua dos dois pontos havia de ser, nessa 
hypothcsc. a mesma, a língua ligurica. Seria também preciso, paru 



XXIX 



mais acceitavel c a que busca a etymologia cie Lusitani em 
Lusones, nome de uma tribu celtiborica, como já lem- 
brara Herculano 1 , seguindo Romey 2 . Dos Lusones falia 
Estrabâo 3 e Appiano 4 ; na obra do primeiro d'estes A A. a 
palavra tem a forma Acíkxmvs; ; na do segundo tem a forma 
Acúcevs;. O facto de em alguns documentos se ler Auarravcí, 
sem ditongo, ao passo que Acvawví; e Acvgcvíç o tem, não 
ó objecção, pois noutros se lo Acvgitocvoí. Admittindo-se que 
a terminação -ones da palavra Lusones, como a do outras 
que também representâo tribus ibéricas, a saber, Betones, 
Vettones, é um suffixo, teríamos Lus-ones, o por isso um 
thenia Lus-, do qual poderia ser fonnado Lus-itani; 
quanto ao suffixo, cfr. Turdetani, Igaeditani, Celtitani, 
Laminitani^j nomes de outros povos peninsulares; o pro- 



explicar a passagem do tu para v, dar outros exemplos de palavras 
lusitanas, que primeiro tivessem w, c depois, na epocha romana,*/; 
ora occorre-me um exemplo que coutradiz a hypothese, ó a palavra 
Conivmbrica ou CoNivMintiGÀ (com o seu derivado Coxivmbuickxsis 
ou Conivmbrigenhis) que sc transformou em Commdrica = Conimuuiga 
(d'ondc CoMimiRicRKHis = Conimdric.ensi»), exemplo cm que temos 
ih representado por i, e nâo por t/, como o Sr. Sarmento estimaria. 
(Na nossa língua popular ha também exemplos de a ligação io e in 
dar i c nâo v, como sc vê em Lipoklo, tVF., lii' Maior, c nos pre- 
téritos procliticos em -V por -in). Alem d'isso, porque 6 que o u 
breve de Ligúres sc transformou em u longo cm LlUitanif (No 
chamado «alongamento por compensação» nâo pode pensar-se). — 
O Sr. Adolpho Coelho pretendeu refutar in Regista Âreheofogica, m, 
163-1G4, a hypothese do Sr. Sarmento, o qual respondeu no citado 
opúsculo Lusitanos, Ligures e Celtas, pags. 42-44 ; mas a questão 
nâo ficou cm melhor pé. 

1 Historia de Portugal, 2. a ed., t. i, p. 1G, nota. 

2 Histoire d'Espagne, 1858, t. i, p. 32. 

3 Geographia, III, iv, 13. 

1 Httrica, (Paris, Didot), cap. xlh c lxxix. 

•'» Sobre o suffixo -etes, -etani, -itom, vid. E. IlUhncr, Mmmmenta 
lim/uac. lbcricac, p. cm. — Cfr. Mauretani a par de Mauritani. — Em 
alguns documentos gregos lê-sc também Tus&travía. 



XXX 



virem dois nomes de povos de um mesmo thema não ó 
cousa que espante, como se ve em Turdetani a par de 
Turduli*, e talvez em Sicani a par de Sieuli*: e outros 
exemplos se poderião citar 3 . 

Vimos no Capitulo I d'esta introdueç?io o uso antigo da 
palavra Lusitânia. Ella dura até muito tarde, empregada 
no sentido tradicional, e como designação viva: ainda por 
exemplo, num documento do sec. x com a divisão eccle- 
siastiea da Peninsula, se falia na «província iAisitaniae» , 
que tinha por metrópole Emérita 4 ; todavia já em documen- 
tos anteriores, desde o sec. v, apparece a palavra Portugal? 
e Portucale 7 *. Depois de certa epocha a palavra Lusitânia 
sahiu do uso da lingua commum, tendo resurgido para a 
lingua dos eruditos, ao que se crê, só no sec. XV 6 ; ape- 
nas encontrei num documento manuscrito a forma Lusi- 
faina 1 , que revela certa influencia da linguagem popular, 
embora tal forma seja esporádica 8 . 



1 Cfr. Estrabão, Geographia, III, i, (5. 

2 « dali 1 esame critico dellc fonti si fa sempre piú st rada 

1'opinionc che Siculi c Sicani sieno duc rami dello stesso popolo, od 
uno solo con due denonimazioni licvcmcntc variate». Paolo Orai, in 
Biiltetthw (H Pai etnologia Ttaliana, 1895, p. 85, onde cita vários A A. 

3 Ilomey e Herculano limitão-se a aproximar os nomes Lvsone* 
o Lusitani, sem apresentarem a explicação morphologiea que no 
texto ensaio. O Sr. F. Adolpho Coelho, também in Revista Archeo- 
logica, in, 164, aponta a hypothesc de Romey e Herculano, mas 
dando-a, ao que parece, como sua. 

4 Heiss, Motmaies dos róis wisigoths d'Espagne, 1876, p. 16í>. 

b Citei as fontes no Elencho das lições de. Numismática, u, p. 5. 

6 A. Herculano, Historia de Portugal, 2.* ed., i, p. 10. 

: Não tenho á mão a nota que tomei quando li o ms., e por isso 
não posso dizer onde elle está. 

8 Forma análoga é Citaina, de Citania, palavra que, como mos- 
trei in Revista Lusitana, m, 33-34, é semi-litteraria. — Nunca encon- 
trei no onomástico actual palavras nenhumas que se relacionem com 
Lusitânia ou Lusitanos. 



XXXI 



A Historia da Lusitânia, se começa nos tempos mais 

remotos a que ó possível chegar-se, termina nos princípios 

* 
da Idade-Média. E também na Idade-Média que a palavra 

Lusitânia deixa de se usar como denominação tradicional, 

e se generaliza a denominação Portucale e Portugale, i. e., 

Portugal. 

Essa Historia admitte três grandes divisões: Prehisto- 
ria, a primitiva; Protohistoria, ou a dos Lusitanos dos 
AA.; Historia propriamente dita, sobretudo romana. 

A) Lusitânia prehistorica. Os tempos prehistoricos 
do nosso pais abrangem: 

a) cpocha da pedra : 

periodo paleolithico J 

• (selvagens) 
periodo dos kjoekkenmoeddings ) 

periodo neolithico (senii-selvagem) 

b) ppocha dos me.taes: 

periodo do cobre ) (bárbaros ; já relacionados inti- 
periodo do bronze > mamente com a secção se- 
periodo do ferro ) guinte). 

E impossível, no estado actual dos nossos conhecimentos, 
determinar datas precisas a estes períodos. Segundo Mortil- 
let, o mais antigo periodo da epocha da pedra em França 
dataria de ha 240:000 annos! â Perrot admitte que a idade 
da pedra polida nas beiras do Mediterrâneo, excepto no 
Egypto e na Syria, chega á primeira metade do 2.° mille- 
nio antes de Christo 2 . Nuns países o periodo do bronze 



1 In Ifevne de VEcole d* Anthropologie y vn, 18 eqq. 

2 In fíentc dea Dntx Mondes, 1897, 630. — Sobre cálculos análo- 
gos, cfr. Jfen*e Critique, xvi-2f>3. xvn 1-124. 



XXXII 

acabaria nos séculos vi c IV A. (J. * ; noutros nos seni- 
los xiv o xm A. C. No nosso país nao será absurdo admit- 
tir para o fim do certos períodos datas relativamente recen- 
tes, pelo menos em alguns pontos. 

A transição do período neolithieo para o do cobre nào o 
brusca; pode admittir-se um período intermédio, que cha- 
marei chalcolithico 2 . 

B) Lusitânia protouistorica. Designo assim a his- 
toria dos tempos comprehendidos entre a Prehistoria e a 
chegada dos Romanos á Lusitânia, ou melhor, á Penín- 
sula. É nestes tempos que pela primeira vez nos appare- 
cem na Historia os povos chamados Lusitanos, Bracaros, 
Turdetanos, Callaieos, etc. 

Como a respeito da divisão precedente, torna-se muito 
difficil indicar datas, a nâo ser a do termo, que deve 
fixar-se no sec. m A. C. A vinda das Phenicios á Penín- 
sula teria sido pelo sec. xn ou x. Pelo sec. vi aportarão 
Phoceus á região do Tartesso. No sec. vi havia Ligures 
na Península, e no sec. v havia Celtas. Os Carthagineses 
começarão a conquista da Hispânia no anno de 238. — 
Não cito as fontes históricas, porque tenho de tratar d'este 
ponto outra vez, com mais desenvolvimento, no vol. II. 

C) Lusitânia histórica. Principia no sec. m A. C, 
com a vinda dos Romanos a Hispânia. — Depois dos Roma- 
nos chegào os Bárbaros, no sec. v da E. C, e os Árabes, 



1 Vid. Perrot, ibidem ; J. Naue, in Prtíhistorischc Blãtter, vm, 3 ; 
cfr. Paolo Orsi, Quattro anui di csplorazioni sicule, Parma 1894, 
p. 232, o qual admitte que a data do segundo periodo siculo (do 
bronze) é, termo médio, talvez o sec. xn A. C. 

2 =chalco-lithico, do grego y.xXxo; (cobre, bronze) e XíOo; (pedra). 
Os italianos dizem no mesmo sentido encolitieo (do latim actteits ou 
ahenens) ; mas não só a palavra fica hybrida, i. c., formada de grego 
o latim, mas confunde-so na escrita c na pronúncia com neolítico. 



XXXIII 

no sec. vm. No sec. xi, Portugal começa a constituir-se 
nação autónoma. — Parte da Historia do tempo dos Bár- 
baros relaciona-se estreitamente com a historia antiga; a 
outra parte e a dos Árabes estão nas mesmas circumstan- 
cias em relação á historia da nossa Idade-Média. 

Em virtude do que fica escrito, divido a minha obra 
em três partes, correspondentes ás três secçSea da Histo- 
ria da Lusitânia; ao qtie juntarei um appendice á cerca 
dos vestígios do Paganismo, que principalmente se^ conser- 
varão nas tradições populares, e ainda nos usos da Igreja. 
Temos pois o seguinte plano: 

Paute I. — Religiões dos tempos prchistoricos ; 
Parte II. — Religiões dos tempos protohistoricos ; 
Parte III. — Religiões dos tempos históricos; 
Appendice. — Vestígios do Paganismo. 

Com a introducçâo e propagação do Christianismo, acaba 
o meu trabalho ; todavia é necessário o Appendice por isso 
que, no decorrer dos tempos seguintes, muitos restos per- 
sistirão do passado. 

Procurei escrever sem preoccupação de seita : esta obra 
não é de combate : podem lê-la os crentes e os descrentes. 
Todo o meu empenho consistiu em apurar a verdade, no 
serviço da Sciencia. Para mim as religiões não passão de 
phenomenos sociológicos: e como taes as trato. 

IV. A cerca dos primeiros tempos da Lusitânia nada se 
encontra nos AA. greco-romanos que sirva de base para 
deducçSes históricas; o que de positivo sabemos d'esses 
tempos é exclusivamente do domínio da Archeologia, auxi- 
liada pela Paleontologia, pela Anthropologia, e ainda pela 



XXXIV 

Geologia, e pela Ethnographia geral: a fim de justificar 
muitas attribuiçSes religiosas que faço aos povos prehistori- 
cos, ou de explicar o uso de certos objectos d'então, recorri 
constantemente á ethnographia dos povos incultos da actua- 
lidade (utilizando quanto pude a bibliographia portuguesa), 
dos povos antigos, e das camadas populares das sociedades 
civilizadas; isto engrossa a obra, mas, como d'ahi não re- 
sulta inconveniente, porque escrevo gratuitamente, sem 
cominissão official, e por tanto sém receio de que se sup- 
ponha que eu augmento o número de volumes para rece- 
ber mais, não temi proceder assim. A cerca dos tempos 
protohÍ8toricos e históricos a Areheologia é da maior impor- 
tância, sem dúvida ; mas deparão-se-nos já muitas notícias 
na litteratura dos Gregos e dos Romanos; para a elabo- 
ração do Appendice concorrerá especialmente o estudo da 
tradição oral, feito no povo. 

Não só me informei de tudo ou quasi tudo o que em 
Portugal se tem escrito sobre estes assumptos, e do que 
em mais próxima connexão com elles pude encontrar nas 
litteraturas estranhas, desde as antigas até ás modernas, 
• mas percorri grande parte do país, a fim de conhecer 
melhor os monumentos de que tenho de tratar, e mais 
profundamente me compenetrar do viver íntimo das gera- 
ções extinctas. No Algarve visitei a célebre necropole pre- 
historiea de Alcalar, e várias estações, umas romanas, 
outras pre-romanas, dos arredores de Lagos; estive mais 
de uma vez nos lugares em que tiverâo a sua sede os 
povos Balsenses e Ossonobenses ; fui em piedosa romagem 
ao Promontório Sagrado, onde no sec. I A. C. estivera o 
geographo grego Artemidoro a estudar os costumes reli- 
giosos dos Bárbaros d'aquella região inhospita; próximo 
do Acfivri. do oujo primitivo castro trouxe algumas memo- 



XXXV 

rias da epocha romana, procedi em mais de um lugar a 
excavaçSes, e colhi bastantes elementos para o estudo da 
civilização romana e anterior ; e alem d'isso visitei o Museu 
Archeologico de Faro e algumas collecçSes particulares 
que ha pela província. Seguindo pelo Anãs, desembarquei 
em Myrtilis, onde me familiarizei com os «servos de Deus» 
dos primórdios da Igreja Lusitana, e encontrei também 
curiosos monumentos de todas as epochas antecedentes — , 
epigraphicos e ethnographicos ; nos arredores de Serpa 
observei muitos vestígios de uma estação romana, e obtive 
inscripçSes inéditas; em Pax-Iulia ,por differentes vezes 
estudei as copiosas collecções archeologicas do Museu Muni- 
pai ; estive perto de Vipasca ou Vipascum, no Baixo-Alem- 
tejo, e visitei muitos castros d'esta região, entre elles o da 
Colla, já conhecido na nossa litteratura archeologica desde 
o sec. xvi ; no concelho do Alandroal, no alto de um outeiro, 
explorei as ruínas do fanum do deus Endouéllicus, e colhi 
muitas dezenas de monumentos, com os quaes, e com os 
que já erão conhecidos, se recompõe nas suas linhas geraes 
o culto d'aquelle deus dos nossos maiores; em Ebora, 
«oppidum ueteris Latii Liberalitas lulia*, e nos campos 
onde outr'ora existirão Salada, Caetóbriga e Equábona, 
procedi a pesquisas, e estudei os que outros já antes 
de mim havião colligido ou descoberto; no Redondo, em 
Bencatel, cujos habitantes adoravâo na epocha romana o 
deus Fontanus e a sua páredra Fontana, em Villa Viçosa, 
em Extremoz, e mais ao Norte, junto dos montes de 
Atnmaia, de que falia o historiador lusitano Cornelio Boc- 
cho, não me faltou com que satisfazer a minha curiosidade 
e com que enriquecer os meus cadernos de apontamentos; 
em herdades do concelho de Avis assisti á exploração de 
umas poucas de antas neolithicas, de uma das quaes extrahi 



XXXVI 

eu mesmo um documento de que adeante me aproveito 
para fixar um dos pontos das religiões dos nossos avós da 
idade da pedra. A direita do Tagus, sem fallar de Olisipo, 
onde actualmente assisto, tenho percorrido a maior parte 
do tracto comprehendido entre o rio e o mar, até Leiria: 
vi os megalithos de Bellas e da Serra da Lua, o castro de 
Liceia, e as grutas prehistoricas de Cascaes, Alapraia, 
Carnaxide, Cezareda, Serra de Montejunto, Alcobaça, e 
ahi a minha imaginação evocou as sombras dos mortos de 
ha milhares de annos, e com ellas fallei á cerca dos tempos 
passados e das cousas de alem do tumulo; numa eminên- 
cia, sobranceira á aldeia de Pragança, explorei um dos cas- 
tros prehistoricos mais ricos do nosso país, e cujos restos 
figúr&o agora no Museu Ethnologico Português ; deixando 
o trajecto da uia imUtaris, que de Felicitas Iulia conduzia 
ao conuentu8 Bracaraugustanus, subi a rampa de Scallabis, 
a fim de visitar o Museu Municipal, que, embora pequeno, 
possue monumentos epigraphicos e prehistoricos de mere- 
cimento; por uma inscripção fragmentada que encontrei 
ao pé da Amoreira de Óbidos, creio ter determinado o 
local de Eburobrittium, cidade lusitana, que apenas nos 
ó conhecida por uma rápida referencia de Plinio; final- 
mente (para deixar a Extremadura), estive nas margens 
do Nabão, tão férteis em restos romanos, nas do Zêzere, 
onde explorei um castro e percorri várias estações archeo- 
logicas, e em Cóllippo, em cujo aro encontrei vários instru- 
mentos do período neolithico, e uma moeda de prata com 
caracteres ibéricos. Na Beira-Baixa passei por Celorico, 
Fundão, Guarda e Covilhã: nesta excursão travei conheci- 
mento com a deusa luso-celtica Trebanma, da qual existe 
uma ara no Museu a meu cargo, e fui a um dos muitos 
castros ou oppida que rodeião a Guarda. Na Beira Occi- 



dental tive occasião de ver os monumentos neolithicos da 
Serra do Cabo Mondego e algumas estações luso-romanas 
junto de Montemor, colhi muitos objectos provenientes 
das ruinas de Conimbriga, e por mais de uma vez entrei 
nos Museus archeologicos de Aeminium e da Figueira, 
nos quaes mãos beneméritas vão collocando os restos ar- 
cheologicos que apparecem nos «saudosos campos» do 
Monda. Na Beira-Alta, minha pátria, andei pelas altas 
serras de Sátão, entre o Vácua e o Paiva, e ahi, e nos 
concelhos de Fornos-de- Algodres e de Mangualde, explo- 
rei umas dezasete orca» ou dolmens da idade da pedra 
polida, tendo trazido para o Museu Etimológico os pecú- 
lios archaicos que desenterrei; alem d'isso alcancei cópias 
de inscripçftes romanas, e a posse de outras, entre estas a 
do deus Bandius Tlienaicus, informei-me da existência de 
muitas estações já romanas, já anteriores, e procedi a exca- 
vaçftes nos castros da Senhora» do-Castello e da Senhora- 
do-Bom-Successo, que, nas suas denominações catholicas, 
revel&o ainda a tradição dos velhos cultos pagãos que nelles 
se celebrarão. As margens do Durius são ambas minhas 
conhecidas, desde Miranda até Portu-Cale: ^estive em Cas- 
tro-de-Avellãs, um dos oppida mais fallados de Trás-os- 
Montes, onde se descobrirão as aras do deus Aernus, e 
percorri quasi toda a arraia hespanhola do districto de 
Bragança, havendo copiado por lá inscripç.Ses inéditas e 
contemplado nos seus si tios a famosa «porca» de Murça e 
os «berrôes» de Parada e Bragança, monumentos religiosos 
protohistoricos todos três ; passei na ponte romana que atra- 
vessa o Tamaca em Aquae Flauiae, fui duas vezes ao cemi- 
tério neolithico da Serra do Alvão, e outras duas a Panoias, 
ao pé deVillaReal, onde corei de pasmo e de vergonha 
dean,te do abandono a que está votado o templo romano, 



xxxvm 

ou melhor «recinto sagrado», com as suas inscripçSes lati- 
nas e uma latino-grega insculpidas em rudes penedos de 
granito. No Minho conheço o excellente Museu da Socie- 
dade Martins-Sarraento, de Guimarães, com bastantes mo- 
numentos religiosos protohistoricos, e conheço as notáveis 
ruinas de Sabroso e da Citania, perto do Avus, e as de 
Santa-Luzia, em Vianna, sobre o Limia, «flumen obliuio- 
nis»; percorri parte da via romana que passava por Ponte 
do Lima, e estive junto dos dolmens da Serra de Soajo e de 
Ancora ; em Santo Thyrso e no Marco de Canaveses curvei- 
me em frente das aras divinas de Turiacus e dos Lares Cere- 
naici; e em Bracara, depois de haver saudado as inscripçSes 
miliarias do Campo das Carvalheiras, e outras muitas que 
ha pela cidade, enchi-me de satisfação ao determinar, 
depois das infructiferas tentativas de vários archeologos, 
a natureza e o verdadeiro nome do deus Tongoenabiagus, 
cujo busto se nota numa aedicula dentro de um tanque, 
entre limos que o desfigúrão. — Se na narração precedente 
me alarguei um pouco (ainda assim, muito menos do que 
me podia alargar), não foi pelo desejo vão de armar ao 
effeito rhetorico, ou de alardear serviços, mas somente 
para que os leitores se convenção de que eu tentei escre- 
ver a minha obra com algum cuidado. Estas excursões, 
pesquisas e excavações tiverão por fim completar a instruc- 
ção colhida nos livros, porque, se é certo que da Archeo- 
logia, sem o auxilio da litteratura, não se tira todo o pro- 
veito que se pôde tirar, não é menos certo que de ethnologos 
de gabinete, que nunca tenhão visto um museu, nem visi- 
tado um monumento, nem excavado lima estação, e apenas 
se limitem, em paises onde a litteratura archeologica não 
abunda, a ordenhar pacientemente os textos dos AA. clás- 
sicos, não ha que esperar grande cousa. 



XXXIX 

Quanto ao Appendice, isto é, á secção da obra, em que 
me occupo dos vestígios pagãos conservados modernamente, 
recorrerei, quer ao que se acha na litteratura, nos Agio- 
logios, nas Chronicas, e nas obras dos que entre nós tem 
trabalhado no que costuma chamar-se Folklore, quer tam- 
bém ás minhas próprias observações e estudos. 

No que adeante tenho de dizer baseei-me innúmeras 
vezes, como era natural, no que outros escreverão, porque 
a sciencia só pôde progredir quando para completar o que 
se colheu de novo se aproveita o que já está adquirido, e 
eu não sou d'aquelles que se péjão de citar os trabalhos 
dos seus collegas ou dos seus predecessores; comtudo, 
sempre que isso me foi possível, confirmo, rectifico ou 
amplio por observações minhas, os factos citados: de 
maneira que este livro não é, como poderá parecer a quem 
o examinar superficialmente, ou com maus olhos, um apa- 
nhado do que já existia sobre o assumpto; alem do que 
vae em primeira mão, e que nSo é pouco, o mais é geral- 
mente apresentado, classificado e discutido segundo um 
modo de ver puramente meu. Nas citações procurei ser 
exacto, não citando nunca livro que eu não lesse. Se 
alguma rara vez tive de me referir a obra que não vi, 
indico lealmente o auctor em cujo escrito achei menção 
delia. Muitos AA. tem o costume, ou de absolutamente 
não fazerem citações, ou de porem de modo vago no fim 
das obras uma lista dos livros que dizem que consultarão ; 
eu entendo que ha sempre vantagem em citar as obras no 
fim da página, nos lugares competentes : não só se authen- 
tica o que se diz, e o auctor vae assim ganhando a con- 
fiança do leitor, mas também se ministrão elementos biblio- 
graphicos a quem quiser estudar. Eu por mim cito sempre ; 
antes me chamem prolixo, do que me accusem de leviano. 



XL 



Quando as citações feitas nesta obra são em francês, hes- 
panhol ou italiano, não as traduzo, porque todo o leitor as 
entenderá sem custo; quando o são noutras línguas, tra- 
duzo-as geralmente, para mais commodidade; havendo já 
traducçSes portuguesas de AA. latinos ou gregos, sirvo-me 
d'ellas de preferencia a fazer essa traducção. As notas 
apresentâo ás vezes grande extensão, porque tive de dis- 
cutir nellas muitos pontos a fim de tornar o texto mais 
claro, ou de o desenvolver. 

Em obras d'este tamanho, e para as quaes estão todos 
os dias a apparecer os materiaes, mal se podem evitar 
repetições e deslocamentos: os últimos procurei attenuá- 
los, fazendo, no fim de certos paragraphos, resumos geraes 
das matérias contidas nestes. Não se porá em dúvida a 
difficuldade do assumpto, que de mais a mais, com a lar- 
gueza que lhe dou, pela primeira vez se trata em Portu- 
gal: por isso não raro, em lugar de me pôr a phantasiar, 
preferi deixar suspenso o julgamento. Em cousas scienti- 
ficas precisamos de nos resignar, a cada instante, a cruzar 
os braços e a esperar. Quem tem pressa de concluir, nem 
sempre conclue bem. 

Apesar dos sinceros esforços que tenho empregado, e 
continuarei a empregar, para levar do melhor modo a 
cabo a minha obra, não se me escondem muitos dos defei- 
tos d'ella, devidos uns á minha pouca capacidade, outros 
a circumstancias variadas, inherentes nos que escrevem 
em Portugal; e alem de que muitos haverá que eu não 
descubro, e que pertence á critica apontar e corrigir : mas 
quem dá o que tem, não é obrigado a mais. 



PARTE I 



TEMPOS PREHISTORICOS 



«Le sentiment rellgieux, dans sa plui large 
acception, exlstait-il dans le monde préhiuto- 
rlque? A qael Age et tom qnelle forme ■'est-il 
montré primitirement? Qacli sont lei mona- 
mentt — tombeaux, amulettesou aatres — qui 
peuvent mleux galder la seience dana des re- 
cherches si difficiles et si importantes?* 

( Akdrade Cobto, in CompU rendu do 
Congresso de anthrop. e arch. prenfet. 
de Lisboa em 1880, pag. 9-10). 



PRELIMINARES 



Antes de entrar na exposição do que pude colher á cerca 
das crenças religiosas dos povos que habitarão o nosso 
país, nos tempos prehistoricos, julgo conveniente apresen- 
tar um quadro das condições da sua vida, porque, como a 
religião depende da raça, da civilização, do solo, do clima, 
etc., mais facilmente se comprehenderá esta, conhecendo se 
as circumstancias que influirão nella. E, para maior intei- 
reza do assumpto, precedo tudo de algumas noticias biblio- 
graphicas e geographicas. 

A) Noticia bibliographica 

A archeologia prehistorica, actualmente estudada em 
todo o mundo com tanto enthusiasmo e fructo, é uma das 
acquisiçSes scientificas mais notáveis e brilhantes do sé- 
culo xix. As origens da humanidade recuarão boa porção 
de séculos, e a história d'esta recebeu uma luz inesperada. 
Não obstante, já antes do século actual alguns espiritos 
investigadores havião especulado sobre a significação pri- 
mitiva de vários monumentos que nos restão dos tempos 
prehistoricos. 

Com relação a Portugal, a história d'esta sciencia divi- 
de-se em duas epochas : uma, até á inauguração dos estu- 



dos geológicos, especialmente até á data da nomeação da 
Commissão Geológica do reino (1857 *); outra, d'esta data 
para cá. 



NSo fallando nos documentos latino-barbaros e portu- 
gueses que desde o século ix mencion&o como marcos de 
divisões territoriae8 as mamolas, mamoas e mamuas*, que 
sSo, pelo menos em geral, sepulturas prehistoricas, eis as 
noticias de caracter erudito que conheço da primeira epocha. 

A mais antiga pertence ao século xvi : é uma carta de 
Fr. Martinho de S. Paulo, parte da qual vem publicada na 
Thebaida Portuguesa de Fr. Manuel de S. Caetano Damá- 
sio 3 ; Fr. Martinho, que vivia ainda em 1571, como consta 
da mesma carta, menciona varias antas (também sepul- 
turas prehistoricas) existentes pela Serra de Ossa (Alem- 
tejo), e de uma diz mesmo que tinha «cinzas e carvões 
de fogo*, provavelmente vestígios de incineração. 

Do século xvii achei entre os Mss. da Bibliotheca Na- 
cional de Lisboa uma curiosa noticia no Itenerario da jor- 
nada § fez o Sor M a Severim d' Faria chantre e cónego da 
see d' Évora a Miranda no anno d' 1609 4 ; o A. está fal- 
lando da aldeia das Antas de Penedono, na Beira, e diz : 

«Esta aldeã teue o nome, segundo parese, de muitas 
antas que por esta terra ha, as quais antas constâo de três 
pedras, duas d'ellas q serue como pes, e a outra ensima 
como meza, em q dizem antigua m te se fazião os sacrifi- 



1 Decreto de 8 de Agosto. Esta Commissão compunha-se de Carlos 
Ribeiro e Pereira da Costa, membros-directores, a quem por decreto 
de 7 de Setembro do mesmo anno foi aggregado como adjuncto 
o sr. Nery Delgado, actual director. A Commissão Geológica pas- 
sou por varias vicissitudes, sendo reorganizado o seu serviço por 
decreto de 23 de Dezembro de 1868, e por outros posteriores. 

2 Viterbo, Elucidário, l.« ed., s. v. mamóa. 

3 Lisboa 1793. Vid. t. i, p. 2-4, nota b. Repete-se a noticia no t n, 
p. 30-31, nota. 

4 Marcação do ms. na respectiva sala : Y-2-55. 



5 



cios gentílicos, e desta forma uemos m Us em outras par- 
tes deste reyno, principal m le na Estremadura, e em o 
território de Euora.» 1 

Do sec. xvin ha a muito citada Conta de Martinho de 
Mendoça de Pina sobre as antas, publicada na Collecção de 
documentos e memorias da Academia Real da Historia Por- 
tuguesa*} ha a noticia da communicaç&o do P. e Affonso da 
Madre de Deus Guerreiro á mesma Academia 3 ; ha uma 
referencia de Viterbo no Elucidário, s. v. anta; ha traba- 
lhos manuscritos do arcebispo Cenáculo, de José Gaspar 
Simões, etc. 4 

O século xvin, graças ao impulso das Academias da 
Historia e das Sciencias, por um lado, e de individualida- 
des como Cenáculo, etc, por outro, representa no nosso 
movimento historico-archeologico um período notável, pelo 
fervor da investigação 5 . As descobertas dos eruditos pro- 
pagav&o-se ás vezes aos litteratos : é assim que no scena- 
rio da tragedia Osnúa, coroada pela Academia das Scien- 
cias em 1788, figura uma anta. 

A ideia dominante nos trabalhos citados, — ideia também 
entfto, e ainda depois, em voga noutros países — , é que as 



1 Fls. 215 do respectivo volume. — O A. não especifica que Antas 
são, pois na Beira ha Antas de Penalva e Antas de Penedono ; mas 
pelo itinerário que elle descreve, vejo que falia das Antas de Pe- 
nedono. Deve ser a este Itenerario que se refere Martinho de Men- 
doça de Pina no trabalho que cito adeante, pois diz das antas: 
*D'estes edifícios não tratou nenhum dos nossos antiquários, e uni- 
camente Manuel de Faria Severim falia nelles na Relação de huma 
jornada que fez á Beira» (Conferencia, p. 2). A respeito da primeira 
afirmação enganou-se porém, porque, como vimos, já tinha havido 
no século xvi quem se lembrasse das antas. 

1 Conferencia de 30 de Julho de 1733, no vol. xiv. 

3 Conferencia de 1 de Abril de 1734. Guerreiro communicou a 
existência de 315 antas; mas a sua Conta não foi impressa. 

* Vide Pereira da Costa, Dolmins ou antas, p. 80 sqq. ; Filippe 
Simões, Tntroducção á archeologia da península ibérica, p. 162. 

* Cfr. o meu opúsculo Borges de Figueiredo e a Archeologia Por- 
tuguesa, Lisboa 1890, p. 7 e 8. 



G 



antas erào aras: só Mendoça de Pina, embora adòtando 
aquella opiniSo, menciona de passagem a hypothese de 
poderem haver também servido de sepulcros. Kinsey, refe- 
rindo-se em 1829 ao dolmen ou anta de Arrayollos, cha- 
ma-lhe ainda «altar druidico»*. Na Vida de S. Torpes de 
Lis Velho, Lisboa 1746, dá-se como sepultura de um santo 
um monumento que, segundo o que digo adeante (p. 21 
sqq.), é uma anta. 



A segunda epocha, em que se cria a archeologia prehisto- 
rica propriamente dita, ou Paleoethnologia, é caracterizada 
por um impulso novo nestes estudos, devido ao concurso da 
Geologia, da Paleontologia e da Ethnographia, o que fez 
alargar em todos os sentidos o campo da investigação. Já 
era 1872 dizia D. Francisco M. Tubino que os que em 
Portugal se occupavão da prehistoria «han aceptado la 
nueva ciência con toda seriedad, y que sus labores se dis- 
tinguen por la mesura, discrecion y acierto con que se 
llevan á cabo» 8 . 

Em 1867 enceta Carlos Ribeiro a questão do homem 
terciário 3 . 

Seguem-se depois numerosas explorações e escritos, cuja 
menção não posso aqui fazer por completo, mas de que 
irei dando noticia aqui e alem no decurso do meu trabalho. 

Como livro de synthese, talvez ainda um pouco prema- 
tura, ó a Introducção á archeologia da península ibérica 



1 Portugal illustré. Sobre o mesmo dolmen vid. também Borrow, 
Bible in Spain, n, 35 ; Fergueson, Les monumento mégalitiques (trad.), 
p. 411 ; barão de A. Bonstetten, Essai sur les dolmens, 1865, p. 22, 
&g. 19. 

2 In Museo espahol de antigdedades, i, 18. 

5 Cfr. Paul Cboffat, Notice nécrologique sur Carlos Ribeiro, p. 329 
(extr. do Bulletin de la Société géologique de France). E vid. Compte- 
rendu do Congresso de Lisboa, p. 81 sqq. 



de Filippe SimSes, publicada em 1878 *. Em 1879 apresen- 
tou ao Congresso da «Association française pour 1'avance- 
ment des sciences» o sr. Possidonio da Silva uma breve 
noticia das antas portuguesas, acompanhada de uma carta 
topographica*. 

A fundação do Museu de Anthropologia de Lisboa marca 
um passo importantíssimo nesta serie de investigações, a que 
o Congresso realizado em 1880 em Lisboa deu novo relevo 3 . 

No campo da anthropologia prehistorica temos como tra- 
balhos especiaes apenas os de Paula e Oliveira, tão cedo 
arrebatado pela morte 4 . 



1 Sobre este livro levantou- se uma polemica entre o sr. Adolpho 
Coelho e o A. : vid. Renascença, p. 82 sqq. e 126 sqq. ; cfr. também 
Revista de etimologia e de glottologia, p. 42 sqq. Do artigo do sr. Coe- 
lho, publicado na Renascença (fase. v-vii), fez-se uma edição á parte 
com o titulo de Sciencias históricas em Portugal, 1879, folheto de 
19 pag. in-8.° 

2 O mesmo auctor ja tempo antes tinha publicado uma memó- 
ria intitulada Souvenirs du congres internaiional d t anthropologie et 
d'archéologie préhistorique. . . . de Bologne, onde ha referencias ao 
nosso pais. — O sr. Possidonio da Silva rege um curso de archeologia 
no Museu do Carmo, á cerca do qual o sr. Emile Travers publicou 
um ligeiro opúsculo intitulado Uenseignement de Varchéologie préhis- 
torique en Portugal en 1890, Caen 1891 (extr. do Bulletin monumen- 
tal, 1890). 

3 Alem do respectivo Compte-rendu geral das sessões do Con- 
gresso, fízerâo-se em Portugal, a propósito d'estc, várias publicações 
menores (folhetos), que estão encorporadas no Compte-rendu. Alguns 
dos congressistas também publicarão relatórios especiaes, por ez. : 
£. Cartailhac, Congres internaiional dtanthropologie et de archéologie 
prehistor., Paris 1880 ; Magitot, com um titulo análogo, Paris 1881 ; 
Virchow, in Verhandlungen der Berliner Anthropologischen Gesell- 
schaft, Sitzung am 20sten November 1880, p. 343-351 (Zeitschrift 
/Ur Eíhnologie, vol. xn), trabalho traduzido em parte no Compte-rendu 
do Congresso de Lisboa, p. 647 sqq. — Nos Elementos de anthropo- 
logia de Oliveira Martins (2.* e 3.* ed.) vem, em appendice, uma 
«Noticia á cerca dos trabalhos do Congresso de anthropologia». 

* São elles : 

Notes sur les ossements humains qui se trouveni dans le musée de la 
section géologique de Lisbonne, — memoria impressa in Compte-rendu 



Num pequeno opúsculo que publiquei em 1885 com o 
titulo de Portugal prehistorico, e que faz parte da Biblio- 
theca do povo e das escholas (n.° 106), mencionei e resumi, 
embora imperfeitamente, os principaes estudos feitos no 
nosso pais até aquelle anno, e que, alem de outros que aqui 
torno a citar, er&o de Pereira da Costa 1 , Nery Delgado 8 , 



do Congresso de Lisboa, p. 290-304, e resumida (em português) in 
Era Nova de Lisboa, 1880-1881, p. 167 sqq.; 

Anihropologia prehistorica: As raças dos kjoekhenmocddings de 
Mugem, Lisboa 1881, opúsculo de 18 pag. Também sahiu, no todo 
ou em parte, in Era Nova, p. 503 sqq., e 533 sqq. ; 

Les ossements humains existants dans le muséc gêologique à Lis- 
bonne, que é um capitulo da obra de £. Cartailhac Les ages préhis- 
toriques de VEspagne et du Portugal; 

Notes sur les ossements humains existants dans le musée de la Com- 
mission des travaux géologiques, — artigo publicado in Convmunica- 
ções da Commissâo dos trabalhos geológicos, u, 1 sqq. ; 

Caracteres descríptivos dos craneos da Cesareda, — artigo também 
publicado nas Communicaçoes, ib., p. 109 sqq. ; 

Cfr. ainda do mesmo A. as duas seguintes memórias publicadas 
nas Communicaçoes: 

Nouvelles fouilles faites dans les kjoekkenmoeddings de la valléedu 
Tage, — memória póstuma (p. 57 sqq.) ; 

Antiquités préhutoriques et rommnes des environs de Cascões, — 
memória póstuma, (p. 109 sqq). 

Sobre Paula e Oliveira, vid. um artigo necrologico in Revista 
Lusitana, i, 386 sqq. 

mais que ha sobre a nossa anthropologia prehistorica vem en- 
corporado nos trabalhos de archeologia ; e por esse motivo não tenho 
de me referir aqui a elles em particular. 

1 Descripção de alguns dolmins ou antas de Portugal, Lisboa 
1868; 

Noticia sobre os esqueletos humanos descobertos no Cabeço da 
Arruda, Lisboa 1865 ; 

Noticia de alguns marteUos de pedra, e outros objectos antigos 
da mina de cobre de Ruy Gomes no Alemtejo, Lisboa 1868 (com 
uma estampa), extrahido do Jornal das sdendas mathematicas, phy- 
sicas e naturaes, n.° v (1868). 

2 Noticia acerca das grutas da Cesareda, Lisboa 1867. 

Os outros trabalhos d'este A. vâo referidos adeante, a propósito 
das diversas estações archeologicas. 



9 



Carlos Ribeiro*, Possidonio da Silva 2 , Gabriel Pereira 3 , 
Martins Sarmento 4 , Estacio da Veiga 5 e Sá Villela 6 . De 
então até hoje muito ha já que assignalar. 

Em 1886 publicou o sr. E. Cartailhac o seu livro Les 
ages préhistorique8 de VEspagne et du Portugal, que é 
trabalho synthetico muito importante, embora limitado a 
certas quest<5es, e com caracter principalmente descriptivo. 
Neste livro, ao lado do que o A. aproveitou da litteratura 
portuguesa especial, achão-se compendiados vários factos 
ainda inéditos, uns colhidos por ellc nos nossos museus, 
outros em explorações que fez, etc. 7 

No mesmo anno de 1886 começou Estacio da Veiga a 
publicação das Antiguidades monumentaes do Algarve, que 
terminou no vol. iv em 1891, com a morte do seu auctor, 
que a ella tinha consagrado extraordinária dedicação, em- 
bora nem sempre com muita critica 8 . 



1 Descripção de alguns silex t quartzites lascados encontrados nas 
camadas dos terrenos terciário e quaternário das bacias do Tejo e 
Sado, Lisboa 1871 ; 

Relatório do Congresso de Bruxellas, Lisboa 1873 ; 
Estudos prehistoricos em Portugal, 2 vol., Lisboa 1878-1880. 
Também ha d'elle Note sur le terrain quaternaire, in Buli. Soe. 
Giolog. de France, xxiv, 692. — Outros trabalhos vâo citados adeante. 

2 Memoria do Congresso de Bolonha, 1871. 

Tem artigos no Boletim da Associação dos archeologos e archite- 
ctos, in Compte-rendu do Congresso de Lisboa, etc. 

3 Dolmcns ou antas dos arredores de Évora, Évora 1875. 

Um artigo in Universo (Ilustrado } i, 372 (1877), artigo reproduzido 
nas Notas de archeologia, Évora 1879. 

4 Relatório da expedição á serra da Estrella, Lisboa 1883 ; 
Artigos in Pêro Gallego (de Vianna), in Tirocínio (de Barcel- 

los) e in Paníheon. — Os outros trabalhos vão citados adeante. 

5 Antiguidades de Mafra, Lisboa 1879. 

6 Estudos archeologicos : III. Os dolmcns, Lisboa 1876 (os n.*» i e n 
sahirão no Boletim da Associação dos archeologos e architectos). 

? D'este livro publicou o sr. Ricardo Severo uma analyse com 
o titulo de Paleoethnologia portuguesa, Porto 1888. 

* Sobre este trabalho e outros do A., cfr. Revista Lusitana, n, 
353-355 (art. do sr. Gabriel Pereira). 



10 



A estes investigadores, já conhecidos por anteriores tra- 
balhos, outros vem juntar-se: o sr. dr. Santos Rocha pu- 
blica as Antiguidades prehistoricas do concelho da Figueira, 
1888-1891 (2 volumes) 1 , e organiza uma bella collecçâo, 
parte da qual se acha agora no Museu do Instituto de 
Coimbra; o sr. Vieira Natividade explora as grutas de 
Alcobaça também com muito proveito 2 . 

No trabalho intitulado Étude géologique du tunnel du 
Rocio, Lisboa 1889, pelo sr. Paulo Choffat, ha um capi- 
tulo sob a epigraphe de Industrie préhistorique (p. 60 sqq., 
com estampas), onde se dá noticia de explorações subter- 
râneas do silex nos tempos prehistoricos em Lisboa, facto 
novo na nossa prehistoria. Do mesmo auctor ha ainda um 
opúsculo intitulado Passeio geológico de Lisboa a Leiria 
(extrahido da Revista de educação e ensino, vi, 289 sqq.), 
em que vem várias referencias a estações prehistoricas 
da Estremadura. 

Em 1890 publicou o sr. Nery Delgado o seu Relatório 
acerca da 10* sessão do Congresso internacional de anthro- 
pologia e archeologia prehistoricas (Paris), trabalho rico de 
informações, ao qual tenho de me tornar a referir adeante, 
pois nelle entra por vezes a nossa prehistoria. 

Com a publicação das CommunicaçZes da Commissão dos 
trabalhos geológicos de Portugal, começada em 1885, e 
que ainda prosegue, mais se enriqueceu a nossa bibliogra- 



1 O trabalho do Br. Santos Rocha está feito com clareza e me- 
thodo. Divide-se em duas secções: a primeira é apenas descriptiva; 
na segunda o A., sempre nos limites da prudência, tira d'essa des- 
cripçâo deducções interessantes á cerca dos usos e costumes do ho- 
mem neolithico d'aquella região (occupaçÕes, armas, utensilios, ar- 
tes, modos de sepultura, etc), para o que compara também os obje- 
ctos explorados por elle com objectos análogos de outras regiões, e 
dos povos selvagens modernos. Só com memórias práticas como esta, 
e como outras que já felizmente temos, é que a nossa archeologia 
prehistorica poderá verdadeiramente progredir. 

2 Cfr. Roteiro dos coutos de Alcobaça, pelo mesmo. Alcobaça 
1801. — Sobre a importância d'eetas explorações, vid. adeante. 



11 



phia paleo-ethnologica, por nella se achivarem valiosas dis- 
sertações. Não são as CommunicaçVes a única revista seien- 
tifica em que o estudo da nossa archeologia preliistorica 
tem tido logar : ha outras, taes como, o Boletim da Associa- 
ção dos architectos e archeologos portugueses, a Revista 
de Guimarães, a Revista archeologica, a Revista da Socie- 
dade Carlos Ribeiro, a Revista de Portugal, etc. 

Já depois de impresso ttído o que precede, publicou-se 
o Compte-rendu do Congresso prehistorico de Paris em 
1880, livro que tem a data de 1891, e que, alem de várias 
referencias a assumptos portugueses, contém três memó- 
rias do Sr. Nery Delgado : uma sobre as grutas de Santo 
Adrião, outra sobre as de Alcobaça e outra sobre os síli- 
ces de Otta 1 . 



Por todos estes trabalhos, por outros dispersos em vá- 
rios jornaes e livros, e pelo que se acha reunido nos museus 
públicos e nas eolleeções particulares, pois em Portugal, 
alem dos que escrevem sobre o assumpto, ha muitos ama- 
dores que por ora se tem limitado a colligir, pôde já fazer-se 
uma ideia bastante aproximada do que era em geral a vida 
dos nossos antepassados prehistoricos. 



Devia eu aqui fallar á cerca da Galliza, e ainda da 
parte do reino de Hespanha comprehendida nos limites da 
antiga Lusitânia ; mas neste particular pouco pude colher. 

Citarei no emtanto, com relação á Galliza, as Antigiie- 
dades de Galicia de Sivelo, as Antigiiedades prehistóricas y 



1 Neeta resenha da nossa historiographia prehistorica menciono, 
a titulo de mera curiosidade bibliographica, a Historia da Lusi- 
tânia (8ic) t da Ibéria do sr. João Bonança (Lisboa, vol. i, 1887). 
As minhas ideias á cerca d'ella expendi -as já em artigos do Repórter 
(Abril a Agosto de 1888), e na Revista Lusitana (n, 91). 



12 



célticas de Galicia, Lugo 1873, do Villa-Amil y Castro, e 
vários artigos publicados por este último no Museo espaliol 
de antígiiedades '. Nos trabalhos insertos no Museo cit&o-se 
vários ÁA. que já se tem referido ás antiguidades prehis- 
toricas da Gallíza, uns do sec. xvm, como o P. e Fr. Martin 
Sarmiento *, outros d'este século, como Murguia 3 , Martinez 
de Padin 4 , Verea y Aguiar 5 , Saralegui y Medina 6 , etc. 
O mesmo auctor Villa-Amil y Castro havia já publicado, 
á cerca dos túmulos gallegos, artigos avulsos em jornaes, 
taes como El arte en Espaila e Revista de Bdlas Artes. 

Os monumentos prehistoricos são vulgares na Galliza: 
os túmulos cobertos tem os nomes populares de mámoasj 
madorras e modorras ; o que nós em português mais vulgar- 
mente chamamos castros tem em gallego este nome e o de 
croas (coroas). 

B) Geographla prehlstorlca 

A cerca da Galliza vid. os trabalhos de Villa-Amil. 

A cerca de Portugal direi que em todas as nossas pro- 
víncias se conhecem monumentos prehistoricos, mais ou 
menos. Fôra-me impossível mencioná-los aqui na totalidade, 
nem isso faz ao meu intento. Menciono no emtanto alguns. 

a) Entre -Dour o e- Minho: 

Valença e Villa Nova da Cerveira. — O museu do sr. 
Marciano de Azuaga, nas Devesas (Porto), possue um ma- 
chado de cobre ou bronze, achado numa aldeia de Valença; 
o museu de Guimarães possue também um instrumento de 
cobre ou bronze, de aselha, vindo de Villa N. da Cerveira. 

Numa serra do Alto-Minho, entre a Peneda e Soajo, ha 



1 Vol. iii, iv e vii (com estampas). 

2 Numa obra que tem a data de 1757. 

3 Historia de Galicia, t. i. 

* Historia de Galicia, t. i. 

* Historia de Galicia (1838). 

* Estúdios sobre la época céltica en Galicia (1868). 



13 



seis antas, próximas umas das outras. Cfr. o meu opúsculo 
Uma excursão ao Soajo, p. 21. 

Caminha. — Neste concelho ha várias antas e antellas, 
umas e outras cobertas ás vezes por cômoros de terra, e 
constituindo assim mamôas. — Sobre os monumentos prehis- 
toricos do Valle do Ancora vid. Martins Sarmento, in O 
Phantheon, p. 2 e 20; José Caldas, in Compte-rendu do 
Congresso de Lisboa, p. 339. — Sobre o monte do Castro 
de Villas de Mouros, onde apparecêr&o instrumentos pre- 
históricos de metal, vid. Figueiredo da Guerra, in Archivo 
Viannense, i, 61 e 62 (e cfr. Revista Lusitana, II, 288). 

Vianna do Castello. — Das antiguidades prehistorícas 
d'este concelho, — antellas, mamôas, etc., — falia Martins 
Sarmento numa serie de artigos intitulada Materiaes para 
a arckeologia do concelho de Vianna do Castello (in Pêro 
Gallego, jornal litterario de Vianna). 

Barcellos. — O mesmo A. escreveu sobre análogas anti- 
guidades do vizinho concelho de Barcellos uma serie de 
artigos com o titulo de Materiaes, etc. (in Tirocínio, jornal 
noticioso de Barcellos). — No museu de Guimarães ha umas 
dezasete pontas de seta e duas facas de pedra, provindas 
da anta de Villa-ChS (Barcellos). — No museu particular 
do sr. Marciano de Azuaga, nas Devesas, ha também um 
instrumento de cobre ou bronze, de aselha, proveniente 
de umas escavações de ao pé de Barcellos. 

Guimarães, Felgueiras. — S&o ainda do sr. Martins Sar- 
mento as principaes noticias de monumentos prehistoricos, 
publicadas sobre estes concelhos, monumentos que consis- 
tem em mamôas, penedos com covinhas (de que fallarei 
adeante), etc.: vid. Materiaes para a archeologia do conce- 
lho de Guimarães (e de Felgueiras, em parte), in Revista 
de Guimarães, vol. I, II, v. Nestes artigos dâo-se também 
noticias de antigualhas romanas, lendas populares, etc. — 
Na cidade de Guimarães ha o museu da Sociedade Martins 
Sarmento, que possue muitas riquezas archeologicas de 
todas as epochas, e em especial provenientes de estações 
luso-romanas vizinhas de Guimarães, museu constituido 



14 



principalmente pelos objectos directa ou indirectamente 
colhidos polo sr. F. Martins Sarmento, que é sem dúvida 
um dos archeologos a quem a nossa archeologia mais deve, 
e que alem d'isso encontrou em Guimarães um circulo de 
gente illustrada, que o auxilia eficazmente. 

Santo-Thyrso. — Neste concelho tem apparecido monu- 
mentos funerários, e achou- se uma bclla collecçâo de in- 
strumentos metallicos (cobre ou bronze), do typo caracte- 
rístico nosso. Vid. Martins Sarmento, in Rev. de Guima- 
rães, v, 157-159; e cfr. Ricardo Severo, Paleoeihnologia 
portuguesa, Porto 1888, p. 76-77. Esta collecçâo foi 
quasi toda adquirida pelo museu da Sociedade Martins 
Sarmento ; a acquisição deve-se ao rev. Fonseca Pedrosa, 
digno abbade de Santo-Thyrso. 

Baião. — Neste concelho ha várias antas e mamôas. Em 
diversos pontos do concelho tem-se encontrado instrumen- 
tos prehistoricos (de cobre ou bronze e neolithicos). Pos- 
sue três meu primo Manuel Negrão, na sua collecçâo ar- 
cheologica de Mosteiro; eu também possuo um (de pedra), 
achado á beira de um caminho, perto do castro de Agrei- 
los, na freguezia de Santa Cruz. 

Marco de Canaveses. — Neste concelho ha uma gruta 
funerária (propriamente é um «abrigo debaixo de rocha») 
em Soalhães, da qual falia o sr. dr. Martins Sarmento in 
Os Argonautas, p. 248, nota 6 ; ha várias mamôas e ha 
ou houve antas. Também tem apparecido muitos instru* 
mentos, a maior parte dos quaes, por intervenção dos 
dedicadíssimos investigadores os srs. drs. João de Vaacon- 
cellos Carneiro e Meneses, e José de Barros e Silva, tem 
ido para o museu de Guimarães. 

Penafiel. — Segundo as informações que me deu o meu 
amigo sr. dr. João de Vasconcellos, a quem acabo de me 
referir, ha neste concelho, a 2 kil. do castro de Villa Boa 
de Quires, no monte denominado O Forno do Mouro, uma 
bella anta. — Cfr. também Era Nova, 1880-1881, p. 227. 

Amarante. — Sei que tem apparecido lá instrumentos 
neolithicos. 



lõ 



b) Tras-os-Montes : 

Villa Pouca de Aguiar. — Próximo do logar de Carra- 
zedo, d'este concelho, existe uma mamunha : vid. Pereira 
da Costa, Dolmins ou antas, p. 90. 

Vimioso. — SBo neste concelho as grutas de Santo Adrião, 
em parte explorados pelos srs. F. Cardoso Pinto e José 
Cardoso Pinto, e descritas pelo sr. Nery Delgado in Com- 
municaçdes da Commissão dos trabalhos geológicos, li, 46, 
in Revista de Portugal, IV, 31 e in Compte-rendu de Paris, 
p. 553 sqq. 

No curioso museu do sr. Marciano Azuaga ha várias 
antiguidades prehistoricas vindas de Tras-os-Montes : ma- 
chados de pedra, de typo análogo aos do Sul, procedentes 
de S. Mamede de Riba-Tua; instrumentos de cobre ou 
bronze, de aselha, da mesma procedência; outro análogo, 
de Cortiços (Mirandella) ; outro análogo, de Contomil, de 
ao pé de umas minas metalliferas. 

MesSo-Frio. — Neste concelho tem apparecido instru- 
mentos neolithicos, existentes hoje na collecçSo archeolo- 
gica de meu primo Manoel Negrito, em Mosteiro, collecç&o 
que, graças á actividade e desvelo do seu organizador e 
possuidor, é já bastante importante. 

c) Beira: 

Pereira da Costa, nos seus Dolmins ou antas, p. 86 
sqq., menciona vários monumentos nas seguintes localida- 
des da Beira Baixa : uma anta perto de Guilhafonso ; outras 
na Matança e Campicham, junto a Celorico; outra no cami- 
nho da Guarda a Pinhel; cinco no termo de Sabugal; a 
p. 91, um trilitho (anta, ao que parece) em Villa Velha do 
Rod&o ; duas mamunhas ao N. das minas do Braçal, tendo 
uma d'ellas o nome popular de «mamunha de Mamaltar» 
(o que será um pleonasmo *). Diz Pereira da Costa que 



1 De facto, mamunha é um diminutivo secundário de mamma; c 
Mamaltar decompõe -se, segundo parece, em Mamma-altar. Cfr. o 
meu Portuga! prehistorico, p. 47. 



16 



nesta última região da Beira c designam todos os monu- 
mentos análogos a este com o nome de mamunha* '. 

No Relatório da expediç&o scientifica da Sociedade de 
Geographia á Serra da Estrella, feito pelo sr. Martins Sar- 
mento, dá este A. várias informações sobre antas, mamôas, 
instrumentos, etc., descobertos em concelhos vizinhos á 
Serra. O mesmo Relatório contém ainda noticias de ar- 
cheologia romana e outras. 

Nos museus da Sociedade de Geographia de Lisboa e 
da Sociedade Martins Sarmento de Guimarães ha instru- 
mentos de cobre ou bronze trazidos de vários pontos da 
Beira-Baixa. 

Entre Sobral Pichorro (Beira-Baixa) e Antas de Penalva 
(Beira- Alta) descreve-se, num ms. do século passado, uma 
anta: vid. P. da Costa, Dolmins ou antas, p. 87. — Ao pé 
das Antas de Penalva, no sitio do Rancosinho (concelho de 
Fornos de Algodres, freguesia de Algodres), ha uma grande 
anta, que eu vi em Setembro de 1892; o povo chama-lhe 
Casa d'Orca, nome vulgar das antas naquella região. 

Mangualde. — Neste concelho ha algumas antas. Explo- 
rei duas em Setembro de 1892: uma chamada Casa d' Orca, 
ao pé da Cunha-Baixa ; outra chamada Os PadrZes, ao pé 
do Outeiro de Espinho. Adeante me refiro várias vezes a 
ellas. Encontrei, nas explorações, facas de silex, macha- 
dos neolithicos, cerâmica, etc. Pelos campos do concelho 
de Mangualde apparecem avulsamente instrumentos do pe- 
ríodo da pedra polida, que o povo guarda; obtive alguns. 
Cfr. sob estas antigualhas os meus artigos Estudos archeolo- 
gicos em Mangualde e Archeologia mangualdense, no jornal 
de Mangualde A Reacção, n. 08 51 e 52 (Setembro de 1892). 

Nellas. — Sobre as Orcas d'este concelho, vid. Portugal 
antigo e moderno de Pinho Leal, s. v. Cannas de Senho- 
rim; cfr. a mesma obra, s. v. Viseu, pag. 1700, nota 3 
(artigo do sr. Abbade de Miragaya). — Na aldeia de Santar, 
d'este concelho, onde estive em Setembro de 1892, vi dois 



* Ob. cti., p. 89. 



. • 



17 



fragmentos de instrumentos neolithicos, achados na locali- 
dade ; um d'elles era supersticiosamente guardado por uma 
velha de lá. 

Coimbra e Cantanhede. — Filippe Simões na Introducção 
á arckeologia, falia de várias antiguidades prehistoricas 
d'estes concelhos. — Em Coimbra o museu archeologico 
do Instituto possue bastantes antiguidades prehistoricas, 
provenientes de diversas localidades. D'este museu está 
publicado um Catalogo (com seu Supplemento). 

Figueira da Foz. — As antiguidades prehistoricas doeste 
concelho tem sido exploradas, como disse ap. 10, nota 1, 
pelo sr. Santos Rocha. Alem de instrumentos neolithi- 
cos, que apparecem avulsos pelos campos, e que o povo 
chama raios e coriscos, esto concelho possue monumentos 
funerários chamados vulgarmente mamoinhas, outros que 
pertencem á classe das antevias, e outros, ao que parece, 
estações humanas, como na Várzea de Lirio. 

d) Estremadura: 

Alvaiázere. — De várias antiguidades prehistoricas doeste 
concelho, taes como instrumentos neolithicos e metallicos, 
e, segundo parece, antas e grutas, falia o sr. dr. Ferraz 
de Macedo no seu opúsculo Lusitanos e Romanos em Villa 
Franca de Xira, Lisboa 1893, p. 97 sqq., opúsculo que 
constitue um capitulo especial da obra do sr. Lina de Ma- 
cedo Antiguidades do moderno concelho de Villa Franca 
(em publicação). 

Leiria. — No concelho de Leiria apparecem, como de 
costume, muitos instrumentos neolithicos, avulsos, que o 
povo recolhe e conserva a titulo de apedras de raio» ; 
eu obtive por lá alguns em 1888 e 1890. 

Porto do Mós. — Apparecem por lá muitas "pedras de 
raio». Tenho algumas, que me forão offerecidas pelo Sr. An- 
tónio de Jesus e Silva, professor em Ameaes. O museu do 
Sr. Azuaga, nas Devesas (Porto), possue numerosos obje- 
ctos prehistoricos (de pedra, osso e metal), provenientes de 
Reguengo do Fetal. 



18 



Alcubaça. — Alem de muitos instrumentos neolithieos que 
apparecem neste concelho, ha muitas grutas que forão 
exploradas pelo Sr. Vieira Natividade, o qual formou na 
villa um interessante museu. Sobreda bibliographia e outras 
noticias, vid. p. 10, 40 e 41, e respectivas notas. 

Thomar. — Nesta cidade, o sr. Magalhães, redactor do 
jornal politico A Verdade, possue no seu museu particular 
uma collecçâo do instrumentos neolithieos, que eu vi em 
Setembro de 1890. — No museu do sr. Azuaga, nas Devesas 
(Porto), vi um formidável machado neolithico, proveniente 
de Paialvo. 

Caldas da Rainha. — Por todo o concelho apparecem 
«pedras de raio». Eu possuo bastantes encontradas lá, 
umas colhidas pela distincta ethnographa e polyglotta a 
ex. ma sr. a D. Cecília Schmidt Branco, outras por mim. 

Peniche. — Está neste concelho a importantíssima gruta 
da Furninha, que foi explorada e estudada pelo sr. Nery 
Delgado: vid. Compte-rendu do Congresso de Lisboa, 
p. 207 sqq. — Eu possuo vários instrumentos neolithieos 
achados pelo concelho. 

Óbidos. — No monte da Cezareda, d'este concelho, ha 
várias grutas, descritas pelo sr. Nery Delgado na Noticia 
acerca das grutas de Cesareda, Lisboa 1867. — O sr. Paulo 
Choífat descobriu neste concelho outra estação que elle 
descreveu com o titulo de Sur une station prêhistorique à 
Óbidos, in Communicaçoes da Commissão geológica, II, 
158. — Como nos concelhos vizinhos, também pelo de Óbi- 
dos apparecem avulsamente muitas «pedras de raio»; pos- 
suo bastantes de lá. 

Cadaval. — Na Serra da Nove ha muitas grutas prehis- 
toricas, umas já exploradas scientificamente, outras ainda 
não. Tem ministrado ossadas, cerâmica, instrumentos neoli- 
thieos, etc. Em todas as freguesias do concelho é vulgar 
o apparccimento de objectos da idade da pedra (e alguns 
apparecem também de metal) ; a maior parte da minha 
collecçâo foi formada neste concelho. A cerca da prehisto- 
ria do Cadaval vid. os meus artigos Antiguidades do con- 



19 



celko do Cadaval, publicados in O Clamor do Bombarral 
(de Agosto de 1892 a Março de 1893); e cfr. também 
adeante, p. 43, nota 3. 

Santarém. — No museu d'esta cidade existem várias 
antiguidades prehistoricas, como placas de schisto orna- 
mentadas e machados de pedra; um machado de pedra 
polida, proveniente de Santarém, existe também no museu 
do sr. Azuaga. 

Villa Nova de Ourem. — Appareceu no logar de Espite 
uma importante collecção de uns trinta e dois machados 
prehistoricos de metal (sendo de cobre, pelo menos, mais 
de metade), que foi adquirida pelo sr. Sande e Castro, 
amável investigador de antiguidades. Cfr. Estacio da Vei- 
ga, Antiguidade do Algarve, IV, 152. 

Valle do Tejo. — Sào nesta região os notabilissimos 
kjoekkenmoeddings estudados por Pereira da Costa, Carlos 
Ribeiro e Paula e Oliveira, como digo adeante, p. 29. 

Mafra. — Sobre este concelho cfr. Antiguidades de Ma- 
fra, por Estacio da Veiga, Lisboa 1879, p. 14 sqq. Eu 
possuo alguns machados neolithicos encontrados lá. 

Cintra. — De uma anta na serra de Cintra falia Pereira 
da Costa nos Dolmins ou antas, p. 94. — Do monumento 
funerário da Serra do Monge falia Carlos Ribeiro, Estudos 
* prehistoricos, n, 74. — Na saibreira da Sabuga, onde encon- 
trei vários fragmentos cerâmicos com caracter muito ar- 
chaico, onde apparecêrâo parece que sepulturas, e d 'onde 
provierão também machados de pedra, algum dos quaes 
possuo, talvez houvesse uma estação prehistorica. — Em 
vários pontos da serra ach&o-se não raro instrumentos 
neolithicos. 

Bellas. — Ha aqui algumas antas, descritas por Carlos 
Ribeiro nos seus Estudos prehistoricos, vol. n; os resulta- 
dos das excavaçSes achâo-se no museu da Cominiss&o Geo- 
lógica. — O sr. Marciano de Azuaga também possue alguns 
objectos provindos do Valle de Carenque (Bellas). 

Liceia e Barcarena. — A estação prehistorica de Liceia 
acha-se descrita por Carlos Ribeiro, Estudos prchist., vol. I. 



20 



Sobre esta estação e sobre os instrumentos neolithicos pro- 
venientes de Barcarena, vid. adeante, p. 49 sqq. 

Cascaes. — Da archeologia pre-romana de Cascaes se 
oceupou Paula e Oliveira in Commxtnicaçôes da Commissão 
geológica, n, 82 sqq. — Cfr. também Compte-rendu do 
Congresso de Lisboa, p. 73. 

Arredores de Lisboa. — De uma sepultura prehistorica 
descoberta na Tapada Real da Ajuda falia o sr. Possidonio 
da Silva in Boletim dos archit. e archeol., n, 177. — Nas po- 
voações limitrophes de Lisboa achão-se sem grande difficul- 
dade instrumentos neolithicos, que o povo ás vezes guarda. 

Palmella. — Ao pé de Palmella ha as célebres grutas 
artificiaes, exploradas por Carlos Ribeiro. Cfr. Cartailhac, 
Las ages prékistoriques, p. 118 sqq. 

Fonte da Roptura. — Sobre esta estação prehistorica, 
onde se tem encontrado cerâmica ornamentada, objectos de 
osso, de pedra e de cobre, vid. : Filippe Simões, Introduc- 
ç8o á archeologia (índice, s. v.), e Estacio da Veiga, 
Antiguidades monumentaes do Algarve, IV, 148. 

e) Alemtejo. 

Évora. — Nos arredores da cidade ha muitos grupos de 
antas. O Sr. Gabriel Pereira, no sou opúsculo Dolmens ou 
antas dos arredores de Évora, Évora 1875, menciona mais 
de quarenta; mas, segundo elle me informa, este número 
tem de ser augmentado. — Tanto no Museu Archeologico 
annexo á Bibliotheca Publica eborense, como na collecçSQ 
particular do Sr. Gabriel Pereira ha muitos objectos prehis- 
toricos de Évora ; eu também possuo alguns instrumontos 
neolithicos encontrados por lá. — Sobre outras antiguidades 
preliistoricas do districto de Évora, e entre ellas a anta 
furada da Candieira (Serra d'Ossa), monumento único no 
país (pelo menos o único conhecido), vid. Gabriel Pereira, 
Notas de archeologia, Évora 1879, p. 26 sqq. 

Castello de Vide. — Pereira da Costa, nos Dolmins ou 
antas, cita nos arredores de Castello de Vide nada menos 
de umas quatorze antas : vid. p. 67 sqq. 



21 



O mesmo A. menciona mais umas dezaseis na provinda 
alemtejana (Nisa, Crato, Arrayollos, etc.). 

Avis, Mora, Ponte-de-Sôr. — Existem numerosas antas 
nestes concelhos. Quem primeiro me deu noticias d'ellas 
foi o sr. dr. Mattos Silva, delegado do procurador régio 
em Ponte-de-Sôr. Adeante me refiro muitas vezes a algu- 
mas das antas que aquelle senhor explorou 1 . 

Sines. — Segundo uma antiga lenda, que tem semelhança 
com outras nossas e de fora, aportou ao cabo de Sines 
o cadáver de S. Torpes, vindo milagrosamente de Itália 
para ser alli sepultado. A supposta sepultura foi violada 
no sec. xvij e da descripçào do que se encontrou re- 
sulta para mim a convicção de que ella nada mais era 
do que uma anta, talvez com sua galeria. Todas as noti- 
cias a este respeito estão contidas no Exemplar da cons- 
tância dos martyres efn a vida do glorioso S. Torpes, por 
EstevSo de Lis Velho, Lisboa 1746. Transcreverei algumas 
passagens para provar o que affirmo. O A. visitou o lo- 
cal e diz : « irâo encontrey mais que duas pedras toscas, 
que levantadas sinalavão o comprimento da dita sepul- 
tura» 8 . Quem tem visto antas, reconhece facilmente aqui, 
e em virtude também do que se vae seguir, os esteios de 
uma anta arruinada. Segundo outra noticia supplementar, 
o corpo do santo «estava sepultado debaixo de grandes 
pedras t 3 ; estas pedras, que devi&o constituir o chapéu ou 
tampa da anta, foram levadas para a porta da matriz de 



1 É aqui occasiâo de agradecer ao sr. dr. Mattos Silva não só a 
sua bondade em me convidar para assistir á exploração archeolo- 
gica, o que fiz em Setembro de 1892, mas «a franqueza, verdadeira- 
mente alemtejana, com que me tratou, e a liberalidade de que usou 
para comigo offerecendo-me vários objectos dos desenterrados das 
antas. Depois de Setembro o sr. dr. Mattos Silva procedeu a novas 
explorações. A sua collecçâo archeologica, que possue em Ponte- 
de-Sôr, é pois já hoje importante. 

2 Vid. o Prologo. 
* Vid. o Prologo. 



9*> 



Sines *. — Dentro da sepultura encontrárão-se ossadas, três 
dentes, chuma pomazinha quebrada de barro» com vestí- 
gios de fogo internos e externos, e a huma estampa de pe- 
dra preta debuxada» 4 . A porta encontrou-se t hum casco 
de cabeça» 3 ; mais fora encontrarão-se várias ossadas e uma 
pedra preta 4 . Como as antas erão providas muitas vezes, 
senão sempre, de galerias mais baixas, em que também 
se enterrava, é provável que os fragmentos ósseos exhu- 
inados do lado de fora da camará sepulcral estivessem na 
galeria, que, por ser de pedras pequenas, ou por já se não 
conservar, não foi reconhecida como fazendo parte do tu- 
mulo. O A., que tinha conhecimento das lucernas roma- 
nas, compara aquella pomazinha com uma lucerna 4 ; mas 
é fácil comprehender que tal pomazinha de barro não passa 
de uma destas grosseiras tijelinhas prehistoricas mais ou 
menos redondas que se encontrão facilmente nas antas e 
nas grutas ; eu tenho visto muitas, e possuo algumas 5 . Mas 
o que tira todas as dúvidas á cerca da antiguidade pre- 
historica do tumulo é a tal pedra preta delvxada, que o 
A., por felicidade, estampou a p. 178 do seu livro, e 
que se vê ser uma como muitas das placas de schisto, a 
que já me referi a cima, p. 19, e de que volto a fallar 
adeante, p. 34, etc. O A. não explica o que seja a outra 
pedra preta, mas talvez seja um seixo rolado, como muitos 
que apparecem nas antas, etc. ; eu mesmo os tenho já 
encontrado (em Mangualde, por ex., na Casa d'Orca da 
Cunha-Baixa). — Assim, em resumo: no cabo de Sines 
houve uma anta, de que no sec. xvm restavão ainda dois 
esteios em pé, e que parece que estava completa, ou quasi, 
no sec. xvi ; a anta tinha talvez uma galeria; d 7 este mo- 



iR 184. 

* P. 154 e 1G7. 
' P. 155 e 167. 

* P. 172 sqq. 

5 Vid. desenhos de objectos análogos, por exemplo, em Estacio da 
Veiga, Antiguidade» monumento es do Algarve, rv, est. xin e xv. 



23 



numento sepulcral forâo extrahidos objectos de industria 
prehistorica, e ossadas humanas, que o povo considerou 
e venerou como relíquias de S. Torpes 1 . — A lenda de 
S. Torpes ficou pois adaptada a um local pagão. Adeante 
heide tornar a referir-me a ella, pois que contém elemen- 
tos de outro género, não menos importantes. 

Por todo o Alemtejo se encontrão antiguidades prehis- 
toricas: machados de pedra, instrumentos de metal, sepul- 
turas, etc. Citarei ainda Odemira, Alandroal, Juromenha, 
Villa Viçosa, Estremôs, Elvas. Nestas três ultimas locali- 
dades ha collecções archeologicas ; em Villa- Viçosa tem 
uma o rev. Rocha Espanca, muito conhecedor da archeolo- 
gia da sua terra; as de Estremôs e Elvas são do município. 
Em Beja ha também um museu archeologico municipal ; 
não sei porém se possue antiguidades prehistoricas. De 
Juromenha e Alandroal possuo instrumentos neolithicos. 
Sobre Odemira cfr. Cartailhac, Les ages préhist., p. 210; 
o sr. dr. Abel da Silva Ribeiro offcrcceu ao Museu da Com- 
missão Geológica vários objectos prehistoricos de Odemira. 
Neste Museu ha objectos de muitas outras localidades. 



1 Em folhetim da Aurora do Cavado (jornal noticioso e biblio- 
graphico de Barcellos), n.° 1322, de 17 de Maio de 1893, num artigo 
intitulado Viagens na minha livraria, § xxvj, falia o sr. F. A. Barata 
da Vida de 8. Torpes de Lis Velho, e já ahi classifica de «ardósia 
prehistorica», a «pedra debuxada» de que falia o auctor do livro, 
e accrescenta : «creio que o tumulo, se é que algum appareceo, era 
um tumulo de um alguém qualquer que viveo naquelles tempos, etc.» 
(i. é., nos tempos prehistoricos). Ao sr. Barata pertence pois a prio- 
ridade (Testa noticia; só eu no texto a acerescento, e ensaio a de- 
monstração de que realmente se refere a um monumento prehisto- 
rico, de cuja existência se não pôde duvidar. 

O sr. Gabriel Pereira communica-me também um ms., que existe 
na Bibl. Nac. de Lisboa, marca A-4-12, intitulado Memorias para 
a historia ecclesiaslica do arcebispado oV Évora por António Rosado 
Bravo ; nelle, a pag. 24, vem uma «figura da pedra que se achou na 
sepultura do glorioso Sào Torpes, quando no anno de 1591 foi achado 
o seu corpo na v. a de Sines, etc.» Esta estampa differe porém um pouco 
da que traz Lis Velho, embora ambas se refirào ao mesmo objecto. 



24 



f) Algarve. 

Fallar da archeologia do Algarve é lembrar o nome de 
Estaeio da Veiga. Com effeito este A., nas suas Antigui- 
dades monumeiúaes, reuniu numerosos e importantíssimos 
documentos sobre esta província, que elle explorou em 
vários sentidos: esses documentos pertencem ao período 
da pedra polida e aos dos nietaes. Abstenho-me pois de 
citar aqui as diversas estações archeologicas algarvias; 
remetto para aquella obra quem desejar conhecê-las. 

Com as antiguidades algarvias formou methodicamente 
Estaeio da Veiga o Museu do Algarve, hoje annexo á Aca- 
demia das Bellas Artes de Lisboa. 

São possuidores de antiguidades algarvias, os srs. dr. 
Teixeira de Aragão e Júdice dos Santos, alem da família 
de Estaeio da Veiga, etc. 



Na summaria enumeração que acabo de fazer da nossa 
geographia prehistorica, não foi meu intento referir-me 
aos castros, pelas razões que dou adeante. Estes porém 
são muito abundantes, com especialidade nas províncias 
do Norte (Entre-Douro-e-Minho, Tras-os-Montes) e Cen- 
tro (Beira), como regiões montanhosas. 

Percorrendo-se as obras de archeologia portuguesa, e 
mesmo algumas de chorographia, como o Portugal antigo e 
moderno, de Pinho Leal, encontrar-se-hão muitas mais noti- 
cias do que as por mim dadas acima *. 

Raro será o concelho de Portugal, se algum ha, que não 
possua vestígios pre-romanos. A minha prática auetoriza- 
me a suppor isto. O Alemtejo é a província onde talvez 
hoje se encontrem mais antas. 



1 Sobre a distribuição geographica das nessas antas vid. também 
Oliveira Martins, Elem. de anthropologia, 3.* ed., p. 268 sqq., onde 
se resume um mappa prehistorico que está no Museu da Commissão 
Geológica, mappa que já depois tem sido a pouco e pouco ampliado. 



25 



C) Epochas prehlstoricas 

A epocka da pedra e a epocha dos metaes não Be achão 
representadas por igual no nosso país. Nuns pontos pre- 
dominâo certos elementos ; noutros pontos predomin&o 
outros, — o que adeante se verá melhor. 

As próprias denominações populares dos monumentos, 
e as tradições annexas a elles, variâo de local para local: 
assim no Entre-Douro-e-Minho, ao contrário do que suc- 
cede no Sul, os machados de pedra não sXo tidos (segundo 
o que tenho observado) como t pedras de raio», dando se 
este nome a certos mineraes crystallinos ; a palavra anta, 
applicada aos túmulos prehistoricos, muito conhecida no 
Alemtejo, creio que é hoje desconhecida na Estremadura, 
no Minho e na Beira, sendo nesta última província, em 
certos concelhos, substituída por casa d! orca, e nâo tendo 
nas outras, que eu saiba, designação commum ; ao que na 
Beira-Baixa se chama mamunha e no Minho mamôa, etc., 
chama-se na Figueira da Foz mamoinha. No emtanto, como 
se vê do onomástico, a palavra anta estendeu-se em epochas 
antigas por todo o país, o que prova que ainda depois dos 
Romanos, pois ella veiu-nos directamente do latim anta, 
por antae ', taes monumentos erSo não só muito numero- 
sos, mas chamavão em larga escala a attenç&o do povo. 



1 Quaes seriâo os nomes primitivos (Testes monumentos no nosso 
pais é o que se não sabe. O nome que tinhão na occasiâo da conquista 
romana foi porém substituído pelo lat. anta. 

Esta palavra nâo é especial ao romanço lusitanico, embora nou- 
tras partes tenha, ou possa ter, várias accepçftes, porque foi, em 
virtude de uma metaphora, devida á semelhança que a imaginação 
do nosso povo encontrou entre os rudes monumentos prehistoricos e 
as peças architectonicas chamadas a n t a e , que tal denominação se 
applicou áquelles. 

No onomástico da Hespanha apparece ella : nâo só na Galliza, — 
Anta e Ardas ; mas em Zamora, — Anta de Bioc&ntjos e Anta de Terá ; 
e em Almeria, — Antas. No mesmo onomástico ha Aniela (Galliza) 



26 



r 

E tempo agora do entrar na exposição da nossa prehis- 
toria, considerando em secções separadas a epocha da pedra 
e a epocha dos metaes. 



e Anlella (Valladolid e Valência). Vid. Diccionario geográfico-csta- 
tistico -histórico de Espana, por Pascual Madoz, n, 1845, s. v., e 
Diccion. geográfico, etc., de Ricra y Sans, i, 1881, s. v. (e Supplem.). 

Sobre a palavra anta noutras línguas vid. também Kõrting, 
Lateinisch- Romanisches Wõrterbuch, s. v. antae; e cfr. ainda Du 
Cange, Ghssarium mediae et infimae latinitati*, s. v. antes, e Forccl- 
lini & De-Vit, Totius lat. Lexic, 8. v. antae (e o Ghssarivm ap penso, 
8. y. anta). 

Em português a palavra encontra-se em todas as províncias como 
designação locativa ; isto prova, como digo no texto, que, na epocha 
da vinda dos Romanos á Lusitânia, não só esses monumentos erâo 
muito numerosos, mas que houve uma mesma palavra geral para 
todos, c que a impressão que elles causavâo no povo era talvez 
mais viva do que actualmente. Depois, em virtude de novas ideias 
que vicrão (com o Christianismo, com os Árabes, etc), e de muitos 
d'esses monumentos se arruinarem ou destruírem, cm algumas re- 
giões o nome geral esqueceu-se completamente, ficando só ás vezes 
o onomástico a revelar, por assim dizer, inconscientemente, que alli 
tinha havido rudes monumentos antigos, que o povo conheceu ; nou- 
tras regiões o nome commum esqueceu-se também, mas oa monu- 
mentos receberão novos nomes, tirados, quer do seu estado actual* 
como Os Padrões (em Mangualde), quer das novas crenças, como 
Casa dos Galhardos (apud P. da Costa, Dolmins ou Antas, p. 77. 
£ sabido que Galhardo, de galh-ardo, significa «Diabo* na lingua- 
gem popular de certas localidades), Casa da Moira (passim), Forno 
do Moiro (Penafiel), etc.; noutras regiões os monumentos tem ainda 
outros nomes, como Casa d'Orca, nas mesmas regiões em que existe 
Anta como designação locativa. 

A metaphora que levou o povo a considerar os túmulos prehis- 
toricos como antae (que é um termo de architectura), levou-o pos- 
teriormente a considerá-los como padrões, fornos, casas, etc. 

Quem estuda methodicamente as etymologias e as tradições po- 
pulares não acha estranho que se dêem estas mudanças de nomes, 
e se facão estas adaptações de lendas. 

A etymologia da nossa anta, tirada do lat. antae, é já dada 
por Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no Elucidário das pala* 
vras que em Portugal antigamente se usarão, b. v. anta, e, de entre as 
que se tem proposto, é a única que satisfaz completamente ás exi- 
gências da phonetica e do sentido. 



h Ji 



a) Epocha da pedra 

A existência do homem terciário português, 
apesar dos esforços de Carlos Ribeiro 1 , do modo como o 
sr. Mortillet trata a questão no seu livro Le Préhistoriqut *, 
e de nada ter de absurdo a priori, não ó comtudo ainda 
por ora um facto positivamente adquirido para a sciencia. 

Também por oecasiâo do Congresso de anthropologia e 
archeologia prehistoricas, realizado em Paris em 1889, o 
sr. Nery Delgado leu uma memória sobre este assumpto. 
O estudo que elle fez de vários sílices terciários colhidos 
em Otta, na Estremadura, levárão-no a concluir que a 
demonstração da existência do homem na era terciária, 
«se tem um dia de apparecer, está ainda muito longe 
de poder formular-se com os dados que actualmente se 
conhecem» 3 . 

1. Periodo paleolithico 

Do homem paleolithico, pelo contrario, possuímos infor- 
mações seguras. Ha vestígios seus nas grutas da Casa da 
Moura e da Furninha, tão bem estudadas pelo sr. Nery 
Delgado 4 ; estes vestígios consistem em ossadas, e em 
instrumentos de pedra lascada e de osso 5 ; o sr. Cartai- 
lhac também encontrou nos arredores de Leiria um instru- 
mento de quartzite do mesmo tempo 6 . Já Carlos Ribeiro 
tinha achado outro alli. Objectos análogos se encontrão 
noutros países, como a França, a Bélgica, a Hespanha, 



1 Vid. supra, p. 6 e nota 3. 

* 2.' ed., 1885, p. 89 sqq. 

3 Vid. o Relatório á cerca do Congresso de Paris, pelo mesmo A., 
Lisboa 1890, p. 35. 

4 Noticia acerca das grutas da Cesareda, Lisboa 1867 ; La grottt 
de Furninha, in Compte-rendu do Congresso de Lisboa ein 1880. 

* Delgado, Not. da Cesareda, p. 43-44; Fuminha, p. 237 e 264. Os 
ossos humanos no deposito paleolithico da Casa da Moura são mui 
raros, se não falt&o inteiramente : Delgado, Cesareda, p. 25 e nota. 

* Les ages prèhist. de VEsp. et du Port., p. 29 e 30. 



28 



a Inglaterra, ctc. ; por este motivo, o que se Babe da arte 
paleolithica portuguesa não offerece caracteres próprios, a 
não ser, julgando pelo que se conhece, a extrema rudeza, 
se estabelecermos comparação, por exemplo, com o brilho 
da arte magdalcnense em França. 

Quanto á raça, se o crânio do Valle do Areeiro, estudado 
por Paula e Oliveira 1 , pertence ao terreno quaternário, 
parece que nos tempos prehistoricos mais afastados vivião 
no nosso solo homens de typo igual ao de Furfooz : o que 
não importa necessariamente communidade de raça. 

As condições da vida devião então ser muito precárias. O 
homem tinha de luctar com as feras, como a hyena, o urso, 
o lince, cujos restos se mostrarão nas nossas grutas pa- 
leolithicas; ó provável que não conhecesse a cerâmica, 
pelo menos não apparecêrâo fragmentos de louças nos de- 
pósitos paleolithicos da Casa da Moura, nem nos da Fur- 
ninha; parece que não tinha animaes domésticos. Pelo 
confronto com o que sabemos á cerca de alguns povos sel- 
vagens mais atrasados, podemos de longe ajuizar como 
viveria aquello nosso mais antigo avô. Errar pelas bre- 
nhas; sustentar-se de fructos silvestres, de mariscos e de 
caça, — o coelho bravo, o veado, etc, que erâo perseguidos 
ou mortos á paulada, ou com rudes armas de pedra, e que 
erâo comidos crus, ou, a avaliar por algum carvão achado 
nas grutas, provavelmente também ás vezes assados, e de 
cujos ossos se extrahia a medulla como grande mimo*; 
dormir, ora em grutas á beira-mar 3 e no alto dos montes 4 , 



1 In Comptc-rendu do Congresso de Lisboa, p. 294. Ha sobre este 
crânio artigos posteriores do mesmo auctor. 

2 O que digo á cerca da caça, da extracção da medulla, etc, pôde 
ver-sc justificado nos citados trabalhos do sr. Nery Delgado. 

3 Por ex. na Furninha, junto de Peniche. 

4 Por ex. na Casa da Moura, no monte da Cezareda. — De passa 
gem notarei que a etimologia de Cezareda se não pôde buscar na 
palavra César (cfr. Nery Delgado, Noticia, etc, p. 1), pois fica sem 
explicação a terminação -eda. Esta terminação é, quanto a mim, um 
suffixo que significa « ajuntamento», como em Pedreda, Âvelleda, 



29 



ora talvez, attenta á benignidade do clima, ao ar livre, 
muitas vezes, ou em míseras barracas : eis ahi, não obstante 
o conhecimento do lume, e o regalo da carne na alimen- 
tação, um estado de vida bem simples. 

2. 08 yoekkenoíoeddinçs 

No período que estabelece transição do período paleoli- 
thico, ou da pedra lascada, para o neolithico, ou da pedra 
polida 1 , deparâo-se-nos esses interessantes montículos, em 
grande parte constituídos de rebotalhos de cozinha, ou kjoek- 
kenmoeddings, como em dinamarquês se diz. 

Os que por ora tem sido estudados em Portugal perten- 
cem a Mugem, no Valle do Tejo, e sobre elles escreverão 
Pereira da Costa 2 , Carlos Ribeiro 3 e Paula e Oliveira 4 . 

São constituídos por grandes accumulaçSes de conchas 
misturadas com esqueletos humanos e ossos de animaes, 
instrumentos de pedra, madeiras carbonizadas, areias, etc. 

Estas accumulações devem ter-se formado assim: cada 
pessoa ou família depositava junto das suas estancias ou 
moradas as conchas dos molluscos que comia, como hoje 
se faz a cada passo nas aldeias; depois, para desembara- 
çar as testadas, removia os pequenos entulhos para um 
sitio determinado, onde por fim vínhão a agglomerar-se 
total ou parcialmente esses monticulos que hoje tanto ser- 



alameda, Castanheda, Carvalficda, Cer queda (de quercus), Aia- 
ceda (de matiana), etc. Talvez pois Cezareda esteja por *ci- 
cereta (de cicer ou cicera), ou por *ccraseta (de ce- 
rasus) : só graphias antigas (com * ou z) o poderião decidir, em- 
bora me pareça mais plausível a primeira hvpothese. 

1 Cfr. o meu Portugal prehistorico, p. 26 ; e Paula e Oliveira, in 
Communicaçoes, ii, 70. 

2 Noticia sobre os esqueletos humanos descobertos no Cabeço 'da 
Arruda, Lisboa 1865. 

3 Les kjoekkenmocddings de la vallée du Tage (iu Compte-rendu 
do Congresso de Lisboa, p. 279 sqq.) 

* Vid. os seus dois trabalhos indicados a cima, p. 8, nota. 



30 



vem para o paleoetlmologo. Com as condias acontecia irem 
muitas vezes objectos de uso domestico, ossos, etc, — fa- 
ctos vulgares que ainda suecedem constantemente : quantas 
vezes se nSo vêem hoje, nos montões de estrume destina- 
dos ás hortas e aos campos, fragmentos de louça, facas 
quebradas, etc? 

Comprehende-se, por consequência, que da exploração 
circumstanciada dos kjoekkenmoeddings advenhão muitos 
esclarecimentos para o conhecimento da vida dos nossos 
antepassados prehistoricos *. 

O modo de vida dos construetores dos nossos kjoekken- 
moeddings era mesquinho. A semelhança dos troglodytas 
paleolithicos da Cezareda, nao conheciâo a louça, — pelo 
menos nâo se encontrou vestígio algum authentico de cerâ- 
mica 2 ; tinhâo instrumentos de pedra, de osso e de ponta 
de veado, alguns d'aquelles muito grosseiros, outros se- 
melhantes a instrumentos neolithieos da Furninha 3 ; n3o 
praticavâo a agricultura; raros objectos possuíam com ca- 



1 Da observação de que a base do Cabeço da Arruda (Mugem) 
era formada por conchas, sem mistura de ossos de animaes, num 
leito de considerável espessura, onde também apparccêrâo bastantes 
esqueleto» humanos, e de que só no nível superior se encontrarão os 
restos de mammiferos, concluiu Pereira da Costa que a um povo 
pescador, que se alimentava de mariscos, suecedeu um povo caçador 
que se alimentava do boi, do veado, do porco, etc. : vid. Noticia, etc., 
p. 13, e cfr. também Cartailhac, Ijt* ages préhist., etc, p. 55, o qual 
admitte a legitimidade da conclusão a que chegou o A. português. 
Todavia P. c Oliveira, que estudou posteriormente estes depósitos, 
diz que tal distribuição dos restos culinários (conchas e ossadas de 
mammiferos) devia ter sido fortuita, e localizada num ponto muito 
restricto, pois, examinando os kjoekkenmoeddings em todas as pro- 
fundidades, nunca teve occasiâo de a observar : vid. Communicações 
da CommÍ88ão dos trabalhos geológicos, ir, 62. 

1 Cfr. porém P. c Oliveira, in Communicações, n, 66-67, o qual 
falia de pedaços de argilla imperfeitissimamente manipulada, que 
poderiâo acaso ser um primeiro passo para a arte cerâmica. 

3 Cfr. Ncry Delgado, La grotte de Furninlia, p. 232 ; P. e Oliveira, 
in Communicaçoes, n, 64. . 



31 



racter de enfeite corporal ou amuleto, e ainda assim sem 
vestígios de ornamentação. Os molluscos de que se susten- 
tav&o erão comidos crus ou mal assados 4 . Dos restos da 
caça, que ahi se encontrarão, pode concluir-se que esta se 
comia preparada pela exposição ao lume 2 . 

A arte dos selvagens de Mugem era não só inferior 
á dos tempos claramente neolithicos, mas ainda á dos 
kjoekkenmoeddings da Dinamarca 3 . 

Esta pobreza de vida coincide com um facto notável, 
observado por Paula e Oliveira, e vem a ser que poucos 
indivíduos attingiao a idade madura 4 . 

Nos nossos kjoekkenmoeddings descobrírão-se, como 
disse, muitos esqueletos humanos. Do estado e disposição 
dos esqueletos resulta que a sua collocaçâo ali não foi ca- 
sual, mas intencional. Os kjoekkenmoeddings erão pois 
também cemitérios 5 . 

Quanto á raça, os kjoekkenmoeddings offerecem crânios 
de dois typos: brachycephalico e dolicocephalico, sendo 
estes em maior número. Paula e Oliveira, que os estudou, 
julga ainda reconhecer um terceiro typo, sub-brackyce- 
phalico 6 . O mesmo A. encontrou ahi homens de pequena 



1 Fallaudo dos Ichthyophagos da Arábia, diz também Diodoro 
Siculo que elles partiào as conchas com pedras para lhes estra- 
larem «a carne que comem crua»: Bibliotheca Histórica, m, 16. 

* A justificação de todas as affirmações que faço podem ver-se 
em C. Ribeiro, in Compterendu de Lisboa, p. 283-289; e em Paula 
e Oliveira, in Communicações, n, 63 sqq. 

3 P. e Oliveira, in Communicações, n, 69. 

« 76., 73. 

5 Cfr. Pereira da Costa, oh. cit., p. 17. — N09 sambaquis america- 
nos, montículos de conchas, análogos aos Ijockkenmoeddings da Di- 
namarca e aos nossos de Mugem, também se faz ião enterramen- 
tos; d'es8es montículos extrahírSo-se objecto de pedra talhada e 
de pedra polida : vid. Nery Delgado, Relatório acerca da 10.* sessão 
do Congresso internacional de anthrop. e arch. prehist., Lisboa 1890, 
p. 22. Outros exemplos de inlmmaeao cm kjoekkenmoeddings vide-os 
em P. e Oliveira, in Communicações, n, 70-71. 

6 In Communicacòes, u, 4 e 70. 



32 



estatura 4 ; os crânios dolicocephalicos offerecein caracteres 
anatómicos pelos quaes ora se aproximão, ora se afastão 
dos de Cro-Magnon, d'onde Quatrefages inferiu que pa- 
rece dever estabelecer-se uma raça nova, a que l'on peut 
appeller la race de Mugem**. Esta raça apresenta muitos 
caracteres de inferioridade 3 . 

Apesar do estado de miséria em que se achavão os sel- 
vagens do valle do Tejo, elles constituião comtudo povos 
mais ou menos sedentários 4 , vivendo da caça e da pesca 
nos arredores 5 . 

Como o silex de que são feitos alguns instrumentos se 
não encontra in loco, mas longe, vê-so que ou esses povos 
mantinhão relações commerciaes com povos distantes 6 , 
ou que, pelo menos cm parte, tinhão vindo de lá; mas 
devia haver na localidade officinas, a julgar de certos 
factos lá observados 7 . 

Quaes serião as estancias em que habitavão não se sabe, 
porque «não se encontrou ainda na localidade vestígio al- 
gum, ou logar de retiro, que lhes servisse de abrigo» 8 ; 
mas os povos selvagens, como estes nossos antepassados 
do valle do Tejo o erão, nem sempre se preoceupão muito 
com a habitação: a cubata de alguns indígenas de Mos- 
samedes, por exemplo, consta de uma arvore cujos ramos 
pendem no chão, e são cobertos de capim e revestidos de 
excremento de boi 9 . 



1 In CompU-rendu, p. 298. 

2 In Pré/ace ao livro de Cartailhac, Les ages préhist., p. xxn. 

3 Paula e Oliveira, As raças dos Jçjoekkenmoeddings de Mugem, 
pag. 9-13. 

4 Cfr. também P. e Oliveira, in Communicações, n, 72 e 74-78. 

5 P. e Oliveira, Commvnicaçocs, n, 74. 

6 Carlos Ribeiro," art. cit., p. 17; P. e Oliveira, in Communica- 
çôeSy n, 64. 

7 P. e Oliveira, in Communicações, n, 64. 

8 Pereira da Costa, Noticia, tlc., p. 17. 

9 Vid. De Angola á Contra-costa por Capello & Ivens, p. 116. 



33 



3. Período neolithico 



Comquanto no período claramente neolithico a civili- 
zação tivesse adeantado muito, pois apparecem novos cos- 
tumes e novas formas de arte, devemos comtudo conti- 
nuar a considerar como selvagens os homens de então, 
pelo menos os dos primeiros tempos d ? este período. 



Ao passo que, cm relação ao período paleolithico, não 
gabemos ao certo qual era o destino que em Portugal se 
dava aos cadáveres, e, em relação ao período dos kjoek- 
kenmoeddings, apenas se nos depararão exemplos de en- 
terramento, temos no periodo neolithico muitas noticias 
a tal respeito. 

Neste periodo, entre outros costumes, havia o da inhu- 
mação dos cadáveres em monumentos de pedra (antas, 
etc), em grutas, etc. 

Os monumentos de pedra existem mais ou menos por todo 
o país; grutas conhecem-se na Estremadura, onde a natu- 
reza calcarea do terreno facilitou a sua formação ; também 
ha noticia d'ellas em Tras-os-Montes, em terreno igualmente 
calcareo; no Entre-Douro-e-Minho sabe-se de uma sepul- 
tura debaixo de um rochedo. Adeante, quando me referir 
ao culto dos mortos, desenvolverei um pouco estes pontos. 

Em virtude de crenças, cuja exposição deixarei também 
para então, o .homem costumava sepultar, com os seus 
mortos, muitos dos objectos que em vida havião perten- 
cido ou podião pertencer a estes: é por tal motivo que os 
mobiliários funerários são eminentemente instruetivos para 
o conhecimento da civilização neolithica. 



Se é possível que em alguns pontos os homens andas- 
sem nus, como ainda hoje vários povos selvagens, e nas 
nossas aldeias as creanças pobres, principalmente no verão, 



8 



34 



é comtudo certo que nos tempos neolithicos se conhecia o 
uso do vestuário, como se deduz do apparecimento de 
botSes, etc. Objectos de osso, semelhantes a furadores, que 
também tem apparecido, devião servir para furar e coser 
o vestuário *. E provável que este fosse frequentemente de 
pelles, como por exemplo hoje é nos Esquimós 3 . Muitos 
objectos que tem forma de raspadores talvez servissem 
para extrahir as gorduras das pelles, etc. 3 

Em matéria de ornatos, amuletos e insígnias, o homem 
neolithico tinha muitas variedades. Fazia, como os selva- 
gens modernos, collares de conchas, e de contas de diversa 
natureza e feitio; trazia penduradas ao pescoço curiosas 
placas de scliisto, umas inteiramente lisas, outras com 
desenhos lineares, desde os mais irregulares e bárbaros 
até outros quasi geométricos 4 . Com todos estes objectos 



1 Cfr. Santos Rocha, Antiguidades da Figueira, j, 3f>; Reinach, 
Ânliquités nationales, 149; etc. 

* IJUnivers (Bégions circompolaires, por F. Lacroix^, p. 179. 

3 Cfr. Santos Rocha, ob. cit. t ib., ib.; Reinach, ib. f ib.; Evans, Les 
ages de la pierre, Paris 1878, p. 292 sqq. \ etc. 

* Nas explorações archcologicas que o meu amigo dr. Manoel 
Rodrigues de Mattos Silva, delegado do procurador régio em Ponte- 
de-Sôr, fez em minha companhia, cm Setembro de 1892, no concelho 
de Avis, tive occasiào de observar muitas d'estas placas. Eu mesmo 
obtive o fragmento de uma, achado solto num matto. 

Referindo-me agora ás placas extrahidas da anta grande da «her- 
dade da Ordem», notarei o seguinte. Algumas placas sào trape- 
zoidaes*, outras são subtrapezoidaes, i. é., de lados curvos, com a 
convexidade voltada para o exterior. Tem um ou dois orifícios de sus- 
pensão. Haas sem ornatos, inteiramente lisas ; e ha-as ornamentada*, 
sendo uma muito barbara, apesar de os ornatos estarem nas duas fa- 
ces. Os ornatos consistem sobretudo em ângulos, curvas e quadriláte- 
ros. Alguns dos ornatos tem muita regularidade. Um d'elles parece 
á primeira vista ter sido feito com regoa, tal é a firmeza de certas 
linhas ; mas, como outras linhas mostrâo que a regoa se nào empre- 
gou ncllas, deve concluir se da regularidade dos traços já tal ou qual 
destreza de mSo no artista. Numa placa a ornamentação consiste 
nisto:' alguns traços horizontaes muito tortuosos, e entre elles ris- 
cos ao acaso, como de quem andou esgadanhando ; é a extrema 
barbárie. 



35 



apparecem dentes e objectos cordifonues ou triangulares, 
ou ainda de outro feitio, — tudo munido de orifícios, para 
andarem pendurados 

Sem tentar discutir aqui quaes d'esses objectos poderiâo 
ter servido de amuletos, insígnias ou ornatos propriamente 
ditos, desejo unicamente chamar a attenção para o novo 
costume e para o facto artístico. 

Neste ponto a civilização neolithica portuguesa está em 
harmonia com a de outros paises e com a selvagem mo- 
derna ; só placas de schisto, de typo exactamente igual ao 
das nossas, — que, direi de passagem, sâo muito vulgares 
no Sul do país — , não se tem por ora encontrado na Eu- 
ropa, fora de Portugal, nem mesmo na Hcspanha l . 



Na epocha paleolithica nao havia louça de barro, ou 
pelo menos era ella t&o rara que não se achou ainda: 
facto que também succede noutros paises*. Na epocha 
neolithica a louça abunda. 

Em algumas grutas, como na Furninha 3 , Cezareda 4 , 
Oeiras, Carnaxide, Porto Covo e Cova da Raposa 5 , e em 
algumas antas, como na de Montabrào 6 , e nas que eu vi 
no concelho de Avis, a cerâmica ó muito grosseira, embora 
os vasos sejSo de diffe rentes feitios e tamanhos, adaptados 



1 Os factos que aponto no texto, e não forem justificados nas 
notas, podem justificar-se facilmente em qualquer livro de prehis- 
toria portuguesa, ou no nosso Museu de Anthropologia em Lisboa. 

* Cfr. G. de Mortillet, Le Préhistorique, 1885, p. 558. 

* Nery Delgado, La grottt de Furninha, p. 228-229. 

4 Id., Noticia da Cezareda, p. 45. 

5 Os exemplares pertencentes a estas quatro ultimas estações da 
Estremadura podem ver-sè no Museu de Anthropologia (Lisboa). 

6 C. Ribeiro, Estudos prehistoricos, n, p. 47-50. Carlos Ribeiro 
escreve Monte- Abrahão, mas eu ouvi pronunciar na localidade á 
gente do povo Montabrão. 



3ti 



aos diversos usos da vida ; noutros pontos, como nas grutas 
de Palmella 1 e Cascaes*, cm niamoinhas da Figueira da 
Foz 3 , e mima anta que eu explorei no concelho de Man- 
gualde 4 , a louça é ornamentada, attingindo por vezes for- 
mas notáveis, como suecede em Palmella. 

Estas divergências devemos attribui-las ás vezes já a 
diversidade de civilização e de gosto, já a circumstancias 
exteriores, como, por exemplo, a natureza do barro, o 
maior ou menor grau de riqueza do povo, etc, — e nem 
sempre a diversidades ethnicas absolutas, pois nio só na 
mesma cstaçFio pôde apparecer louça com e sem ornatos, 
mas silo contemporâneas certas estações, onde predomina 
ora uma espécie, ora outra, por exemplo Cascaes e Pal- 
mella 5 . 

Sem embargo, nas antas que, em companhia do dr. Mat- 
tos Silva, observei no concelho de Avis, em Setembro de 
1892, apesar da grande porção de louça que extrahimos, e 
de com esta louça apparecerem muitos objectos que reve- 
lavâo gosto e progresso artístico, como placas de sclusto 
ornamentadas e instrumentos, não se encontrou nenhuma 
louça com desenhos 6 . 



1 Cartailhac, Les àges préhistoriques, p. 107 e 123. 

2 Vid. os exemplares no Museu de Anthropologia. 

3 Santos Rocha, Antiguid. prehist. da Figueira, Parte n, p. 90. 

4 Kctiro-me á anta dos Padrões, ao pé do Outeiro de Espinho. 
Explorei-a por minha conta cm Setembro de 1892. Foi o meu amigo 
o sr. Bernardes Rodrigues do Amaral, morgado do Outeiro de Espi- 
nho, quem me indicou esta anta. A elle agradeço aqui o bom auxilio 
que me prestou neste e noutros estudos archeologicos, que na referida 
data fiz naquella região e em regiões vizinhas, e nos quacs o meu 
amigo dr. Alberto Osório de Castro me acompanhou também. 

5 Sobre a contemporaneidade d'cstas duas estações, vid. Carlos 
Ribeiro, Estudos prehistoricos, n, 18 e 19. 

6 Também em Argar (SE. da Hespanha), regido explorada pelos 
srs. II. & L. Siret, e muito rica em todo o sentido, a ornamentação 
só se manifestou num vaso, apesar de apparecerem centenas d'ellcs. 
Dizem os exploradores: «Nous avons vu d'autres bourgades plus 
arriérées, ou tout au moins plus pauvres, oú les céramiques ornées 



37 



O periodo neolithico tira o seu nome do uso da pedra 
polida. O que d'antos se fazia, apenas lascando a pedra, 
faz-se agora alisando-a, ageitando-a cada vez mais ás ne- 
cessidades da vida, e em confortnidade com o talento e 
educação do artista. 

Nos nossos museus públicos e particulares abundâo os 
exemplares de pedra polida: machados, goivas, rnartellos, 
raspadores, etc. 4 

Mas nem por isso neste periodo deixarão de se fabricar 
também objectos não-polidos, como pontas de setta, facas, 
serras, lanças, embora com apuro incomparavelmente supe- 
rior ao dos tempos paleolithicos. 



étaient plus abondantes» (Les premiers ages du metal dans It Sud-Est 
de 1'Espagne, p. 122). — Vése, pois, que a falta dos ornatos não de- 
pendia da civilização, porque esta era grande ; dependia do gosto, 
e talvez da raça. — Os referidos AA. dizem a respeito da cerâmica 
ornamentada : «nous en avons trouvé un seul exemplaire dans les 
1.300 tombes de Tépoque qui nous oceupe (epocha dos melaes). Cela 
est extraordinaire, étant donnó qu'on mettait aupres du mort des 
objets de grand luxe : il y a là incontestablement une anomalie» 
(oò. cit., p. 176 e 177). 

1 Na «anta da Ordem» (concelho de Avis), a que já me referi a 
p. 34, nota 4, etc, apparecêrào dois instrumentos de pedra polida, 
sub triangulares, isto é, de lados curvos, com a convexidade voltada 
para fora, e o vértice arredondado. Uma das faces é concava, e a 
outra convexa. Ambos estes instrumentos me parecem pequenos 
sachos, pela sua forma, c por estarem gastos, como que de terem 
servido para cavar : o maior está gasto na face concava, em mais 
da sua metade inferior ; o menor está gasto nas duas faces, quasi 
por inteiro. A base de cada um d'elles é em gume. Pondo de parte 
os estragos devidos ao attrito posterior ao acto do deposito na 
sepultura, vê -se que os dois gumes forâo avivados, — o que talvez 
se fez na occasiâo do enterramento. — Estes objectos estão na col- 
lecçào archeologica do sr. dr. Mattos Silva, em Ponte-de-Sôr. — 
O sr. Santos Rocha, Antiguidades da Figueira, n, 72-73 e 82, refe- 
re-se também a instrumentos de cavar. 



38 



Com a grosseria de certos objectos cerâmicos contrasta 
de modo singular a perfeição, a finura e ás vezes mesmo 
a graça de vários instrumentos de pedra encontrados ao 
pé, com especialidade aâ lanças e as pontas de setta. 

D'esta8 ultimas ha exemplares formosíssimos: lembra- 
rei os de Alcalá (Algarve) 1 ; cfr. ainda os de Bellas 2 . 
Na Furninha também apparecêr&o lindos instrumentos de 
pedra, ao lado de cerâmica grosseira, moldada á mSo, 
sem emprego da roda de oleiro 3 ; o mesmo na Casa da 
Moura 4 . Nas antas que estudei em Avis appareceu, como 
disse, louça muito rude, e ao mesmo tempo delicadas 
pontas de setta e facas. 

Como se explieão estes contrastes? Podem ter concor- 
rido para elles várias causas. 

Em primeiro logar, a necessidade é mestra: para o ho- 
mem beber uns goles de leite, ou comer umas papas de 
farinha, basta-lhe uma simples escudella; mas, para sur- 
prehender a ave, que, voando, atravessa os ares, ou a lebre 
que se escapole rápida pelo meio das urzes, ou ainda para 
ao longe ferir de morte os seus inimigos, necessita de fle- 
chas bem aguçadas, que penetrem profundamente no corpo 
das victimas: d'aqui o ter de se aperfeiçoar neste ramo 



1 Estacio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 
est. iii (entre p. 224 e 225). Esta estação chama-se Alcalá ou Alça- 
lar: id., ib. f ib., p. 213. — Sobre a louça grosseira de Alcalá, vid. 
id., ib., ib., est ix (entre p. 238 e 239). 

1 Carlos Ribeiro, Estudos prehistoricos de Portugal, n, 32 e sqq. — 
Sobre a louça grosseira, vid. id., ib., ib., p. 48 sqq. 

3 Nery Delgado, La grotte de Furninlia, in Compte-rendu do Con- 
gresso de Lisboa, p. 228 e 229. Todavia, se a louça é grosseira 
quanto ao processo do fabrico, apresenta alguns ornatos simples, e 
formas diversas : vid. as respectivas estampas. Sobre os instrumen- 
tos, vid. p. 231 sqq. e as respectivas estampas. 

4 Cartailhac, Les ages prehist., 86-89 ; sobre a cerâmica, p. 102. 



39 



de indústria. O mesmo raciocínio se devo fazer a propó- 
sito de outros ramos igualmente adeantados, ainda que 
também se n&o deve perder de vista o que, em relação 
a nâo-ornamcntaçâo da louça, acima expendi sobre o gosto, 
etc. Este raciocinio pôde ter applicação aos homens de 
Montabr&o, que, não obstante a pobreza da louça, rude e 
sem desenhos, serião os fabricantes de todos os seus ópti- 
mos instrumentos de pedra, «tendo, como tinhão, a ma- 
téria prima, de que são fabricados os mesmos exempla- 
res, em jazigos situados de baixo dos seus pés» 1 . 

Em segundo logar, nem sempre os objectos encontra- 
dos num sitio forao fabricados ahi: na Furninha, por 
exemplo, ha bellos instrumentos feitos de pedras que 
não pertencem á localidade 2 ; facto análogo suecede na 
Figueira 3 ; em Liceia apparecêrâo muitos instrumentos de 
substancias que também não tem jazigo alli 4 . Se estes 
factos ás vezes podem significar que os indivíduos que 
usavão os instrumentos num certo local vierão de longe 
estabelecer-se alli, outras vezes devem significar que se 
fazião permu taçfles commerciaes entre povos mais adean- 
tados e povos mais atrasados, que havia centros de tra- 
balho, d'onde irradiavâo para difFerentes pontos os produ- 
ctos da indústria 5 . 



1 Carlos Ribeiro, Estudos prehistoricos, n, 37. 

2 Nery Delgado, La grotte de Furninha, p. 231. 

3 Santos Rocha, Antiguidades prehistoricas do concelho da Figueira, 
1,31; cfr. id., ib. f n, 75. 

4 Carlos Ribeiro, Estudos prehistoricos, i, 65. 

5 Cfr. o que no seu Elude géologique du Rocio, Lisboa 1889, a que 
adeante me torno a referir, diz o sr. Choffat da «extensão enorme 
que os instrumentos de silex da epocha neolithica apresentâo em 
Portugal, e da extensão relativamente restricta em que o silex podia 
ser explorado* (p. 61). 

Vid. também a observação que adeante, p. 63, nota, transcrevo 
de um artigo do sr. Bensaude á cerca dos locaes presumíveis de 
fabricação de instrumentos neolithicos. 



40 



Isto tudo explica como é que um povo, que não possue 
louça ornamentada nem placas de schisto com linhas regu- 
lares, pôde comtudo ir á caça ou á guerra com magnificas 
lanças de silex. Quantos contrastes destes não encontrá- 
mos nos povos contemporâneos ! 



Com relação ás moradas do homem neolithico pouco sa- 
bemos de preciso. 

Muitas vezes as casas devião ser de estacas entretecidas 
de ramagens, canniços e palhiços, como ainda hoje são as 
barracas de guarda nos nossos campos, na Beira, no Entre- 
Douro-e -Minho, etc, e como se faz nos povos selvagens, 
podendo também ter como coberturas pelles de animaes, 
o que succede na Africa 1 , etc, — e neste caso não admira 
que o tempo as tenha destruído ; outras vezes constarião 
já de paredes, tapadas por meio de ramos de arvores e 
de arbustos, em guisa de telhado 2 . 

Tem sido mui discutida a seguinte questão: se as gru- 
tas e cavernas neolithicas servirão de habitações ou de 
sepulcros. 

O sr. Nery Delgado, baseando-se em muitos factos, de 
diversa natureza, foi levado a crer que a gruta da Furni- 
nha, em Peniche, serviu de habitação, mesmo nos tempos 
neolithicos ; entre os factos invocados a favor d 'esta hypo- 
these, cita por exemplo a existência de núcleos e pedaços 
de silex, minereos de ferro, etc, o que parece effecti vã- 
mente estabelecer que o homem trabalhava alli 3 . 

A pouca distancia de Alcobaça descobriu e explorou o 
sr. Vieira Natividade umas vinte e tantas grutas prehisto- 



1 Vid. R. Hartmann, Les pevples de VAjrique, 1880, p. 88. 

2 Cfr. Carlos Ribeiro, Estudos prehibtoricos, i, 64. 

3 Vid. sobre este ponto o importante trabalho, já várias vezes 
citado, La grolte de Furninlutj iu Compte-rendu do Congresso de 
Lisboa. 



\ 



41 



ricas, cujos productos constituem já um bom museu, que 
foi fundado por elle na villa de Alcobaça. Sobre estas gru- 
tas leu no Congresso de Paris, em 1890, o sr. Nery Del- 
gado uma memória 4 cujo manuscrito me confiou, e do qual 
transcrevo estas palavras: «As grutas serviram como habi- 
tação ou logar de refúgio, e algumas delias serviram de 
sepultura. Julga o sr. Natividade que nâo foram todas 
occupadas na mesma cpocha, e suppõe que algumas delias 
serviriam como atelier de fabrico de instrumentos de silex, 
vista a grande quantidade de objectos menos perfeitos e 
lascas de refugo d'esta substancia. Em todas encontrou 
vestígios de fogo» 2 . 



1 Cfr. lielatorio do Congresso de archeologia e anthropologia pre- 
kistorica de Paris em 1889, pelo mesmo, p. 36 e 37. 

2 Agradeço ao meu amigo o sr. Nery Delgado o ter- me confiado 
este substancioso manuscrito. D'elle resumo ainda algumas curiosas 
noticias mais. 

As grutas exploradas são por ora em número de vinte e tantas ; 
mas ha mais para explorar. Revelâo civilizações de differentes pe- 
ríodos, — neolithico, do bronze, e do ferro : o que parece mostrar a 
longa existência à'ellas como habitações ou sepulturas. Encontra- 
rão- se ahi : raspadores e nicas de silex e de quartzo, pontas de fle- 
chas e azagaias de silex, machados de amphibolite e de schisto, 
cinzel e goiva, núcleos de silex c de crystal de rocha ; dentes de 
Canis, e lascas de dentes de javali, tudo com orifícios de suspensão; 
contas de azeviche, ribeirite, espatho calcarco, osso e schisto; fura- 
dores de osso, e cabeças de grande* alfinetes de toucar feitos da 
mesma substancia; um bracelete feito de uma valva de pectunculus ; 
fragmentos cerâmicos grosseiros, negros, com desenhos c ornatos 
de diversos tjpos; moendas de pedra; placas de schisto com dese- 
nhos ; annel, argola, cabo de arma, fibula e agulheta, tudo de bronze ; 
escorças de fundição de ferro. Também apparecêrão restos de aves 
e de mammiferos, craneos e ossos humanos inteiros ou fragmentados. 

A existência doestes craneos e ossos e a exiguidade de algumas 
grutas, bem como o acharem-se accumuladas cm certos pontos mui- 
tas ossadas humanas, é que fazem suppôr que ellas em parte, pelo 
menos, servirão de sepulturas ; mas a existência de lascai de silex, 
etc, e das escóreas leva a admittir a habitabilidade delias, pelo me- 
nos também em parte. Todavia, como diz o sr. Delgado, «esta região 



42 



No limite dos concelhos de Vimioso c Miranda do Douro, 
por occasi&o de explorações de mármore e alabastro, que 
os srs. Francisco Cardoso Pinto e José Cardoso Pinto alli 
tem emprehendido, descobrirão -se várias grutas que o sr. 
Nery Delgado visitou, e a propósito das quaes escreveu 



onde estão as gratas é absolutamente sécca, a não ser na força do 
inverno». 

O sr. Nery Delgado não só visitou as grutas, mas pôde examinar 
a collecçao feita pelo sr. Vieira Natividade, e tirar d ella vários 
desenhos. 

Alguns dos objectos achados nestas grutas não tem semelhantes 
nos que se tem achado nas outras grutas por ora exploradas na 
Estremadura, — nota o sr. Delgado ; outros teve elle o cuidado de 
os comparar com o que conhecia como pertencente a outras re- 
giões: assim dois typos de pontas de flecha e de azagaia são ana-- 
logos a outros da Casa da Moura (Cezareda); um vaso de cerâ- 
mica grosseira é de forma um tanto semelhante ao que Paula e 
Oliveira descobriu numa sepultura em Murches, mas sem asa; 
as moendas parecem -se com as que o sr. Delgado viu em Tras-os- 
Montes, embora estas sejâo de granito, e maiores. 

As comparações são sempre importantes, porque podem mostrar 
a marcha c as epochas da civilização. Não obstante o que as grutas 
de Alcobaça contenhão de particular, ellas ligão-se, na civilização 
que revelão, com as outras da Estremadura, como se vê das placas 
ornamentadas, etc. (placas não se encontrarão nas grutas de Tras- 
os-Montcs) ; a cerâmica não supporta porém comparação com a de 
Palmella. Se nellas apparecem objectos de metal, estes também 
apparecem na Cezareda. 

Já que o sr. Vieira Natividade teve a fortuna de encontrar alguns 
crânios humanos susceptíveis de estudo, é para desejar que elle os 
faça medir e examinar competentemente, porque d'isso pôde provir 
alguma luz para o conhecimento das nossas raças prehistoricas. 

Aproveito a occasião para agradecer igualmente a este meu 
amigo, tanto a boa companhia que me fez quando eu visitei as grutas 
em 1890, como o ter-me mostrado o museu, e dado três bonitas facas 
de silex, que eu juntei á minha collecçao prehistorica, depositada 
hoje no Museu da Commissão dos trabalhos geológicos, em Lisboa. 

Sobre estas grutas vid. também Vieira da Natividade, Roteiro 
archtologico dos coutos de Alcobaça, p. 1-15, e Nery Delgado, 
Notes sus les groltes de Carvalhal oV Aljubarrota, in Compte-rendu do 
Congresso de Paris, p. 565 sqq. 



43 



duas memórias 4 . Estas grutasre velarão duas civilizaçScs : 
uma que parece ser dos fins do período neolithico e começo 
da epocha dos metaes, pois se manifesta em settas e lascas 
de silex, louça de barro grosseiro fabricado á mfto, mas 
ornamentado, settas e machados de bronze, etc. ; outra, 
que o sr. Delgado disse poderá ser romana, mas que talvez 
seja de origem proto-historica, a julgar do suástica fiam* 
mejante que appareceu numa pedra, e de que eu adeante 
darei desenho. A opinião do mesmo geólogo á cerca -do 
destino d'estas grutas nos tempos prehistoricos é que ellas 
«foram aproveitadas pelo homem como habitação ou para 
sepultura» 2 . 

Quer com relação ás grutas da Furninha, de Trasos- 

Montes, e de Alcobaça, quer com relação a outras igual - 

. mente bastante espaçosas, como as, já por mim visitadas, 

da Cezareda e da Serra-da-Neve (Cadaval) 3 , etc, o facto 



1 São : Reconhecimento scientifico dos jazigos de mai^more, etc, de 
Santo Adrião, e das grutas, etc. (extr. das Communicações da Com- 
missão dos trabalftos geológicos, vol. n, fase. 1); e As cavernas 
em geral e especialmente as de Santo Adrião em Tras-os-Montes (in 
Revista de Portugal, iv, 31). — E muito para louvar o haverem os 
srs. Francisco & José Cardoso Pinto posto a par do interesse indus- 
trial também o interesse scientifico, fazendo conservar os objectos 
archeologicos encontrados nas grutas. Oxalá que todos os nossos 
engenheiros e empresários mostrassem sempre Uil dedicação! 

* Vid. Reconhecimentos scientificos (já cit), p. 6; Revista de Por- 
tugal, iv, 41 , Relatório do Congresso de Paris em 1889 (onde também 
o sr. Delgado se refere a estas grutas), pag. 36. — A propósito da 
gruta da Ribeira diz mesmo : «Na terra extrahida descobriram -se 
duas pontas de setta de quartzo hyalino, algumas lascas d'esta 
substancia e de silex, c muitos fragmentos de ossos de animaes, 
que provam indubitavelmente que esta gruta também foi oceupada 
pelo homem». (Reconhecimento scientifico, pag. 7 e 8). 

3 A Serra-da-Neve, que faz parte da Serra de Monte -Junto, e 
fica sobranceira á aldeia de Pragança, no concelho do Cadaval, pos- 
sue muitas grutas, algumas já exploradas pela Commissão dos tra- 
balhos geológicos, outras ainda não exploradas scientifícamente. Os 
resultados da exploração estão no Museu de Anthropologia em Lis- 
boa. Na referida aldeia e em todas as do concelho do Cadaval 



44 



da habitabilidade nada tem de extraordinário, mesmo a 
priori 1 . O próprio sr. Cartailhac, que, sempre que pôde, 
combate a hypothese de as grutas e cavernas de Portugal 
terem servido, nos tempos neolithicos, de morada de vivos, 
admitte que algumas grutas da vizinha Hespanha forâo 
provavelmente «habitation plus ou moins temporaire avant 
d'être transformóes en sépulcres»*. 

Disse eu que isso nada tinha de extraordinário, mesmo 
a priori. Realmente o costume vinha já dos tempos paleo- 
lithicos 3 ; mas ha alem d'isso factos positivos, tanto da 
antiguidade histórica, como modernos, que provâo que as 
cavernas e grutas, naturaes e artificiaes, forâo utilizadas 
como casas. Muitos d'esses factos tem sido bastas vezes 
citados por differentes investigadores 4 ; por isso pouca 
cousa necessito de indicar aqui. 



apparecem muitos objectos prehistoricos da epocba neolithica e dos 
metaes. Eu tenho uma collecçâo cTesses objectos em número de mais de 
duzentos. Os objectos consistem em machados, raspadores, goivas, 
cerâmica, etc. Na Paschoa de 1892, numa visita que fiz á Serra 
em companhia dos meus amigos o sr. dr. Alexandre Agrclla, medico 
no Cadaval, c o sr. António Maria Garcia, professor em Pragança, 
obtive á superfície do chão de uma gruta duas tijelinhas de bano 
inteiras, e fragmentos de muitas, gruta que bem merece ser me- 
thodicameute explorada. Já depois d'isso o Sr. Garcia encontrou 
pela serra muitos objectos artisticos (barro, pedra, metal, osso), 
que me oftereceu generosamente. — Sobre a archeologia prehisto- 
rica do Cadaval, cfr. os meus artigos Antiguidades do concelho do 
Cadaval, publicados in Clamor do Bombarral (desde Agosto de 1892 
até Março de 1893). 

1 Carlos Ribeiro, sem recusar a certas grutas a possibilidade de 
terem sido sepulturas, não lhes recusa igualmente a de terem sido 
moradas : Estudos prehistoricos cm Portugal, i, 12. 

2 Vid. Les ages préhistoriques, p. 62 sqq. •, e cf. também p. 59. 

3 Cfr. supra, p. 28. Com relação á utilização das grutas como ha- 
bitação noutros paises, nos tempos paleolithicos, vid. : S. Eeinach, 
Antiquités nalionales, i, 149 sqq. ; Mortillet, Le Préhistorique, 1885, 
p. 429 ; Cartailhac, La France préhistorique, etc, p. 54 sqq. 

* Sobre o troglodytismo nos tempos históricos vid. muitos factos 
reunidos nas Antiquités nationales, de S. Heinach, vol. i, 161 sqq. 



45 



A respeito dos Ichthyophagos escreve Deodoro Siculo: 
aalguns habitào em escarpas alcantiladas, aonde jamais foi 
possivel irem homens, estando, como está, por cima um 
rochedo elevado, e de todos os lados escarpado, sendo cor- 
tado transversalmente o caminho por precipícios inacces- 
siveis, e ficando o lado restante delimitado pelo oceano» 1 . 
DA- se até a coincidência de esta descripção, feita pelo 
geographo grego, se poder applicar com pequena diffe- 
rença á gruta da Furninha, pelo menos no seu estado 
actual *. — Mesmo nas próprias vizinhanças da península 
hispano -lusitaniea, isto é, nas ilhas Baleares, indica o citado 
Diodoro troglodytas 3 . 

Aproximando-nos de tempos mais modernos, sabemos 
que ainda no sec. xvm povos hyperboreos, que estavão na 
idade da pedra, vivião em covas subterrâneas e em antros 
de rochedos, cujas aberturas se tapavão com pelles de ran- 
gifer, suspensas á entrada; algumas das covas tinhâo de 
extensão dez a cincoenta braças, e podiào recolher duzen- 
tas a trezentas pessoas ; as paredes erâo forradas e arran- 
jadas com pelles, esteiras, etc. 4 — Povos da Polynesia 
habitão em cavernas 5 . 

Mas, para encontrarmos exemplos recentes, escusamos 
de sahir do nosso país. 

No Alto Minho usa-se um systema de casas que se deno- 
niinão barracas de suchào (sub -chão), e são exeavadas nas 
encostas dos montes, servindo para lá se recolher gado, 
eto. ; em 1882 vi mesmo uma que servia de taberna 8 . — Na 



1 BioXio^òir, íarspixTÍ (Bibliothcca Ilialorica), ed. Didot, III, xx. 

2 Vid. a descripção d'esta no Comptc-rendu do Congresso de 1880, 
p. 207 sqq. 

* Oh. cit., v, 17. 

4 Apud. A. Bertrand, La Gaule avanl ks Gaulois, Paris 1891, 
p. 106. 

5 Vid. A. Réville, Les rtligiom des peuphs non civilisés, u, 147. 

6 Referi-me pela primeira vez a estas barracas no meu opúsculo 
Uma cxcuwlo ao Soajo, Barcellos 1882, p. G. 



4(5 



ilha da Madeira lia umas grutas, chamadas furnas, onde 
vivo a gento mais pobre, depois de lhes ageitar a entrada 
para receber uma porta, e de picar as paredes internas 
para desfazer alguma irregularidade maior; a luz ou vem 
da porta, ou de algum orifício superior; o chão fica mesmo 
nu. A gente, que pode dispor de alguns meios de seu, 
construe casas de pedra com tectos de palha, ás quaes se 
chama casas -palhoças ; mas estas casas fazem- se junto das 
furnas, a fim de se aproveitarem estas para cozinha, por 
causa dos incêndios. Tanto um systema de casas como o 
outro sâo vulgares na Madeira. As furnas ha-as junto do 
mar, e longe. No sitio do Logar de Baixo existe uma gruta 
enorme, que, depois de competentemente arranjada, ser- 
viu primeiro de vivenda, depois de taberna e finalmente 
de armazém de vinhos *. 

Apesar, porém, de todos os factos que se possâo apre- 
sentar em defesa da habitabilidade das grutas e cavernas, 
outros ha que provao que ellas, alem de habitações, tive- 
rão outros destinos. 

«Les Finnois et les Wogoules gardent un culte pour les 
cavernes, dans lesquelles ils déposaient, autrefois, leurs 
idole8» *. O mesmo culto das grutas se encontra no Peru 3 . 
Os Caraíbas acreditâo que a Lua foi da terra para o ceu, 
sahindo de uma caverna onde primeiro estava encerrada ; . 
Uma crença análoga ha no Haiti, onde se mostrava uma 
caverna sagrada 5 . Outras cavernas lendárias se conhecem 



1 Estas informações á cerca da ilha da Madeira devo-as ao meu 
amigo o sr. dr. A. Rodrigues de Azevedo, antigo professor do lyceu 
do Funchal. 

2 Apud A. Bertrand, Les Gaulês avant les Gaulois, Paris 1891, 
p. 104.. 

3 Vid. A. Réville, Religions du Mexique, etc, p. 336. 

* Réville, Ias religions des peuples non-civilisés, i, 340. 

5 Réville, Les religions des peuples non-ciuilisé*, i, 349. — Em 
Trás -os -Montes ha unia terra chamada Cova da Lua, ou Cova de 
Lua (que é a pronúncia popular, — como eu mesmo lá ao pé ouvi); 
não sei se tal nome se ligará na origem com esta ordem de crenças. 



47 



na America 4 e noutros países, desde a antiguidade 2 . No 
nosso país temos muitas grutas, chamadas Covas da Moura 
e Casas da Moura, a que se referem lendas e superstições 
populares 3 . 

Na epocha neolithica abrião-se galerias subterrâneas 
para a extracção e lavra do silex, como, com relação a 
Portugal, o provào as que o sr. Paulo Choffat encontrou 
nas camadas cretacicas do Valle de Alcântara, á entrada 
do tunnel do Rocio, em Lisboa, galerias era que appare- 
cêrão restos de esqueletos humanos, e instrumentos de 
basalto e de quartzite, ageitados para poderem ser utiliza- 
dos como martellos ou percurtores. Diz aquelle auetor: 
«II est évidont que les grands instruments ont servi de 
massettes sans manches pour frapper sur un císeau ou un 
instrument analogue. Or des massettes analogues figurent 
parmi les instruments de Tâge néolithique trouvés dans 
les environs de Lisbonne ; on y a aussi trouvé de petites 
boules de quartzite analogues à celle de Tentrée du tunnel. 
Si de plus nous considérons Ténorme extension que les 
instruments de silex de Tópoque néolithique présentent en 
Portugal, et Tétendue relativement restreinte ou le silex 
pouvait être exploité, nons pouvons en conclure que nous 
nous trouvons en prósence de carrières ou les hommes 
de cette époque exploitaient cette substance alors si re- 
cherchée» 4 . 



1 Cfr. Ncry Delgado, Relatório do Congresso prehistorico de 
Paris em 1889, p. 24. 

* Salomon Rcinach no livro Antiquiíés Nalionales, i, Paris, s. d., 
pag. 163 e 164, reúne muitos exemplos antigos e modernos de super- 
stições a respeito das cavernas. 

3 Cfr. as minhas Tradições populares de Portugal, Porto 1882, 
p. 87. — Algumas das grutas que eu conheço com estes nomes sao 
prehistoricas, outras não. Está claro que a adaptação da superstição 
ás vezes pôde ser relativamente moderna, mas o que eu quero notar 
c* o facto em si da veneração das grutas. 



4 Paul Choffat, Etude gèologiqve du tunnel du Rocio, Lisbonne 
1889, p. 61. 



48 



Costumes análogos se conhecem na Inglaterra, Bélgica, 
França, etc. * 

Também nâo ha dúvida que cavernas, grutas e simples 
«abrigos debaixo de lapas» forão sepulturas; ainda a res- 
peito de Portugal o facto nâo é duvidoso, como se vê, umas 
vezes da grande quantidade de ossadas apparecidas, o que 
aproxima as duas classes de monumentos antas (antellas, 
etc.) e tavernas*, outras vezes da pequenez das cavidades 
que nâo comportavâo moradores 3 . 

Alem do haver razoes com que se pode estabelecer a 
habitabilidade e venerabilidade das cavernas e grutas, nada 
se oppoe também a que cilas fossem alternadamente uma 
cousa e outra, ou a que até se desse o caso de servirem 
ao mesmo tempo de habitações e sepulcros, facto que tem 
análogos hoje na nossa Guiné 4 , e, ao que parece, os tinha 
na Hespanha no período prehistorico dos metaes 5 . 



De tempos muito antigos conhece se em todo o país e 
na Galliza uma classe de estações, que, entre outros nomes, 
tem o de castros ou crastos, e consistem pela maior parte 



1 Icl., ib., ib.: e Nery Delgado, Relatório á cerca do Cougresso de 
1889 em Pari*, p. 19 e 20. Sobre costumes análogos na America, vid. 
o mesmo Rdatorio, p. 21. Cfr. também Cartailhac, La Francepré- 
historique, 1889, p. 137. E vid. mais Compte-rendu do Congresso de 
1889, p. 569 sqq. 

2 Cfr. Delgado, Grutas da Cezareda, j». 81 ; Cartailhac, Les ages 
préhisloriques, p assim. 

3 Vid. exemplos em Carlos Ribeiro, Estudos prehistoricos, i, 61; 
F. Martins Sarmento, Os Argonautas, Porto 1887, p. 248, nota 6, 
e in Rev. de Guimarães, v, 114 (cfr. II, 193). — Com relação á Hes- 
panha, vid. H. & L. Siret, Les premkrs ages du metal dans le Sud-Est 
d* VEspagnr, p. 81-83, 96, 103-109 e 174. 

4 Vid. Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 1882, 
p. 715, (artigo do sr. M. M. de Harros). Adeante me torno a referir 
a este facto. 

5 II. & L. Siret, Les premiers ages du metal, etc, p. 102 e 106. 



49 



em ruínas de povoações fortificadas, postas no alto de 
montes e outeiros, muitas vezes com rios ou ribeiros a 
passar- lhes ao sopé. 

Tenho como immensamente provável que, pelo menos, 
algumas d' estas estações archaicas datem dos tempos pre- 
historicos. Tal hypothese já foi formulada a respeito da 
Galliza 1 . Com relação a Portuga] ha uma estação que 
apoia muito essa hypothese, se é que a não transforma em 
certeza. 

Refiro- me á estação de Liceia, a pouca distancia de Bar- 
carena, na Estremadura. Ella foi objecto de um bom estudo 
feito por Carlos Ribeiro 2 . 

Effectivamente a cumiada de Liceia, defendida por pene- 
dos naturaes e por um parapeito, situada junto de um 
rio, e com agoa potável em abundância, tem, pela descri- 
pção de Carlos Ribeiro, o aspecto exterior de um castro. 
Alem d'isso, — facto carecteristico d'esta espécie de monu- 
mentos — , ha ao pó um outeiro, chamado Casttllo, e não 
faltâo por aquelles sitios lendas populares, como o prova o 
logar da Moira, também situado perto 3 . Por toda a esta- 
ção de Liceia se acharão instrumentos dos tempos neolithi- 
cos : machados de pedra, pontas de lança e flechas de silex, 
furadores, puncçSes, facas, raspadores, martellos, núcleos, 
tudo de silex; massas ovóides e esphericas de calcareo; 
estyletes de osso ; vasos e muitos fragmentos de loiça gros- 
seira, fabricada com barro da localidade, sem intervenção 
da roda do oleiro, e tendo ornatos simples, angulares, gra- 
vados por meio de um estyleto ou ponteiro. Os habitantes 
deviâo ter feito uso da fauna marinha como comestivel, o 



1 Vid. Villa-Amil, in Museo espafíol de antigUcdades, vn ( 1876) , 237. 
Cfr. também Filippe Simões, Introducçâo á arclitologia da península 
ibérica, Lisboa 1878, p. 92 sqq. 

1 Estudos prehistoricos em Portugal, i (Noticia da estação humana 
de IAcèa), Lisboa 1878. 

3 Uma edificação rectangular, que lá ha, e que Carlos Ribeiro 
descreve, é que talvez não seja primitiva. 



50 



que se prova pelo apparecimento de conchas; conhecido 
alem d'isso o boi, o veado, a cabra, o cavallo, o porco, o 
lobo e o coelho. Parece que já tinhão casas de forma qua- 
drada e rectangular. Na localidade ha porém muitas gru- 
tas, a que naturalmente serviriâo de morada aos vivos e 
também de jazida aos mortos» '. Uma das grutas, descoberta 
na encosta de Liceia, era sem dúvida funerária, pois que 
possuía exíguas dimensões para poder ser habitada, e conti- 
nha fragmentos de esqueletos humanos em parte queimados 
e com cinzas ao pé ; a gruta tinha defronte uma lagea que 
talvez servisse para a tapar; segundo Carlos Ribeiro, tal- 
vez o enterramento primitivo nSo fosse alli, mas noutro 
sitio, d'onde os ossos se removessem depois para lá. A es- 
tação de Liceia tem todos os caracteres de uma estação 
prehistorica: a a prova de que a estação de Liceia data da 
epocha neolithica está no próprio facto da presença de 
instrumentos de pedra polida e na completa ausência de 
objectos fabricados de cobre, de bronze e de ferro» *. A 
avaliar por algumas rochas de que os instrumentos são 
feitos, rochas que não tem jazigo na localidade, os liceen- 
ses mantinhão relações com povos de longe. Carlos Ribeiro 
suppõe que, alem de uma civilização, evidentemente neo- 
lithica, haveria outra, talvez da transição doesta idade para 
a do bronze, «mas quando nesta região não era commum 



1 Carlos Ribeiro, oh. cit. f p. 12. 

2 Id., ib., p. 63. Cfr. também, p. 11. — Apesar da muita cerâmica 
que appareceu nos arredores de Liceia, nunca C. Ribeiro encontrou 
o um só pedaço de barro cozido que possa attribuir-se a adobo, tijolo 
ou telha, nem um fragmento de amphora ou de qualquer outro vaso 
de indústria romana, nem tão pouco vestígios de argamassa antiga» 
(p. 35). Estes factos vem em apoio da antiguidade de Liceia, pois 
junto dos castros luso- romanos é frequente acharem -se pelo menos 
telhas de rebordo, o que eu tenho verificado numerosas vezes no 
Entre-Douro-e-Minho e na Beira. — Vid. comtudo adeante, p. 52, 
nota, onde me refiro ao apparecimento posterior de uma moeda da 
epocha romana nos arredores de Liceia. 



51 



o uso d'aquelle metal» 1 ; todavia os factos em que se baseia 
para dizer isto são pouco concludentes*. 



1 06. cit. t p. 64. 

2 Depois de escrito o que precede á cerca de Li ceia, visitei esta 
estação (em 16 de Abril de 1893). 

Submetto-me á opinião de Carlos Ribeiro, que considera o local 
como podendo ter sido um en trinchei ramen to fortificado : por tanto 
um castro, embora o A. se não sirva d'esta expressão. Quem segue 
a estrada macadam de Caxias a Barcarena, ao passar no logar de 
Ribeira-a-Baixo, vê logo em frente a cumiada de Liceia destacar- se 
com a sua vertente que vira para o rio, e separada do vizinho outeiro 
do Castello, em cujo alto sobresae um moinho com um marco geo- 
désico em cima. 

Liceia, ou, segundo a pronuncia local, Lecêia, comprehende duas 
povoações pegadas : Liceia-de-Baixo, junto á cumiada prehistorica, 
e Liceia-de-Cima, onde está uma capella, arranjada de novo. A 
primeira, com várias casas em ruina, e offerecendo um triste aspecto 
de desolação, sem hortas nem arvoredo, é provavelmente mais 
antiga que a segunda, e succederia ao povoado prehistorieo. 

Em Liceia-de-Baixo obtive um machadiuho prehistorieo, de typo 
semelhante a outros liceenses que Carlos Ribeiro descreve; foi 
achado nos campos vizinhos ao Castello, e quem m'o cedeu disse 
que por lá appa recém mais. 

Na encosta do lado de Barcarena encontrei eu alguns fragmentos 
cerâmicos, sem duvida prehistoricos, dispersos num chão negro. 

£ frequente encontrarem -se pelos arredores de Liceia, nos cam- 
pos, lascas de silex, a que o povo chama pedras de firir, isto é, de 
«ferir lume»; obtive algumas, parecidas com as que na est. 12. a da 
obra de C. Ribeiro tem os n.° $ 35, 38, etc. 

Toda aquella gente por alli conhece os instrumentos prehistori- 
cos; muitas pessoas denominâo-nos «sachinhos dos Moiros», o que 
revela a influencia das exeavaçoes alli realizadas por C. Ribeiro, 
pois o nome com que mais vulgarmente se conhecem no sul estes 
objectos é «pedras de raio». 

O sr. José Maria Sínel Cordes, da quinta de Nossa Senhora da 
Conceição, situada nas faldas de Liceia, teve a amabilidade de me 
dar quatro instrumentos prehistoricos análogos aos descritos por 
C. Ribeiro; o caseiro da mesma quinta deu-me também dois. Todos 
estes objectos forão achados na quinta, e são feitos de schisto am- 
phibolico. 

Dos arredores de Barcarena, povoação próxima, foi ha ânuos 
enviada uma collecção de instrumentos, mais ou menos semelhantes, 



52 



A estação de Liceia é a única que conheço no pais nes- 
tas condições: por isso, até demonstração em contrário, 
ella pôde ser considerada como um castro typico prehisto- 
rico, da mesma maneira que Sabroso, na província do Mi- 
nho, é um castro typico protohistorico, e a Citania de Bri- 
teiros, na mesma provincia, é um castro typico hiso romano. 

A analogia externa de Liceia com os outros castros do 
país ministra um argumento a favor da hypothese que faz 
remontar estes aos tempos prehistoricos ; mas ha mais 
argumentos, uns deduzidos do estudo d'esses castros, ou- 
tros do de castros estrangeiros. 

Fallarei primeiro dos nossos. 



para meu primo Manoel Nicolao Osório Pereira Negrão, da quinta 
de Mosteiro, no Baiio- Doiro, o qual os tem hoje no seu já valioso 
museu archeologico (a que me refiro a cima, p. 14 e 15). 

De todos estes factos, e, principalmente dos reunidos por Carlos 
Ribeiro, etc, se vê que aquella região de Liceia-Barcarena, até 
Cascaes, é fecunda cm materiaes prehistoricos, e que foi muito 
povoada na idade da pedra. 

Diz C. Ribeiro que em Liceia não encontrou nada romano (vid. 
supra). Devo porém notar que na mesma quinta de Nossa Senhora 
da Conceição, que fica, como já disse, nas faldas da estação prehis- 
torica, appareccu uma moeda de bronze do tempo de Augusto, a 
posse da qual devo também á bondade do mesmo illustre cavalheiro 
o sr. José Maria Sínel Cordes. Esta moeda está bastante gasta, e 
com patina, todavia vê-se perfeitamente que é uma das antigas da 
Ibéria; vem estampada no Nuevo método de clasificacion de D. An- 
tónio Delgado, tomo m, Sevilla 1876, cst, clxvi, n.° 39, e sobre ella 
ha na Recue Numismatique, anno de 1846, p. 5 sqq. c 317 sqq., dois 
artigos, um de Du Mersan, e outro do marquês de Lagoy, sendo em 
especial o último muito interessante. No anverso da minha moeda 
só se percebe a cabeça (e pescoço) de Augusto, voltada á direita, 
tendo adeante o vestígio de uma palma, mas devendo ter tido atrás 
um caduceu alado ; no reverso só se percebe a cetra, ou pequeno 
escudo redondo hispânico, atravessado por duas lanças, mas devendo 
ter tido alem d 'isto mais duas armas, uma á direita do escudo, outra 
á esquerda. Nas moedas da familia Carisia, pertencentes á repu- 
blica romana, figurão symbolos semelhantes, constituídos por armas 
indígenas : vid. em E. Babelon, Monnaies de la répub. rom , tom. i, 



53 



As antas, antellas e mamôas são na sua origem, ninguém 
o duvida, monumentos funerários prehistoricos. O sr. F. 
Martins Sarmento, que tem estudado estes monumentos e 
os castros, — uns e outros em relaçSo ao Entre-Douro-e- 
Minho e á Beira-Baixa, — é de opinião que todos elles são 
contemporâneos. Sem me afoutar a tirar as deducções 
etimológicas que elle tira, o que aliás também nâo é o meu 
fim agora, exponho porém os factos de observação que elle 
aponta, e que me parecem dignos de nota. Diz elle em 



Paris 1885, p. 398, os n.°» 14, 15 e 16. A moeda de que estou tra- 
tando, foi considerada por Du Mersan como cunhada em Sagunto 
(vid. JRev. Numiem.y loc. cit), em virtude de pertencerem a esta ci- 
dade symbolos que figurão na moeda; D. António Delgado, fundan- 
do -se porém em que, se o caduceu é próprio de Sagunto, a palma foi 
usada nas moedas de Segobriga, considera- a como moeda de «orno- 
noia» ( ali i anca) entre os dois municipios (Nitevo método, p. 357). 
Não tem raridade, e eu tenho visto bastantes em diversas collecções. 

Ainda que uma moeda não basta, só por si, para determinar 
historicamente uma estação archeologica, porque ella pôde ter sido 
levada para ahi por diversas causas, julgo conveniente archivar o 
facto. Em todo o caso não ha contradicção nenhuma entre ser Liceia 
de origem neolithica, e apparccerem nos arredores vestígios de in- 
fluencia romana. — Estes são abundantes em Cascaes: Paula e Oli- 
veira, Communicaçdes, n, 85 sqq. 

Para concluir esta nota, desejo ainda dizer o seguinte. C. Ribeiro 
falia no Moinho da Moira; apesar de eu perguntar a muitas pessoas 
onde ficava este moinho, ninguém m'o soube dizer, antes todos me 
indicarão como chamando-se MoinJio do Pires o moinho que aquelle 
A. figura na planta que acompanha a obra como Moinho da Moira. — 
Confirmo o que digo a cima, p. 49, nota 3, á cerca da construcção 
rectangular a que C. Ribeiro attribue também origem prehistorica; 
tal construcção no estado actual não tem nenhum aspecto d'isso. — 
Nas abas do outeiro do Castello encontrão- se muitos pedaços nata- 
raes de basalto, do tamanho pouco mais ou menos de machados; com 
pouco desbaste pedaços semelhantes podião ter sido aproveitados 
pelo homem neolithico para a sua ferramenta. — Não longe de Li- 
ceia, na estrada de Barcarena a Caxias, ha um logarzinho chamado 
A Moira, no qual correm, como é vulgar, lendas de moiras. 

(Nesta digressão a Liceia acompanhou-me o meu amigo sr. An- 
tónio Maria de Oliveira Bello, júnior). 



54 



relação ás antas e antellas, e por tanto também ás ma* 
moas 1 : «Que estes monumentos eram a ultima morada 

dos constructores dos castros nSo soffre contestação 

possivel. Prova-o a posição das antas e das antellas nas 
proximidades dos castros, ás vezes dentro das suas ultimas 
linhas de circumvallação ; a identidade de gravuras nas 
lagos dos castros e nas que ficam próximas das mamoas, 
ás vezes, como as covinhas (fossettes), nas pedras das antas 
e antellas ; a perfeita semelhança dos machados de pedra, 
achados nos castros e nas mamoas, etc. Não será inútil 
dizer que as antas e antellas apparecem a par umas das 
outras» *. Os castros em que o sr. Sarmento tem encon- 
trado armas de pedra são por exemplo: Sabroso, Citania, 
Monte da Senhora e Castêllo 3 . — Baseado no achado de in- 
strumentos de pedra em Sabroso, escreve também o sr. 
Cartailhac: « Les haches en pierre, les silex taillés que l'on 
a pu découvrir dans le territoire de Sabroso, prouvent que 
dès Tuge de la pierre polie la colline fut un lieu d^ecu- 
pationo 4 . — Pela minha parte também tenho encontrado em 
antas do Alemtejo covinhas análogas ás que tenho visto 
em castros da Beira, mas castros que manifestão já civili- 
zação romana. — A par de instrumentos neolithicos, Sa- 
broso revelou jóias de bronze e pedaços de ferro oxy- 



i As mamoas cobrem as antas e antellas. Cfr. F. Martins Sar- 
mento : in O Pantheon, 1880, p. 2 ; in Revista Scientifica (do Athenco 
do Porto), 1885, p. 80, nota a; Os Argonautas, 1887, p. 246, nota 3; 
in Revista de Guimarães, v, 112 e 113. 

2 Os Argonautas, p. 248 e nota 8. 

3 Vid. o seu artigo A propósito de castros, in O Panorama con- 
temporâneo, 1883, p. 26. 

* Les ages prêhisL, etc, p. 274. — Nem todos os machados sâo de 
trabalho apurado: «il en cst de três grossières en schiste dioritiquo; 
une seule est en roche verte. EUes ne sont pas trop rares (neuf); 
elles sont associées à quelques silex parmi lesquels on remarque 
des lame8 retouchécs sur les bords, un grattoir ordinaire, une pointe 
triangulaire. Cela sufiit, je crois, pour admettre, commeje le disais, 
que Sabroso fut d'abord une station nóolithique». Id., ib., p. 274. 



55 



dado ', embora tudo pre-romano. — A origem do Castro 
de Avellãs, em Tras-os-Montes, apesar dos seus elementos 
luso-romanos, talvez possa reportar-se aos tempos prehis- 
toricos, «parecendo ser a epocha do bronze aquella a que, 
com melhor fundamento, deva attribuir-se esta construc- 
ç5o» 2 . — No castro de Medeiros, situado ao pé de Montale- 
gre, também apparecêrâo dois machados de bronze, pos- 
suídos hoje pelo Museu anthropologico da Cominiss&o Geo- 
lógica de Portugal 3 . 

Nos castros gallegos que são iguaes aos nossos 4 , e se 
ách&o descritos num bem elaborado trabalho de Villa-Amil 
y Castro, encôntr&o-se objectos de differentes epochas, e 
entre clles neolithicos, de bronze, cerâmica com caracteres 
archaicos (pre-romanos), etc. 5 — Como eu disse acima, as 
mamôas, em gallego chamadas mámoas, modorras e modor- 
ras, abundão na Galliza. Já em 1838 o escriptor Verea y 
Aguiar, na sua Historia de Galicia, considerava as mámoas 
coetâneas dos castros 6 ; Villa-Amil nXo se decide á cerca 
da data d'ellas, mas não lhe repugna considerá-las como 
de tempos verdadeiramente prehistoricos 7 . 

No SE. da Hespanha descreverão os srs. H. & L. Siret, 
na sua monumental obra Les premiers ages du metal, 
uma serie de estações que, a julgar da descripçâo que 
aquelles A A. fazem, tem a mais estreita analogia com os 



1 Vid. F. Martins Sarmento, in Renascença, 1879, p. 120; cfr. Car- 
tailhac, IjCS ages préhistoriques, p. 273 sqq. 

2 Nery Delgado, Reconhecimento scientifico de Santo Adrião etc, 
p. 10. O A. baseia-se, como diz, nas observações de Paula e Oli- 
veira. — Sobre Castro d'Avellâs (que eu também conheço de visu, 
pois estive lá em 1884), haja uma pequena litteratura, que adeante, 
na Parte II d'este livro, indicarei. 

9 Nery Delgado, Reconhecimento scieni. de Santo Adrião etc., p. 10. 

* Cfr. F. Martins Sarmento, in O Panorama contemporâneo, 1889, 
p. 11. 

* Vid. Museo de antigUedades espaholas, vol. vn (1876), 230-285. 
9 Apud Museo de antigUedades espaholas, vol. vn, 227. 

1 Vid. Museo de antigUedades espanolas, vn, 230 (cf. 228-230). 



56 



nossos castros l . Chamo para este ponto a attençâo dos 
archeologos. Taes monumentes do SE. da Hespanha con- 
sistem, como cá, em eminências fortificadas já pela natu- 
reza, com fossos constituídos por gargantas de montes, já 
por meio de muros de pedra, e ás vezes situadas junto de 
rios. Nestas eminências descobri r5o-se ruínas de cosas, fre- 
quentemente destruídas por incêndio, e todo um museu 
prehistorico, composto de objectos de pedra polida, de osso, 
de cobre, de bronze, de prata, de ouro, vasos de barro, 
pesos, ossadas humanas, restos de vestuário, etc, etc; 
descobrirão- se também sepulturas de muita espécie, — cists 
(i. é., as nossas antellas), grutas, grandes vasilhas. Uma das 
collinas fortificadas, a que os A A. dão o nome de Fuente 
Vermeja, tem mesmo o significativo nome popular de El 
Castellin*, evidente deminutivo de castellum, corres- 
pondente ao português Castellinho, que é também denomi- 
nação de locaes nossos 3 . — Os monumentos do SE. da Hes- 
panha são pelos srs. H. & L. Siret classificados em duas 
epochas : epocha eh transição da pedra para os metaes, e 
epocha dos metaes. — Eis pois aqui nestes monumentos um 
forte argumento para fazer remontar aos tempos prehisto- 
ricos os castros portugueses. Já também não pode o sr. 
Cartailhac dizer que «rien de seniblable aux citanias 4 n'a 
étó jusquMci découvert en Espagne* 5 . 



1 Elles mesmos comparao com a nossa Liceia as construcções 
defensivas prehistoricas do SE. da Hespanha : Leê premiers ages 
du metal, p. 240. 

2 Ob. cif., p. 71. — E sem motivo que os AA. deixâo de adòtar 
na sua descripçâo este nome de El Castellin. 

3 Perto da Terena, no Alemtejo, ha um outeiro chamado Castello 
Velho, onde estive, c que é um castro bem caracterizado ; a alguma 
distancia d'ellc ha outro outeiro denominado Castellinho, aonde ainda 
nâo pude ir, mas que me dizem estar nas mesmas condições do 
primeiro. 

4 A palavra citania significa pouco mais ou menos o mesmo que 
castro. 

5 Cartailhac, Lt& ages prchistoriques, p. 294. 



57 



Escolher as alturas dos outeiros e dos montes para habi- 
tação, e ás vezes mesmo para praça fortificada, ou ainda 
para sede de cerimonias religiosas, é cousa muito natural. 

A França offerece bastantes estações que sem dúvida 
se podem fazer remontar á idade da pedra '. O Peu- 
Richard, asitué sur un mamelon aux pentes três douccs», 
ladeado de fossos, e contendo no seu interior unicamente 
objectos pertencentes á civilização da idade da pedra, taes 
como instrumentos de silex e de osso, fragmentos de ce- 
râmica ornamentada, mas trabalhada á mão, etc. *, tem 
sua semelhança com a nossa Li ceia. — Na Aquitania ha mo- 
numentos parecidos com os castros portugueses, quer na 
forma e situação, quer nos objectos que ministrão; pare- 
cem de origem pre-romana, mas achão-se romanizados. O 
mais curioso que aqui tenho de notar a respeito d 'elles, é 
o nome castêra, que elles tem 3 . — Analogamente ao que 
suecede nos castros portugueses, tem-se extraindo de esta- 
ções archaicas da França machados prehistoricos a par de 
barros gauleses e de restos romanos 4 . 

E não levo agora mais longe a comparação. Vemos que 
ha motivos para attribuir de modo geral aos nossos cas- 
tros uma remota origem, nos tempos prehistoricos. Sem 
embargo, se exceptuarmos Liceia, todos os que por ora 
estão reconhecidos receberão o influxo de civilizações pos- 
teriores á neolithica : é pois para outras secções d'este livro 
que reservo o que sobre elles me falta ainda dizer. 

O homem neolithico não devia só viver em castros 
e em grutas. Ha muitas regiões onde o solo não offerece 



1 Cartailhac, Jax France préJtistorique, Paris 1889, p. 131. 

2 Id., ib. t p. 131-132. Nesse livro dào-se noticias de outras esta- 
ções prchistorieas da G ai li a. Parece, porém, que nas mais antigas 
não se acliâo condições de defesa, podendo talvez algumas ter 
sido locaes de religião. Vid. id., ib., p. 131 sqq. 

3 Vid. Une sépulture des anciens troglodytt* dts Pyrénées, por Lar- 
tet & Duparc, Paris 1874, p. 17-19. 

* Cfr. L'Anthropologie (revista), m, 226. 



58 



relevos orographicos nem aberturas, e onde conitudo os 
vestígios humanos d'esse tempo são claros. Os rios que 
fertilizão os campos e crião peixes, as pedreiras de silex 
que encerrão matéria prima preciosa para o trabalho, os 
bosques com fructos e caça, etc, etc, erão outros tantos 
attractivos para os nossos antepassados se fixarem em lo- 
cães determinados. Precisar todos esses locaes constituo 
porém tarefa que aqui me não posso impor. 



Já dos tempos neolithicos se conhecem noutros paises 
(Suissa, Bélgica, etc.) certas estações denominadas lacus- 
tres, porque as casas erão construídas Bobre estacas dentro 
de lagos. Este género de habitações nada tem de estranho, 
pois não só os auctores clássicos ft se referem a ellas, mas 
estão em vigor ainda actualmente em povos da África, da 
America, etc, e no nosso próprio país (na classe dos pes- 
cadores) 2 . 

Habitações lacustres prehistoricas é que por ora não 
forão descobertas em Portugal : corre apenas uma lenda, 
que, por nada ter de especial ao nosso país, e se não apoiar 
em factos de observação, nos não serve de prova 3 . 

A respeito de lagos da Galliza contão-sc lendas que se 
parecem com outras que também tem parallelos em Por- 
tugal, nas lagoas da Serra da Estrella. Villa-Amil y Castro 
menciona essas tradições gallegas, e funda-se nellas para 
deduzir a existência de povoações lacustres naquelle nosso 
vizinho país 4 ; não* cita porém factos de observação pró- 
pria, para que se possa acceitar plenamente a sua theoria. 



1 Por exemplo Heródoto (V, xvi). 

2 No meu Portugal prehistorico, p. 60, juntei a este propósito 
alguma bibliographia portuguesa. 

3 Ib., ib. 

4 Antig. prehist. y célt. de Galicia, parte i, Lugo 1873, p. 66 sqq. 



69 



Ha em Portugal, próximo da foz do Mondego, defronte 
da Figueira da Foz, uma curiosa povoação, chamada Cova 
de Lavos, que pôde dar ideia do systenia das estações la- 
custres. Eu estive lá em 1890, e fallo pois de visu. As casas 
são inteiramente de madeira e a sentão também em esta- 
cas, mas, em vez de estarem situadaè na agoa, estão si- 
tuadas na areia, pois toda aquella zona é um vasto, sêcco 
e estéril areal. Estas casas chamão-se palheiros. A povoa* 
ção tem bastantes. Junto mesmo da Figueira da Foz ha 
alguns á beira-mar, e d'esta espécie de casas tira certa- 
mente o nome a Praia de Palheiros, que fica num arra- 
balde da cidade. 



A occupação do homem nos tempos neolithicos pôde 
em parte inferir-se das relíquias da sua indústria, e dos 
ossos dos animaes seus companheiros. 

Alem da vida guerreira, que se deduz do variadíssimo 
arsenal que esses tempos remotos nos legarão, o homem 
tinha também vida industrial e artística: era armeiro, oleiro, 
gravador, esculptor, pedreiro. . ., e em cada uma d* estas 
classes devia ainda haver outras subalternas. Como notá- 
vel officina do silex posso citar a gruta do tunnel do Ro- 
cio * ; officinas existião também, ao que parece, na Figueira 
da Foz*, em Bellas 3 , na Furninha 3 , e em Alcobaça 3 , etc. 4 . 
Em muitos objectos, como na ornamentação dos vasos e 
certo feitio d'estes, no apuro de vários instrumentos (ao 
que acima me referi), na escolha das rochas, etc, havia já 
taes ou quaes preoecupaçSes estheticas, e não se attendia 
unicamente á utilidade prática. 



1 Vid. supra, p. 47. 

2 Santos Rocha, Antiguidades da Figueira, n, 75 e 76. 

3 Vid. supra, respectivamente, p. 39, 40 e 41. 

* O sr. Nery Delgado informa- me que tem visto em muitos pontos 
accuinulações de lascas de silex, que certamente representa o offici- 
nas de instrumentos prehistoricos. 



CO 



A julgar pelos restos de vários animaes, como o boi, o 
carneiro, parece que já se praticava a domesticidade des- 
tes; talvez já também se praticasse a agricultura, pelo 
menos em alguns pontos *. Noutros o homem viveria prin- 
cipalmente da caça e da pesca: com effeito, são muito 
numerosos os restos de coelho, mariscos, etc, encontra- 
dos em estações humanas, e que servi&o sem dúvida para 
alimentação d'elle. 

Vê-se que o homem tinha já vida sedentária, e sabia o 
que era a paz domestica. Mas em tudo devemos sempre 
estabelecer as cousas relativamente, pois ainda, em tempos 
de Es t rabão, muitos povos das montanhas da Lusitânia 
erão bárbaros e vivião da rapinagem 2 ; também pois nos 
tempos prehistoricos, apesar do atraso geral, devia de 
haver umas populações menos rudes que outras, o que 
aliás está em harmonia com os documentos ethnographi- 
cos: assim, na Furninha revela-se certa barbárie na ce- 
râmica, em muitos objectos de uso e nos desenhos, ao 
que pôde ainda acaso juntar- se o cannibalismo 3 e o cos- 



1 «Parece-nos poder affirmar que os homens do fim da epocha da 
pedra polida, que dominavâo no nosso solo, e levantaram os dolmens 
dos dÍ8trictos adjacentes a Lisboa, não só conheciam a arte de do- 
mesticar os animaes, como já faziâo uso da alimentação vegetal e 
principalmente de fructos, o que mais tarde mostraremos quando se 
descrevam aquelles dolmens, algumas grutas, e as estações prehis- 
toricas de Palmella». C. Ribeiro, Estudos prehistoricos, i, 67. — 
Carlos Ribeiro não chegou a publicar a descripçâo de Palmella, 
apenas publicou no vol. n dos Estudos prehistoricos a dos monu- 
mentos megalithicos dos arredores de Lisboa. — Osr. Santos Rocha 
interpreta como triturador para moer cereaes e fabricar farinha um 
objecto de pedra arredondado que encontrou nas suas explorações 
(Antiguidades da Figueira, n, 55 e 56), objecto análogo ao que o 
sr. Mortillet descreve no Musée préhistorique, n.°" 589 e 590. 

2 Geographia, III, ih, 5 e 8. 

3 Baseando-se no estudo do estado physico e da proporção dos 
ossos humanos desenterrados da gruta da Furninha, o sr. Delgado 
pronuncia-se pelo cannibalismo dos povos neolithicos portugueses : 
yid. Compterendu do Congresso de Lisboa, p. 215, etc. Esta quês- 



61 



tunie de habitar as grutas ; em Palniella, pelo contrário, a 
que tem de se aggregar Cascaes 1 , — já encontramos uma 
arte de cerâmica e de desenho mais adeantada. 

A vida sedentária do homem neolithico deduz-se ainda 
do habito de construir grandes monumentos fúnebres. Um 
povo errante e vagabundo, que não amasse os seus mor- 
tos, que não gostasse de os ter junto de si, para os hon- 
rar, para se lembrar d'elles com saudade, não despende- 
ria tanto trabalho e não gastaria tanto cabedal, como foi 
necessário para a feitura dos monumentos neolithicos*. 



tão foi muito debatida no Congresso; pronunciando-se uns congres- 
sistas pró, outros contra: ibid., p. 266 sqq. — O sr. Schaaffhausen, 
que defende o cannibalismo (Compte-rendu, p. 269), cita em apoio das 
suas ideias uma passagem de Estrabão (Geog. } liv. IV, c. v, g 4) em 
que este A. falia do cannibalismo dos Iberos : mas tal texto pouco 
prova, pois o cannibalismo ibérico de que falia Estrabào nao é dado 
como um costume dos antigos habitantes da península ibérica, mas 
sim como um mero accidente por occasiào de fomes em cercos. O 
sr. Mortillet, que combate o cannibalismo, affirma peremptoriamente : 
«Nul animal ne devore laminai de son espèce si ce n'est pas pressé 
par la faim» (Compte-rendu, p. 269); mas tal affirmaçao é gratuita: 
vid. cm relação ao homem os factos citados por Schaaffhausen, ib., 
e por Adolpho Coelho, in Sciencias históricas em Portugal (extr. da 
Renascença, fase. v-vu), p. 11 sqq. — Como me falta o dados novos 
com que possa entrar nesta questão, não me atrevo, deante de tão 
variados pareceres, a emittir o meu ; todavia direi que os factos in- 
vocados pelo sr. Nery Delgado, que iniciou entre nós. estes debates, 
me parecem importantes, e que não forao meudamente refutados ; 
que o cannibalismo (com os sacrifícios humanos : cfr. também Ré- 
ville, Prolégomhnes de Vhistoire des rdigions y 4.* ed., p. 184 sqq.) é 
um costume que se encontra em diversissimas partes; e que elle 
nem sempre depõe contra a moralidade dos povos primitivos, pois 
que a anthropophagia tem diversas causas : por isso, se me faltão 
elementos para o acceitar abertamente, os mesmos me faltão para o 
regeitar in limine. 

1 Vid. a descripção das cavernas de Cascaes em Cartailhac, Les 
ages préhistoriques, p. 104 sqq.; e a descripção das grutas de Pal- 
mella, ibidem, p. 118 sqq. Carlos Ribeiro considera estas duas esta- 
ções como contemporâneas : Estudos prekistoricos, n, 19. 

2 Cfr. também dr. Santos Rocha, Antiguidades da Figueira^ i, 32. 



62 



Se pela anályse dos restos industriaes, etc, é fácil es- 
boçar a vida, por assim dizer, caseira do homem primitivo, 
já não é tão fácil traçar um quadro das instituições sociaes, 
pelo menos de todas. 

Das próprias sepulturas, dos próprios objectos domés- 
ticos, uns imperfeitos, outros com mais apuro, conhecc-se 
sem custo que havia ricos e pobres, humildes e poderosos, 
o que, de mais a mais, era natural. Mas, qual a organi- 
zação, qual o governo? 

Que existião povoados não deve haver grande dúvida ; 
já a cima fallei dos castros. As antas, que em alguns pon- 
tos, por exemplo no Alto-Minho, em Castello de Vide, no 
concelho de Avis e nos arredores de Évora, estão agru- 
padas, formando como que extensos cemitérios, de túmulos 
grandiosos e de difficillima construcção, embora bárbaros 
e rudes, levão também, pelo seu lado, a admittir que os 
homens que as levantarão vivião perto delias, e mais ou 
menos juntos entre si, em certa communidade. 

Muitas antas podião não só ser communs a certas famí- 
lias, mas mesmo a classes mais geraes: é assim que nas 
de Montabrão se acharão vestígios de uns oitenta indiví- 
duos 1 ; mas este facto indicará também ou inhumaçòes 
successivas através dos tempos, ou que taes antas erão 
simples ossuarios. 

Não sabemos as relações em que nos tempos prehisto- 
ricos estavão entre si todas as populações do nosso pais : 
a julgar do que succede nos selvagens, do que os variados 
aspectos da civilização neolithica e variadas raças nos reve- 
lão, c do que os AA. antigos nos dizem á cerca dos tem- 
pos protohistoricos da Lusitânia, não será aventuroso sup- 
pôr que não havia unidade, mas que todas essas populações 



1 C. Ribeiro, Estudos pre7iistoricos, n, 59. — Sobre a Figueira da 
Foz, cfr. Santos Rocha, Antiguidades prehistoriccw, i, 39. 



63 



constituiriSo tribus, ora em guerra entre si, ora acaso ás 
vezes federadas, e de certo uma ou outra vez em boas 
relações commerciaes *. Muitos dos povos protohistoricos 
que os AÁ. clássicos mencionão na Lusitânia com nomes 
especiaes devem ainda em parte corresponder ás tribus 
primitivas. 

Sobre as formas de governo pairâo também sombras : é 
provável que essas tribus fossem, pelo menos ás vezes, 
governadas por chefes ou régulos, como em muitos povos 



1 Cfr. supra, p. 39. 

As placas de schisto, são um exemplo frisante das relações 
commerciaes, federativas ou ethnicas das populações prehistoricas 
de uma boa parte do nosso país, pois, apparecendo numa zona, que, 
segundo as investigações feitas até hoje, se estende da Beira marí- 
tima até o Algarve, revelão sem duvida uma origem commum, na 
sua forma, nos seus desenhos, etc. 

Com o titulo de Note sur la nature minéralogique de quelques itts. 
trutnetiis de pierre trouvés en Portugal publicou o sr. prof. Bensaude 
um artigo in Comple-rendu do Congresso de Lisboa, de 1880, artigo 
que, a este respeito das relações sociaes, dá interessantes elementos, 
porque o A., a propósito da natureza das rochas de que são feitos 
certos instrumentos prehistoricos nossos, busca saber a proveniência 
d'ellas. Comquanto nem sempre pudesse chegar a um resultado 
inconcusso, ainda assim o A. indica a serra de Cintra como um ponto 
que podia ter ministrado rochas para instrumentos achados nas 
estações prehistoricas de Cascaes, Porto-Covo, Liceia, Palmella, 
Monte- Junto, Carvalhal, Coluinbeira, Nisa, Cezareda e Bellas; o 
Norte do país talvez desse também rochas para Cascaes ; a amphi- 
bolite, substancia de que são feitos numerosos instrumentos perten- 
centes á Estremadura, encontra-se em Bragança e em muitos pon- 
tos do Alemtejo. A ribeirite, variedade de callaite, de que são feitas 
muitas contas de collar, não tem jazigo conhecido em Portugal, nem 
no país vizinho, parecendo ter vindo de longe : cfr. também Cazalis 
de Fondouce, in Compte-rendu de Lisboa, p. 314 sqq. 

Já Carlos Ribeiro, baseado em várias considerações, como por 
exemplo a qualidade de algumas substancias siliciosas importadas 
de outras regiões, havia igualmente apresentado a hypothese de 
«que os homens de Liceia ti verão relações com os seus contempo- 
râneos da Europa Occidental e meridional, quando mais não fosse, 
por intermédio das tribus nómadas ou traficantes»: Ehttulo* prehis- 
toricoê, i, 67. 



64 



atrasados succede, e que já houvesse classes com certo 
predomínio social, a julgar das condições em que forão 
achadas diversas sepulturas '. 



As diffeiença8 que encontramos na ethnographia encon- 
tramo-las também nas raças, não querendo eu porém dar 
ás deducções da anthropologia prehistorica mais valor do 
que o que ella realmente tem com o seu actual caracter 
provisório. 

No período dos kjoekkenmoeddings, que é o mais antigo 
de que temos noticias anthropologicas certas, havia no 
nosso solo, como mostrei, raças cujas formas cranianas 
erao as seguintes: brachycephalica, sub-brachycephalica e 
dolichocephalica, representando esta a «raça de Mugem». 

No período neolithico 2 encontrâo-se representadas as 
formas brachycephalicas e dolichocephalicas, sendo as ulti- 
mas as mais frequentes 3 . Ha alem d'isso formas mixtas 
de brachycephalia e dolicocephalia. 

Porém, tanto os crânios brachycephalicos como os doli- 
chocephalicos nâo se aprcsentão neste período exactamente 
iguaes aos dos do periodo dos kjoekkenmoeddings : oftere- 
com differenças, com especialidade os dolichocephalicos. 

Estes últimos comprehendem dois typos principaes : um, 
que appareceu numa anta de Nisa, na Casa da Moura, nas 
cavernas de Monte-Junto, em Alcobertas, talvez também 
nas Folhas das Barradas, etc, e se assemelha á maioria 



1 Cfr. Santos Rocha, Antiguidades da Figueira, n, 87. 

2 Sobre o que vou dizer dos caracteres physicos e da distribuição 
geographica das nossas raças neolithicas vid. principalmente os 
dois trabalhos de Paula e Oliveira publicados no Compte-rendu do 
Congresso de Lisboa, p. 291 sqq., c nas Communicaçoes da Com- 
missão dos trabalhos geológicos, n, 1 sqq. 

3 Compte-rendu de Lisboa, p. 300. 



65 



dos typos de Mugem, só tendo maior volume, prognathismo 
menos accentuado e menor desenvolvimento das fossas 
supraciliares ; outro, que appareceu em Cascaes, estabe- 
lece como que uma transição do typo antecedente e do 
de Mugem para o de Cro-Magnon *. 

A forma brachycephalica de Mugem appareceu mais ou 
menos pura nas grutas do Carvalhal, na Casa da Moura e 
em Liceia*. 

As formas mixtas (brachy- e dolichocephalia) observá- 
r&o-se na Casa da Moura, no Monte- Junto e em Palmella 3 . 

As dimensões dos ossos longos neolithicos são em geral 
mais consideráveis que as dos ossos longos do Cabeço da 
Arruda: «assim, no intervallo decorrido entre a epocha dos 
kjoekkenmoeddings e a idade neolithica, a estatura augmen- 
tou, do mesmo modo que o volume dos crânios» 4 . Com 
quanto os caracteres descriptivos dos ossos longos de Mu- 
gem se encontrem nos ossos longos neolithicos, ha nestes 
algumas differenças secundarias que correspondem ás diffe- 
renças de dimensões acabadas de mencionar: «aplatycne- 
mia das tíbias parece attenuar-se um pouco, e os humeros 
perfurados tornâo-se menos numerosos» 5 . 

Assim, em resumo, nota-se: em primeiro logar, que as 
raças antigas, i. e., as dos kjoekkenmoeddings, se modifi- 
carão mais ou menos, em virtude quer de influencias meso- 
logicas, quer de cruzamentos recíprocos, quer talvez da 
mistura de raças novas; em segundo logar, que as raças 
neolithicas se estendem, ora sós, ora a par, por variados 
pontos do nosso pais, o que pôde explicar algumas das 
coincidências de civilização que, no meio das differenças, 
assignalei acima. 



1 ComrnunicaçÕeê, n, 10 e 11. 

* Ib., ib., 11. 

* Ib., ib., ib. 

4 Ib. f ib., ib. — Cfr. também Nery Delgado in Compte-rendu, 
p.222. 

5 Ib. f ib., ib. 

6 



66 



Em virtude do primeiro facto, temos em Portugal, no 
período neolithico, pelo menos quatro grupos ethnicos: 

1) «raça de Mugem» modificada; 

2) typo dolichocephalico intermédio, de Cascaes; 

3) typo brachycephalico, de Mugem; 

4) typo mixto (brachy-, dolichocephalico). 

Em virtude do segundo facto, não só um e o mesmo typo 
apparece, por exemplo, na Casa da Moura, em Nisa, no 
Monte- Junto, etc, mas ha na mesma estação, por exemplo 
na Casa da Moura, typos differentes. 

Pena é que os estudos de anthropologia prenistorica, 
por ora publicados, se limitem quasi unicamente á Estre- 
madura. Ha uma excepção a respeito de Nisa, de que 
fallei a cima. A respeito das grutas de Tras-os-Montes 
publicou o sr. Nery Delgado uma observação, segundo a 
qual nos tempos neolithicos «uma população apresentando 
bastantes caracteres anthropologicos communs, se extendia 
desde a região central até o extremo septentrional do nosso 
paiz» 1 . Á cerca da Figueira da Foz também o sr. Santos 
Rocha faz algumas considerações, que, porém, como elle 
próprio confessa, se baseião em dados muito circumscri- 
ptos 2 . Duas cabeças ósseas e um crânio achados no Al- 
garve, e pertencentes, segundo as informações que tenho, 
aos tempos neolithicos, ofFerecem os seguintes typos: me- 
saticephalico, mesorrhinico (Broca) ; sub-dolichocephalico 
(Hamy); sub-brachycephalico, mesorrhinico (Broca) 3 . 

Uma das raças quaternárias da Europa melhor estuda- 
das é a de Cro-Magnon (crânio dolichocephalico), que se 
estendia pela França, Bélgica, Hespanha, Itália, Marro- 
cos, Algéria e Canárias, e que ainda no periodo do bronze 
tem representantes na Andaluzia. D'onde partiu ella?Tem 



1 Reconhecimento scientifico dos jazigos de Santo Adrião, p. 9; e 
Compte-rendu de Paris, 1891. 

* Antiguidades da Figueira, i, 32. 

3 Ao sr. dr. Ferraz de Macedo, que fez o estudo craniometrico 
d'estas três peças algarvias, devo o que d'ellas digo no texto. 



67 



sido invocados factos a favor da sua emigração do Norte 
para o Sul 1 . Nas ossadas prehistoricas de Portugal encôn- 
trSo-se, como vimos, elementos communs á raça de Cro- 
Magnon; mas, segundo as observações de Quatrefages, o 
nosso typo doliehocephalico prehistorico e absolutamente 
distincto do de Cro-Magnon 2 , e pertence a uma raça nova, 
a a raça de Mugem» 3 . 

Tem-se comparado as raças prehistoricas portuguesas 
com raças de fora : Quatrefages aproxima de certos typos 
bascos alguns typos nossos 4 ; Paula e Oliveira também 
compara vários crânios de cá com crânios escoceses e 
irlandeses 5 ; V. Jacques suppõe idêntica a «raça de Mu- 
gem» a um dos typos mestiços de Argar (Hespanha) 6 . 

Ainda que das semelhanças osteologicas nem sempre se 
deva concluir, só por si, parentesco ethnico, pois modos de 
vida análogos podem originar productos anthropologicos 
também análogos, as comparações tem sempre utilidade. 

Sâo todos estes humildes povos, — os neolithicos e os dos 
dois períodos antecedentes — , os nossos mais antigos avós. 
D'elles proviemos physica ou moralmente. Humildes, digo, 
mas nem por isso menos dignos de que lhes tributemos a 
glória eterna, pois na sua humildade forão heroes, forâo 
os precursores da civilização de que gozamos. E por isso 
se pôde exclamar com Vergilio : 

Qui juvenes ! quantas ostentant, aspice, vires ! 
Atque umbrata gerunt civili têmpora quercu. 



1 Vid. Verneau, in Bevue Scientifique de 21 de Julho de 1888. — 
Para o conhecimento da bibliographia do assumpto consulte-se 
S. Reinach, Antiquitéa notionales, i, 188 e 189. — Vid. ainda Compte- 
rendu do Congresso de 1889 (Paris), p. 456-458. 

3 In Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 304. 

3 Vid. a prefação de Quatrefages a Les ages préhistoriques de Car- 
tai Ih ac, p. XXII. 

4 Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 305 ; prefação da obra 
de Cartailhac, p. xxn. 

* In Compte-rendu de Lisboa, p. 301. 
6 In Compte-rendu de Paris, p. 455. 



68 



Antes (Telles virem, a solidão envolvia as terras, por 
onde somente vagueava a Hyaena tpelaea, o Urms spe- 
laeus, e outras feras. 

Elles povoarão pela primeira vez o território em que 
nascemos; os seus castros roqueiros 

— Hi imponent montibus arces — 

derão origem ás nossas aldeias, ás nossas villas, ás nossas 
cidades : Cale, Áeminium, Collippo, Scallabis, Olisipo . . . 
de certo constituirão primitivamente mesquinhos logarejos, 
entaliscados no coruto de outeiros: 

Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae l . 



Ainda que, dadas as condições de capacidade que o ho- 
mem tem de progredir incessantemente, e de se aperfei- 
çoar, é sempre difficil, quando uma phase de civilização se 
apresenta superior a outra, dizer o que aquella tem de 
novo, devido a estranhos, e o que deve á evolução natu- 
ral d' esta, — comtudo, tão manifesta differença e superio- 
dade da nossa civilização neolithica a respeito da paleoli- 
thica não pôde talvez explicar -se satisfatoriamente por única 
e exclusiva evolução autochtonica da ultima; antes, pelo 
contrário, a comparação com o que se acha noutros paí- 
ses leva a inferir que houve importação, o que de algum 
modo será apoiado pela anthropologia, com quanto, no 
estado actual da sciencia, nada de positivo se possa afir- 
mar sobre as fontes e as circumstancias d' essa importação. 

Sem embargo, a nova civilização, implantando-se na 
anterior, como se vê das raças mestiças, e adaptando-se 
ao meio, parece ter adquirido alguns caracteres seus. 



* Verg., Eneida, vi, 771-776 (ed. de J. Moreira). 



69 



Diz Cartailhac: cce qui caractérise 1'âge néolithique du 
Portugal, tel qu'il nous est révélé par les sépultures, ce 
sont les pierres polies aiguisées en biseau, et qui par con- 
séquent ont dú servir emmanchées à la manière des her- 
minettes» 1 ; segundo o mesmo A., este systema não se 
assemelha a nenhum dos outros que se conhecem nas de 
mais collecções prehistoricas da Europa, notando- se apenas 
paradigmas nas ferramentas dos selvagens da Oceania e 
da America do Norte*. 

De outro instrumento escreve ainda Cartailhac: «Une 

forme spéciale au Portugal c'est la gouge de petite 

taille, ronde, grosse à peine comme un de nos doigts, à 
gorge profonde» 3 . 

As placas de ardósia, etc, ornamentadas são muito fre- 
quentes nas nossas estações neolithicas, pelo menos no Sul, 
encontrando-se também na Beira marítima. Com quanto 
certa semelhança haja entre ellas e algumas que se conhe- 
cem do Novo-Mundo 4 , todavia não se descobriu por ora • 
noutros paises da Europa nada de exactamente igual a 
estas nossas; somente o sr. Emilio Cartailhac achou nos 
Cevennes várias placas de ardósia «quelquefois percées 
d'un trou de suspension, d'ordinaire plus petites que cel- 
les de la Casa da Moura, jamais ornées et pourtant ana- 
logues à coup sfir avec celles-là» 5 . O serem desprovidas de 
ornatos essas placas francesas não impede que as compa- 
remos com as nossas, pois nas antas que examinei no con- 
celho de Avis encontrei-as também absolutamente sem 
ornamentação, embora com orifícios como as ornamenta- 
das 6 . O facto, porém, da ornamentação da quasi totalidade 



1 Les ages préhisioriques, p. 108. 

* lb., p. 110. 

3 lb., p. 96. 

4 lb., p. 100 e 101 ; Estacio da Veiga, Antiguidades monumentacs 
do Algarve, i, 298. 

* Cartailhac, ob t cit., p. 100. 

6 Cfr. ainda Santos Rocha, Antiguidades da Figueira, i, 16. 



70 



das placas portuguesas, e da sua abundância, pois sei da 
existência de muitas dezenas d'ellas, desde a Beira até o 
Algarve, já é por si mesmo um característico. 

Ainda a respeito de alguns pontos da própria Península 
Ibérica, Portugal offerece mais outras peculiaridades suas: 
«Le Portugal est une région essentiellement dolménique; 
il s'éloigne complètement du Sud-Est de TEspagne sous 
ce rapport» 1 . Todavia também ha semelhança entre as 
relíquias industriaes d'essa região hespanhola e as de cá *; 
e, sem fallar da Galliza, com quem Portugal está em espe- 
cialíssimas relações ethnographicas, o nosso país, nos tem- 
pos neolithicos, tem com o resto da Península, como com 
o resto da Europa, muitos pontos de civilização communs. 



b) Epocha dos metaes 

A civilização da pedra succedeu a do metal. 

A introducção do metal não se fez bruscamente, como 
brusca não foi quasi nunca nenhuma phase social : já na 
idade neolithica, quer em antas, quer em grutas, etc, se 
encontrão muitas vezes, associados aos objectos de pedra, 
objectos metallicos. O facto comprehende-se perfeitamente. 
E uma civilização antiga que a pouco e pouco se apropria 
de productos novos que representão um progresso social. 

De se achar porém metal nas estações neolithicas, nem 
sempre se deve concluir que elle é contemporâneo, pois 
numa anta de Bellas encontrou Carlos Ribeiro uma moeda 
portuguesa do anno de 1741 3 ; o sr. Santos Rocha, em esta- 



1 H. & L. Siret, Les premiers ages du metal, p. 241. — Os AA. 
accrescentão : «nous ne trouvons pas en Lusitanie la belle civilisa- 
tion de nos bourgades de Fuen te -Álamo, 1'Àlgar, etc.». Esta affir- 
maçao deve ser um pouco attenuada em vista das descobertas que 
Estacio da Veiga fez no Algarve. 

* Cfr. H. & L. Siret, ób. cit., p. 239 sqq. 

* Estudos prehistoricos, u, 7. 



71 



ções neolithicas da Figueira da Foz, encontrou um dedal 
e outro objecto de uso moderno * ; e eu mesmo, numa anta 
da Beira- Al ta, encontrei fragmentos de louça actual 2 : ora, 
assim como tudo isto foi levado para os monumentos pre- 
historic08, na occasião em que estes se violarão, também 
para muitos podem ter sido levados, por motivo análogo, 
objectos da idade do bronze e do cobre, etc. E necessá- 
rio, podendo ser, averiguar se cada estação em que estes 
apparecem está ainda intacta, e tambein a posição relativa 
das camadas térreas em que os diversos objectos se achão 
depositados. 

Apesar das infiltrações successivas do metal em plena 
epoelia noolithica, creio não poder negar-se a existência 
d* esta última 3 . Não só ha muitas estações onde o metal 
se não tem encontrado 4 , ou se tem encontrado em tão pe- 



1 Antiguidades prehisioricas, i, 15 •, cfr. p. 20. 

2 Estes exemplos podem multiplicar-se. 

3 «Non seulement il ny a pas de solution de continuité apparente 
entre 1'époque néolithique et celle qui la suit, mais il est de plus en 
plus diflicile de tracer entre elles une ligne bien définie de démar- 
cation, à tel point que certains archéologues ont étéjuêqu'à nier, pour 
1'Europe du moins, Vexistenee d'un âge purement néolithique» (S. Kei- 
nach, Antiquités nationales, p. 267). Sem embargo, Reinach não nega 
a existência da civilização neolithica, antes a define e a caracte- 
riza). — Em relação ao Minho, o sr. Martins Sarmento nega também 
a civilização neolithica, a ttri buindo as antas e an tel las á civiliza- 
ção do bronze, e considerando os instrumentos de pedra, achados 
nellas, como objectos de um rito funerário conservado através de 
muitos séculos (vid. Revista Scientifica, do Àtheneo do Porto, p. 77 
sqq.; e Revista de Guimarães, v, 113). 

4 Nas explorações emprehendidas pelo sr. Santos Rocha no con- 
celho da Figueira, as quaes se achão descritas em duas Memorias, 
não appareceu objecto algum fabricado de metal. Carlos Ribeiro, nas 
explorações de Liceia e Bellas, nenhum encontrou também : vid. os 
seus Estudos prehistor., i e n. A estação -tumulus de Aljezur (Algar- 
ve) é, segundo Estacio da Veiga, uma estação «rigorosamente per- 
tencente ao período neolithico», por «não se ter alli achado um 
único artefacto metallico, quando ainda havia alguns planos intactos, 
conservando os objectos nas suas primitivas posições» (Antig. do 



72 



quena quantidade que não constitue característico domi- 
nante 1 , mas mesmo mal se comprehende que houvesse 
um salto brusco dos períodos extremamente selvagens da 
pedra lascada e dos kjoekkenmoetjdings para a epocha já 
bastante florescente dos metaes, sem que as populações 
de cá, ou por si, ou pelo contacto com o resto da Europa, 
tivesssem conhecimento da arte de polir a pedra. 

Se se disser que não houve civilização da pedra polida, 
e somente civilização do bronze ou do cobre, sendo os 
instrumentos de pedra, que apparecem nos túmulos, meros 
objectos votivos ou de ritual, com caracter archaico e tra- 
dicional, também me parece que esse raciocínio se não 
pôde acceitar por completo, alem de outras razões, por 
ter grande número d'esses objectos vestígios evidentes de 
se haver trabalhado com elles, e por outros apparecerem 
em locaes onde o homem vivia e se servia d' elles, i. é, 
nos castros, etc. 



Quando se falia da epocha dos metaes surgem logo entre 
outras as seguintes questões : 1) o cobre dominou, ou não, 
anteriormente ao bronze? isto é, ha de admittir-se, ou 



Algarve, i, 204 : cfr. porém, vol. iv, 60 e 61). £ no emtanto, todas estas 
estações neolithicas em que não apparecérâo objectos metallicos, 
manifestarão numeroso pecúlio ethnographico. Suppondo mesmo que 
alguns objectos metalliços houvesse primitivamente, e que se tives- 
sem depois deteriorado por completo ou perdido, elles nâo poderão 
caracteriíar uma phase metallica. Mas, seja o que fôr, um facto posi- 
tivo que, pelo menos por ora, nos tem de servir de critério é este : 
a ausência absoluta de artefactos de metal em algumas estações. 
1 Por exemplo a Furninha e a Cezareda: vid. os trabalhos do 
sr. Nery Delgado. O único objecto que o sr. Delgado achou na Ce- 
zareda foi uma frecha de cobre. A mim porém deu-me posterior- 
mente um homem de Olho -Marinho um machado chato metallico 
achado no monte da Cezareda, em terreno perto da gruta, e disse -me 
ter achado mais uns onze que vendera nas Caldas da Rainha a um 
fundidor, mas estes nào os vi. 



73 



não, uma idade do cobre distincta da do bronze f 2) e o uso 
do cobre e do bronze, ou, pelo menos, do primeiro, é de 
origem indígena ou estranha? 

Não me pertence discutir neste logar tSo importantes 
questões ; desejo apenas indicá-las, e dizer algumas poucas 
palavras sobre ellas. 

A primeira questão foi já posta no Congresso de Lis- 
boa em 1880 '; o sr. Cartailhac refere-se também a ella no 
seu livro Les ages préhistoriques de VEspagne et du Por- 
tugal*, não estando muito longe de admittir em Portugal, 
como na Hespanha, uma idade do cobre, que estabeleça 
transição da idade neolithica para a do bronze 3 ; Estacio 
da Veiga retomou com calor a questão nas Antiguidades 
monumentaes do Algarve K , e, embora num estylo por ve- 
zes um pouco singular, e com muitas preoccupaçSes de 
escola, reuniu a tal respeito bastantes e valiosos dados, 
em virtude dos quaes elle se pronuncia abertamente não só 
pela existência de uma idade de cobre } mas pela origem 
peninsular do uso d'este. 

Ambas as questões são muito difficeis de resolver. Da 
semelhança de formas artísticas em diversos países não 
se deve sempre concluir positivamente que esses países 
communicárão uns com os outros : o espirito humano, em 
circumstancias idênticas entre si, pôde em verdade ser 
levado, em regiões muito afastadas, a resultados iguaes, 
principalmente quando estes resultados são simples, são, 
por assim dizer, elementares, como suecede com os ma- 
chados chatos de cobre e com outros produetos artísticos 
do mesmo metal e de bronze. 

Era natural que o uso industrial do cobre precedesse o 
do bronze, por ser este uma liga de cobre e estanho, e 
sobretudo porque o cobre nativo seria primeiro conhecido 



1 Compte-rendu, p. 352 sqq. 

* P. 197 sqq. 
5 iô., p. 211. 

* Vol. ih e iv. 



74 



que os processos metallurgicos que ensinarão a tirar o 
cobre das pyrites para o unir ao estanho. 

Em Portugal ha muitos jazigos de cobre em todas as 
províncias, especialmente na do Alemtejo * ; o museu mi- 
neralógico da Comraissao dos trabalhos Geológicos de 
Lisboa tem, por exemplo, amostras de cobre nativo de 
Barrancos, Bogalho, Silves, Aljustrel e Palhal. Existem 
também muitas estações archeologicas, onde, a par da 
pedra, se encontra só cobre, e não bronze V o que parece 
levar a admittir que aquelle realmente precedeu este 
durante algum tempo. Por outro lado ainda, não só as 
primeiras manifestações do cobre consistem em objectos 
singelos ou de forma mais ou menos análoga á dos obje- 
ctos de pedra, mas também ha minas de cobre, não só em 
Portugal, mas em Hespanha, que forâo exploradas em 
epochas muito remotas, pois nellas se encontrarão martellos 
de pedra 3 . 



1 Este assumpto está tratado technicamente nas seguintes obras : 
Estatística mineira (1882) por Neves Cabral, Lisboa 1886 ; Catalogo 
descriptivo da secção de minas da Exposição Industrial de Lisboa em 
1888, coordenado por Severiano Monteiro e Augusto Barata, sob a 
direcção de Neves Cabral, Lisboa 1889. Estacio da Veiga, nas An- 
tiguidades monumentaes do Algarve, ih, 19 sqq., também dá indi- 
cações numerosas. — Já Estrabão, Geographia, III, n, 8, celebra o 
cobre nativo da Turdetania. Cfr. também Plinio, Nat. Histor., III, m, 
que falia da abundância de cobre na Peninsula. 

9 Estacio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Algarve, ni, 
128-130. (Refere-se ás estações archeologicas de Palmella, Oeiras, 
Cascaes e Cezareda). Ibidem, p. 131 sqq., onde descreve a rica esta- 
ção algarvia de Ale alar, na qual appareceu cobre e não bronze, a par 
da pedra, do ouro, etc, considerando- a pois o A. como caracterís- 
tica da idade de transição do periodo neolithico para a epocha dos 
metaes. Cfr. também vol. iv, p. 41-51. 

3 Com relação a Portugal vid. Pereira da Costa, Noticia de alguns 
martellos de pedra, e outros objectos, que foram descobertos em traba- 
lhos antigos da mina de cobre de Ruy Gomes no Alemtejo, Lisboa 
1868 (com uma estampa). 

Com relação á Hespanha, vid. a citada memória de Pereira da 
Costa, bem como Les ages préhist. de Cartailhac, p. 202 sqq., e H. 



75 



Por consequência, não repugna acceitar a existência 
de uma idade do cobre, nem, sabendo-se que importância 



& L. Siret, Les premiere ages du metal dans le Sud-Est de VEspagne, 
p. 121, e Atlas correspondente, est. 23, n.° 48 (epocha metallica). 

A respeito dos martellos de pedra, tão característicos (pois sâo 
ovulares ou ellipsoidaes, com um sulco circular ao meio, para passar 
a correia que os prendia ao cabo), diz Cartailhac : «on les a signalés 
dans les anciennes mines de cuivre de presque tous les pays des 
deux hémisphères, et il scmble que dans la plupart des cas ils pre- 
cede rent la connaissance du fer»: ob. et/., p. 205. 

Martellos análogos dos Estados -Unidos são figurados e descriptos 
in Smith8onian lleport, 1888, p. 647 e 648, onde se diz também : «They 
are supposed to have bcen used in the mines»; cfr. est xx e xxn. 

Na mina de S. Estevão, no Algarve, onde ha vestígios de traba- 
lhos pre-romanos, achou-se um, hoje depositado pelo seu possuidor 
o sr. Júdice dos Santos no gabinete archeologico da Bibliotheca 
Nacional : a elle se refere Estacio da Veiga, Antig. mon. do Alg., nr, 
80, dando na est. ix, n.° 1, um imperfeito desenho. — Em Setembro 
de 1892, na quinta do Paulo (sitio da Moita, próximo de Avinhói 
freg. de S. João da Fresta, cone. de Mangualde), num local onde 
apparece muita telha (mas onde, por mais que busquei, a não achei 
de rebordo), e mós de moinho de mão, encontrei eu no chão um 
martello de granito igual aos descritos. Mostrando-o a uma velha, 
que estava ai li perto, esta me disse que tinha uns poucos, achados no 
mesmo sitio, os quaes lhe servião de pesos; não me foi difticil adqui- 
ri-los, — e todos elles, em número de oito, estão hoje na minha col- 
lecção archeologica depositada no Museu da Commissão Geológica, 
em Lisboa. Nada vi no referido sitio que me pudesse dar preci- 
samente uma indicação chronologica : apenas encontrei lá grossas 
lageas lisas rectangulares, sem inscripçoes e só com sulcos paralle- 
los; informárão-me que erão de sepulturas, cujas ossadas havião 
dcsapparecido. Também me informarão que se tinhão achado cousas 
de metal «á moda de um iscôparo» (escopro), e outras com feitio de 
formão, etc. Seriâo machados de cobre ou bronze? Tudo isto se su- 
miu. Dizendo-se-me, porém, que num povoado próximo se conser- 
vavão alguns desses objectos, corri lá, mas só me mostrarão um 
pedaço de ferro ferrugento, cousa moderna, e sem valor. Junto da 
casa da quinta havia umas columnas cylindricas, lisas, de certo 
antigas; todavia ignoro a data. O que finalmente posso apurar de 
tudo isto é que no sitio da Moita houve uma estação ar eh ai ca, pro- 
vavelmente' pre-romana. (Nesta excursão acompanhou -me o meu 
amigo o sr. dr. João Baptista de Castro, de Mangualde). 



76 



tinha a metallurgia na Ibéria em tempos pre-romanos *, a 
origem peninsular do uso d 'este 2 , com quanto eu diga isto 
com todas as reservas, pois a ideia podia ter vindo de fora, 
e nada impede também que se admitta que a mesma des- 
coberta se fizesse independentemente em várias partes, e 
que logo em seguida se entabolassem relações commerciaes 
ou ethnicas entre países em que os objectos de cobre se 
patentei&o. 

Se ás vezes é difficil estabelecer de modo absoluto diffe- 
renças entre o período neolithico e o do cobre, nSo ê me- 
nos difficil dizer igualmente quando começa o bronze. O 
próprio Estacio da Veiga, que talvez no destrinçar estes 
períodos foi um pouco decisivo de mais, confessa lealmente 
que os artefactos de bronze, não obstante, em certos casos, 
acharem- se isolados, se ach&o também «associados aos de 
cobre e ainda algumas vezes àos de pedra» 3 . 

Nenhuma dúvida ha que o bronze pudesse ter sido traba- 
lhado na Península, pois que existem cá minas de estanho 4 ; 



1 Ella é apregoada por vários A A. antigos, por ex.: Estrabâo, 
III, ii, 8, etc. 

* Nas Communicaçoes da Commissâo dos trabalhos geológicos de 
Portugal, n, 119, publicou o sr. prof. Alfredo Bensaude uma Notice 
sur quelaues objets du Portugal fabriques en cuivrt, na qual, como 
no trabalho análogo, citado acima, p. 63, applica a analyse chimica 
á resolução dos problemas archeologicos. Diz elle: «II est permis 
d'affirmer, d'après ces analyses, qu'il y a une distinction à faire entre 
les objets de bronze et de cuivre» (p. 121). Depois de fallar da 
grande abundância de cobre nativo no nosso país, e de se referir 
aos trabalhos mineiros realizados entre nós em tempos pre-romanos, 
chega á seguinte importante conclusão : « Je ne crois donc pas que 
l'on so it force d'admettre la necessite d'une importation de cuivre 
à 1'époque des métaux et je nTincline à croire qu'une bonne partie 
des objets en cuivre et en bronze ont pu étre fabriques avec le 
cuivre de la Pén insule» (p. 123). 

3 Antiguidades tnonumentaes, iv, 169. 

* Já Estrabâo falia das minas de estanho no país «dos bárbaros 
acima da Lusitânia», e entre os Artabros, no extremo NO. da Lusi- 
tânia: Geographia, III, ii, 9. 



77 



todavia também se n&o podem negar as intimas seme- 
lhanças que existem entre muitos objectos portugueses 
pertencentes quer ao período do cobre, quer já ao do 
bronze, e objectos de países estranhos, — semelhanças que 
só satisfatoriamente se explic&o por communicações dire- 
ctas, devidas quer a importação, quer a exportação. A 
semelhança entre vários productos artísticos de Portugal, 
Hespanha, Sudoeste da França e Sul das Ilhas Brítannicas 
levou mesmo o sr. E. Cartailhac, em virtude de certas con- 
siderações que faz, a perguntar se haveria uma exportação 
de objectos de bronze da Ibéria para aquell'outros países *. 
As considerações theoricas que apresentei a cima, á cerca 
da possibilidade da metallurgia prehistorica no nosso pais, 
juntarei agora factos positivos: cies grandes haches à talon 
trouvés en groupes, — cachettes de fondeurs, trésorê de mar* 
chands, — sont souvent telles qu'elles sortaient du moule, 
avec leur culot, leurs bavures, et Tabsence de tout mar- 



Com relação á Hespanha vid. Cartailhac, Lts ages préhistoriqueê , 
p. 206. 

Com relação a Portugal, vid. as obras citadas acima, p. 74 
nota 1. Temos regiões estanniferas em Traa- os- Montes (as princi- 
paes), no districto de Viseu (também importantes), no districto do 
Porto e na Serra da Estrella. 

Sobre a fundição moderna do estanho vem no Catalogo da Secção 
de minas da Exposição Industrial de 1888 uma notícia curiosa, que, 
por poder dar ideia de usos primitivos, passo a transcrever: «Até 
á actualidade a lavra do estanho no país não tem sido productiva 
senão para os pesquisadores furtivos, principalmente gallegos, que 
atravessão a fronteira de Tras-os-Montes, excavão o solo aqui e alli, 
abrindo pequenas covas onde colhem o minério de estanho, vão 
fundi-lo a um sitio distante, e, tendo obtido um número suficiente 
de barras que lhe assegure um capital com que possão viver um 
anno, partem para a Hespanha a fazer a venda d'esse metal aos 
funileiros das aldeias, villas e cidades da GaUiza e Castella- a -Ve- 
lha» (Catalogo da Secção de minas da Exposição Industrial de 1888, 
p. 161). 

1 Les àgt$ préhiêtoriqucs, p. 241. — Cfr. também CompUrtndu de 
Lisboa, p. 829, e H. & L. Siret, Les permiers âge$, etc, p. 265. 



78 



telage» 1 . Estes esconderijos de fundidores, ou thesouros de 
negociantes, tem apparecido ás vezes no nosso país : Cartai - 
lhac dá noticia de alguns 2 , e depois d'elle o sr. Martins 
Sarmento 3 ; cfr. também Estacio da Veiga 4 . Os que por ora 
estão indicados referem-se tanto ao Norte como ao Sul do 
país. Talvez os doze machados chatos (se é que não ha 
exaggêro no número) achados na Cezareda, a que a cima 
me referi 3 , constituíssem outro esconderijo ou thesouro. — 
O que porém cá se não tem por ora encontrado, que eu 
saiba, são formas de fundição, que já se conhecem lá fora. 



As condições da existência, depois da applicação dos 
metaes á indústria, melhorarão consideravelmente. 

As nossas estações archeologicas offerecem-nos muitos 
objectos, ainda que não com a riqueza e variedade que se 
encontrão noutros países. 

Os objectos de cobre e bronze consistem principalmente 
em machados, enxós, lanças, espadas, etc. Muitos dos 
machados são singelos e reproduzem os moldes dos ma- 
chados de pedra 6 . As lanças reproduzem ás vezes o feitio 
de folhas de arvores vulgares. Os objectos de cobre e 
bronze encontrão se em todas as províncias de Portugal. 



1 76., p. 229; e vid. as est. 324 e 325, que representão instru- 
mentos de bronze do castro de Medeiros, em Montalegre, de que 
fallei a p. 55. 

* Ib., p. 220 e 221. 

3 In Revista de Guimarães, v, 157-158. 

* Antig. monument., m, 130 (refere-se ao districto de Leiria). 

* P. 72, nota 1. 

6 Cartailhac diz : «en Portugal, pas une seule des quarante haches 
en metal que j 'ai vues n'a le tranchant en biseau oblique deshermi- 
nettes en pierre si communes» (Lcs ages prehiêtoriques, p. 233); mas 
eu conheço, e até possuo, machados chatos de pedra, análogos a ma- 
chados chatos de metal. — Cfr. também R. Severo, Paleoethnologia 
Portugueza, 1888, p. 71 e 79. 



79 



Alem dos objectos de cobre e bronze temos também 
d' este tempo louças, e artefactos de osso. 

Não só o homem não engeitou o que do período prece- 
dente lhe podia servir, como também não aproveitou ape- 
nas o cobre e o bronze para a vida prática: com effeito 
elle tentou desde muito cedo reunir o útil ao agradável : é 
assim que nos restão anneis, braceletes, etc. (se é que não 
tinhâo ás vezes fins supersticiosos, ou outros), e muitos dos 
próprios instrumentos de uso são affciçoados com gosto; 
alem d'isso já havia, ao que parece, contas de vidro, e ás 
vezes o marfim, o ouro e a prata erão empregados como 
matéria prima de objectos artísticos *. 

Com relação a usos funerários praticava-se, como direi 
adeante, a inhumaçâo e a incineração; em todo o caso 
teve-se sempre em conta o respeito pelos mortos. Um fecto 
notável neste particular ó o depósito dos cadáveres em 
grandes vasilhas de barro' 2 . 

Como centros de população, devemos, pelo menos, consi- 
derar alguns dos muitos castros que nos restão, tanto em 
Portugal como na Galliza, segundo já foi dito a cima 3 , e 
que se parecem com os do SE. da Hespanha, e com outros 
de fora da Península. D'elles fallarei mais desenvolvida- 
mente na Parte II d'esta obra. 



Ao cobre e ao bronze succede o ferro como matéria 
prima da indústria, o qual dá o nome também a um período 
do ferro. 



1 Yid. Estacio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Algarve, 
m, 210 sqq. e 225 (refere-se a Alcalar, que o A. considera como uma 
estação de transição da pedra para os metaes). Cfr. ibidem, iv, 59, 
138 e 169, sobre os factos que o A. suppòe carecteristicos dos perío- 
dos do cobre e do bronze. 

* Vid. Estacio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Algarve, 
vi, 74-75. Os srs. H. & L. Siret indicâo no SE. da Hespanha factos 
análogos. Noutro ponto da presente obra tornarei a fali ar d'isto. 

3 P. 48 sqq. 



80 

Mas a civilização d' este período confunde-se por tal 
modo com a dos Tempos protohistoricos, a que já aliás 
a do período do cobre e a do do bronze em parte pertencem, 
que neste logar nfto me alongo mais á cerca do que a 
propósito d'ella e da dos outros dois períodos poderia ainda 
dizer, e reservo-me também para fallar d 'isto adeante, na 
Parte II. 



RELIGIÕES PREHISTORICAS 



Resumirei aqui, para mais clareza, o que fica exposto nas 
páginas precedentes. 

Ao período paleolithico succede o dos kjoekkenmoed- 
dings, em que ha factos que o ligâo ao paleolithico, como 
a grosseria de certos instrumentos e a ausência de cerâ- 
mica authentica, outros que o prendem ao neolithico, como 
as laminas trapezoidaes de sílice e certos instrumentos po- 
lidos ; o período neolithico, em certos pontos, mal se distin- 
gue também do dos metaes, porque em plena civilização 
da pedra apparecem a pouco e pouco as primeiras mani- 
festações metallicas, como industria nova. 

Devemos conceber os povos do primeiro período como 
extremamente selvagens: pobre gente, alimentando-se de 
caça e de pesca, usando fracos instrumentos de madeira e 
de pedra para a lacta e para os usos domésticos, desco- 
nhecendo a louça, e habitando em grutas, á maneira das 
feras. O segundo período, ainda selvagem, revela já alguns 
fulgores de civilização : o homem tem, ao que parece, vida 
um tanto estável, mora talvez em choças, conhece o lume, 
e possue vários instrumentos com certo apuro; todavia 
falta-lhe ainda o conhecimento da agricultura, falta-lhe a 
olaria, pelo menos a olaria digna d'este nome, e er&o 
míseras e mesquinhas as condições da sua existência. 

6 



82 



O que possuimos do primeiro e segundo período não nos 
indica que as nossas populações se distinguissem de popu- 
lações congéneres de outros países senão na grande rudeza : 
nada ha no nosso país que se possa comparar, no período 
paleolithico, ao esplendor do período magdalenense em 
França; os próprios kjoekkenmoeddings de Mugem, no 
valle do Tejo, são inferiores, em certos casos, aos tão 
célebres da Dinamarca. 

O período neolithico, pelo menos no seu começo, e em 
certas regiões, é ainda selvagem. O homem tem moradas 
humildes, e paramenta- se com collares de conchas e de con- 
tas grosseiras, como os povos atrasados. Mas o progresso 
é lei da humanidade, e por isso, e em virtude de novas 
ideias e talvez de novo sangue, este período avantaja-se 
em muito aos precedentes: apparece a olaria; os instru- 
mentos de pedra 'são mais variados, havendo alguns perfei- 
tíssimos; inicia- se, segundo se crê, a agricultura; os mortos 
recebem consagração monumental e dispendiosa, embora 
rude ; e para o fim do período vem pouco a pouco o metal 
a substituir a pedra, ministrando á industria novas applica- 
ções, e abrindo á intelligencia e á imaginação mais dilatado 
campo. 

As populações do nosso país, nos tempos neolithicos, es- 
ta vão, ao que parece, mais ou menos relacionadas entre si, 
no geral, pelo menos algumas : isto infere-se da identidade de 
certos productos artísticos, como, por exemplo, as placas de 
schisto, que apparecem numa larga zona; infere-se da exis- 
tência de centros industriaes, como, por exemplo, a serra 
de Cintra, que exportava artefactos para diversas partes ; 
infere-se ainda, até certo ponto, do exame osteologico. Toda- 
via não se pôde dizer que todas essas populações constituís- 
sem uma nação unida, e politicamente definida, no sen- 
tido moderno: antes o contrário é mais provável; nem 
se pede dizer. que a civilização neolithica tivesse um des- 
envolvimento uniforme. Por um lado as particularidades 
geographicas, altas montanhas difficúltando as communica- 
ções, e dando estabilidade á civilização dos habitadores 



83 



cTellas e dos dos seus valles ; rios, marcando limites, ainda 
que também estabelecendo ás vezes caminhos de com- 
mércio; aqui várzeas férteis, alem áridos desertos, mais 
longe, em comprida faxa, o mar com seu clima e seus 
productos; — por outro lado as variedades anthropologicas, 
raça de Mugem, dolichocephalos de Cascaes, etc. : tudo isto, 
com outras circumstancias ainda, se não separa completa- 
mente as populações do pais, imprime-lhes comtudo varie- 
dades, pois achamos, nuns sítios, como Palmella, em ter- 
reno rico, perto de rios navegáveis, uma arte cerâmica 
muito desenvolvida, e o uso de grutas artificiaes; noutros 
sítios, como a Figueira, a pobreza da louça e o uso das 
mamoínhas. 

Em todo o caso, na abundância dos objectos, na varie- 
dade das suas formas, e usos, nas difficuldades do lavor 
de muitos, depara-se-nos uma gente activa, emprehen- 
dedora, intelligente, mesmo artista, buscando de contínuo 
a melhoria de vida, e, o que é mais, apresentando por vezes 
um aspecto, que, tanto quanto se* pôde julgar, no estado 
actual da sciencia, contribuía para que, já em epochas tão 
remotas, e por isso mais primitivas, e de sua natureza mais 
uniformes, a Occidental praia lusitana offerecesse, em 
relação ao resto da Península, taes ou quaes peculiaridades 
suas, que, no decorrer dos séculos, n&o íizerão senão ir-se 
successivamente accentuando até hoje. 

Com o predomínio dos metaes, a condição das socieda- 
des primevas da Lusitânia melhora ainda mais, e estas, 
continuando, com as outras sociedades ibéricas, a revelar 
as suas aptidões para o trabalho, e abrindo, por meio das 
explorações mineiras e do cultivo do solo fecundo (o que 
tudo attrae á Península povos longínquos), uma rendosa via 
de commércio, entabolando. assim novas relações ethnicas, 
começão a entrar no que costuma commummente chamar- se 
vida histórica. 

Mas passarei já a occupar-me das religiões. 



CAPITULO I 

Religiosidade do homem paleollthíco 

Fallando do homem quaternário, e em especial do grande 
número de jóias, ou objectos de ornato, que se encontra- 
rão nas estações prehistoricas do período magdalenense 
(paleolithico), faz o sr. Gabriel de Mortillet no seu livro 
Le PréhÍ8torique, Paris 1885, as seguintes categóricas afir- 
mações : 

à) «Ce qui frappe au milieu de toutes ces pendeloques, 
c'est de ne rien trouver qui ait une physionomie d'amu- 
lette» (Pag. 475); 

b) «Les gravures et les sculptures, dans leur ensemble 
aussi bien que dans leurs détails, conduisent à la même 
conclusion, 1'absence complete de religiosité» (lb.)\ 

c)a....les religions, toutes, quelles qu'elles soient, 
enfantent, comme objets d'art, des monstruosités, des ano- 
malies, des non-sens .... Eh bien, il n'y a pas trace de cette 
aberration d'esprit, de ce dévergondage d'imagination dans 
tout Tart de Fépoque magdalénienne» (Pag. 476); 

d) «La première resultante de toute idée religieuse est 
de faire craindre la mort, ou tout au moins les morts. U 
en resulte que dès que les idées religieuses se font jour, 
les pratiques funéraires s'introduisent. Eh bien, il n'y a 
pas trace de pratiques funéraires dans tous les temps qua- 
ternaires» (Pag. 476). 



86 



D'isto conclue facilmente: 

«L/homme quaternaire était donc complèteinent dépourvu 
du sentiment de la religiosité» (pag. 476). 

A esta affirmação já me referi no meu Elencho das lições 
de numismática, Lisboa 1889, i, 21; como porém cila em 
parte vae de encontro ao que tenho de dizer adeante, e 
como o livro do sr. Mortillet, graças ao brilho da forma 
com que está escrito, e á universalidade da lingua francesa, 
é muito lido, retomo aqui a questão, desenvolvendo os fun- 
damentos que tenho para a não acceitar nos termos pre- 
cisos em que o illustre professor parisiense a formulou 4 . 

A) Amuletos. — Assevera o sr. Mortillet que não achou 
nada com physionomia de amuletos entre os objectos que 
pertencerão á gente da epocha magdalenense. Não devia 
porém elle asseverar isto, por quatro motivos : 

1.° — Porque nem todas as substancias de que o homem 
costuma fazer amuletos (e feitiços) são igualmente solidas 
e duradouras, podendo pois muitas ter-se destruido desde 
os tempos quaternários até hoje. Assim na Chaldeia e na 
Assyria usava-se o barro 2 ; no nosso povo um ramo de 
arruda livra de bruxarias 3 , como um ramo bento livra da 
influencia do raio, e o sabugueiro, o alho, etc., afugentão 
os espíritos malignos 4 ; no Alemtejo tenho visto amuletos 
de madeira. Embora algumas d'ostas substancias resistam 
nuns casos, não resistem em todos. 

2.° — Porque estamos muitas vezes na impossibilidade de, 
á vista de certos objectos, decidir se elles são ornatos, 
insígnias, amuletos, etc. Os povos da Lunda átão no braço 



1 «Controversy is always a thing to be avoided, but, in this par- 
ticular case, when a system opposed to the provalent method has to 
be advocated, controversy is unavoidable». À. Lang, Custom and 
Mythy London 1885, pag. 9. 

2 Perrot & Chipiez, Histoire de l'art, n, 332. 

3 Cfr. as minhas Tradições populares de Portugal, § 251-c. 
* Vid. ob. efe» % 248. 



87 



um fio com algumas contas grossas ou missangas, e tam- 
bém caroços, para afastarem malefícios * ; se o sr. Mortillet 
encontrasse estas contas na epocha quaternária, dizia igual- 
mente que erào enfeites, e comtudo são amuletos ! Ainda 
ha poucos dias comprei numa feira na Estremadura um 
furador e um gancho da meia, ambos de osso, e tendo um 
lavrada uma figa e outro uma mãozinha, com fins supersti- 
ciosos: ora eis ahi objectos de uso domestico, que ao 
mesmo tempo denuncião caracter religioso. Nas mesmas 
circumstancias estão, por exemplo, as cruzes de ouro que 
as mulheres trazem ao pescoço e os homens na corrente 
do relógio, as figas encastoadas, o annel da unha-da-grã- 
besta (de prata), etc., etc. Quem sabe também se qs crys- 
taes, os ossos gravados e as conchas que o sr. Mortillet 
descreve como pingentes quaternários *, entrarião em algu- 
mas d'aquellas categorias? Sobre as conchas invoco contra 
elle próprio outro trabalho seu, em que as considera como 
amuletos gauleses 3 : de maneira que num caso as conchas 
perfuradas da epocha magdalenense são jóias; no outro, as 
conchas igualmente perfuradas dos tempos gauleses são amu- 
letos! Não se vê qual fosse o critério invocado pelo sr. Mortil- 
let. Mas ha outra contradicção ainda mais flagrante no mesmo 
auetor. A pag. 396 sqq. de Le Préhistorique diz, em rela- 
ção ao homem quaternário: «Les pendeloques les plus ha- 
bituelles consistaient en dents percées à la racinei, ideia que 
completa a pag. 475: tToutes lespièces, percées pour être 
portées suspendues, s'expliquent et se justifient três bien 
comme bijoux». Affirma pois formalmente que os dentes 
com orifícios são puros ornatos. Em relação ao homem da 
epocha robenhausenense (neolithica), em cujos mobiliários 
achou dentes nas mesmas condições, escreve : «ces canines 



1 Major Henrique de Carvalho, Ethnographia t historia tradicional 
dos povos da Lunda, Lisboa 1890, pag. 357-358. 
* Ob. cit., pag. 397. 
3 Vid. Amulettes gauloises et galloromaines, Paris 1876, pag. 7 sqq. 



88 



étaient des trophées três glorieux ou plus probablement en- 
core des amulettes fort recherchées , qui se portaient constam - 
ment et se léguaient religieusement * » . E no citado opúsculo 
Amulettes gauloi&es et gaUo-rvmaines classifica, a pag. 7 
sqq., sem ter dúvida alguma, como amuletos dos Gallos, 
vários dentes perfurados de cavallo, lobo, cáo, porco e 
.castor. Porque é que num caso julga os dentes de um 
modo, e no outro, em circumstancias semelhantes, os julga 
de modo tâo diverso? — Na Escócia as crianças trazem coral 
ao pescoço, sem que aquelles que Ih 'os pendurão pensem 
já nas qualidades magicas e efficazes attribuidas ao coral 
por Dioscorides e Plínio *. No museu da Sociedade Archeolo- 
gica do mesmo país conservâo-se grãos de âmbar, que, se- 
gundo a crença popular, livravão da cegueira 3 . Nos nossos 
museus ha muitas placas de ardósia prehistoricas esculpidas, 
que, se podem ser meros ornatos e insígnias, podem tam- 
bém ser objectos de religião 4 . Agora mesmo é difficil 
distinguir, ás vezes, um amuleto moderno de um enfeite, 
como por exemplo os cordões de coral ; mas o sr. Mortillet 
quer encontrar, contra todas as regras. da crítica othno- 
graphica, uma distincção nítida nos tempos prehistoricos. — 
A vida antiga estava muito impregnada de ideias religio- 
sas: basta, por exemplo, ter leve conhecimento da archeo- 
logia e litteratura romanas para ver em quasi todos os actos, 
em quasi todos os objectos, estampada directa ou indirecta- 
mente a crença ; d'isto adeante, na secçSLo respectiva, tere- 
mos de ver algumas provas 5 . 

3.° — Porque muitos objectos, mesmo sem apparencia de 
amuletos, feitiços, ídolos, etc, podião sê-lo. Nos paragra- 
phos antecedentes citei casos que servem também de pro- 



i Oh cit., p. 563. 

* Simpson, Notes on some Scottish magicai charm stones, etc. Edinv 
burgo 1863, pag. 3. 

3 Simpson, ob. cit. f pag. 8. 

4 Sobre ellas vid. supra, pag. 69, e adeante. 

* Vid. p. 106-110, e notas. 



89 



vas aqui. Eis outros : os amuletos dos negros ou gris-gris 
«sont de toutes formes et varient depuis la simple coquille 
ou la corne d'un animal jusqu'à Tobjet le plus compli- 
que ! ». No museu da Sociedade de Geographia de Lisboa 
ha um objecto dos selvagens da Lunda assim descrito no 
respectivo catalogo : vnhanbua — chifre pequeno, cheio de 
sangue de um animal ; pendurado ao pescoço, livra de ar- 
relias o caçador» (n.° 20)*. Dos negros de S. Jorge da 
Mina diz João de Barros que tinhâo rochedos á beira-mar, 
adorados como deuses 3 . Na Escócia, se o pó que se raspe do 
crânio de um suicida for bebido, livra de certas doenças 4 , 
facto análogo ao que se dá em Portugal com relação a 
santos 5 . Certas pedras, lançadas á agua, imprimem a esta, 
segundo a crença escocesa, grandes virtudes curativas 6 . 
Um pedaço irregular de pedra d* ara goza de muitas pro- 
priedades magicas entre nós 7 . Das árvores diz Plinio: 
aFôrào ellas os templos das divindades, e ainda agora, em 
virtude de um rito antigo, os aldeãos simples consagrâo a 
um deus a melhor árvore 8 ». E que se não sabe á cerca 
das arvores sagradas de todos os povos? Quantas árvo- 
res sagradas não podia ter também o homem quaterná- 
rio? Em Roma uma lança represeutava Marte 9 ; uma 
pedra escura, de pouco peso, e face angulosa, era a Magna 



1 A. Maury, La Magie, etc., 1877, pag. 10-11. Sobre ob gris-gris 
do Senegal, vid. R. Basset in Mélusine, iv, 57 sqq. 

2 Cfr. também Eihnographia e historia tradicional dos povos da 
Lunda, pelo Major Henrique de Carvalho, pag. 358. 

3 Décadas da Ásia, ed. 1628, fls. 38 v., col. 1. 

4 Simpson, Notes one some Scott. mag. charm-stones (já cit.),p. 8. 

* Vid. os factos que juntei num artigo publicado in Revista Ar- 
cheologica, n, 1 15, onde porém sabiu, por erro typographico, Ervc- 
dal em vez de Cadaval. 

6 Simpson, ob. cit., p. 8-9. 

7 Vid. as minhas Tradições populares de Portugal, § 206. 

• Nat. Hist., XII, ii (i), § 1. 

» Preller, Rõmische Mythohgie, 1881, i, 338-339. 



90 



Mater do Ida 4 ! Porque é, pois, que o sr. Mortillet, que 
conhece por certo estes factos e outros análogos, se de- 
cide tão peremptoriamente pela irreligiosidade do homem 
quaternário ? 

4.° — Porque, comparando nós cora certos objectos mo 
dernos, positivamente amuletos, e com outros antigos, que, 
como sabemos pelas noticias litterarias, o erão também, 
muitas das relíquias prehistoricas, mesmo dos tempos qua- 
ternários, não ha razões para excluir totalmente d'ellas a 
ideia religiosa. Nos paragraphos precedentes citei factos 
em abono da minha proposição. Se nós hoje encontramos 
como amuletos nos selvagens e nos povos atrasados as 
conchas, os dentes e outros objectos com orifícios, que 
razões temos para negar em absoluto esse caracter a obje- 
ctos iguaes que pertencerão a phases sociaes ainda mais 
atrasadas que aquellas? Mais longe voltarei a este assumpto 2 . 

B) Gravuras e esculpturas. — O sr. Mortillet descreve 
no seu livro com certa miudeza a habilidade artística do 
homem da epocha magdalenense : vê-se que este se ser- 
via da pedra, do marfim, do osso e do chifre, e que tinha 
particular propensão para figurar ammaes, taes como reptis, 
aves, peixes e mammiferos, não deixando também de re- 
presentar vegetaes, etc. Mas, como o sr. Mortillet não 
encontrou «ni ronds concentriques, ni ronds centres, ni 
triangles», nem a cruz, infere que tal facto constituo «une 
des nombreuses preuves que les populatibns des temps 
géologiques n'avaient pas de culte, pas d'idées religieuses» 3 . 

Ora, em primeiro logar, uma crença religiosa não im- 
plica necessariamente a existência de objectos de arte : já 
noutro logar reuni vários dados bibliographicos para pro- 
var que alguns povos, em certo período do seu desenvol- 



1 Preller, ib., n, 55. 

2 Vid. adeante, p. 120 sqq. 

3 Le Préhistorique, pag. 415. 



91 



vimento religioso, não representarão, ou pelo menos tinhão 
pouca tendência para isso, os seus deuses por imagens 4 ; 
em segundo logar, como pôde asseverar o sr. Mortillet que 
certas series de linhas rectas, de linhas onduladas, «et au- 
tres conceptions de fantaisie», e muito principalmente os 
animaes, como o lobo, o urso, o cysne, etc, — o que tudo 
apparece na arte dos tempos quaternários — , não repre- 
sentao, pelo menos algumas vezes, ideias religiosas? Abun- 
dão os factos neste sentido em grande numero de religiões, 
que nos oíFerecem copiosos symbolos e animaes sagrados, 
como a respeito da Lusitânia veremos adeante. Alem d'isso, 
quem sabe se haveria também em madeira algumas d'es&as 
provas que o sr. Mortillet procura? EHe próprio confessa: 
«Le bois devait aussi três probablement être fort employé 
par les artistes de 1'époque magdalénieone. Pourtant, nous 
n'en avons pas Ia preuve certaine ; car le bois ne se con- 
serve pas et on n'en a jamais trouvé dans les stations re- 
montant aux temps géologiques. Nous ne pouvons jugor 
que par analogie, les peuples sauvages actueis taillant et 
sculptant três fréquemment le bois avec des instruments 
en pierre 1 ». Exactamente dos selvagens temos nós nu- 
merosos idolos ou manipansos de madeira; toda a gente 
os conhece em Portugal, onde, em virtude das nossas re- 
lações com a Africa, etc, ha muitos, — e muitos se podem 
ver, por exemplo, no museu da Sociedade de Geographià 
de Lisboa. Em Borneo havia idolos que consistião cen 
morceaux de bois ou de pierre, ou de dents de crocodiles 
creuses noramées pinjangs, ou en figurinos peintes suf des 
batons, ou en statuettes humaines taillées dans le liége» 3 . 
. Portanto, a conclusão do Sr. Mortillet, de que a arte 
magdalenense prova a ausência de religiosidade do ho- 
mem de então, é completamente arbitraria. 



1 In Revista Luritana, xi, 347. 

1 Le Préhistorique, pag. 414. 

' L. de Backer, UArchipel Indien, Paris 1874, pag. 222. 



92 



C) Monstruosidades da religião. — Segundo o Sr. Mor- 
tillet, a arte religiosa produz monstruosidades, contra-sen- 
808, aberrações de espirito; como não encontrou nada d'isto 
nos tempos quaternários, inferiu d'ahi que o homem não 
tinha crenças. Não me parece que o erudito professor fran- 
cês attendesse muito neste ponto á historia religiosa, pois 
que nem sempre esta revela na arte as aberrações que elle 
desejava observar nos tempos magdalenonses. As outras 
objecções que eu poderia aqui oppor ficão mencionadas no 
paragrapho precedente. 

D) Culto dos mortos. — Quer o Sr. Mor tillet que a pri- 
meira manifestação da religião fosse o temor da morte e as 
práticas fúnebres. Um compatriota seu, Fustel de Coulan- 
ges, diz também que parece que a religião da morte foi 
a mais antiga nos povos indo-europeus ! . Mas nenhum 
d'estes auctores reflectiu em que o homem, antes de morrer, 
viveu! Era pois natural que anteriormente aos deuses da 
morte, ou pelo menos contemporaneamente com elles, os 
deuses da vida attrahissem a veneração do espirito hu- 
mano. Sem embargo, Fustel de Coulanges, noutra passa- 
gem, fallando dos povos indo-europeus, e principalmente 
dos gregos e romanos, contradiz-se um pouco, pois, ao lado 
da religião da morte, põe a religião da natureza phjsica, 
6 diz não se saber qual appareceu primeiro 8 . Porque é 
que o homem temeu a morte, e não temeu por exemplo a 
trovoada, o furacão, o animal feroz? Para que dar prefe- 
rencia ao temor da morte, e pôr de parte, por exemplo, 
o temor ou a adoração de outros phenomenos naturaes? É 
erro querer buscar a origem da religião num elemento 



1 La cite antiquty 8.* ed., pag. 20 : «Cette religion des morta pa- 
rait être la pluô ancienné qu'il y ait eu dana cette race d'hommes». 

1 Rid.j pag. 137: «Deces deuz religions, laquelle fut la première 
eu date, on ne saurait le dire ; on ne saurait même affirmer que 
1'une ait été antérieure à 1'autre». 



93 



único : a natureza é muito complexa, e o homem está sempre 
dominado por ella toda. 

O não encontrar o Sr. G. de Mortillet sepulturas na 
época magdalenense ' não prova nada contra a existência da 
religião quaternária, pois o destino que o homem tem dado 
aos cadáveres dos seus amigos é muito variado, e nem só 
por túmulos, ou elles sejão como o de Mausolo, ou se limi- 
tem a uma rude anta, se manifesta o sentimento da religião 
da morte : os Bijagós e Nalúâ, tribus da nossa Guiné, cos- 
tumão enterrar os mortos dentro em casa, e por baixo da 
cama dos vivos 2 ; a um Muatiánvua defunto, na Lunda, 
«tiram-lhe os dentes, as unhas e os cabellos, e guarda-se 
tudo numa espécie de urna tosca de madeira, que vão de- 
positar numa casa em logar próximo á mussumba do Cala- 
nhi, a que chamam Anzai, e o corpo sepultam-no no leito 
do rio, o quinto affluente do Calânhi» 3 ; os magnates de Ma- 
taba (Lunda) são também sepultados nos leitos dos ria- 
chos 4 ; entre os Quiôcos (Lunda), «para os do povo é cos- 
tume, em qualquer sitio afastado das povoações, abrir uma 
cova pequena, e sentar nella o cadáver, ficando a cabeça 
e joelhos de fora, e aquelles que fizeram o enterramento, 
deitam em seguida a fugir» 5 ; os Uandas, na Lunda, co- 
mem a carne dos defuntos, e, de accôrdo com alguns dos 
costumes expostos, Ianção os ossos nos rios 6 . Não obstante, 
todos estes povos possuem crenças religiosas, e celebrão 
cerimonias fúnebres 7 . 

Está claro que, se os povos prehistoricos dos tempos 
quaternários tivessem estes ou semelhantes costumes, 



1 Pag. 480, etc 

1 M. de Barros, in Boletim da Sociedade de Geograpkia de Lisboa, 
1882, pag. 715. — Cfr. o que digo acima, pag. 48. 

3 Major Henrique de Carvalho, Ethnographia doe povos da Lunda, 
Lisboa 1890, pag. 512. 

4 Id., ibid., pag. 512. 

5 Id., ibid,, pag. 518. 

6 ld., ibid., pag. 514. 

7 Vi d. loc cít., passim. 



94 



o Sr. Mortillet, por maia que escavasse e por mais que 
inferisse, nâo encontraria c trace de pratiques funéraires»: 
portanto esta sua conclusão, como as outras discutidas, 
é destituída de fundamento solido. 



Ainda que os factos invocados pelo Sr. Mortillet se nao 
refutassem, como creio ter feito, elles erão insuficientes, 
pois os objectos materiaes não constituem os únicos ele- 
mentos que definem e determinão uma religião, em que ha 
também práticas, lendas, festas, fórmulas, etc, de que ne- 
nhumas informações directas possuímos em relação aos tem- 
pos prehistoricos, em que tudo isso podia existir. E quantos 
phenomenos e seres naturaes nâo caberiâo no quadro re- 
ligioso primitivo, sem o homem os representar figurada- 
mente, — taes como os ventos, as tempestades, os montes, 
os rios, e outros muitos? As religiões dos povos selvagens 
ministrâo d'ieso numerosos exemplos. Era igualmente pos- 
sível o culto das grutas, como succedia na America 4 . 

A questão proposta pelo Sr. Mortillet, de que o homem 
quaternário nâo tinha crenças, é análoga a est'outra, que 
ha hoje povos sem religião alguma: opinião defendida por 
Lubbock*, mas refutada por Gr. RoskofF 3 , em apoio de 
quem veiu também Réville. 4 



1 A. Réville, Les religions du Mexique, etc., 1885, p. 336. Cfr. o 
que digo acima, pag. 46. 

2 nhomme préhistorique (trad. francesa), 1876, p. 526 sqq. 

* Das Religionswesen der rohesten NaturuõUcer, Leipzig 1880. As 
principaes conclusões do auctor sao as seguintes : Ainda se não 
encontrarão povos sem vestígio de religiosidade ; a origem d f esta 
deve principalmente procurar-se nas leis e condições do desenvol- 
vimento da natureza humana (vid. p. 178 e 179). 

* Prolégomenes de Vhistoire des religions, 1886, p. 46, etc. ; 
Les religions des peuplts non-civilisés, i, 1883, 10 sqq. 

£ cfr. também em opposiçâo a Lubbock : Quatrefages, L'espkce hu- 
tnaine, 1877, p. 349 sqq.; Tylor, La civilisalion primitive, i, 484-493. 



95 



Dada de mais a mais a circumstancia da civilização 
relativamente adeantada dos homens magdalenenses, custa 
a crer que taes homens fossem desprovidos de sentimentos 
religiosos. No dizer do Sr. Mortillet *ces hommes, peu 
nombreux, n'avaient pas à se combattre entre eux: la 
gucrre était inconnue .... Ils aimaient et admiraient la na- 
ture. II est donc tout simple qu'ayant des loisirs, ils aient 
fait leurs efforts pour reproduire cette nature le plus fidè- 
lement possible. Cest ce qui les a conduits à représenter 
divers animaux avec une extreme vérité». 4 Pondo de parte 
o que este poético quadro possa ter de phantasioso, so- 
mente se conclue de taes palavras, e de vários capítulos 
do elegante livro do Sr. Mortillet, que na época magda- 
lenense as bellas-artes, — a esculptura, a gravura — , e a 
industria tinhão certo desenvolvimento. 

A natureza despertava pois emoções artísticas nas almas 
destes homens; mas elles, ainda que em todos os povos 
historicamente conhecidos, por mais atrasados e rudes 
que sejão, o sentimento religioso apparece sempre em maior 
ou menor grau, terião ficado completamente fora do circulo 
da crença: «sans idées religieuses, de folies terreurs ne ve- 
naient pas troubler et pervertir leur imagination»*! Sin- 
gulares almas, que, ao contemplarem os grandiosos pheno- 
menos do universo, sabião já evocar ideaes tão levantados, 
tão brilhantes e tão próprios do homem, ao mesmo tempo 
que por outro lado jazião na sombra, rebaixadas ao nível 
do bruto animal feroz ! 

O resultado a que se chega, depois do exame que acaba 
de ser feito da theoria do sr. Mortillet, é que NÍo temos 

ELEMENTOS BASTANTES PARA PODERMOS AFFIRMAB SCIEN- 
TIPICAMENTE QUE O HOMEM DA EPOCHA PALEOLITHICA NlO 

possuía religião ; antes, pondo em confronto com a civi- 
lização d'essa epocha tudo o que sabemos á cerca das reli- 



1 Le Préhistorique, p. 601. 

2 Le Préhistorique, p. 601. 



9G 



gtôes históricas, quer nos povos selvagens, que são os mais 
vizinhos dos prehistoricos, quer nas classes menos cultas 
dos povos civilizados, antigos ou modernos, somos levados a 
uma supposição inversa da d'aquelle auctor. 

A religião, como todas as instituições humanas, teve 
princípios humildes, simples. Não se chegou repentina- 
mente á concepção de divindades como Zeus ou Mercúrio. 

O homem primitivo, com a sua imaginação fecunda e a 
sua ignorância das leis que regulão os phenomenos physicos, 
tinha tendência para considerar como outras tantas indivi- 
dualidades humanas, embora sui generis, tudo aquillo a que 
elle attribuia movimento ou vida, — a ágoa, o vento, a nu- 
vem, o astro, a planta, o animal, o lume, a sombra fugi- 
dia. . .; mal differençava o sonho da realidade, a morte do 
sonho ou do deliquio, a vida da morte; attribuia muitas 
vezes á simples successão no tempo uma relação necessária 
de causalidade; tomava não raro o nome pela cousa no- 
meada : d'aqui resultou o povoar o universo de entidades 
superiores e mysteriosas, da vontade das quaes julgava que 
elle próprio e a natureza estãvão dependentes em certos 
casos, e as quaes por isso precisava de invocar ou de es- 
conjurar, conforme as circumstancias. É isto a religião. 

Assim, primeiramente constituirão matéria religiosa as 
cousas naturaes, consideradas como conscientes, ainda que 
sem nellas se estabelecer distincção nítida entre corpo e 
espirito (Naturalismo elementar); depois acreditou-se na 
existência individual de espíritos (Animismo), uns, da Natu- 
reza, outros, meras divisões da pessoa humana, — espíritos 
que ora andavão soltos pelo espaço (Espiritismo), ora se 
fixavão em certos objectos (Feiticismo). Ao que accrescen- 
taremos a concepção dos amuletos e dos symbolos ! . 



1 Estas ideias sobre a natureza, origem e classificação das reli- 
giões podem ver-se mais desenvolvidamente nos seguintes A A : 

Tiele, Manuel de Vhi$toire de* rtligions (Paris 1885), — e cfr. do 
mesmo A. o artigo Religion*, in Encyclopaedia Britannica, vol. xx, 
1886, s. v. ; — A. Réville, Prolégomenes de Vhistoire des rtligions 



97 



A faculdade religiosa não constitue apanágio do homem 
primitivo, — é de todas as civilizações e epochas ; mas nelle 
tinha grande intensidade. 

* 

Comprehende-se que pobres sociedades, como erão as 
nossas quaternárias da Cezareda e da Furninha, descritas 
acima, possuissem crenças religiosas muito elementares. 

Para o homem primitivo os seres divinos, innumeros 
quasi como as impressões da alma deante do espectáculo 
da vida, multiformes e cambiantes como os aspectos dos 
phenomenos naturaes e da actividade psychologica humana, 
devião apresentar-se de modo bastante complexo, obscuro, 
indeciso e até ás vezes contradic tório. As ágoas que davSo 
peixes e mariscos, ou que, num impeto de tempestade, 
inundavão a miserável cabana em que elle costumava abri- 
gar-se; as arvores cheias de pomos frescos e saborosos; 
o urso e a hyena, cahindo de improviso e com fúria sobre 
a criancinha que dormia, entroixada em pelles ou hervas 
sêccas, num recanto, ao sol: erão outras tantas entidades 
formidandas e sobrehumanas, ante as quaes o selvagem 
estacava aterrado ou grato, convulso de raiva ou sorridente 
de gôso, mas nas quaes não distinguia outros attributos 



(Paris 1886); Les religions des peuples non-civilisés (Paris 1883, 
2 vol.), Les religions du Mexique (Paris 1885); — Conde Goblet d'Al- 
viella, Vidée de Dieu (Paris- Bruxelles, 1892). Obras excellentes, 
escritas com amplidão de vistas, e em que se attende á vida dos 
selvagens e dos povos atrasados para se chegar ao conhecimento das 
religiões antigas. 

Neste sentido veja -se também Andrew Lang: Custom and Myth 
(Londres 1885); La Mythologie (Paris 1886); e Myth, Ritual and 
Rtligion (London 1887), 2 vol. Sem embargo, as theorias funda- 
mentaes de Andrew Lang não devem ser levadas ao extremo. 

O animismo foi estudado com muita largueza por Tylor, Pri- 
mitive culíure, 2 vol., obra anterior aqueloutras. Sirvo -mo aqui da 
traducção francesa (Paris 1876-1878). 

Já na obra do prof. Otto Pfleiderer, Die Religion, ihr Weaen und 
ihrt Gesckichte, Leipzig 1869, vol. u pag. 41-42, pe lé o seguinte : 



98 



alem d'aquelles de que elle, pelos sentidos, recebia conheci- 
mento directo e immediato; pois não sabia ainda estabelecer 
abstracções profundas. 

Como das mais antigas epochas da nossa história nos 
não restão factos sufficientes que nos habilitem a tirar de- 
ducçSes positivas e práticas, applicadas ao caso presente, 
só pelo raciocinio se poderia comprehender qual seria a 
religião de então, e ainda assim de modo extremamente 
genérico. Não insisto por isso mais nesse ponto, conten- 
tando-me com ter deduzido a possibilidade da existência de 
uma religião quaternária miúto simples; porquanto, o que 
adeantava eu em suppor que, visto que os homens da 
Cezareda vivião num monte, e os da Furninha á beira-mar, 
teria o mar e os montes um logar assignalado no quadro 
da religião, ou que, se esses homens se assemelhavão aos 
selvagens mais atrasados que conhecemos, acreditarião, 
por exemplo, que por imprecações se poderia serenar uma 
tempestade, ou por offerendas fazer que uma árvore se 
expandisse em flores e fruetos? 



«A phantasia desprovida de reflexão não vê, porém, em todos os 
phenomenos e cousas da Natureza, nem objectos, corpos ou formas 
sem alma, nem meras manifestações regulares das forças mechani- 
cas, mas vê em tudo o que vive analogias com a própria vida 
humana, isto é, alma sensiente, consciente e voluntária, e considera 
todos os phenomenos como resultado de acção consciente e volitiva ; 
numa palavra, a phantasia personifica toda a Natureza, e principal- 
mente as grandes forças e espheras naturaes elementares. O que 
actualmente é feito pela poesia artística, com inteira consciência 
da não- realidade do que ella representa, fazia* o nos tempos primi- 
tivos a phantasia involuntária e inconsciente, e por isso mesmo 
também crendeira, da humanidade ainda na infância». 

No campo da bibliographia portuguesa posso citar como traba- 
lhos de caracter geral os seguintes livros e opúsculos : 

Sy8tema dos mythos religiosos, por Oliveira Martins, Porto 1882 ; 

O animismo em jeral, etc, por Vasconcellos Abreu, Lisboa 1889 
(folheto) ; 

Bosquejo da historia da religião dos aryas do Oriente, — prelimi- 
nares — , pelo mesmo (folheto Hthographado). 



CAPITULO II 

A necrolatria nos kjoekkenmoeddings 

A respeito dos kjoekkenmoeddings, cuja civilização ó 
pouco superior á paleolitliica, podem até certo ponto fazer-se 
considerações análogas ás que fiz no capitulo antecedente ; 
todavia, como agora temos alguns factos reaes, ainda que 
poucos, quero limitar-me a elles. 

Conforme disse acima 4 , nos kjoekkenmoeddings encontrá- 
rSo-se esqueletos, dispostos do maneira que fazem crer que 
houve inhumação regular, e não que forSo atirados para 
alli á toa *. Erào muito numerosos ; só no museu da Com- 
miss&o Geológica existem, ao que parece, restos de uns 
duzentos 3 . 

Aqui está um primeiro facto que notar: o respeito aos 
mortos. 



* P. 31. 

2 «Lee squelettes se trouvaient presque toujours conchos sur le 
dos, ayant le trone étendu horizontal em ent et les membres plus ou 
moins courbés, les genoux se montrant souvent rapprocbés du visage 
à cause de la flexion des jambes. Les bras quelquefois étendus, 
les mains 8*appuyant sur le bassin ou sur les cuisses ; quelquefois 
courbés, les mains placo es sur la poitrine ou prós de la tête» (Paula 
e Oliveira, in Communicaçoes da Commissão Geológica, n, 73). — Esta 
posição é, segundo nota o A., a que toma um cadáver quando o lân- 
çâo pelos pés e pelas mãos numa cova pouco espaçosa (ib n lò.J. 

3 Paula e Oliveira, ih., ib., p. 71. 



100 



Com os esqueletos apparecêrão productos de indústria *, 
encontrando-se os instrumentos de silex sempre em maior 
número ao pé d'elle8 *. Isto repetia-se tanto, que os obrei- 
ros encarregados do desentulho dos montículos, quando 
vião apparecer sílices, dizião logo que nSo tardarião a 
apparecer também esqueletos 3 . 

E esse o segundo facto que notar. 

Escreve Paula e Oliveira: «Je ne conserve aucun doute 
sur le caractere intentionnel de ce fait, lequel revele chez 
nos sauvages un sentiment de piété pour les morts, et 
probablement déjà la croyance à une existence future» 4 . 
A crença de que o homem tem alma, e de que elle, mor- 
rendo, vae viver outra vida, alem do tumulo, parece-me 
que não basta, só por si, para implicar uma ideia religiosa. 
Conseguintemente, por nós vermos os homens prehisto- 
ricos honrar os mortos, recolhendo-lhes os restos em se- 
pulturas especiaes, ou, como se dirá mais adeante, em 
grutas e em túmulos, e collocando-Ihes ao pé, para a fu- 
tura existência, os objectos que nesta lhes servirão ou pu- 
dér&o servir 5 , não devemos concluir absolutamente, só por 
isso, que nos tempos prehistoricos havia o culto dos mor- 
tos ; mas, como em geral a esta veneração pelos que falle- 
cêrão andão em todas as epochas, de que temos noticias 
directas, associados sentimentos sem dúvida alguma reli- 
giosos, é natural que nos tempos prehistoricos também 
succedesse assim, e seja por tanto legitima a conclusão de 
Paula e Oliveira á cerca da necrolatria, ou culto dos mor- 
tos, no período dos kjoekkenmoeddings, conclusão que 
acceito. 

Na necrolatria, o culto pôde dirigir- se aos mortos, quer 
deificados quer não, ou aos deuses a favor d'aquelles. 



1 Id., ib., ib., p. 70. 
* Id., ib., ib., p. 73. 

3 ld., ib. f ib., ib. 

4 Id., ib., ib., ib. 

b Vi d. este livro, supra, p. 33, e adeante, no cap. m. 



101 



Os mortos deificados, ÇDii Manes, 0£oi yfiòviGC) recebi&o 
offerendas, já para protegerem os vivos, já para os n&o 
avexarem. Sabe-se que os Gregos c os Romanos acredita- 
vão que as sombras dos mortos que não recebião honras 
fúnebres ficavão na terra a vaguear durante certo tempo, 
sendo as honras fúnebres destinadas a dar-lhes paz 4 . No 
próprio catholicismo se reza pelas almas dos mortos, tanto 
para que Deus lhes dê bom logar, como para que ellas 
peção a Deus por nós. Nas religiões antigas e nas primi- 
tivas os defunctos venerados são sobretudo os antepassa- 
dos, os quaes se tornão assim deuses protectores da familia 
* e da tribu. 

Com relação ainda aos nossos kjoekkenmoeddings, direi 
que o rito fúnebre parece deduzir-se também de que o 
local do enterramento comprehende. apenas uma parte do 
montículo, pouco mais ou menos metade 2 : local que na 
verdade ficava sendo um campo santo. 



1 Homero, Odysseia, xi, 72 sqq.; Vergilio, Eneida, vi, 325-330. 
Sobre este assumpto vid. também : 

Fustel de Coulanges, La cite avlique, Paris 1880, p. 15 sqq. ; 
Bofiinais & Paulus, Le culU dcs morts, 1893, p. 135 sqq. 
* Paula e Oliveira, loco laudato, p. 74. 



CAPITULO III 

Ideias religiosas no período neolithico 

O período neolithico succede ao paleolithico, tendo ser- 
vido o dos kjoekkenmoedding8 como que de intermédio. 

Algumas das considerações theoricas que apresentei a 
propósito do período paleolithico tem pois agora, em rela- 
ç&o ao neolithico, applicaçâo prática; e neste período vamos 
achar também um desenvolvimento do pouco que notámos 
nos kjoekkenmoeddings. 

I. Culto da Natureza. A Lua. 

Collocado no seio do Universo, e dependente de tudo o 
que o cercava, era muito natural que o homem neolithico, 
comquanto já socialmente tão longe do homem primitivo, 
mas ainda desprovido, ou quasi desprovido, do conheci- 
mento das leis physicas, divinizasse a Natureza, rezando- 
lhe ou amaldiçoando -a, fazendo lhe oblatas, ou oppondo-lhe 
amuletos e fórmulas magicas. Tudo o que sabemoB das 
crenças dos selvagens, das religiões antigas e das super* 
stiçSes populares nos auctoriza a suppor isso. 

O ceu, com o esplendor da sua luz e a variedade e im- 
portância dos seus phenomenos, attrahiu logo muito cedo 
a attenção dos homens. 



104 



Dos astros, a lua, pelo contraste brusco que estabelece 
entre as trevas e a luz, foi, segundo A. Réville, o que 
«primeiro cativou a vista, e estimulou a imaginação do 
homem-criança» *, supposição que tem também a seu favor 
o achar-se o culto lunar muito espalhado, e principalmente 



1 A. Réville, Les religiovs des peuples non-civilisés, n, 226. 

Cfr. também Oliveira Martins : «Não foi o sol, diz Spiegel, que 
chamou a attençâo do selvagem. O ceu nocturno, cujas luzes con- 
trastam com a escuridão da terra, impressiona muito mais a imagi- 
nação ingénua. Entre as luzes do ceu, a lua domina pelo tamanho, 

pela originalidade das suas phases O culto lunar é o primitivo, 

o solar é posterior.» (Sy&tema dos mythns, Lisboa 1882, p. 62). Como 
se não cita a obra de Spiegel, perguntei ao meu amigo di\ Vas- 
concellos Abreu, visto ser orientalista (como Spiegel), se a conhe- 
ceria : elle disse- me possuir a Erânische AUerthumskvnde, d'onde 
me enviou o seguinte trecho (vol. u, p. 705, 1873): «Klar ist 
jedoch, dass auch (der Mond) hauptsàchlich deswegen verehrt 
wird, weil er ein lichter Kõrper ist. . . . wird ihm und seinem Lichte 
hauptsàchlich das Wachsthum der Pflanzen zugeschrieben» (trad. : 
«é todavia claro que também a lua foi adorada principalmente por 

ser um corpo luminoso a ella c á sua luz foi principalmente 

attribuido o crescimento das plantas»). 

Ainda sobre a prioridade do culto da lua se lê o seguinte na 
obra de Goldziher, Mythology among the Hebrews and its histórica! 
development, London 1877, p. 72 (trad. do aliem ào), obra cuja indica- 
ção devo também ao meu amigo dr. Vasconcellos Abreu : « . . . . in 
the order of génesis the worship of the night-sky, inclusive of that 
of the moon, preceeds that of the day-sky and sun» (trad.: «com rela- 
ção ao culto do ceu nocturno, comprehendendo o da lua, precede 
elle o do ceu diurno e o do sol»). 

T. Harley diz igualmente: «It seems to be generally admitted 
that no form of idolatry is older than the worship of the moon» (i. é : 
«parece admittir-se geralmente que nenhuma forma de idolatria é 
mais antiga do que a adoração da lua»), c cita vários AA. para o 
provar entre os quaes o referido Goldziher. Vid Harley, Moon Lore, 
London 1885, p. 89 e 90. 

A cerca da possibilidade da existência do culto lunar nas popu- 
lações lacustres, vid. Anselmo de Andrade, As popidações lacustres, 
Lisboa 1882, p. 82 sqq. (mas cfr. também Joly, Uhomme avant les 
métaux, Paris 1879, p. 306). 



105 



nos povos mais atrasados, como os Negros, os Hottentotes, 
os habitantes da Califórnia, os Australios, etc. *. Ainda 
que em assumptos doestes seja sempre difficil estabelecer 
primazias, nâo se pode porém negar a antiguidade e gene- 
ralidade d'este culto. 

Juntamente com vários objectos pertencentes ao período 
neolithico, taes como instrumentos de silex, vasos de barro 
grosseiro, etc, encontrou Carlos Ribeiro numa sepultura 
prehistorica no sitio da Folha das Barradas, dentro da 
quinta regional de Cintra, um curioso objecto de calcareo 
subcrystallino, representado na fig. 1 com dois terços do 
tamanho natural : uma das suas faces é convexa ; a outra 
é plana. A face convexa está ornamentada, como se vê 
na fig. 1. Objectos análogos a este, cujo destino se ignora, 
mas que não podem ser armas, como queria Carlos Ribeiro*, 
encontrou-os o mesmo illustre geólogo nas antas de Bel- 
las; nelles porém a ornamentação, quando a tem, limita-se 
a sulcos mais ou menos parallelos 3 . 

Na ornamentação do objecto da Folha das Barradas 
parece entrar, como se vê, o disco lunar. Já Carlos Ribeiro 
disse também : «notamos que um dos baixos relevos escul- 
pidos na parte convexa .... muito se assemelha ao cres- 
cente» 4 . 



1 Réville, ib., n, 226. 

Sobre o culto da lua em geral vid. T. Harley, Moon Lore, 
London 1885, c particularmente o cap. ii, intitulado Moon Worship 
(p. 77 sqq.). 

Sobre o culto da lua na Africa em especial, vid. também : Fr. João 
dos Santos, Ethiopia Oriental, liv. iii, cap. xix; A. Alvares de Al- 
mada, Tratado breve dos rios de Guiné, etc, Porto 1841, p. 19; 
Ratzel, Las razas humanas (trad. do allemâo), Barcelona 1888, i, 148. 

Na Parte II da presente obra terei de me oceupar outra vez do 
culto lunar. 

2 Cfr. também E. da Veiga, Antiguid. mon. do Algarve, iv, 98. 

3 Carlos Ribeiro, Etludos prt históricos em Portugal, ii, 39, 40 
c 83. A estampa que dou no texto é tirada do livro de C. Ribeiro, 
Gg. 87 (p. 83). 

« Ob. ciL, p. 83. 



101.» 



Teremos aqui o vestígio de um culto prestado á lua 
pelos nossos antepassados neolithicos? ' 
A hypothese apresenta-se tanto mais 
scductora quanto é certo que o disco 
se destaca elegantemente no meio do 
objecto, como que num logar de honra. 
Sem dúvida este caso pertence a 
classe d'aquelles em que se torna diffi- 
cil distinguir entre symbolo e mero or- 
nato ; como porém, pelas razoes geraea 
expostas a cima, o culto da lua nos 
nossos avós neolithicos niio tem nada 
de absurdo ; como este culto ha de 
deparar se-nos, sem sombras de dú- 
vida, na epocha seguinte, em alguns 
povos peninsulares; como nos selvagens 
as representações artisticas, e princi- 
palmente as representações especiaes 
como esta, tem de ordinário um fim 
prático, e nem sempre um fim uni- 
camente estethico*: a hypothese de que 
neste objecto ha um symbolismo do 
culto lunar é perfeitamente legitima. 
Indicarei ainda uma coincidência no- 
tável: nos tempos protohistoricos, como 
direi adeante, a serra de Cintra (ou 
Sintra), ao pé da qual foi achado o 
objecto de que estou tratando, tinha, 
ao que parece, o nome de Serra da 
Lua. O culto d'esse astro viria assim 
s prehistoricos ? Da epocha romana temos 



1 Eatacio da Veiga, Antiguidade» monumentaei do Algarve, iv, 98, 
igualmente formula esta hypothese, mas sem a justificar. Elle com- 
para com o mesmo objecto outros de Mafra e do Algarve, que porém 
me nSo parecem comparáveis. 

1 Aqui transcrevo, para prova, algumas importantes observações 



107 



também da região cintrã inscripçòes consagradas ao Sol 
e á Lua; mas aqui o culto é de immediata procedência 
romana. 

O facto de se não terem encontrado mais representa- 
ções symbolicas da lua não obsta á hypothese que tenho 



geraes, feitas por especialistas competentes, como são Lang, Goblet 
cTAlviella e Katzel : 

O selvagem «imita a natureza em danças, cantos ou arte plás- 
tica, com uma definida intenção prática. As suas danças são danças 
magicas, as suas imagens sào feitas com intuito magico, os seus 
cantos sâo eusalmos. Assim a theoria de que a arte é uma expres- 
são desinteressada da faculdade imitativa difficilmente se pôde 
apoiar no pouco que sabemos dos começos da arte. Adoptaremos 
provisoriamente a hypothese de que a mais antiga arte de que temos 
noticia é a dos selvagens contemporâneos ou ex ti netos». Andrew 
Lang, Cuêtom and Myth (2.* ed.), London 1885, p. 276. 

« . . . j'avoue ne pas croire beaucoup aux préoecupations pure- 
ment esthétiques des sauvages. Tout chez eux a un but pratique, 
même Tart et la religion». C u Goblet d'Alviella, LHdét de Dieu, 
Paris-Bruxelles 1892, p. 20. 

Tamboril Ratzel diz que nos povos no estado natural «la religión 
abarca la filosofia, la ciência y la poesia, y que dadas estas circuns- 
tancias, queda mucho por suponer y por investigar en este ter- 
reno». Las razas humanas (tia d. do allemâo), Barcelona 1888, t. i, 
p. 21. 

Estas observações combinào com o que escrevi a p. 38-40 á 
cerca da arte do homem neolithico português. £ claro, porém, 
que, se a arte selvagem fosse única e exclusivamente prática, as 
bellas-artes nunca teriâo nascido, porque a humanidade começou 
pelo estado selvagem ; havemos então de admíttir que, dentro da 
esphera do útil, preoccupaçâo principal do selvagem, a faculdade 
esthetica ia pouco a pouco desenvolvendo-se, e nascendo assim a 
arte propriamente dita. A necessidade obrigava, por exemplo, o 
homem a fazer um púcaro de barro, o qual, com tanto que tivesse 
certa capacidade, satisfazia ao seu fim ; mas, com a experiência do 
mundo, começava a intervir o gosto e a imaginação, e em breve já 
nfto bastava que o objecto fosse só concavo, exigia-se que fosse 
também sy métrico, airoso, elegante (cfr. supra p. 59). A princípio 
o uiile sobrepuja o dulce; é só muito posteriormente que este se 
colloca a par d aquelle, e ás vezes por seu turno o supplanta tam- 
bém, nascendo então a arte pela arte. 



108 



sustentado. Se num caso, como este, o symbolo se salvou, 
por o objecto ser de calcareo, elle perdia se inevitavel- 
mente logo que fosse frágil a substancia escolhida, por 
exemplo madeira. Hoje é muito vulgar trazerem as crian- 
ças uma meia lua como amuleto : se a maior parte das 
vezes o amuleto é de metal, osso ou marfim, ás vezes 
também é de madeira, como um que possuo na minha 
collecção ; escolhi de propósito para exemplo este amuleto, 
por estar faltando da lua, mas os casos sâo numerosos 
(cfr. supra, p. 86). E 
que admira também que 
de idade tao remota, 
desde os tempos prehis- 
toricos, se conservasse 
até o presente um só 
objecto d'esta espécie? 
NSo se poderá dizer 
com facilidade, admit- 
tida a hypothese de a 
figura ser realmente do 
disco lunar, e repre- 
sentar um culto, qual 
era a forma do culto, e 
porque motivo o Bjm- 
bolo apparece naquelle 
objecto. 

*•*• * Neste terreno escor- 

regadio das Bupposiç3es 
n£o quero, pois, ir mais adeante; todavia, ainda que o 
objecto não seja, em bí mesmo, também cultual, por exem- 
plo um symbolo phallico, mas fosse uma insígnia ou tivesse 
qualquer applicaçSo prática, podia receber em si, com 
intuito religioso, a imagem da lua. 

Eis aqui, na tig. 2, um pouco reduzida, a cópia de uma 
lucerna ou candeia romana, de metal, existente na secção 
archeologíca da Bibliotheca Nacional de Lisboa, e onde se 
vê o disco lunar, um dos emblemas de Diana. 




109 



Muitos exemplos análogos se podem juntar: não tem 
também algumas espadas os copos em forma de cruz? 1 

Para terminar este capitulo á cerca da lua, quero ainda 
tocar numa classe de factos que se ligão com os prece- 
dentemente estudados. 

Para muitos povos selvagens, os astros, como o sol e a 
lua, são pessoas humanas e tem a sua história (mythos). 



1 Nesta ordem de ideias escreve 6. Roskoff: «Para se adquirir 
opinião justa á cerca das concepções religiosas de um povo selva- 
gem, é necessária observação larga e rigorosa de seus costumes 
e usos, e principalmente de todo o seu modo de viver. Com effeito, 
os elementos religiosos nem em todas as raças se crystallizárão 
num culto divino, mas estão muitas vezes encobertos por estranhos 
usos e costumes, que á primeira vista não offerecem nenhuma con- 
nexão com a religião, mas ainda assim se contém latentes, sendo 
necessário primeiramente pô-los em evidencia». Das Religionswesen 
der rohesten Naturvõlker, Leipzig 1880, p. 12. 

Já um auetor hespanhol do século xv, Fernandez de Oviedo, 
conta o seguinte na Historia general y natural de las Índias, islãs 
y Tierra* Firme dei mar oceano, a propósito de Çemi, divindade dos 
indigenas, á qual elle chama diabo: «Y ésles tan soçiable é comun, 
que no solamente en una parte de la casa lo tienen figurado, mas 

aun en los bancos, en que se assientan Y en madera y de barro 

y de oro, é en otras cosas, quantas ellos pueden, lo esculpen y en- 
tallan, ó pintan» (Ob. cit., ed. de Madrid, de 1851, vol. i, 125-126). 
O A. frisa a ideia um pouco adeante : «En esta Islã Espafiola çemi, 
como he dicho, es el mismo que nosotros llamamos diablo ; é tales 
eran los que estos Índios tenian figurados en sus joyas, en sus mos- 
cadores, y en las frentes é lugares que he dicho, é en otros muchos, 
como á su propóssito les paresçia ó se les antojaba ponerle» (Ob. 
cit., ib., p. 126). — Ahi estão bellos exemplos de objectos que pode- 
rião ser tomados como exclusivamente artísticos, e que nâo obstante 
continham intuitos religiosos. 

O referido auetor, descrevendo as tatuagens, diz : «E aun en la 
Tierra- Firme, no solamente en sus ídolos de oro y de piedra y de 
madera, é de barro, huelgan de poner tan descomulgadas y diabó- 
licas imágenes, mas en las pinturas que sobre sus personas se po- 
nen (teiiidas é perpetuas de color negro, para quanto viven, rom- 
piendo sus carnes y el cuero juntando en si esta maldita efígie), 
no lo dexan de haçer» (06. cit., p. 126). — Poderia juntar muitos 
exemplos das tatuagens de outros países : basta porém notar que 



110 



As manchas, phases e eclipses da lua explic&o-se de dif- 
ferentes maneiras. Segundo os Esquimós o sol e a lua erão 
irmãos 1 ; a ideia de parentesco encontra-se noutros povos 8 . 
Para alguns povos (por exemplo os Khasias do Himalaya) 
as manchas da lua resultâo de cinza atirada á cara do astro ; 
muitas vezes isto provém de despeitos de amor 3 . Entre as 
tribus indigenas da índia pensa-se que o sol, esposo da 
lua, a cortou em duas partes por ella lhe ter sido infiel 4 . 



ainda hoje em Portugal se acha como elemento de tatuagem a re- 
presentação religiosa,— a Virgem, Christo crucificado, etc; tenho 
observado muitos exemplos, e alguns se podem também ver no opús- 
culo do sr. Rocha Peixoto, A tatuagem em Portugal, Porto 1892, p. 22 
sqq. (e respectivas estampas). 

Como é sabido, o nosso povo considera a ferradura do pé es- 
querdo de um animal como amuleto. Este amuleto vê-se frequente- 
mente pregado nas portas das casas, quer do lado de dentro (por 
ex. em Lisboa), quer mesmo do lado de fora (por ex. no Porto, — • 
em certas ruas mais afastadas do centro da cidade, onde eu as 
observei muitas vezes), . — com o fim de evitar que o mal entre em 
casa. No Minho as tecedeiras pendurâo uma ferradura também nos 
teares, por causa do seguinte, que eu ouvi contar a uma tecedeira 
nos arrabaldes de Guimarães: Se qualquer pessoa que tem má 
Madura a deitar para o tear, estala o fio, e até mesmo a lança- 
deira pôde saltar ; estando porém a ferradura no tear, a pessoa olha 
para ella, e nào pôde fazer mal, ou mesmo, por virtude da ferra- 
dura, pode nem sequer olhar. (Estas ideias explicâo-se melhor pelo 
que digo adeante, p. 114-118). O facto mais curioso que desejo 
contar, e que se relaciona com tudo quanto tenho dito, é que a 
ferradura, ao mesmo tempo que serve de amuleto, pôde servir de peso 
do tear. Estamos pois deante de outro caso em que a superstição 
se não pôde distinguir da vida prática. 

Combinem-se todos esses factos com o que disse a cima, p. 107, 
nota, e com o que digo adeante, p. 125, nota. 

1 A. Lang, Afyth, fíitual and Religion, vol. i, London 1887, p. 129. 

2 A. Réville, Les religions des peuples non-civilisés, i, 220 (selva- 
gens da America); Les religions du Mexique, etc, p. 304 (Incas). 

3 A. Lang, Myth, Ritual and Religion, vol. i, London 1887, p. 129 ; 
e Txi Mythologie, Paris 188G, p. 183. — Também na mythologia grega 
temos os amores de deusas lunares com deuses. 

4 A. Lang, Tm Mythologie (já cit), p. 180 e 181. Cfr. do mesmo A. 
Myth, Ritual and Religvn, p. 132 e 133. 



111 



Os eclipses da lua sito ás vezes attribuiclos a luctas (Teste 
astro com o sol '. 

Ideias semelhantes a estas se encontrão ainda hoje no 
povo português : compendici-as no meu livro Tradiçdis 
populares de Portugal. O sol é também irmão da lua. As 
manchas forão produzidas por cinza (terra, areia, etc.) que 
o sol atirou á cara da lua, após uma altercação sobre a bel- 
leza dos dois, ou sobre requebros de amor. A lua está 
constantemente a ser retalhada. Nos eclipses o sol batalha 
com a lua 2 . 

Estas ideias são actualmente uma supervivencia de tem- 
pos antigos, de quando o povo que primeiro as concebeu 
se achava num estado de espirito análogo ao dos selva- 
gens. Viriâo ellas para Portugal em virtude de alguma 
influencia dos diversos povos históricos que tem pisado 
por vezes esta terra, ou, atteuta a grande tenacidade com 
que em geral as tradições se conservão, remontâo directa- 
mente ás epochas em que os nossos avós vivião naquelle 
estado de selvageria, isto é, remontâo ás epochas prehisto- 
ricas ? 

II. Amuletos e objectos congéneres, etc. 

Em virtude dos princípios geraes que enunciei a cima 
sobre a origem das religiões, a crença em amuletos é 
muito natural, porque o homem, ao ver-se rodeado de 
seres malfazejos, busca sempre oppor-lhes resistência ; e, 
se o homem culto não vae além dos meios physicos, o 
inculto, pelo contrário, não deixa de recorrer aos meios 
que elle julga sobrehumanos e mysteriosos. Ora o amu- 
leto é de ordinário um objecto (portátil) dotado de virtu- 
des maravilhosas contra o mal. Ainda que ás vezes um 
amuleto possa não ser propriamente religioso, no emtanto 



1 A. Lang, Myth, Ritual and Rtligion, p. 132. 
* Vid. Tradiyxs popvlareê, Porto 1882, p. 4-ti. 



112 



suppoe de ordinário a crença, real ou extincta, em seres 
sobrehumanos, cujos effeitos destroe ; ou por cuja influencia 
actua; em todo o caso está sempre tão ligado com os 
objectos rigorosamente religiosos, que, ainda quando a 
independência d'elle seja como tal reconhecida, mal se 
poderá separar da religião. 

Uns amuletos devem a sua efficacia á natureza intima 
da sua substancia ; outros ao aspecto exterior (feitio e cor), 
outros juntamente á forma e á essência. Ha-os puramente 
naturaes, tirados de qualquer dos três reinos, e ha-os que 
são fabricados pelo homem. 

E só pelo estudo dos amuletos modernos e dos que 
conhecemos pela litteratura antiga que comprehendere- 
mos os amuletos prehistoricos. 



Desde o momento que se creia na virtude mysteriosa 
de certas pessoas e de certos animaes, crê- se também, 
pelo princípio de que a parte ás vezes representa o todo, 
que um órgão ou um fragmento de órgão pôde conter as 
mesmas virtudes que a própria pessoa ou animal a que 
elle pertence, sobretudo se o órgão é aquelle em que se 
cuida que a virtude principalmente reside. 

Os Cafres, por exemplo, trazem no collar um osso de 
carneiro, uma unha de leão, um pé de milhafre, para terem 
a dureza do osso, a força do leão e a rapidez do milha- 
fre 1 ; os índios da America do Norte comem, antes de 
partirem para o combate, certas partes dos animaes, segundo 
as qualidades que querem adquirir, v. g., o coração do cão, 
para serem corajosos, a carne do castor, para serem ma- 
treiros e astuciosos, etc. * ; os Romanos acreditavão que a 
cabeça sêcca de um morcego, trazida como amuleto, dissi- 



1 Réville, Les religioru des peupUê non-civilisés, i, 153. 

2 C. Vogt, in Compte retidu do Congresso de Bruxellas, p. 309. 



113 



pava o somno *, talvez por o morcego ser um mammifero 
nocturno, e se suppor que o phenomeno do somno está em 
connexâo intima com a cabeça, equivalendo pois o trazer 
«uma cabeça que não dorme» a trazer realmente comsigo 
uma causa de insomnia. 

9 

As vezes basta o simples contacto do objecto virtuoso 
para se aproveitarem as virtudes d'elle, evitando- se assim 
o trazer este ou um seu fragmento : terra da sepultura de 
S. Torpes, em Sines *, trazida ao pescoço, livra ou livrava 
de sezões 3 ; um fragmento de pedra d' ara, trazida da 
mesma maneira, livra de diversos males 4 . 



Tem-se também muita fé com certos objectos de natu- 
reza igual á do objecto que se quer conjurar, ou da parte 
que se quer defender : assim, uma pedra de raio livra dos 
accidentes do raio 5 ; os antigos suppunhão que os cálculos 
biliares podiâo curar doenças do fígado 6 ; para as dores da 
bexiga aconselha um medico do século xvni, como remédio 
prontíssimo, a bexiga do porco montês, feita em pó, e dada 
em caldos de gallinha 7 ; «a madre ou o oveiro da gallinha, 
sêcco e deitado dentro no útero da mulher que tiver pur- 



1 Daremberg & Saglio, Dictionnaire des antiquités grecques et 
romaines, s. v. amuletum, p. 254, col. 1. 

* Cfr. este livro, supra, p. 21. 

3 Vid. Lis Velho, Vida do glorioso S. Torpes, 1746, p. 159. 

Em algumas terras suppõe-se que, se se tomar o pó que se raspe 
de um penedo de virtude ou de uma imagem de santo feita de pedra 
ou feita de outras substancias, se curão as sezões : vid. o meu artigo 
«Antiguidades de Carquere» in Revista archeologica, u, 115. (Neste 
artigo, por erro typographico, sahiu Ervedal em vez de Cadaval). 

Exemplos iguaes ou análogos vede -os em H. Gaidoz, La rage et 
St-Hubert, Paris 1887, p. 203 sqq. 

* Tradições populares de Portugal, § 206. 

* Tradições populares de Portugal, § 146 ò. 

* Daremberg & Saglio, ob. cif., p. 254, col. 2. 

* Curvo Semedo, Polyanthea medicinal, trat. u, cap. ci, § 15. 

8 



114 



gações, Ih 'as tira» 1 ; o coração da perdiz cura a «paixão 
cardíaca» 9 ; o nosso povo costuma trazer numa bolsinha de 
chita, pendurada ao pescoço, o maxillar inferior do ouriço 
macho (Erinaceus EuropaeusJ, para evitar dor de dentes 3 ; 
a mesma receita se apphca ás crianças como meio pro- 
phyllatico contra os accidentes da dentição 3 . 

Estes factos podem interpretar-se de duas maneiras, 
conforme os casos: 

a) Em primeiro logar, em relação aos objectos que se 
trazem juntos ao corpo, ou applicaJta (para me servir de 
uma designação usada na antiga hygiene), suppondo-se 
que na origem se cria que a acção do espirito mau, pro- 
ductor da doença ou do raio, iria exercer-se* naquelles 
objectos, seus affins, em logar de se fixar no homem ou 
nos objectos pertencentes a este. Temos* assim, no uso do 
amuleto, um como caso do que a velha medicina chamava 
derivação e revulsão. O nosso povo, no Alemtejo, também 
costuma pendurar ao pescoço das crianças uma pequena 
medalha christã rodeada de pedrinhas de eôr, encrava- 
das, porque aé crença que o espirito malévolo, preten- 
dendo atacar a criança, fixa-se numa das pedras, e esta, 
partindo-se, talha o mal» 4 . Nesta superstição, que nos 
leva aos tempos manifestamente animisticos, a connexão 
entre as pedras e o espirito mau não é clara, mas devemos 
ver aqui um echo inconsciente de uma epocha em que, 
por qualquer circumstancia, essa connexão era e Afectiva- 
mente clara. Nas mesmas circumstancias estão as super- 



1 Id., ib., ib., ib., §16. 

2 Id., ib., ib., ib., § 18. 

3 A. Thomás Pires, in O concelho de Elvas deVicto # rino d'Almada, 
. v. amuletos, p. 497. — Também encontro num médico do sec. xvm : 

«o queyxo de bayio do ouriço cacheyro trazido ao pescoço sus- 
pende os fluxos de destillicidio que fazem as dores de dentes». 

Curvo Semedo, Polyanthea medicinal, tract. n, cap. ci, § 20 (e cita 
casos de observação sua). — Ofr. o que digo adeante, p. 133. 
« Vid. A. Thomás Pires, in ob. cit., p. 497 e 498. 



115 



stições citadas pelo prof. Wuttke ', que cebolas e cer- 
tos animaes podem attrahir doenças para si ; ficando livres 
destas os homens 1 . 

b) Em segundo logar, quanto aos objectos que se inge- 
rem, ou ingesta, suppondo-se que o órgão assimilado vae 
de algum modo substituir ou fortificar o órgão doente, 
como nos exemplos de Curvo Semedo, ha pouco citados. 
Análogos a estes exemplos do empirismo grosseiro e a priori 
podem effectivamente citar-se casos comprovados pela phy- 
siologia e pela experiência, como os de Brown-Séquard 
a respeito da injecção subcutânea de certos sucos de ori- 
gem animal 3 , e os bem conhecidos da transfusão sanguí- 
nea, ou introducção de sangue no systema circulatório, 
onde vae desempenhar funcções estimulantes, etc. 

Casos haverá porém que sejão difficeis de distinguir, 
como succede com o exemplo dos cálculos biliares. O povo 
tem muitas tendências para confundir factos, que, embora 



1 Der Deutsche Volksaberglaube, Berlin, 1869. 

9 • . . . man hfiogt sie [a cebola] auch in die Stube iiber die Thtir, 
damit sie (aber nur ein Jalir lang) die Krankheiten an sich ziehe». 
Ob. át., % 127. 

«Nfichstdem gibt es manche Thiere, welche wie ein Magnet die 
Krankheiten an sich ziehen und dadurch gewõhnlich selbst krank 
wcrden ; der Kranke braucht dann meist weiter nichts zu thun, ais 
das Thier in seiner Nflhe zu haben». Ob, cit, § 485. 

3 «Avons-nous raison de rire de Tcmploi alimentaire des te 8 ti - 
cules d'animaux pour guérir 1'impuissance, lorsque les récents resul- 
ta ts de la méthode de Brown-Séquard nous montrent que le sue des 
testículos, du corps thyroíde, du pâncreas, injectes à un homme, 
produisent chez lui les effets physiologiques qui sont propres au 
testicule, au corps thyroíde ou au pâncreas?». A. Bordier, Supersti- 
tions médicales, in Revue mensueUe de VEcolt d'anthropologie, m, 44. 

Este assumpto foi tratado desenvolvidamente por Ch. Éloy no 
livro intitulado La méthode de Brown-Séquard, Paris 1893. 

Posto que nem todos os médicos dêem completo assentimento ao 
methodo de Brown-Séquard, este A. ministra factos de observação 
physiologica e clinica muito importantes, e ha casos positivos de 
cura do myxedema por injecções de sueco thyreoideu. 



HG 



.semelhantes, erão originariamente distinctos. £ mesmo ás 
vezes podia dar-se uma generalização: a principio, v. g., 
certo org&o ou substancia, que se ingeria, tinha virtudes 
por algumas das razões que dei; depois ligava-se só im- 
portância, não ao facto da ingestão, mas ao objecto inge- 
rido, tendo-8e por certo que tanto faria ingerir este como 
trazê-lo comsigo. 



Por causa da tendência que o espirito humano tem para 
estabelecer relação entre a forma e a essência das cousas, 
comprehende-se que, quando o homem não puder obter o 
objecto magico ou sagrado, ou um fragmento d'elle, recorra 
a uma simples imagem *. 

Ha nas crianças uma doença convulsiva que o povo 
attribue aos effeitos da lua 2 , — supervivencia provável de 
uma epocha antiga em que se acreditava que era o espirito 
da lua que, por meio do luar, penetrava no organismo 
infantil e o molestava; o povo, para evitar os maus effeitos 
do astro da noite, pendura ao pescoço das crianças uma 
figura (de metal, marfim, madeira, etc.) representando um 



1 Cfr. o meu Elencko das lições de numismática, Lisboa 1889, i, 22 
(Moeda8-amuletos); e O Goblet d'Alviella, Vidée de Dieu, Paris- 
Bruxelles 1892, p. 121 e 122. 

2 Tradições populares de Portugal, § 35. — Já um medico do 
sec. xviii dizia : «Huma advertência muito necessária, e principal, he, 
que nào ponhâo ao luar as roupas e panos com que os mininos se 
vesttre, porque os rayos e luz da Lua por meio dos ditos panos fa- 
zem nocivas impressoens nos meninos, sobre os quais tem este Pla- 
neta muito domínio». Fonseca Henriques, Medicina Lusitana, Porto 
1750, p. 101. — Para provar os maus effeitos da lua cita outros mé- 
dicos e observadores, já portugueses, já estrangeiros, e até da anti- 
guidade, como Zacuto Lusitano, Sennerto, Galeno, etc. Entre esses 
effeitos figurão as convulsões e «accidentes epilépticos* (que pro- 
vavelmente os médicos confundião ás vezes com outras convulsões 
symptomaticas, e com as convulsões essenciaes da infância ou eclam- 
psia). 06. cit., p. 101 e 102. 



117 



crescente : neste caso o espirito da lua buscará de prefe- 
rencia a sua própria imagem para se alojar ou para actuar, 
e deixará em paz o innocente infante *. 

Esta explicação, que acabo de dar, recebe confirma- 
ção nas crenças vivas de outros povos, por exemplo, os 
Chaldeus e Assyrios, que, attribuindo as doenças a espí- 
ritos representados sob a forma de animaes phantasticos, 
púnhâo á beira dos palácios esculpturas de monstros, 
para que os espíritos maus se fixassem alli, e não no corpo 
humano *. Comprehende-se também assim a crença antiga, 
indicada por Plutarcho, de que as figuras ridículas das 
mascaras attrahiâo a si os olhares fascinantes, e os afasta- 
vão das pessoas que tinhão recorrido a esta espécie de 
escudo 3 : é que, não podendo ser produzido o mau olhado 
senão por olhos pertencentes a caras hediondas, horríveis, 
iria o effeito d'esse mau olhado fixar-se naturalmente, por 



1 A meia-lua, ou lunula, era também um amuleto infantil nos 
Romanos: cfr. Dictionnaire des antiquités rom. et grecques de A. Rich 
(trad. fr.), Paris 1861, s. v. crepundia e lunula- — Muita gente 
suppÒe que o nossso amuleto da meia-lua tem origem árabe; mas, 
como se vê, clle pôde remontar bem mais alem. 

* Goblet d'Alviella, Uidée de Dieu, p. 122. E citão-se lá AA. 
que trazem exemplos análogos. Pela minha parte citarei também os 
seguintes : 

Adolf Wuttke, Der Deutsche Volksaberglaube, Berlin 1869, § 127 
(cebolas penduradas sobre a porta attraem para si as doenças) e 
§ 485 (animaes que também attraem o mal para si); 

e F. Byron Jevons, Plutarch'8 JRomane Questions, London 1892, 
introd., p. lxxviii-lxxix e nota (a respeito da Ásia). Este A., por 
uma curiosa coincidência (pois o meu texto está composto antes de 
eu ter lido aquella obra), dá do amuleto da lua uma explicação se- 
melhante á minha: «O espirito da lua manda doença ou apodera-se 
da pessoa que está «lunática» ou «aluada» (i. é., moonstruck). Mas 
o espirito pôde ser enganado, e entrar para um objecto, em forma 
de lua, trazido pela pessoa atacada». — Esta explicação, como a 
minha, deduz-se sem difficuldade realmente da exposição de factos 
como aquelles que cito no texto e nas notas. 

3 Cfr. Eevue Archéologique, x, 583. 



118 



attracção, na mascara que era tão semelhante á cara de 
onde elle emanava 1 . 

De outro modo haveria uma contradicçâo palpável: pois 
quer-se evitar o raio, c guarda-se em casa uma apedra de 
raio»? quer-se evitar a influencia funesta da lua, e traz-se 
um amuleto com a forma lunar? £ assim por deante. 

Isto succede principalmente quando o amuleto actua, 
fixando o espirito malévolo (ou detendo a sua acção); mas 
o amuleto pôde actuar, repellindo-o, por exemplo o alho. 
A primeira classe pertencem igualmente os amuletos em 
forma de nó, o qual prende o mal 2 . Á segunda classe 



1 Podem ver- se in Mélusine, ir, 448, outros factos (dos povos 
semíticos e da Itália), que entrâo na categoria aqui por mim eipli- 
cada. 

2 Mas o nó, na magia, pôde também ter por fim deter um espi- 
rito bom, que defenda quem o traz comsigo. 

Sobre o uso do nô na magia vid. o seguinte : 

em relação á antiguidade clássica, R. Heim, Incanlamenta magica 
graeca latina, Lipsiae 1892, § 75 e nota respectiva ; 

em relação á Allemanha, A. Wuttke, Der DeuUche Volksaber- 
glaube, Berlin 1860 (Índice, 8. v. Knoten); 

em relação aos Eslavos, Tiele, Manuel de Vhistoire des religions, 
Paris 188õ, p. 262; 

em relação a outros povos do Norte, um artigo in Mélusine, ir, 
184, onde se falia de nôs mágicos que, desatados, produzião, como 
os odres de Eolo, vento e tempestade [deve inferir-se cTaqui que 
os nós retinhâo presos os espíritos da atmosphera] ; no mesmo logar 
se citão mais as obras seguintes a propósito do assumpto : Deutsche 
Mytliologie de J. Grimm, 2.* ed., vol. i, 006 ; e Sagen aus Schlatwig 
de Mullenhoff, p. 222 e 225. 

No referido jornal, Mélusine, vi, 137 e 138, ba também uma 
allusão do sr. II. Gaidoz á importância do nó como amuleto. 

Em Portugal, o nó magico é ainda reconbecivel nas ficas com que 
se costumão atar os cornichos na testa dos bois, cavallos, burros, 
etc. As fitas são de ordinário vermelhas, embora as possa haver 
de outras cores (verdes, etc). A côr vermelha, segundo a crença de 
certos povos, goza de virtudes magicas. No supracitado costume 
português o effeito é pois triplice, porque provém do comicho, do nó 
das fitas e da côr d'estas. — A significação da côr e do nó creio que 
está hoje perdida, ou quasi, no nosso povo, pois tenho geralmente 



119 



pertence em certo sentido uma cruzinha que muitas pes- 
soas, como tenho visto, trazem comsigo, ligada ao mesmo 
tempo com uma figa, um comicho, etc, attribuindo por 
igual a cada um destes objectos virtudes magicas *. 



ouvido dizer que as fitas são para enfeite, e que qualquer cor serve : 
todavia o predomínio da côr vermelha, e o facto de muitíssimas 
vezes se porem na testa ou ao pescoço dos animaes somente fitas, 
sem mais objecto algum a que o povo attribua os poderes sobrena- 
turaes que attribue ao comicho, levão-me a admittir, como disse, 
que as fitas e a sua cor sâo vestígios de crenças mais antigas. 

1 O nosso povo colloca muitas vezes a par do Christianismo as 
suas crenças pagãs. Eis mais alguns factos que tenho observado, 
e que não admittem objecção. 

Aqui em Lisboa é vulgarissimo ver o seguinte nas cangalhas em 
que anda a frueta a vender em burros : uma ferradura (amuleto), um 
eino-saimâo pintado, uma cruz pintada*, dando-se frequentemente o 
caso de a cruz vir ao pé dos outros dois ou de algum d*elles. — Uma 
vez um homem da Estremadura disse-me que elle costumava pôr 
nos seus campos, para os livrar do mal, ou uma cruz de madeira, 
ou uma armação de carneiro, pois, segundo elle cuidava, qualquer 
das cousas produzia o mesmo effeito. — Possuo dois amuletos em 
forma de meia-lua, um de prata, outro de chumbo, contendo o pri- 
meiro a inscripção 1. Ai. I. (Jesus, Maria, José), e o segundo a 
inscripção 1. H. S. (Jesus Hominum Salvator) : aquelle é um pouco 
antigo, e obtive-o no concelho de Avis; este é moderno, e obtive-o 
numa feira do Cadaval. — Em Guimarães, entre outras, adquiri uma 
fôrma de chumbo de um dos precedentes amuletos, onde se lê : J M L 
(com a ultima lettra ás avessas, para fazer symetria com a primeira) ; 
o que mostra que o amuleto não é especial do Sul.— No Algarve 
comprei a uma velha um annel metallico, que operava nella, por 
suggestão, para a cura de certas nevralgias, o qual foi começado em 
4.* feira de trevas, continuado em 5.* feira santa, e acabado em 6.* 
feira, amuleto que tem o nome de anntl da enxaquèta (enxaqueca). — 
Na mesma província costumão mergulhar na pia d 'agua benta os 
amuletos infantis denominados lá, e também noutras provindas, 
arrdiquts, — Eis aqui bellos exemplos do syncretismo pagão e chris- 
tão. O povo julga reforçar a virtude dos amuletos com a virtude 
das fórmulas e cerimonias da Igreja, attribuindo o mesmo valor 
áquelles e a estas. 

Factos análogos se dão noutros países : Cartailhac, por exemplo, 
cita do território de Ehl, uma «pedra de raio», conservada num 



120 



A) Amuletos constituídos por dentes 

Com a ordem de ideias que estou estudando liga-se a 
veneração que muitos povos prestão aos dentes de homem 
ou de animal, chegando elles até a trazê-los comsigo como 
amuletos. 

Vejamos rapidamente alguns exemplos pertencentes a 
differentes países e epochas. 

Os Romanos acreditavão que o guerreiro que trouxesse 
ligado ao braço um dente de hyena não deixaria nunca de 
acertar no alvo, quando lançasse os dardos *. Os dentes 
tinhão também para os Romanos muita importância na 
medicina empírica 2 : o primeiro dente que cahia a uma 
criança, com tanto que não tocasse no chão, possuia pro- 
priedades singulares, e trazido sempre no braço, engastado 
num bracelete, livrava de doenças uterinas, podendo mesmo 
impedir que as mulheres concebessem 3 . Um dente de lobo 
livrava do medo e dos accidentes da dentição as crianças; 
trazido ao pescoço de um cavallo tornava-o infatigável 4 . 
Outros dentes, como os de toupeiras, etc, gozavão também 
de virtudes contra os accidentes da dentição 8 . 

Sem nos afastarmos da Itália, mas já em tempos mo- 
dernos, o que não impede que estejamos deante de super- 



cofre com imagens da Virgem, uma cruzinha, etc, e cita, dos 
Abruzzos, uma ponta de setta prehistorica que andava ao pescoço 
de uma criança juntamente com verónicas (Vage de pierre datis 
les 80uvenir8 et superstitions populaires, Paris 1877, p. 17 e 40). 
Da Itália também Bellucci cita outros exemplos (Catalogo deUa 
collezione di amuleti, Perugia 1881, n.° 9, etc.). 

1 Daremberg & Saglio, Dictionnaire dts antiquités grecques et 
romaines, 8. v. amidetum, p. 254, col. 1. 

2 lid., loc. laud. — E vid. PJinio, Nat. Hist., liv. XXVIII, cap. 
xxv, xxvu, xxviii, xxxi ; e cfr. também ibid. o cap. vm. 

3 Daremberg & Saglio, loc. laud. 
1 lid., loc. laud. 

* lid., ib., p. 254, col 2. 



121 



stiçSes provindas da antiguidade, encontramos muitos 
outros exemplos da crença em amuletos feitos de dentes. 
Num opúsculo do sr. Giuseppe Bellucci mencionâo-se vários 
dentes de animaes (de porco e de lobo), usados pelas 
crianças em Spoleto, Fojano e Perugia, para obterem 
bons dentes e boas gengivas 1 . Na Calábria acredita-se 
que um dente de animal, penetrado dç um orifício, e sus- 
penso ao pescoço das crianças, é seguro preservativo con- 
tra os accidentes da dentição 2 . Nas províncias napolitanas 
o povo conserva muitos dentes fosseis como amuletos con- 
tra certas doenças, e as crianças trazem-nos ao pescoço 
para se livrarem do mau olhado 3 . O sr. Gabriel de Mortillet 
também falia de dentes de porco trazidos ao pescoço pelas 
crianças em diversos logares da Itália, tendo elle mesmo 
comprado um em Reggio d'Emilia para o museu de Saint- 
Germain 4 . O sr. Giuseppe Pitrè diz que na Sicília se crê 
que um dente de javali, encastoado em prata, é efficaz 
contra bruxedos 8 . 

Na Allemanha é vulgar o uso de dentes como amuletos : 
contra a dor de dentes traz-so um dente de potro, ou um 
dente humano que se arrancou, ou um dente de homem 
morto ; contra a gotta um dente de toupeira, etc. 6 . 

Na Bohemia o dente de um cSo preto preserva de hy- 
drophobia 7 . 

Na Irlanda, segundo um Á. do século xvn, usava- se 
como amuleto um dente canino de lobo, encastoado em 



1 Catalogo delia collezione di amuleti inviata alV Esposizione na» 
zionale di Milano 188í } Perugia 1881, n.°» 154-157. Cfr. ainda os 
n." 116, 122, etc. 

* Broca, in Bevue d^Anthropologie, vi, 207. 

3 Compte-rendu do congresso de Bolonha, Bologne 1873, pag. 40. 

4 Amultltt8 gauloises et galto-romaines, Paris 1876, pag. 10. 

5 Mostra etnográfica siciliano, (Esposizione nazionale di Palermo 
1891-92), Palermo 1892, p. 78, § 218. 

« Wuttke, Der Deutsche Volksaberglaube, Berlin 1869, §§ 185, 
526, 534, etc. 

7 H. Gaidoz, La rage et tf-Hulert, Paris 1887, p. 12. 



i 



122 



prata ou ouro 4 . Nos North Hants (Inglaterra) um dente 
tirado da boca de um cadáver humano, e trazido em volta 
do pescoço, num saquinho, preserva de odontalgias quem 
o traz 8 . 

Em Portugal, a superstição com os amuletos feitos de 
dentes é bastante vulgar, e já antiga. Nas Constituições 
synodaes do arcebispado de Évora, de 1534, manda-se 
que não se a traga comsigo dente, nem baraço de enforcado, 
nem qualquer outro membro de homem morto» 3 ; a liga- 
ção das phrases mostra que o dente de que se trata era 
de enforcado. Comparável a isto ó o que diz Curvo Se- 
medo, medico do sec. xvm: «Hum dente de defunto que 
morrer de pura velhice, sem frio, nem febre, tocando 
em qualquer dente que doer, o faz cahir, sem ferro e sem 
violência» 4 . Agora em relação aos dentes de animaes. 



1 John Aubrey, Remains of Gentilisme and Judaisme, 1686-87, 
edited and annoted by James Britten, London 1881, p. 115 e 204. 

2 William George Black, Folk- medicine, London 1883, p. 98. 

3 F. Adolpho Coelho, Ethnographia portugueza, § 128 (in Boletim 
da Sociedade de Geographia de Lisboa, 1880, p. 428). — A propósito 
do baraço, cfr. Plinio, Nat. Ilist., XXVIII % xi e xu. 

* Polyanthea medicinal, tract. n, cap. ci, § 26. 

Com esta receita do nosso crendeiro medico, que elle talvez 
colheu da tradição popular, como tantas outras, é comparável a 
seguinte superstição escoceza : Quem for a um cemitério, na occa- 
sião em que se está abrindo uma cova, e pegar numa caveira, em 
cuja queixada haja dentes, e com os próprios dentes arrancar um 
da caveira, sara da odontalgia (Waltcr Gregor, Notes on the Folk- 
Lore of the North- East of Scotland, London 1881, p. 48). — Cfr. 
também W. G. Black, Folk- Medicine, London 1883, p. 98, que citei 
numa das notas antecedentes. 

Nos Remains of Gentilisme and Judaisme de John Aubrey (sec. 
xvii), edited and annotated by James Britten, London 1881, cita- 
se um texto de Plinio (Nat. Hist., XX VIII, n[i]), em que este 
diz, segundo a auctoridade de Apollonio, que é bom na odontalgia 
sarjar as gengivas com um dente de homem morto violentamente ; 
Britten commenta que esta operação era muito usada em Bristow 
(ob. cit., p. 193). Este caso está mais vizinho do da constituição 



123 



Escreve Bluteau, no sec. xvm: tUm dente de c2o macho, 
arrincado estando vivo, furando-o, e trazendo-o ao pes- 
coço, que toque na carne, dizem que preserva de dores de 
dentes» 1 . A mesma superstição menciona-a Curvo Semedo, 
accrescentando que este preservativo é para «toda a vida»; 
citando vários casos de cura observados por elle, falia de 
«hum homem que tanto que lhe nasce algum filho, lhe pen- 
dura logo ao pescoço um dente de cão» 3 . Análoga é ainda 
est'outra superstição, também do século xvm: ao dente 
que se tirar de huma toupeira, deixando-a ir viva, e to- 
cando com elle o dente que tiver a dor, cura esta» 3 . Os 
amuletos de dentes são ainda hoje queridos do nosso povo. 
No Alemtejo usa-se um dente canino de lobo, encastoado 
em prata, contra os accidentes da dentição 4 . Na mesma 
província é costume pendurar das testeiras dos machos e 
mulas, ao mesmo tempo com outros amuletos, um dente 
canino de porco, encastoado em lata ou latão 5 . Na minha 
collecção ethnographica possuo um amuleto constituido por 
dois dentes de var rasco, encastoados em lata, e ageitados de 
maneira que fazem uma meia-lua*; creio que é a este que 
se refere a noticia antecedente, pois elle proveiu do Alem- 
tejo, tendo-me sido offerecido pelo sr. A. Thomás Pires. 



de Évora citada no texto, do que do de Curvo Semedo, também 
citado. 

Vid. ainda Wuttke, Der Deutsche Volksaberglaube, Berlin 1869, 
§ 183 (dente de homem morto na guerra, ou violentamente, cura 
dor de dentes, quando se esfrega com elle o dente doente e a face 
dorida) e § 185 (dentes de morto cúrito cephalalgias e odontal- 
gias, etc). 

Temos aqui exemplos da persistência e transmissão das supersti- 
ções através dos tempos, desde a antiguidade. 

1 Vocabulário, s. v. «amuleto» (vol. x), Coimbra 1712. 

2 Polyanthea medicinal, tract. n, cap. ci, § 10 e 11. 

J Fonseca Henriques, Medicina lusitana, Porto 1750, p. 264. 
* A. Thomás Pires, Amuletos (já cit.), p. 497, § v. 

5 A. Thomás Pires, ib. f p. 501, g xxv. 

6 Cfr. o meu opúsculo Sur les amulettes portugaises, Lisbonne 
1892, pag. 9. 



124 



Na ilha de S. Miguel (Açores) acredita-se que «para as 
dores de dentes é bom trazer na aljibeira um dente de 
cão» 1 . Em Gaia liga- se importância a certo dente santo 
contra as mordeduras de animaes damnados*. 

Se sahirmos da Europa, deparar-se-nos-ha igualmente o 
apreço supersticioso dos dentes. «A Bornéo, les Dayaks 
ne s'adressaient à leurs divinités que par Tintermédiaire 
des hampatongs. Ces idoles, qu'ils considéraient comme 
tout-puissants auprès des dieux, consistaient en morceaux 
de bois ou de pierre, ou de dents de crocodiles creuses nom- 
mées pinjants, ou en figurines peintes sur des batons, ou 
en statuettes humaines taillées dans le liége» 3 . Nas ilhas 
Marquesas usão-se amuletos guerreiros, feitos de dentes 
de baleia 4 . No Brasil os olhos de boto ou nyára «são con- 
siderados preciosos amuletos para abrandar corações de 
amantes ; seus dentes preservativos excellentes contra as 
dores destes órgãos e contra os perigos da primeira den- 
tição» 5 . 

E, com quanto fosse fácil reunir mais exemplos, entendo 
que esses bastão já para o meu intuito, que era verificar, 
de modo positivo, a crença nas virtudes maravilhosas de 
certos dentes, que por isso se trazem ou trouxerão como 
amuletos. 

Parece-me agora que não é deixar o methodo ethnogra- 
phico attribuir costumes análogos aos povos prehistoricos, 
entre os quaes, como as explorações archeologicas o pró- 
vão, não era raro fazerem parte de collares os dentes 
com orifícios. Achamos sempre deante de nós, é certo, a 
difficuldade de distinguir entre o que pôde ser objecto 



1 Theophilo Braga, O povo portuguez, u, 234. 

2 Vid. o meu artigo Amuletos italianos e portugueses, in Revista 
scienfifica (do Porto), 1883, p. 584. 

3 Louis de Backer, LArchipd Indien, Paris 1874, p. 221 e 222. 

4 Ratzel, Las razas humanas (trad. do allemão), i, 491. 

5 Apud F. Adolpho Coelho, As sereias, in Archivio per le tradizioni 
popolari de G. Pitrè, 1885, — Julho a Setembro — , p. 338. 



125 



religioso, mero enfeite, curiosidade, etc. ; mas o facto de 
os povos históricos terem usado de amuletos dentários 
com tanta frequência, e as considerações que apresentei 
a p. 106-110 e notas, á cerca do utilitarismo das repre- 
sentações artísticas e análogas nos povos atrasados, dão, 
quanto a mim, bastante peso áquella atribuição. 

Já do período paleolithico existem nos museus estran- 
geiros muitos dentes com orifícios de suspensão, dentes 
pertencentes a vários animaes, como lobo, raposa, veado, 
boi, rangifer: por exemplo, dentes provenientes de Cro- 
Magnon, da estação de Solutré, das cavernas de Thayngen 
e de Excideuil, da Madeleine, do abrigo de Laugerie- 
Basse, de Bruniquel, de Eyzies, de Menton, etc. 1 . 

Do período neolithico temos a gruta de Duruthy, nos 
Pyreneus, da qual se extrahiu grande quantidade de dentes 
caninos de leão e de Ursus ferox, quasi todos com ori- 
fícios de suspensão, e alguns com esculpturas (flechas, 
linhas, etc.) 8 . Na gruta de Malvézie, também nos Pyre- 



1 Salomon Reinach, Antiquités nationales, Paris s. d., i, 186 (nota 
1), 206, 216, 219, 223, 235 e 236, 249 (e note 6), 250, 254. 

Cfr. também G. de Mortillet, Le préhistorique, Paris 1885, p. 396 
e 397. A cima, p. 86-90, discuti as ideias do sr. Mortillet a este pro- 
pósito. 

1 Compte-rendu do congresso de Estocolmo (1874), Stockholm 
1876, i, 304 e 307. — Vid. também Matériavx pour Vhistoire primitive 
et naturelle de 1'homme, iz, 101 sqq. (e muitos desenhos a p. 140 sqq). 

Lartet e Duparc, auctores tanto do artigo do Compte-rendu como 
do dos Matériaux, entendem que estes caninos de urso o de leão 
faz ião parte dos ornatos dos homens de então, e deviâo ao mesmo 
tempo servir de tropheus de caça (Matériaux, ib., p. 137). Esta 
ideia tem a seu favor um costume dos caçadores elegantes da 
Bélgica, que, quando matao certas peças grandes, lhes tirão os 
dentes e os trazem como berloques (vid. Dupont in Compte-rendu 
do congresso de Estocolmo, i, 314). 

Mas não haveria aqui o vestígio de uma surperstição mais an- 
tiga? (cfr. também Reinach, Antiquités nationales, i, 233 e 234). 

O que sabemos da ethnographia dos povos não- civilizados aucto- 
riza tal hypothese. Vejamos alguns exemplos. Os Beduínos de Ha- 
dramaut ligâo á coronha das suas espingardas, como talisman de 



126 



neus, apparecêrâo dentes de javali e de outros animaes 



caça, um fragmento da pelle de cada animal que elles mátâo 
(H. Gaidoz, in Mélusine, iii, 245). «Dane les lies Aaru (Indes orien- 
tales), quand on a tué un sanglier à la chasse, on en conserve la 
queue au-dessus de la porte de la maison et on pend la màchoire 
inférieure à un arbre, pour avoir de la chance à la chasse* (Apud 
H. Gaidoz, in Mélusine, iii, 246). De outros talismans e feitiços de 
caça vid. exemplos ib., ib., col. 247 e 543, e vi, col. 81, no artigo 
intitulado Croyances et pratiques de» chasseurs, por H. Gaidoz. 

Assim os dentes que servem de berloques aos caçadores elegantes 
da Bélgica podem muito bem representar superstições extinctas, 
semelhantes ás mencionadas. 

No Algarve (Sagres), quando se caça um lobo, tira-se-lhe um 
dente, qualquer dos olhos, o buço (cabellos brancos de debaixo da 
barba) e algum sangue. Guarda- se tudo isto, «porque é bom» para 
certas moléstias. 

E sabido como os Ídolos, os symbolos, os talismans, etc., degene- 
rão ás vezes em ornatos. No Porto ha uma casa chamada O Palácio 
das Sereias, que tem duas sereias á porta; as sereias erâo nymphas 
do mar na mythologia greco-romana, mas no exemplo do Porto são 
simples embellezamento architectonico. Aqui mesmo em Lisboa, em 
dois jardins da Avenida, ha umas figuras humanas, de pedra, segu- 
rando cada uma um vaso d'onde sae água, e que representâo os rios 
Tejo e Doiro ; o artista quis unicamente fazer uma obra de arte, 
mas imitou as crenças da antiguidade, segundo as quaes os deuses 
da água erâo figurados d'aquella maneira. Os frades de pedra, que 
servem para interceptar a passagem de uma rua, para amparar o 
cunhal de uma casa, etc, representâo, como direi a seu tempo, um 
velho culto phallico, já hoje nâo comprehendido do vulgo. Os 
exemplos podem multiplicar-se. 

Na própria classe dos amuletos os temos. Eis um de país estran- 
geiro (Tyrol) : «Le chasseur se donne Toeil perçant et du courage 
dans le danger quand il porte à son chapeau des plumes d'aigle, 
dont deux doivent être prises sous la queue de Tanimal; aussi 
celles-ci sont-elles três chères» (H. Gaidoz, in Mélusine, art. cit, 
col. 243). O A. commenta: «Por ter des plumes au chapeau est de- 
venu un simple ornement dans les pays des montagnes; mais on 
voit par là qu'à 1'origine la plume était une amulette» (ib. ib. ib.). 
Nos Polynesios as pennas servem de adorno, c ao mesmo tempo de 
objectos de fé, por serem sagradas as aves a que ellas pertencem 
(Ratzel, Las razas humanas, i, 458, col. 2). No nosso país ha vários 
exemplos de degeneração de amuletos em ornatos. £ vulgar em 



127 



com orifícios '. Da estação austríaca de Weyeregg (lago de 
Attersee) ha também notícia da descoberta de dentes com 
orifícios de suspensão 8 . 

Na rica estação archeologica de Argar (SE. da Hespanha), 
que pertence á epocha metallica, apparecêrão dentes de 
differentes animaes, como se vê na obra dos srs. H. & L. 
Siret, já por vezes citada neste livro 3 : na est. xxm, que 
acompanha o texto, vem desenhos de vários dentes que 
pertencerão a collares, tendo alguns destes dentes orifí- 
cios ao longo, para a introducção de anneis de cobre, que 
ainda ahi se encontrão, e tendo outros dentes um simples 
orifício de suspensão; na est. xxv, n. 08 39 e 40, vem 
desenhos de dentes de javali com orifícios 4 ; também appa- 
recêrâo dentes sem orifícios, ou porque esses dentes, como 
cuido, estavão ainda por trabalhar, ou porque, como obje- 
ctos de virtude que serião, bastavão mesmo assim; nas 
sepulturas de Argar, e na estação neolithica da Cueva de 
los Toyos acharão- se dentes de esqualo 5 . 



Lisboa ver na testa dos cavai los uma roseta de metal; como se 
prova pela comparação com outros casos, esta roseta substituo uma 
meia-lua feita da mesma substancia. O peixe de marfim que em 
Portugal serve de gancho da meia, o coração que muitas pessoas 
trazem em collares, uma cruz de ouro nas correntes dos relógios, 
etc, são outros tantos objectos religiosos tornados enfeites. — Cfr. 
também A. Réville, lues religions des peuples non-civilisés, i, 862, 
(Paris 1883); e o que escrevi supra, p. 106-110. 

Portanto á hypothese dos srs. Lartet e Duparc, de que os dentes 
furados da gruta prehistorica de Duruthy erão simples ornatos ou 
tropheus, contraponho a minha de que podia' o ser objectos supersti- 
ciosos. 

1 Maiiriaux pour Vhistoire primitive et naturéUe de Vhcmmt, 
viu, 449. 

2 Compte-rendu do congresso de Bolonha, Bologne 1873, p. 155. 

3 Ias premiers ages du metal dans le Sud-Est de VEspagne. 

4 Segundo dizem os A A., estes dentes servião «comme ornement 
de collier». Hypothese inteiramente gratuita. 

5 Vid. H. & L. Siret, ob. cit., est. lii, n.° 334 ; e est. n, n.° P. — 
Sobre dentes de esqualo, como amuletos, vid. G. Belluci, Catalogo 



128 



Todos esses dentes furados, que datão do período paleo- 
lithico e se estendem até á epocha dos metaes, seriSo, na 
minha hypothesc, objectos de virtude. Como nâo temos á 
cerca d'elles noticias directas, foi preciso raciocinar indu- 
ctivamente para chegar a esta conclusão. 

Dos tempos prehistoricos, ou antes protohistoricos, ha 
porém já em França alguns factos que, comquanto também 
desprovidos de indicações directas, estão em taes condições 
que se podem considerar como positivos, e que por tanto 
apoiào grandemente a hypothese que até aqui tenho sus- 
tentado. São os seguintes: 

Nos cemitérios gauleses de Mame (Norte da França) e 
Aries (Sul da França) apparecêr&o muitos objectos que o 
sr. Gabriel de Mortillet descreveu e figurou no seu curioso 
opúsculo intulado Amulettes gauloises et gallo-romaines, 
Paris 1876. Estos objectos consistem em coraes, em contas 
de pedra e de âmbar, cm conchas, em dentes com orifícios, 
em ossos inteiros ou fragmentados, do mesmo modo com 
orifícios, em contas de vidro, em rodinhas, num amuleto 
composto de um phallus e de uma figa, etc. O A. mostra 
como, por exemplo, o âmbar e o coral são objectos de 
superstição popular, sendo pois natural que os outros obje- 
ctos associados com estes tivessem virtudes análogas, tanto 
mais que alguns d'esses objectos, como duas clavículas de 
criança, uma esquirola de osso longo, dois cuboides de 
vacca e de cervideo, uma rodella de crânio humano, tudo 
com os competentes orifícios, mal podiSo ter sido ornatos. 
Mas o facto decisivo é o amuleto que se compõe, como disse, 
de um phallus e do uma figa. Se este objecto era, sem 



delia collezione di amuleti (já cit), n.°* 116, 119, 122; e E. Cartailhac, 
Les ages de pierre dans les souvenirs et supersiitwns populaires, 
Paris 1877, p. 93, nota. — Também no nosso povo, no Sul, os dentes 
de esqualo sâo tidos como «pedras (sic) de raio»; possuo um, que 
obtive ao pé de Cacilhas. — Por isso os de Argar e os da Cueva de 
los Toyos podiào muito bem ser amuletos. 



129 



dúvida alguma, amuleto ! , outros, como os dente, que se 
encontrarão nas mesmas circumstancias que elle, isto é, 
pendentes de um torques, e á cerca dos quaes ha por toda 
a parte bastantes superstições, devi&o tê-lo sido também. 
O sr. Barão de Baye refere-se igualmente aos túmulos 
gauleses de Marne*. Em Saint-Jean-Sur-Tourbe encon- 
trou-se um torques, tendo um annel com vários objectos 
enfiados, e encontrou-se um bracelete com os seguintes 
objectos : nove contas de âmbar, um annel do bronze, uma 
rodella de osso e uma pedra furada. Entre os objectos que 
apparecêrSo com o torques figura «une defense de sanglier, 
une amulette phallique, deux pi erres d'une configurationbi- 
zarre, et trois coquillages percés©, sendo fosseis duas das 
conchas 3 . O amuleto phallico (figura humana) é pois também 
outro facto positivo. E quem negará que o dente de javali 
seja aqui um amuleto ? 4 



Cheguei agora ao ponto de fallar dos dentes com orifí- 
cios, achados nos jazigos neolithicos de Portugal. Elles 
constituem o objecto principal d^ste capitulo, mas eu não 
podia citá-los sem ter primeiro justificado, como fiz, a sua 



1 Do fascinus fallarei na Parte III (festa obra. 

2 In Compte-reiídu do Congresso de Paris, p. 311 sqq. 

3 Ib., p. 313. 

4 O A. faz várias considerações á cerca da superstição com o âm- 
bar, mostrando que os povos antigos a tinhào, segundo Plínio (NcU. 
HisL, XXXVII, xu), e que ella existia nos G ai los e ainda hoje na 
França. Facto interessantíssimo : o crânio do morto que tinha sido 
enterrado com tantos objectos de âmbar aceusa um desenvolvimento 
doentio do cérebro, o que parece indicar que o âmbar havia servido 
de meio therapeutico. Ib., p. 312 e 315. [O morto esperava pois con- 
tinuar na outra vida a curar-se com ellej. Sobre o âmbar vid. tam- 
bém : Fr. Joào dos Santos, Ethiopia oriental, liv. i, cap. xxvm; Wut- 
tke, Der deidsche Volkêabcrgl., Berlin 1869, § 531 ; Mélusine, u, 26 ; 
e a passagem que cito adeante, p. 141, á cerca da Escandinávia. 
Fr. Manoel de Azevedo falia das virtudes do alambre na Corrteçam 
de abusos, n, Lisboa 1705, p. 87. 

9 



130 



entrada aqui ; e se a justificação foi longa, é que eu quis 
libertar de dúvidas, o maia possível, o espirito do leitor. 

a) Na fig. 3 temos o fragmento de uma presa de javali 
com vestígios de orifício para suspensão, — objecto pro- 
veniente da gruta da Casa da Moura (Cezareda); 

b) Na fig. 4 temos outro fragmento de uma presa de 
javali, furado e affeiçoado, — objecto proveniente da gruta 
da Furninha (Peniche) 1 ; 




c) Na fig. 5 temos um dente de Canis, furado 
e proveniente da Casa da Moura. 

d) Na fig. G temos outro dente nas 
çôes, — e da mesma proveniência. 

e) Na fig. 7 temos outro dente de Canis. 
da Furninha 1 . 



1 Também foi desenhado no trabalho do Sr. Nery Delgado, La 
grottt de Fvrmnha, iu Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 234, 
e est. vi, n." 59. 

2 Já desenhado pelo Sr. Nery Delgado no citado trabalho, ih., 



ib.. 



°54. 



131 

fj Na fig. 8 temos um dente principal de Canis, furado 
em dois ramos da raiz, — objecto proveniente da Casa da 
Moura. 

g) Na fig. 9 temos um dente de Felis, furado na raiz, — 
objecto proveniente da Casa da Moura. 

Todos estes dentes se achSo hoje em Lisboa, no rico 
Museu Ãnthropologico da Commissao dos Trabalhos Geoló- 
gicos d'onde forão pliotographados para aqui'. 




h) Na fig. 10 temos um dente de Canis, encontrado na 
anta da Capella, concelho de Avis, em Agosto de 1893*. 



1 Ao meu amigo o sr. Kery Delgado, chefe dos Trabalhos Geoló- 
gicos de Portugal, agradeço o ter-me permittido servir-me d'eatee 
e d'outroa objectoH prehistoricos eiistentes no Museu. Igualmente 
agradeço, a elie e ao sr. Berkeley Cotter, naturalista adjunto da 
CommÍBSIo dos Trabalhos Geológicos, aa informações que a pro- 
pósito de todos estes objectos me derâo. 

1 Eata anta foi explorada pelo dr. Mattos e Silva. Com os dentes 
descriptos apparecórào muitos objectos, como instrumentos do pedra, 
centenas de contas, etc, alem de muitos osaos humanos. Cfr. adeante, 
p. 132, nota 4. 



132 



A raiz foi desgastada dos dois lados, e fez-se-lhe um ori- 
fício, que o atravessa, como nos de mais dentes. Este dente 
está já raxado, o que se vê na figura. 

i) Na fig. 11 temos o fragmento de outro dente de 
Canis, encontrado na referida anta da Capella, na mesma 
occasião. No que resta da raiz vê-se ainda parte de um 
orifício de suspensão 4 . 

Nas grutas de Alcobaça, exploradas pelo sr. Vieira Na- 
tividade, também apparecêrão dentes de Canis, e lascas 
de dentes de javali, com orifícios do suspensão 8 . 

Pelas razões que desenvolvi acima, considero todos esses 
dentes, no geral, como amuletos. Alguns d^lles, ou pela 
sua natureza, ou 'porque fôrâo affeiçoados pela arte, tem 
certa symetria, qualidade que não raro se encontra nos 
amuletos 3 ; mas o da fig. 8 é muito pouco bello, o que 
mostra que diíficilmente poderia ter sido ornato, pois só 
seria trazido pelo homem um objecto d' estes, quando do- 
tado de virtudes miríficas e poderosas 4 . 



1 Os dentes n.°* 10 e 11 pertencem hoje á minha collecção ethno- 
graphica, por generosidade do dr. Mattos e Silva. 

2 Vid. supra, p. 41, nota. 

3 Cfr. o meu opúsculo Sur les amulettes portugaises, etc, p. 8. 

4 Se os dentes com orifícios tivessem servido de ornatos, ou ainda 
de tropheus de caça, era de esperar que se encontrasse maior nú- 
mero d'elles do que o que realmente se tem encontrado. Na anta 
da Capella (concelho de Avis), explorada pelo dr. Mattos Silva, 
trabalho a que assistiu também o meu collega Henrique Schindler 
e eu, encontrámos 677 contas, e apenas quatro dentes (de cão) 
com orifícios, mais um (do mesmo animal) sem orifício, e cinco 
(sendo quatro fragmentados) de javali, sem orifícios ; não obstante, 
os dentes humanos pertencentes aos cadáveres que havião sido se- 
pultados na anta erão muito numerosos (encontrárão-se 1509 dentes, 
sendo 1020 molares, 332 incisivos e 157 caninos), o que mostra que 
não houve grande deterioramento. No Museu da Sociedade de Geo- 
graphia de Lisboa está um collar com muitas* dezenas de dentes de 
diversos animaes, alguns ossos e uma concha univalve, tudo munido 
de orifícios de suspensão ; o rótulo que o acompanha diz o seguinte: 
«Collar de grande caçador shetebus (Peru) : um dente ou osso por 
cada animal»; ignoro se a este collar se ligavão superstições ou não. 



133 



Vemos que os animaes cujos dentes servião de amuletos 
aos nossos avós neolithicos pertencião aos géneros Sus, 
Felis e Canis. Os dentes de Canis e de Sus ainda hoje o 
nosso povo os aproveita com o mesmo fim, como se disse 
a cima ; e não ha razão nenhuma para deixar de admittir 
que as crenças modernas se liguem com as prehistoricas, 
tanto mais que nós encontrámos amuletos de dentes nos 
Romanos, que constituem no nosso país a principal inter- 
posição, entre os tempos pre- e protohistoricos, de um lado, 
e os tempos medievaes, do outro. 

Quaes serião os effeitos attribuidos a todos esses amu- 
letos dentários? Impossível é responder de modo preciso; 
como porém, na revisão ethnographica feita a cima, nota- 
mos ter, a respeito dos dentes, grande applicação o velho 
aphorismo similia similibus, servindo elles muitas vezes, 
segundo a crença, para livrar de odontalgias e se evita- 
rem os accidentes funestos da dentição, é natural inferir 
que nos tempos neolithicos acontecesse o mesmo. 

E sabido que os povos atrasados acreditão frequente- 
mente que as doenças são produzidas por entidades sobre - 
naturaes e maléficas. Se, por exemplo, doe um dente, é 
que ahi actuará um espirito mau; e então o melhor meio 
de impedir que esse espirito actue no órgão humano, con- 
sistirá em lhe apresentar um dente estranho, em que elle 
possa manifestar-se sem offender a pessoa. Ainda que esta 
explicação seja a mais natural, e tenha por si factos in- 
concussos, que citei, pôde também, para se explicar o amu- 
leto, recorrer-se ao principio da generalização, de que fallei 
a pag. 116. Em qualquer dos casos, comprehende-se o mo- 
tivo de se trazer ao pescoço, no braço ou á cinta, um 
dente pendurado. 

Qual porém o motivo da escolha do dente doeste ou 
d'aquelle animal? Isso é questão secundaria, para que 
podem ter concorrido muitas circumstancias, nem sempre 
fáceis de distinguir. 

O que succedia com os dentes, succedia com outros 
órgãos, como mostrei com exemplos. 



134 



As theorias passarão do povo para os médicos e observa- 
dores, os quaes lhes derâo entrada na classe das sympaiMaà 
e antipathias naturaes. Plínio falia dos ódios e das amizades 
das coisas insensíveis, «quod Graeci sympathiam appella- 
vere» *. E em livros successivos accumula a este propósito 
muitos factos, análogos a alguns que já citei. Também o 
nosso Curvo Semedo escreve: «Nem fe pôde negar que 
haja fyinpathias, & antipathias, & que haja muytas coufas 
que tem virtudes, & qualidades occultas» 2 , referindo segui- 
damente numerosos exemplos. 

Sem dúvida, muitas vezes os amuletos produzem effeitos 
reaes 3 . 

A fé é quem nos salva, 
Nanja o pau da barca. . . 

diz um dictado nosso, que encontrou a sua confirmação 
nos modernos estudos de neuropathia. Os amuletos podem 



1 Nat. Hist. y XX, i. 

2 Polyanthea Medicinal, Lisboa 1716, p. 532, § 4. 

3 No seu livro Estudos sobre a sugyestâo, Coimbra 1888, o dr. 
Teixeira de Carvalho deu alguns exemplos de interpretação das su- 
perstições populares, dos milagres, ete, pela medicina : vid. p. 1 sqq., 
e 193 sqq. Para isto serve-se dos processos da Inquisição, das con- 
stituições dos bispados, das lendas, etc. Eis aqui aberto um bello e 
fecundo caminho, em que o dr. Teixeira de Carvalho, com a sua 
competência especial, pôde prestar á sciencia bons serviços. A p. 10 
diz que desde 1875 está reunindo elementos para um estudo sobre 
a Inquisição e a nevrose hystcrica, o qual porém ainda por ora não 
viu a luz da publicidade. — Cfr. já E. Littré, Médecine et médecins, 
Paris 1875 (3. a ed.), p. 111 sqq., onde ha um capitulo intitulado Un 
fragment de médecine rétrospective, sobre a interpretação scientifíca 
dos milagres de IS. Luís. E muitos outros médicos tem seguido 
nesta direcção : vid. por ex. P. Ifcicher, Etudes cliniques sur Uhys- 
téro-ipilcpsie, Paris 1881, p. 615 sqq. (appendice com o titulo Notes 
historiques, destinado a estabelecer que muitas das grandes epide- 
mias convulsivas da Idade-Media, e casos que nos tempos seguintes 
tem sido attribuidos á possessão demoniaca, etc, se explicão, em 
parte, por aquella nevrose) ; ahi, a pag. 615, dão-sc varias indica- 
ções bibliographicas sobre o assumpto. Vid. também E. Dupouy 
Le moyen âge medicai, Paris 1888. 



135 



actuar por suggestão em indivíduos cuja doença seja pura- 
mente de causa nervosa. Quem não conhece casos thera- 
peuticos d'estes, por exemplo, os produzidos pelas célebres 
pílulas de mica panis f A imaginação é grande recurso em 
medicina. 

Outros amuletos podem actuar, na realidade, por causa 
da natureza da sua substancia, como o alho, que é exci- 
tante, e acaso certos metaes. 

Depois o povo generaliza os effeitos que só se produzem 
em determinados casos, como os que acabo de referir, e 
estabelece confusões. 

De modo que ha amuletos devidos á observação da 
natureza ; ha outros que só provém da imaginação : mas, 
como em qualquer dos casos o povo os suppõe quasi sem- 
pre dependentes de forças occultas e mysteriosas, elles 
entrão pela maior parte no quadro das superstições reli- 
giosas. 

De accôrdo com as explicações que acabo de dar, os 
amuletos dentários dos nossos avoengos neolithicos, com 
quanto pudessem ter uma das suas origens no princípio 
geral dos similia similibus, produzirião por ventura ás vezes 
effeitos devidos á suggestão, o que confirmaria o uso d'elles : 
isto é, quem os trazia comsigo esperava sarar, e sararia 
realmente f . 

Sem embargo, esta classe de objectos podia ter também 
outros fins, pois a cima vimos exemplos de os Cafres tra- 
zerem comsigo órgãos ou fragmentos de órgãos de animaes, 
conforme as propriedades que pretendião assimilar 2 . 

Devemos porém regular-nos pelo caso mais geral, que 
é o primeiro. 



1 Medicamente fallando, a suggestão é de differentes espécies : 
suggestão no somno (em que se considerão ainda dois casos, con- 
forme a sua acção se manifesta durante elle ou depois) e suggestão 
na vigília. Os amuletos de que estou tratando entrão nos casos de 
suggestão na vigília. 

2 Vid. supra, p. 112. 



136 



B) Vários objectos amuletiformes, e outros 

O que acabo do dizer parece-me sufficiente para mostrar 
o caracter amuletico dos dentes providos de orifícios, jul- 
gando eu que só por grande pyrrhonismo poderá deixar 
de se acceitar o conjuncto dos factos que apontei. Temos 
porém agora de considerar outros objectos, cuja natureza 
religiosa já é mais susceptível de dúvida, — motivo porque 
constituo com elles um grupo separado, em que ainda as- 
sim faço diversas subdivisões. 

a) Objectos de azeviche 

O azeviche é uma variedade de lignite; a lignite uma 
espécie de carvão mineral. O azeviche é conhecido em 
Portugal de alguns jazigos de lignite que apontão á super- 
fície da zona do littoral ao Norte do Cabo de Espichel, 
e no Valle do Picheleiro ao Sul de Azeitão 4 . 

Desde a antiguidade se celebrarão as virtudes reaes e 
as imaginárias do azeviche, que, applicado quer no estado 
natural, quer em fumigações, se admittiu na medicina 
e na magia, e foi objecto de muitas superstições populares. 
O seu nome greco-latino é yor/xmz, gagates. 

Plinio não lhe poupa louvores 2 , e em circumstancias 
análogas está Dioscorides 3 . O auctor da Ars veterinária^ 



1 Esta indicação do jazigo do azeviche devo-a ao meu amigo o 
sr. Rego Lima, engenheiro de minas. 

2 Segundo diz este A., o azeviche serve para expulsar as serpen- 
tes, dissipar a hystcria, fazer reconhecer a epilepsia e a virgindade, 
curar as dores de dentes e as escrophulas. Plinio chama-lhe «pedia 
gagates», e acerescenta: «Dizem que alguns magos a utilizão no 
processo divinatorio denominado axinamancia, asseverando que, se 
tiver de acontecer o que se deseja que aconteça, ella não arde». 
Nat. HÍ8t. y xxxvi, 34. 

3 Matéria medica, v, 146. Em parte repete Plinio, e pouco diz de 
novo. 

4 Este auctor é um Publio Vegecio, do século v da era enrista. Cfr. 
Teuffel, Geschichte der Iiõmischen Literatur, Leipzig 1875, § 432. 



137 



indica uma receita «ad lustranda aniraalia, quae et fasci- 
num tollit», na qual comprehendia alapidis gagatis masculi, 
lapidis gagatis feminae, ana uncias 3»; os ingredientes erSo 
muitos, por isso observa o A. : «sumptuosior quidem, sed 
putatur utilior» 1 . 

Numerosos AA. estrangeiros se tem occupado do aze- 
viche ou alludido ás propriedades d'elle. Os AA. portu- 
gueses, que vou citar, já os mencionarão ; tornase pois 
desnecessário accumular aqui mais textos. 

O dr. Fr. Manoel de Azevedo, depois de referir várias 
passagens de AA. que tratarão do azeviche, e depois de 
enumerar as virtudes d'este, diz : «basta que saib&o as 
virtudes sobreditas, e que a tem grande o azeviche para 
evitar encantos, e ligamentos, e todo género de feitiços, 
por virtude natural que Deos lhe deu para estes efFeitos ; 
e assi contâo os naturaes, que para preservar de olhado, 
e quebranto, tem tanta efficacia, que primeiro elle se deixa 
quebrar em mil pedaços, que consentir que a maligna qua- 
lidade do olhado mao passe a alterar e fazer enfermar 
a creatura que o trouxer comsigo, no braço, ou pescoço, 
dependurado •*. 

O medico Fonseca Henriques cita também, da sua parte, 
muitos AA., e escreve: a entendemos quo o azeviche tem 
o primeiro logar entre todas as cousas que se numerâo 



1 O A. recommenda que todos os ingredientes sejSo misturados e 
queimados, porque «com o seu cheiro se oppoem ás doenças tanto 
dos homens, como dos animaes, e diz-sc que afugentão os demónios, 
obstâo á saraiva e purificào o ar». Vid. Artis veterinariae, lib. i, 
cap. xx. — Cfr. também lib. iv, cap. xii, onde quasi nada se aceres - 
centa ao que fica transcrito. 

* Correcçam de abusos introduzidos contra o verdadtyro methodo da 
medicina, parte ii, Lisboa 1705, p. 84 e 85. — É este mais um facto 
para juntar aos que citei a cima, pag. 117-118, quando me referi aos 
amuleto 8 que tem por fim fixarem em si o mal, evitando que este 
incommode a pessoa. Possuo uma conta de azeviche quebrada; quem 
m'a vendeu disse que ella estava assim por effeito de má olhadura 
que nella cahiu (Guimarães). 



138 

para não receber o quebranto, assim tomando os fumos 
d'cl)e como trazendo-o cada um cornsigoi*. 

O P." Raphael Bluteau traz o seguinte: «Diz S. Agos- 
tinho que o perfume do azeviche afugenta os demónios, 
e trazido desata e desfaz o quebranto, ligaduras, encan- 
tamentos, e todos OS fantasmas tristes e melancólicos»*. 
Noutro ponto da sua obra refere-se em especial á figa 
de azeviche 3 . 

O medico Bernardo Pereira falia igualmente do azevi- 
che*, mas nào vae além dos AA. que tenho citado. 

Quasi no mesmo caso está Fr. João de Jesus 

Í Maria". 
Se agora interrogarmos a tradição popular 
moderna, tanto de Portugal, como da Galliza, 
veremos que a crença nas maravilhas do azevi- 
che está muito arraigada. 
Em relação & Galliza, eis o que diz Pifiol, fal- 
tando da figa: «espécie de amuleto supersticioso 
que usaban los gentiles para librarse de mal de 
ojo ; lioy aun lo usan los necios y preocupados, 
poniéndoselo ai cuello á los ninos ò á las muje- 
Ffe. ii resu 6 . O A. nâo indica de que substancia é feita 
a figa, mas não só por informações que um amigo meu me 
enviou da Galliza, como por uma figa gallega que possuo, 
encastoada em prata, sei que o azeviche se usa para o fa- 
brico das figas, o que nao impedirá que catas se possao 
fabricar de outras substancias, como suecede no nosso 
pais, onde as ha de prata, de marfim, etc. 



1 Medicina Lusitana, Porto 1750, p. 127. A 1.* edição é de 1710. 
1 Vocabulário, i, a. v. azeviche. 

3 Vocabulário, iv, e. y.figa. 

4 Anacephaleosit medico -tfteologica, Coimbra 1734, p. 165 (g 9) e 
213 (| 93). 

5 Pharmacopea dogmática, Porto 1772, ii, 166 (g 46). Foi o meu 
amigo, e antigo professor de Matéria Medica na Eschola Medica do 
Porto, o er. dr. Joafi Carlos Lopes, quem me deu a conhecer esta obra- 

* Diccionario gattego, Barcelona 1876, s. v. figa. 



139 



Entre nós o azeviche tem sido muito usado como amu- 
leto. Isto se viu já de algumas das passagens transcritas. 
Segundo a tradição actual, o azeviche, para servir de amu- 
leto, toma pelo menos as seguintes formas: 

l. a — De simples pedaço irregular, com um orifício 1 ; 

2. a — De pequena conta, também com orifício 8 ; 

3. a — De conta maior, e que, em logar de um furo, 
como a anterior, tem uma argola adaptada á conta por 
meio de uma chapinha de prata 3 ; 

4. a — De figa de differentes tamanhos 4 ; 
esta figa pôde ser grande, e neste caso não 
ter orifício nenhum, e pôde ser pequena, 
para andar pendurada, e neste caso ter um 
orifício, ou ser encastoada em prata ou oiro. 

O povo attribue hoje ao azeviche unica- 
mente virtudes magicas, e preconiza-o con- 
tra feitiçarias, máo olhado (quebranto ou 
fascinação), etc. 5 

Trouxe todos esses factos á consideração dos leitores, 
porque, havendo-se encontrado na gruta neolithica de Pal- 
mella um objecto de azeviche, alongado e com um orifício 
na parte mais larga, como se vê na fig. 12 (tamanho na- 
tural) 6 , talvez esse objecto possa ser considerado como amu- 




1 Vi um amuleto (Testes no concelho de Baião (logar de Migo as). 

2 Possuo um exemplar na minha collecçao. — Cfr. Trad. pop. de 
Portugal, § 335-<T. 

3 Vi um exemplar (Testes na villa de Mesào-Frio. Possue-o hoje 
meu primo Manoel Negrão na sua collecçao archeologica, em Mos- 
teiro. 

4 Vid. por ex. A. Thomás Pires, Amuletos (in Concelho de Elvas 
de V. de Almada, i, 496). 

5 Vid. também Trad. pop. de Portugal, § %3b-p: «As mulheres 
que cri ao devem trazer comsigo azeviche, por causa das dadas nos 
peitos» (Guimarães).. 

6 Este objecto conserva-se no Museu da Commissâo dos Trabalhos 
Geológicos (em Lisboa). — Note -se a coincidência de haver nesta 
região, como digo a cima, p. 136, jazigos de azeviche. 



140 



leto. O mesmo digo das contas achadas na anta de Mon- 
tabrâo (Bellas), uma das quaes está representada na fig. 13 ! . 

As razoes que tenho para dizer isso são, de um lado, 
a própria forma dos objectos, do outro as superstições que 
em todos os tempos se tem ligado ao azeviche, e que nada 
obsta a que remontem já aos tempos prehistoricos, de mais 
a mais sendo certo que grande numero das superstições 
modernas datão de epochas anteriores a toda a tradição. 

O azeviche está no mesmo caso que o âmbar, a que me 
referi a cima, e que, sendo objecto de superstições moder- 
nas, já o era na antiguidade clássica, e certamente também 
nos tempos pre- ou protohistoricos da Gallia*. Os amuletos 
dentários levárão-nos igualmente, pelo seu lado, a epochas 
t&o remotas. 

b) Pingentes triangulares, cordiformes, etc. 

Na Introducção á archeologia da Península Ibérica, de 
Philippe Simões, vem figurado um objecto de calcareo, 
da Cova da Estria, o qual aqui represento na fig. 14, em 
tamanho natural. 

Diz aquelle A. : «Tem a forma de um coração, com 
quanto os orifícios e os entalhos da base mostrem com cer- 
teza que deveria ligar-se a um cabo ou haste de pau para 
representar o antigo e talvez já obsoleto machado de pe- 
dra. A molleza do calcareo, provando que este objecto 
nío poderia servir para qualquer trabalho em que tivesse 



1 Esta figura é extrahida dos Estudos prehistoricos de Carlos 
Ribeiro, n, p. 52, fig. 59. Diz o A. : «contas fabricadas de azevi- 
che, parecendo formadas de duas pyramides cónicas troncadas, 
unidas pela sua base maior, mas tao deterioradas que se desfaziào 
com a simples pressão dos dedos, e só pudemos restaurar o exem- 
plar que fizemos desenhar sob a fig. 59. Esta espécie de contas, 
fabricadas da mesma substancia e com a me&ma forma, tem appa- 
recido também em algumas grutas que serviram de estações sepul- 
craes, como se vê do exame das nossas collecções». Ib., p. 52 e 53. 

2 Viíl. supra, p. 128-129. 



141 



de se empregar um machado, confirma a hypothese de 
que estas e outras relíquias prehistoricas não seriam mais 
que emblemas ou insígnias para as cerimonias do culto ou 
para quaesquer outras, e que se enterrariam com aquelles 
a que tivessem pertencido» 1 . 

Análogo a este é o objecto que represento na fig. 15, 
e que também foi figurado por Carlos Ribeiro nos seus 
Estudos prehistoricos*. Encontrou-se na anta de Monta- 
brão, em Bellas, e d'elle diz o citado A.: e placa de por- 
phyro, medindo apenas dois millimetros de grossura. Como 
mostra o respectivo desenho, ó sensivelmente cordiforme, 
e na base abriram-lhe três orifícios, naturalmente para 
este objecto ser trazido suspenso em collar ou como amu- 
leto» 3 . 

E difficil decidir se estamos em presença de verdadeiras 
representações do coração, de symbolos que representem 
instrumentos neolithicos, ou ainda de outros objectos. 

O amuleto cordiforme tem sido muito usado. «En Scan- 
dinavie, des pierres façonnóes en forme de coeur étaient 
jadis montées .... en argent, et portées au cou comme 
amulettes, probablement contre les traits des Lapons (Lapp- 
skott), et d'autres enchantements invisibles. Je n'ai ja- 
mais vu de ces coeurs de silex, tous ceux que j'ai rencon- 
trés étaient d'ambre» 4 . Na Itália é elle muito vulgar, pois 
Giuseppe Bellucci cita nada menos de seis 5 , sendo mesmo 
um d^lles (o n.° 110) muito significativo, pois serve cpara 
as doenças do coração». Walter Gregor, no seu trabalho 
sobre as tradições da Escócia, menciona um amuleto cor- 



1 Ob. cit.j p. 54 e 55. 
* Vol. ii, p. 52, úg. 58. 
' Ib., ib. 

4 Iven N.ilsson, Les habitante primitifs de la Scanáinavie, Paris 
1868, p. 243, nota. 

5 Catalogo delia collemone di amuleti inviata ali 7 Espotizione 
nanonale di Milano 1881, Pe rugia 1881. 



142 



diforme 1 . Pôde mesmo trazer-se ao pescoço o próprio 
coração de um animal, como do da cobra diz Plínio 1 . 

No nosso pais encontra-se também com muita frequên- 
cia o coração como amuleto ou como emblema 3 ; as mu- 
lheres do Minho, que costumão trazer ao pescoço grandes 
collares de oiro, trazem também ordinariamente pendurado 
nelles um coração do mesmo metal, ás vezes muito volu- 
moso; na minha colleeção de amuletos possuo, entre outros 
de diversas substancias, como 
marfim, latão, vidro, etc, um 
amuleto pequeno de cora!, 
encastoado em oiro, que me 
foi offerecido por uma se- 
nhora; numa igreja rural do 
Alcintcjo, dedicada á Virgem 
dos Prazeres, no concelho de 
Ponte-de-Sôr, vi uma imagem 
de Nossa Senhora tendo ao 
pescoço um coraçãozinho de 
oiro, análogo, no feitio, aos 
que usíío as mulheres minho- 
rig - M tas; ha um amuleto complexo, 

em que, ao lado da cruz, que represonta a/e, e da ancora, 
que representa a esperança, entra o coração representando 
a caridade, — por tanto um amuleto que symboliza as treB 
virtudes chamadas theologaes; o coração faz ainda parte 
de outros amuletos, e (de marfim, etc.) serve ás vezes 
de gancho da meia, de cabeça de alfinete de gravata, de 
centro de annel, etc. Nem sompre nos casos citados o 
coração já desempenhará funeçoes reaes ãc- amuleto, pois 
algumas vezes a significação primordial perdeuse, e ficou 




■JfiXe* ou thefolk-lore of the North-Eatl of Scotland, 1981, p. 8. 
i Nat. Hiêt., XXX, viu. 

1 Cfr. o meu Estudo ethnograpftico d etrea da ornamentação dos 
jugo», etc., Porto 1881, p. 37 e 38. 



14a 



só a pura forma: todavia o sr. A. Thomás Pires falia do 
«coração de prata ou cornalina, — amuleto contra o máo 
olhado e contra as dôresi 1 . 

Em virtude de todos estes factos, podia haver, nos tem- 
pos prehistoricos, amuletos cordiformes. 

Por outro lado, a veneração prestada aos instrumentos 
prehistoricos, e por tanto a representação symbolica des- 
tes, tem também a seu favor muitos factos. 

Sobre a possibilidade da veneração do machado nos 
tempos prehistoricos vid. Goblet d^lviella, Lidée de Dieu, 
1892, p. 27 sqq.: «II n'est pas surprenant que rhomme 
de la pierre ait vénéré Tinstrument cáractéris- 
tique de sa civilisation, Tarme qui assurait sa 
domination sur la nature et qui représentait le 
fondement de sa puissance. Aujourd^ui encore, 
ne voit-on pas les Peaux-Rouges, les Polyné- 
siens et même les Hindoues oflrir des homma- PI «- 1* 
ges à leurs armes et à leurs outils?» 2 . Todavia Goblet 
d'Alviella propõe outras hypotheses, talvez um pouco arris- 
cadas, como elle próprio confessa. 

Cartailhac, no seu livro Les ages de inerre dam les sou- 
ticnirs et superstitions populaires*, cita bastantes instru- 
mentos neolithicos furados : uns erão sem dúvida trazidos 
pendurados, como um de pedra, que fazia parte de um 
collar de contas de ardósia 4 ; noutros, porém, o buraco 
tanto podia servir para segurar o instrumento a um cabo, 
como para outros fins 5 . Estacio da Veiga encontrou em 
Aljezur um delicado machadinho de calcareo jurássico, fu- 
rado na extremidade inferior (represento-o na fig. 16); diz 
o A. : «O furo mostra-se gasto pelo attrito de um cordão 




1 Amuleto 8 f in ob. cit., p. 497. 

2 Ob. cit., p. 28; e cfr. p. 104-105 (índios). — Estacio da Veiga 
também abunda nestas ideias : Antiguid. monum. do Algarve, i, 198. 

' Paris 1877, p. 23 sqq. 
* lb., p. 24. 
5 lb., ib. 



144 



em que teria sido enfiado para se trazer pendente do pes- 
coço» 1 . Eu possuo dois machados furados, procedentes do 
concelho de Óbidos, ambos de quartzite schistosa, medindo 
um de comprido O™, 118, e outro, não menos delicado que 
o de Aljezur, m ,04: tanto podem ser amuletos ou sym- 
bolos, como verdadeiros instrumentos; mas são tão raros 
nas collecçftes neolithicas portuguesas os instrumentos com 
orifícios, que talvez se deva excluir a ideia de o orifício 
ter sido para os encabar, e adoptar a de ter sido antes 
para permittir que elles andassem pendurados*. 

RepresentaçBes symbolicas de instrumentos neolithicos 
cita-as tembem E. Cartailhac na obra a que ha pouco me 
referi. Diz elle: «Cest la seule explication qu'il soit pos- 
sible de donner de ces charmes en cornaline taillée & polie 
suivant le type de la pointe de flèche qui se voient en 
Orient» 3 , — e menciona dois collares modernos, um vindo 
de Kostainicza, «qui compte quinze perles & quinze cor- 
nalines de ce genre», e outro, proveniente do Egypto. 
Entre os factos prehistoricos parecem-me importantes os 
que menciona da Escandinávia: «perles en ambre affectant 
la forme de certaines haches en pierre polie» 4 ; e digo im- 
portantes, porque o âmbar, cujas virtudes maravilhosas 
já tive occasião de lembrar 5 , não entraria na feitura des- 
tes instrumentos sem motivo de superstição. 

Dos objectos triangulares, que existem no Museu da 
Commissão dos Trabalhos Geológicos de Portugal, e que 
tem analogia com os da Escandinávia agora menciona- 
dos, represento aqui os seguintes (fig. 17 e 18) em tamanho 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 198. 

2 Sobre este assumpto cfr. também Santos Rocha, Pequenas ha- 
chás de pedra das estações neolithicas do concelho da Figueira, in 
Revista de sciencias naturaes e sociaes (da Sociedade Carlos Ribeiro, 
do Porto), ii, 112 sqq. 

5 P. 49. 

* Ob. cit. 9 p. 50. 

* Vid. p. 128, 129, etc. 



145 

natural : o n.° 17 é de ribeirite, e foi achado numa gruta de 
Cascaes; o n.° 18 é da mesma substancia, e encontrou-se 
numa gruta artificial de Palroella. 

Muito bem acabado é o pingente triangular de ribeírite, 
proveniente da Casa da Moura (Cezareda), e em forma 
de ponta de setta, com entalhes lateraes na base, repre- 
sentado em seu tamanho natural na tig. 19. 

Cfr. também os dois objectos representados em tama- 
nho natural nas fig. 20 e 21, o primeiro de calcareo (pro- 




veniente de Cascaes), o segundo de ribeirite (vindo da 
Casada Moura), — os quaeB estão imperfeitos, mas talvez 
fossem primitivamente triangulares. 

Ma exploração a que o sr. dr. Mattos Silva procedeu, 
em Agosto de 1893, na anta da Capella, no concelho de 
Avis, exploração a que assisti, appareceu um objecto de ri- 
beirite muito semelhante ao da fig. 18, tendo porém um só 
orifício; e apparecêr&o mais três fragmentos da mesma 
substancia, igualmente furados, e que, pela comparação 
com o que appareceu inteiro, se podem mentalmente com- 
pletar: eis o desenho, em tamanho natural, de um que 



146 



o dr. Mattos Silva me offereceu, representando eu por 
pontos a parte que supponho faltar (fig. 22). 

Teremos realmente amuletos ou symbolos religiosos em 
todos esses objectos? Entre os amuletos do povo portu- 
guês não conheço nenhum de forma triangular, excepto 
os que são sem dúvida alguma imagens de coração; mas 
o Sr. Giuseppe Bellucci, na obra citada 1 , descreve alguns 
modernos da Itália com essa forma: n. 08 72, 78, 151 e 
158, a dois dos quaos o povo chama serpentino e pieira 
delpavone, servindo o primeiro «contro il morso dei rettili 
velenosi», e o segundo « contro il mal occhio e le malie», 
não se sabendo as virtudes dos outros dois. 

o) Conchas 

E muito frequente nos povos atrasados o uso de conchas, 
quer constituindo collares, quer avulsas. Se muitas vezes 
ellas são ornatos, moedas, etc., outras vezes são amuletos, 
ou ao mesmo tempo amuletos e ornatos. 

Tratando de certos amuletos de Zanguebar, diz o P. e 
Picarda: «lis sont pourtant bien simples, ces fameux 
ãawa: quelques coquillages, des parcelles de cornes ou de 
poils d^ntilopes, de la peau de girafe, des grains de sable 
et autres ordures que je ne voudrais pas nommer, le tout 
renfermé dans un petit sachet et suspendu par une corde- 
lette au cou, au poignet, au pied ou en sautoir sur la poi* 
trine: voilà tout rafFairc» 2 . 

Indicando quaes os trajos dos Polynesios e Micronesios, 
escreve Ratzel: a Las cosas más insignificantes y de más 
diversa índole tenían tambien su aplicación como adornos. 
El mar con sus brillantes conchas de todos colores ofrecía 
para ello abundantes materiales; pêro adernas Uevaban 
esos insulares flores y hojas elegantemente colocadas en el 
cuello, en la cabeza, en las orejas y hasta en la nariz. A 



1 Catalogo delia colUzione di amuleti. 

2 Apud Mèlusint, m, 248. 



147 



todos estos dijes la supersticion agrega las conchas y liuesos 
de determinadas formas, los huesos y los dientes huma- 
nos. . . »'. 

Dos Hottentotes diz o mesmo A. que trazem comsigo 
«pequefios cuernos, conchas de tortuga y otros objectos 
que sirven de adornos ó de talismanes»*. 

Se passarmos agora á Europa deparar-se-nos-hSo também 
frequentemente as conchas como objectos supersticiosos. 
Na antiguidade achá-las-hemos entre os Gallos 3 , e entre os 
Romanos, que tinhão como amuletos conchas dos géneros 
Pecten e Cypraea*. No poema Cynegetica falia Gracio Fa- 
lisco de «sacris conserta monilia conchisv (collares de con- 
chas santas) que, segundo a crença já então velha, era 
bom pôr ao pescoço dos cães hydrophobos 5 . Nos tempos 
modernos menciona-as, por exemplo, G. Belluci na Itália 6 . 

O sr. P. Sébillot, em dois trabalhos seus que consagrou 
ás conchas, consideradas ethnographicamente 7 , menciona * 
numerosas provas da santidade em que ellas são tidas em 
todas as partes do mundo, sobretudo nos povos de civiliza- 



1 Las razas humanas (trad. do allemào), Barcelona, i, 1888, 459. 

* Ob. ciL, i, 102, col. 2. 

3 Vid. Âmulettes gauloises et gallo-romaines, por G. de Mortillet, 
Paris 1876, p. 7; e o art. do Barão de Baye (citado supra, p. 129). — 
Nas grutas de Menton apparecêrâo conchas perfuradas alternando 
com caninos de animaes igualmente perfurados (A. Locard, Hut, 
dês moUusques, p. 25). Como aos dentes andâo de ordinário associadas 
ideias supersticiosas, talvez também aqui as houvesse com as con- 
chas, visto que estas apparecêrâo juntas aos dentes. 

* Dictionnairt des antiquités grecques et romaines, de Darem berg 
et Saglio, i, 256 e 257. 

Cfr. também A. Locard, Hisloire des móllusques, 1884, p. 234. 

* Verso 403. Edição de Baehrens, Leipzig 1879. 

6 Vid. o já cit Catalogo delia collezione di amuUti, n.° 112, etc. 

7 Esses trabalhos são : 

Legendes, croyanets et superstitions de la mer, vol. i, Paris 1886, 
civ, §2; 

Lt eoquilles de mer, in Revut cTEthnographie, 1886, p. 499 sqq. 



148 



ção menos adeantada. Com relação ás conchas que servem 
de amuletos cita, por exemplo, o seguinte: 

a) cEn Algérie les coquillages de mer comptent parmi 
les amulettes les plus efficaces»; 

6) «De nos jours les femmes du Çomal portent aur cou 
des amulettes de gros coquillages ronds: deux de ces 
amulettes figurent au Musée du Trocadéro»; 

c) «Les coquilles de mer sont des talismans populaires 
chez les Indiens de la cote d^Amérique, et les nègres de 
la Cote d'Or portent aussi, pour se préserver des tempêtes, 
des coquillages fetiches •; 

d) «Plusieurs dieux indiens ont à la main une coquille 
sénestre ; des amulettes en bronze affectent la forme d'une 
boule et représentent la conque de Krishna» 1 ; 

e) «A Dacca il existe toute une grande industrie qui a 
pour objet la fabrication, avec des coquilles de Turbinella 
pyrum et de Turbinella rapa, de bracelets, de pendeloques, 
de fetiches de toutes sortes. De temps en temps ou trouve 
dans le nombre une coquille sénestre, c'est la conque 
sacrée qui doit porter bonheur à celui qui la possède. A 
Calcutta, en 1882, une de ces coquilles fut vendue environ 
1.000 francs de notro monnaie» 2 ; 



1 Os exemplos citados até aqui são extrahidos das Legendes de 
la mer, i, 275 sqq. 

2 Este facto explica-se facilmente : é que certos objectos, quando 
são raros, eh ama o mais a attenção ; e nos povos de pouca civilização 
as ideias de raridade, maravilhoso e religião são muitas vezes syno- 
nimas. 

Concordão nisto os diversos observadores. A propósito do facto 
citado no texto diz também Locard : «La conque sénestre des Indous 
doit donc prendre rang à côté de ces singularités naturelles connues 
sous le nom de trefle à qualre feuilles, d'Ibis noir, de merle ou d'éU- 
phant blanc, et tant d'autres analogues. Ce ne sont pas de simples 
mythes, comine on serait tente de le croire, mais bien de véritables 
cas tératologiques recherebés, fêtés ou même adores, non point parce 
qu'ils sont beaux, mais simplement parce qu'ils sont rares». Ar- 



149 



/) « Aux íles Fidji, la coquille du trochus est mise dans 
un anneau pour servir d^mulette»; 

h) «Aux Nouvelle8-Hébrides, les indigènes ont au cou 
et quelquefois à Toreille des médaillons faits de^oquilles; 
ils sont suspendus par une ficelle de poil de roussette, et 
ils les regardent comme des amulettes efficaces»; 

i) «A Samoa, une large coquille d'ovula est attachée 
comme ornement à la place d'honneur dans les canots; 
quoique le capitaine américain ne le dise pas expressement, 
il est probable que les indigènes la regardaient comme 
une sorte de talisman protecteur de leur embarcation. Sur 
mes propres cotes, on les voit en usage parmi les marine, 
qui leur assignent une vertu protectrice»; 

j) «En Calabre, les coquilles garantissent du mauvais 
oeil»; 

k) a Dans les Asturies, pour augmenter son lait, une 
femme qui nourrit doit porter au cou, suspendu par un 
cordon, un coquillage appelé cuenta de leche (grain de 



nould Locard, Histoire des mollusques dans Vantiquité, Lyon- Paris 
1884, p. 59; e cfr. p. 57. 

Já antes (Foste A., tinha dito Gaidoz o seguinte a respeito da 
cerimonia druidica da colheita do gui du chêne: «A quoi le gui da 
chêne dcvait-il d'être une si puissante panacée? A un fait bien 
simple, à sa rareté et à 1'étrangeté de sa croissance. N'oublions 
pas que ce qui est merveilleux est toujours divin et fournit le sujet 
d'une invocation qui semble d'autant plus puissante que 1'objet invo- 
que parait plus en dehors des conditions ordinaires de la n ature. 
Ainsi le trèfle à quatre feuilles > plante assez rare, doit à sa rareté 
même de mettre celui qui le porte à Tabri de tout maléfice et de 
tout malheur». H. Gaidoz, La religion gauloise et te gui de chêne 
(extr. da Bev. de Vhistoire des religions, n), Paris 1880, p. 9. 

No nosso povo o trevo de quatro folhas também tem virtudes : vid. 
Trad. pop. de Portugal, p. 114. — Nesta categoria de factos entra 
igualmente o que o povo pensa á cerca da espiga roxa que ás vezes 
apparece quando se esfolha o milho (cfr. Trad. pop., § 236). No 
Alemtejo é costume conservar em casa estas espigas, ás quaes se 
deixa ficar uma parte do folhelho, de que fazem uma trança, para 
as pendurar (observei este facto no concelho de Avis). 



150 



lait), qui, pour avoir de la vertu, doit avoir été ramassé 
dans la mer» 1 ; 

l) «En Haute-Bretagne, pour préserver les enfants des 
vers, on leur met au cou un collier de patelles»; 

m) «Des charlatans italiens prétendent que le coquillage 
appelé dentale (dentalium), porte en amulette et pendu 
au cou, guérit de Tesquinancie»; 

n) aEn Pro vence, une coquille appelée, à cause de sa 
forme, oreille de madone, porte bonheur à celui qui Tappro- 
clie de son oreille» 2 . Este facto entra na categoria que 
estudei acima, pag. 113 sqq. 

Entre nós tenho visto, no Alemtejo, pequenas conchas 
univalves do género Nassa (N. reticulata), como amuletos 
infantis, preservativos do máo olhado 3 ; eu mesmo possuo 
na minha collecçao um d'estes búzios 4 . 

Por tanto, as conchas que conhecermos como havendo 
feito parte de collares prehistoricos, se podem ter sido 
ornatos, etc, também podem ter servido de amuletos 5 . 

Os exemplos que acabo de citar são bastantes para 
assentar esta hypothese. 

No Museu da Commissão Geológica, em Lisboa, ha al- 
gumas conchas com orifícios, o que mostra que andarão 
penduradas : por exemplo dos géneros Conus e Buccinum, 
achadas na estação prehistorica de Cascaes 6 . 



1 Em Portugal também lia o amuleto chamado conta leiteira, mas, 
pelo menos nas formas em que o conheço, nâo é feito de concha. 

2 Todos os casos citados desde o §-/ até aqui vem in Revue 
d'Ethnographic, 1886, p. 507 sqq. 

3 Cfr. Bellucci, loc. cit., n.° 1 15 (género Cypraea). 

* Vid. também A. Thomás Pires, Amuletos, p. 498. 

* Cfr. Eocha Peixoto, Notas sobre a malacologia popular, p. 5-6. 
6 A respeito das conchas tidas como sagradas, e como symbolos, 

nos diversos povos, podem ver-se noticias mais desenvolvidas nas 
obras especiaes que citei no texto, e que vem a ser : 

a) Arnould Locard, Histoire des mollusques dans Vantiquité, Lyon- 
Paris 1884, p. 31) eqq. e 221 sqq.; 



15 L 

d> Pingentes de osso 

Na fig. 23 represento um pingente de obso encontrado 
na gruta neolitliica do Carvalhal, e conservado no Museu 
da Commissão Geológica, em Lisboa. 

(Do exame a que procedi nelle nao posso con- 
cluir que fosse instrumento de uso. Seria ornato ? 
Seria amuleto? 
Raciocino aqui como a cima : podia ser qual- 
quer das cousas, ou ambas. 
Os ornatos de osso sao muito numerosos, mas 
também ha amuletos da mesma substancia. 
Já a cima me referi aos povos da Oceanía '. — 
Nos Hottentotes «los nifios llevan en eu cinturón 
algunos buesos para jugar ó á modo de talia- 
mãm*. — A respeito dos Qallos cita Mortillet 
amuletos ósseos 1 , e fora fácil reunir exemplos 
de outros povos 4 . 
Em Elvas (Alemtejo), diz António Pires, 
temos no ouso de cão, amuleto natural contra 
"* * a praga dos animaes. Dependuram, do pescoço 
do animal atacado de sarna, uma bolsinha contendo um 



b) Paul Sébillot, Legende*, croyanee* et luperettíitm* de la mer, 
yol. i, Paris 1886, c. iv, | 2; 

c) Idem, Lo coquille* de mer (étude ethnographique), io fíevue 
d'ethnagraphie, 1886, p. 499 sqq.; 

d} Rocha Peixoto, Nota» aobrt a malacologia popular, Porto 1889, 
p. 3 sqq. 

Noticias avulsas podem eu contrai- -se noutros trabalhos, por exem- 
plo (alem d'aquellea a que me referi no texto) no Second atwual 
RepoH of lhe Bureau o/ KÚmology, 1880-1881, Washington 1888. 

' P. 146-147. 

1 ltatzel, La* rata» humana* (trad. do allemao), i, Barcelona 1888, 
p. 102, col. 2. 

* Opúsculo citado, p. 8. 

» Cfr. também Goblet d'Alviella, L'idíe de Dieu, 1892, p. 20-21. 

De superstições com ossos de d ef une tos vid. casos em Wuttke, 
Der deut. Volktab., 1869, % 185. — Cfr. supra, p. 122, nota 4. 



152 



osso de cão, para o livrarem do mal» 4 . Também observei 
o mesmo amuleto nos concelhos de Avis e Ponte-de-Sor ; 
só elle differe em o pendurarem, em vez de o collocarem 
dentro de uma saquinha. Nestes dois concelhos dá-se o 
nome de praga a uma ferida verminosa (nos cães) 2 . 

Fallando de livros mysticos' populares, diz pitoresca- 
mente Camillo Castello Branco, num seu romance: «Tinham 
grande sahida os Cordoes do mesmo santo (S. Francisco), 
e as Correias de S. Agostinho, com um botão de osso, a 
apertar a cintura, — arnez impenetrável ao diabo por causa 
do botão, que, posto na correia, tem virtudes para osso 
muito admiráveis, quasi como as da carne, mas no sen- 
tido inverso, — olla attrahindo o cão tinhoso, e elle repul- 
sando- o» 3 . Não conheço no povo esta superstição, mas 
deve ser exacta, porque Camillo costumava descrever com 
fidelidade os costumes do povo: o romance A Brasileira 
de Prazins , d 'onde extrahi a passagem, contém boa collec- 
ção de factos ethnographicos e dialectologicos a respeito 
do Minho 4 . 



* 



Era aqui logar de fallar dos amuletos cranianos; mas, 
como se ligão com outra ordem de ideias, reservo-me para 
fallar d'elles adeante no § III. 



1 Loc. cit.j p. 501. 

2 Sobre amuletos contra as feridas verminosas vid. Bellucci, Ca- 
talogo delia collezione di amuleti, Perugia 1881, n.° 84 (animaes 
suínos e ovinos); e cfr. n.° 90. 

» A Brasileira de Prazins, 1883, p. 340-341. 

* As virtudes do botão e do osso explicao-se pelo que escrevi a 
cima, p. 119 (sobre o nó), e p. 113 sqq. (similia himilibus: cfr. 
p. 133). Apesar de Camillo dizer que o botão serve hoje para repul- 
sar o Diabo, o e Afeito que elle devia realmente produzir aos olhos 
dos primitivos crentes era fixar o mal, impedindo que este actuasse 
no corpo da pessoa que trazia o betão. 



Aa contas estão no mesmo caso que qualquer dos obje- 
ctos precedentes. 

Plínio falia das mulheres ribeirinhas do Pó, as quaes 
nsavSo de collares de âmbar nao só para se ornarem, 




mas também para se preservarem de doenças 1 . No nosso 
pais não só o coral é ainda hoje trazido em collares, ao 
mesmo tempo como amuleto e como enfeite, mas usao-se 
supersticiosamente, para certoB fins, collares de contas 
feitas de raiz de lirio e de páo de figueira 1 . As pessoas 
supersticiosas attribuem ao coral virtudes contra a melan- 



1 DidioH. de» antiq. grte. et rom. de Daremberg A Saglio 
i Vid. Trad. pop. de Portugal, p. 123-124 (S 251-á-«). 



154 



colia, e contra certas moléstias dos olhos. De contas de 
azeviche no nosso povo fallei ha pouco (p. 139). Posso 
aqui mencionar igualmente os rosários de contas. 

Difficil ou impossível cousa será saber se as numerosas 
contas de ribeirite, schisto, etc., que se tem extrahido das 
nossas estações prehistoricas, erão amuletos ou somente 
jóias, ou, o que é muito possível, as duas cousas juntas. 

Sobre outras contas empregadas como amuletos vid. 
supra 1 . No citado poema de Gracio Falisco, Cynegetica, 
também são lembrados contra a raiva nos cães os amuletos 
(já então antigos) de coraes de Malta : 

circa Melitesia nectunt 

Curalia 2 . 

O nosso Fr. João dos Santos, fallando do peixe-molher, 
que se cria nos mares de Sofala, diz : «Tem a boca cheya 
de dentes, como dêtes de cão, quatro dos quaes, que são 
as prefas, lhe faem fora da boca quafi hu palmo, como 
dentes de porco javali, os quaes fão muy eftimados, e 
d'elles fazem as contas a que chamão de peixe-inolher, e 
dizem que tem muita virtude contra as almorreimas, e 
contra o fluxo de fangue, e traz§-fe pêra iffo junto da 
carne 3 ». Esta superstição podia entrar também no para- 
grapho em que me occupo dos amuletos dentários. 

E pouco custaria juntar mais exemplos do uso de 
contas como amuletos. 



1 P. 87 e 128. Sobre o âmbar, vid. p. 129, nota. — Estado da 
Veiga, Antiguidades monumentae* do Algarve, m, 167, e est. vu, 
indica cinco fragmentos de pingentes de âmbar escuro, provenien- 
tes da estação prehistorica de Alcalar (Algarve). 

* Vv. 404 e 403. Edição de Baehrens, Leipzig 1879. 

3 Ethiopia oriental, liv. i, cap. xxvn (ed. de 1609, p. 40-41). — 
Segundo me indica o meu amigo o sr. Alberto Girard, natura- 
lista do Museu Nacional, o peixe-molher tem grande analogia com 
o Halicore Dugung, Cuv. (em francê3 dugong). 



155 



f) Placas 

Ab placas constituem, como disse a cima 1 , uma par- 
ticularidade muito notável da nossa archeologia prehis- 
torica. Encontrão-se nas três províncias do Sul, e em 
parte da Beira, havendo a respeito d'ellas noticias em 
vários trabalhos de archeologia prehistorica*. Nesses tra- 
balhos vem muitas estampas, todavia eu figuro aqui algu- 
mas placas ainda inéditas, — todas achadas na canta 
grande» da Ordem, no concelho de Avis, e pertencentes 
ao sr. dr. Mattos e Silva, que obsequiosamente me permittiu 
que fossem photographadas. Estas figuras contém alguns 
dos principaes typos da maioria das nossas placas. Vão 
aqui todas em metade do tamanho natural. 

A placa de ardósia, representada na fig. 24, é um typo 
bastante frequente. 

A placa da fig. 25, com uma pequena falha, é um des- 
envolvimento do typo precedente, embora somente com um 
orifício. Os ornatos de uma das secções médias da placa 
como que se assemelh&o a algumas das pontas de setta 
neolithicas. 



» Pag. 69. 

2 Vid. por exemplo os de Philippe Simões, C. Ribeiro, Cartai - 
lhac, etc. e o Boletim da Socicd. Archeologica do Carmo, vi-46, est. 
n.°86. — E. da Veiga, nas Antiguid. monum. do Algarve, h, 429 sqq.» 
consagrou -lhes um artigo extenso, e esboçou um inappa da sua dis- 
tribuição geographica. Já depois da publicação d'este trabalho o 
número das placas tem augmentado muito. Só nas explorações que 
o dr. Mattos e Silva e cu fizemos em Avis, em 1892, encontrámos 
grande quantidade d'ellas (cfr. supra, p. 34, nota 4). — No Norte 
do reino não tem por ora apparecido, e mesmo na Estremadura não 
apparecem sempre : assim na exploração a que procedi em Setem- 
bro de 1893, no «Castello» de Pragança (Cadaval), exploração a 
que assistirão também os meus amigos dr. Henrique Schindler e 
Maximiano Gabriel Apollinario, manifestárão-se quasi todos os cara- 
cteres do nosso neolithico menos as placas de schisto. 



IÓ6 

A placa da fig. 2tí, da mesma substancia, falhada num 
lado e com algumas raxas, pertence ainda á classe dos dois 
typos precedentes, mas é mais bella; as secções em logar 
de serem horizontaes, Bão verticaes; ob traços indicão 
muita certeza de mão. 




A placa figurada com o n.° 27, também com uma falha, 
é a mais delicada de todas, e com um tvpo de ornamen- 
tação differente. Nas outras os orifícios oceupão uma secção 
especial; nesta não. Esta placa não é de ardósia, no que 
também differe das mais. 

Apesar do gosto e habilidade que estas placas já revê- 
Ião, o desenho, como se vê, não passa por ora ainda do 
geométrico. 

A placa figurada com o n.° 28, de ardósia, tendo uma 
falha no angulo esquerdo superior, offerece uma peculiari- 



157 

dndc notável: é a barbárie da sua ornamentação, ou antes 
pseudo -ornamentação '. 

Com estas placas foi achada outra também de lousa, 
qne nao represento aqui, e em que a ornamentação, igual- 
mente barbara, occupa as. duas faces da placa 1 . 




A placa da fig. 29, com uma fractura obliqua de cima 
para baixo e da esquerda para a direita, nao contém or- 
nato algum, e parece que nunca o teve. E. da Veiga (11, 
441) cita um exemplar de placa de schisto, inteiramente 



' Já me referi a ella a cima, p. 34, nota 4. — £. da Veiga também 
representa naa Antiguidades do Algarve, tt, est. 2 (das placas de 
schieto) uma muito barbaramente ornamentada. 

1 Quanto a outras, ornamentadas também nas duas faces, vid. 
Estacio da Veiga, Antiguidade* monumenlact do Algarve, n, 436. 



158 



lisa, que elle considera como esboço «já preparado para a 
gravura» . No Cabeço dos Moinhos (Figueira) encontrou o 
sr. Santos Rocha uma placa de ardósia irregularmente 
estriada numa das faces e com vestígio de orifício de 
suspensão na parte superior, mas sem ornamentação ne- 
nhuma '. 



A propósito das placas tem de se estudar três ordens 
de questões : o local e frequência do seu apparecimento ; a 
natureza da sua substancia, e o seu desenho, comparado 
com o de outros objectos contemporâneos ou vizinhos no 
tempo; a sua significação. Estacio da Veiga, no livro ha 
pouco citado, reuniu alguns elementos para esse estudo. 
Das duas primeiras questões também eu já disse a cima 
algumas palavras ; resta-me fallar da última. 

Primeiro que tudo, vê-se que as placas erão para se 
pendurarem e estarem á mostra, porque todas quantas 
tenho visto, á excepção de uma, que é feita de outra 
placa, possuem um ou mais orifícios de suspensão, e, com 
excepção de raríssimas, relativamente ao número das que 
se conhecem, que já orça por muitas dezenas, contém 
ornatos, e geralmente só de um lado. 

Mas serviâo ellas de enfeites, insígnias ou objectos reli- 
giosos? 

Não sei se, em virtude das considerações que fiz a cima 
(p. 106-110), a respeito da utilidade prática dos objectos 
que, parecendo á primeira vista meros ornamentos de povos 
inferiores, o não são, se poderá admittir que as placas ser- 
viâo puramente de enfeites pessoaes. 

Com relação a serem insígnias, se o erão, difficilmente 
também em povos do grau de' civilização d'aquelles, de 
que estou fallando, uma insígnia se distinguiria de um 
objecto religioso. 



1 Antig. da Fig., i, 16. — Cfr. Estacio, Antig. do Alg., m, 353. 



159 



Estacio da Veiga, embora com outros argumentos, com- 
bate a hypothese de ellaa^ haverem servido de enfeites *. 

Lembra ainda uma hypothese : as placas seriâo objectos 
de virtude sobrenatural, e conservar-se-hiâo penduradas 
em casa 2 . 

No emtanto Estacio (n, 436) escreve: • todas tein junto 
ao bordo superior um ou dois orifícios, deixando presumir 
que seriam objectos de trazer suspensos, como com effeito 
mostram alguns já um tanto abatidos e roçados pelo attrito 
do cordão, ao passo que outros conservam ainda as estrias 
de rotaç&o, produzidas pelas pontas de silex que os abriam 
por um e outro lado». O exame a que procedi, quer nas 
placas que ficâo figuradas nas paginas antecedentes, quer 
em muitas outras que vi, levou-me á mesma conclusão: 
em algumas os orifícios estão com as arestas perfeitamente 
vivas, mostrando que nellas não houve o minimo attrito de 
cordel ou de fio de suspensão ; noutras ha vestígios d'esse 
attrito, mas muito ténues. 

Quando não existe vestígio de attrito, o que mostra que 
as placas não andarão penduradas junto ao corpo, temos 
um facto a favor da última hypothese que enunciei. Devo 
porém lembrar que, como as placas, ou pelo menos a 
maioria d'ellas, pertencem a despojos funerários, não ha 
absurdo em se suppor que se enterrassem com o morto 
placas novas, e por tanto sem vestígio de attrito: ainda 
hoje se faz isso em Portugal com o vestuário do morto 8 . 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, n, 437. 

2 A mesma hypothese se encosta igualmente Estacio da Veiga : 
ob. cit, ii, 437 (e cfr. também Filippe Simões, IrUrod. á archeolog., 
p. 53). Tanto Estacio (ob. cit., n, 431-435), como G. de Mortillet 
(Muiée prehistoriquc, p. 557), ligâo certo valor symbolico á forma 
triangular de alguns desenhos das placas. Como objecção, ou pelo 
menos restricçâo, a esta hypothese, devo notar : de um lado, que os 
ornatos das placas nào são sempre triangulares; do outro, que a 
ornamentação angular e triangular é, pela sua simplicidade, das 
que primeiro acode ao espirito de quem começa a desenhar. 

3 Cfr. Tylor, Civilis. primit., i, 562 (objectos novos enterrados). 



160 

Mas em algumas o facto' do attrito é positivo. Agora, 
vista a tenuidade d'elle, o que é que deve admittir-ae : que 
as placas só poucas vezes forão usadas, e isto em occasioes 
solemnes, — ou que a repetição do acto de as pendurarem 
em casa, e certa fôr^a empregada nesse acto, bastavSo 
para produzirem o attrito? Se as placas se conservavSo 




em casa, er&o muito provavelmente objectos religiosos; 
se só se punhao em occasioes solemnes, ficamos em dúvida 
á cerca da significação do seu uso, embora, pelo conhe- 
cimento geral que temos da cthnographia dos povos atrasa- 
dos, não estejamos, como já lembrei, auetorizados a excluir 
totalmente d'ellas a ideia religiosa. Isto justifica o haver 
eu fallado d'ellas na presente obra, e ter dado ao assumpto 
algum desenvolvimento, 

A maioria das placas tem forma trapezoidal ou sub- 
trapezoidal ; ha-as porém com outras formas, como vamos 
ver já. 



161 



Lembrarei em primeiro logar as placas em forma de 
báculo, de que dou aqui amostra reduzida na fig. 30*. 
Teui-se aventado várias hypotheses quanto á sua signifi- 
cação 2 . Não repugna totalmente a hypothese d'aquelles 
investigadores que vêem ahi um symbolismo phallico, pois 
que este symbolismo, como terei occasião de mostrar noutro 
volume da presente obra, desempenhou nas religiões an- 
tigas papel importante. 

Em segundo logar lembrarei duas curiosas placas de 
schisto, uma das quaes foi achada numa gruta do Carvalhal 
(Alcobaça), e a outra numa anta ao pé de Idanha-a-Nova. 

A primeira pertence hoje á collecç&o organizada em 
Alcobaça pelo sr. Vieira Natividade, a cujo obsequio devo 
o tê-la visto e poder reproduzir aqui uma photographia 
d'ella na fig. 32 (tamanho natural). Esta placa, como me 
nota o Sr. Natividade,* parece representar, «ainda que 
grosseiramente, a cabeça de um mocho ou corujai. Em 
these, isso podia ser, tanto mais que a coruja e o mocho 
são animaes de que existem muitas tradições religiosas 3 ; 
mas provavelmente aqui a semelhança é fortuita. 



1 Extrahida dos Estudos prehistoricos de Carlos Ribeiro, vol. n, 
est. vi, n.° 1. 

Vid. ainda: Philippe Simões, Introducção á archeologia da penín- 
sula iberica t p. 53 (fig. 33) ; Carlos Ribeiro, ob. cit., ib., est. v ; £s- 
tacio da Veiga, Antiguidades monumentais do Algarve, n, est xn 
(placas de schisto) ; Cartailhac, Les ages préhist., 92 sqq. 

No Museu Ethnographico Português também ha uma placa d 'esta 
espécie, a qual porém não foi ainda publicada. Obtive-a para lá por 
compra. Cfr. O Archeologo Português, i, 220. 

2 O Sr. G. Mortillet, por exemplo, compara- as com os desenhos 
que se observSo em alguns monumentos megalithicos prehistoricos 
de França, desenhos que, segundo elle, representâo «sans doute 
des batons, servant d 'ar mes ou d'instruments, auxquels on atta- 
chait peut-être déjà une idée de dignité et d'autorité» (In Be- 
vue meneuelle de Vtkolt d'anthropologie, iv, 307). 

3 Como não vem a propósito fazer agora uma monographia sobre 

ellas, basta indicar o seguinte: 

li 



162 



A placa de Idanka-a-Nova pertertce ao Sr. António 
Pereira da Nóbrega, que com a máxima liberalidade me 
permittiu também que a examinasse e a fizesse desenhar. 
Vae representada na fig. 31 em -§- da grandeza natural. 
A semelhança d'esta placa com a de Alcobaça ninguém a 
contestará; ao mesmo tempo vê-se que em ambas se trata 
de uma representação zoomorphica, provavelmente humana. 

Com aquella placa da Idanha appareceu a metade in- 
ferior de outra: talvez pertencesse á mesma classe, mas 
nada se pôde dizer ao certo; em todo o caso represento-a 
na fig. 33, em -f do seu tamanho { . 



Em relação ao mocho vid. Trad. pop. de Portugal, § 299, e A. 
de Gubernatis, Myíhologie zoologique, n, Paris 1874, p. 257 sqq. 

Os antigos gregos consagrarão á drusa Átlicnc ou Palias a ave 
chamada -yXai; : vid. Roscher, AtitfuhrlicJtes Lcxikon der Griech. 
und Hõm. MylhoVgie, I, s. v. Athene. col. G78, G86, etc. A ftaúÇ 
tornou se por isso o emblema monetário da cidade de Athenas : vid. 
ob. cit., passim (e tambem a estampa da col. 693) ; Head, A manual 
of Greek Numismastics, Oxford 1887, p. 310 sqq., — e qualquer outro 
tratado de numismática antiga. A 7/a^, como emblema monetá- 
rio, não figura só nas moedas de Athenas : vid. Rasche, Lexicon 
univeraae rd numariae, Leipzig 1787, s. v. voctua; Babelon, Mon- 
naies de la republique romaine, 11 (Paris-Londres 188G), indice s. v. 
choueíle. — Cf. ainda Schliemann, Atlas des antiquités Troyennes f 
Leipzig — Paris 1874, est. liv, lix, etc. (vasos com a imagem da 
ave de Palias). 

Em regra, quando um animal, num período adeantado de desen- 
volvimento religioso, se torna emblema de uma divindade, é porque' 
foi, num período antecedente, a própria divindade. 

1 A arte dos povos de civilização inferior offerece muitos exem- 
plos de representações humanas comparáveis com estas, o que nâo 
deve attribuir-se a influencias reciprocas, mas á paridade do desen- 
volvimento esth ético. 

No livro do M. de Nadaillac, Les premiem hommes, 1, 135, encon- 
tra- se uma figura humana, e um esboço de outra, feitas de chifre de 
rangifer, achadas na gruta de Rochebertier (Charente), que nâo são 
superiores ás das placas portuguesas. 

Vejào-se ainda várias estampas na dissertação de W. Holmes, 
Ari in ehell of the Ancient American* (publicada in Second annual 



163 



As duas primeiras placas, alem de serem dois dos raros 
exemplares da arte neolithica portuguesa, no sentido da re- 
presentação animal, constituem interessantes documentos 
para o conhecimento das ideias religiosas do periodo de 
que estou fallando, porque serão talvez mais do que sim- 
ples amuletos nu feitiços, serão acaso já ídolos. 

Adeante citarei outros exemplos de objectos zoomor- 
phicos, também encontrados em sepulturas neolithicas *. 



Ha outras placas que, com quanto de menores dimen- 
sões, e ás vezes de outras substancias, me parece que não 
devo deixar de aqui mencionar. Vid. por exemplo as se- 



Tteport of the Bureau of Ethnólogy to the, Secretary of the Smith- 
Honian Institntion, Washington 1883), principalmente as est. lxix e 
lxx : ahi a expressão artística tem o mesmo valor que nos casos 
supra-mencionados (de Portugal e de França). 

Particularmente curiosos neste sentido são também os desenhos 
publicados pelo sr. L. Siret in Uanthropologie, 1892, iii : ídolos de pe- 
dra, de Hissarlik (p. 397) ; vasos neolithicos de Hespanha (p. 395). 
D'e8tes últimos diz o A. do artigo : «Certains desseins nous parais- 
sent simplement décoratifs, mais d*autres sont certainement symbo- 
liques : de grands yeux avec leur sourcils, en dessous des seins ...» 
(p. 396). 

1 Conforme digo no texto, são raras entre nós manifestações zoomor- 
phican na arte neolithica. Positivas não se publicarão por ora mais 
nenhumas senão as que apresento no texto. Estacio da Veiga, nas 
Antiguidades monnmentaes do Algarve, in, 206, menciona uma la- 
mina de schisto, em que pretende ver gravada uma figura hu- 
mana; mas confesso que o desenho que elle traz não me convence. 
O sr. Santos Rocha, in Revista das sciencias naturaes e sociaes, iv, 1 
sqq., num artigo intulado «A arte nas estações neolithicas do con- 
celho da Figueira», oceupa-sc de duas lascas de silex retocadas, 
em cada uma das quaes também julga ver representado um perfil 
da cabeça humana; sem pôr em dúvida a descripção que o illustre 
archeologo faz das lascas, tenho para mim que a coincidência entre 
a forma dos retoques e o vago perfil da cabeça humana é casual, — 
e desculpe -me o meu prezado amigo a franqueza (Testa opinião. 



guintes, que se guardao no Museu de Anthropologia da 
Direcção dos Trabalhos Geológicos de Lisboa: 




a. da fig. 34 (em tamanho natural), de ardósia, achada 
em Cascaes numa gruta ' ; 



1 Esta estampa vem também em Cartailhac, Lts âgu prihist. de 
VEtpagne et du Portugal, p. 106, o." 129 (reduzida). 



165 

a da ãg. 35 (ein tamanho natural) de calcareo, também 
de Cascaes; 

a da fig. 36 (em tamanho natural), de calcareo, da mesma 
procedência ' ; 

e a da fig. 37 (em tamanho natural), de calcareo, pro- 
veniente da 4.' furna ou gruta artificial de Palmella. 




As placas representadas nas fig. 3G e 37 são principal- 
mente curiosas por conterem desenhos; a última, com os 
seus sulcos parallelos. ainda que ás vezes um tanto oblí- 
quos, lembra bastante as placas grandes de ardósia de que 
fallei primeiro (de pag. 155 em deante). 

As placas precedentes posso ainda juntar outra, de 
serpentina, com ornatos, a qual se suppoe que proveiu da 



1 Esta estampa veia igualmente em Cartailhac, La ãga prihiit. 
de VEtpagne et du Portugal, p. 106, a.» 127 (reduaida). 



Hi6 



estaç8o prehistorica de Aljezur (fig. «38, — em tamanho na- 
tural *). 

Estas placas pequenas é que, pela exiguidade das suas 
dimensSes, erão próprias para poderem andar penduradas 
ao pescoço, á cinta, etc. Traria assim comsigo o povo como 
que uma imagem reduzida dos objectos maiores, que po- 
dião ficar guardados em casa, ou que só mais raramente 
se trarião 5 : também hoje os fieis trazem ao pescoço veró- 
nicas, bentinhos, e outros pingentes, que sao reducçftes de 

imagens maiores. 

# 

Mas, quanto á hypothese de serem todas as placas obje- 
ctos de religião, é claro que lhe nâo ligo maior valor do 
que o que ella realmente tem, pois de sobra tenho insis- 
tido nas difficuldades do assumpto, para que eu pretenda 
chegar de pronto á solução definitiva doeste problema. 



Muitos mais objectos existirião no período neolithico capa- 
zes de serem neste logar mencionados como amuletos : uns, 
que se terião perdido, como os constituidos por materir.s 
destruetiveis 3 ; outros, cuja significação se torna hoje diffi- 
cil ou impossível descobrir 4 . 



1 Foi-me offerecida pelo sr. António J. Júdice, da Mexilhoeirinl a 
(Portimão), e está na minha collecçào archeologica. — Sobre a esta- 
ção de Aljezur vid. £. da Veiga, Ântig. do Algarve, i, 145 sqq. 

2 No Museu da Direcção dos Trabalhos Geológicos ha uma placa 
de lousa ornamentada, e furada, que, alem de não ser muito grande, 
tem a particularidade de ser atfei coada em forma de machado, e 
de ter sido feita de outra placa maior, o que se reconhece immedia- 
tamente pelos deseuhos É uma espécie de palimpsesto. 

1 Cfr. supra, pag. 86 e 89. 

4 Cfr. supra, pag. 85-90. — Amuletos feitos de pedras, umas 
com forma natural, outras com forma geométrica, vem descritos em 
Bellucci, Catalogo (já cit), passim; e em Cartailhac, Les ages de 
pierre dans les souvenirs (também já cit.), pag. 91-93, notas. 



167 

Quem coDhece as tradições populares, a archeologia e 
os costumes dos povoa selvagens, sabe que o número dos 
amuletos é muito maior e mais variado do que o d'aquelles 
que estudei nas páginas precedentes. Mas eu não quis 
sabir fora da área dos factos materiaes deixados pelos 
nossos avoengos neolíthicos ; e, dentro ainda d'esses factos, 
procurei manter-me nos limites da prudência. 




NXo obstante, haverá alguém mais timorato que me 
aceuse de exaggêro. A esse tal offereço as seguintes pala- 
vras de um bom observador e apreciador dos phenomenos 
religiosos : 

iNoub possédons un certain nombre de gravures qui 
remontent à 1'ftge du retine, et il est difficile de ne pas 
admettre que cet art primitif ait eu une portée religieuse. 



16 



Ce sont le plus souvent des représentations cVanimaux, 
roammouths, rennes, chevaux, serpente, poíesons, dessi- 

néa sur des fragmente d'os ou d'ivoíre Chez les nè- 

gres, toutes les représentations analogues aont dee feti- 
ches, ou, du moins, ont im but conjura to ire II con- 




vient de mentíoDner également les coquilles parforées, les 
fossiles, les cristanx, les cailloux de quartz et tes comes 
de retine déposés à l'intérieur des tombes, parfoia méme 
dans la maio du mort, objets sans utilité pratique, qui 
ont pu servir d'omements, mais qui, dans certaius cas, 



16» 



tloivent avoir été eraployés comme talismanB ou comine 
amuletteB» '. O A. refere-se especialmente ao período pa- 
leolithico 1 , mas os seue argumentos sâo do mesmo modo 
válidos em relação ao neolithico, cujas ideias religiosas elle 
considera, com razão, como desenvolvimento e generaliza- 
ção das d'aquelle período 3 . 

Devemos ter sempre na memoria que estamos deante 
de povos que se encontravSo em grau muito inferior de 
civilização: que se serviSo de instru- 
mentos de pedra; que vivião em humil- 
des cabanas, ou ainda provavelmente em 
grutas, ou ficavSo nào raro ao cen se- 
reno; que não possuiâo a arte de escre- 
ver; que no desenho, ora não ião alem 
do linear, ora se limitavão a esboços de 
figuras zooraorphicas ; de povos, emfim, 
que enterravâo os mortos em monumen- 
tos extremamente nides . . . Homens as- 
sim não se elevao As altas concepções 
philosophicas : por isso não estranhemos 
que nclles, como nos selvagens moder- 
nos, e nas camadas baixas das nações 
cultas, os dentes, as contas, os dixes 
de osso, os búzios, as pequenas pe- 
' '*' dras . . . , que elles trazião profusamente 

comsigo, em collares pendentes ao pescoço, e em xorcas ou 
em cintilhos, pudessem formar tliema de veneração religiosa. 




1 Goblet d^AlviclIa, L'id/t rfe Dieu, 1H92, p. l!l-ál. 

* Antes de eo ter conhecimento do livro do er. Golilei d'Alviella, 
que é de 1892 (e a presente obra cstí no prelo defdc casa data), 
escrevi, também sobro o período paleolitliico, o que fita dito a 
p. 85-96, em que discuto aa ideias do ar. Morlillet Todavia o que 
li digo já estava contido em gérmen num pequeno trabalho meu pu- 
blicado em Lisboa cm 18S9, <■ intitulado Klmchoda» liçòt» de uiimit- 
maíica (i, 21 c nota). 

' 7,'íoVe de Vien, p. 22. 



170 



Hl. Trepanação prehistorica e factos correlativos 

E sabido que nos tempos prehistoricos se praticavSo 
duas espécies de trepanação nos crânios humanos: uma, 
durante a vida do indivíduo, o que se reconhece pelos 
vestígios da cicatrização dos bordos da abertura ; outra, no 
crânio de um individuo já morto. Encontrárão-se também 
crânios em que se praticarão successivamente as duas 
operações: uma, durante a vida; outra, postmortem. Com 
estes factos liga se o terem apparecido nas estações pre- 
historicas pequenos fragmentos e rodellas de crânios huma- 
nos, ás vezes com perfurações, como que para andarem 
pendurados, outras vezes sem ellas. 

Quem primeiro sujeitou o assumpto a estudo desen- 
volvido foi o dr. Prunières (1873) 4 ; depois Broca reto- 
mou-o (1876-1877) em trabalhos que ficarão célebres na 
sciencia 2 . Mas não se limitão a estes dois os investigadores 
que se tem occupado da trepanação prehistorica: ha mais, 
tanto franceses, como alleinães, etc. Até á data de 1882 
acha-sc condensado no trabalho de Robert Fletcher, — On 
prekistotic trepkining and cranial amulets, Washington 
1882 3 — , tudo, ou quasi tudo, o que a este propósito se 
havia publicado. De 1882 para cá ignoro se existem tra- 
balhos especiaes sobre o assumpto ; sei apenas de notas ou 
allusões avulsas a elle, como terei occasião de dizer. 



1 Â880ciation française pour Vavancement dts sciences : Compte- 
rendu de la 2«" scssion : Lyon 1873 (Paris 1874, in-8.°, p. 703). Este 
trabalho não o conheço directamente. — Sei que ha outros do mesmo 
auetor. O descobrimento de crânios trepanados data já de 18G8 (tam- 
bém de Prunières): vid. Broca in Recue <f'AtUhropologie t vi, 7. 

2 Vid. : Congrhs d'anthropologie préhistorique de Budapest, 1876 ; 
Revue d* Anthropologit, vi, 1-42 e 193-225, Paris 1877. 

3 Este trabalho faz parte das Contribution* to North American 
Ethnology, vol. v; mas tem paginação á parte, e por isso constitue 
por si um livro. 



171 



Os trabalhos especiaes que conheço directamente á cerca 
da trepanação prehistorica, e de que aqui me sirvo, são os 
seguintes (dois d'elles já citados) : 

Sur Ia trêpanation du crâne et les amulettes cranien- 
nes à Vêpoque néolithiqtie, por Paulo Broca (in Rtvue 
d' Anthropologie, vi) ; 

La trêpanation préhistorique, por Joseph de Baye (Paris 
1876); 

On prehistoric trephining and cranial amuleto, por Robert 
Fletcher (Washington 1882). 

A) Trepanação em Tida 

Para explicar a trepanação em vida, defendeu e justifi- 
cou Broca, no artigo ha pouco citado, uma brilhante hypo- 
these, que vou expor. 

Os povos incultos admittem que certas doenças são 
produzidas por espíritos maus que entrão no organismo 
humano ' : quando o logar de eleição para o alojamento dos 
espíritos fôr o cérebro, o melhor meio de lhes dar sahida, 
para alliviar o doente, será abrir o crânio. 

D'aqui o suppôr Broca que a trepanação prehistorica 
tinha por fim expulsar da cabeça do doente os espíritos 
causadores do mal. Acreditar-se-hia muito naturalmente que 
os espíritos maus se alojarião na cabeça, quando as doenças 
fossem nervosas, como loucura, cephalalgia, e as de sym- 
ptomas convulsivos, etc. 

Broca lembrou a este propósito os seguintes factos, que 
são muito interessantes: 

cPartout les maladies convulsives ont été attríbuées aux 
esprits, aux dieux, aux démons, aux influences mystiques. 
Hippocrate écrivit sou beau Traité de la máladie sacrée 
pour combattre ce prejugé; et il lo fit sans le moindre 
succès, car au temps d'Aristote 1'épilepsie s'appelait encore 



1 Cfr. adeante p. 181, onde cito exemplos. 



172 



le mal d y Htrcule '. Le mot épileptíque signifie : saisi d'en 
baut. Les Latins nommaient Tépilepsie morbus major* ; 
au moyen age ce fut le mal Saint-Jean, le mal d'en kaut, 
le haut mal, et ce dernier nom est encore tres-usité dans 
le peuple. Les démoniaques de FEvangile sont des épile- 
ptiques; pour les guérir il faut chasser les esprits qui 
s'agitent dans leur corps, et parfois, à la suite de ce mira- 
cle, on voit les esprits malins se réfugier dans le corps des 
animaux qui se trouvent à leur portée. La croyance aux 
possessions s'est perpétuée jusqu'à nos jours; TEglise a 
toujours ses cérémonies d^xorcisme. Taxil, au dix-septième 
siècle, consacre tout un ckapitre à prouver que les démonia- 
ques sont épileptiques 3 . Tout le monde connaít 1'histoire 
des convulsionnaires, qui fut prise au sérieux en plein dix- 
huitièmc siècle, et qui s'est plusieurs fois reproduite de 
notre temps. Ces superstitions populaires, que nous voyons 
autour de nous, surtout dans nos canipagnes, fleurissent 
bien plus encore chez les pcuples incivilisés. Ce ne sont 
pas seulement les affections eonvulsives qu'ils attribuent 
aux esprits : ce sont toutes les maladies qui troublent Tin- 
telligence. Les idiots et les fous sont chez eux Tobjet d'un 
respect mêlé de crainte ; mais ils vénèrent surtout les épi- 
leptiques, dont les mouvements effrayants et désordonnés 
témoignent de Tagitation de Tesprit emprisonné dans le 
corps f 4 . 

O que Broca diz, referindo-se aos epilépticos, deve tam- 
bém, segundo creio, applicar-se aos hystericos. A terrível 
nevrose chamada hysteria, que offerece tanta variedade nos 
seus symptomas, com quanto, nas suas formas apparatosas, 



1 Âristoteli» ProbUmata, sect. 30, quaest. 1. 

2 Celsc, lib. iii, cap. xxni. Les Romains appelaieDt aussi l'épi- 
lcpsie morbuê comiticdis, parce qu'il fallait fermcr les comices lorsque 
l'un des assistaDts tombait en convulsions ; c'était un signe de la 
colère des dieux. 

3 Taxil, Traitl de Vépilepsie, Lyon 1603, liv. i, eap. vn (p. 149-159). 
* fíevue d y Anthropologie, vi, 206-207. 



173 



seja muito mais vulgar em mulheres do que em homens, 
também apparece nestes, e alem (Tisso pôde, tanto num 
como noutro sexo, manifestar-se, pelo menos, desde a 
idade dos 15 annos. Em todos os tempos as manifestações 
hystericas se attribuírão a influencias sobrenaturaes, — 
diabólicas ou divinas. As pessoas hystericas, na occasiào 
dos ataques, forâo tidas como obsessas e possessas, e por 
esse motivo exorcismadas. Nos seus Etudes cliniques sur 
Vhystéroépilepsie ou grande hystérie, Paris 1881, traz o 
dr. Paul Richer, em appendice, umas valiosíssimas Notas 
históricas em que interpreta, á luz da medicina, como phc- 
nomenos em grande parte hystericos, certas epidemias 
convulsivas da idade-media, etc, e outros factos em que 
o povo havia visto a acção immediata de Deus ou do Diabo ; 
e igualmente interpreta pelos meios naturaes da sciencia 
alguns pretendidos milagres. Veja-se também Charles Ri- 
chet, L'homme et Vintelligence, Paris 1884, nos capítulos 
intitulados Les démoniaques d'autrefois e Les démoniaques 
d'aujourd'hui. — Já num medico português do sec. xvi, 
o dr. Rodrigo de Castro *, leio o seguinte á cerca das mu- 
lheres hystericas: «Ad curationem igitur vocati mediei, 

caveant, ne tandem vulgari superstitione sic affectas 

ab immundo spiritu teneri judicent» 2 . E noutro ponto: «Ab 
immundo spiritu corripi suffocatastmZ<jru$existimat» 3 . Depois 
de mencionar as variadas vozes de animaes que as pes- 



1 Vid. sobre esto medico um interessante estudo do dr. Pedro 
Augusto Dias, intitulado Rodrigo de Castro, e publicado nos Archi- 
vos de hiêloria da medicina portuguesa, do dr. Maximiano Lemos, 
vol. i, p. 49 e 73. 

2 Isto é : «Quando os médicos forem chamados para instituírem 
o tratamento, devem ter cautella em não julgarem, conforme a 
superstição popular, que as doentes estão possuídas do espirito 
diabólico». Vid.: De universa muliebrium morborum medicina, Veneza 
1644, part. n, p. 299. 

3 Isto é: «O povo imagina que slb hystericas estão possuídas 
do espirito immundo (diabólico)». 06. cit., ib., p. 308. 



174 



soas doentes fazem ouvir, — factos que realmente se obser- 
vão na hysteria — , concilie o medico que não se deve 
desesperar da cura, apesar de o povo suppor que «divi- 
num quicquam subesse aut super naturani» 1 . Como se vê, 
o nosso judicioso medico combate a superstição, e reduz 
a doença ás leis naturaes. Apesar disto, ainda nos sec. xvn 
e xvm se publicarão entre nós Practicas de exorcistas, que 
indicão os meios de reconhecer uos doentes a existência de 
espíritos malignos. Tenho aqui presentes alguns desses 
livros : um é a Practica de exorcistas e ministros da igreja, 
traduzida pelo Padre Rodrigues Martins, Coimbra 1694, 
e noutra edição, Coimbra 1718; outro livro é o Brognolio 
recopilado e substanciado por Fr. Joseph de Jesu Maria, 
Lisboa 1738 2 . Em ambos elles ha uns capítulos especiaes 
com a indicação dos «signaes certos e evidentes do en- 
demoninhado» ou «Dos signaes e effeitos porque se conhece 
que alguém está possuído do demónio». Esses signaes nada 
mais são muitas vezes do que syrnptomas da hysteria. Os 
próprios exorcismos influião não raro na imaginação dos 
doentes como agentes de suggestão, provocando phenomenos 
hystericos, taes como convulsões, somnambulismo, etc. 3 



1 Isto 6 : que nesta doença «lia alguma cousa de divino ou de so- 
brenatural». Ob. dl., ib., p. 309. 

2 Está claro que os exorcismos nâo datão somente do século xvu. 
As fórmulas dos exorcismos e das bênçãos, através dos Rituaes 
ecclesiasticos, remontão geralmente a outras fórmulas de origem 
pre-christâ. Aqui, como noutro* muitos pontos, a igreja ehristia- 
nizou ideias pagãs. As fórmulas magicas antigas (em latim cha- 
madas incantamtnta) acliao-se representadas entre nós de duas 
maneiras : sob a forma de exorcismos e bençàos, com caracter eecle- 
siastico ; e sob a forma de ensalmos e oraçfcs, com caracter popular. 

Na já citada obra de Charles Richet, IJhomme et Vintelligence, 
Paris 1884, p. 299-íW)l, e notas, se indicão alguns elementos biblio- 
graphicos para o estudo dos exorcismos (c dos manuaes inquisito- 
riaes, cuja origem está no Malleus maleficarvm, impresso pela pri- 
meira vez em 1580). 

3 Vid. Culcrre, Magnétisme et hypnotisme, Paris 1887, p. 22sqq.; 
e Dupouv, Le moyen âge medicai, Paris 1888, p. 215. 



175 



Hoje mesmo está muito radicada no povo a crença de que 
os hysterico8 e epilépticos são endemoninhados, isto é, pos- 
sessos. Recorre-se indistinctamente aos padres, para lhes 
a lerem os exorcismos», e «ás mulheres de virtude». Fallei 
no Algarve com uma velha, cuja filha, pelas informações 
que colhi, tinha hysteria; a mãe foi com ella consultar 
uma mulher «que falia com o Espirito Mau», c esta deu- 
lhe de conselho que a mandasse benzer por um padre 
(i. é, exorcismar), porque aquella doença terá obra do 
Diabo». Conheço mais casos análogos a este. 

Os exemplos citados bastão para mostrar que, no de- 
curso de toda a historia, as doenças de symptomas convul- 
sivos fôrão muitas vezes lançadas á conta de manifestações 
de entidades sobrehumanas introduzidas no organismo 
doente. Que assim já fosse nos tempos prehistoricos, 
é também natural. 

A hypothese de que com a trepanação prehistorica se 
expulsava da cabeça um elemento morbifico não é gratuita, 
apoia-se em factos de observação moderna. Broca lembrou 
alguns, que já depois d'elle tem sido invocados por outros 
• auetores. Diz o illustre anthropologista: «Quant à 1'idée 
de traiter les affections convulsives par la trépanation, ce 
n'est pas seulement chez les hommes néolithiques que nous 
la retrouvons. Qu^lle soit née d'une doctrine plus ou moins 
mystique ou de toute autre conception, peu importe; nous 
savons qu^lle est encore en faveur chez certains insulaires 
de 1'Océanie, chez les Kabyles, et aussi, dit-on, chez les 
montagnards du Montenegro. Cette indication a meme 
été acceptée jusqu'au dernier siècle par un certain nombre 
de praticiens formes dans nos écoles d'Europe.... Ce 
même Taxil [sec. xvn] que j'ai déjà cite. ... est au nom- 
bre des auteurs qui ont admis la trépanation dans le trai- 
tement de Tépilepsie» ! . — A respeito da Oceania diz também 
Bordier que Lesson conheceu um indígena que tinha pra- 



1 In Revue d' Anthropologit, vi, 208-209. 



176 



ticado mais de duzentas trepanações l . Leio no mesmo 
auctor que os pastores do Montenegro e de Luzère fúr&o 
com uma navalha os crânios dos carneiros atacados de 
ttournis» (tornéo) 2 . — Na Allemanha, segundo diz Vecken- 
stedt, os pastores praticão a trepanação cirúrgica no gado 3 . 

É pois perfeitamente acceitavel a conclusão de Broca, 
aliás já formulada por Prunièrcs, como aquelle mesmo 
nota: tLe but que je crois pouvoir assigner aux trépa- 
nations préhistoriques est donc conforme aux croyances et 
aux pratiques que nous retrouvons chez beaucoup de 
peuples, et même chez des peuples certainement plus 
éclairés que ne pouvaient Têtre les peuples néolithiques» 4 . 

Sem dúvida, em certos casos, a trepanação pôde ser 
applicada scientificamente, c produzir effeitos satisfatórios, 
como, por exemplo, numa fractura do crânio, quando os 
fragmentos cranianos, irritando ou comprimindo uma ou 
outra zona do encephalo, cáusão immediatamente, ou pas- 
sado tempo, quer accidentes epileptiformes, quer pheno- 
menos paralytieos, convulsões, contracturas, estado coma- 
toso, ou delirantes perturbações mentaos. Então, pela tre- 
panação, levantão-se os fragmentos cranianos, o que faz 
cessar a irritação ou a compressão, e por tanto desappa- 
reccr os symptomas. Broca também cita casos destes, 
um mesmo observado por elle 5 . Ch. Féré consagra num 
livro seu algumas páginas á efficacia do emprego da tre- 
panação no tratamento da epilepsia, sobretudo da trau- 
mática 6 . 



1 In fíevue mensuelle de VÉcóle (VAnlhropologie, 1693, m, 58. 
1 Ih., ib. — Cfr. Broca, in Revue d'Anthropologie, vi, 30-81. 

3 Apud Fletcher, On prehistoríc trephining (já cit), p. 12. 

4 In Revue d? Anthropologie, vi, 209. — Sobre o costume dos Mon- 
tenegrinos, vid. Barão de Baye, UArcliiologie Préhistorique, Paris 
1883, p. 151 (apud Ricardo Severo, Paleoethnologia Poriugueza, p. 47, 
nota) . 

5 In Revue d 1 Anthropologie, vi, 208, nota. 

6 Les épilepsies et les épileptiques, Paris 1890, p. 507 sqq. 



177 



Curas semelhantes concorrerião para que nos povos pre- 
historicos, que as não attribuião á operação em si mesma, 
mas sim a influencias sobrenaturaes, isto é, á sahida de 
maus espíritos, se firmasse cada vez mais a crença na 
existência á'estes. 

Assim a hypothese de Broca explica bem a trepanação 
em vida. E de facto ella é acceite pelo geral dos paleo- 
ethnologos 1 . 

Postoque as condições anatomo-pathologicas da epile- 
psia sejão diversas das da hysteria, e nesta última doença 
nunca a trepanação possa por si mesma aproveitar, toda- 
via o homem prehistorico não estava em circumstancias de 
proceder a diagnóstico seguro e a applicação therapeutica 
apropriada, pelo que também praticaria a trepanação nos 
casos de hysteria, doença cujos symptomas convulsivos 
reclamavão, como os da epilepsia, a expulsão do espirito 
maligno. 

r 

E verdade que a hysteria manifesta-se geralmente, pelo 
menos, só depois dos 15 annos, e Broca, em virtude de 
considerações dos anatomia pathologica, suppõe que esta 
operação se praticaria sobretudo ou quasi sempre na 
infância*; mas, como não nega que ella o pudesse ser 
também na idade adulta, fica justificado o que acima re- 
feri acerca da hysteria. 



1 Parrot, in Bvlletins de la Sociètt tfanthropologie de Paris, 1881, 
3.» serie, iv, 104-108 (apud Fletclier, l. I), da conta de um notável 
exemplo neolithieo de um crânio doente cm que a trepanação foi 
praticada visivelmente com o fim de o curar. Em virtude de razões 
lá expostas, a doença nâo se pôde considerar como accidente da ope- 
ração ; é anterior a esta. Parrot diz que isto prova que a trepanação 
tinha um fim tberapeutico, e não somente o de alliviar de doenças 
devidas a imaginarias causas de demónios (convulsão, epilepsia); 
comtudo, como observa Fletcher, os symptomas podião fazer recla- 
mar o remédio ordinário. Vid. Fletcher, On prthikoric trephining, 
p. 19. 

* Ob. cit., p. 24, 25, 30, 35, 36, etc. 

12 



178 



B) Trepanação post mortem 

A trepanação post mortem, ou póstuma, tem também sido 
interpretada de differentcs maneiras. 

Alguns suppuserâo que o orifício seria feito com o fim 
de pendurar o crânio, como tropheu de guerra, costume 
que se encontra em alguns povos ! . Mas esta hypothese 
não explica todos os casos. Alem d'isso o processo póstumo 
mal se pôde separar do processo cirúrgico. De mais a mais, 
como nota com fundamento o sr. Ricardo Severo, se o crâ- 
nio era tropheu, devia pertencer a um inimigo, e por isso 
não podia estar cerimoniosamente collocado numa sepultura 
junto das outras partes do esqueleto*. 

Outros julgarão que a abertura do crânio seria prati- 
cada com o fim de se fazerem taças para os inimigos bebe- 



1 Vid. Broca, in Revue d'Anthropologie, vi, 223. 
Da caverna de Caco diz Vergilio : 

foribus adfixa superbis 

Ora viram tristi pendebant pallida tabo. 

(Eneida, ed. de Júlio Moreira, viu, 196-197). 



Isto é : 



Nos suberbos portões fixos pendiào 
De homens saniosas lívidas cabeças. 



(A» obras de Virgílio, trad. de Lima Leitão, t. m, Rio de Janeiro 
1819, p. 50, v. 229-230). 

Na Lunda (Africa) os crânios dos inimigos pendurào-sc em arvo- 
res, e constituem tropheus de guerra, análogos aos tropheus*de caça. 
Diz o Sr. Henrique de Carvalho : «vi tropheus de guerra com as 
caveiras de inimigos, porém o número d'estes era limitado, e o 
máximo número de caveiras, que cada um tinha, não excedia seis. 
Informaram-me que noutro tempo viam-se muitos desses tropheus ; 
porém hoje onde elles se vêem mais frequentes é nas povoações de 
Canoquena, quatro dias ao norte da mussumba do Calânhi; sâo 
caveiras dos indivíduos da Lunda, que os naturaes conseguiram 
matar e devorar» (Eihnographia da Lunda, 1890, p. 250). 

* Paleoethnolvgia Portugueza, p. 47. 



179 



rem por ellas *. Ha effectivamente muitos exemplos d' isto 
nos povos atrasados e nos povos antigos*. Esta hypothese 
está sujeita ás mesmas objecções que a antecedente. 

O sr. Cartailhac diz que a trepanação seria para extrahir 
o cérebro, quer com o fim de transformar o crânio em 
tropheu, hypothese que acabo de pôr de parte, quer com 
o fim de o esvaziar das matérias putresciveis, «prélude 
d'une momification, accomplissement d'un rite funéraire, 
on ne sait» 3 . No emtanto, em qualquer dos casos, no da 



1 Apud Fletcher, On prthistoric trtphining, p. 6. — Já Prunières 
também tinha formulado esta hypothese em 1868 : Broca, in Rtvue 
d'ÂnthropologiCj vi, 7. 

2 O Muzimbas (Africa Oriental) «tem de costume comer a gente 
que matào em guerra, e beber polas caveiras, raostrando-se nisso 
fonfarroes e ferozes* (Fr. João dos Santos, Ethiopia Oriental, II, 
xv in). 

Os Bagas (Guiné), matando os inimigos, cortâo-lhes as cabeças 
e danção com ellas; «e depois as cozem, e tirão a carne toda, e 
limpas da carne e miolos bebem por ella, servindo-lhes de púcaros» 
(A. A. de Almada, Tratado da Ctuiné, sec. xvn, Porto 1841, p. 70). 
Batzel, Las roxas humanas, i, 145, traz os desenhos de vasos fei- 
tos de crânios humanos, conservados no Museu Britannico. 

Tito Livio, narrando a derrota de Postumio, causada pelos 
Bojos (povo da Gallia Cisalpina), diz que estes cortarão a cabeça ao 
general, despejarão o crânio, embutfrão-no de ouro, considerando-o, 
segundo o costume, como vaso sagrado, que servia para as libações 
nas festas e também de taça aos sacerdotes : «spolia corporis caputque 
praecisum ducis Boji ovantes templo, quod sanctissimum est apud 
eos, intulere; purgato inde capite, ut mos iis est, calvam auro 
caelavere idque sacrum vas iis erat, quo sollemnibus libarent, pocu- 
lumque idem sacerdotibus ac templi antistibus» (T. Livii Ab urbe 
condita, ed. de Riemann & Benoist, xxiii, 24). 

Silio Itálico repete a mesma noticia : 

At Celtae vacui capitis circumdare gaudent 
Ofega, nefas, auro ac mensis ea pocula servant 

(Púnica, ed. de L. Bauer, xin, 483-488). 

I. é : «Os Celtas, esses, que horror ! comprazem-se em guarnecer de 
ouro o crânio, depois de esvaziado, utilizando-o á mesa como taça». 

3 Les ages prthistoriquts, p. 87. 



180 



mumificação, ou no da execução de um rito fúnebre, era 
natural que o número dos crânios trepanados fosse muito 
maior, pois que taes costumes devião ter caracter de ge- 
neralidade*. Porque é que, por exemplo (se estamos deante 
de um caso de mumificação ou de um rito), numa caverna 
funerária de Nogent-les-Vierges, onde apparecêrão 200 
esqueletos 2 , só appareceu um crânio trepanado? A per- 
gunta fica de pé, mesmo admittindo-se que a tal mumifi- 
cação ou rito se praticasse só com relação aos crânios 
dos chefes (?), á semelhança do que hoje succede com os 
príncipes e bispos, cujos cadáveres são geralmente os úni- 
cos que se costumão embalsamar. 



Ha ainda mais hypotheses. A trepanação póstuma far- 
se-hia com o fim de extrahir do crânio partículas que ser- 
vissem de amuletos ou relíquias 3 ; ou far-se-hia, como 
aquella que se realizava em vida, para dar sabida a um 
mau espirito alojado na caixa craniana 4 . 

Estas hypotheses podem combinar-se uma com a outra. 

Temos, por tanto, de considerar dois casos, o que vou 
fazer separadamente, começando, para melhor sequencia 
das ideias, pelo segundo. 

a) Eapuhão do espirito causador da morte. 

Como já se disse a cima 5 , muitos povos attribiiem em 
geral as doenças não a uma causa natural, mas sim a uma 
sobrenatural (a qual aliás para os selvagens ó também 
natural), como por exemplo a acção de ura feiticeiro, a 



1 Cfr. tíimbcin Ricardo Severo, PaJe.oethnologia Porívgueza, p. 48. 

2 Cartai lhac, La Franre príhinloriqne, p. 281. 

3 Broca, passim ; Alviella, IJWt de Dicu ) p. 27; ete. 

4 Kéville, Pwdrgomhir*, p. 128; Alviella, in op. hnd. } p. 27; Bor- 
dier, in Pecue mtmwlle de Vtcolt d^anthropologie, m, 1 80*5 , p. 56. 

* P. 171. 



181 



entrada de ura espirito mau no organismo 2 . Em virtude 



2 Sobre causas sobrcnaturaes das doenças vid. Tylor, La civili- 
sation primitive, t. i, p. 7, 485; t. n, sobretudo p. 163 sqq., e ainda 
p. 148, 150 c 190. Este A. reuniu muitos exemplos : espíritos que 
entrão no corpo, almas penadas, demónios, etc. 

Segundo A. Alvares d' Almada, Tratado breve dos rios da Guiné, 
p. 13, certos povos de Africa pensão que morrem por causa dos 
feitiços. Está-se tão longe de se attribuir a morte a um desarranjo 
das funeções do organismo, que de modo geral se diz que, se alguém 
morre, é porque alguém o matou (ob. c#., p. 49). — Na Lunda (Africa), 
diz o Sr. H. de Carvalho, «acre dita o muito nas mortes por feitiça- 
ria» (Ethnographia da Lunda, p. 431 ; cfr. p. 437) ; as doenças são 
attribuidas á acção dos ídolos e dos feiticeiros (ob. cit., p. 502). 

Na Zeitschri/t des Vereins Volkskunde, 1895, p. 1 sqq., publicou 
Max Bar te la um desenvolvido artigo á cerca dos esconjuros da 
doença (Ueber Krankheits-Beschwõrungen) : ahi se trata da personi- 
ficação das doenças, e se expõem muitas fórmulas magicas contra 
ellas. 

No nosso povo ha ainda numerosos vestígios da primitiva conce- 
pção animistica das doenças. Segundo elle, certas doenças são causa- 
das por bichos que passão pelo corpo ; o melhor modo de obter a cura 
é pois talhar o bicho, o que se faz com fórmulas (ensalmos) e um 
determinado ritual. Vid. exemplos nas Tradições populares de Por- 
tugal, § 251. — É pelo mesmo motivo que as doenças , conforme a 
crença popular, podem ás vezes ser transferidas ou transportadas 
do corpo doente para outro corpo, ou para qualquer logar : nas Tra- 
dições populares de, Portugal, § 248-a, citei um caso de personifica- 
ção das sezões, invocadas com o nome de Maleitas, — com o qual caso 
se pôde comparar uma superstição do Archipelago Indico referida 
por Tylor, loc. laud., u, 165. O sr. H. Gaidoz tratou desenvolvi- 
damente da transplantação de doenças a propósito das curas pro- 
duzidas pela passagem por uma abertura, ou pela utilização de uma 
cavidade : vid. Un vieux rite medicai, Paris 1892. É o caso de atra- 
vessar por um vime rachado ou por outras arvores uma criança ren- 
dida : vid. Tradições populares de Portugal, p. 112 sqq. — Sobre 
transplantação das doenças vid. ainda Max Bartels no artigo ha 
pouco citado, in Zeitschrift des Vereins Volkskunde, p. 25 sqq. 

Uma tradição popular do Douro diz também : «Os pobres morrem 
todos de feitiçaria» (Tradições populares de Portugal, § 342-Z). Os 
pobres forão considerados como mais sujeitos á acção sobrena- 
tural, em virtude do eeu caracter de humildade c fraqueza, que os 
torna pouco resistentes. 



182 



d'isto j>raticão-se, depois da morte de alguém, certos ri toa 
que vou indicar: 

«Chez les Esquimaux du Mackensie, on brúle la tête 
du mort ponr détruire le double morbide qui est censé 
y siéger. 

«Chez les Peaux-Rouges, en vertu de la même conce- 
ption animo-céphalique, on fait un trou dans la paroi du 
cercueil, au niveau de la tête. 

«Dans la Basse-Lusace, M. Wockenstedt a trouvé des 
urnes funéraires percées d'un trou qui avait sans doute la 
même destination. 

aSans doute convaincus de la légéreté spécifique du 
t|/u;pí, les Esquimaux, Yacoutes et Tongouses pratiquent, 
après la mort dW homme, un trou au sommet de sa 
maison. 

«Chez nous, dans les campagnes, on ouvre la fenêtye 
dans le même but. 

«Plus precises, les populations du Michigan pratiquaient 
une ouverture posthume de 10-15 millimètres sur le 
bregma» *. 

Assim, nada é de estranhar que nos povos prehistoricos 
houvesse as mesmas crenças animisticas, e se praticasse a 
trepanação nos mortos para dar sahida a um espirito mau, 
como nos vivos, segundo o que a cima expus. Muitos 
povos crêem que o cadáver continua a viver no sepulcro; 
d'ahi resulta o querer evitar-se-lhe uma causa de mal. 



1 Bordier, in fíevue de VÉcoU tfanthrop., m, 1893, p. 56. Pode 
ainda comparar- se o costume, que ha em alguns povos, de abrir a 
janella do quarto do morto, para que a alma saia. A cerca de cos- 
tumes d* estes em França, na Escócia e na China, vid. Méliísine, n, 
97 e 439. Os costumes citados no texto e nesta nota mostrâo que 
se estabeleceu paridade no modo de dar sahida aos espíritos cau- 
sadores da vida e da morte. J. Grimm cita o costume de se deixar 
uma abertura num tumulo para o rouxinol poder vir annunciar a 
Primavera (vid. KUinere Schriflen, ii, Berlin 1866, p. 214, nota 1). 
Esta poética interpretação está certamente já muito longe da pri- 
mitiva. 



183 



Visto que se considerava que post mortem havia outra vida, 
que para o defuncto valia como vida real, era perfeita- 
mente lógico que se fizesse uma operação póstuma com o 
mesmo fim com que se fazia a operação em vida. O facto 
de já no crânio existir ás vezes uma perfuração, feita em 
vida, não impedia que se fizesse outra, pois, se o individuo 
morreu, é porque lá entrou outro espirito, a que era pre- 
ciso dar sahida especial e conveniente. 

Se, em relação aos tempos neolithicos, para cada região 
em que apparecêrão os crânios trepanados, se tivesse de 
admittir que a trepanação tinha por fim dar sahida a um 
espirito causador da morte, esta hypothese estava sujeita 
ás mesmas objecções que algumas das hypotheses que já 
mencionei : isto é, como tal concepção da morte devia ser 
geral, o número dos crânios trepanados devia, ipso facto, 
ser também maior do que é. Mas podemos admittir que a 
trepanação se não praticava a propósito de todas as doen- 
ças, e sim somente a propósito de algumas, d'aquellas que 
mais em particular se attribuião a certos e determinados 
espíritos, e sobretudo àquelles que se julgava que se alo- 
javão na cabeça. Hoje, por exemplo, também a Igreja não 
exorciza todas as doenças, e o povo, que sabe meios má- 
gicos de curar, e supp<5e que os bichos podem causar doen- 
ças, também não attribue sempre estas a bichos, nem tem 
ensalmos para todas. 

Ás ideias que acabo de expender não fazem suppôr que 
mesmo àquelles doentes em quem a operação estava indicada 
fossem todos trepanados, pois alguns podião não ter que- 
rido, ou não ter podido sujeitar- se a ella '. 



1 Os Pelles -Vermelhas acreditào que do homem ha duas almas, 
uma das quaes vem visitar o corpo na sepultura, para o que se 
pratica uma abertura no tumulo. Este facto, como já nota Gillman 
(citado por Broca), não explica os costumes prehistoricos, porque a 
trepanação prehistorica não é constante (vid. Broca, in Bev. d'An- 
throp.y vi, 224). Broca não julga sufficiente a nota de Gillman, mas 
o que elle diz contra ella também me não parece muito concludente ; 
e por isso admitto as razões de Gillman. 



184 



b) Amuletos cranianos: 

Broca, que explicava a trepanação em vida como meio 
de dar sahida a um espirito morbifíco contido no organismo 
humano, foi levado a admittir com Prunières que as peque- 
nas rodellas cranianas, que muitas vezes, como a cima 
disse, apparecem nas sepulturas prehistorícas, tinhão, em 
virtude das propriedades maravilhosas que o povo attri- 
bue a certos objectos bentos, e da analogia que ás vezes 
acha entre taes objectos e as doenças, effeitos prophy lácticos 
contra estas. Escreve Broca: «II est donc très-plausible 
d^dmettre que les hommes néolithiques aient attribué à la 
substance des crânes trépanés une propriété prophylactique 
relativo à la maladie que la trépanation était censée guérir, 
c'est-à-dire à Tinfluence des mauvais esprits, manifestée 
sous forme de convulsions. Cest peut-être de là que vint 
plus tard 1'usage medicinal de la substance du crâne humain 
dans le traitement de lVpilepsie. On en usa et abusa pen- 
dant tout le moyen âge, et même après la Renaissance. 
On citait le çrâne des momies égyptiennes comme Tun 
dos remedes les plus efficaces contre Tépilepsie. Taxil 
recommande contre cette affection un grand nombre de 
recettes, oii figurent tantôt la raclure, tantôt la poudre, 

tantôt la cendre du crâne humain Les os supplémen- 

taires connus aujourd^ui sous le nom d'os wormiens avaient 
à cet égard une réputation touto spéciale *». 

Pela minha parte citarei, em apoio das ideias emittidas 
pelo anthropologo francês, um amuleto que o sr. G. Bel- 
lucci menciona no seu Catalogo delia collezione di amuletti, 
e que consisto num fragmento de crânio humano, consi- 
derado como remédio contra a epilepsia ou male dei Santo *. 

Á pag. 151-152 mencionei os amuletos de osso, e a 
pag. 122 nota 4, referi-me a várias superstições ligadas com 
o crânio humano. 



1 In Eevue d' Anthropologie, vi, 207-208. 
* Vid. o n.° 162. 



18õ 



Conhecem-se bastantes exemplos de rodellas e fragmen- 
tos cranianos prehistoricos achados em circumstancias de 
poderem ter servido de amuletos. Alguns tem orifícios, 
outros não 1 . Ha mesmo um fragmento, apparecido na Lo- 
zére, irregular, e com vestígios «d'un commencement de 
forage par section» 2 , facto que, como logo direi, tem, para 
o meu caso, particular curiosidade. «M. de Baye, diz o 
sr. Cartailhac, en possède aussi d'isolées qui pouvaient être 
suspendues au cou, comme les médailles actuelles» 3 . Tam- 
bém se possuem torques de bronze gauleses providos de 
rodellas cranianas enfiadas juntamente com outros amu- 
letos 4 . 

O facto d'esta coincidência, e os exemplos citados a cima, 
da utilização do crânio humano como remédio ou amuleto, 
são bastantes para se poder acceitar parte da hypothese 
de Broca : quero dizer, as rodellas cranianas prehistoricas 
serião amuletos. O sr. Cartailhac, porém, apesar de não re- 
pellir absolutamente da trepanação, como vimos, a pag. 179, 
a ideia religiosa, pergunta, depois de se referir á existencia- 
das rodellas cranianas, taes como as apresentei a cima: 
tpourrons nous tirer de ces faits une conclusion appli- 
cable à Tépoque néolithique?» 5 . E porque não? Pois então 



1 «Parmi les nombreuses amulettes crâniennes .... il n'y a qu'un 
assez petit nombre qui soient percées d'un trou ou munies d'en- 
tailles de suspension». Dizia Broca em 1877 iu Btvut <TAnthropolo- 
gie y vi, õ. — D'eBtes pedaços de crânio falla-se muito nas obras pre- 
historicas. Citarei, por ex., E. Cartailhac, Ijx France préhiêtoriquej 
p. 284; B. de Baye, in Bulletins de la Société tfanthropologie, 2.' serie, 
xi, 121; idem, La trépanalion prehislorique, 1876, passim. ; Joly, 
Uhomme avant les métaux, 1879, p. 307 sqq. 

2 Cartailhac, ib., p. 284. 

3 Cartailhac, La France préhi8torique f p. 285. 

4 Vid. o que se escreveu supra, p. 128-129 ; e também : E. Car- 
tailhac, La France préhUtorique, p. 285 ; Broca, in Reuucd'Anthropo- 
logie, vi, 6-7; J. de Baye, La trépanation prehisL, 1876, p. 28-29, e 
fig. 11.- 

5 La France préhistorique, p. 285. 



lbU 



como é que nós interpretamos os factos da prehistoria, 
senão pelos que a história nos ministra? O sr. Cartai lhac 
é escriptor muito circumspecto, e por isso nâo gosta de- 
masiadamente do exclusivismo ; todavia elle não dá explica- 
ção do que possão razoavelmente ser as rodellas cranianas 
que nos ficarão dos tempos prehistoricos, e que sem embargo 
se explicâo bem como amuletos, entrando na classe geral 
que estudei a cirna, pag. 112 sqq. 1 . 



De tudo o que acabo de escrever sobre a trepanação 
póstuma conclue -se que esta poderia ter por fim dar sabida 
a um espirito morbifico ; aproveitando-se em seguida, como 
amuleto prophylactico da doença causada por esse espi- 
rito, o fragmento craniano que resultava da operação. 

O amuleto seria mero accessorio, e não o intuito prin- 
cipal. Também hoje se aproveita como amuleto contra as 
trovoadas um pedaço de cera que cresce das cerimonias 
da Semana-santa 2 ; um fragmento dos ramos bentos que 



1 Ainda preoceupado com a ideia do embasamento dos cadáveres, 
cita o sr. Cartailhac uma serie de crânios modernos de Borneo, e 
diz : o Dana plusicurs de ces crânes on voit que la fraction détachée 
a été remise en place. Elle est maintenue au moyen d'un fil métalli- 
que pour le passage duquel on avait pratique de petits trous symé- 
trique8 sur les borde voisins de la plaquette et du crâne. Sana 
1'ombre d'un doute, de telles «rondei les» perforées, trouvées seulea 
dans un mobilier de dolmen ou de crypte sépulcrale, passeraient 
pour dea pendeloques ou pour dea amulettes* (La France préhisto- 
rique, p. 287). 

A objecção 6 espirituosa, e funda-se num justo pensamento de 
prudente reserva que deve presidir a todas as investigações d'cste 
género, mas, segundo entendo, não faz nada ao nosso caso, não só 
porque as rodellas cranianas prehistoricas estão noutras condições, 
mas porque já a cima, p. 179-180, exclui a hypothese do embal- 
samento. 

2 Vid. Tradições populares de Portugal, p. 64. 



187 



se levâo na mâo por occasião da festa dos Ramos tem, 
quando queimado, virtudes prophylacticas análogas ás da 
cera benta*. Nestes dois casos, e em muitos outros, sus- 
ceptíveis de se citarem, o amuleto é constituído por um 
objecto que accidentalmente se aproveitou. No mesmo 
caso estaria a rodella craniana. 

D' es te modo, a operação póstuma fica equiparada á ope- 
ração em vida, justificando- se também assim o haver crâ- 
nios com vestígios das duas. O fim principal de ambas as 
operações, — a expulsão de um espirito maligno — , pode 
confirmar se por meio dos costumes históricos que citei 
a cima. 

Se o intuito da trepanação póstuma fosse única e ex- 
clusivamente extrahir um pedaço de crânio, e não entrasse 
ahi a ideia de perfuração, não me parece que para obter 
o desejado amuleto se tornasse necessário abrir o crânio, 
pois bastava destacar uma esquirola ou raspar pó que de- 
pois se traria junto ao corpo, — costume este de que ha 
muitos exemplos 2 . 

A hypothese, tal como a apresento, differença-se das que 
tem sido apresentadas por outros, ou pelo menos diflFe- 
rença-se das que conheço. 

C) Pessoas dotadas de caracter sobrenatural 

Quando um individuo tem certos defeitos physicos que 
impressionão, ou está em condições extraordinárias, ou 
possuo certas qualidades que se julgão superiores ás dos 
demais homens, o povo propende ou para considerar 
esse individuo como perverso e como víctima de um cas- 
tigo divino, ou para lhe attribuir poderes sobrenaturaes. 



1 Vid. Tradições populares de Portugal, p. 64. 

* Vid. alguns acima, p. 180. — A respeito de objectos (pós, pe- 
dras) trazidos modernamente em saquinhas, junto ao corpo, vid. Tra- 
dições populares de Portugal, §§ 202 c 2l6-d. 



188 

E assim que, em relação ao primeiro caso, correm em 
Portugal, como noutros países, vários adágios e ditados 
que podem ser representados por este: 

Deus, que o assinalou, 
Alguma cousa lhe achou *. 

Em relação ao segundo caso acontece que o individuo 
é muitas vezes elevado á categoria de adivinho, bruxo, 
feiticeiro, santo. 

Quem não sabe hoje que, por exemplo, os êxtases e 
estigmas, que se admiravao em vários santos, nada mais 
sJLo do que phenomenos que se explicâo pela hysteria, 
pela suggestâo? A pathologia mental reduz ás condições 
naturaes muitos outros casos maravilhosos. Sócrates, que, 
segundo o que d'elle se conta, tinha um génio ou demó- 
nio, de quem ouvia a voz, parece que padecia de hallu- 
cinaç3es*. Santa Theresa de Jesus era hysterica 3 . Muitos 
mysticos pertencem evidentemente á classe dos loucos e 
dos degenerados. A antiguidade offerece-nos como curiosos 
exemplares de hysterismo as Pythonisas e as Sibyllas 4 . 



1 Tradições populares de Portugal, p. 255. Cfr. Bevista Lusitana, 
ii, 377. 

2 Vid. Littré, Médecine et médecins, 3. a ed., p. 82, na analyse do 
livro de Lélut, Du démon de Socrate, Paris 1836. 

5 Sobre os êxtases de Santa Theresa vid.: 

Ch. Letourneau, Physiologie des passions. Paris 1868, cap. v 
(U êxtase racontè par Sainte Thérese); 

E. Zamacois, El misticismo, Madrid 1893, p. 47 sqq ; 

Dr. Arturo Peradcs y Gutiérrez, El supernaturalismo de Santa 
Teresa y la filosofia médica, Madrid 1894, part. i, cap. i, p. 159-182. 
O auctor d'este livro prova o hysterismo de Santa Theresa ; todavia, 
apesar de ser lente cathedratico da Faculdade de Medicina de 
Granada, acredita piamente que os êxtases da santa, isto é, da 
doente, erâo mysticos e sobre-naturaes, e escreve páginas e pági- 
nas, tentando justifícar-se I 

4 O enthusiasmo prophetico da Sibylla de Cumas, quando falia 
a Eneias, nada mais é, nos versos de Vergilio, do que a phase 
segunda (clownismo) de um ataque hysterico : 



189 



aAux étages inférieurs de la religion (diz Réville) de 
nos jonrs encore chez les peuples étrangers à la civilisa- 
tion, on peut remarquer la fréquence du penchant à con- 
sidérer certains individua, mieux doués que les autres, 
d'une imagination plus vive, d'un sens religieux plus subtil, 
comme plus rapprochés de la Divinité, plus aptes par con- 
séquent à interpróter ses volontés, à prédire ses desseins, 
à indiquer ce qu'il faut faire pour être avec elle dans la 
relation désirée. II peut raême arriver que ce qui serait à 
nos yeux une preuve d^nfériorité physique et mentale 
passe aux yeux des hommes encore profondément igno- 



ExcÍ8iim Euboicae latus ingens rupis in antrum, 
Quo lati ducunt adi tus centum, ostia centum; 
Unde ruunt totidem vocês, responsa Sibyllae. 
Ventum erat ad limen, cum virgo : «Poscere fata 
Tempus, ait; deus, ecce deus!». Cui talia fanti 
Ante fores, súbito non voltus, non color unus, 
Non comptae manscre comae ; sed pectus anhelum, 
Et rabie fera corda tument; majorque videri, 
Nec mortale sonans : adflata est numine quando 
Jam propiore dei. 

{Eneida, ed. de Júlio Moreira, vi, 42-51). 

Traducçâo de Lima Leitão : 

Escavada de um lado em forma de antro 
A grande rocha Eubea põe patente 
Cem átrios, cem portões, onde a Sibylla 
Cada dia despede os seus orac'los. 
Chegou-8e ao limen, e a donzella exclama : 
«Interrogue- se o Fado : eis Phebo, eis Phebo!« 
Disse, e súbito em si tudo é mudado : 
Outras são as feições, a cor é outra, 
Os cabellos per si se desordenâo ; 
Arqueja, o peito fero embebe de ira; 
E, quando o deus já no íntimo a commove, 
Maior parece, e a voz tem mais que humana. 

(As obras de P. Virgílio Mar o, t. n, Rio de Janeiro 1819, p. 195- 
196, v. 54-64). 



190 



rants pour un signe de supériorité et de vocation di- 
vino» 1 . — Tylor menciona a este respeito, e em relação aos 
povos incultos, muitos factos na sua Civilização primi- 
tiva: loucos considerados como inspirados; epilépticos tidos 
na conta de prophetas; nevropathas de toda a natureza 
elevados á classe de feiticeiros, mágicos e visionários 1 . — 
Num artigo de U Anthropologie, descrevendo -se um caso 
de gigantismo (de um homem, cujo cadáver, apesar da 
rigidez cadavérica, media 2 m ,29 de estatura), diz-se que 
um joven grego, na idade de 14 annos, tinha attingido tal 
desenvolvimento physico, que «les paysans, par supersti- 
tion, craignaient de s^pprocher de lui» 3 . 

No nosso povo também ha superstições que se filião 
nesta ordem de ideias. Quando, pela articulação dos ma- 
xillares superiores com os ossos palatinos, é visível uma 
cruz no ceu da boca de algumas crianças, suppõe-se que 
ellas tem o dom de curar certas doenças e de predizerem 
o futuro 4 ; neste exemplo ha a influencia mystica da cruz. 
Se nascerem a uma mãe sete filhos a seguir, um d'elles 
está sujeito a ser corredor (lobis-homem) ; e, se nascerem 
sete filhas, uma d'ellas está sujeita a ser bruxa 5 . Se um 
menino chorar no ventre da mãe, será bento 6 , ou, se faltar, 
não divulgando a mãe o segredo, será feliz pela vida toda 7 ; 
a crença em um menino poder chorar ou fallar no ventre 
materno deve ter origem no vagido uterino 9 . 



1 PróUgomene» de Vhiêtoirt des religions, p. 198. 

* Vid. o vol. ii, 168-172 (traducçâo francesa, Paris 1878). 

* UAnthropologie (revista), Paris 1891, p. 34-85. 
4 Tradições populares de Portugal, p. 204. 

* Ib., p. 262 e 307. 

* Cfr. o meu artigo «Costumes da Beira- Alta», in Encydopedia 
republicana, Lisboa, 1882, p. 188. 

7 Informação particular do sr. dr. Sousa Martins. 

9 A este vagido me refiro no meu livro Evolução da linguagem, 
Porto, 1886, p. 55-56. — Vid. também Fonseca Henriques, Medicina 
Lusitana, ed. de 1750, p. 72, que trata o assumpto segundo as ideias 
da epocha, confundindo superstições com factos de observação. 



191 



Todos estes factos entrâo na classe estudada a cima, 
p. 148-149 (nota), de que o que ê raro ê maravilhoso. 

Um individuo em quem, pelas condições espcciaes do 
seu estado pathologico, nos tempos neolithicos se fazia a 
melindrosa operação da trepanação seria também olhado 
como possuidor de caracteres sobrenaturaes, que lhe confe- 
ririão certa hierarchia espiritual e social? 1 

Eis o que, em virtude da importância que o seu crânio 
adquiria para que, segundo parece, os fragmentos d'elle 
servissem de amuletos, é legitimo perguntar, mas a que 
só com dúvidas se pôde responder. No emtanto, aqui cito 
a tal respeito um facto importante. Nos Kabylas, na Algé- 
ria (cfr. supra, p. 175), a trepanação pratica-se por causa 
de fracturas do crânio, doenças d'elle ou violentas dores 
de cabeça («violent pains in the head»). O operador, ou 
thebibe, é uma espécie de semi- sacerdote, investido nestas 
funcções por herança. A operação, os instrumentos, tudo 
ó sagrado, e o operado fica tido em veneração 
depois da cura. O doente pôde ser operado muitas 
vezes 2 . — Este exemplo, tirado da vida contemporânea, 
pôde elucidar-nos bastante á cerca do passado. 



Postos esses preliminares, que me foi necessário alon- 
gar, para ficarem mais explicitas as ideias que quis expor, 
passarei a referir-me a dois interessantes factos da pre- 
historia portuguesa. 

No depósito neolithico da gruta da Casa de Moura, no 
planalto da Cezareda, appareceu um fragmento de crânio 
humano, em que, como nota o Sr. Nery Delgado, se co- 



1 Cfr. J. de Bftye, La trépanation prehiêtoriquc, Paris 1876, p. 24. 

2 Vid. Fletcher, On prehistorie trepkining, p. 30. 



192 

meyou a praticar a. trepanação, tratando-se «d'enlever an 
assez grand morceau ellipsoidal du crâne, en le découpant 
au moveu d'un silex. Be chaque cSté des deux rainures 
courbes qui forment 1'ellipse, se trouvent plusieura stries 
montrant que le silex qui a servi k 1'opération a eouvent 
glissé sur le crane, 1'écartant de la direction que 1'opéra- 




teur voulait lui donner» '. — Eis na fig. 39 representado o 
respectivo fragmento do crânio, segundo a est. XV do tra- 
balho do Sr. Delgado, inserto no Compterendu do Con- 
gresso de Lisboa*. 



1 CompU-rendu do Congresso de Lisboa, p. 210, nota. Também 
foi desenhado por £. Cartailhac no sen livro Lu âga préhislcriqua 
de VEspagnt Pi du Portugal, p. 84. 

! No museu da Direcção dos Trabalhos Geológicos de Lisboa 
existe um fragmento craniíiao, em cuja superfície externa se observa 
uma excavaçSo circular de 0™,020 de diâmetro e de O",00õ de pro- 
fundidade. Este fragmento provim da camada neolithica da gruta 
d* Furninba, e d'elle deu um desenho o sr. Nery Delgado no Compte 



Na anta da Capella, concelho de Avia, á qual já por 
vezes me referi, achei eu mesmo, no meio de muitos fra- 
gmentos de ossos humanos, um pedaço de osso parietal, 
mais ou menos arredondado, em cuja superfície interna, 
junto á orla, se vê o começo de um orifício, feito com 
instrumento cortante. O orifício devia ser destinado a atra- 
vessar a rodella craniana, mas, em virtude de qualquer 
circtimstancia, que nao se determina, ficou inacabado. Por 
coincidência, o fragmento ósseo tem, num ponto menos 
afastado da orla que o primeiro, outro orifício, que lam- 
bem não atravessa a rodella, mas quo e mais fundo ; tal 
orifício, como se deduz da irregularidade dos scub bordos, 



renda do Congresso de Liwboa, p. 21!). Aqui reproduzo o desenho na 
fig-, 10. Pelos caracteres da escavação nflo è fácil decidir com rigor 
se se trata de um caso de trepanação, se, 1:01110 parece melhor, de 




uma alteração pathologka, i. e., de uma atrophia do osno, ou expon- 
tânea, ou devida, por exemplo, a pressão do um kysto glandular. 
O meu amigo dr. Henrique Sehindler, a quem pedi o obsequio de 
examinar este fragmento obspo, pensa do mesmo modo. 



194 



é apenas casual, e distingue -se perfeitamente do seu vizi- 
nho, pois neste são bem claros os cortes regulares e intencio- 
naes 1 . — Represento o fragmento da rodella, em tamanho 
natural, na fig. 41; só omitto a representação do segundo 
buraco, para não causar confusão. 



Appliquemos agora a estes dois documento**, que a pre- 
historia portuguesa nos ministrou, as ideias que a cima se 
desenvolverão a respeito da trepanação e dos mais factos 
congéneres. 

O sr. Cartailhac já também se refere ao crânio da Casa 
da Moura. Diz elle formalmente: aLe but était la perfo- 
ration du crâne après la mort et non la confection d'une 
rondelle»*. Mas porque diz isto, se, á cerca da placa 
ellipsoidal, que não chegou a ser destacada do crânio, 
tinha dito sete linhas antes: «détachée n'aurait différé en 
rien de nos rondelles»? Se a trepanação doeste crânio se 
fez cm vida, seguindo-se-lhe immediatamente a morte do 
individuo, ou se se fez já post mortem, é o que não se 
poderá saber ao certo. Baseado no processo da operação, — 
trepanação por serragem — , o sr. Cartailhac inclina-se á 
segunda hypothese 3 . O que é certo é que não se achão ves- 
tígios de reparação óssea. 

O pedaço de crânio achado na anta da Capella creio 
não haver dúvida que pertence á classe dos amuletos cra- 
nianos de que ha pouco fallei, sendo em especial compa- 



1 Não conheço mais nenhuns exemplares nas collecçoes archeo- 
logicas portuguesas. Este foi, que eu saiba, o primeiro descoberto 
cá. — Acha-se agora, por generosa dadiva do dr. Mattos Silva, na 
minha collccção prchistorica, depositada no Museu Ethnographico 
Português. 

2 Les ages préhistortques, p. 86. 

3 06. cit., p. 85. 



19õ 



ravel á ronãelle mencionada pelo sr. Cartailhac, já refe- 
rida 1 , na qual também o orifício ficou por terminar; mas 
devo notar que aquelle pedaço de crânio nâo foi obtido 
por trepanação, pois numa das suas beiras ha vestígios de 
sutura: o que apoia a ideia que sustentei a cima, de que o 
fim próprio da trepanação póstuma nSo era preparar amu- 
letos, pois existem amuletos que nao se obtiveram assim. 




Quanto á conclusão que tirei sobre o caracter sobrena- 
tural dos indivíduos tujos crânios fôrào trepanados, nada 
devo accrescentar, neste caso particular da prehistoria 
portuguesa, áquíllo que, de modo geral, disse a cima. 



Como o meu intuito é chegar á verdade, e nSo fazer- 
me echo de qualquer opinião preconcebida, n&o occultarei 
que outras hypothesea tem sido admittidas, com o fim de 
explicarem, quer a trepanação em vida, quer a trepanação 
póstuma. 



196 



Pensou-se que a trepanação em vida teria por fim abrir 
passagem ao espirito do operado, a fim de esse espirito 
sahir do corpo e poder communicar livremente com seres 
sobrehumanos 1 . 

Pensou-se também que poderia constituir uma espécie 
de mutilação religiosa, tal como ella se encontra em muitos 
povos, que offerecem ás divindades cabello, unhas e pha- 
langes dos dedos inteiras, partes estas que substituem, 
no sacrifício, a própria pessoa 8 . 

A mim mesmo, no decurso das minhas leituras, me 
occorreu outra hypothese, que vou expor. 

Se muitos povos attribuem as doenças á entrada de 
espíritos maus no organismo, ha igualmente povos que 
as explicão pela sabida c ausência temporária da alma, 
do mesmo modo que outros suppSem que a morte é devida 
á ausência permanente. Tylor cita muitos exemplos. Os 
Algonquins, na America do Norte, dizem que um individuo 
adoece quando a sombra, i. e., a alma, está desconcertada 
ou separada do corpo. Os Fidjianos costumam até ás vezes, 
quando se vêem doentes, chamar pela sua alma. Os Negros 
da Guiné iinputão certas doenças mortaes á partida prema- 
tura da alma. Os Tártaros da Ásia Septentrional acreditão 
também na possibilidade do a alma abandonar o corpo 
durante a doença. Nas tribus budhicas existe a mesma 
crença, o os lamas realizão com minuciosíssimas práticas 
a cerimonia da restauração da alma 3 . Em alguns casos 
faz-se entrar a alma pela cabeça do doente, como no Salish 
do Oregon e nos Earens da Birmânia, ainda que Tylor não 
indica o processo 4 . — D'este modo, admittindo-se que os 
povos prehistoricos tinhão ideias semelhantes, a trepanação 



' Cfr. Goblet dAlviclla, IJidée de Meu, 1892, p. 26. 

* Ib,, ib., ib. — Sobre diversas espécies de mutilação religiosa 
vid. também Magitot in Compte-rendu do Congresso Prehistorico 
de Lisboa. 587-607 sqq. 

J Ixi civilisation primitive, i, 506-507. E cfr. 504. 

« Ob. cit., i, 507-508. 



197 



cirúrgica poderia ser destinada a abrir uma passagem para 
a alma do doente entrar, e não para um espirito mau sahir. 
A trepanação póstuma poderia ter análoga explicação, visto 
que commummente se acredita que a morte é devida á 
separação da alma. 

Réville também aventa a hypothese de que com a 
trepanação póstuma se queria adonner à Fârne du mort 
une issue pour s'échapper, de meme que clioz les Iroquois 
on a soin de ménager dans le même but un petit conduit 
dans chaque tombe au a 1 . 



Todas estas hypotheses, e por ventura outras, se podem 
mais ou menos justificar com factos colhidos na vida dos 
povos incultos; mas aquella a cuja justificação dei a cima 
algum desenvolvimento parece-me explicar todo o con- 
juncto das circumstancias em que apparecem os crânios 
trepanados e os amuletos: e por isso a preferi *. 

Seja porém qual for, d'entre as hypotheses emittidas, a 
de futuro acceita, parece-me que ao menos um elemento 
da religião neolithica fica determinado, e isso basta para 
o meu fim: é a crença no animismo. 



1 Prolégomhnes, p. 128. — Cfr. do mesmo A., Lea rtligions des 
peuplts non-cioiliséSf i, 252-253. 

2 Numa revista bávara, Prãhistorische Blãtter, vn, 66, encontro 
noticia de uma obra do dr. Koganei, em que este falia da frequên- 
cia com que hoje se encontra a trepanação póstuma nos crânios dos 
Ainos (Japão) ; esta operação é feita pelos J apões com o fim de extra- 
hirem o cérebro, que goza de virtudes magnificas no tratamento da 
syphilis. A relativa raridade dos crânios prehistorieos trepanados 
não nos auetoriza a suppor que fosse esse o intuito da trepanação 
neolithica, com quanto, pelo estudo de certas lesões que se notam 
em alguns ossos prehistorieos, a antiguidade da syphilis na Europa 
se possa já fazer remontar a epocha tão afastada, como é a neolithica. 
Sobre a historia da syphilis veja-se Bordier, Géographie medi cale, 
339 sqq. e 530 *qq. 



198 



IV. Culto dos mortos 

No capitulo II, pag. 99, d' este livro, já me occupei dos 
vestígios que a necrolatria, ou culto dos mortos, havia 
deixado entre nós no período prehistorico dos kjoekken- 
moeddings. As ideias que então encontrámos, por assim 
dizer, em gérmen, encontrá-las-hemos agora com bastante 
desenvolvimento, no período neolithico. 

De um lado, pela vista do cadáver frio, inerte, desfigura- 
do, em contraste com o corpo vivo ; do outro, pelos sonhos, 
em que o homem como que se transporta a mundos igno- 
tos ou distantes; pelas hallucinações, em que se vêem as 
pessoas que perecerão ; pelos êxtases, e por muitos estados 
pathologicos que simulão a morte ; pela sombra do próprio 
corpo, a qual, projectando-se, como que o duplica; e pela 
imagem que aquelle deixa reflectida numa superfície lisa, 
por exemplo a água quieta e transparente; e ainda por 
outros motivos, quaes são a contemplação interior, subje- 
ctiva: o homem foi levado a conceber a existência de 
uma alma ou entidade distincta do corpo, a qual habita 
nelle e o anima durante a vida, e se separa d'elle na occa- 
sião da morte. Esta noção, com quanto para os povos de 
pouca cultura, a alma nada tenha da espiritualidade que 
lhe attribuem os philosophos e os theologos, mas seja sopro, 
vapor, phantasma, sombra, fumo 1 , não deve ter sido primi- 
tiva, e sim ter apparecido somente depois de já um tanto 
amadurecida, pela observação e pela experiência das cou- 
sas, a reflexão humana. 



1 Fatiando dos homens que viveram em epochas anteriores á 
d'elle, diz Cicero : «Ânimos enim per se ipsos viventes non pote- 
rant mente complecti; formam aliquam figuramque quaerebant» 
(i. e.: — «não podiào conceber que as almas vivessem por si mesmas; 
buscavào-lhes alguma forma, alguma figura»). Tusculanae, edição de 
O. Heine, I, § 37. 



199 



Muitos povos acreditão mesmo na existência de várias 
almas para cada corpo, alojadas em differentes pontos 
d'este. Os Algonquins, da America do Norte, pensão que 
tem duas almas: uma, que baixa com o cadáver á sepul- 
tura, onde depois recebe alimentos a titulo de offerenda; 
outra, que, na oecasião do fallecimento, se retira para o 
pais dos mortos 4 . 

Não c a existência independente o único destino que, 
segundo os povos, a alma tem post mortem, pois também 
se cuida que cila pôde transinigrar, quer para outros ho- 
mens, quer mesmo para animaes, e ainda para simples 
objectos 1 ; ou que pôde talvez anniquilarse 3 . 

A concepção do local em que assenta o país onde a alma 
vae continuar a viver tem variado com o grau de imagi- 
nação e as condições da existência de cada povo 4 . Uns 
collocárão-no no alto de montanhas, na profundidade dos 
valles, em regiões afastadas, nos confins occidentaes da terra, 
á beira-mar, em ilhas solitárias, em abysmos sem fim, em 
jardins florescentes e mimosos 5 . Outros imagináram-no no 
seio dos mares 6 . Outros limitárão-sc a pô-lo debaixo da 



1 Vid. sobre estes assumptos a já citada obra de Tylor, Im civili- 
sation primitive, i, 504. 

A alma também pode ser concebida como composta de partes, 
cada uma encerrada em seu ponto do corpo durante a vida, c com 
diverso destino depois da morte. Vid. Boiiinais & Paulus, Le culte 
des moris dans le Celeste Empire et VAnnam compare au culte des 
ancêtres dans Vaniiquité occidentale, Paris 1893, p. 8 e nota, e p. 11 
nota. — Por brevidade citarei d'ora avante este livro apenas pelo 
titulo de Le culte des moris. 

1 Cfr. Tylor, La civilisation primitive, u, 3 sqq. e 159. — Por amor 
da brevidade, omitto as indicações qne a propósito podiâo dar- se 
aqui sobre metempsychosc e totemismo. 

* Vid. Dictionnaire des sciences anthropologiqucs, Paris, s. d., p. 17, 
s. v. âme. 

4 Este ponto foi tratado com desenvolvimento por Tylor, ob. 
et/., ii, p. 77-9<>. 

5 Vid. exemplos em Tylor, loc. laud. 

* Réville, Ias retigions des penples non-civilisés, i, 342. 



200 



terra 1 . Outros, emfira, transportárito-no para as regiões 
transcendentes da atmosphera e do ceu, para as nuvens 
e para o interior dos astros luminosos 2 . Todavia alguns 
povos não sabem onde é esse local 3 . 

As almas na outra vida, ou vão continuar esta (theoria 
da continuação), ou vão ser punidas ou recompensadas 
(theoria da expiação). A primeira theoria é mais frequente 
nos selvagens 4 . Os Cafres, diz o nosso Fr. João dos San- 
tos, «sabem que a alma do homem he immortal, e que 
vive eternamente no outro mundo, e cuidaõ que la vivem 
com suas molheres, muito á sua vontade, e levaft lá melhor 
vida que neste mundo» 5 . Já Cicero, fallando das supersti- 
ções populares, escrevia nas Tusculanas que se csuppunha 
que, depois da cremação dos cadáveres, os mortos cojntudo 
fazião nos Infernos aquillo que sem corpo era impossível 
fazer-se ou conceber-se» 6 . 

Acontece não raro o imaginar-se também que as almas 
dos mortos vóltão a este mundo, ândão cá, para me servir 
de uma expressão beirôa. Isto em parte resulta dos sonhos 
e das hallucinaçSes, em que as almas dos mortos são real- 
mente vistas. O nosso povo chama-lhes almas do outro 



1 «In terram enim cadentibus corporibus, bisque bnmo tectis, 
e quo dictum est humari, sub terra censebant reliquam vitam agi 
mortuorum» (i. e.: «depois de sepultados os cadáveres, e cobertos de 
terra, d 'onde veiu a palavra enterrar-se, julgava-se que os mortos 
iào ahi continuar a viver»). Tusculanae, ed. O. Heine, I, § 36. 

Da Guiné Portuguesa diz M. M. de Barros : «Os nossos pagãos 
consideram a terra como a última morada das almas» (artigo «Guiné 
Portuguesa», in Boletim da Soe. de Geogr. de Lisboa, 1882, p. 715). 

2 Vid. exemplos em Tylor, loc. land. 

3 Por exemplo os Cafres : vid. Fr. João dos Santos, Ethiopia 
oriental, I, ix. 

4 Vid. Tylor, ob. cit., n, 97 sqq. 

* Ethiopia oriental, I, íx. 

* « . . . . ut, corpora cremata cum scirent, tamen ea fieri apud 
inferos fingerent, quae sine corporibus, nec fieri posse nt, nec intel- 
legi». TuMCulanae, I, xvi. 



201 



mundo, e ás vezes almas penadas. Todos ou quasi todos os 
povos possuem pouco mais ou menos esta crença, — ao que 
já me referi a cima 1 . 

Era natural que tal crença, — por isso que as almas dos 
mortos, vivendo no outro mundo, e até apparecendo aos 
vivos, estão ipso facto revestidas de caracter solemne, 
myBterioso e sobrenatural — , levasse o homem a divinizá- 
las, sobretudo quando na vida terrestre houvessem perten- 
cido a indivíduos notáveis por qualquer circumstancia. 
«A vrai dire, dans Textrême Orient (escrevem Boiiinais & 
Paulus), toutes les umes des morts deviennent des dieux 
et sont adorées par la lignée familiale, et les honneurs de 
1'apothéose appartiennent à tous les morts» *. Com relação 
á antiguidade clássica, Fustel de Coulanges 3 citou muitos 
factos no mesmo sentido 4 . 

Da divinização das almas dos mortos, ou da simples 
concepção geral da vida futura, ou ainda das duas causas 
juntas, resultarão muitas cerimonias e costumes, que con- 
stituem propriamente o culto dos mortos, que se refere so- 
bretudo aos antepassados. Nos Cafres, o quitem, diz o 
nosso Fr. João dos Santos, «quando apparece a lua-nova, 

sobe a huma serra muito alta e em cima delia faz 

grandes exéquias pelos Reis seus antepassados, que todos 
ali estão sepultados» ; as exéquias consistem em comes e 
bebes, e em jogos 5 . 

Os mortos podem voltar ao mundo dos vivos para diffe- 
rentes fins, como fazerem certas recommendaçSes a estes, 



1 Pag. 101. 

Vi d. também, e principalmente, Tylor, ob, cit., n, 32 sqq.; e Ré- 
ville, Les religions des peuples noií-civilisés, i, 148, 157 (Africa). 

2 Le cuUe des morts, p. 19. 

3 La cite antiquCy 8. a ed., p. 16 etc 

4 Mas do que digo nâo se conclua que acceito, no que de exclu- 
sivo ha nella, a theoria do evhemerismo. Os phenomenos religiosos 
tem muitas e diversas origens. 

* Ethiopia oriental, I, vm. 



202 



attrahircm-nos a si, ou vingarem offensas, devidas especial- 
mente á falta do veneração para com elles, — privação de 
sepultura, não observação do ritual, etc '. Por isso o medo 
dos mortos é facto muito vulgar nos diversos povos, os 
quaes sempre se tem esforçado por os honrar e os applacar 
por differentes meios: erecção de túmulos, oíFerendas, sacri- 
fícios, responsos, exéquias, festins, etc. 

Mas os mortos deificados podem ainda receber culto, 
a fim de valerem aos vivos, e de os ajudarem. Os Cafres, 
continua Fr. João dos Santos, soccorrem-se todos ao rei 
para pedirem chuva, suppondo «que tudo pôde alcançar 
dos defunctos seus antepassados com os quaes lhes parece 
que falia» 2 . 

As almas dos mortos, se de ordinário apparecem espon- 
taneamente, ás vezes devem ser evocadas. A evocação dos 
mortos (vexfc/jwcvreta ou vexvcjaavreía) constituía um dos mais 
curiosos processos da magia na antiguidade 3 . 



1 Os exemplos susceptíveis de se citarem aqui erão muito nume- 
rosos. Para não alongar demasiadamente a nota, contento-me com 
estas referencias : 

Réville, Les religions des peuples non-civilisés, i, 71, 148 e 157 ; 
Tylor, La civilisation primitive, n, 3G sqq. e 145 ; 
Boíiinais & Paulus, Lt culte des morls, p. 10 ; 
Fustel de Coulanges, La cite antiqut, 8.' ed., p. 11 etc. 
Cfr. também o que digo supra, p. 101. 

Nas tradições populares portuguesas conheço alguns factos da 
mesma natureza. 

2 Ethiopia oriental, I, íx. 

Vid. também Boíiinais & Paulus, Le adie des morls, p. 11. 
Os exemplos podem multiplicar-sc. Cfr. Tylor, ob. cit., n, 149. 

3 Plinio, fallando das espécies de magia e dos meios de que 
ella se serve, diz : «et mui tis aliis modis divina promittit, praeterea 
umbrarum, inferorumque colloquia» («e por muitos outros modos 
procura adivinhar, e alem d*isso procura os colloquios das sombras 
e do infernou). NaL Hist., ed. deDetlefsen, xxx, g 14.° 

Um curiosíssimo caso de evocação, legado pela li tter atura antiga, 
é o que vem descrito no poema de Lucano : uma feiticeira evoca 
da morte um soldado romano para fallar com Sexto, filho de Pompeu : 



203 



Depois de conhecidas estas generalidades, vejamos agora 
até que ponto a nossa archeologia nos deixou elementos 
de que se deduza o culto dos mortos nos tempos neolithi- 



Adspicit adstantem proiecti corporis umbram 

•e [ella] vê em pé a sombra do corpo, que jazia estirado». Pharsa- 
lia, ed. de Tauchnitz, vi, 720. 

Segundo conta Vergilio, Creusa appareceu a Eneias, propheti- 
zando-lhe o futuro : 

Ausus quin etiam vocês iactare per umbram, 
Implevi clamore vias maestusque Creusam 
Nequidquam ingeminans iterumque iterumque vocavi. 
Quaerenti et tectis urbis sine fine furenti 
lnfelix simulacrum atque ipsius umbra Creusae 
Visa mihi ante óculos et nota maior imago. 

(Eneida, ed. de J. Moreira» u, 7f»8-773). 

Traducção de Lima Leitão : 

Vozes comtudo ousei lançar ás sombras ; 
Enchi co 1 o grito as ruas, e debalde 
Por Creusa chamei, chamei mil vezes. 
Eis que em quanto incansável a procuro 
Pela cidade inteira enfurecido, 
Encaro de Creusa a triste sombra, 
Tão alta, como então eu nunca a vira. 

(At obras de P. Virgílio Mar o, U u, Rio do. Janeiro 1819, 
p. 84, v. 881-887). 

Aqui o apparecimenlo de Creusa não resulta porém de evocação ma- 
gica em forma. 

Interessante é também para o estudo do assumpto a Declama- 
ção IO. , attribuida a Quintiliano. Sobre esta Declamação fez o 
sr. Ed. Le Blant uma communicaçâo á Académie des Inscriptions, 
de Paris : vi d. um extracto in Recue Archéologique, 1894, 245-246. 

Alem dos citados, já tem sido reunidos outros textos antigos pelos 
diversos investigadores. Para o meu fim bastão esses. Vid. porém 
sobre o assumpto : 

Réville, Ias religions des peuples non-civUisés, n, 243 sqq.: 

Marquardt, Jjt culle chez les Romains, i (1889), p. 134 ; 

Bodinais & Paulus, Le culte des mor ti, 1893, p. 162 sqq. 



204 



cos, e por tanto ideias semelhantes ou parecidas com as 
mencionadas. A cada passo terei, para isso, de tornar a 
recorrer á ethnographia geral. 

A) Destino dado aos cadáveres 

Depois que alguém morre, o cadáver geralmente con- 
stitue para as pessoas que o cérc&o um objecto de terror, 
de mágoa ou de respeito, ao mesmo tempo que, em vir- 
tude da decomposição orgânica que em breve começa a 
manifestar- se, e que torna insupportavel a presença d'elle, 
tem de ser retirado de ao pé dos vivos. 

A remoção do cadáver nem sempre obedece só a pre- 
ceitos hygienicos; entrão nisto também ás vezes, como 
nem podia deixar de succeder, ideias philosophicas ou 
religiosas á cerca do futuro do cadáver, ou do da alma 
do morto. 

O destino que o homem, através dos tempos, tem dado 
aos restos mortaes do seu semelhante apresenta muitas 
divergências, segundo a indole de cada povo. 

Como nfto estou a escrever propriamente um tractado 
de ethnographia, mas desejo apenas coordenar entre si, 
e subordinar a princípios geraes, os factos da prehis- 
toria portuguesa, não descrevo aqui por meudo os cos- 
tumes fúnebres que vigorão ou vigorarão pelo mundo além, 
tanto mais, que já a cima, pag. 93, toquei no assumpto, e 
referi alguns *. 



1 Nos livros de archeologia, de ethnographia e de viagens encon- 
trão -se sobre isto muitíssimas informações, a propósito de cada 
povo. Como artigos de caracter geral lembrarei aqui, por exemplo, 
os seguintes, sobre os tempos prehistoricos, a antiguidade e os selva- 
gens modernos : 

a) Tas rties funéraires aux époques préhistoriques, et leur origine, 
por M"" Clémence Royer, — in Eevue d 1 Anthropologxe, v, 437 sqq.; 

b) Veber deu verbrennen der Leichen «Acerca da cremação dos 
cadáveres», por J. Grimm, — in Klein. SchrifL, ii, 211 sqq. (neste 
artigo mencionào-se também outros ritos, alem do da incineração) ; 



205 



Dentre esses numerosíssimos costumes, — ou elles con« 
sistâo, por um lado, em enterrar ou queimar os cadave- 



c) Rites funérairts des sauvagcs actudê, por £. Cartailhac, — in 
France préhistorique, xvi. 

Cfr. ainda A further contribution to the study of the mortuary cvs- 
toms of the North American Indiana by Dr. Yarrow (in First annual 
report of the bureau of ethnology to the secretary of the Smiihsonian 
Institution, Washington 1881, p. 87 sqq.) 

Nas Púnicas de Silio Itálico indica-se uma interessante serie de 
costumes funerários antigos : 

Tellure — ut perhibent, is mos antiqnus — Hibera 
Examina obscoenua consumit corpora vultur. 
Regia cum lucem posuerunt membra, probatum est 
Hyrcanis adhibere canes. Aegyptia tellus 
Claudit odorato post funus stantia saxo 
Corpora et a mensis exangaem haud separat umbram. 
Exhausto instituit Pontas vacare cérebro 
Ora viram et longum medicata reponit in aevum. 
Quid, qoi reclusa nudos Garamantes harena 
Infodiunt? quid, qui saevo sepelire profundo 
Exanimos mandant Libycis Nasamones in oris V 
At Celtae vacui capitis circumdare gaudent 
Ossa, nefas, auro ac mensis ea pocula scrvant. 
Cecropidae ob patriam Mavortis sorte peremptos 
Decrevere simul communibus urere flammis. 
At gente in Scythica suffixa cadavera truncis 
Lenta dies sepelit, putri liquentia tabo. 

(Púnica, ed. de L. Baaer, xiti, 471-187). 

Isto é : «Na terra ibérica é um abutre repellente que consome os 
corpos mortos, costume que, segundo se diz, vem já de longe. Os 
Hyrcanos, quando morrem os reis, julgào conveniente entregá-los 
aos cães. No pais egypcio collocão-se, depois da morte, os cadáve- 
res em pé, dentro de um tumulo perfumado, estando sempre deante 
do espectro livido a mesa posta. Os do Ponto costumão extrahir os 
miollos As cabeças dos mortos, e conservá-las embalsamadas pelo 
tempo adeante. E os Garamantes, que sepultâo na areia os cadáve- 
res nus? E os Nasamões, nas praias Libycas, os quaes entregâo 
os mortos ao mar impetuoso? Quanto aos Celtas, que horror ! com- 
prazem-se em guarnecer de ouro o crânio, depois de esvaziado^ 



206 



res, por outro, em fazê-los pasto dos animaes, suspendê- 
los em arvores, mettê-los em tocas, abandoná-los nas pró- 
prias casas, expô-los nos altos dos montes, mesmo devorá- 
los em família, etc — , são o da inhumaçao e o da incine- 
ração os que até o presente mais tem chamado a attenção, 
como existentes nos tempos prehistoricos em geral, pois só 
d'elle8 possuímos documentos archeologicos certos, ainda 
que nada impede que outros costumes existissem também* 
Com relação ao nosso pais, indicarei o que pude averiguar. 

1) Inhumaçao. 

O costume da inhumaçao precedeu sem dúvida o da 
incineração : era mais natural, mais simples, e já provinha, 
como vimos *, do tempo dos kjoekkenmoeddings. 

£ facto averiguado que existia entre nós, no período 
neolithico, o costume de collocar os cadáveres e os esque- 
letos em sepulturas especiaes : ha e flecti vãmente muitas 
estações puramente neolithicas 2 , ou onde pelo menos a 
civilização neolithica predomina, nas quaes a inhumaçao 
é a regra. 

Adeante se citarão numerosos exemplos d'este facto 

2) Incineração. 

Muitos archeologos estrangeiros, baseados no que suc- 
cedia na Escandinávia, onde o rito da inhumaçao dos 
cadáveres é característico da civilisaçfto da epocha da pe- 
dra, e o da incineração é característico da da epocha dos 
metaes, suppuserão que essa nitida distincção se applicava 
ao resto da Europa. Citárão-se mesmo factos avulsos, que 



utilizando-o á mesa como taça. Os Cecropidas estabelecerão que os 
que pela pátria morressem na guerra, fossem queimados juntamente, 
em pyra commuin. Pelo que respeita á nação scythica, só com o andar 
do tempo se desfazem os cadáveres, porque os pendurâo nas arvores, 
d 'onde elles ficão escorrendo podridão». 

1 Supra, p. 99 sqq. 

* Cfr. supra, p. 71-72. 



207 



parecião confirmá-la 1 . A conclusão susceptível de se tirar 
era que a nova civilização, a metallica, trouxera comsigo 
novos costumes funerários. Todavia, outros factos se havião 
já invocado, e se invocarão ao mesmo tempo, 011 depois, 
para mostrar que em muitas partes, em pleno período neo- 
lithico, se praticava a incineração a par da inhumação*: 
o que em verdade .não contradiz em absoluto aquella con- 
clusão, porque, assim como o metal não substituiu brusca- 
mente a pedra, mas se lhe juxtapôs primeiro, assim tam- 
bém, na occasião da vinda do costume da incineração, podia 
succeder um facto análogo. 

Viesse como viesse o costume da incineração, a sua 
existência em alguns países da Europa em pleno período 
neolithico é certa; este facto e a consideração de que ha 
differença radical entre incineração e inhumação, para que 
um mesmo povo, sem mais nem menos, deixasse uma para 
adoptar a outra, ou as adoptasse a ambas sem escolha, 
levão a admittir que o novo costume faz parte de corrente 
civilizadora geral, e que elle pouco a pouco se foi sobre- 
pondo ao costume da inhumação. 

A respeito do período neolithico português, sabe-se que 
na gruta da Furninha (Peniche) 3 , na do Poço- Velho (Cas- 
caes) 4 , e na anta do Cabeço-dos-Moinhos (Figueira da 
Foz) 5 , apparecêrão em maior ou menor abundância ossos 
humanos queimados, á cerca dos quaes se formularão 
várias hypotheses (banquetes fúnebres, desinfecção, inci- 



Alexandre Bertrand, Archéologie celtique et gauloise, 2.* ed., 1889, 
246 8qq. 

Cartailhac : La France préhistoriquc, p. 270 sqq. 
Cfr. também Alexandre Bertrand, La Gaule avant les Gaulois, 
1891, p. 142. 

3 Nery Delgado, in Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 218. 

4 Cartailhac, Lts ages prihistoriquts de VEspagne et du Portu- 
gal, p. 104. 

5 Santos Rocha, in Revista de sdencias naturaes e sociats, 1. 22 ; 
e Antiguidades prehistoricas do concelho da Figueira, 11, 86. 



* 1 



208 



iieração, etc.) { . Effectivamente o facto de em algumas esta- 
ções prehistoricas apparecerem ossos humanos queimados 
pôde ter muitas explicações, como se diz dos trabalhos 
citados em nota. Ha mesmo povos selvagens que accendem 
lume sobre os túmulos, para as almas virem aquecer-se*. 
A propósito de uma sepultura neolithica lê-se na Recue Ar- 
chéologique: cia sépulture avait été soumise à un feu vio- 
lent avant le dépôt du corps et du mobilier funéraire au point 
de dénaturer complètement la couleur de la pierre; nous 
sommes certainement en présence d'une rite religieux, 
sorte de cérémonie ou le feu était chargé de purifier la 
fosse et de chasser le mauvais esprit» 3 . 

O Sr. Santos Rocha, no vol. m das suas Antiguidades 
prehistoricas do concelho da Figueira, sahido á luz durante 
a impressão da presente obra, dá grande desenvolvimento 
á hypothese da desinfecção, suppondo que os vestígios de 
fogo que apparecem nas sepulturas só se explicâo pelo fa- 
cto de, na occasião de novos enterramentos, se accender 
lume para se purificar o ar. As razões que elle allega não 
me parecem sufficientes para excluírem a hypothese da 
incineração dos cadáveres, porque nem sempre esta era 
completa: ficavão muitas vezes ossos mal queimados, ou 
simplesmente chamuscados. Nas ruinas de Tróia, em frente 
de Setúbal, explorei uma sepultura romana, que, por per- 
tencer a uma epocha definida e bem conhecida, constituo 
para o nosso caso um exemplo eloquente : nesta sepultura 



» Vid.: 

Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 218, 273 e 274 ; 
Cartailhac, Le* ages préhistoriques, 104, 111 e 112; 
Santos Rocha, locis laudatis ; 

Estacio da Veiga, Antiguidades monumentais do Algarve, m, 
351-353 ; 

F. Adolpho Coelho, in Revista Archtologica, m, 140. 

2 Tylor, Iai dvilisation primitive, i, 563, nota ; Réville, Ias rdi- 
gions des peuples non-civUisés, ii, 155; cfr. também Mélusine 9 ih, 94. 

3 3. a serie, t. xxvi, p. 265. 



209 



havi&o-se depositado os restos de um cadáver incinerado, 
que consistião em cinzas e em fragmentos de ossos; com 
os restos humanos encontrárão-se pedaços de vidro calci- 
nado, e vários objectos perfeitamente intactos, o que prova 
que parte do mobiliário fúnebre foi queimada com o cadá- 
ver, e outra parte posta na sepultura depois de extincto o 
lume, — exactamente como devia ter suecedido em diver- 
sas sepulturas prehistoricas, em que apparecêrão ossos e 
objectos ora indemnes da acção do fogo, ora com mostras 
de a terem experimentado. 

Numa das antas do grupo chamado do «Frieirot, no 
concelho de Villa-Pouca-de -Aguiar, apparecêrão também 
ossos humanos queimados, que, pelas circumstancias do 
seu apparecimento, provão claramente, creio eu, que alli 
se praticou o rito da incineração. Á entrada d'esta anta, 
á profundidade de 1 metro, encontrou -se, posta horizon- 
talmente, uma grande lagea de granito (da qual faltarei 
adeante, com mais individualização), cuja superfície supe- 
rior apresenta muitas covinhas, umas maiores do que ou- 
tras, cheias de cinzas, ossos humanos carbonizados de 
adultos e de crianças (vértebras, ossos do crânio, ossos do 
pé, etc.) e simples carvões, tudo coberto de uma camada 
de areia 1 . A pedra mostrava «estar, quando a acharão, 
no seu lugar primitivo, já porque differentes camadas de 
terra que pousavão sobre cila não tinhão indicio algum 
de serem movidas, já porque o conteúdo das covas estava 
ainda intacto» 2 . Este caso exclue em absoluto a hypo- 
these exclusiva da intervenção de fogo destinado a desin 
fectar de miasmas o monumento fúnebre, e não sei que 
razões se possão invocar para deixar de o explicar pelo 
rito da incineração. Se uma sepultura, em cuja parte pro- 
funda, c nas melhores condições de resguardo, e, direi 



1 Vid. um artigo do Sr. P. e J. Raphael Rodrigues, in O Archeologo 
Português, i, 349. Eu tive occasiâo de ver alguns dos ossos, graças 
á amável condescendência do referido Sr. P.* Raphael. 

2 Diz-nVo o Sr. P. e Raphael Rodrigues. 



14 



210 



mesmo, de veneração, se áchão cinzas, carvões e ossos 
humanos queimados, não significa que ahi se praticou o 
rito da incineração, então não ha meio, supponho eu, de 
verificar a existência d' este rito fora do testemunho directo 
da historia. 

Por tanto, se já mesmo com relação aos ossos queima- 
dos c chamuscados da Furninha, do Poço- Velho c da 
Cabeça-dos Moinhos me parece plausível a hypothese que 
explica esses vestígios de fogo pelo rito da incineração 
imperfeita 1 , com relação ás antas do Frieiro o facto não 
se me afigura hypothetico, afigura se-ine certo. 



Explorei e ajudei a explorar algumas antas neolithicas 
na Beira- Alta e no Alemtejo, nas quaes não se encontrou 
o mínimo vestígio de ossadas. O mesmo se observou noutras 
sepulturas exploradas por diversos investigadores. Ter-se- 
hia aqui praticado o rito por incineração? destruir-sc-hião 
os ossos em virtude de circumstancias geológicas especiaes? 
ou deve recorrer-se a outra ou outras explicações?* 

Só depois de investigações posteriores se poderá res- 
ponder. 



1 Cfr. Cartailhac, Les ages prèhiêtoriques de VEspagne et du Por- 
tugal, 111-112. 

2 Cfr. £. Cartailhac : «si le fossoyeur d'Hamlet enseignait avec 
raison que «1'eau cst le plus actif destrueteur des morta», nous 
pouvons ajouter qu'cllc les détruit plus vite dans le sol granitique 
de la Bretagne que dans toute autre» (La France préhistorique, 1889, 
p. 324). — À região alto-bcirôa a que me refiro é também granítica. — 
Na Allemanha do Norte tem se igualmente encontrado dolmens sem 
esqueletos, «ce qut s f explique sans doute aussi par la nature du 
sol* (in lievue Archéologiqvc, 1893, p. 272). 

Já depois de escrita esta nota explorei mais três antas na mesma 
região da Beira- Alta: em duas não appareceu, como nas de que 
fallo no texto, nenhum vestígio de esqueleto; numa appareceu, á 
superfície, uma pequena e insignificante esquirola óssea, que mal 



211 



■*- 



Uma ou outra vez um tumulo em que nâo se encon- 
trarão cinzas nem ossos, nem restos alguns humanos, pode- 
ria ter servido de cenotaphio, como de um das Carniçnsas 
(Figueira-da-Foz) suppoe, com mais ou menos probabili- 
dade, o Sr. Santos Rocha 4 . De uma necropole bávara da 
epocha de Halstatt (primeira idade do ferro) diz também 
o Sr. J. Naue: aQuelques tumulus, la plupart três bien 
construits, n'ont donné aucun objet — tout au plus, et três 
rarenient, quelques traces de charbons. Je les considere 
comme des cênotaphes, tombes de hauts personnages de la 
tribu décédés au loin et dont on n'avait pu recouvrer les 
corpst 2 . — A importância dos cenotaphios em geral, refiro- 
me adeante p. 283. 



Sabemos, por conseguinte, que no periodo neolithico 
se praticava no nosso país a incineração dos cadáveres a 
par da inhumaçào, constituindo esta última o rito funerário 
mais importante. Faltão-nos elementos para apreciarmos 
devidamente os actos que acompanhavâo os dois ritos; 
porém, pelo que toca ás formas dos monumentos sepul- 
craes, ao modo como se sepultava o morto ou os seus res- 
tos, a certos cuidados que se dispensav&o a este, alguma 
cousa se conhece, — o que se verá nas páginas seguintes. 



posso considerar como proveniente de esqueleto alli enterrado, mas 
que devia ter sido para alli levada casualmente. 

Todavia num dolmen da referida região, explorado ultimamente 
pelo Sr. Maximiano Apollinario, apparecêrão fragmentos de crânios 
humanos. Este facto faria suppôr que o não apparecercm noutros 
dolincns da região restos de esqueletos se não deve attribuir á des- 
truição d'ellc8 pelo rito da incineração. 

1 Antiguidades da Figueira, i, 37. 

2 In Recue Archéol., 3.* serie, t. xxvii, p. 46 ; cfr. também p. 67. 



212 



B) Espécies de monumentos sepulcraes 

Existem dos tempos neolithicos em Portugal muitas 
variedades de monumentos sepulcraes, desde a singela 
lapa ou abrigo de baixo de rochedo, até á crypta aboba- 
dada, — o que revela também pelo seu lado differenças de 
civilizaç&o e de datas. 

Tornar-se-hia bastante difficil tentar expor com exa- 
ctidão e rigor a ordem chronologica segundo a qual as 
diversas formas sepulcraes suecedêrão umas ás outras. 

No que vae seguir-se, indico todas as que conheço, 
limitando-me poróm a distribui-las por typos: 1) grutas 
naturaes e lapas; 2) grutas artificiaes; 3) e 4) sepulturas 
por exeavaçào sem ou com revestimento interno; 5) dol- 
mens cm geral; 6) monumentos de transição entre os 
dolmens e as cryptas alcalarenses ; 7) monumentos alça- 
larenses propriamente ditos; 8) monumentos do transição 
entre os precedentes e as cistas; 9) cistas e antellas; 
10) sepulturas diversas; 11) questões correlativas. 

1. Gruta» naturaen e Japas 
a) Nutureza das grutas 

São de três espécies principaes as grandes aberturas do 
solo: lapa propriamente dita, ou abrigo de baixo de um 
rochedo ; gruta, de maiores dimensões, aberta para o lado 
de fora, e ás vezes com vários compartimentos internos; 
caverna, enorme cavidade, de forma variada, e muito ex- 
tensa, chegando algumas a attingir legoas de comprimento. 
A palavra caverna é também termo geral para significar 
«toda a cavidade subterrânea de qualquer extensão e forma, 
produzida por causas naturaes, e penetrando irregularmente 
nas camadas superficiaes da crusta terrestre» 1 . 

Segundo as theorias hoje admittidas pelos geólogos, as 
grutas e cavernas tem origem em fendas e fracturas da 



Nery Delgado, Grutas da Cczareda, p. f>. 



213 



superfície do globo; estas fendas e fracturas furão depois 
alargadas pelo influxo de diversos agentes physicos, princi- 
palmente das aguas, que, alem de desaggregarem, e em 
certos casos dissolverem, as rochas, arrastarão em seguida 
os productos da desaggregação e dissolução 1 . 

b) Designações vulgares das grutas 

As grandes aberturas naturaes do solo recebem vários 
nomes na nossa lingua, a saber: lapa (e 8olapa) } furna 
(e fórna), gruta (e grota), caverna, cova, mina, algar, etc. 

A palavra lapa parece corresponder mais particularmente 
a «abrigo de baixo de rochedo» : até na linguagem usual 
se diz alapar se e solaparse: Neste sentido emprega Ro- 
drigues Lobo a palavra : 

Verdes lapas, que ao pé de altos rochedos 
Sois moradas das Ninfas mais formosas... 2 

E também fr. Luis de Sousa: «Offereceu-se-lhe á vis- 
ta, posto sobre um penedo alto, um menino ; 

ao pé do penedo se abria uma lapa, que podia ser bas- 
tante abrigo para o tempo ; chamou-o e disse-lhe que 

se descesse abaixo para a lapa»*. E F. Mendes Pinto: 

a lapas feitas á mão, entre uns penedos de 

rocha viva» 4 . Seria fácil juntar mais textos análogos. No 
emtanto a palavra lapa tem significação múltipla, pois, por 
exemplo, no Sanctuario Mariano de fr. Agostinho de Santa 
Maria leio: «a mina ou lapa»*\ alapa ou gruta», aberta na 
rocha calcarea, e com estalactites 6 ; alapa quasi sub- 



1 Sobre a origem o formação das cavernas consulte-se o citado 
trabalho do Sr. Delgado, e alem d 'isso um artigo do mesmo auctor, 
«As cavernas» (in Revista de Portugal, ív, 31 sqq.). 

* Obras, Lisboa 1723 (Primavera), p. 164. 

5 Esqueci-me de notar o lugar a que pertence esta phrase. 
4 Peregrinação, cap. clxi. 

* Vol. ív, p. 555. 

* Vol. ív, p. 570. 



214 



terranea, e tendo do comprido 25 palmos» 1 . A respeito do 
Algarve, diz Estacio da Veiga, depois de ter fallado de 
gruta, algar, furna e lapa: «de todas as mencionadas pa- 
lavras a menos vulgar é a lapa, que mais geralmente se 
refere, não tanto a covas e nichos que se acham em ram- 
pas de montes e outros logares, como a grandes chapas 
de rochas estratificadas, que se destacam das pedreiras 
ou se encontram isoladas c dispersas». Em virtude d'e&ta 
última significação que a palavra lapa tem também na nossa 
lingua, é que na Beira-Alta se diz lapada em vez de 
«pedrada». Em Sintra usa se o termo slapa ou selapa 
(que está em vez de solapa = sob lapa) , no sentido de 
gruta, etc. 

Quanto a fwna, vid. supra, p. 40, onde fallei das fur- 
nas da Madeira. No concelho do Cadaval diz-se fórna, 
palavra mais conforme com a etymologia, pois forna é fe- 
minino de forno, e forno vem do latim furnus, com w, que 
no latim vulgar deu o. 

«Pela designação de furnas, diz E. da Veiga, são assaz 
conhecidas no Algarve as cavernas da costa marítima, ao 
passo que na região sertaneja ou serrana se denominam al- 
garas, sobretudo se as suas entradas são abertas na rocha, 
á feição de poço, se dão entrada ás correntes pluviaes, 
e medem grande profundidade» 2 . Este último termo en- 
contra se no mesmo sentido na Estremadura, onde, em vir- 
tude do processo linguistico chamado «etymologia popu- 
lar», se diz algarve, no plural algarves, por influencia 
phonetica do nome próprio Algarve. 

A forma grota usa-se nos Açores, mas o seu significado 
não é exactamente o de gruta 3 . 

A palavra gruta é puramente litteraria, não se usa no 
povo; no mesmo caso está caverna. 



1 Vol. iii, p. 258. — Esta lapa fica situada do termo de Lamego. 

2 Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 33. 

3 Vid. Revista Lusitana, n, 307. 



215 



c) Distribuição goograpuicu das gr utaw 

Embora em todos os terrenos possão mais ou menos exis- 
tir grutas e cavernas, é todavia, como se sabe, nos ter- 
renos calcareos que ellas mais vezes se encontrão. Já a 
pag. 33 me referi por alto á distribuição geographica das 
grutas no nosso país. 

Em Portugal, como fica expresso na lista feita a p. 12 
sqq., e como se disse a p. 40 sqq., lia muitas grutas que 
datão dos tempos neolithicos. Temos em Tras-os-Montes 
as de Santo Adrião; fatiando do Entre -Douro-e-Minho, diz 
o sr. Sarmento que a escolha de abrigos formados por um ou 
mais penedos para lugar de sepulturas é lá facto vulgar 1 , 
e especifica o sitio das Coriscadas, no Marco de Cana- 
veses 2 ; na Estremadura temos as de Alcobaça, do Monte- 
junto (grutas e abrigos), da Cezareda, da Furninha, e 
muitas nos arredores de Lisboa, como as de Liceia, de Porto- 
Covo, de Carcavellos, de Oeiras, do Carnaxide, de Cascaes, 
etc; no Algarve, apesar de lá existirem muitas grutas, 
Estacio da Veiga apenas menciona uma em que se fizerão 
explorações, a da Soleatreira, «utilizada para depósito mor- 
tuário, mui provavelmente no período neolithico, ou na 
epocha da transição d'esse período para a idade do bronze, 
em que também apparecem no Algarve as célebres contas 
de callaíte nos depósitos mortuários» 3 ; no Alcmtejo, como 
na Beira, ha algumas grutas, mas não sei se nellas se tem 
achado vestígios archeologicos ou anthropologicos. 

cl) Grutas funerárias 

A p. 40-48 expus a questão da habitabilidade das grutas 
no nosso país, nos tempos prehistoricos, e então disse que, 
apesar de muitas d'ellas poderem ter sido habitações, o 
facto de outras terem sido sepulturas era positivo. Não 



1 Vid. Revista de Guimarães, v, 112. 

* Vid. Revista de Guimarães, v, 114. 

* Antiguidades do Algarve, i, 81-82. 



216 



intentando inventariar aqui as grutas prehistoricas, mas 
desejando apenas apresentar um quadro dos costumes neo- 
lithicos, entre os quaes havia, como acabo de notar, o de 
sepultar os mortos nas aberturas naturaes do solo, não 
necessito de descer a minudencias ; bastar-me-ha pois apre- 
sentar algumas considerações geraes. 

O que leva a admittir que as grutas neolithicas, não 
obstante a possibilidade de haverem servido de moradas 
dos vivos, forão, senão sempre ou quasi sempre, pelo 
menos, muitíssimas vezes, sem dúvida alguma, moradas 
dos mortos, é o apparecimento nellas de restos de esque- 
letos humanos, collocados nas mesmas condições que os 
apparecidos nas antas e nas outras espécies de sepulturas '. 

Das grutas consideradas como ossuarios faltarei adeante, 
no § 11-a. 

e ) Typo geral das grutas 

Como exemplo de grutas funerárias vou aqui apresentar 
a descripçâo summária da gruta das Penhas do Furadouro, 
situada na Serra do Montejunto, no concelho do Cadaval. 
Escolho esta gruta por nSo ser ainda conhecida do público. 

Foi explorada em Agosto de 1894 pelo adjunto do Mu- 
seu Ethnographico Português o Sr. Maximiano Ápollinario, 
a quem devo as seguintes notas: 

«Esta gruta e a que depois se explorou, bem como 
outras que o forão quando a das Fontainhas, na serra 
do Monte-Junto, achão-se situadas na vertente Occidental 
do valle do Furadouro. 

Dá-se a designação de Penhas do Furadouro á parte do 
apertado valle do mesmo nome onde os rochedos, for- 
mando uma serie de contrafortes nas vertentes, as recor- 
tam em desfiladeiros, que correm até ao fundo d elle. 

Descendo o valle, quasi ao chegar aonde, de estreito que 
elle é, se alarga numa vasta bacia hydrographica, no topo 



1 Sobre costumes estrangeiros de sepultar em grutas cfr. Car« 
tailhac, La France préhistorique, p. 298. 



217 



de um desfiladeiro da vertente Occidental, e no ponto onde 
a encosta offerece uma quebrada, acha-se situada a gruta 
que foi chamada «do Furadouro». 

A gruta aberta na encosta, a talvez mais de 70 metros 
a cima do fundo do valle, tem a sua entrada voltada para 
o oriente, e pela sua posição é quasi inaccessivel. 

Aberta no calcareo jurássico, apresenta um revestimento 
estalagtitico nas paredes e no tecto. 

A camada superior, e que formava o solo da gruta, era 
constituida por terra vegetal que continha de mistura 
muitas pedras, formando esta camada um leito horizontal 
que distava do vértice da boca O^SO; e a sua entrada 
achava-se fechada por grandes pedras. 

Depois das excavaçftes reconheceu-se que o contorno 
da gruta fechava um recinto em que se distingue um pe- 
queno corredor de entrada, uma primeira camará que se 
dilata ao fim d'aquelle, e finalmente uma segunda camará 
que se achava quasi completamente obstruída. 

Corredor e primeira camará. — Uma camada de terra 
vegetal que envolvia muitas pedras, de cerca de O" 1 , 70 de 
espessura, e formava superiormente um leito horizontal, 
constituía o solo da gruta. 

Nesta camada for&o feitas, em Maio, algumas excava- 
çSes por António Maria Garcia Júnior, sendo então encon- 
trados muitos ossos humanos e de animaes, e productos de 
industria, como cerâmica muito ornamentada (com dese- 
nhos de linhas variadas), dois machados de pedra, uma 
faca também de pedra, alguns núcleos e estilhaços de silex, 
tudo na zona superior d 'esta camada até O" 1 , 60 de pro- 
fundidade. A entrada da primeira camará, e a cerca de 
0^4 de profundidade, estavfto dois crânios humanos fra- 
gmentados, um ao meio do recinto, o outro junto da pa- 
rede SE d'elle ; juntamente forfto colhidos outros fragmen- 
tos menores de crânios humanos. 

Levantada toda esta primeira camada, forfto ainda en- 
contrados alguns restos de animaes e de industria, como 
cacos e estilhaços de silex, e dois pequenos fragmentos 



218 



de osso trabalhado. Do fundo d'esta camada retirárão-se 
também alguns fragmentos de conchas (Vcnus). 

Sob esta camada de terra vegetal pôs-se a descoberto 
um depósito de areia solta com pedras e atravessado por 
muitas raízes, constituindo o solo virgem da gruta, notan- 
do-se neste depósito muitas incrustações calcareas produ- 
zidas pelas aguas de infiltração, que, caindo do tecto, 
atravessarão o solo superficial. A areia vermelha d'este 
depósito apresenta-se também alterada por conter mistu- 
rados detritos orgânicos, o que tudo lhe altera o aspecto 
que é muito variado, havendo pontos onde o depósito cal- 
careo ó abundantíssimo, sendo o solo por vezes compacto 
e resistente, outros desaggregavel, e sempre caracterizado 
pela brancura da sua massa, o que principalmente se nota 
em pontos, que correspondem inferiormente ás estalagtites 
do tecto, o que confirma a hypothese da sua estructura. 

Segunda camará. — Esta achava-se quasi completamen- 
te obstruída pela terra vegetal, que a enchia posteriormente, 
e o seu pavimento acha-se cerca de 1 metro a baixo do da 
primeira, passando-se de uma á outra por um pequeno de- 
clive. A espessura da camada vegetal era proximamente a 
mesma que na camará anterior. Por baixo d'esta camada 
revelou-se também um depósito alluvial, constituindo por 
assim dizer um grés bastante cimentado e que superficial- 
mente apresentava muitas infiltrações calcareas. Encon- 
tra-se neste solo outro grés compacto e muito resistente, 
que forma uma camada de espessura variável, assentando 
sobre o calcareo, havendo entre este grés e o calcareo uma 
fina camada estalagmitica. Isto, porém, não se observa em 
todos os pontos. Em geral a primeira zona do solo natu- 
ral é formado pelo grés vermelho agglutinado pelas infiltra- 
ções calcareas e no meio do qual se encontrão muitas in- 
clusões calcareas, que formão pequenas geodes e delgadas 
camadas de crystaes de calcite que forão preencher cavi- 
dades e fendas; alem d' isto a impregnação pelo calcareo 
manifesta-se por inclusões no estado amorpho branqueando 
irregularmente toda a massa, variando muito esta estru- 



219 



ctura nos diversos pontos do solo. Em outros pontos en- 
contra-se um grés muito resistente, compacto e de estru- 
ctura crystallina. 

A entrada d 'esta camará e na camada de terra vegetal, 
a pequena profundidade, foráo encontrados muitos ossos de 
aniraae8, principalmente vértebras e ossos longos, vários 
fragmentos de crânio de uma criança, de cada lado junto 
das paredes um fémur humano, um maxillar (fragmento) 
humano, e muitos dentes e fragmentos de maxillares de 
animaes. Encôntrão-se também alguns restos de cerâmica, 
fragmentos de silex, um pequeno osso trabalhado, um 
dente com vestígios de ter soffrido a acção do fogo e fra- 
gmentos de carvAo. Ao fundo d'esta camará foi encontrado 
um machado de fibrolite.» 

A fim de se ficar com uma impressão mais directa do 
aspecto geral de uma gruta, reproduzo nas figs. 42 e 4í5, 
segundo uma photographia *, as bocas das grutas do Poço- 
Velho, situadas em Cascaes; a respeito d'ellas vejâo-se as 
obras citadas no Archeologo Português, I, 250*. 

O Ideias do homem pro histórico á cerca das grutas 

Abertas no âmago ou nas vertentes dos montes- solitá- 
rios, ou mesmo entre as escarpas da beira-mar, compre- 
hende-se que as grutas constituíssem magníficos asylos 
para os homens prehistoricos depositarem os caros restos 
dos seus pães, dos seus parentes, dos seus amigos. Alli, 
depois de tomadas as devidas precauções, não irião facil- 
mente as feras profanar o que era sagrado. 

Para todos os po?os um tumulo contém alguma cousa de 
mysterioso e de venerável, até para os povos civilizados, 



1 Tirada pelo Sr. Maximiano Apollinario em Novembro de 1895. 

2 Na nossa litteratura geológica os trabalhos do Sr. Nery Delgado 
á cerca das grutas (trabalhos já por mim citados várias vezes nesta 
obra) sâo, no conceito dos entendedores, modelos no género. Para 
elles remetto o leitor curioso de mais informações, 



222 



apezar de o considerarem como depósito das últimas formas 
que a matéria reveste ao acabar-se o cyclo da evolução 
vital do organismo humano; mas para muitos povos incul- 
tos elle representa um lugar em que o morto não deixa 
de ter existência própria, elle é o theatro onde post obitum 
continua a representar-se o drama da vida: ainda Vergilio, 
fallando dos funeraes de Polydoro, diz animamque sepulcro 
condimus, «e sepultamos a alma» 4 . Daqui o carinho com 
que sempre se tratarão os mortos, escolhendo-se-lhes para 
sepultura lugares especiaes, ou levantando-se-lheB mauso- 
léus com certa pompa 2 . 

Quando as grutas, ao mesmo tempo que se utilizavâo 
como sepulcros, fossem habitações, facto de que a cima citei 
exemplos 3 , e de que poderia aqui citar outros 4 , ficavâo 
os mortos mais perto dos vivos, melhor guardados, melhor 
lembrados: e estava nisso outra prova de affecto e de culto. 

Como seria lúgubre entrar numa gruta de corredores 
tortuosos, húmida, escura, extensa, onde as palavras se 
prolongavâo momentaneamente em echo, onde as sombras 
e os estrondos subterrâneos causavâo medo! Quando por 



1 Eneida, m-67. 

Cfr. o que fica escrito supra, a p. 199. 

2 Adeante desenvolvo mais este assumpto, ao fallar dos dolmeus, 
no § 5. 

* Vid. p. 48 e 93. 

4 «En Grèce, les morta furent longtemps ensevelis dans la maisun 
qu'ils avaient habitée, prés du foyer qu'ils avaient allumé (cfV. 

Euripides, Helena 1163) Scrvius fait dériver le culte des 

lares de cette antique coutume». Bouinais & Paulus, Le. culte des 
morts, p. 171-172. 

Sobre costumes de sepultar em casa, nos antigos e nos selvagens, 
vid. também Jtevue cTAnfhropologie, v, 44G. 

Xa terra dos Sapés (Guine) os enterramentos fazem -se nas suas 
próprias casas: vid. A. Alvares d'Almada (sec. xvi), Tratado da 
Guiné, Porto 1841, p. 77. 

Muitas vezes poróm as casas em que se depositâo os mortos são 
abandonadas pelos vivos. Cfr. também Henrique de Carvalho, Etkno- 
graphia da Lunda, p. 512-513. 



223 



acaso se aceendia um archote no interior cTaquellas soli- 
dões, logo, como sabe toda a gente que visita uma gruta, 
bandos de morcegos esvoaçavâo, despertados do sossego 
cm que vivifto: quantas vezes, para os homens simples c 
crendoiros dos tempos neolithicos, os innoeentes mammi- 
feros, acossados violentamente dos esconderijos, represen- 
tarião os espíritos dos mortos, que surgião das trevas, c se 
sobre saltavâo na presença dos vivos? Effectivamente mui- 
tos povos concebem a alma como uma ave * : e para quem 
nSo estudou zoologia um morcego é ave*. As estalactites, 



1 Cfr. as Tradições populares de Portugal, § 309 e nota 144. 
Quando morreu o conde Nilo e a sua namorada, diz-se num ro- 
mance popular (Almeida Garrett, Romanceiro, III, n.° xvui) que 

De um nascera uma pomba, 
De outro um pombo torquaz. 

Fallando das exéquias de um summo sacerdote do Pegú, diz 
Fernão Mendes Pinto (scc. xvi) : «E neste dia se nào fez mais que 
libertar- so hua grande quantidade, e quasi innumeravel, de passa- 
rinhos, que em mais de trezentas gaiolas e corças ali erâo trazidos, 
dizendo que erâo almas de defuntos já passadas doesta vida, que 
naquelles pássaros estavão em deposito, esperando o dia em que 
as avião de soltar, para que livremente pudessem ir acompanhar 
as almas d 'cate defuncto». Peregrinação, cap. clxviii. 

Quanto á alma representada como uma borboleta vid. também 
Babelon et Blandet, Bronzes antiques, Paris 1895, n.° 302. 

2 Cfr. esta adivinha popular do morcego : 

Estudante, que estuei ae 8 
Nos livros da philosophia, 
Dizei-me que ave é esta 
Que tem peitos, leite e cria. 

Na Odysseia, fallando se das almas conduzidas para o Orço por 
Hermes, diz-se que estas o seguem, 

'i); $' ote rjxrtftSí; wx/j* ívrpj fiaria .'oio 
TpíSooaat ttOTiovrat, iirtí jcs rt$ cmíotcíot/xiv 
cpuataj *'* irÍTpr,;, ává t* áXAriXr,<nv i/cvrai. 

(Ody$$Ha, Paris, Didot, xxiy, 6-8). 



224 



que frequentemente pendião do tecto e das paredes, asse- 
melhar-se-hião a grossas lagrimas que os mortos chorassem 
com pena de haverem deixado a vida, pena avaliada pela 
saudade que legavSo; pisando-se o solo frio, e ás vezes 
pouco consistente, a cada passo se julgaria tocar nas re- 
líquias santas dos filhos e dos irmãos, cujos cadáveres 
lívidos e disformes para lá tinhão sido transportados. Por 
toda a parte o terror e ao mesmo tempo o amor faltando 
ao coração. 

Se as grutas ficavSo perto do mar, a zoeira das ondas, 
que se despedaçavão incessantemente nos alcantis da praia, 
penetrava lá dentro pelos boqueirões e pelas frinchas, e jun- 
tava outro elemento á melancolia, á desolação, á tristeza 
inherentes numa catacumba. 

E se as grutas se abrião, como as do Monte-Junto, numa 
serra alta o sujeita a frequentes nevoeiros, que costumão, 
á maneira de phantasmas errantes, pairar nas cumiadas 
dos outeiros, então o local das grutas adquiria para a ima- 
ginação do homem antigo um aspecto ainda mais miste- 
rioso, porque na mythologia d'esses tempos, como na dos 
tempos posteriores succedeu, e se nota nas modernas tra- 
dições populares, o nevoeiro devia originar concepções so- 
brenaturaes. Em todo o nosso país, com especialidade nas 
regiões serranas, o povo recita imprecações magicas contra 
o nevoeiro: na própria Serra do Monte-Junto, onde, se- 
gundo se disse a cima, ha grutas funerárias, colhi eu algu- 
mas d'esBas fórmulas, — o que porém aqui noto como pura 
coincidência, e não porque queira significar que ellas pro- 
viessem directamente dos tempos prehistoricos. 



Traducção de João Félix Pereira : 

Ao modo de morcegos, que do fundo 
De antro sagrado, voão, vozeando, 
Quando um se solta do cordão, que formão, 
Prendendo-se uns aos outros, suspendido 
Da penha. 

(Á OdjfêêHa de Itomcro, Lfuboa 1891, p. 4M-45*). 



225 



Não se imagine que, escrevendo o que acabo de escre- 
ver, procurei romantizar o antigo uso das grutas. Todo o 
meu empenho consistiu somente em despertar no ânimo do 
leitor algumas ideias, que, ainda que não correspondSo, 
com exactidão completa, a factos que realmente suecedes- 
sem, não destoão, me parece, do que sabemos á cerca da 
vida psychologica de povos em condições parecidas com 
as dos povos neolithicos. Se os factos não suecedêrão assim, 
podiSo sueceder; ou suecedêrão outros semelhantes. 

lt) Destino ulterior das grutas 

Com o andar dos tempos, e o progresso da civilização, 
forão abandonadas as grutas e as lapas prehistoricas ; não 
obstante, quer umas, quer outras, não perderão no geral 
para o homem, embora já depois de esquecido o antigo uso 
d'ellus, o caracter sobrenatural que primeiro tiverão. 

O nosso povo, quando as não aproveitou para sanctuarios 
christãos, ou para outros fins, vestiu-as, e veste-as ainda 
hoje, de poéticas lendas, suppondo-as não raramente habi- 
tadas por Mouros e Mouras, do que resultarão para ellas 
denominações como Cova da moura e Casa da moura '. 

Estas tradições vem já de muito longe, como o prova o 
onomástico. Duas das grutas da Cezareda tem aquelles 
nomes. Na Serra de Monte-Junto ha uma caverna deno- 
minada Algar das Gralhas, onde, segundo a lenda, appa- 
rece uma Moura; nesta caverna porém ainda não se encon- 
trarão materiaes nenhuns dos tempos prehistoricos. 

Com relação a lendas christãs, vejamos agora alguns 
documentos. 

Uma vez a Virgem Maria appareceu a uma pastora, 
junto da villa de Alvaiázere, cem huma tosca lapa, que 
hoje se conserva nas costas da mesma casa da Senhora, 
em que ao presente he venerada com o titulo de Memoria* *. 



1 Cfr. supra, p. 47. 

2 Sancluario Mariano, iy, 5fi0. 



15 



226 



Em Setembro de 1895 visitei esta lapa e a capclla, que 
se chama de Nossa Senhora dos Covões. A lapa é propria- 
mente uma fenda entre dois grandes penedos. Por ahi perto 
achão-se nos campos instrumentos neolithieos: eu vi um 
machado, e o sr. Polycarpo Marques Rosa, de Alvaiázere, 
diz-me ter visto fragmentos de facas de silex. Não é absurdo 
o suppôr que esta fenda servisse de depósito funerário nos 
tempos neolithieos, embora nada prove isso directamente. 

Fr. Agostinho de Santa Maria conta no Sanctuario Ma- 
riano, com bastante individualização, outro apparecimento 
de Nossa Senhora numa gruta de Condeixa; Nossa Senhora 
tem neste caso a invocação da «Lapa», e venera-se tam- 
bém numa ermida 4 . 

A gruta de Carnaxide, perto de Lisboa, onde hoje está 
um sanctuario christão muito venerado, foi um sepulcro 
prehistorico 2 . 

Estes três exemplos bastão. 

Porém nem todas as grutas, a que hoje se applicão 
lendas, forão estações prehistoricas; o povo muitas vezes 
generalizou as lendas a variados lugares. Por outro lado, 
nem de todas as grutas prehistoricas se conservarão na 
tradição lembranças, até hoje. Pode ainda dar-se o caso 
de só modernamente se adaptar uma lenda a uma gruta 
prehistorica que também só modernamente se descobriu, 
como parece ser o caso da gruta da Senhora de Carna- 
xide, ha pouco citada. Os nomes também nem sempre 
são guia segura para determinar a existência de grutas : 
assim cova applica-se a qualquer abertura no solo, pequena 
ou grande ; Casa da Moira ou dos Moiros também se applica 
a antas; Cova da Moira pode applicar-sc a um local em que 
se encontrão vestígios de mineração antiga 3 . 



1 Sanctuario Mariano, iv, 569 sqq. 

2 Vid. a demonstração (Teste facto n-0 Archeologo Português, i, 
182 sqq. 

3 Vid. Severiano Monteiro, in lievista das obras publicas e minas, 
xxv, 402. 



227 



Âlcm d'Í8S0 as grutas tem tido outros destinos, como 
se disse a pags. 46-48. 

3. Gratas artificiaes 

Naquclles pontos em que a fragilidade do terreno per- 
mittia que este fosse excavado com os instrumentos de que 
se podia dispor na idade da pedra, ou no princípio da 
seguinte, o homem abriu grutas artificiaes, á maneira das 
naturaes. 

No nosso pais, na Extremadura, conhecem-se algumas 
grutas artificiaes, que tem sido com razão consideradas 
como sepulturas 1 . As mais notáveis são as de Palmei la; 
mas não são únicas, como direi adeante. 

a) Grutas de Palmella. 

Âs grutas de Palmella forão descobertas e exploradas 
pelo collector geológico o sr. António Mendes, sob a direc- 
ção de Carlos Ribeiro, que porém não chegou a publicar a 
respeito d'ellas trabalho nenhum, apesar de ter tencionado 
publicá-lo*, e existirem na Commissão Geológica uns apon- 
tamentos manuscritos, feitos pelo mencionado collector, e 
emendados por Carlos Ribeiro. 

O sr. Cartailhac, havendo-se utilizado, segundo confes- 
sa 3 , das informações que Carlos Ribeiro lhe dera vocal- 
mente, e havendo observado as próprias grutas, e exami- 
nado os objectos que de lá se tinhSo extrahido, c estava" o, 
como agora estão, no Museu da Direcção dos trabalhos 
geológicos, consagrou a estes curiosos monumentos algu- 



1 Cfr. a este propósito : 

Carlos Ribeiro, Estudos prehistoricos, i, 61 ; 

Paula e Oliveira, in Communicações da Commissão dos Trabalhos 
Geológicos, n, 83 ; 

Cartailhac, Ias ages préhistoriques de VEspagne et du Portugal, 
116 sqq. 

2 Vid. os Estudos prehistoricos, ti, 86. 
* Les ages préhistoriques, p. 119. 



228 



mas páginas no seu livro Les ages prékistoriques de VEtpa- 
gne et du Portugal, p. 118 sqq. 

O Sr. Nery Delgado, Director dos Trabalhos Geológicos 
de Portugal, fez-me o favor de me facultar o exame dos 
citados apontamentos manuscritos, que Carlos Ribeiro man- 
dara organizar. D'el!es extraio o que vou dizer, comple- 
tando-o com algumas notas e desenhos tirados do livro do 
sr. Cartailhac. Estas grutas não tive ainda occasifto de as 
visitar, posto que já passasse por perto. 

As grutas ou furnas conhecidas pelo nome de «grutas de 
Palmella» nSo ficXo propriamente em Palmella, mas nos 
arredores da villa, no Casal-Pardo, lugar dos Bacellos 
(Quinta do Anjo). Estfio em terreno mioceno. SSo em nú- 
mero de quatro, e forão exploradas em Abril de 1876. 

1. Primeira furna. — «Km volta redonda; a sua cireum- 
ferencia, na sua parte mais larga, mede 10 m ,40; altura, 
contada interiormente, 2 íll ,20; o tecto forma uma abo- 
bada, cujo centro está aberto por uma clarabóia, quasi 
circular, de diâmetro aproximadamente de 4 m ,20; a porta 
está para S 60 E. A primeira entrada é uma concavidade 
de largura de l m ,80 e de altura de l m ,20; forma uma 
espécie de meia-laranja. Na frente tem uma porta interior, 
que dá entrada para a furna; esta porta tem de altura 
CT^O, e de largura m ,70». 

O Sr. Cartailhac offerece, a p. 120, fig. 152, uma vista, 
que reproduzo, um pouco reduzida, na fig. 44 ! : 

Continua a ler- se nos apontamentos manuscritos: «Esta 
furna estava quasi cheia de terra, e tinha grande quanti- 
dade de pedras de differentes tamanhos; erao todas da 
mesma qualidade da rocha continente. No começo da ex- 
ploração estava a terra muito macia; aqui e alli se encon- 
trava^ fragmentos de loiças e de ossos humanos ; antes de 
se chegar ao solo, numa espessura de terra de O^ãO appa- 



1 Entre as medidas aqui indicadas, e as que indica o Sr. Car- 
tailhac a p. 122, ha divergências, mas pequenas. 



recêrilo alguns objectos pequenos, como ein baixo men- 
ciono. Os poucos obbob humanos que aqui apparecêrSo, e 
esses mesmos em fragmentos, bem como as loiças no 
mesmo estado, dSo prova que esta furna já foi mexida; 
mas nào creio que o fosse toda, porque tinha, em partes, 
porções duras, mas isto bó se conhecia em baixo, na espes- 
sura da terra, em que apparecêrâo os objectos pequenos. 
Pela parte de baixo de tudo isto ha uma camada muito rija, 
com pouca espessura», onde apparecêrâo obsos humanos, 
e um estilete de osso. 




Alem dos objectos mencionados, encontrárSo-se nesta 
mansão funerária lanços e facas do silex, machados de 
pedra, conchas furadas para andarem penduradas, pingen- 
tes de osso, e quatro lanças de cobre; por estes últimos 
objectos so vê que a gruta pertence ao fim do período 
neolithico, quando já apontava a civilização chamada «dos 



2. Segunda furna. — t Também em volta redonda. Tem 
menos diâmetro que a primeira, mede 9 metros; de altura 
2; a abobada é de ponto mais subido que a primeira, no 
centro também tem clarabóia com o diâmetro de 1™,9 
aproximadamente. A entrada é pela parte de cima da 
rocha, a 4 metros da clarabóia. Tanto a entrada como a 



230 

furna estavao totalmente cheias de terra e pedras. A me- 
dida da porta dentro da furna é de altura CJO, e de 
largura Qf°,GÒ; está virada para N 50 E. Toda a espes- 
sura de terra dentro da furna estava muito macia; mesmo 
em baixo, á camada branca também Buccedia o mesmo. 
Junto ao solo, a 0™ ,20 de altura de terra, apparecêrSo 
uns pequenos objectos inteiros, e muitos fragmentos de 
loiças com desenhos, e alguns ossos humanos, uma lança 
de cobre, alguma cousa mais comprida do que as outras 
que se acharão na primeira furna». ApparecêrSo também 
fragmentos de facas de silex, um machado de pedra, e um 
objecto redondo de calcáreo. Entre os restos humanos 




Hf. *à 



havia alguns ossos longos, e parte de uma mandíbula, com 
três dentes. iPelos fragmentos das loiças e dos ossos, e 
pela terra tao macia, e por t&o pouca cousa que apparecen, 
bem se deixa ver que esta furna já tinha sido mexida». 

A fig. 45 (corte vertical) dará ideia da grota. 

Esta gruta pertence ao mesmo período que a precedente. 

3. Terceira furna. — A parede Sul d'esta furna havia 
Bido, antes da exploração, desmontada a pólvora, para 
serem aproveitadas as pedras para alguma propriedade, 
vendo -se ainda os siguaea da broca; todavia ficou intacta 
a parte do conteúdo de NE, e mesmo do fundo, onde 
se fes boa colheita. Já nao se pôde reconhecer se tinha 
tido clarabóia; a abobada & mais larga e mais abatida que 



231 



a das outras, tendo de altura l m ,89. A porta está voltada 
para S 40° O. Vid. na fig. 46 o corte vertical. 

O chão da gruta tinha uma particularidade notável, pois, 
segundo o que se lê nos apontamentos, estava dividido 
«por uma saliência que faz quatro divisões, como mostra 
na figura em baixo ; esta saliência também sobe pela abo- 
bada a altura de 1 metro, e acaba em bico». Carlos Ribeiro 
accrescentou a seguinte nota: «saliência de tufo, formando 
como um cordão que para O se trifurca, A; e deixa verse 
adherente a parede de E, formando como um resto de 
tabique que adelgaça para a superfície, e desappareee como 
succede aos veios de tufo que atravessão as rochas preexis- 
tentes». 




Flir- 4i; 



Esta gruta não tem indicio de ter sido mexida, pois 
apparecêrao nella crânios e ossos humanos e loiças, tudo 
inteiro. A espessura de terreno de l'",50, tinha bastantes 
pedras, desde rima ate baixo. 

Pela parte de baixo da primeira camada de terra havia 
uma muito negra, com alguns ossos de animaes recentes. 

De baixo d'esta havia uma camada amarella, de m ,3 
de espessura em que appareceu rico mobiliário: muitos 
machados de pedra, muitas lanças e facas da mesma sub- 
stancia; dois objectos do cobre; muitas contas; placas de 
schisto ; objectos feitos de osso, de calcareo e de barro ; va- 
riada loiça de barro, com e sem desenhos; também appa- 
recêrao nesta camada muitas ossadas humanas, — crâ- 
nios, mandíbulas avulsas, dentes soltos, ossos longos, etc. 



232 



Pelo que toca á disposição dos ossos nesta camada de terra, 
lê-se no manuscrito o seguinte : «Os ossos não tinh&o regu- 
laridade na sua distribuição; estavSo muitas vezes juntos 
das loiças ; notei que os crânios estav&o collocados de diffe- 
rentes modos ; o mesmo succedia ás maxillas inferiores que 
se encontrav&o soltas, algumas estav&o cora os dentes para 
o solo; pela razão de os ossos estarem aos montes, é que 
poucos se podiSo tirar inteiros». 




Flg. 47 



Por baixo da camada amarella havia uma quarta ca- 
mada, pouco espessa, onde apparecêr&o ossos humanos 
pequenos, cinco lancinhas e cinco machados de pedra, 
e algumas contas. 

As lanças mais aperfeiçoadas e as contas mais variadas 
apparecêrSo numa das divisSes do chão da furna, das 
quaes a cima se fallou. 

Dá- se o desenho d'essas divisSes na fig. 47. 

Na furna não se encontrárSo carvSes. 



233 



A epocha d' esta furna é a mesma que a das preceden- 
tes, a julgar dos objectos encontrados: cobre (ou bronze) 
ao lado da pedra. 

4. Quarta furna. — Esta furna estava já muito destruída, 
quando foi explorada, e por isso nao se conheceu se teve 
clarabóia. E menos perfeita que as outras, e também de 
menores dimensões que ellas: terá de largura uns 9 metros, 
e de altura l m ,56. A porta volta para S. 40° E., e tem de 
altura O^GO e de largura 0*65. 




viu. 4* 



Para esta furna dava accesso outra furna pequena, tam- 
bém já muito destruída, e com a porta já pouco perceptí- 
vel ; a sua altura orça por 1 metro. 

Eis a posição de uma em relação á outra na fig. 48. 

Dentro da furna maior estavào duas pedras grandes, 
que se reconhecia serem da abobada; havia lá outras pe- 
dras grandes, dispostas de modo especial, como de altar, 
mas cujo destino certo se ignora. Nesta furna appareceu 
carvão em bastante quantidade. 

Na furna menor appareceu uma porção parece que de 
cinzas, mas tào cimentadas, que era impossível extrahir 
de lá algum objecto intacto: ahi se encontrarão ossos hu- 
manos, um crânio em mau estado, duas tigelas, sendo uma 



234 



de calcáreo, metade de uma faca de silex, e um pedaço 
de calcáreo muito bem affeiçoado, e pedacitos de carvão ; 
tudo isto estava coberto por uma porção de terra de 1 me- 
tro de altura. 

No manuscrito falla-se ainda do apparecimento de outros 
crânios, de dentes avulsos e ossos humanos, mas não se 
diz se elle se deu na gruta grande ou na pequena ; a or- 
dem das ideias faz-me suppôr que foi na gruta grande. 
À menção é como se segue: «Os crânios e ossos longos 
estavão quasi todos em posição não regular; muitos forão 
vistos com a parte superior para cima, e também alguns 
de lado, as maxillas inferiores a bastante distancia dos 
crânios a que devião pertencer, e quasi todas com falta de 

dentes adeante ; cheguei a ver três crânios com bem 

pouca espessura de terra, de uns aos outros, quasi juntos; 
dei sempre por falta de ossos pequenos, jamais { d'aquel- 
les que os esqueletos tem em maior quantidade, como cos- 
tellas e vértebras». 

Quanto á epocha a que pertence esta dupla furna não 
se pôde determinar com exactidão, pelo facto de estar 
muito destruída; mas talvez o monumento, neste ponto, 
não diffira dos outros. 



Completarei agora, como disse, a descripção d'estas gru- 
tas com alguns passos tirados do livro do Sr. Cartailhac. 

Do modo da construcção diz o archeologo francês : «Les 
parois portent encore la trace des instruments qui ont 
creusé la roche; 1'outil devait être pointu et je me suis 
assuré qu'un pie en bois de chêne pourrait suffire à ce 
travail. La molasse est fort tendre, en effet, et elle a 
gardé três nets les détails les plus intéressants. II ne s'agit 
pas de sculptures comme celles que les grottes artificielles 
de la Marne ont montré. Je n'ai rien vu dans ce genre. 



[Aqui jamais significa sobretudo, principalmente]. 



235 



Mais le seuil, 1'entrée des souterrains offrent la preuve de 
Texpérience, de l'habilité des ouvriers et de leur pré- 
voyance» 1 . 

Das clarabóias falia assim: «Maintenant cette première 
grotte a, comrae les autrcs, sa voôte crevée au soramet; 
Torifice permet au grand jour d'y pénétrer, il est évident 
qu'il est plus ou moins moderne. II ne pouvait que se pro- 
duire vu la fragilité de ces voútes dont Tépaisseur attei- 
gnait à peine sur ce point (y n ,20 centimètres. II a été 
peut-être fait pour faciliter les fouilles, et n'a dans tous les 
cas aucune importance» 2 . O sr. Cartailhac está de algum 
modo em contradicç&o, pois, se os orifícios não podião dei- 
xar de se produzir, em virtude da fragilidade da abobada, 
para que propõe a hypothese de elles serem para facilidade 
das explorações? Mas quaes explorações: antigas, ou as 
emprehendidas por Carlos Ribeiro? Estas ultimas já vimos 
que não podem entrar em linha de conta, por quanto os 
orifícios ou clarabóias cxistião antes da exploração. Não 
serei tão affirmativo neste ponto como o illustre archeo- 
logo francês, e por isso direi que tanto á cerca da data da 
feitura dos orifícios, como do destino d'estes, tenho dúvidas. 
Como lembrarei adeante, conhecem-se na prehistoria geral 
muitos dolmens providos de uma abertura : poderá corapa- 
rar-se com esse facto o que se dá nas grutas de Palmella? 
O completo esclarecimento d'este ponto depende de inves- 
tigações futuras. 

As louças de Palmella offerecem alguns dos mais bellos 
espécimes da nossa cerâmica prehistorica, e merecêrSo ao 
sr. Cartailhac muita consideração, comparando as elle por 
vezes com as dos túmulos neolithicos da França, da Irlanda 
e da Sicília 3 . Já depois de publicado o livro do sr. Cartai- 
lhac appareceu em Hespanha, na provincia de Madrid, uma 



1 Ias âgcs préhistoiiquce, p. 121. 

2 Loc. laud., p. 122-123. 
J Md., p. 125-127. 



236 



necropole ', em que os cadáveres forão, ao que parece, inhu- 
mados immediatamente na terra, ou em covas, tendo uma 
d'ellas l m ,40 de largura, e 1 metro de altura 3 , o que a 
aproxima da furna pequena que dá accesso para a furna 
n.° 4 de Palmella; junto dos cadáveres encontrárão-se 
muitos vasos, comparáveis, na forma e nos desenhos, aos 
vasos palmellãos; esta necropole hespanhola, a julgar dos 
objectos de cobre que acompanhavão os vasos e os esque- 
letos, pertence á epocha do cobre 3 , — e será por tanto 
mais moderna que a necropole portuguesa — , mas, como 
estava muito destruída, não se pôde dizer se haveria tam- 
bém objectos de pedra suffi cientes para fazerem recuar um 
pouco a data, e considerar os túmulos como contemporâneos 
dos nossos, isto é, como dos fins do período neolithico. 

A proporção que os estudos archeologicos progridem, 
vão- se descobrindo relações successivamente mais íntimas, 
entre os diversos povos, o que não quer dizer que, apesar 
da communidade geral da civilização, esta não revista ás 
vezes em differentes localidades feições especiaes. 



Com quanto de civilização material análoga á de muitos 
povos que depositavão os seus mortos nas grutas naturaes 
de que fallei ha pouco, os povos que excavárão as grutas 
artificiaes de Palmella, situadas em terreno baixo e arbo- 
rizado, vivião num meio physico differente do d'aquelles 
que habitavão os altos das montanhas, ou junto das es- 
carpas do oceano, e differentes devião ser também, pelo 
menos em certos casos, as noções que possuião á cerca 
do mundo que os rodeava. 



1 Vid. a seu respeito o BoUtin de la Real Academia de la Histo- 
ria, Madrid 1894, t. xxv, p. 436 sqq. 
* IjOc. laud., p. 437. 
3 Vid. o cit BoUtin, p. 449. 



237 



Mas mal se poderia entrar mais no assumpto, sem diva- 
gar pelos dominios da phantasia. 

Como poderíamos nós estabelecer com nitidez a diver- 
sidade das concepções que, por exemplo, produziria na 
imaginação do homem neolithico o enterrar um morto num 
subterrâneo natural, profundo, irregular, pouco conhecido 
lá por dentro, e portanto já de si mysterioso, ou enterrá-lo 
numa crypta feita com cuidado pela mão de artífices, e 
onde a natureza nSo punha outros mysterios senão os da 
morte propriamente dita ? 

b) Grutas de Alapraia. 

O que ha publicado á cerca da Alapraia reduz-se ao 
seguinte, do fallecido ethnologo Paula e Oliveira: 

c A Alapraia, petit hameau situe à quatre kilomètres 
environ à l'est de Cascaes, j'ai visite une grotte artificielle, 
creusée dans un grés tertiaire peu compact qui affleure 
en cet endroit en couches à peu prés horizontales. La 
grotte, circulaire k la base, est régulièrement disposée en 
vo&te dans sa partie supérieure, et une galerie á ciei dé- 
couvert donne accès dans son intérieur. Par son aspect 
general, elle presente beaucoup d'analogie avec le tom- 
beau de Monge et avec los grottes sépulcralcs artificielles 
de Palmella. Quoique son contenu primitif ait dispam 
depuis longtemps, son caractere fúnebre me semble évi- 
dent» '. 

Oliveira nSo diz mais nada; creio que não procedeu a 
excavaçSes, ou, se procedeu, nào encontrou objectos. 

Sem dúvida ha analogia entre esta gruta e o monumento 
do Monge; mas este monumento, por ser revestido de 
paredes, o que nSo acontece nem em Palmella, nem em 
Alapraia, pertence a outro systema de sepulturas, e por 
isso fatiarei d'elle mais adeante, a p. 245. 



1 In Communicaçoes da Commissão dos Trabalhos Geologicosd 
Portugal, n, 83. 



239 



Tive já occasião de fazer uma rápida visita á gruta des- 
crita por Paula e Oliveira. A galeria é um pouco mais 
baixa que a crypta, e divide-se em três secções ; o seu com- 
primento total c de uns 13 metros; as paredes são conca- 
vas. A camará ou cripta tem de diâmetro transversal uns 
õ m ,õ, de diâmetro longitudinal uns 4 m ,7 e de altura uns 
2 m ,2; a abobada é exteriormente coberta por lages sobre- 
postas. Dá-se uma gravura na fig. 49 '. O povo chama á 
gruta Cova dos Mouros. 

Na povoação de Alapraia ha outras grutas análogas a 
esta. Visitei uma d'ellas, mas vi-lhe só a camará, que 
estava já obstruída ; a galeria, se a tinha, como é prová- 
vel, estava soterrada. 

Pelos campos vizinhos ap parecem, não raro, instrumen- 
tos neolithicos, da classe que o povo chama «pedras de 
raio» ; uma mulher mostrou-me um, a que ligava grande 
importância supersticiosa, motivo por que m'o não cedeu. 



SI. Sepulturas por escavação, 
sem. revestimento interno 

Feitas pelo mesmo processo que as grutas artificiaes, 
isto é, por excavaçâo no solo, c sem revestimento interno 
de pedras, mas de dimensões menores que as de Palmella, 
são as sepulturas de que vou fallar. 



Seja a primeira a da Folha das Barradas, que fica den- 
tro da Quinta Regional de Sintra. Foi Carlos Ribeiro quem 
a descobriu, e primeiro a descreveu. Eis as suas próprias 
palavras : 

cO jazigo neolithico da Folha das Barradas, tanto pela 
sua forma, como pelo seu modo de ser, pareceu-nos no- 



Segundo uma photographia do ar. Maximiano Apollinario. 



240 



» 

vidade como monumento da epocha da pedra polida. E 
uma caixa aberta no solo natural formado de calcareo 
branco e mames verdoengos, com cerca de 19 metros de 
comprimento, e orientada na linha EO. Da parte do nas- 
cente começa esta sepultura por uma cavidade de forma 
cylindrica, com ra ,6 de média altura, e 4 metros de diâ- 
metro, fazendo-se representar na parte restante por um 
canal de paredes verticaes, mas de secç&o variável, como 
indica a planta. O plano do fundo d'esta sepultura tem 
um pendor para o poente, mas muito mais suave do que 
o da 8iiperficie natural do solo, de modo que no extremo 
da mesma sepultura encontram-se os dois planos. No fundo 
da sepultura está aberto um pequeno rêgo ou canal, em 




Fig. 50 



quasi todo o comprimento d'ella, provavelmente para dar 
escoamento ás aguas pluviaes que atravessassem os obje- 
ctos inhumados e a terra que os envolvia, o qual estava 
coberto por um capeamento de pequenas lages de basalto, 
para evitar, segundo parecia, o pronto obstruimento do 
mesmo rêgo. A parte circular, ou antes o extremo orien- 
tal da sepultura era destinado a receber os despojos mor- 
taes dos indivíduos que ali se inhumavam. Estava repar- 
tida em compartimentos limitados por septos, cujas pare- 
des divisionárias eram formadas por lages delgadas da 
formação cretácea vizinha, mas sem apparelho, ou taes 
quaes foram arrancadas da pedreira. Foi dentro d'estes 
compartimentos que se encontraram os restos de esqueletos 
humanos e a sua respectiva mobilia funerária. Infelizmente 
os trabalhadores que andavam empregados na abertura do 



241 



referido caminho, tendo começado por esta parte do jazigo, 
demoliram os septos e quebraram os ossos humanos, que 
aliás eram e são extremamente frágeis. — Pelo que toca 
aos productos de industrias humanas encontrados na parte 
cylindrioa da excavação junto aos esqueletos, eram elles 
de diversas classes, a saber: instrumentos de silex; cla- 
vas e massas cylindricas de calcareo, e vasos de barro» 1 : 

Para melhor se ajuizar da forma da sepultura, reproduzo 
na fig. 50 a planta publicada por Carlos Ribeiro* 

Vem a propósito lembrar que os compartimentos quô 
Carlos Ribeiro notou dentro da parte circular da sepultura; 
limitados por septos, e destinados para depósito funerário, 
se devem comparar com os compartimentos que, como vi- 
mos a p. 231 (cfr. fig. 47), existião numa das grutas arti- 
íiciaes de Palmella (só nestas os septos são naturaes). Esta- 
do da Veiga, ao descrever um dolmen de Maroella, nó 
Algarve, também diz que «a crypta no quadrante de sueste 
manifestou três compartimentos, formados por lages toscas, 
cravadas no solo, mas pouco elevadas», num dos quaes exis- 
tião ossos humanos e objectos industriaes 2 . Ha, pois, aqui 
vestigio de um rito funerário de tal ou qual importância, 
sendo os compartimentos por ventura reservados para rece- 
berem os restos de algum morto mais respeitável 3 . 



1 C. Ribeiro, Estudos prehistoricos, n, 79-80. 

Já me referi a este monumento, a cima, p. 105-106, por occasiao 
de fallar do culto da lua. 

O Sr. Cartailhac também o menciona no seu livro Ias ages pré- 
historiquesy p. 135-137, segundo a descripçâo de C. Ribeiro. 

2 Antiguidades monumeníaes do Algarve, i, 259. 

3 Em dolmens estrangeiros encontrão- se as mesmas divisões. O 
barão A. de Bonstetten diz porém d'ellas : *Les compartiments inté- 
rieurs des dolmens apparents ou cou verta sont formes de dalles 
dressées qui atteignent souvent à la hauteur des tables ou, comme 
nous 1'avons déjà dit, de cailloux de 30 à 35 cent. fiches en -torreies 
uns à la suite des autres. II est inutile d'ajouler que le nombre des 
compartiments est toujoúrs proportionné au nombre des* sepultares 
déposées dans le dolmen». Essai eur les dolmens, 1865, p. 11-12. ' - 

16 



242 



Ao mesmo -systema da sepultura da Folha das Barradas 
pertencem três sepulturas neolithicas do Algarve, estuda- 
das por Estacio da Veiga: uma descoberta em Aljezur, e 
as duas outras numa azinhaga da Torre dos Frades. 

Quando Estacio da Veiga foi estudar o depósito mor- 
tuário de Aljezur, já o encontrou profanado e remexido, 
pelo que não pôde dar d'elle uma descripção minuciosa 
e clara. Neste depósito, aberto por exeavação no terreno 
carbonifero-inferiòr, encontrarão- se ossos humanos, muitos 
artefactos de pedra polida, de schisto e de osso, contas, 
vasos de barro 1 . 

Os dois jazigos da azinhaga da Torre dos Frades esta- 
vão melhor definidos. Diz Estacio : •foram abertos e for- 



» 
i 
i 



Fig. 51 

mados por exeavação na rocha natural, como o havia sido 
o famoso depósito de Aljezur, com a configuração geral 
de quasi todos os dolmens cobertos da região, compondo-se 
simplesmente de crypta ou camará circular, e de uma 
galeria ou corredor, que também se abriu por exeavação. 
O maior diâmetro da crypta nos dois monumentos mediu 
l m ,50 e ambas as galerias tinham m ,80 de largura, não 
se podendo saber qual foi a extensão que tiveram por 
estarem destruídos os átrios, assim como não é possível 
avaliar-se a primitiva altura interna, por terem os monu- 
mentos sido cortados, e a terra emparelhada para a cul- 



1 VicL Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 145 sqq. ; e cfr. 
vol. ir, p. 60 sqq. 



243 

tara, desde tempos antigos»*. Encontrár3o-se nestes jazi- 
gos ossos humanos e objectos, de pedra e de barro. O typo 
geral das plantas dos jazigos é o da ãg. 51. 

Alem d'estes dois jazigos da Torre dos Frades, Estacio 
da Veiga descreve um terceiro no logar do Arrife*, que 
porém Be liga com outro systeina de construccSes funerá- 
rias, de que faltarei a p. 246. 



As estações mortuárias da Folha das Barradas, de Alje- 
zur e da azinhaga da Torre dos Frades não se assemelhSo 




só pelos eystemaa de cons tracção, offerecem entre si outros 
pontos de semelhança : refiro mo ao apparecimcnto de uns 
curiosos vasos de barro, providos de buracos de suspensão, 



1 Antiguidade» monumtntau do Algarve, i, 282. 
* Ob. eiL, i, 285 sqq. 



244 



como uus que também apparecêrSo em Palmella. Todos 
elles tem entre si forma commum 1 . 

O sr. Cartailhac desenha no seu livro um antigo vaso 
da Irlanda igual a todos estes 2 . 

Aqui indico, para mais clareza, dois dos nossos vasos, 
como typicos, nas figs. 52 e 53 3 . 

Trago taes factos á consideração dos leitores, porque 
elles estabelecem mais ou menos a contemporaneidade dos 
nossos monumentos funerários, e indicâo certa corrente 
de civilização geral 4 . 

4. Sepultaras por excavnç&o, 
cota revestimento interno 

A avaliar das descripções que Carlos Ribeiro e Estacio 
da Veiga iizerâo, cada um por seu lado, julgo haver pari- 
dade entre o processo de construcç&o da sepultura cha- 
mada a do Monge», na Serra de Sintra, e o da de uma 
sepultura encontrada no Arrife (Algarve). 



1 Ha já uma pequena bibliographia a respeito (Testes vasos : 

Do vaso da Folha das Barradas falia Estacio da Veiga nas 
Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 280. Vem um desenho d'elle 
em Carlos Ribeiro, Estudos prehistoricos, n, 85, fig. 9õ; mas este A. 
nâo tinha dado pela existência dos buracos de suspensão, como nota 
o mesmo Estacio da Veiga nas referidas Antiguidades monumentaes 
do Algarve, i, 201 e 280. 

Dos vasos de Aljezur e da Torre dos Frades falia Estacio da 
Veiga nas Antiguidades monumentaes do Algarve, vol. i, respectiva- 
mente a p. 200 e 284. 

Dos de Palmella falia Cartailhac no seu livro Lei ages préhisto- 
tiques, p. 127. 

Obtive ultimamente para o Museu Ethnographico Português 
outro vaso semelhante a estes, provindo do Alemtejo. 

* Las ages prékistoriques, p. 127. 

* Publicados primeiramente por Estacio da Veiga nas Antigui- 
dades monumentaes do Algarve, i, 280 e 284. 

* Já a p. 235, se notou semelhança entre outros artefactos cerâ- 
micos de Pamella e da Irlanda. 



A planta indicada na fig. 54 dá ideia do monumento 
do Monge, o qual ae compõe de duas partes: um recinto 
circular B-G-A-H, de 4 m ,5 de diâmetro, e 3 m ,5 de altura ; 
e nm vestíbulo descoberto, ou galeria, E-F, irregular, 
de 6 m ,5 de comprimento e 6 metros de maior largura; 




ambas estaa partes estio ligadas por um corredor, D-C, 
de 1 metro de comprimento e 0",4 a O"^ de largura. 

As paredes internas do recinto circular estavao reves- 
tidas por grossas pedras sem apparelho algum, dispostas 
artificialmente, como se vê na fig. 55; o recinto fechava 
pois em forma de zimbório. 



246 



A galeria, ou vestíbulo, era também limitada de ambos 
os lados por paredes toscas de pedra solta. 

Este monumento, com quanto faça lembrar, pela sua 
forma, as grutas artificiaes de Palmella e de Alapraia, 
differença-se porém d'ellas por causa do revestimento 
interno com paredes. 

No monumento apparecêrào instrumentos de silex e 
fragmentos cerâmicos com ornatos semelhantes aos da ce- 
râmica de Palmella; mas nao apparecêrão ossadas nem 
cinzas. Também ahi se encontrou grande quantidade de 
seixos ellipsoidaes ; não sei porém dizer se sim ou não 
formavào camada 1 . 



Passemos agora ao jazigo do Arrife. 

Na fig. 56 indico a planta, segundo a estampa que d'ella 
dá Estacio da Veiga 1 . 

O recinto circular tinha de diâmetro longitudinal 3 m ,70, 
e de diâmetro transversal 4 m ,18; a galeria de entrada con- 
servava só a. extensão apreciável de 2 m ,78, com a largura 
de l m ,35. Grandes lagos de schisto deviâo revestir primi- 
tivamente todo o plano da cxcavaçSo; mas d' essas lages 
só restão na camará, ou crypta as bases, já partidas, de 
seis, e na galeria quatro, alem das pedras que constituiSo 
as batentes a que, á distancia de dois metros da entrada 
da camará, se encostaria uma porta. O pavimento da crypta 
era calçado de pedra meuda. No meio da calçada assentava 
uma lage lisa de schisto, sobre a qual estavSo alguns fra- 
gmentos ósseos, pedaços de louça, uma frecha de silex 



1 Á cerca do monumento do Monge vid. Estudos préhistoricos, de 
C. Ribeiro, n, 71-78'; cfr. também Cartailhac, IjCí ages préhistori- 
guês, p. 137. 

* Antiguidades monumentaes do Algarve, i, est zxvii, em frente 
da p. 284. 



247 

e uma lasca de osso furada e ponteaguda, «deixando 
perceber que sobre aquella reservada superfície tinh&o 
sido depositadas algumas relíquias humanas de maior vene- 
ração. Alem dos referidos objectos, havia outros análogos, 
espalhados pelo monumento ', 



1 







II I II 

*'!(. Ml 

Não é este monumento o único em que Be encontrou 
uma lage servindo de depósito especial de obsob e relíquias 
humanas: no dolmen de Marcella, por exemplo, encon- 



1 Para mus mumdencias consulte- se Estacio da Veiga, Antigui- 
dades monumetiiaes do Algarve, i, 286-287, d'onde eitrahi e reaumi 
o que digo no texto. 



2á8 



tfou-se outra 4 , e mim dolmen "de Trás-os-Montes f . Tal 
facto pôde comparar-se com o que a cima notei, dos com- 
partimentos das sepulturas da Folha das Barradas, Pal- 
pjella e também Marcella 3 . 



Tanto o monumento do Monge, como o do Arrife, por 
serem produzidos por excavaçío á superfície da terra, 
assemelhâo-se ás grutas artificiaes, como já disse, e ás 
sepulturas que descrevi no § 3; mas, por serem revestidos 
de pedras, assemelhâo-se aos dolmens: estabelecem pois 
transição d'aqueltas duas classes de monumentos para a 
terceira. 

S. Dolinens ein geral 
a) O que são dolmens 

Entre os monumentos funerários do nosso país, nos 
tempos prehistoricos, ha uns que constào de uma espécie 
de casa (camará) de contorno polygonal ou mais ou menos 
circular, formada de várias pedras {esteios ou espeques) 
enterradas a pino no solo, com uma grande lage por cima 
a cobri-la á maneira de chapéu, casa a que vac dar uma 
espécie de corredor ou galeria, mais baixa, também coberta 
de lages, — tudo revestido de um montículo de terra, de 
maiores ou menores dimensões. 

Taes monumentos compoem-se pois de duas partes: o 
edifício de pedra, subdividido em camará e galeria; e o 
montículo de terra superficial. O edifício corresponde ao 



1 Vi d. Estacio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 
259 ; e o que digo mais adeante no § 6. 

' 2 D'ejle fallarei adeante) no cap. v, a propósito dos «Signaes 
esculpidos empedras». . . . . 

3 Vid. p. 231, 240 e 241. % 



249 



que em archeologia se chama propriamente dolmen; o 
montículo ao que se chama tumulus '. Mas dolmen significa 
ordinariamente também o monumento completo. 

Alem (Testes monumentos, existem, como direi adeante, 
outros de differente espécie, que podem igualmente ser 
cobertos de montículo ou tumulus. 

b) Denominações populares 

Para se designarem os montículos que cobrem os dolmens 
e os restantes monumentos adoptão-se no nosso país, embora 
não espalhados por todo elle, nomes especiaes, que porém 
em parte são communs a diversas classes de monumentos. 



1 A palavra dolmen, palavra puramente Htteraria e não de uso 
popular, é neo-celtica e moderna, significando «mesa de pedra»; o 
primeiro elemento idol) tem porém origem latina (tabula). Segundo 
o Sr. Arbois de Jubainville, in Rtvut Celtique, xiv, 3, onde colhi esta 
notícia, ha duas irregularidades grammaticaes na adopção d'aquelle 
elemento. — Em França não se encontrarão alem do sec. xvm pro- 
vas do emprego d'esta palavra, que primeiro teve as formas dolmin 
e dolmine: vid. Sal. Reinach, in Bevue Ârchéolog., xxn, 36. — De 
França passou para Portugal. E também no sec. xvm que ella cá 
apparece pela primeira vez. Filynto Elysio, citando um Dicciona- 
rio francês-celtico, emprega a forma dolmin nos Martyres, liv. ix, 
p. 313 e 315 (ed. de 1818) ; Pereira da Costa, apoiando-se na aueto- 
ridade de Filynto, dá Dolmins como titulo a um livro seu publicado 
em 1868, e citado a p. 8. — Hoje em Portugal, como noutros países, 
prevalece a forma dolmen. — Vários auetores regulárão-se pela cel- 
ticidade da palavra dolmen para attribuirem grande antiguidade a 
certos monumentos; mas a attribuição, baseada nisso, não tem fun- 
damento, por ser a palavra dolmen moderna e dè uso litterario. 
Também no Portugal Antigo e Moderno, s. v. Viseu, p. 1702, se sup- 
põem derivados de dolmen e dolmin os nossos nomes Dolves (ponte), 
Donim (aldeia) e Domin ou Donim (rio) ; a tal derivação oppoe*se 
não só, como vimos, a historia da palavra, — pois dolmen nunca foi 
vocábulo popular. em Portugal — , mas as leis da língua portuguesa. 

Tumulus é palavra latina, e significa originariamente «eminên- 
cia de terra*; tem o mesmo radical que o verbo tumere, «estar 
inchado». 



250 



Esses nomes são : mamôa, mámoa (e mâmod), mamoinha, 
mamunha, montilkão e modorra*; em Esposende usa-se 
também o nome de mamo tila, que cobre um monumento 
8ui geiíeris*, de que faltarei posteriormente. Todas estas 
denominações as conheço no Norte e Centro do reino; nas 
três províncias do Sul não conheço a este respeito deno- 
minações especiaes. NaGaliiza, como já disse a cima 3 , slo 
correntes os nomes mámoa, madorra e modorra. — Da ety- 
mologia d'esta* palavras não posso aqui tratar desenvol- 
vidamente: limito-ine a breves indicações. Mamunha nao 
passa de simples alteração phonetica de mamoinha*; esta 
última forma, bem como mamoella, sào deminutivos de 
mamôa ou de mámoa, mais provavelmente da segunda; 



* Vid. : 

Pereira da Costa, Dolmins ou antas, p. 89 ; 

Martins Sarmento, in Revista de Guimarães, v, 112; e in Revista 
de sciencias naturaes e sociaes, ih, 64 ; 

Santos Rocha, Antiguidades do concelho da Figueira, i, p. v, e 
passim. 

Cfr. também o meu Portugal prehistorico, p. 46-47. 

A palavra mámoa foi-me indicada pelo Sr. Sarmento em carta; 
usa-se no concelho de Esposende. Mámoa dizem me que se usa em 
Albergaria-a- Velha. — Mámoa e mámoa sào a mesma palavra (esdrú- 
xula), só numa o a é aberto, noutra fechado. — O Sr. Nery Delgado 
diz -me que mámoa é muito commum no país. 

O Sr. Martins Sarmento, na Revista de Guimarães, v, 159, falia 
de combros como termo ouvido perto da Trofa (Minho) ; mas parece- 
me que combro (== cômoro) não será mais que um termo da língua 
commum empregado pelo cicerone do Sr. Sarmento para designar 
um objecto, isto é, uma mamôa, que não tinha nome especial, ou cujo 
nome era desconhecido do interprete. 

2 Martins Sarmento in Revista das sciencias naturaes e soeiaes, 
in, 64. 

3 Pag. 12.— Vid. Museu espahol de antigãedades, vu, 195. Em 
documentos antigos gallegos achio-se as formas mamula e mamoua : 
ifnd., ih., ib. — Mamoua é também ainda hoje a pronúncia vulgar 
de mamôa (Minho). 

* Isto é : mamolnha = mamuinha > mamúinha > mamunha. Cfr. 
munha, de moinha, ctc. (no Minho). 



251 



mámoa vem do latim mammula; quanto a mamoa, é 
mais difficil dizer como se formou, talvez seja o feminino 
de mamão (augmentativo de mama), pois, no onomástico ha 
mamões. Todas estas palavras tem, como se ve, por base o 
lat. mamma, e representão metaphoricamente o aspecto 
externo do monumento, comparado com uma mama 1 . Mordi- 
Ihão decomp3e-se em mont-ilh-ão ou mont-elh-ão, do radical 
de monte. Modorra e madorra são uma e a mesma palavra ; 
vide a seu respeito o Elucidário de Viterbo (s. v.). Pereira 
da Costa falia de um monumento da Beira-Baixa, conhe- 
cido na localidade pelo nome de «mamunha de Mamaltar»* ; 
a palavra mamaltar decompõe-se verosimilmente em mama- 
-altar, entrando, quanto ao seu primeiro elemento, numa 
das categorias a cima indicadas 3 . — Por brevidade, empre- 
garei em geral de ora avante o termo mamôa, quando tiver 
de me referir a um tumulus. 



1 Mamoa e outras formas da mesma família apparecem jà em 
documentos medievaes : vide Elucidário de Viterbo, s. v. mamoa. 

2 Dolmiftê ou antas, p. 89. 

3 A palavra Altar creio que não mostrará que o povo suppõe ou 
suppôs, como os eruditos do século xvm (vid. supra, p. 5-6), que os 
dolmens servirão de altares. Esta palavra julgo-a meramente meta- 
phorica, em virtude da semelhança que o povo achou entre um 
altar e um dolmen. No onomástico português ha Altabes e Pedba 
do Altar, que provavelmente tem a mesma origem que mamaltab. 

Na França ha Autel du Lovp e Les Autels, e na Allemanha 
Teufelsallâre (altares do Diabo). O Sr. Salomon Rcinacb, que cita 
estes factos in Revut Archéologique, 3.* serie, xxi, 222, suppõe que 
essas designações são devidas a influencia erudita. Eu entendo que 
não, e que a explicação d'ellas é a mesma que a que dou das desi- 
gnações portuguesas. Sem embargo, existirão outras devidas a in- 
fluencia erudita, como serão Opferaltãre (altares de sacrifício), autel 
des Druides, que elle também cita, loc. laud. 

O que pôde acontecer é sobre o nome criar-se uma lenda, como 
sabem todos aquelles que estudão scientificamente as tradições 
populares: assim, dado a um dolmen por mctaphora, o nome de 
altar, tornava -se fácil apropriá-lo, por exemplo, ao Diabo, cuja exis- 
tência é do dominio das crenças do vulgo. 



252 



Por qualquer circumstancia, pôde acontecer que o mo- 
numento perca, no todo ou em parte, alguns dos seus 
elementos fundamentaes, como chapéu, esteios, galeria 
ou mamôa. Assim tenho visto dolmens reduzidos só á 
camará e galeria, já sem mamôa; outros reduzidos só á 
camará; outros ainda com a camará e a galeria meias 
soterradas, etc. Importa conhecer- se isto de antemSo, para 
se comprehenderem melhor os processos populares da deno- 
minação geral dos dolmens. 

Já a pag. 25, e nota respectiva, me occupei de algumas 
designações populares dos dolmens entre nós. Actualmente 
não ha designação que seja commum a todas as províncias 
de Portugal: nuns sítios adoptão-se umas, noutros outras; 
e noutros não ha nenhuma. Nem todas as designações . 
dos dolmens são também substantivos appeUativos ; muitas 
d'ellas são substantivos próprios, o que prova que o povo 
no geral vae perdendo a noção dos monumentos. Dá-se 
ainda o caso de o monumento ter ás vezes um nome appel- 
lativOj e ao mesmo tempo um nome próprio. 

Em tempos antigos, porém, como notei a pags. 25-26, 
os dolmens tiverão uma designação appellativa, que se 
estendeu por todo o pais: chaniavão-se antas 1 . Hoje a 
palavra anta, como appellativa e popular, creio que só é 
conhecida no Alemtejo, pelo menos nunca a ouvi empregar 
noutras províncias, nem me consta que o seja. 



1 Na Rcvue Ârchéologique, 3.* serie, xxu, 39, diz o Sr. Salomon 
Reinach : «Personne ne voudra plus expliquer anta par templum in 
anti 8, com me l'a proposé Boulin, Comptes rendve de VAcadémit dee 
Sciences, 19 avril 1869». Conforme lembrei, a p. 26, nota, já Viterbo, 
no século xvm, tinha proposto o latim antae como etymo de anta. 
Abe trah indo da ideia de templo, nâo vejo difficuldade em admittir 
tal etymo, pois temos aqui ama metaphora, de que dei outros exem- 
plos na citada p. 26, nota, e de que adeante darei mais. 



253 



Em certos sítios da Beira-Alta e Beira Baixa, os dol- 
mens recebem o nome popular de orcas (cfr. p. 256, nota), 
a que ás vezes se junta casa, lapa ou pedra: a casa d'orca», 
«lapa da orca*, apedra à'orca»\ mas ouvi muitas vezes ao 
povo expressões, como estas: «estava lá uma orca», «havia 
uma orca», e outras análogas, — o que prova claramente 
que o povo inclue orca na classe dos substantivos appel- 
lativos, e que por isso a noção de taes monumentos lhe 
ó aqui ainda familiar 1 . A palavra orca é já conhecida na 
litteratura, pelo menos desde o século xvji, dos Diálogos 
moraes históricos e políticos do Dr. Manuel Botelho Ribeiro 
Pereira 1 , que a dá também como da Beira 3 . 



1 Fiz esta observação nos concelhos de Mangualde, Cannas de 
Senhorim, Nellas e Fornos d 1 Algodres. No Portugal antigo e mo- 
derno, 8. v. Viseu, p. 1699, nota, diz-se que orca é também vulgar, 
como synonimo de anta, nas comarcas de Viseu e Gouveia. Perto do 
Fundão (Beira- Baixa) ha uma aldeia denominada Orca, o que prova 
que o nome, se é que lá não é ainda popular e appellativo, o seria 
em tempos passados. — Já depois de impresso isto, ouvi no concelho 
de Sátão empregar orca inuúmeras vezes como substantivo vulgar, 
e até na forma deminutiva orquinha. - 

2 Sobre este A. vid. Portugal antigo e moderno, de Pinho Leal 
& Pedro Augusto Ferreira, s. v. Viseu, p. 1805. A obra foi escrita 
entre os annos de 1630 e 1636 : loc. laud., p. 1805 ; não chegou a 
imprimir-se, mas ha d'ella várias cópias mss., uma das quaes existe 
na Bibliotheca Nacional de Lisboa. 

3 Vid. o cit Portugal antigo e moderno, s. v. Viseu, p. 1699, onde se 

diz : «São as orcas apontadas pelo Dr. Botelho ». Comtudo, na 

cópia ins. que existe na Bibliotheca Nacional de Lisboa, diz-se, no 
Dialogo I, cap. 13: «cujas Arcas, como o vulgo lhe chama, há hoje 
muitas em a Beira, com pedras de estranha grandeza» (fls. 65 v.). 
Eu escrevi ArcaSj embora também se pudesse ler Arcos, porque 
o copista fez ás vezes a terminação -os igual á terminação -a«; 
noutro ponto da página lê-se novamente a palavra, escrita do 
mesmo modo. É provável que o original de que este exemplar é 
cópia tivesse Orcas, e o copista, não conhecendo a palavra, a trans- 
crevesse por Arcas. A julgar do que diz o A. do Portugal antigo t 
moderno, o ms. consultado por elle também tinha Orcas, e não é de 
suppôr que houvesse engano, por isso que a palavra se encontra 
lá duas vezes, e ella é tão usada na Beira. 



254 



Parece que outro nome antigo dos dolmens no nosso 
país, empregado como appellativo, foi, ou é, arcas. No 
Portugal antigo e moderno diz-se indifferen temente tantas 
ou arcas ou orcas**, mas o auctor do artigo nâo se explica 
mais, e até creio que foi levado a exprimir-se assim, pelo 
facto de haver uma terra chamada Arca, no concelho de 
Oliveira-de-Frades, onde «ainda se vê um dolmcn junto da 
igreja matriz »*. Ao pé de Carrazedo do Alvão, no concelho 
de Villa-Pouca-d^Aguiar, ha um sítio com muitos dolmens, 
denominado As Arcas*: o povo não sabe dar a razão da 
denominação Arcas, e chama aos dolmens fornos e casas 
dos Moiros; mas ó possível que, tanto neste caso como 
no de Oliveira-de-Frades, taes palavras fossem na origem 
nomes cominuns ou appellativos dos dolmens, supposição 
que tem a seu favor o facto de na Estremadura hespanhola 
os dolmens se chamarem ainda effecti vãmente arcas 4 . Acon- 
tecerão com anta e orca factos semelhantes, pois se torna- 
rão nomes próprios 5 . 



1 S. v. Viseu, p. 1699-1700. 

2 Pag. 1701-1702. 

3 Estive lá em Setembro de 1895, com o Sr. P. e J. Raphael Rodri- 
gues, um dos exploradores d'estas antas, e o Sr. Maximiano Apolli- 
nario, adjunto do Museu Ethnographico Português. O nome Arcas 
nâo se limita ao local em que estão as antas, propagou -no aos arredo- 
res; o local das antas chama-sc propriamente «Fundo das Arcas», 
sendo «Fundo» mera designação orographica, pouco mais ou menos 
no sentido de bacia. 

4 Facto citado por Sal. Reinach in Recue Ârchéologique, 3.* serie, 
xxn, 39. 

5 Entre os Romanos a palavra arca era um marco especial, usado 
nos campos, e «formado de quatro paredes, á maneira de guardas 
de poço, que os agrimensores edificavam nos quadrifinios» : vid. 
Alberto Sampaio, in Revista de Guimarães, xi, 145. Sobre a signi- 
ficação e uso d'esta palavra vid. também D\i Cange, Glossarium, 
s. v. arca. 

O povo achou certa semelhança entre os dolmens e as arcas, que 
se viâo tão frequentemente a marcar os terrenos e applicou, por 
metapbora, o termo arcas aos dolmens ; ás vezes porém também os 



255 



Segundo me informa, em carta de 28 de Maio de 1895, 
o Sr. P. e José Augusto Tavares, parocho de Ligares (Trás- 



dolmens podião realmente servir de arcas ou marcos. — Depois de 
impressa esta parte da nota, estive no concelho de Sátão (Beira- 
Alta), onde encontrei duas orcas, que efectivamente tem servido de 
limites territoriaes, como ainda se vê das datas e lettras esculpidas 
na parte superior dos chapéus d'ellas. 

O Sr. Alberto Sampaio diz em nota, loc. laxid.: «Na linguagem 
diplomática [i. c., nos diplomata da Idade-média] e na dos gromati- 
cos petras fidas ou fixas c arcas não podem entender -se como monu- 
mentos prehistoricos — menhires e dolmens». Sem dúvida as arcas 
forão na origem marcos, mas depois o termo applicou-se aos dol- 
mens : e d'aqui resultou por fim confusão na linguagem popular 
(isto, dada a bypothese, que enunciei no texto, e que tem todas as 
probabilidades, de arcas ser outrora entre nós nome commum dos 
dolmens, — mas o raciocínio tem pelo menos applicaçâo á Hespanha), 

Na língua commum usa-se arca d'agna no sentido de mãe-d'agua 
ou reservatório d'agua coberto por uma abobada: vid. os Diccio- 
narios de Blutcau, Moraes, ctc. Já os Latinos empregavao também 
arca em sentido semelhante. Não foi porém da palavra nesta acce- 
pçâo que os dolmens tomarão o nome, não só porque as arcas d' agua 
são muitíssimo mais raras do que devião ser as arou-marcos, mas 
porque creio que nunca se emprega no primeiro sentido a palavra 
arca desacompanhada do definitivo anágua; alem d'isso era maior 
a semelhança dos dolmens com as arecw-marcos do que com as arcas 
d 1 agua. Som embargo, no Minho (vid. Martins Sarmento in Revista 
de sciencias naturaes e sociaes, iv, 9G), ha uma anta arruinada, a que 
o povo chama «Poço- da- Chã»; a denominação de Poço provém, ou 
do aspecto da anta, já desprovida de chapéu, ou da cova que se 
tinha outr'ora feito na mamôa para se extrahirem algumas pedras ; 
todavia, do facto de se tratar de um poço, e de a arca d' agua ser 
também reservatório, não se deve concluir que a denominação arca' 
dolmen nascesse da denominação arca-d'agua, tanto porque não ha 
semelhança entre arca d 1 agua e poço, como porque é exactamente 
com um poço, como se diz a cima, que a arca-marco se parece. 

Nem sempre, pois, quando apparece no onomástico, como nome 
de terra, Arca, será possivel dizer-se se este nome tem origem nas 
araw-marcos ou nas arccw-dolmens ; só a archeologia poderá eluci- 
dar, como, segundo penso, suecede com os dois casos deVilla-Pouca- 
d* Aguiar e de Oliveira-de-Frades, citados no texto. Com relação ás 
arca*-d'agua, parece -me que não ha dúvida, pois já ha pouco notei 
que no uso geral não se diz, que me conste, só arca nesta signifí- 



256 



08-Montes), o nome genérico de dolmen nas regiões do Sul 
do districto de Bragança, é Pala da Moura, dizcndo-se 



cação *, tanto isso 6 assim que a Chorographia moderna, de Baptista, 
oflerecc como nome topographico Arca d'aoua. A mesma Chorogra- 
phia offerece também só Arcas c Arca; mas quanto a Arcas o plural 
prova que não se trata dos reservatórios de agua; quanto ao singu- 
lar Arca explica se por um dos meios antecedentemente lembrados. 

O nosso Viterbo diz que em doe. dos séculos ix a xu se declara 
«que o mesmo eráo mamoas que arcas», e acerescenta que arcas 
«crão montes de terra com que os nossos maiores dividiram os 
territórios» (Elucidário, s. v. mamoa). D'aqui se poderá concluir, a 
ser isso bem exacto, que a arca, por extensão de significação, passou 
a designar não só o dolmen propriamente dito, mas também, e ao 
mesmo tempo, o respectivo tumulus. 

Em França os menhires tem, entre outros nomes, os de borne, 
grande borne, haute borne, borne longue. O Sr. Salomon Reinuch, que 
cita estes nomes, acerescenta: «D es menhirs ont servi aussi àinar- 
quer les limites de commuues ou de iinages et ont été preserves 
ainsi de la destruetion ; il en a été de métnc pour les tumulus». Vid. 
Revue ArcJiéologique, 3.° serie, xxi, 190- 

Expostas estas observações, poderei ensaiar uma explicação da 
palavra orca, como synonima de dolmen. Nos Romanos orcas erão va- 
sos de barro, de bastante dimensão, mas menores que as amphoras 
(vid. Ricb, JDicíionnairc des anliquilés romaines etgrecques, Paris 1861, 
8. v. orca; sobre a etymologia vid. Diefenbach, Die Alien Võlker 
Europas, Frankfurt am Main, 1861, p. 3 ( J2). Estes vasos servião 
para conter peixe, azeite, vinho, etc. ; mas vieram também a servir 
de marcos, collocados nos limites dos campos, apparecendo por isso 
na linguagem dos gromaticos expressões taes como orca, orcula- 
orcularis terminus (vid. Ducange, Gloss., s. v., e Forcellini & Faceio, 
lati, Gloss., s. v.). Ora, sou levado a suppôr que, como as arcas e as 
orcas, embora de differentes formas, desempenha vão na agrimensura 
o mesmo papel, — marcar os campos — , se estabeleceu confusão na 
linguagem popular, attenta a semelhança dos vocábulos, que só 
differein na vogal inicial, e se chamou orcas ás arcas, e por tanto 
aos dolmens, que tinhão também (pelo menos na Hespanha) o nome 

de arcas. Isto é : 

dolmen = arca, 

arca = orca; 

logo : dolmen = orca, 

porque duas cousas iguaes a uma terceira são iguaes entre si. 



257 



pois *Pala da Moura de Villarinho», *Pala da Moura do 
Castedo» 1 . Mas será Pala nome commum, ou nome próprio, 
embora de uso frequente 1 ? 

Alem de anta, orca e arca (e pala?), nâo conheço pôr 
ora na linguagem popular outros nomes appellativos que 
designem particularmente dolmens 3 . 

Ainda que, como digo acima, um dolmen, que tem nome 
commum, pôde alem d'isso ter nome próprio especial 4 , 
grande número de vezes o dolmen perdeu o nome com- 
mum, e ficou só com o próprio. Quando o povo chama a 
uma anta Casa da Moira, Penedo* Altos, Casa dos Ga- 
lhardos, Forno de Mouros, Pedra, dos Mouros 5 , sabe que 



1 Cfr. também O Archtologo Português, i, 107-109 [Deve lcr-se 
Pala da Moura, ou da Moira, e não Pala Moira]. 

2 A palavra Pala encontra- se no onomástico: assim se chama 
um apeadeiro do caminho de ferro do Douro. — Quanto á ety Biolo- 
gia, parece ser Pala antes uma metaphora, tirada do substantivo 
da língua commum pala, do que uma inversão das syllabas de lapa; 
no caso de haver metaphora, tc-la-hia originado a cobertura ou 
chapéu do dolmen. 

3 A cerca de anttUas c anlinhas vid. adeante, nos §§ 9 e 10. 

4 Por exemplo na Beira- Alta ha uma orca chamada «Cova dos 
Moiros». 

* Num substancioso artigo publicado pelo Sr. Salomon Reinach, 
na Rtvut Archéologique, 3.* serie, xxi, 195 sqq. e 329 sqq., indicào-se 
muitos nomes populares dos dolmens em differentes países. Alguns 
d'esse8 nomes são, como é natural, análogos aos nossos, por ex.: 
four de.s gêantê, maison de» fies, pierre levét, pierrt plaU, tnaison du 
diabU, etc. 

Na Chorographia moderna do reino de Portugal, de J. Maria 
Baptista, tomo vi, citão-se muitos nomes de lugar que certamente 
correspondem a antigos monumentos prehistoricos (dolmens) ; por 
ex.: Pedra d' Anta, Pedra do Altar, Pedras Alçadas, etc Com 
Pedra no Altar, cfr. Mamaltar, que citei supra, p. 251. A palavra 
Moimenta, que vem do lat monimenta (plural de mommcntum), 
é possível que em alguns casos represente também monumentos 
. prehistoricos. No concelho de Mangualde ha uma aldeia assim cha- 
mada, ao pé da qual existia um dolmen. Num campo gallege junto 
de Moymenta (Pontevedra) ha várias mámoas: vid. Villa-Amil in 
Museo espahol de arUigUedades, vu, 227. O facto de hoje se encontra- 

17 



258 



esses nomes se referem a determinados monumentos, que 
ficão em certos sítios, e não a vários da mesma espécie, 
como é o caso quando se serve de anta e orca; pelo menos 
é isto o mais geral. 

Ha pouco fallei de uma necropole prehistorica chamada 
cdas Arcas»; sítios com o nome de «das Antas» são vul- 
gares; na Beira-Alta explorei um dolmen no sitio cdas 
Orcas», dizendo mesmo o povo «a orca das Orcas». Quando 
pelo país se encontrarem taes nomes no onomástico, deve 
a attenção do archeologo ficar alerta, porque pôde ser que 
nos sitios denominados d'esse modo haja ou houvesse mo- 
numentos prehistoricos. 

Assim, em resumo, os dolmens no nosso pais, quando 
tem nomes, são hoje designados, pelo menos, de duas 
maneiras: com um nome commum, — anta, orca (antiga- 
mente também com toda a probabilidade arca, e hoje 
ainda talvez pala) — , que domina em determinadas locali- 
dades, e se applica aos dolmens em geral; com um nome 
próprio, que, embora ás vezes se possa repetir, como Casa 
da Moira e dos Moiros, se refere sempre, ou quasi sempre, 
a certos dolmens ou grupos de dolmens em especial 1 . 

O povo ha muito tempo que perdeu a noção da primi- 
tiva significação dos dolmens; por isso aquellas palavras 
traduzem apenas, já a forma e o estado em que se vêem 
os monumentos, já as lendas que se lhes ligão, — e não 
entra nellas ordinariamente a ideia de sepulcro 1 . 



rem povoações ou locaes assim denominados, em que já não existem 
estes monumentos, não impede que se acceite a hypothese, porque 
os monumentos podem ter sido destruídos. 

1 Rigorosamente fali ando, forno e casa, em algumas regiões, quasi 
desempenhão o papel de nomes communs de dolmens: «aquiilo são 
fornos ou casas dos Moiros», diz o povo muitas vezes. 

2 Isto que digo é confirmado pelas observações que tenho feito 
pelo pais. O Sr. Martins Sarmento, fallando dos monumentos fune- 
rários prehistoricos, diz também : «o que cu não vi ainda foi que o 
seu verdadeiro destino se perpetuasse no correr da tradição. Sabe-se 
apenas que aquiilo é obra de Mouros ; sobre o seu préstimo phan- 



259 



Com relação a denominações dos dolmens usadas em ter- 
ritórios de Hespanha comprehendidos nos limites da Lusi- 
tânia só sei que na Estremadura existem as palavras arca * 
e garita* naquelle sentido. De arcajk fallei ap. 254-256# 
Garita é certamente uma metaphora, semelhante a outras 
que já vimos a cima. 

* 

Como estudei separadamente as denominações populares 
dos tumuli e dos dolmens, poderá parecer que o povo esta- 
belece sempre dwtincção nítida entre o dolmen propria- 
mente dito, ou edifício de pedra, e o tumulus, ou montículo 
de terra. Não é assim. Devemos lembrar-nos que a lingua- 
gem humana tem muita tendência para se generalizar. No 
Alemtejo examinei alguns dolmens que não tinhão mamôa, 
e o povo chamava-lhes de facto antas; mas na Beira ouvi 
dar o nome de orcas, tanto a dolmens completamente desco- 
bertos, e já sem vestígio algum de tumuli, como a dolmens 



tasiam-se todas as explicações, menos a que se aproxima da verda- 
deira» (Revista de Guimarães, v, 112). 

Sr. Santos Rocha, porém, nas Antiguidades do concelho da Fi- 
gueira, falia de uma mamoinha que, segundo a tradição popular, 
tinha sido sepultura de Mouros (I, p. v). Supponho ser caso isolado, 
embora occorra naturalmente ao povo, ao encontrar ossos num dol- 
men, que este servira de sepultura; mas nem todos os dolmens 
contém já ossadas, ou as contém em grande quantidade; e por outro 
lado os dolmens não estão constantemente a ser explorados, de 
modo que o povo se capacite de que forão sepulturas. Ainda que 
um ou outro individuo observe isso, e se convença, a memoria do 
facto em breve desapparece, e o monumento volta a oceupar o seu 
lugar, como Casa do Diabo, Forno de Moiros, ete., no vasto quadro 
das tradições populares, onde haja outras ideias e lendas parecidas. 
Aqui está, no meu entender, a razão porque tanto em Portugal, 
como noutros países (vid. Balomon Reinach, in Bevue Archéologique, 
3.* serie, xxi, 359-360), a crença em os dolmens serem sepulcros, ou 
não existe, ou é raríssima. 

1 Vid. supra, p. 254. 

* Vid. Tubino in Museo espahol de antiguidades, vn, 316. 



260 



ainda semi-envoltos em montículos. O termo matnoinha, 
a pesar de corresponder propriamente a tumulus, parece 
significar também o monumento completo, — isto é, o dol- 
men com o respectivo tumulus. Ao termo mamou deve acon- 
tecer o mesmo. O que não sei é se se applicará a designação 
de mamôa e mamoinha só á parte interna do monumento, 
isto é, ao dolmcn ; provavelmente não. O termo Mamaltar 
(= Mama[do]Altar), que citei a p. 251 é que designará 
acaso os dois elementos do monumento : o dolmen (Altar) 
e o tumulus (Mama); em todo o caso é nome próprio. 

Nome appellativo, e popular, que signifique dolmen 
completo, não temos 1 : por isso, no decurso d' este livro, 
servir-me-hei frequentemente, como é uso entre nós, d 
palavra dolmen ou anta, no sentido de «dolmen coberto» 
ou de «qualquer dolmen». Todavia, quando a clareza do 
sentido o exigir, adoptarei também as expressões «dolmen 
. coberto» e «dolmen descoberto». 

c) Dolmens coberto* e descobertos 

O facto de no dolmen faltar frequentemente a mamôa 
tem feito admittir que ha dolmens de duas espécies: uns 
cobertos, outros descobertos, suppondo-se que os desco- 
bertos o estão desde a origem. A questão, se não está 
já resolvida em sentido contrário, caminha depressa para 
isso, admittindo-se hoje que os dolmens que actualmente 
se achão descobertos representão apenas ruina, e que por 
tanto todos os dolmens que existem estiveram primitiva- 
mente cobertos de mamôas*. 



1 O que digo a p. 256, nota, á cerca de arco, baseado nas pala- 
vras de Viterbo, não é ponto bem assente, como lá noto ; de mais a 
mais trata-se de um nome antigo, e eu agora refiro-me á actualidade. 

1 Brtvitatiê grutia, citarei aqui apenas duas obras estrangeiras 
em cada uma das quaes a questão geral é encarada por seu lado : 
Es$ai $w Um cbUrncns, pelo barão A. de Bonstetten, Genève 1885, 
p. 5-8 ; Le Préhistonqtte, por G. de Mortillet, Paris 1885, p. 589- 
591 e 597. 



261 



No Minho, pelo menos no littoral, não ha dolmen sem 
mamôa l . No concelho dos Arcos de Vai de Vez, na mesma 
provinda, existem dolmens em que se vê ainda parte da 
mamôa 1 . Este último facto observa-se também em dolmens 
de Tras-os-Montes 3 . Na Beira- Alta, se tenho observado 
dolmens completamente desprovidos de mamôa, tenho ob~ 
servado outros ainda semi-envoltos nella. No concelho da 
Figueira os dolmens, como já disse, estão cobertos por 
mamoinhas*, não se tendo ainda encontrado lá nenhum 
descoberto. Com relação á Extremadura notarei que num 
dos dolmens de Bellas, explorado por Carlos Ribeiro, se vê 
ainda parte da mamôa, como, não ha ainda muito tempo, 
verifiquei. No Alemtejo tenho visto dolmens sem mamôa, 
o que não quer dizer que os não haja com mamôa ou 
parte d'ella; nos arredores de Évora, em terreno agri- 
culturado, examinei algumas antas propriamente ditas, 
assentes em pequenas elevações, nas quaes podia ter exis- 
tido mamôa que se esboroasse. No Algarve observei alguns 
dolmens cobertos, que Estacio da Veiga descreve ; e este 
A. falia de muitos cobertos 5 , dizendo mesmo que hoje 
no Algarve se não conheee nenhum descoberto 6 , embora 
talvez outrora os houvesse, eomo o onomástico o dá a 
entender 7 . Em abono dos factos citados, diz-me também 



1 Martins Sarmento, in O Panikeon, 1880, p. 2. 

2 Informação particular do Sr. Dr. Alves Pereira. 

' P.« Raphael Rodrigues, in A Vida Moderna, 1895, n/> 28. Toda- 
via noutros dolmens transmontanos a mamôa é ainda bem pronun- 
ciada, e alguns estavão ainda por inteiro debaixo das mamôas : vid. 
o n.° 26 e o mesmo n.° 28 da cit. Vida Moderna. Eu próprio observei 
estes factos ao pé de Carrazedo do Alvão (Villa Pouca de Aguiar). 

4 Vid. supra, p. 25. Eu mesmo vi no concelho da Figueira dois 
(que o Sr. Santos Rocha me indicou), já explorados, mas ainda com 
parte dos montículos. . . 

* Antiguidade* monumentae* do Algarve, passim. 
% i Ob. c&, i, 91, 96, 143 ; m, 348. 

* Ob. cit., i, 104-107.— Cfr. também p. 100, onde falia de um 
monumento, que, segundo as informações que colheu, seria um doi- 



262 



o Sr. Dr. Martins Sarmento, em carta particular: «Ainda 
nâo vi anta nenhuma sem signaes de mámoa (como se diz 
em Esposende), senão uma no Fundão ; lembra-me que sus- 
tentei contra F. . . que a mamôa so n&o via hoje, porque 
tinha sido arrasada. Mas depois, e a pouca distancia (tam- 
bém na Beira-Baixa) vimos restos de outras antas em que 
o monticulo era muito visível. No Minho ainda nâo vi ne- 
nhuma, em que a mamôa deixe de revelar-se. A mais per- 
feita que tenho visto é a da Lapa da Barrosa (Ancora). 
Um corta transversal no monumento daria isto (fig. 57): 
a-a, parte dos supportes descoberta; J-6, parte dos sup- 
portes enterrada; c-c, terra (mamôa). N&o longe d'esta ha 
restos de outra anta, em que existem apenas os supportes 
das costas ; a mamôa ainda hoje sobe a cima d'elles. Numa 
palavra, ainda não vi anta sem mamôa. Quando vejo ma- 
môa com três metros de alto, ainda que no centro não 
haja uma só pedra, concluo que forâo d 'ai li arrancadas 
as pedras d 'uma anta, e já por duas vezes as minhas previ- 
sões foram confirmadas por informadores que tinham visto 
a cousa, e m'a descreveram». 

Vê-se, por tanto, que os nossos dolmens se encontrão 
hoje nos seguintes estados: cobertos totalmente de mamôa 
(Algarve, Figueira-da-Foz) ; só em parte soterrados (Minho, 
Tras-os-Montes, Extremadura, Beira-Alta); já som ne- 
nhum vestígio de mamôa (Beira-Alta, etc.). 

Dos dolmens gallegos diz Villa-Amil y Castro: «Galicia 
es de los países en que tanto como escasean los dól- 
menes aparentes ó desnudos de toda envoltura térrea ó 
pedregosa, abundan los tumulares, ó encerrados en un 
monton de tierra en forma de porcion de esfera, lo que 



men descoberto ; mas deve subentender- se que o estava na occasi&o 
da observação. 

O que Estacio da Veiga diz, repetindo as palavras do barão de 
Bonstetten (Essai sur Its dolmens, 1865, p. 40, nota), á cerca de poder 
ter havido no Cabo de S. Vicente alguns dolmens, nâo passa de 
mera phantasia, sem fundamento algum. 



263 



sucede muy en particular en la montaãosa comarca que se 
extiende desde Jallas hasta la ria de Arosa y puerto de 
Lage» 1 . Com esta observação concorda a de Macif&eira y 
Pardo : «En Galicia son numerosos los monumentos tumu- 
lares depositários de los restos de nuestros aborígenes, y 
se les conoce con el nombre regional de mámoas, acusando 
en su construcción un arte en estado embrionário. De ellos 
una gran parte encierra el grosero dolmen t>*. 

Para mim tenho como assente que todos os que hoje 
estSo descobertos forío d'antes cobertos. De facto, desde 
o momento que numa mesma região, num mesmo concelho, 
ha uns dolmens descobertos e outros semi-descobertos, 




Fig. 57 



podendo explicar-se razoavelmente o motivo pelo qual os 
descobertos estão assim, porque é que ha de admittir-se 
que os dolmens descobertos o fossem sempre? De mais 
a mais o envoltório de terra é um meio de resguardo, 
senão absolutamente necessário, pelo menos muito útil, 
visto que o dolmen abriga no seu seio restos mortaes alli 
postos com veneraçSo e carinho. Também muitas vezes, 
como direi adeante, falta ao dolmen o chapéu, e nem 
por isso se admitte que os havia primitivamente abertos. 
Accresce ainda este facto : que só a mamôa, servindo de 
plano inclinado, explica que o enorme chapéu da anta 
pudesse ser alevantado para o seu logar, attentos os fracos 
recursos mechanicos de que dispunha o homem prehisto- 



1 In Musto espahol de antigiiedadts, vu, 226. 
1 In La Jlustración artística, xiy, 126. 



264 



rico S Em muitos de grandes dimensões, como os do Alem- 
tejo, da Beira-Alta,, do Minho e de outras partes, o montí- 
culo esboroou se todo ou quasi todo, em virtude da acção 
atmospherica^ da curiosidade do homem, do trabalho- agrí- 
cola, etc. Fallando das mámoas da Galliza, diz Villa-Amil 
que ellas estào «desfiguradas más ó menos, no solo por 
efecto de .los trafbajos practicados para reconocerlas, sino 
por el más uniforme de las frecuentes lluvias dei pais, á 
loá que se agregan los hechos por las zorras, ouyas alima- 
fí&s muestran gran predileccion para abrir en las mámoas 
sus madrigueras»*. O ter Be mantido o montículo noutros, 
como nos do Algarve e da Figueira-da-Foz, deve explicar- 
se, umas vezes por serem menores os dolmens e confundi- 
rem-se facilmente as mámoas nas ondulações e accidentes 
do terreno, outras vezes por circumstancias especiaes de 
protecção, como arvores e collinas, ou por nao estarem 
em terrenos cultivados, etc. 3 

Se os dolmens descobertos o não forSo sempre, estào-no 
porém pela maior parte ha muitos séculos, como se vê do 
facto de terem nomes já bem enraizados, impostos pelos 
Romanos: cfr. o que escrevi supra, a pags. 25 e 26. Efe- 
ctivamente a palavra anta só podia applicar-se a um dol- 
men descoberto ou semi-descoberto ; a palavra arca, e por 
tanto orca, também faz suppôr que se tinha deante dos 
olhos um dolmen descoberto ou semi-descoberto, pois só 



. * Bonstetten, Esscd sur les dolmens, p» 14, também admitte que 
era necessária terra para transportar as lages, mas, preoccupado 
cpmo está com a ideia da dualidade dos dolmens, diz que, depois do 
transporte, a terra se tirava, c o cliao se nivelava ! 

2 In Muêto espaTíoí de antigãedades, vu, 227. 

3 O Sr. Nery Delgado tem -me em conversa manifestado várias 
vezea que é. de opinião que houve sempre dolmens deacobertoa a. 
par de dolmens cobertos. Respeito muito todas as ideias que emanio 
do illustre geólogo, que é ao mesmo tempo nm dos mestres da Pre- 
historia portuguesa; todavia neste ponto nào posso concordar com 
elle, cm virtude do que digo no texto; perdoe me o meu exceJlente 
amigo esta liberdade. - t •< 



265 



um dolmen nestas circuinstancias apresentava semelhança 
com a arca dos gromaticos ; de pala (vid. supra, p. 257) 
poderá dizer-se o mesmo. 

T&o antiga é a existência dos dolmens descobertos, que' 
os nomes appellativos com que forào designados passarão 
já para o onomástico ; ha muitas terras e campos em Por- 
tugal com os nomes de anta, arca e orca 1 ; de Pala fallei 
a pags. 25&r257. No onomástico gallego também, como 
lembrei a cima, pags. 25 e 26, nota, se encontra a palavra 
Anta e Antas; deve ahi ter * mesma origem histórica 
que no nosso país. 

Os já citados nomes Os Padrões, Casa da Moura, 
Forno do Mouro, Casa dos Galhardos e outros seme- 
lhantes, dados aos dolmens descobertos ou semi-desco- 
bertos, confirmào também o raciocínio,. porque todos elles 
se originár&o na forma do dolmen, depois de descarnado. 

Por outro lado, aos dolmens andão ligadas lendas e 
tradições, como já notei a cima, p. 6 e 26, e como tornei 
a dizer adeante, no § g\ isto dep3e também a favor da 
antiguidade do esboroamento da mamôa. 



1 Na Chorographia moderna do reino de Portugal, de J. Maria 
Baptista, citão-se dezascte locaes com o nome de Anti, vinte e três 
com o nome de Antas, e alem d*isso estes : Anta- Cal, Anta -Cova, 
Anta-de-Baixo, Anta-de-Cima, Anta-Nova, Aktas-de-Baixo, Anta a- 
de-Cima, Antas -do-Meio, Antas-do- Viegas. Cita- se Antinha, Antella 
e Antsllas. Cita-se Antoes, Autues da Capella e Ahtões d 'Alem, 
podendo Antoes ser atigmentativo (plural) de anta, do mesmo modo 
que AntÃo. 

Com o nome de Arca citão-se seis ; com o de Abcas treze ; e alem 
d'isso Arca-villa (= Arca da villa), Abcella e Abcellas. Estes 
dois últimos são formas deminutivas de arca, análogas a Antella 
e Antellas, formas deminutivas de anta. 

Com o nome de Orca citão-se dois; eu também conheço na Beira 
propriedades assim chamadas. 

Descontando aquelles nomes que não representem directamente 
monumentes prehistoricos, mas sejío devidos a diversas causas, 
ficarão ainda muitos que abonem a these enunciada no teito. . 



266 



d) Distribuição geographica dos dolmens 

Abro aqui paragrapho, apenas por symetria com o que 
fiz a respeito das grutas, e pelo grande desejo que tenho 
de ser claro, pois o que escrevi a pags. 12-24, e nos 
paragraphos que precedem este, basta já para mostrar que 
existem dolmens em todas as províncias de Portugal. 

Segundo notícias recentes que recebi, a província de 
Tras-os-Montes é muito rica em dolmens; o Alemtejo 
abunda nelles igualmente. A Extremadura é onde se 
conhecem menos; muitos terão sido destruídos, outros 
constituirão ainda segredo para a sciencia. 

A julgar do que resta, e do que pôde inferir-se das 
notícias antigas e do estudo do onomástico, conclue-se que 
Portugal possuía numerosíssimos dolmens nos tempos pre- 
historicos: o que pela sua parte concorre para mostrar 
quanto tem sido sempre povoada esta nesga occidental da 
Europa. Com a abundância dos dolmens concorda a abun- 
dância dos castros (povoações) ; raro será o concelho mon- 
tanhoso de Portugal, se algum ha, em que não existão ou 
não existissem castros. 

A abundância dos dolmens na Galliza me referi a cima, 
quando citei as palavras de Villa-Amil e de Maciiieira 1 . 
Na mesma região existem também numerosos castros ou 
croa8*. 

e) Typos geraes dos dolmens 

Para os leitores fazerem bem ideia do monumento fune- 
rário que se compõe de dolmen propriamente dito e de 
tumulus, aqui lhes offereço um desenho (fig. 58), extrahido 
das Antiguidades monumentaes do Algarve, de Estacio da 
Veiga 3 . E o monumento «n.° 1» de Alcalar. 



* Vid. p. 262-264. 

2 Vid. Villa Amil y Castro in Museo espahol de antigikd., vn, 195. 
' VoL i, est. n-A em frente da p. 218, reproduzida no voL m, 
est ii| em frente da p. 134. 



267 

■O monumento, diz o citado A., é um perfeito dolmen. 
à sua crjpta polygonal, tirante a circular, & composta de 
oito alentados monolithoB de grós, da altura de 2 m ,30 a 
2 m , 50, com varias larguras até l m ,60, e externamente re- 
forçada por outra ordem de monolithos de grandes dimen- 
sões, encostados aos primeiros, todos dispostos com incli- 
nação convergente para o alto do eixo perpendicular. Os 
dois primeiros monolithos lateraes sSo postos de modo que 




os seus topos ficam fronteiros e quasi a O" 1 , 90 de distancia, 
formando assim a entrada da crypta para poder ser fe- 
chada com uma pedra de encosto, á feição de porta. A 
estes dois monolithos adherem os lateraes que formam o 
vestíbulo, a cuja entrada externa encosta transversalmente 
outro, que fecha como porta todo o monumento, tendo 
pela parte de fora duas grandes pedras encostadas e cra- 
vadas no solo, para se manter firme. Esta porta aponta 
para sueste, correndo o eixo que passa pelo centro no sen- 



268 



tido de noroeste. O maior diâmetro transversal da crypta 
mede 2 m ,60 e o longitudinal 2 m ,70. Da porta externa até 
á entrada da crypta ha no vestíbulo o comprimento de 
l m ,60, na maior largura l m ,40, e na entrada externa 
m ,65» '. Em logar de galeria, Estacio emprega aqui o 
termo vestíbulo, por aquella ser curta. 

Quanto ao tumulus que envolveu e cobriu o monumento, 
continua o A. : — cUma camada de pedra serviu de assen- 
tamento ao outeiro artificial, seguindo-se-lhe outra de pedra 
miúda, e finalmente a última de pedra menos miúda, co- 
berta de terra : — o que obriga a inscrevê-lo no género 
dolmen sob tumulus »*• 

Infelizmente, o monumento aqui representado e descrito 
já não está completo: falta-lhe o chapéu ou tampa, que 
parece se achava em pedaços no chão 3 . Os dolmens des- 
critos até hoje pelo sr. Santos Rocha, como encontrados 
dentro das mamoinhas da Figueira da Foz, também já es- 
ta vâo destapados 4 . 



Entre as mamoinhas mencionadas pelo sr. Santos Rocha 
nas suas Antiguidades do concelho da Figueira, ha uma 
assaz notável, representada na fig. 59, que, com auctori- 
zaçfto do A., copio do referido livro. 

O sr. Santos Rocha descreve d'esta maneira a mamoi- 
nha: «tem 10 metros de diâmetro na base, e é limitada 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, m, 134-135. 

» 06. cit., iii, 136. 

' Ob.cit., ih, 135. 

4 Vid. do mesmo A. as Antiguidades prehisloricas do concelho da 
Figueira, parte i, passim. A cerca do facto de estarem destapados, 
vid. especialmente p. 39. O A. propõe a questão de saber se os 
monumentos que descreve erlo ou nio primitivamente todos cober- 
tos de tampa ; depois de várias considerações, inclina-se a crer que 
sim, o que também me parece. . 



269 



por uma orla de pequenas pedras. Dentro encontrámos 
um grande monumento, composto de sala ou camará, e de 
galeria, orientada a SO., e abrindo para o lado do oriente, 
como se vê na respectiva planta. Esta forma faz lembrar 



N 




a 



C«rtoAB 




Flff. 59 



alguns dos dolmens das vizinhanças de Bellas, explorados 
pelo sr. Carlos Ribeiro. Dois renques de lages de mediana 
grandeza, erguidas parallelamente na distancia de l m ,75, 
formam a galeria, que mede APfiO de comprimento. As 
lages do lado do Norte s£o de grés, e as da aléa do sul, 
de calcareo. Duas d'ellas, uma de cada lado, aeharara-se 



270 



cahidas. Na extremidade do nascente os ta galeria estava 
cerrada por dois pedaços de lagc, inclinados para dentro, 
e unidos pelos topos. Outras pedras miúdas enchiam os 
interstícios, de modo que vedavam completamente a en- 
trada. Na extremidade do poente outras duas lages, me- 
dindo l m ,38 e l m ,50 de comprimento, e m ,54 e m ,40 de 
altura, avançavam das aléas da galeria, e aproximando-se 
pelas extremidades, penetravam no meio da camará, dando 
para esta, ao tempo em que as descobrimos, uma commu- 
nicação de ra ,50 de largura. Esta disposição é muito singu- 
lar, e poderia fazer suppôr que taes pedras teriam cahido. 
Mas obtivemos prova do contrario: por baixo delias ape- 
nas existia terra; emquanto no solo immediato contíguo, 
de um e outro lado, encontraram se ossos, carvões e ins- 
trumentos de pedra. A camará é polygonal, e tem 3 ra ,10 
de diâmetro. Cinco grandes lages de grés, provenientes 
de fora da localidade, a limitam pelo norte o poente, ha- 
vendo do lado do sul um espaço que apenas achámos pre- 
enchido por uma agglomeração de pequenas pedras. O pa- 
vimento é de rocha viva e irregular, apresentando fendas 
e depressões onde estão cravadas e acunhadas com pedras 
as grandes lages. Estas lages, apoiando-se umas contra as 
outras, estão inclinadas para dentro, e tem os interstícios 
tapados externamente com lascas do pedra 4 ». A altura 
das pedras, contada até o pavimento, oscilla, entre 2 ra ,10 
e l m ,85. 

A orla de pedras, de que a cima se falia, pareceria indi- 
car, no pensar do explorador do monumento, o caracter 
sagrado do recinto 2 . Sem se ficar em desaccôrdo com este 
pensar, poderia ao mesmo tempo suppor-se que tal orla 
seria um meio symbolico de deter a distancia os maus espí- 
ritos, susceptíveis de perturbarem o descanso dos mortos, 
ou um meio de aprisionar as almas d' estes, para não irem 



1 Antiguidades do concelho da Figueira, p. 18-19. 
* Ob. cU., p. 87. 



271 



opprimir os vivos*. Mas porque não serião antes taes pedras 
um meio de segurar a terra da mamôa*? 



Como typo geral do aspecto de um dolmen já desprovido 
de mamôa, pôde servir a casa à'orca da Cunha-Baixa, no 
concelho de Mangualde, representada na fig. 60 3 . 

Explorei esta anta em Setembro de 1 892 4 , mas já em 
tempos passados tinha sido remexida com vários fins. Como 
se vê da figura, comp3e-se de camará e galeria ; mas, por 
estar situada no meio de um campo plano, que tem sido 
successivamente lavrado e culturado, já não revelava ves- 
tígio de mamôa. 

Por não ser necessário, para o meu fim, entrar aqui em 
pormenores, limito-me a dizer que a camará é de forma 



1 O seguinte costume, que se observa na Africa, tem especial 
importância para o caso : quando num sitio morre alguém, põem-se 
ahi dois c ire ai os de pedras, e cada pessoa que passa espeta dentro 
d 'esses círculos um ramo de arvore, para evitar que os espíritos 
dos mortos fáçâo mal. Vid. Capello & Ivens, De Angola á Contra- 
Cosia, p. 195-197. 

A respeito de vários meios de afastar as almas dos mortos, vid. 
as minhas Tradições populares de Portugal, § 374. 

Lá fora conhecem- se bastantes monumentos sepulcraes também 
dentro de cercas de pedras, mas estas são de maiores dimensões-, 
taes cercas chamào-se cromlechs. 

Na Galliza igualmente se conhecem uns monumentos especiaes, 
consistentes em espaços circulares fechados por pedras: vid. Maci- 
ueira, in La Ilustración Artística, xiv, 174. Taes monumentos não 
se sabe o que são : Macineira chama- lhes cromlechs. Ao pé encon- 
trão-se dolmens cobertos de mámoas: ib. 9 ib. 

1 Cfr. J. Naue, in Revue Archéologique, 3. a serie, xxvn, 43. 

3 Desenho feito pelo Sr. Francisco de Almeida Moreira, alumno 
militar da Eschola Polytechnica de Lisboa. 

4 Foi o meu amigo o Dr. Alberto Osório de Castro quem m'a 
indicou. Está situada numa propriedade pertencente ao Sr. Dr. Paes 
da Cunhai de Santar, que da melhor vontade consentiu nas explo- 
rações archeologicas. 



273 



polygonal, constituída por sete grandes lagos (esteios), que 
convergem mais ou menos para o centro, cobertas por um 
chapéu ou tampa. Um dos esteios tem de altura a cima 
do solo 2 m ,3, e de maior largura l m ,7 ; o chapéu tem 
de comprimento 3 metros e de largura 2 m ,2. A galeria 
compõe se de dois renques de grandes Iages, algumas já 
cahidas ; tinha sido primitivamente coberta, restando ainda 
no seu logar, horizontalmente, uma das pedras. A galeria 
tem actualmente de comprimento total 7 m ,17, de largura 
ao meio l fn ,68 e de largura á entrada l m ,05. Todas as 
pedras do dolmen são de granito. 



A propósito da descripção do typo geral dos dolmens, 
convém fazer ainda algumas considerações. 

As dimensões, tanto da camará, como da galeria, varião 
bastante. O diâmetro da camará pode oscillar entre 2 me- 
tros, ou menos, o 6 metros, ou mais ; a altura dos esteios 
pode ser menor que 1 metro e exceder 3. O comprimento 
da galeria pôde attingir 6 ou 10 metros; a largura ser desde 
pouco mais de '/â metro até quasi 2 metros. Tudo isto que 
digo se baseia em factos observados directamente por mim, 
ou compendiados nas obras de archeologia portuguesa. 

As dimensões das mamoas regulão-se por estas. «Ima- 
gina- se, diz o Sr. Martins Sarmento, que elevação preci- 
sava de ter a mamôa que cobria uma anta, sabendo-se 
que a de Gontinhàes (Lapa dos Mouros) tem de altura mais 
de 3 metros, havendo-as ainda maiores. Isto com relação 
á altura. Quanto ao diâmetro, dizendo-se que o montículo, 
alem de cobrir a anta, tinha de cobrir uma galeria ou 
corredor, que d'ella partia para a circumferencia, e que 
ás vezes era da extensão de 6 ou mais metros, é fácil 
de ver que proporções poderia attingir» 1 . Mamoas que o 



1 In Bcvista de Guimarães, v, 113. 

18 



274 

F 

Sr. Maximiano Apollinario e eu observámos na Beira- Alta, 
na Beira-Baixa e em Tras-os-Montes, já em parte esbo- 
roadas, medião de circumferencia 60, 63, 70, 78 até 80 
metros. Das mámoas da Galliza diz Villa- Amil : «Sus dimen- 
siones varían mucho: las más comunes tienen un par de 
metros de alto y como diez de diâmetro ; algunas no pasan 
de la mitad de este, con algo menos de los dos metros de 
altura, y las mayores no llegan á los cinco metros de ele- 
vacion» 1 . Também Maciíleira diz ter encontrado mámoas 
«desde veinte metros de diâmetro hasta de cuatro*. 



A natureza da rocha de que são feitos os dolmens díffere 
consoante as regiões em que estes se áchão. Ha-os de gra- 
nito, de calcareo, de schisto, de grés. Diz-me o Sr. Nery 
Delgado que próximo do limite das regiões graníticas com 
as schistosas viu algumas vezes que nestas ultimas os dol- 
mens erào formados de lagos de granito, ao passo que nas 
regiões graníticas erão formados de lages de schisto. 

Como vimos das medidas precedentemente indicadas, 
as pedras dos dolmens são muitas vezes de grandes 
dimensões; attendendo a isto, e ao facto de ellas virem 
frequentemente de longe, embora quasi sempre da mesma 
região geológica, fácil é calcular quanta despesa, quanto 
trabalho não custaria o transporte d'ellas aos pobres ho- 
mens prehistorico8, que, para as accarretarem, dispunhão 
de tão poucos meios mechanicos: facto este muito digno 
de se ter em conta, quando se procure conhecer a signi- 
ficação religiosa dos dolmens. 

A collocação do chapéu sobre os esteios, collocaçfto 
deveras difficil, por elle ser quasi sempre enorme, devia 
fazer-se por meio de alavancas e rolos de madeira, ser* 



1 In Musto espanol de ardigUedcule*, vn, 227. 

2 In La llu8tración Artística, xiy, 126. 



275 



vindo de plano inclinado a mamoa 1 . Na remoção das 
grandes pedras ainda hoje se utilizâo frequentemente os 
rolos de madeira. 



Segundo as observações feitas pelos archeologos, as pe- 
dras que constituem os monumentos megalithieos podem 
nâo apresentar nenhum vestígio de trabalho de alisamento 
ou apparelho. Fallando de uma anta de Bellas, diz Carlos 
Ribeiro: *Como o geral das grandes pedras empregadas 
nestas rústicas construcçSes, as superfícies ostâo litteral- 
mento em bruto» 2 . Ao descrever uma mamoínha das Car- 
niçosas, nota o sr. Santos Rocha: «Nenhuma das pedras 
que entram na construcção d'este monumento apresenta 
vestígios de apparelho» 3 . Pela minha parte tenho visto mui- 
tos dolmens formados do lages rudes; todavia creio que 
outras se tentou aperfeiçoá-las, por exemplo as de uma 
casa d' orca, ao pó das Antas de Penalva, na Beira, em 
que as lages todas parece haverem sido apparelhadas na 
face interna, ao passo que silo convexas e toscas exterior- 
mente. Estes factos nâo são únicos. Na France préhisto- 
rique escreve o sr. E. Cartailhac: «Les pierres qui entrent 
dans la construetion des tombes nóolithiques ne sont pas 
toujours à Tétat brut. Dans un certain nombre de cas, 
ellos ont été dégrossies et ouvragées, et ce genre de tra- 
vail n'est nullement incompatible avec Toutillage rudimen- 
tairo et primitif des ouvriers de ce temps-là» 4 . 

Tem-se observado entre nós alguns dolmens nSo só pro- 
vidos das célebres covinhas (tfossetes», «cupules»), mas 



1 Frederico VIJ, rei da Dinamarca, escreveu a propósito da 
construcção dos dolmens uma dissertação que tem sido várias vezes 
citada pelos archeologos : cfr. Bonstetten, Essai sur les dolmens, 
p. 24 ; Cartailhac, La France préhistorique, cap. zi ; etc. 

2 Estudos prehistoricos em Portugal, ii, 6. 

3 Antiguidades do concelho da Figueira, parte i, p. 19. 
* Cap. ziii, p. 234. 



276 



ainda providos de sulcos e esculpturas. Como nem umas 
nem outras são privativas dos dolmens, e pelo contrário 
se encontrão também em rochedos brutos, farei do estudo 
d'ellas um capitulo especial, lá mais adeante (§ V). Aqui 
só notarei que numa anta da Beira, chamada Cova dos 
Moiros, as covinhas forão abertas na face interna do monu- 
mento, o que, combinado com o facto supracitado de outra 
anta beirã ter sido, ao que parece, alisada pelo lado de 
dentro, faz pensar que a piedade dos construetores d'estes 
monumentos os levava a trabalhar principalmente a parte 
da pedra que mais em contacto ficava com os queridos 
restos alli sepultados. 

Encontrei no concelho de Sátão alguns dolmens neoli- 
thicos, cujos esteios estavâo pelo lado de dentro revestidos 
de pinturas do cor vermelha, as quaes represou tavão figu- 
ras humanas, figuras de animaes e vários arabescos. Este 
facto é novo na nossa prehistoria, e, se não dou aqui mais 
desenvolvimento ao assumpto, é que descobri já depois de 
muito adeantada a impressão do presente livro, que não 
pode ser interrompida. Uma das pedras com uma figura 
humana acha-se hoje no Museu Ethnographico Português, 
para onde a conduzi em 1896. Taes pinturas estavão ainda 
soterradas. 

Em alguns dolmens de Tras-os-Montes dá- se uma parti- 
cularidade curiosa: são ladrilhados com pedras de variadas 
dimensões 1 . Quando, na Beira Alta, explorei o dolmen das 
Orcas, notei também que parte do chão era constituído por 
pequenas lages chatas assentes no saibro natural, á ma- 
neira de ladrilho ; noutros pontos da mesma anta encontrei 
pedras iguaes, já deslocadas, que devião formar o resto do 
ladrilho*. A entrada da galeria da anta do Poço-da-Chã, no 



1 P. a Raphacl Rodrigues, in O Archtologo Português, i, 86, e 
n-il Vida Moderna, 1895, n.° 20. 

* Depois de escrito isto, fiz novas escavações em dolmens da 
Beira, e encontrei outros ladrilhados. 



277 



Minho, era também ladrilhada, «e o ladrilho ultrapassava 
alguns passos a orla da mamoa» 4 . 



Já que fallei das condições dos dolmens propriamente 
ditos, isto é, da natureza e configuração das pedras, devo 
também dizer que as mamôas que os envolvem não são 
constituídas somente por terra : entra nellas também abun- 
dante pedregulho ; o destino das mamôas parece ter sido 
exclusivamente proteger os dolmens, pois nunca encontrei 
nellas objecto algum. 

Se a edificação da camará e galeria demandava traba- 
lho, a do envoltório não o demandava menos: quanta diffi- 
culdade para transportar a terra, faltando, como faltavão, 
muitos dos meios de que hoje se dispõe! 

f) Utilização e significação primitivas dos dolmens 

Ao começar a fallar dos dolmens, parti, como era natu- 
ral, da ideia de os considerar como monumentos sepulcraes, 
ideia em que no decurso d'estas paginas sempre tenho 
insistido ; mas convém mais de espaço fazer aqui a este 
respeito algumas considerações. 

Depois de se haver imaginado que os dolmens terião 
servido de aras de sacrifícios*, de casas 3 , etc, assentou-se 
por fim definitivamente que elles não passão, como digo, 
de monumentos funerários. 

Se em muitos se não encontrão já restos mortuários, ou 
porque ahi se praticou a incineração, ou porque os agentes 
naturaes operarão a destruição d'esses restos, ou ainda por 
outros motivos 4 , é porém positivo que grande número de 



1 Vid. Martins Sarmento, in Revista de sciencias naturaes, iy, 97. 

2 Cfr. supra, p. 5-6. 

3 Cfr. mesmo as denominações populares de «Casas dos Moiros». 

4 Vid. supra, p. 210. 



278 



dolmens, na occasião da sua exploração, continhão no seu 
seio ossadas humanas, ás vezes até em muita quantidade. 
Diversos exploradores dão notícia d' esse facto 4 : o que não 
se explica satisfatoriamente senão admittindo-se que os 
dolmens erão sepulturas. 

A cima 2 adduzi exemplos de povos que enterra vão os 
seus mortos em casa; e por isso a alguém menos avisado 
poderia também acaso parecer que os dolmens serião ao 
mesmo tempo casas e sepulcros, isto é, casas-sepulcros : 
mas, comquanto vários dolmens tivessem capacidade para 
poderem ter abrigado habitantes, ha outros demasiado 
pequenos para tal fim, — e tendo, uns e outros, exacta- 
mente a mesma forma, faltar-sehia á lógica se se consi- 
derassem os grandes de um modo, e os pequenos de outro; 
alem d 'isso em certos dolmens a abundância dos despojos 
funerários ó ta], que não se pôde acceitar que ahi junta- 
mente vivesse alguém, antes fica bem manifesto que elles 
constituião simples depósitos mortuários ; sendo casas, não 
se comprehende para que havião de ser feitos de lages 
tamanhas, providos de galerias e cobertos de montes de 
terra, factos que, sendo elles, como erão, sepulturas, se 
interpretâo sem difficuldade, o que se verá em breve. A 
taes considerações aceresce esta, que os dolmens não raro 
estão situados perto dos castros, que erão realmente povoa- 
ções a que pertencião; que elles se relacionão com várias 
classes de monumentos, uns já a cima indicados, outros 
indicados adeante, os quaes, ainda aos mais incrédulos, 



1 Vi d., por exemplo, com relação ao nosso país, as obras de 
Carlos Ribeiro, Estacio da Veiga e Santos Rocha, passim. 

O mesmo observarão os Srs. P. M José Brenha e Raphael Rodri- 
gues nas suas explorações em Tras-os-Montes : vid. A Vida Moderna, 
1895. De algumas das minhas explorações posso também dizer isso. 

Pelo que respeita á Galliza, vid. Macifieira y Pardo in La Ilus- 
tración Artística, xiv, 126 e 174; e pelo que respeita á Extrcmadura 
hespanhola, vid. Tubino in Mvsto espanai de antigUedades, vn, 31 G. 

* Pag. 48, 93, e 222, nota. 



279 



ou aos mais alheios nestes estudos, não poderão deixar 
de se afigurar como sepulturas; e finalmente ainda hoje 
em alguns países se usâo dolmens ou monumentos muito 
semelhantes a estes 1 . 

Quanto á hypothose de haverem os dolmens servido de 
aras de sacrifício, só por memoria a menciono. Seria effe- 
ctivamente extraordinário fazer aras de sacrifícios nas con- 
dições em que os dolmens se mostrâo, e com a profusão 
em que elles ás vezes ainda hoje apparecem num local 
muito limitado. 

Sem sombra de dúvida, pois, os dolmens constituído 
receptáculos, em que os povos prehisto ricos depunhão os 
restos mortaes d'aquelles que em vida lhes forão caros. 

Não cause estranheza que para os mortos se construís- 
sem monumentos tão sólidos e tâo duradouros, que tem 
resistido ao embate dos séculos, quando para os vivos se 
edificavão quasi sempre pequenas cabanas, ou de frágeis 
e mal conformadas paredes, que se desmoronarão, ou de 
madeiras e ramos de arvores, que o tempo consumiu. 

É que os povos antigos acreditavão que os mortos ião 
ter no c outro mundo» existência análoga á que ti verão 
neste : as mesmas ou semelhantes necessidades e costumes. 
Se por tanto aos mortos não se prestassem honras fúne- 
bres, e não se lhes desse sepultura conveniente, elles não 
poderião achar ena vida futura» o indispensável repouso. 
Cfr. o que escrevi a cima, pags. 101, 187 e 219. Em 
Samoa cies morts qui n'ont point été enterres errent toute 
la nuit en gémissant et en se plaignant du froid»*. Em 
Maugain «nul ne peut entrer dans le paradis si ses parents 



* * quant aux mégalithes funéraires, noas savons qu*ils sont 

encore, à 1'heure qu'il est, en usage dana les monta Khasias, dont 
les populations (qui portent le même nom) ne se contentent paa de 
placer des dolmens sur la tombe de leurs ancêtres, mais élòvent, cn 

outre, des menhirs aux manes de lenrs proches i (E. Desor, in 

Matériaux pour VhiêL jprimxt et naturtlle de Vhomme, xm, 276). 

2 Marillier, La eurvivanee de l'âme, Paris 1894, p. 27. 



280 



n'ont pas fait celebrei* avec une solénnitó suffisante une 
íete funéraire»*. Segundo dizem os Karens de Birmânia, 
«ceux-là seuls peuvent entrer dans Plu (la terre des morts) 
qui ont été enterres convenablement» 2 . Nas populações 
turanianas da Ásia Septentrional «règne la croyance que 
les esprit8 des morts qui n'ont pas reçu de sópulture con- 
tinuent de voltiger dans Fair au-dessus de Tendroit oii 
leur cadavre a étó abandonné» 3 . Na America do Norte 

tles Iroquois pensent que si les cérémonies funé- 

raires ne sont pas accomplies, 1'esprit du mort est destine 
à errcr longtemps sur cette terre dans un état de profonde 
misère» 4 . «Les noirs de la cote des Esclaves croient que 
ceux qui n'ont pas reçu les honneurs fúnebres ne peuvent 
aller dans le pays des morts {orun rere) et qii'ils sont obli- 
gés d'errer çà ot là en ce monde, exposés à être saisis par 

les mauvais esprits qui les maltraitent cruellemcnt 

La conséquence est que le principal châtiment des crimi- 
neis est la privation de sépulture» 5 . Nos Chineses, «quand 
un homme meurt, la troisièmo âme, le Kouei, descend avec 
le corps dans le tombeau. Si la sépulture est convenable, 
elle y reste tant que subsistent les vestiges de la dépouille 
mortelle. Si la demeure dernière laisse à désirer, si elle 
n'est pas orientóe suivant les príncipes du Foung-choueí, 
si les funérailles ne sont pas célóbrées suivant les rites, 
Tâme matérielle s^nfuit dans Tespace, cherche à se réin- 
carner et devient dangereuse pour les vivants» 6 . Passemos 
agora á antiguidade clássica, e deparar-se-nos-ha o mesmo 
respeito pela sepultura dos mortos. Vergilio, por exemplo, 
ao narrar a visita de Eneias com a Sibylla ao Inferno, p3e 
na boca de Sibylla as seguintes palavras: 



1 Marillicr, La survivancc de Vâmc, p. 27. 

2 IdL, iô., p. 29. 

3 Id., iô., ib. 

4 Id. y ib., ib. 

* Id., ib., p. 30. 

6 Boilinais & A. Paulus, Le culU des morts, p. 9-10. 



281 



Haec omnis, quam cernis, inops inhumataque turba est ; 
Portitor illc, Charon ; hi, quos vehit unda, sepulti. 
Nec ripas datur horrendas et rauca fluenta 
Transportare prius, quam sedibus ossa quierunt. 
Centum errant annos volitantque haec litora circum . . . ! . 

depois o troiano encontra a sombra de Palinuro, que, 
tendo ficado também sem sepultura, lhe pede que o livre 
(Vaquella desgraça, e lhe enterre o cadáver que está no 
porto de Velia: 

Eripe me his, invicte, malis : aut tu mihi torram 
lnice (namque potes) portusque require Velinos*. 

Noutro passo da Eneida vemos Euryalo querendo acom- 
panhar o seu amigo Niso numa aventura guerreira, mas 
este recusa- se a adinitti-lo, dando-lho como razão, que, 
se morrer, deseja que haja quem lhe sepulto o cadáver, 
depois de trazido do campo da batalha ou de resgatado, 
ou, que se, como ás vezes acontece, a sorte evitar isto, 
haja ao menos quem lhe faça exéquias e lhe levante um 
cenotaphio : 

Sit, qui me raptum pugna pretiove redemptum 
Mandet humo, sol i ta aut si qua id Fortuna vetabit, 
Absenti ferat inferias decoretque sepulcro 3 . 



1 Eneida, ed. de Júlio Moreira, vi, 325-328. 
Traducçâo de João Franco Barreto : 

Toda essa turba e ajuntamento afflicto 
Gente é, que a sepultura não consume; 
O barqueiro é Charon te, e os que embarcados 
Pela agoa leva, são os sepultados. 
Nem passar se concede o rio horrendo, 
Antes que os ossos em repouso estejâo: 
Cem annos vao voando e discorrendo 
Em redor d'estas praias que negrejào. 

(Eneida rortugutê*, Lisboa 1703, liv. vi, eit. 78-73). 

* To., 16., 365 e 366. 

' Eneida, ed. de Júlio Moreira, ix, 213-215. 



282 



Quando Mezencio está para ser morto por Eneias, em 
combate, a única cousa que pede a este é que lhe per- 
mitta que o cadáver seja enterrado: c corpus humo patiare 
tegi» 1 . O cuidado de ter um tumulo tomava- se pois para 
os antigos uma preoccupaçâo constante. O culto dos mortos 
era a única honra attendida na habitação dos mortos: tqui 
solus honos Acheronte sub imo est» s . Na epocha romana, 
diz Boissier, aon prenait autant de peine pour se préparer 
un tombeau, qu'un chrétien met de soin à se munir avant 
sa mort des derniers sacrements. Cétait le souci de tout 
le monde : on y songeait d'avance, pour n'être pas pris 
au dépourvu» 3 . A epigraphia offerece mesmo as fórmulas 
VIVVS ou VIVO SIBI F E C I T, para indicar que 
o tumulo fora construído pela pessoa que ahi jazia. «L'ftme 
qui n'avait pas son tombeau, diz Fustel de Coulanges, 
n'avait pas de demeure» 4 . As Pyramides do Egypto são 
ainda outro exemplo, bastante conhecido, da importância 
que se attríbuia a um tumulo. 

O facto de querer conservar o cadáver, as ossadas, as 
cinzas da pessoa querida não tem só por si caracter reli- 
gioso, nem basta para demonstrar que se acreditava na 
permanência póstuma do ser, porque esse facto provém de 
um sentimento muito natural ; todavia, attendendo ás ideias 
que circulavâo nos tempos neolithicos, as quaes em muitos 
pontos deviâo ser análogas ás que vimos existirem em vá- 
rios povos incultos, torna se grandemente provável que ao 
simples e natural desejo de conservar o cadáver, as ossa- 
das, as cinzas se alliasse a crença de que dependia de tal 
conservação a perpetuidade e ventura do morto. Não se me 
objecte, dizendo-se-me que ainda hoje nos povos civili- 



1 Eneida, ed. de Júlio Moreira, z, 904. 
1 Eneida, », 23. 

3 Apud C. Jullian, GaUia, 1892, p. 115-116. 

4 La cite antique, p. 10. — Cfr. também, nessa obra, as observações 
e notas de p. 11-12, a respeito do temor da privação de sepultura 
nos Gregos e Romanos. 



283 



zados se embalsamão cadáveres, e se conservão em casa, 
como relíquias venerandas, objectos que pertencerão a 
mortos, ou fizerão parte do seu corpo, como por exemplo 
umas fe veras de cabello, — sem que a isso se associe outra 
ideia que a do amor e do respeito; a objecção vale pouco, 
porque devemos lembrar-nos que muitas vezes os costu- 
mes modernos perderão a significação primordial, e que 
quem agora manda proceder a um embalsamento, ou re- 
colhe com a mais carinhosa sympathia um legado fúnebre, 
pôde fazer isto em virtude de uma tradição já não com- 
prehendida actualmente, mas que remonta a uma epocha 
em que a supradita crença na permanência póstuma do ser 
estava na plenitude do seu vigor. 

Assim os dolmens, como outros monumentos congéneres, 
adquirião aos olhos do homem prehistorico grande signi- 
ficação 1 . Posto que elles, como já a p. 211 se lembrou, 
nem sempre servissem propriamente de sepulturas, ou, de 
ossuarios, mas sim também ás vezes pudessem servir de 
meros cenotaphios, nem por isso a significação deminuia, 
porque um cenotaphio para os povos antigos tinha quasi 
o mesmo valor que um verdadeiro tumulo : ha pouco citei 
um exemplo, colhido na Eneida*. 

No emtanto não se imagine que se basearia sempre ex- 
clusivamente num cândido sentimento de altruísmo ou de 
affecto este cuidado de dedicar aos espíritos dos mortos 
um monumento de tal modo dispendioso, e para aquelles 
tempos magnifico, e de insculpir-lhe nos esteios e na co- 
bertura signaes acaso symbolicos ou mágicos: como já 
notei a p. 101 (e aos exemplos lá citados podem juntar se 



1 Cfr. supra, p. 61. 

2 O uso dos cenotaphios na antiguidade era bastante frequente : 
vid. Eneida, m-304 e (lugar já a cima citado) ix-213 a 215; Suetonio, 
Vida de Cláudio, cap. i (honorarius tumulim). Cfr. também Bvlletin 
des commissions royales d'art et d^archéologie, Bruxelles 1878, p. 391 
c nota; JRevue archéologique, 3.* serie, t xxvn, p. 46; Fustel de Cou- 
langes, La cite antiqut, 8. A ed., p. 8, nota 2. 



284 



muitos mais), diversos povos acre dita vão que as larvas, ou 
sombras maléficas dos mortos, perseguião os vivos, quando 
estes lhes não prestavão as respectivas honras fúnebres 1 ; 
d'aqui a necessidade de as prestar, e entre ellas a construc- 
ção da sepultura nâo é a de somenos valor. 

Ainda porém que assim succedesse nos tempos prehis- 
toricos, não temos direito de arrancar completamente do 
coração do homem neolithico um sentimento que é innato 
geralmente em nós, e que até em alguns animaos se encon- 
tra: a saudade dos mortos. Por isso, e pelo que deixo ex- 
posto acima, os dolmens tinham caracter sagrado : saneia 
religio sepulcrorum. 

Na avaliação da importância que se concede a um tu- 
mulo ha graus: se para uns povos bastão humildes cam- 
pas, abertas na terra, para outros erão precisos sepulcros 
relativamente grandiosos, como os dolmens e os monumen- 
tos congéneres, de modo que á eternidade da existência 
como que correspondesse a eternidade da morada. Quanto 
mais resistente e estável fosse esta morada, tantas mais 
condições de felicidade e de descanso offerecia á alma. 

Sem embargo, como disse a p. 204 sqq., nem todos os 
povos depositão cm sepulturas os restos dos seus mortos; 
mas estou faltando d'aquelles que, como os povos prehis- 
toricos, tinhão, entre outros, esse costume. 

Não é a inhumação o único costume compatível com a 
crença na immortalidade. Logo que se attinja a concepção 
da alma como ser independente, o cadáver pode experi- 
mentar qualquer destino, de accôrdo com os ritos. Neste 
caso está a incineração. Fallando do cadáver de um rei 
de Sião, conta Fernão Mendes Pinto <iue ase ordenou que 
fosse logo queimado antes que a peçonha de que morrera 
lhe causasse algum mao cheiro, porque, se o viesse a ter, 
não podia a sua alma por nenhum modo ser salva» 2 : d'aqui 



* Cfr. p. 101. 

2 Peregrinação, cap. ci.xxnv. 



285 



se vê que o fogo, segundo a crença, não destroe a alma, 
antes opera nella e no corpo certa purificação. Nos Roma- 
nos era tão firme a crença que as almas dos mortos fica vão 
debaixo da terra, que, ainda depois que se estabeleceu o 
uso de queimar os corpos, ella continuou a existir 1 . 

A mamôa, que envolvia o dolmen e o protegia, augmen- 
tava a qualidade protectora das lages, sendo necessário 
estabelecer-se uma galeria para, através do monte de terra, 
se penetrar na camará sepulcral; depois de nesta se não 
poderem depositar mais restos funerários (ou quem sabe se 
por outros motivos?), erão elles enterrados na própria gale- 
ria, o que se tem verificado por occasião de muitas exeava- 
çòes archeologicas. Incidentemente notarei que, tendo as 
grutas artificiaes, e as sepulturas que estabelecem transição 
das grutas para os dolmens, a mesma configuração typica 
d'estes, — camará e galeria — , devião talvez todas tam- 
bém, quando fosse possível, ser cobertas de mamôas. 

Aqui está portanto claramente explicado o motivo de 
os monumentos sepulcraes chamados dolmens apresentarem 
tamanha solidez na sua construcção, relativamente sum- 
ptuosa. Elles erão mais que barracas de vivos : servião de 
perpétuos palácios ás almas dos mortos. 

e) Destino ulterior dos dolmens 

Tendo servido de lugar de repouso mortuário nos tempos 
prehistoricos, os dolmens, no decurso das idades poste- 
riores, de certa epocha em deante, deixarão de ser utili- 
zados para esse fim, e ou o homem os apropriou aos usos 
práticos da vida quotidiana, ou os revestiu de ideias reli- 
giosas, e de poéticas lendas, ou os desprezou e olvidou 
completamente. 

Nem sempre, por tanto, os mortos continuarão a dormir 
alli o seu somno plácido ; innumeras vezes mãos sacrílegas 



1 Fustel de Coulanges, La cite antiqut, 8.* ed., p. 8, nota 1. 



286 



os forão despertar, já por impulso da cobiça, para o des- 
cobrimento de thesouros escondidos, ou para o aproveita- 
mento das pedras dos monumentos, já em nome da fé, á 
procura de relíquias santas 1 , já sob a invocação do nome 
da sciencia, com o intuito de enriquecer os museus e a 
história, e de patentear aos olhos dos curiosos um quadro 
desenvolvido do viver das gerações extinctas. 

De modo que pouco valeu á piedade dos povos neoli- 
thicos o haverem tão cuidadosamente resguardado as ossa- 
das e as cinzas dos mortos dentro de grandes mausoléus de 
pedra, cobertos de terra! O egoísmo humano não respeitou 
as crenças das eras passadas; as relíquias dos defuntos 
ei-las dispersas ao vento, ou constituindo exemplares de 
estudo nos laboratórios dos sábios ; ninguém mais tornou a 
ter uma lágrima de dó para com os que tão heroicamente 
luctárão pela vida, e nos legarão a herança da civilização ! 
D'elles não se poderá pois dizer com um poeta: 

Mortos ! eu vos invejo ! — As frias lagens 
Cobrem- vos, hoje, os corações desfeitos ! 
Ás brancas pombas voào nesses leitos, 
E as meigas aves gemem nas folhagens ! 

A natureza enflora os vis defeitos. . . 
Ri nas estatuas, urnas, nas imagens . . . 
£ ahi, emfira, contentes, satisfeitos, 
Vós descansaes das lúgubres viagens ! * 

As antas no nosso pais começarão a ser violadas em 
epochas relativamente remotas. Muitos observadores tem 
encontrado nellas, e em monumentos da mesma natureza, 
objectos de origem romana, sobretudo fragmentos de telhas 
(tegulae) : vejão-se os escritos dos Srs. Martins Sarmento 3 , 



1 Cfr. supra, p. 21-23. 

2 Gomes Leal, Claridades do Sul, Lisboa 1875, p. 217. 

3 In Revista de Guimarães, m, 143. 



287 



Cartailhac 1 e Bocha 2 ; por mim direi que também tenho 
encontrado nas antas os fragmentos iguaes 3 . 

Como se explicão estes factos ? O Sr. Martins Sarmento 
parece dar a entender que admitte que os monumentos 
funerários de que se trata continuarão a existir como 
taes depois da dominação romana 4 ; o Sr. Cartailhac diz: 
«probablement ils ont servi d'étables ou de cabanos aux 
bergers et aux passants depuis cette ópoque, aussi ren- 
ferment-ils maints débris sans valeur, des tessons de pote- 
rie surtout, de tous les temps» 5 ; Estacio da Veiga propõe 
que a violação das antas pelos Romanos seria devida a 
elles irem ahi procurar instrumentos de pedra como obje- 
ctos de superstição (ceraunias) 6 ; o Sr. Santos Rocha for- 
mula e sustenta uma hypothese no mesmo sentido 7 . 

Os documentos por ora colligidos em Portugal não bas- 
tão para explicar completamente o facto; todavia o appa- 
recimento de tegulas, pregos, fibulas nas antas não se 
harmoniza com a hypothese exclusiva da procura de cerou- 
mas: os instrumentos de pedra devião apparecer nos 
campos ainda em maior abundância do que hoje, e não 
seria indispensável ir desenterrá-los dos dolmens e das 
mamôas; porém isso poderia dar-se uma vez ou outra 
avulsamente. O apparecimento de telhas e pregos faz 
antes pensar que os dolmens em que isso se encontra 
servirião já então, como hoje, de abrigos ou lojas. Nos 
países lá de fora tem-se também observado que nume- 



1 Les ages préhisloriques de VEspagne et du Portugal, p. 167 e 170. 

2 In Revista de adendas naturats e sodaes, m, 5 sqq. 

3 No concelho de Mangualde (anta dos Padrões). — O Sr. Maxi- 
miano ApoNinario, que explorou uma anta no Carvalhal da Loiça 
(concelho de Seia), tambem achou nella vários fragmentos de telha 
de rebordo e de vasos de barro saguntino. 

4 In Revista de Guimarães, m, 143. 

5 Ia» ages préhistoriques de VEspagne et du Portugal, p. 171. 
• Antiguidades monumentaes do Algarve, m, 159-165. 

7 Vid. o seu artigo «A profanação das antas na epocha romana», 
in Revista das sdencias naturaes e soeiaes, ni, 5. 



288 



rosos monumentos sepulcraes prehistoricos forSo violados 
na cpoeha romana, e chegou- se a apurar que em muitos 
(Telles se praticarão sem dúvida alguma inhumaçôes nessa 
epoeha 4 . Sobre a galeria de um monumento sepulcral de 
Alcalar (Algarve), de que fallo adeante, § 7, encontrou 
Estacio da Veiga também uma sepultura romana. As vezes 
porém objectos romanos apparecidos nos dolmens podem 
ter ido para lá por occasi&o do romeximento d'elles ou de 
cavas dos campos, e creio que será o caso mais vulgar; 
isto é certo pelo menos com relação a alguns objectos 
modernos, como fragmentos de louça vidrada, moedas, e 
ainda outros. 

Tomando em consideração os nossos dolmens no seu 
estado actual, ou pelo menos em relação a epochas recen- 
tes, poderemos dizer que ellos: 

1.° — Ou. se utilizão para os usos práticos da vida, — 
pois servem de abrigos transitórios, tanto á gente 1 , como 



1 Sobre cate assumpto vide : 

Alexandre Bcrtrand, La Gaide avant les Gaulois, Paris 1891, 
p. 132, nota ; 

Cartailhac, La Francc préhistorique, cap. xvn. 

Na Tunísia achou Carton cerâmica romana nos monumentos pre- 
historicos, e propõe três hypotheses para explicar este facto : 1) os 
povos seriâo contemporâneos dos Romanos, e ao lado dos vasos 
indígenas poriâo nas sepulturas vasos romanos ; 2) os monumentos 
serviriào de abrigos aos Romanos ; 3) os Romanos aproveitarião os 
megalithos para sepulturas suas. O auctor do artigo prefere a última 
hypothese. (Não dou indicações bibliographicas, porque me esqueci 
de apontar a obra onde colhi os elementos d'esta nota). 

2 Por ex. : a Casa d* Orca, de Fornos de Algodres, de que fallei a 
p. 16, e muitas outras. No jornal portuense A Vida Moderna, n.° 37 
(1895), diz também o Sr. P. e José Isidro Brenha que conhece antas 
que igualmente servem de abrigo a pastores. — Lá fora suecede 
naturalmente o mesmo; dos monumentos megalithicos dos Pyreneus- 
Orientaes dizia Réart em 1833 que «le pfttre de la montagne n'y 
voit que de simples cabanes pour lui servir d'abri dans un temps de 
pluie» (apud Reinach, in Rtvut Archiologiqut, 1893, p. 332, nota 4) ; 
no emtanto, <*c'est avec terreur, dans certains pays, que les bergers 
cherchent un abri sous les dolmens* (ib., p. 331). 



289 



ao gado 1 , servem de estábulos permanentes 1 , servem de 
marcos que limitão freguesias 3 , etc. 

2.° — Ou estão revestidos de caracter sobrenatural, 
a) já sendo assumpto de lendas populares, tidos geral- 
mente como sede de thesouros occultos, e de habi- 
tação de Moiras encantadas*, — d'onde o receberem 
nomes apropriados, taes como os que mencionei 
a pags. 26 e 257, por exemplo, Casa da Moira, 
Cova dos Moiros, Pala da Moira 5 ; 



1 Cfr. um artigo do Sr. P.« José Tavares, in O Archeologo Porta- 
guês, I, p. 108. 

2 Ao pé de Fiaes (Cannas de Senhorim, — na Beira- Alta) vi eu 
em 1894 uma anta, ageitada para loja de gado, e fechada por uma 
porta de madeira ; o dono recolhe ahi 40 a 50 cabeças de gado. — 
No concelho de Avis vi em 1892 também um dolmen que servia de 
loja de animaes, competentemente fechado com sua porta de madeira. 

3 Por exemplo : a orca grande dos Juneacs (Queiriga) e a orca 
grande do Tanque (Carvalhal), ambas no concelho de Sátão, nas 
quaes se lêem datas (século xviii-xix) e lettras gravadas na super- 
fície das lages que servem de chapéus. 

4 Eis uma lenda que ouvi na Beira- Alta (lenda análoga a outras 
de outras terras). Trata- se da «Cova dos Moiros», nome de uma 
orca na freguesia de Senhorim. Uma vez passou ali uma molher 
levando um cesto com o jantar para uns trabalhadores, e estava lá 
uma Moira que disse á molher que, á volta, lhe desse da comida ; a 
molher assim fez, e a Moira disse- lhe que deixasse ali a louça, e 
encheu -lhe o cesto de uma cousa que a molher não sabia o que era, 
mas recommendou-lhe que não descobrisse o cesto senão em casa. 
A molher foi, mas não teve mâo que não descobrisse o cesto para 
ver : só viu carvões, que deitou fora ; como ficassem por acaso uns 
no cesto, que no dia seguinte estavão transformados em oiro, a 
molher correu ao local onde tinha deixado os outros carvões, mas 
já não achou nada. — Esta lenda contém vários elementos, como o 
encanto, a relação entre o carvão e o oiro (cfr. Phedro, Fabulas, 
v, 6, ed. de Epiphanio Dias : carbonem, ut aiunt, pro thesauro inve- 
nimus), a sátyra da curiosidade feminina enganada ; mas não é aqui 
o lugar de os estudar. — A respeito de crenças estrangeiras de the- 
souros enterrados nos monumentos prehistoricos vid. Revue Archéo- 
logique, 1893, p. 204 e 257 (artigo do Sr. Salomon Reinach). 

5 Na Revue Archéologique, 1893, p. 205 sqq. e 345 sqq., mencio- 
nâo-se factos análogos : entidades mythicas habitâo também os mo- 

19 



290 



b) já relacionando-se com a religião enrista, — por 
exemplo, o dolmen do Cabo de Sines, de que fallei 
a pags. 21-23, que foi considerado como sepultura 
de S. Torpes, e d'onde nessa fé se desenterrarão 
ossadas 4 ; 



numentos prehistoricos ; a p. 217 cita-se mesmo uma Cabana dei 
Moro (dolmen dos Pyreneus-Orientaes). 

1 Na freguesia de Arca, concelho de Oliveira de Frades, ha um 
dolmen junto da igreja (Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, 
vol. i, 8. v. Arca); nào sei se o facto da existência do dolmen in- 
fluiria no da edificação do templo ao pé, mas talvez influísse. — 
«Fréminville et Mahé ont note plusieurs fois én Bretagne que des 
chapelles ou des calvaircs avaicnt étó construits tout prés de meuhirs 

et de dolmans pour faire. diversion aufaux culte En Hollande, 

Grata ma a sigoalé la proximité des églises chrétiennes et des dol- 
mens du pays». (Salomon Keinach, in lfevne Archêologique, 1893, 
p. 336). 

Segundo me informa o meu amigo Dr. Mattos Silva, ha em Pavia 
uma capella de S. Dinis, que é uma anta formada por cinco pedras, 
(quatro esteios e cobertura). 

Ao pé do Torrão (Alemtejo) ha uma anta chamada Lapa de 
&. Fausto, oude é tradição que apparcccu o santo, c onde este teve 
um nicho. Estivei lá em Dezembro de 1895, e eftec ti vãmente vi sobre 
o chapéu da anta vestígios de uma eoustrucçào de pedregulho e 
cal, que, segundo dizem, pertenceu ao nicho (e niío comprehcndo 
que outro destino pudesse ter). A poucos metros de distancia, na 
mesma propriedade, ha as ruinas de um templo, onde li a data de 
1G4Õ. A anta está bastante arruinada : se conserva ainda chapéu, e 
alguns esteios em pé, outros estão já cabidos ; os vestígios da gale- 
ria sao incertos. Como outras do Alemtejo, esta anta fica numa 
pequena elevação do terreno, que conterá acaso os restos da mamoa. 
O Sr. Correia Baptista achou no campo situado em volta do monu- 
mento um percutor prchistorico de pedra. — O povo pronuncia de 
differentes modos o nome do santo : ouvi dizer 8. Fausto, 8, Fraústo, 
8. Fagústo e 8. Fragústo; a forma culta lá usada é 8. Fausto. 

Também na Beira ha um santuário da Virgem, chamada da Lapa, 
muito venerado dos fieis. Ainda nao pude ir ver este santuário, nem 
do que a respeito d'elle tenho lido posso decidir se era ou não pri- 
mitivamente um monumento prehistorico. Vi d, a propósito d'esse 
santuário as seguintes obras : 

— António de Vasconcellos, Descriptio regni Lusitani, Antuérpia c 
1621, p. 538; 



291 



c) já tornando-se objecto de qualquer superstição ou 

crendice, — por exemplo, um dolmen de ao pé de 

Pinhel, onde se vão queimar as primícias dos fru- 

ctos, para, da direcção do fumo, se tirar oráculo 

á cerca da boa ou má colheita agrícola nesse anno * ; 

3.° — Ou achão-se totalmente abandonados e esquecidos, 

quer ainda algumas vezes intactos, quer já mais ou menos 

desmoronados, sem o povo lhes ligar alguma ideia ou os 

applicar para algum fim. 

Os factos indicados precedentemente, tanto no texto, 
como nas notas, são de fácil interpretação. 

Que ura dolmen possa servir de abrigo, de loja de gado 
ou de balisa, não tem nada de notável. 

Quanto ao caracter sobrenatural que reveste muitos 
dolmens, isso depende de várias circumstancias : umas 
vezes tal caracter pôde provir directamente do epochas 
remotas, tendo a sanctidade dos monumentos, considerados 
ainda como túmulos, sido a pouco c pouco transmittida 
e modificada, através da civilização pre-romana, romana 
e post-romana (e christã) até o presente; outras vezes a 
lenda, a superstição, a crença formárão-se em epochas 
mais ou menos modernas, em occasião de descobrimentos 



— António Leite, Historia da Virgem da Lapa, 1639, fls. 31-32 v.; 

— Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, m, 158-159. 

A litteratura archeologica de outros países ministra vários exem- 
plos de dolmens transformados em santuários : «nous pouvons mon- 
trer deux dolmens transformes en chapelle, 1'un dana la Charcnte, 
1'autre dans les Côtes-du-Nord», diz Cartailhac, La France préhis- 
torique, 1889, p. 304 ; estes factos franceses sao também indicados 
por Salomon Reinach, in JReuue Archéologique, 1893, p. 335, o qual 
acerescenta: «On cite aussi en Espagne des exemples de dolmens 
transformes en cryptes d'église8 et en chapelles». 

1 Vid. as minhas Tradições populares de Portugal, § 79. No nosso 
país ha outras pedras, mesmo sem talvez terem sido monumentos 
prehÍ8torico8, que dão também oráculos : são os Penedos dos Casa- 
mentos e o Penedo dos cornudos (vid. Tradições populares de Portu- 
gal, § 200). O Sr. Salomon Reinach cita factos parallelos estran- 
geiros : vid. Rtvue ArcIUologique, 1893, pags. 203 e 342. 



292 



de dolmens, tendo o povo feito entrar esta classe de monu- 
mentos, pela sua estranheza e singularidade, no círculo de 
ideias tradicionaes já pre- existente, — verdadeiro thesouro 
mythico e religioso — , e applicado pois a elles o que 
applicava, havia muito, a monumentos congéneres ou pare- 
cidos. Nas Tradições populares de Portugal, cap. vi, occu- 
pei-me de várias crenças populares á cerca das pedras, 
no nosso país, e d'ahi se pôde ver como essas tradições 
são vivazes ainda hoje, e como as lendas e superstições 
relacionadas com os dolmens se asscmelhão a ellas. 

O abandono a que muitos dolmens forão deitados expli- 
ca-se também sem custo. Em primeiro lugar, a Igreja tem 
condemnado insistentemente o culto das pedras. Ainda no 
século xvi um bispo de Lamego, regulando-se por precei- 
tos de antigos concílios, estatue: a defendemos e mandamos 
que com as procissões nam vam a outeiros, nem penedos, 
mas soomente aa igreja, ou hermida onde se faz ho officio 
divino» 4 . Posto que estes e outros anathemas nem sempre 
produzirão effVito, como se prova com a persistência das 
tradições, e posto que a Igreja em certos casos, consciente 
ou inconscientemente, santificou alguns monumentos, — 
não se pode negar que não raro por esto motivo diversos 
dolmens perderião o prestigio tradicional. Mas muitas 
vezes basta o insulamento do local para que os dolmens 
se esqueção. O caracter dos aldeãos também influe nisto 
bastante. A propósito de alguns dolmens que ajudei a 
explorar no Alemtejo, o povo fallava, sim, em Moiros, 
porém rindo-se, e como que somente fazendo-se apagado 
echo de crenças geraes e antigas ; pelo contrário, na Beira, 
onde o povo é mais supersticioso que no Alemtejo, notei 
que não era sem muita desconfiança que ellc me via andar 
a exeavar as casas dos Moiros. 



1 Constituições do bispado de Lamego, anno de 1563, p. 135. 
Com relação a prohibiçoes análogas nos séculos v, vi, vii c yiii, 
vid. Recue Archéologique, 1893, p. 333. 



293 



Em todo o caso, senão na maioria, pelo menos em 
grande número de dohnens, a primitiva noção sobrena- 
tural não se perdeu totalmente : se já hoje ninguém chora 
pelos mortos dos tempos neolithicos, se os seus túmulos 
innumeras vezes forão profanados, — ao menos o povo a 
cada passo olha ainda misteriosamente para a herança 
dos velhos avós! 

<J. Monumentos de transição 

(Entre oa dolmena propriamente ditos e &a cryptaa alcalarenses) 

Seguidamente aos typos mencionados, devo referir-me a 
outra classe de monumentos que como que constituem 
transição d'aquelles para os que chamo alcalarenses pro- 
priamente ditos, ou de Alcalar* (Algarve), que vão apon- 
tados no § 7. 

Todas essas formas de transição são algarvias, e forão 
descritas por Estacio da Veiga: jazigos de Marcella 2 , e 
jazigos «n.° 2 e n.° «3» de Alcalar 3 . 

1. O jazigo de Marcella comp5e-se, segundo o typo usual, 
de camará ou crypta e galeria; mas não só a crypta é cir- 
cular, como também a galeria está dividida, segundo Esta- 
cio, em três partes, que elle chama, começando de fora para 
dentro, átrio, camará central e corredor. No seu aspecto 



1 Em alguns pontos (Testa obra escrevi Alcalá, baseado em Esta- 
cio da Veiga, que escreve assim, de preferencia a Alcalar. Apesar 
de elle dizer, Antiguidades monumentaes, m, 131, «o sítio de Alcalá 
ou Alcalar; depois, preoceupado com a etimologia árabe (loc. laud., 
p. 132), desterra Alcalar, e adopta exclusivamente Alcalá, sem 
motivo real, pois eu estive na localidade, e tanto á gente de lá, 
como á das povoações mais próximas, nâo ouvi dizer sen&o Alcalar ; 
é pois Alcalar a forma legítima, e a única que empregarei d 'ora 
avante. 

2 Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 257 sqq. (com a est xu). 

3 Antiguidades monumentaes do Algarve, ni, 137 sqq. (com a est 
iii e vi). — Digo «n.° 2 e n.* 3», segundo a designação de Estacio 
da Veiga em relação á obra d'elle. 



294 



geral este monumento funerário distingue -se dos dos typos 
precedentes por ser maia regular. 

Eis na ti' g. Cl a planta. 

Quer a erypta, quer a parte da galeria, estavHo calça- 
das de pedras miúdas, de schisto e de calcareo, embebidas 
no solo. Já a cima, na p. 246, vimos que a sepultura do 
Arrife era também calçada d'uquella maneira. Em dolmens 
do Norte do Tejo teni-se igualmente encontrado pedras 
miúdas, do que fallarei adeaute, p. 314; mas parece haver 
differença quanto á disposição d'ellaa, porque nesses, pelo 






menos em alguns, as pedras cobrião os ossos, ao passo 
que no monumento de Maroella, segundo diz Estacio da 
Veiga, as pedras cstavão embebidas no solo '. 

Internamento a erypta offerece também uma particula- 
ridade : é dividida em tres compartimentos, que na fig. 61 
se indicio com a lettra I, (formados por lages toscas, 
cravadas no solo, mas pouco elevadas, sendo os seus pa- 
vimentos calçados de pedra miúda 1 ». Esta divisão é muito 
curiosa e significativa: já a cima vimos o mesmo facto 
numa das grutas de Palmella 3 , e no monumento da Folha 
das Barradas *. 



1 Cfr. os lagedoa dos dolmonn. de quf fallei a p. 276. 

1 Estacio da Veiga, ob. cit„ i, 259. 

1 M., ibid., pags. 231 e 232. 

* Id-, ibid., p. 241. Ahi so propSc uma explicação d'e!le. 



295 



Do mesmo modo que no jazigo do Arrife, que descrevi 
a p. 246, havia na crypta de Marcella, tanto dentro de 
um dos compartimentos de que acabo de fallar, como no 
espaço adjacente, umas lages, sendo uma tosca, e a outra 
mais ou menos circular, sobre as quaes estavâo collocados 
ossos humanos, vasos e instrumentos de pedra ! . O intuito 
devia ser o mesmo que foi indicado a pags. 247 e 248, 
a propósito do Arrife : reservar um sítio especial para se 
collocarem certos despojos mortuários; — o que combina 
com a divisão da crypta em espaços secundários, também, 
ao que parece, reservados. O encontrarem-se assim ossos 
avulsos sobre uma pedra faz admittir que o jazigo nSo era 
sepultura propriamente dita, mas sim ossuario. 

O monumento, quando Estacio o explorou, já não tinha 
mamôa, mas devia tê-la tido, havendo desapparecido com 
as lavouras 2 . 

2. O monumento «n.° 2» de Alcalar, cuja planta e perfil 
dou na fig. 62, extrahida da obra de Estacio da Veiga 3 , 
é, segundo parece, bastante semelhante ao de Marcella: 
muita regularidade da crypta (circular), grande extensão 
da galeria annexa. DifFerença-se do «n.° 1» de Alcalar, 
(vid. p. 267), não só nesta extensão da galeria, mas tam- 
bém em que as paredes da crypta, em vez de serem con- 
vergentes superiormente como naquelle, mantém em toda 
a altura o mesmo aprumo, — isto é, tem forma de poço. 

Neste jazigo apparecêrão ossadas humanas, muitos obje- 
ctos de pedra, caracteristicamente neolithicos, e já alguns 
de cobre, o que mostra invasão de nova civilização. 

Da disposição das ossadas julga Estacio da Veiga poder 
deduzir que ou os cadáveres ceram dobrados pelas articu- 
lações superiores das pernas e encostados ás paredes, ou 
os enterramentos se faziam cm sepulturas isoladas, e o 



1 Estacio da Veiga, ób. cit., i, 259. 

* Id., ibid., i, 258. 

3 Vol. iii, est iii, deante da p. 136. 



dolmen era apenas um ossário destinado ao deposito dos 
restos humanos, armas e utensílios de cada individuo; e 




se assim succedia em certo numero de casos, a própria 
construccXo áo dolmen poderia ser determinada quando já 



houvesse um crescido número de sepulturas para exiumar, 
a fim_de que os ossos dos que foram durante a vida apre- 




ciáveis companheiros, e dignos de memoria dos que fica- 
ram, tivessem abrigo mais seguro e venerado» '. 



1 Antiguidade» monvmentae* do Algarve, in, 140-141. 



298 



Entre os poucos objectos de cobre, ha uma agulha, que 
foi achada a dobrada e com mais outra curvatura a curta 
distancia do fundo» 1 . Estacio da Veiga julga intencional 
a deformação, e compara-a com a que também se mostra 
em algumas lanças e adagas de ferro achadas em Alcácer- 
do-Sal, numa necropole que data dos princípios do período 
de ferro *, suppondo haver aqui o vestígio de um rito fune- 
rário; mas de um facto único mal se poderá, creio eu, 
concluir isso. 

3. Do monumento «n.° 3» de Alcalar (crypta e mainôa) 
dou a planta e o perfil na fig. 63. 

Comparando esta figura com a dos outros monumentos, 
vê-se que ha bastante differença, senão no typo geral da 
construcção, pelo menos em dois pormenores : um átrio 
diverso, e uma espécie de nicho appenso á crypta, e com- 
municando com ella. 

Estacio da Veiga descreve assim o átrio e o resto da 
galeria: aO átrio é quadrado, com 1 metro por lado, e 
fechado externamente por dois travessões unidos e dispostos 
transversalmente, á maneira de degraus, sendo o primeiro 
mais alto que o segundo. O átrio está externamente re- 
forçado por uma segunda ordem de grossas lages, encos- 
tando ás do revestimento interno, e a porta para a gale- 
ria ficou de tal modo encravada, que não seria possível 
abrir-se sem se desmanchar parte do átrio; o que deixa 
presumir que o monumento, sendo simplesmente um ossá- 
rio, depois do receber as exhumaçSes a que tinha sido 
destinado, foi assim fechado para não mais se poder abrir. 
A galeria está dividida por batentes lateraes em três sec- 
ções, mas só a última, que serve de antecâmara da cry- 
pta, tem porta que abre para dentro, podendo encostar 
a um dos lados» 3 . 



1 Estacio da Veiga, ob. cit., p. 151. 

z Cfr. O ArcJieologo Português, I, p. 78-79. 

3 Antiguidades monumtntaes do Algarve, m, 158, 



299 



Neste monumento apparecêriío muitos ossos humanos, 
muitos instrumentos de pedra, e bastantes de cobre, uma 
lamina de marfim, fragmentos cerâmicos, graes de pedra, 
contas, etc. 

O nicho lateral era certamente um espaço reservado, 
análogo aos que mencionei a p. 294, fallando dos jazigos 
de Palmella, da Folha das Barradas, do Mareei la e do 
on. ft 2» de Alcalar; nesse nicho apparecêriío umas célebres 
facas de silex, tão grandes, que níio só fazem suppôr que 
o individuo, cujos ossos haviào sido depositados no nicho, 
era alto personagem, mas que ellas, por mal poderem 
servir na prática, constituiriâo meras offerendas fúnebres, 
ou symbolos *. 



O jazigo de Marcella não revelou objectos metallicos : 
por este facto, admittindo-se que nunca os tivesse, apro- 
xima-se das mamoinhas da Figueira e dos outros monu- 
mentos em que não se encontrou metal ; mas na sua con- 
figuração distingue-so d^lles, por estes serem extrema- 
mente rudes. Nos jazigos «n.° 2» e <n.° 3» a regularidade 
e complexidade da forma vão augmentando; nelles appa- 
rece também metal, ao lado da pedra, facto que se repete 
nos monumentos alcalarenses propriamente ditos; todavia 
estes s£o compostos de pedras meudas e fechados em abo- 
bada, o que nâo acontece nos jazigos «n.° 2» o «n.° 3». 

7. Monumentos olcalarense» propriamente ditou 

Será ainda da obra de Estacio da Veiga 1 que extrahirei 
o que vou dizer destes monumentos, porque foi elle quem 
os explorou e descreveu. Os monumentos tem nessa obra 
os n. os 4, 5, 6 e 7, pelos quaes também aqui os designarei. 



1 Cfr. Estacio da Veiga, Antiguidades mon. do Algarve, iii, 170. 
* Id., ibid.j iii, 131 aqq. 



Alcalar é um sítio na freguesia da Mexilhoeira-Grande, 
concelho do Villa-Nova-de-Portimilo (reino do Algarve). 




301 

1. Offcreço aos leitores na fig. 64 a planta e perfil do 
monumento m." 4», cuja extensão totaí é de H m ,80, tendo 
de altura a galeria l m ,65 e u crypta 2",10 (máxima). 





A galeria é formada por grandes raoiiolithos, e do mesmo 
modo coberta. É pois semelhante & das antas em geral ; 
mas este estylo «parou como repentinamente nas ligações 



302 



lateraes da galeria com a crypta, onde não ha encontrar 

uma pedra de grande vulto» ! . A crypta tem, como 

se vê, aspecto de forno. Nella abrem-se a certa altura 
dois nichos, análogos ao que vimos no monumento «n.° 3» ; 
os nichos são construídos da mesma maneira, com pedras 
de pequenas dimensões, de schisto. 

Em resumo : a galeria é feita de grandes lages ; a camará 
e os nichos, de pedras pequenas. 

Neste monumento apparecêrão ossos humanos, junta- 
mente com fragmentos cerâmicos, objectos de pedra, de osso, 
de marfim, de ouro, de cobre ; Estacio diz também haverem 
apparecido nos entulhos umas lages enigmáticas, que tinhão 
«configuração trapeziforme rematada superiormente em ar- 
catura» a , medindo uma d'ellas quasi O m ,70 de altura. O 
apparecimento de tacs pedras dentro de monumentos sepul- 
craes prehistoricos não é facto avulso 3 . 

2. Do monumento «n.° 5» dou a planta e perfil, na 
fig. 65. 

De todos os monumentos é este o menor. 

A crypta, que mede até á porta da galeria, abrangendo 
a espessura do muro, quasi 2 metros, e no diâmetro trans- 
versal l m ,80, nâo é bem circular, é formada por pequenas 
lageas horizontaes de schisto estratificado, convergindo 
para o eixo vertical; os constructores reforçarão a crypta 
«com uma segunda volta de encosto, do mesmo apparelho, 
enchendo os interstícios com terra, que não parece ter sido 
molhada» 4 . A estructura do monumento é análoga á do 
n.° 4; mas a crypta não tem nichos. 

Neste monumento apparccêrão ossos humanos, objectos 
de pedra e vasos de barro. 



1 Antiguidades monvmentaes do Algarve, p. 185. 

* Ibid., p. 198. 

' Transversalmente sobre o topo da galeria tinha sido aberta 
uma sepultura romana, onde Estacio achou fragmentos de uma urna 
de vidro, e um médio-bronze de Cláudio I. — Vid. p. 226. 

« Ibid., p. 227. 



3. Na fig. 66 represento a planta e perfil do monn- 
mento <n.° 6». 




Este monumento é bastante semelhante ao «n.° 5», só 
maior ; a crypta não tem degrau á entrada, por estar no 
mesmo plano da galeria. 



304 



Os antigos profanadores do monumento deixarão nelle 
poucos objectos ; Estacio já lá não encontrou nem sequer 
ossos dispersos. 

4. Finalmente na fig. 67, represento a planta e perfil 
do «n.° 7», o ultimo monumento d f esta serie. 

É do mesmo typo dos outros, tendo dois nichos a crypta, 
mas differe na galeria, que, em vez de ser constituída 
por pedras grandes, o é «por muros de lages de schisto 
sobrepostas em fiadas horizontaes, como somente nos 
três antecedentes eram construídas as cryptas» ', embora 
coberta de lages. A cerca do modo de se fechar a crypta, 
escreve Estacio: «O corte mostra que a crypta, chegando 
á elevação de 2 m ,50, ficou apenas com uma abertura do 
diâmetro de l m ,60, a qual foi fechada com duas lages 
unidas, tendo uma l m ,20 e a outra m ,90 de comprimento, 
com a espessura de m ,35. Estavam um tanto descaídas, 
porém deixando ver qual era o modo de completar a cober- 
tura d'aquellas construcçSes com apparente forma de abo- 
bada de pleno cimbre, mas em que a estruetura do arco 
na disposição do material era completamente desconhe- 
cida» *. 

Neste monumento encontrárão-sc ossos humanos, a par 
de ossos de animaes, e objectos de pedra o de schisto, 
mas nenhum de metal. Os nichos nada continhão. 



Todos estes monumentos estavão cobertos de terra e 
pedras, como se mostra nas figuras. 

Não são os únicos que existem na localidade ; Estacio 
da Veiga deixou ainda mais por explorar 3 . 



1 Ob. ât., p. 237. 

* Ibid., p. 239. 

3 Vid. ob. cit., p. 243. 



305 



Alcalar apresenta-se-nos, pois, como uma interessante 
necropole dos tempos prcliistoricos. 

Durou, sem dúvida, muito tempo, e recebeu em si as 
relíquias de diversas civilizações : o monumento «n.° 1», 
descrito a p. 267, é extremamente rude, tendo-se achado 
nelle somente objectos de pedra; os monumentos seguintes 
vão-se aperfeiçoando, e revelando na complexidade da 
forma o progresso humano, novas aptidões, conhecimento 
mais profundo da arte de construir, c da mechanica, o que 
condiz com o facto de apparecerem objectos de cobre a 
par de objectos de pedra. 

Esta duração de uma necropole não é cousa que sur- 
prehenda. Em muitas das nossas igrejas ha sepulturas 
que provém da Idade-Media, podendo seguir-se as datas 
dos túmulos desde então até o presente. São factos bem 
conhecidos; escuso de os especificar. 

A primeira vista pôde parecer que a diversidade de 
monumentos que se encontrão na vasta necropole de Àlca- 
lar não é motivo suficiente para fazer suppôr que nella 
sepultarão muitas gerações, de civilização variada, os seus 
mortos, pois, assim como hoje, num cemitério ou numa 
igreja, se observão túmulos ricos e pobres, pequenos e 
grandiosos, humildes e artisticamente trabalhados, também 
em Alcalar poderia ter suecedido o mesmo, e pertencerem 
todos aquelles túmulos a um único povo e a uma única 
epocha : mas tal razão não basta, porque, se aquella diver- 
sidade de formas e de processos architectonicos dependesse 
só da maior ou menor riqueza dos construetores, sendo con- 
temporâneos os monumentos uns dos outros, devia notar-se 
a mesma diversidade noutras estações portuguesas, onde 
necessariamente havia também ricos e pobres: ao pé de 
antas mesquinhas, esperar-se-hia admirar mausoléus primo- 
rosos. Como, a julgar do que actualmente se conhece da 
archeologia portuguesa, esse facto não se dá, é que Alcalar 

20 






306 



constitue grande excepção; é que alli existirão condições 
especiaes, — quero dizer, a estação durou muito, e recebeu 
o influxo de civilização ou civilizações mais adeantadas 
que as que dominarão noutras regiões portuguesas. 

H. Monumentos de tran»icfto entre os precedentes 

e as cistas 

O Algarve, como província carinhosamente estudada 
pelo benemérito Estacio da Veiga, que não se poupou a 




Pig. 68 



esforços nem a cuidados para conhecer a archeologia da 
sua terra natal, offerece realmente muitas variedades de 
formas sepulcraes prehistoricas. Não admira, por tanto, 
que eu recorra mais uma vez ás Antiguidades monumentaes 
do Algarve, colhendo lá o assumpto d'este paragrapho. 

No sítio da Nora c do Serro do Castello encontrou 
Estacio da Veiga duas sepulturas, cuja configuração differe 
da. das precedentes, como se vê das respectivas plantas 
que dou nas íigs. 08 e 69 *, e se aproxima da das cistas. 
Tem forma trapezoidal. 



1 Extraliidas das Antir/uMadcs do Algarve, i, est. xii; iv, est. xvi. 



307 



1. O monumento da Nora foi formado por excavaçâo, 
e dividido em três partes distinctas (átrio, corredor médio, 
crypta); o perímetro da eonstrucção foi guarnecido de 
menhires, medindo os da crypta l m ,40 de altura, a qual 
vae deminuindo até os da galeria, que estão reduzidos 
á altura de O^íiO. A extensão total interna do monumento 
é de 8 metros, é a máxima largura, tomada no fundo da 
crypta é de l m ,90 ! . O pavimento estava ainda calçado 
de pedra miúda, facto que já observámos noutros monu- 
mentos funerários descritos a cima. 



ese ^& . m »'\ 0N0 



Fig. G9 



Nelle apparecêrâo ossos humanos, e objectos de industria 
neolithica. 

2. Do monumento do Serro do Castello diz Estacio: 
«foi coberto, com a crypta ainda revestida de grandes 
e toscas lages de schisto, medindo de comprimento l m ,40 
c de largura l m ,lO. O corredor ainda conserva algumas 
lages, formando-lhe os flancos, mas perdeu uma parte 
da sua extensão primitiva» 9 . O actual comprimento interno 
do monumento é de 2 m ,20. 

Este monumento tinha sido despejado; todavia Estacio 
encontrou lá ainda alguns fragmentos de ossos humanos, 
um pedaço de faca de silex e vários restos de louça igual 
á de todos os dolmens neolithicos. 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, i, pags. 249-250. 
* Ibid., i, p. 292. 



308 



Estacio da Veiga chaina a ambos estes monumentos 
adolmcns cobertos de túmulos*. Com quanto o scjão, c 
haja, pelo menos entre o primeiro e os que descrevi no 
§ 4 (Monge c Arrife), alguma semelhança, todavia, a julgar 
da planta, a configuração externa ó mais parecida com a 
das «cistas», e por isso constitui com a dcscripçâo d'elles 
um paragrapho de transição. 

0. Cista.s (e antellas) 

Em archeologia prehistorica emprega-se a palavra in- 
glesa cist para significar um tumulo que consiste numa 
caixa quadrangular, fechada pelos seus quatro lados por 
pedras, e com tampa também de pedra. Estacio da Veiga 
e o Sr. Santos Rocha traduzem esta palavra por cisto*. 
Os franceses dizem no mesmo sentido ciste. Como a ori- 
gem das duas formas 6 o latim cista, que por seu turno 
vem do grego xútty) 2 , entendo que em português devemos 
dizer cista, do género feminino, e não cisto, do género 
masculino, embora em inglês dst seja neutro 3 . Vem pois 
cista a ser forma parallela de cesta, que tem o mesmo 
etyrao, divergindo apenas uma da outra, cm aquella ser 



1 Antiguidades do Algarve, e Antiguidades da Figueira, passim. 

2 Cfr. W. Skeat, A concise elymological dictionary, 1887, p. 78. 

3 EfFcctivamente nao ha motivo nenhum para dizer cisto com -o. 
Sc é para aportuguesar o francês, isso n3o pôde ser, por que ciste 
cm francos 6 palavra feminina. Se é para aportuguesar o inglês, 
isso também nao pode ser, porque o meio de a aportuguesar seria 
juntar -e, do mesmo modo que, para aportuguesar o inglês botei e 
piss-pot, se diz cm português bule e bispote; e ha muitas outras 
palavras portuguesas do género masculino acabadas em -e. Mas, 
como a palavra é originariamente feminina, grego xíoru, o meio natu- 
ral de a aportuguesar c dar- lhe a forma cista. 



309 



de origem litteraria, e por tanto moderna, e esta de origem 
popular, e por tanto antiga. O haver em português cesto, 
a par de cesta, não é razão para se dizer cisto, porque 
cesto pertence a outra categoria lexicologica. 

Nas Antiguidades do concelho da Figueira, vol. II, 
p. 49, descreve o Sr. Santos Rocha uma cista, que, com- 
quanto não manifestasse objecto algum de arte ou indus- 
tria, pertencerá, segundo o A., á epocha neolithica*. Esta 
cista formava uma camará rectangular de O m ,75 de compri- 
mento, de m ,52 de largura e de ra ,64 de altura, cora 
uma tampa de l metro de comprimento e m ,90 de lar- 
gura; aos interstícios das lages estavam tapados com 
algumas laseas de pedra, e o pavimento da camará era 
formado pelo solo natural» 8 . Nesta sepultura encontrá- 
rão-se ossadas pertencentes a dois individuos, um adulto 
e outro adolescente ; o tamanho da caixa faz crer que o 
corpo do adulto foi sepultado de cócoras 3 , costume que se 
observou noutras regiões, nos tempos prehistoricos. 

Na epocha do metal as cistos tornão-se um typo muito 
frequente de sepulturas. «Originariamente pertencentes 
á ultima idade da pedra, passaram a ser usadas durante 
a idade do bronze (e do cobre), e ainda na primeira idade 
do ferro, em todo o território do Algarve» 4 . 

As cistos que o Sr. Santos Rocha tem observado no 
concelho da Figueira não são (diz-ni'o elle em carta par- 
ticular) cobertas de mamoinhas ; pelo menos nada as reve- 
lou: estão simplesmente enterradas no solo natural. 

O Sr. Martins Sarmento nos seus estudos sobre archeo- 
logia prehistorica refere-se a uma classe de monumentos, 
que denomina antellas, que parece se aproximão das cistos, 
mas que, como as antas, são cobertos de mamôas, embora 



1 Loc. laud., pags. 51 e 76. 

2 Ibid.y pags. 49 c 50. 

3 Ibid., p. 85. 

* Antiguidades monumentais do Algarve, i, 94, nota. No vol. iv 
desta obra refere-se particularmente ás cistas do período docobre. 



310 



geralmente mais baixas 1 . «Eu chamo antella, diz elle, 
uma simples caixa formada de pedras, mettidas de cutello. 
Outras pedras postas de través serviâo-lhe de tampa. Esta 
caixa pôde ser de maiores ou menores dimensões; mas, 
como a sua altura não é grande, a mamôa que as cobria 
tinha também pequena elevação. A major antella que 
tenho visto é a da Casa da Moura, em Villa-Chã, concelho 
de Barcellos: a sua altura é de 2 metros, comprimento 
3 IU ,3õ, largura l m ,5, mas a maioria das que examinei tanto 
ahi, como noutras partes, não chega á metade d f estas 
dimensões» 2 . Nas antellas tem o Sr. Sarmento encontrado 
instrumentos de pedra 3 , a par, segundo refere, de alguns 
instrumentos metallicos 4 , — o que mostra que a civilização 
que estes últimos representâo se ia a pouco e pouco sobre- 
pondo á dos primeiros. 

Muitos archeologos considerão as cistos como antas em 
ponto pequeno 5 ; mas, alem da falta de galeria, ha uma 
differença capital: a entrada para ellas era por cima, ao 
passo que a entrada para as antas era pela frente 6 . 



1 Que antella é nome antigo e de certa generalidade vê-se do 
onomástico: a Chorographia do reino de Portugal de J. Maria Baptista 
offerece uma Antella c duas Antellas. O Sr. Sarmento, nos seus 
escritos, cita também sítios com o nome de Antella (vid. especial- 
mente um artigo seu in O Paniheon, 1880, p. 21). — E Antella um 
deminutivo de anta, como Palmella o é de palma, Agbella de 
agra, Covella de cova, etc. — Da palavra antela no onomástico da 
Galliza fallei a cima p. 25, nota. 

2 In Revista de Guimarães, v, 113 e nota. 

3 In Revista das sciencias naturaes t sociaes, in, 68. 

4 In Rerisla de Guimarães, v, 113. Cfr. também o que digo a cima, 
p. 71-72. 

5 Cfr. Cartailhac, Les ages preliistoriques, p. 213. 

6 No Boletim da Associação dos Architectos e Archeologos, ii, 177, 
descreve-se um tumulo apparecido na Tapada da Ajuda (Lisboa), 
o qual parece se aproxima das antellas do Sr. Sarmento ; mas da 
descri pçâo não posso determinar rigorosamente a que epocha elle 
pertencia. 



311 



Provavelmente um estudo mais circumstanciado (Teste 
assumpto levará á conclusão de que antellas e cistos são 
uma e a mesma cousa. 

IO. Sepulturas diversas 

Alem dos monumentos indicados, talvez no nosso país 
haja ainda outros, que devessem ser mencionados e des- 
criptos neste lugar; mas, na classe de monumentos bem 
definidos, não conheço mais nenhum. 

A propósito citarei aqui alguns factos, que necessitão 
de ser opportunamente esclarecidos após novos descobri- 
mentos archeologicos. 

1. Antinhas. «Com o nome do antinhas, escreve o 
Sr. Martins Sarmento, são conhecidas, desde Belmonte até 
Idanha-a-Velha, algumas construcçoes, que não sabemos 
classificar, por não podermos fazer delias uma perfeita 
ideia. São antas? São antellas? Forcejámos inutilmente 
por apurar se estas construcçoes tinham um dos lados aber- 
tos. A resposta insistente é que são uma espécie de poço. 
Sendo antas, falta-lhes cm todas a mesa. Umas são redon- 
das; outras quadrílongas. As redondas compoem-se de sete 
e oito pedras, que tem de altura, umas 3 outras 4 metros 
e mais. Estão descobertas; mas é para notar que outro 
nome com que são designadas é o de nuidorras, que em 
muitas partes é synoniino de mamou. Algumas occupam o 
cimo dos outeiros, como a do Torrão (Idanha-a-Velha), 
que fica no alto do Cabeço dos Mouros; outras acham-se 
em planicies. Nomearam-nos, alem das do Cabeço dos Mou- 
ros, uma em Belmonte, perto do Zêzere ; três na Ribeira da 
Meimoa; uma perto da quinta do Ortigal; uma no Arun- 
dinho, perto de Unhaes ; três na ladeira dos Vinte. Tem 
sido encontradas dentro d'ellas cunhas que medem de com- 
prido 20 a 25 centimetros, e 8 a 10 de largo, e estas tem 
a côr preta, e parecem de pedra (machadinhas, sem dú- 
vida). Demais d'isso, apparecem também costelletas como 
de porco, mas dispersas, e tem a côr de café escuro; são 



312 



rijíssimas, e, feridas com fu8tl, ferem lume, como se fossem 
pederneiras (facas de silex, parece)» 1 . 

Também nada tenho que accrescentar á informação re- 
ferida; mas mal se pôde duvidar que se trate de monu- 
mentos da epocha neolithica. Se, como suspeito, esses 
monumentos forem antas, achamos pois entre antinhas e 
antas a mesma relação grammatical que entre mamoinhas 
e mamôas, isto é, dois nomes, um na sua forma plena, outro 
na sua forma deminutiva, para significarem a mesma cousa, 
facto nada estranho na vida da linguagem, pois, por exem- 
plo, á palavra portuguesa sol, do latim sol, corresponde 
a palavra soleil, do deminutivo latino soliculus. 

O onomástico também offerece a forma Antinhà*. 

2. Mamoellàs. As mamodlas, termo usado no concelho 
de Esposende, são mamôas que cobrem a um monumento 
sai generis, composto de duas pedras semelhantes a esteios 
em posição vertical, e cuja base pousa numa espécie de 
pia. Sepulturas doeste género s*to vulgares nos arredores 
de Esposende, segundo parece» 3 . 

11. Questões correlativas 

Tratarei neste paragrapho alguns assumptos que, por se 
referirem a mais de uma classe de monumentos, não forão 
tratados nos paragraphos precedentes. 

a) Modo de deposição dos restos funerários nos sepulcros 

Parece ser facto averiguado noutros países que os ca- 
dáveres nes tempos prehistoricos erâo muitas vezes depo- 
sitados de cócoras nos sepulcros. 



1 In Relaíorio da expedição da Sociedade de Geographia de Lis- 
boa á Serra da Estrella, por F. Martins Sarmento, p. 23. 

2 Na Revista de sciencia* naturatê e sociaes, iii, 64, diz o Sr. Mar- 
tins Sarmento : «Em Esposende são conhecidos os nomes dVzníot e 
Mantinhas. Ignoro porém a differença que se marca entre umas e 
outras». Mas trata -se de nomes communs ou de nomes próprios? 

3 Martins Sarmento, in Revista de «o. natur. e soe., nx, 64. 



313 

A cerca do nosso país não ha ainda factos positivos, ha 
apenas presumpçSes. Já a cima (Alcalar n.° 2) citei umas 
palavras de Estacio da Veiga. Fallando das sepulturas da 
Torre dos Frades, diz o mesmo A.: «O systema de en- 
terramento em tão apertado espaço, tendo sido o da inhu- 
maç&o, só pôde conceber-se que tivesse podido effeituar-se 
com os cadáveres dobrados pelas articulações dos fémures 

e encostados em torno do espaço excavado em que 

achei os crânios, ou entSo que os enterramentos se fize- 
ram em cistos, passando-se depois os ossos para aquelle 
deposito i 1 . O sr. Santos Rocha, em virtude de considera- 
ções que faz, suppSe também que na cista da Asseiceira 
se enterraria um cadáver de cócoras *. Costumes parecidos 
se observâo nos povos selvagens. Quando morre um Cafre, 
diz Fr. João dos Santos, «fazem- lhe a cova dentro no 
mato, onde o metem quasi assentado* 3 . Na Lunda os mortos 
enterrSo-se também sentados, mas com a cabeça e os joelhos 
de fora da cova 4 . Para explicar a inhumaçSo de cócoras, 
que se observa nos túmulos prehistoricos, tem sido enuncia- 
das várias hypotheses, algumas porém, como creio, pueris. 
A mim parece-me que a posição do cadáver de cócoras 
ou sentado é uma posiçfto de commodidade para quem, 
segundo as crenças reinantes, tinha de ir viver no outro 
mundo. Haveria nisto um rito fúnebre. 

De compartimentos reservados em que se depunh&o em 
certos casos os restos mortuários disser&o se a cima, p. 299, 
algumas palavras. 

O Sr. Santos Rocha observou que nas cistas da Assei- 
ceira e no megalitho de Santo Amaro da Serra (concelho 
da Figueira) os cadáveres tinhfto sido cobertos de areia ou 
de terra arenosa 5 ; o mesmo facto foi notado pelo Sr. P. ê 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, i, 282. 

2 Antiguidades prehistoricos da Figueira, n, 85 ; in, 169. 
5 Ethiopia Oriental, liv. i, cap. xv. 

4 Henrique de Carvalho, Ethnographia da Lunda, p. 513. 
* Antiguidades do concelho da Figueira, ih, 169. 



314 



Raphael Rodrigues em antas do Carrazedo do Alvão (con- 
celho de VilRt Pouca de Aguiar), como elle me disse. 

Ao referir-me, a p. 294, á camada de pedra miúda que 
cobria o chão de várias sepulturas algarvias, prometti 
deixar para este lugar o occupar-me das pedras da mesma 
natureza que apparecem em alguns dolmens do Norte do 
Tejo. No dolmen de Montabrão (Bellas) encontrou Carlos 
Ribeiro grande quantidade do seixos de quartzite, calca- 
reo e basalto, quasi todos de forma ovoidal, de grandezas 
variáveis, desde o tamanho de uma amêndoa até o de uma 
maçã grande; estes seixos, que mostrão ter sido colhidos 
nos leitos das ribeiras próximas, estavão, em parte mistu- 
rados com a terra da camada superficial do dolmen, em 
parte constituindo um manto ou camada que cobria alguns 
ossos humanos : de tudo isso conclue aquelle illustre paleo- 
ethnologo que a preferencia dada aos seixos da ribeira sobre 
os fragmentos angulosos de calcareo e basalto, em que abun- 
da o solo adjacente ao monumento, parece provar que as 
cerimonias fúnebres exigião o emprego de pedras sem ares- 
tas, isto é, de seixos rolados, não sendo pois taes seixos 
destinados a protegerem os restos mortaes alli sepultados, 
pois para isso bastarião os seixos da localidade, mas sim a 
significarem uma ideia ou preceito religioso, lançando na 
jazida cada um dos que assistia ao enterro uma pedra 
arredondada f . O sr. Santos Rocha, que também tem 
encontrado cascalho dentro das sepulturas neolithicas do 
concelho da Figueira, pende igualmente para a hypothese 
da significação religiosa, suppondo que poderia esse facto 
comparar-se com o costume que hoje ainda existe em 
Portugal de os assistentes lançarem um punhado de terra 
na sepultura no acto da inhumação do cadáver 9 . Pela 
minha parte tenho encontrado em alguns dolmens seixos 



* Estudos prehÍ8torico8, ii, 61. — Cfr. Cartailhac, Les âgts préhis- 
toriques de VEspagne et du Portugal, pags. 137-138. 
1 Antiguidades prehistoricas da Figueira, i, 38, 



315 



rolados pequenos, mas sem que (Tisso me julgue auctori- 
zado a tirar nenhuma deducçSo rigorosa. O que diz Carlos 
Ribeiro relaciona-se com a cerimonia de deitar uma pedra 
sobre um tumulo ; as accumulações de pedra tinhão outr'ora 
entre nós o nome de fieis de Deus ', conservando-se ainda 
esta phrase na toponymia. 



1 Vid. as minhas Tradições populares de Portugal, § 208 (onde 
juntei algumas notas), e também: 

Tylor, Civilisation primitive, n, 149 ; 

Reinach, in Revue ArchèóLogique, xxi, 342-343 ; 

Katzel, Las razas humanas, i, 146 e 94 ; 

Revue Archéologique, xxv, 104 ; 

Matériaux pour Vhistoire primitive et naturelle de Vhomme, v, 
410-411 ; 

Museo de antigúedadea espafiolas, vn, 228 ; 

Ré vi lie, Les religions des peuplcs non-civilisés, i, 174; e cfr. Reli- 

» 

gions du Méxique, pags. 228 e 242. 

Cfr. Smith, Diction. of greek and rotn. antiq., s. v. hermae, p. 602; 

e Henrique de Carvalho, Ethnographia da Lunda, p. 514. 

Clémence Royer filia os fieis de Deus no costume de cobrir o 
cadáver com ramagens e pedras, para o defender dos animaes 
ou mesmo para o aprisionar (in Revue cTÂnthropologie, v, 444-445). 

O seguinte costume dos povos da Lunda parece esclarecer este 
ponto: 

«Todos os que passam por pé de uma sepultura, fazem- no com 
certo respeito, e é frequente quebrarem um tronco de um arbusto 
próximo, antes de se aproximarem, e lançam sobre ella o ramo, 
quando passam, batendo em seguida com a mão no pé do lado da 
sepultura . ... lançam o ramo para não serem perseguidos em sonhos 
pelo sepultado, e batem o pé, para que caia toda a terra que pudes- 
sem trazer pertencente á sepultura, a qual poderia tirar-lhes a 
força para andarem d'ahi em deante» (Henrique de Carvalho, Ethno- 
graphia da Lunda, p. 515). Cfr. também Ratzel, loc. laud. 

Assim, o facto de cada pessoa atirar com uma pedra para sobre 
uma campa, facto hoje sem sentido, e reduzido á classe de supersti- 
ção, pôde ter como origem a crença de que, procedendo d'esse modo, 
se detém a acção do espirito do defuncto,— explicação que está de 
harmonia com vários factos enunciados no decurso d'este livro. A 
mesma explicação se pôde attribuir ao costume de lançar punha- 
dos de terra avulsos sobre um cadáver. 



316 



Convém saber se o enterramento nos dolmens se fazia 
a baixo do nivel do solo, servindo a camará apenas de em- 
bellezamento, coroa ou symbolo, ou se se fazia dentro da 
própria camará. No seu Ensaio á cerca dos dolmens o bar&o 
de Bonstetten admitte os dois processos 1 . Com o primeiro 
processo pôde comparar-se o que no século xvi se usava 
na Terra dos Sapés (Africa): aos reis se enterrão fora da 
aldeia, ao longo da estrada; porque dizem que, como é 
pessoa real, e administrou justiça, se não ha de enterrar 
senão em logar publico, onde todos o vejâo; e fazem um 
modo de casa de palha, que se p5e sobre a cova» *. Jul- 
gando pelo que tenho observado em Portugal, os enterra- 
mentos nos nossos dolmens n&o se faziâo a baixo do nivel 
do solo, mas a cima. Logo que, na occasião da exploração, 
se chega ao ladrilho que reveste o fundo da camará, nSo 
se encontra mais nada, senSo o chSo firme ; os objectos, e 
as ossadas quando as ha, apparecem sempre a cima do 
ladrilho, até certa altura, no meio da terra que enche o 
monumento. Da utilização da galeria como depósito fune- 
rário, fallei a cima (p. 285). 

Com relação á deposição dos restos mortuários na se- 
pultura, era natural que, quando se tratasse dos próprios 
cadáveres, estes fossem envolvidos em pelles, depois de 
vestidos e paramentados com os seus collares, as suas 
jóias e as suas armas; quando se tratava de simples ossua- 
das, já vimos, a p. 295, que, pelo menos num caso, ellas 
se collocav&o em lages reservadas; quando se tratava das 
cinzas e ossos queimados, resultantes da prática do rito 
da incineração, uma anta de Villa-Pouca de Aguiar (vide 
p. 209) mostrou-nos que, embora igualmente num caso 
único, esses restos er&o também depositados sobre uma 
pedra muito especial; outras vezes as cinzas dos mortos 
serião depostas em vasos de barro. 



1 Essai sur les dolmens, Genève 1865, p. 23. 

2 A. Alvares de Almada, Tratado dos rios da Guiné, 1841, p. 77. 



317 



b) Ossuarioe 



Não ha dúvida que muitos dos monumentos sepulcraes, 
e especialmente os de grandes dimensões, como as grutas 
e as antas, acolherão no seu seio restos funerários de mais 
de um individuo. 

Este facto, combinado com outros, tem levado a admittir 
que taes monumentos, em vez de serem sempre apenas se- 
pulturas propriamente ditas, erão sobretudo ossuarios 1 . O 
Sr. Cartailhac apresenta a este respeito bastantes conside- 
rações curiosas, e refere-se aos trabalhos de outros inves- 
tigadores estrangeiros '. Quem primeiro enunciou aquella 
hypothese foi o sueco Bruzelius (1832) e o dinamarquês 
Boyc (1863); posteriormente um italiano, o Sr. Pigorini 
(1880), desenvolveu- a e justificou-a, indicando a favor d'ella 
uma prova de peso, qual é o apparccimento, em túmulos 
neolithicos, de crânios humanos com vestígio de haverem 
sido pintados 3 . 

Com relação ao nosso pais já Carlos Ribeiro, nos seus 
Estudos prehistoricos 4 ; declarou ter-lhe vindo á lembrança 
a hypothese de que os indivíduos sepultados num dos 
dolmens de Bellas o tivessem sido primeiro noutro lugar, 
d'onde, só depois de consumidas as partes molles, os seus 
restos seriâo removidos para alli. Estacio da Veiga nas 
Antiguidades monumentaes do Algarve* falia também no 
mesmo sentido, ao tratar dos monumentos de Alcalar. 
Notem- se também os factos que citei a pags. 295 e 296. 



1 Cfr. o que fica escrito a cima, p. 62. 

2 Apud Cartailhac, La France préhistorique, cap. xvi. 

Vid. também Alexandre Bertrand : Arckéologie cdtique et gauloise, 
2. a ed., p. 175, nota ; e La Gaule avant les G atilou, 2. a ed., p. 146. 

3 Apud Cartailhac, La France préhistorique, cap. xvi. 

Vid. também Alexandre Bertrand : Arckéologie cdtique et gauloise, 
2. a ed., p. 175, nota; e La Gaule avant les Gaulois, 2. a «d., p. 146. 

* Vol. ii, 58. 

* Vol. m, 140, 159 e 236. 



318 



A propósito da lapa neolithica das Coriscadas (Marco de 
Canaveses), escreve-me o Sr. Martins Sarmento em carta 
particular: *Dá-se por certo que appareceram nesta sepul- 
tura uns quatorze crânio?, c alguns d'elles estiveram por 
muito tempo espetados era paus, junto de uma telheira, 
segundo me informou o dono d'esta. A gruta furada pela 
aba do penedo não tem capacidade para ter guardado 
quatorze cadáveres, d'onde se segue, sendo exacta a conta, 
que servia para guardar as ossadas, e provavelmente não 
de uma assentada». Só outros factos d'csta natureza, mas 
positivos, poderão elucidar a questão pelo que se refere ao 
nosso país. 

A hypothese tem, como disso, numerosos factos a seu 
favor, colhidos na observação dos povos selvagens * ; mas, 
como com razão pondera o Sr. Cartailhac, não a devemos 
cgénéraliser outre mesure» 8 . 

Na Beira-Alta (ao pó da Queiriga) encontrei um dolmen 

'.com a camará tão pequena, e com a galeria tão estreita, 

que, a não ser mero cenotaphio ou tumulo de criança, só 

poderia ter servido de ossuario ou de depósito de cinzas; 

mas não encontrei nelle nem cinzas, nem ossos. 

c) Monumentos com um orifício na camará 

Em alguns países, como a França, a Inglaterra, o 
Cáucaso, a Syria, a índia, tem-se encontrado dolmens com 
uma abertura numa das lages que constituem a camará s ; 



1 Vid. Cartailhac, La France préhisloriqve, cap. xvi. 

* Id., ibid., p. 302. 

3 Vid. sobre este ponto um artigo (com estampas) na Archéologie 
cdliqve ti gauloise do Sr. Alexandre Bertrand, 2.* ed., p. 175 sqq. ; 
cfr. do mesmo auetor, La Gavle avant les Gavlois, p. 152. 

Lubbock, no seu livro O homem prthistorico, trad. fr., 8. a ed., 
p. 117, diz ter também encontrado numerosos dolmens providos de 
aberturas latcraes (circulares). 

A cerca do Cáucaso cm especial, vide E. Chantre, Recherchu 
anthropologiques dane le Caucase, i, 52 sqq. 



319 



uma vez appareceu mesmo num dolmen ainda a tampa 
que servia para fechar a abertura 4 . 

Qual a utilidade de tal buraco praticado na parede de 
um tumulo? 

Eis a pergunta que naturalmente occorre, mas á qual 
não se pôde responder ao certo. 

Lubbock suppõe que a abertura seria para por ella se 
introduzirem offerendas destinadas aos mortos 1 ; Bertrand 
considera-a como «destinéc à mettre les morts en commu- 
nication avec les vivants ou à donner passage aux esprits» 3 . 

Estas e semelhantes hypotheses podem justificarse com 
factos que se observJo nos povos incultos. 

Conforme diz o P. e Pedro Tavares, que missionou na 
Africa no sec. xvii, os povos do Dongo ctinhão junto dos 
idolos o seu cemitério a q chamào Inibielas, cò* m u * casi- 
nhas feitos de lagêns, c hus buracos, a modo de lousas, 
[por onde] metiílo o comer aos difuntos aly enterrados, 
segundo m 138 vezes em outras partes vy» 4 . 

Em Ratzel lê- se: «En algunos pueblos existe Ia creencia 
de que el alma volverá temporalmente ai cuerpo que ha 
entrado en descomposicion, y a este objecto se deja en la 
tumba una abertura » 5 . 

Escreve também A. Réville : «Les Iroquois ména- 

geaient dans chaque tombe une petite ouverture par la- 
quelle 1'esprit du mort pouvait entrer ou sortir à sa guisei 6 . 

Cfr. alem d'isso o que se escreveu a cima, pags. 178 e 
192, a propósito da trepanação prehistorica. 



1 Vi d. Arcliéologie celtiquc et ganloise, de Alexandre Bertraud, 
p. 177. 

2 Loc. laud. 

3 Iji GauU avanl les Grtivfois, p. 154. 

4 Ms. da Bibliothcca de Évora, citado por Lino de Assumpção 
n- O Catliolicismo da carte ao sertão, 1891, p. 182. 

5 Las ratas humanas (trad. do allemâo), Barcelona 1888, i, 24, 
col. 2. 

* Ias religions des peuples non-cicilisés, i, 252. 
A cerca dos Pellcs- Vermelhas, ibid., p. 253. 



320 



Poisque, como creio, os dolmens erão todos cobertos por 
mamoas ou tumuli, a abertura, se servia para os vivos com- 
municarem com os mortos, só devia ser praticada na lage 
da entrada; mas, se o seu fim era dar passagem mysteriosa 
aos espíritos, então ter-se-hia como meramente symbolica, 
e podia ser praticada em qualquer lage do monumento, 
ficando mesmo coberta de terra. 



Tive de expor os factos precedentes, porque em Por- 
tugal, na herdade da Candieira, falda Occidental da Serra 
de Ossa (Alemtejo), existe um dolmen com uma abertura, 
ao qual o povo chama A casa da Moira, nome que, como 
vimos *, é vulgar entre nós para designar dolmens. 

Quem primeiro fallou d'estc dolmen foi o Sr. Gabriel 
Pereira, em 1877, num artigo publicado no n.° 47 do Uni- 
verso lllustrado, de Lisboa, e depois reproduzido num 
opúsculo do mesmo A., intitulado Notas de Archeologia, 
Évora 1879, p. 26 sqq. Este artigo serviu de base a 
outras notícias que á cerca do mesmo dolmen se publi- 
carão no país e fora, por exemplo: 

no Boletim de Archeologia da Associação dos Architectos 
e Archeologos Portugueses, 1878, n.° 6; 

nos Matériaux pour Vhistoire primitive et naturdU de 
Vhomme, 1878, pags. 361-363; 

em Les ages préhistoriques de VEspagne et du Portugal, 
de E. Cartailhac, 1886, p. 171 sqq.; 

nos BaudenkmcUer in Spanien und Portugal, von C. 
Uhde, Berlin 1890, p. 3. 

Na fig. 70 dou uma estampa d'elle*. 



1 Pag. 289. 

2 Segundo um desenho feito do natural pelo Sr. Gabriel Pereira, 



que teve a bondade de m'o offerecer. 



321 

O Sr. Gabriel Pereira descreve assim o monumento : 
«Seis grande» esteios estão ainda erguidos, assentando 
a mesa ou pedra superior em quatro d'elles ; o sétimo jaz 
tombado, e pela abertura que deixou patente Be pôde 
penetrar no dolmen. A altura d'este tumulo prehistorico 
é superior a dois metros ; o espaço comprehendido pelas 
lages anda por 2 metros de comprido e l m ,5 de largo. 




Ãs lages sao de rocha schístosa, única formação geológica 

d'aquelle solo Um dos esteios porém d'esta anta 

é furado; a pouco mais de meia altura mostra-se um 
buraco visivelmente artificial, aberto com certa regulari- 
dade, e talvez com instrumento de pedra polida ou bronze ; 
a abertura tem proximamente um palmo quadrado» 4 . 

Na 2.* eesslo do Congresso das Sciencías Ãnthropologicas 
em 1878, dizia o Sr. E. Cartaílhac: (La découverte d'nn 
dolmen avec un trou en Portugal est trea-importante ; c 'est 



' Nota» de Areheologia, p. 27. 



322 



un lien de plus qui relie les tombes de ce pays avec les 
groupes des autres contrées. On sait que ce sont surtout 
les mégalithes de la Crimée, de la Palestine, de 1'Inde, 
qui présentent le pias fréquemment cette particularité, 
fort interessante par les questiona qu'elle soulève et les 
hypothèses qu'elle a déjà provoquées» 1 . Nesta epocha o 
Sr. Cartailhac não tinha ainda visto o monumento. 

Em 1886, porém, depois de haver estado in loco, e 

examinado o monumento, escreve elle : « la petite 

ouverture ménagée dans le support de 1'ouest, en face 
Fentrée, ne m'a point paru ancienne, ou du moins aussi 
ancienne que Vanta. Elle a été probablement creusée avec 
un outil en metal et je ne serais pas éloigné de l'attribuer 
sinon à un ermite, du moins à quelque pâtre qui aurait jadis 
transforme ce tombeau en cabane vulgairei 9 . O poder 
ter sido praticada com instrumento de metal a abertura 
não constituo razão sufficiente para se negar a antiguidade 
d'esta, pois o uso do metal começou a propagar-se ainda 
no período dos dolmens. For tanto, embora as palavras do 
Sr. Cartailhac sejSo dignas de reflexão, como para mim 
também tem peso as do Sr. G. Pereira, e não se com- 
prehende com que fim o eremita ou o pastor praticasse 
aquella abertura no dolmen, tanto mais que, como vimos, 
se conhecem lá fora muitos igualmente providos de buracos 
d'esta natureza, não me parece improvável que o buraco 
date dos tempos prehistoricos. 

Uma objecção susceptível de se apresentar contra a anti- 
guidade do buraco é não se conhecer em Portugal senão 
um dolmen em taes condições: se estamos deante de um 
rito fúnebre, porque não existirão mais provas d'elle? 

Em primeiro lugar: quem sabe se existem? Comquanto 
o número de dolmens descobertos no nosso pais seja já 
muito considerável, todavia o número total não é ainda 



1 Matériaux pour Vhistoirt primitive, 1878, p. 863. 

* Les águ préhiêtoriqucê de VB$pagne et du Portugal, p. 171. 



323 



conhecido, — e todos os dias estão a apparecer novos 
monumentos 4 . Em segundo lugar, como as rochas de 
granito e de calcareo, que constituem a matéria prima 
da maioria dos dolmens, er&o para os homens prehisto- 
ricos muito mais difficeis de trabalhar do que o schisto, 
de que é feito o da Candieira, talvez, como já também 
nota o Sr. Gabriel Pereira \ nos dolmens construídos com 
aquellas rochas, em vez de abertura feita ad hoc, se uti- 
lizasse qualquer abertura deixada pelos interstícios das 
lages. 

Poderá acaso comparar-se com este facto da abertura 
praticada nos dolmens o que mencionei a cima, p. 235, de 
terem também uma abertura ou clarabóia as grutas arti- 
ficiaes de Palmella. 

d) Relação em que esta vão entre si os diversos 

monumentos fúnebres 

A theoria levará a suppor que os monumentos mencio- 
nados apparecêr&o successivamente, na ordem em que a 
cima os descrevi 3 . 

Qual é o monumento mais natural? A gruta, que, depois 
de ter servido, ao que parece, exclusivamente de habi- 
tação no período paleolithico, passou a servir, ou só de 
sepultura, ou, ao mesmo tempo, de sepultura e de habi- 
tação, no período neolithico. A gruta natural succedería 
a gruta artificial, e a esta, depois de algumas phases 
intermédias, o dolmen, com as suas formas derivadas 
(Alcalar) e o seu apparente deminutivo a cista. 

Mas a theoria pôde muitas vezes enganar-nos com a 
sua seductora simplicidade. 



1 Diz-me o Sr. Gabriel Pereira que lhe consta que no Alemtejo 
ha outro dolmen furado ; mas dá-me esta notícia ainda com reserva. 

2 Opúsculo citado, p. 30. 

3 Cfr também £. Cartailhac, La Françe préhistorique, p. 199, 
onde expõe ideias do Sr. G. de Mortillet 



324 



Sem dúvida, a civilização do longo período neolithico no 
nosso pais nSo é uniforme : já a pags. 38-39 e 61 lembrei 
a este propósito alguns factos. Os monumentos alçara- 
lenses, pela sua parte, como se disse a p. 305, manifest&o 
também certo progresso em comparação com todos os mais 
do mesmo género, que por ora se conhecem em Portugal. 
As cistas e as antellas, apesar de conterem ás vezes 
mobiliário análogo ao das antas, differem d'estas no tama- 
nho, na solidez e na forma, o que, attenta a correspon- 
dência que para os povos antigos havia entre a concepção 
da morte e a natureza da sepultura, talvez traduza taes 
ou quaes variedades dentro do mesmo quadro de civili- 
zação, o que parece confirmar-se com o facto de, como 
se disse, as cistas (e antellas) apparecerem muito frequen- 
temente na epocha do metal. 

No emtanto, se a diversidade das formas sepulcraes 
podia em vários casos depender da sobreposiçSo de novos 
povos, ou de novas correntes civilizadoras, podia muitas 
vezes depender das mais variadas circunstancias, quaes 
erio o solo, que nuns casos continha grutas utilizáveis! 
noutros casos nSo continha, nuns ministrava boa rocha 
para dolmens, noutros nâo ministrava, — e o grau de 
riqueza ou de pobreza, de supremacia ou de miséria, dos 
habitantes, segundo o qual se preferiria, dentro de certos 
typos, uma sepultura a outra. 

e) Situação dos monumentos fúnebres 
Orlentaçlo. — Local. — Gemitorioi 

1. Quanto á orientação dos nossos dolmens, o Sr. Car- 
tailhac considera-a como variável 1 . O Sr. Santos Bocha, 
encontrou com a entrada voltada para o Nascente a maioria 
dos megalithos que até hoje tem explorado no concelho 
da Figueira*. Outros investigadores tem também encon- 



1 Cfr. Les ages préhistoriques, p. 346 (indice). 
1 Antiguidades do concelho da Figueira, iu, 174. 



c 



325 



trado numerosos dolmens com a abertura voltada para o 
Nascente ; este facto observa-se sobretudo nos dolmens de 
Trás-os-Montes 1 , nos do valle do Ancora 1 e nos que explo- 
rei na Beira- Alta: e é natural que, vista a frequência do 
facto, haja aqui intençSo, que mal poderá deixar de ser 
mysteriosa, ou, para melhor dizer, religiosa, pois que o sol 
(como a lua) desempenhava grande funcçSo na vida affe- 
ctiva do homem antigo, tanto nas crenças, como nos cos- 
tumes (vid. p. 103 sqq.). 

Noutros países tem-se também observado que, se em 
muitos dolmens é variável a orientação, outros muitos se 
acham voltados para o Nascente s . Nas próprias sepulturas 
dos selvagens de Africa ha ás vezes certa orientação 4 . 

2. Fallando dos monumentos prehistoricos que existem 
na serra da Boa- Viagem, cuja extremidade occidental cons- 
tituo o Cabo Mondego, diz o Sr. Santos Rocha que todos 
os que elle ahi explorou se encontrão no cimo da serra, 
e propõe como explicaçSo d'esse facto várias hypotheses, 
umas de ordem physica, outras de ordem ethnographica 5 . 

No districto de Lisboa ha também monumentos fúnebres 
situados em alturas: por exemplo, na serra de Sintra. 

Junto de Carrazedo do Alvão (Villa-Pouca-de- Aguiar), 
num descampado da serra, ha uma necropole neolithica 
(fíg. 71), em que existem ainda hoje bastantes antas; a 
uns hectometros de distancia d'ella ergue se abruptamente 
um monte, em cujo topo, chamado «Alto da Caturinai 6 , 
sobresae um grande monumento funerário, igualmente neo- 



f * Vid. artigos dos Sn. P. w Raphael Rodrigues, José Tavares e 

José Brenha in O Archtologo Português, i, 36 e 109, e in A Vida 
Moderna (jornal portuense), n. M 20, 26, 28, 85 e 39. 

* Vid. um artigo do Sr. F. M. Sarmento in O Panthecn, p. 4. 
3 Cfr. Nadaillac, Ias premiert hommes, i, 343. 

* Vid. Ratzel, Las rata* humanas, i, 94 e 146 (bis) e 682. 
5 Antiguidades do concelho da Figueira, i, 36. 

* Outras formas vulgares d'este nome 8&o Cuairina e Catrina, 
que de certo vem de Caiherina, — Vid. na fig. 71 o n.° 1. 



327 



lithico *, composto de dolmen e mamôa. Assim como na 
rida se estabelecem distincçSes e graus, quer entre as 
sociedades, quer entre os indivíduos, assim também na 
morte. Nem mesmo depois que cahiu no tumulo, o homem 
se resigna a considerar-se igual ao servo que morreu como 
elle. Talvez o monumento do Alto da Caturina seja um 
testemunho de grandeza e de soberba 1 . Deante d'aquelle 
mausoléu, que, separado de todos os outros, e a elles 
sabranceiro, domina vasta amplitude de horizonte, poderá 
pensar-se que elle era talvez de reis, que ainda mesmo 
na sua quietude e immobilidade sepulcraes, 

Inculcão majestade, inspirSo medo ! ' 

Mas, se ha vários monumentos funerários no alto de 
montes, quantos n&o ha em baixas, em planícies, em val- 
les? E por ventura só os dos altos pertenceri&o a poten- 
tados, se 6 que pertencido? 

No Alemtejo tenho visto várias antas, no meio de cam- 
pos, erguidas em montículos ou pequenas elevações do 
terreno. A escolha de taes locaes foi certamente propo- 
sitada. 

3. Se muitos monumentos fúnebres se ách&o insulados, 
ou pelo menos o estio hoje, grande número de vezes 
fórmSo agrupamentos e constituem necropoles. 

A p. 62 citei os agrupamentos das antas do Alto-Minho, 
do concelho de Castello-de-Vide, do concelho de Avis, 
e dos arredores de Évora; as antas das vizinhanças de 
Bellas estio também próximas umas das outras; o campo 
mortuário de Alcalar, no Algarve, é principalmente digno 



1 O Sr. Dr. Henrique Botelho, de Villa-Real, encontrou ahi vários 
objectos de pedra. 

* Cfr. também o que a respeito de um monumento que está nas 
mesmas condições diz Santos Rocha nas Ântiguid. da Figueira, iii, 
168, e a respeito da Oceania dia Batzel, Las raua* humanas, i, 633. 

3 P.* José Agostinho de Macedo, O Oriente, v, 42. 



328 



de attenç&o, pela importância e variedade de seus túmulos, 
e diflforença de suas epochas, como notei a cima, p. 305. 
No concelho de Villa Pouca de Aguiar ha, conhecidas, 
umas cincoenta e tantas antas, distribuídas por grupos, 
como c Coitada t, «Chã Doirada •, c Casas dos Moiros», 
«Alto do Monte Minheu», «Frieiro», a Fundo das Arcas». 
Visitei um d'estes grupos, o «Fundo das Arcas», ao pé de 
Carrazedo do Alvito ; consta de dez antas (com mamôas), 
próximas umas das outras : duas estavfto contíguas, outras 
distavfto entre si, por exemplo, 21, 23, 24 e 28 metros, — 
do que resulta que se trata de um perfeito cemitério 
neolithico *. 

As grutas e lapas que explorei no «castello de Pra- 
gança», no Cadaval, podem considerar-se igualmente como 
representando um cemitério em que os habitantes do «cas- 
tello» ou castro depositavfto os seus mortos. Em Liceia 
succederia também o mesmo : vi d. supra, p. 50. 

Estes dois exemplos, de Pragança e de Liceia, mostrão- 
nos a relaçSo dos cemitérios com as povoações. O Sr. Mar- 
tins Sarmento por mais de uma vez tem insistido em que 
os tumuli que se encontrão perto dos castros erSo as 
últimas moradas dos habitantes d'estas estações*. Nas abas 
do castro da Senhora-do-Castello, em Mangualde, havia 
d'antes também uma anta, que foi destruída. Quando pois 
se descobrirem monumentos funerários prehistoricos, tor- 
na-se necessário buscar os locaes das povoações a que 
elles pertencido : ás vezes já nSo se descobrirá nada, mas 



1 Não encontrei perto d 'estas antas vestígios archeologicos que 
attestassem a existência da povoação a que ellas pertencião; é 
provável porém que a vizinha aldeia de Carrazedo do Alvão seja 
a representante actual cTaquella povoação prehistorica. — Nas antas 
do «Fundo das Arcas» não apparecêrão objectos de metal ; sóappa- 
recêrão objectos de pedra. Ellas forão exploradas pelos Sra. P. M 
Raphacl Rodrigues e José Brenha ; eu também ahi encontrei alguns 
objectos. Cfr. O Archtologo Português, I, 350. 

1 Vid. por exemplo o seu artigo in Pantheon, p. 4. 



329 



outras vezes descobrir-se-hío ruínas, ou mesmo povoaçMs 
modernas que representem as antigas. Os túmulos ou 
cemitérios que por ora se tem estudado est&o quasi sempre 
situados fora das muralhas dos castros, pelo menos fora da 
primeira linha de muralhas, a partir do centro, se ha 
mais de uma 1 . Todavia nio se pôde considerar este facto 
como absoluto 1 . 

Os dolmens da Galliza, diz o Sr. Macifieira, cestán 
emplazados indistintamento en todas partes dei terreno, 
formando algunas veces importantes necrópolis» s . Villa- 
Amil falia de grupos de três mámoas, sendo maior a do 
centro, e separada das outras hectometro e meio 4 ; mas 
talvez esta disposição seja accidental, e não geral. 

Quando tem chegado até nós um cemitério prehistorico 
constituído por monumentos megalithicos cobertos de terra, 
impressiona-nos immediatamente, ainda agora,, com as on- 
dulações do solo produzidas aqui e alem pelas mamôas. 
Nos tempos prehistoricos estas ondulações erio muito 
maiores, formav&o enormes saliências ou montículos; mas 
a acçlo atmospherica e os homens tem-nas esboroado, a 
ponto de ás vezes ellas poderem confundir-se hoje com as 
elevações naturaes do solo. As pequenas distâncias que as 
mamoas deixavio entre si nlo permittiio que entre ellas 
houvesse, quando os havia, senio os espaços necessários 
para se passar na occasiZo dos enterros ou das romarias 
fúnebres. Se o panorama, observado á luz do dia, punha 
nos ânimos terror, que tétricas lembranças n&o evocava 
de noite ! O- luar, inoidindo obliquamente no campo mor- 
tuário, fazia que aquelles pináculos de terra, dentro, dos 



1 Cfr. Martins Sarmento in Bèvista de Guimarães, u, 198. 

1 Nos castros de Fuenta Vermeja e Lugarico Viejo (Hespanha) 
a piedade para com os mortos leva a fazer as sepultaras dentro das 
aldeias, junto das casas. H. & L. Siret, Les premiers ages du mital 
dam le sud est de VEtpagne, p. 83 ; cfr. também p. 95. 

3 In Ira Iluêtraàón Ârtistica, xrv, 126. 

4 In Muèto e§pahol de antigOedadeê, Vn, 227. 



330 



quaes haviio sido amortalhadas tantas almas, se cobrissem 
de sombras, e, tomando aos olhos das pessoas crédulas e 
timoratas, que os contemplav&o, aspectos e proporçSes de 
phantasmas, parecessem encarnações dos próprios defun- 
ctos. Das alturas vizinhas aoorri&o de vez em quando, no 
sossego nocturno, os povos a maravilharem-se com o estra- 
nho espectáculo. No ar esvoaçav&o, piando, as corujas 
agourentas, que são as aves favoritas das trevas, e as sen- 
tinellas dos túmulos. Os ventos contorci&o-se nas ramagens 
das arvores, em gemidos e psalmódias, segredando myste- 
rios do Outro-Mundo, porque para todos os povos a noite 
e a morte se apresent&o acompanhadas do mesmo cortejo 
de medos. 

Um dolmen, uma cista, uma gruta funerária erlo outros 
tantos locaes sagrados, em que o homem prehistorico depo- 
sitava os restos dos seus mortos ; comprehende-se por con- 
seguinte com quanto recolhimento se nSo penetraria nos 
territórios que a piedade e o respeito tinh&o destinado 
para serem cidades dos mortos. Por occasiSo de guerras 
nossas com os gentios da Guiné, conta um jornal con- 
temporâneo: «Batidos os rebeldes em Bandim, foram per- 
seguidos pela companhia de marinha até ao Amargoso e 
Chão do Enterramento, onde debandaram por completo. 
O Amargoso constitue o teireno sagrado, e é ahi que se 
refugiam os Papeis e Grumetes quando slo perseguidos, 
visto que as crenças gentílicas dizem que os brancos nlo 
podem ahi caminhar, por lhes tremerem as pernas» *. 
Nas grandes villas e nas cidades os cemitérios geralmente 
parecem jardins alindados, que até com frequência servem 
de passeios; mas nas aldeias nSo é assim: um cemitério 
considera-se como um recinto povoado de medos, onde 
tarde da noite se vêem errar phantasmas, ou se ouvem 
gemidos de afflicç&o e dor ; aqui e alem, á cabeceira das 
campas rasas e humildes, surge uma cruz de pedra, ou de 



1 O Século, n.* 4481, de 15 de Julho de 1894. 



331 



madeira preta, provocando a commiseraçSo pelos mortos; 
a cada passo avulta a terrível legenda pulvis es et in pui- 
verem revertais; ninguém passa deante do portal sem se 
descobrir e rezar ; e, se é noite velha, poucos tem coragem 
de se aproximar sozinhos do cemitério. No Minho, como 
na Itália, os cemitérios chamão-se campos santos. Tudo 
isto prova o caracter sobrenatural da i mansão da morte», 
e a veneraçfto e pavor que esta ideia desperta no cora- 
ção do povo rude. 

Quando hoje succede isto, que n&o succederia na epocha 
da pedra, em que os cemitérios nlo constituído meros 
lugares de repouso eterno, mas propriamente moradas dos 
mortos? 

Compenetremo-nos dos sentimentos dos homens que 
vivifto nas idades prehistoricas, e nSo será também sem 
certa emoção que contemplaremos, por exemplo, a aban- 
donada campina de Alòalar, ou o descampado das Arcas 
de Carrazedo, onde antigos povos do Algarve e de Trás- 
os-Montes confiarão á guarda da terra, em monumentos 
relativamente portentosos, alli lançando-se mfto dos recur- 
sos de uma arte já bastante apurada, aqui acceitando-se 
os materiaes de construcçio ainda pouco mais ou menos 
como a natureza os offerecia, os restos mortuários, as 
cinzas, as ossadas, dos que haviSo para sempre deixado 
o mundo ! 

C) Offerendag aos mortos 

Em virtude do modo como muitos povos concebem a 
alma e o destino d'ella post obitum, concepção a que me 
referi a p. 198 sqq., é costume vulgarissimo, sobretudo 
nos países de civilizaç&o inferior, depositar nas sepulturas 
objectos de uso domestico, alimentos, ídolos, amuletos, 
armas, dinheiro, etc, e sacrificar victimas humanas e ani- 
maes aos mortos, a fim de que lhes nSo falte no Outro- 
Mundo o neces8sario para lá poderem viver. 

Aqui dou alguns exemplos, colhidos em differentes obras. 



332 



cUn Tasmanien à qui 1'on demandai t poarquoi une lance 
était dans la tombe d'un indigène, répondit : -. — Pour a'en 
servir au combat, quand il est endormi» 1 . A mesma ideia 
tem os Groenlandeses*. Os Peruvianos davSo como razlo 
dos sacrifícios que fazifto aos mortos o terem-nos visto em 
sonhos a passearem com os objectos, pessoas, e animaes 
depositados nas sepulturas com elles 3 . Os Negros de Africa 
enterrfto com o morto alimentos, bebidas, armas, utensílios, 
1 na crença de que tudo isto lhe poderá servir na Jutvra 
existência*. Os Cafres, no tempo de Fr. João dos Santos 
(sec. xvi), enterravSo com o morto os arcos, as frechas, 
as azagaias e mais armas que possuião, e bem assim milho, 
arroz, feijões e outros legumes; cpoem-lhe sobre a cova 
o leito em que dormia, a tripeça em que se assentava» 5 . 
Na Lunda (Africa) cozinha-se comida na véspera do enterro, 
á noite, e esta comida vae juntamente com o defunto para 
a sepultura 6 . Os PatagSes collocSo ao pé dos cadáveres 
armas e jóias 7 . Os Payaguas da America, que crêem na 
vida futura, collocSo nas sepulturas armas e vestuários 8 . 
Vários povos da America enterrXo com o morto, para o 
servirem, os inimigos, as esposas, os escravos, os cães, os 
cavallos, e ao mesmo tempo vestuários, armas, comestíveis, 
louças 9 ; se se trata de molheres, enterra-se com elfos * 
roca e os utensílios culinários 10 . Na Austrália também se 
entérrSo as armas com o defuncto 11 . No tempo de Marco 
Polo os Mongoes conservavfto insepultos os cadáveres du- 



1 Tylor, La dvilisaíion primitive, i, 566. 

* Id., ibid., i, 566-567. 

* Id., ibid., i, 567. 

4 Réville, Iam rtligion$ de» peuplea non-civilisé», i, 68. 
b Ethiopia Oriental, II, cap. xxni. 

8 Henrique de Carvalho, Ethnographia da Lunda, 1890, p. 514. 
7 Tylor, La ávilisation primitive, i, 548. 

' Id., ibid., i, 483. 

9 A. Réville, Iam religiont de» peuple» non-civili»é», i, 854 e 886. 
*• Id., ibid., i, 408. 

*» Id., ibidv ii, 155. 



333 



rante seis meses, offerecendo-lhes de comer cada dia 1 . Os 
Bujagós (Guiné Portuguesa) fazem os enterramentos no 
fundo de grandes carneiros, semelhantes a cisternas, e ahi 
introduzem viandas e utensílios caseiros 1 . tEn algúnos 
pueblos existe la creencia de que el alma volverá tempo- 
ralmente ai cuerpo que ha entrado en descomposicion, y 

á este objecto se depositan, de cuando em cuando, 

junto ai cadáver nuevos manjares y bebidas» 3 . Quando 
morre um Cafre, diz Fr. João dos Santos (sec. xvi), 
«fazem-lhe a cova dentro no mato, onde o metem quasi 
assentado, e junto d'elle põem da panella de agoa e um 
pouco de milho, o qual dizem que é para o defunto comer 
e beber naquelle caminho, que faz para a outra vida, e 
sem mais cerimonia o cobrem de terra, e sobre a cova 
lhe põem a esteira, ou o catre em que o levarão a enter- 
rar» 4 . Em Sofala, nos • Mouros baços» (sec. xvi) : cEnter- 
raõ-se tambe nos matos como os Cafres, e dentro na cova 
lhe metem arroz, milho, manteiga, e agoa em algum vaso, 
e depois cobrem tudo de terra» 5 . De certos Negros de 
Africa diz Alvares de Almada (sec. xvi)t «Offerecem a 
seus defuntos, em potes, ao longo d'aquellas covas (i. e., 

das sepulturas) vinho e leite e outros mantimentos; 

e mette-se em cabeça a estes pobres que os mortos comem 
aquillo que lhes offerecem» 6 . Os Aztecas entérrSo garrafas 
com agua para os mortos se refrescarem 7 . Fallando da 

antiguidade, diz Fustel de Coulanges: • on ne man- 

quait jamais d'enterrer avec lui [com o cadáver] les objects 



* Goblet d'Alviella, Vidée de Dieu, p. 84. 

2 M. AL de Barros, in Boletim da Sociedade de Oeographia de Lis- 
boa, 1882, p. 715. 

3 Ratzel, Las rasas humanas (trad. do allemâo), Barcelona 1888, 
1 1, p. 24, col. 2. 

* Ethiopia Oriental, I, cap. zv. 

* Fr. João dos Santos, Ethiopia Oriental, I, cap. xix. 

* Tratado breve dos rios da Guiné, p. 28. Vid. também p. 43. 

7 Tylor, La dvUisation primitive, i, 567. Outros exemplos na 
p. 568; e vid. também p. 575 (Borneo). 



334 



dont on supposait qu'il avait besoin, des vêtements, des 
vases, des armes. On répandait da vin sur sa tombe pour 
étancher sa soif ; on y placai t des alimenta, pour apaiser 
sa faim. On égorgeait des chevaux et des esclaves, dans 
la pensée que ces êtres enfermes avec le mort le servi- 
raient dans le tombeau, comme ils avaient fait pendant 
sa vie» 1 . 

Alem das comidas e bebidas que d'antes, em certos 
povos, se collocavfto nos túmulos, realizav&o-se também 
banquetes fúnebres junto d'estes, julgando-se que os mor- 
tos assistião a elles, e comiXo e bebi&o * . Uma das offeren- 
das fúnebres muito vulgares outr'ora, e ainda mesmo actual- 
mente nas camadas mais atrasadas das populações civiliza* 
das, consiste em moedas para os mortos passarem a barca 
ou a ponte que conduz á eternidade (dinheiro de Charonte) 1 , 

Nas sepulturas colloc3o-se, como notei a cima, objecto» 
de virtude sobrenatural para protegerem os mortos: cchez 

les Chinois et les Annamites, comme dans 1'antiquité 

occidentale, on enterre avec les cadavres des amulettes 
pour proteger le kouei [i. e., a terceira alma do morto, 
aquella que desce ao tumulo] contre les mauvais génies» 4 . 

Na Maravia, coutr'ora, quando o chefe morria, fazifto-se 
sacrifícios humanos, recahindo a escolha das victimas nas 



1 La Cite antique, 8. a ed., p. 9 ; e vid. também as respectivas notas. 

2 Citei alguns exemplos nas Tradições populares de Portugal, 
p. 242, nota. 

Vid. mais : 

Fuatel de Coulanges, La cite antique, 1880, Índice, s. v. repas; 
Tylor, La âvUisation primitive, u, 39 sqq. ; 
Botiinais & Paulus, Le culte des morts, pags. 119 e 180. 
* Vid. a este propósito : 

A. Maury, La Magie et FÂstrologie, 4. a ed., p. 158 ; 
Tylor, La dvilisation primitive, i, 568 e 576 ; 
Boíiinaie & Paulus, Le culte des morts, pags. 78 e 168. 
De costumes portugueses fallarei adeante. 
4 Bottinais & Paulus, Le culte des morts, p. 102. A cerca do kouei 
vid. a mesma obra, p. 10. 



S35 



pessoas a quem elle mais amava em vida, e em guerreiros, 
os quaes erlo enterrados com arco e frecha, para forma- 
rem o séquito que o devia acompanhar na grande viagem » * ; 
como um régulo uma vez se oppusesse a que depois da 
sua morte os seus súbditos fizessem isso, ameaçando-os 
de que voltaria transformado em leio, e os devoraria, 
pois a crença de que os grandes homens podem transfor- 
mar-se em leSes está muito arreigada, os povos nfto con- 
trariarão a vontade do régulo, ce assim, para nSo deixar 
de se lhe pagar um último tributo á sua grandeza, foi 
sacrificado e enterrado com elle um cSo preto que muito 
estimavat s . Na Guiné Portuguesa: «Os nossos pagSos 
considerSo a -terra como a última morada das almas, e 
os Fulupos e Bijagós acredit&o na sua transmigração, e 
todos prestSo um esmerado culto de dulia a seus manes 
com libações e sacrifícios t s . Nos Ban-kumbi (Humbe, — 
Africa) immola-se um boi sobre a sepultura, que é regada 
de sangue; mas a carne come-se 4 . Nos Cafres existiu o 
costume, hoje parece que em decadência, de immolar es- 
cravos e companheiros de armas perante o cadáver de um 
chefe, para continuarem a servi-lo no outro mundo ., Os 
Beafares (Guiné), cquando morre o rei, e o enterrlo, matSo 
e enterr&o com elle alguns d'estes (criados), até o cavallo, 
e dizem que tem necessidade de levar tudo isto para que 
o sirvào na outra vida» 6 ; comtudo, a vontade de acom- 
panhar o defuncto nío era grande, porque c tanto que o 
rei morre, ou está mal, fogem estes seus privados que 



1 Carlos Webe, in Boletim da Sociedade de Geograpkia de Lisboa, 
serie x, p. 885. 

1 Id., ibid., ibid., ibid. 

3 M. M. de Barros, in Boletim da Sociedade de Geograpkia de 
Lisboa, 1882, p. 716. 

4 Capello & Ivens, De Angola á Contra- Costa, p. 223. 

* Apud Réville, Religions des peuples non-cwilisés^ i, 188, nota 1. 
6 A. Alvares de Almada, Tratado breve dos rios de Guiné, (sec. 
xvi), Porto 1841, p. 58. 



336 



receiSo que os mandem com elle para o servirem» '• Este 
costume de sacrifícios humanos nos Beafares nto se pra- 
ticava só com os reis, praticava-se também com os fidalgos 
de consideraçSo, que levavSo igualmente quem no outro 
mundo os servisse 1 . cQuande morre o quiteve [rei das terras 
de Sofala], também suas molheres grandes [i. e., rainhas] tem 
obrigaçSo de morrer com elle pêra o servirem, e viverem 

com elle no outro mundo, e, para comprimento d' esta 

ley tão deshumana, no mesmo ponto em que o Rey morrei 
tom&o peçonha, que tem prestes pêra isso, a que chamXo 
Inçasse, com que morrem» 3 . Quando o rei novo toma posse 
do reino de Sofala, manda chamar os grandes e senhores, 
ce nestas cortes é costume mandar matar alguns d'aquelles 
senhores que se ali ajunt&o, dizendo que s&o necessários 
pêra irem servir ao rey defunto no outro mundo» 4 . No 
Manamotapa (África Oriental) e na China mata-se também 
a rainha e animaes, para o mesmo fim 5 . Os índios Tlinkit 
(Alasca) offerecem comida aos mortos, e sacrificío-lhes es- 
cravos 6 . Dos índios da America conta Fernandez de Oviedo : 
«quando algun cacique se moria, ai tiempo que le enter- 
raban, algunas de sus mugeres vivas le acompafiaban de 
grado é se metian con él en la sepoltura» 7 . Os Esquimós 
deposit&o no tumulo de uma criança a cabeça de um cSo, 
para que a alma d'este, que não se engana nunca no ca- 
minho, possa guiar a criancinha ao pais das almas*. O 
ethnographo Tylor menciona neste sentido muitos costu- 



1 A. Alvares de Almada, Traiado breve dos rios de Guiné, p. 68. 

2 Id., ibid,, ibid. 

3 Fr. João dos Santos, Ethiopia Oriental, I, v(l.« ed., de 1609). 

4 Id., ibid., I, vii. 

* Id., ibid., II, zvi. — A cerca da China antiga vid. também Bolli- 
nais & Panlus, Le culte des morte, p. 102. 

* In Mélusine, in, col. 94. 

7 Historia general y natural de las índias, Madrid 1851, t i, 
p. 184, col 1. 

* Tylor, La dvilisatíon primitive, i, 549. 



337 



mes a respeito da Africa ! , da America *, da Ásia 3 , da Ocea- 
nia 4 e da Europa antiga 5 . — Com o progresso da civilização, 
os sacrifícios tornárSo-se meramente symbolicos. No Japão, 
por exemplo, substituem-se aos homens e animaes imagens 
de pedra, de argilla, de madeira, que se collocXo junto do 
cadáver 6 ; no Cáucaso ha também cerimonias symbolicas, 
andando em volta do tumulo a viuva e o cavallo do falle- 
cido 7 ; na Inglaterra o cavallo do soldado que morreu vae 
atrás d'elle, a acompanha lo até á sepultura 8 (vestígio de 
quando o cavallo se enterrava). Na China, diz um auctor 
português do sec. xvi, «tem ho defunto oito ou quinze 
dias, nos quais vem de noite continuamente os sacerdotes 
de seus deoses a offerecer seus sacrifícios e rezar suas 
envençSes gentílicas; trazem ali muitos homens e molheres 
pintadas, e com muitas cerimonias os queimam ; por derra- 
deiro p8e homens e molheres pintados em papel sobre 
cordas, e com muito rezar, e com moverem estas pinturas 
polias cordas, e com grandes vozes e gritas, dizem que 
mandam ho defunto ao ceo» 9 . 

Muitas vezes os objectos que se offerecem aos mortos 
devem ser quebrados ou deformados. Na Civilisation pri- 



1 Tylor, La dvilisation primitive, i, 532-537. 

• Id, ibid., i, 535-567. 
> Id., ibid., i, 538-550. 

• Id., ibid., i, 534. 

5 Id., ibid., i, 540-551. A respeito da Europa antiga, vid. também 
BottinaÍ8 & Paulus, Le culte de§ morto, p. 177 sqq ; a respeito dos 
Celtas em particular vid. H. d'Arbois do Jubainville, Étudcs sur le 
droit eeUique, i, 7 e notas. 

• Tylor, ibid., i, 538-539. 
' Id., ibid., h 539. 

• Andrew Lang, Custam and Myth, p. 11. 

• Fr. Gaspar da Cruz, Iractado em que se contém as cousas da 
China, Lisboa 1829, p. 95. [A l. a ed. é de 1569]. 

Sobre costumes análogos vid. também Boiiinais & Paulus, Le 
culte des morts, pags. 116-117 ; a p. 116, nota 3, citâo aquelles AA. 
outros costumes symbolicos de diversos povos antigos. 



338 



tive, de Tylor 4 , d&o-se a este propósito abundantes indi- 
cações bibliographicas. Diz o mesmo A.: cCertains races 
sauvages supérieures, plus ou moins d'accord en cela avec 
d'autres races barbares, s'imaginent três réellement que 
les pierres, les batons, les armes, les bateaux, les ali- 
menta, les vêtements, les ornements, en un mot tout un 
ensemble d'objets que nous tenons pour inânimes, posse- 
dent une âme ou un esprit qui s'en separe et leur survit 
après qu'ils ont été détruits»*. Por isso, na índia brahma- 
nica, atira-se á pyra funerária o arco de guerra quebrado'; 
nos funeraes dos Garos quebrSo-se os vasos antes de serem 
lançados no tumulo com as cinzas, e cies Garos assurent 
que ces vases ne serviraient pas à 1'esprit de la jeune filie 
s'ils n'étaient pas casses, et que leurs fragmenta se réu- 
nissent à son intention» 4 ; no Archipelago Indico offerecem- 
se aos mortos, alem de escravos, armas, objectos precio- 
sos, vestuários, etc., mas tudo despedaçado 5 ; foi por isso 
talvez que em sepulturas proto-his to ricas de Alcacer-do-Sal 
se encontrarão armas de ferro com as laminas torcidas 6 . 
Em um tumulo belgo-roinano de Tirlemont, do sec. I ou u 
da era christX, apparecêrio vários objectos quebrados de 
propósito, os quaes revelâo igualmente a existência de um 
rito fúnebre 7 . Pelo mesmo motivo se podem queimar os 
objectos do morto e depositar nas sepulturas as cinzas; 
é d'este modo que deverSo explicar-se os costumes seguin- 
tes : cQuant au mobilier pour la vie future (chez les Chinois 
et les Annamites) c'est celui de la maison funéraire brulée 



1 Tomo i, 562-563, notas. Cfr. também Goblet d'Alviella Uidèt 
de Dieu, p. 107-108. 

2 Tylor, ob. cit., i, 554 ; vid. também 558-559. 
J lá., ibid., i, 541, 

4 Apud eundem, ibid., 562, nota. 

* In Mãurine, m, 122-123. 

• Cfr. O Archeologo Português, i, 78; e cfr. também este livro 
supra, p. 298. 

1 Vide o que a este respeito se diz in AnnaUê de la Soâétê 
(FArckéologit de Bruxelles, ix, 448-449. 



339 



8ur le tombeau» *; na occasião da morte dos Cafres quei- 
mav&o-se as casas com os moveis que continhão, porque 
era impureza possuir objectos que pertencerão a mortos, 
e «a cinza da casa que se queimou, com alguns pedaços 
de paos, que se nSo acabarão de queimar, tudo junto lhe 
pSem sobre a cova» 2 . Dizem também Boúinais &Paulus: 
cLes Asiatiques orientaux, comme autrefois les Grecs et 
les Romains, brúlent les offrandes destinées aux morts, 
sauf la nourrituret 3 . Assim, em resumo: crê-se que os 
objectos tem almas, e que estas, pela destruição ou defor- 
mação dos objectos a que pertencem, se sepárão d'elles, 
e vão juntar- se ás almas dos defuntos, no outro mundo, 
para as servirem. 

As offerendas aos mortos tem também nSo raramente por 
fim apaziguar as almas dos mortos ou os deuses da morte 4 . 
Nos Gamboa : «trazem provisões para junto dos túmulos, 
onde 8&o collocados para apaziguarem os mortos t 5 . Os 
selvagens africanos pênsfto que os mortos deseja o attrahir 
a si os vivos, e que, quando n&o se cuida dos mortos, se 
está exposto á vingança d'estes 6 . Nos Indigenas do Brasil : 
«L'immolation des prisonniers de guerre est en réalité 
un sacriBce humain, puisqu'elle a lieu pour apaiser les 
esprits des membres de la tribu qui ont succombé dans les 
combat8t 7 . Na America Central: c . . . . YuncemU, seigneur 
de la mort, qu'on apaisait par des offrandes alimentaires» 8 . 



_ * 

1 Bottinais & Pautas, Le culte de» morts, p. 102. A cerca da cari- 
nha funerária, vid. a mesma obra, p. 8, e também o nosso Fr. Gas- 
par da Cruz, Tratado da China (ed. de 1829), p. 95. 

2 Fr. João dos Santos, Ethiopia Oriental, II, cap. xxiii. 
s Le evite de» mort», p. 119. 

4 Cfr. o que escrevi supra, p. 101. £ vid. principalmente Tylor, 
La civilisation primitive, u, 36 sqq. 

* Capello & Ivens, De Angola á Contra- Co»ta, p. 195. 

* A. Réville, Le» religion» de» peuple» non-civilM», i, 71. 
7 Id., ibid., i, 379. 

* A. Réville, Le» religion» du Mexique, de VAmêrique centrale et 
du Pérou, p. 228. 



340 



O methodo ethnographico permitte que se interpretem 
da mesma maneira os objectos que se encontrão nas se- 
pulturas prehistorica8, — antas, grutas, cistas, etc. Todos 
esses objectos erâo pois offerendas fúnebres. 

Indicar aqui o que tem apparecido nos monumentos de 
Portugal, quasi equivaleria a fazer um inventario da pre- 
historia portuguesa, porque a maior parte do que sabemos 
da vida dos nossos primitivos antepassados baseia-se no 
estudo e anályse dos mobiliários das sepulturas. Se não 
fosse a crença na vida futura, em virtude da qual se 
collocava junto do morto tudo aquillo de que se suppunha 
que elle precisava no outro mundo, estaríamos hoje priva- 
dos de importantíssimas noticias. 

O guerreiro e o caçador erão sepultados com as suas 
armas de pedra, lanças, settas, facas, punhaes, para po- 
derem continuar nas regiões da morte as batalhas sangui- 
nolentas e as caçadas ferozes; os pacíficos camponeses 
donniSo o último somno, tendo á mão alfaias, machados, 
martellos, enxós, goivas, enxadas; todos, emfim, repousa- 
vão ao lado das suas louças e das suas comidas, com as 
suas vestes, e providos das insígnias que os nobilitavSo no 
mundo, das jóias que os tornavão vistosos e alegres, dos 
amuletos que os defendião do mal, fosse elle qual fosse. 

Sem dúvida, em algumas estações funerárias não se acha 
nada, ou porque o tempo e os homens destruirão q que a 
piedade alli tinha posto, ou porque os mortos erão tão 
pobres, que não puderão levar comsigo objecto algum, 
ou ainda por outros motivos; no emtanto, ordinariamente 
acha-se qualquer cousa, e até não poucas vezes em grande 
quantidade. 

Postoque o que se enterrava consistia em cousas de 
valor, a piedade e superstição primeiro, o esquecimento 
depois, forão a causa de terem chegado até nós tantas 
preciosidades archeologícas. Quem visita os mortos e toca 



341 



no alimento (Telles não volta á vida, crêem os povos da 
Nova-Zelandia * ; os objectos tocados pelo morto ficSo man- 
chados, diz Fr. João dos Santos, fallando da Ethiopia'; 
no nosso próprio povo se cuida que a candeia que alumia 
os mortos não deve alumiar os vivos, e por isso se inuti- 
liza o azeite que cresce de ter alumiado um cadáver 3 . 
Quem ousaria pois subtrahir aos mortos o que lhes per- 
tencia, e que o amor, o respeito ou o medo tinhão posto 
ao pé d'elles, dentro dos túmulos, para seu uso? 

Entre os diversos objectos desenterrados dos sepulcros 
neolithico8, ha uns que são, por assim dizer, vulgares, pois 
apparecem em toda a parte, por exemplo machados, facas, 
settas, louças; ha outros que s2o mais raros, e limitados 
por ora ao Centro e ao Sul do país, como as placas orna- 
mentadas; ha outros que são especiaes a certas regiões 
ou a certos monumentos. Da primeira classe escuso de 
fallar aqui em particular, porque tenho fallado já algumas 
vezes no decurso d'este livro, e porque basta abrir qual- 
quer obra de prehistoria, para encontrar numerosos de- 
senhos ou descripçSes dos exemplares que lhe pertencem ; 
da segunda classe formei a pags. 155-166 uma secção; é 
pois só á terceira que devo referir-me agora, mencionando 
alguns objectos extremamente curiosos. 

Em Trás-os-Montes; na Serra do Alvão, ha grande 
quantidade de antas, que forão excavadas pelos Srs. P." 
Raphael Rodrigues e José Brenha 4 . Numa d'estas antas 
encontrarão os referidos ecclesiasticos uma notável serie 
de figuras de pedra, que não tem nada que se lhes pareça 
no que por ora se conhece na nossa prehistoria. Algumas 
d'estas figuras são humanas; outras representSo animaes; 



1 Tylor, La dvilisation primitive, ii, 68, nota. 

* Ethiopia oriental, I, cap. xv ; II, cap. xun. 
3 Por exemplo na Beira- Alta. 

♦ Ambos publicarão a respeito d'ellas artigos na Vida Moderna 
(jornal portuense), 1895; o primeiro publicou também artigos no 
vol. I d- O Archtologo Português. 



outras representKo objectos diversos. Tenciono fazer d'«llas 
noutro lugar um estudo circumstaneiado ; e por tanto li- 
mito-me aqui a dar em tamanho natural a estampa de uma 
(fig. 72), que parece representar um gato; o illustre natura- 
lista e meu amigo, o Sr. Ãlbert Girard, a quem consultei 
sobre a significação de algumas d'estas figuras, também se 
inclina a que seja um gato, porque, diz elle, o gato fé O 
único animal que no nosso país dispõe os membros, quando 




deitado, como a pedra os representa». Outras figuras pa- 
rece representarem, uma um c&o ou um gato, outra um 
sapo ou uma rS, outra um cito; outra talvez represente 
um porco, com um dente muito sabido. Ás vezes cada 
pedra representa ao mesmo tempo mais de uma figura. 
Estes objectos sao importantíssimos, já por constituírem 
uma das poucas representações zoomorphioas da nossa 
arte neolithica 1 , já pela sua significação religiosa, pois, 



' Vid. o que escrevi a cima, p. 163 e nota. 



343 



quanto a mim, representSo ídolos ou feitiços, depositados 
junto dos mortos, para os protegerem, como os amuletos 
de que tratei a p. 111 sqq. NSo será sem interesse notar 
que, assim como na classe dos amuletos feitos de dentes 
achámos dentes de animaes dos géneros Sus, Fdis e Canis, 
também aqui achámos, ao que parece, figuras de porco, 
de gato e de cio 1 . Todos estes animaes, como os outros 
representados pelas restantes pedras, teri&o pois certo ca- 
racter religioso. Em antas vizinhas, na mesma Serra do 
Alv&o, appareoêrSo também objectos que podem ser consi- 
derados como amuletos ; uma pedra de que fallo adeante, 
p. 359, e cujo caracter religioso me parece igualmente 
claro, pertence ainda á referida região. 

Na anta da Cunha-Baixa (Mangualde), a que me referi 
a cima, p. 271, encontrei um objecto de granito, com a 
conformação indicada na figura 73: o objecto tem de 
comprimento 1^20 e de maior largura O^O, apresen- 
tando ao longo uma serie de sulcos feitos com toda a 
regularidade; estava deitado á entrada da camará. NSo 
me parece fácil determinar precisamente o uso d'este obje- 
cto. Nunca vi outro igual, comquanto tenha encontrado 
dentro das antas pedras mais ou menos compridas e irre- 
gulares, que talvez lá não fossem postas sem especial in- 
tuito f . Num livro do sr. Joly 3 vem o desenho de um 
objecto que represento na fig. 74, o qual nlo deixa de ter 



1 Estas figuras sio comparáveis, creio eu, ás que apparecêrSo em 
França na epocha magdalencnse (epocha quaternária) : cfr. G. de 
Mortillet, Le Préhistorique, 1885, p. 418. Perrot & Chipiez, na Hist. 
de Vart dons Vantiquitê, ii, 355, fall&o de figuras achadas cm túmulos 
chaldaicos e egypcios, mas dào d*ellas outra explicação differente 
da que me parece se deve dar das do tumulo trasmontano. Ainda 
á cerca de figuras achadas em túmulos antigos vid. The Academy, 
de 21 de Setembro de 1895, p. 231. — Num tumulo bavaro da epocha 
de Halstatt encontrárfto-se ossadas de javali, que era um animal 
sagrado : vid. J. Naue, in Bevue Archèologique, 1895, p. 44. 

* Cfr. supra, p. 302. 

' Uhomme avant lei màaux, Paris 1879. 



alguma parecença com o de cima, embora talrez seja 
muito menor, e de outra substancia l : o A. denoiuina-o 



registre de tmrptz*. Inclíno-me a crer que o objecto da 
Cunha-Bnixa representa um tropbeu, designando os sulcos 



1 Viil. obra dl., p. 214. O Sr. Joly, segundo 
de certos AA., n3o nota d'ondc extrnhíu a figura, dizendo apenas 
vagamente d'apriê Broca; por isso nSo posso consultar a fonte, e 
sabor ati que ponto será fundada a comparação qae faço no texto. 



345 



um número qualquer (de victórias, de caçadas, etc.) : neste 
caso poderia comparar-se também, quanto ao uso, com os 
chamados batons de commandement, que o sr. Salomon 
Reinach considera exactamente como tropheus de caça 1 . 
A hypothese que apresento é confirmada por um costume 
dos Bongos (Africa): «cuando fallece uno de sus valientes 
guerreros, sus amigos levantan sobre su tumba un montón 
de piedras, lo cercan con una pequefia valia de tosca 
madera y clavan sobre ã un tronco de árbol redondo y 
lleno de cortes transversales que, ai parecer, indican d nú- 
mero de enemigos muertos por el difunto**. A differença 
entre o costume da Africa e o nosso está em alli ficar o 
tropheu sobre a sepultura, e na Cunha-Baixa ter appare- 
cido o objecto dentro do tumulo ; todavia isto depende de 
uma concepção secundaria: o facto mais importante está 
na semelhança da forma dos objectos. 

Neste ponto de fallar dos objectos industriaes colloca- 
dos nas sepulturas, devo lembrar que, se se torna crível, 
de accôrdo com os factos que citei a p. 337, que algumas 
vezes os deteriorassem, quebrassem ou queimassem, outras 
vezes, e muitíssimas até, depositavão-nos inteiros, ora já 
usados, ora perfeitamente novos, sem uso nenhum ainda, 
como hoje mesmo se faz. A civilização neolithica não era 
uniforme; por isso que admira que numas localidades 
houvesse uns costumes, e noutras costumes differentes? 

Não consistião só em objectos induBtriaes as offerendaB 
feitas aos mortos. Tanto nas grutas, como nas sepulturas 
de pedra, se tem encontrado com mais ou menos frequên- 
cia ossos de animaes. Fallando dos alimentos usados pelos 
habitantes neolithicos da região da Figueira- da-Foz, diz o 
sr. Santos Rocha: «O coelho devia ser um dos mais abun- 
dantes e talvez dos mais apreciados, visto que é d'este 
animal que temos maior número de vestígios, e que era 



1 Vid. ÂntiquUés nationales, i, 234. 

1 Rateei, Las rasas humanas (trad. do allemio), i, 819. 



346 



offerecido aos mortos conjunctamente com as armas e ins- 
trumentoB mais bem acabados. Nas grutas da Cezareda e 
da Furninha também se encontraram numerosíssimos ossos 
da mesma espécie animal ; o que parece indicar que esse 
alimento foi muito usado no nosso território pelos primiti- 
vos habitantes» *. Alem dos restos do género Lepus, appa- 
recem restos de muitos outros, Ursus, Cervus, Sus, Bo$, 
O vis, etc., e variadas conchas. A respeito da Furninha 
(Peniche) nota o sr. Nery Delgado um facto curioso: ton 
n f a pas rencontró de restes de poissons dana cette grotte, 
Bauf dans le corridor d'entrée ou ils se trouvaient d'ailleurs 
en três petite quantité, à peine 3 vertèbres et un fragment 
de maxillaire, peut-être appartenant tous à une seule es- 
pèce, et même à un seul individu. Cette tribu troglodyte ne 
connaissait-elle pas Tindustrie de la pêche ? Cela ne paraít 
pas vraisemblable, puisqu'elle vivait au bord de la mer, 
ou Ton voit aujourd'hui pulluler les poissons» *. Os povos 
que sepultarão os seus mortos na gruta da Furninha, vi- 
vendo, como acaba de se dizer, á beira-mar, é mais que 
provável que tivessem o culto das aguas : talvez no facto de 
nSo utilizarem, como parece, os peixes para a alimentação, 
se manifestasse alguma superstição, por exemplo, a venera- 
ção pelos peixes. Hoje mesmo alguns pescadores da nossa 
costa marítima não pescão em dia de S. Pedro, pois que 
este santo, segundo a crença, foi pescador, e é por isso 
advogado dos homens do mar, desempenhando assim algu- 
mas das funcçSes de Neptuno. A minha hypothese justifi- 
ca-se ainda com outro facto : as conchas de molluscos mari- 
nhos encontradas na referida gruta da Furninha representão, 
segundo o sr. Nery Delgado, uma parte insignificantíssima 



# 

1 Antiguidade* do concelho da Figueira, i, 34. — A cerca da Fur- 
ninha, vid. Ncry Delgado in Compte-rendu do Congresso de Lisboa, 
paga. 223 e 239; á cerca da Cezareda vid. o mesmo A., Notícia 
dai grutas, p. 38. 

1 In Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 226. 



347 



da alimentação, tsi leur introduction dana la grotte n'a 
pas plutôt une autre signification ethnographique» * : effe- 
c ti vãmente, já a p. 146 sqq. vimos a importância ethno- 
graphica das conchas, consideradas como amuletos. Por 
tanto os habitantes d'aquella região nSo comerião os ani- 
maes marítimos, ou pelo menos alguns d'elles, certamente 
por os terem por cousas sagradas 9 . — Podia succeder que 
não só se depositassem junto dos cadáveres e dos esquele- 
tos as comidas que aos espíritos dos mortos haviâo de ser- 



1 In Compte-rendu do Congresso de Lisboa, p. 223. 

2 S2o conhecidos na ethnographia geral muitos (actos análogos, 
ou de semelhante natureza. 

Fallando dos Beafares (Africa) diz A. Alvares d* Almada (sec. 
xvi): «Ha nesta terra humas aves grandes que se querem parecer 
com perus, mas não se encrespão como elles, nem lhes cae a crista 
a baixo ; são como as fêmeas. Por leis do reino não se podem ma- 
tar, nem ninguém as mata, porque ha grandes penas postas sobre 
iseo. Tem por erronia aquella nação em dizerem que são estas aves 
as almas dos seus antepassados [totemismo]. Não ha negro nenhum 
que lhes faça nojo» (Tratado das rios da Guini, ed. 1841, p. 61). 
Aves que para os Beafares erão tão veneráveis, n2o o erão para os 
Portugueses : «Os nossos, achando-as em lugares escusos, onde não 
sejão vistos, as matão e as comem* (Ob, cii,, p. 61). 

Outra superstição dos Beafares refere o mesmo A.: •£, alem 
d'esta, não consentem matar as aves que pousão nas arvores que 
tem á porta, ao longo de suas casas, sem licença de seus donos, 
porque dizem que são seus hospedes, a quem se não pôde fazer mal» 
(Loc. laud., p. 61). Esta superstição parece-se com as que correm 
em Portugal á cerca das andorinhas : vid. Tradições populares de 
Portugal, § 287. 

Ratzel, Las vazas humanas (trad. do allemão), i, Barcelona 1888, 
pags. 93, 147 e 192, refere-se á repugnância que vários povos tem 
não só pelos peixes, mas por outros animaes. 

Muitos podem ser os motivos que influão para que deixe de utili- 
zar-se um animal para alimentação. Se os Mahometanos e Judeus, 
por preceito religioso, não comem toucinho, que tão apreciado é 
por outros povos, nós, por exemplo, não comemos, por nojo, carne 
de cavallo, que tanto consumo tem em França. 

Os povos catholioos não comem carne em certos dias do anuo. 



348 



vir na vida eterna, mas também se celebrassem banquetes 
fúnebres , análogos aos que mencionei a cima, p. 334*. 

De se encontrarem numa sepultura prehistorica ossadas 
de animaes não se deve logo porém concluir que estamos 
sempre deante de restos de comidas depositadas com os 
mortos, ou de banquetes fúnebres, porque ha pouco mostrei 
que s3o muito vulgares nos povos selvagens os sacrificioB 
de animaes, podendo pois também tê-los havido nos tempos 
neolithicos, o que é de mais a mais extremamente provável. 

Do mesmo modo é possível que muitas das ossadas hu- 
manas achadas nos sepulcros pertenç&o a victimas immo- 
ladas em honra de pessoas notáveis ahi sepultadas, — prá- 
tica de que dei a cima bastantes exemplos. 



As offerendas depostas nas sepulturas fazem inferir que 
os povos neolithicos acreditavão na existência póstuma, e 
por tanto no animismo 9 : ideia que combina náo só com 
o que deduzi no cap. II, á cerca da necrolatria dos kjoek- 
kenmoeddings, no cap. Hl, á cerca das trepanações neo- 
lithicas e a cima, p. 279, á cerca da solidez dos dolmens, 
mas com o que se *sabe das concepções da vida formadas 
pelos selvagens e por outros povos incultos, ás quaes tam- 
bém me referi. 

Esta ideia, no período neolithico, adquire porém lhaior 
desenvolvimento do que o que tinha nos períodos anteriores; 
pelo menos manifesta-se num culto regular e desenvolvido 
prestado aos mortos, culto que, a julgar dos vestígios que 
permanecerão até hoje, consistia na consagração de túmulos 
especiaes, ás vezes bastante grandiosos, e em offertas, mas 



1 Cfr. também Santos Rocha, Antiguidades do concelho da Figueira, 
i, 88 ; todavia os factos ahi mencionados nfto sSo sufficientes para se 
admittir positivamente o costume em Portugal. 

* Cfr. sopra, p. 96. 



349 



que devia ter sido muito mais complexo, com quanto só 
theoricamente se pudesse esboçar por inteiro o ritual funé- 
reo. Se havia sacrifícios, havia de haver sacerdotes, que 
recitarião fórmulas e procederiâo a evocações 1 . O enterro 
constituiria um acto solemnissimo, em que o morto, dei- 
xando este mundo, partia para outro, munido, como se 
disse, de tudo aquillo de que lá poderia necessitar ; mas, 
ainda que havia a convicção de que a alma não se anniqui- 
lava, pois se lhe davão alimentos e preparos para a vida 
futura, e se lhe erigia um tumulo solido e magnificente, que 
resistia aos séculos, e lhe prestava abrigo seguro, não seria 
comtudo sem compuncção que, enfeitados com seuB ornatos 
e amuletos, contas verdes, pingentes, placas cobertas de 
debuxos, os amigos e parentes do morto o conduzião em 
pelles ou esteiras feitas de ramos de arvores 9 , até á entrada 
da gruta ou da galeria dolmenica, onde o coveiro hirsuto, 
removendo a tampa da sepultura, appareceria deante dos 
olhos de todos como o interprete dos mysterios e das 
sombras da eternidade. 

Comquanto o que acabo de dizer se baseie em certos 
factos, como se vê das notas, não vou mais longe na inter- 
pretação d'estas scenas da historia do passado, porque 
receio entrar no campo da phantasia. 



Ou porque dos tempos prehistoricos ficarão muitos restos 
na tradição, que nos tempos posteriores se vivificarão e re- 
novarão ao contacto dos coBtumes dos povos protohistoricos 
e históricos que dominarão na Lusitânia, ou porque nesses 



1 Sobre a possibilidade da existência de sacerdotes vid. também 
o que se disse a p. 187 sqq. 

* Vid. sobre costumes <T estes : £ Ignacio da Camará, Relatório 
á cerca dos povos de Timor (in Diário do Governo de 14 de Outubrp 
de 1895, p. 2776) ; Ratzel, Las razoe humanas, i, 154 (Betschuanos), 
i, 229 (Ovahereiros), e i, 355 (Bihé). 



360. 



tempos posteriores muitos costumes surgirSo cá pela pri- 
meira vez: o que é certo é que a moderna ethnographia 
portuguesa offerece ao estudo do investigador factos nu- 
merosos que não pertencem como próprios á civilização 
actual, e que pelo contrário derivão do passado, como o 
dinheiro de Charonte, o comer sobre as sepulturas, os ban- 
quetes em que se reserva um lugar para o morto, a crença 
na apparição dos espíritos, os fieis de Deus, etc. : o que 
tudo se estudará noutras partes d' esta obra *. 

V. Signaes insculpidos em pedras 

Tanto em simples rochedo, como em monumentos clara- 
mente archeologicos, encontrfto-se ás vezes insculpturas tos- 
cas ou signaes, que, pela sua singularidade, tem chamado 
a attençSo dos estudiosos. S&o de duas espécies principaes : 
cavidades e figuras. Umas e outras variSo na forma e di- 
mensões. Já n&o se duvida hoje do caracter artificial d f eBtas 
insculpturas, attenta a regularidade com que em certos casos 
apparecem, e outras circumstancias ainda; no emtanto con- 
vém lembrar que vários rochedos offerecem á sua super- 
fície cavidades naturaes, que olhos menos exercitados po- 
deri&o confundir com as cavidades artificiaes. 

As cavidades tem nomenclatura scientifica especial. Os 
Állemães cham&o-lhes Schalensteine e Nãpfchensteine (pe- 
dras em forma de taça e de malguinha); os Ingleses cup- 
ped stones ou cupstones (idem) ; os Franceses pierres à bas- 
sin ou à écuelles (as maiores; podem ter m ,5 de diâmetro, 
mais ou menos), pierres à cupules, à godets ou à fossettes 
(as menores; podem ter QP 7 03 de diâmetro, menos ou mais). 
O sr. J. Sacaze distingue : 1) pierres à bassin ou à icuette 
(no sentido indicado); 2) pierres à cupules ou à godets 
(idem) ; 3) pierres à fossettes (quando alongadas; podem ter 
de O*, 16 a O^õô de comprimento, e O^Oô de largura); 



1 Cfr. no emtanto as minhas Tradições pop. de Portugal, § 342. 



3õl 



forma ainda uma 4.* classe, pierres à Y (figura composta 
• soit de trois fossettes réunies, soit de trois simples lignes 
tracées Bur la pierre») 4 . No emtanto, do que tenho lido nos 
AA. franceses concluo que elles muitaB vezes emprégSo 
no mesmo sentido, indistinctamente, as expressões écudles, 
fossettes, godets, cupules. Em português costuma adoptar-se 
a expressão covinhas para significar as cavidades menores ; 
as maiores carecem de denominações, porque n&o tem ainda 
cá sido descritas. — Para as figuras n&o existe, supponho, 
nomenclatura própria na linguagem scientifica. 

Entre outros muitos artigos, ou notas, dispersos pelos 
livros ou jornaes de archeologia, citarei aqui, para com- 
modidade dos leitores, os seguintes trabalhos especiaes 
sobre o assumpto, de todos os quaes me utilizei mais ou 
menos: 

— Sur les scuiptures des rochers de la Suède, por Oscar 
II ontelius, in Compte-rendu do congresso de anthropologia 
e archeologia prehistoricas de Estocolmo (sessío de 1874) ; 

— Sur les rochers sculptés découverts en Scanie, por G. 
Bruzelius, ibidem] 

— Scuiptures préhistoriques situées sur Us bords des lacs 
ds Merveilles (Italie) por L. Clugnet, in Matériaux pour 
Vhistoire primitive et naturelle de Fhomme, 1877, xn, 379 
sqq., com estampas; 

— Les pierres à écudles, por E. Desor, — no mesmo jor- 
nal, 1878, xm, 259 sqq., resumo de um opúsculo de 43 
paginas, in-12. 6 , com estampas, publicado na referida 
data (Vid. d'aquelle A. também as Mélanges Scientijiques, 
Paris 1789); 

— Observations on cup-shaped and other lapidarian scui- 
ptures in the Old World and in American, por Ch. Rau, 
Washington 1881, 112 pag, com estampas (In cContrí- 
butions to North American Ethnology», vol. v); 



1 Vid. Compte-rendu do Congresso internacional de anthropologia 
e archeologia prehistoricas celebrado em Paris em 1889, p. 615 sqq. 



352 



— Les premiers hammes, pelo Marquês de Nadaillac, I, 
Paris 1881, p. 277 sqq. (pierres à écuelles), p. 334, sqq. 
(scvlptures et ornementations) . 

— La France prêhistorique, por E. Cartailhac, Paris, 
1889, cap. xm (Sculptures des cryptes et des grottesj e 
cap. xviii, com estampas ; 

— Schalensteine, por J. Mestorf, 5 pag., com estampas 
(extracto das Mittheilungen des Anthropolog. Vereins in 
Sc/deswig-Holstein, fase. 7.°); 

— Lee pierres à écuelles et à cupults, por J. Lacaze, in 
Compte-rendu da sessão do Congresso internacional de an- 
thropologia e archeologia prehistorica celebrada em Paris 
em 1889, p. 615 sqq. ; 

— Les figures sculptées sur les monuments mégalithigues 
de France, por A. de Mortillet, in Revue mensuelle de VÉcole 
d'anthropologie, IV, 1894, p. 273 sqq., com estampas. 

— Zwei neue vorhistorische Skuipturensteine avf den Hu- 
belwângen, oberhalb Zermatt, por B. Reber, in Anzeig. 
fiir Schweizerische Altertumskunde, xxix, 74 sqq. 

As covinhas existem em muitas regiões. Conhecem-se 
pelo menos na Suécia, Noruega, GrS-Bretanha, AUemanha, 
Áustria, Suiça, França e Portugal, e alem d'isso na índia 
e na America do Norte. As figuras conhecem-se também 
em muitas d'essa& regiões e na Itália, e, segundo infor- 
mações particulares que recebi, parece que também se 
conhecem na Hespanha. 

Estas insculpturas encontrfto-se, como disse, em simples 
rochedos, e em monumentos archeologicoB, isto é, em me- 
nhires, cromlechs e dolmens. Na Suiça domin&o nos roche- 
dos duros, especialmente de granito e de gneiss, com quanto 
também as haja, embora em menos quantidade, nos rochedos 
de calcareo e de schisto *. Nos dolmens occupSo ou as super- 
fícies externas, ou as superiores, ou as internas das lages. 



1 Desor, in Matiriaux pour UhUtoirt primitive et naturtllt de 
Vhomme, xm, 263. 



353 



Na Suiça, por exemplo, «ona signalé bíx écuelles à Pin- 
térieur de Tune des chambres des tumulus du mont Saint- 
Michel à CarnacD 1 . Na Dinamarca encontrão-se também 
dentro das camarás funerárias prehistoricas *. Fergusson 
cita uma camará sepulcral de Lough-Crew, em que algu- 
mas lages tem notáveis insculpturas (figuras) 3 . No referido 
artigo de Desor vem desenhado um dolmen da GrS-Bretanha 
com a cobertura semeada de covinhas 4 . A cerca da per- 
feição do trabalho das covinhas, diz Desor, fallando das 
da Suiça: «L/intérieur des écuelles n'est parfaitement 
lisse que dans les exemplaires bien conserves; mais meme 
lorsqu'elles ont perdu leur régularité, on constate encore 
Tintention de les rendre aussi régulières et aussi propres 
que le permettaient la nature de la pierre et les instruments 
dont disposaient les sculpteurs primitifs» 5 . 

Das observações dos diversos investigadores resulta que 
as insculpturas de que se está fallando datarão já dos tem- 
pos neolithicos, o que nío impede que as haja também 
do período do bronze 6 . «Des expériences, qui semblent 
décisives, exécutéea au Musée des antiquités nationales, à 
Saint-Germain, ont montré que le coin de pierre était par- 
faitement capable d'opérer par écrasement ces sillons à 
la surface des granits. Le coin de bronze s'émousse au 
contraire et ne peut être utilisé dans ce but» 7 . 



1 Desor, in Matériaux pour Vhistoire primitive et natureUe de 
Vhomme, ziii, 263. 

2 Rau, Observations on cup-shaped, etc., p. 26. 

3 Apud Bertrand, La Gault avant les gaulois, 1891, p. 154. 

4 In Matériaux, etc, zni, 267. 

5 In Matériaux, etc., zni, 261. — Cfr. Rau, Observations, etc., p. 16. 

6 Vid. Desor, in Matériaux, zni, 275 ; J. Mestorf, ib., ib., 277 ; 
Rau, Observations on cup-shaped, etc, p. 22 sqq. ; Mortillet, in Revue 
mensuelle de VÊcole d'Anthropologic, iv, 281 ; etc, etc. 

7 Cartailhac, La France préhistorique, cap. xni. 

Cfr. também Clugnet in Matériaux, etc, xix, 386 ; Desor, ib., xiii, 
266 ; Rau, Observations on cup-shaped, etc, p. 82, nota ; Nadaillac, 
Les premiers hommes, i, 335. 

28 



354 



As covinhas estilo muitas vezes disseminadas, sem ordem, 
á superfície das pedras, outras vezes agrupadas regular- 
mente, em linha recta, em círculos, em quadrados; ora 
se achão separadas umas das outras, ora ligadas entre si 
por sulcos ou gotteiras; podem apresentar-se insulada- 
mente, ou combinadas com outras insculpturas (círculos, 
espiraes, figuras várias), o que mostra a contemporanei- 
dade d'essas diversas espécies de signaes 1 . O número, 
quer das covinhas, quer das figuras, varia também com 
cada pedra. 

Muitas theorias tem sido apresentadas para explicar o 
sentido primitivo das insculpturas neolithicas. Uns conside- 
rão as covinhas como meros ornatos, outros como receptá- 
culos do sangue de víctimas, como cartas geographicas ou 
astronómicas, como relógios de sol, como mesas de jogo; 
tudo o que á imaginação humana aprouve! Clugnet attri- 
buia em 1877 as interessantes figuras esculpidas nas mar- 
gens dos lagos da Itália á distracção dos pastores pre- 
historicos nas longas horas que a guarda dos rebanhos lhes 
deixava livres e ociosas 3 . No emtanto, basta reparar na 
connexfto que frequentemente se nota entre as insculpturas 
e os monumentos archeologicos, na coexistência d'ellas em 
diversos países, e no facto de muitas vezes se acharem ou 
em rochedos extremamente rudes, ou dispostas em super- 
fícies verticaes, ou em lages que devião ficar occultas 
debaixo da terra, para excluir todas as hypotheses indi- 
cadas. Se fossem meros ornatos, não se farião em penedos 
irregulares, d'onde toda a belleza esthetica está ausente; 
se (as covinhas) fossem receptáculos de sangue, não as 
veríamos em superfícies que tinham de ficar em posição 
vertical; se fossem mappas geographicos, taboas astronó- 
micas, mesas de jogo, não se esconderião dentro dos tumu- 



1 Vid. os respectivos desenhos nos trabalhos citados no princípio 
d*este capitulo. — Cfr. também Rau, Obsenalions, de, p. 10. 

2 In Matériaux, ete, xn, 385. 



355 



los; finalmente, se fossem entretenimentos vagos de gente 
que nSo tinha em que pensar, nSo as veríamos apparecer 
nas mesmas condições em tão afastados e differentes países, 
a revelarem ideias que, se nfto erão perfeitamente idênti- 
cas entre si, erão sem dúvida muito semelhantes 1 . Mas 
que ideias revelavão ellas então? Difficil se torna respon- 
der de modo preciso a esta, como a análogas questões. 
Muitos investigadores, attendendo ás condições em que as 
covinhas em grande parte se mostram, dentro de túmulos, 
ou perto d'elles, e ás tradições populares que ainda mo- 
dernamente se lhes ligão, inclinão-se a crer que, senão 
todas, pelo menos algumas, continhão sentido religioso 3 . 
A mesma conclusão se deve tirar a respeito das figuras, 
pois que tão intimamente se relacionão com as covinhas. 
Aqui cito algumas tradições populares. Na Suiça a 
tPierre cTAyer», que tem covinhas, chama-se Pierre du 
Sauvage, e o povo diz que se vêem ahi muitas vezeB as 
Fadas 3 ; perto de Schalberg un tbloc à écuelles» chama- 
se Hexenstán, isto é, Penedo das Bruxas, porque ahi se 
reúnem as Bruxas em assembleia nocturna (sahbat) K \ em 
Bienne ou Biel, também na Suiça, um tbloc à écuelles» 
chama-se Kleiner Heidenstein, isto é, Penedinho dos Pagãos 5 . 



1 Cfr. também Desor, in MaUriaux, etc, xin, 259 sqq.; Rau, 
ObservaUoM, etc., p. 71 sqq. — «Si les écuelles se trouvent dane les 
même8 conditions en Suisse, en Angleterre, en Scandinavie, dans 
les Pyrénées et en Allemagne; si elles j sont partout 1'objet de 
superstitions et parfois d'une espèce de culte, il faut bien qu'il ait 
existe quelquea relations, quelquee liens entre les peoples qui ont 
scuipté ces signes mystérieux» (Desor, in Matériaux, etc, xin, 270). 

2 Vid. a tal propósito : 

Tate e Simpson (apod Rau, loc. laud., 78 e 82. Este não se decide, 
mas não é adverso á ideia religiosa). 

J. Mestorf, Schalensteine, p. 1 ; e in Matériaux, etc, xin, 279. 

Salomon Reinach, in Revue Archéólogiqut, xxn, 46. 

J. Sacaze, in CompU-rendu do Congresso de Paris, 1889, p. 620. 

3 MaUriaux pour Vhistoirt primitive, etc., ii, 257 (Desor). 
« Ib., ib., p. 258 (Desor). 

s 26., xin, 263 (Desor). 



356 



Na Escandinávia ha um penedo com covinhas que tem o 
nome de Penedo de Balder ou Bulder 1 , muitos outros deno- 
minão-se Elfstenar ou Elfqvarnar, isto é, Penedo ou Moinho 
dos Elfos, porque os Elfos habitão debaixo d'elles, e moem 
farinha nas covinhas 3 ; um costume curioso consiste em 
untar as covinhas com gordura, e depositar nellas offe- 
rendas (flores, moedas, etc.), para obter a protecção dos 
seres mysteriosos que vivem sob os penedos 3 . Em alguns 
pontos da Allemanha as pedras com covinhas tem o nome 
de Todtensteine, isto é, Penedos ou Pedras dos Mortos 4 ; 
nesse país «on se débarrassait de la fièvre et d'autres ma- 
ladies en soufflant dans les cavités» 5 ; numa pedra espe- 
cial, com covinhas e figuras, chamada Bischofstein, isto é, 
Pedra do Bispo, na Prússia, buscava-se também a cura para 
diversos males 6 . Na França (Thoys) certo bloco errático 
com covinhas chama-se Boule de Gargantua; o vulgo ex- 
plica as covinhas, dizendo que resultarão das impressões 
dos dedos de Gargantua 7 , gigante que naquelle pais de- 
sempenha funcções análogas ás que entre nós, na imaginação 
popular, desempenhão os Moiros. Na índia as molheres 
levão, nas suas peregrinações ás montanhas de Pendjab, 
água do Ganges para banharem os signaes (discos) escul- 
pidos nas pedras, chamados mahadeo*. 

Ainda que do facto de a um monumento se attribuirem 
hoje lendas, ou significação religiosa, não se pôde logo 
concluir que sempre assim fosse desde a origem d'elle, 
porque o povo a cada passo estabelece sincretismos, re- 



1 Matériaux, etc, xm, 268 (Desor). 

2 J. Mestorf, Schalensteine, p. 1. — Cfr. também Matériaux, etc., 
xm, 268 (Desor) ; e Nadaillac, Les premiers hommes, i, 279. 

3 Mestorf, Schalensteine, p. 1. 

4 Matériaux, etc., xm, 278 (Mestorf). 

5 Matériaux, etc, xm, 278 (Mestorf). — É um dos conhecidos 
meios supersticiosos de transferir as doenças. 

6 Ib., ib., ib, (id.). 

7 Matériaux, etc, xm, 284 (Falsan). 
« Ib., xm, 271 (Desor). 



357 



vestindo uns monumentos das attribuiçoes de outros: com- 
tudo é muito provável que no nosso caso as tradições po- 
pulares sejSo echo de vetustas crenças, porque não só 
taes tradições tem bastante generalidade, mas estão de ac- 
côrdo entre si, e com outras que ficarão de tempos imme- 
moriaes, por exemplo as que se referem ás grutas, aos 
dolmens e aos machados de pedra polida. Sacaze chega 
mesmo a dizer das inpculpturas: cfaisant partie de monu- 
ments funéraires ou situées dans leur voisinage, peut-être 
ne sont-elles pas sans rapport avec le culte des morta» 1 ; 
o mesmo nota Mestorf : «Wo sie, wie bei uns, in Grabhugeln 
oder auf den Decksteinen von Steingrabern vorkommen, 
scheinen sie auf einen Todtencultus hinzudeuten»*. encon- 
trar-se um symbolo religioso junto de um tumulo não basta 
para se admittir ipso facto que é exclusivamente funerário: 
assim a cruz christã, se se colloca nos cemitérios, a am- 
parar com os seus braços as sombras dos mortos, adora- 
se ao mesmo tempo nas igrejas, como emblema do funda- 
dor do Christianismo, e ergue-se nos pontos de bifurcação 
dos caminhos, santificando velhos cultos pagãos; por isso 
as covinhas e as restantes insculpturas, comquanto vero- 
similmente sagradas, e sem dúvida em estreita connexão 
com a necrolatria prehistorica, podião ter significação re- 
ligiosa mais lata, pois se observão também em locaes onde, 
pelo menos hoje, não se descobrem monumentos fúnebres 
contemporâneos d'ellas. Sustentão ainda alguns auctores 
que o culto ou veneração das covinhas era outr'ora tão 
vivaz, que foi preciso intervir a Igreja para o desarreigar, 
christianizando-o. Assim explica Mestorf que numa pedra, 
que existe na Prússia, chamada Bischofstein (pedra do 
bispo), de que já faltei a cima, se veja insculpida, entre 
muitas covinhas, uma cruz e um cálice ; e que noutra pedra, 



1 In Compte-rendu do Congresso de Paris (1889), p. 620. 

2 Isto é : «Quando, como entre nós, ellas se encontrão nos tumuli 
(mamôas) ou nas lousas tumulares, parece que se relacion&o com o 
culto dos mortos». Schalenstcinc, p. 5. 



358 



agora existente no museu de Kiel (Holstein), formem qua- 
tro covinhas, pela sua reunião, uma cruz ! . O segundo facto 
não o julgo bastante concludente; a disposição crucial das 
covinhas pôde nada ter de especial, por ser muito natural. 
O primeiro é mais importante; mas foi elle bem obser- 
vado ? Adeante citarei um caso português, análogo a este. 
Facto também digno de nota é o encontrarem-se covinhas 
nos muros de várias igrejas da Prússia e da Suécia 3 , mos- 
trando algumas haverem sido de fresco untadas com gor- 
dura 3 , superstição a que ha pouco me referi. 

Depois de ponderado quanto fica escrito, não deverá 
realmente duvidar-se do primitivo caracter sagrado das 
covinhas e insculpturas congéneres. 



Pareceu-me conveniente fazer essas considerações ge- 
raes á cerca das insculpturas prehistoricas, como introduc- 
ção ao que vou agora expor nos domínios da archeologia 
nacional, assumpto que, quando me occupei dos dolmens, 
disse (p. 276) que reservava para este lugar. 

Como noutros países, também temos em Portugal dif- 
ferentes espécies de insculpturas, apparecidas em condições 
igualmente variadas. Primeiro reunirei os documentos com- 
provativos do que digo, estabelecendo comparações com 
os factos estrangeiros; depois, por fim, synthetizarei, num 
quadro, os caracteres das nossas insculpturas. 

Num dolmen no lugar de Frieiro, concelho de Villa- 
Pouca-d* Aguiar (Tras-os-Montes), já com a tampa cahida 
e com a mamôa um tanto esboroada, mas nSo ainda devas- 
sado, appareceu tuna lage em cuja superfície havia 32 covi- 
nhas. Eis a forma da lage e a disposição das covinhas na 
fig. 75. 



1 In Matériaux, ela, xin, 278. 

1 lb. } ih., ib. — Cfr. também Rau, Obêcrvations, etc, p. 87. 

* Matériaux, etc, xiii, 278 (Meetorf). 



A pedra é de granito e muito dura; tem de comprimento 
1™, 10, de largura num doa lados 0"',84 e no outro 0,òò. Acha- 
va- se collocada horizontalmente á entrada da camará, á al- 
tura da base dos esteios, a 1 metro de profundidade, assente 
no solo natural. A cova maior, que occupa quasi o centro, 
tem de diâmetro 0™, 10 ; as outras covinhas tem diferentes 
diâmetros, qne varíao, uns entre 0^,06 e 0,08, e os outros 
entre 0",02 e 0*,04. Particularidade muito digna de nota : 
toda a superfície da pedra estava coberta de uma camada 
de cinza, misturada com ossos humanos mais ou menos 




carbonizados, e com terra, — o que tudo enchia também 
portanto as covinhas. O dolmen compoe-se de sete esteios, 
de uns 2 metros de altura. Pôde attribuir-se ao período 
neolithico, porque nelle só apparecêr&o instrumentos de 
pedra polida, como raspadeiras ; com as raspadeiras appa- 
recêrao amuletos*. Em nenhuma das antas d'esta região, 



1 Devo esta notícia ao Sr. P.' José Brenha, qne explorou o dolmen 
em companhia do Sr. 1'.' Raphael Rodrigues. Cfr. também os arti- 
go* do último do jornal portuense A Vida Moderna, n." 28 e 30 
(Março-Ãbril de 1895); mas n-0 Archeologo Português, I, 349, diz 
que nio apparecea nenhum objecto de pedra (certamente se engana). 
Era Setembro de 1897 estive no concelho de Villa- Pouca de Aguiar 



360 



das quaes já se conhecem mais de cincoenta, appareceu 
ainda por ora objecto algum metallico. 

A precedente notícia é muito instructiva. Mestorf diz 
também que num tumulo de Beldorf apparecêrão duas 
pedras com inscuipturas; uma, de que dou mais adeante a 
estampa (p. 368), de l m ,75 X 2 m ,50, estava de pé, no 
meio da mamôa ; outra, de l m ,80 X m ,90, jazia ao lado, 
um pouco afastada, com as covinhas voltadas para cima; 
ao pé da primeira apparecêrâo carvSes^ cinzas e cacos 1 . 
Este facto é comparável ao que se observou no dolmen de 
Tras-os-Montes, onde evidentemente o rito funerário con- 
sistiu em incineração. Vê-se que, do mesmo modo que nas 
sepulturas de Arrife e Marcella (Algarve) 3 , também no 
dolmen de Frieiro se reservou uma lage especial para de- 
pósito dos restos de um ou mais defunctos, tidos em certa 
veneração ; mas, no caso de- que se trata aqui, essa vene- 
ração é augmentada pelo facto de a lage conter covinhas : 
dificilmente se hesitará pois em attribuir a estas significa- 
ção mystica. O povo não julgou bastante o abrir covinhas 
no monumento, ou o dispô-las de modo que ficassem vol- 
tadas para dentro, como em muitos dolmens succede : quis 
collocá las mesmo em contacto com as venerandas relíquias 
do morto, que assim ficaria mais precavido contra a acção 
maléfica das entidades sobrenaturaes ! 

Continuemos a f aliar de Tras-os-Montes. 

Na obra De antiquitatibus Conventos Bracaraugustani 
de Contador de Argote, 2. a ed., Lisboa 1738, liv. ih, 
cap. viu, diz-se que perto do «Cachão da Rapa, na mar- 
gem direita do rio Douro, que he precipitada em distancia 



e examinei a pedra e alguns dos ossos em casa do Sr. P.* Raphael 
Rodrigues, a quem aqui agradeço todos os obséquios que me dis- 
pensou. 

Posteriormente á impressão do que fica escrito, adquiri para o 
Museu Ethnographico Português a pedra e ossos achados com ella. 

1 Schalensteine, p. 4. 

* Fallei d'ellas a p. 247-248. 



361 

de vinte passos do rio, está eminente hum penhasco todo 
cuberto de musgo, excepto em parte de huma face, que 
está muy lisa por espaço de dez corados em alto, e quatro 
em largo no meyo, nas extremidades três; nesta tal face 
lisa se vem debuxadas diversas figuras com cores diversas, 
a saber: huna quadrados, e outras que se n&o pôde bem 
julgar se sío jeroglificos, ou letras. Os quadrados em parte 
Be parecem com os do jogo do xadres, em parte differem, 
porque nem sao tantos, nem de duas cores, nem brancos, 




b»ffl°* 



Ffg. IS 



e negros, mas só de uma cor, que he hum vermelho escuro, 
a margem porém em huns he azul, outros a nao tem. As 
de mais figuras se compõem das mesmas duas cores. O 
vulgo, e, o que he mais, alguns homens nobres, e erudi- 
tos, entendem que entes figuras se renovao todos os annos 
em dia de S. Joffo Bauptista pela mauhaa, e que appare- 
cem mais brilhantes: eu reputo isto por allucinaçSo da 
vista». Do mesmo penedo falia também Argote nas Memo- 
rias do Arcebispado de Braga, t. II, Lisboa 1734, p. 486 
sqq. Ambas as descripçSes aio acompanhadas de uma 
estampa (a mesma nas duas), que eu reproduzo na fig. 76. 



362 



O penedo fica a meia legoa de Linhares, termo da villa 
de Anciães. O local do penedo chama-se As Lettras. O 
povo procura sempre explicar e caracterizar os objectos 
que lhe parecem raros: d'aqui o considerar os signaes 
como «lettras», e revestir de uma lenda o penedo. Ao pé 
d'este havia, ou ha ainda, um monumento, que da leitura 
do texto de Argote não acerto bem o que seja. Diz-se 
ahi: «No fundo d'esta pedra, em que estão os sobreditos 
caracteres, para a parte que olha para o rio Douro, está 
um portal, que parece obra da natureza, e, entrando por 
elle dentro, se acha em pedra firme huma grande sala com 
assentos á roda, e no meio uma grande mesa, tudo de 
pedra, segundo dizem pessoas que alli tem entrado, e affir- 
mão ver-se d'esta sala huma porta que vay para outras 
mais para dentro» ! . Noutro ponto chama-se-lhe gruta*. 
O povo, no sec. xvu, acreditava que ahi havia thesouros 
encantados, — crença que mutatis mutandis se encontra 
ainda hoje a cada passo junto dos antigos monumentos. 
Em 1687, na manha de S. João, o Padre Domingos Men- 
des, cpara desengano dos que dizem existir alli um grande 
thesouro escondido», vesti u-se de sobrepeliz e estola, tentou 
penetrar dentro do monumento, mas, acerescenta Argote, 
«ao entrar da sala interior, se encheo de tanto medo, e 
sentio hum cheiro tão fétido, que ficou tremulo, e insen- 
sato, e a poucos dias lhe cahirão os dentes, nem fallou 
mais, de sorte que se entendesse bem». No principio do 
sec. xviii houve quem fizesse exeavações na gruta, desco- 
brindo vasos de barro, de que ainda muitos annos depois 
d'isso existião fragmentos; também, segundo uma infor- 
mação ministrada a Argote, appareceu ahi então uina 
«grande cruz de prata» 3 . Em breve veremos o valor 
d'estes factos. 



* Pag. 487. 
2 Pag. 488. 
» Papj. 488-489. 



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363 



As Lettras da margem do Douro sSo bastante conheci- 
das no nosso pais. 

Em sessão da Camará dos Pares, de 5 de Março de 
1853, o Visconde de Seabra, num discurso patriótico, 
chamou a attenção do Ministro das Obras Publicas para 
este monumento, e em virtude disso, na occasião em que 
se construiu a linha férrea do Douro, o monumento foi 
respeitado, mandando-se tirar uma cópia dos signaes, a 
qual reproduzo (reduzida) na fig. 77 ! , d'onde se vêem 
os estragos que o monumento soffreu desde o sec. xvm. 

Posteriormente tornou ainda o monumento a ser objecto 
de es tudo. No Boletim da Real Associação dos Archeologos, 
1886, p. 78 sqq., publica o Sr. Possidonio da Silva um 
artigo, acompanhado de uma estampa, que supponho que 
foi extrahida da cópia representada na fig. 76*. Nesse 
artigo diz elle que, por occasião do congresso da Asso- 
ciação francesa para o progresso das sciencias, celebrado 
em Grenoble em 1885, enviou também para lá um dese- 
nho dos signaes. 

Apesar do que fica notado, ainda ninguém, que eu saiba, 
deu esclarecimentos certos a respeito da epocha e civiliza- 
ção a que pertencem os signaes, e só se tem apresentado 
hypotheses inverosímeis ou pueris. 

Os factos seguintes elucidSo, me parece, a questão. 

A uns 600 metros de distancia de uma orca (dolmen) 
chamada «Cova dos Moiros», situada no pinhal dos Amiaes, 



1 Segundo as informações que colhi no Ministério das Obras 
Publicas, onde obtive a cópia, foi o conductor José Félix Alves 
quem a tirou, o que elle fez «amarrado com uma corda». 

Ao Sr. Prof. Severiano Augusto da Fonseca Monteiro, illustre 
chefe da Repartição de Minas, agradeço o ter-me facilitado que eu 
examinasse o respectivo processo archivado naquelle Ministério. 

2 O Sr. Possidonio, comparando a sua estampa com a de Argote, 
que é mais completa, nota por linhas pontuadas as figuras primiti- 
vas que faltão agora, mas interpreta inexactamente estas, pois re- 
presenta por £ E e por um suástica alguns quadradinhos incom- 
pletos de Argote. 



364 



na freguesia de Senhorim (Beira- Alta), encontrei em 1894 
no sítio da Pedraça um rochedo bruto de granito, de l m ,7 
de maior comprimento, e de l m ,l de maior largura, em 
cuja parte superior se viam pouco mais ou menos estes 
signaes representados na fig. 78 ! . E evidente a analogia 
entre alguns d' esses signaes e os que menciona Argote; 
o que desde já nos mostra que As Lettras do Douro n&o 
constituem caso único. 




Fig. 78 



Uma das lages que formavão a camará da referida orca, 
ou Cova dos Moiros, tinha insculpido na sua parte supe- 
rior o que se mostra na fig. 79, que vem a ser covinhas 
e figuras análogas ás da Pedraça e ás de Argote. Na 
face interior a mesma lage tinha sete covinhas, assim 

dispostas : 

o 
o 



o o 



o o 



1 Este penedo está hoje na galeria lapidar do Museu Ethnogra- 
phico Português, para onde o fiz transportar em 1895. 



365 

Podem comparar-se, senão nas figuras, ao menos na 
situação, também em pedras de camarás sepulcraes, com 
as insculpturas de uma das sepultaras de Lough-Crew, de 
que fallei a p. 353. Na Beira Alta usa-se um jogo infantil 
chamado cos cantinhos», para o qual os rapazes riscfto 
com um pedaço de telha numa pedra uma figura igual ás 
da mencionada orca, isto é, um quadrilátero dividido em 
quatro partes; como o povo d'aquelles arredores applica 
também a taes figuras antigas, por analogia, o nome de 
cantinhos, eu adoptarei aqui este termo para me fazer 



gggggffi 




entender melhor. Temos pois cantinhos nas Lettrag de Ar- 
gote, no monumento da Pedraça e na orca dos Amiaes; 
pois que nesta última se achSo associados a covinhas, que, 
como vimos, datarão dos tempos neolithicos, e a orca, em 
cuja exploração só encontrei instrumentos de pedra, per- 
tence também á epocha e civilização neolithicas, fica assim 
entendido que o célebre penedo do rio Douro se deve 
attribuir á mesma epocha o civilização. A gruta que Ar- 
gote diz ficar perto, e d'onde ae extrahírão vasos e uma 
cgrande cruz de prata», era muito provavelmente um 
monumento prehistoríco, talvez um tumulo, onde tSo vul- 
garmente apparece cerâmica ; a cruz ãe prata nfto passará 
de alguma faca de alvo silex, que o povo facilmente ele- 



366 



varia á categoria de prata e de cruz, porque cquem conta 
um conto accrescenta um ponto» 4 . 

Perto da igreja de Espinho (concelho de Mangualde), 
no antigo passal da abbadia, existe uma grande lage de 
granito, d'onde copiei as seguintes figuras: 





O 

Fig. 80 Fig. 80-a 

vários cantinhos, que tem de lado O 10 , 12 pouco mais ou 
menos; cinco covinhas, algumas muito redondas; e uma 
cruz. Este local dista apenas alguns kilometros dos de 
cima. 

A repetição das figuras em locaes diversos, sendo o do 
Douro tSo afastado (noutra província), provava só por si, 
ainda mesmo que não houvesse um dolmen com ellas, que 



1 A propósito lembrarei o seguinte. Nas ferias grandes de 1896 
explorei alguns dolmens em vários pontos do concelho de Sátão 
(Beira- Alta), onde, entre outros muitos objectos, encontrei facas de 
silez. Correu logo isto nos povos vizinhos, que a breve trecho pro- 
palarão que eu tinha encontrado «garfos de oiro», noticia que chegou 
a ser acreditada por pessoas de certa illustraçâo ! Da ideia de faca 
passou-se á de garfo, e como estes objectos são geralmente metal- 
licos, e os Beirões, que acreditão de modo extraordinário no sobre- 
natural, pensavão que eu queria desenterrar thesouros deixados 
pelos «Moiros», da ideia de metal passou-se á de ouro, que é, no 
dizer de uma canção popular, «o rei dos metaes». — Nada é pois de 
estranhar que nos princípios do sec. xvm se suppusesse que o silex 
de uma faca prehistorica era prata, e, attentas as ideias religiosas 
sempre dominantes no povo, a imaginação d'este fizesse de uma 
faca uma cruz. 



367 



i productoB de uma mesma civilização 
antiga, e nâo de obras do acaso. Mas posso estender a com- 
paração até fora do nosso pais. 

A cima me referi ás insculpturas encontradas na Itália, 
em margens de lagos, por Clugnet; eis aqui algumas 
dessas insculpturas, uma das quaes é igual aos cantinhos 
da Beira-Alta, e outras o sSo a alguns dos signaes do ro- 
chedo do Douro (fig. 81) : 




No citado opúsculo de Mestorf vem também uma estampa 
a que nBo falta analogia com as nossas (fig. 82) : 

Perante taes semelhanças e identidades nào porfiaria já 
Clugnet que os desenhos, que elle estudou, representavSo 
apenas entretenimentos das horas de ócio de pegureiros 
vadios 1 

Voltemos outra vez á Beira. Também perto da orca dos 
Amiaes, ou Cova doa Moiros, vi um penedo irregular de 
granito, cuja maior dimensão era de l ra ,6 e cuja altura era 
de 0™,6 a O™, 7 ; na sua superfície tinha muitas covinhas, 



368 

dispostas pouco mais ou menos como se vê na fig. 83, 
regulando por m ,06 a distancia entre as mais aproxima- 
das, e por 0°,02 ou O™ ,03, termo médio, os diâmetros d'ollas 
(estas últimas medidas cito-as de memória). 




Junto de Outeiro do Espinho (concelho de Mangualde), 
em um pinhal que antigamente se chamava «das Pedras 
FombeiraB», vi um grande penedo de granito com quatro 
covinhas symetricas, como se mostra da fig. 84: a covi- 
nha de baixo tem 0™,l de diâmetro; as do lado tem uns 
m ,02 ou a , 03; a de cima é maior que estas e menor 



3G9 

que a de baixo. As mais próximas diatâo entre &i Cf, 1 ; a 
distancia da de baixo é proporcional. Não me consta, apesar 
de ter perguntado, que haja antas nas immeâiaçoes, embora 
perto d'este pinhal apparecesse um machado neotithico, 
facto que nada tem de especial. Estas covinhas fórm&o 
pois como que uma cruz, que poderá ser análoga á do 
museu de Ktel ' ; mas nem por isso me julgo auctorizado 
a dizer com Mestorf que temos aqui a christianização de 
um culto 1 . 




Na mesma área dos monumentos indicados, mostrá- 
r2o-me no sitio dos Barreiros, ao pé das Carvalhas, fre- 
guesia de Senhorim, um penedo com várias cruzes, e um 
grupo de signaes (fig. 8õ) que o povo d'ali chama a Santa 
Custodia, sem, que eu saiba, lhe referir lenda alguma; 
tem de altura uns 0' n ,õ(j ; as duas covinhas de cima nfto 
estão symetricas entre si. Se n&o fossem as covinhas, difi- 
cilmente eu teria incluido este grupo de signaes no pre- 



1 Vid. suprn, p. 358. 
* Vid. supra, p. 357-358. 



370 



sente capitulo. Parece-me que o nosso pequeno monumento 
deve comparar- se com o Bischofatein ou Pedra do Bispo 
(Prússia), no qual se vêem insculpidas, entre muitas covi- 




Flg. 84 



nhãs, a figura de uma cruz e a de um cálice '. No citado 
artigo de B. Reber vem desenhos análogos ao da base da 
cruz da íig. 85*. 




Fig. 85 



1 Vid. supra, p. 3f>7. 

2 In Anztiger fiir ScJtweizerische Alterthumêknnde, xxix, p. 75. 



371 



Numa vinha, no sítio dos Braçaes, ao pé de Outeiro-de- 
Espinho, concelho de Mangualde, vi em 1892 um penedo 
de granito, do comprimento de 4 m ,3õ, da largura de 3 me- 
tros, e da altura de m ,61 a Este, e de l m ,21 a Oeste, com 
a superfície superior encurvada. Do lado oriental está 
cheio de covinhas. D'este lado o penedo offerece uns sulcos 



Este 




naturaes 4 , que o dividem em seis secções, até meio pouco 
mais ou menos da largura, como a fig. 86 mostra. As 
dimensões das covinhas vari&o entre m ,45 e m ,10, etc., 
de diâmetro, e m ,02 e O^Oé, etc., de profundidade. Distilo 
umas das outras desde O 10 , 10 a m ,31 etc. Algumas covi- 
nhas estão ligadas entre si por sulcos. É o penedo que 
tenho visto com mais covinhas. Fica perto d'elle a anta 



1 Digo naturaes, porque noutro ponto do penedo ha um pequeno 
sulco semelhante, sem relação alguma com as covinhas, e sem 
symetria. 



372 



dos PadrSes 1 . A zona geographiea a que pertence este 
penedo é a mesma a que pertencem os monumentos ante- 
riormente descritos, zona toda ella granítica. 

Não longe da aldeia das Antas-de-Penalva (Beira) en- 
contrei em pé, no meio de uns campos, onde não vi monu- 
mentos archeologicos propriamente ditos, uma pedra natu- 
ral, estreita, de 1 metro de altura, pouco mais ou menos, 
que lembrava um menhir ; na extremidade superior havia 
cinco covinhas, assim : 



o o o 

Infelizmente não posso aqui apresentar desenho d'este 
pequeno monumento, o que supprirei reproduzindo uma 
estampa do «menhir à cupules de Saint-Urnel en Plomeur 
(Finistère)», onde porém as covinhas nâo são na parte 
superior como no da Beira, mas na frente (fig. 87) 2 . 

Em Setembro de 1892 fiz um reconhecimento archeo- 
logico no «Castello» de Nossa Senhora do Bom Successo 
(freguesia de Chãos de Tavares), que é um castro lusitano. 
Dentro do castro, num penedo natural de granito, encon- 
trei sete covinhas dispostas como aqui se vê, 

o 
o 

o 

o o 

e em distancia proporcional; diâmetro de uma covinha 
m ,07, de outra 0*5; profundidade de uma m ,02. Noutra 
lage encontrei três covinhas análogas ás de cima, mas mais 
symetricamentc dispostas : 



Noutra lage, ao pé d 'esta, vê-se o que noto na fig. 88. 



1 A distancia deve regular por 1 kilometro. 

2 E. Cartailhac, La France préJiisloriquc, p. 323. 



;st;3 

Com esta lage pega outra, sem covinhas, a qual com a 
anterior constituo A Varanda da Inacinha (Ignacinha), 
como o povo diz. A Inacinha e um nome lendário, e cor- 
responde na significação á palavra Moira de outras lendas. 
A pouca distancia ha uma cova, chamada A Casa da Ina- 
cinha. Conta-se, como noutras ruinas attribuidas aos Moiros, 
que estão aqui duas minas, uma de alcatrão, outra de oiro; 




se alguém excavar, e achar a de alcatrão, incendeia-se 
tudo. Quando eu notava, e começava a copiar no meu 
coiaeiro, as covinhas da Varanda da Inacinha, algumas 
pessoas que ião commigo chamárão-lhes pocinhas, designa- 
ção puramente metaphorica e occasional. O nosso povo viu 
uma varanda na simples disposição natural de várias pe- 
dras ; como os processos do espirito humano são, por toda 
a parte, mais ou menos semelhantes, também na Irlanda o 
povo chama the Hag'» chair (a cadeira de Hag) a um pe- 
nedo que tem covinhas e outras inBculpturas 1 . 



1 Rftu, Obtervatíútu on cup-shaped, t/c , p. 18. 



374 



N-0 Archeologo Português, i, 9, fallei de um castro 
luso -romano da Beira-Alta, onde em vários penedos se 
vêem igualmente covinhas (fig. 89) *. 

Passando-se de Tras-os-Montes e da Beira para o Entre- 
Douro-e-Minho, não se encontrão nas pedras menos covi- 
nhas e figuras do que nas duas províncias de que acabo de 
{aliar. 

Numa montanha da freguesia de S. Martinho de Pena- 
cova (Minho), que poderia ter sido um castro, ha dois pe- 
nedos com covinhas, a que o povo chama buraquinhas; 
próximo da igreja ha um penedo pequeno, em parte des- 
truído, ainda com algumas covinhas 3 . 

o 

o 

Fig- 88 Fig. 89 

Perto da igreja de S. Paio de Vizella ha penedos com 
covinhas ; o povo chama-lhes pegadinkas, dizendo uns que 
s&o as pegadas de Christo, outros as de S. Gonçalo. O 
Sr. Sarmento, notando que estas covinhas tem apenas 1 
pollegada de diâmetro, suppõe que.as verdadeiras pegadas 
ou pègadinhas, terão já desapparecido 3 . S. Gonçalo é um 
heroe, em parte real (?), em parte lendário, destes sitios, 
desempenhando papel análogo ao que noutros sitios desem- 
penhado os Moiros, em França Gargantua e S. Martinho, 
na antiguidade Hercules, etc. Por toda a parte temos sem- 
pre lendas semelhantes, que recebem cor local, segundo 
as regfôes. Adeante terei de fallar outra vez nas pegadas. 




1 Já depois de composta esta página achei (em 1896) na Beira- 
Alta muitas outras pedras com insculpturas (signaes e covinhas) ; 
algumas d'estas pedras faziâo parte de dolmens, outras estavâo 
avulsas. Ficará o seu estudo para outra occasião, pois não posso já 
inclui-lo aqui. 

2 F. Martins Sarmento, in Revista de Guimarães, i, 180. 

3 In Revista de Guimarães, i, 187. 



O 4 



Em Tiigilde, concelho de Guimarães, ha um penedo cri- 
vado de mais de trinta covinhas, chamado «Penedo» ou 
«Penedinho» de S. Gonçalo 1 ; cfr. em França a Boule de 
Gargantua, a que a cima me referi. «Ninguém duvida, diz 
o sr. Sarmento, que na coroa do penedo estão as marcas 
dos joelhos do santo, quando rezava; a cavidade onde 
punha o pucarinho do caldo ; outra que lhe servia de sa- 
leira» *. Alem do typo do nome, a lenda é aqui também 
análoga á de Gargantua em França, pois o povo de lá ex- 
plica as covinhas da Boule de Gargantua, pela impressão 
que os dedos do gigante fizerâo na pedra 3 ; «sur le polis- 
soir dit Pierre aux dix doigts, les rainures passent pour 
être la trace des doigts de Saint Flavit» 4 . Na «Sierra dei 
Almuerzo» ou «de los Siete Infantes de Lara», na pro- 
víncia de Soria (Hespanha), ha uma pedra cylindrica cha- 
mada El canto hincado, que gira sobre um ponto de apoio, 
e em cuja parte superior «se ven marcados siete platos y 
cucharas ai redêdor, y en médio la huella de un pie» 5 . 

Em Cristello (Santa Comba de Regilde) ha um penedo 
com a superfície crivada de buraquinhas, á qual se liga uma 
lenda, análoga ás lendas dos Moiros: «Uma madrugada, um 
rapazito seguido pelo pai, passou perto do penedo, e vendo 
as buraquinhas cheias de milho, gritou — Jesus! o que vae 
aqui de milho, meu pai! Mas ao nome de Jesus o milho 
tinha-se transformado repentinamente em carvão. Era ouro 
puro, está claro» 6 ! 

No Minho, escreve o sr. Martins Sarmento, a cada passo 
se encontrão covinhas ou buraquinhas 1 . D'uma carta que 



1 F. Martins Sarmento, in Revista de Guimarães, i, 188. 

2 In Revista de Guimarães, i, 188. 

3 Vid. o que escrevi supra, p. 356. 

4 S. Reinach, in Revue Archéologique, xxi, 223. 

6 Informação particular do meu amigo, e illustrado philologo 
hespanhol, D. Ramon Menéndez Pidal. 

6 F. Martins Sarmento, in Revista de Guimarães, i, 179. 

7 In Revista de Guimarães, i, 179. 



376 



elle me mandou em 5 de Julho de 1892 extraio as se- 
guintes interessantes noticias: a As covinhas apparecem 
em penedos e lages ; mas também as encontrei nas pedras 
que formavam uma sepultura 1 , em Ancora. Apparecem 
isoladamente ou na companhia de circulos concêntricos 
e outras gravuras. Numa lage próxima das ruinas da Saia 
encontram-se associadas com um suástica. Não teem dis- 
posição regular, nem com relação umas ás outras, nem 
com relação a qualquer outra gravura. Associadas com os 
circulos, tenho-as visto mesmo dentro d'elles. Também não 
teem diâmetro certo. As mais communs pouco mais teem 
que pollegada e meia; ha as porém de três e quatro. Não 
é raro também vê-las ligadas por um sulco (fig. 90). Os cir- 
culos também podem ser grandes ou pequenos; os peque- 
nos, de cinco pollegadas ; os maiores, que tenho visto, tem 



c=o 




■ 












1 









Fig. 90 Fig. 91 Fig. 92 

meio metro de diâmetro. Pelo que me contou um homem 
de Venade, a respeito de uma lage que pôs em hastilhas, 
aos círculos chamava o sol, ás covinhas estrellas. O penedo 
também tinha a lua, mas não pude perceber o que elle 
entendia por lua. Mais tarde vi em Soutello (concelho de 
Caminha, como Venade) umas lages, onde alem de covinhas 
e circulos havia algumas gravuras (fig. 91). Não sei se em 
alguma figura semelhante viu elle a lua (meia-lua). Tenho 
visto algumas lages com gravuras não longe de mamôas, 
e inclino-me a crer que as duas cousas se relacionavam. 
Assim suecede em duas mamôas que ha em Briteiros. Não 
longe de uma, ha dois circulos de meio metro de diâmetro 
cada um; próximo de outra havia uma lage com muitas 
covinhas e alguns circulos. Não pude conservar a lage; ape- 



[Antella]. 



377 

tias me consentiu o dono que lhe aproveitasse os signaea, 
que foram arrancados aos pedaços. Perto de Santo Antão 
(monte), sobre Caminha, ha também uma mamôa, e próximo 
d'ella umas gravuras, alem de outra, que só ahi vi, um 
pouco semelhante, em uma lage, perto do castro de Neiva 
(não se confunda com o Castello de Neiva). Estas gravuras 
são quadrilongas (fig. 92), mas a incisão é feita como a 




dos círculos e outras. Uma lage em S. Cláudio (freguesia 
próxima das Taipas) continha mais de 200 covinhas. Des- 
truiu-as um bruto. Quande este anno quis ver esta ubi 
Tróia, snrprehendeu-me ver no mesmo sitio pedaços de 
telha com rebordo. Disseram mo que estes fragmentos 
tinham apparecido próximo á lage. N&o seria cousa do 
outro mundo que as telhas formassem uma sepultura. Já 
me matei para apurar se o povo ligou algumas ideias ás 
covinhas ; mas achei apenas uma pista, e nao a pude seguir 
por falta de bons informadores. O Penedo de S. Gonçalo 
(perto de Ãrriconha) está cheio de covinhas pequenas, e 



378 



algumas grandes na face superior ; (Testas ultimas uma ser- 
via para o santo pôr o pucarinho do caldo, outra para ter 
o sal e não sei que mais, porque cito de memoria 1 . O 
pucarinho pareceu-me a tal pista de que fallei. Em Fel- 
gueiras ha o monte das Pucarinhas e pelos modos havia 
(e não sei se ha) por ahi vários penedos com covinhas; 




Fig. 49 



com ellas é que se relacionavam os pucarinhos. As covi- 
nhas é que faziam subentender os pucarinhos como no 
Penedo de S. Gonçalo? Por mais que diligenciei, nada 
tirei a limpo. Em Candoso (S. Martinho, concelho de Gui- 
marães) também na manhã de S. João um tal viu um 
pucarinho sobre um penedo; pegou nelle, quando surdiu 



1 [Cfr. o artigo da Revista de Guimarães, i, 188, citado supra |. 



uma moura a pedir-lh'o com toda a instancia, etc. Mas o 
diabo é que o penedo não tem covinhas nenhumas. À pista 
perde-se d'este modo. As covinhas apparecem quasi por 
toda a parte, e ás vezes onde menos se esperam. Encon- 
treí-as nos meus passeios por Leça da Palmeira, porVilla 
do Conde e Povoa, no Castello de Neiva, Castro de Neiva, 
Âncora, Caminha, por Briteiros, pelos arredores de Gui- 
Hiarites, em Basto, no Marco de Canaveses, na Saia e em 




mais partes que agora me nao lembram. Dentro das mura- 
lhas do Sabroso e da Citania nâo faltam, como nao faltam 
pelas proximidades. Como em geral eram abertas em pedra 
fina, a maior parte delias foram- se nos sitios, onde tal 
pedra era procurada; as que sao gravadas em pedra grossa 
também não estão muito bem paradas, por que os mon- 
tantes as preferem na possibilidade de encontrarem dentro 
algum thesouro encantado. Aqui está o que posso dizer a 
galope. • 



:i80 

O Sr. Cartailhac diz que o sr. Possidonio da Silva o 
informou de que noa arredores de Vianna do Castello exis- 
tem penedos com muitas covinhas 1 . O meu amigo Arthur 
Augusto da Fonseca Cardoso completa esta informação 
dizendo-me em carta de 23 de Outubro de 1893 que no 
«castros de Santa Luzia, ao pé de Viauna do Castello 




encontrou um penedo de 4 IB ,10 X 2 n, ,60, com 56 eacu- 
ddlas, umas insuladas, outras conjugadas, fíg. 96. A sua 
disposição é interessante, pois formão fieiras parallelai, 
que vâo de alto a baixo. Num espaço á parte ha um grupo 
de três, que communícao entre si, apresentando uma d'ellaa 
no fundo uns canaezinhos toscos, que se assemelhao a um 
suástica curvo»: 



1 Vid. Cartailhac, La âga príAittoriqua de VEtpagnt et du Por- 
tugal, p. 177. 



381 



Já a cima se fallou do castro de Sabroso (Minho). Nas 
immediações d'este castro encontrão-se duas pequenas pe- 
gadas associadas a várias covinhas '. Também já a cima 
se citarão outros exemplos de pegadas e pegadinhas*. 
O Sr. Maximiano Apollinario, adjunto do Museu Ethno- 
graphico Português, encontrou em penedos da Beira várias 
insculpturas, algumas das quaes se assemelhão a pegadas 
(fig. 94, 9õ e 96). Mestorf menciona uma pedra que está 
no Museu de Kiel (l m ,80X0 m ,90), na qual se vêem igual- 
mente muitas covinhas, e ao mesmo tempo uma pegada 3 . 

A crença de que certas pegadas, que se observ&o em 
penedos, se ligão com determinadas personagens históri- 
cas e religiosas, e com animaes, data já da antiguidade, e 
acha-se ainda hoje espalhada por muitas partes: temos, 
por exemplo, pegadas de Hercules, de Budha, de Adão, de 
Moisés, de Jesus, do Diabo, de Gargantua, de Roland; 
pegadas de muitos santos, como S. Martinho, S. Miguel, 
Santo Hilário, S. Gonçalo; pegadas de gigantes ou Hiinen- 
tritte (na Allemanha) ; pegadas de burros, de ca vali os, etc. 4 



1 F. Martins Sarmento, in Revista de Guimarães, i, 187. 
* Vid. p. 374. 

3 Schalensleine, p. 5. 

4 Sobre este assumpto vid. : 

A. Maurr, Essai sur les legendes pieuses du moyen-âge, Paris 1843, 
pags. 214-215 e respectivas notas. 

Ch. Rau, The archeological collection ofthe United States National 
Museum, Washington 1876, p. 75 ; 

Salomon Reinach, in Revue Archéologique, xxi, 214, 223-226 e 
367, — onde se ministrâo muitos elementos bibliographicos ; cfr. 
ainda do mesmo A. o Traité d'épigraphie grecque, 1885, p. 385. 

A pegada de Budha em Ceylâo se refere Camões (Lusíadas, x, 
136), fallando do monte onde ella está : 

Os naturaes o tem por cousa santa, 
Pela pedra onde está a pegada humana, 

versos commentados por Vasconcellos Abreu no seu opúsculo Fra- 



:*82 



A origem d' essa crença deve collocar-se, como vimos, nos 
tempos prehistoricos, pois as pegadas achão-se ás vezes 
misturadas com as covinhas. Os vários povos é que a ada- 
ptarão ás lendas dos heroes, dos santos, etc, com que 
sympathizavâo, ou que já occupavào lugar assignalado nos 



gmento d' uma tentativa de estudo scoliastico da epopeia portugueza, 
Lisboa 1880, p. 72. 

A cerca de pegadas em penedos cfr. ainda: Desor, Mélanges 
identifiques, Paris 1879, pags. 184, 207 ; Mélusine, i, 97 ; Guberna- 
tis, Mythologit zoologique, i, 377, nota; Gaidoz, La rage et Saint 
Hubert, Paris 1887, p. 215 ; Ratzel, Ias razas humanas, i, 564. 

Nas Tradições populares de Portugal, § 209, citei diversas lendas 
portuguesas a este propósito. 

Na «Historia de Santa Comba dos Valles», poemeto de António 

Ferreira (sec. xvi), conta-se a perseguição de Santa Comba por um 

Rei Mouro. A santa é recolhida dentro de um penedo que se abre. 

Depois : 

Também a lança do Mouro abrio a pedra, 

Ao pé fica assinada a ferradura, . 

Ao pé da rocha. Onde hoje inda parece, 

E na pedra a lançada se conhece . . . 

Poemas lusitanos, 4.* ed., i, 339. 

Na lenda de Nossa Senhora de Nazareth também o cavallo de 
D. Fuás deixou as ferraduras impressas no rochedo, á beira-mar : 

E ainda lá na penha vereis o signal 
Do pé do cavallo do bom cavalleiro . . . 

diz Castilho «na Chácara da Senhora da Nazareth»: vid. Outono, 
Lisboa, 1863, p. 170 ; e effecti vãmente no rochedo ha um buraco a 
que o povo attribue essa origem, como verifiquei em 1894, por 
occasiao de visitar o lugar do «milagre» e a gruta da Senhora. 

Tenho visto, em poder de pessoas devotas, figuras de seda e de 
papel que representâo medidas dos pés de Christo e da Virgem. 
Estas figuras tem estampas da cruz ou do Calvário. Numa d'ellas 
lê-se : Vestigium D. N. Jesu C. in Monte Oliveti; i. e., «pegada de N. 
S. Jesus Christo no Monte Olivete»; noutra: «Verdadeira medida 
do pé da Virgem Mâe de Deus, etc». Possuo três d'estas figuras, 
duas do pé de Christo, e uma do da Virgem. O mais curioso é que 
as do pé de Christo não são iguaes ! 



domínios da tradição. Sem dúvida nem sempre, quando o 
povo falia de uma pegada, se referirá a uma esculptura 
real e definida: bastará uma falha ou excavação num 
penedo, para a imaginação popular % criar uma lenda de 
pegadas; mas isto mesmo tem sua importância, porque 
mostra a preexistência de uma tradição, que só necessitava 
de um pequeno ponto de apoio para se localizar. O sentido 
primitivo das pegadas, como o das outras insculpturas, 
torna- se difficil de precisar: mas a associação das pegadas 
com as covinhas 1 , cuja significação religiosa, se não ficou 
provada a cima, ficou justificada 9 ; o seu apparecimento 
em dolmens 3 ; e as lendas que as revestem 4 : — tudo faz 
effectivamente suppôr que também temos nellas qualquer 
symbolismo religioso 5 . 

Ainda a propósito das ornamentações prehistoricas, de* 
vem lembrar-se os castros de Sabroso e da Citania de Bri- 
teiros, onde apparecem pedras notavelmente insculptura- 
das 6 . Algumas d'estas insculpturas relacionão-se sem dúvida 
com as prehistoricas; mas outras são, segundo creio, relati- 
vamente mais modernas, pertencem aos tempos que deno- 



1 Vid. os factos citados a cima, pags. 374 e 381. 

2 Vid. supra, p. 358. 

3 A Pedra de S. Martinho, no Indre (França) é um dolmen em 
cuja cobertura se vê uma «pegada do santo»: Eevue Archèologique, 
xxi, 214. 

4 Vid. o que escrevi a cima, pags. 374-375. 

5 Em certas pedras encontrão-se cavidades em forma de pegada, 
que podem ter servido para assentar pés de estátuas, como talvez 
numa de Panoias (cfr. G. Pereira, in Boletim da Associação dos 
Archeologos, 1895, p. 53), e com certeza numa do templo do deus 
Endovellico, hoje guardada na galeria lapidar do Museu Ethnogra- 
phico Português. 

« Vid. : 

F. Martins Sarmento, in Renascença, p. 25 ; 

O Comple-rendu do Congresso de Lisboa, estampas collocadas 
entre pags. 662-663; 

Cartailhac, Les ages préhistoriques de VEspagne et du Portugal, 
pags. 285-288. 



384 



mino Protohistoricos, e por ísbo fallarei delias maia de 
espaço na Parte II d'esta obra. Diz o sr. Cartailhac que 
«aucun préhistorien ne voudra consentir à faire descendre 
les plus récents tombeaux mégalithiques de la péninsule, 
même au ix e siècle, et à bouleveraer toutes nos données de 
chronologie rclative, appuyées sur des faits toujours véri- 
fiés, par ce seul motif, que les antas d'Evora portent des 
écuelles et des cercles graves comme ceux des pierres de 
Sabroso ou de Citania» 4 . Nem isso me parece necessário. 
Se nos dois célebres castros do Minho, um protohistorico, o 
outro luso-romano *, se encontrão os mesmos signaes que 
nas antas e em monumentos contemporâneos delias, é que 
a civilização de Sabroso e da Citania deve ter começado 
pelo menos no periodo neolíthico 3 ; esta civilização foi-se 
desenvolvendo, e, em virtude de tal evolução, as insculptu- 
ras adquirem nos períodos seguintes, isto é, no protohis- 
torico e no luso-romano, mais perfeição e apuro. Supponho 
que assim se harmonizão todos os factos entre si 4 . 

Até aqui tenho fallado das insculpturas prehistoricas das 
províncias do Norte e Centro de Portugal. Resta fallar das 
outras províncias. 

Da Estremadura não conheço nada, apesar de se terem 
feito nesta província bastantes investigações prehistoricas. 

Nas antas do Alemtejo diz o sr. Cartailhac que appa- 
recem muitas covinhas, — «petits creux ou godets, qui sont 
depuis longtemps connus dans Tarchéologie próhistorique» 5 , 
e cita a anta da Candieira 6 , na superfície superior de cuja 



1 1*8 ages préhistoriques, efe, pags. 287-288. 

2 A cerca d'esta9 designações vid. O Archeologo Português, i, 5-7. 

3 Cfr. o que escrevi a cima, p. 54. 

4 A respeito de uma insculptura da fonte de Briteiros, e de outras 
de penedos da Beira, vid. Martins Sarmento, Relatório da expedição 
da Sociedade de Geographia á Serra da Estrella, Lisboa 1883, 
p. 8, nota. 

5 Les ages préhistoriques de VEspagnt ti du Portugal, p. 174. 

6 Pag. 170. 



385 



cobertura ha um grupo (fig. 97); cita a anta do Paço-da- 
Vinha; e cita a de Paredes 1 , onde uma das lages contém 
outro grupo, de uns m ,05 de profundidade e O^OS de 
largura, dispostas como se observa na fig. 98. 

No concelho de Mora, herdade da Gonçala (Alemtejo), 
visitei em 1892, em companhia do meu amigo. dr. Mattos 
e Silva, uma anta em que havia algumas covinhas, umas 
dispersas, outras formando grupos de quatro, assim: 

o o 
o o 

estas covinhas estavão na superfície externa da tampa da 
camará, na lage que devia tapar o começo da galeria. 
Ás dimensões das covinhas regul&o pelas das outras de 
que tenho fallado. 




Fig. 97 



Com relaç&o ao Algarve também nâo conheço nada no 
género das covinhas, ou no das figuras; apenas num dol- 
men de Alcalar encontrou Estacio da Veiga três lages de 
grés, cahidas sobre o pavimento, mas que talvez tives- 
sem servido de tecto ao dolmen, as quaes t apresentam 
numa face numerosos sulcos abertos em diversos sentidos, 
que bem podem ser symbolos, emblemas, signaes de signi- 
ficarão reservada, ou talvez os inícios de uma paleogra- 



i Pag. 176. 

25 



386 



phia rudimentar, em que parece havei* uma certa harmonia 
intencional, que longe estou de poder interpretar» 4 . Eis na 
fig. 99 os desenhos respectivos. Vi as pedras, que ultima- 
mente obtive para o Museu Ethnographico Português, em 
cuja galeria lapidar já estão: os sulcos são realmente artifi- 
ciaes. Embora, como disse, de forma diversa das dos signaes 
estudados a cima, e mais modernos, creio que estes sulcos 
do dolmen algarvio desempenhavSo ahi certamente funcçSo 
análoga á das outras insculpturas ; mas não posso neste 
momento consagrar-lhes o estudo que merecem. 




Fig. 08 



Na Galliza também existe a lenda das pegadas. No Fer- 
rol falia- se da t pegada da Virgem 2 »; o que não sei é se 
se trata de insculpturas prehistoricas, se de excavaçSes 
naturaes. O Sr. Maciôeira y Pardo teve a bondade de me 
communicar, em carta particular, que em vários penedos 
da comarca de Ortigueira (Galliza) se encontrão muitas 
insculpturas, ao que parece, prehistoricas, da natureza de 
muitas das indicadas a cima. 

Em resumo : os factos da Prehistoría portuguesa, mostrão 
que as insculpturas se podem fazer remontar ao período 
neolithico, porque umas se encontrão em antas, onde só 
apparecem instrumentos de pedra, ou onde, pelo menos, 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, m, 135. 
* Vid. Tradições populares de Portugal, § 209. 



387 

predomina a civilização neolithica, e as outras, que nao 
estão por assim dizer, tao bem datadas, são análogas ás 
primeiras, e devem por isso pertencer 4 mesma epocha 
que ellas. 

As insculpturas tanto se observao em penedos dentro de 
castros, como em lages de antas, como em rochas avulsas, 
embora sempre ou quasí sempre estejao perto de antigos 
povoados ou de sepulturas archaicas. Num caso único as 
covinhas occupavSo a extremidade de um penedo posto a 




pino, á maneira de menhir; digo um cano único, mas en- 
tende- se que é o único observado, pois nao duvido que 
haja mais monumentOB d'esta espécie. 

As nossas insculpturas reduzem-se a quatro classes: 

a) simples sulcos ; 

b) figuras lineares com certa regularidade ; 
e) covinhas; 

d) pegadas. 

Pelo menos sb três últimas classes apparecem noutros 
países, nas mesmas condições que no nosso. 



388 



O povo português dá ás vezes ás insculpturas que con- 
sistem em escavações arredondadas os nomes genéricos de 
covinhas e buraquinhas; outras vezes emprega designações 
metaphoricas, como pocinhas, pucarinhos, as quaes explica 
por meio de lendas, como os demais povos estrangeiros; ás 
insculpturas que consistem em figuras quadrangulares cha- 
mão os Beirões cantinhos. Onde ha heroes locaes, ou per- 
sonagens já consagradas pela tradição, prevalecem os nomes 
d'elles, como o prova o t Penedo de S. Gonçalo 1 numa 
comarca minhota, e a t Varanda da Inacinha» num monte 
beirão; onde os não ha, applica-se o nome genérico de 
«Moiros». Parece que em alguns casos a designação de 
pucarinhos se conservou no onomástico. A imaginação popu- 
lar chega mesmo a chamar a várias insculpturas sol, lua e 
estreitas. Ouvi dizer que no Castello de Cabris (Taboaço) * 
se vêem numa pedra escavações que o povo chama «açafate 
de prata» do tempo dos Moiros 9 ; não sei se se trata de 
excavações naturaes, se de excavações artificiaes : em todo 
o caso a lenda tem valor. Ha uma cavidade, natural ou 
artificial, em certo penedo do Minho, chamada cesta*. No 
denominar as figuras insculpidas nos rochedos o povo por- 
tuguês emprega pois metaphoras semelhantes ás de outros 
povos, onde essas figuras se chamão vidro de relógio, sertã k , 
escudella, tigela, malguinha, taça*. 

A significação primordial das insculpturas neolithicas 
não se conhece de modo positivo; no emtanto, como se 
achão associadas a monumentos religiosos, quaes são os 
dolmens, e nestes, ora em pedras avulsas, collocadas den- 
tro, em contacto intimo com as cinzas dos mortos, ora nas 
superfícies internas das camarás, e portanto também em 



1 Talvez este «Castcllo» seja um castro, mas nâo tenho elemen- 
tos para o poder affirmar. 

2 Vi d. Tradições populares de Portugal, § 209. 

3 F. Martins Sarmento, in Revista de Guimarães, n, 191. 

4 Mestorf, op. cit. 9 p. 1. 

5 Cfr. o que escrevi a cima, pags. 355-356. 



389 



certa relação com as mesmas cinzas, ora nas superfícies 
externas, as quaes tinhâo de ficar cobertas, já por outras 
pedras, já pelas mamoas, o que em qualquer dos dois casos 
mostra que as insculpturas não se destinavâo a attrahirem 
a vista dos homens, circumstancia que só se pôde explicar 
pelo facto de desempenharem papel protector, sobrenatu- 
ral, mystico, — não repugna acceitá-las como taes, antes 
nos vemos forçados a isso. Esta conclusão a que chego a 
propósito das nossas insculpturas, baseado só em factos 
portugueses, concorda com a de diversos eruditos que 
estudarão as estrangeiras, eruditos cujas opiniões citei 
a cima. 

Nas hypotheses enunciadas, as covinhas e mais figuras, 
fosse qual fosse a latitude do sentido religioso que encerra- 
vão, terião na sua relação com os monumentos sepulcraes 
destino análogo ao das pinturas dos esteios (fig. 1 1 2) * , 
e ao dos amuletos e figuras de pedra que se depositavão 
com os defuntos na ultima morada. Já por mais de uma vez 
tenho insistido na importância que certos povos attribuem 



1 . Como disse a p. 276, foi já depois de adeantada a impressão 
d'esta obra que descobri na Beira- Al ta (concelho de Satâo) algumas 
antas com pintaras feitas a ocre na superfície interna dos esteios das 
camarás e das galerias. É-me impossível agora interromper a obra, 
entrando em descripção meada; por isso me limito a pouco, remet- 
tendo o leitor para a figura representada na p. 430. As antas perten- 
cem aos tempos neolithicos ; pelo menos não encontrei nellas objecto 
algum metallico. As pinturas, que são muito rudes, mesmo infantis, 
consistem em : figuras humanas ; figuras de quadrúpedes ; arabescos 
(ramos? etc). Uma das pedras que tinha as figuras humanas fi-la 
transportar, como disse, para o Museu Etimológico Português, onde 
hoje se acha, e onde constituo um dos mais curiosos ornamentos. 
Temos pois aqui outro exemplo de zoomorphismo (cfr. supra, p. 342) 
na arte neolithica de Portugal, assumpto a cujo respeito eu li em 
sessão da Associação dos Archeologos Portugueses, em Fevereiro 
de 1897, uma notícia. Estas figuras estão no mesmo caso que os 
animaes de pedra de que fallei a cima, e por isso as considero como 
sagradas, isto é, como meios de protegerem sobrenaturalmente os 
mortos. — Cfr. também O Archeologo Português, n, 225. 



390 



aos túmulos e ao descanso dos mortos. D aqui o querer-se 
a todo o panno evitar que os espíritos maléficos perturbem 
a paz das sepulturas, o que se julga conseguir se por muitos 
processos. Vários povos selvagens collocam para este fim 
objectos de virtude sobrenatural ao pé dos mortos 1 . Nas 
sepulturas das epochas romanas, tanto da Lusitânia, como 
de outras regiões da Hispânia, vêem-se diversas figuras 
que são sem dúvida symbolicas (suástica, roseta*), das 
quaes fallarei noutra parte d'esta obra. Nas sepulturas 
enristas da alta idade media observfto-se frequentemente, 
alem de emblemas mysticos, fórmulas bem significativas, 
como Requievit in pace Domini, Tibi detur pax a Deo*. 
Para os christãos a inviolabilidade da sepultura tinha 
principalmente importância por causa de se acreditar na 
resurreição, a qual dependia da conservação do corpo 4 . 
Á necessidade de obter o repouso mortuário levava os 
fieis muitas vezes a construírem as sepulturas junto dos 
túmulos dos santos, dos altares ou das relíquias sagradas 5 . 
Não seria a ideia de resurreição que levaria os povos pre- 
historico8 a olharem attentamente pelos seus túmulos; bas- 
taria para isso a ideia geral, já a cima exposta, da perpe- 
tuidade póstuma do ser, perpetuidade que se assegurava 
não só, como fica dito, provendo de amuletos o morto, 
mas desenhando-lhe nas lages da sepultura, ou em pedras 
especiaes, que se collocavão dentro d'ella, emblemas caba- 
lísticos, de recôndita e maravilhosa significação. 



1 Cfr. supra, p. 334. 

2 Cfr. um artigo de Borges de Figueiredo, iu Revista Archeolo- 
gica, ii, 60-64, c m, 101 ; e uma nota minha in Revista Lusitana, i, 
G&, bem como o meu Elencho das lições de Numismática, i, 5-6. 

3 Vid. Jnscripttones Hispaniae christianae de £. Hiibner, Berlim 
1871, passim. 

4 Cfr. A. Marignan, La foi chrétienne au quatrieme siecle, Paris 
1887, p. 100. 

5 Cfr. Recue Archeologiqve, xxv, 149 (artigo de Le Brantj. 



3<Ji 



VI. Considerações geraes sobre a religião neolithica 

Chegado a esta altura do Capitulo III, julgo conveniente 
fazer um resumo de todo elle; mas o assumpto é de tal 
modo obscuro, que não se pôde, — ou pelo menos eu não 
posso — , com os elementos que estão ao alcance, estabe- 
lecer um quadro muito nitido e circumstanciado das ideias 
religiosas que dominarão no período neolithico. 

Em qualquer religião distingue-se ' crença culto pro- 
priamente dito: crença, isto é, o modo como o homem 
concebe a existência e a acç&o dos seres sobrenaturaes e 
superiores de que suppfte que elle e o mundo dependem; 
culto, isto é, a forma directa e indirecta por que se lhes 
dirige, para lhes captar a benevolência (adoração), quando 
os julga propícios, e para os repellir (esconjuro), quando os 
julga nefastos. 

* 

Do que fica exposto nos paragraphos precedentes con- 
clue-se que por um lado os animaes, e talvez ainda outros 
elementos da Natureza physica, taes como o ceu e o mar, 
e por outro lado os espíritos, já por ventura considerados 
como causas immediatas de doenças, já tidos na conta de 
almas de mortos, constituião a base das crenças dos nossos 
antepassados neolithicos. 

Na fig. l. a , p. 106, representei um objecto prehistorico 
achado na Folha das Barradas, no qual, segundo todas as 
probabilidades, se quis symbolizar a lua, — facto que, em 
virtude das considerações que apresentei, pôde invocar-se 
como prova do culto d'esse astro. 

Quando me occupei dos dolmens, notei, pags. 324-325, 
que as suas entradas estavão, muitíssimas vezes, voltadas 
para o nascente: o que parece depor igualmente a favor 
de tal ou qual veneração pelo sol, pois não pôde invocar-se 
como explicação a ideia meramente prática de fazer chegar 
por modo directo á morada do morto os raios quentes do 



392 



astro-rei. Esta orientação dos túmulos não é peculiar dos 
povos prehistoricos : ainda hoje muitos povos, como os men- 
cionados na obra de Ratzel, citada a p. 325 nota, voltão 
as sepulturas dos seus mortos também para o Nascente. 
Tanto a orientação de túmulos, como de templos, s&o factos 
que se observão frequentemente em epochas históricas. 

Quer porque o culto dos dois astros que mais tem 
preoccupado a imaginação do homem apparece a cada 
passo nos povos de civilização inferior, quer porque do 
culto de um (Telles já se acha nos tempos protohistoricos 
testemunho certo na Hispânia, e a respeito da existência 
do outro nos mesmos tempos e local ha probabilidades, — 
d'onde resulta a possibilidade de ambos datarem de tempos 
anteriores, que s?io os prehistoricos — , não me parece 
inverosímil a hypothese de que os habitantes neolithicos 
de Portugal vissem na luz que lhes cahia do ceu, dando- 
lhes o dia, e aclarando-lhes a noite, o effeito prodigioso de 
acções sobrenaturaes e divinas. 

Geralmente o homem amolda as suas crenças ás circun- 
stancias do seu viver. Conforme habita as alturas ou as 
planicies, se entrega á caça ou passa os dias na guerra, 
guarda rebanhos ou cultiva campos, assim as suas ideias 
religiosas variSo, e se modiíicão. De diversos passos d este 
livro constão os muitos mesteres e condições dos nossos 
avós nos tempos neolithicos: encontrámo-los, acurvados ao 
trabalho da esculptura zoomorphica, nas rudes montanhas 
trasmontanas ; vimo-los, na península da Arrábida, exca- 
vando com instrumentos rudimentares as grutas em que 
depositavão os restos dos seus mortos; na Beira, empu- 
nhando timidamente o pincel, depararão se-nos a esboçar, 
a ocre, em pedras mal apparelhadas, a imagem grosseira 
dos seus deuses ; por todo o Sul nos apparecêrão gravando, 
com mais ou menos esmero, religiosas placas de lousa, e 
por todo o Norte e centro do país, o ainda em parte do 
Alemtejo, abrindo com escopros de pedra, á superfície dos 
rochedos bravios, aquelles mysteriosos signaes que são 
como outras tantas esphvnges que desafino e atonnentão 



393 



a paciência dos archeologos, no desejo em que estes estão 
de os decifrar ; finalmente, em todo o pais, desde o Minho 
ao Promontório Sagrado, desde a Serra de Sintra á fron- 
teira beirôa e aleintejana, elles, os velhos povos da idade 
da pedra, se nos mostrão cheios de actividade e de força, 
ora affeiçoando instrumentos % que adaptavao a todas as 
formas do trabalho, e criando verdadeiras maravilhas 
industriaes, ora construindo antas, e edificando castros 
roqueiros. Isto nos prova que esses povos erâo sedentários 
e artistas. Das reliquias das suas industrias e das suas 
comidas deduz-se também que muitos se occupavão da 
caça e da pesca, e que a alguns não seria estranha a 
agricultura. Por outro lado sabemos que em occasiões 
apertadas praticavao a guerra: senXo para que serviriXo 
os seus castros, defendidos por parapeitos, e postos em 
eminências pouco accessiveis? 

Devião reflectir-se na religião, como disse, tio differen- 
tes condições de vida; mas, ainda que muito se poderia 
theoricamente aqui notar, pelo confronto com outros povos 
em condições análogas ás dos nossos, poucos materiaes 
nos ficarão pelos quaes se possa formar juizo. 

Se ná estação marítima da Fúrninha, de que por vezes 
tenho fallado neste livro, abundavão os productos da in- 
dustria humana, e os restos de certos animaes, vimos, a 
pags. 346-347, que erfto raras pelo contrário as conchas 
de molluscos marinhos, e quasi nullos ou nullos os restos 
de peixes, — o que leva a crer que estes animaes não fazião 
parte da alimentação humana, ou entravão nella por ma- 
neira muito escassa: d'onde, em razão dos argumentos, 
que apresentei, de povos que, por superstição, não matSo 
vários animaes, se deverá inferir certa veneração cultual 
pelos peixes e molluscos, e provavelmente também pelo 
mar. 

Teremos assim na religião um reflexo do viver marítimo 
dos nossos avós. 

A importância dos animaes em geral manifesta-se porém 
mais claramente noutras circumstancias : as placas de 



394 



schisto, figs. 31 e 32, de Alcobaça e de ídanha-a-Nova, 
que representSo animaes; as pequenas figuras de pedra 
achadas na necropole do Alvão, de que dei amostra na 
fig. 72; as pinturas zoomorpkicas de certas antas da Beira- 
Alta, de que fallei a pags. 276 e 389 nota; e uns pequenos 
objectos de calcareo que ultimamente vi no Museu de Faro, 
e cuja parte superior é affeiçoada á maneira das referidas 
placas de schisto, — cara provida de globos oculares, pál- 
pebras, pestanas e sobrancelhas : tudo isto me parece reve- 
lar feitiços, ou melhor Ídolos. Poderá ainda aggregar-se a 
taes objectos um vaso de barro, que representa um porco, 
e foi publicado pelo Sr. Cartailhac em Les ages préhisto- 
riques de VEspagne et du Portugal, p. 113, proveniente 
da gruta do Carvalhal, e análogo a outros apparecidos 
noutros países. 

A differença que existe entre feitiço e idolo não & grande: 
qualquer objecto, mesmo informe, logo que se creia que 
nelle habita um espirito, torna-se feitiço; quanto ao idolo, é 
um objecto com certa forma representativa do ser que nelle 
se aloja. Ás vezes ehama-se imagem a ura idolo, mas a 
imagem não contém o espirito divino; o povo é que, por 
exemplo, muitas vezes confunde as imagens dos santos 
com os próprios santos, as quaes por isso se tornSo para 
elle verdadeiros Ídolos. 

Voltando ás nossas figuras prehistoricas, penoso será 
no em tanto defini-las, pois, ou podião significar animaes 
sagrados, ou totens, isto é, animaes que encerravão em 
si espíritos de seres superiores, protectores dos homens, e 
ordinariamente antepassados d'estes. Não podem deixar 
de se aproximar das mencionadas figuras de animaes, que 
parece são pelo menos dos géneros Sus, Felis e Canis, os 
amuletos feitos de dentes de animaes dos mesmos géneros, 
como se disse a p. 343. A importância do elemento zoomor- 
phico no quadro religioso fica assim mais patente. Os povos, 
não satisfeitos com manifestarem o culto que prestavSo a 
certos animaes, dando-lhes as formas de feitiços ou Ídolos, e 
representando-os figurativamente pela pintura, aproveita- 



395 



vão-lhes ainda os próprios dentes, que traziâo, com vene- 
ração, pendurados ao pescoço, á cinta, nos braços ou nas 
pernas. Accrescente-se ainda o amuleto de ponta de veado, 
a que me refiro adeante no Additamento á obra. 

Em dois ou mais casos, as pinturas a que a cima alludo 
reproduzem seres humanos. Sendo estas pinturas, como 
com fundamento supponho, religiosas, evidencia-se nestes 
exemplos, mais que em nenhum outro, a noção de idolo. 

O estudo do assumpto leva á mesma conclusão a que por 
outros meios cheguei no decurso do presente livro (cfr. 
p. 324), isto é, que a nossa civilização neolithica não era 
uniforme. Com effeito, havendo em todos os pontos de Por- 
tugal tão abundantes vestígios d'ella, manifestos em esta- 
ções, em necropoles, em simples sepulturas, e em innume- 
ros objectos avulsos, o que tudo posso certificar dos livros 
e artigos que tenho lido, do Museu que está a meu cargo, 
e das collecçSes públicas e particulares que tenho visi- 
tado, apresenta-se como notável o facto de até agora só 
se haverem encontrado figuras zoomorphicas em locaes 
insulados de Tras-os-Montes, da Beira, da Extremadura 
e do Algarve. Prova-se assim a variedade dos centros 
sociaes, o que está também de accôrdo com o resumo 
anthropologico que fiz a pags. 64-68, d'onde vimos que 
no período neolithico havia diversos typos ethnicos no 
nosso país; e pôde pois applicar-se á Lusitânia prehisto- 
rica o que Camões nos Lusíadas, x, 139, diz da America: 

Várias províncias tem, de várias gentes, 
Em ritos e costumes differentes. 

A crença no Animismo, que, como lembrei, era outro 
elemento da vida religiosa dos nossos avós, revelou-se-nos 
suficientemente no que escrevi á cerca da trepanação * e 
das sepulturas 1 , e em parte nos paragraphos á cerca dos 



1 Cfr. especialmente p. 197. 

2 Cfr. especialmente pags. 279, 330 e 348. 



396 



amuletos 1 e das insculpturas em pedras 2 . Para os povos 
prehistoricos, como para muitos outros, antigos e moder- 
nos, o Universo parece que era povoado de espíritos pode- 
rosos, que insufflav&o vida á Natureza, dirigião os actos 
sociaes e funcçoes physiologicas do homem, e representavfto 
as almas dos mortos. 



Depois de termos fallado das crenças, passemos agora 
ás variedades do culto propriamente dito. 

Em primeiro lugar achamos a possibilidade da existên- 
cia de certos indivíduos dotados de caracter maravilhoso, 
segundo o que se disse a pags. 191 e 195. D' aqui á pos- 
sibilidade da existência de sacerdotes n%o dista muito: cfr. 
também o que se disse a p. 349. Para os povos de civili- 
zação inferior, não só qualquer acto, como a installaçlo 
de um tropheu de caça, a evocaçfco dos espíritos, é reali- 
zada por um individuo revestido de certo caracter hierar- 
chico e sobrenatural, mas também a qualidade de sacerdote 
anda muitas vezes inherente á de médico, e ainda á de 
rei 3 . Havemos porém de considerar esses sacerdotes pouco 
mais ou menos como simples feiticeiros ou bentos, de que 
ainda no nosso próprio povo temos hoje exemplos em 
abundância. 

Objectos notáveis de culto são os amuletos estudados 
a p. 111 sqq. (feitos de diversas substancias), 184 sqq. 
(cranianos) e 193 sqq. (idem), os Ídolos ou feitiços, de 
que fallei a pags. 343 e 394, e os signaes insculpidos ou 



1 Cfr. especialmente pags. 116-119. 

2 Cfr. especialmente p. 390. 

3 Cfr. Ratzel, Las razas humanas (tradueção do allemão), i, 108 
e 559; Réville, Prolégoments de Vhistoire des religions, pags. 197- 
202, e Les religions des peuples non civiUsh, i, 150; Fr. João dos 
Santos, Ethiopia Oriental, I, ix; Henrique de Carvalho, Ethnogra- 
phia da Lunda, pags. 246 e 432. 



397 




pintados nas paredes das sepulturas ou em penedos vizi- 
nhos, como se disse a p. 358 sqq. 

No paragrapho sobre os amuletos e objectos congéneres 
occupei-me, a p. 143 sqq., dos instrumentos neolithicos 
que, por terem um furo, podi&o servir para 
se pendurarem, e disse eu, que, por serem 
raros, mais facilmente serviriâo de objectos 
de culto, do que de objectos de uso prá- 
tico: com effeito, entre centenas de instru- 
mentos neolithicos, que tenho obtido, ape- 
nas uma dezena, quando muito, apresenta 
orifícios ; se os orifícios servissem para fixa- 
rem os objectos nos cabos, de certo devia 
haver muitos mais instrumentos furados do 
que ha. No trabalho do Sr. Pigorini, intitu- 
lado Del culto delle arme di pietra nelV età 
neolítica, é possivel que eu encontrasse ar- 
gumentos que apoiassem o meu : mas infe- 
lizmente não consegui ainda ler este tra- 
balho; apenas do mesmo auctor conheço 
directamente um artigo publicado in Bullet- 
tino di paletnologia italiana, XXII, p. 238, 
em que vem uma allus&o ao assumpto. Entre 
os vários objectos furados de que tenho 
conhecimento ha uns tSo bem conservados 
que n%o revel&o uso nenhum; e outros muito 
pequenos : qualquer dos factos apoia o meu 
raciocinio. Ao lado dos pequeninos macha- 
dos de pedra, que, nesta hypothese, serifto 
symbolicos, devo mencionar um instrumento 
collossal, que vi nas m&os de um particular, c 
e de que me mandarão um esboço (fig. 100), 
objecto que, a n8o ter sido symbolico, nâo se comprehende 
bem o que, em virtude das ideias da epocha, teria sido: 
mede de comprimento (c-d) l m ,9 e de maior largura (a-ò) 
m ,16. Conhecem-se lá fora, na Dinamarca, na Bretanha 
e na Sicilia, outros machados de pedra igualmente collos- 




Fig.100 



saes '. Mal podem também deixar de ser symbolicos os 
instrumentos feitos de substancia frágil, como lousa e barro. 
No Museu Etimológico Português ha um interessante ma- 
cbadinho de barro, que aqui figuro em tamanho natural 
(fig. 101), proveniente de uma necropole neolithica da 
Serra do Alvito (Tras-os-Moutes), o qual pertence a mtsma 
oategoria. Com elle pôde comparar-se, quanto á matéria, 
um macliadinho de barro deVerucchio (Itália), figurado 



pelo Sr. Pigorini in Bullettino di ■palttnohgia italiana, 
1896, p. 238 ; só este pertence ao primeiro período do 
ferro; o illustre paleoethnologo italiano considera-o também 
como religioso. 

Augmentão assim consideravelmente os objectos de culto 
. Mais importante e mais complexo porém que tudo é o 
ritualismo fúnebre, demonstrado na profusão das sepultu- 
ras (naturaes e artificiaes) e no mobiliário sepulcral. De 
facto, escolhendo-se para typo d'este ritualismo uma anta, 



» Vid. Paolo Orsi, Qaattro anni di nploratioiti ncule, Parma 189*. 
p. 113, nota; e um artigo do mesmo A. in Bullettino di paMttologio 
italiana, 1895, p. 50. 



399 



tão completa quanto o estudo do conjuncto de muitas no- 
la faz suppor, vê-se que nada melhor se podia imaginar 
para descanso do espirito do morto, quer os restos d'este 
experimentassem a cremação, quer o enterramento: pa- 
redes e tecto de fortíssimas lages, para alli arrastadas 
com grande custo ; ch&o ladrilhado de lages ou coberto de 
seixos; uma pedra de miríficas virtudes, ou uma divisão 
ou nicho especial, para depósito do despojo funéreo; as 
faces internas da camará e da galeria forradas de pin- 
turas sagradas, ou com insculpturas de mystica significa- 
ção ; em volta do cadáver, das ossadas ou das cinzas 
humanas, tudo aquillo de que o homem necessita, ali- 
mentos, vasilhas com as respectivas tampas, mós» para se 
fazer farinha, armas de guerra e de caça, matéria prima 
para se fabricarem novas armas, instrumentos de trabalho, 
vestuário, enfeites corporaes, e ainda diversos objectos 
dotados de virtude sobrenatural, como amuletos, e feitiços 
ou idolos; e, como complemento final, um grande monte 
de terra a envolver exteriormente o monumento, cuja 
entrada se fechava com uma pedra. Protegido pelos seus 
deuses, provido de quanto para a existência lhe era mister, 
que mais queria o morto? Uma anta, e em geral um 
tumulo, se constituía como que um asylo onde nada fal- 
tava, assemelhava-se também a um sacro templo, porque, 
como de um da índia diz Camões nos Lusíadas, vn, 47: 

Alli estão das deidades as figuras, 
Esculpidas em pau, e em pedra fria, 
Vários de gestos, vários de pinturas . . . 



Não desejo rematar este artigo, sem tocar ainda em 
certos assumptos secundários. 

Nas obras que tratSo de prehistoria, ao fallar-sé dos 
monumentos megalithicos, falla-se de cromlechs, menhires, 
pedras-balouçantes, e ainda de outros. Em relaç&o a Por- 
tugal, direi que cromlechs authenticos n&o conheço por 



400 

ora nenhum ; de um supposto menhir fallei a p. 372 ; as 
pèdraa-balouçantes, de que realmente existem vários espé- 
cimes em Portugal 1 , parecem-me aimploa luaua noturae, 



1 Borges de Figueiredo in O Couimbricerue, de 4 de Julho de ■ 
1885, e íd Ilevixía Areheologiea, n, 1 sqq., tratou d'este assumpto, 
indicando duas portuguesas : a da Torre, no concelho de Viseu, e a 
de Carragosella, no concelho de Taboa. O mesmo A. adopta a opi- 
nião do Sr. F. Adolplio Coelho, segando a qual Peravana 6 F.d 
perra, nomes de lugares, indicio pedras -balou cantes, significando a 
primeira palavra pedra que abana, e a segunda fa.Ua pedra: quanto 
a Peravana, a etymologia é possível ; quanto a Falperra, ella está 
em opposiçSo com as leis phoneticas, conhecidas, da lingua portu- 




Flf. 101 

guesa. — Figueiredo considera ainda a expressão Penedo que fatia, 
qne existe no onomástico, como indicativa de petlra-balouçanto ; 
mas tal expressão tom, quanto a mim, sentido muito differente, pois 
deve basear-ite na crença de existência de Moiras encantadas. Tam- 
bém na Beira-Alta ha um penedo «que toca como um sino*, assim 
chamado em virtude de um phenomeno puramente natural : cfr. o 
meu artigo ■ Antiguidades da Beirai, in Gazela da Figueira, n.° 486, 
de 19 de Setembro de 18%. — Igual meu te interpreta Figueiredo 
como revelação da existência de pcdras-baluuç antes o nome de 
Pedra Encaeallada dado a certas localidades; uem sempre assim 



401 



embora por isso pudessem ter sido encaradas pelo homem 
prehistorico como sobrenaturaes, mas do que n%o possuo 
provas; de outros monumentos susceptiveis.de serem incluí- 
do* na classe dos religiosos não tenho noticia. 

O que fica exposto a propósito da religi&o da Lusitânia 
neolithica funda-se apenas nos documentos que de tão 
remotas eras nos restSo; dos elementos religiosos, que 
não deix&o, ou podem n%o deixar, vestígios materiaes, a 
saber, a adoração das arvores, das aguas, dos montes, as 
danças e musicas sagradas, as cerimonias, os sonhos, as 
fórmulas magicas, as sortes, os bosques santos ou luci, e 
outros elementos semelhantes, claro está que nada se pode- 
ria dizer senEo theoricamente, de accôrdo com o que se 
passa na vida dos povos incultos, e com o que pela his- 
toria sabemos das mais antigas sociedades ibéricas: mas 
a prudência pede que nSo se vá muito alem de uma sim- 
ples indicação. Já a p. 166 se tocou este ponto, a pro- 
pósito dos amuletos. A existência de recintos e lugares 
sagrados inferiu-se explicitamente, a p. 327 sqq., ao fal- 
lar-se dos cemitérios e necropoles. De cerimonias fúnebres 
fallou-se a p. 349. Do respeito do homem prehistorico pelas 



será, porém, porque junto de Mondim da Beira, por exemplo, ha o 
Penedo Encavallado, que não é pedra-balouçante. 

Ultimamente o Sr. Joaquim de Castro Lopo, de Valpaços, a quem 
os estudos ethnographicos merecem muita at tenção, deu-me relação 
de outra pedra-balouçante ; existe perto d'aquella villa, e é chamada 
pelo povo Pedra que bole. A titulo de curiosidade, aqui publico (fíg. 102) 
a estampa d'ella, segundo um desenho que o mesmo Sr. me mandou. 
A pedra mede de comprimento 7 metros; de largura 4 m ,6; de altura 
b^^Xb. Escreve-me o Sr. Lopo : «A Pedra que bole apresenta uma 
exeavação em forma de concha, que 6 cheia de covas de diversos 
tamanhos ; a SE. ha uma pedra, que é pequena relativamente á outra, 
tão próxima da balouçante, que d'ella dista O" ,01 na extensão de O^ÕO. 
É impellindo a Pedra que bole do lado desfoutra pedra, que ella 
oscilla ; e olhando-se para o exíguo intervallo que separa as duas, 
é que melhor se nota a oscillaçâo» da balouçante, por menor que 
ella seja». 

20 



402 

grutas alguma cousa se disse a p. 219 sqq. '. De cenota- 
phios fallou-so a paga. 211 e 283; e de ossuarios a p. 317 
sqq. Existem povos que lev&o a singularidade da sua 
superstição ao ponto de considerarem como fatídicos, ainda 
os objectos mais extraordinários, por exemplo, vasos anti- 
gos". A propósito de vasos, lembrarei que o Sr. Pigorini, 
director do Museu Prehistorico de Roma, estudando no 
seu opúsculo Sioviglie votive italiche, 1897, uma serie de 
pequenos vasos do primeiro período do ferro e do período 
do bronze, considera-os como votivos. Também eu no * Cas- 
tro» prehistorico de Pragança encontrei um vaso tSo pe- 
queno, que não deve deixar de se incluir na serie dos estu- 




dados pelo Sr. Figorini : aqui dou d'elle uma estampa em 
tamanho natural (fig. 103 ; o original guarda-se no Mnseu 
Ethnologico Português). 



Quando a Etimologia estiver mais adeantada, talvez 
também pelo estudo das superstições de cada país, se 
chegue a conhecer melhor as ideias religiosas do pas- 
sado. Como nos banquetes heróicos as taças de hydromel 
passavSo de m3o em mão. saboreando cada conviva o 
liquido precioso, assim de século para século, de geração 
para geração, neste convívio ininterrupto da humanidade, 
as ideias se vão agradavelmente transmíttindo, ora puras, 



1 Ofr. pngg. 46 e 94 í^nitns Baritas); 47 e 225 (lendas) 
* No AreMpelago lúdico. Vi4 Mâutiue, m, 124. 



403 



ora modificadas, conforme a natureza dos povos e as con- 
dições dos lugares: de modo que pôde em muitos casos 
seguir-se até muito longe o fio da tradição, com quanto 
nem sempre seja fácil ou exequível assignar a certas 
superstições, manifestamente pre-christSs, origem clara e 
determinada. 

O estudo da Historia, ainda que para mais n&o servisse, 
servia para mostrar como o presente é solidário com o 
passado. Já a maioria dos sentimentos de que se com- 
põe a nossa existência, já o geral dos nossos costumes 
e dos objectos de que nos servimos diariamente, — tudo 
provém da antiguidade. Ao estudarmos as grutas e os 
dolmens, — e fallo principalmente nestes monumentos, por 
serem duradouros, — vimos, a pags. 225 sqq., 249 sqq. e 
285 sqq., como desde remotíssimas eras até hoje se tem 
conservado na memoria popular a lembrança d'elles : monu- 
mentos sagrados em seu princípio, a alma do povo continuou 
carinhosamente a santificá-los, embora noutro sentido. Dos 
instrumentos de pedra, que auxiliavâo os homens neoli- 
thicos no seu trabalho, conserv&o-se ainda agora nas m&os 
da gente do campo exemplares sem conta, e cada um 
revestido de caracter sobrenatural, porque quem mais n&o 
entende dos phenoinenos meteorológicos e da ethnographia 
primitiva considera esses interessantes productos da indus- 
tria humana como formados pela trovoada, ou apedras de 
raio»: já vários AA. antigos, como Suetonio 1 , Solino*, 
Sidónio Apollinario 3 , Claudiano 4 e S. Isidoro 5 , se referírSo 



1 Vitae, (ed. de Weise, Tauchnitz, 1845) : Galha, cap. viu. 

2 Collectanea rerum memorabilium, cap. 23 (ed. de Mommsen, 
Berlim 1895, p. 104). 

3 Carmina, v, 49-53 (in Monument. German., «Auctor. Antiquiss.», 
viu, p. 189). 

* De Laudibus Serenae, vv. 77-78. 

* Etymol, XVI, xxiii, 4 (ed. de Madrid, 1778, Opera, I, p. 412).— 
S. Isidoro repete a superstição tal como vem em Solino, e emprega 
mesmo .algumas das palavras que neste se lêem. 



404 



á superstição peninsular das t pedras de raio» em geral, — 
o que prova a intensidade (Telia 1 . Dos amuletos, cujo exame 
constituiu o § li do Capitulo III, quantos vestígios nSo 
se encontrarão na tradição moderna? Á factos análogos a 
estes me referi também a pags. 111 e 349, e do conjuncto 
(Telles me occuparei com mais individualização na parte 
(Testa obra consagrada ao estudo dos vestígios do paga- 
nismo. 

Se cansados das lutas da vida, mortificados de toda a 
maneira, dirigimos a nossa imaginação para o passado, 
para as regiões nevoentas e melancólicas em que se esconde 
o nosso berço primitivo, ao menos experimentamos certo 
consolo, porque, ao vermos levantareni-se majestosamente 
do pó dos túmulos, de entre a escuridSo das cavernas, ou 
de sob as cryptas megalithicas, os espectros dos nossos 
velhos e incultos avós, com barbas brancas e esquálidas, 
cahidas sobre o peito, olhos que o somno eterno pisou, 
m&os callejadas do manejo das armas de pedra, voz de 
angustia, de quem muito trabalhou e soffreu, comprehen- 



1 De entre os AA. citados, é Suetonio o único que especifica as 
machadinhas (deve entender-se «de pedra»): in Cantabriae lacum 
fulmen decidit repertaeque sunt duodtcim secures (um thesouro de 
instrumentos neolithicos, ou um ripostiglio, como dirião os Italia- 
nos !). Solino (e com elle S. Isidoro) localiza a superstição expressa- 
mente nas costas marítimas da Lusitânia, mas não falia de macha- 
dinhas, conta as pedras de raio entre os productos da Natureza. 
Claudiano colloca as pedras «nos antros dos Pyreneus»; Sidónio não 
menciona região nenhuma especial da Península, falia da Hispânia 
em geral. Temos pois, ao que parece, duas espécies de pedras de 
raio: instrumentos prehistoricos, e certas pedras naturaes; a su- 
perstição estava espalhada pela Península, na Lusitânia, na Cantá- 
bria, nos Pyreneus. — Notarei incidentemente que talvez a fonte 
litteraria de Solino neste ponto fosse o auetor lusitano Cornelio 
Boccho : sobre Cornelio Boccho cfr. O Archeologo Português, i, 69. — 
Tanto Suetonio como Claudiano considerão o apparecimento das 
pedras de raio como prodígios, um nas vésperas da exaltação de 
Galba ao throno dos Césares, o outro por oecosião do nascimento da 
formosa Serena. 



405 



demos que elles nos dizem, na sua irrefragravel eloquên- 
cia, que, assim como hoje, cheios de veneração, os vimos 
saudar, e recebemos e ampliamos com entbusiasmo a he- 
rança ou civilização que nos legarão, assim também hSo-de 
proceder para comnosco os nossos vindouros, porque a tra- 
dição é uma força moral que subordina perpetuamente as 
consciências ao respeito da pátria. 



Formemos agora um pequeno quadro provisório do que, 
com mais ou menos probabilidade, e sem sahirmos da área 
dos factos de observação, explicados sempre por compara- 
ção com outros que se notão na vida dos povos de civili- 
zação inferior, pudemos apurar quanto ás ideias religiosas 
que dominarão na Lusitânia no período neolithico: 

I. ConcepçXo (Naturalismo e Animismo) : 

a) a lua e o sol; 

b) o mar e os peixes; 

c) outros animaes (mammiferos) ; 

d) os espíritos da Natureza e dos mortos. 

II. Culto: 

a) sacerdócio rudimentar; 

b) lugares sagrados (cemitérios); 

c) cerimonias (fúnebres); 

d) necrolatria; 

e) amuletos; instrumentos e vasos symbolicos; 

idolos ou feitiços (figurados e pintados) 
de animaes e do homem; signaes inscul- 
pidos em pedras. 

A ter de ser exclusivamente pelos restos da sua religião 
que houvéssemos de definir o caracter dos Lusitanos neo- 
lithicos, de certo não poderíamos collocar no cume da 



40*3 



escala social tribus que se cobrião de amuletos, que para 
operações magicas perfuravão o crânio, e que consagravão 
aos mortos, para a romagem do outro mundo, objectos de 
serventia quotidiana : devemos todavia notar que um grau 
inferior do sentimento religioso é compatível com o explen- 
dor da civilização material, como se observa, por exemplo, 
na Europa, onde, ainda nos países mais illustrados, exis- 
tem innumeras e extravagantíssimas superstições ; por isso 
suspendamos por um pouco o nosso juizo, e ponhamos a 
par d'esse quadro modesto e grosseiro da religião dos 
nossos avós os outros elementos da civilização, taes como 
o apuro de muitos instrumentos de pedra, o gosto da 
ornamentação cerâmica, a escolha de diversas matérias 
primas para fins industriaes e artísticos, as tendências 
para a representação zoomorphica pela esculptura, pela 
gravura e pela pintura : com quanto todos estes elementos 
appareção, e ainda ás vezes com maior desenvolvimento, 
em algumas sociedades selvagens, elles revelão grande van- 
tagem em relação ao período paleolithico e dos kjoekken- 
moeddings, — por onde se deve concluir que os povos neoli- 
thicos da Lusitânia, se erão ainda em parte selvagens, 
não rastejavâo já nos degraus ínfimos da civilização, e 
pelo contrário tinham attingido bastante progresso, offe- 
recendo no conjuncto da sua ethnographia, á parte certas 
particularidades, os mesmos caracteres que outros povos 
da Europa seus contemporâneos. 



CAPITULO IV 

A religião na epocha dos metaes 

Assim como se torna diâfcil, para não dizer impossível, 
estabelecer differença radical entre os fins do período neo- 
lithico e os primeiros alvores da epocba dos metaes, por 
isso que o uso d'estes, como matéria prima na arte e na 
industria, se juxtapôs lentamente ao da pedra, do que 
resultou, no desenvolvimento social, uma era de transição, 
ou chalcolitkica: assim também mal se pôde dilimitar com 
rigor o que na epocha dos metaes pertence á prehistoria e 
á protohistoria. O castro ou cCastello» de Pragãnça, no 
antigo concelho do Cadaval, ministra um bello exemplo 
de civilizações mixtas, porque, de um lado tem abundantes 
caracteres neolithicos, do outro n&o menod • abundantes 
caracteres da epocha do metal (cobre ou bronze), e, com 
quanto não chegasse a receber o predomínio da civilização 
romana, penso que foi, pelo menos nos últimos tempos em 
que elle existiu, contemporâneo d'ella 4 . Perto da foz do rio 
Mira descobriu o Dr. Abel da Silva Ribeiro algumas sepul- 
turas, que' o Sr. Cartailhac considera como do período de 
transição dos tempos neolithicos para os primeiros tempos 
do uso do metal 2 , e Estacio da Veiga considera como do 



1 Vid. o meu artigo «Castros» in O Archtologo Português, i, 5-7. 

2 Les ages préhistoriques, etc, p. 210. 



408 



período do cobre f ; Paula e Oliveira estabelece analogia 
entre estas sepulturas e as que elle estudou nos arredores 
de Cascaes*, que creio devem considerar-se como proto- 
historicas. Estes exemplos mostrão a difficuldade que come- 
cei por assignalar. 

Adstringindo-nos, porém, ao estudo dos factos portu- 
gueses que melhor correspondem ao que com alguma pro- 
priedade deverá chamar-se primeiros tempos da epocha dos 
mctaes, isto é, tempos em que o cobre e o bronze (mas 
principalmente o cobre) sobrepujfto evidentemente a pedra, 
encontramos apenas um elemento religioso bem definido: 
o culto dos mortos; — o que não contradiz que existissem 
muitos outros elementos, uns provindos do período prece- 
dente, simples ou modificados, outros apparecidos agora 
pela primeira vez. 

Estacio da Veiga estudou suficientemente em relação ao 
Algarve as sepulturas do período que elle chama cdo co- 
bre». Estas sepulturas são principalmente cistos, que já 
também se nos depararão no período neolithico 3 . De outros 
pontos do reino não ha bastantes elementos de estudo. 
Nas cistas algarvias achão-se a cada passo, a par de obje- 
ctos de metal, objectos de pedra; mas aquelles constituem 
o typo característico d'esta espécie de offerendas fúnebres: 
por isso trato das cistas no presente lugar, com mais desen- 
volvimento do que tratei a p. 308 sqq. 

As cistas são caixas quadrangulares, ou mesmo quadra- 
das, compostas de quatro, seis ou mais lages, toscas, sem 
alinhamento, que formão os lados, e estão cobertas também 
de lages. Eis aqui na fig. 104 4 a planta e perspectiva de 
uma cista de Bias (concelho de Olhão). Estacio da Veiga, 



1 Antiguidades tnanumentaes do Algarve, iv, 143. 

2 Antiquités de» envirans de Cascões, p. 13 (extracto das Commu- 
nicações da Commissâo dos trabalhos geológicos, t i, fase. 1). 

3 Vid. supra., p. 308. 

4 Antiguidades monumenlaes do Algarve, iv, est xi, em frente da 
p. 106, n.° 1. 



409 



em vários lugares do vol. iv das suas Antiguidades monu* 
mentaes do Algarve, traz plantas de sepulturas rectangu- 
lares e trapezoidaes. 





Fig. 104 



As dimensões das cistas variSo entre QPfib e 1 B ,02 de 
comprimento, O^O e QPJò de largura, O^õO e O^O de 
altura *. 



1 Vid. Estacio da Veiga, Antiguidades do Algarve, iy, passim. 



410 



Estas sepulturas, umas vezes nào contém nada, outras 
vezes contém pequenas urnas, fragmentos de ossos e in- 
strumentos de cobre e de pedra. As urnas erão destinadas 
a conter os ossos (pllae osmariae). Em cistas de Alçaria 
do Pocinho (Algarve) havia uma urna com um crânio quasi 
inteiro, na disposição indicada na fig. 105 4 , e outra com 
fragmentos de um crânio cobertos pela valva de uma vieira 
(Pecten maximus), como se vê na fig. 106 *. Esta ultima deve 
dar ideia do typo geral. Não raro os ossos estavSo já dis- 
persos pela sepultura. 

Segundo Estacio da Veiga, as cistas erâo destinadas a 
recolher relíquias de exhumações, isto ó : os cadáveres te- 
rião sido inhumados, c, depois de consumidas as partes 
molles, as ossadas seriâo depositadas em urnas e postas 
nas cistas. As pequenas dimensões de algumas cistas não 
permittiSo, de mais a mais, o enterramento, «.ainda mesmo 
dobrado que fosse o cadáver pelas articulações dos fému- 
res» 3 . Parece que Estacio não encontrou vestígios positi- 
vos de cremação de cadáveres 4 , e por isso não fez inter- 
vir este rito na explicação dos costumes funerários reve- 
lados nas cistas ; apenas, tal 1 ando das sepulturas da foz do 
Mira, que a cima mencionei, diz que a terra que as en- 
chia t manifestou carvão miúdo, talvez proveniente de al- 
guma cerimonia fúnebre, em honra dos mortos, que fosse 
celebrada no acto do enterramento ou da inhumação» 5 . O 
Sr. Cartailhac, porém, indicando as dimensões de algumas 
cistas, accrescenta: tCes dimensions réduites s'expliquent 
aisément ; sauf exception, le rite de Tincinération succède 
à celui de 1'inhumation. Les cendres du corps n'exigent 



1 Estacio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Algarve, rv. 
est. xiii, em frente da p. 112, u.° 11. 

2 Id., ib. f ib., ib., n.° 10. * 

3 Id., ib., ib., 118. Vid. também p. 112, etc. 

* Algumas vezes especifica mesmo que os fragmentos achados 
erâo de ossos não queimados : por cx., vol. iv, 123. 

* Id., ib., íA., 141. 



411 

qu'un faible espace et presque toujours Ja petite chambre 
en pierre n'a pour but que de proteger 1'urne funéraire. 
Cette ume manque rarement; couve rte d 'une rondelle de 
pierre à peu prés brute, elle retiferme -les traces encore 




reconnaisBables du squelette; elle occupe un des angles 
du cfliasonn *. Já Silva Lopes, ao referir-s&a uma pedreira 
de ardósia, trabalhada de tempo immemorial, no concelho 
de Aljezur, escreveu que nos sitios das Ferrarias e da 



1 Lu âge* prfhUoriqucÊ, ele, p. 218-214. 



412 



Arregata «se encontrão muitas sepulturas, formadas de 
seis lapidas da mesma ardósia, em forma de caixão, sem 
que n'ellas se contenhão ossos alguns, indicio de que erito 
de nações que queimavão os corpos» *, sepulturas que sSo 
de certo cistas*. Em verdade causaria estranheza que, ha- 
vendo-se tornado vulgar noutros países o rito da crema- 
çSo dos cadáveres na epocha de que estou tratando, nSo 
existissem vestígios d'elle em Portugal; todavia não possuo 
elementos para ir alem do que deixo apontado. 

Ao passo que nas sepulturas do período neolithico se 
recolhiZo os restos mortaes de muitas pessoas, as cistas da 
epocha dos metaes encerrão de ordinário ossadas de um 
só individuo, e raramente de mais de um. Isto é um ca- 
racter muito especial seu, no qual insistiram Cartailhac' e 
Estacio da Veiga 4 . 

Como disse ha pouco, algumas sepulturas não continhSo 
nada : Estacio da Veiga suppõe que ellas seri&o destinadas 
a recolher ossos cuja exhumaç&o não chegou a effectuar- 
se 5 . Também em cistas apparecêr&o urnas igualmente va- 
zias, o que Estacio attribue ao facto de serem consideradas 
como monumentos de consagração 6 . Ambas as hypothcses 
s&o possíveis, mas com relaç&o á segunda notarei que po- 
derifto as urnas ter contido cinzas que o tempo destruísse.* 

A situação das cistas varia. Muitas s&o situadas em 
cabeços ou em rampas de outeiros 7 . Estacio da Veiga 
encontrou nos montes da Zambujeira vestígios de uma 
povoação prehistorica ; ahi ao pé havia também cistas 8 . 
Quanto á orientação, parece que a nSo tinhâo fixa 9 . 



1 Corografia do reino do Algarve, Lisboa 1841, p. 204. 

2 Cfr. Estacio da Veiga, Antiguidades do Algarve, iv, 65-68. 

3 Les ages préhistoriques, etc, p. 212. 

4 Antiguidades monumentaes do Algarve, iv, 118, 120, etc. 
* Ob. cit., ib., 124. 

« Ob. cit., ib., 117. 

^ Ob. cit. t ib., 122, 123, 125, 126, 130, 133, etc. 

« Ob. cit., ib., 121. 

9 Ob. cit., ib., 122, etc. 



Do mesmo modo que as antas, as cistos formavlo por 
vezes cemitérios oa necropoles. Eetacio da Veiga descreve 




bastantes; das suas obras extraio a planta (fig. 107) da 
necropole da Córga-das-Oliveíras (Castro-Marim) '. 



1 Ob. dl., toI. ir., est. iit, em frente da p. 122. 



414 



As sepulturas da foz do rio Mira, a que alludi a p. 407, 
erfto de diversas dimensões, permittindo algumas a inhu- 
maçfto do cadáver, c Estavam geralmente construídas com 
seis lages toscas, quatro formando os flancos lateraes e 
duas os topes, entaladas entre os lados. Não sfto com- 
pletamente idênticas ás das necropoles do Algarve, por 
terem as primeiras maior extens&o, e a configuraçfto tra- 
peziforme, mas nas necropoles do Algarve também appa- 
receram variantes» '. Os ossos não tinhão signaes de cre- 
mação *. Quanto á existência de alguns carvões, vid. o que 
se disse a cima, p. 410. 




FIg. 108 

Na numerosa serie de sepulturas algarvia?, que Estacio 
da Veiga com fundamento attribue á primeira idade dos 
metaes, ha uma um pouco especial, assim descrita por 
aquelle A. : • A planta, posta verticalmente, representa um 
pórtico de arco abatido, da altura de l m ,15, tendo de lar- 
gura nl ,86 e de fundura O^õ. A construcção foi feita 
com pedaços de lages do schisto por meio de fiadas hori- 
zontaes sobrepostas, e mui provavelmente assentes em 
terra que se molharia para cada fiada ficar mais firme» 3 . 



1 Estacio da Veiga, Antiguidades do Algarve, iv, 141. 
1 Id., ib.j ib.. 141. 
3 Id., #//.. ih., 111. 



415 



Dou na fig. 108 a planta, na escala de 4 /ío, extrahida das 
Antiguidades monumentaes do Algarve, IV, est. XI, n.° 2. 
O género da construcç&o pareci a- se, como nota Estacio, 
com o da dos n. os 5 e 6 da necropole de Alcalar; mas 
este ultimo monumento era maior. 

Outra especialidade nas construcçSes sepulcraes é a se- 
guinte. No Cerro da Alçaria do Pocinho (Algarve) encontrou- 
se «um circuito de forma elliptica, construido com pequenas 
lages de schisto em fiadas horizontaes sobrepostas. Estava 
mui bem conservado, certamente porque a pequenez do 




Fig. 109 

material da sua construcção foi escapando á vista dos des- 
truidores dos outros jazigos. Parece ter-se assim querido 
imitar a crypta dos grandes monumentos e o género do 
trabalho de alguns de Alcalá (aliás Alcalar), dos que con- 
tinham maior número de artefactos de cobre» ! . A cober- 
tura tinha desapparecido. O eixo maior mediu l m ,45. Den- 
tro estavão duas urnas de barro e fragmentos de outro. 
Como tíHo appareceu osso nenhum, Estacio suppõe que 
este monumento seria de consagração, isto é, cenotaphio. 
Na fig. 109' dou a planta, extrahida do vol IV, est. xin 
(lettra L) da obra d'aquelle A. 

Adoptando o systema que adoptei noutros pontos d'esta 
obra, de descrever seguidamente os typos que, pelo menos 



1 Estacio da Veiga, Antiguidades do Algarve, iv, p. 116. 



416 



na apparencia, são de transição, esperar-se-hia que eu col- 
locasse ao pé dos monumentos de Alcalar os dois monu- 
mentos descritos, que parecem monumentos de transição 
entre as cistas e as cryptas alcalarenses. Mas a verdade é 
que, como se trata de várias civilizações, e não de uma 
única, não se pôde contar com uma serie progressiva de 
formas; se representássemos geometricamente estas formas, 
acharíamos um circulo, e não uma recta. Suppondo que 

D significa dolmens ; 

TDA ... os monumentos de transição dos dolmens para 

as cryptas de Alcalar; 

A os monumentos de Alcalar ; 

TAC ... os monumentos de transiçSo das cryptas alcala- 
renses para as cistas; 

C cistas ; 

TDC '. . . os monumentos de transição das cistas para os 

dolmens : 

teríamos o seguinte eschema: 



D 
TDC 



TDA 



A 
TAC^ 



Não se limitâo aos precedentemente indicados os costu- 
mes funerários da primeira idade dos metaes. Estacio da 
Veiga dá relação de se haverem achado no Algarve curio- 
sos sarcophagos constituídos por potes de barro, dentro 
dos quaes havia ossos humanos e instrumentos de cobre. 



417 



Estes potes existião no Espiche e em vários sítios próxi- 
mos de Odiaxere. Infelizmente o infatigável explorador das 
antiguidades algarvias n&o os pôde observar; apenas, para 
dizer o que diz, se baseia em informações, — que julgo 
sereyn porém fidedignas '. 

Os Sr s. H. & L. Siret, nas suas explorações do SE. da 
Hespanha, encontrarão potes análogos, pertencentes á epo- 
cha dos metaes*, — facto que Estacio n&o deixa de notar 3 ; 
este A. refere-se também a costumes análogos da Bre- 
tanha, e do Oriente (Chaldeia e Assyria)*. A tal propó- 
sito leio num artigo do sr. Boetticher : cL'incinération dans 
de grandes urnes est un usage três répandu dans le monde 
antique et dont on a récemment constate des exemples en 
Tunisie, dans le nord de 1'Espagne et surtout dans les 
tertres funéraires de la vallée de Y Euphrate et du Tigre. 
A Hissarlik, on a trouvé des urnes contenant les squelettes 
non brúlés de jeunes enfants ; il y a là encore un usage 
três general, auquel font allusion les vers bien connus de 
Juvenal (XV, 1396), et qui subsiste encore aujourd'hui à 
Bornéo» 5 . Nas Baleares, na antiguidade, era costume reco- 
lher numa urna os membros do cadáver, depois de quebra- 
dos ás pauladas; em cima collocava-se um grande mont&o 
de pedras 6 . Passando aos tempos modernos, encontramos o 
mesmo costume na Africa, nos Ban-kumbi (Humbe) : que- 
bra* o os ossos principaes do defunto com um pau, e, fa- 
zendo-os num feixe, envolvem-nos primeiro num panno, 
e posteriormente numa pelle de boi; depois mettem-nos em 
uma panella, que enterràV. 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, iv, 72-75. 

2 Les premiers ages du metal, por ex., a p. 128 sqq. 

3 Antiguidades monumentaes do Algarve, iv, 74. 
* Ib. ib., 75. 

5 In Comple rendu do Congresso de anthrop. e arch. prehist. de 
Paris, Paris 1891, p. 265 (resumo do sr. Salomon Reinach). 

« Diodoro Siculo, Biblioth. Hist., v, 18, ed. de Mttller, Didot, 1842. 
7 Capello & Ivens, De Angola á Contra* Costa, p. 223. 

27 



418 



Por consequência, o costume dos potes fúnebres do Al- 
garve relaciona-se com outros costumes, cuja área é bas- 
tante extensa. 

Naturalmente estes potes estavfto depositados dentro de 
sepulturas, ou de recintos especiaes. 



Resumindo o que acaba de se dizer á cerca dos costumes 
funerários da -primeira idade dos metaes, nota-se que, quanto 
á concepção da vida futura, nSo devia existir differença fun- 
damental em comparação com o que succedia no período, 
neolithico, por isso que junto dos restos humanos se de- 
positav&o offerendas : de certo se acreditava na existência 
da alma, e que esta sobrevivia ao corpo, tendo na outra 
vida necessidades análogas ás que tinha na vida presente. 
Todavia, o rito primitivo experimentava já modificações 
secundarias, o que se deduz do modo de sepultar o ca- 
dáver: com effeito, emquanto no período neolithioo cada 
tumulo recebe, ou pôde receber, muitos cadáveres, no pe- 
ríodo do cobre cada tumulo recebe de ordinário as ossadas 
de um só esqueleto. Pôde parecer que neste período o 
mobiliário fúnebre era menos abundante que no período 
neolithico; no emtanto, se em cada sepultura apparecem 
menos objectos, isto deve-se principalmente ao facto da 
pequenez da sepultura, e de esta pertencer a um só, ou 
a poucos indivíduos. O typo sepulcral predominante é a 
cista, com algumas variedades; o uso de grandes urnas 
ou potes, para conter os restos humanos, constitue uma 
singularidade, postoque o facto de collocar nas cistas urnas 
pequenas com ossadas seja frequente 1 . 



1 Já depois de composto este texto publicou o Sr. Santos Rocha 
in Revista das sciencias naturats e sociaes, iv, n.° 14, um artigo em 
que estuda parte da necropole da Campina (Faro), pertencente á 
epocha do cobre. De uma das sepulturas diz : «Era formada por 
lages brutas de 0",30 a B ,50 de comprimento, de altura não supe 



419 



Pena é que não exist&o outros documentos dos quaes se 
tirem deducções um tanto seguras sobre o caracter religioso 
da civilização da primeira idade dos metaes ; nesta idade, 
pelo menos nas sepulturas e estações conhecidas, não se 
tem encontrado (ou, se se tem encontrado, é em pequena 
quantidade) objectos análogos acs amuletos, placas cóm 
ornatos, pingentes, animaes de pedra, rochas insculpidas, 
etc., do período neolithico. Attendendo, porém, ao desen- 
volvimento que a industria do cobre tomou no nosso país 
nos tempos de que me estou occupando, e ao grande 
número de minas que então se explorarão, — factos de 
que Estacio da Veiga, nas Antiguidades monumentaes do 
Algarve, vol. IV, passim, dá abundantes provas, não vem 
fora de propósito suppor que no quadro das ideias reli- 
giosas dos povos d'esta idade haveria algum lugar para 
divindades metallurgicas, ou que ao menos se celebra- 
ndo cerimonias, ou teriSo curso theorias, a propósito de 
crenças sobrenaturaes relacionadas com o mundo subter- 
râneo. Não offerecia o metal tantas vantagens? Não con- 
stituía um instrumento tão útil do trabalho do homem? 



rior a a ,48 e de O»,08 a O^IO de espessura, cravadas de cutello, 
descrevendo alguma cousa semelhante a um heptagono irregular, 
em que faltava um dos lados a SE. : mas um outro supporte seguia 
no mesmo alinhamento do que ficava ao nascente ; de sorte que a 
sepultura era mais comprida d'esse lado do que do outro. Da cober- 
tura restavâo apenas duas pequenas lages» (p. 61). Do modo de 
inhumação diz : «A exploração do recinto descobriu primeiramente 
dois esqueletos com as pernas encolhidas, isto é, com os joelhos 
próximos dos maxillares inferiores, parecendo que ambos tinhâo os 
braços estendidos ; e esta vão deitados sobre o lado direito, com a 
face em terra e a cabeça para NO., mas bastante inclinada para O., 
um ao lado do outro» (p. 62). Nas sepulturas exploradas encon- 
trou-se pequeno mobiliário : vasos de barro grosseiro, análogo ao 
neolithico da Serra do Cabo Mondego, e objectos de cobre puro. No 
terreno da necropole encontrou -se uma pequena placa de lousa 
(amuleto?). Estas sepulturas relacionão-se, como se vê, com aquellas 
a que no texto me refiro. 



420 



Que admira que este o venerasse e o considerasse como 
presente de um deus? 1 . O que estou dizendo n&o é pura 
supposição. Alem de sabermos que por toda a parte, nas 
camadas menos cultas das sociedades, os metaes, as minas 
e os mineiros estão a cado passo revestidos de caracter 
sobrenatural, como se pôde ver no copioso livro do sr. Paul 
Sébillot, Les travaux publics et les mines dans les tradi- 
tions et les superstitions de tous lespays, Paris 1894*, pos- 
suímos também uma noticia, transmittida pelo escriptor 
romano Justino, respectiva a velhas crenças metallurgicas 
da Lusitânia 3 . A obra de Justino é, como se sabe, o 
resumo de uma de Trogo Pompeu, escriptor que viveu 
no tempo de Augusto, e aproveitou nos seus trabalhos 
os de outros auctores mais antigos; por tanto, embora a 
noticia apontada pertença em rigor aos tempos protohisto- 
ricos, que constituirão o assumpto da Parte II d'esta obra, 
onde também tratarei d'ella, pôde referir-se, e refere-se 
provavelmente, a factos originários de tempos anteriores: 
o que justifica o que a cima escrevi. Deducções análogas, 
com relação a outras crenças, se poder ião tirar de outros 
factos, mas, como fiz ao tratar dos períodos precedentes 
(paleolithico, dos kjoekkenmoeddings, e neolithico), não 
quero sahir da área do que na nossa archeologia entendo 
que se deve tomar propriamente como religioso, para que 
não se me appliquem os versos camonianos: 

Este interpreta mais que sutilmente 
Os textos * 



1 A pag. 143 citei neste sentido alguns factos. 

2 D'esta obra deu desenvolvida e aprimorada noticia o Sr. Seve- 
riano Augusto da Fonseca Monteiro in Revista de obras publicas e 
minas, xxv, 255-261 e 399-411, d 'onde foi transcrita para a Revista 
Lusitana, iv, 85-100. 

3 Historiarum, XLIV, m. 
* Lusiaaus, vm, 99. 



421 



Até aqui fallei de sepulturas em que como único metal 
apparece o cobre, pelo que, a respeito cTellas, empreguei 
por vezes a expressão «primeira idade dos metaes». Sepul- 
turas em que appareça exclusivamente o bronze são raras. 

Estacio da Veiga falia de duas que explorou nas proxi- 
midades de Faro, as quaes não differem das cistas descri • 
tas ha pouco: nellas achou fragmento de urnas de barro, 
instrumentos de bronze e pedaços de ossos 4 . 

Creio que deve pertencer a este lugar a menção dos 
seguintes factos. Estando eu uma vez em Mertola em 
estudos arcbeologicos, chamou-me a attenção o meu bom 
amigo o Sr. João Manoel da Costa para uns cacos meu- 
dos que se observavão á superfície do solo, em grupos, 
á maneira de manchas arredondadas, dispersas aqui e 
alem, numa elevação que fica situada ao lado direito 
do ibarranco» do Poço, junto da villa. Com um sacho 
de mão cavei eu mesmo, e fiz cavar por outros, estas 
manchas, e encontrei, alem de cacos, fragmentos de obje- 
ctos de metal, já com forma pouco definivel, e esquiro- 
las ósseas, umas quasi reduzidas a pó, outras chamusca- 
das. Do estudo que fiz no local nessa occasião, e repeti 
depois d'is80, em Janeiro de 1897, em que ahi voltei, 
convenci-me de que se tratava de sepulturas por incinera- 
ção constituidas por pequenas urnas de barro, depositadas 
em covinhas abertas á superfície da rocha natural (schis- 
tosa), lá chamada ctalisca». As covinhas tinhão de diâ- 
metro, umas pelas outras, plus minus, dois a três decime- 
tros e meio, e de profundidade uns dois decimetros. As 
urnas, no conjuncto dos seus cacos, offerecião hoje o 
aspecto de tijelas; mas, como a superfície do solo havia 
sido já por vezes remexida, é possivel que primitivamente 
fossem mais ou menos globulares, tendo-lhes aquelle tra- 



1 Antiguidades monumentaes do Algarve, nr, 191. 



422 



balho de remeximento levado as calotes superiores ; d'ellas 
restão apenas, como disse, cacos, de pouca espessura, e 
de pasta grosseira, ás vezes negra por dentro, igual â de 
muitos vasos do castro de Pragança, das antas da Beira- 
Altá e da necropole de S. Martinho de Sintra. Alguns dos 
objectos metallicos, chimicamente analysados, mostrarão 
ser de bronze 1 . — Teremos pois assim uma necropole do 
período do bronze, por incineração; pude observar ainda 
vinte sepulturas. 



Sob o titulo de cidade do bronze» estuda Estacio da 
Veiga, no vol. iv das suas Antiguidades monumentaes do Al- 
garve, muitos factos com que pretende provar a existência 
d'aquella idade como distincta da do cobre. Já a p. 76 eu 
disse, embora com toda a reserva, que não repugna ad- 
mittir, antes parece muito acceitavel, no nosso pais a dua- 
lidade da civilização do cobre e do bronze; no emtanto, 
alguns objectos descritos por Estacio da Veiga são por 
este auctor considerados como da cidade de bronze b, 
somente por serem de bronze, razão que evidentemente 
não basta, porque, depois que pela primeira vez se ligou 
o estanho com o cobre, do que resultou o bronze, n&o 
mais até hoje deixarão de se fabricar objectos d'esta 
substancia. Inclino-me antes a crer que vários factos que 
Estacio da Veiga expõe, por exemplo, os que se relacio- 
não com as figuras metallicas de forma humana e animal, 
devem antes pertencer aos tempos que chamo proto- 
historicos, — e para lá reservo fallar d'elles. 

Com mais razão factos que elle inclue no cperiodo do 
ferro», como os que se referem ás necropoles de Bensa- 
frim e de Alcácer do Sal, os deixo também para a Parte II 
d'esta obra. 



1 A anályse foi feita pelo illustre Lente do Instituto Industrial 
de Lisboa, Sr. Severiano Augusto da Fonseca Monteiro, a quem 
aqui agradeço. 



423 



Acho -me assim chegado ao fim do meu trabalho, em 
relação aos Tempos pre históricos. 

No volume seguinte, em que me occuparei das religiões 
de uma epocha á cerca da qual possuímos documentos mais 
ricos, veremos que muitos dos factos que na primeira parte 
nos apparecêrão, por assim dizer, rudimentarmente, se 
revelarão então com caracter mais pronunciado; e tere- 
mos deante de nós mais variedade de phenomenos, em vir- 
tude ou da relativa nitidez e abundância dos documentos, 
ou da sobreposição de novas camadas ethnicas e sociaes: 
por tudo isso, não será preciso, como até agora, em que 
havemos andado quasi sempre a caminhar per una selva 
oscura, tratar tantas vezes hypotheticamente ou de relance 
o assumpto, embora em muitos casos as dificuldades hajão 
de ser também grandes, e até mesmo insuperáveis. 



ADDITAMENTO 



Por esta obra se estar imprimindo desde 1892, tem 
occorrido, neste espaço de cinco annos, muitos factos qne 
devem aqui ser mencionados em Additamento. Menciono 
também outros, que, comquanto já anteriores, só ultima- 
mente me lembrarão, ou chegarão pela primeira vez ao 
meu conhecimento. 



Por Decreto de 20 de Dezembro de 1893, referendado 
pelo Sr. Conselheiro Bernardino Machado, na qualidade 
de Ministro das Obras Publicas, foi criado o Museu 
Ethnographico Português, que, por Decreto de 26 de 
Junho de 1897, referendado pelo Sr. Conselheiro Augusto 
José da Cunha, actual Ministro da referida pasta, passou 
a denominar-se Museu Ethnologico Português. Este 
Museu consta de duas secções principaes: uma (a mais 
importante), de Archeologia, desde os tempos prehistoricos 
até o sec. xvm; outra, de Ethnographia moderna. Na 
primeira, que já está bastante desenvolvida, embora nSo 
tanto, quanto eu desejaria, foi incluido o Museu do Algarve, 
fundado por Estacio da Veiga. 



426 



Como órgão do Museu foi auctorizada em 1894, pelo 
Sr. Conselheiro Campos Henriques, quando Ministro das 
Obras Publicas, a publicação d- O Archeologo Português, 
revista mensal e illustrada, que vae já no 3.° volume. 
O leitor que quiser inteirar-se do movimento archeologico 
português nestes últimos tempos pôde recorrer a ella, o 
que me dispensará de augmentar o presente Additámento 
com muitas notícias (fundações de museus, publicações 
litterarias, excavações e excursões, descobrimentos de esta- 
ções e monumentos, etc.), tanto mais que os volumes 
publicados tem Índices methodicos que facilitão a consulta, 
alem dos summários que acompanhão cada número. 



Observação á p. 98 : 

Ao citar, no campo da bibliographia portuguesa, os livros 
e opúsculos que eu conhecia de caracter geral sobre a 
natureza, origem e classificação das religiões, deixei de 
citar por esquecimento os Ensaios sobre a evolução da 
humanidade, de Teixeira Bastos, Porto 1881, onde ha a 
p. 81 sqq. um artigo sobre as • Origens das religiões». 

Obras diversas a respeito de Prehistoria: 

— Nota sobre uma estação chelleana no Valle de Alcan 
tara, por A. A. da Fonseca Cardoso, Porto 1893 (extra- 
hida da Revista das sciencias naturaes e sociaes, III): vide 
a critica feita a este opúsculo por P. Choffat in Commu- 
nicaçdes dos trabalhos geológicos de Portugal, III, 111; 
cfr. o que disse depois o criticado in Revista das sciencias 
naturaes e sociaes, v, 50 sqq. 

— Estudos sobre as antas e seus congéneres, pelo P. e J. 
J. da Rocha Espanca, Villa -Viçosa 1894. A seu respeito 
travou-se polemica entre o A. d'elle e o Sr. P. e José 
Brenha no jornal portuense A Vida Moderna, onde tem 
sahido vários artigos archeologicos a que alludo mais de 
uma vez na presente obra (vid., por exemplo, p. 288, 
nota 2). 



427 



A cerca da Galliza publicou o Sr. Macineira y Pardo 
in La Ilustracion Artística, anno xiv, n. os 684 e 687, 
vários artigos aos quaes me referi a cima, no corpo da 
obra. 

Nos Baudenkmãler in Spanien und Portugal, de C. 
Hude, Berlin 1890, ha um pequeno capitulo intitulado 
«Vorgeschichtliche Steindenkmaler», onde se citão umas 
poucas cousas de Portugal. — Cfr. supra, p. 320. 

No Museo espahol de antigiledades, vol. vin, ha um 
artigo de F. M. Tubino intitulado a Los monumentos me- " 
galiticos de Andalucia, Extremadura y Portugal», p. 303 
sqq. ; mas da Extremadura Hespanhola, cujas notícias 
podião interessar aos leitores, por ella em parte pertencer 
á Lusitânia, pouco traz. 

A collecção archeologica organizada pelo Sr. Santos 
Rocha na Figueira da Foz consta, como se diz a p. 10, 
de duas partes: uma cedida «ao Museu do Instituto de 
Coimbra, outra possuida pelo collector; esta ultima foi 
por elle generosamente depositada no Museu Municipal da 
Figueira, onde continua sempre a augmentá-la. 



O triturador de que se falia a p. 60, nota 1, tanto podia 
servir para moer cereaes de que se fabricasse farinha, 
como para triturar fructos ou bagas silvestres: cfr. P. 
Orsi, Quattro anni di esplarazioni sicule, Parma 1894, 
p. 217. 



Alem dos dentes figurados a pags. 130-131, que con- 
siderei como amuletos, tenho tido ultimamente conheci- 
mento de outros, alguns dos quaes existem no Museu 
Etimológico Português e no Museu da Figueira. 

De contas do typo das de p. 139, fig. 13, ha exempla- 
res semelhantes nas collecçSes dos Srs. Santos Rocha 
(Figueira da Foz) e Vieira da Natividade (Alcobaça). 



Análogos aos pingentes figurados a p. 145 ha outros na 
collecçSo do Sr. Vieira Natividade. 




Em appendice ao que disse das placas de schisto, 
p. 155 sqq., notarei, em primeiro lugar, que na collecçSo 
do Sr. Vieira Natividade vi duas placas com ornamenta- 
çlo dos dois lados ; em segundo lugar, que no Museu de 



429 

Ântbropologia da Universidade de Coimbra encontrei umaa 
placas de madeira doa selvagens, da America, que são 
extremamente semelhantes ás prehistoricas, como se vê 
da fig. 110, copiadas de photographias que teve a bondade 
de me enviar o meu amigo o Sr. Conselheiro Bernardino 
Machado, illustre Lente de Ánthropologia da nossa Uni- 
versidade. Estas figuras, quanto ao seu conjuncto, sito 
particularmente comparáveis á fig. 31 ; no centro apre- 
sentao uma cavidade, que de certo servia para conter fei- 




tiços, cavidade que se parece com o relicário que muitos 
santos tem em posição análoga. 

Como appendice geral ao § II, Amuletos, p. 111 sqq., 
podia formar um novo artigo com o titulo de: 

Amuletos constituídos por pontas, — incluindo nelle o 
desenho de uma ponta de veado furada, que appareoeu 
numa gruta prehistoríca de Alcobaça, e é possuída pelo 
Sr. Vieira Natividade. — Seria fácil juntar notas compa- 
rativas á cerca da importância supersticiosa da ponta do 
veado. 



Aos factos portugueses relacionados com a trepanação 
prebistoríca de que fallo a p. 191, posso addicion&r outro. 
No Museu Municipal da Figueira existe um fragmento cra- 
niano, que aqui represento na fig. 111, segundo uma pho- 
tographia que devo a amizade do Sr. Dr. Santos Rocha ; 
o mesmo Sr. dígnou-Be dar me a propósito oa seguintes 




esclarecimentos que extraliiu das suas Antiguidade» pre- 
hist&ricas do concelho da Figueira, parte IV, no prelo: 

tO parietal é uma peça muito interessante. Ha nelle 
vestígios manifestos de trepanação. Para o lado da sutura 
fronto-parietal existe uma incisão profunda, sensivelmente 
curva, com a convexidade voltada para a mesma sutura. 
O que resta d'esta incisão mede no comprimento QF*fi2íi, 
na maior largura O™ ,004 e na maior profundidade 0",002 
aproximadamente. Os lados bSo ligeiramente oblíquos, c 
no fundo apresenta dois planos, um mais estreito e mais 



431 



profundo, e o outro formando uma espécie de resalto. Por 
este motivo, até certa profundidade a largura da incisão 
não é inferior a m ,002 aproximadamente ; mas d'ahi para 
baixo tem O^OOl e ainda menos. Por uma extremidade 
termina na fractura recente do osso, vendo-se alli que 
faltava menos de m ,001 para o atravessar completamente ; 
e pela outra extremidade termina numa depressão mais 
larga, aberta sem dúvida pelo instrumento operador, que 
devia ser uma forte ponta de silex, e n&o uma serra. Por 
estas circumstancias vê-se que a operação foi apenas come- 
çada, não chegando até a traçar no osso todo o contorno 
da rodella que devia ser extrahida. Quanto ás cellulas 
diploides, é manifesto que se acham obturadas pelo tecido 
ósseo.» 



A pintura, a que se faz referencia na p. 389 nota, vae 
representada na fig. 112: foi, como lá se diz, encontrada 
numa anta neolithica da Beira- Alta; estava num esteio 
granítico, d'onde fiz cortar, e trazer para o Museu Etimo- 
lógico Português, o pedaço de pedra que a contém. A 
pintura é vermelha, a ocre. Talvez na cor vermelha hou- 
vesse também uma intenção mys.teriosa, pois sabe- se quanta 
importância tem tido esta cor no quadro das superstições 
humanas. 



índice alphabetico 



Ajuda (Tapada da): monumento 
sepulcral, 310. 

Alapraia : grutas artificiaes, 
237 sqq. 

AiíCalar : monumentos sepul- 
craes: «n.° 1», 266, «n.'° 2», 
295, «n.° 3-, 298, «n.° 4», 301, 
«n.° 5», 302, «n.° 6», 303, 
• n.° 7», 304; duração da ne- 
cropole, 305. 

Aljezur: sepultura, 242 ; dolmen 
com signaes, 385. 

Alma : origem da sua concepção, 
198; crença de que ha várias 
almas em cada corpo, 199; 
transmigração, 199 ; local 
para onde vae a alma depois 
da morte, 199; composta de 
partes, 199 n. 1; na outra 
vida, 200; divinizada, 201; 
concebida como uma ave, 
223 n. 

Almas do outro mundo, 200-201. 

Altar: nome de megalithos pre- 
historicos, 251 e n. 

Âmbar : amuletos de — 88 ; su- 
perstição com o — , 129 n. 4. 



Amiaeb: orca com insculptura, 
364. 

Amuletos: 86 sqq.; definição, 
111 ; suas espécies, 112 e 429; 
theoria dos amuletos, 112 
sqq. ; cranianos, 184 sqq. ; 
exemplar de amuleto craniano 
em Portugal, 193. 

Ancora: pedras com insculptu- 
ras, 376. 

Animaes : emblemas das divin- 
dades, 161 n. 2 ; poupados por 
superstição, 347 n. 2 ; cultuaes 
nos tempos neolithicos, 394. 

Animismo : deduzido da trepa- 
nação, 197; e da solidez dos 
dolmens, 279 ; e das offeren- 
das aos mortos, 348. Cfr. tam- 
bém o artigo sobre os Amu- 
letos. 

Anta, synonimo de dolmen : cty- 
mologia, 25 n. e 252 n. 

Antão (Santo) : pedras com 
insculpturas, 377. 

Antas de Penalva: ahi perto 
existe um penedo com inscul- 
pturas prehistoricas, 372. 

28 



434 



Antas de Penedono : notícia ma. 
do século xvn, 4 e 5. 

Antellas, 309. 

Anthropologia prehistorica, 64 
sqq. 

An tinhas (sepulturas), 311. 

Arca, synonimo de dolmen, 254. 

Areia que cobre os cadáveres, 
313. 

Aukatolos: seu dolmen conhe- 
cido na litteratura estran- 
geira, 6 n. 

Akriconha: ahi ha o penedo de 
S. Gonçalo, coin covinhas, 
377. 

Arrife: sepultura, 246. 

Artes neolithicas, 59. 

Arvores sagradas, 89. 

Apaziguar os mortos com offc- 
rendas, 339. 

Apj)licata, 114. 

Azeviche: superstição e amu- 
leto, 136 sqq. 

Banquetes : fúnebres, 334 ; — na 
prehistoria portuguesa, 348. 

Barreiros : ahi existe um penedo 
com insculpturas antigas, 369. 

Beirões : seu caracter supersti- 
cioso, 292 e 366 n. 

Bibliograpjiia da Prehistoria 
portuguesa, 4-11, 426-427. 

Bom-Succebso (Senhora do) : no 
castro ha insculpturas prehis- 
toricas, 372. 

Botão magico, 152 e n. 4. 

Brachycephalia prehistorica, 64 
sqq. 

Braçaes : ahi existe um penedo 
com insculpturas prehistori- 
cas, 371. 

Bronze : ha um período do 
bronze, distincto do do co- 
bre ? 72 sqq. ; objectos de 
bronze, 78 sqq.; sepulturas, 
421. 



Brown-Séquard: seu methodo, 
115. 

Cachão da Rapa (Douro) : pe- 
nedo com signaes prehistori- 
cos, 360 sqq. 

Caça : superstição, 125 n. 

Cadáver : seu destino, 204 sqq. 

Campina: sepultura do período 
do bronze, 418 n. 

Candieira: anta com covinhas, 
384. 

Candobo : lenda, p. 378. 

Cannibalismo, 60 n. 

Cantinhos (nome de um jogo na 
Beira), 365. 

Caracteres da civilização neo- 
lithica de Portugal, 69 sqq. 

Cascaes : grutas, 219 ; sepultu- 
ras nos seus arredores, 448. 

Castro dçAvellas: sua origem, 
p. 55. 

Castros : prehistoricos, 49 sqq. ; 
classificação dos nossos cas- 
tros, 52 ; diversos castros, 53 
sqq.; da epocha dos metaes, 
79. 

Caverna, 212 e 214. 

Cemitérios : dos kjoekkenmoed- 
diug8, 101; neolithicos, 327 
sqq. 

Cenotaphios, 211, 283 e n. 

Cerro da Alçaria: sepultura do 
período do cobre, 415. 

Chalcolithico : período de tran- 
sição da pedra para os me- 
taes, xxii e 407. 

Charonte (dinheiro de), 334. 

Cistas (sepulturas): deve di- 
zer-se cistos e não cistos, 308 e 
n. ; etynio, 308 ; sepulturas da 
epocha dos metaes, 408. 

Citaria (castro do Minho), 379 
e383. 

Classes sociaes nos tempos pre- 
historicos, 64, 191 e 241. 



435 



Cláudio (S.) : penedo com covi- 
nhas, 377. 

Cobre : ha um período do cobre? 
72 sqq. ; é indígena ou impor- 
tado? 73 sqq.; jazigos portu- 
gueses, 74 sqq.; objectos de 
cobre, 78 sqq. ; sepulturas, 
408. 

Cócoras (de) : modo de sepultar 
assim os cadáveres, 313. 

Coelho : restos achados nas se- 
pulturas, 346. 

Combro, 256 n. 

Commissâo Geológica de Portu- 
gal, 4 e n. 

Congresso de Anthropologia e 
archeologia prehistoricas de 
Lisboa, 7 e n. 

Conchas: superstição e amule- 
tos, 146 sqq. 

Contas (amuletos), 153 sqq. 

Coração (amuletos em forma de), 
140 sqq. 

Coral (amuletos de), 8 Q . 

Córga-dab-Olivbiràs : sepultu- 
ras do período do cobre, 413. 

Coruja, 161 n. 2. 

Cova de Lavos : descripção, 59. 

Crânio humano esvasiado: tro- 
pheu de guerra 178 e n. ; taça 
para beber, 178-179 e n. ; rito 
fúnebre ou mumificação, 179. 

Cbistbllo: penedo com inscul- 
pturas, 375. 

Cro-Magnon (raça de): 66 sqq. 

Culto das armas de pedra, 397. 

Cultos pagãos condemnados pela 
Igreja, 292. 

Cunha- Baixa (dolmen), 271 sqq. 

Deformações : de objectos depo- 
sitados em túmulos, 298-, de 
objectos offerecidos aos mor- 
tos, 337 sqq. 

Degeneração dos ídolos e sym- 
bolos com ornatos, 126 n. 



Dentes (amuletos de) : 87 ; nos 
Romanos, 120 ; na Itália mo- 
derna, 121; na Allemanha, 
na Bohcmia e na Irlanda, 
121; na Inglaterra, 122; em 
Portugal, 122 ; fora da Europa, 
124; — com orifícios : achados 
fora de Portugal no período 
paleolithico, 125; no neoli- 
thico, 125 : na epocha metal - 
liça, 127; nos tempos proto- 
historicos, 128; achados em 
Portugal no período neoli- 
thico, 129 sqq. 

Deposição dos restos humanos 
nos sepulcros: de cócoras, 
319; em compartimento reser- 
vado, 313; factos diversos, 
313 sqq. 

Doenças: causadas sobrenatu- 
ralmente, 181 sqq.; convul- 
sivas, attribuidas a acção 
sobrenatural, 171 sqq.; cau- 
sadas pela sahida e ausência 
da alma, 196. 

Dolichocephalia prehistorica, 64 
sqq. 

Dolmcns : objectos modernos 
achados nelles, 70, 71 e 288; 
definição, 248; seus nomes 
vulgares, 249 sqq.; etyino- 
logia de dolmen, 249 n. ; co- 
bertos e descobertos, 260 
sqq. ; distribuição geogra- 
phica, 266 ; typos geraes, 266 
sqq.; dimensões, 273; natu- 
reza da rocha, 274 ; com as 
suas lages apparelhadas, 275 ; 
ladrilhados, 276 ; significação 
primitiva, 277 ; destino ulte- 
rior, 285 ; utilizados para fins 
práticos modernos, 288-289; 
seu caracter sobrenatural, 
289 sqq.; servindo de mar- 
cos actualmente, 289; rela- 



436 



cionados com o culto chris- 
tão, 290 e 11. 

Domesticidade dos animaes nos 
tempos neolithicos, 60. 

Enconderijos de fundidores de 
metaes, 77 sqq. 

Enterro prehistorico, 349. 

Eolo: os seus odres produzem 
tempestade, 118 n. 2. 

Epochas prehistoricas, xxxi e 
25 

Espiga roxa do milho, 149 n. 

Espinho : pedras com insculptu- 
ras prehistoricas, 366. 

Espirito maligno causador de 
doenças e da morte, 180 sqq. 

Estanho (minas de), 76. 

Evocação dos mortos, 202. 

Exorcismos, 174 e n. 2. 

Feitiço e idolo, 394. 

Felgueiras : ahi ha o «monte 
das Pucarinhas», 378. 

Ferradura : amuleto, 110 n. 

Ferro (período do), 79 e 422. 

Fieis de Deus, 315 e n. 

Figueira da Foz : notável ma- 
mo inha, 268 sqq. 

Figuras de pedra achadas num 
dolmen trasmontano, 341 sqq. 

Fitas magicas, 118 n. 

Folha das Barbadas : sepultura, 
239. 

Fórmulas scpulcraes christãs, 
390. 

Frades de pedra, 126 n. 

Frieira (Tras-os-Montes) : pe- 
dra com covinhas, 358 sqq. 

Furadouro : grutas, 216. 

Fumas, 214. 

GALLIZA : bibliographia pre- 
historica, 11 e 427; pedras 
cora pegadas, 386. 

Geographiaprehistorica: monu- 
mentos que ha pelo país, 12- 
24. 



Gonçala: anta com covinhas 
385. 

Grota, 214. 

Gruta, 214. 

Grutas : habitabilidade, 40 sqq 
e 222 e n. ; culto, 46; para 
extracção de silex, 47 sqq.; 
sua natureza, 212; seus no- 
mes vulgares, 213 ; distribui- 
ção geographica, 215; fune- 
rárias, 48 e 216; seu tvpo 
geral, 216 ; noção d'ellas nos 
homens prehistoricos, 219 ; 
seu destino ulterior, 225 ; len- 
das das grutas, 225; grutas 
funerárias artifíciaes, 227 sqq 

Hallucinaçòes tidas na conta de 
sobrenaturalismo, 188. 

Históricos (tempos): xxxn. 

Historia da Archcologia Pre- 
historica Portuguesa, 33 sqq. 
e 425 sqq. 

Hysterismo: tido na' couta de 
phenomeno sobrenatural, 188 
e n. 

Ichthyophagos, 31 n. 1 e 45. 

Igreja : condemnando cultos pa- 
gãos, 292. 

Imagens de objectos mágicos, 
116. 

Inacikha : lendas beiras, 373. 

Incineração : prehistorica, 206 
sqq.; na epocha dos metaes, 
410 e 421. 

Ingesta, 115. 

Inhumação prehistorica, 206. 

Insculpturas em pedras. Vid. 
Signaes em pedras. 

Instituições sociaes dos tempos 
neolithicos, 62 sqq. 

Instrumentos neolithicos: per- 
feitos, 38; muito pequenos 
397 ; muito grandes, 397 ; de 
barro, 398 ; — prehistoricos 
svmbolicos, 143 sqq. 



437 



Kjoekkenmoeddings, 29. 

Lacustres (habitações), 58. 

Lâmpadas neolithicas, 243 sqq. 

Lapas, 213 sqq. 

Lendas: dos dolmens, 289 sqq. 
e n. ; das grutas, 225. 

Liceia: descripção, 49 e 51 n. 

Lobo (superstição com o), 126 n. 

Local dos monumentos fúnebres 
neolithicos, 325 sqq. 

Louça : falta ou é raríssima no 
período paleolithico, 28 e 35 ; 
abunda no neolithico, 35; 
grosseira, 35; ornamentada, 
36, 

Lua : culto d'este astro relacio- 
nado com o das grutas, 46 e 
n. 5 ; Cova da — em Tras-os- 
Montes, 46 n.; culto da — , 

104 sqq.; prioridade do seu 
culto, 104; figurada num obje- 
cto prehistorico português, 
185; culto da — , em geral, 

105 n. 1; seus mythos, 110; 
seus eclypses, 111 ; meia — : 
amuleto, 108; nos Romanos, 
117 n. 1; culto da lua nos 
tempos neolithicos, 391. 

Lucerna romana com o cres- 
cente, 108. 

LUSITÂNIA : seus limites, xxi; 
relações com Portugal, xxv; 
etymologia da palavra, xxviii ; 
divisões da Historia da Lusi- 
tânia, XXXI. 

Luzia (Santa): ha ahi um pe- 
nedo com covinhas, 380. 

Madeira (idolos e outros obje- 
ctos de), 91 sqq. 

Madorra, 12 e 250. 

Mamôa ou mámoa, 250 sqq.; 
suas dimensões, 273 ; sua con- 
stituição, 277. 

Mamoelas, 312. 

Mamoinha, 250. 



Mamunha, 250. 

Mar : seu culto nos tempos neo- 
lithicos, 893. 

Mabcella: sepultura, 293 sqq. 

Martello de pedra característico 
da idade dos metaes, 75 n. 

Medeiros : castro, 55. 

Medo dos mortos, 202. 

Mbbtola : sepulturas por incine- 
ração do período do bronze, 
421. 

Mesteres dos povos neolithicos. 
Vid. Occupaçõcs. 

Metaes (epocha dos), 70 sqq. 

Metal : nas estações neolithicas, 
70 sqq. ; seu culto, 420. 

Metall urgia ibérica, 76. 

Metaphoras da lingua commum : 
explicações de certas deno 
minaçoes de monumentos pre- 
historicos, 26 n. 

Mira (rio): sepulturas, 407 e 414. 

Mocho, 161 n. 2. 

Moiros : 257 ; lendas, 292. 

Molluscos : são raros os seus 
restos nas grutas da Furni- 
nha, 346. 

Monge : sepultura, 244 sqq. 

Monstruosidade das religiões, 
92. 

Montilhão, 250. 

Monumentos sepulcraes, 212 
sqq. 

Moradas neolithicas, 40. 

Morcego : adivinha popular, 223 
n. 1. 

Mortillet: discussão das suas 
ideias á cerca da religiosi- 
dade paleolithica, 85 sqq. 

Mortos (culto dos) : nos tempos 
paleolithicos, 92; no tempo 
dos kjoekkenmoeddings, 99 
sqq. ; deificados, 101 ; seu cul- 
to, 198 ; divinizados, 201 ; 
evocados, 202. 



438 



Mugem (raça de), 32 e 65 sqq. 

Museu de Anthropologia de 
Lisboa, 7. 

Museus portugueses, 12-24 e 
425. 

Mutilação religiosa, 196. 

Necrolatria prehistorica, 92 e 
99. 

Necropoles neolithicas, 327 sqq. 

Neolithico (período) : não pôde 
negar-se a sua existência, 71. 

Nora : sepultura, 307. 

Nós mágicos, 118 n. 

Occupaçòes ou mesteres do ho- 
mem neolithico, 59 e 392. 

Offerendas aos mortos em geral : 
armas, utensilios, comidas, 
vestuários, etc, 311 ; factos 
da prehistoria portuguesa, 
340 sqq. 

Ollat 088uariae, 410. 

Oráculos, 291. 

Orca, synonimo de dolmen, 253 
e n. 

Orientação dos túmulos neoli- 
thicos, 324 sqq. 

Orifício na camará dos monu- 
mentos funerários : 318 sqq. ; 
sua significação, 319; em 
Portugal, 320. 

Ossa (Serra da) : dolmen furado, 
320 sqq. ; bibliographia, 320 ; 
descripção, 321 sqq.; antas 
reconhecidas ahi no sec. xvi, 

*; 

Osso (amuleto de), 151 sqq. 

Ossos de animaes achados nos 
túmulos, 345. 

Ossuarios, 317 sqq. 

Paganismo condemnado pela 
Igreja, 292. 

Pala, synonimo de dolmen, 256. 

Paleolithico (período), 27 ; reli- 
gião em geral, 85 sqq. ; reli- 
gião em Portugal, 97. 



Palmella : grutas artificiaes, 
227. 

Pathologia mental dando origem 
a superstições, 188 sqq. 

Pedra (amuleto de), 166 n. 4. 

Pedras Pombeiras : ahi existe 
um penedo com insculpturas 
prehistoricas, 368. 

Pedras : sagradas, 89 ; de raio, 
antiguidade d'esta supersti- 
ção na Península, 403; 

Pedbaça : pedras com inscultu- 
ras, 363. 

Pegadas em pedras, 381 sqq. 

Peixes : faltâo os seus restos ou 
escasseiâo, nas grutas da Fur- 
ninha, 346 ; seu culto nos po- 
vos neolithicos, 393. 

Pelles como vestuário, 34. 

Penacova : pedras insculpidas, 
374. 

Penedos balouçantes, 400. 

Penuas de aves (superstição 
com as), 126 n. 

Perfeição dos instrumentos neo- 
lithicos, 38. 

Perfuração craniana nos tempos 
prehistoricos : seu intuito, 
187. 

Pessoas dotadas de caracter 
sobrenatural, 187 sqq. 

Pingentes de várias formas, 140 
sqq. 

Pintura neolithica, 276 e 389. 

Placas : de schisto, 34 e n. ; — 
diversas, 155 sqq. ; com figura 
animal, 161-163; com figura 
de báculo, 161 ; comparação 
com factos da ethnographia 
moderna, 429. 

Potes de barro funerários, 416 
sqq. 

Prático (fim) da arte selvagem, 
106 sqq. 

Protohistoricos (tempos), xxxji. 



439 



Raças dos tempos prehistoricos 
ein Portugal, 64 sqq. 

Relação dos monumentos fúne- 
bres neolithicos entre si, 323. 

Relações commerciaes, federa- 
tivas e ethnicas dos povos 
neolithicos, 63 n. 

Religião : ha povos sem ella ? 
94 ; sua origem, 96 ; suas for- 
mas primitivas, 96 ; dos povos 
neolithicos, 103 sqq.; neoli- 
thica (seu quadro), 405; da 
cpocha dos metaes (resumo), 
418. 

Religiosidade paleolithica, 85 
sqq. 

Reservado (espaço) nos sepul- 
cros, 294 e 299. 

Sabroso : castro do Minho, 54, 
379, 381 c 383. 

Sacerdotes, 191, 349 e 396. 

Sachos neolithicos, 37 n. 

Sacrifícios : em honra dos mor- 
tos 334 sqq. ; tornados sym- 
bolicos, 337 ; na prehistoria 
portuguesa, 348. 

Sambaquis americanos, 31 n. 5. 

Santos : hysteria, 188. 

Sedentária (vida) do homem 
neolithico, 68 sqq. 

Seixos nas sepulturas, 314. 

Selvagens dos primeiros perio- 
' dos prehistoricos, 81 sqq. 

Serro do Cabtello : sepultura 
307. 

Signaes : insculpidos em pe- 
dras, 350 sqq. ; suas espécies 
350 ; nomenclatura geral, 350 
sqq. ; bibliographia, 351 sqq. ; 
distribuição geographica, 352 
sqq. ; sua arte, 353 ; sua data, 
353 ; sua ordem, 354 ; theorias, 
355 sqq.; lendas annexas, 
355 sqq. ; caracter sagrado, 
358 ; em Tras-os-montes, 358 ; 



no Douro, 360 sqq. ; na Beira, 
363 sqq. ; no Entre-Douro-e- 
Minho, 374; no Alemtejo, 384; 
no Algarve, 386 ; classificação 
das insculpturas portuguesas, 
387 ; nomenclatura portugue- 
sa, 388. 

Sines : anta descoberta no sé- 
culo xvi e considerada sepul- 
tura de S. Torpes, 21-23. 

Sociologia prehistorica, 82 sqq. 

Sol : seu culto, 391. 

Soutello : pedra com insculptu- 
ras, 376. 

Sub-brachycephalia prehistori- 
ca, 64 sqq. 

Suggestão, 135 e n. ; produzindo 
effeitos reaes no organismo, 
attribuidos a acção sobrena- 
tural, 134 sqq. 

Superstição humana: na arte 
dos povos incultos, 162, n. 1. 

Supremacias sociaes nos tem- 
pos prehistoricos, 64, 191 e 
241. 

Sympathias das cousas insensí- 
veis, 134. 

Syncretismo de ideias pagans e 
christans, 119 n. 

Tagildk : insculpturas, 375. 

Terciário (homem), 27. 

Tórques como amuletos, 129. 

Torbe dos Frades : sepultura, 
242. 

Totemismo, 347 n. 2. 

Tradições do passado conser- 
vadas até hoje, 349 e 403. 

Transmigração da alma, 199. 

Trepanação prehistorica : bi- 
bliographia 170 sqq.; em 
vida, 171 sqq. ; post mortem, 
178 sqq. ; theoria, 180 sqq. ; 
vestígios em Portugal, 194 
sqq. e 429 ; — nos JapÕes, 
197 n. 



440 



Trevo de quatro folhas: tem 

virtude, 149 n. 
Triangular (pingente), 145 sqq. 
Troglodytas, 45 sqq. 
Tropheus : de caça, 126 n. 2 ; 

de pedra achado num dolmen 

beirão, 343-345. 
Typos das sepulturas prehisto- 

ricas, 416. 
Variedades da civilização neo- 

lithica, 324 e 395. 
Vasos symbolicos, 402. 



Vestuário neolitbico, 34. 

Virtude mysteriosa de certos 
objectos, 112 ; objectos de — 
para protegerem os mortos, 
334. 

Vizklla (S. Paio de) : pedras 
insculpidas, 374. 

Zambujeira: sepultura do pe- 
ríodo do cobre, 412. 

Zoomorphismo; na arte, 163 
n. 1; na religião neolithica, 
393 sqq. 



ERRATAS 



Entre outras, de menos importância, notâo-sc as seguintes : 

Pag. 10, nota 2, lê-se «1891» em vez de «1890».. 

Pag. 35, 1. 14 e 16, lê-se «epocha neolithica» em vez de «período 
neolithico». 

Pag. 40, 1. 5, lê-se «contemporâneos» em vez de «actuaes». 

Pag. Gl, 1. 10, lê-se «neolithicos» em vez de «megalithicos». 

Pag. 91, 1. 11, lê-se «adeante» em vez de «noutros, pontos d*esta 
obra». 

Pag. 159, lê-se «lembra» em vez de «occorre ao espirito». 

Pag. 287, 1. 2, supprima-se «os». 

Pag. 353, 1. 17, e pag. 365, 1. 14, lê-se «datarão» em vez de 
«datarão». 




Acabou de lmprlmlr-se 

Aos 12 dias do mez de outubro do anno 
M DCCC XCVI1 

NOS PRELOS DA 

Imprensa Nacional de Lisboa 

PARA A 

COMMISSÁO EXECUTIVA 

DO 

CENTENÁRIO DA ÍNDIA 



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9015 02627 0879 



DO NOT REMOVE 

OR 
MUTILATE CARD