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Full text of "Resumo da historia do Brazil, para uso das escolas primarias brazileiras"

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CUBBERLEY LIBRARY 



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STANFORD ^^p/ U X I \' E R S I TY 

LIBRARIES 




i. QUIMTIXO BOCAYUv'A. 3. DR. Rl 

WANDKNKOLK. S. MARECHAL MANOEL HEODOHO PA FONBBCA. 6. DR. 

ABISTIDB8 LOBO. 7. DB. DEMETRIO RIBEIRO. B. DR. CAMPOS BAU-ES. 



RE SUMO DA 

HISTORIA DO BRAZIL 



PARA USO DAS ESCOLAS PRIMARIAS 

BRAZILEIRAS. 



PELA 

PROFESSORA MARIA G. L. DE AXDRADE. 

y 



EDigAO AMPLIADA. 



GINN AND COMPANY 

BOSTON • NEW TOBK • CHICAGO • LONDON 
ATLANTA • DALLAS • COLUMBUS • SAN FRANCISCO 



Copyright, 1887, 1894, 1920 

By qinn and company 



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GINN AM) COMPANY • PRO- 
PRIETORS • BOSTON • U.S.A. 



Desejando deRpertar nos coro/^bes dos meninos hrazUeiros o ifUeresse € 
o amor pelas cousas pafrias, offerece-thes este opusculo sohre Historia do 
Brazil, no qual seguiu o methodo do Professor G, W. PockelSj sen vene 
ravel mestret 

A AUCTOSA. 



HISTORIA DO BRAZIL. 

I5OO-I919. 

A HisTORiA DO Brazil divide-se em tres partes: — 

I. Brazil — Colouia portugueza, desde 1500-1822, subdividida, se- 
gundo as dynastias, em tres periodos : — 
1^ Dynastia de Aviz, 1500-1581. 
2°. Dynastia de Habsbiirgo-Aragaio, 1581-1640. 
3^. Dynastia de Braganga, 1640-1822. 

II. Brazil — Imperio independente, desde 1822-1889. 

III. Os Estados Unidos do Brazil — Republica, subdividida em dous 
periodos : — 

1°. RevoluQao e Governo Provisorio, 1889-1891. 

2°. Constituigao republic ana, desde 1891 at6 o presente. 



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VASCO DA GAMA. 




HISTORIA DO BRAZIL. 



-»oJ<Koo- 



CAPITULO L 

EESUMO DA HISTORIA DE PORTUGAL ANTES DO DESCOBRI- 

MENTO DO BRAZIL. 

; 137-1500. 

A- independencia de Portugal foi fundada por D. Affonso 
Henriques de Borgonha em 1137, depois da victoria de Ourique. 
A dvDastia de Borsronha £rovernou at^ 

^r^i r^ . .,.. . Dynastia Borgonha. 

1383. Todos OS seus reis se distmgui- 1x37-1383. 

ram nas guerras contra os Arabes. d. Affonso Henrique8,ii37-ii85. 

° , D. Sancho I, o Povoador, 1185- 

Depois do heroico D. Affonso I. vem 1211. 

^„ .^ ^ ' D. Affonso II, 1211-1223. 

seu nlno, o pacinco e popular D. San- d. sancho ii, 1233-1284. 

, „., ^ V^ , . D. Affonso m, 1284-1276. 

cno, appellidado o Povoador, cuio d. Diniz, 1276-1326. 

_„ tI *.« Tx . J . J 1 D. Affonso IV, 132.5-1357. 

nlno, D. Affonso II, herdeiro do valor d. Pedro i, o Cruei, 1357-1367. 

- * , . A , !>• Fernando, 1367-1383. 

de seu av6, derrotou os Arabes em 

Tolosa (1212). O infeliz D. Sancho II foi pelo papa Innocen- 

cio IV exonerado (1248), em favor de seu irmao D. Affonso III. 

Reis de Castella desde 1187 at£ 1388. 

». Dynastia Borgonha. — 'D. Affonso VIII (1167); D. Sancho III (1158); 
D. Affonso IX (1214) ; D. Henrique I (1217) ; S. Fernando III 
(1262) ; D. Affonso X (1284) ; D. Sancho IV (1296) ; D. Fer- 
nando IV (1812); D. Affonso XI (1350) ; D. Pedro o Cni (1369). 
Dffnatiia I)ranttamare.^J>, Henrique U (1870)* 



2 msTORiA DO brazil; 

A. este segne-Be D. Diniz,* sem contradic9§Lo o mais importante 
de todos OS reis desta dj nastia ; couquistou os Algarves, deu 
a Portugal os limites, que at6 hoje conserva, f undou a universi- 
dade de Coimbra (1297), e asjlou em sua c6rte os Cavalleiros 
Templarios, dos quaes se originou a Ordem de Christo. Seu 
filho e successor, o valente D. Affonso IV, fez allian9a com D. 
Affonso XI de Castella e ambos alcaD9aram sobre os Mouros 
a victoria do Salado (1347). Mas este rei langou sobre seu 
nome a nodoa de crueldade por ter mandado assassinar Ignez 
de Castro, com cujo cadaver casou-se seu filho, o exaltado 
D. Pedro I, a quern chamaram o Justiceiro. No governo deste 

rei rorapeu a guerra contra Castella, que 
Beis de casteUa. contiuuou durante o governo de D. Fer- 
i38a-»58x. naudo de quern diz Camoes : 

DlfiuuHa TransUunare, 

D. JoSo 1, 1879-1890. « Urn fraco rei faz f raca a forte gente." 

D. Henriqae lU, 1390-1406. 
D JoSo U| 1406-1454. 

d! Henriqae IV, 1454-1464. Estc 6 o ultlmo rcl da dynastia Borgonba. 

Isabel I e Ftonumdo V, o o /sii • -rv t> *!. j 

CatboUoo, 1464-1516. oua filba unica, D. Brites, era casada 
Feii^^i65(M6e8. com D. Joao I de Castella, que dominou 

Poilugal dous auDos. 

Os patriotas portuguezes, por@m, acclamaram rei ao filbo 
natural de D. Pedro I, o popular D. Joao, Mestre de Aviz, 
que firmoa sua corda pela victoria de Aljubarrota em 1385. 

Com D. Joao I principia a segunda e a mais importante das 
dynastias de Portugal. Sens tres primeiros reis, D. Joao I, 
D. Duarte e D. Affonso V representam a epoca do desenvolvi- 
mento da na^ portngueza (ld85-1481). 



« " Ell depoii vein Diiiiz» que bem paieoe 
00 bravo Affonso estlipe nobre e dina, 
Ck>m qQem a fama grande se escoreoe 
Da ttberalidade Alexandrina 
Ck>ni este o reino prospero floresce 
(Aloan9ada jiK a pai aorea, divina) 
Em con8t!tTi!95e«, lets e coBtnmes, 
Na terra Jd tranquilla claros lumes."— i>cf. in. 00. 




»■ AFFONSO HENBIQUBS. 




HIBTOSIA DO BBA2ZL. 3 

Elles Bouberam aproveltar as grandes vantagens de Portugal 
em rela^ao d sua feliz situa9Eo geographiea, ua extremidade 
occidental do contineute europeu, e a seus excelleutes portos ; 
e sobretudo fizeram servir a seus altos designios a actividade 
da uapao influida pelo fanatismo e pela ambi^ao. Elles mesmos 
puzeram-se a testa das grandes expedigdes conquistadoras. 

D. Joao I * tomou em pessoa Ceuta, Penon e Mellila. Seu 
illustre filho, D, Henrique o Navegante, fundou a escola naval 
de Sagres, onde se inicl&ram os audazes descobrimentos, o 

Tabella da dynastia db Ayiz, 1385-1681. 
D. JoSxi (1385-1423) 
Csabel = Henrique IV D. Duarte (1488) 

I I *-^-n: 1 

1>. Anna = D. Affonso V (1481) D. de Viscu Duque de Beja 
D. Joao II (1495) D. Manoel (1521) 

D. JoSo 



D. Jo9k) III (1556) D. Henrique, D. Luiz, Duque de Isabel = Caries V 

Cardetrf (1580) | Guimaraes 



D. Joao (1555) D. Antonio, Felippe II (1598) 

I Prior do Crato I 

D. SebastiSk) (1578) Felippe IH (1621) 

Felippe IV (1666) 
1640 

Uni&o Iberica, Dynastia Habsburgo-AragOo, 1581-1640. 

Dynastia de Braganga, 1640-1889. 

• ** Assi o filho de Pedro Justigoso, 
Sendo govemador alevantado 
Do reino, foi nas armas tSo ditoso, 
Que bem pode igualar qualquer passado, 
Porque, vendo-ee o reino receioso 
De ser do Castelhano subjugado, 
Acs seus o medo tira que os alcanna, 
Acs outros a falsifica esperanfa.^'-^Xiis. IV. 



t HI8TOBIA DO BRAZIL. 

raiar da aarora doB tempos modernoB. D. Doarte, menos 
feliz, soffreu a derrota de Tanger ; mas sea filbo, o gaerfeiro 
D. Affonso y, foi appellidado o Afrieano, pela conquista da 
Africa occidental. 

Nessa epoca o Infante D. Henrique havia descoberto todas 
as ilhas do Atlantico at^ o golfo de Guin^ : — Azores, Madeira, 
Canarias e Cabo-Verde. 

Bepresentam a for^a e a grandeza de Portugal dousreis — 
D. JoSo II* (1495) e D. Manoel (1521). 

Pela destrui9ao do poder dos vassallos 

Pftpas de Boma. <Jeu D. Jo^o II ao paiz estabilidade interna. 
„ ^ ^3-x4»x» Mandou decapitar a um de sens cunhados. 

UrlWIlO VI, 1378-1889. -«*-«"vtvrw vii^\^««^iuc«.a «. uxu v.*^ ov.«« %, «* v*vfo, 

Bonifacio IX, 1389-1404. o duQue dc Bragauca, e ao outro, o duque 

Innocencio VII, 1404-1406. ^ & y ' » n 

Gregorio xn, 1406-1409. dc Viseu, apuuhalou com a propria mao, 

Alexandre V, 1409-1410. , . . . 

joSo xxni, 1410-1415. mostrando-se assim, em actos violentos. 

Martinho V, 1415-1431. . . -r . ^,^x . 

Eugenioiv, 1431-1447, siipcrior ao propno Luiz XI, seu contem- 

Felix V 1447-1448. *r * 

Nicolau V, 1448-1455. poraUCO. 

Calisto m, 1455-1468. ^ . /; j • 

Ho n, 1468-1464. Foi no sen governo connrmada a exis- 

sStoiv/im-i48i. tencia da rica India Occidental (America), 

e o almirante portuguez Bartholomeu Dias 
descobriu o cabo meridional da Africa, a que denominou — 
Tormentoso — e que D. Joao II chamou — Boa-Esperan^a, — 
adivinhando as vantagens que Ihe resultariam de seu desco- 
brimento, que foi magnificamente cantado por Camoes, no 
bellissimo episodio do CHgante Adamastor. 

Com o descobrimento do Novo-Mundo por Christovao Co- 
lombo em 12 de outabro de 1492, julgouHse D. Joao 11. offen- 

* " For6m, despoif que a etcara noite etema 
Affonso aposenton no cen sereno, 
O principe qne o reino entSo gorema, 
Foi Joanne segundo e rei treseno; 
Bate por haver fama sempitema 
Mais do que tentar pode homem terrene 
Tenton, que foi buscar da roxa aurora 
Ot termiDos." . . . ^lM$.Vf.%b. 



HIBTOBIA DO BRAZIL. 6 

dido em seas direitos, e armou-se contra os reis Catbolioot; 
mas o papa iuterveiu e impoz-lhes o tratado de Tordezilhas 
(1495). 

D. Manoel/ subindo ao throno, aproveitou-se da frota esqai- 
pada por seu cunhado para continuar os descobrimentos ao 
Oriente, e mandou-a para a India, sob o commando de D. Vasco 
da Gama, que foi o primeiro (desde 600 a.c.) que transpoz o 
Cabo da Boa-Esperan9a, e acompanhando a costa oriental da 
Africa, atravessou o Canal de Mogambique, e tomando em 
Melinde pilotos que o gui&ram para a India Oriental, pelo golfo 
de Oman, chegou a Calecut. Nao duraram muito as rela^oes 
amigaveis que travdra com o ^amorim e o Nababo de Delhi, 
de modo que o audacioso navegaute e descobridor voltou, depois 
de um anno de viagens, para Portugal, onde foi recebido com 
grandes festas por D Manoel, que deu-lhe os titulos de Conde 
de Vidigueira e Almirante dos Mares Orientaes. 

O descobrimento do caminho da India pelo sul da Africa foi 
a causa directa do descobrimento do Brazil. 



QUESTIONARIO. - CAPITULO I. 

Como 86 divide a historia do Brazil? 
Quanto tempo foi o Brazil colonia portugueza? 
Quantas dynastias portuguezas govemaram o Brazil? 
Quantos aunos dominou o Brazil a dynastia de Aviz? 
Quern foi o primeiro rei desta dynastia? 
Quern foi o ultimo? Qual o mais importante ? 
Quern foi o fundador do reino de Portugal? 
Em que anno foi fundada a na^Slo portugueza? 
Qual foi a primeira dynastia de Portugal? 
Quando tempo govemou a dynastia de Borgonha? 

^ ** Manuel, que a Joanne sncceden 
Kg leino e nos altlvos pensamentos^ 
Logo oomo tomon do reino cargo, 
Tomon mais a conquista do mar largo." — Ima. UT «^^ 



6 HISTORIA DO BRAZIL. 

» Qnal o mais importante de seus reis ? Porque ? 

— Quetn foi o ultimo rei da dynastia de Borgonha? 

— Porque 4 notavel ASonso lY? 

— Quern foi o filho e successor de Affonso lY ? 

— Quern foi o rei de Portugal desde 1388 at^ 1385? 

— Qual foi a mais importante das dyuastias de Portugal? 

— Quem foi o primeiro rei da dynastia de Aviz? 

— Quem foi o ultimo? Qual o mais importante? 

— Que grande acontecimento se deu em 1385? 

— Quantos reis representam a epoca de desenvolvimento da na^ 
portugueza ? Como se chamavam ? 

— Quanto tempo govemaram ? 

— Porque 4 notavel D. JoSo I? 

— O que deve Portugal ao Infante D. Henrique? 

— -'Porque D. AfFonso V foi appellidado — o Africano? 

— Quantos reis representam a foi^a e grandeza da nacjiKo portu- 
gueza, e quem f oram elles ? 

— Em que foi o governo absoluto de D. Jo^o II util A na^So 
|#ortugueza? 

— Que descobrimentos notaveis fizeram os portuguezes durante o 
seu reinado? 

— Que effeito produziu no animo de D. Joao II o descobrimento 
do Novo-Mundo por Christovao Colombo em outubro de 1492 ? 

— Porque nao fez elle a guerra contra a Hespanha? 

— Como aproveitou D. Manoel a frota aparelhada por D. JoSto 11 f 

— O que fez Yasco da Gama? 

— Como foi recompensado pelo rei ? 

— Que rela9ao tern com o Brazil o descobrimento do caminho daa 
Indias por Yasco da Gama? 



mSTOfilA DO BRAZIL. 



CAPITULO n. 

DBSGOBBIMEKTO DO BBAZIL. 

Em principios de mar^o de 1500 partiu de Lisboa uma 
quadra sob o commando de Pedro Alvares Cabral, Govemador 
da Beira e Senhor de Belmonte, que ia fundar na India nma 
colonia portugueza, para o que levava todos os materiaes. 
A carta regia, que abriu na latitude determinada, recommen- 
dava-lbe que se afastasse da costa da Africa, para evitar as 
calmarias; e assim foi apanbado pela coixente Equatorial 
(entSo ignorada), que lan9ou-o directamente para o Noto- 
Continente. 

A primeira terra que aviston foi o cnme da serra dos Aymor^s, 
a que deu o nome de Monte PaschocU (21 de abril, oitava da 
Paschoa). O piloto Affonso Lopes descobriu no dia seguinte 
(22) um porto a que cbamou Porto-Seguro^ perto de um rio, 
que denominou Belmonte (16°. lat. S.). 

A frota entrou no porto a 24 de abril, e no dia 1^. de maio 
celebrou o capellao Fr. Henrique de Coimbra a primeira missa 
no Brazil, e com toda a solemnidade tomou Cabral posse da 
nova terra em nome do rei de Poi tugal.* 

A esta regiao foi dado o nome de Terra de Vera-OntZj qae 
depois mudou-se para o de Santa-Omz (por causa talvez da 
constella^^LO do Cruzeiro) e mais tarde prevalecen o nome de 
Brazil, que Ihe davam os negociantes em raz§k) da abundancia 
da preciosa madeira vermelba, pau-brazil ou ibirapitanga, — 
que a principio foi o principal artigo de ezporta^^. 



* Quadro de Victor Meirelles. 



8 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Os habitantes do paiz — selvagens, em completa nudez, c6r 
de cobre, com compridos cabellos pretos e lisos e sem barbas — 
bem longe de mostrarem-se hostis aos portuguezes, contem- 
plavam-nos cheios de curiosidade, e assistiram a txjdas as cere- 
monias religiosas e militares com aquella atten^ao e aquelle 
recolhimento que scenas imponentes de ordinario despertam no 
animo dos que pela primeira vez as obseiTam. 

Em 1499 jd ha via Vicente lanez Pinson, companheiro de 
Colombo, tocado no continente 8ul-Americano e descoberto o 
cabo de Nossa Senhora de la Consolacion (hoje S. Agostinho) ; 
mas 86 a Cabral competem de direito as honras de descobridor 
do Brazil, por ter sido o primeiro que oflicialmente annunciou 
a Portugal e a Europa a existencia do novo paiz. 

A frota continuou sua derrota para a India ; mas o comman- 
dante Gaspar de Lemos voltou a Portugal, afim de communicar 
ao rei a nova do feliz descobrimento. 

Na altura do Cabo da Boa-Esperan^a sojffreu Cabral uma 
horrivel tempestade, que destruiu muitos navios. Entre os 
mortos nota-se o velho navegante Bartbolomeu Dias, descobri- 
dor deste mesmo Cabo a que chamou Das Tormentos. 

O grande epico portuguez, no sen admiravel episodio de 
Adamastor, aproveitou-se deste incidente para p6r na bocca do 
temeroso gigante estas fatidicas palavras : 

" / qui espero tomar, si nao me engano, 
De quern me descobriu crua vingan9a/* 

Cabral nao conseguiu fundar colonia alguma na India, mas 
carregou seus navios com as riquezas do paiz e voltando em 
1501 para Portugal, oncontrou no Atlantico a primeira frota 
mandada por D. Mauoel para a terra de Vera-Cruz. 



mSTOBIA DO BBAZIIi. 9 



QUESTIONARIO.-CAPITULO II. 

— Quem descobriu o Brazil ? 

— Como foi o Brazil descoberto ? 

— Qual foi a primeira terra que avistou Cabral ? 

— Em que dia, mez e anno toniou Cabral posse da nova terra para 
a coroa de Portugal ? 

— Como se chamou o primeiro porto em que desembarcou Cabral? 

— Em que dia foi a primeira missa celebrada no territorio brazileiro? 

— Quera era o rei de Portugal, quaudo foi descoberto o Brazil ? 

— Quantos nomes teve a nova colonia e porque ficou se chamando 
Brazil? 

— Que navegante, antes de Cabral, havia tocado no Brazil? 

— Por quem mandou Cabral annunciar a D. Manoel o descobri- 
mento da nova terra? 

— Para onde seguiu Cabral ? 

— Ao dobrar o Cabo da Boa-Esperan^a que aconteceu d armada 
de Cabral ? 

— Que frota encontrou Cabral, voltando para Portugal ? 

— Em que anno voltou Cabral para a patria? 



10 mSTOBIA DO BRAZIL. 



CAPITULO m. 

O GENTIO DO BBAZIL. 

Os indigenas do Brazil pertencem A ra^a mongolica, tartara 
ou asiatica ; mas sem a menor cultura. Attribue-se seu estado 
selvagem a tres causas : (a) Isola9ao das tribas pouco nume- 
rosas ; {b) Falta de animaes domesticos, gado, etc. ; (c) Guerras 
constantes entre as diversas tribns. 

As notieias que temos do gentio ssio quasi exclusivamente 
devidas aos jesuitas, que para seus proprios fins queriam 
catechisal-os. 

Religriao. — Os indios,* como os antigos asiaticos, adoravam 
as for^as da natureza. Sua religiao era uma especie de sabe- 
ismo grosseiro. Seus pug4s (adiviuhos) gosa\am de grande 
autoridade, viviam isolados e prophetisavam. 

Governo. — Cada tribu era dcspoticamente governada per 
um chefe (morubixaba) . Tinha seu dialecto especial que pouco 
differia dos outros, tanto que os jesuitas puderam crear a lingua 
com mum — Tupi. 

Estavam estas tribus sempre em guerra umas contra as 
outras. As mais fortes habitavam aldeas fortificadas (tabas) , 
em cujo centro havia um lugar destinado para as festas, que 
eram quasi sempre celebradas com dansas ruidosas e victimas 
humanas (prisioneiros de guerra). 

Algumas tribus eram antropophagas e devoravam os pri- 
sioneiros. 



* Os selvagens da America s9lo geralmcnte chamados indios por sup- 
porem os primeiros descobridores, a frente delles o immortal Colombo, 
que o Novo-Continente era uma continua9So do Antigo e portanto deno* 
minaram-no Indios Occidtntaes. 




Taba on aldOa India, 



mSTOBIA DO BRAZIL. 11 

Yida social* — Os homens occupavam-se exclusivamente de 
guerra, pesca e ca^a. As mulheres eram escravas ; tinham 
todos OS encargos da crea9ao dos filhos ; preparavam a comida 
e bebidas fermentadas (cauim) e carregavam as armas para os 
guerreiros. Havia nas familias grande communidade ; quasi 
todos moravam juntos no mesmo rancho. 

Eram os indios de estatura pequena, mas robustos e bem 
conformados nas extremidades ; tinham cabellos pretos, lisos 
e compridos, olhos pequenos e vivos, as faces salientes e a tez 
acobreada. Os homens nao tinham barba. 

Andavam mis, mas gostavam de adornar-se com pennas, 
metaes e pedras preciosas ; os guerreiros sarapintavam o corpo 
para incutir terror aos inimigos. 

Tinham todas as qualidades e defeitos do selvagem ; eram 
corajosos e hospitaleiros, mas perfidos e vingativos. 

As tribus mais importantes na epoca do descobrimento eram : 

Os CahetSs em Pernambuco (1556 morte do primeiro bispo, 
D. Pedro Fernandes Sardinha), que em 1549 foram extermi- 
nados por Mem de Sd. 

Os AymorSs e Goytacazes na Bahia e no Espirito-SantOs que 
expulsos do littoral tambem por Mem de Sd, metteram-se pelo 
sertao, onde ainda hoje existera em numero muito reduzido. 

Os Tamoyos no Rio de Janeiro e S. Paulo, que em 1555 
alliaram-se com os francezes e formaram uma poderosa con- 
federa9ao, que a muito custo foi destruida por Mem de S4, 
auxiliado pelos padres Nobrega e Anchieta (1567). 

Os Goyanazes em S. Paulo, que foram logo eatechisados pelos 
jesuitas fundadores do collegio e da cidade de S. Paulo. 

Os Ghiaycurds ou indios cavcUleiros da na9ao Tapuya, em 
Matto-Grosso. 

Condi^ao social do gentio durante o groverno colonial. 

— Pela lei de colonisa9ao promulgada por D. Joao III em 1534, 
ficaram os indios escravos dos capitaes-mores. Mas em 1570, 
por inflaencia dos jesuitas que queriam s6s tirar todo o proveito 



12 HISTORIA DO BRAZIL. 

do trabalho delles, inaugurou D. Sebastiao o seu reinado publi- 
cando a lei da liberdade dos indios. 

Esta lei causou tantas perturba96es na colonia que em 1573 
o D""^. Antonio Salema, governador do Sul, depois de confe* 
reneiar com os fazendeiros convoeados para o Rio de Janeiro, 
decretou que seriam cousiderados captivos os indios aprisio- 
nados na guerra. 

Esta resolu9ao, que invalidava o decreto real, fez romper a 
luta entre os fazendeiros e os jesuitas, que tantos males causou 
k colonia. 

A questao aggravou-se ainda pela politica dubia dos reis de 
Portugal, que 6ra se declaravam a favor dos jesuitas, 6ra con- 
tra elles, que foram constantemente protegidos pelos i)apas, — 
que lan9aram a excomunhao sobre os senhores de escravos 
indios. 

Este deploravel estado conservou-se ate o governo do grande 
Pombal, que cortou o n6 gordio, expulsando do Brazil os 
jesuitas (1759) e ao mesmo tempo decretando a liberdade dos 
indios, a qual foi reconhecida pela constitui9ao de 1824, tendo 
elles hoje direitos de cidadaos brazileiros. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO III. 

Que ra^a de homens habitava o Brazil V 

Qual o seu estado social ? 

A que causas se pode attribuir o estado selvageiu do geiitio?;, 

A quem devemos o que sabemos a respeito do geutio V 

Qual era a religiSo do gentio ? 

Qual era o governo do gentio? 

Quem eram os pag^s ? 

Que lingua fallava o gentio? 

Quem formou a lingua Tupi? 

Como viviam as tribus entre si? 

Como celebrava o gentio as suas festas? 

Como tratava o gentio aos prisioneiros ? 



HISTOftIA DO BRAZIL. 18 

— Qual era a occupa^ao dos liomens ? 

— Em que se occupavaiu as mulheres? 

— Qual era o aspecto physico dos indios ? 

— Como se vestiam? Cora que se enfeitavam? 

— Porque se pintavam os guerreiros ? 

— Qual era o caracter do gentio? 

— Quaes eram as tribus mais notaveis ? 

— Onde habitavam os Cahetes ? Por quern forara exterminados ? 

— Que tribus foram expulsas da Bahia e do Espirito-Santo poi 
Mem de Sd? 

— O que fizeram os Tamoyos no Rio de Janeiro ? 

— Quem foram seus alliados ? 

— Quando foram vencidos ? 

— Quem auxiliou a Mem de Sd? 

— Que tribu habitava S. Paulo ? 

— Quem fundou a cidade de S. Paulo ? 

— Onde habitavam os Guaycunis? 

-- Qual era a condi9ao social do gentio no Brazil? 

— Que rei de Portugal decretou a liberdade dos indios? 

— Porque viqlou D. Sebastiao o contracto de D. Josto III com os 
capitSes-mdres ? 

— Que interesse tinham os jesuitas na liberdade dos indios? 

— Qual f oi na colonia o resultado do decreto de D. SebastiSlo ? 

— O que fez o D®'. Antonio Salem a, govern ador do Sul ? 

— Como foi aceita pelos jesuitas a resolu9ao do congresso dos fazen- 
deiros no Rio de Janeiro ? 

— Que politica seguiram os reis de Portugal em rela9ao aos indios V 

— Como protegia o papa aos jesuitas no sen intuito de libertar os 
indios ? 

— At^ quando durou este antagonismo entre jesuitas e fazendeirosV 

— Como decidiu o Marquez de Pombal a questSo da escravidSo 
dos indios ? 

— Em que anno foram os jesuitas expulsos do Brazil? 

— Que direitos tem hoje em dia os indios no imperio do Brazil? 



14 HISTOBIA DO BBAZIL. 



CAPITULO IV. 

BXPLORAgOES. 

Durante o governo de D. Manoel vieram ao Brazil cinco 
expedi^des : duas do governo, uma hespanhola e duas 
particulares. 

I. EXP£DI9d£S DO GOY£RNO. 

D. Manoel s6 mandou duas expedi9oes para o Brazil: a 
primeira em 1501, commandada por Christovao Jacques, e a 

segunda em 1503, por Gon9alo Coelho, 

Contemporaneos ambas acompanliadas por Americo Yes- 

Papas. pucio, cujo nome foi mais tarde dado ao 

Alexandre VI (1492-1503). .. .-, . j. n ^ v. 

juUon(i6i3). contmente descoberto por Colombo; mas 

^ faltam-nos noticias certas destas explo- 

*^**" ra^oes. S6 sabemos que foram visitados 

Pemando^rc^rh^ico (1616) ^^ cabos e portos importautes, que toma- 
e Isabel de Casteiia (1504). j^^uj Qg nomes dos santos dos dias em que 

HenriqufvJf ^1509). f*""*" dcscobertos, em grande parte ainda 

Henrique VHI (1547). hoje COUServadoS. 

Aiiemanha. Nesse tempo OS ffrandes interesses da 

Maximiliano I (1619). ^^ w '^' 

Carlos V (1556). India attrahiram inteiramente a atten^ao 

Franga. da nagao e do governo portuguez.* 

Francisco ?(i647). ^' Francisco de Almeida e Affonso de 

Albuquerque fundaram em 1510 o viee- 
reinado de Goa, que fez de Portugal a na^ao mais rica e de 
sua capital Lisboa, a primeira praga de commercio do mundo. 

* Em seu poema immortal CamOes assim celebra os heroes da India : 
" Um Pacheco fortissimo e os timidos 
Almeidas por quem sempre o Tejo chora ; 
Albuquerque terribil, Castro forte, 
£ outro8 em quem poder n^ teve a morte." 



HISTOBIA DO BRAZIL. 15 

Assim D§lo ^ de admirar que os Portuguezes ambiciosos de 
gloria e riquezas, as fossem conquistar oa vetusta India, e se 
esquecessem de reeem-nado Brazil, que para revelar-lhes as 
jazidas de seus inexgotaveis thesouros mineraes e vegetaes, pre- 
cisava mais da temeridade, constancia e abnega^ao do humilde 
explorador do que do valor heroico dos " baroes assignalados." 

n. £XPIX>RAC6£S HESPANHOLAS. 

Emquauto o governo de Portugal negligenciava o Brazil, 
nao se esqueciam os reis Catholicos da primeira deseoberta 
feita por Pinzon (1492), e mandaram varias expedi9oe8, sendo 
uma dellas commandada por Joao Dias de Soils, que explorou 
as regioes do Prata, onde foi morto pelos Guaranys. 

O BiO'da- Prata ^ chamado pelos indigenas Paraguay ^ tomou 
o noine de rio de Solis (1516), que perdeu em 1526, para 
chamar-se Prata. 

m. £xp£dicoe:s particulares. 

Negociantes portuguezes tambem mandaram expedi9oes para 
o Brazil ; mas dellas nao se pode ter noticia alguma certa. 

Entre os primeiros portuguezes que viveram com os caboclos, 
not^uu se dous — Diogo Alvares Correa, o CaramurA, e Joao 
Bamalho. 

Caramurd viveu por iriuito tempo entre os Tupinambds da 
Bahia e auxiliou muito a Thom6 de Souza (1549) na funda9ao 
da cidade de S. Salvador. 

Joao Ramalho ganhou muita influeucia sobre Tyberi9d, chefe 
dos Goyanazes, com cuja fllha casou-se e estabeleceu-se em 
Piratininga (1552), onde pregava o P®. Jose de Anchieta. 
Este tendo resolvido mudar a povoa9ao de Piratininga para S. 
Paulo, onde queria fundar o coUegio da Companhia, Joao Ra- 
malho incitou OS colonos a revoltarem-se, e proclamando a liber- 
dade dos Indios, conseguiu p6r de seu lado grande parte da 
tribu. Foi esta revolta, porem, de curta dura9ao, pois com a 



16 HISTOBIA DO BRAZIL. 

retirada dos missionarios, ficando privados os colonos de todoi 
OS artigos mais neeessarios A vida, n§Lo puderam continuar em 
Piratininga e liveram de mudar-se para S. Paulo. 

O estado de abandono em que permaneceu o Brazil durante 
o governo de D. Manoel, cessou quando subiu ao throuo sen 
filho, D. Joilo III (1521-1556), em cajo reinado oomega o 
enfraquecimento de Ponugal. 

£m consequeDcia de exfor^os excessivos fiedra em todos os 
sentidos abatida a na^ao portugueza, e alem disso j& se pode 
notar o predominio da perniciosa iufluencia de Hespanha, a que 
prineipalmente foram devidas a expulsao dos Judeus, a intro- 
du9ito da InquisiQao e a aleavala. 

Para o Brazil, por^m, foi D. Jofio III o mais importante rei 
da dynastia de Aviz. Foi elle quem eolonisou-o pela primeira 
vez em 1«')34, dividindo-o em oito eapitanias heredttarias, e 
quem em 1549 fundou o governo geral em S. Salvador. 

Avisado D. Joao III dos preparativos dos Hespanhoes e 
Franeezes contra sua colonia, mandou para ella uma expedigSo 
sob o commando de Christovao Jacques (1526-1529) , que volton 
depois de expulsar da costa do Brazil os navios estrangeiros, 
trazendo a noticia das grandes riquezas do paiz, o que fez oom 
que o rei armasse uma segunda expedi9§Lo, mais ipiportante 
ainda, dirigida pelos dous irm^os Martim Affonso de Souza e 
Pero Lopes de Souza, que transportaram para a America o 
primeiro gado e as primeiras fructas da Europa. 

Martim Affonso de Souza fundou a colonia de S. Vincente 
(1532) e foi o primeiro que explorou a bahia que denominou 
Bahia do Rio de Janeiro, por julgaUa um grande rio. 

F6ra o Rio de Janeiro visitado pela primeira vez por Fer- 
nando de MagalMes,* o navegante que fez o prin>eiro gyro do 

* Deste navegante disse CamOes : — 

" MagalhSes no f eito com verdade 
Fortuguez, porem nSo na lealdade.** 




L i'rilileira Miafia uu llraziL 



mSTOBIA DO BRAZIL. 17 

mundo em 1519, o qual deu-lhe o nome de bahia de S^. Luzia 
(18 de dezembro de 1519). 



QUESTIONARIO.-CAPITULO IV. 

— > Quantas expedi9ues vieram ao Brazil no governo de D. Manoelf 

— Qual a data da primeira expedi9ao e quern a commandava? 

— Quando foi mandada a segunda e quern era seu cbefe ? 

*- Que homeiu notavel acompanhou nestas duas expedi95es a 
ChristovSo Jacques e Gon9alo Coelho ? 

— O que sabemos de certo a respeito destas duas expedi96es? 

— Porque nSo tratou D. Manoel de colonisar desde logo o Brazil ? 

— Em que anno e por quern foi fundado o vice-reinado de Goa? 

— Que vantagens tirou Portugal de sens estabelecimentos na India? 

— Qual a mais importante das expedi96es hespanholas relativa- 
mente ao Brazil e que lugares f oram entao explorados ? 

— Quantos nomes teve o rio que hoje se chama Rio da Prata? 

— Que noticia ha das expedi9oes particulares portuguezas para o 
Brazil? 

— Quern era o CaramunS ? 

— Com que tribu viveu elle? 

— Que servi90S prestou aos colonisadores? 

— Quern era JoSo Kamalho ? 

— Em que capitania aportou Jo^o Ramalho? 

— Sobre que chefe indigena exercia elle grande influencia, e com 
quern casou-se ? 

— Onde se estabeleceu e quando ? 

— Que mudan9a projectou nesse tempo o Padre Jos^ de Anchieta Y 

— Quem fundou o collegio e a cidade de S. Paulo? 

— Qual foi entao o procedimento de JoSo Kamalho? 
^— Qual resultado de sua revolta? 

— Porque tiveram os colonos de mudar-se para S. Paulo? 

— Que rei succedeu a D. Manoel em 1521 ? 

— At^ quando governou D. Jo^o III? 

— Como se pode considerar o governo de D. Jo§lo III relativa* 
mente a Portugal ? 

^— Que outras causas, alem da fraqueza do rei, concorreram para o 
enfraquecimento da na9ao portugueza? 



18 HISTOBIA DO BBAZIL. 

— Belatiyamente ao Brazil como se deve considerar o reinado de 
D.JoaoIII? 

— Quandb recebeu o Brazil a primeira colonisa9So? 

— Como se dividiu o Brazil administrativamente em 1534? 

— Que mudan9a no governo se deu em 1549? 

— Qaal foi a primeira expedi93k) mandada por D. JoSlo III para o 
Brazil? 

— Em que anno? 

— O que fez ChristovSo Jacques ao chegar ao Brazil ? 

— Que noticias levou elle ao rei a respeito das riquezas do terri- 
torio brazileiro ? 

— O que fez entSlo o rei ? 

— Quem f Oram os chefes da seguinte expedi9ao ? 

— Que transportaram para a America os dous irmSLos Souzas? 

— Que colonia f undou Martim Affonso de Souza ? 

— Que bahia notavel explorou elle, que nome deu-lhe, e porque? 

— Foi Martim Alfonso de Souza o primeiro navegante que visitou 
a bahia do Rio de Janeiro ? 

— Quem foi Fernando de MagalhSLes? Que nome dera elle i, bahia 
do Kio de Janeiro, e quando ? 



mSTOKlA DO BBAZIL. 



19 



CAPITULO V. 



PRIMEmA COLONISAglo DO BRAZIL. 

1534- 

O Brazil dividido em doze capitanias. — As noticias 
trazidas por Martim AffoDso de Souza fizeram com que o rei 
tomasse a re8olu9ao de colonisar todo o paiz. Faltando-lhe, 
porem, para isso gente e dinheiro, empregou o sy sterna feudal, 
usado na idade media em toda a Europa occidental. Este meio 
de coloni8a9ao foi-lhe acouselhado por seu primeiro ministro o 
Conde de Castanheira. 

Dividiu-se entao a costa do Brazil desde o cabo de S. Agos- 
tinho at6 a bahia de S. Vicente (700 leguas) em doze por9oes 
chamadas capitanias, nomeando o rei para govern al-as doze vas- 
salos, d' entre os mais nobres da sua c6rte, a quem deu o titulo 
de Capitdes-mores. Destes s6 oito conseguiram fundar as 
seguintes capitanias : 



Capitanias.* 


Capitdes. 


CapiW^s-mdres. 


S. Vicente 


S. Vicente 


Martim Affonso de Souza 


S. Amaro 


S. Amaro 


Pero Lopes de Souza 


Parahyba do Sul 


Villa da Hainha 


Pero de Goes da Silveira 


Espirito-Santo 


Victoria 


Vasco Fernandes Coutinlio 


Porto-Seguro 


Porto-Seguro 


Pero de Campos Tourinho 


Ilheos 


S. Jorge 


Jorge de Figueiredo Correa 


Bahia 


Villa da Victoria 


Francisco Pereira Coutinho 


Pernambuco 


Olinda 


Duarte Coelho Pereira 



* Estas 8 Capitanias formam hoje 5 Provincias : 

CapUaniaa, Provincias, 

S. Vicente com o territorlo meridional de S. Amaro . . S- Paulo 

Parahyba do Sul Rio de Janeiro 

Espirito-Santo Espirito-Santo 

Porto-Seguro, Ilheos e Bahia Bahia 

Pernambuco com o territorlo septentrional de S. Amaro . Pernambuco 



20 HISTORIA DO BRAZIL. 

Foi mal siiccedida uma expedi9ao de Jo§lo de Barros para o 
Maranhao, que s6 foi colonisado em 1614, depois da expulsao 
dos Francezes, no governo de Gaspar de Souza, durante a 
unidade iberiea, sendo rei D. Felippe III (1598-1621). 

CONTBACTO ENTRK D. JOAO III IS OS CAPITAICS-MOBES. 

Os Capitaes-ni6res eram vassallos sujeitos directauiente ao 
rei, independentes uus dos outros, e tinbam sobre suas capita- 

nias direitos liereditarios com exclusao da 
dicVpSafdf iVr^^^^ lei salica. Podiam arrendar, vender ou 
JL?meot°&hia:p^^^^^^^^^ clar grande parte das suas terras, maa 
8adH8%m*?5°^^.^!;r'de^*8; fi^^ndo gtirantida a integridade das capi- 
Si'^issl/ ^"*^^^* ^"^ ^"^ tauias. Eram senhores dos indios que as 

habitavam, e tinham o direito de nomear 
todas as autoridades de suas eolonias e cunhar moeda. 

For sua parte comprometteram-se elles a colonisar e defender 
& propria custa suas capitanias e dar d corda o quinto dos 
metaes e pedras preciosas, o dizimo de eertos rendimentos, a 
vintena de algumas produgoes, e o monopolio das drogas, 
especiarias e pau-brazil. 

RESULTADO I>A COLONISACAO DAS CAPITANIAS. 

i 

1\ S. Vicente. — O territorio desta capitania, queextendia- 

se por cem leguas, desde doze leguas ao sul da ilba de Canan^ 

at6 a barra de Macah6, foi doado ao Conselbeiro 
1535 ' 

Martim AfFonso de Souza,* illustre capitao, que em 1532, 
jd havia ahi fundado duas eolonias, e que nao voltando mais ao 
Brazil, confiou a direc9ao dellas a Gon9alo Monteiro e a Joao 
Ramalbo, que deram-lhes grande desenvolvimento. Na ilba de 

* ICartim Affonso de Souza, celebre por seus heroicos feitos na India, 
era conselbeiro do rei e proximo parente e amigo intimo do illustre Conde 
de Casta nheira, que muito influiu para que elle viesse com poderes extra- 
ordinarios fundar uma colonia no Brazil. 



mSTORIA DO BRAZIL. 21 

S. Vicente, si de urn lado decahia a colonia de S. Vicente, do 
outro prosperava rapidamente a povoa9ao de Santos, por causa 
de seu excellente porto. Esta capitania, que havia recebido da 
Madeira a canna de assucar, jd possuia seis engenhos e sua 
popula^ao se elevava a mais de 500 colonos. A villa de Pirati- 
ninga especialmente estava muito florescente. 

2\ S. Aniaro. — Esta capitania que contava 80 leguas de 
extensao era dividida em duas por9oe8 : uma de 50 leguas ao sul 
(terras de S. Anna), desde a Laguna at^ o rio Cui*u- 
pac^, em parte encravada na de Martim Affonso de 
Souza; e outra de 30 leguas ao norte, desde o rio Iguarassti 
at6 a bahia da Trai9ao, compreheudendo a ilba de Itamaraed. 
Seu donatario foi Pero Lopes de Souza,* que, como seu irmao, 
Martim Affonso, nunca mais tornou ao Brazil, e mandou colo- 
nisar suas terras do norte por Joao Gon9alves, que fez pro- 
gredir vantajosamente o nucleo colonial de Itamaracd ; e as do 
sul confiou a Gon9alo Coelbo, que fundou na ilba de Guiamb6 
a colonia de S. Amaro, que deu seu nome 4 capitania, mas que 
soffrendo constantes ataques do gentio nao poude prosperar. 

3^. Parahyba do Sul. — Apenas comprehendia um terri- 
torio de 30 leguas, desde o limite septentrional de S. Vicente 
at^ o rio Itapemirim, o qual foi doado un 1535 a Pero 
de G6es da Silveira,t que fundou a povoa9ao da VUla da 
JRainha^ onde deu come90 d planta9ao da canna de assucar ; 
mas faltando-lbe meios de estabelecer os engenbos, voltou ao 

* Pero Lopes de Souza, irmSo de Martim Affonso de Souza, era ** mo^o 
honrado, de grandes brios e valor " e alem disso de illii8tra9ao pouco tuI- 
gar naquelles tempos. A seus escriptos devemos as informafOes que 
temos destas duas expedifOes de 1531 e 1535. 

t Pero de 6<5es da Silveira era irmSLo do illustre escriptor Dami9k> de 
G<5e8, e havia ja prestado 4. patria relevantes 8ervi9os na armada. Alem 
disto era muito estimado pelos irm3k>s Souzas tanto assim que elle ^* escre* 
▼en por sua propria letra o diario de Pero Lopes." 



22 HISTORIA DO BRAZIL. 

Reino, deixando em seu lugar a um tal Jorge Martins, que 
durante sua ausencia negligenciou inteiramente a colonia. O 
donatario, logo que chegou, tentou de novo organisar a coloni- 
sa9ao ; mas as continuas lutas com o gentio o constrangeram a 
abandonar a capitania. 

4". Espirito-Santo. — Contava 50 leguas desde o rio Itape- 
mirim at6 o Mucury, e seu donatario foi Vasco Fernandes Cou- 
tinho.* Depois de vender suas propriedades na patria, 
reuniu grande numero de colonos e vein para a sua capi- 
tania, onde assentou os fundamentos da povoa9ao do Espirito- 
Santo ao sul da serra de Mestre-Alvaro. 

A principio pdrecia a colonia prosperar ; mas nao s6 as 
hostilidades do gentio, como tambem desavengas entre os prin- 
cipaes colonos e o donatario foram a causa de sua decadencia, 
de nada valendo a mudan9a da povoa^ao para a ilha de S. Anto- 
nio, sob a invocca^ao de N. S. da Victoria. 

5". Porto-Segruro. — F6ra esta capitania dada a Pero de Cam- 
pos Tourinho,t e extendia-se por 50 leguas ao norte do Mucury, 
sem limite septentrional bem determinado. Fundou o 
donatario o seu primeiro niicleo colonial em Porto-Seguro^ 
o proprio lugar onde desembarcou Cabral. Emquanto dirigida 
por Tourinho prosperou a capitania ; mas depois de sua morte 
decahiu de tal sorte que sens herdeiros a venderam por um juro 
de doze mil e quinheutos reis e mais dous moios de trigo por 
anno, durante a vida da cessionaria, que recebeu alem disso 
seiscentos mil reis. 

* Vasco Fernandes Coutinho era fidalgo da casa real e havia servido 
em Groa, em Malaca e na China as ordens do grande Affonso de Albuquer- 
que. EUe habitava em Alemquer, n'uma propriedade visinha da de um 
amigo do Conde de Castanheira, o qual certamente o influiu para obter um 
quinhSLo na partilha das terras do Brazil. 

t Pero de Campos Tourinho era um rico proprietario de Vianna do 
Minho, que a imitacj^ao de Duarte Coelho Pereira, trouxe comsigo toda a 
sua familia para sua capitania. 



HISTORIA DO BBAZIIi. 23 

6*. Ilheos. — O territorio desta capitania iimitava-se ao siil 
com a de Porto-Seguro e terminava na barra da Bahia de Todos 
OS Santos, comprehendendo 50 leguas. Foi doado a Jorge 
de Figueiredo Correa,* que nao podendo sahir do Reino, 
incuiubiu .a coloni8a9ao de suas terras a Fraueisco Romero. 
Este fundou uma villa na ilha de Tinhar6, e depois mudou-a 
mais para o sul, para o porto dos Ilheos, e denominou-a iS. Jorge^ 
em honra do donatario. Mas como a Romero faltassem tino 
administrativo e conhecimentos do governo politico, tornou-se 
insupportavel aos colonos, a quern vexava com seu despotismo 
e foi por elles reenviado preso ao donatario, que desastrada- 
mente tentou restabelecel-o, causando assim tal discordia entre 
OS colonos, que apezar de sua prosperidade, nao puderam resis- 
tir ds incursoes do gentio e tiveram de abandouar seus esta- 
belecimentos. 

7*. Bahia de Todos os Santos. — Esta capitania contava 
50 leguas de extensao desde a barra da Bahia at^ a emboccadura 
do rio S. Francisco, e seu donatario e capitao-m6r foi 
o velho e illustre capitao Francisco Pereira Coutinho. 
Foi s6 pela volta de 1537 que elle chegou ao Brazil, trazendo 
comsigo muitos aventureiros. Aportou na Bahia de Todos os 
Santos, onde encontrou a Diogo Alvares, o Caramuri'i, e outros 
portuguezes, que com os Tupinambds o ajudaram a fundar a 
povoa^ao da Victoria,^ onde se conservou por algum tempo, 
apezar de ver a sua autoridade constantemente menoscabada 
pelos colonos jd afeitos ao modo de vida dos selvagens, e de nao 
poder impedir que elles se disseminassem pelo sertao e assim 



* Jorge de Figueiredo Correa era nSo so fidalgo da casa real, como 
tambem exereia na corte o cargo de escrivSo da Fazenda, o que Ihe pro- 
porcionaya o ensejo de entrar no numero dos favorecidos com capitanias 
hereditarias. 

t Os colonos atacados de sorpreza pelos selvagens, os haviam comple- 
tamente desbaratado neste lugar, que ficou por isso chamando-se Villa da 
Victoria. 



24 HISTORIA DO BRAZIL. 

ficassem expostos a cahir nas maos do gentio. A desmoralio 
sayao da colonia chegou a tal ponto que declarou-se a guerra 
enti'e os colonos, o donatario e os selvagens, da qual resultou 
a expulsao do capitao-m6r com a maior parte dos portuguezcs, 
que depois de muitas lutas c priva^oes foram se acolher nas 
capitanias visinhas de Ilheos e Porto-Seguro. Passado algum 
tempo o Caramuiti auxiliado pelos poucos europeus, que baviam 
ficado na Villa da Victoria, conseguiram do gentio promessas de 
paz e tornaram a convidar o donatario para a sua capitania. 
Francisco Pereira Coutiuho* aceitou a proposta, mas quando 
voltava para a Bahia, deu d costa junto A ilha de Itaparica, sal- 
vando-se do naufragio s6 para cahir nas maos do gentio que o 
devorou com quasi todos os sens companheiros de infortunio. 

8*. Pernainbuco. — O territorio desta capitania, que abran- 

gia 60 leguas desde a emboccadura do rio S. Francisco at6 o rio 

Iffuarassd ao norte, foi doado a Duarte Coelho Pereira.t 
1534 ^ ' . . " 

o mais importante dos capitaes-m6res por sua virtude, 
severidade e actividade. Este habilissimo administrador trouxe 
em 1535 comsigo toda a sua familia e alguns colonos e escolheu 
para fundar a sua villa ou colonia capital o mesmo sitio onde 
jd d'antes existia o nucleo da pequena povoa^ao de Pero Lopes, 
que se bavia mudado para as margens do Biberibe, e que foi 



* Francisco Pereira Coutinho foi nomeado Capitao-mor da Bahia pelos 
muitos servigos prestados era Portugal e " nas partes da India onde servira 
niuito tempo com o Conde Almirante ^ e com o Vice-Rei 1). Francisco de 
Almeida, e com Affonso de Albuquerque, e em todos os feitos e cousas que 
OS ditos capitSles nas ditas partes fizeram, nos quaes dera sempre de si 
muito boa conta." 

t Duarte Coelho Pereira, casado com uma irma de Jeronyrao de Albu- 
querque, era um "valente capitao, que muito se distinguira por feitos no 
Oriente, em cujos fastos achamos mais de uma vez consignado honrosa- 
mente o seu nome, em miss5es ao reino de SiSo e a China, no descobri- 
mento da Conchinchina, no recontro que teve com duas armadas, conse- 
guindo fazer vinte e tantas prezas, e em outras ac95e8 illustres.^ 

* Vasco da Gama. 



it 



HISTOBIA DO BBAZIL. 25 

chamada CHinda em rasSLo da parage m pittoresca em que f6ra 
assentada. Com grande geiio sou be o donatario attrahir os 
Tabayares, fazendo-lhes presentes e promettendo-lhes auxilio 
contra seus inimigos, tan to que conseguiu deiles que trabalhas- 
sem com os seus nas fortificagoes da nova villa, e Ihe prestas- 
sem outros servi90S importantes na guerra contra os Cahet^s,* 
que incitados por alguns francezes vieram atacar a colon ia. 

O desenvolvimento da colonia de Dujirte Coelho Pereira era 
admiravel : a cultura do algodao, da canna e de outros manti- 
mentos ; a industria e o commercio davam os nielhores resulta- 
dos nao s6 para o donatario, como para os colonos e a cor6a. 

Empenhou-se tambem Duarte Coelho em promover casamen- 
tos entre portuguezes e indigenas, em regularisar a adminis- 
tra9ao da justi9a e determinar os f6ro8 de seus colonos, conse- 
guindo assim para seu estabelecimento paz e prosperidade, o 
que attrahiu a Pernambuco muitos colonos das outras capita- 
nias. 

Resta-nos agora tratar dos quatro donatarios, que nSo chega- 
ram a fundar suas capitanias, e estes foram : Joao de Barros 

♦ " * Mas Tabyra ! Tabyra! que 4 delle ? 
Onde agora se esconde o pujante ? " 
Nao n*o vedes 1 1 — Tabyra 4 aquelle 
Que sangrento, impiedoso la vai ! 
Vel-o-heis andar sempre adiante, 
Larga esteira de mortos deixando 
Traz de si, como o raio cortando 
Ramos, troncos do bosque, onde cai. — > 

* * 4» # # # # 

E com furia tao grande arremettem,— 
Com despego tao nobre da yida ; 
Tantos golpes tao fundo repetem. 
Que senhores do campo j^ sao 1 
Potiguares Id yao de f ugida, 
Inda £ f^ra mais torya e brayia 
Disputando guarida de um dia 
No mais fundo do yasto sertao." — G. Dia$, 



^ HtSTORIA DO BltA^IL. 

e Ayres da Cunha, Antonio Cardoso de Barros e Fernando 
Alvares de Andrade. 

Joao de BaiTos e Ayres da Cunha obtiveram um lote de 150 
leguas de terra alem da bahia da Traigao (Parahyba e Rio 
Grande do Norte) encravando a doa9ao de Fernando Alvares 
de Andrade. 

Antonio Cardoso de Barros * recebeu 40 leguas mais ao norte 
(Ceard), desde o rio da Cruz at^ a Angra dos Negros. 

A Fernando Alvares de Andrade tocou 75 leguas de terri- 
torio, incluindo parte da costa do Piauhy e Maranhao, " desde 
o cabo de Todos os Santos a leste do rio Maranhao at6 o rio da 
Cruz. EUe associou-se com Joao de Barros e sens dous filhos 
e com Ayres da Cunha, reuniu colonos e embarcou-se n'uma 
pequena frota para o Brazil ; mas soffreram um naufragio junto 
aos bancos do Maranhao, onde morreram muitos dos emigrantes, 
entre elles Ayres da Cunha. Os que escaparam s6 depois de 
longas priva9oes e innumeras fadigas conseguiram voltar ao 
Beino. 

Temos visto que das doze capitanias do Brazil, quatro nem 
chegaram a ser fundadas, e das outras oito s6 vingou a coloni- 
sa9ao de seis, a saber: S. Vicente, S. Amaro, Pernambuco, 
Espirito-Santo, Porto-Seguro e Ilheos, mallogrando-se as tenta- 
tivas de Pedro de G6es da Silveira e Francisco Pereira Cou- 
tinho para fundar Parah3ba do Sul e Bahia. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO V. 

— Porque se apressou D. Joao III a colouisar o Brazil? 

— Que meios empregou? e porque? 

— Quem influiu o rei para fundar no Brazil o systema feudal j& 
desacreditado na Europa ? 

* Antonio Cardoso de Barros, cavalleiro fidalgo da casa real, foi o 
unico dos donatarios que nada tentou para fundar a sua capitania; mais 
tarde, porem, foi nomeado para um cargo na Bahia, e de voita a Portugal 
naufragou e cahiu nas mSos dos indios que o assassinaram. 



HiStORIA DO hUAZtL. 27 

— Como f oi dividido o Brazil ? 

— Que extensSLo da costa foi comprehendida nas capitanias? 

— Quantas capitanias se crearam ? 

— Em que classe escolheu D. Jo^ III os governadores das cap 
tanias? 

— Que titulo tiveram os donatarios ? 

— Quantos delles fundarara seus estabelecimentos? 

— Como se chamavam ? 

— Que capitanias f undaram ? 

— Quaes os nomes das primeiras povoa96es ou villas capitaes ? 

— Em que auno foram estas doa9oes feitas? 

— Que succedeu ao Maranhao ? 

— Quaes os privilegios dos capitaes-mdres ? 

— Quaes eram os seus compromissos para com a coroa ? 

— Que extensSo tinha a capitania de S. Vicente ? quaes os seus 
iimites ? e a quem foi dada ? 

— Quem era Martim Affonso de Souza? 

— Havia elle jd visitado o Brazil ? 

— A quem coufiou elle a direc9ao de sua capitania e com que fesul- 
tado? 

— Que vantagem tinha a povoa9ao de Santos? 

— Que desenvolvimento tivera esta capitania e qual a sua popula9ao ? 

— Qual era a extensao e a situa93o da capitania de S. Amaro ? 

— A quem foi dada? e em que anno? 

— Quem era Pero Lopes de Souza? 

— Quem foi o colonisador de S. Amaro? e com que resultado? 

— Quem era? e o que fez Joao Gon9alves? 

— Que extensao tinha a Parahyba do Sul e quaes eram os seus limite; . 

— A quem foi doada e em que anno ? 

— Que nucleo colonial fundou Pero de Gdes da Silveira? e com 
que resultado ? 

— Quem era Pero de Gdes da Silveira? 

— Qual a extensao da capitania do Espirito-Santo ? e quaes eram os 
seus Iimites? 

— Quem foi o seu donatario ? que povoa9ao fundou e onde? 

— Quem era Vasco Fernandes Coutinho? 

— Qual foi o resultado da colonisa9ao do Espirito-Santo? 

— Que territorio comprehendia a capitania de Porto-Seguro? e a 
quem foi doada ? 



28 HISTOBIA DO BRAZIL. 

— Quern era Pedro de Campos Tourinho? 

— Qual foi a primeira villa que fundou? e onde? 

— Que foi feito desta capitania depois da morte do donatario? 

— Qual a extensSo e quaes os limites da capitania dos Ilheos ? 

— A quem foi dada? e quando? 

— Quem foi incumbido t'e colonisal-a? e que villa fundou? 

— Qual foi a sorte desta colonia ? 

— Porque nSo veiu Jorge de Figueiredo Con*§a fundar a sua capi- 
tania ? 

— Qual a causa da discordia entre os colonos ? 

— Qual era a extensSo da capitania da Bahia? e quaes os seus 
limites ? 

— Quem foi o sen donatario ? e em que anno veiu elle colonisal-a ? 

— Quem o auxiliou na funda9ao da Villa da Victoria? 

— Porque nSo vingou a colonisa^Sio da Bahia ? 

— Qual foi o resultado da interven9ao do Carannini para fazer a 
paz eiitre os portuguezes e os Tupinamb^s ? 

— Como e onde morreu Francisco Pereira Coutinho? 

— Qual era a extens^o da capitania de Pernambuco? e quaes os 
sens limites? 

— Quem foi o seu donatario? 

— Quem era Duarte Coelho Pereira? 

— Onde fundou elle a sua villa capital ? e que nome deu-lhe? 

— Como se aveiu com os Tabayares ? 

— Que servicjos Ihe prestaram os indios ? 

— Como se desenvolveu a sua colonia? 

— Qual o resultado da habil e energica admini8tra9ao de Duarte 
Coelho? 

— Que donatarios nSo chegaram a fundar suas capitanias? 

— Qual era a extensSo e a situa9ao da capitania de Joao de Barros? 

— Que territorio foi dado a Fernando Alvares de Andrade? e quaes 
08 seus limites ? 

— Com quem associou-se elle? 

— Qual foi o resultado de sua tentativa em colon isar o MaranhSio ? 

— Qual dos donatarios nada ten ton para fundar sua capitania? 

— Como e onde morreu Antonio Cardoso de Barros ? 

— Quantas capitanias se crearam ? quantas foram f undadas ? De 
quantas vingou a colonisa9ao ? e quaes foram as que mallograram ? 




Chegada de Tlioruu de Sooza i Babia. 



mSTOBIA DO BBAZIL. 



29 



CAPITULO VI. 

GOVBRNO GBRAL2 THOME DE SOUZA. 

1549-1553. 

Bern depressa se patentearam os graves defeitos das doa9oes 
das capitanias. Os direitos reservados A cor6a eram quasi 
Dulios. Os pnvilegios concedidos aos capitaes-m6res eram 
exagerados ; mas apezar disso era-lhes impossivel, por falta de 
recursos, colonisar e defender seus vastissiiDos territorios contra 
OS indios e os piratas estrangeiros, ainda mais sendo, como 
eram, independentes uns dos outros. Alem disso a liinita^ao 
nao passava da linha da costa, sem a menor indica9ao quanto 
a superficie de cada um quinhao para o interior. Os colonos 
eram pela maior parte degradados e aventureiros ambieiosos de 



O CANTO DO GUERREIRO. 



I. 



Aqui na floresta 
Dos yentos batida, 
Fa9anha8 de bravos 
NSo geram escrayos, 
Que estimem a yida 
Sem guerra e lidar. 

— Ouyi-me, Guerreiros, 

— Ouvi meu cantar. 



III. 
Quern guia nos ares 
A frexa implumada, 
Ferindo uma preza, 
Com tanta certeza 
Na altura arrojada 
Onde eu a mandar ? 
— Guerreiros, ouyi-me, 
•^ Ouyi meu cantar. 



II. 
Valente na guerra 
Quem ha, como eu sou ? 
Quem yibra o tac^pe 
Com mais yalentia ? 
Quem golpes daria 
Fataes como eu dou ? 
— Guerreiros, ouyi-me ; 
-«Quem ha, como eu souf 



IV. 

Quem tantos imigos 
Em guerra preou ? 
Quem canta seus feitos 
Com mais energia ? 
Quem golpes daria 
Fataes, como eu dou ? 
— Guerreiros, ouyi-me 
— > Quem ha, como eu sou f 



30 



HISTORIA DO BRAZIL. 



lucro. Os escravos ou trabalhadores eram selvagens acostama- 
dos A mais absoliita independencia e mais dispostos a morrer que 
a soffrer uma affronta ao que entendiam seu direito ; e contra 
sua indomavel altivez s6 havia urn recurso — a violencia — e os 
resulttidos do emprego da forya, provocando a reac^ao, forani 
quasi sempre tao fataes aos eolonos como ao gentio, que nao 
obstante invadiu e destraiu quasi todos os estabelecimentos. 

A desmoralisa9ao de algumas capitanias havia chegado a 
ponto de nellas se armarem navios contrabandistas. For toda 
a parte lavrava a iusubordina9ao, a ineligiosidade e a immora- 



V. 

Na ca9a ou na lide, 

Quern lia que nie affronte ? ! 

A on^a raivosa 

Meus passes conhece, 

O imigo estremecc, 

E a ave medrosa 

Se esconde no ceu. 

— Queni ha mais valente, 

— Mais dextro do que eu ? 

VI. 

Si as matas estrujo 
Co' OS sons do Bore, 
Mil arcos se encurvam, 
Mil setas la voaiii, 
Mil gritos rebuani, 
Mil horaens de pe 
Eis surgeni, respondem 
Aos sons do Bore ! 

— Quem e mais valente, 

— Mais forte quem e? 

VII. 

La vao pelas matas ; 
Nao fazem ruido : 
O vento gemendo 
E as matas tremendo 



E o triste carpido 
D' uma ave a cantar, 
Siio elles — guerreiros, 
Que favo avan<,'ar. 

VIII. 

E o Piaga se ruge 
No seu maraca, 
A morte hi paira 
Nos ares frechados, 
Os campos juncados 
De mortos sao ja : 
Mil liomens viveram, 
Mil homens sao la. 

IX. 

E entao si de novo 
Eu toco o Bore; 
Qual fonte que salta 
De roclia emi)inada 
Que vai maruliiosa 
Fremente e queixosa, 
Que a raiva apagada 
De todo nao e, 
Taes elles se escoam 
Aos sons do Bore. 

— Guerreiros, dizei-me, 

— Tao forte quem e ^ — G. Diafi. 



filSTOKIA DO BRAZIL. 81 

lidade. Os piratas estrangeiros continuaram a assolar a costa 
como d'antes. 

Assim foi o rei obrigado, attendendo aos justos interesses do 
Brazil, a f altar sua palavra para com os douatarios e a dar- 
Ihes urn governador geral. 

Era muitx) difficil encontrar um bomem que pudesse exercer 
tao grande autoridade. Apresentou-se 

ThomS de Souza, parente da casa real e celebre 
por sua bravura e sisudez nas guerras da Asia e da 
Africa. Foram tambem com elle nomeados um ouvidor-gercU, 
o desembargador Pero Borges*; um provedor-mdr da Fazenda, 
Autonio Cardoso de Barros ; e um capitHo-mdr da costa, Pero 
de G6e8 da Silveira. 

D. Joao III escolhera a Bahia, como ponto mais ceutral, 
para a s^de do govemo geral ; mas esta capitania pertencia 
de direito ao frlho do donatario, que ficdra pobrissimo e sem 
meios de colonisal-a, assim fez o rei com elle um coutracto de 
ceder* a capitania a troco de um padrao de quatrocentos mil 
reis annuaes para si e seus descendentes. 

Thom^ de Souza chegou ao Brazil com uma frota considera- 
vel, aportou na Btihia de Todos os Santos e ahi fundou perto 
da antiga Villa da Victoria, depois chamada Villa-Velha, uma 
cidade que denominou S. Salvador^ dando-lhe por armas uma 
bandeira azul, onde se via uma pomba branca com um ramo de 
oliveira no bico e a divisa — Sic ilia ad arcam reversa est. 

Na fundacao da cidade foi o governador auxiliado 
pelos Tupinambds e por Caramurd, que desde muitos 
annos vivia entre aquellas tribus, ds quaes tambem o prendiara 
affeigoes de familia, pois havia se casado com a India Para- 
guassd e tinha uma numerosa progenie. 

E tradi9ao que o nome de Caramwrd foi dado a Diogo Alva- 
res, porque logo depois de aportar na Bahia (suppoe-se em 
1510), vendo-se cercado de indios, receiou que o quizessem 
matar, e para intimidal-os disparou um tiro da espingarda com 
que estava armado. Tal effeito produziu a detonagao de sua 



82 HISTOBIA DO BRAZIL. 

arma de fogo sobre os selvagens que, attribuindo-lhe poder 
sobrenatural, mostraram-se dispostos a obedecer-lhe em tudo. 

Caramurd significa em lingua brazUlca uma especle de enguia 
electrlca, com que os Indlos compararam a espingarda de Dlogo 
Alvares, por sua vli'tude de fazer esti'emecer e ferlr, e por 
extensSLo usavam desse nome para designar o possuidor da 
temerosa arma. 

Thom6 de Souza trouxe comsigo seis jesuitas sob as ordens 
do P®. Manoel da Nobrega, os quaes foram os primeiros que 
vieram para o Brazil. 

Com elles viajou o go^'ernador pelas differentes capita- 
nias, e lundou as novas colonias de Santos (S. Paulo), 
S. Thom6 e S. Audr^ (Espirito-Santo) , nas quaes deixou 
alguns padres para catechisar os iudios. 

O P®. Manoel da Nobrega, afim de attrahir os indigenas d 
religiao empregou como principaes meios a musica, o canto e as 
brilhantes pompas das ceremonias do christianismo. Os meni- 
nos (columins) especialmente ficavam eneantados com as pro- 
cissoes. 

Em relagao aos colonos nao procedeu menos avisadamente 
este habil jesuita, fundando em um dos mais bellos sitios da 
cidade de S. Salvador um coUegio, onde a seu geito se educasse 
a mocidade, assentando assim as mais solidas bases para o 
dominio jesuitico no Brazil. 

O P®. Joao de Azpilcueta Navarro estudoii a lingua tupi, 
arranjou-lhe uma grammatica e nella pr^gava aos indios que o 
veneravam como a sens proprios Pag^s. 

Em 1550 mandou o papa Julio Til para S. Salvador o 
bispo Pedro Fernandes Sardinha, que antes tivera juris- 
dicgao sobre Funchal, capital da ilha da Madeira.* 



* O bispado da Bahia foi o unico do Brazil atc^ 1676, quando Innocencio 
XI elevou-o a arcebispado e fundou mais tree bispados, os de Pernambuco, 
Bio de Janeiro e Maranhik). Actualmente tern o Brazil um arcebispado e 
bispadot. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 88 

Os principaes estabelecimentos da colonia nesse tempo eram : 
femambuco, S. Vicente e S. AniarOy que tambem tinha a ilha 
de Itamaraed em frente a Pernambuco, a qual desenvolvia-se 
excepcion almente . 

As villas capitaes das outras capitanlas eram : Porto-Seguro^ 
Ilheos e Victoria quasi de todo abaodonadas. 

Thom6 de Souza cumpriu fielmente a missSio de que 
f6ra encarregado por D. Joao III, de estabelecer a cen- 
tralisa^ao administrativa e politica no Brazil. Animou o mais 
que poude a lavoura, a Industria e o commcrcio, e mandou 
buscar ds ilhas do Cabo Verde gado para a Bahia. Foi bene- 
volo e justo, e ao mesmo tempo, severo nao 86 para com os 
indios, como tambem para com os colonos habituados a insu- 
bordina9ao ; de tal sorte que, quando se retirou em 1553, deixou 
na colonia as melhores recorda9oes, e at6 sua morte mereceu as 
boas gra9as e a estima de seu soberano. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO VI. 

— Que grave defeito se descobriu na doa^ao das capitanlas relati- 
vamente i, corda ? Aos douatarios ? A divisao das terras ? Aos colo- 
nos ? Aos escravos ? 

— Era o gentio trabalhador paciente e humilde ? 

— Qual foi o resultado do eniprego da for^a contra o gentio? 

— Qual era o estado da colonia em rela^ito d moral e d religiao ? 

— Podiam os colonos proteger seus estabelecimentos contra os 
piratas ? . 

— A vista de tal desorganisa9ao o que fez D. JoSlo III? 

— Quem foi 6 primeiro govemador geral ? 

— Quem era Thomd de Souza? 

— Que outras autoridades trouxe comsigo o govemador? 

— Onde estabeleceu-se a sdde do governo geral? e porque? 

— Que contracto fez o rei com o herdeiro do donatario? 

— Onde aportou Thorn d de Souza e que cidade fundou? 

— Que deu por armas & nova cidade ? 



34 HISTOKIA DO BRAZIL. 

— Quern auxiliou a Thom^ de Souza na funda^SLo da cidade de 
S. Salvador ? 

— Que rela96es havia entre Caramuni e o gentioV 

— Quein era Paraguassii ? 

— Porque chatnavam os indios a Diogo Alvares — Caramuni ? 

— Em que anno chegou Diogo Alvares d Bahia ? 

— Que quer dizer em lingua brazilica — Caramuni ? 

— Alem das autoridades civis e militares que homens notaveis vie- 
ram com Thom^ de Souza para o Brazil ? 

— Que colonias f undou o governador ? 

— Quern era o P®. Manoel da Nobrega? 

— O que fez o P®. Nobrega relativamente ao gentio? 

— Onde f undou elle um coUegio jesuitico ? 

— Porque criaram os jesuitas um collegio em S. Salvador? 

— Porque celebrisou-se o P«. Azpilcueta Navarro ? 

— Quem foi o primeiro bispo do Brazil ? quem o nomeou ? e em 
que anno? 

— Quaes eram ent§k) os principaes estabelecimentos coloniaes ? 

— Quaes eram as capitaes das outras capitanias ? 

— Como desempenhou Thome de Souza a sua commissao? 

— De que o encarregdra D. JoSto III? 

— Que beneficios fez o governador d colonia? 

— Como tratou os indios e os colonos ? 

— Quando se retirou ? Que recorda96es deixou ? 

— Como fol tratado pelo rei? 




PAI>KI' lUbi. lit ANCIIlbTA. 




Uat&D9a do 1" bispo da Ualiin e de sens compimheiroe. 



HISTOKIA DO BfiAZIL. 36 



CAPITULO VIL 

DUARTE DA COSTA. 

1553-1557. 

Duarte da Costa, segundo governador geral do Brazil, rece- 
beu o governo das maos de Thom^ de Souza ; mas nao soube 
merecer os mesmos justos louvores que seu predecessor e teve 
alem disto a mk fortuna de administrar a colonia durante uma 
epoea em que nella se deram bem lamentaveis acoutecimentos. 

Logo no principio teve desaven9as com o bispo, que foi pelo 
rei chamado a Lisboa. O prelado foi obrigado a embarear-se 
em um navio estragado, que foi a pique na costa de Per- 
nambuco, e s6 escapou ao naufragio para cahir nas maos 
dos Cahet6s, que o devoraram. 

Em S. Vicente rompeu nessa occasiao a fatal luta a 
respeito dos indios, entre os jesuitas e os fazendeiros, a 
qual tinha para o futuro de causar tautos e tao grandes males d 
colonia. 

Em companhia de Duarte da Costa vieram de Portugal grande 
nuraero de jesuitas, que trouxeram a noticia de ter o Brazil 
sido elevado k categoria de provincia a parte sob a direcgao do 
P®. Nobrega. Este redobrando de zelo no desempenho de sua 
missao, leyou logo alguns dos recemchegados, entre os quaes o 
celebre Jose de Anchieta, para Piratininga, afim de ahi fun- 
dar um novo e grande collegio ; mas depois de algumas explo- 
ra96es pela visinhanga no intuito de escolher uma boa locali- 
dade, que nao encontrou, foi estabelecel-o algumas leguas 
para o interior, n'um sitio elevado, que chamou S, Paulo^ 
em honra do apostolo, cuja festa se eelebra a 25 de Janeiro, dia 
em que se fundou o collegio. O nome de S. Paulo passou 



86 HISTOBIA DO BKAZIL. 

depois para a cidade e fiualmente tornou-se extensivo a toda a 
capitania de S. Vicente. Para Id convidou o P*. Anchieta os 

indios, euja eateehese havia come^ado com 

Contemporaneog grande zelo. 

Papas. Qj-a OS fazendeiros de Piratininga vendo-se 

Pauto m a550)^.^^^ abandonados de sens escravos, armaram-se 
Pauto rv a^^9)'. contra os jesuitas, e tomaram por chefe a Joao 

Ramalho, que desde muitos annos vivia entre 
08 Goyanazes. Esta luta dos jesuitas e fazendeiros nao 
cessou durante todo o governo de Duarte da Costa. 

CONTEMPORANEOS. 
Hespanha. Allemanha. 

CasteUa-Aragao (1476-1616) Habsburgo (1438-1619) 

Isabel (1604) = Fernando (1616) Maximiliano I (1619) 

I I 

Joana a Louca .... = .... Felippe o Bello (1616) 

I ^ 1 

Carlos V (1666) Fernando 1 (1566) — Habsburgo-AragOo 

I (1616-1656) 

Maximiliano II (1572) 

Anna Kodolfo (1610) Mathias (1619). 

lN(iLATERRA. 

Dijnnstia Tudor a485-1603) 

Henrique VIII (1509-1647) 
I J I 

Maria I (1558) Isabel (1603) Eduardo VI (1563). 

Franqa. 
OrUans-Valois (1493-1589) 

Luiz XII (1516) 
Claudia = Francisco I (1547) 
Henrique II (1550) = Catharina de M^dicis 

Pelippe IT = Isabel Francisco II Carlos IX Henrique ITT Margarida Franciseo, 
I (1660) (1576) (1689) = Henrique IV Duquedt 

Clara Eugenia. (1610) AUnQon 



HISTORIA BO BRAZIL. 



87 



No norte, os indios de Pernambuco, Bahia e Espirito-Santo 
atacaram e assolaram as povoayoes desprevenidas, chegando 
sua audacia a ponto de em suas igdras (ean6as) aeommetterem 
e tomarem as caravellas, que navegavam pela eosta, e a fazer 
incursSes at^ as portas da eidade de S. Salvador, donde foram 
repellidos por Alvaro da Costa, filho do governador, o qual per- 
seguiu-os a ferro e fogo, obrigando-os a sujeitarem-se ou a f ugi- 
rem para o sertao. 

Entre os mais bravos morubixabas ou chefes notam-se : 
Cunhambebe o Morubixaba9i'i ou o Grande-Chefe, e Iperua^ti 



TABYRA. 
PoESiA Americana. 



I. 



'k Tabyra guerreiro valente, 
Cumpre as partes de chefe e soldado; 
tl caudillio de tribu potente, 
— Tobajaras — o povo senhor ; 
Ninguem mais observa o tratado, 
Ninguem menos de perigos se aterra, 
Ninguem corre aos acenos da guerra, 
Mais depressa que o bom lidador ! 

• 

II. 
Seu viver e batalba aturada, 
Dos contrarios a traya aventando ; 
tl dispor a cilada arriscada, 
Onde o imigo se venha metter ! 
Levam noites com elle sonhando. 
Potiguares, que o viram de perto ; 
Potiguares, que assellam por certo 
Que Tabyra 86 sabe veneer I 

III. 
Mil enganos Ihe tem ji tecido, 
Mil ciladas Ihe tem preparado ; 
Mas Tabyra, fatal, destemido, 
Tem f eiti^o, ou encanto, ou condao ' 



Sempre o piano da guerra e fruS' 

trado, 
Sempre bravo fronteiro appareee, 
Que OS enganos crueis Ihes destece. 
Face a face, arco e settas na m5o. 



VII. 

Vivem homens de pel' cor da noite 
Neste solo, que a vida embelleza; 
Podem, servos, debaixo do a9oite, 
Nenias tristes da patria cantar ! 
Mas o indio que a vida so pr^za 
Por amor dos combates e festas 
Dos triumphos sangrentos, e sestas 
Resguardadas do sol no palmar; 

Tin. 
Ocioso, indolente, vadio, 
Ou activo, incansavel, fra^ueiro ; 
Ja nas matas, no bosque erradio, 
Ja disposto a lutar, a veneer ; 
Ama as selvas, e o vento palreiro, 
Ama a gloria, ama a vida ; mas antes 



I 



88 



HI8TOEIA DO BRAZIL. 



ou Tubar2x>-GraDde. O nome de Cunhiainbebe era pronnnoiado 
com tan to terror em S. Vicente, como o de Barba-Roxa pouco 
antes no Mediterraneo. Diziam que o valente selvagem, bem 
longe de ter medo da artilheria, at^ servira-se de dous falcoes 
que tomdra aos colonos e ^' carregando-os &s costas, Ihes dava 
fogo, aguentando elle o recuo." 

Em Pernambuco, depois da morte de Duarte Coelho, os indios 
reunindo algumas tribus atacaram as fazendas e arraiaes, des- 
truindo tudo quanto encontravam. Alguns engenbos foram de 
todo abandonados por falta de gente e armas com que pudes- 
sem se defender. 

No Espirito-Santo tambem revoltaram-se os indios que tra- 
balhavam nas fazendas, matando a muitos dos sens senhores e 
destruindo as planta^oes. 



Que viver amargados instantes, 
Quer e pode e bem sabe morrer ! 



Ja tornado apoucado e pequeno, 
fJa eoberto de mortos o chSo I 



IX. 

Eia, avante ! o caudilho valente ! 
Potiguares la vcm denodados ; 
Tao cerrado concusso de gente, 
Ninguem viu nestas partes assim ! 
Poucos sao, mas briosos soldados ; 
Nao sao homens de aspecto jocundo ! 
Kestos sao, mas sao restos de um 

mundo ; 
Poucos sao, mas soldados por fim ! 



XVIII. 

Eis que os arcos de longe se encur- 

vam, 
Eis que as settas aladas ja voam, 
Eis que os ares se cobrem, se turvam, 
De f rexados, de surdos que sao. 
Novos gritos mais altos reboam, 
Entre as hostes se apaga o terreno, 



XIX. 

I^eito a peito encontrados afoutos, 
Bra9o a bra90 travados briosos, 
Fervem todos inquietos, revoltos, 
Qu' indicisa a victoria inda est^. 
Todos movem tacapes pesados ; 
Qual resvala, qual todo se enterra — 
No imigo que morde na terra. 
Que sepulchro talvez Ihe ser^ 

XX. 

" Mas Tabyra ! Tabyra ! que 4 dellet 
Onde agora se esconde o pujante ? * 
Nao n'o vedes ? ! — Tabyra 4 aquelle 
Que sangrento, impiedoso \& vai ? 
Vel-o-heis andar sempre adiante, 
Larga esteira de mortos deixando 
Traz de si, como o raio cortando 
Ramos, troncos do bosque, onde cai 

— G. Bias. 




GONgALVES DIAS. 



HISTORIA DO BRAZIL. 89 

Nesse tempo bavia rompido na Europa as hostilidades entre 

a Franca e a AllemaDha, e como D. Joao III declarou-se 

1553 

em favor de seu euiihado, o iniperador Carlos V, Coligny, 
almirante de Henrique II de Frun^a, mandou para o Brazil urn 
official hugueuote — Villegaignon — que estabeleceu-se 
na bahia do Rio de Janeiro e tomou posse da ilha que 
ainda hoje tem seu nome. 

Duarte da Costa pediu soccorros a Portugal que nada poude 
fazer por ter nessa eix)ca morrido D. Joao III, que deixou por 
unico herdeiro seu neto D. Sebastiao com tres annos de idade, 
tomando sua viuva, D. Catharina d'Austria, a regencia 
que durou de 1556 a 1570. Esta rainba foi absoluta- 
mente dominada por seu irmao Felippe II de Hespanba, que 
Alexandre Herculano ein sua nobre indigna^ao patriotica cbama 
o Carrasco de Portugal. 

Acabrunliado de desgostos Duarte da Costa abandonou o 
governo em 1557. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO VII. 

— Quem foi o segundo governador geral do Brazil ? 

— Quanto tempo governo 11 ( 

— Merece Duarte da Costa ser louvado por sua adniiiiistra9ao ? 

— Qual foi s» primeira difficuldade com que teve de lutar ? 

— Porque se retirou o bispo ? 

— O que acoiiteceu a D. Pedro Fernandas Sardinha depois de par 
tir para LisboaV 

— Em que anno morreu o bispo? e ccnio? 

— Que acontecimento se deu em S. Vicente ? 

— Quem veiu de Portugal com Duarte da Costa? 

— Que noticia trouxeram os jesuitas? 

— O que fez entSo o provincial Nobrega ? 

— Que horaem notavel levoa para Piratiniuga ? 

— O que tenciouava fazer em Piratininga o jesuita? 

— Porque foi fundar o coUegio mais para o interior? 

— Que nome se deu ao novo coUegio ? e porque ? 



40 HISTORIA DO BBAZIL. 

— Que nome tomou a capitania de S. Vicente? 

— Porque se revoltaram os fazendeiroe de Piratminga contra os 
jesuitas ? 

— Quem f oi o chefe dos revoltosos ? 

— Poz o governador terino i esta luta? 

— Que faziam no norte os indios ? 

— Podiam as caravellas portuguezas navegar pela costa em sf^ ; 
raiKja? 

— At^ onde chegaram as iiicursoes dos indios ? 

— Quem OS repelliu da Bahia? 

— Quaes foram os chefes mais notaveis dos indios? 

— Corao procederam os indios em Pernambuco depois que soube- 
ram da morte do donatario ? 

-7- Qual foi o resultado de suas correrias ? 

— Que acontecimentos se deram no Espirito-Santo? 

— Que aconteceu na Europa em 155-5? 

— Que partido tomou D. Joao ITT? 

— Quem era Coligny ? 

— Que fez elle relativamente ao Brazil? e porque? 

— Quem era Villegaignon? e o que fez? 

— Que medidas tomou Duarte da Costa? 

— Porque nSo Ihe vieram soccorros da mSe-patria? 

— Quem tomou as redeas do governo de Portugal depois da morte 
de D. Joao ITT ? e porque ? 

— Qnanto tempo durou a regencia de I). Catharina? 

— Quem exerceu absoluta influencia sobre ella? 

— Que nome dd Alexandre Herculano a Felippe IT ? 

— O que fez o governador geral vendo-se abandonado pelo governo 
de Portugal? 



HISTOBIA DO BBAZOt. 41 



CAPiTULo vm. 



* 



MEN DE SA. 
1557-1572. 

Men de Sd, irmao do poeta Sd de Miranda, foi o terceiro 
governador-geral do Brazil, e o uuico que mereceu ser chamado 
o Fae da Patria, 

Como vimos achava-se entao o Brazil em situa9ao tao critica 
que 86 urn magistrado do caracter, da cuergia e da illustra^ao 
do desembargador Men de 84 podia salval-o. Tambem um 
86 anno de sua admlnistra^ao activa, entendida e sobretudo 
honesta, nao se' passou sem que se exeeu- 
tasse alguma cousa de iinportante e util para *^*** 

, . Paolo IV (1659). 

a coionia. Pio iv ases). 

Logo que chegou niarcbou contra os Cahe- Gre^rio^ii(i'585). 
t6s, que nao cessavam suas correrias, e aos 
quaes desbaratou completaniente. Contra os Goytaeazes, que 
assolavara as capitanias de Ilheos, Porto-Seguro e Espirito- 
Santo, niandou sen filho Fernando dc Sd, que morreu nesta 
eainpanha ; inns foi vingado por sen pae e pelos jesuitas No- 
brega e Anchieta, que dirigiam os indios jd catechisados. Os 
Goyanazes foram em grande parte destruidos. 

Na Bahia reformou os tribnnaes, pondo termo aos abusos 
dos que estavam encarrejyados de administrar a justiga e que, 
l>or amor de lucro vil, provocavam innumeros litigios ; tambem 
empregou todos os meios ao seu alcance para acabar com o 
jogo, praga que se havia estendido a quasi todas as classes. 

Em 1560 dirigiu-se Men de SA contra os Francezes estabele- 
cidos em Villegaignon. O chefe estava ausonte e a ilha foi 
tomada depois de dois dias de desesperada resistencia, ficando 
prisioneiros muitos francezes e retirando-se os outros com os 
Tamoyos, sens alliados, para as matas do continente. 



42 



HISTOBIA DO BRAZIL. 



Depots seguiu Men de Sd para o sul e poz termo & luta entre 
Piratininga e S. Paulo, ordenando que a villa de Piratininga 
fosse transferida para S. Paulo, onde os jesuitas haviam jd 
fundado seu coUegio. 

O Rio de Janeiro comquauto pertencesse ao quinhilo de 
Martim Affonso de Souza, foi n3,o obstante desde logo con- 
siderado capitania exelusivamente sujeita d cor6a. 

No Espirito-Santo havia Men de Sd, a pedido dos colonos, 
recebido do velho donatario Vasco Fernandes Coutinho, que 
morreu no anno seguinte, 1561, o auto de renuneia da sua 
capitania, para a qual nomeou capitao-m6r o valente Belehior 
de Azevedo. 



O CANTO DO PIAGA. 



I. 



6 Guerreiros de Taba sagrada, 
6 Guerreiros da tribu Tupi, 
Fallam Deuses nos cantos do Piaga, 
6 Guerreiros meus cantos ouvi. 

Esta noite — era a lua ja morta — 
Anhanga me vedava sonhar ; 
Eis na horrivel caverna, que habito, 
Rouca voz come^ou-me a chamar. 

Abro OS olhos, inquieto, medroso, 
Manitos ! que prodigies que vi ! 
Arde o pau de resina f umosa, 
Nao f ui eu, nSo fui eu, que o accendi ! 

Eis rebenta a raeus p^s ura pban- 

tasma, 
Um phantasma d'immensa extensSo ; 
Liso craneo repousa a meu lado, 
Feia cobra se enrosca no chSo. 

O meu sangue gelou-se nas veias, 
Todo inteiro — ossos, cames — trerai, 
Frio borror me coou pelos membros, 
^o yento no rosto sent^. 



Era feio, medonho, tremendo, 
6 Guerreiros, o espectro que eu vi. 
Fallam Deuses nos cantos do Piaga, 
6 Guerreiros, meus cantos ouvi ! 



II. 

Porque dormes, d Pi^ga divino 1 
Come9ou-me a VisSto a fallar, 
Porque dormes ? O sacro instru* 

mento 
De per si ja come9a a vibrar. 

Tu nao viste nos ceus um negrume 
Toda a face do sol offuscar ; 
Nao ouviste a corn j a, de dia, 
Sens estridulos torva soltar ? 

Tu nao viste dos bosques a coma 
Sem aragem — vergar-se e gemer, 
Nem a lua de fogo entre nuvens, 
Qual em vestes de sangue, nascer f 

E tu dormes, o Pi^ga divino ! 
E Aphang^ te prohibe sonh^! 




Diiiii,'ii jiuerreirn e religiosa <lo$ Tii|>liiaiiibat< 




Coml att aintular entre dimt Xytaot^ 



HISTORIA DO BRAZIL. 



43 



Nao se descuidou Men de Sd de mandar practices explorar 
a terra nos lugares onde se suspeitava haver minas de 
ouro, de que em 1562 mandaram algumas amostras, 1561 
depots de muitas fadigas e da perda de muitas vidas. 

Neste mesmo anno teve o governador de attender a um novo 
perigo que ame9ava Porto-Seguro e llheos. Uma tribu de 
gentios ferocissimos — os Aymor^s — vindos recentemente do 
sertibo, invadiram e assolaram as duas eapitanias. £ram estns 
ti'ibus ainda mais selvagens que os Tupis ; nao construiam 
tabas nem can6as, nem usavam redes ; eram grandes corre- 
dores, mas nao sabiam nadar. O dialecto mni guttural era 



E tu dormes, d Pi^ga, e nSo sabes, 
£ nSo podes augurios cantar ? ! 

Ouve o annuncio do horrendo phan- 

tasma, 
Ouve 08 8OD8 do fiel Maraca; 
Manit68 ja f ugiram da Taba ! 
6 de8gra9a ! d ruina ! d Tupa ! 

III. 

Pelas onda8 do mar sem liinites 
Basta selva, sem folhas, hi vem ; 
Hartos troncos, robustos, gigantes; 
Vossas matas taes monstros contem. 

Traz emhira dos cimos pendente 
— Brenha espessa de vario cipd — 
Dessa s brenlias contem vossas matas, 
Taes e quaes, mas com folhas ; e' so ! 

Negro monstro os sustenta por haixo, 
Brancas azas abrindo ao tufjto, 
Como um bando de Candidas gar^as 
Que nos ares pairando — 1^ vSo. 

Oh! quem foi das entranhas das 

apru.ip, 
O marinho arcabou90 arrancar ? 



Nossas terras demanda, fareja . . . 
Esse monstro ... — o que vem ca 
buscar ? 

Nao sabeis o que o monstro procura? 
NSo sabeis a que vem, o que quer ? 
Vem matar vossos bravos guerreiros, 
Vem roubar-vos a filha, a mulher ! 

Vem trazer-vos crueza, impiedade — 
Dons crueis do cruel Anhanga ; 
Vem quebrar-vos a ma^a valente, 
Profanar Manitos, Maracas. 

Vem trazer-vos algemas pesadas. 
Com que a tribu Tupi vai gemer ; 
Hao de os velhos servirem de escrn- 

vos, 
Mesmo oPiaga inda escravohade sit! 

Fugireis procurando um asilo, 
Triste asilo por invio scrtao ; 
Anhanga de prazer ha de rir-se, 
Vendo os vossos quao poucos serao 

Vossos deuses, d Piaga, conjura, 
Susta as iras do fero Anhanga. 
Manitos ja fugiram da Taba, 
6 desgraya ! d ruina ! d Tupi ! 



44 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Inteiramente differente do das outras tribus. Eram tS.o dados 
& antropophagia que prefer iam a carne humana k dos animaes. 
Faziam incisoes nos bei9os e uas orelhas e nellas introduziam 
taboiDhas, que iam alargando & medida que a pelle que as 
segurava se ia disteudendo. Dabi vein que sao tambem chama- 
dos Botocudos por denominarem a tal taboinha hotoque, 

Immediatamente mandou o governador os soccorros neces- 
sarios dquellas capitanias ; mas os ferozes Aymor^s resistiram 
terrivelmente e deram aos eolonos sanguinolentos e renhidos 
combates em que fiearam vencidos, mas nao tao completamente 
que nao pudessem, annos mais tarde, fazer novas e homveis 
incursoes, tornaudo-sc assim em grande parte a causa do en- 
fraqueeimento e da destruigao destas eolenias. 

Na Bahia teve o governador de aeudir aos eolonos entre os 
quaes principiou a lavrar com tal intensidade a peste das 
bexigas, que era pouco tempo dizimdra a populagao e fizera 
voltar para as selvas a maior parte do gentio. Em seguida 
veiu a fome que reduziu a nova capital do Brazil a um tristis- 
simo estado de miseria. 

Apenas havia Men de Sd restabelecido a seguran9a e o 
socego no norte, quando sua atten^ao foi chamada para o im- 
minente perigo que corria a capitania de S. Vicente, onde a 
povoagao de S. Paulo f6ra atacada pelas hordas dos Tamoyos, 
que reunindo-se em grande numero baviam determinado acabar 
com o poder portuguez no Brazil. 

Tabyrigd com os da sua na^ao favoreciam os eolonos, que 
mesmo assim nao eram bastante fortes para repellir os Ta- 
moyos. 

Em tao criticas circumstancias apresentaram-se a Men de S& 
OS padres Nobrega e Anchieta, propondo-se a ir offerecer aos 
Tamoyos condigoes de paz. Estes illustres jesuitas com tanta 
babilidade e dedica9ao desempenbaram a sua missao que con- 
seguiram daquelles selvagens a promessa da cessa^ao das bos- 
tilidades, salvando assim a capitania de uma guerra terrivel e 
assoladora. 



HISTOBIA DO BBAZIL. 45 

Fonda^ao do Rio de Janeiro, 20 de Janeiro de 1567. 

— Em 1562 recebeu Men de S4 noticia da volta de Villegaignon 
e da recon8truc9ao do forte Coligny, e para destruil-o, pediu 
ao governo de Portugal que mandasse seu sobrinho Estacio de 
Sd com uma forte armada, o que Ihe foi promptamente eon- 
cedido. 

Estacio de Sd, logo que chegou ao Rio de Janeiro, forti- 
ficou-se na entrada da bahia para bloquear Villegaignon, e afim 
de tirar a sua gente qualquer id6a de retirada, despediu todos 
OS navios ; * mas passaram-se quatro annos sem que pudesse 
atacal-a. S6 em Janeiro de 1567, tendo chegado do sul os 
padres Nobrega e Anchieta com os indios, e Men de Sa com 
alguma tropa de S. Salvador, ficaram os Portuguezes em estado 
de eome9ar o combate, que durou dois dias, de 18 at6 20, dia 
de S. Sebastiao. O theatro da luta foram principalmente as 
praias de S**. Luzia, e Flamengo e as ilhas adjacentes. Depois 
da victoria lan^ou o padre Nobrega os alicerces da actual 
igreja dos Capuchinhos no morro do Castello, e o governador 
resolveu mudar a povoagao para o interior da baliia, dando-lhe 
o nome de cidade de S. Sebastiao do Rio de Janeiro e por 
armas um molho de settas. 

A excellente situa^ao da nova cidade fel-a rivalisar logo com 
Olinda e mesmo com Bahia. Ella foi capital do sul em 1573 e 
1608, e Pombal elevou-a a capital de toda a colonia em 1763 ; 
mas seu grande desenvolvimento foi em maior parte devido a 
D. Joao VI, que tomou-a por sua cdrte desde 1808 sM 1821. 
O Rio de Janeiro 6 hoje a segunda cidade da America do Sul. 

Em 1569 pediu Men de Sd sua exoneragao e foi mandado 
para o Brazil o quarto governador-geral Luiz de Vasconcellos^ 
cnja frota cabiu em poder dos corsarios inglezes Jacques Sore 
e JoSbO Capdeville, que assassinaram o governador, toda a tripo- 
la^So e qnarenta e tantos jesuitas, que vinham refor9ar as 
missoes do Brazil. 

* Afiatodei e Fernandp Cortes. 



46 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Em coDsequcncia desta calamidade teve Men de Sd de con- 
servar-se ainda no governo, e prestou de novo relevantissimos 
servi90S 4 colonia que se acliava em situa^ao bem critica. 

Em 1570 a regente D. Catharina entregou o governo a sen 
neto o rei D. Sebastiao, euja educa^ao f6ra exehisivamente con- 
fiada aos jesuitas. O primeiro decreto que o novo rei assignou 
foi o da liberdade dos indios no Brazil. 

Dest'arte foi novainente violado um dos prineipaes privilegios 

dos capitaes-mores — a escravidiio dos indios. As revoltas, 

porem, foram todas reprimidas durante o governo de Men de SL 

Foi este governador o primeiro que morreu no Brazil 

e sen corpo foi sepultado na Bahia junto ao tumulo do 

padre Nobrega, sen amigo. 



GOVERNADORES-GERAES DO BRAZIL. 

Thome de Souza (1549-1663). Duarte da Costa (156^-1657) 

Men de Sa (1557-1572). 



QUESTIONARIO-CAPITULO VIII. 

— Quem foi o terceiro governador-geral do Brazil? 

— Que titulo mereceu por sua excellente adiiiinistragao? 

— Em que estado achou elle o Brazil? 

— Que qualidades concorriam em Men de Sd para fazer delle o 
tnelhor dos govern adores ? 

— O que fez logo que chegou ? 

— Para onde mandou seu filho Fernando? E o que Ihe aconteceu? 

— Que foi feito dos Goyanazes ? 

— Que raedidas administrativas tomou na Bahia o governador? 

— Que fez em 1560 no Rio de Janeiro? 

— Como poz termo d luta entre Piratininga e S. Paulo? 

— A que donatario pertencia o Bio de Janeiro? 

— Que fez Men de Sd no Kspirito-Santo ? 

— A quem nomeou capitiio-mdr do Es])irito-Santo? 

— Qua! foi o resultado da explora^ao de terras auriferas em 1562? 



HISTORIA DO BRAZIL. 47 

— Que novo perigo aiiieai^ava Porto-Seguro e Ilheos ? 

— Quem eram os Aymores? E a que horrivel practica eram dados? 
-^ Em que differeii9avaiu-se da« outras tribusV 

— Couseguirain os colonos destniir os Avinoies? 

— Qual foi o resultado ilessas lutas para as capitaiiias de Ilheos e 
l*orto-Seguro? 

— Que calaniidades soffreu eiitao a Hahia? 

— Que poderosa confederac^ilo de iiidios se forniou no siil ? E com 
que inten9ao? 

— Que chefe de tribu era alliado dos portuguezes? 

— Quern conseguiu fazer a paz com os Tamoyos e salvar assim a 
colonia? 

— Em que dia, mez e anno foi fundada a cidade do Rio de Janeiro? 

— Que noticia recebeu Men de Sd em 1502? 

— Que providencias tomou contra os Francezes ? 

— Onde fortificou-se Estacio de 8a? E que ordens deu d frota? 

— Quanto tempo passou sem atacar o forte ? 

— Que auxilios recebeu em 1567? 

— Quantos dias durou o assalto? E qual o resultado? 

— Em que partes da povoa9ao foi mais renhido o combate ? 

— Depois da victoria, o que fez o padre Nobrega ? 

— Para onde mudou o governador a cidade? E que nome e annas 
Ihe deu? 

— Porque toniou-se logo importante a nova cidade ? 

— Quantas vezes foi ella capital do Sul? E quando? 

— Quem fel-a capital de toda a colonia? E quando? 

— A quem deve principal mente sen desenvolvimento? 

— Que lugar tem o Rio de Janeiro entre as cidades da America 
do Sul? 

— Quando pediu Men de SjI sua exonera(,*ao ? 

— Quem foi o quarto governador-geral do Brazil ? E o que Ihe 
aconteceu ? 

— Que fez entak) Men de 8d ? 

— Quando come90u o governo de D. Sebastiao ? 

— - Por quem fora educado? 

— Quai foi o primeiro decreto que assignou? 

— Que direito dos donatarios foi violado por este decreto? E o 
que resultou? 

— Em que anno morreu Men de Sa e onde foi sepultado? 



48 BISTOBIA DO BItAZIL. 



CAPITULO IX. 

O BRAZIL DrVTDroO EM DOIS GOVERNOS, NORTE B SUL: 

E DE NOVO REUNIDO EM UM SO. 

1572-1580. 

Em 1572 D. SebastiSo, em vista do grande desenvolvimento 
do Brazil, julgou mais conveniente dividil-o em dots governos 
distinctos — Norte e Sul. 

( Capital . . . . S. Salvador (Bahia). 
I. GrOVERNO DO NoRTE < Capitanias , . . Pernambuco, Baliia e Ilheos. 

(^ Govemador . . . Luiz de Brito e Almeida. 



II. GovERNO DO Sul 



f Capital .... S.SebastiSkO (Rio de Janeiro). 
J Capitanias . . . Porto-Seguro, Rio de Janeiro, 

S. Vicente e S. Amaro. 
Govemador . . D**"^ Antonio Salema. 






Foram portanto nomeados dois governadores : Luiz de Brito 
€ Almeida para o Norte, e o Z>"^ Antonio Salema para o Sul, 
e ambos se mostraram dignos da ardua missSlo de que foram 



GOVERNADORES GERAES DO BRAZIL (164&-1581). 

I. Thome' de Souza (1649-1558). 
II. Duarte da Costa (1553-1557). 
III. Men de Sa (1657-1572). Luiz de VasconcelloB (isbo). 

DiviSAO DO Brazil em dois governos — 

Norte, Luiz de Brito e Almeida (1572-1577). 
Sul. DO'. Antonio Salema (1572-1577). 

RbuniXo— IV. Luiz de Brito e Almeida (1577-1678). 
V. Louren90 da Veiga (1578-1581). 



HISTOBIA DQ BRAZIL. 49 

encarregados. Mas apezar da harmonia e unidade de pensa- 
meuto, que existia eutre elles, nao puderam deixar de recon- 
heeer os graves ineonvenientes da divisao das forgas, jd por 
si hem mingoadas, de que podia dispor o Reino para proteger 
e defender a colonia, que s6 devia sua recente prosperidadc d 
sua uniao no governo energico de Men de Sd. 

Os dois governadores reuniram-se em S. Salvador, e n'uma 
conferencia com os padres jesuitas e o ouvidor-geral Fernao 
da Silva, diseutiram a nova lei sobre a liberdade dos indios. k 
qiial addicionaram a clausula de que ficariani escravos os indios 
aprisionados na guerra (belli jure). 

Desta arte, nao obstante os esforgos dos papas e dos jesu- 
itas, conservou-se a escravidao dos indios, acereseendo a ella 
a introduc^ao de escravos africanos, os primeiros dos quaes 
foram importados no governo de Men de Sd. 

Luiz de Brito tratou logo de explorar o paiz e sujeitar os 
indios. Primeiramente ataeou as tribus que habitavam as mar- 
gens do Rio Real, as quaes desbaratou em alguns combates e 
prineipiou a colonisa^ao de Sergipe, norae que se deriva de 
Serigy (Ferrao de Serl), o valente morubixaba, que com outros 
chefes se rendeu ao governador. 

As tentativas que fez Luiz de Brito ao norte de Itamaracd 
para conquistar os indios, nao foram bem suceedidas, mas 
abriram o caminho para a fundagao da Parahyba do Norte. 

O D®^ Antonio Salema seguiu para o Sul e reunindo uma 
for^a consideravel marchou contra as liordas selvagens de Cabo- 
Frio, que faziam terriveis correrias nas colonias visinhas, 
instigadas por francezes contrabandistas de pau brazil, que ahi 
tinham uma feitoria. A luta foi renhida, mas os Tapuyas 
ficarara completamente desbaratados e fugiram para o sertao. 

Apezar destas victorias nao foi possivel, por f alta de recursos, 
a continua9§lo dos dous governos independentes, e os proprios 
chefes representaram d cor6a neste sentido ; de sorte que em 
1577 foi de novo a colonia reunida em um s6 governo, sob as 
ordens de Luiz de Brito, que no anno seguinte teve por successor 



60 HISTORIA DO BRAZIL. 

Louren^ da Veiga^ em cujo governo se deram os mais tristes 
acoatecimeiitos em Portugal. 

D. Sebastiao ambicioso de gloria e influido por trai- 
dores veiididos aos jesuitas e a Felippe II, partiu para 
a conquista de Marrocos, onde perdeu a flor de sens eavalleiros 
e elle proprio desappareceu na batalha de Alcaeerquibir (1578). 
Succedeii-lhe no throno seu velho tio-av6 o Cardeal D, Hen- 
rique (1578-1580), que s6 governou dois aunos e deixou 
indeeisa a successao. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO IX. 

— Quando foi o Brazil dividido em dois governos ? Por qneiii ? 
E porque? 

— Qual foi a capital do governo do Norte? Quantas capitaiiias 
comprehendia V Quern foi o governador? 

— Qual foi a capital do governo do Sul ? Que capitanias compre- 
hendia? Quem foi o governador? 

— Achavani-se os dois governadores em melhores condi^oes de 
fazer prosperar a colonia que seus antecessores ? 

— Havia rivalidades entre elles ? 

— Com quem conferenciaram em S. Salvador, antes de tomar conta 
(le seus respectivos governos ? 

— Sobre que discutiram com os jesuitas e o ouvidor ? 

— Que nova clausula addicionarani ao decreto de D. SebastiSo? 

— Qual foi o resultado de tal aaditamento ? 

— Alem dos indios que outros escravos havia no Brazil? 

— Quando se deu a primeira iniporta<^ao de africanos para o Brazil? 

— O que fez Luiz de Brito ? Que nova capitania colonisou ? 

— Porque se chamou esta colonia Sergipe ? 

— Que tentativas fez mais Luiz de Brito para explorar o paiz e 
Bujeitar os indios? 

— Qual foi o resultado da expedi9ao para o norte de Itamaracd ? 

— No Sul qual foi o primeiro cuidado do D^*". Salema? 

— Quem instigava os indios a atacar os colonos portuguezes? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 51 

-~ Que resistencia encontrou o !>'. Salema da parte dos indios? 
8 qual f oi o resultado da luta ? 

— Foram estas victorias favoraveis d continua9ao da divis^ da 
colouia? 

— Em que anno foram os dous govemos reunidos em um s<5 ? e 
quera foi o govemador ? 

— Qual foi o successor de Luiz de Brito ? 

— Que catastrophes derani-se em Portugal nesse tempo ? 

— Porque emprehendeu 1). Sebastiao a conquista de Marrocos? 

— Que grande desgra^a Ihe aconteceu, e aos sens valentes cavalleiros? 

— Em que anno se deu a batalha de Alcacerquibir ? 

— Quern succedeu no throno a D. SebastiSio? quanto tempo gover- 
nou ? e a quern deixou a coroa ? 



62 HIStOBIA DO BRAZIL. 



CAPITULO X. 

UNIAO TBERICA; O BRAZIL SOB O DOMINIO HESPANHOL; 
MANOEL TELLES BARRETO, SEXTO GOVERNADOR-GERAL. 

1581^1592. 

Tendo morrido o Cardeal-rei D. Henrique, apresentaram-se 
tres pretendentes : D. Antonio, Prior do Crato, filho do duque 
de Beja ; Catliarina de Guimaraes e Felippe II de Hespanha. 
Os dous primeiros com mais direitos que Felippe, que reela- 
mava os direitos de sua mae. O clero e a nobreza de Portugal 
foram comprados por Gregorio XIII. A pequena resistencia 
do Prior do Crato foi vencida pelo ducjue d'Alba, que mandou 
guarni^oes hespanholas para as prineipaes cidades portuguezas, 
e eonvocou as e6rtes em Thomar, onde foi estipulada a infeliz 
-^uniao iberica, — que Alexandre Herculano ehama — capti- 
veiro de sessenta annos. 

Portugal perdeu sua independeneia politiea, mas a Hespanha 
prometteu deixar aos Portuguezes sua coustituigao, a adrainis- 
tragao do thesouro e mesmo das provincias. Todas 
estas promessas foram gravemente violadas, e o Brazil 
soffreu relativamente muito mais que Portugal ; nao 86 foi 
nessa epoca inteiramente neglige neiado, eomo teve de soffrer 
ataques das grandes nagOes europ^as provoeadas pela politiea 
guerreira de Hespanha. 

BISPOS DO BRAZIL. 

I. D. Pedro Fernandes Sardinha (1550-1566). 
TT. D. Pedro Leitao (1559-1578). 
m. D. Antonio Barreiros (1574-1601). 



HISTORIA DO BRAZIL. 53 

Nota-se entSo a expedi^ao aventureira de D. Antonio, que 
chegou com alguns navios ao Rio de Janeiro, com in- 
ten9ao de tornar a eolonia um reino independente ; mas 
foi-lhe prohibido o desembarque por Salvador Correa de Sd, 
que jd ha via reeonheeido a Felippe II. 

Foi ainda no governo de Louren9o da Veiga que foi feita a 
exploragao do caudaloso rio de S. Francisco por Joao 
Coelho de Souza, e a do interior do sertao at^ Minas por 
Antonio Dias Adorno, que de Id trouxe amostras de turmalinas 
6 amethystas. Foi tambem explorado o porto do Maranhao 
com alguns dos rios que nelle desemboccam. Por esse mesmo 
tempo vieram para o Brazil os primeiros monges Bene- 
dictinos, Carmelitas e Capuchinhos. 

Em 1581 morreu Loiurengo da Veiga, e ficou o Brazil exposto 
a grandes irregularidades. A camara de S. Salvador dirigida 



CONTEMPORANEOS. 

Papas. 

Sixto V (1686-1590). Gregorio XIV (1691). 

Urbano VII (1690-1591). Innocencio IX (1692). 

Clemente VIII (1692-1605). 

Ihperadores da Allemanha. 
* Maximiliano II (1572) 

Eodolfo (1610) Mathias (1619). 

Reis de Franqa. 
Henrique II (1559) = Catharina de Medicis 

Felippe n B Isabel FranciBCO n Carlos IX Henrique IH Margarida Francisco, 
I (1660) (1576) (1689) -Henrique IV Duque de 

Olara Biig«oiA. (1610) Al^on 

IVOLATBRBA. 

ImM a Grande (1658-1608). 



54 HISTORIA DO BRAZIL. 

por um intrigante, Rangel de Macedo, fez com que se retirasse 
o bispo Barreiros, governador provisorio ; mas restabeleceu-se 
a ordem com a chegada do primeiro governador nomeado pelo 
rei de Hespanha. 

Manoel Telles Barreto (1582-1587), que proclamou amnistia 
geral e ganhou as sympathias de todos os partidos. 

Felippe II estava nesse tempo em guerra com tree na9des : 
Inglaterra, Fran9a e HoUanda. O governador cuidou logo em 
fortificar S. Salvador, Rio de Janeiro e o porto do Recife, cujas 
fortalezas ainda em parte hoje existem. Mandou diversas 
expedi^oes & Parahyba do Norte, onde os indios haviam des- 
truido o forte de S. Felippe, retirando-se os Portuguezes 
para Itamaraed ; mas s6 em 1586, com o auxilio de uma 
frota hespanhola ao commando de Diogo Flores Valdez, de con- 
certo com o chefe indio Piragybe, poude retomar aqiiella posi9ao. 
Esta capitania da Parahyba do Norte teve por primeiro 
governador Frnctuoso Barboza. 
Foram sem duvida relevantes os servi^os prestados ao Brazil 
por Manoel Telles Barreto. Restabeleceu a ordem na colonia 
anarchisada ; cobrou as dividas da Fazenda ; regiilarisou o 
commercio de escravos entre os traficantes e os fazcLdeiros ; 
mandou fazer explora^oes do terreho ; e tratou especial mente, 
como sua principal missao, da defensa do Brazil. 

Por morte deste governador (1587), recebeu o bispo, segundo 
a carta regia, de novo o governo provisorio, que exerceu digna- 
mente nt^ 1592. 



GOVERNADORES DO BRAZIL. 

Louren90 da Veiga (1578-1581), 5°. Governador-geral. 
D. Antonio Barreiros (1581-1582), Governador provisorio. 
Manoel Telles Barreto (1582-1587), 6°. Governador-geral. 
D. Antonio Barreiros (1587-1592), Governador provisorio. 



HISTORIA DO BBAZUi. 55 



QUESTIONARIO.-CAPITULO X. 

— Quando morreu o Cardeal-rei D. Henrique, quantos e quaes 
foram os pretendentes a coroa de Portugal? 

— Com que direito apresentou-se Felippe II? 

— Como influiu o papa para que a Hespanha ficasse senhora de 
Portugal ? 

— O que aconteceu ao pretendente Prior do Crato ? 

— Que medidas energicas tomou o duque d'Alba? 

— O que foi resolvido pelas cortes em Thomar ? 

— Que nome dd o patriota A. Herculano i. epoca da sujei9ao de 
seu paiz i. Hespanha? 

— O que perdeu Portugal pela uniao com a Hespanha ? 

— Que promessas fez a Hespanha aos Portuguezes ? 

— Foram cumpridas essas promessas? 

— Qual foi a sorte do Brazil nesse triste periodo ? 

— Porque foi desf avoravel ao Brazil o tratado de Thomar ? 

— Quem teuton fazer nesse tempo do Brazil uma na9ao indepen- 
dente ? e porque nSo levou a effeito o seu projecto ? 

— Que explora^oes se fizeram no governo de Louren^o da Veiga? 

— Que ordens religiosas vieram estabelecer-se no Brazil em 1580 ? 

— Quando morreu Louren9o da Veiga ? E como ficou o Brazil ? 

— Quem foi o govemador provisorio ? 

— Porque se retirou? 

— Quem restabeleceu a ordem em S. Salvador ? 

— Quanto tempo govemou Manoel Telles Barreto? 

— Que medidas empregou e com que resultado ? 

— A que na96es havia Felippe II declarado guerra? 

— Qual foi o primeiro cuidado do governador ? 

— O que fez elle relativamente d Parahyba do Norte? 

— Que acontecimentos se deram na Parahyba ? 

— Quando foi ella reconquistada ? 

— Quem auxiliou ao governador nesta conquista? 

— Quem foi o primeiro govemador da Parahyba do Norte ? 

— Que 8ervi90s prestou ao Brazil Manoel Telles Barreto ? 

— Quem succedeu no governo a Manoel Telles Barreto ? 

— Quanto tempo govemou o bispo D. Antonio Barreiros ? 



56 UISTOKIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XI. 

D. FRANCISCO DE SOUZA E DIOGO BOTBLHO. 

1588-1608. 

Em 1588 partiu de Lisboa o governador Francisco Giraldes 
nomeado para o Brazil ; mas aconteceu que o galeao em que 
vinha arribou duas vezes, o que attribuiu a aviso do ceu, e 
portanto resignou o cargo, que foi mais tarde dado a 
D. Francisco de Souza (1591-1602) que veiu em 
1591 tomar posse do governo, que fdra perto de quatro annos 
exercido pela junta provisoria. 

Neste mesmo tempo (1588) perdera a Hespanha sua "inven- 

civel armada" sob as ordens do duque de Medina Sidonia e 

principiaram os corsarios estrangeiros a atacar differentes pon- 

tos da costa do Brazil. Thomaz Cavendish, corsario 

inglez conliecido por suas depredagoes na India, aportou 

em S. Vicente, que saqueou, deixando para vigial-a sen piloto 

Cook, emquaiito fazia uma excursao ao sul. Na volta achando 

a cidade em grande parte roubada pelos proprios habitantes, 

incendiou-a. Foi em seguida atacar os portos de Santos 

e da Victoria, donde foi repellido com grandes perdas. 

ESCRIPTORES CONTEMPORANEOS. 

Gabriel Scares viveu muitos annos no Brazil e foi escriptor origina- 
lissimo e encyclopedico. Seu estylo comquanto nao apurado 4 encantAdor 
e suas descrip^Oes exactissimas, tao profunda e sustentada era sua maneira 
de observar as cousas. Escreveu sobre corograpliia, topographia (perfeita 
descrip9ao da Bahia) ; phytologia (excellente explica9ao das plantas do 
Brazil) apezar de n3o ter estudado botanica; historia; hydrographia ; 
agricultura intertropical e especialmente brazileira ; materia medica indi- 
gena ; madeiras ; mineralogia ; zoologia ; e ate economia administrativa. 

Fernao Gardlniy provincial dos jesuitas no Brazil, foi o autor da 
Narrativa Epistolar, cartas em que descreve com naturalidade e fluencia 



HISTORIA DO BRAZIL. 67 

Mais fataes ainda foram os ataques de Lancastre e Venner 

contra Recife e Olinda, onde demoraram-se tree mezes e 

'594 
86 se retiraram depois de aprisionar todos os navios da 

costa. '595 

Apresentaram-se tambem os corsarios hollandezes Har- 
teman e Broer, precursores da grande guerra hollandezai 

Em 1598 celebrou Felippe II com a Fran9a o tratado i59* 
de Vervins e conserVou-se a paz entre as duas na9oes 
at^ a morte de Henrique IV de Fran9a (1610). ' ^^ 

Um bahiano Roberio Dias apresentou-se a Felippe II offere- 
cendo-se para mostrar as jazidas de riquissimas minas de prata, 
e pedindo em recompensa o titulo de " Marquez das Minas." 
Felippe II negou-lhe o titulo ; mas deu ordem a Fran- 
cisco de Souza que mandasse expedi9oes ao interior para 
descobril-as. Gastou-se em vao gente, cabedal e tempo, n'uma 
epoca em que toda a energia era necessaria para a defesa e 
desenvolvimento do paiz. 

Com este mesmo governador, porem, nota-se progresso na 
colonisa9ao do Norte. A tribu dos Pitagoares (Rio Grande 
do Norte) amea9ava constantemente a nova colonia da 
Parahyba, e algumas expedi96es baviam sido mal suc- 
cedidas. Jeronymo de Albuquerque marchou d frente de uma 
pequena tropa, ganhou alguns morubixabas e com seu auxilio 
destruiu grande parte da tribu. Este mesmo capitao fundou 

a opulenta e maravilhosa natureza sul-americana. Foi Cardim quern 
attrahiu d Cc npanhia o valente campe§lo do jesuitismo, o padre Antonio 
Vieira. 

Segundo as obras de Gabriel Soares e FemsU) Cardim achavam-se as 
capitanias do Brazil em 1581, quando passaram para o dominio de Hes* 
panha, nas seguintes condi95e8 : — 

A Parahyba tinha um engenho e rendia o monopolio de pau brazil 
quarenta mil crusados por anno ao Estado. Os jesuitas que se haviam 
estabelecido nesta capitania foram della expulsos pelos benedictinos que 
attrahiram a si todos os habitantes. 

Em Itamaracd prosperava a villa da Concei92bO, onde ja trabalhavam 
«re8 engenhos. 



68 BIBTOBIA DO BBAZH.. 

no dia de Natal de 1598 a fortaleza doB Tres Beis Magos, que 
ainda hoje defende a capital do Rio Grande do Norte. 

£m 1598 D. Francisco de Souza deixando como sea lugarte- 
nente na Bahia, o capitiio m6r Alvaro de Carvalho, fez uma 
excursao ds capitanias do sul. Visitou primeiro o Espirito- 
Santo, onde reinava a paz e a segunin^a desde que Miguel de 
Azeredo sujeitdra o gentio pclas armas, de tal sorte que os 
colonos podiam a salvamento intemar-se'por centos de leguas 
para o sertao. 

Dahi segiiiu para o Rio de Janeiro, que desenvolvia-se 

extraordinariamente pelo commercio com o Perd pelo 

Rio da Prata. Contiimou sua viagem por S. Vicente, Santos 

e S. Paulo, cujos emprehendedores habitantes jA come^avam 

a devassar os sertoes e acossar os indios que escravisa- 

l602 ^ 

vam ; mas chegando as terras da Laguna, ja encoutraram 
opposi9ao dos jesuitas que ahi haviam erguido uma capella e 
travado rela96e8 amigaveis com Tacaranha^ o morubixaba 
daquellas tribus. 

Estava D. Francisco de Sonza ainda no sul em busca 

l602 

de informagoes de minas, a cuja preocupagao sacrificou 
seus deveres mais sagrados, qiiando desembarcou na Bahia o 
seu successor. 



Pernambuco era do todas as capitanias a que dava maiores rendi- 
mentos, v cujos habitantes se distinguiani pela cortezia do seu trato e o 
luxo do que se rodeavani. Contava scssenta e seis engenhos, que por 
anno produziani mais de duzcntas mil arrobas de assucar. £m Olinda 
havia uma boa igreja matriz e muitas capellas, um coUegio jesuitico com 
cursos de primeiras letras e latim, e boas casas de pedra e cal. No Recife 
havia apenas um come<;(> <le povoado com alguns armazens. 

A JBahia, im})ortante como a capital de toda a cohmia, possuia dois 
mil colonos, quatro mil escravos africanos e seis mil indios catechisados. 
Contava trinta e seis engenhos. Em suas dczeseis freguezias havia um 
collegio dos padres, um mosteiro de S. Bento e outro de capuchos, e mais 
de quarenta igrejas e capellinlias, e em S. Salvador acbavam-se bons 
edificios. No collegio dos jesuitas havia cursos de theologia, humanidades 
e artes, alem do de primeiras letras. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 59 

Diogo Botelho (1602-1608), que encontrou na sua adminis- 
tra^ao serias difficuidades, nao porque Ihe faltassem zelo e 
energia, mas por serem os tempos bastante eriticos e de pro- 
va9ao. Teve que lutar contra inimigos externos, ataques do 
gentio no interior, desfalque das rendas publicas, e alem de 
tudo isso uma terrivel oppo8i9ao da parte do novo bispo e dos 
jesuitas. 

Tendo morrido em 1598 o rei Felippe II, suecedera-lhe no 

throno sen filho Felippe III (1598-1621), que tomdra por con- 

selheiro o conde de Lerma, que eelebrou um tratado « ^ 

^ 1598-1621 

de paz com os Inglezes e os Hollandezes. Mas 

isto de nada valeu d colonia, que ainda em cima foi atacada 

pelos Franeezes irritados pela allian9a da Hespanha com a 

Austria. 

Os ataques dos coi*sarios continuaram incessantes contra o 
Brazil-colonia. 

O governador foi de todos os modos perseguido pelo bispo, 
que pouco antes delle chegdra, D. Constantino Barradas, que 
conspirou com os jesuitas para exoneral-o ; mas a desharmonia 
entre os clericaes fez mallograr a intriga, que muito concorreu 
para.o mau exito das expedi9oes do norte, as quaes tinham 
por fim fundar uma nova capitania. 



IllieoSy Porto-Seguro e Bspirito-Santo, apezar da fecundidade de 
seu solo, dos muitos rios que as regam, e de seus excellentes portos, 
haviam tido pouco desenvolyimento. 

Nos Ilheos so havia a povoa9ao de 8. Jorge com uns cincoenta colonos, 
tres engeiihos e algumas ro9as de algodSlo. 

Porto -SegHTOy alem da villa capital com quarenta colonos e um en- 
genho de assucar, tinha o povoado de Santa Cruz e duas aldeas de indios. 

O EiSpiritO' Santo possuia cento e cincoenta colonos, seis engenhos de 
assucar, muito gado e algodSes e mais gentio manso que as outras capi- 
tanias, de sorte que quasi nSLo se viam escravos africanos. 

O Rio de Janeiro^ fundado havia entao vinte annos, tinha cento e 
cincoenta colonos, tres engenhos, um collegio jesultico e um hospital. 

S. Vicente e S. Amaro muito longe de progredir estavam em atrazo, 
piela mudan^a de muitos colonos para o Rio de Janeiro e as rapinas dos 



60 HISTORIA DO BRAZIL. 

Quanto d civilisa9ao dos iudios julgava Diogo Botelho que 
OS lueios empregados pelos padres jesuitas de separal-os em 
aldeas suas, em nada eram proveitosos ao estado, nem mesmo 
ao progresso moral dos selvagens, e portanto fez varias propo- 
stas ao governo, no intuito de mandal-os vir para os povoados, 
onde ainda que com alguma quebra de sua liberdade, se associ- 
assem aos trabalhos e ao modo de vida dos colonos. Os 
jesuitas, porem, a isto se oppuzeram tao fortemente que o 
governador nada conseguiu, antes viu-se obrigado a embarcar-se 
para Portugal, sem esperar a cbegada do seu successor. 



piratas que repetidas vezes as tinhani assolado, especialmente a villa de 
S. Vicente, da qual s<J mais decadente havia a villa da Concei9ao de Ita- 
nhaem. Tainbem havia falta de bra908 em Santos e S. Amaro, que nao 
obstante tinha uma fortaleza bem guarnecida. S. Paulo era o povoado 
mais importante. 

O assucar era naquella epoca a principal produc9ao do Brazil, que 
possuia cento e vinte engenhos. Um engenho e equivalente a uma grande 
povoa(;ao, e alem de necessitar de muitos trabalhadores, representa terras 
de cannaviaes, de mato, de pasto e de mantimentos. O rendimento era de 
setenta mil crusados por setecentos mil quintaes de assucar que produziam 
OS engenhos. 

E'triste dizer que o nieio mais rapido de fazer entao f ortuna era o 
trafico dos negros. 

Em summa era o Brazil a mais importante das colonias portuguezas 
que tinham-se sujeitado a Hespanha ; pois que as colonias da Asia ja iam 
em decadencia devida a erros da administra9ao e a fraqueza do pequeno 
Portugal, que desde a morte de X). Manoel, gemia sob a pressSo odiosa 
da politica hespanhola e mais tarde a dos jesuitas, e da inqui8i9§k) que 
desastradamente perseguia os judeus e os christaos uovos. 



HISTOBIA DO BBAZIL. 61 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XI. 

— Quern foi o governadbr geral nomeado era 1588 para o Brazil? e 
porque nao tomou conta do governo ? 

— Em que anno terniinou o governo da junta provisoria? 

— Quern foi nomeado govemador geral em 1591 ? E quanto tempo 
govemou ? 

— Que perda soffrera a Hespanha em 1588? 

— Qual foi para o Brazil o resultado da perda da " invencivel ar- 
mada"? 

— Quem foi Thoraaz Cavendish? O que fez em S. Vicente? 

— Que outros portos do Brazil atacou ? e com que resultado ? 

— Que corsarios atacaram Recife e Olinda? quando e como se re- 
tiraram ? 

— Quem eram Harteman e Broer ? 

— Com quem celebrou Felippe II em 1598 o tratado de Vervins e 
com que resultado? 

— Que proposta fez Roberio Dias a Felippe II ? E o que conse- 
guiu? 

— Que ordens do rei recebeu D. Francisco de Souza? 

— Como cumpriu o governador as ordens de Felippe II? 

— Qual foi o resultado das expedi^oes para o descobrimento das 
minas ? 

— Que acontecia no norte nessa epoca? 

— O que f aziam os Pitagoares ? E que lugar habitavam ? 

— O que fez Jeronymo de Albuquerque para salvar a Parahyba V 
E que f ortaleza fundou ? 

— Para onde se dirigiu D. Francisco de Souza em 1598? e a quem 
deizou em seu lugar na Bahia ? 

— Qual foi a primeira capitania que visitou? e em que estado a 
encontrou ? 

— Para onde seguiu? e porque prosperava tanto o Rio de Janeiro? 

— Que outras capitanias visitou ? 

— Em que jd se occupavam os Paulistas ? e que opposic^ao encon- 
traram no sul? 

— Quem chegou i Bahia em 1602 ? 

— Onde estava D. Francisco de Souza ? 

— que f azia elle no sul ? 



62 HISTOKIA DO BBAZIL. 

— Quern foi Diogo Botelho? Quanto tempo govemou? 

— Porque Ihe foi difficultosa a adrniuistra^ao? 

— Que aconteceu iia metropole em 1598 ? 

— Quem succedeu no throiio a Felippe II ? e quantos annos gover- 
nou ? 

— Quera era o primeiro niinistro de Felippe III? 

— Que tratado celebrou com os Inglezes e HoUaudezes? 

— Em que aproveitou o tratado i. colonia? 

— Que novos inimigos a atacaram? e porque? 

— Que soffreu o govemador do bispo e dos jesuitas ? 

— Que mdu effeito produziram essas desaven9as sobre a colonia? 

— Relativamente aos indios em que discordavam Diogo Botelho e 
OS jesuitas? quaes foram as propostas do govemador? e que resul- 
tado tiveram? 



mSTOKIA DO BEAZIL. 68 



CAPITULO XII. 

SEGUNDA DrVTSAO DO BRAZIL EM DOIS GOVERNOS : RE- 
UNIAO COM D. LUIZ DE SOUZA; PRIMEIRA RELAglO DO 
BRAZIL; OS FRANCEZES NO MARANHAO. 

1607-1621. 

Em 1607 D. Diogo de Menezes, que foi depois primeiro conde 
de Ericeira,* nomeado governador geral para o Brazil, desem- 
barcou em Pernambuco, onde demorou-se um anno, afim 
de organisar a admini8tra9ao das capitanias do norte, e ' 
fortificar-lhes os portos. Em seguida dirigiu-se para a Bahia, 
onde apenas chegado recebeu a inesperada noticia de que as 
capitanias do sul haviam de novo sido separadas para 
formar um governo e capitania geral d parte. 

Sabemos que em 1604 se eredra em Lisboa para administrar 
o Brazil um Conselho igual ao Conselho da India instituido em 
1550 por Carlos V para administra9ao dos quatro vice-reinados ; 
mas sua ae9ao foi desde o prineipio annullada pelo despotismo 
dos reis de Hespanha, que teneionavam extender a coloni8a9ao 
at6 o Amazonas, e procurar no sul as riquezas mineraes. Pnra 
este fim foi mandado em 1608 para o sul D. Francisco de Souza 
como governador geral e superintendente das minas, o qual 
govemou at6 1610, e teve por successor sen filho D. Luiz de 
Souza, que desde 1616 at^ 1620 reuniu outra vez os dois 
governos em um s6. 



* Deste excellente governador, que tSo relevantes 8ervi908 prestou ao 
Brazil, temos toda a correspondencia de proprio puiiho e a importante 
obra historica, — Ras&o do Estado do Brazil no governo do Norte sdmente 
assim como o ieve D, Diogo de Menezes at€ anno de 1612. 



64 HISTOBIA DO BKAZIL. 



I. GOVEBNO DO 



' Capital . . . S. Salvador (Bahia). 

Capitanias . . Pemambuco, Bahia, Ilheos, Parahyba do 
Norte | Norte, Rio Grande do Norte, Sergipe. 

Governador . D. Diogo de Menezes. 



I 



II. Govern© do 

SUL 



Capital . . . S. Sebastiao (Rio de Janeiro) . 
Capitanias . . Espirito- Santo, Rio de Janeiro, S. Vi* 

cente.* 
. Governador . I). Francisco de Souza. 



As explora96es mineralogicas nao deram resultado ; mas en- 
tao coine9arain as expedi^oes paulistas em busca de escravos 
indios. Foram elles, os Paulistas, os verdadeiros descobridores, 
e depots os civilisadores do vasto sertao do Brazil. Os chefes 
paulistas iani buscar escravos ao Paraguay, e at6 mesmo d 
Africa. Entre elles se nota Lacerda de Almeida^ o explorador 
da regiao do Congo, cujas descobertas estao sendo eonfirmadas 
pelos tres grandes exploradores da Africa : Livingston, Stanley 
e o major Serpa Pinto. 

Foi no governo de D. Diogo de Menezes que se installou na 
Bahia a priraeira Rela9ao do Brazil (1609)t composta de oito 
deserabargadores vindos do reino, dos quaes era presidente 
Gaspar da Costa. 



* A capitania de S. Amaro estava como encorporada com a de S 
Vicente, porisso trataremos de ambas como se fossem so uma. 
t O Brazil possue actualmente 11 Rela95es: — 

I. Bahia (1009) Felippe III. 

II. Rio de Janeiro (1751) D. Jose' I. 

III. S. Luiz (1811) D. Joao VI. 

IV. Recife (1821) 

V. Belem (1873) D. Pedro II. 

VI. Fortaleza (1873) 

VII. S. Paulo (1873) 

VIII. Porto-Alegre (1873) 

IX. Ouro-Preto (1873) « 

X. Cuyaba (1873) « 

XL Goyaz (1873) « 



« 



mStOttlA DO BRAZIL. 66 

O govemador teve que sustentar uma renhida luta com os 
jesuitas a respeito dos indios, e com o bispo D. Constautiuo 
Ban*adas, que confiado na protec9ao escandalosa da cdrte de 
Madrid dominada pela Companhia, pretendia ter parte no poder 
administrativo que s6 era da competencia do governador. 

Como seu predecessor, nao approvava D. Diogo de Menezes 
o systema jesuitico de aldear os indios separadamente, f6ra de 
toda jurisdi9ao civil e da convivencia social com os colonos. 
£lle pensava com rasao que o gentio apartado das villas e 
cidades nao podia civilisar-se e ganhar habitos de policia e 
decencia e muito menos adquirir sentimentos verdadeiramente 
religiosos ; ao passo que as povoa9oes perdiam nelles trabalha- 
dores e defensores, que serapre necessarios, o eram entao muito 
mais nas condi9oes criticas em que se achava o Brazil-colonia. 
Portanto empenhou-se com todo o zelo para obter da cdrte um 
regulamento, pelo qual pudessem ficar as aldeas dos indios mais 
snjeitas ao governo civil, e conseguiu que a este respeito se to- 
massem algumas providencias. 

86 muito mais tarde (1759) foi esta questao dos indios 1759 
resolvida pelo marquez de Pombal. 

Quanto k colonisa9ao do norte propoz D. Diogo de Menezes 
a cria9ao de tres novas capitanias : uma no Jaguaribe on Ceard ; 
uma no Piauhy e uma no Maranhao. 

Mandou para o Ceard a Martim Soares Moreno,* que no porto 
proximo & ponta de Mocuripe, fundou uma aldea com um pre- 
sidio fortificado, donde procedeu chamar-se FortcUeza a 
povoa9ao que foi crescendo e que vein a ser a capital da 
capitania, cujo primeiro governador foi o mesmo Martim Soares 
Moreno, seu fundador. 

* Martim S. Moreno era Tenente do Rio Grande do Norte, e de muito 
joven estivera no Jaguaribe, onde se reiacionara com os indios, como elles, 
deizlira-se cottar ^ na pelle, e era muito amigo de um chefe indigena, que 
prestou-lhe grande auxilio na funda^SLo da nova aldea. 

^ Cottar significa tauxear de cdres a pelle ; o raesmo que tatuir. 



66 HISTORIA DO BBAZIL. 

D. Diogo de Menezes foi substituido em 1610 por Gaspar de 
Souza, que foi residir em Pemambaoo. 

Funda^ao de Maranhao e PariL — O tratado de Ver- 
vins autre Felippe II e Henrique IV rompea-se 'no goyerno de 
Felippe III e os corsarios franeezes Jacques Riffault e Charles 
de Vaux vieram ao Brazil explorar terreno para uma eolonia. 

Tendo morrido Henrique IV, a regente Maria de M^dicis, 

mandou (1612) para o Brazil a Daniel de La Ravardi^re com 

uma frota, cujo pavilhao trazia o escudo dos Bourbons 

com OS tres lirios e a orgulhosa divisa : Tanti duces 

femind facti. La Ravardi^re fundou na ilha do Maranhaio a 

colouia de S. Luiz em honra a Luiz XIII. 

Mandou Gaspar de Souza em 1613 para a mesma regiao uma 
frota ao commando de Jeronymo de Albuquerque,* que nao 
tinha ordem term i nan te de atacar os Franeezes, e iK>rtanto 
limitou-se, com o auxilio de Martim Soares Moreno, a fundar 
ao norte do Ceard a eolonia de Nossa Senkora do Rosario. 

Kutretanto chegaram da Hespanha ordens definitivas de ex- 
pulsar OS Franeezes, e iim re forgo de dois mil homens com que 
Jeronymo de Albuquerque tomou aos Franeezes suas pousessoes 
sobre o continente ; mas faltando-lhe material para atacar 
o forte da ilha de 8. Luiz, celebrou com elles um armisti- 
cio de um anno. Terminado este prazo chegaram refor^os de 
Hespanha, sob o commando de Alexandre de Moura,t que as- 
senhoreou-se da fortaleza, capitulando La Ravaixii^re coin 
as honras da guerra. 

* Este capitao era irmao de Mathias de Albuquerque e " experimentado 
nas cousas do sertuo e dos indios e grande truxamante ou lingua entre 
elles, e com nome de seu bemfeitor e parente . . . mui acceito e conhecido 
em toda aquella costa/* 

t Alexandre de Moura, que fora capitao em Pernambuco, chegou ao 
acampamento de Jeronymo de Albuquerque com o titulo de Governador 
geral da Armada e Conquista, e portanto com autoridade superior a de 
Jeronymo de Albuquerque. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 67 

Jeronymo de Albuquerque foi nomeado governador da nova 
capitania com o titulo de BarUo do MaranMo. 

Alexandre de Moura mandou para o Pard ao Coroiiel Fran- 
cisco Caldeira Castello Bianco, que fundou Belem e foi o 
primeiro governador da capitania do Grao-Pard (1616). 

Nesse tempo extendia-se o Brazil desde o Amazonas at6 ji 
bahia de S. Vicente (900 leguas de costa). 

Felippe III reuniu as tres capitanias do norte — Pard, Ma- 
ranhao, e Cear4 — e fundou com ellas o Estado do Maran- 
JiHo (1621). Este rei morreu neste mesrao anno e com 
seu successor Felippe IV principiou para o Brazil o triste pe- 
riodo da guerra da Hollanda (1624-1654), que termina 
com o tratado de Hava (1661). 

O governador geral Gaspar de Souza havia sido em 1617 
substituido por D. Luiz de Souza, governador das tres capita- 
nias do sul, o qual vein acabar com a fatal id^a de sepa- 
ra9oes em terras e povos, e reuniu sob sua jurisdi 09^10 
OS governos do norte e do sul. Teve por successor em 1622 a 
Diogo de Mendon9a Furtado. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XII. 

— Que novo governador geral chegou a Pernambuco em 1607 ? 

— Quanto tempo alii se deniorou ? e para que ? 

— Que noticias recebeu na Bahia? 

— Qual foi o resultado da crea9{io do Conselho da India relativa- 
mente ao Brazil ? 

— Com que fim especial foi D. Francisco de Souza niandado para o 
sul, como governador geral? e em que anno? 

— Quanto tempo governou ? e quem foi seu successor ? 

— Qual era a capital do governo do Norte ? quaiitas capitanias coni- 
prehendia? e quem foi o governador? 

— Quem foi o governador do Sul ? Sobre quantas capitanias exten- 
dia-se sua juri8dic9£lo ? e qual era a capital ? 

— Qual o resultado das explora96es das minas? 



68 HISTOKIA DO BRAZIL. 

— O que 86 nota a respeito dos Paulistas ? 

— Foraiu suas expedi9oes proveitosas ao Brazil? e at^ onde se ex- 
tenderam ellas ? 

— Qual f oi o mais notavel dos Paulistas exploradores da Africa ? 

— Que regiao daquelle contiuente f oi explorada ? e que outros no- 
taveis viaj antes tern confirmado as asser^Ses de Lacerda de Almeida? 

— Quaiido foi installada a primeira Rela9ao na Bahia ? 

— Quantos membros contava? e quern foi seu presidente? 

— Teve o goveruador desaven9as com o clero? 

— Porque motivo se desaveiu com o bispo ? e com os jesuitas ? 

— O que pensava D. Diogo a respeito do aldeamento dos indios se- 
gundo o systema dos jesuitas? e qual era esse systema? 

— Que grande mal provinha desse systema para os indios ? para as 
povoa9oes ? 

— Que medidas tomou o goveruador ? 

— Quando foi resolvida essa quest§[o da escravidSo dos indios ? 

— Quantas capitanias creou D. Diogo? quaes? e onde? 

— Para onde mandou a Martim S. Moreno? e quando? 

— Onde f undou elle o povoado que vein a ser capital da capitania ? 
que nome teve ? e porque ? 

— Quem foi o primeiro goveruador do Ceard? 

— Em que anno foi substituido D. Diogo? e por quem? 

— Onde foi residir Gaspar de Souza? 

— Qual foi o resultado do rompimento do tratado de Vervins entre 
a Fran9a e a Hespanha ? 

— Em que anno veiu Daniel de La Ravardifere para o Brazil ? 

— Quem o mandou? e que pavilhao trazia a ndu capitanea? Qual 
era a divisa? 

— Que colonia f undou La Ravardi^re? onde? e porque chamou-a 
S. Luiz? 

— O que fez o goveruador geral quando soube que os Francezes se 
tinham estabelecido no Maranhao? 

— O que fez Jeronymo de Albuquerque ? quem o auxiliou ? 

— Quando expulsou elle os Francezes do contiuente ? e porque nSo 
tomou a ilha de S. Luiz do MaranhSio ? 

— Por quanto tempo foi celebrado o armisticio? 

— Quem foi Alexandre de Moura? 

— Como se retiraram os Francezes? 

— Quem foi o goveruador da nova capitania ? e que titulo recebeu? 



HISTOKIA DO BBAZIL. ^9 

— Quern foi Francisco C. Castello Branco? 

— Qual era ent^ a extensSlo da costa do Brazil? 

— Quando foi f iindado o Estado do Maranhao f For quern ? De 
quantas capitanias se compunha ? 

— Quando morreu Felippe III ? quem foi seu successor ? 

— Quando foi o Brazil atacado pelos HoUandezes ? quanto tempo 
durou esta guerra? com que tratado termina? 

— Quem substituiu a Gaspar de Souza e em que anno ? 

— Quem era D. Luiz de Souza? e que niudan9a fez no govemo? 
»— Quem succedeu a D. Luiz de Souza ? e quando ? 



70 HISTOBIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XIII. 

PKIMEIRA INVASAO HOLLANDBZA. 

1624-1625. 

Hespanha e Hollanda autes da guerra hoUandeza. — 

Em 1477, com a morte de Carlos o Teraerario era Nancy, 

annexou-se a Bourgogne k AUemanha pelo 
Reis de Hespanha casamcnto de Maria de Bourgoff ne com 

e Portugal. ° ^ 

Peiippe II (166^-1598). Mtiximiliano I. 

F^ii^re rJSao. A Hollanda e a Belgica (Batavia e Wallo- 
16^)^**'^"*^** **^ *^^ ^^^) formavam a parte mais importante do 

dueado de Bourgogne, e sens povos haviam 
se desenvolvido admiravelmente pelo commercio, e pela agri- 
cultura e industria. 

Maximiliano I e sen neto e successor Carlos V, tambem rei 

de Hespanha (Carlos I) deixaram a estes dois paizes 

grandes privilegios. Carlos V nascido em Gand (1500), 

nem siquer prohibiu nelles a introduc9ao da doutrina de Cal- 

vino. 

Pela abdica9ao de Carlos V herdou Felippe II, sen filho 

unico, as possessoes da dynastia Habsburgo-Aragao e 

deixou a administra9ao da Hollanda e Belgica a sua 

irma Margarida de Parma. Contra a fraca regente revoltaram- 

se OS habitantes do norte e Felippe II mandou para \& o tyran- 

nico duque d'Alba, afim de A tor^& introduzir a inquisi9&o, a 

HEROES HOLLANDEZES. 
Jacob Willickens, almirante. Alberto Shouten, official, 

Pieter Heyn, vice-atmirante, Wilhelm Shouten, official. 

Johan van Dorth, general. Hans Ernest Kiff, official, 

Hendrickzoon, official. 




JOAO k'KENANUKS VllOKA (CASTIUOTO LUSITAHO) 



mSTOBIA DO BRAZIL. 71 

alcavalla e os monopolios. Este governador fez correr rios de 
saD&:ue, e mandou decapitar o conde de Horn 

° ^ Statholden da 

e o duque de Egmont. Tudo foi em vao. O dynastia 

mais habU dos conspiradores, Guilherme o Nassau-Orange. 

m 'J. X • A n I, • Guilherme I (1579-1684) 

Taciturno, lugiu para a Allemanna e auxi- Mauricio (i625). 

liado por Isabel a Grande da Inglaterra, Guuherme A^Cieso). 
adversaria de Felippe II, poude depois de 
uma guerra desastrosa alcanqar a liberdade (I650-1672). 

que proclamou em Utrecht (1579). So^elTj wftt. 

Foi elle o primeiro statholder da nova 
repubhca das Provmciaa-Unidas. Guilherme iii (I672- 

Guilherrae I o Taciturno foi logo assassi- Reldeingiaterm (less). 
nado pelas intrigas de Felippe II ; mas suc- 
cedeu-lhe sen illustre filho Mauricio (1625), em cujo governo 
fundou-se a companhia das Indias Orientaes, que gosava de 
direitos soberanos, do mesmo modo que a antiga confede- 
ra9ao hanseatica e a das eidades de Aragao. 

Na Hespanha durante esse tempo predominou a politica paci- 
fica do duque de Lerma, mas depois da morte de 
Felippe III, encetdra o conde de Olivares um sys- 
tema contrario. 

Os Hollandezes crearam uma nova Companhia das Indias 
Occidentaes com o fim de estabelecer na America uma colonia 
tao lucrativa como a de Batavia, no archipelago de Sonda, per- 
teneente d Companhia das Indias Orientaes. A nova Compa- 
nhia era dirigida pelo Conselho dos XIX, que para estabelecer a 
colonia escolheu o Brazil, em rasao de sua proximidade e do 
abandono em que se achava. 

HEROES PORTUGUEZES. 

D. Marcos Teixeira, bispo. Antonio Cardoso de Barros, official, 

Mathias de Albuquerque, governador Francisco Fadilha, official, 

de Pemambuco, Salvador Correa de S^, official. 

D. Fradique de Toledo Ozorio, almi- Diogo de Mendon9a Furtado, gover- 

rante hespanhol, nador geral (1621-1624). 

Loiireii9o Cavalcanti. 



72 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Ao passo que a Hollanda desenvolvia-se extraordinariamente, 
enfraqueciam-se de dia a dia Poiiiugal e Brazil. Assim expli- 
cam-se as grandes vantagens das aimas hollandezas na primeira 
epoca da guerra. 

Tomada de S. Salvador pelos Hollandezes (3 de maio 
de 1624). — Em frente a S. Saivador apresentou-se no dia 1°. 
de maio de 1624, parte da grande frota hoUandeza da Compa- 
nhi|i das Indias Occidentaes, que se reunira antes no archipelago 
dos A9ores. O commandante Wilhelm Shouten notando gi*ande 
confusao na cidade, ataeou immediatamente sem esperar o resto 
da frota com o general Johan van Dorth. Depois de um pe- 
queno borabardeamento o exercito hoUandez entrou sem resis- 
tencia, aprisionando no proprio palacio o governador Mendonga 
Furtado, seu filho e mais alguns cavalheiros. Toda a cidade 
foi occupada pelos Hollandezes. No dia seguinte chegou o 
general com o almirante Pieter Heyn, que proclamou amnistia 
geral afim de atrahir os habitantes para a cidade e aproveital-os 
na agricultura. 

O bispo Teixeira, porem, reanimou os fugitivos que se arma- 
ram e formaram pequenos bandos de guerrilhas sob o commando 
dos capitaes Cardoso e Cavalcanti. 

Entretanto foi aberta a carta regia que designava para suc- 
cessor de Mendon9a Furtado a Mathias de Albuquerque, gover- 
nador de Peruambuco, que seguiu logo para S. Salvador e deu 
d resisteneia mais regularidade. 

GOVERNADORES DO BRAZIL. 
1583-1624. 

Manoel Telles Barreto (1683-1587). D. Francisco de Souza (1692-1602). 

Diogo Botelho (1607). 

2*. DivisXo : 
»T f D. Diogo de Menezes (1610). ^ , f D. Francisco de Souza (1610). 
^'^ * I D. Gaspar de Souza (1()1()). ^ " ^ D. Luiz de Souza (1616). 

GOVERNADORES GERAES. 
p. Luiz de Souza (1616-1620). Diogo de Mendon9a Furtado (1624). 



HISTOBIA DO BBAZIL. 78 

Os Hollandezes soffreram logo grandes perdas em consequen- 
cia de epidemias e outras causas. Seu general Johan van Dorth 
foi morto em eombate singular pelo capitao Padilha. Pietei 
Heyn sahira com a frota a fazer explora^oes, mas seu desem« 
barque no Espirito-Santo foi impedido por Salvador Correa de 
Sd, govemador do Rio de Janeiro, que se dirigia para o norte 
em soccorro de S. Salvador. A guarni^ao hollandeza tambem 
faltava regularidade de commando, e houve uma revolta contra 
Alberto e Wilhelm Shouten, que foram mortos. O commando 
foi dado a Ernest EifT. 

Finalmente chegdva aos Brazileiros soccoito da Europa com 
o almirante D. Fradique de Toledo Ozorio. A cidade foi cer- 
cada por mar e por terra e capitulou a 1°. de maio de 1625.* 

Foram os HoUandezes mandados em tres navios para sua 
patria. No caminho encontraram uma frota que vinha em seu 
auxilio, mas o almirante Hendrickzoon nao quiz atacar. 

No dia 1®. de maio de 1625, um anno depois de haver sido 
S. Salvador tomada por Wilhelm Shouten, arvoraram-se de novo 
nas muralhas as bandeiras portuguezas vencedoras. A Bahia 
estava restaurada. Entre os valiosos objectos entregues pelos 
invasores notam-se duzentos e dezenovc canhoes. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XIII. 

— A que na9^ annexou-se a Bourgogne em 1477? e como? 

— O que eram entao a Hollanda e a Belgica ? e em que estado se 
3ichavam ? 

— O que em favor destes dois paizes fizeram Maximiliano I e Car- 
los V? 

— Como herdou Felippe II os estados da dynastia Habsburgo- 
AragSo? 

* Durante a segunda inyasSLo hollandeza foi S. Salvador atacada mais 
tres vezes, — por Mauricio de Nassau em 1638; por Lichtart em 1641; 
e por Sigismundo von Schoppe em 1646, — mas sempre victoriosamente 
defendida pela braviira do9 Fortuguezes. 



74 HISTOBIA DO BRAZIL. 

— A quern confiou Felippe II a administra9So da HoUanda e Bel- 
gica? e o que aconteceu no governo de Margarida? 

— Para que mandou Felippe II o duque d'Alba para a Hollanda e 
Belgica? o que fez o tyrannico governador? e qual o resultado de suas 
crueldades ? 

— Quem era Guilherme o Taciturno ? para onde fugiu ? quern o 
auxiliou ? o que conseguiu ? e quando ? 

— Que titulo tomou Guilherme? que nome deu ao paiz que fundou? 
como e quando morreu? e quem Ihe succedeu? 

— O que era a Companhia das Indias Orientaes ? quando f undou-se 
e de que direitos gosava ? 

— Que mudan9a entao se deu na politica de Hespanha? 

— Com que fim crearam os Hollandezes a Companhia das Indias 
Occidentaes ? quem era seu presidente ? que lugar escolheu para f un- 
dar uma colonia ? e porque ? 

— Em que condi96es achava-se a Hollanda? e Portugal? 

— Porque a principio tiveram vantagem os Hollandezes ? 

— Que acontecimeiito se deu em S. Salvador em 1°. de maio de 
1624? 

— Quem era o commandante desta parte da frota ? e o que fez ? 

— Qual foi o resultado do ataque repentino de Wilhelm Shouten ? 

— Que foi feito da cidade ? 

— Quando chegou Pieter Heyn e porque proclamou amnistia geral ? 

— O que fez o bispo D. Marcos Teixeira? 

— Quem succedeu a Mendon^a Furtado? e como? 

— Para onde foi Mathias de Albuquerque ? e o que fez ? 

— Que calamidades softreram os Hollandezes? 

— Como morreu o general Johan van Dorth ? 

— O que fez Pieter Heyn ? e quem o impediu de tomar o Espirito- 
Santo? 

— Como morreram Alberto e Wilhelm Shouten? e a quem foi dado 
o commando da pra9a? 

— Quem trouxe aos Brazileiros soccorros da Europa? e o que fez 
D. Fradique ? e qual o resultado do sitio ? 

— Que foi feito dos Hollandezes ? e quem encontraram, quando 
voltavam para a patria? 

— Quanto tempo esteve S. Salvador em poder dos Hollandezes? 



HISTORIA DO BRAZIL. 76 



CAPiTULO xnr. 

SEOUNDA INVASAO HOLLANDEZA At£ A EXONERAQAO DB 

MATHIAS DE ALBUQUERQUE. 

1630-1635. 

No intervallo da primeira d segunda invasao hollandeza 
notam-se alguinas explorayOes de Pieter Heyn na8 costas do 
Brazil, sendo o facto luais importante a tomada dos galeoes 
de ouro do Mexico em 1628. N'um bombardeamento de S. 
Salvador morreu o capitao Padilha. 

O Conselho dos XIX resolveu empregar todas as suas ri- 
quezas em colon isar um terreno vasto e fertil, e escolheu a 
provincia de Pernambuco. 

O conde de Olivares avisado dos projectos da Hollanda, 
mauddra ordem a Mathias de Albuquerque para voltar a Per- 
nambuco ; havendo jd desde 1G26 nomeado governador geral 

HOLLANDEZES. 

H. Comeliszoon Loncq, commandante. Sigismundo von Schkoppe, genercd, 

Adrjens Patrid, almtrante. Lichtart, general. 

Diederich Weerdenburgh, general. Artichoffsky, official. 
Rembach, general. 

PORTUGUEZES. 

Mathias de Albuquerque, general. Femandes Vieira, capit&o. 

D. Antonio Felippe CamarSo (Poty), JoSLo de Mattes Cardoso, capitQo. 

chefe dos indios. Pedro de Albuquerque, capitdo. 

Henrique Dias, che/e dos pretos. Salvador Azevedo, prior dosjesuitas, 

Antonio de Lima, capitHo. Domingos Femandes Calabar, per- 
Cjpriano Pitta Portocarreiro, capit&o. nambucano. 

HESPANHOES. 
D. Antonio Oquendo, almirante. Conde de Bagnuolo, general. 

GovBBVADOB OBBAL : Diogo Luiz de Oliveira. 



76 HISTORIA DO BRAZIL. 

da Bahia a Martinho de Sd, governador do Rio de Janeiro in- 
dependente de Diogo Luiz de Oliveira. 

A Hespanha nao poude soccorrer suas colonias por causa de 
graves crises na Europa : os* exercitos hespanhoes foram entao 
batidos na Allemanha por Gustavo Adolfo, o heroico rei da 
Suecia ; em Napoles o aventureiro pescador Mazzanielo procla- 
indra a republica ; e a Catalunba e Milao estavam revoltadas 
por causa de impostos exagerados. 

Em 14 de fevereiro de 1G30 apresentou-se em f rente do 
Recife a frota hollandeza composta de setenta navios e sete 
mil homens. Seu comraandaute Corneliszoon ordenou logo a 
Adriano Patrid que principiasse o bombardeamento dos fortes 
S. Francisco e S. Jorge, e debaixo do fogo da artilheria 
desembarcou com a tropa o general Diederich Weerdenburgh. 

Vencida a pcquena resistencia que tinha Mathias de Albu- 
querque preparado sobre o rio Doce, perto de Pau-Amarello, foi 
tomada Olinda. 86 o convento dos jesuitas estava disposto 
para a defesa, mas o prior Azevedo entregou-o sem combate, 
ao passo que o capitao Lima defendeu-se valentemente por 
quinze dias nas fortalezas, obtendo por fim licen9a para re- 
tirar-se com as arm as. 

Os Pernambucanos, eomo os Bahianos em 1624, passado o 
l)rimeiro susto, recobraram animo e influidos por seu valente 
chefe Mathias de Albuquerque, come^aram uma forte resisten- 
cia contra as for9as superiores de Corneliszoon Loncq. Habil 
estrategico, Mathias de Albuquerque estabeleceu o acampa- 
raento do Bom-Jesus entre Olinda e Recife e confiou a sens 
proprios chefes o commando das differentes ra^as com que foi 
obrigado a formar seu exercito. Os colonos portuguezes eram 



CONTEMPORANEOS (1024-1635). 

Allemanha; Fernando III (1610-1637). Papas; 

Franc'a : Luiz XIII (1610-1643). Paulo V (1605-1621). 

I Carlos 1 (1649). Urbane VUI (1644). 



HISTOBIA DO BRAZIL. 77 

commandados por Femandes Vieira ; os indios por Felippe Ca- 
marao ; e os negros por Henrique Dias. Este exercito formado 
de tres ra^as differentes, durante cinco annos conservou-se 
unido combatendo pela patria e pela religiao que professavam.. 

Em 1631 chegaram para ambos os partidos refor^os da Eu- 
ropa. As duas esquadras encontraram-se nas aguas da Bahia. 
A nau almirante de Adriano Patrid incendiou-se logo no prin- 
cipio da luta, e elle julgando a batalha perdida, lan^ou-se ao 
mar com seu pavilhao exclamando : '^O oceano 6 a unica 
sepultura digna de um almirante vencido." 

D. Antonio Oquendo, almii'ante hespanhol, desembarcou parte 
de suas tropas na Bahia e outra parte nas Alagoas, sob o com- 
mando do conde de Bagnuolo, que sem deten^a marchou 
para o arraial do Bora- Jesus. Assim poude Mathias de 
Albuquerque come^ar a offensiva com bom resultado, e expul- 
sou OS HoUandezes de Potengy (Rio Grande do Norte), de 
Nazareth (Pernambuco) e de Porto-Calvo (Alagoas) . 

Nestes combates distinguiram-se os capitaes Pitta Portocar- 
reiro, Cardoso e Pedro de Albuquerque. 

A felicidade das armas brazileiras durou at^ 1632, quando os 
HoUandezes receberam consideraveis refor90s e os excellentes 
generaes Rembach, Lichtart, Sigismundo von Schkopp6 e 
Artichoffsky. 

Alem disso desertou para o acampamento de Weerdenburgh 
o pardo Calabar, o Iphialtes do Brazil, que raostrou aos Hol- 
landezes os caminhos pelos quaes poderiam raais facilmente 
derrotar as for^as de Mathias de Albuquerque. 

1624. — Tomada de S. Salvador por Wilhelm Shouten. 

1625. — Retomada de S. Salvador por D. Fradique de Toledo Ozorio. 
1628. — Captura dos galeOes do Mexico por Pieter Hejn. 

1630. — Segunda invasSLo hollandeza no Recife. Arraial do Bom-Jesus. 

1631. — Combate naval na Bahia e victoria do almirante hespanhol D. 
Antonio Oquendo sobre o hoUandez Adryens Patrid, que atirou-se ao 
mar. Incendio de Olinda por Weerdenburgh. ExpulsSko dos HoUan- 
desea do Bio Grande do Norte^ de Pernambuco e ^lSi;^ Ma.^c^«^^. 



78 HISTOJRIA DO BRAZIL. 

No anno seguinte reconquistaram os HoUandezes todas as 
fortalezas perdidas, apezar de heroicas resistencias, como a do 
Leonidas de nossa historia, Pedro de Albuquerque, o heroe do 
forte do Rio Formoso, o qual com vinte homens defendeu- 
o contra o exercito hoUandez, at^ perder o ultimo de seus 
soldados (tal qual o valente rei de Esparta nas Thermopylas) , 
e a quem os proprios HoUandezes honraram exaltando sua 
admiravel coragem. 

Animado por estas victorias preparou Rembach o ataque do 
campo do Bom- Jesus, mas foi repellido e morto. 

Em 1631 f6ra Olinda incendiada por Weerdenburgh.* 

Tendo Mathias de Albuquerque em 1634 noticia de uma ex- 

pedi^ao hollandeza contra o Maranbao, reuniu suas ul- 

^ ^^ timas for9a8 e atacou o Recife ; mas foi mal succedido e 

jg este grande revez accarretou-lhe no mesmo anno a perda 

do sen acampamento do Bom-Jesus (1635). 

Entretanto foram pelos HoUandezes occupadas as costas <le 
Pernambuco e Alagoas, e Mathias de Albuquerque temendo 
perder as communica^oes com a Bahia, preparou a retirada. 
Com grande patriotismo reunirara-se ao sen exercito muitas 
familias pernambueanas, em numero de mais de oito mil 
pessoas. 

Na marcha para as Alagoas atacou Porto-Calvo, que tomou 
de assalto, aprisionou o commandante Picard e condemnou A 
forca o traidor Calabar, que ahi foi encontrado. A fortaleza 
foi arrazada, o que prova a fraqueza de Mathias de Albu- 
querque, que empregou todos os meios possiveis para defender 
sua provincia. 

Este gi'ande general e patriota foi raal recompensado pelo 
eonde de Olivares, que desconhecendo seus servi90S, mandou 
exoneral-o vergonhosamente e substituir pelo general Rojas y 



* Era naquelle tempo tradi9ao popular que o incendio de Olinda havia 
side um anno antes prophetisado por frei Kosario, que annunci^ra : ** Em 
ma anno sera, incendiada Olinda por Olanda.'* 



HISTORIA DO BRAZIL. 79 

Borjas, que chegoa com o novo governador geral Pedro da 
Silva o Duro (1635-1638). 

Cinco annos mais tarde, no dia 1°. de dezembro de 1640, foi 
declarada a independencia de Portugal por D. Joao IV, que deu 
a Mathias de Albuquerque o commando de uma for9a conside- 
ravel, com a qual alcan^ou sobre os Hespanhoes a victoria do 
Mondego. Talvez seja este na bistoria o unico exemplo de um 
general vingar-se dignamente de um rei. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XIV. 

— ^.Que acontecimentos se derara no intervallo da primeira i, se- 
guiida invasSo hollandeza ? 

— Onde morreu o capitSo Padilha ? 

— O que fez o Conselho dos XIX relativamente a Pemambuco? 

— O que ordendra o conde de Olivares a Mathias de Albuquerque ? 
e porque? 

— Quem era o governador geral ? 

— Quem era Martinho de Sd? e em que anno foi nomeado governa- 
dor geral? 

— Porque nSo soccorreu a Hespanha a sua colon ia brazileira? 

— Que aconteceu ao exercito hespanhol na AUemanha? 

— Quem era Gustavo Adolf o ? 

— O que fizera o pescador Mazzanielo em Napoles entSo sujeito ^ 
Hespanha ? 

1632. — Chegam poderosos refor908 para os HoUandezes. 

1633. — Tomada do Forte do Rio Formoso por Sigismundo von Schkoppe. 
Ataque mallogrado do Bom-Jesus. Rembach morto. 

1634. — £xpedi9SL0 hollandeza contra o MaranhSLo. Ataque mallogrado do 
Recife por Mathias de Albuquerque. Tomada do Bom-Jesus pelos 
HoUandezes. 

1635. — Retirada de Mathias de Albuquerque de Pemambuco. Assalto de 
Porto-CalYO (Alagoas) ; prisSLo de Picard ; morte de Calabar. Chegada 
de Pedro da Silva e de Rojas 7 Borjas. £xonera9So de Mathias de 
Albuqoerqiie. 



80 HISTOBIA DO BRAZIL. 

— Qual a causa da revolta da Catalunha e MilSo? 

— Quando apreseiitou-se iio Recife a frota hollandeza? de quantos 
navios se compunha? e que foi^as trazia? 

— Quern era o coiumandaiite e o que fez logo que chegou? 

— Como desembarcou Weerdenburgh ? onde encontrou resistencia? 
e que cidade tomou ? 

— Estava Olinda preparada para defender-se ? 

— Qual foi o procedimento do prior Azevedo? 

— O que fez iiestas circuinstancias o valente capitSLo Lima? 

— Passado o primeiro susto, o que resolveram os. Pemambucanos ? 

— Onde fortificou-se Mathias de Albuquerque ? e a quern deu o 
commando das differentes ra9as de que se compunha seu pequeno ex- 
ercito? Quem commandava os Portuguezes ? os indios? os negros? 

— Que sublimes la90s moraes ligaram por cinco longos annos estas 
tres ra^as tilo differentes em condi9ao, costumes e cultura? 

— Quando chegaram refor9os da Europa? 

— Onde se encontraram as duas esquadras ? 

— O que aconteceu d ndu almirante de Patrid? E qual foi o re- 
sultado deste incendio ? 

— Quem era o almirante hespanhol? e o que fez? 

— Quem era o conde de Bagnuolo? e para onde se dirigiu? 

— Porque tomou Mathias de Albuquerque a offensiva? e donde ex- 
pulsou OS IloUandezes ? 

— Que chef es se distinguiram nesses ataques ? 

— Quanto tempo durou a felicidade das armas brazileiras? 

— Que vantagem tiveram entao os HoUandezes ? 

— Quem era Calabar ? e porque e comparado com Iphialtes ? 

— Que fizeram os HoUandezes em 1633? 

— Quem era Pedro de Albuquerque? que guarni9So commandava? 
8 como se portaram seus soldados ? 

— Que parallelo tem na historia a heroicidade de Pedro de Albu- 
querque e de seus vinte companheiros de armas ? 

— Como foi a sua briosa resistencia apreciada pelos proprios inimi- 
gos? 

— Que aconteceu a Olinda em 1631 ? e por quem foi incendiada? 

— O que resolveu Mathias de Albuquerque em 1634? 

— Que desastre Ihe sobreveiu em 1635? 

— Que posi9oes f oram entao occupadas pelos HoUandezes ? 

— Porque determinou Mathias de Albuquerque a retirada? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 81 

— Que bello exemplo de patriotismo deram entSo oB Femambuca- 
nos? 

— O que aconteceu em Porto-Calvo ? Quern era o commandante da 
pra9a? e que foi feito delle? Como trataram ao traidor Calabar? 

— Porque foi a fortaleza arrazada? 

— Que recompensa da Hespanha tiveram os seryi9os de Mathias de 
Albuquerque ? 

— Quern era Rojas y Borjas? com quern veiu ? e quaudo? 

— Como se vingou Mathias de Albuquerque de Felippe IV ? 
quando ? 

— Quem foi acclamado rei de Portugal em 1640? 

— Que circumstancias concorreram para enuobrecer a vingan9a do 
heroico goveruador de Peruambuco ? 



82 HI8T0RXA DO BBAZIL. 



CAPITULO XV. 

GUEBRA HOLLANDEZA DESDE A EXONERAgiO DB MATHIAS 
DE ALBUQUERQUE ATE A INDEPENDENCIA DE PORTU- 
GAL E ACCLAMAglO DE D. JOiO IV NO BBAZIL. 

1635-1641. 

O novo commandante hespanhol, Rojas y Borjas, contra a 

opini^o dos valentes capitaes dos Independentes,* tomou a of- 

^ ^ f ensiva ; mas perdeu 00m seu exercito a vida na batalha 
1636 

da Matta-Redonda (1636). 

Os bandos de guerrilheiros foram outra vez reunidos pelo 
conde de Bagnuolo, que encetando urn systema de sortidas, 
sustentou a guerra nos dois annos que se seguem (1636-1638). 
Nesses combates distinguivam-8e o indio CamarUo^ o preto 
Henrique Bias e os capitaes Rebello, Souto e Andr^ VidcU de 
Negreiros. 

Principiam tarabem na Hollanda as lutas politico-religiosas 
(Agostinianos e Pelagianos, Orangistas e Republicanos) e por 
isso Artichoffsky nao recebeu refor^os. 

Horrorosas crueldades de parte a parte assignalam esta 
epoca, em que formaram-se tambem os bandos dos Pahnares 
(Quilorabos). 

Elste estado de guerra sem vantagens decisivas mudoa-se 
corapletamente para os Holland ezes com a chegada do 
principe Mauricio de Nassau-Orange. 

O Conselho dos XIX resolvido a dar a sua colonia mais 
estabilidade, reuniu o poder militar e administrativo n'uma sd 

* Nome que tom^ra o pequeno, mas bravo exercito de Mathias de 
Albuquerque. 



HISTOKIA DO BBA2IL. 88 

pessoa — o neto de Guilherme o Taciturno, o principe Mauricio 
de Nassau, que alem de illustre naseimento, possuia os grandes 
dotes de bom estrategico e excellente admin is trader. Assim 
tinha um poder quasi absoluto. 

Chegando este principe ao Recife em 1637, fez uma reforma 
radical na administra9ao, diminuiu os impostos e proclamou a 
tolerancia religiosa. For sua intelligencia, suas qualidades e 
seu poder poz elle em grande perigo as possessoes portuguezas 
no Brazil. 

Em seguida marchou para as Alagoas, e teudo dahi expul- 

sado a Bagnuolo com suas guerrilhas, marcou por limite do 

dominio hespaniiol o rio de S. Francisco ao sul, onde levantou 

tres fortes a que deu seu nome : Mauricio^ Nassau^ e Orange, 

Reedificou Olinda incendiada por Weerdenburgh e deu-lhe 

1037 
tambem o nome de MauricSa (1637). 

Em 1638, a instancias do Conselho dos XIX, armou uma 
expedi^ao contra S. Salvador. 

O governador Fedro da Silva, anxiliado por Bagnuolo, repelliu 
a frota hoUandeza, que vingou-se destniindo os arrebal- 
des da cidade e as fazendas da ilha de Itaparica. 

Chegando estas noticias a Fortugal, preparon-se logo uma 
frota, cujo commando foi dado ao conde da Torre, D. Fernando 
de Mascarenhas, tambem nomeado governador geral (1638- 
1640). Era esta a maior armada que jamais viram as 
aguas do Brazil. 

O conde da Torre com a id^a de refor^ar a sua esquadra 
retardou o ataque, deixando assim que os inimigos recebessem 
soccorros; e s6 dez mezes depois, quando reuniu d armada 
mats vinte e tantos navios, com os quaes elevou o numero de 
seus vasos a oitenta e nove, decidiu-se a dar a vela para Fer- 
nambuco. Como a invendvel armada, porem, foi tambem esta 
destruida em maior parte pelos temporaes, de sorte que sua 

STATHOLDERS DA HOLLAND A. 
Frederico I (1626-1647). 



84 HISTOEIA DO BBAZIL. 

aniquila92lo pouco custou & frota hoUandeza sob o commando 
de Corneliszoon e Lichtart. 

O conde da Torre foi exonerado e substituido por D. Jorge 
de Mascarenhas, marquez de Montalvao, primeiro vice-rei do 
Brazil, o qual foi elevado a esta dignidade afim de entrar em 
conferencias com o principe Mauricio. 

Os projectos de paz nao se realisaram por causa do grande 

acontecimento de 1°. de dezembro de 1640 em Portugal, que 

foi declarado independente pela revolu^ao de Lisboa e accla- 

mado rei D. Joao IV que foi reconhecido por todas as 

possessoes portuguezas. 

Apezar de ter o cardeal de Richelieu preparado a RestauragSo 
de Portugal, e de continuar. a auxilial-a contra a Hespanha, 



CONTEMPORANEOS. 
UnijCo Ibbrica y— Di/nastia de Aragdo (1681-1640): 

Felippe II (1581-1508). Felippe III (1621). Felippe IV (1666), 1640. 

Portugal — Dynastia de Bragan^a (1640-1822) : 

Catharina Guimanles = Luiz de Bragan^a 

D. Joao IV (1040-1650) = D. Luiza de Guzman 

I • 

Stuarts I ^-| 1 

Carlos II = D. Catharina D. Affonso VI (1667) D. Pedro II (1706) 

^^^^^ D. Joao I (1760). 

Inglaterra — Dynastia Stuart (1603-1714) : 

Carlos I (1625-1649). Republica (1649-1669), CromweU. 

Fnxvq A — Dynastia Bourbon (1589-1789): 

Luiz XIII (1610-1643). Luiz XIV (1716). 

Allemanha — Dynastia Ilabshurgo-Styria (1619-1740) : 
Fernando II (1619-1637). Fernando HI (1667). 

Italia — Papas : 

Urbano VIII (1623-1644). Innocencio X (1666). 



HISTOBIA DO BBAZIL. 85 

que immediatamente declarou a guerra a Portugal, achou-se 
D. Joao IV nimiamente fraco e por todas as formas tratx>u de 
alliar-se ds na9oes europ^as afim de ser legitimamente reconhe- 
cido, e com effeito o foi pelo tratado de Westphalia (1648). 

Esta fraqueza de D. Joao IV teve as peiores consequeDcias 
para o Brazil. O principe Mauricio, aproveitando a oceasiao, 
occupou OS terrenos ao sul do S. Francisco (Sergipe) e tomou 
por limite o rio Real. Mandou tambem atacar a Bahia pelo 
general Joppert Lichtart (1640) ; mas ainda desta vez sem 
resultado. Deu entao Lichtart A vela para Maranhao e esten- 
deu a colonia hollandeza sobre grande parte da provincia. 
Estavam entao os Hollandezes senhores de mais de 300 leguas 
de costa desde o rio Gurupy at^ o rio Real. 

A proclama9ao de D. Joao IV produziu no Brazil dous acci- 
dentes singulares : — 

1°. O marquez de Montalvao prohibiu na Bahia as festivi- 
dades da Restaura9ao e por isso foi preso e mandado para a 
Kuropa, ficando com o governo o bispo D. Pedro da Silva, 
que administrou a colonia por dois annos (1640-1642) at6 a 
chegada do novo governador Antonio Telles da Silva 
(1642-1646). *^* 

2°. Em S.- Paulo ha via indispo8i9ao do povo contra os 
jesuitas, que foram expulsos por causa da liberdade dos indios, 
e contra os administradores da alfandega ; e tal era o 
resentimento que os revoltosos declararam-se indepen- 
dentes de Portugal e acclamaram rei a um popular chamado 
Amador Bueno, que com grande tino abafou a revolta, e fez 
proclamar a D. Jo§Lo IV. 

GOVERNADORES DO BRAZIL. 

Pedro da Silva o Duro (1635-1638). 

D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, 1°. Vice-re! (1640). 

D. Jorge de Mascarenhas, marquez de Montalvao (1641). 

rV Oovemo Provisorio — D. Pedro da Silva, bispo (1642). 



86 HISTOBIA DO BBAZOte 



QUESTIONARIO.'CAPITULO XV. 

— Quern era Rojas y Borjas? o que fez? que opposi9§k) encontroul 
qual o resultado do ataque ? e onde se deu? 

— Como poude o conde de Bagnuolo sustentar a guerra por mais 
dois annos? 

— Que acontecimentos se deram entSo na Hollanda? e qual o re- 
sultado delles para o Brazil ? 

— No Brazil que ha de notavel neste period© ? 

— Que chefe iinportante inandaram os Hollandezes para o Brazil 
em 1637? e que effeito produziu sua chegada? 

— Que poderes tinha o principe Mauricio ? quem Ih' os concedeu *i 
e porque ? 

— A que f amilia pertencia este principe ? e quaes eraiii as quali- 
dades que o caracterisavara ? 

— Qual f oi seu primeiro cuidado ao chegar ao Recife ? 

— Porque poz elle em grande perigo o dominio hespanhol no 
Brazil? 

— Qual foi a primeira capitania que atacou? a quem expulsou dahi ? 
e onde marcou o limite do dominio hespanhol? 

— Que f ortalezas levantou ? e onde ? 

— Que cidade reedificou e que nome Ihe deu ? 

— Quando tentou atacar S. Salvador ? e porque ? 

— Quem era o governador geral do Brazil? e por quem foi auxiliado 
na defesa da Bahia ? 

— Qual foi o resultado do ataque contra a Bahia? 

— Como se vingaram os Hollandezes ? 

— Que effeito produziu em Portugal a noticia do ataque contra a 
Bahia? 

— Quem foi o governador geral nomeado em 1639 ? 

— Porque demorou o conde da Torre em atacar os Hollandezes ? e 
qual foi o resultado da demora? 

— Quando resolveu atacar? quantos navios tinha? e o que sue 
cedeu a sua numerosa esquadra ? 

— Quem era o commandante da frota Hollandeza? 

— Como foi tratado pelo governo o conde da Torre? e quem o 
substituiu? com que titulo? e para que? 

— O que impediu que se firmasse a paz? 



HISTOBIA DO BBAZIL. 87 

— Porque grande estadista f oi preparada a Restaura^So de Por- 
tugal? 

— O que fez a Hespanha? 

— Como se achava D. JoSo IV apezar da protec^So da Franca? e 
qua! f oi o seu primeiro cuidado ? 

— Por que tratado foi a independencia de Portugal reconhecida ? e 
quando? 

— O que soffreu o Brazil por causa da fraqueza de D. JoSo IV? 

— De que terrenos se apoderou o principe Mauricio ? 

— O que foi ordenado a Lichtart em 1640? com que resultado 
atacou a Bahia ? para onde se dirigiu ? e sobre que capitania estendeu 
o dominio hollandez ? 

— Que extensao da costa estava em poder dos Hollandezes ? e quaes 
seus limites ? 

— Que inci denies se deram no Brazil por occasi^o da acclama9Sk) 
de D. JoaoIV? 

— O que fez na Bahia o marquez de MontalvSto? quem era elle? e 
o que Ihe aconteceu ? 

— Quem tomou conta do govemo ? por quanto tempo ? 

— Quando chegou o novo govemador geral ? como se chamava? e 
quanto tempo governou? 

— Que acontecimento se deu em S. Paulo em 1641 ? 

— Qual a causa da revolta? 

— Porque foram expulsos os jesuitas? 

— O que fez Amador Bueno ? 



88 HISTOBIA DO BBAZIIfc 



CAPITULO XVL 

OUEBBA HOLLANDBZA NO BBAZIL DESDB A BBSTAUBAglO 
DE POBTUGAL AT^ A CAPITULAgAO DA CAMPINA DE 
TABOBDA. 

1641-1654. 

NSo podendo o principe Mauricio de Nassau, por causa das 

desconfiaD9as do Conselho dos XIX, aproveitar-se do estado 

de fraqueza em que se aehava o Brazil depots do dominio 

bespanhol, resolveu deixar o governo, e em 1644 retirou-se 

sem esperar successor, tao acabrunhado estava de des- 
1644 ^ 

gostos. 

Com a uoticia da sua retirada cobraram de novo animo os 
Brazileiros. 

Do lado dos Hollandezes havia abatimento por causa de 
revoltas internas e depois pela guerra contra alnglaterra. O 
Conselho dos XIX tomou medidas imprudentes que enfraque- 
ceram a administra9ao e desgostaram os Brazileiros que se 
haviam estabelecido na colonia hoUaudeza. 

O governo foi confiado a um triumvirato de avarentos e 
fanaticos negociantes : Hamel, Boolstrate e Bass. O exer- 
cito era commandado pelo general Haus. Os impostos se 
augmentaram. 

Tal era o estado dos Hollandezes quando comegaram os 
motins. A primeira revolta deu-se no Maranh§to, e seguiu-se o 
audacioso projecto de Fernandes Vieira de expulsar os Hollan- 
dezes de Pernambuco, e para isso formou-se uma conspira9§to. 

GOVERNADORES-GEBAES DO BRAZIL. 

Antonio Telles da Silva (1642-1646). 
Antonio de Souza de Menezes (1660). 
JoSo Bodrig^es de Vasconcellos e Souza (1654). 



HISTORIA DO BRAZIL. 89 

Desde entSo volta a felieidade para as armas portiigiiezas, o 
que foi em grande parte devido ds circumstancias favoraveis 
de enfraquecimento do adversario, a principio por intranquilli- 
dades internas e mais tarde pela guerra dos Hollandezes contra 
Cromwell, que proclamdra a republica na Inglaterra em 1649 ; 
mas sobretudo pelo valor dos heroes do antigo acampamento 
do Bom- Jesus, os quaes em 1645, dez annos depois da 
retirada de Mathias de Albuquerque, eonquistaram sua 
provincia, para dahi a nove annos, em 1654, expulsarem do 
Brazil os Hollandezes. O mais importante dos chefes desta 
memoravel campanha de vinte annos ^ Fernandes Vieira, 
natural da ilha da Madeira, eabe9a da eonspira9ao do Recife. 

£sta con8pira9ao foi plauejada com grande tino. Vidal de 
Negreiros, official portuguez, havia preparado a junc^ao das 
forgas de Camarao e de Henrique Dias nas proximidades 
do Recife. Jd estava marcado o dia do rom pimento, 
quando levaram uma denuncia do projecto aos triumviros. O 
general Haus declarou a cidade em estado de sitio. Os prin- 
cipaes compromettidos, Fernandes Vieira, Cardoso e Maciel 
Parente, fugiram para o acampamento de Henrique Dias e 
Camarao, onde Vieira foi proclamado presidente dos Insur- 
gentes para continuar a guerra a todo o transe. Esta patriotica 
resolugao sustentou-se mesmo quando os insurgentes receberam 
de Pernambuco ordens do goveruo para cessar a guerra. 

Eram estes valentes bem poucos, mas em sens peitos de 
heroes ferviam a f 6 e o patriotismo, que os tornavam inven- 
civeis. Tomaram uma nova bandeira com a divisa — "" Dcus e 
Uberdade,** — e sem auxilio algum dos Portuguezes alcangaram 

as primeiras victorias. 

— 

8TATH0LDERS DA HOLLANDA 

Frederico I (1626-1647). 
Guilherme U (1650). 

OuUherme m (1672>1702), rei de Inglatem;. ^1^^^. 



90 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Assim nascen o povo brazileiro fonnado das tres principaes 
ra^as hamanas que, segundo a tradi9ao biblica, foram expulsas 
da Asia pela confusao das lingaas, durante a constrnc9ao da 
torre de Babel, e talvez desde entao pela primeira vez reunidas 
neste paraizo do novo mundo. 

A jovem na9ao recebeu logo o baptismo de sangue na vic- 
toria das Ta^ocas (3 de agosto de 1645), em que este pequeno 
bando de insurgentes baten completamente o general Haus com 
um exercito bem disciplinado e aguerrido, obrigando-o a refu- 
giar-se no Recife. 

Algum tempo depois chegaram refor90s de tropas regnlares 
guiadas por Vidal de Negreiros, com que puderam reoccupar 
grande parte de Pernambuco. 

Vidal de Negreiros viera do reino em 1642 com o governador 
Antonio Telles da Silva (1642-1646), e quando se despediu 
do rei, recebeu a promessa do governo do MaranhSio, logo que 
fosse restaurada. Ora, havendo-se os Maranhenses revoltado 
contra as exac9oes e a tyrannia dos conquistadores, consegui- 
ram expulsal-os completamente em 1644. Portanto D. Joao IV 
em conformidade de sua promessa nomeou a Vidal de Negreiros 
governador e capitao-general do Maranhao. 

Com o intuito de diminuir o commercio hollandez havia o 
govern ador-geral Antonio Telles da Silva ordenado a Andr^ 
Vidal de Negreiros que destruisse as planta9oes de canna de 
assucar em redor de Pernambuco. Esta ordem foi rigorosa- 
mente executada por Vieira e Negreiros, que principiaram pela 
devasta9ao e incendio de suas proprias fazendas. 

CONTEMPORANEOS. 

Inglaterra . . . Stuarts (1603-1714) : Carlos I (1626-1649). 

Bepublica (1649-1669) : Cromwell. 

Franqa .... .awrfcons (1689-1789) : Luiz Xin (1610-1648). 

Luiz XIV (1715.) 

Italia PopcM.* Urbane VIII (1623-1644). 

Innocencio X (1655). 



HISTOBIA DO BBAZIL. 91 

Nessa occasiSo escapou Femandes Vieira de ser victima de 
ama tentativa contra sua vida. 

Em 1646 receberam os Hollandezes ref 01*908 consideraveis 
com o general Sigismundo von Schkoppe, que em balde publicou 
amnistia geral e grandes promessas de dinheiro aos insurgentes 
qae quizessem voltar para Pernambuco. Este general 
foi tambem mal succedido no ataque que entao dirigiu 
contra a Bahia (1647). S6 conseguiu apoderar-se da ilha de 
Itaparica, mas chamado a toda a pressa para o Recife, teve de 
abandonar sua conquista. 

D. Joao rV havia side ate entao obrigado a empregar grande 
astucia para com a Hollanda, por nao poder executar-se o 
armisticio, visto nao ser possivel ao rei impedir as hostilidades 
dos insurgentes pernambucanos, uem auxilial-os conveniente- 
mente, estando em circumstancias realmente embara9osa8 por 
falta de recursos, por se estarem dando em Manster as negoci- 
ayoes de paz que precederam o tratado de Westphalia (1648), 
pelo qual esperava ser reconhecida, como foi, a independencia 
de Portugal, e pela continua9ao da gueiTa contra a Hespanha. 
Portanto manddra ordem official aos insurgentes que cessassem 
as hostilidades ; mas os chef es pernambucanos responderam 
aos dois jesuitas, portadores do decreto real, que iriam receber 
o castigo de seu crime de desobediencia depots de expulsar de 
Pernambuco o estrangeiro invasor. 

Mas & vista da ostensiva aggressao de Sigismundo von 
Schkoppe contra a Bahia, tomou finalmente D. Joao IV medidas 
mais euergicas. 

Antonio Telles da Silva foi substituido por Antonio de Souza 
de Menezes, conde de Villa Pouca de Aguiar, que governou 
at6 1650. Este novo governador trouxe refor908 sob o 
commando de seu irmSio Francisco Barreto de Menezes, 
nomeado pelo rei general em chefe dos Pernambucanos, o qual 
foi preso pelos Hollandezes ; mas conseguindo escapar, chegou 
ao acampamento de Vieira, e ganhou logo as s^^mpathias da- 
quelle exercito composto dos elementos mais hetero^eneo^* 



92 HISTOBIA DO BBAZIL. 

Em 1648 decidiu Sigismundo atacar energicamente o exercito 
peruambucano, que se tinha aproximado da cidade at6 as 
collinas dos Guararapes; mas suas foryas foram derrotadas e 
elle proprio ficou gravemente ferido (19 de abril de 1648). 
Os heroes desta famosa victoria, que mais se distinguiram, 
foram : Cardoso, Henrique Dias e Camarao com sua mulher 
D. Clara. 

O celebre chefe da tribu dos Potyguaras, o Commendador 

D. Antonio Folippe Camanao, eapitao-m6r dos indios, 
1 6^6 

morreu neste mesmo anno (1G48). 

Chegaram em prineipios de 1649 novos refor90s aos Portu- 
guezes, e Sigismundo eercado no Recife mandou o coronel Van 
den Brincke com um forte exercito postar-se outra vez nos 
montes Guararapes em posi9ao bem escolhida. 

A segunda derrota foi ainda mais completa que a primeira : 

entre os mortos acbaram-se o general hollaudez e Hen- 
1649 

rique Dias (19 de fevereiro de 1649). 

Joao Rodrigues de Vasconcellos e Souza, conde de Castel 
Melhor, succedeu em 1650 ao conde de Villa Pouca de Aguiar, 
e governou ate 1654. 

Em 1G50 formou-se em Lisboa, pelo modelo das companhias 

commerciaes da IToUanda, uma Companhia Geral do 
1650 

Commercio^ mais tarde desacreditada sob o nome de^ 

Junta do Commercio^ a qual se obrigava a defender com seas 

navios as costas do Brazil. 

A primeira frota da Companhia Geral sob o commando do 
almirante Magalhaes chegou ao Brazil em 1653 e principiou a 
bloquear por mar o Recife que jd o era por terra. 

Nao podendo mais a HoUanda soccorrer sua colonia, Sigis- 
mundo depois de uma briosa defesa de uove mezes e de per- 
didos todos os fortes at6 o de Cinco-Pontas, defronte do qual 
extende-se a campina de Taborda, teve de aceitar a hcnrosa 
capitula9ao que Ihe offereccu Barreto de Menezes com sens offici- 
aes de estado maior, Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros, 



HISTOBIA DO BRAZIL. 93 

Tratado de Taborda. — Foi permittido a Sigismundo e 
suas tropas retirarem-se com as honras da guerra do Recife, 
de Pemambuco e de todos os oiitros pontos que ainda estavam 
em seu poder ; mas obrigado a deixar todo o armamentx), 
maquinas de guerra e muni9oes que tinha no Brazil. 

Os Portuguezes prometterara toleraneia e que deixariam 
tempo aos HoUandezes para terminar seus uegocios com os 
particulares. 

Este tratado foi confirmado pelo governador geral Rodrigues 
de Vasconcellos (1650-1654). 

Os valentes guerreiros de Pernambuco foram recompensados 
pelo rei com grande munificencia. Negreiros e Cardoso tiveram 
o foro de fidalgos com grandes reudimentos. A familia do 
indio Camarao foi declarada nobre. Henrique Dias foi esque- 
eido, mas em compensa9ao deram os Bahianos a um batalhao 
da cidade o nome do heroico e piedoso patriota, de quem o 
grande orador, Antonio Vieira, entao pr6gador sagrado em S. 
Salvador, fallava em seus sermoes com tanta admira^ao. 

Nao obstante o tratado de Taborda, ainda por sete annos 
conservou-se inimizade entro a IloUanda e Portugal ; mas nao 
houve combates por causa da fraqueza de ambas as na95es. 

Em Portugal continua a guerra com a Ilespanha. 

Em 1656 morreu D. Joao IV e toinou a regencia D. Luiza 
de Guzman, durante a minoridade de seu filho Affonso VI. 

Na Hollanda continuaram as revoltas dos partidos— Orangist:: 
e Republicano. Em 1653 rompeu a guerra contra Cromwell e 
OS melhores almirantes hoUandezes, Witt, Heyn, Van Tromp 
e Ruyter foram batidos. 

Finalmente a 16 de agosto de 1661 celebrou-se o tratado de 
Hay a por interven9ao de Carlos II, Stuart, casado com Catha- 
rina de Bragan9a. Este tratado determinava que Portugal 
entregaria todos os objectos hoUandezes que ainda se achassem 
no Brazil. Portugal, Inglaterra e Hollanda celebraram allian9a 
intima que cons^rvaram at6 os tempos modernissimos. 



94 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Resultados da guerra hollandeza para o Brazil : 

l*'. O desenyolvimeDto da produ^So. Os Hollandezes ent&o 
a primeira ua9SLo commercial, continuaram depots da gaerra o 
eommercio com o Brazil, espalbando pelo mundo inteiro a fama 
de seuB productos agricolas. 

2*'. O principio da uni^o intima entre as capitanias, at^ entao 
completamente isoladas. 

3®. O nascimento da nacionalidade brazileira. Os defensores 
do Bom- Jesus (1630-1635), depots insurgentes de Pernambuco 
(1645-1654) podem ser considerados como os verdadeiros fun- 
dadores da na9ao brazileira. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XVI. 

— O que fez o principe Mauricio em 1644? e como se retirou? 

— Qua] o effeito de sua retirada sobre os Brazileiros ? 

— Que calamldades soffreram os hollandezes nessa' epoca? 

— O que fez o Conselho dos XIX relativamente ao Brazil ? 

— Quem eram os governadores da colonia hollandeza no Brazil ? 

— Quem commandava o exercito hollandez em Pernambuco ? 

— Onde se deu a primeira revolta contra os Hollandezes ? 

— O que projectou Fernandes Vieira? 

— Qual a causa das vantagens obtidas pelos Portuguezes sobre os 
Hollandezes ? 

— Quaes as causas de enf raquecimento da parte dos Hollandezes ? 

— Que fizerani em 1645 os heroes do Bom-Jesus? e em 1664? 

— Quem foi o chefe mais importante dos Independentes ? 

— Que parte tomou Vidal de Negreiros na conspira<?ao do Recife? 

— O que fez mallograr o project©? 

— Que medidas tomou o general Haus ? 

— Quem eram os mais compromettidos ? e o que fizeram ? 

— Que posi9ao occupou Vieira entre os Insurgentes ? e com que 
condi96es ? 

— Foram essas condi9des annuladas pelo govemo? 

— > Que seutimentos animavam este pequeno grupo de insurgentes ? 



HI8TOBIA DO BBAZIL. 9S 

— Que diyisa tomaram para sua bandeira? e como alcan9aram as 
primeiras victorias ? 

— Como se pode considerar na historia do Brazil esta heroica 
resolu^SkO dos insurgentes de Pemambuco ? De quantas ra9as se com 
punha este nucleo patriotico? 

— Em que dia memoravel receberam o baptismo de sangue ? 

— O que ^uccedeu ao general Haus? 

— Quern trouxe refor^os aos insurgentes? e o que conseguiram 
elles ? 

— Quando viera de Portugal Vidal de Negreiros ? 

— Quem foi nomeado govemador geral do Brazil em 1642? e 
quantos annos governou? 

— Que promessa fizera D. JoSo IV a Negreiros ? 

— Qual foi a causa da revolta do Maranh^lo? seu resultado? e em 
que anno foram os Hollandezes expulsos ? 

— Que cargo exerceu Vidal de Negreiros no Brazil ? 

— Porque ordenou o governador geral a destrui9^o dos cannaviaes 
de Pernambuco? 

— Como foi tal ordem cumprida por Vieira e Negreiros ? 

— De que escapou entSo Fernandes Vieira? 

— Quem chegou da Hollanda em 1646? e o que fez? 

— Que cidade atacou Sigismundo? quando? com que resultado? 
e porque abandonou a conquista? 

— Qual foi a politica de D. JoSo IV para com a Hollanda? 

— Porque n^o auxiliou o rei aos Pernambucanos ? 

— Que rela9So tem com Portugal e Brazil o tratado de Westphalia? 

— £m que anno foi pela Europa reconhecida a independencia de 
Portugal? 

— Que ordem manddra o rei aos chefes dos insurgentes? e que 
(ligna resposta deram elles aos dois jesuitas que Ih'a levaram? 

— Que fez D. JoSo IV' ao receber a noticia do ataque da Bahia ? 

— Quem foi nomeado governador geral? quanto tempo governou? 

— Quem era Francisco Barreto de Menezes? e quando vein? o que 
Ihe aconteceu em Pemambuco ? 

— O que fez Sigismundo em 1648 ? 

— Quando se deu a batalha dos Guararapes ? e com que resultado ? 

— Quaes os chefes insurgentes que mais se distinguiram ? 

— Que aconteceu a CamarSo em 1648? e que titulos tinha? 

— Que fez Sigismundo em 1649 ? 



96 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Quando foi pelejada a segunda batalha dos GuaVarapes ? e com 
que resultado? Que bravos guerreiros foram encontrados eutre os 
mortos ? 

— Queni succedeu no governo geral ao conde de Villa Pouca de 
Aguiar ? e quando ? 

— Quando e onde se formou a Conipanhia Geral do Coramercio ? 

— Quando chegou ao Brazil o almirante Magalhaes ? e o que fez 
em Pernambuco? 

— Como resistiu Sigismundo? por quanto tempo? porque capitulou? 
a quem se rendeu? e com que condi9oes ? 

— Quaes foram as principaes estipula96es do tratado de Taborda 
relativamente aos Ilollandezes ? e aos Portuguezes? quem o con- 
firmou? e quando? 

— Como foram recompensados os chefes pernambucanos ? 

— Que gra9as foram concedidas a Negreiros e Cardoso ? d f amilia 
de Camartlo? Qual foi a recompensa do bravo Henrique Dias? 

— Quem foi Antonio Vieira? 

— Quanto tempo durou a inimizade entre Portugal e a Hollanda? 
e porque nao houve ataques? 

— Havia a Hespanha feito paz com Portugal ? 

— Em que anno morreu D. Joao TV? quem tomou a regencia? 
e porque? 

— Que acontecimentos se deram entao na Hollanda? 

— Quando rompeu a guerra contra Cromwell ? 

— Que almirantes hollandezes soffreram revezes? 

— Quando foi celebrado o tratado de Haya? por interven9^o de 
quem V o que estipulou relativamente a Portugal ? e que allian9a foi 
feita entre Portugal, Tnglaterra e Hollanda? 

— Quaes foram os resultados da guerra hoUandeza para o Brazil ? 

— Porque se desenvolveu a produ9ao agricola no Brazil ? 

— Porque e na historia essa epoca considerada como a da forma9§k) 
da na9ao brazileira? 



HISTOKIA DO BRAZIL. 97 



CAPITULO XVII. 

EBBOS ADMINISTBATIVOS. — L.UTAS ENTBE OS JESUITAS 

E OS OOLONGS. 

Desde 1640 que o Brazil voMra ao domiDio de Portugal, 
mas continuaram os erros administrativos e a falta de centra- 
lisa^ao do governo ; acerescendo a esses males os prejuizos 
provenientes do monopolio e dos privilegios de que go- 
sava a Corapanhia Geral do Commereio. 

No Rio de Janeiro amotinou-se o povo por occasiao do lan9a- 

mento de novos impostos pelo governador Salvador Correa de 

Sd e Benevides, que tendo partido para S. Paulo, deixdra em 

seu lugar a Thom6 C. de Alvarenffa. Os revoltosos 

J , . ^ . ^ 1660 

depuzeram o governador mternio e nomearam para esse 

cargo a Agostinho Barbalho, que com grande habilidade soce- 

gou o povo, promettendo-lhe que obteria do rei a remo9ao de 

todos OS aggravos. 

Voltando o governador foram os chefes rebeldes presos e 
mandados para o reino com Barbalho, cuja fidelidade foi recom- 
pensada com a doa9ao da ilha de Santa Catharina. 

Havia tambem graves :rros na administra9ao ecclesiastica e 
cada vez tornavam-se mais frequentes as lutas entre os jesuitas 
e OS colonos. 

NSo serd f6ra de lugar dar aqui algumas explica9oes sobre a 
poderosa associa^ao que se denomina — Companhia de Jesus. 

Foi a Companhia de Jesus creada por Paulo III no mesmo 
anno em que elle reuniu o concilio Tridentino (1545). Imme- 
diatamente alcau9aram os jesuitas a maior preponderancia 
sobre as nagoes da Europa, concorrendo para isso tres causas 
prindpaes: 



98 HI8T0BIA DO BBAZIL. 

1*. O exemplo de seu fanatico fundador, Ignacio de Loyola 
e o de seus habeis eompauheiros. EUes deram A ordem essa 
orgaui8a9§lo miJitar que exige dos discipulos obediencia absoluta 
e sacrificio nao s6 iDdividual, como tambem da familia e da 
patria. Entre os mais illustres dos fundadores notam-se : 
Leinitz, segundo graomestre, o grande orador do concilio de 
Trentoi 8. Francisco Xavier, que tao celebre tornou-se na 
India; Nobrega e Anchieta, os primeiros provinciaes do 
Brazil-eolonia. 

2*. Os grandes privilegios, que dos papas e reis catholicos 
recebeu a ordem, especialmente o de possuir vastos terrenos e 
tratar de negocios profanos. 

3*. A opportunidade da funda9ao. A maior parte das anti- 
gas ordens jd nao existiam : a dos Templarios f6ra abolida 
em 1314, assim como as hespanholas de S. Thiago de Cala- 
trava, e de Alcantra por Fernando o Catholico em 1500, e 
as portuguezas de Aviz e de Christo por D. JoSo 11. De 
sorte que as unicas ordens entao importantes eram as dos 
Dominicanos e Franciscanos ; mas ambas perderam a confian^a 
das na9oes, que desejavam que os papas ao mesmo tempo 
reprimissem os perigosos movimentos da Reforma, e divul- 
gassem o eatbolicismo romano entre os indigenas dos paizes 
recem-descobertos. 

No seculo seguinte (XVII) puzeram-se os jesuitas d frente 
de todos OS grandes movimentos religiosos, politicos e sociaes 
da Europa. 

Na politica nota-se Richelieu, que morreu em 1643 e Mazarino 
em 1661. 

No sentido social influiram poderosamente pela educa9ao da 
juventude e por meio da confissSlo dominaram as consciencias. 
Pierre La Chaise (1624-1709) foi o confessor de Luiz XIV. 

A Reforma soffreu uma forte e efficaz opposi^So da parte 
dos jesuitas. Em todos as novas colon las da Europa na Asia, 
Africa e America introduziram elles com o catholicismo a pri- 
meira cultura, e levantaram innumeras igrejas e cpnventos. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 99 

As grandes cathedraes das principaes cidades do Imperio do 

Brazil foram edificadas pelos jesuitas, podendo-se quasi dizer 

o mesmo das grandes obras de engenharia e iDdustria. Na 

fazenda de Santa Cruz, ainda hoje 6 o terreno eultivado pela 

desviagao dos differentes rios e esta obra tern a orgulbosa 

divisa : 

Flecte, viator, flecte genu 1 

Hie etiam refluens reflectitur amnis aqua. 
O que significa : 

Curva-te, 6 viandante, dobra o joelho ! 
Aqui curvaram-se do rio as aguas. 

A grande importancia dos jesuitas provocou desde logo a 
inveja das outras ordens religiosas. Elles proprios desmora- 
lisaram-se pelo abuso do poder e grande numero dos crimes 
perpetrados nos seculos XVI e XVII foram-lhes attribuidos. 
Basta eitar os atteutados contra Isabel de Inglaterra (1603) ; 
a morte de Guilherme o Taciturno em 1584 ; a de Henrique IV 
em 1610; e a conspira9ao da polvora em 1606. Teudo-se tor- 
nado a ordem muito perigosa no seculo XVIII, tomou sobre si 
o marquez de Pombal, o habil conselheiro de D. Jos6 I, a tarefa 
de expulsar os jesuitas de Pol'tugal e suas colonias pelo alvard 
de 21 deabrilde 1759. 

Os jesuitas e a escravidao dos indios. — A par da gi*ande 
actividade que os jesuitas raostraram no Brazil em favor da 
ciyilisa9ao, serios abalos foram tambem por elles causados 
entre os eolonos, com a proclama9ao da liberdade dos indios. 
Um decreto de D. Joao III determindra a escravidao dos indios, 
ao passo que Carlos V pelo codigo da India havia decretado a 
sua liberdade. 

Os jesuitas logo depois de sua funda^ao estabeleceram-se nas 
colonias do Brazil e dos vice-reinados de Hespanha, firmando 
seu dominio sobre as terras do Paraguay pela catechisa9§lo dos 
indios Guaranys. 



100 HISTOKIA DO BBAZIL. 

Desejando a Companhia extender seu poder sobre o Brazil, 
persaadiu a D. Sebastiao que lavrasse um deereto revogando 
o aeto de escravidao de seu av6 e proclamando a liberdade do3 
indios. Os motins que se deram em consequencia de tal deereto 
foratn a causa da primeira divisao do Brazil, e da eonvoca9ao 
pelo D°'. Salema, em 1573, de uma eonfereneia na Bahia com 
Luiz de Brito e outras autoridades, pela qual se decretou a 
coiitiDua9ao da escravidao dos indios com certas condi9oes. 

Desde entao principia a prolongada luta entre os fazendeiros 
e OS jesuitas apoiados constantemente pelos papas, que excom- 
mungaram os seuhores de escravos indios. Entre os papas 
nota-se Urbano VIII, que tambem excoramungou a Galileu e 
a todos OS que fizessem uso do tabaco ou fumassem. 

Os reis de Portugal declararam-se ora em favor da escravidao, 
ora contra ella. Esta 6 uma das causas de desgosto que se 
encontra em todos os motins populares, que se deram na 
ei)oca seguinte. Na revolta de 1640 em S. Paulo foram junta- 
mente com os empregados da alfandega expulsos os jesuitas. 
O mesmo aconteceu em 1663 no Rio de Janeiro pela revolta de 
Agostinho Barbalho, e a revolu9ao de Manoel Beckman no 
Maranhao, em 1685, foi principalmente dirigida contra os 
padres da Companhia. 

Apesar dos grandes e8for90s do erainente pr^gador padre 
Antonio Vieira, continuou a escravidao dos indios at6 1759, 
quando o marquez de Pombal decretou a sua liberdade junta- 
mente com a expulsao dos jesuitas do Brazil. A constitui9{io 
dada ao Imperio do Brazil por D. Pedro I em 25 de mar9o de 
1824 concede aos indios os f6ros de cidadaos brazileiros. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 101 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XVII. 

— Haviam com a yolta para o domiuio portuguez melhorado as 
3ondi9()es do Brazil ? 

— Que nova fonte de males Ihe sobreveiu? 

— Que acoutecimeutos se deram no Rio de Janeiro em 1660? 

— Queni era o governador do Rio de Janeiro? e onde estava? 

— Quern era Thome de Alvarenga? e o que Ihe aconteceu? 

— Que fez Agostinho Barbalho ? 

— Que foi feito dos chefes da revolta? 

— Que recompensa recebeu Barbalho ? 

— Qual foi o resultado da interven^ao ecclesiastica na adminis- 
tra9ao da colonia ? 

— Que papa approvou os estatutos da Companhia de Jesus? e 
(juando ? 

— Que importancia alcaix^ou ella na Europa? e quaes as principaes 
causas ? 

— Quem foi seu f undador ? e sobre que base especial foi f undada 
essa famosa ordem? quaes os mais notaveis dos companheiros de 
Loyola? 

— Que privilegios especiaes recebera a ordem dos papas e reis ? 

— Nak) havia enttto outras ordens religiosas importantes ? 

— Quando f oram abolidos os Templarios ? 

— Que ordens aboliu Fernando o Catholico em 1500? 

— Que rei aboliu as ordens de Aviz e Christo em Portugal? 

— Que dupla missito incumbia aos papas nesse tempo? 

— Em que seculo foram os jesuitas os arbitros das na^oes e dos reis? 

— Que illustres cardeaes dirigiram a politica da Franca no seculo 
XVII? 

— Que poderosa influencia tiveram os jesuitas sobre o estado social 
das na^oes? 

— O que soffreu a Reforma da parte dos jesuitas ? 

— Que papel representaram elles nas colonias? 

— Que edificios construiram no Brazil ? 

— Como aperfei^oaram a agricultura na fazenda de Santa Cruz? 

— Que sentimento despertou seu poder nas outras ordens ? 

— Qual o resultado do abuso que fizeram de seu poder? e que 
crimes Ihe 8§k) attribuidos ? 



102 HISTOKIA DO BRAZIL. 

^ Que grande estadista tomou a peito a aboli9£U> da Companhia? 

— Quando f oram os jesuitas expulsos de Portugal e Brazil ? 

— Como foi contrabalan^ada a actividade civilisadora dos jesuitas 
no Brazil ? 

— Quern decretou a escravidao dos indios ? e quem os declarou 
livres ? 

— Quem influiu sobre D. Sebasti^o para decretar a liberdade dos 
indios ? e qual o resultado dessa medida ? 

— Qual a causa da luta constante entre os fazendeiros e os jesuitas 
no Brazil ? 

— Quem apoiava os jesuitas ? 

— Quem foi Urban o VIII ? 

— Que politica seguiram os reis de Portugal em rela^So aos indios ? 

— Como se revelou o desgosto dos colonos para com os jesuitas ? 

— Quem foi Antonio Vieira? 

— Quando terrainou a luta entre os fazendeiros e os jesuitas? e 
quaes as condi9des actuaes dos indios no Brazil? 



HISTOBIA DO BBAZIL. 103 



CAPITULO XVIII. 

OBI6EM E FOBMA9AO DA NA^AO BRAZILEIBA ; MINAS 

E BANDEIRANTES ; GXJERRAS DOS EMBOABAS ; FUNDA- 

glO DB S. PAULO, MINAS-GERAES, GOYAZ E MATTO- 

6BOSSO. 

1645-1750. 

Um dos mais bellos phenomenos da historia do Brazil 6 a 
origem e a forma^ao da na9ao durante o estado colonial. O 
barao de Porto-Seguro acha nesta forma9ao o principal factor 
dos grandes successos que entao se deram : I. Expulsao dos 
Hollandezes. II. Descobrimento e colonisa^ao das vastas 
regioes interiores. III. Guerras heroicas do Rio Grande 
do Sul. 

I. Causas da forma^ao da nacionalidade brazileira. — 

A fraqueza de Portugal, os graves erros da administra9ao e ao 
mesmo tempo a necessidade de conservar sua existencia 
contra os ataques dos indios e aggressores estrangeiros 
fizeram despertar nos colonos o sentimento da emancipa9ao 
n'uma epoca em que os Estados-Unidos ainda se achavam na 
infancia de sua forma92io, e os quatro vice-rein ados de Hes- 
panlia inteiramente paralysados pelo codigo tyrannico de 
Carlos V. 

GOVEBNADOBE8 GERAES DO BRAZIL. 

D. Jeronymo d'Athayde Conde de Atouguia (1650-1654). 
. Francisco Barreto de Menezes (1654-1667). 
D. Vasco Mascarenhas, conde de Obidos, 2°. Vice-rei (1657-1663). 
Alexandre de Sonza Freire (1663-1667). 
Affonso Furtado de Mendon9a, visconde de Barbaceaa (1667-167 1'^^ 



104 HISTORIA DO BRAZIL. 

II. Fundacao da nacionalidade brazileira. — A na9ao 

braziieira l*undou-se no seculo dezesete, por assim dizer, em 

tres differentes pontes : Pernambuco, Rio Grande do Sol, e 

S. Paulo. 

Pelos Pernambucanos foram expulsos os Hollandezes. O 

juramento de Fernandes Vieira e sens companheiros, Henrique 

Dias e Felippe Camarao, de livrar a patria do jugo hol- 

landez contra a vontade de D. Joao IV 6 j4 um acto 

digno de uina nayao independente. A victoria das Tabocas 

em 3 de agosto de 1645 mostrou que a joven na9ao era j4 bas- 

tante forte para defender os direitos que reclainava. 

No Rio Grande do Sul observa-se mais tarde o mesmo senti- 

mento de patriotismo pela vontade do i)ovo em conservar unida 

ao Brazil a regiao do Prata. Depois dos infelizes tra- 

tados de S. lid ef on so em 1777 e de Badajoz em 1801 

foram pelos Portuguezes desarmados os valentes voluntaries 

Rio-Grandenses. 

Os ambiciosos e audaciosos bandeirantes paulistas descobri- 

ram e exploraram as vastas re<>ioes interiores do sul e 
i68i ^ ^ 

oeste. Mais tarde foram encontradas as tao desejadas 
minas de metaes preciosos e fundaram-se no seculo XVIII os 
nucleos das subsequentes capitaes de novas provincias. 

Fundacao da capitania de S. Paulo. — Esta capitania foi 

formada pela leuniao das de S. Vicente e S. Amaro, fundad.-is 

em 1533 antes da grande divisao do Hnizil em capit.-j- 

nias por D. Joao 111. Ellas extenderam-se logo sobre as 



GOVERNADORES GERAES DO BRAZIL. 

Roque da Costa Barreto (1671-1678). 

Antonio de Souza de Menezes (1678-1682). 

D. Antonio Luiz de Souza Telo de Menezes, 2°. marquez das Minas 

(1682-1684). 
Mathias da Cunhs (1684-1687). 

Antonio Luiz Gon(;'alvos da Camara Coutinho (1687-1690). 
D. Joao de Lencastre (1690-1694). 



HISTORIA DO BRAZIL. 105 

regioes do rio Parahjba do Sal, onde se fondaram grande nu- 
mero de fazendas, que sao hoje as importantes eidades de 
Taubat^, Rezeode, Pindamonhangaba e Guaratinguet^. 

As Dovas colonias foi dada em 1681 por capital S. Paulo, 
fundada por Anchieta em 1556. A administraQao da capitania 
ficou sujeita d do Rio de Janeiro at^ 1711, quando foi 
separada desta para formar uma provincia & parte — 
S. Paulo — que ieve por primeiro governador a Antouio de 
Albuquerque Coelho de Carvalho, cujo dominio extendia-se 
sobi-e as actuaes provincias de Minas, Goyaz, e Matto-Grosso. 
Um seculo antes da separa^ao baviam eomegado as grandes 
expedi9oes para o interior, que a principio tinliam por fim duas 
causas : I. A proeura das minas de euro. II. A acquisi^ao 
de escravos. 

A proeura das minas jd havia principiado no governo dos reis 
da (lynastia de Braganga, porem sem resultado, e continuou do 
mcsmo modo por todo o governo dos tres Felippes. Francisco 
de Souza foi duas vezes mandado para o Brazil no principio do 
governo de Felippe III, mas em vao gastou gente e dinheiro, 
porque as minas &6 foram descobertas no fim do seculo, durante 
o governo do rei D. Pedro II. 

Entretanto continuou com grande animagao a ca9a dos indios, 
que tornaram-se os primeiros artigos de commercio, e pelo que 
tiverara os Paulistas constantemente de travar renhidas lutas 
com OS jesuitas ; mas a busca de escravos continuou nao ob- 
stante a bulla de Urbano VIII, que excomraungava os senhores 
de escravos indios, e assim foi uma das causas da revolu9ao de 
1640, que expulsou os jesuitas de S. Paulo. 

GOVERNADORES GERAES DO BRAZIL. 
D. Rodrigo da Costa (1694-1702). 
Luiz Cesar de Menezes (1702-1705). 
D. Louren90 d'Almada (1705-1710). 
Pedro de Vasconcellos de Souza (1710-1711). 

D. Pedro Antonio de Noronha, marqiiez de Angeja, 3°. Vice-rei (1711-1714) 
D. Sancho de Faro e Souza, conde de Vimieiro (1714-1718^ 



108 mSTOBIA DO BRAZIL. 

A energia e temeridade dos bandeirantes foi recompensada 
pela descoberta das ricas minas de ouro do sertSLo. Os irmaos 
Araujo e Domingos Paes fizeram uma grande expedi9So 
para o interior em 1676 e estabeleceram as primeiras 
fazendas de cria9So de gado no Piaahy. As exploracoes exten- 
deram-se desde o Amazonas at^ o rio da Prata, que foi assim 
chamado pelos bandeirantes, sendo antes conhecido por Para- 
guay ou Rio de Solis. 

Em 1690 acharam-se minas de ouro nas regioes do Tiet^, e 
Bartholomeu Bueno que havia se internado at^ Sabard, de 1& 
mandou as primeiras amostras do precioso metal para o reino, 
pelo que recebeu o titulo de Chuirda das Minas. 

Guerra dos emboabas. — A descoberta do ouro attrahiu 
para aquellas regioes grande numero de estrangeiros, pela maior 
parte portuguezes {emboabas ou f orasteiros) . A prineipio 
defenderam os Paulistas energicameute sens valiosos terrenos, 
conseguindo seu chefe Domingos Monteiro expulsar os embo- 
abas pela victoria do rio das Mortes. Reuniram-se, porem, 
logo muitos aventureiros de differentes na9des sob o commando 
do official portuguez Nunes Vianna e por sua vez venceram e 
expulsaram os Paulistas de suas terras. Consta que as pro- 
prias mulheres de S. Paulo influiram a sens maridos e filhos a 
vingarem-se dos invasores. Esse odio augmentou-se pelo or- 
gulho de Nunes Vianna, que destribuiu ehtre os do seu partido 
grandes territorios e o ouro de que se apoderaram. 

Estas rivalidades s6 terminaram em 1709 com a chegada do 
energico e illustre Antonio de Albuquerque, nomeado governa- 
dor independente da regiao das minas. Desde entSo receberam 

GOVERNADORES GERAES DO BRAZIL. 

Vasco Femandes de Cesar de Menezes, 4P. Vice-rei (1718-1720). 
Andr^ de Mello e Castro, conde das Galveas, 5°. Vice-rei (1720-1736). 
Conde de Atouguia, 6°. Vice-rei (1736-1749). 
D. Marcos de Noronha, conde dos Arcos, 7^. Vice-rei (174^1765). 



HISTOBIA DO BRAZIL. 



107 



OS bandeirantes mna organisagSo amilitarada, e dentro de pouco 
tempo foram exploradas as ricas minas de Goyaz, onde fundoa- 
se, no sitio da capital actual, o arraial do Ferreiro, por Bar- 
tholomeu Dias em 1722. Foi tambem entao fundado o arraial 
da Forquilha, que deu origem a Cuyabd, achando-se nesta 
mesma regiao as primeiras esmeraldas e diamantes. Bartho- 
lomeu Dias foi agraciado pelo rei D. Joao V com o titulo de 
CapitHo das minas ^ e mandou ao seu soberano, algumas fructas 
brazileiras de tamanho natural, feitas de ouro massi9o. 

As descobertas de metaes e pedras preciosas acarretaram logo 
grande desenvolvimento para as novas regioes e data-se do go- 
vemo de D. Joao V a terceira grande fundayao, que compre- 
hende as capitanias do centro e do sul. 



Capitanias. 


Capitaes. 


Governadores. 


S. Paulo (separada do Rio 


S. Paulo. 


Antonio de Albuquerque 


de Janeiro em 1710) 




Coelho de Carvalho 


Minas-Geraes (separada de 


ViUa-Rica (Ou- 


Louren9o de Almeida 


S. Paulo em 1720) 


ro-Preto) 




Goyaz (separada de Minas 


Goyaz 


D. Marcos de Noronha, 


em 1744) 




conde dos Arcos 


Matto-Grosso (separada de 




D. Antonio Rolim de Moura, 


Goyaz em 1748) 




conde de Azambuja 



No mesmo tempo fundaram-se ao sul duas capitanias : — 
Mio Gfrande do Sul, em 1727, pelos capitaes Francisco de Bri- 
to Peixoto e Joao Magalhaes ; e Santa Caiharina^ em 1737, 
pelo brigadeiro paulista Jos6 da Silva Paes. 

Assim termina a grande colonisa9ao do vasto territorio do 
Brazil, que se divide em tres periodos : 

I. Colonisa9ao do -Centro. — Comprehende as 8 capitanias 
fundadas por D. JoSlo III, em 1534. 

n. Colonisa9ao do Norte. — Effectuada durante a annexa^^io 
d Hespanha, de 1581 a 1640. 

III. Coloni8a9§LO do Sul. — Effectuada durante o governo de 
D. JoSo Y, de 1706 a 1750. 



108 HISTOBIA DO BKAZIL. 

No governo de D. Pedro II de Portugal nota-se a fundagao 
da coloDia de S. Sacramento, tencionando eiitao o rei dar por 
limites a sua colon ia do Brazil os dois immensos rios ao norte 
e ao sul o Amazonas e o Prata. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XVIII. 

— Qual 6 o mais iiiiportaiite periodo do Brazil no estado colonial ? 

— O que diz o barao de Porto Seguro a respeito da forma9ao da 
r^ossa nacionalidade ? 

— O que deve o Brazil-colonia ao patriotisiuo de seus filhos? 

— Quaes as causas da forma9ao da nacionalidade brazileira durante 
o estado colonial ? 

— Que vantagens leva entilo o Brazil sobre as colonias inglezas c 
hespanholas iia America? 

— Quando foi fundada a na9HO brazileira? e onde? 

— Que fizerani os Pernainbucanos? 

— Que facto historico re vela o patriotismo dos brazileiros durante 
a guerra hollandeza ? 

— Porque e notavel o dia 3 de agosto de 1(345? 

— Onde apresenta-se mais tarde o mesmo sentimento patriotico ? 
como ? e com que resultado ? 

— Que fizeram os Paulistas? 

— Quando foram fund ados os primeiros povoados no sul e oeste? 
6 porque ? 

— Como se formou a capitania de S. Paulo? 

— Em que direc9ao extenderam-se as novas colonias? e qual foi 
a sua capital ? 

— Quando foi S. Paulo separada do governo do Rio de Janeiro ? 

— Quern foi o primeiro governador de S. Paulo? 

— Que outros terrenos abrangia entao S. Paulo? 

— Quaes foram as causas das expedi^oes dos Paulistas para o inte- 
rior? 

— Quando principidra a procura das minas de ouro no Brazil? e 
com que resultado? 

— O que fez a respeito das minas Francisco de Souza? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 109 

— Que rei govemaya em Portugal quando se descobriram as 
minas? 

— O que soffreram entSlo os indios? quera os protegia? conio? e 
com que resultado ? 

— Como trataram os Paulistas aos jesuitas em 1640 ? 

— Qual foi o resultado das expedi^oes dos baudeirantes para o 
sertao ? 

— Que fizeram os irmSos Araujo e Doiningos Paes ? e quaudo? 

— At^ aonde se extenderam as explora9oes? 

— Queni deu ao rio Paraguay o nome de Prata? 

— Quando se descobriraui as minas do Tiet^ ? 

— Quera mandou para o reino as primeiras aniostras de ouro? e 
como foi recompensado ? 

— Quem eram os emboabas ? e o que fizeram no sertao ? 

— Queiii era o chefe dos Paulistas ? como se defenderara ? e com 
que resultado? 

— Queiu era Nunes Vianna? e o que fez contra os Paulistas? 

— Quem instigou os Paulistas a vingarem-se? 

— Qual foi o procedimento de Nunes Vianna? 

— Quando terniinaram estas rivalidades ? 

— Que povoado fundaram os baudeirantes em Goyaz? quem foi 
o chefe desta expedi9ao ? e que presente fez ao rei de Portugal ? 

— Quando fundou-se o arraial da Forquilha ? e que nome tem hoje 
esta povoa9ao ? 

— Qual o resultado do descobrimento do ouro e pedras preciosas 
no interior do Brazil ? 

— Que capitanias se fundaram no reinado de D. Jo3o V? 

— Quando foi S. Paulo separada do Rio de Janeiro ? qual a sua 
r^apital? e quem foi seu primeiro governador? 

— Quando foi Minas-Geraes separada de S. Paulo? qual foi a sua 
capital? e quem foi seu primeiro governador? 

— Quando foi Goyaz separada de Minas? qual foi a sua capital? 
e quem foi seu primeiro governador? 

— Quando foi Matto-Grosso separada de Goyaz ? e quem foi seu 
primeiro governador? 

— Que capitanias mais fundaram-se ao sul? quando? e por 
quem? 

— Em qnantos periodos principaes se divide a colonisa^S^o do 

Bradl? 



110 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Qual d o primeiro periodo? e quantas capitanias se fundaram? 

— No segundo periodo que parte f oi colonisada ? e quaiido ? 

— Que colonisa9ao se effectuou no terceiro periodo ? quem era entao 
rei de Portugal ? e quanto tempo governou ? 

— Quando f oi f uudada a colonia de S. Sacramento ? e porque ? 




GOUBsl VR'-'imt Utt 



HI8T0BMA DO BRAZIL. Ill 



CAPITULO XIX. 

MOTINS POPULARES: REVOLUgAO I>B BECKMAN; DESTRU- 

iglO DOS PALMARES; GUERRA DOS MASCASTES. 

« 
1683-1714. 

Em 1662 come9^ra o proprio governo de D. Affonso VI que, 
como seu pae D. Joao IV, nao poude iia raenor cousa remediar 
a grande fi*aqueza do reino e das colonias. J4 vimos que para 
a expulsao dos Hollandezes do Brazil concorrera muito mais a 
nova na9ao brazileira do que o reino de Portugal. 

Durante a regeneia da rainha-mae D. Luiza de Guzman, 
casdra-se a princeza D. Catliarina com Carlos II Stuart, 
levando-lhe em dote a rica provineia de Bengala, e assim 
come^ou a Inglaterra a herdar as antigas glorias de Portugal. 

Em 1667 ^01 D. Aflfonso VI exonerado jwr seu irraao D. 
Pedro II, e morreu na prisao muitos annos depois em Cintra 
(1683). 

Em D. Pedro 11 (1668-1706) teve emfim Portugal um rei 
mais activo ; as muitas reformas, porern, no Brazil, referiam-se 
mais aos interesses da mae-patria do que ao desenvolvimento 
da colonia. 

Estava entSo o Brazil dividido em quatro governos : Bahia, 

CONTEMPORANEOS. 

Inglatebba. — Stuarts : 

Carlos II (1660-1686). Diogo II (1688). Guilherme III e Maria (1714) 

Franqa. — Bourbons : . 

Luiz XIV (1043-1716). 



112 HI8T0EIA BO BEAZIL. 

Rio de Janeiro, Pemambnco e Maranhao, que tinham sens go* 
veruadores especiaes. 

Em 1676 fundou Innoeeneio XI o arcebispado da Bahia^ de 
que foi pritneiro areebispo D. Gaspar Barata de Mendon9a ; e 
OS bispados do Rio de Janeiro^ primeiro bispo D. Jos^ de Ban'os 
de Alar9ao ; de Pemambuco, primeiro bispo D. Estevao Brioso 
de Figueiredo ; e do MaranMo, primeiro bispo D. Gregorio dos 
Anjos. 

O governador da Baliia, Roque da Costa Barreto, chegou em 
1678 com uma serie de alvards que regularisavam os impostos 
e monopolios e prohibiam o commereio com as na96es estran- 
geiras. 

Estas reformas, por^m, em nada remediaram os grandes 
males que, originados no governo da dynastia de Aviz, tin- 
ham-se tornado ehronicos durante a annexa9ao iberica, e pro- 
voeavam entao grande numero de motins e revolu^oes. Estes 
males eram : escraviddto dos indios; monopolios exagerados; 
irregularidade de limites, 

Tendo jd tratado da questao dos indios, s6 fallaremos aqui 
das duas ultimas. 

Fortes monopolios, mesmo sobre materias primas, foram 
introduzidos no Brazil pela Junta do Commereio, que durante o 
governo de D. Pedro II, extendeu sens direitos sobre todos os 
generos, e at^ mesmo sobre a importa9ao de escravos africanos, 
aggravando ainda mais sen peso pela prohibi9ao do commereio 
do Brazil com as outras na96es. 

A irregularidade nas demarca9oes principiou desde a fun- 
da9ao das capitanias, cujos limites foram apenas indicados no 
littoral. 



CONTEMPORANEOS. 

Allemanha. — Hahsburgo-Styria : 

Leopoldo I (1667-1706). Jm^ I (1711). Carloi VI (1740). 



HISTOBIA DO BRAZIL. 118 

As doa9oes exageradas dos reis tambem deram causa a 
muitas contendas, que s6 terminaram quando Pombal cassou 
OS privilegios dos capitaes-m6res (1758). 

Bevolu^ao de Beckman (1684-1685). — O Estado do 
Maranhao fftra fundado no governo de Felippe III (1621) com 
as tres capitanias do norte — Ceard, Maranhao e Pard, e ligado 
intimamente com o governo de Lisboa gosou de grandes privi- 
legios. Os fazendeiros do sertao viviam em completa indepen- 
dencia, nao eram sujeitos a impostos e iam continuando a escra- 
visar os indios que apanhavam nas vastas planices dos Ama- 
zonas. 

Por causa disto fez o celebre pr^gador, padre Antonio Vieira, 
depois da guerra da HoUanda, visitas ao Pard e Maranhao donde 
foi expulso, enviado para Portugal (1661), e Id condemnado a 
degredo no Porto por D. Affonso VI. 

Em 1684 ordenou D. Pedro II que a administra9ao do 
governo geral da Bahia se extendesse ao Estado de Maran- 
hao, e para isso mandou para S. Luiz o novo governador 
geral Francisco de Sd e Menezes com uma frota conside- 
ravel e todos os preparativos necessarios afim de fundar na 

CONTEMPORANEOS. 

Franqa. Hespanha e Allemanha. 

Bourbon (1610-1793) Habsburgo-Aragao (1616-1666) 

Felippe III (1621) 



I 1 I 

Luiz XIII = Anna, Felippe IV, Marianna = Fernando III 

(1643) I (1665) (1667) 

I I X 1 I 

Luiz XIV = Maria Thereza, Carlos II (1699), Anna = Leopoldo I (1706) 

(1716) , -I , 

J. ^ i ifl„ ,i7Tix 169^ Jos^ I (1711) Carlos VI 

Luiz o l)elfln (1711), ^^^.^^^ y ^^^^q^ ^^^^^ 

Luiz de Bourbon (1712) 

' An jou- Bourbon 

Lmz XV (1776) m4^im. 



114 HISTOBIA DO BRAZIL. 

cidade as casas da Companhia do Estanco (alfandega) e Ofl 
collegios dos jesuitas. 

A principio nao houve a menor oppo8i9ao, e 4 vista desta 
tranquillidade apparente deixou Francisco de Menezes proviso- 
riamente no governo a Balthasar Fernaudes e dirigiu-se com 
grande parte da for9a para Belem. Foi entao que rompeu a 
famosa revolu9ao das irraaos Manoel e Thomaz Beckman. 

Os empregados do estanco e os jesuitas foram expulsos de 
S. Luiz e suas casas destruidas. Manoel Beckman foi eleito 
presidente da revolu9ao, tomou por auxiliar a Jorge Sampaio 
e mandou seu irmao Thomaz para Lisboa afim de representar ao 
rei D. Pedro II em favor da revolu9ao. 

Os revolncionarios formaram um conselho dos tres estados — 
clero, nobreza e povo — e mandaram emissarios ao Ceard e ao 
Pard, onde nada conseguiram em apoio do movimento. 

No anno seguinte (1685) chegou de Portugal com uma for9a 
consideravel o conde de Bobadella, general Gomes Freire de 
Andrade, que proclamou amnistia geral e restabeleceu os jesui- 
tas e a companhia do monopolio, ao passo que foi dando tempo 
de fugir aos chefes mais compromettidos condemnados d morte 
por ordem directa de D. Pedro II. 



GOVERNADORES DO MARANHAO. 

Jeronymo de Albuquerque (1614). Ruy Vaz de Sequeira (1662). 

Antonio de Albuquerque (1621). Antonio de Albuquerque Coelho de 
Domingos da Costa (1624). Carvalho (1667). 

Francisco Coelho de Carvalho (16.31). Pedro Cesar de Menezes (1671). 

Bento Maciel Parente (1638). Ignacio Coelho da Siha (1678). 

Antonio Muniz Barreto (1642). Francisco de Sa e Menezes (1682). 

Antonio Teixeira de Mello (1644). Gomes Freire de Andrade (1686). 

Francisco Coelho de Carvalho (so- Arthur de Sa e Menezes (1687). 

brinho) (1646). A. d'Albuquerque Coelho de Carva- 
Luiz de MagalhSes (1649). Iho (1690). 

Balthasar de Souza Pereira (1662). D. Manoel Rolim de Moura (1702). 

Andr^ Vidal de Negreiros (1665). Christovao da Costa Freire (1707). 

Agostinho Correa (1666). Bernardo Pereira de Berredo (1718) 
D. Pedro de Mello (1668). 



HISTORIA DO BRAZIL. 116 

Desta geDerosidade do illusti*e general aproveitaram-se Manoel 
Beck man e Jorge de Sampaio e esconderam-se na sua fazenda 
do Mearini. Appareceu, porem, um miseravel traidor, — La- 
zaro de Mello — que allucinado pelas promessas do governo 
revelou o lugar onde se escondera seu padrinho e bemfeitor, 
Manoel Beekman, que juntamente com Jorge de Sampaio foi 
preso e expiou no patibulo a temeridade de usar de sua influ- 
encia para melhorar as condi9oes sociaes de sens compatriotas, 
iUTOstando o despotismo do rei e a ambi9ao dos jesuitas. 

O infeliz Lazaro de Mello coberto de vergonha e ralado de 
remorsos por sua negra perfidia suicidou-se. 

Destruicao dos Palmares (1676-1697). — Durante a guerra 
da HoUanda, principalmente desde 1644, retirada de Mauricio 
de Nassau, formaram-se nas provincias atacadas pelos Hollan- 
dezes quilombos de escravos fugidos e malfeitores, os quaes 
tomaram o nome de Palmares, Depois de expulsos os inva- 
sores procurou em vao o governo destruir os salteadores que 
araeayavara aquellas capitanias e levavam suas correrias at6 o 
Estado do Maranhao. 

Os paulistas Araujo e Silva Paes, quando em 1676 estabelece- 
ram em Piauhy. as priraeiras fazendas de gado, expulsaram do 
norte aquelles quilombolas ; mas elles acbaram em Alagoas, nas 
faldas da serra da Barriga, um sitio muito favoravel, onde fun- 
daram um estado, cuja capital era Atalaya, e tinham um valente 
chefe conhecido pelo nome de Zumbi. 

Joao da Cunha Soutomaior, que entao era o governador de 
Pernambuco, contractou com o paulista Diogo Velho a expulsao 
dos quilombolas dos Palmares, com condi^ao de dar-lhe 
o governo todo o material e gente necessaria para a 
conquista, a posse dos terrenos occupados na guerra e, depois 
de terminada a luta, a da capitania das Alagoas, e de tambem 
deixar os prisioneiros a sua discrigao. 

Apezar de grandes dospezas e esforpos prolongou-se a luta 
at6 1697. Consta que o Zumbi cercado com o^ xs^Mvccia^ ^'c*'*. 



116 HISTORIA DO BRAZIL. 

seus n'um alto rochedo, precipitou-se delle abaixo para nao 
cahir em poder dos Paulistas. 

Esta guerra teve por resiiltado a funda9ao da capi- 
tania das Alagoas (1697), que ficou annexada a Pernam- 
bueo at^ a revolu^ao de 1817. 

Guerra dos mascates, 1710. — A cidade de Olinda, 
orgulhosa capital de Duarte Coelho Pereira, era a mais aristo- 
cratica do Brazil, nao obstante o maior desenvolvimento da 
Bahia (1549) e do Rio de Janeiro (1567). Durante o governo 
dos Felippes formou-se a algunias legoas de Olinda, sobre a 
bella bahia do Recife, uma povoa9ao que se desenvolveu muito 
pelo commercio com a rica aristocracia de Olinda, principal- 
mente na guerra hollandeza. Estabeleceram-se ahi negociantes 
portuguezes cujas grandes riquezas excitaram mais tarde a in- 
veja dos orgulhosos fazendeiros olindeuses, cujo amor ao luxo 
absorvia quasi toda a fortuna, tornando-os pela maior parte 
devedores dos commerciantes do Recife, aos quaes por despeito 
denominavam mascates. 

A estes preconceitos juntavam-se rivalidades a respeito das 
elei^oes da camara entre os de Olinda e Recife. D. Joao V 



GOVERNADORES DE PERNAMBUCO. 

JoSo Femandes Vieira (1645). D. Mathias de Figueiredo, interino 

Francisco Barreto de Menezes (1648) . (bispo) (1688) . 

Andre Vidal de Negreiros (1657). Antonio L. G. da Camara Coutinho 

Francisco de Brito Freire (1661). (1689). 

Jeronymo de Mendon9a Furtado D. Antonio F. M. S. e Castre, mar- 

(1664). quez de Monte Bello (1690). 

Bernardo de Miranda Henriques Caetano de Mello de Castro (1693). 

(1667). D. Fernando Martins Mascarenhas 
Fernando de Souza Coutinho (1670). (1699). 

D. Pedro de Almeida (1674). Francisco Castro de Moraes (1703). 
Ayres de Souza Castro (1678). — Vide Rio de Janeiro. 

D. Joao de Souza (1682). Sebastiao de Castro e Caldas (1707). 

Joao da Cunha Soutomaior (1686). D. Manoel Alvares dn Costa (1710). 

I'ernao Cahral (1688), Antonio Felix Jose' Machado (1711). 



HISTOBIA DO BRAZIL. 117 

(1706-1750) afim de impedir que estas coDstaDtes irrita9oe8 
entre os dous partidos se convertessem em serios conflietod, 
maDdou para Oliuda o governador Sebastiao de Castro Caldas 
com ordem de effectuar a installa9ao da villa do Recife. Sebas- 
tiSLo de Castro, de caraeter feroz, excitou logo os Olindenses 
contra si, e mudando sua residencia para o Recife, augmentou 
ainda sua impopularidade. Aeonteeeu que passando urn dia 
pelas ruas de Olinda, reeebeu um tiro, que o feriu levemente 
nSLo se sabe, si de inimigo particular ou politico. Isto foi bas- 
tante para que o governador declarasse logo a cidade em estado 
de sitio, e mandasse prender os membros da Camara de Olinda, 
que haviam feito opposi^^ a suas medidas, reclamando para a 
cidade o terreno que elle determin&ra annexar A nova villa. 
Os compromettidos, entre elles o D®'. Luiz de Valenzuela Ortiz, 
fugiram para o interior ; mas o capitilo Joao da Motta organ i- 
sou a resistencia e marchou contra o Recife. 8ebasti§lo de 
Castro retirou-se para a Bahia. 

Durante sua ausencia tomou o bispo D. Manoel Alvares da 
Costa a direc9^ do governo, tranquillisando os partidos pela 

Bragan^a — 1640-1822. 
D. Joao IV (1640-1666) = D. Luiza de Guzman 



I i I 

D. Catharina D. Affonso VI (1667) D. Pedro II (1706) 

^^^^ D. Joao 4 (1760) 

I ' 1 

J\nnbal — D. Jos^ I (1777) D. Pedro lU (1792) 

D. Maria I (1816t) 

D. Joao VI (1826) 

I '. r 1 

BmnV— D. Pedro I (1822-1831) D. Pedro IV (1834) D. Miguel 

I I 

D. Pedro II (1831-1889) D. Maria H (1866) 

1890t , J- , 

D. Pedro V (1864) D. Lois 1. 



118 HISTORIA DO BRAZIL. 

amnistia geral e promettendo aos habitantes do Recife a instal- 
ia9ao da sua villa. 

Passou-se, porem, quasi um anno sem que esta proiuessa 
fosse cumprida, e os mascates do Recife prepararam nova re- 
volu9ao, e aproveitando a presenya do bispo na sua povoa9ao, 
obrigaram-no a renovar a palavra dada. O bispo coagido 
accedeu a tudo, mas assim que vol ton para Olinda intimou-os 
a que obedecessem. Istx) bastou para fazer romper a guerra. 

Depois de seis mezes de ataques de parte a parte chegou em 

1711 o novo governador Felix Jos^ Machado de Mendon^a, que 

desarmou os partidos amnistiando-os ; mas ao mesmo 

tempo encetou uma rigorosissima persegui^ao contra o 

partido brazileiro, no que foi auxiliado pelo ouvidor Joao 

Marques Bacalhau e o juiz de f6ra Paulo Carvalho. Esta per- 

segui9ao de tres annos 86 cessou por ordem regia de 7 de 

abril 1714, e pode-se comparar com a que seguiu-se d 

revolu^ao de Pernambuco de 1817, come^ada pelo governador 

Rego Barreto e elevada a mais requintada crueldade pelo desem- 

bargador Bernardo Teixeira Coutinho. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XIX. 

— Quando come9ou a reiuar D. Aifonso VI ? e o que fez para resta- 
oelecer seu reino? 

— Por quem foraui principalmente expulsos os Hollandezes do 
Brazil? 

— Com quem se casou a princeza de Portugal D. Catharina? e que 
terrenes levou em dote ? 

— Que aconteceu ao rei D. AfFonso VI em 1667 ? e quando e onde 
morreu ? 

— Quanto tempo governou D. Pedro II ? e o que fez pelo Brazil ? 

— Como estava entsio dividido o Brazil? 

— Quando foi fimdado o arcebispado da Bahia? e que outros bi& 
pados foram creados V 



mSTOBIA DO BRAZIL. 119 

— Quern f oi o primeiro arcebispo do Brazil ? o primeiro bispo do 
Rio de Janeiro? de Pernambuco? do Maranhao? 

— Quando chegou Roque da Costa Barreto? que reformas fez na 
colonia? e de que utilidade foram essas reformas? 

— Que males trouxe d colonia a Junta do Commercio ? e quando 
se aggravaram eUes? 

— Alem dos nM)nopolios, que outras causas de desgosto havia entre 
OS colonos? 

— Quern f uudou o Estado do Maranhao ? quando ? com que capi- 
tanias? e de que privilegios gosava? 

— Que celebre jesuita foi pr^gar no Maranhao sobre a liberdade 
dos indios ? e o que Ihe aconteceu ? 

— Que fez D. Pedro II relativamente ao MaranhSo ? 

— Que govemador mandou para S. Luiz ? quando ? e para 
que? 

— Como foi recebido Sa e Menezes ? e a quern deixou em sen lugar 
quando se retirou para Belem ? 

— Que aconteceu entSo em S. Luiz? 

— C^uem foram os chef es da revolta ? 

— (^ue foi feito dos empregados do estanco e dos jesuitas? 

— I*ara onde foi mandado Thomaz Becknian? e para que? 

— ( ) que fizeram os revoltosos ? e o (jue conseguiram ? 

— Quando chegou o conde de Bobadella ? e o que fez ? 

— Para onde foram Manoel Beckman e Jorge de Sanipaio ? 

— Por quem foram trahidos ? e que sorte tiverani ? 

— Que aconteceu a Lazaro de Mello ? 

— O que se entende por Palmares ? e o que faziani os quilombolas ? 

— Quem expulsou-os do Piauhy ? 

— Onde fundaram um estado ? qual era a capital ? e que titulo 
tinha o chef e ? 

— Quem era o governador de Pernambuco ? com quem tratou a 
expulsSLo dos quilombolas ? e com que condi9des ? 

— Quanto tempo durou a luta ? Como morreu o valente Zimibi ? 

— Que capitania se f undou entEo ? e quando foi separada de Per- 
nambuco? 

— Quen^ f undou Olinda? quando? 

— Quando se fundou o Recife ? onde ? e porque tanto prosperou ? 

— Que classe de colonos especialmente s^ estabeleceu no Recife ? e 
que rivalidade havia entre elles e os habitautes de OVm^'d.l 



120 HISTOBIA DO BRAZIL. 

— Quern era ent§kO o rei de Portugal? e para que mandou o gover- 
uador Sebasti§k) de Castro installar a villa do Recife ? 

— O que fez o novo govemador? e onde foi morar? 

— Que circumstancia irritou ao ultimo ponto seu odio contra os 
Olindenses ? 

— Que medidas rigorosas tomou Sebasti§k) de Castro ? 

— Que opposi9§k) haviam-lhe feito os membros da Camara? 

— Conio procedeu o I>'. Luiz de Valenzuela Ortiz ? 

— O que fez o capitSio Jo§k) da Motta? 

— Para oude foi SebastiSo de Castro ? 

— Quern dirigiu o governo? como socegou os partidos? e por 
quanto tempo ? 

— O que fizeram os mascatesf 

— Compriu o bispo a promessa renovada? e qual o resultado da 
f alta do cumprimento de sua palavra ? 

— Quanto tempo durou a luta? quern a terminou? quando? como? 
contra quem usou de rigor? e por quem foi nisso auxiliado? 

— Que outro exemplo temos na historia do Brazil de atroz perse* 
gui^So em seguida a uma revolta popular? . 

— Quem foi o cai'rasco de Pernainbuco em 1817 V 



HiSTOKIA DO BRAZIL. 121 



CAPITULO XX. 

FUNDAgAO DA COLONIA DO SACRAMENTO; INFLUENCIA 
DA GUERRA DA SUCCESSAO DE HESPANHA SOBRE 
PORTUGAL E BRAZIL; INVASAO HESPANHOLA NO SUL; 
INVAS5ES DE DUCLERC E DE DUGUAY-TROUIN. 

1679-1714. 

A funda^ao da colonia do Sacramento (1679) despertou na 
America o antigo odio entre Portuguezes e Hespanhoes, odio 
que principidra com a fundagao do reino de Portugal por D. 
AffoDSO Henriques, depois da batalha de Ourique (1137). 
Durante o governo da priraeira dynastia, a de Borgonha, 
havia se desenvolvido no novo reinosinho urn forte patri- 
otismo, de que resultou a revolta contra D. Joao I de Cas- 
tella em 1383, quando readquiriu o governo de Portugal, por 
seu casamento com D. Brites, filha de D. Fernando o Formoso, 
ultimo rei daquella dynastia. 

A na9ao portugueza para conservar sua indepeiidencia pro- 
elamou rei D. Joao I, Mestre de Aviz, filho natural de I). Pedro 
o Cruel, o qual consolidou sua posi9ao pela victoria de Alju- 
barrota (1385). 

Circumstancias politicas e sociaes alimentaram e augmenta- 
ram a inimizade destas duas na^oes : em 1476 pela morte de 
Henrique IV de Castella, competia de direito a cor6a a D. Af- 

CONTEMPORANEOS. 

Papas. 
Alexandre VH (1655). Alexandre VIII (1680). 

Clemente IX (1667). Innoeencio XII (1691). 

Clemente X (1670). Clemente XI (1700). 

Innoeencio XI (1676). Innocwicio X\\\ ^I'i^V). 



122 ^ HISTOBIA DO BRAZIL- 

fonso V o Africano, que a perdeu pela derrota de Toro (1479) 
e foi obrigado a reconhecer a legitimidade de Isabel e Fernando. 
Depois da morte de D. Henrique o Cardeal effectuou-se final- 
men te a unidade iberica pelo triste tratado de Thomar (1581) , de 
que resultou para arabos os paizes tornar-se a antiga aversao 
em odio declarado. 

D. Pedro II, terceiro rei da dynastia de Bragan^a, tencionou 
dar a sua colonia sua extensao natural at6 o rio da Prata ; mas 
a regiao ao norte do rio, hoje Uruguay, f6ra descobeii;a pelo 
hespanhol Joao Dias Solis (1508). O tratado de Tordesilhas 
celebrado por Alexandre VI (1495) antes da explora^ao das 
terras desconhecidas, deixou esta questao indecisa e ne- 
nhuma rectifica^ao de limites teve lugar no seculo seguinte 
por causa da unidade iberica. Comtudo ordenou o rei ao gover- 
nador do Rio de Janeiro, D. Manoel Lobo, que colonisasse as 
regioes de La Plata. Este governador partiu com todo o mate- 
rial necessario e fundou no anno seguinte (1679) uma colonia 
defronte da ilha de 8. Gabriel, a qual se chamou do Sacramento. 
Nesta colonisayao distinguiu-se o capitao Jorge de Macedo. 
Foi postada na nova colonia uma guarni9ao com algumas peyas 
de artilheria. 

O vice-rei de Buenos-Ayres atacou com grande forya o forte 
brazileiro, obrigou a guarniyao a capitular e mandou-a para o 
interior. 

D. Pedro II obteve por intervenyao de Innocencio XI um 
arbitrio das grandes potencias europ^as, que decidiram que 
fosse a colonia restituida aos Portuguezes, o que se realisou 
em 1681 ; mas por causa da incerteza dos limites eontinuou 
a guerra at^ os tempos modernissimos. 



CONTEMPORANEOS. 

PrINCIPES T1TULARE8 DO ESTADO DO BrAZIL. 

1645-I714. 

1). rheodosio (1653). D. Joao (V de Portugal) (1689-1707). 

1). Affonso (1662). D. Pedro (1712-1714). 

U Joao (1688). D. Jose (I de Portugal) (1760). 



ttlSTORtA DO fitlA21L. 



128 



Inflnencia da gruerra da successao de Hespanha 
sobre Portugral e Brazil. — Carlos II morreu em 1699 e 
com elle acaba-se na Hespanha a dynastia Habsburgo-Aragao. 
Apresentaram-se dois pretendentes : Lniz XIV, que reclamava 
08 direitos da Infanta primogenita, os quaes cedera a seu 
segundo neto, Felippe de Anjou (Felippe V) ; e o imperador 
Leopoldo I, que reclamava os direitos dynasticos de Carlos V, 
OS quaes tambem passdra a seu filho segundo, o archiduque 
Carlos (Carlos VI), para evitar nova uniao do imperio com a 
Hespanha. 

Felippe' V obteve acor6a por testamento de Carlos II, e vota- 
9ao das C6rtes, foi solemnemente coroado em Madrid e deveu 
sua cons^rva9ao no throno ao patriotismo hespanhol, muito 
mais que & protec9ao da Fran9a, entao j4 muito enfraquecida 
no ultimo periodo do governo de Luiz XIV, que a par de poucos 
soccorros suscitava-lhe fortes inimigos, como Guilherme III de 
Inglaterra, que influiu muito sobre I). Pedro II para entrar na 
guerra contra a Hespanha. 

Achava-se entao Portugal em condi^oes muito favoraveis por 
causa do ouro recentemente oxplorado e.in Minas-Geraes ; mas 
o rei morreu durante esta guerra e succedeu-lho I). Joao V, que 



GOVERNADORES DO RIO DE JANEIRO. 



Estacio de Sa (1665). 
Salvador Correa (1567). 
Christovao de Barros (1669). 
Do^ Antonio Salema (1574). 
Salvador Correa (1677). 
Francisco de Mendon9a e Vasconcel- 

los (1699). 
Martim de Sa (1603). 
Affonso de Albuquerque (1608). 
D. Francisco de Souza (1610) 
D. Luiz de Souza (1616). 
Francisco Farjado (1620). 
Martim de Si (1623). 



Salvador Correa de Sa e Benevides 

(1637). 
Duarte Correa Vasqueanes (1642). 
LuizBarbalho Bezerra (1643). 
Francisco de Soutomaior (1644). 
Duarte Correa Vasqueanes (1645). 
Salvador Correa de Sa e Benevides 

(1648). 
Salvador de Brito Pereira (1649). 
Antonio GalvSo (1651). 
D. Luiz de Almeida (1652). 
Salvador Correa de Sa e Benevides 

(1669). 



124 HISTORIA DO BRAZIL. 

seguiu a politica ingleza. A ac9ao mais importante do exercito 
portuguez foi a occupa9ao de Madrid pelo conde das Minas, 
que expulsou Felippe V de sua capital. Mas concorreram para 
p6r termo a esta luta varias circumstancias, entre as quaes se 
notam a exoneragao de Marlborough pela rainha Anna, e a 
morte de Jos6 1, que deixou a cor6a do iraperio a Carlos VI, o 
pretendente, que foi em 1711 coroado imperador. Isto influiu 
extraordinariamente sobre os successos dos Portuguezes, que 
foram expulsos de Hespauha por Vend6me, vencedor de Villa- 
Vigosa. 

O tratado de Utrecht em 1713 poz termo & guerra e por inter- 
ven^ao da Ingla terra foram restituidos a Portugal os terrenos 
tomados no Brazil pelos Francezes e Hespanhoes. 

Em 1705 o vice-rei de Buenos-Ayres, Affonso Valdez, diri- 
giu-se com uma grande frota para a colonia do Sacramento e 
cercou-a por mar e por terra. O commandante do forte, Sebas- 
tiao da Veiga Cabral, resistiu valentemente durante seis mezes. 
A colonia ficou em poder da Hespanha at6 o tratado de Utrecht, 
que deu a Portugal direito sobre toda a Banda Oriental, e recti- 
ficou ao norte os limites pelo rio Oj^apoc. Estas condigoes 
foram frequentes vezes violadas por Francezes e Hespanhoes. 

GOVERNADORES DO RIO DE JANEIRO. 

Agostinho Barbalho Bezerra (1660) Arthur de Sa e Menezes (1697). 

por acclama9ao. Martim Correa Vasques (1697). 

Pedro de Mello (1662). Francisco de Castro Moraes (1700). 

D. Pedro de Mascarenhas (1666). D. Alvaro da Silveira e Albuquerque 
Joao de Souza e Souza (1670). (1702). 

Mathias da Cuiiha (1675). D. Fernando Martim Mascarenhas 
D. Manoel Lobo (1679). (1705). 

Pedro Gomes (1681). Antonio de Albuquerque Coelho de 
Duarte Teixeira Chaves (1682). Carvalho (1709). 

Joao Fernando deMendon9a( 1686). Francisco de Castro Moraes (1710). 

D. Francisco de Lencaster (1689). Antonio de Albuquerque Coelho de 
Luiz Cesar de Menezes (1690). Carvalho (1711). 

Antonio Paes de Sande (1693). Antonio Brito de Menezes (1717). 
SebastiSo de Castro e Caldas (1696'). 



HI8T0BIA DO BBAZIL. 125 

A oolonia do Sacramento sofireu no governo de D. JoSo V 
constantes ataques e os Hespauboes em 1723 fundaram sobre 
o territorio portuguez a cidade de Montevideo. 

Em 1737 celebrou D. Joao V com Felippe V o tratado de 
Madrid, que nada determinou precisamente. 86 o energieo 
marquez de Pombal conseguiu em 1750 a nomea9ao de uma 
commissao para marcar os limites do Oyapoc e do Prata. 

Invasoes francezas. — Antes da guerra da successao de 
Hespanba notam-se duas invasoes com o fim de fundar uma 
colonia franceza no Brazil. A primeira foi a de Villegaignon 
mandada pelo aimirante Coligny (1553), o qua! foi expulso por 
Mem de S&, fundador de Sebastianopolis (1567). A segunda 
na regeneia de Maria de M^dieis, por La Ravardi^re contra o 
Maranh§Lo (1614), que foi repellida por Jeronymo de Albu- 
querque, fundador da capitania do Maranbao. 

Estas expedi95es foram feitas contra Portugal por causa de 
sua allian9a com a Austria e na inten^ao de apoderarem-se das 
riquezas do paiz, cuja fama se tinba espalbado na Europa. 

No seeulo 18° bouve ainda duas expedi^oes Francezas contra 
o Brazil ; uma em 1710 e a outra em 1711. 

Dnclerc (19 de setembro de 1710). — A primeira ao 
commando do corsario Carlos Duclerc compunba-se de uma 
flotilba de seis navios e mil bomens de tripola9ao. Depois de 
algumas tentativas em frente A babia do Rio de Janeiro, desem- 
barcaram as tropas francezas em Guaratiba e entraram na 
cidade pelo Engenbo-Novo. 

O govemador Francisco de Castro Moraes, apesar de dispor 
de uma for9a de cinco mil bomens, nada fez para impedir a 
entrada dos Francezes, contra quem armaram-se os particulares. 

BISPOS DA BAHIA. 

D. Constantino B^rradas (1618). D. Pedro da Silva (1649). 

D. Marcos Teixeira (1622). D. Alvaro de Castro (1668). 

EflteTam dos Santos (1675). 



126 HISTORIA DO BRAZIL. 

Diiclerc atravessou sem grandes perdas a rua de Mata-Caval- 
los, e notou que as for9as portuguezas estavam concentradas 
n'uma fortifica^ao no largo do Rosario; mas chegando A rua 
Direita foi energicamente atacado pela cavallaria dirigida por 
Gregorio de Castro, irmao do governador, o qual morreu no 
combate. Chegou depois a infanteria e o corsario tendo j4 
perdido muita gente, retirou-se para o trapiche da eidade, 
onde fortificou-se e resistiu at^ o dia seguinte, em que entre- 
gou-se. Alguns mezes depois morreu Duclerc assassinado. 

Dugruay-Trouin (22 de setembro de 1711). — A noticia 
do assassinatx) de Duclerc e do mau tratamento dos Fran- 
cezes provocou uma segunda e maior invasao dirigida pelo habil 
mareante Duguay-Troiiin, que auxiliado pelos ricos negociantes 
de Saint-Mal6 e Calais, elevou sua frota a quatorze navios, com 
uma tripola^ao de mais de tres mil homens. 

Castro Moraes apesar de avisado do grande perigo que corria 
a eidade, nada fez para augmentar os sens raeios de defeza e 
8eguran9a. 

Os Francezes, nao obstante o fogo da artiiheria, aprovei- 
tando uma briza favoravel, entraram iia bahia. Duguay-Trouin 
occupou a ilha das Cobras onde fortificou-se e mandou uma 
nota ao governador, exigindo uma contribui9ao exagerada. 

Castro Moraes respondeu que defenderia a eidade at^ a 
ultima gota de sen sangue. 

Os Francezes desembarcaram no Sacco do Alferes e fortifica- 
ram-se nas collinas da Gamboa, donde principiaram a bombar- 
dear a eidade. 

ARCEBISPOS DA BAHIA. 

D. Gaspar Barata de Mendon9a (1677). 
D. Frei JoSo da Madre de Deus (1686). 
D. Frei Manoel da Re8urrei9ao (1688). 
D. Joao Francisco de Oliveira (1697). 
D. Sebastiao Monteiro da Vide (1703). 
D. Luiz Alvares de Figueiredo (1725). 



HI8TORIA DO BRAZIL. 127 

Entretanto os presos fiigiram da cadea e come^aram o saque, 
ao passu que a guarui9ao portugueza, retirando-se vergonhosa- 
meiite, laD9aya fogo a varias partes da eidade. Grande numero 
de habitantes fugiram para o matto e o covarde governador foi 
tomar posi^ao no Engenho-Novo, donde encetou negocia^oes 
com Duguay-Trouin, que alem de grandes rouboa e de8trui9oe8 
(mais de dois milhoes de crusados), recebeu 610 mil crusados 
em ouro, 100 eaixas de assucar e 200 bois. Para transportar 
carga tSo rica tomaram os Franeezes todos os navios surtos 
no porto e retiraram-se em novembro ao saberem que chega- 
vam soccorros de Minas, eujo valente governador Antonio 
Albuquerque Coelho de Carvalho reunira dois mil cavalleiros 
que eram seguidos de perto por seis mil negros armados. Albu- 
querque nao chegou a tempo de prevenir o vergonhoso pacto do 
resgate da eidade ; mas foi escolhido governador, sendo Castro 
de Moraes preso e mandado para Portugal e de \k para as for- 
talezas da India. 

A grande riqueza do paiz fez logo esquecer este grave preju- 
izo ; mas a Franca nada restituiu, apesar de sua prouiessa no 
tratado de Utrecht. As riquezas do Brazil apressaram cada 
vez mais a decadencia de Portugal ; mas seu vaidoso rei D. 

BI8POS DO RIO DE JANEIRO. 

D. Frei Manoel Pereira (1676). 1). Francisco de S. Jeroiiyiiio (1702). 

D. Jo8^ de Barros Maream (1682). D. Frei Antonio de Guadalupe (1725) 

BISPOS DE PERNAMBUCO. 

D. Estevam Brioso de Figueiredo I). Fr. Francisco de Lima (1696). 

(1678). D. Manoel Alvares da Costa (1710) 

D. Mathias de Figueiredo e Mello Fr. Jos^ Fialho (1725). 

(1688). 

BISPOS DO MARANHAO. 

D. Fr. Gregorio dos Anjos (1680). D. Fr. Jos^ Delgarte (1717). 
D. Fr. Thimoteo do Sacramento D. Fr. Manoel da Cruz (1737). 



118 HISTORIA DO BEAZIL. 

amnistia geral e promettendo aos habitantes do Recife a instal- 
ia9ao da sua villa. 

Passou-se, porem, quasi um anno sem que esta promessa 
fosse cumprida, e os mascates do Recife prepararam nova re- 
volu9ao, e aproveitando a presenya do bispo na sua povoa9ao, 
obrigaram-no a renovar a palavra dada. O bispo coagido 
accedeu a tudo, mas assim que voltou para Olinda intimou-os 
a que obedecessem. Isto bastou para fazer romper a guerra. 

Depois de seis mezes de ataques de parte a parte chegou em 

1711 o novo governador Felix Jos^ Machado de Mendon9a, que 

desarmou os partidos amnistiando-os ; mas ao mesmo 

tempo encetou uma rigorosissima persegui9ao contra o 

partido brazileiro, no que foi auxiliado pelo ouvidor Joao 

Marques Bacalhau e o juiz de f6ra Paulo Carvalho. Esta per- 

segui9ao de tres annos 86 cessou por ordem regia de 7 de 

abril 1714, e pode-se comparar com a que seguiu-se d 

revolu9ao de Pernambuco de 1817, come9ada pelo governador 

Rego Barreto e elevada a mais requintada crueldade pelo desem- 

bargador Bernardo Teixeira Coutinho. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XIX. 

— Quando come9ou a reinar D. Affonso VI ? e o que fez para resta- 
oelecer seu reino? 

— Por quern forain principalmente expulsos os Hollandezes do 
Brazil ? 

— Com quein se casou a princeza de Portugal D. Catharina? e que 
^errenos levou em dote ? 

— Que aconteceu ao rei D. Affonso VI em 1667 ? e quando e onde 
inorreu ? 

— Quanto tempo governou D. Pedro II ? e o que fez pelo Brazil ? 

— Como estava entao dividido o Brazil? 

— Quando foi fundado o arcebispado da Bahia? e que outros bis- 
pado8 foram creados ? 



mSTOBIA DO BRAZIL. 119 

— Quern foi o primeiro arcebispo do Brazil ? o primeiro bispo do 
Rio de Janeiro? de Pernambuco? do Maranhao? 

— Quando chegou Roque da Costa Barreto? que reformas fez na 
colonia? e de que utilidade foram essas reformas? 

— Que males trouxe d colonia a Junta do Commercio ? e quando 
se aggravaram elles? 

— Alem dos monopolios, que outras causas de desgosto havia entre 
OS colonos? 

— Quern fundou o Estado do Maranhao? quando? com que capi- 
tanias? e de que privilegios gosava? 

— Que celebre jesuita foi prdgar no Maranhao sobre a liberdade 
dos indios ? e o que Ihe aconteceu ? 

— Que fez D. Pedro II relativamente ao Maranhao ? 

— Que govemador mandou para S. Luiz ? quando ? e para 
que? 

— Como foi recebido Sa e Menezes ? e a queni deixou em seu lugar 
quando se retirou para Belem ? 

— Que aconteceu entSto em S. Luiz ? 

— (^uem foram os chefes da revolta ? 

— (^ue foi feito dos empregados do estauco e dos jesuitas? 

— l*ara onde foi mandado Thoniaz Beckman? e para (jue? 

— () que fizeram os revoltosos? e o (jue conseguiram? 

— Quando chegou o conde de Bobadella ? e o que fez ? 

— Para onde foram Manoel Beckman e ^Jorge de Sampaio ? 

— Por quem foram trahidos ? e que sorte tiverani ? 

— Que aconteceu a Lazaro de Mello ? 

— O que se entende por Palmares ? e o que f aziam os quilombolas ? 

— Quem expulsou-os do Piauhy ? 

— Onde fundaram um estado ? qual era a capital ? e que titulo 
tinha o chef e ? 

— Quem era o governador de Pernambuco? com quem tratou a 
expulsSLo dos quilombolas ? e com que condic^oes ? 

— Quanto tempo durou a luta ? Como morreu o valente Zimibi ? 

— Que capitania se fundou entSo ? e quando foi separada de Per- 
nambuco? 

— Quen^ fundou Olinda ? quando ? 

— Quando se fundou o Recife? onde? e porque tan to prosperou? 

— Que classe de colonos especialmente s*^ estabeleceu no Recife ? e 
que rivalidade havia entre elles e os habitaates de OVmd.'dal 



120 HISTOBIA DO BRAZIL. 

— Quern era entSo o rei de Portugal? e para que mandou o gover- 
uador SebastiSo de Castro installar a villa do Recife ? 

— O que fez o novo govemador? e onde foi morar? 

— Que circumstancia irritou ao ultimo ponto seu odio contra os 
Olindenses ? 

— Que medidas rigorosas tomou SebastiSo de Castro V 

— Que opposi9So haviam-lhe feito os membros da Camara? 

— Conio procedeu o D®'. Luiz de Valenzuela Ortiz ? 

— O que fez o capit§Lo Jo§Lo da Motta? 

— Para onde foi Sebasti^o de Castro ? 

— Quern dirigiu o governo? como socegou os partidos? e por 
quanto tempo ? 

— O que fizeram os mascates f 

— Compriu o bispo a promessa renovada? e qual o resultado da 
falta do cumprimento de sua palavra ? 

— Quanto tempo durou a luta? quern a terminou? quando? como? 
contra quem usou de rigor ? e por quem foi nisso auxiliado ? 

— Que outro exemplo temos na historia do Brazil de atroz perse- 
guic^ao em seguida a uma revolta popular? . 

— Quem foi o carrasco de Pernambuco em 1817 V 



HISTOKIA DO BRAZIL. 121 



CAPITULO XX. 

FUNDAgAO DA COLONIA DO SACRAMENTO; INFLUENCIA 
DA GUERRA DA SUCCESSAO DE HESPANHA SOBRE 
PORTUGAL E BRAZIL; INVASAO HESPANHOLA NO SUL; 
INVASOES DE DUCLERC E DE DUGUAY-TROUIN. 

1679-1714. 

A fundagao da colonia do Sacramento (1679) despertou na 
America o antigo odio eutre Portuguezes e Hespanhoes, odio 
que principidra com a funda^ao do reino de Portugal por D. 
Affonso Henriques, depois da batalha de Ourique (1137). 
Durante o governo da primeira dynastia, a de Borgonha, 
havia se desenvolvido no novo reinosinho um forte patri- 
otismo, de que resultou a revolta contra D. Joao I de Cas- 
tella em 1383, quando readquiriu o governo de Portugal, por 
sen casamento com D. Brites, filha de D. Fernando o Formoso, 
ultimo rei daquella dynastia. 

A na9ao portugueza para conservar sua indepeudencia pro- 
clamou rei D. Joao I, Mestre de Aviz, filho natural de D. Pedro 
o Cruel, o qual consolidou sua posi9ao pela victoria de Alju- 
barrota (1385). 

Circumstancias politicas e sociaes alimentaram e augmenta- 
ram a inimizade destas duas nayoes : em 1476 pela morte de 
Henrique IV de Castella, competia de direito a cor6a a D. Af- 

CONTEMPORANEOS. 

Papas. 
Alexandre VII (1655). Alexandre VIII (1680). 

Clemente IX (1667). Innocencio XII (1691). 

Clemente X (1670). Clemente XI (1700). 

Innocencio XI (1676). Innoceiicio XIW ^1^V>. 



122 ^ HISTORIA DO BRAZIL. 

fonso V o Africano, que a perdeu pela derrota de Toro (1479) 
e foi obrigado a reconhecer a legit imidade de Isabel e Fernando. 
Depois da morte de D. Henrique o Cardeal effectuou-se final- 
mente a unidade iberica pelo triste tratado de Thomar (1581) , de 
que resultou para ambos os paizes tornar-se a antiga aversao 
em odio declarado. 

D. Pedro II, terceiro rei da dyuastia de Bragan9a, tencionou 
dar a sua eolonia sua extensao natural at6 o rio da Prata ; mas 
a regiao ao norte do rio, hoje Uruguay, f6ra descoberta pelo 
hespauhol Joao Dias Solis (1508). O tratado de Tordesilhas 
celebrado por Alexandre VI (1495) antes da explora9ao das 
terras desconhecidas, deixou esta questao indecisa e ne- 
nhuma rectificayao de limites teve lugar no seculo seguinte 
por causa da unidade iberica. Comtudo ordenou o rei ao gover- 
nador do Rio de Janeiro, D. Manoel Lobo, que colonisasse as 
regides de La Plata. Este governador partiu com todo o mate- 
rial necessario e fundou no anno seguinte (1679) uma eolonia 
defronte da ilha de 8. Gabriely a qual se chamou do Sacramento. 
Nesta colonisayao distinguiu-se o capitao Jorge de Macedo. 
Foi postada na nova eolonia uma guarni9ao com algumas peyas 
de artilheria. 

O vice-rei de Buenos-Ayres atacou com grande forya o forte 
brazileiro, obrigou a guarniyao a capitular e mandou-a para o 
interior. 

D. Pedro II obteve por intervenyao de Innocencio XI um 
arbitrio das grandes potencias europ^as, que decidiram que 
fosse a eolonia restituida aos Portuguezes, o que se realisou 
em 1681 ; mas por causa da incerteza dos limites continuou 
a guerra at^ os tempos modernissimos. 



CONTEMPORANEOS. 

PrINCIPES T1TULARE8 DO ESTADO DO BRAZIL. 

I645-I714. 

I), rheodosio (1653). D. Joao (V de Portugal) (1689-1707). 

I). Affonso (1662). D. Pedro (1712-1714). 

U Joao (1688). D. Jose (I de Portugal) (1760). 



filStORtA DO B11A2IL. 128 

Inflnencia da gruerra da successao de Hespanha 
sobre Portugral e Brazil. — Carlos II morreu em 1699 e 
com elle acaba-se na Hespanha a dynastia Habsburgo-Aragao. 
Apresentaram-se dois pretendentes : Liiiz XIV, que reclamava 
OS direitos da Infanta primogenita, os quaes cedera a seu 
segundo neto, Felippe de Anjou (Felippe V) ; e o imperador 
Leopold© I, que reclamava os direitos dynasticos de Carlos V, 
OS quaes tambem passdra a seu filho segundo, o archiduque 
Carlos (Carlos VI), para evitar nova uniao do imperio com a 
Hespanha. 

Felippe* V obteve acorda por testamento de Carlos II, e vota- 
9ao das C6rtes, foi solemnemente coroado em Madrid e deveu 
sua cons^rva9ao no throno ao patriotism© hespanhol, muito 
mais que d protec9ao da Franca, entao jd muito enfraquecida 
no ultimo periodo do governo de Luiz XIV, que a [)ar de poucos 
soccorros suscitava-lhe fortes inimigos, como Guiiherme III de 
Tngla terra, que influiu muito sobre D. Pedro II para entrar na 
guerra contra a Hespanha. 

Achava-se entao Portugal em condi^oes muito favoraveis por 
causa do ouro recentemente oxpiorado em Minas-Geraes ; mas 
o rei mon*eu durante esta guerra e succedeu-lht* I). Joao V, que 

GOVERNADORES DO RIO DE JANEIRO. 

Estacio de Sa (1665). Salvador Correa de Sa e Benevides 
Salvador Correa (1667). (1637). 

Christovao de Barros (1569). Duarte Correa Vasqueanes (1642). 

Do^ Antonio Salema (1574). Luiz Barbalho Bezerra (1643). 

Salvador Correa (1577). Francisco de Soutomaior (1644). 
Francisco de Mendon9a e Vasconcel- Duarte Correa Vasqueanes (1645). 

los (1599). Salvador Correa de Sa e Benevides 
Martim de S^ (1603). (1648). 

Affonso de Albuquerque (1608). Salvador de Brito Pereira (1649). 

D. Francisco de Souza (1610) Antonio Galvao (1651). 

D. Luiz de Souza (1616). D. Luiz de Almeida (1652). 

Francisco Farjado (1620). Salvador Correa de S^ e Benevides 
Martim de Stf (1623). (1669). 



124 HISTORIA DO BRAZIL. 

segiiiu a polltica ingleza. A ac9§L0 mais importante do exercito 
portuguez foi a occupa9ao de Madrid pelo conde das Minas, 
que expulsou Felippe V de sua capital. Mas concorreram para 
p6r termo a esta luta varias cireumstancias, entre as quaes se 
notam a exonera93o de Marlborough pela rainha Anna, e a 
morte de Jos6 I, que deixou a corda do imperio a Carlos VI, o 
pretendente, que foi em 1711 eoroado imperador. Isto influiu 
extraordinariamente sobre os successos dos Portuguezes, que 
foram expulsos de Hespauha por Vend6nie, veneedor de Villa- 
Vi90sa. 

O tratado de Utrecht em 1713 poz termo d guerra e por inter- 
ven9ao da Ingla terra foram restituidos a Portugal os terrenos 
tomados no Brazil pelos Francezes e Hespanhoes. 

Em 1705 o vice-rei de Buenos-Ayres, Affonso Valdez, diri- 
giu-se com uma grande frota para a colonia do Sacramento e 
eercou-a por mar e por terra. O commandante do forte, Sebas- 
tiao da Veiga Cabral, resistiu valentemente durante seis mezes. 
A colonia ficou em poder da Hespanha at^ o trufcado de Utrecht, 
que deu a Portugal direito sobre toda a Banda Oriental, e recti- 
ficou ao norte os limites pelo rio Oj^apoc. Estas condi96es 
foram frequentes vezes violadas por Francezes e Hespanhoes. 

GOVERNADORES DO RIO DE JANEIRO. 

Agostinho Barbalho Bezerra (1660) Arthur de Sa e Menezes (1697). 

por acclama9ao. Martim Correa Vasques (1697). 

Pedro de Mello (1662). Francisco de Castro Moraes (1700). 

D. Pedro de Mascarenhas (1666). D. Alvaro da Silveira e Albuquerque 
Joao de Souza e Souza (1670). (1702). 

Mathias daCuuha (1675). D. Fernando Martim Mascarenhas 
D. Manoel Lobo (1679). (1706). 

Pedro Gomes (1681). Antonio de Albuquerque Coelho de 
Duarte Teixeira Chaves (1682). Carvalho (1709). 

Joao Fernando deMendon5a( 1686). Francisco de Castro Moraes (1710). 

D. Francisco de Lencaster (1689). Antonio de Albuquerque Coelho de 
Luiz Cesar de Menezes (1690). Carvalho (1711). 

Antonio Paes de Sande (1693). Antonio Brito de Menezes (1717). 
SebastiSo de Castro e Caldas (1696). 



HI8T0BIA DO BRAZIL. 125 

A oolonia do Sacramento soffreu no governo de D. JoSo V 
conBtantes ataques e 06 Hespauhoes em 1723 fundaram sobre 
o territorio portuguez a cidade de Montevideo. 

Em 1737 celebrou D. Joao V com Felippe V o tratado de 
Madrid, que nada determinou precisamente. S6 o energico 
marquez de Pombal conseguiu em 1750 a nomea9ao de uma 
commissao para marcar os limites do Oyapoc e do Prata. 

Invasdes francezas. — Antes da guerra da successSLo de 
Hespanha notam-se duas invasoes com o fim de fundar uma 
colonia franceza no Brazil. A primeira foi a de Villegaignon 
mandada pelo almirante Coligny (1553), o qual foi expulso por 
Mem de S&, fundador de Sebastianopolis (1567). A segunda 
na regencia de Maria de M^dicis, por La Ravardi^re contra o 
Maranhao (1614), que foi repellida por Jeronymo de Albu- 
querque, fundador da capitania do Maranhao. 

Estas expedi9oes foram feitas contra Portugal por causa de 
sua allian^a com a Austria e na inten9ao de apoderarem-se das 
riquezas do paiz, cuja fama se tinha espalhado na Europa. 

No seeulo 18° houve ainda duas expedi^oes Francezas contra 
o Brazil; uma em 1710 e a outra em 1711. 

Dnclerc (19 de setembro de 1710). — A primeira ao 
commando do corsario Carlos Duclerc compunha-se de uma 
flotilha de seis navios e mil homens de tripola^ao. Depois de 
algumas tentativas em frente d bahia do Rio de Janeiro, desem- 
barcaram as tropas francezas em Guaratiba e entraram na 
cidade pelo Engenho-Novo. 

O governador Francisco de Castro Moraes, apesar de dispor 
de uma for^a de cinco mil homens, nada fez para impedir a 
entrada dos Francezes, contra quem armaram-se os particulares. 

BISPOS DA BAHIA. 

D. Constantino B^rradas (1618). D. Pedro da Silva (1649). 

D. Marcos Teixeira (1622). D. Alvaro de Castro (1668). 

Etteram dos Santos (1675). 



126 HISTORIA DO BRAZIL. 

Duclerc atravessou sem grandes perdas a rua de Mata-Caval- 
los, e notou que as foryas portuguezas estavam concenti*adas 
n'uma fortifica9ao no largo do Rosario; mas chegando d rua 
Direita foi energicamente atacado pela cavallaria dirigida por 
Gregorio de Castro, irmao do governador, o qual morreu no 
combate. Chegou depois a infanteria e o corsario tendo jd 
perdido muita gente, retirou-se para o trapiche da cidade, 
onde fortificou-se e resistiu at^ o dia, seguinte, em que entre- 
gou-se. Alguns mezes depois morreu Duclerc assassinado. 

Duguay-Trouin (22 de setembro de 1711). — A noticia 
do assassinato de Duclerc e do mau tratamento dos Frau- 
cezes provocou uma seguuda e maior invasao dirigida pelo habil 
mareante Duguay.-Troiiin, que auxiliado pelos ricos negociautes 
de Saint-Maid e Calais, elevou sua frota a quatorze navios, com 
uma tripola^ao de mais de tres mil homens. 

Castro Moraes apesar de avisado do grande perigo que corria 
a cidade, nada fez para augmentar os sens meios de defeza e 
seguran^a. 

Os Francezes, nao obstante o fogo da artiiheria, aprovei- 
tando uma briza favoravel, entraram na bahia. Duguay-Trouin 
occupou a iiha das Cobras onde fortifieou-se e mandou uma 
nota ao governador, exigindo uma contribuigao exagerada. 

Castro Moraes respondeu que defenderia a cidade at6 a 
ultima gota de seu sangue. 

Os Francezes desembarcarara no Sacco do Alferes e fortifica- 
ram-se nas collinas da Gamboa, donde principiaram a bombar- 
dear a cidade. 

ARCEBISPOS DA BAHIA. 

D. Gaspar Barata de Mendon9a (1677). 
D. Frei Joao da Madre de Deus (1686). 
D. Frei Manoel da Resurrei9ao (1688). 
D. Joao Francisco de Oliveira (1697). 
D. Sebastiao Monteiro da Vide (1703). 
D. Luiz Alvares de Figueiredo (1726). 



HISTORIA DO BRAZIL. 127 

Entretanto ob presos fogiram da cadea e come9aram o saque, 
ao passu que a guarui^iio portugueza, retirando-se vergonhosa- 
metite, laii9aya fogo a y arias partes da cidade. Grande numero 
de habitantes fi^iram para o mattx) e o eovarde governador foi 
tomar posi^ao no Engenho-Novo, donde encetou negoeia9r)es 
com Duguay-Trouin, que alem de grandes roubos e destru 1901*8 
(mais de dois milhoes de crusados), recebeu 610 mil crusados 
em ouro, 100 caixas de assucar e 200 bois. Para transportar 
carga tao rica tomaram os Francezes todos os navios surtos 
no porto e retiraram-se em novembro ao saberem que chega- 
vam soecorros de Minas, cujo valente governador Antonio 
Albuquerque Coelho de Carvalho reuuira dois mil cavalleiros 
que eram seguidos de perto por seis mil uegros armados. Albu- 
querque nao chegou a tempo de prevenir o vergonhoso pacto do 
resgate da cidade ; mas foi escolhido governador, sendo Castro 
de Moraes preso e mandado para Portugal e de \k para as for- 
talezas da India. 

A grande riqueza do paiz fez logo esqueeer este grave preju- 
izo ; mas a Fran9a nada restituiu, apesar de sua promessa no 
tratado de Utrecht. As riquezas do Brazil apressaram cada 
vez mais a decadencia de Portugal ; mas seu vaidoso rei D. 

BISPOS DO RIO DE JANEIRO. 

D. Frei Manoel Pereira (1676). I). Francisco de S. Jeroiiyiiio (1702). 

D. Jose de Barros Maream (1682). D. Frei Antonio de Guadalupe (1725). 

BISPOS DE PERNAMBUCO. 

D. Estevam Brioso de Figueiredo D. Fr. Francisco de Lima (1696). 

(1678). D. Manoel Alvares da Costa (1710) 

D. Mathias de Figueiredo e Mello Fr. Jos^ Fialho (1725). 

(1688). 

BISPOS DO MARANHAO. 

D. Fr. Gregorio dos Anjos (1680). D. Fr. Jose Delgarte (1717). 
D. Fr. Thimoteo do Sacramento D. Fr. Manoel da Cruz (1737). 



128 HISTOKIA DO BRAZIL. 

Joao V rivalisava em luxo e extravagancias com o proprio Luiz 
XIV. A iustitui9ao do patriarcbado, o aqueducto das aguas 
livres, a reconstrucgao de Cintra e o convento de Mafra sao 
monumentos dessa epoca, e nao 6 para admirar que seu filho 
D. Jos6 I (1750-1777) encontrasse o thesouro exhausto e a 
Da^ao enfraquecida e anarchica. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XX. 

— Qual foi o resultado da fuiida9ao da colonia do Sacramento pelos 
Portuguezes no sul? 

— Quando come9dra a odiosidade entre Portuguezes e Hespanhoes ? 

— Como se revelou esta auimosidade entre os Portuguezes depois 
da morte de D. Fernando o Formoso? e quando? 

— Quem foi eleito rei de Portugal em 1885? 

— Que victoria memoravel ganhou o Mestre de Aviz? quando? 

— De quem era filho D. Joao I ? 

— ^ Quem tinha direito d cor6a de Castella em 1476 pela morte de 
Henrique IV? E porque nSo governou elle? 

— Quando foi Portugal reunido a Hespanha? por quem foi decidida 
a annexa9SLo ? e qual o resultado ? 

— O que tencionava D. Pedro II f azer relativamente ao Brazil ? 
com que dif&culdade teve de lutar? porque? 

— O que ordenou o rei ao governador Manoel Lobo? 

— Em que anno fundou elle a colonia? onde? e que nome teve? 

— Quem mais se distinguiu nesta expedi9ao ? e como foi fortificada 
a colonia ? 

— () que fez o vice-rei de Buenos- Ayres ? 

— Como readquiriu D. Pedro II a colonia do Sacramento? e quando 
cessou a luta? 

— Qual foi o ultimo rei da dynastia Habsburgo-AragSo na Hes- 
panha ? e quando morreu ? 

— Quantos pretendentes teve a coroa de Hespanha em 1699 ? 

— Para quem reclamava Luiz XIV os direitos de Maria Thereza? 

— A quem cedera o imperador os direitos dynasticos? e para que? 

— Quem alcaiKjou a coma de Hespanha? como? 

— Como se achava a Franca no fim do governo de Luiz XIV Y 



HISTORIA DO BRAZIL. 129 

— Que inimigos suscitou a Fraii^a ^ Hespaiiha? 

— Quaes eram as condi95es de Portugal durante a guerra da suc- 
cess§k> de Hespanha? e porque? 

— Quern foi o successor de D. Pedro II ? quando ? e que politica 
seguiu D. JoSo V ? 

— Que victoria notavel alcan9arani os Portuguezes na Hespanha? 
e qual o resultado V 

— Que circumstancias coucorreram para pdr teruio d guerra ? 

— Quern foi coroado imperador da AUemanha em 1711 ? 

— Quera expulsou os Portuguezes de Hespanha ? 

— Que rela^So tern com o Brazil-colonia o tratado de Utre<At ? 
Que na9S[o interveio em favor de Portugal ? 

— Que aconteceu d colonia do Sacramento em 1705? quem era sen 
commandante ? quanto tempo resistiu ? 

— Foram respeitadas as estipulac^oes do tratado de Utrecht? 

— Que cidade fundaram as Hespanhoes no sul em 1723? e em que 
terrenos ? 

— Quando foi celebrado o tratado de Madrid ? entre que sobera- 
nos ? e o que decidiu ? 

— Que estadista determinou a questSLo de limites ? 

— Quantas vezes foi o Brazil invadido pelos Francezes ? em que 
pontos? 

— Quem foi o primeiro invasor? quando? que lugar atacou? e 
quem o expulsou ? 

— Quem foi o segundo? quando? que capitania tomou? e por 
quem foi expulso? 

— Porque atacaram os Francezes o Brazil ? 

— Quem foi Carlos Duclerc? que forc^a commandava? 

— Que cidade atacou Duclerc ? onde desembarcou, e por onde 
entrou na cidade? 

— Quem era o govemador? qual o seu procedimento? 

— Quem resistiu aos Francezes ? 

— O que aconteceu a Duclerc ? 

— Como vingaram os Francezes a sua morte ? 

— Quem conmiandou a segunda expedi^^o contra o Rio de Janeiro 1 
com que f or9a8 ? 

— Como resistiu Castro Moraes ? 

— Que ilha occupou Duguay-Trouin? e o que exigiu? 

— O que respondeu-lhe o govemador ? 



180 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Que pontos toraaram os Francezes ? 

— Que tristes sceuas se davam na cidade em quanto os inimigos 
a bombardeavani ? 

— Como procedeu o governador ? e que resgate pagou ? 

— Que depreda(;oes mais fizeram os francezes ? quando se reti- 
raram ? 

— Quem era Antonio Albuquerque Coelho de Carvalho ? porque 
veiu para o Rio ? e que posic^So ahi alcan^ou ? 

— Que foi feito docovarde Castro Moraes? 

— Como se remediaram estes prejuizos enormes? 

— Cumpriu a Fran9a as clausulas do tratado de Utrecht relativa- 
mente d espolia9ao do Rio de Janeiro ? 

— Qual foi para Portugal o resultado da descoberta do ouro no 
Brazil ? 

— Porque se distingue o governo de D. Joao V? e qual o resultado 
de sen luxo extravagante ? 



HISTOKIA DO BRAZIL. 181 



CAPITULO XXI. 

O BRAZIL NO GOVERNO DE D. JOSE I: O MARQUEZ 

DE POMBAL. 

1750-1777. 

Sebastiao Jos^ de Carvalho e Mello, conde de Oevras e mar- 
quez de Pombal, principiou sua carreira politica nas c6rtes de 
Jorge III de Inglaterra, cujo primeiro ministro era Walpole 
(1745) e de Maria Thereza d' Austria oude a politica era 
dirigida por Kaunitz. Com a morte de D. Joao V em 
1750 recebeu a eor6a D. Jos^ I que depositxni em Pombal a 
mais absoiuta confian^a. Desde o priucipio de sua adminis- 
trayao adquiriu o grande couselheiro \K>r sua intelligencia e 
energia uma grande popularidade que auguientou-se 
aiuda pelos 8ervi90s que prestou d capital por oecasiao 
do terremoto que em 1755 assolou Lisboa. 

O segundo periodo do seculo XVIII tern na historia o nome 
de — periodo da reforma — por ter sido a epoea em que os reis 
aconselhados por habeis ministros operaram no sentido liberal 
grandes mudan9as governativas, que preveniram serias catas- 
trophes. Nesse tempo governaram : na Prussia, Frederico II 
(1786) ; na Austria, Maria Thereza, e depois de sua morte em 
1780, seu filho D. Jos^ II (1792), que tiveram por conselheiro 
o prineipe de Kaunitz ; na Inglatorni diriginun a politica Fox 
e Pitt, successores de Walpole ; na Russia era imperatriz Catha- 
rina II a Grande (1695) ; na Frau^n foi primeiro ministro 
Choiseul, cuja administra^ao de 1 758 a 1 770 marca a epoca 
mais feliz do reinado de Luiz XV ; na Italia teve Carlos IV de 
Napoles o illustre Tanuzzi, o quando reee))eu em 1 759 a eor6a 
de Hespanha (Carlos III), tomou por conselheiro^ A^^\\.d^ ^ 



132 HISTORIA DO BRAZIL. 

Florida-Blanca. Entre todas estas summidades diplomaticas 
representa Pombal um importante papel e por seu prcstigio foi 
Poiiiugal durante o seu goveruo respeltado entre as na9oes da 
Europa. 

Tratado de Madrid (1750). — Em 1750 morreu D. Joao 
V deixando por executar-se o tratado de Madrid, que determi- 
nava os limites da colon ia do Brazil com os dos tres vice-reina- 
dos de Hespanha — Santa- F6, Perd e Buenos- Ayres. O terri- 
torio de Buenos-Ayres jd tinha provocado differentes guerras 
entre Hespanhoes e Portuguezes. Em 1714 pelo tratado de 
Utrecht, que poz fim d guerra da successao de Hespanha, rece- 
beu Portugal os territorios de La Plata e das Missoes ; mas as 
hostilidades dos Hespanhoes continuaram at^ d morte de D. 
Joao V, apesar de envidar Portugal todos os esfor90s para 
realisar a demarca9ao de limites do Brazil conforme o tratado 
de Madrid que dava o territorio das Sete Missoes aos Portu- 
guezes em troca da colonia do Sacramento ao norte do Prata. 
Pombal nada conseguiu apesar de ter-se reunido a commissao 
demarcadora composta do governador do Rio de Janeiro, Gomes 
Freire de Andrade, e do marquez de Valdelirios, plenipoten- 
ciario de Carlos IH, a qual depois de tres annos nao podendo 
chegar a um accordo, teve de separar-se, vol tando Gomes Freire 
de Andrade para o Rio de Janeiro, depois de algumas lutas 
contra os jesuitas dirigidos por seu superior Mathias Strobel e 
o cura Lourengo Balda. Mais tarde vingou-se Pombal tanto 
dos jesuitas como dos Hespanhoes. 

Aboli^ao dos jesuitas. — A companhia de Jesus formava 
em Portugal um estado, como em Fran9a os huguenots no 
tempo do cardeal Richelieu. Pombal gravemente offendido 
pelos jesuitas que impediam-no de executar suas reformas, pro- 
jectou a aboli9ao da Companhia. 

Em 1758 deu-se contra a vida de D. Jos^ I o attentado em 
gue se acharam compromettidos os jesuitas e as nobres familias 



HISTOBIA DO BBAZIL. 133 

do6 oondes de Tavora e Aveiro. Instaoroa-se am processo 
extraordinario e os compromettidos foram condemnados a 
morte. Entre elles se notam o conde de Aveiro, o conde de 
Tavora, sua mulher D. Leonor, dama de honor da infanta D. 
Maria, e o jesuita Malagrida. 

No anno seguinte (1759) eonsegniu Pombal de D. Jos^ I que 
assignasse um decreto expulsando os jesuitas de Portugal e do 
Brazil. 

O exemplo do eminente politico foi logo imitado por Luiz 
XV na Fran9a (1764) e na Hespanha e Italia por Aranda, eon- 
selheiro do Carlos III (1767), sendo o papa Clemente XIV 
(Ganganelli) obrigado em 1773 por estas na9oes a supprimir 
a ordem dos jesuitas, o que fez pela bulla Dominus ac Redemp- 
tor. 

Pombal ao passo que expulsava os jesuitas da colonia do 
Brazil, tambem proclamava nella a libeixlade dos indios. 

Tratado de Paris (1763). — Pombal vingou-se tambem 
da Hespanha, entrando em 1756. na gueiTa de sete annos, em 
aUiau9a com a Inglaterra e a Prussia, contra a Hespanha, a 
Italia e a Franga. Estes tres ultimos paizes tinham por cbefes 
reis da dynastia Bourbon — Luiz XV, Carlos III e Fernando 
IV, filho de Carlos III, que recebeu de sen pae a cor6a de 
Napoles. 

Em 1763 armou a Hespanha uma grande frota contra o sul 
do Brazil, onde era governador o illustre Gomes Freire de 
Andrade. O general hespanhol, depois vice-rei, D. Pedro Ce- 
ballos, occupou a colonia do Sacramento e as pequenas for- 
talezas do an?oio Chuy, e preparou-se para atacar o Rio de 
Janeiro. A noticia desta invasao apressou a morte do nobre 
governador Gomes Freire de Andrade (1763) ; mas foi ampla- 
mente reparada pelo glorioso tratado de Paris (1763), que 
restituia a Portugal todas as regioes que jd Ihe haviam sido 
eoneedidas pelo tratado de Utrecht. 

O grande poder do ministro de D. Jos^ I ex\)lvca.-^^ \ (^^^ ^^\a. 



134 HISTOBIA DO BRAZIL. 

completa confian^a de seu rei que at6 & morte nnnca se desmen- 
tiu. Richelieu gosou de igual confianga da parte de Luiz XIII, 
assim como tambem actualmente o prineipe de Bismarck que 
tern encontrado o mais decidido apoio do seu imperador Gui- 
Iherme I. (6) Pela felicidade de no principio de seu governo 
eneontrar um papa liberal, Benedicto XIV (Lambertini) , que 
era, por assim dizer inimigo dos jesuitas, ao qual o proprio 
Voltaire honrou com o seguinte epitaphio : 

" Lambertinus hie est, Roma decus et pater orbis, 
Qui mundum scriptis, virtutibus ornat." 

E sobretudo notavel a superior idade, e energia que revelou 
em todos os seus actos ; Pombal, como Richelieu, adoptdra a 
devisa : dito e feito. Sua iufluencia em Portugal sobre a 
administra9ao, a agricultura, o commercio e a industria, iu- 
terrompeu a decadencia do reino s6 durante seu governo. No 
Brazil, porem, suas reformas despertaram as primeiras id^as 
de independencia, cuja realisagao foi apressada pela presen9a 
de D. Joao VI no Brazil (1808-1821), e proclamada por D. 
Pedro I a 7 de setembro de 1822. 

Reformas de Pombal no Brazil. — O eximio estadista 
aboliu no Brazil todos os direitos dos antigos c»pitaes-m6res, 
que se tinham conservado desde 1534. As capitaniasde Porto- 
Seguro e Ilh^os foram aunexadas k Bahia ; mas a cidade de 
S. Salvador perdeu as regalias de residencia dos governadores, 
a qual mudou-se em 1763 para o Rio de Janeiro. Pernambuco 
e. Bahia tiveram governadores especiaes. 

Introduziu tambem importantes reformas na .administra9§Lo 
da jiisti9a, abolindo a inquisigao e todos os direitos temporaes 
do clero. 

Den a liberdade aos indios e substituiu a falta de bra^os por 
uma grande immigra9ao de Ilh^os ; consta que mais de 20,000 
vieram entao dos A9ores para o Brazil. 

O cowmerclo recebeu grande anima9ao pela diminui^ao do3 



HISTOBIA DO BRAZIL, 136 

monopolios e a institui9ao de bancos commerciaes no Brazil. 
Os mais importaDtes foram os do Grao Par A e de Per^ambuco. 

Guidon especialmente da admin istragao das minas e mandou 
de Portugal excellentes directores que deram muito desenvolvi- 
mento d provincia de Minas, onde entao se fundaram coUegios 
que at^ hoje gosam de muito boa fama. 

Os thesouros do Brazil e a sua boa administragao foram os 
principaes factores do brilhante estado em que Pombal deixou 
as finan9as. Organisou um exeellente exercito, equipou uma 
boa frota, e mandou reeonstruir as fortalezas do Brazil con- 
forme o novo sy sterna de bastioes de Vauban, e aperfei^oar 
como se aeham actualmente os portos do Rio de Janeiro, Per- 
nambuco e Bahia. 

Pombal conseguiu estabelecer uma completa uniao entre Bra- 
zileiros e Portuguezes. O odio que bavia germinado i)elos erros 
do govemo portuguez, preparou a boa recep9ao de D. Joao VI 
em 1808 ; ao passo que os reis de Hespanha, Carlos IV e Fer- 
nando VII, nao acbaram asylo nos sens ricos vice-reinados e 
foram obrigados a sujeitar-se d politica de Naix)leao I. 

Em 1776 mandou Carlos III uma segunda frota contra o 
Brazil, commandada por D. Pedro de Ceballos, vice-rei de 
Buenos-Ayres, que de novo occupou a regiao do Prata. 

Nesse interim .morreu D. Jos6 I e succedeu-lhe D. Maria I, 
sua filha casada com D. Pedro III, a qual era inimiga implaca- 
vel do grande ministro que foi logo dimittido, processado e 
exilado da c6rte em 1781. 

Este eminente estadista morreu no esquecimento em 1782; 
sen centenario porem, foi celebrado com giaude enthusiasmo 
em Portugal e no Brazil. A historia de Portugal conta tres 
heroes immortaes : Vasco da Gnma. o doscobridor ; Luiz de 
Camoes, o poeta ; e o Marquez de Pombal, o grande estadista. 



186 HISTOBIA DO BRAZIL. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXI. 

— Com que grandes diplomatas fez Pombai seu tirocinio politico ? 

— Que rei de Portugal nomeou-o seu primeiro ministro ? 

— O que uo priucipio da sua administra9ao augmentou sua popu- 
laridade ? 

— Porque tern na historia o nome de — penodo da ref orma — a 
segunda parte do seculo XVIII ? 

— Quern governava entSo a Prussia? na Austria quem dirigia 
a politica? e na Inglaterra? 

— Quem foi Choiseul? e quanto tempo dominou a politica fran- 
cesa? 

— Que grandes ministros teve Carlos III de Hespanha ? 

— Que lugar occupa Pombai entre os grandes estadistas ? e o que 
ihe deve Portugal ? 

— O que determindra o tratado de Madrid relativamente ao Brazil ? 

— O que dispoz o tratado de Utrecht a respeito do territorio do 
Prata e das Sete Missoes ? Puzeram estes tratados termo ds hostili- 
dades? 

— Quem foram os raembros da commiss§Lo de limites ao sul? 
quanto t-erapo estiveram reunidos ? e o que conseguiram ? 

— Como procederam os jesuitas acerca das ordens do govemo ? 

— De que modo vingou-se Pombai da opposi9ao da Companhia ? 

— Que circumstancia favoreceu o projecto de Pombai? 

— Como foram punidos os compromettidos no attentado contra a 
vida do rei ? 

— Em que anno foram os jesuitas expulsos de Portugal e Brazil? 

— Que na9oes da Europa imitaram a Portugal na expulsfto dos 
jesuitas ? 

— Que papa aboliu a Companhia de Jesus ? e quando ? 

— Como acabou Pombai com a questao dos indios ? 

— Que vingan9a tomou Pombai dos Hespanhoes ? 

— A que dyuastia pertenciam os reis de Hespanha, Italia e Fran9a? 
e quem eram elles ? 

— Quem era o governador do Rio de Janeiro em 1763 ? 

— Que ponto do Brazil foi em 1763 atacado pelos Hespanhoes ? e 
com que resultado ? 



HISTORIA DO BRAZIL, 137 

— Que tratado restituiu a Portugal os terrenos perdidos? e que 
terrenos eram esses ? 

— Como se explica o grande poder de Pombal no interior? e no 
exterior? 

— Que eleyadas qualidades distinguiain seu caracter ? 

— Que influencia teve sua adn]inistra9SLo sobre Portugal ? e sobre 
o Brazil? 

— Que ref orraas operou Pombal no Brazil ? 

— De que modo reformou a administracjao da justicja? 

— - Depois de dar a liberdade aos indios, conio remediou a f alta de 
tiabalhadores ? 

— Que atten9£U) deu ds uiiuas do Brazil? em que estado deixou as 
finan^as ? e porque ? 

— O que fez Pombal relativaniente ao exercito ? a mariuha ? ds 
f ortifica^oes da costa do Brazil ? aos portos ? 

— Qual o resultado da administra^So de Pombal para o Brazil? 

— Que prova se deu da amizade fraternal entre Brazileiros e Portu- 
guezes ? 

— Que nova invasSLo se deu no Brazil em 1776 ? e onde ? quem a 
commandava? e o que conseguiu? 

— Que grande desgra^a aconteceu a Portugal em 1777 ? quem subiu 
ao throno ? 

— Que f oi feito de Pombal ? Quando morreu ? Foram sens ser 
vicjos devidamente apreciados pela posteridade? como se prova isto? 

— Que trindade de heroes honra as pagiuas da historia de Poi 
tugal? 



188 HISTOBIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XXII. 

PROJBCTOS DB INDEPENDENCI A DO BRAZIL : CONSPIRAglO 

DO TIRADENTES. 

1777-1792 

Durante o estado colonial apresentaram-se differentes proje 
ctos de tornar o Brazil independente de Portugal, os quaes clas 
sificam-se, conforme sua origem, em dous grupos : europeus e 
hrazileiros, Entre os primeiros apoutain-se dous : 

I. O projecto do Prior do Ciato em 1581, o qual batido pelo 
duque d'Alba, tentou, como legitime herdeiro da cor6a portu- 
gueza, fuudar no Brazil um reino independente. D. Antonio 
chogou ao Rio de Janeiro com alguns navios fomecidos por 
Henrique 111 de Franga; mas nao Ihe permittiu desembarear 
o govornador Salvador Correa de 8d, que j4 bavia prestado 
juramento a Felippe II. 

II O projecto do conde de Aranda, ministro de Carlos III 
de Hespanha, que tenciondra depois do tratado de Paris 
(1 763) , fuiidar com as vastas colonias hespanbolas e ix>r- 
tuguezas da America reinos independentes, prevendo desde entao 
a difficuldade de sua conserva9ao. Entrdra para isso antece- 
dentemente em negoeiac^'oes com Pombal, ministro de D. Jos^ I, 
mas nada conseguiu. Suas previsoes realisaram-se no seculo 



CONTEMPORANEOS PAPAS 

Benedicto XIII (Orsini), 1724-1730. 
Clemente XII (Corsino), 1730-1740. 
Benedicto XIV (Lambertini), 1740-1758. 
Clemente XIII (Rezzonico), 1758-1769. 
Clemente XIV (GanganelU), 1769-1775. 
flo VI (Braschi), 1775-1800. 



HISTOKIA DO BRAZIL. 189 

seguinte, quando os vice-reinados da Uespanha formaram re- 
publicas e o Brazil um impeno independente 

Nos motins e revoltas que se originarain no Brazil notam-se 
jd desejos de separa^ao ; mas taes movimentos eram principal- 
mente dirigidos contra graves erros do governo e por isso locali- 
saram-se, nao se divulgando por toda a colonia. 

Os erros governativos que frequentemente provocavam essas 
demonstrayoes de desgosto eram : escravidao dos indios, incer,- 
teza de limites e monopolios. 

Revoltas no Brazil — Em 1640 proclamayao de Amador 
Baeno em S. Paulo, e expulsao dos jesuitas e emprega- 
dos do fisco. Amador Bueno com toda a lealdade appla- 
cou a revolta e alcan90u para os Paulistas amnistia geral de 
D. Joao IV. 

Em 1663 Agostinho Barbalho foi pelo povo do Rio de Janeiro 
aeclamado governador da capitania, sendo expulsos o gover- 
nador, os jesuitas e os empregados do fisco. Tambem esta 
revolta nao teve graves consequencias. 

Mais s^ria foi a revolu9ao dos irmaos Beck mans no Maranhao 
(1683) ; mas cumpre notar que apezar de haver na colo- 
nia inteira a mesma oppressao da parte dos jesuitas e do 
fisco, nenhuma outra capitania tomou o partido dos revolucio- 
narios, e quando chegou (1684) o novo governador, Gomes Freire 
de Andrade,sujeitou-seo Maranhao sem resistencia, e viu mesmo, 

CONTEMPORANEOS: VICE-REIS E GOVERN ADORES-GERAES DO 

BRAZIL. 

D. Antonio de Almeida Soares e Portugal, conde de Avintes (1755-1762). 

General Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadella (1763). 

D. Antonio Rolim de Moura Tavares, conde de Azambuja (1767). 

D. Lniz de Almeida Portugal, conde de Avintes (1768). 

Jos^ da Cunha GrS Ataide e Lancastro, conde de Pavolide (1760). 

Manoel da Cunha Menezes (1774). 

D. AffoDBO Miguel de Portugal, marquez de yalen9a (1779). 

D. Rodrigo Jo8^ de Menezes e Castro (1784). 

IX Veniaiido Joa^ de Portugal e Castro (1801). 



140 HISTORIA DO BRAZIL. 

sem revoltar-se, subir ao patibulo seus chefes Manoel Beckman 
e o D®'. Sampaio. 

Comtudo jd entao existia a nacionalidade brazileira, que se 
havia formado na guerra prolongada da Hollanda, e cujos re- 
presentaDtes tinham conseguido expulsar o inimigo estrangeiro. 
Os Brazileiros desenvolveram-se rapidamente no sentido social 
pelo descobrimento das grandes riquezas mineraes e pel as favo- 
raveis institui^oes de Pombal que Ihes deram direitos quasi 
iguaes aos do reino de Portugal. 

Em 1777 quando a implacavel inimiga do marquez de Pom- 
bal, D. Maria I subiu ao throno, tratou logo de dimittil-o e de 
abolir caprichosamente as sabias instituigoes daquelle grande 
reformador. 

Mais que Portugal soflPreu o Brazil com tal regresso. Foi 
prohibido o commercio do Brazil com as outras na9oes ; intro- 
duzidos de novo os antigos privilegios ; os monopolios estende- 
ram-se sobre todos os generos de primeira necessidade ; e pelos 
alvards regios de 1 782 e 1 783 foi vedada toda a industria e o 
luxo punido com fortes multas. Esta tyrannia exercia-se no 
Brazil ao mesmo tempo em que no mundo inteiro surgiam id^as 
liberaes. 

CONTEMPORANEOS . GOVERNADORES DO RIO DE JANEIRO. 

Ayres de Saldanha e Albuquerque Coutinho Ivlattos e Noronha (1717-1719). 

Luiz Valiia Monteiro (1726). 

Gomes Freire de Andrade (1733). 

Governo interino (1733-1753). 

Gomes Freire de Andrade (2» vez), conde de Bobadella, vice-rei (1762). 

D. Antonio Alvares da Cunha, conde da Cunha, vice-rei (1763). 

D. Antonio Rolim de Moura, conde de Azambuja, vice-rei (1767). 

D. Luiz de Almeida Portugal Soares E^a Mello Silva Mascaranhas mar 

quez de Lavradio, vice-rei (1769). 
D Luiz de Vasconcellos e Souza, vice-rei (1779-1790. 
D. Jose de Castro, conde de Rezende, vice-rei (1790-1801). 
D. Fernando Jose' de Portugal, vice-rei (1801-1806). 
X). Marcos de Noronha e Brito, conde dos Arcos, vice-rei (1806-1807)* 



HI8TORIA DO BRAZIL. 141 

Em 1773 rompera nos Estados-Unidos a guerra contra a forte 
luglaterra ; nos vice reinados hespanhoes appareeem f requentes 
revoltas ; na India levantaram-se Tippo-Saeb e Hyder-Alli con- 
tra a oppressao ingleza; e na Franca preparava-se a Grande 
Revolug^o. 

A tranqnillidade e a indifPeren9a da na^^o brazileira explicam- 
se por tres causas : 

I. Rela^des intimas com a metropole. 

II. Riqueza de produ^ao em todos os sentidos. 

III. Falta de animo para entrar em guerra aberta com a 
mae-patria. 

Apezar disto a nova tyrannia provocou uma grande indig- 
na^ao no animo dos patriotas exaltados. Muitos estudantes 
brazileiros achavam-se entao nas universidades de Coimbra, de 
Paris e de Londres e assistiram aos grandes acontecimentos 
dessa epoca. 

Consta que um tal D°''. Barboza de Minas teve mesmo confe- 
rencias era Paris, mas sem nenhum exito, com Jefferson, embai- 
xador dos Estados-Unidos, cuja independencia havia sido 
reconhecida em 1783 com grande enthusiasmo em Versailles. 

Em 1788 formou-se em Vilia-Rica (boje Ouro-Preto) capital 
de Minas-Geraes, uma conjura9ao que tem o nome de seu chefe, 
Joaquim Jos^ da Silva Xavier, appellidado o Tiradentes^ alferes 
de cavallaria que se reuniu com homens importantes, como os 
poetas, Thomaz Antonio Gonzaga,* Ignacio Jos6 de Alva- 
renga Peixoto, Claudio Manoel da Costa, o D^"". Maciel, Fran- 
cisco de Paula Freire Andrade, e o rico fazendeiro padre 
Manoel Rodrigues da Costa e seus parentes. As reiinioes eram 
em casa de Claudio. Os conspiradores projectavam instituir 
um^ republica independente, tendo por capital S. Joao 
d'Elrei, e fundandp-se uma universidade em Ouro-Preto. 



* mavioso cantor de Marilia de Dirceu. dezembargador poeta 
assim intitul^ra o seu primoroso cancioneiro em que exalta a belleza e 
08 dotes de sua noiya adoptando elle como arcade o nome de Dirceu, 



142 HISTORIA DO BRAZIL. 

Escolheram uma bandeira branca onde via-se um anjo que- 
brando cadeias e a divisa : Libertaa quo set a tamen, 

O vice-rei D. Luiz de Vasconcellos e Soaza havia mandado 
para Minas o babil visconde de Bavbacena em 8ubstitui9ao a 
Cunha de Menezes, que se mostrdra fraco no cumprimento da 
derrama. O visconde foi secretamente avisado por um certo 
Joaquim Silverio dos Reis do prpjecto dos conspiradores que 
queriam romper a revolta no dia do langamento da derrama. 

Habil diplomata adiou o visconde a cobranga do imposto, 
o que causou grande alegria entre o povo, e facilmente foram 
presos todos os conjurados e sem impedimento transportados 
ao Rio de Janeiro, onde tambem o Tiradentes cahira nas 
maos da justi^a. O processo foi immediatamente instaurado 
por dezembargadores portuguezes. Todos os compromettidos 
foram condemnados d morte ; mas um decreto de D. Maria I 
ordenou que s6 fosse executado o chefe. 

Com grande magnanimidade tomou sobre si o nobre Tira- 
dentes toda a culpa de sens companheiros. Claudio havia 
1792 

se suicidado na prisao e os outros compromettidos foram 
degradados para os presidios da costa da Africa. 

A execu9ao do Tiradentes effoctuou-se a 21 de abril de 1792, 
no largo do Rocio, e conforme as leis crueis daquelle tempo foi 
seu corpo esquartejado e mandado para Villa-Rica (Ouro-Preto) ; 
sua casa foi arrasada e sua familia declarada infame. 

O heroismo com que este nobre martyr, offereceu-se para 
satisfazer a justiga real, salvando assim a vida de sens compa- 
nheiros, 6 acima de todo o louvor, e por sua morte affrontosa 
mereceu elle a cor6a de gloria com que a patria reverente o 
adorna nos altares da immortalidade. 



HISTOBIA DO BBAZIL. 143 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXII. 

*- Hoave projectos de tomar o Brazil independente antes de 1822? 
como se classificam ? qoal o primeiro ? quaiido ? 

— Quem auxiliou ao Prior do Crato ? de que modo ? qual o resul- 
tado da tentativa? porque? 

— Quem f ormou o segundo project© ? quando ? porque ? e qujal o 
resultado? 

— Quando realisaram-ee as previsues do conde de Arauda? 

— O que se nota iios motins e revoltas do Brazil ? qual a causa espe- 
cial dessas revoltas? e porque foram facilmente repriniidas? 

— Quem foi escolhido chefe da revolu^aio de S. Paulo em 1640? 
contra quem foi ella dirigida? Como correspondeu Amador Bueiio a 
coiifian9a do povo? e qual o resultado da revolta? 

— Contra quem se revoltaram os habitantes do Rio de Janeiro em 
166;i? A quem escolheram para governador? e como terminou a 
revolta? 

— Que revolu9ao houve no MaranhSo em 1683? Quem foram os 
chefes? tiveram o apoio de outras capitanias? Quando foi suifocada 
a revolta? por quem ? 

— Resistiram os Maranhenses ao novo governador V o que foi feito 
dos chefes dos revoltosos ? 

— Como pk)demos provar que jd entao existisse a nacionalidade 
brazileira? onde se formdra ella? 

— A que 4 devido o grande desenvolvimento social dos brazileiros ? 

— Que aconteceu a Pombal depois da morte de D. Josd I ? 

— Por quem foi elle demittido e perseguido ? salvaram-se suas insti- 
tui9oes? porque? 

— Que effeito teve no Brazil o governo retrograde de D. Maria 1 ? 
O que soffreu o commercio brazileiro ? que niales voltaram de novo ? 
e sobre a industria e o luxo que decretaram os alvards regios de 1782 
e 1783? 

— Era entSo o mundo europeu dominado por ideas reacciouarias ? 

— Que acontecimento se dera nos Estados-Unidos em 1773 ? nos 
yice-reinados hespanboes? na India? e na Fran9a? 

— Como se explica a apathia dos brazileiros ? 

— Que classe resentiu-se da nova tyrannia? porque se indi^naram 
oe estudantes brazileiros ? procuraram eUes apoio estrangeiro i 



144 HISTORIA DO BRAZIL. 

— > Qae conjnra9So formou-se em YillarRica em 1788? 

— Que noma tern hoje a capital de Minas ? 

— Quern erao Tiradentes? com quem se associou? Onde se reu- 
niam os conjurados? Que projecto tinham? que bandeira adoptarain ? 

— Quem era entao o vice-rei do Brazil ? a quem nomeou governador 
de Minas ? Porque f oi Cunha Menezes substituido ? 

— Que deuuncia recebeu o Visconde de Barbacena? de quem? 

— Quando devia romper a revolu93o? 

— Que medidas preventivas tomou o visconde ? com que resultado ? 
O que foi feito dos conjurados ? onde estava o Tiradentes ? e o que Ihe 
aconteceu ? 

— Quem ptocessou os revoltosos de Villa-Rica? que senten9a tive- 
ram ? e o que ordenou D. Maria I ? 

— Que sublime rasgo de generosidade praticou o Tiradentes? e 
qual dos conjurados revelou profunda fraqueza moral ? 

— Como foram punidos os conjurados com excep^ao do Tiradentes? 

— Qual foi a sorte do magnanimo conspirador ? 

— Que requintes de crueldade acompanharam sua execu9ao? 

— Como vingou a posteridade o martyrio do corajoso patriota? 




B«i de PoTtDgal, Brazil e Algarves. 



HISTOBIA DO BBAZIL. 145 



CAPITULO XXIII. 

TRANSMlGRAglO DB D. JOAO VI B DA FAMILIA BEAL 
PARA O BRAZIL: SEDE DA MONARCHIA PORTUGUEZA 
NO BIO DE JANEIRO. 

1777-1821. 

Em 1777 oomc^oa o infeliz governo de D. Maria I, a primeira 
rainha que goveruou Portugal, bem que desde sua fuiida9ao em 
1137 por D. Affonso Henriques fosse excluida de seu codigo a 
lei salica. 

Com a demissSo de Pombal priucipia uma longa serie de des- 
gramas: confus§Lo nas iinanyas, irregularidades na administra9£lo 
e oppressSo das colonias. No Brazil foram de novo fechados 
OS portos e prohibidos todos os ramos de industria. No 
exterior o estado de cousas tornou-se ainda peior : a rainlia 
celebrou em 1777 com a Hespanha o tratado de Santo Ildefonso, 
pelo qual perdeu Portugal vastos terrenos ao sul do Prata^ o 
Uruguay inclusive o territorio das Sete Missoes e a colonia do 
Sacramento. O mesmo tratado estipulou alliauya intima entre 
Hespanha e Portugal, o que deu mais tarde bem tristes resul- 
tadce. 



DYNASTIA DE BRAGAN9A. 

D. Maria I (1777-1702 t 1816) 

I 
D. Joao VI (1826) 

r 1 1 

B^usiV—D.Ptedio I (1822-1831) D. Pedro IV (1834) D.Miguel 

I I 

D. Pedro II (1831-1889 1 1890) D. Maria II (1866) 



D. Pedro V (1864) D. Luis L 



146 mSTOBIA DO BRAZIL. 

Principiam entao nos paizes europeus os movimentos precar- 
sores da grande revolu9ao franceza. Mirabeau, o Demosthenes 
da FraD9a, compara o estado da Europa com o da terra antes 
da erup^ao de um volcSo. 

Em 1785 morreu Carlos III de Hespanha e suceedeu-lhe o 
fraeo Carlos IV inteiramente sujeito d politica de Godoy que 
projectou a destrui9ao de Portugal, no que foi auxiliado pelas 
cireumstaneias. 

D. Maria 1 desde a morte de sen tio e marido D. Pedro III 
em 1786, fiedra enfraqueeida da rasao e em 1792 retirou-se para 
um convento, deixando a regencia a seu filho D. Joao VI, que 
exerceu-a at^ 1816. Elle foi o segundo regeute do reino, tendo 
o primeiro sido D. Pedro II desde 1668 at6 1680, por causa da 
exonera9ao de seu irmao D. Affonso VI. 

A revolu9ao franceza que havia rompido em 1789 desenvolveu- 
se rapidamente e chegando ao seu ponto culminante no governo 
do Terror, principiou com a morte de Robespierre um movi- 
mento de reac9ao creando o Directorio em 1795. Nesse 
mesmo anno assignou Godoy um tratado de paz com a 
Fran9a em Basil^a, que se conservou at6 1808, ao passo que 
Portugal continuava unido d Inglaterra. 

Em 1800 preparou Godoy uma invasao contra Portugal e 
occupou sem encontrar resistencia uma grande parte do Alem- 
tejo. 

C0NTEMP0EANB08. 

FRAwgA — BevdugOo (1789-1804). 

Imperio: Napoleao I (1804-1816). 

Reino: Luiz XVIII (1815-1824). Carlos X [1824-1880). 

Inglaterra — Dynastia de Hannover : 

Jorge III (1760-1820). Jorge IV (1830). 

Allemanha : 

Jo8^ II (1780-1792). Leopoldo II (1792). Francisco 11 (1806). 

Hespanha : 

CarloB IV (1788-1808). Jos^ Bonaparte (1813). Fernando VU (1832), 



mSTOBIA DO BRAZIL. 147 

Os pati'ioticoB Rio-Grandenses recebeudo a iioiicia do rom« 
pimento da guerra, nao esperaram as ordens do governo e reoc- 
cuparam as antigas possessoes do Brazil — Uruguay e as Sete- 
Missoes — perdidas pelo tratado de Santo Ildefonso. Correu 
o sangue inutilmente ; pois o Principe Regente para salvar seu 
reino eelebrou com o Primeiro Consul o vergonhoso tratiido de 
Badajoz (1801), que o obrigava a restituir a Hespanba os ter- 
renos do Brazil, pagar uma forte contribuiyao e entregar d 
Fran9a todo o terntorio ao norte do Amazonas. Esta ultima 
clausula foi annuUada por interven9ao da Inglaterra que em 
1802 eelebrou com a Fran9a o tratado de Amiens. 

Em 1804 o Pnmeiro Consul declarou-se Imperador. Renovou- 
se a guerra e depois da derrota de Francisco II e Alexandre I 
a 2 de dezerabro de 1805, celebrou-se o tratado de Presburgo 
(1806). Em presen9a de tao grande perigo a Inglaterra nao 
fraqueou e alliou-se com a Prussia. As derrotas de lena, Auer- 
sted, Eylau e Friedland tiveram por resultado o tratado de Til- 
sit (1807). Alexandre I ligou-se com Napoleao I, que formou 
o reino de Westphalia com parte da Prussia, e scnhor do conti- 
nente europeu, publicou em Berlim o bloqueio continental para 
acabar com seu ultimo inimigo — a Inglaterra. 

Tres potencias de segunda ordem resistiram ds imposi9oes 
da Fran9a: os Estados da Igreja, Dinamarca e PortugaL O 
papa foi deposto e sens estados annexados ao novo reino de 
Italia. A Dinamarca sujeitou-se, mas a Inglaterra bombardeou 
sua capital, Copenhague. Em frente de Lisboa postou-se uma 

ARCEBISPOS DO BRAZIL. 

D. Frei Jose Fialho (1737-1741). 
D.Jose Botelho de Mattos (1762). 
D. Frei Manoel de Santa Ignez (1773). 
D. Joaquim Borges de Figuciroa (1776). 
D. Frei Antonio de S. Jose' (1781). 
• D. Frei Antonio Correa (1805). 

D. Frei Jose de Santa Escolastica (1814). 

D. Frei de S. Daniazo d'Abreu Yie\ia. (^\^*2.V^, 



148 HISTOBIA DO BRAZIL. 

esquadra ingleza, emquanto Napoleao mandava um forte exer- 
cito contra Portugal, o qual era cominandado pelo general Junot, 
que atravessou sem obstaeulo a Hespanha, gramas 4 trai9likO de 
Godoy, a quem Napoleao promettera dar uma pai*te de Portu- 
gal, eujadivisao foi determinada em Fontainebleau. 

D. Joao VI para evitar a destrui9ao de sua cidade, embarcou- 
8e com sua familia, grande parte do exereito e muitos fidalgos 
para o Brazil. 

Um habil diplomata, Rodrigo da Silva Coutinho, brazileli'o 
de nascimento e miuistro do rei, tinha maudado preparar nas 
grandes cidades da colon ia pomposos festejos para a recep^ao 
do rei, que foi feita com o maior enthusiasmo. 

A frota foi dispersada por uma tempestade, arribando d 
Bahia, entre outras, a nau real. Na antiga capital de Thome de 
Souza foi o rei recebido com grande ostenta^ao, e tomou por 
ministro Jos^ da Silva Lisb6a, depois Visconde de Cayni. 
Nesta cidade foi a 28 de Janeiro de 1808, publicado o notavel 
decreto da aboli9ao dos monopolios e abertura dos portos do 
Brazil a todas as na95es. Neste decreto notam-se as palavras 
— "0 novo Imperio declara guerra d Franga,*' 

A 8 de mar9o dc 1808 chegou D. Joao VI ao Rio de Janeiro e a 
cidade de Men de Sd foi sua residencia at6 26 de abril de 1821. 

A vinda do rei deu grande impulso d colonia. 

Notam-se os seguintes desenvolvimentos : 

Abertura dos portos, 1808. 

ESCRIETORES NOTAVEIS DO BRAZIL. 

D. Frei Jos6 Marianno da Coucei9ao Vellozo. — Illustre botanico 
brazileiro, autor do Fazendeiro do Brazil^ obra em onze volumes com preci- 
osas in8truc9de8 para a cultura do cafe, da camia, do cac^o, do cactocoche< 
nilheiro, etc. 

JosS da Silva Lisboa, visconde de Cayr6. — Escreveu varios livros 
sobre direito mercantil, economia politica, historia e muitos artigos sobre 
politica. Em economia politica seguia a doutrina de J. B. Say e de Burke, 
de cujas obras fez algumas traduyOes. Propoz reformas importantes na 
administm^iU}, entre ellas a franquia dos portos. 



HISTORIA DO BRAZIIto 149 

Eleva^SLo a reino, 1815. 

Institaigao da Rela9ao no Rio, 1815. 

Mudan^a das capitanias em provincias. 

Fnnda9ao de tres novas provincias : Rio Grande do Su'i 
(1806), Santa Catharina (1810) e Alagoas (1817). 

Na cidade do Rio de Janeiro fundarara-se as aeademias de 
engenharia e escolar militar, os arsenaes de guerra e marinha, 
o museu, a bibliotheca, o jardim botanieo, o passeio publico, 
hospitaes civis e militates, a imprensa regia, e o erario. Tam- 
bem teve cal^amento regular e illumina^ao. 

Cumpre notar que foram creadas escolas de estudos superi- 
ores e aeademias, mas nao escolas primarias, de que ha via muito 
poucas para meninos e ne^n uma signer para o sexo femenino. 
Isto 6 prova evidente de quao mal comprehendidas eram ainda 
as verdadeiras bases do perfeito desenvolvimento e da grandeza 
de uma na9ao. 

O Brazil feliz nas campanbas do sul e do norte, recebeu sua 
maior extensao desde o rio Oyapoc, na Gpyana Franceza at^ o 
rio da Praia (1815). Montevideo, que se annexdra em 1822, 
separou-se em 1828. 

O bispo Azeredo Coutinho era dotado de altas virtudes, nobreza de 
caracter, variados conhecimentos e brilhante intelligencia. Suas obras 
tratam de direito de governo e economia politica e tambem de varias sci- 
encias como a meclianica ; tambem occupou-se do problema da navegavSo 
aerea. 

Hypollto Jos^ da Costa tao illustre como Cayrii ou Coutinho, foi mais 
liberal que ambos, e sem duvida com o seu Correio Braziliense que ent3o 
estava ^ frente da imprensa periodica prestou a patria mui relevantes ser- 
VI908. Suas oplDides liberaes fizeram-no incorrer no desagrado da Inqui- 
8i93o, de sorte que para salvar a vida teve de fugir de Lisboa e abrigar-se 
em Londres, onde encetou a publica95o do InvesHgador. 

Prel Francisco de S. Carlos. — Autor do poema epico Assump^So da 
Vtrgem. 

Balthazar da Silva Lisboa. — Autor dos Annaes do Rio de Janeiro. 

Antonio de Moraes e Silva. — Autor de urn Diccionario da lingua 



160 HISTORIA DO BRAZIL. 

Os acontecimentos particulares deixaram tambem impressoes 
favoraveis e deram aos Brazileiros e8peran9as de que o rei mu- 
dasse a c6rte de seus tres reinos definitivameote para o Kio de 
Janeiro. 

O principe herdeiro D. Pedro celebrou seu casainento com a 
archiduqueza D. Maria Leopoldina, filha de Francisco II e D. 
Joao VI em 1817 decretou que sua coroagao seria felta no Rio 
de Janeiro. As festividades foram interrompidas pela revo- 
lu9ao de Pernambuco (1817), que foi promptamente suffocada, 
mas deixou no animo do rei e do povo uma dolorosa impressao, 
que muito influiu em 1821 sobre a resolu9ao de D. Joao VI 
em voltar para Portugal, depois da revolu^ao do Porto em 
1820. 

Muitas revolu9oes e tentativas contra o governo de Portugal 
mallograram completamente ou desappareceram como pequenos 
movimentos locaes ; mas o insulto aos deputados brazileiros em 
21 de abril de 1821 foi uma ferida que sentiu a na9ao inteira. 
A partida para Portugal de D. Joao VI a 26 de abril do mesmo 
anno foi o signal da declaracao de indepeudencia. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXIII. 

— Quem foi a primeira rainha de Portugal ? quando come^ou a 
reinar ? 

— Que desgra9as publicas accanetou a demissSo de Pombal ? 

— Que effeito teve no Brazil ? nas rela9oes iuternacionaes de Por- 
tugal ? 

— Que perdeu a ua9ao portugueza pelo tratado de Santo Ildefouso? 

— Em que estado achavam-se entao os paizes europeus ? 

— Quando subira Carlos IV ao throno de Ilespanha ? que ministro 
o dominou ? e que piano f ormou a respeito de Portugal ? 

— Porque deixou o govern o D. Maria 1 ? quem ficou com a regen- 
cia? at^ quando? 

— Quantos regentes havia at^ entao tido Portugal? quem foi o 
primeiro ? porque? 



mSTORIA DO BRAZIL. 151 

— Que aconteceu em Fran9a em 1789 ? e quando foi creado o 
Directorio ? 

— Que ministro assignou o tratado de Basilea com a Fran9a ? 

— Com que na^Eo estava Portugal alliado? e o que soffreu da Hes- 
panhaemlSOO? 

— Que effeito produziu no Rio Grande do Sul a noticia da guerra 
entre Hespanha e Portugal? 

— Foi o patriotisnio rio-grandense de algunia utilidade para o reino? 
porque foram baldados tao grandes esf or9os ? 

— Que iniportancia tem para Portugal o tratado de Amiens ? 

— Que titulo tomou o chefe do governo f rancez em 1804 ? 

— Qual foi a consequencia da victoria de Napoleao sobre a Austria 
8 a Russia em 2 de dezembro de 1805? e que medidas toniDu a Inglar 
terra? 

— Que den'otas determinaram a Prussia a assignar o tratado de 
Tilsit? quando? Que soberano alliou-se eut5o a Napoleao? que 
novo reino se fundou? onde ? quem decietou o bloqueio continental 
contra a Inglaterra? e onde? 

— Que na96es resistiram a Napoleao? que aconteceu ao papa? a 
Dinamarca? a Portugal? 

— Como poude o general Junot atravessar a Hespanha? 

— Que promessa fizera Napoleao a Godoy ? e onde foi decidida a 
divis£lo de Portugal ? 

— Que resolu9ao tomou D. JoSo VI ? para que ? 

— Quem foi Rodrigo da Silva Coutinho ? e qiie aviso deu aos sens 
patricios? 

— Que aconteceu & frota de D. Jo^o VI ? como foi o rei recebido 
na Bahia? que homem notavel tomou para ministro? e que decreto 
notavel foi ahi publicado? 

— Em que dia chegou D. Joao VI ao Rio de Janeiro ? e quanto 
tempo ahi residiu? 

— Que vantagens trouxe ao Brazil a vinda do rei ? e especialmente 
d cidade do Rio de Janeiro ? 

— O que se nota entao a respeito de instru9ao primaria? 

— Quaes eram os limites do Brazil ao norte e ao sul ? 

— Por quanto tempo fez o Uruguay parte do Brazil com o nome 
de— provincia Cisplatina? 

— Que acontecimentos particulares & familia real concorreram para 



152 HISTORIA DO BRAZIL. 

coDvencer aos Brazileiros de que o Rio de Janeiro ficaria sendo a sede 
da monarchia? 

— Porque f oram interrompidas as f estividades da coroa^Slo ? 

— Que offensa da parte dos Portuguezes excitou mais a indigna9So 
do Brazil em 1821 ? e o que f oi decidido depois da partida do reiV 



lilSlX>JilA DO BKAZIL. l53 



CAPITULO XXIV. 

GUEBBAS NO SUL COM OS HESPANHOES E NO NORTE COM 

OS FRANCEZES. 

Z80Z-1820. 

O Rio da Prata por causa das incessantes inimizades entre os 
Portuguezes e os Hespanhoes pode-se comparar com o rio RhcDo 
relativamente aos Francezes e aos AUeraaes. Este sentimento 
de hostilidade entre os fronteiros nao estd ainda mesmo hoje 
de todo extincto ; e ^ a essa heran9a de indole guei-reira e 
habito em affrontar perigos que a nossa heroica provincia do 
Rio Grande do 8ul deve a gloria de ter dado d patria sous 
mais illustres estrategicos, (;omo Ozorio, Camara, Porto-Alegre, 
Mena Barreto, e a de ser appollidada com o nobre titulo de 
" Escudo do Brazil." 

Em 1801 chegaram ao Brazil noticias da guerra declarada a 
Portugal pela Hespanba, que se havia alliado d Fran9a, e os 
Rio-Grandenses mesmo antes de receber ordens do governo, 
com as poucas for9as de que pod i am dispor, foram 
reconquistando todos os terrenos perdidos pelo triste 
tratado de Santo Ildefonso. O governador da capitania Xavier 
da Veiga Cabral reoccupou as posigoes hespanholas desde 
S. Jos6 at6 Serro Lago, comprehendendo todas as vertentes 
da lag6a Mirim, e mandou o coronel Manoel Marques de 
Souza devassar a fronteira at^ alem do Jaguarao e Santa 
Tecla. 

A noticia da paz de Badajoz veiu impedir que os Hespanboes 
tomassem desforra e a despeito de todas as reclama9oes ficaram 
em poder dos Portuguezes os territorios conquistados. 

Em 1808 foram exonerados na HeapauXia o^ x^\^^^Aq>%^^ 



154 HISTOBIA DO BRAZIL. 

e seu filho FernaDOo YII, e a cor6a dada pelo omnipo- 
tente Napoleao a seu irmao Jos6 I. Revoltaram-se contra 
o novo rei os quatro vice-reinados de Hespanha. 

D. Joao VI casado com D. Carlota Joaquina, filha mais velha 
de Carlos IV, projectX)u a annexa9ao das regioes do Prata acon- 
selhado pelos governadores Xavier Elio de Montevideo e Fran- 
cisco Liniers de Buenos-Ayres ; antes, porem, do resultado das 
conferencias foi em Buenos-Ayres proclamada a republica 
por Artigas. Montevideo e Paraguay separaram-se e for- 
maram republicas independentes. O caudiHio Jos^ Artigas inva- 
diu a Banda Oriental ; mas o governador D. Francisco Xavier 
Elio chamou em seu soccorro, os Portuguezes. 

O brigadeiro Manoel Marques de Souza depois da expulsao 
dos Argentinos, retirou suas tropas com grande desinteresse. 

Jose Artigas viu-se obrigado a assignar um armisti- 
cio illimitado, que foi approvado pelo principe regente 
(1812). 

Neste interim o duque de Wellington terminou a expulsao dos 
Francezes da peninsula Iberica, e D. Joao VI poude chamar 
para o Brazil grande parte do exercito ao commando de Carlos 
Frederico Lec6r, ulteriormeute conde de Laguna. No Rio- 
Grande do Sul concentrou-se uma forte guarni^ao, de sorte 
que quando Artigas teuton uma nova iuvasao em 1817, foi 
promptamente repellido por uma serie de victorias que 
terminaram com a sua completa derrota em Taquaremb6 
(1820). 

A consequencia da superioridade das armas brazileiras e da 
boa disciplina que mostrou o exercito durante a occupa9ao do 
paiz, foi a annexa9ao ao Brazil da regiao do Uruguay, a qual 
effectuou-se pela vota9ao da Assembl^a nacional reunida em 
Montevideo. Infelizmente esta reuniao s6 durou seis annos, 
desde 1822 ate 1828. 

As guerras europeas trouxeram tambem algumas complica- 
cies DO norte do Brazil em rasao de ter Portugal inoorrido no 
deeagrado da Franca, por sua allian^ com a Inglaterra. 



HISTORIA DO BRAZIL. 165 

J& vimos como o tratado de Badajoz (1801) espolidra 

Portugal de todas as terras ao noi'te do Amazonas, e 

como esta mesma estipulacao f6ra aunullada no anno 

1802 
seguinte pelo de Amiens por interven9ao da Inglaterra. 

D. Joao VI logo que chegou ao Brazil dirigiu ds na9oes da 
Europa um manifesto explicando as rasoes porque declarava 
guerra d Fran9a e ao mesmo tempo mandou que o coro- 
nel Manoel Marques de Souza tomasse a Guyana fran- 
ceza, o que foi promptamente executado, nao tendo os Fran- 
cezes for9a suffieiente para resistir aos ataques dos Brazilelros, 
que o obrigaram a capitular e entregar a fortaleza de Cayenna. 

Foi nomeado governador da Guyana o dezembargador Joao 
Severiano Maciel da Costa, que administrou-a at^ 1817, quando 
foi de novo entregue aos Francezes pela conven9ao de Paris, 
que determinou provisoriamente os limites do Brazil pelo 
rio Oyapoc. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXIV, 

— Porque se pode comparar o rio da Prata com o Rheno ? 

— A que se pode attribuir a indole guerreira e a bravura natural 
dos Rio-Grandenses ? que honiens notaveis entre elles ? 

— Porque actos se revelou o patriotLsmo dos Rio-Cxrandenses em 
1801 ? quem era o governador da capitania? e o que fez ? 

— Porque nSo tomaram desf or90 os Hespanhoes ? 

— Que soffreram em 1808 Carlos IV e Fernando VI i de Hespanha? 
a quem foi dada a coroa? e por quem ? 

— O que fizeram os vice-rein ados hespanhoes ? 

— Que project© formou D. Joao VI? porque? quem o aconselhou? 

— Que acontecimento se deu entao em Buenos- Ayres ? 

— Quem invadiu a Banda Oriental? e o que fez o governador? 

— Como procedeu o brigadeiro Manoel Marques de Souza? 

— Quem assignou o armisticio? por quem foi appro vado? e quando? 

— Que acontedmentos tinham entao lugar na Hespanha? que van- 
tagens disso resulton para o Brazil? que ponto recebeu uma forte 
guami^So? e de que utilidade foram essas medidas? 



156 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Onde foi AitigaB oompletamente derrotado? quando? 

— Qoal o resultado da braTura e disciplina do exercito brazileiro? 
qaanto tempo durou esta aunexa^ao? 

— Que outro ponto do Brazil soffreu em consequencia das lutas 
enrop^as ? qual a clausula do tratado de Badajoz relativo ao Brazil ? 
e como foi ella annullada ? 

— Que manifesto dirigiu D. Jo3o YI is na^oes da Europa em 1808? 
que colonia f ranceza maiidou atacar ? e por quem ? 

— Como foi a ordeiii do rei executada ? porque ? 

— Quem foi nomeado govern ador da Guyana? quanto tempo exer- 
ceu b lugar? e porque deixou de govemar? 

— Que determinou a conven^ao de Paris relativaraente aos liraites 
do Brazil com a Guyana f ranceza? 



HISTOBIA DO BBAZIL. 157 



CAPITULO XXV. 

I 

REVOLUgAO REPUBLICANA DE PERNAMBUCO EM 1817; 
REVOLUglO DE PORTUGAL EM 1820 ; RETIRADA DA 
CORTB PARA PORTUGAL. 

1817-1821. 

A revolu^So de Pernambuco no Brazil e a do Porto em Portu- 
gal, inteiramente differentes a todos os respeitos, combinam-se 
somente em apressar o mais importante acontecimento da his- 
toria do Brazil — a proelama9ao da independencia — 7 de setem- 
bro de 1822. 

Revolu^ao pernambucana (de 7 de mar^o a 29 de male 
de 1817). — A primeira vista parece a revoluyao pernambucana 
uma grande ingratidao do povo brazileiro para com o Principe 
Regente, que saerificdra em sen proveito a propria patria. 

Entre os grandes beneficios que em geral elle trouxe ao Bra- 
zil, notam-se : Abertura dos portos (1808) ; a elevagao a reino 
(1815) a institaicao da rela9ao do Rio ; muitas outras medidas 
relativas d administra9ao das provincias ; e o que 6 mais impor- 
tante, a residencia do rei no Rio de Janeiro. 

Nao obstante estas vantagens que trazia d colonia, o rei nao 
ganhou popularidade por dous motivos : 1°. A recorda9ao muito 
reeente do governo tyrannico de sua mae D. Maria I. 2°. A 
grande parcialidade com que tratava os favoritos que com 
elle vieram de Portugal, os quaes nao s6 occupavam os primei- 
ros lugares em todas as reparti^oes, mas devoravam sommas 
immensas em divertimentos, provocando assim por todos os 
modos o odio dos Braziieiros. Uma das principaes causas da 
desharmonia dos dous partidos no Rio de Janeiro foi a occupa- 
9^0 das casas particulares, que dopois de expulsos seus mora- 
dores foram mareadas com o fatal P. R. 



lS!f gf!Sfrjltr» n0T m^M^nL, 



On iesfefasOBOiBsk uBuimni isn. P^qrmiiiuuro «■"■*■*■ lisfiidai do 

Bahi^^ * p«ia. jeamnaisi. jimm -^^^^r^ &l 'StikI pe^esnifaLo que 
i«i^js^nia •MIL MiiMifiiumi^ ia ^^n^-ra. ^ttJ« MjeeaSES ( 1711). que 
3uu» vii>r iiiaiiiru^ intrs. -isusa iimiia una ei>aip2ieCi sefnra^ao 
«!icn»^ P-^rTuuLhiieaxioft * Piira^n*iaHSw 

leaat!^ •*- 3i> r>^fn^n«r & oivdeia -^ .^^ D- J>^a»> \T resohrera cele- 
brar ± ^cul «!i>roiii:ste> no B^ <ie- JsiKin>« proifmroa incotir oo 
MiuH> fk» m. *iitssosu» eiMmrm & aat!a»> bnuzLecrm. e s6 em Per- 
■duohiCk^^ ^jOiiit n^alisar stut^ tiHia^oiES. A reTolii^ao nudlogrou 

Caeoukr^ FTn&> »ii£^ lf£rajid& MonfienEsro. Tiacoode da Praia 
Onukde. aT»aid»> pmr eitrxa^ intticiiW coqtocoq no dia 6 de mar^o 
irai crjoseOhD de- sen estado Baior. quasi lodo composto de 



€fjfoa^» portnsiaezes. que ordenaram a prisao dos com- 
jmrnneiMfM nulitare^ «'ja paizano^. Entn^ os ultiiDOS havia am 
rif:ff neg^jieiaDtf'. JfMse Martin:^, que tiDha correspoadeiicia active 
c/ni Portugal e f^ Els^tadob^CDidos. e haTia pooco antes reeehido 
grander enrrr^roraendas de annas e moni^des, seirindo sua casa 
fie ytmUf de reaniao aos conspiradores. 

KfTfr^rtuoU'Se .sem resisteneia a prisao de Jos^ Martins e de 
r^fftra.H ifMiiiffaH ; mas qnando o eoronel Barboza convocon os 
frifU'ifurH de artilheria. foi assassinado pelo eapitao Barros Lima, 
af;(M?Hida/lo ly^^o Corwulo. Deu-se o signal da revolta, o povo 
em rniiltidii^i prrx.'lamoii nas mas a independencia e a repablica. 
A i'MWHii, do ^ovemo ficou logo perdida pela fratemisa^So dos 

Brazii/-Colonia, 1680-1822. 

DyriaMtia dc Aviz, iriOO-1580. Djnastla de AragSk), 158(>-164a 
DyrifiMtia de BraKan^a, 1640-1822. 

Brazil Independents. 

;m/;/'/)f), )H2ii 1KW». Hepublica, desde 1889. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 159 

Boldados com o povo. Mod te negro retirou-se para a fortaleza 
de Brum, donde com alguus officiaes embarcou-se para o Rio de 
Janeiro. 

Os revolucionarios formaram um governo provisorio, de que 
foi eleito presideute o padre Joao Ribeiro Pessoa, sendo nome- 
ado commandante das armas o capitao Domiugos Theotouio 
Jorge. Foi Ic^o convocado um conselho republicauo, cujos 
principaes membros eram Jos^ Martins, o padre Miguel Joa- 
quim de Almeida, cliamado o Miguelinho^ Abreu Lima conhe- 
cido por Padre Roma e Jos^ de Aleucar. 

As medidas por ellos tomadas forara taes que indignaram a 
maior parte dos Pernambucanos, que immediatameute retira- 
ram-se. Entre ellas basta citar a soltura dos criminosos e a 
aboli9ao do titulo de Senhor substituido por tu. Foram taiii- 
bem mal succedidas as tentativas para attrahir a cooperayao das 
outras provincias. S6 Alag6as e Rio Graude do Norte sujeita- 
ram-se em parte por causa da antiga annexa9ao. Jos6 de Alen- 
car maiidado para o Ceard foi expulso por seus proprios patri- 
eios. Peior resultado ainda teve a embaixada do Padre Roma, 
que foi preso na Bahia pelo conde dos Arcos e publicamente 
assassinado na pra^a da Polvora. 

O mesmo conde ordenou ao coronel Cogomiuho que com toda 
a for^a que pudesse i-eunir marchasse para o theatro da guerra, 
e jd nas Alg6as augmentou-se a pequena tropa com grande 
numero de voluntarios. 

Jos^ Martins e o capitao Cavalcanti i)rocurarara atacal-os, 
mas o primeiro foi preso e fusilado. 

Ficaram no Rio interrompidas as grandes festividades da 



D. Pedro I (1822-1831) = Archiduqueza M. Leopoldina 

D.Pedro II (1831-1889) = D. Thereza Christina 
1890t I 

I I 

Conde d'Eu = D. Isabel, D. Leopoldina (1871t) = Duque de Saxe 



D. redro D. tuiz D. Antonio. 



160 mStORIA DO BRAZHu 

ooroa^o de D. Joao VI; mas a resc^a^ao qoe elle mostroa 
de effectoar este acto solenme na nova o6rte confirmou ainda 
mais a esperanga dos BrazUeiros de que o rei queria fixar sua 
resideocia para sempre nedte paiz. 

Para Pemamboco foi mandada uma firota As ordens de Ro> 
drigo Lobo que, quaodo chegou ao Recife. j4 aehou a cidade 
cereada por Cc^omioho. 

Grande parte das compromettidos fngiram e entre elles o 
presidente, e a 29 de maio entregou-se a cidade sem condi^ao 
ao severo tribunal niilitarque assignon nove seoten^as de morte. 
Ribeiix) Pessoa suieidou-se. 

8egue-se a iostitui^ao de um tribunal especial presidido pelo 
dezembargardor Bernardo Teixeira, que chegdra C9m o novo 
governador Luiz do Rego Barreto, e principiam no meio da 
maior tranquillidade as tristes persegui^oes, que se estenderam 
at^ aos parentes dos compromettidos, tal como a que jd soffrera 
esta mesma cidade em 1711. depois da guerra dos Mascates. da 
parte do governador Jos^ Machado de Mendon^a e do ouvidor 
Marques Bacalbau. 

Revolu^ao de Portugal em 1820. — O imperio de 

Napoleao havia recebido o golpe moital i>ela victoria dos ex- 

ercitos europeus sob as ordens do duque de Wellington em 

Wateiloo. Os embaixadores dos soberanos da Europa 

l8l4 

reiiniram-se em Vienna presididos pelo principe de 

Franca. — Bourbons : 

Luiz XVIII (1815-1824) ; Carlos X (1824-1830). 

Orleans : 

Luiz Felippe (1830-1848). 

IIespanha : 

Fernando VII (1813-1832). 

Inglaterra : 

Jorge IV (1820-1830) ; Guilherme IV (1837). 

Austria : 

FranciBco I (1792-1835). 



HISTOBIA DO BRAZIL. 161 

Metternich, cuja maxima principal era a completa re8taura9So 
do autigo estado. As na^oes recebem com suas antigas 
dynastias sua independencia nacional, mas perdem as 
grandes liberdades que gosavam no sentido social (commercio 
e industria) . Estes inconvenientes deram causa a graves motins 
DOS tres reinos onde govemava a dynastia Bourbon. £m Franya 
— LuizXVin (1815-1824), Hespanha — Fernando VII (1814- 
1833), e Napoles— Fernando I (1815-1825), foram introdu- 
zidos OS monopolios e a alcavala e mesmo prohibiu-se a liber- 
dade de consciencia. 

Pio VII pela bulla Sollicitiido omnium ecdesianim restabele- 
ceu a ordem dos jesuitas. 

Contra a tyrannia de Fernando VII rebentou uma revoluySo 
emCadix (1820) dirigida pelo coronel Riego, um dos heroes da 
guerra da independencia, que tinha reunido uma forya consi- 
deravel na cidade afim de embarcar-se para o Mexico. EUe 
aproveitou a boa disposiyao do povo e proclamou a constitu- 
iyao de 1812, gravemente violada pelo rei que se torndra im po- 
pular. O successo foi rapido. Vendo que a revoluyao era geral 
o rei curvou-se d nayao e prestou de novo o solerane juramento 
de diminuiyao dos impostos e aboliyao das instituiyoes oppres- 
soras. 

O facil triumpho da revoluyao hespanhola animou a nayao 
portugueza, assim como provocou motins em todos os paizes 
europeus. As grandes poteucias — Russia, Alexandre II 
(1801-1825) ; Austria, Francisco II (1792-1835) ; Franya, 
Luiz XVIII (1815-1824) ; e Prussia, P>ederico Guilherme III 
(1797-1840) — promptamente reprimiram as revoltas d forya 
das armas ; mas os reis de Saboia, Napoles e Portugal foram 
obrigados a sujeitarem-se A nayao. 

Italia — Papas : 

Pio VII (1799-1823) ; LeSo XII (1829) ; Pio VIII (1830) ; Gregorio 
XVI (1846). 
Prussia : 

Frederico GuUherme III (1797-1840), 



M9 KsiyjmuL 



Eai PiruKsiI Lum. 2it» -^neJxx^ soses ^ despodsmo doe 
yggra^ lui: ii.'srv«3izi>:» ^ iKfix* ^cuc FSo Vll. di^R» UKHiupolios 
€ aesiiAi-os^ .2k «t:c¥i!iss»:« •!& Ix<siaiZMT&. infliiia muito sobre o 
povo a si»KXKS& -iio 7^ qwr ^i^«m tor vxiiitMlo em 1812. e aioda 

A priBffiifcl fAzxsA desfi:^ ^ies»c«m eia sem dnridm a grande 
■adepezKiesesfc -ie que ^L^aara <• nei IhrrE* da infloeneia eoropea. 
Sua resoiiKi>> de- <ic*KC!&r dc* Rki de Janeind a eoroa^ao, a qual 
nao poode a rt^Tvc^iKao }:<erBamr4ieaiia ahalar. in^Hioa a na9ao 
portugDeia o J3&^« rc«ie>> <ie qoe Lisl^ioa perdesse a antiga pre- 
poodetaiicsa e imfaonazkcia commemaL 

Assim offeodidc^ <^ intenc^sses e a Taidade do6 Portnguezes, 
qoando ciiegoa a Dockia do feliz exito da reTolo^ao de CadLs, 
rompeo logo no Porto ama reToltm. As antigas C6rtes f cram 
expolsas e a nacio mteira sadsfeita com o movimento resolveu 
eleger oma camara que funecioiiasse a principio no Porto, e 
decretasse por am manifesto a necessidade da volta do rei e de 
oma ooDstitai^ao tao liberal eomo a de Hespanha (1812). 

Effeitos da revolocao do Porto so1h« o Brazil. — 

A noticia desta revoluyau. ehegando primeiro ao Norte, foi com 
grande enthusiasmo recebida em PadL, Maranbao, Pemambueo 
e Bahia, onde a influencia predominante do partido portaguez 
fez esquecer aos Brazileiros que era inteiramente dirigida contra 
OS propiios interesses. 

Em eada uma daquellas eidades formaram-se juntas que s6 
foram instituidas sem intranquillidades, na Bahia, onde apenas 
deu-se um leve raotim militar, que fez voltar o govemador, 
conde de Paluia, para o Rio de Janeiro. 

O partido brazileiro applaudiu muito o primeiro decreto de 
D. JoSo VI de 18 de fevereiro (1821) ordenando uma reuniao 
do8 deputados de seus tres reinos no Rio de Janeiro. Prin- 
eipiam immediatamente no Brazil os movimentos para as 
eleiv'oeH. 

E»ta detenninayao irritou o partido portuguez que no6 dial 



HISTOBIA DO BRAZIL. 168 

seguintes convocou conferencias militares. Uma dellas deu-se 
publicamente no campo de Santa Anna ; mas foi iuterrompida 
pela presen9a do principe herdeiro (25 de fevereiro), que man- 
dou em nome de sen pae publicar um decreto datado do dia 
antecedente, tratando da necessidade de dar aos reinos uma 
constitui9ao semelhante d de Hespanha. No mesmo dia fize- 
ram-se grandes reunioes publicas e foram dados vivas ao rei. 
O enthusiasmo subiu de ponto quando os prineipes D. Pedro e 
D. Miguel entraram no theatro de S. Joao (hoje S. Pedro) e 
escreveram sens nomes nos abaixo-assignados em que se pedia 
ao rei uma eonstitui9ao. Favoravel foi tambem a entrada para 
o ministerio de Sylvestre Pinheiro, que empregou todos os meios 
de persuadir ao rei que fieasse no Brazil. Sua inflnencia, porem, 
foi paralysada por Thornton, embaixador de Inglaterra, que 
tinha interesse em que o rei voltasse a Portugal. 

No mesmo tempo chegavam urgentes instancias de Lisboa, 
de sorte que em conselho, a 7 de mar9o, foi resolvida a volta 
do rei. 

Grande parte dos novos deputados estavam jd eleitos. Os 
Brazileiros viram com desgosto os preparatives para a volta do 
rei, pois receiavam com a retirada de D. Joao VI, perder os 
grandes privilegios que elle Ihes dera e vol tar ao estado colo- 
nial. 

Para garantia contra esse perigo nove deputados a assemblea 
geral reuniram-se por alguns dias na Pra9a do Coraraercio, para 
enviar um manifesto ao rei, pedindo que firmasse para sem[)re 
os privilegios de que gosava o Brazil. 

Em 20 de abril enviarara a S. Christovam varias deputa96es, 
que nao foram recebidas. Os deputados e o povo excitados 
assentaram de impedir a sahida do rei, e prolongando-se os 
debates na Pra9a do Commercio at6 meia noite, entrou na sala 
uma for9a que & bayoneta calada dispersou a assembl^a. Este 
acto de brutalidade causou indigna9ao sreral ; mas a for9a 
armada e o partido portuguez muito numeroso abafaram os 
motins. 



164 HISTORIA DO BRAZIL. 

O rei embareoa-se no dia seguinte, mas ficon na bahia at6 o 
dia 26 (abril) e teudo consegaido passar para a frota grandes 
riqnezas, retirou-se para Portugal acompanhado por quasi todos 
06 fidalgos que com eUe tinham vindo (26 de abril de 1821). 

D. Joao VI j4 previa que sua retirada seria o signal da inde- 
pendeneia do Brazil. Os Estados-Uuidos j4 haviam saeudido 
o jugo da metropole desde 1783. Em todoe os vice-reinados 
hespanhoes haviam sido os oppressores expulsos e fundadas as 
republicas. Esta previsao se re vela nas palavras com que se 
despediu do principe herdeiro D. Pedro, que ficava no Brazil 
como Regente : ^^ Pedro, em poueo tempo separar-se-ha o 
Brazil, si assim f6r, colloca a cor6a sobre a tna cabe9a, antes 
que algum aventnreiro lance mao della." 

Logo depois da partida do rei rompem as lutas da indepen- 
dencia. 

No anno seguinte (1822), dia 9 de Janeiro declaron o Prin- 
cipe Regente que tomava a resolu^ao de ficar no Brazil, a 7 de 
setembro do mesmo anno proclamou a independencia em 
S. Paulo, junto ds margens do Ipiranga. No dia 12 de 
outubro (1822) foi creado o novo Imperio e a cor6a hereditaria 
offerecida a seu fundador D. Pedro I. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXV. 

— Que relaxjao tern entre si as revolu9oe8 — de Pemambuco em 
1817 e do Porto em 1820? Que identidade no resaltado de ambasV 

— Como foi a revolu9ao republicana de Pemambuco considerada 
em geral pelos Brazileiros? 

— Que beiieficios havia o Principe Regente feito ao Brazil? 

— Porque nSo ganhou D. Joao VI popularidade no Brazil? 

— A que medidas despoticas tiveram de sujeitar-se os habitantes 
da nova corte ? e qual o resultado destes aggravos ? 

— Para onde retiraram-se os descontentes ? e porque foram fayore* 
cJdos peloR Pej'nambucanos ? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 165 

— - Cmno prooedia o partido portuguez ? e o <]ue fez com a noticia 
de que o rei qaeria celebrar sua coroa^ao no Hio de Janeiro? e oude 
poude realisar suas ten^des ? 

— Teve bom exito a revolu93o de Pernambuco V 

— Quern era o govemador de Pernambuco ? e que medidas tomou 
para abaf ar a reYolu9ao ? 

— Onde se reuuiram os conspiradores ? 

— Quern era Jos^ Martins ? 

— Como se deu a prisSio dos paizanos ? 

— For quern foi assassinado o coronel Barboza? 

— O que fez o povo quando se deu o signal da revolta? e a 
tropa? 

— Para onde retirou-se o govemador ? 

— Quern foi nomeado presidente dos revoltosos ? Quem foi o com- 
mandante das armas? 

— Quem eram os membros do conselho republicano ? 

— Que medidas absurdas foram toinadas i)elo novo governo? 

— Procuraram elies o apoio das outras provincias ? e com que resul- 
tado? 

— Que aconteceu no Ceara a Jose de Alencar V e ao Padre Roma 
na Bahia ? 

— Que medidas tomou o conde dos Arcos contra a revolu9ao? 

— Que aconteceu a Jose Martins ? 

— Que effeito teve esta revolta sobre as f estas da coroac^ao ? 

— Mudou D. JoSio VI de re8olu9iio ? e que esperan9a entretinham 
OS Brazileiros? 

— Quem foi o commandante da frota mandada contra os Pernam- 
bucanos ? 

— Como terminou a revolu9ao ? 

— Quantos dos comprouiettidos foram condemnados d morte ? 

— Qual delles suicidou-se V 

— Quem foi o novo govemador nomeado? que tribunal instituiu? 
quem o presidiu? e que medidas rigorosas tomou? 

— Jd havia Pernambuco soifrido tanianha tyrannia? 

— Como acabou o imperio f rancez ? quando ? e quem foi o general 
em chefe dos exercitos alliados contra Xapoleao ? 

— Qual foi a base principal sobre que conferenciaram os embaixa- 
dores europeus em Vienna, presididos pelo principe de Metternich ? 

— O que ganharam as na^oes europeas com o tratado de Y\ftw\v&. ds. 



166 HISTOBIA DO BBAZHi. 

1815? o que perderam ? e o que resultou disso? para a Franca, Hes- 
panha e Napoles ? quern governaya esses paizes ? 

— Quern restabeleceu a ordem dos jesuitas ? 

— Quern foi o chefe da revolu9^o de Cadix ? contra quern foi ella 
feita? quando? O que fez Riego? e que resultado teve a revolu9ao ? 

— Que effeito teve em Portugal a noticia da feliz revolu9ao de 
Cadix? 

— Em que paizes foram os motins reprimidos? 

— Em que paizes sujeitaram-se os reis d vontade popular? 

— Que motivos de queixa tinha Portugal? 

— Porque demorava-se D. Joao VI no Rio de Janeiro ? e que graves 
receios inspirou i, na9ao portugueza seu desejo de celebrar no Rio sua 
coroa9ao ? 

— Qual a causa da revolu9ao do Porto ? e que medidas tomaram os 
novos chefes do governo revolucionario ? 

— Como foi a noticia desta revolu92o recebida no Norte do Brazil ? 
porque ? Que acontecimentos se deram nas cidades do Norte ? e espe- 
cialmente na Bahia ? 

— O que ordenava o decreto de D. JoSio VI de 18 de fevereiro de 
1821 ? como foi recebido pelos Brazileiros ? e pelos Portuguezes ? 

— Que decreto foi no dia 25 de fevereiro publicado pelo priucipe 
herdeiro D. Pedro, no Campo de Santa Anna ? e qual o resultado dessa 
publica9§k) ? 

— Que effeito produziu nos habitantes da corte a assignatura dos 
dous principes na peti9ao para a outorga de uma constitui9ao ? 

— Que novo ministro foi nomeado f avoravel ao partido brazileiro ? 
quem impediu o rei de seguir os conselhos de Sylvestre Pinheiro? 
porque ? 

— Quando foi decidida a volta do rei? o que a appressou? 

— Porque nSo desejavam os deputados brazileiros que D. Joao V I 
voltasse para Portugal? o que resolveram fazer? e o que conseguiram ? 

— Que medidas se tomaram no dia 20 de abril ? o que iizeram entSo 
OS deputados e o povo? e o que Ihes aconteceu na Pra9a do Com- 
mercio ? 

— Foi o povo indifferente a esta affronta? 

— Para onde retirou-se o rei? em que dia deixou o Brazil? e por 
quem foi acompanhado ? 

— Previa D. Joao VI que resultado teria sua retirada do Rio de 
Janeiro ? Como podemos sabel-o ? 



RI8TOBIA DO BRAZIL. 167 

— Que outras colonias americanas jd se haviam tornado na9de8 
independentes ? 

— Que acontecimentoB se deram no Brazil depois da partida do 
rei? 

— Quando declarou o Principe Regente que ficava no Brazil ? em 
que dia foi proclamada a independencia? por quern? onde? 

— Quando foi o novo imperio fundado? por quern ? 



168 HISTORIA DO BRAZIZ4, 

Os descontentes affluiram para Pernambnco menos vigiada do 
que o Rio e Bahia, onde era governador o rigoroso Conde dos 
Arcos. Alem disso acharam nos Pernambucanos disposi9oes 
favoraveis ds siias id^as, pela inveja que tinham ao Rio e d 
Bahia, e pela lembran^a ainda viva da cruel per8egui9ao que 
sofPreram em consequencia da guerra dos Mascates (1711), que 
mais que qualquer outra causa formou uma completa separa9ao 
entre Pernambucanos e Portuguezes. 

O partido portuguez nao perdia occasiao de excitar os descon- 
tentes, e ao receber a noticia de que D. Joao VI resolvera cele- 
brar a sua coroa^ao no Rio de Janeiro, procurou incutir no 
animo do rei desgostos contra a nayao brazileira, e s6 em Per- 
nambnco poude realisar suas ten96e8. A revolu9ao mallogron 
como todas as outras tentativas deste genero. 

Caetano Pinto de Miranda Montenegro, visconde da Praia 
Grande, avisado por certos indicios' convocou no dia 6 de mar90 
um conselho de seu estado maior, quasi todo composto de 
coroneis portuguezes, que ordenaram a prisao dos com- 
promettidos militares on paizanos. Entre os ultimos havia um 
rico negociante, Jos6 Martins, que tinha correspondencia activa 
com Portugal e os Estados-Unidos, e havia pouco antes recebido 
grandes encommendas de armas e muni9oes, servindo sua casa 
de ponto de reuniao aos conspiradores. 

EfPectuou-se sem resistencia a prisao de Jos6 Martins e de 
outras pessoas ; mas quando o coronel Barboza convocou os 
officiaes de artilheria, foi assassinado pelo capitao Barros Lima, 
appellidado Led,o Coroado. Deu-se o signal da revolta, o povo 
em multidao proclamon nas mas a independencia e a republica. 
A causa do governo ficou logo perdida pela fi*atemlsa9So dos 

Brazil-Colonia, 1680-1822. 

Dynastia de A viz, 1500-1680. Dynastia de AragSo, 1680-164a 
Dynastia de Bragan9a, 1640-1822. 

Brazil Independents. 
IinperhK 1822-1880. Republica, desde 1889. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 159 

Boldados com o povo. Montenegro retirou-se para a fortaleza 
de Brum, donde com alguns officiaes embarcou-se para o Rio de 
Janeiro. 

Os revolucionarios formaram um governo provisorio, de que 
foi eleito presidente o padre Joao Ribeiro Pessoa, sendo nome- 
ado eommandante das armas o eapitao Domingos Theotonio 
Jorge. Foi logo convocado um conselho republicano, cujos 
principaes membros erara Jos^ Martins, o padre Miguel Joa- 
quim de Almeida, chamado o Miguelinho, Abreu Lima conhe- 
cido por Padre Roma e Jos^ de Alencar. 

As medidas por ellos toniadas foram taes que indignaram a 
maior parte dos Pernambucanos, que imniediatamente retira- 
ram-se. Entre ellas basta eitar a soltura dos criminosos e a 
aboli9ao do titulo de Senhor substituido por tu. Foram tam- 
bem mal suceedidas as tentativas para attrahir a cooperayao das 
outras provineias. S6 Alag6as e Rio Grande do Norte sujeita- 
ram-se em parte por causa da antiga annexa9ao. Jos^ de Alen- 
car mandado para o Ceard foi expulso por sens proprios patri- 
cios. Peior resultado ainda teve a embaixada do Padre Roma, 
que foi preso na Bahia pelo conde dos Areos e publicamente 
assassinado na pra^a da Polvora. 

O mesmo conde ordenou ao coronel Cogominho que com toda 
a for^a que pudesse reunir marchasse para o theatro da guerra, 
e jd nas Alg6as augmentou-se a pequena tropa com grande 
numero de voluntarios. 

Jos6 Martins e o eapitao Cavalcanti proeuraram atacal-os, 
mas o primeiro foi preso e fusilado. 

Ficaram no Rio interrompidas as grandes festividades da 



D. Pedro I (1822-1831) = Archiduqueza M. Leopoldina 

D.Pedro II (1831-1889) = D. Thereza Christina 
1890t ' I 

I n 

Conde d*Eu = D. Isabel, D. Leopoldina (1871t) = Duque de Saxe 

D. Pedro D. 



lUiz D. Antonio. 



160 HIS^OEIA DO BEAZIL. 

coroa9ao de D. Joao VI ; mas a resolu9ao que elle raostrou 
de effectual* este acto solemne na nova c6rte eonfirmou ainda 
mais a e8peran9a dos Brazileiros de que o rei queria fixar sua 
residencia para sempre neste paiz. 

Para Pernambuco foi mandada uma frota ds ordens de Ro- 
drigo Lobo que, quando ehegou ao Recife, jd achou a cidade 
cercada por Cogominho. 

Grande parte dos compromettidos fugiram e entre elles o 
presidente, e a 29 de maio entregou-se a cidade sem condi^ao 
ao severe tribunal militar que assignou nove senten9as de morte. 
Ribeiro Pessoa suicidou-se. 

Segue-se a instituigao de um tribunal especial presidido pelo 
dezembargardor Bernardo Teixeira, que chegdra com o novo 
governador Luiz do Rego Barreto, e principiam no meio da 
maior tranquillidade as tristes per8egui9oes, que se estenderam 
at^ aos parentes dos compromettidos, tal como a que jd soffrera 
esta mesma cidade em 1711, depois da guerra dos Mascates, da 
parte do governador Jos6 Machado de Mendon9a e do ouvidor 
Marques Bacalhau. 

Revolu^ao de Portugal em 1820. — O imperio de 

Napoleao havia recebido o golpe mortal pel a victoria dos ex- 

ercitos europeus sob as ordens do duque de Wellington em 

Waterloo. Os embaixadores dos soberanos da Europa 

l8lA 

renniram-se em Vienna presididos pelo principe de 

Franca. — Bourbons : 

Luiz XVIII (1816-1824) ; Carlos X (1824-1830). 

Orleans : 

Luiz Felippe (1830-1848). 

Hespanha : 

Fernando VII (1813-1832). 

Inglaterra : 

Jorge IV (1820-1830) ; Guilherme IV (1887). 

Austria ; 

Franciaco I (1792-1835). 



HISTOBIA DO BRAZIL. 161 

Metternich, cuja maxima principal era a completa re8taura9SLo 
do autigo estado. As na96e8 recebem com suas antigas 
dynastias sua independencia nacional, mas perdem as 
grandes liberdades que gosavam no sentido social (commercio 
e industria) . Estes inconvenientes deram causa a gi*aves motins 
nos tres reinos onde governava a dynastia Bourbon. Em Franca 
— LuizXVm (1815-1824), Hespanha — Fernando VII (1814- 
1833), e Napoles — Fernando I (1815-1825), foram introdu- 
zidos OS monopolios e a alcavala e mesmo prohibiu-se a liber- 
dade de consciencia. 

Pio VII pela bulla Sollicitudo omnium ecdesiainim restabele- 
ceu a ordem dos jesuitas. 

Contra a tyrannia de Fernando VII rebentou uma revoluyao 
emCadix (1820) dirigida pelo coronel Riego, um dos heroes da 
guerra da independencia, que tinha reunido uma for^a consi- 
deravel na cidade afim de embarcar-se para o Mexico. EUe 
aproveitou a boa disposi9ao do povo e proclamou a constitu- 
i^ao de 1812, gravemente violada pelo rei que se torndra impo- 
pular. O successo foi rapido. Vendo que a revolu^ao era geral 
o rei curvou-se k na9ao e prestou de novo o solerane juramento 
de diminui9ao dos impostos e aboliyao das institui^oes oppres- 
sor as. 

O facil triumpho da revolu9ao hespanhola animou a na9ao 
portugueza, assim como provocou motins em todos os paizes 
europeus. As grandes potencias — Russia, Alexandre II 
(1801-1825) ; Austria, Francisco II (1792-1835) ; Fran9a, 
Luiz XVIII (1815-1824) ; e Prussia, Frederico Guilherme III 
(1797-1840) — promptamente reprimiram as revoltas d for9a 
das armas ; mas os reis de Saboia, Napoles e Portugal foram 
obrigados a sujeitarem-se k na9ao. 



Italia — Papas ; 

Pio VII (1799-1823) ; Leao XII (1829) ; Pio VIII (1830) ; Gregorio 
XVI (1846). 
Prussia : 

Frederico Guilherme III (1797-1840). 



162 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Em Portugal alem das queixas geraes do despotismo dos 
jesuitas, ali introduzidos de novo por Pio VII, dos monopolios 
e aggravos da oppressao da Iiiglaterra, influiu muito sobre o 
povo a auseiicia do rei que devera ter voltado em 1812, e ainda 
se achava na sua c6rte do Rio de Janeiro. 

A principal causa desta demora era sem duvida a grande 
independencia de que gosava o rei livre da influencia europ^a. 
Sua re8olu9ao de celebrar no Rio de Janeiro a coroa^ao, a qual 
nao poude a revolu9ao pernambucana abalar, inspirou d na^ao 
portugueza o justo receio de que Lisboa perdesse a antiga pre- 
ponderancia e importancia commercial. 

Assim oflFendidos os interesses e a vaidade dos Portuguezes, 
quando chegou a noticia do feliz exito da revolu9ao de Cadix, 
rompeu logo no Porto uraa revolta. As antigas Cdrtes foram 
expulsas e a na9ao inteira satisfeita com o movimento resolveu 
eleger uma camara que funccionasse a principio no Porto, e 
decretasse por um manifesto a necessidade da volta do rei e de 
uma constitui9ao tao liberal como a de Hespanha (1812). 

Effeitos da revolucao do Porto sobre o BrazU. — 

A noticia desta revolu9ao, chegando primeiro ao Norte, foi com 
grande enthusiasmo recebida em Pard, Maranhao, Pernambuco 
e Bahia, onde a influencia predominante do partido portuguez 
fez esquecer aos Brazileiros que era inteiramente dirigida contra 
OS proprios interesses. 

Em cada uma daquellas eidades formaram-se juntas que s6 
foram instituidas sem intranquillidades, na Bahia, onde apenas 
deu-se um leve motira militar, que fez voltar o governador, 
conde de Palma, para o Rio de Janeiro. 

O partido brazileiro applaudiu muito o primeiro decreto de 
D. Joao VI de 18 de fevereiro (1821) ordenando uma reuniao 
dos deputados de sens tres reinos no Rio de Janeiro. Prin- 
cipiam immediatamente no Brazil os movimentos para as 
elei9oes. 

Esta detevmin&gsio irritou o partido portuguez que nos dial 



HISTOBIA DO BRAZIL. 168 

segaintes convocou conferencias militares. Uma dellas deu-se 
publicamente no campo de Santa Anna ; mas foi iuterrompida 
pela presen^a do principe herdeiro (25 de fevereiro), que man- 
dou en) nome de sen pae publicar um decreto datado do dia 
antecedente, tratando da necessidade de dar aos reinos uma 
constitui9ao semelhante A de Hespanha. No mesmo dia fize- 
ram-se grandes reunioes publicas e foram dados vivas ao rei. 
O enthusiasmo subiu de ponto quando os principes D. Pedro e 
D. Miguel entraram no theatro de S. Joao (hoje S. Pedro) e 
esereveram seus nomes nos abaixo-assignados em que se pedia 
ao rei uma eon8titui9ao. Favoravel foi tambem a entrada para 
o ministerio de Sylvestre Pinheiro, que empregou todos os meios 
de persuadir ao rei que ficasse no Brazil. Sua influencia, porem, 
foi paralysada por Thornton, embaixador de Inglaterra, que 
tinha interesse era que o rei voltasse a Portugal. 

No mesmo tempo ehegavam urgentes instancias de Lisboa, 
de sorte que em conselho, a 7 de mar9o, foi resolvida a volta 
do rei. 

Grande parte dos novos deputados estavam jd eleitos. Os 
Brazileiros viram com desgosto os preparativos para a volta do 
rei, pois receiavam com a retirada de D. Joao VI, perder os 
grandes piivilegios que elle Ihes dera e vol tar ao estado colo- 
nial. 

Para garantia contra esse perigo nove deputados a assembl^a 
geral reuuiram-se por alguns dias na Pra^a do Commercio, para 
enviar um manifesto ao rei, pedindo que fir masse para semi)rc 
OS privilegios de que gosava o Brazil. 

Em 20 de abril enviaram a S. Christovam varias deputa9oes, 
que nao foram recebidas. Os deputados e o povo excitados 
assentaram de impedir a sahida do rei, e prolongando-se os 
debates na Pra9a do Commercio at6 meia noite, entrou na sala 
uma for9a que & bayoneta calada dispersou a assembl^a. Este 
aeto de brutalidade causou indigna9ao geral ; mas a for9a 
armada e o partido portuguez muito numeroso abafaram os 
motins. 



164 HISTORIA DO BRAZIL. 

O rei embarcou-se no dia seguiute, mas ficou na bahia at6 o 
dia 26 (abril) e teudo conseguido passar para a frota grandes 
riquezas, retirou-se para Portugal acompanhado por quasi todos 
OS fidalgos que com elle tinham vindo (26 de abril de 1821). 

D. Joao VI jd previa que sua retirada seria o signal da inde- 
pendencia do Brazil. Os P^stados-Unidos jd haviam sacudido 
o jugo da metropole desde 1783. Em todos os viee-reinados 
hespanhoes haviam sido os oppressores expulsos e f undadas as 
republicas. Esta previsao se re vela nas palavras com que se 
despediu do principe herdeiro D. Pedro, que ficava no Brazil 
como Regente: "Pedro, em pouco tempo separar-se-ha o 
Brazil, si assim f6r, colloca a cor6a sobre a tua cabe9a, antes 
que algum aventureiro lance mao della." 

Logo depois da partida do rei rompem as lutas da iudepen- 
dencia. 

No anno seguinte (1822), dia 9 de Janeiro declarou o Prin- 
cipe Regente que tomava a re8olu9ao de ficar no Brazil, a 7 de 
setembro do mesmo anno proclamou a independencia em 
S. Paulo, junto ds margens do Ipiranga. No dia 12 de 
outubro (1822) foi creado o novo Iraperio e a cor6a hereditaria 
offerecida a seu fundador D. Pedro I. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXV. 

— Que relacjao tern entre si as revolu^oes — de Pemambuco em 
1817 e do Porto em 1820? Que identidade no resultado de ambas? 

— Como foi a revolu9ao republicana de Pernambuco considerada 
em geral pelos Brazileiros? 

— Que beiieficios havia o Principe Regente feito ao Brazil? 

— Porque nao ganhou D. Joao VI popularidade no Brazil? 

— A que medidas despoticas tiveram de sujeitar-se os habitantes 
da nova corte ? e qua! o resultado destes aggravos ? 

— Para onde retiraram-se os descontentes ? e porque foram fayore* 
cidos pelos Pernambucanos ? 



HISTORIA DO BRAZIL. 165 

— Como prooedia o partido portuguez ? e o que fez com a noticia 
de que o rei queria celebrar sua coroa^Sk) no Kio de Janeiro? e oiide 
poude realisar suas ten^des ? 

— Teve bom exito a revolu9ao de Pernambuco V 

— Quern era o govemador de Pernambuco ? e que medidas tomou 
para abafar a reyolu9So? 

— Onde se reuuiram os conspiradores ? 

— Quern era Jos^ Martins ? 

— Como 88 deu a prisao dos paizanos ? 

— Por quern foi assassinado o coronel Barboza? 

— O que fez o povo quando se deu o signal da revolta? e a 
tropa? 

— Para onde retirou-se o govemador ? 

— Quern foi nomeado presidente dos revoltosos ? Quern foi o com- 
mandante das amias? 

— Quern eram os membros do conselho republicano ? 

— Que medidas absurdas foram tomadas pelo novo govern© ? 

— Procuraram elies o apoio das outras proviiicias ? e com que resul- 
tado? 

— Que aconteceu no Ceara a Jose de Alencar ? e ao Padre Roma 
na Bahia ? 

— Que medidas touiou o conde dos Arcos contra a revolu9aoV 

— Que aconteceu a Jose Martins ? 

— Que effeito teve esta revolta sobre as festas da coroa^ao ? 

— Mudou D. JoSto VI de resolu9ao ? e que esperan9a entretinham 
OS Brazileiros? 

— Quem foi o commandante da frota mandada contra os Pemam- 
bucanos ? 

— Como terminou a revolu9ao ? 

— Quantos dos comproniettidos foram condemnados d morte ? 

— Qual delles suicidou-se V 

— Quem foi o novo govemador nomeado? que tribunal instituiu? 
quem o presidiu? e que medidas rigorosas tomou? 

— Jd havia Pernambuco soffrido tauianha tyrannia? 

— Como acabou o imperio f rancez ? quando ? e quem foi o general 
em chefe dos exercitos alliados contra Napoleao ? 

— Qual foi a base principal sobre que conferenciaram os embaixa- 
dores europeus em Vienna, presididos pelo principe de Metternich? 

— O que ganharam as na9oes europ^as com o trataudo da "V\&\!caa. ^^ 



166 HISTOBIA DO BRAZIL. 

1815? o que perderam ? e o que resultou disso? para a Franca, Hes- 
panba e Napoles ? quern governava esses paizes ? 

— Quern restabeleceu a ordem dos jesuitas ? 

— Quern foi o chefe da revolu9ao de Cadix ? contra quern foi ella 
feita? quando? O que fez Riego? e que resultado teve a revolu9ao ? 

— Que effeito teve em Portugal a noticia da feliz revolu9ao de 
Cadix? 

— Em que paizes foram os motins reprimidos? 

— Em que paizes sujeitaram-se os reis d vontade popular ? 

— Que motivos de queixa tinha Portugal? 

— Porque demorava-se D. Joao VI no Rio de Janeiro ? e que graves 
receios inspirou d na9ao portugueza seu desejo de celebrar no Rio sua 
coroa9ao ? 

— Qual a causa da revolu9^o do Porto ? e que medidas tomaram os 
novos chefes do governo revolucionario ? 

— Como foi a noticia desta revolu92o recebida no Norte do Brazil V 
porque ? Que acontecimentos se deram nas cidades do Norte ? e espe- 
cialmente na Bahia ? 

— O que ordenava o decreto de D. Jo^o VI de 18 de fevereiro de 
1821 ? como foi recebido pelos Brazileiros ? e pelos Portuguezes ? 

— Que decreto foi no dia 25 de fevereiro publicado pelo principe 
herdeiro D. Pedro, no Campo de Santa Anna ? e qual o resultado dessa 
publica9§ko ? 

— Que effeito produziu nos habitantes da corte a assignatura dos 
dous principes na peti9ao para a outorga de uma constitui9ao ? 

— Que novo ministro foi nomeado favoravel ao partido brazileiro ? 
quern impediu o rei de seguir os conselhos de Sylvestre Pinheiro? 
porque ? 

— Quando foi decidida a volta do rei? o que a appressou? 

— Porque nSo desejavam os deputados brazileiros que D. JoSio V I 
voltasse para Portugal? o que resolveram fazer? e o que conseguirain ? 

— Que medidas se tomaram no dia 20 de abril ? o que fizeram entSo 
OS deputados e o povo? e o que Ihes aconteceu na Pra9a do Coni- 
mercio ? 

— Foi o povo indifferente a esta affronta? 

— Para onde retirou-se o rei? em que dia deixou o Brazil? e por 
quern foi acompanhado? 

— Previa D. Joao VI que resultado teria sua retirada do Rio de 
Janeiro ? Como podemos sabel-o ? 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 16T 

— Que ontras colonias americanas jd se haviam tornado na^des 
independentes ? 

— Que acontecimentos se deram do Brazil depois da partida do 
rei? 

— Quando declarou o Principe Regente que ficava no Brazil ? em 
que dia foi proclamada a independencia ? por quern? onde? 

— Quando foi o novo imperio fundado? por quern? 



168 HISTORIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XXVI. 

REGENCIA DO PRINCIPE D. PEDRO NO BRAZIL; INDEPEN 
DENCIA; GOVERNO DO PRIMEIRO IMPERADOR, 

D. PEDRO I. 

1821-1831. 

£ntre as colonias do Novo-Mundo foi incon testa velmente a 
portugueza — o Brazil — a que lutou com mais difiiculdades por 
sua independencia. 

As colonias inglezas tiveram uma emigra9ao europ^a forte e 
sa, em grande parte de ra9a germanica, que acostumaram-se 
pelas circumstaucias a uma organisa9ao tal que por si mesma 
estava preparada a independencia. Os elemeutos das outras 
ra9as — indios e negros — foram completamente opprimidos. 

Nos vice-rein ados hespanhoes, especialmente no Mexico e no 
Peru, conservou-se a preponderancia da ra^a amerieana que 
apesar da oppressao predominou numericamente logo depois 
da independencia. 

No Brazil, porem, foram os indios e os negros submettidos 
pela escravidao, ao passo que chegava da metropole, pelo menos 
at6 o descobrimento das minas de ouro, uma emigra9ao fraca 
proveniente quasi exclusivamente das camadas mais infimaM do 
povo. Nao obstante durante a guerra hoUandeza, com est^s 
fracos elementos, gra9as A situa9ao e fertilidade do paiz, for- 
mou-se o nucleo da na9ao brazileira que caracterisava-se pela 
sua liga intima com Portugal; ao passo que nos Estados-Uni- 
dos jd antes da independencia ha via separa9ao da Inglaterra, 
e OS indios do Mexico e do Perd tinham conservado contra seus 
conquistadores um odio implacavel. 

No Brazil notam-se differentes motins, os primeiros dos quaes 




J CU^:iKLUEIiCO J09X BUNU^ACIU. 



HISTORIA r>0 BRAZIL. 169 

foram exclusivamente dirigidos contra medidas erroneas do go- 
veruo: a revolu9ao de Amador Bueno em S. Paulo (1640), a 
de Agostinho Barbalho no Rio de Janeiro (1663), e mesmo a 
de Manoel Beckman no Maranhao (1683), eram s6 contra os 
odiosos jesuitas e a institui9ao dos monopolios. 

Jdse pode perceber, porem, uma irrita9§Lo nacional nos motins 
seguintes: Revolta dos Mascates em Pernambiico (1710) e 
Guerra dos Emboabas em S. Paulo (1711) ; mas a liga intima 
com a metropole mostra-se de novo nas duas ultimas revolu9des, 
uma das quaes — a do Tiradentes — (1789) proclamou a inde- 
pendencia, sendo o martyr executado sem que sua morte provo- 
casse o menor abalo nacional ; e ainda na ultima revolu9ao per- 
nambucana (1817) deu a na9ao inteira prompto auxilio para 
que ella fosse sufTocada. 

A intimidade com Portugal persistiu apesar das tyraunias do 
governo. A f ertilidade e a riqueza do paiz alliviavam as incon- 
vencias da oppressao e desde a chegada de D. Joao VI ao Bra- 
zil que surgira no animo de todos os Brazileiros a esperan9a de 
que o rei mndaria sua residencia para este paiz, que havia mais 
de um seculo sustentava o luxo de sens antepassados. As ga- 
rantias que deu o rei d colonia augmentaram ainda essa espe- 
ran9a, que mudou-se em certeza, quando o rei, depois da morte 
de sua mae D. Maria I (1816), preparou com grande porapa 
sua coroa9ao no Rio de Janeiro. A triste revolu9aode Pernam- 
buco interrompeu as festividades, mas nao abalou a resolu9ao 
do rei, que revela-se claramente no prineipio com a noticia da 
revolu9ao do Porto, quando D. Joao VI decretou a reuniao dos 
deputados de sens tres reinos (Portugal, Brazil e Algarves) no 
Rio de Janeiro. 

O decreto de 7 de mar9o em que o rei determinava voltar para 
Portugal destruiu todas estas esperan9as. Os insultos aos depu- 
tados brazileiros no dia 21 de abril e a partida repentina 
do rei a 26, alienaram de D. Joao todas as sympathias, 
e OS Brazileiros lembrando-se entao das injurias soffridas por 
tantos annos, sentiram vivamente a necessidade d-a. ^^^^x^jc^. 



170 HISTORIA DO BRAZIL. 

Na administra^ao existia a mats horrivel confusao : o thesouro 
estava exhausto, e as reparti9oes publicas fechadas em conse- 
quencia da bailcarota. 

Com tao tristes auspicios principiou a regencia do mo90 
principe apenas com 23 annos de idade (nascido a 12 de 
outubro de 1798). Esta regencia apresenta duas phases : 

1». De 26 de abril de 1821 at6 9 de Janeiro de 1822, desde a 
partida do rei at6 a declara^ao do Fico. 

2*. De 9 de Janeiro a 12 de outubro, proclama^SLo do im- 
perio. 

Os primeiros mezes depois da retirada de D. Jo2Lo VI passa- 
rara-se rauito tristes. Grande parte dos ricos negociantes recei- 
osos foram para Portugal e os fazencieiros retiraram-se para 
suas provincias. 

Tambem o principe nessa epoca bem longe de ostentar luxo, 
por conselho de seu tutor, o Conde dos Arcos, diminuiu em 
todos OS sentidos as despezas da c6rte. 

Os partidos politicos que entiao se formaram nao puderam 
chegar a um accordo : o partido portuguez desejava que o Bra- 
zil voltasse ao antigo estado colonial, ao passo que o partido 
brazileiro, em grande parte republicano, proclamava bem alto 
a completa separa^ao ; mas esta separag^o de certo havia de 
acaiTetar grandes desgra9as, entre as quaes podemos apontar 
as seguintes : 

I. Destrui^o da grandiosa unidade de nossa pcUria. 

II. Guerra de exterminio com Portugal^ unico paiz do mundo 
civilisado com que estava ligado o Brazil. 

III. Guerra civile ainda talvez peior que a guerra com a mSLe- 
patria. 

MINISTROS DO PRINCIPE REGENTE D. PEDRO. 

Jos^ Bonifacio de Andrada e Silva (Reino e Estrangeiros) ; Martim 

Francisco de Andrada e Silva (Fazenda) ; Luiz Pereira da Nobrega de 

Azeredo Coutinho (Guerra) ; Luiz da Cunha Moreira, depois Vlsconde de 

Cabo Frio (Marinha) ; Caetano Pinto de Miranda Montenegro (Jii8ti9a). 

Nomeados a 16 de jaueiro de 1822. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 171 

Estas desgragas foram evitadas pelos grandes patriotas cujo 
bom senso nesta grande crise salvou o paiz. Entre elles notam- 
se Jo86 Bonifacio Ribeiro de Andrada e Silva, o jornalista Jus- 
tiniano Joaquim da Rocha, Jos^ Clemen te Pereira, Frei Fran- 
cisco de Sampaio e o D°'. Barboza. 

O grande movimento patriota revelou-se principalmente nas 
provincias do sul — Minas-Geraes, S. Paulo, Rio Grande do 
Sul e Rio de Janeiro. 

Durante este tempo deram-se alguns motins nas provincias do 
norte, especialmente era Pernambuco, onde depois de muitos 
combates capitulou o governador Rego Barreto (Conven9ao do 
Biberibe) e retirou-se para Portugal. , 

Os esfor^os do partido patriota foram por todos os modos 
favorecidos pela imprudencia das C6rtes portuguezas, em cuja 
dependencia govemdra D. Joao VI at^ a invasao franceza na 
peninsula. Os actos das C6rtes que mais irritaram u principe 
D. Pedro e a nagao brazileira sao : 

I. O juramento da guarni9ao portugueza que sem permissao 
de D. Pedro, tomou o coronel Jorge de Avilez. Este pouco 
caso do regente foi a causa de retirar-se para Portugal o Conde 
dos Arcos. 

II. A redu9ao e aboligao de muitos estabelecimentos publicos 
(tribunaes e repartiyoes) fundados no governo de D. Joao VI, 
como tambem a liga directa da administra9ao de cada provincia 
com Portugal. Algumas provincias, entre ellas a Bahia, onde 
predominava o partido portuguez, declararam-se immediata- 
mente contra D. Pedro, cuja posi9ao ficou assim compromet- 
tida. 

III. A preten9ao das C6rtes em obrigar o rei a mandar vol- 
tar para Portugal o principe regente, afim de completar, sua 
educa9ao por meio de viagens. 

Os patriotas brazileiros aproveitarara-se da justa indigna9ao 
do valente principe e at^ o fim do anno organisaram nas 
provincias do sul milbares de assign aturas para a re- 
pre8enta92lo que iam fazer ao Principe. 



172 HISTORIA DO BRAZIL. 

No dia 9 de Janeiro de 1822 reuniram-se na C6rte os deputa- 

dos das differentes provincias e com o povo, a cuja f rente ia o 

senado presidido por Jos6 Clemen te Pereira, dirigiram- 
1822 

se ao palacio do principe, pedindo-lhe que ficasse. D. 

Pedro respondeu : " Como ^ para hem de todos e feliddade geral 

da naqd,o^ diga ao povo que jico." 

As for9as portuguezas sob o commando de Avilez sahiram de 
sens quarteis e tomaram posi9ao no morro do Castello. 

O povo brazileiro reunido no campo de Santa Anna, que 
desde entao chamou-se Campo da Acclama9ao, recebeu com 
grande jubilo o mo90 principe, que apresentou-se armado com 
sens officiaes e •ordenou que atrelassem sens proprios cavallos 
ds carretas de artilheria da Praia- Vermelha. 

A vista de tal demonstra9ao de resistencia retirou-se a guar- 
ni9ao portugueza para Nicteroy, onde eiubarcou-se. 

Muito tino mostrou o principe escolhendo para seu ministro e 
conselheiro a Jos^ Bonifacio de Andrada e Silva. Este illustre 
brazileiro jd havia dado provas do mais acrysolado patriotismo, 
evitando por sua influencia sobre o principe as desgra9as de 
uma guerra com Portugal, e por sua actividade em convocar 
uma assembl^a geral dos procuradores de cada provincia impediu 
a separa9ao dellas, e ao mesmo tempo nao se esqueceu de arran- 
jar as sommas necessarias ao governo e de preparar rela96es de 
amizade com a Inglaterra, Fran9a e HoUanda. 

O mo9o principe fez tambem tudo quanto de si dependia para 
firmar sua posi9ao e reunir os differentes partidos. Ao receber 
a noticia de uma subleva9ao em Minas, dirigiu-§e em pessoa 
para esta capitania, onde foi recebido com grande enthu- 
siasmo. Na volta achou no Rio de Janeiro grande agita9ao por 
causa das injurias feitas em Lisboa aos deputados brazileiros 
que se retiraram para a InglateiTa.* 



* Kstes deputados eram 7 — Antonio Carlos Ribeiro de Andrada e 
Sfira, Costa Agm&r, Bueno, o padre Diogo Antonio Feijd, Gomes, Barata 
de Almeida, e Lino Coutinho. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 178 

No intaito de dar k na^ao ainda mais garantias da firmeza de 
sua resolu9ao, tomou o principe o titulo de Defensor perpettio 
do Brazil^ e per meio de medidas energicas rompeu os ultimoB 
la90s com Portugal. Foram desarmadas as guarni9oe8 portu- 
guezas que ainda se achavam no Brazil e a maior parte de sens 
soldados entraram para o exercito brazileiro. Foi communi- 
cado aos chefes de reparti9oes publicas que receberiam directa- 
mente todas as ordens do principe e que era prohibida a publi- 
ca9ao de qualquer lei sem o placet de D. Pedro. 

No norte predominava o partido portuguez. Ignacio Madeira 
na Bahia provocou uma revolta que fez com que o partido li- . 
beral se retirasse para a Cachoeira. Nesse tempo Madeira repre- 
sentava na eolonia o governo portuguez, e chegou a sublevar os 
escravos ; mas do Rio de Janeiro partiu uma for9a contra elle, 
composta de grandes navios mercantes, acompanhados por alguns 
vasos de guerra, que haviam combatido no Chile em favor da 
liberdade, sob o commando do alrairante inglez Cochrane, com 
quem o principe D. Pedro havia contractado a expedi9ao, de 
que fizeram parte os capitaes Greenfell e Taylor. 

Chegando k Bahia o commandante Labatut cercou a cidade, 
mas uma revolu9ao for9ou-o a retirar-se. Foi logo substituido 
por Jos^ Joaquim de Lima e Silva, que com a frota de Coch- 
rane cercou S. Salvador por mar e por terra. Madeira aprovei- 
tou-se da escuridSo da noite de 1°. de julho de 1823 e retirou- 
se com muitos navios raercantes. Cochrane perseguiu-o at^ a 
emboccadura do Tejo, onde chegou a entrar Taylor, capitao da 
fragata Nicteroy, e voltaram com grandes riquezas para o Bra- 
zil. 

Entretanto havia quasi um anno que estava proclamada a 
independencia. 

Em agosto de 1822 torndra D. Pedro a Minas e na volta, 
passando por S. Paulo, recebeu, junto ao rio Ypiranga, despa- 
chos injuriosos das C6rtes portuguezas,* que provocaram o 

* Estes despachos annullayam a convoca^^ de ProeMT^^oit^^ ^a& '^t^ 
▼incias brasileinw; maodavam responsabiUBaT ob tcnm^tto^ ^q ^fov^v^^ ^' 



174 HISTOBIA DO BRAZIL. 

grito de Independencia ou Morte! a 7 de setembro de 1822, e 

apressaram sua chegada ao Rio de Janeiro. 

Recebido com grande enthusiasmo, raarcou o priucipe o dia 
12 de outubro, seu anuiversario natalicio, para a solemne 
proclama9ao do novo imperio, effectuando-se sua eoro- 

a9ao a 1°. de dezembro de 1822. 

D. Pedro I, Imperador do Brazil (1822-1831). —O go- 
verno de D. Pedro 1 divide-se em dous periodos : 1°. Epoca de 
felieidade desde 1822 at^ 1831 ; 2°. Epoca de revezes que 
to ram a causa da impopularidade e retirada do Imperador em 
1831. 

Os grandes acontecimentos do ultimo periodo da indepen- 
dencia prepararam a sympathia geral entre os partidos, que se 
revelou nos primeiros aunos do imperio. 

Os partidos portuguez e republicano desappareceram, e as 
ultimas for9as, que Portugal tinba na America, retiraram-se do 
• territorio brazileiro. Na Bahia foi expulso o general Luiz 
Ignacio Madeira de Mello, a 2 de julbo de 1823 ; e ainda boje 
celebra-se esta ex[)ulsao no arcebispado da Bahia. Logo depois 
retirou-se a guarni^ao portugueza do Urugua}' e a pequena re- 
publiea annexou-se ao imperio. Infelizmente durou a uniao s6 
at^ 1828. 

Entretanto reuniu-se no Rio de Janeiro a primeira Assembl^a 
Constituinte, comi)osta de deputados de todas as provincias do 
imperio, a qual conservou-se nos primeiros mezes em harmonia 
com o Imperador por causa da influencia do conselheiro Jos^ 
Bonifacio e de sens irmaos Antonio Carlos, o grande orador, e 
Martim Francisco, o grande financeiro. Divergencias, porem^ 
entre D. Pedro e Jos6 Bonifacio provocaram a retirada do minis- 
terio dos irmaos Andradas, que se reuniram d oppo8i9ao. 

membros da Junta de S. Paulo e os signatarios das repre8eiita99e8 de Janei- 
ro ; ordenavam a mais completa sujei9ao as Cortes ; e nomeavam minis- 
troB Dovoa pan o principe, arrancando-lhe o direito de escolher sens con* 
seUieirog, 



HISTOBIA DO BRAZIL. 175 

O novo projecto de lei da Constituinte ora ultra-liberal e 
limitava excessivameute a ac9ao do Imperador, tirando-lhe o 
poder moderador e 86 reconhecendo tres poderes politicos: 
o executivo, o legislativo e o judiciario. O Imperador nSo 
podia disBolver a CamaradosDeputados, nem conceder amnis- 
tia. 

No mesmo tempo foram gravemente injuriados os officiaes 
portuguezes pelo novo exercito brazileiro, e D. Pedro, para 
acabar com a crise, eneerrou a camara d for9a armada e decre- 
tou a prisao dos principaes membros da opix)si9ao que foram 
expatriados. Entre os chefes uotam-se Jos^ Bonifacio e seus 
irmaos e o jornalista Justiniano J. da Rocha. O Imperador 
reuniu um conselho de estado com o qual preparou uma cons- 
titui9ao, que foi jurada a 25 de mar9o de 1824 e at^ hoje rege 
o imperio com uma unica raodifica9ao em 1834 pelo acto addi- 
cional — a da forma9ao do municipio da cidade do Rio de Janeiro 
e a concessao ds provincias de Camaras legislativas especiaes e 
Presidentes nomeados pelo governo. Esta constitu 193,0 foi a 
mesma que recebeu pouco antes Portugal de D. Joao VI e tem 
por base a constitui9ao dos Estados-Unidos de 1783. 

As provincias do sul prestaram sem difficuldade juramento & 
constitui9ao ;' no norte, porem, houve resistencia, de modo 
que o Imperador foi obrigado a mandar novos presidentes 
para essas provincias : em Pernambuco a prisao de Carvalho, o 
cabe9a da opposi9ao, provocou uma revolta e reunindo-se a elle 
uma parte da guarni9ao, foi proclamada a Republica do Equa- 
dor, a que tambem adheriram Parahyba do Norte, Rio Grande 
do Norte e Ceard. 

A frota ds ordens de Cochrane e o exercito commandado por 
Francisco de Lima e Silva abafarara a revolta, e os compromet- 
tidos salvaram-se no vapor inglez Tweed. Nao obstante mais 
de onze pessoas foram condemnadas d morte, e entre ellas Joao 
RatclifT, que foi enforcado na Prainba, no Rio de Janeiro. De 
Pernambuco dirigiu-se Cochrane para Ceard e Maranhao, e recla- 
mando grander sommas das presas, pagow-^^ ^ot ^wa.^ "^"tor^xv^Sk 



176 HISTORIA DO BRAZIL. 

maos, e sem permissao- do governo retirou-se para a Inglaterra 
a bordo da fragata brazileira Piranga, 

Em 1826 foi D. Pedro para a Bahia afim de com sua presen^a 
p6r termo aos continuados tumultos que ahi se davam, o que 
tendo conseguido voltou para o Rio. 

Desde 1825 que havia rompido uma revolu^ao no Uruguay 
contra o Brazil. O partido Blanco influido pelos Argentinos 
proclamou a independencia e tomou por chefe a Joao Antonio 
Lavalleja, e a revolta esteudeu-se por toda a provincia. 

O visconde da Laguna, presidente da Cisplatina * deixou-se 
ficar inactivo em Montevideo, esperando ordens do governo, ao 
passo que os revoltosos recebiam forte soccorro de Buenos- 
A3Tes. Foram mandadas para a Cisplatina foryas de mar e terra 
e o proprio Imperador para Id partiu em novembro de 1826 ; mas 
teve de voltar immediatamente ao receber a noticia da morte da 
Imperatriz (11 de dezembro de 1826), deixando o commando 
do exercito ao Marquez de Barbacena, que soffreu uma grande 
derrota em Ituzaingo perto do Passo do Rosario. 

No mesmo tempo soffria tambem a frota grandes revezes, 
perdendo 16 navios em f rente d ilha de Martim Garcia, os quaes 
foram aprisionados e alguns qiieimados pelo almirante Brown de 
Buenos- Aj^res. Tambem as Camaras recusaram votar creditos 
extraordinarios para restabelecer as perdas. 

Firmou-se portanto o infeliz tratado de paz do Rio de Janeiro 
em 1828, pelo qual separou-se a Banda Oriental e formou-se a 
actual republica do Uruguay, sob a protec9ao da Inglaterra. 

Os mercenarios irlandezes e allemaes, que tinham voltado dv 
Montevideo, prov.ocaram logo motins na capital, e no exterior 
deram-se tambem factos bem desagradaveis. 

Em 1825 foi por interven^ao de Sir Charles Stuart celebrado 
o tratado pelo qiial Portugal reconheceu a independencia do 
Imperio. D. Joao VI conservou o titulo de Imperador do 



* Era o norae do estado do Uruguay emquanto fez parte do imperio do 
Brazil (1821-1828). 



HISTORIA DO BRAZIL. 177 

Brazil e recebeu sommas extraordinarias,* o que muito desgos- 
tou a Da9ao brazileira. No mesmo anuo celebrou-se o tra- 
tado pelo qual Leao XII entregou o arcebispado da Bahia 
4 administra9§Lo ecclesiastica do novo Imperio. 

D. Joao VI morreu em 1826 e D. Pedro abdieou seus direitos 
sobre a cor6a de Portugal em sua filha D. Maria da Gloria ; mas 
o regente do reino, o principe D. Miguel de Bragan9a, irmao 
de D. Pedro, ligou-se com o elero portuguez, e convoeando uma 
camara do partido catholico, usurpou o throno. 

D. Pedro quiz vol tar para Portugal, afim de fazer valer seus 
direitos ; mas as Camaras nao Ib'o permittiram. A princeza 
D. Maria foi mandada para Londres, donde 86 voltou em com- 
panhia da princeza D. Amelia de Leuchtemberg, noiva de D» 
Pedro. 

Logo depois da chegada das priucezas foi celebrado o 
casameuto e para commemorar este acto institniu o Impe- 
rador a Imperial Ordem da Rosa,t civil e militar ( 1 7 de outu- 
brode 1829). 

A condecora9ao brazileira da Ordem do Cruzeiro liavia sido 
creada no dia da coroa9ao do Imperador — 1°. de dezembro de 
1822. 

A provincia de Minas ultra-liberal era considerada o centro 
das hostilidades contra o Imperador, assim resolveu elle ir outra 
vez a Minas e restabelecer a sua autoridade perdida, mas foi 
recebido mui friamente e voltou para o Rio de Janeiro, onde as 
festas pela sua chegada degeneraram em motim (noite das gar- 
rafadas, 13 de mar^o de 1831) entre nacionaes e portuguezes. 

Vendo o Imperador que o ministerio nao tomava as provi- 
dencias necessarias, demittiu-o, o que serviu de pretexto A oppo- 
sigao para comegar a revolu9ao, que foi a causa da abdica9ao 
em 7 de abril de 1831, pois, sendo intimado por uma deputa9ao 

* Dois milhSes sterlinos, mais de 20 mil contos de reis. 
t Na rosetta de esmalte rosa cravejado de brilhantes le-se a divisa — 
Amor e Fidelidade, e no centro estSo as letraa P. A.. (^fe^x<i ^ k\w^^* 



178 HISTOBIA DO BRAZIL. 

do povo para reintegrar o ministerio anterior, respondera-lbe : 
" TenJio direito de escolher os meus ministros. . . . Estou 
prompto a fazer tvdo para o povo, nada por^m pelo povo,** 
Ao entregar o acto de abdicagao ao Major Migael de Frias, 
elle disse-lhe : " Estimarei que sejam felizes. Eu retiro-me 
para a Europa^ e deixo um paiz que sempre amei e que amo 
ainda," * 

D. Pedro I retirou-se com sua esposa a Imperatriz D. Amelia 
e sua filha a rainha de Portugal D. Maria II. Deixou como 
tutor de seus filhos no Brazil — S. M. I. o Snr. D. Pedro II, 
e as princezas D. Januaria, D. Francisca e D. Paula — o illnstre 
brazileiro Jos^ Bonifacio de Andrada e Silva. 

D. Pedro I tern na'historia do Brazil o cognome de Fundador^ 
na de Portugal o de Libertador e tambem o de Bei-Soldado. 
Sua lembran9a vivird eternamente no Brazil e em Portugal. 
Das tres estatuas elevadas & sua memoria em Lisboa, Porto e 
Rio de Janeiro, 6 a ultima a mais artistica e caracteristica. 
O Imperador 6 representado montado em um fogoso cavallo 
que refrea com energia, tendo na mao direita a Constitui9ao : 
na base do pedestal figuras allegoricas representam as provin- 
cias do vasto imperio do Brazil. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXVI. 

— Porque tiveram as colonias inglezas na America menos difficul- 
dades que o Brazil em tornarem-se independentes ? E os vice-reinados 
hespanhoes ? 

— O que tornava para o Brazil tSk) embara9osa a dec]ara9So da 
independencia ? 

— Quaudo e de que elementos se formou a nacionalidade brazileira? 

* Ultimo ministerio nomeado por D. Pedro I a 5 de abril de 1831 : — 
Marquez de Inhambupe (Imperio) ; Visconde de Alcantara (Justi^a) ; 
Marquez de Aracaty (Estrangeiros) ; Marquez de ParanagiU^ (Marinha) ; 
Murguez de Lages (Guerra) ; Marquez de Bae^eudy (Fai^enda). 



HISTOBIA DO BBAZII#. 179 

— Qual o caracter distinctivo dessa nacionalidade? e em que diffe- 
ria dos Norte- Americanos, Mexicanos e Peruvianos? 

— Com que fim se fizeram as primeiras revolu90e8 no Brazil-colonia? 

— Que tendencia se nota nas que se deram no seculo decimo-oitavo? 

— Porque nSo vingou a conjura9ao do Tiradentes? 

— Como se prova que nSo era a conjura^ao popular? 

— O que aconteoeu com a revolu9ao republicana de Pemambuco 
em 1817? 

— Porque n2o podia a tyrannia do governo abalar a liga intima 
entre Brazileiros e Portuguezes ? 

— Que resolu9Sk) do rei tomou essa amizade mais forte da parte 
dos Brazileiros? 

— Que decreto real destruiu estas sympathias e fez sentir A na9§ko 
brazileira a necessidade da separa9Slo ? 

— Com a retirada de D. Joao YI em que estado ficou a adminis- 
tra9§ko? o thesouro? e as reparti9oes publicas? 

— Quem tomou conta do governo ? com que titulo ? quando ? 

— Quantas phases apresenta a regencia? quaes? 

— Quem era o principal rainistro do Principe Regente ? e que sabios 
conselhos Ihe deu nessa epoca tSo critica ? 

— Que partidos politicos entao se forniaram ? e a que aspiravam? 

— Que desgra9as proviriam com a separa9So desejada pelo partido 
republicano? 

— Como foram tao grandes calamidades prevenidas ? 

— Onde mostrava-se mais exaltado o sentimento patriotico? 

— Que acontecimentos se deram no norte e especialmente em Per- 
nambuco? 

— Que actos das Cdrtes favoreceram o partido patriotico brazileiro, 
levando a indigna9So ao animo de D. Pedro ? 

— O que resolveram os brazileiros em principios de 1822? 

— O que respondeu o Regente i. deputa93lo dos patriotas ? 

— Que fizeram os chefes portuguezes ? 

— Onde se reuniu o povo? e como procedeu o principe D. Pedro? 

— Para onde retirou-se a guami9ao portugueza? 

— A quem escolheu o Regente para seu primeiro ministro? 

— Que sabias medidas haviam revelado o patriotismo e a elevada 
intelligencia do grande estadista Jose Bonifacio ? 

— Como procedeu D. Pedro nestas criticas circumstancias? 

— Que provincia visitou entSo ? e como io\ Te<ift\yv^o1 



180 HISTORIA DO BBAZIU 

— Que era feito dos deputados brazileiros em Lisboa? 

— Porque tomou o principe o titulo de " Defensor Perpetuo do Bra- 
zU " f como tratou as guarni9des portuguezas ? e que ordeus deu aos 
chefes das reparti9oes publicas ? 

— Onde predominava o partido portuguez ? Quem era o chef e ? 
onde ? e que medidas energicas tomou ? 

— Como f oi o general Madeira expulso da Bahia ? quando ? para 
onde se retirou? 

— Quem foi o commandante da frota contra a Bahia? que outros 
capitSLes tomaram parte na expedi9ao ? 

— Quando foi D. Pedro segunda vez a Minas ? 

— Quando deu o principe o grito de *^ Independencia ou Morte"1 
onde? porque? 

— Como foi recebido no Rio de Janeiro ? e que dia niarcou para a 
solemne proclama9ao do novo Iraperio? e quando foi coroado Impe- 
rador? 

— Em quantos periodos se pode dividir o governo de D. Pedro? 
Quaes ? 

— Que foi feito dos partidos portuguez e republicano ? 

— Que aconteceu na Bahia? No Uruguay? e por quanto tempo 
foi a provincia da Cisplatina annexada ao Imperio ? 

— De que membros se compoz a primeira Assemblea Constituinte ? 
onde se reuniu? e porque no principio conservou harmonia com o 
Imperador ? 

— Que resultou das divergencias entre o Imperador e o Conselheiro 
Josd Bonifacio? 

— Que projecto de lei preparava a Constituinte ? 

— Que medida extrema tomou o Imperador para acabar com a crise? 

— Por quem foi substituida a Constituinte ? 

— Quem deu ao Brazil sua Constitui9ao ? quando ? e que modifica- 
9oes tern soffrido ate hoje? 

— Que modello tomou o Imperador para a f orma9So da constitui9So 
brazileira? 

— Que provincias aceitaram pacificamente a constitui9So de 1824? 
Onde deram-se resistencias ? 

— Qual foi o resultado da prisao de Carvalho em Pernambuco ? 

— Que outras provincias reuniram-se d Republica do Equador ? 

— Quem foi man dado para o norte como commandante da frota 1 
e do exercito ? eo que conseguiram? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 181 

•— Quantos dos revoltosos foram condemnados d morte e qual o 
mais notavel ? 

— Qual f oi o procedimento do almirante Lord Cochrane, que estava 
a soldo do Brazil ? 

— Quando visitou D. Pedro I a Bahia? porque? e com que resul- 
tado? 

— Que acontecimentos se davam na Cisplatina em 1825 ? 

— Que na^^LO protegia o partido Blanco revoltoso ? quern era chef e 
do partido Blanco f e ate onde estendeu-se a revolta ? 

— Quern era entao o Presidente da provincia da Cisplatina? que 
providencias tomou contra a revolu9ao ? 

— Como procedeu o governo imperial ? e o que fez o proprio Impe- 
rador? porque nSk) se demorou la? a quem deixou o commando do 
exercito ? 

— Que batalha notavel perdeu o Marquez de Barbacena? 

— Foi a frota mais feliz entao que o exercito? quem a derrotou? 

— A vista destes revezes como procederam as Camaras ? 

— Qual foi o resultado de privar-se o governo de recursos para con- 
tinuar a guerra? 

— Com a volta do exercito que tristes acontecimentos se deram na 
capital? 

— Quando reconheceu Portugal a independencia do Brazil ? quem 
foi o intermediario para a celebra^ao do tratado ? 

— Que titulo conservou D. Joao VI? que indemnisac^ao exigiu? e 
que effeito teve esta exigencia sobre os Brazileiros ? 

— Que papa entregou o arcebispado da Bahia d administra^ao do 
Imperio? quando? 

— Em que anno morreu D. Joao VI ? 

— Quem herdou a coroa de Portugal? Em quem abdicou D. 
Pedro I? e quem usurpou o throno? como? 

— Porque n2k) foi D. Pedro I a Portugal expulsar o usurpador? 

— Para onde foi mandada a futura rainha de Portugal? 

— Com quem voltou ella para o Rio? 

— Que Ordem civil e militar creou D. Pedro I para commemorar o 
dia de seu casamento com a princeza D. Amelia de Leuchtemberg? 
e quando fdra creada a Ordem do Cruzeiro ? 

— Porque foi o Imperador segunda vez a Minas? como foi recebido? 
e que tristes occurrencias se deram no Rio por occasiao da sua 
Yolta? 



182 HISTOBIA DO BRAZIL. 

— Porque foi demittido o ministerio? e qual o resultado de sua 
demissSo ? 

— Que respondeu o Imperador i, deputa9ao do povo, que pedia a 
reintegra9So do antigo ministerio ? 

— Que palavras dirigiu D. Pedro I ao Major Miguel de Frias ao 
entregar-lhe o acto de abdica^aio ? quando ? 

— Para onde retirou-se D. Pedro I ? com quem ? quantos filhos 
deilou no Brazil ? e a quem nomeou tutor delles ? 

— Que titulo da© os historiadores brazileiros a D. Pedro I ? e os 
portuguezes ? 

— De que modo tern as na<joes brazileira e portugueza revelado seu 
reconhecimento d memoria de D. Pedro I ? 



HISTOiUA DO BfiAZIIi. 188 



CAPITULO XXVII. 

GOVERNOS REGENCIAES; ALA.IORIDADB. 

1831-1840. 

Os acontecimentos que se deram no Brazil logo depois da 
partkUi de D. Joao VI (1821), resultaram na proc'lama^ao da 
independeucia (7 de setembro de 1822) e do Iinperio (12 de outu- 
bro) sendo coroado Iraperador o Principe Regente, D. Pedro 
no dia 1°. de dezembro de 1822. 

Durante os primeiros mezes de seu governo congra90U o 
Imperador todos os partidos e gosou da maior popularidade, 
que em poueo tempo foi perdendo successivaraente, em parte 
devido ao seu proprio earacter mais do que ds circumstancias 
diffieeis em que se aehava. As priueipaes causas de deshar- 
monia entre D. Pedro I e os Brazileiros foram : 

I. Demissao de Jos^ Bonifacio de Andrada, que deu causa 
& opposi9ao exaltada de sens irmaos, o que obrigou o Impera- 
dor a dissolver a Constituinte, seguindo-se logo a doa9ao auto- 
cratica da Constitui9ao. 

II. A revolu9ao de Pernambuco mostrou que o partido repu- 
blicano era ainda forte no Iraperio, e o castigo dos cliefes, espe- 
cialmente o de Joao Ratcliff, suscitou contra D. Pedro I grande 
numero de inimigos pessoaes. 

III. O tratado de 1825 com D. Joao VI e o de 1828 com a 
Argentina, pelo qual perde o Brazil a provineia da Cisplatina. 

Pouco depois da raorte de D. Joao VI, recebeu o Imperador 
a noticia da usurpa9ao do throno portuguez por seu irmao D. 
Miguel de Bragan9a, Regente do reino era nome de D. Maria II, 
em favor de quem abdicdra D. Pedro I a cor6a de Portugal de 
que era o legitimo herdeiro. 



184 HISTOJEUA DO BRAZIL. 

Desgostoso tambem o Imperador pela fria recep9SLo que teve 
na sua segunda visita a Miuas em 1881 e pelos motius levan- 
tados na C6rte por occasiao de sua volta, resolveu tambem 
abdicar a sua cor6a imperial em seu Filho o Snr. D. Pedro II, 
entao com 5 annos de idade, o que realisou no dia 7 de abril de 
1831. 

Kegencia durante a minoridade de D. Pedro II (7 de 

abril de 1831 at^ 23 de julho de 1840). — !. Regencia Trina 
Provisoria e Definitiva, de 1831 a 1834. 

II. Governo de um s6 Regente : 1°. O Senador Diogo Anto- 
nio Feij6, de 1835 a 1837 ; 2°. O Senador Pedro de Araujo 
Lima de 1837 a 1840. 

A abdica^ao do Imperador encheu de jabilo o partido demo« 
cratico, sens chefes, porem, nao puderam chegar a um accordo. 
Entretanto reuniram-se os 34 deputados e 26 sen adores que se 
achavam no Rio de Janeiro e proclamaram Imperador a D. 
Pedro II, que conform e a determina9ao de seu pae, recebeu por 
tutor a Jos^ Bonifacio de Andrada. Foi eleita uma Regencia 
Provisoria de tres membros, entre os quaes nota-se o Brigadeiro 
Francisco de Lima e Silva, que tambem fez parte da subse- 
quente Regencia Permanente com Jos6 da Costa Caryalho 
(Marquez de Monte Alegre) e Joao Braulio Moniz. 

Durante o governo regencial deram-se muitas revoltas que 
se podem classificar em dois grupos : I. Anarchias e motins. 
11. Lutas contra os partidarios de D. Pedro I tambem chama* 
dos CaramurHs, 

As provincias em que se declararam revoltas foram Pardy 
MinaS'Geraes e Bio Grande de Sul; mas em todas as outras 
quinze deram-se motins e assassinatos. 

Depois da retirada de D. Pedro I houve serios disturbios na 

propria Cdrte^ os quaes foram logo abafados pelo energico Minis- 

tro da Justi9a, Diogo Antonio Feij6. Estas revoltas deram 

ongem k forma^ao da guarda nacional, que organisou-se em 

todas as provincias. 



HIBTOBIA DO BBAZIL. 186 

Em Pemamlmco rebentou uma seria revolu^So militar, appel- 
lidada dos /SeptembristdSy per lembrar as horriveis scenas da 
Revolu^ao franceza em setembro de 1792. Seguiu-se logo nma 
guerra civil cognominada dos Cabanos^ que durou quatro annos 
e foi tranquillisada pelo Major Joaquim Jos^ Lulz de Souza 
auxiliado pelo bispo D. Marques Perdigao. 

Na Bahia foi expulso o Coronel Joao Chrysostomo do mesmo 
modo que o Brigadeiro Soares de Andrea no Pard ; mas einco 
annos depois de serem expulsos de suas presidencias elles con- 
seguiram restabelecer a paz nas suas respect! vas provincias. 
Ambos estes generaes conservaram-se fieis ao governo ; mas o 
Coronel Joaquim Pinto Madeira, adorador de D. Pedro I, pro- 
clamou na villa do Jardim, do Ceard, a restaura9ao do 1^. Impe- 
rador, e conseguiu reunir alguns adeptos ; mas vencido em uin 
encontro que teve cona as for9as do governo, foi abandonado 
pelos sens, preso e assassinado no Crato. 

Entretanto chegaram ao Brazil noticias dos heroicos feitos do 
ex-imperador, que expulsdra seu irmao de Portugal depois das 
brilhantes victorias de Almoster e da Asseiceira, e pelo decisivo 
triumpho da causa liberal na conven^ao de Evora-Monte a 25 
de maio de 1834 restituira a cor6a a sua filha D. Maria II. 
Ora, muitas pessoas importantes temiam a volta do ex- 
imperador e desenvolveu-se grande rigor contra um pro- 
jecto de conspira9So, em que estava compromettido Jos6 Boni* 
facio de Andrada, que perdeu seu cai^o de tutor do Imperador 
e foi mandado preso para a ilha de Paquetd. Ao mesmo tempo 
tratava-se nas Camaras de decretar a expatria^ao de D. Pedro I ; 
mas antes de passar a lei no Senado chegou a noticia da morte 
do ex-imperador em Lisboa a 24 de setembro de 1884. 

Para restabelecer a tranquillidade foi apresentado no mesmo 
anno ds Camara^ um projecto de lei que modificava a Constitu- 
i9ao. Este projecto convertido em lei a 12 de agosto de 
1884, i oonhecido pelo nome de Acto AddidonaL Entre 
as reformas da nova lei notam-se : Institui^ao das Assembl^aa 
Provinciaes ; creapSo do Municipio "Neutro •, a\iAVj&.o ^o ^i«CL- 



186 HISTOBIA DO BBAZIL. 

selho de Estado, e eleigao de um s6 Begente nomeado pot 
quatro annos. 

Foi eleito para Regente em outubro de 1835, o Senador 
Diogo Antonio Feij6, que nao mostrou nessa elevada posi9slo 
a mesma energia de que antes dera provas, como Ministro da 
Justi9a. 

Foi pacificada a provincia do Pard, mas ganhou incremento a 
revolu9ao do Rio Grande do Sul, chamada dos Farraposy eujo 
chefe era o Coronel Bento Gon9alves da Silva, a qual se pro- 
longou durante todo o periodo da regencia.* 

Diogo Antonio Feij6 teve contra si nas Camaras um forte par- 
tido e tornou-se impopular pelo projecto de uma reforma religi- 
osa ; mas seu animo varonil nuuca fraqueou nas mais critieas 
circumstancias, e si nem sempre proeedeu com a energia neces- 
saria a um governador no meio de fac9oes exaltadas, nunca foi 
a isso induzido por f raqueza de caracter. Elle dizia de si mesmo : 
*' Sou horaem de quebrar, mas nao de torcer." 

O chefe da opposi9ao Bernardo Pereira de Vasconcellos havia 
entao contra o Regente organizado o partido conservador, que 
augmentando-se cada dia em rasao das mds noticias da guerra 
do Rio Grande do Sul, obrigou o Regente a resignar o poder. 

Seguiu-se a regencia do Senador Pedro de Arsx/ujo Lima 
(1837-1840), que govemou cm harmonia com as Camaras, nao 
obstante a continua9ao das revoltas nas provincias. 

Na Bahia foi pelo medico Sabino Alvares da Rocba Vieira 
proclamada a Bepublica Bahiense at6 a maioridade de Sua 
Magestade o Snr. D. Pedro II. 

Foi mandado contra elle pelo Govern© o marechal JoSU> 
Chrysostomo Callado, que restabeleceu a tranquillidade em 
toda a provincia. 

Entretanto no Rio Grande do Sul continuava a revolu92Lo dos 
Fb/rrapoSy e no Maranhao rompia uma nova 8edi9SLO. Mas o 

* Kesta campanha principiou a sua carreira militar Joa6 Graiibaldi, o 
mUfseqaente libertador da Italia. 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 187 

chefe do8 revoltosos maranhenses Raymuudo Gomes despresti* 
giou-se por associar-se aos bandos do preto Cosme, 
vil salteador que intitulava-se tutor do Imperador. 

Em 1840 mandou o govemo para MaranMo o Coronel Luiz 
Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), como Presidente e 
Commandante das Armas, o qual em menos de um anno paci- 
ficou a provincia (5 de Janeiro de 1841). 

No Rio Grande do Sul continuavam os revezes para as for9a8 
do governo, que perderam a villa do Rio-Pardo com a 
maior parte do exercito ds ordens do Marechal Barreto 
(1838). Em 1839 o chefe rebelde David Canavarro invadiu 
Santa Catharina e occupou a villa da Laguna. Mas emquanto 
preparavam-se os Farrapos para novas iucursoes, chegou 
d Santa Catharina o novo Presidente e Commandante das 
Armas, Marechal Soares de Andrea, que retomou a villa da 
Laguna, expulsou os guerrilheiros de Santa Catharina e perse- 
guiu-os mesmo no Rio Grande do Sul, enviando refor90s ao 
general Manoel Jorge Rodrigues. 

Prolongando-se a guerra pela energia dos chefes rebeldes, foi 
em 1842 mandado para o Rio Grande do Sul o Barao de Caxias, 
como Presidente e Commandante das Armas da provincia, com 
plenos poderes de acabar com a revolta. O novo general teve 
a fortuna de attrahir ds bandeiras do governo o valente cau- 
dilho, Brigadeiro Bento Manoel Ribeiro, e depois de uma serie 
de combates em que os Farrapos foram constantemente bati- 
dos, chegaram em fevereiro de 1845 os chefes revoltosos a um 
accordo com o Barao de Caxias, aceitando a amnistia imperial 
de 1844. Assim terminou uma triste guerra civil que por mais 
de nove annos assolou a provincia do Rio Grande do Sul. 

O novo partido conservador que tomdra as redeas do governo 
desde a resignagao do Senador Diogo Antonio Feij6, nao tendo 
podido abaf ar o enthusiasmo publico pelas reformas da Cons- 
titui9ao, nem pacificar os Rio-grandenses, foi perdendo 
rapidamente a confian^a das Camaras, de sorte que em 
principios de 1840 viu-se atacado por uma forte opposi9Sto, & 



188 HISTOBIA DO BRAZIL. 

frente da qual achava-se o eminente orador Antonio Caries de 
Andrada, que apresentou o projecto da declara9ao da maiori- 
dade do Imperador mesmo antes da epoca legal. 

Tomando-se os debates a este respeito muito caloroBos, para 
veneer a crise deeretou o governo o adiamento das Camaras. 
Os membros do partido liberal, deputados e senadores, nao 
aceitando tal determina9ao, eDviaram ao jovem Imperador uma 
Commissao pedindo a S. Magestade que assumisse a direc^ao 
do governo, como o unico meio de salva^Slo para o paiz. 

Tendo o Imperador respondido favoravelmente & CommissSo^ 
foi no dia 28 de julho de 1840 declarada a Maioridade de S. M. I. 
o Snr. D. Pedro II, Imperador Constitacional e Defensor Per- 
petuo do Brazil. 



QU ESTIONARIO. - CAPITU LO XXVII. 

— Qual foi o resultado dos acontecimentos que se deram do Brazil 
depois da partida de D. Joao VI ? 

— No principio como govemou D. Pedro I ? 

— Porque perdeu o Imperador a popularidade ? 

— Porque foi altamente impolitica a demissao de Jos^ Bonifacio ? 

— Porque dissolveu D. Pedro I a Constituinte? e quem deu a 
Constitui9ao ao Imperio? 

— Em que influiu a reyolu9So de Pemambuco para o desprestigio 
imperial? o tratado com D. JoSo VI em 1825? e o do Rio de Janeiio 
com a Argentina em 1828 ? 

— Que tristes noticias recebeu da Europa o Imperador em 1826 ? 

— A quem pertencia de direito a coroa de Portugal? 

— Em quem abdicdra D. Pedro I a corda portugueza? 

— O que levou D. Pedro I a abdicar a corda imperial do Brazil ? 
quando? Em quem abdicou elle? Que idade tinha o novo Impe- 
rador? 

— Quanto tempo durou o governo da Regencia? 

— De quantos membros se compunha a primeira Regencia? 

— Quem foram os triumviros na Regencia Permanente? quanto 
tempo durou este triumvirate ? 



lOSTOBIA DO BRAZIL. 189 

— Qnando oome9a o goyemo de um s<5 Regente? Quern foi? e 
quando deixou o poder? 

— Quern foi o segundo Regente? e por quanto tempo? 

— Que effeito produziu no partido democratico a abdica9§k> do 
Imperador? 

— O que fizeram entSio os deputados e senadores ? 

— Quern foi nomeado Tutor do Imperador ? 

— Quern era Francisco de Lima e Silva? 

— Como se podem classificar as erup^oes do descontentamento 
nacional durante os goyemos regenciaes? 

— Em que provincias houve revoltas declaradas ? e as outras con 
servaram-se tranquillas ? 

— Com a retirada de D. Pedro I que acontecimentos se deram na 
Cdrte? 

— Por quern foram suffocadas essas revoltas V e a que institui9§k> 
deram ellas origem ? 

— Que aconteceu em Pernambuco ? porque foi a revolta chamada 
dos Septembristas f e que outras calamidades se seguiram ? 

— Qual o resultado dos motins populares em Bahia e Pard ? 

— Como procedeu o Coronel Joaquim Pinto Madeira do Ceard? e 
qual o resultado de sua rebelliik) ? 

— Que noticias chegaram de Portugal em 1834? que effeito produ- 
ziram no animo dos Brazileiros ? que medidas rigorosas tomou o go- 
verno contra o chefe da allegada conspiraijEo em favor de D. Pedro I ? 
quem era elle ? que resolu9§k) tomaram as Camaras relativaraente ao 
ex-imperador? e chegou essa lei a ser approvada? porque? 

— Que reformas foram feitas na Constitui9So em 1834? e que 
nome tem essa lei ? 

— Quem foi eleito Regente em 1835 ? Que fez elle relativamente 
ao Pari? e ao Rio Grande do Sul? 

— Como se denomina esta revoluijalo do Rio Grande do Sul? quem 
foi o chefe e quanto tempo durou ? 

— Tinha a administra9ao do Regente o apoio das Camaras ? porque 
se tomou elle unpopular? e qual era seu caracter? 

— Quem era o chefe da oppo8i9ao parlamentar? que novo partido 
foi entSo organisado ? porque ganhou f or9as ? 

— Que decisSo viu-se o Regente obrigado a tomar? 

— Quem Ihe succedeu no poder? quanto tempo governou? 

— O que fez na Bahia o doutor Sabino ? e com que resultado ? 



190 HISTORIA DO BRAZ;iL. 

— Que acontecimentos se deram em 1838 no MaranhSLo ? quern f oi 
o chefe ? e porque perdeu o prestigio ? 

— Quern pacificou o Maranhao ? em quanto tempo ? 

— Que revezes soffriam as fon^as do governo no Rio Grande do 
Sul? quando? 

— Quem foi David Canavarro? e o que fez em Santa Catharina? 

— Quem foi ent^o nomeado Presidente e Commandante das Armas 
de Santa Catharina? e que successos obteve contra os invasores? 

— Que general foi em 1842 mandado para o Rio Grande do Sul ? 
com que poderes? e que cargo exercia na provincia? 

— Que grande vantagem obteve logo no principio o Barao de Caxias? 
e CO mo conseguiu estabelecer a tranquillidade na provincia ? 

— Quanto tempo durou a guerra dos Farrapos ? 

— Quando tomdra a direc9ao do governo o partido conservador ? o 
que conseguiu sobre os liberaes ? e a revolta do Rio Grande do Sul ? 

— Quem era na Camara dos Deputados o chefe da opposi9ao li- 
beral ? que projectos apresentou ? 

— Que medidas tomou o governo ? 

— Foi aceita pela Assemblda Geral a decis^o do Ministro do Tnipe- 
rio ? e que providencias foram tomadas pelas Camaras ? 

— Como respondeu o Imperador i. Commissao ? 

— Em que dia foi proclamada a Maioridade de S. M. o Imperador ? 




JOS£ BONIFACIO. 



HISTOBIA DO BBAZIL. 191 



CAPITULO XXVIII. 

CK)VBRNO DB D. PEDRO II, AT6 O ROMPIMENTO DA GUER- 
RA DO PARAGUAY. REVOLUCOES EM S. PAULO E 
MINAS (1842), ALAGOAS (1844), RIO GRANDE DO SUL 
(1836-1845), E PERNAMBUCO (1848). GUERRA CONTRA 
ROSAS (1850-1852). 

1840- 1864. 

Tinha D. Pedro II apenas 14 annos, quando o partido 
liberal, dirigido pelos irmaos Andradas, convidou-o a assumir 
as redeas do governo. moqo imperador formou 
seu primeiro ministerio com os dois Andradas *3 

(Antonio Carlos e Martim Francisco), Limpo de , g 
Abreu (visconde de Abaete), Aureliano Coutinho 
(visconde de Sepitiba), Hollanda Cavalcanti e seu irmao 
Francisco mais conhecido por Suassuna. Concedeu aninistia 
a todos OS crimes politicos, com o que pacificou o Maranhao, 
mas nao o Rio Grande do Sul, onde os Farrapos lutavao 
desde 1835 (20 de setembro) por apagar da bandeira 
nacional uma de suas mais brilhantes estrellas. Foi so 
dez annos depois que o barao de Caxias poz termo a esta 
revoluQao. 

A 23 de marQo de 1841 por causa de desintelligencias entre 
Aureliano Coutinho e sens coUegas, foi o ministerio dimittido, 
e o partido contrario (conservador) chamado ao 
poder. '« 

Celebr^rao-se a 18 de julho desse mesmo anno , g 
as festas da coroa^ao. 



192 HISTOBIA DO BRAZIL. 

O novo ministerio apresentou as camaras os projectos de 
restabelecimento do conselho de estado e da reforma do codigo 
criminal, os quaes forao immediatamente discutidos e votados, 
confirmados pelo senado e sanccionados pelo imperador. 

A opposiqao vencida nas camaras resolveu entao protestar 
contra a nova lei por todos os meios ao sen alcance. 

RevoluQao de S. Paulo (17 de maio a 22 de junho de 

1842). — A assemblea provincial de S. Paulo, por influencia do 

ex-regente Feijd, fez uma representaqao que nao foi 

attendida pelo governo, que sabendo tambem que a 

maioria da camara dos deputados, que se estava reconstitu- 

indo, pertencia a opposiqao, dissolveu-a. Levantou entao S. 

17 Paulo o grito de revolta, e os chefes do partido 

de maio liberal reunidos em Sorocaba, proclam^rao presi- 
dente da provincia ao brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar. 

ministro da guerra, Jose Clemente Pereira, desenvolvendo 
a maior actividade e energia, mandou logo o barao de Caxias 
com as forqas que a pressa poude reunir, para suffocar a 
revolta, tendo ordens terminantes de aggregar a sua toda 
a tropa disponivel nas provincias visinhas. 

Como nesse interim chegasse ao Rio a noticia de que a 
revoluqao se estend^ra ate Minas, resolveu o governo empregar 
OS meios mais energicos. Ordenou ao presidente da provincia 
do Rio, Honorio Hermeto Carneiro Leao (marquez de Paranji) 
que puzesse em estado de defeza todos os municipios visinhos 
das provincias revoltosas, decretando o estado de sitio, e 
deportou, por meras suspeitas, a quinze cidadaos dos mais 
influentes. 

Em S. Paulo houve pouca resistencia ; o combate mais serio 
foi o da Veiida Grande, onde ficarao os revoltosos desbarata- 
dos. barao de Caxias poude, dentro de um mez, sem dar 
um tiro, entrar em Sorocaba, donde participou a Jos^ Cle- 
menie, que S. Paulo estava pacilicada. 



HISTORIA DO BRAZIL. 193 

Bevolacao de Minas (10 de junho a 30 de agosto de 

1842). — Applacada a revolta de S. Paulo, ordenou o govemo 

ao barao de Caxias que iinmediatamente fosse por- 

se a testa das forqas que opera vao em Minas. Os '° 

mineiros revoltosos haviao-se reunido a 10 de ;, « 

de 1842 

junho em Barbacena, e escolhido a Jose Feliciano 

Pinto Coelho da Cunha para presidente interino da provincia. 

Uma for^ de mais de quatro mil rebeldes avanqava para 

Ouro-Preto, quando eneontrou as tropas legaes em Santa 

Luzia, onde travou-se renhida luta, sendo o barao de Caxias 

repellido pelo coronel Galvjio a frente de sens 

voluntarios; mas a traiqao de Joaquim Martins, *° 

um dos commandantes dos sediciosos, deu a , „ 

de 1842 

victoria d legalidade. (Jaxias marchou para 
Ouro-Preto, e em toda a provincia ficou restabelecida a ordem; 
A 4 de setembro de 1843 casou-se D. Pedro II, com a princeza 
D. Thereza Christina, irma de Fernando II deNapoles, 
e por occasiao das festas que entao se derao, foi decre- 
tada a amnistia pam os revoltosos d(^ S. Paulo e Minas. 

Revolui^o nas Alagroas (outubro a dczembro de 1S44). — 
A mudan^ da capital da cidado de Alagoas i)ara Maceio 
causou desgostos que se traduzirao em moviniento 
revolucionario contra o presidente, Dr. Bernardo do 
Souza Franco, que pediu auxilio a l^ahia e a Pernanibuco e 
bateu OS rebeldes em Atalaia e St.** Antonio Grande A 
nomea^ao de novo presidente, o Visconde de Maranguape, 
que deu amnistia geral, poz termo a esta triste revolta. 

BevoluQao do Rio Grande do Sul (1835-1845).— Havia 
nove annos que a heroica provincia do K-io Grande do 
Sul lutava por separar-se de suas irmans, sem conside- ^ ^^ 
rar que a Uniao e a condiqao indispensavel da for^a, da 
grandeza e da felicidade da patria. 



194 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Desde os tempos coloniaes que o Kio Grande do Sul tern 
sido pelo valor e patriotismo de seus filhos considerado o 
escudo do Brazil, o guarda vigilante de nossas fronteiras 
tantas vezes ameaqadas por visinhos ambiciosos. Assim nao 
era possivel que paixoes partidarias pudessem amorteeer no 
coraqao dos rio-grandenses os sentimentos de f ratemidade que 
OS ligao ^ patria ; e todos aguardavao uma occasiao favoravel 
para voltar ao gremio da communhao brazileira. 

Esta occasiao nao tardou em apresentar-se. governo no 
intuito de acabar de uma vez com aquella revoluqao, nomeou 
para commandante em chefe do exercito da legalidade no sul, 
dando-lhe poderes discrecionarios, ao barao de Caxias, jd cer- 
cado do prestigio da pacificaqao de tres provincias. 

novo commandante entendeu-se com o chefe dos republi* 

canos de Piratinim, David Canabarro, que depoz as armas e 

deu por finda aquella triste revoluQao, que desde 

' 1? 1835 assolava o Rio Grande do Sul. 

a8 d6 
fevereiro ^^ ^^^^ visitou o imperador alguns munici- 

pios da provincia do Rio de Janeiro e teve a dor 

'^47 de perder o principe imperial D. Affonso. 

"^® Os monarchas brazileiros tiverao mais tres 

junho 

filhos: D. Isabel nascida a 29 de julho de 1846, 

D. Pedro fallecido a 19 de julho de 1848 e D. Leopoldina 

fallecida a 7 de fevereiro cle 1871. 

RevoluQao de Pernambueo (1848). — O partido liberal, 
que governava desde 1844, teve a 29 de setembro de 1848 de 
ceder ao conservador, que apenas de posse do poder, tratou 
logo de tomar medidas de repress ao contra a opposigao 
liberal. Dahi provierao grandes desgostos aos pernambucanos, 
que acharao pretexto para a revolta em algumas demissoes 
dadas pelo presidente da provincia, Herculano Ferreira Penna. 
Os rebeldes reunirao-se em Pau-d'Alho e dahi marcher ao sobre 
a villa de Iguarassii que tomarao sem resistencia. 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 195 

m 

O govemo central, logo que recebeu a noticia desta insur- 
reiQao, nomeon para presideute da provincia ao Dr. Manoel 
Yieira Tosta (barao de Muritiba), e para commandante 
das armas ao general Jos^ Joaquim Coelho (barao da 
Victoria). 

As forgas revoltosas atac^rao o Recife no dia 2 de fevereiro 
de 1849; mas encontr^rao a cidade bem defendida pelas 
tropas legaes ja organisadas, que resistirao, durante 
muitas horas e bat^rao completamente os assaltantes, 
que fugirao em debandada para as mattas, onde forao perse- 
guidos pelas autoridades e tratados com o maior rigor. 

A severidade do governo para com os vencidos de Pernam- 
buoo levantou na camara dos deputados uma forte opposiqao 
da maioria liberal, pelo que foi a camara immediatamente 
dissolvida. As elei^oes, como de costume, derao maioria ao 
governo. 

Por influencia da Inglaterra este governo sanccionou 
a 4 de setembro de 1850 a lei relativa ao tralico de 
africanos. A guarda nacional e o codigo commercial forao 
reorganisados. 

Alem disto teve que attender a questoes de politica externa 
e de inter vir activamente nos negocios das republicas do sul, 
onde o dictador Rosas queria estender seu dominio sobre 
Paraguay e Uruguay. 

Guerra contra Rosas (1850-1852). — O general D. Joao 
Manoel Rosas, eleito chefe da Confederaqao Argentina (1836), 
imaginou reconstruir sob seu dominio o antigo vice-reinado de 
Buenos Ayres. Tratou por tanto de reunir a Buenos- Ayres 
o Paraguay, cuja independencia nao reconheceu, e declarou 
guerra ao Uruguay, que expulsara o general Oribe, chefe do 
partido bianco, 

Soffreu a cidade de Montevideo um assedio de nove annos, 
o qual perturbando o commercio estrangeiro causoii a. \sAftx- 



196 HISTORIA DO BKAZIL. 

venqao da Inglaterra e da Franqa, cujas esquadras bloque^-ao 
(1845) o porto de Buenos Ayres ; mas depois de alguns ataques 
e aprisionamentos de navios mercantes retirarao-se a ingleza 
em 1848 e a f rangeza em 1849. 

Rosas ainda mais orgulhoso depois da retirada das duas 
frotas, deu largas ao seu furor de vinganQa, e organisou a 
mashorca, policia de selvagens, praticando actos de crueldade 
que encheriao de horror aos maiores tyrannos da antiquidade 
ou dos tempos medievaes. 

Foi entao que o governo do Brazil, afim de proteger as 
provincias do sul, expostas as devastaqoes daquelle Nero 
americanc^ mandou o marquez de Abrantes a Paris e a Londres 
para que ahi explicasse suas intenqoes a respeito da republica 
do Uruguay, de cuja independencia erao fiadoras aquellas 
naQoes. E ao Paraguay enviou dinheiro, armas e officiaes 
militares que preparassem ahi a defeza. Tambem celebrou 
tratados de alliauQa com o general Urquiza, governador de 
Entre-Rios e com os partidarios da resistencia em Monte- 
video. 

Em marQo de 1850 o dictador Rosas decretou a encorpo- 
ra^ao do Paraguay a Confederaqao Argentina. Entao o Brazil, 
alim de proteger seus« alliados, mandou um exercito de 
doze mil homens commandados pelo conde de Caxias 
(depois duque), invadir o Uruguay occupado por um preposto 
de Rosas, o general Oribe, que tendo ao mesmo tempo noticia 
do bloqueio dos portos argentinos pela esquadra brazileira, as 
ordens do almirante inglez Greenfel, tratou logo de entabolar 
negociaQoes com Urquiza e retirar-se. 

Desembaraqado de Oribe, ordenou o conde de Caxias ao 
general Marques de Souza (conde de Porto-Alegre) que com 
sua divisao fosse reunir-se ^s forgas de Urquiza que marchavao 
sobre Buenos Ayres. 

Rosas conhecendo o perigo que o ameaqava, desenvolveu 
toda a sua energia na formaqao de um exercito capaz de fazer 



HISTORJA DO BRAZIL. 197 

frente ^ forqas alliadas e marchou contra ellas. Os dois 

exercitos encontr^rao-se no dia 2 de fevereiro de 

1852 em Monte-Caseros. Travou-se ahi renhida '^sa- 

luta, ficando por fim os alliados senhores do campo. „ , 1 

• ^ Monte-Case- 

Xao se pode negar i, valorosa e bem disciplinada ^^ 

ilivisao braziliera, a grande parte da gloria que 

Ihe coube per esta victoria sobre o sangrento tyranno, que por 

quinze annos enchera de terror e devastaqao as terras platinas. 

Vendo perdida a batallia, o feroz dictador procurou 
salvar-se fugindo e a 10 de fevereiro embarcou-se para 
a Inglaterra, onde foi residir. 

ministerio conservador apezar do apoio da maioria das 
camaras e das victorias internas e externas teve de retirar-se, 
sendo substituido por outro presidido pelo marquez 
de Parana (6 de setembro de 1853), que formou uni ^^ ^™" 
programma de concilia^ (to, que conseguiu por em 
pratica, cuidando em serenar os animos e fazer esquecer 
antigas odiosidades, aiim de que unidos os partidos politicos, 
— liberal e conservador — concorressem para o progresso 
e engrandecimento da patria. 

Este habil estadista collieu os fructos de sua illustrada 
politica. Dentro de poucos annos forao grandes terrenos 
explorados, abrirao-se muitas estradas, assentarao-se os pri- 
meiros trilhos de vias ferreas, e augmentou consideravelmente 
a navegagao a vapor. 

Funddrao-se bancos e emprezas industriaes que levavao por 
todo o paiz a prosperidade e a riqueza. 

Durante o ministerio do marquez de Parana (1853-1856) 
teve por duas vezes o governo de intervir nas questoes das 
republicas platinas, e sempre da maneira a mais honrosa. A 
primeira quando mandou forqas brazileiras guarnecer a cidade 
de Montevideo a pedido do governador de Uruguay ; e a 
segunda quando exigiu satisfacao do insulto feito ao encarre- 
gado de negocios, Felippe J. P. Leal, pelo dictador do Paraguay, 



198 HISTORIA DO BRAZIL. 

Carlos Antonio Lopes. A esquadra brazileira foi postar-se 
no rio Parang e o dictador viu-se obrigado a dar a 
satisfaqao exigida e a celebrar o tratado de 1856, que 
regulava o commercio entre o Brazil e o Paraguay. 

A 3 de setembro de 1856 morreu o marquez de Parana e foi 

incumbido o marquez de Caxias de formar outro minis- 

terio, que nao achando apoio na nova camara, eleita 

pela lei dos circulos (setembro de 1855), pediu sua exoneraqao 

em maio de 1857. 

Foi o marquez de Olinda o organisador do novo ministerio, 

onde, apezar da fusao, predominavao os liberaes, sendo 

ministro da fazenda Bernardo de Souza Franco; mas em 

fins de 1858, retirando-se por doentes alguns ministros, ficou 

o ministerio dissolvido. 

Encarregado o viseonde de Abaete da nova organisaqao, deu 
aos eonservadores a maior parte das pastas e escolheu para a 
da fazenda a Francisco de Salles Torres Homen* (depois 
viseonde de Inhomirim), que como deputado combat§ra forte- 
mente as medidas energicas de Bernardo de Souza Franco. 

Apenas poude este gabinete obter uma maioria insignificante, 
na votaqao da reforma da lei bancaria (agosto de 1859), que 
liavia provocado OS mais virulentos debates; pelo que propoz 
a dissoluqao da camara. Com a recusa do imperador retir^ao- 
se OS ministros. 

No dia 10 de agosto de 1859 foi o senador Angelo Moniz 
da Silva Ferraz chamado a formar o novo gabinete conservar 
dor, que foi beni recebido pela assemblea geral. 

Em fins desse anno visitou o imperador o norte do 

Brazil (Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco). 

Em 1861 havendo o senador Ferraz perdido a maioria na 

camara dos deputados, passou a presidencia do conselho ao 

marquez de Caxias (3 de margo de 1861), que nenhuma 



* Autor do *' Timandro. " 



HISTORIA DO BRAZIL. 199 

medida importante apresentou, e a 21 de maio pediu sua 

exonera^ao por causa de uma emenda ao projecto da resposta 

da falla do throno feita pelo deputado Zacharias de Goes e 

Vasconcellos. 

A 24 de maio organisou-se o ministerio liberal presidido 

pelo deputado Zacharias, que tambem nao obtendo 

■,..■, ■,. i86x 

maioria na camara, pediu ao imperador que a dis- 
solvesse, o que Ihe foi negado, tendo por isso de resignar 
as pastas. 

Kao havendo pois na camara temporaria nenhum partido 
em maioria, formou o imperador um ministerio mixto, mas de 
homens que pareciao afastados das odiosas lutas politicas. 
O marquez de Olinda foi eseolhido para presidente de conselho 
e o marquez de Abrantes para a pasta dos estrangeiros. 

Este ministerio, decidido a usar de toda a prudencia para 
conservar-se, soffreu uma grande prova^ao com a 
questao Christie, que tanto sobresaltou os animos ^^ * 
em fins de dezembro de 1862 e principios de 
Janeiro de 1863. 

O embaixador inglez (Christie) no Eio de Janeiro receb§ra 
de Wereker, consul no Rio Grande do Sul, uma participaqao 
de assassinatos de marinheiros e roubo da carga de um 
barco mercante inglez (Prince of Wales) naufragado 
naquella costa ; ao passo que pelo inquerito feito pelas auto- 
ridades brazileiras e pelo proprio Wereker havia-se veriticado 
que o naufragio se dera i. noite e que os quatro marinheiros, 
que faltavao haviao perecido afogados. 

Deu este incidente origem a uma discussao entre o ministro 
de estrangeiros e o diplomata inglez, que sustentava a asser^ao 
de Wereker. Como o marquez de Abrantes nao Ihe desse a 
satisfacao exigida, queixou-se Christie a Lord Russell, que 
logo enviou-lhe instrucgoes para forqar o governo brazileiro a 
pagar a somma de seis mil libras esterlinas e indemnisar as 
familias dos marinheiros mortos. 



200 HISTORIA DO BRAZIL. 

Alem desta iniqua reclamaQao apresentou oiitra a yespeito 
da prisao de alguns oiSciaes da fragata ingleza Fort, vestidos 
i, paisana, sem distinct! vo algum, que passeiando na Tijuca, 
travarao-se de razoes coin a sentinella daquelle corpo de 
guarda; mas que forao no dia seguinte postos em liberdade 
logo que OS reclamou o seu commandante. 

Isto fez com que as notas do ministro inglez ao marquez de 

Abrantes fossem-se tornando mais asperas, ate que em fins de 

dezembro espalhou-se a noticia de que a Inglaterra 

enviara um ultimatuTn ao governo do Brazil, e que o 

almirante Warren tivera ordem de tomar represalias sobre 

propriedade brazileira. 

A populaqao fluminense encheu-se de susto e anciedade e a 
indignaqao chegou ao seu maior auge quando o telegraplio 
annunciou que alguns vapores inglezes, sahidos fora da barra, 
haviao apresado navios brazileiros. 

imperador e os ministros procurfCram por todos os meios 
socegar a irritaqao do povo, aiini de que nao fosse commettido 
algum excesso contra a colonia ingleza na capital. 
Reuniu-se o conselho de Estado pleno e resolveu-se 
pagar soh protesto a somma exigida, e pedir arbitrament© sobre 
a questao da Fort: Christie aceitou ambas as propostas e 
cessarao as represalias. 

arbitro escolhido foi o rei da Belgica, que decidiu favo- 
ravehnente para o Brazil. 

governo brazileiro queixou-se a Inglaterra do procedi- 
mento do ministro Christie, e nao tendo obtido satisfa^ao, 
interrompeu com aquella naqao suas relaqoes diplomaticas, 
que foram pouco depois reatadas por intervenqao do rei de 
Portugal. 

ministerio Olinda foi em 15 de Janeiro de 1864 substituido 

por outro presidido pelo conselheiro Zacharias de 

Goes e Vasconcellos, que a 15 de agosto cedeu as 

pastas ao gabinetc^ Furtado (Francisco Jos^ Furtado), que em 



HI8TORIA DO BRAZIL. 201 

maio de 1865 retirou-se depots de ter preparado o paiz para a 
campanba travada em Montevideo e que devia estender-se ao 
Paraguay, no que foi auxiliado por todos os partidos. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXVIII. 

- Que idade tinha D. Pedro, quando comedo u a governar ? 

- Que cidadaos escolheu elle para formar o primeiro niinisterio ? 

- Que proyincias estavao revoltosas em julho de 1840 V 

- Qual o resultado da amnistia ? 

- Em que anno havia-se revoltado o Rio Grande do Sul ? 

- Quando depoz as armas ? 

- Quem a pacificou ? 

■ Quem era o chefe dos revoltosos ? 

- Porque cahiu o primeiro ministro liberal ? 

- Que partido tomou conta do governo Y 

- Que aconteceu a 18 de julho de 1841 ? 

- Que fez o ministerio depois disto ? 

- Qual o resultado da nova lei V 

■ Quando rompeu a revolugao' de S. Paulo ? Como ? 

- Que fez mais o governo ? 

Onde foi declarada a revolugao em S. Paulo ? 

Quem era o chefe ? 

Que fez entSo Jos6 Clemente ? 

Nenhuma outra provincia revoltou-se ? 

Que medidas tomou o governo ? 

Que resistencia apresentou S. Paulo ? 

Quanto tempo durou a revolugao ? Como acabou ? 

Quem foi mandado contra os rebeldes de Minas ? 

Onde havia Minas dado o grito de revolta ? 

Quem era o chefe dos rebeldes ? 

Que aconteceu em Santa Luzia ? 

Que fez o barao de Caxias ? 

Com quem casou-se D. Pedro IT ? Quando ? 

Como celebrou D. Pedro II as festas do seu casamento? 



202 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Que provincia revoltou-se em 1844 ? Porque ? 

— Como foi pacificada ? 

— Quanto tempo durou a revolu^ao do Rio Grande do Sul ? 

— Qual a importancia especial desta provincia ? 

— Com que poderes foi confiada ao barao de Caxias a pacificagao 
da provincia ? Quando partiu elle ? 

— Como se portou Caxias no Rio Grande do Sul ? 

— Quando deixou de existir a republica de Piratinim ? 

— Que viagem fez o imperador em 1847 ? 

— Que grande desgraga Ihe succedeu nesse anno ? 

— Quantos filhos teve D. Pedro II? Quantos moirSrao? 

— Porque revoltou-se Pernambuco em 1848? 

— Quern era o presidente de Pernambuco ? 

— Onde reuniram-se os rebeldes ? Que villa tomdrao ? 

— Que autoridades nomeou o governo para Pernambuco ? 

— Quando atacdrao os revoltosos o Recife ? Qual o resultado do 
ataque ? Como forao tratados os vencidos ? 

— Qual foi o resultado da opposigao da camara is violencias do 
governo ? 

— Que leis se promulgd,rao em 1850 ? 

— Com que outras difiiculdades lutou o governo ? 

— Quanto tempo durou a guerra*contra Rosas? 

— Quem era Rosas? Quaes os sens projectos? Que medidas 
tomou para realisal-os? 

— Quanto tempo esteve sitiada Montevideo ? 

— Que nagoes bloquedrao Buenos Ayres ? Por quanto temjx) ? 

— Que era a mashorca f Quem a organisou ? 

— Que medidas tomou o Brazil para proteger as provincias do sul 
e as republicas alliadas? 

— Que decreto publicou Rosas em 1 850 ? 

— Que commissao foi dada ao conde de Caxias ? 

— Quem era Oribe ? Greenfel ? Marques de Souza ? 

— Que fez Rosas para defender Buenos Ayres ? 

— Que batalha decisiva se deu a 2 de fevereiro de 1852 ? Onde ? 
Quem foi o vencedor? 

— Como salvou-se Rosas ? 

— Que partido subiu ao poder a 6 de setembro de 1853? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 203 

— Qual o programma do marquez de Parang? 

— Que vantagens delle colheu ? 

— Quanto tempo durou este niinisterio ? 

— Quantas vezes teve de iiitervir nas questoes do sul ? 

— De que modo ? Que conseguiu de Carlos A. Lopes ? 

— Que tratados celebrou com o Paraguay ? Quaiido ? 

— Porque nao formou niinisterio o marquez de Caxias depois da 
morte do marquez de Parani ? 

— Quern f oi o novo organ isador do gabinete ? Por quanto tempo ? 
Porque dissolveu-se o niinisterio? 

— Que fez entao o visconde de Abaet6 ? Porque nao continuirao 
OS novos ministros? 

— Quern foi chaniado a f ormar novo gabinete ? Quando ? 

— Que viagens fez o imperador em 1859 ? 

— Quern era o presidente do conselho a 3 de margo de 1861? 
Porque retirou-se? 

— Porque nao se conservou o ministerio Zacharias de 24 de maio ? 

— Porque formou o imperador um ministerio mixto ? 

— Que soffreu este ministerio ? 

— Que mandou dizer o consul inglez do Rio Grande do Sul ao seu 
ministro no Rio de Janeiro ? 

— Como havia naufragado o Prince of Wales ? Que f6ra feito dos 
marinheiros desapparecidos ? 

— Qual foi o procedimento do ministro inglez ? Que instrucgoes 
recebeu do seu governo ? 

— Que outra reclamagao apresentou Christie ? Qual foi o resultado 
dessa discussao ? 

— Como foi pelo povo recebido o ultimatum? Qual o procedimento 
do imperador e dos ministros ? 

— Que resolveu-se ? Quem foi o arbitro ? Como decidiu ? 

— Como portou-se o governo brazileiro em relagao ao ministrc 
inglez ? 

— Como se reatd,rao as relagoes diplomaticas com a Inglaterra ? 

— Quem era o presidente do Conselho, quando rompeu a guerra 
com Montevideo? 



ilM asnjftiA ito> 



CAPrrrLO xxtx 



GUWMMLAS 3FO ^TT^ GTXKBLA 0>5TKA AGTIKSE CDS 1854 A 
I^«Bv GUZaEA 0>5TRA O FAELAGTAY: L* EPOCA DB 
j5tS4 A I^lSKw :L> EF«>CA D£ Isl» A IdfiSi X* £POCA D£ 
I2«& A i*:^. 



!sde ce UrBLiwts cclociiafs que a qfnestio de fimites entre o 
Brazil e as negioes paasmas t^Aigentzna. P^uaguay e Umgnaj) 

Km IS^ nlic* se liavi^> ainda deteiminado cs limites entre 
Rio Gran*ie do StiI e Um^Tny. que por cineo annos (1823- 
1828 1 forinara parte do imperio com o ncMiie de provineia 



*Trata*i'ji> de limiics ^rr.rr sls p»?e)»cs5»jes^ poitoguenks e lie^ianliolas iia 
America do SuL e o BnzzI e as repnblieas pbamas: 1494 — TrmUdo de 
Toid e s ilh as entre D. Joao Porrogal e os reis catholicos, celebrado pelo 
papa Alexandre VL 

1681 — Tratado de Lisboa entre D. Pedro n de Pratngal e D. Carioe 
II de Hespanha. 

1713 — Tratado de Utrecht entre D. Jt^o V de Poftngal e Felippe V 
de llespanha. 

ITvO — Tratado de Madrid entre D. Joao V de Pratngal e Fernando 
VI de Hespanha. 

n^l — Tratado entre D. Jose I de Portugal e Carlos m de Hespanha. 

1777 — Tratado de Sto. Ddefonfio entre D. Maria I de Portugal e 
Carlr^ III de Hespanha. 

1 885 — Tratado de 28 de setembro entre o imperio do Bradl e a 
Republica Argentina. 

1889 — Tratado de 6 de novembro entre o imperio do Brazil e a 
Hepuhhca ArgentlnsL 



HISTORIA DO BRAZIL. 205 

Cisplatina. Desde entao que nas fronteiras se estabelec^rao 
estaucieiros brazileiros cujo numero elevava-se em 1864 a 
mais (le 30,000, e que foram se estendendo tanto pelas terras 
do Rio Grande do Sul como do Uruguay. Estes estaucieiros 
recusavao sujeitar-se as leis do Brazil sob pretexto de serem 
republicanos ; mas tambem nao queriao prestar obediencia as 
autoridades do Uruguay por se dizerem brazileiros. O 
resultado desta situaqao duvidosa foi tornarem-se odiosos aos 
orientaes. 

Por occasiao da guerra civil que em 1S63 arrebentou entre 
o general D. Venaucio Flores, cbefe dos colorados e o presi- 
dente Aguirre, chefe dos blaiicos, forao estes estaucieiros 
tratados com o maior rigor ])or Aguirre, que assolava-lhes as 
fazendas e mandava fusilal-os onde quer que os eucontras- 
sem. 

Nao podendo resistir a tantos vexauies e uiaos tratos, os 
fazendeiros lev^rao queixas amargas ao governo do l^razil, 
que pediu informa^oes aos seus representantes em Montevideo. 
Os jomaes orientaes entao clamarao que o Brazil (j^ueria recon- 
quistar a Cisplatina. 

Os rio-grandenses armarao-se para defender seus compa- 
triotas. 

Do Rio de Janeiro partirao para Montevideo o conselheiro 
Saraiva e o almirante Tamandare com alguns vasos de guerra. 
No Rio Grande do Sul concentrou-se uiiia forqa de 4000 
homens commandada pelo general Menna Barreto. 



1890 — Tratado de Montevideo entre a Hepublica dos Estados Unidos 
do Brazil e a Republica Argentina, assi«:jnado a 25 de Janeiro de 1890 e 
rejeitado quasi unanimemente pelo congresso brazileiro a 10 de agosto 
de 1891. 

1896 — Laudo do Sr. Grover Cleveland, presidente dos Estados Unidos 
da America do Norte, arbitro escolhido para deniarcar os liniites desde 
o rio Uruguay at^ o Iguassii. Este laudo poz fim d serie de disputas que 
se haviam travado sobre os limites do Brazil com a& t^^vo^^ ^VaXxaavse.. 



206 HISTOBIA DO BBAZIL. 

No dia 4 de agosto (1864) foi apresentado ao Uruguay o 
tUtimatum do Brazil, que nao foi aceito. O exercito brazileiro 
transpoz entao a frouteira e invadiu o norte do Uruguay. 

Aguirre pediu soccorro ao presidente do Paraguay, Fran- 
cisco Solano Lopez, que declarou-se em seu favor. O ministro 
brazileiro em Assump^ao deu parte deste acontecimento ao 
seu governo, que nao ligou-lhe grande importancia. 

Entretanto ordenava o almirante Tamandare a alguns 
vapores que subissem o Uruguay, e aprisionava um vaso 
oriental, que levava tropas, junto a Paysandu. 

Ao receber esta noticia o presidente Aguirre publicou um 
violentissimo manifesto contra o imperio, e remetteu os passa- 
portes ao nosso ministro, Joao Alves Loureiro. EUe julgava- 
se muito forte, confiado na allianqa da Argentina e do 
Paraguay, e mandou queimar publicamente todos os tratados 
com o Brazil. 

Nestas circumstancias entendeu-se o conselheiro Saraiva 
com o almirante Tamandare e o marechal Menna Barreto para 
que se reunissem com Flores, chefe dos colorados revoltados 
contra Aguirre. 

Achava-se agora complicadissima a questao do Uruguay 
pela noticia da invasao de Matto-Grosso pelos Paraguayos, e o 
governo do Brazil mandou o conselheiro Paranhos (visconde 
do Rio Branco) substituir o conselheiro Saraiva que terminara 
sua missao. 

Menna Barreto, Flores e Tamandare atac^rao q forte de 
Paysandu, cujo commandante, o coronel Leandro Gomes, 
rendeu-se com 700 homens depois de tres dias de porfiada 
resistencia. Os generaes vencedores resolv^rao sitiar Monte- 
video, cujo bloqueio foi intimado a 2 de fevereiro. A cidade 
resistiu alguns dias, durante os quaes derao os hlancos larga 
ija manifestaQoes de seu odio aos brazileiros, a ponto de 
arrastarem na lama bandeiras brazileiras ; mas reconhecendo 
Aguirre que era impossivel defender-se por mais tempo^ 



HISTORIA DO BRAZIL. 207 

passou o govemo ao presidente do senado, D. Thomaz Villalba, 
que capitulou a 29 de fevereiro (1865), gramas aos esforqos do 
conselheiro Paranhos plenipotenciario brazileiro. 

Vingado o Brazil retirou suas tropas sem exigir indem- 
nisaqao de guerra, nem cessao de territorio. general Flores 
assumiu a presidencia, legalisada depots pelo voto popular, e 
deu ao Brazil toda a satisfaqao exigida. 

Guerra contra o Paragruay. — 1.» Epoca de 1864 
a 1866. A 14 de dezembro de 1864, estaiido o Brazil 
em guerra com o Estado Oriental, o presidente do Paraguay, 
Francisco Solano Lopes, sob o pretexto de cpie era alliado e 
defensor do Uruguay, declarou tambem guerra ao Brazil, 
aprisionando inesperadamente o vapor Marquez de Olinda, a 
bordo do qual ia o presidente de Matto-Grosso, o coronel Dr. 
Carneiro de Campos. 

Lopes, filho do primeiro presidente do Paraguay, lierdara o 
poder e governava dictatorialmente uni povo ignorante e 
fanatico, e para encetar conquistas j)reparara de antemao um 
I)oderoso exercito de 80,000 homens, 400 peqas e mais de 19 
navios com 120 canhoes. 



NOTABILIDADES DO URUGUAY. 

D. Francisco Xavier Elio, Gover- Joao Gird, 4.o presidente. 

nador (1810). I). Venancio Flores, general e pre- 
Joao Lavalleja, fundador da repub- sidente. 

Ilea. Frudencio Berro, presidente. 

Fructuoso Rivera, coronel,- l.o pre- Aguirre, presidente. 

sidente. Villalba, presidents. 

Oribe, 2.° presidente. Leandro Gomes, coronel. 
Soares, 3.o prteidente. 

Epocas notaveis. — 1821 encorporaciio ao Brazil. 

1828 separa^ao e fundac^ao d^ Y^^xiViVSa'sv., 



208 HISTOBIA DO BBAZIL. 

Paraguay, f echado aos estrangeiros, nem de seus visinhos 
era conhecido. Nada se sabia de seu povo, de seus recursos, 
nem de seu territorio. 

A 27 de dezembro foi a provincia de Matto-Grosso invadida 
pelo general Barrios com mais de 4000 homens de infanteria 
e 6000 de cavallaria commandados pelo coronel Resquin. 
Elles atac^rao o forte Coimbra defendido por 150 
homens sob as ordens do tenente-coronel Hermenegildo de 
Albuquerque Porto Carrero (barao de Forte Coimbra), que 
depois de tres dias de heroica resistencia abandonou a pra^ 
por falta de muniQoes. Em Albuquerque o tenente Antonio. 
Joao Ribeiro s6 com 18 homens resistiu ate succumbir glorio- 
samente com quasi todos os seus bravos. As devasta^oes 
e as maiores atrocidades iiidicavao a passagem dos feros 
paraguayos, que forao-se apoderando de Dourado, Corumba, 
Miranda, Nioac, etc. 

Apenas estas noticias se espalharao, em todo o imperio 
levantou-se um brado de indigna^ao. De guardas nacionaes 
e voluntarios da patria improvisou-se um exercito que f ormado 
pela maior parte de agricultores, mostrou que tambem podia 
mane jar as armas para sustentar e defender a honra 
nacional. 

Foi o marechal Manoel Luiz Osorio nomeado commandante 
em chefe do exercito, e o chefe de divisao, Francisco Manoel 
Barroso, e o capitao de mar e guerra, Secundino Gomensoro 
com duas divisoes de nossa esquadra tiverao ordem de subir o 
rio Parang para atacar o Paraguay. 

Nessa occasiao foi tambem repentinamente a Republica 
Argentina invadida pelo general paraguayo Hobles a 
frente de um exercito que apoderou-se da cidade de Cor- 
rientes. 

Matto-Grosso tinha sido atacado, agora estava o Rio Grande 
do Sul ameaqado por 12,000 paraguayos as ordens do tenente- 
coronel Estigarribia. 



mSTOBIA DO BRAZIL. 209 

A invasao da Argentina determinou a triplice 
alHanqa do Brazil^ Argentina (Mitre) e Uruguay ^\^^ ^^^^ 
(Flores).* ^* '^^ 

Corrientes foi retomada pelo general argentine Paunero, 
auxiliado pelos officiaes brazileiros, o tenente-coronel Gui- 
inaraes e o primeiro tenente Antonio Tiburcio Ferreira de 
Souza. 

A 11 de junho deu-se a batalha naval de Riachuelo onde a 
esquadra brazileira destruiu a paraguaya, commandada pelo 
capitao Meza, depois de oito horas de encarniQadissimo corn- 
bate. Nota-se nesse dia memoravel o heroico episodio da 
fragata Amazonas sob o commando do chefe Barroso que 
metteu successivamente a pique tres navios inimigos. A 
Pamahyba atacada por tres vapores paraguayos perdeu entre 
muitos tres valentes : Pedro Affonso, Grenhalgh e Marcilio 
Dias. 

A esquadra inimiga igiial a nossa em numero de vapores 
(9) e apesar de protegida por uma bateria de 22 canhoes e 
uma guarniQao de 2000 homens de infanteria na barranca de 
Riachuelo, retirou-se com grandes perdas. 

Nas barrancas de Mercedes alcanqou Barroso nova victoria a 
18 de junho e a 18 de agosto foi ainda vencedor em Cuevas. 

Nesse interim Estigarribia invadia S, Borja no Rio Grande 
do Sul, e tentava reunir-se a Robles para apoiar o partido 
bianco no Estado Oriental. 

Com esta noticia partiu para o sul o imperador com sens 
genros, o principe conde d'Eu e o duque de Saxe, em quanto 
OS generaes brazileiros encerravao os paraguayos em Uru- 
guayana. Osorio, Mitre, Flores e o almirante Tamandar^ 
operavao de combinaqao contra os paraguayos. 



* Signatariofi do tratado : pelo Brazil o plenipotenciario Conselheiro 
Francisco Octaviano de Almeida Rosa; — pela Republica Argentina D. 
Bufiuo de Elizalde, — e pelo Estado Oriental D. C^tVoa ^<fc C^&\x^. 



210 HISTOBIA DO BBAZIL. 

A 17 de agosto ganhou Flores a batalha de Jatahy. Lopes 
chamou de Matto-Grosso a Barrios a quern deu o commando 
do exercito de Corrientes e mandou fusilar Robles por trai^ao. 

general barao de Porto-Alegre tomou o commando das 
forqas sitiantes de XJruguayana. 

Cheg^rao a 11 de setembro ao acampamento o imperador 
e OS principes, assim como o general Mitre a testa dos ar- 
gentinos. A 18 effectuou-se a rendicao de Urugiiayana com 
6000 prisioneiros. Em outubro retirarao-se de Corrientes os 
paraguayos. 

Em fevereiro de 1866 assentou-se no pl.ino de invasao no 
territorio paraguayo. A 10 de abril atacarao os para- 
guayos a posiqao brazileira na ilha da Redempqao ou 
de Carvalho, em frente ao forte de Itapiru ; mas forao depois 
de encarniqadissimo combate repellidos com grandes perdas. 

A passagem do Parand pelo general Osorio, em presen^a 
de um inimigo forte e preparado, foi um dos mais audaciosos 
feitos desta campanha. Este arrojo admiravel s6 acha paral- 
lelo na historia com a passagem do Granico por Alexandre 
^ vista do numeroso exercito de Dario e a do Berezina por 
Napoleao na campanha do Russia. Osorio elevou-se d altura 
dos grandes heroes da Grecia e da Franga nesse dia memo- 
ravel de 16 de Abril de 1866. No Passo da Patria estabeleceu- 
se nosso quartel general. 



HEROES BRAZILEIROS. 

COMMANDANTES EM ChEFE. GeNERAES. 

D. Pedro II, Imperador. Manoel Deodoro da Fonseca. 

Marquez de Herval (Osorio), gene- Benjamim Constant Botelho de 

ral. Magalhaes. 

Visconde de Tamandar^, vice-al- Floriano Peixoto. 

mirante. Barao de S. Gabriel. 

Conde de Porto-Alegre, general. Barao do Triumpho. 

Duque de Caxias, general. Victorino Cameiro Monteiro. 

Conde d^Eiu 3iarechal de exercito. Viscoude de St.» Thereza. 




BETE HEROES DA GUEBRA DO PARAGUAY. 



ALHTRAMTE 
DVQUB DE C. 



VISCONDE DE HERVAL. GENERS^ 
OBtTBStAL EM CBEFB COVD^ T>'¥A:. 
IS ■ BABAO l>0 TnmMPRO 



,¥--s^Rk\. 'eMr»-^<cra.'> 



HI8T0BIA DO BBAZIL. 



211 



No dia 2 de maio atac^rao inesperadamente os paraguayos 
o nosso acampameuto socorrido a tempo por Osorio que re- 
chaQou o inimigo depois de renhido combate. 

A 24 nova sorpreza da parte de Lopes, que depois de cinco 
horas de luta desesperada, bate em retirada com enormes 
perdas. Sampaio, Flores, Castro, Paunero, ArgoUo, Netto, e 
outros valentes chefes derao os mais bellos exemplos de heroi- 
cidade a seus briosos camaradas ; mas especialmente Osorio, 



HEROES BRAZILEIROS. 



Visconde de Pelotas. 

Argollo. 

Gurjao. 

Barao de Forte Coimbra. 

A. Tiburcio Ferreira de Souza. 

Officiaes do Exercito. 

Dr. Frederico Cameiro de Campos, 
coronel. 

Dr. Francisco P. Guimaraes, coro- 
nel. 

Dr. Manoel Pelzoto Cursino de 

Amarante, coronel. 
Carlos de Villagran Cabrita, tenen- 

te-coronel. 
Antonio da Silva Paranhos, major. 
Pantaleao, major.* 
Luiz Femandes de Sampaio, 

major. 
T. M. dos Guimaraes Pelzoto, 

major. 



Antonio Joao Ribeiro, tenente. 
Jacob Jos^ dos Santos, soldado.t 

Officies da. Asm ADA. 

Barao da Passagem, vice-almirante. 

Barao do Amazonas, vice-almirante. 

Visconde de Inhauma, vice-almi- 
rante. 

A. C. Mariz e Barros, comman- 
dante. 

Bonifacio J. de St." Anna, com- 

mandante. 
F. Henrique Martins, comman- 

dante. 
Francisco A. de Vassimon. 
F. J. de Lima Barros. 
A. J. Rodrigues Torres. 
Jos^ Carlos de Carvalho. 
Joao Guilherme Grenhalgh. 
Marcilio Dias. 



* Fallando do major Pantaleao, o brigadeiro Tiburcio dizia que "era 
o official mais bravo do nosso exercito. ^^ major Pantaleao morreu no 
ataque do reducto do Passo-Real em setembro de 1867. 

t "O soldado Jacob Jos^ dos Santos collocou com o maior denodo o 
estandarte brazileiro em uma das sot^as tomadas ao inimigo.^* Parte 
official da tomada de Paysandii, ao tratar do 3.o batalhao de infantaria. 



212 HISTORIA DO BRAZIL. 

o bravo dos bravos, cobriu-se de gloria nesta grande batalha, 

a maior de toda a campanha. De ambos os lados 

'i^ coinbaterao 70,000 homens. Os brazileiros cha- 

1866 ' 

mao-na — 24 de maio — e os paraguayos — Tuyuty. 

— Os geiieraes paraguayos forao Barrios, Diaz, Resquin e 

Burguez, sem fallar em Lopes que assistia ao combate. 

Desintelligencias entre Mitre, general em chefe do exercito 
alliado, que oppunha-se a perseguiqao do inimigo, e Osorio que 
apesar de gravemente ferido queria acabar de golpe com a 
guerra, sem dar tempo a Lopes de preparar-se para continuar 
a resistencia, fizerao com que se retirasse o general brazileiro 
entregando o commando do nosso exercito ao general Polyddro 
(visconde de Sta. Thereza) que continuou a campanha. 

Em julho travarao-se fortes combates, sobretudo nos dias 
16, 17 e 18, para tomar sem complete resultado, as fortifica- 
Qoes Paraguay as. 

A 3 de setembro f oi tomado o forte Curuzu, e Lopes fingindo 

ceder, mandou pedir aos alliados uma conferencia, 
Curuzti n 

com o nm de ganhar tempo para defender Cum- 

paity, que a 22 poude resistir ao ataque do exercito alliado, 

commandado por Mitre, que foi repellido com grandes perdas. 

Este revez foi causa de adiar-se por muito tempo a guerra. 

10 de 2.* Epoca — 1866-1869. — O governo brazileiro 

outubro impaciente com a prolonga^ao da guerra, mandou 

de como commandante em chefe para o Paraguay o 

^^^^ velho general, marquez de Caxias ; Osorio resta- 

belecido de sens ferimentos voltou ao 3.** corpo. Mitre retirou- 
se para Argentina. 

O cholera-morbus dizimava nosso exercito. 

Em Matto-Grosso a forga expedicionaria retomou Conimbi 
e invadiu o Paraguay. 

Em julho de 1867 o marquez de Caxias auxiliado per Porto- 
1867 ^^^&i*^> Osorio e Argollo comeqou a aproximar-se de 
Humait^, afim de provocar uma batalha decisiva. 



HI8TORIA DO BRAZIL. 213 

A 31 Mitre chegou e tomou o commando em cliefe do exer- 
cito alliado. 

O general Joao Manoel Menna Barreto (bartio do Triumpho) 
tomou a Villa do Pilar. 

Entre os numerosos combates que se davao entre os 
alliados e os paraguayos em torno de Humaita, destaca-se 
a sortida de Lopes a 3 de novembro de 1867, que princi- 
piou as 4^ horas da madrugada e terminou as 9, sendo os 
paraguayos rechaqados, com grandissimos prejuizos de parte 
a parte. 

Em Janeiro de 1868 retirou-se Mitre e o marquez de Caxias 
assumiu de novo o commando do exercito. 

A 19 de fevereiro operou-se a famosa passagem de Humaita * 
pela nossa valente esquadra, commandada pelo capitao de mar 
e guerra Delfim C. de Carvalho (bartio da Passagem) emquanto 
o exercito atacava e tomava o forte do Estabelecimento, a 
extrema esquerda do inimigo. A esquadra explorou o rio 
Paraguay ate Assumpqao. 

Por varias vezes tentjCrao os paraguayos abordar os nossos 
encoura^ados, mas sempre infelizmente. 

A 20 de marqo foi tomada Carupaity. 

Aos sitiados de Humaita so restava uma linha de communi- 
caqao — o Chaco — que foi atacado pelos alliados e defendido 
pelos paraguayos com encarniqamento, ficando em nosso poder, 
depois de tres dias de combate, o caminho pelo qual podiao 
communicar-se as nossas tropas do sul e as do norte da 
fortaleza. 



* O monitor Alagoas commandado pelo primeiro tenente Maurity, 
tendo perdido o cabo de reboque, foi levado aguas abaixo e teve ordem 
do almirante de regressar ; mas continuou impavido sua marcha debaixo 
da saraiva de balas da fortaleza e tendo de repellir a abordagem de 
canoas cheias de paraguayos que erao metralhados mesmo dentro do 
conv^s do monitor. E uma fa^anha tao brilhante, que por si s6 dd 
renome illustre d marinha brazileira. 



214 HISTOKIA DO BBAZIL. 

A 16 de maio deu-se o primeiro assaJto a Hmnait^, 
1866 . ^. ^ ' 

que resistiu. 

A 25 percebendo o marquez de Caxias que os paraguayos 
queriao retirar-se, ordenou a occupaQao da praqa ; mas foi sd 
depots de nove dias e nove noites de fogo incessante, e de 
soffrer todos os horrores de um assedio, at^ mesmo a fome, 
que rendeu-se a heroica guarniqao com as hoiiras da guerra. 
Mais de 1000 prisioneiros, immensa quantidade de material 
e muniqoes cahirao em iiosso poder. 

Em outubro effectuarao-se prodigios da parte de nossos 
engenheiros. Basta citar a estrada do Chaco construida em 
22 dias. Abrirao-se 1700 metros de picadas ; construirao-se 
8 pontes com mais de 5 metros de profundidade, e estivas em 
que se empregarao mais de 30,000 vigas de palmeira ; abriu-se 
a navegaqao do Rio Negro, limpando-o de vegetaqoes aquaticas 
que o obstruiao por mais de duas leguas. Uma linha tele- 
graphica dirigida pelo habilissimo engenheiro Alvaro Joaquim 
de Oliveira acompanhava a estrada. 

No dia 6 de dezembro marchou o exercito sobre Villeta 
atravessada pela ponte de Itorord, que foi tomado depois de 
um horrivel combate, oude fizerao prodigios de valor o 
coronel Fernando Machado, o major Moraes Rego, os 
generaes Argollo e Gurjao e sobretudo o marquez de Caxias 
que com a espada desembainhada carrega em pessoa a testa do 
1.° corpo do exercito. Os paraguayos defendendo-se como 
leoes, concentrarao-se em Villeta. 

No dia 11 deu-se o ataque de Villeta, onde distinguirao-se 
tenente-coronel do 9.°, Francisco de Lima e Silva (morto), 
Osorio (ferido no queixo), o marquez de Caxias d testa das 
reservas, Triumplio, Camara, e Joao Manoel. Villeta foi 
tomada e o exercito poude ter juncqao franca com a esquadra. 

A 21 de dezembro o marquez de Caxias i testa das columnas 
de Jose Luiz Menna Barreto, e das de Jacintho Andrade 
Bittencourt marcliou ao assalto de Lommas Valentinas 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 215 

(Camara fic^a em Angostura). barao do Triumpho, ferido 
na luta, retirou-se e muitos outros bravos morr^rao. O velho 
general em chefe passou a noite velando nas linhas de fogo. 

No dia 23 o marquez de Caxias intimou Lopes a render-se, 
o que elle recusou. 

No dia 27 novo ataque. Lopes fogiu com alguns officiaes. 

A 30 rendiqao de Angostura. 

A 5 de Janeiro de 1869 entrada de Caxias em 
Assumpijao. "^ 

A nossa cavallaria occupou Luque, segunda capital do 
Paraguay. 

Estavao destruidas todas as fortificaqoes de Lopes. Caxias, 
Osorio, Argollo e Inhauma volt^rao ao Brazil por doentes ou 
feridos. 

3.* Epoca, — 1869-1870. — A retirada dos chef es lev^ra o 
desanimo ^ fileiras brazileiras, ao passo que exaltava-se o 
orgulho de Lopes, que ia creando novos recursos. O dictador 
estabeleceu sua capital em Peripebuy, formou novo exercito 
armado de novos canhoes. 

Era inevitavel terceira campanba. 

O govemo do Brazil nomeou para commandante em chefe 
das for^as no Paraguay o marechal de exercito, conde d'Eu, 
principe joven, intelligente e active que devia por a esta 
guerra termino tao feliz. 

Em fevereiro de 1869 o conselheiro Jos^ Maria da Silva 
Paranhos (visconde do Kio Branco), em missao especial. 
formou em Assumpcao o governo provisorio. 

A 16 de abril tomou o commando o conde d'Eu. Com elle 
estavao o marquez do Herval (Osorio) e o general Polydoro. 
A 18 deu o principe ordem a uma frota de monitores que 

ENGENHEIROS CONSTRUCTORES DA ESTRADA DO CHACO. 

Marechal Argollo, Falcao da Frota, E. C. Jourdan, Sepulveda 
Everard, e Guilherme Carlos Lassance. 



216 HISTOBIA DO BRAZIL. 

percorresse o Manduvir^ e a 20 de maio comeqou a campanha 
das cordilheiras ocupadas pelo inimigo. 

brigadeiro Camara (visconde de Pelotas) atravessando 
estensos pantanaes e terrenes desconhecidos tomou Potreiro- 
Ponan e Tupy-Puitan. 

general Joao Manoel Menna Barreto mandado com 
destine a Villa-Kica, foi ataoado em Sapucaia, mas com os 
reforQOS trazidos pelo general Pedra, foi avanqando at^ Para- 
guay, acompanliado de mais de 3000 pessoas, que imploravao 
nossa protecqao. 

conde d'Eu mandou proceder a diversas explora^oes em 
pontos inteiraniente desconhecidos. Entre os exploradores 
nota-se o capitao Manoel Peixoto Corsino de Amarante no 
valle de Pirayii. 

No dia 12 de Agosto foi tomada de assalto a praqa de 
Peripebuy, nova capital de Lopes. Esta victoria custou-nos 
o bravo brigadeiro Joao Manoel Menna Barreto e o capitao 
Seixas. Na vespera (11) havia o brigadeiro Jose Auto da 
Silva Guimariies tomado a villa de Autos. 

Lopes fugiu de Peripebuy para Caraguatahy. 

Aggravando-se os ferimentos do marquez de Herval, 
retirou-se. 

A 15 ordenou o conde d'Eu ao general Camara que fosse 
atacar o inimigo pela frente, emquanto elle o perseguia pela 
retaguarda. 

A 16 de agosto deu-se a batalha de Nhii-Guassu ou Campo 
Grande, onde o habil general Caballero a frente de sens 
soldados que combatiao como leoes, teve de ceder a uma carga 
irresistivel da 4.* brigada de cavallaria do coronel Hippolyto. 
Depois de cinco horas e meia de peleja ficamos de posse de 
2300 prisioneiros, grande material e munigoes. 

A 18 travou-se nova batalha, a de Caraguatahy, que levou 
o desanimo ao coraqao dos paraguayos a ponto de fazel-08 
gueimar os seus navios. 



HI8TOBIA DO BRAZII«. 217 

A 19 proseguiu a expediqao, commandaiido a vanguarda o 
general Nery, que em tres dias voltou a Caraguatahy, tendo 
percorrido 27 leguas de terreno cortado de extensos banhados, 
immensos atoleiros e muitos rios difiiceis de passar, e trazendo 
800 prisioneiros, 5 canhoes e 1 bandeira. 

Em agosto tinha Lopes perdido mais de 9000 homens, 81 
boccas de fogo, e extraordinaria quantidade de muniQoes, 
provisoes e despojos ; estava expulso das cordilheiras, e 
fugitivo pelos sertoes. 

O principe afim de impedir que o dictador fugisse do 
territorio paraguayo, preparou-se para marchar sobre Cara- 
guaty (S. Isidro), desde fins de agosto a tereeira capital de 
Lopes. 

No dia 9 de setembro acampou o exercito brazileiro em 
Arecutagu^, onde descanqou, foi pago e recebeu novo farda- 
mento por se haver estragado o velho e tambem porque os 
soldados tinhao dado grande parte delle as niiseraveis familias 
paraguayas que encontravao pelo caminho implorando amparo 
e pao. 

No dia 8 de outubro march ou o conde d'Eu sobre Curu- 
guaty, donde Lopes avisado retirou-se immediatamente. Elle 
havia, antes de retirar-se de S. Estanislau, mandado lancear 
mais de 70 homens e mulheres sob pretexto de conjuraqao, e 



HEROES PARAGUAYOS. 

Francisco Solano Lopes, presi- Barrios, general, 

dente. Resquin, coronel. 

Leandro Gomes, tenente-coronel. Robles, general. 

Estigarribia, coronel. Bruguez, general. 

Diaz, general. Galeano, major. 
Caballero, general. 

^ Ml -r*.^^ f'l ) triumvirato formando o Governo Provisorio em 
CyriUo Rivarolla, > . - /ir j * j ^o^m 

■r - -r^. -r* J \ AssuuiDcao (15 de agosto de 1869). 
Joao Diaz Bedoya, ) ^i \ o / 



218 HISTOBIA DO BRAZIL. 

em Capivary ordenara outra hecatombe dos desgraqados cujas 
privaQoes e prostraQao impediao de acompanhal-o na fuga. 

No dia 13 de setembro havia einbarcado em Arecutagua os 
soldados do general Camara que deviao atacar o inimigo pela 
retaguarda. Em Naranjahy encontrarao um troQO de tropas 
Paraguay as, que repellirao ; mais adiante, porem, em Itapi- 
tangua, estava postada uma f orqa maior, f ortf mente def endida 
pelas barrancas quasi a prumo do arroio, cuja ponte fora 
destruida. Alii renovou-se o ataque e s6 com a cavallaria 
desalojou Camara o inimigo, a quern tomou 500 prisioneiros, 
libertando nessa occasiao 200 brazileiros captives. 

Ao sul o general Resin expulsava gloriosamente o inimigo 
do serro do Coagoazii e a 22 occupava S. Joaquim, onde aos 
horrores da guerra juntarao-se os da tome. Durante mez 
e meio derao ahi provas os soldados brazileiros do mais 
admiravel valor e da mais sublime abnegaQao. Pallidos, 
magros, inanidos, nem uma s6 queixa transpunha os labios 
quer dos soldados, quer do povo ! O unico alimento que Ihes 
restava era a carnauba. Chegou-se a comer couro assado 
tirado dos arreios ! 

A columna do principe acampara a 17 em Capivary e 
tambem soffrera as torturas da fome ate o dia 28 de setembro. 
principe destribuiu com os soldados todas as suas provisoes. 
Palmito e fructas sylvestres era todo o alimento das nossas 
tropas. 

A 26 o coronel Fidelis marchara sobre Curuguaty e na 
madrugada de 28 foi a villa tomada. 

Mandou o principe em novembro abrir e alargar a estrada 
entre S. Joaquim e Capivary e recolher todo o gado que 
encontrassem nos campos. 

A 28 de novembro renovou-se a perseguiqao do inimigo 
mas tao abrazador era o sol que os soldados ficarao extra- 
ordinariamente acabrunhados, morrendo cinco liomens asfixia- 
dos^ nem llies foi possivel oppor o menor embara^o ao inimigo 



HISTOBIA DO BRAZIL. 219 

oa passagem do Peri-pucii a 2 de dezeinbro. Mas em compen- 
saqao no mesmo dia (28 de novembro) o coronel Fidelis alcan- 
Qou um brilhante triumpho no passo de Jejuy e occupou em 
seguida a villa de Iguatemy. Tres dias antes havia Lopes 
abandonado Itanara e se dirigido para Panadero. 

Dias depois sob o commando do tenente-coronel Moura, 
partiu uma expediqao para o cerro Xandurueay, onde eonstava 
acharem-se na maior penuria grande iiumero de familias 
exiladas de Assumpqao pelo dictador. Entre ellas iiavia uma 
irma e duas sobrinhas de Moura, e a viuva do consul portu- 
guez, Leite Pereira, fuzilado por ordem de Lopez. tenente- 
coronel Moura salvou 800 pessoas de torturas indiziveis, e 
entre ellas suas sobrinhas ; mas nao poude salvar sua irma, 
que morr^ra de fome no dia antecedente. 

A fortificaqao de S. Carlos foi tomada pelo coronel Guer- 
reiro e o general Camara a 31 de dezembro marchou em 
direcQiio ao Rio Verde, cuja trincheira tomou a 2 de 
Janeiro de 1870. Xo dia seguinte (3) apoderou-se da 
fortifica^ao de Cambassiba, e teve noticia de que Lopes se 
retirara para Cerro-Cora. 

Nao se pode avaliar os innumeros sacriticios sem nome, que 
soffrerao nossos soldados nessas affoutas exj)ediQoes de Camara 
ao norte do Paraguay, n'um vasto paiz desconhecido, sem 
recursos, onde Ihes faltava niesnio o iiidispeiisavel. Taes 
provaqoes so o heroismo bnizileiro era eapaz de siij)|)ortar ! 

O brigadeiro Jose Auto tratou logo de maudar uma expe- 
dicao a Cerro-Cora, a margem esquerda do Aquidabau com 
uns 500 homens. 

No dia 28 de fevereiro cliegou ao arroyo Guassii Camara, 
que ahi tomou de sorpreza duas boccas de fogo e postou uma 
emboscada na picada de Aquidaban, capturando um ajudante 
de ordens de Lopes que viera em procura de noticias. 

No dia 1.° de marqo Camara passou a vao o rio, e mandou o 
coronel Joca com os lanceiros e parte do 9.° de infantaria do 



220 HISTOBIA DO BUAZUj. 

major Floriano Peixoto * em perseguiQao do inimigo. Foi 
nessa occasiao que Lopes, lanceado por um soldado appelli- 
dado Chico-Diabo, querendo fugir, apeiou-se do cavallo e 
atravessou o regato Aquidabanigui ; mas cahiu de joelhos 
na margem opposta. Nesse momento chegou o general Ca- 
mara, intimou-lhe que se rendesse e pediu-lKe a espada ao 
que Lopes respondeu vibrando-lhe um golpe que nao o 
attingiu. Camara deu entao ordem a um soldado que o desar- 
'm-asse; acto que foi executado no tempo em que exhalava elle 
o ultimo suspiro.1[ 

Combattendo como heroes tambem succumbirao o coronel 
Lopes, filho do dictador, o velho Sanchez, vice-presidente, e 
grande numero de officiaes. 

Quando chegou a artilharia tudo estava acabado. 

Consequencias da gnerra, do Paragruay. — Contra a 
tyrannia de Lopes perdeu o Brazil 100,000 de sens filhos, 
e immensos cabedaes, elevando sua divida a 700,000 contos ; 
mas ficaraa exuberantemente provados os grandes recursos de 
que dispoe a bravura e o patriotismo dos brazileiros. 

O Paraguay licou prostado, s6 com tempo podera reerguer- 
se de seu abatimento. 

As republicas de Uruguay e Argentina muito lucrarao com 
essa guerra, pelo movimento commercial de que foi theatro o 
rio da Prata. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXIX. 

— Qiial o resultado da incerteza de limites entre o Brazil e as 
republicas platinas? Desde quando? 

— Ate quando durou esta incerteza? (pp. 204-205, nota) 



* O Snr. Marechal Floriano Peixoto, feito presidente da Republica 
dos Estados Unidos do Brazil em 1891. 

-* FaJavras textuaes do general Camara (visconde de Pelotas). 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 221 

— 'Qoe republica do sul fdra provincia do Brazil? 

— Que nome tinha? 

— Qaem se estAbeleceu nas fronteiras? Como? Quando? 

— A que govemo obedeciao, brazileiro ou oriental? 
— Que consequencias teve esta situagao anormal? 
— Que aoontec§ra em Uruguay em 1863? 

— Que desvantagens acarretava aos brazileiros das fronteiras as 
^uerras civis dos orientaes? 

— A quem recorr6r2o ? Que fez o governo ? 

— Que accusagSo fazia ao Brazil a impreusa oriental? 
— Como se port^brSo os rio-grandenses ? 

— Como auxiliou-os o govemo? 

— Que fez o conselheiro Saraiva em agosto de 1854? 

— Porque invadirao os brazileiros o norte do Uruguay? 
-^ A quem pediu Aguirre soccorro? 

— Como respondeu Lopes ? 

— Que fez o governo ao saber disto? 

— Que ordem deu o almirante Tamandar6? 

— Qual o procedimento de Aguirre? 

— Que fez o Brazil ao receber esta noticia? 

— =-Quem atacou Paysandii? Quanto tempo resistiu o forte? 

— Que fez em seguida o general Menna Barreto? 

— Quem mais concorreu para a capitulaQao de Montevideo ? 

— Que generoso procedimento teve o Brazil para com Uruguay? 

— Quem foi eleito presidente do Uruguay? 

— Que fez Lopes ao Brazil durante a luta com Montevideo? 
Como? Porque? 

— Quem era Lopes? Como govemava? 

— De que recursos dispuuha para encetar conquistas? 

— Que se sabia do Paraguay? Porque? 

— Quem invadiu Matto-Grosso em dezembro de 1864? 

— Quem commandava a cavallaria paraguaya? 

• — Que forte atacdrao? Quem o defendia? Porque se rendeu? 

— Quem foi Antonio Joao Ribeiro? 

— Que signaes deixavao os paraguayos de sua passagem? 

— Que effeito causd,rao no Brazil estas noticias? 
—Que cidade argentina foi tomada por Robles? 



222 HISTOBIA DO BBAZUi. 

— Que outra provincia do Brazil estava ameaQada de ser invadida? 
Por queiii? 

— Que acontecimento deteriuiiiou a triplice allianQa? 

— Quem retoiiiou Comeutes? 

— Porque 6 iiiemoravel a data 11 de junho de 1865? 

— Quem coinmaiidava o Amazonasf 

— Que aconteceu d. guarniQao da Parnahybaf 

— Que outras victorias alcauQou o heroico Barroso? 

— Porque invadiu Estigarribia o Rio Grande do Sul? 

— Com quem partiu para o sul o imperador? Porque? 

— Que fizerlio os generaes brazileirosV 

— Quem ganhou a batalha de Jatahy? Quando? 

— Que providencias tomou Lopes? A quem mandou fusilar? 

— Quem commandava os sitiantes de Uruguayaiia? 

— Quando rendeu-se Uruguayana? 

— Que combate travou-se no dia 10 de abril de 1866? 

— A que general cabe a gloria da passagem do Parana f 

— Com que heroes illustres se pode comparar, por esse feito de 
armas, o general Ozorio? Quando operou elle esse passagem memo- 
ravel? 

— Onde estabeleceu-se o iiosso quartel general? 

— Que aconteceu no dia 2 de maio? 

— Que chefes se distinguirao no dia 24 de maio? 

— Como cliamao os paragiiayos d batalha de 24 de maio? 

— Quem forlio nessa batalha os generaes paraguayos? 

— Porque se retirou Ozorio? A quem entregou o commando? 

— Que acontecimentos se derao nos dias 16, 17 e 18 de julho? 
3 de setembro? 

. — De (jue estratagema se serviu Lopes para f ortiticar-se ? 

— Qual o resultado do desastre de Curupaity? 

— Porque foi nomeado o marquez de Caxias, general em chefe? 

— Que flagello atacou nosso exercito? 

— Que se passou em Matto-Grosso ? 

— Que fez o marquez de Caxias em julho de 1867 ? 

— Quem tomou o commando em chefe ? 

— Quem tomou a Villa do Pilar ? 

-^ Qual foi combate mais importante em torno de Humaitd? 



mSTOSIA DO BBAZIL. 228 

— - Qaando retirou-fie Mitre ? Quern tomou o commando ? 

— Que acontecimentos se derao no dia 19 de fevereiro de 1868 ? 

— Nunca mais foi a esquadra brazileira atacada nas suas explo- 
ra^oes do rio Paraguay ? 

— Quando foi tomada Carupaity ? 

— Porque era defendido com tanto empenho o Chaco pelos para- 
guayos ? Que vantagens nos trouxe a 8ua posse ? 

— Em que dia foi pela primeira .vez assaltada Humait^ ? Pela 
segunda vez? Quanto tempo resistiu? Como rendeu-se aquella 
heroica guamigao ? 

— Que despojos cahirSo em nosso poder ? 

— Como se distinguirao nossos engenheiros nesta canipanha? 

— Como foi tomada a ponte do Itorord ? Quando ? 

— Quando foi Vill§ta attacada V Que oiiiciaes se distinguirao 
nessa batalha ? Qual seu resultado ? 

— Que assalto se deu a 21 de dezembro ? Quern atacou ? Com 
que f orgas ? 

— Onde ficira o general Camara ? 

— Que aconteceu ao barao do Triumpho ? Onde passou a noite o 
relho general em chefe ? Que medidas tomou elle ? 

— Que intimagao fez a Lopes no dia 23 ? Foi aceita ? 

— Quando renovou o attaque V Que foi feito de I^oj)es ? 

— Quando rendeu-se Angostura ? 

— Quando entrou Caxias em Assumpgao ? 

— Quem occupou Luque ? Que era Luque ? 

^ Que resultada teve a segunda epoca desta campanha ? 

— Porque volt^ao os generaes vencedores para o Brazil ? 

— Qual o resultado desta retirada dos chefes ? 

— Que nova capital escolheu Lopes ? Como se preparou ? 

— Que resolugao tomou o govemo brazileiro ? 

— Quem foi nomeado general em chefe em 1869 ? 

— Quem era o Conde d'Eu ? 

— Quem formou em Assumpgao um governo provisorio ? 

— Quando tomou o conde d'Eu o commando ? 

— Que generaes o acompanhirao ? Que ordens deu ^ frota ? 

— Quando comegou a campanha das Cordilheiras ? 

— Que faganhas brilhantes fdrao executadas pelo brigadeiro Camara? 



224 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Para onde foi mandado Menna Barreto ? Quern o auxiliou em 
Sapucaya V Porque ? Quern o acompanhou at^ Paraguay ? 

— Que exploragoes mandou fazer o conde d*Eu ? 

— Mencionar urn dos mais notaveis exploradores. Onde ? Que 
batalha se deu no dia 12 de agosto? 

— Que bravos nella morrerao ? 

— Que victoria alcan^ou o brigadeiro Jos^ Auto da Silva Gui- 
inarlies ? Quando ? 

— Para onde f ugiu Lopes ? 

— Que aconteceu ao niarquez de Herval ? 

— - Que ordenou o conde d*Eu ao general Caniara ? 

— Quern ganhou a ])atalha de Canipo-Grande ? Que outro nome 
tein essa batalha ? Que despojos tonianios ? 

— Quando travou-se a batalha de Caraguatahy ? 

— Quaes sens resultados para os paraguayos ? 

— Que actos de bravura praticou o general Nery ? 

— Em ((ue circunistancias se achava lA)pes em agosto ? 

— Para onde marchou o juincipe ? Que era C-araguaty ? 

— Para (pie ia elle atacal-a ? 

— Onde acampou nosso exercito ? A (pieni derao nossos soldados 
})arte de sen fardamento ? Pon^ue ? 

— Que fez Lopes quando soube da marcha do Conde sobre Sto. 
Isidro ? Que actos de criieldade praticava o dictador V 

— Que fez o general Camara no dia 10 ? Que tropas encontrou 
pelo caminho ? (^ual o resultado da victoria. 

— Que fazia ao sul o general Uesin ? Quando occupou S. Joar 
quim ? Que soifrerlio ahi V Como portdrao-se nesses extremos os 
soldados brazileiros V E o principe ? 

— Quem atacou Caraguaty ? Quando a tomou ? 

— Que ordeni deu o princijw em novembro? 

— Que oiitros rigores soffreu o exercito em novembro e dezembro? 

— Quem alcauQou a victoria de Jejuy e tomou Iguatemy ? 

— Onde estava Lopes ? Para onde foi ? 

— Que noticias havia de Xandurucay ? Quem foi verilical-as ? 
Quem Id, encontrou ? Quantas i)essoas salvou ? 

— Que fez o coronel Guerreiro ? 

— Que fez o general Camara a 31 dezembro V A 2 de Janeiro ? A 
S de Janeiro ? Que noticias Tecebe\i*i 



HI8TORIA DO BRAZIL. 225 

— Como foi provado o heroismo de nossos soldados iia campanha 
das Cordilheiras V 

— Que fez o brigadeiro Jos^ Auto ? 

— Por oude queria f ugir Lopes ? Onde estava ? 

— Que homens se apresentdrao ao exercito brazileiro ? 

— Que fez Camara no dia 28 de fevereiro ? 

— A quern aprisionou? A quern mandou perseguir o inimigoV 
Quando ? 

— Que aconteceu a Lopes nas margens do Aquidaban V 

— Quern o lanceou? Que intima^ao Ihe fez Camara? Como 
respondeu ? 

— A quera se deve a victoria decisiva de Aquidaban ? 

— Quaes forSo as consequencias da guerra do Paraguay ? Para o 
Brazil ? Para o Paraguay V Para Uruguay e Argentina V 



CAMPANHA DO PARAGUAY.— BATALH AS E COMBATES. 

1864. Tomada do Forte Coimbra por Barrios. 

1865. Maio 25. Tomada de Corrientes por Paunero. 

Junho 11. Batalba naval de Riachuelo por Barrozo (Banio do 

Amazonas.) 
Junho 18. Combate naval de Mercedes por Barrozo. 

Agosto 12. Combate naval de Cuevas por Barrozo. 
Agosto 17. Batalha de Jatahy por Flores. 
Setembro 18. Rendi9ao de Uruguayana ; Estigarribia entrega a 

praQa a D. I*edro II. 

1866. Abril 5. Tomada da ilha da Redemp^ao por Tamandar^. 
Abril 16. Passagem do Parand por Osorio. 

Abril 17. Combate de Itapiru por Osorio. 

Abril 25. Evacua^ao do Passo da Patria pelos paraguayos. 

Maio 2. Sorpreza do exercito brazileiro por Valiente. 

Maio 24. Batalha de Tuyuty, a maior da campanha, por 

Osorio. 
Junho 14. Bombardeio do acampamento brazileiro. 

Julho 16 e 18. Combates indecisos por Polydoro. (V. de Sta. 

Thereza.) 
Setembro 2. Tomada de Curuzii por Porto-Alegre. 
Setembro 22. Revez de Curupaity por Porto Alegre e Mitre. 

1867. Setembro 15. Passagem de Curupaity por Inhauma. 



226 



HISTORIA DO BRAZIL. 



1867. Outubro. 



Novembro 2. 
Novembro 3. 
1868. Janeiro. 



Maio, junho 
Julho 15. 
Julho 25. 
Setembro 1.° 



1869. 



Outubro l.o 



Outubro 6. 



Tomada do Pilar ou Niembu^ii por Homos e 
Menna Barreto. Ataque de S. Solano por 
Caxias. Tomada de Potrero Ovelha por 
Menna Barreto. 
Combate de Tagy por Menna Barreto. 
2.» Batalha de Tuyuty por Porto-Alegre. 
Bombardeio de Humaitd pelo Barao da Passagem. 
Assalto do Estabelecimento por Caxias, Fal^ao 
e Andrade Neves (Barao do Trumpho). 
Julho. Sortidas e combates renhidos. 
Assalto de Humait^ por Osorio (sem resultado). 
Rendi9ao de Humaitd por Martinez. 
Passagem do arroio Jacar^. Ataque do Passo- 
Real. Retirada de Lopes de Tebicuary depois 
de horriveis morticinios. Passagem e combate 
de ponte do Surubicy por Andrade Neves. 
Reconhecimento d. viva for^a das linhajs do 

Pikysyry por Osorio e Andrade Neves. 
Passagem para o Chaco por ArgoUo e Tiburcio. 
Novembro 6-26. Pequenos combates no Chaco. A esquadra f or9a 

Angustura. Passagem pelo Chaco. 
Dezembro 6. Batalha de Itorord por Caxias. 
Dezembro 11. De Avahy por Caxias (Osorio ferido). 
Dezembro 21-27. Ataques successivos is linhas de Lomas-Valen- 

tinas. 
Rendi^ao de Angostura. 
Tomada da linha do Pikysyry. 
Combate de Tupium, Conde d'Eu. 
Assalto de Valenzuella, Conde d'Eu. 
Tomada de Autos por Jos^ Auto da Silva Gui- 

maraes. 
Assalto de Peripebuy, Conde d'Eu. 
Batalha de Yagary, Conde d'Eu. 
Batalha de Nhiigua^u (Campo-Grande), Conde 
d'Eu. 

Tomada de Caraguatahy. 
Sanguinagu^ por Camara (V. de 
Ataque de Campina Verde por 



Dezembro 24. 
Dezembro 25. 
Julho. 
Agosto 7. 
Agosto 11. 

Agosto 12. 
Agosto 14. 
Agosto 16. 

Agosto 18. 
Setembro. 



Coaguijuru. 
Ataque de 
Pelotas). 



1870. Mar90 1.® 



Camara. 
Assalto do Cerro-Cord. por Camara. Batalha de 
Aquidaban por Camara. 



HISTOBIA DO BBAZIL. 227 



CAPITULO XXX. 

GOVEBNO DB D. PEDRO 11 DESDE O FIM DA GITBRRA DO 

PARAGUAY AT6 A REVOLUCAO DE 15 DB NOVEMBRO 

DB 1889, QUB ABOLIU A MONARCHIA E ESTABELECEU 

A REPUBLICA FEDERATIVA DOS ESTADOS UNID08 DO 

BRAZIL. 

1870- 1889. 

A victoria de Aquidaban, onde morreu o dictador Francisco 
Solano Lopes, poz termo i, terrivel giierra de 5 annos que teve 
o Brazil de sustentar contra aquelle tyranno (1 de marqo de 
1870). 

£inancipaQao dos escravos. — Durante esse tempo (1865- 
1870), haviao se succedido tres ministerios : Marquez de 
Olinda (1865), Zacharias (1866), e Visconde de Itaborahy 
(1868), e desde entao ja se tratava da emancipaqao dos escra- 
vos, envidando-se todos os meios para que este desideratum se 
effectuasse seaj grande pertnrbaqao na vida nacional, empe- 
nhando-se o governo juntamente com o povo em resolver tao 
difficil problema. 

Com effeito as ideas piiilantropicas, que condemnavao a 
escravidao, desde muito se iao propagando nas cidades 
por todas as camadas soc^aes, e \i, em Janeiro de 1866 o 
marquez de S. Vincente (Pimenta Bueno) apresentou ao 
imperador um projecto de lei pelo qual os escravos poderiao 
emancipar-se gradualniente. Esse projecto ficou adiado ate 
o fim da guerra por resolu^ao do conselho de estado, a que 
foi submettido, por ser-lhe contrario o presidente marquez 
de Olinda. 



228 HISTORIA DO BRAZIL. 

Nesse mesmo anno a sociedade franceza de aboliqao apellou 
para D. Pedro II, que prometteu tratar dessa questao logo que 
pudesse, e elle mesmo redigiu a resposta, que foi assignada 
pelo ministro da justi^a Martim Francisco. 

Em cumprimento de sua promessa conseguiu D. Pedro II 
que o projecto do marquez de S. Vincente fosse em 1867 
submettido outra vez ao consellio de estado, que o approvou ; 
mas supprimiu sua clausula mais importante — emancipaQao 
completa em dezembro de 1899. 

Outro projecto redigido pelo conselheiro Nabuco nao foi 
aceito por entender o conselho de estado que s6 depois da 
guerra podia o governo tomar alguma iniciativa a esse 
respeito. 

Com a subida dos conservadores (Itaborahy) contrarios a 
emancipaqao, ia ser adiado o projecto, quando o deputado 
Teixeira Junior (visconde do Cruzeiro) requereu e ob- 
teve da camara uma commissao especial para redigir 
Tim novo projecto de lei que tornasse a emancipacao gradual 
e effectiva. Nesse projecto tratava-se de libertar os nasci- 
turos. 

Como era de esperar, causou esta reforma desintelligencias 

entre os ministros e em 1870 subiu o minis terio S. Vicente, 

que nada poude fazer, cedendo logo a presidencia do 

conselho ao visconde do Rio-Branco (7 de marqo de 

1871). 

Este notavel estadista para conseguir a votaqao daquella lei 
aproveitou-se da ausencia do imperador, que fora por algum 
tempo viajar a Europa, deixando sua filha, a princeza I). 
Izabel, Condessa d'Eu, como regente do imperio. 

Primeira victoria aboUclonlsta. — Partilhava a jovem 
princeza as ideas abolicionistas de seu pae, e teve a gloria de 
assignar a lei de 28 de setembro de 1871, que emancipava o 
berQo dos captives, apezar da luta fortissima que travou-se na 



HISTORIA DO BRAZIL. 229 

camara^ a qual effectuou uma dissidencia no partido conser- 
vador. 

Esta brilhante victoria do partido abolicionista foi devida 
aos esfoiQOS e a habil diploinacia do viscoude do Rio-Branco, 
Jose Maria da Silva Paranhos, cujo nome (l*aranlios) derao 
aos seus filhos, que nascerao nessa epoca, as maes escravas 
agradecidas. 

Mas com essa lei nao ficarao de todo satisfeitos os aboli- 
cionista^, como esperavao os conservadores, e e notavel a 
epoca de 1880 a 1885 pela actividade da propaganda liber- 
tadora, que teve em resultado o projecto Dantas (1884), em 
que o deputado Rodolpho Dantas, de conibinaqtio com o minis- 
terio, propoz o augmento do fundo de eniancipac^ao e a alforria 
dos velhos sexagenarios. Este projecto suscitou uma oppo- 
si^ao tao decidida que a camara teve de ser dissolvida. Mas 
OS novos deputados continuarao com a opposiqao de tal 
modo que foi o gabinete obrigado a dimittir-se. Succe- 
deu-lhe o ministerio Saraiva (^ue por sua vez cedeu o lugar 
aos conservadores presididos pelo barao de Cotegipe (1885). 

Segrunda victoria abolicionista. — Antonio Prado e Fran- 
cisco Belisario faziao parte deste ministerio, que conseguiu a 
votaqao da lei no senado, sendo ella sanccionada a 28 de 
setembro. 

Neste mesmo anno (1885) as provincias do Ceara e de 
Amazonas libertarao todos os seus captivos. ( ) partido aboli- 
cionista augmentava todos os dias ; seus emissarios iao por 
todas as partes preparando os animos dos escravos para a 
victoria final que se esperava dentro em pouco tempo. 

Adoeceu gravemente o imperador em principios de 1887 e 
por conselho de seus medicos partiu para a Euro})a, deixando 
outra vez como regente a prineeza D. Izabel, que tambem 
influida pelas ideas abolicionistas resolvera apressar esta 
reforma tao desejada. 



280 HISTORIA DO BRAZIL. 

Os conservadores apoiados pelo gabinete Cotegipe oppu- 
nhaose fortemente aquella medida que na sua opiniao traria 
como consequencia immediata a victoria republicana. Mas 
a enthusiasta princeza acreditava o contrario e estava certa 
de que a aboliQao seria um meio infallivel de alcan^ar 
popularidade e de destruir o partido republicano que ia ga- 
nhando terreno entre a mocidade de nossas acaderaias, anciosa 
pelo engrandecimento da patria sob um regimen de verdadeira 
liberdade. 

Triumpho dos abolicionistas. — barao de Cotegipe iiao 
concordando com a regente a este respeito pediu sua demissao 
e foi substituido pelo ministerio Joao Alfredo (10 de marqo 
de 1888), que p6z-se a frente dos abolicionistas e conseguiu 
que fosse realisada esta reforma, sendo a lei da liberdade dos 
escravos sanccionada a 13 de maio, no meio das mais enthusi- 
asticas demonstraqoes de jubilo do povo, que alcatifou de 
flores as ruas por onde tinha de passar o carro da piedosa 
princeza, a cujos esforQOs, nao ha negar, se deve aquelle 
grande acontecimento tao cedo e tao pacificamente alcanqado. 

Todas as na^oes civilisadas nos applaudirao com a maior 
exalta^ao. 

Conta-se que o imperador em Milao, quasi moribund©, ao 
receber pela imperatriz a noticia de que estava feita a 
aboliqao no Brazil, despertara de sen lethargo e derramando 
lagrimas de jubilo, exclam^ra: "Grande povo! Grande 
povo ! " 

Desenvolvliiaento do partido republicano. — Em agosto 
voltou D. Pedro II ao Brazil, onde foi recebido com verda- 
deiro enthusiasmo popular, apezar do desenvolvimento que 
havia tido a propaganda republicana. A propria lei de 
13 de maio foi causa de muitos conservadores escravagistas 
despeitados abra^arem as uovas ideas de liberdade, de sorte 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 281 

que jd se dizia bem alto que no Brazil nao haveria terceiro 
reinado. 

Emfim realisava-se o que havia previsto o grande estadista, 
barao de Cotegipe — ^^ depots da aholigao a republica." 

Em junho de 1889 o ministerio conservador pediu sua 
demissao e o Sr. Affonso Celso, viseonde do Ouro Preto, foi 
chamado a organisar um gabinete liberal (7 de junho), que 
por reformas constitucionaes, satisfizesse de algum modo os 
partidos democraticos j^ muito exaltados. 

Mas OS republieanos se achavao bem fortes para entrar 
abertamente na luta que se torn^ra inevitavel. 

A 11 de junho, dia da apresentaqao do novo ministerio is 
camaras, a sessao foi temj)estuosa. Sr. Cesario Alvim, 
deputado liberal por Minas, declarou-se republicano, e o padre 
Joao Manoel, deputado conservador pelo Rio Grande do 
Norte, terminou o seu revolucionario discurso com o brado : 
*^Abaixo a inonarchia! Viva a repiiblU'.a/'^ 

A camara foi dissolvida, mas crescia sempre a propaganda 
republicana. 

Na noite de 15 de julho foi o imperador desacatado no 
theatro, onde ouviu-se o grito de Viva a republica/ e logo 
depois dispardrao um tiro sobre seu carro na pra^a da Consti- 
tui^ao. 

viseonde de Ouro Preto tomou medidas energicas, e 
conseguiu fazer eleger uma camara* quasi unanime com a 
qual contava realisar sens pianos anti-republicanos. 

Quanto ao exercito notava-se que, desde que voMra 
glorioso da campanha do Paraguay, onde ganharao renome 
immortal sens heroicos chefes, ja nao se sujeitava a ser 



* Esta camara appellidada de Jinados, por tor comegado suas sessoes 
preparatorias no dia 2 de novembro, e fomiada expressameute para 
acabar com o partido republicano, tiuha que assistir d proclama9ao da 
republica (15 de novembro de 1889) que devia aboliL-a« 



232 HISTORIA DO BBAZIIi. 

instrumento passive de elevaQoes de partidos e pedia tambem 
seu lugar na communhao dos cidadaos. Em suas fileiras 
havia tambem penetrado o sopro da liberdade e a idea repu- 
blicana alii contava muitos adeptos especialmente entre moQOS 
estudantes das escolas militares. 

O governo bem comprehendeu que elle se torn^ra pela 
raaior parte seu decidido adversario, e por todos os modos 
procurava destruir-lhe a forqa, mas sem resultado, ou antes 
perdendo a sua propria, como aconteceu nas duas questoes 
militares, que se derao no ministerio Cotegipe. A primeira 
foi resolvida por intervenqao do senado e pela retirada do 
ministro da guerra, o Snr. Alfredo Chaves. A segunda teve 
por pretexto o espancamento do capitao-tenente Lobo pe^o 
alferes policial Baptista. Club Naval e o Club Militar 
levant^rao a questao de classe, de que resultou a demissao do 
gabinete. 

No ministerio Joao Alfredo houve desavenqas militares em 
S. Paulo, e a expedicao de Matto-Grosso teve por fim afastar 
da corte o mareclial Deodoro. 

Mas estas questoes so serviao para irritar em vez de 
sujeitar o exercito. De modo que no gabinete Ouro-Preto a 
organisaqao da guarda nacional, o augment© da forga policial, 
a creaqao da guarda civica e a remoQao de alguns bataJhoes 
para fdra da capital, medidas que revelavao o proposito do 
governo de enf raquecer o militarism©, fizerao chegar o descon- 
ttmtamento ao seu auge, a ponto de congregarem-se a maior 
parte dos officiaes do exercito e da armada e fazerem um 
protesto solemne de sustentar a todo o transe o prestigio da 
classe militar, e por esta causa sacrificar at^ mesmo a vida. 
Os documentos assignados pelos proprios officiaes forao entre- 
gues ao illustre professor da Escola Militar, o dr. Benjamim 
Constant Botellio de Magalhaes, e em caso de mallogro deviao 
ser destruidos, queimados ate o ultimo por sua esposa e 
suas hlhaSy aiim de que s6 elle, o chefe, ficasse compromettido, 



HISTORIA DO BRAZIL. 238 

tornando impossivel qualquer denuucia contra quern quer 
que fosse. 

O tenente-coronel dr. Beujamim Constant Botelho de Ma- 
galhaes nao dissimulou seu modo de pensar, nem suas 
intenQoes relativamente ao governo, antes pelo contrario, 
na Escola Militar, em presenqa do ministro da guerra e de 
alguns officiaes da marinha chilena pronunciou um eloquente 
discurso, commemorando todos os aggravos do exercito. 
Dias depois ao reeeber uma manitestaQao dos officiaes da 
2* brigada, jurou com elles que liavia de expor a propria 
vida na praqa publica para salvaqao da patria e levantamento 
da classe militar (26 de outubro de 1889). 

Os jornaes publicarao este acontecimento que levou o 
governo a dimittir o director da Escola Superior de Guerra, 
o tenente-general Miranda Keis, por ntio ter censurado ao dr. 
Benjamim Constant. 

Desde entao a proiKujamla da ac(]iio era feita no exercito 
com a maior energia e sem interrupqtio. A principio os con- 
spiradores so visavao a queda do ministerio Ouro-Preto ; mas 
depois de algumas conferencias entenderao que era chegada 
a hora de fazer-se a republica, para que mais tarde nao o 
fosse a custa de muito sangue brazileiro ; porque o elemento 
militar, representando a forqa, era uma garantia de ordem e 
de paz, que nao perturbaria o progresso do paiz. 

Assim tratarao de alliar-se ao partido republicano de que 
erao chefes o Snr. Quintino Bocayuva, dr. Ruy Earbosa e dr. 
Aristides Lobo. 

Na noite de 9 de novembro* no Club Militar, tomou o dr. 
Benjamim Constant o solemne compromisso de tudo resolver 
dentro do praso de oito dias. 

No dia 11 conferenciarao os chefes em casa do marechal 



* Nessa noite offereceu o governo um esplendido baile na ilha Fiscal 
aos officiaes do Almirante Cockrane. 



284 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Deodoro, e entre elles estava o chefe de divisao Eduardo 
Wandenkolk, o capitao de fragata, Frederico Guilherme e 
muitos outros oflBiciaes de mar e terra. 

Os centres republicanos em todas as provincias tiverao par- 
ticipaqao de que grandes acontecimentos teriao lugar dentro 
de poucos dias, e que estivessem de sobre-aviso. 

No dia 12 tendo o * governo (que por traidores era avisado 
da conspiraqao) dado ordem de desarmar e embarcar para S. 
Borja o 2.® regimento de artilheria, o capitao Menna Barreto 
foi ao respectivo quartel e declarou que o 1.® e o 9.** regimen- 
tos de cavallaria tal violencia nao haviao de consentir, ao que 
OS officiaes responderao que "nao embarcariao." 

A imprensa opposicionista, representada pelo Correio do 
Povo e Dia, publicava os mais exaltados artigos contra o 
ministerio e preparava os animos para a revoluqao. 

O marechal Deodoro mandou cliamar o ajudante general do 
exercito, marechal Floriano Peixoto, e declarou-lhe tudo, mas 
ponderando-lhe este que nao havia motivo para empregarem 
medidas tao extremas, affirmou-lhe o marechal Deodoro que o 
movimento era irrevogavel porque a repiihlica viria com sangue, 
si nao fossem ao seu encontro sem derramairo, e que havia bas- 
tantes prova^ de que com a monarchia nao era possivel a sal- 
vagao para a patria, nem para o exercito. 

No dia 14 ^ noite tiverao ordem os officiaes revoltosos de 
marchar com seus corpos armados e municiados para o Campo 
de Acclamaqao, affim de opp6r-se a partida dos batalhoes orde- 
nada pelo ministro. 

Por sua parte o governo de tudo avisado 'tratou por todos 
OS modos de abafar a revolta que suppunha s6 contra o minis- 
terio. presidente do conselho depois de conferenciar no 
arsenal de marinha com os ministros da justiqa, da marinha e 
de estrangeiros, dirigiu-se as seis horas da manha, accompa- 
nhado de uma forqa de 400 homens, para a secretaria da guerra, 
onde se achavao os outros mimstios. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 285 

Defronte da secretaria da guerra haviaose postado, desde 
romper do dia, forqas as ordens do marechal Deodoro, que 
gravemente doente, deixara o leito para p6r-se a frente de seus 
companheiros de armas. 

Em segiiida chegou o 1.** batalhao de engenheiros, que fez 
juncqao com a tropa do marechal, a que tambem reunirao-se 
OS batalhoes de infatitaria da policia e dos bombeiros. 

Desde as 5^ da manha que chegara ao quartel da 2.* brigada 
o tenente-coronel dr. Benjamim Constant, que mandou logo 
um mensageiro ao Club Naval avisar para que estivesse prepa- 
rada a esquadra, e dahi marcbou com todas as forqas para o 
Campo da Acclamacao, onde tomou posiqao sem o menor im- 
pedimento, por nao ter sido cumprida a ordem que o visconde 
de Ouro-Preto dera para prendel-os, ao general Almeida Bar- 
reto. Este general estava no quartel general e constrangido 
a tomar o commando de uma brigada, foi postar-se com ella 
em frente a estaqao da estrada de ferro D. Pedro II. Pelas 
8 horas apresentarao-se tambem na pra^a o Snr. Quintino 
Bocayuva e os drs. Aristides Lobo e Sampaio Ferraz. 

Pouco depois chegou em um coupe o ministro da marinha, 
barao do Ladario, e ao apeiar-se viu approximar-se o tenente 
Pena que Ihe disse : ^* Esta preso a ordem do marechal Deodoro." 
O barao immediamente puxou pelo revolver, que negou fogo. 

Entao o tenente puxou tambem pelo seu revolver e dis- 
parou-o quatro vezes. 

Ao primeiro tiro correu para elle o marechal Deodoro, sobre 
quem atirou o barao ; mas a bala passou-lhe rente da cabeqa, 
sem tocal-o. Nesse interim chegou o piquete do marechal e 
fez uma descarga, acertando uma bala no barao, que tambem 
recebeu um golpe de espada na face. marechal Deodoro 
bradou : "Nao matem esse homem." O barao foi levado ao 
palacio Itamaraty. 

Depois deste incidente mandou o marechal Deodoro intimar 
ao ministerio ordem de deposiqao. 



236 HISTORIA DO BRAZIL, 

Snr. visconde de Ouro-Preto nao obedeceu, antes mandou 
fechar os portoes do quartel general e deu ordem de fazer fogo 
sobre a brigada revoltosa. Mas o general Floriano Peixoto 
disse-lhe que reparasse nos canhoes da pra^a e que si houvesse 
fogo elles fariao voar pelos ares o quartel em cinco minutos. 
visconde entao insistindo replicou-lhe : " Mas os senhores 
na guerra do Paraguay nao tomavao a artilharia com a 
infaiitaria ? '' 

" E verdade,'' tornou o general, " mas os de la erao inimi- 
gos, aqui somos todos brazileiros. Aquelles homens nao se 
entregao ; brigao ate morrer. E os que estao aqui dentro nao 
vao la fdra brigar com elles." 

visconde foi ainda deliberar com os collegas acerca 
dos meios de resistencia, mas as 10 boras e meia abriu-se 
o portao e o marechal Deodoro entrou no pateo do quartel 
as acclamaQoes de todos os batalhoes, que no meio de 
um dilirio indiscriptivel proromperao em vivas ao marechal 
Deodoro ! 

O marechal commovidissimo passou revista as tropas que 
Ihe fizerao continencia e forao reunir-se a 2.* brigada. 

governo vendo que as for^as com que contava haviao-se 
reunido as do marechal, telegraphou para o imperador em 
Petropolis, pedindo sua dimissao. 

ajudante general Floriano Peixoto teve uma breve con- 
ferencia com o marechal Deodoro e convidou-o a subir e a 
explicar-se com o visconde de Ouro-Preto. 

marechal Deodoro foi a secretaria e depois de enniunerar 
ao presidente do conselho todos os aggravos do exercito, e de 
declarar-lhe a forqa de que dispunha, deu-lhe ordem de prisao 
assim como ao ministro da guerra (a qual pouco depois foi 
revogada), deixando sahir livres todos os mais. visconde 
declarou que se submettia a forqa. 

Nessa oocasiao chegarao ao Campo da Acclamaqao os alum- 
nos da Esco] a-Militar acompanhados do 10.® que tinha side 



HI8TOBIA DO BRAZIL. 287 

pelo govemo postado no largo da Lapa, para impedir-lhes a 
passagem e fizerao a juncqao com a 2.^ brigada. 

Ao ministerio nao restava mais elemento algum de resis- 
tencia. 

Victoria do partido republicano. — A noticia destes 
acontecimentos espalhou-se rapidamente por toda a cidade 
enchendo a uns de alegria, a outros de pavor, por successes 
tao inesperados. Ouviao-se pelas ruas centraes os mais calo- 
rosos vivas ao exercito, a armada, aos generaes e ao povo. 

Os chefes republicanos, aproveitando aquelle feliz ensejo, 
propuzerao que fosse immediatamente proclamada a Repu- 
blica. EntSo o marechal Deodoro descobrindo-se bradou : 
" Viva a Republica Brazileira ! " 

Este brado foi repetido pelos soldados e pelo povo cheios 
do mais delirante enthusiasmo. 

Uma salva de 21 tiros sagrou o momento solemne do nasci- 
mento da republica. 

Erao 11 horas da manha de 15 de novembro de 1889. 

marechal Deodoro a frente dos batalhoes marchou para 
o arsenal de marinha, onde se Ihe reunirao as forqas de mar, 
que M o aguardavao com o chefe de esquadra Eduardo Wan- 
denkolk, e regressarao todos juntos ao Campo da Acclama^ao 
por entre os ruidosos vivas do povo que victoriava o exercito 
e a armada. 

Organisou-se immediatamente o governo provisorio.* 

O marechal Manoel Deodoro da Fonseca acclamado chefe 
do governo provisorio, assumindo podores dictatoriaes, tratou 
sem demora de nomear os outros membros do governo e as 
principaes autoridades. 



* O govemo provisorio a principio funccionou no edificio do Instituto 
dos Meninos Cegos, de que era director o tenente-coronel dr. Benjamim 
Constant Botelho de Magalhaes. 



238 HiStORiA DO BRAZIL* 

Forao nomeados : 

tenente-coronel dr. Benjamim Constant Botelho de Maga- 
Ihaes, ministro da guerra. 

dr. Euy Barbosa, ministro da fazenda o interinamente 
da justiqa. 

Snr. Quintino Bocayuva, ministro das relaQoes exteriores 
e interinamente da agricultura, commercio e obras publicas. 

Snr. Aristides de Silveira Lobo, ministro do interior. 

chefe de esquadra, Eduardo Wandenkolk, ministro da 
marinha. 

Em seguida destribuiu-se a seguinte proclamaqao do governo 
provisorio : 

PROCI.AMACAO. 

* 

CoNciDADAOS. — povo, exercito e a armada nacional, 
em perfeita communliao de sentimentos com os nossos 
concidadaos residentes nas provincias, acabao de decretar a 
deposiQao da dynastia imperial e consequentemente a extinc- 
qao do systema monarchico representativo. 

Como resultado immediato desta revoluqao nacional, de 
caracter essencialmente patriotico, acaba de ser instituido um 
Governo Provisorio, cuja principal missao 6 garantir com a 
ordem publica a liberdade e os direitos dos cidadaos. 

Para comporem este governo, emquanto a na^ao soberana, 
pelos sens orgaos competentes, nao proceder d escolhc- do 
governo definitivo, forao nomeados pelo chefe do poder execu 
tivo da Naqao os cidadaos abaixo assignados, 

Concidadaos. — Governo Provisorio, simples agente 
temporario da soberania nacional, e o governo da paz, da 
liberdade, da fraternidade e da ordem. 

No uso das attribui^oes e faculdades extraordinarias de que 
se acha investido para a defeza da integridade da patria e da 
ordem publica, o Governo Provisorio, por todos os meios ao 



mSTORlA DO BRAZIL. 23d 

seu alcance, promette e garante a todos os habitantes do 
Brazil, nacionaes e estrangeiros, a seguranqa da vida e da 
propriedade, o respeito aos interesses individuaes e politicos, 
salvas, quanto a estes, as limitaQoes exigidas pelo bem da 
patria e pela legitima defensa do governo proclamado pelo 
povo, pelo exercito e pela armada nacional. 

OoNCiDADAOs. — As fuiicQoes da justiqa ordinaria, bem 
como as funcQoes da administraQao civil e militar, continuarao 
a ser exercidas pelos orgaos ate aqui existentes, com rela^ao 
aos actos na plenitude de seus effeitos ; com relaqao ds pes- 
soas, respeitadas as vantagens e os direitos adquiridos por 
cada funccionario. 

Fica, por§m, abolida desde j^ a vitaliciedade do senado e 
bem assim abolido o conselho de estado. Fica dissolvida a 
camara dos deputados. 

CoNciDADAOs. — O Govcmo Provisorio reconhece e acata 
todos 08 compromissos nacionaes contrahidos durante o regi- 
men anterior, os tractados subsistentes com as potencias 
extrangeiras, a divida publica interna e externa os tractos 
vigentes e mais obrigaqoes legalmente estatuidas. 

Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, chefe do govemo 
provisorio. 

Aristides da Silveira Loho, ministro do interior. 

Ruy Barbosa, ministro da fazenda e interinamente da 
justi^ 

Tenente-coronel Benjamim Constant Botelho de Matjalhaes, 
ministro da guerra. 

Chefe de esquadra Eduardo Wandenkolk, ministro da ma- 
rinha. 

Quintino Bocayiiva, ministro das rela^oes exteriores e 
interinamente da agricultura, commercio e obras publicas. 

Em seguida expediu o Governo Provisorio o seguinte de- 
oreto: — 



240 HISTORIA DO BRAZIL. 

D£CR£TO N. 1 DS 15 D£ NOVEMBRO DJE 1889. 

O Governo Provisorio dos Estados Unidos do Brazil de- 
creta : — 

Art. 1.® Fica proclamada provisoriamente e decretada 
como a forma de governo da na^ao brazileira — a Republica 
Federativa. 

Art. 2.** As provincias do Brazil, reunidas pelo laQO da 
federaqao, ficao constituindo os Estados Unidos do Brazil. 

Art. 3.® Cada um desses estados, no exercicio de sua legi- 
tima soberania, decretara opportunamente a sua constituiqao 
definitiva, elegendo sens corpos e os sens governos locaes. 

Art. 4.® Emquanto pelos meios regulares nao se proceder 
a eleiQao do Congresso Constituinte do Brazil, e bem assim a 
eleiqiio das legislaturas de cada um dos estados, sera regida a 
naqao brazileira pelo Governo Provisorio da Republica; e nos 
novos estados pelos governos que hajao proclamado ou, na 
falta destes, por governadores delegados do Governo Proviso- 
rio. 

Art. 5.** Os governos dos estados federaes adoptarao com 
urgencia todas as providencias necessarias para a manutenqao 
da ordem e da seguranqa publica, defensa e garantia da 
liberdade e dos direitos dos cidadaos, quer nacionaes, quer 
estrangeiros. 

Art. 6.** Em qualquer dos estados, onde a ordem publica 
for perturbada e onde faltem ao governo local meios efficazes 
para reprimir as desordens e assegurar a paz e tranquillidade 
publicas, effectuar^ o Governo Provisorio a intervenqao neces- 
saria para, com o apoio da forqa publica, assegurar o livre 
exercicio dos direitos dos cidadaos e a livre acqao das autori- 
dades constituidas. 

Art. 7.® Sendo a Bepublica Federativa Brazileira a forma 
de governo proclamada, o Governo Provisorio nao reconhece 
nam reconhecer^ nenhum governo local contrario i ferma 



HISTORIA DO BRAZIL. 241 

republicana, aguardando, como Ihe cumpre, o pronunciamento 
definitive da na^ao, livremente expressado pelo suffragio 
popular. 

Art. 8.** A for^a publica regular, representada pelas tres 
arnias do exercito e pela armada nacional de que existem 
guarniQoes ou contingentes nas diversas pro vine ias, continu- 
ara subordinada e exclusivamente dependente do Governo 
Provisorio da Republica, podendo os governos locaes, pelos 
meios ao sen alcance, deeretar a organisaqao de uma guarda 
civica destinada ao policiamento do territorio de cada um dos 
novos estados. 

Art. 9.** Ficao igualmente subordinados ao Governo Pro- 
visorio da Republica todas as reparti^oes civis e militares 
ate aqui subordinadas ao governo central da na^o brazileira. 

Art. 10.** territorio do municipio neutro fica provisoria- 
mente sob a administraqao immediata do Governo Provisorio 
da Republica, e a cidade do Rio de Janeiro constituida tam- 
bem provisoriamente sede do poder federal. 

Art. ll.o Ficao encarregados da execugao deste decreto, 
na parte que a cada ura pertenqa, os secretaries de estado das 
diversas reparti^oes ou ministerios do actual Governo Pro- 
visorio. 

Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1889. 

Forao tomadas todas as medidas para manter a ordem, de 
sorte que durante tode esse dia e nos que se seguirao, nao se 
deu o menor disturbio entre o povo. 

Ko pa^o da camara municipal foi i^ada a bandeira repu- 
blicana e em nome do povo proclamada a republica. 

Este acto foi no dia seguinte (16) approvado por todos os 
camaristas lavrando-se a seguinte moQao ; que foi entregue ao 
Governo Provisorio : — 

" Exmos. Snrs. representantes do exercito e da armada na- 
donal — Temos a honra de communicar-vos que| depois da 



242 HISTORIA DO BRAZIL. 

gloriosa e nobre resoluQao que ipso facto depoz a monarchia 
brazileira, o povo por orgaos espontaneos e pelo seu represen- 
tante legal nesta cidade, reuniu-se no edificio da Camara 
Municipal, e, na forma da lei ainda vigente, declarou consum- 
mado o acto da deposi^ao da monarchia e, acto seguido, o 
vereador mais mo^, ainda na forma da lei, proclamou como 
nova forma de governo do Brazil — a Republica. 

^^Attendendo ao que os abaixo assignados esperao que as 
patrioticas classes militares sanccionem a iniciativa popular, 
fazendo immediatamente decretar a nova forma republicana 
do governo nacional. 

^^Rio DE Janeiro, 16 de novembro de 1880.** 

Accompanhava-a este officio : — 

"Exmos. Snrs, representantes supremos das classes mi- 
litares do Brazil, Marechal Deodoro da Fonseca, chefe de 
divisao Wandenkolk e tenente-coronel dr. . Benjamim Con- 
stant. 

"0 povo de Rio de Janeiro, reunido em massa no edificio 
da Camara Municipal, tem a honra de communicar-vos que, 
por meio de diversos orgaos espontaneamente surgidos e pelo 
seu representante legal, proclamou como a nova forma de 
governo nacional — a Republica. 

"Esperao os abaixo assignados, representantes do povo do 
Rio de Janeiro, que o patriotico e nobre Governo Provisorio 
sanccione o acto pelo qual, instituindo a Republica, se pre- 
tende satisfazer a intima e real aspiraqao do povo brazileiro. 

" Viva a Republica Brazileira ! 

" Viva o Exercito e a Armada nacional ! 

" Viva o Povo do Brazil ! " 

Em seguida o presidente. Dr. Jos^ Ferreira Nobre, sub- 
metteu a approvaqao da Camara outra moQao assignada por 
todos OS vereadores e pelo secretario, e e a seg^nte : 



HISTOBIA DO BRAZIL. 248 

" MogAO. — Os acontecimentos testemunhados hontem por 
esta cidade produzirao a funda^o da Eepublica Brazileira. 

"O governo democratico est^ constituido como fazem 
publico todas as folhas diarias de hoje. 

" Avultado numero de cidadaos tendo a testa o uosso 
coUega vereador Jos^ do Patrocinio, occupoii hontem os saloes 
deste paqo, proelamando a Republica Brazileira. 

" O Imperador e a familia imperial, tratados com o maior 
respeito^ consta que retirao-se hoje do paiz. 

" O Governo Provisorio acha-se i. testa dos negocios 
publicos. 

' " Tendo a Illma. Camara conhecimento destes factos, 
resolve reconhecer a nova ordem de coisas, e declarar em 
nome da paz publica, que o povo deste municipio adhere ao 
Governo Provisorio. 

"PaQO da Illma. Camara Municipal da cidade de Sao 
Sebastiao do Eio de Janeiro, 16 de novembro de 1889. 

"t7b«« Ferreira Nohre, presidente. — Dr. Antonio Dias Fer- 
reira, vice-presidente. — Torquato Jos^ Fernandes Couto. — 
Francisco Leonardo Gomes. — Jose Firmo de Moura. — Dr. 
Constante da Silva Jardim. — Alexandre Cardoso Fontes. — 
Jos^ Manoel da Silva Veiga. — J. Francisco Gonqalves. — 
Pedro Goncalves do Souto Carvalho. — Dr. Jose Paulo 
Kabnco de Araujo Freitas. — Candido Alves Pereira de Carva- 
lho. — Jos^ Carlos do Patrocinio. — Thomaz da Costa Ra- 
bello. — Benedicto Hyppolito de Oliveira. — Jose Antonio de 
Magalhaes Castro Sobrinho, secretario.'' 

As 3 horas, depois da chegada dos membros do Governo 
Provisorio, o secretario lavrou o termo do juramento que 
tinhao de prestar e que todos as signer ao : 

" Termo de juramento que prestao os membros do Governo 
Provisorio, abaixo assignados perante a Illma. Camara Muni- 
cipal da cidade de S. Sebastiao do Rio de Janeiro. 



244 HISTORIA DO BRAZIL. 

"Aos dezeseis dias do mez de novembro de mil oitocentos e 
oitenta e nove compareceii no paQo municipal o Governo 
Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil, 
composto dos cidadaos Aristides da Silveira Lobo, Ruy 
Barbosa, tenente-coronel Benjamim Constante Botelho de 
Magalhaes, chefe de divisao Eduardo Wandenkolk, e Quintino 
Bocaynva, que declarou vir perante a Illma. Camara reunida 
em sessao extraordinaria, fazer a promessa soleiune de sob a 
sua lionra manter a paz e a liberdade publicas, os direitos dos 
cidadaos, respeitar e fazer respeitar as obrigaQoes da Nacao, 
quer no interior, quer no exterior. 'E^m. firmeza do que 
assignao os ditos cidadaos expontaneamente com os vereadores 
da Illma. Camara este compromisso para com o Povo Bra- 
zileiro, representado neste momento pola Municipalidade da 
cidade do Rio de Janeiro.'' 

(Seguem-se as assignaturas dos membros do Governo Provi- 
sorio, dos da camara municipal e dos cidadaos presentes.) 

Estava o imperador em Petropolis quando as 10 horas da 
manha do dia 15 recebeu o telegramma do visconde do Ouro- 
Preto, pedindo sua exoneraqao do ministerio por ter o mare- 
chal Deodoro imposto a deposiqao do gabinete, que achava-se na 
impossibilidade de resistir. Partiu elle immediatamente para 
o Rio chegando as 3 lioras da tarde ao pa^o da cidade, onde 
dentro em pouco se Ihe reunirao os outros membros da familia 
imperial, os senadores, os camaristas e homens de estado, 
entre elles o visconde do Ouro-Preto para discutir sobre a 
formaqao de um novo ministerio e a reuniao do conselho de 
estado. 

A noite voltando ao paqo o senador Manoel F. Corr§a 
informou ao imperador, como este o exigira, de que estava 
proclamada a republica, o Governo Provisorio definitivamente 
organisado e ja nomeadas as autoridades mais importantes; 
porque o exercito, tendo perdido toda a confianqa nos partidos 
monarchicos, havia-se reunido com oa Te)^\M\ca.\ios. lN"otieiou- 



HISTOBIA DO BRAZIL. 245 

Ihe tambem que algumas provincias j^ haviao adherido ao 
movimento ; mas que a vida e a pessoa do imperador e de 
toda a familia imperial estava inteiramente garantida. 

O pa^ estava guardado por uma forqa que depois foi 
augmentada com ordem de nao deixar entrar nelle pessoa 
alguma sem ordem do eamarista de semana. 

Durante toda a noite alii tratou-se dos meios a empregar 
para provocar uma reacqao, mas sem resultado algum. 

Na manlia seguinte cliegando ao conhecimento do marechal 
Deodoro que por ordem do governo deposto se transportavuo 
muniQoes do arsenal de guerra, ordenou elle immediatamente 
a prisao do ex-ministro Candido de Oliveira e do visconde do 
Ouro-Preto, que foi eneontrado em casa do bariio de Javary e 
levado para o quartel onde esteve prisioneiro ate embarcar-se 
para a Europa. Mandou tambem c^ue o ex-imperador e sua 
familia ficassem incommunicaveis, o c^ue foi exactamente 
cumprido. 

As 3 horas da tarde o major Frederico Solon ^ampaio 
Ribeiro entregou ao ex-imperador a mensagem do Governo 
Provisorio, na qual Ihe declarava que as persegui^oes do 
exercito e da armada por parte dos ministros desejosos de 
aniquilar estas duas classes, tinhao provocado os aconteci- 
mentos da vespera, que a resoluQiio tomada no dia 15 era 
irrevogavel, e por tanto sua presenqa e a de sua familia nao 
era mais possivel no territorio brazileiro, donde esperava 
que se retiraria dentro de 24 horas, por assim o exigir a 
salvaqao publica, que Ihe cumpria sobretudo zelar. Quanto a 
sua pessoa e a sua familia, seriao tratados como convinha ^ 
dignidade das funccoes publicas que acabava de exercer, sendo 
todos ^ custa do Governo transportado para um porto da 
Europa, em navio com a guarnicao militar precisa e com 
todas as commodidades necessarias, continuando-se a contar- 
se-lhe a dotaqao que tinha por lei ate que sobre esse ponto se 
pronunciasse a futura Assemblea Constituinte. 



246 HISTOBIA DO BRAZIL. 

ex-imperador respondeu que cedia ao imperio das circiim- 
stancias e se retiraria dentro do prazo marcado, e que con- 
servaria do Brazil a mais saudosa lembranQa^ fazendo ardentes 
votos por sua grandeza e prosperidade. 



Ministerio 7 de junho : — Visconde do Ouro^Preto, presi- 
dente do conselho e ministro da fazenda. 

Visconde de Maracaju, ministro da Candido de Oliveira, ministro da 

guerra. justi9a. 

Barao do Ladario, ministro da Dr. Rodrigo Silva, ministro da 

marinha. agricultura. 

Barao do Loreto, ministro do im- Dr. Jos6 Francisco Diana, minis- 

perio. tro de extrangeiros. 

Partida do ex-imperador. — Na madrugada de 17 o ex- 
imperador com sua esposa, a Sra. D. Thereza Christina, a 
princeza' Isabel, o conde d'Eu e D. Pedro Augusto, acompa- 
nhados da baroneza de Fonseca Costa, e duas damas cama- 
ristas, do marquez de Tamaiidare, do conde de Motta Maia e 
do conde de Aljezur, forao levados para bordo do cruzador 
Pamahyha aonde depois vierao juntar-se-lhes os principes, 
filhos do conde d'Eu, trazidos por seu aio, o Snr. barao de 
Eamiz. 

Ahi recebeu o Snr. D. Pedro de Alcantara, das maos do 
tenente Jeronymo Teixeira Franqa, o decreto do Governo 
Provisorio concedendo-lhe cinca mil contos para o estabeleci- 
mento de sua f am ilia na Europa, sem prejuizo de sua dotaqao 
annual.* 



* O Governo Provisorio havia feito a nomea^ao do marquez de Parana- 

gu^ para depositario e zelador dos bens e joias da familia imperial, a qual 

foi revogada em vista das procura9oes do ex-imperador e sua familia 

apresentadas pelo visconde Nogueiia da Gama e barao de Maia Monteiro. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 247 

O Pamahyba foi para a Ilha-Grande aguardar o paquete 
Alagoas, que se estava preparando convenientemente para 
conduzir a Lisboa o ex-imperador e sua familia, com prohi- 
biQao de tocar nos portos brazileiros. 

A tarde fez-se a baldeaqao de toda a familia do ex-impera- 
dor e suas bagagens do "Pamahyba" para o paquete "Ala- 
goas," que partiu comboiado pelo encoura^do "Riachuelo" 
ate transpor a Linha Equatorial. 

Adhesoes ao Governo Provisorio, — Aguarda nacional, 
o conselho supremo railitar, o tribunal da rela^ao do Rio de 
Janeiro, as escolas superiores, os homens de letras e jornalis- 
tas, emfim todas as corporacoes sociaes, assim como todas as 
provincias adherirao ao Governo republicano. 

A bandeira nacional. — "A bandeira adoptada pela 
Republica mantem a tradi^ao das antigas cores nacionaes — 
verde e amarello — do seguinte modo; um losango amarello 
em campo verde, tendo no meio a esphera celeste azul atra- 
vessada por uma zona branca, em sentido obliquo e descen- 
dente da esquerda para a direita com a legenda — Ordem e 
Progresso — e ponteada por vinte e uma estrellas, entre as 
quas as da constellaqao do Cruzeiro dispostas na situaqao 
astronomica quanto a distancia e ao tamanho relativos, repre- 
sentando os 20 estados da Republica e o districto federal. 

"Para os sellos e sinetes da Republica, serve de symbolo 
a esphera celeste, qual se debuxa no centro da bandeira, tendo 
em volta as palavras — Republica dos Estados Unidos do Brazil 
(19 de novembro de 1889)." 



248 HISTORIA DO BBAZIIi. 

iJOTAS. 

I. O imperador do Brazil, T>. Pedro II, nasceu a 2 de 
dezembro de 1825. 

Subiu ao throno a 7 de abril de 1831, na idade de 5 annos 
e 4 mezes. 

Proclamada a maioridade, assumiu o governo a 23 de jirnho 
de 1840. 

Foi sagrado e coroado no Rio de Janeiro a 18 de julho de 
1840. 

Casou-se com a princeza D. Thereza Christina, filha de Fran- 
cisco I, das Duas 8icilias, em 4 de setembro de 1843. 

Teve 4 iilhos, D. Affonso, D. Pedro, e D. Leopoldina falle- 
cidos, e D. Isabel, ex-princeza imperial, casada com o Snr. D. 
Luiz Felippe Gaston de Orleans, conde d'Eu, a qual governou 
por trez vezes o Brazil, como regente, e ligou sen nome as 
duas memoraveis leis de 28 de setembro de 1871 e de 13 de 
maio de 1888. 

Foi deposto do throno pela revoluQao de 15 de novembro 
de 1889, e banido a 16 do raesmo mez e anno em virtude de 
providencias meramente politicas, pois que foi solicitamente 
cercado de todas as mostras do maior respeito e veneraqao 
pelos grandes servigos com que se recommendara ao reco- 
nhecimento do povo brazileiro. 

Perdeu sua virtuosa consorte, a adoravel D. Thereza Chris- 
tina em Lisboa a 28 de dezembro de 1889. 

Falleceu em Paris a 5 de dezembro de 1890. 



II. primeiro congresso da Republica dos Estados Unidos 
do Brazil reuniu-se no dia 15 de novembro de 1890, um anno 
depois de proclamada a republica. 

A Constituiqao Eepublicana foi publicada nb dia 24 fie 
fevereiro de 1891. 



HISTOBIA DO BRAZIL. 249 

No dia seguinte (25) foi pelo Congresso eleito o primeiro 
Presidente da Republica Brazileira, o Generalissimo Manoel 
Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provisorio. 



O glorioso fundador da Republica Brazileira, o immortal 
general Benjamiui Constant Botelho de Magalhaes, nasceu em 
Nictheroy a 18 de outubro de 1837, foi alumno da Escola 
Militar ; serviu na guerra contra o Paraguay ; foi nomeado 
repetidor do curso superior da Escola Militar ; serviu como 
lente interino e depois como lente cathedratico da Escola 
Superior de Guerra. 

Foi tambem durante annos director do instituto dos meninos 
cegos ; e exerceu o cargo de director e professor da Escola 
Normal. "A cducaQiio nacional dispensou as maiores clari- 
dades de sen espirito, e as maiores virtudes de seu cora^ao." 

Falleceu a 21 de Janeiro de 1890. 

O Congresso votou uma pensao a sua viuva a Sra. D. Maria 
Joaquina da Costa Botelho de Magalhaes. 

A casa onde elle morreu foi comprada para proprio nacional, 
podendo sua viuva habital-a emquanto viver. 

Os brazileiros bemdirao sua memoria por suas altas virtu- 
des, sua culta intelligencia e sua inexcedivel dedicaqao ao 
bem da patria. 



QUESTIONARIO.-CAPrTULO XXX. 

— Qual o resultado da victoria de Aquidaban ? 

— Quantos ministerios forao nomeados durante a guerra do Para- 
guay ? . quaes ? 

— - De que importante questao se tratava entao? 

— Como queriamos resolvel-a no Brazil? 

— Donde dimanavao as id^as abolicionistas ? 



250 HIJBIQBIA DO IIKAZn>- 

— Quem spraeabaa ao imperador o primeiio projecto de emanci 
pSfpM)? Pcvqiie naofoi aoeito? 

— Que fez a aociedade fraooeia de aboligio? Que respoudeu D, 
Pedro n? 

^- Quando foi approrado o projecto S. Vioente? sob qae condigao : 

— Quem redigiu outro projecto ? porque nao foi aceito ? 

— Que fez o depatado Teixeira Junior? Que havia de hoto nesse 
projecto ? que resultado tere ? 

— Quem coDiieguiu a votagao dessa lei ? de que ensejo fayoravel 
B!prcfyeito\i-^e ? 

— Qual era a opiniao da regente acerca da aboligio? 

— Que gloria teve ella? Passou a lei sem o|^>osi^k>? 

— A quem se dere esta Tictoria? Como Ihe agradecerao os 
escravosV 

— Porque 6 notavel a epoca de 1880 a 1885? 

— Qual o resultado da propaganda abolicioiiista? 

— Foi o projecto Dantas bem recebido? Como se portirao os 
novos deputadosV 

— Quem conseguiu a vota^ao do projecto Dantas ? 

— Quando foi sanccionada a lei ? 

— Em que provincias nao havia escravos em 1885 ? 

— Que f aziao os abolicionistas ? 

— Que succedeu ao imperador em 1887 ? 

— Quem tomou a regenciaV Era a regente f avoraveL ou nao ^ 
aboliQao V 

— Porque opunharse tanto o barao de Cotegipe a que se fizesse 
a aboliQaoV 

— Porcjue queria a regente apressar a aboliQao ? 

— Onde ganhava mais terreno o partido republican©? 

— Que aconteceu ao ministerio Cotegipe ? Quem foi nomeado ? 

— C^ue conseguiu o ministerio Joao Alfredo? Como recebeu o 
povo a 8anc<jao da lei ? A quem mais se deve ter ella sido tao paci- 
fica!in*nt(* feita? 

— (^ue iiiipressao causou este facto na Europa? Como o i€<eb6ra 
vellio iinpirador moribundo? 

— Quando voltou D. Pedro II? Como foi recebido? 
^^J/e que modo deseuYoiveu-«e o partido republicano? 



HISTOBIA DO BRAZIL. 251 

— Quern predissera o que se estava realisando V 

— Que miiiisterio succedeu ao conservador V Com que fim foi 
chamado o Sur. Visconde do Ouro-Preto? 

— Como se achava o partido republicano ? 

— Que acontecimentos se derao no dia 11 de junho por occasiao de 
apresentar-se o novo niinisterio is camaras*^ 

— A dissoluQHO da camara enfraqueceu os republicanos? 

— Que aconteceu em 15 de julho? Que fez o Visconde do Ouro- 
Preto V Qual o resultado das elei^oes V 

— Desde quaiido os militares cogit^ao de intervir nas questoes 
f^ociaesV Que fez o governoV com que resultadoV 

— .Conio-se resolveu a primeira questao militar? A segunda*" 

— Qual o fim da expedi^ao de Matto-Grosso V Qual o efEeito 
dessas medidasV 

— Que actos do ininisterio Ouro-Preto irritirao mais os militares? 

— Que fizerao os officiaesV A quern forao os documentos en- 
tregues? para que fim? 

— Como procedeu o teuente-coronel dr. Benjamiiy Constant ? 

— Onde fez um discurso publico? Sobre que? Que f ez elle ao 
receber a manifestagao da 2.* brigada ? 

— Que medidas tomou o govemo ? com que resultado ? 

— Qual era a principio a intengao dos conspiradores ? e depois ? 
para que fim ? Porque ? 

— A que partido se alii^rao os militares ? Quaes os chef es do 
partido republicano ? 

— Que acontecimentos se derao na noite de 9 de novembro ? 

— No dia 1 1 que fizerao os chefes ? Que pessoas estavao com elles ? 

— Como forao avisadoa os republicanos das provincias ? 

— Que ordens deu o governo no dia 12 ? porque ? que fez o capitao 
Menna Barreto ? 

— Que fazia a imprensa opposicionista ? 

— A quem communicou o marechal Deodoro o piano da revolta? 
Que objecQao fez-lhe o ajudante-general ? Como a destruiu o marechal ? 

— Que ordens forao dadas aos revoltosos na noite de 14 ? 

— Que fazia entao o governo? o presidente do conselho? 

— Que havia defronte da Secretaria da guerra? Que batalhoes 
ahi 86 reunirao ? 



OJcn^^TiiezLcaifr aiiiuiil ' >iiTii]«i^ i*™^ ^^gy ftm, in^tti^zBBiio ao 

— *I»aiiK -iaCBn i jffitfn*. \, mHTicii Bacr»&; ^ -jut 5« - 

— ••^laotni rrit^ggjii M-^nrs- Sfi7ncnii:> A;gc^»*^aat|»M>Femz? 



— •^i*? :i:ft*trrn;ai: >m : ~iiiU?Hm;L. Fji:csui»:- iVixt^o^ 

— */»*• r^5C«:cjii*ar-Ia*f . T>io:ii»a* -ii. f^iiu-P^rto- t^iipe •iits<!ie entic 

— F'jno c<i T-r.fs m-rts. pressor ? 

— Que n^eiot? «ie r*r>i^eDeia n^:»taT^> ao ministerio ? 

— Que elfeito prr«iuzia sobnr a eidade a nodcia desle acont^ci- 
UteriUj'f Que nzerSo o* chefrs nepublicanoe ? 

— Corno foi p^roclazfiaiia a ne-publica ? 

— Coriio loi conv>pon«lida e>ta f>n>claiiiacio pelos soldados e jieh) 
povo? a que horas? eomo foi este momento consagrado? Para 
orifle dirigio-se o rnarechal? Como Toltou para o Campo? 

— Que rnedida-s forao logo tomadas ? 

— Queifi foi acclamado chefe do gOTemo? 

— Quern forao os outros rnembros ? quern os nomieou ? 

— Que Y^roclarna^ao pul>Jicdrao? 

— Qual foi o 1.** decreto do Govenio Provisorio? 

— - Que outran medidas forao tomadas pelo govemo? 

Que acontecimentos se derao na Camara Municipal? 

— Quern aprovou este acto? quando? como? 



HISTORIA DO BRAZIL. 253 

— Que formalidade cumprirao na Camara Municipal os raembros 
do Governo Provisorio? 

— Onde estava o imperador no dia 15 de novembio? 

— Que fez o monarcha ao receber o telegrainnia do visconde do 
Ouro-Preto? Quando chegou d capital? para onde foi? que pessoas 
forao ao pa^ ? de que Id tratdrao ? 

— Queni relatou ao imperador os successos do dia ? corao estava 
o paQo guardado? que fizerao ahi durante a uoite? 

— Que ordens de prisao deu o nuuechal Deodoro na manha de 16 ? 

— Que foi feito do visconde do Ouro-Preto V 

— Que foi ordenado relativaniente ao imperador e sua familia? 

— Quem entregou a D. Pedro a mensageni do Governo Provisorio ? 

— Que se declarava nesta mensagem V Como foi respondida? 

— Em que dia embarcou o ex-imperador para a Europa V 

— Com quem partiu elle V Em que navio ? 

— Que decreto do Governo Provisorio recebeu o Snr. D. Pedro de 
Alcantara a bordo do "Parnahyba"? quem o entregou? 

— Onde aguardou o "Parnahyba" o paquete "Alagoas"? Aonde 
devia "Alagoas" levar o ex-imperador e sua familia? 

— Quando se fez a baldeagao? Que encouragado comboiu o 
"Alagoas"? at6 que ponto? 

— Que corporagoes adherirao ao Governo republicano? 

— Que bandeira adoptou a Republica Brazileira ? Qual o symbolo 
dos sellos e sinetes da Republica ? 



254 HI^TORIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XXXI. 

O BBGI3reX FEDERATIVO DESDE A PRESIDEXCIA DE 
DEl>DORO DA Fi>NSECA ATE A PRESIDENCIA CIVIL 
DE PRCDEXTE DE MORAE8. 

1891-1894. 

A mndaDqa do systema goTemamental de monarchieo para 
repnblicano nio se havia de effeetnar com a facilidade que se 
presagiava na mareha rapida e relatiramente pacifica dos mo- 
meutosos aeontecimentos de 15 de novembro, tanto que a 
primeira decada da historia da Republica se resente de lutas 
renhidas e sangrentas. Estas, embora sejam paginas brilhantes 
de bra\Tira e heroismo, possuem maior valor ainda pelo facto de 
constituirem uma phase mui significativa da eroluQao nacioual, 
phase em que o poTO, ^ custa de terriveis sacrificioSy se foi 
acostumando ao novo regimen. 

Presldencia de I>eodoro. — Gra^ aos meritos adquiridos 
no dia 15 de novembro e no decurso do Governo Provisorio, 
embora tivesse havido forte opposiqao, venceu a candidatura 
do Generalissimo Deodoro e este, de accordo com as disposiqoes 
transitorias da nova Constituigao, foi devidamente eleito no dia 
25 de fevereiro de 1891 d primeira presidencia da Republica, 
tomando posse no mesmo dia. Para vice-presidente foi eleito 
o marechal Floriano Peixoto. 

Nao tardou que se manifestassem as mais graves dissidencias 
entre o Congresso e o Presidente, allegando-se de parte a parte 
varios motivos de ordem politica ou militar, sendo certo que 
/>ara a opposiQao nao pouco estimulo se encontrou na derrubada 



HISTORIA DO BRAZIL. 255 

geral dos governos locaes em todos os Estados cujos represen- 
tantes haviam deixado de suffragar o nome do Generalissimo, 
costume politico este jd arraigado desde os tempos do imperio. 
Keunido de novo o Congi'esso em 15 de julho de 1891, tentou- 
se um accordo, porSm foram baldados todos os esforQos, e os 
attrictos entre os poderes executive e legislative cresceram 
e se amiudaram tanto que alinal Deodoro resolveu a dissolve! 
o Congresso. 

Golpe de Cstado (3 de novembro de 1891). — Nesta data, 
apezar de terem corrido boatos da proxima dissoluqao do Con- 
gresso, foi motive de geral estranheza a publicaQtio do decreto 
de 3 de novembro para aquelle lim, vedando-se a entrada dos 
congressistas nos edificios onde funccionavam as duas camaras 
pela coUocaqao alii de corpos do exereito. No mesmo dia Deo- 
doro publicou um manifesto justificando o seu acto, compromet- 
tendo-se a governar com a Constitui^ao e a garantir a liberdade 
e OS direitos a todos ; ao mesmo tempo, para a manutengao da 
ordem decretou o estado de sitio na Capital Federal e na cidade 
de Nictheroy. 

Comquanto, tomados assim de surpresa, se vissem assim os 
congressistas sem meios de se vindicarem pela f orga, nao demo- 
raram a agir com energia contra a dictadura, tanto que se com- 
binou uma forte camganha em todos os Estados no sentido de 
se promover meios de a destituir, publicando-se um contra-mani- 
festo que deveria ser assignado por todos os senadores e depu- 
tados que nao adherissem Quelle golpe. Esse contra-manifesto, 
redigido por (.^ampos Salles, appareceu em Sao Paulo com a 
data de 9 de novembro. Na chefia da reac^ao destacaram-se 
muitos dos mais illustres antigos propagandistas da Eepublica, 
que se denominaram " republicanos historicos," como tambem 
militares de alta patente do exereito e da armada. Entre estes 
sobresahiam Floriano Peixoto e Jos^ Simeao no exereito, e na 
armada Custodio Jos^ de Mello e Wandenkolk. 



i-Tn Hzs^ajii i«> pia.%J7r,. 



Tn-^-TH-^e ^^"i: iniii lira. T^mr^-hL ^az.^ !M» Estados oomo 
ZiL '.j.-L^ T-^littn^ Til fe^ecj : Tc**gayrse- de Sio Faulo, 
xie "T^'^ii- iifjiJtHralf: i izifOtrim fciufizi ^ nuesna msurgiram- 
ik*r 1:*^ f r!as f-^tnr-r ij. rTaz!L3»^ '5:' Ri>«jrmde do Sol ; e na 
l•:^^^ i«: i:ii. Z^: le x«:«'-aL":r: '>^l*hC!a^£-•:«x Lasro Mailer. gOTer- 
2Uii«:c itir Slzzl *■. w.hiiT^A -^ ijn?>g: r«s»j«I de l>eodGitx em ter- 
3i*:i* felDrajLi'.a' 3«:c4iii ^^rniizsiz.'^f^ iiazifrSCkado a saa recosa de 
ic«:D: 1*: jr:LT*r S- -e-?ra*i'^ Xa CAr-cal Feiieril •>> officiaes da 
-*^::2iLLrA fi:cr?^,riir-iZL r»fazir-*e. ^rZii:- n^tsc^iindo a^r de promp- 
'i.r^ rr ZA ^r^:^^'"'■I !• lui. ^ n.'cifcHSLriaL ;& 2E!»>^er-5e na bahia de 
G'likzacajri i> T::L:«Lu>r^ Iir z::tr^a^ :5oc- %> «»niinando do eontra- 
^It-.t-it^z^ Ki^c*ii': J .:5^ ie MeZo*. q:ae for xan tiro de canhio 
:s:rc*r i "iT»:ii ii •, iz^Iirlikr^ inrfnoa a depceicio do goTemo. 

• "onTrij-jio li izL:LtiIi'i:ift>r de 'i^i^iiaer lesisteneia. Deodoro 
T^iil-z in-'trrriz.eiiTfr crfi 5e:L< !iii:i5>rra5 e renunekKi o poder. que 
f'li •rnir^^'e i>:- Tj>r-v ■:ir:>5i'rn!:fr da Bepabfka. maieehal Floriano 

Frr. r»:»:-iii:Te ziiinifef :.: eiirio rezoemoioa os servi^os prestados 
ac- laiz .r ;:L5tir::v-:i i >'.Li r^erirtid:!. remiicaxido-a com estas pala- 
vras : ~ ^^-^I*r^^>:I:r d-.^ iiie:LS boos companheiros e amigos, 
o'lr s^mi-rv s^ me .^^riservuraci fieis, e dirijo mens votes ao Todo 
P'>i-rr>>:' r«rl:i r-trn-ersa T>r»?!5r^ridade e eiescente floreseimento 
do iL^i iiiiad'? Brazil" RetirandcHse em segoida a rida pri- 
vr./ii. .-irvjui.:. f.>b r^ ix\det:-iiiieiit06 da grave doen^ que ha 
ti^riu TIT'S o huviit ar;irtid-\ viveu o Generalissimo no socego de 
sua ciLsa ate o dia 'JS de agasto de 1892, qoando expirou o 
^rande jjatriota. Xo senado fez-se o sen elogio funebre pelo 
verry> de CamjHjs Salles. que propoz fosse snspensa a sessao 
da/^juelle dia. omirtida a do dia se^rninte. e qne fosse nomeiada 
nrna rornrnissao ]»ara representar o senado nos funeraes do 
illu?itre rnorto. 

Prewideneia de Floriano Peixoto (23 de novembro de 
1891 a 15 de novembro de 1894). — Assumindo as redeas do 



HISTORIA DO BKAZIL. 257 

governo, o vice-presidente convocou uma reuniao extraordinaria 
do Congresso que se realizou no dia 13 de dezembro de 1891 
e continuou ate o dia 22 de Janeiro do anno seguinte. Foram 
approvados todos os actos do governo, inclusive a deposiqao de 
todos OS governadores de Estados que houvessem adherido i, 
causa de Deodoro. 

No enitanto, nao cessarani de agir os amigos do regimen 
anterior, pois no dia 19 de Janeiro deu-se uma revolta na 
fortaleza de Santa Cruz, e no dia 10 de abril houve certo 
levantamento popular na Capital. Aquella foi suffocada pelo 
bombardeamento da fortaleza, e este pela proclamagao de estado 
de sitio por 72 horas e uma manifestaqao da forqa armada. Os 
tumultuosos dispersaram-se e o incidente acalx)u pacificamente. 
Comtudo, foram presos muitos civis e militares, dos quaes 
alguns iicaram encerrados nas fortalezas do porto, e outros 
foram deportados para o Alto Amazonas, sendo todos amnis- 
tiados a 19 de setembro de 1895. 

No entretanto, surgiu no seio do Congresso grande polemica 
sobre si deveria proceder d nova elei^ao, ou si devia o vice-presi- 
dente continuar a governar ate completar-se o primeiro periodo 
presidencial. Baseiaram-se os da primeira parte no art. 42 da 
Constituiqao (q.v.), ao passo que os da segun da parte invoca- 
vam o § 2** do ai*t. 1** das disposiqoes transitorias. Sendo con- 
trario ^ nova eleiqao o relatorio da cjommissao do senado, este 
decidiu por 27 votos contra 7 que nao houvesse nova elei^ao. 

Guerra Civil no Rio Grande do Sul. — Velhas questoes 
historicas, cujos motivos jiC foram por nds referidos, traziam 
em constante ebuUiqfio a ])olitica local do grande Estado do sul, 
sendo notavel que durante os prime iros 3 annos da Republica 
o Estado contou nada menos de 19 governadores, que eram 
elevados e depostos a caprieho do povo. 

Sem entrarmos nos detallies, basta aqui referir que se degla- 
diavam dois partidos principals, a saber, os federalistas^ que ^e 



258 HISTORIA DO BRAZIL. 

achavam em geral na opposiqao, e eujos chefes contavam gran- 
des caudilhos como Joca Tavares, Gumercindo Saraiva e o 
Coronel Salgado, patente do exercito federal ; e da outra parte, 
OS legallstas ou Castllhistas, assiin denoininados pelo duplo 
facto de terem por chefe o dr. Julio de Castilhos, que por sua 
vez soubera conquistar o apoio tanto de Floriano comp de seu 
antecessor, marechal Deodoro, enibora aquelle ao primeiro se 
declarasse neutro. 

Aconteceu, pois, que ein junho de 1892 existiam no Estado 
de E,io Grande do Sul dois governos, o dosfederalistasy em 
Bage, tendo a frente o activo caudilho Joca Tavares, e o dos 
legalistas, em Porto Alegre, chefiado pelo dr. Julio de Castilhos, 
que depois entregou o poder ao dr. Victorino Monteiro. 

Houve de parte a parte refregas entre os numerosos bandos 
de patriotas, que se haviam incorporado is forqas do general 
Tavares, e as forqas estadoaes, alternando-se as vantagens de 
um a outro lado. No entretanto, contra a expectativa de Tava- 
res, inter vieram na luta as forqas federaes, que, unindo-se aos 
legalistas, marcharam contra o acampamento dos federalistas 
em Bage e obrigaram-nos a capitular. Foram dissolvidas as 
tropas do general Tavares e este com muitos outros chefes 
importantes emigraram para alem da fronteira. Assim ter- 
minou a primeira phase da revoluQao. 

Primeira Invasao dos Federalistas (2 de fevereiroa 10 
de agosto de 1893). — Os mezes de treguas que entao suc- 
cederam apenas deram ensejo para os preparativos da re- 
novaqao da luta, pois, ao passo que os revolucionarios iam 
recel)endo reforqos dos emigrados que, i, for^ da renhida 
perseguiqao das forqas federaes, haviam fugido dos seus lares, 
buseando asylo alem da fronteira, ao mesmo tempo os castl- 
lhistas tratavam de assegurar ainda mais o apoio do governo 
federal, que nos vapores Itaoca e Itatyaia remetteu para o 
sul importantes subsidios de material bellico. 



HISTORIA DO BRAZIL. 259 

Afinal, OS federalUtas, sob o commando de Gumercindo 
Saraiva e Vasco Martins, transpozeram a fronteira no dia 2 
de fevereiro de 1893, tendo sido o sen contingente de 600 
homens logo augmentado com as tropas de Joca Tavares, che- 
gando a attingir o exercito federalista a um effectivo de 3200 
homens, sem entrar na conta diversos grupos que agiam em 
separado por diversos partes do Estado. 

As forqas legalistas, sob o commando do coronel Arthur 
Oscar, conseguirani circumdar o contingente de Tavares, iso- 
lando-o das f orqas de Gumercindo, porem Tavares poude evitar 
habihnente um com bate e, fazendo rapido movimento contra 
D. Pedrito, apoderou-se desse ponto em seguida i, sanguino- 
lenta batalha da Lagoa Branca, a 10 leguas de Alegi*ete, onde 
se acampou. Depois de 2 dias de descanso nesse ponto, Joca 
Tavares moveu-se contra Alegrete, mas foi logo enf rentado pela 
Divisaq do Xorte sob as ordens do general Gomes Machado 
que o forqou a entrar em com bate em Inhanduhy, onde os 
federalistas soffrei*am uma grande derrota, internando-se depois 
Joca Tavares e sens chefes no Estado Oriental e entregando 
todas as suas armas aos castelhanos. A 6 de junho foram 
dispersadas as suas forqas. 

' No entremeio, Gumercindo, com 500 homens, ha via voltado 
para o interior do Estado e assumia a suprema direcqao das 
for^s revolucionarias. Perseguido pelos generaes Rodrigues 
Lima e Pinheirb Machado, foi forqado a transpor a nado o rio 
Janguary ; porem, reunindo a sua gente, conseguiu uma grande 
vantagem na batalha da Cerradilha, onde foi gravemente ferido 
o general Menna Barreto. Afinal, retirou-se Gumercindo para 
;Lavras, e achavam-se em vias de fazer as pazes os combatentes, 
quando se deu importante successo na Capital Federal. 

Defec<jao do Almirante Wandenkolk. — Partiu do Kio 

para Montevideo, em junho de 1893, o almirante Wandenkolk, 

.com a declarada intenqao de tomar parte na luta contra oa 



ifiO HISP>EIA DO BE^m, 

eascilhsscae. acc»j q:>r. tss^o & ua p>s»o e o gnnde prestir 
g^ dcSae o&-^&Iy ^xe o e&iso de neaniimr os federalistas e 
adftst&r as p«jis&ir-Ll^idiics de- se termiaar & lata fntiieidaL 

O almrrar.^ =o-ib^ Ti5:irx«kr a dir^<^k> do Jm^fUer, no qoal 
c«n«e2Tiia f«:-rear a bam do Rso Grande e assenhoitear-se do 
Darkp iDer^an^r ItnU't, £Vr«t>G.«i»> o goremo mmiieipal de S. 
Joa^ do y<[tftir r ii>»rT*>rando al^ons cootiiigeiites de revolDcio- 
narioe. logo pyidr •:ar*?aiar a tjanhcneiia laowrM ochu toda 
a offidalidade. e esu brE-re lennm a sua esqoadia mais dois 
rebocadores. 

Apezar do exito tat> brilhaiite de sea goipe, o ahniiante 
foi logo repellido para a tarra e o J^pUfr tere de letiiar- 
se para o norte. s«>ndo aprisonado no dia 13 de jullio pelo 
BajruhiM. O desgracado official foi preso e leTado £ Ca- 
pital FederaL onde por conselho de guerra f<M jidgado reu 
de morte, aeto este que teve grande repereossio entre os 
offieiaes da marinha e dea motivo immediate a que rompesse 
a celebre revolta da Armada. 

A BE VOLT A DA AB>[ADA. 

MotiTos e Principios da ReTolta. — A Inta travada entre 
o govemo constitucional e os revolaeionarios do snl veia unir- 
se entao inaLs um elemento j^ioderoso na Capital da Bepublica 
onde se desenrolou uina a<:*cao horrivel de eombate ao Grovemo 
central por parte dos seus adversaries, eonflieto que, embora 
fratricida, evirlenr-iou [xn- todos os modos as qualidades varonis 
e guerreii*as dos brazileiros. 

A 6 de setembro de 1893 a esquadra nacional revoltoii-se na 
Vxihia de Guariabara, hasteando no Af/uulaban a bandeira branca 
que syrnbolLsava a revolta. 

O alinirante Custodio Jose de Mello que dirigiu o moyimento 
fdra inimigo cerrado do govenio do niareehal Deodoro; por^m, 
com o advento de Floriano ao poder, tomara assento no goyemo 



252 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Onde estava o tenente-coronel dr. Benjamim Constant? que 
providencias tomou? porque poude chegar sem impedimento ao 
Campo da Acclamagao? 

— Onde estava o general Almeida Barreto ? que fez V 

— Quando chegdrao os Snrs. Quintino, Aristides e Sampaio Ferraz ? 

— Que aconteceu ao ministro da marinha ? 

— Como se portou o tenente Penna ? 

— Quern acudiu ao barao V Como foi tratado V 

— Quem o def endeu ? Quem salvou o ministro V 

— Que intima^ao foi feita ao ministerio V por quem ? como foi 
a intimagao recebida? 

— Que observagao fez o marechal Floriano Peixoto ? 

— Que respondeu-lhe o visconde do Ouro-Preto V Que disse entao 
o marechal? que resolu^ao tomou o visconde? 

— Quando entrou no quartel o marechal Deodoro ? Como ? 

— Que fez o marechal ? 

— Porque telegraphou o visconde para Petropolis pediiido a de- 
missao do ministerio? 

— Que disse ao presidente do conselho o marechal Deodoro ? 

— Forao os ministros presos ? 

— Que batalhao chegou nessa occasiao ao Campo ? a quem acom- 
panhava? porque Id. nao estava? 

— Que meios de resistencia restavao ao ministerio ? 

— Que effeito produziu sobre a cidade a noticia deste aconteci- 
mento? Que fizerao os chefes republicanos ? 

— Como foi proclamada a republica ? 

— Como foi correspondida esta proclamagao pelos soldados e pelo 
povo? a que horas? como foi este momento consagrado? Para 
onde dirigiu-se o marechal? Como voltou para o Campo? 

— Que medidas forao logo tomadas ? 

— Quem foi acclamado chefe do governo ? 

— Quem forao os outros membros ? quem os nomeou ? 

— Que proclama^ao publicd,rao? 

— Qual foi o 1.® decreto do Governo Provisorio? 

— Que outras medidas f Orao tomadas pelo governo ? 

— Que acontecimentos se derao na Camara Municipal ? 
— Quem aprovou este acto? quando? como? 



HI8T0RIA DO BRAZIL. 263 

— Que formalidade cumprirao na Camara Municipal os membros 
do Govern o Provisorio? 

— Onde estava o imperador no dia 15 de novembro? 

— Que fez o inonarcha ao receber o telegramma do visconde do 
Ouro-Preto? Quando chegou d capital? para onde foi? que pessoas 
forao ao pago? de que \i. tratilraoV 

— Quein relatou ao imperador os successos do dia V conio estava 
o pago guardado? que fizerao ahi durante a noiteV 

— Que ordens de prisao deu o niarechal Deodoro na manha de 16? 

— Que foi feito do visconde do Ouro-Preto? 

— Que foi ordenado relativaniente ao imperador e sua f amilia ? 

— Quern entregou a D. Pedro a mensagem do Governo Provisono ? 

— Que se declarava nesta mensagem ? Como foi respondida ? 

— Em que dia embarcou o ex-imperador para a Europa ? 

— Com quem partiu elle ? Em que navio ? 

— Que decreto do Governo Provisorio recebeu o Snr. D. Pedro de 
Alcantara a bordo do "Parnahyba"? quem o entregou? 

— Onde aguardou o "Parnahyba" o paquete "Alagoas"? Aonde 
devia "Alagoas" levar o ex-imperador e sua f amilia? 

— Quando se fez a baldeagao ? Que encouragado comboiu o 
"Alagoas"? at6 que ponto? 

— Que corporaQoes adherirao ao Governo republicano ? 

— Que bandeira adoptou a Republica Brazileira ? Qual o symbolo 
dos sellos e sinetes da Republica ? 



254 HISTORIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XXXI. 

O REGIMEN FEDERATIVO DESDE A PRESIDENCIA DE 
DEODORO DA FONSECA AT6 A PRESIDENCIA CIVIL 
DE PRUDENTE DE MORAES. 

1891-1894. 

A mudanqa do sy sterna go vernamental de monarchico para 
republicano nao se havia de effectnar com a facilidade que se 
presagiava na marcha rapida e relativamente pacifica dos mo- 
inentosos acontecimentos de 15 de novembro, tanto que a 
primeira decada da historia da Republiea se resente de lutas 
renhidas e sangrentas. Estas, embora sejam paginas brilhantes 
de bravura e heroismo, possuem maior valor ainda pelo facto de 
constituirem uma phase mui significativa da evolugao nacional, 
phase em que o povo, d custa de terriveis sacrificios, se foi 
acostumando ao novo regimen. 

Presidencia de Deodoro. — Gramas aos meritos adquiridos 
no dia 15 de novembro e no decurso do Governo Provisorio, 
embora tivesse havido forte opposigao, venceu a candidatura 
do Generalissimo Deodoro e este, de accordo com as disposiqoes 
transitorias da nova Constituigao, foi devidamente eleito no dia 
25 de fevereiro de 1891 d primeira presidencia da Eepublica, 
tomando posse no mesmo dia. Para vice-presidente foi eleito 
o marechal Floriano Peixoto. 

Nao tardou que se manifestassem as mais graves dissidencias 
entre o Congresso e o Presidente, allegando-se de parte a parte 
varios motivos de ordem politica ou militar, sendo certo que 
para a opposi^ao nao pouco estimulo se encontrou na derrubada 



HI8T0RIA DO BRAZIL. 255 

geral dos governos locaes em todos os Estados cujos represen- 
tantes haviam deixado de suffragar o nome do Generalissimo, 
costume politico este j^ arraigado desde os tempos do imperio. 
Eeunido de novo o Congi-esso em 15 de julho de 1891, tentou- 
86 um accordo, porSm foram baldados todos os esforqos, e os 
attrictos entre os poderes executivo e legislativo cresceram 
6 se amiudaram tanto que alinal Deodoro resolveu a dissolver 
o Congresso. 

Oolpe de Estado (3 de novembro de 1891). — Xesta data, 
apezar de terem corrido boatos da proxima dissolugao do Con- 
gresso, foi motivo de geral estranheza a publicaqtio do decreto 
de 3 de novembro para aquelle fim, vedando-se a entrada dos 
congressistas nos edificios onde funccionavam as duas camaras 
pela collocagao alii de corpos do exercito. No mesmo dia Deo- 
doro publicou um manifesto justificando o sen acto, compromet- 
tendo-se a governar com a Constituigao e a garantir a liberdade 
e OS direitos a todos ; ao mesmo tempo, para a inanutenQao da 
ordem decretou o estado de sitio na Capital Federal e na cidade 
de Nictheroy. 

Comquanto, tomados assim de surpresa, se vissem assim os 
congressistas sem meios de se vindicarem pela f orqa, nao demo- 
raram a agir com energia contra a dictadura, tanto que se com- 
binou uma forte camganha em todos os Estados no sentido de 
se promover meios de a destituir, publicando-se um contra-mani- 
festo que deveria ser assignado por todos os senadores e depu- 
tados que nao adherissem Quelle golpe. Esse contra-manifesto, 
redigido por (-ampos kSalles, appareceu em Sao Paulo com a 
data de 9 de novembro. Na chefia da reacqao destacaram-se 
muitos dos mais illustres antigos propagandistas da Kepublica, 
que se denominaram " republicanos historicos," como tambem 
militares de alta patente do exercito e da armada. Entre estes 
sobresahiam Floriano Peixoto e Jos^ Simeao no exercito, e na 
armada Custodio Jos^ de Mello e Wandenkolk. 



256 HISTORIA DO BRAZIL. 

Travou-se entao uma luta temivel, tanto'nos Estados como 
na Capital Federal. Foi deposto o presidente de Sao Paulo, 
que tinha adherido a dictadura; contra a mesma insui-giram- 
se as forqas f ederaes da guarniqao do Kio Grande do Sul ; e na 
noite do dia 23 de novembro telegraphou Lauro Muller, gover- 
nador de Santa Catharina e amigo pessoal de Deodoro, em ter- 
mos delicados por^in terminantes, manifestando a sua recusa de 
apoio ao golpe de estado. Na Capital Federal os officiaes da 
esquadra conseguiram reunir-se, tendo resolvido agir de promp- 
to, e na man ha do dia 23 comeqaram a mover-se na bahia de 
Guanabara as unidades de guerra, sob o commando do contra- 
almirante Custodio Jose de Mello, que por um tiro de canhao 
sobre a cupola da Candelaria intimou a deposiqao do governo. 

Convencido da inutilidade de qualquer resistencia, Deodoro 
reuniu incontinente os sens ministros e renunciou o poder, que 
foi entregue ao vice-presidente da Republica, marechal Floriano 
Peixoto. 

Em tocante manifesto entao rememorou os serviQOS prestados 
ao paiz e justificou a sua retirada, terminando-a com estas pala- 
vras : " DespeQO-me dos mens bons companheiros e amigos, 
que sempre se me conservaram fieis, e dirijo meus votos ao Todo 
Poderoso pela perpetua prosperidade e crescente florescimento 
do meu amado Brazil." Retirando-se em seguida ^ vida pri- 
vada, curvado sob os padecimentos da grave doenqa que ha 
tempos o havia atacado, viveu o Generalissimo no socego de 
sua casa at^ o dia 23 de agosto de 1892, quando expirou o 
grande patriota. No senado fez-se o seu elogio funebre pelo 
verbo de Campos Salles, que propoz fosse suspensa a sessao 
daquelle dia, omittida a do dia seguinte, e que fosse nomeiada 
unia comniissao ])ara representar o senado nos funeraes do 
illustre morto. 

Presidencia <le Floriano Peixoto (23 de novembro de 
1S91 n 15 de novembro de 1894). — Assumindo as redeas do 



HISTORIA DO BRAZIL. 257 

governo, o vice-presidente convocou uma reuniao extraordinaria 
do Congresso que se realizou no dia 13 de dezembro de 1891 
e continuou ate o dia 22 de Janeiro do anno seguinte. Foram 
approvados todos os actos do governo, inclusive a deposiqao de 
todos OS governadores de Estados que houvessem adherido a 
causa de Deodoro. 

No em tan to, nao cessaram de agir os amigos do regimen 
anterior, pois no dia 19 de Janeiro deu-se uma revolta na 
fortaleza de Santa Cruz, e no dia 10 de abril houve certo 
levantamento popular na Capital. Aquella foi suffocada pelo 
bombardeamento da fortaleza, e este pela proclamaqao de estado 
de sitio por 72 horas e uma manifestaqao da forqa armada. Os 
tumultuosos dispersaram-se e o incidente acabou pacificamente. 
Comtudo, foram presos muitos civis e militares, dos quaes 
alguns iicaram encerrados nas fortalezas do porto, e outros 
foram deportados para o Alto Amazonas, sendo todos amnis- 
tiados a 19 de setembro de 1895. 

No entretanto, surgiu no seio do Congresso grande polemiea 
sobre si deveria proceder d nova elei^ao, ou si devia o vice-presi- 
dente continuar a governar ate completar-se o primeiro periodo 
presidencial. Baseiaram-se os da primeira parte no art. 42 da 
Constituiqao (q.v.), ao passo que os da segunda parte invoca- 
vam o § 2*^ do art. 1° das disposigoes transitorias. Sendo con- 
trario d nova eleiqao o relatorio da commissao do senado, este 
decidiu por 27 votos contra 7 que nao houvesse nova eleiqao. 

Guerra Civil no Rio Grande do Sul. — Velhas questoes 
historicas, cujos motivos j^ foram por n6s referidos, traziam 
em constante ebulliqao a politica local do grande Estado do sul, 
sendo notavel que durante os primeiros 3 annos da Republica 
o Estado contou nada menos de 19 governadores, que eram 
elevados e depostos a capricho do povo. 

Sem entrarmos nos detalhes, basta aqui referir que se degla- 
diavam dois partidos principaes, a saber, os federalistas^ que ae 



258 HISTORIA DO BRAZIL. 

achavam em geral na opposiqao, e eujos chefes contavam gran- 
des caudillios como Joca Tavares, Gumercindo Saraiva e o 
Coronel Salgado, patente do exercito federal ; e da oiitra parte, 
OS legallstas ou Castllhlstas, assiin deiiominados pelo duplo 
facto de terem por chefe o dr. Julio de Castilhos, que por sua 
vez soubera conquistar o apoio tanto de Floriano comp de seu 
antecessor, marechal Deodoro, enibora aquelle ao primeiro se 
declarasse neutro. 

Aconteceu, pois, que em junho de 1892 existiam no Estado 
de Rio Grande do Sul dois govenios, o dosfederalistasy em 
Bage, tendo ^ frente o activo caudilho Joca Tavares, e o dos 
legallstas, em Porto Alegre, cheiiado pelo dr. Julio de Castilhos, 
que depois entregou o poder ao dr. Victorino Monteiro. 

Houve de parte a parte refregas entre os numerosos bandos 
de patriotas, que se haviam incorporado is forgas do general 
Tavares, e as forqas estadoaes, alternando-se as vantagens de 
um a outro lado. No entretanto, contra a expectativa de Tava- 
res, intervieram na luta as forqas federaes, que, unindo-se aos 
legalistas, marcharam contra o acampamento dos federalistas 
em Bage e obrigaram-nos a capitular. Foram dissolvidas as 
tropas do general Tavares e este com muitos outros chefes 
importantes emigraram para alem da fronteira. Assim ter- 
minou a primeira phase da revoluQao. 

Primeira Invasao dos Federalistas (2 de fevereiroa 10 
de agosto de 1893). — Os mezes de treguas que entao suc- 
cederam apenas deram e use jo para os preparatives da re- 
novaqao da luta, pois, ao passo que os revolucionarios iam 
receliendo reforqos dos emigrados que, i, forga da renhida 
perseguiqao das forqas federaes, haviam fugido dos seus lares, 
buscando asylo alem da fronteira, ao mesmo tempo os casti- 
Ihistas tratavam de assegurar ainda mais o apoio do governo 
federal, que nos vapores Itaoca e Itatyaia remetteu para o 
sul importantes subsidios de material bellico. 



HISTORIA DO BRAZIL. 259 

Afinal, OS federalUtas, sob o commando de Gumercindo 
Saraiva e Vasco Martins, transpozeram a fronteira no dia 2 
de fevereiro de 1893, tendo sido o sen contingente de 600 
homens logo augmentado com as tropas de Joca Tavares, che- 
gando a attingir o exercito federalista a um effectivo de 3200 
homens, sem entrar na conta diversos grupos que agiam em 
separado por diversos partes do Estado. 

As forqas legalistas, sob o commando do coronel Arthur 
Oscar, conseguiram circumdar o contingente de Tavares, iso- 
lando-o das forqas de Gumercindo, por^m Tavares poude evitar 
habilmente um com bate e, fazendo rapido movimento contra 
D. Pedrito, apoderou-se desse ponto em seguida i, sanguino- 
lenta batalha da Lagoa Branca, a 10 leguas de Alegrete, onde 
se acampou. Depois de 2 dias de descanso uesse ponto, Joca 
Tavares moveu-se contra Alegrete, mas foi logo enfrentado pela 
Divisaq do Xorte sob as ordens do general Gomes Machado 
que o forqou a entrar em com bate em Inhanduhy, onde os 
federalistas soffreram uma grande derrota, internando-se depois 
Joca Tavares e sens chefes no Estado Oriental e entregando 
todas as suas armas aos castelhanos. A 6 de junho foram 
dispersadas as suas forqas. 

' No entremeio, Gumercindo, com 500 homens, havia voltado 
para o interior do Estado e assumia a suprema direcQao das 
for^s revolucionarias. Perseguido pelos generaes Rodrigues 
Lima e Pinheirb Machado, foi forqado a transpor a nado o rio 
Janguary ; por§m, reunindo a sua gente, conseguiu uma grande 
vantagem na batalha da Cerradilha, onde foi gravemente ferido 
o general Menu a Barreto. Afinal, retirou-se Gumercindo para 
.Lavras, e achavam-se em vias de fazer as pazes os combatentes, 
quando se deu importante successo na Capital Federal. 

Oefec^ao do Almirante Wandenkolk. — Partiu do Rio 
para Montevideo, em junho de 1893, o almirante Wandenkolk, 
.com a declarada intenqao de tomar parte na luta Gonfo:^. oe* 



260 HISTORIA DO BRAZIL. 

castilhistas, acto que, visto a alta posiqao e o grande presti- 
gio desse official, teve o effeito de reanimar os federalistas e 
afastar as possibilidades de se terminal a luta fratricida. 

almirante soube usurpar a direcgao do Jupiter, no qual 
conseguiu forqar a barra do Rio Grande e assenhorear-se do 
navio mercante Italia. Depondo o governo municipal de S. 
Jos^ do Norte e incorporando alguns contingentes de revolucio- 
narios, logo poude capturar a canhoneira Camocim com toda 
a officialidade, e em breve reuniu d sua esquadra mais dois 
rebocadores. 

Apezar do exito tao brilhante de seu golpe, o almirante 
foi logo repellido para a barra e o Jupiter teve de retirar- 
se para o norte, sendo aprisonado no dia 13 de julho pelo 
Republica. O desgraqado official foi preso e levado d Ca- 
pital Federal, onde por conselho de guerra foi julgado r^u 
de morte, acto este que teve grande repercussao entre os 
officiaes da marinha e deu motivo immediato a que rompesse 
a celebre revolta da Armada. 

A REVOLTA DA ARMADA. 

Motives e Principios da Revolta. — A luta travada entre 
o governo constitucional e os revolucionarios do sul vein unir- 
se entao mais um elemento poderoso na Capital da Kepublica 
onde se desenrolou unia acqao horrivel de combate ao Governo 
central por parte dos seus adversarios, conflict© que, embora 
fratricida, evidenciou por todos os modos as qualidades varonis 
e guerreiras dos brazileiros. 

A 6 de setembro de 1893 a esquadra nacional revoltou-se na 
bahia de Guanabara, hasteando no Aquidahan a bandeira branca 
que symbolisava a revolta. 

almirante Custodio Jose de Mello que dirigiu o movimento 

fora inimigo cerrado do governo do niarechal Deodoro; porSm, 

com o advento de Floriano ao poder, tom^Cra assento no govemo 



H18TOBIA DO BBAZIL. 261 

deste como Ministro da Guerra. Incoinpatibilisando-se deix)is 
com o governo de Floriano, por motives que se ligavam, talvez, 
is dissidencias entre as for^s de mar e as de term, o ministro 
abandonou sua pasta e logo demonstrou os mais vivos signaes 
de sympathia para com ps federalistas no Kio Grande do Sul. 
Com o incidente Wandenkolk, comeqou a arder infrene anti- 
pathia entre os officiaes da marinha e o exercito, augmentando- 
se cada rez mais os preparatives para uma resistencia violenta 
ao governo vice-presidencial, ate que, afinal, rebentou na 
Guanabara o goli)e que precipitava a maior crise da joven 
Republica. 

Dispunhani os revoltosos de importante contingente de forgas 
maritimas, incluindo-se na esquadra 16 grandes vasos de guerra, 
para cujo guarnecimento passou no mesmo dia da ilha das 
Cobras o batalhao naval que de prompto adherira i revolta. 
Contavam ainda mais com um contingente de circumstancias 
favoraveis c^ue em outras espheras comeqaram a manifestar-se, 
a saber, no dia 6, uma grande greve na estrada de ferro central 
do Brazil, e a marclia victoriosa das tropas de Gumercindo 
atravez do Estado de S. Catharina, em franco caminho para 
S. Paulo. 

Activiclades do Governo. — O governo do marechal de- 
monstrou grande energia em armar a resistencia, ora guarne- 
cendo o littoral com a tropa de linha, ora chamando ao serviqo 
active a guarda nacional, i qual competia a maxima respon- 
sabilidade pela defeza da capital. Reunido o Congresso, o 
executive foi autorisado a declarar o estado de sitie ende quer 
que se fizesse necessaria essa medida extraordinaria ; e foi 
decretado immediatamente para as eidades de Rio e Nictheroy, 
sende ao primeiro por dez dias s6, e prorogado por diversas 
vezes at^ o lini da revolta. Extendeu-se a medida ao District© 
Federal, e aes Estados do Rio, S. Paulo, Parana, S. Catharina, 
Rio Grande do Sul e Pernambuco. 



262 HISTORIA DO BRAZIL. 

Incidentes da Bevolta na Capital Federal. — No dia 13 

de setembro os habitantes da cidade do Rio amanhecerara 
assustados com o estrondo dos canhoes que dos navios da 
esquadra rebelde descarregavam sobre o arsenal de guerra e 
outros pontos da cidade. Em manifesto publicado no mesmo 
dia o vice-presidente da Eepublica mostrou-se firmemente 
decidido a manter a todo o custo o poder da autoridade. 
Corriam os mais alarmantes boatos de operaqoes importantes 
da parte da esquadra, tanto que o povo comeQou desde cedo a 
fugir em massa da capital para os suburbios, calculando-se que 
a populaqao destes augmentou nesse mesmo dia de umas cem 
mil pessoas. 

A pedido dos commandantes dos navios estrangeiros surtos 
no porto, foi combinado de parte a parte que em cada dia 
houvesse um periodo de treguas para a entrada e sahida dos 
navios mercantes, durante o qual seriam suspensas todas as 
operaqoes militares. 

Tendo resolvido Custodio de Mello a maiidar saliir ao mar 
tres navios, conseguiu executar a manobra o cruzador Repttblica^ 
que na noite do dia 17 logrou illudir a vigilancia das fortalezas 
e sahiu barra fdra, tomando rumo do sul; por^m, foi somente no 
dia 18 que o frigorifico Pallas e a torpedeira Marcilio Dlas pu- 
deram f azer a mesma passagem debaixo de uma chuva medonha 
de balas das peqas que vigiavam a barra. Dirigindo-se a Angra 
dos Reis, a torpedeira 3Ia7rilto J)ias desmanchou os apparelhos 
telegraphicos nesse porto e apoderou-se do armamento da guarda 
policial ; o Repuhlica e o Pallas seguiram para o sul, reunindo- 
se logo depois no porte de Desterro, hoje Florianapolis. 

Pelos fins de setembro e durante todo o mez de outubro houve 
medonho bombardeamento entre os vasos de guerra e as fortale- 
zas da barra, sendo que o povo, primeiro assustado e foragido, 
agora voltava i. cidade para assistir do littoral ao terrivel espec- 
taculo. Bombardeiou-se a cidade de Nictheroy, por§m foram 
baldadas todas as tentativas para tomar de assalto essa cidade. 



HISTORIA DO BRAZIL. 263 

Igualmente foram repellidos os ataques dos revoltosos que 
tiveram por objective capturar os navios mercantes que descar- 
regavani mercadorias nos di versos e^aes da eidade do E-io. 

No dia 9 de outubro a fortaleza de Villegaignon adheriu d 
revolta, acto sedicioso que foi respondido pelo Goverho com o 
decreto do dia 10 que destituia dos seus privilegios e privava 
da protecqao da bandeira nacioual todos os navios, fortalezas, 
etc. que tomassem parte ou se associassem ^ revolta. Logo 
rompeu feroz bombardeamento entre as fortalezas da barra e os 
navios, no qual participou a fortaleza de Villegaignon e na noite 
do dia 12 o Meteoro logrou sahir barra fdra, seguindo a reunir- 
se aos demais vasos no porto de Uesterro. Volvendo os canhoes 
contra a cidade, o povo abandonou as suas casas e o commercio 
ficou completaniente paralysado, cumulando-se os males da 
epoca com o ronipiniento da febre amarella que entao flagelloii 
a popula^ao. 

No dia 12 de novembro sofFreram os revoltosos a perda do 
Javary, alvo da fortaleza de S. Jono, o qual se mergulhou nas 
aguas da bahia e desappareceu, apezar da tenaz resistencia que 
nao deixou de oppor emquanto nno se subniergiram as boccas 
dos seus canhoes. 

Nas primeiras lioras do dia 1 de dezeuibro, no lueio de terri- 
vel fuzilaria, saliiu pela barra fora o Aqnulaban, navio chefe 
dos revoltosos, pois nelle fluctuava o pavilhao do almirante 
Custodio de Mello. Passou pois a dirigir as actividades dentro 
da Guana bara o cruzador Ahulranre Tamandare. 

A parti da de Custodio de niello para o sul trouxe i, capitania 
das forqas da esquadra na baliia da Guanabara uma das maiores 
glorias da marinha brazileira, o almirante Saldanha- da Gama, 
que, renitente na sua politica, s6 nao pugnou pela causa da 
monarchia contre o golpe do dia 15 de novembro, por se achar 
de serviqo nos Estados Unidos, e que se deixara entao ven- 
eer pela antiga amizade com Custodio de Mello para adherir 
francamente a revolta. 



264 HISTOBIA DO BRAZIL. 

Com o governo de Saldanha da Gama comecjaram os re- 
Tolucionarios a soffrer uma serie de desastres, que foi iniciada 
com a conquista da'ilha do Governador no dia 17 de dezembro, 
importante posto dos revoltosos, pois era dessa ilha que se 
abasteciam de agua, cereaes, carnes verdes, etc. Ainda mais, 
a ilha Ihes servira de trincheira natural para a navegagao, e 
de ponto de communicaqao com o Governo na Capital Federal. 

mez de Janeiro notabilisou-se pela tomada de Mocangue 
Grande por tropas destacadas da guarni^ao de Nictheroy ; pelo 
regresso do Aquidaban d bahia, no dia 17; pela acQao da esqua^ 
dra americana no dia 29, acto este que importava em grande 
vantagem para as f orqas do Governo. Foi notavel que a Ingla- 
terra e Portugal, por meio dos sens respectivos navios surtos 
na bahia do Eio de Janeiro, haviam manifestado fundas sym- 
pathias pelos revoltosos, ao passo que os Estados Unidos, ou, ao 
menos, os sens navios, sob o commando do almii-ante Benham, 
se manifestavam partidarios do Governo do vice-presidente. 
Quando, por tan to, no dia 20 de Janeiro o Detroit vedou com 
ameaqa de f ogo certas operaqoes que o almirante Saldanha de 
Gama ia encetar, o resultado foi ao todo favoravel ao Governo 
legal. 

No dia 9 de fevereiro o almirante resolveu dar grande assalto 
d cidade de Nictheroy, f azendo-se o ataque com cinco columnas, 
tendo designado a cada qual a sua parte na ac^o. O assalto, 
desenvolvido com grande vigor, foi repellido com igual bravura, 
tan to que ap6s horas de com bate as forqas legaes ficaram por 
fim de posse do campo de batalha, tendo morrido 147 homens 
de ambos os lados. 

A Guerra no Sul — Voltamos os olhos, agora, para os 
successes que se iam passando no sul, onde deixdmos os 
federalistas, sob as ordens de Gumercindo e Salgado, seguindo, 
a marchas forqadas, para o norte, tendo chegado a sete de 
novembro ao Estado de Santa Catharina. 
No entretantOf chegara o Repuhlica^ que com tanta audacia 



HISTOBIA DO BKAZIL. 265 

partira da Bahia do Rio de Janeiro para Desterro. Nelle se 
encontrava o capitao de mar e guerra Frederico Guilherme 
Lorena, incumbido de estabelecer um governo provisorio na- 
quelle porto, aeto que devia, conforme raciocinava Custodio 
Jos^ de Mello, collocar os revoltosos em posiqao de belligerantes 
aos olhos das poteneias estrangeiras. De accordo, foi com 
grande solemnidade installado o governo provisorio era Desterro 
no dia 14 de outubro. Poueo tempo depois, ahi chegaram todos 
OS principaes chef es da revoluqao, inclusive o almirante Custodio 
de Mello, o general Salgado, o commandante Alexandrino de 
Alencar, o tenente Annibal Cardoso e diversos representantes 
do governo civil dos federalistas do sul. 

Com a separaqao dos congressistas, voltou o general Salgado 
para Laguna, e Custodio passou ao Parana, onde ia agir junto 
a Gumercindo para a conquista desse Estado, que, effectiva- 
mente, com a entregar da cidade da Lapa no dia 11 de fevereiro, 
ficou de todo no poder dos revolucionarios, que ora ameaqavam 
invadir o Estado de S. Paulo. 

Fim da Revolta da Armada. — Emquanto se iam passando 
as coisas tao lisongeiramente para os revolucionarios no sul, 
appareceu ao norte um novo elemento de resistencia organi- 
zada pelo Governo legal. Este, ficando privado de qualquer 
elemento naval, mand^a j^ em outubro de 1893 o velho 
almirante Jeronymo Francisco Gonial ves para Monte vid^ 
no intuito de organizar uma forqa naval. Com grande esforqo 
conseguiu Gonqalves juntar uma flotilha de sete ou oito vasos 
de guerra, a qual nos primeiros dias de Janeiro de 1894 se fez 
ao mar. Logo mais, ds ordens telegraphicas do ministro da 
marinha, o velho almirante tomou rumo para o norte no vapor 
Itapu, chegando a S. Salvador da Bahia no dia 25 de Janeiro, 
onde encontrou sete vasos de guerra, aos quaes se reuniram 
em breve outros navios comprados a alto preqo na Europa e na 
America do Norte, e tripulados por homens de diversas nacio- 
nalidades. 



266 HISTORIA DO BRAZIL. 

Com o intuito de apressar a organizaqao da esquadra legal 
chegou d Bahia no dia 10 de fevereiro o vice-almirante Jos^ 
Coelho Netto, ministro da marinha, que com tanta habilidade 
agiu que a 28 de fevereiro a esquadra, levando a bordo o 9° bata- 
Ihao de infaiiteria, levantou ferro e tomou rumo ao sul, chegando 
na madrugada do dia 10 de margo ao ancoradouro da Praia 
Vermelha. 

Os revoltosos, reconhecendo a futilidade de ofFerecerem re- 
'sistencia d esquadra legal, no dia 11 pedii-am eapitulaqao por 
intermedio do commandante da corveta portugueza Mindello, 
e o ministro residente de Portugal, o conde de Paraty, sob as 
seguintes condiqoes : 1) A retirada para o estrangeiro dos 
officiaes revoltados; 2) Garantia de vida para os inferiores, 
praqas e voluntaries ; 3) Entrega dos navios, fortalezas e 
mais material de guerra tal qual se acliavam ; 4) Restituiqao 
dos prisioneiros. 

No dia 13 o almirante Gonc^alves recebeu a noticia de que os 
rebeldes se haviam ref ugiado abordo de dois navios portuguezes, 
e logo no mesmo dia, a esquadra legal demandou a barra lan- 
qando ferro pelas seis horas da tarde entre Villegaignon e a 
ilha fiscal. 

vice-presidente Floriano repelliu energicamente a proposta 
da capitulaqao, declarando por um Boletim Official que o 
governo nao podia aceitar propostas de militares rebeldes, e 
impondo-lhes um prazo de 48 horas para se entregarem ; ter- 
ra inaria o dito prazo ao meio dia da proxima terga feira, 13 de 
marqo, salvo aggressoes anteriores da parte dos revoltosos, case 
em que os canhoes de terra fariam fogo antes de terminar o 
referido prazo. 

Pontualmente no dia 13, ao meio dia, os canhoes do govemo 
romperam fogo contra os diversos pontos occupados pelos 
revoltosos, continuando ate ds tres horas e (juarenta minutos da 
tarde, quando cessou o bombardeamento, nao havendo respondi- 
do nenhum dos canhoes dos revoltosos, pelo que se presumiu que 



HISTORIA DO BRAZIL. 267 

todos OS navios e fortalezas estivessem abaiidonados. Logo 
depois tomaram rurao de Villegaignon diversas embarcaQoes que 
levavam tropas do governo, chegando primeiro a lancha Quinze 
de novmnhro. Desembarcadas as tropas, a arruinada fortaleza 
foi encontrada em completo abandoiio e pouco depois, ia seis 
horas da tarde, um joven trepou no mastro e arrancou a ban- 
deira bi*aiica, symbolo da mallograda Kevolta da Armada. 

Conforme descreve autorizado testemunho do successo, " Foi 
um momento de verdadeiro delirio. Com o imponente troar 
dos canhoes, que de todas as partes salvaram com 21 tiros, 
misturavam-se os prolongados vivas da compacta multidao que 
se acotovelava em todos os pontos donde se divisavam as 
opeiUQoes, ao que se junta vam o estrepitar continuo de gyran- 
dolas e descargas de fuzilaria. As seis horas e 15 minutos a 
esquadra fundeava no poqo salvando i. terra." 

Havendo-se refugiado a officialidade revoltosa abordo dos 
navios portuguezes surtos na bahia, estes, por exigencia do 
governo brazileiro, foram detidos ate o dia 18, seguindo nesse 
dia para Montevideo e Buenos Ayres. AUi recebeu o navio 
Pedro II do governo portuguez ordem de conduzir os officiaes 
revoltados a Lisboa, salvo muitos que fugiram, indo refugiar-se 
na provincia de Entre-Rios, donde haviam de passar para o 
Rio Grande do Sul, tomando parte na invasao daquelle Estado 
conforme mais tarde ser^ narrado. O proceder do governo 
portuguez neste incidente provocou forte indigna^ao da parte 
do governo brazileiro, motivo pelo qual este cortou as relaqoes 
diplomaticas com Portugal. 

almirante Custodio, derrotado deante da cidade de Rio 
Grande a 11 de abril, abandonou as forcjas no porto de Casti- 
Ihos e passou a Buenos Ayres, onde pediu asylo para si e para 
OS que com elle privavam. A esquadra legal passando por Des- 
terro, logrou o almirante Gonqalves apoderar-se daquella cidade 
no dia 17 de abril, sendo que no dia 7 de maio as for^as do 
governo tambem occuparam de novo o Estado do Parand, e as 



268 HISTORIA DO BRAZIL. 

tropas de Gumercindo Saraiva foram obrigadas a bater-se em 
retirada, o que fizeram, demandando algumas Santa Catharina, 
outras o rio Parana, emquanto o valente gaucho tomava o 
caminho do centre. Derrotado na batalha de Passo Fundo 
(Eio Grande do Sul), Gumercindo teve de abandonar-se a uma 
fuga precipitada na direcQao do Estado Oriental onde pretendia 
refugiar-se; por^m, em uma das muitas escaramuQas com as 
f orqas federaes, a 10 de agosto de 1894, ficou gravemente ferido 
o chefe federalista, morrendo horas depois no mesmo dia. 

Ap6s muitos combates com a Divisao do Norte que os acos- 
sava e apezar de grandes difficuldades, os revolucionarios che- 
garam afinal ao termo da sua longa retirada d margem direita 
do rio Uruguay. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXXI. 

— Quem f oi o primeiro presidente da Republica Brazileira ? 

— Que opposiQao se manifestou ? porque ? 

— Era a derrubada dos governos locaes em varies Estados novo 
costume ? 

— Que fez entao o presidente ? em que dia ? 

— Que fizeram os congressistas a principio ? 

— Que chef es sobresahiam na reac^ao ? 

— Que Estados tomaram parte na revolta ? 

— Que fez a armada ? 

— Que fez entao o presidente Deodoro ? 

— A quem entregou o poder ? 

— Quando e como morreu ? Que fez o senado ? 

— Que fez o vice-presidente Floriano no principio do seu governo ? 

— Que fizeram os amigos do regimen anterior ? 

— Que polemica surgiu no Congress©? Que resolugao tomou o 
senado ? 

— Em que Estado travaram-se novos combates ? 

— Que partidos houve ahi ? Quaes os chef es dos partidos ? 

— Como terminou a primeira phase da revolugSo ? 



HISTOBIA DO BRAZIL, 269 

— Como se renovou a lata ? 

— Quaes os successos das campanhas de Joca Tavares ? 

— Quern assumia entao a direc^ao da revolu^ao ? Que fez elle ? 

— Que fez nestas circumstancias o almirante Wandenkolk ? 

— Que succedeu depois do seu maUogro ? 

— Que f orgas tinham os revoltosos ? 

— Que circumstancias f avoraveis se deram ? 

— Que medidas tomou o governo ? 

— Que succedeu na Capital Federal ? 

— O que f oi combinado relativamente aos navios mercantes ? 

— Que fizeram os navios revoltosos que sahiram ao mar ? 

— Que succedeu dei)ois na Capital? 

— Para onde f oi o almirante Custodio de Mello ? 

— Quem assumiu o commando das forgas da esquadra na bahia 
da Guanabara? 

— Que desgraQas soffreram entao os revolucionarios ? 

— Que fizeram os revolucionarios em Desterro ? 

— Como organizou o governo uma f orga naval ? Que fez esta f orga ? 

— Como se acabou a revolta da armada ? 

— Que fizeram os navios portuguezes ? Qual o resultado ? 

I 

— Como se acabou a revolta no Rio (irande do Sul ? 



270 HISTORIA DO BRAZIL. 



CAPITULO XXXII. 

A REPUBLICA DESDE A PRESIDENCTA DE PRUDENTE DE 
MORAES ATE A ELEigAO DE EPITACIO PESSOA. 

1894-1919. 

Presidencia cle Pnidente de Moraes (1894-1898). — No 
dia 1** de margo de 1894 forain devidamente eleitos, de con- 
formidade com o § 1** do art. 47 da ConstituiQao Federal, a 
presidencia da Eepubliea o dr. Prudente de Moraes Barros, 
paulista, e d vice-presideneia o dr. Manuel Victorino Monteiro, 
filho da Bahia, que assumiram as redeas do governo no dia 15 
de novembro do mesmo anno com toda a cerimonia de praxe. 
Destacam-se durante este governo os seguintes factos notaveis : 

Tratado de Limites com a Republica Argrentina. — O 

Tratado de Madrid do dia 13 de Janeiro de 1750 (v. pag. 132) 
equivocava em certos pontos que diziam respeito aos limites 
do Brazil com os territorios hespanhoes, assim legando aos 
novos governos que succediam i, epoca colonial uma questao que 
de quando em quando surgia, i)orem sem nunca receber uma 
soluQao definitiva. A final, foi aceita a proposta do Brazil que 
se submetesse a questao a um juiz arbitral, e a 7 de setem- 
bro de 1889 as dnas partes assignaram um tratado pelo qual 
escolheram como arbitro o presidente dos Estados Unidos da 
America do Norte. 

Foi apenas no dia 5 de fevereiro de 1895 que o dito presi- 
de/? fce, nesse tempo o Sr. Grover Cleveland, proferiu um laudo 



HISTORIA DO BRAZIL. 271 

que dava plena raztio is reclamaqoes que fazia o Brazil, me- 
dian te a mui conipetente representaqao do sr. barao do Rio 
Branco. Logo forani celebrados di versos tratados e nomeadas 
commissoes niixtas para proceder d demarcaQao delinitiva dos 
limites, o que se fez. 

Relacoes com Portiigral. — A 16 de niarqo de 1895, me- 
dian te 03 offi(;i()s do governo inglez, as relaqoes diplomaticas 
eoni Portugal forani est4il)ele(*idiis, as quaes estavam rompidas 
desde 13 de niar(}o do anno anterior, por motivo do refugio dos 
officiaes revoltosos. 

Morte de Floriaiio Peixoto, — Em acto continuo depois de 
entregar o governo ao seu successor, retirou-se Floriano Peixoto 
para a vida privada, ])ro('urando em balde allivio para os seus 
incommodos de saude. Passou a Cambuquira, mas quando sen- 
tia aggravar-se o seu mal estar, tratou de regressar d Capital 
Federal ; i)or6m teve que parar em uma fazenda proxima da 
estaqao Divisa no Estado do Rio de Janeiro, onde falleceu a 29 
de jiinlio de 1895. 

CAMPANHA DE CANUDOS. 

I)eu-se durante a presidencia de Prudente de Moraes este 
(jelebre episodio, que marcou mais uma etapa no estabeleci- 
mento da republica. Lembrado o facto de que o novo systema 
de governo teve o seu comeqo nos grandes centros do paiz, era 
de prever que as grandes populaQoes do remoto interior nao 
tivessem immediatamente uma nitida eomprehensao da natu- 
reza de um movimento tao radical. A Campanha de Canudos 
representa, pois, a iniciaqao do povo sertanejo no novo regimen, 
e alii, nao menos do que no littoral, o tributo havia de ser pago. 

Antonio Vicente Mendes Maciel. — Este personagem, que 
foi o chefe do movimento que tao heroicamente resistiu a 
todos OS esforqos do Governo Federal para subjugal-o, nasceu 



272 HISTORIA DO BRAZIL. 

pelos annos de 1835 no Ceard. Jd desde 1864 tomara certa 
importancia no interior, tanto pela curiosidade de suas ideas 
religiosas, como pela exquisitice de seu traje, que consistia 
em uma tunica azul sem cintura, um chapeu de abas largas, 
derrubadas, e umas sandalias; tinha as faces escaveiradas, a 
barba longa e inculta, e levava nas maos um bordao nodoso. 
Este singular personagem chegou logo a impressionar o povo 
do- sertao, e em breve era seguido em suas perigrinaQoes por 
uma turba de gente, que nao demorou em criar em torno de 
seu chefe as mais fantasticas lendas e historias que o puzeram 
na categoria de um santo milagroso. 

Preso no Cear^ por desordeiro, o Antonio Conselheiro foi jul- 
gado innocente de qualquer crime e posto em liberdade. Logo 
mudou o scenario de suas actividades para o interior da Bahia, 
por cujos sertoes errava em todos os sentidos, chegando afinal 
a levantar um povoado na comarca de Itapicuru, ao qua! deu o 
nome de Bom Jesus, a 10 de novembro de 1886. Desse logar 
foi desalojado em 1887 pelo presidente da provincia, a pedido 
do arcebispo da Bahia, que via no Conselheiro um pregador de 
doutrinas subversivas. Seguido por sens adeptos passou, entao, 
para o norte ate parar na margem esquerda do Alto Barris em 
Canudos, velha fazenda de gado, que em 1890 era uma tapera 
que contava umas 50 casinhas arruinadas. Para este remote 
logar affluiam muitos devotos, e devassos e criminosos de toda 
sorte, chegando a despovoarem-se muitas ald§as da comarca, e 
ate do Estado vizinho de Sergipe. 

Irritando-se o Conselheiro ao ver que o municipio affix^ra 
editaes nas taboas, que no sertao tradicionalmente substituem 
OS orgaos de publicidade, para a cobranga de impostos, mandou 
elle queimar solemnemente aquellas taboas e pregou aberta- 
mente a insurreiqao contra a Bepublica. 

A primeira tentativa official para suffocar essa resistencia 
foi pelos meios brandos da religiao. O governador da Bahia 
despachon para Canudos um f rade capuchinho que desde o dia 



HISTORIA DO BRAZIL. 273 

13 ate o dia 21 de maio de 1895 se dirigiu ao povo num esforQO 
de leval-o a tornar ao gremio da Egreja e a obedecer ds leis do 
paiz. Tudo, porem, foi baldado, e aiinal o frade teve de dar 
per finda a missao sem esperanqa de apaziguar os turbulentos 
que apoiavam o seu Coiiselheiro e incitavam o povo a fazer a 
mais violenta resistencia ao Governo. 

Primeira expediQao (novembro de 1896). — Por causa de 
boatos alarmantes no sentido de que o Antonio Conselheiro 
vinha em pessoa a Joazeiro, cujo saque geral ordenaria como 
medida de vingan^a em certos cidadaos que o haviam desgos- 
tado por factos anteriores, o dr. Juiz de Direito requisitou do 
governador do Estado a remessa de forqas. Tendo seguido uma 
forqa de cem pra^as para Joazeiro, no dia 12 de novembro 
tomaram rumo a Canudos, chegando no dia 18 ao arraial de 
Uaud, distante de Canudos uns 114 kilometros. Alii foram 
surprehendidos por um ataque inesperado dos discipulos do 
Conselheiro, tendo liavido 31 baixas entre mortos e feridos, 
retirando-se logo o destacamento para Joazeiro. 

Segrunda expedic^ao (dezembro -Janeiro de 1896-1897). — 
Havendo crescido de ponto o prestigio do Conselheiro deter- 
minando grande emigraqao para Canudos, o governo resolveu 
despachar maior expediqao contra os Jagungos. A testa de 543 
pra^as e munido de dois canhoes Krupp e duas metralhadoras, 
o major Febronio de Brito partiu da Bahia, a 25 de novem- 
bro, e ap6s alguma demora em Monte Santo chegou afinal a 
acampar a seis kilometros de Canudos no dia 18 de Janeiro 
de 1897, onde foram avistadas pela primeira vez as for^s do 
Conselheiro. Deu-se renhida luta na qual houve de parte a 
parte muitos exemplos de abnegado heroismo, por§m, cercada a 
columna por grande massa de inimigos que combatiam com um 
fanatismo que via na morte apenas o portal para uma vida de 
eterna felicidade no outro mundo, assentaram os officiaes que 
se retrocedesse a Monte Santo. 



274 HISTORIA DO BRAZIL. 

Terceira expedi^SLo (f evereiro - marQO de 1897). — De toda 
a parte houve, agora, um levantamento de opiniao publica 
exigindo que-se continuasse a campanha contra os que se viam 
na raais franca revolta contra o governo legal. Pela terceira 
vez partiu da Bahia em 8 de f evereiro uma f orqa expedicionaria 
sob o commando do coronel Moreira Cesar que para esse fim 
partiu do Rio de Janeiro. Esta columna era composta de quasi 
1,300 homens, municiados com quinze milhoes de cartuchos e 
setenta tiros de artilharia. Reinava entre todos a mais plena 
confianqa no resultado victorioso da expediqao, s6 receiando 
encontrarem vasio o arraial dos sediciosos. No dia 4 de marQO 
toparam com o inimigo. Diz um abalizado chronista que "o 
encontro fora um cheque galvanico." Enganados pelos arti- 
ficios dos jagungos, os combatentes legaes deixaram-se separar 
em pequenos magotes, o que facilitou de todos os modos a sua 
facil derrota. Cahindo mortalmente ferido o coronel Moreira 
Cesar, seguiu-se uma debandada geral. Levados pelo susto a 
uma desordem indescriptivel, fugiram para o alto do Mario, 
onde se reuniram com os officiaes que, unanimemente, resol- 
veram comeqar a immediata retirada. Muitas ]i. haviam sido as 
baixas, e augmentou-se mais o numero dellas com os que morre- 
ram de fome e privaqoes. Diz ainda Euclydes da Cunha, "a 
terceira expediqao, anullada, dispersa, desapparec§ra. E, como 
na maioria os fugitives evitavam a estrada, desgarraram sem 
numero, errando a toa no deserto, onde muitos, e entre estes 
OS feridos, exgotados, se perderam para sempre, agonisando e 
morrendo no absolute abandono. Alguns, desviando-se da rota, 
foram bater no Cumbe ou em pontes mais remotes. O resto 
chegou outre dia a Monte Santo." 

Repercussao no paiz. — mallogre da terceira expedi- 
Qae contra o Conselheiro teve enorme repercussao pelo paiz 
inteire. Os mais extra vagantes boatos surgiam em toda parte. 
ComeqsLVSi a pairar a suspeita sobre os monarchistas, e diversos 



HISTOBIA DO BBAZIL. 275 

joumaes no Rio de Janeiro solfreram serios prejuizos da parte 
do furor do povo, exaltidissimo pelos aeontecimentos no norte; 
foi victima de assassin io Julio Gentil de Castro. Em fim, 
dizia-se que a Republica corria grave perigo, do qual cumpria 
salval-a por acqao energica. 

Quarta expediQao (abril -outubro 1897). — Ao clamor po- 
pular responderam os Governadores dos diversos Estados, os 
Congressos e as Camaras municipaes, todas salientando a ur- 
gente necessidade de proceder-se immediatamente d organisaqao 
de uma forqa expedieionaria que puzesse termo a revolta dos 
jagungos, Acto con tin uo, comeqaram a organizar-se diversos 
batalhoes, e foram chamados soldados de todos os Estados desde 
o Rio Grande do Sul ate o distante Amazonas, sendo entregue 
o commando da expediqao ao general Arthur Oscar de Andrade 
Guimeraes, commandante do 2^ districto militar. Uma segunda 
columna foi confiada ao general Savaget, montando o total das 
duas columnas a cerca de quatro mil e quinhentos homens, 
munidos de muito material de guerra, inclusive um enorme 
canhao Whitworth, o qual pesava mil e setecentos kilos. 

Aos 25 e 27 de junho a segunda columna foi acommettida 
em terriveis ref regas i^los jagungos que, con for me i. tactica ja 
antes practicada com tao bons resultados, atiravam, invisiveis, 
de esconderijos preparados de antemao, ou occultos atmz das 
arvores ou dos penhascos. Nestes encontros as baixas soffridas 
pela columna subiram a 326, entre mortos e feridos. No entre- 
tanto, a primeira columna trav^ra terrivel combate com os 
jagungos no lugar chamado Pitombas, ponto distante tres 
kilometros da posi^ao occupada pelo general Savaget. Cer- 
cados pelos inimigos invisiveis, que arremessavam verdadeiras 
chuvas de balas, os legaes perderam cerca de mil homens antes 
de poderem unir-se is forqas do general Savaget, acto que foi 
effectuado no dia 28. 

Nessa mesma noite comeQOu o bombardeamento do arraial 



276 HISTORIA DO BRAZIL. 

que continuou incessante. No entretanto, os jagungos, por sua 
vez, atacavam continuamente, dia e noite, as forqas legaes, che- 
gando nao poucas vezes a penetrar no centro do acampamento 
com o intuito de estragar a artilharia. 

Para cumulo da infelicidade da campanha, manifestou-se 
entao grande f alta de generos alimenticios. Atacados da f ome 
por um lado e por outro dos f erozes jagungos que cada vez mais 
inspiravam o terror, os soldados comeQaram a raanifestar certa 
falta de disciplina que prejudicou em muito a campanha. Afi- 
nal, foi necessario abater os 40 bois que tinham puxado o grande 
canhao Whitworth. Nao chegou o comboio que se esperava, e 
de Monte Santo chegou a triste noticia de nao haver nada alii. 
"Cada dia que passava", diz E. da Cunha, "augmentavam esses 
transes. A partir de 19 de julho, cessou a distribuiqao de 
generos aos doentes. E os infelizes baleados, mutilados, es- 
tropeados, devorados de febre, comegaram a viver de esmola 
incerta dos proprios companheiros. " Um comboio que chegou 
no dia 13 quasi nada trouxe, ao qual se accrescentou no dia 18 
terrivel combate com os jagungos na beira esquerda do Vasa- 
Barris, dando-se nesse dia 947 baixas entre mortos e feridos. 

Sem entramos em outros detalhes, pois ]i, sao apparentes as 
principaes difficuldades que caracterisavam a campanha, po- 
demos referir-nos a chegada pelos fins de agosto da Brigada 
Mimosa, trazendo reforqos de quasi mil homens ; por§m, dizi- 
mada pela variola e pelos ataques dos sertanejos, aquella forqa 
nao foi de grande auxilio, nem mesmo no abastecimento de 
muniQoes de bocca, pois de cento e dez bois que conduziu 
salvou dos sertanejos apenas onze. 

Imminente a possibilidade de outro fracasso, resolveu-se 
agora que fosse para o campo o proprio Ministro de G-uerra, o 
Marechal Carlos Machado de Bettencourt. Este seguiu imme- 
diatamente para a Bahia onde reuniu cerca de tres mil homens 
e grande porqao de muniqoes de bocca e de guerra, para cujo 
transporte reuniu um milheixo de burros mansos, meio efficaz 



HISTORIA DO BRAZIL. 277 

para dominar o sertao, que fora o inimigo mais terrivel de 
todas as expediqoes anteriores. 

Pelos meiados de setembro estava o marechal em pleno 
campo de batalha, trazendo, com os refoiQos de homens e de 
muniqoes, novo brio ao exercito, que ora somiuava em uns 8000 
homens. Estava para terminal* a campanha. For todo o mez de 
setembro soffreram os sediciosos di versos prejuizos, entre estes 
a morte de um dos principaes cabeeilhas, e a perda de certas 
po&iQoes importantes em as quaes se haviam intrincheirado. 

No dia 1 de outubro deu-se um bombardeamento firme e o 
assalto geral ao arraial, tocando-se fogo a toda a casaria, sendo 
o ineendio grandemente auxiliado pelo derramamento de latas 
de petroleo onde fosse efficaz. Ao terminar do dia, as for^as 
legaes se achavam de posse da nova egreja, recentemente eon- 
struida pelo Conselheiro. No dia 2 eomeqou de novo o combate, 
por^m pelo meio-dia os jagungos mostraram uma bandeira 
branca, vindo logo dois delles para parlamentear, dizendo que 
ja morrera o Conselheiro e que alguns desejavam render-se. 
A resposta foi que se entregassem com a unica condiqao de 
terem salvas as vidas. Voltaram ao arraial reappareeendo 
logo um delles com umas trezentas mulheres, e crean^as e 
velhos imprestaveis, que se entregaram. 

Recomeqou a bombardeio que continuou incessante nos dias 
3 e 4 terminando s6 no dia 5, quando dos jar/ungos todos haviam 
succumbido, resolutos e teimosos na morte como haviam sido na 
vida. 

A chronica triste da tragedia de Canudos, a mais importante 
guerra civil na historia patria, tornou frisante a necessidade 
da unificaQao do paiz, tanto moralmente, como por estradas de 
ferro e de rodagem, a fim de que nao houvesse contingentes 
de povo desaffectos por causa de seu isolamento do movi- 
mento politico e moral da naqao. Revelou, ainda, este episodio 
a existencia de grandes recursos de for^a e virilidade entre 
OS sertanejos, que embora conservadores e pouco dispostos a 



278 HISTORIA DO BRAZIL. 

entregar-se facilmente ^ novidades, possuem, entretanto, fac- 
tores relevantes para o desenvolvimento da patria, uma vez 
ligados de facto d vida nacional. 

Presidencia de Campos Salles (1898-1902). — Com o 
mallogro dos movimentos subversivos da Revolta Naval e da 
EevoluQao no Rio Grande do Sul, e com o terrivel castigo dos 
jagungos sediciosos em Canudos, conseguiu-se o equilibrio 
politico da Republica. Restava ainda uma serie de problemas 
gravissimos para cuja soluQao nao sobraram forqas sufficientes 
nos regimens anteriores. 

Foi portanto i. soluqao destes problemas que o presidente 
Campos Salles resolveu dar toda a sua energia, e, de accordo 
com esta orientaqao, escolheu por divisa a celebre expressao 
Paz e Econom la, Logo ao ser eleito, emprehendeu uma viagem 
a Europa com o lim de negociar um grande emprestimo, o qual 
tornou-se celebre pelo nome de Funding Loan. Aqui nao nos 
cabe a tarefa de fazermos uma explicaqao dos pormenores dessa 
negociaqao financeira : basta dizer que se pediu uma economia 
rigorosa para satifazer suas condiqoes e para salvar as linanqas 
da joven Republica, o que se fez graqas a sabia orientaqao do 
Ministro da Fazenda, dr. Joaquim Murtinho, e a leal cooperaqao 
do Congresso Nacional, que votou ao presidente amplos poderes, 
levando-se assim a um exito com pie to o arranjo de Campos 
Salles. Entre as economias notaveis que se praticavam figuram 
a venda de muitas propriedades nacionaes e o arrendamento de 
outras, a suppressao de diversos arsenaes de guerra, (;omo 
tambem se decretavam novos impostos, ate no funccionalismo 
publico, etc. etc. 

RelaQoes com a Republica Argentina. — Ainda foi as- 
signalada a presidencia Campos Salles pelo intercambio ami- 
gavel de visitas entre o Brazil e a Republica Argentina, cujo 
fim era cimentar as relagoes entre as duas grandes potencias 
da America do Sul. 



HISTORIA DO BRAZIL. 279 

A 8 de agosto de 1899 eliegou no Rio de Janeiro o geneiul 
Julio Roca, presidente da Argentina, sendo elle alvo das mais 
imponentes manifestaqoes da parte dos habitantes da Capital 
Federal. Com o illustre visitante vein unia divisao naval de 
tres couraqados e uuia grande comitiva de ministros e senadores, 
junto com altas patentes do exercito e da marinha ai'gentinos. 
Os 10 dias que demoraram na capital brazileira foram para 
elles uma successao sem lim de bailes, banquetes e passeios, 
sendo tudo ordenado da maneira mais luxosa possivel. 

No anno seguinte o presidente Campos Salles retribuiu a 
visita, indo passar alguns dias como hospede official do Governo 
argentino em Buenos Ayres, onde Ihe foi retribuida, a elle e d 
sua grande comitiva, a magnifica recepqao dos Argentines no 
Rio de Janeiro. Estando ausente o presidente desde o dia 17 
de outubro ate o dia 8 de novembro, o paiz foi governado neste 
interim pelo vice-presidente, dr. Francisco de Assis Rosa e Silva. 

Governo de Kodri^iies Alves (de 1902al906). — Tendo- 
se lirmado as bases da prosperidade, graqas d habil direcqao 
economica e tinanceira do dr. Campos Salles, suceedeu a este 
na presidencia o distincto paulista dr. Francisco de Paida 
Rodrigues Alves, (jue ja havia sido presidente do sen Estado, 
sendo inaugurado o seu quatriennio a 15 de novembro de 1902. 
Tendo fallecido o vice-presidente eleito, dr. Silviano Brandao, 
realisou-se nova eleigiio em Janeiro de 1903, da qual sahiu 
vencedor o nome do illustre mineiro, dr. Affonso Penna. 

O governo de Rodrigues Alves notabilisou-se por diversas 
actividades que acjui poderemos apenas referir, a saber : 

Antes de tudo foi este o primeiro regimen presidencial em 
que o chefe da naqao governou pessoalmente sem nemhuma 
interrupQao durante todo o prazo legal. 

Principiaram debaixo deste governo as obras do reconstrucQao 
e de melhoramento da cidade e do porto do Rio de Janeiro, que 
tornaram esta cidade uma das mais attrahentes do mundo. 



280 HISTORIA DO BRAZIL. 

Foram assignados diversos tratados relatives aos limites do 
Brazil com os paizes circumvizinhos, notavelmente : 

O Tratado de Petropolis, a 17 de novembro de 1903, pelo 
qual se resolveu a velha questao com a Bolivia sobre o terri- 
torio do Acre ; o Tratado do Rio, a 6 de maio de 1904, que teve 
por fim liquidar a questao de limites com o Equador ; e o de 5 
de maio de 1906, que marcou definitivamente a fronteira entre 
o Brazil e a Guiana Hollandeza. Devemos estes e outros 
triumphos diplomaticos ao insigue genio do barao Rio Branco, 
secretario do Ministerio das Relaqoes Estrangeiras. 

Acontecimentos notaveis que merecem ser mencionados sao 
OS seguintes : 

O levante militar de 14 de novembro de 1904, pelo qual a 
opposiqao procurava depor o presidente da Republica, sendo 
suffocado no mesmo dia, ap6s a morte da sua alma directriz, 
o general Sylvestre Travassos; uma tentativa de revolta nas 
fortalezas de Santa Cruz, Pico e Praia de Fdra, a 8 de novem- 
bro de 1905 ; e a explosao do vaso de guerra Aquidaban iia 
bahia de Jacuecanga, a 21 de Janeiro de 1906, desastre este 
que muito amargurou a alma nacional, tendo perecido nelle 
tres contra-almirantes e um total de 212 pessoas da flor da 
marinha nacional. 

De 23 de julho a 27 de agosto reuniu-se na Capital Federal 
o Congresso Pan-Americano de 1906, com o qual fechou-se, por 
assim dizer, com chave de ouro o governo de Rodrigues Alves, 
pois foi este o passo mais importante ate ahi dado para o 
estreitamento das relaqoes entre as republicas co-irmas dos 
dois hemispherios. 

Presidencia de Affonso Penna (1906-1910). — A 1** de 
marqo foi indicado pelo suffragio nacional o nome do illustre 
e piedoso mineiro dr. Affonso Augusto Moreira Penna como 
successor de Rodrigues Alves, sendo eleito vice-presidente o 
dr. Nilo Pe^anha, do Estado de Rio de Janeiro. 



HISTORIA DO BRAZIL. 281 

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Connecedor profundo dos problemas politicos e economicos 
da naqao, o presidente eleito emprehendeu logo mais uma 
viagem a diversos estados da Republica a fim de melhor poder 
avaliar as condiqoes actuaes de cada mn, como tambem para 
conhecer as suas mais imperiosas necessidades. 

Inaugurado o novo governo a 15 de novembro do mesmo 
anno, foi posto em execuQao um grande program ma de expan- 
sao industrial em todos os centros mais importantes do paiz, e 
de aceordo com este programma foi organisada uma importante 
ExposiQao da Industria Nacional, a qual foi realisada na Capital 
Federal desde agosto ate setembro de 1908. Ao mesmo tempo 
foram continuados ou levados a termo os melhoramentos e as 
obras publieas encetadas no regimen anterior. 

Facto notavel dui*ante este governo foi a participagao do 
Brazil na grande Confereneia Internacional de Haya, em 1907, 
na qual, por sua inexeedivel eloquencia, o representante brazi- 
leiro, dr. Ruy Barbosa, mereceu tanto os maiores louvores dos 
delegados de outras naqoes aquella confereneia, como a eterna 
gratidao de sens patricios. 

Foi assim, no meio de um governo cujos augurios eram de 
todo lisongeiros, que falleceu o presidente Affonso Penna no dia 
14 de junho de 1909. Ao pranto nacional chorando a morte de 
tao amado filho, alliaram-se as mais tocantes expressoes da parte 
de muitas na^oes estrangeiras que por innumeraveis telegram- 
mas manifestaram sens pezames. 

Passou em seguida a cadeira presidencial o vice-presidente, 
dr. Nilo PeQanha, que completou o prazo legal do Governo sem 
a minima confusao ou desordem. 

Notabilisaram-se os ultimos mezes deste governo pelo facto 
de haver-se dado no Brazil, pela primeira vez, uma verdadeira 
campanha popular pela presidencia da Republica, na qual os 
dois candidates se apresentaram ao povo para o esclarecimento 
dos principios civicos que se achavam em discussao. De um 
lado combatia o velho estadista e tribuno, dr. Ruy BaxbQ^^^^^ 



282 HISTORIA DO BRAZIL. 

do outro o maxechal Hermes da Fonseca, Ministro da Guerra 
sob o governo Affonso Penna. Foi disputadissimo o pleito, 
sendo afinal declarado vencedor o marechal Hermes da Fonseca. 

Presidencia Hermes da Fonseca (1910-1914). — Eleito a 
1** de marqo de 1910, foi a 15 de novembro do mesmo anno 
inaugurado o governo do marechal Hermes Rodrigues da Fon- 
seca, sendo vice-presidente o dr. Wenceslao Braz. 

A presidencia Hermes viu o resurgimento, outra vez, de 
graves problemas financeiros, para cuja soluqao foram adoptadas 
diversas medidas que nao nos compete esclarecer aqui. 

Houve diversas tentativas d ordem publica, entre estes um 
levante dos marinheiros do novo dread naught Minas Geraesy 
que por suas manobras pela bahia de Guanabara e as descargas 
de canhoes sobre a cidade chegou a aterrorizar os habitantes, 
dos quaes muitos fugiram para os arrabaldes ; entretanto foi 
logo termiiiado este movimento sedicioso, sendo amnistados os 
participantes, menos alguns dos chefes que consta haverem 
sido presos e deportados. 

Em 1914 foi brutalmente assassiuado no Hotel dos Estran- 
geiros o vice-presidente do Senado e Senador do Estado do Rio 
Grande do Sul, general Pinheiro Machado, notavel politico e 
caudilho que havia exercido grande influencia na politica na- 
cional durante o governo Hermes da Fonseca. 

Presidencia de Wenceslao Braz (1914-1918). — Foi eleito 
successor a presidencia no anno 1914 o dr. Wenceslao Braz 
Gomes Pereira, estadista e fazendeiro mineiro, sendo escolhido 
para vice-presidente o dr. Urbano Santos, presidente do Senado, 
e chefe politico do Maranhao. 

Teve por tarefa o novo presidente fazer a maxima economia 

dos recursos nacionaes para fazer frente aos graves problemas 

financeiros que ameaqavam a naqao, a qual, apezar das manifes- 

tas difficuldades, o novo chefe do Governo nacional ia desem- 

penhando com. resolucao e firmeza, quando foi sorprehendido 

por um pbenomeno inesperado e teiiWeV 




SEXHOK UK. 



PES80A, PRKSIDENTE DO BRAZIL. 



tl 



1 



11 



HISTORIA DO BRAZIL. 288 

A 28 de julho de 1914 rompeu-se a grande conflagraqao na 
Europa, para cuja vortice foram impellidas, uma por uma, quasi 
todas as naqoes do velho continente, e, afinal, diversos estados 
americanos, sendo que o Brazil, ap<5s repetidas violaqoes de 
seus direitos internacionaes, teve que romper as ligaqoes diplo- 
ipaticas com a Allemanha no dia 11 de abril de 1917, sendo a 
causa immediata de tal passo o torpedeamento do vapor brazi- 
leiro Parana, No dia 26 de outubro de 1917 foi declarada a 
existencia de um estado de guerra entre o Brazil e a Allemanha. 

No dia 1° de marqo de 1918 o suffragio nacional por unani- 
midade chamou i, presidencia da republica pela segunda vez o 
ex-presidente dr. Fmncisco de Paula Rodrigues Alves, sendo 
ao mesmo tempo nomeado vice-presidente pelo quadrennio 
1918-1922 o dr. Delfim Moreira, o entao presidente do Estado 
de Minas Geraes. 

Mas adoeceu gravemente o presidente recem-eleito, e nao 
pode tomar posse do seu cargo em novembro, e por esta circum- 
stancia foi obrigado o vice-presidente dr. Delfim Moreira a 
emprehender o governo do paiz. A doenqa do dr. Rodrigues 
Alves peiorou, at^ que morreu o venerando e aureolado esta- 
dista, a 16 de Janeiro de 1919. Procedeu-se a nova eleiqao, 
a qual se realisou a 13 de abril; foi eleito presidente o dr. 
Epitacio Pessoa, que nesse tempo se achava em Paris como 
delegado i, Conferencia de Paz. 



QUESTIONARIO.-CAPITULO XXXII. 

— Quem foi o primeiro presidente eleito por suffragio nacional? 

— Que questao de limites foi liquidada durante este governo ? 

— Como comegaram as actividades do Antonio Conselheiro ? 

— Que povoados f undou ? 

— Como principiou a sua insurrei^So ? 

— Que exito teve o frade capuchinho despachado pelo govemador 
da Bahia? 

— Que exito teve a primeira expedic^ao Tft\\\\a.T'\ 



284 HISTORIA DO BRAZIL. 

— Que exito teve a segunda ? 

— Que exito teve a terceira ? 

— Em que estado se achava a opiniao publica ? 

— Que exito teve a quarta expedigao at6 o fim de agosto ? 

— Que refoFQOs chegaram ao canipo em setembro ? 

— Como terminou a guerra ? 

-Que verdades revelou a campanha de Canudos? 

— (^uem foi eleito presidente depois da guerra? 

— Que divisa escolheu? 

— Que medidas de economia e finanga tomou ? 

— Que troca de visitas assignalou a sua presidencia ? 

— Quem succedeu na presidencia ? 

— Como se notabilisou pessoalmente o seu governo ? 

— Como se notabilisou relativamente a cidade do Rio de Janeiro ? 

— Que tratados de limites forani assignados durante a sua pre- 
sidencia ? 

— Que tentativas de revolta liouve ? 

— Qual foi o grande Congresso que se reuniu? aonde? 

— Quem foi entao eleito presidente ? 

— Que politica seguiu ? 

— Que parte tomou o Brazil na Conferencia Tnternacional de Haya? 

— Quem teve de completar o termo do governo ? porque ? 

— Que facto notavel ^ mencionado com respeito ds eleigoes que 
seguiram ? 

— Quem foi eleito ? 

— Com que difficuldades lutou? 

— Que motim naval se deu com este governo ? 

— Que assassinato notavel houve ? 

— Quem foi eleito ])residente no anno 1914 ? 

— Que graves problemas ameagavam a nagao? Como desempe- 
nhava o novo presidente a sua tarefa? 

— Que grande e terrivel acontecimento assignalou o anno de 1914 
na Ettropa? 

— Que parte tomou o Brazil ? 

— Quem foi eleito presidente em 1918? 

— Quem tomou posse do governo ? porque ? 

— Porqne se realisou nova eleigao em 1919? Quem foi eleito? 



BISXOBIA DO BKAZUm 285 



CONSTITUigAO POLITICA 



DA 



EEPUBLICA DOS ESTADOS UNIDOS 



DO 



BRAZIL. 

N6s, OS Representantes do Povo Brazileiro, reunidos em Congresso 
Constituinte para organisar um reginieu livre e democratico, estabe- 
lecemos, decretaiuos e promulgamos a seguinte Constituiguo da Repu- 
blica dos Estados Unidos do Brazil : — 

TITULO I. 

DA ORGANISAQAO FEDERAL. 

Disposi0es Preliminares, 

Art. 1.® A Nagao Brazileira adopta conio fdrraa de governo, sob 
o regimen representativo, a republica federativa, proclamada a 15 de 
Novembro de 1889, e constitue-se, por uniao perpetua e indissoluvel 
das suas autigas provincias, em Estados Unidos do Brazil. 

Art. 2.® Cada uma das antigas provincias formard, um estado, e 
o antigo municipio neutro constituira o districto federal, continuando 
a ser a capital da Uniao, emquanto nao se der execugao ao disposto 
no artigo seguinte. 

Art. 8.° Fica pertencendo d Uniao, no planalto central da Repu- 
blica, uma zona de 14,400 kilometros quadrados, que serd opportu- 
namente demarcada para nella estabelecer-se a futura capital federal. 

Paragrapho unico. Eifectuada a mudanga da capital, o actual 
districto federal passard a constituir um estado. 

Art. 4.° Os estados podem incorporar-se entre si, subdividir-se, 
ou desmembrar-se, para se annexar a outros, on formar povos estados, 
mediante acquiescencia das respectivas assembl^as legislativas, em 
duas sessoes annuaes successivas, e approvagao do congress© nacionaL 



286 HISTORIA DO BRAZIL. 

Art. 5.® Tmcumbe a cada estado prov§r, a expensas proprias, 
i& necessidades de seu govemo e adnunistragao ; a Uniao, por^m, 
prestard soccorros ao estado que, eiu caso de calamidade publica, os 
solicitar. 

Art. 6.° G governo federal nao poderd intervir em negocios 
peculiares aos estados, salvo : 

1.° Para repellir invasao estrangeira, ou de una estado em 
outro ; 

2° Para manter a f6rma republicana federativa ; 

3.° Para restabelecer a ordeiu e a tranquillidade nos estados, d 
requisigao dos respectivos governos ; 

4.° Para assegurar a execuglo das leis e sentengas federaes. 

Art. 7.° E da competencia exclusiva da Uniao decretar : 

1.® Impostos sobre a inipoi*taQao de precedencia estrangeira; 

2.° Direitos de entrada, sahida e estada de navios, sendo livre o 
commercio de cabotagem ds mercadorias nacionaes, bem como ia 
estrangeiras que jil ten ham pago imposto de importaQao ; 

3.° Taxas de sello, salvo a restricgao do artigo 9.° § 1.° n. 1 ; 

4.° Taxas dos correios e telegraphos federaes. 

§ 1®. Tambem compete privativamente d Uniao : 

1.° A instituigao de bancos emissores ; 

2.° A creagao e maimtengao de alfandegas. 

§ 2.° Os impostos decretados pela Uniao devem ser uniformes para 
todos OS estados. 

§ 3.° As leis da Uniao, os actos e as sentengas de suas autoridades 
serao executados em todo o paiz por f unccionarios federaes, podendo 
todavia a execugao das primeiras ser confiada aos governos dos 
estados, mediante annuencia destes. 

Art. 8.° E vedado ao governo federal crear de qualquer modo, dis- 
tincQoes e preferencias em favor dos portos de una contra os de outros 
estados. 

A rt. 9.° E da competencia exclusiva dos estados decretar impostos: 

1.° Sobre a exportagao de mercadorias de sua propria producgao ; 

2.° Sobre immoveis ruraes e urbanos ; 

3.° Sobre transmissao de propriedade ; 

4.° Sobre industrias e profissoes. 

§ 1.° Tambem compete exclusivamente aos estados decretar: 

1.° Taxas de sello quanto aos actos emanados de seus respectivos 
governos e negocios de sua economia ; 

2.° Contribuigoes concernentes aos seus telegraphos o correios. 

§ 2.° E isenta de impostos, no estado por onde se exportar, a 
producgao de outros estados. 

§ 3.° S6 6 licito a um estado tributar a importagao de mercadorias 
estrangeiras, quando destinadas ao consumo no seu territorio, rever- 
tendo, por6m, o producto do imposto para o thesouro federaL 



HISTORIA DO BRAZIL, 287 

§ 4.^ Fica salvo aos estados o direito de estabelecerem linhas 
telegraphicas entre os diversos pontos de seus territories, e entre estes 
e OS de outros estados que se nao achareiu sei*vidos por linhas fede- 
raes, podendo ^a Uniao desaproprial-as, quaudo i'6r de interesse geral. 

Art. 10. E prohibido aos estados tributar bens e reudas federaes 
ou servigos a cargo da Uniao, e reciprocanieute. 

Art. 11. E vedado aos estados, como d Uniao : 

1.° Crear impostes de transito pelo territorio de um estado, ou na 
passagem de um para outro, sobre productos de outros estados da 
Republica ou estrangeiros, e bem assim sobre os vehiculos de terrae 
agua, que os transportarem ; 

2°. Estabelecer, subvencionar, ou ombaragar o exercicio de cultos 
religiosos. 

3.° Prescrever leis retroactivas. 

Art. 12. A16in das fontes de recelta discriminadas nos artigos 7° 
e 9°, 6 licito d Uniao como aos estados, cumulativamente, ou nao, 
crear outras quaesquer, nao contravindo o disposto nos artigos 7°, 9° 
e 11 n. 1. 

Art. 13. O direito da Uniao e dos estados de legislarem sobre a 
viagao ferrea e navegagao interior, serd regulado por lei federal. 

Paragrapho unico. A navegagao de cabotagem serd feita por 
navios nacionaes. 

Art. 14. As forgas de terra e mar sao instituigoes nacionaes 
permanentes, destinadas i, defesa da patria no exterior e d manu- 
tengao das leis no interior. 

A forga armada 6 essenciahiiente obediente, dentro dos limites da 
lei, aos seus superiores hierarchicos e obrigada a sustentar as institui- 
goes constitucionaes. 

Art. 15. Sao orgaos da soberania nacional o poder legisiativo, o 
executivo e o judiciario, harmonicos e independentes entre si.* 



SBcgAo I. 

DO PODER LEGISLATIVO. 

CAPITULO I. 

Disposi^oes Geraes. 

Art. 16. O poder legisiativo 6 exercido pelo congresso nacional, 
com a sancgao do presidente da republica. 

§ 1.° O congresso nacional compoe-se de dous ramos; a camara 
dos deputados e o seuado. 



288 HISTORIA DO BKAZIL. 

§ 2.® A eleigao para senadores e deputados far-se-ha simultanea- 
mente em todo o paiz. 

§ 3.° Ninguem p6de ser, ao mesmo tempo, deputado e senador. 

Art. 17. O congresso reunir-se-ha, na capital federal, inde- 
pendeiitemeote de convocaQao a 3 de Maio de cada anno, se a lei nao 
designar outro dia, e funccionard quatro mezes da data da abertura, 
podendo ser prorogado, adiado ou convocado extraordinariamente. 

§ 1.° S6 ao congresso compete deliberar sobre a prorogagao e 
adiamento de suas sessoes. 

§ 2.° Cada legislatura durard tres annos. 

§ 3.° O governo do estado em cuja I'epresentagao se der vaga, por 
qualquer causa, inclusive renuncia, mandard, immediatamente proce- 
der d nova eleigiio. 

Art. 18. A camara dos deputados e o senado trabalharao separa- 
damente e, quando nao se resolver o contrario por maioria de votes, 
em sessoes publicas. As deliberaQoes serao tomadas por maioria de 
votos, achando-se presente em cada uma das camaras a maioria abso- 
luta dos seus membros. 

Paragrapho unico. A cada uma das camaras compete : 

Verificar e reconhecer os poderes de seus membros ; 

Eleger a sua mesa ; 

Organisar o seu regimento interno ; 

Regular o service de sua policia interna ; 

Nomear os empregados de sua secretaria. 

Art. 19. Os deputados e senadores sao inviolaveis por suas 
opinioes, palavras e votos, no exercicio do mandato. 

Art. 20. Os deputados e os senadores, desde que tiverem recebido 
diploma at6 d nova eleigao, nao poderao ser presos, nem processados 
criminalniente, sem previa licen^a de sua camara, salvo case de 
flagrancia em crime inafiangavel. Neste caso, levado o processo niA 
pronuncia exclusive, a autoridade processante remetterd os autos d 
camara respectiva, para resolver sobre a procedencia da accusagao, se 
o accusado nao optar pelo julgamento immediate. 

Art. 21. Os membros das duas camaras, ao tomar assento, con- 
trahirao compromisso formal em sessao publica de bem cumprir os 
seus deveres. 

Art. 22. Durante as sessoes vencerao os senadores e os deputados 
um subsidio pecuniario igual, e ajuda de custo, que serao fixados pelo 
congresso, no fim de cada legislatura, para a seguinte. 

Art. 23. Xenhuni membro do congresso, desde que tenha sido 
eleito, poderd celebrar contratos com o poder executive nem delle 
receber commissoes ou empregos renmnerados. 

§ 1 .° Exceptuam-se desta prohibiQao : 

1.° As missoes diplomaticas ; 

2.° As commissoes ou commandos niilitares ; 



HISTORIA DO BRAZIL. 289 

3.** Os cargos de accesses e as promoQoes legaes. 

§ 2.° Nenhum deputado ou senador, por6m, poderd aceitar nome- 
a§ao para missoes, coniinissoes ou commandos, de que tratam os ns. 
1 e 2 do paragrapho antecedeute, sem liceiiQa da respectiva camara, 
quando da aceitagao resultar privaQao do exercicio das funcgoes legis- 
lativas, salvo nos casos de guerra ou naquelles em que a hoiira e a 
integridade da Uiiiao se achareiu empenhadas. 

Art. 24. O deputado ou senador nao jxSde tambem ser presidente 
ou fazer parte de directorias de bancos, companhias ou emprezas que 
gozem dos favores do governo federal definidos em lei. 

Paragrapho unico. A inobservancia dos preceitos contidos neste 
artigo e no antecedente, importa perda da mandato. 

Art. 25. O mandato legislativo ^ incompativel com o exercicio 
de qualquer outra funcgao durante as sessoes. 

Art. 26. Sao condigoes de elegibilidade para o congresso nacional: 

1.° Estar na posse dos direitos de cidadao brazileiro e ser alistado 
como eleitor ; 

2°. Para a camara, ter mais de quatro an nos de cidadao brazi- 
leiro, e para o senado mais de seis. 

Esta disposigiio nao comprehende os cidadaos a que refere-se o n. 
4 do artigo 69. 

Art. 27. O congresso declarartl, em lei especial, os casos de 
incompatibilidade eleitoral. 



CAPITULO 11. 

Da camara dos deputados. 

Art. 28. A camara dos deputados compoe-se de representantes 
do povo eleitos pelos estados e pelo district© federal, mediante o 
sutt'ragio directo, garantida a representagao da minoria. 

§ 1.° O nuniero dos deputados serd, iixado por lei em proporgao 
que nao excederd de um por setenta mil habitantes, nao devendo esse 
numero ser inferior a quatro por estado. 

§ 2°. Para esse fim mandard o governo federal proceder, desde jd,, 
ao recenciamento da populagao da Republica, o qual serd revisto 
decennalmente. 

Art. 29. Compete d, camara a iniciativa do adiamento da sessao 
legislativa e de todas as leis de impostos, das leis de fixagao das forgas 
de terra e mar, da discussao dos projectos offerecidos pelo poder 
executivo e a declaragao da procedencia ou improcedencia da ac- 
cusagao contra o presidente da Republica, nos termos do artigo 53, e 
contra os ministros de estado nos crimes connexos com os do presi- 
dente da Republica. 



290 HISTOBIA DO BBAZIL. 

CAPITULO III. 

Do senado. 

Art. 30. O senado corapoe-se de cidadaos elegiveis nos termos do 
artigo 26 e maiores de 35 annos, em numero de tres senadores por 
estado e tres pelo districto federal, eleitos pelo mesmo modo porque 
o forem os deputados. 

Art. 31. O mandate de senador durard por nove annos, reno- 
vando-se o senado pelo tergo triennalmente. 

Paragrapho unico. O senador eleito em substituigao de outro 
exercerd o mandato pelo tempo que restava ao substituido. 

Art. 32. O vice-presidente da Republica serd presidente no 
senado, onde s6 terd voto de qualidade, e serd substituido, nas 
ausencias e impedimentos, pelo vice-presideube da mesma camara. 

Art. 33. Compete privativamente ao senado julgar o presidente da 
Republica e os demais funccionarios federaes designados pela Consti- 
tuigao, nos termos e pela f6rma que ella ptescreve. 

§ 1®. O senado, quando deliberar como tribunal de justiga, serd 
presidido pelo presidente do supremo tribunal federal. 

§ 2.° Nao proferird sentenga condemnatoria senao por dous tergos 
dos membros presentes. 

§ 3.° Nao poderd impdr outras penas mais que a perda do cargo 
e a incapacidade de exercer qualquer outro, sem prejuizo da acgao da 
justiga Ordinaria contra o condemuado. 



CAPITULO IV. 

Das attrihui^oes do Congresso. 

Art. 34. Compete privativamente ao Congresso nacional : 

1°. Orgar a receita, fixar a despeza federal annualmente e tomar 
as contas da receita e despeza de cada exercicio financeiro ; 

2.° Autorisar o poder executivo a contrahir emprestimos e fazer 
outras operagoes de credito ; 

3.° Legislar sobre a divida publica e estabelecer os meios para o 
seu pagamento ; 

4.° Regular a arrecadagao e a distribuigao das rendas federaes ; 

5.° Regular o commercio internacional, bem como o dos estados 
entre si e com o districto federal, alfandegar portos, crear ou sup- 
primir entrepostos ; 

6.® Legislar sobre a navegaglio dos rios que banhem mais de um 
estado, ou ae estendam a terriloxios estraugeiros ; 



HISTORIA DO BRAZIL. 291 

7.® Deterininar o peso, o valor, a inscrip^ao, o typo e a deno> 
mina^HO das moedas; 

8.° Crear bancos de emissao, legislar sobre ella e tributal-a ; 
9.° Fixar o padrao dos pesos e medidas ; 

10. Resolver definitivamente sobre os limites dos estados entre 
si, OS do districto federal e os do territorio nacional com as na^oes 
limitrophes ; 

11. Autorisar o govemo a declarar guerra, se nao tiver lugar ou 
mallograr-se o recurso do arbitramento, e a fazer a paz ; 

12. Resolver definitivamente sobre os tratados e convengoes com 
as nagoes estrangeiras ; 

13. Mudar a capital da Uniao ; 

14. Conceder subsidios aos estados na hypothese do artigo 5® ; 

15. Legislar sobre o servigo dos correios e telegraphos federaes; 

16. Adoptar o regimen conveniente d seguranga das fronteiras; 

17. Fixar anniialniente as forgas de terra e mar ; 

18. Legislar sobre a organisagao do exercito e da armada ; 

19. Co'nceder ou negar passagem a forgas estrangeiras pelo terri- 
torio do paiz, coino operagoes militares ; 

20. Mobil isar e utilisar a guarda nacional ou niilicia civica, nos 
casos previstos pela constituigao; 

21. Declarar em estado do sitio ura ou mais i)onto8 do territorio 
nacional, na emergencia de aggressao por forgas estrangeiras ou de 
comniogao interna, e approvar ou suspender o sitio que houver sido 
declarado pelo poder executivo, ou sens agentes responsaveis, na 
ausencia do congi*esso ; 

22. Regular as condigoes e o processo da eleigao para os cargos 
federaes em todo o paiz ; 

23. Legislar sobre o direito civil, commercial e criminal da Re- 
publica e o processual da justiga federal ; 

24. Estabelecer leis uniformes sobre naturalisagao ; 

25. Crear e supprimir empregos publicos federaes, fixar-lhes 
attribuigoes, e estipular-ltes os vencimentos ; 

26. Organisar a justiga federal, nos termos dos artigos 56 e 
seguintes da secgao III ; 

27. Conceder amnistia ; 

28. Commutar e perdoar as penas impostas, por crimes de respon- 
sabilidade, aos funccionarios federaes ; 

29. Legislar sobre terras e minas de propriedade da Uniao ; 

30. Legislar sobre a organisagao municipal do districto federal, 
bem como sobre a policia, o ensino superior e os demais servigos que 
na capital forem reservados para o governo da Uniao ; 

31. Submetter a legislagao especial os pontos do territorio da 
Republica necessarios para a fundagao de arsenals, ou outros esta- 
belecimentos e instituigoes de conveniencia federal ; 



292 HISTOKIA DO BRAZIL. 

32. Regular os casos de extradigao entre os estados ; 

33. Decretar as leis e resolugoes necessarias ao exercicio dos 
poderes que pei'tencem d Uniao ; 

34. Decretar as leis orgaiiicas para a execugao completa da con- 
stituiQao ; 

35. Prorogar e adiar suas sessoes. 

Art. 35. Incumbe, outrosim, ao congresso mas nao privativsr 
mente: 

1.° Velar na guarda da constituigao e das leis ; e providenciar 
sobre as uecessidades de caracter federal ; 

2.° Alii mar no paiz o desenvolviinento das lettras, artes e sci- 
encias, beni conio a inimigragao, a agricultura, a industria e o com- 
mercio, sera privilegios que tolham a acgao dos governos locaes ; 

3.° Crear instituigoes de ensino superior e secundario nos estados ; 

4.° Prover a iustrucgao secundaria no districto federal. 



CAPITULO V. 

Das leis e resolu^oes. 

Art. 36. Salvas as excepgoes do artigo 29, todos os projectos de 
lei podem ter origem indistiiictameiite na camara ou no senado, sob 
a iniciativa de qualquer dos sens niembros. 

Art. 37. O projecto de lei adoptado em uma das camaras serd, 
submettido d outra, e esta, se o approvar, envial-o-ha ao poder execu- 
tivo, que, aquiescendo, o sanccionarti e promulgard. 

§ 1°. Se, por^m, o presidente da Kepublica o julgar inconstitu- 
cional ou coiitrario aos interesses da Nagao, negard, sua sancgao dentro 
de dez dias uteis, daquelle em (jue recebeu o projecto, devolv6iido-o, 
nesse niesino prazo, li camara, onde elle se houver iniciado, com os 
motivos (la recusa. 

§ 2.° O silencio do presidente da Kepublica no decendio importa 
a sancgao ; e, no caso de ser esta negada, quaiido jd estiver encerrado 
o congresso, o presidente dard publicidade ds suas razoes. 

§ 3.° Devolvido o projecto ti camara iniciadora, ahi se sujeitard 
a uina discussao e d votagao nominal, considerando-se approvado, se 
obtiver dous tergos dos suffragios presentes. Neste caso, o projecto 
serd reinettido il outra camara, que se o approvar pelos mesmos 
tramites, e pela mesma maioria, o enviard como lei ao poder execu- 
tivo para a formalidade da promulgagao. 

§ 4.° A sancgao e a promulgagao eifectuam-se por estas formulas: 

l.a '' () congresso nacioual decreta, e eu sancciono a seguinte lei 
Cou resolugao)." 



HISTOKIA DO BRAZIL. 293 

2.* " O congresso iiacioiial decreta, e eu promulgo a seguinte lei 
(ou resolugao)." 

Art. 88. Nao seiido a lei proniulgada deiitro de 48 horas pelo 
presideiite da Republica iios casos dos §§ 2° e 8° do art. 37, o presi- 
dente do senado ou o vice-presidente, se o primeiro iiao o fizer em 
igual prazo, a promulgarji, usando da seguinte formula : *' Eu, presidente 
(ou vice-presidente) do senado, fago saber aos (j[ue o presente virem 
que o congresso nacional decreta e pronmlga a seguinte lei ou 
resolugao." 

Art. 80. O projecto de uma caniara, emendado na outra, volverd i, 
primeira, que, se aceitar as emendas, envial-o-ha, modificado em 
conformidade dellas, ao poder executivo. 

§ 1.° No caso contrario, volverd d camara revisora, e se as alte- 
ragoes obtivereni dous tergos dos votos dos nieml)ros presentes, con- 
siderar-se-hao approvadas, sendo entao remettidas com o projecto i. 
camara iniciadora, que so poderd reproval-as pela mesma maioria. 

§ 2.° Rejeitadas deste modo as alteragoes, o projecto serd. sub- 
mettido, sem ellas, d sancgao. 

Art. 40. Os projectos rejeitados, ou nao sanccionados, naopoderSo 
ser renovados na mesma sessao legislativa. 



SBcgAo II. 

DO PODER EXECUTIVO. 

CAPITULO J. 

Do presidente e rice-presideiite. 

Art. 41. Exerce o poder executivo o presidente da Republica dos 
Estados Unidos do Brazil, como chefe electivo da nagao. 

§ 1.° Substitue o presidente, no caso de impedimento, e succede- 
Ihe, no de falta, o vice-presidente, eleito simultaneamente com elle. 

§ 2.° Xo impedimento, ou falta do vice-presidente, serao sucessi- 
vamente chamados li presidencia o vice-presidente do senado, o presi- 
dente da camara e o do supremo tribunal federal. 

§ 8.° Sao condigoes essenciaes, para ser eleito presidente, ou vice- 
presidente da Republica : 

1.° Ser brazileiro nato : 

2.® Estar no exercicio dos direitos politicos ; 

8.° Ser maior de 35 aunos. 



294 HISTOBIA DO BBAZIL. 

Art. 42. Se, no caso de vaga, por qnalqaer causa, da presidencia 
<m vice-presidencia, nao hoaverem ainda deconido dons annos do 
periodo presidencial, proceder-se-ha a nova elei^ao. 

Art. 48. O presidente exercerd o cargo por qnatro annos, nao 
podendo ser reeleito para o periodo presidencial inimediato. 

§ 1 .° O vice-presidente que exercer a presidencia no nltirao anno 
do periodo presidencial nao poderi ser eleito presidente para o 
periodo seguinte. 

§ 2.° O presidente deixar^ o exercicio de suas funcgoes, iniproro- 
gavelmente, no mesmo dia em que terminar o sen periodo presiden- 
cial, succedendo-lhe logo o recem-eleito. 

§ 3.° Se este se achar impedido, on faltar, a substituigao far-se-ha 
nos termos do Art. 41, §§ 1.° e 2.° 

§ 4.° O primeiro periodo presidencial terminal^ a 15 de novembro 
de 1894. 

Art. 44. Ao empossar-se do cargo o presidente pronnnciard, em 
sessao do congresso, ou se este nao estiver reunido, ante o supremo 
tribunal federal, esta affirma^ao: — 

"Prometto manter e ciiiuprir com perfeita lealdade a constitui^ao 
federal, proniover o bein geral da Republica, observar as suas leis, 
sustentar-lhe a uniao, a integridade e a independencia." 

Art. 45. () presidente e o vice-presidente nao podem sahir do 
territorio nacioiial sera permissao do congresso, sob pena de perdereni 
o cargo. 

Art. 40. () presidente e o vice-presidente j)erceberao subsidio 
fixado jxilo congresso no periodo presidencial antecedente. 



CAPITULO n. 

Da elei^ao de presidente e vice-presidente. 

Art. 47. O presidente e vice-presidente da Republica serao eleitos 
por suttragio directo da nagao e maioria absoluta de votos. 

§ 1.° A eleigao ter^ lugar no dia 1 de mar^o do ultimo anno do 
periodo presidencial, procedeudo-se na capital federal e nas capitaes 
dos estados d, apuragao dos votos recebidos nas respectivas circum- 
scrip^oes. O congresso fard a apuragao na sua primeira sessao do 
mesmo anno, com qualquer nnmero de membros presentes. 

§ 2.** Se nenhum dos votados houver alcangado maioria absoluta, 
o congresso elegerd, por maioria dos votos presentes, um, dentre os 
que tiverem alcauQado as duas votagoes mais elevadas na elei^ao 
directa. 
Em caso de empate considerar-se-ha eleito o mais velho. 



HISTOBIA DO BKAZIL. 295 

§ 'd° O processo da eleigao e da apuragao ser^ regolado por lei 
ordinaria. 

§ 4.° Sao ineKgiveis para os cargos de presidente e vice-presidente 
OS pareiites consanguineos e affins, nos 1.° e 2° gr^s, do presidente 
ou vice-presidente, que se achar em exercicio no momento da elei^ao 
ou que tenha deixado at^ seis mezes antes. 



CAPITULO III. 

Das attribuicoes do poder executivo. 

Art. 48. Compete privativamente ao presidente da Republica: — 

1.° Sanccionar, promulgar e fazer publicar as leis e resoluQoes do 
congresso ; expedir decretos, instruQoes e regulamentos para a sua fiel 
execugao ; 

2.° Nomear e demittir li^Temente os ministros de estado ; 

3.° Exercer ou designar quem deva exercer o commando supremo 
das forgas de terra e mar e dos Estados Unidos do Brazil, quando 
forem chamadas as armas em defesa interna ou extemo da Uniao ; 

4.° Administrar o exercito e armada e distribuir as respectivas 
forgas, conforme as leis federaes o as necessidades do governo na- 
cioiial ; 

6.° Prover os cargos civis e militares de caracter federal, salvas as 
restricgoes expressas na constituigao ; 

f).^ Indultar e commutar as penas nos crimes sujeitos i. jurisdigao 
federal, salvo nos casos a que se referem os artigos 34, n. 28, e 62, 
§2.»; 

7.° Declarar a guerra e fazer a paz nos termos do artigo 34, n. 11; 

8.** Declarar immediatamente a guerra nos casos de invasao ou 
aggressao estrangeira; 

9.° Dar conta annualmente da situagao do paiz ao congresso 
nacional, indicando-lhe as providencias e reformas urgentes, em 
meiisagem, que remetterd ao secretario do senado no dia da abertura 
da sessao legislativa ; 

10. Convocar o congresso extraordinariamente ; 

11. Nomear os magistrados federaes mediante proposta do supre- 
mo tribunal ; 

12. Nomear os membros do supremo tribunal federal e os 
ministros diplomaticos, sujeitando a nomeagao d approvagao do 
senado. 

Na ausencia do congresso, designal-os-ha em commissao, at6 que o 
senado se pronuncie ; 

13. Nomear os demais membros do corpo diplomatico e os agen 
fces consulares ; 



296 HISTOBIA DO BRAZIL. 

14. Manter as relagoes com os estados estrangeiros ; 

15. Declarar por si, ou seus agentes responsaveis, o estado de 
sitio em qualquer ponto do territorio nacional, nos casos de aggressao 
estrangeira, ou grave commogao intestina (art. 6.% n. 3 ; art. 34, 
n. 21, e art. 80); 

16. Entabolar negociagoes iuternacionaes, celebrar ajustes, con- 
versoes e tratados, sempre ad referendum do congresso, e approvar os 
que OS estados celebrarem na conformidade do art. 65, submettendo- 
os, quando cumprir, d autoridade do congresso. 



CAPITULO IV. 

Dos ministros de Estado* 

Art. 49. O preside nte da Republica 6 auxiliado pelos ministros 
de Estado, agentes de sua confianga, que Ihes subscrevem os actos, e 
cada uni delles presidird a um dos ministerios em que se dividir a 
administraQHo federal. 

Art. 50. Os ministros de Estado nao poderao acumular o exerci- 
cio de outro eiiiprego ou funcgao publica, nem ser eleitos presidentes 
ou vice-presidente da Uniao, deputado ou senador. 

Paragraplio uiiico. () deputado ou senador que acceitar o cargo 
de Tuinistro de Estado, perderd o mandato e proceder-se-ha inimedia- 
tameiite a nova eleigao, na qual nao poderd ser votado. 

Art. 51. Os ministros de Estado nao poderao comparecer ds 
sessoes do congresso, e so se communicarao com elle por escripto, ou 
pess()alin«'nt(3 em conferencia com as commissoes das camaras. 

Os rclatorios animaes dos ministros serao dirigidos ao presidente 
da Republica e distribuidos por todos os membros do congresso. 

Ai{T. 52. O ministros de estado nao sao responsaveis perante o 
congiesso, ou perante os tribunaes, pelos conselhos dados ao presi- 
dente (la Republica. 

§ 1.° Respondem, por^ni, quanto aos seus actos, pelos crimes 
qualificados em lei. 

§ 2.° Xos crimes communs e de responsabilidade serao processar 
dos e jidgados pelo supremo tribunal federal, e, nos connexos com os 
do presidente da Republica, e pela autoridade competente para o 
julgamento deste. 

CAPITULO V. 

Da responsabilidade do presidente. 

Art. 53. O presidente dos Estados Unidos do Brazil seri submet- 
tido a processo e a julgamento, depois que a camara declarar 



HISTORIA DO BEAZIL. 297 

procedeiite a accusa^ao, perante o supremo tribunal federal, iios 
crimes communs, e nos de responsabilidade perante o senado. 

Paragrapho unico. Decretada a procedencia da accusagao ficard o 
presidente suspense de suas funcgoes. 

Art. 54. Sao crimes de resix>nsabilidade, os actos do presidente 
da Republica que attentarem contra: — 

1.° A existencia politica da Uniao ; 

2.° A constituigao e a f6rma do governo federal ; 

3.° O livre exercicio dos poderes politicos ; 

4.° O gozo e exercicio legal dos direitos politicos ou individuaes ; 

D° A seguranga interna do paiz ; 

6.® A probidade da administragao ; 

7.° A guarda e emprego constitucional dos dinheiros publicos ; 

9.° As leis orgamentarias votadas pelo congresso ; 

§ 1.° Esses delictos serao definidos em lei especial. 

§ 2° Outra lei regular^, a accusagiio, o processo e o julgamento. 

§ 3° Ambas essas leis serao feitas na primeira sessao do primeiro 
congresso. 



SBCCAO in. 

DO PODER JUDICIARIO. 

Art. 55. O poder judiciario da Uniao terrd. por orgaos um supremo 
tribunal federal, coin s6de na capital da Republica e tantos juizes 
e tribunaes federaes, distribuidos pelo paiz, quantos os congresso crear. 

Art. 56. O supremo tribunal federal conip6r-se-ha de quinze juizes, 
nomeados na f6rma do art. 48, n. 12, dentre os cidadaos de notavel 
saber e reputagJio, elegiveis para o senado. 

Art. 57. Os juizes federaes sao vitalicios e perderao o cargo uni- 
camente por sentenga judicial. 

§ 1.° Os seus vencimentos serao determinados por lei e nao.pode- 
rao ser diminuidos ; 

§ 2.° O senado julgar^ os membros do supremo tribunal federal 
nos crimes de responsibilidade, e este os juizes federaes inferiores. 

Art. 58. Os tribunaes federaes elegerao de sen seio os seus presi- 
dentes e organisarao as respectivas secretarias. 

§ 1.° A nomeagao e a demissao dos enipregados de secretaria, bem 
como o provimento dos officios de justiga nas circumscripgoes judici- 
arias, compete respectivamente aos presidentes dos tribunaes. 

§ 2.° O presidente da Republica designar^, dentre os membros 
do supremo tribunal fc^deral, o procuvador geral da Republica, cujas 
attribuigoes se detinirao em lei. 



298 HISTORTA DO BRAZIL. 

Akt. 59. Ao supremo tribunal federal compete : 

I. Processar e julgar origiuaria e privativamente ; 

a) O presidente da Republica nos crimes communs e os ministros 
de estado nos cases do art. 52. 

h) Os ministros diplomaticos, nos crimes communs e nos de res- 
pousabilidade ; 

c) As causas e conflictos entre a Uniao e os estados, ou entre estes 
uns com os outros ; 

(I) Os litigios e as reclamagoes entre nagoes estrangeiras e a Uniao 
ou OS estados ; 

e) Os conflictos dos juizes ou tribunaes federaes entre si, ou entre 
estes e os dos estados, assim como os dos juizes e tribunaes de um 
estado com juizes e os tribunaes de outro estado ; 

II. Julgar, em grio de recurso, as questoes resolvidas pelos juizes 
e tribunaes federaes, assim como as de que tratam o presente artigo, 
§ 1.°, e o artigo 60; 

III. Rever os processes findos, nos termos do artigo 81. 

§ 1.° Das sentengas das justigas dos estados em ultima instancia 
haveril recurso para o supremo tribunal federal : 

a) Quando se questionar sobre a validade, ou a applicagao de tra- 
tados e leis federaes, e a decisao do tribunal do estado f6r contra 
ella ; 

b) Quando se constestar a validade de leis o de actos dos governos 
dos estados em face da constituigao, ou das leis federaes, e a decisao 
do tribunal do estado considerar validos esses actos, ou essas leis 
impugn adas. 

§ 2.° Nos casos em que liouver de applicar leis dos estados, a 
justiQa federal consultary a jurisprudencia dos tribunaes locaes, e 
vice-versa, as justigas dos estados consultarao a jurisprudencia 
dos tribunaes federaes, quando houverem de interpretar leis da 
uniao. 

Art. 60. Compete aos juizes ou tribunaes federaes processar e 
julgar: 

a) As causas em que algumas das partes fundar a acgao, ou a 
defesa*, em disposigao da constituigao federal ; 

b) Tod as as causas propostas contra o governo da Uniao ou fazenda 
nacional, fundadas em disposigoes da Constituigao, leis e regulamen- 
tos do poder executive, ou em contrates celebrados com o mesmo 
governo ; 

c) As causas provenientes de compensagoes, reivindicagoes, indem- 
nisagao de prejuizos ou quasquer outras, propostas pelo governo da 
Uniao contra particulares ou vice-versa ; 

d) Os litigios entre um estado e cidadaos de outre, ou entre cida- 
daos de estados di versos, diversificande as leis destes ; 

f) Os pleitos entre estados estrangeiros e cidadaos brazileiros ; 



HISTORIA DO BRAZIL. 299 

/) As acQoes movidas por estrangeiros e fundadas, quer em con- 
tratos com o governo da Uniao, quer em convenQoes ou tratados da 
Uniao com outras na^oes ; 

g) As questoes de direito maritime e navegagao assim no oceano 
como nos rios e lagos do paiz ; 

A) As questoes de direito criminal ou civil internacional ; 

i) Os crimes politicos. 

§ 1.° E vedado ao coiigresso commetter qualquer jurisdicQao fede- 
ral jIs justigas dos estados. 

§ 2° As sentengas e ordens da magistratura federal sao executadas 
por officiaes judiciaries da Uniao, aos quaes a policia local 6 obrigada 
a prestar auxilio, quando invocado por elles. 

Art. 61. As decisoes dos juizes ou tribunaes dos estados, nas 
materias de sua competencia, porao termo aos processes e is questoes, 
salvo quanto a : 

1.° Habeas-cerpus, ou : 

2.° Espelio de estrange ire, quando a especie nao estiver prevista 
em convengao, ou tratade. 

Em taes cases haverd recurses voluntaries para o supreme tribunal 
federal. 

Art. 62. As justigas dos estados nao pedem intervir em questoes 
submettidas aos tribunaes federaes, nem annullar, alterar, eu sus- 
pender as suas sentengas ou ordens. E, reciprocamente, a justiga 
federal nao p(5de intervir em questoes submettidas aos tribunaes dos 
estados, nem annular, alterar ou suspender as decisoes ou ordens 
destes, exceptuados os cases expressamente declarades nesta con- 
stituigae. 



TITULO II. 

DOS ESTADOS. 

Art. 63. Cada estado reger-se-ha pela constituigao e pelas leis 
que adoptar, respeitados os principios constitucionaes da Uniao. 

Art. 64. Pertencem aos estados as minas e terras devolutas situa- 
das nos sens respectivos territories, cabende i, Uniao s6mente a 
porgae de territorio que for indispensavel para a defeza das fronteiras, 
fortificagoes, construcgoes militares, e estradas de ferro federaes. 

Paragraphe unice. Os proprios nacionaes, que nao forem neces- 
saries para servigo da Uniao, passarao ao dominie dos estados, em 
cujo territorio estive rem situados. 

Art. 65. E facultado aos estados : 

1.° Celebrar entre si ajustes e cenvengees sem caracter politico 
(Art. 48, n. 16); 



SOO HISTORIA DO BRAZIL. 

2.° Em geral todo e qualquer poder, ou direito, que Ihes nao f6r 
negado por clausula expressa on iniplicitamente contida nas clausulas 
expressas da constituiQao. 

Art. 66. E defeso aos estados : 

1.° liecusar f6 aos documeiitos publicos, de natureza legislativa, 
adiuiiiistrativa, ou judiciaria da Uniao, ou de qualquer dos estados ; 

2° liegeitar a nioeda, ou a eniissao bancaria em circulagao por 
acto do governo federal ; 

3.° Fazer, ou declarar guerra entie si e usar de represalias ; 

4.° Deiiegar a extradicQao de criiuinosos, reclauiados pelas justigas 
de outros estados, ou do districto federal, segundo as leis da Uniao, 
porque esta materia se reger (Art. 34, n. 32). 

Art. 67. Salvas as restricQoes especificadas iia constituigao e nas 
leis federaes, o districto federal 6 administrado pelas autoridades 
municipaes. 

Paragrapho unico. As despezas de caracter local, na capital da 
Republica, iucumbem exclusivamente il autoridade municipal. 



TITULO III. 

1)0 MUNTCIPIO. 

Art. 68. Os estados organisar-se-hao de forma que ficjue assegu- 
fada a autonomia dos municipios, em tudo quanto respeite ao seu 
peculiar interesse. 

TITULO IV. 

DOS CIDADAOS BRAZILP:iROS. 

SBCCAO I. 

Das qualidades (Ut cidadao hraz'deiro. 

Art. 69. Sao cidadlios brazileiros: — 

1.° Os nascidos no Brazil, ainda (jue de pae estrangeiro, nao resi- 
dindo este a serviQo de sua nacao ; 

2.° Os filhos de pae brazileiro e os illegitimos de mae brazileira, 
nascidos em paiz estrangeiro, se estabelecerem domicilio na Repu- 
blica ; 

3.° Os filhos de jnie brazileiro, que estiver em outro paiz ao servigo 
da liepuhlicsLy embora uella nao venham domiciliar-se ; 



HISTORIA DO BRAZIL. 301 

4.° Os estrange iros, que, achaudo-se no Brazil aos 15 de novembro 
de 1889, nao declararein, dentro em seis niezes depois de entrar eui 
vigor a constituigao, o aninio de conservar a nacionalidade de ori- 

5.° Os estrangeiros, que possuirem bens immoveis no Brazil, e 
foreni casados com brazileiras ou tiverem fillios brazileiros, comtanto 
que residHo no Bnizil, salvo se manifestarem a intengao de nao mudar 
de nacionalidade ; 

6.° Os estrangeiros por outro modo naturalizados. 

Art. 70. Sao eleitores os cidadaos maiores de 21 annos, que se 
alistarem na forma da lei. 

§ 1.° Xao podem alistar-se eleitores para as eleigoes federaes,.ou 
para a dos estados: — 

1.° Os niendigos ; 

2.0 Os analphabetos ; 

3.° As pragas de pret, exceptuados os alumnos das escolas mili- 
tares de ensino superior; 

4.° Os religiosos de ordens monasticas, companhias, congregagoes 
ou coinnuinidades de qualquer denominagao, sujeitas a voto de 
obediencia, regra ou estatutos (pie importe a renuncia da liberdfide 
individual. 

§ 2.° Sao inelegiveis os cidadaos nao alistaveis. 

Art. 71. Os direitos de cidadiio brazileiro s6 se suspendem, ou 
perdem nos casos aqui particularisados. 

§1.° Suspendein-se : — 

a) Por incapacidade physica ou moral ; 

b) Por condemnagao criminal, emquanto durarem os sens effeitos ; 
§ 2.'' Perdem-se: — 

a) Por naturalisagao em paiz estrangeiro ; 

b) Por acceitagao de emprego ou pensao de governo estrtingeiro, 
sem licenga do poder executivo federal. 

§ 3.° I 'ma lei federal determinard as condigoes de reacquisigao 
dos direitos de cidadao brazileiro. 



SBCCAO II. 

l)(clar(i(,'Tw de direitos. 

Art. 72. A C'onstituigJIo assegura a brazileiros e a estrangeiros 
residentcs no j)aiz a inviolabilidade dos direitos concernentes ^ liber- 
dadc, a s(\L»iiranga individual e it propriedade, nos termos seguin- 
tes : — 

§ 1.^ Xinguem pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer 
alguniii cousa, senao em virtude de lei. 



302 HISTORIA DO BRAZIL. 

§ 2.° Todos sao iguaes perante a lei. 

A Republica iiao adraitte privilegios de nascimento, desconhece 
foros de iiobresa, e extingue as ordens honorificas existeates e todas^ 
as suas prerogativas e regalias, bem como os titulos iiobiliarchicos 
e de conselho. 

§ 3.° Todos OS individuos e confissoes religiosas podem exercer 
publica e livremeiite o sen culto, avssociaiido-se para esse fiiii e adqui- 
rindo bens, observadas as disposigoes do direito coiriniuin. 

§ 4.° A Republica s6 recoiihece o casaiiieiito civil, cuja celebra^uo 
serd, gratuita. 

§ 5.° Os ceniiterios terao caracter secular e serao adniinistrados 
pela autoridade municipal, ficando livre a todos os cultos religiosos a 
j)ratica dos respectivos ritos em relagao aos seus crentes, desde que 
nao offendam a moral publica e as leis. 

§ 6.° Serd leigo o ensiho ministrado nos estabelerimentos publi- 
cos. 

§ 7° Nenhum culto ou igreja gozard de subvengao official iiem 
terd relaQoes de dependencia ou alianga com o governo da Uniao, ou 
o dos estados. 

§ 8.° A todos 6 licito associarem-se e reunirem-se livremente e sem 
armas ; nao podendo intervir a policia senao para manter a ordem 
publica. 

§ 9.° E permittido a quem quer que seja representar, mediante 
petigao, aos poderes publicos, denunciar abusos das autoridades e 
pro mover a responsabilidade dos culpados. 

§ 10. Em tempo de paz, qualquer p6de entrar no temtorio 
nacional ou delle sahir, com a sua fortuna e bens, quando e como llie 
convier indei)endentemente de passaporte. 

§ 11. A casa 6 o asylo inviolavel do individuo; ninguem j^Sde 
ahi penetrar, de noite, sem consentimento do morador, senao para 
acudir a victimas de crimes, ou desastres, nem de dia, senao nos casos 
e pela fornui prescripta iia lei. 

§ 12. Em qualquer assumpto 6 livre a manifestagao de pensa- 
mento pela iinprensa, ou pela tribuna, sem dependencia de censiira, 
respondendo cada um pelos abusos que commetter, nos casos e j>ela 
forma que a lei determinar. Nao 6 permittido o auonymato. 

§ 1-5. A excei>gao do flagrante delicto, a prisao nHo poderd executar- 
so sonao depois de pronuncia do indiciado, salvos os casos determiiia- 
dos em lei, e mediante ordem escripta da autoridade competente. 

§ 11. Xinguem poderd ser conservado em prisao sem culpa 
formada, salvas as excepgoes especificadas em lei, nem levado d prisao, 
ou nella dctido, se prestar fianga idonea, nos casos em que a lei 
admittar. 

§ 15. Xinguem serd sentenciado senao pela autoridade compe- 
tente, em virtwh da lei anterior e na forma por ella regulada. 



HISTORIA DO BRAZIL. 303 

■ 

§ 16. Aos accusados se assegurard na lei a mais plena defesa, com 
todos OS recursos e nieios esseiiciaes a ella, desde a iiota de culpa, 
eiitregue em virite e quatro horas ao preso e assignada pela autori- 
dade competeiite, com os iiomes do accusador e das testemunhas. 

§ 17. O dii'eito de propriedade mantem-se em toda a sua pleni- 
tude, salva a desapropriagiio por necessidade, ou utilidade publica, 
mediante indemnisagao i)r6via. 

As minas pertencentes aos proprietarios do solo, salvas as limita- 
Qoes que forem estabelecidas por lei a bem da exploragao deste ramo 
de industria. 

§ 18. E inviolavel o sigillo da correspondencia. 

§ 19. Xenhuma peua passard da pessoa do delinquente. 

§ 20. Fica abolida a paua de gales e a de banimeuto judicial. 

§ *J1. Fica igualmente abolida a pena de morte, reservadas as dis- 
posiQ(>es da legislagao militar em tempo de guerra. . 

§ 22. Dar-se-ha o haheas-rorpus sempre que o individuo soffrer ou 
se achar em imminente perigo de soffrer violencia ou coacguo por 
illegalidade ou abuso de poder. 

§ 2^5. A excepglio das causas que, por sua natureza, pertecem a 
juizos especiaes, nao haverd foro privilegiado. 

§ 24. E garantido o livre exercicio de qualquer profissao moral, 
intelectual e industrial. 

§ 25. Os inventos industriaes pertencerao aos seus autores, aos 
quaes ficar^ garantido por lei um privilegio temporario ou sera conce- 
dido pelo congresso um premio razoavel, quando haja conveniencia de 
vulgarisar o invento. 

§ 2G. Aos autores de obras litterarias e artisticas 6 garantido o 
direito exclusivo de reproduzil-as pela imprensa ou por qualquer outro 
processo mecanico. Os herdeiros dos autores gozarao desse direito 
pelo tempo que a lei determinar. 

§ 27. A lei assegurar^ tambem a propriedade das inarcas de 
fabricas. 

§ 28. Por motivo de crenga ou de funcglio religiosa, nenhum 
cidadao brazileiro poderd ser privado de seus direitos civis ou politicos, 
nem eximir-se do comprimento de qualquer dever civico. 

§ 29. Os que allegarem motivo de crenga religiosa com o fim de 
se iseritarem de qualquer onus que as leis da Republica imponhao aos 
cidadaos, e os que aceitarem condecoragoes ou titulos nobiliarchicos 
estrangeiros, perderao todos os direitos politicos. 

§ 30. Xenhum imposto de qualquer natureza poderd ser cobrado 
senao em virtude de uma lei que o autorise. 

§ 81. >i mantida a instituigao do jury. 

Art. 73. Os cargos publicos civis, ou militares, sao accessiveis a 
todos OS Brazileiros, observadas as condigoes de capacidade especial, 
que a lei estatuir; sendo, por^m vedadas as accumulagoes-remuneradas. 



304 HISTORIA DO BRAZIL. 

Art. 74. As patentes, os postos e os cargos inaraoviveis sao 
garantidos em toda sua plentitude. 

Art. 75. A aposentadoria s6 poderJl ser dada aos funccionarios 
publicos era caso de iiivalidez no servigo da nagao. 

Art. 76. Os officiaes do exercito e da armada s6 perderao suas 
patentes por condemnagao em mais de dons annos de prisao, passada 
em julgado iios tribunaes competentes. 

Art. 77. Os militares de terra e de mar teriio f6ro especial nos 
delictos militares. 

§ 1.° Este fdro compor-se-ha de um supremo tribunal militar, 
cujos membros serao vitalicios, e dos concelhos necessarios para a 
formagao da culpa e julgameuto dos crimes. 

§ 2.® A organisagao e attribuigces do supremo tribunal militar 
serao reguladas por lei. 

Art. 78. A especificagao das garantias e direitos, expressos na 
constituigao, nJIo exclue outras garantias e direitos, nao enumerados 
mas resultantes da f6rma de governo que ella estabelece e dos princi- 
pios que consigna. 



TITULO V. 

DISPOSigOES GERAES. 

Art. 79. O cidadao investido em funcgoes de qualquer dos trea 
poderes federaes nao poderd exercer as de outro. 

Art. 80. Poder-se-ha declarar em estado de sitio qualquer parte 
do territorio da Uniao, suspendendo-se ahi as garantias constitucio- 
naes por tempo indeterminado, quando a seguranga da Republica o 
exigir, em caso de aggressao estrangeira, ou commogao intestina 
(Art. 34. n. 21). 

§ 1.° Xao se achando reunido o Congresso, e correndo a patria 
imminente perigo, exercerd essa attribuigao o Poder lixecutivo 
Federal (Art. 48. n. 15). 

§ 2.° Este, por^m, durante o estado de sitio, restringir-se-ha, nas 
medidas de repressao contra as pessoas, a imp6r : 

1.° A detengao em lugar, nao destinado aos r6os de crimes 
comnmns ; 

2.® O desterro para outros sitios do territorio nacional. 

§ 3.° Logo que se reunir o Congresso, o presidente da Republica Ihe 
relatard, motivando-se, as medidas de excepgao que houverem side 
tomadas. 

§ 4.° As autoridades que tenhao ordenado taes medidas sue res- 
jKfusaveis peJos abusos commettidos. 



HISTORIA DO BRAZIL. 305 

Art. 81. Os processes findos, em materia crime, poderao ser 
revistos, a qualquer tempo, em beneficio dos condemnados, pelo 
Supremo Tribunal Federal, para reformar ou coufirmar a senten^a. 

§ 1.° A lei marcard, os casos e a forma da revisao, que poderii ser 
requcrida pelo sentenciado, por qualquer do povo, ou ex-officio pelo 
procurador geral da Republica. 

§ 2° Xa revisao iiao podem ser agravadaH as peiias da sentenga 
re vista. 

§ 3°. As disjxjsiQues do presente artigo sao extensivas aos pro- 
cessos militares. 

AiiT. 82. Os fuuccionarios publicos sao estrictamente responsa- 
veis pelos abusos e omissoes em que encorrerem no exercicio de seus 
cargos, assim como pela indulgeucia, ou negligencia em nao responsa- 
bilisarem effectivamente os seus subalternos. 

Paragrapbo unico. O funccionario publico obrigar-se-ha por com- 
promisso formal, no acto da posse, ao desempenho dos seus deveres 
legaes. 

Akt. 83. Continuam em vigor, emquanto nao revogadas, as leis 
do antigo regimen, no que explicita ou implicitamente nao for 
contrario ao systema de governo firmado pela constituigao e aos 
principios nella consagrados. 

Akt. 84. O governo da Uniao afianga o pagamento da divida 
publica interna e externa. 

Akt. 85. Os officiaes do quadro e das classes annexas da armada 
terao as mesmas patentes e vantagens que os do exercito nos cargos 
de cathegoria correspondentes. 

Akt. 86. Todo o brazileiro 6 obrigado ao sei*\'igo militar, em 
defesa da patria e da constituigao na forma das leis federaes. 

Akt. 87. O exercito federal compor-se-ha de contingentes que os 
estados e o districto federal sao obrigados a fornecer, constituidos de 
conformidade com a lei annua de fixagao de forgas. 

§ 1.° Uma lei federal determinard, a organisagao geral do exercito, 
de accordo com on. 18 do art. 34. 

§ 2.° A Uniao se encarregard da instrucgao militar superior. 

§ 3.° Fica abolido o recrutamento militar forgado. 

§ 4.° O exercito e a armada compor-se-hao pelo voluntariado, sem 
I^reniio e, em falta deste, pelo sorteio, pr^viamente oi-ganizado. 

Concorrem para o pessoal da armada a escola naval, as de aprendizes 
marinheiros e a marinba mercante mediante sorteio. 

Art. 88. Os Estados IJnidos do Brazil, em caso algum, se empe- 
nliarao em guerra de concpiista, directa ou indirectamente, por si ou 
em allianga com outra nagao. 

Akt. 89. E instituido um tribunal de contas jmra licpiidar as 
contas da receita e despeza e verificar a sua legalidade, antes de 
sereui prestadas ao congresso. 



306 HISTORIA DO BRAZIL. 

Os merabros deste tribunal serlto nonieados pelo presidente da 
Repiiljlica com approva^ao do seiiado, e s6inente i)erderao os seus 
lugares por seiiteiiga. 

Art. J)0. A Coiistituigao poderd ser reformada, por iiiiciativa do 
coiigresso nacioiial ou das assenibl^as dos estados. 

§ 1.° Coiisiderar-se-ha proposta a reforina, qiiando, sendo apre- 
sentada por mna quarta parte, pelo iiieiios, dos iiienibros de qualquer 
das caiiiaras do coiigresso nacioiial, for aceita em tres discussoes, por 
dous tergos dos votos em uma e em ciitra caniara, ou quando f6r 
solicitada por dous tergos dos estados, no decurso de um anno, 
represeiita(lo cada estado pela maioria de votos de sua assembl^a. 

§ 2.° pjssa proposta dar-se-ha por approvada, se no anno seguinte 
o for, mediante tres discussoes, por maioria de dous tergas dos votos 
nas duas camaras do coiigresso. 

§ ;J.° A i)roiX)sta approvada publicar-se-ha com as assignaturas 
dos presidentes e secretarios das duas camaras, e incorporar-se-ha d, 
coustituigao como parte integrante della. 

§ 4.° Xno poderao ser admittidos como objecto de deliberagao, no 
congresso, projectos tendentes a abolir a forma republicanarfedera- 
tiva, oil a igualdade da representagao dos estados no senado. 

AuT. 91. Approvada esta constituigao, serd, ella promulgada pela 
mesa do congresso e assignada pelos membros deste. 



DISPOSICOES TRANSITORIAS. 

Art. 1.^ Promulgada esta constituigao, o congresso, reunido em 
asseml)lea geral, elegerd em seguida, por maioria absoluta de votos, 
na ]>rimeira votagao, e, se nenhum candidato a obtiver, por maioria 
relativa na segunda, o presidente e o v ice-preside nte dos Estados 
Unidos do Brazil. 

§ 1.'^ Essa eleigilo sent feita em dous escrutinios distinctos para 
o presidente e o vice-presideiite resjiectivamente, recebendo-se e apu- 
rando-se em primeiro lugar as cedulas para presidente, e procedendo- 
se em seguida do mesnio modo para o vice-presidente. 

i} '2° () presidente e o vice-presidente, eleitos na forma deste artigo, 
occiiparTio a presidencia e vice-presideucia da Republica durante o 
primeiro pfriodo ])residencial. 

i^ '5.'^ Para essa eleiglio nao haveril incompatibilidades. 

§ 1.^ C'onchiida ella, o congresso dani por terminada a sua missao 
c'onstituinte, e, sei)arando-se em camara e senado, enceterd, o exercicio 
de suas funcgoes normaes a 15 de junho do corrente anno ; nao podendo 
em liypothese alguma ser dissolvido. 



HISTORIA DO BRAZIL. 307 

§ .").° Xo priineiro anno da prinieira legislatiira, logo nos tra))alhos 
pn'paratorios, discniniinarii o senado o prinieiro e se^iuxlo tergo de 
sens inemln'os, cujo niandato ha de cessar no termo do prinieiro e do 
segundo trieniiios. 

§ ().° Plssa discriniinaQao effect uar-se-lia em tres listas, corresix)n- 
dentes aos tn»s tergos, graduando-se os senadores de cada estado e os 
do districto federal pela ordeni de sua votagao re.spectiva, de niodo 
que se distribua ao tergo do ultimo trieiniio o prinieiro votado no 
difstricto federal e em cada um dos estados, e aos dous tergos seguintes 
OS outros <lous nomes na escala dos suffragios obtidos. 

§ 7.^ Em caso de empate, con side rar-se-hiio favorecidos os mais 
velhos, deeidindo-se por sort4.»io,(piando a idade for igiial. 

Akt. 2.^ OEstailo, que ate ao fim do anno de l8J)2,nTfo houver 
decretado a sua constituiglio, sertl submettido, |K)r acto do congresso, 
d de um dos outros, que mais conveniente a essa adaptagao jrarecer, 
at^ (pie o estado sujeito a esse regimen a reforme, pelo processo nella 
determinado. 

Akt. '5.^ A proporgao que os estados se forem organisando, o 
governo federal entregar-lhes-lia a administragao dos servigos, que 
pela constituigiio Ihes c()m])etirem, e liquidaril a responsabi! idade da 
administragHo federal no tocante a esses servigos e ao pagamento do 
l)essoal respetivo. 

Akt. 4.° Emquanto os estados se occuparen) em regularisar as 
despezas, durante o periodo de organisagao dos sens servigos, o governo 
federal abrir-lhes-ha para esse fim creditos especiaes, segundo as con- 
digoes estabelecidas jK)r lei. 

Art. T).*^ Xos estados que se forem organisando, entrant em vigor 
a classificagao das rendas estabelecidas na constituglio. 

Akt. 0° Xas priineiras nomeagoes i)ara a magistratura federal 
e para a dos estados serao preferidos os juizes de direito e os tlisem- 
bargadoH's de mais nota. 

Os (^ue nao forem admittidos na nova organisaglo judiciaria, e 
tivcrem mais de '^0 annos de exercicio, serao aposentados com todos 
OS sens vencimentos. 

Os (pi(r tivei-em menos de 30 annos de exercicio continuarao a per- 
ceber seus ordenados, at^ que sejam approveitados ou aposentados 
com onlenado corres|>ondente ao tenqK) de exercicio. 

As despezas com os magistrados aposentados ou postos em dis- 
l)()nibilida(le serao ]>agas p(^Io governo federal. 

Akt. 7.° E coiicedida a I). Pedro de Alcantara, ex-inq^erador do 
Brazil, unia j)eiisao (pie, a contar de 15 de novembro de 188J), garanta- 
]\u\ \)oY todo o tenq)o de sua vida, subsistencia decent(i. () congresso 
ordinario (mu sua primeira reuniao, fixard o (piantum desta pMisao. 

Akt. 8.° O governo federal adtpiirird ])ara a nagao a casa em (pie 
falleceu o dr. Beiijamim ConstanJ Botelho de Magalliaes e nella 



308 HlSTOItlA DO iniAZIL. 

•I 

1 

mandard collocar uina lapide eiri homenageni il meinoria do grandl 
patriota — o f undador da Republica. 

Paragrapho unico. A viuva do niesnio dr. Beiijamiin Constant 
terd, emquanto viver, o uso-fructo da casa nieiicionada. 

Mandamos, portaiito, a todas as autoridades a quern o conhecinieiito 
e execu^ao desta ConstituiQao pertencer que a executeni e fagaiii ob- 
servar fiel e iiiteiraniente como nella se contem. 

Publique-se e cumpra-se em todo o ten-itorio da Xa^ao. 

Sala das sessoes do Congresso Coiistituinte, iia cidade do Rio da 
Janeiro, em 24 o& fevereiro de 1891, terceiro da llepublica. 



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